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Exegese Do Salmo 46

Exegese Do Salmo 46

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SEMINÁRIO TEOLÓGICO DO NORDESTE

MEMORIAL IGREJA PRESBITERIANA DA CORÉIA



CURSO DE BACHAREL EM TEOLOGIA







DEUS É A PROTEÇÃO DO SEU POVO
Uma análise exegética do Salmo 46

André Aloísio Oliveira da Silva






















TERESINA
Junho de 2013
ii

ANDRÉ ALOÍSIO OLIVEIRA DA SILVA












DEUS É A PROTEÇÃO DO SEU POVO







Trabalho apresentado ao Rev. Jefté Alves
para avaliação na disciplina Exegese do
Antigo Testamento 2.














TERESINA
Junho de 2013
iii

Castelo forte é nosso Deus,
Espada e bom escudo!
Com seu poder defende os seus
Em todo transe agudo.
Com fúria pertinaz
Persegue Satanás
Com ânimo cruel!
Mui forte é o Deus fiel,
Igual não há na terra.

A força do homem nada faz,
Sozinho está perdido!
Mas nosso Deus socorro traz
Em seu Filho escolhido.
Sabeis quem é? Jesus.
O que venceu na cruz,
Senhor dos altos céus,
E sendo o próprio Deus,
Triunfa na batalha.

Se nos quisessem devorar
Demônios não contados,
Não nos iriam derrotar
Nem ver-nos assustados.
O príncipe do mal,
Com seu plano infernal,
Já condenado está!
Vencido cairá
Por uma só palavra.

De Deus o verbo ficará,
Sabemos com certeza,
E nada nos assustará
Com Cristo por defesa!
Se temos de perder
Família, bens, prazer,
Se tudo se acabar
E a morte enfim chegar,
Com ele reinaremos!

Hino Castelo Forte, de Martinho Lutero
Tradução de J. E. Von Hafe

iv

AGRADECIMENTOS

A Deus, que tem sido a minha proteção há doze anos.

À Jacilene Santos da Silva Oliveira, minha querida esposa, que tem me apoiado em
todos os meus empreendimentos no Reino de Deus.

Ao Rev. Jefté Alves, cujas aulas foram uma verdadeira lição de como interpretar o
Saltério com erudição e piedade.


































v

SIGLAS E ABREVIATURAS

ACF: Almeida Corrigida e Fiel
ARA: Almeida Revista e Atualizada
BHS: Biblia Hebraica Stuttgartensia
LXX: Septuaginta
NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje
NVI: Nova Versão Internacional






























vi

RESUMO

Este trabalho é uma análise exegética do Salmo 46, onde se objetiva mostrar e aplicar
a verdade expressa por esse Salmo, que é a de que Deus é a proteção do Seu povo, o que
produz no povo de Deus coragem nas aflições, estabilidade diante dos inimigos e paz em
lugar de guerra.





































vii

SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 1
2. TRADUÇÃO E ANÁLISE MANUSCRITOLÓGICA ............................................ 2
2.1. Tradução literal ............................................................................................................... 2
3.2. Análise manuscritológica ................................................................................................ 8
2.3. Tradução final ................................................................................................................. 8
2.4. Traduções comparadas .................................................................................................... 9
3. ESTRUTURA ...................................................................................................... 12
4. ANÁLISE INTRODUTÓRIA ............................................................................... 13
4.1. Autoria ..........................................................................................................................13
4.2. Público-alvo...................................................................................................................13
4.3. Gênero literário ..............................................................................................................13
4.4. Contexto literário ...........................................................................................................13
4.5. Contexto histórico ..........................................................................................................14
5. ANÁLISE TEOLÓGICA ...................................................................................... 15
6. APLICAÇÃO ....................................................................................................... 18
7. CRISTOLOGIA ................................................................................................... 20
8. ESBOÇO DO SERMÃO ...................................................................................... 21
9. CONCLUSÃO...................................................................................................... 22
10. BIBLIOGRAFIA ................................................................................................ 23




1


1. INTRODUÇÃO
1


O Salmo 46 tem sido uma fonte de consolo para os cristãos em meio às aflições no
decorrer da história. Mas certamente a história mais conhecida que demonstra esse fato é
aquela envolvendo Martinho Lutero e seu hino Castelo Forte. Conta-se que em sua viagem à
Dieta de Worms, em 1521, onde Lutero seria incitado a negar tudo o que havia escrito até
então, Lutero meditava no Salmo 46. E foi justamente no caminho para Worms que Lutero
compôs o conhecido hino Castelo Forte, uma versão do Salmo 46. Foi desse Salmo que
Lutero tirou forças para não se retratar e permanecer firme em sua posição, com sua
consciência cativa à Palavra de Deus, ainda que estivesse com sua vida em risco. Desde então,
sempre quando Lutero se sentia ameaçado por uma nova dificuldade, costumava dizer:
“Venham, vamos cantar o Salmo 46”.
Diante disso, o objetivo deste trabalho será analisar exegeticamente o Salmo 46, para
descobrir a mensagem desse Salmo que tem consolado o povo de Deus ao longo dos séculos.
Isso será feito com a seguinte metodologia: primeiro, uma tradução do texto hebraico, onde
será feita uma análise morfológica e manuscritológica; segundo, uma apresentação da
estrutura da passagem de acordo com a sua gramática e temática; terceiro, uma análise
introdutória, envolvendo autoria, público-alvo, gênero literário, contexto literário e contexto
histórico; quarto, uma análise teológica de todo o Salmo; quinto, uma apresentação de
aplicações válidas do Salmo para a Igreja do século XXI; sexto, uma apresentação de Cristo
no Salmo; e último, um esboço de sermão nesse Salmo.



















1
Todas as citações bíblicas neste trabalho, que não sejam do Salmo 46, foram retiradas da ARA.
2


2. TRADUÇÃO E ANÁLISE MANUSCRITOLÓGICA

2.1. Tradução literal
2


···: -·:¬.¬. ··¡·.:¬ ·s . : ¬
1

··s : ss:. -··s: ¬··. ·.· ¬:·: ·.¬ :·¬ ¬s

Palavra Morfologia
3
Tradução
·s . : ¬

¬ Preposição
¬ Artigo
·s. Verbo particípio Piel masc. sing.
absoluto
Para o diretor de música
··¡·.:¬ ¬ Preposição
¸: Substantivo comum masc. pl. construto
··¡ Substantivo próprio
Dos filhos de Coré
-·:¬.¬. ¬. Preposição
-·:¬. Substantivo comum fem. pl. absoluto
Sobre Alamote
··: ··: Substantivo comum masc. sing. absoluto
Cântico
:·¬ ¬s :·¬ ¬s Substantivo comum masc. pl.
absoluto
Deus
·.¬ ¬ Preposição com sufixo pronominal 1ª
comum pl.
Para nós
¬:·: ¬:·: Substantivo comum masc. sing.
absoluto
Um refúgio
·.· · Conjunção
·. Substantivo comum masc. sing. absoluto
E uma fortaleza
¬··. ¬··. Substantivo comum fem. sing. absoluto
Um socorro
-··s: : Preposição
¬·s Substantivo comum fem. pl. absoluto
Em aflições
ss:. ss: Verbo perfeito Nifal 3ª masc. sing.
Foi encontrado
·s : ·s : Advérbio
Muito


1
Para o diretor de música. Dos filhos de Coré. Sobre Alamote. Cântico.
Deus, para nós, um refúgio e uma fortaleza, um socorro em aflições foi muito
encontrado.


2
A tradução foi feita com base no texto da BHS, mas a numeração dos versos segue a versão ARA.
3
A nomenclatura da análise morfológica está baseada em KELLEY, Hebraico bíblico.
3


·:·:· :¬: :··¬ z·: :· ¦·s ··: ¬: s··.s¬ ¸:¬.
2


Palavra Morfologia Tradução
¸:¬. ¸:¬. Advérbio
Portanto
s··.s¬ s¬ Partícula negativa
s·· Verbo imperfeito Qal 1ª comum pl.
Não temeremos
··: ¬: : Preposição
··: Verbo infinitivo Hifil construto
Ainda que tremer
¦·s ¦·s Substantivo comum fem. sing. absoluto
Terra
z·: :· · Conjunção
: Preposição
z·: Verbo infinitivo Qal construto
E ainda que abalar
:··¬ ·¬ Substantivo comum masc. pl. absoluto
Montes
:¬: : Preposição
:¬ Substantivo comum masc. sing. construto
Em coração de
:·:· :· Substantivo comum masc. pl. absoluto
Mares


2
Portanto, não temeremos ainda que tremer terra e ainda que abalar montes em
coração de mares.

·¬¬ : ·-·s.: :··¬·:.·· ··: ·: ··:·· ·: ¬·
3


Palavra Morfologia Tradução
·: ¬· ¬:¬ Verbo imperfeito Qal 3ª masc. pl.
Bramam
··:·· ·:· Verbo imperfeito Qal 3ª masc. pl.
Espumam
··: ·: :·: Substantivo comum masc. pl.
construto com sufixo pronominal 3ª masc.
sing.
As águas dele
:·· ¬·:.·· :.· Verbo imperfeito Qal 3ª masc. pl.
·¬ Substantivo comum masc. pl. absoluto
Estremecem montes
·-·s.: : Preposição
¬·s. Substantivo comum fem. sing.
construto com sufixo pronominal 3ª masc.
sing.
Na fúria dele
¬¬: ¬¬: Interjeição
Selá


3
Bramam, espumam as águas dele, estremecem montes na fúria dele. Selá.

·¸··¬. ·. ::: :·¡ :·¬ ¬s··. ··:c· ··.¬e ·¬.
4

4



Palavra Morfologia Tradução
·¬. ·¬. Substantivo comum masc. sing.
absoluto
Um rio
··.¬e .¬e Substantivo comum masc. pl. construto
com sufixo pronominal 3ª masc. sing.
Cujos canais
··:c· ·:c Verbo imperfeito Piel 3ª masc. pl.
Alegram
:·¬ ¬s··. ··. Substantivo comum fem. sing. construto
:·¬ ¬s Substantivo comum masc. pl.
absoluto
A cidade de Deus
:·¡ :··¡ Adjetivo masc. sing. construto
O Santuário de
·. ::: ¸::: Substantivo comum masc. pl.
construto
As moradas de
¸··¬. ¸··¬. Adjetivo masc. sing. absoluto
O Altíssimo


4
Um rio cujos canais alegram a cidade de Deus, o santuário das moradas do
Altíssimo.

··¡: -·.e¬ :·¬ ¬s ¬··.· z·:- ¬: ¬:·¡: :·¬¬s
5


Palavra Morfologia Tradução
:·¬ ¬s :·¬ ¬s Substantivo comum masc. pl.
absoluto
Deus
¬:·¡: : Preposição
:·¡ Substantivo comum masc. sing.
construto com sufixo pronominal 3ª fem. sing.
No meio dela
z·:-¬: ¬: Advérbio
z·: Verbo imperfeito Nifal 3ª fem. sing.
Não será abalada
¬··.· ··. Verbo imperfeito Qal 3ª masc. sing. com
sufixo pronominal 3ª fem. sing.
Socorrerá ela
:·¬ ¬s :·¬ ¬s Substantivo comum masc. pl.
absoluto
Deus
-·.e¬ ¬ Preposição
¬.e Verbo infinitivo Qal construto
Ao romper de
·¡: ·¡: Substantivo comum masc. sing. absoluto
Manhã


5
Deus no meio dela, não será abalada, Deus a socorrerá ao romper de manhã.

·¦·s .·: - ·¬·¡: ¸-. -·:¬:: ·z: :··. ·: ¬
6


5


Palavra Morfologia Tradução
·: ¬

¬:¬ Verbo perfeito Qal 3ª comum pl.
Bramaram
:··. ··. Substantivo comum masc. pl. absoluto
Nações
·z: z·: Verbo perfeito Qal 3ª comum pl.
Abalaram-se
-·:¬:: ¬:¬:: Substantivo comum fem. pl.
absoluto
Reinos
¸-. ¸-. Verbo perfeito Qal 3ª masc. sing.
Ele levantou
·¬·¡: : Preposição
¬·¡ Substantivo comum masc. sing.
construto com sufixo pronominal 3ª masc.
sing.
A sua voz
.·: - .·: Verbo imperfeito Qal 3ª fem. sing.
Derrete-se
¦·s ¦·s Substantivo comum fem. sing. absoluto
Terra


6
Bramaram nações, abalaram-se reinos, ele levantou a sua voz e derrete-se terra.

·¬¬: :¡.· ·¬¬s ·.¬:.c: ·.:. -·s:s ¬·¬·
7


Palavra Morfologia Tradução
¬·¬· ¬·¬· Substantivo próprio
O SENHOR de
-·s:s s:s Substantivo comum masc. ou fem. pl.
absoluto
Exércitos
·.:. :. Preposição com sufixo pronominal 1ª
comum pl.
Conosco
·.¬:.c: :.c: Substantivo comum masc. sing.
absoluto
¬ Preposição com sufixo pronominal 1ª
comum pl.
Alto refúgio para nós
·¬¬s :·¬ ¬s Substantivo comum masc. pl.
construto
O Deus de
:¡.· :¡.· Substantivo próprio
Jacó
¬¬: ¬¬: Interjeição
Selá


7
O SENHOR de Exércitos conosco, alto refúgio para nós o Deus de Jacó. Selá.

·¦·s: -·:: :c·:s ¬·¬· -·¬.e: ····:¬
8


Palavra Morfologia Tradução
····:¬ ¡¬¬ Verbo imperativo Qal masc. pl.
Vinde, contemplai
6


¬·· Verbo imperativo Qal masc. pl.
-·¬.e: ¬¬.e: Substantivo comum fem. pl.
construto
As obras de
¬·¬· ¬·¬· Substantivo próprio
O SENHOR
:c·:s ·:s Partícula relativa
:·c Verbo perfeito Qal 3ª masc. sing.
Que fez
-·:: ¬:: Substantivo comum fem. pl. absoluto
Devastações
¦·s: : Preposição
¬ Artigo
¦·s Substantivo comum fem. sing. absoluto
Na terra


8
Vinde, contemplai as obras do SENHOR que fez devastações na terra.

·:s : ¸·c· -·¬.. -·.· ¦s ¡· ·::· -:¡ ¦·s¬ ¬s¡·. -·:·¬: -·:::
9


Palavra Morfologia Tradução
-·:::

-:: Verbo particípio Hifil masc. sing.
absoluto
Faz cessar
-·:·¬: ¬: ·¬: Substantivo comum fem. pl.
absoluto
Guerras
¬s¡·. ·. Preposição
¬s¡ Substantivo comum masc. sing.
construto
Até o fim de
¦·s¬ ¬ Artigo
¦·s Substantivo comum fem. sing. absoluto
A terra
-:¡ -:¡ Substantivo comum fem. sing. absoluto
Arco
·::· ·:: Verbo imperfeito Piel 3ª masc. sing.
Quebra
¦s ¡· · Conjunção
¦s¡ Verbo perfeito Piel com vav consecutivo
3ª masc. sing.
E despedaça
-·.· -·.· Substantivo comum fem. sing. absoluto
Lança
-·¬.. ¬¬.. Substantivo comum fem. pl. absoluto
Carros
¸·c· ¸·c Verbo imperfeito Qal 3ª masc. sing.
Queima
:s : : Preposição
¬ Artigo
:s Substantivo comum masc. ou fem. sing.
absoluto
No fogo

7



9
Faz cessar guerras até o fim da terra, arco quebra e despedaça lança, carros queima
no fogo.

·¦·s: :··s :··.: :··s :·¬ ¬s ·:.s ·: ·.·· ·e·¬
10


Palavra Morfologia Tradução
·e ·¬

¬e· Verbo imperativo Hifil masc. pl.
Aquietai-vos
·.·· · Conjunção
.·· Verbo imperativo Qal masc. pl.
E sabei
·:.s·: ·: Conjunção
·:. s Pronome pessoal independente 1ª
comum sing.
Que eu
:·¬ ¬s :·¬ ¬s Substantivo comum masc. pl.
absoluto
Deus
:··s :·· Verbo imperfeito Qal 1ª comum sing.
Serei exaltado
:··.: : Preposição
¬ Artigo
··. Substantivo comum masc. pl. absoluto
Entre as nações
:··s :·· Verbo imperfeito Qal 1ª comum sing.
Serei exaltado
¦·s: : Preposição
¬ Artigo
¦·s Substantivo comum fem. sing. absoluto
Na terra


10
Aquietai-vos e sabei que eu, Deus, serei exaltado entre as nações, serei exaltado na
terra.

·¬¬: :¡.· ·¬¬s ·.¬:.c: ·.:. -·s:s ¬·¬·
11


Palavra Morfologia Tradução
¬·¬·

¬·¬· Substantivo próprio
O SENHOR de
-·s:s s:s Substantivo comum masc. ou fem. pl.
absoluto
Exércitos
·.:. :. Preposição com sufixo pronominal 1ª
comum pl.
Conosco
·.¬:.c: :.c: Substantivo comum masc. sing.
absoluto
¬ Preposição com sufixo pronominal 1ª
comum pl.
Alto refúgio para nós
·¬¬s :·¬ ¬s Substantivo comum masc. pl.
O Deus de
8


construto
:¡.· :¡.· Substantivo próprio
Jacó
¬¬: ¬¬: Interjeição
Selá


11
O SENHOR de Exércitos conosco, alto refúgio para nós o Deus de Jacó. Selá.

3.2. Análise manuscritológica

Verso 3: A BHS sugere que depois da palavra ·-·s.: seja inserido o texto dos
vv.7,11. Apesar de tal procedimento deixar o salmo estruturalmente mais interessante, com o
mesmo refrão no final de cada estrofe, não há nenhuma variante textual que apoie essa leitura
e, portanto, tal sugestão é apenas uma especulação.

Verso 7: A Peshita omite a palavra ¬¬:. Porém, a grande maioria dos manuscritos
hebraicos e versões (inclusive a LXX) trazem tal palavra, sendo melhor conservá-la como
original.

Verso 8: Muitos manuscritos hebraicos medievais, o Códice Alexandrino, o texto
grego da LXX da recensão de Luciano e a Peshita trazem :·¬ ¬s, ao invés de ¬·¬·, como no
Sl 66.5. Porém, baseado no princípio da evidência interna de que a variante em desacordo
deve ser preferida, essa variante não é original, mas apenas uma harmonização dos dois
salmos feita por escribas.

Verso 9: A LXX traz kai qureouj (“e escudos”) no lugar de -·¬.., (“carros”),
interpretando a palavra hebraica como -·¬..· (“e escudos”). O Targum faz o mesmo ao
traduzir para o aramaico. Isso acontece porque, no hebraico, a única diferença entre essas duas
palavras é de vocalização (o kai pode ser apenas um acréscimo estilístico na tradução). Como
ainda não havia vogais no texto hebraico quando a LXX foi traduzida, qualquer uma das duas
leituras é possível. Apesar disso, pelo princípio da evidência interna de que deve ser escolhida
a variante que melhor se harmonize com o contexto, “e escudos” deve ser a leitura original,
porque combina melhor com as armas mencionadas anteriormente neste verso: arco e lança.

Verso 11: A LXX e a Peshita omitem ¬¬:. Novamente, porém, por causa da grande
quantidade de manuscritos hebraicos que trazem essa palavra, parece melhor mantê-la como a
leitura original.

2.3. Tradução final


1
Para o diretor de música. Dos filhos de Coré. Sobre Alamote. Cântico.

Deus é, para nós, um refúgio e uma fortaleza,
nele foi encontrado um excelente socorro nas aflições.
9



2
Portanto, não temeremos, ainda que a terra trema
e que os montes se abalem no coração dos mares,

3
ainda que as águas bramem e espumem,
e que os montes estremeçam na sua fúria. Selá.


4
Há um rio cujos canais alegram a cidade de Deus,
o santuário das moradas do Altíssimo.

5
Deus está no meio dela, não será abalada,
Deus a socorrerá ao romper da manhã.

6
Nações bramam, reinos se abalam,
ele levanta a sua voz e a terra se derrete.

7
O SENHOR dos Exércitos está conosco,
o Deus de Jacó é um alto refúgio para nós. Selá.


8
Vinde, contemplai as obras do SENHOR,
que devastações fez na terra.

9
Faz cessar as guerras até o fim da terra,
quebra o arco e despedaça a lança,
e queima os escudos no fogo.

10
Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus,
serei exaltado entre as nações, serei exaltado na terra.

11
O SENHOR dos Exércitos está conosco,
o Deus de Jacó é um alto refúgio para nós. Selá.

2.4. Traduções comparadas

Almeida Corrigida e Fiel: Cântico sobre Alamote, para o músico-mor entre os filhos
de Coré.
1
DEUS é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia.
2
Portanto
não temeremos, ainda que a terra se mude, e ainda que os montes se transportem para o meio
dos mares.
3
Ainda que as águas rujam e se perturbem, ainda que os montes se abalem pela
sua braveza. (Selá.)
4
Há um rio cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário das
moradas do Altíssimo.
5
Deus está no meio dela; não se abalará. Deus a ajudará, já ao romper
da manhã.
6
Os gentios se embraveceram; os reinos se moveram; ele levantou a sua voz e a
terra se derreteu.
7
O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio.
(Selá.)
8
Vinde, contemplai as obras do SENHOR; que desolações tem feito na terra!
9
Ele faz
cessar as guerras até ao fim da terra; quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo.
10
Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus; serei exaltado entre os gentios; serei exaltado sobre
a terra.
11
O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio. (Selá.)
Comentário: No título do Salmo, a ACF também não traduz o termo “Alamote”, cujo
significado não se sabe precisamente. Ainda no título, interpreta-se que o músico-mor é de
entre os filhos de Coré. Nessa interpretação, “dos filhos de Coré” é entendido não como
indicando a autoria do Salmo, mas a procedência do músico-mor. Apesar dessa interpretação
ser possível gramaticalmente, não é provável diante de outros salmos (48, 87) onde a
expressão “dos filhos de Coré” refere-se claramente à autoria do Salmo. No v.6, a ACF traduz
10


todos os verbos no passado, porque no hebraico todos eles estão no perfeito, exceto o último,
que está no imperfeito. É difícil decidir aqui se é melhor traduzir todos no passado ou todos
no presente. No v.9, a ACF escolhe a variante textual “carros” do texto massorético. No v.10,
a ACF também traduz o verbo “ser exaltado” no futuro, tradução possível do imperfeito
hebraico e preferível diante do significado da passagem. O termo “Selá” que aparece nos
vv.3,7,11 não é traduzido, por não ter um significado claro.

Nova Tradução na Linguagem de Hoje: Ao regente do coro – para soprano. Canção
do grupo de Corá.
1
Deus é o nosso refúgio e a nossa força, socorro que não falta em tempos
de aflição.
2
Por isso, não teremos medo, ainda que a terra seja abalada, e as montanhas caiam
nas profundezas do oceano.
3
Não teremos medo, ainda que os mares se agitem e rujam, e os
montes tremam violentamente.
4
Há um rio que alegra a cidade de Deus, a casa sagrada do
Altíssimo.
5
Deus vive nessa cidade, e ela nunca será destruída; de manhã bem cedo, Deus a
ajudará.
6
As nações ficam apavoradas, e os reinos são abalados. Deus troveja, e a terra se
desfaz.
7
O SENHOR Todo-Poderoso está do nosso lado; o Deus de Jacó é o nosso refúgio.
8

Venham, vejam o que o SENHOR tem feito! Vejam que coisas espantosas ele tem feito na
terra!
9
Ele acaba com as guerras no mundo inteiro; quebra os arcos, despedaça as lanças e
destrói os escudos no fogo.
10
Ele diz: “Parem de lutar e fiquem sabendo que eu sou Deus. Eu
sou o Rei das nações, o Rei do mundo inteiro”.
11
O SENHOR Todo-Poderoso está do nosso
lado; o Deus de Jacó é o nosso refúgio.
Comentário: No título, a NTLH traduz o termo “Alamote” como “para soprano”, uma
tradução possível, apesar do significado do termo ser incerto. A tradução literal do termo é
“sobre moças” e alguns o entendem como uma referência à voz feminina ou aos instrumentos
que deveriam acompanhar a voz feminina.
4
No v.9, a NTLH também escolhe a variante
textual “escudos”, como na LXX e no Targum. No v.10, ela interpreta o “aquietai-vos” como
“parem de lutar”, o que é uma boa interpretação diante do contexto imediato do verso. Porém,
ainda no v.10, o verbo “ser exaltado” é interpretado como “ser rei” e isso no presente, o que
não é uma boa interpretação, como se verá. O termo “Selá” do texto hebraico não é
apresentado na tradução da NTLH.

Nova Versão Internacional: Para o mestre de música. Dos coraítas. Para vozes
agudas. Um cântico.
1
Deus é o nosso refúgio e a nossa fortaleza, auxílio sempre presente na
adversidade.
2
Por isso não temeremos, ainda que a terra trema e os montes afundem no
coração do mar,
3
ainda que estrondem as suas águas turbulentas e os montes sejam sacudidos
pela sua fúria. [Pausa]
4
Há um rio cujos canais alegram a cidade de Deus, o Santo Lugar onde
habita o Altíssimo.
5
Deus nela está! Não será abalada! Deus vem em seu auxílio desde o
romper da manhã.
6
Nações se agitam, reinos se abalam; ele ergue a voz, e a terra se derrete.
7

O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é a nossa torre segura. [Pausa]
8

Venham! Vejam as obras do SENHOR, seus feitos estarrecedores na terra.
9
Ele dá fim às
guerras até os confins da terra; quebra o arco e despedaça a lança; destrói os escudos com
fogo.
10
“Parem de lutar! Saibam que eu sou Deus! Serei exaltado entre as nações, serei

4
Cf. HOLLADAY, Léxico hebraico e aramaico do Antigo Testamento.
11


exaltado na terra”.
11
O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é a nossa torre
segura. [Pausa]
Comentário: No título, a NVI traduz o termo “Alamote” por “para vozes agudas”,
semelhante à NTLH. No v.10, a NVI interpreta “aquietai-vos” como “parem de lutar”, à
semelhança da NTLH, e traduz o verbo “ser exaltado” no futuro, à semelhança da ACF. O
termo “Selá” é traduzido como “Pausa” nos vv.3,7,11, uma tradução possível, apesar do
significado do termo não ser claro.





































12


3. ESTRUTURA

Este Salmo é naturalmente dividido em três estrofes, o que pode ser percebido por três
fatos. Primeiro, a palavra “Selá” aparece no final dos vv.3,7,11, indicando o fim de cada uma
das estrofes. Não se sabe ao certo o significado dessa palavra, mas ela é um termo técnico
suplementar em música e recitação, e pode indicar, como parece ser o caso aqui, uma pausa
para interlúdio instrumental.
5
Segundo, há um refrão que se repete nos vv.7,11, indicando o
fim das estrofes dois e três. Terceiro, há uma mudança no uso dos pronomes para se referir ao
povo de Deus em cada uma das estrofes, sem levar em conta os refrãos. Na primeira estrofe, o
povo de Deus é referido como “nós”, na segunda estrofe, como “ela” (referindo-se à cidade de
Deus), e na terceira estrofe, como “vós”. Assim, a estrutura do Salmo 46 é a seguinte:

Título (v.1a)

1ª Estrofe (vv.1b-3)
Fato: Deus é uma proteção (v.1b)
Resultado: O povo de Deus não teme (v.2a)
Situação: Cataclismos naturais (vv.2b-3)

2ª Estrofe (vv.4-7)
Descrição da cidade de Deus (v.4)
Fato: Deus está no meio da Sua cidade (v.5a)
Resultado: A cidade de Deus não será abalada, mas socorrida (v.5b)
Situação: Nações inimigas (v.6a)
Fala de Deus às nações inimigas (v.6b)
Refrão: Deus é uma proteção (v.7)

3ª Estrofe (vv.8-11)
Convite ao povo de Deus: contemplar as devastações de Deus (v.8)
Descrição das devastações de Deus: fim da guerra (v.9)
Fala de Deus às nações inimigas: chamado à conversão (v.10)
Refrão: Deus é uma proteção (v.11)







5
Cf. HOLLADAY, Léxico hebraico e aramaico do Antigo Testamento.
13


4. ANÁLISE INTRODUTÓRIA

4.1. Autoria

Como diz o título do Salmo, ele é da autoria dos filhos de Coré. Eles são mencionados
pela primeira vez em Nm 26.58, como uma das principais famílias levíticas, e em 2Cr 20.19
estão envolvidos com o louvor ao Senhor. Outros salmos dos filhos de Coré são 42-
49,84,85,87 e 88.

4.2. Público-alvo

Este Salmo é dirigido “Para o diretor de música”, provavelmente um supervisor da
música no templo. Mesmo que essa expressão seja um colofão que pertença ao salmo anterior,
como alguns estudiosos defendem
6
, ela também aparece no início do Salmo 47, e nesse caso
estaria relacionada ao Salmo 46. Porém, certamente o público-alvo do Salmo, tanto quando
foi inicialmente redigido quanto quando foi incluído no Saltério, era mais amplo do que o
diretor de música, incluindo todo o povo de Deus que participava da adoração no templo.

4.3. Gênero literário

O gênero literário de todo o Livro dos Salmos é a poesia hebraica. A poesia hebraica
tem como principal característica o uso do paralelismo e das imagens, ao contrário da poesia
ocidental, cujo ponto forte é a rima e a métrica.
7

O Salmo 46, especificamente, não pode ser enquadrado em uma categoria formal de
salmos, como os hinos, lamentos ou canções de agradecimento. Porém, ele tem muito em
comum com as chamadas canções de confiança que, apesar de não terem uma forma padrão,
apresentam uma temática em comum:

Tal como os lamentos, as canções de confiança em geral lidam com algum tipo de aflição pessoal.
Esta aflição não parece ser tão dolorosa como aquelas indicadas nos lamentos. A aflição já parece estar
um pouco mais distante, mas ainda é sentida de algum modo. Por outro lado, tal como as canções de
agradecimento, as canções de confiança expressam certeza incontestável no poder de Deus para salvar.
Este tom confiante é o tema dominante e a característica definidora desta categoria.
8


A imagem de Deus como refúgio se destaca no Salmo 46, característica que ele tem
em comum com vários outros Salmos, especialmente 48, 90, 91, 92 e 94.
9


4.4. Contexto literário


6
Cf. FUTATO, Interpretação dos Salmos, p.101.
7
Cf. FUTATO, Interpretação dos Salmos, p.14.
8
FUTATO, Interpretação dos Salmos, p.141.
9
Segundo Futato, “o Senhor como refúgio é, na realidade, a segunda metáfora mais importante empregada
nos Salmos, sendo a primeira a do Senhor como rei” (Interpretação dos Salmos, p.82).
14


O Salmo 46 se localiza em um contexto literário estratégico. Há um entrelaçamento
dos salmos 45 ao 48. Enquanto os salmos 45 e 47 são salmos sobre a realeza, os salmos 46 e
48 são salmos de refúgio. Mark D. Futato afirma: “O entrelaçamento literário dos salmos
sobre realeza e refúgio demonstra artisticamente o entrelaçamento conceitual destes dois
motivos”.
10
Em outras palavras, existe uma ligação muito íntima entre a imagem de Deus
como rei e de Deus como refúgio, pois a função de proteção estava associada ao ofício de
rei.
11


4.5. Contexto histórico

Alguns apontam como contexto histórico desse Salmo a vitória de Josafá sobre Moabe
e Amom (2Cr 20.1-30)
12
ou a destruição do exército assírio nos tempos de Ezequias (Is 37.36-
38). Porém, nenhum desses dois contextos históricos parece se harmonizar bem com este
Salmo, conforme se perceberá na análise teológica. Na verdade, o contexto histórico do
Salmo 46 não pode ser determinado com precisão, o que deve ter sido proposital, a fim de que
ele falasse mais diretamente às mais diversas situações no decorrer da história do povo de
Deus.





















10
Interpretação dos Salmos, p.88.
11
Cf. FUTATO, Interpretação dos Salmos, p.86.
12
Cf. HARMAN, Salmos, p.203.
15


5. ANÁLISE TEOLÓGICA

O Salmo 46 usa a imagem de Deus como refúgio para ensinar a verdade de que Deus é
a proteção do Seu povo. Esse tema pode ser percebido em todo o Salmo, especialmente no
v.1, da primeira estrofe, e nos vv.7,11, que são refrãos das segunda e terceira estrofes
respectivamente. Em cada estrofe esse tema é desenvolvido em termos do que produz no povo
de Deus o fato Dele ser uma proteção.
Na primeira estrofe (vv.1-3), o salmista mostra que o fato de Deus ser a proteção do
Seu povo produz coragem nas aflições.
No v.1, o salmista afirma que Deus é a proteção do Seu povo, usando três imagens.
Primeiro, a imagem do refúgio, que é “um abrigo, um lugar de segurança e proteção de
elementos hostis como o sol abrasador ou a chuva congelante”.
13
Segundo, a imagem da
fortaleza, um lugar fortificado usado para se proteger do exército inimigo. Terceiro, a imagem
do socorro. O salmista diz que em Deus foi encontrado um excelente socorro nas aflições.
Parece que o salmista tem em mente algum evento do passado da história de Israel, no qual
Deus socorreu Seu povo quando este passava por aflições.
Então, no v.2, o salmista prossegue mostrando a coragem que é resultado da proteção
que o povo de Deus tem Nele, o que pode ser percebido no uso da palavra “portanto”, no
início do v.2. Porque Deus é a proteção do Seu povo, eles não precisam ter medo. Em outras
palavras, eles podem ser corajosos.
Essa coragem não existe no povo de Deus apenas quando tudo vai bem, mas também
quando tudo vai mal. O povo de Deus não teme, “ainda que” pareça que o mundo está
acabando. Por isso, na continuação do v.2 e no v.3, o salmista apresenta algumas aflições que
o povo de Deus pode passar, e nas quais não temerá, usando imagens de cataclismos naturais.
O salmista descreve um terremoto (tremor da terra, montes caindo nos mares e estremecendo)
e um maremoto (águas bramando e espumando). Mesmo em situações semelhantes a esses
cataclismos, o povo de Deus tem coragem, porque Deus é a Sua proteção.
Na segunda estrofe (vv.4-7), o salmista demonstra que o fato de Deus ser a proteção
do Seu povo produz estabilidade diante dos inimigos. Se antes o salmista estava descrevendo
o povo de Deus usando o pronome “nós”, agora ele vai usar a imagem da cidade de Deus:
Jerusalém.
No v.4, o salmista passa a descrever um rio cujos canais alegram Jerusalém. O rio
mencionado aqui é uma referência à torrente que fluía de Siloé e que atravessava a cidade de
Jerusalém. Essa imagem é utilizada para se referir à tranquilidade presente no povo de Deus.
Ao contrário do mar agitado da estrofe anterior, a cidade de Deus é alegrada por águas
tranquilas que correm no meio dela. Esses canais também alegram o santuário das moradas do
Altíssimo, uma referência ao templo de Jerusalém, onde Deus habitava.
A referência ao templo leva o salmista a falar sobre a presença de Deus na cidade de
Deus, no v.5. Deus está no meio da cidade de Deus, Deus habita com Seu povo. E o fato de
Deus estar no meio da Sua cidade resulta em que ela não será abalada. Se Deus é inabalável e
está no meio da Sua cidade, segue-se que ela também não será abalada. Os montes podem se
abalar, mas a cidade de Deus permanecerá.

13
FUTATO, Interpretação dos Salmos, p.83.
16


O salmista prossegue no v.5, mostrando que muito ao contrário de ser abalada, a
cidade de Deus será socorrida por Deus. O verbo “socorrer” aqui é da mesma raiz da palavra
“socorro” no v.1. O Deus, no qual foi encontrado um excelente socorro nas aflições (v.1), é
quem socorrerá a Sua cidade. E ele o fará “ao romper da manhã”. A ideia é de alguém que,
em sua ansiedade por concretizar um objetivo, age mais cedo do que as pessoas costumam
agir. Deus se antecipa em socorrer o Seu povo e assim ele não é abalado.
Mas qual é a situação na qual a cidade de Deus não será abalada? O salmista indica, no
v.6, que ela não será abalada diante dos inimigos; pelo contrário, ela terá estabilidade diante
deles. Agora o salmista deixa a cidade de Deus para falar das outras nações, inimigas do povo
de Deus. Ele usa para as nações e os reinos os mesmos verbos que tinha usado anteriormente
para as águas e os montes. As nações bramam, assim como as águas (v.3), e os reinos se
abalam, assim como os montes (v.2). Isso indica que, ao usar as imagens dos cataclismos
naturais nos vv.2,3, o salmista estava pensando especialmente nas aflições que sobrevêm ao
povo de Deus por causa dos seus inimigos. O verbo “bramar” usado para as nações lembra o
barulho das ondas, mostrando a fúria dessas nações contra o povo de Deus. O verbo “abalar”
usado para os reinos, por outro lado, indica os reinos que são destruídos pelas nações
enquanto essas caminham contra o povo de Deus.
Porém, algo acontece antes que essas nações destruam também o povo de Deus. Deus
faz ouvir a Sua voz e a terra se derrete. Em outras palavras, Deus fala com Sua potente voz às
nações inimigas do povo de Deus e elas ficam atemorizadas: “Deus tem falado em meio ao
tumulto entre as nações vizinhas. Quando sua voz é ouvida, os habitantes da terra tremem de
pavor”.
14

Então, o salmista encerra essa estrofe no v.7, reafirmando o tema de que Deus é a
proteção do Seu povo em um refrão que se repetirá no v.11. Ele faz duas afirmações que
recapitulam o tema do Salmo. Primeiro, “O SENHOR dos Exércitos está conosco”. Deus é
chamado de SENHOR, o seu nome pactual, pela primeira vez no Salmo. Esse nome traz à
memória o grande Eu Sou, que tirou o Seu povo do Egito, libertando-o dos seus inimigos
egípcios (Ex 3.14-22). Além disso, Ele é o SENHOR “dos Exércitos”, um Deus de guerra.
Mas não só isso, esse Eu Sou, que é um Deus de guerra, “está conosco”. Ele está com Seu
povo, pois habita no meio dele (v.4), e luta por ele, como havia feito no passado (Ex 14.14).
Segundo, “O Deus de Jacó é um alto refúgio para nós”. Ele é o “Deus de Jacó”, o mesmo
Deus que esteve com os patriarcas na terra de Canaã e os protegeu de seus inimigos, e assim é
um alto refúgio para o seu povo, “um local fortificado para o qual alguém pudesse fugir e
sentir-se seguro, simbolizando assim a segurança que os crentes têm em Deus”.
15

Finalmente, na terceira estrofe (vv.8-11), o salmista afirma que o fato de Deus ser a
proteção do Seu povo produz paz em lugar de guerra.
No v.8, o salmista se dirige diretamente ao povo de Deus com um imperativo. Ele já
havia falado do povo de Deus em termos de “nós” e da “cidade de Deus”. Agora ele faz um
convite ao povo de Deus: que eles venham e contemplem as obras do SENHOR. Essas obras
de Deus são descritas como devastações que Ele fez na terra.

14
HARMAN, Salmos, p.204.
15
HARMAN, Salmos, p.204.
17


Então, no v.9, o salmista apresenta que devastações são essas: Deus faz cessar a guerra
até o fim da terra. A imagem que o salmista ainda tem em mente é aquela das nações
marchando contra a cidade de Deus da estrofe anterior. Porém, antes que elas possam destruir
o povo de Deus, Deus põe um fim à guerra.
Como Deus dá um fim à guerra? Ao contrário do que se poderia pensar, Deus não
acaba com a guerra pela destruição das nações inimigas do Seu povo, mas pela destruição das
armas de guerra.
16
O salmista continua o v.9 mostrando essa destruição das armas com uma
progressão nos verbos: o arco Deus apenas quebra, a lança Ele despedaça e o escudo Ele
queima no fogo.
As nações inimigas estão desarmadas. O que virá em seguida? No v.10, algo inusitado
acontece. Agora é o próprio Deus quem fala com um imperativo, dirigindo-se a essas nações
inimigas, agora desarmadas. Essa é a mesma voz de Deus ouvida pelas nações no v.6 da
estrofe anterior. Lá não foi mencionado o que Deus disse, que deixou as nações atemorizadas,
mas aqui o salmista registra: “Aquietai-vos”. Esse verbo hebraico significa “deixar sozinho,
abandonar”.
17
Deus ordena que essas nações inimigas desistam da guerra. Deus diz mais:
“Sabei que eu sou Deus”, isto é, reconheçam que eu sou o único Deus verdadeiro e
submetam-se à minha autoridade. Finalmente, Deus afirma: “serei exaltado entre as nações,
serei exaltado na terra”. Deus fala de um tempo no futuro quando todas as nações o exaltariam
e o serviriam. Por isso, o Salmo 47 inicia com uma convocação para que os povos batam
palmas e celebrem a Deus com vozes de júbilo (v.1). Assim, Deus acaba com a guerra e traz
paz, não só pela destruição das armas de guerra, mas também pela conversão das nações
inimigas.
O salmista encerra esta estrofe e o Salmo com o v.11, o mesmo refrão do v.7, que
recapitula a verdade de que Deus é a proteção do Seu povo.


















16
FUTATO, Interpretação dos Salmos, p.90.
17
Cf. HOLLADAY, Léxico hebraico e aramaico do Antigo Testamento.
18


6. APLICAÇÃO

A verdade de que Deus é a proteção do Seu povo ainda é extremamente relevante no
século XXI. Deus permanece o mesmo e ainda tem um povo, a Igreja, ao qual protege como
um refúgio.
Primeiro, o fato de Deus ser a proteção do Seu povo produz na Igreja coragem nas
aflições. O mundo pós-moderno apresenta muitas aflições para a Igreja, especialmente em
termos de inimigos. Internamente, a Igreja luta contra inimigos como o liberalismo teológico,
a neo-ortodoxia e o neopentecostalismo. Externamente, a Igreja tem inimigos como o
relativismo, o paganismo e o homossexualismo. Essas aflições podem parecer tão
assustadoras como cataclismos naturais e podem levar alguns a achar que é o fim. Porém,
apesar da tendência humana natural ao temor, a Igreja deve se mostrar corajosa, firmada na
verdade de que Deus é a sua proteção.
Segundo, se Deus é a proteção do Seu povo, a Igreja tem estabilidade diante dos
inimigos. Enquanto o mundo moderno passa por convulsões sociais e éticas, como um mar
agitado, a Igreja pode experimentar momentos de tranquilidade, como um calmo rio. A razão
dessa estabilidade da Igreja é a presença de Deus. Deus habita na Igreja, que é a Sua cidade
(Ap 21.2,3) e o Seu santuário (1Co 3.16,17), e por isso ela não será abalada, mas será
socorrida: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). Os inimigos da
Igreja podem se levantar contra ela. Eles podem até destruir muitos reinos no caminho.
Denominações e governos podem cair diante de inimigos como o homossexualismo. Porém, a
Igreja do Senhor Jesus Cristo não será abalada. Essa é a conhecida doutrina bíblica da
“perseverança dos santos”, segundo a qual o verdadeiro povo de Deus será preservado por Ele
até o fim (Jo 10.27-29; Rm 8.35,39).
Terceiro, como Deus é a proteção do Seu povo, a Igreja terá paz em lugar de guerra.
Ainda que a guerra da Igreja não seja contra o sangue e a carne, mas contra principados,
potestades, dominadores deste mundo tenebroso e forças espirituais do mal (Ef 6.12), muitas
vezes os inimigos do povo de Deus assumem forma humana, com nome e endereço (At 13.4-
12). Conceitos e sofismas que se levantam contra o conhecimento de Deus (2Co 10.4,5)
podem se encarnar e frequentemente o fazem.
Mas diante do cerco dos seus inimigos físicos no mundo pós-moderno, a Igreja é
convidada a se achegar para contemplar as devastações que Deus realizará. Deus acabará com
essa guerra e trará a paz, destruindo as armas, mas convertendo os inimigos. Deus destruirá
toda filosofia perniciosa, mas converterá os filósofos. A destruição das armas é um processo,
onde elas são, primeiramente, quebradas, depois despedaçadas, até finalmente virarem pó.
Mas então Deus falará com os inimigos do Seu povo e os chamará à conversão. E Deus
garante que haverá um dia no qual Ele será exaltado entre as nações, as mesmas nações que
antes eram inimigas do Seu povo.
Isso não significa que, no final, todos serão salvos, porque muitos inimigos de Deus e
do povo de Deus serão destruídos afinal (Ap 20.10,15). Porém, a ênfase do Salmo 46 é a paz
que Deus trará pela conversão e não pela destruição dos inimigos. Isso era uma referência aos
tempos do Novo Testamento, quando o Evangelho seria anunciado entre os gentios, e também
aponta para o final da história, quando o Evangelho será anunciado a todas as nações (Mt
24.14). Quando isso acontecer, haverá paz em lugar de guerra. Uma nação não mais levantará
19


a espada contra outra nação (Is 2.2-4), mas estarão todas reunidas para exaltar a Deus e a
Cristo por tão grande salvação (Ap 7.9,10). Diante de uma realidade tão sublime, a Igreja
deve se empenhar ainda mais na intercessão e na evangelização dos seus inimigos, para que
seja livre da guerra pela conversão deles ao Senhor.








































20


7. CRISTOLOGIA

Se Deus é a proteção do Seu povo, como alguém pode fazer parte do povo de Deus e,
assim, ter Deus como seu refúgio? A resposta pode ser encontrada, em parte, no próprio
Salmo, no v.10, quando Deus chama as nações inimigas à conversão, pelo reconhecimento de
que Ele é Deus. Porém, há algo mais a ser considerado.
Primeiro, como já foi dito anteriormente, existe uma relação estreita entre o ofício do
rei e a função de proteção, o que pode ser observado na própria estrutura literária na qual o
Salmo 46 está inserido.
18

Segundo, o rei que proporciona proteção para os seus súditos não é apenas Deus, mas
também o rei davídico, que é o Seu Ungido. Na verdade, a grande mensagem do Saltério, que
é introduzida no Salmo 2, é a de que Deus reina e Ele o faz por meio do Seu Ungido.
19
Futato
observa que “A palavra ‘ungido’ traduz o termo hebraico ··::, de onde derivamos a palavra
‘messias’”.
20
Ainda no Salmo 2, observa-se que o refúgio é encontrado no Ungido de Deus:
“Bem-aventurados todos os que nele se refugiam” (v.12). E no Salmo 45, que está no
contexto do Salmo 46, o Ungido de Deus aparece como o personagem central.
Terceiro, o Novo Testamento afirma que o Senhor Jesus Cristo, segundo a carne, veio
da descendência de Davi (Rm 1.3; Mt 1.1-17; Lc 3.23-38), e assim o identifica com o Ungido
de Deus dos Salmos (At 4.25,26; 13.33; Hb 1.5,8,9; 5.5).
Portanto, para que alguém tenha Deus como seu refúgio, é necessário que se refugie
no Ungido de Deus, que é o Senhor Jesus Cristo. Mas por quê?
Todas as aflições mencionadas no Salmo 46 são consequências do pecado (Gn 3.16-
19). Elas são uma manifestação da ira de Deus contra o pecado. E a única forma de alguém
ser livre da ira de Deus é pelo derramar dessa ira sobre outra pessoa, pois Deus é justo e não
pode simplesmente inocentar o culpado (Na 1.2,3,6). A boa notícia é que o Senhor Jesus
Cristo é justamente essa pessoa que veio ao mundo para que a ira de Deus fosse derramasse
sobre Ele! Ele viveu uma vida toda de obediência a Deus (1Pe 2.22), mas foi condenado como
um pecador, levando sobre Si o pecado de muitos e sofrendo a punição que eles mereciam (Is
53.4-6,10-12). Graças a isso, todos aqueles que se refugiam em Cristo passam a fazer parte do
povo de Deus e podem ter Deus como uma proteção contra as aflições consequentes do
pecado, a maior das quais é a morte (Rm 6.23). Por outro lado, aqueles que não se refugiam
em Cristo tem Deus não como um refúgio, mas como um inimigo, pois se identificam com as
nações inimigas do povo de Deus no Salmo 46 (Jo 3.18,36). Assim, como se conta que um
puritano do século XVII afirmou, “A justificação pela fé é uma brincadeira de esconde-
esconde: eu me escondo na justiça de Cristo para que a justiça de Deus não me pegue”.





18
Cf. p.16.
19
Cf. FUTATO, Interpretação dos Salmos, pp.59,61.
20
FUTATO, Interpretação dos Salmos, p.61.
21


8. ESBOÇO DO SERMÃO

Tema: Deus é a nossa proteção

Pergunta de transição: O que esse fato produz em nós?

Pontos:

1. Coragem nas aflições (vv.1-3)
2. Estabilidade diante dos inimigos (vv.4-7)
3. Paz em lugar de guerra (vv.8-11)

























22


9. CONCLUSÃO

Por meio da análise exegética do Salmo 46 pode-se descobrir a mensagem de Deus
nesse Salmo: Deus é a proteção do Seu povo. Foi essa verdade que sustentou diversos cristãos
no decorrer da história, inclusive Martinho Lutero, dando coragem nas aflições, estabilidade
diante dos inimigos e paz em lugar de guerra, e é essa mesma verdade que pode sustentar os
cristãos do século XXI.




































23


10. BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA SAGRADA ALMEIDA CORRIGIDA E FIEL. São Paulo: Sociedade Bíblica
Trinitariana, 1995.

BÍBLIA SAGRADA NOVA TRADUÇÃO NA LINGUAGEM DE HOJE. Barueri,
SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2000.

BÍBLIA SAGRADA NOVA VERSÃO INTERNACIONAL. São Paulo: Sociedade
Bíblica Internacional, 2000.

FRANCISCO, Edson de Faria. Manual da Bíblia Hebraica. 2ed. São Paulo: Vida
Nova, 2005.

FUTATO, Mark D. Interpretação dos Salmos. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.

HARMAN, Allan. Comentários do Antigo Testamento – Salmos. São Paulo: Cultura
Cristã, 2011.

HOLLADAY, William L. Léxico hebraico e aramaico do Antigo Testamento. São
Paulo: Vida Nova, 2010.

KELLEY, Page H. Hebraico bíblico: uma gramática introdutória. 7ed. São Leopoldo,
RS: Sinodal, 2009.

KITTEL, R. Biblia Hebraica Stuttgartensia. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft,
1997.

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