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Dicionário_de_cultura_basica

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Autor: Salvatore D’ Onofrio Título: Dicionário de cultara básica Sub-título: (o conhecimento indispensável, os mitos eternos) Epígrafe: “Saber é poder: incomensurável é o valor do conhecimento para o progresso do indivíduo e da sociedade!” INTRODUÇÃO Este trabalho já foi publicado, em 2005, pela Campus/Elsevier com o título “Pequena enciclopédia da cultura ocidental”. Estando a edição original esgotada há algum tempo, o autor, atendendo à constante demanda de interessados, resolveu procurar outra editora disposta a continuar a divulgação da obra que foi considerada de utilidade pública, destinada a bibliotecas familiares e institucionais, bem como à leitura individual. O livro foi revisto e atualizado, chegando ao público com uma nova veste tipográfica e diferente título. Autor e editor acharam por bem não deixar no oblívio este compêndio de cultura geral, rico manancial de informações indispensáveis para a formação de uma verdadeira cidadania. Como já dizia o mestre Epicuro, há uns 24 séculos atrás, a ignorância está na origem das superstições e de todos os outros males da humanidade. Ela é o único pecado realmente “capital”, pois é a fonte de onde procedem todos os outros danos. É a falta de conhecimentos que cria o medo nas civilizações antigas ou primitivas e a desgraça em muitas sociedades modernas, culturalmente atrasadas. Ignorante é quem não conhece o passado da civilização em que está vivendo e não tem uma visão crítica do presente, pois não pensa com sua própria cabeça e não reflete sobre as conseqüências de seus atos. Sem dúvida, é a falta de cultura da massa popular que permite o predomínio de alguns líderes carismáticos e fanáticos, capazes de exacerbar ódios e vinganças entre diferentes etnias, insuflando um falso patriotismo e assumindo uma missão messiânica. Como também é a ignorância do povo que permite as sucessivas reeleiçoes de líderes políticos corruptos. O dramaturgo alemão Berthold Brecht acertou em cheio ao afirmar: infeliz do povo que precisa de um herói! A Alemanha de Hitler e a Rússia de Stalin que o digam! Povos civilizados não necessitam de um Messias, de um Salvador da Pátria. Eles precisam apenas de escolas! Aumentar o conhecimento do passado cultural é a base do progresso do indivíduo, da família e da sociedade. A cultura é a mais poderosa e eficaz arma política. Precisamos possuir o conhecimento para sermos social e economicamente livres. Mas o saber, a que estou me referindo, não é dado pela simples informação, pois os dados adquiridos devem ser estudados, interpretados, para chegarmos ao verdadeiro conhecimento, ao saber que nos enriquece por dentro e que transborda e transforma a realidade em que vivemos. Adquirindo cultura, um povo toma consciência da própria identidade, não se deixando manipular por vendedores de ideologias ou por caçadores de votos. Sim, porque pouco adianta nos orgulharmos do nosso regime democrático e do exercício da liberdade, se a grande massa do povo não é esclarecida, vivendo completamente alienada dos problemas da coletividade. A finalidade deste trabalho é contribuir, um pouco que seja, para a divulgação do cabedal cultural que a tradição humanística nos deixou e que, infelizmente, se está perdendo. É curioso notar que, na sociedade moderna, tudo evoluiu, com exceção da educação. O avanço tecnológico se, de um lado, nos propicia uma avalanche de notícias regionais, nacionais e internacionais, de outro lado, contribui para reduzir ainda mais o hábito da leitura em nosso lar, onde a Internet está suplantando a Biblioteca. É uma pena, pois “lendo” se aprende muito mais do que “vendo”. O livro, além de nos acompanhar em qualquer lugar da casa e durante as viagens, permite parar para pensar. O conhecimento é proporcionado de uma forma mais lenta, porém mais proveitosa, estabelecendo um diálogo entre o escritor e a consciência do leitor. A afirmação de Monteiro Lobato de que “uma nação se faz com homens e livros ” ainda não ficou obsoleta.

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A chamada democratização do ensino, hoje em dia, faz com que os estudantes cheguem às Faculdades com conhecimentos cada vez mais minguados e delas saiam com mais diplomas e menos sabedoria. E isso porque não existe a base cultural propiciada pela família, na primeira infância, e continuada na escola primária e secundária. Apenas a escola, pública ou privada, por melhor que seja, não é suficiente para a aprendizagem, se não houver o homework, o trabalho de casa, assistido por quem é responsável pela educação da criança. Não se aprende de repente ou apenas fazendo um curso. Sem tradição e estudo sustentado não há civilização. Como diria Lavoisier, nada sai do nada. O gênio é apenas um anão sentado em cima de uma montanha, que é o passado cultural da sua etnia, a que ele acrescenta mais alguma coisa. Sem o Atomismo de Demócrito e a Física de Arquimedes, não teríamos a genialidade de Einstein. Sem Homero, Virgílio ou Sófocles, a grandiosidade de Dante, Camões ou Shakespeare seria outra. Este dicionário cultural é o fruto de quase meio século de discência, docência e pesquisa universitária em várias áreas das Ciências Humanas, bem como de uma vida sofrida e viajada. Considero este trabalho como meu testamento intelectual, deixando para meus ex-alunos e para todas as pessoas interessadas em cultura um testemunho do pouco que consegui aprender e reter na minha memória, ao longo de tantos anos. Aproveitei um pouco do material já publicado em livros e artigos, especialmente na área de Teoria da Literatura, e extendi minhas pesquisas em outros campos do conhecimento. Os assuntos, colocados em ordem alfabética, são apresentados não de uma forma teórica, mas através de histórias míticas, literárias e artísticas. Daí o subtítulo "o saber indispensável, os mitos eternos". Na verdade, o presente livro é uma coletânea de ensaios sobre Obras (Ilíada, Odisséia, Eneida, Divina Comédia, Lusíadas, Dom Quixote, Hamlet, Fausto, Metamorfose, Processo etc), Autores (Homero, Virgílio, Dante, Shakespeare, Fernando Pessoa, Machado, Dostoievski, Kafka, Darwin, Freud, Marx, Einstein, Picasso etc) e Temas fundamentais da nossa cultura (mito, religião, filosofia, literatura, artes plásticas, política, ciências etc). Enfim, tentei colocar num único livro o essencial dos conhecimentos que qualquer ser humano, de cultura média, deveria ter, tentando completar, de uma certa forma, as falhas do ensino colegial e universitário. A matéria está distribuída em verbetes de A a Z, desenvolvidos por uma redação média de uma página. Para evitar repetições, alguns verbetes são apenas remissivos, indicando o lugar onde o assunto é tratado. O chamamento pelo “negrito” possibilita ao leitor a indicação de que aquele vocábulo está redigido em lugar apropriado, estabelecendo assim uma rede remissiva que conecta os vários assuntos. Pretendi realizar um trabalho de interdisciplinidade e de intertextualidade, aí residindo sua originalidade, pois o distingue de outros dicionários culturais. Nunca escreveria um livro que tivesse similares na praça, pois o trabalho intelectual, para mim, é demais penoso para ter como recompensa apenas a vaidade ou alguns trocados. Existem, é verdade, bons dicionários de mitos, filosofia, pedagogia, psicologia etc, mas todos eles são específicos. Este pretende ser o “genérico”, aquele que lança pontes entre as várias áreas do conhecimento, colocando em evidência a interdependência entre as várias atividades humanas, pois não existe um saber verdadeiro fora de um contexto histórico, científico, artístico, religioso. O verbete “Édipo”, por exemplo, é visto na sua origem como mito primitivo da Grécia, depois como personagem de uma tragédia de Sófocles, como complexo materno na psicanálise de Freud, e em sua fortuna artística até nossos dias, servindo este mito ainda hoje como inspiração para obras literárias, teatrais, cinematográficas. E o verbete “Édipo” remete a outros assuntos tratados, tais como Tragédia, Teatro, Freud. O desenvolvimento dos verbetes é maior ou menor, dependendo da importância do assunto e da minha competência. Evidentemente, os temas relativos à Teoria da Literatura e à Cultura Clássica estão mais bem desenvolvidos, pois é a minha área específica de conhecimento. O trabalho apresenta-se como uma “mini-enciclopédia” geral. O grande desafio foi condensar, num único livro, de fácil consulta e a um preço razoável, a cultura encontrável em volumosas enciclopédias, escritas por vários especialistas. O critério da seleção e do tratamento dos verbetes foi sua “essencialidade”: escolhi alguns Autores, Obras e Temas que considero “eternos” por terem ultrapassado os limites do tempo e do espaço. Procurei apresentar os mitos e os homens que, segundo meu parecer, mais contribuíram para a formação da cultura

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ocidental, envolvendo Filosofia, Religião, Artes e Ciências. Se alguma escolha ou omissão não agradar ao leitor, peço-lhe desculpas. E ele vai me perdoar, pois sabe que, em qualquer seleção, é difícil escapar do demônio da subjetividade. Além de proporcionar conhecimentos, este trabalho pretende ser um estímulo para a leitura e a reflexão, um convite para o contato direto com as obras apontadas. Muita gente tem vontade de ler livros importantes, pois culturalmente fundamentais, mas não sabe de onde começar. Aqui está um guia para o leitor se orientar na escolha dos autores e das obras mais relevantes que o gênio humano produziu. Apesar da amplidão e complexidade dos assuntos, sua exposição é simples e direta, num estilo às vezes divertido ou até irônico, tentando evitar pedanteria ou chatice. Como bem adverte nosso M achado: “a primeira condição do escritor é não aborrecer”. A maioria dos verbetes são ilustrados com a citação de frases inteligentes de autores famosos e o significado é explicado a partir da etimologia da palavra, pois o sentido original dos vocábulos é geralmente o mais certo. O livro tem como destinatários estudantes universitários, docentes, profissionais liberais, pais e outros responsáveis pela ajuda às crianças nas tarefas escolares. Interessa, enfim, a todas as pessoas que percebem a importância de exercitar o intelecto e apreciam o valor do conhecimento para o exercício da cidadania e um melhor entendimento de obras filosóficas ou artísticas. Embora apresentada em verbetes, a obra foi concebida como um compêndio de cultura humanística para ser lida todinha, de ponta a ponta, como se fosse um romance eclético sobre cultura, e não apenas consultada como um dicionário. E isso porque a experiência me ensinou que, sem uma visão gestáltica, o conhecimento do particular se esvai, não se solidifica, pois todo o saber é sempre contextual, comparativo, referencial. Como pondera Blaise Pascal, “é preferível conhecer alguma coisa sobre tudo a tudo sobre apenas uma coisa”. Mais ainda: não podemos esquecer que a sabedoria é indissociável do amor. A leitura deste livro tem que ser carinhosa, assim como foi sua escrita. Não sei exatamente o valor deste meu esforço intelectual, mas gostaria de terminar esta introdução com as palavras do sábio indiano Mahatma Gandhi, “o que você fizer poderá até ser insignificante, mas é da maior importância que o faça”.

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ABELARDO e Heloísa (mito do amor romântico e trágico)Medievalismo Apaixonar-se é ingressar em um estado de anestesia da percepção (H.L.Mencken) Pedro Abelardo (1079-1142) foi teólogo, filósofo e lingüista. Por seu azar, ele se apaixonou pela linda Heloísa, sobrinha de um cônego muito rico, que morava em Paris. A jovem, seduzida pela inteligência de Abelardo, a ele se entregou perdidamente. Para lavar a honra da família, o cônego Fulbert mandou castrar o jovem amante da sobrinha. As cartas trocadas entre os dois amantes constituem uma das mais belas obras do início da Baixa Idade Média ( Medievalismo). Mas seus escritos não tratam apenas de amor. Na sua Dialética encontramos a distinção entre significante (o aspecto gráfico ou sonoro das palavras) e o significado (os conceitos universais): na articulação entre esses dois signos residiria a essência da linguagem humana, conforme o culto Abelardo. O romance entre a bela Heloísa e o filósofo Pedro Abelardo começou em Paris, no início do séc. XII. Abelardo formara-se pela Escola Catedral de Notre Dame, tornando-se, em pouco tempo, muito conhecido por admirar os filósofos não-cristãos, numa época de forte poder da Igreja Católica. Heloísa, também ela amante da cultura, se interessava pelas teses polêmicas de Abelardo e procurou se aproximar dele através de seus professores. Mas foi em vão; até que, numa tarde, a bela jovem saiu para passear com sua criada Sibyle e se aproximou de um grupo de estudantes, que estavam discutindo sobre filosofia. Seu chapéu foi levado pelo vento, indo parar justamente nos pés do jovem que era o centro das atenções, o mestre Abelardo. Ao escutar seu nome, o coração de Heloísa disparou. Ele apanhou o chapéu e, quando Heloísa se aproximou para pegá-lo, logo a reconheceu como a Heloísa de Notre Dame, convidando-a para juntar-se ao grupo. Risos jocosos foram ouvidos, mas cessaram imediatamente quando o olhar dos dois posou um sobre o outro. Heloísa recolocou seu chapéu, fez uma reverência a Abelardo e se retirou. Desde esse encontro, Heloísa não conseguiu mais esquecer Abelardo. Fingiu estar doente, dispensou seus antigos professores e passou a interessar-se pelas obras de Platão e Ovídio, pelos versos eróticos do bíblico “Cântico dos Cânticos”, pela alquimia e pelo estudo dos filtros, essências e ervas. Ela pressentira que Abelardo, atraído pelas suas atividades culturais, viria até ela. E deu certo, pois, quando Abelardo ficou a par dos estudos de Heloísa, imediatamente a procurou. Ele tornou-se amigo de Fulbert de Notre Dame, tio e tutor de Heloísa, que logo o aceitou como o mais novo professor de sua sobrinha, hospedando-o em sua casa, em troca das aulas noturnas que ele lhe daria. Em pouco tempo, essas aulas passaram a ser ansiosamente aguardadas e, contando com a confiança de Fulbert e a cumplicidade da criada, os dois ficavam cada vez mais a sós. Em alguns meses, conheceram-se muito bem, e só tinham paz de espírito quando estavam juntos. Um dia Abelardo tirou o cinto que prendia a túnica de Heloísa e os dois se amaram apaixonadamente. A partir desse momento, Abelardo passou a se desinteressar de tudo, só pensando em Heloísa, descuidando-se de suas obrigações como professor. Não tardaram a surgir problemas, pois esse amor ia contra a moral da época, que mandava reprimir os impulsos sensuais, não aceitava a prática do prazer sexual fora do casamento e não admitia o matrimõnio entre jovens de classes sociais diferentes. Assim, quando a criada Sibyle adoecera, outra serva encontrou uma carta de Abelardo dirigida a Heloísa e a entregou a Fulbert, que imediatamente expulsou o mestre de sua casa. No entanto, isso não foi suficiente para separar os jovens amantes. Heloísa preparava poções para seu tio dormir e, com a ajuda da criada Sibyle, se encontrava com Abelardo no porão, local que passou a ser o ponto de encontro dos dois amantes. Uma noite, alertado por outra criada, Fulbert acabou por descobrí-los. Heloísa foi espancada e a casa passou a ser cuidadosamente vigiada. Mesmo assim, o amor de Abelardo e Heloísa não diminuiu e eles passaram a se encontrar onde pudessem, especialmente nas sacristias e confessionários das catedrais, os únicos lugares que Heloísa podia freqüentar sem acompanhantes. Heloísa acabou engravidando e, para evitar o escândalo, Abelardo levou a jovem à aldeia de Pallet, situada no interior da França. Ali, Abelardo deixou Heloísa aos cuidados de sua irmã e voltou para Paris. Não agüentando a solidão que sentia, longe de sua amada, Abelardo resolveu falar com Fulbert, para pedir seu perdão e a mão de Heloísa em casamento. Surpreendentemente, Fulbert o

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perdoou e concordou com o casamento. Ao receber as boas novas, Heloísa, deixando a criança com a irmã de Abelardo, voltou a Paris, sentindo, no entanto, um prenúncio de tragédia. Casaram-se no meio da noite, às pressas, numa pequena ala da Catedral de Notre Dame, sem nem trocar alianças ou um beijo diante do sacerdote. O sigilo do casamento não durou muito, e logo começaram a zombar de Heloísa e da educação que Fulbert lhe dera. Publicamente ofendido, Fulbert resolveu dar um fim àquilo tudo. Contratou dois carrascos que invadiram o quarto de Abelardo durante a noite e cortaram sua genitálias. Após essa tragédia, Abelardo e Heloísa jamais voltaram a se falar. Ela ingressou no convento de Santa Maria de Argenteul, caindo em profundo estado de depressão e só retornando à vida aos poucos, conforme iam surgindo notícias de melhora de seu amado. Para tentar amenizar a dor que sentiam pela falta um do outro, ambos passaram a dedicar-se exclusivamente ao trabalho. Abelardo construiu uma escola-mosteiro ao lado da escola-convento de Heloísa. Viam-se diariamente, mas não se falavam nunca. Apenas trocavam cartas apaixonadas. Abelardo morreu em 1142, com 63 anos. Heloísa ergueu um grande sepulcro em sua homenagem e faleceu algum tempo depois, sendo, por iniciativa de suas alunas, sepultada ao lado de Abelardo. Conta-se que, ao abrirem a sepultura de Abelardo, para ali depositar Heloísa, encontraram seu corpo ainda intacto e de braços abertos, como se estivesse aguardando a chegada da amada. Esta história de amor infeliz, junto com a de Tristão e Isolda, inaugura na Europa o tema da paixão fatal e da morte como único lugar seguro para a união de dois seres apaixonados. O tema, que retoma o mito pagão de Eros e Tânatos, teve muito sucesso na cultura ocidental, explorado exemplarmente por Shakespeare na sua tragédia Romeu e Julieta. Ainda hoje, o drama deste amor sublime medieval continua sendo representado, especialmente por companhias de teatro amador no meio universitário, exaltando o código individual e natural (o direito à liberdade de pensar e sentir) e condenando o código social (a opressão dos que têm o poder). ABRAÃO (sacrifício de Isaac, Judaísmo)JerusalémBíblia Moisés A criação do mito de Abraão como Patriarca dos hebreus remonta ao séc. XIX a.C. Ele é um dos personagens mais importantes da religião judaica e, sucessivamente, da cristã e islâmica. Ele foi chefe de um clã arameu, tribo seminômade da região de Canaã, no litoral palestino-fenício, antigo nome da Terra Prometida, ou país de Israel, atual Palestina. A ele Deus teria revelado que Ele era a única divindade, determinando a passagem do politeísmo para o monoteísmo. Segundo uma passagem do Gênesis, Eloim (Deus) o teria agraciado com uma aliança entre a divindade e a parcela da humanidade a Ele consagrada, tendo como sinal a circuncisão. Tal privilégio do povo hebraico foi uma compensação pela prova do “Sacrifício de Isaac”, superada pelo patriarca Abraão. Ter a coragem de imolar seu filho único para obedecer a uma ordem divina é algo de sobre-humano, que apavora qualquer inteligência que não esteja envolvida por um credo religioso. O conto bíblico, ao longo dos séculos, alimentou as várias artes, especialmente o Teatro e a Pintura, sendo utilizado pela Psicanálise como projeção do inconsciente. O relato contido no Gênesis seria uma alegoria da estrutura arquetípica familiar, onde o pai seria o carrasco que separa o filho da mãe. Neste sentido, é evidente o paralelo com a Mitologia greco-romana, onde se contam as relações incestuosas das Divindades Primordiais. O mito de Ifigênia narra como Agamenão estava pronto para sacrificar a própria filha no altar de Diana. Incríveis são as coincidências entre o mito do patriarca Abraão e do príncipe grego. Não havendo como provar influências entre os dois relatos lendários, só se pode pensar em arquétipos universais, conforme a teoria de Jung (Freud). Ao patriarca Abraão está ligada toda a história do Judaísmo, a primeira religião monoteísta da nossa cultura. De seu filho Isaac nasceu Jacó (que passou a chamar-se Israel) e os 12 filhos deste deram origem às doze tribos do povo judeu. Ao redor do ano de 1700, os hebreus se deslocam para o Egito, onde permanecem escravos ao longo de 400 anos. Em 1300, aproximadamente, conseguem a liberdade, liderados por Moisés, que recebeu de Deus as tábuas com os “Dez Mandamentos”, no monte Sinai. Peregrinam no deserto por 40 anos, até chegar à terra prometida, Canaã (Palestina), onde o rei David transforma Jerusalém em centro religioso e seu filho Salomão constrói o famoso Templo. Com a morte de Salomão, as tribos hebraicas dividem-se em dois reinos, o de Israel, na Samaria, e o de Judá, com capital em Jerusalém. Desde então nasceu a crença da vinda de um Messias, um enviado de Deus, que

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reunificasse o povo judeu e estabelecesse a soberania divina em todo o mundo. Até agora os judeus estão esperando a vinda do Messias, pois não reconhecem Cristo como filho de Deus. ABSOLUTISMO (imperialismo, tirania, despotismo, mito de Júpiter)Política “Em qualquer grande conquista estão as sementes de sua decadência” (Martin Seymour-Smith) O termo “absoluto”, do étimo latino absolutus (“solto”, liberado, que não depende de nada e de ninguém) foi usado, primeiramente, por filósofos preocupados em descobrir a origem do mundo na pressuposição de que existisse uma entidade “por si mesma”, desligada da matéria cósmica e, portanto, transcendental, auto-suficiente, incondicionada, eterna, que as religiões monoteísticas chamam de Deus, de um modo geral, mas a que os filósofos, no decorrer da história, deram vários nomes, conforme concepções diferenciadas acerca da mesma idéia de absoluto. Assim, por exemplo, Parmênides fala de “Esfera”, Platão de “Idéia”, Aristóteles de “Primeiro Motor Imóvel”, Plotino de “Uno”, Espinosa de “Substância”, Kant de “A Coisa em si”, Fichte do “Eu”, Hegel de “O Espírito Absoluto”. No campo político, o Absolutismo é um sistema de governo onde apenas uma pessoa (Monarca, Rei, Soberano, Déspota, Tirano, Czar, Xeque, Imperador) concentra em si todo o poder, sem algum limite e sem precisar justificar seus atos de soberania. Num sentido amplo, o Absolutismo sempre existiu em muitos países da Terra e continua sendo praticado até hoje. O sistema vigora onde o mito de Júpiter se personifica num indivíduo que consegue enfeixar em si todos os poderes de uma coletividade, suprimindo as liberdades individuais. Neste sentido, o termo Absolutismo torna-se quase sinônimo de Tirania, Despotismo, Ditadura, Imperialismo, este último vocábulo indicando a opressão de uma nação sobre outras. Veja-se, ao longo da história, a sucessão dos vários impérios: persa, macedônico, romano, otomano, hispânico, inglês, napoleônico, soviético, o “Celeste Império” chinês, o “Império do Sol Nascente” japonês , as chamadas “Repúblicas de Bananas” da América Latina, dominadas por Presidentes não eleitos pelo povo de uma forma honesta ou sustentados pela força militar. O Absolutismo reina até nos pequenos aglomerrados indígenas, onde o cacique tem poder de vida e de morte sobre os membros da sua tribo, como também na moderna globalização, pela qual os monopólios se aglutinam cada vez mais e se internacionalizam, às custas dos países de tecnologia ainda atrasada, de economia emergente, incapazes de competir, pois vítimas do protecionismo alfandegário, de dívidas externas com altíssima taxa de risco e, evidentemente, da incompetência e corrupção de seus governantes. No dizer do cientista político Eric Hobsbawn, “poucas coisas são mais perigosas do que impérios que perseguem seus próprios interesses na crença de que estão fazendo um favor à humanidade ”. Será que ainda existe alguém tão ingênuo ao ponto de pensar que alguma instituição financeira nacional ou internacional seja beneficente ao emprestar dinheiro a necessitados, sem tirar todo o lucro que puder? Como no mundo físico, assim no reino econômico, “a razão do mais forte é sempre a melhor”, segundo o provérbio clássico do fabulista La Fontaine. Num sentido estrito, o termo Absolutismo está relacionado, historicamente, com as Monarquias da Europa Ocidental dominantes nos séculos XVII e XVIII, e na Rússia czarista, chegando até o início do século XX. Seu substrato ideológico pode ser encontrado no pensamento do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679). Especialmente na obra Leviathan, ele tenta demonstrar sua teoria do poder político, fundamentada num materialismo mecanicista: a sociedade humana é vítima de egoísmos individuais e de grupos que a levam a uma guerra de todos contra todos. Homo homini lupus (“O homem é lobo do homem”), dizia ele. Para evitar tal conflito, faz-se necessário que o homem renuncie a seus direitos naturais, em benefício de um soberano cujos direitos ilimitados lhe permitem fazer reinar a ordem e a paz. Mas, perguntaríamos ao Hobbes, se ainda fosse vivo, “e se o soberano, como costuma ser, for um tirano?” Não seria melhor educar o povo para o exercício do direito democrático, em lugar de confiar num “salvador da pátria?” Podemos relevar quatro focos de domínio absolutista na Europa, que antecederam o início das monarquias constitucionais e dos governos democráticos: l) A Península Ibérica: a longa e sangrenta luta dos povos cristãos contra os árabes maometanos, que invadiram toda a faixa mediterrânea da Europa a partir do século VII, fez com que os diversos e numerosos contados se agrupassem em três

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grandes Estados: Castela, Aragão e Portugal, que se reduziram a dois quando, no final do século XV, o casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão teve como resultado a junção dos dois Estados e o fim do domínio árabe na Europa. Para reprimir quaisquer veleidades de insubordinação política ou religiosa, os sucessivos monarcas de Espanha e Portugal se serviram amplamente do Tribunal da Inquisição, manipulado pela Companhia de Jesus, ordem da religião católica encarregada de fazer obedecer, a qualquer custo, as prescrições da Contra-Reforma, proclamadas pelo Concílio de Trento, terminado em 1563 (Lutero). 2) A França de Luís XIV, o modelo quase perfeito do monarca absoluto, ele que disse: “o Estado sou eu”. O processo de formação do regime absolutista na França começou com a ação do grande estadista Cardeal de Richelieu, em 1624, nomeado primeiro-ministro do rei Luís XIII, que conseguiu acabar com o poder dos nobres, arrogantes e incontentáveis, concentrando o poder nas mãos do soberano, e continuou com o Cardeal Mazarino, primeiro-ministro de Luís XIV. Mas este Rei, bem mais ativo e corajoso do que seu antecessor, logo tomou para si as rédeas do governo, conferindo a seus ministros e secretários apenas a função de conselheiros: a ele cabia o poder decisório sobre todos os negócios do país. Considerando o soberano como um ser excepcional, quase transcendental, fez com que a magnificência real se manifestasse também exteriormente através de uma suntuosidade refinada e impondo regras rígidas de etiqueta social. Mandou construir o palácio de Versalhes, o mais luxuoso do mundo, como sua residência, e estimulou o triunfo da inteligência, especialmente no campo das Letras. Pertencem a sua época os três famosos dramaturgos neoclássicos: Corneille, Racine e Molière. Por tudo isso, passou à história com o apelido de “Rei Sol”. 3) O período do Absolutismo na Inglaterra: o povo inglês, desde a Idade Média até hoje, cultivou a tradição de uma forma de governo fundamentada numa monarquia relativa, mais representativa do que dominadora, subordinada ao poder do Parlamento, composto pela Câmara dos Lordes e a Câmara dos Comuns. Mas essa tradição foi quebrada pela ascensão ao trono do rei escocês Jaime Stuart, em 1603. Até 1688, ano da chamada Revolução Gloriosa, quando Guilherme de Orange, elevado ao trono por um levante geral, promulgou a primeira “Declaração de Direitos”, o Reino Unido da Grã Bretanha sofreu uma forma de governo ditatorial durante a dinastia dos Stuart que, além de acabarem com as liberdades políticas, adeptos da Igreja Anglicana, perseguiram católicos e calvinistas. Mesmo na época da chamada República de Cromwell, que se seguiu ao domínio stuartiano, o Lorde Protetor, que tanta glória militar deu à Inglaterra, não deixou de governar de modo ditatorial. 4) O Tzarismo russo: Tsar , Czar ou Zar era o nome que se dava ao Imperador da Rússia , uma extensa região da Europa Oriental habitada por povos de várias etnias. Na verdade, o povo russo sempre viveu num regime ditatorial, quer no longo período dos czares, sendo o mais famoso Pedro I, o Grande, em cuja homenagem foi fundada, em 1703, Petersburgo, cidade que se tornou a capital do vasto império, quer no período do domínio do regime comunista, que começou com a Revolução Bolchevique, em 1917, chefiada por Stalin e Lênin. Não à-toa que este último definiu o Estado como “a organização especial da violência”. Realmente, a União Soviética nunca gozou de um governo propriamente democrático, pois o absolutismo de direita foi substituído por uma ditadura de esquerda. O absolutismo comunista terminou na antiga URSS, mas continua na China, na Coréia do Norte, na ilha de Cuba (Marx). ACADEMIA (escola filosófica) Platão Arcadismo O nome “Academia” está relacionado com o nome de um herói grego, Academos, que doou seu parque, composto de ginásio e jardim, situado a NO de Atenas, ao filósofo Platão para conversar com seus discípulos sobre filosofia, ciências e artes. Após a morte de Platão, a Academia foi dirigida por vários filósofos e cientistas, até ser fechada pelo imperador Justiniano, que confiscou o patrimônio, em 529. Só um milênio depois, com o advento do Neoclassicismo francês e o Arcadismo italiano, o termo “academia” voltou a ter prestígio, passando a fazer parte da cultura social. As primeiras academias “modernas” surgiram na Itália ao longo do séc. XVI, quando intelectuais humanistas expunham suas idéias mais avançadas em reuniões regulares, rivalizando com o ensino ministrado nas Universidades: Academias da Crusca, dos Linces e de São Lucas, em Roma; Academia de Arte e de Desenho de Vasari, em Florença. A moda pegou e as Academias se espalharam pela Europa toda, especialmente na França.

o Cristianismo (Cristo) iniciaria uma nova Era. A palavra “Adão”. tomarem o chá das cinco e fazerem discursos laudatórios. Don Juan. distinguindo. cujo sangue iria lavar o pecado. flor efêmera da primavera. em substituição ao deus vingador do Judaísmo. Mas. propondo a substituição da teoria creacionista pela teoria “evolutiva” ou transformacional: as várias formas de vida no planeta Terra não são fixas. induziu Adônis a cultivar a caça.8 Em 1634. redimindo a humanidade da culpa original. de Ciências e de Artes. Assim. Metamorfoses (Ovídio). disputando seu amor com Prosérpina (Ceres Terra). sob a égide do perdão e do amor. animal e humana. o ministro Richelieu fundou a Academia Francesa. encarregada de disciplinar o uso da língua francesa e opinar sobre os livros publicados. entre os quais se destacou Pietro Metastasio. ab initio. a sede do conhecimento. Adônis e Elegias (Ronsard). gêneros e espécies. o homem seria apenas um macaco melhorado. estadual e nacional. o dinheiro público seria mais bem utilizado na alfabetização do povo e na melhoria do ensino básico! ADÃO e Eva (mito da criação do homem e do pecado original)Bíblia Deus. que perdura até hoje. é fundada a academia “Arcádia” por um grupo de poetas. Assim. Adônis (Marino). O mito de Adônis perpassa a poesia. o mito do primeiro homem moldado com barro por Deus encontra-se em textos assírio-babilônicos. sendo morto por um javali. o movimento arcádico se espalhou pelos países de língua românica. Adônis (La Fontaine). uns puxando o saco de outros. o pecado do “orgulho”. por que sofro? Há vida após a morte? Trata-se da teoria “criacionista” ou fixista. mas um termo genérico que significa “aquele que vem da terra” (adama). tendo bons cultores especialmente em Portugal e no Brasil e dando início à moda das “academias” de Letras. não é um nome próprio. pois o sangue de Adônis teria colorido suas águas de areias vermelhas. Alguns títulos de obras inspiradas nesta lenda: Idílio XV e Epitáfio de Adônis (Teócrito). R. Chamada de “Nova Bíblia”. pois cometeu o pecado que os gregos chamavam de híbris. Essa tese vigorou quase pacificamente na cultura ocidental até à publicação do livro de Charles Darwin: A Origem das Espécies através da Seleção natural (1859).. em hebraico. ADÔNIS (o mito da sedução: Páris. que sofreu inúmeras variantes. De seu sangue nasceu a anêmona. Um rio da Fenícia carrega seu nome. a presunção que leva o homem a desprezar os limites impostos pela divindade. Voltando ao Gênesis. Em 1690. O humorista Millôr Fernandes afirma que “a Academia Brasileira de Letras se compões de trinta e nove membros e um morto rotativo”. de onde venho?. O pecado de Adão e de Eva foi o de “querer saber”.” No início do Gênesis encontramos a resposta da religião judaico-cristã às principais inquietações do ser humano: quem eu sou?. o Salvador. Casanova. a do Novo Testamento. em Roma. é eleito um determinado número de “imortais”. por vingança. que pressupõe a existência de uma entidade transcendental que deu origem ao universo cósmico e à vida vegetal. o Messias esperado. querendo igualar-se a Deus. que. deus da guerra. A paixão de Vênus pelo belo rapaz suscitou também o ciúme de seu amante Marte. E ele vai voltar à terra como castigo. Adônis e . seguindo a lei do mais forte. La Púrpura de la Rosa (Calderón). mas evoluem constantemente de uma espécie para outra. ao nível municipal. Da Itália. ao longo de toda cultura ocidental. Adônis e Vênus (Lope de Vega). Égloga V (Virgílio). junto com o castigo vem a esperança: Deus enviará seu próprio filho. sem possibilidade de mistura. o teatro e as artes plásticas. uma vez e para sempre. Periodicamente. cujas poucas atividades conhecidas são a de vestirem um fardão. a obra do cientista inglês revolucionou os estudos biológicos.. a seguir disse: “Façamos o homem a Nossa imagem e semelhança. que contém a primeira teoria explicativa realmente científica sobre a evolução dos seres vivos. tendo como metáfora recorrente a imagem do broto que morre jovem para renascer em novas formas de beleza. A deusa Vênus se apaixonou pela beleza extraordinária do jovem. Em lugar de satisfazer vaidades e alimentar rivalidades intelectuais.Valentino) Narciso Segunda a lenda mais antiga. conforme ordem de Júpiter. com quem Adônis passava um terço de cada ano (a estação da Primavera). Adônis nasceu de uma relação incestuosa entre o rei da Fenícia Cíniras e sua filha Mirra.

Já o mito de Narciso simboliza a beleza masculina que se autocontempla. temos o Don Giovanni (1787). francesas e de outros países europeus. da mesma forma que Vênus. em busca do absoluto. se tornava uma cidade cosmopolita. O ator que mais povoou o imaginário erótico feminino foi o italiano Rodolfo Valentino. Adônis. desafiou a estátua para se mover e acompanha-lo numa festa. Mulherengo incorrigível. Tentação de Santo Antônio (Flaubert). que se vangloria de ter tido mais de mil amantes. de um lado e. sai publicada. Suas aventuras amorosas nas cortes italianas. E ela compareceu e levou consigo o jovem para o outro mundo. para o Inferno. O Martírio de São Sebastião (D’Annunzio). a película Don Juan de Marco é considerada um clássico. No Cinema. na Ópera. temos o Don Juan. assim como Páris. personagem construído no imaginário popular e artístico a partir de um fato real. de um erotomaníaco compulsivo que sofre do complexo de Édipo. o mito de Dom Juan apela para a ética da quantidade: os amores sempre variados ou renovados tornam a vida inesgotável. onde estava enterrado o corpo do pai da moça. de Molière. Adonais: uma elegia sobre a morte de John Keats (Shelley). Dom Juan consegue vencer. Casanova. um jovem nobre e constantemente apaixonado-se por belas mulheres. Segundo outra versão da lenda. que se tornou famoso após a publicação do seu livro História de minha vida (1789). mas a morte do chefe do regimento militar comoveu o povo. que morreu em Nova York. em 1926. A fuga dos dois amantes para Tróia causa a primeira grande guerra de que temos notícias na cultura ocidental e Páris. despudoradamente. O protagonista é um belo jovem libertino. que erige uma estátua para lembrar o triste fato. na “Crônica de Sevilha”. Mas tal amor é perigoso. Narciso. Em 1630. intitulada El Burlador de Sevilha. O mito de Don Juan oscila entre a construção de uma personalidade histérica. é famoso o poema satírico de Lord Byron ( Romantismo). aperfeiçoou suas aptidões de sedutor durante as festas carnavalescas de Veneza que. espalharam o rumor de que a estátua do comandante de Sevilha arrastara Don Juan. o personagem Dom Juan passou de embusteiro e sedutor brutal a homem angustiado. Na Comédia. Mais de um século depois. passou a representar o protótipo do macho irresistível que povoa o imaginário feminino. símbolo do autoritarismo) Ilíada . de outro lado. a esposa do príncipe grego Menelau. E ao cinema pertence a perpetuação do mito do homem fatal. XVII. uma história de autoria de Tirso de Molina. O novo representante da irresistível beleza masculina é o veneziano Giovanni Giacomo Casanova (1725-1798). A partir do texto de Molina. filho de uma dançarina e atriz. espada e uma máscara negra. a representação de um jovem que sofre de um comovente romantismo eterno. apesar de padre. no séc. Filho do rei de Tróia ( Ilíada) e protegido por Vênus. Helena de Tróia. podendo gerar a destruição e a morte.9 Vênus (Shakespeare). dramáticas e cinematográficas. de nome Don Juan Tenório. Passando da Mitologia para a história. Rodolfo Valentino. retomando a antiga mitologia grega. encontram-se registradas na sua obra publicada em Paris. Ainda na mitologia greco-romana. diz-se de um belo jovem. como Adônis. de Mozart. Dom Juan. Através das várias obras literárias. O pai de uma moça por ele desonrada desafia o jovem sedutor para um duelo de espada. surge a figura de Don Juan. Em vista de que é impossível encontrar o amor ideal numa única mulher. que retoma um tema tratado numa obra anterior (1625) do mesmo autor. por onde viveu viajando. a figura de Páris excede em beleza. consagrando a figura do herói. que viera insultá-lo em seu túmulo. passa a configurar o ideal estético masculino: “parece um Adônis ou um Páris”. está predestinado por seus encantos a conquistar o coração de Helena. desta vez italiano e com uma vida historicamente bem documentada. Cleópatra e outros mitos de mulheres sedutoras atiçam o desejo erótico dos homens. Dom Juan. AFRODITE (a deusa grega do Amor)Vênus AGAMENÃO (personagem mítico. a deusa do amor. na Poesia. com o nome de O Convidado de Pedra. surgiram vária versões em diferentes artes. com apenas 31 anos de vida e cinco de interpretação. Os monges do convento. vestindo capa. Endímion (Keats). de uma beleza ímpar. nessa ocasião. surge outra figura de sedutor. O Eros volta a se aproximar do Tânatos.

em madeira. Suas principais obras de escultura e arquitetura encontram-se nas cidades mineiras de Ouro Preto (Fonte do Padre Faria do Alto da Cruz. Agamenão teve três filhos. O rei de Micenas. Ele foi reconhecido como o maior artista brasileiro do séc. Vivendo na agitada Vila Rica e em outras cidades mineiras alvoroçadas pela aventura das minas de ouro. induziu o irmão a comer a carne de seus próprios filhos. santos e papas. Tiradentes (risco do frontispício da Matriz de Santo Antônio). nasceu em Ouro Preto-MG de um mestre-de-obras português e de uma escrava deste. cujas histórias trágicas foram imortalizadas por dramaturgos clássicos e modernos: Ifigênia. Egito. da cidade Micenas. que o obrigou a sacrificar–lhe a filha Ifigênia. A personalidade de Agamenão é marcada pela prepotência e pela ira. sobressaem Agamenão e Menelau. Ásia Menor. a quem se deve o início do mundo helenístico. subjugou a Grécia. molinismo)Pascal AGRICULTURA (o mito de Deméter e Ceres. 1761. filho de Felipe II. em pedra-sabão. Entre os descendentes mais famosos de Atreu. Sabará (esculturas no frontispício da Igreja da Ordem Terceira do Carmo e as imagens de São João da Cruz e São Simão Stock). ao voltar a Micenas. com inscrições em latim. Nossa senhora das Mercês e Perdões e Nossa senhora do Pilar. No decorrer da guerra. ALEXANDRE. Agamenão foi morto pela esposa Clitemnestra e seu amante Egisto. Aleijadinho se beneficiou do convívio com poetas. Congonhas do Campo. clássica. e Agamenão com Clitemnestra. já fazendo parte da saga “troiana”. a imagem em pedra-sabão de São Miguel na fachada da igreja homônima). por sua vez. seduzindo-lhe a bela esposa. Atreu venceu o irmão Tiestes na disputa pelo trono de Micenas. Electra e Orestes.10 Agamenão é uma figura lendária que está ao centro do um ciclo cultural da pré-história da Grécia. do patriarca Atreu. interessados no sonho da independência brasileira e no culto da realidade mineira. suscitou a ira da deusa Diana. marcado pelo ódio. Mas Tiestes lhe deu o troco. filha do rei de Micenas. acrescentando-lhe o toque do ambiente popular de sua época. artista e políticos esclarecidos. sendo vítima da própria soberbia. tanto na Arquitetura. ou dos “Atridas”. São João del Rei (risco geral e retábulo da capela-mor da Igreja de São Francisco da Penitência). sem dúvida. no períbulo e as figuras dos Passos da Paixão. por ter difundido a cultura produzida na Grécia clássica (século V. Ele encontrou um modo brasileiro de fazer arte. filho do rei de Tróia. desentendeu-se com Aquiles. XVIII. assimilando a tradição gótica. jansenismo. onde se encontram suas obras-primas que o imortalizaram: os Doze Profetas. Desprezou a profecia de Cassandra e. ambos tornando-se soberanos pela morte dos sogros. Os dois irmãos casaramse com duas lindas irmãs: Menelau com Helena (o motivo da Guerra de TróiaIlíada). grande parte . dito Aleijadinho por uma enfermidade deformante de que foi acometido perto dos 50 anos. AGOSTINHO. com data incerta (1730 ou 1738?).. sendo obrigado a devolver-lhe a escrava Briseida. Todos os sonhos barrocos deslizando pelas pedras (Cecília Meireles) Antônio Francisco Lisboa. a princesa Aeropa. época de Péricles ou de Atenas) por todo o imenso território por ele conquistado. Magno (Biblioteca de Alexandria)Helenismo Alexandre é o nome de vários monarcas. Conseguindo famosas vitórias sobre o império persa. o mais valoroso dos Príncipes gregos. filha do rei de Esparta. pela vingança e por paixões incestuosas. a Reforma Agrária)Terra ALEIJADINHO (artista plástico mineiro) BarrocoEscultura Anjos e Santos nascendo em mãos de gangrena e lepra. portando cartelas.. raptada por Páris. Santo (agostinismo. que leva o nome de “micênico”. como na Escultura. foi Alexandre o “Grande” (356-323). que começou com o período alexandrino. O mais famoso. falecendo na mesma cidade mineira. Escolhido como chefe da expedição grega para reconquistar Helena. barroca e rococó portuguesa. em 1814. na subida ao Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. primeira obra em pedra-sabão. risco. rei da Macedônia. talhas e esculturas nas Igrejas de São Francisco de Assis.

na poesia bucólica. gozou de um regime democrático. Quando a Grécia. famosa por ter divulgado Os Elementos.C. A produção cultural do período alexandrino é bastante vasta. os temas e os heróis imortalizados pela épica e pela tragédia são objetos de novas elaborações literárias. com base num projeto do arquiteto norueguês Kito Thorson. pois cada qual. Calímaco foi o maior poeta elegíaco. no teatro. nascendo assim o Classicismo. Shakespeare. entendido como a consciência de considerar as obras de arte do passado como modelos a serem imitados por todos. Goldoni). manuscritos de diversos idiomas do Mediterrâneo. lançou as bases da sátira dos costumes da classe média baseada no estudo psicológico de caracteres. após a fase maravilhosa da criação artística do período ático. A problemática que estimula a produção de obras artísticas ou científicas extrapola os limites da Cidade-estado e se universaliza. de observação e de pesquisa.11 da costa do Mediterrâneo e do Oriente Médio. de biografias imaginárias de homens célebres. mito. fundou a cidade que leva seu nome. os cidadãos eram chamados a fazer parte da vida pública. entre os quais Alexandre o Grande foi considerado o herói protótipo pela sua coragem de enfrentar o desconhecido. enquanto inquérito sobre a vida pública e sátira políticosocial. o pai da "comédia nova". criando-se assim narrativas híbridas em prosa. Famosa foi sua Biblioteca. depois de Atenas e antes de Roma. durante o apogeu da época ática. Outro aspecto importante foi seu cosmopolitismo.Mas. com a perda da independência política. são misturados. com voz ativa e passiva. Teócrito pode ser considerado o criador do gênero. no seu tratado Poética. Menandro. Infelizmente. poetas. influenciando fortemente os melhores comediógrafos posteriores (Plauto. além de um grande estrategista de guerra. Talvez o único gênero literário realmente novo do período alexandrino seja a ficção em prosa. Alexandria possuía um museu. onde se reuniam filósofos. no sentido de que enaltecia as origens divinas e heróicas da raça (poesia épica). do Oriente Médio e da Índia. abrigando cerca de cinco milhões de volumes. Terêncio. instruía sobre as relações entre os homens e seus deuses (poesia dramática). em oposição ao caráter regional das póleis da Grécia Antiga. mas poucos autores se imortalizam. Realmente. como as outras artes. e uma Escola de Matemática. a biblioteca sofreu dois incêndios. A literatura. entre outras descobertas científicas. A cultura alexandrina caracteriza-se. A Nova Biblioteca de Alexandria foi construída. até o século II a. um salão de conferências e um planetário. inclui três museus. confinando a poesia ao uso das pessoas cultas. Como é sabido. Molière. . ensinava o cultivo dos campos (poesia didática). Na medida em que a prosa se torna a forma mais comum de expressão literária. para a língua grega. o gênero que mais tarde se chamará de "romance". sentia-se na obrigação de zelar pela riqueza material e espiritual de sua terra. mais do que pela criação artística. fora a maior metrópole intelectual e artística do mundo helenístico.C. História. proliferou na Grécia o gosto por uma literatura feita de relatos de viagens em regiões longínquas e fabulosas. lendas e personagens. Além da Biblioteca. que emergem como um disco gigantesco inclinado em direção ao Mediterrâneo. seis galerias. era considerada uma atividade também patriótica. exaltava as vitórias esportivas (epinícios). Os cargos civis e militares eram atribuídos pelo merecimento pessoal e pelas eleições de classe. Alexandria que. só existia produção literária em versos. não deixava de desenvolver o seu papel pedagógico. imitando-se todas as formas artísticas do período anterior. e em 391 d. Somente após a conquista macedônica. onde lecionaram Plotino e Porfírio. consagrados pela tradição clássica. através do voto livre e direto. No Egito. Enfim. pelo espírito de reflexão. cinco institutos de pesquisa. As atividades militares e políticas absorviam a maior parte do tempo dos gregos. fundamentado nas liberdades constitucionais das póleis. O complexo de 11 andares. em 47 a. dramática. construída por Ptolomeu que lhe sucedeu. de Euclides e alguns trabalhos de Arquimedes. tanto que Aristóteles. com um acervo de mais de 700. também a comédia de Aristófanes. foi amante e difusor da cultura. fala apenas de "poesia" (épica. entre 1988 e 1995. Ele se tornou imortal porque.000 obras literárias e científicas.. tentando avançar até à Índia. Na poesia lírica. uma escola filosófica neoplatônica. é sintomático o fato de o romance grego de amor e de aventura desenvolver-se em épocas de escravidão política. cientistas e tradutores que vertiam. tendo consciência de ser membro de um patrimônio de cultos e de tradições. Este tipo de literatura romanesca foi bem ao encontro dos gostos da grande massa alienada da vida pública. lírica e satírica).C. precisamente no Delta do rio Nilo. adquirindo também uma finalidade mais utilitária: daí a abundância de obras de cunho didático e erudito. surge a época da crítica e da divulgação da cultura grega. o que favoreceu muito o desenvolvimento das ciências naturais e exatas.

com um machado. nem amor nem ódio. não fere o meu lado masculino. Cabral)Renascimento AMOR (Cupido na mitologia greco-romana: sexo)Eros  Vênus ANDRÓGINO (mito do ser bissexuado.C. cortasse seu corpo pelo meio. antes do pecado original. Se deus é menino e menina. é a aproximação do tempo de composição (entre o fim do séc. O mito. Esta vertente do mito bíblico tem um paralelo com o mito grego do ser bissexuado: Júpiter. perdido o seu significado religioso. O individualismo substitui o coletivismo. O ideal amoroso. nem quente nem frio. em suas Metamorfoses. temendo que o Andrógino. Como a “Comédia Nova” de Menandro e a poesia elegíaca de Calímaco. Platão também pensara numa androginia primordial quando expôs sua teoria cosmogônica. No novo sistema socio-cultural. Os estudiosos chamam de “período alexandrino” a cultura helenística que vai do III ao I séc. ALMA (princípio da vida)PsiquêEspírito AMÉRICA (a descoberta do novo continente: Colombo. uma evasão voluntária nas "Ilhas Fortunadas" do mundo da utopia. Adão e Eva. perdendo qualquer ideal de pátria. sendo uma combinação harmoniosa do masculino e do feminino. racionalizando seus mitos e pragmatizando sua filosofia. Conta a lenda que a ninfa Salmácida se apaixonou perdidamente pelo Hermafrodito. e o II d. primeiro.). A mimese superior é suplantada pela imitação das ações ordinárias da vida cotidiana.12 os gregos. que causou ao ser humano sofrimento e morte. assim as narrativas de amor e de aventuras espelham o mudado gosto do público e um novo ideal de vida: a afirmação amorosa entre dois seres. sobretudo. a pessoa humana procura no amor. contendo o princípio masculino e feminino. pudesse ser uma ameaça para o seu poder. O que liga entre si as cinco narrativas chegadas até nós. afastados da vida pública. como punição pelo pecado de orgulho. é possível pensar numa interpretação esotérica: Deus teria criado. sua realização existencial. Os mitos sobre a androginia encontram-se espalhados em toda a cultura ocidental e nas religiões orientais. chama o andrógino de “Hermafrodito”. centrada num Ovo ou Gigante antropomórfico. o andrógino é o ser que reúne dentro de si o elemento feminino e masculino. sou masculino e feminino. A análise da vida pública cede lugar ao estudo da vida privada. E a ficção romanesca exprime claramente essa cosmovisão. depois. teria havido a separação dos sexos. do verbo secare (separar. dividindo o masculino do . as semelhanças de estrutura e de significação. O período alexandrino da literatura grega nos deixou cinco romances de amor e de aventura. o ser perfeito. torna-se lenda e o ideal heróico da poesia épica se transforma no ideal erótico do romance. a. O filósofo neoplatônico Leão Hebreu. o espaço geográfico onde se desenvolvem os enredos (as cidades helenizadas do Mediterrâneo) e. o mais famoso sendo Dáfnis e Cloe ( Romance grego). conseguindo dos deuses o privilégio de nunca mais se separar do amado. juntando o nome de Hermes (Mercúrio) e Afrodite (Vênus). o casamento feliz. constituindo um corpus romanesco. baseada numa nova paidéia. ordenou a Vulcano que. publicado em 1536. constituindo assim um ser da natureza dupla. Neste ovo gigantesco não existiriam os contrários: nem luz nem trevas. bissexuado. o pai dos deuses. por somar o princípio masculino com o feminino. e mais fragmentos de outros romances. convergem suas atenções e seus desejos para a vida familiar e íntima. Segundo alguns exegetas da Bíblia. em face das contradições existentes na narrativa bíblica sobre a criação do homem.C. vivendo sob sucessivos regimes imperiais estrangeiros.C. sustenta a tese de que. O étimo latino da palavra “sexo” é o radical sec. centrado no homem como indivíduo. constituíam um único ser. A literatura torna-se um meio de passatempo. como origem do universo.. cortar): o ato sexual junta o que está dividido em dois pedaços. I a. (Baby Consuelo e Pepeu Gomes) Do grego andrós (macho) + gyné (fêmea). entre a época ática e a romana. uma fuga da realidade insignificante. o andrógino. no famoso livro Diálogos do Amor . Hermafrodito)Hermes Vênus Ser um homem feminino. O poeta Ovídio. o mais forte dos sentimentos individuais. a riqueza material e as viagens são as aspirações fundamentais do heleno da época alexandrina.

condenado a viver em estado de guerra permanente. que é o seu oposto. de André Gide. Dessa união incestuosa nascem vários filhos. A relação de conflito entre esses três elementos é a causa de crimes horríveis. dá à luz. narra que a Terra. ao assumirem o poder político. A foice. como o infanticídio (o “tu” vê no “ele” um rival e tenta eliminá-lo). se persistissem em seu orgulho: “Se a imprudência continuar. com o nascimento do filho. à pré-história. todas divindades poderosas. no romance História cômica dos Estados e Impérios do Sol . o mito sobre as Divindades Primordiais. Aquilo deixava a Igreja de fora. contra a tirania das forças superiores do Céu. pois natural. que proíbem até a dança de salão para evitar a aproximação dos corpos de moças e rapazes. com o filho Céu. protetor da vida. de maneira a fazê-los andar com uma perna só”. cortando-lhe os órgãos genitais. Cronos. ressaltando ora o pecado do orgulho. o mito do andrógino está ligado às lendas sobre as Divindades Primordiais. Traiçoeiramente. que pode ser encontrada em todo casal. instigando e ajudando o filho Cronos (Saturno.do escritor francês Savinien de Cyrano de Bergerac. a criatura e o criador. no Orlando Furioso de Ariosto. A separação do princípio feminino (a Terra) do princípio masculino (o Céu) cria uma instabilidade cósmica. A cópula do homem e da mulher. por partenogênese. ora a tentativa de explicar o distanciamento entre o homem e a mulher. todas elas. em À Procura do Tempo Perdido de Proust. Essa seria a explicação mítica da realidade psicológica da busca incessante da outra metade: o desejo do homem pela mulher. a revoltar-se contra o pai. então. pois os dois sexos separados se desejam mutuamente. ocupa o lugar do pai no trono do universo. verdadeiros irmãos inimigos. Afirma Brown: “o uso do sexo pela humanidade para comungar diretamente com Deus representava uma séria ameaça à base de poder católica. associando-lo a inspirações demoníacas. o tempo e a eternidade. Cerimônia a que os gregos deram o nome de Hieros Gamos. O Céu começa a sofrer da rivalidade dos filhos e ordena que a mãe Terra sufoque os novos seres ao nascerem. até que seu filho Júpiter o destrone pelo mesmo motivo pelo qual Saturno tinha deposto Urano. princípio feminino. além de nas obras dos autores já citados. em constante luta contra os senhores das terras (questão agráriaAgricultura). dando origem ao reinado do Tempo. como aparece em várias obras de arte. O mito do andrógino é revivido em todas as formas de arte. O infanticídio vem sendo consumado contra a vontade da Terra. A separação Terra/Céu é a representação mítica da estrutura psicológica do eu/tu que. princípio cósmico original. nos romances de Balzac. referindo-se ao pensamento de Platão. Outras religiões importantes fizeram o mesmo”. mutila o pai Céu. no Adônis de Marino. único e andrógino. Um crítico e ficcionista contemporâneo. Em seguida. dos deuses do Olimpo (Mitologia). tu (pai). visa reconstituir a primitiva unidade perdida. Basta pensar em seitas evangélicas. armado de uma enorme foice. já cortados em dois. a cortar mais ainda. a Igreja fez de tudo para demonizar o sexo e reinterpretá-lo como um ato pecaminoso e repulsivo. O poeta Hesíodo. o mais jovem dos Titãs. o Ceú (Urano). instinto divino. os Titãs. na poesia alegórica de Dante (Divina Comédia). ele (filho). por assim dizer.13 feminino. na sua Teogonia. No plano humano. onde o narrador. própria de qualquer sociedade humana: eu (mãe). a foice continua sendo o emblema da força dos trabalhadores. se completa na estrutura triádica. Assim. quando as igrejas. que leva à assexualidade. Dan Brown (O Código da Vinci). tentando restabelecer a primitiva unidade. Por motivos óbvios. Na cultura grega. O mito do andrógino simboliza a luta entre o corpo e a alma. recorda que os antigos egípcios celebravam um ritual erótico para comemorar o poder reprodutivo da mulher. passa a ser permitida apenas para a conservação da espécie. e vice-versa. no romance de Michel Tournier. os Ciclopes e os Hecatônquiros. transformado em tragédia por Sófocles e em complexo por Freud. chega a ser também antropogônico e antropológico. Os Meteoros (1975). eu cortaria ainda em dois. instrumento agrícola. o Tempo). condenando-se o prazer. especialmente no mito de Édipo. além de ser teogônico e cosmogônico. simboliza a luta da Terra. a um filho. e manifestação da mítica androginia. em que o orgasmo era visto como uma oração. ou nas regiões . nas Metamorfoses de Ovídio. no Tratado de Narciso. diz que Zeus ameaçara os homens. A mãe Terra casa-se. A concepção de sexo como pecado é bem posterior. a castração e o parricídio (o “ele” mutila ou elimina o “tu”) e o incesto (o “ele” substitui o tu no sentimento amoroso do “eu”). ora a auto-suficiência afetiva. debilitando o status que ela mesma se atribuíra de único caminho para Deus. começaram a incutir o sentimento depreciativo do sexo. inventado pela genialidade da mente grega para explicar as origens do universo. que se vinga de Urano. Encontra-se.

um matando o outro. na modernidade. Está afirmada a supremacia do direito natural e a proposta da luta sublime da consciência contra a força e a sabedoria contestável dos poderosos. O mito sobre o astro luminoso do céu. do verbo luô (libertar) ou louô (lavar). transportava seu coche dourado para o alto do céu e. Etéocle e Polinice) com mãe Jocasta. Estima-se que. desenvolvendo o tema do amor filial e fraternal. sem querer. de phôs + bios (luz da vida). em 1580. A elaboração dramática grega do relato mítico sobre Antígona foi objeto de quatro peças : Os Sete contra Tebas (Ésquilo: 467). 441). Ismênia. Hélios. Tinha a missão de trazer para a terra a luz. O rei de Tebas. depois de tomar consciência de ter sido um parricida e um incestuoso. encerrando a sobrinha num cárcere. que luta contra o sistema monárquico italiano. cujo culto. vista como a mulhersímbolo da desobediência à lei. que não datam de hoje. imutáveis. vai tomando consistência outra linha semântica. no teatro de Brecht que. no séc. a heroína anarquista)Édipo “O coração de Antígona é o pêndulo do mundo” (Marguerite Yourcenar) O mito de Antígona é uma continuação da história de seu pai Édipo. Apolo nasceu na ilha de Delos. As Fenícias (Eurípedes: 409) e Édipo em Colona (Sófocles: 407). cristianizando a lenda. Esta. mas sim o amor”. por vários nomes: Apolo. V a. a representação de Antígona tem comovido mais homens do que quando a tríade dos dramaturgos gregos. refugiando-se nos subúrbios de Atenas. assistiu à morte dos dois irmãos. considerado inimigo da cidade. ANGLICANISMO (Henrique VIII e Ana Bolena. se escondia atrás das montanhas. o calor e a vida. pois. Protestantismo)Lutero ANTÍGONA (o amor fraterno. Regente de Tebas. A longo dos tempos. Esta nova dimensão da tragédia está presente na peça Antígona do poeta romântico Alfieri. Febo. Sófocles e Eurípides. A religião faz a mesma coisa: separa o masculino do feminino para ter domínio sobre a humanidade. Antígona (Sófocles. acompanhado pela devotada filha Antígona. a interpretação mais recorrente da figura da heroína está centrada no verso que Sófocles coloca na boca de Antígona. heliocentrismo) Hélios. Filho de Júpiter e de Latona. inspiradas na figura de Antígona. Sol. nem de ontem. o dramaturgo francês Robert Garnier elabora uma peça caudalosa sobre o mito. na cultura greco-romana. XIX. à noite. matara o pai Laio e tivera quatro filhos (Antígona. em Colona. onde ela se estrangulou. apresentaram seu mito ao pé da Acrópole. o “brilhante”. Desobedecendo à ordem do tio Creonte. para enfraquecerem seus inimigos políticos. também ela centrada numa passagem da Antígona de Sófocles. Os antigos romanos. usavam o lema divide et impera: é preciso dividir para dominar. em 90 d. O Cosmos devia a ele . (do grego aïolin (nuance das cores). que possibilita a vida na terra. do latim solus (o único). que ninguém sabe quando apareceram” . Creonte se vingou. Toda a manhã. “apolíneo”. que disputavam o trono da cidade. antecipando a palavra de Jesus Cristo: “Eu não vim trazer o ódio. nas centenas de outras peças representadas no palco. com o título de Antígona ou A Piedade. é descrito. após a morte do pai.C. Hélios. é uma divindade pré-olímpica. Mas. Por muito tempo. Sol . Antígona prestou as homenagens fúnebres ao irmão Polinice. perseguida pela ciumenta Juno. durante a guerra dos “Sete Chefes”.C. correspondente ao deus Sol dos romanos. promete obedecer a “leis não escritas. Na Renascença. aos poucos. no cinema e na televisão. ao longo do séc. a tragédia ateniense foi remontada em quase todos os teatros das grandes cidades e nos pequenos palcos das províncias. quando ela não é justa e não é útil ao viver social. Ésquilo. voltou para Tebas e. pela mudança das ideologias. contestando os decretos de Creonte. por atores profissionais e amadores. O romano Estácio retoma o conjunto da lenda no volumoso poema épico A Tebaida. impregnado de marxismo. APOLO (Febo.14 muçulmanas onde se corta o clitóris das meninas para que não sintam o prazer sexual. ataca a sociedade burguesa e capitalista. foi substituído pela adoração do poderoso Apolo. onde a protagonista. A figura de Antígona perpassa toda a cultura ocidental. vazara seus olhos.

que anualmente viajava para o feliz país dos hiperbóreos. cópia de uma peça de Fídia. Surge como uma “aparição” radiosa que revela ao mundo os segredos dos sonhos e desvenda os mistérios da vida. se serviram do nome ou do prefixo h elio. Suas estátuas mais conhecidas são: Apolo Sauroctone. a ilusão. Vários estudiosos da Literatura e das outras artes se serviram muito dessa oposição apolíneo/dionisíaco em seus trabalhos de análise e interpretaçãoCrítica. APULEIO (autor do romance O Asno de Ouro)=> Metamorfose ARCADISMO (Arcádia. luminosa. como o deus de todas as faculdades criadoras de formas. Apolo. dos pastores e dos navegantes). a imaginação. afirmando especialmente o cânone da . no Louvre. da beleza sobre a fealdade. Os cientistas da Renascença européia. da ordem e da harmonia. os artistas gregos procuraram chegar à criação de um modelo de beleza masculina. Apolo é apresentado. animal e até humano.para denominar vários fenômenos ou teorias: de “hélio”. pois. ninfas e mulheres. em que o todo fosse a resultante de partes proporcional e harmonicamente estruturadas. Apolo de Kassel. É o deus da luz. onde o deus possuía vastos rebanhos de bois e carneiros. o sistema astronômico que considera o Sol como o centro do universo. Apolo do Belvedere. o Apolo mais bonito é o de Rafael. viviam em completa integração com a natureza. As ciências naturais. no Sul da Itália. da medida sobre o excesso.15 não só a alternância dia/noite. Apolo é esculpido ou pintado como um belo jovem completamente nu ou munido de arco. a confiança nas forças do homem. segundo a lenda. entendida como harmonia de formas: abstraindo dos efebos as partes corporais mais bonitas. região da Antiga Grécia. XVIII. A arte que nele se inspira — a apolínea -. especialmente Newton. A iconografia de Apolo é uma confirmação figurativa do conceito de beleza apolínea. Essa nova concepção da cosmologia é relativamente recente. que se tornou o modelo clássico da beleza masculina. em plena Renascença. gerou Orfeu. Copérnico (que deu o nome ao novo sistema) e Galileu. para indicar obras de artes inspiradas por um conceito de beleza serena. de cítara ou de uma coroa de flores na testa. O calor de seus raios fecundava a natureza toda: o mundo vegetal. universal e absoluta.XVIII)Academia O nome vem de “Arcádia”. habitada por pastores que. com a musa Calíope. A região de maior culto ao Sol era a ilha da Sicília. sofreram inutilmente para convencer os conservadores católicos de que o que está escrito no Gênesis (Bíblia) é pura fantasia. no Vaticano. O mito da disputa entre Apolo e Mársias (ou Pá. centrada na harmonia das formas. Nas Artes Plásticas. que imaginava a Terra imóvel e centro do Universo. desvendando os mistérios da natureza. animais e minerais. pela luz divina. pois ele teve inúmeros filhos com várias deusas. um radical otimismo. venerado pelos gregos porque seu canto abrandava a dor e fascinava homens. o astro ao redor do qual transladam todos os planetas. contrastando com a desordem e o espírito revolucionário inerente a Baco (Dionísio). portanto. até o séc. cópia de um original do escultor grego Praxíteles. a luminosidade. segundo uma variante da lenda) representa a vitória da lira sobre a flauta. protegia a vida vegetal. especialmente a física e a química. movimento literário do séc. onde não soprava o vento Bóreas. de lira. XVII. Ligadas à sua prerrogativa fundamental. o mais leve dos gases. A dor de Orfeu pela morte da amada Eurídice constitui uma das páginas mais líricas da mitologia clássica. era o protetor dos médicos e dos artistas. Foi a última tentativa de retomada dos princípios estéticos e ideológicos do Classicismo. da harmonia sobre a desordem. pela luz intelectual. considerado capaz de alcançar a vitória sobre o mal e a mentira. da música suave e harmoniosa sobre a música rude. povo mítico que vivia na região do extremo norte. o deus do vinho e do Carnaval. Na pintura. da cultura sobre a natureza. sendo o Sol a rodar ao seu redor. em oposição ao “dionisíaco”. era o deus dos oráculos. O adjetivo “apolíneo” foi inicialmente utilizado pelo filósofo alemão Nietzsche.tem como fundamento o sonho. até “heliocentrismo”. da forma sobre o disforme. animal e humana (patrono dos agricultores. estavam as múltiplas funções atribuídas a Apolo: pela luz cósmica. mas também a mudança das estações: o inverno era causado pela ausência de Apolo. Na Era Moderna. poeta e músico. ainda se acreditava no sistema ptolemaico ou geocentrista. da civilização grega sobre a barbárie asiática. chamou-se de Arcadismo à moda literária que dominou na Europa durante a primeira metade do séc.

e o estilo artístico do Arcadismo italiano e português lançaram as bases estético-ideológicas da primeira grande escola de poesia em nossa terra: o lirismo dos inconfidentes mineiros. a linda princesa fugiu com Teseu com destino a Atenas mas. adotavam pseudônimos gregos e tomavam por protetor o menino Jesus. Os mitos mais belos e de maior fortuna na cultura ocidental. Aliás. A natureza exaltada pelos árcades não é autêntica. frivolidade. o maior herói humano da mitologia grega. Ariadne. rei de Atenas. Segundo alguns estudiosos. pois tinha nascido de uma relação sexual entre a mulher do rei Minos e um touro. Já moço. formada pelos escritores ligados ao Iluminismo e à Enciclopédia. Cada um desses heróis tem uma história particular. destacando-se Hércules. era filho de Egeu. Inácio José de Alvarenga Peixoto (1744-1792) e Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749-1814) constituem uma plêiade de poetas líricos que divulgam na colônia motivos e formas estéticas do Neoclassicismo europeu. retirando a espada e as sandálias do pai. comparando o mito dos Argonautas gregos com a Terra Prometida dos hebreus ( Bíblia) ou com a Demanda do Santo Graal dos cavaleiros medievais. Jasão/Medéia. A linguagem era toda ela extraída da vida campestre: os leitores eram chamados ‘‘rebanho”. Tosão de Ouro) O mito dos Argonautas (os viajantes do navio Argo) trata da aventura lendária de heróis gregos que foram à Cólquida. sentimentalismo. cuja posse seria a garantia de poder e prosperidade. Os membros da academia chamavam-se “pastores” e ‘‘pastorinhas”. Seu lema era: Inutilia truncat (“eliminar os adornos inúteis”). A função da academia era realizar conferências literárias e censurar as obras dos membros. violentado durante a época do Barroco. Em 1690. Teseu. do latino Virgílio e do renascentista Sannazzaro. Metastásio. os iniciados chamavam-se “cordeiros”. A temática bucólica e idílica é retomada das composições poéticas do grego Teócrito. a biblioteca era “a pastagem”. Teseu. em Roma. Orfeu e Jasão. escrevera um longo poema intitulado Arcadia. Segundo o mito. Para escapar da ira do pai. mas artificial. ARGONAUTAS (Teseu/Ariadne. Os elementos típicos do Arcadismo italiano têm muito em comum com o estilo “rococó” francês: culto sensual da natureza. em 1504. linguagem melódica. região da Ásia Menor. sua lenda se funde com a de Teseu e dos outros Argonautas. ARIADNE (amante do argonauta Teseu e esposa de Baco) Filha de Minos. inspirando-se em grandes poetas: Petrarca. . colocadas em baixo de uma enorme pedra. onde a “inteligência” francesa. Participaram da expedição mais de 50 personagens famosos. mais fruto de leitura e de imaginação do que de contacto real com a vida do campo. sendo a ele sacrificadas sete moças e sete rapazes. referentes à aventura dos Argonautas.16 verossimilhança. Desde criança. O Minotauro. Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810). tendo bons cultores especialmente em Portugal (Bocage) e no Brasil. o rei de Creta. é fundada a academia “Arcádia” por um grupo de poetas decididos a lutar contra a moda estética do marinismo ( Marino). A proposta da nova poética era cantar a beleza e a calma da natureza. Tasso. com o fim de depurar os textos poéticos dos exageros do estilo barroco. encerrado por Dédalo (Ícaro) no Labirinto. um talismã constituído pelo pêlo de um carneiro consagrado a Júpiter. envolvendo seres humanos e divinos. afetação. matou a fera a socos e conseguiu sair de lá. o qual. o Tosão de Ouro seria uma metáfora da alma humana em busca do gozo eterno. foi para a ilha de Creta lutar conta o Minotauro. Minotauro. em contraste com a vida agitada da cidade. era alimentado por carne humana. elegância. periodicamente. Camões. Sua originalidade reside na adaptação do movimento arcádico à realidade brasileira. porque fora adorado por pastores. utilizando um novelo de fio oferecido-lhe pela jovem filha do rei Minos. idealizada. em busca do Tosão de Ouro. monstro com cabeça de touro e corpo de homem. Da Itália. precisou demonstrar sua valentia. Teseu entrou no Labirinto. que se encontram narrados nos respectivos verbetes. estão centrados em três figuras de mulheres: Ariadne e Fedra (amantes de Teseu) e Medeia (amante de Jasão). entre os quais se destacou Pietro Metastasio. Cláudio Manuel da Costa (17261789). o movimento arcádico se espalhou pelos países de língua românica. todo o movimento arcádico foi impregnado de convencionalismo. em homenagem à mítica região da Grécia. que se entrelaça com outras lendas.

no poema “Núpcias de Tétis e Peleu”. Aristófanes (445-386) é o maior expoente da ‘‘comédia velha”. ao longo da cultura ocidental. A figura lendária de Ariadne é evocada em muitas obras de arte. onde se faz referência à constelação que leva seu nome. Assembléia de mulheres: sátira da utopia da República de Platão.. deixando de ser apenas a imagem do sofrimento amoroso feminino. e sua política demagógica. enquanto os maridos não acabarem com a guerra. que mais tarde será alcunhado de "o . sociais e culturais de Atenas. levando-a para o Olimpo. exaltando os prazeres da comida. era irmã de Ariadne. faz ressurgir o mito numa veia edonística. pois os atenienses. perdida no tempo e no espaço. o herói a abandonou. do sexo.17 chegados em Naxos. E Fedra. da dança. A coroa de ouro. O comediógrafo grego. ARISTÓTELES (sábio grego)Estética Poesia Filosofia O ignorante afirma. para dar-lhe esperança sobre a volta do amado.) em que atenienses e espartanos se digladiavam estupidamente. de certa forma. o grande lírico latino Catulo. tornou-se uma constelação. filho de Teseu e da amazona Antíopa. Seus alvos preferidos foram. em que. Lisístrata: retoma o assunto da peça A Paz. compadecidas da sorte da jovem. As vespas: sátira contra a mania dos atenienses de recorrer ao tribunal e processar-se uns aos outros por motivos fúteis. restaram onze. fala dela nos Argonautas. cidade de cultura grega. Imagens semelhantes encontram-se nas obras poéticas de Ovídio. Lourenço de Médici. cansados de morar na cidade onde se fazem muitos processos. A Paz: sátira contra a Guerra do Peloponeso travada entre atenienses e espartanos. Dividiu a sociedade em três classes . o ensinamento filosófico de Sócrates (injustamente considerado um sofista). Ariadne é retratada como a amante do deus Dionísio. Mas esta história trágica está narrada no mito de Fedra. ARISTÓFANES (dramaturgo grego)Comédia Nada no mundo é pior que uma mulher sem-vergonha. nobre aristocrata rural. arrependido pelo abandono. foi um implacável conservador e misógino. chamada assim para distingui-la da “comédia nova” do período alexandrino. insurgindo-se contra todas as inovações que colocassem em crise as crenças e os costumes tradicionais. Os pássaros: sátira da utopia político-social. descreve o momento em que Ariadne olha o navio de Teseu se afastar. presente de casamento.e introduziu o uso da moeda. considerada responsável pela frouxidão dos costumes da juventude de Atenas. artesãos e agricultores . e a decadência da arte dramática atribuída a Eurípides. por acaso. face à falência moral dos cidadãos. Teve outras mulheres.nobres. apontando nominalmente as pessoas importantes da época. Apolônio de Rodes. onde a matrona Lisístrata convoca as mulheres de Esparta e de Atenas para uma greve do sexo. voltou a Naxos e instituiu um ritual de sacrifícios em honra da amada. acusado de ter rebaixado o nível do teatro na Grécia. Na mesma época. Na Idade Média. escreviam-lhe cartas em nome de Teseu. tido como incentivador dos maus costumes. Mais do que pelo abandono de Teseu. exceto algumas outras mulheres. Teseu. O rei Filipe confiou-lhe a educação do filho Alexandre.C. Impressionado com a beleza de Ariadne. As mais importantes são: Os cavaleiros: sátira violenta contra o arconte de Atenas. A dor pelo abandono deixa a jovem estática. inaugurando a democracia. Na ilha grega. I a. pelo seu canto carnavalesco o Triunfo de Baco e de Ariadne. Cléon. pois se apaixonou pelo enteado. a Guerra do Peloponeso (431-404 a. o sábio duvida e reflete Aristóteles (384-322) nasceu em Estagira. vingou a irmã. o sistema democrático de Atenas com seus governantes considerados corruptos e demagogos. o belo Hipólito. Teseu assumiu o poder sobre Atenas. embora pertencente à Macedônia. resolvem fundar uma cidade entre o céu e a terra. As Rãs: sátira contra o dramaturgo Eurípides. As nuvens: sátira de Sócrates e da educação apregoada pelos sofistas. Com a morte do pai Egeu. Das quarenta e três peças satíricas que escreveu. até se casar com Fedra que. no cântico do Paraíso da Divina Comédia. impondo o amor livre e a comunidade dos bens. o deus Baco (Dionísio) a tornou sua esposa.C. as mulheres decidem governar Atenas. as mulheres. além das mulheres. após a morte de Ariadne. Mas é no Renascimento italiano que essa personagem mítica adquire todo o seu esplendor. o mito de Ariadne é recordado por Dante. A comédia antiga se caracterizou por uma sátira ferina contra as instituições políticas. no séc.

.) do que é comum a todas as árvores (raízes. 3) causa final (a intenção que moveu o artista). Arquimedes. porque seus discípulos aprendiam passeando sob os pórticos (Perípato). ARQUIMEDES (físico e matemático grego) Eureka! Eureka! Siciliano de Siracusa (287-212). O tipo de construção é relativo aos recursos técnicos de cada civilização e a sua ideologia. arquitetura. Outra lenda narra que o sábio grego teria incendiado os navios romanos. nada existe além da natureza observável. 4) causa eficiente (o agente. exclamando: Eureka! Eureka (“Encontrei”). aquela que acolhe todas as outras atividades humanas.Idealismo e Materialismo (Realismo)– disputarão a preferência dos pensadores ao longo da história da Filosofia no Ocidente. Estudando a Mecânica. Na Grécia antiga. movidas a partir de um motor-imóvel. Na Física. em sua famosa obra a Divina Comédia. ARQUITETURA (a arte de ordenar espaços) O arquiteto: o que abre para o homem. moral. portas por-onde. Além da distinção entre gênero e espécie. poética. por meio de um jogo de lentes e espelhos. Segundo a lenda. Para ele. e abriu sua escola. é o templo que abriga estátuas e quadros. a roldana móvel. resultante da operação intelectual de separar o que é particular a cada árvore (cor das folhas. As idéias das coisas estão na própria realidade. Em Matemática. a roda dentada. ordenando o espaço disponível para adaptar o meio ambiente a sua vida. Depois que Alexandre ascendeu ao trono da Macedônia (336 a. formalizou em sua obra Tratado dos corpos flutuantes o princípio fundamental da hidrostática: “Todo corpo mergulhado em um fluido sofre um empuxo vertical. Sua cosmologia imagina o mundo constituído de várias esferas (motores-móveis). inventou a rosca sem fim. dirigido de baixo para cima. sendo discípulo de Platão. Aristóteles acabou criando um sistema filosófico bem diferente do de seu mestre Platão. onde já estudara durante a sua juventude. aproximando-se da atividade que hoje chamamos de Ecologia. a Pintura e a Escultura. tipo de ramificação etc. está registrada na frase a ele atribuída pela tradição cultural do Ocidente: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo”. jamais portas-contra. Aristóteles nega qualquer raciocínio por hipótese. na época da Renascença. Aristóteles voltou a Atenas. de um modo geral.C.e influenciou fortemente a cultura medieval e renascentista. Ele escreveu obras sobre os assuntos mais diferentes . que separa o geral do particular: a idéia de árvore é apenas um produto mental. Arquimedes passou à história pela sua genialidade inventiva. (João Cabral) Do latim arqui-+ tectum (“principal teto” = cobertura básica). estipulando quatro tipos de causa: 1) causa material (o mármore de uma estátua). especialmente a existência da transcendência. que assediavam Siracusa. o Liceu. lógica.18 Grande". mais conhecida como a escola "peripatética". tanto que o poeta italiano Dante Alighieri. foi o precursor do cálculo infinitesimal. um Ato puro ("um pensamento que se pensa a si mesmo"). o artista). teria saído na rua. na Magna Grécia. que poderia ser identificado com Deus. troncos e ramos). significa a organização dos componentes de uma estrutura. Com efeito. a arquitetura era considerada a “arte maior”. chamou Aristóteles de "o pai dos que sabem". Aristóteles analisa outras categorias fundamentais do saber humano: a diferença entre substância e acidente. Efetivamente. desenvolvido posteriormente por Newton. Se este deu início ao filão da corrente idealista. Os dois sistemas filosóficos .. 2) causa formal (a estátua de um homem e não de um cavalo). Sua origem pode ser encontrada na necessidade de o homem se abrigar. apresentando a interação . pelado. igual ao peso do volume do fluido deslocado”. entre ato e potência. e são percebidas através do princípio da "abstração". estética . especialmente as duas artes irmãs.física. que estava na banheira quando teve essa idéia genial. A consciência da importância dessa última invenção.) e preparou a grande expedição para o Oriente. aquele lançou as bases do pensamento realista-materialista. o princípio da causalidade. a alavanca.

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de dois fatores: o material disponível e o mito, derivante dos valores simbólicos que conferem a uma obra a visão espiritual do artista, que é como uma antena que capta o inconsciente coletivo do seu povo. Assim, o templo grego (Grécia) exprime sua estrutura clássica pela linearidade do sistema de colunas, que absorvem o empuxo de um entablamento horizontal, com tensão para o alto. Já a arte latina (Roma) privilegiou o arco e a abóbada, cuja linha curva chega ao auge na ogiva gótica . O Renascimento italiano retoma o estilo neoclássico da Grécia, enquanto o Barroco espanhol se amolda melhor à linha curva da arte medieval. Na França, aflora a figura do engenheiro Gustave Eiffel (18321923), construtor da famosa Torre, que leva seu nome. O monumento metálico de 320 metros de altura e de mais de 7 toneladas de peso foi erguido no Campo de Marte, em Paris, para a Exposição Universal de 1889, em comemoração do primeiro centenário da Revolução Francesa. No séc. XX, a descoberta de novos materiais levou ao surgimento de técnicas revolucionárias na arquitetura, superando o academismo oficial. A chamada art nouveau juntou ao concreto armado perfis de aço ou de alumínio e painéis de vidro, construindo cúpulas arrojadas. O arquiteto canadense Frank Gehry assinou as obras arquitetônicas mais belas da atualidade: o Museu Vitra Designer da Alemanha; o Museu Guggenheim de Bilbao, na Espanha; o Walt Disney Concert Hall, em Los Angeles, com uma fachada de aço, em forma de uma flor, para homenagear a paixão da viúva de Wlat Disney pelas rosas. O conjunto arquitetônico da Opera House de Sidney, o cartão-visita da Austrália, é um hino ao gênio humano. No Brasil, notável foi a construção da nova Capital, Brasília, cujo plano Piloto foi tombado pela UNESCO, em 1987, como primeiro patrimônio histórico moderno da humanidade, pela beleza e ousadia de suas linhas arquitetônicas! À Brasília de Oscar Niemeyer é o título de um poema de João Cabral, exaltando a figura de quem assinou as obras mais fantásticas do urbanismo moderno. Niemeyer e Lúcio Costa foram os discípulos mais aplicados do gênio da arquitetura francesa Le Corbusier. O mesmo escritor do Recife, o “poeta-engenheiro”, escreve outros poemas relacionados com a arte de construir: Tecendo a Manhã (“Um galo sozinho não tece uma manhã // ele precisará sempre de outros galos”); A Mulher e a Casa, onde o lirismo chega ao erotismo através das imagens da penetração do homem no espaço interno da casa e da mulher; Fábula de um Arquiteto, de que transcrevemos a primeira estrofe: A arquitetura como construir portas, de abrir; ou como construir o aberto; construir, não como ilhar e prender, nem construir como fechar secretos; construir portas abertas, em portas; casas exclusivamente portas e tecto. O arquiteto: o que abre para o homem (tudo se sanearia desde casas abertas) portas por-onde, jamais portas-contra; por onde, livres: ar luz razão certa. ARTE (artista, artesão, relação com a Filosofia e as Ciências)Conhecimento A arte nasce da dor, como a pérola. (Monteiro Lobato) Assim como a Filosofia, a Ciência e a Religião, a Arte é uma das quatro macroformas do Conhecimento do homem e da realidade que nos circunda. Num sentido restrito, o que distingue o conhecimento artístico é o meio do que se serve: enquanto a filosofia opera através do pensamento reflexivo, a ciência faz uso da observação e experimentação e a religião da crença ou fé, a arte utiliza a “ficção”, isto é, a fantasia, a imaginação. Mas, num sentido amplo, o nome, do acusativo latino “artem”, passou a significar vários tipos de atividades e de habilidades. Ainda hoje , falamos da arte de pescar, de amar, de jogar futebol, de confeccionar objetos etc., tendo algo em comum com técnica e artesanato. Como ocorre em todas as culturas primitivas ou indígenas, a arte está profundamente ligada às necessidades cotidianas, evidenciando-se seu fim utilitário. Assim, por exemplo, o desenho da figura de um certo animal num rochedo estava a indicar que ali era uma zona de perigo. Os antigos romanos chamavam de satura, termo que acumula o sema de “mistura de várias coisas”, o moderno “saturado”, com o sema de “gozação” (Sátira), à primeira forma artística dos camponeses do Lácio que, nas festas

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comemorativas das colheitas, ofereciam aos deuses um prato cheio (satura lanx) dos primeiros frutos da terra, narrando mitos, cantando, dançando, tocando rústicos instrumentos musicais, declamando poemas ou narrando episódios da vida cotidiana. Na verdade, nos primórdios de todo povo, existe sempre uma mistura das várias formas artísticas. Só mais tarde, com o progresso civilizacional, cada arte começa, aos poucos, a adquirir sua especificidade, a música se separando da poesia, o romance do teatro, a imagem fixa (pintura) da móvel (cinema), surgindo novas formas artísticas. A interdependência das várias artes, estudada por Étienne Souriau na obra A correspondência das artes, hoje é claramente percebível no teatro da Ópera, onde se conjugam, no mesmo espetáculo, a história romanesca, o canto lírico, a música orquestrada, a representação dramática, a cenografia, a sonoplastia, os efeitos luminosos, a relação ator/personagem e autor/diretor. A arte, em qualquer de sua forma, visa superar os limites humanos do tempo e do espaço, buscando o infinito e o absoluto. Como afirmou Pablo Picasso, “na arte não existe passado nem futur;a arte que não está no presente não existirá nunca”. Outra característica fundamental do objeto estético, salientada pelo grande pintor espanhol, é sua receptividade: “um quadro vive apenas através de quem o contempla”. A arte já foi definida como “a estética do sublime”. Para o filósofo alemão F. Nietzsche, ela é mais gratificante do que a ciência: “temos a arte para não morrer pela verdade” . Se nosso destino comum é a velhice, a doença, a morte e o esquecimento, o artista, mais do que o cientista, o filósofo ou até o homem religioso, alimenta-se da esperança da sobrevivência. O poeta latino Horácio tinha plena consciência da importância da sua arte, quando afirmou: “erigi para mim um monumento mais duradouro do que o bronze”. Outra característica da arte é desnudar o que está coberto, tentar colocar ao nível de superfície o que está nas profundezas da alma. E faz isso de uma forma quase imperceptível. Conforme a bela imagem de Carlos Drummond de Andrade, “o Romance é a arte de destelhar casas sem que os transeuntes percebam”. Os Formalistas russos põem em relevo o efeito de estranhamento, já detectado pelo poeta Baudelaire, quando dizia: “o importante na obra de arte é o espanto”. As obras de arte podem ser classificadas de várias formas. Pelo critério do país de origem (arte grega, egípcia, bizantina etc); do momento histórico (medieval, renascentista, moderna etc.); de um mecenas (período de Péricles, de Augusto, de Elisabete etc.); de estilo (gótica, rococó, mourisca etc.); de religião (arte cristã, muçulmana, budista etc.); do meio principal de expressão (espaço planificadoArquitetura, tintaPintura, cinzelEscultura, imagem móvelCinema, encenaçãoTeatro, movimento do corpoDança, palavraPoesia, somMúsica). Neste “dicionário cultural”, usaremos o critério diacrônico, dando um apanhado da evolução das várias modalidades artísticas, com uma atenção especial para as chamadas “artes plásticas” (Pintura, Escultura e Arquitetura), destacando obras de autores considerados fundamentais (Leonardo da Vinci, Michelangelo, Picasso). Quanto ao conceito da arte como o “belo em si”, relacionado com correntes filosóficas, ver Estética. ARTUR (o mito do rei Artur e dos Cavaleiros da “Távola Redonda”)Graal ATENA (divindade greco-romana)Minerva ATENAS (cidade grega, centro irradiador da civilização ocidental) Grécia ATOMISMO (filosofia, ciência, destruição)Einstein A palavra átomo vem do prefixo grego a-(negação) + tomos (parte): literalmente significa “o que não tem partes”, o indivisível. Segundo a doutrina filosófico-cosmológica antiga, apresentada por Demócrito, Epicuro e Lucrécio, o universo é formado por partículas indivisíveis que se combinam de uma forma fortuita. A suposição (que hoje se tornou uma verdade científica) era de que os processos químicos não podem ser explicados sem que se admita uma substância constituída de partículas que, nas reações em cadeias, funcionam como se fossem indivisíveis, capazes de associarem-se ou substituírem-se umas por outras, sem sofrerem modificações essenciais. Efetivamente, qualquer reação só pode dar-se pelo choque entre alguns elementos invariáveis, combinados com outros variáveis. Chegamos ao início do séc. XIX e o físico e químico inglês, John Dalton (1766-1844), estudando as substâncias gasosas,

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convalidou a antiga teoria atômica sobre a constituição da matéria, promulgando a lei das “Proporções Múltiplas”, também chamada lei da “Mistura dos Gases”, apoiada em quatro hipóteses: 1) Toda forma de matéria é constituída por átomos, sendo estes indivisíveis e inalteráveis; 2) Na mesma substância, os átomos são todos iguais; 3) Os átomos de diferentes elementos se distinguem pela massa e por outras particularidades; 4) As transformações químicas acontecem pela conjunção e pela separação dos átomos entre si. Só em 1897, o cientista J.J. Thompson conseguiu descobrir, experimentalmente, que também o átomo é divisível, pois composto por um núcleo positivo, que contém nêutrons e prótons, cercado por elétrons. Numa órbita estacionária, o elétron não irradia energia alguma, assegurando a estabilidade do átomo. A emissão ou a absorção de energia é dada por um “salto” do elétron de uma órbita para outra. Chegamos, assim, com Einstein, à formulação da “teoria quântica”: a quantificação da energia está relacionada com os elétrons em seu “estado estacionário”. Atualmente, o átomo é concebido como um “estado ligado” de um sistema de partículas fundamentais (um núcleo de uma carga positiva + um número de elétrons), que precisa de energia para ser dissociado e produzir, por sua vez, uma outra energia de grande potência. As reações liberadas pela explosão de núcleos de material leve produzem energia para fins pacíficos; já as reações de fissão de núcleos pesados (urânio ou plutônio) podem servir de espoleta para detonar bombas de hidrogênio, de alta potência destrutiva. No dia 6 de agosto de 1945, os americanos lançaram a primeira bomba atômica sobre Hiroshima e, três dias depois, outro objeto nuclear sobre outra cidade japonesa, Nagasaki, para pôr fim à Segunda Guerra Mundial. As duas cidades japonesas foram reduzidas a escombros, causando uma centena de milhares de mortos e a devastação das regiões próximas à irradiação atômica. Se, de um lado, a descoberta da força nuclear da matéria contribuiu muito para o progresso da ciência, proporcionando ao homem uma energia alternativa, de incalculável benefício, de outro lado, seu uso bélico e o perigo de explosões incontroladas não deixam de ser um malefício. Haja visto o desastre de Chernobyl, em 1986: a explosão, por falha humana, de um dos quatro reatores da usina atômica da Ucrânia, levantou uma vasta nuvem radioativa sobre todo o centro-sul da Europa, matando 35 pessoas e danificando a saúde de aproximadamente cinco milhões de seres humanos. ATOR (agente de ações, astro, intérprete) Personagem Do latim actor, substantivo formado do particípio passado actum, do verbo ágere, que significa “agir”, fazer. Literalmente, portanto, ator é aquele que age, que faz, que exerce o papel de uma personagem. Enquanto esta é uma figura da imaginação, fruto da fantasia de um autor, o ator é uma pessoa do mundo real, um profissional da arte dramática, televisiva ou cinematográfica, que tem a função de representar e interpretar as ações, as idéias e os sentimentos de uma personagem. Não se confunda, portanto, a figura do ator dramático ou de cinema, que é um ser em carne e ossos, com o ator que contrasta com o “actante” no modelo actancial do semioticista francês A.J.Greimas. Neste caso, o ator é a mesma coisa que personagem. No início do séc. XIX, a profissão do ator adquire a merecida importância. O ator e diretor russo Constantin Stanislavski notabilizou-se pela proposta de uma nova prática teatral e por seus escritos teóricos sobre a arte dramática. Pretendia compor uma “suma” sobre o Teatro, dividida em oito volumes. Conseguiu, porém, publicar apenas o primeiro volume que, na tradução em língua inglesa, recebeu o título de O trabalho do ator sobre si mesmo . O segundo volume, O trabalho do ator sobre a personagem, resultou de uma coletânea de notas e fragmentos. No Brasil, a obra de Stanislavski encontra-se vulgarizada em quatro livros: Minha vida na arte (biografia profissional); Preparação do ator (formalização da técnica de interpretação); A construção da personagem (os aspectos exteriores: o físico, a voz, o gesto); A preparação de um papel (em busca do comportamento interior da personagem). A essência do "método stanislavskiano” reside na capacidade do ator de assimilar o mundo psíquico da personagem: o intérprete deverá sentir sua própria vida no interior da vida da personagem e a vida da personagem como idêntica à sua própria vida. A relação simpatética entre ator e personagem deveria levar a um "estar-no-outro". A tese contrária, sustentada pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht, é a concepção

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técnica que propõe a desmistificação da arte teatral: o ator, considerado um profissional, não deve necessariamente sentir o que representa, mantendo sempre viva, em si próprio e no público, a consciência de que se trata de um "fazer de conta". Basta que, estudando o papel de fora para dentro, consiga representar as idéias e os sentimentos que o autor e o diretor quiseram colocar na personagem. A controvérsia nos parece de pouca relevância, pois se, de um lado, é muito difícil perceber até que ponto há identificação entre ator e personagem, de outro lado, o que realmente interessa é o resultado da atuação dramática. Se a interpretação conseguir convencer o público, levando-o à compreensão da mensagem e à emoção estética, pouco importa se o ator está sentindo realmente ou está fingindo sentir as idéias e as emoções da personagem. Aliás, uma perfeita identificação do ator com o personagem , anulando o sentido de distanciamento entre a vida e a arte, poderia levar a uma interpretação desastrosa. Narra o crítico Décio de Almeida Prado que um famoso ator teatral do século passado, ao interpretar o papel do ciumento Júlio da peça Os seis degraus do crime, quase mata por estrangulamento a bailarina-atriz Estela Sezefreda, que interpretava o papel de Luíza. O jovem ator transpôs para o palco o ciúme doentio que sentia pela atriz, interpretando de uma forma totalmente realística o papel do personagem Júlio. A função do ator adquire uma importância cada vez maior ao longo da história do teatro. Na Antiguidade greco-romana a profissão de ator não era valorizada por vários motivos: sua fisionomia era oculta pela máscara; um só ator podia desenvolver, na mesma peça, vários papéis, inclusive femininos, pois às mulheres era proibido participar da encenação; os atores geralmente eram escravos ou pertencentes à camada popular, sendo socialmente sem classe, “desclassificados”. Mas, no teatro moderno, da Renascença para cá, a figura do ator foi paulatinamente adquirindo muito prestígio, tornando-se de vital importância para a sobrevivência da arte dramática. Abolido o uso da máscara, o jogo fisionômico e a expressão corporal juntaram-se à modulação do discurso para a interpretação da personagem. Surgiram, então, atores ilustres, que se especializaram na representação de determinados papéis, chegando-se a ponto de autores escreverem peças cujas personagens eram forjadas sob medida para a interpretação de certos atores. Entre os mais famosos atores personalistas, lembramos Sarah Bernard, Eleonora Duse, Lawrence Olivier, Procópio Ferreira e Cacilda Becker. Como dizia o grande mestre Stanislavski, “não há pequenos papéis, só há pequenos atores”! AUTORITARISMO (despotismo, ditadura, mito de Júpiter) Absolutismo BACH (compositor alemão) Música Barroco BACO (divindade romana, deus do vinho e da alegria)Dionísio Carnaval BACON (filósofo e cientista inglês: Novo Organon)EmpirismoMetodo BALZAC (romancista francês)Realismo A chave de todas as ciências é, indiscutivelmente, o signo da interrogação Honoré de Balzac (1799-1850) é considerado o pai do romance moderno pela grandiosidade da sua obra de ficção. Ele retrata a sociedade francesa da época numa obra cíclica, que denomina A Comédia Humana, para distingui-la da Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri. O conjunto de romances encontra-se dividido em três partes. Na primeira parte, Balzac apresenta a descrição artística dos costumes da sociedade burguesa (A mulher dos trinta anos, O pai Goriot, Eugênia Grandet, entre outros romances); as obras da segunda parte expressam seu pensamento reflexivo sobre a vida (Luís Lambert, Pele de Onagre etc.); na terceira parte, de que publica apenas Fisiologia do casamento, analisa o comportamento humano face às instituições sociais. Pelo seu aspecto de participação, a narrativa balzaquiana está impregnada de “realismo crítico”, termo mais tarde utilizado por vários teóricos do romance. Com efeito, na sua volumosa obra de ficção romanesca encontramos, apresentados e discutidos, os temas mais palpitantes da florescente burguesia francesa da sua época: política, usura, dinheiro, hipocrisia, ambição, casamento, amor. O adjetivo “balzaquiano” passou a indicar uma postura perante a vida, que lembra personagens ou situações de sua obra. Mais especificamente, no gênero feminino, o adjunto adnominal “balzaquiana”, forjado a partir da obra A mulher de trinta anos, designa uma mulher madura, mas ainda

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solteira, embora apetitosa. Muitas observações de Balzac sobre a vida, especialmente conjugal, tornaramse citações de almanaque. Transcrevemos apenas uma: “É mais fácil ser amante que marido, pois é mais difícil ter espírito todos os dias do que dizer coisas bonitas de vez em quando” BANDEIRA (poeta lírico brasileiro)Modernismo Fui ao Museu de Arte Moderna, À exposição dos neoconcretos. Motivos por demais secretos Poderão construir obra eterna? Manuel Bandeira (1886-1968) é um dos maiores poetas do movimento modernista brasileiro, aceitando a revolução estética, mas sempre com olho crítico. Pernambucano de origem, viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, com estadias temporárias na Europa, especialmente na Suíça, onde era costume tratar sua tuberculose. Exerceu a profissão de docente de Literatura, de jornalista, de crítico de artes e de tradutor, vertendo para o português obras de García Lorca, Rilke, Shakespeare, entre outros autores estrangeiros. Após os poemas juvenis de A cinza das horas, em que se percebe sua ligação com a tradição poética do Simbolismo decadentista do início do século XX, com a coletânea Carnaval, seguida de O ritmo dissoluto e Libertinagem, inicia um novo ciclo poético impregnado do espírito “dionisíaco”. Em quase todos os poemas dessa fase, especialmente da série Carnaval, através da descrição das formas e dos sentidos das várias máscaras do carnaval brasileiro (“A canção das lágrimas de Pierrot”, ‘‘Pierrot branco’’, ‘‘Arlequinada”, ‘‘Pierrot místico’’, ‘‘Pierrete’’, “Rondó de Colombina”, “O descante de Arlequim”, “A morte de Pã”, “Sonho de uma terça-feira gorda”, “Poema de uma Quarta-Feira de Cinzas”), percebe-se uma linha isotópica centrada sobre a exaltação do Carnaval, momento de subversão dos valores éticos. São cantos que enaltecem os anseios individuais, as forças vitais do ser humano, em contraste com os valores ideológicos impostos pelas normas do viver social. De Libertinagem, destacamos o conhecido poema “Vou-me embora pra Pasárgada”. O nome Pasárgada foi extraído da Ciropédia, do historiador grego Xenofonte, para materializar um espaço utópico onde o poeta pudesse realizar os desejos mais recônditos da sua alma. Seguem-se as coletâneas Estrela da manhã, Lira dos cinqüent’anos, Belo belo, Opus 10, Estrela da tarde, Mafuâ do malungo. A modernidade de Manuel Bandeira reside não tanto nas inovações de ordem estilística (abandono das formas poemáticas tradicionais, verso livre, ensaios de poemas concretos), quanto em sua temática inspirada nas coisas humildes ou desconcertantes da vida prosaica e na sua postura ideológica, marcadamente contestatória, em que predominam os motivos da revolta do ser humano, esmagado pela sociedade industrializada e comercializada. BARROCO (estilo de arte e de vida do séc.XVII) O nome “barroco” só recentemente passou a indicar a corrente artística que predominou na Europa durante o séc. XVII (Seiscentos) e que, em países e em épocas diferentes, tivera originariamente outras denominações: Marinismo, na Itália; Gongorismo, Cultismo, Culteranismo e Conceptismo, na Espanha; Preciosismo, na França; Silesianismo, na Alemanha; Eufuísmo, na Inglaterra. O movimento do Barroco nasceu dentro da época clássica, em relação com a qual podem ser relevados elementos de convergências e de divergências. Os críticos que salientam as semelhanças consideram o barroco como uma continuação da Renascença; os que põem em ressalte as diferenças acham que o estilo barroco surge em franca oposição com o estilo clássico, admitindo uma ruptura estética entre os dois movimentos. Para o estudo crítico do Barroco é preciso ter em conta duas teorias fundamentais: a teoria genético-formal, segundo a qual a origem do movimento seiscentista reside num contraste estilístico entre Barroco e Renascença; e a teoria genético-social, pela qual a oposição com a Renascença, mais do que no plano estético, dá-se no campo ideológico: os segmentos sociais em que se desenvolve a arte barroca não são os mesmos da fase renascentista, pois, além de outros fatores sociológicos, o fenômeno da Contra-Reforma católica altera substancialmente a concepção de vida. A teoria genético-formal é sustentada pelo historiador suíço Heinrich Wölfflin que, na sua obra Princípios fundamentais da história da arte, publicada em 1915, apurando os estudos contidos no seu trabalho anterior, Renascença e Barroco (1888), chegou à formulação das famosas cinco categorias de antítese entre o estilo clássico e o estilo barroco: linear/pictórico; visão de superfície/profundidade; forma fechada/aberta; independência das

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partes/conjunto; claridade absoluta/claro-escuro. Essas oposições, na verdade, servem mais para o estudo das artes visuais do que para a análise e a interpretação de um texto literário. Borromini, na arquitetura, Bernini, na escultura, Tintoretto, Caravaggio, Rubens, Rembrandt e El Greco, na pintura, apresentam exuberâncias de formas, volutas, campos de visão distorcidos, espaços curvos e figuras angulosas estranhas à arte renascentista. Segundo Wölfflin, o gosto clássico trabalha com limites de linha claros e tangíveis (perfis, contornos); toda superfície tem seu marco de margem preciso; cada volume se apresenta como forma plenamente tangível; nada existe que não seja apreensível na sua corporeidade. O Barroco, pelo contrário, anula a linha como limitadora, multiplica as bordas, complica a forma, de modo que cada componente não consegue impor seu valor plástico. No que diz respeito propriamente à Literatura, o estilo barroco se diferencia do estilo clássico por uma renovação na linguagem e na temática. A retórica barroca utiliza de uma forma diferente o repertório das figuras de estilo já existentes na estética renascentista. A metáfora, a figura de sentido fundamental da linguagem literária, é explorada em todas as suas virtualidades, com o objetivo de encontrar semelhanças entre os objetos mais diferentes, com a intenção de despertar nos leitores a surpresa e a maravilha. As figuras de oposição semântica (antítese, paradoxo, oxímoro, antinomia), de parco uso entre os autores clássicos, são as preferidas pelos poetas barrocos. O mesmo acontece com a hipérbole (exagero de sentido), o hipérbato (a ruptura da estrutura sintática), o eufemismo (o dizer velado). O período amplo e simétrico da Renascença, construído a partir do modelo do mestre latino Cícero, é substituído pela frase curta, de índole sentenciosa, segundo o modelo de Tácito e de Sêneca, escritores latinos do início da decadência romana. Quanto à temática, o Barroco apresenta como motivo recorrente a chamada coincidentia oppositorum: a atração das coisas opostas. Exemplar, a este respeito, é a fábula de Polifemo y Galatea, do espanhol Góngora, o maior poeta do Barroco europeu. Nessa obra, o tema da bela e da fera, da ação sedutora do monstro horrível sobre a jovem de uma beleza angelical, é explorado através de imagens belíssimas, altamente líricas. A arte barroca é rica de temas desconhecidos ou desprezados pela estética clássica: a bela mendiga, o herói pícaro, o burlesco, o mesquinho, o anormal, o marginal. Mesmo quando retoma motivos clássicos, como o carpe diem, do poeta epicurista latino Horácio, o aproveitamento do momento presente face à fugacidade da vida, o autor barroco o reveste de matizes peculiares: o prazer do gozo do presente adquire o gosto da amargura, porque existe, no “eu poemático”, a consciência do desencanto da vida, perante a inevitabilidade da velhice e da morte, o grande passo para a escuridão existencial. A morte e o amor, na sua expressão sensorial, matizado por um sutil erotismo, são os dois temas fundamentais da estética barroca. Já a teoria genético-social encontra-se formulada na obra de Werner Weisbach: O Barroco, arte da Contra-Reforma. Segundo a sua tese, a ideologia do Concílio de Trento foi o fator predominante para a determinação da temática, do estilo, da sensibilidade do homem barroco que, dividido entre a concupiscência dos prazeres mundanos, herança do Renascimento, e o terror das penas do inferno, inculcado pela doutrina tridentina (Lutero), se torna um ser dilemático, angustiado. A arte barroca é caracterizada pelo choque entre a sensualidade pagã da Renascença e o espiritualismo ascético e fanático da época da Contra-Reforma. Daí resultam trágicos conflitos na alma dos homens, que provocam manifestações artísticas exuberantes e chocantes.A concepção do espaço como infinito, proveniente das descobertas marítimas e da ciência copernicana, entra em contraste com uma visão do tempo como limitação, angústia e morte .Escreve Aguiar e Silva (Teoria da Literatura), “o homem, sabendo-se simultaneamente grande e miserável, anjo e besta, eterno e transiente, sente o terror pascaliano de se saber suspenso entre dois abismos, o infinito e o nada; as antíteses violentas, a tensão da alma, o sentimento de instabilidade do real, a luta do profano e do sagrado, do espírito e da carne, do mundano e do divino são feições diversas dessa crise multiforme, religiosa, estética, filosófica, que se verifica na Europa desde meados do século XVI”. Além do fator religioso, existe um aspecto mais especificamente social que funciona como determinante de estilo. O Barroco e o Classicismo estão relacionados com estruturas sociais distintas: o Barroco é o produto artístico de uma sociedade aristocrática, de tipo feudal e rural, composta de senhores latifundiários e de uma larga massa de camponeses, ao passo que o Classicismo se relaciona com uma burguesia educada no estudo da lógica, da matemática, da disciplina jurídica,

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habituada, portanto, ao raciocínio rigoroso e à claridade mental. Isso explicaria o sucesso do Classicismo na Itália e na França, enquanto o Barroco teve como centro de irradiação a Espanha, país ainda ligado a costumes feudais. Além dessas duas teorias sobre as origens do Barroco que, antes de serem excludentes, se complementam, pois o fator social condiciona o fator estético e o segundo, por sua vez, está em estreita relação com o primeiro, outras teses surgiram na tentativa de explicar melhor o complexo movimento. Eugênio D’Ors, na sua obra Lo Barroco, considera o movimento seiscentista como uma ‘‘constante histórica’’, retomando os mitos nietzschianos do eterno retorno e do antagonismo do espírito apolíneo e do espírito dionisíaco. O Barroco seria um éon (uma categoria, uma realidade profunda), que se opõe maniqueisticamente e se alterna historicamente com outro éon, o do Classicismo. Assim ele fala de um barroco alexandrino, gótico, tridentino, romântico, pós-bélico. O éon barroco, através de suas incursões ao longo da cultura ocidental, adquire diferentes modalidades, mas não modifica sua substância. Sob as várias configurações que assumem, conforme as circunstâncias temporais e espaciais, quer o Classicismo (espírito da unidade, da clareza, da consciência ordenada), quer o Barroco (espírito da diversidade, do dinamismo libertário, da consciência fragmentada) mantêm inalterada a sua essencialidade. Outros estudiosos sustentam a tese de que o estilo barroco constitui uma qualidade permanente do caráter espanhol, etnicamente formado pelo cruzamento de três raças diferentes: a cristã, a moura e a judia. Na Espanha absolutista, o choque entre os dogmas tridentinos e as tendências estéticas e espirituais da Renascença é muito mais profundo. A Espanha nunca renegara a Idade Média e o homem barroco espanhol tornou-se, ao mesmo tempo, um saudoso da religiosidade medieval e um seduzido pelas solicitações terrenas e os valores do Humanismo (amor, dinheiro, luxo, ambição). A pátria de Santo Inácio de Loyola, o fundador dos jesuítas e o autor dos Exercícios espirituais, livro que ensejou uma onda de devoção e de misticismo, foi também a pátria da Contra-Reforma e do Tribunal da Inquisição, que disseminou o terror do Inferno na Europa e no além-mar. Não é por acaso que o Século de Ouro da cultura espanhola, a época mais excelsa do poder político, econômico e cultural da Espanha, deu-se sob o signo do Barroco. Na Literatura, as figuras mais preeminentes dessa época foram os autores espanhóis, que ditaram as normas estilísticas nos três principais gêneros: Góngora, na lírica; Cervantes, na narrativa; Lope de Vega, no drama. BAUDELAIRE (poeta romântico francês) Simbolismo Tudo o que não é sublime é inútil e criminoso Charles Pierre Baudelaire (1821-1867) viveu na época do Romantismo, mas sua poesia maior está acima de qualquer escola literária, influenciando fortemente a lírica simbolista e modernista. Considerando-se discípulo e irmão espiritual de Edgar Allan Poe, divulgou a obra do escritor norteamericano na Europa, traduzindo o poema The raven (“O Corvo”), Histórias extraordinárias, As aventuras de Gordon Pym e Revelações magnéticas. Ele também foi chamado de “poeta maldito” pela sua vida de boemia e sua arte revolucionária, contestadora da moral pública. A sua obra mais importante é a coletânea de poemas intitulada Les fleurs du mal, dividida em seis partes: “Spleen e ideal”, “Cenas parisienses”, “O vinho”, “As flores do mal”, “A revolta”, “Morte”. Como solução para o tédio, Baudelaire invoca, sucessivamente, o Amor, a Poesia, Satã e a Morte, os quatro temas recorrentes na poética do grande escritor francês. O tema do amor, em As flores do mal, adquire vários matizes: de um realismo sensual, em que ele exalta a sua paixão pela judia Sara, passa para a celebração da beleza exótica da mulata Jeanne Duval, que ele denomina a “Vênus negra”, até chegar ao canto sublime do profundo sentimento erótico que sente pela atriz melodramática Marie Daubrum. O amor não conseguindo preencher seu vazio existencial, Baudelaire se refugia na poesia. A arte pela arte, o culto da beleza subjetivamente entendida, leva-o a ampliar os limites da poesia através da “estética do feio”. Sofre, porém, outra decepção, pois também a atividade artística torna-se insuficiente para a sua realização existencial. Explora, então, o tema do Satanismo, muito ao gosto da época romântica. Mas nem o Diabo consegue resolver seus conflitos íntimos. Enfim, encontra na Morte, a grande viagem para o infinito e o mistério, o apaziguamento do seu espírito atormentado. Para sua influência sobre outros poetas, sugerimos consultar o verbete Simbolismo, onde se encontra a análise do seu poema “Les Correspondances”. BECKETT (Esperando Godot)  Teatro

fazendo-lhe superar a angústia e evitar o desespero. Peça em dois atos. um amor fantástico. Vladimir e Estragon. sempre. sociais ou éticos. Embora em sua obra literária apareça a descrição de tipos e objetos banais. é a angústia. que tentava romper os laços com o teatro tradicional. Deuteronômio (exortação para ser fiel à Lei). irlandês. atribuídos a David) . que os cristãos dividiram em dois Testamentos (“Alianças”): o Antigo (o Pacto de Deus com o povo judeu) e o Novo (de Cristo com todos os povos da Terra). colhidos da realidade cotidiana.. provocada pela solidão humana. “os livros”. Números (história do povo eleito desde a legislação do Sinai até à entrada na Transjordânia). Melhor é pensar num sentido indefinido: a peça representaria o anseio de o homem ver melhorada sua condição existencial. Sua preocupação principal de homem e de escritor foi encontrar um sentido para a vida face ao vazio existencial. tornou-se um marco da moderna dramaturgia.” A palavra “Bíblia” deriva do grego ta bíblia. e um Menino. didáticos e proféticos: ANTIGO TESTAMENTO Livros históricos: O Pentateuco (composto pelos cinco livros cuja autoria é atribuída a Moisés): Gênesis (conta a origem do mundo e do povo hebreu). dois secundários. Pozzo e Lucky. Através do diálogo dos protagonistas percebe-se que a conversa sobre assuntos banais serve apenas para matar o tempo na espera de Godot. seria Deus (Godot derivaria do nome inglês God). Não se sabe quem é este Godot que Vladimir e Estragon estão esperando e que não aparecerá.. Encontramos o conjunto da obra bíblica dos dois Testamentos agrupado em três categorias: livros históricos. Josué (história da entrada na Terra Prometida) Juízes (história do povo hebreu de Josué a Samuel) Ruth (uma prova da misericórdia divina) Livros dos Reis (historiam o governo de Israel pelos governantes da casa de Davi) Esdras e Neemias (restauração de Israel após o cativeiro de Babilônia) Tobias (caridade e esperança em Deus) Judite (a libertadora de Betúlia) Ester (a proteção de Deus) Macabeus (heroísmo e fidelidade à fé e à lei) Livros didáticos: Job (a paciência heróica) Livro dos Salmos (hinos sagrados. indicando o conjunto dos textos considerados sagrados. Enfim. A peça Esperando Godot. viveu vários anos na França e na Inglaterra. Alguns seguem sendo. seu anseio mais profundo é metafísico: antes que se preocupar com problemas políticos. com dois personagens principais. Segundo alguns críticos. a sua reflexão está voltada para o absurdo do mundo abandonado por Deus. Levítico (organização do culto entre os hebreus). ao redor de 1950. A sua obra dramática de maior sucesso é Esperando Godot.26 Nascemos todos loucos. a peça beckettiana seria a representação trágica da eterna expectativa humana: todo o mundo. O cenário é uma estrada e uma árvore. Êxodo (história da saída do povo hebreu do Egisto). cuja vinda a humanidade há vários séculos espera em vão (as mensagens de Cristo e de outros Profetas não vingaram). Judaísmo)Abraão MoisésCristo Lutero “E Deus disse a Moisés. que nunca irá acontecer! BEETHOVEN (compositor alemão)Música BÉRGSON (filósofo francês)Intuicionismo BÍBLIA (Velho e Novo Testamento. pois supostamente redigidos sob inspiração divina. um emprego invejável) possa acontecer é que mantém o homem vivo. Seu autor. que predomina em seus poemas. A esperança de que alguma coisa maravilhosa (o ganho de uma loteria. O sentimento. caracterizando o que foi chamado “Teatro do Absurdo”. também poeta e romancista. Samuel Beckett. romances e dramas. espera por alguma coisa. ao entardecer. escrita em francês.

que acabou se instalando na Palestina. Ela é um produto do homem. região do Sul da Palestina) e de “israelitas” (de Israel. Agora. Constantino venceu a batalha de Monte Mílvio e. e ela se desenvolveu através de incontáveis traduções. significa “que Deus reine”). alcunhado “o caçador dos hereges”. sentindo-se escravizados. Abraão que. em hebraico. por gratidão. a formação da Bíblia deu-se através de vários séculos e de muitas mãos. o Grande” (Helenismo). Naum. não de Deus. a narrativa bíblica. foi uma colagem composta pelo imperador romano Constantino. provenientes do deserto siro-árabe. enquanto os outros textos sobre a vida de Jesus não eram “inspirados”. eram tribos seminômades.27 Provérbios. Durante a dinastia de Ramsés II (1298-1235). Jeremias. Efetivamente. um povo semita do antigo Oriente. O Antigo Testamento narra a história dos hebreus. cidade da Jordânia). especialmente as publicadas por setas protestantes e outras obras consideradas apócrifas. Essa listagem dos livros bíblicos pertence à ortodoxia católica. Baruc. ocupando terras para dar estabilidade ao seu clã. Jonas. se refugiaram no monte Sinai. pois. o primeiro a achar que apenas os quatro evangelhos considerados “canônicos” pela Igreja de Roma foram escritos sob inspiração divina. em estágios civilizacionais mais avançados. foi Santo Irineu (130-202). Habucuc. tidos como “sagrados” por judeus e cristãos? Como afirma um personagem da famosa obra O Código da Vinci. “A Bíblia não chegou por fax do céu. Em suas origens. liderados por Moisés. até que. Já o profeta Maomé aproveitou mais dos evangelhos apócrifos para a formulação da doutrina registrada no Corão. acréscimos e revisões”. é uma questão puramente de fé! Quanto ao Novo Testamento. junto com Isaac e Jacó. Lucas e João) Atos dos Apóstolos (a pregação de Pedro e Paulo. foram transmitidas de pais para filhos. Originariamente. seu neto Jacó foi para o delta do Nilo. Que os livros sejam considerados “sagrados”. de autoria do evangelista Lucas) Livros didáticos: Epístolas de São Paulo (14 Cartas a vários povos) Epístolas Católicas (2 de São Pedro. Este teria tido a visão de uma cruz cristã. Joel. O homem a criou como relato histórico de uma época conturbada. De modo semelhante ao surgimento dos mitos gregos. pois escritos por autores inspirados por alguma divindade. do ficcionista americano Dan Brown. Miquéias. por exemplo. Ageu. algumas personalidades cultas foram colocando por escrito o que vinha sendo transmitido oralmente. também chamados de “judeus” (de Judéia. abandonando o nomadismo. impôs o Cristianismo em todo o Império Romano. Judas Tadeu) Livros proféticos: Apocalipse (São João Evangelista fala da vitória final de Cristo sobre Seus inimigos). 1 de S. a pergunta fundamental: quando e quem escreveu esses Textos de histórias e sabedoria. os hebreus. A Bíblia não caiu magicamente das nuvens. existindo edições com algumas variantes. os “hebreus” (de Hebron. onde estava escrito “sob este signo vencerás”. 3 de São João Evangelista. o chefe carismático. Enquanto seu filho Isaac se instalava na região do Hebron. é uma produção anônima e coletiva. filho de Sirac) Livros proféticos: Isaías. outro nome de Jacó que. Abdias. lê-se: “a Bíblia. Eclesiastes e Cânticos dos Cânticos (atribuídos a Salomão) Sabedoria (atribuído erroneamente a Salomão) Eclesiástico (atribuído a um tal de Jesus. desceu para a Palestina. da epopéia homérica e dos cantos épicos medievais ( Mitologia Épica). considerados fundadores de uma nacionalidade. Zacarias e Malaquias (os “profetas menores”) NOVO TESTAMENTO Livros históricos: Os Quatro Evangelhos (a vida de Cristo. também a narração bíblica começou pela tradição oral: lendas sobre heróis. que teria recebido do deus Yaveh (Jeová) as Tábuas da Lei . Marcos. conforme os Apóstolos: Mateus. como os cantos épicos primitivos e os contos populares de qualquer povo. Amós. Ezequiel e Daniel (os chamados “Profetas”) Oseias. Sofonias. 1 de São Tiago. no Egito. é considerado o ancestral do povo hebreu. conforme a conhecemos hoje. Numa outra passagem do romance de Brown.

a força interior. enfim. Seu filho Salomão passou à história pela sua sabedoria e magnificência.C. para pôr fim a uma revolta. babiloneses. que não está na Bíblia! BIODANZA (a dança da vida)Dança Entrelaçamento de movimento. da África e do Japão. chamados “Juízes”. da Europa. movimento e vivência. o Estado de Israel. Egípcios. pois não temos nenhum documento histórico de sua vida São lendários seu nascimento (“salvo das águas”. Rolando Toro. o participante experimenta mover-se livremente. Entre 1220 e 1030. que conseguiu estabelecer um elo de ligação entre a divindade e a humanidade. o que . A prática da biodanza é em grupo. A necessidade de terem um chefe permanente fez com que os hebreus adotassem o regime monárquico. Entretanto. cujos membros funcionam como um ninho ecológico. A biodanza combina música. Em 70 d. cujo objetivo é despertar e desenvolver a alegria. Num contexto de atenção e cuidado. mas o surgimento da figura de Cristo dará um novo vulto à cultura no Ocidente. após o fim da II Guerra Mundial. guerrearam contra cananeus. com o outro e com o cosmos. Maria Tereza Búrigo Marcondes Godoy. as terras hebraicas..Vitalidade. Mas. irá continuar. sucessivamente. o ímpeto vital. introspecção e afetividade interpessoal. onde residiu durante três décadas. O pouco que sabemos sobre ele é o que se encontra no Pentateuco. sendo venerado até pelo Islamismo. o termo significa “a dança da vida”. a história do Antigo Testamento. aponta suas cinco linhas de vivência: I . as legiões do general Tito. por respeito à língua de seu criador. em lugar da “ç”. o mito da busca do homem por uma pátria. após sua morte. lideradas por Josué e por outros chefes momentâneos. bem como sua renovação orgânica e existencial. foi obrigado a emigrar. assim como Rômulo. por motivo político. o antropólogo chileno deu origem à nova arte na sua terra natal. tendo como proposta primordial a reeducação para a vida. usando-se a letra “z”. precisamente em 14 de maio de 1948. na tentativa de exterminar toda a raça hebraica (Hitler). a coragem e a vontade de viver. que os levou à vitória contra os inimigos. que se desenvolve a partir de uma profunda vinculação consigo. desenvolvendo o sistema da biodanza no Brasil. Realmente. atendendo a uma resolução da Assembléia Geral da ONU. As mudanças que essa vivência costuma provocar são: aumento da energia vital. A figura de Moisés não deixa de ser um mito. A ele devemos os primeiros escritos da fé cristã: as tábuas dos Dez Mandamentos! A religião moisaica foi o preparo para os hebreus conquistarem a terra de Canaã. Acaba. O Judaísmo. é considerado. explicando a nova modalidade de dança invemtada pelo chileno Rolando Toro. os romanos ocuparam. conectando-se com suas emoções e sentimentos. O sofrimento do “Hebreu Errante”. declarando-se Jerusalém território internacional. A experiência suprema do contato com a vida é o sentimento de amor. Finalmente. as 12 tribos israelitas. é claro. destruíram Jerusalém e seu Templo sagrado. ele se tornou fonte inesgotável de cultura religiosa. integração motora. sua vida milagrosa e sua morte misteriosa. chega ao paroxismo com o Holocausto. melhoramento da auto-estima e renovação orgânica. um dos maiores Profetas. uma personalidade misteriosa e inefável. acolhendo e estimulando o desenvolvimento dos potenciais de cada participante. sua teoria e técnica se difundiram por grandes cidades das Américas. assim.28 (Torah). em torno do culto de um único deus. A “facilitadora” do núcleo de biodanza de São José do Rio Preto-SP. a assertividade. mas somente sob o reinado de Davi (de 1010 a 907) os judeus conseguiram a unidade nacional. foi fundado. música. Moisés. o reino israelita se dividiu e lutas fratricidas atiçaram a sanha de povos vizinhos. nome que designa os 12 anos (19331945) de perseguição nazista contra os judeus. Trata-se de um sistema que visa o desenvolvimento do ser humano. como Cristo. macedônios e. Daqui. O primeiro rei israelita foi Saul. em território palestino. Na década de sessenta. O pressuposto filosófico da biodanza é o “princípio biocêntrico”. Buda e Maomé. assírios. mas. mas não a paz. Os hebreus conseguiram uma pátria. descendente de Abraão. pois começara a interminável guerra entre os judeus e os árabes limítrofes. moabitas e filisteus. Mas essa é outra história. Etimologicamente. Moisés conseguiu unir os diversos grupos num mesmo povo. o mítico fundador de Roma). estabelecendo normas e costumes. com músicas cuidadosamente selecionadas para cada vivência.

cujo objetivo é liberar a energia vital e o máximo potencial criador do indivíduo. religião ortodoxa)Helenismo BOCAGE (poeta português)Arcadismo “Aqui dorme Bocage. que segue os modelos da estética do Arcadismo (poesia amorosa. estimula a criatividade e ajuda a desenvolver a capacidade de superar os próprios limites. mas logo soube desvincular-se das amarras da escola arcádica para produzir uma lírica pessoal. irreverente. Cleópatra por puta alcança a c’roa. para chegar-se à harmonia. tanto orgânica como psicologicamente. com melhora nas relações familiares. cujo objetivo é recriar a própria vida. expansão da consciência. favorecendo-lhe a possibilidade de sentir prazer com sabedoria. Entre alguns benefícios biopsíquicos. Trabalha-se a curiosidade. intimamente sentida. cujo objetivo é despertar e desenvolver a ternura. Há um aumento da comunicação. observam-se a vitalidade. desenvolvimento dos potenciais genéticos. Mas ele è mais conhecido como poeta gozador e obsceno. o aumento da resistência ao estresse e o fortalecimento do sistema imunológico. IV . oh Nise. a solidariedade e o vínculo saudável com o outro. II . possibilita melhor convívio familiar e social. fodeu sem ter dinheiro” (auto-epitáfio do poeta) Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) é o maior poeta lírico lusitano do século XVIII. sentir e agir. Enfim. cujo objetivo é despertar e desenvolver a intimidade consigo mesmo e com a totalidade. os níveis de crescimento. através de uma renovação existencial. Lucrécia. integração entre o pensar. a biodanza fortalece a autoconfiança. ampliação da percepção. A produção poética desta última fase é. Há uma ampliação da vivência dos cinco sentidos e um aprofundamento do vínculo com a natureza. bucólica. Do itinerário poético de Bocage a crítica distingue três fases: a produção juvenil.XIV) Decameron BORGES (romancista argentino) . facilita a capacidade de comunicação. elegíaca). são assim detectáveis: mudanças biológicas e fisiológicas. Não fique pois. sociais e profissionais.Criatividade. bebeu. a mais importante. aumento da energia amorosa. resgate da auto-estima. pois o tom pessimista da sua lírica noturna prenuncia o Romantismo. BIZANTINO (Constantinopla. o teu estado. pela qual entrou em conflito com os escritores da época. com a prática da biodança. Passou vida folgada e milagrosa. Veja-se o seguinte soneto: Não lamentes. a poesia satírica. putíssimas fidalgas tem Lisboa. a regulação do sono. O teu cono não passa por honrado. Seus efeitos benéficos são inúmeros. adotou o nome bucólico e anagramático “Elmano Sadino”. milhões de vezes putas têm reinado: Dido foi puta. Essa da Rússia imperatriz famosa. a coragem para inovar e reorganizar o estilo de vida. revolucionária. Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta) Entre mil porras expirou vaidosa: Todas no mundo dão a sua greta. Conforme a moda do Arcadismo.Afetividade. oh Nise.Sexualidade. duvidosa Que isto de virgo e honra é tudo peta.29 leva à diminuição de distúrbios psicossomáticos. Puta tem sido muita gente boa. a diversidade. sem dúvida. em que canta a solidão existencial. V-Transcendência. e puta dum soldado. De um modo geral. com toda a tua proa. III . a fase madura do lirismo pessoal. Tu. BOCCACCIO (contista italiano do séc. Comeu. arte. o putanheiro. Istambul.

Vedas. Suas obras mais importantes: Tambores na noite. O homem tem que se convencer de que ele mesmo é o sujeito do processo da evolução da história. “aquele que atingiu sua meta”. é pura ficção.30 Numa semente estão contidas as idéias de caules. a ciência cabalística. o livro sagrado mais famoso da doutrina budista. discordando da tese de Lukács sobre o Realismo estético. notável é a importância que ele confere às categorias do tempo e do espaço dentro da narrativa. o drama nunca deve tentar ocultar que é arte. BOTTICELLI (artista da Renascença italiana)Pintura BRAHMA (divindade indiana. Para Buda não existe nada de absoluto. a antiga doutrina védica. purificar a mente: Eis a lição de Buda. O público. tem por finalidade fazer refletir sobre a realidade e estimular as mudanças sociais. rei Artur. Mãe coragem. dando origem a uma religião que se espalhou pelo Oriente todo. que viveu aproximadamente na mesma época. O cenário não deve reconstruir o ambiente histórico em que se supõe que os fatos tenham acontecido. mas sobre as relações que os homens mantêm entre si. BRETÃO (ciclo cultural medieval. passou a chamarse “Buda”. para a qual remetemos ao verbete Galileu. dando a ilusão de que o que se passa no palco é realmente o que acontece na vida. É com o nome de Sidarta que o escritor alemão Hermann Hesse apresenta a biografia romanceada e os pensamentos de Buda. de família tradicional e conservadora. deve perder a consciência de que está num espaço onde reina a imaginação. A essência do Budismo é comparável à concepção do pantarrei (“tudo flui”) do filósofo pré-socrático Heráclito. O teatro que ele propõe. O verso em epígrafe encontra-se no Dhammapada. Cavalaria)Graal BUDA (Sidarta. Hinduísmo. Entre outros apelidos. a marca da conseqüência das ações: a lei de que todos os atos . Um homem é um homem. vagando por vários países da Europa e das Américas. denominado de “épico” porque essencialmente narrativo e dialético. Quanto ao seu estilo. sua terra natal.C. considerandoa uma forma de alienação social. Após atingir o estado de iluminação (bodhi). O Círculo de Giz Caucasiano. A exceção e a regra. o assunto dramático não deve verter sobre a problemática existencial de um indivíduo. crescimento e morte. retomando o tema bíblico do Julgamento de Salomão: o pequeno Michel é entregue à mãe adotiva que o ama mais. Seus temas preferidos são a magia. a eternidade. Gautama viveu na Índia entre 560 e 480 a. O livro da areia). Hinduísmo)Buda BRECHT (dramaturgo alemão)Galileu Desgraçado o país que necessita de heróis! Homem profundamente polêmico na vida e na arte. acontecimentos históricos encontram-se mesclados com o irreal. A obra-prima de Bertold Brecht é A vida de Galileu. Além de grande dramaturgo. diferentemente. mas na Grécia. Sua concepção de teatro se afasta da dramaturgia clássica. Os Vedas. de galhos e folhas. Opera dos três vinténs. que tinha por finalidade representar uma problemática existencial da forma mais verossímil possível. não precisando de heróis ou taumaturgos. foi também um teórico da arte literária. o inferno. assim Buda anteriormente acrescentara uma nova mensagem ao velho Hinduísmo. Cada qual nasce com o seu karma. Gandhi) Evitar o Mal. Ficciones. Ainda jovem. em momento algum. Brahma. que trata da disputa sobre a verdadeira maternidade. Jorge Luis Borges (1899-1986). de metafísico. de indestrutível. O universo todo é pensamento. Portanto. O que rege o mundo é o sansara. sendo inclusive expulso dos Estados Unidos. Bertold Brecht (1898-1956) precisou fugir da Alemanha. EI Aleph. consideradas como formas de conhecimento da realidade. que sucedeu aos antigos Upanishadas. acusado de fazer a apologia do sistema comunista de vida. o ciclo do nascimento. Esplendor e miséria do Terceiro Reich. ao mesmo tempo em que critica a moda expressionista. Para Brecht. Os fuzis da senhora Carrar. por não aceitar a ideologia nazista. desenvolver a integridade. foi chamado também de Sidarta. o mesmo se diga das vestimentas e da linguagem dos personagens. Em seus livros de contos fantásticos (História universal da infâmia. é considerado o iniciador do realismo fantástico na América Latina. Como Cristo veio separar o Antigo do Velho Testamento da religião judaica. de troncos. deixou o palácio de seu pai para meditar na floresta.

pela vontade. duas comunidades que vivem. e Shiva. III a. Gandhi acreditava que os graves conflitos internos do seu país podiam ser resolvidos com penitência. O caminho da paz é o caminho da verdade. Ser verdadeiro é ainda mais importante do que ser pacífico.. Os textos falam de uma ordem cósmica (dharma). que lutou a vida toda e pacificamente para defender a independência. O Vedismo constitui a mais antiga e mais rica literatura indo-européia. O ideal do sacrifício e da renúncia permanece como a base do hodierno Hinduísmo. que não tem origem. em constantes lutas pelo predomínio étnico e religioso. que é a libertação do sofrimento e a aquisição do estado de êxtase pela iluminação da mente (bodhi). que contém crenças. libertando-se dos ciclos de renascimentos. pela renovação do primitivo Hinduísmo com espírito nacionalista e pela expansão do Islamismo (Maomé). organização social do povo hindu. respeitando as castas. o deuscriador. católicos e protestantes e ao Corão das várias setas islâmicas. no séc. que. a totalidade). O Budismo indiano “reformado” atingiu o apogeu na época da dinastia Gupta. Os adeptos do Hinduísmo acreditam que Os Vedas foram ditados por Bramha. Estava aberto o caminho para a busca da salvação. VI a. costumes. essa facção de Budismo pouco progrediu fora da Índia. portanto. J. O ensinamento de Buda pode ser resumido nesta sua expressão: Faça de ti mesmo teu próprio suporte. bramanismo. IV e V d. o subcontinente indiano conseguiu a independência. Um ano antes da sua morte por assassinato político. A “revelação” divina está consagrada num volumoso corpo de textos sânscritos. cujo texto fundamental é o livro de Os Vedas. O Hinduísmo. XX. junto com Vishnu. teu próprio refúgio. em sânscrito significa “O Absoluto”. lutar contra o karma com o fim de interromper o samsara. durante os séc. escritos sob a inspiração de Brama. chamada “Hinduísmo”. pela sua fragmentação. é a religião dos indianos que acreditam nos ensinamentos que se encontram em Os Vedas. esfacelando os primitivos ensinamentos do Mestre. o “Destruidor”. mitos. estando o brâmane. constituem a Trindade da religião hindu. A liderança do movimento nacional foi exercida por mais duas figuras ilustres na história indiana do séc. Por isso era motivo de irritação para muitos hindus que desejavam o confronto armado contra os que apregoavam o credo muçulmano e contra os invasores ingleses.C. dividido em dois Estados: a União Indiana hindu e o Paquistão muçulmano. o conjunto das Escrituras Sagradas de várias religiões da Índia (vedismo. no séc. no topo da escala social. a religião e as tradições hindus contra o domínio da Inglaterra. o “Criador” (a palavra brahman. o “Conservador”. Nerhu e Indira Gandhi. é o mais importante dos homens. Mas sua expansão pelo mundo deu origem a várias seitas.C.. O núcleo da antiga religião hindu foi reinterpretado com o advento do Budismo.C. compilados entre 2000 e 600 a. O Budismo nasceu como sobreposição à antiga religião indiana. a “Lei cósmica universal”. Seu apogeu deu-se durante o reinado de Asoka. pois só com o término da sucessão de renascimentos o homem pode atingir o nirvana. até hoje. conforme a antiga crença dos invasores arianos. Os estudiosos distinguem várias ramificações do Budismo no espaço e no tempo:  Budismo indiano: HINDUÍSMO. portanto. nome do adepto do Sanâtana Dharma. Posteriormente. correspondente à Bíblia dos judeus. o sacerdote. quando o Budismo adquiriu o status de religião universal com intenção missionária. . do sânscrito shindu. hinduísmo). A concepção metafísica da crença na transmigração da alma de um corpo para outra tenta justificar a ordem existente e a diferença de classes sociais em função dos méritos e dos erros nas vidas anteriores. É preciso. A sua obra A Autonomia da Índia (1909) é um libelo contra o materialismo da civilização ocidental e contra qualquer tipo de violência. que era a língua dos invasores arianos.31 voltam para as pessoas que os cometeram. pois colhemos o que plantamos. ritos. após uma longa tradição oral. alguns pensamentos se tornaram antológicos: Aquele que. De Mahatma Gandhi. o conjunto dos Livros Sagrados. dominou os sentidos. que sustenta o equilíbrio entre as forças do bem (deuses) e as forças do mal (demônios).C. jejum e preces. Logo começaram a nascer várias escolas antagônicas. Figura mundialmente famosa foi Mahatma (a “Grande Alma”) Gandhi (Porbandar 1869 – Déli 1948). Os rituais representam e estimulam a conservação desse equilíbrio.

XII ao XIV) e criou um tipo ideal de herói. passou de uma fase elitista. Morte e Vida Severina. Na sua evolução. até que. o budismo tibetano perdeu seu poder político-religioso. de blama (“ser superior”). mediante exercícios físicos e psicológicos. chamado de “Lamaísmo”. sendo acusado de cerebralismo e de desumanização. a primitiva religião japonesa. VIII ao XII) de sincretismo. o Budismo tornou-se religião de Estado. o eixo Roma-Berlim-Tókio. Alberto Caeiro. Como fazer o poema ditado . o poeta da “visão” da Natureza: “Pensar é estar doente dos olhos!” Pedem-me um poema. A sua produção poética apresenta várias vertentes: 1) o poeta-engenheiro que cria seus versos com cortes precisos.  Budismo tibetano: a região do Tibet cultivou um budismo tântrico. apresentando um rígido formalismo ritualístico. sendo o DALAI-LAMA o “grande lama”. que provocou a II Guerra Mundial (Marte). 3) o poeta que busca. livro sagrado. não pode ser enquadrado em nenhuma “geração” pós-modernista. personificado nos samurais. O que caracteriza o tantrismo é o estímulo da sexualidade através de massagens eróticas em lugares estratégicos do corpo. Daí ao incentivo do racismo o passou foi fácil: junto com o Nazismo alemão e o Fascismo italiano. Poeta. BYRON (poeta inglês)Romantismo CABRAL (poeta pernambucano)Modernismo Um galo sozinho não tece uma manhã Nascido no Recife (1920-1999). Com a derrota. 2) o poeta de cunho social. Um poema se faz para a vista. aos poucos.32 A verdadeira riqueza do homem é o bem que ele faz a seus semelhantes  Budismo chinês  Confúcio  Budismo japonês (Xintoísmo. que nos faz lembrar um verso do heterônimo de Fernando Pessoa. fazendo demorar o orgasmo por horas. a partir do séc. Após a anexação do Tibet à República Popular da China. A partir do séc. o povo japonês voltou ao culto das seitas do Xintoísmo tradicional e do Budismo Zen (do chinês chan = “meditação”). Como exemplo da poesia de Cabral.. que retrata toda a aridez e a pobreza do Nordeste brasileiro. são personificações das forças naturais. É chamado de “Lama” o monge tibetano budista. De “tantra”. trabalhando a palavra como se exculpe o mármore. sendo o suporte para a implantação do culto à nacionalidade japonesa. poema é coisa que se faz vendo como imaginar Picasso cego? Um poema se faz vendo. viveu muito tempo no exterior (França. onde os deuses. para um período (do séc. XVII. um poema que seja inédito. O Xintoísmo passou a cultivar a adoração do Imperador-Deus. O movimento “zen” marca um budismo tipicamente japonês. no ano de 1868. apesar da sua técnica apurada. trama. declarando-a religião de Estado. como as divindades do politeísmo greco-romano. transcrevemos um poema escrito quando sua visão já estava fraca. musicado no palco por Chico Buarque de Holanda e adaptado a um seriado televisivo. considerado religião estrangeira. Sua essência reside na busca de uma identificação entre o natural e o sobrenatural. desmistificando a poesia como fruto da inspiração e do sentimento. praticados pela ioga. onde exerceu funções diplomáticas. VI a. Espanha). preocupado mais com a prática do que com a teoria. o governo Meiji separou oficialmente o Xintoísmo das outras religiões. o que transparece no seu texto mais conhecido. passando a persistir apenas em pequenas comunidades do Nepal e de outras regiões da Índia.C. misturando-se especialmente com o Xintoísmo. o Tantrismo resulta de uma síntese de várias religiões orientais. cultivado apenas por monges e letrados. Zen): introduzido no Japão. a comunicação com o público. especialmente de Hinduísmo e Budismo tardio. formou-se a Tríplice Aliança. Inglaterra. em 1959. palavra sânscrita que significa teia. o antigo Xintoísmo começou a predominar sobre o Budismo. autêntico e inovador. que começou no período Kamakura (do séc. poema-narrativa.

CALVINO (fundador do Calvinismo. visto como o símbolo do esforço humano para conseguir o progresso. Para fazer o Atlântico. e o maior bem é pequeno. Dentro a desarrumada vida. Com o Tejipió. Lope e Calderón foram os dois poetas que lançaram as bases do moderno teatro espanhol. Sua obra mais famosa. Mesmo da coisa vivida. O primeiro. uma sombra. seita do Protestantismo) Lutero CAMÕES (poeta épico e lírico de Portugal)Lusíadas CAMPANELLA (filósofo italiano) Utopia CAMUS (escritor franco-argelino) . o segundo. mascarado pelos véus do simbólico e do fantástico. predominando a concepção barroca do desencanto do homem. Tratase de um espetáculo total. mais reflexivo. Menos popular. colocando no centro de sua ação dramática sempre um conceito filosófico. mais técnico. Onde com o Beberibe. uma ficção. Poema é coisa de ver. CAIM (a força do mal) Satã CALDERÓN (dramaturgo espanhol) “La vida es un sueño” Pedro Calderón de La Barca (1600-1681) é um dramaturgo profundo. o que é a vida? uma ilusão. Como não se ouve um quadrado. mas mais profunda é a obra La Estatua de Prometeo. mais atormentado pela problemática barroca da luta entre a liberdade humana e o determinismo da Graça divina. mais prolífero. é como um rio. mais aristocrático. Como se vê um Franz Weissman. sonhos são. um Capibaribe. e os sonhos. Jaboatão. Uma de suas afirmações: “quem vive sem pensar não pode dizer que vive”. com música. pois toda a vida é um sonho. A vida é um sonho. Por exemplo.33 Sem vê-lo na folha escrita? Poema é composição. Por exemplo. é um drama de idéias. Um poema é o que se arruma. O dramaturgo espanhol ressuscitou o mito grego de Prometeu. mais alegre. É coisa sobre um espaço. que antecipa o sucesso do Teatro da Ópera. balé e cenários suntuosos. enganado pelas aparências sensíveis: O que é a vida? um frenesi. Todos se juntam a mão. representada em 1669. mais próximo do ideal renascentista da arte como expressão da natureza eufórica. canto. Em suas margens domado Para chegar ao Recife.

a partir da segunda metade do séc. ligada ao Partido Comunista (Marx). ligando o início do Capitalismo com o espírito aventureiro de espanhóis e holandeses e com a alta burguesia da Renascença italiana. se transforma numa outra “mais-valia”. O sociólogo e economista alemão Max Weber. mais importante. a África e o Oriente Médio. e chamamos de Capital à cidade-sede de um país. provocou uma revolução no mundo econômico. de ávido. inveja. cantiga)Música Lírica Trovadorismo CANUDOS (Os sertões: epopéia histórica)Euclides CAOS (figura mítica sobre a origem do mundo. Em suas obras mais famosas (O estrangeiro. A origem histórica do Capitalismo. colocam seu início na época das Cruzadas. reaplicado pelo dono da empresa. visto ser a cabeça a parte mais nobre do corpo humano. quando. Outros postergam seu começo até às Grandes Navegações. pago pelo empregador aos operários por horas determinadas. ele dizia: “Revolto-me. de outro lado. Esta mais-valia produz um capital adicional que. social e econômico)Marx Do latim caput. Parodiando Descartes. Mais tarde. Capitalista é a pessoa que vive dos rendimentos do seu capital emprestado a juros ou investido em empresas. na Baixa Idade Média. a sua inquietação espiritual o estimula a perscrutar a intimidade do ser em procura de uma resposta face ao absurdo da existência e da morte. que significa “cabeça”. eqüidistante de qualquer forma de totalitarismo. desde a infância. em nome de uma liberdade absoluta. O mito de Sísifo). imóveis e monetários que uma pessoa possui. como as feras do mundo animal. Cosmos)Mitologia Terra CAPITALISMO (regime político. considerados como as principais falhas do homem. Fundamental para o entendimento do Capitalismo é o estudo da figura de Karl Marx. Numa primeira fase de sua breve vida. em contato com o espetáculo da miséria humana. orgulho e preguiça). O Capitalismo é chamado de “selvagem”. proveniente da injustiça social. convencido de que a ditadura de esquerda não é melhor do que a de direita. o escritor luta ardorosamente contra o nazi-fascismo. segundo o jornalista americano Richard Conniff.34 “Acabamos sempre adquirindo o rosto da nossa verdade!” Albert Camus (1913-1960). . quando editara. cápitis. cuja obra Das Kapital. umas três décadas antes. Em Economia. jornalista. político e social comparável à suscitada por Darwin. Camus apresenta como tema recorrente o absurdo da condição humana em perpétua busca de um sentido para a vida e para a morte. com estatuto jurídico. No questionamento e na sondagem do ser evidencia-se o grande poder de introspecção do escritor francês. mas que passou os melhores anos de sua vida na França. aponta as afinidades entre a mentalidade capitalista e o calvinismo do séc. quando iniciou o confronto entre a força do trabalho humano e os meios econômicos necessários para a produção de bens. autor da recente obra História Natural dos Ricos. onde se encontram tecidas sutis e hilariantes comparações entre o modo de vida egoísta e prepotente dos símios fortes e dos humanos endinheirados. dramaturgo e romancista da Argélia. cólera. produz um lucro maior do necessário para sua manutenção. Se. Assim. falamos dos “sete pecados capitais” (avareza. quando se rompeu o cerco muçulmano (Maomé) na bacia do Mediterrâneo e começara o ciclo do intercâmbio comercial entre a Europa . A Origem das Espécies. portanto existo”. participando ativamente da Resistência Francesa ao domínio alemão. na liberdade de mercado e na força do trabalho humano. ressaltando o papel importante do surgimento da burocracia para racionalizar progressivamente o sistema social. até hoje. de um lado. O sistema de produção capitalista está baseado na lei da mais-valia (do trabalho excedente): o trabalho. fundamentado na empresa privada. Alguns estudiosos. gula. pode ser considerado o autor que realiza a síntese entre a ficção sociológica e a ficção intimista. na famosa obra A Ética protestante e o espírito do Capitalismo (1905). luxúria. a sua condição de órfão de família pobre coloca-o. A peste. XIX. os homens poderosos apresentam o “triplo A”. canônico)Classicismo CANTO (canção. agressivo e acumulador. rompe com Sartre e com os outros escritores engajados na propaganda da ideologia socialista. XVII. nas ciências biológicas. Capitalismo é um sistema econômico. é motiva de controvérsias. CÂNONE (modelo estético. XVIII. o termo “capital” passou a indicar o que é fundamental. o capital indica a soma dos bens móveis. Já os estudiosos de tendência marxista acham que o verdadeiro Capitalismo surgiu com a Revolução Industrial. testa. publicada no fim do séc.

Anula-se a diferença de classes e de sexos. a elevação e a queda do ídolo. pois percebe a presença do espírito do Carnaval em muitas obras literárias ao longo da história. a etiqueta. A identidade dos contrários e a não-identificação da pessoa é facilitada pelo uso da máscara ou da pintura do corpo com cores berrantes. famoso pelo desfile e baile das Máscaras. Entre os atos carnavalescos que legitimam o mundo às avessas o mais importante é o rito da “entronação” bufonesca do Rei do Carnaval. Sua primeira manifestação pode ser encontrada no “ditirambo”. dando vazão aos instintos mais primordiais. a profanação do sagrado. que questionam a realidade. a paródia dos valores sociais. hoje é Carnaval”. a mesma cor do fogo e do sangue. conforme a dicotomia apolíneo/dionisíaco. no Brasil. liberando o uso do álcool e de roupas extravagantes. as mésalliances: a conjunção do masculino e do feminino. nos dias de Carnaval. do alto e do baixo. carnavalesco)Dionísio “Não me leve a mal. hoje é Carnaval” (canção carnavalesca) Do italiano “Carnevale”. O crítico russo M. fundada no contato livre e familiar entre todos. cujo equivalente em português pode ser encontrado nos versos de uma marchinha carnavalesca: “Não me leve a mal. a nudez e a libido. os devotos de Cristo se esbaldavam em comer “polpette” (almôndegas). os cristãos festejavam a véspera da quarta feira de cinzas. que significa “adeus à carne”. dançar desenfreadamente. onde não há separação entre atores e espectadores. Durante a época carnavalesca há uma suspensão das leis sociais. de faces rosadas. o Rio de Janeiro apresenta a melhor festa carnavalesca. do sublime e do vulgar. Bakhtine. conforme o tempo e o lugar. a vindima. especialmente na Literatura. cantam e dançam. na esteira de Nietzsche. os 40 dias de penitência antes da Páscoa. Na Idade Média. o melhor Carnaval é o de Veneza. de caráter ritual. O ato ambivalente significava a relatividade de toda estrutura social. usando máscaras. o sambódromo. que era servido e venerado por seus patrões. do belo e do feio. Junto com a cor vermelha. sem medo de sanções. O Carnaval é uma forma de espetáculo sincrético. pelo desfile dos carros alegóricos em lugar fixo e apropriado. das regras normais de vida. perdida a noção do passado familiar. é o id freudiano que. a hierarquia. cuja origem pode ser encontrada nas festividades para comemorar a colheita da uva. termo formado a partir da expressão do latim medieval carnem vale. apreciada no mundo inteiro. durante os quais era proibido comer carne. ciclo cultural francês)Roland CARNAVAL (Baco. impregnada pelo espírito “apolíneo”.. símbolo da riqueza e da abundância. que ele chama de monológica. O Rei Momo é geralmente configurado como uma pessoa gorda. Na percepção carnavalesca do mundo são exaltadas as formas oximóricas. do sagrado e do profano. Nas Saturnálias romanas elevava-se ao trono um escravo. o hino em honra ao deus Dionísio: um coro de pessoas “transformadas”. detecta a presença de duas linhas de forças que dão formas à Literatura Ocidental: uma arte. está presente em quase todas as formas de arte. e outra dialógica. com o nome de Carnaval e anualmente. tutto vale (“no Carnaval. onde predomina o princípio da ordem e da fidelidade aos padrões socio-morais.35 CARLOS Magno (carolíngio. sem dúvida. pois se sentem possuídas pelo espírito divino. vale tudo”). O Carnaval reveste-se de características próprias. À essa segunda linha de força ele chama de literatura “carnavalizada”. Predomina o vermelho. perpassada pelo espírito “dionisíaco” da contestação e da revolta. quando começava a Quaresma. acaba se sobrepondo ao superego que controla a vida cotidiana. o Carnaval é uma festa popular bem antiga. em honra do deus do vinho ( Dionísio). no estado de embriaguez. Enfim. com um largo sorriso de prazer satisfeito. símbolo universal do princípio da vida e da força. estabelecida por Nietzsche. O espírito carnavalesco ou “dionisíaco”. chamados de “bacanais”. A língua italiana tem uma expressão que define bem essa liberdade: nel Carnevale. a . sendo vivido por todos. o diálogo socrático. Coloca na mesma linha das obras de arte. a mesma divindade sendo cultuada em Roma com o nome de Baco: as “bacantes” eram as mulheres que participavam dos ritos orgiásticos. nos folguedos do Carnaval é prestigiada a gordura. tomar vinho. dionisíaco. e se estabelece uma nova forma de relações inter-humanas. Na Europa. para que as pessoas não fossem identificadas. Na Terça Feira Gorda e no fim de semana que a precedia. das interdições morais.

A poesia de Catulo reflete a trajetória de seu amor por esta mulher. o teatro shakespeareano. mas concentrados na Europa Ocidental e na América Latina. da Imaculada Conceição. João XXIII. Paulo VI e João Paulo II. nos mistérios da Santíssima Trindade (Pai. que ele imortalizou sob o pseudônimo da Lésbia: os momentos felizes da paixão. a Revelação de Deus não está apenas nos textos bíblicos.C. forma latina do nome Descartes) CASANOVA (mito da sedução masculina: Páris. esparsos em todo o planeta. Catulo nasceu em Verona (87 a. mas continua na Tradição oral e escrita dos Apóstolos. a Igreja Romana manifesta disposição à convivência e ao diálogo com outras confissões religiosas. tenta ao “Ecumenismo”. o termo grego que indica a universalidade. o altar. Eucaristia. A essência sincrética do catolicismo é assim descrita pelo estudioso Dan Brown ( O Código da Vinci): “Os vestígios da religião pagã na simbologia cristã são inegáveis. Os pictogramas de Ísis dando o seio a seu filho Hórus milagrosamente concebido tornaram-se a base para nossas modernas imagens da Virgem Maria com o Menino Jesus no colo. dos Santos. Este é o motivo principal das constantes viagens internacionais dos últimos Papas. cidade da Bitínia que quase um milênio depois passou a ser sede do Império Bizantino. Os discos solares egípcios tornaram-se as auréolas dos santos católicos. o Catolicismo é a religião cristã professada por quem reconhece o Papa de Roma como chefe espiritual do mundo. da Vida Eterna. a doxologia e a comunhão. CARTESIANISMO (de Cartesius. Don Juan. dando peculiar relevo à obra de Dostoievski. pois escritos por revelação divina. epigramas.C. eleito a um mandato vitalício por um conclave de bispos. o Decameron de Boccaccio. quando o imperador romano Constantino. da amizade e da arte literária no dissoluto mundo cortesão da capital da imensa República. mas passou a maior parte da sua breve vida (33 anos) em Roma. dedicou-se ao culto do amor. 5) a Igreja Católica reconhece a eficácia de sete Sacramentos (atos sagrados. Apresentamos o texto e a tradução de um . Deixou-nos uma coletânea de 117 poesias (C. epitalâmios e traduções de poemas gregos. Pelo nome “Igreja Católica Apostólica Romana”. pouco a pouco. por assim dizer – foram diretamente copiados de religiões pagãs místicas mais antigas”. esposa do cônsul Metelo Céler e irmã do tribuno Clódio. o romance realista. a bela e lasciva Clódia. A religião católica. a infalibilidade. dos Evangelistas. quando ele fala ex cathedra sobre assuntos de doutrina religiosa. dos Mártires que. 2) para os católicos. pois receptores da Graça divina): Batismo. Confissão. resolveu unificar as várias religiões sob a égide da cruz. 3) quem configura esta sempre renovada Tradição do Catolicismo é o Papa de Roma. Sua existência foi marcada por uma forte paixão por uma dama romana. Extrema-Unção.. com o exemplo de suas vidas e suas pregações. e Cristo como Filho de Deus e Redentor da Humanidade: isso o Catolicismo tem em comum com todas as outras igrejas cristãs. Nobre e rico. a narrativa de Kafka e de outros autores. R.Valentino)Adônis CATOLICISMO (Igreja universal romana)Cristo De Katholikos. como religião oficial. Matrimônio. desde suas remotas origens da pregação do Evangelho para todos os povos. O Catolicismo. E praticamente todos os elementos do ritual católico – a mitra. já podem ser percebidas as características da religião católica: l) considerar os ensinamentos contidos no Antigo e no Novo Testamento (Bíblia) como sagrados. o ato de “comer Deus”. contando com mais de 700 milhões de fiéis. em que estão reunidos poemas curtos e de assunto amoroso (Nugae) e elegias. o sofrimento pela traição e pela degradação moral da mulher amada. Ordem. da Ressurreição. do partido democrático. junto com o primado da jurisdição. que lhe confere. no norte da Itália. 4) a fé católica é sustentada pela crença num Deus único e trino. pelo Iº Concílio de Nicéia. a literatura picaresca. Atualmente. explicitam as verdades da Fé.36 sátira greco-romana. Vaterii Catulli liber). fundindo crenças e rituais pagãos com a nova tradição cristã.). dos Padres da Igreja. Filho e Espírito Santo). Crisma. da Encarnação. o Grande. nasceu em 325 d. que em grego significa “universal”. CATULO (poeta lírico latino) “Odi et amo” Maior poeta lírico da Literatura Latina.

uma espécie de reportagem jornalística. César. como escritor.44 a. mas sinto que é assim e sofro terrivelmente). vici: “Cheguei. no Senado de Roma. participando do primeiro triunvirato com Pompeu e Crasso (no ano 60 a. só nos restam seus Commentarii de Bello Gallico e Commentarii de Bello Civili. então fronteira entre a Gália e a Itália. e continuou o sonho dos irmãos Graco de acabar com os latifúndios).37 poema composto de apenas um dístico. as sementes brotavam e as árvores davam seus frutos. no outono e no inverno. como se o sujeito da enunciação não fosse a mesma pessoa do sujeito do enunciado. quando Prosérpina passava a outra metade do ano (primavera e verão) com a mãe no Olimpo. Infelizmente. e exigira que César dissolvesse seu exército. Sobrinho de Mário e inimigo do ditador aristocrata Sila. Eleito cônsul em 59. começou uma grande reforma agrária. a vida sobre a terra florescia. nome latino da grega “Perséfone”. sendo a protetora do trigo. procurara a ajuda do Senado e do partido aristocrático. mostrou logo sua simpatia pelo partido democrático. Ceres foi sempre adorada como deusa da terra e da agricultura. raptada por Plutão. o de número 86. No Novo Testamento. CERVANTES (ficcionista espanhol)Dom Quixote CÉSAR (general e escritor latno)Roma “Tu quoque. era recordado ritualmente nos Mistérios de Elêusis e tinha direta ligação com uma tentativa de explicação da morte e da ressurreição da vida vegetal. O nome de César passou à história como exemplo de grande general e de . depois da rápida campanha vitoriosa no Egito ( Veni. matou o ditador com vinte e três punhaladas. chefiados por Cássio e Bruto.) foi uma das principais figuras do período áureo da cultura romana. objetivo. os cereais se encontravam na fase de incubação. guerreando contra os bárbaros. vi e venci”). em que estão registradas as vitórias conseguidas por César sobre seus inimigos externos e internos. Brutus. o cereal mais importante para a alimentação dos gregos antigos. diminuindo o poder do Senado. lutando contra os latifundiários. vidi. fili mi?” Caio Júlio César (100? . Como isso é possível. Quando sua filha. deus da abundância. filho adotivo de César. feita por um escritor participante dos fatos. Percorreu todos os degraus da carreira política. na sua aprendizagem do cultivo da terra. Um grupo de republicanos extremados. para saborearmos a profunda intensidade do seu lirismo: “Odi et amo. num estilo rápido e límpido. ao pé da estátua de Pompeu. CERES (Deméter grega)Terra Dai-nos o pão de cada dia Filha de Saturno e de Cibele. junto com o de sua filha Prosérpina. como o arroz é para os orientais. nos idos de março (dia 15) de 44. Em 49. onde ficou dez anos.). falando de si próprio em terceira pessoa. Quare id faciam. temeroso do poder de César. ultrapassou o rio Rubicão. das muitas obras que ele escreveu nos vários gêneros literários. antes consideradas quase como bens particulares da oligarquia senatorial. além de ter sido importante como general (anexou várias províncias ao domínio romano) e como homem político (centralizou o poder sobre as províncias. Começava a Guerra Civil contra Pompeu que. o trigo é consagrado como sinônimo de alimento: “dái-nos o pão de cada dia”! Se Ceres simbolizou o progresso material do homem. avançou sobre Roma e se fez eleger Dictator. ele obteve o governo da Gália. e de Prosérpina. nome latino do grego HadesInferno). desobedecendo à ordem de Pompeu.C. pronunciando a famosa frase Alea jacta est! (“A sorte está lançada!”). a deusa Ceres era a mãe de Pluto (não confundir com Plutão. o mito de Prosérpina foi inventado para explicar o progresso espiritual da humanidade em busca do conhecimento das forças do subconsciente: a celebração dos Mistérios de Elêusis talvez tivesse esta finalidade. Em 58.C. talvez perguntes: não sei. César derrotou Pompeu em Fársalo e. foi também um grande escritor. O mito de Ceres. vivia com seu marido no mundo subterrâneo.e da maioria dos povos europeus. fortasse requiris. como homem político e como grande general. Nescio: sed fieri sentio et excrucior” (Odeio e amo.

ateu (“a” + theos = “deus”). CETICISMO (escola filosófica grega: ateísmo. Platão (Idealismo) e Aristóteles (Materialismo).. II a. Ainda hoje. O Ceptismo é uma doutrina essencialmente “fenomenológica”. pois acredita que a única fonte de conhecimento é a experiência. que por essência queima. A doutrina cética repousa na suspensão do julgamento: nada pode ser afirmado. Vamos deixar a natureza seguir seu caminho. O mais ilustre foi o pensador francês Michel E. e os “dogmáticos”.. de Montaigne (1533-1592). São usados. outro pensador céptico-empírico: “o fogo. Citando Diógenes Laércio. que criou o gênero literário do “ensaio” para expressar seu pensamento filosófico. Contra qualquer forma de dogmatismo. IV a. se não houver provas irrefutáveis. portanto. pela sua postura ideológica. não existindo nenhuma certeza absoluta).. O mais ilustre da primeira escola seria Sócrates. Este nome é também usado como marketing de uma tradicional e popular cerveja! A figura de César inspirou várias obras históricas e literárias. Em seus Essais. médico e pensador grego do início do séc. Como sistema filosófico. cujo pensamento foi retomado por Sexto Empírico. divindade greco-romana)Mitologia Terra . Portanto. que levaram o pensador francês à concepção de um Humanismo. que são os que “continuam a investigar”. cético indica aquele que procura mas não acha e. entre os fenômenos (as aparências) e os nôumenos (as substâncias abstratas). a partir de Adriano. Suas profundas reflexões. aquele que não tem fé. aquele que afirmou que “não sabia nada: a única coisa que sabia era de não saber nada”. discorre sobre as contradições inerentes à própria natureza humana. às verdades acreditadas sem nenhum fundamento científico. os termos: agnóstico (do “a”. além das escolas menores do Estoicismo (felicidade = virtude) e do Epicurismo (felicidade = prazer). na segunda linha de pensamento poderíamos encaixar os criadores dos grandes sistemas filosóficos. quem não acredita na existência de um ente transcendental. tanto que os Imperadores romanos. quase como sinônimos de céptico. distingue duas seitas de filósofos: os “cépticos”.C.C.. não é correto achar que o cepticismo seja uma corrente nihilista. acaba não crendo. agnosticismo. 2) a regressão ao infinito (qualquer prova remete sempre a outra prova). O Ceticismo teve seguidores na Renascença e na Idade Moderna. Lembramos apenas a encenação da peça Júlio César. apelidado de “O Empírico”. No jogo das oposições. + credo). prefixo negativo + gnosis = “conhecimento”). montada pelo diretor Orson Welles em Nova York. chegando à conclusão de que é impossível encontrar a verdade e a justiça.38 exímio estadista. Quem quiser se curar da ignorância precisa confessá-la. quem não admite a possibilidade de um saber além da experiência material. 5) o círculo vicioso (o falso silogismo que leva ao engano: o homem é um animal // Sócrates é um homem // logo. Algumas afirmações de Montaigne passaram a povoar o ideário popular: Seria melhor não ter lei alguma do que ter tantas leis quantas temos. que acontece na alma humana. 4) a hipótese (para escapar do regresso ao infinito. duvidando de tudo. que induza o homem ao nirvana. para apontar a semelhança entre os dois ditadores italianos. incredulidade) “A evanescência da verdade” Do grego skepticos (de sképtis = “busca”). Apenas se opõe ao dogmatismo. Ceticismo e Epicurismo. Leonardo da Vinci disse que “nada nos engana tanto como a nossa própria opinião”. O pensador grego Sexto. falamos da Roma dos Césares e de Kaiser (César. os céticos apresentam cinco argumentos: 1) a discordância (entre os estudiosos de um assunto). Proibir é despertar o desejo.. incrédulo (de “in”. atribuíam-se o título de “César”. ela entende do negócio melhor que nós. Sócrates é um animal). o Ceticismo foi fundado por Pirro de Élis (séc. os que acham ter descoberta a verdade. que se aproxima do moderno Existencialismo. prefixo negativo latino. 3) a relação (um conhecimento implica num outro.. sendo utilizada também na arte cinematográfica e na estatuária.). em alemão) são chamados vários imperadores germânicos. são elementos combinados de Estoicismo. CÉU (Urano.. os dogmáticos colocam um postulado indemonstrável). que o tornaram imortal. durante o apogeu de Mussolini na Itália. especialmente Guilherme II. causa a cada um a representação de ser quente”. o ceticismo se inclina para o conhecimento empírico. de Shakespeare..

De família aristocrática. A sua produção literária é imensa. a luta civil entre César e Pompeu possibilitou seu retorno a Roma e a retomada de sua atividade de advogado e de escritor. são exemplos do vigor do estilo picaresco pré-renascentista. como pensador. contra o triûnviro Antônio que. Suas obras de ficção mais importantes são os dois romances René e Atala. “cicerone”) Usque tantum. Por este seu saber enciclopédico. denunciando sua conspiração para derrubar o poder do Senado. Pro Annio Milone. Orator. Por ter descoberto a conjuração do democrata Catilina contra o regime aristocrático vigente. mostra e explica”. marcou a entrada da literatura britânica no contexto da cultura européia. durante o primeiro Triunvirato (ano 60 a. num estilo retórico.C. “Cicerone” em italiano (do acusativo latino ciceronem). Os estudiosos costumam dividir as obras de Cícero em quatro grupos: 1) Obras de Eloqüência: escreveu mais de 100 Orações. visto que não escreveu nenhuma obra de ficção. Depois de ter aperfeiçoado sua cultura na Grécia. 4) Cartas: quase mil missivas. A citação em epígrafe faz parte das Catilinárias. sem criar um sistema próprio ou adotar uma teoria em particular. As Catilinárias. onde Cícero acusa o jovem democrata de perturbar a ordem pública: “Até quando. especialmente). visconde de Chateaubriand (1768-1848). vasto deserto de homens François René. pode ser definido como um eclético.39 CHAPLIN (o criador de “Carlitos”)Cinema CHATEAUBRIAND (poeta romântico francês) Multidão. estudou em Roma filosofia. descreve a beleza das paisagens exóticas e as relações sentimentais que envolvem os personagens romanescos. onde deve ter conhecido o florentino Giovanni Boccaccio. discursos jurídicos. pois expõe o que havia de melhor nas escolas filosóficas de sua época (Estoicismo e Epicurismo. De Legibus). passou a designar “quem sabe. Pompeu e Crasso. Laetius. Seus contos. Verre. 6 discursos contra C. CHAUSER (contista inglês. A melhor versão cinematográfica da obra de Chauser foi o filme de Pier Paolo Pasolini: Os Contos de Canterbury (1998). ele também cultiva a autobiografia ficcional: Memórias de além-túmulo. foi o verdadeiro iniciador do Romantismo francês. em defesa do aristocrata Milão. em que Cícero aponta os requisitos essenciais para a formação de um perfeito orador. seu nome. além de contribuírem para a fixação da língua inglesa. herdeiro do pré-romântico Rousseau. teorética (Academica.14 orações. eloqüência.). logo depois. que influenciou fortemente sua narrativa ficcional. por pertencer à oligarquia dominante e por estar sempre defendendo os direitos dos senadores. Brutus. vai abusar da nossa paciência?” .C. endereçadas a familiares e amigos. muito embora não possa ser considerado um poeta. De officiis).) de César. pretor da Sicília. contidos no livro O Gênio do Cristianismo. Tusculanae. 3) Obras de Filosofia: Cícero. 2) Obras de Retórica: De oratore. acusado de corrupção. Escreveu tratados sobre filosofia política (De Republica. que é a história da eloqüência em Roma. figura expressiva do partido democrático. 4 orações contra Catilina. sendo a mais notória a segunda. acusado de ter assassinado Clódio. para vingar-se. Apontamos os mais importantes: In Verrem. quase jornalístico. caiu na ira dos democratas que o exilaram e lhe confiscaram os bens. isto é. CÍCERO (erudito latino. Catilina. mandou decapitar Cícero. Mas. abutere patientia nostra? Marcus Tullius Cícero (106-43 a. em que apresenta os traços do orador exemplar. em que. Esteve na Itália em missão diplomática. voltou para Roma e iniciou a sua carreira de advogado e de político. narrativa picaresca) Quem nada empreendeu nada terminará Geoffrey Chauser (1340-1400). Filípicas. mesclando o realismo social com a sátira das aspirações burguesas. direito e poesia com os melhores mestres da época. tratando dos assuntos mais variados. Após um ano de exílio. Cato maior. Catilina. foi chamado de "Pai da Pátria". Ao exemplo de Rousseau (Confissões). De natura deorum) e moral (De finibus bonorum et matorum. o autor da famosa obra Decameron. pela sua obra Contos de Canterbury. ele é o maior escritor em língua latina pela variedade e quantidade de suas obras.

dando chance a Hollywood de afirmar-se como a capital mundial do cinema.. interpretando personagens extraídas de obras literárias clássicas. substantivo formado do verbo kinéo (“mover”. Marilyn Monroe (1926-1962). influenciado pela Vanguarda européia. tendo Charlton Heston no papel de El Cid e Sofia Loren. CIDADANIA (cidade. de autoria anônima. encarnando o mito do valor bélico espanhol. A data provável do surgimento dos primeiros cantares em torno da figura do Cid é de 1140. civilização) Cultura CIÊNCIA (o saber pela observação e experimentação)> Conhecimento CINEMA (origem e evolução) A oitava arte: a imagem em movimento A palavra “cinema” é um termo médio. Na França. A Itália também passa a destacar-se como grande produtora de filmes. consegue transmitir a misteriosa sensação de que realmente a figura do herói é imortal. o sentimento popular o elevou a herói nacional e exaltou a memória de suas façanhas através da criação de vários cantares ou poemas. Rodolfo Valentino (Adônis). que relata os feitos de Ruy Díaz de Vivar. a partir do início do séc. que se torna a Meca do cinema.40 CID. El Cantar de mio (epopéia espanhola) “Entrarei em batalha. personagem da história da Espanha medieval. As imagens se moviam. uma máquina de fazer dinheiro. causou um verdadeiro pânico: os expectadores saíram correndo do Salon du Grand Café. as núpcias infelizes das filhas e a vingança contra os genros. previamente registradas numa película. de Paris. continua como mito da beleza masculina. no papel da bela esposa Jimena. "senhor") ou pelo qualificativo "Campeador" ("batalhador" ou "campeão"). A cena final do “Campeão” em cima do cavalo. Este manuscrito contém três cantares.. com seus próprios olhos verão como se ganha o pão”. denominando-o preferivelmente pelo apelido "Cid" (em árabe. produtores independentes se refugiam na Califórnia. o movimento artístico antipassadista que. Se a Pintura é arte da imagem fixa. sociedade. durante a chamada “guerra das patentes” (1897-1906). A figura épico-histórica do herói espanhol passou da Literatura para o Cinema pela belíssima película El Cid (1961). El cantar de mio Cid é um poema épico. pôr em movimento) + grapho (“desenho”). comandando sua última batalha. que morreu em 1099. até hoje. Luis Buñuel foi para o cinema espanhol. mas só foi descoberto e publicado em 1779. do retrato. não o posso evitar. do jovem sedutor irresistível. após violentas brigas pelos direitos autorais. Logo após sua morte. a Europa fica paralisada do ponto de vista artístico. baseado na popularidade dos atores através da uma poderosa montagem propagandística. o que Salvador Dali foi para a pintura surrealista. Mas. para um público de 36 pessoas. com medo que o trem as atropelasse. XX. dando uma ilusão de realidade. a estrela hollywoodiana mais famosa. o Cinema é a arte da imagem em movimento. fundando Hollywood. Deriva do grego kinematos (“movimento”). “A chegada do trem à Estação”. Estamos ainda na época do cinema mudo. O cinematógrafo é um aparelho capaz de nos dar a ilusão do movimento. com o estouro da I Guerra Mundial (1915-1918). O cinematógrafo é de origem francesa: foram os irmãos Lumière que criaram uma máquina que atendesse às duas condições indispensáveis para o funcionamento daquela que passou a se chamar “a oitava arte”: registrar o movimento e projetar filmes. O único manuscrito que ficou remonta ao ano de 1307. dirigida por Anthony Mann. especialmente através do Surrealismo. o cinema se torna uma indústria. também . A primeira película. empresta recursos técnicos à produção de películas. Duas décadas depois. a uma altíssima velocidade. com o projeto Films d’ Art. exibida em 28 de dezembro de 1895. projetando numa tela imagens fixas. entre o inteiro e originário “cinematógrafo” e o moderno e abreviado “cine”. Nos Estados Unidos. É lá que se cria o Star System. que descrevem a vida e as ações heróicas de Ruy Diaz em suas lutas contra os mouros e as intrigas palacianas: seu exílio de Castilha. românticas e realistas. a cinematografia começa a utilizar a Literatura e o Teatro: atores famosos passam do palco para os estúdios de cinemas.

usando apurada tecnologia e criando surpreendentes “efeitos especiais”. o filme começa a falar. Independence Day (1996) e Homem-Aranha (2002). “o cinema é uma arte de voyeurismo. enquanto Hitchcock e Orson Welles ( Cidadão Kane. Aparecem novos mitos que contestam os padrões de comportamentos sociais convencionais. Um Rei em Nova York (1957). se tornou um clássico do gênero. que chega a sua magnitude com a película de Victor Fleming “E o vento o levou” (1939). como Cecil B. em quatro episódios. Todos os filmes desses seriados tiveram grande sucesso. penetrou dentro do lar de bilhões de cidadãos em todos os cantos do mundo. aos 36 anos. destruída pelos bombardeios aéreos dos Aliados e pelo terrorismo da retirada nazista.. Clark Gable. Marylin Monroe. A partir dos anos 80. foi a película de James Cameron Titanic (1997). evitando as horríveis legendas e obrigando os atores a tomar aulas de dicção. Tempos modernos (1936). inclusive pelo presidente Jonh Kennedy. Citamos. E o cinema. Em 1927. Na década de 50. ainda está envolto no mistério. entre 1913 e 1923. 1941) se tornam os mestres do filme de suspense. passou a maior parte de sua vida em Hollywood. de Visconti. Fellini. diretor e ator. que o imortalizou. apontamos na linha cronológica: Vida de cachorro (1918). Mas a figura mais importante da fase do cinema mudo é Charles Chaplin (1889-1977). Humphrey Bogart. o cômico mais humano. Ladrões de bicicletas (1946). Capra. Gary Cooper. sendo amada por personalidades ilustres. pois explora algo que é substancial ao ser humano: o espírito da curiosidade. de outro lado. E o cinema continua cada vez mais vivo. feito com poucos recursos técnicos. aproximando o cinema da poesia: Antonioni. Entre suas películas mais geniais. o avanço tecnológico e econômico dos norte-americanos se. que espiona as pessoas que estão espiando quem está à sua volta”. O avanço tecnológico proporcionou verdadeiras revoluções na técnica cinematográfica. de Rossellini. Jude Law e Renée Zellweger. de um lado. Grandes obras literárias são reestudadas e adaptadas ao mundo moderno para a realização de filmes de idéias. o Garoto (1921). Pasolini. A Hora do Pesadelo. de Mille. Mais importante é observar que o cinema se tornou o meio mais utilizado atualmente para a divulgação do nosso patrimônio cultural. Luzes da Ribalta (1952). Luzes da cidade (1931). Seu suicídio. Greta Garbo.41 foi mito do cinema por várias décadas. fantástico. e astros que se tornaram mitos: Marlene Dietrich. A Condessa de Hong Kong (1965). como Marlon Brando. James Dean. a Itália. Em busca do ouro (1925). comédia e lirismo. Visconti. produzindo filmes em séries. em cinco episódios. Guerra nas Estrelas. Sexta-Feira 13. Como ele bem disse. o cinema italiano retoma sua primazia com diretores de primeira linha que abordam problemas psicológicos e conflitos existenciais. Como afirma Brian de Palma. o cinema foi “reinventado” pelo gênio de Steven Spielberg com seus filmes espetaculares. pastelão. alimentando o imaginário masculino pela sua beleza e sensualidade. apenas como exemplo. Lubitsch. de Vittorio De Sica. Outros sucessos estrondosos foram Parque dos Dinossauros (1993). com as estrelas Leonardo de Caprio e Kate Winslet. melhorou a produção fílmica com a invenção do Cinerama e do Cinemascope. “No fim. atuando como produtor. em sete episódios. cidade aberta (1945). A terra treme (1947).T. Errol Flynn. segundo fofocas. Na década de 60.2003) do diretor inglês Anthony Minghella. encontra na arte cinematográfica a melhor forma de representar aquele momento histórico: surge o cinema “neo-realista” italiano. o cinema sonoro de Hollywood encontra uma forma de escapismo nos gêneros épico. apresentou um forte concorrente: a Televisão! Mas a diminuição do número de espectadores nas salas de cinema foi compensada pela produção de filmes feitos especificamente para serem projetados nos aparelhos televisivos. Trata- . John Ford. que trata da amizade de um extraterrestre com uma criança. entre outros. assim. Chaplin produzia filmes e interpretava o personagem “Carlitos”. o seriado de Harry Potter: Pedra Filosofal (2001). até agora. quando surgem grandes diretores. Com a crise econômica de 1929. mas o campeão de bilheteria. estrelado por Nicole Kidman. Películas imortais são: Roma. Tubarão. imitando a técnica televisiva de contar uma história dividida em vários capítulos: Jornada nas Estrelas. em dez episódios. mas com muita arte e humanidade. Pastor de almas (1923). Em 1935 é a vez do filme a cores. Outros cineastas também aderiram ao cinema-espetáculo. outro diretor norteamericano de primeira linha. O Grande Ditador (1940). Com o fim da guerra. Apenas numa década. Enquanto as maiores nações européias se massacravam. Bertolucci. Mas já estamos no início da II Guerra Mundial: Walt Disney produz outra forma de cinema escapista com seus desenhos animados. onde foi sócio da United Artists. que encantam especialmente o público juvenil. de grande sucesso mundial. A película E. Em sua obra encontramos uma mistura de sátira social e política. musical e western. tudo é uma piada”. já tinha feito e interpretado mais de 50 filmes. O Circo (1928). o recente filme Cold Montain (USA. Filho de artistas de music-hall ingleses. Sociedade do Anel (2001) e Câmara Secreta (2002). em dez episódios.

Alfred Hitchcock. o grande mestre do suspense. apregoava a volta do homem à natureza. os cínicos partiram para um anticonvencionalismo radical. continuarei escrevendo Clarice Lispector (1925-1977). em 1986. no fogo da guerra. buscando a felicidade no autodomínio dos desejos e das paixões. A peculiaridade de sua ficção é “o salto do psicológico para o metafísico”. Laços de família. põe em releve o poder ilusionista do cinema: “Se eu filmasse Cinderela. nas neves da montanha. desprezando os bens materiais. CLASSICISMO (Cânone social e artístico) O que não se parece a nada não existe (Paul Valéry) . curtem o sentimento amoroso de um modo intenso. ela tenta renovar a estrutura do gênero narrativo. A maçã no escuro. por ser a forma de arte mais nova. quer pelas viagens realizadas. fundada por Antístenes de Atenas (444-365) e retomada por Diógenes de Sínope (404?-323). o termo “cínico” adquiriu sentidos pejorativos. O cineasta italiano Federico Fellini. H. até o reencontro final. Em seus melhores romances e coletâneas de contos (Perto do coração selvagem. Clarice é a escritora brasileira que melhor possui a consciência da cultura ocidental. CINISMO (escola filosófica: Antístenes e Diógenes) Estamos mais preocupados em entender os sonhos do que as coisas que vemos acordados (Diógenes) Do grego kunós. de Faulkner. de Proust. ucraniana de nascimento. mas também com a música e a dança. quer pelas suas leituras. Os filmes “musicais” expressam ações e sentimentos pela linguagem do corpo e pelo ritmo de instrumentos sonoros. no dizer do crítico Alfredo Bosi. a platéia pensaria que deveria haver um cadáver na carruagem”. calcado no sapateado americano. a bela Ada. O cinema. Mas essa temática se torna difícil de ser percebida devido ao recurso estilístico recorrente do fluxo da consciência. A paixão segundo G. que significa “cão”. Ser “cínico” implicava em viver como um cachorro. Quer pela origem familiar. o cinismo é uma forma de vida. Mais do que uma filosofia. estabelecendo relações não só com mito. Ginger Rogers. a arte cinematográfica cria um mundo de imaginação e de sonho. dá nova vida ao teatro de variedades italiano. No rastro de Joyce. com o filme Ginger & Fred. Neste tipo de arte tornaramse famosos artistas como Fred Astaire. o animal-símbolo da impudência. cada qual obedecendo a um voto íntimo e inconfessado de fidelidade. literatura e teatro. contentando-se com o mínimo necessário para a sobrevivência. Ele disse a Alexandre. Enfim. Este último imortalizou a melodia Singing in the rain (“Cantando na chuva”Dança). indiferença e descaramento. antes de fixar-se no Rio de Janeiro. surgida pela crise dos valores humanos. Face aos egoísmos individuais e de classes e à hipocrisia da sociedade. Genne Kelly. que produziam enormes desigualdades no seio de uma coletividade. Durante os três anos de ausência. o Grande: “Quero apenas a luz do sol”. Na verdade.42 se de uma versão cinematográfica de um romance do norte-americano Charles Frazier que. adapta o mito de Ulisses e Penélope ao mundo moderno: o jovem Inman é obrigado a deixar seu grande amor para se arrolar no exército sulista e lutar contra os ianques na sangrenta Guerra Civil americana para acabar com a escravidão dos negros. Considerando que seria impossível adequar as convenções sociais e morais às exigências de uma vida segundo a natureza.) nota-se a tentativa de superar a postura egolátrica em prol da comunhão do eu com os seres e os objetos que constituem a realidade circunstante. passando a indicar insensibilidade. Ao longo dos tempos. de Virgínia Woolf. quando percebeu que podia tomar água na palma da mão. construindo todo o enredo pelo monólogo interior das personagens. que encanta o público espectador. e ele. Suas trilhas sonoras utilizam músicas de árias de Ópera ou de canções populares. aproveita de todo o passado cultural. os cínicos propunham o regresso à natureza. os dois jovens. viajou por várias cidades da Europa e dos Estados Unidos. a doutrina cínica. Diz-se que Diógenes morava num tonel e renunciara a usar o copo. o cinismo nasceu como uma radical oposição aos valores culturais. CLARICE Lispector (ficcionista de introspecção psicológica) Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas. por sua vez.

Dante enfatiza a imutabilidade do que é sagrado. culminando. mas possui a equivalência da verdade.43 A etimologia do termo “clássico’’ vem do latim classis. enquanto Shakespeare afirma a transitoriedade e a introspecção do que é humano. em que diz um as coisas que sucederam e o outro as que poderiam suceder’’ . A partir da Renascença. pelas suas peças. a necessidade de observar regras. O metro da vitalidade de um autor é o fato de ter sido imitado por outros artistas ou cientistas a ele posteriores. Esta concepção estética dominará a cultura ocidental ao longo de mais ou menos quatro séculos. a ruptura. a que se deram nomes peculiares: Renascença. quando o poeta e teórico Nicolas Boileau ditará definitivamente as normas da estética clássica. a forma mais rígida e ortodoxa. chegando lá ao apogeu na época chamada barroca. conferida pela conformidade com seus . em lugar de clássico. até chegarmos à época do Romantismo. Ariosto. pois seus personagens são a encarnação artística dos vícios e das virtudes humanas. Preciosismo. Esta conceituação de clássico como excelente. Assim. A este sentido sociológico está ligada a idéia de preeminência. modelar. o termo Classicismo começa a adquirir uma conotação estética. porque constituíam “modelos” a serem seguidos e suas obras eram estudadas nas classes das instituições escolares. Tasso e outros poetas da Renascença européia. dando início a um novo ciclo cultural. por não estar diretamente relacionada com um referente do mundo exterior. épica e simbolista. a intemporalidade da beleza artística. que completa a Bíblia cristã canônica. enquanto o vate inglês constitui o pilar da dramaturgia ocidental. Virgílio. Na França. a verossimilhança. sim. Horácio. homem da Renascença inglesa. Distinguimos uma verossimilhança “interna” à própria obra. apontamos outros pressupostos que governam a arte inspirada nos modelos greco-romanos: Verossimilhança interna e externa O princípio da verossimilhança foi estabelecido por Aristóteles quando. um mais Novo Testamento. com os poetas da Plêiade. escreve uma descontínua “Comédia Terrena”. Segundo o poeta e crítico inglês T. A obra de arte. dos cavaleiros. tornandose uma doutrina que ensina que a criação poética deve imitar os modelos artísticos construídos pelos autores greco-romanos. Rococó. o gosto pela perfeição formal. quando começa seu declínio na Itália. O crítico norte-americano Harold Bloom ( O Cânone Ocidental) usa o termo “canônico”. Junto com o preceito da imitação de modelos. Cícero eram considerados escritores clássicos. César. a longa época do Classicismo apresenta relevantes variações no tempo e no espaço. de excelência. a estética clássica apresenta outros princípios. Mas. Assim. os valores renascentistas são cultuados sós a partir da segunda metade do século XVI. Com referência às letras. afirma: “Com efeito. exemplar. Barroco. E Camões é também um autor canônico por ser o modelo em que se inspiraram vários poetas líricos e épicos de língua portuguesa que o sucederam. Para Bloom. com uma diferente concepção de vida e de arte. tais como a verossimilhança. inicia sua ascensão na Espanha. Arcadismo. por ter sido imitado pelo escritor romano Virgílio e este é também clássico por ter sido o modelo de Camões. não diferem o historiador e o poeta por escreverem em verso ou em prosa [. O critério que usa é a fortuna que os gênios tiveram ao longo dos tempos. Neoclassicismo. a conveniência. para selecionar os homens que ele considera os criadores da cultura ocidental.] diferem.S. no chamado Neoclassicismo francês. que significava uma classe social (a classe dos senadores. o poeta grego Homero é considerado um autor canônico ou clássico. por exemplo. o classicus scriptor era o autor que se distinguia da maioria pela correção lingüística e pela beleza das imagens poéticas. a cultura clássica não se desenvolveu de modo uniforme em toda a Europa. sem transcendência alguma. a partir da década de 1530. quando se dará a viragem.. A estética romântica surgirá em franca oposição à poética clássica. a Divina Comédia é uma outra Escritura Sagrada.) a que um cidadão romano pertencia e que o distinguia da grande massa do povo (os “desclassificados’’. na sua Poética. ainda hoje persiste e pertence à linguagem cotidiana: falamos de um clássico do cinema ou de uma disputa esportiva.. o largo uso da mitologia pagã. Já Shakespeare. dos magistrados etc. enriquecendo-a com a filosofia de vida medieval. os dois maiores autores canônicos de todos os tempos foram Dante Alighieri e William Shakespeare. Em verdade. Maneirismo. Basta notar que o fenômeno da Renascença. não é verdadeira. Além do princípio da imitação ( Mimese). que é a característica indicadora do ‘‘poder ser” ou do “poder acontecer”. Eliot. Homero. no início do século seguinte. O poeta italiano é o mestre da poesia lírica. a plebe).

servem mais para a compreensão do que para a criação do texto literário. contar o que aconteceu antes. tendo como centro de irradiação a França. porque se consegue alcançar o que há de essencial na natureza cós-mica e na psicologia humana. O respeito para com o público. que não ultrapasse a duração de um dia. do escritor moderno Franz Kafka. definido por Todorov como uma “hesitação” entre o estranho e o maravilhoso. confere à obra de arte clássica um caráter objetivo. o poeta francês Boileau. equilíbrio. aprenda a pensar”. A estética clássica proíbe a representação ou a descrição de ações que possam ferir a sensibilidade do receptor da mensagem artística. por exemplo. Conveniência e decência O termo pan-românico “obsceno”. cenas repugnantes e uma linguagem de baixo calão. tem um valor absoluto. a partir de lá. e o poeta ‘artífice’’. Uma verdadeira obra de arte é fruto da conjugação de dois elementos fundamentais: um dom natural. definida como ‘‘harmonia de formas”. dizemos que a obra é incoerente ou aloucada. e uma verossimilhança “externa”. O fator “racionalidade” foi bem identificado pelo codificador do Classicismo. engenho ou inspiração. a isotopia. a intensidade da ação dramática. a equivalência dos atributos e das ações das personagens. Os textos literários da época clássica seguem. têm a finalidade de estabelecer as coordenadas para caracterizar o estilo dos gêneros literários. em As Metamorfoses. O texto clássico evita tudo o que é chocante. que confere ao imaginário a caução formal do real. pelo respeito às regras do bom-senso e da opinião comum. deve-se focalizar em primeiro plano e no começo da obra um episódio fundamental e. medida. tem sempre uma explicação de ordem religiosa ou mágica. de um modo geral. representada num único cenário. aproximando-se do não-sentido. pois a criação artística é o resultado de um longo trabalho de estruturação formal. através do processo técnico da retrospecção. é outro postulado da estética clássica. O assunto de uma peça teatral deve concentrar-se numa única ação importante. a transformação de Lúcio em asno é explicada pelo fato de que o jovem protagonista tomou uma bebida preparada por uma feiticeira. Observância de regras Para disciplinar o ato criador. Se faltar a verossimilhança interna. a homorritmia.44 postulados hipotéticos e pela coerência de seus elementos estruturais: a motivação e a causalidade das seqüências narrativas. codificadas por Boileau na sua obra L’Art poétique. pois apresentam uma grande coerência formal e semântica. Essas regras. Sem elas seria difícil individualizar a grandiosidade do estilo épico. apesar de tratar de crimes monstruosos. tudo aquilo que não pode ser apresentado no palco perante o público. o princípio da verossimilhança interna. a íntima comoção do gênero lírico. etimologicamente significa ‘‘fora da cena’’. A beleza clássica. imutável e universal. de tempo e de lugar. a estética clássica confere uma maior importância ao segundo elemento.. A tragédia grega. Entre o poeta “inspirado”. Essas e outras regras de composição. o paralelismo etc. desde que tenha uma cultura geral razoável. do escritor latino Apuleio. grosseiro. Razão e labor A concepção do ato criador como esforço lúcido. ao dizer: “antes de escrever. O artista deve deixar-se guiar pela razão. entramos no domínio do gênero fantástico. Daí a sua inteligibilidade: os elementos formais e os conteúdos ideológicos da obra clássica são facilmente compreensíveis por um receptor. e um elemento adquirido. por exemplo. de que fala Platão. independentemente do tempo e do espaço. que não se preocupa nem um pouco com o cânone da verossimilhança. vulgar. XVIII. isto é. A lucidez intelectual. faz com que os autores clássicos evitem atos indecorosos. isto é. que chamamos de aptidão. segundo a concepção de Aristóteles. dominaram na cultura européia durante a segunda metade do séc. que os franceses chamam de bienséance. Por exemplo. que disciplina os impulsos da imaginação e do sentimento. aliada à prática de uma longa aprendizagem. já na Metamorfose. É preciso entender que as tão criticadas regras da estética clássica têm um valor mais didático do que prescritivo. embora arbitrárias e definidas a posteriori. não é fornecida nenhuma explicação pela repentina transformação de Gregor Samsa num inseto hediondo. Quanto à verossimilhança externa. O chamado “neoclassicismo” francês produziu obras maravilhosas nos vários . não apresenta nenhuma cena de sangue: as ações violentas acontecem fora do palco e os espectadores são informados pela fala dos atores e do coro. o poeta clássico segue normas técnicas ditadas pela tradição da composição literária. hediondo. o gênero dramático deve seguir a lei das três unidades: de ação. entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. XVII e a primeira metade do séc. se faltar a verossimilhança externa. entendida como bom-senso. Assim. o recurso ao fantástico. que é a técnica ou arte. quando acontece. A longa narrativa do gênero épico deve começar in medias res.

de Dante Alighieri. nem ao épico. embora se chame “Comédia” e seja considerada como a epopéia italiana. com a perda da independência política da Grécia. não desapareceram por completo. como outras formas dramáticas. É bom lembrar. acrobata. coroado de flores. pelo uso do vinho. Baco. dramaturgo e ator. surgem dois dramaturgos de projeção internacional: Lope de Vega e Calderón de la Barca. No século VI a. músico. cômica ou trágica. era carregado em procissão. drama greco-romano)DanteBalzac Castigat ridendo mores Assim como a Tragédia.). que propiciavam evoluções coreográficas próximas de encenações dramáticas. A relação do kómos com a vida sexual é evidenciada pelo fato de que cantos semelhantes eram retomados nos ritos matrimoniais: durante as festas de casamento ( gamos). A primeira forma de comédia completamente estruturada. cantor. Na Renascença. gigantes. a fábula de La Fontaine. é duvidosa: a opinião mais aceita é que a palavra Komoidía derive de kómos (procissão festiva) e oidé (canto).). imitando os escritores clássicos greco-romanos e renascentistas. representado por um enorme fálus. de certo. momos. o espírito satírico dos cantos dionisíacos. chamada de “velha” para diferenciá-la de outro tipo cultivado por Menandro mais tarde. sátiros.C. recitando poemas licenciosos e caçoando de seus defeitos. o fato é que nenhuma peça. dançarino. das 108 peças que ele escreveu. La Mandragola. segundo uma seqüência de ações chamada Kómos. com o mesmo nome de kómos.C. o poeta Epicarmo. dois elementos dessas festas religiosas concorreram para o surgimento da Comédia: de um lado. tentando reaproximar o teatro da realidade humana. chegou até nós. o retorno do vigor sexual.. estando submetido às "moralidades". é relevante o teatro de Gil Vicente. deu origem ao drama cômico na Grécia. cujo mestre foi Menandro (342-292 a. A estrutura e a temática da comédia de Menandro foram conhecidas através das obras dos imitadores latinos Plauto e Terêncio. Esse tipo de comédia. A comicidade ficava a cargo do menestrel que era. inclusive levando para o palco o nome de ilustres cidadãos de Atenas. Na Idade Média. o drama satírico se reduziu à caricatura da vida social e moral da classe média. Os espetáculos profanos. com ela. Infelizmente. feiras livres. Nos festivais ithiphállicos. o maior comediógrafo do Setecentos italiano. reagiu contra os vulgares estereótipos da “Comédia de Arte”. porém. tendo a missão de divertir o patrão e o público com suas extravagâncias e tiradas hilariantes. enfeixando tais manifestações orgiásticas num enredo. não pertence nem ao gênero dramático. junto com outra divindade amiga. os movimentos histriônicos dos participantes das procissões. os gregos adoravam o deus da alegria que. só restam alguns fragmentos. de Nicolau Maquiavel. O deus Kómos era representado como um jovem belo e ruborizado. chegavam até a casa dele. produzida na Idade Média. enfim todos os devotos mascarados simulavam disputas e brigas. participava do cortejo de Baco. à chamada “comédia nova”. nos castelos senhoriais. ao mesmo tempo. Tratar-se-ia de um canto religioso pelo qual os camponeses gregos festejavam a chegada da primavera e. mas ficaram confinadas ao interior dos feudos. em plena época barroca. Sua etimologia. que “todo verdadeiro criador é clássico”. Mas o maior poeta dramático do Neoclassicismo (e talvez de todos os tempos) é o inglês Shakespeare. Carlo Goldoni. no século III a. COLOMBO (as Grandes Navegações e a Revolução Comercial)Renascimento COMÉDIA (teoria dos gêneros. Na Espanha.. é o primeiro exemplo de comédia “burguesa” da era moderna. praças públicas. visando apontar os caminhos da salvação da alma. De qualquer forma. A Itália renascentista e barroca cultivou mais o gênero cômico do que o trágico. La Divina Commedia. bebendo e dançando. é um vasto poema “didático-alegórico” (Dante). seguindo os moldes clássicos e o exemplo de Molière. assim. enquanto o povo entoava cânticos de agradecimento. o gênero cômico. A obra mais importante produzida na Baixa Idade Média. com o dramaturgo Eugène Ionescu. os amigos do noivo. palhaço.C. a Comédia tem suas origens relacionadas ao culto do deus Dionísio (Baco).. Chegamos. Acrescente-se ainda que. de outro.45 gêneros literários. acabou sendo proibido por lei. quando as artes em geral se emanciparam dos dogmas eclesiásticos para aderirem . Momo. Em Portugal. homens gordos. não teve vida própria. feita de ataque pessoal. teve como poeta maior Aristófanes (445-386 a. peças de fundo didático. em procissão. Em verdade. vícios ou fraquezas. Veja-se a tragédia de Corneille e Racine. E. a comédia de Molière.C.

Molière colocou sua arte a serviço da luta contra a hipocrisia das convenções sociais. diretor e produtor de peças. geralmente apresentando um casal de namorados em luta contra a proibição paterna. a gargalhada. Moliêre foi um homem que dedicou sua vida exclusivamente ao teatro. Com o início do Romantismo. feita . o riso de barriga. saco de pancadas). A comédia shakespeariana é o resultado da elaboração artística de elementos provenientes do teatro latino de Plauto. que exploravam os costumes e as peculiaridades de cada cidade que visitavam. A França do Neoclassicismo oferece à humanidade o maior escritor de comédias de todos os tempos: Jean-Baptiste Poquelin. Podemos afirmar que. Colombina (moça bonita e leviana). provocando o ódio e a vingança dos moralistas e dos beatos. obraprima do teatro renascentista italiano. A tempestade. o soldado fanfarrão. a partir do início do nosso século: o cômico de pastelão do cinema americano com a famosa dupla do Gordo (Oliver Hardy) e o Magro (Stan Laurel). a partir da segunda metade do século XVIII. entre as quais destacamos: Sonho de uma noite de verão A megera domada. O tipo de comédia mais cultivado no séc. desejoso da paternidade. Mas tal variedade era limitada por recursos técnicos repetidos: o uso de máscaras. em consonância com a máscara que usavam. no vestuário. Plauto e Terêncio. é atribuída ao imortal dramaturgo inglês a autoria de dezesseis comédias. como music-hall. a crítica do american way of life. já não existem mais comediógrafos. trajes carnavalescos. a comédia recuperou o antigo fulgor da época greco-romana. o maior expoente do teatro elizabetano. Na Itália. foi o de capa e espada: El Acero de Madrid. Além das tragédias e dos dramas históricos. a figura profundamente humana de Carlitos. oferecendo uma beberagem para sua mulher engravidar. O avarento (imitação da Aulularia de Plauto: exploração do tema da avareza). um tipo de comicidade popular. ou transferiu-se do palco para o circo ou para a tela do cinema. o primeiro teatro público urbano com o palco coberto e o lugar da platéia a céu aberto. cultivavam o preciosismo na linguagem. Arlecchino (criado esperto). na etiqueta). Muito barulho para nada. Lope de Vega (1582-1635) e seu discípulo Calderón de la Barca (1600-1681) criaram a chamada comedia nueva. o velho libidinoso. de Buster Keaton. a imortal personagem criada por Charles Chaplin. O misantropo (denúncia da falsa moralidade apregoada pela rígida ética jansenista). a comédia teatral perdeu sua força de gênero distinto. ainda hoje constantemente representada ou imitada nos palcos e nas telas cinematográficas: Nícia. pois a tragédia e a comédia se fundiram no drama moderno. Na Inglaterra brilhou o gênio de William Shakespeare (1564-1616). enquanto o inglês produziu também excelentes peças de Tragédia. Tartufo (um hipócrita que enriquece à custa da credulidade de alguns beatos). Pulcinella (sujeito falador e mentiroso). tendo sido autor. mais conhecido pelo pseudônimo de Molière (1622-1673). anulando-se no drama burguês. na Espanha. marido de Lucrécia. As variações eram facilitadas por tratar-se de companhias itinerantes. nos salões literários. teve ilustres cultores. Mattamoro (exterminador dos mouros). destacamos: As preciosas ridículas (investida contra as damas da sociedade parisiense que. Escola de mulheres (ataque contra a falsa moralidade das senhoras da sociedade). ator. Criaram-se. junto com a hilaridade cruel do realismo burguês. destacando-se Nicolau Maquiavel (1469-1527) com sua comédia A Mandragora.XVI.46 à ideologia humanista. mas apenas dramaturgos. de Lope de Vega. Entre as suas 28 comédias. a ópera-bufa. As alegres comadres de Windsor. Pantalone (comerciante vítima das burlas da esposa e do amante dela). da farsa medieval e do teatro popular da renascença italiana. deixa-se enganar pelo jovem Calímaco que. Os atores acabavam fixando-se num único papel. A partir de um simples esquema de enredo (canovaccio). chamado “Commedia dell’ A rte”. o criado astuto. Brighella (criado burro. na mesma península italiana. estereótipos inconfundíveis. os intérpretes improvisavam diálogos e achados cômicos ao sabor das circunstâncias. A comicidade passou a ser expressa por formas teatrais mais populares. com a diferença de que o escritor francês se sentiu atraído apenas pelo drama cômico. pantomima popular. Don Juan (sátira do casamento e da fidelidade conjugal). assim como fora cultivado por Menandro. a chamada “comédia de arte”. Tudo está bem quando bem termina. o vaudeville. assim. mas. Dottore (advogado gago e charlatão). aproxima-se dela com a ajuda do frei Timóteo e do amigo Ligúrio. O assunto licencioso acusa as influências do Decamerón de Boccaccio. a moça leviana. o modelo clássico de comédia. Na Espanha. Paralelamente a esse tipo de comédia clássica. surgiu e se desenvolveu. que se libertou da tradição cênica medieval e das regras aristotélicas e foi representado nos corrales. Como Shakespeare. há cenas de rara beleza idílica. por permitir aos atores os recursos da improvisação. E a comicidade era garantida pelas próprias “máscaras”: tipos fixos cujo simples aparecimento em cena já provocava as gargalhadas da massa popular: Capitan Spaventa (oficial espanhol brutal e fanfarrão). como o jovem apaixonado. Escola de maridos (imitação dos Adelphoe de Plauto: questionamento sobre a educação dos filhos).

em linguagem psicanalítica. No Brasil. o núcleo problemático do enredo se resolve com a punição e a conversão dos culpados. Chico Anísio. O juiz de paz na roça. Oscarito. no fim do século passado (O mambembe. que teve atores cômicos do gabarito de Grande Otelo. o princípio da autoridade. não deixa de ser uma forma de estimular a correção das deficiências individuais e sociais. a comédia deve apresentar o racional e o justo. Enfim. Quer dizer. a ação da comédia move-se da lei para a liberdade. embora impregnada do espírito dionisíaco ( Dionísio). ao passo que as personagens da tragédia e da poesia épica são seres superiores (heróis guerreiros. a burocracia estúpida. era a representação dos vícios e das virtudes do homem "ignóbil" (sem nobreza). isto é. portanto. nos programas humorísticos da televisão (Juca Chaves. a comédia. entre outros. não como ela é na realidade. assim. Jô Soares). da fantasia. ao final apresenta uma clara manifestação do espírito apolíneo (Apolo). a comédia representa a “tragicidade” das pessoas comuns. Nesse sentido. o palavreado estéril dos sofistas. ridicularizando as inconseqüências e incongruências.) e a vitória sobre eles representam. de um certo ponto de vista. deuses e semideuses) e perseguem um fim nobre. A mesma intenção teve Honoré de Balzac ao descrever a sociedade burguesa da Paris oitocentesca. varões de ilustre prosápia. o principio do happy end. relaciona a comédia com o mito da Primavera: a sociedade dos jovens rebela-se contra a sociedade do senex. denominando sua coletânea de romances de Comédia humana.47 pelo cômico Jerry Lewis. Está declarado. a comédia se diferencia da tragédia por dar maior importância à personagem “Prólogo” e anular quase completamente a função do coro: como o assunto e as personagens da peça cômica não eram conhecidos de antemão pela platéia. contrariamente à tragédia. da pureza dos sentimentos. O noviço). sendo os mitos de conhecimento público. do desejo da realização amorosa do casal de jovens. Outro aspecto característico da comédia é o seu fim moralizante. as personagens da comédia imitam ações iguais ou inferiores às ações praticadas pelos homens comuns. no teatro de revista de Artur de Azevedo. pois os obstáculos foram eliminados para sempre. implícito na sátira. a comédia. quando Aristófanes satiriza os políticos corruptos e demagogos. o estudioso norte-americano Northrop Frye (Anatomia da crítica). a arte cômica dificilmente tem por escopo a mera diversão. Apontar as falhas estruturais e circunstanciais da sociedade. É por isso que. o velho avarento ou luxurioso etc. que é o fecho de ouro da maioria das comédias. Por essa razão. Segundo a teoria clássica. quanto ao coro. tem em mente defender a verdadeira realidade desejada para o Estado. a libertação dos impulsos reprimidos. O casamento dos protagonistas. A Capital Federal). Aristóteles afirma que a comédia é a passagem da infelicidade para a felicidade. que é a passagem da felicidade para a infelicidade. Isso porque o conteúdo colocado no término da peça cômica é sempre o triunfo do sonho. já na tragédia. a moral retrógrada e hipócrita. Embora não pareça. Na comédia. estruturalmente. em oposição . sugere que a felicidade conquistada será duradoura. a recuperação do riso perdido da infância. fazia-se necessária uma introdução explicativa. Tal conteúdo é profundamente ideológico. a figura do Prólogo era dispensável. pois mostra a vida como desejaríamos que fosse. Num outro lugar da Poética. Zé Trindade e Ankito. A luta contra os personagens agressores (o pai tirano. triunfando os valores ideológicos do amor. o gênero cômico encontrou seus melhores cultores no teatrólogo romântico Luís Carlos Martins Pena. no ensaio sobre a teoria dos arquétipos. na "chanchada" do nosso cinema nacional. Foi nesse sentido que se entendeu o termo “comédia” na Idade Média e no período clássico da cultura moderna: Dante Alighieri intitulou seu imortal poema didático-alegórico de Comédia (o adjetivo “Divina” foi acrescentado posteriormente pelo contista Boccaccio. a comédia recebeu um lema em língua latina que ainda hoje tem seu valor: castigat rídendo mores ("corrigem-se os costumes pelo ridículo"). as contradições e os absurdos com que o homem é obrigado a conviver. a mania das discussões forenses. ridicularizando a valorização desmedida do dinheiro. uma das características fundamentais do gênero cômico. querendo dizer que tratava apenas da vida cotidiana e dos problemas existenciais dos cidadãos florentinos de sua época. da terra estéril para a vitória do amor e da vida. mais do que ligada ao ridículo. com suas comédias de costumes (As casadas solteiras. a moderna comédia do cinema norte-americano. Como toda forma artística autêntica. que vigorou por um longo tempo na tradição cultural do Ocidente. do velho agressor. com filmes antológicos como Deu a louca no mundo e Um convidado bem trapalhão. Assim. na gozação. enfim. a Religião e a Arte. a natureza do assunto da comédia dispensava as graves reflexões sobre os acontecimentos. na ironia. A essência do cômico Aristóteles nos dá a primeira pista para individualizar o gênero: a poesia cômica pertence à “mimese inferior". seu admirador). No barroco italiano. por exemplo. da virtude.

Ele incentivou o culto aos mais velhos. da palavra chinesa tao = “caminho”. embora tratado de forma leve. fundou o Taoísmo. especialmente entre sociedades de cultura chinesa. na comédia. que contrasta com a tragédia. existe um riso de escárnio. COMPUTADOR (Internet)Informática COMTE (filósofo francês)Positivismo COMUNISMO (utopia socialista. Daí o conhecido achado de que a tragédia faz com que o espectador se identifique com o personagem. O riso cômico ocorre ao se pôr em evidência a diferença entre a realidade e a idealização da vida: o velho que se obstina em namorar a mocinha. sendo a intuição do absurdo. (551-479). geralmente focalizando os problemas contemporâneos do autor. entre o fim e os meios. também chamado “Laozi”. de pessoa a pessoa. Mais importante do que tudo é o amor ao trabalho bem executado. temos uma relação de estilo grave. A comédia mais elevada é a das idéias ou da sátira de costumes: ela estimula um riso reflexivo. Com a difusão da civilização chinesa. a força. quando o espectador rejeita a personagem-protagonista. próprio do drama trágico.48 vitoriosa contra todos os inconvenientes e contra tudo o que há de insensato na realidade existencial. em sua Estética. Lao-tse. de desprezo. a justiça social. como gênero cultural. Shakespeare. verossímil. verte sempre sobre um assunto sério. Isso nos lembra um pouco a oposição entre . Edward Wright (Para comprender el teatro actual) aponta os meios mais comuns de que se serve a peça cômica para suscitar o riso: os estratagemas do argumento. URSS) Marx CONFÚCIO (Mestre chinês: I Ching. distingue o “ridículo” do “cômico”: todo o contraste entre o essencial e a representação exterior. O dramaturgo Ionesco quase anula a diferença entre os dois gêneros: “o cômico. Stalin. visando a integração do homem com a natureza.VI e V a. contemporâneo de Confúcio. essa moral severa e conservadora do “confucionismo” se espalhou pelo Extremo Oriente. Mas.C. Outro Mestre chinês. O princípio Yang (“brilho do sol”) simboliza a masculinidade. deve-se reparar que nem todo riso é cômico. a harmonia entre os dois princípios universais. O Taoísmo é uma religião e uma filosofia de vida. situando-se num mundo do qual ele se julga distante. estando centrados na idéia de que duas coisas são fundamentais: o aperfeiçoamento de si próprio e o conhecimento da realidade. a incongruência das personagens. Lao-tse. vigorando ainda hoje. coreana e japonesa. em oposição ao Yin. Diferentemente. séc. a verdade. cada qual tornando-se útil à comunidade. as melhores comédias são aquelas que apresentam problemas universais: daí a eterna modernidade das peças cômicas de Plauto. pode ser ridículo. Taoísmo) Buda “A nossa glória não está em nunca cair. o elemento frio. o que caracteriza o cômico é o bom humor que permite ao homem elevar-se acima da própria contradição. enquanto. a hipocrisia de quem condena nos outros o que ele mesmo faz ocultamente. refere-se ao relacionamento palco-platéia. Entretanto. Molière. o sábio indiano seu contemporâneo. sem nenhuma preocupação metafísica. a lua. acaba atingindo o universo todo. Chamado “Venerável Mestre Kung”. irremediavelmente. Sua finalidade é mostrar o caminho correto ( tao). com uma riquíssima liturgia. o calor. os infortúnios físicos. ele identifica o personagem com seu vizinho. etc. Quando o espectador pode se envolver com a personagem. o engenho verbal. que leva ao absoluto. pelo contrário. O tema. o altruísmo e a beneficência. Seus pensamentos nos foram transmitidos pelos discípulos. o Yin e o Yang. me parece mais desesperador que o trágico”. de desespero etc. de modo a quase se identificar com ela.C. mas em levantar toda vez que caímos”. a racionalidade. Diferentemente de Buda. se a comédia. As virtudes a serem praticadas são a honra. Confúcio era mais filósofo e pedagogo do que religioso e pregador. Lênin. Hegel.IV a. a obscenidade. numa coletânea de aforismos ( Analectos: c. “Quem não sabe o que é a vida – ele perguntava – como saberá o que é a morte?” O enriquecimento interior de cada um se expande ao seu redor e. Confúcio. que representaria a feminilidade. o instinto individual. a claridade. o dinheiro do avarento que adquire um valor de culto e não apenas de troca. pela prática de um severo código de conduta.). estamos perante um relacionamento de estilo cômico. se propõe estimular o riso. Outra característica da comédia. em vez de sofrer e sentir-se infeliz e desgraçado. à família e ao Estado. viveu na China entre o séc.

facas). sustentase apenas no princípio da autoridade: a verdade sobre a criação do mundo. realizar um bom jogo de futebol. construir pontes. Trata-se de um dos primeiros esforços da mente humana para encontrar seu lugar no Universo e tentar arrumar as razões para explicar fenômenos e comportamentos. com ou sem o “s” inicial: scienza. A Bíblia (os livros sagrados do Velho e do Novo Testamento) contém o conjunto das doutrinas supostamente reveladas pelo deus do Judaísmo e do Cristianismo a profetas. não confundir o conhecimento empírico vulgar. da criação de animais. do grego tecné. tem como fundamento a “crença”. scientific. cuja tradição oral teve início com o prórpio nascimento da China. Nas sociedades modernas. agnóstico. constitui a religião autóctone da China. a ponto de se falar de “budismo chinês”Buda. o medo da escuridão. o saber “como” fazer algo e conhecer os meios para a realização de tarefas. do dia-a-dia. outros sistemas religiosos (Budismo. os dois movimentos ético-religiosos chineses estiveram sempre em luta contra credos e filosofias estrangeiras.I d. a aprendizagem é indispensável para qualquer atividade humana. É preciso. ignorante. a fé em seres sobrenaturais. Mas. por não ter nenhuma fundamentação lógica ou racional. científico. da observação ingênua. pinturas).. a origem e o destino do homem. Mítico. estudado no verbete próprio. Técnico. Islamismo etc.1500 a. a satisfação que nos proporcionam a bebida e a comida. histórias fantásticas inventadas para explicar a origem de fenômenos naturais ou de comportamentos humanos. do grego empeirikós. do cultivo da terra. cognição. o homem aprendeu a técnica da pesca. de cujo acusativo participial “scientem” se originou uma família de termos nas línguas modernas européias. do grego mithos (Mito). que surgiu quase na mesma época. science. O conhecimento técnico está na base da profissionalização. Enquanto a doutrina taoísta está mais ligada à religiosidade. que serve principalmente para satisfazer os dois instintos fundamentais. quer de uso. néscio etc. deixou marcas profundas na sua cultura. O Taoísmo. taoístas e confucionistas reuniram-se e.) exigem o ato de fé: . CONHECIMENTO (teoria e tipologia do saber)Método Pensar pede audácia. Podemos distinguir diferentes tipos de conhecimento: Empírico. um filão da especulação filosófica. o Confucionismo se configura como um código educacional.). pois requer a intervenção da razão que estabelece regras de procedimento para a fabricação de objetos ou o exercício de diversas atividades. que pode ser traduzido por “saber fazer”.C. para a fabricação de qualquer objeto. é comum a todos os seres vivos. VII e o IX. apesar das diferenças entre si. quer de arte.49 Classicismo e Romantismo (ou do apolíneo e dionisíaco) na cultura ocidental. bem como seu comportamento moral. O Budismo. todavia. Assim. junto com o Confucionismo.. da fabricação de objetos de uso (sapatos. ciência. apóstolos e evangelistas. Sem técnica não seria possível fazer cinema. através de perseguições sangrentas. da prática cotidiana. humanos.C. com o Empirismo teórico. tendo seu apogeu entre o séc. teológico ou religioso em geral. teria sido revelada por entes superiores a seres privilegiados. das sensações. que se serve da “experiência”. que da Índia se estendeu pela China a partir do séc. que tem suas antigas origens no I Ching (o “Livro das Mudanças”: c. sendo até hoje característico dos agrupamentos tribais. que tem como cognatos os verbos noscere. ciente. Da mesma forma. que teriam criado o Universo e ditadas as normas do viver em sociedade. porém. da cura de doenças. È o know how. Para derrubar seu poderio. conseguiram debelar as forças da religião estrangeira. de rituais para o convívio social e o culto religioso. pois refletir é transgredir a ordem superficial que nos esmaga (Lya Luft) Do latim cognoscere. da caça. discente. ao longo da sua evolução existencial. Tal conhecimento. scire. de culto (templos. O conhecimento mítico. animais e vegetais. a conservação própria (pela alimentação) e a conservação da espécie (pela cópula). estátuas de divindades) ou de arte (poemas. O principal rival do Taoísmo e do Confucionismo foi o Budismo. o prazer da conjunção carnal etc. todos relacionados com a faculdade da mente humana de perceber objetos pela inteligência ou pela experiência. proporcionado pela “aprendizagem”: este tipo de conhecimento já não deriva apenas do instinto. das sensações que o contato com o mundo exterior estimula em nós: o sentido do calor à aproximação de uma fonte de energia térmica.

da óptica. do grego philos (amigo) e sophia (sabedoria). retórica.50 a pressuposição da intervenção sobrenatural na criação do mundo (Cosmologia) e no regimento da vida em sociedade (Ética). Mas. primitiva ou civilizada. era comum encontrar homens com um saber enciclopédico. vários pensadores criaram sistemas filosóficos globalizantes. que o pensamento abstrato peculiar da pesquisa filosófica. que investiga a essência do belo e suas relações com o útil. Científico. portanto. a verdade? Qual é o fundamento do sentimento ético? A felicidade reside no exercício do livre arbítrio. além do imortal pintor do quadro Mona Lisa. Filósofo. são o Idealiasmo e o Materialismo. pois não existe nenhuma sociedade. física. qualquer sentimento religioso. o homem culto. os bons sendo premiados e os maus punidos. A característica principal do conhecimento científico é o método rigoroso de investigação. a dor fomentam o desejo da existência de outro mundo. além de filósofo. de indivíduos ou de grupos étnicos. formulando leis e dominando os elementos naturais. do étimo latino scientia. uma ofensa contra a inteligência humana. que tem como objeto de pesquisa a natureza da verdade. astronomia. sustentáculo próprio do saber teológico. físico. por suposto. sonhando com a continuação da vida num além e imaginando a alma como uma entidade imortal. a injustiça. sociais. a fome. De onde se originou o cosmos? Existe outra vida após a morte? Matéria e espírito são inseparáveis? Além da aparência existe uma essência das coisas? O que é a consciência. foi também poeta. ou na observância dos preceitos sociais? Para responder a essas e outras perguntas existenciais. podendo viver separada do corpo perecível. sempre em benefício do homem. porque o homem não conseguiria suportar a angústia da existência. mas mediante o raciocínio lógico. a Lógica. não por meio da crença numa revelação transcendental. num sentido estrito. as normas morais do comportamento humano. Portanto. animais. porque toda religião é válida apenas para quem acredita nela. vegetais e minerais. satisfazendo os instintos individuais. classificando as espécies humanas. É uma verdade indiscutível que o sentimento religioso é conatural ao ser humano. É preciso aceitar o fato incontestável de que não existe nenhuma religião “ortodoxa”. ética. Até à Renascença. num sentido amplo. que constituíram a espinha dorsal do saber filosófico. próprio do saber religioso. cartógrafo. a Estética. sangrentas lutas religiosas envergonharam e continuam envergonhando até povos considerados civilizados. pela “razão” ou pensamento reflexivo. suplantando assim quer o princípio da autoridade. o homem tenta suplantar o princípio da autoridade. devendo a liberdade de culto ser uma norma inviolável. a maldade. política. estética. Por este tipo de conhecimento. a Ética. em sentido absoluto. a confiabilidade do saber. humanas etc. Lutar para suplantar um credo por outro é um ato de insânia. arquiteto. a razão. da acústica. Mas. Toda religião é uma utopia salutar. visando a compreensão de seus fenômenos. o homem exercitou sua inteligência em várias áreas do saber filosófico: a Cosmologia. por exemplo. que analisa os conceitos do bem e do mal. Aristóteles. a palavra ciência diz respeito a qualquer tipo de saber: por isso falamos de ciências físicas. Outro motivo da crença na divindade é a impotência do indivíduo em resolver seus problemas existenciais: a doença. do certo e do errado. Na época greco-romana não havia uma distinção clara entre as várias atividades do espírito: era chamado de “sábio”. que tiveram suas origens respectivamente no pensamento de Platão e Aristóteles. Exemplo luminoso foi o italiano Leonardo da Vinci que. na sua forma mais extrema. Sua finalidade é a busca da distinção . escultor. escreveu obras sobre poética. na tentativa de responder de forma coerente a todas essas indagações. em lugar e tempo algum. se conforma com o absurdo da morte. E isso porque homem nenhum. Os dois sistemas mais importantes. infelizmente. é quem procura respostas para os interrogativos fundamentais da existência. que formula hipóteses para explicar a origem do universo. é o criador da vida!  Religião. que não acredite em seres sobrenaturais ou que não pratique alguma forma de culto. da hidráulica. que estuda as regras do raciocínio correto para se chegar a qualquer tipo de conhecimento verdadeiro. induz o fiel a matar ou a matar-se em nome de Deus que. Através dos tempos. porque espiritual. não é assim: ao longo da história. o termo científico relaciona-se apenas com o estudo da natureza física. quer dizer verdadeira. o método correto de investigação. geólogo. deve ser respeitado. tendo inventado maquinárias que o tornaram precursor da aviação. a Epistemologia ou Teoria do Conhecimento. zoologia. aquele que sabia das coisas. se não acreditasse na possibilidade de uma vida melhor após a morte. servindo-se da “observação” e da sucessiva “experimentação”. Filosófico. praticada por todos os povos. O fanatismo religioso. onde seria feita justiça.

Isso não acontece com o ser ficcional que. A arte seria. Alcançar um saber é a finalidade primordial de qualquer atividade humana. ouvir uma sinfonia ou uma canção. vivendo de uma forma hipócrita. portanto. na ambigüidade. ainda admiramos estátuas gregas. podendo atingir a própria contradição: algo pode ser e não ser ao mesmo tempo. o eterno. séculos após séculos. Explicamos: o ser humano. porque não nasceu da união carnal de um homem e de uma mulher. de Machado de Assis. A obra de arte nunca encerra um único sentido. é vítima das normas sociais e dos preconceitos morais. Isso explica por que. faz-se uma rigorosa experimentação e só então se formula uma lei que não admite contestação. biológico etc. Pelo sentimento do pudor ou por medo de sofrer sanções. assistir a um filme ou a uma peça teatral.) se servem da observação e da comprovação. pois o fato é ou não é. “Ficcional”. teatro etc. Enquanto a verdade científica é unívoca ou monológica.) têm como meio de expressão a fantasia. E por ser uma entidade espiritual. não se admite mais discussão. ainda representamos tragédias de Shakespeare. a imortal personagem do romance Dom Casmurro. O que diferencia a aprendizagem científica da artística é apenas o meio utilizado: enquanto os vários tipos de conhecimento científico (matemático. cinema. da inteligência criadora de seu autor. observa-se a freqüência de sua repetição. sem nunca manifestar nossas aspirações mais secretas. não estando sujeita às leis do tempo e do espaço. sendo possíveis várias e diferentes interpretações. Admirar um templo ou um quadro. Eis a estrofe. integrados no convívio social. não é um ser existente no plano da realidade material. uma bela mentira. O que irmana todas as artes é o recurso à ficção. o objeto de arte adquire sentidos sempre renovados. que contrariam as convenções ético-sociais. visto que. peculiar de seu estilo. fantasioso. Muito pelo contrário: a figura de Capitu é mais autêntica do que qualquer mulher do mundo da realidade. atingindo o universal. embora possa aumentar de tamanho). na polifonia. portanto. Mas o fato de não ser real não quer dizer que a personagem de ficção não seja verdadeira. mas é apenas fruto da fantasia. Morreu o autor.51 entre o verdadeiro e o falso por meio de uma demonstração irrefutável. a gente acaba ocultando as idéias e os desejos mais recônditos. o absoluto. pintura. assim como a Filosofia e todas as Ciências. ao uso da máscara psicológica de seres bem comportados. Assim. ainda nos encantamos com versos do poeta latino . pois objetivamente documentada. ler um poema ou um romance. o magnetismo terrestre atrai os corpos sempre para baixo) etc. Uma vez observada a ocorrência de um fenômeno. cognato de fictício. a imaginação. falso. Outra peculiaridade do conhecimento artístico é sua polissemia. pode significar inexistente. Segundo a bela expressão do escritor Franz Kafka. tudo isso importa em captar uma parcela de sentido do mundo. tanto que Fernando Pessoa. Dependendo do grau de cultura e de sensibilidade de quem o admira. da física (pela lei da gravidade. são absolutamente verdadeiros alguns princípios da matemática (a soma é maior do que suas partes). Credulidade e raciocínio são superados pelo experimento! Artístico: a Arte é uma forma de conhecimento da realidade. o conhecimento artístico está centrado no dialogismo. uma vez descoberto e comprovado o princípio ou a lei. não está sujeito a apreensões ou ao medo de sofrer penalidades. mentiroso. mas não sua criatura artística. a possibilidade de captar múltiplos sentidos ao mesmo tempo ou em espaços e épocas diferentes. as várias formas de arte (literatura. chama o poeta de “fingidor”. no poema “Autopsicografia” de seu Cancioneiro. físico. ela tornou-se imortal. além de imaginário. por ser apenas fruto da fantasia. A compreensão das formas e dos conteúdos de uma obra de arte literária ou plástica é inesgotável. Tal liberdade faz com que as criações artísticas possam exprimir as verdades mais profundas do ser humano. usando a figura do paradoxo. da geometria (um quadrilátero conserva seus lados sempre iguais. Recorremos. que cada obra de arte tem dentro de si. que são muitas vezes inconfessáveis. que se tornou famosa: “O POETA é um fingidor. da estatística (o número dos homens casados é exatamente igual ao número das mulheres casadas). dependendo da perspectiva. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente” Só que o conhecimento artístico é falso apenas no plano histórico ou da realidade física: Capitu. químico. em carne e ossos. “a Literatura é sempre uma expedição à verdade”. do ponto de vista do leitor ou do espectador.

ainda na fase da oralidade. Os poemas de Homero para os habitantes da Grécia antiga. 8) contos acumulativos. tinham o papel fundamental de ensinar os homens a viver em sociedade. 10) natureza denunciante: um ato criminoso é revelado por um elemento natural. então para que fazer?”. a justiça. um especialista do assunto. deve seguir o mesmo processo: a informação inicial tem que ser trabalhada para levar ao conhecimento por dentro. não a verdade factual. anedotas e patranhas. A história ficcional é ambígua porque na arte não importa a resposta. da carochinha e de magia. Isso porque o ser artístico transcende o padrão individual. no início da década de 1930. a beleza física e espiritual. mas o questionamento. 11) demônio logrado: a vitória sobre o princípio do mal. Ainda hoje. 0 método Aarne-Thompson individualizou 2 499 motivos. apresenta uma outra classificação temática: 1) contos de encantamento. I . 4) contos de animais: as fábulas. o começo do saber está no coração e não na mente: “todo nosso conhecimento tem princípio nos sentimentos”. de contos de nunca acabar. a verdade. será feliz para sempre. buscando alcançar um protótipo universal. filosófico. 7) contos de adivinhações. etc. de fadas ou da carochinha . trechos poéticos de Dante. de Camões. de Fernando Pessoa. seja ele empírico. sonhando com a bondade. autor do famoso Dicionário do folclore brasileiro. Além de retomar o gênero fabulístico da tradição greco-romana (Esopo e Fedro) e o gênero novelístico medieval da escola toscana (Decameron. casos de intertextualidade. o interesse pelo conto popular teve início com o neoclássico La Fontaine ( Fábula). com intenção moralística. novela. ainda discutimos sobre a traição de Capitu e a verdadeira paternidade de seu filho. Bizantino)Helenismo CONTO (história ficcional curta)Gênero literário FábulaNarrativa “A história está acabada e sua boca cheia de marmelada!” Do latim “contare”. de Machado de Assis. Vida nossa que é uma contínua aprendizagem: “ se sabemos exatamente o que fazer. O julgamento moral da massa popular é absoluto porque sentimental. distinguimos. após superar vários obstáculos. com a intervenção divina. tendo semelhanças com outras formas do gênero narrativo: romance. de Carlos Drummond de Andrade continuam exercendo a função de lições de vida. costumes. de fada ou maravilhoso. sobre a origem de objetos ou de costumes. espectadores ou leitores. cujo catálogo foi traduzido e aperfeiçoado pelo inglês Smith Thompson. elaborado artisticamente por ficcionista profissionais. o conto popular desafia a própria morte: o casal de jovens apaixonados. dividindo as narrativas em três grupos gerais com várias subdivisões: contos de animais. de Boccaccio). fórmulas jurídicas. antes de tudo. E isso porque. Pablo Picasso”. folclore. o amor romanticamente vivido. 9) facécias. o conto popular. 12) ciclo da morte. o conto popular ou feérico documenta usos. mas a verossimilhança psicológica. como se este fosse natural. sempre com o triunfo do bem sobre o mal. histórias populares. Rompendo as barreiras do real. CONSTANTINO (Imperador romano.52 Catulo. que produz a sabedoria. técnico. Segundo Leonardo da Vinci. 3) casos edificantes. Reflete as inclinações do ser humano para o maravilhoso. científico ou artístico. crônica Tentando salientar as peculiaridades desta forma de narratividade. se não morreu na história ficcional. a palavra conto significa a narração de uma história. onde predomina o elemento sobrenatural. No Brasil. 6) contos etiológicos. Enfim. agrupam-se inúmeras narrativas de temas e motivos os mais variados. Expressão da psicologia coletiva. em contraste com o mundo da realidade. porque o que deveria ser geralmente não é. Sob a denominação de conto popular. Uma tentativa que obteve certo êxito foi a do estudioso alemão Antti Aarne. histórias de fadas. e gracejos e anedotas. assim como as passagens bíblicas para os hebreus. pelo progresso da televisão. do conto erudito. apesar do relaxamento do hábito da leitura (provocado. que induz a uma ação adequada. para ser realmente eficaz e produtivo. de Shakespeare. se perguntava o grande gênio da pintura moderna. que é trágico. tem como disposição mental uma ideologia conformista: as coisas se passam como nós gostaríamos que acontecessem. é de se deduzir que ainda vive no desejo dos ouvintes. em grande parte. Istambul. qualquer tipo de saber. Luís da Câmara Cascudo. do cinema e da informática). de travalíngua. 2) contos de exemplo.Conto maravilhoso Forma mais universal de transmissão da cultura de um povo. 5) contos religiosos. ele reelaborou o belíssimo . de origem anônima e coletiva. Na Europa. Apresentar uma classificação coerente é tarefa quase impossível.

da linguagem e de usos e costumes. A fórmula "Era uma vez. neste gênero. da China. lembramos as pesquisas filológicas dos irmãos Grimm que. mas em dose diminuta. mas contestar os valores sociais. é contada para as crianças da Itália. Ali Babá e os quarenta ladrões. eterno. o caçador. Também contribuiu decisivamente para despertar o interesse pela literatura infanto-juvenil a tradução em línguas européias de coletâneas de contos orientais. de forma semelhante à do francês Perrault. de Apuleio(Metamorfoses). Mas trata-se de trabalhos realizados a partir de fontes eruditas. É com Charles Perrault (1628-1703) que o conto passa a ser estudado na sua origem popular. com recurso ao sobrenatural. Quanto à sua estrutura. E. do Brasil. o marujo. o receptor participa ativamente da transmissão da mensagem através de perguntas e comentários ou fica tão atento que interrompe as atividades mais elementares. o fonético (variedade de entoações). remete a um tempo indefinido. o dramático (encenações). oralidade. Com muita propriedade. do conto popular: ele é produzido por um autor historicamente conhecido e refere-se a um episódio da vida real. mas também o cinético (movimentos corporais miméticos). a língua inglesa denomina o conto de “short story”. o lobo. O mistério da presença das mesmas histórias em países geograficamente muito distantes.. mas verossímil. por exemplo. mas poderia acontecer. Símbad. a fada madrinha. que denominamos erudito ou culto. publicados entre 1835 e 1872. especialmente na Alemanha e em oposição ao Classicismo. Aladím e a lâmpada maravilhosa. Embora seja possível apontar exceções de contos fantásticos. coletaram e redigiram um grande número de histórias para a infância e adolescência. O conto popular tem em comum com as demais formas simples de narratividade as características de antigüidade. não verdadeiro porque ficcional. também as personagens que vivem os fatos são inominadas. que se encontra no Asno de ouro. ou seja. Não aparece o nome dos países ou das cidades onde os fatos acontecem. é um desafio à inteligência dos estudiosos do assunto. anonimato e persistência. Poe e outros). não fugindo do principio da verossimilhança. constituindo o famoso triângulo . Além de não conhecermos o nome do autor e do narrador. Ele coletou e redigiu as histórias para crianças contadas pelas amas (Contos de Mamãe Gansa). da Alemanha. além de assinalar a entrada no mundo mágico da ficção. o conteúdo temático permanece o mesmo. escritos por autores famosos (Hoffman. a regra do conto erudito é ater-se ao real. sobressai a estraordinária figura de Monteiro Lobato (Monteiro). pois a atitude mental que dele se depreende não é idealizar. o fato narrado não aconteceu no mundo físico. Na época do Romantismo. De outro lado. Um conto infantil alemão termina assim: “a história está acabada e sua boca cheia de marmelada”! II ..A.". O que distingue essa forma narrativa de outras é o caráter de internacionalidade. No Brasil. chorou a criancinha. dando-lhe o titulo de Histoire de Psyché. As semelhanças genéricas e as diferenças específicas das narrativas feéricas encontram-se analisadas na obra Morfologia do Conto. Trata-se de transmigração ou devemos pensar na existência de um fundo arquetípico universal? A história de Chapeuzinho Vermelho. O foco narrativo geralmente é único: centrado ou no narrador onisciente ou numa personagem. do formalista russo Vladimir Propp (Mito FunçãoNarrativa). usando não apenas o código lingüístico. a bruxa. a partir do início do século XVIII: As mil e uma noites. como a de comer. a narrativa popular apresenta peculiaridades inerentes às suas características de anonimato e de oralidade. em épocas anteriores à descoberta da imprensa e com meios de comunicação muito precários. da Rússia. o presente ou o futuro.53 conto popular de "Amor e Psique". São identificadas por uma competência interiorizada. Embora existam variantes regionais devido à diferença do ambiente mesológico (flora e fauna). que pode ser o pretérito. As personagens são pouquíssimas. O conto erudito distingue-se do romance e da novela por ser uma narrativa curta. cinderela. tornando-se paradigmático. pois o passado mítico se renova constantemente. três na maioria dos casos. foram valorizadas as forças vitais e a beleza própria da realidade popular nacional.O conto erudito Duas características principais distinguem o conto literário. O processo da enunciação dá-se in praesentia: o contador de histórias dirige-se diretamente aos ouvintes. Mas o pai da literatura infanto-juvenil européia é considerado o escritor dinamarquês Hans Christian com seus Contos. A fábula é reduzida apenas a um episódio de vida. Especificamente quanto ao conto popular. pela função que exercem ou por atributos: o príncipe. Numa sua narrativa encontra-se a passagem humorística que se tornou famosa: “Mas o Imperador está pelado”. Ele possui todos os ingredientes do romance. Tal indeterminação atinge também as categorias do tempo e do espaço.

tempos. resolveu desenvolver a mesma história numa narrativa longa. criando o romance A cidade e as serras. desvinculando-se do romance e da novela. Mas. O conto erudito tem uma larga tradição cultural. Entendido. além do Decameron do florentino Boccaccio. Eça. O criador da moderna short story pode ser considerado o norte-americano Edgar Allan Poe. etc.54 amoroso. podemos considerar o conto como um romance condensado e o romance como um conto diluído. têm a paciência de ler um longo romance. porque melhor responde à exigência da rapidez. Encólpio e Lúcio. No texto corneliano. Enquanto no romance o conteúdo textual encontra-se diluído na multiplicidade de ações. para vingar a morte do pai. no conto temos uma condensação do sentido que se revela ao leitor de uma forma mais rápida e surpreendente. uma pequena história vivida por algumas personagens cujo desfecho leva o leitor a deduzir a parcela de sentido do mundo que a narrativa encerra. televisão. Tribunal da Inquisição)Lutero COPÉRNICO (revolução na Astronomia) Galileu CORÃO (texto sagrado dos muçulmanos)Maomé CORNEILLE (dramaturgo do Neoclassicismo francês)Tragédia Quem perdoa com facilidade incita a ofender novamente O primeiro grande drama do teatro clássico francês é Le Cid. O contista tem uma idéia fundamental a expressar. um conto numa tela de pintura ou numa estátua. Para fugir ao remorso. de romance ou de conto de terror. videocassete. cuja protoforma é a antológica narrativa Os crimes da rua Morgue. uma peça teatral em novela de televisão ou vice-versa. o amor vence o ódio e acaba suplicando o jovem amado a lutar pata obter a vitória. porém. hoje em dia. Judite. ela não difere muito da classificação do romance. personagens. Aliás. A diminuição dos elementos estruturais confere ao conto uma grande densidade dramática. falamos de romance ou de conto policial. O que acontece. Na modernidade. para salvar a honra de seu pai. apaixonado por Ximena. internet). a intercomunicabilidade entre várias formas de arte é um fato corriqueiro hoje em dia: um romance é transformado em filme. espaços. Ele foi o inventor do conto policial. mas acaba tendo uma grande vitória sobre os mouros invasores. publicada em 1631. avultam os contos satíricos e licenciosos do inglês Chauser: Canterbury Tales. apresentando contistas mundialmente famosos: Maupassant. forma mais apta a expressar a intensidade dramática. Ximena. O tempo da fábula também é muito limitado. Um exemplo dessa verdade “acaciana” nos é fornecido pelo imortal escritor português Eça de Queirós: depois de ter escrito o conto Civilização. quando existem. As descrições e reflexões. Lembramos. Mas. quando percebe que Rodrigo quer morrer no duelo não se defendendo. A categoria do espaço está reduzida a um ou dois ambientes. Inventa. A peça tem como referente remoto a epopéia espanhola EI cantar de mio Cid( ) e como fonte próxima a obra Las mocedades del Cid. A época do realismo consagra definitivamente o sucesso da narrativa curta. descrições. CONTRA-REFORMA (Protestantismo. solicitados pelos atuais meios de comunicação cultural (rádio. Em última análise. Exemplos esparsos podem ser encontrados em alguns autores da Renascença. do barroco e do arcadismo. Salomé. é obrigado a matar seu futuro sogro num duelo. deseja a destruição de Rodrigo e induz um seu pretendente a desafiar o herói. Tcheckov. Na Baixa Idade Média. é a partir da época romântica que o conto erudito. A peça termina com o casamento de Rodrigo e Ximena. o conto é a forma narrativa mais cultivada. como exemplo. Quanto à tipologia do conto. reflexões. inserido no contexto do Satiricon: uma viúva inconsolável acaba preferindo o amante vivo ao corpo do marido morto. são muito rápidas. Machado. respectivamente. o conto “A Matrona de Éfeso”. Sem falarmos dos episódios das Sagradas Escrituras (Bíblia) que podem ser considerados contos (filho pródigo. especialmente Petrônio (Satíricon) e Apuleio (O asno de ouro ou Metamorfoses). que a diferença entre o conto e o romance não é apenas quantitativa: a brevidade ou a extensão de uma história ficcional importa nas diferenças estruturais já apontadas acima. têm a história de suas vidas intercalada pela narração de histórias secundárias encaixadas na principal. cuja lucidez mental o levara a preferir a história curta. adquire o estatuto de gênero literário à parte. própria da era da máquina: poucos leitores. encontramos exemplos contidos nas obras de escritores latinos. cujos protagonistas.) e limitando-nos apenas à literatura ocidental. Rodrigo procura a morte no campo de batalha. então. Dependendo do tamanho. teatro. de Guillén de Castro. etc. Essa peça acirrou as discussões sobre a obediência ou não aos preceitos da confecção da obra teatral conforme se . o herói Rodrigo. cinema. escrito em 1636 por Pierre Corneille (1606-1684).

como de outros do mesmo autor (Cinna. Após sua morte. permanece eterna a concepção corneliana de herói. personagens e leitor se sentem perdidos. um ligado ao Politeísmo greco-romano e outro ao Judaísmo hebraico. defende a tese de que o Cristianismo foi a causa principal da decadência da maior potência da Antiguidade pela sua pregação pacifista e por projetar a felicidade num mundo sobrenatural. começando uma nova Era. na sua vasta obra em cinco volumes. Medéia. O maior milagre que circunda a figura de Cristo foi o de ter conseguido concentrar na sua pessoa o que houve de bom antes e depois dele: o monoteísmo. para contestar os regimes políticos opressores da liberdade. em conflito entre o dever e a paixão. também o final feliz de Le Cid contraria a definição aristotélica da tragédia: “a passagem da felicidade para a infelicidade”. A cultura ocidental. Além de infringir o princípio da verossimilhança no palco. individualista. encontra no sentimento da “honra” e na aspiração á “glória” a sua realização existencial. Horácio. Essa nova concepção da divindade atravessou toda a história das religiões. mas seu adversário político. era obrigada a usar disfarces.55 encontram na Poética de Aristóteles. e Abraão. a “NOSSA ERA”. assim. Polieucte). o estatuto de obra clássica. De outro lado. a Palavra de Cristo revolucionou o curso da humanidade. profundamente eufórica. muito cultivada por autores americanos de língua espanhola. acima dessas questões técnicas. configura a representação artística de um protótipo ideológico: o homem. incestuosa e vingativa. não há bons ou maus temas: somente há um bom ou um mau tratamento do tema. A narrativa é concebida como um “jogo” ou um “labirinto” em que narrador. na obra clássica A Ética Protestante e o . CORTÁZAR (ficcionista argentino: “realismo fantástico”) Na Literatura. as nações latinas. solicitada a dar sua opinião sobre esta obra de Corneille. ao mesmo tempo. Declínio e Queda do Império Romano. antes de Cristo. a da civilização cristã. Basta citar dois episódios semelhantes. disposto a matar seu filho Isaac para superar o “teste” de obediência a que o submeteu o caprichoso Jeová. recorrendo ao modo simbólico. pois Corneille não obedece ao princípio clássico da unidade de ação. patrício de Borges. em oposição ao Caos)Mitologia Terra CRISTO. sistema criado pelo filósofo persa Zoroastro e adotado pelo Judaísmo. COSMOS (a ordem no Universo. Em décadas passadas. a define como uma “tragicomédia”. criou-se um novo calendário. está preocupado em criar uma nova técnica de construção romanesca. no Jogo da amarelinha e em outros romances e contos. Jesus veio ao mundo para inverter esta lógica milenar com um ensinamento simples: amar a Deus é amar o próximo. era dominada por uma concepção religiosa mesquinha. o ser que está ao nosso lado e a realidade que nos circunda. Os deuses pagãos e o deus do Velho Testamento foram substituídos pelo Deus da misericórdia. o que levou Racine a afirmar que suas peças acumulam “tal quantidade de incidentes que precisariam de um mês para ser representadas”. mas ao mundo inteiro (Gandhi) O aparecimento da figura de Cristo dividiu a história da Humanidade em duas épocas: Antes e Depois DELE. de tempo e de lugar. Mas. devido às diferentes possibilidades de montagem e de leitura da obra. A partir de Jesus Cristo. a utopia socialista de Platão. o pacifismo e a tolerância ensinados pelos textos dos Vedas da Índia (Budismo). o ponto nevrálgico capaz de desvendar o mistério da realidade existencial. até encontrarem o centro. O historiador britânico Edward Gibbon (1737-1794). JesusReligiãoCatolicismo Protestantismo Igreja Ortodoxa Cristo não pertence ao Cristianismo. Julio Cortázar (1914-1984). Daí que a academia francesa. por simpatizar com a ideologia marxista. Sua narrativa pode ser enquadrada na corrente estética do realismo crítico e fantástico. o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920). negando-lhe. a observância das normas morais que se encontram no Velho Testamento ( Bíblia). relevando a mistura do gênero trágico com o cômico. É a concepção de uma ética aristocrática. O protagonista deste drama. que está pronto a sacrificar à vingativa deusa Diana sua jovem filha Ifigênia. a crença num único deus. provocaram o surgimento de um tipo de arte que. governadas por ditadores. cuja lembrança ofende indelevelmente a inteligência e o sentimento humano: Agamenão. em consonância com o aspecto renascentista da cultura clássica francesa.

nortearam a construção da maior potência do mundo atual. independentemente da crença na sua filiação divina. Após a flagelação. e capturado quando estava em Jerusalém.56 Espírito do Capitalismo. acabou matando o Jesus homem! As discussões sobre a humanidade e a divindade de Cristo se tornaram cada vez mais calorosas e estão longe de ter um fim. em que o autor tenta demonstrar. O Cristo. cativando a atenção dos mais humildes. O pouco que sabemos sobre a pessoa histórica de Jesus Cristo pode ser assim resumido: de religião judaica. Os escritos do Novo Testamento. por sua vez. deixando de pagar os impostos. sem sair da Palestina e sem escrever uma linha sequer. o Evangelho começou a ser lido à luz da psicanálise (Psiquê). que contem a essência da doutrina cristã. Também para os romanos. pois podia sublevar a massa popular contra o Império. mostra como os princípios do Cristianismo. segundo Weber. foram submetidos a várias interpretações. anunciado no Velho Testamento. ao redor do ano 30. Transmitiu sua mensagem de paz e de amor através de discursos e de parábolas. filho de Maria e do carpinteiro José. a pessoa consagrada pela unção). Mas. através dos tempos. a identidade verdadeira de Jesus de Nazareth. na sua versão luterana e calvinista. estaria na “Ética do Trabalho”. irmão de Jesus”. na língua aramaica e gravado numa pedra. Corroborou sua palavra com atos milagrosos. Nesta mesma obra . filho de Deus. Mas sua fama começou a incomodar judeus e romanos. o Messias. foi julgado e condenado à morte por ordem de Pôncio Pilatos. essencialmente. Se esta inscrição fosse historicamente verdadeira. após três dias de sepultamento. A base do sucesso da civilização anglo-saxônica e norte-americana. Para os hebreus. com o consenso do povo hebreu. foi crucificado sob a acusação de ser um agitador público. Na época pós-freudiana. foi eclipsada pelo mito da esfinge devoradora que mata quem não souber decifrar seu enigma. o seguinte epitáfio: “Tiago. o império econômico dos Estados Unidos da América do Norte. Já com trinta anos (por volta do ano 27 ou 28). As histórias escritas pelos quatro evangelistas contêm elementos simbólicos que merecem novas interpretações. quem foi este “Jesus Cristo” que. aparecendo a seus discípulos. é a tradução do hebraico mashiah. especialmente após as contribuições de Freud e de seus discípulos para o estudo das profundidades da alma e o empenho dos historiadores. Traído por um dos seus discípulos. descobertos recentemente na Palestina. Infelizmente. ele teria ressuscitado na Páscoa. província romana. mas um Rei poderoso que libertasse o povo do jugo de Roma. através dos séculos. foi capaz de derrubar o maior império antigo e de construir a maior potência da atualidade? As notícias sobre sua personalidade encontram-se. Procurador romano. revelando seu aspecto profundamente humano. afinal. nasceu em Belém. na pesquisa sobre a figura histórica de Cristo. Assim. de Leonardo da Vinci. se deu apenas “por votação” dos bispos no Concílio de Nicéia (325). com a qual teria tido vários filhos. poderia abalar a crença na divindade de . uma urna funerária em que se lê. Os fariseus não aceitavam sua concepção de messianismo (a palavra “christus” é uma transcrição literal do grego Khristos que. sendo considerado um taumaturgo. pelo exame do famoso quadro A Última Ceia. convencidos de que a riqueza é um sinal da benção divina. Entre os poucos documentos arqueológicos. ressaltando a dimensão humana da existência de Cristo. junto com João Batista. a partir do século passado. Segundo a tradição cristã. nos quatro evangelhos (Bíblia). está o ossuário de Tiago. romance de Dan Brown. a mensagem de Cristo era politicamente perigosa. Anteriormente. Recentemente. mais de três séculos depois de sua morte. depois de um ou dois anos de apostolado itinerante. devia ser não um pobre descalço. Jesus era visto pelos cristãos e pelos romanos (o historiador Tácito faz referência a ele) apenas como um grande profeta e um homem milagroso. pois lhes foi dada a missão de difundir para o mundo todo os ensinamento de Cristo. que em grego significa “Enviados”. Judas Iscariota. que se tornaram Apóstolos. Jesus Cristo foi vítima de uma coalizão entre dirigentes judeus e a autoridade romana. que significa “Messias”. começou sua pregação. no início da nossa Era (Idade). filho de José. a tese herética de que Jesus seria amante de Maria Madalena. o crítico norte-americano observa que o reconhecimento de Jesus Cristo como “Filho de Deus”. referindo-se propriamente ao Filho da Virgem Maria. saiu publicado no Brasil o best-seller americano O Código Da Vinci. propugnada nos evangelhos e nas epístolas do apóstolo Paulo e praticada principalmente por ingleses e americanos. na época em que Herodes governava na Galiléia.

pois Ele não seria mais o “Filho Único de Deus”. a condenação de qualquer forma de violência e a constante exortação ao amor estruturaram o pensamento ocidental.57 Cristo. tendo em comum a contradição de serem. do americano Martin Scorsese e. do iconoclasta Terry Jones. pois todo o ato de acreditar sempre traz em si algo de místico. O romancista José Saramago (O Evangelho segundo Jesus Cristo) e o cineasta Pier Paolo Pasolini (O Evangelho segundo São Mateus). católicos e comunistas. seja como for. são exemplos de intelectuais contemporâneos que estudaram a figura de Cristo. o segundo é a “interpretação”. além da psicanálise clássica e moderna. como o Comunismo. permanece incontestável no bojo do sentimento religioso da maioria dos povos que habitam a terra. independentemente do autor e da época. quer na crença num ideal de justiça social contrastante com o profundo egoísmo individual e de grupos. o belo do feio. as condições socio-culturais que formaram sua personalidade. com base no “critério”. com resultados irrelevantes no que toca o ponto crucial da vida humana. mais recentemente. a ressurreição de Lázaro. A atividade crítica surge junto com a Filosofia e as Artes: falamos de crítica da razão dialética. já a análise externa estuda os componentes ideológicos ligados ao tempo e ao espaço. a justiça social. conveniência.). de Davis Greene. uma narrativa. Os dois credos não foram aprovados no exame da história: após mais de dois milênios. Independentemente da verdade histórica. como se lê nos evangelhos escritos por seus discípulos. o ato de emitir opinião. A Vida de Brian (1979). o que é palpável e infinitamente importante do ponto de vista cultural é que os episódios e os ensinamentos evangélicos são metáforas da nossa vida cotidiana: o filho pródigo. uma estátua. um quadro. composto do verbo krinein (julgar) + tekhne (técnica). da razão prática. O assunto é polêmico pela sua própria natureza. seja ele um poema. o bom samaritano. no sentido de que a atividade critica parte de fora para dentro: estuda-se a biografia do autor. etimologicamente. da razão pura. esportiva etc. da seta inglesa Monty Python. do espanhol Luis Buñuel. Munido destes conhecimentos. A Última tentação de Cristo (1988). o egoísmo individual e de classes. Goldspell (1973). agradabilidade. . Ambos consideram a figura histórica de Jesus como um doce e pacífico provocador que queria vencer. Um bom crítico deve conhecer a técnica das duas formas de estudo de uma obra de arte. o estímulo ao trabalho. provocada pela decepção com o cristianismo europeu. teatral. crítica literária. pois os dois métodos são complementares e não excludentes. O primeiro tipo de abordagem se preocupa com a obra em si. CRÍTICA (análise e interpretação de uma obra de arte)Texto Do grego kriticos. A Paixão de Cristo (2004). se sente tentado a analisar as partes componentes do objeto e a julgar sobre sua formosura. influenciando filosofia. Neste Dicionário. uma peça dramática. consistindo no estudo dos elementos constitutivos e de suas relações entre si. Em Cristo estão centrados o Catolicismo. Je vous salue. naturalmente. Aqui apresentamos vários tipos de crítica extrínseca (o olhar de fora). onde se fala dos elementos constitutivos de uma obra de arte ou se interpreta um poema. Redentor da Humanidade. O Cristianismo. apontando valores ocultos numa obra de arte. os estudiosos da obra de arte literária falam de uma crítica interna ou estrutural. corrupto e tirano. um filme. pode ser considerado uma reencarnação de Cristo. utilidade. a faculdade que homem tem de poder distinguir o verdadeiro do falso. O primeiro momento é chamado de “análise”. Perante um objeto de arte. e a revolução comunista se espatifou perante o muro de um estadismo burocrático. são igualmente utópicos. quer seja o credo num Cristo. a pregação evangélica continua a mesma. Outros filmes polêmicos de grandes diretores sobre a figura de Jesus: Viridiana (1961). na Idade Média) e as Igrejas Ortodoxas do Oriente. as escolas e movimentos literários que lhe forneceram os cânones estéticos e o complexo ideológico em que viveu. a palavra “crítica”. de cinema. filho de Deus. o Islamismo (o profeta Maomé. passando a ser considerado o precursor do socialismo. o novo enviado de Deus. do suíço Jean-Luc Godard (1985). o Protestantismo (nas suas diferentes seitas Lutero). a análise dos elementos estruturais (o olhar por dentro) é utilizada em vários verbetes (TextoMitoPersonagemNarrativa e em outros lugares. Esta modalidade de abordagem do texto literário é centrípeta. pelo amor. um romance. uma mulher bonita (por que não?). ao mesmo tempo. Com base nesta distinção. significa “aptidão para julgamento”. do ator-diretor Mel Gibson. diferenciando-a da abordagem externa ou cultural. onde se dá o julgamento de valor. Marie. por serem ambos ideológicos. o homem. A figura de Jesus. artes e literatura. o crítico inicia a análise e a interpretação de um texto dado.

A interação escritor-sociedade é proveniente dos seguintes fatores: a) o “emissor” (o escritor) é um ser socializado. b) o “código” (a língua) de que se serve não é um fator individual. cuja função primordial não é artística. de comunicação inter-humana. A gênese da obra literária. destacamos algumas que nos parecem ter tido bastante sucesso: a critica sociológica . mas institucional. A critica sociológica explora a análise destes quatro fatores e procura inserir a obra literária num contexto socio-cultural. desviando-se da norma lingüística. estabelecendo homologias entre as estruturas do universo da obra e as estruturas mentais de certos grupos sociais. ele apresenta a seguinte hipótese: “a forma romanesca parece-nos ser a transposição para o plano literário da vida cotidiana na sociedade individualista. fruto híbrido de um amor . A análise de tipo sociológico encontra no estudioso alemão Erich Auerbach ( Mimésis: a representação da realidade na literatura ocidental) um valioso cultor. usando do método das ciências exatas. Nessa linha de pesquisa trabalha também o crítico brasileiro Antônio Cândido. Mesmo quando o artista é um renovador de formas estéticas e de conteúdos ideológicos. que são estabelecidos pela sociedade e não pelos indivíduos. mas quando se preocupa com a “compreensão” da significação da obra. no ato da criação artística ele participa da mesma realidade social do escritor. portanto. não é uma mônade estética: ela é determinada pelas convenções e pelos gêneros literários próprios de uma época. pois ele estabelece uma estreita ligação entre o estilo do autor e a estrutura social nas obras que analisa. Dela se diferencia. Existe uma homologia rigorosa entre a forma literária do romance. por exemplo. buscando seus antecedentes causais na realidade socio-econômica (como costuma fazer uma vertente da crítica socialista Marx). éticos) de seu grupo. apesar de ser ficcionalmente “virtual”. tal como acabamos de definir. e a relação cotidiana dos homens com os bens em geral e. devido ao caráter polissêmico e universalizarite da verdadeira obra de arte. No que toca especificamente o estudo do romance. nascida da produção para o mercado. enfim. por mais que o escritor possa “operar” sobre a linguagem. muito embora fruto de uma individualidade poética. a crítica psicológica e outro tipo de crítica que. reproduzindo as formas estéticas e o conteúdo ideológico do grupo e do movimento literário. onipresente na épica clássica. coletivo. c) a “mensagem” (o texto produzido). investido de um saber transcendental. usando-a de um modo particular. o fator social deixa de ser um fator puramente externo para tornar-se interno e a critica sociológica toma-se uma crítica estética. por falta de um nome mais apropriado. Platão concebe o poeta como um indivíduo temporariamente “possesso” pela divindade: ele só pode criar nos momentos em que está “inspirado” pelos deuses. O mito da “Musa” inspiradora. por extensão. dos homens com os outros homens. esta possa ser usufruída também por leitores posteriores. mas prática. então. quer dizer. A teoria platônica do poeta “inspirado” e a teoria aristotélica do poeta “artífice” encontram uma reformulação na oposição nietzschiana de espírito “dionisíaco” e espírito “apolíneo”. segundo o método do estruturalismo genético de Lucien Goldman. chamamos de “arquetípica”. numa sociedade produtora para o mercado”. Ela tem valor estético não quando. seu estilo peculiar só pode ser entendido a partir de um contraste com a literatura preexistente. visa à “explicação” do fenômeno literário. religiosos. a par das outras atividades artísticas. por salientar mais a personalidade do escritor do que as condições sociais e o espírito da época. Visto desta maneira. no pleno gozo de suas faculdades intelectuais. Apesar da concepção antitética de Aristóteles que considera o poeta como um ser lúcido. o certo é que a parole artística só é possível a partir de uma langue.58 visando especialmente verificar até que ponto o autor é “filho de sua época”. um “artífice” que estrutura livre e conscientemente o material poético. como produto e expressão da cultura e da civilização de um povo nas diversas fases de seu desenvolvimento. nas pegadas de Lukács e de Girard. A critica psicológica tem em comum com a critica sociológica o olhar para a obra de fora para dentro. como uma determinante do valor estético. porém. a teoria platônica da inspiração artística como “dom” divino impregna as concepções sobre a criação literária da cultura ocidental. se cristianiza na estética neoplatônica de Marsílio Ficino: as musas são substituídas pelo Espírito Santo. é vista como semelhante à gênese dos Livros Sagrados e o poeta é considerado um sacerdos. que sente e vive os problemas humanos (políticos. Dionísio (na mitologia grega) ou Baco (na mitologia romana). Entre as várias modalidades deste enfoque histórico e externo da obra artística. e. que considera o fator social não apenas como “matéria” de que se serviria o artista. embora. Ë muito antiga a concepção da arte como fruto de uma personalidade psiquicamente excepcional. mas também e especialmente como um “agente de estrutura” e. A crítica sociológica considera a literatura. d) o “destinatário” (o leitor). sociais. o artista tem o intuito de atingir um público que vive os problemas estéticos e ideológicos de sua época.

construir uma teoria sobre a personalidade desse autor — seus conflitos. Pensamos nos quatro tipos de . com isso. mas como atitudes estéticas e espirituais. Bakhtine. também fazem distinção entre um tipo de literatura fruto de espíritos estética e humanamente inconformados e um tipo de literatura produto das convenções literárias e sociais. transferindo elementos do mundo real para o mundo ficcional. no meio das configurações “variáveis” de que se reveste cada período literário. suas idiossincrasias. A gênese do “furor” poético residiria. teríamos uma alternância da postura romântica e da postura clássica perante a arte e a vida. A essência da beleza apolínea reside na harmonia de formas. Seus fiéis. e. ilustrada pelos fatos externos de sua vida e por elementos outros. então. ou o que quer que seja — e valer-se de tal teoria para esclarecer cada uma de suas obras” A biocrítica e a psicocrítica. Pensamos na oposição entre literatura “dialógica” e “monológica” de M. num desequilibro emocional do autor. no estado de embriaguez. Pode-se até chegar à determinação da estrutura poética de um texto. Enfim. O poeta seria um ser excepcional. As modernas teorias da psicanálise. sentiam-se “possessos” pelo deus e compunham seus cantos sob a inspiração direta de Dionísio. não atingindo a compreensão da forma estética. na história da literatura. suas reações ao ambiente ou o relacionamento psíquico que une ou separa os agentes ficcionais. etc) ou por um desajuste psíquico (teoria dos “complexos”). “pode-se considerar a biografia de um autor. errou pela terra e ensinou aos homens o cultivo da uva e a produção do vinho. a metalinguagem crítica pode valer-se de elementos conceptuais oriundos das ciências psicológicas para explicar o comportamento de uma personagem. O artista que se inspire em Apolo é um ser que lúcida e conscientemente constrói suas mensagens. d) quando alcançam seu intento. sua evolução emocional. na história da literatura. inadaptado ao meio-ambiente. da mesma forma que vimos em relação à crítica sociológica. entre escritores “apocalípticos” e escritores “integrados” de Umberto Eco. a corcunda de Leopardi. Quer dizer. suas contradições. mas em utilizar a psicologia do senso comum ou a psicologia científica. Mas a crítica psicológica com pretensões científicas afasta-se dessas especulações míticas ou supra-históricas e procura encontrar a gênese da criação artística na carga biopsíquica de que o autor é portador. pois é impossível analisar e interpretar um texto literário sem lançar mão de processos psicológicos. sem se referir explicitamente às teorias de Platão e de Aristóteles acerca da gênese da criação poética ou à oposição encontrada pelo filósofo alemão F. a escolha do crítico não consiste em utilizar. centradas sobre o estudo da personalidade real do autor. “fases” e “modos”. entre fase “irônica” (Mithos do Inverno) e fase “romanesca” (Mithos do Verão) de Northrop Frye .59 divino-humano. Contrastando com Dionísio. Esta dicotomia pode ser expressa pela oposição romântico vs clássico. isto é. quer coletivo ou rácico (Jung) Conforme o crítico David Daches (Posições da crítica em face da Literatura). b) admitem implicitamente que qualquer obra literária seja imbuída do espírito dionisíaco e possua uma ideologia revolucionária. entendendo-se estes termos não na sua concepção histórica de movimentos literários. tem o texto como objeto de pesquisa. quando aplicadas ao estudo da obra literária. experiências traumáticas e neuroses. na exata proporção das partes com o todo. Também as categorias do espaço e do tempo ficcional podem ser relacionadas com estados psicológicos. Outros críticos. causado ou por defeitos físicos (a cegueira de Homero. que enformam as várias fases da evolução artística. de uma forma plena ou parcial. rastejando. Apolo é um deus integrado no convívio celeste. a psicologia. A poesia ditirâmbica é um tipo de arte produzida por pessoas “transformadas”. A critica arquetípica constrói seu arcabouço a partir de concepções gerais sobre a cultura e a civilização. A concepção do autor “inspirado” e do autor “artífice” representaria duas “invariantes”. que declinam momentaneamente de sua personalidade real. Ele é o deus da luz e da ordem. têm substituído o pensamento antigo da inspiração como dádiva divina pela teoria da arte como neurose. durante a celebração ritual. Neste sentido. estética e ideologicamente indicativas de valores constantes. utilizando apenas elementos teóricos extraídos da psicologia. fáceis de serem apontadas: a) não serviriam para a análise de obras cujo autor seja anônimo ou suas notícias biográficas escassas. quer individual (Freud). Nietzsche entre o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo. não aceito no Olimpo. ou não. conseguem apenas “explicar” a gênese da produção literária. que sublimiza na arte os recalques do subconsciente. c) confundem o “eu” do narrador com o autor. um técnico que conhece o ofício. frustrações. A critica psicológica tem valor literário somente quando. quando as leis e os princípios da psicologia e da psicanálise são aplicados não ao estudo do autor mas das personagens ficcionais. tais como cartas e documentos que tenham o caráter de confissões. insistindo principalmente sobre convenções e gêneros literários e descuidando do estudo das obras em si. Sátiros e Bacantes. têm várias falhas. consciente ou inconscientemente.

Tais cronistas. de jornalismo ou de comunicação. Evidentemente. pintura. de corridas automobilísticas etc. colhendo o universal dentro do particular. Prosa.60 crítica propostos por Northrop Frye: a) crítica “histórica”. Raquel de Queirós e tantos outros. mas crítica da literatura.). com base na teoria dos modos (trágico. b) crítica “etológica”. ela não pode ser considerada como obra de arte. relacionada com os mitos primordiais (mito da Primavera = Comédia. uma crônica atinge o nível de arte literária somente quando consegue superar os limites da transitoriedade própria da notícia cotidiana. Saturno em Roma. A maior ressalva que pode ser feita a esse sistema crítico proposto por Northrop Frye é que ele não considera a obra de arte como uma produção individual. que significa "tempo". Drama. que comenta as disputas de tênis. a crônica de arte. a crônica é o registro de acontecimentos num tempo e num espaço determinados. cômico e temático). Pensando assim. a crônica pode ser considerada como a mais curta forma de narrativa literária. inclusive. o gênero “crônica” foi cultivado pelos melhores poetas (Carlos Drummond de Andrade. Diferentemente. Daí decorre que suas crônicas são ou poemas em prosa ou pequenos contos. viva para hoje. do Outono = Tragédia. portanto. escritores que se especializaram nessa forma sucinta de narratividade. Um bom exemplo nos é dado por Manuel Bandeira: POEMA TIRADO DE UMA NOTICIA DE JORNAL JOÃO GOSTOSO era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número. a crônica esportiva. social. que o que se apreende não é literatura. fundamentada nos símbolos (fase literal. No primeiro caso. cronologia) “Aprenda de ontem. mítica e anagógica). mas algo construído a partir de um cabedal cultural coletivo. Mas. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado. que registra a ocorrência de atos criminosos. CRONOS (deus do Tempo. a crônica social. política. e que. que não existe aprendizado direto da literatura. artística: a narrativa do dia-a-dia) Do grego Krónos. que repousa na teoria dos gêneros (Ëpos. embora possam apoiar-se em fatos acontecidos. são profissionais que possuem um saber específico e usam uma metodologia científica em seu trabalho cotidiano. . d) crítica “retórica”. Especialmente no Brasil. do Inverno = Ironia. De um modo geral. do Verão = Romance. fruto de convenções e gêneros. Pertence a essa categoria a crônica histórica. de futebol. a crônica policial. música. formal. para que haja crítica. Lírica). Enfim. c) critica “arquetípica” propriamente dita. é preciso distinguir a crônica científica da crônica literária. não prescrever”. Paulo Mendes Campos. CRÔNICA (policial. geralmente formados por faculdades de história. que um poema é imitação de outros poemas. entre outros) e prosadores (Machado de Assis. teatro etc. Fernando Sabino. dependendo do pendor do autor para o gênero lírico ou narrativo. Em primeiro lugar. Há. transformam a realidade do dia-a-dia pela força criadora da fantasia. é sempre bom lembrar a advertência do dramaturgo Eugène Ionescu: “os críticos devem descrever. a crônica literária é produzida por poetas e ficcionistas que. é necessário que a obra examinada seja relacionada com os dados de um quadro conceptual formado por referência indutiva a uma perspectiva do conjunto da literatura num determinado contexto histórico e espacial. que é uma lista de fatos arranjados conforme a ordem linear do tempo. por exemplo).. qualquer tipo de crítica está sempre condicionada aos conhecimentos e à mundividência do sujeito pensante. sendo conhecidos principalmente como cronistas: Rubem Braga. pois na “Introdução polêmica” à sua obra afirma que a crítica é uma estrutura do pensamento autônomo em relação à arte. que apresenta a crítica de eventos culturais (cinema. que põe em evidência a vida das pessoas ilustres. o autor da Anatomia da critica é coerente.

modificar. com um olhar globalizante. que se repetem e ligam entre si vários momentos históricos. o Romantismo é realmente um “movimento” cultural. que nos faz distinguir o “agora”. correspondente ao superconsciente e subconsciente freudiano (Freud). podemos adotar como base a divisão tradicional da Literatura em três Idades (ou Eras). apresenta a tese dos “cursos e recursos” históricos: a evolução dos povos não progride de uma forma linear. Mas. é uma continuação do Renascimento. para alguns. sem critérios estéticos ou ideológicos definidos. romântica. de Saussure. bem como no triunfo dos valores que compõem a ideologia social (ordem. dinheiro. pois surge como manifestação consciente de oposição à concepção de vida e de arte do movimento anterior. que nos faz imaginar como real algo que é apenas a memória do que foi ou a expectativa do que poderá ser (tempo subjetivo). podemos discernir duas constantes. cada qual englobando várias Épocas ou Períodos. anacrônico. amor. De uma forma quase aleatória. pois nada está imune à ação do tempo. que podem incluir uma década (geração de 30) ou um milênio (Idade Média). Já o conceito de “movimento” é diferente do de época. alterar. modernista e contemporânea) serão analisadas em verbetes específicos. mas cíclica. morais e . contrariamente. época de reflexão. mas alguns críticos recuam seu início até os primeiros documentos escritos nas línguas modernas (séc. ora a motivos culturais (Renascença). cujo sema remete a remexer. simbolista. barroca. romana. Sua essência é indefinível. mas também uma revolução. o Classicismo. passando da idade “divina” período primitivo. por exemplo. subverter. A ele estão relacionados termos como diacrônico. por ser a expressão dos anseios de um grupo social que acredita nos valores humanos e na possibilidade do conhecimento da verdade. Matemática. justiça. em relação a um passado ou a um futuro. que pode ser dividido em várias “épocas”: Renascença. Média e Moderna) e as épocas culturais (grega. já o código natural. do verbo “mover”. beleza. realista. que se interessa apenas pelo objeto em si. Alternância semelhante já fora intuída pelo filósofo napolitano Gianbattista Vico que. fantástico. E há muitas divergências também: tradicionalmente. o conceito de movimento. equivalente ao Tempus latino.XV). ora a momentos históricos. podemos verificar a existência de uma alternância de formas e conteúdos relacionados com o código “cultura” (exaltação do social) e formas e conteúdos relativos ao código “natureza” (exaltação do indivíduo). o termo diacronia e seu antônimo sincronia foram utilizados por F. para a fase “humana”. sendo objeto de estudo de várias áreas de conhecimento: Mitologia. Cabe aqui relevar. Barroco. Mas as Idades (Antiga. tanto quanto a análise sincrônica ou estrutural. um produto da nossa consciência. sincrônico. para termos um parâmetro da evolução da cultura através dos tempos. o conceito de tempo está envolvido profundamente na nossa existência. na sua obra Ciência Nova. indica não apenas uma sucessão no tempo. para outros é uma oposição à estética clássica. bondade etc. podendo retornar outra vez à fase primordial.XI). Mas é evidente que o conceito de diacronia pode ser aplicado a todas as áreas do conhecimento. Diferentemente. contestatória) ou “carnavalizada”. conservadora). Psicologia. Assim. por exemplo). No que toca a civilização ocidental. que.61 tenha esperança no amanhã” (Einstein) O Krónos grego. medieval. o Barroco. Do grego diá (“através de”) e Krónos (“tempo”). Arcadismo. independentemente das teorias sobre sua natureza. o pai da Lingüística moderna. Tal teoria explicaria por que nações de apurada civilização voltaram à barbárie (Egito. Artes (Literatura e Cinema). e assim vai. Astronomia. renascentista. para explicar o caráter dos fenômenos da linguagem humana em sua evolução. a Idade Moderna começa com a Renascença (séc. poder. pois não sabemos se existe independentemente da realidade exterior (tempo absoluto) ou se é apenas uma ilusão. O estudo diacrônico da cultura enfrenta problemas e controvérsias. independentemente do tempo e do espaço. expressão da revolta do indivíduo contra a fixidez dos cânones estéticos e contra a opressão das injunções sociais. ora se recorre a rótulos políticos (época elisabetana). Com fundamento na oposição nietzschiana (Nietzsche) entre espírito “apolínio” (Apolo) e espírito “dionisíaco” (Dionísio). A definição de uma “época” é determinada apenas por uma sucessão temporal. O código cultural caracteriza um tipo de arte que o crítico russo Mikhail Bakhtine chama monológica (uma voz só.). caracteriza um tipo de arte dialógica (pluralidade de vozes. de racionalidade. é uma categoria da nossa mente. ora a critérios puramente artísticos (estilo rococó). Filosofia. à margem das variedades de estilos e de significados que caracterizam cada período cultural. uma revolta em relação aos cânones estéticos e aos conteúdos ideológicos do período anterior.

símbolo da fixação no passado. mas sei-o só quando não tenho de dizê-lo: quando não mo perguntam. informático etc. então. musical. pode vencer o Tempo. sincrônico. relacionado com o espírito humano. com quem começa a “história” da Mitologia grega. atmosférico. tem como destino final a morte. enquanto o espírito apolíneo prevaleceria na Renascença. O Tempo. o futuro é a expectativa que temos dos eventos a partir da atenção sobre o momento presente. A história da cultura no Ocidente apresentaria. Platão. Filósofos posteriores chegaram à formulação de duas categorias temporais: 1) o tempo “absoluto”. Os 365 dias do ano. que é a morte. na tentativa de explicar a sensação do tempo. preexistentes à natureza. Na Mitologia: os gregos. no diálogo Timeu. gramatical. não compostos de partes. filósofo e Padre da Igreja Católica. solar. sugere a idéia de um tempo que passa como manifestação de uma Presença que não passa. Arcadismo. O calendário ( Gregoriano) e o relógio são os instrumentos mais objetivos de que a ciência se serve para medir o tempo. Cibele resolveu dar um fim ao infanticídio sistemático. da qual só escapam os entes imateriais.62 religiosas. universal. ricos e pobres. Barroco. em lugar do último fedo. Zeus ( Júpiter) que. atômico. cuja predominância se alternaria ao longo da sucessão das várias épocas: o espírito dionisíaco estaria mais presente na Idade Média. No Modernismo encontraríamos a confluência das duas tendências. Umberto Eco distingue os cientistas. cronograma. 2) o tempo “subjetivo”. o pai de todos os deuses. não o sei”. diziam os antigos romanos. Da mitologia para a sabedoria popular: Tempus fugit irreparabile (“O tempo foge sem retorno”). que precederam o surgimento de Júpiter. do idealista Platão ao existencialista Heidegger. que leva embora primeiro o que é mais bonito: “a rosa vive uma hora e o cipreste cem anos”. Na mesma linha de pensamento. a arma de que se serviu para cortar os testículos do pai Urano. anacrônico). diacrônico. divindade correspondente ao latino Saturno. do conservadorismo. Ele pertence às chamadas “divindades primordiais”. presente. pois não depende de eventos físicos. forças misteriosas criadoras do Universo. enganando o marido: ofereceu-lhe para comer uma pedra. visceralmente ligado à materialidade. A integração dos três tempos. então. enquanto pura espiritualidade. a entidade impiedosa que devora o passado e começa sua implacável cavalgada rumo ao futuro. herdadas da civilização greco-romana. E o poeta Milton constrói uma imagem belíssima a respeito da fugacidade do tempo. Nas Ciências: as diversas áreas do conhecimento científico utilizam a categoria do tempo conforme fins peculiares. Um . sei-o. quando mo perguntam. cronômetro. da qual emerge Afrodite ( Vênus). passado e futuro. caindo no mar. Cronos simboliza o Tempo. mas com uma terminologia diferente. se tornou o todo poderoso Senhor do Olimpo. Na Filosofia: a questão de definir a natureza da categoria “tempo” intrigou os melhores pensadores. ao definir o Tempo como “a imagem móvel da Eternidade”. é bem salientada por Nicolau Maquiavel: “para predizer o que vai acontecer é preciso saber o que ocorreu antes”. duas linhas de força. abrem-se e formam uma alvíssima espuma. Neoclassicismo e Realismo. Ajudada por Gaia. A iconografia o representa com uma foice afiada. Filho de Urano (Céu) e de Gaia (Terra). imaginado como o fluir da existência de todas as coisas. a deusa da beleza e da paixão amorosa. na tentativa de esconjurar o oráculo que predissera que ele seria destronado por um dos seus filhos. sem relacionar-se com qualquer realidade externa: é o tempo homogêneo de uma ordem matemática. em suas Confissões. O passado é o que persiste na nossa memória. Nasceu. as 24 horas do dia e os sessenta minutos da hora são exata e democraticamente iguais para todos. Apenas a Eternidade. temos o tempo sideral. reconhece que a noção do tempo é algo paradoxal: “Eu sei o que é o tempo. casado com a irmã Réia (Cibele). os deuses. fluindo de uma forma constante e direcional. com a consciência da realidade: a alma é a verdadeira medida do tempo. os seres espirituais. automotivo. Assim. filósofos e artistas “integrados” dos “apocalípticos”. criaram o mito de Cronos (que deu origem aos termos cronologia. devorava cada uma de sua própria prole ao nascer. Mas o fluxo da continuação do mundo é irrefreável: o sangue e o sêmen do deus Céu escorrem sobre a terra e sobre a água e mais uma vez a natureza é fecundada: suas genitália. Sant’ Agostinho. Cronos (Saturno). Romantismo e Simbolismo. que é eterno. destronando o pai.

Os valores cronológicos são regidos pelo princípio de causalidade: o hoc post hoc leva naturalmente ao hoc propter hoc. leva à reflexão sobre o sentido da vida. o narrador informa o leitor do início dos acontecimentos. da história narrada. sendo difícil distinguir um do outro. onde não há anterioridade de um sobre o outro. Felizes são os homens que conseguem gerenciar seu tempo e tirar da sua transitoriedade o melhor proveito. fazendo cada coisa no tempo certo. noite. das estações e da existência (manhã. que pode ser cronológico ou psicológico. É pela categoria do tempo que se salientam as relações: passado-presente-futuro. Enquanto as artes plásticas são espaciais. o sábio Salomão. Analisar o tempo do autor ou do leitor. velhice. perde sua pureza de passado e torna-se presente. O tempo do discurso é o tempo do plano da “enunciação”. inversamente. do tempo da história ou do enunciado. Já o tempo da Fábula (Mito) é o tempo dos acontecimentos. Os romancistas . distinguir o tempo do discurso ou da enunciação. as fronteiras do passado. A relatividade do tempo do narrador e do tempo do leitor deriva do fato de que um pressupõe o outro e os dois tempos se complementam na instância do presente contínuo da enunciação. Nas Artes. revelada pelo aparelho formal da enunciação (Discurso). de tempo do discurso só quando esse tempo está representado dentro da obra. tempo para trabalhar e tempo para descansar. e os mecanismos aspectuais: incoativo-durativo-terminativo. pois são personagens. dizia que há tempo para tudo: tempo para plantar e tempo para colher. verão. O que resta. a narração começa pelo meio ou pelo fim e só mais tarde. O passado. o segundo. Um romance é constituído por um complexo de valores temporais. de um fato que. convergência do passado modificado pela memória e do futuro pressentido pelo espírito. O tempo cronológico é aquele que é medido pela natureza. especialmente na Literatura. é apenas o presente existencial. das personagens e do leitor. juventude. quer dizer. temporalidade e causalidade são dois conceitos que vão quase sempre juntos. mormente em narrativas de grande coerência diegética. no plano do discurso. dias) ou pelo relógio (horas. a quem é atribuído a autoria do livro bíblico Eclesiastes. é necessário. outono. do narrador. morte) ou pelo calendário (anos. além de muito difícil. O tempo psicológico. referente à sucessão dos dias. não é um tempo absoluto. poucos instantes de felicidade ou de sofrimento podem perdurar na memória da personagem por um longo período de tempo e. o narrador apresentando-se como narrador. de “analepse”: o início da trama não coincide com o início da fábula. minutos. primeiramente. é o ato da leitura que instaura o ato da escritura e vice-versa. As experiências intermediárias entre o evento passado e o momento da lembrança fazem com que esse passado não possa mais ser recuperado na sua integridade. a temporalidade é um importante componente sintático-semântico de qualquer texto. anos inteiros de vida rotineira podem passar despercebidos. no ato de ser rememorado. O relevo do aspecto temporal é mais importante para o estudo do narrador e do narratário. porque é no momento que nasce o filho que o homem se torna pai. portanto. O tempo da enunciação pode ser linear ou sofrer inversões: é linear quando a narração segue a ordem cronológica dos fatos. a ficção literária é uma arte predominantemente temporal: toda diegese pressupõe um começo. porque se transformou pelo decorrer do tempo. do relato. mensurável através de padrões fixos. em que se implicam os tempos do autor. um meio e um fim. porque é o tempo da percepção da realidade. pelo contrário. segundos). inverno. não teria tanta relevância: seria pura curiosidade tentar saber quanto tempo levou o autor para escrever determinada obra ou se o leitor gastou um dia ou um mês para ler o texto. que implica na existência de dois momentos temporais.63 dos Reis da antiga Israel. especialmente dos dias e das estações. preocupadas em criar uma ilusão de realidade. em sua função de locutor. relativos e complementares: o tempo do eu que fala e o tempo do tu que ouve. tempo para amar e tempo para guerrear. É o tempo interior à personagem e a ela relativo. Para fazer luz no emaranhado das várias determinações temporais. portanto. da duração de um dado acontecimento no espírito da personagem. Podemos falar. meses. O primeiro tipo de inversão temporal é chamado de “prolepse”: antecipação. do presente e do futuro são abolidas. que é um suceder-se de nascimento e de morte: todo amanhecer acaba num pôr do sol e este numa nova alva. nascimento. entidades intratextuais. Com efeito. tarde. É um pouco como a relação entre pai e filho. em obediência à cronologia diegética. Assim. só deveria ser narrado mais tarde. primavera. é invertido quando o narrador nos diz antes um fato que aconteceu depois ou viceversa. No tempo psicológico. pessoas externas ao texto. mediante o recurso técnico-estilístico da retrospecção. em proporcionar uma informação verossímil. A observação da passagem cíclica do tempo.

descreve. mas nunca um monólogo. tem a faculdade de associar uma coisa com outra coisa. O “que” inclui as categorias de experiências mentais: sensações. De qualquer modo. em relação ao decorrer do tempo do mundo exterior. que pode ter como material as idéias. Podemos apenas falar da preferência de um autor (e em determinada obra) para a utilização de uma técnica em lugar de outra. pode ser afetada pelo tempo psicológico. num texto literário. da imaginação e dos sentidos. O crítico Robert Humphrey ( O fluxo da consciência) releva que “o campo da vida com o qual se ocupa a literatura do fluxo da consciência é a experiência mental e espiritual. Joyce. a personagem fala de seu mundo interior pela boca de outra personagem. que distingue uma narrativa de fluxo de consciência de outra tradicional: a “livre associação psicológica”. a passagem entre várias categorias temporais (presente-passado-futuro. tempo mítico ou de origem. mas não que essas técnicas sejam exclusivas e que não se encontrem nessas obras trechos que apresentam o uso da descrição onisciente. podemos ter um solilóquio (o ator que fala sozinho). Essa técnica tem como recurso estilístico principal o chamado “discurso indireto livre” que se caracteriza. faz parte do conteúdo mental ou será um processo mental?” Quanto às técnicas usadas na apresentação do fluxo da consciência. seja qual for a técnica usada. pela liberdade expressiva do narrador e. na técnica do monólogo interior indireto. de William Faulkner. Clarice Lispector. em terceira pessoa. que funciona como narrador de seu estado de espírito. Na narrativa de “fluxo da consciência” a personagem de ficção. com suas incoerências e anacronismos. Em outras palavras. pela completa adesão do narrador à vida interior da personagem. A memória. as sensações ou os sentimentos. de James Joyce. através da memória. Numa narrativa de fluxo de consciência. O Monólogo interior indireto diferencia-se do primeiro pelo fato de que a psique da personagem é desvendada pela intervenção do narrador que.64 que mais focalizaram o tempo psicológico (Proust. ao estado puro. o uso do monólogo interior se alterna com o uso da descrição onisciente. por exemplo. evidentemente. o íntimo das personagens. tempo histórico. todavia. é relevante o emprego do solilóquio. tempo discursivo. o “como” inclui as simbolizações. funciona como elo de ligação entre personagem e destinatário implícito. tempo diegético). quer na sua função de narrador que conta a história. É a descrição da vida interior. pela filosofia intuicionista de Bergson (especialmente pelo seu conceito de durée) e pelas teorias psicanalíticas. A forma lingüística que o distingue é o uso da primeira pessoa do singular e a "visão" que temos dos estados psíquicos é “com” o ator: percebemos fatos e sensações exclusivamente através dos olhos dessa personagem. de outro. que nenhuma das técnicas expostas se encontra. A Descrição onisciente é a técnica mais tradicional de focalização. a tela sobre a qual se projeta o material romanesco. Devemos observar. é preciso salientar o elemento comum. No solilóquio desaparece a interferência do narrador geral da narrativa que. mas como se passam na psique de uma ou mais personagens. A consciência. os sentimentos e os processos de associação. que procuram tratar as neuroses pelo retrocesso ao “tempo de origem”. é impossível distinguir o que do como. à sua maneira. Virgínia Woolf. ao tempo em que um acontecimento qualquer se fixou no subconsciente e causou um complexo. o mesmo autor aponta quatro tipologias básicas: monólogo interior direto. Camus. imaginações. tanto seu quê quanto seu como. analisa e comenta o que se passa na consciência da personagem. Muitas vezes. predomina a técnica do monólogo interior e que em Enquanto agonizo. quer na sua função de ator que participa dos acontecimentos. relacionada à primeira por elementos conjuntivos (semelhanças) ou por elementos . e a comunicação se estabelece diretamente entre ator e público. concepções e intuições. monólogo interior indireto. por exemplo. lembranças. Na representação de uma peça teatral. que no Ulisses. solilóquio e descrição onisciente. O Monólogo interior direto dá-se quando a personagem apresenta o conteúdo da sua consciência sem a interferência do narrador implícito e sem presumir a existência de um destinatário. sensações e acontecimentos não segundo a ordem do tempo cronológico. É lícito afirmar. porque a presença real ou fictícia do espectador é um elemento insubstituível do gênero dramático. enquanto o “fluxo” é o caminho de um estado psíquico para outro. Há um narradorobservador que sabe tudo a respeito de todos e descreve. entre outros) foram influenciados. de um lado. por exemplo. Entende-se por “consciência” a área dos processos mentais. O Solilóquio é diferente do monólogo interior pelo fato de que a personagem que narra se dirige formalmente a um destinatário ou admite implicitamente a presença de um público. A diferença entre um romance convencional e um romance de fluxo de consciência reside no fato de que o narrador descreve idéias.

de tal forma que cada lado de um objeto. em Paris. começam a representar o objeto de um ponto de vista alternativo. influenciados pela incipiente física quântica e pela teoria da relatividade (Einstein). independente das leis que regem a causalidade do mundo exterior. este movimento da Vanguarda européia está mais relacionado com as artes plásticas. de um plano. pela qual a realidade só pode ser apreendida de um ponto de vista único. As Cruzadas continuam sendo fonte de inspiração para obras literárias e artísticas. de uma forma definitiva. especialmente cinematográficas. Marc Chagall. Gauguin) já contestara a perspectiva euclidiana. plante a árvore. mas as grandes expedições tiveram uma importância fundamental do ponto de vista cultural e econômico. da esfera. se são para dez anos. os cruzados estabeleceram um florescente comércio entre os povos da Europa e do Oriente Médio. Picabia. de que se beneficiaram principalmente as cidades marítimas italianas. Realmente. Férnand Léger. Os cubistas. o passo é breve. semeie o grão. ocupada pelos turcos em 1077. os soldados dos exércitos cruzados. estilhaçada. Gênova. título também de uma revista. O nome se explica porque os guerreiros cristãos se distinguiam pelo emblema de uma grande cruz estampado no peito. A visão cubista faz ver “simultaneamente” aquilo que através da visão natural só poderia ser visto sucessivamente. se dirija para um ponto central”. de vários lados. se são para toda vida. Foram chamadas “Cruzadas” as expedições militares promovidas pelo papado de Roma com o fim de libertar o Santo Sepulcro de Cristo. O alvo principal de expulsar os mouros de Jerusalém. foi a primeira revolução comercial. ao observar quadros de Braque. imitados em seguida por Piet Mondrian. se tornaram as primeiras potências econômicas da Era medieval. CUBISMO (corrente artística) Vanguarda. Em 1907. Mas. CRUZADAS (luta entre cristãos e mouros)Medievalismo Do latim crux.65 disjuntivos (contrastes). que inclui a noção do tempo dentro do espaço. difundiam no Ocidente a cultura literária e artística dos bizantinos e dos árabes. reconstruindo ambientes e costumes daquela época histórica e lendária (Medievalismo). Sociedade)ConhecimentoTrabalho “Se seus projetos são para um ano. Van Gogh. CULTURA (Educação. O primeiro núcleo de pintores cubistas foi composto pelo encontro de Braque e Picasso. Picasso Do nome da figura geométrica “cubo”. Esse chamamento psicológico forma uma cadeia cujos elos são ligados por uma coerência interior. numa exposição de 1908. no afã de captar a estrutura profunda das coisas. do cone. eduque o povo” . desenvolvendo um intercâmbio comercial regular com o Levante. o culto do objeto vai conduzir à destruição do real: a análise e a decomposição sistemática do objeto. apresentou uma retrospectiva da obra do pintor Cézanne. instrumento de madeira onde se pregavam os condenados à morte. A importância foi tanta que alguns estudiosos consideram as Cruzadas como a causa principal do primeiro Renascimento da Europa. Enquanto introduziam estruturas feudais nos Estados maometanos. amigo íntimo de Picasso. O maior poeta desta tendência é Apollinaire. morto no ano anterior. Cézanne afirmava que a arte devia “reconstruir a natureza através do cilindro. O Cubismo literário apresenta um tipo de poesia em que a realidade é fracionada e expressa através de planos superpostos e simultâneos. De 1096 a 1270. como se o mundo estivesse sendo visto através da refração de muitos espelhos. Juan Gris. desarticulando a forma e reduzindo-a a elementos puramente geométricos. cuja teoria poética influenciou autores europeus e brasileiros. não foi atingido. dando uma visão do real fragmentada. René Magritte. isto é. Pisa e Veneza. chamados de “espiritonovistas”. Seus trabalhos principais são: Calligrammes (poemas que antecipam a nossa poesia “concreta”) e L ‘esprit nouveau (ensaio crítico). Rompendo o cerco muçulmano no mar Mediterrâneo. através da percepção. O termo “cubismo” foi inventado por Matisse. Cidadania. afastam a arte da verdade da aparência. Numa sua carta. paradoxalmente. o que ocorreu após a passagem do primeiro Milênio da história ocidental cristã. que provocara o isolamento dos Estados europeus por cinco séculos. o Cubismo tenta apresentar a realidade “tal como ela é”. o Salão de Outono. adorado na cidade de Jerusalém. O Impressionismo (Cézanne. Do Cubismo ao Abstracionismo (a completa ausência de figurativismo). Enquanto o Impressionismo procurava apreender a realidade “tal como a vemos”. ocorreram oito Cruzadas. quando de sua volta. chefiadas por príncipes de Estados cristãos da Europa. o todo em perspectiva.

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(Provérbio oriental) O sábio grego Sócrates dizia: “é preciso bem conhecer para bem agir”. O conhecimento é fundamental para o progresso social. A “informação” tem que levar ao “conhecimento”, este à “sabedoria”, terminando na “ação” adequada. De um modo geral, o termo “cultura” indica um conjunto de conhecimentos que enriquecem o espírito, apuram o gosto estético e desenvolvem o espírito crítico. Tal significado tem muito a ver com o sentido de outros significantes: cidadania, educação, instrução, trabalho, nação, sociedade, povo, civilização. Por baixo de diferentes etimologias pode ser encontrada uma semelhança semântica, que diz respeito ao modo de viver em sociedade. A palavra cultura vem do latim colere (“lavrar”), cultivar o campo que, nas línguas românicas, passou a indicar também cultivar a mente, adquirir conhecimentos através da “instrução”. Educação, do latim educationem, substantivo do verbo educere (e+ducere = “levar para fora”, fazer nascer, criar). Cidadania vem dos cognatos latinos civis, civitas, civitatanus, relacionados com o conceito de “cidade”, o reduto social que oferece a seus membros vários direitos, especialmente o de escolher seus governantes através do voto democrático: c ivis romanus sum (“sou um cidadão romano”) dizia orgulhosamente quem gozava dos privilégios da cidadania da antiga Roma, diferenciando-se dos escravos e dos estrangeiros. À cidadania está ligado o conceito de “Nação” (de nationem, relacionado com o verbo nascere = nascer), de “Povo” (de populum, o habitante do mesmo lugar, que fala a mesma língua e tem os mesmos costumes) e de “Civilização” (de civilis, civilitatem, do mesmo étimo de civis, o conjunto das características próprias que identificam a vida econômica, intelectual e moral de certas sociedades). Civilização é autocontrole. A repressão dos impulsos individuais é indispensável para viver em sociedade. Não sempre o que se deseja é bom para nós. Às vezes é até prejudicial. De outro lado, viver em sociedade implica numa renúncia de parte da liberdade da personalidade individual. É o preço que se deve pagar para gozarmos dos benefícios que a vida em sociedade nos proporciona. A sociedade humana passou por diversos ciclos de cultura, que a levaram a profundas transformações: nômade, agrícola, guerreira, comercial, industrial. Atualmente vive sob a égide da tecnologia, baseada na cultura da informação, que se tornou fundamental para o progresso: quando não há informações precisas, não pode se chegar a lugar algum. Mas apenas a informação é insuficiente: os dados adquiridos devem ser estudados, interpretados, para se chegar ao verdadeiro conhecimento, o saber que transforma a realidade, adaptando-a às sempre renovadas necessidades. Os diplomas obtidos por ter freqüentado cursos universitários, em si, não são suficientes, não garantem emprego algum. Como disse Benjamin Franklin, “um idiota letrado é muito mais idiota que um ignorante”, ou, segundo afirmou Paul Valéry, “não hesito em declarar: o diploma é o inimigo mortal da cultura”. O que se pede é inteligência e, sobretudo, competência, que se adquire pelo esforço do aluno em acompanhar o conteúdo das aulas com leituras e pesquisas em casa ou em bibliotecas. A relevância da leitura para a formação da personalidade individual é assinalada pelo poeta Mário Quintana, por um jogo de palavras: “livros não mudam o mundo; quem muda o mundo são as pessoas; os livros só mudam as pessoas”. É tão importante o estudo a domicílio que alguns países mais avançados estão instituindo a prática da Homeschooling: o ensino doméstico, ministrado por familiares e professores particulares, substituindo a escola pública, para melhorar a qualidade da aprendizagem, evitar o contato com gente de baixo nível e esconjurar o perigo do uso de drogas. A prática da educação em casa começou com o movimento hippies (Liberalismo), na década de 1960, que defendiam um tipo de ensino livre do sistema educacional conformista. A filosofia e a ética hippie surgiram em oposição à “Era da Repressão”, que até então dominara na educação da juventude. As bandeiras “Paz e Amor”, “Faça o Amor e não a Guerra”, “Faça o que quiser desde que não faça mal a ninguém” e semelhantes introduziram a “Era da Permissividade”. Pena que o ideal de liberdade praticado pelo modo de vida dos hippies tenha descampado para o uso da droga e da vagabundagem. Faltou acrescentar o item Trabalho à Paz e ao Amor. Não é justo que gente adulta tem que viver às custas do trabalho de outros. Seria uma nova forma de escravidão. O homeschooling, mais tarde, foi adotado por grupos de cristãos fundamentalistas, que queriam preservar valores morais e religiosos. Hoje, a educação em casa é um sistema de aprendizagem reconhecido pela maioria das Universidades inglesas e americanas, especialmente após a difusão dos sites de busca e das Universidades Livres via eletrônica pela Internet ( Informática). Mas, apesar dos sucessos obtidos, o ensino caseiro deve ser visto apenas como uma alternativa possível em alguns grupos

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sociais privilegiados. A educação pública é insubstituível na maioria das sociedades, especialmente as mais pobres, pois estimula a ajuda mútua e o espírito corporativo, além da competição. Deve-se, isso sim, melhorar o ensino público, porque está comprovada uma estreita relação entre o nível educacional e o desenvolvimento econômico de regiões e países. Já os antigos romanos diziam: “non scholae sed vitae discimus” (devemos aprender para a vida e não para a escola), pois não adianta passar de ano, tirar um diploma e não saber nada. Fundamental é criar o hábito da leitura em casa, o meio insubstituível da aprendizagem pois, no dizer de do dramaturgo Ionesco, “a inteligência é como ferro; sem usar, enferruja”. Como afirma o escritor japonês Hateiva, “não há artesão sem ferramentas, nem sábio sem livros”. O que realmente importa, dá satisfação e recompensa monetariamente é a competência, o know hou, o saber como fazer alguma coisa. Educação, Trabalho e Economia são três fatores diretamente proporcionais: sem um bom nível de escolaridade não se consegue nenhum emprego decente e sem uma boa profissão não se ganha dinheiro honestamente. É um fato documentado por várias estatísticas que o crescimento econômico está ancorado na educação, haja visto que as nações mais desenvolvidas são as que mais investem em escolas, esportes, artes, na cultura física e intelectual de seus cidadãos, especialmente das crianças. Para se chegar à “sociedade do conhecimento” faz-se necessária uma “educação continuada”. Ninguém pode parar de se atualizar, devendo usar qualquer meio a sua disposição: cursos de pós-graduação, de reciclagem, de aperfeiçoamento profissional; acompanhar os progressos das ciências e das artes através da leitura de jornais e revistas; participar de congressos e exposições; assistir filmes, peças teatrais, bons programas televisivos; recorrer a sites de busca da Internet para obter mais informações culturais; não dispensar a orientação de docentes e pesquisadores especializados nos vários assuntos; e, sobretudo, ler muito, mesmo sob a forma de autodidatismo, pois a leitura, além das viagens, é o meio mais estimulante para a reflexão sobre a vida. Um ditado japonês ensina: “o pai que quer bem ao filho, o faz viajar”. Se não puder aprender diretamente através de viagens, que leia pelo menos! Se uma sociedade quer ver seus sonhos realizados deve promover a educação do seu povo, pois o bem-estar, individual ou coletivo, está na dependência de uma contínua aprendizagem. Ter um nível intelectual alto não está relacionado necessariamente com o emprego conseguido: nos Estados Unidos há universitários dirigindo táxi ou servindo em lanchonete; na Europa é comum uma moça fazer um curso universitário apenas para adquirir mais cultura, o que lhe permite ajudar os filhos a fazer suas tarefas de escola, compreender melhor as pessoas e a realidade em que vive, sentir a importância de uma obra de arte. Isso é civilização! A essência da educação de um povo reside no estudo das humanidades para desenvolver idéias, sentimentos e espírito crítico, além de qualquer objetivo prático. Mas é claro que inovações tecnológicas e temas atuais de física, biologia e genética não podem ser descuidados, devendo ser ensinados também nos chamados “departamentos de humanas”. Não faz mais sentido estabelecer barreiras entre as várias ciências e as artes. Um cientista sem cultura geral pode ser tão nocivo à sociedade quanto um humanista sem nenhum conhecimento científico. A escola pública e privada, nas várias áreas e nos vários níveis (não apenas no universitário), tem a função de fazer a cabeça do aluno e do cidadão, estimulando a curiosidade, o livre pensamento, a atividade criadora e julgadora. As seguintes perguntas do poeta e crítico T.S. Eliot indicam a necessidade da seqüência lógica, seguindo a linha informaçãoconhecimentosabedoriavivência: Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação? O polêmico historiador norte-americano David Landes, no seu livro A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998), retoma, de uma forma mais ampla e fora do conflito religioso, a tese já clássica de Max Weber (1864-1920), exposta na famosa obra A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Lutero). Para os dois estudiosos, a disparidade de crescimento entre os diversos países dos vários continentes tem como causa fundamental a falta de cultura e do espírito de trabalho. Com efeito, a análise histórica da decadência de civilizações outrora florescentes (Egito, China Imperial, Europa medieval, Islamismo atual) apresenta como elementos comuns determinantes, além do baixo nível do ensino público, os costumes

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conservadores, a projeção da felicidade humana no além-túmulo, a falta de liberdade e de democracia, o espírito quietista e contemplativo, o desestímulo ao progresso e à criatividade. Os países que, deixando de lado o absolutismo fetichista, ignorante e supersticioso, de deuses e reis, investiram maciçamente na educação e na cultura de todas suas camadas sociais, com liberdade e democracia, estimulando a criatividade e o trabalho, atualmente são os mais desenvolvidos: USA, Japão, Alemanha e outras nações européias. No fritar dos ovos, só uma forte cultura laica e democrática pode levar a um desenvolvimento social, econômico e artístico, que possa ser duradouro por atingir a grande massa de um povo. E uma Nação, sozinha, não consegue alcançar o ideal de propiciar a felicidade a seus cidadãos, se estiver circundada de povos incultos e economicamente subjugados, pois seu poderio vai semear ódio e vingança, provocando guerras e terrorismo. O pesquisador americano Samuel Huntington, pelo influente livro O Choque das Civilizações, publicado em meado dos anos 90, é considerado o profeta da era moderna, pois parece ter previsto o desastre de 11 de setembro de 2001, quando o terrorismo islâmico derrubou as Torres Gêmeas de Nova York, ao escrever que haveria um choque iminente entre o Ocidente e o mundo muçulmano. Ele identifica oito tipos de civilização contemporânea: a chinesa, a japonesa, a islâmica, a russa ortodoxa, a ocidental, a latino-americana, a africana e a indiana. A que domina o mundo, atualmente, sem dúvida, é a Ocidental, que engloba os Estados Unidos da América do Norte e a maioria dos países europeus mais avançados. E também não há dúvida de que esta é a civilização mais progressista, pois fundamentada em princípios sólidos, herdados das instituições constitucionais que se sucederam à Revolução Francesa: democracia liberal, mercado livre e forma de governo laico. Através do processo de Globalização, a civilização Ocidental tenta impor sua cultura aos outros povos. O exemplo é o milagre da Comunidade Européia. No dia 1º de maio de 2004, mais uma dezena de países do Leste do Continente aderiram ao Mercado Comum, totalizando 25 nações que aboliram fronteiras e moedas. Mas, no Oriente Asiático, a missão é mais difícil, pois modernizar civilizações implica na perda da identidade cultural e religiosa de povos que têm tradições milenares. A mais problemática é a civilização islâmica pela sua extensão territorial, pela massa populacional e, sobretudo, pelo imenso poder que a Religião muçulmana exerce sobre o governo do Estado. E a história nos ensina que todo o regime teocrático é “involutivo”, pois qualquer tipo de “fundamentalismo” é retrógrado, impedindo o livre exercício da liberdade e da criatividade. Veja-se, por exemplo, o atraso em que ficou a Europa durante a era da dominação cristã, do séc. V ao XI. É impressionante constatar que por mais de seiscentos anos, afogada a cultura greco-romana, nenhum país europeu produziu um filósofo, um cientista um artista, sequer! Alguém conhece algum homem ilustre que viveu durante esses longos seis séculos? Não é uma vergonha para a Humanidade? (Medievalismo) O fanatismo religioso, de qualquer credo, é a perene causa da guerra, da injustiça, da miséria, da ignorância e da escravidão ética e econômica de um povo. Deus está muito bem no Céu, mas, quando desce na Terra e assume o poder público pelas mãos de padres, pastores, talibans ou aiatolás, é uma desgraça cívica, na certa! Infelizmente, a maioria das culturas religiosas, enraizada em tradições seculares, impõe um tipo de vida que contraria a própria natureza, tolhendo ao homem o seu dom mais precioso, o de pensar e agir livremente. Como afirmou Marcel Proust, “a persistência de um costume está, geralmente, em relação direta com o seu absurdo”. É desalentador constatar como a cultura de massa generaliza a imbecilidade! O que nos chamamos de vida social ou de moral burguesa, no fim, é uma grande hipocrisia que, o que é pior, nos faz viver numa estado de infelicidade no maior tempo de nossa existência.. Stendhal definiu a sociedade como um “ignóbil baile de máscaras”. Quem sabe, um dia, o homem aprenda a fazer correto uso da sua racionalidade e crie uma sociedade onde predomine o bom senso, fundamento de um possível viver em tranqüilidade! CUPIDO (deus do Amor, filho de Afrodite)Eros Psiquê Vênus CYRANO de Bergerac (peça teatral de Edmond Rostand) Refletir é desordenar os pensamentos... Eu não tenho verdades, somente convicções. (Rostand)

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Edmond Eugène Alexis Rostand (1868-1918), poeta e dramaturgo francês, representa a reação neo-romântica ao teatro naturalista. A obra que o tornou internacionalmente famoso foi Cyrano de Bergerac. O personagem-título é uma adaptação teatral de uma figura histórica, um homônimo que viveu na época barroca, soldado e poeta, que adquiriu fama pelo seu nariz descomunal e pelas suas Cartas de amor. Rostand faz de Cyrano um herói tipicamente romântico, com nuances de cavaleiro medieval: gentil, de nobres sentimentos, apreciador do amor sincero, da amizade, do altruísmo, que luta contra a covardia, a hipocrisia, a opressão dos poderosos. O centro romanesco: Cyrano, homem maduro e com um nariz enorme, ama a linda Roxana, sua prima. Mas ela está mais ligada na beleza do jovem Cristiano, amigo de Cyrano. Só que o rapaz não possui a arte de seduzir as mulheres, pois lhe falta o brilhantismo verbal, os ditos inteligentes e espirituosos, que tanto encantam Roxana. Cyrano, então, renuncia ao seu amor pela prima em favor do amigo, ensinando-lhe como conquistar o coração da jovem. O plano tem pleno êxito: Roxana se apaixona pelas belas palavras e pelas cartas inflamadas de Cristiano que, na verdade, são de autoria de Cyrano. Somente no fim da peça, anos depois da morte do marido Cristiano, Roxana vai perceber a nobreza de sentimentos e o amor profundo que seu primo sentira por ela. Mas é tarde demais: Cyrano também morre, vítima de um ferimento. Esta peça teve, tem e continuará tendo grande sucesso de público, pois o personagem-título simboliza o que poderíamos chamar de “romantismo eterno”. O sentimento profundamente altruísta da renúncia do próprio amor, ajudando o rival a conseguir o afeto da jovem, objeto do seu próprio desejo, encanta a vasta camada de público que gosta de ver projetado no palco, como na tela do cinema ou da televisão, a imagem do ser humano idealizado, capaz de sublimar seus instintos. Acrescente-se ainda que um motivo tão sublime é tratado sem nenhum pedantismo ético ou religioso, mas com um tom alegre, divertido, pois a feiúra do nariz de Cyrano contrasta com a beleza de seu coração e de seus ditos espirituosos. A peça Cyrano de Bergerac teve a melhor adaptação cinematográfica com o nome de Roxanne (1987), com direção de Fred Schepisi e interpretação de Steve Martin, Daryl Hannah e Rick Rossovich. DADAÍSMO (movimento estético do Modernismo europeu)Vanguarda O movimento artístico da vanguarda suíça, que ocorreu entre 1916 e 1921, teve seu nome “dadá” (as primeiras sílabas faladas por uma criança) escolhido ao acaso, quando Tristan Tzara abriu o dicionário Larousse, no cabaré “Voltaire” de Zurique. Ele e outros intelectuais e artistas, revoltados contra os horrores da I Guerra Mundial, tentaram substituir a cultura do passado por algo de novo, sem saberem exatamente o que fosse. O movimento se caracterizou por um cunho fortemente anárquico, expressando a rebelião da geração jovem contra os poderosos círculos internacionais e a burguesia acomodada. Foi uma tentativa essencialmente contestatória, antiarte por excelência pois, através de arruaças, exposições extravagantes, agitações anárquicas, banquetes excêntricos e tumultuados, os dadaístas gritavam a sua trágica revolta, ridicularizando tradições e valores institucionalizados. A única norma estética era a “lei do acaso”, apregoando a poesia e a pintura automáticas: faziam poemas remexendo alguns recortes de jornais no fundo de um chapéu; misturavam tintas sem nenhum critério; convidavam os visitantes de suas exposições a quebrarem os quadros à vontade, pois achavam que não tinham nenhum valor eterno; choravam nas cerimônias nupciais; davam risadas durante os enterros; enfim, pregavam e praticavam o mais absoluto inconformismo. Da Suíça o movimento se espalhou para o mundo, sendo cultivado especialmente em Nova Iorque, onde expuseram seus objetos Picabia, Man Ray e Duchamp, e em Paris, conseguindo a adesão, no campo literário, de André Breton. Mas este poeta francês logo renegou o Dadaísmo por achar que não levava a nada e, em 1921, deu origem à corrente surrealista (Surrealismo). DAFNE (e Dáfnis: o mito da virgindade glorificada e a origem do loureiro) Em grego, a palavra dafne significa “louro” e, por ser uma planta que permanece verde no inverno europeu, passou a simbolizar a “imortalidade”, adquirida pela “glória”. Consagrada ao deus Apolo, suas folhagens eram usadas para coroar os heróis das guerras e dos esportes, os poetas e os sábios. Na origem das crenças e dos cerimoniais está o mito de Dafne, que teve várias versões, mas que, na sua essência, pode ser reduzido à seguinte história ficcional: uma jovem e bela ninfa consagra-se a Diana, deusa da virgindade, fazendo voto de renunciar ao amor e ao casamento. Mas o deus Apolo se apaixona por ela e a persegue, tentando convencê-la a ceder à paixão amorosa. Ela resiste, se esconde, foge, até que, quando

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está para ser violentada, Júpiter intervém e a transforma em loureiro. Triste e arrependido, Apolo consagra o vegetal ao seu culto. A lenda da jovem Dafne, na mitologia grega, tem um correspondente masculino: Dáfnis, um semideus siciliano, abandonado pela mãe num bosque de loureiros consagrado às ninfas. Estas ensinaram ao belo rapaz como pastorear, Apolo o instrui na arte de tocar flauta e a deusa Diana o treinou para a caça. Os mitos de Dafne e de Dáfnis estão entre os mais explorados, junto com os de Orfeu e de Édipo. Encontramo-los em várias manifestações artísticas da cultura ocidental: Literatura, Teatro, Dança, Artes plásticas, Cinema. A fábula de Dafne aparece na Grécia, documentada a partir do séc. III a.C. Uma das primeiras narrativas ficcionais em prosa da língua grega é o romance pastoral Dáfnis e Cloe, de autoria de Longo (Longus em latim e Lóggos em grego). O poeta latino Virgílio faz várias referências ao mito de Dafne na Eneida e nas Bucólicas; mas é o lírico romano Ovídio, o poeta do amor, que, em suas Metamorfoses, melhor dramatiza a história de Dafne, dando-lhe inclusive alguns toques de volúpia: o vento levanta sua roupa durante a fuga, como que para mostrar melhor seus encantos ao perseguidor. A partir do fim da Idade Média, mas especialmente ao longo do Renascimento, Barroco e Arcadismo, a figura de Dafne é cristianizada, chegando a ser identificada com a Virgem Maria, fecundada por Deus e continuando Imaculada. Dafne é a eterna configuração do amor que, não sendo satisfatória sua realização ao nível carnal, se transfigura e atinge a imaterialidade, a eternidade. É a representação da mulher angelical que resiste ao assédio sexual, pois quer que o homem amado a deseje num outro nível, o espiritual. É a mulher sonhada pelos poetas provençais (Trovadorismo), é a Laura de Petrarca, a Beatriz de Dante, a Dulcinéia de Cervantes. DALI, Salvador (pintor espanhol)Surrealismo DANÇA (clássica, moderna, de salão, sapateado, biodança)Música Uma úlcera é uma dança não dançada, uma aquarela não pintada, um poema não escrito (Jonh Ciardi) O étimo é do antigo francês dancier, atual danser, enquanto os termos afins baile e balé derivam do verbo latim ballare. Os gregos usavam o verbo orkeomai , cognato do substantivo “orquestra”, para indicar a ação da dança que, na sua essência, é a linguagem do corpo, resultando da soma de duas artes: Coreografia e Música. Mas ela estabelece relações com outras artes também: com o Teatro , pela representação cênica (o dramaturgo sueco Strindberg intitula uma sua peça A dança da morte, em que põe em cena o “vai-vem” monótono da vida conjugal, que torna marido e mulher dois adversários mesquinhos e sórdidos); com o Cinema, especialmente os filmes musicais, dancings, sapateados; com o show artístico e folclórico, com a Pintura (o quadro mais famoso com o título “A Dança” é de Henri Matisse), a Escultura (o modelo em gesso, de Jean-Baptiste Carpeax, também chamado “A Dança”). Fora do campo das artes plásticas, a dança estabelece uma relação profunda com a Religião, especialmente nas suas formas primitivas e rituais dos grupos tribais e nos cerimoniais sagrados orientais. A dança é uma das artes mais presente nas manifestações culturais de todos os povos e em todos os tempos. A universalidade do uso da dança talvez encontre sua explicação no inconsciente coletivo, simbolizado pelos gregos através do mito do andrógino: o irresistível desejo da volta à primordial conjunção do ser masculino e feminino, separados por vontade de Júpiter. Na dança, especialmente em suas modalidades mais sensuais, o homem e a mulher se entrelaçam, tentando reconstruir a perdida unidade. Nos povoados primitivos a dança, praticada muito mais do que nas sociedades civilizadas, funciona como uma espécie de terapia ocupacional, uma fuga da monotonia do cotidiano e, sobretudo, um aprendizado, pois ritos, ritmos e coreografias servem como iniciação nos mistérios da vida, representando fertilidade, casamento, guerra, morte. Mesmo nas sociedades aculturadas, a prática da dança, especialmente a de salão, tem seu aspecto educativo. Como afirma Stephen Kanits, há trinta anos (anteriormente à moda da música de discoteca), os adolescentes escolhiam seu par em bailes de salão organizados por clubes ou igrejas. Nestes bailes, as moças acabavam conhecendo o caráter dos futuros maridos pelo modo como o jovem conduzia a parceira, planejava o rumo dos passos, lidava com o fracasso, quando um pisasse no pé de outro. O olho no olho, o carinho do toque, o cheiro da pele, o romantismo da música e das letras estimulava a atração física e espiritual.

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A dança, como qualquer outra atividade humana, evidentemente, evoluiu ao longo dos tempos, adquirindo várias denominações: primitiva, religiosa, folclórica, de salão, de corte, latina, caribenha, carnavalesca etc. Ela é praticada por diferentes ritmos e movimentos, nas várias modalidades. Uma importante divisão é feita entre dança “clássica” e dança “moderna”. Até o início do do século XX, paralelamente às formas populares de bailado, era cultivada a chamada dança clássica, de escola ou de salão, rigorosa quanto aos ritmos, à coreografia, aos calçados e às vestimentas; até que a dançarina norteamericana, de origem irlandesa, Isadora Duncan (1878-1927), revolucionasse o conceito de dança, libertando esta arte das amarras dos modelos rígidos ensinados especialmente nas escolas francesas de “La Belle Époque”. Duncan, retomando o modelo da dança primitiva da Grécia, vestida com uma simples túnica, descalça, movimentava-se ao som de músicas que não tinham sido compostas especificamente para a dança. Nascia, então, a dança “livre” ou moderna, sem nenhuma regra fixa quanto a ritmo, movimento ou coreografia. Portanto, a tipologia contemporânea da dança apresenta três macro-gêneros, cada qual com suas variadas espécies: l) a dança popular ou folclórica; 2) a dança clássica; 3) a dança moderna. Evidentemente, tal divisão, como qualquer classificação, é apenas didática, nunca rígida, podendo-se encontrar formas intermediárias ou misturadas. Eis uma pequena revista dos principais ritmos de danças e bailados: Sapateado: dança de origem espanhola, mas que chegou à glória máxima nos EUA ( tap-dance) com o teatro de vaudeville, o showbiz e o cinema de Fred Astaire. Sua característica é marcar o ritmo musical com a ponta e o salto dos sapatos, às vezes munidos com chapas metálicas. Um personagem do filme de Fellini Ginger & Fred afirma, com uma boa dose de sarcasmo, que a origem do sapateado está no sistema de comunicação entre os escravos que trabalhavam nos algodoeiros americanos. Eles usavam as batidas dos pés como uma linguagem secreta, uma espécie de alfabeto Morse, para não serem entendidos pelos patrões, fazendo do sofrimento um show. Habanera: de Havana, era um bailado afro-cubano que, com seu compasso binário, tendo o primeiro tempo fortemente acentuado, influenciou a maioria das danças populares dos países ibéricos e hispano-americanos, especialmente o maxixe (dança carioca da década de 1870-1880, substituída pelo samba), a milonga e o tango. Bolero: dança e canto de origem castelhana, tradicionalmente acompanhada de castanholas, guitarras e tamborim. Na sua versão mexicana, o bolero começou a ser cultivado em toda América Latina, a partir do início do séc. XIX. Na da década de 20, com o surgimento da primeira fábrica de discos, o bolero mexicano invadiu o mercado da música latino-americana. Forrô: o étimo mais aceito é do inglês for all (“para todos”). No Nordeste brasileiro, os donos de engenhos e outros ricaços estrangeiros, após suas festas, liberavam os terreiros para os escravos e outros serviçais se divertirem, bailando ao ritmo da sanfona, zabumba e triângulo O ritmo popular, dançado nos pés-de-serra, se urbanizou e do Nordeste se espalhou pelo país todo, sendo hoje em dia a música mais tocada nos bailes de salão, especialmente durante as festas juninas. Mambo: do zulu im-amba (“cobra”), o mambo é uma dança de origem cubana. O ritmo é mistura de rumba (outra dança cubana de origem africana) e de swing (“balanço”), também chamado de soltinho, uma qualidade rítmica do jazz norte-americano em voga na década de 40, chamada a “era do swing”, tocado pelas big bands. Neste tipo de bailado bem sensual, o compasso de 2/4 é realçado pela percussão e pelo jogo dos quadris, alternando o lado. Milonga: o étimo é de origem africana, a língua falada pelos Quimbundos, indígenas de Angola, que chegaram na baia do rio de La Plata, nos fins do século XIX, morando nos subúrbios de Buenos Aires e Montevidéu. O sentido primitivo de milonga é “palavra”, daí a expressão em língua portuguesa “deixa de milongas”, de palavreado longo, vazio, mentiroso. Mas milonga significa também um canto platino dolente ao som do violão e uma dança em ritmo binário, uma mistura de habanera e tango andaluz que, embora ofuscado pelo tango argentino, ainda tem seus cultores. Tango: em suas origens, a palavra “tango” indica um tambor africano e a dança executada ao som desse instrumento musical. Em fins do séc. XIX, surgiu nos subúrbios de Buenos Aires, o famoso “tango argentino”, que se tornou uma das mais famosas e duradouras dança de salão sul-americana. A perfeição

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de sua configuração rítmica e coreográfica, em suas múltiplas variantes, foi conseguida pela convergência de várias danças anteriores: a cubana habanera, a africana milonga, o tango andaluz e outros ritmos populares europeus, além do candomblé brasileiro. Dança muito sensual pelo forte entrelaçamento dos corpos do casal, no começo era praticada por mulheres levianas que, na zona do porto do rio de La Plata, proporcionavam diversão aos marinheiros e viajantes. Mas, aos poucos, começou a ser aceita pela sociedade, tornando-se dança de salão, sendo ensinada e praticada nas mais importantes cidades da Argentina e da América do Sul, ultrapassando inclusive as fronteiras continentais. Tarantela: do italiano Tarantella, nome topográfico da cidade siciliana Taranto, é uma dança popular do Sul da Itália. De ritmo bem alegre, a música é acompanhada de tambor ou de castanholas e, geralmente, também pelo canto coral. Esteve na moda entre o fim do século XVIII e o início do XIX. Atualmente faz parte do folclore da Itália Meridional. No Brasil, a Tarantela ainda é cultivada por grupos de origem italiana e por simpatizantes, dançada durante festas a caráter. Valsa: do alemão walzer, do verbo walzen (“girar”). É uma dança de salão padronizada, em três tempos, caracterizada pelo rodopio dos casais. De origem austríaca, passou a substituir o minueto nas festas da alta burguesia euopéia. Além da valsa-dança, temos a “valsa de concerto”, que teve muitos cultores na música sinfônica. Famosa é a valsa vienense, de ritmo bem vivo e rápido, cujos clássicos foram Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Weber, Chopin, Liszt e os três irmãos Strauss (Johann, Joseph e Eduard). No Brasil, a valsa costuma ser tocada e bailada em ocasiões especiais e solenes, como festas de formatura e de aniversários. A valsa passou a identificar o bailarino: é chamado “pé-de-valsa” quem dança bem. A dança contemporânea: a partir dos anos 50, quer os ritmos latinos, quer os norte-americanos, apresentam a tendência a separar os casais, prestigiando a dança solta, individual ou em grupo, embalada pelo ritmo frenético do saxofone, das trombetas e dos instrumentos de percussão. Uma série de modas se sucede: swing, salsa, calipso, cha-cha-cha, twist, rock-and-roll, hully-gully, iê-iê-iê, jazz ( Música). Nas discotecas, as novas gerações se divertem acompanhando o ritmo dos metaleiros com movimentos livres, improvisados, sem condução do parceiro, cantando numa língua que a maioria não conhece. É uma pena que a percussão esteja matando a melodia e a dança não entrelace mais homem e mulher, que é a melhor configuração artística da conjunção do masculino e do feminino! Mas, felizmente, ainda há gente de bom gosto (especialmente adultos) que prefere o som harmônico da dança de salão à barulheira da discoteca. À biodanza dedicamos um verbete específico. DANTE, Alighieri (poeta símbolo da Itália: A Divina Comédia) Lasciate ogni speranza voi che entrate “Deixai qualquer esperança, vós que entrais”: este famoso verso se encontra na porta de entrada para o Inferno, a primeira parte de La Divina Commedia, a obra-prima de Dante, da literatura italiana e da cultura da Idade Média. Apesar do nome “Comédia”, e do sentido de “Epopéia”, a obra não faz parte do gênero dramático e nem do épico, sendo um longo poema “didático-alegórico”, por ter uma finalidade educativa e porque os ensinamentos são ministrados por uma cadeia de "símbolos", isto é, signos materiais que remetem à espiritualidade. Mas, se a obra máxima de Dante não é propriamente a epopéia de um homem ou de um povo, ela se configura como o epos de toda a humanidade, na busca do caminho da justiça social e da perfeição moral. A grandeza do poeta italiano reside em ter conseguido elevar à categoria da universalidade os problemas seus e de sua terra natal, através da força transformadora da arte. É por isso que seu poema parece ser sempre atual ao leitor de qualquer tempo e de qualquer lugar. De outro lado, é evidente o estrito parentesco da Divina Comédia com a poesia épica greco-romana. Virgílio, junto com o próprio Dante e a amada Beatriz, é uma das três personagens principais do poema. O autor da Eneida é escolhido como mestre e guia espiritual e poético. A idéia central da obra dantesca, expressa através da imagem da vida como longa peregrinação em busca das origens divinas do homem, já se encontra na Odisséia e na Eneida: Ulisses, que volta para sua terra natal, e Enéias, que chega à terra de seus ancestrais, são os protótipos de Dante, que, exilado, não conseguindo retornar a sua Florença, torna-

que ele apresenta em seus traços verdadeiros. Mas este aspecto particular. o recurso aos personagens da mitologia greco-romana. Por isso que A divina comédia é. o autor da Divina Comédia se apresenta na obra com sua pessoa física. Enumeramos os mais importantes: a descida ao inferno e a subida aos campos Elíseos. que determinou a colocação da enorme bagagem cultural de Dante em forma de arte. o que é mais importante. O conflito entre o partido dos Guelfos e dos Guibelinos. quer do poder papal. está impregnada de um profundo realismo. O partido dos . Na Itália. da justiça e do amor nesta terra e a fé num mundo melhor no além. que defendia os direitos dos pequenos Estados feudais. cada qual recorrendo à ajuda estrangeira. pessoa do mundo real. e o "narrador". onde a casa nobiliar dos Wolf. que deu origem ao “Risorgimento” italiano. Notícias sobre o autor e a época As principais fontes biográficas de Dante Alighieri são suas obras. após o movimento romântico. “a história da humanidade toda”. toda a herança da cultura clássica é transubstancializada pela cosmovisão da Idade Média (Medievalismo). de onde a humanidade emanou. A Florença da época de Dante. de pequenas indústrias e de artesanato. Como já fizera Apuleio. a predestinação do herói. A divina comédia é a “história de um homem” que viveu seus últimos vinte anos de vida no exílio. e como fará mais tarde Cervantes. Nele. confirmados pelo testemunho de historiadores. em Dante. no Dom Quixote. o 'eu" que narra não é diferente do "eu" que vive os fatos e do "eu" que escreve a história. pois em todas elas temos referências explícitas à sua vida. Dante Alighieri nasceu em Florença. a fonte doutrinal do poema dantesco.73 se cidadão do mundo. E. Podemos considerar a obra de Dante como a "suma" poética da Idade Média. após uma longa viagem de sofrimento (Inferno) e de purificação (Purgatório). que apoiava o imperador em suas pretensões de domínio. Mas sua vida política era perturbada pelas lutas externas (com outros principados) e internas. no mês de maio de 1265. imaginando voltar para o seio de Deus ( Paraíso). quer do poder imperial. enquanto o dos Guibelinos defendia o direito do imperador germânico. sendo seus contemporâneos. de cânones estéticos e morais. comparável às "sumas" filosófica e teológica de Tomás de Aquino. peregrinando de uma cidade para outra. referindo-se à sua realidade existencial. porque Virgílio vai embora. o partido dos Guelfos estava a favor do poder papal. no Asno de ouro (Metamorfoses). Antes. pois chorar te convém por outra dor. que confere universalidade a episódios contingentes. a ficção mais fantástica que o gênio humano foi capaz de produzir. vivendo quase de esmolas. teve nome e origem na Alemanha. minúscula república opulenta por ser um centro de comércio. personagem do mundo imaginário. cujos principais heróis foram Mazzini (com suas progressistas idéias filosóficas e políticas) e Garibaldi (com sua ação militar). vítima de ódios políticos. a pátria de Dante viveu por longos séculos desmembrada em vários pequenos Estados. o uso da invocação às musas. sobretudo. não chore ainda. a profecia dos eventos futuros. enquanto o poeta latino Virgílio foi sua fonte estética. dividido em várias cidades-Estado em contínuas lutas pela sobrevivência política. A maioria de seus personagens pertence ao mundo de Dante. devido ao cunho autobiográfico que ele quis infundir em seus trabalhos literários. a amada Beatriz chama-o pelo nome verdadeiro: Dante. de uma modesta família guelfa. que faz parecer o poema de Dante quase como uma "crônica" da Florença de sua época. É também a “história de um povo”. A diferença que hoje se costuma estabelecer entre o "autor". foi a realidade histórica e social. A divina comédia se constitui no compêndio da civilização medieval: nesta obra se condensam e revivem em forma de arte dez séculos de concepção filosófica e religiosa. que assolou a Itália por vários decênios. o recurso dos sonhos e da sua interpretação simbólica. É de se lembrar que a Itália só adquiriu unidade e independência política no século XIX. sendo o berço de poetas e artistas. é sublimado pelo poder da arte. entrou em luta com a casa dos Wibling. tornara-se o centro da cultura italiana. No poema. de instituições políticas e sociais. A motivação. A própria Divina Comédia. em Dante quase se anula. Dante deve a Homero e a Virgílio uma série de topos próprios da poesia épica. Mas. que sofre e luta para alcançar os ideais cívicos da união. Além do motivo central da viagem. o antagonismo do espírito pagão e do espírito cristão é superado pela síntese das duas posturas perante a vida. pois seu protagonista assume o papel simbólico de cidadão do mundo. do povo italiano do fim da Idade Média. ainda não chore.

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Guelfos que, na época de Dante, governava a cidade, estava dividido em duas facções: uma, chefiada pela família dos Donati, representava a nobreza tradicional; outra, comandada pelo clã dos Cerchi, era formada pela burguesia que, enriquecida pelas suas atividades industriais e comerciais, aspirava a uma participação efetiva no governo da cidade. De um conflito entre famílias da vizinha cidade de Pistoia, as duas facções tomaram o nome de “Bianchi” (de Bianca Cancellieri) e de “Neri” (Negros, em oposição). Os primeiros constituíam, por assim dizer, o partido democrático, ciosos como eram de suas liberdades cívicas; os segundos, o partido tradicional e aristocrático, favorável à tutela e à intervenção do papa nos negócios internos de Florença. Saliente-se que a briga entre famílias poderosas pelo governo de um pequeno Estado era comum na Itália do fim da Idade Média. Lembramos a rivalidade das famílias Montecchi e Capuleto, em Verona, que originou a imortal história de Romeu e Julieta. Apesar deste clima de lutas, a infância de Dante foi tranqüila. Recebeu a primeira formação intelectual no convento de Santa Cruz dos padres franciscanos, completando os estudos literários, retóricos e filosóficos com o mestre Brunetto Latini e nas universidades de Bolonha e de Paris. Ainda quando tinha nove anos, ficou deslumbrado ao defrontar-se, numa festa, pela primeira vez, com Beatriz Portinari, um ano mais nova, menina de uma beleza angelical. A visão de Beatriz marcou profundamente a psique do futuro poeta. Mas este amor puro não lhe impediu de ter relações amorosas com outras senhoras. Beatriz morreu em 1290, e Dante, já há tempo órfão, acabou contraindo matrimônio com Gemma Donati, com quem teve três filhos. Sua tranqüilidade teve fim quando começou a participar da vida pública, inscrevendo-se na corporação dos médicos. Ocupou cargos importantíssimos como membro do Conselho dos Cem, várias vezes embaixador e um dos seis priores, que constituíam o poder executivo da cidade. Sua ação política visou sempre a apaziguar as facções rivais, não escondendo todavia sua simpatia pela causa dos Bianchi, o partido mais humilde. Seu parecer de expulsar da cidade os homens mais violentos das duas greis foi aprovado pelo Conselho dos Cem, mas, na execução da ordem, os mais atingidos foram os Neri, entre os quais se encontrava o poeta Guido Cavalcanti, o maior amigo de Dante. Este fato atirou sobre o poeta o ódio do partido, que pediu a ajuda do papa Bonifácio VIII. Este solicitou a intervenção do rei da França, Felipe o Belo, que enviou a Florença seu irmão Carlos de Valois para punir a facção dos Bianchi. Com a ajuda do papa e da casa da França, em fins de 1301, os Neri expatriados retornaram a Florença e perpetraram a vingança, depondo os Bianchi do poder e saqueando suas residências. Era a vez de os Bianchi serem exilados. Dante, durante a viagem de regresso de Roma, onde fora em embaixada para evitar a intervenção papal, tomou conhecimento da vitória dos Neri e de sua condenação a uma multa de cinco mil florins e ao exílio por dois anos. O poeta, sem dinheiro, indignado pela injusta sentença e temeroso de enfrentar seus inimigos exacerbados pelo ódio, ficou na vizinha cidade de Siena. O não-pagamento da pena pecuniária provocou outra sentença bem mais rigorosa: o confisco dos bens e o exílio perpétuo, com a pena de morte, caso voltasse à cidade natal. De 1302 a 1321, ano de sua morte na cidade de Ravenna, Dante peregrinou por vários Principados do centro e do norte da Itália, tentando sempre em vão o almejado retorno a Florença e vivendo da compreensão dos nobres italianos, que começavam a admirar seu gênio poético. Esta frase sintetiza a vida atribulada do poeta: “não há dor mais profunda do que se lembrar do tempo feliz quando se está na miséria” Composição da obra A Divina Comédia é composta de três partes, chamadas de cânticos: "O Inferno", "O Purgatório" e "O Paraíso". Cada cântico se compõe de trinta e três cantos, com exceção do primeiro que contém trinta e quatro, pois inclui o primeiro canto, que é introdutório ao poema todo. A obra é constituída, portanto, de cem cantos. Cada canto, com uma média de cento e trinta versos, é composto de um número variável de tercetos, de versos decassílabos e de rima alternada. A primeira coisa que impressiona, ao estudar A divina comédia, é a capacidade de estruturação de seu autor. O número três, que na Idade Média era considerado mágico, acusa sua presença constante ao longo da obra: três cânticos, três vezes trinta e três cantos, estrofes de três versos, três feras no primeiro canto, três senhoras no segundo, nove "círculos" no inferno, nove "patamares" no purgatório, nove ''ceus'' no paraíso. Apenas mais uma particularidade da estrutura rígida da obra: as três partes terminam todas com a palavra ''estrelas”. Poderia se pensar que esta organização rigorosa, que torna A divina comédia a obra mais "fechada" de que temos

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notícia, pudesse prejudicar a inspiração poética de seu autor. Isso não acontece porque o gênio artístico de Dante não conhece separação entre estrutura e poesia. Ele soube estabelecer um equilíbrio perfeito entre os conteúdos ideológicos de seu mundo e a forma artística apta a expressá-los. A leitura da obra dá-nos a impressão de que Dante não pensou primeiro no conteúdo para, em seguida, dar-lhe forma, mas que os versos, com suas rimas, metros e acentos, iam saindo espontaneamente de seu espírito poético. Nenhum elemento do metaforismo estético do poema, repleto de imagens, comparações e símbolos, em momento algum, parece ser artificial e forçado. O halo da poesia que brota de seu espírito supera e sublima os esquemas estruturais e os modelos da cultura medieval . Quanto à configuração espacial do mundo dantesco, o poeta italiano imaginou o Inferno formado por uma profunda voragem, em forma de funil, provocada pela queda do anjo rebelde Lúcifer quando, derrotado por Deus, foi lançado no centro da terra, nas proximidades de Jerusalém. Dante, evidentemente, acreditava no sistema ptolemaico, vigente na época, que considerava a terra o centro do Universo, ao redor da qual giravam os astros. Na cratera, composta de nove círculos, sempre mais estreitos na medida em que se desce, estão distribuídas as almas dos pecadores condenados às penas do inferno. O Purgatório é representado como uma montanha formada pelo deslocamento da massa de terra provocado pela queda de Lúcifer: o solo, empurrado pelo anjo rebelde, elevou-se do outro lado da terra, no hemisfério austral, aos antípodas de Jerusalém. Também o Purgatório se divide em nove partes: na base da montanha, o antipurgatório; ao longo da encosta, sete patamares, de forma circular, parecendo terraços; no topo, o paraíso terrestre. As almas, na medida em que se purificam, vão subindo a montanha. Como se pode perceber, o espaço do poema dantesco é "vertical", sendo que, no Inferno, a direção é para baixo, enquanto que, no Purgatório, a direção é para cima. O Paraíso , imaginado acima do Purgatório, é composto de nove céus, que regem os planetas Lua, Mercúrio, Vênus etc. Sobre os nove céus está colocado o “empíreo”, composto de pura luz, onde vivem a Santíssima Trindade, a Virgem Maria e as almas santificadas, envolvidas pelos nove coros angélicos, que irradiam sem parar as ondas luminosas da graça de Deus. Aqui, o movimento não é nem ascendente, nem descendente, mas ''circular'', a indicar a comunhão constante da visão beatifica de Deus. Quanto às determinações temporais, o tempo da enunciação (Discurso) corresponde, de um certo modo, ao tempo empregado pelo autor na composição da obra: Dante escreveu A divina comédia durante o exílio, no último decênio de sua existência (1310-1321). Muito mais curto é o tempo do enunciado (Mito). Dante imaginou fazer sua viagem no mundo ultraterreno em uma semana: da noite da Sexta-Feira Santa, dia 8 de abril, até quinta-feira da semana seguinte, no ano de 1300. O motivo da escolha desta data prende-se ao fato de ser o primeiro "Ano Santo" da história do Catolicismo: o papa Bonifácio VIII determinou que o primeiro ano do novo século fosse considerado "jubilar", concedendo indulgências dos pecados a todos os peregrinos que fossem rezar em Roma (note-se a semelhança com a obrigação dos muçulmanos visitarem a Meca, capital do Islamismo). Quanto ao título do poema, Dante chamou sua obra de "comédia", por dois motivos: por ser a história de uma viagem que começa com a tristeza (inferno) e termina com a alegria (paraíso) e por utilizar o estilo simples e a linguagem popular. Essas características distinguiam as duas formas literárias mais tradicionais naquela época: a tragédia, de assunto e de estilo mais elevado, e a comédia, que era a representação da vida cotidiana. Evidentemente, Dante chama sua obra de “comédia” por um sentimento de humildade. O adjetivo "divina" foi acrescentado pelo poeta Boccaccio, anos depois. Sentido do poema dantesco A viagem imaginária de Dante nos três reinos do mundo do além-túmulo, assim como concebidos pela religião cristã, é uma alegoria da peregrinação do homem em busca da perfeição espiritual. Esta, evidentemente, só pode ser conseguida no contexto de uma estrutura social onde reine a justiça, a paz e o amor. Daí o fato de ter a obra dantesca por finalidade não apenas a salvação espiritual do indivíduo, mas também o aperfeiçoamento das instituições políticas e sociais. O Inferno é a representação poética do “extravio” e da perversão humana, cuja causa é a “alienação” da comunidade. O homem dedica-se à violência, à usura, à inveja, a todos os pecados, enfim, apenas se e quando rompe os laços de amor que o deveriam ligar a seus semelhantes. A maior culpa do homem é seu egoísmo e este tem sua origem na

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desordem político-social, que priva o ser humano de qualquer ideal cívico ( Cultura). A própria Igreja, traindo sua função espiritual, persegue bens materiais, sendo representada como uma prostituta. Esta idéia de falta de união social, que leva à degradação humana, é expressa artisticamente por vários componentes poemáticos: 1) Personagens: os atores que povoam as regiões infernais não têm nenhum sentimento de caridade ou de compaixão com seus companheiros de sofrimento, mas acusam-se e denigrem-se mutuamente. A galeria dos tipos de condenados e os lugares e os modos de seu penar são descritos de modo a pôr em evidência o ódio que invade as almas dos que vivem no isolamento espiritual. O fim do sistema de vida feudal que, através da vassalagem ascendente e descendente, unia, de uma certa forma, a sociedade humana, provoca, pela passagem para o sistema de Comunas, Senhorias e Principados, a desagregação política. O preço das liberdades cívicas é o egoísmo dos indivíduos, dos clãs familiares, das classes sociais. 2) Espaço: o verticalismo, no Inferno, assume a direção para baixo. Quanto maior for a culpa do condenado, mais inferior e mais intenso é seu lugar de sofrimento. E quanto mais se desce, mais o ambiente é fétido e oprimente. Além disso, contraposto ao movimento circular e harmonioso do Universo, o espaço infernal é representado como uma voragem, dirigida do exterior e por uma força cega, símbolo da falta de orientação do espírito. 3) Tempo, representado pela eternidade das penas, é negada sua transitoriedade. A perda da esperança da salvação faz com que o Inferno simbolize tudo aquilo que é irremediavelmente fixo, o espessamento espiritual. Dante tenta resolver a grande contradição da religião crista, que consiste no contraste entre a infinita misericórdia de Deus e o dogma da condenação perpétua dos pecadores, sugerindo que a punição eterna não reside na vontade de Deus, visto como justiceiro, mas na autoobstinação dos condenados, na falta de um querer penitenciar-se e melhorar-se. Com efeito, a suprema forma de degradação espiritual é fornecida por Lúcifer ( Satã), representado enrijado no gelo, privado de qualquer movimento, visto como símbolo da insensibilidade. Enquanto a eternidade é a fixação no tempo, a estaticidade é a fixação no espaço. Ambas as noções estão ligadas à idéia da morte, ao passo que o dinamismo indica a vida. Ainda com relação à categoria do tempo, é bom lembrar que a viagem de Dante no Inferno se realiza de noite, representando as trevas, o extravio e a impossibilidade do encontro do equilíbrio existencial. Enquanto o Inferno é o reino da fixidez eterna, no Purgatório predomina o “movimento” que acusa o caráter de transitoriedade desta parte da viagem, indicando a “passagem” do sofrimento para a felicidade. O verticalismo, sentido espacial próprio da estética medieval (vejam-se as catedrais góticas, por exemplo), aqui adquire a direção para o alto: Dante sobe a montanha do Purgatório, em sua caminhada rumo ao céu. A escalada do monte, evidentemente, é o símbolo da ascese espiritual. Esta é expressa plasticamente pelo apagamento, a cada patamar, de um dos sete p (pecados), impressos na fronte do poeta. Mas o p é também a letra inicial de "peso": o princípio da gravidade, que puxa para baixo e dificulta a subida da montanha. O sentido espiritual desta subida material é a “purificação” da alma humana, que se realiza pela passagem das trevas da ignorância (pecado) para a luz da verdade (virtude). O sentido da “visão” que predominará no Paraíso, onde tudo é luz brilhantíssima, já marca sua presença no reino do Purgatório, em oposição ao espaço infernal, completamente escuro. E sintomático o fato de que a viagem pelos sete patamares só se realiza de dia. Ao cair da noite, Dante e Virgílio interrompem a caminhada, pois sem a luz do sol (a inteligência), não é possível o progresso espiritual do homem. O mesmo sono (inconsciência e morte) é vivificado pelo sonho: Dante, durante as várias noites que passa no Purgatório, tem visões que iluminam seu subconsciente. O conhecimento da profundeza da miséria humana, adquirido pela viagem no Inferno, coloca o protagonista em condição de poder "purgar-se" de suas culpas. É o princípio da Psicanálise (Psiquê): somente a descoberta da origem do complexo pode propiciar a cura da doença espiritual. Ao individualismo egoísta e ao ódio recíproco que caracterizam as almas que vivem no Inferno, opõe-se o sentimento de compreensão mútua que irmaniza as almas do Purgatório. A passagem do espírito individual ao espírito coletivo e comunitário é expressa através dos diálogos, dos

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cantos litúrgicos corais e das cerimônias religiosas. A comunhão abrange não apenas as almas que habitam o Purgatório, mas se estende a criaturas que vivem na terra e no céu. Muitos espíritos pedem a Dante que, quando de sua volta junto aos mortais, solicite a seus parentes preces e obras de bem para a diminuição das penas. A instituição da "indulgência" é uma forma de estabelecer uma ligação amorosa entre o mundo dos vivos, o mundo dos mortos e o mundo dos santos. Reciprocamente, as almas do Purgatório (e do Paraíso) não são insensíveis à sorte dos mortais. Se o Inferno é a epopéia do passado, a descrição do que já foi, do imutável, o Purgatório é a epopéia do futuro, da “esperança” de felicidade, que se dá pelo término do sofrimento presente. A esperança de dias melhores não é apenas das almas penadas, mas também dos homens que vivem sobre a terra. Perante sua cidade e sua península, dilaceradas por guerras intestinas, fomentadas pelo ódio e pela cobiça, Dante, colocando-se acima de seus problemas pessoais, sonha com o advento de um imperador enviado por Deus, que possa governar a Itália e a Europa com justiça e ordem. Este seu desejo é compartilhado pelas almas do Purgatório e do Paraíso, que predizem uma era de paz e amor. Mas, diferentemente do que acontece nos outros poemas épicos, onde todas as profecias se efetuam, porque já são realidades no tempo da enunciação, as profecias de A divina comédia não ultrapassam o plano do desejo de seu autor. Por isso, a profecia, mais do que uma predição, é uma exortação aos italianos para que, deixando de cultivar ódios e egoísmos, criem as condições necessárias ao estabelecimento de um governo justo. A finalidade educativa e moralizante da profecia dantesca está evidente na insistência de Beatriz (e de outras almas) para que Dante não se esqueça de referir a seus patrícios exatamente o que ele viu e ouviu: Toma nota: e assim como as expressei estas palavras transmita aos vivos, cujo viver é um correr para a morte. Em verdade, o futuro, antes de ser predito, quer ser “provocado", pois a teologia do Purgatório é toda voltada para o conseguir a “conversão”, a mudança de direção, a renovação de mentalidade, quer no plano individual-espiritual, quer no plano coletivo-social. O sentido mais profundo do Purgatório reside na consideração de que a culpa humana está no apego aos bens materiais que são alienantes, enquanto os bens espirituais (o amor, a fé, o ideal da pátria) promovem a harmonia social e o progresso civilizacional. A harmonia sonhada por Dante se realiza na última parte do poema, no Paraíso . Antes de tudo, este é o reino da “harmonia cósmica”. Com base na ordem astrológico-teológica, assim como concebida na Idade Média, Dante constrói sua visão do Universo. Este é regido por Deus, o motor imóvel que tudo move: sua luz, criadora e fecundadora, é transmitida aos céus e, através destes, à Terra. Os céus, ao rodarem incessantemente, irradiam luz e emitem sons melodiosos que extasiam as almas que os habitam. O espaço celeste não tem o sentido de verticalidade, mas de "circularidade", envolvendo todos os elementos criados, pois nada pode estar fora da esfera da influência de Deus. Junto com o concerto cósmico, é preciso salientar a “harmonia social”. Os espíritos do Paraíso, apesar de ocuparem céus diferentes e de gozarem, portanto, de uma maior ou menor proximidade com Deus, todos vivem igualmente felizes, não havendo possibilidade de inveja, pois cada qual recebeu a parcela de glória proporcional aos seus méritos e à sua capacidade de gáudio. Esta estrutura paradisíaca expressa, alegoricamente, o desejo de Dante de ver construída uma sociedade civil em que se realizasse a unidade da comunidade na diversidade das vocações e dos ofícios. Estamos próximos do ideal de vida comunitária , do sonho do estabelecimento de um Estado em que cada homem, sem inveja e sem egoísmo, ocupando o lugar a que suas qualidades naturais e sua formação profissional o habilitem, trabalhe para o bem-estar e o progresso da coletividade. O Paraíso é ainda o reino da harmonia individual . Sendo o homem a primeira célula da sociedade, é evidente que esta só pode ter vida harmoniosa se seus membros conseguirem conquistar a perfeição moral. Para tal fim, são necessários três elementos: 1) a luz da inteligência humana (o "saber"), personificada por Virgílio: sem a faculdade de discernimento, que propicia uma clareza intelectual, é impossível o início do progresso espiritual do homem; 2) a vontade do sujeito (o "querer"), personificada pelo protagonista da narrativa, o próprio Dante: se é preciso saber o que se quer, também é necessário desejar ardentemente o objeto procurado, pois na origem de toda busca existe sempre um ato de amor; 3) a ajuda necessária para o conseguimento do objeto (o "poder"), fornecida por Beatriz, símbolo da graça divina. É a posse

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cumulativa dessas três modalidades (saber + querer + poder) que fornece ao homem a "competência", a capacidade da realização do ato. Para o homem medieval, o fator mais importante para se conseguir a "performance" da perfeição espiritual era, sem dúvida, a graça divina. Antes do querer humano, deve existir o querer divino que predestina o indivíduo ao conseguimento da salvação. É Deus, por intercessão de Beatriz, o destinador da redenção espiritual do poeta. No Paraíso, os olhos de Beatriz são constantemente apresentados como fonte de luz e de amor. É neles que Dante encontra a solução de suas dúvidas metafísicas e morais, além da força, sustentada pelo sentimento amoroso, para levar a termo sua viagem. A mulher amada, segundo os padrões estéticos e ideológicos da poética trovadoresca (Trovadorismo), é o único refúgio, o porto de salvação, quando a nau da vida é balançada pelas procelas das paixões, que provocam a dor de existir. DARWIN (a teoria evolucionista: A Origem das Espécies)Genética É sempre recomendável perceber claramente nossa ignorância O evolucionismo cultural é uma teoria que visa explicar a natureza e a diversidade das sociedades humanas como produtos de um processo único de desenvolvimento. Ele está intimamente ligado à doutrina da evolução biológica, que foi uma disciplina fundamental dos estudos antropológicos do século passado. O teorizador mais famoso do Evolucionismo foi o cientista inglês Charles Robert Darwin (18091882). Na sua obra Viagem de um naturalista ao redor do mundo (1836), expõe as experiências de uma viagem de cinco anos no barco Beagle, coletando mais de duzentas e trinta toneladas de material animal e vegetal exótico. Mas sua obra mais famosa é A origem das espécies (1859), que escandalizou o mundo da época, sendo execrada por alguns e exaltada por outros estudiosos, que a consideraram a “nova Bíblia”. Sua tese fundamental é a seguinte: substituindo a teoria bíblica, chamada de criacionista ou “fixista”, segundo a qual as espécies são tantas quantas criadas por Deus, jamais se transformando, Darwin propõe a teoria evolucionista: as espécies animais se derivam uma da outra, mutuamente, conforme a lei da seleção natural, da sobrevivência do mais forte. A tese de Darwin tem como predecessores: 1) Carlos Lineu (1707-1778), botânico sueco, responsável pela classificação das plantas e dos animais em gêneros e espécies; 2) o naturalista francês J.B. de Monet Lamarck (1744-1829) que, em 1809, já tinha exposto sua tese da herança dos caracteres adaptativos adquiridos pelo indivíduo durante a vida, isto é, a transmissão hereditária de caracteres adquiridos pela necessidade do meio ambiente, dando o exemplo famoso da girafa que, de tanto esticar o pescoço para alcançar as folhas no alto, acabou gerando crias de pescoço comprido; 3) também a divulgação da descoberta do frade tcheco Gregor Mendel (1822-1884) de que a hereditariedade é determinada por partículas genéticas serviu para confirmar a tese de Darwin. A polêmica teoria do cientista inglês ainda continua palpitante, tornando-se mais atual pelas recentes pesquisas no campo da genética, especialmente após a descoberta e os estudos realizados acerca do DNA, o código genético de todos os seres vivos. Em maio de 2003, o cientista americano Morris Goodman publicou uma pesquisa, sugerindo que os chimpanzés (Pan troglodytes) fossem incluídos no gênero Homo pois, pela análise comparativa de amostras de DNA humano e de chimpanzés, eles estão mais próximos (99,4% de semelhança) do homem do que de outros primatas como os orangotangos e gorilas. O Darwinismo Social realiza o salto da Genética para a Antropologia. Herbert Spencer (18201903) aproveita a descoberta de Darwin para corroborar sua teoria da “autoregularização” da sociedade. Segundo ele, a sociedade humana, deixada sozinha, se governaria pelo princípio da “sobrevivência do mais forte”, que movimentaria a estrutura social na direção de uma crescente coerência, estabilidade e diversidade. Mas, diferentemente do evolucionismo biológico de Darwin, o pensamento sociológico de Spencer é profundamente conservador, prestando-se como sustentação ideológica do Nazismo ( Hitler). Com efeito, se colocada em prática, a teoria spenceriana levaria a um materialismo mecanicista, de que falava o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679): o homem, conforme a lei cósmica da ação e reação dos corpos em movimento, sofrendo pelo desejo e o temor, é vítima de uma situação de conflito

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permanente. A guerra é de todos contra todos, sendo o homem lobo do homem ( homo homini lupus , como ele dizia). Mais recentemente, o psicólogo evolucionista Steven Pinker, da Universidade de Harvard, especialmente em suas obras Como a Mente funciona e Tabula Rasa, demonstra que o darwinismo não se aplica apenas ao estudo da Genética, invadindo, além da Biologia, também as áreas das ciências Sociais, da Psicologia e das Artes. Como de outros verdadeiros gênios da humanidade (Leonardo, Freud, Marx, Einstein, Picasso), o pensamento de Darwin se caracteriza pelo poder de “generalização”, no sentido de que ultrapassa os limites da disciplina específica e atinge o homem como um todo, apresentando uma nova visão da realidade. O cientista canadense, retomando o espírito do velho Humanismo renascentista, propõe que os princípios da nova psicologia evolucionista sejam aplicados à educação, à política, à arte, à ética, para uma renovação da consciência social, desmistificando doutrinas que se tornaram obsoletas. Assim, por exemplo, a idéia de que o homem é bom por natureza e de que a violência é uma perversão das sociedades modernas, conforme o mito romântico, retomado por indianistas e políticos de esquerda, se esfacela perante o avanço dos estudos genéticos e a descoberta arqueológica da existência de guerras entre tribos primitivas. No tocante o gosto estético, Pinker dá a entender que o conceito de beleza é continuamente manipulado pela evolução modernista, via marketing, pois a descoberta sobre o funcionamento da mente humana nos demonstra que o ser humano, instintivamente, busca o inteligível, que se encontra na harmonia das formas, e não no incompreensível, no hermético. A concepção de beleza clássica, conforme a tradição greco-romana e renascentista, portanto, passaria a adquirir o estatuto de uma verdade científica. Também as correntes radicais do feminismo, que não admitem nenhuma diferença entre a psicologia do homem e da mulher, são contestadas pelo cientista canadense. Conforme recentes pesquisas da neurociência, o cérebro feminino e o masculino têm configurações diferentes. En face da comprovação da biodiversidade, por que a mulher se esforça tanto de ser igual ao homem? Diferença não quer dizer inferioridade! DECAMERON (coletânea de contos satíricos do ficcionista italiano Boccaccio) O Decameron (“dez dias”, em grego) é um conjunto de cem historinhas, em italiano chamadas de “novelle” (de novas, pequenas notícias: não confundir com o gênero atual da televisão Novela), de autoria do florentino Giovanni Boccaccio, publicadas em 1350. O autor imagina que dez jovens, três moças e sete rapazes, para fugirem à peste que assola Florença, se refugiam numa colina e, durante dez dias (daí o nome da coletânea), passam o tempo contando histórias que, na sua maioria, não passam de piadas ampliadas. Os temas são os mais variados, misturando-se cenas de amor idílico com narrações escabrosas sobre o erotismo dos clérigos. Enfim, é a descrição de quadros de vida da Florença trecentista, feita por um artista da palavra, de uma forma refinada e livre de qualquer preconceito religioso ou moral. Estamos no fim da Idade Média (Medialismo), já prenunciando o espírito da Renascença européia. Os contos de Boccaccio retomam a linha da narrativa satírico-picaresca dos autores latinos Petrônio (Satiricon) e Apuleio (Metamorfoses ou “O Asno de Ouro”). E Boccaccio, por sua vez, se torna o mestre do inglês Chauser (1340-1400: Os Contos de Canterbury) e de todos os outros autores que cultivaram a narrativa curta de cunho realístico e humorístico, nas línguas modernas do Ocidente. O Cinema aproveitou várias histórias satíricas do Decameron. Famosa é a película Boccaccio’70, que aproveita quatro contos, cada qual dirigido pelos melhores Diretores da época (Federico Fellini, Luchino Visconti, Vittorio De Sica, Mario Monicelli) e interpretado por divas belíssimas: Sophia Loren, Anita Ekberg, Romy Schneider. Outra belíssima versão cinematográfica da obra de Boccaccio foi realizada por Pier Paolo Pasolini, em 1971: Il Decameron. DÉDALO (o gênio construtor do Labirinto, pai de Ícaro) DEMÉTER (Ceres, em Roma, deusa da Agricultura)Terra DEMOCRACIA (sistema de governo, República)Política Democracia é quando eu mando em você,

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Ditadura é quando você manda em mim. (Millôr Fernandes) A palavra grega demokratía é composta de demos (povo) e krátros (poder), significando o governo exercido em nome da coletividade. Neste sentido, é quase sinônimo do termo “República”, que vem de res (coisa) + publica (de todos). No aspecto geral de “coisa pública”, portanto, República se identifica com Democracia para indicar o governo de uma nação exercido por representantes do povo, eleitos por um determinado período de tempo (Política). O filósofo Platão intitula Democratía (“Republica”, em latim) um seu diálogo que trata do governo do Estado, pois, na cultura greco-romana, democracia era igual a república. Realmente, há uma certa semelhança entre o conceito de “política” (administração de uma póleis = cidade) e “público” (interesse do demos = o povo, uma coletividade), pois o que é direito de todos não pode ser usurpado por um (monarquia), nem por alguns (oligarquia). Apenas povos ou grupos sociais, que não tenham bem desenvolvida uma consciência de cidadania ou que não gozem do direito da liberdade de sentir, pensar e agir, podem suportar governos despóticos. A nosso vê, é incorreto e falso chamar de “República” sistemas de governo não democráticos, tipo URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) ou RAU (República Árabe Unida). “Republicano” é o adjetivo que deve qualificar apenas um sistema democrático, fundamentado num pluripartidarismo, cujos governantes são escolhidos pelo voto livre e direto. Qualquer forma de Democracia (representativa, social etc.) deve ter por base a soberania popular, a liberdade eleitoral e a divisão dos três poderes (legislativo, judiciário e executivo), não podendo admitir a perpetuação e a transmissão do poder por direito teocrático, de hereditariedade ou pela força das armas (Absolutismo). Afinal, quem faz a riqueza de uma Nação não é Deus, o Rei, o Presidente ou o General, mas o povo com seu trabalho e com seus impostos. É justo, portanto, que seja o povo a escolher livremente seus representantes. Acontece, porém, que nos países subdesenvolvidos a grande massa popular não tem consciência dos direitos de cidadania e se deixa facilmente manipular por lideres carismáticos ou por grupos econômicos (Cultura). Nenhuma democracia funciona sem “meritocracia”, o sentimento de justiça que faz com que cada qual ganhe conforme sua competência. É por isso que ainda hoje, após cerca de 24 séculos, o estado democrático ocidental apresenta o mesmo funcionamento descrito por Platão: “a Democracia, uma forma charmosa de governo, cheia de variedade e desordem, dispensa um tipo de igualdade para iguais e desiguais igualmente”. Mas, como afirmou o arguto estatista inglês Sir Winston Chrchill (1874-1965), “a democracia é a pior forma imaginável de governo, à exceção de todas as outras que foram até agora experimentadas”. DEMÓCRITO (filósofo grego)Atomismo “Mesmo que a verdade exista, não nos é dado conhecê-la” Pensador e cientista pré-socrático, Demócrito de Abdera, (Grécia, 470-361), é considerado o pai do Atomismo. Seus trabalhos filosóficos e científicos verteram sobre a constituição da matéria, a pluralidade dos mundos, a via Láctea, os fornos reversos, o prenúncio da existência dos espermatozóides. Seu agnosticismo está expresso em alguns fragmentos de suas obras, que chegaram até nós, como o citado acima. DEMOGRAFIA (planejamento familiar, malthusianismo)Cultura Trabalho O direito de ter pais é maior do que o direito de ter filhos Do grego demos (povo) + graphein (escrever), a demografia é a ciência que estuda a densidade populacional, pesquisando, com o auxílio da Estatística, as taxas de natalidade, de morte, de casamentos, etc., em várias regiões e países. Infelizmente, os governantes, de um modo geral, não aproveitam, na prática, os dados colhidos pelos cientistas, visando o melhoramento da sociedade humana. O economista e religioso inglês Thomas Robert Malthus (1766-1834) tornou-se famoso pela sua obra Ensaio sobre o princípio da população. Ele sustenta a tese de que, enquanto a produção de alimentos cresce em progressão aritmética, a população mundial tem a tendência de aumentar em progressão geométrica. Tal desproporção teria como conseqüência inevitável o aumento da pobreza no mundo. Quando essa

conformista em relação às injunções de ordem política. Enquanto nações desenvolvidas. igualando-se aos animais. estão superados pelo avanço tecnológico da agricultura e pelo progresso da ciência médica que levou à fabricação de vários tipos de anticonceptivos. pois sem qualificação para um tipo de trabalho é quase impossível encontrar um emprego decente para prover a subsistência sua e da família. Deus criador (ser perfeitíssimo) do mundo criado (seres imperfeitos). a pena é coletiva. Que adianta fazer programas de ajuda social. se penso. o único pecado realmente capital da humanidade. torna-se um problema para todo o mundo. Se a culpa é individual. é altíssima nas povoações mais pobres e com prole numerosa. pode se arrogar o direito de ter filhos. Spinoza e Leibniz seus melhores cultores. se não puder garantir ao filho o direito de ter pais responsáveis. É preciso se entender que o nascimento de uma criança não é apenas um problema individual ou familiar. O cogito. A solução que o cientista sugere para este grave problema seria aconselhar as povoações pobres a se absterem sexualmente para diminuir a taxa de natalidade. Daí a verdade que colocamos em epígrafe: o direito dos filhos terem pais responsáveis é maior do que o direito de um homem ou de uma mulher ter um filho. tipo “fome zero” ou aumento de creches. matemático. a própria natureza cria organismos de defesa. Discurso sobre o Método)Racionalismo “Cogito. as idéias “factícias’’ (as que se referem ao mundo exterior em contínua mudança) e as “fictícias” (as forjadas pela imaginação que variam segundo a vontade do sujeito). mas essencialmente social. ergo sum” O pai do Racionalismo moderno foi o francês René Descartes (1596-1650). reafirmando o poder convincente do princípio da causalidade. distinguindo-se o ser pensante da coisa pensada. ladrão. cientista e filósofo. em fim. é levado a duvidar de tudo aquilo que não tenha a mesma característica das noções da matemática: a evidência. No livro Tratado das Paixões. ele propõe uma ética “provisória”. a clareza e a distinção. não aprende nada. são axiomáticas. Ninguém. por exemplo. saúde. Assim. pois a falta de cultura está na raiz de todas as desgraças. têm um índice demográfico quase zero. Descartes. a criança é candidata a se tornar delinqüente. Diabo) Satã DESCARTES (cartesiano. propiciando-lhe casa.81 realidade ultrapassar o limite de tolerância. A primeira dessas certezas inabaláveis é a própria existência humana: “se duvido. países da África e da América Latina. a mente pensante. minada por uma corrente cética e pessimista. é uma questão de ignorância e pouco se faz para lutar contra este mal monstruoso. em sã consciência. se não se corta o mal pela raiz. ergo sum torna-se o parâmetro de qualquer conhecimento. evidentes e estáveis. como a Alemanha e a Itália. parente ou empregada. alegria. É uma pena que a clareza e a coerência perseguida por Descartes no campo dos conhecimentos filosófico e científico não atingisse também a esfera da ética. “deviam decretar que ninguém tenha mais filhos do que pode decentemente alimentar”. Mas a alma do estudo realizado no fim do séc. que só criam confusões. e se deixa levar pelas paixões. por exemplo. Descartes afirma que quem não usa o cogito. aumentam sua população de uma forma irresponsável. pois tem o direito de sobreviver. escola. existo”. lança as bases da corrente racionalista que encontrará em Malebranche. E ele próprio dá o maior exemplo desse conformismo: quando ficou sabendo da condenação de Galileu. A taxa de desemprego. não pode se desenvolver. como os conceitos da matemática. porque comuns a todos os homens. conscientizando o povo de que ninguém pode pôr um filho no mundo se não tiver meios para lhe propiciar sustento e educação de bom nível? Como afirma a escritora Lya Luft. XVIII ainda está viva. publicada em 1798. para aceitar apenas as idéias ‘‘inatas’’ que. Rejeita. vários pontos da tese malthusiana. Um menino abandonado pelos pais ou mal criado por uma avó. que vivem numa extrema penúria. que pretendeu encontrar o caminho para superar as incertezas da sua época. DEMÔNIO (o princípio do mal. assaltante. social e religiosa. provocando epidemias e guerras. que acaba sofrendo as conseqüências da marginalidade. penso. deixou de publicar . o sujeito do objeto. a alma do corpo. assim. Formulando a “dúvida metódica’’. Hoje em dia. Tudo. Não assistida adequadamente. Convencido de que a moral é algo de variável no tempo e no espaço. Ele estava certo: a miséria humana avançou muito mais do que a tecnologia e os países e as regiões mais pobres são os que mais geram filhos. carinho. pois o desejo de gente irresponsável acaba ferindo o “direito de terceiros”: daquele que não pediu para vir ao mundo e da comunidade onde vive.

sim. meio e momento” como condicionante do comportamento humano e. estudando a relação entre Graça divina e livre arbítrio. mas não realmente vividos. de ideologia conservadora. Com referência à importância da hereditariedade na formação do caráter. Mahatma Gandhi (Hinduísmo). aplicado para a solução de problemas da realidade existencial. O diálogo. chegou a pensar que ninguém poderia se salvar sem a vontade de Deus. Sant’ Agostinho. Sua tese sobre o “criminoso nato” teve muito sucesso na época. A dramaturgia. liberdade. injusto. Sua obra mais conhecida é O homem delinqüente. fidelidade. que afirmou: “aquele que Deus quer salvar pode fazer o que quiser e será preservado”. que nega o livre-arbítrio. O aspecto prático da dialética é o diálogo. justiça. para o sociólogo Karl Marx. Esta concepção de um Deus fatalista. da confecção artística da personagem de ficção. e a obra dialógica. a arte de argumentar e discutir. O antônimo do diálogo é o monólogo (do grego monos.82 um trabalho científico onde ele também sustentava a tese do movimento da Terra. desconsiderando o fator do livre arbítrio. desde porém que ela não nos prejudique! Essa será a essência da moral burguesa: os valores humanos da sinceridade. honestidade. a que os romanos deram o nome de “solilóquio”). cuidando do dissídio entre os donos do poder e a classe dos trabalhadores. que apresenta o confronto entre duas tomadas de posição. tendências. DEUS (divindade)Religião DIACRONIA (oposição diacrônico / sincrônico)Cronos Crítica DIALÉTICA (forma de argumentar: Diálogo em oposição ao Monólogo) Do grego dia (prefixo “através”) + logos (“palavra”) + tecné (técnica). que oferece as circunstâncias existenciais. fatos e comportamentos. foi apresentada a tese de que as ações humanas e os acontecimentos do universo são determinados pelo princípio da causalidade: as leis físicas. o discurso. por Sócrates. taras. várias vezes e em diferentes modalidades. são ideológicos e não reais. desde suas origens no séc. químicas e biopsíquicas ocasionariam fenômenos. do ambiente (Espaço) em que a pessoa ou a personagem vive. o método dialético deve descer do céu para a terra. O Teatro começou quando os episódios da vida do deus Dionísio deixaram de ser narrados por um único narrador (chamado de “rapsodo” na poesia épica) para serem representados por um ator dialogando com o corifeu e. assim como foi utilizado pelos sofistas. é a base dramática a partir da qual se desenvolveu todo o teatro ocidental. por extensão. dialética significa a linguagem em movimento. Segundo ele. no sentido de que são apenas impostos ou desejados. por Platão. A oposição “monológico / dialógico” passou a diferenciar duas formas de atividade artística: a obra monológica ou de inspiração apolínea. Pensamento não muito distante do de outro religioso. que transmite caracteres. DESTINO (divindade greco-romana)Fado DETERMINISMO (corrente filosófica)Positivismo Realismo Maktub! (“Está escrito”) No decorrer da história da filosofia. teve amplo sucesso apenas no seio da doutrina positivista que dominou a cultura durante a segunda metade do século XIX. A verdade. é conveniente citar a contribuição do médico e criminologista italiano Cesare Lombroso (18351909). com um segundo e terceiro ator. V a. renunciando à luta pelo descobrimento da verdade e pelo avanço civilizacional. Há fanáticos que se conformam com o “Maktub”. a dialética é um modo de conhecimento da realidade colhida na sua estrutura contraditória. Para o filósofo alemão Hegel (Idealismo). chegando a tentar demonstrar que até a conformação craniana de um marginal é diferente da do homem normal. independentemente de uma vontade divina ou humana. utiliza o diálogo como o meio mais apropriado para exprimir os problemas existenciais. a luta física ou intelectual. fraternidade. mais tarde. uma única voz. O Determinismo. do momento histórico (Cronos). inclusive econômica. Foi o historiador e crítico literário francês Hipólito Adolfo Taine (1828-1893) que apresentou a famosa tese da tríade “raça. Mas tal concepção mecanicista do universo. algumas pessoas nascem com estigmas físicos e psíquicos tais que é impossível sua recuperação. portanto. E a dialética não existe apenas no campo filosófico ou sociológico. caprichoso acaba negando a própria essência da divindade. O interlocutor surgiu como oponente ao protagonista na representação do agon..C. além de uma doutrina filosófica e científica. A conduta de um ser real ou imaginário seria determinada pela tríplice ação da hereditariedade (Genética). imbuída do espírito dionisíaco ou “carnavalizada”. é também uma postura religiosa. aquele que fala sozinho. segundo o estudioso .

O espírito dionisíaco encontrou sua primeira manifestação artística no coro ditirâmbico que. não foi aceito no Olimpo e precisou conquistar o direito à imortalidade por suas próprias forças. esquecido de seu status. o escravo emancipava-se. filha do rei Minos. Entre seus triunfos. Além disso. Ajudou o pai na guerra contra os Gigantes e lutou ao lado dos troianos na Guerra de Tróia. Diana é o símbolo da necessidade de repressão dos instintos sexuais. pois contesta os valores sociais. Enquanto durava o estado de embriaguez. segundo a maioria dos estudiosos da literatura grega. a crueldade tornava-se prazer. Escolheu como lugar de residência a Arcádia. na embriaguez do estado dionisíaco. com a morte desta. embora descendentes de seu filho Luso. abandonada por Teseu na ilha de Naxos. dominando o povo pelo seu poder místico. castigando deuses e mortais que atentaram contra a castidade sua ou de suas ninfas. desposou e levou para o Olimpo uma mortal. foi o embrião da tragédia antiga. de cunho revolucionário. centauros e pelos deuses Sileno e Pã. vingativa. filha de Agamêmnon. sacrifício que.83 russo Bakhtine (Crítica). de outro lado. símbolo da virgindade) Filha de Júpiter e de Latona. a vida do instinto. Nietzsche: “Teremos dado um grande passo e promovido o progresso da ciência estética quando chegarmos não só à indução lógica. deus "solar". Este dualismo estético. Daí Camões ter escolhido Baco como o maior inimigo mítico da expedição lusitana à Índia: se não fosse o Destino ( Fado). o homem sentia-se membro de uma comunidade universal em que se quebravam as barreiras de classes. Por isso. que sofreu terrivelmente para escapar da vingança de Juno. Em contraste com o irmão Apolo. o grotesco misturava-se ao sublime. Pela consecução do estado místico. Este espírito dionisíaco. ofuscassem a glória de seus feitos e substituíssem o culto a Baco pela fé cristã. Nos momentos de excitação orgíaca. oposição apolíneo / dionisíaco)Carnaval Duplamente filho de Júpiter que o gerou. depois de ter exigido o sacrifício de Ifigênia. e dar a luz os gêmeos Apolo e Ártemis. DIANA (Ártemis grega: deusa da caça. continuou a gestação do feto numa sua coxa. que é uma representação do dualismo cósmico (a oposição entre noite e dia. a mitologia grega apresenta Diana como uma deusa austera. Dionísio. Era um coro de pessoas "transformadas" que. entrando em transe histérico. já estava marcado pela vingança da ciumenta Juno. mesmo antes de vir à luz. Diana é uma divindade "lunar". mas também à certeza imediata deste pensamento: a evolução progressiva da arte resulta do duplo caráter do espírito apolíneo o do espírito dionisíaco tal como a dualidade dos sexos gera a vida no meio das lutas que são perpétuas e por aproximações que são periódicas”. Deusa da caça e da pureza. na princesa texana Sêmele e. Dionísio propiciava aos homens e aos deuses alegria e felicidade. Charles (romancista inglês)Realismo DIÓGENES (filósofo grego)Cinismo DIONÍSIO (Baco romano. Sua característica principal foi a virgindade. seus devotos sentiam a presença do deus do vinho dentro de si e se deixavam levar pelos ritos orgíacos. a liberdade e o prazer sem limites. Dionísio nunca deixaria que os portugueses. pois ele personificava a desobediência à ordem e à medida. primeiro. e lhe ocupara o lugar perto de Júpiter. junto com seu séqüito de ninfas e amazonas. o homem divinizava-se. Tocando flautas ou tamborins. alma e corpo etc. DI CAVALCANTI (artista brasileiro)Pintura DICKENS. de F. pois nunca admitiu qualquer contato carnal. simbolizando a castração feminina. representada com um archote na mão. notável é a conquista da Índia. região montanhosa.) e que a psicanálise identifica no id e no superego (Freud). mais tarde. talvez. acompanhado pelo cortejo de sátiros. em oposição a Vênus. Errou pelo mundo até então conhecido e conseguiu o caminho da glória pela descoberta da uva e do vinho. onde se dedicava à caça. não quis consumar. a esposa traída. bacantes (mênades). persiste em todas as manifestações de festas . a inversão dos valores sociais: fora ele que destronara Héstia. que simboliza a satisfação erótica. encontra-se bem expresso num trecho da obra Origem da Tragédia. punham de lado a máscara social e manifestavam sua verdadeira personalidade. Dionísio sempre foi considerado pelos gregos como um deus "estrangeiro" e "subversivo". Ariadne. Fruto híbrido de um amor divino-humano. a deusa do lar. vivido também nas saturnálias romanas. cruel. céu e terra.

. A função do diretor é muito antiga. durante o apogeu de Mussolini na Itália: os conspiradores que assassinaram o grande líder democrata da Roma antiga usavam camisas negras.en-scène. Tudo isso sempre em função de alcançar o objetivo que ele tem em mente: ou a fidelidade ao texto do autor. o Cinema. Além disso. de metteur. como anteriormente. O diretor é o mediador entre a obra que. o Diretor é peça fundamental! DISCURSO (ato da comunicação humana. De lá para cá. portanto. um elo de comunicação entre . ele passou também a ter consciência do significado artístico de sua função. Duas de suas obras são fundamentais para entendermos a importância do mito de Baco na evolução do pensamento e da arte européia: A Origem da Tragédia e Assim falou Zaratustra. Essa segunda hipótese é a mais aconselhável. no começo do século XX. num sentido amplo. vós. em circunstâncias históricas. Estabelece-se. meus irmãos! Eu santifiquei o riso.. o diretor é o autor do espetáculo. a orientação dos técnicos da cenografia e da sonoplastia. homens superiores. a consciência especial do dançarino. o ouvido apurado do músico. o papel do encenador enriqueceu-se cada vez mais até chegar à função do moderno diretor de teatro. No teatro. Nietzsche está toda ela impregnada do espírito báquico. através da interpretação dos atores. aprendei. fiquem de pé. Desta última obra transcrevemos dois trechos. cenografia. até mesmo de cabeça para baixo!. tem de saber encontrar o equilíbrio entre a empatia e o distanciamento estético: a peça deve parecer suficientemente real para assemelhar-se à vida. a indicação dos atores capazes de interpretar os caracteres das personagens. Na Grécia da época de Péricles. por exemplo. público. pois a representação de uma obra teatral antiga só tem sentido se ela tiver uma relação alegórica com a atualidade. assim. Ele tem de estabelecer o sentido que o texto teatral irá adquirir em contato com o palco.84 carnavalescas na cultura ocidental (Carnaval). sociais e éticas determinadas. e com a platéia. cinematográfica ou televisiva. essa coroa de rosas. que funcionava como diretor do coro: a ele cabia dispor o espaço físico para a representação teatral. é uma pessoa que possui um saber e quer transmitir história. que se modifica constantemente. que teve início com André Antoine. de um filme ou de um programa televisivo. portanto. o estudo apurado do script. embora não toque nenhum instrumento. ao longo da nossa história. o termo indica a exposição de um conhecimento sobre alguma coisa. é eterna. e o público. A obra do filósofo-poeta alemão F. O sujeito do discurso. onde o poeta exalta a dança e a embriaguez dionisíacas: Elevem seus corações. atores. Veja-se. enquanto texto literário. de Shakespeare. eu vos lanço. meus irmãos! Elevem cada vez mais! E não se esqueçam das pernas! Elevem as pernas também. conferindo uma interpretação pessoal à obra dramática. tem a função de “encenador”. a rir! DIREITO (Jurisprudência)Justiça DIRETOR (encenador de obras teatrais. o uniforme registrado dos fascistas. e suficientemente irreal para que ninguém se esqueça de que é pura arte. chamado “Comissário das Delícias”. imprimindo-lhe a marca de sua genialidade. vocês que dançam bem e cada vez melhor. havia um magistrado. Como o maestro de uma orquestra sinfônica. composta de um público dado. o sucesso da encenação da peça Júlio César. A ele cabe a escolha do texto. ou a adaptação da peça à nova realidade da época. Essa coroa de risos. cinematográficas e televisivas) Do latim vulgar directorem. Ele deve ter a percepção profunda do gênio. com o intuito de conseguir uma perfeita reconstrução histórica. enunciação. Se o dramaturgo é o autor do texto. perspectiva)Narrador Do latim discursus. O mito de Dionísio invadiu Literatura e Artes. embora não com esse nome e com atribuições tão específicas. Na arte mais moderna. idéias e sentimentos para outro ser humano. o diretor tem a função de dirigir o trabalho de todos os elementos do conjunto. indica quem dirige qualquer tipo de instituição ou é responsável pela produção artística de uma peça. escolher e orientar os atores. montada pelo diretor Orson Welles em Nova York. ele mesmo definindo-se um “demônio dionisíaco”. sendo o coordenador de todos os elementos constitutivos de uma peça: texto. Além de encarregar-se da organização objetiva do espetáculo. sonoplastia.

depois de ter limpado velhas armas. percebendo a doidice do forasteiro. tomados por bandidos que raptaram uma princesa. A relação entre o “eu” que diz e o “tu” que escuta constitui. D. mais conhecida pelo título abreviado Dom Quixote.85 um emissor. o cavaleiro culto e delicado. o dono do saber. o fidalgo provinciano Alonso Quijano. Aterrado pela pá de um dos moinhos. parte. escolhendo por dama de seu coração e de suas façanhas uma camponesa. cansado e faminto. enquanto Sancho come até não poder mais. Quixote. a ama e os dois melhores amigos.Todorov prefere usar o termo “discurso” em lugar de enunciação e “história” em lugar de enunciado. dependendo da autoria do discurso. Quixote à leitura dos livros de Cavalaria. é um castelo. se presta ao jogo e o aconselha a arrumar dinheiro e escudeiro. Quixote é objeto de riso por uns carreteiros. pois os resultados são contrários aos esperados: proíbe a um camponês de castigar um moleque. Quixote contra moinhos de vento.. o “ele” de quem se fala. é uma criatura de alma ingênua e generosa. a justiça e o amor. confundindo a ficção com a realidade. Após uma noite de vigília das armas. Resumo do enredo O protagonista do romance. fiel ao seu sonho. Segue-se o episódio da luta contra dois monges. realiza a cerimônia da investidura. incendiando a maioria dos livros de literatura cavaleiresca. Já armado cavaleiro. pela segunda vez. num dado momento. parte à procura de aventuras. o dono da estalagem. envolto em sua ridícula armadura. e o gordo. montado num burrinho. tomados por enormes gigantes. O taverneiro. pertencem ao Plano do Enunciado Já T. chega a uma taverna. para compensar o longo jejum. Para uma melhor compreensão deste importante tópico da narratologia. atribuindo a loucura de D. o mito. Após um dia de viagem. Miguel de Cervantes Saavedra (Alcalá de Henares 1547-Madri 1616) é o mais famoso escritor da Espanha.. que. O magro. conforme a terminologia do semanticista francês A. Quixote justifica seu fracasso dizendo a Sancho que a transformação dos gigantes em moinhos é obra de inimigos feiticeiros. Mas D. narratário ou destinatário (o sujeito que ouve). o escudeiro ignorante e grosso. narrador ou destinador (o sujeito que diz) e um receptor. o Plano da Enunciação. na sua imaginação. é recolhido do chão e reconduzido à sua residência. que se deixa envolver pela leitura dos livros de Cavalaria a tal ponto que. Quixote profere um belo discurso . o vigário e o barbeiro. A primeira proeza da segunda saída é a luta de D. Acolhidos por pastores. mas. iniciam uma longa série de aventuras. pois. o menino é espancado com maior brutalidade. enquanto a mensagem transmitida. deixando a sobrinha. As duas familiares e os dois amigos. verdadeiras peripécias. fatos. de que surgiram os derivados “quixotismo” e “quixotesco”. DITADURA (despotismo. Greimas. resolve pôr em prática os ideais dos cavaleiros andantes e ir a busca de aventuras para restabelecer na terra a paz. ao afastar-se o nosso herói. D. tirania) Júpiter Imperialismo Absolutismo DOM QUIXOTE (romance de Cavalaria do ficcionista espanhol Cervantes) Sonhar um sonho impossível. a cavalo. durante a qual D. idéias e sentimentos expressos adquirem credibilidade e diferente avaliação. Aí pede ao dono da hospedaria (o senhor do castelo) que o consagre cavaleiro. mas de todo e qualquer escrito. pois a substância é a mesma: identificar quem diz o quê ao longo de uma narrativa. É apenas uma questão de metalinguagem crítica diferente. em nome da justiça e do respeito à pessoa humana. Reconhecido por um seu conterrâneo. é relevante não apenas para a compreensão do texto literário. procedem a um expurgo da biblioteca de nosso herói. exige de uns mercadores que declarem a beleza incomparável da desconhecida Dulcinéia: o resultado é que D. agora acompanhado pelo inculto camponês Sancho Pança. ajudado por duas prostitutas. chamando a si próprio de Dom Quixote da Mancha e a seu cavalo de Rocinante. que ele idealiza como uma nobre princesa e a quem passa a chamar de “Dulcinéia del Toboso”. que para nosso herói são duas nobres damas. os fatos relatados. D. Numa madrugada. remetemos ao verbete Narrador. a literatura com a história. que aceita ser seu escudeiro em troca da promessa do governo de uma ilha virtual. Quixote é derrubado do cavalo e espancado. sendo o autor de uma obra fundamental na Literatura Ocidental: El engenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha. Seguem-se as duas primeiras desastradas aventuras. Quixote retoma seu caminho. A importância de saber quem é o sujeito da enunciação. que têm inveja de sua futura glória. J.

o que provoca a raiva e a vingança de camponeses. antes de Cervantes publicar a segunda parte do seu romance. que persegue umas bonitas éguas. A jovem consente em aparecer a D. camuflado em “Cavaleiro dos Espelhos”. pois defende a tese de que o amor é um ato de livre escolha recíproca. por um equívoco. Os pastores. fora encontrá-lo para reconduzi-lo a sua casa. característica essencial da estética clássica. em que explica os motivos de seu isolamento. Tal aproveitamento não deve estranhar. uma aventura real: D. Retomando o caminho das aventuras. D. Ao saírem sem pagar a conta. Esta idade deverá voltar mercê da atuação dos cavaleiros andantes. aconselha D. Quixote e Sancho. agora transformado no “Cavaleiro da Branca Lua”. Quixote a refugiar-se na serra Morena. Quixote dá razão à moça. Sancho encontra na conhecida estalagem o vigário e o barbeiro. A maior brincadeira é a eleição de Sancho a governador da ilha de Barataria. ouvem que todos os personagens das histórias encaixadas reatam seus fios: Anselmo encontra Camila. onde D. a duquesa e o pessoal da corte se divertem muito com a loucura do cavaleiro e a burrice de seu acompanhante. o herói e seu escudeiro são hóspedes dos nobres moradores de um verdadeiro castelo. Seguem-se os episódios da coragem de D. Quixote em enfrentar um leão manso e do rapto da bela Quitéria pelo amado Basílio. Quixote atrapalha o amor da jovem empregada Maritornes com um carreteiro e cria uma enorme confusão. Juntos vão à serra Morena. expulsa do seu reino. Quixote. Após a descida na caverna de Montesino. D. publicara a continuação da história do Engenhoso Fidalgo. Quixote como a princesa Micomicona. Enfim. que assume o nome de ‘‘Cavaleiro da Triste Figura’’. aproveitando o sucesso do romance cervantino. A força irresistível do instinto sexual é confirmada por Rocinante. Chegam a uma segunda estalagem. Preso na dura realidade da vida cotidiana. uma moça feia e malcriada. afirmando que só a Deus pertence o direito de julgar e punir. Ao voltarem à hospedaria. D. obrigando-o a voltar para sua casa. O estratagema tem resultado. sob juramento. O barbeiro e o vigário conseguem reconduzir D. exigindo que os bandidos fossem até à região do Toboso para prestarem homenagem à sua dama. outra vez Sansão Carrasco. publicadas separadamente. está presente à narração e proclama sua não-culpabilidade. Aí encontram o jovem Cardênio. Mas seu escudeiro. Quixote logo resolve colocar-se a serviço da princesa e assim sai da serra e inicia o caminho de volta. Dorotéia. D. Quixote. Quixote ao lar. O choque com a realidade faz com que outra vez D. O duque. pois o conceito de imitação. por sua vez. que perdera a carta. porque D. onde dão com a bela Dorotéia. Chega. Quixote adoece e morre. A caminho de Saragoça. D.86 sobre a “Idade de ouro”. entretanto. que estão procurando D. suicidando-se por um amor não correspondido. época em que reinava paz e justiça na terra. com medo da vingança policial. a bela Marcela. narram aos dois hóspedes a triste aventura do jovem Crisóstomo. Reiniciada a viagem em busca de aventuras. ele é ridicularizado e maltratado. compreende as aventuras das duas primeiras saídas do protagonista. Quixote e Sancho são aprisionados pelo bando de Roque-Guinart. D. apresenta como sendo Dulcinéia a primeira camponesa que encontra. que consegue derrotar nosso herói. D. passou a ter . uma bacia de barbeiro com o elmo de Mambrino. Durante a viagem de volta. Cardênio. nosso herói vai até o Toboso para despedir-se da amada Dulcinéia. resolve seguir o exemplo de Cardênio e ficar na serra Morena para fazer penitência. O pivô do suicídio. Outro autor. enlouquecido pela presumida traição da amada Lucinda. Quixote liberta um grupo de condenados às galeras. um enterro com o rapto de um cavaleiro ferido. Enquanto dormem. Sancho. Sancho é apanhado e sofre maus tratos. que está em busca do amado Fernando. A primeira parte. Quixote sonha com os antigos paladinos e com o encantamento de Dulcinéia. outra vez tomada por castelo. começa a terceira saída de D. Na Segunda Parte do romance. Mas. Quixote comete uma série de qüiproquós: confunde uma manada de ovelhas com um exército inimigo. Ordena a Sancho que leve uma carta a Dulcinéia. Quixote. publicada posteriormente. e Fernando. um fora-da-lei que vive à margem da sociedade. que maltratam D. Lucinda. sob o pseudônimo de Alonso de Avellaneda. Aí são novamente objetos de gozação. seguindo as leis da Cavalaria. Roque Guinart trata os dois com benevolência e os aconselha a pedirem a proteção de seus amigos em Barcelona. privado de seu ideal de aventuras. Quixote luta contra o bacharel Sansão Carrasco que. Sempre acompanhado por Sancho. Quixote atribua às artes mágicas de seu imaginário perseguidor a transformação de Dulcinéia. História e estrutura do romance O Dom Quixote é composto de duas partes. editada em 1605.

A segunda parte se caracteriza pela maior importância conferida ao aspecto reflexivo: as aventuras não são apenas descritas. era comum trilhar o caminho aberto por outros. visto como o dono do saber: esta visão nos fornece todo o conteúdo factual. ele não atribui o fracasso às forças ocultas do inimigo. pelas três camponesas. A primeira saída pode ser considerada como preparatória ou iniciática: no começo da narrativa. admite a superioridade do rival. da cultura. do barbeiro. ao longo da narrativa. a partir do poema medieval francês La Chanson de Roland: o Morgante. que fala em terceira pessoa: é a voz da história. que coincide com o fim do sonho. que. o reencontro da razão e a morte. Cervantes. o romance apresenta uma composição circular e uma estrutura ternária: por três vezes D. da lenda. da imaginação. O terceiro retorno é definitivo porque a razão vence a quimera. pelo modo deceptivo. retorna. Este é realmente seu único retorno consciente. volta e meia. o herói possui apenas o querer. da verdade sobre as aparências. D. É neste lugar tópico que os nós das várias histórias encaixadas encontram sua resolução e. Desta vez. porque dotado de nobres sentimentos e a serviço da justiça e do amor. mas. por três focalizações: a) o ponto de vista de um narrador onisciente. carregado por um concidadão. Quixote já tem adquirido a competência necessária para a realização de suas façanhas de cavaleiro andante. D. . Conseqüência desta prova malsucedida é manter o pacto de voltar para sua terra e de deixar de ser cavaleiro andante por um ano.Quixote e Sancho são objeto de riso e de escárnio. interrompem o discurso em terceira pessoa do narrador onisciente para relatar fatos que aconteceram a elas próprias ou a outras personagens. Foco narrativo Cervantes finge que a história de D. à força: a primeira vez. quase todas. aonde D. implicitamente. mas analisadas. Quixote volta para sua casa involuntariamente. por quem D. Quixote e Sancho chegam. são atribuídas às forças mágicas de um imaginário oponente. Estas modalidades lhe são conferidas. Efetivamente. imaginando uma fonte histórica para a sua narrativa. que pode ser confundida com a voz do próprio Cervantes. Na época barroca. esta visão se encontra. de Sancho Pança. que compõem a segunda parte do romance. o investe cavaleiro e o aconselha a providenciar um escudeiro e meios econômicos. a segunda vez. e ao longo da viagem. O centro nevrálgico das aventuras da segunda saída é a segunda hospedaria. esparsamente. Com efeito. confundida com um castelo. que interpreta a história e emite seus julgamentos de valor: é a voz do “eu”. o Orlando enamorado. enjaulado. que se tornara famosa. Lembramos a série de poemas épico-cavaleirescos centrados na lendária figura do herói Rolando. todas as histórias intercaladas acabam com o triunfo do amor sobre o ódio. personificada na figura de Cide Hamete Benengeli. Quixote. falta-lhe o saber e o poder. Na segunda saída. após o rito de purificação da vigília das armas. As sucessivas derrotas. como na Renascença. c) o ponto de vista dos narradores intradiegéticos (homodiegéticos ou heterodiegéticos): são as falas das personagens do romance que. busca aventuras. no modo irônico. basicamente. b) o ponto de vista de um narrador em primeira pessoa. O episódio mais importante é a segunda luta de nosso herói com Sansão Carrasco. o Orlando furioso. ideologicamente. Já as aventuras da terceira saída. dez anos depois da primeira. são as visões de vida de D. se apressou a publicar a segunda parte de seu romance. interpretadas. a vontade de debelar as injustiças do mundo. para neutralizar a obra de seu concorrente. nos prólogos às duas partes do romance e. explorando a invenção de um tema ou a criação de uma personagem. D. ele inicia sua missão consciente de ser um herói invencível. Cervantes pretende dar a impressão de realidade à ficção. o plano da enunciação se apresenta composto. provocadas pelo conflito insuperável entre a ilusão e as situações reais. expressar suas idéias ou externar seus sentimentos. Quixote é derrotado. desde o início. se relacionam com a história principal. principalmente no castelo do duque e em Barcelona. Quixote parte. da justiça sobre a prepotência. Devido a esta invenção artística. de onde partem e aonde voltam várias vezes. do taverneiro etc. completando a história do seu herói até à morte. Acompanhado pelo ajudante Sancho Pança. do vigário. No conjunto das duas partes. principalmente. extradiegético. pelo dono da primeira hospedaria.87 um sentido depreciativo só a partir do Romantismo. Quixote é uma tradução e adaptação de um original árabe escrito pelo historiador Cide Hamete Benengeli. nas duas primeiras saídas. se desenvolvem. que saiu em 1615. Por este recurso técnico.

é uma criação ideológica com vistas à luta contra as injustiças sociais. o baixo realismo da narrativa picaresca. o discurso grandiloqüente da retórica. Por este sentido denotativo. que todo o homem sente dentro de si e toda a sociedade acusa em seu . recorrendo a uma interpretação simbólica de que se revestem os dois personagens principais. a grande maioria do povo alimentava seu espírito pela leitura ou. D. não toma partido. Na de Cervantes. O mito da passagem da idade de ouro para a idade de ferro. da crítica posterior. O fidalgo D. não vividos.88 Sentidos da obra O romance de Cervantes tem sido ininterruptamente estudado e. Na fantasia coletiva. Mas todo este complexo ideológico. Mais interessante é tentar captar um sentido mais conotativo na obra de Cervantes. tomados. sonhando com a volta a uma hipotética fase primitiva da humanidade. pois é proibido sonhar com um mundo ideal. mantendo-se distante de suas personagens: como bom humorista. desfazendo todo gênero de agravos. onde os ideais dos heróis andantes são magistralmente satirizados. mas desejados pelo povo. do ideal e do real. do espírito e da matéria. próprio da época do autor. é visto por Cervantes sob o modo irônico. já fraco da razão. da religião cristã sobre o opressor muçulmano. quando teriam reinados a paz e o amor sobre a terra. vencedor. D. comparáveis às aventuras extraordinárias dos heróis da hodierna literatura de massa (mocinhos das narrativas de faroeste. pudesse granjear fama e nome eternos. tomado pelo desencanto da vida. respectivamente. do indivíduo e da sociedade. como verdadeira obra aberta. simbólico. Na descrição da tensão entre estas duas forças opostas. mas satirizadas. O herói era visto como o representante dos valores sociais. pois ele lutava pelo triunfo da justiça sobre a violência. tanto para acréscimo da sua honra como para servir a Nação. pela audição das aventuras descritas nos romances de Cavalaria. Dois sentidos igualmente importantes devem ser ressaltados: um. Quixote é considerado um louco por não enxergar a realidade que o circunda e tentar mudar a ordem das coisas. as elucubrações mentais e o rigor lógico da filosofia escolástica. literal. O sentido denotativo é o que transparece da própria obra: o romance é uma sátira aos livros de Cavalaria e tem por finalidade propiciar aos leitores uma honesta diversão. faz-se necessária perante a degradação da sociedade humana. profundamente antitéticos. Pelas suas qualificações excepcionais. que se extasiavam com as proezas fantásticas dos cavaleiros andantes. fazer-se cavaleiro andante. criado pelo inconsciente coletivo. O conflito existencial. teve o mais estranho pensamento que jamais nutrira outro louco neste mundo: pareceu-lhe conveniente e necessário. o cavaleiro andante passou a ocupar o lugar do herói mítico da literatura clássica. outro. denotativo. enfrentando dificuldades e perigos. E agradava às moças. predestinado pela divindade a salvar seu povo. Quixote e Sancho Pança. o romance é uma finíssima paródia da literatura cavaleiresca. o idealismo amoroso da lírica provençal. se presta a várias interpretações. A existência de um herói idealizado. atribuindo-lhe proezas acima da força humana. pela reconquista da razão e pela morte do protagonista. cujas marcas são abundantes na literatura barroca espanhola. o romance de Cavalaria era um gênero literário profundamente ideológico.Quixote. o cavaleiro andante era considerado incorruptível e invencível. cuja missão é a de “defender as moças. O conteúdo colocado no fim do romance. simplesmente descreve e sorri. é o de que é inútil e insano lutar contra a ordem social. Este gênero literário agradava aos homens. que envolve a figura do cavaleiro andante e de todo herói da literatura de massa. amparar as viúvas e socorrer os órfãos e os necessitados”. A forma livre do romance de cavalaria permitia a convergência de gêneros diferentes: a aventura heróica da poesia épica. Cervantes. do amor puro e sincero contra o egoísmo e a falsidade. As aventuras de seu protagonista não são exaltadas. obriga a humanidade a criar suas defesas: o cavaleiro andante. A missão do protagonista encontra-se explicitada no início da primeira saída. super-homens da ficção científica). porque expressava os sonhos e os anseios da coletividade. que deliravam com as lânguidas declarações de amor. a intercalação de poemas em versos que quebravam o continuum da narração em prosa. investigadores dos romances policiais. é superado pela postura céptica de Cervantes face à possibilidade de resolução dos problemas humanos e sociais. melhor. como símbolos do cavaleiro e do burguês. tão bem descrito por Cervantes. ir pelo mundo com suas armas e cavalo. em busca de aventuras e exercitar-se em tudo o que havia lido sobre os cavaleiros andantes. onde. da fé e da razão. Toda época tem sua literatura de massa. sugerido pela derrota. conotativo. Quanto ao conteúdo. Perante a antítese entre o real e o ideal. com a promessa de eterna fidelidade e com a exaltação da beleza incomparável da mulher amada.

inspiradora e destinatária de seus feitos heróicos. sendo explorada por várias artes: pintura. que se completará com as viagens ao exterior. onde predomina a descrição do fundo humano das criaturas. televisão. do vulgar. Apenas pela força de seu querer. extravasamento da vida na arte. uma bacia de barbeiro. Ele representa a força das convenções sociais. manifestação lingüística da sabedoria prática. predominância do uso do narrador em primeira pessoa. compaixão pelo pecador. os moinhos de vento transformam-se em gigantes. duas prostitutas. necessariamente. pode ser visto na representação de D. é a personificação do prático. e Sophia Loren.89 meio. o nobre e intelectual Fedor entra em contato direto com a camada do povo russo mais miserável e começa seu amadurecimento espiritual. A crítica costuma dividir sua vastíssima obra de ficção em três partes: 1) Novelas da juventude (Pobre gente. elementos de sua estética (crítica à literatura retórica e divorciada da vida real. caminhando juntos. em elmo. entendida como reflexo do absoluto. complexo de Édipo). dirigido por Arthur Hiller e interpretado por Peter O ‘Toole. que pretendia depor o czar Nicolau 1. Quixote consegue criar um outro mundo. as experiências . que sonha em estabelecer na sociedade um conjunto de valores ideológicos. no qual. Sancho Pança. na belíssima dama de seus pensamentos. descrição da vida do estudante pobre. introspecção analítica. cinema. o conjunto dos valores reais (dinheiro. Quixote é considerado um louco porque decide fechar os olhos à realidade e viver num subjetivismo absoluto: “ yo pienso y es así”. o amor puro. No mundo de sua imaginação. o superego freudiano que esmaga os desejos do indivíduo. seu pensamento sobre moral e religião (crença no destino. na literatura e nas outras artes do Romantismo e do Modernismo. que constituem a fase ainda romântica de Dostoievski. Quixote. Lembramos apenas o sucesso internacional do musical O Homem de la Mancha (EUA. teatro. O bom-senso de Sancho. tentam influenciar-se reciprocamente: o escudeiro sonha com o governo de uma ilha. as manadas de ovelhas. que castra o sonho do universal poético. a honestidade. que será explorado posteriormente. preferência pelos cenários noturnos e tempestuosos). seu dono acaba se convencendo de que o mundo da cavalaria é um sonho impossível de se realizar. cria o conflito existencial. Ele torna-se. o modo peculiar de construir os personagens (esboços de vários tipos humanos que encontrarão seu acabamento perfeito nas obras da maturidade). 1972). DON JUAN (Casanova. escultura. em delicadas donzelas. expressão do real social. devem reinar a justiça. já vislumbramos alguns dos traços mais característicos da ficção dostoievskiana posterior: traços autobiográficos (recordações da infância. Quixote como a fantasia poética em contraste com a verdade histórica. no papel de Alonso Quijana / Miguel de Cervantes. simbolizada por Sancho Pança. considerado o pai do romance psicológico. condenado aos trabalhos forçados por integrar o grupo revolucionário de Pietrachevski. até hoje é submetida a uma grande variedade de interpretações. “deben de ser y son”. Outro dualismo antitético. do útil. Na prisão. entre outras). as aventuras amorosas. constituem um divisor de águas na produção literária de Dostoievski. Noites brancas. a humildade e o sofrimento como catarse. a beleza. mais profundo e mais universal. Louco ou “quixotesco” é todo o homem que luta em vão para modificar a dura realidade em que vive. o mito da sedução masculina)Adônis Narciso DOSTOIEVSKI (o escritor símbolo da Literatura Russa) Sofrer e chorar significa viver Fedor Mikhailovitch Dostoievski (1821-1881) é o maior romancista da Literatura Ocidental. D. com sua ternura e espírito de abnegação. A consciência da coexistência no ser humano dessas duas forças antitéticas. crítica às modas estrangeiras e apego à natureza). acusação da injustiça social. uma camponesa vulgar e feia. timidez. e a loucura de D. entra continuamente em choque com a realidade contingente. Nestas obras. posição social etc. contrastivamente. Coração frágil.). símbolo do mundo ideal. portanto. O humorismo sutil de Cervantes reside na consciência da impossibilidade de o homem poder superar o eterno divórcio que existe entre a poesia e a história. idealismo da adolescência. exprimindo-se por provérbios. reside a beleza humana e poética do romance. um mundo ideal. em exércitos. por ser altamente polissêmica. A arte. Páris. 2) Obras de transição: os quatro anos (1850-1854) passados na Sibéria. todavia. representando Alonza / Dulcinea. O protagonista D. a verdade. A obra de Cervantes. fruto da oposição barroca entre a alma e o corpo. caráter introspectivo. de uma forma plena. o símbolo do homem utópico.

pronunciada pelo ator. separada da literatura. de desdobramentos de personalidade. O idiota. poderá deliciar-se com a leitura do texto escrito. O fundamento psíquico da intenção ou do ato criminoso é o complexo de Édipo. tempo. evidentemente. ironia. complementando-se e diferenciando-se. personagens. o acesso às obras mais bonitas da dramaturgia ocidental seria proibido a um público que não mora nas metrópoles ou que não tem poder aquisitivo para freqüentar teatros majestosos. de embriões. Mas. canoras. de imagens especulares. Quanto à temática. cada qual expondo seu ponto de vista a respeito do acontecido. O jogador. sonoplastia). de duplos. suas implicações intrínsecas com a arte da palavra. imperialismo czarista vs. quem não tiver a sorte de assistir ao espetáculo teatral. Quanto ao aspecto formal. Memórias da casa dos mortos e Memórias do subterrâneo. que o leva a odiar qualquer forma de tirania. o sofrimento físico causado pela epilepsia e a dor moral provocada pela penúria econômica. consubstanciada na figura do pai que submeteu a esposa e os filhos a uma autoridade brutal. se é verdade que o texto teatral é escrito para ser representado e não apenas lido. Daí alguns estudiosos considerarem o gênero dramático como uma arte à parte. No seu intuito de explorar os subterrâneos da alma humana. DRAMA  Gênero literárioTragédia Comédia Ópera Do étimo greco-latino drama. espaço. A palavra. os versos . as personagens de Dostoievski “transpõem” seus caracteres. auditivas. O sucesso da peça dá-se quando o diretor consegue combinar as diferentes linguagens de modo a anular cada uma delas em função da apresentação de uma visão do conjunto. em função do tom de voz. indiferença. No contexto da representação. tendências socialistas. numa mesma obra e de uma obra para outra. não se limita apenas ao tratamento deste motivo. não podemos negar. O adolescente e Os irmãos Karamazov) em que Dostoievski atinge a plenitude de sua técnica formal e consegue expressar sua mundividência pela temática existencial e pela construção de personagens que se tornaram imortais.90 desastrosas no jogo. uma representação. da mímica do rosto ou das mãos. significa uma “ação” feita em público. coreografia. Outro aspecto relevante é sua complexidade: o gênero dramático (Teatro) engloba a Literatura e outras Artes. violência vs. o grande escritor russo não cria suas histórias e não constrói seus personagens de um modo linear e acabado. Lembramos os romances Humilhados e ofendidos. diálogos) e imaginando outros específicos do dramático (cenografia. piedade. pode mudar de sentido na dependência da maneira como é pronunciada. em várias versões. o motivo mais explorado pelo romancista é o sentimento de culpa que aflige o homem na sua tentativa de reparar as injustiças individuais e sociais através de um meio moralmente condenado. a presença do “conflito” como elemento caracterizador do gênero dramático. Sófocles. Os demônios. O eterno marido. de prismas que refrangem a plurifacetação do ser humano. sendo composto de uma constelação de signos: o texto escrito encontra-se entrelaçado por imagens visuais. livre-arbítrio. A peça Édipo Rei foi escrita por seu autor. compaixão para com os fracos e os degradados. de outro lado. sendo signo de um objeto. publicado em 1866) medeiam uma meia dúzia de trabalhos literários que atestam a gradativa passagem da primeira para a segunda fase. A frase “eu te amo” pode sugerir sentimentos opostos: paixão. Daí. em todos os teatros do mundo. Entre as obras da fase juvenil e o primeiro grande romance da época da maturidade (Crime e castigo. na qual o espectador não consiga destacar nenhuma linguagem de modo especial. Assim. embora mantenha sua significação lingüística. o texto escrito perde seu aspecto propriamente literário para adquirir os caracteres da dramaticidade. abrangendo quase todas as contradições da época em que viveu: forças do instinto versus misticismo religioso. pictóricas e plásticas. onde são representadas as peças que se tornaram imortais. interdições socio-morais vs. analisando alguns elementos estruturais comuns ao gênero narrativo (fábula. O intertexto de Dostoievski acusa a existência de homólogos. da postura corporal do ator. A essência do drama é o diálogo entre as personagens. pode ser estudado como texto literário. assinalamos a técnica da “transposição”. formando uma intertessitura harmoniosa. consciência da culpa vs. própria da estrutura artística da narrativa dostoievskiana. o crime. para ser representada no teatro de Atenas e continua sendo apresentada. O mesmo diga-se do gênero lírico: em suas origens e ainda hoje na canção popular. Se contem um “script” que usa a linguagem poética. Se isso não fosse possível. 3) Romances da maturidade: é o conjunto das sete narrativas (Crime e castigo. musicais. sentido de humanidade. Mas. mas reparte fatos e características psicológicas de forma a poderem ser vistos de vários ângulos. Mas a temática de seus romances.

tem a função de induzir o homem à reflexão sobre a realidade em que vivemos. que faz chorar. cada qual expondo idéias e sentimentos do seu ponto de vista. a forma dialógica é a característica mais marcante da arte teatral. dramaturgos famosos nunca foram completamente fiéis ao principio da pureza dos gêneros. no choque entre vontades opostas. o Momo e o Vaudeville) e o teatro de Marionetes. Comédia. Mas o poeta trágico foi severamente criticado por isso. Outra característica diferenciadora do gênero dramático é o aspecto temporal: se o gênero narrativo sempre se refere ao passado (conta uma história que já aconteceu) e o lírico se refere ao presente (exprime um sentimento que o eu poemático está vivendo aqui e agora). destinamos verbetes específicos a peças maiores (Tragédia. O gênero dramático. pois não conseguem proporcionar a felicidade almejada. geralmente no contexto de um show apresentado por bandas e cantores: mas isso não impede o prazer da leitura de um poema de Manuel Bandeira ou da letra de uma canção de Chico Buarque de Holanda no aconchego do lar. descobre a “idéia-força” do estilo teatral na união falagesto: as palavras não passam de símbolos abstratos e. Já o dramaturgo grego Eurípides misturara elementos cômicos à tragédia ao colocar um final feliz em suas peças centradas sobre o ciclo mítico troiano. se a arte é imitação da vida. Mais do que isso: para alguns estudiosos a poesia dramática é considerada a síntese da poesia épica e da poesia lírica. pois. um problema existencial. ocupando o justo meio entre a extensão da épica e a concentração da poesia lírica. com certeza. sofrendo ataques violentos do comediógrafo conservador Aristófanes. terminam com o happy end. que os antigos chamavam de “Tragicomédia”. Ifigênia em Áulis. também à arte da literatura. Portanto. o dramático visa o futuro: expõe a problemática dolorosa de uma situação existencial com o fim de estimular a catarse. Aliás. Enquanto no gênero narrativo predomina o ponto de vista de um narrador e no lírico a focalização está concentrada no eu poemático. com a sociedade. mesmo nos períodos de triunfo da estética clássica. do cenário. onde não existe mais a oposição maniqueísta entre a peça trágica. Orestes e Electra. mas que hoje não se sustenta mais na prática teatral. o drama sugere a mudança de costumes. Tensão essa expressa formalmente através do diálogo. O renascentista-barroco inglês Shakespeare coloca elementos cômicos em suas tragédias e elementos trágicos em suas comédias. Na verdade. geralmente em conflito com a visão dos demais personagens. Toda boa peça provoca no espectador a reflexão sobre a eficácia da observância dos valores ideológicos. também do aspecto físico do ator. ela pertence. dos gestos. Conflito que gera constantemente surpresa e tensão. um sentido de vida. Ópera) e menores: Farsa (incluindo o Mimo. que podem envolver o homem consigo próprio. Demonstrando que certos valores são falsos e hipócritas. Ao longo da evolução do gênero dramático. o neoclássico francês . tratando de todos os problemas existenciais. indiscutivelmente. e a peça cômica. de assunto nobre. das vestimentas apropriadas. de assunto vulgar. além da linguagem. não apenas às artes cênicas. desde que uma peça teatral contenha um texto escrito em linguagem poética. O que varia entre um gênero e outro é o modo como a história ficcional é contada e os meios diferentes de que o dramaturgo pode lançar mão. exprimindo um tema. elas precisam ser materializadas no contexto sensorial dos sons vocais aos quais os significados da emoção e do sentimento são inerentes por natureza . Outros críticos acham que a essência dramática está no conflito. tem um enredo vivido por personagens num certo tempo e num determinado lugar. no teatro temos várias perspectivas ideológicas: o espectador fica sabendo dos fatos através da fala das personagens. apesar de serem tragédias. Ifigênia em Táurida. Aqui vamos tratar apenas do “Drama Moderno”. da iluminação adequada. com a agravante de que personagens nobres casam-se com gente plebéia. mais do que qualquer outro tipo de arte. Nele encontramos elementos narrativos (episódios de vida) e líricos (expressão de sentimentos). O drama reúne a objetividade da epopéia com o princípio subjetivo da lírica.91 poéticos estão ligados ao acompanhamento musical. com a família. na colisão entre os diferentes objetivos das personagens. com a divindade. esta não apresenta a tristeza separada da alegria. como um romance ou uma balada. para que seja revelado seu pleno significado dramático. havendo muitas homologias entre os três gêneros literários: um drama. que faz rir. Quanto às “formas” do gênero dramático. inventado por Aristóteles a partir da análise das obras que ele conhecia. a purificação dos sentimentos e a mudança do status quo. a pureza dos gêneros literários é um postulado teórico. R. da máscara.Peacock (Formas da literatura dramática). Daí a importância. Um estudioso do assunto.

DRUMMOND (o “poeta maior” da Literatura Brasileira) Quando eu morrer. escolhemos o soneto abaixo. antes separados. deixa Minas Gerais e transfere-se para o Rio de Janeiro.92 Corneille põe como desfecho de sua tragédia Le Cid o casamento de Rodrigo e Ximena. porque o teatro não tem apenas a finalidade de divertir ou fazer chorar. afastando-se dos padrões impostos pela opinião comum. minhas lembranças escorrem e o corpo transige na confluência do amor. O lexema “ingaia”. O poeta Victor Hugo. mas estou cheio de escravos. o próprio termo tragicomédia. comprida história que não acaba mais. comparável ao que foi Machado de Assis na prosa ficcional. AIguma poesia (1923-1930). nomeado chefe de gabinete do ministro da Educação Gustavo Capanema. cujo título oximórico já indica o tema da indagação sobre o mistério do Universo. qualificativo de . sobretudo. Em 1934. Aliás. 4) A poesia metafísica. A fina inteligência e a sensibilidade apurada levam Drummond a uma percepção da realidade de uma forma mais autêntica e subjetiva. símbolos e outras armas promete ajudar a destruí-lo como uma pedreira. Entre os dois mestres da literatura nacional. Em Drummond podemos distinguir várias linhas poéticas: 1) A poesia saudosista da família e da terra natal. Da primeira coletânea de poemas. para justificar a presença de personagens nobres (o deus Júpiter) junto com seres vulgares (o escravo Sósia). no Prefácio à peça Cromwell. Da coletânea Claro enigma (1948-1951). A concepção do drama moderno nega a oposição sistemática entre o cômico e o trágico. Exemplificamos com o poema “Nosso tempo”: O poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras. um verme. exercendo a profissão de funcionário público e de jornalista. A problemática pode ser. realiza a síntese do trágico e do cômico. 3) A poesia política. 2) A poesia intimista do “eu retorcido”. foi cunhado pelo escritor latino Plauto: no Prólogo de Anfitrião. mas. que se encontra especialmente na coletânea Rosa do povo (1943-1945). Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé. onde permanece até sua morte. junto com a denúncia das outras prerrogativas da estética clássica. mas uma “tragicomédia”. de participação social. define essa sua obra dramática como uma tragicomédia. que indica uma peça em que estão misturados elementos trágicos e cômicos. as personagens nobres e vulgares. definindo a obra não como uma tragédia clássica. Eis a primeira estrofe do poema-título da coletânea “Sentimento do mundo” (19351940): Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Meu irmão pequeno dormia. morre comigo uma certa forma de ver O mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é o nosso “poeta maior”. proclama o fim do mito da pureza dos gêneros. criando uma tal polêmica que obrigou a Academia Francesa de Letras a intervir. conscientemente. a de fazer pensar e refletir sobre a nossa realidade existencial. minha mãe ficava sentada cosendo. a ação dramática pode provocar riso e choro. de reflexão sobre a essencialidade do ser humano. que inclina Drummond para um existencialismo niilista. há algo em comum: o senso de humor com que retratam o triste espetáculo da vida. transcendental e banal. ia para o campo. transcrevemos o início do poema “Infância”: Meu pai montava a cavalo. combinando os princípios estruturais e ideológicos dos dois gêneros. uma floresta. O drama burguês passa a substituir a tragédia e a comédia. ao mesmo tempo. intuições. a melhor produção do gênio literário no campo da poesia brasileira. Mas é a partir da revolução estética promovida pelo Romantismo que a dramaturgia.

a mão. acrescentando-lhe o prefixo latino in. Teresa para o convento. O próprio título do conjunto de poemas escritos entre 1959 e 1962. essa sabedoria o torna infeliz. e agora. O agudo olfato. rimas internas e externas. você? 6) A poesia-prosa: a lírica de Carlos Drummond de Andrade é uma profunda e lúcida indagação sobre a essência e a existência humana. à compreensão profunda da realidade. exige uma explicação. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. a noite esfriou. onde o poeta mineiro trata do amor não correspondido. telegráfico. que significa “alegre”. A linguagem poética é reduzida a um puro nominalismo. se destroem no sonho da existência. ecos. Vejamos a não menos famosa Quadrilha. ilustrando o famoso adágio popular “Quem eu amo não me ama e quem me quer não me convém”: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. “iovial”. em que predomina o estilo sintético. 5) O poema-objeto. dos quebrantos. portanto. Transcrevesmos aprimeira estrofe: E agora. A relação é estabelecida apenas por elementos fônicos: aliterações. privados de qualquer adjetivação. João foi para os Estados Unidos. Uma estrofe de A ingaia ciência: A madureza sabe o preço exato dos amores. A nosso ver. feita através da apresentação de quadros do cotidiano. Vejamos a primeira estrofe do poema Isso é aquilo: O FÁCIL o fóssil O míssil o físsil a arte o enfarte o ocre o canopo a urna o farniente a foice o fascículo a lex o judex o maiô o avó a ave o mocotó o só o sambaqui Seu poema antológico. o dinamismo da era da máquina. Tal artifício técnico teria a intenção de representar esteticamente a coisificação da vida humana. Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. José. José? A festa acabou. acessível ao grande público. Lição de coisas. José? e agora. chamado de “pai” para distingui-lo do seu filho natural homônimo. A relação do título com o corpo do poema seria essa: quando o homem consegue o dom de chegar à maturidade. uma “cela”. Maria ficou para tia. é um interrogativo sobre a busca de solução neste beco sem saída que é a nossa vida. teve enorme sucesso com suas narrativas de “capa e espada”. parece sugerir tal interpretação. em que os substantivos. não se encontra dicionarizado e. a luz apagou. e nada pode contra sua ciência e nem contra si mesma. assonâncias. . DUMAS (o romance de capa e espada) Alexandre Dumas (1802-1870). simples. pois lhe mostra o mundo como um “círculo vazio”. de étimo provençal. destruindolhe o “sonho da existência”. são justapostos sem nenhum nexo sintático ou semântico. à moda do futurista italiano Marinetti. marca da negação. também romancista e teatrólogo.93 “ciência”. o povo sumiu. livre de encantos. o poeta mineiro formou o termo a partir do adjetivo “gaio”. Raimundo morreu de desastre. o agudo olhar. usando uma linguagem coloquial. dos ócios.

A visita da Velha Senhora é a tragédia do ressentimento. Schill é assassinado pela coletividade e em público. A dramaturgia de Dürrenmatt não faz concessões ao público: irônica. um juiz reacionário e um idealista revolucionário) são derrotados por um oportunista sem escrúpulos. Esta é a fábula. face às trágicas conseqüências das duas Guerras Mundiais de 1914-1918 e de 1939-1945. Denominada “comédia trágica”. Mas não deixa de ter sorte: bonita e inteligente. em três atos. superficialmente cômica e muito divertida. pois as fórmulas são vendidas pela Diretora do manicômio. agora casado e com filhos. arruma falsas testemunhas e prova no tribunal que ela era uma moça leviana. ironiza o fanatismo de um comerciante anabatista que se priva de seus bens para fazer uma experiência de vida comunitária. para impedir o casamento. os cientistas tomam a heróica decisão de internar-se num hospício com o fim de evitar que suas descobertas sejam utilizadas pelas grandes potências para destruir-se mutuamente. Os três mosqueteiros e O conde de Monte Cristo. A peça de estréia. isto é. com respeito a Alfred. acontece exatamente o contrário. é seduzida por Alfred Schill. a mocinha pede justiça. um moço filho de um ricaço de uma cidade provinciana. O espectador fica sabendo de todo o conteúdo fabular pela fala das personagens ao longo do drama. sua fábula. tornara-se um avicultor! Em O casamento do senhor Mississipi. cega mas de boa memória. Apaixonada e grávida. satírica. Em Os físicos. a seqüência das ações em sua ordem cronológica. Clara é expulsa da cidade. Está escrito. a deixa herdeira de uma fabulosa fortuna. os três nobres pretendentes à mão da bela Anastásia (um intelectual aristocrata. embora de fundo trágico. Um anjo vem a Babilônia retrata a fragilidade das instituições políticas e religiosas. socialismo. DUMONT. Dürrenmatt faz uma hilariante sátira da vida dos banqueiros. A trama da peça começa com a chegada de trem de Clara a Gullen e a festiva recepção. de família humilde e ainda de menor idade. são facilmente corruptíveis porque ninguém resiste à força do dinheiro e ao jogo de interesses. com relação a Clara. disposta a vingar a afronta sofrida na sua mocidade. mais tarde. seu antigo sedutor e caluniador. por um mordomo e por seguranças. mas a família do rapaz. volta à cidade natal. A cidade de Gullen encontra-se num estado de total decadência: indústria parada. pela arte cinematográfica. pois tivera relações sexuais com outros rapazes. Dürrenmatt não acredita na possibilidade de uma transformação social. Mas o poder da corrupção torna inútil seu sacrifício. A Velha Senhora vai embora. legando à cidade o cheque prometido. Seu teatro deve mais ao primeiro do que ao segundo autor. acaba perdendo a criança com apenas um ano de idade. fraternidade. embora tenha utilizado algumas inovações técnicas de Brecht. é a seguinte: a jovem Clara Waescher. É também a comédia da moral burguesa regida pela lei do estômago: os acusadores de ontem se tornam os defensores de hoje. a justiça vingadora. A peça mais famosa de Friedrich Dürrenmatt é A visita da velha senhora. consegue casar-se com o milionário Zahanassian. mas inteiras coletividades. As instituições sociais. Com o musical Frank V. pela ascensão social. então. Quanto ao sentido. feroz. que temem qualquer inovação mesmo que venha do céu. que a tira de um bordel e. pelo dinheiro. Sua ironia chega ao pessimismo mais absoluto. o Grande. se tornaram uma verdadeira literatura de massa. sendo exploradas. pois. . Santos (o sonho de o homem voar)ÍCARO DÜRRENMATT (dramaturgo suíço) O grande dramaturgo Friedrich Dürrenmatt (1921-1990) confessou as influências de Strindberg e de Brecht. casas abandonadas. Obrigada a prostituir-se para poder sobreviver. desiludido da vida. inclusive a própria esposa e os filhos. especialmente a justiça. comércio fraquíssimo. É este desencanto que justifica sua predileção pelo tom irônico e pela comédia. Com o novo nome de Claire Zahanassian chega de trem junto com a sua comitiva e oferece milhões para soerguer a cidade. que se tornaram pura utopia: capitalismo. atraídas pela força irresistível do dinheiro. Assim caluniada. da vingança. ao morrer. o sétimo e o nono. mas profundamente trágica porque realista e verdadeira. palco e platéia são empestados pelo cheiro de bosta de galinhas: o último Imperador de Roma. reconhecem a ignomínia de Alfred e decretam sua morte. especialmente o antiilusionismo dramático e o recurso a fatos históricos do passado. amor. religião. O egoísmo humano atinge não só os indivíduos. sentimento irresistível do ser humano que a mitologia grega personificou na figura de nêmesis. Mas há um preço: a cabeça de Alfred Schill. As pessoas mais influentes da cidade. Sua dramaturgia apresenta a crise de todos os grandes ideais da humanidade. A dura realidade da existência é a luta pela satisfação dos instintos. acompanhada por dois maridos.94 Suas obras principais. A Velha Senhora. Na representação da comédia Rômulo. heroísmo.

na estalagem”. numa noite de outono) e descreve as características psicossomáticas daquele que irá ser a personagem principal da narrativa: velho de sessenta anos.” Nos primeiros parágrafos do conto.. no ano de “1823 ou 33”. em que retrata a lascívia. o que não contas ao teu amigo. Suas melhores obras de ficção são: O crime do padre Amaro. A presença de Macário como primeiro narrador ocorre não só no início da narrativa. na cidade de Lisboa.95 EÇA (ficcionista português)Realismo “O que não contas à tua mulher. de quem é receptor. Mas esse caso.. colocada no conto com a única função de transmitir ao leitor o caso de vida do protagonista da história. de cabelos pretos. Segundo me disse Macário . O narrador funciona. mas que não participa dos fatos narrados. e o leitor virtual (elemento do mundo real). gordo. durante uma viagem.. que o próprio Macário lhe contara. rápido e inconseqüente. Era singular que Macário não se lembrava. A serenidade de vida deste jovem aplicado e comportado.. a hipocrisia e a insensibilidade do clero de sua época.. O primeiro encontro. nos servirá como exemplo de análise da narrativa realista. e. portanto. onde ataca o falso moralismo da sociedade burguesa. mas.. que compartilha o quarto do albergue.. agora já no plano do enunciado (ou da história Mito) e não mais no plano da enunciação (Discurso).. focalizando particularmente as causas psíquicas e ambientais que induzem a protagonista Luísa ao adultério. Macário se apaixona pela jovem de cabelos loiros que nas tardes se debruçava na janela. Macário não pôde dar todos os pormenores . Macário contou-me. dá-se no armazém . pois sua postura é a de quem narra fatos e descreve sentimentos. então. Após cinco dias de tímido flerte. Os Maias.. Resumo da fábula A situação inicial da “fábula”. de que o ficcionista português foi um mestre. que moram num sobrado fronteiriço ao armazém onde o jovem trabalha. conta-o a um estranho... Singularidades de uma rapariga loura. Essa função de elo de ligação entre o mundo imaginário e o mundo real confere ao narrador uma visão objetiva. calvo. casto e simples. apresenta o protagonista.. uma personagem ad hoc. eu calo-o. “Começou por me dizer que o seu caso era simples e que se chamava Macário. Eça de Queirós (1845-1900) é o maior escritor português da escola realista.. que ainda não conhecera os prazeres do sexo. o narrador relata como conheceu Macário (numa estalagem da região portuguesa do Minho. moço de 22 anos. vividos e narrados por uma terceira pessoa. Podemos considerar este primeiro momento do conto como a situação inicial da “trama”. de um narrador heterodiegético. seguindo o exemplo de Balzac. Um deles. volta e meia. como intermediário entre o protagonista Macário (elemento do mundo da ficção). Além de romancista. o “caso” amoroso que lhe acontecera na juventude e que marcara profundamente o destino de sua vida. uma bonita loira de 20 anos. pela aparecimento da filha desta. Eça foi também um ótimo escritor de contos.” Problema do narrador O início deste conto de Eça de Queirós mostra a peculiaridade do foco narrativo empregado ( Discurso Narrador): o leitor vai tomar conhecimento da história ficcional do personagem Macário através de um narrador que fala em primeira pessoa. depois. O primo Basílio. Trata-se. solteirão inveterado. alto.. é perturbada pela vista. O fingimento de apresentar a ficção como se fosse verdade é uma peculiaridade marcante de estilo da escola realista. em que o autor cria a atmosfera propícia para Macário se dispor a revelar ao desconhecido. primeiro. para quem é transmissor da mensagem. acontecidos. de óculos etc. guarda-livros de um armazém de panos do tio Francisco. renovando constantemente a conexão da transmissão do saber entre os dois narradores e o leitor: “Macário disse-me que nesse tempo. de uma bela viúva de 40 anos. recorre ao longo do conto. parte de um projeto inacabado de descrição da totalidade social através de romances seriados (o nome do programa era Cenas da vida portuguesa).

Macário decide casar-se com Luísa e comunica esta sua determinação ao tio Francisco. verdadeiros “tipos”. de grande valor. com características físicas que induzem o protagonista masculino e o leitor a ter dela a imagem de um ser angelical: cabelo loiro (a cor loira é a imagem simbólica da luz solar). verificamos a presença de três personagens principais. fruto de uma tara. Percebemos como a estética realista cultivou a exploração de temas ligados a deficiências biopsíquicas. pois a jovem Luísa estava prestes a se casar com um homem abastado e não precisava furtar um objeto que o noivo lhe estava oferecendo como presente. Desesperado. Chegando na esquina. Trata-se. que não condizia com a posição social de Luísa. desde o começo. filha de uma viúva pobre. não existindo nenhuma complexidade psíquica. inesperadamente. com o episódio do furto do anel de pérolas. que participam diretamente do desenvolvimento do enredo: 1) A personagem-título. o jovem abandona Luísa. podem ser encontradas ao nível do tema principal. Marcado o dia do matrimônio. que uns teóricos chamam personagens “planos’’ ou “de costumes”. Nível temático: Eça explora artisticamente o tema da “cleptomania”. ela é descrita como uma jovem ingênua. Macário é obrigado a saldar a dívida do canalha e fica outra vez na miséria. perdido o emprego e a residência. Mas. chamando-a de “ladra”. neste conto de Eça. quando. mas de uma doença. luta. a cleptomania. pede-lhe para ser fiador de uma grande quantia e foge com o dinheiro e a mulher de um alferes. Voltando a Lisboa. pede desculpas e paga a vultosa quantia correspondente ao preço do anel roubado. O empregado da joalheria colhe o flagrante do furto e Macário. ao nível do ser. portanto. se descobre a identidade da pessoa que praticara os outros roubos. Tais indícios preparam o leitor para a compreensão do desfecho do conto. durante uma reunião social na residência de uma família amiga. que lhe arrumara o negócio no Cabo Verde. mão pequena etc. não sendo aceito em nenhuma outra firma comercial. porque é impelido a agir por um determinismo atávico ou ambiental. A revelação final desta “singularidade” do caráter da protagonista é precedida por vários índices: a) o uso de um leque chinês. pele fina. Sentido do conto As características do Realismo. ao nível da qualificação dos personagens. Os personagens são qualificados. Macário leva a noiva a fazer compras e Luísa rouba um anel com duas pérolas. o amigo “do chapéu de palha”. inocente. Enquanto os outros furtos poderiam ser atribuídos às precárias condições econômicas das duas senhoras que viviam sem o amparo de um homem. muda de idéia a seu respeito. Macário aceita o convite de uma firma para ir trabalhar no Cabo Verde. consentindo com o casamento e dando-lhe participação na sua firma. O jovem. passa maus momentos. Conforme a doutrina do Positivismo e do Determinismo. O que caracteriza a anormalidade psíquica da personagem ladra é a gratuidade do ato. Seguem-se mais dois encontros: um. c) o desaparecimento de uma moeda de ouro. pura. se sacrifica e consegue acumular uma pequena fortuna. b) o desaparecimento de uma caixa de lenços da Índia. Ao nível do parecer. uma anormalidade psíquica que consiste num impulso irresistível de roubar sem necessidade. não querendo renunciar ao amor de Luísa. que não aceita a idéia. No além-mar. os sinais de seu vício predominante são evidenciados pelo contraste entre a apatia com relação ao sentimento amoroso (nos encontros noturnos com o namorado chega a ter sono) e o fascínio que sente pelos objetos de alto valor material: veja-se a atração pelo rolar da moeda de ouro em cima da mesa e o alvoroço com que . a moça Luísa. recatada. com traços identificadores e imutáveis. num sarau em casa de um tabelião letrado. No conto em estudo. no dia em que a mãe e a filha Vilaça foram no armazém do tio Francisco com o pretexto de comprar casimiras pretas.96 onde a viúva e a filha foram comprar mercadorias. pois é a hereditariedade ou o meio social que induzem o ser humano aos desvios da norma de conduta. como vimos. Quando está disposto a tentar outra vez a fortuna no além-mar. pois ninguém queria desagradar o velho. ao nível da descrição do ambiente (Tempo e Espaço) e ao nível da metalinguagem ( Retórica). não existem culpas subjetivas. não de uma necessidade. sem perder a calma. o roubo do anel não tem uma explicação lógica. e outro na própria residência das Vilaça. vai visitar o tio Francisco que. exerce o papel temático de cleptomaníaca. magnífico. Nível das personagens: A narrativa da época do Realismo constrói personagens de uma marcante coerência psicológica. que fazem com que o sujeito de ações criminosas seja isentado da responsabilidade de seus atos. No dia seguinte parte para a província.

a lembrança do amigo comum Peixoto. que criam a atmosfera propícia ao acontecimento de um fato ou à revelação de um sentimento. que induz o jovem a mudar o rumo de sua vida: a noite quente de julho. cuja família cultivava a velha tradição de “honra e de escrúpulo”. na estalagem”. é uma característica peculiar da escola realista e Eça. revela a sua faceta profundamente humana. conta-o a um estranho. Nível descritivo: a representação minuciosa do ambiente. velho de sessenta anos. mas sem malícia. a comparação de si próprio com “os gatos sensíveis que se esfregam”. Eça prepara toda a atmosfera propícia às revelações confidenciais: a viagem de carruagem através de uma região pitoresca. mas prático nos negócios. outra ao do enunciado (história): a) No início do conto.97 examina e experimenta nos dedos os anéis na loja do ourives. a lembrança dos cabelos negros e dos alvos braços da senhora Vilaça. mas homem de bem”. neste aspecto. podemos observar o cuidado com que o autor descreve os ambientes físicos. que morava em frente. mais do que um capricho de seu autoritarismo. mas homem de bem”. por ter assinado a fiança. é a prova máxima do imenso afeto que sente pelo sobrinho. A lágrima que lhe corre pela face enrugada. a monotonia da vida de um jovem solteiro. sente-se obrigado a casar com ela. que constitui o cenário. a chorar. com relação ao seu progresso profissional e econômico. 3) O tio Francisco é qualificado como um velho autoritário e tirânico. Homem de bem. explícita ou implicitamente. o som da rabeca de um vizinho. como em outras obras. É o único personagem que apresenta uma mudança psicológica: no fim do conto. confundindo cleptomania com roubo e ameaçando de entregá-la à polícia. paga o preço do anel e abandona a moça. o outono. o encontro de dois homens solitários. é o protótipo do jovem de princípios. jovem “estúpido. uma pertencente ao plano da enunciação (discurso). onde os personagens agem e expõem seus sentimentos. que casara em Vila Real. estúpido. Ele exerce a função de ajudante do protagonista. honesto e de uma retidão moral inabalável. relativamente à sua aspiração ao casamento. Tudo isso leva Macário. A experiência do velho. assume a dívida daquele que considerara seu amigo. Seu tio o define muito bem como “estúpido. Estúpido. predispondo-o a revelar a um conhecido ocasional o episódio mais importante de seu passado. antes de todas as seqüências narrativas importantes. Segundo as teorias positivistas e deterministas. por ter descoberto o furto da noiva. renuncia ao emprego que lhe dava segurança econômica. Nível metalingüístico: o envolvimento de Eça de Queirós com a escola realista faz com que. a chegada numa estalagem desconhecida. porque se deixa embrulhar pelo “amigo do chapéu de palha”. É o determinismo psíquico que induz a personagem a procurar o que realmente satisfaz sua necessidade existencial. Ao longo da narrativa. porque vive de acordo com seu código de honra: por ter beijado Luísa. inteligente. podem ser relevadas umas séries de enunciados em que o narrador denuncia sua adesão aos cânones estéticos e ideológicos do Realismo e sua ojeriza aos ideais artísticos do Romantismo. neste conto. Que o ambiente era propício à revelação sentimental é declarado pelo próprio narrador que nos reconta a história de Macário. Sua oposição ao casamento do sobrinho. que ainda não tinha “sentido Vênus”. o espaço (o meio) e o tempo (o momento) são fatores importantíssimos para a formação do caráter e elementos indispensáveis para a compreensão da conduta. que era o motivo da sua realização existencial. Selecionamos algumas expressões que nos parecem significativas: . o autor evidencie. pode ser entendida como o desejo de preservá-lo da desgraça da união com uma mulher. referências ao movimento literário. mas de oponente. o pano de fundo. conhecedor da vida. condenando-se a uma perpétua e infeliz solidão. o que não contas ao teu amigo. cidade onde os dois homens viveram parte de sua vida. a noite. porque não compreende a doença de sua noiva. estúpido. lhe faz pressentir que o sobrinho seria infeliz no seu relacionamento amoroso. Fazemos referência apenas a duas ocorrências. solteirão e misógino. a recordação nostálgica dos tempos passados e dos lugares longínquos. é um mestre. 2) O protagonista Macário é descrito como um jovem pertencente à “burguesia cautelosa”. quando deveria procurar-lhe um médico. oculta pela aparência de severidade e intransigência. em que a atmosfera estava “elétrica e amorosa”. porque. deixando-se levar pela paixão amorosa. citando um antigo provérbio: “o que não contas à tua mulher. na noite em que faz as pazes com Macário. Sentimentalmente tímido. No conto em análise. b) O surgimento da paixão amorosa de Macário pela bela loira também é precedido pela descrição do ambiente físico.

“iconografia”): como Narciso reflete seu rosto na fonte.C. gerenciar uma casa tem muito a ver com governar uma cidade. de gritos de bichos. associa o mito de Eco ao de Narciso. enquanto o deus todo poderoso ficava paquerando as ninfas. assim Eco. serralhos. apaixonada por Narciso.. de nariz adunco e fatal. o deus dos bosques. Este deus castigou a moça quer porque lhe invejava a beleza do seu canto quer porque ela lhe recusara seu amor. A campina era o espaço coletivo. latinista. Com efeito. a continuada repetição de um som a longa distância. de objetos. desesperada.98 “Sou naturalmente positivo e realista. A ninfa. que não pode calar-se quando alguém fala com ela. de instrumentos. visando o uso das .. na Mesopotâmia. amigo das musas. satiriza “as primeiras audácias românticas” . de onde cada comunidade tirava o sustento. cria uma imagem sonora. era circundada por um muro e um fosso. na realidade e na arte ” A ironia sobre o Romantismo aparece também aqui e acolá: quando.. no IV Milênio a. Sua voz passou a imitar todos os sons: de deuses. Quando a ciumenta Juno se apercebeu do estratagema. que despedaçaram o corpo da bela jovem e “espalharam pela terra seus membros que cantavam ainda”. aproximando Eco de Orfeu. Por essa versão. sultanas cor de âmbar. referindo-se a seu estado de espírito sentimental e romântico. A figura mítica dessa bela jovem foi criada pelos gregos para explicar a origem do fenômeno físico do “eco”. de homens. desde as origens do primeiro agrupamento humano de que temos notícias. conforme o relato que se encontra na pastoral Dáfnis e Cloe do romancista grego Longus. quando fala dos “velhos poetas pitorescos”. nas margens dos rios Tigre e Eufrates. A cidade de Ur. a lenda de Eco teve múltiplas versões literárias e musicais. quando. piratas do arquipélago. II d. mas cúmplice de Júpiter: com seu canto e sua tagarelice entretinha a esposa divina. séc. casa e cidade) A cidade é uma casa grande. não conseguia declarar-lhe seu amor. que se encontra descrita nas Metamorfoses do poeta latino Ovídio. e que repete apenas os últimos sons da voz que lhe chega” (Ovídio). Já uma variante do mito de Eco relaciona a ninfa com Pã. relacionando o nome da ninfa com o étimo eikôn. cultivando a terra. Segundo uma versão do mito. surgiram códigos de condutas. Eco é uma mortal. em que “a poesia apossava-se vorazmente deste mundo novo e virginal de minaretes. Para vingar-se. o atual Iraque. a casa é uma cidade pequena (ditado grego) O étimo oikos. que possui o dom da música e do canto. a figura mitológica de Eco liga-se aos poderes espirituais da música. (Dafne) Aqui. Eco era uma ninfa das montanhas. que é um espaço maior com mais habitantes. sendo por ele abandonada. cheias de perfume de aloés onde paxás decrépitos acariciam leões”. duplamente vítima de Pã. pertencente ao séqüito de Hera (Juno). A atividade econômica (sustento da casa) e ecológica (preservação do ambiente) têm muito em comum. pois Eco.. pela repetição do som. Pã “suscitou um acesso de furor nos pastores e guardadores de cabras”. de cabelos compridos. que significa “imagem” (de onde veio “ícone”. castigou a jovem ninfa privando-a da fala. deu origem aos termos Ecologia e Economia. separando o ambiente fechado (cidade) do aberto (campo). O castigo foi cruel. Esta lenda. que significa “casa” ou lar. e salas rendilhadas. o mais matemático ou o mais crítico. sendo-lhe permitido apenas pronunciar a última sílaba de uma palavra. A par de outros mitos fecundadores. de canudo na mão). considera que “não se pode ser mais estúpido”. embrenhou-se nos bosques e foi definhando até restar dela apenas uma voz que faz eco nas montanhas. filha de uma ninfa. ECOLOGIA (e Economia: a conservação do ambiente: natureza. Para estabelecer o equilíbrio entre as propriedades privadas e públicas.C.. na figura do tabelião (homem letrado. ECO (o mito da repetição sonora) Narciso Orfeu “Aquela que não sabe falar em primeiro lugar.

A Alemanha. a Itália e o Japão (que no após-guerra adotou o modelo “ocidental” de sociedade). que é o mais caro. Em Fernando de Noronha. educacional (escolas suficientes e de bom nível para todos os habitantes de uma cidade). do estímulo à criatividade e o apreço pelo trabalho podem levar uma nação ao progresso e à independência econômica. distribuindo esmolas via cesta básica e outros paliativos. O dinheiro irá se perder nos meandros da burocracia inepta e dos políticos corruptos. país de uma extensão enorme. autopeças. desativado porque tinha causado a morte de uma ave. Há sempre ecologistas de plantão mais sensíveis ao corte de uma árvore. o mais perigoso.99 águas e outras relações de vizinhanças. Foi com a Revolução Industrial. É uma vergonha constatar que no Brasil. que é mais rápido. a partir do séc. o mais lerdo e o mais poluente. têm o mais alto índice demográfico e o pior tipo de transporte. na sua obra A Riqueza e a Pobreza das Nações (1998). construído para captar a energia solar. uma vez por toda. Como diz um provérbio chinês: “todas as flores do futuro estão nas sementes de hoje”. em lugar de por panos quentes. que visam apenas lucros imediatos. Portanto. que se acelerou o processo de devastação da natureza. a maravilhosa ilha do Nordeste brasileiro. Os países subdesenvolvidos. mais seguro. Nenhuma ajuda será suficiente se não houver o espírito patriótico de promover o progresso da coletividade. os próprios ecologistas não atinam para a importância desses problemas cruciais. O estudioso David Landes. tem raízes longínquas. tem que olhar para o futuro para melhorar o macro-ambiente. é merecedor da ajuda solidária de entidades assistenciais. do que ao sofrimento de crianças abandonadas nas calçadas. impedem olhar para o futuro e preocupar-se com o bem estar da coletividade. O poder público. só se fala em indústria automotiva e em estradas de rodagem. No fundo. . mas carente de água e eletricidade. é condenado por um crime hediondo. do transporte (privilegiar os meios coletivos e antipoluentes). XVIII. a ecologia. qualquer problema ecológico deságua na falta de cultura de um povo. que somente a adoção dos valores europeus da liberdade. já o homem que gasta o dinheiro com drogas ou outros vícios. a natureza e a sociedade humana como um todo. não deixando que ideologias utópicas ou crenças religiosas atrapalhassem seu desenvolvimento econômico. Sem falar dos políticos. vimos um monumental moinho de vento. países massacrados na II Guerra Mundial. Na Europa Ocidental. Mas no nosso país a ferrovia virou sucate. florestal (não permitir o desmatamento sem o plantio de novas árvores). deixando seus filhos sem alimentos. Infelizmente. estando mais preocupados com a morte de um passarinho do que em promover uma campanha a favor do transporte ferroviário. aéreo e hidroviário. A preocupação ecológica deve ser o encontro de um equilíbrio entre o progresso da sociedade e a preservação do meio ambiente. da educação de todos. que cultivavam as terras. diminuindo o oxigênio necessário para a vida dos peixes. Está na hora de todas as pessoas de bem se unirem num coro de vozes para sacudir a consciência cívica e exigir dos governantes a solução dos problemas estruturais que impedem o progresso da nossa nação. considerada um paraíso ecológico. o rodoviário. a quem caberia a obrigação de zelar para o bem público. considerada como proteção ambiental. pneus. Ele sugere que os países subdesenvolvidos têm que aprender. durante a Idade Média. aumentando os aglomerados urbanos. além de não sofrer penalidades. urbano (não inchar a cidade de habitações sem infraestruturas). além de uma escolaridade deficiente. da democracia. Daí a necessidade do planejamento familiar (não permitir a fábrica de seres humanos se não há meios de sustentá-los). combustíveis. deixa bem claro que a história do desenvolvimento econômico ensina que é “a cultura que faz toda a diferença”. É muito cômodo culpar o Capital estrangeiro pelo atraso cultural e pela pobreza. mais barato e menos poluente. tornaram-se grandes potências porque os governos democráticos investiram na educação e no trabalho do seu povo. ao mesmo tempo em que se proporcionava uma melhor qualidade de vida. O regime feudal (Medievalismo) apresenta o “Castelo” com seus muros e fosso circular. preconceitos religiosos e ganância de grupos econômicos. acontece algo de semelhante. Todas as grandes nações se desenvolveram usando a ferrovia como meio de transporte a longa distância. que separavam a moradia do Senhor dos casebres onde viviam os habitantes do burgo. Atenta-se ao paradoxo: um homem que maltrata os animais ou suja as águas de um rio. pois seu funcionamento contraria os interesses econômicos de grupos brasileiros e internacionais que querem vender carros. caminhões.

o norte-americano Eugene O'Neill. este seria a causa da sua morte! Sobre este mito. a resposta é de que a peste não cessaria enquanto permanecesse na cidade de Tebas o assassino de Laio. vai interrogar o oráculo de Delfos que lhe revela que mataria o pai e casaria com a mãe. Foi ele que transformou o mito em "complexo de Édipo". abençoado pelo nascimento de quatro filhos (Etéocles. Para esclarecer a dúvida. Já moço. passa-lhe o trono e lhe oferece a rainha em casamento. Édipo ouve insinuações sobre a sua verdadeira filiação. E não somente a literatura. durante uma estada na corte do rei da Frigia. revolucionando os estudos da psicologia pela descoberta do pansexualismo e da imensa força do inconsciente no comportamento humano. sem saber. um monstro metade mulher e metade leão. durante uma altercação numa encruzilhada. o dramaturgo grego Sófocles constrói sua trilogia trágica. amaldiçoou Laio e todos seus descendentes. que narra como o herói. salvo por um pastor. após a morte do pai Édipo. seduziu o príncipe Crisipo. O rei Pélope. inconsolável pela perda do filho. uma misteriosa epidemia começa a dizimar os habitantes de Tebas. Jocasta se suicida por enforcamento e Édipo vaza os próprios olhos e é expulso da cidade. governada por Teseu ( Ariadne). o francês Corneille. que devorava os viajantes que não conseguissem desvendar o seu enigma. o rei de Tebas. Entretanto. solicitam sua volta. televisão. As buscas ordenadas por Édipo são infrutíferas. entre tantos outros. Além do Teatro. inspiraram-se no mito de Édipo para elaborar peças imortais. Na tentativa de evitar a terrível predição. cinema. Etéocles e Polinice. após a expulsão de Tebas. Políbio e Peribéia (no texto de Sófocles a mãe adotiva de Édipo é chamada de Mérope). teve um largo sucesso na história do teatro no Ocidente: o dramaturgo romano Sêneca. onde Sófocles retoma o assunto já tratado por Ésquilo no drama Os sete contra Tebas: Antígona. Sófocles e Eurípides). é entregue aos soberanos de Corinto. escolhendo por moradia o burgo de Colona. mas também outras artes tiveram sua fonte de inspiração no mito de Édipo: pintura. Creonte. porque um oráculo dissera que a cidade que possuísse a tumba de Édipo seria protegida pelos deuses. decretam a morte do recém-nascido. o inglês Shakespeare. Consultado novamente o oráculo de Apolo. e os dois filhos de Édipo. mas Édipo se recusa a retornar. volta para Tebas e assiste impotente à luta fratricida dos irmãos Etéocles e Polinice para o mando da cidade. o raptou e depois o abandonou. se tivesse algum. sem saber que era seu pai. ele foge de Corinto e. liberta a cidade da Esfinge. Outra peça é Antígona.100 ÉDEN (o espaço do sonho) Paraíso Utopia ÉDIPO (mito e complexo)Tragédia Sófocles Freud “Não tenhas medo da cama de tua mãe: quantas vezes em sonho um homem dorme com a mãe!” (Jocasta a Édipo) O mito de Édipo é um dos mais empolgantes entre os inventados pela genialidade do povo grego. Creonte. que analisaremos a seguir. Em face de tal monstruosa revelação. Por este ato heróico. acompanhado apenas pela filha devotada Antígona. Antígona e Ismênia). por suicídio. depois de longas viagens. nas proximidades de Atenas. que o criam como filho. O bebê. O mito A tradição oral e escrita sobre a figura de Édipo narra que os soberanos de Tebas. O sofrimento de Édipo é a conseqüência de um pecado atávico: seu pai Laio. . preferindo que seus restos mortais abençoem a pólis de Atenas. o pai da psicanálise. encontra acolhida na Ática. O Édipo Rei é a peça central. a que lhe dera amparo na hora da desventura. então. Após vários anos de reinado e de casamento feliz. Consulta-se. o adivinho Tirésias que acaba revelando a verdade: Édipo. Polinice. Édipo em Colona. Laio e Jocasta. o que mais contribuiu para a vulgarização desse mito foi o interesse do cientista e pensador austríaco Sigmund Freud. rogando a praga de que ele jamais tivesse filho ou. sem dúvida. Mas. além de ter sido objeto de encenação pelos três maiores poetas dramáticos do período ático da Grécia antiga (Ésquilo. quando jovem. irmão de Jocasta e regente de Tebas pela recém-morte do rei Laio. matara seu pai e casara com sua mãe. Chegado em Tebas. acabando por matarem-se mutuamente. mas o assunto é retomado também em mais duas obras. esse mito influenciou a realização de obras ficcionais do gênero narrativo e lírico. a caminho para Tebas. A fábula edipiana. escultura. causando a morte do jovem amante. acaba matando um desconhecido. ao saberem pelo oráculo de Delfos que o filho nascedouro seria o assassino do próprio pai.

de igual para igual. O emissário informa que a criança fora-lhe entregue por um pastor da casa de Laio. Atena ( Minerva). segundo a profecia. o habilitaria a conhecer a causa da pestilência. fugindo de Corinto a caminho de Tebas. Faltando-lhe a coragem de assassinar o bebê. Usando a mesma técnica do poema épico. durante uma briga pela precedência da passagem. Mas fica ainda a possibilidade de Édipo casar com sua mãe. também agora. O rei Édipo rechaça as acusações de Tirésias. se mata também junto ao cadáver da amada. velho muito respeitado pelo dom da adivinhação. o emissário acaba fornecendo a pista principal para a solução do enigma: revela que Édipo não é o filho dos soberanos de Corinto. aduzindo que a revelação da verdade magoaria o próprio rei. já rei de Tebas. A sabedoria excepcional de Édipo. insiste em saber a sua verdadeira filiação. Além de ser a tragédia do amor filial e fraternal. A trama da peça: Édipo Rei Sófocles. expressando o sentimento da coletividade. com a ordem de matá-lo. Após a insistência de Édipo. razão pela qual é presa.101 Desobedecendo à ordem de Creonte. fora encontrado no monte Citerião. pois pode provar a falácia das profecias: Édipo não tem mais motivo de temer de matar seu pai. Creonte volta e relata a resposta de Apolo: a causa da peste é a permanência em Tebas do assassino de Laio. então. Antígona apresenta também um conflito romântico que terá muito sucesso na literatura ocidental. o entregara a um pastor. libertara Tebas dos horrores da Esfinge. na realidade. chega um emissário de Corinto com a notícia do falecimento do rei Políbio. O sacerdote. O rei responde ao sacerdote que já tomara providências. pelas palavras do corifeu. quando. acusa-o novamente dos delitos involuntariamente cometidos e profetiza todas as desventuras de que ele será vítima. responde ao rei. aos poucos. então. O adivinho. Jocasta. faz com que os personagens. insinua que é ele próprio o assassino que Édipo procura. matara um velho senhor e alguns servos que o acompanhavam. ela dá sepultura ao corpo do irmão Polinice. afirma que as profecias são falácias e. então. Édipo decreta. que desvendara o enigma e destruíra o terrível monstro. personagem que em nome da massa popular dirige a súplica ao rei. significa "de pés inchados"). pedindo ajuda contra a peste que dizimava a cidade. A única dissonância era o fato de que o servo que se salvara dissera que Laio fora morto por um bando de salteadores e não apenas por um homem só. Este particular coloca Édipo na pista certa: lembra-se de que. que se sente ofendido por ter sido acusado de conspiração. mas por eles adotado quando. começa a lembrar o passado de Édipo. Enquanto se manda chamar o escravo. enviando o cunhado Creonte para interrogar o oráculo de Delfos. Perante tal terrível anagnórisis (revelação). com os tornozelos amarrados (Édipo. ele fora morto assassinado por bandidos numa encruzilhada. chegando à cidade. assume o papel de conciliador e sugere a intervenção da rainha. uma investigação para descobrir o autor do crime e o coro. desesperado com a morte da jovem. em que estão contidas várias antecipações do que irá acontecer no final da peça. o coro. usando do recurso técnico do flash-back. Segue-se a terrível proclamação de Édipo contra o assassino de Laio. Apolo. invoca a ajuda das várias divindades cultuadas em Tebas: Zeus ( Júpiter). Édipo. quando. enquanto ele estava em Tebas. afirmando que o velho é cúmplice de Creonte. a partir daí. Como durante a altercação de Édipo e Tirésias. este. Mais tarde. Laio. criança. no lugar descrito por Jocasta e numa época aproximada. para demonstrar a verdade desse seu pensamento. O pastor é chamado em cena e acaba revelando que a rainha Jocasta lhe entregara o recém-nascido. dirige suas palavras ao povo que chegara ao seu palácio. entra em cena Creonte. com o intuito de acalmar Édipo. filho de Creonte. que começava in medias res. pela necessidade dramática da unidade de ação. salvando outra vez a cidade. de tempo e de lugar. Sófocles escolhe um dos momentos mais dramáticos do mito sobre Édipo e. morreria pelas mãos do próprio filho. Para afastar também este temor do espírito do rei. a rainha se mata por enforcamento e Édipo vaza . então. entra em cena o cego e vidente Tirésias. opera um corte no material fabular preexistente sobre o mito de Édipo. visto que morrera de velhice em Corinto. Expulso Tirésias. revela que estava predito que seu primeiro marido. Dionísio (Baco). ela se estrangula no cárcere. apresentando a situação inicial da peça no momento em que o protagonista. que fala em primeira pessoa. Jocasta exulta com esta notícia. Ártemis ( Diana). Segue-se uma violenta altercação durante a qual Édipo ofende Tirésias. que quer usurpar-lhe o trono de Tebas. acusando-o também de uma concupiscência incestuosa. etimologicamente. retomado especialmente por Shakespeare na peça Romeu e Julieta: o noivo de Antígona. Mas ele se recusa a falar. vão contando aos espectadores o que acontecera antes.

. o rei acumula os dois poderes. é um privilégio meu! Não é a ti que eu sirvo: eu sirvo a um deus.C. a separação da Igreja e do Estado. é a mim que sirvo”. Enfim. conforme as próprias palavras de Édipo. o rei-sacerdote é tido como a encarnação da própria divindade. tornando-se injusto. a tragédia Édipo Rei foi objeto de várias interpretações. ele é essencialmente um "ser que se sacrifica" em beneficio de seus súditos. Peribéia é a senhora "circundada pelo gado". A relação do mito de Édipo com a mudança social havida na Grécia ao redor do século XII a. porque os acusa por mera suposição. Apontamos os tópicos mais explorados: 1) Tema do poder (o triunfo do patriarcalismo teocrático) “Fala diante de todos: a dor dos meus vassalos importa mais do que a minha vida!” Essas palavras de Édipo dirigidas a Creonte são um sinal de que ele tem consciência de ser um arconte justo e dedicado ao bem-estar do seu Estado. relacionada com a constelação da Virgem. Mas. mas também por minha causa . É nesse sentido que Sófocles confere a Édipo um caráter de sacralidade: seus restos mortais serão o penhor da bênção divina para a terra que os possua! Podemos ver na figura de Édipo a representação mítico-artística da passagem do regime matriarcal para uma sociedade patriarcalista. fundamentada nas liberdades democráticas. A luta entre os dois poderes ainda hoje é um assunto palpitante. dominado por um profundo sentimento de absolutismo. sabedoria. tema dos mais discutidos ao longo da história ocidental. etimologicamente. Após admitir publicamente este seu temor. Já com referência à época do autor da peça (século V a. Com efeito. “Hei de lavar a nódoa deste sangue. apesar da integridade do seu caráter. significa "possuidor de gado". É que. Tirésias diz a Édipo: “Tu és o rei.. que de igual para igual eu te responda: o que é direito. A peça termina com a voz do coro.pois quem matou Laio talvez me esteja preparando o mesmo fim: ao justiçá-lo. sendo a rainha Jocasta sua principal sacerdotisa. mas o direito manda. tem que se integrar a antiga cultura teocrática e patriarcalista de Tebas. por volta do século XIII a. penetraram na Grécia e substituíram os velhos cultos creto-micênicos pela religião dos deuses do Olimpo. pode ser verificada também pela onomástica predominantemente pastoril: Laio. . A vitória de Édipo sobre a Esfinge simbolizaria a substituição do calendário lunar de três estações pelo calendário solar de quatro estações e a passagem de uma sociedade matriarcal ao patriarcado. sem prova alguma. a representação do mito de Édipo. A Esfinge seria uma divindade pré-helênica. Considerando-se mediador entre os deuses e o seu povo. então. o herói suplica a Creonte para que o expulse da cidade. tem o fim patriótico de exaltar a cidade de Atenas.102 seus olhos com alfinetadas. nunca estive a serviço de Creonte!” Mas tal distinção de poderes não agrada a Édipo. investe contra ele e Tirésias. Édipo se deixa transtornar pelo medo da perda do poder. Políbio é o homem "de muitos bois".). quando se deu a fixação na terra de povos anteriormente nômades. Alguns sentidos possíveis: ao longo do tempo. A esta nova civilização. segundo o mito da realeza arcaica.C. deusa lunar. O estrangeiro Édipo seria o representante dos aqueus invasores que. e não só pelos outros. O soberano adquire o estatuto de "vitima sacrifical": nos Estados teocráticos. causador de terríveis conflitos em vários países. a riqueza e a sabedoria naturalmente geram a inveja. e esta leva à maquinação de crimes: “Ó riqueza. C. o poder. quando passa a imaginar que o seu poder está ameaçado pelo cunhado Creonte. especialmente pelo drama Édipo em Colona. poder. venerada em Tebas. que comenta dolorosamente o fatídico acontecimento. quanta inveja trazeis em vosso bojo!” Outra observação a ser feita é a distinção entre o poder político e o poder religioso.

vai a Tebas. que assume o papel do investigador. quando teve esse destino?” Encontrada uma pista (um homem sobreviveu à chacina). A força inelutável do Fado é expressa retoricamente através da figura da "peripécia".103 2) Tema do saber (a busca da própria identidade) “Sabes. constitui o núcleo central da tragédia sofocliana. não tem a humildade de conformar-se com a ignorância de sua origem. Édipo configura o ateniense da época de Sófocles que. o decifrador de enigmas. o orgulho. orgulhoso do seu saber e do seu poder. as ações humanas conseguem um resultado oposto ao esperado. que foge de Corinto para não matar o pai e casar-se com a mãe. o homem teima em desafiar o Destino. Neste sentido. encontra a sua explicação ao nível do discurso.. o pecado capital que causara a sua desgraça. prerrogativa dos deuses. quer dizer. o desenvolvimento bélico desenfreado de uma superpotência. o excesso de orgulho: ele. E assim. configuração de uma força cósmica superior aos próprios deuses. é imputado ao homem como um pecado. Apresentado um despistamento (a morte natural do pai adotivo de Édipo). na sua Poética... no contrário". maldito assassino do próprio pai!” E na voz do coro: “Ah. definida por Aristóteles. Mas. até chegar à solução final do enigma. será a própria tentativa de fuga que levará o homem ao cumprimento do seu destino. A culpa de Édipo. daí surge uma nova pista (Édipo não era filho do rei de Corinto). sucessivamente. Contra essa força é inútil lutar. nem na palavra humana (cunhado Creonte). pode aniquilar nações e ameaça a sobrevivência de toda a humanidade. Fechado no seu narcisismo. . Édipo não acredita em ninguém. de quem és nascido?” Essa pergunta. ao menos. tentando por todos os meios fugir do que está designado. pergunta a Creonte: “Laio estava no palácio ou em campanha ou em viagem. onde se encontram seus verdadeiros pais. que lhe pede desistir da busca: “Hei de seguir a trilha até o fim: eu não posso deixar de esclarecer o enigma do meu próprio nascimento!” Tal perquirição confere à tragédia de Sófocles o sabor de uma narrativa policial com o entrecho das duas investigações típicas do gênero: a história do crime e o inquérito do detetive. orgulhosa do seu poder. Ele tem consciência disso.. quando diz a Jocasta. O drama fundamental do protagonista reside no descobrimento de sua verdadeira filiação. Tecendo uma comparação com a nossa época. nem na palavra divina (oráculo de Apolo). ao leito nupcial de onde saíste filho voltaste como esposo. um sacrilégio. é a soberba. como a de Adão. visto que o desejo de conhecer a verdade. logo se dá um despistamento (Laio fora morto por um bando de ladrões). Édipo famoso. marido maldito.. Todavia. onde o protagonista revela ser o avesso do que deveria ter sido: “Horror! Horror! Horror! Tudo verdade! Luz do dia. excede os limites da condição humana e sua ousadia irreverente acabará por levá-lo a uma crise ética . A fábula de Édipo. E aí que reside a ironia da tragédia: Édipo. nem na palavra profética (adivinho Tirésias). como "a súbita mutação dos sucessos. que Tirésias dirige a Édipo.. eu não quero mais te ver! Filho maldito. ironicamente. 3) Tema do Destino: o inocente culpado “O que está por vir virá” A peça Édipo Rei ilustra de uma forma cabal o sentido mais profundo da tragédia grega: a luta inglória da vontade humana contra os desígnios do Fado. estruturada por seqüências narrativas equívocas. Édipo rei é a tragédia do saber humano. A não-aceitação da ordem divina que impõe limites ao saber humano é a sua hybris. Édipo.

isto é. mas. O parricídio e o incesto de Édipo são o castigo pela violência homossexual praticada por Laio. dá completa vazão à força do instinto individual e egoísta. não sabe que mata o pai. 4) Tema do incesto: interpretação psicanalítica “Não tenhas medo da cama de tua mãe: quantas vezes em sonho um homem dorme com a mãe!” Estas palavras de Jocasta dirigidas a Édipo inspiraram Freud na formulação do famoso "complexo de Édipo". pois a catarse só pode ser uma conseqüência do pathos. ordena o infanticídio. É bom lembrar que o oráculo sobre Édipo está diretamente relacionado com a maldição que pesava sobre Laio e seus descendentes pela culpa do pai de Édipo que. se torna "libido". se torna uma fixação. a mãe Jocasta (como Gaia ou Terra). evidentemente. na sua Poética. e a psicanálise. sentindo-se ameaçado pelo nascimento do filho Édipo (como Saturno ou Cronos). Ao herói trágico faltam as três modalidades que compõem a competência: o querer. o sofrimento. Ele peca. possivelmente. não conhecia psicanálise. na infância. Desta forma. não porque quer pecar. religiosas e sociais. Antes. mas. o brilho do saber e do poder do . mas atávica. pelo estudo da atividade do inconsciente. o sonho seria "a realização disfarçada de um desejo recalcado". tanto tempo em silêncio acolher o teu grão?” A essência do trágico reside na forma oximórica da coexistência de dois sememas opostos: inocência e culpabilidade. ao mesmo tempo. seduzira e abandonara o jovem Crisipo. sentindo pena do recémnascido. Antes de réu. sozinha. quando moço. O filho paga a pena de uma culpa cometida pelo pai. O médico austríaco. O que caracteriza a tragédia é que a hibrys. porque o Fado assim determinara. com as quais Sófocles termina a peça em tela. expõe a sua tese de que a mente humana. visam à mesma finalidade fundamental do ser humano: tentar explicar a luta da força do instinto individual contra as injunções éticas. É por isso que Aristóteles afirma que a finalidade da tragédia é excitar "terror e piedade”: terror pela ação violenta representada e piedade pelo ser humano que sofre sem ter culpa. só adquire sua verdadeira dimensão quando mutilado por Cronos (o Tempo). como pôde o chão que teu pai semeou. não pode dizer que foi feliz” Essas são as palavras do coro. inconscientemente cumprindo o destino. Sófocles. que a tragédia tem por efeito a purificação dos sentimentos. teve a intuição de que o mito de Édipo era uma versão humana do mito criado por seus ancestrais sobre as Divindades Primordiais ( Mitologia). do herói não é individual. Como o Céu estrelado. o teatro. mediante a representação dramática. filho do rei da Frigia. no mito das Divindades Primordiais. mata o pai (parricídio) e se casa com a mãe (incesto). não o mata. 5) Tema da catarse: o sofrimento como condição da felicidade “Enquanto alguém deixar esta vida sem conhecer a dor. Aristóteles afirma. o mito. E porque a primeira fonte de prazer do ser humano. Édipo é um herói trágico porque é culpado de ter cometido dois crimes hediondos (parricídio e incesto). No verbete Andrógino. essa concupiscência. não pode não-matar o pai. assim Édipo somente adquire uma grandeza venerável após o sofrimento da cegueira e do exílio. ele é vítima. O impulso mais poderoso no homem é o erótico. mas porque pesa sobre ele uma maldição ancestral da qual não pode escapar. dá origem ao Universo. o saber e o poder. ao nível do inconsciente. Assim na tragédia grega como na religião cristã: Adão cometeu o pecado de orgulho e todos seus descendentes devem pagar as conseqüências. se encontra exposto o princípio da “Partenogênese”: a Mãe-Terra. é inocente porque não sabia que iria matar o pai e se casar com a mãe. livre da censura dos imperativos sociais e morais. através da criação de histórias fantásticas. mas o entrega a um pastor. estudando o mecanismo e o sentido dos sonhos. Assim. se não for posteriormente superada com a substituição por outra mulher. causando sua morte. é o contato com o corpo da mãe. O mito de Édipo não deixa de ser uma configuração humana do mito divino pelas impressionantes coincidências: o pai Laio (como o deus Urano ou Céu). o pecado. pessoal. Édipo adulto. o instinto sexual que. criando o complexo do amor materno. o desejo de satisfazer os apetites naturais sem qualquer preocupação de ordem ética.104 Ah. Édipo não quer matar o pai. durante a atividade onírica.

Até o ano de 331 a. nisto reside o supremo saber. Alexandre Magno levou menos de dois anos (332-331) para ocupar o Egito. Alexandria. em Éfeso). dando origem a duas soberanias: a de Tebas e a do Delta. que deságua no mar Mediterrâneo. foram construídas as famosas pirâmides de Quéops. de outro lado. o Templo de Artemisa. com a vitória do rival Otávio em Actium (31 a. distinguindo-se a “Cidade dos Vivos”. Egito helenístico: o domínio do império macedônico no Egito durou três séculos.105 rei Édipo era falso. romano. Teócrito. No Império Antigo (2800-2160) dominaram as primeiras dez dinastias. da “Cidade dos Mortos”. Apolônio de Rodes. começou a se desenvolver o culto de Osíris. a necrópole da margem ocidental. A última grande soberana da dinastia lágida foi Cleópatra VII. no abandono: reencontrar-se na impotência. arrogando-se o papel de libertador. o Colosso de Rodes. O herói trágico. O maior ensinamento da tragédia grega é que. os Jardins Suspensos de Babilônia. na época de Alexandre o Grande.. bizantino. deus do rio Nilo e da vegetação sempre renascente. Ao redor do Terceiro Milênio antes de Cristo. Durante a chamada Baixa Época (1085-333). que. como o deus Urano. além de uma “Baixa Época”. contam-se 30 dinastias de Faraós. na fraqueza. o rei Narmer unificou os dois reinos então existentes: o do Alto Egito (coroa branca) e o do Baixo Egito (coroa vermelha). explorado cultural e turisticamente. tendo apenas duas cidades importantes: o Cairo (Capital) e a histórica Alexandria. o deus-sol que dá a vida. Médio e Novo). que abriga sepulturas e conjuntos funerários das mais antigas dinastias de faraós. da Pérsia e.). sendo o país invadido por tropas da Líbia. Como a Grécia. com palácios e templos monumentais (Luxor e Karnak). com a XI dinastia. com inúmeras dinastias estrangeiras. que reinou de 305 a 30. deitada ao longo do rio Nilo. helenístico. depois de Atenas (Grécia) e antes de Roma. Nesta época. encontráveis nas duas margens do sagrado rio Nilo. se o conhecimento da verdade nos leva ao sofrimento. quando foi dominado pela Macedônia. em fim. várias fases de civilização: o Egito faraônico. Os sacerdotes eram encarregados de preservar a “vida” dos defuntos: a sobrevida do corpo era garantida pela mumificação.C. Quéfren e Miquerino. EDUCAÇÃO (conceito de cidadania e de convívio social) Cultura EGITO (a grande civilização antiga do Oriente Médio) “O Egito é um dom do Nilo” (Heródoto) Atualmente. o famoso “Vale dos Reis”. apenas as Pirâmides do Egito venceram as barreiras do tempo. onde se reuniam os maiores sábios de todo o mundo grego: Arquimedes. Os estudiosos distinguem. que se juntou ao cônsul romano Marco Antônio para salvar seu reinado. centrada em Tebas. Foi neste lugar do . o Mausoléu de Halicarnasso. que acabou com o domínio dos Faraós. O antigo deus Rã de Mênfis adquiriu as feições do tebano Amon e grandiosas construções foram erguidas em honra de Amon-Rã. deitada no Mediterrâneo. Mas foi durante o Novo Império (1580-1085) que Tebas se tornou a capital do Egito. passando o Faraó a ser considerado o filho de Rá. Após sua morte (323 a. a satrapia do Egito foi ocupada por Ptolomeu que. o Egito é um país que vive do passado. na margem oriental do Nilo. em Olímpia. Egito faraônico. O Farão se identificou como o “bom pastor” do povo. associando o poder cívico e o religioso. proporciona ao Egito a principal fonte de riqueza. terá condição de ser feliz. que se tornou o novo mercado marítimo e o centro de expansão da cultura helênica.). deu origem à dinastia dos Lágidas. se reencontra na dor. porque fundado no desconhecimento da própria identidade. Mas o “sacrifício” foi inútil pois. do Sudão. além da pré-história. anterior à cultura grega. os historiadores distinguem três Impérios (Antigo. Neste longo período de civilização egípcia. será somente através deste que o homem. famosa pela escrita em “papiros” e pelo Museu-Biblioteca. No Médio Império (2160-1600). Fundou Alexandria. sendo Mênfis a capital. junto com a beleza dos remanescentes Templos faraônicos.C. Calímaco.C. uma cidade do Alto Egito (não confundir com a Tebas grega da região da Beócia). E é este monumento de Arquitetura antiga. A civilização do Egito foi a mais importante do Oriente Médio. da Macedônia. o Egito é uma República Árabe do nordeste da África. adquirindo a verdadeira dimensão de sua essência. foi o centro difusor da cultura helenística. o Farol de Alexandria. da Assíria. permanecendo quase intactas até hoje. Das Sete Maravilhas do Mundo Antigo (a Estátua de Zeus. muçulmano e moderno. aos poucos foi se enfraquecendo o poder central pelas lutas intestinas. filho do nobre Lagos. o Egito foi anexado a Roma.

106 Egito Antigo que foram preservadas as obras mais importantes da Ciência. em 451. a assistência britânica se transformou em Protetorado. Importância do rio Nilo e da cultura egípcia Já o historiador grego Heródoto dizia que “o Egito é um dom do Nilo”. Equipou seu exército com a ajuda de países socialistas e financiou a construção da barragem de Assua junto à antiga URSS. inundando as margens. Em 1952. quando o vento que desce dos planaltos da Abissínia provoca as enchentes. Egito bizantino (Helenismo): de 395 a 642. Mas ele foi logo excomungado. negava a humanidade de Cristo. tomando a cidade de Jerusalém. Anteriormente à construção da barragem de Assuan. apoiando tentativas de acordo entre palestinos e judeus. em 325. o Egito seria apenas uma parte árida do deserto do Saara. A Guerra Árabe-Israelense desmoralizou o regime monárquico. o coronel Gamal Agdel Nasser depôs o rei Faruk I e o Egito adotou o regime republicano. o governo egípcio precisou indicar para os postos-chave da sua economia diplomatas e técnicos franceses e ingleses. Sua cheia chega mais forte no verão. especialmente para a construção do canal de Suez (de 1859 a 1869). dando origem à heresia ariana. vários hordas de árabes se encarregaram da islamização do Egito. pois. proclamando-se paxá vitalício. Egito muçulmano: após o advento de Maomé. são as águas do rio que. todas privilegiando a vida contemplativa: monge. em 1187. e daí se difundiram pelo mundo todo. Mehemet Ali. desembarcou no Egito e derrotou as forças napoleônicas. O patriarca de Alexandria. até o Egito tornar-se uma província do império otomano. Em 969. impunha teorias e práticas que contrastavam os costumes coptas. em nome do Monoteísmo. o partido nacionalista conseguiu a independência. nomeado anualmente. até que. Lá se desenvolveram novas formas de vida religiosa. A dinastia curda. Foi assassinado em 1981. Egito romano: de 30 a. governaram de 1250 a 1517. da Filosofia. em 1914. o Egito chefiou a Liga Árabe.C. Com o tratado anglo-egípcio de 1936. Nasser foi obrigado a aceitar as condições da ONU. visando assegurar a hegemonia egípcia. o Egito foi uma colônia romana. Para compensar a dívida não paga. eremita. Ário. O presbítero de Alexandria. os habitantes do Egito sempre consideraram gregos e romanos como povos exploradores. Em 1945. Engajou-se numa política pan-árabe. O monofisismo foi condenado pelo Concílio de Caldedônia. chefe de um contingente albanês. o Nilo depositava nas terras cultiváveis. quando os árabes invadiram o Egito. A prosperidade do Egito nasce da ação . que invadiu o recém-formado Estado de Israel ( Jerusalém). de ventre repleto e seios pendentes. se outorgou poder absoluto. ligando o Mediterrâneo Oriental ao mar Vermelho. Com a expedição de Napoleão Bonaparte (1798-1801). em 415. Egito republicano: a República foi proclamada em 1953 e Nasser. A cheia e suas riquezas são representadas pelo deus Hápi. Dióscoro. em média. o Egito caiu nas mãos dos franceses. dissolvendo todos os partidos da Irmandade Muçulmana.C. Famosas foram as querelas sobre a identidade de Jesus. reinando até 1848. colocando um fim à soberania otomana. anacoreta. uma oligarquia de escravos-soldados da Turquia. em nome da unidade da fé. repudiando a cultura bizantina que. Os egípcios de cultura pagã fundaram uma escola neoplatônica onde lecionaram Orígenes e Plotino. se apoderou da maioria dos Estados do Levante. Mas. Sem o Nilo. Mas logo os sunitas voltaram a predominar no Egito. uma dinastia xiita fundou a cidade do Cairo. Egito moderno: em 1805. um milímetro de lodo por ano. após a derrota da Guerra dos Seis Dias (1967). vítima de ações violentas praticadas por grupos da Irmandade Muçulmana. da Literatura e das outras Artes. sendo posteriormente condenado pelo Concílio de Nicéia. freira. Mas a violência da multidão cristã provocou seu fechamento. governado por um paxá. reforçando o movimento nacionalista. A conquista muçulmana foi fácil. encampou a heresia monofisista que. mas o clero e os monges do Egito foram induzidos a separar-se da Igreja de Constantinopla. Com efeito. Seus sucessores contraíram dívidas enormes. o Egito passou a fazer parte do Império Romano Cristão do Oriente. Os mamelucos. ao longo de muitos séculos (de 642 a 1805). Com efeito. tornam as terras férteis. chegando até nós (Alexandre). a 395 d. fundado por Saladino. perdendo seu fulgor e se tornando rapidamente cristã. Seus sucessores no governo da República egípcia têm adotado uma política pacifista. até o advento do Islamismo. o ódio aos gregos a ao poder imperial de Constantinopla estava no auge. negou a divindade de Cristo.

Ao quinto artigo deu o título de "A inércia de um corpo depende do seu conteúdo em energia?". nos seus dois casamentos. Ela é representada como um leão deitado. intitulado "Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento". Somente para apresentar um exemplo. A escrava Aída é. a cheia seria inútil. Os gregos herdaram dos egípcios o culto da Esfinge. encomendada pelo governo do Egito para marcar a inauguração do Canal do Suez. Na cidade de Gizé. que ainda hoje suscitam a admiração dos visitantes. sem o sol. Radamés não aceita trocar o casamento com Amneris pela liberdade e é condenado à prisão na cripta. o que acontece. publicou cinco artigos. Foi muito mal na aprendizagem escolar. ele descartou definitivamente o postulado da existência de um meio que se pudesse considerar o “repouso absoluto”. é um gênio da humanidade. bem como o “movimento absoluto”: tudo é relativo. ela devora o forasteiro que não consegue decifrar seu enigma. rei da Etiópia. construída ao redor do ano de 2500. cuja cabeça é a mesma do faraó. Ela ama sua pátria. Uma cheia muito fraca não alimenta bem a terra e muito forte devasta os campos. O príncipe egípcio vence a batalha e. como símbolo do mistério do além túmulo. foi galardoado com o Prêmio Nobel de Física. Os sacerdotes descobrem a traição e Radamés é capturado. filha de Amonasro. teoria da Relatividade)Atomismo. em 1905. Zurique. Sem o transbordar das águas o sol seria devastador e.107 conjunta do rio Nilo e do astro Sol (Helios). naturalizado norte-americano. Além de físico e . estando tudo e sempre relacionado com as categorias do espaço e do tempo. perto do Cairo. físico alemão. surpreendeu o mundo científico quando começou a publicar suas teses revolucionárias sobre a Física. escolhido pelos sacerdotes para liderar o exército contra os invasores etíopes. Seu biógrafo Armin Hermann relata que Einstein só chorou duas vezes ao longo dos seus 76 anos de idade. lecionando nas Universidades de Milão. Sofrendo de dificuldade de fala na infância. Também na vida amorosa não teve muita sorte. sendo E a energia. Mas. Aída vê o pai. Radamés revela o segredo a Aída. Mas a civilização egípcia não está presente apenas na cultura grega e helenística. em 1940. Aída narra a história de amor entre o guerreiro Radamés e a escrava Aída. mas relativos. no Egito antigo. Ela está lá. O quarto. Princeton. da óptica e da teoria eletromagnética de Maxwell. Eternizaram sua memória pela construção de Pirâmides. Ao longo das duas margens do rio. a Radamés é ofertada a mão da princesa Amneris. judeu naturalizado norte-americano. dedicando-se apenas ao estudo da matemática. entre os prisioneiros capturados. Nele demonstrou que o espaço e o tempo não são independentes entre si. Einstein desenvolve a nova idéia de equivalência entre massa e energia. variando com o movimento. Com a vitória. Berlim. O sol provoca o renascimento da vegetação. Durante o julgamento. É a teoria da relatividade especial. Em 1921. Na cidade grega de Tebas. revolucionou a Física newtoniana (Galileu). chegou a ser considerado quase um deficiente mental. m a massa e c a velocidade da luz. capturada numa das guerras. e que a massa é uma grandeza relativa e não absoluta. lembramos Aída. Praga. Nos "Anais da Física". os egípcios criaram uma rica civilização. Ela deixou sua marca em todo o mundo ocidental. a pirâmide de Quéfren é guardada por uma Esfinge. mas se apaixona por Radamés. encenada no Cairo em fins de 1871. A mente que se abre a uma idéia jamais voltará ao seu tamanho original Albert Einstein (1879-1955). na verdade. Apenas Édipo conseguiu desvendar seu mistério. bem como da paixão da princesa Amneris por Radamés. com apenas 26 anos. Ópera em quatro atos do compositor italiano Guiseppe Verdi. a mais antiga do Egito. onde percebe que Aída se havia escondido para morrer com ele. O rio impregna os campos de uma água carregada de aluviões extremamente férteis. com exceção do Rei etíope. exaltando suas divindades e seus governantes com palácios e templos majestosos. Amneris canta sobre a cripta o amor perdido. O povo egípcio reza para que haja equilíbrio entre os dois elementos da natureza. EINSTEIN (cientista judeu. é aí que se encontra a famosa fórmula E=mc2. O herói pede que os prisioneiros sejam libertados. sendo um corolário do precedente ensaio. Aída conversa com o pai e este a convence a descobrir por onde entrará o exército na Etiópia. ambos elevados pelos egípcios à categoria de deuses. em que estava ancorada a ciência desde os antigos egípcios e gregos. que faz a síntese da mecânica clássica. Negando o princípio do Determinismo.

Da era moderna.C. Sua característica principal é o fragmentarismo. T. Sófocles (Electra. 415 a. onde O´ Neill alcança seu sonho de realizar uma peça respeitando a lei das três unidades detectadas pela Poética de Aristóteles: unidade de tempo. Depois de uma fase de fixação afetiva na mãe. maquina a morte da mãe. de Roma e do Oriente (conhecia até o sânscrito). (poeta e crítico anglo-americano) Nunca é tarde demais para ser O que você deveria ter sido A lírica em língua inglesa teve excelentes cultores no continente e nas colônias. Sua poesia acusa as influências dos simbolistas franceses. A obra está dividida em cinco partes: “O enterro dos mortos”. Como Eliot costumava dizer. Norte-americano do Estado do Missouri. “O sermão do fogo”. De ideologia conservadora. Logo emigrou para a Europa. o assunto foi retomado por vários dramaturgos e romancistas. Eurípides (Electra. proclamou-se “classicista” na poesia. de outro lado. é um saudosista dos tempos clássicos. que. A.). sem nenhuma lógica e nenhuma ordem de tempo ou de espaço. junto com a representação de aspectos da prosaica vida londrina. o maior de todos é. . Deleitava-se no silêncio da reflexão científica e filosófica. foi representada com o título Electra e os fantasmas. inspirou muitas obras de arte. Lembramos a peça Do dramaturgo norte-americano Eugene O’ Neill. Einstein foi também um grande e profundo pensador.C. Filha de Agamenão e Clitemnestra (soberanos de Micenas). atravessado pelo poético rio Mississipi. T. ELIOT. Sua obra literária. aquela mata a mãe para vingar a morte do pai. seu poeta preferido. de um lado. “Morte por água”. Na Era Moderna. sem dúvida. arte e religião. “a verdadeira poesia deve comunicar antes de ser compreendida”. após voltar da Guerra de Tróia (Ilíada). pode causar graves neuroses. a polifonia.S. O' Neill transfere toda a tragédia de Ésquilo para a guerra de secessão norte-americana. assassino.G.C. além de ser explorado pela filmografia e pela televisão. 415 a. Jung chama de “Complexo de Electra” à atração sexual não sublimada que uma filha possa sentir pelo próprio pai. dos poetas metafísicos ingleses. além de dois dramas (Assassínio na catedral e Reunido em família). no Brasil. O luto fica bem em Electra (1931). durante a primeira infância. “monarquista” na política e “luterano” na religião. é composta quase exclusivamente de poemas. quando a mãe e o tio Egisto matam seu pai. de ação e de local. O mito de Electra. Sua história ficcional foi objeto de várias peças da tríade dos poetas trágicos da Grécia antiga. Ésquilo (Coéforas. Por causa de tantos e variados conhecimentos. Trata-se de um vasto mosaico. cujo abandono é apontado como causa da destruição da cultura européia. deixando-nos belos pensamentos sobre vida. cunhou-se o termo “eliotizar” para indicar a assimilação de culturas diferentes. “Uma partida de xadrez”. O texto já apresenta o início de um processo que iria desembocar em Longa jornada de um dia noite adentro . e da cultura antiga da Grécia. e do irmão do pai. 458 a. poeta muito controvertido porque se. A psicanálise de C. Electra. especialmente dramáticas. É um dos seus poemas longos The waste land (“A terra devastada”) que o tornou mundialmente famoso. Electra simboliza este amor incestuoso da filha pelo pai que. a criança pode se apaixonar pelo pai. “O que disse o trovão”. onde se encontram sobrepostas citações e alusões a várias fontes culturais. do conterrâneo e contemporâneo Ezra Pound. adúltera. não resolvido de uma forma adequada. é um dos grandes inovadores da poética contemporânea. junto com o irmão Orestes. estudou na Sorbonne e tornou-se cidadão britânico.). Inversamente do patrício romântico E. o dialogismo intertextual ( Dialética). de Dante Alighieri. desde a adolescência sentiu um grande fascínio pela cultura do Velho Continente.).S Eliot introduz a moda do poema longo na lírica contemporânea. ELDORADO (o mito do espaço feliz)Utopia ELECTRA (personagem mito-trágica) Édipo Agamenão A figura de Electra é o equivalente feminino do mito de Édipo: enquanto este mata o pai e casa com a mãe. que vulgarizou o uso da narrativa curta. Poe. Thomas Stearns Eliot (1882-1965). em que constrói a imagem do homem ideal. como o de Édipo .108 matemático.

ao passo que pensar incorpora o que vimos ou lemos”. John Locke. “nada havendo no intelecto que antes não houvesse passado pelos sentidos’’. destruindo sua “Invencível Armada” (1588). governou com firmeza. oposta ao racionalismo cartesiano que reduzia todo conhecimento científico às idéias claras e distintas. sob a inspiração da matemática. composta dos últimos seis livros. Nova Zelândia e África do Sul. ENCICLOPÉDIA (movimento cultural francês) Iluminismo ENEIDA (poema épico romano)Virgílio Estou reconhecendo. Como a O disséia. Inteligente e culta. proclamada em 1649 pelo lorde-protetor Oliver Cromwell. cujo centro é o homem. Irlanda e Escócia. equipando a marinha. ao apaixonar-se pelo herói Enéias) Para um melhor conhecimento do autor da obra mais importante da Literatura Latina. ocupa doze livros ou cantos. região de Roma. não possuindo nenhuma idéia inata. a segunda. no sentido de que ambos estão voltados para os problemas do conhecimento da realidade existencial. A fábula da epopéia latina. Bacon tenta demonstrar que as idéias se originam na experiência sensível. baseado na experiência sensível e nas sucessivas experimentações. convencido de que a “Verdade é filha do Tempo e não da Autoridade”. Além de vencer todas as lutas intestinas. já se encontra perto de Cartago. sendo a "epopéia da guerra''. Apesar das divergências quanto á origem do conhecimento. mas submeteu a Igreja ao Estado. A era elisabetana caracteriza-se pela afirmação do poderio político e econômico da Inglaterra e por um surpreendente renascimento cultural. rainha da Escócia. A mente humana é uma ‘‘tábua rasa”. visto que o casamento de Henrique VIII e Ana Bolena fora anulado pela Igreja de Roma. intitulada Eneida. Bacon. Austrália. devendo-se evitar especulações abstratas e propostas hipotéticas. propõe um novo método de investigação científica. que sempre contestara a legitimidade do reinado de Elizabeth. que contém os primeiros seis livros. provocando a ira dos calvinistas puritanos e dos católicos partidários de Maria Stuart. seguida mais tarde por Thomas Hobbes. “observar ou ler fornece conhecimento à mente. enquanto "epopéia do mar". EMPIRISMO (a primazia da experiência) Método A Verdade é filha do Tempo e não da Autoridade (Bacon) Francis Bacon (1561-1626) inaugura uma nova vertente do pensamento moderno. Na sua obra Novum organum. imita a Ilíada. pois descreve as lutas pela fundação do reino latino. quer sensível) e não a autoridade civil ou eclesiástica. George Berkeley e David Hume. além dos principias países colonizados pelos britânicos: USA. . que passou a abranger Inglaterra. a comunidade britânica. no meio da história: Enéias. fugindo de Tróia destruída. os sinais da antiga chama (A rainha de Cartago. O Racionalismo e o Empirismo são duas formas de Antropocentrismo. Segundo o filósofo e teórico político inglês John Locke (1632-1704). unificando a Inglaterra e construindo a base do que seria mais tarde a Commonwealth . Dido. imita o assunto da Odisséia. viúva. a rainha Elizabeth. Basta dizer que a Rainha foi a patrocinadora-mor do teatro de Shakespeare. dentro de mim. de Tróia até o Lácio. sucedeu a sua meia-irmã Maria Tudor. O pensamento reflexivo e o conhecimento científico devem estar em contínua evolução para serem úteis à sociedade. podendo ser dividida em duas partes: a primeira. pois narra a viagem marítima de Enéias.109 ELISABETE (Rainha da Inglaterra: período elisabetano) “Todas as minhas possessões por uma fração de tempo” (A Rainha. empreende uma luta contra o estagnatismo e o dogmatismo do saber de sua época. Fortaleceu o Anglicanismo. anterior à realidade concreta. obteve uma estrondosa vitória sobre a Espanha. consultem-se também os verbetes Virgílio e Roma. também a Eneida começa in medias res. o pensamento de Descartes e de Bacon coincide num ponto fundamental: a verdade é obra do homem e o critério de legitimidade do conhecimento é a evidência (quer inteligível. filha de Henrique VIII e de Ana Bolena. antes de morrer) Elizabeth I (1533-1603).

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quando inicia a trama. Mais tarde, atendendo ao pedido da rainha Dido, ele conta as peripécias da viagem de Tróia até lá. Mas esta inversão temporal não dificulta o entendimento da história, pois o início da fábula é narrado logo no começo do segundo livro e, a partir daí, o relato segue a ordem cronológica dos acontecimentos. Os primeiros versos da Eneida contêm o “Exórdio”, constituído pela “Proposição” (antecipação sintética da matéria que será narrada) e pela “Invocação” à musa , seguida pelo inicio da “Narração”: Eu canto as armas e o herói que, primeiro, proscrito pelos fados, veio da costa de Tróia para a Itália e as praias de Lavínio. Ele muito sofreu em terra e no mar, por vontade dos deuses celestiais, por causa do rancor da cruel Juno... O narrador do poema se apresenta em primeira pessoa, pedindo à deusa da poesia épica que lhe lembre os fatos míticos e lendários que envolvem a figura do herói troiano. Diferentemente dos dois poemas homéricos, cujo narrador é apresentado como sendo a própria musa, o poeta funcionando apenas como intermediário entre a divindade, possuidora do saber, e a humanidade, destinatária deste saber, quem conta a fábula da Eneida se apresenta a nós como um ser humano, que pede a ajuda divina para poder lembrar, narrar e compreender os altos desígnios do Destino e a grandeza do sofrimento humano. A este respeito, a interrogação posta no fim da invocação, "pode existir tanta ira nas almas divinas?", é um sintoma da perplexidade que se apossa do espírito do poeta, no ato de cantar a aventura de Enéias. Mas, excluindo o exórdio e mais algumas passagens ao longo do poema, em que o narrador se manifesta pelo uso dos pronomes de primeira pessoa, pelo presente da enunciação ou por algumas formas modais que implicam julgamentos de valor, o grosso da narração da Eneida se dá na terceira pessoa, o narrador se apresentando com uma visão objetiva, dotado de onisciência e de onipresença, características do enunciador épico. A mudança de foco narrativo é necessária para distinguirmos o ponto de vista limitado do narrador de primeira pessoa, que transfere para a narrativa seus sentimentos e seus critérios de valor, da perspectiva panorâmica do narrador de terceira pessoa, que personifica a voz do mito, da lenda e da história. Cabe lembrar que Virgílio, como Homero, não é o inventor do material épico, mas apenas o elaborador artístico dos fatos históricos e mitológicos preexistentes a ele e que constituíam o patrimônio cultural da coletividade. A fábula do poema de Virgílio está dividida em 12 livros, cujos assuntos, por motivo de espaço, sintetizamos nos seguintes sintagma-títulos: I) Chegada de Enéias a Cartago e história de Dido; 2) Narraçao da destruiçao de Tróia; 3) As viagens de Enéias; 4) Amor e morte de Dido; 5) Viagem rumo à Itália: estadia na Sicília; 6) No reino dos mortos ; 7) No Lácio, terra prometida; 8) Preparativos de guerra; 9) Vitória parcial dos Rútulos; 10) Enéias volta com aliados; 11) Trégua para a sepultura; 12) Vitória final de Enélas. A Eneida é uma epopéia "reflexa", quer porque imita poemas épicos anteriores, quer porque o material mítico e lendário é utilizado não ingenuamente, mas com um intuito peculiar e, às vezes, com espírito crítico. Veja-se, por exemplo, o verso do exórdio “Pode, por acaso, existir tanta ira nas almas divinas?”, profunda reflexão do poeta sobre a crença na concepção de uma divindade maldosa e vingativa! O imortal poema tem um sentido patriótico, pois se trata de uma obra engajada no programa de Augusto de restaurar os costumes. Os antigos mitos gregos e itálicos são revestidos de razões ideológicas para que o vasto Império Romano da época de Otávio seja interpretado como conseqüência da vontade divina. A lenda grega de Enéias, filho de Vênus e genro de Príamo, é misturada com a fábula itálica de Dárdano, príncipe etrusco que teria emigrado para Tróia. A conexão entre a Itália e a Tróade, imaginada pelo acoplamento das duas lendas, permite a Virgílio fazer remontar as origens de Roma, não a um punhado de bandidos aventureiros (conforme as lendas de Rômulo e Remo e do Rapto das Sabinas Roma), mas à antiga e rica civilização troiana. Caio Júlio César Otávio Augusto, conseqüentemente, é apresentado como direto descendente de Júlio, filho de Enéias. Quanto à imitação dos poemas épicos anteriores, especialmente dos dois atribuídos a Homero, é relativamente fácil salientar os pontos de convergência entre a poesia épica grega e a latina. Realmente, vários tópicos, temas e motivos (o valor militar dos heróis, as viagens aventurosas em frágeis embarcações, a descida ao inferno para o conhecimento do passado e do futuro, o sentimento da amizade, a paixão amorosa, a confecção das armas

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por Vulcano, as intervenções dos deuses nos acontecimentos humanos, a força do Destino ( Fado) que impõe ao protagonista uma missão predeterminada, e outros assuntos, além das imitações de estilo), são tirados do contexto da Ilíada e da Odisséia e adaptados para a composição da E neida. Mas o conceito de imitação, que para nós tem um sentido depreciativo, pois implica ausência de originalidade, na época de Virgílio indicava capacidade artística. Efetivamente, é na época de Augusto que toma corpo o espírito do Classicismo, entendido como consciente fidelidade aos modelos da literatura grega, considerados como protótipos de perfeição artística e humana. A concepção de Aristóteles de a arte ser mimese da natureza física ou espiritual é acrescida, por Horácio, Virgilio e outros poetas da época áurea da literatura latina, com o conceito de a arte ser imitação dos que, imitando a natureza, tinham criado formas e objetos artísticos de inigualável perfeição. Mas, se Virgílio se aproveita de um gênero literário e de um material épico preexistentes, o espírito que lhes dá forma é bastante diferente, espelhando outra realidade histórica. O sentimento do pathos virgiliano é absolutamente ausente em Homero. O drama íntimo do protagonista Enéias reside no contraste entre sua personalidade dócil e triste e o destino que o impele a lutar. Mais do que a exaltação dos heróis de guerras, encontramos na E neida o canto da dor do ser humano em face da crueldade do destino, que ceifa a vida de jovens criaturas inocentes. Vejam-se, por exemplo, as passagens relativas ao triste fim da rainha Dido, dos amigos Euríalo e Niso, do jovem Palante, do piloto Polinuro, da amazona Camila. A descrição destes episódios menores salienta a grande sensibilidade humana e poética de Virgilio e comove, até hoje, seu leitor. Com o poeta mantuano, notamos a passagem da narrativa mitológica e heróica para a narrativa propriamente "humana". O protagonista da E neida é qualificado recorrentemente como pius. Este adjetivo, além de indicar a resignação à vontade divina e a observância dos rituais litúrgicos, exprime o caráter de Enéias, apresentado como homem justo e honesto, que sente piedade pelo sofrimento do ser humano, vítima do ódio, das guerras e do desamor. Caberia à crítica psicológica dizer quanto de Virgílio existe em Enéias! ENUNCIAÇÃO (ato da comunicação humana)Discurso ÉPICA (Epopéia: poema narrativo em versos) Gênero literário Narrativa Do grego épos (canto heróico), a poesia épica ou epopéia é um longo poema narrativo, que exalta as origens ou façanhas heróicas de um povo. Na Literatura Ocidental, os primeiros poemas épicos, chamados de “primitivos” pois elaborados ainda na fase arcaica da cultura grega, são A Ilíada e A Odisséia, atribuídos ao rapsodo Homero. Já na Roma Antiga temos o primeiro grande exemplo de epopéia “reflexa”, de autoria conhecida (o poeta latino Virgílio), composta a partir dos poemas gregos preexistentes: A Eneida. Na Idade Média encontramos vários poemas épicos, de autoria desconhecida, que exaltam as façanhas de heróis nacionais: o francês Roland, o espanhol Cid, o alemão Sigfrido (Nibelungos). A Itália medieval nos deixou a obra literária mais completa e mais fascinante: A Divina Comédia, de Dante Alighieri, a que dedicamos um estudo mais detalhado, pois, antes de ser apenas mais um poema épico, é uma obra didático-alegórica sobre toda a humanidade, colhida no penoso caminho da passagem do pecado para a purificação e a glória. Com o Humanismo e o Renascimento, a partir do século XIV, junto com a descoberta e a valorização da cultura e da civilização greco-romana, é reativado também o filão da poesia épica medieval, especialmente no tocante ao espírito da Cavalaria. A Itália renascentista cultiva abundantemente a memória coletiva do herói histórico-mítico Rolando, que se torna o protagonista de vários poemas épico-cavaleirescos. Mudando, por eufonia, o nome de Roland para “Orlando” e misturando as aventuras guerreiras, próprias do ciclo carolíngio (Carlos Magno), com as aventuras amorosas, extraídas do ciclo bretão (Graal), os renascentistas italianos criam um personagem, ao mesmo tempo, valoroso na guerra e apaixonado no amor. Luigi Pulci, inspirando-se no poema anônimo popular Orlando, cria o seu Morgante (1483), poema cavaleiresco que trata das aventuras militares e da morte do grande herói mítico francês. O tema é retomado por Matteo Maria Boiardo, no seu Orlando Enamorado, obra inacabada pela morte do poeta (1494). Mas o poema que mais artisticamente trata do assunto é o Orlando Furioso (1516), de Ludovico Ariosto. O poeta italiano pretende continuar a obra inacabada pelo Boiardo, começando a história de onde este tinha terminado. Ele se inspira não só nas

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tradições bretã e carolíngia, mas também na poesia épica greco-romana. O pretexto histórico é a descrição da luta entre muçulmanos e cristãos pela posse da cidade de Paris, mas o núcleo da narrativa é o amor de Orlando por Angélica. Este amor chega primeiramente à paixão e depois leva o protagonista à loucura, quando descobre que sua amada se casa com o negro Medoro. Nesta aventura principal encaixam-se várias outras histórias de amor, passionais e infelizes, em que se exalta o idealismo cavaleiresco, retratado especialmente na fidelidade ao sentimento amoroso. Outro poema épico-cavaleiresco italiano é a Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, que tem como fundo histórico a primeira Cruzada dos cristãos para a libertação da Cidade Santa do domínio dos infiéis, no fim do século XI. Mas a guerra entre cristãos e muçulmanos é apenas um pretexto para o poeta cantar os amores aventurosos das duplas RinaldoArmida e Tancredi-Clorinda. Esta obra, terminada em 1575, já na época do Barroco italiano, espelha o clima austero da Contra-Reforma (Lutero). O poeta, de constituição doentia e de sensibilidade melancólica, exprime artisticamente o contraste entre a força da paixão amorosa e o medo do pecado. Mas o poema épico que melhor expressa os ideais da Renascença é Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, a que dedicamos um estudo mais detalhado, pois o poema camoniano reflete os dois postulados principais da cultura renascentista: a imitação dos modelos artísticos da Antiguidade greco-romana e a exaltação do homem na sua conquista de novos caminhos marítimos, com vistas a ampliar suas atividades comerciais. Outro poema famoso, mais religioso do que épico, é O Paraíso Perdido, do escritor inglês John Milton. Para o estudo da poesia épica no Brasil, cabe ressaltar que à Literatura Brasileira faltaram os dois fatores, entre si estritamente relacionados, indispensáveis para a produção de um verdadeiro poema épico: um grande herói nacional e um grande poeta capaz de exaltar o sentimento de brasilidade. Aos dois maiores poemas considerados épicos, O Uraguai, de Basílio da Gama e o Caramuru, de Santa Rita Durão, conforme análise feita nos respectivos verbetes, faltam as características principais do gênero: os assuntos não estão centrados sobre ações gloriosas e grandiosas, realizadas em benefício da nacionalidade brasileira; os protagonistas não são heróis nacionais; acontecimentos e personalidades são realidades históricas ou invenções literárias que não sofreram a recriação carismática do mito popular. Como sabemos, o material do verdadeiro poema épico não é invenção do autor, pois acontecimentos e personagens já existiam no cabedal cultural do povo. Isso não acontece com a poesia épica brasileira: Cacambo e Lindóia, Caramuru e Paraguaçu são personagens que começam a existir na consciência popular após e não antes da produção poética. Pertencem, portanto, mais ao mundo da criação líricoromanesca do que ao universo da ficção heróico-épica. Produzidos na época do Arcadismo brasileiro, os dois poemas acusam a principal característica do Neoclassicismo: a imitação dos mais importantes gêneros literários cultivados na Renascença européia, quando se deu o retorno ao estudo dos autores clássicos da literatura greco-romana. Com o Romantismo acabou o ciclo da poesia épica na cultura ocidental, passando a ser o romance o gênero narrativo mais adequado para expressar os anseios da nova classe social, a burguesia. Estudamos, em verbetes separados, os principais poemas épicos da Literatura ocidental. Mas, além das peculiaridades de cada obra, existem elementos em comum, que nos possibilitam determinar e qualificar o gênero épico. É bom apontar algumas características fundamentais. Antes de tudo, é preciso distinguir a poesia épica primitiva do poema épico reflexo. A forma primeira está nas origens das nacionalidades ainda na fase da cultura arcaica e oral, quando a grande massa popular se alimenta apenas das narrações míticas e lendárias, que a imaginação coletiva foi criando a partir de um acontecimento histórico. Após a fase da transmissão oral, quando um povo começa a dominar o alfabeto e a ter uma língua ou dialeto escrito, as histórias, mitos ou lendas são elaboradas por um poeta que lhes dá uma veste literária e as consagra para sempre. Assim aconteceu na Grécia Antiga: ao redor da Guerra de Tróia, que se deu em meados do século XII a.C., foram-se criando lendas sobre os heróis gregos e troianos que participaram do fabuloso evento. O fato histórico, ao longo do tempo, foi deturpado pela fantasia do povo que, misturando as ações humanas com as intervenções das divindades, transmitiu oralmente cantos que exaltavam o valor guerreiro de Aquiles, a astúcia de Ulisses, a beleza sedutora de Helena, a fidelidade de Penélope, a prepotência de Agamenão, o poder supremo de Júpiter, a rivalidade das deusas Juno e Minerva com relação a Vênus, a força inelutável do Destino ( Fado). Tais cantos, referentes ao chamado “ciclo troiano”, no século VIII

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a.C., quando o dialeto iônico começou a ser escrito, encontraram um poeta, chamado de rapsodo (costureiro), Homero, segundo a tradição, que os enfeixou nos dois poemas chegados até nós: A Ilíada e A Odisséia. Coisa semelhante aconteceu na Europa, na Baixa Idade Média, nos alvores das civilizações nacionais modernas. Ao redor do século XI, quando vários povos chegaram à independência lingüística pela formação de idiomas nacionais, derivados da antiga língua latina não mais falada, escritores anônimos criaram poemas épicos recolhendo os fatos gloriosos de sua terra transmitidos pela tradição oral. Na Alemanha, as lendas surgidas ao redor da invasão da Burgúndia por Átila, rei dos hunos, deram origem ao poema Os Nibelungos; na Espanha, a luta entre cristãos e muçulmanos motivou El Cantar de mio Cid; na França, a guerra de Carlos Magno contra os mouros foi o motivo de La Chanson de Roland. Este último poema pertence às chamadas “canções de gesta” , palavra latina que significa “ação ilustre”, tendo quase o mesmo sentido de épico. Outra variante de épico é a palavra de origem norueguesa “saga”, que mais tarde passou a indicar a história de uma família ilustre ( The Forsyte Saga, de John Galsworthy) ou Uma jornada heróica, de Érico Veríssimo. Notamos, de passagem, que gesta e saga, como formas simples, antes de serem absorvidas por uma forma culta (poesia épica ou romance), podem apresentar sentidos próprios, diferenciados. Assim, a saga é uma lenda pagã em torno de uma família, cuja disposição mental leva a construir o universo em termos de clã, de árvore genealógica, de relações de sangue. Alguns romances cíclicos podem ser considerados sagas: Rougon-Macquart (“Histoire naturelle et sociale d’une famille sous le Seconde Empire”), de Émile Zola; O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Já a gesta está mais ligada à movimentação de povos (gregos, semitas, germânicos), sendo o herói nacional o representante das altas virtudes de uma raça, como foi a figura de Roland para os franceses ou de Sigfrido para os germânicos. Até agora falamos da poesia épica “primitiva” , aquela que brota espontaneamente do seio de um povo na fase arcaica de sua formação cultural, sendo que nem sequer sabemos o nome do autor que deu forma artística aos cantos heróicos provenientes da tradição oral. Diferente é a epopéia “reflexa” , criada por um poeta historicamente conhecido que, vivendo no apogeu político e cultural de sua nacionalidade, teve a intenção explícita de exaltar os fatos gloriosos de seu povo. É o caso da Eneida, de Virgílio, e de Os Lusíadas, de Camões. A primeira foi escrita sob o Principado de Octávio César Augusto (por encomenda, segundo alguns críticos) com o fim de estabelecer uma conexão entre a civilização troiana e a latina através da figura lendária de Enéias, ascendente semidivino da família Júlia; a segunda, na época da Renascença, para exaltar o ciclo das grandes navegações, especialmente a contribuição portuguesa no início da Revolução Comercial provocada pelo deslocamento do eixo do comércio do Mediterrâneo para o oceano Atlântico. Essas e outras epopéias são chamadas reflexas, quer porque imitam poemas preexistentes (Camões imitou Virgílio, que imitou Homero), quer porque não se acredita ingenuamente nos fatos narrados: eles são submetidos ao crivo da reflexão. Quanto à sua estrutura genérica, o poema épico é composto de uma parte introdutória, que compreende a Proposição (antecipação do assunto que será tratado), a Invocação (pedido de ajuda à divindade) e, às vezes, a Dedicatória (a um homem ilustre), e da parte maior chamada de Narração. Esta, geralmente, não segue a ordem cronológica na exposição dos fatos, mas começa in medias res: a trama tem início com a narração de um episódio importante e, a partir daí, através do recurso técnico da retrospecção, uma personagem nos conta o que aconteceu anteriormente. O foco narrativo está centrado sobre um narrador onisciente, mas volta e meia aparecem outras focalizações evidenciadas pelas falas das personagens ou pela intervenção do eu poemático. O estilo é solene, a linguagem rebuscada e a composição estrófica, rímica e métrica segue cânones rígidos apropriados a esse gênero literário. Outra característica relevante é o recurso ao maravilhoso religioso ou lendário, pagão ou cristão: as divindades participam ativamente das ações humanas, privilegiando-se a força do destino que dirige os acontecimentos e as condutas dos heróis. Quanto ao sentido, a epopéia é o canto da totalidade da vida de um povo em determinado estágio de sua civilização. A narração épica, além de verter sobre um fato bélico grandioso, historicamente acontecido, mas idealizado pela imaginação coletiva criadora de mitos e de lendas, está diretamente relacionada com o surgimento ou o progresso de uma nacionalidade. A totalidade implica a transcendência: o herói épico, ser híbrido, pois humano dotado de prerrogativas divinas,

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representa o elo de ligação entre o humano e o divino, o sonho da humanidade de superar sua natureza contingente e de aproximar-se do absoluto. A trajetória de herói épico é longa e acidentada porque o interesse do poeta vai além da narração das aventuras de um homem, estando preocupado mais em explicar a origem de lugares, de objetos e de comportamentos, em descrever ambientes, costumes, organizações sociais, crenças religiosas, enfim, toda uma civilização. Daí o conceito de “épico” transcender os limites de uma forma narrativa em versos, aplicando-se também a outros tipos de manifestação cultural nos quais predomine a grandiosidade. É por isso que falamos de teatro épico, de cinema épico, de romance épico. EPICURO (o prazer ponderado: Hedonismo) Ou Deus pode e não quer evitar o mal: então não é bom; ou quer mas não pode: então não é onipotente. Em cada qual das duas hipóteses: ele não existe! Juntamente com Sócrates, Epicuro (341-270) é considerado o maior sábio do mundo grego. Seu pensamento reflexivo segue a linha de Demócrito. Ensinou em Samos, Mitilene e Atenas o materialismo atomístico, considerando todos os objetos existentes formados de átomos, partículas indivisíveis, cuja combinação aleatória provoca a diferenciação dos seres. Ele chama de clinamen a inclinação da trajetória dos átomos que constituíam a matéria. Sendo esta declinação incontrolável, o mundo é dirigido pelo acaso. O indeterminismo da combinação atômica se traduz, no plano ético, em termos de liberdade. E, realmente, é no plano da moral que seus ensinamentos tiveram um maior sucesso. Para Epicuro, a natureza é boa e dela devemos extrair o que é mais importante para homem, o que constitui a finalidade última de qualquer ação humana: o prazer! Só que este prazer deve ser “ponderado”, calculado, pesado, evitando-se qualquer excesso. Nunca usufruir um prazer se sua conseqüência possa ser deletéria. Se, por exemplo, alguém comer a menos do que precisa para se alimentar (o “dietista”), vai sofrer por inédia; se comer a mais (o guloso), vai sentir dor de estômago. O escritor afro-romano Lucius Apuleius, autor do famoso romance O Asno de Ouro (Metamorfoses), diz a respeito do vício da bebida: “o primeiro copo sacia a sede; o segundo traz alegria; o terceiro dá prazer; o quarto é o da insensatez”. É o equilíbrio entre os prazeres possíveis que constitui o grande ensinamento de Epicuro e não a busca exclusiva da sensualidade e da luxúria, que os adversários atribuíram à sua doutrina. Entre os grandes discípulos de Epicuro, destacamos dois grandes poetas da Roma antiga: Lucrécio e Horácio. É deste último a verdade proverbial : in medio stat virtus (a virtude está no meio termo). O epicurismo deu origem à doutrina moral do Hedonismo, do grego hedone, que significa “prazer”. Colocar o prazer como finalidade da vida é de alguns privilegiados que sabem e podem viver bem. Os hedonistas entendem que comer não é só se alimentar; que fazer amor não visa apenas ter filhos; que vestir não significa proteger-se das intempéries ou preservar o pudor; que viajar não é só fazer negócios ou visitar familiares. Em qualquer ato da vida tem que ser procurada uma satisfação prazerosa, juntando o agradável ao útil, curtindo as sensações mais variadas, cultivando o senso estético. Ele afirmou categoricamente: “É impossível viver com prazer sem viver bem, sábia e justamente, e é impossível viver bem, sábia e justamente sem viver com prazer! Epicuro foi o primeiro pensador ocidental a negar claramente a possibilidade da existência de uma “Transcendência Providente”, de uma divindade que se preocupasse com a dor humana. Seu dilema, simplificado na epígrafe deste verbete, tornou-se famoso: se existisse um Deus poderoso e bondoso, não haveria tantos cataclismas cósmicos, tantas guerras, ódios, injustiças e doenças incuráveis. A contradição da existência do mal, junto com a crença na bondade divina, inquietou não apenas Epicuro, mas também outros sábios posteriores que procuraram encontrar uma explicação racional, especialmente Santo Agostinho e Kierkgaard. A resposta de que Deus deu ao homem o “livre arbítrio”, pelo qual ele pagaria o preço da maldade cometida, só satisfaz gente obstinadamente crédula. Como acreditar num Deus Onipotente e Misericordioso face à dor das vítimas inocentes de um terremoto ou de um desastre aéreo? Que dizer, então, de genocídios, de ódios étnicos, de bolsões de miséria extrema? Em verdade, o mal, em qualquer uma de suas formas, constitui um mistério racionalmente inexplicável para quem acredita na

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existência de um Ser Transcendental que, por ser Deus, deve ser “Perfeito”, possuindo todas as virtudes, no máximo grau, na virtualidade e na ação. O epicurista prefere não se inquietar com problemas religiosos insolúveis à luz da razão, vivendo apenas o momento presente, da forma mais natural e prazerosa possível, atento apenas em respeitar a liberdade e os direitos do seu semelhante. ERA (período ou época) Idade EROS (“Cupido” romano, erotismo, amor, Sexo) PsiquêVênus “Erótica é a alma” (Adélia Prado) Eros é uma das “Divindades Primordiais”, aquelas que pertencem à “pré-história” da Mitologia grega. Segundo o pensamento órfico, Eros nasceu do Caos ou Ovo primordial, engendrado pela Noite, cujas metades se separaram, dando origem à Terra e ao Céu. Ele é o princípio da atração universal, que leva as coisas a se juntarem, criando a vida. Eros é a força que assegura a coesão interna do Cosmos e a continuidade da vida na terra. Para Platão, ele seria um daimonion, uma força espiritual intermediária entre a divindade e a humanidade. Na cultura romana, Eros é confundido com Cupido, o deus do amor, representado como uma criança alada, nua, armada com arco e flechas ou com espada e escudo, símbolo da paixão arrebatadora. Acontece que, com o passar do tempo, se desfigurou o sentido etimológico da palavra “erótico”, reduzindo o conceito a um tipo de satisfação carnal proibida (“ sexo sem pecado é como ovo sem sal”, diria o cineasta Luís Buñuel), à nudez, à sacanagem, aos filmes pornôs. Confundiu-se Eros com Priapo, o deus do sexo! O dramaturgo Nelson Rodrigues afirma que “sexo é o que restou da PréHistória, do vil passado do homem”. Já o escritor, jornalista e poeta, Arnaldo Jabor ( O amor é prosa, sexo é poesia), ao analisar a origem etimológica da palavra “sexo”, do radical “sec” do verbo secare (separar, cortar, dividir em duas partes), vê o ato sexual como uma “reintegração de posse”: o amor une o que a divindade dividiu (veja o mito do Andrógino). Citando, literalmente: “Nosso amor é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e o óvulo se interpenetrando”. Mas, embora sendo profundamente natural, o ato do amor transcende a matéria, pois aspira ao eterno e ao infinito. Conforme o autor citado, “o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver”. O Eros verdadeiro é o deus do amor no seu sentido integral, que engloba corpo e alma. A atração puramente física é animalesca e não humana. É apenas o bicho que tem o período do cio. O homem e a mulher se amam (ou deveriam se amar!) sempre e em todos os lugares por uma comunhão de sentimentos que transcende o aspecto corporal. O erotismo, que verdadeiramente funciona e que faz perdurar a atração recíproca por longo tempo, está no olhar apaixonado, na admiração que o amante sente pelas qualidades físicas e espirituais que consegue enxergar na pessoa amada. O erotismo, que realmente e de uma forma mais duradoura estimula o desejo, se encontra na poesia lírica, na pintura, na dança, nos filmes sentimentais, na arte em geral, pois supera o nível do real e penetra no mundo da fantasia, do sonho, do vago sentimento do inacessível. Por esse prisma, os Cantos de Salomão e a poesia trovadoresca são mais eróticos do que o Kama Sutra. O erotismo está mais no sugerir do que no mostrar totalmente, no claroescuro, na promessa do idílio, no mistério a ser desvendado, na repetição do ato do amor como se fosse sempre pela primeira vez. Como diz a poeta Adélia Prado, “erótica é a alma”! Só que conhecer o espírito de alguém é bem mais difícil do que lhe conhecer o corpo. Manuel Bandeira nos oferece uma reflexão interessante a respeito: “deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. Porque corpos se entendem; as almas, nem sempre”. E, sobre a renovação do desejo erótico, esta bela imagem do poeta Mário Quintana: “amar é mudar a alma de casa”. Enfim o erotismo, entendido como prática do amor num sentido bem geral, é onipresente a qualquer atividade humana bem sucedida. A escritora Lygia Fagundes Telles afirma acertadamente: “Vocação é ter a felicidade de ter como ofício a paixão”. Mas é a escritora existencialista francesa, Simone de Beauvoir, amante de Sartre, quem melhor define a essência da relação carnal: “ O erotismo implica uma reivindicação do instante contra o tempo, do indivíduo contra a sociedade”. ESCRAVIDÃO (discriminação, racismo, eugenia, etnia)Hitler.

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A palavra “escravo” deriva do grego bizantino sklábos, que significa “eslavo”, povo da Europa oriental, passando pelo latim medieval sclavus, indicando um ser humano que vive num estado de absoluta servidão. A origem da escravidão se perde nos tempos, sendo a primeira forma de sociedade dividida entre dominados e dominadores. Historicamente, sinais de trabalhos escravos se encontram entre os hebreus e nas dinastias faraônicas do Egito Antigo. Mas foi na Grécia que se generalizou o uso de escravos, pela separação entre propriedade pública e propriedade privada. Foi, porém, com a expansão do domínio romano, a partir do séc. III a.C. que tomou corpo a sociedade escravizada: como resultado das conquistas bélicas, soldados e povos vencidos foram submetidos ao regime de servidão gratuita. E foi na Sicília, região da Magna Grécia dominada por Roma, onde se deu a primeira revolta de escravos. A façanha de Espártaco passou à história. Camponês da Trácia, escravizado e obrigado a lutar como gladiador, no ano de 73 a.C., se revoltou contra a prepotência romana, liderando um exército de quase cem mil escravos que desejavam a liberdade. Foi derrotado, mas sua figura se tornou motivo de arte literária, escultural e cinematográfica. Na Idade Média, pelo regime predominantemente agrário do Feudalismo e pelo isolamento da Europa ocidental (Medievalismo), a escravatura foi substituída pela servidão. No Renascimento, com as grandes navegações e os descobrimentos de novos mundos, começou o tráfico de africanos para serem escravizados no continente americano. O estudioso Eric Williams ( Capitalismo e Escravidão) fala de um “comércio triangular”: as metrópoles européias forneciam artigos manufaturados (armas, tecidos, bijuterias), que eram trocados na África por escravos que, por sua vez, eram trocados, nas plantações americanas, por produtos coloniais (açúcar, cacau, café) consumidos na Europa. Este comércio triangular fomentava a indústria, que fomentava o comércio. A Grã-Bretanha, onde o nascente capitalismo industrial se chocava com a concorrência da mão-de-obra escrava, tomou a frente do movimento abolicionista, condenando o tráfico de seres humanos no Congresso de Viena (1815). Nos Estados Unidos da América do Norte, a Abolição provocou a Guerra de Secessão, que terminou em 1865, vencida pelos abolicionistas. No Brasil-Colônia, a Coroa de Portugal autorizava cada senhor de engenho a importar até 120 escravos por ano, permitindo no máximo 50 chicotada por dia, como castigo de escravos revoltosos ou preguiçosos. A reação levou à formação de “quilombos”, redutos de escravos fugitivos. O mais importante foi o de Palmares, no atual estado de Alagoas, que durou um século, formado por quase vinte mil habitantes, chefiados pelo negro Zumbi, assassinado por jagunços, em 1695. A Abolição dos escravos foi proclamada no Brasil em 13 de maio de 1888, mas práticas escravistas, embora ilegais, continuam ainda hoje em várias regiões rurais. O sistema escravagista marcou de uma forma indelével parte do povo brasileiro: desde a Abolição, os descendentes dos escravos ficaram nas camadas mais humildes da nossa sociedade. Infelizmente, escravidão se confunde com miséria e negritude. A raça negra ainda é tratada como “minoria” subdesenvolvida em algumas culturas ocidentais ( Hitler). ESCULTURA (formas e evolução) Do verbo latino sculpere, o substantivo sculptura é arte da estatuária, lavrando madeira, mármore e outros materiais, com diversas ferramentas, para criar formas e volumes de objetos em três dimensões ou apenas relevos sobre um fundo ou esculturas só de ornamento. A origem da Escultura, como de outras artes, se perde ao longo dos tempos, existindo nas civilizações mais primitivas (egípcia, grega, romana, indiana, chinesa, americana pré-colombiana). Na mitologia grega, aparece a figura de Dédalo ( Ícaro), considerado o primeiro grande escultor. Para atender ao desejo da rainha de Creta, Pasífae, apaixonada por um touro, ele construiu a estátua de uma vaca, revestida de couro, onde a esposa do rei Minos se ocultou para ser emprenhada pelo animal, parindo o Minotauro, um ser com cabeça de touro e corpo humano, vencido pelo herói Teseu (Ariadne). A arte da Escultura, inicialmente, estava ligada à religiosidade, esculpindo-se, predominantemente, estátuas de divindades, grandes (para o culto coletivo) e pequenas (estatuetas domésticas). Com o Renascimento, a arte da estatuária se tornou também profana, com fins puramente estéticos. É desta época o maior gênio da escultura, Michelangelo, a quem dedicamos um verbete à parte. Durante as monarquias européias, do séc. XVII ao XIX, a escultura foi largamente

Suas obras mais importantes encontram-se no atual Museu de Rodin. em si. a grandiosa arte barroco-rococó do Aleijadinho é posta ao serviço do culto religioso. geometria. rua. A espacialidade. áreas ou volumes. religião. o espaço da enunciação ( Discurso). referido aos deuses do mundo subterrâneo. alumínio.no qual tudo se move. em relação aos pés. em oposição à desordem do Caos. Além do mármore e do bronze. relacionado com os deuses superiores ou celestes. todo texto literário. que tenta transmitir a emoção do eterno tema da mulher. infinito. resinas sintéticas e outros materiais plásticos. as várias correntes estéticas da Vanguarda na Europa ampliaram a riqueza potencial da Escultura. conforme limites determinados. por exemplo (  Urano Olimpo. enfim. não podemos esquecer o britânico Henry Moore. sendo o meio . onde as personagens vivem seus atos e seus sentimentos. utilizando materiais e técnicas mais avançadas. O espaço da ficção constitui o cenário da obra. tidas como nobres. corresponde à palavra grega “topos” (tópico. especialmente pela famosa obra Figura Reclinada. do eu que fala.). por ser o espaço desconhecido. É objeto de estudo de várias disciplinas: filosofia. Entre os artistas do escalpelo. . Outra noção é da horizontalidade. em Paris. com as divindades benfazejas. madeira. englobada num “infinito”. no Brasil. com suas coordenadas e eixos direcionais. astronomia. Na segunda metade do séc. Segundo a terminologia de Gaston Bachelard. XX. além de distinguir o tópico do atópico e utópico. é preciso reparar numa espacialidade dimensional. já significa “espaço”.117 utilizada para a decoração de palácios e praças públicas com estátuas e bustos comemorativos. apresenta a oposição do espaço interior ou fechado e do espaço exterior ou aberto.exterior ou interior . distinta de um espaço incomensurável. na medida em que encerra um pedaço da realidade. onde se vive em segurança. astrologia. ao enunciado ( Mito). O espaço interior é o espaço subjetivo. atmosfera. Para o estudo do texto literário. “atópico” é o espaço estranho. sendo. o espaço é formulado a partir do princípio da “extensão”. Outro tipo de espaço. o não-dimensional. enquanto. Paraíso). que atrai pelo fascínio do mistério: é onde vive o inimigo da sociedade (florestas. ruas. A expressão “espaço tópico”. a determinação do componente espacial é tão importante quanto a percepção da categoria temporal. possibilita uma tipologia espacial conforme uma escala progressiva. conectando-se ao renascentista Michelangelo. da aventura. As descrições de cidades. psicologia. Evidentemente. estátua moderna de 1. como o tempo com o qual está intimamente conectado. como qualquer obra de arte. O espaço indica a distância entre dois pontos. O espaço humano distingue-se também pela sua topicidade: “tópico” é o lugar conhecido. cidade. onde se distinguem as partes superiores. de quem se considerou discípulo. O trabalho artístico que o imortalizou foi a escultura em bronze O Pensador. como já foi dito. o espaço tópico é o espaço conhecido. No início do séc. pode apresentar vários aspectos. aplicam-se também ao espaço humano. e as partes inferiores. própria do espaço humano ou natural. passaram a ser usados outros metais: cobre. cujo limite seria o “eterno”. elemento estrutural de uma obra de arte)Utopia O termo latino spatium. em relação ao subsolo etc. topos. representa a ordem do Cosmos. materiais nobres tradicionais. Também nas artes plásticas. o espaço exterior refere-se ao mundo dos objetos. atópico. é o lugar da imaginação e do desejo: o céu. útero. “utópico” é o imaginário. o escultor francês mais famoso. cavernas). aflora Auguste Rodin (1840-1917). onde estaria o espaço divino ou sobrenatural. enquanto o atópico é o espaço hostil. XIX. 1880. Ele. é uma redundância pois. Todavia. possui seu espaço. difuso. Em primeiro lugar. uma construção lógica que expressa relações baseadas na experiência existencial. o estudo da categoria do espaço tem sua relevância. às divindades maléficas ou demoníacas. amante e procriadora. topografia etc. mares. da felicidade. e de “baixo”. o espaço do sofrimento e da luta. tomada como instrumento de análise de uma obra de arte. vista como deusa. navegação. bairro. em grego. estabelecendo uma fronteira entre ela e o mundo imaginário. O espaço utópico. mais direcionado para o alto. ferro. familiar. Enquanto a categoria do tempo tem como objeto o estudo da “continuidade”. casa. utópico. consideradas ignóbeis: cabeça. cama. Sua arte ultrapassa o Realismo e o Romantismo. ESPAÇO (Topologia. indo de um lugar genérico até ao espaço de máxima intimidade: país. mas essa terminologia metalingüística. que em 1948 recebeu o Prêmio Internacional de Escultura da Bienal de Veneza. os conceitos de “alto”. montes.37 m de altura. em oposição à verticalidade. gesso. quarto.

que tem em Alan RobbeGrillet. existindo aqui o maior número de kardecistas do mundo todo. pois. paisagens abertas = sensação de liberdade). Tal crença está na base de várias religiões orientais. Jean Ricardou e Nathalie Sarraute seus melhores expoentes. analisando os fenômenos mediûnicos das irmãs Fox (EUA. um indisfarçável determinismo leva a prever com exatidão quais são as ações e as reações do personagem. que significa “sopro” ou alma. O termo grego metempsicose. Para algumas narrativas contemporâneas. Pensamos na denominada “escola do olhar”. da natureza dos Espíritos e de suas relações com os homens. uma vez descrito seu espaço vital. que concebem o Karma como o elo de uma cadeia de vidas (sansara). tal como o concebemos hoje. A correspondência da isotopia espacial com o tema geral da obra se dá particularmente na estética do Realismo. romance. Olimpíadas) Olímpo ÉSQUILO (poeta grego)TeatroDrama Tragédia . literalmente. enquanto. ESPORTES (o culto do corpo. significa a “transmigração” da alma de um corpo para outro. sobrevivendo à morte corporal. nobre ou plebéia) e de seu estado de espírito (ambiente fechado = angústia. O Livro dos Espíritos. convenceu-se de que realmente eram as almas do outro mundo que se comunicavam com os vivos. Mas o Espiritismo. Em certas obras literárias. cuja leitura de cabeceira era a obra de Kardec. animal ou até vegetal. a parte incorpórea do ser humano. codificado por Allan Kardec (1804-1869). das leis morais. estátua.118 casas. tanto quanto o tempo. Sua obra. sendo cada vida determinada pelas ações da pessoa na vida anterior. é fundamental para captar sua significação a análise dos elementos espaciais. a descrição do espaço físico é fundamental. O estudioso francês. A crença religiosa na existência da alma separada do corpo estimula a ciência a investigar o poder que a mente humana tem de influenciar o mundo físico. especialmente do Bramanismo. quadro. Pestalozzi (Como Gertrudes ensina seus filhos. se trata de algo que transcende a natureza física. para a doutrina espírita (ou qualquer outra forma de religiosidade). encontrando-se em quase todas as religiões. A moderna “noética” (lógica mental) estuda as quase infinitas possibilidades da atividade cerebral.1843) e de outros magnetizadores que faziam girar e falar mesas. que confere extrema importância às influências do ambiente na constituição da psique da personagem. Enfim. monumento). constituindo índices da condição social da personagem (rica ou pobre. sendo o espiritismo brasileiro compromissado com as obras de assistência social e a confraternização da humanidade. na cultura ocidental. que pode ser humano. funcionam como pano de fundo dos acontecimentos. Hinduísmo e Budismo. porque os objetos são os verdadeiros atores de suas narrativas e são criados pelo próprio movimento da descrição. discípulo do pedagogo suíço J. independentemente da referência a uma ação ou a uma atitude do personagem. com estrondoso sucesso no mundo todo. independentemente da ligação a um personagem ou a um acontecimento. O Brasil pode ser considerado a atual pátria do Espiritismo. Sua feição é cristã e seu caráter evangélico. Para esses ficcionistas. pois os objetos são descritos em si. O maior médium brasileiro foi o mineiro Chico Xavier (1910-2002). seja qual for a obra de arte (poema. a reencarnação do espírito. XIX. Espiritismo) Psiqué Inteligência=>Budismo “Um dos maiores pecados do mundo é diminuir a alegria dos outros” (Chico Xavier) Do latim spiritus. que os materialistas identificam apenas com a inteligência e a imaginação. o espaço é o meio vital onde toma forma a atividade humana: nada existe fora do espaço e do tempo! ESPÉCIE (A Origem das espécies)Darwin Gênero Genética ESPÍRITO (alma. fala da imortalidade da alma.H. famoso por suas sessões mediúnicas em Uberaba e pela psicografia de mensagens de homens ilustres do passado. remonta à segunda metade do séc. o espaço adquire uma importância particular. da vida presente e da futura. móveis etc. após a morte. publicada pela primeira vez em 1857. num outro ser vivo. 1801). A crença na existência de “almas de outro mundo” e de sua comunicação conosco é bem remota.

perpetrado pela esposa Clitemnestra e pelo amante Egisto. a arte é “harmonia de formas”. O pior é que a culpa individual se torna maldição hereditária. tem como assunto a vingança de Orestes e de Electra. Dario e Xerxes. célebre pelo Santuário de Apolo. A palavra grega aisthetiké significa o sentimento. Aristóteles já afirmara que “a beleza é o esplendor da forma”. pele nova e firme. mas só restaram sete. atenderia ao desejo dos homens e todas as mulheres do mundo teriam o corpo da modelo Gisele Bünchen. o tio Egisto. afirmando que “o belo se define como a manifestação sensível da verdade”.119 Não é sábio quem sabe muitas coisas e sim quem sabe coisas úteis Filho de fazendeiros de Elêusis. A beleza. estilística)ArteRetórica Se Deus realmente existisse. mas proporcionais ao rosto. Sua obra mais importante é a trilogia Oréstia. filhos de Édipo e Jocasta. mas pela força cega do destino. existem parâmetros inquestionáveis para determinar o que é belo e o que é feio? Segundo a concepção clássica. O assunto da primeira peça trata do assassínio de Agamenão. de quem a imensa comunidade judaico-cristã herda a culpa e a pena do pecado original! ESTÉTICA (concepção do “belo”. Os Persas: tragédia histórica. A visão de uma mulher de traços delicados. passando a proteger os habitantes de Atenas e da Ática. a percepção do que é bonito. o coro de mulheres que carregavam as oferendas na tumba de Agamenão. deusas da vingança e do ódio. mas essa verdade artística é “subjetiva” ou “objetiva”? Quer dizer. foram obrigadas a fugir do Egito e a refugiarem-se em Argos. portanto. olhos grandes. na proporção entre as partes. quando de sua volta da guerra contra Tróia. por esse crime de soberbia e rebeldia ele foi acorrentado a um rochedo. cintura fina e quadris largos. que matam a mãe e seu amante. patrocinada pela Universidade americana de Harvard. O homem romântico pode se apaixonar por uma peculiaridade fora de um contexto. As Coéforas e As Eumênides) que formam um ciclo sobre a tragédia familiar que se abateu sobre o rei de Micenas. apenas pela cor dos olhos de uma mulher. pode apresentar protótipos universais e eternos. que sofre pelo pecado do pai. A Divina Comédia. A Lei do mais Belo. rei da Líbia. com relação à atração sexual. Platão foi o primeiro filósofo a indagar a essência da Arte. conforme a concepção clássica ou objetiva da beleza. Parece comprovado cientificamente que a química do cérebro de homens heterossexuais é realmente estimulada ao olhar o espetáculo de uma mulher linda. Sobre a objetividade da beleza. perseguido pelas Erínias (as Fúrias). ameaçada pelo imperialismo persa. sem nunca envelhecerem. no Peloponeso. filhos do rei de Micenas. Mas esta peça trágica tem um final feliz: o tribunal dos deuses acaba absolvendo Orestes de seu crime e as Erínias se tornam Eumênides. que se transmite de geração em geração! Há uma relevante semelhança entre o mito pagão de Édipo. que pune o homem quando ele ultrapassa os limites estabelecidos. e o mito bíblico de Adão. ou pelas ondas disformes de uma tempestade marítima. As Suplicantes: as cinqüenta filhas de Dânao (Danaides). por exemplo. composta de três tragédias (Agamenão. existindo o belo no equilíbrio. pelo poder sobre Tebas. de Dante Alighieri ou o quadro La Gioconda de Leonardo da Vinci. com uma relação . representando a dor do remorso do matricida Orestes. o próprio irmão do soberano. relacionando a beleza com o bom. tais como Helena de Tróia. o útil e o verdadeiro. Ésquilo (524456) lutou valorosamente em várias batalhas para defender sua pátria. Sim. trata das conseqüências funestas da ambição (hybris) que leva os imperadores da Pérsia. a quererem ampliar seus domínios. cidade da Ática. considerado um tesouro precioso. é interessante ler a recente publicação da pesquisa de Nancy Etcoff. Os valores morais do teatro de Ésquilo estão fundamentados sobre um misticismo fatal: as ações humanas não são determinadas pela razão. A segunda peça. e o doou aos homens. Na mesma linha do Idealismo. Escreveu muitas peças. intitulada as Coéforas (“as portadoras de libações”). Os Sete contra Tebas: representa a trágica luta fratricida entre Etéocles e Polinice. o pensador alemão Hegel confirma a tradição crítica. considerada uma variável no espaço e no tempo. A tragédia a s Eumênides (“espíritos benfazejos”) encerra o ciclo da tragédia familiar. Já a concepção romântica da arte é subjetiva. Resumimos os assuntos das outras quatro peças de Ésquilo. Prometeu acorrentado: é a encenação do mito de Prometeu que roubou dos deuses o fogo.

tal como a juventude. entendida como relação entre as parte de um conjunto.120 harmoniosa entre peso e altura. o poder. em qualquer tipo de sociedade. diferentemente da moda. Sem força de vontade. A doutrina estóica preocupa-se. O Estoicismo ensina que Deus é o próprio Universo e a alma humana uma centelha divina. “modelo”. algo de permanente. o melhor possível. acima de tudo) “O homem sábio deve ficar satisfeito se tiver feito. onde se confunde com conceitos afins. Captar as estruturas de determinados comportamentos humanos significa expressar racionalmente o inconsciente meta-individual que sustenta as regras do funcionamento social. Enfim. sempre foi e continua sendo cultuada como um valor. O escritor latino Lucano dizia que “cada qual é responsável pelo seu próprio naufrágio”. definindo o Estoicismo) Do grego stoikós (“em linha reta”). a estrutura não poderia ser . válido em qualquer tempo e em qualquer lugar. pois os homens que se submeteram aos testes eram de culturas diferentes. Meditações. nada fazendo a mais nem a menos. chamada de “Escola do Pórtico” (o átrio em Atenas. álcool. a inteligência. A doutrina estóica. do ponto de vista teórico.. objetiva ou subjetiva). sinceramente. o saber. E esta reside na capacidade do ser humano viver conforme a natureza. que tempera o caráter. Lembra-te sempre disto: para viver-se com felicidade. Também o poeta Stendhal tinha um gosto estético refinado. que é a virtude. jogos de azar. como “sistema”. ESTRUTURALISMO Formalismo Função Texto Crítica Do latim structura. “organismo”. Segundo esta teoria. o conceito de estrutura. clássica. “as feias que me desculpem. positivista. nem nos héteros na presença de uma mulher feia ou de um homem de corpo bem feito. Assim. Os resultados da pesquisa levam ao triunfo da concepção clássica do belo. basta pouco. que se desprende dessa matéria imensa e a ela retorna.. Adapta-te ao gênero de vida que te tocou por sorte. com o ensinamento moral. Quais aborrecimentos evita aquele que não procura saber o que o seu vizinho diz. sujeita a contínuas mudanças.. Ele definiu a beleza como “a promessa de felicidade”. a beleza (feminina ou masculina. a riqueza. cientificamente provado. mas na mulher a beleza é fundamental”. matemáticas e humanas. Sêneca e Marco Aurélio. Aplicado à lingüística por Wilhelm Humboldt. cujo teto era sustentado por colunas. O mesmo efeito não se produziu no cérebro dos homossexuais. fundamentalmente. A teoria levistraussiana está fundamentada no princípio do isomorfismo entre as leis do pensamento e as leis do real.. Nada se consegue sem sacrifício. causa um frisson nas áreas mais primitivas do cérebro do ser masculino hétero. olhando uma mulher bonita. tais como cocaína. o termo “estrutura” encontra-se em Saussure e nos Formalistas russos.. nos ajudam a entender a postura estóica perante a vida: Não poderás ser mestre na escrita e na leitura sem ter sido antes aluno. “conjunto”. ESTOICISMO (corrente filosófica: a virtude. o problema do julgamento estético está sempre ligado a uma concepção filosófica. O valor de cada um é relacionado com o valor das coisas às quais deu importância. seguido por Panécio. Alguns trechos extraídos da obra do imperador romano Marcus Aurelius Antoninus (121-180).. fala ou pensa. onde se falava de filosofia). a noção da matéria está fortemente ligada à noção do esforço. Como diria o nosso grande poeta Vinicius de Morais. Já. (Martin Seymour-Smith. não se alcança o sumo bem. falamos de estética ou de estilo de vida e de arte romântica. modernista etc. Foi Claude Lévi-Strauss que deu notoriedade ao termo “estrutura” ao transferi-lo da Lingüística para a Antropologia. que usam indiferentemente forma ou estrutura. É a crença no Panteísmo.. provocando a mesma reação química de outros vícios que criam dependência. começou a ser divulgada a partir de Zenão de Cítio (335-264). pode ser rastejado em antigas noções das ciências naturais. pois na mulher considerada bonita (tipo estrela do cinema ou modelo de passarela) existe algo de objetivo.. Para os estóicos. sem prejudicar ninguém”. o homem adepto do estoicismo se torna impassível antes à dor e à adversidade. “forma”. Posidônio. considerando negativa qualquer forma de passividade.

revelou aos intelectuais da época e aos futuros escritores regionalistas a miséria das povoações nordestinas. Em Canudos. na semana entre maio e junho de 2004. Euclides analisa ambientes. J. ETNIA (Racismo. Aplicado aos estudos literários. personagens e fatos. a “forma” (o todo orgânico de um objeto concreto) da “estrutura” (o modelo geral elaborado pela análise dos elementos constitutivos e invariáveis. no que toca o estudo da narrativa ficcional. Distinguiríamos. especialmente franceses. o romance histórico do enviado especial do jornal O Estado de S.121 individualizada num objeto particular. a história do Brasil apresenta “constantes perturbadoras!” O romance épico euclidiano se tornou um mito na cultura brasileira. Euclides da Cunha (1866-1909). “saber” (destinador/destinatário) e “poder” (ajudante/oponente). visto que construiu seu modelo a partir da análise de um corpus. eles procuram ampliar seu método de trabalho. na favela carioca de Benfica. às funções distributivas ou sintagmáticas (núcleos e catálises). deve ser salientada a enorme relevância dos estruturalistas. a “forma”. pela sua obra Os sertões. as funções integrativas ou paradigmáticas (índices e informantes). o conceito de estrutura de Lévi-Strauss levaria a uma redenominação do trabalho proppiano A Morfologia do Conto: o formalista russo. estabelecendo uma dicotomia entre “história” (a análise lógica das ações e das relações entre as personagens) e o “discurso” (a análise do processo da enunciação: o eu emissor e o tu receptor). pelo semanticista francês. que engendram a narratividade. tão ao gosto da escola realista-naturalista. . e a rebelião dos presos de Benfica. um verdadeiro “romancedocumento”. os jagunços devotados a Antônio Conselheiro eram assassinos tomados de um fervor religioso. Greimas reduz as 31 funções a três categorias básicas: as ações que dizem respeito ao “contrato”. que buscava no fanatismo religioso uma válvula de escape para a miséria econômica e cultural. constituído de cem narrativas fabulosas. os traficantes de droga do Comando Vermelho invadiram o reduto dos rivais do Terceiro Comando e cometeram horrores. televisão e teatro. as coincidências entre os dois tristes episódios são espantosas. própria do historiador. enquanto as mulheres dos facínoras entoavam hinos evangélicos.Paulo descreve o isolamento material e espiritual em que vivia o povo da serra nordestina. para a compreensão do texto literário. de onde a palavra “favela” foi transplantada para o Rio de Janeiro. estendendo-o à análise não só do conto popular. Eugenia) Escravidão Hitler EUCLIDES da Cunha (Guerra de Canudos. Antônio Conselheiro: Os Sertões) Estamos condenados à civilização. sendo adaptado para cinema. Claude Bremond procura captar a rede de possibilidades lógicas. Roland Barthes amplia o conceito proppiano de função. tece um interessante paralelo entre a Guerra de Canudos. Propp (Formalismo Função). O vasto material geográfico e histórico é transformado em obra de arte pela grande seriedade com que o autor tenta desvendar o mistério do homem e da terra brasileira. favela do Rio de Janeiro. Ou progredimos ou desaparecemos. através da distinção de três momentos (virtualidade. então. A. Vladimir Propp. T. comuns a este e a outros objetos do mesmo grupo ou da mesma espécie). Quanto às personagens. Centrado sobre a revolta de Canudos. à “prova” e à “viagem” do herói. mas num “modelo” teórico formulado a partir da análise de vários objetos. passagem ao ato e resultado) e de dois processos (melhoramento ou degradação). À margem das questões teóricas acerca do conceito de “forma” e “estrutura”. composto de três eixos: “querer ” (sujeito/objeto). mas de qualquer tipo de narrativa. não teria descoberto a “morfologia”. com 13 horas de duração e com apresentações também no exterior. as “sete esferas de ação” de Propp são transformadas. travada no interior da Bahia. Como salienta o citado crítico. nas seis figuras do “modelo actancial”. tentando descobrir as causas de comportamentos humanos típicos. isto é. mas a “estrutura” do conto fantástico. mutilando corpos após a matança. especialmente do Estado da Bahia. Depois de mais de 100 anos. portanto. o Diretor paulistano Zé Celso Martinez fez de Os Sertões uma verdadeira epopéia teatral. Os sertões é. dividida em várias partes.Todorov estuda as categorias da narrativa literária. Holocausto. entre 1896 e 1897. acrescentando. Com o rigor científico do engenheiro e com a preocupação com a verdade. Recentemente. ensaísta da revista Veja. Roberto Pompeu de Toledo. Trilhando o caminho percorrido por V.

Escreveu sessenta e sete tragédias e sete dramas satíricos. mas com particular relevo a Agamenão. Agamenão é assassinado pela própria esposa. Heidegger) Sartre A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás. o chefe da expedição grega: Ifigênia em Áulis. Sua preocupação principal é a representação artística das paixões humanas. que lhe atribui a causa da decadência do teatro clássico grego. filha dos soberanos Príamo e Écuba. portanto. criticando seus atos indecorosos. Discípulo dos filósofos Anaxágoras e Protágoras. Mas. EVOLUCIONISMO (visão diacrônica da cultura) Darwin Genética EXISTENCIALISMO (teoria filosófica: Kierkegaard. e torna-se escrava de Neptólemo. Ifigênia em Táurida. Centradas sobre o mito de Ifigênia. vê seu filhinho Astíanax jogado do alto de uma torre para evitar o perigo da restauração do reino de Tróia. ainda acerca do ciclo troiano. considerada estúpida e fonte de infelicidade. centrada sobre o mito dos Argonautas. Em Tebas. identifica-se com o real. por incentivar a luxúria e os maus costumes. na sua exaltação profética. do homem e da natureza. “Existencialistas” foram chamados alguns filósofos contemporâneos que. a escravidão a que eram submetidos os vencidos. Andrômaca. a peça mais importante de Eurípides seja Medéia. portanto. Ulisses sofre por dez anos antes de voltar a Ítaca). Já o conceito de “essência” é algo lógico. Já a peça Hipólito diz respeito ao mito de Fedra. mas só nos restam dezoito peças dramáticas. Por isso é violentamente atacado pelo seu contemporâneo. ele sentiu muito as influências do pensamento sofista: o valor do homem mede-se pelos seus dotes individuais e não pela nobreza do nascimento. etimologicamente. condenou a guerra. os assuntos míticos para torná-los mais aderentes à realidade. Ájax enlouquece. cujas paixões eram mais vergonhosas do que os vícios humanos. não havendo filósofo que não se colocasse tal problemática. filho de Aquiles. a viúva de Heitor. o comediógrafo Aristófanes. mas só pode ser vivida olhando-se para frente. Face à tragédia transcendente e fatalista de Ésquilo e aquela heróica e clássica de Sófocles.122 EURÍDICE (mito do amor após a morte)Orfeu EURÍPIDES (dramaturgo grego)Tragédia Teatro Não desperdice lágrimas novas com tristezas antigas O poeta trágico Eurípides (480-406) nasceu na Macedônia. Cassandra. talvez. mais humano e mais popular. significa “o que está ai” e. Pode-se relevar que a tragédia grega apresenta um processo de gradativa humanização do mito. na tentativa de alcançar-se a autenticidade através da prática do conhecimento de si próprio e da rejeição das ideologias aprisionadoras. das quais as mais importantes são: As Troianas: trata-se de uma tragédia "episódica". conjunto de idéias abstratas para explicar a natureza profunda de objetos. desenvolveram doutrinas antropocêntricas. Então. as peças de Eurípides revelam um aspecto mais natural. Espírito cético em relação aos deuses e ao destino. As Bacantes: é a tragédia que representa os horrores a que pode levar o fanatismo religioso. prediz a desgraça dos gregos vencedores ( Aquiles é morto. seres ou comportamentos. há quatro peças. Eurípides é considerado o precursor do moderno drama burguês. Isso num sentido amplo. aproximando-se do conceito de “sistema”. (Kierkegaard) A reflexão sobre a existência do mundo e do homem é bem antiga. Orestes e Electra. Num sentido restrito. onde está representado o sofrimento das principais senhoras de Tróia. mas viveu na Grécia. “existência” se opõe à “essência”: o primeiro conceito. preocupados especialmente com a problemática da existência humana. O filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855) é considerado o fundador do Existencialismo . causado pela guerra. Nesta tragédia. o rei Penteu não quer reconhecer Dionísio como deus. nas pegadas de Sócrates e Pascal. Eurípides não mais acredita cegamente nos deuses da mitologia antiga. deixando de lado as especulações transcendentais sobre a essência de Deus. durante os ritos orgiásticos. Baco se vinga inspirando na mãe de Penteu um tal furor que ela acaba despedaçando o próprio filho. Eurípides contesta os principais valores ideológicos da sua época: a necessidade das ações bélicas. Em compensação. referindo-se a qualificações genéricas de seres e objetos. a concepção das divindades mesquinhas e ridículas. Altera.

Sartre identifica a corrente existencialista com um Humanismo radical. Crítica da razão dialética. industrial. estudantis e da opressão das nações do Terceiro Mundo pelo capitalismo selvagem. a consciência das coisas. especialmente da pintura. em 1956. “comemora” a realidade mais autêntica do ser. música. pois o homem está colocado face a face com o nada. O processo técnico usado era a extrema liberdade léxica. Sobre o conceito de ironia. a liberação do homem só se pode dar pela “palavra”. cuja estética estava baseada no movimento de fora para dentro. destacamos: Ser e tempo. atacando autoritarismo e hipocrisia. pois considera que não há outra realidade fora do fenômeno. mecanizada. sendo um ser destinado à morte. teatro. porque para eles a arte era “expressão” do “eu” subjetivo. pelo produto do seu trabalho e pelas relações de solicitude. dramaturgo e romancista. cinema. a estética expressionista passou também a ser utilizada pela literatura. Segundo ele. os cortes surpreendentes.1976). encontra no lirismo sua manifestação mais apropriada. quer venha da direita quer da esquerda. O conceito de angústia. não se trata da palavra comum ou técnica. Seu lema é a liberdade em todas as formas da atividade humana. Questão de método. afirmando o valor irredutível da vida individual. o jogo de imagens ousadas. contestando a tese determinista da dependência dos fatores do ambiente e da hereditariedade. É a projeção no porvir que dá sentido à existência.123 moderno por ter sido o primeiro a insurgir-se contra os macro-sistemas especulativos do Racionalismo francês e do Idealismo alemão. Abstracionismo)Vanguarda A explosão da estética expressionista começou na Alemanha. Mais ainda: superando o subjetivismo de Kierkegaard. Homem profundamente religioso. O Existencia/ismo é um Humanismo. visto por uma nova ótica moral. Por não aderir ao Nazismo foi por ele . que permite a abertura para uma projeção no futuro. está condensado em quatro obras reflexivas: O ser e o nada. Da vasta produção filosófica. pelo sentimento de fraternidade universal e pelo desprezo da civilização materialista. Filósofo. a simpatia para com o mundo dos miseráveis e dos injustiçados. critica todavia o desvirtuamento dos ideais marxistas quando o governo soviético ordena a intervenção militar na Hungria. O desespero humano. Militante do Partido Comunista ( Marx). O movimento expressionista tem em comum com o Futurismo a disposição de demolir a cultura passada e criar um novo homem. contrariamente ao Impressionismo da época realista. EXPRESSIONISMO (rótulo de uma forma de arte. dança. contemporaneamente ao Futurismo na Itália. colocando sua vida de homem e de intelectual ao serviço das causas proletárias. operando de dentro para fora. a angústia não está relacionada com problemas religiosos. a livraria e galeria de arte Derem Sturm reuniu os trabalhos de alguns pintores chamados de “expressionistas”. O interesse pelo social leva o Existencialismo de Jean-Paul Sartre até o Socialismo. possibilitando a escolha e. em 1912. Em Berlim. Sobre a essência da verdade. permitiram a sublimação do patético e a exaltação das paixões. marcado profundamente pela Fenomenologia de Husserl e pelo Existencialismo de Heidegger. É que Sartre é avesso a qualquer forma de opressão. Naturalmente. Entre suas numerosas obras assinalamos: Ou Isso / Ou Aquilo: Um Fragmento de Vida. Contestando as metafísicas tradicionais. Que é a metafísica?. o pensamento heideggeriano se aproxima da poesia. considerada esta como o receptáculo da verdade a que tende o homem que pretenda viver a sua totalidade existencial. Esse ideal ele defende através do diário “Libération” que ele funda em 1973. portanto. Heidegger vê o homem como um “ser-em-comum” que. Em literatura. Das artes plásticas. estabelece uma íntima comunicação com os outros. Sartre supera a dicotomia do “ser” e do “parecer”. Da experiência do pensar. a crítica à sociedade. O que transcende o fenômeno é chamado de “ser-para-si”. sintática e semântica. do centro para a periferia. que não diz mas evoca. instaurando o princípio do livre-arbítrio. mas dele se difere pelo pacifismo. As combinações rítmicas. atormentada pela sua finitude. vivendo num tempo mediano entre o passado e o futuro. que não pode ser compreendida dentro de um sistema filosófico abstrato. pela solidão espiritual e pela angústia do pecado. o “ser-em-si”. Com base nessa concepção do ser. Na última fase da sua especulação filosófica. A angústia só se supera pela “inquietação”: o homem é um ser em contínua busca de atualização de suas possibilidades. mas com a existência como tal. Sartre considera o homem responsável por tudo aquilo que é ou faz. O seu pensamento filosófico. mas da palavra poética. Para Martin Heidegger (1889. Kierkegaard sente o peso da condição humana. chegando até ao amor. Os temas mais explorados pelos poetas expressionistas são o sexo.

e complementando: “se você as tirar de mim. Entende-se por “fábula” uma narração alegórica. de Dante. uma lenda de origem anônima e coletiva. eruditíssimo. Fedro foi um escravo macedônico alforriado por Augusto.). continuou em Roma com Fedro (séc. condenado como espião de Mussolini nos Estados Unidos.Eu cantei! . transmitidas oralmente e colocadas em escrita por ficcionistas posteriores. quando viu um cordeiro e lhe disse: “Você está sujando minha água”! . escrevendo 123 fábulas inspiradas no grego Esopo. a reeleição dos políticos! Já do outro fabulista. de Rimbaud e de outros autores. relata que Esopo. Assim. Osvaldo Goeldi. não tendo deixado nenhum escrito. argumentando que aquelas pulgas já estavam cheias e não sugavam tanto sangue. que escreveu em língua latina. Famosa é a sua fábula O Lobo e o Cordeiro. novas pulgas.. Para o primeiro sentido. que acrescentou o nome da família Júlia: Caius Julius Phaedrus (10 a. gênero literário) Mito Conto Narrativa “O que você fez durante o verão? . mais famintas. temos dados históricos. o termo “fábula” corresponde ao grego mithos como história ficcional. remetemos ao verbete Mito. Já a estrutura da coletânea Cantos apresenta três modalidades: a “melopéia”. Emiliano Di Cavalcanti. e a “logopéia”.Então. VI a. – 54 d.C. a partir de 1933.124 destruído. Musicalidade. C. o filósofo grego Aristóteles. O nome latino Personae significa “máscaras” e este título tem sua explicação no fato de que Pound assume diferentes vozes e dicções de poetas do passado. onde estão agrupados os poemas que valorizam o nível fônico. O gênero fabulístico. Por exemplo.) e chegou ao apogeu no Neoclassicismo francês com La Fontaine. embora de origem oriental. o Expressionismo marcou uma forte influência no teatro de Oswald de Andrade e de Nélson Rodrigues e na pintura: Portinari (especialmente as cinco telas da série Emigrantes).C. Ezra Pound (1885-1972) foi propagador do Fascismo. Esopo é uma figura mais lendária do que histórica.). os fatos sendo narrados com inversões temporais. em 330 a. Aqui vamos examinar o termo fábula como gênero literário. lançando mão da figura retórica da anacronia com suas variações.C. a “fanopéia”. Foi cultivado na Grécia por Esopo (ao redor do séc. tem longa tradição ocidental. inclusive japoneses e chineses. A tradição lhe atribui a autoria de mais de 400 fábulas.. agora dança!” (diálogo entre a cigarra e a formiga) Do homônimo latino. quando Hitler subiu ao poder. dizendo antes o que irá acontecer depois ou vice-versa. com predominância do estrato óptico e gráfico do poema. em que ele mostra “a dança do intelecto entre as palavras”. onde ensina que contra a força não há argumento. Autodidata. em oposição à “trama”. fala-se de nível “fabular” quando são analisadas as ações de uma narrativa na sua ordem cronológica. Deixou-nos uma vasta obra poética e brilhantes ensaios de crítica literária. portanto. conhecedor de muitos idiomas ocidentais e orientais. Lasar Segall. intriga ou entrecho. traduziu livremente poemas de Catulo. I d. Mas é preciso distinguir a fábula como elemento estrutural de uma narrativa e a fábula como gênero literário à parte. EZRA Pound (poeta norte-americano) “A dança do intelecto entre as palavras” Escritor de ideologia conservadora. A fábula seria a história na sua ordem cronológica. apresentando no final uma lição de ética comportamental (“moral da fábula”). virão me atormentar”! Viva. Sua poesia está recolhida em dois volumes: Personae e Cantos. figurativismo e intelectualização: essas três características da poética de Pound influenciaram fortemente quase todos os poetas posteriores a ele. pois não sabemos quase nada sobre o local e a data de seu nascimento. Neste sentido. o estudo semântico da poesia. cujos personagens são animais. inventara a fábula da raposa e o ouriço (mamífero roedor e espinhoso): o animalzinho perguntou à raposa se podia ajudá-la a remover as pulgas que estavam infestando seu corpo. para defender um político corrupto. a palavra “mito” ou fábula foi usada pelos Formalistas russos. Ele enriqueceu a poesia latina com o gênero novo. enquanto a trama é a história na sua ordem artística. Eis o resumo: um lobo estava tomando água num rio.C. FÁBULA (história ficcional. e a raposa respondeu: “não”. No Brasil. antigos e modernos.

. Com efeito. representada com os olhos vendados e segurando um timão na mão. retrucou o lobo. Na “versão moderna”. a que "cortava” o fio. simboliza a necessidade da manutenção da ordem do universo. Embora tenha alterado ou enriquecido substancialmente os argumentos e o espírito das fábulas que retomou de Esopo e de Fedro. em grego). a sorte (Tiké. o Fado era concebido pelos gregos antigos como filho da Noite. La Fontaine torna bem explícita a intenção com que escrevera tais estórias. de George Orwell. quando a vida devia chegar ao fim. enquanto outros sofrem com frio e fome. sono. por não poder atacá-lo com braço de Hércules. As fábulas do autor francês são textos alegóricos. No Prefácio de sua primeira coletânea das Fábulas. o mundo correria o risco de voltar para o Caos .disse o cordeiro--. gerada pelo Caos (Terra). desequilíbrios e injustiças de sua época. entendido pelos gregos como uma força cósmica. figura mitológica)Determinismo Do latim fatum (correspondente à moira grega). construindo a sua casa e armazenando mantimentos para agüentar o frio inverno europeu. que deu origem aos termos fado. mas não no sofrimento do trabalho para conseguílos. Chegada a neve. Uma moral nua provoca o tédio: o conto faz passar o preceito com ele. É sempre assim: exige-se a igualdade no gozo dos bens. Na década de 1940. é mais opressor do que primeiro. mas a todos os virtuais leitores: "Sirvo-me de animais para instruir os homens.. vivendo numa boa. a que "fixava" o tamanho do fio. Nessa espécie de fingimento. comandado pelos próprios bichos. a que "tecia" o fio da vida de cada homem. miséria.se eu ainda não tinha nascido?” “Então foi seu pai que me ofendeu”! Dito isso avançou no cordeiro e o comeu. na prática. divindade primordial. que popularizou esse gênero literário na Idade Moderna. fada. que denunciavam misérias. Outra auxiliar importante do Fado era a “Fortuna”. de varias divindades representativas do mundo do mistério: morte (Tânatos). destinadas não apenas ao filho do Rei e às crianças da corte da França. então pergunta: “O que você fez durante o verão?” “Eu cantei”. sonhos (Hipnos). Láquesis. me parece coisa de pouca monta". símbolo do acaso que dirige a vida humana. durante todo o verão. fatal. é preciso instruir e agradar. O Destino tinha como divindades auxiliares as três “parcas” (moiras): Cloto. discórdia. “Então agora dança”. teve muito sucesso a obra A Revolução dos Bichos. Algumas vezes oponho. e Á tropos. parcas. superior à vontade dos deuses e dos homens. quando recebe a visita da cigarra enregelada. La Fontaine não tocou no caráter ou na simbologia que seus antecessores atribuíram aos animais. a tolice ao bom senso. retruca a formiga. a cigarra. enquanto a cigarra caçoa dela. A fábula mais conhecida de sua autoria é a da Formiga e da Cigarra: a formiga trabalha arduamente. pedindo abrigo. pois contar por contar. a formiga está confortavelmente instalada no seu buraquinho e bem alimentada.125 “Como é possível isso? ---respondeu o cordeiro---se a água desce de você para mim?” “Mas o ano passado você falou mal de mim”. responde a cigarra. através de uma dupla imagem. FADO (Destino. velhice. pretendendo saber por que razão é permitido à formiga estar bem aquecida e alimentada. Mais célebres são as Fábulas do poeta francês Jean de La Fontaine (1621-1695). que retoma o gênero fabulístico: animais oprimidos pelo dono da Granja do Solar derrubam o governo e implantam um novo sistema. engano. convoca uma conferência de imprensa para denunciar a situação em que vive. Procuro tornar o vício ridículo. debaixo de um calor arrasador. Mas o novo governo. fatídico. reclamando seus direitos mas esquecendo-se de seus deveres. O Destino. e mãe. A cigarra. por partenogênese. “Como pode ser? --. se as vontades individuais pudessem sobrepor-se aos desígnios do Fado. o vício à virtude.

Se. pois um outro habita nele. chamamos fantástica uma obra de arte literária. do hipnotismo. regresso de pessoas do outro mundo. até um sagaz detetive não solucionar o enigma: o assassino fora um orangotango que trepara pelo muro externo da casa e alcançara a janela do quarto. segundo ele. a intervenção sobrenatural causa terrores imaginários no seio do mundo real. A narrativa coloca o leitor perante o mistério. da loucura e dos efeitos das drogas. o criador desse gênero narrativo. estaríamos perante o gênero que Todorov chama de “estranho” . O Olimpo dos gregos. que foge às leis normais da natureza física e da razão humana. assim como idealizado por Edgar Allan Poe. A este pode ser associado o motivo da dupla personalidade. FANATISMO (intolerância e violência)Religião FANTÁSTICO (Bruxaria e magia: gênero literário)Kafka “No creo en las brujas. Ao primeiro tipo pertence o maravilhoso “cor-de-rosa”. o discípulo de Freud. que se sobrepõem à atividade racional. tudo o que infringe o sistema coerente estabelecido pela estrutura cósmica e pela razão humana. Caso típico é o conto policial. que nos obriga à prática da racionalidade. Pelo segundo tipo de fantástico. as alterações do princípio da causalidade: bilocaçoes. dos “anjos-da-guarda”. enfim. fantástico é o que é apenas imaginado. for apresentada uma explicação racional do fenômeno extraordinário.126 inicial. o homem é súcubo da sedução da imortalidade. sem nenhuma justificação. um personagem ou o leitor virtual é tomado por um sentimento de medo. A esse gênero Todorov chama de “maravilhoso”. Assim. De um modo geral. assim define o fantástico: “uma hesitação entre o estranho e o maravilhoso”. entendendo o estranho como o sobrenatural “explicado” e o maravilhoso como o sobrenatural apenas aceito. no sobrenatural. No conto.) diz respeito ao tema da posse: o homem já não é livre. fatores capazes de libertar as forças do instinto. criadas pela fantasia. assim como credos indígenas. o que parece inexplicável. o olho. duas mulheres. o imaginário que nos protege: o mundo das fadas. O vampiro expressa o medo da morte e o desejo do não-envelhicimento: sugando o sangue (considerado a essência da vida) dos outros homens e praticando uma sexualidade sem limites. Temas e personagens da literatura fantástica podem ser relacionados com os arquétipos de que fala Jung.. Em face de um acontecimento extraordinário. de horror ou de simples curiosidade. Mas. seu conceito aproximando-se do sentido de “ficção”. teatral ou pictórica. por força de um regresso à selvageria anti-social: a fera é o aspecto do ser humano que se recusa a participar do convívio comunitário. O fenômeno do sparagmos (dilacerações. Os crimes da rua Morgue. pero que las hay. o motivo do lobisomem (licantropia) é visto como uma doença mental em que o enfermo se julga transformado em lobo ou num outro animal cruel (aranha. o Paraíso dos cristãos ou dos maometanos. partes separadas do corpo: a mão. atravessar paredes. da bondade. são construções ideológicas. que transcende o real. Tzvetan Todorov. na magia. etc. não existindo na realidade. cujas portas e janelas estão fechadas pelo lado de dentro. baseando-se no sonho. Já o sobrenatural propriamente dito dá-se quando o fato extraordinário não apresenta nenhuma explicação racional e só pode ser admitido pela fé na religião e na magia. pois as circunstâncias dos crimes não fazem entrever nenhuma solução possível. no seu livro Introdução à literatura fantástica . imaginando a existência de um mundo superior (ou inferior) ao da nossa experiência sensorial. Podemos distinguir um fantástico eufórico ou feérico (apolíneo) de um fantástico disfórico. las hay” (Ditado espanhol) Da palavra grega phantasma. aterrorizante (dionisíaco). por exemplo. especificamente. Outros motivos fantásticos são a inversão do visível e do invisível: a alma se torna visível (espectros dos mortos) e o corpo invisível (casas assombradas). O fantástico. pois ficcionais. que significa “visagem”. do id freudiano. que se fechara ao animal fugir. fala por sua boca. mãe e filha. são encontradas selvagemente mutiladas dentro de um quarto. Os poemas épicos e a poesia dramática da literatura greco-romana encontram beleza artística e riqueza de sentido na luta inglória da vontade humana contra a predestinação do Fado. das divindades benfazejas. estaria numa . da justiça. Fantásticas são todas as formas de religiosidade que admitem a transcendência da realidade material. age por suas mãos. todas as formas de religião e de arte são fantásticas. sendo o devaneio. a fantasia. no decorrer do enredo. urso). no terror ou na ficção científica.

Como gênero literário e teatral à parte. tendo como finalidade comum provocar o riso fácil de um público que quer apenas se divertir. com o gênero mimético pelas imitações ridículas. indicando as canções e as histórias contadas nas ruas urbanas por menestréis ou jovens apaixonados. conto do escritor moderno Franz Kafka. fascinando leitores e expectadores com a série de Harry Potter. em seu bojo. era uma peça em prosa coloquial. personificação do sarcasmo e da atividade crítica. pode estar relacionada com o gênero burlesco pelo uso da paródia. ao acordar de manhã. A escritora britânica contemporânea J. Proibidos de serem representados nas cidades. ela teve um certo sucesso no início da Renascença quando. de magia e bruxaria. recuperando a forma humana pela intervenção da deusa Ísis. podemos comparar duas famosas obras literárias que tratam do mesmo tema: As Metamorfoses (romance vulgarmente conhecido com o título “O Asno de Ouro”) do poeta latino Apuleio e a Metamorfose. assim. representação teatral do barroco francês. ao passo que Gregor Samsa. a farsa utiliza enredos e personagens estereotipados: a troca de filhos gêmeos. estejam as representações miméticas da Magna Grécia que remontam ao século V a. com o gênero mômico pelo recurso às máscaras e.Rowling varreu o planeta com suas histórias fantásticas. com o gênero cômico por ser uma espécie de filha bastarda da comédia. nome de uma divindade grega. meio e fim. desbragada. apresentava a vitória final do vilão esperto sobre o bonzinho estúpido. O assunto de ambas é fantástico. cheio de várias coisas. a risada irrefletida. sua finalidade é despertar o ridículo. em que o espetáculo cênico adquire aspectos circenses pela mistura de danças cantos e piruetas. apresentando uma gama de variações. consistia nos gestos obscenos. em que a comicidade. a moça ingênua. Na arte teatral. os valores ideológicos em prol da afirmação da praxe realista. de caráter licencioso e irreverente. Momo. de cabelo assanhado e com uma estranha cicatriz em forma de raio na testa. passou a funcionar apenas como “Intermezzo”. assim como o vaudeville e o music-hall norte-americano. repentinamente. O mimo. Para entendermos melhor a diferença entre os vários tipos de fantásticos. FARSA (forma teatral: Mimo. não são muito diferentes do “teatro de variedades”. o termo momo passou a significar a máscara ou o ator mascarado e. o amante no armário. Estruturalmente. Relacionado com o mimo está o momo. Portanto. a farsa aproxima o cômico do burlesco pelo exagero do ridículo e pela paródia de coisas sérias. que vai do estranho puro ao maravilhoso puro. percebe que está transformado num inseto hediondo sem saber como e porque se deu a metamorfose. Enfim. em oposição às encenações religiosas dos mistérios da fé cristã. Dos livros para a tela do cinema o passo foi fácil. o princípio clássico da verossimilhança não é respeitado. Ela contém todos os ingredientes da comédia. mais do que nos rápidos diálogos. de onde vem “farto”. a farsa das penínsulas ibérica e italiana. e se confundiu com o Vaudeville. a interpretação só pode ser simbólica.127 hesitação entre o estranho e o maravilhoso. Na literatura contemporânea. o pai severo etc. Mas a farsa não teve longa vida como peça teatral autônoma. pois Lúcio foi metamorfoseado em asno pelas artes mágicas de uma feiticeira. evidentemente. Do latim farcire (rechear). no começo da Renascença. caracterizada pelo uso das máscaras. em oposição ao teatro moralizante da Idade Média. em seguida. passando pelo fantástico-estranho e pelo fantástico-maravilhoso. os mimos medievais passaram a ser encenados nas feiras livres por companhias ambulantes. A farsa originou-se na Idade Média francesa como representação laica divertida. A obra de Apuleio narra a transformação do protagonista Lúcio em Asno. o protagonista do conto kafkiano. Talvez. portanto. Um bom exemplo é a Farce de Mâitre Pathelin. o reconhecimento surpreendente da verdadeira identidade. revertendo. que em grego significa "imitação" (Mimese).K. pois visa apenas provocar o riso escrachado. com algumas peculiaridades: o assunto é episódico. predomina a ação sobre o diálogo e o caráter das personagens. o fantástico aparece freqüentemente sob a forma de ficção científica. centrado mais sobre quadros da vida real do que sobre um enredo com início. Vaudeville)Mimese A farsa está para a comédia como o melodrama para a tragédia. entreatos. tendo como destinatário a grande massa popular.C. Com o tempo. a alcoviteira. centradas na figura do menino Harry Potter. A etimologia da palavra “vaudeville” é incerta: talvez derive de voix (voz) de villes (cidades). a de Kafka a transformação de um homem em Barata. A farsa. só que no primeiro caso estamos perante um estranho explicado. uma atividade dramática especifica. . apenas como escape.

O Diabo. William Faulkner (1897. Mas foi com o poema dramático de Goethe que a figura de Fausto se tornou mundialmente famosa. através de um longo solilóquio. quando ainda tentou retocar a obra já várias vezes publicada. a fonte das posteriores obras científicas e literárias sobre esse personagem.) a miséria e a degradação do homem do sul dos Estados Unidos (região do Mississipi). Tente ser melhor do que você mesmo. Em 1808. posteriormente chamado de Urfaust (O primeiro Fausto) para distingui-lo de O Segundo Fausto. milagreiro e charlatão.128 FASCISMO (período de ditadura na Itália) Mussolini FAULKNER (romancista norte-americano) Sempre sonhe e mire mais longe do que espera alcançar. As famílias tradicionais e abastadas são arruinadas pela abolição da escravidão e com elas a desgraça atinge as povoações dos brancos e dos negros. As raízes do mal são encontradas no trabalho escravo que afastara o homem branco do contato com a natureza. “Fausto e Wagner” etc. conseguirá a “Luz Divina”. apesar da homonímia. onde Fausto. humanista. Desta primeira peça apresentamos um resumo da fábula e uma tentaiva de interpretação. se queixa da inutilidade do saber humano: . isto é. um mês antes de sua morte. num quarto com decoração gótica. na véspera da Páscoa. por várias gerações. com o intuito de penetrar a camada mais íntima do ser humano. O Senhor diz a Mefistófeles que logo o jovem devoto Fausto. quando. a sua singular personalidade foi envolta por lendas. luxurioso e homossexual. “Prólogo no teatro” e “Prólogo no céu”) e de vinte e seis cenários. através de narradores diferentes. Logo após sua morte. O drama é composto de uma parte introdutória (“Dedicatória”.1962) descreve em suas obras ficcionais (O som e a fúria. como se fossem pequenos capítulos (“Noite”. especialmente as relacionadas com um pacto que o Doutor Fausto teria estabelecido com o Demônio (Satã). A aldeia. são condenados a pagarem pelos pecados cometidos pelos pais. Para vencê-la. a ruína dele será fatal. saiu publicado O livro de Fausto.). A trama começa com uma cena. O Senhor aceita o desafio: Ora seja! Permito a dura experiência! Vê se afastá-lo tentas da divina origem. A temática preferida de Faulkner é a indagação sobre a natureza do mal e sua expiação. sua fantasia entrou em contacto com a figura lendária de Fausto. citando alguns trechos da tradução de Sílvio Meira. Os filhos e os filhos dos filhos. publicada em 1832. cada qual com um título. . não me importa morrer! Assim fico liberto! (Fausto ao diabo Mefistófeles) O Doutor Fausto foi uma figura que existiu no mundo real tendo vivido na Alemanha entre 1480 e 1540. Sua peculiaridade estilística é a plurifocalização: ações e personagens são vistas por várias perspectivas. No prólogo encontramos o que na poesia épica se chama de “proposição”. com ele estabelecendo o famoso pacto da troca da alma pelos bens materiais. desde a juventude. a proposta do assunto da obra. audacioso aventureiro. O primeiro Fausto é a obra mais conhecida. Não se importe apenas em ser o melhor que seus contemporâneos ou predecessores. praticante de alquimia e de magia. Em verdade. “Em frente à porta da cidade”. saiu a primeira edição do drama Fausto. até os últimos meses de sua vida. O poeta alemão trabalhou a vida inteira nas sucessivas elaborações do protagonista do seu drama. mais representada e a que melhor encarna os ideais do Sturm und Drang. o manifesto da estética romântica. pelas suas qualidades intelectuais e espirituais. Foi qualificado por historiadores como um pseudomédico. Réquiem por uma prostituta etc. Já em 1587. o Diabo irá seduzir Fausto na terra. AbsalãoAbsalão. FAUSTO (o pacto com o Diabo)Goethe Se estiver com lazer num leito de delícias. que lhe resolverá todas as dúvidas. a última obra do poeta. causadas pela Guerra da Secessão. então. seguro está do rumo a percorrer na vida. Se me dás permissão de levá-lo comigo e de traçar-lhe a sina. Está feita a aposta entre O Senhor e Mefistófeles. desafia Deus: Que queres apostar? Perdê-lo-ás. O Segundo Fausto é um drama bem diferente do primeiro pelo assunto e pelo sentido. pela primeira vez.

Fausto decide dedicar-se ao estudo da magia. Numa outra cena. pois é pura. após ter emprestado sua longa beca a Mefistófeles. a tudo investiguei com esforço e disciplina. Mefistófeles explica ao discípulo que sobre uma tal criatura o diabo não tem poderes. sente eflúvios inebriar-lhe o corpo e calorosamente invoca o Espírito. que seja para mim o meu último dia! Quero firmar o acordo. Seguem-se as cenas da Adega de Auerbach e da Tenda da Feiticeira. Seria bem melhor se nada fosse criado. sugerindo-lhe um curso de medicina. pessoa de que ela não gosta. Mas a jovem recusa a corte do protagonista. ou também “destruição” ou simplesmente “o Mal” constitui meu elemento eleito e natural. enfim. Reflete sobre a passagem do Gênese “No princípio era o Verbo”. por Ação. após vários galanteios. adquirindo um aspecto monstruoso. e corrige Verbo por Inteligência. O diálogo entre Fausto e o Espírito é interrompido pela entrada em cena do discípulo Wagner. Fausto descobre o sinal do Gênio do Universo e o sinal do Espírito da Terra. Margarida não resiste ao fascínio de um presente encontrado no seu armário: um cofre cheio de jóias preciosas. É preciso. então. já rejuvenescido por um elixir da bruxa. tão sábio e tão instruído quanto fora outrora! Como se vê. e assim me encontro eu. Por isso. transformando-se numa nuvem negra e depois num estudante andarilho. honesta e religiosa. escrita ao redor de 1550. abre o livro de Nostradamus. Fausto reprocha-lhe a interrupção de suas meditações e. Goethe retoma o tema bíblico da vanitas vanitatum e o adágio socrático de que o verdadeiro sábio é aquele que tem consciência de não saber nada. Esta. pressentindo algum dano. Fausto. É bom salientar também que a característica principal da personagem Fausto apresenta fortes traços de semelhança com a biografia do histórico Fausto e do próprio Goethe. Na cena do Jardim de Marta. sente-se um ser desprezível e é tentado a tomar o veneno contido numa ânfora antiga. tudo aquilo a que chamas pecado. a filosofia e a teologia. ficando outra vez só. que lhe se torna visível. mocinha de quinze anos. numa outra cena que se passa no seu pobre aposento. Nos três perfis psicológicos encontramos a ansiosa aplicação ao estudo de matérias biológicas e humanísticas e a conseqüente frustração. Batem à porta. então. doçuras a sentir. e coros de anjos. O diabo descarta o direito. Continua o diálogo entre os dois. Fausto. pede conselhos sobre a profissão a seguir. ter paciência e armar todo um plano de sedução. .129 Estudei com ardor tanta filosofia. Entusiasmado. Fausto sai. mas o cachorro começa a inchar-se. recolhe-se ao seu escritório. culminando com o estabelecimento do pacto. Entra um estudante que. e infelizmente até muita teologia. em que se encarna o diabo Mefistófeles. pensando Mefistófeles ser Fausto. seguido de um estranho cachorro. acontece a primeira troca de beijos ardorosos entre Fausto e Margarida. profissão essa que lhe dará mais oportunidade para satisfazer o vício da luxúria. que deseja conversar com o mestre e dele receber lições de vida. não me importa morrer! Assim fico liberto! Se podes me enganar com coisas deliciosas. Folheando o livro. Fausto: Se estiver com lazer num leito de delícias. Na cena do jardim. depois por Força e. direito e medicina. uma sua amiga. prazeres! alegria! Se podes me encantar com coisas saborosas. Invocando ardorosamente a lua cheia. agora. através de um solilóquio. vê passar na rua a belíssima Margarida. Segue-se um longo diálogo entre Fausto e Mefistófeles. A ele confidencia suas angústias e aspirações. a obra da Criação Caminha com vagar para a destruição. Margarida reprova Fausto pela sua incredulidade e se queixa da assídua presença de Mefistófeles. Irritado com os latidos do cão. tenta expulsá-lo do seu gabinete. qual pobre tolo. Mas o tocar dos sinos anuncia a festa da Ressurreição de Cristo. autor florentino famoso pela sua obra profética Centúrias. revela a forte paixão que lhe tirou a paz de espírito. de mulheres e de discípulos entram no seu quarto cantando hinos de aleluia. de noite. Este assim se define: Eu sou aquele Gênio que nega e que destrói! E o faço com razão. Fausto. Para superar este estado de insatisfação. e fulminantemente se apaixona por ela.

Mas. A cena seguinte. canta trechos de liturgia fúnebre em latim. Como temos visto. ligados à história encaixante por um nexo muito frouxo (“Adega de Auerbach”. reprova a conduta indecorosa da irmã. Fausto percebe um rosto pálido. o soldado Valentim. Enfim. cujos sons parecem cantos. ou o espectador. pois o dia se aproxima e seus corcéis não cavalgam à luz do sol. deixa supor uma longa extensão: Fausto leva quinze dias para fazer a corte a Margarida. Ela chega até delinear a localização de seu túmulo. é um interlúdio lírico.. causada pelo remorso da sua relação pecaminosa. coincidindo com as festas pagãs pelo início da primavera. onde se vê Margarida acorrentada. fica. penso eu. pois viera para salvá-la. intima os dois a saírem. um ministro. Os dois amigos. Falta-lhe a luz da vida. que fazem do Fausto a tragédia mais representativa da estética e da ideologia do Romantismo. Fausto suplica à amante a acompanhá-lo fora da prisão. rompendo definitivamente com as regras da dramaturgia clássica. Em frente à casa da jovem. com a ajuda do Diabo. Pede a Fausto para ser sepultada perto da mãe e do irmão com o nenê no peito. Esta seria a causa da prisão e do seu temor de ser justiçada. Valburga é o nome de uma santa muito popular. que lhe parece ser o de Margarida: Os olhos. O cenário seguinte representa a cela de uma prisão. iluminados por um fogo-fátuo. O soldado os ataca e Fausto. são de alguém que morre. Desta última. na noite de 30 de abril. o gênio do ar. em ambientes dos mais fechados (quartos e celas) aos mais abertos (montanhas e planícies). antes de morrer. Margarida é tomada por um forte sentimento de culpa. custando a reconhecer o próprio amante Fausto. A morte espreita. embora indefinido. figuras da mitologia nórdica. um general. aquela que outrora fora um exemplo de virtude e agora seu nome está na boca do povo por ter-se tornada amásia de Fausto. Dialogam sobre as belezas da paisagem. Cai o pano. um novo-rico. encontram bruxas que cantam em coros. de outro lado. Este entra em cena junto com Mefistófeles. Não teve uma só mão carinhosa a cerrá-los. nele repousei. manifesta sua dor pela desonra da irmã. No meio de estranhas visões. Fausto e Mefistófeles desaparecem. Fausto afirma que seu crime não é mais que pura fantasia. admirando as montanhas verdejantes e os lindos rios. aparece o mesmo personagem Ariel. A presença de quadros líricos e folclóricos também prejudica a intensidade dramática. os fatos acontecem em vários lugares diferentes. fere mortalmente Valentim. “Noite de Valburga”). O leitor. nesta noite misteriosa os demônios e as feiticeiras se amavam nas montanhas. “Floresta e caverna”. O coro. é atroz abandonar-te Quisera acompanhar-te! Mefistófeles. O tema do episódio é a festa das bodas de ouro de Oberon e Titânia. Vozes vindo do Alto anunciam que ela está salva. Vais embora? Oh Henrique. intitulada “Sonho da noite de Valburga”. escura! Vem para a Eternidade E nenhum passo adiante.. que teve a finalidade de facilitar a compreensão do conteúdo fabular da complexa peça goetheana.130 aconselha a namorada a ministrar um soporífero a sua mãe para poder passar a noite com ela no seu quarto. passamos a apontar alguns aspectos estilísticos e semânticos. Segundo a lenda. Mas Margarida se recusa a sair do cárcere: Lá fora é a sepultura. esta tem um filho do seu amante. deu-mos Margarida. sente falta de ar e cai desfalecida. cujos festejos se realizavam no dia primeiro de maio. sem saber se a culpa de Margarida é real ou imaginária. Após essa breve reconstrução do enredo. A jovem está num estado de alucinação. Durante a longa caminhada rumo ao monte Brock. Fausto e Mefistófeles. Pela sua fala aloucada. Acorrem Marta e Margarida e o soldado. A peça não apresenta unidade de ação. O tempo de duração das ações. suplicando pela salvação da sua alma. nem de lugar. de noite. pela riqueza e multiplicidade dos cenários e pela complexidade e diluição . nem de tempo. ao som do órgão. lugar da festa. aparecendo do lado de fora. Margarida sente horror à presença do Diabo e prefere entregar-se à Justiça de Deus. ficamos sabendo que ela matara a mãe e o seu filhinho. Reconheço esses seios. irmão de Margarida. Na cena da Catedral. “A noite de Valpurga” é um cenário que apresenta uma montanha da Alemanha. andam por caminhos íngremes. Reconheço o seu corpo. A ação principal do drama (o pacto entre Fausto e Mefistófeles e a conseqüente conquista do amor de Guida) é interrompida por vários episódios secundários. uma jovem de nome Bela. inspirado em duas peças de Shakespeare: Sonho de uma noite de verão e A tempestade. um autor de livros. portanto.

a Dança moderna (Fedra. com a interpretação de Sophia Loren e Antony Perkins nos papéis principais. a medicina. sendo rejeitada pelo seu subordinado Tom Sanders. tudo é apresentado pelo seu lado negativo. pelo neoclássico Racine. A renúncia à alma imortal em troca de bens materiais só poderia resultar numa degradação. com o nome simples de Desejo) pelo diretor Delbert Mann. passa a transferir para outros gêneros literários a sua função de representar a vida humana em toda a sua complexidade. desprezava a paixão amorosa. não prestando culto a Afrodite ( Vênus). inspirado nos dois mitos gregos. Só que o processo se desenvolve pelo modo irônico: chegar a Deus pela ajuda do Demônio. ser feliz renunciando à própria alma. vários dramaturgos elaboraram peças. conquistar um amor angelical mediante trapaças diabólicas. modalidade do conhecimento)Formalismo . na tentativa de se igualar à divindade. O moço. quando Fedra lhe revelou o ardente desejo sexual. tenta destruir a carreira do colega fiel à sua esposa. esposa do herói Teseu) Como Ariadne. movendo contra ele um processo por assédio sexual. para punir a arrogância de Hipólito.a jovem esposa se apaixona pelo enteado e mata o próprio filho. O velho herói pediu ao deus Netuno que castigasse seu filho pelo grave pecado cometido. ora focalizando a arrogância de Hipólito. Titãs. chegamos a moderno Eugène O’Neill: sua peça. o amante de Margarida e o amigo de Mefistófeles. e. o amor. é Assédio Sexual.131 das ações. A partir do mito sobre o triângulo amoroso Perseu/Fedra/Hipólito. a religião. insatisfeito com a sua condição de mortal. a virgem Diana. personificado em Margarida com seu sonho do primeiro amor virginal. invertendo. que é a representação da frustração da humanidade na sua busca de um ideal impossível. ora o drama da fraqueza humana de Fedra. destacando Hugo. Dos clássicos Sófocles e Eurípides. que deveria restringir-se a focalizar apenas um problema existencial. o Fausto de Goethe nos dá a impressão de estarmos mais diante de um poema épico do que de uma peça dramática. por vingança. a Televisão (a novela “O Clone” da TV Globo). está Fausto. como a irmã. dizendo que nunca trairia a confiança do pai. de Martha Graham. ora recorrendo ao arquétipo psicanalítico da paixão incestuosa. A mistura do sublime e do grotesco envolve o tratamento do próprio tema central do Fausto. símbolo da sedução e do encanto dos desejos carnais. Tolstoi. É que a epopéia. filho da amazona Antíopa e devotado à deusa da caça. nasceu de Minos. A insatisfação do homem com a sua condição de ser contingente. FEDRA (Personagem mítica e trágica. Guimarães Rosa. Desire unter the elms. a personagem Fedra inspira o Teatro da Ópera (a homônima tragédia coreográfica de Jean Cocteau: Paris. Outro filme famoso e mais recente (1994). misturando o mito de Fedra com o de Medeia. em 1962). de 1994. Outro aspecto romântico da dramaturgia de Goethe é a sua linguagem extremamente variada. nunca num melhoramento. Atraído pelas duas visões de vida contrárias. FENOMELOGIA (corrente filosófica. tinha um filho jovem e bonito. Da cólera à vingança foi um breve passo: Fedra. quando se sente rejeitada. criou mitos belíssimos na cultura ocidental. puro. A ciência. em 1958. já velho. A deusa. Prometeu. assim. casou com o herói argonauta Teseu. são idealizações de revolta do homem contra as leis do Universo. vítima de sua paixão desenfreada. acusa o enteado do crime que o rapaz não quisera cometer. por uma carta. de Mefistófeles. recorre a qualquer meio para realizar seu sonho de atingir a eternidade. ridículo ou irônico. e de Parsífae. quando este. Daí a conseqüência trágica da loucura de Margarida. então. acusando-o daquilo que ele não quisera fazer. na medida em que vai deixando de ser produzida como gênero à parte. o grande herói Teseu. rei de Creta. foi convertida no filme homônimo (no Brasil. a amizade. o governo. O personagem Fausto de Goethe é a versão romântica da utopia do homem que. Joyce. Ícaro. nascido para a morte. 1950). Aspectos épicos podem ser encontrados também em obras de outros autores românticos. os papéis de sedutora à vítima seduzida. Hipólito a repudiou. que do mais alto lirismo desce até expressões tão vulgares a ponto de palavras e gestos deverem ser eliminados em edições ou representações para jovens. Hipólito é executado e Fedra se enforca. Além do Cinema. E. Também aqui. tendo aspirações infinitas e realizações efêmeras. símbolo da alma romântica constantemente balançando entre o ideal do sonho e o grotesco da vida real. e do mundo diabólico. fez com que a madrasta se apaixonasse perdidamente pelo lindo enteado. realistas ou modernistas. A irreverência de Mefistófeles se traduz numa crítica mordaz contra todas as classes sociais e atividades humanas. sinistro. dirigido por Barry Levinson e estrelado por Michael Douglas e Demi Moore: a bela executiva Meredith Johnson. Hipólito. Talvez a beleza desta peça de Goethe esteja mesmo na representação do mundo angelical.

uma forma homogênea. isto é. está pensando” Fernando Pessoa (1888-1935) tornou-se imortal não apenas pela beleza de seus versos e pela acuidade de seus pensamentos críticos sobre a vida e sobre a arte literária. de algum modo. em grego. O pai da fenomenologia foi o filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938). A consciência intencional é o elemento invariável do saber.132 Phainomenon. junto com cada nome. mas especialmente por ter inventado personalidades poéticas distintas de si próprio. precisei sentir tudo. estão ligados à fenomenologia: Jean-Paul Sartre e Marleau-Ponty. afastando de si as influências de qualquer tradição literária. pois o texto é percebido pelos sentidos e pela consciência. definida por Hegel (Fenomenologia do Espírito) como “a ciência da experiência que faz a consciência”. um nome imaginário a quem é atribuída a autoria de coletâneas de poesias. que significa “nome falso” de uma mesma pessoa. Transbordei. etimologicamente. que estavam confusas no seu espírito: Multipliquei-me. FERNANDO Pessoa (o inventor dos “heterônimos”) “O que em mim sente. portanto. aos fenômenos da natureza. de qualquer modelo de análise preestabelecido. pois é ela que confere unidade à série dos sucessivos esboços apresentados pelos fenômenos exteriores. Para me sentir. entreguei-me. A heteronímia é. Outros críticos literários que. a estrutura dos objetos e dos acontecimentos. O crítico fenomenológico aproxima-se da obra com mente pura. todo conhecimento está na consciência que vê e analisa as coisas da vida. A abordagem fenomenológica do texto ou do objeto artístico é uma variante da análise “interna” de uma obra. quer dizer: é o estudo do fenômeno que nos dá o conhecimento. literalmente. mas criou. autodefinindo-se “um novelo embrulhado para o lado de dentro”. portanto.. “fingimento”: “pessoa” vem de persona. É preciso não confundir “heterônimo” com “pseudônimo”.. considerada como um “fenômeno”. Os heterônimos foram concebidos como seres diferentes de seu autor. a Ricardo Reis. filosóficas e artísticas. cosmovisão e tendências literárias próprias. fônico. de qualquer autoridade crítica. significa “o que aparece”. como um todo orgânico. sintático. procura desembrulhar-se. “Heterônimo” significa. que esta estratificação só existe graças ao esforço analítico do crítico. substantivo composto pelo . pois Fernando Pessoa não se limitou a assinar seus poemas com nomes fictícios. É preciso salientar. ideológico etc. A fenomenologia é. como ela “aparece” aos olhos e à intuição do observador.. não fiz senão extravasar-me. Quebro a alma em pedaços E em pessoas diversas Essas “pessoas diversas” são os heterônimos. Ela põe em evidência o aspecto óptico. Ver tambémCrítica. porém. um caso de “desdobramento de personalidade”: da aparente unidade psíquicointelectual de Fernando Pessoa emanam e se substancializam diferentes modos de sentir o mundo e a poesia. à primeira vista. Os princípios da fenomenologia só recentemente foram aplicados ao estudo da literatura por Roman Ingarden (A obra de arte poética. Que eu quero sentir tudo De todas as maneiras. o objeto da experiência. “um modo de ver” e um “método”.. figurado. que negava o valor das teorias científicas. de qualquer pressuposição lógica sobre a constituição do objeto artístico. uma personalidade humana e poética com biografia. O enfoque fenomenológico limita-se à descrição da obra literária. O principal propósito da Fenomenologia é descrever a essência. Importante é a contribuição da Fenomenologia para a análise e a crítica literária. lexical. distinguindo-se em sua produção poemas atribuídos a Alberto Caeiro. colocando para fora de si as diversas tendências humanas. para me sentir. 1965) ligado à escola fenomenológica de Husserl. A análise fenomenológica distingue no objeto artístico vários “aspectos” ou “estratos”. ao mesmo tempo. O método consiste no modo de ver e este modo de ver constitui o método. “outro nome”. A experiência perceptiva é o fundamento de todas as operações da consciência. O poeta português. o fato natural constatado. estando próxima do Formalismo e do Estruturalismo. E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente. a Álvaro de Campos e a Fernando Pessoa ele mesmo ou “ortônimo” (= nome verdadeiro). a doutrina da aparência. segundo o étimo latino. A Fenomelogia seria. Para Husserl. apregoando o “retorno às coisas”. “máscara”. O próprio sobrenome do poeta português significa. Despi-me. Sua obra lírica leva a assinatura de vários “heterônimos”.

drama íntimo. 3) rubificação. Evidentemente. de libertar-se do sofrimento dos contrastes acumulados dentro de si. cria um tormento no espírito do poeta: daí a necessidade de quebrar “a cadeia de ser um”. A nosso ver. Baudelaire. de vários seres. e nele é difícil estabelecer limites entre realidade e fantasia. 2) albação. atribuindo-lhes a autoria das Ficções do interlúdio. para usar seu neologismo.133 prefixo per (através de) e sonun (som). Mas. entre 1903 e 1909. de desdobrar sua personalidade ou. É sabido que Fernando Pessoa. de “vozes” diferentes no mesmo ser. jogo cerebral e poético. essencialmente. entre vida e arte. para a gênese dos heterônimos concorreram vários fatores: 1) A constituição biopsíquica do poeta português. pela alquimia e pelas ciências ocultas . a doutrina e a simbologia da ordem rosa-cruziana. quer para o lado materialista de seu espírito. O processo alquímico é quádruplo: 1) putrefação. Fernando Pessoa consegue superar artisticamente esta contradição imaginando a coexistência. se familiarizou com a história. finalmente se sublimam pela expressão”. fingimento artístico. Deixam-se primeiro apodrecer as sensações. chegando a praticar a escrita automática e a comunicar-se com o mundo dos espíritos. como outros poetas de sua época (Novalis. de tendências. mesmo quando estiver fundamentada nos próprios escritos de Fernando Pessoa. os seres imaginários que diz o habitarem não são senão as várias posturas ideológicas e estéticas que ele viveu ao longo de sua vida. Enfim. com o nome de Alberto Caeiro. o estudo da astrologia levou-o a admitir a influência dos astros no destino humano. a certa altura de sua vida. em seu nome verdadeiro? Não esqueçamos que Fernando Pessoa chamou a todo verdadeiro poeta de “fingidor”. de pé e a fio. induziram certa crítica biográfica a admitir a hipótese de serem os heterônimos “cristalizações de eus superterrestres” no ser real de Fernando Pessoa. que Fernando Pessoa inventa os três heterônimos melhor acabados e mais importantes. de se “outrar”. sumariamente apontados. então. e. com o título O guardador de rebanhos. enquanto o neurótico é súcubo de suas obsessões. A criação heterônima deve ser considerada. Qualquer relação que se possa estabelecer entre a gênese dos heterônimos e a vida real do escritor português é fadada a ser uma mera conjectura. tivesse uma dificuldade grande em se relacionar afetiva e sexualmente com mulheres e procurasse no álcool a fuga da realidade. Além disso. o caráter excessivamente sensível de Fernando Pessoa contribuiu para que se ensimesmasse. Esta hipótese é insustentável. quer para a unidade humana e poética de sua personalidade. em cujo nome “escrevia cartas dele a mim mesmo”. A introversão induz à introspecção. Cada um de nós encerra dentro de si uma pluralidade de vozes. no começo do século XX. que proliferavam na Europa. Devemos acreditar nele quando. de idéias. dentro de si faculdades mediúnicas. Mas é a partir de 1914. trinta e tantos poemas. o conhecimento da alquimia fez-lhe estabelecer uma comparação entre o processo da criação poética e a atividade alquimista: “O génio é uma alquimia. depois de mortas embranquecem-se com a memória. Paralelamente. apesar da diversidade das facetas com que ele se nos apresenta. que apenas num dia (8 de março de 1914) escreveu. em seguida rubificam-se com a imaginação. cada qual indicando uma faceta peculiar de seu espírito. o artista as domina e as transforma. fazendo com que o poeta descubra. com o intuito de combater o racionalismo e o naturalismo dominantes. a distância é grande. um certo Chevalier de Pas. se atentar quer para a grande lucidez mental do poeta português. analise e dê vida própria às contradições que o habitam. Como releva Octavio Paz. cultivasse poucas amizades. A produção dos poemas em língua inglesa da juventude. dentro de si. de sentimentos. teve a intenção de profissionalizar esses conhecimentos e abrir um consultório de astrólogo. sendo conhecidos pelo público apenas através de sua voz. ano em que imagina ter andado “viajando a colher maneiras-de-sentir”. ainda. que se autodefinia “um histérico-neurastênico”. 4) sublimação. A convivência com uma tia médium levou Fernando Pessoa a participar de sessões espíritas. é atribuída ao heterônimo Alexander Search. traduzindo para a língua portuguesa livros encomendados pela Sociedade Teosófica. A nosso ver. se manifesta em Fernando Pessoa desde a infância: com apenas seis anos de idade cria o primeiro heterônimo. O fundamento psíquico da criação heterônima reside na complexidade do ser humano: o espírito é um “pseudo-simplex”. As experiências mediúnicas e os conhecimentos das ciências ocultas. que muitas vezes são contraditórios. A capacidade de sentir várias coisas ao mesmo tempo. os seis poemas da Chuva oblíqua. Fernando Pessoa “ele mesmo” não é mais real ou menos ficcional do que qualquer outro heterônimo. ficção. A coexistência de várias pessoas. por exemplo. se olhasse mais para dentro do que para fora. Descobriu. Persona era chamada a mascara que os atores do teatro grecoromano usavam para camuflar sua figura física. se interessou pelos fenômenos parapsicológicos e pelas doutrinas místicas. a unidade do eu não passando de um preconceito. independentemente de qualquer “inspiração” momentânea ou “influxo” . daí a admitir a hipótese da gênese patológica dos heterônimos. de desejos. 2) O interesse pela teosofia. Poe. em carta a Adolfo Casais Monteiro. tanto que. afirma. Yeats).

Na medida em que cada heterônimo é a encarnação de uma tendência literária. Eliot. Segundo Fernando Pessoa.S. sua conjunção e sua simbiose. então. um construtor de seus versos. O fenômeno pode ser relevado em filósofos. cria personagens com vida própria. as quatro personalidades poéticas de Fernando Pessoa: I . A análise do processo da criação poética e a preocupação crítica procedem paralelamente à construção da obra de arte. sentia-se um doublé. Pensamento e sentimento. demonstram que. constituindo-se as várias correntes humanas. citados ao acaso. pondo para fora e expressando em forma de arte os diferentes modos de ver o mundo e de sentir a poesia. XX.A. a personalidade humana não era mais considerada como algo coerente. Entra em contatos mais estritos com a literatura da Europa continental. Pirandello. A criação heterônima é fruto de longa maturação humana e poética. como se fosse duas pessoas distintas. quer porque foi expressa artisticamente de um modo todo peculiar. opera como um “artífice”. Valéry. um pouco na companhia de uma tia espírita. O “pensamento sentido” e o “sentimento pensado” enformam a matéria da poesia de Fernando Pessoa. O conhecido verso de Fernando Pessoa “ O que em mim sente. Tendo os pais regressados a África do Sul. Valèry revela que. poética e estética andam de braços dados. reputando-se o espírito como um agregado de sensações e idéias diferentes e contraditórias. cada qual estando ao centro de duas estéticas diferentes e divergentes— a clássica e a romântica —. Keats. Suas leituras preferidas são os poetas Milton. quando refletia. nos melhores poetas modernos. em seus Diálogos filosóficos afirma que. faculdades do espírito que por longo tempo foram consideradas antitéticas. Essa nova concepção da personalidade. na peça Seis Personagens em busca de um Autor. mais do que se sentir um “inspirado”. Mas é a . Fernando Pessoa fica em Lisboa. dois anos depois. no intuito de arrancar a poesia do mito do mistério e da inspiração divina (a figura da musa inspiradora é posta de escanteio) e apresentar o poético como um produto do homem para o homem. é. em seres autônomos que lutam entre si. considerando o vital como irracional e o racional antivital. Assistimos. cartas e trabalhos críticos e filosóficos em inglês. completa os estudos secundários e se familiariza com a língua e a literatura anglo-americana. porque só ele consegue despersonalizar-se. o lírico espanhol Antonio Machado inventa “os poetas apócrifos” para transformar-se em outros “eus”. de onde nunca mais sairá. 4) A intelectualização dos sentimentos: a poética moderna se diferencia da romântica pelo fato de que o poeta. o russo Evreinoff no drama O teatro da alma.Fernando Pessoa “ortônimo”: o poeta do saudosismo português A biografia de Fernando Pessoa. pela influência da filosofia existencialista. que pairava no ambiente cultural da época em que Fernando Pessoa viveu. criador e crítico de sua poesia. encontram. Maiakovski e outros poetas modernos.134 sobrenatural que possa ter tido como pessoa física. onde fica dez anos. P. Estes fatos e testemunhos. tinha a impressão de ser o autor de um diálogo entre os dois lóbulos de seu cérebro. o escritor francês Renan. a um drama vivido por vários poetas. considera as personagens como várias sub-individualidades componentes desse “pseudo-simplex” que se chama espírito. se transfere para a África do Sul. sem todavia tirar-lhe o brilho da genialidade. desdobrou-se em vários autores pela necessidade de se manter imparcial ante o desenrolar do seu pensamento dialético. dentro do mesmo indivíduo. quando procurava a solução de um problema estético. quer porque em nenhum outro escritor a despersonalização foi sentida tão fortemente. Nele. E. entre a “Inteligência” (= as forças racionais) e a “Vida” (= as forças irracionais). 3) Os antecedentes culturais: a partir do início do séc. está pensando” expressa bem esta tomada de consciência do poeta perante o ato da criação artística. que existiam dentro dele. a seguir. de que seu autor tem plena consciência. Apresentamos. Poe. pela difusão das várias correntes psicanalíticas e pelo progresso das teorias científicas sobre a relatividade. Só em Fernando Pessoa a heteronímia chegou ao ponto da “dramaticização”. monolítico e indivisível. como pessoa física. Poe. personificada por outro heterônimo. e exercendo a profissão de tradutor. escrevendo poemas. pode ser reduzida a alguns dados essenciais: nasce em Lisboa em 1888. como T. dentro do mesmo Poeta. Byron. especialmente com os simbolistas franceses e o incipiente movimento futurista. poéticas e estéticas. Fernando Pessoa. o poeta Unamuno coloca à base do sentimento trágico da vida a luta. independentes de seu criador. na época de Fernando Pessoa. ao mesmo tempo. e se diferencia da poética clássica pela atitude crítica do autor perante a gênese e o processo de sua construção artística. contraindo a mãe novas núpcias com o cônsul português em Durban. dramaturgos e poetas: Kierkegaard. o dogma antigo da personalidade una e compacta entra em crise e vários escritores procuram expressar em forma de arte a multivocidade do ser humano. o pai do Existencialismo. fica órfão de pai em 1893 e. ele funciona também como crítico da corrente divergente ou contrária. vivendo um pouco só. o poeta dramático é o melhor de todos. Em 1905 volta definitivamente para Portugal. deve ter influenciado o poeta português na criação de seus heterônimos.

os três “ismos” — Paulismo. tem como assunto poemático as conquistas ultramarinas de Portugal. que indica a não-existência. Valérie. O título do poema tem como referente extratextual um dos personagens mais famosos da mitologia grega. que tentavam uma renovação da poesia e da cultura portuguesas. do “tudo” e do “nada”. 2) “nada”. que indica uma totalidade positiva. sucessivamente inventados pelo poeta português. Fernando Pessoa. Camilo Pessanha e Teixeira de Pascoais são seus poetas preferidos. O nome é um derivado de “paul” (= “pântano”). que indica uma totalidade negativa. é preciso estabelecer a escala de valores em que o mito pode ser considerado um nada e uma outra escala de valores pela qual o mito é tudo: o mito é nada do ponto de vista da realidade histórica. refere-se ao mito do Sebastianismo. Ulisses. com várias subdivisões. publica poemas e escreve artigos de fundamentação teórica em três revistas literárias. fundamentada numa identificação de termos contrários: O mito é o nada que é tudo O sintagma evidencia uma figura retórica chamada “oxímoro”. porque é fruto da imaginação popular que inventa biografias e façanhas acerca de entes sobrenaturais que não tiveram existência real. são de pouca relevância teórica. chegou e não chegou. Na primeira estrofe. contém uma série de poesias que enaltecem os fundadores da nacionalidade portuguesa. juntamente com o Cancioneiro. fruto da atmosfera “decadente” dos ultra-românticos.135 tradição poética portuguesa que mais o atrai: Antero de Quental. o de Ulisses. a única obra publicada em vida. o tropo de sentido. sucessivamente (“Águia”. onde está inserido o poema Ulisses. Ora. cada estrofe sendo formada de quatro heptassílabos e de um verso mais curto. Mallarmé. brilhantes frutos. “Mar português”. nas pegadas dos melhores escritores da história literária de Portugal. “Orpheu” e “Presença”). A explicação do título “Ulisses” é indispensável para a compreensão do poema por um motivo muito peculiar: quando o ciclope Polifemo. de quatro sílabas. a terceira parte. que é um Saudosismo intelectualizado. A partir de Antero de Quental. “Brasão”. ocupa uma pequena importância no itinerário estético de Fernando Pessoa. A segunda estrofe refere-se à ação de um mito específico. em que predomina o sentimento do vago e do sutil. em relação ao sujeito da oração. nome que se encontra na capa da primeira edição da obra Mensagem. porque nenhum povo pode viver sem crenças que lhe expliquem a causa dos fenômenos e lhe determinem o comportamento a seguir. o “Paulismo”. contém a produção poética de Fernando Pessoa ‘‘ele mesmo’’ e expressa sua faceta lírico-patriótico-saudosista. procura motivar o ressurgimento das letras e da civilização portuguesas com base na grandiosidade do passado político e literário de Portugal. recolhendo as aspirações dos poetas que o precederam. O poema é composto de três pentásticos. Sem o conhecimento deste mito é impossível entender este texto de Fernando Pessoa. “O encoberto”. Rimbaud) e o segundo. Sua inovação realmente original em matéria de teoria estética e que deu. que indica a existência. o mito é tudo do ponto de vista espiritual. que chega na costa atlântica e dá origem à cidade de Lisboa. Nesse primeiro verso temos duas formas oximóricas encadeadas: 1) “O mito é”. Verlaine. foi e não foi suficiente. Teixeira de Pascoais. Também para o entendimento do mito peculiar de Ulisses é . como podemos constatar. obra atribuída ao poeta grego Homero. Interseccionismo e Sensacionismo —. Para entendermos a figura retórica. Junto com Mário de Sá Carneiro. o poeta nos dá a sua definição do mito. A obra Mensagem foi estruturada para oferecer um painel simbólico e artístico da história das grandezas de sua terra. na mesma cidade natal. fruto da cultura autóctone. A poética de Fernando Pessoa. Para o estudo do poeta português “ele próprio”. anteriormente à criação dos heterônimos — fenômeno que começa em 1914 —está ligada visceralmente ao Simbolismo e ao Saudosismo. o poema todo está baseado na oposição dialética do “ser” e do “não-ser”. A primeira parte. o herói astuciosamente respondeu: “Meu nome é Ninguém”. para poder explicar a origem das coisas. que consiste na predicação de um termo contrário ou contraditório. cuja etimologia é Ulissipona (“a cidade de Ulisses”). e a sua predicação “o nada”. personagem da Odisséia. com rima alternada de esquema ABABA. lançando inclusive um movimento literário novo. perguntou a Ulisses qual era o seu nome. sugerindo um tipo de poesia estagnada. Morreu em 1935. Divide-se em três partes. no campo da poética. foi a criação dos heterônimos. a poesia portuguesa se caracteriza pela fuga da realidade e pelo refúgio no mundo do sonho. Os três versos medianos são formados por três oxímoros de contraditoriedade: Ulisses existiu e não existiu. relevante é o poema Ulisses. Aliás. José Régio e outros poetas exponenciais da época. o primeiro sendo movimento literário de origem francesa ( Baudelaire. Mas o Paulismo. a segunda parte. na primeira fase de sua produção. e sua predicação adjetiva “tudo”. A coletânea de poesias Mensagem. adere a esta poética.

ao Simbolismo. Alberto Caeiro. no próprio ato de negar a filosofia. a reflexão pela visão direta das coisas.. porque descreve o que vê e o que sente. expressa pelo advérbio de lugar “em baixo”. O mesmo acontece em relação à estética literária: no momento em que se opõe e critica o modo de poetar tradicional. de outro lado. O que “morre” no ser humano é a sua parte material. rítmicos e retóricos. Para além da realidade imediata não há nada. a vida humana é regida. mais do que pertencer à estrutura de sua personalidade. A matéria de sua poesia é o mundo que o circunda: árvores. ao pensamento teórico. Sua formação escolar não passou do curso primário e sua poesia pretende ser como sua vida: simples. da pobreza lexical. subjetivismo. Se quisermos atribuir um . Este heterônimo. porque a crença numa origem sobrenatural estimulou o povo português a imitar as façanhas de seu fundador. Os entes naturais são como são porque são assim. A última estrofe tem como momento ideológico a proliferação do mito: este fecunda a realidade e se espalha entre os povos. flores etc. não havendo nem possibilidade nem necessidade de modificações. não existe uma “constituição íntima das coisas”. a toda sorte de psicologismo. que nasceu em Lisboa em 1889. considerado por Fernando Pessoa como “o mestre” dos outros heterônimos e de si próprio. mas o poeta definiu o mito como um nada-tudo e portanto a vida “metade de nada” é igual à vida “metade de mito”. no próprio momento em que se confessa antifilósofo e antipoeta. Caeiro está fazendo filosofia. Fernando Pessoa apresenta Caeiro como um jovem loiro.: Eu nunca passo para além da realidade imediata. aproximando a poesia da prosa. humanitarismo. se perpetua continuamente no seio da humanidade. que funciona como contraponto às cosmovisões e às linguagens poéticas de Fernando Pessoa ortônimo e dos outros heterônimos. interiorismo. foi o primeiro alter ego a se esboçar por inteiro no espírito do poeta português. inspirada pelo contato direto e imediato com a natureza: A minha poesia é natural como levantar-se o vento Ele é o poeta da realidade objetiva. que cultivava o vago e o imaginário. Caeiro procura substituir o pensamento pelas sensações. que é perecível. espontânea. inimigo de todas as filosofias. mas viveu toda sua vida na roça. porque é uma lenda. ao Decadentismo. pela força da realidade. portanto. Sua aversão. Não me importo com as rimas. mas a visão: Eu nem sequer sou poeta: vejo. a do “versolivrismo”. o subjetivo espiritual pelo objetivo real. ele também recusa todo tipo de estética. não pode ter uma “metade”. ao Futurismo. da linguagem discursiva: Por mim escrevo a prosa dos meus versos E fico contente. e morreu tuberculoso em 1915. do polissíndeto. O órgão-guia de Alberto Caeiro não é nem o cérebro nem o coração. sol. real. além de negar a possibilidade de o homem filosofar (porque. Quer dizer. Com efeito. que exaltava o passado. que enaltecia a vida socializada e mecanizada. Evidentemente. é uma postura mental proposital. uma ao lado da outra. II -Alberto Caeiro: o poeta da natureza O heterônimo Alberto Caeiro. e da sua parte material. Na biografia imaginária traçada para este heterônimo. feito de fidelidade aos cânones métricos. A poesia de Caeiro pode ser vista como reação a quase todas as orientações filosóficas e poéticas da época: opõe-se ao Saudosismo. à poética formal e a qualquer tipo de cientificismo. de um lado. os seres humanos. Mas. “nada” sendo uma totalidade negativa. cada qual seguindo seu curso e seu destino. segundo ele. de olhos azuis e infantis. alimentada pelo mito.. Raras vezes Há duas árvores iguais. que espiritualizava a natureza. é apresentada mediante um dúplice oxímoro de contrários: “vida” x “morte” e “metade” x “nada”. aventurando-se no mar para o conhecimento e a descoberta de novos mundos. ele cria uma nova estética (especialmente por isso é considerado “o mestre”). Para Caeiro. como os elementos da natureza. A indiferença de Caeiro perante o sofrimento humano é uma denúncia da impostura dos ideais filantrópicos apregoados por cristãos e humanitaristas. sendo fator de seu progresso civilizacional. paradoxalmente. da repetição. instintiva. da aproximação de termos e conceitos opostos. visto que seus versos são gerados sob o signo da dialética e da polêmica com os cultores do pensamento especulativo.136 preciso recorrer às duas escalas de valores diferentes: Ulisses não existiu no plano histórico. longe de qualquer elucubração mental. ovelhas. se revela como um grande poeta e um exímio pensador. são imutáveis. por ser espiritual. em companhia de uma tia velha. sendo os seres e os objetos apenas fenômenos da natureza) e de proibir qualquer subjetivismo (que levaria à distorção da realidade objetiva). ao passo que o elemento mítico. mas ele existiu no plano espiritual. pela força do mito e. A oposição da parte espiritual do homem.

sem nenhuma abstração e sem a intervenção do pensamento reflexivo. se quisermos transmitir a outros a nossa experiência do mundo (e é essa a finalidade da arte). a efemeridade da juventude. mas são apenas concretizações de idéias humanas acerca do universo. seguindo os esquemas e os cânones da poética tradicional. porque universal e atemporal. Para que isso se torne possível. a imparcialidade e a imprevisibilidade da morte. É fácil perceber que. Os deuses não existem nem dentro nem fora da natureza. É evidente que esta postura estética e poética aproxima Ricardo Reis do ideal greco-romano de vida e de arte: o equilíbrio dos sentimentos. como faz Caeiro. A obra poética de Fernando Pessoa. ele propõe um classicismo acrônico e atópico: mais do que se referir a um tipo de classicismo limitado a um espaço ou a um tempo determinado. e que pode ser analisado em seus elementos constitutivos. representações tradicionais de vícios. consta de três coletâneas de poemas: O guardador de rebanhos. visto que a idéia que ele tem de Deus é imanente. o artista deve usar técnicas histórica e universalmente consagradas. Reis não se limita. válido para sempre e para qualquer lugar. a força do destino. sem deixarse dominar pelas paixões. à margem de qualquer especulação teórica. portanto. seu discípulo propõe um “panteísmo racionalista”. não acredita na existência das divindades que pululam suas odes. um “teórico” do Classicismo. porém. Mas. o que mais lhe convém é o “Sensacionismo”: a poesia deve descrever. Reis. pela postura teórica e pela atividade poética de Caeiro. Fernando Pessoa pode ser visto como uma realização poética do pensamento filosófico a ele contemporâneo: a Fenomenologia. O aspecto moralista da poesia de Reis reside nesse esforço de indagar quais são os sentimentos comuns à coletividade humana e sugerir soluções para os problemas que a vida apresenta. a essência da vida e da arte está nas sensações que temos do universo circunstante. algo que aparece a nós. assinada com o nome de Alberto Caeiro. Sob este aspecto. Como podemos perceber. O objeto artístico deve ser visto como algo que está a nossa frente. Com efeito. em oposição ao subjetivismo dos românticos e dos simbolistas e aos exageros da arte moderna. a inconstância do amor. Alberto Caeiro expressa a faceta humana e poética de Fernando Pessoa. Reis tenta criar um ideal de vida e de arte “científico”. 3) O panteísmo: a concepção religiosa de Reis difere da idéia de Deus de seu mestre pelo fato de que. mas quer compreendê-los e expressá-los artisticamente de um modo objetivo. Deve-se ressaltar. como para Caeiro. Enfim. que afirmava a verdade dos seres e dos objetos estar em si mesmos. Do ponto de vista da estética formal. estruturalistas e semanticistas. Contra o versolivrismo de Caeiro. sendo apreendida pela experiência que deles temos. a inanidade dos bens terrenos. que o classicismo de Reis não é “neo”. a observar e a contemplar os fenômenos do mundo exterior. e sem abater-se perante as adversidades. Quanto ao conteúdo. a nossa sensibilidade deve ser depurada de todo elemento subjetivo para que possa atingir a universalidade. os seres e os objetos assim como são apreendidos pelos sentidos. a crítica fenomenológica tem muito em comum com o tipo de abordagem da obra de arte. O pastor amoroso. é sábio quem vive o dia-a-dia.Ricardo Reis: a herança clássico-pagã A filiação deste heterônimo ao “mestre” Caeiro se fundamenta em três pontos básicos: 1) O objetivismo: Reis herda de Caeiro o culto da realidade material e humana que nos circunda. III . praticado atualmente por lingüistas.137 “ismo” à poética de Alberto Caeiro. ver e sentir a realidade assim como ela é. Segundo ele. O conselho de vida que ele dá a si mesmo e aos seus leitores também não é original. Mas discorda de seu mestre quanto à prática deste objetivismo. o heterônimo Ricardo Reis foi inventado por Fernando Pessoa não para expressar sua . mas “pan”. portanto. Poemas inconjuntos. virtudes. Os temas que trespassam suas odes são tópicos explorados pela poesia milenária e que se encontram especialmente em Horácio. o seu poeta clássico preferido: a fugacidade do tempo. Reis estrutura seus versos. a poesia deve entender e expressar a realidade objetiva assim como é vista e sentida pela generalidade dos homens e não através de um prisma individual que a deforma. Sua concepção religiosa pode ser considerada panteísta. a qual leva fatalmente ao subjetivismo. a harmonia de formas. Ricardo Reis pode ser considerado. como um “fenômeno”. evidentemente. Estes temas são frutos da observação da natureza e da condição humana e. para reprimir a emoção. que quer viver ao contato da natureza. que lhe causam sofrimentos. são gerais e universais. o desejo da inteligibilidade. independentemente de sua origem e de sua relação com outros objetos. as normas da conveniência e da decência e a representação do mundo real fazem deste heterônimo a expressão mais acabada de um vir classicus. enquanto Caeiro está inclinado para um “panteísmo cósmico”. é necessário a intelectualização da sensibilidade e a reflexão crítica sobre as sensações. gozando dos prazeres que a vida lhe oferece. numa linguagem clara. enfeixando-os em estrofes rimadas e ritmadas. acha que. problemas e realidades humanas. não adianta perseguir valores absolutos. a superioridade da poesia sobre a prosa consiste em submeter a emoção a uma forma rigorosa. que são também elas passageiras. de Edmund Husserl. os deuses pagãos estão aí apenas como figurações simbólicas. pois está fundamentado na filosofia moral do Estoicismo e do Epicurismo: em face da relatividade de qualquer bem humano. 2) O sensacionismo: para Reis. o espírito “apolíneo”. não transcendendo a natureza.

Eis uma “ode” para saborearmos a poesia do heterônimo Ricardo Reis: Como se cada beijo Fora de despedida.138 crença no paganismo ou propor uma volta aos ideais do mundo greco-romano. mais do que um “futurista”. mas apenas para oferecer uma tentativa de resposta ao problema crucial do homem. afirma postulados humanos próprios: .C. ele. amando. Vitae summa brevis spem nos vetat inchoare longam! (“A pálida morte bate com golpes iguais à porta dos casebres. a qualquer momento. beijemo-nos. O ideário de vida e de arte de Ricardo Reis está de acordo com seus traços pseudobiográficos: Fernando Pessoa imagina Ricardo Reis “educado num colégio de jesuítas”. em 1890. autodefinindo-se como “o poeta das sensações”. o heterônimo Ricardo Reis. e estudou na Escócia. Mas. Álvaro de Campos é o poeta do “sensacionismo”. descontente com o novo regime político. como à dos palácios. “latinista por educação alheia” e “semi-helenista por educação própria”. quer pelo conteúdo (exaltação da sensualidade impudica). IV. sabemos que Álvaro nasceu em Tavira. venha e nos faça voltar ao nada de onde viemos. a ausência de preocupações. o sábio grego do século IV a. sofrer o mínimo possível e esperar que a morte. e de Marinetti. mas também físico: com a proclamação da República em Portugal. Este segundo tema está formalizado alhures e mais sinteticamente pelo mesmo poeta Horácio: é o proverbial carpe diem (aproveite do dia que passa). E que no mesmo feixe Ata o que mútuos fomos E a alheia soma universal da vida. em verdade. 2) a exortação ao gozo dos prazeres da vida. É evidente nesse poema (como na quase totalidade da obra poética de Ricardo Reis) a influência epicurista e horaciana. comuns à poética de Horácio e de Ricardo Reis: 1) a igualdade dos homens perante a morte. A solução que oferece Reis é a de um esteta requintado. inventada por Fernando Pessoa. O beati Sesti. o Classicismo está na base da formação escolar de Ricardo Reis e a cultura grecoromana é sua matéria de escolha. ter sensibilidade para o belo em todas suas manifestações. de que sente. Segundo seu pensamento. o filão português do Modernismo europeu. aproveitar moderadamente dos prazeres que a existência apresenta aos nossos sentidos e à nossa inteligência. evidentemente. O texto espelha a visão do mundo pagão de Fernando Pessoa. filho de judeus portugueses. Pela biografia ficcional. poeta italiano fundador do Futurismo. a extrema brevidade da vida nos impede de alimentar esperanças longas”!) Nesses versos encontram-se condensados os dois temas principais. que é o da busca da felicidade. exilado no mundo moderno. o fascínio e a repulsa. em 1910. além. O exílio não é apenas espiritual. A título de exemplo. que chama A barca que não vem senão vazia. o universo das máquinas. que se preocupou principalmente com o problema da felicidade humana. Oh. Acusou as influências literárias de Walt Whitman.Álvaro de Campos: o poeta da Era Moderna Este heterônimo é também imaginado como discípulo de Caeiro. Este heterônimo. Talvez que já nos toque No ombro a mão. Como se vê. Outros elementos tradicionalistas de sua personalidade são os estudos de medicina e o seu monarquismo. cético e hedonista: refugiar-se no mundo da arte. Ele sente-se como o último homem pagão e clássico. poeta norte-americano em sua época considerado escandaloso. Minha Cloe. tirando o diploma de engenheiro naval pela Universidade de Glasgow. quer pela forma de sua poesia (verso livre e vocabulário de baixo calão). da afirmação da validade atual da poética clássica. feliz Sesto. e cultivar a justa medida na prática dos prazeres.. se afasta de sua terra natal e se refugia no Brasil. só que de formação e de tendência apostas às de Ricardo Reis. ao mesmo tempo. em vista da efemeridade da existência e da imprevisibilidade do futuro. o homem para ser feliz deve conseguir o estado da “ataraxia”. com o qual trava constantes lides acerca do ideal de vida e do modo de poetar. a civilização industrial. transcrevemos e traduzimos três versos do poeta latino Horácio: Pallida mors aequo pulsat pede pauperum tabernas Regumque turres. Álvaro de Campos expressa a faceta de Fernando Pessoa voltado para o mundo moderno. tentar alcançar a perfeição formal. O substrato filosófico desse preceito ético encontra-se na filosofia de Epicuro. expressa artisticamente através da poesia do heterônimo Ricardo Reis.

o tradutor. que afirmara que “o homem é a medida de todas as coisas”. o médico e o engenheiro. A este heterônimo devemos algumas das mais belas páginas da poesia portuguesa moderna: “Opiário”. a constatação de que tudo é ilusão e que. mas em questionar o mundo. metonímia etc. “Ode triunfal”. apesar de suas características individuais até antitéticas. a filosofia deu um passo decisivo. Mas os grandes sistemas filosóficos só apareceram em civilizações bem desenvolvidas. o filósofo reflete! A atitude filosófica é conatural ao ser humano. quer ao nível da substância do conteúdo (sensacionismo.. na vida e na arte. pois exercia a profissão de pedagogo. por que eu vivo? Segundo o poeta simbolista Paul Valéry. Enquanto o homem da ciência experimenta e o poeta imagina. porém. que significava sábio (de sophia = sabedoria). A nosso ver. é um grande cético. como Machado de Assis. anticristianismo. sem metro. Demócrito (470-361). FEUDALISMO (sistema social) Medievalismo FICÇÃO (fantasia. encontrável quer ao nível da forma da expressão (paralelismos. que colocou a matemática a serviço da moral. “Datilografia”. rasgos lingüísticos e estruturais comuns). É a reflexão sobre as formas do pensar. de onde eu venho. é o saber. O ritmo corre livre. Esta diversidade. “são as perguntas que fazem o filósofo”. as bases do pensamento reflexivo encontram-se na Grécia com os pensadores chamados “présocráticos”: Pitágoras (570-500). o fundador do “atomismo”. se compõe de verso livre. o conhecimento. centrado na exteriorização das sensações. a poesia de Álvaro de Campos.) Retórica FILOSOFIA (conceito e evolução) “Mais Platão. Ele foi um “sofista” no sentido primeiro da palavra. de qualquer tipo que elas forem. a consciência crítica da experiência existencial considerada em sua totalidade. o pensamento como destruidor da beleza original das coisas. “Ode marítima”. que estudou os elementos da natureza para explicar a cosmologia. não anula a unidade da personalidade poética de Fernando Pessoa.139 Sentir tudo de todas as maneiras. A poesia de Álvaro de Campos procura adequar o ritmo poético ao sabor dos objetos de suas sensações. devem ser considerados como configurações diferentes de um mesmo ser. o ponto de partida doutrinal do materialismo. preocupado em expressar artisticamente os problemas vitais que o afligem: a luta dramática entre o livre-arbítrio e a limitação imposta pelas determinações naturais e sociais. “Poema em linha reta”. que é o mesmo de todas as ciências e as artes. em rápidos esboços. Viver tudo de todos os lados. Heráclito (550-480). o pastor. . culto da natureza. O que distingue o filósofo do cientista ou artista é o meio de que se serve para alcançar tal objetivo: o pensamento reflexivo. sendo esta atividade o fator principal que distingue o gênero humano da vida vegetativa e animal. Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo. Este conteúdo programático. No fundo. a filosofia é a atividade do espírito humano em busca de uma resposta aos interrogativos mais cruciais da existência: quem sou eu. não vale a pena acalentar valores reputados absolutos. a indiferença perante a prática de um ideal clássico ou moderno de vida. a hipocrisia humana. Fernando Pessoa. Protágoras (480-410).. para onde irei após a morte. hipérbatos. cada heterônimo mostrando um ângulo diferente da concepção humana e literária do grande poeta português. Menos Prozac” (Marinoff) Do grego philo (amante) e sophia (sabedoria). Apresentamos. transitando da cosmologia para a ética. Sintetizando: unidade dentro da pluralidade em Fernando Pessoa. imaginação. No tocante à Cultura Ocidental. “Tabacaria”. como a do mestre Caeiro. Construiu vários modos de viver e de poetar para que se negassem reciprocamente. é realizado por uma estética que ajusta a forma à essência das coisas: à liberdade que goza a substância do conteúdo corresponde a mesma liberdade na forma da expressão. dialética dos contrastes. Com Sócrates (470-399). sem divisão estrófica regular. fictício)Arte Fantástico FIGURAS de estilo (metáfora. Seu objetivo. sem rima. a plurifacetação de Fernando Pessoa. repetições. “Ode marcial”. sem os artifícios dos esquemas e das imagens retóricas da poesia tradicional. portanto. motivos e temas que se repetem na poesia ortônima e heterônima). expressando em forma de arte seus absurdos. do sentir e do agir humano. Mas a grandeza da poesia não reside em dar respostas definitivas e satisfatórias aos problemas humanos. Diferentemente da do heterônimo Ricardo Reis e da de Fernando Pessoa ortônimo. considerado o pai dos números.

Marco Aurélio) dá mais importância à “virtude”. que começou a impor sua visão do mundo. Um exemplo de silogismo sofista: “o homem é um animal. Na Renascença européia. Mas o Renascimento. ora a postura idealista ou espiritual. que em grego significa “argumento”: colocadas duas proposições. Já o Estoicismo (Zenão. a terceira. o Racionalismo francês (Descartes: 1596-1650. considerado o pai da filosofia moderna). o voluntarismo (Nietzsche: 1844-1900). quase de uma forma alternada. medido. verão/inverno. espelham o chamado “dualismo cósmico”. também filósofo. colocando ênfase no “prazer” calculado. discípulo de Sócrates. ora a visão do mundo positivista ou material. ao longo de seis séculos. em suas Tusculanas.140 ensinando a desenvolver o raciocínio e a criar habilidades para o uso da palavra como principal meio de convicção. neoplatônicos ou neo-aristotélicos. implícita no pensamento do seu discípulo Aristóteles (384-322). pelo nome dele apelidada de “tomismo”. embora de sentido duvidoso ou enganoso. predominando. A sutileza está na passagem do plano ontológico para o ético. adquirindo. chamadas “premissas”. do bem e do mal” Platão (427-347). que se encontram tratados em verbetes próprios: o Empirismo inglês (Francis Bacon: 1561-1626). Seu lema é: “suporta e abstém-te”. Sêneca. passando a indicar um argumento falso. a psicanálise e a sexualidade (Freud: 1859-1939). tentando explicar racionalmente. através de um discurso serrado e coerente. Seguindo a ordem cronológica. pela qual a investigação filosófica deixou de ser um fim em si mesma. céu/terra. que constituem dois macro-sistemas. estudando apenas as relações entre os homens. retomando o uso do silogismo sofista. o chamado “século das luzes”. chamada “conclusão”. Os sofistas usavam muito o silogismo. os principais dogmas da fé católica. são as duas vertentes fundamentais da história da filosofia ocidental. junto com a corrente oposta do Materialismo. se preocupou quase exclusivamente com o problema da felicidade humana. até o advento de Tomás de Aquino (1227-1274). o Determinismo (Taine: 1828-1893). outro mestre do pensamento grego. Só mais tarde o termo “sofisma” adquiriu um sentido pejorativo. inevitável. Sócrates é considerado o pai da filosofia porque deixou de se preocupar com o Universo físico. que desaguou no Iluminismo enciclopédico do séc. Cícero. o Idealismo alemão (Kant: 1724-1804 e Hegel: 1770-1831). agüentando silenciosamente qualquer desventura. preparou as bases ideológicas para o início da filosofia moderna. o Positivismo (Comte: 1798-1857). tudo move). tornava-se uma dedução formalmente certa. Pedro é homem. o que. obrigando-a a indagar acerca da vida e dos costumes. fundamentada no monoteísmo e na transcendência. Estava aberto o caminho para a ética cristã! Efetivamente. infinito e inatingível. formulado de propósito para induzir o interlocutor ao erro. o pensamento filosófico não evoluiu muito. desaguando no oceano teocrático da Igreja Católica de Roma. se limitaram a retomar a herança cultural greco-romana. XVIII. a Fenomelogia (Husserl: 1859-1938). A doutrina escolástica “cristianizou” o sistema filosófico de Aristóteles (a concepção do Deus cristão é semelhante ao aristotélico “motor imóvel”. do III antes ao III depois de Cristo. aspectos peculiares na dependência do tempo e do espaço. afirma que Sócrates “foi o primeiro a fazer descer a filosofia do céu e a instalou nas cidades e a introduziu nos lares. perceptível na alternância dos princípios opostos da natureza (noite/dia. o mais importante Doutor da Igreja Romana. a filosofia moral do Estoicismo difundiu-se pelo mundo durante o período do helenismo alexandrino e romano. pois os escritores. Sua base teórica foi o Humanismo. o Materialismo histórico (Marx: 1818-1883). o Intuicionismo (Bergson: 1859-1941). que consiste em viver segundo a natureza. o Existencialismo (Kierkegaard: 1813-1855. a constituição do mundo.). corpo/alma etc. Epicuro (341-270). o . logo. sendo obrigada a servir à religião católica: a filosofia passou a ser ancilla (escrava) da teologia. cujo pensamento filosófico e religioso dominou o universo cultural da Alta Idade Média (Medievalismo). foi o primeiro a criar um sistema filosófico completo e coerente. Heidegger: 1889-1976 e Sartre: 1905-1980). podemos apontar os seguintes momentos evolutivos do pensamento moderno e contemporâneo. evidentemente. Pedro é um animal”. o maior pensador da filosofia “escolástica”. o famoso escritor latino. O primeiro grande pensador cristão foi Santo Agostinho (354-430). com base na “teoria das idéias”: a corrente do Idealismo que. Esses arquétipos da filosofia. com o estupendo progresso das ciências e das artes.

o buquê (a obra de arte). sintáticos e semânticos do texto) e priom (processo ou procedimento).Althusser). Recentemente. pois o ser que não pensa deixa de ser “humano”. o filósofo canadense Lou Marinoff lançou um livro. O surgimento do Formalismo russo foi fundamental para o estudo de todo tipo de obra de arte. A importância da reflexão filosófica é uma verdade incontestável. o objeto artístico era visto apenas no contexto cultural. Tinianov. escultura. Com esta obra. Às vezes a filosofia. contrário a esse movimento artístico. que se tornou bestseller mundial. formulados pela escola russa. XIX. Dois filósofos californianos também estão tendo sucesso: Tom Morris (Se Aristóteles dirigisse a General Motors: A Nova Alma dos Negócios) e Christopher McCullough. era fruto do binômio hereditariedade e meio-ambiente. nos balneários ou nas academias de ginástica. Menos Prozac. provocou a transferência de seus principais representantes (Chklovski. quando Sócrates dialogava com cidadãos atenienses em praça pública. portanto. é estudar os elementos componentes e as relações entre eles. desistindo da sua prerrogativa de “Homo Sapiens”. cores. entre 1914 e 1930. a maneira pela qual o material é manipulado para produzir o efeito estético. teatro.141 Estruturalismo e a Antropologia social (Lévi-Stauss e L. Retornando às origens.. O ensino filosófico começa a extravasar a sala de aulas e a se prolongar no consultório e nas publicações de matérias em jornais e revistas. A filosofia está se tornando uma alternativa ao tratamento psicanalítico. uma hora de aconselhamento custando tanto quanto uma sessão de psicoterapia. alguns filósofos modernos começam a vender seus conselhos de vida. pois a essência da arte reside no prion. A tese formalista é que os elementos externos (traços biográficos. pode conseguir frutos também práticos Com certeza. Como dizia Machado de Assis. Conforme as teorias do Positivismo e do Naturalismo. do professor norueguês Jostein Gaarder. Fundamental. Por exemplo. etc. O formalismo muda esse postulado básico. Também no campo das ciências. Este se convenceu de que “as pessoas preferem uma boa conversa intelectualizada a tratamentos contra depressão ou ansiedade”. que ensina princípios estóicos a investidores fracassados. apenas como exemplo. Jakobson) para outros países. Tomachevski. no processo. flores e folhagens são o material de que se serve a florista para compor o arranjo estético. mas também das outras artes: pintura. Citamos. quando o regime soviético. figuras de estilo. Como corrente de crítica literária. “há em todas as coisas um sentido filosófico. o Formalismo teve suas influências. cinema. no arranjo estético do material utilizado. Não refletir sobre a existência humana e seus problemas é um erro profundo que prejudica não apenas o viver em sociedade. Eikhenbaum. música. de carência afetiva. lexicais. sememas. Marinoff demonstra que a filosofia pode ser aplicada também aos problemas cotidianos. sons. o Formalismo surgiu na Rússia. ritmo. O suíço Alain de Botton ( Consolações da Filosofia) utiliza as idéias do grego Epicuro e do romano Sêneca para resolver problemas de frustrações profissionais. psicológicos. não são fundamentais para a interpretação da obra. com a docência no City College de Nova York e com palestras (também no Fórum Econômico de Davos). FLAUBERT (autor do romance Madame Bovary)Realismo FORMALISMO (método analítico)EstruturalismoTexto Crítica Termo derivado do latim “forma” (morphé. assim como o produto artístico. O enfoque formalista é uma postura metodológica da crítica que substitui a oposição tradicional entre forma e conteúdo pela relação entre material (os elementos fônicos.. lexemas. Os princípios de análise estética. de economia empresarial e familiar. que é o aspecto ou aparência em que se encontram organizados os elementos de um objeto: sinais gráficos. mas o próprio indivíduo. filosóficos ou sociológicos). como a poesia. não se aplicam apenas ao estudo da Literatura.). embora detectáveis. a teoria “gestáltica” na Psicologia. pois lançou as bases da passagem da crítica “externa” para a “interna”: até então. com o título Mais Platão. isto é. em grego). E não somente nos EUA. massas e até vazios. pode ser medida pelo sucesso continuado na cultura ocidental da obra ficcional-didática O Mundo de Sofia. o Relativismo (Albert Einstein : 1879-1955). A organização do material deve ser feita segundo um . a estrutura do texto literário (fonemas. que vigoraram na segunda metade do séc. ela nos ajuda a viver! A importância do conhecimento filosófico. Propp. Estudar uma obra de arte implicava apenas no conhecimento da vida do autor e do lugar e tempo da sua produção. linhas. dando prioridade ao estudo dos elementos internos da obra de arte literária.pois as coisas valem pelas idéias que nos sugerem”. o caráter humano. em nossos dias.

Segundo V. 3) o ego (“eu”). O grande mérito de Freud foi ter ressaltado que a libido. O século passado foi denominado o “século da Psicanálise”. O que Einstein foi para a Ciência. alternativamente. gera uma sensação dolorosa de impotência. A “libido”. passando pela fase oral. . Sendo o princípio da forma o traço distintivo da percepção estética. formado pela consciência moral. Jung e os “arquétipos”)Psiquê Édipo A arte é a trilha que leva de volta. inventou o método que até hoje é usado pela psicanálise: o das “livres associações” de idéias e de sentimentos. reside numa “ambivalência” constante: sentimentos iguais e. libertando a percepção do automatismo. No primeiro caso. são os dois eixos fundamentais para cuja satisfção se direciona qualquer atividade humana. que é o conjunto de injunções éticas e religiosas que a sociedade aos poucos vai introjetando na nossa psique. Os impulsos do id. Para este caminho de regresso às origens de um trauma. A essência de toda relação entre o superego. o crítico tem por oficio analisar o priom da obra para descobrir-lhe a especificidade que torna o texto literário um objeto estético. Insatisfeito com os resultados obtidos pelo hipnotismo. temos a formação do “complexo”. foi a apresentação da tese de que toda neurose é de origem sexual. um conjunto de desejos que. misturados fluem e refluem. que está em baixo. consciente ou inconscientemente. XX. Freud se utilizou especialmente da linguagem onírica dos pacientes. sinal da conservação individual. fecundando e secando. constituído pelas forças instintivas do inconsciente. pois verdades existenciais foram vasculhadas por pesquisadores que se tornaram imortais. isto é a differentia specifica que faz com que um produto de linguagem seja considerado uma obra literária. cria uma dependência tão forte a ponto de tornar-se traumática e provocar desvios de comportamento (Psicopatologia da vida cotidiana. resultante da força disciplinadora e educadora do super-ego sobre o id. ao mesmo tempo. Devido ao dinamismo psíquico. que leva a uma visão peculiar do objeto. que manifesta o instinto de perpetuação da espécie. com a ajuda da hipnose e em colaboração com os colegas Joseph Breuer e Martin Charcot (Estudos sobre a histeria. ainda no período infantil. Picasso para a pintura e Proust para a literatura. ou são “recalcados” ou são “sublimados”. e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. 1899). marca profunda e inconscientemente a psique humana. o procedimento de singularização nas obras de Leon Tolstoi "consiste no fato de que ele não chama o objeto pelo seu nome. Sigmund Freud (1856-1939) conseguiu acender luzes nas camadas mais profundas da psique humana: o inconsciente e o subconsciente. 1895). temos um processo de compensação: dá-se a sublimação dos instintos quando o ser humano. anal e genital. por não serem satisfeitos. o ego sofredor. o “eu” consciente está continuamente em luta. especialmente a libido. Freud distingue três níveis de consciência: 1) o infra-ego. que está acima do eu. A "literariedade" do texto. Começou estudando casos clínicos de comportamentos anômalos ou patológicos. 1904. A atração que o menino sente pela mãe (complexo de Édipo) e a menina pelo pai (complexo de Electra). estimuladas pelo terapeuta por palavras dirigidas ao paciente com o fim de descobrir a fonte das perturbações mentais. Chklovski. Quanto à estrutura da personalidade. 1905). mas o descreve como se o visse pela primeira vez e trata cada incidente como se acontecesse pela primeira vez".142 procedimento de "singularização". junto com o apetite. ligando seu nome ao séc. consiste no arranjo estético do material. impulsionado pelas forças opostas do instinto e das convenções sociais. Mas a grande novidade de Freud. Incalculável é a contribuição do famoso neurologista austríaco no tocante aos estudos sobre a formação da personalidade humana. 2) o superego. a tendência à satisfação sexual. quer dizer. e o id. se não superada pelo relacionamento afetivo com outras crianças. No segundo caso. que escandalizou o mundo cultural da época. o nível consciente. FREUD (o pai da Psicanálise: libido. Sigmund Freud representou para o conhecimento do inconsciente humano. chamado também de id ou “isso”. da fantasia à realidae. considerando os sonhos como compensações dos desejos insatisfeitos na fase de vigília (A interpretação dos sonhos. onde se encontram localizados os nossos desejos inconfessáveis. consegue canalizar a força do id para objetivos socialmente mais nobres. animal ou vegetal.

subajacentes ao nosso pensar. em fim. ao conjunto dos fatos que ocorrem numa obra do gênero narrativo. Propp. senhor – responde o homem.. reflexões importantes sobre a alma humana e o comportamento social. todo menino gostaria de deitar-se com a mãe. Roheim). constituem o .). biológicas. 3) o fator “contexto” tem como correspondente a função referencial da linguagem. inspiração para a formulação da sua tese fundamental. 4) ao fator “contato” está relacionada a função fática. está relacionado com a função poética da linguagem. corresponde a função emotiva. ao lado de outros variáveis e peculiares de cada conto. encontrou elementos comuns e invariáveis. No campo da Lingüística. Assim. sociologia e lingüística. em 1928. que se manifestam ocasionalmente. transformando o mito de Édipo em complexo psicanalítico. da força. . 2) ao fator “destinatário” está correlata a função conativa. Flein. muitos escritores que exploraram a psicologia profunda em seus personagens de ficção. 5) ao fator “código” corresponde a função metalingüística. vê no meio da multidão um homem muito parecido consigo. inventada por Freud. dentro de nós. Mead. A esposa Jocasta. sentir e agir. decorativas etc. Entre os mais importantes discípulos de Freud (Adler. ora divergindo das teses fundamentais do mestre. a execução de um encargo visando alcançar um objetivo. para acalmar Édipo preocupado com o oráculo que lhe dizia ser predestinado a matar o pai e casar com a mãe. em certos momentos e em espaços adequados. Já o conceito de função usado por outro estudioso russo. Abraham. denominando “arquétipos” as experiências milenares da humanidade. o formalista V. Estudando um corpus de cem narrativas populares. do dramaturgo grego Sófocles. o estudioso russo Roman Jakobson encontra uma estreita relação entre os fatores da Comunicação e as funções da Linguagem. Os arquétipos seriam os tipos modelares.mas meu pai. destacamos o psiquiatra suiço Carl Gustav Jung (1875-1961). Morfologia do conto. teve vários seguidores que tentaram aperfeiçoar técnicas e métodos. pois é funcional Do substantivo latino functionem. Ele transformou a libido freudiana em “energia vital”. da maternidade. sim!” FUNÇÃO (ação integrada)NarrativaFormalismo Mito Num texto literário tudo é funcional. afirma: Em sonho. reproduzimos uma historinha contada por ele: Um príncipe. as influências entre poesia e psicanálise são recíprocas. Veja-se o enfoque psicanalítico da obra de arte. da beleza. da prepotência. ora estabelecendo relações profundas da psicanálise com outras disciplinas humanísticas: antropologia. evidentemente com sentidos peculiares (funções matemáticas. Ordena que se aproxime e pergunta: “Sua mãe esteve empregada em meu palácio?” -“Não. que atua sobre as próprias palavras. em seus escritos. a expressão subjetiva de uma idéia ou sentimento. transmitidas pelos mitos e pelos contos populares. dando a elas multivocidade e sentidos conotativos. algo que transcende o sexo. existiriam os arquétipos do amor. Freud. Ao inconsciente individual de Freud ele acrescentou o “inconsciente coletivo”. da guerra. que indica o dito ou o feito e suas circunstâncias. as imagens psíquicas do inconsciente coletivo. diz respeito não à Lingüística. e tudo é significativo. que tem o fim de atingir o receptor. Como exemplo. Horney. 6) o fator “mensagem”. mas à Narratologia. Neste sentido amplo. que estabelece o meio de comunicação a ser usado. a teoria freudiana influenciou. como bom psicólogo. apresentou. A publicação de sua obra. o termo é usado por quase todas as áreas do conhecimento humano. muitas vezes usando o modo irônico. Lacan. que visa estabelecer a comunicação entre emissor e receptor. E não somente Autores. ligados entre si pela relação causa / efeito. a não ser que fosse menina.143 A teoria psicanalítica. Os primeiros. estabelecendo seis correspondências: l) ao fator “remetente”. da bondade etc. que ele denomina “funções”. Com relação à Literatura. É sabido que Freud encontrou numa passagem da peça Edipo rei. especialmente à estrutura do plano do enunciado. direta ou indiretamente. físicas. caminhando por seus domínios. constitui um marco fundamental na história da análise do texto literário. no verbete Crítica. substituindo a abordagem externa pela interna. pois significativo. Em contrapartida. mas também muitos estudiosos da Literatura e das outras Artes. ao nível do fazer. função é uma ação. caso em que desejaria o pai. o eu que fala. ao estudo dos contos de fada.

subdivididas em núcleos (ações principais) e catálises (ações secundárias). Barthes redefine assim a função: “a significação (isto é. as que compreendem as três provas a que o herói é submetido: a prova “qualificante” (funções: tarefa/resolução) tem como conseqüência o recebimento de uma ajuda para enfrentar o inimigo. Acrescenta. Exemplos: interdição/violação. acopla em duplas todas as funções que possuem uma interação. segue uma démarche oposta à de Greimas. a ação de uma personagem deve estabelecer relações de causa ou de efeito com outras ações distribuídas ao longo do eixo sintagmático de um romance. as que dizem respeito ao estabelecimento ou à ruptura do contrato entre o indivíduo e o grupo social (ordem/transgressão. Deduz-se. Partindo do princípio de que numa narrativa tudo é funcional. Outra contribuição importante de Greimas ao modelo proppiano é o arranjo das funções em três categorias: as funções contratuais. as funções performanciais. T. publicando em 1909. Junto com outro estruturalista russo enraizado na França. na sua reelaboração do modelo funcional de Propp. as funções disjuncionais estão relacionadas com o deslocamento no espaço. Barthes está interessado na expansão do conceito de função. nas narrativas escritas para as massas. no jornal “Le Figaro” de Paris. partida/retorno etc. o ir e vir das personagens e a alienação..144 arcabouço da fábula de qualquer obra do gênero narrativo. definida do ponto de vista de seu significado no desenrolar da intriga”.Todorov. a proibição. o estruturalista francês considera a alma da função como seu germe. a serem . correspondentes às definidas por Propp. que tenha um começo. estabelecendo dois grupos: l) as funções “distribucionais”. indicando o “fazer” das personagens. operando mais sobre o eixo paradigmático (usando o princípio da similaridade. a luta. então. encontráveis em todos os contos populares. Analistas e críticos literários posteriores alteraram o modelo funcional de V. função é “a ação de uma personagem. dava origem às várias correntes artístico-literárias. luta/vitória. Enquanto este se inclina para a condensação. para ser considerada uma função. que toda função é uma ação. As funções principais são: o afastamento. Já Roland Barthes. por sua correlação com outro elemento. de um conto ou de um poema épico. A proposta essencial era a destruição de todas as formas tradicionais de cultura. Ele alarga o conceito de função. que se implicam mutuamente. na medida em que tudo significa por ser tudo correlato. subdivididas em índices (elementos paramétricos com investimento semântico) e informações (elementos dispensáveis cuja função principal é apenas conferir um aspecto de realidade à ficção). possa tornar-se significativo. seguida da reintegração na sociedade.Greimas reduz o número de funções a 20. que gostam de uma história linear. que são as ações-chave relacionadas entre si. susceptível de fecundar e dar seus frutos. atribuindo funcionalidade não só às ações das personagens. reparação do dano/prêmio). a função) de um elemento da obra é sua possibilidade de entrar em correlação com outro elemento desta obra e com a obra inteira”. do objeto-valor que estava na posse do inimigo. Para Propp. mas a qualquer elemento narrativo que. a prova “principal” (luta/vitória) leva à reparação do dano e a prova “glorificante” (tarefa/êxito) permite o reconhecimento do herói e a sua premiação. um meio e um final feliz. o castigo do vilão. o chamamento à distância) do que o sintagmático (a contigüidade das funções). estabelecendo chamamentos à distância. através do acasalamento: operando sobre o caráter binário das funções. que leva à reparação. FUTURISMO (movimento artístico italiano) Vanguarda “O sofrimento de um homem não é para nós mais interessante de que o sofrimento de uma lâmpada atingida pelo curto-circuito” (Marinetti) O poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti. enfim. chamadas de Vanguarda. então. uns reduzindo o número das funções. o dano. Os índices são unidades que remetem a outros elementos no eixo paradigmático. mas a recíproca não é verdadeira porque. a vitória. distribuídas no eixo sintagmático conforme o princípio da contigüidade e a figura retórica da metonímia.Propp. Não precisa dizer que os estudos desses formalistas e estruturalistas são de importância fundamental para a análise e a interpretação do texto narrativoCrítica. o “Manifesto Futurista”. O formalista russo inventariou 31 funções.Propp para adaptá-lo ao estudo de narrativas mais complexas. o prêmio do herói. outros ampliando o conceito de função. O semioticista francês AJ. uma nova classe de funções à inventariada por V. 2) as funções “integrativas”. que leva à transgressão.

além de tentar verter implicitamente as instituições políticas. aplicando linhas de força: o conceito de “forma-força” passou a substituir a “forma-linha” dos neoclássicos. e Arte dos ruídos. a “forma-cor” dos românticos e a “forma-luz” dos impressionistas. da juventude. a relação do Futurismo com o Fascismo é muito forte. recém-unificada. 1911. Aliás. pintor e músico. havido em Milão em 1914. Soffici. de Francesco Gangiullo: no cenário vê-se uma rua escura e deserta. Deixando-se guiar apenas pela intuição. 1914) Para a arquitetura foram tentadas experiências idênticas às da pintura e da escultura. mas pelo dinamismo econômico e militar. pelo envolvimento do espectador. propondo novas ideologias. 1912). Num concerto futurista. do super-homem e da super-nação) ao Nazismo (Hitler). Música: Manifesto dos músicos. cobre. de anti-convencionalismo e de rebeldia que alimentaria a arte contemporânea) e negativos (fazer “tábula rasa” do passado. contra os “críticos pedantes” (alemães e austríacos). Carrà. Foram os comícios futuristas que levaram à intervenção italiana na Primeira Guerra Mundial. Um bom exemplo é uma “tragédia”. as duas principais revistas da Vanguarda italiana.145 substituídas por uma arte mais condizente com a era da máquina. temas do inconsciente. Eugêne Ionesco. destruir a tradição cultural. utilizando pedaços de jornais. Mussolini. podemos salientar aspectos positivos (atmosfera de libertação artística. a orquestra era composta por explodidores. “Manifesto do Futurismo inglês” (Marinetti e Nevinson. assinalamos: “Manifesto técnico da literatura futurista” (Marinetti. a arquitetura. revistas. os pintores futuristas pretendiam fazer com que o espectador ficasse no centro da obra. O teatro sintético futurista. tornou-se também intervencionista. Balla e outros pintores futuristas tentaram retratar a velocidade. da alucinação. Tal síntese fazia com que a peça tradicional se tornasse apenas um sketch. Apollinaire e Maiakóvski. o Futurismo insere-se na corrente de pensamento que vai de Nietzsche (a quem foi atribuída a concepção da raça pura. Pelo gosto do barulho. No que toca mais especificamente a Literatura. do prazer da destruição). então socialista e futurista. Não . No contexto político. considerada a “higiene do mundo”. sociais e religiosas. gargarejadores. com a intenção de mostrar o dinamismo das informações consumidas pelo homem moderno. a escultura. 1912) Boccioni pretendia fazer “viver os objetos”. a música. ouve-se um tiro de revólver. chamado “intonarumore”. algo de anedótico. junto com a pedra e o mármore. o Futurismo pode ser interpretado como expressão da ambição nacional italiana no início do século XX: a Itália. influenciou as peças vanguardistas de Alfred Jarry. “Lacerba” e “A voz”. italianos. lata. Teatro: Manifesto do teatro sintético (Marinetti. vê e sente. a música concreta e a música eletrônica dos nossos dias seriam extensões do movimento futurista. amarelo. russos. tendo como nota comum o antipassadismo e a revolta contra o academicismo pedante e medíocre. Marinetti imaginava orquestras inteiras constituídas por instrumentos ruidosos e acionadas por eletricidade. não apenas pelo seu passado arqueológico. mas também a pintura. verde. levar o antihumanismo até o anti-humanitarismo pela exaltação da guerra. durante um minuto reina um silêncio mortal. em si sem muito sucesso. do sonho. Quanto ao material usado. A este primeiro manifesto seguiram-se outros. Também na escultura se usaram materiais heterogêneos. os futuristas foram apelidados de “rumoristas”. cartazes de publicidade e partituras musicais. Luigi Russolo. ingleses e japoneses. na medida em que esta transmite uma síntese de tudo aquilo que ele lembra. inventaram a técnica da colagem. que seriam os franceses. O vanguardismo deveria atingir não apenas a literatura. através de imagens desconcertantes. dos ruídos e dos odores”. Neste sentido. desejava imporse ao mundo. sirenistas. inventou e patenteou um colossal engenho produtor de ruídos. pela simultaneidade das ações. para a defesa dos “povos poéticos” (a expressão é de Marinetti). 1913. 1913: “A pintura dos sons. inventando-se a arte “polimatérica”: madeira. Para as outras artes. intutulada A detonação. papelão. Arquitetura: Manifesto dos arquitetos (Sant’Elia. “Uma bofetada ao gosto do público” (Maiakóvski e outros escritores russos. Severini. o dinamismo e a mudança rápida da vida moderna com cores berrantes (vermelho. Fazendo um balanço das contribuições do Futurismo. Russolo. traduzindo o princípio estético da sinestesia e da simultaneidade dos estados da alma na obra de arte. eis uma súmula dos princípios estéticos apregoados pelo Futurismo: Pintura: Manifesto de Carrà. roncadores. 1915) A dramaturgia futurista tentava representar a rapidez do mundo das máquinas pela cenografia múltipla. Quanto ao foco visual. da virilidade. e cai o pano. Segundo alguns especialistas. que tiveram a colaboração de escritores famosos como Giovanni Papini e Giuseppe Ungaretti. de Marinetti e de seus seguidores. Escultura: Manifesto técnico da escultura futurista (Boccioni. laranja) espalhadas em composições chocantes. 1914). 1912). de repente. transpuseram para o quadro.

Para a exploração deste tema Brecht recorre à pessoa histórica de Galileu Galilei. em 1928. e predecessor do físico inglês Isaac Newton (1642-1727). sendo um dos últimos grandes ficcionistas latino-americanos ainda vivo. Prêmio Nobel da Literatura em 1982. o mito da cidade fantástica do extraordinário romance Cem Anos de Solidão (1967). pensando na Terra. é posto em evidência na peça A Vida de Galileu pelo dramaturgo alemão Bertold Brecht. é porque procurei ver acima dos ombros dos gigantes”. Teorias e provas matemáticas sobre duas novas ciências . tendo como princípio estético o chamado “realismo fantástico” (Narrativa). Em 1982. não há nenhuma idealização. foi condenado à prisão domiciliar. Ele é o autor de “Macondo". polêmico. teoria considerada herética naquela época. Narra-se que Galileu recebera a ordem judicial. pois o processo dialético que leva ao melhoramento cívico não é obra de um indivíduo. estando na Catedral de Pisa. Ao render-se. retirou as acusações de heresia feitas pela Inquisição contra Galileu. o sistema sideral ptolemaico baseado na fixidez da Terra e outras crenças sem embasamento científico. segundo Brecht. sendo regida por um estatuto de filiação religiosa ou política. reconhecendo a importância histórica do gênio pisano. se move”). mas da coletividade. que resume a obra toda. Isso só acontece num sistema social em que a ciência não tem autonomia.146 foi por acaso que os grandes centros de desenvolvimento industrial e comercial (Milão e Turim) transformaram-se também nos maiores focos da arte futurista. Portanto. embora dotado de uma invejável inteligência: ele gosta de comer bem. Tornou públicas suas descobertas através de algumas obras importantes: Me nsageiro das estrelas. mas olhando . irônico às vezes. O protagonista não é apresentado como um herói. 1623. antecipando a formulação do princípio gravitacional e da atração terrestre. o candelabro que oscilava no alto. afirmando: “se consegui enxergar mais longe. mas como um ser comum. Além de escritor. Gabriel (escritor colombino) A vida de uma pessoa não é o que aconteceu. Por esta nova postura. GALILEU (cientista e artista do Renascimento italiano) “Eppur si muove” Galileo Galilei (1564-1642). foi matemático. Talvez a passagem. que revolucionou o pensamento científico e filosófico. não é apenas apontar os costumes falsos e degradados. junto com Michelangelo e Leonardo da Vinci. O sentido mais evidente desta peça é a representação do problema do conflito do intelectual no seio da sociedade em que vive. GÊNERO: na literaturaÉpico-narrativoLírico Dramático. conhecida pelo título sintético I Discorsi (“Os Discursos”). concordando plenamente com a teoria heliocêntrica de Copérnico. Construiu um poderoso telescópio. Seu pensamento crítico. pois o passado nos ajuda a compreender o presente. Experimentador. na Colômbia. Mas. Ele foi sucessor do astrólogo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543). teria exclamado: Eppur si muove (“No entanto. Acusado perante o Tribunal da Inquisição. apesar da fragilidade física e psíquica de Galileu.. contestando as teorias aristotélicas. 1934: esta é sua obra mais importante. assinalamos também Crônica de uma morte anunciada e O Amor nos tempos do cólera. Entre sua vasta obra literária. que reconheceu a dívida aos dois cientistas. físico e astrônomo. mas estimular o público a lutar pela mudança do status quo. tem medo de sofrer quando vê os instrumentos de tortura e renega suas convicções científicas para salvar a pele. 1610. como acontece com o herói épico e trágico da literatura clássica. com 360 anos de atraso. ele é um dos mais férteis romancistas da América latina. grandiosa crônica de um século de opressão militar e de resistência civil. para disfarçar. Brecht nos faz perguntar se é justo que um cientista tenha que sofrer por ter descoberto uma verdade cósmica. por ensinar que era a Terra a mover-se ao redor do Sol. Mas o que ela recorda e como o recorda Gabriel García Márquez nasceu em Acarataca. o experimento e a formulação matemática do resultado da experiência passaram a ser os fundamentos das ciências exatas. Diálogo sobre os grandes sistemas do universo. 1632. pelo qual observava a composição estelar da Via Láctea e do planeta Vênus . que deu nome ao novo sistema astronômico. forma a tríade genial da Renascença italiana. . O papel do teatro. aspira a ser rico. seja este diálogo entre os dois personagens principais: André Sarti: “Desgraçado o país que não tem heróis” Galileu: “Desgraçado o país que necessita de heróis” GANDHI (Mahatma e Indira)Hinduísmo Paz GARCÍA MÁRQUEZ. Galileu descobriu as leis do pêndulo e da queda dos corpos. o Papa João Paulo II.

Aristóteles foi o primeiro a se preocupar em distinguir. presentes no étimo do adjetivo “sátura”.) tornou-se tradicional. ópera lírica etc. A arte primitiva de qualquer povo tem sempre uma origem religiosa e agrária. A satura (cheia) lanx (tigela) era o ‘‘prato cheio’’ das primícias da terra que os antigos camponeses itálicos ofereciam aos deuses durante as festas religiosas. durante as festas dionisíacas: num primeiro momento. lírico (hino.). reestudada por vários teóricos da arte da palavra. de épos. transcendendo o interesse puramente literário. no tempo da pré-história helênica. Nas origens. trata-se da palavra “narrada”. do “emocional” (o lírico é um estado de alma. lírico e dramático só foi possível posteriormente. às vezes. a linguagem na fase da . transmitir elementos de cultura e entreter o povo. canção etc. Poesia lírica. Emil Staiger (Conceitos fundamentais da poética) afirma que os adjetivos “épico” (ou narrativo). o fato glorioso). que exprime o presente da recordação) e do “lógico” (o drama visa o futuro.147 na biologia: gênero/espécieGenética Darwin. quando a cultura e a civilização do povo grego já se encontravam num estado avançado de evolução. segundo Aristóteles. por várias formas de expressão artística. de exaltação etc. na sociologia: as discriminações EscravidãoNietzsche Do latim genus. a linguagem na fase da expressão “figurativa” (juventude). Poesia dramática: de drama. o povo começou a participar através da dança e do canto coral. de assunto glorioso. Já das primeiras formas artísticas do povo latino temos algumas notícias mais precisas. semelhanças genéricas e diferenças específicas. indica uma classe de seres ou objetos. o filósofo e crítico grego estudou a produção poética do séc. imitação da realidade: Poesia épica. em 1ªpessoa: era a palavra “cantada”. pois coloca um problema existencial a ser resolvido). um velho sábio apenas recitava as façanhas do deus (o épos. ode. Não existindo antes dele a arte literária em prosa. de tristeza. as histórias sobre o deus Baco começaram a ser encenadas (surgimento do drama). por danças e por representações miméticas. correspondentes. generis. Imaginamos o que devia acontecer na Grécia pré-histórica. hino em honra do deus Dionísio (o romano Baco) que. VIII ao III. e também por filósofos e psicólogos que. Os semas de “abundância” e de “mistura”. de lira. sendo usada até hoje. a dança. após serem narradas (forma épica) e cantadas (gênero lírico). tendo vários objetivos: agradecer a divindade pela boa colheita. estabeleceram relações dessa diferenciação genérica com posturas antropológicas. comédia. gênero. que acompanhava a declamação de um poeta que expressava um sentimento de amor. o épico.(gênero narrativo): uma história ficcional. debochado. “lírico” e “dramático” são conceitos da ciência da literatura que exprimem virtualidades fundamentais do ser humano. passou a ter uma estrutura dramática. por uma plausível evolução. na origem da tragédia. em versos e em prosa. no seu sentido mais amplo. entre as obras literárias até então produzidas. quais a música. contada em 3ª pessoa. romance.) e dramático (tragédia. a antiga satura deu nome ao filão da literatura “satírica”. A tripartição das obras literárias em gênero narrativo (poesia épica. a mímica. encenação de um problema existencial transmitido por atores perante espectadores. o canto. a palavra “representada”. perante agrupamentos de gente analfabeta. conto etc. o ditirambo. com base na sua concepção de arte como mimese. fizeram com que se desse o nome de satura à primeira forma de poesia campestre latina. mais tarde. ao domínio do “figurativo” (a história contada é sempre um tempo passado. perante um auditório. tais gêneros não eram distintos. No tocante à Literatura. Assim. pelo diálogo entre o chefe do coro e os coreutas: este ditirambo dialogado estaria. que possuem características semelhantes (“genérico”) e origem comum (“genético”). respectivamente. Mas tal divisão da produção poética nos gêneros épico. estando estritamente relacionada com rituais sagrados. anteriormente à época homérica. através do diálogo: 2ªpessoa. instrumento musical a corda. o dramático. distinguindo os três gêneros que se tornaram tradicionais. Devido ao tom jocoso e. mais tarde. onde vários elementos artísticos se misturavam: os versos recitados por jograis eram acompanhados por instrumentos musicais. As primeiras formas de criação literária não estavam separadas de outras formas de arte. mais tarde. Já o filósofo alemão Cassirer (A filosofia das formas simbólicas) relaciona os gêneros literários com os três planos da linguagem: o lírico representaria a linguagem na fase da expressão “sensorial” (idade pueril). por um narrador onisciente. indicando o distanciamento entre o poeta e o mundo representado). englobando várias “espécies” ou subclasses a ele relacionadas.

A questão do “Gênero”. O crítico russo sustenta a tese de que as formas e os conteúdos da arte dialógica estão ligados aos ritos e ao espírito do Carnaval. A literatura. outra divisão genérica da literatura: as obras “carnavalizadas”. por estarem centradas no polimorfismo e na polifonia. e toda a grande literatura produzida pelos gênios da arte ficcional. a irreverência. já as obras de fundo dialógico representariam a contestação. recorrem à teoria dos arquétipos. Tal bipolaridade pode ser percebida em outros eruditos. justiça. E a Antropologia e a Sociologia. a vontade de satisfazer as forças do instinto. do trecentista italiano Boccaccio. caracterizada pelo ritmo da “continuidade”. descobriu o princípio do id. tanto é que não está errado falar de “romance dramático”.). o ele do enunciado (formas épicas e romanescas). “poema narrativo” ou “drama lírico”. romance. a revolta contra a tradição estético-cultural. revolucionária. criando. caracterizada pelo ritmo da “associação”. de Cervantes. a relatividade. vegetal. da desordem) do espírito “apolíneo” (de Apolo. pode ter sua produção examinada e dividida a partir dessas macro-concepções da realidade. Essa divisão da literatura em três gêneros fundamentais é apenas paramétrica ou didática pois. caracterizado pelo ritmo do “decoro”. como Northrop Frye ( Anatomia da crítica). conto. lírico ou dramático. caracterizado pelo ritmo da “repetição”. que estão mais preocupados em agradar o grande público do que em denunciar os absurdos da condição humana. do francês Rabelais. Em outras passagens da mesma obra. outras. relacionando a Comédia com o mito da “primavera”. a pessoa a quem se destina a mensagem. dialógica. Também as ciências biológicas agrupam os seres em gêneros e espécies.148 expressão “conceitual” (idade adulta). amor etc. distingue o espírito “dionisíaco” (de Dionísio ou Baco. Nelas predominam as formas oximóricas. os anseios individuais. Bakhtine considera carnavalizado todo o filão das obras que contestam os valores sociais: a sátira menipea dos gregos. o do gênero narrativo na preferência para a função “referencial”. em oposição ao superego. em oposição aos textos ideológicos ou conservadores. nenhum texto literário é exclusivamente narrativo. orientada para a expressão do subjetivismo do emissor. o romance renascentista Pantagruel e Gargantua. o eu do narrador (formas líricas). Já Mikhail Bakhtine sugere uma distinção com base em dois princípios estéticos e ideológicos: monologismo e dialogismo ( Dialética). distinguindo humano. orientada para o destinatário (espectador). a pessoa de quem se fala. embora com uma terminologia diferente: o crítico italiano Umberto Eco chama de “apocaliptos” poetas e prosadores da linha contestatória. o drama. os poemas satíricos de Horácio. dividindo a literatura em quatro gêneros principais: o épos. os romances em língua latina Satíricon e Metamorfoses. e de “integrados” os escritores conservadores. tragédia. Em verbetes específicos (lírica. relacionando as funções da linguagem com os fatores da comunicação humana. ópera etc) verificamos as peculiaridades das várias formas literárias. mas apenas pela predominância de uns caracteres sobre outros. masculino. Frye estuda a teoria dos gêneros em seu aspecto formal. assim. a descrença nos valores religioso-ético-sociais. estudando a psicologia profunda do ser humano. dando particular relevo à obra do maior escritor da sua terra (A poética de Dostoievski). bem como no triunfo do complexo de virtudes que compõem a ideologia social (ordem. não pela exclusividade. O médico e cientista austríaco Sigmund Freud. o Romance com o mito do “verão”. evidenciam . animal. E. que não deixa de ser uma forma de antropologia. feminino (GenéticaDarwin). vê o princípio diferenciador da poesia lírica na predominância da função “emotiva”. outros. na sua famosa obra Origem da Tragédia. Nietzsche. a necessidade de obedecer ao conjunto de normas impostas pela sociedade. outras. o da poesia dramática na marcação da função “conativa”. orientada para o contexto objectual. há outras divisões possíveis: alguns estudiosos preferem a distinção entre obras em versos e obras em prosa. deus da embriaguez. a prosa. a coletânea de contos Decameron. os paradoxos. em verdade. A classificação de uma obra num gênero é feita. Roman Jakobson (Lingüística e Comunicação). e a lírica. o Dom Quixote. caracterizadas pela univocidade. o tu do receptor (formas dramáticas). Tal distinção está baseada no fato de que algumas espécies de obras literárias focalizam a pessoa que fala. da harmonia). O filósofo alemão F. deus da luz. a Tragédia com o mito do “outono”. As obras de estrutura e de conteúdo monológicos. também. não é exclusiva da Literatura. beleza. no estudo do ser humano. expressariam os anseios de um grupo social que acredita nos valores humanos e na possibilidade do conhecimento da verdade. e a Sátira com o mito do “inverno”.

149 diferenças raciais e minorias (Escravidão Hitler).” Obra completamente aberta. castrando-se no recém-inaugurado Salão Funerário. engajando-se na luta em favor das minorias. Enfim... encontrando na palavra artística o meio de lutar contra o mundo. Um dos sentidos possíveis é a inutilidade das revoluções.. sentindo a necessidade de ser aquilo que os outros o julgavam ser. não importa quem vista esses símbolos. O Chefe de Polícia. “Que o mal venha a explodir sobre o palco” Homossexual assumido e marginal consciente. pela cor. juizes. outro se transforma em Juiz e interroga uma ladra. a mitra.. GENET (dramaturgo francês) discriminadas pelo sexo. Chefe de Polícia e Madame Irma. será ainda mais falso que aqui. é recolhido a um reformatório. Os biombos e O balcão. sendo encenada em vários países. Vivendo de mendicância. de narrativas ficcionais (Nossa Senhora das flores. Jean Genet (1910-1986) transforma sua vida em obra de arte. Entre estas.. General. pelo biótipo etc. de ensaios e de obras teatrais.. generais. Segundo as palavras do próprio Genet. A peça encerra-se com Irma apagando as luzes e dizendo que daqui a pouco tudo vai recomeçar: “Cármen. A galera. se serve das prostitutas do Grande Balcão para obter informações sobre os planos dos revoltosos. meu bem.. assumir o meu. que representa um requintado bordel. preparar o de vocês. sua obra-prima. será preciso recomeçar. Tanto é verdade que não existem duas encenações iguais. Juiz. pela cultura. ele assume o papel de marginal.. há seres que exteriorizam seus desejos inconfessáveis. como ele próprio não sabe ou não quer se . A representação da peça O balcão é um desafio para qualquer diretor de teatro... as fantasias! Redistribuir os papéis.. e age como contra-espiã. A dona desta casa de ilusões.. inclusive no Brasil. bispos. outro quer ser um General e ter relações sexuais com uma moça do bordel que se deve transformar no seu cavalo preferido. pelo beco... onde fica até os 21 anos. Que o mal venha a explodir sobre o palco. que lhe proporcionou fama internacional. Camus) ele consegue a liberdade e viaja por vários países. Diário de um ladrão). camareiros. Madame Irma. Tranque as portas. Já é de manhã. Daqui a pouco. e cubra os móveis.. as interpretações de O balcão se renovam e se multiplicam a cada montagem ou leitura.. transformando-se nos mitos em que a sociedade acredita. revoltosos que deixam a revolta congelar. o líder da Revolução. por sua vez. Cocteau. por ser extremamente complexa quanto à forma e quanto ao sentido. Vestir-se. Pela intercessão de escritores famosos ( Sartre. Num cenário labiríntico. quer ser uma Madalena arrependida.. Sua obra literária é composta de poemas (O condenado à morte. O símbolo da ordem restaurada é um pênis gigantesco. acender tudo de novo. Chantal é assassinada e Roger se entrega às fantasias do Grande Balcão.. acusado de furto. destacamos: As criadas. lá fora está acontecendo uma Revolução que quer derrubar o poder constituído. Há um desfile das principais figuras que povoam o bordel: Bispo.. Enfim. A leviana Chantal apaixona-se por Roger. a revolta é dominada.. em contacto com intelectuais. Entre os que permanecem revolucionários. amante de Madame Irma. por sua vez escolhida como Rainha da Contra-Revolução.. Agora. ajuda os franceses a satisfazerem suas vontades: um se veste de Bispo e recebe a confissão de uma prostituta que. Passem à direita. “é a realidade que vocês têm diante de si que é uma ilusão e o que vocês captam em minha ficção teatral é a análise lúcida da sociedade apodrecida. que desenvolve seus dotes literários. ah. A parada).. é preciso voltar para casa onde tudo. saiam. exercem um fascínio poderoso sobre a multidão. sendo escolhida como símbolo revolucionário. Reajam e encontrem as soluções”.. É na prisão. a balança. a dramaturgia de Genet pode ser definida como um teatro de “duplos”: o espectador tem que ver... aos dez anos. como numa imagem refletida num espelho. pois os homens podem mudar mas as instituições corruptas ficam.. Entretanto. na personagem interpretada pelo ator o seu próprio ser. especialmente negra e homossexual.. Abandonado por sua mãe e entregue a um orfanato. vou preparar meus trajes e os salões para amanhã.. O povo não pode viver sem seus ídolos: o cetro. de roubo e de prostituição. não duvidem. Um canto de amor.

A importância da genética está salientada no verbete Darwin. GÊNIO (genialidade)Inteligência GIL Vicente (teatrólogo português da Renascença) Em Portugal. Anteriormente a ele. antes predominantemente morfológicos. cujas implicações para o conhecimento das características hereditárias dos homens e dos animais são ainda imprevisíveis. assunto de forte polêmica entre os geneticistas. Acima de qualquer polêmica. Manuel e D. implicando em problemas éticos. após a descoberta e os recentes estudos sobre o DNA. DNA. conhecido pela sigla DNA. O que distingue o gênero humano dos animais. a arte dramática estava reduzida à representação de “mistérios” e “milagres” representados nas praças das igrejas e a “entremezes” (entreatos. está condenado a usar uma imagem que não é a da sua verdadeira essência. dividida em quarenta e seis atos (= autos). GIOTTO (artista italiano da Idade Média)Pintura . Resta muito a descobrir sobre o 0. Hoje em dia. quando saiu publicada sua obra Casa-Grande e Senzala. que significa “raiz”. No dizer de Massaud Moisés. Quanto à diferença entre o homem e o macaco. O feito escocês abre o caminho para a possibilidade da clonagem humana. o comediógrafo compôs uma única peça. Auto de Amadis de Gaula). Tendo como modelo o dramaturgo espanhol Juan Del Encina. Maria de Castela. Auto da Índia). pastoril (Auto pastoril castelhano e Auto pastoril português). As diferenças entre os povos se devem mais a fatores ambientais e culturais do que a raciais. Evolução das Espécies) Darwin Do radical grego gen. enquanto a personalidade autêntica de cada um de nós fica escondida. A engenharia genética iniciou em 1953 pela descoberta da forma helicoidal do ácido desoxirribonucléico. a espécie homem da mulher. uma espécie de ampla “Comédia Humana” dos fins da Idade Média e princípios da Renascença.6% de DNA. em verdade. pelo implante de células de uma ovelha de 6 anos no óvulo de outra. as origens do teatro estão ligadas à figura de Gil Vicente (1465-1536). amargurando uma triste solidão espiritual. que estuda a origem dos gêneros e das espécies. passaram a seguir caminhos próprios.150 ver. Trilogia das barcas. Mais ainda. Gil Vicente começou a introduzir o teatro regular na corte de D. de assuntos variados: religioso (Auto da fé. Auto da alma. genético. como já ensinara o sociólogo brasileiro Roberto Freyre. que leva a espécie do Homo Sapiens ao domínio sobre a natureza e à produção de obra de artes que desafiam o tempo. a teoria mais moderna opina que as duas espécies se diferenciaram há 6 milhões de anos e. “origem”. gênero. a ovelha Dolly tornou-se famosa por ser o primeiro clone de um mamífero. em 1997. Para os religiosos. assim a Genética é o ramo da Biologia. gentílico etc. os animais da terra dos peixes do mar? A resposta se tornou mais complexa ainda. escravo do papel que é obrigado a representar no meio em que vive. Inês Pereira. A ação dramática tem a finalidade de evidenciar a grande verdade existencial da máscara social: o homem. cada uma dessas peças ou “autos” representaria algo como uma das muitas sessões de arte cênica que criou para o gozo estético da fidalguia do tempo: parece que. a partir daí. nas línguas ocidentais se formou uma família de palavras: gene.raças e super. Como o Gênesis é o livro da Bíblia que trata da criação do mundo conforme a crença religiosa judaica e cristã. pois a ciência demonstra que pode haver mais semelhança entre o DNA de um sueco e de um africano do que de dois homens da raça branca. em 1933. com o intuito de obter rebanhos com uma maior concentração de proteínas. Duardos. GENÉTICA (Genoma. Monólogo do vaqueiro). que começam a modificar os critérios de classificação dos seres vivos. é preciso ressaltar que o conhecimento da raiz biológica do homem está revolucionando a medicina e a farmacologia. para os descrentes. o código genético importa mais que a forma para determinar o agrupamento em gêneros e espécies. em português e em castelhano.nações. geralmente constituídos de breves farsas) e “momos” (cenas de mímica). Escreveu 46 peças. a diferença reside na inteligência e no raciocínio da mente humana. que possibilitou o mapeamento do gene humano nos anos 90. genital. que faz a diferença entre o homem e o chimpanzé. permitindo diagnosticar doença ainda no estado fetal e produzir novos remédios para a cura de patologias hereditárias. do ponto de vista científico. Esse fantasma reflete os outros fantasmas do convívio social como um jogo de máscaras. aí estaria o dedo de Deus. Acabou a crença na existência de super. cavaleiresco (D. satírico (Quem tem farelos?. O velho da horta.

Gogol entrou numa profunda crise existencial. As atrocidades da Revolução Francesa também contribuíram para que seu espírito se afastasse cada vez mais dos ideais democráticos de vida e de arte. comida e outras regalias. Goethe sempre foi um elitista. oferecendo-lhe dinheiro. de família burguesa. estimulando o estudo do folclore e encontrando nos mitos e nas lendas populares as origens da verdadeira cultura alemã. filósofo e literato. (Czar Nicolau I) Nicolai Gogol (1809-1852) é considerado o pai da moderna literatura russa. política e literatura em Estrasburgo. aceita também namorar a filha do governador e ainda tenta seduzir-lhe a esposa. romântico ou clássico? Goethe teve uma personalidade complexa e contraditória. O romance Os sofrimentos do jovem Werther teve larga repercussão internacional. demoníaco e angelical. No fundo. medicina. com Bettina Brentano. trágico e cômico. homem doente. em cinco atos. épico e lírico. pagão e devoto. encabeçada pelo governador. que analisamos no verbete específico. começando a detestar a arte romântica. Mas uma carta endereçada a um amigo de Petersburgo. o primeiro grande escritor da União Soviética a ser conhecido além das fronteiras de seu País. Mas a obra que tornou Goethe mundialmente famoso. Além de um grande poeta dramático. Seu realismo foi interpretado como crítica à sociedade conservadora e ao absolutismo do regime czarista. Aos quinze anos. O hóspede do albergue é o jovem Khlestakov. também ele um grande dramaturgo (Os bandoleiros. Teve uma dúzia de mulheres entre esposas e amantes. O romance Almas mortas descreve o regime de servidão em que vivia o povo do seu país.151 GOETHE (poeta alemão) Romantismo Fausto Todas as coisas são metáforas Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) é o poeta nacional da Alemanha. de revolta contra a estética e o espírito do Classicismo. E quando o amigo faleceu. sem contar as aventuras passageiras. Maria Stuart. que o aliena do real. Sua obra propriamente dramática mais conhecida é O inspetor-geral. A classe dirigente. onde conheceu Herder. Amou intensamente durante toda sua longa vida. narra o medo da administração de uma cidade interiorana à notícia da chegada de um inspetor. Ao mesmo tempo. foi também um exímio romancista e um excelente poeta lírico. refugiando-se no misticismo e deixando-se morrer de inédia. O capote é o primeiro conto imortal da literatura russa. Nasceu em Frankfurt. A loucura é confundida com o demônio. então. neta de uma antiga amante. de que é vítima um humilde funcionário público. O contato com as belezas artísticas e literárias do Classicismo equacionou sua concepção estética. que estava lá de passagem. Uma viagem à Itália fez com que Goethe arrefecesse seus arroubos românticos. GOGOL (dramaturgo e contista russo) “Todo o mundo recebeu o que merecia. que encontra no suicídio a solução do problema fundamental do homem romântico: a impossibilidade de adequar as aspirações ao absoluto do “eu” com as limitações da vida cotidiana. inconformado. botânica. considerado por alguns críticos como o maior expoente do classicismo alemão. Nascido na Ucrânia começou sua produção literária descrevendo a miséria do povo da sua região através de pequenas narrativas. Outra amizade benéfica para Goethe foi a de Schiller. Eu mais do que o resto”. Esta comédia. um modesto funcionário público de São Petersburgo. só consegue sentir-se importante num estado de alucinação. como a época a que pertenceu. Em Diário de um louco enfrenta o tema da esquizofrenia. segundo Gogol. encontrou na estima do poeta Puchkin o apoio de que sua arte precisava. De caráter fraco e inseguro. em troca da promessa de interceder na capital contra os impostos abusivos da administração local. Guilherme Tell). Este conto foi adaptado para o teatro francês e encenado também no Brasil. a quem contava a ridícula aventura que . exaltado e equilibrado. o último. Talvez a sua característica mais romântica seja o seu alto grau de passionalidade. Os corruptos e os incompetentes temem que a sindicância possa revelar suas mazelas. Seu protagonista tornou-se o protótipo do herói romântico. Além do dinheiro e dos presentes. Estudou Direito em Leipzig. Dos comerciantes extorque dinheiro. além de Prometheus. é a elaboração artística do mito deFausto. consiste no esmagamento do indivíduo por um sistema social opressivo e degradante. O homem. pois a natureza diabólica. Enfim. apressase a corromper o forasteiro. que encabeçou o movimento do Sturm und Drang ( Romantismo). melancólico. que almejou ter um filho com o velho poeta. pensando que o inspetor é um jovem hospedado no hotel da cidade. Ele se aproveita do equívoco e procura tirar vantagens da situação. moça mais velha do que ele. aos oitenta e um anos. drama inacabado. teve o primeiro caso de amor com Gretchen. como Dante da Itália e Shakespeare da Inglaterra.

Como exemplo de sua poesia. Sua produção literária divide-se em duas partes não separadas cronologicamente: uma lírica popular. além de neologismos de origem greco-latina e de abundantes reminiscências mitológicas e bíblicas. o maior dramaturgo da Itália do séc. que contrastam com a grande simplicidade formal do Classicismo. recebem a notícia da chegada do verdadeiro inspetor-geral.. revolucionando a linguagem poética da época. GÓNGORA (poeta espanhol)Barroco “Goza cuello.. segundo os moldes clássicos e o exemplo de Molière. harmonia de formas e racionalidade. onde predominam as inversões e os anacolutos. trata-se de uma típica comédia de “equívocos” Diferentemente. idealiza os sentimentos mais profundos do ser humano.. ainda revoltados pela trapaça sofrida e pelas ofensas contidas na carta. mientras con menosprecio en medio el llano mira tu blanca frente el lírio bello. de origem autóctone. mas também e principalmente o intuito de satirizar toda a estrutura social do governo absolutista da Rússia. depois de assistir a esta comédia. en nada”. Para produzir o efeito de estranhamento. já saíra da cidade. de suscitar o riso. Mas é na construção das metáforas e no abundante uso das hipérboles que o gênio de Góngora se revelou melhor. D.. em que prevalece a representação de tipos humanos (O mentiroso. Luis de Góngora y Argote (1561-1627) é o maior poeta lírico do barroco europeu. comédias de caráter. Conta-se que o czar Nicolau I. Um curioso acidente. portanto. que caracteriza toda a lírica barroca. extremamente culta e. o poeta espanhol encontra insuspeitados parentescos entre os objetos mais diferentes. da comédia clássica greco-romana e renascentista. cabello. composta por poemas pequenos e metros curtos (letrillas e “romances’’). A confeitaria).. em algumas passagens. A locandeira. pelo bucolismo e pela exploração de muitos temas e motivos clássicos. apresentamos seu mais famoso soneto. em que o poeta espanhol descreve a vida cotidiana com fina ironia. o “gongorismo’’. en sombra. a grande maioria na língua toscana. Como se vê. de influência italiana. até hermética. Escreveu cento e vinte comédias. XVIII. labio y frente. está ainda ligada à estética renascentista pelo uso da mitologia greco-romana. Khlestakov. porém. O peculiar estilo poético de Góngora. O casmurro benéfico). transformando as montanhas cobertas de neve em “gigantes de cristal”. tentando reaproximar o teatro da realidade humana. . ela não tem apenas a finalidade de entreter os espectadores. cansado da concepção de beleza como clareza. e uma lírica aristocrática. O governador e os outros dirigentes. Góngora. Se a lírica de Góngora.. A crítica goldoniana costuma distinguir três tipos de peças: comédias de entrecho. dela se distancia pelas sutilezas estilísticas. é interceptada no correio e o equívoco é desfeito. irreal: fábula de Polifemo y Galatea. algumas em dialeto vêneto. transcendental.152 estava vivendo. o mar em “úmido templo de Netuno”. entretanto. através de poemas longos em versos decassílabos. que suscitou e suscita polêmicas apaixonadas entre admiradores e denegridores. e do Barroco em geral. Soledades.. cansado da brincadeira. em que a comicidade reside na complicação da intriga (A viúva sabida. expressão máxima do espírito da sociedade aristocrática do século XVII.se vuelva. em que Góngora. segundo os cânones estéticos da Renascença. enigmática. dando nome a uma nova escola poética. apresenta. antes que lo que fue. Eu mais do que o resto”. en tierra. aspira a um tipo de beleza diferente: oximórica. e comédias de costumes. oro bruñido. GOLDONI (comediógrafo italiano do Setecentos) Carlo Goldoni (1707-1793). o galo em “doméstico del Sol nuncio canoro”. en humo. uma sintaxe complexa. reagiu contra os vulgares estereótipos da Comédia de Arte. Sonetos. O leque). onde é retomado o tema horaciano (Horácio e Epicuro) do carpe diem (“aproveitar o momento presente”): Mientras por competir con tu cabello. teria exclamado: “Essa é uma peça e tanto! Todo o mundo recebeu o que merecia. que retratam ambientes sociais (A casa nova. en polvo. el Sol relumbra en vano. em busca de uma beleza absoluta e.

no início do primeiro terceto. Os dois tercetos. que compara o cabelo cor de ouro da amada com a luz do Sol. faz com que a alegria do gozo da juventude seja perturbada pelo sentimento da efemeridade da vida e da chegada irremediável da morte. síguen más ojos que al clavel temprano. etc. pois todos os versos ímpares começam pelo advérbio temporal “mientras”. cabelo. É visível aqui a influência da ideologia do Concílio de Trento (Contra ReformaLutero) sobre o grande poeta espanhol. O verbo da oração principal encontra-se lá em baixo. é muito antigo na lírica ocidental. convém fazer referência a uma questão de edóctica. O último verso. que vai do elemento mais sólido (terra) ao elemento imaterial (nada). Além disso. pelo mesmo esquema rímico ABBAABBA. Do ponto de vista do sentido. Com efeito. entendemos que a imagem poética. a forma “el Sol” estabelece. lilio. passando por elementos aeriformes (fumo e pó) ou sem consistência alguma (sombra). goza cuello. o homem. A composição deste soneto de Góngora apresenta um único período sintático. O sujeito de ‘‘relumbra’’. os lábios são mais vermelhos do que o cravo. pois o tempo passa irreparavelmente. antes que lo que fue en tu edad dorada oro. labio y frente. esse motivo tópico é revestido de peculiaridades estilísticas e ideológicas próprias do Barroco: o exagero do elemento metafórico (os cabelos da amada são mais luminosos do que a luz do sol. e uma estrutura sintática paralelística. sintático e semântico das quadras. O tema do aproveitamento do momento presente. não seria “el Sol”. clavel. rompendo o paralelismo fônico. de uma beleza inigualável pela enumeração decrescente. a fronte é mais branca do que o lírio. Góngora traduz em linguagem poética a advertência contida na reza da Quarta-Feira de Cinzas: “lembra-te. “goza”. que é um imperativo exortativo. no sólo en plata o viola truncada se vuelva.153 mientras a cada labio. rosas se tornou até proverbial: a juventude é comparada metaforicamente a uma flor que se estraga se não for colhida no tempo apropriado. em que se deu a “descrição” da beleza da amada. onde a expressão collige. existindo apenas um ponto final no término do poema. a falta do artigo determinativo leva-nos a considerar “oro bruñido” mais como aposto de “cabello” do que como sujeito de “relumbra”. Antes de analisarmos este soneto. que nasceste do pó e em pó te converterás!”. a descrição decrescente dos elementos corporais da amada (do cabelo ao pescoço). lábio e fronte. Optamos pelo texto da edição Aguilar porque nos parece mais lógico sintática e semanticamente. é mais original do que a metáfora de uso do cabelo da mulher comparado ao brilho do ouro. en nada. mas “oro bruñido”.). en sombra. por cogello. . virgo. descritos nas duas quadras anteriores: colo. um paralelo sintático com “el lilio”. pela qual o prazer se reveste de amargura. mas tú y ello juntamente en tierra. en polvo. cristal luciente. en humo. encontra-se “al” Sol. apresentam uma exortação ao gozo da juventude antes que a idade madura ou a velhice façam murchar o fruto delicioso da mocidade. que tudo aniquila. dirigido aos quatro elementos do corpo da amada. na mesma quadra. Em Góngora. As quatro orações subordinadas adverbiais temporais (duas em cada quadra) estabelecem comparações de superioridade entre elementos do corpo da amada e elementos da natureza: o cabelo é mais loiro do que a luz do Sol. y mientras triunfa con desdén Lozano de el luciente cristal tu gentil cuello. Mas o que mais distingue este soneto de um poema renascentista é a velada presença da morte. o pescoço é mais reluzente do que o cristal. Encontramo-lo na poesia grega e na literatura em língua latina. As duas quadras revelam um mesmo campo fônico. o cromatismo das palavras e o prestígio dos metais preciosos (a exaltação do ouro com relação à prata). cabello. Em algumas edições gongorinas aparece uma variante no segundo verso da primeira quadra: em lugar de “el”.

como se sabe. tornando-se o expoente máximo da intelectualidade comunista. Gorki foi perseguido e várias vezes aprisionado. se encontra no quarto onde o jovem está dormindo e é usada pela moça. ela sequer teria a força física suficiente para fazer com que a espada lhe furasse o corpo inteiro. sendo libertado pela intervenção de escritores influentes ( Tolstoi e Tchekhov). Galaaz encarna o código cultural da Idade Média: a consagração de sua alma e de seu corpo a Deus. este vaso teria chegado a Grã-Bretanha. enfim. a gratidão pela hospedagem recebida. Mas. Após várias peripécias. não tido em conta pela arte medieval. De outro lado. sentindo-se rejeitada. De noite. Por esta sua postura de intelectual participante. os dirigentes do partido comunista russo. que apresenta o choque entre os dois códigos antitéticos do ser humano: natureza versus cultura. Memórias de Anton Tchekhov) e obras didáticas (Antologia de escritores proletários). ciclo cultural bretão) O nome “graal” vem do latim gradalis. jorrado do costado aberto pela espada de um centurião romano. a observância da norma da distinção entre as classes sociais que não permite a união de uma jovem nobre e rica com um cavaleiro andante sem família e sem bens econômicos.154 GORKI (romancista e dramaturgo russo. a honestidade. conforme o costume medieval. é obrigado a deixar sua espada na casa das armas. Nele o discípulo José de Arimatéia teria guardado o sangue de Cristo na cruz. Ainda jovem. conforme lendas do ciclo “bretão”. Esta e outras contradições se explicam pelo caráter de oralidade das primitivas narrações.V. Mais importante é ressaltar a inverossimilhança psicológica da personagem feminina: tamanha audácia amorosa não é admissível numa jovem de apenas quinze anos. símbolo da graça divina. de forma “gradual”. em . a mais famosa é o romance de cavalaria A Demanda do Santo Graal. a virgindade. em vista de atingir o bem supremo. A filha do dono do castelo. que são os principais valores do homem medieval. A personagem da donzela. Colaborou fervorosamente para a divulgação e a consolidação dos ideais socialistas. Ora. representa o código oposto: a força do instinto da natureza. o principio da verossimilhança é um preceito quase exclusivo da estética clássica. havendo vários contadores da mesma história. Talvez o texto mais expressivo desta saga romanesca. passou a ser considerado por Lênin herói nacional. romancista e dramaturgo. de camisola. a preferência da castidade à satisfação amorosa. quando ocorreu a unificação dos povos anglos e saxões e se introduziu o Cristianismo na Inglaterra. Fundamental é o fator ideológico. a proibição do relacionamento sexual fora do casamento. Do ponto de vista estrutural. mas também por narrativas biográficas (Recordações sobre Lênin. o respeito à vontade do pai da moça. ela penetra no quarto do jovem e se deita na cama junto dele. o martírio do corpo. seja o episódio da "Tentação de Galaaz". Mas Galaaz. não cede ao apelo erótico da moça e esta. que é a salvação da própria alma. GÓTICO Medievalismo Arte GRAAL (A Demanda do Santo Graal: o mito do Rei Artur. é Máximo Gorki (1868-1936). não somente através de obras de ficção. exigiram dos intelectuais da época sua colaboração para a formação da ideologia socialista na União Soviética. O herói. chega a um castelo onde recebe hospedagem. ideologia comunista)Marx Após a Revolução Soviética de 1917. Perceval e Boors. se suicida trespassando seu corpo com a espada de Galaaz. pelo contrário. que se revolta contra todos os valores ideológicos. conforme seu peso. que conta as aventuras dos cavaleiros em busca do vaso sagrado. na infância e na juventude conheceu a miséria de sua família e da grande massa do povo russo escravizada pelo imperialismo czarista. na entrada do castelo. ao redor do séc. O maior escritor russo. Entre as várias histórias fantásticas que se inventaram acerca do rei Artur e dos heróis castos Galaaz. na corte do lendário rei Artur e de seus Cavaleiros da Távola Redonda. que pode ser considerado o pai do realismo socialista. a honra. O herói. o todo-poderoso e autoritário dono do castelo. uma "fremosa donzela" de 15 anos. apaixona-se pelo cavaleiro à primeira vista e perdidamente. logo depois. durante uma de suas andanças. Organizou também associações e revistas literárias para divulgar o ideal marxista. Nas origens do Cristianismo. sem que Galaaz sequer suspeite de ser o objeto do desejo da mocinha. o termo foi usado para indicar o vaso de que se serviu Jesus na Última Ceia. onde representa o sofrimento do proletariado. poderíamos notar vários elementos de inverossimilhança neste episódio da Demanda. esta espada. escreveu dramas e narrativas. especialmente Stalin. Filho de proletários. onde melhor aparecem os valores ideológicos do Medievalismo. do peito as costas. que tinha feito voto de castidade. e participou de movimentos revolucionários estudantis. que era o vaso em que se colocavam os alimentos. Após o triunfo da Revolução Bolchevique.

Porque ser humano é sentir-se feito de carne e de espírito. Caetés (tirania do meio provinciano). quando percebe que seus esforços para obrigar Galaaz a fazer dela uma mulher sexualmente satisfeita são inúteis. a princesa Genebra. Vidas secas (tirania do meio agreste). tendo referências simbólicas ao sagrado feminino. Osman Lins. praticou jornalismo e política. aderir á moda do experimentalismo formal de uns ou da temática populista de outros. visto que na psicologia humana o id e o superego (Freud) sofrem vitórias e derrotas alternadas. sociedade secreta renascentista. O que impressiona é a irredutibilidade desses dois princípios. morais e religiosas. O segredo milenar. da poesia trovadoresca e da escola do "doce estilo novo" (Petrarca). sendo utilizada também por artistas plásticos. A capital desta região. de classe média. com o título O Único e Eterno Rei. teria sido guardado sigilosamente pelos Templários no séc. Raquel de Queirós.White. chamada de Hélade. Nesta obra. foi reinterpretada pelo ficcionista norte-americano Dan Brown no seu best seller O Código Da Vinci ( Leonardo). ser idealizado e objeto de um amor apenas platônico. O impulso erótico dessa moça de apenas quinze anos e educada no ambiente fechado do castelo é tão violento que a leva a quebrar todas as barreiras sociais. GRACILIANO Ramos (romancista brasileiro) Graciliano Ramos (1892-1953) conviveu com o grupo de escritores da vanguarda literária nordestina (José Lins do Rego. sem. pelo teatro. centrados sobre episódios e personagens do ciclo cultural da Bretanha: o rei Artur. portanto. podemos verificar como o espírito dionisíaco e o espírito apolíneo estão igualmente presentes na estética e na prática de vida medieval. raras vezes se apresenta como um ser “humano” no sentido mais profundo do termo. Se cotejar a caracterização dessa personagem de A demanda do Santo Graal com a configuração da dama angelical. era a cidade de Atenas. com cidades . O cinema produziu muitos filmes de aventuras. Seu compromisso de homem e de literato sempre foi a denúncia das estruturas sociais opressivas e da miséria do homem do campo. da qual Leonardo da Vinci teria sido membro. de autoria de T. instigante e polémica. a palavra “Santo Graal”. acusar momentos de fraqueza e momentos de heroísmo. pela dança. O grande prosador alagoano. ter vícios e virtudes. a espada mágica Excalibur. porém. enfim nunca ser totalmente anjo ou totalmente demônio. O território grego era composto de uma parte continental. A tradução em língua portuguesa saiu em 2004. que leva à prática da doutrina maniqueísta do dualismo cósmico. A saga do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda foi fonte de inspiração para muitas obras literárias e cinematográficas. mais montanhosa. Jorge Amado e outros). E. pela ópera lírica. a cidade consagrada ao deus Apolo.H. XI e pelo Priorado de Sião. considerada o berço da civilização de todo o Ocidente. pela etimologia francesa Sangreal. Esta parte continental da Grécia fazia limite com Albânia. mas o conjunto dos documentos que revelariam uma suposta relação amorosa entre Jesus Cristo e Maria Madalena. chamada Ática. Angústia (a degradação moral vista como uma força fatídica que leva o homem ao crime e ao suicídio). O personagem de ficção (que geralmente é um homólogo do ser real) da Idade Média ou é um ser angélico ou um ser diabólico e. com o título A Espada na Pedra. A temática da opressão e da tirania encontrase nos seus principais romances: Infância (tirania paterna). O compositor alemão Wagner tratou do assunto na Ópera lírica Parsifal. recentemente. o amante Lancelot. O labor literário era considerado por ele uma arma para lutar contra a angústia existencial causada pelo meio físico e hostil e pelo sistema social injusto e competitivo. GRÉCIA (Atenas: o berço da cultura ocidental)Helenismo Distinta da Grécia moderna. não significaria um cálice. A lenda do Santo Graal. a Grécia Antiga. era uma grande região do sudeste da Europa. São Bernardo (tirania do senhor da terra e do marido).155 nome da satisfação de seus desejos carnais. A partir dos anos 30. o mago Merlin. cujos sacerdotes emitiam oráculos. que afastava dos bens de consumo a grande massa do povo. Bulgária e Macedônia. ela encontra na morte violenta a solução de sua angústia existencial. Memórias do cárcere (tirania policial). o que lhe causou a acusação de subversivo e a humilhante prisão de quase um ano (1936-1937). sendo o monte Parnaso considerado o refúgio dos poetas e tendo a seus pés Delfos. Outra parte era peninsular: o Peloponeso. começou a ser publicada uma série de cinco volumes. deixando transparecer sua simpatia para com os movimentos esquerdistas.

que exercia a função de governante ou rei (basileus). Teatro. Argos e Micenas. a poesia didática de Hesíodo e os fragmentos de poesia lírica de Safo e de outros poetas que escreveram elegias (cantos saudosos). o período chamado de “Idade Média Helênca”. Creta e Rodes. ao longo da sua história antiga e moderna. . referentes às diferentes épocas e às várias áreas do conhecimento humanístico: Mitologia. foram-se moldando. transmitidos pela tradição oral. esconjurado o perigo da invasão persiana. pastores de bois e de carneiros. descritos como loiros. quando se dá a passagem da oralidade para a escrita. epitalâmios (sobre a vida nupcial). de Péricles ou de Atenas) corresponde ao período mais importante da cultura grega quando. A falta de união e a dispersão territorial eram compensadas pelo uso da mesma língua. gozou de meio século de paz. pátria etc. Tirinto e a própria Micenas. nunca houve um poder centralizador. começam a ser escritos por letrados. a quem a cidade fora consagrada. ligadas ao continente pelo istmo de Corinto. procuraram dominar e. as lendas populares e os ensinamentos de vida. Escultura. a cidade de Atenas.C. a invasão dórica . Música. neta do último Minos).156 importantes como Esparta.). emigraram para o litoral da Ásia Menor. A incalculável influência da cultura grega no desenvolvimento dos povos ocidentais está tratada em verbetes específicos. quando foi instituído o regime democrático e foram criados os fundamentos da cultura no Ocidente. era a cidade principal da Ática. Várias tribos gregas formaram a Confederação Acaia para manter o domínio do mar Egeu. provocando a famosa Guerra de Tróia. Testemunhas desta cultura primitiva são os dois poemas épicos atribuídos a Homero (Ilíada e Odisséia).. Mas falar de “Império” com relação ao povo grego é uma impropriedade. descendo das planícies da Rússia e da Polônia. assimilar a civilização minóica que reinava nas terras banhadas pelo mar Egeu. sendo as mais importantes Lesbos. Aqui. a Magna Grécia (no Mediterrâneo). Os centros irradiadores da cultura helenística. os traços da civilização grega clássica. composta por uma constelação de ilhas esparsas ao longo dos mares jônico. cidade governada por um homem poderoso. Filosofia. Arquitetura. a romana Minerva. Nos dois poemas atribuídos a Homero (Ilíada e Odisséia). clássico e helenístico. depois das famosas Batalhas de Maratona (490 a. passaram a ser. portugueses. barbudos. nas várias áreas do conhecimento. Atenas. Os cantos heróicos. Samos. O próprio nome política vem de polis. ao redor do ano 2000. progressivamente. Assim. Teve seu esplendor máximo no séc.C. dando origem à chamada “talassocracia” (o império marítimo). começou a invadir a Grécia central e insular. amantes de pilhagens. Constantinopla (Império Romano do Oriente). na época clássica. 2) A fase clássica (áurea. ora através da força bruta (saque de Cnossos. que vai do século XI ao VIII. Estes aqueus. V a. a Europa renascentista e as regiões colonizadas por italianos. deslocando-se o eixo civilizacional da Grécia insular para a peninsular. O domínio dos aqueus sobre os cretenses provocou a passagem gradativa da civilização minóica para a micênica. os mitos religiosos. pôs fim ao domínio de Micenas.) e de Salamina (480 a. Mais tarde.C. mas escolhido democraticamente por todos os cidadãos. especialmente durante o governo de Péricles. uma parte insular. franceses. argivos ou dânaos. a região mais importante da Grécia continental. epinícios (celebração de vitórias esportivas). sem o poder de interferir na organização política e social de outras cidades. quando apareceram os primeiros documentos escritos. ladrões de mulheres. povo de raça indoeuropéia que. ora através de pactos amistosos (o lendário casamento do chefe aqueu Atreu com Érope. Enfim. pois. criadores de cavalos. centro da cultura bizantina ( Helenismo) e otomana. outra tribo da Grécia central. ao redor do ano 1400). chegando ao seu apogeu no século V. durante a pré-história da Grécia. pelos mesmos costumes e pela mesma crença nas divindades. após a decadência de Atenas. do étimo Athínai. ática. cujas cidades mais florescentes foram Corinto. Alexandria (no Egito). egeu e mediterrâneo. espanhóis. na época das Grandes Navegações e Descobertas Marítimas. ao mesmo tempo. Seu nome (com o acréscimo distintivo do “s”) é o mesmo da divindade Atena. Literatura. sucessivamente. então. cujo centro cultural era a ilha de Creta. odes (de assuntos variados: amor. Muitos aqueus. apresentamos apenas um esboço da divisão tradicional da cultura grega em três períodos: arcaico. será a parte continental da Grécia a conseguir a hegemonia: nos fins do século XII. os gregos são chamados de aqueos. Roma (na Itália e nas colônias do Império Romano do Ocidente). Pintura.). Dança . holandeses e ingleses. de civilização muito refinada. 1) A fase arcaica ou das origens vai do séc VIII ao V.

medicina) onde. que apresentam modelos acabados de beleza estética. sucessivamente. Veja-se a tríade dos autores trágicos: Ésquilo. Os mais importantes para a cultura ocidental foram São Gregório I. matemática. que era tocada nos cultos católicos durante a Baixa Idade Média (Medievalismo). Sófocles e Eurípides. física. Atenas foi dominada pelo poderio turcomuçulmano. Mas Atenas continuou a irradiar cultura. emprestando seus nomes a dois meses: julho (de Júlio) e agosto (de Augustus). Por vários séculos. então já cristianizado. A Filosofia. com a vitória final da cidade rival Esparta. pois sua região arqueológica (Acrópole. imposto pela divindade. Antes. Parténon. Apenas no século IV da nossa era. Calendário) O termo “gregoriano” está relacionado a vários santos e papas homônimos. de Menandro. foi assumida por Bizâncio. Para os romanos. instituindo o “cantochão”. Alexandre o Grande. Platão e Aristóteles). também chamado de canto gregoriano. A partir de 1456. com o nome de Constantinopla. Hoje em dia. homofônica e de ritmo livre. no Egito. que circundam a cidade de Atenas. sugerida pela articulação das palavras em seus acentos tônicos. passou a ser o centro do império cristão greco-oriental. e nas ciências naturais (astronomia.C. Tucídides e Xenofonte seus principais cultores. Alexandria. que se tornou a segunda capital cultural do mundo ocidental. capital do Império Otomano.157 tornando-se o centro político e cultural da Grécia. A Retórica se constitui em gênero literário pela eloqüência política de Demóstenes que. e a "nova".C. ofuscada pela cultura bizantina. especialmente com Píndaro e Safo. é o gênero literário mais indicado para a crítica social. Já o nome do papa Gregório XIII está ligado à reforma do calendário. tem a função de suplantar a crença mítica pelo pensamento reflexivo. pórtico das Êumenes). Assim. O filho deste. GREGORIANO (Música. são visitados constantemente. especialmente durante o governo democrático de Péricles (469-429 a. após a guerra da independência. pois os imperadores romanos Júlio César e César Augusto foram homenageados. deu nome a uma nova cidade. música composta sobre textos litúrgicos latinos. da filosofia e da história. cultivada especialmente pela outra tríade (Sócrates. Canto. monarca da Macedônia. o Grande (540-604). violento ataque político e social. Nesta época de apogeu da civilização grega. O primeiro se tornou famoso pela reorganização disciplinar e litúrgica da Igreja Romana. em suas Filípicas. o ano começava em março. X. por isso é o mais curto. acontecida em 1582. e o livre arbítrio a que aspira o ser humano. que sucedeu à fase primitiva de Homero e Hesíodo impregnada da crença ingênua na intervenção do sobrenatural na vida humana. A poesia lírica. de Aristófanes. quando foi dominada por Felipe II. suplantando a fase de superstição e de empiria. tornando-se a capital do reino da Grécia moderna. tenta precaver os gregos contra os perigos da hegemonia da Macedônia A História tem em Heródoto. Os dois foram papas. e Gregório XIII (1502-1585). herdeiro do Império Romano do Oriente e. através de uma gama imensa de realizações culturais. mesmo nos períodos helenístico e romano (os latinos ocuparam Atenas no ano de 196 a. a função de divulgar o helenismo.). 3) A fase helenística: o domínio de Atenas começou a enfraquecer após a guerra do Peloponeso (431-404). com exceção de quando é bissexto: de quatro em quatro anos. Esta é a época da maturidade do espírito grego. outras atividades humanas alcançam seu ponto alto de expressão. . praça da Ágora. o porto do Pireu e o passeio pelas Ilhas maravilhosas dos vários mares. Este canto tradicional do Catolicismo é pura melodia. A Comédia "antiga”.). leve sátira dos costumes da época. chegando ao apogeu no séc. a cidade de Atenas levou uma vida precária. templo de Hefesto. e o declínio se acentuou com a derrota de Queronéia (338). fevereiro tem 29 dias. que tem na cidade de Atenas seu centro propulsor. quando houve a separação entre o Império Romano do Ocidente e do Oriente. nas artes plásticas ( arquitetura. se lançam as bases da pesquisa científica. deus da guerra e fevereiro era o último mês do ano. tendo 28 dias. A explicação científica é que a translação (o movimento da terra ao redor do Sol) ocorre ao longo de 365 dias e seis horas. além da literatura. existia o calendário “juliano”. escultura e pintura). Atenas vive especialmente do turismo. A Tragédia retoma os mitos fixados pela poesia épica e evidencia o conflito entre o destino (Fado). de Marte. Odeon de Péricles. consegue expressar em forma de arte os mais nobres sentimentos humanos. sob o nome atual de Istambul. Em 1834. teatro de Dionísio. colônia grega no Bósforo que. conseguiu sua emancipação. da família Júlia. É neste período que o gênio ático produz os fundamentos da civilização ocidental.

3) Helenismo cristão. o deus latino de duas faces. oxímoros. os personagens que povoam o sertão brasileiro (coronéis. indicando o início e o fim. que domina durante o período áureo e imperial da cultura latina. É a fase da “divulgação” da produção artística produzida nos séc.) se encontram representados em suas lutas pela sobrevivência e pela afirmação de indivíduos ou de grupos sociais. pois o nome da Grécia Antiga era Hélade. jagunços. estabelece um nexo intrínseco e necessário entre significante e significado. o senhor sabe: tudo incerto. Tutaméia. a tradição do passado e as incertezas do futuro. O discurso de Guimarães Rosa não é referencial. médico e diplomata mineiro. lançando mão de todos os recursos da linguagem poética (aliterações. Notável é ainda que o mundo sertanejo é representado por uma linguagem altamente poética. Corpo de baile. a crença nas forças demoníacas e a fé em Deus. Tendo por base o português arcaico. mas criador de realidades. de Jano. por expressar toda a epicidade e a poeticidade do homem sertanejo. historicamente. daí a dificuldade de integrar as semanas com os meses de forma que. A rivalidade entre coronéis e seus bandos de jagunços pela posse de territórios e pelo mando sobre povoados. o presente e o passado). que vai da conquista da Grécia e do Oriente Médio (Irã. ativando constantemente a função poética da linguagem. onde a religião cristã tem seus adeptos. o volumoso romance Grande sertão: veredas. Em suas coletâneas de contos ( Sagarana. elevando o sertão mineiro à categoria do universal.C. o tormento de paixões inconfessáveis. o ano civil começa em janeiro (januarius. que inicia a partir da liberdade de culto concedida pelo imperador Constantino (Edito de Milão. operou a renovação da abúlica narrativa “regionalista” tradicional. helênico é igual a grego. Alexandria está entre Atenas e Roma na difusão da cultura grega. o helenismo seria a fase pós-clássica. enquanto o ano litúrgico tem início variável. na divisão da cultura grega em vários períodos. Para o povo judeu. anacolutos. prostitutas. V. pois. HEDONISMO (o prazer. quando acontece a Páscoa. 2) Helenismo romano. Turquestão. pois depende da lua cheia do mês judaico de “nisan” que corresponde. elipses.C). durante o período clássico da Grécia. assim como falado pelos sertanejos mineiros. que se estende da perda da independência da Grécia até à queda do Império Romano do Oriente. Primeiras estórias) e na obra-prima. elementos rítmicos. aproximadamente. moças de família. até à queda do Império Romano do Ocidente (476 d. em todos os anos.158 Atualmente. o jagunço Riobaldo e o rapaz/moça Diadorim. Mas.C). aparecendo em primeiro plano no relacionamento amoroso entre os protagonistas de Grande sertão: veredas. são linhas de força que criam um campo de ambigüidade. o autor trabalha esse material. a coexistência do mal e do bem. peões. distinguindose várias épocas: 1) Helenismo alexandrino. imagens metafóricas. Egito e toda a bacia do Mediterrâneo) pelo imperador macedônico Alexandre o Grande (+323 a. ao mês de abril do calendário romano. onomatopéias. com o dúplice efeito de expressar o que se passa no subconsciente dos personagens e de obrigar o destinatário a refletir sobre as palavras lidas e os problemas da existência humana. velhas devotas etc. GUERRA (o instinto humano da violência levado ao paroxismo)Marte GUIMARÃES Rosa (ficcionista mineiro) Sertão é isto. estendendo-se durante a vigência do Império Romano do Ocidente e do Oriente (de 395 a 1453) e que perdura até hoje. a semana é mais importante do que o mês para a contagem do tempo. neologismos. pois . que domina toda a obra ficcional de Guimarães Rosa. do ano 313). desvios sintáticos). tudo certo João Guimarães Rosa (1908-1967).) até à dominação romana (31 a. na medida em que composto de palavras-signos de realidades. A semana bíblica é intocável. em primeiro lugar)Epicuro HEGEL (filósofo alemão) Idealismo HEIDEGGER (filósofo alemão)Existencialismo HELENA (causa mítica da Guerra de Tróia)Ilíada HELENISMO (difusão cultural)Grécia AlexandriaRoma Num sentido geral. os dias da semana coincidissem sempre com os mesmos dias dos meses. comparações ousadas.

já demonstrando para que veio ao mundo. até a proclamação da Republica da Turquia. 4) capturar o javali de Erimanto. Hércules nasceu de uma relação híbrida de Júpiter com a princesa Alcmena. a esposa de Júpiter (Zeus). está impregnado da cultura greco-romana. os 12 Trabalhos) Segundo o mito.. a ditadura nazi-fascista e a Guerra Civil Espanhola (Por quem os sinos dobram). quase telegráficas. armado de sua clava. fez com que Hércules . A história da civilização bizantina está intimamente relacionada com os três nomes que.VII a. fez outras façanhas. a ponto de o adjetivo “bizantino” se vulgarizar para indicar um requinte excessivo nas discussões teológicas ou nas formas artísticas. sendo recompensado com o amor das 50 filhas de Téspio. por vingança.C. Libertou Prometeu. Ásia Menor. 4) Helenismo bizantino. Síria e Egito. 9) apoderar-se do cinturão da amazona Hipólita. 2) matar a hidra de Lerna (o trabalho mais desgastante. no séc. HEMINGWAY (romancista norte-americano) Um escritor deve criar gente real. Os sentimentos humanos mais poderosos são expressos por diálogos rápidos e envolventes. durante os três anos que foi escravo da rainha Ônfale. O estilo jornalístico faz-se sentir nas frases curtas. em seus diferentes credos (Catolicismo. Separou os rochedos de Gibraltar (perto da costa hispânica) e de Ceuta (perto do litoral africano). 12) acorrentar o cão Cérbero.IV . “Constantinopla”. no estreito do Bósforo. casou-se com Mégara. que é uma caricatura Ernest Hemingway (1898-1961) dividiu sua vida entre jornalismo e literatura. acorrentado ao monte Cáucaso. 3) capturar a corsa cerinita. que estabeleciam o fim do mundo antigamente conhecido. A ciumenta Juno (a Hera grega). enlouquecido por artimanhas da deusa. a luta do homem e do animal nas touradas (Morte na tarde). a partir do séc. passaram a denominar a capital do vasto império: “Bizâncio”. 5) abater as aves do lago Estinfális. Protestantismo {Lutero}. envia duas serpentes para devorar o bebê de oito meses. sustentadas pelo gigante Atlas. filha de Creonte. além destes Doze Trabalhos. a antiga colônia grega. rei de Tebas. 6) limpar as cavalariças do rei Áugias. A temática de seus romances está diretamente relacionada com suas experiências de vida: os horrores da Primeira Guerra Mundial (Adeus às armas). gente e não personagem. 11) colher os frutos de ouro do jardim das Hespérides. na falta de subordinação e na parcimônia da adjetivação. para vingar-se da traição do marido com a concubina Íole. precisou superar várias provas. Mas Hércules. o Grande. quando Ancara passou a ser a capital. irmã e esposa de Júpiter)Juno HÉRCULES (Héracles grego: a personificação da força. que a lenda chamou de os doze trabalhos de Hércules: 1) matar o leão de Neméia. HERA (nome grego da rainha do Olimpo. matou um leão que assolava os rebanhos no monte Citerão. sucessivamente. a vingança de Juno se fez presente: Hércules. estendendo-se pelos Bálcãs. 7) capturar o touro de Minos em Creta. caracterizado por uma sutileza extrema. Mas não foi sempre tão “macho” assim! O mito narra que Hércules. denominação atual: arrasada pelos cruzados em 1204 e tomada pelos turcos em 1453. fundada por helenos provenientes de Megara e Argos. na ausência de retórica no seu discurso poético. que marca a herança do imperador romano Constantino. a impotência do regressado em se readaptar às convenções familiares e sociais (O lar do soldado). 10) capturar os bois de Gerião. tendo um estilo próprio. Após diversas proezas. acabou matando esposa e filhos. pois a cada cabeça cortada nasciam duas). Igreja Ortodoxa ). usando roupas de mulher e manejando a roca. A cultura bizantina se irradiou pela bacia do Mediterrâneo. deixou-se por ela dominar até se efeminar. filha do rei de Micenas. Hércules. Aos 18 anos. “Istambul”. Sua ultima esposa foi Dejanira que.159 o Cristianismo (Cristo). Para expiar este crime. Participou da expedição dos Argonautas. que separa a Turquia asiática da parte européia. com a qual passou uma tórrida noite de amor. estrangulou as cobras com as mãos. que sucedeu ao Império Romano do Oriente. que vigorou durante o império cristão greco-oriental. Mais uma vez. Este episódio encontra-se encenado magistralmente pelo escritor latino Plauto numa comédia que leva por título o nome do esposo traído. tomando a feição do marido Anfitrião. 8) domar os cavalos de Diomedes. tornou-se a capital do Império Otomano. formando as famosas “Colunas de Hércules”. em 1923. as duas profissões influenciando-se reciprocamente.

de desenvolto no furto. uma das sete plêiades ou atlântidas. A figura de . representado com corpo humano e cabeça de íbis ou de cão (cinocéfalo). de mensageiro. desesperado de dor. Hermes é filho de Júpiter e de Maia. O poeta Dante Alighieri (Divina Comédia). o pintor Botticelli retrata o deus pagão no seu famoso quadro La Primavera. Petrarca fala do mensageiro divino no seu poema épico África. Hércules. o mito de Hermes se encontra citado nos maiores artistas italianos. foi venerado como protetor do comércio. Por essas suas qualidades. Os gregos da entrada da nossa era identificaram Mercúrio com o deus egípcio Thot. é este Mensageiro divino que coloca no seio da primeira mulher o sêmen da mentira e do engano para atormentar a vida do homem. É o deus da prosperidade econômica. conseguiu o amor de Vênus (com quem gerou Hermafrodito.C. narrativas. Na poesia épica. A este Thot-Mercúrio são atribuídos vários livros que tratam de astrologia. subiu ao monte Eta e se lançou numa grande pira. as características de intérprete (hermeneus). Ajudou o pai Júpiter na luta contra os Gigantes. Mercúrio exerce a função de transmissor das ordens de Júpiter e dos recados dos outros deuses. o deus da magia. conforme a narração do poeta Hesíodo. e agrupados sob o título geral de Corpus hermeticum. Quase contemporâneo de Platão. rouba. surgiram inúmeras variantes que ligam a figura do deus à alquimia. Boccaccio (Genealogia dos Deuses) vê nele o intérprete dos segredos. viajando constantemente do Olimpo para a Terra e vice-versa. Para esta simbiose da mitologia grega com a egípcia e da divindade com a humanidade (o “deus escritor”) contribuiu muito o advento do “evemerismo”. No mito de Pandora (Prometeu). Representado com asas nos pés e com uma bolsa na mão. denominado “Hermes Trimegisto” (três vezes grande). vende e desvenda Conforme a versão do mito mais conhecida. ao poder da exegese..160 vestisse uma túnica feita com filtro mágico que se colou à pele do herói. de outras deusas e de mulheres mortais. atribui a Mercúrio qualidades relacionadas entre si: ele perscruta. tecendo um paralelo entre os planetas e as sete artes liberais. trapaça. considerado o inventor da escrita. de enganador com palavras e de hábil comerciante. Desde a mais tenra idade. ao longo de uma tradição cultural. paralelamente a esta faceta “clássica” do mito de Hermes-Mercúrio. alquimia. coloca a “dialética” na esfera de Mercúrio. esoterismo. O filósofo Platão. ser bissexuadoAndrógino). onde fez as pazes com Juno. o filósofo grego Evêmero (340-260) expunha a tese de que os deuses são apenas homens importantes que o temor e a ignorância colocaram num pedestal. O mito de Hércules. o homem rouba. especialmente a lenda de seus Doze Trabalhos. todas essas atividades relacionam-se com o poder do discurso”. teatrais e cinematográficas. através das representações folclóricas mais variadas. deusa da eterna juventude e dos trabalhos domésticos. Reboou um trovão imenso e o herói foi elevado ao Olimpo. atribuindo-lhes onipotência. O imaginário culto e popular. dos viajantes e dos esportistas. que lhe deu como esposa sua própria filha Hebe. Júpiter o escolheu como mensageiro dos deuses do Olimpo. origem das palavras românicas “hermenêutica” e “hermético”. diz que o nome de Hermes está ligado etimologicamente ao nome grego hermeneus (“intérprete”). Literalmente: “(o nome Hermes) parece relacionar-se com o discurso (logos). transporta. tirou vários deuses de situações embaraçosas. aquele que dissipa as nuvens do espírito. da Comunicação e da Interpretação) Sob as asas de Mercúrio. abrindo as nuvens para clarear a atmosfera. deus do Comércio. d. revela o sentido oculto das coisas. HERMAFRODITO (ser bissexuado)Andrógino HERMES (“Mercúrio” em Roma. oculta. no diálogo Crátilo. ao longo da cultura ocidental. o juiz que pesava as almas dos mortos. vende. datados a partir do II séc. Na Idade Média cristã. foi objeto de muitas obras iconográficas (pinturas e esculturas). às artes mágicas. Mas. filha do gigante Atlas e da deusa Plêione. Mercúrio deu mostras de grande astúcia e habilidade para fazer trapaças: saiu das faixas que o envolviam quando bebê e foi roubar os rebanhos de Apolo. queimando-a como fogo. do lucro e das viagens. teosofia. O adjetivo “hercúleo” se incorporou ao dicionário panromânico como símbolo da força sobre-humana.

por sua vez. suporte inabalável de tudo quanto existe. para que a cobrisse por todo e fosse para sempre a mansão segura dos deuses bem-aventurados. Do mito para a ciência. onde exalta a importância do sentimento da justiça e do trabalho. a hipnose é um estado artificial de dormência provocado por sugestão. Nasceu na Beócia. indicando a função dessa divindade: de noite. que amolece os membros e. irmão gêmeo da Morte (Tânatos) e pai de Morfeu. Conforme a mitologia grega. judeu ou árabe. O nome morfeu em grego significa “forma”. ligado a povos inclinados para o comércio e a mobilidade. Os trabalhos e os dias. Os Vedas. Teve um irmão. mais do que grego. se apoderou também da parte pertencente a Hesíodo.161 Hermes serve também como ligação entre a cultura greco-romana e a consciência muçulmana. e aparecia em seus sonhos. tratado mitológico sobre as origens dos deuses e do mundo. Hipnos. sendo um “profeta sem rosto”. Brahma. A transcrição do seguinte trecho serve melhor do que qualquer comentário para sentirmos o sabor da obra: “Primeiro que tudo houve o Caos. com uma papoula na mão. Hipnose)Tânatos. ora é mãe. corrompendo os juízes. O neurologista francês Jean Martin Charcot (1825-1893). HESÍODO (escritor grego do período arcaico: poesia didática) Um dia. cujo cheiro fazia os homens adormecerem. Sonho. também se serviu da hipnose e da interpretação dos sonhos para conseguir o efeito terapêutico da catarse. tentou tratar a histeria com a hipnose. com o seu tamanho. Seu discípulo Sigmund Freud. o espírito tomava forma humana alada. Hesíodo é um dos primeiros poetas da Grécia Antiga de que temos traços biográficos historicamente comprovados. o mais belo entre os deuses imortais. que habitam os montes cercados de vales”. Mas. A Terra gerou primeiro o Céu constelado. depois de ter dissipado a sua parte da herança paterna. ele é um deus “intermediário”. 2) Preceitos sobre a agricultura e a navegação. no peito de todos os homens e deuses. Gandhi)Buda HIPNOS (Morfeu. HINDUÍSMO (primitiva religião indiana. com . Hermes é uma configuração semítica: fenício. a atividade artística preocupada com o ensinamento da realidade cotidiana.3) Preceitos sobre a vida moral. correspondente ao deus latino Sono. O poeta faz referência a esse episódio de sua vida na obra que o tornou imortal. Perses que. historiadores e hagiógrafos identificam o deus grego com Idris do Corão. e da Noite. O motivo fundamental que percorre o poema todo é a existência da dor no mundo (mito da passagem da Idade de Ouro para a Idade de Ferro). Do Caos nasceram o Érebo e a negra Noite. especialmente da vida campesina. morada aprazível das deusas Ninfas. 4) Calendário sobre os dias bons e os dias ruins para o cultivo da terra. e Eros. Sono. Enfim. filho de um comerciante marítimo. e depois a Terra de peito ingente. o Éter e o Dia. da nossa Bíblia. domina o espírito e a vontade esclarecida. No começo da “hégira” (a era maometana). distinguindo as convulsões histéricas das que ocorrem nos ataques epilépticos. ora é madrasta. egípcio. no século VII a. num primeiro momento. era Filho da Noite. mas sua identidade é inapreensível. Idris-Hermes é chamado de “Triplo Sábio”. semelhante ao livro Gênese. como o Trimegisto egípcio.C. mas essa dor pode ser mitigada pela prática do trabalho e da justiça entre os homens. Ele foi o maior expoente da poesia “didática”. Outro poema importante de Hesíodo é a Teogonia. dedicando o longo poema ao próprio irmão. Gerou ainda as altas montanhas.. O tratado está dividido em quatro partes: 1) Exortação ao trabalho.

Estes. promovido por Adolf Hitler. Ao liderar mais uma campanha pela integração racial. alimentando o ódio nacional contra marxistas. HIPÓCRATES (cientista grego. holocausto. Passado à história como Pai da Medicina. uns seis milhões de judeus. Famoso é o seu “Juramento”. em Memphis. a ignorância em crer que se sabe. de costumes e de religião. A ciência consiste em saber. por aquela competição mundial. durante as Olimpíadas de Berlim. No mundo moderno. Adolf Hitler (1889-1945). Conquistou a simpatia popular por pôr em prática um ambicioso plano de recuperação econômica. formando um exército de quase cem mil homens no Sul da Itália. invadiu a Polônia. as doenças são conseqüência das alterações dos humores do organismo. Assim falamos de raça ou de etnia negra com referência aos africanos e descendentes que vivem fora de seu continente ou de etnia judaica com relação aos hebreus que vivem longe do Estado de Israel. duas coisas diferentes: saber e crer de saber. o tratamento de distúrbios pela hipnose desapareceu quase completamente do campo psicoterapêutico. maior a chance de todos acreditarem nela. remontando aos Impérios da Era Antiga (assírio. sendo derrotado pelo triúnviro Crasso. ao longo de mais uma década (de 1933 a 1945). da superioridade da raça ariana! Apoiado por industriais e banqueiros. HITLER (nazismo. que significa “raça”. aproximadamente. eugenia. Ele condenou não apenas a discriminação. pai da medicina) Há. Ele liderou a revolta dos escravos. indica qualquer agrupamento humano com estrutura familiar. cuja unidade repousa numa comunidade de língua. Ele foi o primeiro estudioso do corpo humano a utilizar a observação clínica. eleito Chanceler da Alemanha em 1933. O maior médico da Antiguidade viveu entre 460 e 377. ao chegarem ao campo de concentração de Buchenwald. Gorou. o intento nazista de demonstrar. Cometeu suicídio em 1945. mas também o silêncio: “você não é responsável apenas pelo que você diz. quando viu Berlim arrasada pelos Aliados. pintor e cabo na I Guerra Mundial. montou uma poderosa máquina bélica e. dando início à II Guerra Mundial (Marte). por grupo étnico se entende uma minoria que vive numa sociedade culturalmente diferente. macedônico. em 4 de abril . erroneamente atribuída ao pensamento de Nietzsche. inspirado na figura pacifista do indiano Gandhi (Hinduísmo). verdadeiramente. romano). por ser negro. que costumavam tratar como escravos os povos por eles subjugados. Segundo ele.C. Etnia. Lembramos o personagem histórico Espártaco (Escravidão). foi barbaramente assassinado. Função do médico é ajudar a natureza a reagir para restabelecer o equilíbrio orgânico. hoje em dia. racismo. econômica e social homogênea. escravizado pelo exército de Roma e vendido como gladiador. foram vítimas do processo de “limpeza étnica”. Hitler se negou a entregar a medalha de ouro ao corredor norte-americano Jesse Owens. judeus e negros. encontraram os restos das câmaras de gás. camponês da Trácia. etnia)Nietzsche Quanto maior a mentira. no estado do Tenessee. filho de um fiscal de alfândega. então. em 1939. no ano seguinte tornou-se presidente do Reich. Neste mesmo ano. Em 1936. A luta pela coexistência pacífica de várias etnias numa mesma nação e pela igualdade racial é bem antiga. tornou-se mundialmente famosa a figura do pastor negro norte-americano Martin Luther King (1929-1968) que. em 71 a. a tese. Mas. O Juramento de Hipócrates reza o compromisso dos médicos com a honestidade e a ética no exercício da função. De origem austríaca. do grego ethnos. mas também pelo que não diz”. deixou uma vasta obra com o nome Corpus Hippocraticum. onde se calculam que foram mortos. dedicou sua vida à luta desarmada pelos direitos civis dos negros nos EUA. ainda hoje repetido pelos formados em Medicina no ato de receber o diploma. junto com ciganos de várias nacionalidades.162 o desenvolvimento da psicanálise. apareceu o horror do “Holocausto”: as tropas americanas.

VIII a. montara um laboratório experimental em Cold Spring Harbor (Long Island) para pesquisas genéticas e coletâneas de dados sobre linhagens humanas. aviões da Otan bombardearam Belgrado e outras regiões da Sérvia. de origem anônima e popular. em 1927. com o objetivo de acabar com a “limpeza étnica” contra os muçulmanos de origem albanesa que habitam a província do Kosovo. que acreditava na hereditariedade do talento. instintos criminosos e condições de miséria. A ciência demonstrou que as discrepâncias de DNA entre etnias diferentes são irrelevantes: dois suecos podem ser menos parecidos geneticamente entre si do que um negro e outro sueco. Em1999. o sarampo da humanidade”. E o pior foi que a tese da eugenia saiu do campo científico e se infiltrou na sociedade americana. Já os norteamericanos eram a favor de uma eugenia negativa. A lenda envolve totalmente a figura deste poeta. influenciado pelas idéias românticas sobre o gênio criativo da coletividade nacional e baseado nas constantes repetições e nas aberrantes contradições (os famosos "cochilos" de Homero). estimulando a prática da esterilização compulsória de mulheres e de homens considerados nocivos para a sociedade. Hitler não foi o único nem o primeiro governante insano! Num livro recente. o jornalista Edwin Black demonstra que os Estados Unidos foram pioneiros no racismo científico. em 1904. Como se pode ver. o presidente-ditador Slobodan Milosevic foi afastado do poder e acusado por crimes contra a humanidade. Basta constatar que oito cidades do mundo helenístico disputam a honra de terem sido a pátria de origem do imortal poeta. O judeu Albert Einstein. Mas sua luta não foi em vão: os negros conseguiram todos os Direitos Civis. Martim Lutero King foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz de 1964 e o dia da sua morte foi consagrado como Feriado Nacional nos USA. O biólogo puritano Charles Davenport. No ano seguinte. degradações morais. tido como o papa da eugenia. lança a tese de que os dois poemas atribuídos a Homero não são senão coletâneas de vários cantos heróicos. foram esterilizados cerca de 60. Mas o sentimento vergonhoso do racismo humano não se dirige apenas contra judeus e negros. não faz mais sentido falar de superioridade racial. quando a prática foi proibida.C. Portanto. fundada por Pisístrato de Atenas. Francis Galton. que estimulasse os mais talentosos a cruzar entre si. em 1984. Gilberto Freyre. Antes do avanço da ciência biológica. em 1993. empurrando-os para as fronteiras com a Albânia. Seu intento era implementar uma eugenia positiva. justificada pela qualificação genérica de “débil mental”. um ilustre brasileiro chegara a esta conclusão pela pesquisa sociológica. pois suas notícias biográficas são fantasiosas. que se encontram nas duas epopéias. que conduziria ao holocausto europeu. XIX. conseguiu acabar com a apartheid na África do Sul.163 de 1968.000 norte-americanos. HOMERO (poeta lendário da Grécia)Ilíada OdisséiaÉpica Os dois poemas épicos da Grécia Antiga. no fim do séc. tentando descobrir padrões hereditários que explicassem a origem de deformações físicas. as diferenças que possam existir entre vários grupos sociais são de origem educacional e não genética. afirmara: “A descriminação contra o negro é uma discriminação contra homens que não foram educados para ser cidadãos brasileiros”. é o problema da autoria dos poemas. O autor Edwin Black calcula que. “nascido”) foi cunhada (na Inglaterra e não na Alemanha!) por um primo de Darwin. mãe solteira de 18 anos. maior do que a dúvida sobre a identidade histórica de Homero (a famosa “questão homérica”). Hoje em dia. Foi um único escritor ou vários e em épocas diferentes? No começo do séc. Os sérvios tinham expulsado um milhar de muçulmanos. acabou a “guerra étnica” na antiga Iugoslávia: por decisão da ONU. Montenegro e Macedônia. até o fim da década de 70. inclusive de Voto. o erudito alemão Fr. O argumento básico é que a escritura não era conhecida . cuja condenação à esterilização foi ratificada pela Suprema Corte dos USA.. A Guerra contra os fracos. que sentiu na carne a problemática do preconceito étnico. foram atribuídos pela tradição clássica a Homero. após os estudos avançados sobre o genoma humano ( Genética). “bem” e gene. A própria palavra “eugenia” (do grego eu. finalmente. Outro negro ilustre foi Nelson Mandela que. XIX. nenhum dado sendo historicamente provado. Famoso foi o caso de Carrie Buck. a Ilíada e a Odisséia. compostos ao redor do séc. A Woolf ( Prolegômena a Homero). Mas. transmitidos oralmente de geração para geração e redigidos pela sociedade dos "Homeristas". impedindo a reprodução de seres supostamente considerados inferiores. após 27 anos de prisão política. definiu o nacionalismo como “uma doença infantil.

contradições e diferenças estilísticas que levam a pensar numa originária pluralidade de autores. Encontramos. Já que o poeta compõe com tantos materiais diversos um poema do qual cada parte era feita para ser cantada separadamente e cujo conjunto deve ter sido composto parceladamente. as festividades religiosas e os banquetes dos cortesãos e ricos senhores. O fator educador da poesia consiste em manter viva a lembrança da glória do passado. fundamentados em descobrimentos arqueológicos. antes do século X a. que eram recitados durante as celebrações patrióticas. definido por Carpeaux (História da Literatura Ocidental) como poet's poet.C. no começo do século passado. A verdade. as façanhas e os sentimentos das personagens épicas assumem o papel de paradigmas ideológicos para qualquer situação de vida. em que hoje ninguém pode mais acreditar. Homero adulto. Como releva O. HORÁCIO (poeta lírico e satírico romano) “Carpe diem” Junto com Virgílio. o estudioso alemão Werner Jaeger (Paidéia) tem ressaltado a grande influência da poesia épica na formação social e cultural da Grécia Antiga. talvez até duma unidade de estilo e de inspiração? Enfim. O que os gregos chamavam de "psicacogia" é o poder da arte de estimular uma conversão espiritual: a beleza do texto literário. tirados do mito.C. que exercem influência duradoura sobre a realidade grega. considerando-se a força superior da tradição ética. O instrumento da intenção pedagógica é a criação de exemplos ideais. A poesia épica representa o primeiro esforço artístico dos gregos para eternizar normas ideais. Homero. A presença dos deuses homéricos. Os principais heróis gregos e troianos tiveram suas façanhas enaltecidas em versos épicos. visto que os mitos religiosos. o pensamento dos críticos positivistas que. ideais humanos. Os gregos de todos os tempos encontraram em Homero respostas quanto à conduta da vida. cujos valores estéticos e humanos tiveram reflexos nas melhores produções literárias do Ocidente. “est modus in rebus” (há uma maneira . se criou uma série de lendas e de cantos épicos. como sempre. muitos destes cantos se perderam e o que nos legou a tradição foram apenas dois poemas épicos. ao redor do século X. pois na idade primitiva de um povo os valores estéticos não se separam dos valores éticos. que são. mas também a capacidade dos homens de superá-la. lembranças de guerras gloriosas e do exílio dos aqueus na Ásia. Quanto ao valor educativo dos poemas homéricos. o “pathos” heróico da Ilíada e a ética aristocrática da Odisséia são imagens ideais de vida. como opinam outros. não inventaram os assuntos poemáticos. por definição. Ulisses. Homero. Se. se tornaram protótipos humanos. de uma pintura ou de uma estátua. o mistério sobre o autor ou os autores da Ilí ada e da Odisséia não fere o brilho das duas criações artísticas. ou outro rapsodo de nome desconhecido. Que o redator da Ilíada. ou dois poetas diferentes. entre outros heróis da epopéia grega. deveremos espantar-nos pelo fato de encontrar essas contradições. por ter exercido uma grande influência entre os poetas cultos de todos os tempos e por ter criado versos e expressões que se tornaram memoráveis: “carpe diem” (aproveitar o momento). de outro lado. mas trabalharam sobre o material épico preexistente. Carpeaux (História da Literatura Ocidental). Enéias.164 na Grécia antes do século VI a. demonstraram a existência da escrita na Grécia e na Ásia Menor. como sustentam alguns críticos. poesia ritual sobre a morte e a descida aos infernos. Os filósofos socráticos já consideraram Homero como o educador da Grécia toda. na Iônia. Homero jovem. constituindo os fundamentos da cultura humanística. Aquiles. mitologia contemporânea e lembranças de antigos deuses transformados em heróis e conservados com todo o aparato ritual que seu culto comportava. atribuindo a autoria da Ilíada e da Odísséia a um único poeta.. a análise textual dos dois poemas acusa repetições. de um lado.M. teve o mérito inestimável de reunir e de dar forma artística a este material épico primitivo. perto da Ásia Menor e berço da civilização grega. e o redator da Odísséia. no começo curtos e isolados. O conteúdo e até a arte perderam a importância principal. que tinham como núcleo central o longo assédio dos navios gregos à cidade de Tróia. Quintus Horatius Flaccus (65-8) é um dos maiores poetas da literatura ocidental. a criação artística coletiva e anônima é um mito romântico. A esta tese se opõe. Ocorreu que. é um fato incontestável. lendas recentes e antigas. revela não só a condição humana. está longe dos extremismos. comove os ânimos dos ouvintes ou espectadores e desperta o desejo de imitar as ações e os caracteres nobres dos heróis de sua pátria. nas duas obras de arte literária. Evidentemente. ou o que chamamos falta de lógica rigorosa de "composição".

Mas. inebriando-nos com o vinho. sendo o homem considerado como tal. Podemos distinguir três fases na sua produção poética: 1) poesia satírica. prefácio ao drama Cromwell (1827). Orientales. o Humanismo é o substrato ideológico da Renascença: movimento filosófico e literário. Pérsio e Juvenal. Les chansons des rues et des bois. de que se serve para renovar a linguagem poética. inclusive o epigramatista Marcial. Direito. romance de aventura no estilo de Walter Scott.165 de fazer as coisas). de assunto filosófico-moral-literário. é La légende des siêcles. no sentido estrito ou histórico do termo. fora das amarras das instituições medievais do Império e da Igreja. . em que é exposto o pensamento horaciano sobre conceito e estrutura da poesia. as Odes apresentam também outros motivos convencionais: o amor à pátria. que preparavam o homem para o exercício da sua liberdade cívica e da sua atividade profissional. Outro grande humanista francês foi Claude Lévi-Strauss. que seguia a moda do romance “negro”. Cícero. pois achava que a cultura geral era fundamental para o conhecimento do ser humano. Os trabalhadores do mar (1866). a obra-prima da ficção romântica em prosa. O homem que ri (1869). Mas. “odi profanum vulgus” (odeio a vulgaridade). por serem conversações leves sobre os costumes de seu tempo. está relacionado com a palavra latina humanitas. estudou Lingüística. da época da maturidade: 4 livros de Odes. retórica. Filosofia. 3) poesia reflexiva. dirigidas em forma de cartas a amigos ausentes. Realmente. Nos tempos modernos. um grande humanista foi o filósofo e poeta francês JeanPaul Sartre. De sua prosa de ficção. entre outros. Les rayons et les ombres. o amor e a amizade. assinalamos as seguintes obras: Han de Islândia (1823). Bug-Jargal (1826). Contrariando a moda da “especialização”. Sêneca. intitulada O Existencialismo é um Humanismo. ética). obra juvenil. seguindo o exemplo da Poética de Aristóteles. “aproveitemos o momento presente”. à divindade. pela sua famosa frase “o homem é a medida de todas as coisas”. Les voix intérieures. ou canções. Victor (escritor romântico francês) A melancolia é a felicidade de estar triste Victor-Marie Hugo (1802-1885) é o maior poeta e romancista do Romantismo francês. que lecionou na Universidade de São Paulo e estudou a cultura de tribos indígenas do Brasil ( Tristes Trópicos). Marsílio Ficino. onde aparece o motivo preferido pelo epicurista Horácio: carpe diem. Feuilles d’automne. As “Humanidades” constituíam um conjunto de disciplinas (gramática. o Humanismo sempre existiu e sempre existirá. que expressava a essência da educação romana. romance de personagem e de espaço. que escreveu uma obra muito importante a respeito. A mais famosa epístola de Horácio é a última do segundo livro. Os miseráveis (1862). superando de longe o predecessor Lucílio e seus sucessores. no gênero da sátira literária. Música. Ad Pisones. pode ser considerado o primeiro humanista. Como bom antropólogo. sendo a expressão de uma corrente do pensamento que afirma a importância dos valores humanos. iniciado na Itália (Pico della Mirandola. HUMANISMO (fundamento teórico do Renascimento) O Humanismo. seguindo o modelo do poeta grego Arquíloco. imitou os sábios do Renascimento italiano. O pensamento humanista devolve ao homem a liberdade de construir seu próprio projeto de vida. Sua obra poética de maior fôlego. “in medio stat virtus” (a virtude está no meio termo). do período juvenil de sua vida: dois livros que contêm 18 Satiras. especialmente os italianos Petrarca e Boccaccio. Notre-Dame de Paris (1831). Les contemplations. “erexi monumentun aere perennium” (minha poesia é mais duradoura do que o bronze) etc. paralelamente a este tema central. também chamadas de Sermones. política. Tommaso Campanella) e irradiado nos Países Baixos (Erasmo de Rotterdam) e na Inglaterra (Thomas Morus e Francis Bacon). da última fase da vida do poeta: 2 livros de Epístolas. As melhores coletâneas de poemas líricos: Odes et ballades. considerado como o manifesto do movimento romântico na Europa. Neste sentido amplo. O sofista Protágoras de Abdera. 17 poemas que criticam pessoas de sua época. chamados de Epodos ou Jambos. uma verdadeira epopéia pelo imenso afresco histórico. Chants du crépuscule. escondidos nas bibliotecas dos monastérios. Lorenzo Valla. Precursores do Humanismo foram vários escritores da Baixa Idade Média. durante os séculos XV e XVI. à glória poética. Les châtiments. HUGO. no seu sentido etimológico. independentemente de qualquer valor transcendental. Grandes pensadores humanistas antigos foram Sócrates. que se deram ao trabalho de descobrir e divulgar textos da cultura greco-romana. os ápices da . A qualidade básica do seu gênio é a imaginação. posteriormente denominada Ars Poetica. 2) poesia propriamente lírica. Horácio foi o maior poeta latino. Pintura. composições versejadas.

consideradas formas de vida antinaturais. A terceira fase do teatro ibseniano. a do simbolismo. que tem em Camões seu melhor representante. ela desmascara seu casamento infeliz com o marido libertino. Os heróis de Helgeland. Na sua famosa obra Utopia. onde a protagonista Nora. Ibsen tinha o dom de compreender profundamente e saber retratar artisticamente a psicologia feminina. base da filosofia “escolástica” de Tomás de Aquino. Em 1877. Ibsen inicia sua fase realista: as mulheres e os operários. realista e simbolista. Na fase romântica e nacionalista ele exalta as virtudes do seu povo primitivo em luta contra a opressão da Dinamarca (Dona Inger em Oestraat. ou representa a utopia da vivência de um Cristianismo integral (Brand). O pensamento ético retoma o princípio epicurista de que o sumo bem é o prazer. época em que predominou o pensamento de Aristóteles. mais tarde canonizado pela Igreja de Roma. Seu melhor amigo. O conceito de amor platônico constitui o substrato ideológico de uma vertente da lírica renascentista. o homem poderá novamente retomar a busca do equilíbrio existencial. o verdadeiro princípio do Humanismo foi intuído pelo poeta e filósofo epicurista Horácio. Mas o drama ibseniano que está mais próximo do ideário realista é Espectros. O centro de interesse da cultura se desloca da transcendência (Teocentrismo) para a imanência (Antropologia Naturalista). defende a religião católica contra o anglicanismo de Henrique VIII. no equilíbrio entre o real e o ideal. Do ponto de vista propriamente filosófico. evitandose quer privações quer excessos. Em verdade. carnal. O neoplatonismo do humanista italiano afirma a nítida distinção entre o amor venéreo. rebelando-se contra a mentira e a hipocrisia da vida doméstica. o Humanismo foi importante pela revalorização da filosofia de Platão. Aderindo à concepção da escola positivista. Ibsen monta sua peça sobre a caracterização da protagonista Alving: sufocada pelos espectros das convenções sociais. não somente do espírito mas também do corpo. publicado em 1468. o humanista e jurista inglês Thomas Morus (1478-1535). quando afirmou que in medio est virtus: a virtude está no meio-termo. Mas tal revolução ideológica não se dá fora do Cristianismo. HUMOR (postura humana e artística perante a vida) Ironia IBSEN (dramaturgo norueguês) “A multidão é a negação da verdade”. devendo-se viver segundo a natureza. Já viúva. a religião cristã perdendo seu caráter opressivo. não deixa de ser uma figura fascinante. Casa de bonecas. Apesar disso. Os pretendentes da Coroa). os dois pilares sociais. e o amor espiritual. o personagem falso e mentiroso (Peer Gynt). são os mais marginalizados pelas instituições legais. Marsílio Ficino. Com Hedda Gabler. que vê na beleza física da amada apenas uma imagem da beleza eterna. . Rosmerholm e A dama do mar. publicada em 1602. a ausência de preocupações. Mas este humanismo somente será vivido e expresso em forma de arte a partir do Renascimento quando. ou encena a figura do anti-herói. Este é o motivo pelo qual todos os círculos feministas escolhem o escritor norueguês como seu dramaturgo preferido. que se apega a uma forma corporal. e a virtude reside na “ataraxia”. não sendo mais apresentada como vítima. ou revive o folclore popular (Uma festa em Solhaug). tentando conciliar as exigências da sua natureza física com os valores espirituais. A crítica costuma distinguir três fases na produção dramática do grande escritor norueguês Henrik Johan Ibsen (1828-1906): romântica. ou faz a sátira dos partidos políticos (A aliança da mocidade). com o tratado In convivium Platonis sive de amore. mas como algoz: a protagonista desta peça arruína o marido e o amante. O frei agostiniano Erasmo de Rotterdam (1466-1536). com a encenação de Os pilares da comunidade. especialmente através de sua obra de inspiração platônica. A cidade do Sol. retoma o tema de O banquete. o pensador mais influente da época. é composta por peças em que a realidade cotidiana é apresentada através de símbolos O que acontece especialmente em O pato selvagem. Segue-se a representação da mais bela peça. tenta a conciliação dos dogmas da religião crista com as virtudes naturais humanas encontráveis na tradição clássico-pagã. Daí a condenação da vida monástica e contemplativa. a mulher troca de papel. abandona marido e filhos para conquistar sua liberdade existencial. critica o sistema político da época e apresenta um modelo ideal de governo comunitário e genuinamente evangélico. diálogo de Platão sobre o amor. sente repelida sua atração sexual pelo pastor Manders e revela como seu corpo fora o veículo de transmissão de uma doença venérea (a sífilis) do marido para o filho. que considera o ser humano determinado por fatores hereditários e ambientais. Os mesmos ideais utópicos de vida social serão mais tarde apregoados pelo filósofo italiano Campanella. preterida na Idade Média. entre os impulsos do instinto e as forças racionais do homem.166 pirâmide do sistema feudal (Medievalismo).

do pincel e do escalpelo criaram obras maravilhosas. aprisionando-os no Labirinto. que se alimentava de carne humana. Mas agora eu vou tentar. Ao redor desse mito. a hipocrisia social. De acordo com elas. o antigo mito cretense: O Testamento de Dédalo (1962: coletânea de desenhos. a autenticidade.. Para comigo mesma. centradas na corte do rei Minos.. há um motivo recorrente em todas as peças de Ibsen.. dipinto di blù! Felice di stare lassù. a aventura desmedida. o sonho. monstro com corpo de homem e cabeça de touro. vou ver se consigo entender quem está com a razão. confirmado por mais esta sua observação: “O verdadeiro espírito de rebelião consiste precisamente em exigir a felicidade aqui. O calor fez derreter a cera e ele caiu no mar.. o primeiro grande inventor da humanidade. fixando-as com cera nos ombros do filho. cuja réplica se encontra em outras passagens de Ibsen: “A minoria está sempre certa”. para esconder o vergonhoso parto de sua esposa. Ícaro alçou vôo por cima do mar. a protagonista de Casa de bonecas.. Retrato do Artista quando . ora representando o homem-pássaro (Ícaro). apaixonada pelo touro de Posêidon ( Netuno). mas. igualmente sagrados . Torvald.. Nel blù. O homem mais forte do mundo inteiro é o que está mais só”. The Maze-Maker (1968: “O Construtor do Labirinto”). Eu sei muito bem. E Nora. A verdade é sempre “paradoxal”. uma mulher não tem o direito de poupar seu pai agonizante nem de salvar a vida do marido. na era moderna. os artistas da palavra. é fundamental que o homem alcance a sinceridade.”.167 Mas. sendo castigado pela sua ambição. Eu tenho outros deveres. volava nel cielo infinito. que a maioria das pessoas lhe daria razão. Um personagem do drama Um inimigo do povo afirma: “A multidão é a negação da verdade”. se ocultou para seduzir o volumoso animal: desta medonha união nascera o “Minotauro”. Eu tenho que pensar por mim mesma. na vida”. desobedecendo à ordem paterna. o direito à felicidade individual pode ser considerado o motivo recorrente na dramaturgia de Henrik Ibsen. Dédalo. o arquiteto da liberdade: o sonho de voar)Argonautas E volava. em Creta: 1) a construção de uma “Vaca” de madeira.. sociais e morais. e que essa é a opinião que se encontra nos livros. a sociedade ou eu .. chegando perto do Sol. à opinião comum. no diálogo final com Torvald Helmer. O romance do irlandês James Joyce. tem uma fala ainda mais esclarecedora: “Eu acredito que antes de tudo eu sou um ser humano . obrigou Dédalo a mudar de profissão: de carpinteiro passou a ser engenheiro para construir o “Labirinto”. ÍCARO (filho de Dédalo. revestida de couro. Não consigo acreditar nisso . a falsidade consigo mesmo. 2) o rei Minos.. mas não consigo convencer-me de que as leis sejam justas.. não obstante essa possível diferenciação de várias posturas estéticas ao longo da sua produção dramática. aos costumes políticos. que constitui a marca mais profunda da sua genialidade: a luta do espírito humano contra o comodismo covarde. (canção italiana) O mito de Ícaro é inseparável das lendas que envolvem a figura de seu pai Dédalo. Três são as maiores façanhas relacionadas a Dédalo e Ícaro. Enquanto o pai representa o princípio racional da vida criativa. onde a rainha Pasífae. geralmente falsos e castradores das individualidades. Eu aprendi também que as leis são muito diferentes do que eu pensava. o filho simboliza o princípio heróico. contos e poemas). ora exaltando a figura do artesão-escultor (Dédalo). a coerência interior. Para Ibsen.. quis voar muito alto. no sentido de que se opõe à doxa.. Mas eu não posso mais me contentar com a opinião da maioria das pessoas nem com o que está nos livros. então. O inglês Michael Ayrton compõe várias obras importantes para reviver. Junto com o resgate da figura feminina.. se quiser compreender as coisas . ao longo da cultura ocidental. antes de abandonar o lar. 3) quando o herói Teseu conseguiu sair do Labirinto pela ajuda de Ariadne. a filha de Minos que lhe forneceu o fio fabricado por Dédalo. o rei de Creta puniu o arquiteto e seu filho Ícaro.. onde foi abrigado o Minotauro. construiu duas asas de madeira. além de uma estátua e de um filme sobre Dédalo.

sob a forma de “mito de Dilmun”. em Roma). a bordo da nave especial Vostok.168 Jovem (1917). Mas. os EUA. Medieval e Moderna) “Pois. Em 1965. a sociedade ideal apregoada pelo Comunismo (Marx). em 1957. pois a terra produzia os frutos espontaneamente. do “milagre do oásis”. Mas ele pode ser detectado em outras civilizações também. Na cultura judaica. em 1906. no tempo anterior à culpa de Adão. aspira á conquista daquilo que jamais poderá alcançar: o Infinito! As aventuras dos modernos “Astronautas” são replicas das aspirações dos antigos Argonautas. alçou vôo (do chão!). na tragédia Dédalo em Creta. chegamos à era do satélite: o lançamento de Intelstat I. Do ponto de vista político. O poeta grego Ángelos Sikelianós (1884-1951).Era Antiga. o Paraíso terrestre. greco-romana e cristã é muito relevante. A Cidade do Sol (Campanella). Neil Armstrong é o primeiro homem a pisar na Lua. que se sucede à invenção do rádio por Marconi. passando do mito para a história e limitando-nos à cultura ocidental. a Cidade de Deus (Santo Agostinho). do campo de Bagatelle em Paris. E o sonho de Ícaro não cessa de se realizar: o ser humano. pois ajuda a rainha Pasífae e o herói Teseu a derrubar a tirania de Minos. das Ilhas Afortunadas. Yuri Gagarin. a Idade de Ouro é representada pelo Éden. poeticamente chamado de “Pássaro da madrugada”. é traduzido para o francês com o título Dédalo. Ícaro. foi o grande inspirador da aviação moderna. O esforço da outra potência mundial. Lácio. quando começou a reinar a maldade e a violência. os Evangelhos (Cristo). representa o personagem mítico como o arquiteto da liberdade. a este respeito. O brasileiro Alberto Santos Dumont (1873-1932). o primeiro homem a se levantar da terra usando asas. o povo hebreu estava esperando a chegada de um Messias-Salvador. “A terra é azul” dizia Gagarin. na sua IV Bucólica. Quatro anos após o lançamento do Sputnik. Virgílio e Ovídio. propiciando um grande progresso para as telecomunicações no mundo pela colocação em órbita de satélites cada vez mais sofisticados. é preciso dizer que uma experiência semelhante já tinha sido feita. este mito é explorado por vários estadistas que sonharam com a possibilidade da construção de uma sociedade justa. mas com a grande diferença de que eles utilizaram uma plataforma de lançamento para catapultar o avião do solo. possam considerar Santos Dumont o pai da navegação aérea. Depois do avião. quando falam de Saturnia regna (os reinos de Saturno). IDADE (o mito da “Idade de Ouro” . Expulso do Olimpo pelo filho Júpiter.000 anos. a antiga URSS coloca um homem no espaço. o aeroplano chamado 14-Bis. a tradição costuma dividir nossa civilização em três Idades ou Eras (do latim aera ou aevum = “idade”). para superar a façanha soviética deu origem à corrida espacial. Tal diferença faz com que os brasileiros. A Idade de Ouro no mundo grego é identificada com o mito de Cronos (Saturno. anuncia a vinda de um Priceps para restaurar a paz. insatisfeito com sua condição de mortal. do Olimpo e do monte Parnaso. que pertence à “pré-história” mítica. Ver também o verbete Utopia. Sicília. após o pecado original. A semelhança entre a cultura judaica. pela primeira vez. cada qual tendo . não precisando trabalhar. deuses e mortais têm a mesma origem” (Hesíodo) O mito da Idade de Ouro nasceu na Suméria há 4. conforme prometido por Jeová. constituindo-se num arquétipo utópico da felicidade do homem sob os olhares providentes da divindade. que originariamente caracterizaram a Idade de Ouro e que desapareceram na Idade de Bronze. Esta Era de prosperidade encontra-se exaltada pelo poeta grego Hesíodo e pelos escritores latinos Horácio. com razão. Em 1969. conforme variantes da lenda). demonstrando que o homem podia superar a lei da gravidade. ensinando aos homens o cultiva da vinha e a produção do vinho para aumentar a alegria de viver. a abundância e a justiça. sobrenome do pai do protagonista Stephen. três anos antes. assim o poeta latino Virgílio. onde dominasse o amor e a fraternidade: a República de Platão. inaugura uma nova fase nas comunicações a longa distância. deu uma volta completa ao redor da Terra em 108 minutos. pelos irmãos Wright nos USA. Espacialmente. com uma máquina mais pesada que o ar. após encantar os franceses com uma série de 14 balões dirigíveis. quando o homem gozava dos dons “preternaturais”: era imune da dor e da morte. Por bem da verdade. Saturno reinou em várias regiões do Mediterrâneo (África. Como. veio a conquista do espaço sideral. quando a antiga União Soviética lançou ao espaço o primeiro satélite artificial com o nome de Sputnik. a Idade de Ouro é representada pelas imagens do “Jardim de Javé”.

Este período helenístico ou romano. pintores. segundo a divisão tradicional. XI. Já o segundo período. escultores e arquitetos passaram a imitar templos e monumentos gregos. A Idade Antiga é também chamada de “greco-romana” porque. Giotto. quando o exército muçulmano tomou a cidade de Constantinopla. XVIII. impondo pesados tributos aos povos conquistados pela força das armas. deve ser considerado como uma prérenascença pelo desabrocho cultural. a Era Moderna começaria pelo movimento renascentista. XI ao XV). pelas invasões barbáricas. do ano 313. a história de Heródoto. até o ano 476. em 1453. Para evitar inverdades. se deu a queda do Império Romano do Ocidente. com a conseqüente passagem da oralidade para a escrita dos cantos épicos atribuídos a Homero) até o séc. cuja cultura se produziu ao longo de quase um milênio: do séc. Esta Era pode ser dividida em três épocas denominadas pelas cidades hegemônicas: período ático ou de Atenas. pelo Neoclassicismo francês e pela Arcádia na Itália e na península ibérica. a crítica costuma dividir este longo período em duas épocas: Alta Idade Média (do séc. dos escritores de novelas de Cavalaria. quando predominou a capital do Egito. quer na época imperial. XV. Alexandria. quer no regime republicano. caracterizado pela oposição à cosmovisão medieval e pela retomada dos princípios estéticos e ideológicos da época greco-romana.C. Tomás de Aquino.C. Beato Angélico. A Idade Média: assim chamada por ser mediana ou “medianeira” entre a cultura clássica grecoromana e a cultura moderna que. O Renascimento italiano é seguido pelo Barroco espanhol. letrados e artistas gregos para serem pedagogos dos filhos dos nobres romanos. A maior contribuição cultural propriamente latina está restrita ao campo da jurisprudência: o “Direito Romano” é uma disciplina ainda ensinada na maioria das Faculdades. a oratória de Demóstenes. (data do surgimento do alfabeto na Grécia. tentando mais imitá-la do que destruí-la. tais como Dante Alighieri. continuado em Roma e difuso por toda a Europa com nomes e datas diferentes. a Idade Média ocupa quase um milênio. I a. período helenístico. soube admirar e respeitar a superioridade da cultura grega. que estão analisados no verbete Medievalismo.C ao V d.. quando o imperador Constantino concedeu a liberdade de culto aos cristãos. em 476. Assim. encontram-se muitas identidades culturais. Apenas à primeira fase caberia o rótulo de “obscurantismo” ou de “período das trevas”. durante mais de seis séculos não se produziu absolutamente nada na Europa. o Ocidente sofrendo uma paralisia provocada por vários fatores de ordem lingüística. pode se subdividido em várias fases: época arcaica ou das Origens. a lírica de Píndaro e Safo.169 várias épocas ou períodos: Idade Antiga. dos “rapsodos” de cantos épicos. o Grande). conforme uma corrente crítica mais recente (e mais coerente!). iniciaria no séc. V ao XI) e Baixa Idade Média (do séc. os literatos tiveram por modelos a poesia épica de Homero. Com o Romantismo. histórica e religiosa. Boccaccio. Petrarca. começando pela queda do Império Romano do Ocidente (476) e terminando com a queda do Império Romano do Oriente. que abrange a herança greco-romana. pois (constatação vergonhosa!). movimento cultural surgido na Alemanha e na Inglaterra.C. quando. período latino. O Estado romano. apesar das diferenças de línguas e costumes entre os dois povos.V d. começaria com o Renascimento ou. Imperial (durante a dominação dos vários imperadores ) e Cristã (do Edito de Milão. inicia uma nova época que se opõe frontalmente à concepção clássica . séculos III e II a. Duns Scoto. a tragédia da tríade Ésquilo-Sófocles-Eurípedes. sob o domínio de Roma: do séc. a Baixa (porque mais perto de nós) Idade Média. os deuses gregos foram cultuados em Roma com um nome latino. na segunda metade do séc. que vai de 480 (Batalha de Salamina: vitória dos gregos sobre os persas) a 323 (morte de Alexandre. A Idade Moderna: o conceito de “moderno” encontra-se estudado no verbete Modernismo. Não pode ser considerada como retrógrada uma época de gênios da produção artística e do pensamento reflexivo. Para a crítica tradicional. Áurea (de César e Augusto). antiga Bizâncio ( Helenismo) e hodierna Istambul. VIII a. data de deposição do último imperador de Roma. no séc. sem falar dos trovadores provençais. Essas várias fases constituem o “período clássico” da Era Moderna. a comédia de Menandro. apesar de ter sido escravagista. O que justifica a inclusão tradicional deste período na Era Medieval é apenas o aspecto religioso: o pensamento reflexivo e a atividade artística ainda estão dominados pela influência da Igreja Católica.C. baliza do fim da Era Antiga). Prova disso é a importação de filósofos. Pelo critério de periodização convencional. surgido em Florença. junto com o surgimento das línguas européias modernas (neolatinas e anglo-saxônicas). de cultura em língua latina.

Ifigênia vai para a Táurida (atual Ucrânia). que se fazem presentes pela “reminiscência”. Ifigênia se casa com Pílades. não para casar. mas que pode ser considerado como precursor das correntes estéticas da Vanguarda européia (Futurismo. ao longo da história da Filosofia no Ocidente. Expressionismo. Descobrindo que um dos forasteiros lá chegados era seu irmão Orestes que. O mito de Ifigênia . que surgiu em oposição ao período romântico. corrente de pensamento que não admite nenhuma forma de transcendência e que teve num outro sábio grego. Ao movimento romântico. a jovem é levada para o altar. o idealismo subjetivo de George Berkeley (1685-1753). E termina a narração do episódio com o seguinte comentário: “até que ponto a religião pode induzir o homem a cometer crimes”! De Áulis. preexistente ao espírito humano. significando. afirmando ser tão bom caçador quanto a deusa. Filha do rei de Micenas. seu precursor. então. pediu ao deus Éolo que parasse todos os ventos no porto de Áulis. que revolucionaram a cultura ocidental. com relevantes variações: as idéias “inatas. movimento francês de curta duração. O Modernismo brasileiro está visceralmente ligado aos movimentos da vanguarda francesa e italiana pela moda antipassadista. antes de habitarem o corpo. então. a partir do início do séc. buscava a estátua de Diana Táurida. O rei. sucedeu a época do Realismo. a subordinação de toda a existência a um ser pensante. o modelo geral de cada coisa ou noção abstrata. O idealismo platônico foi retomado por vários pensadores. encarregada de sacrificar os estrangeiros. O que. Diana apiedou-se da jovem vítima e mandou que fosse substituída por uma cabrita. o Espírito Absoluto de Friedrich Hegel (1770-1831). O adivinho Calcante explicou que Diana só seria apaziguada se Agamenão sacrificasse sua filha Ifigênia. obtido o perdão de Diana pela intervenção da deusa Atena. imagens ou reproduções imperfeitas. como sistema filosófico. onde observa que o pai. ela foge com eles. Aristóteles. A primeira revolta contra o pensamento e a estética do realismo materialista deu-se com o Simbolismo. está aos antípodas do Realismo. mas para morrer O mito de Ifigênia é um dos mais comoventes. mandou buscar a jovem em Micenas. estavam no mundo das idéias. de alguma forma. Esta. Mas. com o pretexto de dá-la em casamento ao herói Aquiles. Dadaísmo. Hegel) A filosofia é o tempo capturado no pensamento (Hegel) A palavra “idéia” é de origem grega. se e conforme uma mente pensar nele. o ato de conhecer sendo um movimento de dentro para fora. de essências ultraterrenas. a filosofia tenta responder a estas três perguntas fundamentais: O que preciso saber? O que devo fazer? O que posso esperar? IFIGÊNIA (a vítima da crueldade paterna e da vingança divina)Agamenão Vestida de branco. A linha de contraste entre a estética e a mundividência clássica e romântica encontra-se exposta no verbete Romantismo. vestida de branco. O Idealismo. com o amigo Pílades. irmaniza os vários tipos de Idealismo é o subjetivismo. a lembrança do tempo em que. discípulo de Platão. conforme a “Teoria das Idéias” do filósofo Platão. de 1850 a 1890. claras e distintas” de Descartes. que durou aproximadamente um século. influenciado pelas correntes filosóficas do Positivismo e do Determinismo e pela teoria científica do Evolucionismo (Darwin). no momento da imolação. Cubismo e Surrealismo). entrega a filha no altar da morte.170 da vida. na sua obra De Rerum Natura. por vingança. o idealismo crítico da “razão pura” e da “razão prática” de Emanuel Kant (1724-1804). Algo só pode existir. segundo o qual não existe objeto sem um sujeito pensante. tornando-se sacerdotisa da deusa Diana. Segundo Emanuel Kant. XX. em lugar de levar ao altar a jovem. IDEALISMO (sistema filosófico: Platão. provocara a ira de Diana. conforme uma lenda. as idéias “simples e complexas” de John Locke (1632-1704). para o casamento que gera a vida. que nos permite conhecer a realidade. Esta passagem encontra-se descrita de uma forma lírica estupenda pelo poeta latino Lucrécio. tentando novas possibilidades de expressão artística. como aconteceu no episódio bíblico do sacrifício de Isaac por Abraão. Os objetos do mundo exterior ou qualquer sensação ou sentimento seriam apenas “fantásmatas”. é obrigada a sofrer por uma culpa de seu pai: Agamenão. Em Micenas. as “formas” universais e perfeitas. paralisando os navios gregos chefiados por Agamenão e prontos a zarparem para a guerra de Tróia. Kant.

portanto. Este trecho inicial do canto primeiro enseja perceber bem a distinção entre o plano da enunciação . no poema. o aparelho formal que evidencia a presença do narrador do canto épico. ó deusa"). Homero não sentiu a necessidade de cantar nem o início nem o fim da Guerra de Tróia.C. Este narrador. ó deusa. o Olimpo. "tornou" etc. a cada leitura do poema. rei de guerreiros.) e Ifigênia em Táurida (412) e lembrado em outras obras de vários escritores greco-romanos. isto é. a “Guerra de Tróia”. o mito é retomado pelo poeta alemão Goethe: Ifigênia em Táurida (1787). um distanciamento de mais de quatro séculos entre o tempo do "discurso" e o tempo da "história". todavia que.. Há.).). o exórdio . a Ilíada. porque. e de sentimentos e pensamentos dos seres divinos e humanos que participaram dos eventos. nome primitivo de Tróia) é formada pela rapsódia (o étimo grego significa "costura") dos cantos acerca da primeira famosa luta entre as nações do mundo ocidental. antecipa o assunto do poema épico: "a cólera de Aquiles". Seu intuito é focalizar o herói Aquiles (o titulo preciso da obra deveria ser "Aquileida". não é um ser real (Homero ou outro rapsodo). fazendo parte do chamado "ciclo troiano". Os libretistas proporcionaram ao compositor Gluck duas notáveis obras de arte lírica: Iphigènie en Aulide (1774) e Iphigènie en Tauride (1779). sendo um patrimônio cultural de conhecimento popular. É preciso notar. em versos hexâmetros. Na segunda metade do séc XVIII. jogando seus corpos como pasto para cães e pássaros carniceiros: cumpria-se a vontade de Zeus. ILÍADA (poema épico sobre a guerra de Tróia) Homero A Ilíada (de Ílion.171 encontra-se tratado artisticamente em duas tragédias de Eurípides: Ifigênia em Áulis (405 a. é composto pela “Invocação” à divindade protetora dos poetas e pela “Proposição”. especialmente em suas ações e paixões relacionadas com a participação na Guerra de Tróia. o passado "precipitou". a cólera de Aquiles. a lenda de Ifigênia invade o mundo da Ópera. centrados em três “iras”: . necessárias para o conhecimento de fatos que se passaram em lugares diferentes. constituído pelos fatos narrados e pelas personagens que vivem a história ficcional. que só pode tornar-se presente pela ação da memória que recorda os episódios acontecidos. Por isso. da narração. do ser humano doce e generoso. construída pelo rei Ilo. Enfim. o tempo da enunciação se renova continuamente. deveria atribuir a um ser humano as prerrogativas da onipresença e da onividência. O autor da Ilíada. diferentemente do autor do poema. Como se vê. se refere à época em que os fatos narrados aconteceram (Guerra de Tróia: século XII a. Na época do Romantismo. para não cair na inverossimilhança. e o plano do enunciado . não narra toda a história da Guerra de Tróia. assume o papel de narrador da fábula. mas uma personagem de ficção que. e o divino Aquiles”. As lendas sobre a antiga cidade.C. No Neoclassicismo francês. filho de Peleu. sinteticamente. É a ficção que quer ser vista como não-ficção. anteriormente à tomada e à destruição da cidade pela confederação grega. desde a contenda que separou o Atrida. limitando-se apenas a fazer referências e alusões a fatos já conhecidos pela coletividade grega. mas apenas alguns episódios que se deram no nono ano do assédio grego. O presente "canta" acusa o tempo do discurso. que causou inumeráveis dores aos aqueus e precipitou no Hades almas de heróis sem conta. coloca como narrador dos fatos épicos a própria divindade ("canta. o ato da locução. inclusive na morada dos deuses. cólera funesta. em seus vinte e quatro cantos. transcrito acima. vítima do hieratismo paterno e da vingança dos deuses. Traduzimos o começo do poema: “Canta. reduzimos o arcabouço fabular da Ilíada aos seguintes núcleos de narratividade. eram muitas e variadas. Este fingimento é indispensável para que o canto épico tome um semblante de realidade.C. a proposta que. a personagem mítica de Ifigênia passou à história como símbolo da inocência sacrificada. o provável autor do poema (século VIII a. enquanto o tempo do enunciado permanece imóvel. Quanto ao plano do enunciado ou da história. denominação que condensaria melhor a substância poemática). de outra forma. sobressai a tragédia de Racine Ifigênia em Áulis. Simplificando ao máximo. apesar do título. porque muda o destinatário a quem o narrador se dirige. a época em que viveu Homero. fixado para sempre num passado remoto.

Agamenão. os gregos devolvem a jovem ao pai. Mas Zeus. Heitor é alcançado. Apolo acolhe a prece de seu fiel servidor e lança contra os navios gregos flechas mortais que dizimam homens e animais. Voltando ao acampamento grego. filho do rei Príamo. exige dos confederados uma recompensa equivalente. Os gregos. obtêm várias vitórias e conseguem romper parte do muro dos acampamentos gregos. o deus do fogo. conseguem grande vantagem sobre os aqueus que. proibidas por Zeus (Júpiter) de intervirem na guerra. provocada pelas setas de Apolo. ameaçando inclusive de abandonar o assédio de Tróia e retornar para sua pátria. choram a morte do herói. infunde coragem no chefe grego e Hera. Para aplacar a ira do deus. este lhe toma a escrava Briseida. Menelau. O herói grego se desespera e jura vingança. Príamo e Hécuba. além de não devolver a jovem. volta a ajudar os gregos: os troianos são rechaçados e Heitor é ferido. mas adverte o amigo para não guerrear longe do acampamento grego. transgride a interdição. chefiados por Heitor. Após a terceira volta. a posse da linda Briseida. dá mostras de grande valor. avança até os muros de Tróia e ataca o próprio Heitor. O herói é consolado por sua mãe. mas também Vênus e Ares. que está para ser morto pelo grego Menelau. e a esposa. Mas Criseida é filha de Crises. pois Agamenão está disposto a devolver-lhe a escrava Briseida. Apesar da profecia do cavalo Xanto. Aquiles empresta-lhe as armas. consegue permissão para lutar e chefiar o exército dos mirmidões. os gregos recomeçam as ações bélicas perto dos muros de Tróia. acordando. Agamenão. O adivinho Calcas revela que a peste. ofendido. costumavam saquear pequenas cidades ao longo da costa asiática. A primeira ira de Aquiles (contra Agamenão) O prepotente chefe grego. irmão de Heitor. Aquiles persegue Heitor. para se proverem de comida. fica com a jovem Criseida. Todos os dias. enviam Ulisses à tenda de Aquiles para suplicar-lhe que volte à luta. que se aproxima dos navios gregos e oferece um bom resgate em troca da libertação de sua filha. O herói grego Diomedes. levado pelo entusiasmo. são obrigados a construir um muro e um fosso para protegerem seus acampamentos e seus navios. renuncia a lutar. está relacionada com a ofensa sofrida pelo sacerdote. Aquiles presta as honras fúnebres ao amigo Pátroclo. Os pais. Mas estes. a deusa Tétis. Mas o herói persiste no seu propósito de abster-se da guerra. Aquiles convoca todos os chefes gregos para a batalha. suplica ao deus para que vingue sua desonra e suas lágrimas. morto e despojado de suas vestimentas bélicas. este é salvo por Apolo e Enéias por Posêidon. apesar do grande valor de Ajax. obrigado a restituir sua escrava. de mulheres e de outros bens. durante os longos anos de permanência de seus navios nas proximidades de Tróia. Agamenão chega a propor o abandono do assédio de Tróia. então. que foge ao redor dos muros de Tróia. ajudado por Ajax. Os mirmidões organizam jogos e esportes. junto com outros donativos. ajudado por Hera e Atena. Enquanto Aquiles. ofende e ameaça o velho sacerdote de Apolo. Crises. sacerdote de Apolo. que prediz próxima a morte do herói. a intervenção de Vênus salva o troiano Páris. chefe da confederação dos príncipes aqueus.172 A ira de Apolo (contra os gregos) Os aqueus. privados da ajuda divina de Hera ( Juno) e Atena (Minerva). Aquiles se lança à luta. amigo de Aquiles. restitui-lhe Briseida e oferece-lhe outros presentes. Diomedes. ordena a Hera e a Posêidon retirarem-se da guerra. a confecção de novas armas. A segunda ira de Aquiles (contra Heitor) Pátroclo. Pátroclo. o principal herói grego. Ulisses e Menelau. O herói troiano mata o amigo de Aquiles e se apossa de suas armas. . Os troianos pressionam cada vez mais o exército grego. conseguindo até incendiar um navio grego. o deus do mar. Andrômaca. enquanto cabe a Aquiles. Mas Posêidon (Netuno). consegue recuperar o corpo de Pátroclo e o leva ao acampamento de Aquiles. e os troianos tornam a vencer. enquanto a mãe Tétis vai pedir a Hefestos (Vulcano). Com seus gritos monstruosos afugenta os troianos. exterminando todos os troianos que lhe aparecem na frente: mata Polidoro. Agamenão. matando vários troianos e ferindo não só o herói Enéias. que consegue de Zeus a promessa de que os gregos não triunfariam sobre os troianos até que a injustiça feita a Aquiles fosse reparada. divindades protetoras dos troianos. Num duelo particular entre os dois maridos de Helena. Agamenão reconhece seu erro. Na divisão do butim duma destas incursões. E porque é Aquiles que se opõe à exigência de Agamenão. Recebidas as armas. conseguindo adormecer Zeus.

Helena é o pivô da Guerra de Tróia. é a reconquista de sua esposa Helena. A Ilíada. pois o motivo da guerra dos gregos. o poema ressalta os valores individuais. que prescrevera que sua morte se seguiria à de Heitor. Aquiles representa a encarnação artística do homem na idade juvenil que se deixa dominar ora pela violência das paixões (agressividade. O herói se comove perante as lágrimas do velho pai e lhe restitui o filho morto. o rei Príamo e seu . no poema representa o “autoritarismo”. Na Ilíada. covarde e incapaz de incentivar seus liderados ao cumprimento da missão militar. é a descrição de uma gama variegada de tipos. cada qual representando um aspecto ou uma aspiração da vida humana. Agamenão. que se tornaram “arquétipos” na cultura ocidental: Aquiles. caracterizando marcadamente personagens que se tornaram protótipos humanos. Não se curvando à prepotência do chefe Agamenão. A Guerra de Tróia é apenas um pretexto para que o poeta possa articular. pelo qual pode ser considerado o primeiro "cavaleiro" do mundo ocidental. ódio). piedade. Amedronta-se perante o mínimo sucesso do exército troiano e está sempre pronto a ordenar o fim do assédio e a volta dos príncipes gregos para suas cidades. Casada com Menelau e raptada por Páris. E por isso que. apesar de seu grande valor militar. matando quem lhe tirara a vida. é-lhe proibido lutar contra Heitor e nas batalhas goza sempre da proteção de outros gregos. mormente dos heróis Ajax e Diomedes. Menelau. vaidoso e. Educado pelo centauro Quirão. filho de Saturno (Cronos) e mestre de príncipes e heróis. Regressando a Tróia. portanto. constitui a razão do assédio contra Tróia. A sorte de Agamenão é que está bem assessorado: Nestor e Ulisses são seus inteligentes conselheiros que. a não ser no calcanhar pelo qual foi segurado. filho do rei Peleu e da deusa Tétis. Aquiles cultivou todas as artes. foi raptada por Teseu ( Ariadne) Salva pelos irmãos Dióscuros. não culpa Helena. entender a caracterização de seus personagens principais. consciente de sua missão. ao nascer. Os que mais sofrem com o assédio. religiosidade). rei de Micenas e chefe da expedição grega contra Tróia. são realizados os funerais de Heitor. Segundo o poeta romano Estácio. nos momentos de crise. paralelamente à expressão desta atividade coletiva. mas o Destino (Fado). Mas. ira. no rio infernal Estige. Príamo chega até o acampamento grego para suplicar a Aquiles que lhe devolva o cadáver do filho. Como todo chefe autoritário. a preservação da vida deste herói é uma preocupação constante dos príncipes gregos. além de seu valor bélico. Características das personagens A Ilíada é a exaltação do heroísmo guerreiro. no poema homérico. lhe indicam a resolução certa a ser tomada. tolo. Ainda menina. Enfim. essencialmente. Caracterizado como homem prudente. Ele tem apenas a jactância de chefe. o protagonista do poema. ele é prepotente. foi imerso. na idade do casamento. provocou a guerra contra Tróia. E seu sentimento de ira contra Heitor é superado apenas pela piedade perante as lágrimas do velho pai do herói troiano. porém. mais do que a expressão de um ideal de vida. pois intimamente é egoísta. só volta à luta contra os troianos para vingar a morte do amigo Pátroclo. ele não hesita em honrar a morte do amigo Pátroclo. que causou desgraças e mortes a gregos e troianos. que na sua obra Aquileida procura coletar todas as lendas sobre o herói. sendo o correspondente humano do deus Júpiter. rei de Esparta e irmão de Agamenão. Menelau configura a luta pela preservação dos valores ideológicos da união conjugal e do respeito pelos bens alheios. teve inúmeros pretendentes. Mesmo conhecendo a vontade do Destino. relacionar entre si e fixar para sempre a galeria de heróis que a tradição cultural foi criando aos poucos. Homero. Mas o povo da Grécia Antiga o considerou seu herói nacional especialmente pela sua portentosa força física (fora alimentado com entranhas de leões!) e pela extrema perícia na arte da guerra. sua beleza divina exerceu um fascínio irresistível sobre os homens. cujas águas sagradas o tornaram invulnerável. É a representação mítico-artística da luta dos gregos primitivos em seu desejo de conquistar novas cidades e ampliar seus domínios.173 Aquiles arrasta o corpo de Heitor em torno do túmulo de Pátroclo. Devido à extrema importância da figura de Menelau na economia mítico-ideológica da Ilíada. Filha de Júpiter e da mortal Leda. especialmente de Agamenão. fraco. é apresentado pelo mito grego como semideus. Compreender o poema significa. é exaltado seu sentimento de “honra”. ora pela delicadeza dos sentimentos (amizade.

ele não recusa o duelo com o inimigo grego. Mas. A função que o Destino lhe prescrevera era a de amar. Só vai ao combate nos momentos de perigo. quando vê ameaçada a segurança do lar. Heitor é mais humano e mais sensato. no poema é apresentado como fraco e covarde. a ratio é impotente diante do pathos: a força instintiva dos sentidos. Filho do rei Príamo e da rainha Hécuba. conceito que o nosso termo "virtude" traduz apenas parcialmente: era o ideal cavaleiresco de vida. que é a defesa de sua cidade. de seu patrimônio e de sua família. já de solteira experimentara o sofrimento pela morte do pai e dos sete irmãos. antes de ir para a luta. a paixão. pois o sentimento do dever cívico supera qualquer egoísmo. Durante o assédio grego a Tróia. a educação estava centrada na areté. a cujo fascínio ninguém pode resistir. quando de sua passagem para a época da filosofia. que anulam seu propósito de vingança. unido a uma conduta cortesã e ao heroísmo guerreiro. quando Menelau se aproxima dela com a intenção de castigá-la com a morte pela sua traição. exigia o respeito ao ser humano. Heitor é o protótipo do governante justo e sábio e do chefe de família devotado. ela tem pressentimentos do aproximar-se de novas desgraças e pede ao marido que lhe poupe a sua viuvez e a orfandade do filho Astíanax. sabe que a vontade do Destino deve realizar-se: Heitor. eximindo-a de qualquer responsabilidade. A virtude estava sempre ligada à nobreza e ao valor bélico. homem justo e digno. Morto Páris. corrente do pensamento que . são também os maiores defensores da jovem grega. Intimamente relacionado com o conceito de virtude. acima de qualquer outra coisa. seduzindo novamente seu marido e voltando a ser sua esposa. massacrados por Aquiles. quanto ao poder de chefia das ações bélicas. elegante e amoroso (Adônis). estimulado pelo irmão Heitor e sob a proteção da deusa Vênus. e Agamenão. Com efeito. Heitor é o maior herói troiano. em seu Elogio a Helena. quanto ao valor militar. quer em vida. é mais forte do que as prescrições e interdições socio-morais. quando se despede da esposa. Ele luta por uma causa justa. Auxiliado pelos deuses Apolo e Marte e amado pelo seu povo. É a paixão que triunfa sobre a razão. pois a ética grega. subjugado como estava pela beleza divina da esposa grega. não pode afastar-se da luta para evitar a morte. quer após a morte. As lágrimas de Andrômaca sobre o cadáver de Heitor são fortemente expressivas. sendo este trecho considerado um dos mais comoventes do poema. A Ilíada é a expressão artística da idade guerreira do povo grego. ILUMINISMO (Enciclopédia: movimento cultural do Setecentos)Racionalismo O Racionalismo francês desaguou no Iluminismo ou Ilustração. Mesmo cônscio de que é vontade do Destino que morrerá lutando contra Aquiles. estava o sentimento da "honra". Neste estágio de civilização. é ele quem preside as assembléias. no confronto. Helena é o símbolo da criatura seduzida e sedutora. Se Aquiles é mais forte e Agamenão mais prepotente. mesmo então. Páris. Mesmo nos breves períodos de paz. Deífobo. caracterizada pelas grandes emigrações. apesar de ser o maior responsável pelo assédio dos gregos contra sua cidade. toma as decisões e chefia a guerra contra os gregos. Prefere as delicias do amor de Helena à luta contra os inimigos. Mas. Após a tomada de Tróia. contrastando com Helena. o dever e o prazer das lutas se manifestavam nas várias formas de atividades esportivas. Representada como a correspondente humana de Vênus. e. ela se une maritalmente a outro filho de Príamo. de outro lado. A tradição fez de Páris o protótipo do homem belo. ela não tem culpa de ter sido seduzida pela beleza de Páris. Como já observara o sofista Górgias.174 filho Heitor. é a mais bela configuração da fidelidade conjugal e da devoção ao lar. Daí a grande importância conferida aos funerais dos heróis e à comemoração do aniversário de sua morte. Helena vive apenas em função do amor. descrita no canto VI. Andrômaca. Comovente é a cena familiar. a simpatia dos leitores da Ilíada tende para o herói troiano. A presença do corpo de Helena evoca os desejos sexuais latentes no subconsciente do príncipe grego. visto que era vontade da deusa Vênus que tal coisa acontecesse. eis que Helena se despe na sua frente. A honra era satisfeita pelo reconhecimento público do valor do indivíduo: o contentamento íntimo será uma aquisição posterior da cultura grega. Filha do rei de Tebas. elevando-se a protótipo de mulher fatal. da mãe e do filho. Homero compara Heitor aos heróis gregos Aquiles. contra os gregos invasores. a esposa de Heitor.

Barão d’Holbach (ateísta). eles criaram uma pincelada distinta. a fonte do conhecimento. cuja obra influenciou a proclamação da Constituição americana e o regime democrático de outros povos. A percepção dos objetos. 1876). destacando-se Denis Diderot e Jean Le Rond D’Alembert (os idealizadores e executores do projeto). apregoando os ideais democráticos de “liberdade. A pintura impressionista será entendida melhor se comparada à corrente oposta. além da famosa tríade de escritores. na confecção desta obra monumental. que surgirá no começo do séc. mas muda constantemente de acordo com os efeitos da luz. impregnada de uma grande euforia. Paul Cézanne (Curva da estrada. curta. daí o nome de Iluminismo ou de Ilustração. IMPERIALISMO (forma de governo) Absolutismo Política IMPRESSIONISMO (estilo de Pintura) Realismo O nome desta escola de arte está relacionado com uma tela de Claude Monet. é dada por um movimento de “fora para dentro”. Tal conjunto estético e ideológico tem como centro de irradiação a França da segunda metade do Oitocentos. des Artes et des Métiers. A diferença entre a estética clássica e a realista é que a primeira idealiza a natureza. o chamado “século das luzes”. borrões irregulares que vibram energia como o brilho da luz sobre a água. Os quadros dos impressionistas retratam cenas de gente à beira do rio Sena. isto é. não escondendo excessos e deformidades.XX: o Expressionismo. em 1874. Plutão. Auguste Renoir (Nu ao sol. O Impressionismo está dentro da estética do Realismo e esta dentro da estética clássica. já o estilo de arte impressionista tenta apanhar o momento fugaz. Tártaro. Os pintores desta escola perceberam que a cor não é uma característica intrínseca e permanente. não a dedutiva cartesiana fundamentada no axioma das idéias inatas. 1898). Turgot (economista). Esta teve como ideal fundamental acabar com qualquer forma de Absolutismo (político. fazendo piquenique em jardins. entre cientistas e intelectuais. Vincent van Gogh (Auto-Retrato. XIX. 1889). os impressionistas mais famosos são Édouard Manet (o óleo sobre tela Olympia. cujas obras lançaram os fundamentos ideológicos da Revolução Francesa. espaço do sofrimento transcendental)Dante “L’ Enfer sont les autres” (Sartre) . é um dos nus femininos mais discutidos). banindo-se qualquer tipo de preconceito religioso. o Parnasianismo à poesia lírica. o Determinismo à filosofia e o Naturalismo às ciências. “imitação da realidade”. Helvetius (materialista). colaboraram uns sessenta escritores. 1897). em vista de que todo o poder emana do povo. A beleza clássica busca colher o eterno e o imutável. 1882). ou naturezas mortas (frutas. De 1751 a 1766. Numa exposição de Pintura em Paris. Du Marsais (gramático). Seu principal objetivo é dar-nos uma "impressão" da luz sobre tudo. Condillac (sensualista). os iluministas sonhavam com a idéia de que a sociedade humana pudesse ser reorganizada em bases estritamente racionais. jogando cartas. pontual. do reflexo ou do clima sobre a superfície do objeto. Para mostrar estas qualidades voláteis da luz. A uma certa distância. Buffon (naturalista). Além de Monet. estes borrões e manchas se fundem. porém. dando formas mais ou menos definidas de objetos ou seres retratados. Edgard Degas (Depois do banho. Rousseau e Montesquieu. ele deu ao quadro O nascer do Sol o título de “Impressão”. Convencidos de que o desenvolvimento das ciências naturais levaria inevitavelmente o homem a dominar as forças da natureza. Voltaire. várias vezes interrompida pela censura eclesiástica. participando de festas. apresentado pelo jogo da luz e das cores. Daí começaram a chamar de “impressionistas” telas de pintores franceses do último quarto do séc. Tal atmosfera cultural. flores). O pensador mais importante da corrente iluminista foi John Locke (Liberalismo). igualdade e fraternidade”.175 vigorou ao longo do século XVIII. Aderindo a um novo conceito de razão. religioso ou ético). O Impressionismo está à pintura como o Realismo à prosa de ficção. mas uma razão “operativa”. surtiu seus efeitos práticos na elaboração da Encyclopédie ou Dictionnaire Raisonné des Sciences. 1863. INFERNO (Hades. Paul Gauguin (De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?. apoiada sobre os dados fornecidos pelos sentidos. enquanto a segunda tenta retratá-la assim como ela é. que considera a arte come mimese. os teóricos da Ilustração tiveram como meta a luta contra a ignorância e a superstição.

no sentimento de culpabilidade. INFORMÁTICA (ciência da computação. quatro universidades norte-americanas. não fica maior nem mais pesado (Bill Gates) A Informática é a ciência do tratamento automático e lógico da informação. possibilitou a interligação em circuitos.176 O mundo infernal era imaginado pelos gregos como situado no interior da Terra: a palavra latina infernus é composta a partir do prefixo infra (“abaixo”). Tisífone e Megera. ocupava uma área de 450 metros quadrados e utilizava mais de 18 mil válvulas. tendo como auxiliares várias divindades menores: Hécate (deusa da feitiçaria). pesava 30 toneladas. Plutão raptou e desposou Prosérpina. com aparente contraste. Era o primeiro passo para o surgimento da Net (“rede”). Flegetonte e Lete). da comunicação eletrônica a longa distância. A porta do inferno era guardada por Cérbero. as Górgonas. quando um programa do Pentágono conectou entre si. filho de Saturno (Cronos) e de Cibele. por mais que se ponha nele. que revolucionou a indústria eletrônica. sua irmã e esposa e mãe de Júpiter. o Hospital Sírio-Libanês de São Paulo transmitiu para o mundo a primeira telecirurgia. aves com cabeça de mulher. já no contexto da religião cristã. No ano 2000. as almas deviam atravessar. Para passarem do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. o título do terceiro cântico (os outros são “Purgatório” e “Paraíso”) do famoso poema alegórico de Dante Alighieri. pela compra de livros ou consulta em bibliotecas. Internet) A grande qualidade de um notebook é que. Cocito. Os protagonistas dos poemas épicos A Odisséia. vingadoras dos crimes contra a família ou a sociedade. que reinava sobre os mortos. A rede mundial de computadores nasceu em 1969. na Grécia). calcular). a entrada sendo localizada em Cumas. Em1949. cão com três cabeças e com serpentes envolvendo seu pescoço. Daí o poeta existencialista francês. Plutão. exclamar na sua peça Entre quatro Paredes: “O Inferno são os outros!”. também. simboliza as profundidades do mundo interior. as Harpias. na barca de Caronte. e as boas para os Campos Elíseos. o maior fenômeno tecnológico da década de 90: a comunicação mundial pela Internet. via Internet. para ler Platão (em grego antigo. A Eneida e A Divina Comédia descem até o fundo do inferno para conhecerem o passado e terem a premonição do futuro. construído pelos engenheiros Jonh Mauchly e Presper Eckert. Alecto. um habitante da Patagônia. o conhecimento só era possível de uma forma bem limitada e a custos elevados. que se tornou o marco da globalização de final de século. as três Fúrias ( Erínias). especialmente crianças e almas. três irmãs das quais a mais famosa era a Medusa. conhecido pela sigla ENIAC (Calculador e Integrador Numérico Eletrônico). príncipe da riqueza e das trevas (o sarcasmo dos opostos!). a humanidade dispõe de uma quase infinita quantidade de informação a baixo custo. um dos cinco rios infernais (os outros eram Estige. sob encomenda do Exército americano. permitindo o surgimento de uma nova geração de computadores. Plutão. Hoje. O transistor. contra o consenso da mãe Ceres (Terra). Jean-Paul Sartre. o Aqueronte. lugar de sofrimento. em inglês ou na língua dele) ou assistir um jogo de futebol na . monstro com cabeça enorme e cabeleira de serpentes. para calcular trajetórias de mísseis na II Guerra Mundial. que não dá trégua a nenhuma vítima caída no abismo eterno. A Divina Comédia. era também venerado como deus da vida e da reprodução. No passado. melhorando e barateando os equipamentos eletrônicos. forças misteriosas. inventaram o transistor. o Sono (Hipnos). que raptavam tudo. a Morte (Tánatos). pelo qual as religiões e as ideologias vivem atormentando o ser humano. pois protegia as sementes ocultas embaixo da terra. por computador. representando a derrota definitiva (pois irremediável) de uma existência. O deus do inferno era Plutão (Hades. O primeiro modelo de computador (de con + puto = “pensar junto”. conscientes ou inconscientes. cem vezes menor e sem o aquecimento da antiga válvula. lugar de gáudio. cruel. “recalcada” por pecados atávicos ou pessoais. Além de deus da morte e da destruição. Ele julgava as almas que chegavam no Inferno e enviava as más para o Tártaro. Atualmente. A essência íntima do Inferno é a crença em pecados atávicos. onde o poeta italiano descreve o sofrimento das almas que pecaram neste mundo. os mistérios da psique humana. O Tártaro é o senhor impiedoso. físicos americanos da Bell Telephone. A palavra “Inferno” é. região vulcânica perto do golfo de Nápoles.

6) Inteligência interpessoal: conquistar a simpatia do público é fundamental para certas categorias profissionais. Apresentamos. Aministração de Empresas) tiveram na figura de Karl Marx seu ilustre mentor. especialmente para políticos e artistas. Quem consegue desenvolver a inteligência interpessoal encontra uma maior facilidade em se relacionar com os outros. Estudada especilamente pela Psicologia. genialidade)Espírito Conhecimento Do latim inter + legere (“ler por dentro”). A Origem das Espécies. ressaltamos o irlandês James Joyce. Uma obra que fala a respeito disso. Fidel Castro etc. rádio ou cabo. É a inteligência peculiar de poetas e ficcionistas. sentem e desejam. uma possível tipologia de inteligência: 1) Inteligência lógica: por ela o homem conhece as relações abstratas que existem entre os objetos. que conseguiram se impor a uma grande massa social: Júlio César.177 Inglaterra. 3) Inteligência naturalista: é o modo de conhecimento que nos permite interagir com o ambiente circunstante. O exemplo mais luminoso deste tipo de inteligência é a do físico alemão Albert Einstein. Política. É possuída em alta escala por filósofos e cientistas. Inteligência Emocional. As modernas “Ciências Sociais” (Sociologia. Dante. Entre os vários escritores famosos analisados neste “dicionário cultural” (Homero. o criador da Teoria da Relatividade. A atividade celebral. 4) Inteligência social: é o modo de pensar que relaciona o homem com seus semelhantes. que teria como centro o coração e não a cabeça. de uma forma imediata e quase gratuita. válidas para todas as criaturas vivas. Virgílio. que estabeceu novas e surpreendentes equações entre as categorias do Tempo e do Espaço. O pai da Psicanálise encontrou na libido a energia que impulsiona a vida ativa e a criatividade humana. identificando flora e fauna e estabelecendo semelhanças e diferenças entre a vida humana. a inteligência é a capacidade própria do ser humano de compreender. embora numa escala diferenciada. animal e vegetal. estabelecendo direitos e deveres entre as várias classes sociais. O ser humano é apenas um elo na cadeia evolutiva do universo. usando uma linguagem sempre renovada pela figura da metáfora. 5) Inteligência intrapessoal: olhar para dentro de si para tentar ver o que existe por trás da consciência. Concentrada apenas no cérebro que é o único centro do saber e do sentir (o coração não sente nada. Buda. estando sujeito às mesmas regras. Por essa inteligência. Shakespeare. que podem ser medidos por testes de “quociente de inteligência” (QI). que se consideraram messias ou . a inteligência já foi objeto de múltiplas definições. É a qualidade dos grandes líderes laicos. XXI! INQUISIÇÃO (tribunal religioso. pois é só um músculo bombeador de sangue!). a seguir. tornou-se best seller na primeira metade da última década. do psicólogo americano Daniel Goleman. Mas estudos mais recentes têm demonstrado que a inteligência não é unívoca ou dual (razão e sentimento). movida pelo princípio da seleção natural. apresentando vários graus e estágios de desenvolvimento. O filósofo e economista alemão exaltou a importãncia do trabalho humano como meio de produção. Economia. pois sua obra famosa. É o milagre da tecnologia. mas fruto de uma constante evolução. Fernando Pessoa e tantos outros). basta apenas estar conectado à rede eletrônica mundial. 7) Inteligência transcendental: esta é própria dos grandes líderes religiosos (Moisés. Reforma e Contra-Reforma) Lutero INTELIGÊNCIA (vários tipos. apontando as injustiças que vinham sendo cometidas pelo capitalismo selvagem. Hitler. Maomé). que está dando um novo vulto ao séc. Chegar à revelação da origem de um trauma é encontrar sua cura. dono de uma inteligência lingüística assombrosa. considerada a nova Bíblia. O ser humano que consegue desenvolver essa modalidade de inteligência acaba se tornando dono de si. entendendo o que eles pensam. de acordo com fatotres genéticos e ambientais. costuma ser distinta do fator emocional. revolucionou a sociedade moderna. Antropologia. Cristo. formulando conceitos e idéias. Mussolini. por telefone. o mundo não é criação divina. A figura do cientista inglês Charles Darwin sobressai. Quem alertou para a grande força do inconsciente e do subconsciente individual foi o médico e pesquisador austríaco Sigmund Freud. a inteligência (= alma espírito) é múltipla e qualquer ser humano tem a possibilidade de desenvolver a pluralidade de tipos nela virtualmente existentes. aproveitando as experiências boas ou más. 2) Inteligência poética: é a capacidade de interpretar o mundo através das palavras. tradicionalmente. indicando a rapidez da apreensão mental.

Trata-se de pessoas com uma fortíssima carga interior. 11) Inteligência artificial: é a área da ciência da computação ( Informática). especialmente pelo cinema. junto com a dança. que surgiu na década de 1950 e continua evoluindo a largos passos. sendo fundamental para atletas. a justiça e a felicidade não fossem apenas sonhos ou utopias. a orientação espacial integrada com a temporal.178 profetas. Trata-se de uma máquina “que pensa”. O cultivo deste tipo de inteligência requer a interação entre o conhecimento intuitivo das leis da física. sentindo-se inspirados por uma força superior. servindo-se desse moderno meio de comunicação. computador)Informática INTUICIONISMO (doutrina filosófica. Suas figuras são retorcidas e fragmentadas. de “linguagem natural” (interpretação automática de textos) etc. 10) Inteligência cinética: está centrada sobre a técnica e a arte do movimento. que nos faz distinguir os sons e suas combinações. Como podemos ver. emocional ou física. pensador e literato. INTERNET (WEB. que.Bérgson) Pantarrei (“Tudo corre”) (Heráclito) Francês. Mas foi apenas a partir do tardio Barroco que a Europa tomou consciência da importância da inteligência musical. visando apresentar um objeto do ponto de vista do artista. apregoam a existeência de um outro mundo. pode ser considerado o pai da moderna Música. E o mais antigo também: os agrupamentos humanos primitivos são os que mais cultivam a música. o tipo de inteligência de que as pessoas humanas são dotadas varia de um indivíduo para outro. Decodificar melodias e ritmos é o modo mais sublime de conhecer a realidade. que vem produzindo vários filmes di ficcção científica. por ter deixando obras estupendas em vários ramos da atividade humana. O autor da Flauta Mágica é o melhor exemplo do que é a inteligência musical. junto com a capacidade de criar com rapidez. enviados pela divindade para salvar a humanidade. cores e materiais os mais variados também é uma atividade bem antiga. Apenas a habilidade física e o treino corporal não levam à genialidade: o movimento deve ser guiado por um tipo peculiar de inteligência. o canto e a poesia. sistematizada por H. artes que estão entre si estritamente relacionadas. Picasso. Sua reflexão espiritualista sobre a vida e a existência humana . aos cinco anos já compôs seus primeiros trabalhos.. Filho de professor de música. Escultura e Pintura). foi definido como “o mais completo dos homens”. Essa inteligência é. na dependência de fatores de hereditariedade e do meio ambiente. O renascentista italiano Leonardo da Vinci seria o “gênio dos gênios” pois. de origem irlandesa. que chamamos de “cinética”. Modelar figuras. esportistas e dançarinos. representados em código binário. faz de uma pessoa um “gênio”. 9) Inteligência figurativa: outro meio de conhecimento da realidade é através das artes plásticas (Arquitetura. A História da Arte apresenta a evolução deste tipo de inteligência através dos tempos. XX com a genialidade do espanhol Pablo Picasso. que a mente humana pode alcançar numa determinada área de conhecimentos. com o intuito de representarem sua força interior. utilizando linhas. apresentadas por uma perspectiva múltipla. a feição pictórica da arte da Vanguarda européia. simplesmente. O mais alto grau de capacidade intelectual. bem diferente daquela até então praticada. pois é o homem que programa o computador para realizar várias operações de “robótica” (visão e atividade motora). assim Wolfgang Amadeus Mozart. o amor. a partir da manipulação de símbolos. O computador é um aparelho que reproduz processos complexos e inteligentes. A inteligência artificial está sendo utilizada também pelas artes. pela engenharia de hardwares e softwares (discos duros e moles). como se fosse um ser humano. que transcende a nossa realidade. sendo de uma utilidade incalculável para quase todas as atividades humanas. também austríaco. “artificial”. É essa inteligência que faz a diferença entre a genialidade de Pelé e os milhares de jogadores de futebol ou entre o russo Barichinicov e os outros bailarinos. 8) Inteligência musical: como Freud é considerado o pai da psicanálise. Genética e ambiente contribuíram para a formação da sua genialidade. portanto. o fundador do Cubismo. Henri Bergson (1859-1941) foi um dos maiores expoentes da revolta contra as doutrinas materialistas e mecanicistas. o único a quem a natureza reservou o dom do raciocínio. inventou uma nova forma de pintar. que dominaram a cultura européia na segunda metade do século XIX. onde a paz. fundamentada no conceito clássico de harmonia de formas. A grande revolução aconteceu no início do séc.

Schelling ( Racionalismo Idealismo). mas ela lhe revela que não poderá amá-lo. Martim se apaixona pela linda Iracema. uma energia dinâmica que estimula sua constante evolução no tempo. Já o pré-socrático Heráclito de Éfeso exprimia a consciência da fugacidade das coisas e da relatividade da verdade através da bela imagem do homem que não consegue banhar-se duas vezes nas mesmas águas de um rio. durante uma caçada. Da mesma forma. Ela o leva até a cabana do Pajé. repleta de elementos sonoros. quer de raça branca: os invasores franceses e holandeses. animal e humano. também chamado de “tempo-emoção”. Nesta luta pela colonização do nordeste brasileiro. A interação entre o pensar e o viver encontra-se sintetizada na famosa expressão de Bérgson: “pense como um homem de ação e aja como um pensador”. não têm valores absolutos. O estilo lírico é evidenciado pela “prosa poética”. no início do século XVII. Duração e simultaneidade.. pela descoberta do psicológico. data da primeira publicação de Iracema). batizado com o nome de Antônio Felipe “Camarão”. a apreensão pela intuição estabelece uma comunicação direta entre o “eu profundo” (que muda continuamente) e a interioridade dinâmica das coisas. primeiro núcleo do futuro Ceará (“canto da jandaia”). por sua vez. moço de raça branca que perdera de vista o companheiro Poti. A fábula romanesca inicia quando a bela tabajara Iracema. que se apaixona pela índia Iracema e cultiva um forte sentimento de amizade pelo indígena Poti. Sua expressão pantarrei (“tudo corre”) se tornou universalmente conhecida. que visava colonizar a região à foz do rio Jaguaribe. a partir de um fato histórico: a luta pela colonização do Ceará e de outras regiões do nordeste brasileiro. é bem antigo na história da filosofia no Ocidente. se aliaram aos franceses do Maranhão. enquanto o conhecimento através de conceitos apresenta a realidade como algo de estático e imutável. Com um distanciamento de dois séculos e meio (1615. época aproximada do episódio histórico. após uma luta inglória contra os portugueses da Bahia. o grande chefe da tribo. o lírico se depreende da exaltação da flora e da fauna da terra brasileira e do idealismo sentimental com que são retratadas as personagens principais. Esta história é a lenda de Iracema. O conceito de “intuição”. e do índio Poti. irmão do chefe potiguara Jacaúna. intimamente ligado à noção de durée (duração). Spinoza. O pensamento e o movente. O aspecto épico do romance se relaciona com o assunto: o narrador anuncia que está relatando “uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci”. mas relativos ao sujeito. a história registra o valor guerreiro de Martim Soares Moreno.. que ajudou os portugueses a expulsar os holandeses. Segundo ele. Kant. e de outros recursos retóricos próprios da poesia lírica. que opõe o conhecimento direto e imediato da realidade ao pensamento analítico e reflexivo. Matéria e memora. As verdades humanas. Tal lenda se formou no seio do povo nordestino. que tinha . porque consagrou sua virgindade ao deus. Os indígenas Potiguaras (“comedores de camarão”). conhecedor dos segredos do deus Tupã. Além do aspecto formal. de comparações entre elementos do mundo vegetal. ao tempo e ao espaço. Apontamos apenas duas idéias que nos parecem fundamentais no pensamento filosófico de Bergson: o Intuicionismo. especialmente a indígena Iracema. seu pai. sendo guardiã do segredo da jurema e do mistério do sono. A energia espiritual. quer de raça indígena. Platão. o povo nordestino criou a lenda do português Martim. IRACEMA (romance de José de Alencar: o mito indígena da virgem dos lábios de mel) Verdes mares bravios de minha terra natal. movida pelo élan vital. e o élan vital (a energia da vida). Ao redor deste núcleo histórico. A percepção da mudança. em que encontramos a confluência de dois gêneros literários: o lírico e o épico. e 1865. que habitavam o litoral nordestino. Reflexões sobre a intuição como forma de conhecimento da realidade encontram-se também nas obras de Descartes. A evolução criadora. o conceito de duração apresenta a vida como um contínuo fluxo. os Tabajaras (“senhores das aldeias”) que habitavam no interior do Ceará e os Tupinambás (“parentes dos Tupis”) que. de metáforas delicadas.179 encontra-se consignada em obras famosas: Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. “a virgem dos lábios de mel”. Bem recebido. Leibniz. portanto. mestre-de-campo do exército português. Daí o pensamento bergsoniano ter tido influências decisivas na ficção modernista. O jovem português Martim Soares Moreno participou da expedição do nobre paraibano Pero Coelho. além do regionalista e indianista. filha de Araquém. de imagens sugestivas. A “jurema” era um licor preparado com o suco da fruta da árvore homônima. estabeleceram relações de amizade com os portugueses para defender-se de inimigos comuns. índio potiguara. encontra na floresta cearense Martim. especialmente na construção da personagem modelada e no romance de fluxo de consciência. José de Alencar explora artisticamente os fatos histórico-lendários e cria um romance curto. Iracema é a personagem-título do romance mais famoso de José Alencar. meio poema épico e meio poema lírico. provenientes da segmentação das frases e da repetição de sintagmas. tivera a clara consciência da distinção entre o raciocínio discursivo (diánoia) e a apreensão intelectual das essências ou idéias (nóesis). O rir. Mas é Bergson a valorizar decisivamente o papel da intuição.

fruto do acasalamento da raça portuguesa com a raça indígena evangelizada. Iracema. É Iracema que seduz Martim. ela oferece o seio a cachorrinhos para estimular sua produção e alimentar Moacir. Irapuã (“Mel-Redondo”). preferindo a companhia de Poti para a guerra e para a caça. o personagem-título possui uma personalidade bem mais marcante do que a do protagonista branco. que. apesar de ter assimilado língua e costumes indígenas. Considerada uma bebida divina. enquanto a poesia épica de Santa Rita Durão e de Basílio da Gama considerou o indígena ou como ser de raça inferior. De noite. Iracema. o maior guerreiro tabajara. após quatro anos de ausência. sem dúvida. Durante o caminho. não resiste ao chamamento da terra de Iracema e. enquanto o fraco Martim se deixa levar pela nostalgia da terra distante. É Martim que se acultura. sua fabricação era um segredo só conhecido pelo Pajé e por sua filha devotada ao culto de Tupã. seduz o estrangeiro que vem ao Brasil e o induz a aqui ficar. IRONIA (humor. retorna definitivamente ao Ceará e. dá início à civilização brasileira. Martim sonha com a chegada de um barco que o possa levar de volta ao seu país natal. escrito nos alvores do movimento nacionalista. Neste sentido. durante a viagem rumo à praia cearense. vivificando os sonhos e tornando realidade os desejos. portanto. que habitam o litoral cearense e travam amizade com os “guerreiros do fogo”. e com ele tem relação sexual. Com efeito. tomado pela saudade de sua terra de origem. Iracema embebeda o jovem branco com o vinho de Tupã. exorta os de sua tribo a lutarem contra os índios potiguaras. O romance Iracema é o mais acabado exemplo de literatura “indianista”. no romance de Alencar. A vida de Martim. e não vice-versa. Martim leva num frágil barco o filho e o cão fiel. antropófago (Caramuru) ou como simples elemento da natureza. está em perigo. Dias felizes de amor. ameaça chupar o sangue do jovem branco. sem que Martim o perceba. grávida. Irapuã e mais de cem índios os atacam e exigem a entrega do moço branco. Leva-o até o bosque sagrado de Tupã e lhe dá de beber a jurema. Durante uma festa em honra de Tupã. que é de raça branca e amigo da tribo rival. que. o índio potiguara Poti vem ao encontro de seu amigo branco. Acabando o leite. o marco mais peculiar do romantismo brasileiro. O Guarani e Ubirajara). no romance Iracema (como também nas duas outras ficções indianistas de Alencar. ainda sente saudade de sua terra e de seus familiares. onde a índia Paraguaçu adota o nome cristão de Catarina e vai casar-se “legalmente” com Diogo na corte do rei da França. Ela nunca se arrepende da escolha feita e seu amor em momento algum vacila. percebendo o amor que está crescendo entre Iracema e Martim. Mas. pelos seus encantos. o capítulo final do romance é bem expressivo: Martim. dá à luz Moacir (“o nascido do sofrimento”). mas não ousa aproximar-se da cabana de Araquém. O jovem português sente a alegria da paternidade misturada à dor da viuvez. está em ponto de morte. Iracema pode ser considerada a personagem símbolo da terra mãe que. pois excitava a fantasia e proporcionava alucinações agradáveis. voltara para Portugal. é a cultura primitiva dos aborígines que predomina sobre a civilização européia. a par do néctar dos deuses da mitologia grega. na terra dos potiguaras. perdido na floresta dos Tabajaras. Iracema e seu irmão Caubi acompanham Martim em sua viagem de volta. Enfim. Aí revela a Martim que é sua esposa e que não pode mais abandoná-lo. cinismo. O herói lusitano. ela leva Martim até o lugar onde se esconde o amigo Poti. os estrangeiros de outra raça e de outra religião. assumindo até o nome de Coiatabo (“guerreiro pintado”). Enterrada a jovem esposa à sombra de um coqueiro. beberagem que lhe faz rever em sonho sua pátria natal. como acontece no Caramuru. O casal de indígenas defende Martim e o leva de volta à cabana do Pajé. a literatura romântica promove a exaltação do aborígine brasileiro. inculto (Uraguai). Entretanto. Na cabana à beira-mar. peripécia) Retórica Machado . apenas na companhia de um cão fiel. Aproveitando do sono profundo destes. insinuando que a raça indígena é cultural e humanamente superior à raça branca dominadora. tendo traído o voto de virgindade feito a Tupã. ao redor do túmulo da índia. Não é sem motivo. A idealização do elemento indígena é. em contraste com o egoísmo estrangeirista dos portugueses. O guerreiro índio Irapuã.180 um poder narcótico. a jurema. aprendendo a língua e os costumes indígenas. Iracema prepara muito licor de jurema para os guerreiros tabajaras. afasta-se cada vez mais de sua cabana. O índio como tema literário já fora explorado na época do Arcadismo. Cada vez mais fraca. que a elaboração artística e idealizada da lenda de Iracema se tornou a melhor expressão literária do indianismo brasileiro e um marco importante do nosso nacionalismo poético. seus familiares e sua namorada de infância. se aflige com a tristeza de Martim. tomado pelo ciúme e pelo ódio. Iracema sugere que Martim espere seu irmão Caubi chegar da caça para que seja acompanhado em sua viagem de volta à tribo dos potiguaras. bem ao estilo romântico. mesmo sabendo que o amor lhe causará a morte. quando chegam Martim e Poti. Portugal. A paixão amorosa da jovem índia. é mais forte do que seu voto religioso e seu afeto à família e à tribo.

A crítica externa. Deus (ceticismo religioso). Lúcio ou O Asno). ridicularizando os preconceitos socio-morais. sem dúvida. A doutrina cética ensina que é impossível conhecer a verdade (ceticismo gnoseológico). adquirindo um parâmetro de universalidade. o normal e o anormal. Segundo a tese sustentada por Vianna Moog ( Os heróis da decadência). através de suas conferências e de seus escritos (Diálogos dos Deuses. Machado de Assis. sendo a salvação possível apenas pela predestinação e pela graça divina. o que melhor cultivo o estilo irônico de escrever ficções foi. assim define a ironia: “Esse movimento ao canto da boca. Mas pouco importa indagar qual seja o fator ou o conjunto de fatores que subjazem ao pessimismo de Machado de Assis. inclusive como método didático: a famosa “ironia socrática”. derivado da concepção do mundo como dor e maldade. II d. no Machado da maturidade artística. escola fundada pelo grego Pirrão de Élida no séc. 2) o espaço e o tempo das primeiras manifestações da ironia: a Grécia da época da decadência. no conto Teoria do Medalhão. pois nos interessa estudar a obra e não o homem. as regras que regem o comportamento social e os critérios que determinam o certo e o errado. a distinção do bem e do mal (ceticismo ético). a ironia já fora praticada pelos sofistas e pelo filósofo Sócrates. III a. origem humilde. A visão negativista do mundo e do homem. em duas atitudes . a razão e a loucura. sobre as obras de Machado de Assis. caindo num relativismo que lhe impede de acreditar em qualquer valor absoluto. o ficcionista Machado de Assis e o crítico Vianna Moog se limitam a tratar da ironia no plano estético e moral. 3) a figura de estilo é usada por vários autores. para quem a ironia é uma disposição de espírito provocada pela reflexão sobre as contradições da alma humana e do convívio social.. expressa a descrença nos valores ideológicos. o bem e o mal. inventado por algum grego da decadência. ridicularizou as várias seitas do cristianismo e atacou violentamente a vida pública da Inglaterra. perante o fracasso dos ideais. O ceticismo está fundamentado sobre dois pressupostos basilares: a contradição dos dados do conhecimento e a equivalência das razões contrárias. contraído por Luciano. especialmente pelas suas obras satíricas Zadig e Micromégas (contos). Machado de Assis. social e moral. a ironia é uma figura retórica. Evidentemente. retor e sofista grego do séc. questionando. o patriarca da cultura francesa do séc. como postura dialética do espírito em busca da verdade. Na base da ironia machadiana podemos encontrar um pessimismo radical. escritor irlandês do começo do séc. foi considerado “o mestre da ironia”. Cândido. pelo seu sorriso enigmático. e divulgada no mundo helenizado por Sexto Empírico. Jonathan Swift. 4) o fundamento filosófico da ironia: o Ceticismo. trata-se de “uma ignorância simulada”. O Homem de Quarenta Escudos (romances). liberal e anticlerical. transmitido a Swift e Voltaire. satirizou os costumes da época. feição própria dos céticos e desabusados”. o pessimismo filosófico de Schopenhauer. a teoria luterana da corrupção fundamental do homem pelo pecado original. Voltaire. a influência da teoria determinista de sua época. cheio de mistérios. a origem primeira das coisas (ceticismo metafísico). Mais importante do que determinar o motivo dos complexos machadianos. principalmente. A Donzela (poema herói-cômico). segundo a qual o homem já nasce com o seu destino traçado por taras hereditárias e lhe é impossível qualquer melhoramento. O Ingênuo. “interrogação”. é colhido pelo desencanto da vida. referente ao modo de expressar um pensamento. ou uma forma de argumentar pela qual se põe em dúvida alguma afirmação do interlocutor.181 “O humor é a quintessência da verdade” (Millôr Fernandes) Do grego eiróneia. dizendo o contrário do que se pensa. Enfim. a epilepsia. citando alguns escritores irônicos: Luciano de Samosata.C. XVIII. a ironia tem seus principais cultores nas épocas de decadência política. o jansenismo pascaliano que nega a liberdade humana.C. tem apontado vários fatores biopsíquicos e socio-culturais para explicar o motivo do seu pessimismo: o complexo de inferioridade por causa da cor. Verdadeiro gênio é quem consegue sublimar em motivos artísticos suas inquietações espirituais. quando o homem. XVIII. pela qual tudo é maldade e sofrimento (postura pessimista). é tentar verificar como as suas contradições existenciais se tornaram formas e temas literários. o licito e o ilícito. porque. Na literatura brasileira. com sutileza e humor. fazendo perguntas que demonstrem sua ignorância sobre o assunto em discussão. autor da famosa obra As Viagens de Gulliver. Uma breve análise da definição acima revela as seguintes características desta figura de estilo: 1) a atitude física do homem irônico que. religiosa. Diálogos dos Mortos. e a conseqüente descrença numa possibilidade de melhoramento (postura cética) se transformam. doença neurológica humilhante .

Jerusalém. que destinava aos judeus um território de 12 mil quilômetros quadrados ao redor de Jerusalém. à atual Palestina. Machado faz da ironia uma técnica narrativa constante: sua estrutura fabular preferida apresenta a frustração de uma expectativa. já capital da Palestina. que se sucederam e. Finalmente. cada qual.XII e XIII). na Literatura Brasileira. surpreendendo continuamente as conjeturas do leitor. Mas as sangrentas lutas entre judeus e muçulmanos não pararam: rechaçando o ataque árabe na Guerra dos Seis Dias (de 5 a 10 de junho de 1967). em 1922. construído em 1965 . A protagonista. por mais duas vezes. a “Cúpula do Rochedo” (o monumento islâmico mais antigo) e outras igrejas e mesquitas. se cruzaram. Após várias disputas entre povos rivais dos judeus. Os atos humanos são dirigidos pelo acaso e. Historiadores. lutando bravamente contra os muçulmanos. Os contrastes fortuitos. Na medida em que o Cristianismo ia perdendo sua força no Oriente Médio. Ao longo do séc. a igreja do “Santo Sepulcro”. foi proclamada capital do Estado de Israel. os chamados “humoristas”. sendo construído em seus muros o Templo de Salomão. acabando com o Estado da Palestina. é também jornalista e dramaturgo. assim definida por Aristóteles: “a peripécia é a súbita mutação dos sucessos. pois os acontecimentos tomam um rumo contrário ao esperado. encenada pela primeira vez em 1977. os descendentes do bíblico patriarca Abraão. pelo império otomano. foi dominada pelos mamelucos e. A ironia. perguntada por uma amiga sobre o segredo do sucesso matrimonial. quase sempre. uma divindade originária da terra de Canaã. há. carinho e a liberdade de levantar a perna ao pé da árvore que ele escolher. cristã e muçulmana). e esta inversão deve produzir-se de modo verossímil e necessário”. As três civilizações (judaica. várias vezes. em 1980. que existe o que não existe. cristãos e muçulmanos)Cruzadas Etimologicamente. Reergueu-se no período bizantino como metrópole da religião católica (Cristo) mas. após dois milênios de diáspora a que os castigou o Império Romano. Entre eles. a essência do cômico reside no desvio da normalidade. além de humorista. tornando-se cidade santa do Islamismo (Maomé). constituem a expressão artística da ironia do destino: o homem consegue. vários cultores da ironia “cômica”. passou para o poder britânico.182 estéticas: a forma irônica e o conteúdo humorístico. em seguida. XIII a C.. a Cidade e o Templo foram destruídos por Nabucodonosor e reconstruídos sob o império persa. em 638. característicos do enredo machadiano. responde que basta tratar o marido como se cuida de um cachorro: dar-lhe comida. portanto. Sua peça mais significativa se intitula É. onde trata do relacionamento conjugal. quando está no poder ou com o poder. em 15 de maio de 1948. porque.C. indissoluvelmente. deixaram na cidade de Jerusalém. ISLAMISMO (religião muçulmana)Maomé ISRAEL (povo e religião judaica da Palestina) Jerusalém JERUSALÉM (a Cidade Santa de judeus. a ironia machadiana se aproxima do conceito de peripécia. aproximadamente. correspondente. De 1260 a 1517. figura peculiar da narrativa dramática. a cidade santa voltou a ser cristã. A ironia. passado o primeiro milênio. Neste sentido. Além da ironia “trágica” de cunho machadiano. que é bom o que é mal. é inútil qualquer programa de vida ou o recurso a qualquer tipo de adivinhação porque o destino é indevassável e imutável. Jerusalém significa “fundamento de Shalem”. suas marcas. um conteúdo humorístico. onde se instalaram os hebreus nos séc. como sabemos. estudiosos das religiões e das artes ou simples turistas visitam constantemente a Cidade Santa para admirar o “Muro das Lamentações” (construído na época romana). VI. Jerusalém foi arrasada pelo império romano. na atualidade. foi ocupada pelos árabes. é um “metassemema” (Retórica). que governou em Jerusalém até 1917. Jerusalém se tornou a capital do reino de Judá. proclamada cidade internacional e dividida em duas partes (zona israelense e jordaniana). os judeus anexaram outros territórios e Jerusalém. apoiados numa resolução da Assembléia Geral da ONU do ano anterior. A esta forma irônica está ligado. como figura de estilo. Na época das Cruzadas (séc. A Cidade Santa é a fonte perene de inspiração para . sobressai o escritor carioca Millôr Fernandes que. se torna cinismo: o tirano esclarecido pode dizer que é o que não é. o contrário do que espera. além do Museu Nacional de Israel. reunificada. Durante o reinado de Davi (Bíblia). as comunidades judaicas começaram a retornar para Jerusalém. que consiste em dizer o contrário daquilo que se está pensando. no contrário. em 70 d. voltaram a ter uma pátria. figura de sentido.

sendo santificada em 1920. que tem como fundo histórico a primeira cruzada dos cristãos para a libertação da Cidade Santa do domínio dos infiéis. sitiada pelos ingleses. Mas a grande popularidade da figura de Joana d’ Arc deve-se. 2) a liberdade de pensamento (o direito de sentir “as vozes” dentro de si). 3) a renovação da Paixão de Cristo: o sacrifício de Joana para libertar a França é comparado ao sofrimento de Jesus para redimir a humanidade. em Rouen. ao longo da história da França. sendo queimada viva na praça do mercado. O poeta. Mas quem valoriza de uma forma definitiva a imagem da heroína francesa é o grande historiador Michelet que. JESUS (o Filho de Deus encarnado) Cristo JOANA d’Arc (o mito da Donzela de Orléans. ela é uma vítima da luta pela afirmação do juízo individual contra o magistério e o julgamento absolutista da Igreja de Roma. Outro grande estudioso da heroína francesa é Jules Quicherat que. Nas duas películas aflora a vida interior da santa-heroína. de constituição doentia e de sensibilidade melancólica. põe ênfase no drama do “erro judiciário”. vem sendo continuamente lembrada no imaginário popular a partir de fatos históricos. mas foi ferida em Paris. de Robert Bresson. no mesmo ano de 1429. exprime artisticamente o contraste entre a força da paixão amorosa e o medo do pecado. filha devota de camponeses. Ela inspirou cerca de vinte filmes. a festa é muito diferente do que era aos 20. da “salvadora da pátria”. aos 13 anos. todos os que se servem do tema exaltam a figura extraordinária da jovem francesa. já na época do Barroco italiano. heroína da França) A figura da jovem francesa Joana d’Arc (1412-1431). 1923) apresenta uma tese nova e muito interessante: Joana d’ Arc. Com exceção do irreverente Voltaire que. começa sua aventura de guerreira e de mártir. O escritor irlandês George Bernard Shaw (Saint Joan. Derrotou as tropas anglo-borgonhesas e adentrou a cidade de Orléans. espelha o clima austero da Contra-Reforma. a menina ouviu “vozes divinas” que lhe ordenaram de salvar Orléans. desfigura a personagem para atacar a Igreja Católica de uma forma libertina. O poeta alemão Schiller faz de A Donzela de Orléans (1800) uma tragédia romântica. V da sua Histoire de France. no fim do século XI. Mas a guerra entre cristãos e muçulmanos é apenas um pretexto para o poeta cantar os amores aventurosos das duplas Rinaldo-Armida e Tancredi-Clorinda. além de ser uma apóstola do Nacionalismo. Carlos VII foi consagrado Rei da França em Reims. condensada nos últimos dois anos de sua vida. foi submetida a um longo processo. aos 50. O mito da “virgem guerreira”. o tomo é reeditado separadamente com o título Jeanne d’ Arc. uma obra-prima do cinema mudo. que estava escondido em Reims. no vol. na região da Lorraine. à arte cinematográfica. Narram seus biógrafos que. JORGE Amado (o folclore da Bahia) Para mim.183 poetas e artistas. Ele demonstra que todas as acusações contra Joana d’ Arc eram infundadas e ela foi vítima de juízes inescrupulosos. na sua Pucelle d’ Orléans. de Carl Dreyer. nos cinco volumes dos Processos (18411849). sem dúvida. o sexo sempre foi uma festa. A luta para a libertação total da França continuou. Sua imagem foi reabilitada e inocentada. como outras personagens que se tornaram lendárias. conseguiu autorização para viajar e encontrar-se com o rei Carlos VII. Devido ao sucesso da história da heroína. entre os quais destacamos A Paixão de Joana d’ Arc (1928). enfraquecida por lutas internas e contra a Inglaterra invasora. Esta obra. em 1853. Lembramos apenas a Jerusalém Libertada do poeta italiano Torquato Tasso. Convenceu o soberano da sua missão divina e vestiu uma armadura com o estandarte “Jhesus Maria”. Nasceu em Domrêmy. e Procès de Jeanne d’ Arc (1962). mesmo aos 60: . Após várias insistências. Nele Michelet aponta os principais temas que envolvem sua figura: 1) o amor à pátria. quando a França estava desmembrada. dá um espaço enorme à libertadora de Orléans. Prenunciando a vinda de Lutero. da “vítima inocente” passa a povoar o imaginário artístico de poetas. envolta numa auréola de misticismo. passando a chefiar o último exército francês. em 30 de maio de 1431. Aos 17 anos. dramaturgos e músicos. ela seria também uma precursora do Protestantismo. Joana obteve outras vitórias. tendo como pano de fundo a cidade de Jerusalém com sua problemática étnica e religiosa. Trata-se de um poema épico-cavaleiresco. Aos 82 anos. acusada de heresia (por vestir roupas masculinas!) e condenada pelo Tribunal da Inquisição. Capturada e vendida aos ingleses por 10.000 escudos. terminada em 1575.

após realizar as ações corriqueiras (toma café. Seu pensamento sobre a prática da sexualidade. mas sofrendo inicialmente ostracismo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. que reduz seus personagens ao absurdo do heróico-burlesco.184 é uma festa que é feita da experiência. bem cedo. pondo seu veio poético a serviço da descrição do pitoresco. publicidade.É a parte mais longa do romance e tem como paralelo mítico as viagens do herói homérico Ulisses. ciências naturais e médicas. do sensual. O volumoso romance. está calcado sobre A Odisséia. busca um pai de verdade. Os fatos não são apresentados de uma forma linear. um professor de história que. Este brevíssimo resumo da fábula do Ulisses de Joyce nos fornece apenas uma pálida idéia da estrutura da obra. as obsessões dos personagens. análise de Ulisses)Odisséia O irlandês James Joyce (1882-1941) é considerado o pai da ficção modernista. mais televisionado e mais cinematografado. presentes e futuras. Desta concordantia oppositorum surge o aspecto irônico da obra. em grego e Ulisses. no seu espírito. sem nenhuma pontuação e com inúmeras extravagâncias morfológicas e sintáticas. que é extremamente complexa. povo antropófago). política. Frutos dessa adesão são os romances comprometidos com a ideologia marxista Os subterrâneos da liberdade. o escritor baiano se acomoda à nova realidade política brasileira. O cavaleiro da esperança e O mundo da paz. onde se descreve a viagem de Telêmaco a Pilos e a Esparta. Ulisses. Dona Flor e seus dois maridos ( 1966). literatura e artes plásticas. inconscientemente. a protagonista Molly. As oito da manhã. sensível aos chamamentos do sexo. portanto. é descrita como uma mulher lasciva. os desejos. O protagonista desta primeira parte é Stephen Dedalus. mais traduzido. as frustrações. a esposa fiel por antonomásia. colocando perante nossos olhos todas as áreas do conhecimento humano: reflexões filosóficas. vai ao banheiro etc. demonstra um traço autobiográfico presente nas melhores personagens por ele criadas. o almoço (episódio dos Lestrigões. o romancista mais lido. junto com Stephen (símbolo do encontro entre o pai e o filho). pronta a se entregar ao primeiro amante que aparecer. e o simbolismo épico. sociologia. é uma espécie de epopéia do homem moderno (gênero épico). Desta segunda fase destacamos: Gabriela. fazendo concessões à censura e ao público e tornando-se. em latim). consciência moral. economia. se combinam: a atmosfera naturalista. com Érico Veríssimo. jornalismo. O Ulisses está dividido em três partes. visita ao bordel (episódio de Circe) etc. criada pela descrição das minúcias da vida cotidiana. que nos releva o encavalgamento. Leopold se levanta da cama e. com seus arquétipos . ligado ao Partido Comunista Brasileiro. A protagonista desta última parte é Molly que. fazia propaganda política e lia a literatura proletária da União Soviética. toda a última parte é composta de um único período. visto que seu progenitor natural vive bêbado. Sua obra mais famosa. Os estudiosos da biografia do romancista baiano Jorge Amado (1912-2001) costumam distinguir uma primeira fase em que. mas misturados com as lembranças. A narrativa de Joyce. acordando. Pelas três da madrugada. Assim. procurando saber notícias sobre o retorno do pai Ulisses. para expressar o fluxo ininterrupto da consciência da personagem. na tentativa de representar a fragmentação espiritual do mundo em que vivemos.). agente publicitário casado com Molly. tomando como título o nome latino do protagonista da obra de Homero (“Odisseu”. do regional. sai de casa para enfrentar a vida agitada da metrópole. do refinamento. separadas por algarismos romanos: I . remói toda sua vida passada num longo monólogo interior. do típico. atriz de cabaré. publicada em 1922.Corresponde à “Telemaquia” de A Odisséia. sentimentos e sensações passadas. adulterando a linguagem e inovando as técnicas formais da prosa de ficção. perplexidades religiosas oscilantes entre o helenismo e o hebraísmo (Jerusalém). apresenta a mistura do mundo mítico. Seu protagonista é Leopold Bloom. Por exemplo.Corresponde ao retorno de Ulisses a Ítaca e o reencontro com sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco. e descreve o que acontece a Leopold Bloom num dia comum (16 de junho de 1904). volta para sua casa e encontra sua mulher dormindo. capital da Irlanda do Sul. psicologia do subconsciente. através da técnica da corrente do pensamento e das associações de sensações. Na obra de Joyce devemos ressaltar duas tendências que. Tieta do Agreste (1977). pois de sua obra beberam todos os romancistas que tentaram afastar-se da narrativa tradicional. III . JOYCE (a Epopéia moderna. na cidade de Dublin. de Homero. embora opostas. cravo e canela (1958). que universaliza e eterniza ações e sentimentos. de dimensões míticas. que deveria ser a correspondente atual da mítica Penélope. II . citado na epígrafe. numa ordem cronológica. Leopold. de Homero: o enterro do amigo Dignam (descida de Ulisses ao HadesInferno). tendo abandonado a família na miséria. de idéias. do sentimental. Mas. As cenas que se sucedem tem correspondências com episódios de A Odisséia.

rei de Tróia. que o consideraram uma obra obscura e obscena. era celebrada como deusa da fecundidade e da fidelidade matrimonial. foram atribuídas a Zeus várias relações extraconjugais com deusas. JUNG (psiquiatra suíço: “os arquétipos” e o inconsciente coletivo)Freud JUNO (divindade latina. autoritarismo. que julgara Vênus como a deusa mais bonita.185 ideológicos. pela crítica elogiosa de Stuart Gilbert. A raiz de seu nome latino “Juno” está ligada a palavras que indicam a força vital. majestoso. auxiliado pela mãe Terra. a aglutinação de palavras e de frases. a criação de novos termos. No Brasil. sendo inumerável sua descendência. quer reestruture fábulas e personagens. o romance teve o merecido sucesso e foi traduzido para as principais línguas da Europa. em grego: complexo de Júpiter. JUDAÍSMO (religião hebraica. violência) Zeus-Júpiter é a maior divindade do mundo greco-romano. Como releva o crítico E. "juventude". não há ficcionista da Vanguarda que não acuse influências joycianas. e do mundo da realidade cotidiana. Nessa vertente da narrativa modernista. assim Júpiter casou-se com a irmã Juno (Era).T. Eliot e Edwin Muir. considerado por Homero o pai dos deuses e dos homens. A “história” mítica de Júpiter é muito semelhante à de seu pai Saturno ( Cronos). deixando para Netuno o domínio do mar e para Plutão o domínio do Inferno. o mito de Júpiter exprime o arquétipo do chefe da família patriarcal. que tem como emblema o raio (símbolo do domínio sobre as forças atmosféricas e de sua força vingativa). Como Saturno desposou a irmã Cibele. filho de Príamo. passou a ser considerado o grande inovador da prosa de ficção e sua técnica narrativa passou a fazer escola. é expresso poeticamente mediante a deformação lingüística. correspondente à romana Juno. com o auxílio dos tios Ciclopes e Hecatônquiros e dos irmãos Netuno e Plutão. em 1922. de Cornélio Pena. Conseguindo a vitória. era a rainha do Olimpo. enfim. O romance Ulisses. encontrou sérias resistências nos ambientes puritanos da época. a consciência lingüística impõe-se decididamente no processo da formação da obra. Em verdade. Mas. a narrativa de introspecção psicológica foi cultivada por vários escritores modernistas e atuais. quer inove a linguagem romanesca. Joyce fez escola: Virgínia Woolf pode ser considerada sua melhor aluna. além de ser o símbolo do princípio feminino. Joyce. a linguagem não é mais considerada apenas um meio para a representação do real. em que o homem é solicitado pelas baixas exigências do viver individual e social. escapou de ser devorado pelo pai Saturno e. como "jovem". . Rabugenta e ciumenta. de Lúcio Cardoso. quando publicado em Paris. o que salienta o caráter repetitivo dos mitos: como Saturno. Seus atributos principais foram a onipotência e a previdência. O romance não tem mais por objeto de representação uma história linear. S. Hera está sempre contra os troianos e a favor dos gregos. de Autran Dourado. lutou por dez anos contra o pai e os outros Titãs (Mitologia). o cetro (símbolo do poder) e a águia (símbolo da longividência). que acaba esmagando os . assim Júpiter. além deste matrimônio "legítimo". mas é a transfiguração artística das associações de idéias e de sentimentos que invadem o espírito dos personagens. do pai. com o cetro na mão (símbolo do poder) e o pavão (símbolo da beleza). correspondente à grega Hera) Filha de Saturno e de Cibele. Lembramos o romance intimista de Otávio de faria. as orações paratáticas. a divindade grega Hera. mas é criadora de novas realidades. com começo. ninfas e mulheres mortais. A iconografia o representa como homem maduro. JÚPITER (Zeus. do professor. Mas. Em Psicologia . e o estado de consciência a ser projetado traduz-se em uma nova sintaxe e em composições vocabulares ousadas”. O abuso do poder pode criar uma neurose. desconexo e fragmentário. que escondia os filhos no seio da Terra. meio e fim. de qualquer chefe. irmã e esposa de Júpiter. A comédia greco-romana apresenta Júpiter como o protótipo do conquistador incorrigível. Moisés)Abraão JerusalémBíblia.Rosenthal. então. derrotou seu pai Céu (Urano). “as novas criações lingüísticas agem de maneira direta. O fluxo da consciência. Preterida pelo julgamento do jovem Páris. pelo mecenatismo de uma amiga do escritor. Mas a técnica do monólogo interior para expressar a corrente do pensamento é usada de uma forma exemplar por Clarice Lispector. anos depois. denominando "complexo de Júpiter" à tendência do subconsciente ao autoritarismo. que pode se encontrar na figura do governante. pois utiliza signos sem referentes extratextuais. barbudo. ajudado pela mãe Cibele. partilhou o domínio do mundo com os dois irmãos: reservou para si o reino do céu e da terra. perseguia todas as amantes do marido e os filhos que nasciam dos relacionamentos ilegítimos. Representada como mulher jovem e bonita. T.

mas a vítima. de porte majestoso. representada como uma mulher nua. como na selva. isso acontece não apenas no Rio de Janeiro e em barzinhos.186 sonhos individuais. segurando na mão esquerda uma balança e na direita uma espada. legal ou particular. através de brincadeiras de mau gosto. o carrasco Slobodan Milosevic. como sinal de firmeza. o lucro. ela segura a balança com as duas mãos. O rótulo caracteriza garotos musculosos e violentos que. O mito. Diké era a deusa dos julgamentos. sofreu uma “vingança civilizada”. como a moderna ciência explica. em que os mais fortes convertem os mais frágeis em objetos de diversão. Como disse Napoleão. de Shakespeare. O mito da Justiça foi inventado para explicar o arquétipo da “vingança”. bairros. uma pintura do séc. XIII retrata a Justiça ao lado da Prudência conversando nas nuvens. simboliza também o cortar justo no meio as razões apresentadas pelos dois lados. A vingança. majestosa. uma raça canina muito feroz. De olhos bem abertos. vestida solenemente. além de indicar a força. intrínseco nas relações interpessoais. A justiça não de deixa de ser uma “vingança civilizada”. A figura feminina está sentada. segurando na mão direita a Constituição de 1787. tentando fazer o que elas não querem. A prepotência dos homens mais sarados está presente em quase todos os agrupamentos sociais (escolas. Comportamento semelhante ao bullyng americano é o dos pitboys cariocas. em geral. famílias desarticuladas). não se é educado a respeitar o direito e a vontade do semelhante. . Já o Presidente da antiga Iugoslávia. Evidentemente. estabelece relações desumanas. na frente do Supremo Tribunal Federal. sempre em pé. JUSTIÇA (A Diké grega e a Iustitia latina: a vingança civilizada) “A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo lugar”. O “bullyng” é uma forma de intimidação muito usada entre os traficantes de drogas e os marginais. Na Política e na Sociologia. responsável por uma satisfação igual à da recompensa. após a queda do Fascismo. talvez para não enxergar as mazelas dos Três Poderes. qualquer autoritarismo. O termo se formou pela mistura de boy com a palavra pitbull. especialmente depois de beber. “a maior parte daqueles que não querem ser oprimidos quer ser opressora”. a exploração. A feição recente do mito de Júpiter é o bullyng. a Justiça é representada por uma estátua colossal. diferente da vingança selvagem. pois é lá que se encontra o justo (ison=isonomia). sacrifica sua esposa Desdêmona. não deixa de ser um sentimento prazeroso. Sem a espada. a história e a arte estão repletos de “vinganças selvagens”: Medéia vinga-se da traição do marido Jasão matando os dois filhos. beirando a loucura. assediam mocinhas em boates. Infelizmente. Na entrada da Suprema Corte da capital norteamericana. com a espada descansando sobre suas pernas. A estatuária grega representa a Justiça como uma mulher majestosa. Em Brasília. (Martin Luther King) Para os gregos. filha de Júpiter (o “Poder”) e de Themis (a “prudência”). ela ativa o núcleo caudado do cérebro. de olhos vendados. a espada. a lei do mais forte vigora em qualquer lugar onde. de esquerda ou de direta. pois. que se dá quando o acerto de contas é feito diretamente pelas mãos do ofendido. sem a balança. indicando claramente que a Justiça verdadeira só existe lá no Céu. foram mortos e pendurados numa praça de Milão. isolada. suspeita de adultério. irmã da “Verdade”. significando a imparcialidade nos julgamentos. estimulando apenas a competição. pode-se contemplar a escultura de Alfredo Ceschiatti: o Poder Judiciário é representado por uma mulher pequena. a Justiça recebeu várias configurações por escultores e pintores. Ao longo dos tempos. Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci. colocada no alto da escadaria. o protagonista da peça Otelo. Já os romanos representavam a deusa Justitia com os olhos vendados. O mito de Júpiter está muito mais presente na nossa sociedade do que possa aparecer ao nível superficial. o sentimento subconsciente da reparação de um dano feito ao indivíduo ou à sociedade. observa o equilíbrio entre os dois pratos. sendo julgado e condenado pelo Tribunal Internacional de Haia. casernas. Na visão medieval. cansada de apanhar. A força está na palavra: jurisdição significa jus dicere (“dizer o direito”) e lex (“a lei”) tem como étimo o verbo legere (“ler” em voz alta. um tipo de comportamento cruel e ameaçador. divindade alegórica. pode acabar se revoltando. sem recurso aos tribunais. para ser ouvido por todos). que tentaram dar uma forma plástica a sua ideologia. reagindo de uma forma imprevista e violenta ao extremo.

O Castelo)Fantástico Tema recorrente: “o desespero do homem ante o absurdo da existência” Franz Kafka nasceu em Praga em 1883. existe justiça ou. às quais daremos destaque. que codificou o direito natural das coisas na sua obra Do Espírito das Leis (1748). Cada qual no seu lugar. testamentário e editor. especialmente os que assaltam o erário público. por poucos dias. Dickens. na realidade. além de O processo. pior sem ela”! KAFKA (análise de O Processo. Como diziam os antigos romanos: atque custodem quis custodiat? (“e quem toma conta do guarda?”). fazendo o que lhe compete. Eu quero dizer. austero e autoritário. As coisas devem ser entregues a quem melhor as serve. sem nenhuma paixão. foi Montesquieu. Mas será que. de Bertolt Brecht: “Vocês que conhecem a história do círculo de giz. o emprego em duas companhias de seguros pôs nosso autor em relação com a máquina burocrática. Mas Kafka sempre se manteve alheio à vida política e social. Além da Bíblia. Executivo e Judiciário. encenadas com a ajuda de suas irmãs. Essa justiça natural está descrita de uma forma bem simples na peça O Círculo de Giz Caucasiano. além do emaranhado absurdo do sistema judiciário e da incompetência de seus membros. Da Justiça podemos dizer o mesmo que se costuma falar sobre a Democracia: “ruim com ela. Enfim. ela é igual para todos? Não é mais um mito cultivado por agrupamentos civilizados? A verdade é que seu rigor só é aplicado aos pobres e aos indefesos. e direito. Entre as numerosas obras ficcionais de Franz Kafka. O grande problema humano de Kafka foi o sentimento de solidão espiritual. Balzac. comerciante abastado. provocado por uma série de fatores: a rígida educação familiar. a tuberculose que o acompanhou da primeira hemoptise (1917) até a . América. as crianças às pessoas mais maternais para crescer e florescer. As investigações de um cão. também os juizes estão sujeitos às limitações da nossa espécie.187 Na cultura ocidental. Flaubert e Thomas Mann. Sem dizer que. Desde a primeira juventude. 4) a cultura tcheca da maioria no meio no qual Kafka viveu. 2) a cultura cristã da Tchecoslováquia em que viveu. suas leituras preferidas foram as obras de Goethe. sem invadir o espaço alheio e ganhando com base no seu mérito. de que a cidade dependia politicamente. A construção da Muralha da China. desenvolvendo a teoria da separação dos poderes Legislativo. até a prescrição do crime. existe corrupção na própria Justiça. filho de um judeu alemão. procrastinam a condenação ad infinitum. o jovem Kafka sentia-se estrangeiro na sua própria cidade natal. Mas que vai se fazer: como os outros humanos. Qualquer coisa. sendo seu biógrafo. não vê se é vista. “a injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todo o lugar”. tem que ser justa pois. que está na base da maioria dos atuais governos constitucionais. se existir. que apoiavam os interesses do império austro-húngaro. O castelo e A metamorfose. Na colônia penal. descrita artisticamente em O Castelo. Metamorfose. desprezado pela minoria alemã por ser judeu e malvisto pela maioria dos praguenses. Na Universidade Alemã de Praga. lembrem-se da opinião dos antigos. a fraca constituição física. Dostoievski. começou a dedicar-se à prática da arte da palavra. antes de ser boa. e o vale aos que vão irrigá-lo para que a colheita seja abundante”. refugiando-se no mundo fantástico da Literatura. as carruagens aos bons condutores para que a viagem seja boa. como dizia Martin Luther King. os sanguessugas da sociedade. aproveitando das brechas que se encontram nas leis e da morosidade da máquina burocrática da justiça. dificilmente pagam pelos seus delitos. e então não cora”. 3) a cultura alemã de uma minoria dos habitantes de Praga. assinalamos. onde estudou química. Um artista da fome. quer por ser alemão. Suas atividades profissionais serviram-lhe como experiência preciosa para coletar o material necessário à sua ficção: o ano de estágio nos Tribunais de Praga (1906). fez poucas. A Justiça não pode ser substituída pela caridade. suas obras-primas. referente do romance O Processo. colocou Kafka em contato com os meandros da prática forense. Machado de Assis é mais explícito: “é claro que a justiça. Sua formação humana e intelectual deve-se relacionar com a encruzilhada de várias culturas diferentes e conflitantes: 1) a cultura judaica. publicadas postumamente e contra sua vontade. na expressão do escritor contemporâneo Norberto Bobbio: “ quem controla os controladores?”. sendo cega. que o acompanhou ao longo de sua vida. compondo pequenas peças teatrais. que morreu jovem. Os grandes criminosos. ou. mas profundas amizades: Oscar Pollak. o precursor da Revolução Francesa. Um médico rural. Tendo o poder econômico. eles contratam os melhores advogados que. A condenação. que herdou do ambiente familiar. quer por ser judeu. e Max Brod. complemento obrigatório de sua formatura em Direito.

” .. a aparente. Durante os sucessivos encontros de K. Enquanto K. com a complacência do marido. outro cliente do doutor Huld e amante de Leni que. cliente do banco. O ambiente é tão fétido que Joseph desmaia. pretende travar amizade e se relacionar afetivamente com a senhorita Bürstner. que pode responder ao inquérito instaurado contra ele em liberdade. Após um disfarçado interesse pela arte do pintor. a qual pode perder seu efeito de uma hora para outra e o acusado ser preso pela segunda vez e irremediavelmente..“Correto.“Mas eu não sou culpado. Os agentes instalam-se no quarto contíguo. passados cinco anos. Foi um erro. pois ainda está aguardando o momento oportuno para redigir a petição inicial. numa manhã de domingo. despede-se de seu advogado e nunca mais volta a procurá-lo. um pintor a serviço dos juízes do tribunal. solicita a intervenção da senhora Grubach. um jovem estudante de direito mantém relação sexual com a lavadeira do prédio. mas esta também não pode explicar-lhe nada. Chega o estudante Bertold e exige que a mulher fique com ele. No domingo seguinte. pede informações sobre seu processo que corre na justiça. Este vive num miserável cubículo. pronuncia um longo discurso. K. o ambiente de conflitos raciais. Num primeiro momento. K. se levanta da cama e se veste. continuando sua vida normal de empregado bancário. Comunicam-lhe. então. Passamos à análise das suas três obras mais importantes: I -Resumo do enredo do romance : O Processo . o protagonista do romance é visitado no seu quarto de pensão por dois indivíduos que lhe comunicam que está preso. ele encontrou dois aliados: a literatura e o relacionamento sexual. um íntimo sentimento de culpa. a par do processo que o procurador está sofrendo. na sala. que mantém indefinidamente o processo em sua fase inicial e obriga constantemente o indiciado a estar em contato com os juízes para captar sua benevolência. com seu advogado. onde ficam as secretarias do tribunal. este. que lhe dá a chave da casa para ele voltar à hora que quisesse. volta ao tribunal. foram os dois refúgios que atenuaram seu sofrimento físico e espiritual. onde reina um calor insuportável. Nesse estranho edifício. Encarregado pelo diretor do banco de acompanhar um cliente italiano numa visita à cidade. se torna amante da empregada do advogado. pensa tratar-se de uma brincadeira. Sua única obrigação é a de apresentar-se aos interrogatórios que se realizarão no tribunal de Justiça. K. sob a fiança da influência de amigos dos juízes. religiosos e políticos em que vivera. K. temeroso de perder o emprego.. de juízes e de outros moradores do prédio. Um industrial. Leva-o ao advogado Huld. Inutilmente tenta evitar que o castigo seja consumado. desanimado com o andamento de seu processo. Joseph assiste ao açoitamento dos dois funcionários. mas não deixa de atender os dois no seu quarto. vai pela última vez à residência do advogado para dispensar seus serviços. que ninguém nunca conseguiu. Joseph se apresenta ao juiz de instrução. Para lutar contra este sentimento de solidão. Na pensão. e lhe deixa ver os livros que estão na mesa do juiz: romances e ilustrações pornográficas. que lhe diz ser a esposa do porteiro e. K. habitado pela senhorita Bürstner. ora superficial ora profundamente. mas logo percebe que a acusação é séria. se negam a comunicar-lhe o motivo da detenção. apesar de ter contratado mais cinco advogados e de ter abandonado seus negócios para se dedicar integralmente ao seu processo. de nome Montag. K. e a prorrogação ilimitada. quanto ao seu processo. aconselha K. provocado pelo absurdo do viver social. sempre de cama. No Banco.188 morte (1924). denunciados por ele no tribunal por lhe roubarem suas roupas no dia da prisão. mas não há sessão naquele dia. Mas esta passa a morar com uma jovem alemã. Lá. Os homens. K. Avisado pelo telefone. Este está doente. dona da pensão. provisória. encontra o comerciante Block. que o leva ao andar superior. nunca está em condições de informá-lo. enquanto K. K. meio habitado por funcionários. conhece o porteiro. após uma longa discussão. é obrigada a ser amante de estudantes. O mundo fantástico da criação literária e a paixão amorosa nutrida por várias mulheres ao longo de sua vida. de noite. ainda não obteve nenhum resultado. numa sala de sessões superlotada. tendo sabido do processo. a jovem Leni. K.. onde exerce a função de procurador. o autor conta-nos a história ficcional do último ano de vida do personagem Joseph K. Ela se oferece também a K. por ser bonita. O pintor está disposto a ajudá-lo e lhe explica que existem três possibilidades de absolvição: a real. lhe faz longos discursos sobre a máquina burocrática do tribunal mas. a entrar em contato com Tintorelli. recebe a visita do tio Karl que. vai ao primeiro interrogatório: o tribunal está situado num prédio afastado do centro. Numa tarde. Na manhã em que completa trinta anos de idade. marca um encontro na . K. e evita a presença de K. tentando demonstrar o absurdo de sua detenção e a corrupção dos funcionários da justiça. A grandeza da obra literária de Kafka reside em ter conferido dimensões universais ao seu sentimento de angústia. que o confunde com um pintor de paredes. que se dizem subordinados a uma autoridade superior. oferece ao sobrinho sua ajuda. Enquanto o tio conversa com o doutor Huld. Trava um longo diálogo com a lavadeira. mas é isso que os culpados dizem” Pela voz de um narrador onisciente.

a jovem Bürstner vira-lhe as costas. porque é incapaz de compreender a existência e de se adaptar aos absurdos do viver social. O homem é condenado a errar no deserto do mundo. toma conhecimento da existência de empregados do banco. passa a conhecer o tribunal de justiça e seus funcionários. todos os indiciados serão inevitavelmente condenados. A nosso ver. vai visitar outro hipotético ajudante. conjugados com dados biográficos e ambientais. agüentando o sótão sufocante. muito embora sua interpretação possa ser considerada subjetiva. Joseph K. Passado um ano do início do processo. Este lhe revela que seu processo vai mal. O mundo da justiça se apresenta a ele como um labirinto sem saída e cheio de segredos indevassáveis. Sua profissão de procurador de um banco é exercida de uma forma metódica sem envolvimento afetivo com os colegas ou com os clientes. A personagem de ficção Joseph K. não se integrando ao meio e não pertencendo a ninguém. especialmente na do tipo “conto popular”. o capelão da prisão. impedido por uma sentinela de entrar. a senhorita Bürstner. a malcriação impudica das meninas e as telas horríveis. A necessidade fisiológica da relação sexual é praticada de um modo quase mecânico: uma vez por semana. O grande escritor tcheco constrói seu mundo artístico como um heterocosmo estranho. margeando as raias do absurdo. Na pensão. Propp (Função Narrativa). despem-no do paletó e da camisa. Sentido da obra Falar do sentido de uma obra de Kafka é quase um não-sentido. Aí. portanto. Enfim. dobram sua cabeça numa pedra. que habita o quarto contíguo ao seu. visita uma prostituta. da morte iminente. junto a uma pedreira deserta. Enfim. contra a indiferença e o alheamento. Não nutre simpatia para com a dona da pensão. mas compaixão pela triste sorte dos acusados. esperando seu apoio. o crítico não pode fugir à tentação e o professor de literatura à obrigação de apresentar sua leitura do texto. É a instauração do processo contra ele que o obriga a sair de seu isolamento e a estabelecer contatos com o mundo familiar e social. Com efeito. sua indiferença à família. seus subalternos. na sua pensão e o levam para fora da cidade. A relação sexual praticada por ela deve ser entendida. de quem aceita a ajuda. Todavia. Seu coração frio e vazio. Mas lá encontra não o cliente italiano mas um abade. procuram Joseph K. numa luta incessante e patética. fechado à compreensão do leitor. por ser quase nula a possibilidade de defesa. do afastamento definitivo do mundo da existência. à hora marcada. dois agentes do tribunal de justiça. de noite. O drama de Joseph K. a religião se associa à ação vingativa da sociedade civil. A única personagem que demonstra nutrir verdadeira afeição pelo protagonista é a doméstica do advogado. onde vive. sem esposa. porque sem esperança. “os outros” começam a existir para ele. da terra de Canaã. esta culpa é o “isolamento humano”. sua vida de celibatário e de burocrata. que esperam horas para serem atendidos. Mas esta simpatia se relaciona não com a pessoa de K. ela acha bonitos todos os indiciados que procuram o doutor Huld e de todos se torna amante. O que Leni realmente sente não é amor. apenas como um meio efêmero e casual de conseguir a derradeira participação do indivíduo no grupo social. embora esta seja extremamente atenciosa e maternal com ele. não é evidenciada a culpa pela qual o protagonista é punido. reside na consciência de que não pode viver só e não consegue . pois o tribunal inferior já considera sua culpa provada. e desconhece a existência de uma bela jovem. O ser humano sente-se um estrangeiro no seu próprio habitat. à semelhança da pessoa real Franz Kafka. Conhece a vizinha de quarto e tenta atar uma relação amorosa com ela. sem contatos com seus familiares. contra a Justiça. o “dano” sofrido por uma personagem é sempre conseqüência de uma “transgressão” a uma interdição ou a uma ordem. não se relaciona afetivamente com ninguém. mas com a sua condição de acusado. Mas seu esforço é inútil. que não é um lugar tópico ( Espaço) como o lar. A personagem reside numa pensão. O mito do judeu errante(Jerusalém) é transposto para a existência humana. impedem que se integre no mundo em que vive. não quer ou não consegue integrar-se no consórcio social. na sua generalidade. é um reflexo da próxima dissolução do corpo. Às reclamações de K. sem namorada. o colega do banco está à espreita de sua desgraça para tomar-lhe o lugar. onde. nos quais antes nem sequer reparara. o capelão responde narrando-lhe o apólogo do homem que passou longos anos de sua vida perante a porta da lei. Numa narrativa tradicional. e morreu sem ter acesso à Lei. Segundo nosso entendimento da obra. a bela Leni. sente a necessidade da ajuda de um advogado e se relaciona sexualmente com a jovem Leni. O pecado capital do herói kafkiano é a exclusão do paraíso. sem amigos. O importante é ater-se aos elementos fornecidos pela própria obra de arte. à amizade e ao amor. vivendo à margem dos valores ideológicos. Parece que a beleza que se estampa no rosto dos acusados deste misterioso tribunal. vive como se fosse um ser superior. analisada por V. a janela que dá para a pedreira se fecha e ele é morto “como um cão”. No romance kafkiano. o pintor Tintorelli. surpreendentemente.. recebe a visita do tio.. sacam de um facão de açougueiro e o matam.189 catedral. E a realidade exterior paga-lhe com a mesma moeda. a chave para a explicação de O processo reside em determinar qual é a culpa de que é acusado o protagonista. que é um pouco o drama de todo o homem lúcido.

pela sua incomunicabilidade. Mas seu grito se perde no labirinto das instituições sociais. no tribunal simboliza a revolta do ser humano contra Deus. A culpa do homem. Todos sabem que ele é acusado. o direito do esclarecimento e da defesa e a possibilidade de salvação. têm por representantes seres corruptos e insensíveis. personificado no motivo literário do juiz inatingível. sempiterno Adão. uma visão profética da explosão do anti-semitismo alemão. acusara os judeus da única culpa de pertencerem à religião hebraica e. o protagonista de O processo. simbolizado no juiz supremo da corte de justiça. alguns estudiosos de Kafka insistem no simbolismo religioso desta obra. que vive no labirinto da corte de justiça e que condena o protagonista sem que este tenha nenhuma culpa aparente. teria criado na criança Franz Kafka um complexo de inferioridade e de culpa com relação ao pai. criam instituições civis. além de acusar o indivíduo de uma culpa que não cometeu. Na colônia penal. incapazes de conseguirem sua absolvição. continuar sua vida normal e defender-se como quiser). em que as instituições sociais. que com seu afeto e doçura procurara mitigar o sofrimento do jovem pela injustiça de que é vítima. o único meio de salvação é a graça divina. que se dará alguns anos depois da morte do escritor judeu. denuncia o absurdo do aparelho judicial e a corrupção de seus funcionários. perfeccionista. representados pelos juízes. reside no simples fato de existir. é preciso ressaltar que o estudo da temática kafkiana.190 intimamente conviver com os outros. II. A organização social destrói a individualidade: quem acusa. da fé religiosa (catedral).. e assim comparar-se a Deus. todos estão dispostos a ajudá-lo. como a corte de justiça do romance. intransigente. que. sem possibilidade de defesa. b) Interpretação sociológica: a obra de Kafka seria a representação artística da luta constante e inútil do indivíduo contra a máquina burocrática da vida social. A revolta de K.A Metamorfose “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos. e) Interpretação existencial: num sentido mais geral. é seu anseio de querer comer dos frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal. de estar no mundo das coisas. possa injustamente perpetrar contra a pessoa humana. As outras personagens do romance também seriam figuras criadas a partir do subconsciente kafkiano: a senhora Grubach. expressão artística da mãe de Franz. Em face deste pecado. que ao homem não é dado conhecer diretamente. quem julga e quem condena K. Leni e as outras mulheres desenvolveriam o papel de protetoras. Seus intermediários. O regime nazista. absurdamente. embora ninguém saiba do que. que deveriam zelar pela afirmação dos valores ideológicos da justiça (tribunal). que se encontra um pouco em todas as obras do escritor tcheco e que pode ser definida como “o desespero do homem ante o absurdo da existência”. da realidade. advogados e funcionários da corte de justiça. do amor (casamento). são seres corruptos e ineptos. A imagem do pai austero. insensível à necessidade de afeto. O bancário Joseph K. À margem dessa nossa leitura de O processo. mas herdaram. Ao homem é concedido o livre-arbítrio (a possibilidade de K. a graça não pode ser alcançada. ao ser perseguido por um tribunal misterioso. junto com outra obra kafkiana. nega-lhe. Enfim. É impossível querer compreender a existência humana porque ela é simplesmente absurda: os homens se reúnem em sociedades. o romance kafkiano pode ser interpretado como a representação artística de qualquer crime que um grupo ou uma classe social. d) Interpretação racial: O processo. acusado de uma culpa desconhecida. vive numa atmosfera de pesadelo. não havendo possibilidade de comunicação direta entre a divindade e a humanidade. de espírito prático. pelo qual todos os homens são acusados de uma culpa que não cometeram. Como judeu. a culpa de Joseph K. Fazemos referência às mais importantes: a) Interpretação psicanalítica: partindo da constatação de que traços autobiográficos se encontram dispersos em todas as obras de Kafka. a crítica psicológica viu no tribunal de justiça um símbolo do autoritarismo paterno. é um ser misterioso. os condenará aos campos de concentração e ao genocídio pelas câmaras de gás. mas o sistema como um todo. a porta da lei (imagem simbólica da verdade) está guardada por uma sentinela que impede o homem de perscrutar o mistério da vida. tem ensejado várias interpretações. encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso” . Como na bela parábola narrada pelo capelão. não é um ser determinado. Kafka acredita no dogma do pecado original. mas Deus. c) Interpretação religiosa: sempre relacionando o protagonista com o autor. Enfim. militares e religiosas para sua proteção material e espiritual e são essas mesmas instituições que esmagam os homens que as criaram. como as irmãs e as amantes do escritor. mas é fatalmente condenado porque. misturando elementos da vida real com figuras provenientes de seu subconsciente de artista e carregando de angústia existencial os acontecimentos corriqueiros da vida. civil ou religiosa. embora ninguém possa fazer nada por ele. pode ser considerado como uma antecipação poética. como o de outras narrativas kafkianas.

percebendo que Gregor gosta de subir pelas paredes e pelo teto do quarto. as amostras de fazendas. mais por falta de coragem do que de afeto. eis que o inspetor fugiu atemorizado e nunca mais a firma onde trabalhava se interessara por ele. O pai chega e. o chamara de relapso. naquela fatídica manhã. Ele sente o orgulho de ser o único sustento de sua família. o leitor já sente o impacto de um acontecimento completamente insólito. acabam se desentendendo e magoando-se mutuamente. Gregor. a irmã começa a trabalhar de garçonete. para tornar menos repugnante o trabalho da irmã. que desmaia. abrir a porta e revelar sua nova forma de inseto enorme. que foge a qualquer possibilidade de explicação racional. E quando Gregor. A finalidade de sua vida é acabar de saldar uma dívida contraída pelo pai e pagar o conservatório da irmã Grete. sempre dera o melhor de si e nunca atrasara sequer um minuto no exercício de sua função. independentemente da vontade humana. É por isso que pode se perguntar: “o que aconteceu comigo?” Gregor descarta a hipótese do pesadelo ou alucinação porque reconhece o seu espaço vital: as paredes de seu quarto. a pontapés. porque apenas sofre as conseqüências de uma fatalidade: a mudança da forma de homem para a de um inseto monstruoso. não é total porque Gregor Samsa ainda goza dos semas humanos do pensar e do sentir. Grete. vivia sem fazer nada e constantemente adoentado. Gregor compreende tudo o que se passa ao seu redor. pois. falta também a eventualidade de uma explicação de ordem religiosa ou mágica. a mãe intensifica seus trabalhos manuais. deteriorando-se por causa da falta de comunicação. Mas o desejo de que aquela deformação seja passageira o persegue por um bom lapso de tempo: olhando os minutos que passam no despertador. a ação do Fado na tragédia grega que determina que tal coisa tem de acontecer. A irmã. na tentativa de se ajudar. Estamos em face do tipo mais puro de fantástico. Grete retribui a delicadeza do irmão tentando descobrir a espécie de comida de que Gregor gosta mais. começa a remover móveis e quadros com a intenção de aumentar o espaço livre. composta dos pais e de urna irmã de dezessete anos. Uma maçã se lhe incrusta no pescoço e lá acaba apodrecendo. Funcionário exemplar. até então o . sai do quarto e vai para a sala. Na situação inicial da trama. que vê alterado seu hábitat. A atitude de sua família não é muito diferente. que toca violino. fechando a porta pelo lado de fora. duas vezes por dia. Apenas a jovem Grete sente compaixão pelo irmão desgraçado e. por não ter aberto a porta de seu quarto imediatamente. sem nenhuma motivação. conseguiu sair da cama. porém. esconde-se de baixo do sofá. abandonando-o completamente ao seu destino. Mas essa relação afetiva entre os dois irmãos dura pouco tempo.191 Pela leitura desse primeiro parágrafo do texto kafkiano. Ele possui a tipicidade de um herói trágico. após esforços dolorosos. que o submete a um processo de degradação. segundo o modelo funcional de V.Propp. pois a firma lhe havia confiado um lote de amostras de fazenda. consegue um emprego de guarda num banco. A mãe passa semanas sem ver seu filho. Mas isso desagrada Gregor. lançando inclusive a suspeita de ladrão. Para que a irmã entenda seu desapontamento. o inspetor chegara a sua casa e. Gregor sente-se cada vez mais rejeitado e abandonado pelos familiares. uma parte da residência é alugada para três hóspedes. esforça-se em sair da cama para apanhar o próximo trem. o sujeito Gregor encontra-se numa situação de “dano”. acontecida anos atrás. porque é vítima da crueldade do destino. os integrantes da família Samsa são obrigados a providenciar o próprio sustento. por sua vez. lançando-lhe maçãs. como se fossem pedras. por exemplo. furioso. nem sequer de ordem divina. o obriga a voltar para seu quarto. os móveis. sem que se saiba a causa da desgraça. toda vez que percebe sua chegada. a sua revelia e sem que ele tenha culpa alguma Esse contraste de um destino trágico atribuído a um homem comum é ainda mais surpreendente se considerar que a metamorfose sofrida é um ato gratuito. mas não consegue fazer-se entender. após uma falência. uma variante do processo de animalização. nem sequer imagina que aquele inseto descomunal possa ter inteligência e sentimentos humanos. da espécie de insetização. Assim. Daí sua mágoa quando. que. encurrala o filho outra vez para o quarto. Em face de sua desgraça. Mas seu aparecimento nesse ambiente acaba apavorando a mãe. pura obra do acaso. por ter atrasado menos de uma hora. por isso está apegado a ele com extrema devoção. que o conduziria ao trabalho habitual. O pai. dando um novo ordenamento à economia doméstica: o pai. entra em seu quarto para fazer a limpeza e dar-lhe comida. Tal dano. como. além da impossibilidade de uma explicação científica. como acontece na literatura fantástica anterior a Kafka O protagonista do conto A Metamorfose é um sujeito paciente e não agente. A constatação de que a família pode prescindir de seu auxílio. O emprego de vendedor de urna firma de tecidos permitelhe alcançar tal objetivo.

sair juntos a passeio. através do recurso a símbolos e a parábolas. A fábula de Gregor Samsa é contada por um narrador onisciente que fala em terceira pessoa. Suas inúmeras pernas. não compreendendo as boas intenções da atitude do irmão. embora volta e meia modificada pela fala dos personagens que se exprimem pelo discurso direto. tendo a empregada esquecido de trancar a porta de seu quarto. de uma desgraça qualquer. Perante a inexplicável transformação de um homem num inseto descomunal. Veja-se. É que para Kafka o absurdo não é estranho. pelo menos. situando-se o foco narrativo “por detrás” dos personagens. Consome-se. Mas o resultado é o contrário do esperado: os hóspedes. a empregada encontra Gregor morto e dá um jeito naquele inseto estranho e repugnante. constitui a perspectiva principal dessa narrativa. dividido por nervuras arqueadas. querendo que ela entenda que seu irmão. Tal peripécia constitui a gota d’água que faz transbordar o copo das relações de Gregor com seus familiares. lastimavelmente finas. sem preocupação alguma. pelo completo abandono a que o relega a família. além de inútil. sucessivamente. Otto Maria Carpeaux considera Kafka como “um dos maiores criadores de símbolos”. ninguém. que apresenta os episódios de um ponto de vista objetivo. A família recupera sua tranqüilidade e os três podem. E quando. ainda mal se sustinha. ao levantar um pouco a cabeça. enfim. Muitas. como se se tratasse de uma doença comum. A própria irmã. uma mulher é uma “boa relação” e nada mais que isso. pelas leis que não podem ser cumpridas. e sua presença naquela família torna-se perfeitamente dispensável. até então a mais compassiva em relação à terrível desgraça acontecida a Gregor. aos quais deve ser escondida a existência daquele inseto asqueroso. a intenção da ação de Gregor era a melhor possível. a tríplice degradação a que é submetido. começa a se considerar também nocivo a sua família. especialmente do protagonista. de fato. é encontrado falecido na manhã seguinte ao desagradável acontecimento de sua entrada na sala de visitas para ouvir a música tocada pela irmã. pela perda do emprego. Günther Anders. especifica a peculiaridade do simbolismo kafkiano: “O que ele traduz em imagens não são conceitos. provoca em Gregor um vazio existencial: passa a recusar a comida quase sistematicamente. As pessoas que Kafka faz entrar em cena são “arrancadas” da existência humana. Pelo contrário.192 único esteio da casa. são tão precisas e minuciosas que apresentam a ficção fantástica como se fosse pura realidade. E é esse absurdo que Kafka tenta expressar em forma de arte. Vivemos num mundo absurdo. Uma noite. Também com referência a esse episódio. Ao perceber que os três inquilinos faziam pouco caso da irmã. o que mais impressiona na ficção de Franz Kafka é a apresentação de um fato absolutamente absurdo descrito com a maior naturalidade. por exemplo. mas seu resultado é catastrófico. aliado ao abandono a que é relegado devido ao trabalho da irmã e à ocupação de parte da casa pelos inquilinos. ele se entrega à morte. faz com que Gregor passe a se sentir inútil. a empregada doméstica os hóspedes da casa. marrom. está adorando a música. Outro estudioso do escritor checa. porque faz parte integrante da própria existência humana. Tal impressão é reforçada pelo aspecto descritivo desse conto kafkiano. como se a metamorfose de Gregor não fosse um fato ocorrido na imaginação. nem extraordinário. Esse motivo. a degradação afetiva. As descrições do ambiente e das características físicas e espirituais das personagens. Gregor vai até o corredor para ouvir Grete tocar violino. Mas este “nada mais que isso” não é uma . a degradação funcional. o fato é aceito naturalmente. decide que não vai suportá-lo mais. os familiares. não são outras coisas senão funções: um homem é mensageiro e nada mais que isso. prestes a deslizar de vez. esmagado pela burocracia das instituições sociais. especialmente do protagonista. finalmente. se pergunta como tal acontecimento foi possível. fazendo planos para um futuro melhor. Com efeito. no topo do qual a coberta. o protagonista do conto: a degradação física. mas algo que realmente aconteceu. o próprio sujeito da metamorfose. a descrição da nova forma corporal de Gregor Samsa: “Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e. mas situações. pela deformação de seu corpo. Tremulavam desamparadas diante de seus olhos” Efetivamente. revoltamse contra o dono da casa e vão embora sem pagar a pensão. pela incomunicabilidade entre as pessoas. fumando e conversando durante a execução da partitura. No dia seguinte ao repúdio da irmã. ele avança até a sala e chega perto da irmã para lhe demonstrar sua solidariedade. Em comparação com o volume do resto do corpo. ao perceberem a presença daquele inseto medonho e sujo na residência. viu seu ventre abaulado. Tal focalização. assim.

é a causa maior da angústia existencial. o mundo das ruas e casas misteriosas da Praga gótica de todas as cidades. Eis o assunto das parábolas de Kafka”. o homem poderoso que defende os valores ideológicos. da integridade moral da personalidade humana. ou do judeu que quer ser bem-aceito pelo povo que o hospeda. lógica que parece absurda por fora. é altamente irônica. do Processo e com o caixeiro-viajante Gregor Samsa da Metamorfose.193 invenção kafkiana. em virtude da nova função que está exercendo. Mas é impedido pela hostilidade dos moradores do burgo e dos burocratas do castelo. Aquele mundo demoníaco é nosso mundo. menor. chega uma noite num vilarejo governado por um senhor que vive num castelo sobre a colina. amante do poderoso funcionário Klamm. O contraste entre a consciência do protagonista da Metamorfose de que ele é indispensável ao sustento da família e o fato prático que demonstra que ele é perfeitamente dispensável acabam desferindo um golpe mortal à tradição literária do herói salvador. acaba determinando a acomodação dos pais e da irmã. sem refletir sobre o fato de que ninguém pode ser feliz no meio de uma desgraça comunitária. A Lei não pode ser cumprida: somos culpados e fatalmente condenados. No romance O Castelo. onde a incomunicabilidade humana. um ser insignificante. tomados pelo egoísmo individual ou de grupo. que viviam todos às custas do seu trabalho. que reside na descrição artística do desespero do homem ante os contrastes irredutíveis da existência. É o que acontece com Gregor Samsa que. mas que lhe dá orgulho e satisfação. pois seus familiares são impulsionados à ação. O agrimensor K do Castelo apresenta muitas semelhanças com o bancário Joseph K. a imagem poética. seduz a jovem Frieda. ao assumir sozinho o encargo de sustentar a família. lógica e eticamente inexplicáveis. poderíamos chamar o fantástico kafkiano de “fantástico absurdo”. O tema da xenofobia predomina nessa obra kafkiana. mas mais moderno e melhor localizado. regido por uma lógica estranha de motivos e de acontecimentos. com a intenção de penetrar nos meandros da vida da burocracia castelana. o romance representa a luta do indivíduo na tentativa de integrar-se numa comunidade. Aliás. . Estes três protagonistas nos fazem captar a peculiaridade do fantástico de Franz Fafka. mas que é por dentro de uma coerência absoluta que nos assusta como a inevitabilidade do destino humano. tal situação se modifica. O adjetivo “kafkiano”. fazendo-o inclusive rejuvenescer. A irmã aparece aos olhos dos pais não mais como uma menina. Ele acaba perdendo até a noção da própria identidade. o comportamento inter-humano é um mistério incompreensível. na qual ele “é” sua profissão. Para uma definição tipológica. que se agrupam em sociedade para tornar sua vida mais confortável. visto que a própria vida. O protagonista do romance quer estabelecer-se nas terras do senhor e lá exercer sua profissão. Eles agora não dependem mais da vontade de Gregor: podem planejar a mudança para um outro apartamento. pois as situações em que ele coloca suas personagens são física. ou do homem comum que luta para obter um trabalho e um lar. Com a desgraça de Gregor. sem querer. que lhe dificultam a chegada até o dono. prejudicando as pessoas que ama. se sente outra vez sozinho e sem forças para chegar até o dono do castelo. Lembramo-nos da famosa expressão de Pirandello: “Se nos fosse dado prever todo o mal que pode nascer do bem que pensamos fazer!”. uma estupidez logicamente insustentável: os homens.O Castelo “Quem sou eu pois?”. tem seu modelo na realidade moderna. sua ação chega a tornar-se prejudicial ao progresso do grupo. visto que a maioria das personagens de seus contos e romances é constituída por seres postos em face de situações inexplicáveis e impossíveis de serem resolvidas. O pai assume um emprego simples. quase toda a ficção kafkiana é profundamente irônica. mas já uma moça à espera de marido. o tema da ironia na obra de Franz Kafka mereceria um estudo à parte. O herói kafkiano é essencialmente um homem comum. na qual a divisão do trabalho o torna mero papel especial”. III . subliminarmente. mais vítima passiva das instituições ético-sociais que agente capaz de modificar uma situação injusta e desagradável. provocada pelo egoísmo grupal. Mais ainda: quando o indivíduo se sacrifica em benefício de um grupo social. saindo do torpor em que estavam. Mas a moça se desinteressa por ele e K. pela qual a pessoa que ajuda acaba. o agrimensor K. tentam por todos os meios oprimir os outros. Simbolicamente. E o que representa Gregor Samsa senão um homem engolido pela sua profissão de caixeiro-viajante? Sua redução a inseto é o símbolo. do esmagamento do indivíduo pelas forças sociais. condição indispensável para tentar a escalada até Deus. K. tomando apenas para si funções que deveriam ser distribuídas entre todos. porque. Tal inversão de perspectiva. No dizer do crítico Otto Maria Carpeaux: “o inefável é símbolo de um irrealizável.

Lavoisier conferiu um rigor científico ao antigo ditado popular latino nihil ex nihilo (“nada do nada”). mas apenas dá uma nova forma a materiais preexistentes. pelo qual evidenciou a verdade científica de que no mundo físico. com o passar do tempo. filósofo ou artista não inventa nada. Esse substantivo passou a denominar o relato da vida dos santos e mártires da igreja católica. da introdução do Cristianismo na Inglaterra pelo rei Artur e os Cavaleiros da “Tavola Redonda” (Graal). embora sua veracidade. enquanto o relato legendário tem como heróis seres humanos cujo alto valor cívico ou espiritual estimula a imitação. especialmente sobre Roland (início do séc. forma gerundiva do verbo legere (ler). Geralmente. da edificação de Lisboa pelo herói grego Ulisses. Como um cigarro é feito a partir da existência do fumo e do papel e. KANT (filósofo alemão) Idealismo KIERKEGAARD (filósofo dinamarquês) Existencialismo LA FONTAINE (retomada do gênero de Esopo e Fedro)Fábula LAVOISIER (químico francês) “Nada se cria. mas foi vítima da Revolução Francesa. tem como atitude mental a crença. entre o fim do século XI e meados do século XIII. etimologicamente. exemplos de vida a serem imitados pelos cristãos. de burocraticamente tortuoso. A primeira coletânea foi publicada pelo abade francês Jacques de Voragine. Ele se tornou famoso pelo axioma em epígrafe. LEONARDO da Vinci (cientista e artista italiano)Renascimento Muitos fizeram comércio de ilusões e falsos milagres. no século XIII. com o nome de Legenda Sanctorum. nada se destrói: tudo se transforma” Antoine Laurent de Lavoisier (1743-1794) foi o primeiro estudioso a tratar a Química como uma Ciência. história fantástica)Mito A palavra lenda vem do latim legenda. Está aqui uma das diferenças entre o mito e a lenda: a história mítica. assim um cientista. as várias lendas sobre a luta entre cristãos e muçulmanos: Carlos Magno e os Paladinos da França. chama-se lenda ao fato historicamente não comprovado. uma mudança de forma. anotamos: a lei das conservações dos elementos. A Convenção determinara a detenção de todos os arrecadadores de impostos: ele foi preso e impiedosamente condenado à guilhotina. Picasso foi um gênio da pintura porque inventou o Cubismo. O sentido etimológico do nome já sugere a disposição mental: a imitação. na maioria das línguas ocidentais. O nome feminino legenda significa. Aos 25 anos já entrara na Academia. Entre suas contribuições para a ciência. a definição da matéria pela propriedade de possuir massa. como se depreende do sentido do adjetivo "lendário”. a elucidação do mecanismo de oxidação dos metais. algo de estranho. participando da vida pública como Secretário do Tesouro. cujas origens são geográfica e cronologicamente indeterminadas.. não acaba mas se transforma em polens de fumaça. ligada profundamente a entes sobrenaturais. de ilógico.194 passou a indicar. mas a partir da existência do cubo! Qualquer tipo de arte ou de ciência não deixa de ser apenas uma “transformação”. assim como na vida humana e na arte. "o que se deve ler". diferentemente do mito e do conto popular. ninguém cria nada a partir do nada. IX) e os heróis cristãos das várias Cruzadas. depois de consumido. Outra diferença consiste no fato de que a lenda se origina a partir de um fato histórico. de apavorante. seja transfigurada pela imaginação popular. Outra peculiaridade da lenda é sua localização no espaço e no tempo. a introdução do sistema da balança. As hagiografias devem ser lidas para que se imitem as virtudes dos heróis religiosos. enganando os ignorantes. .. denominado “Lei de Lavoisier”. de quem leva o nome. que na Idade Média se substantivou. Cegante ignorância nos ilude. Lembramos algumas lendas mais famosas: da Fundação de Roma por Rômulo e Remo. LENDA (conto popular.

na Noruega. vivendo também em Milão. Dante e Petrarca). Com o grande artista e cientista italiano. que liga Oslo. apresentado. Morreu em Nápoles.195 Ó miseráveis mortais. Sigmund Freud disse: “foi como um homem que acordou cedo demais na escuridão. quanto maior a distância que separa os extremos de um arco. Com isso. A produção lírica de Leopardi está contida num volume chamado Canti (Cantos). construída a partir do projeto original do sábio italiano. perto de Florença. e Estocolmo. abrindo a janela para a modernidade. solicitado pelos governantes de outras cidades. Ela teria sido amante de Cristo. e falecendo num castelo ao Sul da França. Tratase do retrato da esposa do nobre florentino Francesco Del Giocondo. Veneza. escultor. a conjunção dos nomes das divindades egípcias Amon e Ísis. Roma. mas a verdade oculta sobre Maria Madalena. Esse segredo milenar. a meia-luz vaporosa que banha as formas com uma poesia inefável. a Ceia. Outros indícios da tese irreverente: na mesa não aparece nenhum cálice. também chamada de “Gioconda”.. Alguns esboços foram catalogados apenas como curiosidades. pintor. onde José de Arimatéia teria recolhido o sangue de Jesus crucificado. a Europa despertou definitivamente do sono medieval. Além das inúmeras obras realizadas nas várias artes. De família nobre — tinha o título de conde — Leopardi foi educado na severa disciplina dos estudos clássicos (autores gregos e latinos. cujo pictograma antigo era L’ISA. Dele. o princípio da compressão dos arcos teve seu brilhante resultado arquitetônico: a estrutura da ponte demonstra que. estaria sob a guarda de uma sociedade segreda. sentada ao lado do Mestre na última ceia. maior sua capacidade de suportar o peso. Leonardo deixou várias pesquisas e projetos inacabados. Na mesma obra. o moralista do naturalista. Ele é mundialmente conhecido como o pintor da tela Mona Lisa. XV e XVI (Renascimento). . o masculino do feminino! LEOPARDI (poeta lírico italiano da época do Romantismo) “A infinita inutilidade de todas as coisas” Giacomo Leopardi (1798-1837) é o maior poeta romântico italiano e um dos melhores líricos de literatura ocidental. Um defeito físico — era meio corcunda — e o precário estado de saúde o mantiveram. para a passagem aérea sobre o Bósforo. matemático. passando pela mitologia egípcia sobre a fertilidade e confirmando o pendor pela homossexualidade do grande pintor da Renascença italiana. naquela época. A peculiaridade é que a imagem sorri para o observador de qualquer lado que ele a olhe. ao sultão Bayezid II. A Virgem dos rochedos. Mântua. Veja-se. do “sfumato”. Pela versão de Dan Brown. mas de Maria Madalena. abri os olhos” “O mais completo dos homens”: assim foi definido esse italiano. inventada por Leonardo. outros foram esquecidos e só recentemente recuperados e retomados. mas viajou a vida toda. anatomista. Nasceu na cidadezinha de Vinci. O pintor florentino faria referência ao relacionamento íntimo de Jesus Cristo com Madalena no famoso afresco A Última Ceia: o rosto andrógino e a pose feminina da figura retratada à direita de Cristo não seriam do apóstolo João. cidade da Itália central. A Demanda do Santo Graal. junto com os restos mortais de Madalena. Depois de 500 anos. que teria dado nova vida ao mito grego do Hermafrodito (Andrógino). na cidade de Aas. enquanto os outros continuaram dormindo”. inaugurada em 2001. vítima de uma epidemia de cólera. Outros quadros famosos do grande pintor renascentista italiano: Adoração dos magos. O ficcionista Dan Brown. o Graal não seria o cálice usado por Cristo na última ceia. com edição brasileira em 2004. na Suécia. o autor apresenta uma surpreendente tese sobre a novela de cavalaria medieval. arquiteto. por boa parte de sua breve vida. a ponte sobre uma rodovia escandinava. Aqui aparece bem a técnica pictórica. no abraço entre a arte e a ciência e na conjunção do passado com o futuro! Está também na tentativa de aproximar o católico do herege. mas uma mão empunhando um punhal. recluso na vasta biblioteca paterna da residência de Recanati. por exemplo. A genialidade de Leonardo da Vinci está aí. engenheiro. o Menino Jesus e Sant’ Ana. o Priorado de Sião. poeta. encontra o anagrama de Mona Lisa em “Amon L’ Isa”. ele tenta demonstrar a androginia da figura pintada por Leonardo. no seu best seller O Código Da Vinci. a Virgem. de que Leonardo da Vinci era membro. ameaçando quem divulgasse a verdade sobre l’ affair de Jesus com Madalena. de cuja união carnal nasceram vários filhos. pintado entre 1503 e 1507. A importância da figura luminosíssima de Leonardo da Vinci (1452-1519) só pode ser percebida no contexto da cultura italiana e européia ao longo do séc. conforme a interpretação tradicional.

do tédio. 2) o direito à propriedade e à liberdade de pensar e de agir. feita pelo poeta e crítico Haroldo de Campos. La ginestra. como doutrina política e econômica. intermináveis espaços longe dela e sobre-humanos silêncios. além de ser antiprodutiva. eu no pensar me finjo. Segundo alguns teóricos. E o vento ouço nas plantas como rufla. onde se encontra mais ou menos sistematizada a sua filosofia da infelicidade humana. 3) o livre jogo da concorrência nas relações . XVIII. o político brasileiro João Mellão Neto. pela leitura de um poema. Na base do liberalismo está a justiça e não a caridade. contra qualquer forma de imposição. religioso. Neste breve canto. imaginada como um oceano misterioso onde a alma pensante encontra repouso e onde o tempo se traduz no espaço e este naquele. “é preciso ensinar a pescar e não dar o peixinho de graça”. conservadora. O direito à liberdade deve atingir o ser humano como um todo. Le ricordanze. a morte é o fim de todo o sofrimento. Tão preciosa que é preciso racioná-la (Lênin) O Liberalismo pode ser considerado o ponto de equilíbrio entre dois sistemas totalitários: o Comunismo (Marx) e o Nazi-fascismo (Hitler). Eis a tradução da lírica mais famosa de Leopardi.196 onde se encontram os poemas mais famosos: L’infinito. Os teóricos mais influentes foram os economistas ingleses Adam Smith e John Stuart Mill. citando o ditado popular. de escravatura. quer individual quer social. quanto o homem mais tiver um espírito lúcido e um sentimento nobre. onde por pouco não se apavora o coração. como um destes temas é expresso artisticamente. o poeta italiano exprime o palpitar da imensidade. que pode ser sintetizada na expressão “a infinita inutilidade de todas as coisas”. abrangendo o campo político. mais fácil de ser sentida do que explicada: “A mim sempre foi cara esta colina deserta e a sebe que de tantos lados exclui o olhar do último horizonte. de preconceito ou privilégio. Como afirma um liberal de carteirinha. ser liberal é repudiar a esquerda estatizante. e esta presente e viva. “ser liberal é compreender que a solidariedade será sempre inócua enquanto se fizer pelos outros o que eles podem fazer por si próprios”. ético e econômico. L’ infinito. e aquele infinito silêncio a esta voz vou comparando: e me recordo o eterno. ofende o próprio beneficiário! O Liberalismo. II sabato del villaggio. que corresponde ao bíblico Vanitas vanitatum (“Vaidade das vaidades”: tudo é vaidade. pois nada leva a nada. e a direita imobilista. o que nos resta é a morte!). aferrada aos privilégios de classe. e quietude a mais profunda. do vazio existencial. em oposição ao Absolutismo monárquico e religioso. no fim. Il tramonto della Luna. tudo é ilusão: as honrarias são inúteis e passageiras. começou a tomar corpo a partir do séc. O limite do livre arbítrio é apenas o respeito à liberdade de outro cidadão ou de outra nacionalidade. À Silvia. que considera Giacomo Leopardi um teórico precursor da Vanguarda européia. Mas sentado e mirando. que reinava na maioria dos Estados europeus. o que mais se aproxima da felicidade é a inconsciência. e as mortas estações. cujo conteúdo pode ser assim sintetizado: é próprio da natureza humana ser infeliz. E assim que nesta imensidade afogo o pensamento: e o meu naufrágio é doce neste mar”. Vamos ver. que esmaga o livre exercício de pensar e de agir dos cidadãos. Uma série de fatores — a educação intransigente e preconceituosa. Ou. e o seu rumor. do desgosto. Os pontos fundamentais do liberalismo político-econômico são: 1) o regime democrático e a independência dos três poderes. a deformidade e a doença física. Enfim. LIBERALISMO (a teoria do filósofo Locke e a prática do presidente Jefferson) É verdade que a liberdade é preciosa. a natureza cósmica é insensível à dor humana. O seu pensamento reflexivo está expresso em duas obras em prosa: Zibaldone (coletânea de correspondências e de escritos vários) e Operette morali. mais é destinado a sofrer. O profundo pessimismo contido nas obras teóricas e poéticas do grande escritor italiano é provocado pelo sentimento da “noia”. a observação dos absurdos da vida em sociedade — provocam no seu espírito convicções negativas que ele sublimiza em obras de alta poesia. A esmola. trata-se de um fragmento de pura poesia.

a gerativa (Chomsky). A importância do avanço dos estudos lingüísticos transcende o campo da compreensão dos idiomas. V ao XI Medievalismo). artes. qualquer prática social. deixando-se guiar pela lei natural da oferta e da procura. criados pelo homem para comunicar idéias. social e econômica foi a falta de línguas nacionais. e a era da total “permissão”. semema etc. a chamada lingüística sincrônica ou estrutural. modas. falavam dialetos regionais que não eram escritos e a língua escrita oficial. morfema. na Romênia. denotação e conotação. lexema. na Península Ibérica: foram os textos escritos que provocaram o progresso artístico. anafórico e catafórico. LINGÜÍSTICA (a ciência da linguagem)Saussure Metáfora Retórica Todo sistema que serve para a comunicação humana pode ser considerado uma “linguagem”.197 comerciais. antropologia estrutural. XX. Do ponto de vista moral. quer porque o sistema lingüístico é a base para a construção de qualquer outro sistema semiótico. quer dizer a análise de seus componentes internos (fonema. dando ênfase à tradicional lingüística diacrônica. Mas o estudo científico das línguas naturais começou bem mais tarde. a era da “liberação”. no tempo e no espaço. psicologia. existe uma hierarquia de importância. assinalamos vários planos de análise de um texto ou de um objeto: a distinção entre langue (língua) e parole (palavra). quando tomaram corpo as pesquisas sobre as mudanças lingüísticas que ocorriam nos idiomas nacionais. XX. passando-se a considerar a língua humana como um fenômeno em contínua evolução. italianos. na Alemanha. quer porque é o primeiro código de signos que o homem aprende a usar para se comunicar. Somente quando alguns dialetos locais começaram a produzir textos escritos. entre outras. todas suas atividades artísticas e científicas são prejudicadas. sendo que a língua natural deve ser considerada como “o sistema modelizante primário” (Lotman). a partir do séc. e a correlação entre eles para a construção de uma frase no plano sintagmático). Haja vista o período da Alta Idade Média (do séc. mitos. assim. códigos de trânsito. forma e estrutura. A “estrutura” de um língua. entre outros. (similaridade). normas de vida (línguas naturais. considerado o pai da ciência lingüística moderna. a cultura começou a se desenvolver e surgiram as várias nacionalidades européias. 4) redução ao mínimo da intervenção do Estado em assuntos econômicos. que se deu nas décadas de 1960 e 1970. Entre os vários critérios. Jakobson e a escola de Praga). indo cair na denominada “tirania adolescente”. LÍRICA (forma de arte e estado de espírito) Poesia  Gênero literárioTrovadorismo . sendo a língua de um povo o mais completo sistema semiótico Por linguagem (idioma ou língua) entende-se um conjunto de signos regidos por regras de combinação e apto a expressar um modelo do mundo. significante e significado. com o surgimento da área de conhecimento chamada de “Lingüística”. enfim). Nascia. teoria da literatura. a atual. uma visão ideológica da existência. na Inglaterra. no início do séc. pois criou conceitos e modelos de análise de que se beneficiaram também outras áreas de conhecimento: estrutura do texto. promovida pela filosofia “hippie” . A partir do Duzentos. sentimentos. podemos distinguir a era da “repressão”. na França. só era entendido por poucos privilegiados das duas classes dominantes: clero e nobreza. a funcional (Martinet. É incontestável o fato de que. sintagma e paradigma. sincronia e diacronia. eufórico e disfórico. se um povo não tiver uma língua bem desenvolvida. que liberou totalmente as formas de comportamento. metonímico (contigüidade) e metafórico. começou a ser estudada por Ferdinand de Saussure. a distribucional (Bloomfield e a escola norte-americana). Entre as contribuições mais importantes. científico e filosófico. quando a Europa viveu em completo obscurantismo: a causa primordial da decadência cultural. XIX. que vigorou até o início da segunda metade do séc. O método era comparativo e a preocupação dos estudiosos vertia quase exclusivamente sobre as transformações das formas fonéticas e lexicais. franceses. Saussure fez escola e dele procederam as mais recentes correntes lingüísticas: a glossemática (Hjelmslev). o Renascimento das artes. pois os povos ibéricos. da filosofia e das ciências teve como causa fundamental o desenvolvimento de línguas na Itália. o latim vulgar. culturas indígenas etc. semiótica e semântica.

do canto e da dança: soneto. bem mais abrangente: falamos de peça teatral ( Ópera lírica) ou paisagem lírica. de um acontecimento importante.). fundamentada num subjetivismo absoluto. entre um poema e seu leitor. temos a impressão de que o estilo lírico é inexplicável.C. sobre as figuras de estilo.) que. o subjetivo e o objetivo. O termo “lírico” afirmou-se ao longo do período helenístico. do adjetivo “lírico”. por exemplo. a palavra lírica. para indicar um estado de espírito. exalta os ideais do povo grego. emocional. pertencem a três grandes poetas: Safo (625-580 a. lidos. mas também numa paisagem ou numa atitude humana. que abrangeu a cultura alexandrina e romana. reduzindo a poesia a algo de misterioso e de insondável. em versos líricos. a ode (exaltação da pátria. propostas especialmente pelo Formalismo russo e pelo Estruturalismo francês. Émil Staiger distingue o substantivo “Lírica”. tiveram o intuito de demonstrar que também o poema lírico. e não mais apenas cantados. um quadro de arte e seu espectador. que os antigos usavam para acompanhar o canto e a dança. rondó. É um “estar-no-outro”. a palavra poética feita para ser cantada. nos ajude a compreender o sentido interno e a captar a parcela de significação da realidade que toda obra poética encerra. O clima lírico se estabelece quando. etc. sobre o ritmo. trágica e cômica) estavam relacionados com o culto religioso. que chamavam de poesia jâmbica. de um estado de alma. e Anacreonte (564-478 a. é posterior a Aristóteles (séc. publicados. mas no sentimento. todas as atividades da vida. permanecendo até hoje. pelo fato de que suas formas métricas e conteúdos ideológicos tiveram imitadores ao longo da história da lírica do Ocidente.C. de dor. Por essas considerações. Os considerados importantes. sendo cantados diante dos altares ou durante as procissões e festas sagradas. a grande poetisa do amor. a poesia lírica servia para salientar todas as atividades humanas importantes: o epinício (celebração de uma vitória esportiva).). além do sentimento religioso. recitados. Tal postura epistemológica. Para sentir liricamente é necessária a existência de uma disposição anímica. que nos possibilite sermos “tomados” por algo que está em frente a nós. cantiga. mas na alma. de amor.C. Recordar significa anular o distanciamento entre passado e presente. Ainda hoje. parido do ventre da princesa tebana Sêmele e da coxa de Júpiter) e o pean. O crítico alemão salienta a característica principal do estilo lírico: a recordação. Este conceito de liricidade não se encontra apenas na poesia. Mas. instrumento musical de corda. quase todas elas ligadas entre si pelos semas da musicalidade. III a. anula qualquer possibilidade de analise e de interpretação do poema lírico. apelido de Dionísio. estabelecendo-se assim uma relação simpatética entre destinador e destinatário de um objeto de arte. Eram chamados de hinos. bem diferente da “memória”. a par da narrativa e da peça teatral. de angústia. entre sujeito e objeto. de um quadro. em honra do deus Apolo.198 Do termo greco-romano “lyra”. exprimindo essencialmente um sentimento individual e intransferível de prazer. o encômio (elogio de um varão). Portanto. Píndaro (518-438 a. como o passado e o presente. mas apenas em fruir a beleza de um poema. um panorama e seu observador. em forma de U.C. O leitor ou o espectador não deveria se preocupar em compreender. melodia). a relação de compreensão não está baseada no intelecto. sobre o semantismo poético. que procuram devassar o pretenso mistério da poesia. de uma paisagem. Mas. como gênero literário (poema curto. não estão diversificados na poesia lírica. ligada à produção artística em versos. romântico. mas nelas e elas em nos. uma postura perante a vida. Os gregos cultivaram também o gênero satírico. cantor das alegrias da mesa (Skólia) e da . que chamava “mélica” (de melos. balada. não no conceito. infelizmente. canção. da mulher amada).). pode ser submetido a uma analise estrutural que. Os primeiros poemas curtos (chamados de mélicos ou líricos e diferenciados dos poemas longos da produção épica. os mais famosos sendo o ditirambo (“aquele que nasceu duas vezes”. confundindo-se com “poético”. Contra esta tendência impressionista insurgem-se as modernas técnicas de analise poemática. Os estudos realizados sobre a estrutura do verso.). e distinguiam a lírica “monódica” (individual) da “coral”. a elegia (canto fúnebre e sentimento de tristeza). A poesia lírica é intrínseca à natureza humana. em suas famosas Odes. A interiorização de toda a objetividade é a essência do lírico: não estamos diante das coisas. de várias formas. pondo em relevo os elementos constitutivos do poema e a especificidade da linguagem artística. mesmo quando os versos começaram a ser feitos para serem escritos. da maravilhosa produção lírica da Grécia antiga só restaram fragmentos. Os antigos gregos manifestavam. algo que toca o coração mais que a razão. lírico é tomado quase como sinônimo de sentimental. o epitalâmio (celebração de núpcias). de paixão.

uma poesia de escola. buscando a perfeição formal. autóctone. como indicação apenas da predominância de uma tendência sobre a outra num determinado poeta. bucolismo). Poetas como Guido Guinizelli. Keats. pois o Parnasianismo foi uma retomada da lírica clássica. A poesia provençal fez muito sucesso. que cria associações entre sensações de campos semânticos diferentes. pela qual a poesia deve ser “uma festa do intelecto”. algo misterioso que estabelecesse uma correspondência entre os elementos do mundo humano. Horácio. Wordsworth. salmos. citamos: Lorenzo dei Medici (1449-1492). E fez escola: o “petrarquismo” foi a moda poética que predominou na Europa até o advento do romantismo. tendo sido imitada por poetas galegos. Bocage (1765-1805). Entre os poetas líricos de maior destaque. O Modernismo e a contemporaneidade apresentam vários filões líricos. O maior poeta lírico do romantismo europeu foi o italiano Giacomo Leopardi.199 cama (Erótika). Em verdade. os modelos criados pelos gregos. Em nome da liberdade de sentir e de se expressar. o Barroco e o Arcadismo. do tédio. de grande rigor formal. difíceis de serem claramente delineados. embora o conteúdo poemático espelhe a diferente sensibilidade do povo romano. serviram-se da metáfora sinestética. John Donne (1. O Renascimento. pois oscilam entre a lucidez intelectual e o impulso anárquico. Byron. fazendo com que a palavra poética fosse a real expressão do sentimento. cada qual poetizando segundo os impulsos de seu subjetivismo. genuinamente nacional e popular. alógica. palaciana. estilnovismo. no seu apurado estudo Estrutura da lírica moderna. que exalta a figura da mulher idealizada. O Simbolismo revigorou o gênero lírico. Guido Cavalcanti. Verlaine. a Toscana. antes. pela qual a poesia deve ser “a derrocada do intelecto”. Poe. que com intensidade e mais bom gosto estético soube expressar o vazio existencial provocado pelo sentimento da “noia” . a poesia lírica em língua latina ficou restrita quase exclusivamente ao culto da religião cristã: hinos. Dom Luis de Gongora y Argote (1561-1627). ressuscitada pelos humanistas. vazio do ponto de vista propriamente poético. Larnartine. acrescentando-lhes a imitação de formas e conteúdos da antiga poesia grecoromana. O estudioso Hugo Friedrich. iniciada por Rimbaud e elevada às últimas conseqüências pelo poeta surrealista André Breton. de origem culta.573-1631). que se alimentavam de sonhos e ilusões (Novalis. Dante Alighieri e Francesco Petrarca sentiram a necessidade de quebrar o formalismo da escola trovadoresca. Na Alta Idade Média (do século V ao XIMedievalismo). animal e vegetal. tentando descobrir uma alma universal. que formam o período clássico da cultura moderna. iniciada por Mallarmé e continuada por Valéry. Young. castelhanos. rebuscada. petrarquismo. Ao crítico cabe . Garcilaso de la Vega (1503-1536>. que tentaram sacudir o modelo burguês da vida ( Goetbe. do desgosto face à efemeridade de qualquer tipo de prazer. primeiro grande poeta introspectivo de língua neolatina. na Provença: a famosa lírica trovadoresca ( Trovadorismo). de uma forma geral. Para tanto. Só foi destronada pela escola do “dolce stil nuovo”. Outro filão. Hugo). Metastásio (1698-1782). Os melhores poetas simbolistas foram os franceses Mallarmé. O maior lírico da última fase da Idade Média foi Petrarca (1304-1374). Na Baixa Idade Média (do século XI ao XV). italianos. A literatura latina apresenta quatro poetas líricos de primeira grandeza: Catulo. 2) uma lírica formalmente livre. os poetas românticos deixaram de lado os cânones estéticos do Classicismo para dar larga vazão ao sentimento. O Romantismo provocou uma revolução cultural que atingiu também o gênero lírico. dos poetas revolucionários. O contraste apontado não deve ser entendido no sentido exclusivista. a tensão existente entre as forças cerebrais e o impulso anárquico pode ser observada nos melhores líricos do Modernismo. Rimbaud e Valéry. retomam os filões líricos da Baixa Idade Média ( trovadorismo. a Lírica apresenta dois filões: um. Baudelaire). após a fase do Realismo. Luís Vaz de Camões (1524-1580). partes da liturgia da missa. portugueses. surgido no sul da França. distingue duas polaridades no complexo poético do século XX: 1) Uma lírica intelectualizada. com a afirmação das línguas românicas. Virgílio e Ovídio. surgida numa região central da Itália. os poetas simbolistas voltaram ao espiritualismo. Jacopo Sannazzaro (1453-1530). este último considerado o primeiro teórico da poesia modernista. Musset Vigny. Blake. Giambattista Marino (1589-1625). Os estudiosos distinguem a lírica “quietista” dos lake’s poets. Torquato Tasso (1554-1595). Angelo Poliziano (1454-1494). de uma forma geral. personificando a insatisfação própria da época romântica. Aprofundando a ética romântica. no século XIV. relacionado com a vida no campo: na língua galegoportuguesa temos o exemplo das Cantigas de amigo. Francisco de Quevedo y Villegas (1580-1645). A lírica de língua latina seguiu.

Daí o caráter hermético e alógico da moderna concepção da arte: o poeta trabalha com símbolos autárquicos. de 1915-1918 e de 1939-1944. apenas fenomenológico. inteligíveis. c) Despersonalização A crise do conceito de personalidade. a uma matrícula. chegando a uma neutralidade suprapessoal. da escritura automática. colocando. para fazê-la soberana. sem a pretensão de serem interpretados. Sob este aspecto. Apesar dessa diversidade toda. enfim. d) Fragmentação Um dos intuitos da arte moderna é apresentar. o que nos permite perceber a existência de uma estrutura estilística na lírica modernista e contemporânea. centrada sobre o sentimento individual. falando da arte pictórica. e sua oposição à sociedade robotizada e pragmática. na lírica modernista chega ao extremo da não-comunicação. clássica e romântica. se esta traz em seu bojo o ódio. apenas é. ela deve forçar excitações mediante as linhas. Opondo-se especialmente à poesia romântica. e o romântico as angústias do seu isolamento espiritual. Em vez de reproduzir os objetos. o passado é feito em pedaços. no seu “Manifesto Futurista” de 1909. a opressão. deformando os objetos e juntando pedaços heterogêneos. escada etc. As duas Guerras Mundiais. são substituídos por símbolos individuais. Ela não comunica nada. sem prejuízo das fortes individualidades poéticas do nosso século. a lírica modernista prescinde da experiência vivida por um “ego”.200 detectar as características comuns. temos formas e conteúdos poemáticos tradicionais. os símbolos coletivos. pela redução do ser humano a um número. Enquanto o poeta clássico quer transmitir ao leitor sentimentos provenientes da idealização da natureza cósmica ou humana. e explora conteúdos sonambúlicos e alucinantes. parcelas de sentido de um mundo de cultura. Antes dele. da cibernética. A estilização da arte moderna leva à desvalorização da forma orgânica e à anulação de qualquer sentido humano: o significado de um objeto artístico estaria implícito na sua própria forma. estranhos ao código ideológico. Talvez seja esta a resposta da arte à pretensão científica de decifrar o mistério do universo. motivos. afirma: “o sofrimento de um homem não é para nós mais interessante de que o sofrimento de uma lâmpada atingida pelo curto-circuito”. as cores e os contornos colhidos do mundo exterior. que possibilitam a percepção de linhas de força análogas e especificas do hodierno lirismo. surrealista e abstracionista. A própria fantasia intelectualiza-se através da ficção científica: o herói atual é dirigido pela parafernália da computação. afirma: “Temos de arrancar à pintura seu hábito antigo de copiar. da estatística. influenciadas pela estética cubista. A ruptura com a tradição cultural e o desejo de criar uma nova estética encontram sua justificativa face á crise da humanidade provocada pelos horrores do entre-guerras. dos poemas surrealistas. pois seu conteúdo é constituído pelos próprios objetos representados: automóvel. da informática. é possível delinear uma certa unidade estilística. então. sem nenhuma perspectiva histórica. seguindo as pegadas das estéticas clássica e romântica. da automatização. o mar nas . destruindo-se seus limites espaciais e temporais. o genocídio? Daí a insurreição contra tudo o que é passado e a repulsa da herança cristã. O valor da lírica moderna seria. Ao lado da poesia figurativa. enquanto desfiguradora da realidade. cujas características seriam: a) Antipassadismo Talvez seja essa a característica mais comum a todos os artistas da Vanguarda. citações e alusões da tradição cultural são colhidas ao acaso e misturadas por montagens. princípios estéticos e ideológicos semelhantes. já Baudelaire tinha falado em “decomposição” do real: a fantasia teria a função de superar o perceptível. casa. por exemplo. a injustiça. do confessionalismo. sem nenhuma pretensão de ser compreendida. o poeta moderno agride o leitor com seus versos inefáveis. que tem suas raízes na lírica simbolista. Tal despersonalização chega até à desumanização: Marinetti. A função poética da linguagem humana. porém simplificados e dominados: uma verdadeira magia”. inspirada no cubismo. b) Sugestão Como as artes plásticas. de cada artista. que sempre procurou romper os automatismos lingüísticos para dar um novo sentido às palavras. A poesia deve provocar no leitor apenas uma “sugestão mágica”. atinge também o mundo das artes. assim a poesia da Vanguarda tende mais a sugerir do que a comunicar. fragmentos da realidade. A dinâmica das imagens poéticas substitui o significado dessas imagens. abalaram o Ocidente e levaram os intelectuais a questionar a validade da cultura: por que a civilização. de desagradar o público ledor. alimentando-se do prazer aristocrático de não ser compreendido. Os mitos gregos e bíblicos são degradados. Rimbaud. a poética modernista se aproxima da “escola do olhar” do nouveau roman francês. não a totalidade da vida. mas apenas pedaços. Quer dizer. existe algo em comum.

inversões etc. De Apollinaire aos concretistas brasileiros. de versos. especialmente a chamada “metáfora absoluta”: o tropo estabelece entre os dois termos não apenas uma relação de comparação mas de identidade. o poeta que mais utiliza a técnica da fragmentação é T. Todos os povos primitivos têm sua “cultura”. artigo definido em lugar do indefinido. de anagramas. não é feita mais de frases. Apollinaire. g) Recursos estilísticos No plano da expressão. ou até sílabas ou grafemas. “as formas oximóricas”: aproximação no mesmo sintagma de objetos semanticamente opostos. Garcia Lorca. instituindo novos padrões estéticos. contistas e. Face à opressão do real. “imagens incoerentes”: o poema não apresenta momentos ideológicos seqüenciais. a semantização de elementos gráficos. buscando pontos de intersecção e trocando técnicas e materiais de composição. Eliot. autônomo. tende cada vez mais à abolição da figura. por todos os que se preocuparam com a arte da linguagem humana escrita. Servindo-se do humor negro. predominando a arbitrariedade. o tétrico. A poesia. Ezra Pound. passando pelo Cubismo e pelo Surrealismo. o marginal. vejam-se os verbetes: Valéry. Chega-se. permitindo sua visão através de ângulos diferentes. “a técnica da fusão”: o sentido de uma palavra se funde com o significado de um termo próximo ou se dá a transposição do que é objetivo em imagens que não existem no mundo real. inversamente. De um modo geral. Até o espaço em branco pode ser indicador de sentido. literatura é o . João Cabral de Melo Neto. adjetivação paradoxal. pois o correto é considerar literário apenas o que se encontra “escrito”. melhor. altamente estimulantes para a criação artística. segundo essa tendência da Vanguarda. Manuel Bandeira. já proposta pelo Romantismo. a alteração das funções normais das categorias gramaticais e sintáticas: substantivos sem artigos. do Modernismo brasileiro e da contemporaneidade. delegando a função de representar retratos e paisagens à arte fotográfica. Falar de “literatura oral” é uma impropriedade lingüística. parece que as artes procuram romper suas fronteiras. o dissonante. de palavras que façam sentido entre si. provocando a atrofia do espírito. Ultimamente. formalizado num Texto. portanto. Mario e Carlos Drummond de Andrade. contesta a função opositiva do disforme e do desarmônico: o feio não é o contrário do belo. o idílico com o repugnante. chamamos de Literatura ao conjunto das obras escritas por poetas. S. f) Grotesco A “estética do feio”. O Cubismo de Picasso apresenta a plurifacetação de seres e objetos. têm seu fascínio e oferecem novos materiais. de letras maiúsculas em contraste com as minúsculas. Oswald. o diabólico. coches no céu. o amor com a morte. a saída é procurar elementos poéticos no absurdo existencial. o artista moderno conjuga o sofrimento com o riso. do observador.201 montanhas. e) Figurativismo Enquanto a pintura moderna. não se pode falar de “literatura oral”. só adquirem sentido num contexto topográfico. o uso do “acaso” para captar pedaços de uma conversação desconexa. o espaço em branco como significante. Ungaretti. Eliot. Fernando Pessoa. LITERATURA (a arte mais universal) “A Literatura é uma luta contra as mentiras ortodoxas” (Martin Seymour-Smith) “A Literatura é sempre uma expedição à verdade” (Franz Kafka) A literatura é a forma de arte mais cultivada no tempo e no espaço. mas de sílabas cruzadas. o uso da colagem de mensagens lingüísticas recolhidas ao acaso. a poética vanguardista lança mão de uma série de artifícios. a poesia. Da palavra latina “ littera” (letra). romancista. a partir da existência de um alfabeto. assim. A concepção clássica da beleza torna-se trivial. em geral. da arte pela arte. Outro aspecto a ser ressaltado: não toda literatura é arte. Vinicius de Moraes. Para o estudo dos melhores poetas da Vanguarda européia. se aproxima da configuração. A rigor. Na literatura. ao limite extremo da concepção de poesia apenas como “forma”. dependendo da capacidade de percepção do leitor ou. de forma que possam ser lidas de diferentes ângulos. do puro prazer estético. artisticamente dispostas numa página. penetrando no campo do desenho artístico. mas tem um valor intrínseco. As palavras.. o estrato gráfico e óptico do poema adquirem uma importância cada vez maior. mas não todos possuem uma literatura. podendo-se inverter versos ou estrofes inteiras. em sua longa caminhada do Expressionismo ao Abstracionismo. O anormal.

o amor e a fortuna não pensam no que são . No que diz respeito especificamente à nossa cultura. a natureza e a função da literatura propriamente dita. O conceito de literatura como “forma de conhecimento da realidade” irmaniza a atividade literária com as outras operações do espírito humano. o fogo. a Literatura Ocidental engloba os milhares de textos produzidos ao longo de quase 30 séculos. Não precisa dizer que o estudo sincrônico ou estrutural do texto é tão importante quanto a visão diacrônica ou evolutiva da Literatura. não constrangida por preceitos morais. jurídica. mas apenas historicamente inexistente. que estuda as características estéticas e culturais das várias eras e épocas (período greco-romano. embora por caminhos diferentes. para ser literária no sentido estrito. cria um universo imaginário onde os valores ideológicos são questionados. bem como sua diferenciação das outras artes. Outra coisa é o conceito de literatura num sentido restrito. desde a Grécia Antiga até nossos dias. Por sua vez. é a fonte mais fascinante de conhecimento do real. a imagem móvel (cinema). que pode ser definida assim: “Uma forma de conhecimento da realidade. biologia e de outras ciências e artes. que analisa os elementos estruturais comuns a qualquer tipo de texto (fábula ou mito. pelo uso da “linguagem”. que podem atingir o léxico (metaplasmos). Enquanto o filósofo lança mão do pensamento especulativo e o cientista se apóia na observação e experimentação dos fenômenos da natureza. que estuda as figuras de estilo. numa tela de cinema ou de televisão. nos países dos continentes europeu e americano e em algumas regiões costeiras da Ásia e da África. pois. e a colocar a máscara que o seu status social requer. como arte da palavra. do Japão e da Índia. líricas e dramáticas. medieval. Pela oração adjetiva “que se serve da ficção”. enquanto aquela. LOPE de Vega (dramaturgo espanhol)Comédia O mar. gesso ou madeira (escultura) etc. Para o estudo dessa imensidade de obras de arte literária. artisticamente elaborada”. estabelece-se a diferença específica entre o conhecimento artístico e o conhecimento reflexivo ou científico. é um parto da fantasia do autor que. também fazem uso da fala escrita: história. tempo. que trata da especificidade das formas narrativas. A linguagem poética. mármore. seus desejos mais recônditos. psicologia. o artista recorre à imaginação. pode abrir-se para nós em toda sua autenticidade. O que acontece num romance. tem que ser “artisticamente elaborada” para que se diferencie de outras atividades que. renascentista. num quadro. Daí a função social da literatura que. esta é obrigada a ocultar sua verdadeira essência. a teoria dos Gêneros. além de fornecer um prazer estético (o fim lúdico). como a poesia ou o romance. refletindo sobre a realidade existencial. excluindo-se apenas as civilizações orientais da China. Observa-se que a personagem de ficção é muito mais verdadeira do que a pessoa real. por ser fruto da imaginação. esportiva etc. material ou espiritual. a literatura se diferencia das outras artes que usam diferentes meios de expressão: a imagem fixa ( pintura). romântico. que se serve da ficção.202 que foi escrito sobre algum assunto: assim falamos de literatura médica. da filosofia e da ciência. é natural que qualquer atividade do homo sapiens vise o conhecimento de uma realidade exterior ou interior. Se a busca do saber é a característica fundamental do ser humano. espaço). portanto. que o distingue dos outros seres que habitam o universo. induz o homem a refletir sobre os problemas existenciais. a Retórica. a sintaxe (inversões) ou a semântica ( metáforas). diferentemente. jornalismo etc. a par da filosofia. e tem como meio de expressão a linguagem. à fantasia para tentar compreender o mundo. modernista. as duas modalidades de abordagem sendo complementares. Esta definição apresenta. estimulando os leitores a pensar nas palavras e nos sentidos que elas podem exprimir. pelo uso das figuras de estilo . O texto literário. de uma forma sucinta. contemporâneoIdade). realista. nunca excludentesCrítica. todas elas voltadas para a compreensão do mundo em que vivemos. a crítica moderna apresenta vários caminhos possíveis: a teoria do Texto . O crítico Martin Seymour-Smith (Os 100 Livros que mais influenciaram a Humanidade) afirma que a Literatura é “uma luta contra as mentiras ortodoxas”. Mas esta linguagem. tende à ruptura dos automatismos lingüísticos e ideológicos. “Fictício” não significa falso. personagem. a teoria dos Movimentos . narrador. mas abrangente.

Yerma. Mariana Piñeda. vivendo apenas em função da sua poesia e do seu teatro. Lorca freqüentou a privacidade de pintores (Salvador Dalí). A sapateira prodigiosa. quem ofende uma senhora casada tem que lavar a desonra com o sangue. Ele organizou um grupo de atores ambulantes. que estão enraizadas na raça espanhola.203 e sim em mudar. proibiu a publicação e a circulação de suas obras. e ainda clama pelo castigo dos culpados. Leonardo. ao fazer-se humana. vítima da ditadura de Franco) “A poesia que se levanta do livro e se faz humana. É muito difícil distinguir nele o poeta lírico do autor dramático. Lope Félix de Vega Carpio (1562-1635) pode ser considerado o dramaturgo mais fecundo do teatro no Ocidente. músicos (Manuel de Faria). que tolhe ao indivíduo o livre-arbítrio. divulgando as peças mais importantes da dramaturgia espanhola no meio da massa popular. seus admiradores afirmaram que ele escreveu mais de mil dramas. sobre o Velho e o Novo Testamentos. a Mãe revela que perdera o marido e um filho. Citando suas próprias palavras. à traição. o impulso da carga biopsíquica da teoria determinista. atualmente casado com outra moça. O drama é a representação das fortes paixões. pois Lorca sempre fora apolítico. membro da família inimiga. sobre costumes de sua época. num sentido amplo. composta pelo cruzamento de vários povos de sangue quente: andaluzes. e. tentar também destruir o espírito. A acusação oficial foi a denúncia caluniosa de ser espião da União Soviética. de temperamento dócil. o exuberante grupo de poetas do modernismo espanhol. as peças de Lope são divididas em vários grupos: sobre histórias e lendas da Espanha. com o qual viajou por várias províncias. dirigida à Mãe. ano do início da Guerra Civil Espanhola. o único que tem nome. O tema recorrente na sua obra dramática é o pundonor. quase telúrica ou cósmica. Além de amigo de grandes literatos. mouriscos. LORCA (dramaturgo e poeta espanhol. visto que. à vingança e esta leva à morte. Mais vergonhoso ainda é o fato de o Generalíssimo Francisco Franco. a esposa adúltera tem que pagar com a vida a ofensa feita ao marido. No dia do casamento rapta a antiga namorada e foge para um bosque. ainda. sem nunca se ter envolvido em problemas partidários. amara a jovem que agora é noiva de outro. árabes. cineastas (Luis Buñuel). a defesa da honra ultrajada: o homem que seduz uma moça virgem tem que casar com ela. Os personagens principais são a Noiva. A fuga dos dois tornase inevitável. sobre motivos mitológicos e pastoris. mandou dar sumiço a seus restos mortais. a dissimulação da moça e sua tristeza são sinais de que a Noiva não vai desejar o casamento se realizar. a Mãe e Leonardo. A casa de Bernarda Alba. cruelmente assassinados. A presença de Leonardo na festa dos esponsais. Esta força irresistível. pertencer ao partido socialista. pois a fonte é uma só. Não havia motivo para o hediondo crime. logo em seguida. chamado “La Barraca”. a memória do grande poeta: manteve oculta a circunstância do vil assassínio. ao fazer-se humana. para Lorca. Sua obra mais conhecida é Bodas de sangue. outrora. sem ter sido convidado. o aparecimento de uma faca no início da peça funciona como indício do sangrento duelo. O noivo traído consegue alcança-los e os dois amantes da bela jovem se matam mutuamente. além de ordenar a morte do corpo. pois só ele tem coragem de lutar para satisfazer seu desejo. No início da trama. a representação dramática é “a poesia que se levanta do livro e se faz humana e. Mas a paixão pelo teatro estava no sangue de Lorca. Escreveu quinze dramas. Classificadas por assuntos. lembra o fado inelutável da tragédia grega ou. pois a paixão é indomável. fala e grita. o Noivo. O amor leva à paixão desenfreada. é o indício da iminência da catástrofe. dos quais os melhores são: O malefício da borboleta. uma mancha indelével suja o solo de Granada: o poeta e dramaturgo García Lorca é covardemente assassinado por um pelotão do exército espanhol durante a ditadura de General Franco. fala e grita. toda a produção literária é poesia. chora e se desespera”. Isto parece transparecer da emocionante fala da Noiva. no último quadro da peça: . Este pertenceu à chamada “geração de 27”. uma vizinha informa que o antigo namorado da Noiva é Leonardo. Talvez a sua “culpa” fosse o fato de seu cunhado. de forma que a jovem geração espanhola não pudesse ler e estudar os poemas e os dramas de Lorca. tragédia em três atos e sete quadros ou cenas. prefeito de uma cidadezinha espanhola. a mesma para qualquer atividade artística: a fantasia e o sentimento. chora e se desespera”. O clima trágico percorre o drama de ponta a ponta. alegre. Além das 468 peças (426 comédias e 42 autos) que chegaram até nós. que obriga a Noiva a se entregar novamente ao primeiro namorado. No verão de 1936.

a loucura começou a ser tratada como uma doença provocada por traumas da infância. que é uma doença afetiva. considerado herege ou bruxo e condenado à fogueira (Joana d’ Arc). com o avanço das teorias psicanalíticas sobre o inconsciente ( Freud). ouviu bem? Eu não queria! Seu filho era o meu fim. terra. Apenas no início do séc. Machado de Assis. há uma área da medicina que trata especificamente das doenças mentais. mas antes não se tinham estudado as causas da maluquice. Na Idade Média ( Medievalismo). Com a loucura estão relacionadas neuroses e psicoses. o alienado era posto num asilo. e seu filho era um pouquinho de água. considera a anomalia como o estado de espírito do homem que queria fugir da monotonia da vida cotidiana. XVIII a loucura começou a ser tratada como uma doença mental. mas o braço do outro me arrastou como a correnteza do mar. contrária às regras sociais e morais. na sociedade espanhola da época de Lorca. sempre. LOUCURA (Elogio da Loucura. eu fui! Você também teria ido. porque o médico constata que a quase . Foucault. mas o outro era um rio escuro. O Alienista. encontra-se irremediavelmente violado e a desonra tem que ser lavada com o sangue. assim como há doenças que fazem sofrer o corpo. um ser extravagante era tido como possesso pelo demônio. “A pior loucura – dizia ele – é ser sábio num mundo de loucos”. Diário de um Louco) “O extremo limite da sabedoria é o que as pessoas chamam de loucura” (Jean Cocteau) M. a mais comum sendo a maníaco-depressiva. que cria uma ruptura ou uma inadaptação do indivíduo com a família e a sociedade. E eu corria com seu filho. pode ser de origem genética. Eu não queria. na sua História da Loucura (1961). No Renascimento. A problemática do homem que age de uma forma insensata. a Psiquiatria. física ou ambiental. de moça acariciada pelo fogo. Simão Bacamarte. e eu não o traí. ensina que somente no final do séc. Quando a doidice se tornava perigosa à sociedade. no seu Elogio da Loucura (1511). e o outro me mandava centenas de pássaros que me impediam de andar e derramavam orvalho nas minhas feridas de mulher fraca e abatida. Mas. a figura retórica que Aristóteles chama de “peripécia”: a ação consegue um resultado contrário do esperado. saúde. pelo casamento de um e pelo noivado da outra. mesmo que eu fosse velha e todos os filhos do seu filho me agarrassem pelos cabelos!” Talvez a culpa dos dois amantes — Leonardo e a Noiva — esteja na falta de coragem de enfrentar tempestivamente a opinião pública pois. Quando resolvem atender ao chamamento da natureza. sempre. pois se chegou à compreensão de que existem distúrbios que afetam a alma. de onde me chegava o sussurro dos juncos e um murmúrio abafado. esvazia-se a cidade e lota-se o hospício. em breve tempo. o sentimento de honra gritava mais forte do que o direito à felicidade. como um coice. retrata este tema com fina ironia. de quem esperava filhos. assim. Eu era uma mulher ferida pelo fogo. XX. Hoje em dia. havendo relações muito profundas entre os dois campos de patologia. encontrando no devaneio um “condimento” ou antídoto. cheio de ramagens. cheia de chagas por dentro e por fora. e teria me arrastado sempre. pois a maioria sofre de desequilíbrio emocional. A verdade é que é muito difícil estabelecer o limite entre a loucura e o estado da razão. Partindo do princípio de que qualquer atitude que foge da normalidade é sinal de loucura. que era como um fiozinho de água fria. médico de Itaguaí. A manifestação psicótica. começa a internar na sua clínica todos os cidadãos portadores de defeitos psíquicos. acompanha o homem ao longo da sua história.204 “Porque eu fugi com o outro. a “Casa Verde”. resolve dedicar-se a pesquisas psiquiátricas e funda um hospício para cuidar dos dementes. Verifica-se. das forças do instinto. Erasmo de Rotterdam. no seu famoso conto O Alienista. já é tarde: o código social.

segundo sua tendência natural. servindo-se da descoberta dos átomos.205 totalidade do povo sofre de loucura. testando um medicamento antidepressivo. Já o sábio romano Sêneca observara que “ainda não houve homem de gênio extraordinário sem algo de louco”. estudiosos do Laboratório de psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Caetano Veloso. A conclusão da pesquisa foi de que “o normal é não ser normal”! Outra obra ficcional. nossa razão é falsa Poeta de tendência filosófica e científica. a dedução lógica é que a verdade está no contrário de sua teoria. A alienação é. Diário de um Louco. esta minoria é sarada. sejam imunes de paixões e de contradições. da luxúria etc. LÚCIFER (Demônio)Satã LUCRÉCIO (poeta e filósofo romano)Epicuro Se os sentidos não são verdadeiros. se o sintoma da demência é a anormalidade e é a maioria que fornece o parâmetro da regra. um fenômeno mais coletivo do que individual. pois a natureza diabólica. porque não é difícil conseguir a prática da vaidade. assim. porque é anormal. pratique um vício ou uma fraqueza. descrevendo o sacrifício de Ifigênia. artistas e até cientistas (“cada gênio com a sua mania”!). geralmente poetas. Este conto foi adaptado para o teatro francês e encenado também no Brasil. do escritor russo Gogol. A loucura é confundida com o demônio. assumiu a missão de divulgar a doutrina atomista dos filósofos Demócrito. então. de que é vítima um humilde funcionário público. No seu imortal poema em seis livros. Outra vez vazio o hospício. O homem. confirmando o fato de que a arte chega antes do que a ciência na descoberta de verdades existenciais. em 2004. Em pouco tempo. verificaram com base estatística que quase 80% dos entrevistados apresentavam transtornos psíquicos. portanto. não podem nos dar felicidade. Confirmando o achado do poeta da MPB. Contraditoriamente. C.). outra peripécia. enfrenta o mesmo tema da esquizofrenia. há a “loucura” consciente das pessoas que se recusam a viver conforme as convenções sociais e morais. por serem falsos e aleatórios. Diferentemente da doença patológica. Este conto machadiano expressa. Dá-se. que deve ser submetida a um tratamento por via de remédios. uma profunda verdade existencial: o homem verdadeiramente lúcido é um louco. coerentemente. da ira. consiste no esmagamento do indivíduo por um sistema social opressivo e degradante. Simão Bacamarte passa. Ora. o protagonista interna no manicômio a si próprio. que o equipare à maioria.. Empédocles e. vítimas de uma série de limitações biológicas e sociais. do mestre Epicuro. tenta explicar as causas científicas dos fenômenos naturais. pondo em evidência a importância da loucura na história da humanidade: “Tudo de grande que conhecemos veio dos neuróticos. que canta “de perto ninguém é normal”. desta vez ao nível da caracterização das personagens e da inversão dos valores ideológicos: o médico se torna paciente e os que ele reputava doidos lhe ensinam que a loucura reside em querer que os homens. a que faz coro o escritor francês Marcel Proust. só consegue sentir-se importante num estado de alucinação. pois faz com que o homem. pois. educado na escola epicurista da Campânia. segundo Gogol. Liberta. região ao sul de Roma. Titus Lucretius Carus (98?-55 a. especialmente. em forma de arte. e nem. O mundo nunca tomará consciência do quanto deve a eles. a maioria e submete a minoria a um tratamento intensivo com a finalidade de conseguir que cada um. as partículas indivisíveis cujo choque causaria os acidentes. o parecer. do quanto eles sofreram a fim de outorgarem suas dádivas ao mundo”. único exemplar irredutível de equilíbrio emocional. eletrochoques ou psicoterapias. desmistificando assim as superstições que atribuíam raios. terremotos e pestilências à ira dos deuses. porque fogem da normalidade que sofre de desequilíbrio emocional. acima de tudo. conduzida à morte pelo próprio pai .. a considerar loucas as poucas pessoas equilibradas. que contestam valores que cultuamos automática e inconscientemente e que. O conteúdo do conto machadiano vem sendo corroborado por recentes pesquisas médicas. é a lucidez mental sintoma de loucura. que o aliena do real. São os homens mais lúcidos. na tentativa de ser autêntico e coerente com os postulados ideológicos. Num dos trechos mais líricos do poema didático. se isole da maioria que vive segundo a opinião. que ensinava serem a ignorância e o medo os sustentáculos da religião. então. De rerum natura (“Sobre a natureza das coisas”).

através do processo da criação heterônima. está acima de qualquer corrente estética. A grandiosa obra reflete os dois postulados principais da cultura renascentista: a imitação dos modelos artísticos da Antiguidade greco-romana e a exaltação do homem na sua conquista de novos caminhos marítimos. Quanto à produção lírica. figura da mitologia greco-romana.. Podemos distinguir três “visões’’ ou ‘‘perspectivas” principais. considerado o lendário fundador de Portugal. evidentemente. é o primeiro trabalho de pesquisa que apresenta um modelo sério de investigação científica e de reflexão filosófica. pois. especialmente pelas colônias portuguesas de ultramar (Goa e Moçambique). em que ressalta a oposição dialética existente dentro do ser humano e o ilogismo e o . O que dói é constatar que a humanidade. quando de sua volta da Itália. desdobra o próprio “eu” em várias personalidades humanas e poéticas. Estas (e outras) contradições seriam inexplicáveis sem o recurso estilístico da pluralidade dos sujeitos da enunciação. Estamos perante um “eu dividido”. que toma a palavra para expressar. ó vã cobiça): aqui é o Velho do Restelo. ainda não aprendeu as lições ensinadas por Epicuro e Lucrécio. ora enaltece os heróis e os reis de Portugal. Ele cultivou todas as formas poéticas da sua época. Mas o maior poeta lírico da Renascença européia. com vistas a ampliar suas atividades comerciais. mas se tornou imortal pelas suas poesias líricas e pela epopéia Os Lusíadas. 3) O ponto de vista dos personagens-narradores (Ó glória de mandar. adverte seus contemporâneos. Nele convergem todas as correntes poéticas de sua época. O rei D. a maior obra da Renascença portuguesa. Não sabemos a data certa nem o lugar de seu nascimento (Lisboa ou Coimbra?). Fernando Pessoa que. O “narrador” da aventura de Vasco da Gama em busca do caminho marítima para a Índia. cada qual dependendo de um diverso sujeito do discurso: 1) o ponto de vista do eu poemãtico (eu canto o peito ilustre Lusitano): é a “voz” que interpreta os acontecimentos. Essas várias “vozes” às vezes se entrelaçam. transitando o poeta lusitano livremente entre a lírica tradicional e a clássica. apesar de ser um dos maiores poetas da Renascença européia. Bakhtine utilizou para a exegese da obra de Dostoievski. poderia ser submetido ao mesmo tipo de análise que M. ora denuncia os graves defeitos da gente de sua terra. o Gigante Adamastor e outros personagens em várias passagens d’ Os Lusíadas. mas personagens que assumem o papel de contadores das histórias.206 Agamenão para atender à ordem da deusa Diana. que ora idealiza a viagem do Gama. idéias e sentimentos através de pontos de vista diferentes. o poema camoniano apresenta traços de semelhança com a produção poética de outro grande expoente da literatura portuguesa. O poema épico Os Lusíadas começa com o conhecido verso: As armas e os barões assinalados. sua opinião sobre os acontecimentos. como cidadão de Portugal. ora os considera divindades falsas e mentirosas. ora a julga à luz da história. continuando a matar em nome de Deus! LUSÍADAS (poema épico de Camões) Épica Renascimento Amor é fogo que arde sem se ver Luís Vaz de Camões (1524?-1580). que sabe tudo a respeito de todos. portanto. Considerado sob este aspecto. a palavra “lusíada” ou lusitano significa “acerca de Luso”. ora relata a intervenção dos deuses pagãos nos acontecimentos portugueses. sofrendo exílio. não é o autor. 2) o ponto de vista do narrador onisciente (Já no largo Oceano navegavam): aqui o narrador é um ser onisciente e onipresente. introduzida em Portugal por Sá de Miranda. outras vezes se contradizem. os melhores poemas de Camões são os produzidos na chamada “medida nova”. morreu num hospital de Lisboa na mais negra miséria. cada qual expressando uma faceta do espírito do poeta. apesentando ações. filho do deus Baco (Dionísio). Daí a importância deste poema camoniano no contexto da cultura do Renascimento europeu. Enfim. naufrágio e prisão. emite julgamento de valores. apresentando Camões como profundo conhecedor da cultura clássica e da história do seu país. assim como Inês de Castro. pela sua “fala”. Sebastião concedeu-lhe uma modesta pensão para alguns anos. pela sua genialidade. em 1527.. tem uma biografia obscura. acusando a participação subjetiva de Camões. Lucrécio exclama: “Tantum religio potuit suadere malorum!” (Até que ponto a religião pôde induzir um homem a cometer maldades!) A obra de Lucrécio teve uma influência incalculável na cultura ocidental. ate hoje. Filho de fidalgos empobrecidos viajou muito. além de divulgar o epicurismo e o atomismo. Os Lusíadas. a pessoa física de Camões. Etimologicamente.

através de uma visão profética: é o que faz a ninfa da ilha de Vênus. como elemento temporal de referência.207 paradoxismo das situações. A nascente burguesia sentia sua atividade obstaculada pela falta de liberdade de locomoção (pesadas taxas alfandegárias de um feudo para outro). dando particular ênfase à expedição portuguesa. independentes do poder centralizador do Papa e do Imperador. D. o plano do enunciado se relaciona com a “história”. descrevendo as peripécias da viagem da armada portuguesa de Melinde até a Índia. como acabamos de ver. A matéria-objeto da épica camoniana é a “fábula” do povo português. Mas o herói português não conta apenas o início da viagem. religiosas e sociais. não havendo coincidência entre “fábula” e “trama”. começa seu poema in medias res: a trama inicia pelo meio da fábula. ao modo pelo qual o narrador está presente na narrativa. vivia num estado de servidão. quase a metade da distância entre Portugal e a Índia. desde seu fundador mítico. que lançaram gritos de reformas políticas. passando pelo seu fundador histórico. Após a narração das transações comerciais e do pacto de amizade entre os dois povos. os camponeses abandonavam a roça para tentar melhor sorte nas cidades. O início da trama tem. Surgiram. o ano da expedição do Gama e como elemento espacial a África. Camões propõe-se cantar a história dos fatos gloriosos de Portugal. e chegando até os feitos de D. Mas estava no plano dos Lusíadas cantar também acontecimentos portugueses posteriores à viagem do Gama. Sebastião. Camões. chefiada por Vasco da Gama. A classe nobre (reis e príncipes) também era obrigada a pagar onerosos tributos ao papa e ao imperador. mostrando aos portugueses de Vasco da Gama as futuras glórias de seu país na Europa. Afonso Henriques. Mas este assunto poemático não é narrado na sua ordem cronológica. pois denunciam as perplexidades de Camões. A massa popular. Aí se dá outro flash-back. de caçar. começa quando a armada portuguesa já se encontra perto de Moçambique. portanto. a narração continua linearmente. a nobreza aliou-se à burguesia na luta contra o absolutismo político e a exploração econômica do Império e da Igreja. O primeiro movimento reformista aconteceu na . quer em relação à história de Portugal. Por isso. vários movimentos de protesto. de comércio (a Igreja proibia a usura e o lucro) e de autonomia (exigência de impostos e dízimos). por sua vez. nos Lusíadas encontramos a narração entrelaçada de três grupos de acontecimentos mítico-históricos. As contradições encontráveis no poema camoniano constituem seu aspecto mais moderno. rei de Portugal na época da publicação dos Lusíadas. explica ao Catual de Calicute o significado das figuras desenhadas nos painéis das bandeiras. Se o plano da enunciação dos Lusíadas. seguindo o exemplo de Homero e de Virgílio (“o grego e o troiano”). filho de Baco. recuando a narração até o início da fundação da nacionalidade lusitana e sintetizando em dois cantos (III e IV) mais de três séculos de história de Portugal. o modo pelo qual o conjunto dos fatos é narrado. quer em relação à viagem de Vasco da Gama. c) Passado anterior ao enunciado = período de tempo que vai desde a fundação da nacionalidade portuguesa (meados do século XII) até a viagem do Gama. centradas sobre os poderes absolutistas do Império Romano-Germânico e da Igreja Católica. Em resumo. Para tanto. em busca do caminho marítimo para a Índia. b) Presente do enunciado = época da expedição do Gama (1498). era necessária uma narração prospectiva. Luso. Após essa interrupção. Como os portugueses lá chegaram e por que iniciaram a longa viagem é contado através da narração retrospectiva (flash-back) do capitão Vasco da Gama ao rei de Melinde. Camões descreve a viagem de volta da armada para Portugal e a parada intermediária na utópica ilha dos Amores. assim. na África e na Ásia. na costa africana. irmão do capitão-mor. cada vez mais. Devido a esses fatores. de épocas diferentes: a) Presente da enunciação = época da publicação do poema (1572). que quebram a estrutura fechada e o sentido monológico da poesia épica clássica. quando Paulo da Gama. obrigada a trabalhar com remuneração ínfima e quase sem direitos: os proprietários das terras proibiam de catar lenhas. O poema. ainda persistiam estruturas medievais. diz respeito ao “discurso” do poema. dividido em dez cantos. tendo como principal aspiração a constituição de Estados Nacionais. que ocupam o lapso de tempo que decorre da expedição do Gama até a publicação da obra. de ter criações próprias. LUTERO (a revolta contra a Igreja de Roma: Reforma Protestante) “Paris bem vale uma missa” (Henrique de Navarra) Apesar do enorme progresso social e cultural que se deu na Europa a partir da Renascença.

Daí o apego dos protestantes à leitura da Bíblia. casando-se com uma freira. insurgindo-se contra a prepotência e a corrupção da Igreja. Estado eslavo encravado no Sacro-Império e disputado pelos príncipes tchecos e germânicos. Qualquer cristão tem acesso direto a Deus e pode ser salvo pela fé em Jesus Cristo. exigindo que os prelados católicos renunciassem aos bens materiais e obrigassem padres e monges a trabalhar. Considerando o enriquecimento (mesmo ilícito. com suas pregações começou a denunciar a venda das ‘‘indulgências”(o perdão dos pecados em troca do pagamento à Igreja de uma certa quantia de dinheiro) e a atacar a riqueza material e a imoralidade do alto clero. A execução das resoluções do Concílio foi confiada à “Companhia de Jesus”. A Reforma luterana provocou várias rebeliões na Alemanha. No reino da Boêmia. surgiu o segundo movimento de purificação da Igreja: Jan Huss. Mas o Calvinismo. que se chamou de “Contra-Reforma”. que funcionou ao longo de dezoito anos. O crente não precisa de intermediários. convocou o Concílio de Trento. mas suas idéias se difundiram pela Europa toda. consumou o cisma com Roma e fundou a Igreja Anglicana que. através da usura) como um sinal da benção divina. que perdura até hoje. por exemplo. a obra famosa do sociólogo e economista alemão Max Weber. se do ponto de vista social foi progressista. ordem religiosa fundada pelo cavaleiro espanhol Inácio de . iniciou um movimento de renovação dos costumes. a atividade comercial e a especulação financeira. 4) A abolição de cinco sacramentos (ficaram apenas o batismo e a eucaristia) e do celibato eclesiástico: a permissão do casamento dos padres esvaziou paróquias e conventos. no início do século XVI: em 1517. Ele. revelou-se extremamente conservador quanto à moral. O Capitalismo marchou junto com o puritanismo na construção de um novo modelo de vida social. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (1905). o protestantismo se revestiu de um caráter mais propriamente político. quando bispos de toda a Europa fizeram uma revisão da doutrina católica e impuseram severas normas de conduta moral. quando. estimulou as insurreições camponesas. Veja-se. no ano de 1415. As forças conservadoras do clero e dos nobres acabaram decapitando Münzer e os outros dirigentes da liga camponesa. O próprio Lutero deu o exemplo. Entre os tópicos mais importantes da Reforma luterana. 3) A iconoclastia: as imagens e as estátuas de Nossa Senhora e dos Santos. Henrique VIII. Wycliffe foi condenado como herege. Ulrich Zwingli e João Calvino encabeçaram a revolta dos quatro cantões. o monge agostiniano Martinho Lutero afixou na porta de uma igreja da Saxônia suas ‘‘95 teses”. Tal propósito foi facilitado pela invenção da imprensa e pela tradução do Velho e do Novo Testamento nas línguas vernáculas. Aproveitando a recusa do papa Clemente VII de conceder-lhe o divórcio de sua esposa Catarina de Aragão. devem ser destruídas. o protestantismo chegou com a motivação de não pagar impostos ao papa. Para tanto. já então um Estado independente do Sacro-Império e governado por ricos burgueses. O Calvinismo deu à Reforma de Lutero um caráter mais conservador.208 Inglaterra. porque adquire o conhecimento da vontade de Deus pelos textos sagrados e pode arrepender-se de seus pecados pedindo perdão diretamente a Deus. a massa popular. rei do Estado nacional. Mas tal posição extrema foi condenada pelo próprio Lutero. outro estudante de Teologia. que nunca deixou de representar os interesses da burguesia. John Wycliffe. liderada por Thomas Münzer e congregada numa seita chamada de “Anabatista”. Mas a grande Reforma protestante contra a autoridade do papa e os desmandos da Igreja Católica eclodiu na Alemanha. assim como qualquer tipo de “relíquia”. Na Suíça. para contrair novas núpcias com a bela cortesã Ana Bolena. Essa tese fornece o motivo ideológico para a explicação do fato histórico de que os povos de religião protestante são mais ricos e mais desenvolvidos. Os nobres empobrecidos assaltaram abadias. impondo pesadas restrições. consideradas como novas formas do politeísmo pagão. Sua sorte foi pior: o papa João XXII o condenou a morrer na fogueira. apontamos: 1) O livre exame da Sagrada Escritura : a palavra de Deus deve ser conhecida diretamente pelos fiéis e não indiretamente pela pregação dos padres católicos. Daí alguns historiadores terem sustentado a tese da existência de uma relação muito estreita entre a ética protestante e o triunfo do sistema capitalista. Na Inglaterra. que vivia faustamente e exigia tributos para sustentar seu luxo. em 1381. para enfrentar a disseminação das várias seitas protestantes. lançou o grito comunitário: se todos os homens são iguais perante Deus. o Calvinismo santificou os empreendimentos industriais. embora respeitasse quase integralmente os dogmas católicos. exaltando o espírito da burguesia. de 1545 a 1563. o estudante de Teologia de Oxford. não queria se submeter à autoridade papal. é justo que todos os bens sejam divididos entre todos. 2) A negação da autoridade papal: o papa não é infalível e a Igreja Católica não tem poder sobre o Estado ou sobre outras formas de religiosidade. A Igreja de Roma. junto com padres franciscanos que chegaram do continente. não evitou violentas lutas por motivos religiosos. tentou uma reforma dos costumes.

concedendo liberdade de culto aos protestantes (Edito de Nantes. mais do que aos escritores filiados à moda naturalista. Henrique de Navarra converteu-se ao catolicismo. Países Baixos. tendo seus bens confiscados ( Joana d’ Arc). As pessoas delatadas. cujo único romance. A ContraReforma ensejou inúmeras e sangrentas guerras de religião em toda a Europa. 1594). pois segue o filão da narrativa picaresca espanhola. . A cavaleiro entre duas épocas — Romantismo e Realismo —. cada qual adquirindo feições locais nas diversas regiões do planeta. adquirindo múltiplos aspectos. em 1534. narrador-defunto. A segunda fase machadiana inicia-se com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881). Junto com o motivo religioso. O primeiro Grande Inquisidor espanhol. pode ser considerado realista antes do tempo. através do ensino religioso dirigido. foi acusada de crimes horríveis na tentativa de reprimir hereges e protestantes. devemos recorrer aos humoristas ingleses Swift e Sterne. com o fim específico de lutar contra o protestantismo. abrange todas as obras-primas. A partir daí.209 Loyola. consideradas “bruxas”. romance original que se afasta da narrativa convencional. poligamia. Enfim. Calvinismo (Suíça. No decorrer da quarta guerra. ao francês Voltaire. quando se notabilizou por seus métodos arbitrários e cruéis. pentecostais. quer quanto ao plano da expressão (dedicatória irreverente. Durante o Concílio de Trento foi reformulada a Inquisição medieval. Inúmeros colégios jesuítas se espalharam pela Europa. Os ramos mais antigos foram: Luteranismo (Alemanha e países Escandinavos). A primeira compreende as narrativas de inspiração romântica. protestantes e judeus. além de perseguir hereges. figura de projeção internacional pelo caráter universalizante de sua obra. para terminar as hostilidades. não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria” (parágrafo final de Memórias Póstumas de Brás Cubas) Machado de Assis (1839-1908) é o maior ficcionista da época do Realismo e de toda a Literatura Brasileira. o padre dominicano Tomás de Torquemada. a segunda. na famosa Noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572). pronunciando a famosa frase “Paris bem vale uma missa”. que ainda hoje têm reflexos na Irlanda e em alguns países do Oriente Médio. Machado não pode ser filiado a nenhuma escola literária. Com base no seu princípio fundamental da livre interpretação das Escrituras. Coroado rei com o nome de Henrique IV. tornando-se setas religiosas diferenciadas. Essa Inquisição. sendo que. teve seu apogeu na época barroca. Anglicanismo (Inglaterra). nas regiões recém-descobertas. depois de condenadas nos autos-de-fé. ele solucionou o conflito religioso. existiam também interesses políticos pela disputa de territórios entre França e Espanha. No Brasil. a tarefa dos religiosos era evangelizar os indígenas e organizar “reduções’’. Mas a Companhia de Jesus. ao caricaturista brasileiro Manuel Antônio de Almeida. onde os índios catequizados aprendiam a lavrar a terra e a criar o gado. como braço forte da Contra-Reforma. bruxaria. assim como sodomia. criando-se o Tribunal do Santo Ofício. eram queimadas na fogueira. a da maturidade. instituído no século XIII para combater a heresia cátara. o Protestantismo começou a se desenvolver paralelamente ao Catolicismo. pois o verdadeiro gênio não segue. mas cria os cânones estéticos. O Tribunal da Inquisição. Memórias de um sargento de milícias. metodistas. Anchieta e Vieira. o mestre da ironia. Se quisermos encontrar influências literárias que contribuíram para a formação do estilo e da mundividência machadianos. Somente na França e apenas durante a segunda metade do século XVI. entre outras. estes chamados pejorativamente de “huguenotes”. travaram-se oito guerras entre católicos e protestantes. condenou à fogueira aproximadamente duas mil pessoas. América e Oriente. teve a incumbência de processar e condenar cidadãos acusados de outros crimes também. se teve inegável mérito pela sua ação religiosa. foram massacrados aproximadamente trinta mil huguenotes. social e cultural. embora historicamente pertencente à época do Romantismo. França e USA). apareceram várias correntes dentro da sua doutrina. com sede na Espanha. o nobre apostolado dos jesuítas está substanciado nas ações de três padres que passaram a integrar a história de nossa terra: Nóbrega. MACHADO de Assis Realismo Romance Conto Ironia Loucura “Não tive filhos. Os críticos costumam dividir sua vasta produção literária em duas fases. evangélicos. durante os dezesseis anos que ocupou o cargo. eram submetidas à tortura até à confissão e. Mais tarde surgiram as Igrejas das congregações de batistas.

Machado escreveu também várias coletâneas de contos. no papel de Capitu. Morte em Veneza. Thomas (romancista alemão) Thomas Mann (1875-1955) pode ser considerado o último grande escritor da época realista e isso porque a Revolução Industrial chegou atrasada na Alemanha. Último Capítulo (caiporismo). refletindo nas personagens a podridão social. O esforço do indivíduo embate-se contra a ironia do destino. com um sorriso irônico. ele lhes examina as virtudes e os vícios. O Alienista (a loucura generalizada). através da invenção da filosofia “humanitista”. quer nas curtas. que se tornou a obra-prima do gênero narrativo da literatura italiana. onde Mann aborda o tema da solidão do artista. de inspiração goethiana. A Missa do Galo (a sedução). religião. Alessandro (romancista italiano: Os Noivos) Romantismo Nem sempre aquilo que vem depois é progresso Alessandro Manzoni (1785-1873) escreveu um único romance. intelectuais burgueses discutem sobre arte. I Promessi Sposi (“Os Noivos”). romance que lhe proporcionou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1929: o assunto retrata o declínio de uma família burguesa obcecada pela caça aos valores materiais. Trio em Lá Menor (perfeição). telenovelistas e diretores de cinema. em 2003. dramaturgos. demonismo)Fantástico MALLARMÉ (poeta francês) Simbolismo MALTHUS (economista inglês. Os Buddenbrooks: decadência de uma família. A Causa Secreta (sadismo). através de uma análise crua da realidade social. O Segredo do Bonzo (opinião vs realidade). que faz com que as ações humanas consigam um resultado contrário ao esperado. acusa um profundo sentimento de ceticismo e de pessimismo. mas apenas ao desejo de melhorar sua posição econômica). longe da idealização dos românticos e do determinismo dos naturalistas: o adultério de Virgínia não é devido nem a uma paixão avassaladora nem a uma tara hereditária. estilo irônico. já dentro das técnicas estéticas do Modernismo. com sua postura de humorista. o cineasta Moacyr Góes retoma o tema do romance Dom Casmurro. Sem o moralismo próprio dos escritores naturalistas que. ambientado na . fetichismo. no filme DOM. técnica da peripécia narrativa). A montanha mâgica: num sanatório. Dom Casmurro (1899) é o romance da dúvida que toma conta do espírito do personagem-título sobre a fidelidade de sua mulher. costumes. Dele recordamos as obras mais famosas. narrativa convertida em filme por Luchino Visconti. Esaú e ]aço e Memorial de Aires. Foi com ela que a escola positivista européia começou a criticar o comodismo conservador da classe burguesa. quer quanto ao plano do conteúdo (novo modo de ver o mundo. Machado retoma assunto e personagens do romance anterior e. malthusianismo)Demografia MANET (pintor francês)Impressionismo MANN. Marcos Palmeira. Doutor Fausto. as aspirações e as lutas cotidianas para conseguirem migalhas de felicidade. filosofia. De fundo histórico. A Igreja do Diabo (indivíduo vs sociedade). indicando o tema tratado: A Cartomante (a impostura dos profissionais da adivinhação). Anotamos alguns mais famosos. Pai contra Mãe (opressão em cadeia). com Maria Fernando Cândido. O Empréstimo (ambição). a mulher “de olhos de ressaca”. o grande escritor do Rio de Janeiro demonstra ser um excelente observador da alma humana e da sociedade urbana da então capital do país. O Enfermeiro (o crime compensa). satiriza sutilmente a fé dos pensadores positivistas no progresso moral da sociedade. superstição. Machado. Distanciando-se de suas personagens. interpretando o personagem Bentinho e Bruno Garcia. tencionavam reconditamente curar os males. Em Quincas Borba (1891). Maria Cora (inconseqüência psicológica). Quer nas narrativas longas. Recentemente. Para o estudo da principal característica estilística de Machado. MADAME Bovary (romance de Flaubert)Realismo MAGIA (bruxaria. Além de mais dois romances. focalizando problemas existenciais. Singular Ocorrência (ato gratuito). Capitu é descrita como mestra do fingimento. Quanto à fortuna crítica e ao reconhecimento póstumo da ficção machadiana é dispensável qualquer comentário Suas obras foram e continuam sendo fonte de inspiração para escritores. veja-se o verbeteIronia. apontando suas causas.210 inversões temporais. A Segunda Via (antecipação do conhecimento). MANZONI. cujo personagem Miguel é uma adaptação do Escobar do romance de Machado de Assis.

3 bilhões de adeptos. partido de Ali. lugar de nascimento de Mohamed. quando o presidente do Egito. Averróis. a profissão de fé: “Eu testemunho que não há outra divindade além de Alá e que Maomé é seu enviado”. No ano de 610. a peregrinação à Meca pelo menos uma vez na vida. o Islã. então. como centro religioso. levado pelo arcanjo Gabriel até o Paraíso. MAOMÉ (Profeta de Alá: Muçulmano. uma rica viúva quadragenária. organizando um Estado em que os costumes tribais da Arábia foram substituídos pela Sharia (lei corânica) e pela Suna. e Jerusalém. Seu nome deriva da expressão " shi at Ali". Seu período de esplendor se deu na mesma época em que a religião cristã condenara a Europa ao obscurantismo ( Medievalismo). 4) hadjdj. IX). seu tio. Os muçulmanos se dividem em dois grandes grupos principais: os sunitas (da palavra suna. A Meca. Proclamada a Guerra Santa (djihad). o romance manzoniano. o grande tradutor de obras gregas para o latim. o mês destinado ao jejum diurno. Com as Cruzadas (início do séc. cidade de onde o profeta ascendeu aos céus. A decadência da religião islâmica se tornou evidente nos anos 50 do séc. a Hégira. os muçulmanos eram mais tolerantes que os cristãos. então. recolhida no livro sagrado “Corão” (ou Alcorão. o caminho) e os xiitas. em 622. Sua pregação. na direção da Meca. Ele disse que “Deus deu a cada povo um profeta em sua própria língua”. o calendário muçulmano. começou a inversão: as nações de civilização cristã tentaram impor sua cultura aos árabes muçulmanos. entre outros cientistas e artistas. . Os lugares mais sagrados do Islamismo são Meca. que foi marido de Fátima. nasceu na Meca em 570 (provavelmente) e morreu em Medina. Devemos ao Islamismo a divulgação da cultura grega no Ocidente. Maomé se revelou um grande chefe político e militar. famoso pelos comentários à lógica aristotélica. depois do Cristianismo. iniciando. Nesta época. sede da Caaba (templo da “Pedra Negra”). a partir daquela data. Medina. conjunto de preceitos baseados nos hadith (ditos e feitos do Profeta). no que se refere aos costumes. A obra possui um profundo sentido patriótico (estímulo à luta pela unificação e independência da Itália) e religioso (a fé em que Deus fará sempre triunfar as forças do bem sobre as forças do mal). das ciências ou das artes (constatação espantosa: seiscentos anos de paralisia cultural em todos os países europeus!).211 época do domínio espanhol na província de Milão (século XVII). A doutrina islâmica está centrada sobre cinco pilares: 1) Chahada. V ao XI). o reformulador da ciência médica. continuada por All-Abbas. na sua totalidade de seitas. logo depois. afirmou ter ouvido a voz do arcanjo Gabriel que lhe transmitiu a mensagem de Deus (Alá ou Allah. depois do judaico Moisés (Bíblia) e do palestino Cristo. 5) zakat. condutor de caravanas. XX. além de ser o modelo de beleza de estilo da língua italiana . o pagamento de esmola. Islâmico) “Eu testemunho que não há outra divindade além de Alá e que Maomé é seu Profeta” Mohammed ou Muhammad. consagrando-lo como o terceiro grande Profeta. a prece legal. cidade onde fica a Caaba (o templo da Pedra Negra). filósofo e cientista (séc. Avicerna. 3) o Ramadã. Nascia. não produziram sequer um nome ilustre no campo da filosofia. casou com sua patroa. em 630. através da história ficcional do amor de Renzo e Lucia. Em situação crítica. Os sunitas são os seguidores da tradição do Profeta. Órfão e pobre. Atualmente. XII) e. com o Renascimento. Maomé conquistou sua cidade natal. constitui a segunda maior religião. o Oriente Médio nos legou Alcuíno. apresenta um painel da realidade social da época. cinco vezes por dia. um novo credo. o pensador Alfarrabi (870-950). em 632. Os xiitas (16% dos muçulmanos) também possuem sua própria interpretação da Sharia. encantou as classes desfavorecidas e provocou o ódio de judeus e cristãos ricos. filha de Maomé. pois os europeus nunca tiveram um contato direto com a língua de Homero. juntando-se a Moisés e Jesus Cristo. Enquanto os seis séculos da Baixa Idade Média Cristã (do séc. impedido pela prepotência do senhorio dominador. com cerca 1. professa pelos árabes que se separaram do Judaísmo (Jerusalém) e do Cristianismo (Cristo). depois de uma luta sangrenta. em árabe). a fé islâmica (“Islam” = obediência a Deus). do árabe al-Qur’an = a leitura). Maomé foi obrigado a emigrar para Medina. 2) Salat. Diferentemente dos profetas bíblicos. chamado Maomé pelos europeus. passou a substituir Jerusalém. meditando numa caverna.

Os cidadãos que nascem sob o signo de Alá são obrigados a rezar cinco vezes por dia. o americano Abraham Lincoln. Transcrevemos um trecho deste tratado de política. na astúcia. onde predomina a religião muçulmana.212 Gamal Abdel Nasser. usando a linguagem da cozinha. que obrigue um político a cumprir o que promete durante a campanha eleitoral. os USA. Podemos apenas culpar a imbecilidade humana. nos nossos tempos. a teoria maquiavélica ainda vigora sob a forma de barganhas: compram-se os votos em troca de favores. entendida como ato consciente de escolha. chegando até a genocídios. Nicolau Maquiavel (1469-1527) foi um nobre florentino. a força das circunstâncias. A essência da tese de Maquiavel é que a política é “amoral”. e por fim superaram os que se fundaram em sua lealdade”. a virtude do “Príncipe” deveria se fundamentar na inteligência. a única capaz de nos dar a idéia do infinito. e manipularam os dogmas da fé com finalidades políticas e econômicas. não pode existir uma sociedade islâmica sem um Estado islâmico absolutista. a jejuar durante um mês. na falta de escrúpulos. Saddam Hussein. para o Islamismo. cujo realismo é de uma impressionante atualidade: “Todos sabem quão louvável é um príncipe ser fiel à sua palavra e proceder com integridade e não com astúcia. já foi cria do governo americano e teve como modelo para sua brutalidade os partidos nazista e comunista da Europa. de sentir e de agir. A religião muçulmana estimularia regimes autoritários. sustenta a tese oposta à do renascentista italiano: “Podeis reduzir-me o corpo a cinzas e dis