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glossemática

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1. A Glossemática 1943 é a data em que Louis Hjelmslev publica os Prolegómenos a uma teoria da linguagem (1968).

Nesta obra, o autor traça os princípios gerais da sua linguística – a glossemática –, assinalando desde logo que estes princípios são aplicáveis a sistemas diferentes da língua “natural” a que chama semióticas. Uma semiótica é então qualquer sistema de comunicação distinto da língua natural ou “qualquer estrutura que seja análoga à língua”. A semiótica é, para este autor, cada um dos sistemas estudados pela ciência dos signos, a semiologia. “Glossemática” é o termo que Hjelmslev propôs para denominar a teoria linguística que elaborou em colaboração com H. J. Uldall. A nossa teoria da linguagem foi inspirada desde o princípio por esta concepção e propõe-se constituir uma álgebra imanente das línguas. Para marcar o seu desacordo com os estudos linguísticos precedentes e a sua independência de princípio perante a substância extralinguística, demos-lhe um nome particular: glossemática. (1968: 109). A glossemática define-se, antes de mais, como uma álgebra, e assume-se como uma crítica rigorosa à linguística anterior, transcendente, reduzida a técnicas de conhecimento dos factos históricos, físicos, sociais, literários, filosóficos. Ela apresenta-se, pelo contrário, como imanente, sintética e generalizante, fundada no princípio do empirismo, descritiva (sem contradições, exaustiva, simples). Distingue-se pela concepção que vai atribuir à noção de forma, ligada ao significante saussureano. A noção de forma autonomiza-se e ganha um papel determinante na glossemática, aplicando-se quer à fala quer à escrita. Transformando a oralidade, como a escrita, aliás, em substâncias respectivamente fónica e gráfica, redu-las à sua variabilidade, extraindo a forma de expressão, ela sim, como estruturante. Pela primeira vez, a linguística deixa o fonocentrismo que a caracterizava até então, incluindo o pensamento saussureano. A perspectiva hjelmsleviana da linguagem é claramente imanentista face às perspectivas transcendentalistas do idealismo romântico. A glossemática é definida como uma álgebra da língua, uma ciência do calculável, baseada numa abordagem empírica – obedecendo ao princípio de não contradição, de exaustividade e simplicidade –; utilizando um raciocínio dedutivo – do todo para as partes –; regendo-se pelo princípio de adequação. Para a glossemática, a língua é uma estrutura autónoma, isto é, que se basta a si mesma, de dependências internas. Eis o objeto refundado da linguística. Algumas características da glossemática: a) põe em relevo o processo analítico, anterior à síntese; b) confere uma insistência sobre a forma (linguística) em detrimento da substância; c) toma em consideração não só a forma da expressão, como a forma do conteúdo; d) concebe a linguagem como um sistema semiótico entre outros. A língua é um sistema de figuras, contrariamente aos sistemas de comunicação construídos a partir de signos não analisáveis – os sistemas simbólicos (sinalização das estradas), os sistemas gestuais e as escritas ideográficas. Por outro lado, a língua é uma estrutura na medida em que: - é constituída por um conteúdo e uma expressão, ambos com a sua forma e a sua substância; - é constituída por um processo (ou texto) e um sistema; (o sistema – a língua – é logicamente anterior ao processo – o texto, a fala –, mas, cronologicamente, a sintagmática precede a sistemática); - conteúdo e expressão estão ligados um ao outro por meio da comutação (processo de reconhecimento de unidades discretas de um ou de outro plano da linguagem); aquilo a que Louis Hjelmslev chama “conteúdo” corresponde àquilo que é expresso, e “expressão”, àquilo através do qual o conteúdo se exprime. Conteúdo e sentido não são a mesma coisa, como a expressão não é o som. Não coincide o plano do conteúdo com o sentido

há relações determinadas no seio do processo e no seio do sistema. 2003: 28). as segundas. do plano da expressão. a forma nada é e reciprocamente. E o processo significante termina quando se articulam conjuntamente a forma do conteúdo e a forma da expressão. mas. como uma nebulosa de sentido. conhecidas as convenções do código). autónomos entre si. antes de mais. e manifesta-se segundo formas linguísticas variáveis. a história. com a condição de postular duas que a estruturam: uma forma da expressão que organiza a substância confusa dos sons ou dos traços gráficos e uma forma do conteúdo que organiza a substância amorfa do pensamento. por exemplo a ideia geral de fraternidade. do plano do conteúdo.. a substância releva de outras disciplinas: a filosofia. a substância. Sem a sua relação com a substância. respectivamente. a cada elemento da expressão corresponde um elemento do conteúdo e um só. A expressão (ou o significante) e o conteúdo (ou o significado) só podem ser apreendidos como forma. Hjelmslev permite ultrapassar a clássica distinção do fundo e da forma. ao mesmo tempo. de selecção – um sufixo pressupõe um radical (mas não o contrário). A língua é uma forma. no caso dos ideogramas.não há correspondência directa entre conteúdo e expressão (nos semáforos.e/ou o pensamento. É a conjunção da forma da expressão e da forma do conteúdo – semiose ou função semiótica – que constitui o signo. . A esta reunião das duas formas. Esta formulação de L. i. para Hjelmslev. que é da ordem do significado. Pense-se na articulação expressiva da série de fonemas que constituem o monema /homem/. “já que nada autoriza a fazer preceder a língua da „substância do conteúdo‟ (pensamento) ou da „substância da expressão‟ (cadeia fónica)” (1966: 68) Para Saussure. o laranja = esperar. como a substância do conteúdo. etc. A língua é uma forma específica de conteúdo e de expressão. o verde = passar. as primeiras são de complementaridade – relação entre as vogais e as consoantes de uma língua –.: todos estes elementos visuais relevam do significante. O conteúdo pode ser apreendido como substância (nebulosa) ou como forma. e de combinação – elementos que podem aparecer juntos sintacticamente mas que não se pressupõem mutuamente (Fiorim. Esta ideia parece. Expressão e conteúdo são analisáveis porque uma e outras são dotadas de forma. compreendemos outra coisa. sendo ambas o produto de redes de relações. e inversamente: o vermelho = parar. a história que nos é contada. segundo a . faz aparecer o texto tal como uma primeira leitura o apreende no livro ou na página impressa. de solidariedade – a preposição face ao objecto e vice-versa. Hjelmslev chama semiose: tal operação elabora definitivamente os signos e constitui a sua manifestação. “a substância depende exclusivamente da forma e não se pode em nenhum caso dar-lhe existência independente” (idem. ibidem). Os nossos olhos vêem pontos. Um cortejo fúnebre é uma linguagem: o que ele significa (conteúdo) é de uma outra natureza que aquilo que o significa (expressão). O correspondente no plano do conteúdo não é apenas uma coisa que conseguimos com bastante facilidade opor a “mulher” ou a “animal” ou a “criança”. de especificação – a desinência relativamente aos radicais (sendo que o contrário não se coloca). traços ou linhas. . aquilo que.e. é um contínuo amorfo. Ao par significante-significado o linguista dinamarquês começa por substituir o de conteúdo-expressão: cada um dos planos tem a sua própria autonomia e organização. seja fónica ou intelectual. de número. sem a qual os actos de fala não se podem realizar. uma flecha barrada significará caminho proíbido. no quadro duma semiótica literária. Exemplo: uma banda desenhada sem palavras. e de autonomia – a existência de morfemas de género. Doravante o conteúdo (ou fundo) tem também uma forma que lhe é própria. superfícies delimitadas e/ou coloridas.

e a língua deixa de ser concebida unicamente como sistema. Ao contrário. Referência bibliografia: BABO. a forma é uma estrutura significante: a independência da forma semiótica assim destacada dá um estatuto de autonomia à linguística (que terá como objecto a descrição coerente e exaustiva desta forma). renomeados agora “conteúdo” e “expressão”. dando ao significante a designação de plano da expressão e ao significado a de plano do conteúdo. e assim por diante”. J. mas em termos de planos da linguagem. Torna-se agora possível distinguir o sentido da significação. constituído pela semiose. O signo deixa de ser a unidade de base para a análise do sentido: o texto não é uma acumulação de signos já constituídos pelo sistema da língua a que eles pertencem. “Tal como os grãos de areia podem formar desenhos dissemelhantes ou a mesma nuvem tomar formas novas. L. é igualmente o mesmo sentido que se forma ou se estrutura diferentemente nas diferentes línguas” (1966: 70). enquanto suportes da significação. 1ª ed. é o caso da linguagem verbal e da linguagem musical. Por outro lado. o mesmo método permite distinguir neste signo pelo menos dois elementos semânticos – semas –/masculino/. bípede. sendo explorados apenas em um dos seus aspectos. Hjelmslev redefine a estrutura e a dimensão do signo. É a partir daqui que A. Uma mesma substância fónica pode articular-se de várias maneiras. Aplicado ao conteúdo. O texto é reconhecido enfim como verdadeiro objecto semiótico. Quaisquer que sejam a particularidade e a relatividade da forma e da substância dos significados. reconhecendo uma real autonomia entre significado e significante. racional. Coimbra : Minerva. mas de que nada poderia ser dito anteriormente à sua manifestação sob forma de significação articulada. uma mesma forma pode ser manifestada por uma substância. o sentido permaneceria o mesmo. Greimas pode sustentar a causa do discurso e constituir a semiótica textual como disciplina autónoma. transmissível de língua a língua.P. José Augusto . os fonemas – o signo „gato‟ compreende quatro fonemas (g/a/t/u/). capaz de rir. de formas diferentes. apesar das mudanças de forma impostas do exterior. A infinita substância do conteúdo para poder ser expressa.relação semântica que pretendemos. a do processo que torna possível o discurso. Adopta a dicotomia significante/significado. desde 1888) confirmam em parte a tese de Hjelmslev. MOURÃO. O sentido é aquilo que permanece comum a todas as línguas e que é preciso pressupor. mas o lugar da sua convergência. fónica e uma substância gráfica: é o que acontece quando uma língua natural tem uma escrita quase fonética. matéria e sentido são sinónimos para o linguista dinamarquês.Semiótica : genealogias e cartografias. 2007 . (Alfabeto Fonético Internacional.I. deve-se articular em unidades formais do conteúdo. Hjelmslev abandona a ideia de que a unidade linguística fundamental é o signo. é também algo susceptível de uma análise semântica mais minuciosa: /homem/ diz-nos que se está a falar de “um ser animado. Só temos acesso à significação que produz a organização dos discursos com a ajuda de grandezas inferiores aos signos. Ela é atravessada por uma outra dimensão. de sexo masculino. é o texto que se torna o verdadeiro signo. /macho/. Não sendo nem substância “física” nem substância “psíquica”. Os fonólogos – graças à comutação – põem em evidência unidades linguísticas menores do que o signo. Maria Augusta. a existência e o emprego do A.

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