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O presente j sabemos a dimenso que se oferece a ns de maneira mais imediata; mas extremamente instvel, como a chama de um fsforo.

oro. Est sempre nos escapando, como gua que pegamos com a mo e escorre entre os dedos. O futuro, por sua vez, inevitavelmente vago e nebuloso ; s conseguimos pressenti-lo (ou, em determinados instantes, entrev-lo). O passado , afinal, a mais compacta das dimenses do nosso tempo. Com sua fora, o passado constantemente nos obriga a encar-lo. Com freqncia, ele nos desafia e foge de ns. Em alguns momentos, consegue nos derrubar; chega, inclusive, com seu enorme peso, a achatar a nossa conscincia, paralisando-a, reduzindo-a impotncia. O passado nunca inteiramente neutro. Cada pessoa tem o seu passado, um passado prprio, que um pedao dela, uma parte essencial do seu eu. Quando um indivduo recorda o seu passado, ele est avaliando a sua formao, revivendo as escolhas que fez ao longo da sua vida e, de certo modo, est se julgando . Esse julgamento claro nunca pode ser isento, porque o juiz o prprio acusado. No desenvolvimento da conscincia de cada um de ns h momentos crticos, situaes vividas como insuportveis, opes profundamente desagradveis; nesses momentos, podem ocorrer cristalizaes de comportamentos. Por isso, os adultos, em condies neurticas, podem ter a impresso de que esto agindo livremente e, no entanto, a psicanlise mostrar que esto apenas repetindo reaes infantis, realizando movimentos compulsivos, determinados por medos, traumas, inibies, vivncias antigas. Quer dizer: atravs da neurose, um passado cristalizado assume peso excessivo e impede o pleno exerccio da liberdade por parte deles. Cada pessoa se defronta com imensas dificuldades para se entender com seu prprio passado..