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Construção
Obra

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Memória de Régio transformada em hotel
A vida e obra do poeta José Régio vão ser a temática em torno da qual está a ser construída uma unidade hoteleira de quatro estrelas, em Portalegre. O autor do projecto conta como é que o escritor da Toada de Portalegre vai ser recordado na obra e vai mais longe. António Sajara explica ainda a forma deficiente como são encaradas as intervenções nos centros históricos

D.R.

Ricardo Batista
rbatista@construir.pt

vida e obra de José Régio e a sua ligação a Portalegre são o mote para a construção de uma nova unidade hoteleira no centro da cidade alentejana, complementando assim a oferta hoteleira com uma unidade de quatro estrelas. O Hotel José Régio, avaliado em 700 mil euros e assinado pelo arquitecto António Sajara, “está projectado para englobar um conceito inovador, relacionado com a literatura e a cidade onde será implementado”. Segundo adiantou o autor do projecto ao Construir, “pretende-se incutir no visitante e turista o valor da arte da escrita, através da implementação de um programa de actividades, serviços e de uma decoração que reflicta esta temática no Hotel José Régio”. Para António Sajara, “num país onde a iliteracia é das mais elevadas na Europa, com efeitos nocivos para a economia e sociedade portuguesa, a criação de projectos que dignifiquem a leitura, valorizando uma ou mais personalidades nacionais ligadas à escrita, são fun8 | 28 de Junho de 2013

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damentais para um desenvolvimento sustentável de uma nação”. De acordo com a descrição da obra, o projecto visa concentrar a sua temática num período representativo da história recente de Portugal, época em que José Régio desenvolveu as suas actividades como artista nas mais variadas vertentes. Associando a presença de quase quarenta anos da sua vida em Portalegre, esta unidade hoteleira visa igualmente valorizar esta cidade através de fotografias e textos do escritor que relevem Portalegre como cenário de reflexões e de histórias vividas.

Trabalho diferenciador
A unidade hoteleira estará equipada com 35 quartos (27 quartos duplos e oito individuais), o correspondente a 62 camas. A memória descritiva da obra, que confirma o carácter diferenciador da temática e da própria arquitectura, revela também que “o empreendimento turístico em consideração incide num conceito de Art Hotel, onde pretenderá expor nas mais diversas zonas comuns e unidades de alojamento

trabalhos desenvolvidos por José Régio, bem como realizar exposições temporárias de outras áreas artísticas, desenvolvidas em tempos pelo escritor”. “A diversidade na oferta de serviços ligados à literatura posiciona esta unidade como Hotel Literário, sensibilizando o hóspede do Hotel ou o cliente da cafetaria a envolver-se num ambiente cultural onde terá à sua disposição uma oferta integrada de serviços de comidas e bebidas, cuja prioridade se reflectirá sobre os produtos regionais”. Cada piso dos quartos estará associado a um género literário fortemente explorado por José Régio, como é o caso da poesia, da ficção e do jornalismo. Serão integrados nestes pisos bem como nos restantes com acesso da parte dos clientes, excertos de textos ou poemas, desenhos e pinturas incrustados nas paredes, inclusivamente nas zonas de acessos (corredores de acesso aos quartos). “Uma das formas de expor excertos de textos será por via da introdução de papel de parede com iluminação apropriada que realce os conteúdos literários”, revela a descrição da obra,

onde se pode ler também que a zona de estar do hotel irá englobar um espaço de biblioteca, designado por my library, o qual irá incluir uma zona com um computador (workstation). “Este espaço permitirá a consulta e leitura de artigos relacionados com José Régio e outros escritores de renome nacional; a leitura de livros e de ebooks; a possibilidade de trocar de livros directamente no local ou através da Internet pelo sistema de winking books, conciliando-se, assim, as novas tecnologias no acto da leitura e do conhecimento. Será feita, assim, uma adesão ao bookcrossing, formalizando e promovendo a partir deste local (presencial ou por via da Internet) um acesso universal à leitura”, revela a documentação submetida ao Turismo de Portugal. O futuro desenvolvimento desta temática no Hotel implica um trabalho de investigação e pesquisa mais aprofundado sobre o escritor José Régio, o qual se fará reflectir no estudo de viabilidade económica, a desenvolver em breve, para posterior entrega nas entidades competentes.

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a construção de parques de estacionamento públicos subterrâneos, mantendo os logradouros privados, de modo a que se criassem condições de parqueamento para acesso ao comércio da Rua Direita e às ruas contíguas”, diz, assegurando que “seria muito fácil e económico a utilização do ETFE (plástico texturado ou não, autolimpante de origem japonesa e utilizado também em estufas) apoiado em estruturas simples, dado o pouco peso do material, a colocar acima das coberturas existentes, para cobrir a maior parte da Rua Direita mantendo a mesma iluminação natural sem grande impacte visual, criando assim condições, em conjunto com a criação dos parques de estacionamento subterrâneos no interior dos quarteirões, para termos uma zona comercial com potencialidade de concorrer com as grandes superfícies na periferia da cidade”. “Claro que tal situação criava uma dinâmica em que possibilitaria, por arrastamento, a implantação das restantes áreas colaterais ao comércio como seja a da restauração e a própria dinamização nocturna de algumas das praças contíguas à Rua Direita”, defende António Sajara, que acredita que “este tipo de intervenção também levava a que a área habitacional nesta zona fosse beneficiada pelo factor estacionamento e pela possibilidade de um aumento cauteloso de pisos e que viria a possibilitar a execução de algumas das recomendações para as revisões do PDM’s actuais que prevêem uma redução de área construída fora dos centros urbanos”. I

D.R.

Tertúlias de Régio
O novo Hotel José Régio está já a ser construído num quarteirão confinado pela Rua 1º de Maio, Travessa do Largo António José Lourinho, Largo António José Lourinho e Largo do Rossio em Portalegre, isto num edifício que datava de 1950 pontuado pela existência de um café de memórias, por onde passou Régio e os seus mais fiéis acompanhantes de tertúlias e que se encontrava há já alguns anos em avançado estado de degradação. António Martinó Coutinho, professor e entusiasta pela história da cidade, revela que “ali se reflectiu muito da vida social, cultural e política da cidade, sobretudo até aos inícios da década de 70”. A implementação desta obra num quarteirão com características particulares, quanto à sua inserção no PDM de Portalegre, e a necessidade de rentabilidade da unidade hoteleira no sentido de se tentar atingir no mínimo 30 quartos para que seja sustentável a sua exploração, não eram compatíveis também com o seu desenvolvimento dentro do número de pisos actualmente permitidos no quadro do PDM em vigor pelo que foi necessária a realização de um Plano de Pormenor que regulamentasse este quarteirão.

Malha consolidada
O facto de este quarteirão ter uma

história, ligada aos movimentos pensantes da cidade na décadas de 60 e 70 e de estar na desembocadura de uma das principais ruas comerciais de Portalegre levantaram questões até mesmo entre a população, algo que o arquitecto explica com a necessidade de evolução. Questionado sobre as condições de intervenção na malha consolidada e histórica da cidade, António Sajara acredita que é “um perfeito disparate o uso e abuso do conceito da preservação das memórias dos locais, muitas vezes de duvidoso valor, que não me parece que na maior parte dos casos tenham algo de histórico como é o caso da maioria das ruas do denominado ‘centro histórico’ de Portalegre”. “Embora este assente numa malha urbana oriunda do desenho praticado para despiste das tropas invasoras no acesso aos pontos vitais da urbe na Idade Média, a generalidade do que existe é um aglomerado construído que reflecte as necessidades habitacionais e comerciais da cidade a partir do sec. XVIII”, garante ao Construir António Sajara, que acrescenta que “agarrar nestas memórias e desenvolver planos de pormenor onde as regras são o de manter tudo como está e impedir seja o que for para desenvolvimento da cidade é um perfeito disparate…”. O arquitecto acredita que há muito para pensar sobre

estes conceitos, não só em relação a Portalegre como em relação a outras cidades de dimensão semelhante, dominadas pelo desfasamento entre as ruas de comércio e as necessidades actuais. “O comércio da área do centro histórico de Portalegre e se calhar de muitas outras cidades deste país, só viria a beneficiar se, de alguma forma, os iluminados planeadores se deixassem de teorias e configurassem uma forma jurídica de possibilitar a ocupação dos logradouros dos quarteirões para

QUEM FOI JOSÉ RÉGIO?
Nascido a 17 de Setembro de 1901 em Vila do Conde, onde veio a falecer passados 68 anos, José Régio destaca-se como um dos escritores portugueses que dominou vários géneros literários, com maior evidência na poesia, ficção (dramaturgia e romance), ensaio, crónica e história da literatura, jornalismo. Foi igualmente editor e director da revista literária Presença, considerada uma das revistas portuguesas mais influentes do século XX, lançada em Março de 1927, permanecendo como um dos seus responsáveis e fundadores até à sua extinção em 1940. Para além do mundo da escrita, José Régio desenvolveu outras actividades, nomeadamente, o desenho, a pintura e a colecção de arte sacra. Autor de textos poéticos como a Toada de Portalegre ou o Cântico Negro e considerado um dos grandes criadores da moderna literatura portuguesa, José Régio recebeu em 1966 o Prémio Diário de Noticias e em 1970 o Prémio Nacional da Poesia.

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