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História do Romantismo em Portugal - Teófilo Braga

História do Romantismo em Portugal - Teófilo Braga

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HISTORIA
DA

i

LITTERATURA PORTUGUEZA

ROMANTISMO

HISTORIA
DO

ROMANTISMO
EM PORTUGAL
POR

THEOPHILO BRAGA
IDEIA GERAL DO ROMANTISMO

GARRETT - HERCULANO - CASTILHO

"\hwy"

LISBOA
NOVA LIVRARIA INTERNACIONAL
2G,

Rua do Arsenal,

%

1880

ilBi^

Imprensa de

J.

G. de Sousa Neves

—Rua da

Atalaia, 61»

A (lifficuldade de escrever a Historia da Litterattira por- tugueza moderna nâo está em manter a imparcialidade no juizo que se emitle sobre cada escriptor. Para nós. porém. assim está tam- bém menos sujeita a aberrar da verdade. . impozeram por costume e que vemos respeitadas por ha- quando procurámos o fundamento d'essas admirações. ria geral a como disse Guizot. que nâo será possivel vencer: n'este periodo da historia moderna da litteratura portugueza temos de pé com todo o seu persligio a opinião fundada sobre as primeiras emoções produzidas pelas tentativas românticas de 1824 e de 1838. para não ousar fazer da historia um tribunal de resentimentos pessoaes. para isso. basta ter sempre presente que se dá uma prova de probidade diante do tempo que julga todos. subsiste uma forte diíliculdade. a historia litteraria. Esta opinião está atrazada mais de meio século e em des- accorjo com o estado actual da critica. De mais. tem sobre a histo- máxima vantagem de possuir e poder mostrar os objectos que pretende fazer conhecer. Tendo de analysar e auc- aqui reputações que se nos loridade não discutida. bito.

As fcriticas acerbas e pessoaes com que temos arrostado em (vinte e três annos de actividade litteraria (1857-1880) têm"•nos fortalecido profundamente.» dia em que nos cercassem os applausos unanimes julgavamo-nos perdidos. apresentamos a j se julgarem offendidos por violarraoa o cullo dos seus idolos litmáxima de Paulo Luiz Courier. Este livro vae de enconlro a muitos preconceitos e será por isso bastante atacadO. mas conseguindo agitar a opinião *. que resume a nossa disciplina moral: «Embora vos accusera. porque nos provam a cada carta a instante a phrase de Hume. O fazel-o nilo é um direito.> . que suspeitava sempre ter quando se via applaudido pelo vulgo. deixaría- mos de escrever. obrigaçilo reslricla c para todos os que lem ideias. A verdade inteira pertence a lodos: o que entenderdes que é útil. Foi por isso que essas reputações só produziram admira- dores vez de continuadores do seu espirito. vos condemnem. o communical-as aos outros para o bem commum. vos prendam e vos enforquem. tolice conseguiu-se tudo estamos na situa- ção dito em que alguma se achava Phocion. publicae sempre os vossos pensamentos. podeis sem receio publicaI-o. 1 Aos que fterarios.só achamos a com pasmo talentos sem disciplina entregues um humanismo em insciente e sem intuitos philosophicos. que se im- mobilisa em dogma. em uma No Adam Smith: «Nada produz uma maior presumpção de falsidade do que assentimento da multidão. é antes um dever.

que constituo por o trama da moderna. e que influiu profundamente no modo de Desde que os dialectos românicos receberam forma escripta. depois de anullado o feudalismo. e em que as litteraturas da Europa se exerceram em falso. se decaiu no cesarismo do século do século civil XVI. porque não se inspiravam das suas ori- gens tradicionaes. até que a Revolução veiu sacudir este pe- sadello de morte. no despotismo xvuí. houve um profundo esquecimento da Edade Media. onde encontrariam dade. . no absolutismo do século xvn. imitando as obras da cultura greco-latina. e o espirito da nova civilisaçao xjue os produziu. racteristicas nacionaes.HISTORIA DO ROMNTISMO EM PORTUGAL Como das luctas communaes e burguezas do século xiii. que durou seis séculos. historia uma si solução de continuidade. até que o Romantismo se servisse d'elles para exprimirem conscienlemente as cadesenvolvimento das litteraturas. uma natural fecundi- bem como o seu destino social. aíTirmando a independência da sociedade e generalisando as immunidades locaes da eis communa tenebrosa na Declaração dos Direitos do homem.

a simplicidade ábelleza affectada. Jacques Rousseau. ou protolancolia 1 Jlist. por critério J. pelo individualismo da inspiração e pela universalidade relação histórica entre esses dois do suffragio. du XIX siècle. transformação das litteraturas modernas. Existe factos. Gervinus conheceu a importância d'esta dade morai. foi interrompida e atrazada A França só se occupou da inde- pendência politica. ou o Romaníismo. que principiou pela litteratura até penetrar nos costumes. da arte e da educação. é que pue em evidencia a connexão histórica com esse período inconsciente. Gervinus explica por outra forma a interrupção: «Esta primeira phase de um romantismo inconsciente e ainda não denominado. que apparece na Allemanha e Inglaterra. um tal exagero. iniciada por Montesquiea como consequência com o seu enthusiasmo pela constituição ingleza.8 HISTORIA DO KOMANTISMO EM POKTUGAI. que predominou em- quanto se manteve o regimen espectaculoso e mentido do primeiro Império. xix. por Diderot recompondo philosóphicamente as paixões. 141. fazendo prevalecer a ideia sobre a forma. a espontaneidade á imitação. ao passo que a Allemanha insistiu mais em querer realisar a sua emancipação intellectual. uma O phenomeno social da revolução franceza foi pre- cedido por um extraordinário sentimentalismo e paixão pela naturesa. a que chamaremos Proto-Romantico. t. estes dois factos resumem-se na dupla expressão do génio e da vontade naciofranceza iniciara na nal. encetou no mundo intellectual o que a Revolução A ordem politica. proveniente de uma nova a activi- condemnação do falso idylio. A ' este periodo.*» A me- romanesca do fim do século xviii. suc- |cedeu-se uma reacção pseudo-classica. . renovando assim as theorias dramáticas. trazendo ao da naturesa a noção do estado. e uma mais vasta communicação com o sentimento humano. pela revolução franceza. p. provocou phase espontânea do romantismo.

o infligido pela realesa mori- bunda. 2 Ilist. Leon Simon). Mas. que a Allemanha áttinge o desenvolvi- mento nacional. xix. propagando se do novo centro de elaboração. vendo que essa aspira- ção á independência politica se manifestava simultanea- mente em todos os estados da Europa. o Romantismo todos os movimentos reaccionários e liberaes da osci Ilação politica. '^ antes de realisar a transformação politica. allemães e inglezes. que o impulso do Romantismo veiu dos povos germânicos. alheio a doutrinas philoso- phicas. » Gervinus chega á mesma conclusão. •nha e Poi^tugal. para a Itália. A Europa solTreu essa estupenda vergonha e atraso systematico restauração. a França. llespa- O Romantismo. Foi por isto. para os novo-latinos. rellectiu Na sua vacillação doutrinaria. du X/X sièdc. Depois da queda do império napoleónico. do mesmo modo que as novas instituições politicas se haviam elevado sobre as ruinas do regimen ca- tholico feudal. suspeitaram na sua insensatez egoísta. que revive na sensiblerie da época da Restauração. S. for- * Essais philosophiqucs. p. e ligaram-se lambem na chamada Santa-Alliaiiça para restabelecerem na sua integridade o antigo regimen. o philosoptio inglez Mackintosh o sentiu: «A iitteratura alte- rna foi apontada como cúmplice da * politica revolucionaria. 20 í. os reis do di- reito divino co!ligaram-se para extirparem os fermentos de liberdade deixados pela Revolução. t. e da pliilosophia materialista.IDEIA GEBÃL romântico. sem uma intenção clara do que pretendia. . completando a sua educação intellectual. p. rompia com o passado. (Trad. que essa aspiração era produzida por uma immensa liga secreta. dizendo. a emancipação intelleclual conduzia logicamente ao progresso moral iniciado na independência politica. N'este periodo histórico conhecido pelo nome de Romantismo serviu a causa reaccionária.

as naturesas Alliança.10 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POETDGAL a exaltação mystica talecendo a propaganda clerical com do christianismo. in- génuas e fortes protestaram contra o obscurantismo da Santa como Byron. fizeram renascer nos espíritos mais intelligentes os princípios de 1789. histórico. que subsiste identificando os seus processos descriptlvos com a disciplina da sciencia. Espronceda. O fim do Romantismo na Allemanha a . falta-lhe ainda o Intuito phllo- sophlco. e essa outra eschola que se distingue por ter sabido introduzir na Idealisaçâo lltteraria os inte- resses reaes da vida moderna. re- presentava o pseudo-clacissimo post-revolucionario. cuja exaltação sentimental é conhecida pelo nome ne. para poder tomar como foi objecto da arte o condicionalismo da actividade e das rela- ções humanas. os satânicos. e formaram o grupo dos incomprehendldos. a idealisaçâo cavalheiresca. de UUra-Romantísmo. Leopardl e Hei- É este propriamente o período do romantismo liberal. também conhecido por duas manifestações distluctas. ou Micklevik. as agitações da Inglaterra provocando a implantação do regimen constitucional. que em deram o nome de emanuelico. e a medieval e cavalhei- em Garrett. Foi o romantismo emanue- que entrou tardiamente em Portugal. Castilho. ou o processo deductlvo. como uma espécie de Ducis. as revoluções li- beraes nos diversos estados. É esta a ultima phase do Romantismo. As tor- pesas da Restauração. ou perderam a esperança na causa da justiça. a que se deu tardiamente o nome de Realismo. empregada no drarfia e no romance em breve se achou transformada lico o em critica scientifica no estudo das Can- ções de Gesta da Edade media. ou pugnaram pela Independência nacomo Thomaz Moore. cional. predominando a feição religiosa resca em Herculano. Este periodo romântico. e idealisando o ritual cavalheiresco da Edade França media para lisongear a aristocracia que julgava recuperar a os seus foros. acha-se representado em Chateaubriand e Lamartine. como Shelley.

com a erudição cri- da poesia da Edade Media. e reconcentraram-se cada vez mais no França. só se explica pela complexidade dos factos contidos sob esta designação. os Goélhe. a verdade 6i como o ProRomantismo li- a sua Dissolução resulta do estudo eslabelece-se por mesmo. taes o to-Romantismo. e com a concepção realista na arte. os Riickert e os Uliland.. como conseguiu descoibril-as.^ 1 Cp. o satânico ou ullra-romantico) e por ultimo (realismo e disciplina scientifica) depois d'esla analyse. ^j Egual dissolução se operou em com tica a renovação dos estudos históricos. comprehendel-as e renovar n'esse conhecimento as litterarias <^suas instituições politicas. 107. bem como formação lilteraria. seguiram a grande direc- ção d'esta época. Expor as causas que levaram a Europa a esquecer-se das :suas relações com a Edade Media. e arlislicas. 3 A (iiíBculclade tismo. que Gervinus de- «transição da poesia para a sciencia e do romantismo critica J» para a accrescenta: «Os próprios mestres da poesia. cil. que ainda persiste como no seu ultimo reducto em Hespanha. cuja vida se prolongara até aos novos tempos. tal é a que julgamos indispensável para a intelligencia ida Historia do Romantismo em Portuí^al. . o Romantismo relujioso (christao e medieval) beral (nacional.IDEIA GERAL 11 sua dissolução fine: em E trabalhos de sciencia. que obedeciam inconscientemente a uma neceísidade resultante da transformação social. p. niesmo a Portugal chegou essa corrente de disso- lução critica do Romantismo. que comparativo da politica e da lilleratura moderna. 'ideia geral. p. que todoá os críticos experimentara em definir o Romana incertesa de doutrinas dos escriptoros d'essa época de trans- 2 Ibidem. seio da sciencia. Dccompondo-a nos seus elementos. 109.

Marcha da renascença românica. in- ventada a poesia sobre tradições próprias. e a realesa fortalecendo a sua dependência sobre os códigos imperiaes. §. torceram a corrente. violaram a marcha histórica dos tempos modernos a instituições particulares.. Porque chegou o Romantismo tâo tarde a Portugal. c) Renascimento de um espirito nacional phantastico.) A erudição medieval dos historiadores modernos: a) O que se deve ao elemento romano. 1>) Estado das ideias philosophicas sobre Arte. bem das suas No meado do século xv a Europa . § 2.— IDEIA GERAL DO ROMANTISMO § 1. quando lhe competia dar largas a uma plena actividade. Quando a Edade media acabava de sair da elaboração syncretica e lenta de uma civilisação. o cyclo das invasões. pelos dois grandes poderes que dirigiam o tempo. 6.) Estado da sciencia histórica. l>) O que se deve ao elemento christão. fizeram como estes proprietários das margens dos rios tornados inavega- veis por causa dos açudes. CoDsequeocias coDlradicturias. § 5. Como a Europa se esqueceu da edade media. tudo isto foi des- viado do seu curso natural. A creação da Esthetica pelos metaphysico?. quando estava terminado J 1. As revoluções nacionaes entre os povos modernos. § 4. deíinidas as formas sociaes. Como foi comíirebendiilo o Romantismo em Portugal: a. a administração A egreja modelando a sua unidade sobre in- romana. c) O elemento bárbaro ou germânico. — — — B) — — — O) — — COMO A EUROPA SE ESQUECEU DA EDADE MEDIA. Causas do Romantismo: A. criadas as línguas vulgares. caracterisadas as nacionalidades. § 3.

passado forma escripla no meio das grandes luctas das classes servas que se levantaram á altura de povo. é um problema histórico de alta importância: as linguas vulgares foram bani- das da participação litúrgica. As lin- guas românicas. espontâneas e recivili- passadas das tradições mais vivas das luctas para a sação moderna. por um habito inveterado o latim tora nou-se até ao fim do século passado linguagem exclusiva da sciencia. como nas mãos do exploração litteraria. A epopea da Edade media. D'aqui uma impo:ísivel vulgarisação. foi de repente substituído pela vontade ou arbítrio real. serviu de modelo para a codificação. no século xvi era essa edade considerada um estádio tene- broso pelo qual se passara como provação providencial. inspirada pela obra da consolidação das nacionalidades. idiotismos! Se observamos nos mesma violação. o diíeilo communal. dos intermináveis romances de Brutus e Cldia. chamafactos jurídicos dá-so á ram a ás construcções mais peculiares e originaes das novas linguas. soíTreram uma aproximação artificial da aíTectada urbanidade. o renascimento do direito ro- mano interessava a realesa e por isso voltou ao seu vigor. por esta dependência constante da aucto^ ridade do latim.IDEIA GEBAL 13 estava quasi esquecida de que provinha da Edade media. os granmiaticos. Camões imita a . O modo como o conhecimento das relações da civihsaçâo moderna com a Edade media se obliterou. imbuídos dos typos linguisticos dos escriptores do século de Augusto. Ariosto ridicularisa o fundo épico das principaes Gestas. e o latim a pretexto da uni- versahdade tornado a lingua relações official da egreja e das suas clero estava a com os estados. Em quanto á poesia a mesma deturpação. foram substituídas pelos feitos dos gregos e romanos. e dos embellesados polvilhos de Tressan. e das imitações de Fénelon. as Canções de Gesta. que terminaram no extenuado idylico do paiz de Tendrc. perde o seu espirito para calcar-se sobre os moldes de Virgílio.

obras de rhetoricos. Imitou se o theatro romano. os factos de prompto se tornam con- summados. ligado á vida nova por esta augusta tradição da crença e da liberdade. A histo- escripta sobre a pauta rhetorica de Tito-Livio. corrompendo para dominar com segurança. com uma lingua de radicaes. A unidade papal foi quebrada pela Reforma. e assimilava á sua Índole aryana o christianismo semita. traduziu-se e commentou-se labo- riosamente os escriptos que nenhumas ideias trouxeram á civilisação. loreíTe- nou-se por essa falsidade da narração declamatória. desnorteados do seu fim. que empeceram o labor inda auctoridade. o estylo ogival. original pela sua raça forte. no Concilio de Trento. para cantar a nacionalidade portugaeza. a realesa. difíicil- A Allemanha. cortes. o cesarismo foi sentenciado e executado pela Revolução. foi banido das construcçôes para seguir-se a louca parodia de uma arte que nada tinha de ria.14: HISTORIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL Eneida. creado ao mesmo tempo em que o povo assegurava a sua independência de terceiro estado. cria os exércitos permanentes.ficaram os espirites. tellectual pelo perstigio A critica tornou-se uma bello simples comparação material ou craveira dos typos do da Grécia e de Roma. Mas o estado de atraso em que . commum com o estado actual. ainda rica de ia- mythos próprios. com um . isto é. as ideias por mente se recebem. isso que vão mais longe. a meride das povo. durou mais algum tempo. As consequências palpáveis d'esta longa desnaturação vêem-se no século xvi: A egreja proclama-se aristocralica. a architectura go- é despresada pelas ordens gregas. Tasso se- gue a lidade. mesma corrente erudita para cantar o feito que as- segurou indirectamente á sociedade medieval a sua estabi- Na íhica arte repete-se a mesma violação. nas trage- dias chegou-se a ignorar completamente a existência do em vez de crear. e torna-se cesarista.

IDEIA GERAL

15

dividualismo espontâneo e bellas tradições épicas, desnatura-se ante o catholicismo, fica imitadora da poesia da Pro-

vença, esquece as suas epopèas, adopta a Biblia
gasta as suas forças

em

latim,

em uma

phantastica reconstrucção do

Santo Império, e por fim anulla-se na imitação servil da
litteralura official

da corte de Luiz xiv.

Na

Inglaterra^..o

normando abafa por vezes a genuina impetuosidade predominam os imitadores clássicos, os Pope, os Dryden, os lyricos' lakistas. Mas n^estes dois povos havia
veio

saxónica;

um

núcleo de tradições vigorosas resultantes da vitalidade

da raça; esta força natural havia de impellil-as á originalidade.

De

facto

a Allemanha,

resgata-se

da subserviência da

França, e imitando provisoriamente a litteralura ingleza,

achou de prompto a sua feição nacional.

A

França, a nação que provocou a creaçâo da poesia mo-

derna

em

todos os povos, pelo enthusiasmo que produziam

as canções dos seus trovadores, pelo interesse

que se

li-

gava ás Gestas dos jograes, esqueceu este passado esplendido, para contar a actividade litteraria desde Malherbe.
Itália,

A

tornada a sede da erudição, venceu muitas vezes a

corrente deletéria, pelo encyclopedismo dos seus grandes
I

génios que presentiram e
a pintura,

aspiraram a unidade nacional;
perfeição; a musica, pro-

como nâo

teve que imitar da antiguidade, atlin-

giu logo no século xv a
l

máxima

curando os modos gregos, e querendo harmonisar-se
a tradição gregoriana da egreja, jazeu

com

i

embryonaria até ao

í

século xvHi.

A

]

ceiro, já extincta

Hespanha, perdeu a creação do seu Romanno século xv; os poetas traduziram e iminão só porque sob a pressão catholica

i

taram a antiguidade, como Santilhaua ou Vilhena, mas o
Ihealro
foi original,

era o único órgão da opinião publica,

mas porque

se ba-

seava sob o fundo tradicional e histórico da nacionalidade.

Portugal nunca dera forma ás tradições, que possuia; a sua

16
litleratura,

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTU G AL
teve de imitar sempre,

como o notou Wolf,

attingindo por isso

uma
paiz,

perfeição de

uma quem

prioridade de

quem nâo

elabora, e

só reproduz mechanicamente;

em

vista d'este caracter o

Romantismo só podia apparecer n'este
auctorisado, e se admittisse cofoi

quando

elle estivesse

mo

imitação. Logicamente

Portugal o ultimo paiz onde

penetrou o Romantismo. Por
funda,

uma connexão

evolutiva pro-

em

todos os paizes onde se estava operando

uma

nova ordem na forma politica, seguiu-se egualmente essa crise litteraria, que fazia com que se procurasse reflectir a
expressão ou caracter nacional nas creações da litteratura.

Por

isso durante as luctas

do Romantismo, muitas vezes os

partidários dos novos princípios litterarios foram accusados

de perturbadores da ordem publica, como
até assassinados

em

França, e
Itália.

como demagogos pelo despotismo na

§ 2.

MARCHA DA RENASCENÇA ROMÂNICA.

— CompCtia

á

Allemanha, que iniciara com a Reforma a liberdade de consciência, completar a obra

proclamando a liberdade do

senti-

mento.

O movimento

do Romantismo partiu da Allemanha,

porque era a nação que pelos seus hábitos philosophicos
mais depressa podia chegar á verdade de
racional, e

uma

concepção

porque os thesouros das suas tradições, apesar.
tal

dos séculos que se immolou ao catholicismo, eram por

forma ainda

ricos,

que ao primeiro trabalho de Graaf, re-

constituiu-se a velha lingua allemã, pelo trabalho de Jacob

Grimm,

a mythologia e o symbolismo germânico, pelo tra^

balho de Guilherme

Grimm

e

Lachmann,

as

Epopêas da

Al-

lemanha, a ponto de

um

Stein levar o espirito nacional

para a independência, e Bismarck aproveitar esta mesma
corrente da renovação das tradições e fundir todas as con-

federações

em uma

absurda unificação imperial.
provenientes das suas in

Depois da Allemanha, era

á Inglaterra, pelas condiçõeíf

de independência

civil e politica

IDEIA QEBAli

17

stituiçôes,

que se podia

ir

procurar o segredo da originali-

dade

litteraria.

Pela justa coexistência entre

uma

aristocra-

cia territorial e as classes industriaes,

a realesa

nâo pôde

usar as forças sociaes segundo o seu arbitrio; a crise religiosa

provocada por Henrique vni, e

a

revolução politica
dis-

de Cromwel, foram dois dos maiores impulsos para a
solução do regimen catholico-feudal.

Uma

sociedade traba-

lhada pelas emoções de tão importanies movimentos, não

podia deixar de se inspirar da sua actividade orgânica; os
escriptos de

um

Shakespeare, de Ben-Jonhson, de Marlow,

de De

Foii,

de Fielding, de Swift, de Richardson,

tém

to-

dos os caracteres da litteralura moderna: a vida subjectiva
da consciência individual aproximada da generalidade hu-

mana, os interesses e situações de
funda

uma

vida social que se

em

deveres domésticos ou de Hmiilia.

Os romances
grande docu-

de Walter Scott serão sempre bellos e

um

mento para extremar

as litteratuias

modernas das antigas,
artísti-

em
ca;

que a vida publica era o objecto da idealisação

por esta clara concepção de Gomte, é que entendemos
facto

que a palavra Romantismo exprime cabalmente o
culo.

da

renovação das litteraturas da Europa no principio d'este sé-

A

verdade existe quando a theoria condiz com o
renovação

facto;

efectivamente a Allemanha recebeu da Inglaterra o pri-

meiro impulso para

a

litteraria

que se propagou

aos povos do meio dia.

Temos

até aqui

mostrado como

a

Europa perdeu o co-

nhecimento das suas relações com a Edade media, e quaes
os povos que estavam

em

condições mais favoráveis para

as descobrir. Falta ainda seguir o trabalho d'essa renovação; é a esta parte que chamaremos causas do Romantismo. Desde o começo este século assignalou-se por um novo critério histórico; a erudição quebrou as estreitas faixas em qoe a envolveram os commentadores das obras da antiguidade, e exerceu-se sobre as instituições da Edade media.

18

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

O

cliristianismo, tido até

ali

como único mediador da

civi-

lisação,

teve de ceder a maior parte de seus titulos ao fecivilisação gre-

cundo elemento germânico modificado pela
nicas, e

co-romana. Diez cria a granimatica geral das linguas româ-

assim se descobre a unidade dos povos românicos.

Desde que Kant enceta a renovação philosophica, o problema da esthetica, ou philosophia da arte, nunca mais foi
abandonado; por seu turno
Ficlite, Schelling e

Hegel levam

á altura de sciencia a critica das creaçôes sentimentaes.

A

estas duas causas, accresce o dar-se

em

quasi todos os po-

vos da Europa,

em

consequência da revolução franceza,

uma

aspiração nacional

em

virtude da qual a realesa despótica

leve de acceitar as cartas constitucionaes: ou também, no

periodo das insensatas invasões napoleónicas, os povos

ti-

veram de

resistir pela defensiva,

reconhecendo assim pelo
litteratu-

seu esforço o gráo de vida da nacionalidade. As
ras tiveram aqui

um

ensejo para se tornarem

uma

expres-

são viva do tempo.
Sciencia complexa,

como

todas as que analysam e se fun-

dam

sobre factos passados dentro da sociedade e provocaella,

dos por

a historia lilteraria só podia ser*creada

em

uma

época

em que

o

homem

dotado de faculdades menos

inventivas, está

comtudo

fortalecido

com

o poder de obser-

var-se e de conhecer o gráo de consciência ou de fataUdade

que teve nos seus actos
3.°

*.

I

dos historiadares modernos.— A^^esâv da

Causas do rojviantismo. a..) Erudição medieval immensa elaboração
modernn; pertence mesmo em grande

1 €

A

bisloria da lilleralura é de origem

quasi recente.» (ílallim, Inlrod.^ p. i, l. i.) Era esta também a ideia de Bacon, no livro De augmcnlis scientiarum; elle considerava a historia litleraria, 'como a luz da historia universal; o seu plano para uma verparle a

uma época

dadeira historia era, investigar a origem de cada sciencia, a direcção que seguiu, as controvérsias que motivou, as escolas que desenvolveu, as suas relacOes cora a sociedade civil, e influencia mutua que exerceram entre si.

IDEIA GERAL

19

económica e

scientifica,

o século xix distingue-se princiintellectual par-

palmente pelo génio histórico: a renovação
tiu

da abslraçao metapliysica para a

critica,

das Iiypotheses

gratuitas para a sciencia das origens, do purismo rhetorico

para a philologia, oppoz aos designios providenciaes o individualismo, deu ás sciencias académicas, que serviam para
alardear erudição, iim intuito serio indagando nos factos mais

accidentaes os esforços do
liberdade; só

homem

na sua aspiração para a

em um

periodo assim positivo é que se podia

achar a unidade de tamanha renovação; essa unidade é a Historia.

Quebraram-se as velhas divisões da historia sagrada

e profana, de historia antiga e moderna', todas as creaçijes

do homem, por mais fortuitas merecem hoje que sejam estudadas nos documentos (pie restam; as instituições sociaes, as industrias, os dogmas, o direito, as línguas, as invasões,
<is

obras inspiradas pelo sentimento, os costumes, superobjecto de outras tantas sciencias, separadas

stições, são

por methodo para melhor exame, mas comparadas e unidas,

cm um

único fim

a

sciencia

do homem.

Em

todas estas

creações da actividade humana, o fatalismo supplanta nos períodos primitivos a liberdade, o sentimento suppre a
falta

do desenvolvimento da rasão,
ao

a

auctoridade impõc-se á con-

sciência e á responsabilidade mora!,

emfim

a paixão

não

deix.i

homem

a

posse plena de

si

mesmo, o

acto praticado re-

vela quasi

sempre ura paciente

em

vez de ura órgão activo.

A

historía religiosa ou politica, a historia das invenções, a

historia

da linguagem, mostram-nos o

homem

n'este estado

secundário, n'esta dependência de espirito; terror sagrado

e auctoridade, acaso, e formação anonyma provocada pela

necessidade de
violentos

uma communicação innnediata, são moveis que arrastam o homem em vez de serem exercique entra

dos e dirígidos pela sua liberdade. Nas condições senti-

mentaes

em

um

elemento de rasão não acon-

tece assim: as creações arlisiicas

não são provocadas pelo

20

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

interesse, não

têm

um

fim calculado, nâo se

impõem do-

gmaticamente, nâo se exigem,
sárias. Isto

nem

são fatalmente neces-

prova o seu grande valor, a sua proximidade dos

resultados finaes d'esta grande e unitária sciencia do ho-

mem. É por isso que no século que soube conceber
e das linguas, das i'aças e dos climas
rior,

a philosophia

da historia, que soube deduzir da discordância das religiões

uma harmonia

supe-

a tendência para a perfectibilidade indefinida do ho-

mem,

só a esse século competia lançar as bases positivas

da historia das litteraturas. Dá-se aqui

uma coincidência que

explica este facto; o primeiro que formulou o principio—

achou

O homem é obra de si mesmo, que, na Scienza Ntiova uma lei racional da vida coUectiva do homem sobre
mesmo, o
inaiigurador da philosophia da hiscri-

a terra, esse
toria, Viço,

propoz do modo mais racional as bases da

tica homérica e a verdadeira theoria da evolução do thea-

tro grego. N'estes dois processos

estavam implicitos os molitte-

dos como a moderna historia procede no exame das
raturas. Foi

também

Schlegel, o que primeiro fez sentir a

unidade das linguas indo-europêas, o

mesmo que

deter-

minou

a

lei

orgânica que dirigiu a elaboração das Littera-

turas novo-latinas. Repetimos, a historia das litteraturas é

uma

creação moderna; quando Aristóteles ou Quintiliano

observaram o modo de revelar os sentimentos nas obras da litteratura grega, achavam n'ellas, é verdade, um producto vivo,
turesa,

mas não pi^ocuravam

a espontaneidade

da naella

procuravam o cânon rhetorico dentro do qual

devia ficar restricta todas as vezes que precisasse exprimir

sentimentos análogos. Eusthato e Donato, estudando

Homero

ou

Virgílio,

não iam mais longe do que

a colligir as tradi-

ções da escola que bordaram a vida dos poetas, separados

da sua obra e peior ainda da sua nacionalidade. Os trabalhos

de Struvio e Fabrício reduziram-se a vastas indagações

IDEIA GERAL

21
antigui-

bibliographicas dos

monumentos que restavam da

dade. Os jurisconsultos da escola cujaciana, animados

com

o espirito

critico

da Renascença, tiveram por isso

mesmo

um
ria

vislumbre mais verdadeiro do que viria a ser a histodas litteraturas; clles foram ás obras litterarias do thea-

íro romano, ás satyras de Juvenal e Horácio procurar a collisâo

dos interesses sociaes para recomporem o sentido dos
leis

fragmentos das

que se haviam perdido n'esta renovatheologico, cofata-

ção da Europa chamada os tempos modernos.
Depois de havermos passado pelo periodo

mo

diz

admiravelmente Augusto Comte, sentimental,

lista, auctoritario, e

impondo-se no afferro da tradição; de-

pois de exhausto o periodo artislico, ou metaphysico, já

com
que

o sentimento alliado á
pertencemos,

um elemento racional e por isso mesmo
sciejitifico,

dignamente creador, succedeu-se o periodo

a

em que

o

homem tomando
si,

por meio único

do conhecimento
meio

—a

rasâo, procura ter a consciência de

tudo quanto se passa

em

na collectividade humana, e no

em que

existe.

Segundo
minado por

esta direcção positiva, a litteratura fórmà

um

todo orgânico, cujo valor histórico consiste

em

não ser do-

um

critério individual; analysada a obra litte-

raria sob o ponto de vista esthetico, é preciso conhecer o

génio do artista, o estado do seu espirito, para ver
foi

como

impressionado e como soube imprimir ao que era

uma

particularidade do seu pathos

uma

generalidade humana.

Porém

a historia

não procura

isto;

vae considerar essa obra
intelligencia,

connexa com todas as outras manifestações da
procurar
n'ella

mais do que o espirito do individuo, as ideias

e as tradições da sua época, mais do que o caracter do artista,

o génio da sua raça, todos os accidentes do meio concebida, o

em

que

foi

modo como acomprehenderam,
objectiva. Mas, dirão, para

a acção

ou

influencia

que exerceu. Aqui

a esthetica é especulativa,

a historia

puramente

que

fa-

22

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

zer depender a historia das lilteraturas de

uma

tal

comple-

xidade de processos, não separando a obra prima, pela sua

mesma
cial?

perfeição individualista, da fatalidade do meio so-

Não será querer deduzir muito de uma observação que devia ser restricta? Não será difficultar o problema com o que lhe é accessorio e immanente? Não. A necessidade d'esta ordem de processos está na importância excepcional da obra litteraria; vimos que era a creação

em que

a

liberdade

humana apparecia menos compromettida

pela pai-

xão interessada e pela violência da auctoridade. Diante de taes documentos, procederá com verdadeiro critério o que

poder
aquillo
toria

ler

melhor todos os sentidos que exprime,

mesma

que mais inconscientemente se repetiu. Assim a hislitteraria no século xix procura de preferencia as obras

espontâneas, de formação anonyma, aquellas

em que me-

nos se accusa a individualidade; para

ella

acabaram os mo-

delos clássicos, os typos do bello, os cânones rhetoricos,

e todas as obras são bellas, por mais informes, por mais
rudes, quando no seu esforço para attingir

uma forma com-

municativa se aproximem mais da verdade.

como

Vejamos agora o methodo positivo na historia litteraria, se formula sobre o que temos dito. Primeiramente

apparece-nos o facto: é o estudo da obra

em

si,

tal

como

chegou á nossa observação; offerece-nos no seu primeiro
aspecto
á sua

um estudo comparativo, uma classificação em quanto forma, em quanto aos sentimentos que exprime, em

quanto aos processos empregados para esse resultado. Depois do factOy o meio dentro do qual se effectuou; é o es^

tudo da época
reflecte

em
a

que

foi

sentida e realisada a obra,

que

em

si

tradição,

que é a parte fatalmente imita-

tiva, e a aspiração

moral, que é a parte que constitue a

verdadeira originalidade. Depois do facto e do meio, segue-se

o conhecermos o agente; ó o

artista,

o pensador,

em

que,

pelo gráo de consciência moral que a obra revela, vamos

IDEIA GERAL

23

reconstruir o

homem,

restituil-o á

sua individualidade per-

manente.

methodo positivo somos levados a conhecer lambem o caracter experimental ou objectivo da historia
Assim
d'este
litteraria.

Uma

vez considerada a obra inteilectual

como

ex-

tranha a toda a arbitrariedade pessoal, a todo o capricho

ou aberração, por isso que a sua generalidade provém da
sua própria racionalidade, o conjunto de obras que

formam

uma litteratura, só pôde ser bem comprehendido quando através das suas multiplices formas podermos fixar como
o génio privativo de
las,

uma raça

se revelou n'ellas,

como

elli-

apesar d'esta corrente

fatal,

tiveram

um

elcm.ento

vre para exprimirem a consciência da nacionalidade^
se aíTirmou por essas obras, e

que*
sua

com

ellas fortaleceu a

unidade, e finalmente, quando n'esse todo orgânico poder-

mos

discriminar áâ diversas correntes da civilisação trans-

mittida.

Exemplifiquemos estas ideias: o estudo da obra

em

si

vô-se nos processos de exegese praticados

com

a Di-

vina Comedia,

com

o

Dom

Quixote, ou

com o

Fausto.

Do

estudo do meio
parlicularisado

em

que

ella foi

concebida, temos o estudo

de certas épocas, como a Renascença, de

certas instituições,

narchia;

com

relação ao

como a do Terceiro Estado ou da mohomem, temos o trabalho psycholo-

gico das biographias, fundadas sobre as duas relações ante-

cedentes,

como a vida de Dante, de Raphael, de Gorneille ou de Saint Simon. Só assim, com todos estes elementos^
Quando Jacob Grimm
reconstituiu os velhos dialectos ger-

se chega ao pleno conhecimento da historia litteraria.

mânicos na sua assombrosa Grammatica allemã, quando
reconstruiu os elementos de vida ethnica das raças
ger-

mânicas na sua Mijthologia teutonica e nas Antiguidades
do Direito, a importância das raças começava a occupar a

Sob o apparato formal da unificação calholica que destruiu durante séculos o que o génio allemão estava insciencia.

24

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

trodiizindo na historia, foi o inexcedivel Grimra, unicamente

ajudado pela linguagem vulgar, pelas locuções, pelos anexins,
civis,

pelos vestigios dos velhos poemas, pelos contratos

pelas chronicas, lendas e contos, que tornou a dar vida

a essa raça violada por

uma

doutrina que lhe

foi

imposta.

Desde que se
ça, é

viu

que

existia

uma

manifestação

fatal

da ra-

que o typo histórico de Luthero foi comprchendido. Immediatamente o critério novo trouxe novos documentos
á
historia

das litteraturas; o incansável Saint Pelaye La
á custa da sua vida, pelas bihliothecas eu-

Gurne procurava,

ropêas as velhas Canções de gesta francezas, que até então
só haviam merecido o despreso dos sábios. Todos os po-

lvos concorreram para este novo estudo com os seus cantos nacionaes, como o que havia de mais caracteristico da
sua individualidade. Foi assim que se chegou
a

perceber o

sentido 'das canções provençaes, onde o sentimento de nacionalidade 6 de independência, se serviu d'essa forma
lit-

teraria para apostolar a liberdade municipal contra a ab-

sorpção prepotente do feudalismo do norte da França. Sob
este critério da nacionalidade é que os Liiziadas foram

considerados a única epopêa erudita dos tempos modernos.
D'este

modo

as obras mais aproximadas dos typos bellos

da Grécia, mais pautadas pelas poéticas de escola, quasi

nada signiflcam diante da

historia em comparação de um uma tradição local, de um auto hierático das festas nacionaes. O caracter da civilisação vè-se também contraprovado na historia da litteratura a Allema-

velho canto de guerra, de

;

nha que desde

a

Reforma começou

a revolver-se sob o

jugo

da unidade catholica a ponto de a quebrar, continuou este
esforço nos fins do século xvni, sacudindo as formas da
vilisação
ci-

que recebia da França, para inspirar-se unicamente
litteraturas

do seu génio nacional. No corpo geral das
€toritariameate pelas novas nacionalidades,

mo-

dernas, o confronto da civilisação convencional recebida au-

com

a direcção

o es- pirito leigo. bastava para demarcar a área das litteraturas novo-latinas. : Não aconteceu assim a tradição latina era forte. lingua. nos parlamen- na Renascença e Reforma. restabelecida e possue com o amor de quem acha um thesouro. o francez. facilmente esqueceu os seus dogmas druidicos pelas máximas do Evangelho. chamadas roma- que são o italiano. que se encontra nas luclas da burguezia. scandinavos e slavos. germânicos. nas universidades. nas communas. o catalão. Mas este grupo importante constitue-se por : caracteres mais positivos teraturas escriptas nicaSy em primeiro logar. são essas lit- em línguas congénitas. o hespa- nhol. Depois da lingua os sentimentos: a bondade e brandura céltica que abraçou facilmente o christianismo. e demais a mais. o seu desenvolvimento tos. nada mais natural do que segui- rem esta espontaneidade na sua creação. achada nas litteraturas dos po- vos calholicos. Portanto n'este grupo de litteraturas modernas não ap- parece esse espirito implacável e cosmogonico das mytholo- .IDEIA GERAL 25 social. por Schlegel. que estava na vida e na nova ordem conílicto constante : mostra-nos um os dialectos vulgares tornados indepen- dentes do latim disciplinar e urbano. lei Esta grande histórica. o portuguez. é esta lucta da naturesa que segue a sua marcha espontânea. estavam aptos para exprimirem as necessidades da iulelligencia. os novos sentimeulos davam origem a outras paixões. o provençal. saxões. admittida. indica também ao historiador a concatenação das litteraturas. unicamente nas antinomias da civilisação. nas jurandas. A que constitue hoje um dos elementos mais fortes da unidade nacional. reconhecida. Assim na civilisação moderna. o gallego e o românico. â collisão de interesses de outra ordem . Não aconteceu assim com os povos do norte. contra a pressão auctorilaria e clássica do dogmatismo da egreja. próprio e individual.

a fran- ceza. esse individualismo forte. que tanto custou tãos. Roma mundo . do organismo de nacionalidades feitas. e mo. quebra-se a unidade deixa de ser a arbitra do Com as imperial. temos de expor esses elementos já formados. os dialectos vulgares cocivil. a tradição gre- em grande parte atrasou a originalidade d'estes povos meridionaes. Em todas estas litteraturas meridionaes. e d'onde se deriva o que ha de mais original e independente n'estas litteraturas. essa tenacidade. é que dá ao hespanhol o typo espada. O estudo da historia das litteraturas modernas.ilidades. comprehende a litteratura itahana. a provençal. em vista d'estes princípios. que foram aproveitados ou se impozeram á nova civilisação. são co-romana. no ^momento em que novas raças trabalham para historicamente. que elles. a ser penetrada pelos sentimentos chris- O theatro hespanhol. o estudo das deve começar se afíirma- mesmo rem si antes da constituição novas nacionalidades.26 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL gias do norte. como as canções . Pois litteraturas moderna-s cias bem. e a secaracterístico mais forte das nacionalidades. a gallega e a românica. nunca poderia confundir-se com um dialogo de Sigurd. ha ele- mentos communs. resultado das invasões. Onde começaremos este estudo? justamente historia. ao italiano a improvisação da comedia dei ao inglez a tremenda tragedia histórica do génio sa- xão. meçam rem o a ser reconhecidos no uso e pelo -seu desen- volvimento virão a fazer esquecer o latim clássico. que foram o resul- tado e são a contraprova da autonomia. no ponto em que uma nova raça entrou na invasões germânicas. a castelhana. pelo seu imponente catholicis- Esse individualismo nacional da capa arte. a portugueza. que eram coexistentes ao tempo da formação das nacion. É por isso que antes de estudar em cada uma das litteraturas novo-latinas. principalmente depois que foi abraçada pelo catholicismo. o elemento germânico.

N'este longo periodo. e com o espirito das constituir-se. o elemento nas se conserva o mais obliterado. depois que a moderna sciencia da philologia. Se a tradição da litteratura tina fosse transmitlida la- como uma coisa viva. finalmente o elemento orien- desconhecido na historia. I *) o QOE SE DKVE AO ELEMENTO ROMANO Ao procurar nas litteraturas modernas o elemento romano. e as formas de civilisação transmittidas de de um modo natural e aproveitadas como primeiro núcleo um trabalho intellectual que as antecedeu. modernas nacionalidades que procuravam não . emquanto se não estudaram as migrações indo-europôas. os do século de Augusto estavam mais a sua monumentos litterarios do que perdidos. com Bopp. de gesta ou os romanceiros. que vae desde a mudança da sede do império do Occidente para Byzancio até ao tempo de Carlos Magno. se coexistisse com a formação das linguas vulgares. e o encadeamento tradicional dos contos populares determinado por IJenfey. actualmente represendescobriu. a unidade das linguas da F. chamado da baixa edade media. sem discernirem que os conhecimentos da antiguidade clássica de i um Imola não existiam na época de labor escuro da con- sciência. provado materialmente nas re- lações da Europa com o Oriente no tempo das cruzadas.IDEIA GERAL 27 céltico. que ape- em um cyclo poético quasi erudito. meramente individuaes.uropa. das épocas eruditas chamadas de Renascença. por isso que importância era já des- conhecida durante os dois séculos que succederam a essa grande época de esplendor. temos a distinguir o que pertence ás imitações forçadas. porque constituia o fundo primitivo. deduzindo-as de uma origem commum. tada pelo védico. e . em vagas superstições populares tal. De ordinário um Poggio ou de confundem-se estas duas feições. c sobretudo.

de maravilhas depois de artísticas. precisamos propor a questão em outros . em quanto á sua manifestação. como aconteceu em d'esta impressão para julgarem França. um outro estado de con- sciência. 2.28 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se teriam dado os seguintes factos: 1. os Etiennes.^. Assim Michelet. Toma-se de ordinário como ideia de decadência do império romano.°. e os obriga a um sys- tema de perpetuas conciliações. que os não deixa nunca chegar á verdade. um lethargo de espanto. faziam a collação dos diíTerentes manuscriptos de um Cicero. os fragmentos dispersos d'esta grandesa que foi. Os que partem ix. foi para os eruditos do século xvi. essa moderna antiguidade. a prompta dissoprofunda antie as pri- lução do latim urbano e preponderância dos dialectos rústicos. for- çada modificação da loquella estrangeira porém o segundo phenomeno zia revela-nos precisamente que o estrangeiro tra- uma nova ordem de ideias. desabar de um sumptuoso cheio de apparatosas columnas. a colligirem com religioso respeito as venerandas relíquias. para os Aldos. apesar de significar que a vastidão das colónias romanas fazia com que a urbanidade latina fosse invadida pela . que correm tas. sendo as nações modersolici- nas os espectadores d'esta calastrophe. a nomia entre o classicismo dos modelos rheloricos meiras tentativas litterarias. usados até nos actos juridicos . em que as como lhes chama próprias mulheres. um espirito em tudo desconhecido. livres manifestações da lingua. O primeiro phenomeno ainda se poderá julgar sem solução de continuidade. o edifício. do interesse e da vida própria dos povos novo-latinos. da paixão. a acção do elemento latino no período de elaboração que ultrapassa o século obedecem a uma miragem. que é o que produz essa antinomia entre a sua expressão litteraria e os modelos impostos da civilisação romana. litte- Para discernirmos esse elemento latino nas origens rarias da Europa.

e victimas d'ellas. como succedeu com Se- renus Saramonicus. de rhetoricos e de chronistas laureados nas recitações publicas. que n'um grito de embria- guez lhe conferiam a soberania acclamando-os. ao passo que a Egreja successiva e calculadamente adoptando a tradição romana. O cesarismo affrontoso dos imperadores que subiram ao throno depois de Marco Aurélio. Por este processo chegamos a salier o que entrou como elemento Itafia.IDEIA GERAL 29 termos cia : determinar o ponto em que começa a decadênfi- romana. por sem pòr em elle já se estava dando em consequência de causas im- manentes da própria litteratura. vér o que esta vilisação extincta ria. que exprime as necessidades intimas de a sua parte na vida histórica da um povo. que representava fatal- mente o estado moral em que se cairá. esses desgra- çados declamadores. á custa da corrupção que espalhavam no povo. Antes das invasões dos bárbaros na do império do Occidente. creou litteratura por necessidade tas. como aconteceu com o ignorado Cornelio Frontonio. uma de poetas e de panegyrisofficiaes. Incapazes de comprehender que a litteratura é uma synthese do génio nacional. xar os característicos d'essa decadência. e explicar ci- deu ás novas raças que entram na histo- finalmente como o chrislianismo combateu a foi fitteratura latina. or- gânico na civilisúção moderna. admittidos nos banquetes dos impera- dores. e lisongeando a proter- via dos soldados pretorianos. dando -lhe panem et circenses. esta arte de firmar o poder sobre a degradação moral. recuperavam . o cesarismo. as violações da sua justiça. e da queda morta já a litteratura latina estava em Roma que . elevados acima de Cicero. assassinado por Caracalla. o ideal da sua revolução. procurar de preferencia as causas moraes. nâo era preciso que estes dois cataclysmos viesevidencia esse grande collapso intellcctual. vendidos ao louvor das arbitrariedades imperiaes. que lhe assignala humanidade.

bellezas de gradações. mas prestes a submergil-o ao mais leve signal de temor. sobre a astronomia. A historia.30 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a perda do pudor compondo poemas didácticos e instructi- vos sobre a pesca. acha-se sempre o symptoma intimo da de- cadência. a justas . os grammaticos si occupavam a attenrao publica debatendo entre municias de syntaxe. Por qualquer aspecto que interroguemos os monumentos litteràrios. propriedade de tropos. começado pelos eclécticos gregos. estava reduzida a regras. que no seu tempo só o gram- matico Sulpicius Apollinarius entendia em Roma Sallustioí Emquanto novas tavam em ideias moraes entravam no mundo. ensinassem a verdadeira importância dos factos. o seu império. Para a historia merecer ainda alguma importância foi preciso que os rhetoricos gregos que estavam em Roma. a pequenas intrigas de camarilha desenvolvidas nas suas mínimas parti- cularidades. na ca[)ital em Roma. dia a e escrevendo na sua lingua pátria. adoptaram um deplorável syncretismo de ideias. cxer- em immodestos panegyricos. como n'uma enchente terrível se levanvolta de Roma. ultrajantes da justiça para captar nário. do mesmo modo que em Byzancio nas vésperas da sua ruina se ventilavam questões theologicas. Em philosophia succe- mesma incapacidade para investigar. Era a negação do sentimento poético. A eloqueucia romana. ou como nos salões das preciosas ridículas pouco antes da Revolução franceza. levantado por Tácito no meio da publica degra- dação. sem se atreverem das gentes. proporções ensi- nadas nas escolas dos declamadores cia-se na parte pratica. sobre a caça. sob Galliano. ou o imperador sangui- Aulo Gellio declara. esse tribunal severo da consciência e da critica. reduzia-se a ephemérides do paço. tes versejadores cem d'es- appareceram celebrando em outros tantos epilhalamios o nascimento de um neto do imperador. . um patrício influente. essa máxima virtude do fórum. e poa discutir vos desconhecidos.

com o seu jury. que tantas vezes tem reappa- . a e ao garantia do facto tar. a arbi- Irariedade substitue o dever. o cidadão romano só podia testar morrendo em Roma. que mereceram ser chamados ao cabo de tantos séculos a rcumo escripta . as causas véem-se atravez do esquecimento que Roma linha de si mesmo. civis. formulando que o direito de testar era uma graça concedida peradores. O cm frente do principio da aucloridade.IDEIA GERAL 31 Quando urna de. estava no génio romano a comprehensao da causa publica. sem um meio de participar da auctori- dade e de a dirigir reclamando. civil não passou de O aphorismo de Bacon civili. romano calje o ter creado essa ordem nova de sentimentos chamados virtudes civicas. isto é recebia um direito unicamente pelo facto de ler morrido no ponto em que a auctoridade publica podia manter-lhe esse privilegio. Em Roma o desenvolvimento dos direitos lado. elemento social que os povos germânicos e scandinavos trouxeram ao ár livre. a civihsação romana começou. Sem um prolesto. com as assembléas fácil foi com a liberdade de escolher patrono. — jus privatum um estado rudimenlatet sub íutdla júris é a grande lei da decadência achada por Guizot individuo era nada na civilisaçâo romana. Isto era apenas a consequência. foi de tal forma formu- que produzia esses códigos eternos. No tempo dos impelos im- peradores levaram mais longe esta violação. Creado o cesarismo romano. o poder lorna-se nágio divino. é litteratura chega a este estado de inanida- mesmo na sua decadência uma prova do abaixamento do nivel moral de um povo. e por um apa- uma illusão fácil de se incutir. desenvolver esse outro principio dissolvente do cesarismo. bastam-nos aquellas que eram emergentes na índole d'essa civilisarâo. abstrahimos das causas interiores e exteriores. a decair antes de Constantino. Uma vez esquecido este principio da indepen- dência politica. Como dissemos. a graça antepíje-se á justiça. Mas o direito politico.

antigo e nacional. de Virgínia. a creação litteraria que melhor presenta a sociedade. desde os seus tempos mais antigos. que veiu desnaturar o verso saturnino. — a litteratura tor- nou-se estéril. na historia. que era estrangeiro. não havia característico romano. de Tarquinio Prisco. Niebuhr mostra que as tradições romanas são em grande parte copiadas da Grécia. a metrificação era bém de origem baseada sobre a quantidade. pedir a sua legislação municipal. Passando rapidamente pelo período poético do symbolismo. sem ideia. as descripçoes didácticas. privativa da língua grega. se nos interesses civis. elevou-se muito cedo á forma abstracta e quasi geométrica da lei. e as noções scientificas se libertariam dos modelos gregos? A . a expressão do sentimento do quasi bello foi-lhe um luxo exterior. esquecido o principio fundamental que o romano foi introduziu na civilisação. de Mnenio Agrippa. um accidente secundário. attingiu mais depressa do que nenhum outro povo a comprehensão da ideia do direito. como a lenda das Doze Tábuas. Para o romano. e que o vigor da sua naciona- — a comprehensão da justiça. Roma fundada desde os seus primórdios sobre rídico. não chegou a ter uma feição nacio- Roma. uma artificiosa imitação das forre- mas gregas. e n'uraa larga e forte administração. O nal era theatro. cujas collisões dão a acção dramática. occupado n'uma laboriosa conquista. Uma vez lidade. a corrente litteraria veia exprimir estes sentimentos egoístas da bajulação ao prepotente. ses. É por isso que a sua poesia não tem um visível caracter de naciona- lidade. Foi então que a falta de uma originalidade or- gânica na litteratura latina se tornou mais evidente. como é que o sentimento vago. as danças populares eram tamgrega. As tribus errantes vinham espontaneamente sub- metter-se á sua disciplina. um contrato ju- um commum accordo entre os três povos luceren- ticienses e ramnenses.32 HISTORIA DO KOMANTISMO EM PORTUGAIí recido sob outras formas.

e scienliíico foi o primeiro povo que teve o estudo estrangeiras. que facilmente associou os deuses das as divindades dos povos vencidos.IDEIA GEBAL 33 mesma gia falta de caracter nacional se encontra na mylholoitálicos a to- romana. Era tes a reconhecer-se resistir. accusavam desde longo tempo na fatal. reconhecida e nunca discutida. e por isso incapaz de ser- vir (jue de vinculo de unificarão nacional. e a um . quando Jíienzi (juiz restabelecer a velha auctoridade imperial. As tri- bus errantes vinham ollerecer-se á administração romana paia receberem a sua con(|uislas. De facto o ro- mano jiias estava adiantadíssimo na agricultura. d este trabalho. para se lei colonial.le uma tradição colhida nos livros. Dois séculos antes de Christo. as novas povoações leva- vam á sua frente os Trknniviri ducendan coloniae. constitueo pantlieon romano. dando ao orbe o direito de O seu poder tornou-^e puramente moral. inteiro. o edito de António Caracalla uma consequência forçada desse desenvolvimento. Este syncretismo que vimos nos systemas philosophicos. já o colonato estava intro- duzido nos costumes romanos. foi unitária ci- na vertigem da impotência. teve unicamente liienzi caiu 3 a força (. Com o seu gonio unitário e centralisador. Kin Jor- nandes vemos repelidos factos d'esta ordem. governava pelo perstigio. das suas alturas de tribuno de Roma. no eccletismo. íicial. foi cresciam espantosamente. as coio- tanto conquistadas como voluntárias. para se lixarem nas suas a defenderem sob sua égide. pela aucloridade tradicional. ao mais leve ataque. pres- realidade desde que se tentasse Temos na historia um exemplo que explica este momento critico da vida de um grande povo. do- minando pela fascinação gloriosa. A todas estas causas. A religião era uma instituição of- separada do sentimento. civilisação uma dis- solução veiu accrescer o desenvolvimento do colonato. Roma. na impossibili- dade de manter sob o jugo o mundo dade. uma sem força phanlastica. abstracta.

desfez-se o phantasma da pelos Frankos. a devassidão pretorianos. Mas as co . a Hespanha a Africa aucto- ridade. um grande collapso em que a natureza precisava de um repouso profundo para entrar em uma evolução nova. Itália. Todos os historiadores são conformes desde a decadência de em aííirmar o con- tagio invencível de mediocridade da inielligencia humana era Roma alo ao século vii . co- mo os abutres sobre um campo de matança. Ao primeiro arremesso de uma ti:'ibu germânica na com a irupção dos Hunos. na véspera de uma transformação social. império do Occidente fora sa fez sentir a inanidade inevitável. de Roma. depois dos Lombardos. em que por uma políticos lei providencial. se ecchpsaram os grandes faz-nos europçus. . que mais depresterrível. as tribus irrequietas illusões duram pouconheceram que o jugo romano era apenas um simulacro risivel do antigo ferro em brasa. a arbitrariedade imperial. eram as feras da jaula que recuam diante da vara vermelha do domador. Não se atreviam a invadir a Cidade eterna. a Gallia romana é invadida romana é occupada pelos Godos. vei superior foram a consequência da falta de um mo- que desse vigor á consciência da nacionalidade. em volta d'ella agglomeravam-se as numerosas tribus germânicas. era a coná demnação das individuahdades caprichosas deixarem á natureza minação. Por uma mas dos Roma saiu da vida histórica desde que realisou a ideia do direito. romana é senhoreada pelos Vândalos. As tribus. Este parallehsmo comprehender esse momento tremendo em que as raças germânicas iam entrar na historia. vêm buscar um bocado do espolio do velho mundo. a mediocridade da litteratura e a extincçâo do espirito publico.34 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL sopro casual se esvaiu esse sonho que tanto embevecia Petrarcha. Roma estava n'estas circumstancias do seu ex- temporâneo tribuno. nullidade para a livre espontaneidade na sua deter- É o que se está dando hoje. A mudança lei da sede do um erro politico.

condenmou com o nome de condemnando o seu tempo. vos germânicos doscenlralisaram as accunnilações immensas das grandes cidades. corromper ou succuinbir. quando os íírandes senhores constituiram a sua hierarchia pelo molde da hierarchia ecclesiastica. esses dois elementos de força moral e material. e em que as crianças ao tornarem-se viril. como diz quem Ammiano Os poPagi Marcellino. começaram a formar-se os e os Vici. que tirava todo o seu vigor da puresa de costumes. das povoações visitihas que se defendiam. mas ò inegável que foi esta nova phase da consciência himiana que cooperou no que ha de mais esplendido na civiiisnção moderna. o factor estranho. e das tradições populares. homens vestiam as armas como a unjca túnica as cidades para romanas causavam horror. quando diz dos povos germânicos: «Ali. tornaram castos os próprios romanos. Os romanos corrigiram-se ros pelo a dominação dos vândalos. não se encontra desordem senão entre os ro- manos.IDEIA GKRAL 35 Traziam á civilisaçlío na sua corrente indefinida. por lhe [carecerem prisões e sepulchros. Mais tarde este foi absorvido no poder feudal. individualismo mana. o germano estabeleceu o estatuto pessoal sobre o direito territorial. deiMarselha: «Envergonhemo-nos e corramo-nos com uma salutar confusão. cuja denciencia produziu a ruina da unidade ro. E admirável o modo como Tácito de- screve esta raça. que por si imitara a unidade romana.» Depois do individualismo. i> O mesmo repetia ainda no século v o sacerdote Sal- viano. que o christianismo pogrmisjno. Onde quer que os godos são os dosol) minadores. é Com que vigor falia Tácito. se em Roma a lei era oo que agradava á vontade do principe» nas povoações germani- . traziam o individualismo germânico. Successo incrivel! prodígio inaudito! Os bárba- amor da puresa dos costumes e pela severidade da sua disciplina. são crimes que se nâo perdoam com dizer: Tal sendo.

apropriaram-se dos códigos roma- nos do Baixo Império. de mais vigor. Que era este com- conflicto senão a absorvente unidade romana que queria anullar a independência colonial? Mas sustenta-se que o município é todo de origem romana. sustentando a segunda que o município é germânico. os nobres ou iverhman. Corre na sciencia. os seus magistrados eram electivos. deu-se o conflicto d'estas duas for- mas de direito colonial e de cidade ou codificado. parti- cipando todos egualmente da auctoridade. constituindo-se em feudalismo. á metestar era para o . a unificação do direito romano. ha mesmo duas escolas contrarias. dos typos de legislação e de instituições que conheceram no tempo da sua conquista a classe dos lites adoptou e transformou o miinicipio romano. A questão propõe-se Ha no município moderno de* 'garantias civis. quando lucla entre os barões e as no século xu começou a munas. mulgada calla. se o direito de romano um privilegio concedido pelo imperador. que a tradição municipal nunca se perdeu. o germano não tinha crime todas as vezes que o nâo commettesse dentro da sua garantia. porque acabou a des- . Este problema histórico tem sido sempre proposto de uma maneira absoluta. no meio da incerlesa de direito. que o colonato germânico a adoptou e a transformou até ao século mais tarde no século xii vii. dida que iam dando a forma hierarchica ao poder. Mas em contacta com os restos da civilisaçâo romana os povos germânicos deixaram-se penetrar. quer isto dizer. porque em ambas n'èstes termos: impossível de chegar-se as theorias ha documen- tos e factos egualmente convincentes. e como tal a uma verdade. nO edito de Cara- decáe a instituição municipal.36 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM POIITUGAL cas era o que se estatuía na asseiiibléa ao ár livre. caracteres de uma No instituição Esta feição apparecç entre lodos os poseu período Pro- vos que obedeceram á dominação romana.

formando romana. livre. e fica principalmente politico o Foral era estaluido c piocessado pelos homens bons no malltim ou assembléa feição É então que o caracter electivo reapparece sob a acção do génio germânico. civitatis. Fora d'csta adopção jurídica as raças germânicas nada tinham a receber da cultura romana. assim os seus funccionarios foram escolhidos onlre os nobres ou entre os que o nâo eram. é o municipio das garantias politicas creado por a primeira forma exclusiva e das* estas quem ignorou vez detei'mina- Uma duas características. e fácil foi com a garantia local. conciliam-se as duas escolas dissidentes dnndo a cada uma sua verdade. rural da antiga Alsacia. que é também mais frequente o regimen communaL. é n'esse ponto da França. e a Com- muna é uma imitação doghild scandinavo. e ficaram com a sua (!sponlaneidade até que o christianismo se tornou por sua vez romano. conhecida pelo nome de com lei commum. O municipio romano perde o . e seguindo a condição mais ou menos importante do colonato. direito rural. a juntos o tribunal. nome. Concelhos Os em Portugal sâo esta tradição romana. o terceiro estado. a Fará. d'onde havia sair No nordeste da França o municipio é de origem gallo-romana.IDEIA GERAL 37 «gnaldade civil que a motivava. O Defensor segundo Boulhers. é imitado A communa Colonge. que li- a Cominiina. onde foram mais intactas e mantidas as franquias ger- mânicas. tendo reinfluencia cesarista. uma instituição de garantias cial. a colónia tem vida própria c independente. segundo o profundo verso de Dante: . recebendo de novo esta nha perdido. as povoaçijes ruConfundir a velha forma municipal raes adquirem importância. é n'este momento que perde o caracter electivo. Em consequência da nova ordem so- produzida pelas invasões germânicas. nas Origens do do Vogt das tribus germânicas. para tornar-se esse grande elemento social. nascido por lia uma no município moderno caracteres de politicas.

38 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Queila Roma oude Cristo é romano. N'este periodo que permaneceu intaclo è que creou o grande cyclo das epopéas do mundo moderno. caupossivel telosos jurisconsultos. da observação e da acção. vale- ram mas nâo tinham communicação com a alma germânica. b) O ELEMENTO CHRlSTÃO O estado dos espiritos christianismo se radicou no occidente. No meio do cgoismo da grande capital. cilmente acceitava O grupo que abraçava estas doutrinas. d'onde resultou o ser-lhes mais tarde iaiposta essa crua unidade. perdido o sentimento da dignidade cia com a perda da constituição republicana. a lógica. fauma qualquer doutrina que tivesse pelo com o menos pelo lado pratico certos pontos de analogia . No meio em Roma uma do philosophia admitlida pela necessidade de protesto. primeiros cinco séculos nada tinha que transmittir tos infini- grammaticos muito. que as levou ao feudalismo. Havia uma grande incapacidade para os as leis imperiaes lançavam de vez estudos philosophicos. A litteratura n'estes . espécie de páreas da conquista. appareceu milagres. controversistas ecclesiasticos. Baseava-se sobre estes três grandes factos espirito. é em Roma. em quando interdictos sobre os philosophos. os philosophos trazidos para Roma eram tidos como seres extranhos. Foi o Stoicismo. e as investigações da rasão não en- contravam respeito . no momento em que o uma consequência dos caracteres que esboçámos no quadro da decadência da civilisaçâo romana. a physiolo- gia e a moral. e do syncretismo in-' tentados diíTerente de todas as rehgiôes. Perdida a existência politica da Grécia. e rhetoricos gaulezes ou hespanhoes. a scien- tornou-se uma curiosidade absurda da theurgia e dos d'esta dissolução. como Lucullo ou Sylla. e os grandes po- formavam bibliothecas para alardearem as suas riquezas.

entre o stoico Séneca e o apostolisador Paulo. controversistas. linalmente foram racionalistas do sobrenatural. Hilário. e usaram-no. eífeitos para a causa primaria. Antes de attingir tica no christianismo hellenico. como elemento disci[)linar e formulislico dos dogmas da fé. Alinucio Félix. Lactancio. Arnobio. IDEIA GEHAXi 39 a tradição Stoicismo. o christianismo evange- lisando a egualdade diaute de Deus. Bastava este prinpaí-a commum. Foi natureza. Eusébio. pelo menos litterarias. o christianismo achar ecco em Roma era elle que vinha aproveitar a base systematlca. Ambrósio. Os afamados doutores dos primeiros séculos da egreja foram terríveis dialécticos.. os dois Gregorios. como o melhor escudo [)ara a polemica. trataram de propagar a prehendeiam a força doutrina á força de argumentos. oppozeram a simplicidade da moral às caducas e contradictorias escolas philosophicas. Na lógica. o mesmo que os christãos na correlação dos um. de Niceia e Nazianzeno. como vemos no principio da ascese mystica do monachismo. como refutação das heresias. Athanasio. a doutrina de Christo cipio tinlia por fundamento a moral. ibi Uberlas. que os stoicos haviam formulado. Quando o christianismo recebeu o vicio da unidade romana. os padres da egreja com- deste novo meio. A medida que esta necessidade foi desappa- recendo. Justino. os stoicos tomavam a rasão como o meio consequente de chegar á verdade . Terluliano. foram polémicos. condemnou a natureza. O Stoicismo condemnava a es- cravidão como contra a natureza. propagou Ubi domi- uma como espécie de rehabilitarão da em que os stoicos sentiam em um estado de immanencia. e só quando acabaram as grandes inteUigencias . antes uma forma dogmáde receber uma for- nia tlieologica na controvérsia e nos concilios. Basilio. consideraram a rasão e a sua actividade lógica como um meio de defeza da doutrina de Jesus. Agostinho e Chrysostomo. Não é sem fundamento que nasceu das relações.

a ponto de derramar uma la- grima sobre o episodio dos amores da rainha Dido. O principio moral de vencer as paixões. e que Clemente de Alexandria considerava a philosophia paga como um primeiro esboço das doutrinas do stoi- Evangelho. o chrisliani^mo venceu o a apathia do stoicismo. já annunciada por Vir- romana as conclusões foprematuramente. isto indicava uma ordem nova. a controvérsia aggressiva. na controvérsia religiosa escrevia-se contra a leitura dos livros dos infleis. a ancilla theologian. é que a pliilosophia. como os primei los padres da egreja. 40 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL d'este cyclo militante da egreja. que S. Esta direcção de espíritos tão potentes. tornou mais completa a decadência da teratura romana.. do nihiUsmo desenvolvido pelo christianismo? Tudo gílio. a isempção do cismo porque trocou a divagação philosophica pela pratica homem justo das paixões. Justino ia encontrar o mysterio da encarnação no paga- nismo. por. Jo- ronymo também condemnou a leitura dos livros proíimos.isso que estavam possuídos de entliusiastas. um outro sentimento. á amputação de Orjgenes. S. Na parte moral. Salisbury accusa o papa Gregório de ter queimado uma bibliotheca de auctores pagãos. o panegyrico eloquente lhes não tivesse absorvido e em grande parte annullado a actividade? As formas que seguiriam es- . á condemnação dos monumentos litterarios da antiguidade como seducções pec- caminosas dos sentidos. ferventes. Foi por este trabalho de racionalismo sobrenatural. livro das Confissões de- screve o peccado que commetteu deixando-se impressionar pelo quarto livro da Eneida. que formas de arte não conceberiam se a necessidade da polemica. e com que arrependimento quando no se accusa a si pró- prio Santo Agostinho. exaltados. de as extinguir em si. se tor- nou a scientia mundana. que é senão o rudimento da abnegação da indivi- duahdade. capazes de crear lii- uma litteratura. levou á severidade de diante da decadência mas ram tiradas Tertuliano.

O concilio de Niceia estabeleceu a primeira unidade na centralisação administrativa. teve procurou deíinir-se. ao vicio doutrina da egreja. porque não precisavam d'esse cunho religioso romano para comprehenderem a grandeza do sacrificio. estava recente na memoria degradante da apotheose dos imperadores. Até ao fim do século v quasi lodos os príncipes eram arianos. o bispo de Roma lornou-se o ápice de uma hierarchia unitária. tempo de Theodosio verem assumir o poder imi)eradores dominados por seitas philosophicas adoptaram essa formula geral. uma raça lambera nova na historia. As raças germânicas. os bárbaros do norte deram a essa doutrina a feição do seu caracter racionalista. abraçando o chrislianismo reduziram-o. fecunda. Demais. por uma unidade vicio da formal.IDEIA GEBAL 41 tão indicadas n'essa assombrosa fecundidade de tradiçíjes populares. Era o principal decadência romana. te- nazes e sinceros na sua crença. a egreja se. impassivel e calculada. . os que até ao da forçada unidade á religião nova. disciplinar- necessidade de condenmar as suas mais bellas con- cepções senlimentaes. adaplaram-no ao seu sentimento individual. abraçara o chrislianismo. não accèitavam a ãmnisação de Jesus. preferiu perder a espontaneidade da natureza. Christo lornou-se lambem romano d'entre a egualdade dos bispos. que formaram os Evangelhos aporryphos. revelado na Roma quiz centralisar o dogma segundo o celebre verso de Dante. e os bárbaros do norte. Assim a decadência romana incutia este se appellidavam christãos. O aria- nismo não é mais do que esta modificação raclerisada pela negação do instinctiva ca- dogma da divindade de a abjecção Jesus. . É . original e forte. e a tendência apaixonararase pela humanidade de Jesus. Mas polemica recebia o vicio dos sophistas da civi- lisação decadente. en'essa Iheoria do amor myslico exposla na allegoiia do paslor Hermas.

consulto Triboniano junto do imperador. metropolita- nos. prohi- bindo aos christãos não catholicos o direito de testemunhar. mesmo contra os ca- Justiniano. a ideia unitária Icvava-o a ser injusto ífiolicos. a influencia de João de Capadócia e do calculado catholicismo. convo- cou um synodo em Byzancio para destituir um patriarcha juris- não cathoUco. um partido. violado por Justi- niano por causa da unidade da religião do estado. de herdar.42 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL. hymnos como IJeuriquc vni. leis este mesmo facto assignala o momento em que a egreja começa religião a abraçar a unidade romana. que exdos empregos todos os que a não professassem. bispos e abbades. Justiniano. de doar. O estado adopta uma cluía que se torna uma forma politica. e depondo outros a seu bel prazer. Anastácio antes de ser impera- dor foi patriarcha de Antiochia. tam- bém injuriou Origenes. também compoz e como o antagonista de Luthero. com mais garan- pelo facto de uma religião de estado. Justino interrompeu a succes- são de Athanasio seduzindo os catholicos tias. já imi ramo senntico da Pérsia a procl.iinava como uma provocação a Justiniano. prometteu aos catholicos o privilegio dos empregos públicos. Como chefe do estado Justiniano intervinha na eleição e na inamovibilidade da gerarchia ecclesiastica. representante do christianismo hel- lenico. Antes dos Árabes trazerem á Europa no século vn o sentimento humanitário da tolerância. religiosos. nomeando patriarchas. reli- Gosroes abriu a todos os que professassem qualquer gião o accesso aos cargos públicos. e para se fortalecer contra a revolta de Vitaliauo. A serie dos imperadores do Oriente foi em grande parte ac- clauiada pelo catholicismo. provinha de um O grande principio foi da tolerância inaugurado pelas raças germânicas. de succeder. . no tempo de Theodosio que começa a introduzir-se nas o nome de catholicismo differente de christianismo. condemnando-os até á morte.

ponliíice próprio Jus- da religião de estado. nome de koiais^ Sob esta pressão oílicial a lavor do ramo cathoUco.IDEIA GEKAL 43 Depois de abrasar. tiniano. a litteratiira que vae até ao século vii tornou-se nulla. que tinha o lov. o estado consultava o agouro das aves quando a invasão germânica rompia as portas de Roma. destruía o poder de Constantino- Uma vez tornado religião de esladOy o christianismo pa- . O ultimo acto legislativo de Justi- niano. Foi elle o inventor da inquisição. o que a prédica fervente não alcançava Ião de [)roinpto. A a nova ordem de sentimentos que inspirou o pastor Hérevangelhos apocryphos. Como na decadência romana. e vi o cleio era estúpido. em controvérsia estéril. esta devassa alTrontosa da consciência. aconteceu por consequência que no século ces religiosas. tia-se qual a em Byzancio discu- natureza da luz que envolvia Jesus no Thabor ii ao passo que Mahomel pla. faz o retrato d'esta profunda decadência da nova litleratura ecclesiastica. e esses poéticos medida do seu alcance e do que gastou-se sua fecun- didade. de 56í. disputava com o papa Agapito. e os negócios politicos eram para elle acci- dentaes diante das suas polemicas dogmáticas. em O polemica tempestuosa. ignorando a simples leitura das pre- comprando as diíTerentes dignidades da gerarcliia ecclesiastica. des- appareceu o génio fecundo dos prinieiros doutores da egreja ([ue estabeleceram a sua disciplina. quando creou o funccionario encarregado da perseguição dos heréticos.se este vicio da civiiisação roniana. que não deixou aos espíritos essa serenidade necessária para a concepção da obra d'arte. estava-se seguro que Justiniano fazia pelas suas multiplicadas leis e extorsões a favor da egreja. a ponto que nas revoltas que procuravam desllironal-o refugiava-se entre os sacerdotes antigos doliciando-se com a controvérsia. d'onde os imperadores queriam renovar a tradição cesarista. o que nos dá teria sido a nias.

com mais poder. principio que tanto tem custado a extingir da vida vicios o Feudalismo.44 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL rodiou a velha legislação romana nónico. não conseguiu mais do que O genlo semita temia que se fosse cair na ido- proscreveu a Imagem. que o reduzia aos limites de um uma philosophia. invasão e. essa necessidade de fallar aos sentidos. Inllulndo despoticamente nos concílios. parecimento do Mahometismo na Nascido no seio de uma poderosa raça semítica. deram ao christianismo essa dependência da imagem material. se não raça que recla- mava uma dissolução. Todos estes da unidade romana abraçados pelo ca- Iholicismo vieram encontrar um correctivo salutar. Por um lado os theologos hellenistas. O christianismo deixava fez-se de ser semita ao entrar na Europa. assim é que foi recebido em Roma. no aphistoria. creou o seu direito cacivil. o christianismo trouxe caracter de abstracção. comp tendo sido o typo das formas da sociedade momas esse typo reproduziu-seemum estado cujo prinpôde considerar depois do século vii. d'onde procedeu a arte moderna. e direcção. foram elles que reagiram contra esta desnaturação da Ideia da divindade nua e absoluta.Oriente. cipio se cipio que foi o prin- da arbitrariedade senhorial. de monotheista tritheista. viu é Deus. e como taes servindo-se mais comprehensão. Justiniano. Mahomet seria Incapaz de fundar tivesse encontrado as tendências de uma uma religião. um polytheismo e lan- çou a formula só Deus Estes factos descobertos pe- . con- tra os quaes o judeu reagira com o principio abstracto do Jehovismo. ambos como indo-eurodo sentimento para a peus. Os Árabes formavam um dos ramos mais vastos da grande raça semítica. social. Guizot considera a egreja derna. análogo ao da graça. por outro o caracter transfor- mador e sentimental dos bárbaros. latria. permanente da sociedade e modelo da incerteza das jurisdicçues feudaes. reproduzindo os velhos mythos do.

e dos do seu tempo. É este o espíritos esclarecidos pensamento de Procopio. modo inconsciente o desenvolvimento que SC estava dando no latim fàllado nas colónias e nas classes da sociedade. e entrou na historia. gusto. vtd- pedeslris. xxvin) «não o temos por estranho aos fundadoa res do islamismo. a egreja adoptou a liturgia. É este segundo momenU) da sua vida histórica que va- mos expor como um correctivo aos defeitos recebidos pela ogreja quando adoptou na sua tradição os exemplares de uma litteratura decadente. erA bch^miiòo sermontstictis. Uma lisada vez possuída do espirito da unidade romana. Em menos de um século o islamismo conslitue ideia . desde o século de Au- accusavam de iiilimas <f(U'ís. um algumas phrases de Cicero.» As consequências do apparecimento do islamismo seriam nullas s« esse protesto monolheista nâo passasse á acção. da tlieologia byzantina com Doeste capricho cesarista. na Histoire de Justinien. considera nas suas Anedocta. o árabe errante conheceu o porquê da sua existência.IDEIA GEBÂL 45 los novos processos da historia. Procopio. o appareciraento de Mahomet como uma consequência das aberrações (pie Justiniano tanto se alegrava. a sua lingua como o latim. (p. rea- na summa hierarchiâ papal. achara-se fortalecidos pela authenticidadc dos documentos. para assim pòr cobro ás esta- reis controvérsias Iheologicas do Baixo Império. torna-se lilteraria. qne se ia estendendo a todas as íiecessida- . um grande povo pelo vinculo de uma mesma cstende-se tanto é então que os Ára- bes se apossam do Oriente e do Occidente. lin- gua latina para a expressão universal da sua já Ia de encontro á corrente natural. as comedias de Planto. veiu preen- cher o vácuo deixado pela extincção do império romano. avassalou o mundo. á\z Isambert. historiador do Baixo Império. e o ve- hiculo do que havia de pratico e ulil na civilisarão grega. que ditaram Deus é Mahomet a forma simples o verdadeira Deus.

em que novas necessidades moraes faziam valer uma linguagem até então desprezível. que o próprio legislador Justiniano. fazendo um es- forço para se afastarem da corrente da dicção popular e aproximarem-se dos modelos cicerorianos. e Ludewig. sustentando o uso do latim clássi- as forças vivas venceram. incommuní- €aveis para o povo. destinada por Deus para servir de meio geral de communicação dade. segundo o historiador Procopio. a Reforma do século xvi. op. p. o enthusiasmo religioso extinguiu-sc a ponto de se não encontrar na Baixa Kdade Media. Os padres da egreja adoptaram a língua latina para a controvérsia.. e o latim erudito hido para penumbra. A força da corrente dialectal era tão violenta. ao ditar as suas introduzia sem querer o elle latim bárbaro. e a egreja restringiu as suas pretenções á universalidade da lingua litúrgica. Isto que vemos na parle litteraria é uma consequência do que já apresen- .) Foi contra esta corrente da formação das linguas vulgares que co . coincide tica com a este O apparecimento dos bárbaros momento critico em qne a linguagem rúsfica retra- occupa o primeiro plano. Dava-se a profunda revolução so- cial. a egreja se oppoz.. Os livros bíblicos em latim por S. Santo Agostinho falia com assombro do facto de existir uma lingua tão conhecida como o latim. da d'onde era natural. xlvi. o do povo na hymno deixou de ser comprehendi- do. perdeu-se o uso primitivo da participação liturgia. diz que o imperador escrevia as cartas Ilyria. (Isamb. o minimo vesligio de conhecimento de Deus nos monumenforam traduzidos tos iconographicos. á medida que o latim m^bano se redazia aos artifícios dos rhetoricos. leis. até que uma revolução moral que quebrou fez a unidade do calholícismo. traduzir em lingua vulgar os Evangelhos. Jeronymo. e ficaram letra morta. como provou Didron. em latim dialectal cit. a uma doutrina da humani- Mas as consequências d'esta pretendida unidade fo- ram funestas.46 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL des da vida.

e tendo vencido o caracter terrível de Theodorico. a lendo até con- demnado metter os monumentos d'essa lilteratura. que uma isto justa esperança su- stente o vosso coração. o Concilio de Trento.IDEIA GERAL. Assim. foi Um dos principaes (íscriptores adoptados pela egreja Boecio. per- tencendo ao dono ou patrono da egreja como d'ella. com giada de uma prescrii)rão privile- cem annos. . uma alfaia os grandes abbades. clero. Boecio morreu no martyrio. como a ado- pção da emphyteuse romana. depois de seis prisão. com formas de propriedade suas. com foi o direito de mão-morta. de uma família consular. para rivalisar com o feudalismo . O ultimo esforço para manter esta unidade aristocrática. os Lollards. o clérigo das povoações ruraes tornou-se servo. Desde o momento que a egreja cumprebendeu que ali lhe pertencia a tradição da unidade romana. foi víctima da reacção (jue os godos provocaram no caracter d'este monarcha contra os roma- nos. escolheu aquelles livros mais l']vangelica. lido sob esse pretexto nos claustros da Edade Media. com o foro dependente. foi n'estas condições que escreveu o Tratado mezes de da Comolação. e que vossas humildes supplicas se elevem até ao Eterno. Os cantos vulgares foram banidos do templo.» Bastava para fazer de Boecio um santo. mixto de prosa e verso. o vi- carius. os bispos. 47 támos na parte politica. atirados ás fogueiras. onde se reprodu- ziram as scenas dos concílios byzantinos. O sentimento que inspirou este livro pertence á doutrina dos toicos vicio de Roma. Virgílio tornou-se em harmonia com a doutrina um propheta. quebrada pela Allemanlia. e n'esta incommunicabilidade do latim. teve de com- uma contradicção para os admiltir e estudar. como se ve por esta phrase: «Evitae o e cuUívae a virtude. nascido em Roma. os Bollandistas o accolheram nos seus in-folios. que formavam o alto in- tinham o seu corpo de direito canónico. em cinco livros. como relata Sarpi. a egreja foi recebendo uma forma arjstocratica.

pela primeira vez exposta no Evangelho de Nicodemus. de Boecio o auctor do Roman de la Rose. que deu origem á questão: «Se os géneros e as espécies existem por si ou somente na intelligencia. cido com o velho mytho pythagorico. Thomaz de Aquino é Duns ros de fé. intervindo concílios tempestuosos. publicada no principio d'este século por M. sentimental. 48 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e nas egrejas de Itália o adoraram.. &cott. João de Meung. se são corpóreos ou incorpóreos. Um dos principaes monumentos escriptos nas lín- guas românicas é a Consolação de Boecio. a egreja ado- plou de Boecio o commentario á Iraducção da Isagoge de Prophyrio. . Gilbert de la Poré. d'e[les. ou constituindo uma parte xi este problema trazido da decadência através de Boecio. Raynouard . feita pelo rhetorico Victorino. se existem separados dos objectos sensíveis. Foi d'este cominútil. renovada Mas a acção fecundante. e no caso em que elles existam por si.» Rebentou no século ou n'estes objectos. na parte anullada na parte intellectual . foi acceito por todos os povos da Europa. como influiu sobre as lendas poéticas do christianismo. dos Nomi- nalistas e dos Realistas. Boecio commentou esta ceiebre passagem de Prophyrio. que Boecio leria exerfoi com esse livro De Consolatiom philosophm. e não só exerceu os dialectos vulgares na sua versão. lido e decorado. contra o qual se esgotaram Boscelin e Guilherme de Ghampeaux. dizer lambem a traduziu para Phileitura lippe o Bello. Podemos que pela entrou na egreja o mytho grego de Orpheu e Etuijdke o christianismo abraçou-o para symbolisar o doguia da re- dempção. O Tratado da Consola- ção de Boecio. er- e esterilidade philosophica. S. João de Salisbury. por Boecio. mentario que saiu esse problema a intelligencia que tanto esgotou a lucta humana na Edade Media. Abailard e Santo An- selmo. e fácil foi aos doutores da escola bellenica contirar as al- fundirem a lenda da Descida aos infernos para mas dos patriarchas.

: IDEIA GEBAL 49 Um outro livro guardado pela egreja dos despojos da defoi cadência romana o livro de Marciano Capella. um génio superior ao seu e mais dignos de serem estudados. a intelligencia fora do qual os eruditos da humana contenlou-se com este horisonte. para com o seu positivismo as aberrações auctoritarias da tradição da decadência. que é precedido pelo pequeno romance de prosa e verso Das Núpcias de Mercúrio e da Philologia. Sobre este ponto diz Jourdan «A influencia de Capella dura até á época em que as obras de Aristóteles e dos Árabes se vulgarisaram no Occidente. sem 4 lançou-se ao estudo das sciencias experimentaes. O primeiro comprehendia a grammatica. d'este ultimo saiu para as escolas da Edade Media essa absurda classificação das sciencias. Plinio e Solino. pralogar para se esgotar sobre a cassislica dos dogmas.» Depois que os Abas- procuraram introduzir en- árabes as sciencias da Grécia. contiecida pelo nome de Tri- vium e Quadriviíwi. a lógica e a rhetorica (trivimn) sica. no século IX era seguido nas escolas de Paris no século x en- contra mais três commentadores. As ideias de Marciano Capella não tinham originalidade. As sciencias estavam divididas em dois grupos arbitrários. em Auvergne. a mu- geometria e a astronomia (quadrivium). Edade Media nada mais viram. elle No século VI o rhetorico Félix aggravou mais o livro de Mar- ciano Capella com um commentario. e no século xi é traduzido em allemão. como a . dei- xando o logar aos modelos de sidas e principalmente Al-Manon. eram um ecco das observações de Varro. lethargia inlellectual É n'esta da Europa que torna a apparJcer corrigir em todo o esplendor o novo elemento árabe. o espirito semita. ensinando por . Isidoro de Sevilha adoptou-o também. tre os tico. chamados as sele artes Uberaes. Assim clas- sificados os conhecimentos sem correlação. o aagunáo comprehendia a arilhmetica. a . intitulado Satyricon. sem base dogmá- tica.

Estudamol-o n'esta relação percaria. tendo anteriormente provocado a expansão do rismo provençal. os judeus traduziram para latim as obras trazi- das pelos Árabes. que em Marciano Capella resumia uma sciencia. a pbysica. para assim caracterisarmos melhor a decadência. cuja primeira e principal manifestação o apparecimento de Galileo e de ly- Bacon. Ippocrate. e Galieno. medicina. é que apparece na historia o poderoso elemento germânico. Foram os Árabes. (Inf. C) o ELEMENTO BÁRBARO No meio da influencia da cadente civilisação romana. Este nome de Bárbaros dado aos povos germânicos. os Árabes oppo- zeram-lhe Euclides. a Poética. explica-nos o modo como elles vieram de encontro ao Império. Coincide com o tempo de Justiniano o trabalho das primeiras traducções do grego para syriaco. S. Avicena. Pelo conflicto entre o vivo e o morto. as Cathegorias de Aristóteles. a álgebra. Dante exalta esta direcção positiva symbolisada na influencia de Averoes: Euclide geometra e Tolommeo. é que se vê soffrer. . A cada magro capitulo de duas laudas. e astronomia Aristóteles foi o que mais lhes satisfez esta tendência. e a sciencia pela primeira vez abandonou a orthodoxia. e a naturesa da lucta que o génio germânico leve de por isso mes- mo se vê o alcance da sua força. a Politica. Averrois che'l gran comento feo. vi) os philosophos gree Alberto Thomaz de Aquino foi Magno procuravam n'elles a direcção scientifica. que communicaram á Eu- ropa as obras de Aristóteles. vistas até então através das lacónicas e não comprehendidas allusôes dos declamadores da decadência. Dante egualava no seu poema gos e os árabes.50 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL . e das tendências para a tradição unitária do calholicismo.

que é uma raça pura. Salviano. E nós es- pantamo-nos por Deus ter entregado as nossas províncias aos Bárbaros. Tácito linha o sentimento prophetico. ao menos elles peccam por ignorância. mas pudicos. sem mescla. mas louva-se a sua castidade. eu o digo com lagrimas. con- demnam-a. Os Godos são pérfidos. que escrevia acerca da Germânia cento e nos depois que Drusus avançou com esquadra até ao promontório dos Cimbros. lidade. os Alanos voluptuosos. mas fieis. pelo exclusivo emprego da actividade nas armas.. condemna o sea tempo dizendo: «Vós pensaes ser melhores que os Bárbaros. mas hospitaleiros.IDEIA GEBAL 51 as grandes cidades. tino histórico das raças germânicas. da paixão ardente pelo jogo e pelas hebidas fermentadas. Respondo que somos melhores emquanto á fé. porém Tácito comprehendeu o alcance do vigor d'essa raça. Vós conheceis a lei e a violaes. que eslava isolada dos vicios do Império para vir insullar na vida social as suas novas exal- forças. deixando ás mulheres o trabalho da agricultura. os Frankos mentirosos. e que sò se parece comsigo mesmo. mas somos peores. no livro quarto De Gubernalione Dei. que o sangue dos germanos nunca foi al- terado pelos casamentos estrangeiros. quando o seu pudor purifica a terra aiuda . mas reconhecem-na como um castigo de Deus. um facto providencial. No catholicismo encontramos uma comprehensão os padres da egreja soffrem o desastre da invasão...» Bunsen. como tornaram incerto como afrouxaram o seu Ímpeto ante a disciplina moral do calliolicisaioi eram Bárbaros^ pelos caracteres primitivos que apresentavam. Este estado prevalecia pelo menos ainda no tempo oito ana sua de Tácito.. quando tava a puresa da raça germânica: «Sou de opinião d'aquelles que pensam. da vingança hereditária. a crueldade dos Saxões horrorisa. pela nossa vida. aceita estas palavras como a primeira comprehensão do desegual. como o instincto da hospita- como assolaram o direito.

exaltarão os vencedores.» Este texto meira vez produzido por Ozanam é .» Aqui se caracteri- sam nt)s as raças germânicas. para assim caractcrisar os vicios a humanidade aos tempos modernos. — Responderei. não se ligaria ao seu nome somente a ideia de barbárie. se vós não detestaes n'elle o perturbador das nações. dir- me-heis : destroem. tamescreve. os germanos os — Outros são os estragos da guerra. Na phrase de Tácito ha uma . cios. Mas. Os germanos agora lançam tudo por terra les . Paulo Orosio. dir-se-ha : — Os Bárbaros são os inimigos do que todo o Oriente pensava o es- mesmo de Alexandre. e seria o espirito da tes 'civilisação moderna comprehendido an- de Ilegal mostrar que o individualismo germânico trouxe paixão de colorista. como no francez.52 HISTOBIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL conspurcada das devassidões romanas. (oxalá por domar os povos que depois policiaram. fos- sim caracterisadas por sem consideradas como um instrumento providencial. não se attribuiria a sua infiuencia unicamente ao christianisrao. Mas. mas que não) el- acabassem por ficar senhores e por governar segundo os seus costumes. talvez que um dia a posteridade sau- dasse com o titulo de grandes reis aquelles que agora não foi sabemos ver senão como inimigos. muitos louvarão também o tempo presente. Salviano e Paulo Orosio. conselhos que segue a Os macedonios começaram se. e tomarão as nossas desgraças por benefítado. — Os gregos fundavam impérios. asTácito. não se obliteraria o conhecimento da sua acção na historia. outros os victtíria. Se as raças germânicas. tal rudeza. e cora as feições profundas como ellas estavam na sua ^ue ainda transparecem povos modernos. e que os romanos não pareceram melhor aos povos ignorados cujo repouso iam quebrar. fazendo sentir os destinos providenciaes das bém invasões: «Se as conquistas de Alexandre vos parecem gloriosas por causa do heroísmo com que submetteu tantos impérios. pela pri- o que elle significa não bem o que está nas palavras.

mesmo modo que os patriotas mais sinceros chamavam defeitos as raças errantes á traição para castigarem os terra. lisado nos factos. as formas de arte. que leva á aniquilação da personalidade. Para elle. as communicaçôes inlcrnacio. códigos jaziam sob as ruinas da grande catastrophe o es- paço que vae do século v á Renascença do século xvr. levava a achar uma quando ou for- Hegel veiu applicar á historia o subjectivismo do logos rea. as industrias. sultados e a força. porque cedo recebeu a direcção mystica. do romana pondo-a em contraste cora essa na* em Salviano. A contradição entre os reoutra origem . — em summa. á suppressão da vontade como o supremo ideal da perfeição. a historia era a narração das vicissitudes 1 ' nidade passava para chegar a alcançar a consciência de . ao nihilismo da inlelhgencia. a independência individual. que não podia provir unicamente do chrislianismo. e contentaram-se com a supposiçâo gratuita de que o chrislianismo fora a luz salvadora n'esta procella tremenda. do governo da sua ironia. e na Natureza. a religião popnRir. achou n'essa grande elaboração que . na Arte. naes. 'verificada no Direito.IDEIA QERAL 53 da civilisação luresa primitiva çâo calholica. mou os tempos modernos mais uma coníirmação da theoria por onde a humasi. em que se desenvolveu rado como a civilisação germânica. Foi Em Paulo Orosio ha ura mixto de por isso que o periodo da elaboração das raças germânicas teve o nome de terrível noite da Edade Media . uma actividade orgânica e fecunda. Bárbaros. ha o espirito de condemnaexaltando acima da decadência romana os . era conside- um periodo de lelhargo da intelligencia e da consciência humana. dizia-se banalmente que as instituições e os . afQrmaçôes declamatórias Mas os fados estão em manifesta contradição com as n'este grande periodo da Edade Media crearamse as linguas e nacionalidades modernas. e elevando-se por elles á synthese ! consciência da lei.

A unidade das raças indo-germanicas. e finalmente encon- trando esta conquista parcial no mundo moderno. baseada nos dogmas religiosos. em seguida confirmada na unidade das linguas na unidade das tradições religiosas (Creuzer. historia entrou n'esta alta direcção. mas ge- neralisada. e um dos últimos ramos das um dos que apresentava os caracteres mais aproximados da sua origem. Burlit- nouf) e presentida na unidade das tradições e formas terarias (Goethe. os Cimbros e Teutones extinguiam-se. . o que desde que a teve homem também uma bou posse mais profunda da consciência. e produzindo o individualismo. eram os Suevos os principaes senhores da Germânia. achou-se (Bopp) . como na Edade Media com tantos documentos vivos. No tempo em que Tácito escrevia. N'esse dia acaa revelação divina para ser substituída pela demonstra- ção scientifica. a consciência elevando-se na philosophia e a liberdade fortalecendo-se na justiça. tâo perto de nós. veiu encontrar na civilisação greco-romana. se vê Ião claro este esforço. em que a consciência estava oppressa pelo principio divino. assim pela primeira vez se comprehendea o problema das raças para a vida da historia. Em nenhum período. que é a sua essência. Vejamos qual o estado das raças germânicas antes de entrarem na historia. Benfey). Depois de estudar a civilisação oriental. As consequências grande restituição de Hegel fo- ram uma revolução completa no critério histórico. chamou-lhe ex- — tensivamente pelo civilisação nome do elemento que d'esta a universahsou germânica. e a liberdade esmagada pela auctoridade tradicional. viu-se que o elemento germânico era migrações indo-europeas. ou antes de prestarem ás luctas da humanidade os esforços para que estavam aptas. a humanidade conheceu-se melhor ao encontrar os representantes da sua civilisação e das suas luctas. Póde-se dizer.54 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e como o espirito chegava á posse da liberdade.

O Walhalla aproxima-se das descripções da bemaventurança christã. Estas ideias religiosas da theologia odinica foram não só um dos moveis que determinaram as migrações das ra- ças germânicas. era o mais forte. onde o sentimento e os Burgundios. os Lombardos novo. como aconteceu nas Galhas. a primeira camada sobre a qual assentou a grande invasão. e os Frankos estavam sem força pela desunião. Os motivos que levaram os bárbaros á migração e invasão. como os Cimbros. os Gépidas. Asgard era o typo do Éden. além do seu instincto errante e an- tipathico ás cidades.IDEIA OBBAL 55 OS Anglos eram apenas conhecidos. que comprehende os Jutes. com a civilisação que são. Foi ao contacto d'este taleceu e não foi logo supplantado pelos Godos que o inva" diam. como os Frisões . porque estava de posse de um dogma da immortalidade se propagava pelo symbolo sensual do dogma novo. Fácil era dar-se o mesmo syncretismo que se operou nas superstições. a religião odinica. Vândalos e Burguinhões. c depois que se recusaram a seguir o christia- . por assim dizer. outras vezes para se defenderem dos ataques mútuos. Taes as relações que os germanos tinham com o Império todas estas raças que antes do século v. d'outro o procurarem terras mais férteis. que deu vigor ao naturalismo dos Saxões. saltos foram de um lado para evitar os as- do oceano. e para se oppôos Hunos . em que os Frankos são chamados para expulsarem os Godos. communicaram romana e que se modificaram com ella. mas também as tornaram aptas para rece- berem a doutrina mystica do christianismo. vinham oíferecer-se ao colonato romano. outras vezes rem eram á invasão dos Suevos. De todas estas raças. que o ramo suevico se forWalhalla. o ramo go- thico. foram despresadas pelos novos bárbaros. d'onde as raças haviam sido expulsas. como es Godos para se defenderem contra eram assoldadados pelos romanos como mercenários para combaterem contra os inimigos do império.

As longas extorsões e protestavam íiscaes romanas nas Gallias. que tinham ge- neologias aristocráticas inferiores como os AmaU e os Balti . refugiados nas florestas. que lhes seduziu os sentidos com as exteriorida- . que abraça- ram os incolores mylhos gregos antes de acceitarem o chris- tianismo. Depois que Theodorico se tornou senhor da as raças germânicas se encontraram Itália em 493.dos imperadores godos. desco- nhecidas pelos novos invasores. Em frente da civilisação romana as classes aristocráticas quizeram imitar a gran- desa decahida. ficaram como malditas e vivendo sem direitos. É esta uma hoje se usa o seu deri- das origens das raças malditas. Veja- mos como cada uma a si doestas forças inertes tentou absorver este poderoso elemento. condemnadas pelos magistrados romanos.l-a ella. em assembleia (bagad). motivaram luctas violentas das classes servas. e como dominadoras ante o novo espirito calholico eram duas . e Ravena ficou a capital . assim a mythologia odinica desappareceu da memoria dos nobres. Theodorico havia sido educado no Baixo Império. que seguiam o colonato.5S HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL nismo. que veiu no decurso da Edade Media a produzir esse órgão de resistência. Os godos. Á-goth. forças deletérias que atacavam o seu vigor original. foram chamados por despreso Ba- gaudesy do vado pejorativo mesmo modo que ainda higot. é que a civihsação romana. as classes obedeciam pela dedicação da fidelidade. distinguiam-se tam- bém pelo predomínio dos chefes militares. e crea- ram para se fortalecerem a banda guerreira ou comitatm. e perseguidas pelo catholicismo por causa das suas velhas tradições. a Compagnonage. e por muitos séculos conhecidas pelo nome de Ca-goths. tidos como bichos medonhos. e como a parte viva da raça lhe soube resistir e oppôr creação fecunda. estes também. reconsti- e julgarem-se continuadores do Império. re- pellidos pela força armada. quizeram apparentar-se com lui. que formavam o principal ramo germânico.

e deixam aos vencidos o uso romanas degradam a mulher (frau) á mesma condição que ella tem nos haréns da Ásia. um foro privilegiado. nas cartas communaes. Conservam a legis- lação dos códigos romanos. dos seus validos. que não tinham o espirito aristo- crático dos Amali e Balti. que se deixara seduzir pela uni- dade romana . a divisão por sobretudo no começo. mesma extensão. era o vicanale . o juiz pedaneo ou inferior era o vicarhts.: IDEIA GERAL 57 des do culto. e Boecio. conhecidas com o nome romano de consistia o Vici . deixou as cidades pelos cam- As povoações ruraes. da condados (comitatus) sem . á troca dos géneros. o ajuntamento das pe- quenas localidades que acendiam ao apellido para mutua defesa se chamava vicinancia. Todos estes sentidos nos apparecem nos documentos consultados por Du Gange eram . um . absorvem a si a propriedade. era o principal ministro de Theodorico. substituindo a emphyteuse pela infeudaçâo. o principio da alliança. Onde se en- contra este meio de resistir á prepotência dos nobres é n'essas povoações. e quasi sempre. Cassiodoro. como confessa Gregório de Tonrs. os Vici que melhor correspondiam ao gé- nio individual germânico. formuladas nas lu- ctas burguezas. o tributo que pagavam pela sua independência. e usam do nome de romanos para designarem aquelles que das leis tem pos. em que commercio d'estas povoações. que administrava a Vicana justitia. conservaram a antiga instituição gótica do comitatus. Diz Guerard pagiis. se chamava vkariare. gramma- e copista. o direito de msbihança vem prescrito como uma foi conquista que se defende com annthemas- Esta lucta provocada pela absorpção dos Vici pelo poder senhorial (jue se prevalecia da jurisdicção do comitatus. tendo constituido condados «A maior parte dos do mesmo nome. Adoptaram também tico a velha litteratiira romana . romano. Mas a parte vital da raça não desceu a esta degradação.

com a unidade senhorial e com a unidade cacida- que as raças germânicas que não' viviam nas a integridade des. tina. por lites germânicos e por aldhis vieram tam- bém tus. os progressos operados na sciencia militar. viii. que se moldara sobre a unidade ro- mana. porque elle tinha a disputar a posse do i Cartulaire de Chartres. tiveram de sustentar até á elevação do Terceiro Estado. tornada a cabeça do pela dignidade apostólica. sede de Pedro. tinha de dar-se também S. . Não somente os esforços tentados pelo povo eram reprimidos. a substituiu muitas vezes. A Vicí. escreve Gervinus: «A aristocríicia da christandade dividia-se em dois campos separados. a ser conhecidas entre nós pelo nome de aldeias. e que conservavam pela rudesa dos seus caracteres. contra o catholicismo. para a realisação da propriedade livre ou o alodium. chegando algumas até ficarem a noite. levavam a duas vias diíTerentes.» * Foi contra estes condes que se deram as revoltas das com- munas. poeta christão. foi ou usada concorrentemente com ella. e imitador da poesia la* exalta a unidade do catholicismo recebida em Roma. N'esta nova forma a cultura inlellectual e de religião. mundo Diz: «Roma. t. Prospero. x p. para do direito consuetudi- nário. Estas povoações ruraes ou vicanas. o que já não possues pelas armas. constituídas por colónias romanas. tens pela religião.» D'esta lucta tholica. Mas esta lucta entre as classes obreiras e os chefes do comita' que absorviam a propriedade. ainda que pertencendo aos problemas da instituição social é indispensável para conhecer esse gráo de liberdade que foi preciso para a formação das novas lína constituição guas românicas.58 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL abolir a divisão por paizes. que é o christianismo. para a existência das tradições germânicas e das jurandas. ou importância dos a prohibirem aos nobres o mesmo a entrarem nos seus burgos.

Um dos motivos da persistência de tradições religiosas con- trarias ao christianismo no Pagus. É sabido que os romanos ao encontrarem nas divindades estrangeiras analogias os seus deuses. no Mosarabismo em ensino das Collegiadas o livre Assim como vimos as povoações dos Vici resistirem por essa sua organisação á auctoridade absorvente dos barões. que para elles eram dependentes dos planos políticos. davam logo os mesmos nomes mais fácil. constantemente absorvido pelo predominaram as abbadias sobre o clero secular. oppozeram ao exame das Universidades. as tradições germânicas e romanas. mas tinha a luctar também pela cul- tura intellectual com a cultura de uma nobresa p. com as suas ju- randas leigas.) poder secular. foi As conse- quências d'esta lucta contra a auctoridade ecclçsiastica fo- ram como as dadas contra a aristocracia alto clero. dado a toda a terra natal. á VHist. também encontramos nos Pagi riva o as condições para resistir ao canonismo unitário da egreja. conservou em virtude da sua cons- tituição independente.. O Pagm. intelligenle. tâo importantes. era talvez para assim fazerem um syncrelismo ou não crearem incompitibilidades com os sentimentos religiosos. lhes com . creou a emancipação das egrejas nacionaes. . IDEIA GERAL 59 poder a estes dois ramos da aristocracia. liturgia mas o povo venceu o latim da com os seus cantos fareis.» (Introd. como vemos pelos Culdècs em Inglaterra. . e com o mes- mo sentido de pátria. com os elementos theogonicos germânicos. architectos religiosos. como llespanha finalmente.. como no Pelagianismo em França. não somente li- nha a experimentar a força das armas contra as armas de uma nobresa secular. impoz as suas santificações e lendas locaes contra a admiração dos heroes da antiguidade. ven- ceu os pontífex. Era uma dupla revolução contra o poder tra o ecclesiastico e con17. d'onde se de- nome paiz. era o encontro dos res- tos da mythologia romana dos antigos colonos. o baixo clero.

. e até efíeito o um dedicado a Vénus. é o Du Cange. As luctas entre o christianismo catholico. sobre documentos citados por Lebeuf: «É que certo que ainda no século vii havia infiéis em muitas partes de França. Caux era cheio de idolatras. 115. seguir o costume e su- perstição do pagão. foi Roman. Itália. todos aquelles que não abraçavam o catholicismo. A veiu a comprehender sob este nome. todo e qualquer não baptisado. S. a ApoHo. o que está sem direitos. e ao mesmo tempo dogmas uma certa tolerância. declara-se contra . dava a adoptor as subtilesas dos códigos ronianos nos do- cumentos da Edade Media consultados por ganus. nome dado rústico ao que não foi baptisado foi pagamis. Além Pagns tinha os seus direitos consuetudinários. bispo de Ruão em 02(5. O concilio de Elvira. a Mercúrio. le- vado por uma apparenle analogia hispânica era les. Havia-os consagrados a Júpiter. que os definidos nâo catholicos canonicad'isso o mente podiam conceder. . o germano do Pase chegava a gus achava facilidade em conformar a sua crença com a das povoações preexistentes. Pa. reflectiu-se nas conquistas de Africa e lentamente e de Pagiis. Arch. de 205. terra de pagãos. c com paganismo subsistia ainda pelos princípios do mesmo século redores. tirado de uma forma da sociedade civil.60 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Diz Tácito. e um modo continuo na condemnação do Escreve Ramé. o prédio . dos imperado- res do Baixo Império e o christianismo ariano das raças germânicas. e nâo se incommo. p. paganisare. Nethon na Península também comparado e confundido com Hercu- Com este processo de assimilação.» (Ramé. encontrou no seu território templos e idolos que destruiu.) egrejas foi em Berry e nos seus arO uso das imagens nas uma preponderância exercida pelo costume do paganismo. paganismiis. e o que não recrutado pagaegreja num. que Hercules era adorado pelos germanos. na cidade de Ruão .

por meio de analo- Na chroiiica dos slavos. «o pagus correspondia algumas vezes ao território de uma cidade ou de uma . xandre Severo. IDEIA GEEáL 61 este uso.» (Op. como Ale. um sentido cliristão. de Helmodus. arciprestado ou o deado. Os pagi^ muito mais numerosos que as cidades. diocese. com os seus processos de apropriação analógica. vi. e a n'este ultimo mais das vezes a uma parte doesse território caso formava de ordinário uma subdivisão diocesana tal como o arcediaconato. na lutroducção ao Cartulario da Abbadia de Chartres: «A antiga divisão territorial da Gallia em Pagi. a egreja querendo convertel-os.) Se- gundo o mesmo Gerard. de Alfred Maury. alfaias e catholicismo as raças germânicas por outro lado foi pre- ciso acceitar os costumes e tradições inveteradas do Pagiis e dar-lhes apenas gias sensíveis. se lè que a ilha de Rugen era um dos principaes focos do paganismo. sem excluir o deus chamou-lhe Santo Vito. Segui- mos Gerard. a conservou. e lhe dava o seu nome.. Innumeros processos d'esla ordem se podem vèr no Ensaio sobre as lendas piedosas lui Edade Media. proliibindo que se os que eram iníieis e acreditaram adorem pinturas nas paredes em Christo. adoravam alii um deus chamado Zwanthe Wilh. os gnósticos capo- coUocavam a imagem de Jesus entre Platão e ArisQuando Clóvis se converteu foi preciso usar as ricas esplendor no culto para trazer pelos sentidos ao . modificando-a tal — A egreja somente até á Revolução. mulliplicaram-se cada vez mais pela elevação de paizes . com prudência forma que a maior parte das divisões diocesanas rede presentavam ainda lidelissimamente. p. cit. sob Luiz xvi as divisões civis da Gallia sob os romanos. é que o introduziram cratianos tóteles. só se encontra nas cartas mais amigas. deixou prevalecer na parte ecclesiastica as velhas divisões do Pagus. O instincto conservador da egreja éncontra-se também no modo como até á moderna Revolução.

os godos. consultava as sortes dos santos. que as tradições que vieram fundar as litteraturas modernas conservaram nos pagi. de primeira ordem. qualquer peregrinação. nome genérico de godos. ariano as raças que tinham o . ou gua rústica. essa architectura. caracte- risada pela ogivas o symbolo da arte leiga. mais tarde con- demna-das como superstições do paganismo. celebrava as reconciliações. As lín- predicas começaram a ser feitas no sermo vidgaris. depois . cujo predomínio foi a creação dos novos diaas santifica- lectos em linguas independentes. Ali impoz ções locaes. á tradição que tornava mais sympathica qualquer imagem. como os bourguinhões. a manifestação civjl da communa. guardava as escripturas de contratos. França. que despontou pela primeira vez no tempo de Theodorico. cujo appareci- mento coincide com do século X.62 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a paizes secundários. ríodo de liberdade se creoa o espirito leigo o povo torali nou a egreja o centro dos seus interesses. foram tudo conse- quências da vida independente do 'pagus. cumpria os ordalios. N'este pe. ou dos Tollos.)) Era d'esta elevação de povoações inferiores. as vigílias e representações dramáticas na egreja. paixão de Jesus. os banquetes sobre as sepulturas e as danças em volta d'ellas. lombardos. deixaram pelos estados meridionaes da Allemanha. a Legenda. crearam uma architectura. em que os monges tomavam a se si a influencia dos padres seculares. Itália e llespanha. pagi. e além d'isso pela decadência das egrejas parochiaes. O drama da commoveu estes povos crentes pelo que havia de doloroso no lado humano assim. pela absorpção das Abbadias. traduziram na pedra o sentimento. que erigia muitas vezes os seus tribunaes. deram forma artísti. que o clero aproveitou para os seus interesses dando forma escripta. vândalos. ca ao chrislianismo. pagelli. As festas populares do Asno. que seguiram d^ preferencia o arianismo. era que' fazia as suas compras.

accentuação da poética vulgar a missa chegou a ser dita na linguagem do povo. revela-nos um feliz achado. e na estatuária. partidas do inspiradas pelo espirito aristocrático da unidade romana. para o não abandonar. tornaram-se litteraturas. a lingua rústica sup- plantou o latim. chegou a vencer a tendência aristocrática da egreja. O Romantismo encerra a con- nexão histórica com os dialectos românicos da Edade Media . criticas entre Goethe e e propagada pelos Schle- gel. e Nas constituições episcopaes. e egualmente as parábolas. a arte e as litteraturas modernas. esses dialectos.IDEIA GEKAL G3 alto clero. et . A facilidade com que se vulgarisou por toda a Europa a designação de Romanlico. Assim a força da visitihanca dos IVcí. as linguas. Psalmos : cita este trecho de uma traducção ainda «Et pour ceu que nulz ne tient en son parleir ne si rigle certenne. como nas vidraças. creando os elementos sobre que se fundaram a sociedade. pela indisciplina das suas formas com relação ao latim. apenas falladas. Romance. che- gou a vencer o despotismo senhorial. com o como na egreja do Oriente. Du Méril. Mas o que era vivo Iriumpliou . mesme. est loingue ro- mance corrumpue qu'a poinne uns entend Taultre. eram chamadas pelos Edelestand inédita dos eruditos da Edade Media. que era obrigatório na predica. ne li raison. designação estabelecida nas discussões Schiller. fixando as suas formas grammaticaes no uso escriplo. para caracterisar o movimento das litteraturas modernas e dilTerencial-as das litteraturas antigas ou clássicas. e a força da tradição e do génio popular conservador nos Pagi. nas illunnnuras. que commungava também sacerdote. As novas linguas. a doutrina abstracta do Evangelho. ap- parecem as condemnações mais duras contra as creaçôes do génio popular que invadia a egreja. desenvolvendo-se em linguas nacio- naes. a liymnologia da egreja foi versificada sobre a . cujo valor importa conhe- cher. foram reduzidas á imagem.

mas para actuarem no conílicto das transformações sociaes. ne pronoiícier en une meisme semblant maet * mais escript. a Philosophia procurava os princípios fundamentaes da Arte o de todas as creações do sen- marcha d'esta segunda evolução não è menos esplendida do que a dos medievistas. A par d'estes processos de erudição. Sigamol-a. a significação estreita caduco e transitório de byronismo. o individualismo do senti- mento. . ou a inspiração como a verdade do tir modo de sen- individual.64 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a poiíine peut on trouveir aujourd'ieu personne qui saiche escrire. caracter foi et li aultre prehenclido me aullre. tido A palavra Romantismo tem este sencomplexo e profundo. Tal tem sido o trabalho da historia construir perante a critica a moderna para reEdade Media.641. e por isso escriptas não para as academias. e as obras litterarias baseadas sobre as tra- dições nacionaes de cada povo. Ap. Os criticos allemaes ao caracterisarem o Romantismo. y». ante eri prononce Este li nns en une guise. porque accentua na civilisaçâo moderno entre do as Occidental a relação achada pelo espirito suas Hnguas e as suas litteraturas. anleir nieire. do geculo xiv. É realmente lamentável. apontavam a independência absoluta dos cânones rhetoricos. porque nenhuma ou- como realismo ou ma^mo positivismo.» em Hespanha mesmo com- no século xv pelo erudito Mar- quez de Santillana. P.» A essa espontaneidade de linguagem correspon- dia a espontaneidade de novos sentimentos. timento. que revelavam na civilisaçâo do mundo moderno uma classe desconhecida nas sociedades antigas. o povo. Rcvuc Coniemporainej t. pôde ex- primir este grande phenomeno histórico e ao mesmo tempo as suas vastas relações. de que la gente baja è de servil condicion se alegra. fa- que o Romantismo adquirisse cto tra palavra. A i Doe. que chama romance aos cantares «sin regia ni cuento.

o Bella 5 . constituem a Esthetica. neralisaçôes. . quanto é o desen- volvimento que atlingimos dentro da civilisação. idealista . em parte recebidos pela communicação directa com a natureza. subor- dinado a um intuito individual. e principalmente creados pela actividade intelligencia da no seu momento mais livre. a feição positiva. e só uma ordem de phenomenos que nos levam a um estado de passividade agradável. e de agrupar os factos mais característicos em um dominio á parte ten. que leva á concepção da unidade do universo. ba- automatismo do elemento tradição. Para Baumgarten. produzindefinitivo — que ha no campo da observação chega-se ao resultado do-nos impressões tanto mais profundas. Baumgar- mundo novo da treviu-a thetica observação. superior partindo uni- camente de relações particulares. A Philosophia sensualista tinha fatalmente de tocar os problemas da sensação. foi ella que creou a relações — definia a Philosophia a sciencia das causas e das que podem ser concebidas sem intervenção da fé achou por essa concepção justa o fio conductor para essa que — A Esthetica. de todas as escolas. que nos eleva ás maiores ge. Sciencia muito moderna. scientitica dada pela renovação seia-se sobre o do fim do nosso século. e descobrir o flm racional das crea- ções do sentimento garten. de descobrlr-lhe a vasta complexidade. a sua historia é a evolução do pensamento procurando reduzir a processos lógicos os phenomenos da impressionabilidade. en- vagamente Baumgarten cOmpetia-lhe crear a Esou a Philosophia da Arte. agrupados e submet- tidos á analyse scientifica.IDEIA QERÁL 65 B) A CREAÇÃO DA ESTHETICA PELA PHILOSOPHIA METAPHYSIGA Independeiitemenle de todas as Iheorias. a Esthetica foi smsualista em Baura- em Schelling e Hegel. ideia positioista da relação connexa. Estes factos sensoriaes. sempre a uma synthese. ou que correspondem aos sentimentos de que estamos possuidos.

não forma lógica. a perfeição. conformando-a com o bem. a noção da unida- de. mas no nosso relações. o Bello não está na natureza. a própria moral. o elle para um problema cordo entre do senso do-o commum um producto da commum e gosto. desde o momento que essa concepção da unidade. Pouco deve a Kant co. era no campo da generalisação pouco viu. . século XIX foi ella que lhes imprimiu uma unidade impo. ficar sem pro- gresso. o ac- imaginação e uma certa norma tornava-o subjectivo. que se- paradamente nada exprimiam a descoberta de e d'esta aproximação resulta um principio superior. allia como espirito. fundada no accordo da sensibilidefinitiva dade e dá rasão. O defeito da escola sensualista foi o rebaixar a ideia da perfeição á con- venção arbitraria e consuetudinária da moral.» Esta con- era «a perfeição concebida de um modo fusão resulta do fraco conhecimento das relações particula- que não é indispensável para descobrir através d'ellas. solução mais do que a concilia- ção entre a imaginação e o gosto. nente. derivan- d' esta correlação passada no espirito. A intelligencia é que aproxima as diversas . á psychologia e á lógica. Baumgarten outros este : princípios rigorosos na sua theoria. o que elle chama res. Ainda assim este a impbrtancia de haver suscitado modo de vêr tem ier. porque opera sobre as . revelada sentimentalmente pela perfeição.. o facto da ideia do Bello. em parte concebida sem grandes processos analyticos. 66 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM POBTDGAL confuso. como Foi como immobilisar-se. a em Schil- concepção da Arte. que ha uma certa unidade era esta unidade. o hello foi por elle essencialmente analysta e criti- bem observado no campo dos factos bello. A este uma noção modo de vêr. o Bello é um sentimento. o conhecimento não adquiriu toda a por consequência a perfeição é vaga. scientifico O desenvolvimento dos problemas da Esthe- tica saiu da renovação metaphysica da primeira metade do . e resulta de uma analyse parcial das relações.

esse rigor le- vou-o ao assombroso exagero. como o faziam Lessing e Winkelmann. na lucta da liberdade contra a fatalidade da natureza e contra a ridade. Na philosophia de Fichte ha um eterno antagonismo entre a natureza e o Eu. que vae Fi- realisando o seu poder como creador. Que importa que . o fim da Arte corresponde a esta actividade do Eu. único conhecimento de cto provado no acto da consciência. as suas ideias mal e a perpetuar as suas aspirações. na de- terminação do fim da Esthetica como sciencia. tivesse que o não da escola bem definido á sua intelligencia uma vez determi- nado este fim da Arte. com a vontade de perceber as civilisações antigas. o realisam e o com- municam. o Eu procura-lhe o seu Arte. para assimilal-a a si. a natureza coarcta-lhe a liberdade. Quando Ficbte succedeu a Kant. da concentração do universo no Eu. de todas as civiUsações. critério histórico. paixões. 67 faculdades que comprehendem o Bello.IDEIA GESAI. acabou essa sensualista. só se comprehendem. é pelos productos da Arte. A o instrumento doesta lucta . com a audácia da abstracção. quando se descobre através d'ellas o esforço que o homem fez para com os objectos desconnexos da natureza exprimir as suas definidas. chte tratasse accidentalmente d'este problema. A par de uma corrente positiva. Dentro do da Arte de todos os povos. na inanidade da abstracção teve fortalecer-se de com esse terrivel rigor lógico . Fichte foi infallibilidade da tradição e da aucto- levado a este verdadeiro fim da Arte. A foi elaboração metaphysica. levada aos mais extraordinários poQtos de vista. e por isso um fa- tomado para servir de norma á realidade do universo. (na archeolo- gia e na critica) recebeu a influencia directa da verdade dos . para Fichte. as creações falsa ideia que lhe dava como fim a imitação. porque em volta d'elle se estudava as obras de arte da an- tiguidade. com o amor do antiquário. mas admirável. era fim racional.

acha-se realisado nas obras de João Paulo. a necessidade de dividir para comprehender é que nos têm natureza. tornado objectivo. D'esta philosophia do individualismo saiu umst das formas mais originaes da Arte. falsificado o critério da Foram as organisaçoes artísticas as primeiras que sentiram essa continuidade. ideias. João Paulo Richter formulou em systema este problema isolado. é mas pela sua origem. Os artistas mais completos. as mais impensadas rela- A organisação do artista caracterisa-se pelo poder de^ achar o maior numero de relações entre ás diversas formas da natureza. ou a traduz ou lhe serve de equivalente. HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e sem o sentir determinou para sempre esta con- clusão geral. por isso que uma relação que não existe na natureza. isto é. uma das for- mas da verdade. profunda não pelos seus resultados. de que nao existe ne- nhum conhecimento fora das relações que nos aproximam mais ou menos da verdade. O pnncipio positivo. . a dependência do tempo. (Fechner). intel- porque d'essas obras concluia-se esta verdade para a ligencia. a ironia. mas que é creada pela intelligencia por meio de um contraste directo entre ideia e ideia. essa trama inteira da phenomenalidade . aproximando ções. em permanente actualidade. os que têm uma. pelas obras de arte chegaram a realisar o bello. é o phenomeno da associação de dominio lógico. não ha em um phenomeno solução de continuidade. É este o evolução do universo não existe um úniseja fatalmente correlativo ao antece- co momento que não dente e ao consequente. que se lança á creação do bello. na um som corresponde a uma cor um estado moral. uma certa paisagem a facto authentico.68 factos. do- uma sensibilidade ex- cessiva faz descobrir o lado ou a feição por onde uma dada forma se assemelha ou faz lembrar outra. Os nossos fracos órgãos. tudo é um desdobramento seriario. omniprestente. mas o seu alcance vê-se nas obras d'arte que escreveu.

o que precisa tel-as. mas nunca uma sciencia foi mais bem definida. quando Schelling fez para a Philoso- phia de Fichte. relações na natureza : Miguel Angelo. 7). os olhos forme os meios que empregam para vèr. p. vamos achar em um pratico.. Carlyle.) Depois d'esta ideia de Goethe. só pôde ser achado pela Arte. No dia em que se serviu dos problemas da Arte para exempfificar praticamente o seu systema philosophico da identidade. (Hist. mais sublimemente evangelisada. o esar- tatuário Prcault. o mesmo que Fichte fez para de Kant.» Quer dizer. combina as cousas as mais incompatíveis mas de tal sorte que ahi se mistura secretamente um fio moral. elle cria as relações as mais estranhas. mais alto e mais claro do que os outros homens. espécie historia. concorda também com o fim positivo nos seus pro- superior que se deduz do conhecimento d'essas relações mais intimas: objecto ha tEm vêem cada con- uma inexgotavel significação . Nas palavras de Goethe sobre João Paulo. que conduz o todo a uma certa unidade. porque necessitavam de todas as formas palpáveis para lhe exprimirem a comprehensâo (l'essas relações estranhas que alcançavam. I. ou Leonardo de Vinci ou Raphael. archi tecto. es- poeta. » (Notas so- bre o Diwan. a mesma noção d'esta capacidade: «O o que vò maior. é o que pôde ter maiores relações com . de João Paulo na cessos críticos. melhor caracterisada. pintor. foram vastos. o facto da creação na . IDEIA GEBAL 69 maior receptividade. para vêr mais através da variedade a unidade. Este sentido inexgotavel das cousas. Elle não fundou uma Esthetica. tiveram o poder de abranger e achar maior numero de tatuário. o mundo exterior. que define perpetuamente o tista é artista. da Rev. de bem dotado.» t. elevou-se do modo mais franco e a Philosophia lúcido a este ponto de vista.. vemos uma perfeita descripção do artista: «Espirito tâo do. olhares cheios de atrevimento e de veracidade. lança sobre este munuma maneira verdadeiramente oriental.

então a intelligencia identifica-se em uma suprema harmonia. e elle foi um exemplo pal- encontrar nos phenomenos da Arte uma . por isso que não trabalha sobre factos reaes. mesmo no estado de rudeza primitiva dos povos. ScheUing corrigiu d'este modo o exagero individualista de Fichte. a Natureza é o facto ou o producto. ou o Eu. resultante da audácia de aproximar as relações das cousas e de fixar as mais recônditas analogias. mas simplesmente aproxima ideias. o Eu é a intelligencia. é necessário que se dê o accordo entre o objectivo ou a Natureza. as ideias combmam-se. o seu systema da identi- dade precisava de ser contraprovado com pável. O syncretismo.70 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Arte perdeu esse caracter de lucta de Ajax. com o syncretismo psycho- logico e natural das épocas primitivas. A abstracção transcendental. No seu Systema de Philosophia transcendental. relacionam-se. Schelling chegou a identificar o syncretismo philosophico. partindo do ponta ser fundada que nenhuma Philosophia pôde sem em um conhecimento completo. Elle próprio obedecia á verdade que alcançava. onde por ser mais stractos. levam a conclusões ori- ginaes e extraordinárias. fixar as suas analogias secretas e dar-nos a consciência da harmonia ou identificação do universo physico e moral. é um estado de syncretismo produzido voluntariamente. e adquiriu a altura e serenidade de um órgão que serve para nos des- cobrir ao sentimento e á intelligencia as múltiplas relações do universo. e o subjectivo. Vejamos como Schelling foi levado a uma ideia tão sublime da Arte existir . se está operar com sempre em permanente descoberta. e quando essa manifestação revelar a lei superior que a produz. do mesmo modo que fácil acontece na valores ab- Álgebra. é fecundo. caracterisa-se pela invenção. ou da abstração. es- tes dois termos existem separados antes da comprehensão da verdade. trata de mostrar que para con- seguir o conhecimento.

) E fortalece outra vez o seu systema meta- physico com esta theoria da Arte: «Se a intuição esthetica não é senão a intuição transcendental tornada objectiva. e toda a obra de arte para ser um producto O mundo ideal da Arte. uma harmonia intima a que chamam Bello. na consciência. porque não deu forma scientifica a esta concepção da Esthetica . tal. O órgão geral da Philosophia e o fecho da abobada de todo o edifício é a Philosophia da Arte. em vez de a fundar foi em bases solidas.» (Systetna de Idealismo transcendental. p. sem consciência no mundo real. sendo ao mesmo tempo o documento que con^ firma sempre e sem cessar o que a philosophia não pôde . tendo e não tendo consciência. na sua forma ainda a mais particular. e o dos objectos. consegue exprimir o sentimento moral o mais delicado.IDEIA OEBAL 71 demonstração pratica e brilhante. por meio de um mero accidente material de combinações de tintas. Não ha actividade prehendida. a na- uma eterna poesia e a' actividade da intelligencia um sublime poema. o encontro d'estas duas actividades. e n'esta justa conciliação da forma com a ideia reahsa ling. objectivo com vem consciência no mundo O então a ser a poesia primitiva do es- que não tem outra consciência. como com- a actividade esthetica. a palheta de um Raphael. é evidente que a Arte é o único e verdadeiro órgão d'esta philosophia. são productos de uma única e mundo ideal mesma activiesthetico. Ouçamos as suas palavras: «Trata-se de mostrar no subjectivo. dade. mundo pirito. levado pelo transporte da abstração sacrificou o seu systema. comprehendia-o diante de uma obra d'arte. reduzindo toda a Philosophia a uma Arte final. é preciso que se considere como d'esta actividade. eivei O principio qiiasi incoer-» da identificação entre o infinito e o finito. Schel- porém. entre a reali- dade e o pensamento. de codificar-lhe os factos. esta actividade. 349 a 368. tureza a a arrebatado aos últimos exa- geros. entre o mundo physico e o mundo moral.

que crea- ram no seu primeiro syncretismo os immensos poemas do Mahabharata e do Ramayana.) Esta apo- theose da Arte feita por Schelling. p. a elevação outra vez á ideia pela realidade com que communicamos.. sobre postulados gratuitos com todo o rigor dos processos lógicos. a que pertencem. logicamente architectados. essas dades poéticas da raça ariana. d'este modo dentro das raças germânicas e em uma época facul- de alta civilisação. succederam-se as epopeas metaphysicas.» (Ib. que pelo facto da sua existência tende a realisar-se. representando o principio creador. isto ó. creou-se a pedagogia. 366. pela fatalidade do atavismo. as litteraturas sob o critério das nacionalidades. produziu uma em volta de si uma commoção a senti- mental. a imaginação trabalha. ou . teve consequências prascientifica profundas na actividade do século xix. as lín- guas estudaram-se sob o ponto de vista comparativo. Se Schelling nâo construiu Esthetica. religiosa. mystica. as obras de arte da antiguidade appareceram com um sentido recôndito . em vez de ser sobre ima- gens da natureza. em que noção da sciencia se fim sagrado da exis- tornou para todas as intelligencias um tência. o que ha de verdade n'ella não se perde mais. limitando-se na Antithese. o veiu substituir génio metaphysico. expor exteriormente. que mais tarde levaram ao seguro principio da filiação histórica. jque inventou pela abstracção estes vastos systemas. Após Schelling veiu Hegel corrigir as Iheorias metaphysicas.72 mSTOBIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL isto é. os mythos dos diversos povos foram aproximados nas suas apparentes analogias. Schelling deu este grande impulso cora a sua vaga abstracção. a força no seu estado immanente sob a designação' de ideia. e sua identidade primitiva com o que ticas e n'ella ha de consciente. Ás epopeas theogonicas que se tornaram históricas. o que ha de inconsciente na actividade e na productividade. porque a perfectibilidade tornou-se o dogma da educação individual. é ao que elle chama a synthese.

as Exposições de lodo o género. fortalecer o systema de Hegel. obra prima. como Standenmaier. os maiores críticos. porque não é a historia que o leva a uma theo- mas é a theoria que interpreta os factos submet- tendo-os ás suas formulas abstractas. porém. Pro- de Berlim. que torna apreciável a sua Esthetica. foi essa realidade. é que nos elevamos outra vez á conce- do Bello. os con- certos. e é por esta evolução fatal que o ser precisa passar para attingir a plena existência na consciência de si mesmo. por meio d'essa forma. Na poesia era em toda ella familiar. Os problemas da Esthetica também vieram Bello. Vejamos a rasão do Hegel corregiu Schelling fortalecendo a especulação critério po- metaphysica com a investigação histórica.IDEIA GERAL 73 a plenitude do ser pela consciência. ou Tierscb jiilgam-na fa- uma cto. . explica-se gel. insensivelmente e sem o querer.. Amava apaixonadamente a musica. as galerias. que elle . precisa sair do seu estado de immanencia e communicar-se. exci- tavam o seu amor pelas artes até ao mais curava com um encanto insaciável e sem se cançar. essa observação immediata so- bre as creaçôes dos diversos povos. Esthetica. a ideia do para existir completamente. Rosenkrantz artísticos O lado positivo da também pela própria biographia de He- escreve a seu respeito: «Os thesouros alto gráo. quasi inexcedivel. A Esthetica tem sido considerada o reducto onde melhor se defende a philosophia de Hegel. ponto negação da que é a sua pção da ideia antithese. Tinha para a esculplura a capacidade a mais evidente. embora Hegel vá acomnhando a theoria transcendente com a evolução histórica dos factos ria final. abandonou o seu raethodo pelo sitivista. não segue o melhodo positivo. isto é. até certo sua infmitividade. Este livro. exteriorisando-se na forma limitada e palpável . Fazia ex- tractos e notas para a historia das Bellas Artes. as exposiçijes. que o levou á verdade. os Iheatros. tinha para a pintura esse saber ver innato..

a Litteratura. a um Creuzer. a um Bopp e Grimm. pelas suas cathegorias sacramentaes. Já vimos qual o logar que a Esthetica occupa nos systemas metaphysicos . a todos os que reconcentraram as suas forças na comprehensão exacta dos phenomenos. a Socio- menos dynamicos de uma nova logia . se deve a renovação scientifica. a gasta Theodicea tornou-se a Sciencia das Religiões tica . que a Philosophia já não pôde ser uma concepção individual e dogmática ella é um resultado geral. com os progressos que se vão . o encadeamento da Economia politica. Pelos elementos constitutivos d'essa renovação se ve claramente. a Gramma- geral. agruparam-se como phenosciencia superior.74 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL procurava constantemente aperfeiçoar. Desde Hume que as ideias metaphysicas haviam levado um terrivel golpe . foi expellido do mesmo modo que o que é organisado rereno- pelle o corpo extranho. segundo scientifico o processo ou philosophico.» vava-o para o campo experimental tal . Cada uma d'estas nivel intellectual do século sciencias teve os seus obreiros especiaes. i \ . chegar a tiga e da sem mesmo terem rigor lógico. a Arte. sem realidade. onde se harmonisam todas as concepções parciaes da intelligencia.se na Linguistica e na Philologia a estéril Moral. que separadamente cooperaram para levantar o . A velha Psychologia. que se impunha fatalmente pelo seu formuhsmo dogmático. o Di- comparada Historia. e pretender uma verdade ? O velho edifício da philosophia an- Edade Media. transformou. veia var-se na atmosphera experimental da Biologia. systematisada por Augusto Comte. a Lógica tornou-se inductiva ou deductiva. cuja uma renovação synthese se chama o positi- vismo. A organisação le- a direcção transcenden- das escolas allemães attraia-o para as syntheses a priori. como operar sobre vagos termos. a reito constituido. a um Bichat. . a Politica do empirismo. durante essa elaboração intellectual deu-se scientifica.

vol. se tornaram a expres- são viva da nova aspiração á liberdade. Pelo conhe- cimento erudito da Edade Media descobriu-se quaes eram as fontes das litteraturas modernas . i. esboçamos um estado sobre a Constituição da Esthetica postíita. * processos lógicos pela evolução histórica. politica produzida pela Revolu- ção franceza se reflectiu entre todas as nações. Estabeleceu-se a lucta de preceitos e preconceitos de escola . o arsenal dos cânones académicos recebeu o manifestação do sentimento na arte. e a livre nome de Romântico. pela especulação phi- losophica chegou-se a formular o critério por onde ae julgar as creaçôes do sentimento. devem como a grande commoção moral e litteraturas.» 6. esse 1 Na revisla de philosophia O PositivismOy n. em acrobatismos phraseurgicos. do mesmo modo moral ou se contraprova a sua vitalidade pela aspiração politica de que ellas são a expressão. dentro do meio em que vive. se vè é que o Positivismo não é sosynthese permanente. e como as na sua phase romântica. em ironias auctoritarias. dava-se en- tre todos os povos esse estado moral da aspiração. ha muito mais segurança de ched'ella quanto fôr possí- C) A REACÇÃO NACIONAL ENTRE OS POVOS MODERNOS a originalidade das littera^uras Assim como se conhece pelo fundo de tradições populares em que se baseam. Sem os perigos da paixão egoista os da theoria individual. que as Litteraturas moder- nas proscreveram a imitação da antiguidade. é mente um methodo uma sem uma conclusão que qualquer ser génio pôde tirar. Foi n'este momento de enthusiasmo. e dirigindo gar á verdade. o nome de Clássico. de se aproximar vel. em que se procurava a verdade no typo e espontaneidade da natureza. . Por isto . em que desenvolvemos o novo crilelio. Falta agora vèr.IDEIA GEBAL 75 realisando. Em quanto se debatiam em estéreis objecções.

bem da sua pes- mas a corrente de liberdade que ella insuflara na in- telligencia tica moderna não foi extincta. que trouxe as litteraturas á sua manifestação de verdade. . queria realisar o sonho de Carlos constituiu a unidade europea sobre a incoherencia do Magno quando mundo do bárbaro. e a Buí' chenschajf. Sactmtala. era para os artistas uma paixão vehemente que os inspirava. Grimm descobria õ fragmento da Cantilena de Hildebrand e Hadebrand. O interesse que a cri- impassível de Kant mostrava pela Revolução. do bardo Ossian. A revelação do drama indiano de Kali- dasa. A discussão da authenticidade dos poemas pu- blicados por Mac-Pherson leva a descobrir o problema da concepção da poesia nacional. Foi n'esta corrente que se temperou o génio de gaelicos Schiller . Neste tempo os poemas céltico. da sohdariedade das civilisações. e que em todas as creaçôes humanas existe uma unidade superior. traduzido por Schlegel. ás quaes pertenciam os estudantes. dá a conhecer que para attingir-se o bello não era preciso moldar as paixões pelas receitas de Quintiliano . repassados do anceio pela liberdade e d'essa vaga melancholia do génio vem descobrir ao mundo um novo ideal de poesia Goethe apaixona-se por esse novo lyrismo. A marcha da Revolução franceza foi desviada por Napoleão do seu destino a soa . a Re- volução reconheceu-o mandando-lhe o diploma de cidadão francez. que levava ao estudo da poesia nacional germânica. e influe no lyrismo inglez da escola dos lakistas. leão tempestuava na Europa No entanto Napo- com o capricho das suas in- vasões .76 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL anceio pela liberdade. e Napoleão prefere essas narrativas ossianicas ás epopêas de Homero. uma harmonia da mesma origem. como a Tu- gendbund. os poetas e os homens de sciencia. A Allemanha para resistir ás arbitrariedades prepotente organisou-se em sociedades foi secretas. da qual Fichte um dos fundadores. . e da con- tinuidade da vida. Na Allemanha.

per- seguem-se as sociedades secretas. abandonada por todas as potencias para sacudir de si politicas. diplomatas. os diplomatas oppunham-se á heróica regeneração da Grécia. o antigo acceita-se como convenção. Em quanto a Santa Alliança talhava a Europa conforme ura apanágio do cesarismo que renascia. Mas no congresso da Santa Alliança. como na AUemanha reiay fizera Fichte. O poeta Righas. dinário. Byron. porque viam instincto reaccionário n'este facto com o seu assombroso uma das ca- beças da hydra revolucionaria. aproveitam-se os velhos caducos. Fauriel colligiu os Cantos populares da Grécia moderna. feclia-se a porta para os cargos públicos a toda a mocidade revolucionaria. fundou a associação secreta Hetai» d'onde prorompeu a insurreição da Grécia. e dar forças para a resistência tantas vezes frustrada. que deixou a voluptuosidade da vida italiana para ir offerecer o seu sangue pela indepen- . e considera-se como conspirador contra a pátria todo aquelle que não exprimir os seus sentimentos segundo as obras primas da Grécia.IDEIA GERAL 77 Era n'esta crise violenta em que se luctava pela indepen- dência da pátria. que organisaram a chamada com o Gm de assegurarem á Europa a estabilidade pertur- bada não pelos exércitos e guerras napoleónicas. mas pelas ideias da Revolução francezal As Restaurações forçaram o tempo para imporem estupidamente o Statu quo do antigo regimen que passara . espirito Bem haja esse génio extraorlitteraturas e que synthetisa a nova feição das do moderno. Ali se viu uma poesia popular levantar o espirito nacional. luctava contra a Turquia esse jugo de séculos. que vieram mostrar á consciência do nosso tempo como a unidade de politica de um culo povo e a sua liberdade se funda e renova sobre o vin- commum uma tradição. leão succedeu a Aos desvarios audaciosos de Naporeacção tenebrosa e não menos funesta dos Santa Alliança. qiie o génio nacional facilmente se manifestava pela litteratura. a Grécia.

estabelece os novos princípios de critica. um como em Alfred Musset. Por efifeito d'essa suppressão a joven França congrega-se n'esse centro de elaboração mental. dá-se . como que em substituição das Tablettes universelles^ supprimidas pelo ministro reaccionário Villèlle. esforço da Grécia para recuperar a sua independência o desenvolvimento do Romantismo liberal influiu para o poeta enten- deu do seu tempo. e Victor Hugo ele- va-se á phas€ byroniana. e Goethe acompanha teresse com in- esse movimento disciplinado. O exemplo em de Byron impressionou todos os novos talentos. O Romantismo que os dedassés da Restauração imitaram na forma de scepticismo affectado. na critica theatral. cuja fundação se deveu em parte a Thiers. O Globo inicia o publico no conhecimento das sessões da Academia das Sciencias. Becombate Restauração ranger a do absolutismo faminto e ligar os seus cantos ás aspirações obcecado em canções cheias de malicia. e a sua morte deu dinário aos cantos. Na lucta do Romantismo. No órgão jornalístico o Globo^ sob a recção severa do radical Dubois. um relevo extraor- que tanto protestara contra os desliberal tornou-se byroniano. varios reaccionários e attentados contra os povos feitos pela Santa Alliança. na Philologia e na Sciencia das Religiões afíirmando a superioridade politica da França . a mocidade que se affirma oriunda dos princípios da Revolução franceza. actividade intellectual que influe sobr^ o espirito publico antes da coroação de Carlos x e quando o partido liberal se desorientava com a invasão da Hespanha. e o titulo a Pierre Leroux. intentava alliar-lhe a liberdade da imprensa ingleza e o espirito scientiíico allemão. liberta do antigo regimen. O . em França o mesmo facto que na Itália Baour-Lormiant. apparece o primeiro numero do jornal. chega garantia da di- a pedir a banição dos 'românticos como uma segurança publica.78 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL dencia da Grécia. Gui- . na archeologia da Edade Media. De 1824 a 1830 o Globo exerce uma .

. mand Garrei. ella constantemente desconhecia e punha todo o seu orgulho em desconhecer a realidade e a profundidade da Revolução nas ideias. pela bocca de JouíTroy. ás illusões de um momento e representar como um mal passageiro uma renovação social. Passe et Present. pela critica phi- losophica. As transformações do Ro- nismo byroniano mantismo. . Villemain e Cousin. e Theodoro Jouííroy. e d'aqúi também a vaidade dos seiís esforços. pela sua poderosa iniciativa. com elles Damiron. os normalistas Sainte Beuve.que passara da phase emanudica para o satã* em Victor Hugo. * lecer o obscurantismo medieval com uma grande altura moral as leis psychologicas e históricas pelas quaes os dogmas se extinguem. Trognon. e que os nossos constantes esforços tinham por fim caracterizar e esclarecer como o mais forte obstáculo aos planos da Restaoracão e a mais forte objecção ás suas doutrinas porque. e no res- tabelecimento do critério politico. centro das nossas investigações. ou- sava dizer aos políticos reaccionários da Restauração. e ainda Ar. D'aqui a esperança insensata de tudo reparar a seu modo. facto poderoso que continha todos os outros. Tal era o facto que nós considerávamos sob todos os aspectos. mas contribuíam n'essa com communicaçôes penhavam três grupos se emempresa de renovação mental. Merimée. Stapfer. t. Agostinho Thierry e Lerminier o segundo grupo * era formado por mancebos. taes como Charles de Rómusat. Ella queria tudo altribair âs paixões individuaes. Esta geração forte. apesar da sagacidade dos seus illustres defensoréâ. p. J. Era preciso substituir a macaquea- 1 «o estado geral dos espíritos Doesta época era o assumpto iDexgotavel dos nossos artigos. Remusat. não pertenciam á redacção do Globo. Duvergier de Hauranne e Duchatel o terceiro grupo era formado pela mocidade mais lúcida das escolas. ii. Ampere. que a Revolução que elles atacavam dera-se menos nas ruas do aos catholicos. Farcy. . coUaborando tin. á frente dos quaes estava Dubois.' IDEIA GEBAL 79i zot. que pretendiam restabeexplicava-lhes que nas ideias. o primeiro. J. .» Ch. 408. filhos dos homens da Republica e do Império. Pa. desviaram por algum tempo a elaboração litteraria da direcção e solução scientifica que lhe imprimira o Globo. era o dos universatarios. Vitet.

o segunda pela Revolução franceza. nem a natu- o que importa no silencio actual do bom senso. Muitas aífeição aos uma cuuma nova com nações regressaram interesse particular e um monumentos do génio dos seus antepassados» das circumstancias. . e Trovadores da Provença e do occidente români- sobre as Canções de Gesta. a da primeiro atacado na época do Protestantismo. um novo progresso. pela sciencia das origens. Existiam os ele- mentos para esta dissolução do Romantismo. com relação á sociedade moderna. Madame de Staèl. que os erros phantasticos E no meio de alguns escriptores embaraçam. do norte da Çrança. seguiu-se o profundo estudo encetado pelos philologos allemães e francezes sobre as poesias lyricas dos co. As questões vagas de escola foram-se abandonando diante da renovação scientifica a rehabilitação histórica da Edade Media. a Edade Media conside- rada como tuições uma evolução histórica d'onde provieram as insti. Mackintosh. que o nosso tempo tem reaUsado pela philologia e pela historia reza se repetem . representava modernas com relação á civiUsaçao greco-romana. chegou á formula.» Pela systematisaçâo da Sofoi por Augusto Comte. É. 80 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ção da Edade Media. Edade Media. caracterisa assim o movimento novo: «A Litteratura inspira por toda a pjyj-te d'esta época. terminava com a dissolução do regimen cathohco-feudal. desde pouco. determinada pelo foi Romantismo. que pertence a esta época de lucta liberal na politica e na litteratura. cuja importância era ainda ignorada. cuja confusão primitiva se ob- serva ainda na Rússia . a separação do poder tem- poral do poder espiritual. que consistia em um guarda roupa cavalheiresco. : «Nem a arte. não temos a receiar os inconvenientes que parecem resultar d'esta tendência. riosidade geral. Além d'esta concepção lúcida philosophia positiva. também uma das causas d'esta transfor- mação litteraria. é desviar o despreso que se pretende lançar sobre as concepções da ciologia..

mas a Revolução estava nas consciências. aspirando o advento da liber- dade politica no seu paiz. todos os paizes da Europa appareceram relacionados os dois movimentos tólidos . ISa Rússia o Romantismo manifestou-se pela exaltação by. como cipal. que. politica. reuniam-se em sociedades secre- tas. L. e a litteratura torna-se testo e umi linguagem de pro- de revivescência nacional. os cantos dos trovadores nas luctas da França muni- vinha agora proclamar o grito das nacionalidades.) 6 . quizeram restabelecer as formas exteriores do antigo regimen. persegui- i*am as intelligencias superiores. e com as qualidades originaes que distinguem os primeiros esforços litterarios de cada uma. se a Revolução franceza é o ponto culminante da dissolução do regimen catholico-feudal. esmagaram os povos. acordando-as para a independência Em volta de Adam Mickievicz reunem-se os estudantes da Lithuania e da Ukrania. abraçavam a nova poesia. . Zaleski inspira-se nos cantos populares. Mickievicz é internado espíritos ingénuos pelo governo russo. como a Polónia ou a Finlândia.» * A transformação do Romantismo provinha de uma transformação social em que ellas . um modo com ulil por onde se familiarisam os sécu- los esclarecidos as bellezas e graças próprias a cada lingua. É por isso que as Litteraturas procuravam outras formas. 43. como-Puchkine. Os paizes escravisados. Simoo. (trad. na época em tomaram um novo impulso porque é isto que faz comprehender os caracteres nacionaes. e pelas suas composições lyricas soíTriam os desterros e os cárceres. p. e intentavam servir de expressão a um novo Ideal. emfim o byronianismo lançava os na 1 Essais fhilosophiques.IDEIA GEBAL 81 sobretudo. roniana os jovens talentos. Acentuemos rapidamente esse duplo mo- vimento antes de nos lixarmos ' em Portugal. os esforços es- da Restauração e da Santa Alliança nada poderam con- tra a aspiração moderna .

A Itália tyrannisada pela Áustria. 81. vivendo nas lendas da aspiração nacional depois de ter desappareci- do em uma batalha. L. que conservam na geração nova o espirito de resistência pela independência nacional.» * Na lucta do Ro- 1 Ensaios philosophicos. paixão continuada em 1828 pelo Dr. aDesde Pelrarcha a|^ lia o sentimento nacional da Itá- parece ter-se refugiado no coração dos seus escriptores. tanto abandonado pelos seus compatrio- mais faliam d'elle com enlevo. Mackinlosh resume em uma cara- cteristica fundamental o espirito da litteratura italiana: Alíieri. que O mesmo facto psychologico se repete organisa o Kalevala. Um movimento nacional com que apparecesse essa extra- ordinária epopêa do Kalevala. e Rosseti é banido por ter tomado parte na revolta de Nápoles. desenvolve-se a paixão pelas origens nacionaes. Lõnnrot. e que Lenormant examina como raniano. como Mickievicz e o Conde Krasinski. na Hungria quando tentou sacudir o jugo austríaco. uma forma épica do génio tu- em 1819 Yon Schrõters publica as Finische Runen. (Trad. encontra na litteratura romântica o seu protesto res. tas Os poein- no desterro. Na Inglaterra. espirito nacional fortalece-se na própria tradição em 1806 a Finlândia deixa de pertencer fez á Suécia para ser submettida por conquista ao Império russo. o Romantismo acordava o sentimento separatista da Irlanda o da Escossia em Tho- maz Moore e nos quadros novellescos de Walter Scott. p. . Pellico e Maroncelli eloquente. Até na Finlândia o . paiz é Quanto mais esse tas. fluem longe da pátria com os seus cantos.82 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL revolta pela independência da pátria e no patíbulo. Símoo). Berchet refu- gia-se na Grécia. que Jacob Grimm considerava comparável ás epopêas indianas pela riqueza dos mythos. o génio magyar Petõfi. revela-se esplendidamente no hallucinado Alexandre arrasta apoz si poeta que o povo. os novos escripto- são encarcerados. e guerrilheiro junto de Bem.

as suas redondilhas espontâneas. foi pre- ciso que as perseguições politicas do absolutismo lançassem nos cárceres e na emigração esses escriptores que até então imitavam os modelos latinos e o pseudo-classicismo sob o governo da camarilha francez. foi como * diz Salíi: «Acciísado de ex- citar os seus leitores á independência politica por meio da independência litteraria. Para que a Ilespanha tornasse a achar os seus Ro- manceiros.IDEIA GEBAL 83 mantismo. ambos porém com um profundo sentimento activi- nacional. o Romantismo dissolveu-se em um regimen mental. A Ilespanha não podia perder a feição nacional da sua litteratura sem solTior primeiro uma decadência orgânica infligida pela monarchia. para triumpharem dos seus adversários. durante o domínio do partido apostólico. como o caracterisa Gervinus. A Itália. que atacava os homens superiores para matar com elles o fermento do liberalismo. depois de ter realisado a sua aspiração de séculos ou a unidade nacional. e de satanismo em Leopardi. e o esquecimento das suas origens imposto pelo obscurantismo catholico. os Clássicos. 199.» O Romantismo italiano apresenta as suas phases distin- ctas de christianismo mystico em Manzoni. as suas novellas picarescas. serviram-se do despotismo auslriaco. Este jornal. . e de em demência. as suas comedias de capa e espada. que condemnava tudo quanto provinha do génio árabe ou do arianismo germânico. que põe esse povo ao lado da Allemanha e da Inglaterra venção e em in- em trabalho. O Romantismo em 1 Ilespanha devia de ser mais uma direc- Resume de V lUsloire de la Litterature tía/icn«. completa a sua dade com uma pasmosa elaboração scientifica e philosophica. deu-se essa pressão nas duas terríveis épocas de 1814 a 18:20. 1820 a 1823. ii. a plêiada romântica proclamava os novos princípios íitlerarios no ConciUalove.

em que com o le- os escriptores se viam separados da communicaçâo povo. a mocidade. havia perto de oito mil proscriptos. vigorava a antiga semsaboria das arcádias. A censura dramática estava a cargo do boçal padre litteraria Carrillo. de philosophia no humanitarismo krausista. que pelo em Portugal. Os que viam mais longe caíam no des- como Espronceda. prendendo os jovens poetas Es- cossura e Espronceda. os emigrados preferiram quasi todos a Inglaterra. o mais elevado representante do Romantismo liberal da phase byroniana. os desalentos pessoaes nos prolongados desterros.84 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ção do que uma forma. Em Portugal vemos repetir-se com os mesmos caracte- res o primeiro impulso do Romantismo. a é que mocidade. mas a ausência da pátria. estava morta pela censura regia e clerical. que seguia os novos princípios litterarios foi espontaneamente ?i arrastada para a independência politica. mandado por Ghateaubriand. alento. á frente da qual surgiu Garrett. mesmo tempo exercia a censura O Romantismo religioso propagou-se em forma serva. e é atacar os seus velhos inimigos. rada pela liberdade o despotismo da Santa Alliança apoia . se sentiu inspi. não menos faccioso que o padre José Agostinho. que o despotismo descobriu. varam-os para a imitação das novas formas. convertendo Aca- demia dei Mirto na sociedade secreta dos Numantinos. Depois da invasão da Hespanha pelo exercito francez. não se elevando acima do Romantismo religioso. Só depois que a nação tomou conta da sua soberania na Revolução de 1820. a monarchia e n'este mysticismo mental que o génio hespanhol se con- sem o clericalismo com o critério scientifico. O movimento nalit- cional contra a invasão napoleonica não achou ecco na teratura . e foi sobre um solo ex- tranho que desabrochou a nova litteratura . que veiu comprometter a causa da liberdade com a falsa miragem de que a Hespa- nha fora grande na época do poder absoluto da monarchia e do catholicismo.

e que conheceu quanto era necessário fundar a Historia de Portugal sobre o estudo das instituições sociaes da nossa Media. no imitámos o regimen poé- século XVII as aberrações castelhanas e italianas de Gongoristas e Marinistas. João vi. — CorrCUdo vital. que na Harpa do Crente soube inspirar-se das luctas pela liberdade nacional. só teve em mira imitar as grandes correntes litterarias dos ou- tros povos da Europa. no secuioxyi o lyrisnao itahano. no século xv imitámos o lyrisnio castelhano. Miguel 1826 proclamasse absoluto. todas as phases da litteratura portu- gueza. A palavra imitação resume a syn- these histórica da litteratura portugueza. e o conlisco. § 4. servindo-se da furiosa Carlota rasgasse a Carta constie se Joaquina. tico no século xviii de Boiieau. de 1829 a 1831 a esta segunda corrente pertence Alexandre Herculano. PORQUE CHEGOU O ROMANTISMO TAO TARDE A POR- TUGAL. qne rasga a Carta em 1823. Quando no século xix viesse a prevalecer . do século xn a XIV imitámos o lyrismo provençal. começou outra emigração. que pela ideia politica da constituição liberal tiveram de procurar asylo no estrangeiro. fez tucional de com que D. Não é uma coincidência casual o facto de Edade serem os primeiros iniciadores do Romantismo em Portugal esses dois homens. e os homens que adheriram ás bases da constituição sof- frem as masmorras ou refugiam-se em França e principal- mente em Inglaterra. do Roman- que Almeida Garrett observou tido apostólico a transformação tismo e achou a orientação do seu génio. perseguindo os liberaes com as forcas.IDEIA GERAL 8Õ liberal a traição de D. o cacete. Em resulta da elaboração artística das próprias tradições. . Depois que o par- de Ilespanha. Foi na emigração de 1823 e 1824. vê-se que d'esse fundo ella nunca tirou os elementos de creação fecundo e sempre collectivo das tradivez de apresentar a originalidade que ções nacionaes.

a compor obras de litteratura portugueza com caracter de nacionalidade. no século xix recorremos aos bens dos frades. por plicar: um motivo muito fácil de ex- porque não tivemos nacionalidade. Essa consciência intima que dência. que se nâo revelava pela historia. no século xviii expo- opulento jesuita e fazem-se confiscações a suppos- tos conspiradores. mas ao procu- rarem este caracter. um povo tem da sua indepen- chama nacionalidade. Comprehende-se que o Romantismo exemplificasse a sua nova concepção das obras de hespanhola. no século xv exploramos a riqueza das descobertas de Africa e Açores. e quer na ordem quer na ordem económica nada levava a desEsta noção estava espirito publico. nunca os escriptores receberam inspiração das tradições nacionaes. desconheceram o valor da tradição. Ve-se e nunca se tornaram orgânicas isto nas a condições económicas doesta nação. em Portugal havíamos também imitar o Romantismo. porque estas foram a expressão de vigorosas nacionalidades. Nenhum dos elementos que constituía esta nação podia ser levada . sobre que fizeram romances. e inventaram tradições a capricho. no século xvii espremem-se estes velhos recursos e alarga-se o systema de empréstimo lia-se o . Em Portugal. com a rica litteratura com a forte litteratura ingleza. e seria pertar em Portugal essa consciência. litteraturas arte. no século xvi explora-se a índia e o Rrazil e expoliâmos os capitães do Ju- deu. e exploramos o colono que regressa rico do Rrazil.86 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAli na Europa a nova comprehensão das litteraturas sob o seu aspecto nacional. é o que se intellcctual. dramas e poemas. foram levados pelo que tinham ouvido discutir. De facto os homens que primeiro entre nós proclamaram as ideias do Romantismo. que foram sempre provisórias : do século xii xiv Portugal tira os seus recursos da reconquista sobre colonial os árabes. mui lo longe do um prodígio achal-a formulada synthetícamente na nossa litteratura.

a propósito do casamento de Luiz xv. D'esta futilidade fez a Academia o assumpto de uma medalha. porque alguns vieram re- jclamar e disputar na imprensa periódica a posse d'essa extraordinária honra.» 4. se discutiam os differentes projectos. ^ A realesa achava-se desprestigiada entre as potencias es- trangeiras. Porto. n. e o faria de uma £popêa. desatrellaram do carro os cavallos. 2 F. consultemos os sábios. escrevia Mathieu quando du 1 Repositório litterario. disputando santo fervor quaes se agarrariam á lança para pucharem o d'esta ^monarcha até Lisboa 1 Elles comprehenderam o valor traição nos destinos d'este povo. Os sábios occupavam-se creto de 31 em inventar medalhas para eter- nisarem o insoHtum dccus com que Sciencias a prerogativa de rar-se Dom Miguel por de- de julho de 1828 concedera á Academia das em uma sala. e envergaram os tirantes. a aristocracia. p. Como é que estes sábios podiam des- cer a investigar essa frivola cousa chamada espirito nacio- nal? Pelo seu lado a nobresa deu a sua prova de altura.IDEIA GERAL 8t a encontrar na sua actividade esse recôndito caracter de nacionalidade. a realesa e o próprio povo. . que apesar de todos os seus esforços. quando enthusiaslicamente pelo acto heróico em que Dom com João VI rasgou a Constituição de 1822. tentando compor o Diccionario clássico da lingua!» * Este artigo tem o grande valor de ser refe- rendado por Alexandre Herculano. Martin3 de Carvalho. nunca pôde libertar a Academia d'esse estado de immobilidade. se não se achasse azurrar — empenhada em sair da palavra — (o braire da lingua franceza) na qual desde lon- gos annos amuou. 1831. poderem os seus sócios «demoque só dista um palmo da outra em que até aqui eram admittidos. Apontamentoa para a Historia contemporânea. 29.

.» real esse (iii.88 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Marais : «On ne veut pas Finfant de Portugal. dizendo que era tempo de voltar a Portugal. Graças á caridade tos. O rei achava-se tão vinculado aos seus que no momento em que os exércitos de Napoleão caminhavam sobre Portugal. algumas centenas de mandriões bem disposaprendem a manejar as muletas em logar do exercício da espingarda. sem distribuir por elles esmolas consideraves. fieis vassallos. ethnologicas e geographicas o intuito de encobrirem ideias novas que iam perturbar a tranquillidade dos seus fieis vassallos. em que a expedição Dom manda impedir do Barão de Humboldt na America. depois que os seus conselheiros o acordaram da apathia habitual. e em- plastros com a mais repellente perfeição. pela variein- dade e arranjo de seus farrapos.. pela abundâncarta accrescenta Beckford cia das suas ulceras.) É emanado da João vi chancella documento de vergonha scientifica nacional. O povo era ainda o mesmo que Lord Beckford retratara na menoridade de D. e pela preseverança vencivel. mal entendida. pela profusão dos bichos. por- que S. refugiando-se no Brazil. parceque le père est un peu fou. para se postarem ás portas do palácio e esperarem a saida da rainha.» N'es'a : mesma «Nenhuns mendigos egualain os de Portugal. M.. João vi: «Legiões de mendigos desembocavam de todos os bairros. é uma mãe muito indulgente para estes robuse nunca entra na carruagem tos filhos da priguiça. attribuindo ás suas investigações botânicas. e a arte de fabricar chagas. O povo recebe o seu rei com lagrimas. porque a Revolução de 1820. pela força dos seus pulmões. abandonou o seu povo ás arbitrariedades de Junot e depois ás prepotências de Beresford. a Carta regia de 2 de junho de 1800.» Byron ao visitar Portugal. 173. allude a Beckford pela antonomásia da sua obra originalissima o Califa de Vaihek. onde continuou os disvellos do governo paternal. ulceras.

uma fraquesa imperdoável. cant. ter a ideia censura. IDEIA GERAL 89 uojlhjld Harold Byron retrata a emoção que lhe produziu /Lisboa: «Ao primeiro relance. JMas se se penetra no interior d'esta cidade. no seu Elogio histórico «As viagens pareceram-Ihe sempre ingratidão ao paiz. que vista de longe parece tre uma habitação celeste. e por toda a parte os habitantes patinham na lama. do Cnnservalorio. o emprego dos capitães fora do sólio pátrio. e existia a censura prévia foi le- ípara toda e qualquer publicação. xiv a xxxiii. um altentado contra a moral publica. est. que bellezas Lisboa ostenta! !a sua imagem i reílecte-se trémula n'este nobre rio que os poetas mentirosos faziam correr sobre areias de ouro. 2 Do grande iniciador induílrinl José Ferreira Pinto Ilaslo.. se- 1 C7íiíd ílarold. esta- a Europa. Portugal realisava na Europa o ideal de fundar uma lit- teraíura para servir de expressão ao caracter nacional. de . o estrangeiro era consihostis Iderado como o jvamos incommunicaveis com Portugal em do mundo antigo - . escrevia José : Eslevam. commina-se a excommunhão maior aos quo lerem o Retrato í/s Vénus. p. e ^ rar em 1827 soflVcii (pialro intv. iuglezes ou allemães jsó entravam como contrabando.cs (k* Liiiinciín pur collaboom uma gazeta que era previamente appiovada pela do Japão ou da China. ninguém se preoccupa com a limpesa da sua roupa ou das camisas. a crença no poder estrangeiro um insulto ao nosso pundonor.. N'estas condições. e fi- cavam sem de . se alterar nos seus andrajos e ascorosidaal- . atacasse-os a lepra do Egyplo. 21. Antes Ida primeira emigração em 1823.» 3 Mem. erra-se tristemente en- uma multidão de objectos peniveis á vista do estran- geiro: choças e palácios são egualmente immundos. Ma Pastoral do Patriarcha de Lisboa. adoptando-os na sua verdade. Os livros francezes. . i. a confiança da inferioridade das nossas coisas. 28 de Janeiro de 1824. com o terror das /ideias liheraes. » * Herculano traduziu nas Jjcndas Narrativas guns d'esles versos. Garrett enij^ál ivado aos Iribunaos por íor osciipto o Urtraío dr Vcnus. Seja de que gerarchia for.

Francisco Freire de Carvalho glosava Quintiliano em quanto á renascença do espiformar um . fabricavam-se lendas phantasíosas. já pelos esforços contra o calculado obscu- rantismo da Santa AUiança e das Restaurações absolutas. O estado em que se achava a sciencia da historia era quasí deplorável cas e além de Chronícas monástimemorias académicas. coincidindo com a reacção em todos os povos. defníitivamente a causa con- stitucional mas as ambições polilicas fizeram com que os melhores espíritos tratassem das questões de litteratura accídentylmente. quadro completo da Historia de Portugal. em Portugal tinha de ser cúmplice esta força se revelava social.90 ria realisar HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL o impossível. TUGAL. e ao mesmo tempo. o velho habito portuguez preferiu a es- tabilidade e acceitou o Romantismo como mais um modelo para exercer a sua imitação. entrar ção. I 5. Emquanto ás doutrinas litterarias. COMO FOI COMPREHENDIDO O ROMANTISMO EM PORAo indicar as causas fundamentaes que provoca- — ram o apparecimento do génio românico nas litteraturas crise dos espirilos foi modernas. rito nacional. nunca ninguém se lembrara de . em que triumphou . já pelo espirito da Revo- lução franceza. Para que o Romantismo fosse comprehendido e se radicasse naturalmente em Portugal. e O movimento do Romantismo para com a Revolucomo mas quando um agente dynamico do corpo como tal capaz de fecundar as creaçíjes artislicas. emprega- . era preciso que a reno- vação artística encontrasse algum d'estes elementos em que lit- se baseasse. reconhece-se que esta uma consequência lógica da nova comprehensão da Edade Media pela escola histórica do século xix. pela das verdadeiras ideias da Arte e da nacional dada critica litteraria creação philosophica da Esthetica. teraria só Os trabalhos de organisação scientifica e começaram depois de terminado o cerco do Porto em 1833.

IDEIA GKnAI.

iJi

vam-se archaismos para simular o sabor da antiguidade, reagia-se contra o uso dos gallicismos com um terror de
purista, e o chauvinismo era a base essencial de todo o estylo vernáculo.

Como

poderia ser compreliendido

em

Por-

tugal o
tos

Romantismo com

esta carência absoluta de elemen-

que dirigissem o
a)

critério?

Estado da sgiencia histórica

Em 1839, dando conta da publicação de duas Memorias de Frei Francisco de S. Luiz, escrevia Herculano: «Duas
chaves únicas, entendemos, abrem hoje o rico thesouro da
Historia portugueza: guarda

uma

o respcitavelJoão Pedro

Ribeiro; outra o illustre auctor das Memorias... Todavia

essas

mãos robustissimas, que

a edade grave

não enfraque-

ceu, já por entre o bulicio d'esta geração que vae passando

ufana da sua ignorância, buscam apoiar-se na borda da sepultura (tarde a

achem

elles) e

quando

a providencia

hou-

ver de consentir que a encontrem, podemos ter por averi-

guado, que a Historia nacional ficará por muito
estado

Umpo no
rectifi-

cm que

estes dois sábios

a deixaram. 9 Pelo trabalho que apuraram datas, compilaram sem nexo,

d'estes dois escriptores se vò

caram alguns
isto tar,

factos secundários,

deixando quando muito monographias subsidiarias; sobre
continua Herculano «Não podemos deixar de lamenque os dois modernos luminares da Historia portugue:

za ... se
líticos
. .

tenham
.

visto obrigados a apurar datas e factos po-

gastando

em

indagações de

tal

natureza aquelle

tempo, que com mais proveito teriam talvez empregado
tirar a

em

lume

a substancia

do passado,

isto é, os

fados rela-

tivos ao

progresso da civilisaçHo entre nós, etc.» Entre este

espirito compilador,

que Herculano lamenta, e as especula-

ções philosophicas de Viço e de Herder, não se conhecia
entre nós meio termo
:

«Bem persuadidos estamos de que

;

92

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

um

OU dois homens nâo bastam para

colligir

tudo o que é

necessário para que se haja de escrever (cremos que tarde
será)

uma

Historia de Portugal, segundo o systema de Viço
historia da civilisaçâo e

ou Herder: uma

não unicamente

das batalhas, de casamentos, de nascimentos e de óbitos

uma

historia

que alevante do

silencio

do passado as gera-

ções extinctas, e que as faça, (para dizermos tudo

em

bre-

ves palavras) viver diante de nós.» Decididamente Herculano não formava a minima ideia da concepção histórica de

Viço e de Herder, que se funda unicamente sobre as causaes

dos factos; e por isso condemnando os velhos historiadores portuguezes, diz que o único manancial histórico está

«nas chronicas dos diversos institutos monásticos. Sabemos

que gravíssimo peccado
perdão.»

é n'este século

de luzes

fallar

em

chronicas de frades; mas d'isso pedimos humilissimamente

E

depois de poetisar a missão do monge, prose-

gue: «Podíamos levar mais longe as reflexões acerca da
utilidade histórica d'esses annacs das corporações rehgiosas, que ignorantes presumidos despresam,
les

porque para
*

el-

só têm mérito palavras ocas de philosophanles ;)•>

ele.

Tal era o critério histórico que

em 1839

se estava

formando

para succeder ao espirito compilador e estreito de João Pe-

^ro
ria

Ribeiro e Frei Francisco de S. Luiz.

A

ideia da histo-

moderna não
sciencia;

foi

comprehendida por Herculano como

uma
;

tendo somente

em

vista levantar

do pó as

gerações extinctas visou ao

effeilo

dramático, preferindo o

/Romance

«Vá aqui mais uma humilde opinião nossa. Parece-nos que n'esta cousa chamada
histórico á própria historia:

hoje romance-historico, ha maior historia do que nos graves e inteiriçados escriptos dos historiadores. Dizem pessoas entendidas que mais se conhecem as cousas escossezas lendo
as Chronicas de Canongate de Walter Scott, do que a sua

1

Panorama^

t.

iii,

p. 6.

IDEIA OEBAli

93

Historia de Escossia.

Também

ha quem diga que no mais

grado quarteirão de historias de França, escriplas até o amio de 1800, não tinha apparecido ainda a época de Luiz
i'l.°

como appareceu depois na Notre Dame de
*

Victor Hu-

go.»

Em outro

logar exprime Herculano este contra-senso

com maior

fervor ainda: d^Novella ou Historia, qual d'estas

duas cousas é mais verdadeira? Nenhuma, se o affirmar-

mos absohitamente de qualquer

d'ellas.

Quando o caracter

dos indivíduos ou das nações é suííicientemente conhecido,

quando os monumentos, as tradições, e as chronicas desenharam esse caracter com pincel firme, o novelleiro pôde
ser mais verídico do que o historiador; porque está mais

habituado a recompor o coração do que é morto pelo cora-

ção do que vive, o génio do povo que passou pelo do povo

um dito ou de muitos ditos elle deduz pensamento ou muitos pensamentos, não reduzidos á lembrança positiva, não traduzidos, até, materialmente; de
que passa. Então de

um
um

facto

affectos,

ou de muitos factos deduz um afifecto ou muitos que se não revelaram. Essa é a historia intima dos

homens que
sabe fazer

não são: esta

é a novella

do passado.

Quem

isto

chama-se Scott, Hugo ou De Vigny, e vale
estes recolhem

mais e conta mais verdades que boa meia dúzia de bons
historiadores.

—Porque

e

apuram monu-

mentos e documentos, què muitas vezes foram levantados ou exarados com o intuito de mentir á posteridade,

em

quanto a historia da alma do

homem

deduzida logica-

mente da somma das suas acções incontestáveis não pôde
falhar, salvo se a natureza

podesse mentir e contradizer-se,
hisfei-

como mentem e se contradizem os monumentos.» * Até aqui vemos a falta de um critério scienlifico da
toria
;

outras descobertas

f undamentaes já

tinham sido

1

2

Panorama, Panorama,

l.
l.

iii,

p.

iv, p.

306. 243.

94
tas

HISTORIA DO llOJklANTISMO

EM PORTUGAL

na Europa, e que nos revelavam
taes

em

toda a sua luz a

Edade Media,

como

a

importância dos raanuscriptos

dos Trovadores e dos Troveiros, do lyrismo provençal e
das epopéas gallo-frankas, e sobre tudo o problema da
for-

mação das

linguas novo-latinas.

Em

Portugal nada d'isto

havia penetrado ainda. Os dois luminares da historia por-

tugueza, João Pedro Ribeiro e Frei Francisco de S. Luiz,

acreditavam que a lingua portugueza não tinha conuexão
histórica

com o latim e era uma derivação do celta estavam com o velho sonho de Bullet. João Pedro Ribeiro em uma polemica com Frei Fortunato de S. Boaventura (1830)
;

escreve

:

«Quanto

á auctoridade ...

do conselheiro António

Ribeiro dos Santos, principio por dizer, que sempre o respeitei
foi

no numero dos philologos do meu tempo

;

mas não
opi-

por cegueira, antes por convicção que segui a sua

nião contra o

commum, negando á
*

nossa lingua a filiação

com

o latim.

y>

Pela sua parte Frei Francisco de S. Luiz

pubhcava em 1837 a Memoria em que se pretende provar que a Lingua portugueza não é filha da Latina. Confrontemos estas duas datas, 1830 e 1837 com os grandes
trabalhos da philologia românica
havia^
;

em

1827, Frederik Diez

pubhcadp.p seu

livro

sobre os Trovadores, onde lanfor-

,çou as primeiras bases inabaláveis para o problema da

mação

das linguas românicas, e logo

publicar essa obra extraordinária a

1836, começou a Grammatica das Línlatinas o

em

guas românicas, onde applicava ás linguas novo
critério
I

comparativo de Bopp. Muito depois d'estas datas,

Herculano evitava os celtomanos, e acosta va-se a outra hypothese gratuita de Bonamy sobre a desmembração de ura
dialecto geral vulgar

que coexistia

a par

do latim.

Quanto ao conhecimento da poesia da Edade Media, as
publicações de Raynouard não foram conhecidas

em

Portu-

*

Reflexões á brevíssima resposta, p. 6.

;

IDEIA GEBAL

95

gal, nem tão pouco se estudou o Cancioneiro publicado por Lord Sluart, onde estava o principal monumento da poesia

lyrica

portugueza dp_sjcjilo xiJ.a

xiv? Tal era

o estado dos

conhecimentos históricos n'este período do Romantismo
era portanto impossivel comprehender a importância de

uma

tradição nacional, e o poder trazer a litteratura ás fontes

da sua originalidade. Herculano reconhecia esta verdade,

quando escreveu: «Ao passo porém, que
struía, reconstruia-se a Historia.
ler,

a

Arte se recon-

Ao

lado de Goethe e Schil-

apparecia Uerder e Muller; ao lado de Hugo, Guizote
*

Thierry.»

b)

Estado das ideias philosopiiicas soiire arte

Em

Portugal reinou sempre e de
;

um modo

absoluto

uma

só escola philosophica

a doutrina

de Aristóteles no seu
en-

periodo avcrroista preponderou desde a fundação da monarchia até ao tempo

em que

a instrucçâo publica

foi

tregue aos Jesnitas; houve apenas
lismo platónico

um

intervallo de idea-

em

alguns poetas do século xvi, e caimos

outra vez sob a férula aristotélica do periodo akxandrista.

As reformas
cartes,

philosoí)liicas

de Pedro Uamos, Bacon, Des-

Gassendi,

as novas theorias

de Nicole, Malebran-

Le Clerc e Wolfio nao poderam penetrar em Portugal, como vemos pelos grandes
che, Mariotte, Thomasio, Lock,

esforços de reacção da Kscholastica do Gollegio das Artes. ^

Dom

João V escreveu por via do Conde da Ericeira para

Inglaterra a Jacob de Castro Sarmento para que traduzisse
as obras de Bacon, que elle propuzera

Portugal a primeira folha do

em 1735 veiu para Novum Organum, mas os que
;

tinham o monopólio da instrucçâo obstaram a que se abrisse

>

Memorias do Conservaíorio,

p.

136. (Ann. 18i2.)
n.*»

2 Compendio hialorico do estado da Universidade,

1C3.

96

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

este novo horisonte á intelligencia. Ficámos amarrados ao

poste da Lógica Barreta oa da Lógica Carvalha

; tal

era o

campo que encontrava em Portugal
ca,

a

doutrina da Esthetilitteratura

que desde Schelling

influirá

no esplendor da

allema, e levara á verdadeira

comprehensão da antiguidade.
tenta-

Em

1835 é que se publicou pela primeira vez uma

tiva sobre Philosophia

tação

— Bello — Unidade;
uma educação

da Arte,
^

com

o titulo de Poesia: Imi-

infelizmente o seu auctor tinha

recebido

fradesca, e a Logica-Carvalha

com

grande custo se empaveza com a nomenclatura da philosophia allemã. Esla prioridade pertence a Alexandre Herculano, que depois veiu a possuir-se da mais entranhavel aver-

são

ás

especulações metaphysicas.

Em

todo o caso

elle

percebeu, que o Romantismo partia de
sophica. Escreve Herculano
:

uma renovação philo-

«Na torrente de opiniões conque na presente época com:

trarias sobre a critica litteraria

batem, morrem, ou nascem, também nós ternos a nossa
vera a ser parecer-nos que da
pios

e

falta de exame dos fundam os diíferenles systemas procedem essas questões que se tem tornado intermináveis talvez por esse único motivo. O génio impellido a produzir no meio

princí-

em que

se

de

ideias vagas e controvertidas sobre as formas, as condi-

ções da poesia, julga que todas ellas são indifferentes e desvairado se despenha
tos,
;

e o engenho dominado pelos precei-

que muitos séculos por assim dizer santificaram, con-

trafaz e apouca as suas producçôes,

temendo
é

cair n'aquillo

que julga monstruoso e absurdo. Tal
da litteratura.

geralmente o estado
let-

—Os

que conhecem o estado actual das

tras fora de Portugal, na França, na Inglaterra e ainda na
Itália,

sabem ao que alludimos. Trememos ao pronunciar
ou definidas erradamente, que somente tôm gerado

as denominações de Clássicos e Românticos, palavras indefinidas

*

Bepositorio litterario, d.« 7.

:

IDEIA

GEBAL

97

sarcasmos, insultos, nliseriàs, é nenhuma instrucçâo verdadeira, e que
tes

também teriam produzido

como

as dos

estragos e morNominaes e Reaes se estivéssemos no xvj

século. Infelizmente

em

nossa pátria a Litteralura ha já an-

nos que adormeceu ao som dos gemidos da desgraça pur
l)lica;

mas agora

ella

deve despertar e despertar no meio

de

uma

transição de ideias. Esta situação é violenta e muito

mais para nós que lemos de pass£|r de salto sobre

um

longo

praso de progressão intellectual para emparelharmos o nosso

andamento com o do

século.

Se as

o[)iuiões estivessem de-

terminadas, o mal ainda não seria tão grande;

mas

é

n'um

cahos que nos vamos mergulhar, do qual nos tiraremos
talvez

muito depois de outras nações.»

*

Ao

escrever o ^ea

estudo de esthelica, Herculano linha
cer

em

visla: aeslabele-

uma

Ihcoria segura que prefina tanto o delirio

á\\mà
lin-

liceiiça

absurda, como a submissão abjecta que exige certo
lilterario.»

bando

Vejamos essa theoria através de uma

guagem incongruente de quem não sabia proseguir uma ideia e muito menos fonnulal-a; Herculano considera o Bello o
objecto da poesia; considera-o
critério é a nkctiipbysica, e ao

um

principio absoluto, cujo

mesmo tempo

redul-o a

uma

inera relação, por isso

que dependo da nossa existência
a

«Para nós a sua existôucia depende da nossa; e
physica
objecto
revela
iníluií-á

meta-

sempre em qualquer systema que sobre tal venhamos a adoptar.» Depois d' esta contradicção que
exiranhesa dos processos philosophicos, cae

uma

em
flu-

outra ainda mais IJagraiile; diz que
tes

sem

philosophia as ar-

não

llorescertí, e

dá essa philosophia como causa da

ctuação dos priiicipios:

«Sem

levar o facho da philosophia
a essência d'eslas, as tlieo-

ao seio das artes,
rias

sem examinar

formaes íicam sem fumlameulos, e é justamente o que

tem acontecido. E quando aqui ou acolá se tem tentado sob-

1

Rtposilorio lilterario, p. 54.

7

;

98

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

pôr-lhe esses alicerces, é á philosophia que os
car.
via

tem

ido bus-

Este nietbodo é quanto a nós o inverso do que se deseguir, e

um

grande mal d'ahi resultou: a fluctuaçâo
crilicos.»

dos principies e consequentemente dos juizos

Gomo

entender estes três periodos que se repugnam? N'esta trepidação não podendo avançar, agarra-se ás velhas controvérsias de Boileau e Perrault, de Lamolhe, Fontenelle e

Huet, e braveja colérico porque Boileau comparou o

Tele-

maço ao romance de Theagenes

e

Charidea, de Heliodoro;

por fmi faz-se árbitro da polemica dos aniigos e modernos

em

do século xvn, com a phrase conciliadora: «Nós devemos seria uma ingrande parte aos antigos o que sabemos

gratidão negal-o. Elles

crearam as

lettras e as

levaram a
tudo ou

um

ponto de esplendor admirável; mas por as crear e aper-

feiçoar

não se deve concluir, que acertaram

em

que tudo sabiam.» O modo de discutir é de. uma ingenuidade primitiva; sustenta que o Bello é absoluto, porque:

«O europeu, o chim, o
relativo,

hottentote sentirão egualmente que

o Apollo de Belvedere é bello.»

E

pela contraria, que não é

porque se podia então equiparar os Luziadas ou a Ulyssea, ao Alfonso ou ao Viriato trágico: «Se dissermos que o Bello é relativo e resultado do nosso modo de ver,

da relação particular dos objectos comnosco, da harmonia ou desharmonia dos factos com as nossas ideias moraes,
n'esse caso não poderemos affirmar que os Luziadas ou a
Ulyssea sejam absolutamente superiores ao Álfomo ou ao
Viriato
trágico,
h

Depois de exaltar a poesia

celeste

dos

hymnos
ler,

solitários

áe Lamartine, o terror

delicioso

de Monti,
Schil-

a anciedade

que causa a despedida de Picolomini de
«Tal é o Bello

conclue:

— para

modalidade necessário e absoluto;

quem o julga em sua uma ideia opposta repulo-

gna e nos

afilige:

nós queremos que todos os tempos,
fôr

dos os homens o julguem e gosem como nós, e diremos

sem hesitar— o que não

do nosso sentir ou carecerá de

IDEIA QERAT.

99

gosto OU O terá pervertido.
<l'islo

»

Herculano formava

em vista

uma

ideia

do absoluto metaphysico pelo absolutismo

politico.

Depois veudo que precisava de phraseologia melaphysica, aproveita-se

da nomenclatura de Fichle para mosunidade e o movimento
.

trar:

«que o bello das imagens, o bello chamado physico
íi

não existe nos objectos porque
<la

sua existência seriam destruídas;

.

.

l5

pois

mundo

das ideias, que o devemos buscar
existir,

— Um typo indecom
o qual
a fa-

em

nós, no

pendente do que nos cerca, deve

f nldade ,de julgar possa comi)arar o bello de
particular.

uma imagem
ad-

Eu, Não-eu,

eis

o circulo das existências, os dois

nomenos,
nos rodeia

fora dos qu:ies nada

concebemos

— mas nós
em
nós

millimos o necessário c o uno sem o encontrarmos no que

— cumpre

pois que elles residam

como

formas da intelligencia.»
niou exemplificando
tole

Como

o próprio ilerculano o aíBr-

com

o Apollo do Belvedere, o Hotten-

lambem

dirige o seu juizo por este

nomeno do Eu

e

Não-eu.

A

aversão

com que Herculano

ficou á metapliysica

allemã, prova que elle jogou inconscientemente

com

estas

phrases, e que nunca mais viu nos profundos trabalhos de

abstracção senão

uma reproducção

d'este seu capricho.
á critica

Herculano applica esse typo do bello
logia;

da mylho-

«Com

elTeito

onde existem as

ficções dos antigos

monstros da mytbologia?
vallo aliado

Quem

viu

como o Amor ou o Pegasso?

um homem ou um ca^ — Nem se diga
;

que

a

crença popular lhes tinha dado existência

isto são

palavras que soam,

mas sem

sentido ... Se a phantasia pro-

duzia estas creações, ellas não foram imitadas, logo não têm

modelo, logo não são bellas; etc.»
vastos do que as explicações de
cta,

Quem

cx)ncobia assim a

crcação poética das mythologias, nunca vira borisontes mais

um

padre-mestre de selejá

e isto

quando Crcuzer, Voss e Lobeck

tinham fun-

dado

a sciencia

das mythologias comparadas.

100

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

Depois de todo este pandemonium,
procurado derribar, cumpria
elle

diz:

«Tendo até aqui
etc.»

edificar agora;

vae edificar tem

em

vista

— conformar uma theoria

O quo
ra-

soavel da unidade
rios.

com

os grandes melhoramentos littera-

A theoria

rasoavel resume-se nos seguintes aphorismos

sem alcance: «A Poesia
«O

é a expressão sensível

do

Bello,

por meio de
faculda-

uma linguagem

harmoniosa.

Bello é o resultado da relação das nossas

des, manifestada

como jogo da sua

actividade reciproca.

«A condição

pois do Bello é a concordância da variedade

da ideia particular

com

a

unidade do geral; etc.»

Depois vae applicar estes princípios á Ilíada, Eneida, Orlando Furioso yLuziadas e Jerusalém Libertada, por

um modo

Iliada,

que chega a causar pena: «Se assim examinarmos toda a acharemos sempre a ideia de gloria pátria servindo de nó a este admirável poema que hoje se despresa por moda,
y>

crendo-se que nHsso consiste o Romantismo.

O

juizo sobre

Virgílio é «que sabia mendigar as migalhas de

um

tyranno

e nutrir ideias generosas.»

A

unidade da Eneida ficou pre-

enchida desde que Eneas «escondesse o covil de Rómulo

com o geu escudo
satisfeito,

celeste,

o fim da sua existência estava

e o poeta podia na serie das variedades buscar
lhe

bem accorde com
as

que

parecessem para com

ellas tirar

um som

a ideia

que o dominava.»

A

applicação da theo-

ria eslhetica

de Herculano aos Lnziadas dá esse logar comnecessidade de recorrer a

mum

de todas as rhetoricas: «Os Lnziadas são o poema
a

onde mais apparece
de ..

uma

ideia

independente da acção para achar
.

a imprescriptivel

unida-

Não

foi,

quanto

<!

nós, o descobrimento da Índia, que

produziu este poema;
e

foi

sim a

gloria nacional.»

De

Ariosto

de Tasso

limita-se a dizer

que cantam,

um

a cavallaria,

o

outro as cruzadas, isto é «o espirito

humano modificado de

ura certo

modo»

e «a réplica da Cruz á terrível pergunta

verdade: «A revolução tentou e concluiu. » Era com esta segurança de doutrinas que o Romantismo este fazia ecco em Portugal.i> * Portugal também atraves- sou a sua crise politica.» Terminando este temerário esforço de querer pliilosophar sobre arte. (Mem. os Em concepção da Aite influir na commoçâo politica. . Herculano descreve em poucas linhas esta época de lucta: «A época de 1833 foi a única época revolucionaria porque tem pas- sado Portugal n'este século. veiu com as revoluções sociaes. do Cons. . se a uma completa ausên- de trabalhos históricos accrescia uma incapacidade para a minima especulação philosophica? c) Renascimento de hm espirito nacional puantastico povos onde se deu a renovação litteraria do Romantismo. pelo e ex-plica-se mesmo pensamento íTestas. o resultado de gas cogitações. . vemos o espirito nacional despertado pela nova todos. no esforço para a hberdade. nâo litteraria em 1831.'. como podia sercomprehendido facto esplendido cia do nosso século. e sado na divisa do ihrono e constitucional. dra tal Nem antes nem depois qua- epUheto aos successos políticos do nosso paiz. Herculano remata cilante pergunta: com esta va- escola clássica. Herculano. reconheceu osla inlar- que a geração actual foi foi instincto.) p. Esta phase po- litica precedeu o movimenlo litterario. redigindo a sua Carta conforme a imitação ingleza. porfoi que só então substituída a vida interina da sociedade * Elogio histórico de Sebastião Xavier Botelho.» «Mas pretendendo destruir o systema da nâo somos nós Românticos ? Alguém nos terá E reclama: anão somos nem esperámos sél-o . o apparecimento do Romantismo entre nós foi um esforço artilicial. nunca. que esteve fora de Portugal na época da segunda emigração. abolindo o direito divino symbolialiar. por taes. 31.IDEIA GEBÂL 101 do islamismo.

traziam os elementos bastantes para conhecerem o nosso incalculável atraso. os elementos tuação. e as * politicos mudaram de si- Infelizmente. o enthu- siasmo pela liberdade substituído pela avidez da rapina no momento das indemnisaçôes. Portugal entrava sob a bandeira de liberal uma revolução em uma outra phase económica da sua historia. destruiram-se classes crearam-se novos interesses que substiluiram os que se aniquilaram. dos bens enorliberaes jazeram mes das ordens As garantias no papel.102 HISTOKIA DO ROMANTISMO EM PQUTUGAl. sem comprehender mais do que uma simples questão de logradouro que se disputavam dois irmãos. Fizeram-se tentativas individuaes para levantar o nosso nivel intellectual. 33. p. O I estado de atraso a que chegou Portugal sob o regimen fdo cesarisnio e do obscurantismo religioso. Os que haviam regressado do estrangeiro. indiíTerente á lucta de dois bandos. As forças sociaes antigas desap- pareceram para dar logar a novas forças. foram extraordinariamente organisadoras o povo estava espirito nacional mas o mudo. Pôde-se affirmar que a revolução que triumphou em 1833 foi ex- tranha ao espirito nacional. vô-se por esta confissão feita em 1837 pela Sociedade Propagadora dos j Conhecimentos ísal-o.» dia. tendo sempre vivido sem tou-se. por uma . úteis: t A nação portugueza. suslen- fazendo a natural desintegração religiosas. cumpre confes- é uma das que menos tem seguido este movimento progressivo da humanidade. o habito de viver sob a tutella do despotismo fièou no animo publico e vé-se a cada momento na prepotência ainda dos mais pequenos funccionarios. Silveira As reformas decretadas por não existia. esta revolução partiu da classe me- reformas decretadas implantaram-se pelo seu lado exterior. . uma industria própria. foi um Mousinho da . que estava atrophiado. nova existência. O nosso povo ignora immen- * Ibidem.

e esta falta de instrucção senle-se até nas classes que pela sua posição social. tinham ambas em vista fazer resurgir o espirito nacional. n. O primeiro esforço para sairmos d'esta tentou-se no Porto.» 1.» "^ poema em um ou mais rava a liberdade. 2 Repositório. O poeta pode- rá escolher o metro que mais lhe agradar e a divisão do Sob o despotismo ferrenho de D. No momento om que se respicantos. que muito lhe importava conhecer. propagando a monomania dos poituguezes do século xvi e xvn. deviam ser ilkistradas. que ganha diariamente no meio das outras nações. a que deram o nome lin- de clássicos. fabricaram lendas nacionaes e inventaram- nas a bel-prazer. p. Entre os assumptos escolhidos para serem tra- tados na parte lilleraria. inventaram cantos populares . devendo ser o D. protestaram 1 Panorama. não apparecia nenhum Ímpeto espontâneo a Sociedade dos que a glorihcasse. t. era a inspiração do terror. lingua portugueza sr.IDEIA GEBAIi 103 sas cousas. Fundou-se em 1835 Ami- gos das Lettras j e em 1837 a Sociedade Propagadora dos Conhecimentos úteis. Procuraram realisar este nobre pensa- mento por meios livros artiflciaes. i. só Scicncias vwdicas e de em i5 de Outubro de 1834 é que se deu á publicidade o jornal que representava os trabalhos d'essa associação. e a sciencia em Portugal está ainda longe de ter aquelle * caracter de unidade. incluiase: «Um Poema O Sitio escri- pto em com iv o titulo do Poito. Entre os mesmos homens da- dos ás lettras se acha falharem repetidas vezes as noções elementares de tudo que não ò objecto do seu especial estudo.» atonia. . iMiguel o povo cantava-lhe hymnos obscenos. Pedro o heroe. estabeleceram um purismo atlectado na gua. renovaram archaismos e bravejaram contra a corrente dos gallicismos. 4. inaugurando-se em iU de De- zembro de 1833 a Sociedade das Liltcratura.

e interrogam com religioso respeito as pedras runicas cobertas . porque symptoma só apponto de dissol- parece no corpo social quando este está ver-se. E nós? Reimprimimos leis. as os usos. escrevia Herculano em 1839: «Assusal- tam os livros pesados e volumosos do tempo passado as : mas do débeis da geração presente a- asperesa e severidade estylo e linguagem de nossos velhos escriptores offende o paladar mimoso dos affeitos ao polido e suave dos livros francezes.. e a Françía de hoje á velha França os po- \ vos do Norte saúdam o Edda e os Sagas da Islândia. no drama e na novella actual. A propósito do amor que se devia aos livros clássicos. se os tam. Desenterra a Allemanha do pò dos car- tórios e bibliothecas seus velhos chronicões. as tradições popuhi- as antigas glorias germânicas» . os Uvros. e por fim deixaram-se ir com a indifferença publica e atiraram-se á orgia das ambições do poder representativo. ou a quando um despotismo ferrenho poz os homens ao livel dos brutos. os nossos chronistas? Pu- blicámos os nossos numerosos inéditos? Estudámos os mo- numentos.104 HISTOBIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL contra as ruínas dos monumentos que o governo allienava ou deixava derrocar. Symptoma dência de da deca- uma nação é este. ou. porque a 6 tal da decadência da nacionalidade. a peor de todas. querem alimentar-se e viver da própria subsistência. viciando-os quasi sempre.e os costumes e opi- niões que foram: o mesmo fazetn a Inglaterra de hoje á : velha Inglaterra. Sabemos assim quaes são os documentos em que conhecemos. as crenças. herdados de avoengos? Nãol — Vamos todos os dias ás lojas dos h- vreiros saber se chegou alguma nova semsaboria de Paul de Kock. seus poemas 'dos NiebelungoSi e Mínnesingen . os escriptores encarnam na poesia. ignoramos quaes sejam os da própria. é porque extranhos nol-os aponterrível estribam glorias alheias. de musgos e somidas no aniago das selvas: Iodas as nações emíit». alguma exageração novelleira do pseudonymo . res.

Esta exaltação desvairada carece de correctivo o. a quem agrada.. e loihi a sua vida fui sacrifielle cada á vernaculidade. aquolla fluida guagem de Frei natural e porém i.uiz de Sousa.» ?.: • Apoz a questão dos clássicos levantaram os puristas a questão dos gallícismos: «A leitura frequente dos livros lin- francezes. Depois dos clássicos é o complemento do remédio. . • sempre os talentos dos escriptores. em la- pela religião .- . que ninguém pôde lèr. porque mais não entendem.' por onde i . Callae-vos. prosegue Herculano. estudo . 67 2 O Chronista. i. ou tabernas os logares consagrados pela historia ou E depois se vos perguntarem: De que na* ção sois? respondereis: Portuguezes.» Pelo seu lado Garrett. iii. . IDEIA GEUAL 105 Alichel Masson. mas quem se atreverá a receital-o? Já por alii me chamalam antiquário e Aflbnsinho que tanlu íallo em vidas de santos e chronicas de frades. t. sâo nem sequer longes d'aquellas ora- ções tão redondas.. âiii vae a resposta: Não es- tudeis noite e dia essas cbronicasde frades com que zom- beteaes. mascavada linguagem morrerá com- vosco e ca ia meia. para a arte só teve um lim. dúzia de bonecos e bonecas. de Frei os peiiodos estroipeaek)S e boursou/lés Thomé de com que Jesus. nem hoje se ar- ripiam os ouvidos. Mas . Pela sua parte Castilho to- mou a isério esta superstição. para. p. •. . que uientís desfaçadamente.. Dea converter pois corremos a trinas derrubar monumentos. reclamava desde 48i^7 a admira- ção dos clássicos: «Ninguém acreditará que é o mesmo lin- Portuguez em que hoje se ora e escreve. o purismo rhetorico. aquelle idioma tão doce. algum libello anti-social de Larnennais. pag. aííeriu . tem corrompido a nossa * Panorama. vol.. tão genlihnente! voltadas do nosso Lucena. riqui^simo. 196. quem assim me mas a vossa ^rilicair.

tudo . D'abl me parece que se devem empenhar todos os que amam a lltteratura portugueza e desejam sou augmento. e quando muito pintam pelejas dos nossos maiores em que ordinariamente já de antemão Hies sabemos das victoeste século. damnou e empeceu a nossa. essa lição dos auctores . i. desinçal-a dos gallícismos .» E descrevendo os clássicos: «estes versam mui- tas vezes sobre matérias áridas e pouco importantes para Contam milagres de santos por vezes incríveis. mas sem delir ou confundir o caracter da nossa própria e nacional. . . «Vulgarlsou-se esta língua entre nós. o mal que 1 Panorama. p.» * Garrett leratura também attribue a falta de originalidade da lit- portugueza á imitação franceza: nossa perdeu-se. . provam a nenhuma comprehensão que então havia do que era caracter nacional. aproveitando de todas. e o modo. as formas e os elementos do discurso. Sabemos que da lín- muita gente escarnece dos que . pela falta de conversar os escriptores nacionaes encurtámos e empobre- cemos gua. em estudar também a das outras nações. aos poetas palacianos do século xv. 10 e 17. i. Este nlmlo respeito e consideração em que tomámos pois os Portuguezes a lltteratura franceza. Esse caracter faltou aos trovadores portuguezes do século XII a xiv. vol. combinal-as umas com outras. aos ^quinhentistas. 2 O Chronisla. tudo o que era nacional desappareceu. sem fazer escola de nenhuma. t. que já hoje (1837) é impossível . a o génio. descrevem usanças monásticas. aos seiscentistas e aos árcades.» a causa ^ — Tanto do mal como o remédio proposto. rias. 52. 103 HISTORIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL guagem por cezes pez tal maneira.. e tão rapidamente como por ericanto. pregam sermões sem uncção. p. lomou-se por molde e exemplar para o* espirito. amam a pureza . fraii- em esquecimento os portuguezes .

o^ do de Segura. os escriptores ram de inventar lendas e cantos populares. tinha acompanhado sem- pre a htteratura porlugueza. que se dizia ter sido escripto na par- » Ibid. Ignacio Pisarro de Moraes Sarmento escreveu um Romanceiro pelo gosto artilicio litlerario. Herculano inventou a tra- dição do convento da Batalha onde também forjou um canto lòa popular dito pelos reis Magos. excluf>iva's Assim poderá formar-se uma Escola * mais ecclelica. e quebrada a forca dos per- revertamos a sentimentos mais rasoaveis e menos opiniíjes. a attenção.» Por isso que os lidos e o livros dos escriptores naciouaes não eram trata- povo estava sem tradições. Por isso em vez de estudarem essas tra- dições.. acceitou esla contrafacção de Herculano. o árcade Castilho fabricava um Atito pelo gosto da es- cola de Gil Vicente. iii. 2 Panorama. ainda que incerto correctivo que vejo a este mal.i> 2 Bellermann. os novos escriptores foram imitar as outras littera- turas para contrabalançarem a iníluencia da franceza: «o único. 101. dava^se agora com maior força n'esta supposta renascença do espirito na- cional. no seyi Portugiesische Wolkslicdcr und Romanzcn. . que apresenta íiobra como mui prima de certo leigo affamado jogral (Vaquelle U'mpo. e a hngua e a Htteratura pátria não colherão pouco fruclo se assim se conseguir. apegar do seu profundo senso /como popular critico. \). é i o fomentar a applicaçâo ás outras litteraturas e idiomas por onde dividida stigios. mas sem dissimular o mesmo fez Serpa coni os Soldos. Onde estava pois a causa d'esta (constante falta de originalidade? Disse-o Wolf: na falta de uma base de tradições sobre que se desenvolvessem as crea- çôes individuaes. Este génio in- ventivo que levava os escriptores do século xvi a fiUsiíica- •rem os monumentos históricos e poéticos. 239. p. t. IDEIA GERAL 107 se lhes tornou patente era 1827.

como no meiro volume do seu Romanceiro.108 tida HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de el-rei D. pelo guarda-mór da Torre do Tombo António de Castilho. o século do venturoso dia. os galeões da ín- mares nunca d^antes navegados. no seu eloquente protesto contra. dizia frontispício do romance o Arco de SanfAnna. de iodas as poee o berço de Camões. Sebastião para Africa. . Manuel. que todos á uma fortaleciam o seu génio no * Panorama. contrafazendo a poesia popular. João de Castro. de todos os discursos. A renascença do espirito nacional limitou-se a esta titilação exterior. De todos estes inúteis esforços só se conseguiu divulgar (por via do Panorama. explica a mutua solidariedade entre as tranformações politicas e a renovação litteraria: «Portugal não se contentava com uma imitação estéril. Maria ii em 18i7 contra Portugal. N'este paiz. jornal litterario imitado do Penny \gazine e que se publicava plares. que achara essa memoria em um manuscripto do Convento dos Grillos na cidade do Porto. Numerosos criptores surgiam. t. livros. inspiradas pelo uma vida imprevista brilhava em obras es- amor e pela tradição nacional. e os D . t. necessá- rios para se crear essa linguagem emphatica e patriótica do e de todos os sias. Edgar Quinet. o estandarte das Quinas. p. * Ma- em numero de cinco mil exem- os poucos factos da historia portugueza. 1. Pelo seu lado se vê no pri- Garrett. ii. a intervenção estrangeira chamada por D. i. o re- nascimento politico fundava-se sobre o renascimento do próprio espirito portuguez. a espada de Affonso Henriques Condestavel. p. que o a poli- burguez facilmente adoptou para expressão do seu patriotismo e como esconjuro eloquente e definitivo contra tica de iberismo. 53 . que deixara de pensar havia dois séculos. as façanhas dos Alhuquerques e D. as terras do Gama de Pacheco. como se julga.

As obras de Garrett. quando se. tão verdadeira. não é prever as con- sequências. rança tâo viva. x. e poi' isso um certo relevo de realidade. t.i> Em em seguida Qui- net explica a rasão do movimento: «Se alguma vez houve que se operava plena clari- movimento dade.IDEIA GEBAL 109 mesmo sentimento da pátria restaurada. o povo no fundo das províncias. no clerical. 5:^ a 61. era o O escriptor conspirava nos seus livros. a rainha acha mais legitimo o * um cadáver.» E condemnando então a inlervenção armada da Hespanha. o deputado na sua cadeira. segundo a ex- uma homem cuja auctoridade ninguém negará. concebidas n'este periodo de trans- formações politicas em que têm revivesceu a nacionalidade por- tugueza. Quando está assim feito o accordo entre a intelligencia do pequeno nudiílicil mero e a conscieficia de todos.» a De facto. . Inglaterra e França contra o levantamento nacional que repellia o absolutismo de D. uma uma emoção uma inspiração tão indií^ena desde a época dos Luziadas. pressão de e. exclama: «A nação queria governar reviver. Luiz. no Alfageme de Saníareniy * Obras completas^ de Edgar Quinot. . se nâo fosse bem rio? os últimos quinze annos produziram mais obras origi- naes do que os dois séculos passados. nacionnl. (Almeida Garrett) nunca se vira no espirito publico um moespe- vimento lâo profundo. um esforço tão sincero. a vida moral da nação acabou depois que monarchia braganlina chamou para so manter no arbítrio a intervenção estrangeira. Arco de SanCAuna^ Garielt combatia a reacção e segundo ouvimos dizer fazia no typo do Bispo a satyra de li- Frei Francisco de S. A gedia de Calão liga-se ás aspirações revolucionarias de 1820. p. inspiram-se dos sentimentos e agitações do motra- mento. proclamou o principio da soberania nacional. Maria u. Uma dência bastara para dar ás almas energia levantava-se. côr de indepen- a civilisação morta notó- Quem o acreditaria.

se ella fosse á scena : — e que era forçoso por tanto reliral-a infallivelmenle. trepidaram no i. tanto em. conclne-se que.» No n. c dos Árabes. |ou da realesa por graça de Deus). éramos incapazes de comprehender esse movimento.eu intuito. cadáver já profanado pelos pés de muitas raças barbaras. íôra dizer á empreza que o Alfarjcnir.. do as litleraturas mesmo «7^)- modo que iwa. as palavras lhos históricos da philosophicas sobre Arle e Litteratura. I C. esquecemo-nos de toda^ as tradições d' avós para pedirmos ás cinzas de um império morto 1 No n. lido em fins do setem«por iiiformaçõc? que temos por seguras. CONSEQUÊNCIAS CONTRADICTORIAS. 110 ^-rava o HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL em movimento dramático das paixões que se debatiam Í8i2 entre os setembristas (partidários da soberania * Miacional) e cabralistas (partidários do favoritismo do paço. dos Godos." fi4 do Correio Porluquet (22 de fevereiro de 184Í) se Jê acerca da demora (J«t rcprfiíciílaçao do Alfaqcme de Santarém. Garrett como em Herculano." 67. modernas estavam reagindo: que viva e possante não alcançara subjugar inteira- mente este cantinho da Kuropa. de condemnação. que os Cartistas ameaçavam que haviam do ir pateal-a e insultar o auctor e a peça. Herculano rea- gia contra a auctoriJade da tradição romana. nos veíu á noticia que bro de ISíl o notório dircclor do tlicatro da Rua dos Condes (Emile Doux) depois de Ires niezes de ensaios demorados e preparativos que nunca acabavam. Emile veiu justificar-se. que primeiro presentiram a necessidade de romper com a tradição arcadica. os protestos de respeito aos modelos constituídos estão em contradição com as obras. e vociferaram contra o Romantismo. da Santarém ora uma satyra dos últimos acontecimentos que restauraram aliaria constitucional. Netos dos Celtas. co)\quistou-nos com o esplen- dor da sua cmlisarão que res urgira triumphante. como pelas especulações como pela vitalidade do espirito nacional. Os mesmos escriplores. tanto pelos traba- Edade Media. Garrett era eíTeclivamenle setembrista. Doux . visto acerca das condições — DepoiS dO qUO temos em que estávamos para abraçar o Romantismo.

E da intran- sigência desta sua thcoria. romântica accrescenla: «Nossa theoria fora a primeira a cair por terra diante da barbaria d'essa seita miíeiavel que apenas enlre os seus conta um génio —e foi o que a croou — geuio sem duvida um e insondável. * um scepticismo absoluto. nem espiramos Para Herculano q ílomanlismo. limitava-se: pátria. i2.°. Herculano considerava: «a anciã a misantropia. credulidade dos monstros de Byron são o transumplo me- donho e sublime d'este século de exagerações e de renovação social.^^ * Parece que lei quem applicava assim pela primeira vez a Portugal a de Sctilegel. que a palavra Romantismo era usada acom o fito dn encobrir a falia de grnio e e de fazer e amor a abjecto irreligiãoy a ipwioralidade r> quanto lia de 7}egro no coração humano e por isso aCcrescenta: vnõs sel-o 1. que nunca o terá talvez. p. desterrar os numes gregos I3 subslituin- doos pela nossa mijtliologia nacional na porsia narrativa e pela ix3ligião. Panorama. os crimes. ii.) Repositório lilterario. e cujo fogo minou os campos da poesia e os deixou como o area| do deserto.» 2 Herculano entendia. Não assim. a in- da liberdade descomedida. l. 123.IDEIA GEBAL 111 e extranhOf até o génio da própria linrjua. que não tem com quem comparar-so. génio emfim. p. 28. :. Falíamos de Byron. declarámos que o 7mo sumos. do Conservatório. p.— Qual é. era verso. (1837.]. mas similhante aos immenso abysmos dos mares temrelâmpago infer- pestuosos que saudou em seus bymnos de desesperação: — génio áridos que passou pela terra como nal. 88. e que seus exagerado^ admiradores apenas têm pretendido macaquear. a negação de todas as ideias 2 3 Mem.^ nunra.^. ou o que é o mes- — mo. philosophia e moral na rica. com eíTeito a ideia dominante nos seus poemas? Nenhuma. comprehenderia foi a liberdade de movimento do Ro- mantismo. .n a ^ amar a em aproveitar os tempos heróicos do christianismo.

» ^ em Philosophia. que a Eu- amaldiçoe um dia esta litteratura. llii. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Com um sorriso espantoso elle escarneceu de tu- do . ninguém olhará sem compahvão ou horror os desvarios litterarios do nosso século. em LeUraSj Depois d'estes anatl>emas contra o espirito em Armoderno -e 1 Repositório lilíerario. dentro tdlvez de pouco tempo os nossos descendentes não tirão de nós porque seguimos' differeules seitas e credos tes. e se o homem mas nâo nasceu para correr na vida um campo de lagri- e depenhar-se na morte nos abysmos do nada. 2 Panorama. p. emquanto dura o grande combate. que se travavam em combates e derramavam séa sangue por causa das questões entre as escolas a que.. t.-» * Não contente enr con- — demnar tresloucadamente o trabalho da creação das litteraturas modernas. mas' teoips nós por bem demonstrado que. mas. Nossa prophecia se verificará. quando algum dia a Europa jazer livro etranquilla. que elles farão com seus dra- mas. o combale de séculos os hymnos do desespero soam accordes com as dores moraes. prorompem lhe dòs lábios palavras de irrisão contra os esforços para resolver os problemas da Arte «Rimos hoje com uma ipaixão linsultuosa d'aquelles' pobres philosophos realistas e nominalistas. em honra dos crimes. na época pela perspectiva de em que os tyrannos. enfurecidos a es- uma queda eminente. se apressara gotar sobre os povos os thesouros da sua barbaridade.. se. pertenciam. No meio das revoluções. poemas ô canções ropa volvendo a si. » E depois de muito logar comraum de : um catholico chateaubrianico. Herculano remata restará elle. como cremos. p. Dos seus imitadores diremos só. o género humano tende á perfectibilidade. cipicios «De sua escola apenas mas como um monumento espantoso dos pre- do génio quando desacompanhado da virtude. que hoje tanto applaude. iii. .— : 112 positivas. 88.

O byronismo. e deu á poesia um destino coníli- de aspiração da liberdade. Na evolução do Romantismo. mas a sua obra não teve uma ideia fundamental. Desde que achou essa noção sentiu o nobre lord força a necessidade do protesto. pela Itesto da consciência contra as violências praticadas pelo sys- {'tema de restauração do antigo regimen em ^Byron rompeu com esse positivo. Qualquer outro individuo succumbiria . impressionou pro- fundamente as novas intelligencias. no a sociedade clo do individuo contra atrasada.IDEIA CIERAL 113 Herculano continuou a escrever. Teria Byron a consciência ou o intuito. provocando a manifestação de novos talentos. procurando em si mesmo uma noção de justiça. chamada pelos escriptores académicos satanismo. offendido nos seus sentimentos pela dissolução forçada da familia. mas a nova concepção provinha de um estado exce- pcional da sua personalidade. auctorilario nas suas admirações por próprio era antigui- Pope e pela dade . apesar da condemnação de Hercu- lano. A concepção deByron. de jjraa transformaelle ção do ideal poético moderno? Não linha. não teve um plano. de que tanto se aproveitava o clericalismo. achou-se na situação em que se revela a espontaneidade creadora: offendido no orgulho pela sua primeira manifestação intellectual. jcomo expressão da beatitudc christã. porque tinha na mão 8 uma que actua poderosamente ^as sociedades burguezas — o dinhei- . prevaleceu na litteratura. e teve a eloquência da procla- mação. e imporia por isso julgal-o. offendido nas suas relações com a sociedade ingleza. na revolta di- das nações opprimidas contra a colligação obcecada da plomacia da Santa Alliança. deve-se do sentimentalismo idylico. a Byron essa snh- jStituição que se immobilisára linguagem de protoda a Europa. toda a Europa foi imitada. não educou uma geração. e em. . não podia succjmbir. Sem ser um génio. acha-se como um out-law no mundo moral e pro- cura equilibrar-se. forlalecer-se. fèl-a o grito ideal de convenção.

por um aspecto impreByron pintou as cousas como as viu. que convida a sua Lilia ao prazer. onde se adoece e se morre pela monomania do byronismo extemporâneo. a reclinar-selhe no seu peito com os braços enlaçados. adquiria um ponto de vista original sobre o universo. do Elysío! Oh vem meus versos bafejar Traze um soiriso alTavel Da tua doce Emilia. 109.» invoca o: Cantor das graças.) . vêr assombrou. HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Um homem que se acha com cem mil libras esterlinas de rendimento. e que ainda subsiste em Portugal e no Brasil. no sacro manto de immortaes verdores. É isto o que elle diz do Bello. * O Chronisía. os homens. os moldes pueris das Cartas em vista introduzir entre nós — o tão engra- çado quanto proveitoso methodo de Demoustier para ensinar divertindo. mas seguindo a Emília. de vista exclusivo alé na dissolução da vida dissipada. as so- ciedades por esse prisma tão particular. Torna com elle amável O tosco eelyle m«u. Mais linda que ella. (1827. p.114 ro. para comprehen- der as acções de visto. nias não tiveram o ponto de Byron — o prisma assombroso das cem que explica a influencia . e sem querer «viajar nos intermundios das abstrações chimericas. mais gentil que Emilia È mais seosivel inda a minha Lilia. Demoustier mimoso.* O insulso idyUco de Demoustier é excedido por Garrett. na phrase de imprecação. um outro modo. mil libras de renda. também propõe os altos proble- mas da esthetica. e o seu modo de em tudo. Para nos explicar o fim das Bellas Artes. no desdém superior do desalento. bastava contemplar as paixões. Pela sua parte Garrett. É isto o homem sem ter sido na realidade um génio influencia do que se tornou doentia para os outros imitadores medianos. nas Lições de Poesia e de Littera- tura a uma joven tinha senhora. imitaram-no no traço pittoresco.

» ^ É certo. de Tasso o de Racine. graças o cupidos Já muito viiílos são. oriental. Como Herculano. p. dizendo então. E as risonhas ficções da culta Grécia Áureos numes d'Ascreu sédiços dizem. que nem era clássico nem romântico. e em todos os seus livros chasqueou sempre da revolução mantismo. Mas os moder- amoldaram ao clássico e muitos d'elles têm progredido admiravelmente. Garrett depoz as regras e escreveu o Camões. Obscuros soobos do Escocez sombrio. E tom achar Ossian melLor (jue Homero. De Patis os modernos elegantes Deixam Racine para iérem Schiller. Por essas palavras vimos como Garrett mofava do Rosacudia de si os cânones rhetoricos que re- í Chronisia. O pri- meiro é o dos Psalmos. já muito lidos. Gabar Shackespear. de Klopstock. Antiquário a Itoileau. o elle litteraria. Vénus e amores. . pedante a Horácio. — Os poetas hespanlioes antigos escreveram quasi todos no género romântico. e de quasi todos os inglezes e lemâes. viu também esta nova phase do sentimento moderno como uma batalha palavrosa de nominalistas. romântico e clássico. 180. de Virgilio e Horácio. de todos os hoje seguido na Ásia. ou n'aquelle que outras regras não tem mais que a imaginação e phantasia. desdenliar Corueiile. de Camões e de Fihnto. e ainda O segundo é o de Milton. de Shacal- kespear. nos já se Hoje é moda o romântico. O terceiro finaUiiente é o de Homero e Sophocies. c finura. Dos nossos portuguezes também aíiguns aíinaram a lyra no modo romântico. porém poucos.IDEIA GERAL 115 É depois d'isto que Garrett descreve as diversas escolas litterarias: «E estes são os Ires géneros de poesia mais dis- tinctos e conhecidos. Só goítam de Irminsulf e do Teutates. Cbamam vil servilismo ás regras d'arte. livros da Biblia. que pouco tempo depois d'isto.

Garrett e Castilho não tanto pelo caracter de cada um. Castilho disputava a Garrett a antonomásia de príncipe da lyra. e quanto pôde a bem do desenvolvimento de uma ideia a acção continua de um centro litterario. Castilho chamara a Herculano. em quem a opinião publica via os seus Quadros históricos. pela circumstancia do tempo. só podemos expli- car a dissensão entre Herculano. se- gundo corre oralmente. o que se não teria feito se estes três homens fossem um . por seu turno Herculano feriu Castilho chamando-lhe cego de corpo e de alma. e Garrett ria-se d'elle chamando-lhe compadre. Pelo seu lado o árcade Castilho no prologo dos com phrases mais duras ainda Romanque veíu perturbar-lhe o seu mundo idylico. Quando ve- mos a imponente amisade entre um Goethe e um Schiller. não obstou a que Herculano e Garrett escrevessem livros que se desvia- ram do trilho batido até ao seu tempo. mas protestava lia que não era romântico. separaram-se por pequenos re- •sentimentos pessoaes. nenhum teve o dom su- blime de ver robustecer-se em volta de si uma mocidade prestante. eram os representantes em Portugal. e os es- forços d'estes dois se inutilisaram pela homens longe de se coadjuvarem. Com a boa vontade que os poderes públicos tinham então pelo desenvolvimento intellectual d'esta terra. dava-se uma cto época nova na litteratura modernos monumencomo o inaugurador de portugueza. e rompia contracto de propriedade litteraria com Garrett por causa do com a França. cedo desmembração. Esftísmò três tes homens. A falta de comprehensao d'este fa- que symbolisa a liberdade do sentimento. mas esses livros não tiveram em vista realisar uma these superior. tos litteraríos.116 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL os cebera na educação de seu tio. como pela falta de comprehen- sao da crise litteraria que se passava na Europa e da qual elles. esse gallego do chafariz da Ajuda. maldiz ido que as de Herculano essa espontaneidade do ! : representantes lilterarios. imitava-os.

e julgar cora impassibilidade. e mais feito. nada lhes deve. Maria se-lhe todos os archivos. abraçou essas doutrinas desde o momento sem plano na sua que viu que lisongeava assim a opinião publica. faz uma cru- zada fervorosa para que o governo dote a arte dramaMca com um va. Se mais se não tivesse menos nâo se veriam em breve esterilisados todos os esforços que cada um tentou parcialmente. eil-o que simula desgostos. somente as paredes do theatro de D. e lançou-se a traduzir a esmo. funda o Conservatório. este contribuiu fortemente para corromper as ideias litterarias do seu tempo. Se os dois escriptores antecedentes não levantaram uma geração.IDEIA GERAL 117 pouco mais intelligentes para se proporem elevados para se não odiarem pelo I um plano. Da renovação dos estudos illegiveis. dá direito de os . deserta do commercio das lettras e entrega-se á cultura e negocio do azeite. Garrett chega a fundar o theatro portuguez. mas nunca o soube exercer. Ninguém teve ainda um maior em poder espiritual sobre este paiz como Herculano. mas nâo apparece uma mocidade vigorosa e actie apenas dramas nacionaes não se escreveram. Castilho não teve outro plano litterario se- não glorificar por todas as formas a sua pessoa. e se faz forte pelo es isto lhe tudo Je pela moral. estabelece prémios. actividade. collocaram-no Herculano procura fundar a historia portugueza abriram- em um logar privi- legiado libertando-o dos cuidados da vida. históricos Portugal apenas restam volumes fragmentários. Inimigo da liberdade do Romantismo. . como pè testemunho de um esforço de regeneração ahi estão de ii. . nunca manifestou uma origi- nalidade qualquer. ideia capital e sem uma por isso até hoje Pelo seu lado. os edifício digno. A mocidade que surge por si.

.

comprehendeu que de . cabe a Garrett o primeiro Jogar. conseguiu ba- si o resto das impresst3es clássicas ou académicas que lhe haviam incutido na mocidade. dirigiu-se caprichosamente pelo seu goslo. mas porque possuia essa intuição artística.LIVRO I ALMEIDA GARRETT (17 99 — 18 54) Na obra da nossa revolução lilteraria que se seguiu á re- volução politica de 1832. Um accidente da sua vida determinou esta elevafoi ção do critério: a emigração para França e Inglaterra lá em 1823. justamente quando se debatiam as doutrinas do Romantismo. nâo porque tivesse uma consciência plena do facto moral e social que se passara na Europa e se reflectira em Portugal. que o levou a comprehender as obras primas da arte moderna e a procurar penetrar-se do seu espirito. com que suppria o estudo. nava nir a maior parle com esse tino que se tordas vezes uma intuição. Sem possuir a erudição indispensável para fundar a época moderna da lilteratura portugueza.

sem- pre frivolo e sensual. as honras para dar realce ao desatíeclação e familiaridade. á única tratada como uma predilecção de artista. Dá ao seu estylo uma calculada mas no intimo era verdadeiro e sincero. as fitas. moda não creou as obras primas de com os hábitos anachronicos regimen succurabiu exhausto sem passar pela ve- . e o de uma the^ philosophica. encobria a falta de educação philosophica com procurava era volta de um christianismo á Chateau- briand. faltou-lhe esta. e a base foi scienli- por isso a poesia do povo theatro. a unidade da obra. A sua vida é o commentario do ficou que escreveu. por ter vivido do antigo lhice. apresentar-lhe uma ideia fundamental emfim. por ter ido com a corrente da que era capaz. sem corda o vigor diO pa- Comprehendeu que na litteratura portugueza es- tava ludo para crear. Esse gosto ou intuição levou-o até onde era necessário íica. elegante da época da Restauração. os titulos. reduziu-se triotismo. Pensador nullo.120 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O pOYO portuguez também tinha um génio nacional^ que era preciso delerminal-o na poesia e no theatro. traçar-lhe mas o gosto que adivinhava não pôde um plano. a verdade natural traduzia-a no sentimentalismo apaixonado. Faltou-lhe a individualidade que lucta. debalde si uma mocidade em quem elle influísse» Seduzido finalmente pelas ambições politicas do constitucionalismo a obra d'arte tornou-se para ao um accidente. decidindo-se sempre pelas ideias generosas. attingindo a bellesa da phrase pelos hábitos da elegância. e mesmo tempo ambicionou litlerato.

par das aspirações de que foi o órgão. do Frei Luiz de Sousa. e até os próprios erros e aberrações que ajudou vida do a extinguir pela sua missão genial. (I8H a 1823) Direrção clássica impressa por Frei Tendência liberal do espirito de Garrett. Luiza. os velhos preconceitos contra os quaes reagiu. até à emigração em 1823.lo elmanista e depois philiolista.Midosi. cumpre pesada fatalitiade de resumir em si. que seguiu nas suas lyricas a pauta da medida velha ou da redondilha peninsular antes de abraçar o subjectivismo petrarchista da escola italiana. assim o andor inimitável do poema Camões. Sua vida em Lisboa Sua primeira imilaç. começou por ser uma um reverente imitador dos árcades quando se chamou Jonio Duriense. Dá-se isto com Garrett. e não é a menor prova da superioridade reconhecida. as dissolventes influencias que procurou anullar. Seu casamento cora D. poéticos.— Educação clássica de Garrclt. como Camões. que imprimiu á litteratura portugueza direcção nova.— I. A vida da Universidade e as tragedia» pliilosopbÍMs e OulfiroB família. Os ensaios de Abraça os princípios da RevoIurAo de 1820. que são o resultado do meio d'onde surgiu e do meio que pôde fundar pela sua individualidade. Reage contra o meio absolutista da sua Alexandre da Sagrada Família. urn frívolo a^ . Oaiao no theatro do Bairro Alto. Ha portanto na homem su- perior duas biographias contradictorias. e do ardente lyrismo das Folhas cahidas. que representa uma a época. — — — — — — — O homem a superior.

e a Terceira provou-o abrindo asylo e fazendo-se reducto dos emigrados liberaes. como o manifestou quando um simples burgo industrial.122 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL miscarado do século ceu das Damas. pasloraes 6 senlimentaHstas do século xvin o absorveram e o domina- ram. Garrett nasceu no Porto a 4 de fevereiro de 1799. até vir frequentar os estudos superiores na Universidade de Coimbra em 1814. que o obra A em que Garrett accentuou a sua individualidade nunca será bem comprehendida em quanto se não conhecer o período em que todas as deletérias tradições académicas. Foi esse o fructo das duas emigrações de 4823 e de 1829. em um Coimbra e meticuloso quando o estudo da lingua portugueza se lhe tornou raria. e desde 1810 viveu na ctos ilha Terceira. e ié por elles que explicaremos esse instincto de liberdade Santa 'que o fez protestar contra as forcas do Campo de Anna e abraçar o principio da soberania nacional procla- mado na Revolução de era 1820. de uma . as ilhas sâo sempre ani- madas de um sentimento separatista. como o revelou reagindo contra a invasão napoleonica. e contra as forcas miguelinas no seu memorando cerco de 1832. em 183 i a mocidade de . xviii quando imitou Demôustier no Lysala um rhetorico elmanista quando versejou nos Outeiros poéticos da dos Capellos nos abbadeçados de Odivellas. uma necessidade para uma fecunda actividade litteO estudo d'esta phase primeira das manifestações da inútil. e finalmente philintista. aspiração á liberdade. estes fa- exerceram na sua vida uma orientação fundamental. forçaram as reacções politicas do regimen absoluto. O Porto distingue-se pelo seu grande espirito de independência. sua vocação seria negativo e se n'esse acervo de pre- tenciosas vulgaridades arcadicas se não descobrissem os esforços latentes de um claro espirito contrafeito pelos res- peitos auctoritarios de que só pôde emancipar-se quando se a achou de repente em um mais vasto meio mental.

ALMEIDA GARRETT 123 Coimbra. Anna Augusta Leilão. e a saudava com enthusiasmo obra do Synedrio. Garrett não podia deixar de de- um tanto jacobino. na soltura do campo recebeu a communicação das tradições populares que lhe acordavam uma nova intuição poética. de quem o poeta foi o segundo genito. N'este meio em que clarar-se se achou sempre. este venerável ancião. do Castello e na quinta do Sardâo. segundo o preceito do venusino. parte junto na da cidade do Porto. Passou Garrett a puerícia junto de seu tio D. assim a sua infância decorreu parte ilha Terceira. 300 1799) acha-se indiciado corao pedreiro livre um tal David Gar- . na quinta ilha Terceira. 11. representava nos seus passatempos escolares as lia tra- gedias philoçophicas de Voltaire. e mais dois * filhos. no Porto. que procurou incutir-lhe na sua primeira educação. António Bernardo da Silva de Almeida Garrett. Na contacto em com o erudito bispo e com os cónegos seus tios obedecia á educação clássica. e por isso achou-se muito cedo em conflicto com a familia. casado com D. que escrevia Odes e traduzia Metastasio em segredo. António Bernardo casara no Porto com D. quando o obscurantismo monachal esUipedecia este paiz. natural da ilha do Faval. que foi pae do poeta. Frei Ale- xandre da Sagrada Familia. Para bem comprehender este conflicto entrare- mos em algumas Garrett (filha particularidades: José Ferreira de Sousa. das Contas para as Secretarias do inlondenle Manique. pedislas as obras dos Encyclo- mau grado as queixas da Intendência da policia. que foi bispo de Angra. dirigiu os pri- 1 No livro V abril do (12 de rett. que fo- ram cónegos da Sé de Angra. Antónia Margarida de Bernardo Garrett. que só ad- mittia actividade intellectual para fechar os seus productos na gaveta. onde predominava o espirito de reacção clerical. natural do Russillon) teve os seguintes filhos: Alexandre da Sagrada Familia.

de seus parentes que de tuna : ex... 1829. licenciado em Philesophia (humanidades) em 17f{9. pelo conspiração de facto de se ter manifestado a favor da As palavras sublinhadas intencionalmente por Garrett levam a suppòr que alguém na familia teve interesse em afastal-o da sympathia do Freire. intitulada X sepultura do bem feitor. Sabemos que foi o iinico s. 2 Era uma nota a esta poesia. onde professou a 13 de junho de 1762. é apenas produ- zido pelo desgosto de haver descontentado aquelle velho que o educou. Que á sombra augusta do teu nobre exemplo Tenras desabrochando Cresceram quanto são: infante ainda Oh Nao. ainda no meu peito . l.» ^ O des- peito que transparece sob estas palavras.) 3 lindem. (ÍmI. não rfíorresle meu singelo peito Me avigoraste da constância tua. p. 94. Tu em minha alma tenra As sementes primeiras despar/isle Das leltras. 99. entra para o Mosteiro de Brancanee em Setúbal. 19Í. queixa-se Garrett de nâo ter sido contemplado em 1821 no testamento de seu tio: aO sábio e virtuoso prelado cuja sos. Gomes octogenário bispo. (Obras. '' Na divisão da familia portugueza em 1 FabulaSy p. nasceu na ilha do Fayal a 23 de maio de 1737.124 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL meiros estudos do sobrinho e as prematuras tentativas terarias. memoria celebram estes verera próximo parente do auctor. * Em uma Ode á morte do velho tio. xvii. 4 Consignaremos aqui algumas datas sobre Frei Alexandre da Sagrada Familia. era Coimbra.^ não recebeu dons de for- elle julga porém dever-lhe mais que nenhum pelo amor da yjrtude e das lelíras que na infância lhe inspirou com exemplo e conselho nos primeiros rudimentos de educação que d'aquelle insigne e illustre varão recebeu. p. Frei Alexandre cul- 2 Lyrira de . escreve Garrett: varSo extremado. da virtude. lit- que datam de 1814.) João Mínimo.

de Loudres. mas pela Europa. por onde começaram as suas perseguições politicas. seus primeiros estudos ^espirito No Tratado de Educação descreve os com um certo orgulho. referindo-se ás vantagens da educação hu- manista para os homens que hão de no futuro tomar parte no regimen parlamentar. residiu por Ires aonos na diocese de Angola. Paulo de Loanda. A educação religiosa e ('humanista de Garrett deu-llie uma grande indilTerença pe- los trabalhos da renovação scientifica do século xix.» * E mais adiante. e cora quanto fosse mal aproveitada. seria posto ao serviço da liberdade na Oração á morte de Manuel Fernandes Tbomaz.) . do sãos elementos de jinstrucção. 4. cónego e arcediago. e por isso não teve um pensamento. os padres Manuel Ignacio e Ignacio da Sil?a. e na eloquência parlamentar da es"l Iquerda constitucional selembrista. julgámos que por isso o confundem Frei Alexandre da Silva. As primei- ras revelações do talento de Garrett foram no púlpito a (jue subiu por uma travessura infantil. Deixar fallar modernos emo- dernices. ninguém presenlia que esse fervor precoce. de moral. petimetres e neologistas de toda a espécie: o ho- mem que se destina ou o destinou o seu merecimento a tiyou a poesia erudita o académica. que para um philosophico seria um protesto: «Eu tive a boa forvelha. conhecido pelo com ar- nome cadico de Silvio. que tanto carece de uma palavrosa actividade: «O grego e o latim são os necessários ele- mentos d'esta educação nobre. uma unidade de plano na sua actividade litteraria. das mefho- |res que se dão. Morreu a 22 de abril de 1818 1 Tratado de Educação. eremita de Santo Agostinho. na Sc de Angra. não direi em Portugal. Tinha mais dois irmilos. sendo transferido para Angra em 181^. Em 24 do outubro de 1781 foi eleito bi. p. que parecia leval-o para a vida clerical. quando dizem que elle pertencera ú Arcádia de Lisboa.'po de Malaca. sendo sagrado a âi de fevereiro de 1783. sólida Uuna de receber uma educação portugueza de Jbons princípios de religião. (Ed.ALMEIDA GARUETT 125 absolulislas e liberaes. Transferido anles da posse do bispado para S. Almeida Garrett foi o único que em sua casa se sacrificoii á causa da liberdade.

' p. como o Inverno. A espada dopoeta. Garrett espalhou com certo desvanecimento todas as particularidades com que se lhe pôde reconstituir Alexandre foi a biographia.» ^ lilleraes quanto o génio das duas N^esta parte o bom de Joaquim Al- 1 Tratado de Educação. como A Lyra.» Nos prólogos dos seus livros. crifido. 1845. que traduziu. das peças eróticas de Alcoo e Sapho. (Ed. e como Bellesa e bondade. nâo pôde sem vergonha ignorar as * bellas-lettras e as clássicas. Esta disciplina de grecismo á Joaquim Alves. Frei corroborada por outra pezada auclori- dade do hellenista terceirense Joaquim Alves. p.12(5 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL uma vocação publica. levou-o ^ò á imitambém para de a admiração dos lyricos. sem fructo. A Rosa. A força da imãher. o Sa- de Anacreonte. 225. e de Alceo. que não teve a bastante de lhe explicar como a maior parte d'essas odes lascivas são fidsiíicaçôes da época ale- xandrina. Goso da vida. 2 Flores 3 Ibid. Nas Flores sem fructo acham-se bastantes odesinhas de Sapho. ç. não decidiu o talento da criança tação inconsciente da tragedia grega. A uma influencia de D. 22G.» com «a melhor marmeliada que ainda se como se des- creve no prologo da Mérope.» 2 em Paris. Ainda embalado pelo fausto da Regência. A Pombinha. que adoçava as escabrosidades dos versos da Grammatica de Port-Royal fez. com o titulo de Oeuvres de Sa- Da traducção de Anacreonte diz com certa ja- ctância pueril: «os presentes estudos sobre Anacreonte são traduções tão severamente linguas o permitte. que se conservou em Portugal como as velhas modas nas aldeias. 34....) . critica cuja leitura lhe teria sido susci- tada pelas ponderações admirativas de Joaquim Alves. Garrett declara-nos a fonte por onde houve o conhecimento de Sapho: «Na elegante collecçãosinha publicada nos lins do século passado plío .

as tradições populares lia com que te embalaram a mulata Rosa de Lima e a Brigida. p. como espécie de voltas de velho can- cioneiro. de A maOdes uma esmerada a (1814 a 1823) do qual diz o herdeiro do poeta no Catalogo dos Aittog rap/ws: os assumptos escolhidos. com que Psyche se salvou da obscuridade do modiocre! Foi essa luz que le revelou a existência dos cantos heróicos d'este povo. é que le conservaram accesa a alampada de Eros.» D'este autographo se no citado Catalogo: «Ficou incompleto. de Burro. e tradualta sociedade. [). Estes criptos O Índice mostra terem sido cincoenta porém nem todos foram es • ou não foram traslados para aqui. ou segundo o velho calão das escolas. rasgadas muitas das folhas em que estavam escriptos. exemglo: 1 Helena. foi essa mesma tra- dição que le fez sentir o colorido das cantigas soltas. poema heróico lé — Angra. que nunca as arcádias senti- ram. O lyrismo grego conhecido através d'esla fonte. parte do quarto canto. É escri- pto em verso solto.» * Pertence lambem a esta influencia clássica a •Alfonsaida ou Funda1814 e ção do Impcrio Lusitano. atrophiada pela mecha- nica poética dos fazedores de poemas épicos pela pauta de Le Bossu. mil e seiscentos versos. d'esse lyrismo único. ao lodo. consta dos três primeiros cantos. contendo.» ^ Pobre alma.ALMEIDA GABRETT 127 ves serviu de Pae-velho. que acceitava os apocryphos alexandrinos. XXV. acham-se muito inutilisados pelo auctor. Nas Flores sem friwlo intercala Garrett por vezes doestas cantigas populares. 1815. nuscripto. xxvi. 2 Ib. intitulado longe da verdadeira poesia. zido sobre o assucarado francez das edições destinadas para as damas da afastava Garrett para muito esta época pertence esse calligraphia. que le fez crear essa poesia simples e ardente das Folhas ca- hidas. e d'aquelles que o foram. .

I)c tanto pedir-lbe araores elles . acceitando cos portuguezes. (1814a 1810) é como as aves que esquecem do canto ao mudarem de terra. Garrett interpretando estas cantigas do povo. . 190. . que Sá de Miranda. cit. p. do mesmo modo que a mão que lança as primeiras lettras segue os traços que tem á vista. Cbristovam Falcão. á (lôr dos lábios morreu Coração que o não entende Que . a parte jviva da tradição provençal. ridicularisa os lentes de direito e o seu estúpido 2/6. Foi esta influencia domestica quem conservou no espirito de Garrett a feição e sentir nacional que o libertou mais tarde das mais auctoritarias convenções. já nas lições de direito. e Francisco Rodrigues Lobo. ensaia va-se em outras quadras em um lyrismo novo. se tornaram os primeiros lyri- Quando Garrett entrou em Coimbra perdeu durante dois dom da poesia. A catadura se annos o lyrannica dos lentes. Garrett vivia na intimidade litteraria 1 Op. . Estas referencias populares do primeiro lyrismo de GarfTéi sâo um presentimenlo genial. Nas Fabulas.. negros. Garrell romanismo . 153. que o conservou silencioso. ^ já de mathematica. E a dizer que nilo. produziu-lhe do pesado esse estado marasmatico do sentimento. ^ ^ Nunca a linguagem individual pôde achar estas expres- sões profundas. Trago npgro o coração. i Suspiro que nasce d'alma. K^ Camões. porque o sentimento restringe-se á personalidade do poeta. Não o quero para meu. foi glosando e commen- tando os cantos do povo. de que Garrett tanto se riu sempre. 128 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Por teus olhos negros. as serranilhas.. os cantares guaya^dos e de ledino. '^ p.: .

Fui preso por Verdeae?. . Luiz. Racine. Francisco de Lemos. Só para vencer lhe restara dois Mas temíveis rivaes — Paiva e Pimeutal maganos. cit. cit. fJ9 ) Em caç. (1817 a i818) (jarrett sacrihcou em parle o lyrismo á imitação das tragepoi: tanto vollou á dias de Voltaire e de Grébiiton.ALMEIDA GARBRTT 129 Frei Francisco de S. ei. me ensinava homem discreto mundo E de saber profundo. e lio -c velha influencia clássica de seu ves. em que 273. que o arrastou insensivelmente para a erudição e para o género didáctico. p. que escangalhava os theatros. Voltaire e Alfieri foram elle annullados.io nota accreeccnta: d'est0 «No meu primeiro anno da Universidade era atais |. 77. E á IN)[ta Férrea m. Corneillc. dois medíocres es- criptoreí dramáticos porluguczcá inteiramente obscuros: Victorioso o padre a Branca ostenta. (Op. que ainda enconlráatos: cit. Garrett chasqutiia da tragedia do padre José Agostinho de Macedo intitulada liranca de Ros-ii. p. p.) soneto datado de Coimlira de 1819. Wommsen.rave9 a expli- romani^mo um do^ poDloB das causas de direito.lo?ò Vaz. 8c o que soube da Instituía E do Digesto 1 esqueci? {Op. Crebillon.. Ciarrelt deixou nos seus versos alguns traços caracteriilicos da vida académica. {Op. Euripedes. os trabalhos de Verdade é. Reinava tragedias. dizendo Em um /por ique Soplioclcs. em Coimbra a monomania das eram único meio o que os estudantes tinham que mau grado a intolerância para exprimir sentimentos liberaes.. no Quebra -Costas Minha vez escorrcpuei. Mas que doutor fiquei eu.) Esta sciencia da sebenta calhedratica perpetua-se até hoje. So nunca o Martini li. faltando-lhe apena»? para o triumpho completo vencer Maiiiucl José de Paiva e Manuel Caetano Pimenta de Aguiar. como veremos no Retrato de Vénus. * do pedagogo Joaquim Al- Mis o fervor liberal que agitava os estudantes de Pois FOf^ondo nioi douto Meu Dieíliõ . Macqiiardt e Lange ainda ali sSo desconhecidos. despótica do Bispo-Gonde-reilor-reformador D. Em toda a sociedade d'esle Por força bade reger famoso direito de accrescer.

Garrett caracterisa-o como: co mais atrabiliário escriptor que ainda creio que tivesse a lingua portugueza. 271.na litteratura latina os scientifico. p. escriptos n'este lado. repete-se o poesia mesmo phenomeno. Um dos característicos mais pronunciados nas épocas de (/decadência litteraria é o género didáctico. que attacava Garrett. O rancor que toda a vida professou a quantos professaram as lettras no seu tempo.» (Obras de Garrett. poderam mover me a desacatar n'elle o homem de lettras que todavia líonro ainda. Em uma nota. esse que se sente esmagado limas vezes debaixo do mechanismo bocagiano. José Agostinho de Macedo era o pontifico litterario do primeiro quartel do como os dissidentes de Coimbra fizeCastilho mais tarde.. poemas didácticos multiplicam-se ao ^passo que a ideia do bello se oblitera sob o cesarismo que i aproximava Roma do Baixo Império. em que a poesia a pobre vem servir as banaes regras» de moral. t.130 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Coimbra foi o que deu aos versos de Garrett.vivo e natural. e Garrett atacou-o de frente. XVII. Era esta que não encommodava os ócios da auctoridade. Era essa aspiração da liberdade. faz Orientes e baptisa Gamas. no século xvni.) José Agostinho de Macedo. que in- spirava o grotesco das Fabulas. o que ha de acceitavel na Lyrica de João Mínimo vem do calor revolucionário. na •edade da corrupção politica e do convencionalismo senti- mental. lempo. que reagia contra o eslylo inquisitorial da Universidade. no soneto supracitado e nos versos: ram a um Quo tal poeta lá da tua terra. que podia mais que a erudição e que o pedantismo calhedratico. e que todos os funccionarios po- pcculo XIX. Nem o furioso e sanguinário quo foi cm seu partido nem a perseguição politica de que a mim próprio me fez victima.. Sai que no auctor do Retrato de Yenus^ no redactor principal do PortuyueZy elle perseguia principalmente o ainda mais odioso auctor do poema Camfies. . Todas as suas oíTensas porém foram só politicas. uma inveja imprópria de talento tilo verdadeiramente superior o arrastou a desvarios qne deslustraram o seu nome c mancharam a sua fama. saudou em Castilho o espirito arcadico que reoascia. e a techno- logia das artes. em que a falta de sentimento procura acobertar-se com o fim . outras vezes debaixo das construcçôes archaicas de Filinto.

Tal é a origem do gg/m/o de Vénus. . datada áaáic^iiovh Aos pintores por tu- do Porto de 1818. N'este periodo eslava Garrett As primícias do canto. Esmenard."'** Sam Luiz. Também lá cbegará rasteira pomba. fraco ousei tomar divino emprego. são: a copia três correcções de que aqui fulla constando apenas de três cantos. 18G7). como as notas e ensaio minha infância poética. como se pôde vèr pela dedicatória do poema: guezes. Mas do monte nas quebras descansando. os 8ons primeiros Que a furlo. que m'o viram começar e acabar então. que * me As honrou a mim e a este opúsculo com Gar- suas correcções. e Jonio DuriensCj quiz também fa- um poema n'esse diapasão. sâo compostos na edade de dezescte atinas. Nas débeis azas mal despontam plumas. oli vales. 2 Garrett assignando-se então Jcnio Duriense revelava a influencia da Nova Arcádia a que obedecia. por Ires vezes o tenho corrigido. José Agostinh(t compii- zeram peças zer didaclicas. Vinga d'um voo o Pindo a altiva águia. O E vale implume vos consagra. em que conto vinte j certo que desde e dois. Camões faltaram. Suppriu arrojo tanto o bom desejo: Valba a matéria. 1G4. com uma dominado pelo furor \dmanisla. a medo balbuciou na lyra. Darwin. (Ed. É esse tempo até agora. as emendas d'esla t Uelrato de Fenws. p. como o ex. sem perigo de decaírem da Garrett viu apenas a manifestação exterior doeste fa- cto. * Catalogo dos Autographos^ p.^lorifica'sâo da <3P da Pintura: «tanto o poema. sr.ALMEIDA OARUETT 131 {^raça diam real. Merecieis Camões.» rett. xvii. e a*té submetlido á censura de pesfoi ' soas doutas e de conhecida pliilologia. se não vale o canto. De Lille. ler e até escrever. Isto nâo é impostura: sobejas pessoas lia ahi. j)oemeiQ_enijiuat ro cantos dedjçadoj.

i. Essas no canto me áesparze agora. xvii. mas não é aos dezesete annos que se chega á compreheusão moral do es- tado de scepticismo a que as revoluções de Roma e as bi- elas entre Mário e Scylla arrastaram Lucrécio. (c. O manuas notas e com Ensaio sobre a Historia da Pintura.l'i}2 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL primeira redacção consistiram era despojal-a de todo o me- chanismo poético elmanista» A segunda copia data de 18^1. e nas apaixonadas imita- poema de Lucrécio. Orna -me a lyra c'os feslóes de rosas. ' O Retrato de Vénus procura repassar-se do es- pi ri lo poético do poema De Natura rerum. na fabula de que elle se ia des- \iaudo pela leitura de Chateaubriand e de Madame de Stacl: A Ficções! . Mão.» scripto já constava então de quatro cantos. e que deu causa ^'?li9Ji:LÍÍíHlL^^^ outubro d'esse anno. . por um pro- um Ilbello do promotor fiscal contra João Baptista da Silva Leitão de hXiiíjerdade meida Garrett accusado de abuso de de imprensa no poema do Retrato de Vénus! Lido o innocente poemasinhò custa a crer como a intolerância politica se servia de escrúpulos religiosos da mais refalsada orthodoxia para descobrir intenções revolucionarias em uma innocente citação de Voltaire ou da Nova ções do Ileloisa. Que ás margens coilies da Castalia pura: Flores que outr'ora do Epicuro ao valo Co austero assumpto lhe entrauçaste amenas. * «mais atigmentada do que a antecedente. Garrett imita o poema na parte exterior. p. rolve a meus versos. o renasci- * Catalogo dos Âuíoyraphos. que os encyclopedistas haviam j-ehabilitado. a mestra ánlíguidade o diga. mas diíTerente ainda da que serviu para a edição de i8il. Fabula gcnlil.) ( O poemeto descreve vagamente e olíicial com as ideias syncre- flicas do ensino a decadência de Roma. e áureas ficções desdenba o gabio? douia. . A terceira redacção é a a que corre impressa desde i82i. .

fez com que o Retrato de Ve7ius entrasse na collecção das obras completas de Garrett. mas. a Alfo?isaida. e em seguida enumeração dos nomes dos pintores italianos caraclerisados com o seu conveniente epitheto. pag. escripto em de que somente escreveu o primeiro titulado e segundo cantos. foi atraz d'este programma pomposo. . É natural que esta mesma causa trpga ainda â publicidade o poemeto do Roubo das Sabi7ms. mas renta versos. ^ in- O X ou A Incógnita. o animo de lucro da parte do quem se devera importar da reputação do poeta.» * Annos depois. xxv. 108. de 1821.» Raczynski. de que já falíamos.. dois cantos.. foi A autojatria que Almeida Garrett professava a causa de não ter inutili- * 2 Catalogo dos Atitographos. tanto nacionaes como estrangeiros (aíToitamente o digo) sem critica.ALMEIDA GARUKTT 133 a mento das Artes. p. cm em verso solto em numero de oitocentos e qua- 1820. onde 1 com uma doce miragem avança: «Tem-se escripto muito. e muito controvertido sobre a pintura portugucza e sua historia. estudava a quando Arte portugueza. e o poemeto heroi-comico em quatro cantos. Didionaire histórico -art-slique du Portugal. et cite bon nombre de peintres I(?s plus connus . das obras dos nossos artistas a ideia me suscitou de entrar com o facho da philosophia n'este cahos informe. segue-se da sem a minima luz nm quadro histórico da pintura portuinlellectual gueza. glosado de Lanzi e de outros. a tomada de Constantinopla. A intenção erudita do poeHistoria meto defme-se meltior em iim Ensaio sobre a Pintura. Garrett pediu aos livreiros Bertrands que retirassem da venda o poema. própria. O exame de seus escriptos. e desembaraçar quanto em mim fosse com o fio da critica este inextricável labyrinto. o quarto cnnto é de- dicado aos pintores portuguezes. e não pôde conter este delicado epigramma: oL'auteur consacre ensuite quinze pages à Texamen de cette matiòre.

quem tragedias na época da diria ^sua formatura em que o admirador |de Racine. traduzido por João Eloy Nunes Cardoso. Para este Iheatrinho escreveu Garrett duas tragedias. Joaquim Larcher e José Maria Grande. * Entre outras tragedias de Grebillon. de Voltaire e de Grebillon. Fundaram um novc^ theatro na rua dos Coutinhos. Os médicos eram os principaes cultores da tragedia philosophica. isto é. e agitava os estudantes. porque o estudo das sciencias naturaes lhes dava uma e certa independência intellectual que faltava aos thcologos 1 Garrelí c os Dramas romaníicos. em A marcha da politica europea produzia entre nós esta espécie de phenomeno das marés pohticas. preponderava a 1818. Lucrécia e Xerxes refundição dos Persas. de Aldeia Gallega. João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett. por isso também sujeito á triste eventualidade de nos mostrar meios como venceu a corrente da mediocridade do seu das correntes mais forles que iam inutilisando o gefoi tempo que por vezes o envolveu. Garrett compraz-se em citar este nome do seu contemporâneo nas Fahtdas e no Romanceiro. . entre os estu- dantes que erigiram o theatro do Collegio das Artes 1813. 133. p. seria o auctor do Frei \Luiz de Sousa. Uma /nio de Gacrett a monomania das Coimbra. o noção republicana mesclada liberalismo.134 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL sado estes esboços de fica os uma vocação que se define. Os theatros académicos surgiram para da- rem expansão aos generosos sentimentos. essa vaga com 4817 o indefinido systema constitucional. apparecia agora em um novo enthusiasta. jfestação que os [ A tragedia philosophica êra a única mani- tugal para homens illustrados tinham então em Porcommunicarem os seus sentimentos liberaes. estudante do segundo anno medico. e ahi representaram de 1817 para 1818. Garrett. que fazia os papeis de dama. representou-se o Rhadamisto. que datava de 18H.

intitulado Ignez de Castro. de Carvalho. de em verso solto da tragedia Édipo em Co- 1820. e 2:356. Sae de Coimbra formado ilha em di- em 1821. do que resta parte do primeiro acto. o lente da cadeira 135 de Anatomia verso. regressando á Terceira nos mezes de maio. e o lente da cadeira de Instituições raedico-ci- rurgicas José Feliciano de Castilho fazia representar casa tragedias. o projecto e esboço das primeiras scenas de rapião. os Árabes ou o Crime virtuoso. cança-o. por F. n. projecto de um drama em Ires actos. drama de 1821. em como as de Monti. foi jcelebrada nos Outeiros poéticos da sala dos Capellos. e principio do primeiro. Diz elle no prologo das Fabulas: abril e /"«Os cinco annos da vida de Coimbra passaram."> 2:353 . em que ainda obe- á imitação elmanista. Elle sae outra ^vez da sua ilha tranquilla para as tempestades da capital. xy e xvi. escreveu o primeiro e parle do segundo acto lona. (Conimbricense. Desde Í8I8 a 1824 suspenderam-se os divertimentos theatraes.ALMEIDA GARRETT juristas da Universidade. o socego da casa materna a que regressou. João vi * o Thealro em Coimbra. Francisco Soares Franco escrevia tragedias em como sua a Hermínia. M. principio de acto de El-rei Se- uma comedia em ^ dois actos.) 2 Calaloijo dos Auíographos. o empenho de um despacho fèlo n'esse mesmo anuo partir para Lisboa. quando a revolução levada a cabo pelos treze beneméritos. intitulada Cifrão. Garrett alíirmou os seus sentimentos de iberdade recitando ^dece reito uma ode enlhusiastica. p. Ide em 22 li- novembro. Em 'Charel : em 30 de junho de 18i0 recebe Garrett o gráo ^e badireito. em agosto e setembro d'esse anno. D. * foi n'este intervallo que Almeida Garrett refundiu a sua Merope.» Trabalhava-se para a reunião das Cortes constituintes e discutiara-se as bases da nova Constituição de 1822. que os filhos traduziam e desempenhavam.

a de Sempronio por Mí thias Carneiro Leão. e os partidários da liberdade debalde aspiravam a uma jiislissima so- lução republicana. Quando Garrett pliilofci chegou a Lisboa encontrou os amigos da Universidade. e de um exercito ao ser- viço da realesa. * O theatro do Bairro Alto era construído no largo de S. . por conterem bastantes fados desconhecidos. como Manuel Borges Carneiro ou o coronel Sepúlveda. convém distin- guil-o do antigo theatro do Bairro Alto. Roque no logar occupado hoje pela Companhia de carruagens lisbonenses. a de Porcio por Netto. O Catão foi posto em scena em 29 de setembro de 18:21. a de Marco Bruto pelo próprio Garrett. e entre dez e vinte dias deu por completa a tragedia Catão. publicados em seis íolhelins do Piano de Noticias. pela decepção e pela morte. e a de Dccio por José Frederico Pereira Marecos. lembraram-se das suas representações de tragedias sophicas nos divertimentos escolares. N'estas condições os grandes talentos e as mais heróicas vontades de homens como Manuel Fernandes Thomaz. deviam ser anullados pelo ludibrio. porque determinou o seu casamento. diante da prepotência dos nobres. Este facto foi um dos mais fundamenlaes da vida de Garrett. diante do poder fa- natisador das ordens monásticas. taes como a casa opulentíssima de Cadaval. a de Manlio por Carlos Morato Roma. e Paulo Midosi o primeiro a propor uma recita de curiosos no theatro do Bairro Alto. com A duas uma varanda corrida sobre a se- 1 Merecera lêr-se os artigos publicados pelo sr. onde se represensala continha taram as celebres comedias do Judeu. Garrett encarregou-se de fornecer a composição dra- mática. Paulo Midosi com o lilulo Os ensaios do Catão. Era um assumpto conforme com o estado do espirito publico. coaio José Ferreira Borges.136 HISTOHIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL obstinára-se a permanecer no Rio de Janeiro. offerecendo a sua casa no Chiado para os ensaios. sendo a parte de Catão desempenhada por Joaquim Larcher. ordens de camarotes.

e que foi tão bem acceita que a 2 de outubro de 1821 representou-se. porém onde a parte principal coube a Gardesta. revi- em 1820 com o regresso dos seus actores. abrir. de uma farça O Corcunda por amor. mas teve de estar um anno fechado por i. em que coUaborou meu pae. em 29 p sr. que fazia de primeiro gala.» * de treze annos por nome Na segunda representação em 2 de outusr. conservam grata memoria d'esta récita. Era proprietário do inaugurou-se o theatro theatro do Bairro Alto o escrivão do crime d'esse bairro Dyonisio José Monteiro de Mendonça pelos fins de 1815. Maria vés que pertuiboa para sempre a empreza. em que o emprezario se resolveu a volali tar para o Salitre.. inaugurou-se com a Quando se torcomedia o Principe Prr- e era uma das principaes glorias da companhia. sondo emprezario Evaristo José Pereira. ficando depois d isto o theatro para sempre chado. Vivia u'esta época um negociante por nome Luiz Midosi. mas acompanhado.ALMEIDA OARKETT 137 gnnda. e que todas se apresentariam de chapéos. trouxe ao abandonado theatro do Bairro Alto as principaes familias de Lisboa. de se- tembro de 1821. Foi um re- nou a feito. causa do luto forçado pela morte de D. . Ajrepresenlação da tragedia o Catão. curioso que veiíi mais tarde a fa^er parte da companhia. diz Midosi: «Convencíonou-se entre as senhoras que a toilclte seria mo- As poucas pessoas da minha família. fura construído pela direcção do pintor Joaquim da Costa e do carpinteiro Vicente Romano. rett. que vivem. 1 Citados folhetins do Paulo Midosi. filha que tinha uma formosíssima Luiza Midosi. que durou da paschoa até aos acontecimentos de 15 de se- tembro de 18á(). o Catão. . Quando vendo esta companhia retirou para o theatro do do theatro do Bairro Alto foi foi Salitre.g sapateiro João dos Santos Matta. ephemera esta vida. Apenas funccionou uma companhia fe- hespanhola. a actividade diminuta.

anachronicamente a galanteria á Luiz xv: «Con- não pelo que vale. Depois do casamento D. na companhia de amigos. estava ella da segunda ordem toda vestida de branco. que revela as relações especiaes d'essa época em que reprodu- zíamos servo já isto. Garrett ajuntou a este manuscripto a seguinte nota. O Impromptu de Cintra ficou inédito. Fricks de Campolide. ali festa passada na Jmpromptude Cin- representado por seu cunhado Luiz Francisco Mifazia idosi. que de ingénua.» ^ saudosos dias que. que contava treze annos e meio. Garrett escreveu para essa jquinta da Cabeça. mas a felicidade não correspon- deu ao enthusiasmo do coiip de foudre. e pelo sogro. o encanto 'i'ella. *. Luiza projectou um pic-nic monstro em Cinlra. o Itra.''' estylo satyrisado por Tolentino. dando intenção aos vermimo. formado de vinte pessoas. . a 8 de abril de 1822. em um camarote xom um chapéo de setim cor de rosa. p.138 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL bro de 1821 é que Garrett se apaixonou por Luiza Midosi. a i 1 O casamento effectuou-se de novembro de 1822. que fazia de graagosto d'este fcioso. E tu sexo gonlil. da casa das . Garrett recitou o prologo de Catão com sos: os oltios fitos onde ella estava.Em 12 de ofíicial mesmo anno foi Garrett despachado j da secretaria do ministério do reino. Oh perdoa se a pátria te não deixa primeiro legar em nossas scenas. delicias. * A data do casamento Gxa-se em 11 de noTombro de 1822. passei no delicioso sitio Logo em 26 de maio se represenem outros trabalhos. partindo em burrinhos. 2 Catalogo dos Aulographos. ! Afago da existência Estes versos foram gravados em uma caixa com tampa de oiro e com o retrato de Luiza como se achava vestida na noite de 2 de outubro de i821. mas para memoria d'esles de Cintra. no velho sr. xv..

p. a Lilia. das grato emprego do Porto. D^aqui n'essas intrigas de alcova. em que dá Lições de Poe- perfumado e empoado DemoustierI até cá este canto beato e triste se estendeu o teu siblerie mundo da sen- equivoca. com os teus versos alliados em doce conimbio com a prosa. que até hoje só conheceu a cinza da tristosa biblica. estão mas — Lições de Poesia a uma jm. 1. if. 2 e á parte a insuííiciencia d'essa hendenos o encontrar no plano de reproducção das obras * Lyrica de João Mínimo. dos íinos requebros e intercortados sus- piros.en senhora. . 177. 175. em de Qarrett. vieste-nos supprir os Amorinhos lúbricos do pincel de Watleau e de Boucher com as luas allegorias mythologicas.risca o anexim: Chorar.ALMEIDA GARRETT 139 dois actos tou outra vez em Cintra o drama de Garrett em foi fácil Os Namorados Extravagantes. Este estado moral e intellectual está cabalmente reflectido n'essa outra obrinlia insignificante sia a Júlia. ^ As ideias litterarias /'I8i3. parir e fiar. quatro d'estas lições foram publicadas 18á7 no jornal o Chrocomposição. hade respirar satisfeita com as tuas Cartas a Emilia. e cora a tua elegância de braço dado dez. onde a mulher cumpriu nosso vellio á. a Júlia. suave Demoustier e empoa a cabeça a esta gente. antes da emigração em completamente representadas no Lyceu das Da- 1823. Annalia. p. surpre- hiista. Do um rapaz amador do bello sexo. com a insipi- A boa sociedade portugueza. 1IÍ2. Ali. que agora férias succediam ás Delmiras e Mareias. e o enredar-se em dispender o seu talento a em odes coníldenciaes. a tua des- envoltura liade-llie parecer mais pura que os ditos sujos ! das comedias do Judeu Entra. 39. p. 2 Vol. 109. ^ Enlbusiasta e cálido. e vol.

se servia da litleratura como meio de ga- lanteria pertencia á época da Restauração. Scipião. ' 1 Prospecto. na 7 Sapho. . primeiro elemento da . 5 Homero. 4 Poesia antiga até Homero. Aris^ 13 Poesia na Sicilia. 3 Poesia. ^11 Bíblia. 22 Poesia do Norte 23 Troele- vadores. 18 lio. segundo elemento da poesia moderna. etc. que lhe inspi/rára os poemas Camões. em 1839. Branca? Para que voltar a este passado mesquinho da falsa imitação de Demoustier? j Garrett \ • lambem . Poesia latina: cap. 11 Sophocles. seus vários géneros. prazer e instrucção.140 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL completas de Garrett. do- cumentes políticos e lilterarios. ainda annunciado o nLyceu o fim de aperfeiçoar a educa* das Damas (inédito) no estylo e pela forma das Cartas a Emilía. p. Poesia moderna: lição ^0 Invasão dos Bárbaros. Conclusão. 14 Poesia Itália f Enio. Co\^1 rina. sua antiguidade. 16 Aperfeiçoamento da poesia latina pela conquista Virgi- da Grécia. 17 Horácio. ~ Alceu. LuciOy Lucrécio. Euripides. encontra-se o elenco d'eslas Lições de Poesia a uma Fim joven senhora. diplomas. quarto elemento da poe- Formaçàa da poesia moderna. No inventario dos seus papeis. — Liwo II. 9 Pindaro. 8 Anacreonte. 19 Phedro. — Livro 'ú\ III. Eschylo. formação e Meio-dia. contendo: lição 1 em três livros: I Princípios geBeijo.» Pois não progredira visivel- ! mente o poeta depois da emigração de Portugal.poesia moderna. e D. etc. "2 Principio das Artes —o das Artes. G Hesiodo tophanes. etc. 20 sia moderna. terceiro mento da poesia moderna. das línguas vivas. Meia edade. Pérsio. 24 Bardos. eic. 10 Thespis. 25 Árabes. xxxiii : Catalogo dos Autographos. a que procedeu seu genro. suas divisões. 15 Planto j Sci- pião. 2 Apud romance Helena. da casa Berlrand. e por isso não quiz anuilar esse livrinho que o tornaria sympalhico ao bello sexo. Catullo. com ção litteraria do bello sexo. de Demoustier. dividiam-se raes.

i. Nem isso. p. cuja tradução portugueza tanto encarece. tu já lòstc a elegante tradução de suas lindas Cartas. é tudo chato e pueril. Ferreira Borges: pelo seu patrício «A proposiio do amante de Emilia. . amesquinhando-nos na sua estolidez! Se Garrett dei. pára. iiida mal! para se fa- zer n'uma arvore. como o modelo que feita se pro- poz imitar. que. 155. Que estado deplorável esle em que traduzíamos Demoustier em Portugal. que é outra' casta de idioma!» * É assim quo de : ensina a sua Lilia e lhe procura desenvolver o gosto. Sempre é lingua de trapos viva a nossa por. Benan ao estudar o livro de Creuzer sobre a Symbolica. vol.tugueza. apesar bello. como esse incolor e insipido Demoustier. dá a Demoustier a importância de citar-lhe as Cartas a Enih o ^ Clirunista. F.xou um documento incontroverso do seu talento. que estavam arlequinados á parisiense? Eu por mim. tem todavia uma certa aíTectação em que forçosamente cae a lingua franceza apenas a desviam do seu trilho natural e chão. eu l'o peço. e foi correndo. É tão bonita esta fabula emportuguez: causou-me dobrado prazer do que no original. B? Não te parece que lhe ficam tão bem os trajos porttiguezes áquella sucia de deu- ses e deusas. gosto mais d'elles assim: acho mais pilhéria ao padre Apollo dando ás gambias atraz de Daphne e gritando com derretida lamuria: Cruel. foi o ter vencido esta falsa direcção em que se achou arrastado.ALMEIDA GARRETT lál Quem lòr este simples esboço suspeita (embora se des- cubra á primeira vista ausência de e sobre tudo do espirito da historia existir uma noção litteraria) synthetica que devem n'essas paginas algumas d'essas observações com que Garrett revelou mais tarde a sua intuição artistica. com quo brindou a nossa lingua o sr. «Mas ella não parou.

p. é em 1 litteraluras e antiguidades: Études d'Histoire religieuse. lição iv.142 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL lia sobre a Mythologia: «É evidente que a própria antiguidade cessou de coníiprehender a sua religião. um em cair plano philosophico. e ainda assim a frivolidade da época penetrou-o tão intimamente. rrinca pôde dar á sua obra ventura aquella. nâo data de Boccacio ou de Demoustier: Ovídio reahsou-a em um * um pouco menos máo do que as Cartas a Emilia.forçado a emigrar de Portugal.'» bert. Extractaremos aqui algumas passagens da por que tendo de expor mais factos. Trata-se da Historia da poesia antiga: Garrett ataca o assumpto «Ha poucos modos de tor: e se vida tão fáceis. tolas e pretenciosas. com este tom: como o de impos- ha coisa então em que este oílicio seja facílimo. uma livro es- pécie de historia divertida e conveniente. estava perdido para a litteratura. é tas tolices pretenciosas. se Garrett se não tivesse visto . de Maury. a sair d'este meio chilro e sensivel. * Essais de critique et d'Histoirc. e que os velhos mythos que desabrocharam da imaginação primitiva perderam muito cedo a sua significação. N\a- quelle estado de espirito. que ape- sar de ler realisado perfeitas creações artísticas. p. para ensinar como o seu modelo. Nâo se arrosta duas vezes com o tédio d'esCartas a Emiiia. que procuravam lettras. as Lições de «fazer amável Poesia a iimajoven senhora. . 9. estava mais seguro de na banalidade. o haver folheado as um desagradável accidente que se nâo deve repetir. e introduzir entre o estudo das vertindo» são nós o tão engraçado di- quanto proveitoso methodo de Demoustier. accrescenla para o julgamento de Demoustier: «Para um homem de senso e de gosto. 101.» ^ Esta é a verdade. A ideia de fazer doestas fabulas venerandas um todo chronologico. Léo Jou- ao estudar a Historia das Religiões da Greda antiga.

e lél-a quero Apocrypba on genuína? . n'isso não me eu: o que sei. tutus ero. dos quaes custa pouco a dizer. Domina Do meu bem. . que nos vieram com esse outro de Ilesiodo. «e outros mais qne acabam em eus.. Jamais oa li»a frente Encaixei doutamente «eu que adoptei a lettra do elegante Procopio: jndirc. «eu por mim contento-me de te dizer. do meu amor Só quero gloria o louvor. ALMEIDA OÂBRETT € 143 Os Egypcios Oá Porsaa e K depoi» os Queres tu vèr como eu cito e Cbaldeus. se Homero foi tão somente metlo um traductor. os Hebreus. é que as obras que nos as chegaram com o seu nome. Se a risonha e engenhosa Mythologia dos antigos a houveram elles do Eg)'pto ou da índia ou de ambas as partes. um collector de trovas. Chananeui). são as mais completas e antigas que na Europa se conhecem: «E que me imporia a mim que o grego Ilomero Nao seja o auetor da lllíada divina. Eu que pretendo pouco da ma. Que a doutora ccbenta carapuça. Se cu gúslo quando a leio. . Mohabilas. Os Gregos foram provavelmente os povos europeus que pri- meiro cultivaram as bellas-artes. e assim enfiando qualquer agora. porém que nada sabefaria mos d'elles? «Assim fazem quasi todos. que em poesia o mais antigo que conheço são as composições gregas e hebraicas. e cujo fim é dar á minha discípula: «Fáceis lições do roeu saber ingénuo. um rosário de inúteis conjecturas antes que chefa- gasse a entrar em matéria. e o que me imporia. que foram grandes homens. Pbilisleus.

tudo o que pinta véeni-no os olhos. Toda arrobadi.i cidade.^. delicada.» Bellaperipbrasepara não fallar nas cordas de tripa. grave e subliaie a e tempo.ubaros eusina A erguer. M sua bruta fereza Co'as brenbas a deixar na soledade.lo sensivel. tudo n'ella lisongeia suavemente: nao tem as nossas delicada e é essa m.Hn- metapliysicas. t. ternura. a fora ao . «Foi grande impostor Orelle bu^:car pheu.» E percorre assim a dos aedos gre- gos: «D'estes cantores divinos ou divinisados.. Toda elia é sen- tidos.144 HISTORIA DO ROMANTISMO RM PORTUGAL Podem espas questões dos antiquários Fazer menos formosa Andromacba íaudosa Quando Vera dar ás por' as de Troya assediada Co' — till»inbo nos braços talvez os últimos abraços Ao seu querido Ueitor? Poesia. aos quaes clle substituiu as cordas muito mais barmoniosas que ainda boje se usam. Toda meif^uicc' o amor. Co'a eloiiuencia divina Que a branda persuaçlo no peito inspira. AoSi liomcns rude. languida..» Lino é caraclerisado fez cm poucos traços: «Lino lambem so nomeado na' Grécia pelo primor sons da \oz aos da lyra. e a lempo engraçada mimosa. morta a mulher. natura] é essa poesia grega. Co'os magos sons da lyra. inventou que. é para assim dizer o Dante lista dí poesia clássica. sempre elegaute. mas quanto mais foi difíicil de pintar!» Depois disto passa a fallar de Ilesiodo: bem nao muito mais antigo. Se o» Perd« acaso de sua formosura critico» em duvidas entrarem. Ampliion 6 o primeiro cuja data é pouco mais ou menos certa. Modelo é e será de toda a poesia clássica. E alias questões travarem Subré o nome do au tor? «Sinijoles. encordoada então com que associava os com simples fios de linlio. b. um.nieira ((t. palpa-o o tacto.

e obedeceu-lhe fatalmente. ALMEIDA GARRETT 145 inferno. e em novos dramas. Sc clle curado da mononiania de escriptor e tornado homem pratico. quando ainda estava em Coimbra. mas professou iraia sim . em 1820. justamente no periodo em que as doutrinas do Romantismo se discutiam nos theatros rias criticas. e que Plutão lh'a restituirá. e transluzirá na sua naturalidade. moda mas a natureza convencional. Garrett nas- cera n'este meio falso. Em 1820 estava das formas deFilinloElysio. para commum. senão pela influencia do seu mestre de grego Joae pela disciplina auctoritaria quim Alves.i não tivesse talento. ecom o sí'«///72e/?/a//5moidylico pro- pagado por João Jacques Rousseau. modelo nico de a do seu tio frei Alexandre. não te enfadarei a repetir-t'a aqui asOrpheu foi um hábil impostor.» Como se pôde explicar este acervo de frivolidades em um liomem que mais tarde deu provas de talento e de tino artístico. nos jornaes em theoem poemas inspirados por um intuito philojá Garrett absorvido pela imitação sophico.. se dentro d'aquelle cérebro falseado existia hlguma centelha d'esse estado a que se chnma génio. que o ambsquinHaram ao ponto de eleger por Demoustier? A este organismo viciado. estabeleceu na Grécia as cerimonias religiosas que trouxera do Egypto. para respirar na atmospher. do absolutismo em Portu- gal obrigou-o a procurar asylo no estrangeiro. Tu sabes esta linda e mui terna historia. As ella entâQ alcançará vencer esses vapores carregados do pedantismo pedagógico. o Jardim Rotanico seduzia Garrett como recinto sagrado a Flora: 10 um almo . que se tornara umi monomania admirar a naturalista do fim do século xvui. voltaria á pátria readquirir o sensQ {\. era natureza. como uma paisagem de Watteau.]> iiiciís. moral sâ. . circunistancias favoreceram o desenvolvia restauração mento áé Garrett. só_otQ: uma viagem ao estrangeiro. .

N'aquelle tempo os metriíicadores eram parte obrigada de todas as funcções publi- cas ou familiares. Castilho. convalescença de perigosa moléstia. . quando teiro poético.dio]e substituído pelos discursos académicos. fui de madrugada pirar o puríssimo ár do silio chamado em Coimbra dois ou três trabalhadores reslóra — de portas. etc. Ali. onde o perfume saudável Respiro de mil flores. era um poucochinho mais do que o bucolismo do século xvi. os lentes e generaes nâo dai-iam prova plena da sua gravidade se nâo soubessem metrificar uma campanuda Ode 1 epódica. Garrett commenla esta ode ao Passeio de madrugada no Jare na dim Botânico de Coimbra: «Em 20 de junho de 1820. 69. os seqniosos pulmões. té qui só fartos ár pestileulo e máo. debaixo da palmeira que está no ultimo plano no Jardim. orações de recepção. toasts. ii. Achei aberto o Jardim Botânico: entrei. escrevi estas rett linhas. os bispos. Eu e éramos os únicos viventes de* spertos. Como Que sinto Em De embeber>8e-me a existência cada trago d'estes.» D'esta doença falia Gar- nos versos recitados na sala dos Capellos na noite de ali 22 de novembro de 1820. ultimo resto de O seu collcga da Universin'este Outeiro calhe- também bateu palmas um costume portuguez completa- mente extincto. p. Ao mui pausado sangue 1 Era este o estylo naturalista. elle o D'este suave e puro ávidos sorvem. vol. que amava Gessner e Florian.146 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Aqui. se celebrou um Ou- como signal de regosijo nacional por se ter inglez. um desalinhado Dilhyrambo o Chronisla. enfraquecido peito. que via as coisas através de epithetos variados. E com Ao remédio trabalhado. e era tal o perstigio d'este uso. que os desembargadores. acabado o protectorado dade. dratico.

Isto basta para discriminar a diíTerença entre os dois escriptores. embora afinado. julgam-na sua melhor qualidade. porém não são es- ses os únicos defeitos dos versos. de mil outras coisas variada medida exigem. Felizmente Garrett contrabalançou esta desastrada iníluencia pelo estudo das riquíssimas conslrucções dos versos de jFilinto. fazem monó- tona e insupporlavel a mais bella peça de musica ou de poesia. . como exige a musica vários tons A mesma medida sempre. em imital-o usando os tropos que lhe e em que residia o segredo da harmodo Outeiro nia clmanista. ao menos. a peor. E laes são os versos de Bocage. que o fez produzir o insulso poe ma das Cartas de Ecoo. embora mesmo compasso embora exacto. Se 08 fdoí. na composição da sala dos Capellos: Erqo lardi. as distinctas posições e circumstancias do assumpto.— ALMEIDA GARRETT 147 OU pelo menos uma conceiluosa Decima. ante os ecos. e cadencias. perfeita. niodilicou a corrente porque tinha individualidade Castilho só abandonava uma influencia. que nos pertendem . o deus dos Outeiros poéticos. consistia n'esle a admiração tempo eram característicos. do objecto. As varias ideias.i voz. ambos escreveram as suas primeiras obras dentro de e corrupto. ante o nniverso. se o mundo miiilia voz ouvirem. Não fez um verso duro. escreve Garrett. Garrett educado lambem para este género de tertúlias tinha fatalmente de admirar Bocage. Ante VÓ9. o mesmo tom. Castilho obedeceu mais tempo ao elmanismo. mal soante. frouxo. o a mesma harmonia. embora cheia e boa. a que peores effeitos causou. mas ergo a livre. as di- versas paixões e aíTectos. quando outra lhe apresentava melhor vantagem de imitação. Gairelt descreve a lucta entre a influencia da poética clmanista e phihntista: «A eu elle metrilicação de Bocage. um meio litterariamente absurdo porém Garrett artística.

. Esta mania de traduzir subiu a ponto em Portugal.» ^ Castilho. a vaidade. cujas innumeras cabeças eram o gallicismo. prologo do Parnaso lusitano. foi a . e nas notas da Primavera ataca Bocage e os defeitos áo elmanismo a que tanto tempo obedecera. ficou totalmente n'ella e morreu traduzindo. que não só lhe não agrada- ram. 2 Ibid. o CatullOj traduzido e annotado. Francisco Manuel. e savam o grande escola de Garção. estocada de morte que nos jogaram os estrangeiros . digo cegos. único representante da exilio.) D'esta época (18'20-18:24) existe em poder dos herdeiros de Garrett. e de tal modo estragou o gosto do publico. Garrett caracterisa este estado dissolvente: «Mas de traduções estamos nós gafos e com tradu: ções levou o ultimo golpe a litteratura portugueza. Reinava também em Portugal a monomania das tradu- ções. Bocage e Filinto haviam dispendido as suas faculdades em traduzir. porque muitos tem elle (e * não cegos. dar para lypo seus apaixonados cegos. gemia no de lá. a ignorância. Garrett teve esta corrente. Vid.148 HISTORIA DO ROMANTISMO. todos os outros vicios que iam de- vorando a litteratura nacional. etc.» (ib. se preparava para luctar contra a enor- me hydra. mas quasi não entendia os bons originaes portuguezes. traduzir. Castilho rastado pela mesma absorpção. contendo as seguintes odes : A Cornelio Nepote. e venfoi ar- também de luctar algum tempo contra ceu-a oppondo-lhe bellas creações originaes.» tilho. traduzir. mas allusão directa a Cas- que metrificava então Garrett: em pleno elmanismo? Continua «Mas emquanto Bocage e seus discípulos lyrannigosto. EM PORTUGAI. a incapacidade de creação original fazia preferir tudo o que se traduzisse. nSíS Excavações pocticas arrepende-se de ler declamado contra Filinto. n'esse numero qne Não haverá aqui uma conto) que o sâo. . Ao Pardal- 1 Escripto em 182C. com os olhos fitos na pátria.

A confesnem me lembra assim de cór de quatro no- mes de deuses da fabula. a Asinio.^0 a i8ál. e de dezembro a janeiro d'esse anno. íiz o que também pelo mar.» A lubriciprimavera do Em fevereiro de 1824. xxvi. a Fabullo. ahi traduzi alguns d'esses poemetos. Havre. os teus {versos não sei que lhes falta: não te digo que são máos. 18:. * dade da época da Restauração é que prendeu Garrett â tradução de Catullo. nem Vésem my- nem Apollo: não sei como podes fazer versos Se tu és poeta. A morte do Pardalsinho. continuei a e agora me cinjo a ella com mais flrmes tenções de ao cabo. Pinto cVaprès natiire o que posso nas minhas regrinhas curtas e compridas. e é n'esse anno de i824 que se operou a profunda revolução psychologica que lhe deu a sua superioridade artística. vio. mas o numero incalculável de obras primas do Romantismo cedo o desviou do culto exclusivo da antiguidade. obra. ! ao meu amigável Aristarco) no sentido sar a verdade. (respondi lhologia. Ganio nupcial e Epithalamio de Peleu e de Thelis. mas. Nem Júpiter.nhecido dos meus tempos de estudante: ! — Amor maternal um certo coHomem. sentimento artístico de Garrett já antes de 4823 luctava para se emancipar da subserviência da mylhologia. a Furio e Aurélio. depois de chegar a Inglaterra e França. Este manuscripto traz a seguinte nota autobiographica: aEmpreliendi esta versão no meu ultimo anno de Coimbra. a Calvo Licinio. a Flá- A si mesmo. que fazes dúzias de odes sem invocar uma só vez as Musas —Eu não sou poeta. apud Helena. A Lésbia. na rainha viagem á ilha Ter- ceira na que lá fiz. em uma nota a uma ode saphica sobre o descreve Garrett este seu esforço: «Dizia-me . levar mesmo anno e na curta residência em Londres.ALMEIDA GARBETT 149 sinho de Lésbia. p. á Península de Sirmion. mas nunca feitos 1 Catalogo dos Autographos . 29 de abril de 1824. commum. tão pouca riqueza da fabula nus. .

Além de que.» * Fixamos «Boa a data d'esta descripção autobiographica antes de 1823. e muito com a natureza e o coração. que pag. de que nem quero me cheira sufli- —O cientemente á Phenix Renascida. fizeram-me perder a devoção aos Santos de Hesiodo. ainda me recordo eu) tinha a mesma mania que tu mas depois certos Allemães e Inglezes que li. mas a tempo e horas.erdòa-me) cá da mi- nha poesia: nâo não entendo fallo da outra que é moda por entender. (jue assim se chamava o poeta filiado no estado pastoral do Mémnidc Egynense. falsificado pelo convencionalismo ár- cadico. Quero fazer versos portuguezes. porque ahi. o pobre Jonio Diiriense. (Casmais annos atrophiado no insulso a natureza idyfio. i. a atmosphera do estran- 1 o Chronista. Elies e eu temos pouco que haver com Martes e Saturnos. meu critico sorriu-se e eu fiz o mesmo. vol.» A viagem á ilha Terceira em não deixou de desper- tar-lhe o sentimento. em portuguez e portuguezmente. Nao reprovo o uso da fabula. aos Pindos e á convivência do Pégaso.) para mim só e para os meus amigos os faço.150 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL palavra. únicas e verdadeiras fontes da poesia e de todas as bellas-artes. O muito recheio da mylhologia dá ás composições modernas um ár de affectação e desnacionalidade pedantescamente ridículo. Da poesia (p. e ao Conde da Ericeira. por que da Ode que parte d'esla Ode ella foi commenta traz a seguinte nota: e publicada roubada ao seu auctor com outras coisas que a desfiguram em uma 18-21 brochurasinha im- pressa em Coimbra em 1823. se tilho) ficaria o contacto com o não arrancasse aos Ménalos. Os versos que escreveu por esta occasião lembram lancholicos do já aquelles naturalissimos e me- poema Camões. . 65. entendi em ser poeta no rigor e certa valia da Quando comecei a babiijar a tal fonte de Aganipe (d'este nome tens. (como cem vezes te tenho dito.

Co'a ponta do alvo roanto ameiga a face Que o acre ardor do pranto me ha crestado. falia No fragmento da poesia O Mar.. mas Garrett estava em 1821. Garrett veiu encontrar accesa >a tradição arcadica. succedeu uma tarde de junho. que nâo chegou a passar do. a nossa de Apollo. Garacompanha esse fragmento com anota: «Este fragmento foi escripto no mar em longa e penosa viagem nos mezes ret de abril e maio de 1821. 2 Calalogo dos Auiographos. No prologo da Ljjrica de João Minimo descreve um Outeiro poético de Odivellas. . volta á . vol. . leaes é natural. intitulado X ou a Incógnita^ allusivo aos successos de 1821. em que tomou parte: «No verão de 182. i Sempre pessoal em toda a contemplação artística. que se bastante em Coimbra. segundo canto. . influenciada pelo lia Reino da Estupidez. Veiu-se a fallar em Ou- 1 o Chronista. p.» Era ainda a influencia arcadica que o fazia escrever um poema heroi-comico em quatro cantos. p. como animada conversação en- trou logo pelos districtos poéticos.. i. Na sua vinda para Lisboa. ALMEIDA GARRETT 151 geiro lhe havia de inspirar. 78.. e. . brida - era mais uma concepção hy- como a Benteida ou a Santarmaida. com uma sucia de rapazes. eram ainda moda os Outeiros poéticos. saudosas: das laí^rimas O" Que a fio d'este5 olhos se deslisara. e a sua vivacidade de rapaz attraiu-o para elles. xxv. saia do banco das escolas onde por isso ao recordar-se de dominava dição a chateza arcadica. É O mesmo timbre do canto v do poema Camões. e Coimbra e das : flores tios jardins do Mondego. tra- Por ventura o meu Jonio passeando. que me encontrei no conhefilhos cido café do M. e que para sua gloria íicou inédito.

perdido hoje na barafunda das malditas e mal avaliado por despresado uma mocidade estragada e libertina que excommungado tem o descôco de preferir as cartas da Nova Heloísa e do St. quasi politicas. depois de breve silencio. roe'ram-se a phalange. e saiu o soneto . o as ladinas das comedias de cordel rccilaTam. . N. Preux ás Eglogas do pastor Albano e da pastora Damiana. . Era electricidade que se estava esperdiçando:— Vamos Ijzes! foi a isto.de coisas bonitas. . que de vez em quando o lampejo de um lindo rosto. quoFilinlo como sabida de cór pelas peixeiras do seu tempo. 7iariz de cera. e já levam provisão de quartetos e consoantes. Vamos a Odivellas ao Outeiro faz . respondeu tada e sonora. e . . HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL alegre e engenhoso passatempo de nossos pães. a isto rapa- a voz unanime.. João. . [de S. certamente pouco avaros. . E brados de Mote! Mote. que servem para todo o mogrades as airosas toucas Começaram logo a illuminar-sc as janellas das frei- ras. — palmas: Lá vae. que parecia uma voz flaumesmo de um cherubim— de que não está costumado a coisas doeste mundo: Aroor seu facho n'esta noíle apaga. passeou-se. altisonantes e nunca assas louvados sonetos da escola elmanista! . que hão-de aterrar tudo com sonetos e col- ' chêas. 1Õ2 teiros. . de matadores olhos inflammavam a imaginação dos nossos jovens poetas e lhes faziam dizer milhares.. esfregou-se a afinal unhas até ao sabugo. Seguiram-se colchèas e mais so- * Elysío citava Garrett refere-so a uma composiçáo de Jpuo Xavier de Mattos. pelas e os feiticeiros véos. aos retumbantes.— aos quaes. ha mais de dez annos que se nâo Vae N. d'isto que chamam te. . * que ousan) antepor os descompostos versos de Francisco Manuel e suas Odes hyerogliphicas — . e a luzir pelas rotulas. e N. «Debandou toda testa. 1 .

Os poetas que então viviam na intimidade de Garrett eram José Frederico Pereira Marecos. como são o amor maternal. limita-se a estas theses de Academia. Garrett se (juer elevar á generalidade do sentimento. inspiradas pela leitura do ideal um desenvolto abbade Casti. ao escrever o Werther. e as Flores senijruçtq está colligida 'em que uma grande <l. com muito e mui guloso doce que fica as tavam. etc. quando forte Goethe./rMClQ vem uma tra- dução de uns trechos do poema de Oscar. asestrophes \ em endecasyllabos com os seus hemisticom um sentimentalismo de quem abriu os ollios aos horisontes de Rousseau. os desejos. e com a personalidade de quem ainda respira na atmosphera sodalitia de lloratio.ALMEIDA GARRETT 1Ô3 netos e muitas versalhadas outeiraes de toda a espécie e calibre.» Aqui uma completa do que era um Onuiro poético.^umes do século xvm mantiveram entre nós até á epoça do Uomanlismo. /Paulo xMidosi. da qual diz: «fil-a eu para me exercitar n'um género que nos meus pri- . As Fabulas são egualmente um producto do espirito poético do século xvni. que Vrevelou a Garrett a melodia do poema Camões. a soledade. A^ íLjjrica de João *^cas MinimOj que encerra as composições poeti- de Garrett desde 1815 a 1823. como é que o ténue Garrett deix*aria de ser impressionado. das aventuras de Fingal e das festas de Selma? ^SiSFlôrM &em. e para sempre. com uma introdução em verso calcado sobre o mesmo eslylo. cantar humano. ao menos para mim. a infância. cujas obras se perderam. Carlos Moralo Roma. não se pôde eximir á fascinação dos poemas de Ossian. resentem-se dcsteesíylo arcadico» modificado por intelligente estudo iiuliiih aiTio de 1 ilintoElysio. Larcher. Quando são quasi sempre cliios. valetudinário c timido.i parle do que escreveu em um 1823. e alguns outros. Mas a melancholia romântica facil- mente se apossava de Garrett. e que. essa concepção de uma individualidade. nâo foi a madres nos deimenos agradável descripção I circumstancia da noite. que os co.

jurou a Carta constitucional. para não perder tudo. No dia 3 de julho de 1821 entrava no Tejo a frota com a familia Bragança. Carlota Joaquina. posto que simulava attender mais os a consellios dos liberaes. João vi conheceu que o império do Brazil lhe escapava. me parecia o sublime dos sublimes .» Garrett conservou toda a sua vida essa melancbolia ossianica. João vi não era extranho a estes manejos. talvez nunca houvesse comprehendido o espirito da litteratura moderna.romantico. passou por todas as humilhações e terrores para conseguir apoderar-se do poder executivo.. d'onde o rei só desem- barcou depois de receber auctorisação das cortes. Miguel para coraman- dante em chefe do exercito é a prova evidente da sua má 1 Flores sem frucío. 226. Não politica. que não podia apoderar-se do partido o rei se conciliara. Se Garrett tugal. Foi esta melancbolia. níio saisse de Pore. tista com o qual tornou-se o centro da reacção absolu- contra todas as reformas inauguradas pela revolução D*. a sabendo coisa alguma da situação pretexto de um empréstimo mandou a Lisboa o negociante Pereira de Almeida para informal-o secretamente se poderia ainda entrar em Portugal. que precisou empregar-se em uma saudade ^i qualquer. que devia produzir o nosso pri- meiro movimento. vendo liberal.154 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL * meiros annos. p. não teria em 1824 escripto o poema Camões. A pois historia politica da primeira metade d'este século é o mais flagrante documento da imbecilidade de um povo. digna irmã do infame Fernando vn. . antes que as Cortes constituintes o destituissem. co- mo Castilho. lembrou-se. em todas as suas obras predomina o vago scismar de quem lira o ideal de um passado que não torna. De- que D.. de voltara Portugal. de 1820. mas nomeação de seu fdho o infante D. que o levou a sentir o passado e a descobrir as- 'Sim o sentimento nacional.

abandonada . e em terra estrangeira o ouvimos cantar as suas imprecações. o grande Manuel Fernandes Thomaz succumbiu. ir d'onde proclama contra os pedreiros-livres que usurpavam os mau ferireis direitos de seu pae. por 30 de agosto de 1823. .) decreto de Demillido do seu logar de official da secretaria do Ministério do Reino. dona. Miguel commandante em chefe do exercito. pretendendo João a vi retira-se contra a rebelliâo de seu ca. e obri* gou-o a abandonar a pátria. . I). suble- também á voz do seu coronel era um plano concer- tado. Para resistir na sua nova situação acceitou o logar de caixeiro na casa do banqueiro Laflitte. prefere o exilio. João vi rasgou a Constituição e acceitou o poder absoluto. Quando o regimento vinte e três de infanteria saiu de Lisboa para as provincias do norte ceio dos em observação com re- movimenlos do exercito do conde de Amarante su- blevado contra a Constituição. Os que recearam geiros. oito mezes depois do seu casa- mento. xvii. Em 23 de agosto d'este anno regressou ainda a Portugal. D. como premio do movi- mento o Conde de Amarante foi feito iMar(}uez de Chaves. D. as suas saudades. mas a hitendencia geral da policia houve por bem consideral-o perigoso para a ordem publica. que Garrett emigrou para o Ilavre acompanhado por sua mulher. . onde rece- beu o ordenado de 2:000 francos por fazer a correspondência estrangeira.: ALMEIDA GARRETT 155 fé. deu-lhe a honra do desterro. Começaram as perseguições contra os partidários da Re- volução de d8:í0 e da Carta constitucional de 182^. j* (p. No prologo das Fabulas e Folhas cahidas escreve o poeta elle não a aban«A causa do povo é trahida. íillio. para Villa Fran- d'onde é trazido para capital pelos lidalgos que se substituíram ás cavalgaduras. Foi a estrangulaçãonos cárceres refugiaram-se nos paizes estran- em julho de 18^3. Miguel foge do i)alacioda Bemposti para Santarém. o vou-se mesmo regimento . e a constância 1 indómita do auctor do Catão. e o infante D.

Relações com Garrett. Judeus. Camões torna-se para os portuguezes uma expressão da paíria Origens do ideal camoniano. charlatães. Byron sentenceia Estado politico de Portugal. Caracter lyrico-elegiaco d'esle poema. mas os belfurinheiros que fazem dançar os bonifrates e pucham dade do que estes rombos monarchas. . segundo as reminiscências diChateaubriand.— 156 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 2. A lenda do trovador João Soares de 'Paiva superior em verdade e poesia á phanlasmagoria de Aben-Afan. apresentam mais varie- mesmo cunho. — O grande Sequeira abandona — : plomáticas de Lord Uolland. Branca. . Garrett perde a sua' actividade poética. auctores. todos os contrastes! Já nâo dos soberanos. A composição do poema Ádozinda sentido lillerario. generaes. Condições em que foi escripto o poema D.. dae vivas! fazei inscripções! levantae ultrajan- monumentos para dizer á tyrannia que o mundo a acceita o seu jugo com satisfação. pelo seu quadro da Morte de Camões. . tes .— liifiiiencia o da cmimçao de 1823 a 1827 Congresso de Verona exlinguindo a fórraa constitucional em Hespanba. impróprio da sua feição épica. Condições moraes era que foi escriplo o poema Camões. O typo de Frei Gil mal compreliendido. parecem-se todos como peças balidas no pelos cordéis. imperfeita comprehenísão das íradições nacionaes. determina a queda da Consliluição em Portugal em 1823. — Estado a pátria. Ánalyse da sua eslructura. . — — — — — — — — — : O poemeto de Byron intitulado a Edade de bronze resume nas suas eslroplies repassadas de sarcasmos eternos a in- dignação que os homens liberaes da Europa sentiram ao vér decidir-se no Congresso de Verona a ruina das novas gaque a sua santa presen- rantias constitucionaes: «Três vezes feliz Verona! desde a monarchica trindade fez luzir sobre ça. intrigam ante da face da Europa as- . Em 1827.» E accrescenta: «Que extranho espectáculo é este Congresso! parece destinado aggregar fallo todas as incoberencias. ti Sim. Como Garrett comprehendia o Romantismo. falta de acção. inferior á poesia da realidade histórica. — — da litteratura antes da emigração.

esse Tartufo de génio. este apparatoso calholico susten- tou no Congresso de Verona que era preciso invadir a Hes- panha e restabelecer no throno o despótico Fernando assim aconteceu.ALMEIDA GARRETT 157 sombrada de Ião vastos desígnios. Foi então que à França comprehendeu a sua vergonha . ali Wellington es- Chaleaubriand accrescenla novos cantos * aos seus Martyrcs . quece a guerra. sobre o Congresso: «Eu não os os anjos choram. que era do estofo dos seus contemporâneos D. se elevou ao seu a cabilda diplomática olympo. McUernich. como signal de consummada a hecatomba da libeidade.» Estes prantos partiram também de Portugal. Edade de brome. 2 Byron. vii. o general francez ajoelhou em terra Fernando vii. . . esUncia ix e xvi. mas homens choraram bastante ^ . Ali. Fernando vn. quebrou todas as amnistias prometlidas em presença da Europa.» lí profiindissima a ironia d'esta allusão a Chaleaubriand. e mandou trucidar Riego. e depois da e entregou a sua espada a tomada de Trocadero. Chateaubriand caiu do po- der. para conseguir o quê? o chorar mais ainda. tendo de lançar-se na opposiçâo liberal para combater os que o destituíram. Foi alii que Chateaubriand. convencendo ciso nal. orgulhoso com a sua giieira de Ilespatiha. o perigo dos seus interesses dynasticos fez convocar o Congresso de Verona. de que era pre- esmagar na Península a obra da liberdade constitucio- O duque de Angoulème veiu á Península. emfim lo- dos os que trabalharam pelo regimen parlamentar. A trindade satânica da Santa Alliança vira na constituição hespanhola de 1820 um abysmo para a causa dos bons tempos de outr'ora.. capêa a todos. est. a nossa primeira Carta constitucional alcançada ' Byron. Bessieres. ou Gui- lherme III. Empecinado. i. João vi. Edade de bronze. É eloquente este grito de Byron ainda sei se . o priali meiro parasita do poder.. tomou á lettra o symbolo da espada.

que se tornava de baixas e obscuras intri- 1 Poema Camões. e em França era thema de todas as vaidades da Restauração o imbelle Iriumpho do Trocadero. nham uma aversão natural um pelo outro. nol. muito intencionado.» * Para se comprehender como estes successos que hallucínavam a França se reproduziriam em Portugal com todas as suas vergonhas. D. . . seguiu a sorte da de Hespanha. c. que possa ter o interesse da novidade. de Hespanha 1 crises. Taes magoas como alii vão poupa a meus olhos. tinha um tal medo de ser governado pelos seus ministros ostena victima siveis.: . o nosso Trocadero foi Villa Franca. de caracter. nada havia de rei era commum bem entre elles a não ser a fealdade re- pugnante das suas pessoas e as suas maneiras canhotas. O mas fraco e timido. Eram naturezas fadadas para a cataslrophe. Largo aos mares. muito ti- contrários de principios. Na realidade. Assas tenho das minhas. em Portugal. ! Em nota accrescenta Garrett: «Quando se escreviam es- tes versos. de procedimento. Foi então que escripto n'estas No poema Camões. Garrett allude á sorte Eia vamos Deixa o caminho da infeliz Pyrene. D. D'ahi a seis annos estava vingada a injuria da liberdade peninsular. 158 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL pela revolução de i820. i. O rei e a rainha. onde não correu sangue mas o lodo do mais baixo dos esgotos — a falta de dignidade humana. Basta-nos extrair das Reminiscências diplomáticas de Lord Holland algumas linhas: «Pouco sei acerca de Portugal e dos portuguezes. basta conhecer o caracter dos dois actores d'este periodo. começou Em 5 de junho de i823 a obra de Chaleaubriand tinha produzido o seu effeito a emigração. lodos os horrores da reacção absolutista de 1824 assolavam Hespanha. João vi e sua mulher Carlota Joaquina.

— Em geral os homens nem de de inlluen- de Portugal não são privados de talento instrucpatrio- çáo. de Lord Hollaod. mas a vaidade substitue n'elles a acção um tismo mais illustrado. parecia ter atenuado sembléa representativa e verno. eram sempre O zelo exagerado da rainha pela causa do as- despotismo impropriamente designado pelo nome de legiti- midade. Conde do Funchal. irreso- gas. Com- tudo as suas ideias eram justas e esclarecidas. e sinceramente aííeiçoado á casa de Bragança. cap. p. vm. Araújo (o Conde da Barca) um homem com- petente. Souvenirs diplomatiques. ambiciosa. Naufragou completamente.» * N'estas condições começaram em 1823 as perseguições aos constitucionaes. o perder as boas graças do seu soberano recusando o posto que o poderia pôr em condições de executar os seus planos. conseguiu gastando a sua vida balas em ca- com os reformistas e em perseguil-os. e acabou por dei- xar Portugal na subserviência de uma e por abandonar o seu soberano e o Brazil inteiramente ao capricho da outra. . desejoso de assimilar no seu paiz as instituições de Inglaterra. egoista. e tinha uma tes incnnação pronunciadissima por toda a espécie de in- trigas politicas ou amorosas. empregam mais astúcia nas negociações com os estados poderosos do que prudência no governo do seu paiz. Garrett. que escrevera o elogio do H6.ALMEIDA GARRETT 159 vacillantes. e foi-lhe preciso toda a sua jovialidade natural e a sua soltura na conversação para se consolar de todas as decepções pohiicas e pessoaes a que se viu exposto. com boas intenções. e os seus conselhos lutos e incertos. Sousa. São animados de pequenas invejas e cheios de perfídias. a aversão do rei por uma uma íórma constitucional de go- A rainha era vingativa. metteu-se indirectas em vias pouco judiciosas e muito para as realisar. esperava que. mas. fazendo macaquices á Inglaterra e á França illudiria os projectos de ambas.

. a ella também concorrem muitos indivíduos. (1 36. e foi ha pouco Secretario de Estado. e tão e:.* (Contas para — as Secretarias. teve de refugiar-se em Inglaterdemitlido do seu emprego ra."'» e ex. Simão da Sihm fcnaz de lima e Castro. Liv. e assim para evitar que com esto titulo se estabeleça alguma Sociedade secreta. entendo que convirá se faça persuadir ao recorrente que tal pratica devo immediatamentc cessar. c um declarado inimigo' da religião e dos ihroftos. Sua mageslade porém ordenará o que fòr servido.160 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL grande revolucionário politico Manuel Fernandes Thomaz. e mandei |)rooeder á prisAo dos qutros réos i|UO se tinham refugiado para esta capital.""» sr. A pretenção de João Domingos Bomtempo. e entro olles o administrador geral da Alfandega grande d'csta ca- Xavier Mousinho da Silveira. O intendente geral da III. O * grande artista portuguez João Domingos Bomtem^ po. Ill ""» e ex. juizo da sua correição se pital. a que dá o titulo de — — para que do producto das assignaturas que ali concorrera possa supprir a sua subsistência e de sua numerosa família. XXII. que assim como o supplicante não merecem o melhor conceito na policia. e poucas vezes a familia. natural ih Castello do Vide. fx. porém oão me delibero a mandar egualmenlc proceder á prisão do dito Jdsé Xavier. 4ccrescenlanda ser um libertino de primeira ordem. «Ainda que seja certo que á la! sociedade costuma concorrer j^rande parte das pessoas da maior gcrarchia c consideração d'esta capital. José Communicando-mc o corregedor de Portalegre. que faz o objecto do requerimento incluso. e o gigante estadista José Xavier Mousinho da Silveira. xxir.*"° e ex. jus- maram Iriar-se."'" sr.» (Contas para as Secretarias.) •IH. tem por íim conceder-se ao supplicante licença para continuar na pratica Philarmonica de admitlir em sua casa a sociedade. aonde propagou a seita dos Pedreiros livres. 28. policia da côrle e reino. compositor de musica.™" sr. sem que sollirite de v. 19 de julho d6 1823. por isso que n'elle concorre a circumslancia de enjpregado de tal graduação. ex. politicas o que lançou as bases das reformas que transfor1827.* Lisboa. annuí ao quo aquelle ministro requeria. viram-se forçados a expa- Durou esta perseguição politica até foi tamente o período mais fecundo da vida de Garrett. e reino. Manuel iMarinho Falcão de Castro. Deus guarde a v. que acabou de sor provedor em Portalegre. V. quo tinha plantado e promovido em Sotubal quando ali foi juiz da íóra.^ em data de f) do corrente. Revê1 «111. a sociedade porlugueza. Simão da Silva Ferraz de Lima e Castro. — Liv. v. 2 II. que no achavam pronunciados por associaçj^es secretas uns indivíduos.'"» sr. Deus guarde a • ex. por isso mesmo que a titulo de Ensaios mais a miúdo se reúnem.^ Lisboa. ex.) . — 38.'"'' e ex. e onde é constante que estabelecera duas Lojas^ d'elles. O intendente geral da policia da côrle Joaquim P»ídro Gomes de Oliveira. sobre o qual íua Uiegestade é servido mandar-me informar por aviso de v. no Ministério do reino em 20 de agosto de 1823.candaloso que nunca ali ouvia mi*sa. 10 de julho de 1823.^ a resolução do que sua magcstade queira se pratique a seu respeito.

é este o único sen- timento das suas obras de arie. a sua mudez foi veiu-lhe do terror da pes- quisa inquisitorial e da mordaça da rasão de estado. um novo modo de sentir. para se impressionar sas. a . as tropelias dos valentoes-fidalgos e a excessiva sordidez das ruas. l? com o trabalho casual e de simples distraçâo d'estes quatro annos. triste. cuja limpesa era vadios. nem uma e da consequência dos desastres políticos. admirando-se como aquellas caras alvares e grotescas. convictas e detodos physionomias tristes. a única expressão dos cara- que concebeu. com as ideias mais genero- Com rasão o próprio Garrett o confessa. e d'aqui 11 usual de fazer testamento antes de se raetter á jornada. fica assombrado. viu envolvido. Não se passa debalde por três séculos de queimadeiro fanático e de garrote cesarista. O povo portuguez sempre quando a cgreja lhe fixa o entrudo para ter uma breve expansão. possuíram intelligencias rectas. Têm corresponde-lhes na rudesa lúgubre mas forte. era uma fatalidade do meio em que se em que nascera foi educação que lhe imprimiram. depois de 4827 foi nunca mais poeta. o único efTeito dos seus quadros. Esta melancholia nâo era uma feição privativa do seu organismo. que Garrett abre um novo horisonte á poesia portugueza. A musa de cteres Garrett foi a melancholia. mascára-se e pede esmola. que produziu o aleiri- quem vè hoje os retratos d'esses homens jos e corajosos. como esses ho- mens feios. pela falta de illuminação. Este tão longo estado de extorção moral jão physico. a falta feita pela voracidade dos cães de communicação entre os diversos pontos a necessidade Ho paiz por não existirem estradas. e a sua eloquência cididas.ALMEIDA GABBETT v 161 laram*se faculdades novas. a sua organisação estava apta para receber as impressões mais delicadas. que tiveram a audácia de crear um parla- mento constituinte em 182^. A esta ma- nifestação da vida publica. ajuntemos-lhe a escuridão das cidades pela estreitesa das ruas.

Era assim que se recebia o ultraje nacional com que o monarcha rasgava a Constituição. 162 infallivel HISTORIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL intimidade na familia de um parente frade. a ignorância completa de todo o movimento politico que se passava na Europa» e geiro. os divertimentos domésticos reduzidos a resar-se o terço e em commum mãe em lho. a attracção do abysmo? Para que se inventaram os índices expurgatorios do século XVI e xvii? Para não deixar que o livro nos viesse perturbar as consciências. a faisca revolucionaria. em correr aos domingos a via-sacra . e Garrett reconheceu essa triste justiça dizendo que: «não é muito para lisongear o amor próprio nacional. Mas a Modinha não bastava para alimentar a vida sentimental da nossa classe dia. d'ella. João era o Jonio d'estes descantes em falsete: Louvemos todos O grande R«i. a meque imaginação também precisa que tratem coisa. mas D.» as ouvira ás * Em 1823 ainda se cantavam nos serões de famiUa as modinhas soturnas do tempo em que vi Beckford damas do paço. mas tenha paciência.. Sen^ . Um livro? Não é isso a mina de pólvora. justa Lei . caracterisado um horror a tudo quanto era estrana irrisória expressão com de modernisa au- mo. e o amor da fi- occultar hypocritamente os vicios precoces do Byron teve rasão quando nos chamou povo de escra- vos. um livro. por exemplo. Para que se erigiu a Real mesa censória do século xviii? Para que o livro não viesse ira- zer-nos ímpetos de sedição contra o paternal governo. que dirigia as consciências e se tornava o santo casamenteiro. ctoridade paternal fundada sobre o terror. lhe dêem mais alguma além da masticação dos Pa- ter-noster. QuA a Jura seguir. que assim não é muito grande a injustiça do nobre lord.

uma boa mãe educava e um signal de educação fina . sentimentalismo de sete fôlegos. a ternura era o nexo de todas as relações. no estado geral de idiotismo e chlorose. A so- ciedade portugueza precisava de um livro. e só por ro. Era esta a afinação da alma portugueza. Malvina. um livro qual- quer qíle a distraísse. e de reconhecidos sacrifícios á causa das dynastias. homens e mulheres devoraram os romances de Madame Cottin. As Noites do Madame GenCasfello. aua somnolencia. a ternura era distinção e mília uma uma prova de moralidade. como o caracterisa Carlyle ao fallar da Genlis. Amélia de Mansfeld eram os coníidentes de muitas lagrimas ingénuas. lis. são obras de occasião e ignoram que existe um sentimento eterno que vibra com todas as aspirações da justiça. com a Menina de Clermont. senão morre-se de tédio. Mathilde. a tristesa era vencia os Ímpetos dos filhos chorando.ALMEIDA OÂBRETT 163 pre O livro negro. sobre tudo a litteratura feminina e sensível. chorava-se por um nada. Este habito constante tornou o senti- . Um livro. O honrado pae de fanão dava palavra em casa. as clironicas dos frades e dos monarchas oíTerecem bons exemplos de liberaes fundações e legados piedosos. os Contos de Trancoso e o Feliz Imlependente aggravaram-lhe o mal que soíTria. o livro maldito. só se escriptos enchia o cesto barreleilivros dos poetas são pôde lêr n'um púlpito. tocante e frágil apparentemente. lismo calculado e insensível e secco no intimo. o pesadello do Qualificador do Santo Officio e do Intendente da policia í Mas era preciso deixar a imaginação portugueza repastar-se em al- gum livro. e sobretudo com esse sentimentafrio. A Madame Cottin succedeu com a sua Adélia e Theodoro. Mas o chronicão não cabe si no açafate da costura. e toda a sua litteratura de sete sé- culos nada teve que dar-lhe. Clara ifAlba. Os em panegyrico de todas as ephemerides do paço. gmentaram-lhe a A litteratura franceza da corte de Luiz XV. era á que melhor quadrava nossa sociedade.

era uma revelação da vida. era um sentimento sem convenção. a caridade abria as crianças rejeitadas pelas íilhas-familias. pelo facto de ter escripto o elogio do constituinte Fernandes Thomaz. uma cousa postiça e me- Os pães levavam os filhos a vêr as execuções na forca da praça. pela queda da Constituição. regressou foi momentaneamente 1 d'onde immediatamente «Tendo chegado bontem á capital o officíal da secretaria de estado dos oe- gocios do reiso. Ao menos era já um ideal com realidade. Jo3o Baptista L«ít3o Garrett. TiDdo de Inglaterra.164 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL mentalisrao. e suspeito ao absolu- tismo restaurado. a Europa começava a sair do tal fal- mesmo estado sentimen- em que estávamos. Era preciso que Portugal respirasse o ár livre da rasão e da verdade. Demittido do seu logar de d oíTicial da Secretaria do Reino em 30 de agosto de 823. Rodas para esconder as ninguém se levan- tava ao vêr um rei abandonar-nos ao invasor e voltar para o seu povo depois do perigo passado. mas a sua antiga melancholia tordi também mais verdadeira com saudade da pátria. mas chorava-se muita lagrima doce. muito dolorido suspiro ao ler a historia de Zélia no deserto. uma provação. que era a pri- meira a condemnar o seu liberalismo. foi pela emigração que o poeta conheceu que havia horison- tes mais largos do que a rhetorica. e de estar . Garrett viu-se forçado a emigrar para Inglaterra. mal com a o clima de Inglaterra era-lhe a Portugal. nou-se mais funda. acorda o senso n'esta commum gente! Carlyle. esta immobilidade tradicional! Michelet. si era falso. * familia. descarrega o teu magnetismo sobre estes versos marasmadosl Mas estes verbos da intelligencia ainda não tinham lado. a refugiar-se no estrangeiro. que já de chanica. escangalha este beatifico sentimentalismo. e que os escriptores nunca haviam escripto na lingua que o povo fallava. Garrett viu-se forçado. Fraco e valetudinário. Garrett estremeceu ante o espectáculo novo do Romantismo e nao o acceitou francamente. Ah! Paulo Luiz Courier.

e entretendo-se a limpo os em Birmingham no outubro em passar vertera. laes como os que se evadiram. Garreti expulso então de Portugal veiu para França como o erudito José Victorino Barreto Feio. Liv. nostálgico. ex.". morta a pretender dar vida A França tornou-se como a Inglaterra um asylo para os emigrados portugue- zes. Deus guarde .'"" sr. por occasião da restauração d'e?te reino. .ALMEIDA GAKRETT 165 mandado foi sair pela Intendência da policia. Em França dardejava na olympica vaidade Ghateaubriand. e abraçado francamente as ideias da Constituição. O intendente geral da policia da côrle e reino. soffrendo a dura acclimação. Manuel Marinho Falcio de a este rcipcilo. .^ Lisboa 2í de agosto. com indivíduos porluguezes gummamenle suspeitosos. entendeu que não eslava seguro em Portugal. G'J v. o anno de 1823 estéril para elle. 262. e o ministro teve de zer-se depois a um caudilho da liberdade para tornar forte sua opposição ao governo. das quaes aprepenlou duas : e sendo o sobredito por si mesmo assas suspe loso.indo na consideraçilo devida esta minha ponderaçilo s-e servirá communicar-me o que el rei nosso senhor determina 111. p. julpo dever ponderar a v. contente porque a estullici#i que elle chamava a sua guerra de Hespanha matara a nossa Constituição hespanhola restabelecendo o bestial Fernando vii. e o grande pintor Domingos António Sequeira. brandt. onde encontrou outros foragidos. pôde sor nociva ali á segurança publica. Mas fa- França comprehendeu o erro. ex.j> (Papeis da Intendência. de 1823. . que.» porém. XXII. havendo até trazido cartas. quando. sinhas de que em tempo de toda a concepção a litleraria. * em Sequeira. V. nilo obstante elle estar debaixo das \i-[:\fi da policia. lendo-se enthusiasmado pela revolução de 1820.) 2 Dictionaire hisiorico-artisiique du Portugal. João vi. fl.'"° e ex. Simão da Silva Ferraz de Uma e Cav/ro. A Edade Media inventou o fablieau do diabo pregador. por isso que estou convencido que a sua presença. a quem Baczynski compara com Ram1821. o nosso século viu a tradição á liberdade. seria conveniente faxcl o sair do reino. Eslava longe cadernos da sua viagem e a rever algumas odeCatullo. especialmente n'esla capital. por este acto da França expirara também a Constituição de vinte e dois a a um bocejo de D. tom. Castro.

sobre a sua pobre enxerga agita-se ao ouvir ler as novas que chegam da batalha de Alcacer-kibir. nas- ceu-lhe a paixão pelo bello. o pintor trabalhava para a Ex- posição de 1824. ^ Aqui celebrarás antigas glorias Da que foi nossa pátria. Garrett deveu bastante á communicaçâo com Sequeira. e Garrett começou a trabalhar também sobre o seu ideal de saudade. oh Sequeira D'essa terra maldita. o nobre pincel d3o polluido No louvor dos tyrannos. . . Sequeira obteve pela influencia com o Duque de Palmella o passaporte e refugiou-se em Paris. Por aquelle maninho priguiçoso Que foi terra de Lysia. Tu. que gal lhe fez reconhecer Portu- como um maninho 'priguiçoso. aconteceu aqui. Filho de Raphael. p. era O quadro que Sequeira pinuma composição simples e rembrandtesca: o poeta deitado. mas a ignominia humana da jornada de Villa Franca. A Com este asylo santo. 71.. illuslre. bem vindo sejas. que os louros de Vasco e de Campello Reverdecer fazias. o valor das tradições nacionaes para fundar sobre ellas a obra de arte. Garrett dedicou-lhe nma ode com a epigraphe de Virgílio: Fuge Hespanba 1823. de repente chega ao ponto em que se el- descreve a derrota do exercito portuguez e a morte de 1 Flores sem fructo. Onde cruciõcou a Liberdade Povo de ingraros aerVos. tava era a Morte de Camões. não litus em avariim! Bem vin<io sejas. e a segunda.166 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL depois de Ghateaubriand ter restaurado o absolutismo em uma derrota da liberdade como no Trocadero. N'estes versos de Garrett já se vê que duas ideias novas lhe revolucionaram a mente. a primeira foi o espectáculo da actividade que observava.

» — «Ohl A £ consolar-me? (exclama. > No peito a voz Ibe Gca . — Ao vate a caria entrega. lidão. xtiii.ALMEIDA GABBETT rei D. cei este No manuscripto do poema Camões. bem sabia concentrar todas essas tremenda em um único vulto. e tão alheio a taes barulhos. representando no íim do poema Camões também em um pobre leito: Voltastes ? Por aqui se vô que a mesma data ao quadro da Morte de Camões e ao * E que novas Me trazeis? — Tristes novas. . Ai. . . não iam por minha com tão afadigada vida. Da eternidade só a perde o impio e Deus virtude restam: consolae-vos . não sei eu como ainda são em 9 de junho de 18á4. Ibe manda Consolações.) Perdido tudo pois! . tristes. . Sebastião. > Catalogo dos Autographos. epistola fatal lhe cae. Saudoso e triste. por occupar e que distrahir o atribulado espirito. em quanto eu cá de Ião longe. e das mãos tremulas . e 167 possuído do dom prophetico da suprema li- angustia expira bemdizendo o céo por não sobreviver á berdade da sua mas o Final. se lè esta nota: «Comepoema em i3 de maio de 1824. cavalleiro. e em tanto desterro e so- o conservo. lettras dizem tudo. sonhava com as memorias de suas antigas venturas I» de 1824 é commum poema. mas a palria . Mas resignado e plácido. O quadro da agonias da hora Morte de Camões influenciou inevitavelmente sobre a imaginação de Garrett. . que dos cárceres De Fez a escreve. DVsta carta que vos trago Sabereis tudo. — Havre. Que coisas terra. De As allivio e de esperança :» Extinclo é tudo N'esta mansão de lagrimas e dores. pincel Que movinriento para um quadro! que tratava com mestria inexcedivel o Juizo pátria. Do Missionário era. Garrett pôe em palavras os traços de Sequeira. palavras de brandura. p.

que resuscitem. — «Pátria. e como se passara.° 264. Dcscripcao feita por Serrurs. O rosto do velho poeta n'este quadro é bello. D. arrebata muito além do ordinário. Depois d'estes rápidos versos que nos dão uma justa ideia da Moi'te de Camões do protentoso Sequeira. . o adormecido ecco da nossa antiga fama. bellesa poética. o Sequeira immortaUsava em Paris o seu nome e o da sua nação com o quadro magnifico que este anno passado de 1824 expoz no Louvre. humilde e desconhecido poeta. . despido de to- das as seduções da arte..— a verdade 1 e o pathetico.» ^ Podemos aíTirmar. Juntos morremos. ao menos. o assumpto é representado ílm. de quando em quando. em o qual pintou a mesma scena. as honras do Louvre ao Camões do sr. por entre a barba desgrenhada. Se- queira . Os ollios turvos para o céo levanta. not. No Correio francez. auxíMo do homem. n. e que muito lisongeia o meu pequenino amor próprio. que haja ainda portuguezes como o sr. descahidos e esquecidos como estamos. .168 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL £ de tamanho golpe amortecido loclina a frente. ao menos. E já no arranco extremo: . de 1826. Fecha languidameote os olhos tristes. Do leito. Este quadro. bem entendido. n. . avis- lam-se ainda os signaes da grandeza de alma.° 13.» E expirou co'a pátria. canto x. Emque o que lodos os pintores devem procu- rar. rabiscava estes versi- nhos para descrever os últimos momentos de Camões. tra- duzida na Carta. e o guerreiro valoroso. eu. esta tela encerra o com singelesa e energia. de 1824. Anciado o nobre conde se aproxima Ai! tarde vens. Valha^nos. que emquanto sr.» * A ceza: obra de Sequeira foi assim julgada pela imprensa fran- «Daremos . e os vestígios da organisação superior que fazia juntamente o grande poeta. Garrett escre- veu a seguinte nota: «Ê notável coincidência. Nos membros devorados pela velhice e miséria. 2 Poema Camões. Sequeira.

c os criticos do jaez de Manuel Pires. a ponto de adoçarem as suas saudasi des estudando os Luziadas. Verney e José Agos- tinho ultrajavam a epopéa da nacionalidade.ALMEIDA GARRETT 169 sentimento que suscitou ao assombroso pintor Sequeira o assumpto da Morte de Camões foi o mesmo que actuou mesmo em Garrett. onde fora em 16ii com o embaixador Francisco de Mello. o padre André Bayão. em 1640. era no estran- geiro que os portuguiezcs conheciam a profunda relação entre a pátria e Camões. depois que regressou de Paris. e que foi a occupação da sua vida. Em quanto na pátria Camões morria abandonado. e foi na ausência da pátria que adquiriu esse amor que empregou na revisão dos Luziadas em 1031. João o que levantou o grito da independência Pinto Ribeiro. que se desculpa da relação accidental entre essas duas maravilhas da arte portugueza. e em Domingos Bomtempo. emprebendia e publicava aos oitenta annos de edade outra versão latina dos Luziadas dedicada á nação portugueza. Durante a sua assistência em Paris. é que o Duque de Palmella se distrahia diz: em traduzir para verso írancez os Luziadas. commentava os Luziadas. animado pelos conselhos de alguns litteratos fiancezes mais «que havia encetado . da qual em 1806 no verdor da mocidade. em lOáá Frei Thomé de Faria. traduz tírrnbem para latim o poema dos Luziadas. Durante a sua ausência de Portugal. que estava por mestre de rhetorica em Roma. Esse sentimento que inspirou os três génios refugiados ao mesmo tempo em Paris vae-nos ser revelado pela historia. que ahi compoz a sua Missa de Hequiem dedicada a Camões. Os fados são por eloquentes: em i007. bispo de Targa. em IG2i. João Franco Barreto vae á restauração da Ba- hia. traduzia os Luziadas para latim. que estava extincta. é que Faria e Sousa se occupára na coordena- ção dos Commentarios da grande epopéa. na corte de Castella. que em 1644 estava na corte de Luiz xni. Frei Francisco de Santo Agostinho Macedo.

e depois das for- Campo de Santa Anna. em 4847. querida este livro é ah. as solteiras também.» me achava ligado de amisade. Jur. apparece o projecto de um 1 2 Garrett cíta-a Apud. Que em fria solidão conta dias e dias. p. eu penso.. Chateaubriand. N'esse mesmo anno de 1806. p.. que exprime O puro aíFecto meu. Sismondi. . £ E Hâo-de achal-o um abysmo a frivola invejosa. seriam Bouterweck. que o Morgado de Matheus fez a opulenta edição dos Luziadas. São cânticos de amor de O thema eterno sempre — ura ideal sublime. que íicam para tias a pupilla gentil. que nas suas obras fizeram sentir a importância moderna e o sentido actual da epopêa portugueza. es- timulado principalmente pelas solicitações de * Madame de Os litteratos que fortaleciam o Duque de Pal- mella no seu intento. lê-o com ternura. Nada tem de fictícia a chamma que o devora Um amor como o d'elle bas-de encontrar. o éden « o abysso. e os dois Schlegel. no seu poema. vão que peço anceios teus vehementes Para o grande Camões cm tanta desventura. que ha-de ser sempre uma maravilha da imprensa moderna. darás valor por isso . 203. Lê. senhora. 170 HISTORIA DO ROMAKTISMO EM PORTUGAL eminentes com os quaes Staèl . Byron escrevia essas mimosíssimas: Stanzas a uma joven acompanhando as Rimas de Camões. . N'este cas do mesmo anno o espirito nacio- nal agita-se contra o protectorado inglez. outra vez em Paris. um génio immenso. 240. que por pudor nada ousa. Em Não coisa alguma egualas esses pobres entes . i. . caral por ventura á dádiva.. mas foi longe de Portugal.^ Obras de Camões. A ode de Raynouard sobre Camões ' foi logo conhecida em Portugal. em Camões era em verdade um bardo. Mas nunca o infeliz destino seu. Ah.

que nâo foi levado a cabo por cansa má vontade dos governadores do reino na ausência de VI. e Garrett escrevia o seu poema. i.ALMEIDA GARRETT 171 monumento da a Camões. para communicarem aos extranhos entre quem viviam o seu senti» mento nacional. publica em 1820 as suas Memorias de Camões. . interpre- taram a epopêa de Camijes como a prova mais eloquente da sua doutrina philosopliica. Tudo conspirava para acordar na alma do exilado essa ideia poética em que o symbolo mais vivo da pátria se via concentrado em Camões. Todos os grandes creadores da nova phase doBomantismo. onde flzera a sua educa- ção musical. nenhum poeta excedia Camões na intuição poética das tradições nacionaes. Por tudo isto vemos. Em 1820 o primeiro compositor portuguez João Domin- gos Bomtempo. Baynouard. vivendo em Paris. Os Músicos portuguezes. 21. concluiu superiormente. a gloria de Camões. celebram em odes ou traduzindo os Luziadas.» escripta para a festa da inauguração do mallogrado monumento. publica a celebre Missa de Requiem aouvrage consacré à la memoire de Ca/nões. Inglaterra John em França. aíTirmando que depois de Homero. ao exemplificarem como a obra de arte é tanto mais bella e eterna quanto se funda sobre o caracter nacional. Schlegel. Balbi caracterisa Bomtempo de presentava talento extraordinário. Já no fim do século portuguezes Benito Caldeira e Henri- que Garcez traduziam para castelhano os Luziadas. como è que em 1823 também em Paris pintava o quadro da XVI os dois Morte de Camões. que os Luziadas suppriam uma litteratura inteira. amigo intimo de Garrett. p. Em Adamson. João Nâo é acaso esta serie de factos. t. Millié. Garrett não teve consciência de que obedecia mais a uma > Joaquim de Vasconcellos. * e era esse mesmo ta- lento que o fazia comprehender como o ideal da pátria se re- Sequeira em Camíjes. Thimoteo Lecussan Verdier. D.

nem Ferdinand Denis: «Depois de ter o bado. juntos com poema Moysés. tanto no espirito como na cadeira da Acade- mia. Lemercier. segundo vejo de outras obras suas. meu poemeto quasi aca- vi extractos de uma composição de Lemercier. nomes de cidades ou de reis serviam para titulos de poe- mas. que algum longe de analogia poderá ter com esta: é sobre Homero. a que allude Garrett. Por tanto as excentricidades e cstravagancias de Le- mercier notadas por Garrett. que pelos poemas de Lemercier. denotam-nos que o poeta emi- grado ainda tinha certos pontos de vista em que dominava É cçrto porém. Este paragrapho ó omisso no prologo de todas as edições do jiocma Camões. continuou a defender-se de não ter imitado Lemercier. viu Garrett que nem só os a personalidade arcadica de Jonio Duriense. (1801) que foram publicados com o revolucionário Atlântida em 18!á3. elle eslá ligado á nossa historia Hlteraria pelo seu bello é heroe o drama em que grande revolucionário de 1640. e que nenhuma luz podia dar-me no meu intento. a e Alexandre. que nem procurei lêl-a. e que a característica do heroe consistia na individualidade. cuidava que a concepção do poema Camões era puramente pessoal e não uma consequência das novas ideias litterarias que viu rea- 1 Catalogo dos Autograplws. a prova em que depois de defender a originalidade do poema Camões das reminiscências do quadro de Sequeira. em quatro cantos. sei todavia que o seu plano é diverso. xix. porque confessando que não acceitava o Romantismo.» * A obra de Lemercier. Garrett defendia a sua originalidade. Lemercier foi um da litteratura moderna.172 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL corrente lilteraria do que a está um affecto patriótico. a quem succedeu Victor Hugo Pinto. p. . Porém é tão excêntrico e extravagante em suas coisas e modo o tal Mr. são os ex- tractos dos poemas sobre Homero.

» - A causa d'estes equívocos enconlra-se no estado intelleclual que estas palavras de Garrett descobrem: «Não sou clássico nem romântico. Garrett escreve mais tarde. Deixo a ou- o cuidado de decidir acerca do mérito da obra. litteratiira. tive eu a honra de lèr o meu episodio em presença de uma numerosa assembléa. o auctor confessa. que mais outra vez defende a sua originalidade da prioridade de um tra- balho do benemérito Ferdinand Denis intitulado: de la natiire sur Poesie. em casa de M. íiz meu poema Ca- a semsaboria de a me pôr a dar explicações sição em como sr. publicado em Pa- em 1824. caoto ix. suivie ris les Scènes tropiqucs. que entendendo pro- vavelm. que lambem tem merecido da nossa las. o seu trabalho estava composto. nem a vira antes de publicar a minha. um dos professores do Collegio de França. Dois annos antes. Ferdinand Denis: «Lemmezes depois da publicação das Scenas da Natureza sob os trópicos. seoíTendeu d'el- Peço-lhe aqui solemne desculpa. et de leur injluence sur la et de— Camões Joseph índio. arrependido das suas reclamações: «Na primeira edicâo do mõeSf que é doesse anno. aquelle escriptor. não tenho seita nem partido sim como em coisa nenhuma. escrevia Mr. e declaro a minha con- vicção intima de que. appareceu um por- em tugaez tros um poema anonymo intitulado Camões. Camões. oot. mas que seis mezes antes. o * mesmo estou certo que lhe acontecesse. assim como eu não sabia de sua obra.ente mal as minhas palavras. p.» brarei aqui. e por isso em poesia. nâo tinha nada minha compo- com a do Denis. nas quaes se acha episodio sobre a vida do grande poeta. 610. Consta-me. asme deixo ir por 1 Poema Op. Thurot.. Foi por causa d'islo. I. que appareceu só depois de mim.ALMEIDA OABRETT lisadas 173 em volta de si. 2 cit. é verdade. que ^ois No Uesumô de VHistoire Litteraire du Portugal. de I82G. .

a matéria. implora-se Caiiope. o assumpto o mais poético.» ^ a força do amor.174 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL onde les. procura Universidade de Coimbra. xx. O que o temos criptos era o poema Camões xvii tratado por um clássico. ó illuminado das Sciencias. e a verdade atacava as falsas macaqueações das obras da antiguidade. tanto d'aquelles em politica como em decisivos Utteratura es- tava-se n'um de momentos em que todo o homem bem linha fatalmente de ter uma opinião e de a sustentar. mostra-se Camões vaticinado faz-se Concilio no Pindo para sahir á luz. referem-se os amores que teve com uma do dama do paço. Sahe Camões a á luz e celebra-se o seu nascimento. que se Sciencias. — Canto u. origerjj toda A écloga Cintra. volve para Lisboa. Trocar a vida real pela vazia alle- goria mythologica. 2 Academia das Sciencias (G. e nem procuro converter as dos outros. ahi bem claro n'esses dois cantos em oitava rima. es- no fim do século por Manuel Lopes Franco. pondera-se seu desterro.) . Garrett começou por tirar 1 Catalogo dos Autographcs. a liberdade obrigava o absolutismo a fazer con- cessões. etc. . guardam entre os Manuscriptos da Academia das basta lêr os argumentos: «Canto falla-se i. E. descreve-se a delerminação. Mas vejamos agora como Garrett foi arrebatado inconscientemente pelo romantismo. 4.» me * levam minhas ideias boas ou más. como as desgraças generosas de Camões. Expõe-se com o heroe que se celebra. 21 . O poema Camões. Part. exprime um novo estado do sentimento. 5 . p. só serviu para oitavas e éclogas banaes. o sentimento natural pelo molde já auctorisado. nem inverter as minhas nas d'el- Em 1825. em que Faria e Sousa con- centrou todas as situações da vida do grande épico é tam- bém uma obra clássica. por um processo assim. a linguagem de dentro pelo epitlielo rhelorico.

os artistas não. Como o subtil Aríel. Que as tranças d'ouro penteando ao vento. em que Garrett allude á impressão receelle bida das obras de Walter Scott e de Shakespeare. — Canta as canções dos tempos que passaram Ao som da harpa invisível.» ' Encantado N'estes' versos. — fallei aos ecoo? Das ruínas a lingua consagrada Perfiz solemnemente Dos menestréis. O poema * Camões. procurava Áureas ficções realisar dos bardos. era a uma espécie de guarda-roupa da Edade Media e não con- tinuação d'essa lucta dos dialectos que procuraram fazer-se valer contra o uso exclusivo do latim clássico. as aérias Vagas formas da virgem de alvas roupas. .ALMEIDA GARRETT a inspiração 175 Olhou em do meio e das circumstancias que o tocavam. A alma enlevada Nos romaniicos sonhos. Todo o rito. Os críticos comprehenderam muito cedo esta verdade his- tórica. vn. se vé a concepção exterior que formava do Romantismo. que lhe tangera Os domados espíritos que a servem. se a sciencia da historia não viesse cor- roborar a aspiração ao natural. peregrino Nas solidões do exílio fui senlar-me Na barbacan ruinosa dos caslellos A £ conversar co'as pedras solitárias. por invisivel feitiço. volta de si. Errante Eu Pela terra eitrangeira. e agora continuar essa lucta na expressão livre do sentimento moderno. Murmurei os tremendos esconjures Do Scaldo sabedor. como escreve Garrett em uma nota Poema Camões^ c. e teriam inutilisado o problema no ultra-romantismo. em vez de correr atrás dos Faunos: vi sobre as cumíádas das montanhas D'Albion soberba as torres elevadas Inda feudaes memorias recordando Dos Brilòes semibarbaros. invoquei firme e sem medo Os génios mysteriosos. a perguntar ás obras da milo do homem Pelo bomem que as ergueu.

eu lidando no proscriptos. sem remorso do passado. elle trabalhando no seu Sallustio. mas ambos resi<. J. indo-o acabar no inverno de !8i24 1825. encetada Didot. e viveu sempre no estrangeiro como cônsul portuguez. ede amado uma latina. passávamos com os pés cosidos no fogo. estabelecido era Ilamburgo com 2 Obras do Camões. de Hamburgo. p. D. uma ediem 1820 na casa foi mas que não 2 foi por diante. «n'uma agua-fiirtada da rua Coq-St. D. José Ribeiro dos Santos. influiu n'essa parte do poema em que ter Garrett acceita a errada tradição de ter sido o grande épico perseguido pelo Conde da Castanheira. na a Paris margem a direita do Sena. o estudo critico de Barreto Feio para a biogra- phia de Camões. nol. e com esperanças largas no futuro. V. que não é a fdha de D. xsii. Reíerimo-nos a José Gomes Monteiro. em Hamburgo fez elle apaixonar um negociante portuguez de secos e molhados pela reprodução suia o segredo de produzir enthusiasmo pelos nossos do theatro de Gil Vicente! ^ A amisade de Barreto Feio e 1 Ibxd. 3 . Estes dois negociantes foram escriptores e merecem aqui uma indicação biograpbica. de 1831. António pos- de Lima. apesar da sua erudição monumentos nacionaes. emigrando para Inglaterra. i. I. auxiliindo com os dinheiros da casa as edições de Camões e de Gil Vicente emprehendidas por Barreto Feio. tido. D'ali partiu para Hamburgo onde cbcgou a associar-ee com o cônsul e negociante porluguei José Ribeiro dos Santos. Catherina de Athayde.mados ao presente. o d'elle resta um Tratado consular. regressar a Portugal. Ed. n'este tempo estudava na Bibliothèque meu Camões. Barreto Feio. que por occasiâo do assassinato dos lentes de Coimbra em 1828..176 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL aulobiographica. nasceu em >4lla Nova de Gaia em 1798. abandonou o terceiro anno jurídico da Universidade.» A amisade de Barreto Feio teve uma decidida influencia sobre a creaçâo do poema Camões. ambos pobres.-Honoré. Barreto Feio. c. eu e o meu velho amigo o sr. ambos Royal o exemplar da edição de 1572 para fazer ção critica das obras do poeta. * foi quasi lodo composto no verão de 1824 em IngonvJIle ao pè do Havre de Grace. t. porque lhe permit- em virtude de novas alterações politicas.

tendo por esse motivo do defender uma tradução portugueza do Fausto feita por Castilho. No cemitério do Père Lachaise se encontravam junto da sepultura de triado. tem logia uma certa ana- com a digressão de Lacurne de Sainte Pelaye e do Itália. o poeta Filinto uma poderosa casa commercial de secos e molhados. mas não tem o menor merecimento.de Gil Vicente e de Camões. que chegámos a vêr. n. Eccos da l. que mereceu ser historiada em um livro por um escriptor allcmão que o acompanhava. ao passo que Garrett compenetrava-se do espirito da nossa epopèa nacional. Dizia possuir bastantes cartas de Garrett. a 13 de fevereiro de 1842. 130. voltou ao Porto. Gomes Monteiro pecuniária. pelo iAIorgado em Paris em de Matheus. e ao receber em Angola esta noticia.xa de poesias allemãs. era 1807 entrou aos dezeannos para os cursos de leis e cânones da IJoiversidade. o opulento editor dos Lu- ziadas. A. Coll. Feio an- Sallusíio. emprebendeu uma expe- dição scientiQca e commercial á Africa. 12 . i8-24.yra tcutonica. uma Carta a Thomaz Northon sobro a Situarão da Ilha dos Amores.° Gama. fugindo de Portugal. Bibl. em 1828. e um volume inédito sobre a realidade historico-allcgorica da novella do Amadis Gaula. depois da fallencia de Hamburgo. presidente de Brosses na como de Brosses. A publicação da versão critica portugueza das celebres Cartas amorosas de Marianna Alcoforado. baseada sobro um critério errado. Os seus trabalhos litterarios re:umirara-se a uma tradução frou. e n'cste caso só eslava o erudito Barreto Feio n'e8sas edições foi . Attribue-se-lhe uma novella em prosa intitulada Crisfal e Maria.. res.ALMEIDA GARRETT 177 de Garrett n'estc período da emigração. morreu fulminado a bordo do seu navio Vasco da 27 de José Janeiro. era um lacto que contribuía para acordar nos emi- grados o sentimento nacional. a sua biographia no 13. Foi nos Uns da sua vida gerente da livraria More. Do trabalho sobre os Luziadas falia Garrett referindo se a Barreto Feio no trabalho sobre Gil Vicente o auctor allude a outros escriptos anterioseis . um outro expa- mas pelo intoleranlismo religioso. de jornaes.) Gomes Monteiro nascera também no Porto. Falde leccu a 12 do julho de 1870. como Lacurne desenterrava dos velhos archivos dava preoccupado com o estudo do seu as Gestas francezas. (Vid. Josc uma como compensação por tanto o nome de José á sua coadjuvação Gomes Monteiro. : Nacion. Não tinha a illustração sufficienle para cooperar nas ediçõc. como já dissemos. Na sua ausência. na época em que cilas appareceram. de ISíá. por José Feliciano de Castilho. onde exerceu algum tenppo o cargo de recebedor de fazenda no bairro de Cedofeita. acabada Hamburgo suspendeu pagamentos com um passivo de mais de duzentos contos de réis. Porto. que em outro logar apreciámos.

me atrasavam com benigna . Garrett trabalha sobre dois factos que a vida de ministra: a Camões chegada a Portugal em 1570 depois de dezesete annos de ausência. anoa á custa de António Joaquim Freire Marreco. Entre estes dois extremos. As condições particulares em que Garrett escrevia. gia. amigo de Camões. . adoas agruras do desterro fazendo investigações nas bi- çavam nários ali bliothecas de Paris e Londres para copiarem os extraordi- monumentos da litteratura e da historia de Portugal archivados. . que lhe dá o movimento subjectivo de uma longa ode.. que ella tinha ção começa com a chegada do galeão. A ti minhas endeixas mal cantadas. em Garrett chama: Certo amigo na aiifíuslia. Garrett preferiu inventar todas as situações do poema. O poema Camões nymamente. o jáo. e a sua morte depois do desastre de Alcacer-kibir. que a vida Adoçaste o amargor. recolheu-se na estéril contemplação em de vez de procurar a realidade para ver o ideal. entram no escaler os passageiros. em vez de seguir a marcha natural do poema. Camões e um missionário. 178 Elysio. era António. Sigamos a marcha do poema: a em que o poeta acre- gressa. qi publicou-se em 1825. . Como o fez elle? A sua ten- dência lyrica o explica melancholica. mSTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL que Lamartine celebrara em uma sentidíssima ele- Outros. António Nunes de Carvalho. im- primiram no poema Camões um tom elegíaco tâo constante. Quando o escaler larga. e Dextra cravaste a roda do infortúnio Cravo que o gyro bárbaro Ibe empeça. em Paris. Esta realidade excede toda a poesia. O poeta insta com o . é que se notam os choros de um escravo que ficara a bordo. ao porto de Lisboa. como o Dr. A sua feição lyrica obríga-o a divagar nas descripções. que aos tormentos Mirradore?. que lhe é narrativa.

Ca- mões dá alguns pardáos ao jáo para procurar albergue. cada qual se dispersa. é convidado pelo mis- sionário para pernoitar no mosteiro da sua ordem. apesar de toda a sua elevação O canto II do poema Camões é theatral. apesar de estar enfraquecida a immensa mortandade da chamada Paste qrande de 15G9. Não tem recursos épi- cos. (ímuito velha e muito pobre. Lisboa estava quasi deserta. Ê esta a diminutissima acção do primeiro canto.ALMEIDA OARBETT 179 mestre para que atraque de novo para tomar o seu escravo. que o poeta pergunta mesmo se desembarcou em Lisboa. E comtudo a rea- lidade histórica excede a maior epopêa: á pátria. seguem-se bravatas entre ambos. e o missionário intervém com a sua doçura e consegue que o escravo seja trazido para terra. e com gritos fervorosos e resas hallucinadas. todo dispendido em elTusões lyricas. e quasi vista de Lisboa. Pelas ruas marchavam lugubremente. mas o missionário não o consente. e Camões embrenhando-se pela cidade com o escravo ao acaso. e as portas da cidade estavam guardadas pelos honrados da terra para que não entrasse nin- guém doente. » Tal é o bello canto que a realidade histórica nos revela ter sido este momento da vida de Camões. e vão todos caminho do mosteiro. arrastado a si um inexplicável sabbath. o seu grande amigo e poeta. lyrica. é falsa a scena do desembarque. O canto de Gar- rett é ténue e descolorido. É entre esse ruido que Caé entre esse tropel mões desembarca. crú o abandono do jáo na cidade para elle desconhecida. por medonho. o valente Heitor da Silveira. e vae ao acaso a ver' se descobre a antiga casa humilde de seus pães no bairro da Mouraria. é um doestes qua- . depois Camões chegava á de ter perdido no mar. Os passageiros chegara a terra. as procissões de penitencia e de acção de graças. onde encontra ainda viva sua mãe. o mestre alterca.

porque lhe tava o apoio histórico. Catherina de Athayde era morta. e o poeta cae sem sentidos em terra. ais carpidos.. e desde Camões chegava á pátria em 1570. Quando os três se dirigiam para o mosteiro. A grinalda que Ophelia tecia ao cair na corrente. amorta- em vestes cândidas. Póde-se imitar uma vez scena d'estas. e Garrett falias em de dar aos seus personagens essas que são relâmfal- pagos da consciência. encon- tra viva sua velha e pobre mãe D. O é sabido.» É então que Hamlet cae em um mysterioso accesso de fúria. Garrett pairava no vago da imaginação. tem a liberdade do anachronismo. as aíílições de quarenta mil irmãos todas juntas não egualavam a minha. é essa que aqui rola da cabeça de Natércia e vera cair aos pés de Camões. Natércia! Os eccos do templo repetem o nome de Natércia. o filho tam- 1 Hamlet. resente-se das impres- sões que em Inglaterra recebera Garrett ao vêr represen- tar as tragedias de Shakespeare. Hamlet vê aproximar-se um saimento rico e apparaloso. como Hamlet no vêr cemitério. mas não é descrevendo. ouvem dobre de sinos. vae para ver lhada uma gri- vem cair a seus pés. e brandões fu- néreos rompem a escuridade da noite. como 1556 que D. Anna de Sá. caracter theatral doeste canto. . é uma donzella.180 HISTORIA DO BOMÁNTISMO EM PORTUGAL dros de libretto. limitou-se ao verso descriptivo.. O jáo toma como máo agouro o encontro do saimento. desprende-se do cadáver ma-se. Camões aproxiquem seja. Camões entra em Lisboa. confunde-se na multidão para quem era. acto v. poeta. «Ah! a minha * bella Ophelia! Eu amava Ophelia. mas aqui a realidade uUnipassa em bellesa todos os artiíi- cios da imaginação: Caniõ(3s ao chegar a Lisboa. nalda de rosas que Camões por um precom um movimenta desencontrado do féretro. sentimento aziago entra no mosteiro.

e em contemplação junto á se- foi ali que o génio da pátria lhe ali inspirou a empreza que encheu a sua vida. os seus desalentos. e mal tem onde recolher o bom António. No canto si do poema então que Camões. o poeta volta a e acha-se recolhido na cella do com o jáo velando-lhe cuidadoso. era da formosíssima D. falia. A e mâe conta-lhe os longos terrores da peste grande. Narra-lhe os com- €ontar-lhe o motivo do seu bates em Ceuta e no Estreito. que o convida para comparecer como em uma dada iv. o escravo jáo. um thesouro eterno. através de todos os accidentes ino- pinados da sorte que ziadas. lh'o quiz tirar. João m. narra-lhe os naufrágios como no meio de todos índia os desastres esperava trazer da para a sua pátria o maior thesouro. É o poema dos Lu- A boa mãe sorri-se amargamente d'aquella alma e imaginativa. hora e em um dado sitio em Cin- No canto prosegue a narração até chegar á historia dos seus amores com Natércia. o ter- de D. como perdeu um olho baten- do-se contra os piratas e defendendo seu pae. Dias depois sempre generosa Camões recebe um bilhete de uma dama do paço. interrompe-o leriosa e cavalleiro tra. Quando ia n'esta parte da nar- ração. A casa é humilde. Foi a primeira ideia que teve do poema. recolhe-se pultura de D. um mensageiro com uma carta mysanonyma. É o missionário lhe e Camões reconhecido promette desmaio. Francisca de Aragão. O que ni será? Mas deixemos proseguirmos na missionário. e o poeta e prisões. Tral-o comsigo. pensando em merecel-a entra no Mosteiro de Belém. para ficção de Garrett. Volta á corte e apaixona-se por uma rível valido filha do Conde da Castanheira. conhece a letlra. que nos tempos em que frequentava a corte lhe pedia versos.ALMEIDA GARRETT 181 bem se lhe apresenta pobre e exhaiislo de forças pelos ru- des trabalhos da guerra e dos mares. Manuel. este elenco rigorosamente histórico. e como ella mesmo lhe pe- .

e o menos acção apre- que é mais lido e repetido. Camões vae a Cin- tra. lhe confiou á sua guarda o deposito da Divina Come- dia. Ê no meio d'este desalento. entrega o seu lli'o poema ao missionário para foi guardar. Aleixo de Menezes conseguir do joven monarcha uma audiência ao poeta para lhe ler os Luziadas. soídão quetristesa. e como está finalmente na pátria tendo realisado a obra do seu pensa- mento. Camões perde aqui o seu typo enérgico da lucta e declama como um scismador melancholico. as passadas illusões. a viagem tempestuosa. dizendo que lhe obteve uma audiência de el-rei D. O canto VI é uma longa divagação descriptiva baseada em emoções da historia de Portugal. Sebastião: — tMas Vim por elle e por vós . Quem entre os goivos le esfolbou da campa? Depois de rida. Antes de partir para o praso mysterioso de Cintra. quando desterrado de Florença entrou no Mosteiro de Santa Croce-del-Corvo. e todos os sitios recordam as horas dos seus amores. é este canto o que senta. consolando-o. o livro? t corte commigo o trouxe. O . mas vendo ao mesmo tempo o naufrágio de todas as siias esperanças. exalta onde o poeta passou doces horas de Cintra. uma prosopopea á gruta de Macáo. como estancia amena e throno da vecejante primavera.182 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL diu que fosse engrandecer-se nas armas. Esta situação faz lembrar. talvez sus- citada pelo episodio da vida de Dante. o desterro de Macáo. rosa purpúrea e bella. narra a partida. e depois de ter ali encontrado a paz no bom prior Fra Hi- lário. ou. a acção resume-se no empenho de D. principalmente pelo retornello: Rosa de amor. O canto V é todo subjectivo e elegiaco. que o interrompe a voz do missionário.

vem-lhe o tédio . que d'Arlincourt era a segunda celebridade da Europa depois de Walter Scott. as forças alquebram-se-lhe. Camões restitue-lhe o retrato. e pede ao poeia que torne a vèl-o. onde já corre entre doutos e indoutos o seu livro. nam-se choram juntos o objecto que ambos amaram. narra-se a falsa tradição da morte de Bernardim Ribeiro divagando e é n'estas alturas solitário na serra de Cintra. que pede esmola. nâo sabe como reconhecer esse prodigio. que se torna a frente eíTectiva a carta mysleriosa: Camões vé-se Xrente clara seu inimigo e qlie o com um Conde. o Conde declara que não pôde erguer ferro para o homem que foi amado pela mulher que elle adorou. Aleixo de Menezes fluencia na corte. e de honra é perfeitamente á dArlincourt. e Camões despede-se sobre a praia do missionário que se tornara o seu maior amigo. O canto ix é egualmente pobre de acção: o rei íica maravilhado com os Luziadas. que se deodeia como rival! Quando Ca- mões ia para cruzar a espada. á d'Arlincourt. sem outro movimento. Diante de tamanho ca- valheirismo. D. vê-se a faina da partida já não tem indo exercito para Africa. o dizemos. Camões sae. descreve a anciedade dos pretendentes. porque em 1827 Garrett escrevia no Chronista. a minuciosamente pondo em verso a sum- ma e dos cantos dos Liiziadas. Esta ideia do legado ali em convicta amisade.ALMEIDA GARKETT 183 canto VII é uma effusão lyrica sobre o bon vieux temps. O canto vuí enclie-se com este mesmo processo. que o convidou para vir ali paia lhe entregar o retraio de Natércia. porque é um legado de honra os ódios tor- que ella lhe pediu antes de morrer. Depois da partida da expedição. e como o monarcha e a corte vão ouvir lêr o leitura é narrada poema em uma gruta de Cintra. com um ou outro centão mais pittoresco. era que Garrett esboça os sentimentos do romantismo. No canto x descreve-se Camões na mais atroz indigência. o poeta caminha com o seu escravo António. Camões volta a Lisboa.

ratificação A verdadeira obra do génio é a que resiste á do sentir de cada individuo e de cada época.) Depois de ter feito notar a deficiência de acção no criticar a tragedia poema Camões. perde a sua grandeza. e ligadas por um interesse scenico. Este lance sublime na verdade da tra- dição histórica. con- tivesse propagado o ideal da pátria. o amor da pátria. se chamava o chauvinismo. Mas não. está aqui apoucado ás molas theatraes. È n'esta situação que um mensageiro o procura. n'esta mesma época dos Românticos. O poema Camões é só isto.184 HISTORIA DO-ROMANTISMO EM PORTUGAL da vida e adoece. torna-se convencional e recortado. se O seu in- por veníura o poema direcção errada. tuito nacional tornal-o-ia sagrado. intercortadas por poucos diálogos. e cacer-kibir. a tradição nacional. Tudo o mais é obra de occasião. e uma carta do em que lhe missionário. levou uma verteu-se n'isso que em França. dizendo que — ao menos morre com a pátria. n'este plano um accidente na historia da in- secundado. o poema Camões é do melhor que entre nós produziu o Romantismo. que lhe traz Fez. que têm dominado as novas opiniões até religioso de hoje. nos surprehendemos da differença que vae do nosso pasmo 4859 á nossa ratificação presente das antigas impressões. era . Francisca de Aragão. p. apresentando as condições vitaes para uma outra idealisação. Interrompemo-nos no momento em que o poeta recebe a carta de D. façamos como Fauriel ao de Car- magnola de Manzoni. (Vid. para dar um certo movimento á descripção e encobrir a immobilidade da acção. com versos frequentissimamente quebrados nos seus hemistychios. telligencia. Camões ouve quando chega ao ponto cul- minante da catastrophe expira. é como uma serie de odes de Philinto. que está no captiveiro de conta os pormenores da derrota de Allêr. 80. Os juízos Htterarios que existem sobre este poema são ainda Nós mesmo as primeiras impressões produzidas pelas leituras de 4825. que fora outr'ora seu inimigo. é o Conde.

agrupam-se em volta d'elle to- dos os que seguiam o partido da independência nacional. É isto o que dá o simples esqueleto da historia com leves «lodificações que pertencem á Uberdade artística. emquanlo o poeta o ia revendo. a Camões para escrever a epopêa do futuro triumpho. lhe dissesse que sem- pre o tinha amado. como se conta também de Miguel Angelo. a sua morte hade perturbar para sempre aquelle triumpho. Fhilippe u ao entrar triumphante em Portugal. engrandecel-o. disseram-lhe que morrera proclamando que acompanhava a pátria. sa- bendo da sua intimidade com D. é o poeta que vella á sua cabeceira. D. que lhe ouvira antes delia morrer no paço: que se um dia Gamões voltasse á pátria. Vencidas âs delongas do Santo Olíicio. Camões recolhe-se dilacerado e adoece. D. e que o seu amor a matava. e é então que o poeta expira para não ver a pátria escrava. Bernardes é preferido kibir. Esta se- . Francisca de Aragão. Manuel de Portugal encontra-o e acompanha-o. João iii. quer ver Ca- mões. elle e despresando todes os outros illustre Camões cumpre o mandado da dama. Catherina de Athayde. Quando Camões dá pelo roubo. pensando que lhe subtraiam os Luziadas. e decidida a expedição de Africa. ap- parecem os Luziadas. reata a antiga amisade e promette aprescntal-o a D. Emijuanlo o poeta está doente visitam-no os seus antigos inimigos disfarçados e roubamllie o Panmsso. Mas o exercito de Philippe ii caminha sobre Portugal. ergue-se a custo e caminha trémulo para o paço: ia offcrecer o seu poema ao rei para o salvaguardar. Sebastião para dedicar-lhe o poema.ALMEIDA GARRETT esta 185 dama formosíssima e princeza a que mais distirignira Camões na época em que floresceu na corte de D. o jáo cae doente de nostalgia. Manuel de Portugal. pedindo versos somente a poetas. As intrigas trabalham contra o poeta. Chegada a noticia da derrota de Alcacer- Camões cae doente. era para communicar-lhe algumas palavras de D. Morrera como Sadi.

fallando dos annos da emigração. ouvrage orne du fortrait di Garrett. a poesia é real. muito que quem de nossas le- gendas e velhas historias e tradições fizesse o que tem feito Inglezes e Allemães. me quebrava a saúde e destemperava mais os nervos.v 221. do canto i. tão mesma distracção de escrever. Branca interessante. como indicação hygienica. escreve Garrett: «Passei ali cerca de dois annos da minha primeira emigração. Paris. que fiz. . seguidamente e sem interrupção.'^de xr. * A historia convence-nos de uma realidade. É uma ediçio primorissima. e não os Adolphos e um que apathico e melancholico scismador. avec une inlroduction et notes par Henri Faure. . ' . A linguagem em prosa dá um grande re1 titulo : — levo á sensiblerie du época 2 Nol. desde julho até outubro ção d'esse anno de 1824. em recordor as desgraças do nosso grande génio. Fui obrigado a interromper o meu só e tão consummido.186 ria a acção HISTORIA DO BOMANTISHO EM PORTUGAL verdadeiramente epica do elle foi um poema como sobre Ca- mões. puêmc traduit du portuyais. Branca. esta sua feição poética não é menos bem a conhecer temos algumas notas au- tobiographicas publicadas pelo actual possuidor do Catalogo dos Autographos de Garrett. e que o ideal é a generali- dade do A melancholia vaga do typo de Camões de Garrett ex- plicase também pela relação intima da obra com o auctor. 1880. eis a parte essencial: uma «Agora las em linguagem chã e corrente: lembra-se d'aquel- nossas conversas sobre antigualhas portuguezas e o d'ellas se podia aproveitar. que é. que a o mesmo triste gosto que achava trabalho: e dei-me. com o Camões. São os fragmentos de carta a Duarte Lessa. vestil-as dos adornos poéticos Acaba de publicarse em Paris unia tradução em prosa do poema. io 8.» - No poema de D. porque épico na sua individualidade. Essa foi a origem de D. D. completando-a antes do Camões. em que Garrett escreveu. a composimenos grave. os Obermans do Romantismo. Para já Garrett teve em vista imitar o digressivo byroniano.

(e já de mais tempo me geito fervia isto na cabeça) não fiz senão pensar no se com que me haveria para armar assim uma coisa que parecesse. Branca é porpersonagem histórico. e que pelas nossas. «Acertou de vir ás minhas mãos um livro portuguez. e sibilidade poética. . Branca. Hespanha do qual Com esta infante teve amores ura cavalleiro pariu um filho . que não em também a caçada e fatal combate das Antas. mas que de longe. e ao pé logo.. rei mestre de Santiago. e lendo e escrevinhando. a historia da infante D. «Deu-me no goto esta historia. com tanta coisa boa que por cá ha por estas terras de Christo.esínhos estava repartido. meu achacom a relação concisas da conquista do Algarve. cujo reino pareceu demadias. deparei na Chronica de D. donde foi h o mais nobre e mais rico mosteiro de freiras que ha em . . D. assentei de a ligar como lhe não vi imposcom a conquista do disputo. e não menos o são D. se esperdiçam e andam a monte por desacerto de leltrados e barbaridade de ignorantes. ALMEIDA GARKETT 187 e sacadir-lhes a poeira do esquecimento cora assisada escolha e apropriado modo? Pois desde então. . me- «Ora tanto eis ahi um o argumento e origem. que entre diversos reisinhos e princip. mormente em nossos que muito maiores as estamos vendo. íilha daquelle rei mandada para abbadeça do mosteiro de Holgas de Burgos. . me deitei a ellas como esfaimado. Payo. Eram as Chronicas de Duarte Nunes: apesar de hdas e relidas. de tão ricos que somos. Nem me siada Hcença poética. e muito Algarve. . eu por todo o Algarve. dilatei de Silves. «Histórica é em boa prosa. romance. . . e verso. em mui — que palavras. que para mim foi achado aqui já . e Aben-Afan. AÍTonso ni. segundo é que. . . porque de nomes não nos de nomes dos meus rapazes. e fazer d'ahi poema. que foi senhora do mosteiro de Lorvão. ou o que mais quei- ram chamar-lhe.

ou antes de A concepção do poema saiu de uma leium paragrapho da Ghronica de D. mas é pura verdade. so in de Duarte Nunes é pôr mas tratar uma tradição nacional não em verso o que está na prosa ingénua dos chroni- cons. na Domingos.188 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL em que ficaram mortos os seis cavalleiros de Santiago e o mercador Garcia Rodrigues. Affon. que servem de fundamento ás que imaginei: finalmente sua milagrosa conHistoria de S.» Á parte este estylo da graça portugueza. se os chronistas. A ida da rainha D. e muito tas lendas. se os poetas. Deus sabe quem mais mente. . las. feiticeiros e en* cantadores. e uns por outros. nem se deixavam insultar de cavalleiros com medo de fanfarronadas ou calotear de senhoras a troco de cortezias. . nos refere miudamente suas feiticerias. menos phantasiar á vontade tecendo suppos- A arte interpreta as tradições nacionaes inspi- 1 Catalogo dos Autographos. Por ventura haverá ahi quem ache este caso ainda mais poético. a Gastella para a concessão rica. p. tal qual a conta Duarte Nunes. pacto com o diabo. . tura. os seus elementos tradicionaes e poéticos e a intenção do auctor. Branca. sabiam tanto do covado como da espada. Frei Luiz de Sousa. no que diz a Ghronica. po- rém metti-lh'as eu. até as brucharias de Frei Gil não são fabu- pelo menos da minha cabeça. versão e exemplar penitencia. bruxos. defendendo-se até á ultima como homens que eram. Beatriz do Algarve é igualmente históe emfim. que ainda se prende com os dichotes de António José. mi- nha casa. e mais coisas. que os nossos mercadores d'aquelle tempo. os fragmentos da carta a Duarte Lessa deixam-nos claro a origem do poema I). que Deus permitia sirva de exemplo a todos os nicromantes. «Não ha lá princezas mouras. xxii. e bem o creio eu. que também sou chronista em .

Sancho n. em França o tinham aprendido. res Com esta infante teve amoa ver- um cavalleiro . essas lendas ter- 1 2 Carta Trovadores gakcio-portuguezeSy p. AlTonso iii: «Avia otras (obras) de cl qual. ao Condestavel. ^ Como prolida por amores de vámos no estudo da escola provençal portugueza. Com a tendência lyrica de Garrett. com o exemplo recente do Conde de Champngne por Branca de Casiella. restituindo-lhes a vida primitiva. trovador da corte de D. se dice aver muerto en Gauna infanta de Portugal. essas remotas allegorias á dama dos seus pensamentos e occultando sempre o seu nome. Que mundo de sentimentos se lhe revelava só n'esta palavra trovador! Esses receios e segredos do na- morado. ^ João Johan Soares de Pavia yy Soares de Paiva é esse trovador da corte de D. encontramos essas notáveis palavras do Marquez de Santillana acerca de João Soares de Paiva. . . era preciso esludal-a antes de interpretal-a. como o compositor que no repente melomanico submette ao contraponto as rubricas da opera. Para que inventar uns amores com o mouro Aben-Afan? Na corte de AíTonso ni estava em moda ali o gosto poético provençalesco da corte de S. . § xv. mais verdadeiro. em que consiste o vinculo mais forte da na- Era assim que Oelensgleger e Rúkert trataram as tradições suecas e germânicas. fazendo-nos solidários com o pas- sado. as suas cores. 101 c 102. que é cionalidade. I)'aqui saia completamente toda dade e toda a vida da tradição. mais nacional. Garrett leu essas linhas maliciosas da Chronica e pul-as em verso á sua guisa. Luiz. AÍTonso nr. Eram estes tro- vadores os que se apaixonavam pelas princezas.ALMEIDA GAREETT 189 rando-se d'ellas. Vendo com esta luz a tradição portugueza. Branca. interessando-nos. que apren- deram a imitar os fidalgos por occasiâo das luclas que se refugiaram em França com D. era este um melhor pro- togonista para o poema de D.

;

190
riveis

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

como da dama de Fayel ou de Cabestaing;
;

esses votos

denodados

emfim todas

as aventuras da terra santa e das
Ilhas

biographias do

Monge das

de Ouro

!

Este é que seria
iii,

o poema nacional, do tempo de D. Affonso
restituiria á vida

o que nos

uma

época e a tornaria conhecida e amada

fora do dominio da erudição. Ignorando esta reahdado poética,

Garrett estragou as tradições épicas da conquista do

Algarve
gida.

com
está

o syncretismo de

uma

imaginação mal

diri-

O

episodio de Frei Gil, o typo do nosso Fausto por-

tiiguez,

também mal

aproveitado no poema; Garrett
si

não comprehendeu esta lenda, que por

dava

um

bello e

grande poema, e

inutilisou-a

em um

episodio. Basta lem-

brarmo-nos de que o Fausto se perde irremediavelmente
nas lendas allemães, inglezas, francezas, italianas e hespanholas, e que se salva na tradição portugueza por interces-

são da Virgem, esse feminino eterno de Goethe,

com que

salva o Doutor pelo pantheismo da arle no fim do século xviii.

É

inútil dizer aqui

o

modo de

reconstruir sob a intelligen-

cia

da philosophia e da arte a tradição do Fausto portuguez

este titulo mostra até

que ponto Garrett não soube com*

prehendel-a. Levado ainda pelo respeito de Filinto,

e im-

pressionado pelo Oberon de Wieland, traduzido pelo foragido

do Santo

Oííicio,

imitou a procissão grotesca dos frades e

das nonas no cerimonial disciplinar da distribuição da pósla

de toucinho chamada a Tremenda. Qualquer dos contos populares de frades lhe dava uma peripécia mais caracteristica

dos velhos costumes. Foi justamente este o episodio

que mais quadrou ao gosto do publico e o lado por onde
todos conhecem o

poema de

/>.

Branca.

comprehendeu que se não soubera aproveitar da lenda de Frei Gil; nas Viagens nu miJá no fim da vida, Garrett

í A primeira edição de D. Branca traz as iniciaes F. E., com a inlençSo de submelter o gosto autoritário do publico a esta obra attribuida a Filinto Elisio.


.

ALMEIDA GABBETT

191

nha terra escreve: «Algures
Fausto: e ò

lhe

chamei

o nosso Dr.
.

com

elfeilo.

Não

lhe falta senão o seu Goethe

.

Nós precisamos de quem nos cante as admiráveis luctas ora cómicas, ora tremendas do nosso Frei Gil de Santarém com o diabo. O que eu fiz na D. Branca é pouco e mal esboçado á pressa. O grande mago lusitano não apparece
prologonista de
teiro,
ali

senão episodicamente; e é necessário que appareça como

uma grande
luz,

acção, pintado

em

corpo
.

in-

na primeira

em
S.

toda a luz do quadro
isto

.

.

Lem-

bra-me que sempre entrevi
faziam ler a
liisloria

desde pequeno, quando

me

de

Domingos, tão rabujenta e sem-

sabor ás vezes, apesar do encantado estylo do nosso melhor prosador; e eu que deixava os outros capítulos para
lèr e reler

somente as aventuras do santo
*

feiticeiro

que

tanto rne interessavam.»

Estas revelações mostram-nos até que ponto o ter sido

embalado com as tradições nacionaes fecunda o génio e
a

predisposição artística.

Á

medida que Garrett avançava
pelas tradições portugue-

na sua carreira da emigração

litteraria o

amor

zas afervorava-se n'elle.
foi

É por

a Ádozinda,

que a sua terceira obra poemeto trabalhado sobre o
isso

lho,

romance popular da Sf/lvaninha. As condições d'este trabaintimamente ligado á vida do auctor, encerram a me-

lhor parte da sua educação intellectual. Discutindo o valor
poético das tradições nacionaes
fortalecia

com Duarte

Lessa, que o

no plano de

tirar d'esses

elementos perfeitas obras
da Syl-

de

arte, Garrett dedicou-lhe a sua primeira tentativa

vaninha.

Em uma

carta,

em que expõe algumas

observa-

ções superficiaes sobre as phases da poesia popular portugueza, faz

uma pequena

recapitulação dos seus trabalhos

tentados segundo o novo espirito romântico: «No

meu poe-

masinho de Camões, aventurei alguns toques, alguns longes

*

Viagens na minha terra,

t.

ii,

p.

141.

192

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

de estylo e pensamentos, annunciei para assim dizer, a possibilidade da restauração d'este género,

que tanto tem

dis-

putado na Europa

litteraria

com

aquell'outro, e que hoje

coroado dos louros de Scott, de Byron e de Lamartine, vae de par com elie, e, não direi vencedor, mas também não
vencido.
«Z>.

Branca, essa mais decididamente entrou na

lice,

e

com

o alahude do trovador desafiou a lyra dos vates; ou-

tros dirão, não eu, se

com

feliz

ou

infeliz

successo.»

*

Do

intuito

da Sylvaninha,

diz: «Creio

que é esta a
faz

pri-

meira tentativa que ha dois séculos se

em

portuguez,

de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior
extensão, n'este género de versos pequenos, octosyllabos

sos.»
rior,

ou de redondilhas, como lhe chamavam d'antes os nos2 Via a poesia popular por este caracteristico extee

em

vez de a estudar explicando-a pela ethnologia
já a

da raça, tratou de contrafazel-a na Adozinda. Garrett
este

tempo citava os trabalhos de Grimm, mas não comprehendeu esta profunda observação d'esse sábio: «O homem que quer fazer isoladamente e tirar poesia popular do seu
sentimento próprio, erra quasi sempre, poder-se-ia dizer
inevitavelmente, n'esta empreza que se propoz desempe-

nhar; raramente ou não

fica

áquem ou além da

justa

me-

1

se era

um

artigo do Ilarculíuio, Qual o estado da nossa Litteralura
niio

:

coubo o figurar n'esta lide (do Romantismo): A parlo Iheorica da litteralura ha vinte ânuos que é entre nós quasi nulla O movimento intelleclur.l da Europa não passou a raia de um paiz ondo toda^i as altençOes, todos os cuidado:^ estavam apiilicados ás misérias publicas, e aos meios de as remover. Os poemas de I). lírairAi e Camões, appareceram um dia nas paginas da nossa historia litteraria sem pieccdcnles que os annunciem; um representando a poesia nacional, o romântico; outro a moderna poesia senlimcntal do norte, ainda que descobrindo ás vezes o caracter meridional de seu auclor. Náo é para este lugar o exame dos méritos ou deméritos d'estos dous poemas; mas o que devemos lembrar é que clles são para nós os primeiros e até agora os únicos monumentos de uma poesia mais liberal do que a dos nossos maiores.» {Heposilorio littcrario, de 1;> de outubro de 1834.)
:

wMas a Portugal

2 liomanceiro,

t.

i,

p.

4.

Ed. IHJiíí.

ALMEIDA GARRETT

193

dida das cousas; ou nâo a alcança ou a ultrapassa.» As ex-

pressões d'essa insondável eloquência do povo, reduziranase na Adozinda á phrase elegante e conceitugsa
;

os breves

mas fundos

traços

com que na Sylvaninha

se colloca a ac-

ção, na Adozinda converteram-se no descriptivo

demorado,

paysagista, supprindo por estes retratos do
a impossibilidade
cia.

de ver para dentro

mundo exterior do mundo da consciên-

As narrações, que sâo

a acção e a explicam, ampliam-se
effeito.

no dialogo Ihcatral e de

Portanto, a Sylvanififia é

uma
ficio,

temivel pedra de toque para a Adozinda;

uma
.^

é a ver-

dade, a outra a convenção,

uma

a natureza, a outra o arti-

uma

a espontaneidade e a outra o esforço

O que ha

de bello na Adozinda, pertence ao fundo popular; mas a
ingenuidade popular nunca pôde ser contrafeita, por isso
Garrett não attingiu essa justa medida de que
falia

Grimm.

*

Almeida Garrett

vivia

com parcos meios durante

a pri-

meira emigração, sem se aproveitar do indulto de 5 de juentendeu requerer

nho de 1824; porém sua mulher D. Luiza Cândida Midosi em fevereiro de 1825 em nome do marido para que lhe fosse concedido regressar a Portugal. Foi

o requerimento a informar á Intendência geral da policia,
e na morosidade da informação

teriosamenle o sórdido D. João

vi, a

morreu repentina e mys10 de março de 18i5,

deixando a regência a sua fUha D. Isabel Maria; só
havia inconveniente

em 24

de maio de 1826, é que a Intendência respondeu que não

em

permiltir a entrada do proscripto,
as phrases da mais degradante

referindO'Se a Garrett

com

compaixão. Garrett desconheceu esses documentos secretos

da

policia,
^

senão nunca teria acceitado

um

tão ultrajante

perdão;

a única cousa

que seria a honra do poeta, ellepro-

Kála parle do trabalho de (larrcll, coulinuada no Ronxanceiro, flcou estu-

dada no cap. vil da3 Epopcas Mosarabes. 2 Koproduzimos aqui esses ignorados documentos copiados do Archivo da Policia, hoje na Torre do Tombo: «Por aviso de 2í2 do fevereiro do anno próximo passado (182o) foi sua ma13

194

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

prio

foi

o primeiro a contradital-a n'esse docamento datado
;

de 24 de maio, se

lê:

«O bacharel João Baptista da

Silva

Leitão de Alipeida Garrett, arrebatado pelas ideias do tem-

po, pela verdura dos annos e pelos excessos de

uma

ima-

Deus tem era gloria, servido mandar ouvir esta Intendência sobre o requerimento do bacharel João Baptista da Silva Leilão d'Alraeida Garrett, em que pretendia voltar a este reino, d'onde por motivos politicos se achava expatriado. Pela informação que inclusa levo por copia á presença do v. ex.=* foi julgado incompatível com a publica segurança o regresso do supplicanle, considerando-se perigosa pelos motivos na mesma informação ponderados, a sua existência em Portugal: Continua por tanlo o seu exlerminio até agora em que apparece de novo sua desgraçada consorte, implorando a regia clemência de sua magestade, e invocando a sempre saudosa e respeitável memoria da beneficência do fallecido soberano sobre a sua desventurada situação: fundamenta o seu direito á consideração de sua magestade, em princípios que as circumstancias do tempo e mesmo as do supplicanle hoje fazem mudar de figura
geslade, que

a sua pertenção. O bacharel João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, arrebatado pelas idéas do tempo, pela verdura dos annos, e pelos excessos de uma imaginação ardente, foi como outros muitos (hoje restituidos aos pátrios lares) um sectário fogoso dos principies democráticos, que vogaram durante o faial periodo da Revolução, e que infelizmente hallucinaram as cabeças dos incautos e inexpertos: restaurada porém a monarchia, se retirou de Po*rlugal iramedialamente, temendo que uma vingança sanguinária surgisse d'entre nós, sacrificando tantas victiraas, quantas os sectários do systema constitucional desvanecido porém este terror á vista das indubitáveis demonstrações de clemência e piedade cora que o augusto soberano, que Deus lera, procurou conciliar os ânimos dos seus vassallos, olhando mais como eíTeito de erro do que da maldade, 05 desvarios da maior parte d'elles. O supplicanle regressou por isso á sua pátria, donde depois da insinuação da policia, que o julgou perigoso, foi obrigado a sair; e isto antes do régio indulto de 5 de junho de 1824: apparecendo porém este, não foi o supplicanle comprehendido nas suas excessOes; e não tendo os seus anteriores excessos feito objecto de processo que o condemnasse, foi o supplicanle, como muitos, perdoado, e foram portanto relevados 08 seus desvarios pelo dito decreto de amnistia, em que foi incluido, procedendo unicamente de caulellas da policia a sua expalriação depois do mencionado indulto. K tendo por isso experimentado até agora como castigo dos seus erros, todos os rigores do exlerminio e da indigência; á vista de cujos soffrimentos únicos fruclos que o supplicanle tem colhido e visto colher a Europa inteira das desorgunisadas theorias de que foi sectário, é de esperar que desenganado pela experiência e atenuado de trabalhos, haja mudado de principies, filhos da inexperiência e fogo da mocidade, como bera persuade o silencio que elle na sua eraigração tem guardado, abslendo-se do imitar e seguir o systema dos outros que não tem cessado de escrever e propagar princípios sediciosos; e então não ha motivo para que o supplicanle seja excluído da regia clemência, de cujos eíTeitos ainda não ha gosado, quando outros, pelo menos em idênticas circumslancias, tem aproveitado; não sendo por isso tanto para
:

ALUEIDA GARBETT

195
(hoje restituidos aos

ginação ardente
pátrios lares)
cos,

foi

como outros muitos
fatal

um

sectário fogoso dos principios democráti-

que vogaram durante o

periodo da Revolução ...»

No

fim da sua vida escrevia Garrett esta deplorável pagina

temor o seu regresso, quando em oulro tempo se julgou na informação inclusa, nao só pela mudança muito provável do supplicante, mas até mesmo pelo estado actual dos povos, em cuja maioria existe a convicçilo dos perigos e males certos que as Revoluções constantemente acarretam sobre elles; sendo mui difíicil que um homem sem preponderância c sem fortuna Ibe pudesse fazer reviver principios contra os quaes a experiência tanto os ha prevenido. Â vista pois das rasOes expostas, julgando mudadas as circum^tancias que ditaram a primeira citada informaç.lo, parece-mo não ser o supplicante indigno da real clemência, para obter o regresso que implora, depois de longos soffrimentos; julgando entre tanto útil medida da policia o obrigar a assignar termo de conformar á ordem legitimamente estabelecida a sua conducta e o» seus principios, ficando por isso debaixo da vigilante inspecção da policia, para contra clle proceder irremissivelmenlo logo que afastando-se dos seus deveres se torne por isso indigno da regia beneficência, a que se acolhe, e merecedor de severa justiça, que deverá punir qualquer reincidência dos seus excessos. E quanto se me oíTerece informar a v. ex." sobre o reqMerimento do D. Luiza Cândida Midoso do Almeida Garrett, em cumprimento do aviso de 9 do corrente. O que tenho a honra de levar á presença de v. ex.' para o fazer presente ao governo d'esles reinos, que determinará o que for servido. Deus guarde ele. III.'"" o ex.'"<» sr. Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas, 24 de maio de 1826. (Papeis da Intendência; Contas para as secretarias, Liv. xxiv, fl. Ii3. Satisfazendo ao que o governo d'esle3 reinos ordena no aviso, que de v. ex.' recebi datado do 22 do corrente, pelo qual sou mandado informar se haverá algum motivo que deva embaraçar, que João Bapti*ta da Silva Leitão d'Almcida G irrelt regresse a estes reinos d'onde foi mandado sair por ordem d'esla mesma Intendência; incumbe-mc expor a v. ex.", que os motivos que occasionaram aquella medida da policia, se acham mencionados na Conta da copia inclusa, que subiu á presença de vosía magestade em 7 de março de 1825, na qu.-vj se produziram as causas porque na referida época se julgou perigosa a sua presença n'eãte8 reinos, attcnlo o estado de agitação em que se achavam os espirites em matérias e opiniões politicas que os dividia; mas sendo recentemtjnte mandado informar um requerimento de D. Maria Midosi de Almeida, €m que pedia a sua magestade licença para seu marido voltar á sua casa, eu expuz na Conta, que dirigi á presença do mesmo augusto senhor, pelo ministério dos negócios da justiça em 24 d'este mesmo raez as rasões que me pareceram próprias para se haver contemplação e equidade com o mencionado Garrett, permiltindo-se-lhe o seu regresso a e*sta corte, mediante as cautellas e providencias, que apontei na dita informação; .igora porém devo accrescentar, que depois da data d'aquella primeira informação nada mais consta na policia contra ,0 supplicante que obste o seu regresso. X vista do que, sua magestade se dignará resolver o que bera lhe aprouver. Deus guardo etc. 26 de maio do 1826. 111.™» e ex."'» sr. Conde de Porto Santo (Papeis da Intendência: Contas para
fi

as secretarias, Liv.

jtxiv,

11.

151.

196

mSTORIA DO BOMANTISMO EM POBTUGAI.

para refutar, talvez, a imputação mais gloriosa da sua vida:

«É um sophisma de calumnia, por ventura admissível como epigramma se, republicano e demagogo, o auctor do Camões, de Gil Vicente e de Frei Luiz de Sousa, houvesse al-

guma hora

professado as hypocritas doutrinas do nivelaei-

mento social, que tão poucos acclamam com sinceridade menos ainda com perseverança. Mas a tribuna, a imprensa e o Conselho o viram sustentar sempre com denodo e dedicação a causa da monarchia, sustental-a como inseparável da

causa da liberdade do povo, da qual é não menos zeloso e
strenuo defensor.»
^

Pouco depois de regressar á pátria Garrett foi reintegrado no seu antigo logar por decreto de 26 de agosto de 1826. Conferida a regência a D. Miguel a 3 de julho de 1827,

recomeçaram
rett esteve

as perseguições politicas. Foi então

que Gar-

preso no Limoeiro, por

um

processo intentada

contra o jornal o Portuguez, redigido por Paulo Midosi, Luií
Midosi, Carlos Morato

Roma, António Maria Couceiro,

Joa-

quim Larcher,
allivio

e Garrett.

A composição

da Adozinda

foi

um

para as suas horas de prisão: «esteve por espaço de
ter tido

três

mezes preso sem mais pretexto do que o de

parte

em uma

publicaçãa censurada e impressa

com

todas
pro-

as licenças necessárias.

Não

foi

preso o censor,

nem

hibida a publicação,

nem no

fim de Ires mezes se achou

matéria de culpa!

^

O

late*go

do absolutismo

já se agitava

no ár, e para escapar á arbitrariedade só havia o refugio

mas

do desterro. Garrett emigrou novamente para Inglaterra, esta segunda emigração não foi nada fecunda para as
nos seus trinla annos, relacionado

lettras; estava enlão

com

algumas famílias inglezas,
e

adaptado á vida estrangeira
só procurou

tomando

a emigração

como uma excursão,

1

Fabulas e Folhas cahidas,
t.
i,

p. xi.

2 Romanceiro,

p.

19.

ALMEIDA GABBETT
divertir-se, flartar e ver

197
isso

mundo. É por
escreve:

que era uraa
poética,

nota do

poema Camões

«Realmente desde esta

época, (1825) nâo tornei a emprehender

uma obra
.

nâo tornei propriamente
anteriores,

a fazer versos

. .

Coisas vellias e

emendei e conclui muitas.»

*

Esta esterilidade

poética

foi

um

terrivel

symptòma;

a vida sensual da Res-

tauração allraia-o, levou-llie a ingenuidade moral; a sau-

dade da

pátria,

que tanto o inspirara, não o accommettia

agora, envolvido nas pequenas paixões dos outros sos emigrados que viviam á solta,
cia,

numeroresistên-

sem plano de
forte

nem

ideal politico.

Era preciso a

lidade da vida para Garrett sòr outra vez

emoção da reachamado ao amor
faria

da Arte;

diz elle, depois
á victoria

de contar a sua longa esterilidade:
poeta
dois

«A canção

da Terceira, assumpto que

a burra de Ralaam do mais prosaico jornalista,

com

ou três peccadilhos mais, se tanto, são os únicos (versos)
de que

me

accuso.» Isto nos está indicando qual será o

mo-

vei da sua terceira e ultima

phase

litteraria.

Ainda
pou-se

ji'essa

primeira época da emigração, Garrett occu-

em

fazer

uma

synlhese histórica da lilteratura por-

tugueza, que muito lhe devia servir para determinal-o no

caminho da renovação romântica. O Bosquejo da historia da Poesia e da língua portugueza, devia revelar-lhe o espirito
nacional nas creaçôes litterarias, mostrar-lhe até que ponto
as correntes clássicas e auctoritarias da imitação o atrophia-

ram, e revelar-lhe

as condições mais sí^uras para restituir
foi

a esse espirito a sua expressão viva; não
d'esse trabalho destinado unicamente a
vraria.

este o intuito
li-

uma empreza de

Apesar dos muitos erros do Bosquejo da historia da Poesia e lingua portugueza, publicado

em

Paris

em

1827

em

frente de uraa selecta de excerplos da litteratura portugueza,

* Camões, nota F. do canto x.

198

raSTOBIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

este rápido esboço devia considerar-se

um

grande génio

critico,

uma revelação de porque não tinha precedentes, por-

que nunca nenhum escriptor nosso presentira o minimo vislumbre de unidade philosophica n'esla descurada litteratura.
Garrett determinava-lhe a sua evolução histórica, caracterisava-lhe os principaes escriptores, as feições de cada epoca^

mas, tudo

isto estava feito já

com uma
a

valentia niexcedi-

vel por estrangeiros.

De 1805

1829 o grande philologo

Bouíerweck, publicava na Historia da Poesia e da Eloquência

dos povos modernos a Historia da Litteratura portti-

gueza, accentuando os traços por forma que ficarão para

sempre

definitivos; ainda

em 1819 o

grande historiador Sis-

monde de Sismondi, nas

Litteratiiras do Meio

Dia da Eu-

ropa, historiava a vida moral e artística da litteratura por-

tugueza, seguro nos seus juízos sobretudo quando se en-

1825 o erudito viajante Ferdinand Denis publicava o seu Resume de VHistoire litteraire du Portugal^ com aquella lucidez vulgarisadora do espirito
costa a Bouterweck.
*

Em

francez. Conhecidos estes livros e as condiçijes

em que

fo-

ram

escriplos, e a superioridade intellectual d'aquelles

que

souberam achar a unidade philosophica da litteratura portugueza e a sua connexão com o grupo das litteraturas românicas que a explicam, 6 que se conhece o mediano valor do Bosquejo de Garrett,

composto sobre estes valiosos

recursos. Garrett parte ainda dos seguintes preconceitos:

da existência de ugaa lingua romance, que era o provençal d'onde sairam as outras linguas novo-la tinas; da formação

do portuguez pela mescla das linguas de todos os povos que
invadiram a Península, sem comprehender que não pode

1

Bouterweck,

foi

auxiliado

com

os subsídios malcriaes para a Historia da

Litteratura porlugueza, por uni sábio portuguez seu amipo, inodiDcando assina

o seu plano, que era tratal-a como

um

supplcmento da Litteratura espanhola;

suppômos com algum fundamento que eate sábio será António de Araújo, o Conde da Barca, amigo o protector de Filinto.

ALMEIDA GABBBTT
existir

199

uma

lingua

sem unidade

syntaxica,

embora no

lé-

xico tenha os mais desligados elementos; ignora a relação
dialectal entre o

portuguez e o gallego

;

ignora o periodo da

poesia provençal portugueza, e da imitação castelhana, e

nem remotamente

faz entrar

o elemento tradicional na con-

stituição da litteralura. Ainda assim, o Bosquejo pertence á

primeira época da emigração de Garrett, quando a sua

acti-

vidade intellectual se exerceu motivada pela necessidade de
consolar-se pensando e escrevendo acerca da pátria.
^

*

o

dr.

copiar

os

Anlonio Nunes de Carvalho era o que eolão se occupava mais de monumentos porluguezes dispersos pelas bibliolhecas eslrangeiras

Caracter da segunda emigraçSo em as e atlribue-a as luclas alecrim e raangerona. com duas princezas da familia Por um accidente imprevisto a princeza destinada para D. vida politica desperta todos os prestantes. últimos Garrett. deixando-nos entregues uma defeza heróica sem recursos.— Da segunda emigração era 1828 ale á morle de Garrett amores em 1828. e como premio d'ella escravisando-nos ao protectorado degradante de Inglaterra. De todos os males accumulados sobre a nação portugueza vi. para trazer os dois príncipes á disciplina moral pensou-se e negociou-se os casamentos real da Áustria. — mentos de os seus Inglaterra. inéditos. D'aqui se originou o ódio profundo entre os dois irmãos. Na corte do Rio de Janeiro foram os dois príncipes criados á dos á espontaneidade de instinctos brutaes. Carlota . ódio alimentado pela mãe D. fraca dirige e sento impossibilidade - escola. Pedro e D. terra satyrisa o seu e é erros o titulo. — Chama supposta perda de — A expedição Arco SanfAnna a — Durante do Porto — O romance —A ambições desenfreadas em FcrnSo lenda — Nas Viagens para a homens da tempo a primeira victima dos na minha das Folhas commendas. e fez-se-lhe o como príncipe herdeiro casamento com D. • dos Açores. João qne provocou a invasão franceza e nos abandonou depois ao inimigo fugindo para o Brazil a com as riquezas publicas. pelo seu Conclusões.200 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL § 3. vida. o cerco histórico ds e de Lopes. as lyrica cahidas. de todos esses males não dos seus dois filhos foi talvez o menor o nascimento solta. inéditos: o brasileiro Helena. Autolatria carteira. deixa- D. — A ultima phase época: — romance —Relações com a sua — Os a de geracSo que Garrett condemna a — — Os modeduzida da sua organisar admirador Gomes de Amorim. em casal-os. — Garrett descreve — Conhece consequências da reacçSo chateaubrianesca do Romantismo guerras do ao Romantismo. que era a destinada para D. em exercícios de forças c em seduçíjes das damas do paço. pela imbecilidade de D. Leopoldina. e inutilisa-os litteratura. Pedro morreu. Miguel. Miguel.

Miguel seu logar-lenente no reino e abdica o throno de Portugal em sua filha D. João trophes. Começou o terror da legitimidade. D. Nas tradições byzanlinas da si que para vincular a D. D. chegou a fazer d'elle o instrumento cego do seu esfamilia. Pedro nâo se sentia seguro no throno de lá. a emigração. Miguel é chamado da corte de Yienna de Áus- onde estivera desterrado. Isabel Maria. pela preferencia exclusiva que dava ao fante. o infante D. Levanta-se então um partido chamado ir reair- excitado por Carlota Joaquina e auxiliado por seu mão o miserável Fernando vii. Garrett. conhecido pela policia como partidário das ideias democráticas. e declarou-se rei absoluto em 30 de junho de 1828. Carlota Joaquina clle o ameaçava de declarar â nação que não era filho de Emfim estes factos revelam como depois da vi morte inesperada e mysteriosa de D. Maria da (lloria. diz-se pirito reaccionário. soffrendo a morte. dissolve as camarás. e a re- gência do reino. as cousas se encaminhavam para tremendas catas- como imperador. simula uma convocação dos Ires estados da sociedade antiga. agora com . que. o desterro. Pedro estava no Brazil em 10 de maio de I8á0. Sob o suave governo da regência de D. logo que viu levantadas as forcas e atulhadas as enxovias. e mandou to- para cá a Constituição de 182G. havia Garrett soffrido três mezes de cadeia como redactor do Portugiwz. e desembarca em Lisboa a 22 de fevereiro de 1828.ALMEIDA OAnBETT 201 in- Joaquina. João VI. sem fallarmos no confisco dos bens. do poder executivo. refugiou-se em Inglaterra. mandou-o cumprimentar e pedir-lhe as suas ordens. para cima de quarenta e seis mil e seiscentas pessoas. como meio para vir a mar lista. D. Elle entendia que isto era lambem seu. conta d'isto. D. Pedro para de encontro ao mal nomeia o infante D. Miguel. deixada em testamento a uma filha do mo- narcha. e depois de jurar a Constituição para tomar conta tria. que durou até ao anno de 18I]3.

Bastava para tanto o seu talento litterario. Agricultara ele. O hvro é pueril. D'este periodo da emigração é também o livro intitulado Portugal na balança da Europa. e em que con- 1 Segunda vez demillído do seu logar por decrelo de 18 de agosto de 1828. e sem sciencia falta pedagógica. Maria da Gloria voluntários liberaes. Garrett apresenta também uma classiíicaçâo das scien- cias. ( l*hysiologia. base de uma methodologia. formado com artigos soltos da época em que redigia o Portuguez. A joven rainha D. Em em era quanto se organisou o exercito Inglaterra assistindo liberal. íPysica. por- que a inveja que lhe tinha o padre José Agostinho de Macedo. que açulava com os seus desregramentos de linguagem os fu- rores dos legitimistas. a de philosophia no critério do auctor é supprida por muita religião e muita moral e em phrases vagas com citações auctoritarias. Anatomia.: 202 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL as forcas miguelinas arvoradas era-lhe impossível evitar a morte. o auctor da Besta esfolada e da Tripa virada. como a dama dos pensamentos dos e na preoccupação d'este pensamento Garrett e publicou emprehendeu destinado em Inglaterra um livro ou Tratado de Educação. Medicina. abaixo do que já então se ^ conhecia de Bacon ou de D'Alembert. Í Architeclura. . jZoologia. a uma princeza. II Sciencias que analysam suas propriedades ^CbittIica. Garrett viveu como artista ao trabalho da reno- vação do Romantismo. 'Mineralogia. 2 Eis o sclieuia d'essa classíGcação Geologia. I Sciencias que descrevem os objectos da naturesa /Botânica. nyo hesitaria em fazer-lhe uma tre* menda accLisaçâo publica paca o brindar com o garrote. Tratando da educação scienti- fica.

Ali se viam Alexandre Herculano. politicas e litterarias. em 27 de junho de 1832. como pôde terra. ciiconlra-se uraa em janeiro de 1829: tÉ para aqui memorar muitas das nossas illustracões militares. em geral se manifestou. Vellez Caldeira. bem própria para disperlar a expansiva e contagiosa hilaridade. A par de Almeida Garrett. Simão José da Luz. a apathia. Miguel ao embarcar na expedição para o Porto. Luiz da Silva Mousinho de Albuquerque. a quem n'esta narrativa cumpre prestar a primeira homenagem. D. João Nepomuceno de Lacerda. e sobretudo com inexcedivol veia eomica. António Cesfar oc Vasconcellos Corrêa. perdidos na barra do Porto vida em um em navio meltido a pique pelas balas miguelistas. Cândido José Xavier. 2â9. as traições. outros. * era uma recordação saudosa da grande época libe- 1 No Xlmanach insulano para Açores e Madeira. Inglaterra nâo foi A de simples galanteria. Pertence ao anno de 1828 a primeira colleccionação dos seus versos. José Victorino Damásio. que não occorrem de momento á nossa reminiscência. José da Silva Carvalho. e outros mais. António Cabral do Sá Nogueira. Bartholomeu dos Martyres. que relaçSo d'esla recita do Calão. estavam sentados Passos Manuel c Passos José.se o grande general Condo de Villa-Flor. Joaquim António de Magalhães. Agostinho José Freire.» Pag. uns deixados na ilha de S. que intitulou Lyrica de João Mínimo. cgualmente executada com toda a mestria. para l<S7í. Júlio Gomes da Silva Sanches. uma tragedia do Infante Santo e um poema so- bre a genealogia dos Menezes. general Pisarro. marquez de Ficalho. coramandante dos foluntarios. Júlio Máximo de Oliveira Pimentel. A outros trabalhos se refere Garrett. em que se acham reunidos os primeiros ensaios comprehendidos até á época decisiva de d824. José Maria Baldy. as incertezas da suppôr-se pelos episódios contados por Garrett no romance digressivo das Viagens na minha causa liberal. Os emigrados portuguezes representaram-lhe em Plymoulh a tragedia Catão. Bernardo do Sá Negueira. Luiz Pinto de Mendonça Arraes. .ALMEIliA GARRETT 203 clue pela necessidade do regimen constitucional. quo se encontravam no concurso dos espectadores. Carlos Mascarenhas. Joaquim Bento Pereira. Januário Vicente Camacho. Marquez de Loulé. como um poema sobre os Doze de Inglaterra. major Pacheco. Joaquim António de Aguiar. tudo levava aquelle es- pirito a procurar nos trabalhos litterarios uma verdadeira consolação moral. «Segueiu-sc á representação da tragedia a jocosa farça inliulada Os Doidos. coronel Xaxier. via. Balthazar de Almeida Pimentel. No mesmo banco com José Estevam e major Menezes.

204 ral HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de 1821. Miguel. e a si em uma ode a victoria de Villa da mesmo se confere o titulo de Tyrteo: «Que é do Alceo que bramia liberdade. em 27 to- de junho de 1832. (Paulo Midosi) do marquez de Ficalho e do que escre- de Jervis de Athouguia o forçaram via. Midosi. Garrett descreve a partida da expedição liberal da ilha de S. p. se- ilha Terceira. Garrett. . xxi. Pedro a beneficio de sua Pela sua parte D.» * á leitura Isle. e que o seu pensamento é constitucionalisal-o á força. onde 1 P. e livros falia com saudade das amisades e dos que ahi deixou. Garrett foi apro- veitado pelo governo da Regência para redigir os decretos de reformas judiciacs e administrativas. Prefacio diis Fabulas c Folhas cahidas. aproveitada por D. Junto de Garrett vivia o seu antigo compa- nheiro Paulo Midosi. o Tyrteo que precedia as pkalanges da Terceira ao pé do pendão azul e branco dajoven RUinha dos exilados?» ^ Durante a campanha na ilha Terceira. em cuja casa se fizeram os primeiros ensaios da tragedia inaugurada no theatro do Bairro Alto. O poeta eslava em uma grande elaboraçcío artistica. diz que o povo portuguez não da liberdade. para a no batalhão académico. Os emigrados portuguezes reuniram-se na bahia de Belle d'onde embarcaram a 2 de fevereiro de 1832. 2 Os ensaim do Catão. liberdade. o Anacreonte que zom- bava com o prazer. que precedeu a esplendida revelação do seu génio dramático: «Em Londres. alistado guiu para esse único reducto aberto aos liberaes. só as reiteradas instan- cias de meu pae. na ultima emigração. Garrett celebrou Praia. Fechado no cerco do Porto. Pedro em cartas que escrevia ao Marfaz caso quez de Rezende. nos prólogos dos seus hvros allude ás mil difficuldades que emba- raçavam a expedição e que compromettiam a causa da filha.

p. íallou com seus porteiros. el-roi quando cslo ouviu.»se ao paro que o havia mister por causas de seu serviço. e occupado especialmente em trabalhos de secretaria. o om lhe . como quaes(|uer outros. mâo de el-rei D. culano considerava-o infundadamente como seu discipulo. em que nilo queria que fossem presenlei. com espanto d'ameaças de morte que lhe o bispo mandava poer. e per sua mão tirou ao bispo todas suas vestidura-t. que depois que o bispo entrasse na caraera. e os porteiros fizeram logo sair todos os seus e outros em vir á cidade do Porto. Garrett enlhusiasmara-se commantambém com os romances históricos de Watter Scott. duvida. que nio leixasaem entrar nenhum dentro mas que lhe dissessem que se fossem para as pousadas. No momento em que a cidade do Porto resistia com o mais. por saber do que guisa era. mandou dizer ao bispo que fo. desvestiu-se logo e (içou era uma saia d'escarlala. guisa ([ue no paço nom hcou nenhum e foi livre toda a gente. na prosa pittoresca de Fernão Lopes. Garrett teve a intuição histórica das antigas luctas do burgo independente contra prepotência feudal do seu bispo. no campo do romance histórico. . El-rei como foi adeparle com o bispo. lançasse toJos fora do paço. O Arco de SanfAnna. o Justiceiro. * por ventura estimulado pela festa popular que aunualmente 1 o Chronlsla. que só acabou dez annos depois d'essa O romance é dedicado ao seu dante o coronel Luna. e começou de o requerer. Her- 1827 recommendava á imitação. a lenda Com um grandíssimo tino artístico aproveitou do bispo do Porto azurragado por Pedro i. assombroso heroísmo ás forças accnmuladas pelo poder absoluto coHigado em volta d'ella com o fanatismo a canibalesco dos frades. e que ainda que alguns do conselho viessem. e que elle não era ousado d» tornar a elle. nom via o dia que estivesse com elle para lh'o haver de perguntar. e ante que chegasse.ALMEIDA GARBETT 205 dos foram dignamente heroes. e logo sem muita tardança. que jhe confessasse u verdade d'aquel maleGcio em que isso era culpado . que elle desde * Comprehendeu perfeitamente o seu modelo. dortnia com uma mulher de um cidadão dos bons que bavia na dita cidade. foi ii. vol. entrou na camera onde el-rei estava. 87. que el-rei parlindo-se d'Anlre Doiro c 2 «Ccrlo e nom ponhaes Minho por foi informado que o bispo d'csse logar (Porlo) que então tinha grande fama de fazenda e honra. O bispo como veiu. depois que chegou ao logar e houve comido. cá elle tinha de fazer uma cousa. Garrett occupava-se nas horas de desenfado elaborando o seu lindo romance histórico época memorável. também os do bispo.

Quando terminal-o. logo suspeitaram que ol-rei lhe queria jogar algum mão jogo. Com estas e outras taes razoes. o que nom convinha a el de fazer por rauilo malfeitores que fossem. Garrett inspira-se da tradição nacional. que disse que queria entrar por lhe mostrar cartas que sobscrevcram del-rei de gram pressa. co- na railo una grande açoute para o brandir com elle. haveria o l*apa sanha d'elle. nom lhe guardando suajurdição.! (Collecção de Livros inéditos da Historia poriugueza^ t. não para a diluir em prosa archaica. linha fazia. Garrett possuia o talento dramático. de D. fosse sua morcè de nom pocr mão em elle. pelo que sabiam que o bispo flizendo isto. o seu inimitável estylo digressivo. Os cria dos do bispo quando no começo viram que os deitavam fora. o a outros privados do seu conselho. foi Garrett. passados annos poz a ultima Anna para ainda com mâo no Arco de Sanfo mesmo espirito de combate. fl. iv. cá por tal feito. para acordar o espirito publico contra os meneios doclericalismo. Aqui se vô a diíferença entre o processo de Garrett e o de Herculano.21 a 23. ChroD. vii. c per tal azo e fingimento ouveram entrada dentro na camera. e começaram de dizer que. mas para tor- nal-a um meio de expressão por onde a aspiração moderna se pôde tornar sympathica. demais que o seu povo lhe chamava algoz. e isso mesmo o outros todos e que nenhum nom ousara lá d'ir. e foram-se á pressa ao Condo Velho. na parte velha da cidade. que per seu corpo justiçava os homens. Em 24 de julho de 1833 entrava em Lisboa o Duque da Terceira. Nuno Freire. e ao mestre de Ghrislus D. e por isso o Arco de SanfAnna é animado nos diálo- gos e cheio de interesse nas situações.206 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se celebrava diante do nicho junto do Arco de SanfAnna. acha-se impropriamente empregado no romance. se nom fora Gonçalo Vasques de Góes seu escrivjlo da Puridade. porque o dilue em excesso e enfraquece o andamento da acção. com que aligeira o processo descriptivo. e nom lh'o podiam já tirar das mãos. e o bispo se partiu dante elle com semblante triste o torvado coração. e o triumpho finitivo. cap. arrefeceu el-rei de sua brava sanha. subUme da causa hberal ficava de- Garrett foi então pela segunda vez reintegrado no seu logar de official por decreto de 28 de julho de i833. e logo lostemcnenle veheram a el-rei e nom ousaram de entrar na caraera por a deíeza que el-rei linha posto. que acorressem asinha ao bispo. e acharam el-rei cora o bispo em razões da guisa que havemos dito. e a maneira que em tacs feitos tinha. Pedro i. dcsi juntando a esto a condição d'eh"ei.) Castella a .

Havia um fer- vor de renascença nacional. Garrett proseguia no empenho desinteressado da fundação do theatro nacional. mas o seu pensamento foi realisado integralmente. fiel de feitos de João Carlos Vieira da Cruz. Historia do Theatro portuguez. estava no esplendor do génio. antiquíssimo escrivão da segunda instancia commercial. Garrett por decreto de i4 de novembro d'esle anno foi nomeado juiz de segunda instancia commercial: aGarrett tão pouco caso fazia das suas funcções de juiz.) . quando lhe levava os autos. Emquanto os seus companheiros das lides um do Porto se degladiavam no parlamento. Iratada Esta parle da actividade lilteraria de Garrett é tão itnportaDte. Tudo quanto Garrett poempregado na consecussão d'esla alta empreza.* Vista ás partes. (Yid. Philippa de N'esta generosa aspiração foi Garrett surprehendido muitas vezes pelas grandes agitações politicas dos setembristas de 183C e dos dia cabralistas de 18 W. Garrett seguiu o partido setembrista. vol. Como antigo partidário da Revolução de 18^0. de que era ^ relator. e era o primeiro a íixar os typos das novas formas draas l)ellas concepções do Auto de Gil Vicente. Vilhena. Francisco! que queres que ponha aqui nos au- «—Ponha 1 V. iv. que ao ve- lho Francisco. e e a creação de dia e valia foi uma das primeiras preoccutlieatro pações de Garrett era a restauração do portuguez Conservatório.: ALMEIDA GARRETT 207 meçando para elle uma éra nova de trabalho. já fallecido. qoe foi em um livro especial intilalado Garrett e os Dramas românticos. dizia-lhe «—Oh tos? . * máticas com do Alfageme de Santarém e da D. que fez reviver a ideia da soberania nacional pondo em vigor a Carta consti- tucional de 18áá. ex. á custa do enthusiasrao que infun- em volta de si. e no periodo da mais brilliante fecundidade. se deslituiam e se apoderavam das pastas ministeriaes.

prova-nos que elle fez algumas conces- sões das suas doutrinas da soberania nacional. Nas terríveis oscilações politicas de 1836.) Na reacção cabralina de 1841. que o seu actual possuidor caracterisa de «rascunha em que trcs capítulos foi de ^ um conto satyrico allusivo á época em escripto.» No mesmo catalogo se encontra citado um Diário da minha viagem a Inglaterra — 1823. ás retrucava ainda Garrett. como elle a o pariato. (Viil. recebendo todas as honras.208 « HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL crevia — Lá vae por tua conta. Ensaios do Calão. como ministro na Bélgica e em Copenhague. conhe- cida pelo titulo de Discurso de Porto Pireii. vindo por essa via a entrar em um ministério de conciliação na época regeneradora de 1852. xxx. ou partido da Carla ou- em 1826. o torgada do Cartismo. No catalogo dos seus autographos encontram-se umas Memorias de João Cõradinho. Garrett foi demittído do logar de Chronislamór do reino. a Associação dos Advogados chamou-o * desde logo para o seu grémio. e es- «Não obstante tamanha repugnância á magistratura e quizilia á jurisprudência. Misturando Garrett quasi sempre a sua personalidade ás elle obras hlterarias que escrevia.» A profunda admiração que Garrett consagrava ao Duque cliefe de Palmella. . OíTicio de 12 de novembro de 1841. — Vista partes. Birmin- gham. Garrett soube conservar-se entre o partido nacional c o partido do governo pessoal da rai- nha. 18'(6 e 1852. p. em 10 de juibo. e lamentando-se ^ sempre da fatalidade das revoluções. 1842. de 1825. 1841 proferiu Na celebre legislatura de resposta ao Discurso da coroa. lendo-sc a seguinte nota logo na primeira folha: «Os primeiros cadernos d'este Diário são copiados d'outros que Paulo Widosi. admira-nos o não ter blicado pu- Memorias ou qualquer outra relação da época fecunda de luctas moraes por que a Europa passava no tempo em que esteve fora de Portugal. ^ 2 3 A[)ud Uekna.

suspensão indefinida propriamente dita. periodo que co18:20 e chega aos dias de hoje. i. 1843). Birmingham. porque. Espero começar a publical-o no fim d'este anno. livre porque os nossos escriptores não a ceberam essa educação que nos ensina julgar o nosso A historia geral da Europa. ou antes d'elles diz Garrett. p. O mais que tivemos foram as Apod Helena. os trasladei para este livro. a ioda a occupação litleraria para absolutamente á conclusão me dedicar. porque no Catalogo dos au- tographos e inéditos de Garrett não se acha o minimo vestigio d'esta obra. p. I 14 .ALMEIDA GARRETT 20^ escrevi na minha primeira viagem. \xi\\ (ed.» Esta obra não che- a ser publicada. ai se cita como devendo formar o novo volume da collecçâo o seguinte: ^Dois annos da minha vida. * Romanceiro. Agora para os juntar ao que vou escrevendo e lhes dar egual formato. prologo. desde a Edade Media até hoje.» * No prospecto da edição completa das obras de Garrett publi- cado pela casa Bertrand. outubro 5 de 1823. como sobre * os documentos. talvez despeitado pela sua demissão de Chronista-múr do reino. xxxii. de um trabalho antigo. mas interrompido muitas meça em vezes. t. de íG de julho de 1841: «Eu tenho posto termo ou pelo menos. em nome com que estava «receioso de arrosde hi^to^iador con- a audaciosa responsabilidade temporâneo. Beminiscencias da emigração e Memorias do cerco do Porto.» Nós cremos que os Vinte annos da historia de Portugal nunca foram escriptos. mas que não sei se já anda mais enredado e confuso do que o dos mais antigos e obscuros séculos da monarchia. que agora jurei de acabar: são Vinte annos da historia de Portugal. Na litteratura portugueza não existem re- memorias tempo. em 1839. históricas. e nenhum tempo ou ' logar me gou tar sobrará portanto para mais nada. segundo os editores. r> Ainda em 18'a3 escrevia Garrett. funda-se tanto sobre as memorias particulares. em- quanto posso e valho.

tinha arrancado a condescendência sistível inspiração em mais feita edade.» * D'este trabalho resultou a refundição definitiva da Lyvica de João MinimOy das Flores sem fructo e das Fabulas. das Folhas cahidas. que em 1841 acabou de desilludir todos os verdadeiros partidários da Carta consti- tucional de 1826. p. mas não pôde passar além nacional. e entregar-se á revisão dos seus trabalhos litterarios: «N'esse anno. paixão absorvente e que lhe exau riu o vigor physico e o levou á sepultura. Nada ha de mais elegância artis ardente na poesia portugueza do que essas estrophes re passadas de sensualidade velada por tica. lhe a irre- com amigos. e de serem cantadas como o seu * Prologo das Fabulas e Folhas cahlias. ou de algum objecto ou circumstancia da vida que mais o impressionara.210 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL foi Relações de viagem e os Roteiros. uma sensualidade excitada pela posição social dos amantes e ambos casados da edade. retirado a descansar no campo de grandes fadigas de corpo e de espirito. e a escolher as principaes das que. em lucta com a decepção e com o tédio A mulher de Garrett vivia em Paris. N'este período da vida de Garrett é que coUocámos essa tardia paixão amorosa que transparece no exaltado lyrismo 1'atal. vi. ávidas damas da aris- de emoções romanescas. . Garrett entendeu dever retirar-se por algum tempo da politica. Resmas e resmas de papel lho vimos destruir e queimar ao fazer d'esta escolha. c ortal gulhosas por acordarem uma paixão no dehcado poeta. ideal. pelo vicio da educação No começo da reacção cabralina. desillusão que Herculano descreve com amargura no novo prologo da Voz do Propheta. deu emfim algumas horas de mais zer a la- repassar as composições de sua infância litteraria. no emtanto o coração do poeta era disputado por duas tocracia lisbonense. por onde Garrett co- meçou.

cheia a da eloquência a mais descreve o seu des- abundante.. e é ifeste conflicto que vem o esgotamento physico Pois cs?a luz scintillanle Que brilha no teu semblante D'onde lhe vem o esplendor? Nilo sentes no peito a chanima. não seduz. era luz Que mandava ao corarSo. Que aos meus suspiros E toda reluz do aoior? so intlanima 2 . Tinha o poder da rasão. o fogo que a ateou Vivaz. p. divino. 189. « Ibid. Que toda em »ua alma puz. Cravei. Ii2. : Que penetra.. — Não tinham luz de Era chamma de queimar. Era assim o seu faltar. cu descrido. £ o ncu sêr se dividia. * Folhas cahidas.a eu u'essa cruz — / Minha alma que renascia. Eu tive o arrojo atrevido De amar um anjo sem luz. I . Couio o facho do destino. E eu niorlo. Na pequena ode Não alento: és tu. ^ Mas uma paixão vence lhe a outra. Não era fogo. Ingénuo e quasi vulgar. p. e da realidade mais ideal. 167.: ALMEIDA GABBETT 211 faz os Na odesinha o Anjo cahído. eterno. ^ 3 E n'cssa outra ode Seus olhos: Seus olhos — se eu sei pintar O E (jue os meus olhos cegou brilhar. 2 Ibid. p. Garrett nomes occultos d'essas damas: um trocadilho com Eu só.

que gosto mais d'elle5 do que nenhuns outros que fizesse. SenSo a cinza em que ardi. Porque? É impos- sível dizel-o. E de tão fatal poder. em 2 de julho de 1852. que sB tornaram um pequeno escândalo «Em poucos dias porém desappareceram as Folhas.s3iO oito estrophes em verso de redondilha maior. eterno e suave. : 212 HISTORIA DO ROMANTISMO Divino. Ibid. Balioegramcruz do Hospital. . Depois d'esses dramas de alcova. 4 . . em li de abril de 1852. Que. ou pe- novas occupações pela sua chamada ao ministério. de uma ar- dência e profundidade subjectiva. em que se condecorou com varias gram-cru- zes. . 3 Folhas cahidas. p. em 19 dejunbo.» ^ Com a febre do amor. como partido das suas decepções um a que deu o nome de Folhas cahidas. um só momento que a Queimar toda a alma senti Nem ficou mais do meu sêr. Grara-Cruz da ordem da Rosa. em 9 de de- 2 Ibid. metteu-o no 1851. uma outra febre acabava de consummir Garrett. D'esses versos escreve o poeta: «Não sei se são bons ou máos estes versos. que. prelo las em mas ou pelo receio da inconfidência. Garrett tirou livro. 116. de 1852...* a inanição atacou-o 1 morrendo em Lisboa. em 4 de agosto de 1852.» ^ O publico leu com avidez as Folhas cahidas. IX. mas é verdade. Visconde. voaram. em nenhuma litteratura antiga ou moderna poderá achar-se cousa que lhe seja comparável. par do reino por decreto de 13 de janeiro de 1852. p. e de — \q- vada^de bons máos ventos . as Fo- lhas cahidas só appareceram na publicidade sei em principios de janeiro de 1853. p. intitula-se Cascaes . i O poema admirável d'esta paixão. da Estreita Polar da Suécia.. ministro dos estrangeiros n'esse mesmo anno. ousamos affirmal-o. : EM PORTUGAL 1 Ao mesmo tempo mas grave vi. 218. em 27 de março de 1852 do Nichan Iftiar da Turquia. . por de- creto de ^5 de junho de 1851. da ordem de Leopoldo. . era a febre da representação e do poder.

(p. cujo ultimo caderno tem a data de 3 de setembro de 1853. etc. o grande amigo e sarcástico Rodrigo da Fonseca Magalhães descrevia assim o passamento: «Morreu como luz. e apodava a mallograda reforma da Academia das * A sua i^iuva casou em Paris com o ncgocianlc Luiz d'Etrillac. porque as damas que o recebiam não queriam Depois que Garrett seu que as tomassem por suas amantes. historia. devorado pelo verme roedor dos etc.» bom christão. agudo depois . o Centro Commercial. e um . descreve lambem em que morreu * o poeta. solidão explicável. com os olhos na Eram estas phrases o commentario perpetuo das Fo- lhas ca/lidas. . abraçado á cruz. desesperação ou similhantes e imbasbacadofica o Grémio Litterario. onde procurou tratar-se da sua doença. . em ão. vô-se no romance Helena. diz elle: «eu escrevo uma . 50.ALMEIDA GABRETT 213 p zembro de '18o4. O estado de espirito em que estava Garrett pouco antes de morrer.) N'este romance ha uma confissão ingénua da nenhuma influencia que Garrett direc- exercia na mocidade do seu tempo. .) Garrett referia-se e de Palmei- ao lyrismo banal da escola de João de Lemos rim. xxix. expirou. coração. debruçado nos balcões ideiaes de e imaginário eslylo . que o acompanhou até aos seus últimos resco as minúcias momentos. descreve no Archko Pitto- com que a solidão Garrett mobilou a casa da rua de Santa Içabel. negros pensamentos que balouçam tristemente ao vento da solidão no crepúsculo da noite . sem uma ção sensata se lançara nos exaggeros do Ultra-Romantismo.» (p. com três ver- sos na mesma rima seguida. e quando já se attribuía publicamente o titulo de chefe da iitteratnra. que deixara incompleto e inédito. Os seus mauuscriptos Gearam a uma Olha natural do poeta. não faço versos á lua. uma creação caprichosa . e não sei se a Academia depois de regenerada. Gomes de Amorim. que. .

que se apoiava nas resistências de 1836. vendo Saldanha atraiçoar o movimento da Regeneração. de um sabiá ou de um macisso de palmeiras nada mais lhe pôde representar da grande vida da America. Garrett em duas linhas. para rehaver o favori- tismo da rainha. por ventura o seu enlevo de espirito quando recebeu a derradeira decepção politica. apenas vinda do collegio. para desenhar á vontade. fundo de quadro falso. que qualquer ignorada miss ingleza. tão píagiados por Mendes Leal no Calabar e Bandeirantes. é que se vê bem a aca- nhada organisação dos nossos preconisados rett rica. As suas descripçoes resumem-se nas minúcias das vestimen- do serviço de mesa. dentro ainda do século xvni. graça e invenção do que elle próprio com Entra aqui por muito a acção do O sentimento da Helena é também aífeclado e de uma fa- tenuidade que chega ao fade. Gus- Aymard ou Paul du Plessis. e só conseguiu cudil-a uma vez sa- com um Ímpeto natural no Frei Luiz de Sonsa e nas . novella com mais esforço vida. o conforto inglez e a galanteria franceza. n'essa febre papelistica do primeiro momento da Regeneração. faz isto apenas tral. Gar- conhecendo a impossibilidade ali de pintar a vida da Ame- transportou para as paisagens da Escossia. O romance é localisado a algumas léguas da Bahia. compunha uma meio. Era essa a também preoccupação com que se instalara na residência dizia de Santa Isabel. de que fôra vogal na commissâo Helena or- ganisada em 28 de junho de ISod. A foi a ul- tima obra de Garrett. além de um nome de be- gónia. talentos. herdou talmente a sensiblerie idylica.214 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Sciencias de Lisboa. Garrett não nascera impune- mente em 1799. na disposição da mobilia. á maneira de rubrica thea- porque a sua imaginação. Garrett com desespero. Depois que se lêem os romances de tavo um Gabriel Ferry. Arranjou um tas. da Suissa. não longe do semicírculo do Recôncavo. 1846 e 1847.

pias sabe que o sobrinho que tanto amava. A Helena lem uma acção sem movimento e faltam-lhe caracteres. chamado Spiridião Cassiano de INIello o xMatlos. descreve- Hie o fato. Tra- va-se aqui o confliclo de duas paixões. romance ha um que estivera nas luctas da independência da Grécia. de Bressac. que com outros prelos o veiu buscar em uma canoa para casa de seu amo. é pretendido pelo sr. as posturas. sr. em vez de a fazer fallar. no seu periodo bellico. Em consequência d'isto o de Bressac persuade o Visconde de itahe a fazer uma viagem até á Europa. typo ridículo. e salvara com um mancebo Helena. O desenlace da Helena é cto o Visconde fácil do prever. obrar. a edade. pelas palavras vagas e presentimentos do fragmento: de fa- vem com a fdha á Europa. o surprehendido por um prelo. com quem o Visconde projecta o casamento de n'isto a dona da casa morre de inanição. No meio d'esle devaneio botanico-paternal. Helena morre de romanlis- . tivera intima amisade brazileiro. monologo de contemplação do Conde de Bressac por uma passiflora que encontrou próximo da Bahia. que tem uma filha muito linda. É recebido na intimidade pelo Visconde de Itahe. o Visconde de Itahe. e uma esposa muito doente chamada Maria Thereza falla-se do primo que está carta do seu amigo. que o . N'este viajante francez o sr. segundo a situação já revelada nas Folhas cahidas. e filha. a ir uma quem criança de nove annos que ado- puzera o nome de America brou-se de um dia herborisar á Lemcom a recommendava a um tio. e desgostoso se retirara entre- gando-se diletlantescamenle ao amor da botânica. e que julgava seu futuro genro. á qual poz o nome da sua pupilla mysteriosa. em sua Paris. incapaz de desenhar um typo. Aqui licou interrompido o romance pelo falleci- mento do Garrett. de Bressac para a sua pupilla. uma entidade moral. chamada Isabel. e começam a discutil-a. A situação começa com um.I ALMEIDA GARRETT 215 Folhas cahidas. e partiu ptara como sua.

e a fillia do Visconde regressa á pátria sem querer gélica e casar. paraphrasearam. o erudito exclusivo e Os velhos espíritos esmaçudo. para ser dirigente possuia a generalidade de vistas. plagiaram. em Lisboa. Além de por falta outros peccados litterarios. pecialistas. É esta a consequência o espirito lógica em harmonia com do romance e com a orientação do romantismo emanuelico. como o elogio em bocca própria. infeliz algumas facto bera vezes caiu no acto do plagiato. dizia compungido mas glorioso — Elles são aster ideias. e a consciên- sim. mas uma especialidade. O grande talento artístico de Garrett não tinha outras bases scientificas além das suas primeiras faltava-lhe leituras do tempo de Coim- bra. é quando comprehendemos até que . a bella organisação litteraria de Vil- Quando nós vemos politica. para supprir as- sim a falta de estudo ou de ideias. Esta phrase caracterisa bem os escriptores portugue- zes do Romantismo. publicado ainda em 1844. os factos superficialmente citados n'esse artigo foram traduzidos por Garrett formando o texto original do seu Opúsculo acerca da Origem da língua por- tugueza. de Bressac consola-se escrevendo monographias sobre a sua passiflora. imitaram. traduziram como quem quer fazer livros sem quando chegaram cia a exercer acção não tiveram de um destino. e o cardeal Saraiva ao vèr a leviandade em que caiu Garrett plagiando esse pobre ar- tigo francez. sacrificando a vida á propagação evan- emancipação dos escravos. Citaremos o conhecido do artigo de bibliographia sobre o Rowancero espagnol de Damas-Hinard. que Garrett usa em todos os seus prólogos de consciência da acção que exercia. reagiam contra a seducção do seu brilhantismo. lemain ser quasi completamente aniquilada pela ambição como o provou Littré no seu Discurso de recepção na Academia franceza. publicado na Ilhistratíon de 16 de novembro de 1844.216 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mo.

e a que Augusto Comte chamou com tanta lucidez os parti- dos médios. persidentes de republicas. porque da poesia! perdeu o o dom O prazer da creaçâo artística eleva homem e dá-lhe o primado entre todas as gerações. e dictadores momentâneos. do poder. que consommem com o tempo e acanham por íim as faculdades do entendimento. a A politica partici- que Herculano se refere não pode ser o facto da pação de um homem ás funcçôes sociaes do seu paiz. o prazer de mandar tem lismo que dura pouco. são forçados a viverem na almosphera mirradora do mundo lhes politico. dispor de in- fluencia. absorvidos pelos partidos políticos. medalhas. ou a exercitarem cargos públicos. ser ministro.ALMEIDA GARRETT 217 ponto Garrett foi inulilisado pelo desejo de participar tamter bém tal. embaixadores. ções imperfeitas. uma certa sensualidade de canibamas que fascina muito as organisa- E esses poetas ministros. O trabalho litierario lornoií-se para elle acciden- uma distracção. . e é já vèr o poeta dejá clarar que pôde ser almolacé do seu bairro. dizia Gomte. que nas- estéreis: corromperam a arte e corromperam a po- No prologo da Historia de Portugal. e elle tantos terrível verdade estava incurso eminentes espíritos como Rodrigo da Fonseca Magalhães. os que Doestes últimos tempos a nossa terra tem indubitavelmente pro- duzido. vocações frustadas. Her- culano observa a inlUieucia do periodo politico constitucional na esterilidade dos talentos: «os bons engenhos.» N'esta Garrett. José Estevam. um desenfado. porque essa intervenção dá ao talento o relevo da realidade e de uma philosophia pratica. Manuel Passos. mas sim o conflicto de pequenos interesses de grupos que aspiram á governação. os que o queriam afastar triste da politica chamavam-lhe poeta. ria esterilisado se O próprio Herculano fica- um despeito profundo o não fizesse aco- Iher-se á tranquillidade consoladora do estudo. em 18iG. são como ceram litica. abortivas.

hoje. a politica Desde o fim do côrco do Porto em 1834 até em Portugal não foi mais do que a agitação : egoista de partidos médios intimidar ou corromper. e o torna o primeiro n'essa época de reno- vação litteraria. outros pelo despeito de vaidades não satisfeitas. como no Frei Luiz de Sousa e nas Folhas cahidas. o Arco de SanfAnna. n'esse contagio de heroísmo. nos desalentos da emi- em 1824. . eram todos roíiformes em considerara da vida da nacionalidade. era o meio de exercer a auctoridade. e Costa Cabral pela pressão arbitraria e Rodrigo da Fonseca iMagalliães pela dissolução.218 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL As mais Catão gração liberal foi bellas inspirações de Garrett são aquellas que se ligam á participação directa da politica de princípios: o escripto sobre as emoções democráticas da Revo- lução de 1820. realesa como a glândula pineal Foi por isso que a politica esterilisou os talentos. Não havia ideal de liberdade. o desterro o o cárcere despertam-lhe em 1827 a comprehensão da poesia popular e tradicional. é que accendeu por vezes em Gar- do génio. depois de rasgada pelo absolutismo a Carta de 1822. uns pelo excesso da importância individual. o poema Camões. é concebido dentro do cerco do Porto em 1832. Esta relação superior entre o tempo. foram os dois pólos da nossa vida parlamentar. o Alfageme de Sanfoi tarém escripto entre as luctas do elemento constitucio- nal puro contra o facciosismo da rainha na época da dicta- dura cabralina espirito e o seu rett a faisca em 1842.

da coroa. dando-lhe conhecer as questões fundamentaes do nosso século na sciencia. na lilteralura c na historia. deixou passar uma politica de expedignidade esse ultraje á de um povo livre. na politica.LIVRO II ALEXANDRE HERCULANO (1810— 1 877) Quando Portugal um dia a geração moderna procurou relacionar a com o movimento estrangeiro. mandando por prohibir essas uma geral portaria fundada sobre uma consulta do procurador policial. Aquolles que pensavam que a circulação das ideias é o estimulo vital de todo o progresso em uma socie- dade. e que explicavam tria a decadência e o atraso da sua páapathia mental. O parlamento sem reparo estava fechado. e sç organisaram as Conferencias democratkns. c a im- prensa jornalistica na espectativa de dientes. e por intimação Conferencias. um ministro constitucional vio- lou o exercicio da liherdade do pensamento. protestaram como consequência da mas não foram ouvidos. Havia em Portugal um homem que era .

que os que o idolatraram em vida se esquea subscri- ceram do fetiche quando os convidaram para pção de um monumento. e a sua voz acostumada á energia do protesto. p. quando andavam munidos de sacos para o mo- mento em que podessem entrar na cidade. — . Herculano era considerado como uma consciência inquebrantável. 193 a cumprimos um dever moral a despeito das admirações inconscientes.220 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ouvido como um oráculo. fazendo o processo e da missão da intelligencia ainda teve do grande homem. nos brindaram com a plirase 1 Foi 203 . deve-se revisar a obra de Herculano cora justiça e trazer á verdade o homem legendário. nem violências de combate. que pedras atiradas á janelia de Herculano. hoje sem paixões. Hoje. quando se pronunciava fortalecia-se com o assentimento dos espiritos. Desde esse dia em diante Herculano rompeu com ração nova do seu paiz. Nunca ninguém exerceu um poder tão grande. Alexandre Herculano ao cabo de muito tempo publicou uma Carta. de severidade que o chamava social. como es- um povo se entrega a a um salvador. em que dizia que as grandes questões do tempo eram o infallibilismo e o marianismo! que para elle a Democracia eram os miguelistas do cerco do Porto. Aquelies que foram violados no elle seu direito consultaram-no. ftste o pensamento do nosso artigo da Bibliographia critica. appellaram para em ta- manha iniquidade. na forma a mais espontaneamente reco- nhecida. * Herculano conhecimento do espirito perante a critica. Tinha o poder piritual sobre nação. e a esta a ge- competia retirar-lhe o pocritico der espiritual. mas a morte eliminou esse factor que pela sua immensa aucloridade e pelo estacionamento em que se deixara íicar começava a exercer uma acção ne- gativa. as opiniões entrega vam-se á sua affirmação.

e parte depois para Plymouth. O embarque de Belle Isde. luto em 1828. — (De 1810 a — — — — — — — — — — O lypo de Herculano indicava a sua naturalidade. O pae de Herculano ficou totalmente desconhecido. n. e a revolta de iníauteria 4 a favor dos liberaes.ALMEIDA GARRETT 221 § I. recebedor da antiga Junta de Juros. filho de Theo- doro Cândido de Araújo.» 1:803. Como estes successos ioDuiram no seu caracter e talento litlerario. O curío de commercio na Academia real de Marinha. havia na sua physionomia e no trato pessoal a secura do saloio. A expedição franceza ao Tejo em 1831. Nasceu em Lisboa a 28 de março de 1810. refugia-se na esquadra franceza. versos do século mas em um manuscrípto de Silva. * que per- tenceu á livraria do bibliographo Innocencio Francisco da acha-se uma Epistola dedicada a Theodoro Cândido fraco poeta José Peixoto do Valle. culo até á revolucJo de 1820. que recebeu na para a aula de comxviii.-^no absoVersos contra a Carla constitucional. A hereditariedade moral é um dosphe- nomenos que mais deve interessar a critica moderna. de Carvalho por um em d'a- que se exaltam as suas virtudes como dignas da eternidade. A Epistola é realmente extraordinária. Herculano acba-se envolvido n'esse movimento. Primeira educarão no Mosteiro da? Necessidades. . e alguma cousa quella honradez tradicional se conservou na independência de caracter do filho. Herculano decide se pelo íjove. Isto não foi sem inlluencia na educação destino Academia Real de Marinha com mercio. sobretudo quando as biographias são consideradas por Maudsley como um dos mais importantes subsidios da psycho- » Caía%o. 1830. Os*caceteiro9 miguelistas e a anedocla do gilvar.) Estado do espirito publico desde o principio do séHereditariedade e alaviénio de Herculano.

* HISTOBIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL O avô de Herculano. era pedreiro e mestre de obras da casa real. no Brado a á demolição os mosteilei favor dos Monumentos. # Pae de Alexandre UcrculaDO. Miguel ou de D. e pirito entre a causa a oscillação a do seu es- de D. O valimento de Herculano no paço e a sua sympathia pela familia dos Braganças tinha raizès nas antigas funcções de seu avô.222 logia. inspirou-se do amor da architectura no pequeno romance a protestar nos seus artitos A Abobada. acontecimentos e a pressão dos partidos obrigou a 1 Ao Hv. dcshumanos. Kão c hcroí! o avaro que faminto vil Em seu thcsouro ceva a cobiça. desvalido. * E eni sórdida ambição sempre inquieto Dorme éobre>allad() em montes do ouro. a dura eorto i)os bens Do <ie?graçido o triste Sem que d uma só vez Dos gemidos. Vivendo entre grandezas e gosando que nwo merece. atrozes. se compadeça do pranto acerbo Do triste orphão. Carvalho. só [)rocura Augmoíitar (|uanio pode. do< ais. que a violência dos definir. Thcodoro Cunditllo epístola. Jorge Rodrigues de Carvalho. (Nota de loDOcencío. Pedro era o re- sultado de uma affeição indistincta. «Ic Carvalho JNio são lieroes. como escri- ptor Herculano conservou sempre uma predilecção pela ter- minologia architeclonica. Sem dar um real do esmola ao pobre alflicto. assolam. Núo é heroe atiuclle que cercado De dourada haixclla em lauta mesa.) . Vertendo o sangue humano os seus triumphos Wo meio do terror e da carriagem : São bárbaros. os que na guerra Cerrados esquadrões rompem. contra a indifferença do governo constitucional que deixava expostos ros e collegiadas secularisados pela que extinguiu as or- dens religiosas em 1834. e foi o primeiro do Panorama. da timida donzella.

nspirava-se á liberdade em sophismava-se essa aspiração com uma mo- narchia parlamentar para tornar a cair no absolutismo crasso. João vi. Costumes sãos da edade de Saturno. Ouo desbonrartí a terna bumanidude: lleroe é só aquellc que a virluilc A dillicil virtude scfiue bonrado. callavam-se os desconlontamenlos era normal o confisco dos bens dos (pie com a forca. de Poesi:3 varias. do protectorado de Inglaterra. E que devem gravar grande nome José Peiaoto do Valle. Carvalbo Estas as ({unlidades que adornam Estes 08 dotes teus.: : ALMEIDA GARBETT 223 Ao determinar 1810. depois da entrada dos francezes. que levâia comsigo para o Brazil todos os dinheiros dos cofres públicos. Yivia-se na incertesa. foi a 'data do nascimenlo de Herculano fica-se conhecendo o desgraçado meio moral em em que orientado o seu espirito. Em niveo jaspe. e seguiam principios oppostos aos dos que usavam do podei". rege os passos teus e que preside teu A todas as acções que tu praticas.» 1. estava na mais in- Nao Silo ficrocs. De a amar a lodos. os teus cdsUinics. os typos azedos e mal humorados. que guia bem. p. Era teu formoso peito se agasalbam As virtudes gentis do Eterno lilbas A Justiça. Geraram-se as naturezas descontentes. que saquearam o paiz. (Inédito — Ms. a Honra e o lirio. a par da eternidade. de lei. illtislre. Em'alnia bemfazcja o coo benigno ti Em Que depositou: tenção brilbant*) lodos fazer. a Rasão.803 . Cal. esses iyriíiinos Que na Hyicania ou mo Caucaj^o noailos Nunca cessam de obrar acções ifífames. n. no jugo uma constituinte. 397. A nação. propagavanj-se as ideias á cacetada. Kslc o caracter teu. só passo nAo torce na carreira Que um Da magestosa estrada da alta te {floria. te Esta é a Carvalbo. Carvallio. tismo Ibi a lucta do constitucionalismo com o despo- ferrenha e cannibalcsca. e depois da fuga de D.

existia na nação contra os inglezes que nos tra- tavam peior do que os exércitos de Napoleão. Para o Marechal ? Um punhal.224 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL sondavel miséria. D. mas com um instincto de verdade dei. povo portuguez sabe pouco ou nada da sua historia. de 13 de janeiro de 1817. Para os Governadores? Os Executores. 1 ^ ArchíTo da Inlendeucia da policia.^íou retratado este pe- ríodo de degradação em um pasquim. Para o Hei ? A Lei. Liv. xvi. entregue a uma Junta que governava era nome do monarcha que abandonou o seu povo ao inimigo recommendando-lhe obediência cega. As ordens religiosas. e iam introduzindo nos commandos militares oííiciaes exclusiva- mente ria inglezes. e em Herculano no seu escripto de Jersey e Granville conserva-se essa nota de patriótica hostilidade. absorvendo cada vez mais a riquesa territorial pelas doações do fanatismo. Reinava a mediocridade nos espíritos e a estupidez ms multidões. 271. . para nâo desacostumar o povo da sua paternal soberania. fl. e a um leve golpe de circumstancias Beresford convertia mão provocado Portugal em uma pelas feito- de Inglaterra. João musica aos pretos. abafado pela Inten- dência da policia: — Quem «O — Quem sancciona a «O — Quem executores? perde Poríugal ? Mareclial. Os inglezes. apoderavam-se das inlelligencias educando-as no sentido das doutrinas que mais convinham á sua associação egoista. lei? Hei. O espirito de revolta que precipitou Go- mes Freire. de vez tugal vi entregue á preoccupação de organisar a capella real mandando ensinar em quando enviava para Por- uma Carta regia. infiltravam-se no paiz. o Ckilcl mesm© contra Byron e o Harold. i são os «Qs Governadores.

. inimigos dos Jesuítas no fervor pedagógico. os Padres do Oratório. das Bulias. c a guet» nós mesmos devemos parle da nossa educação íilleraria. vigor nas ques- tões clericaes da Concordata sobre o Padroado do Oriente. dispendendo o seu. 1 No prolopo da ediçilo dos Annaes de D. Floresceram acreditados como mestres. acharam nas reformas de Pombal o ensejo de desenvolverem a sua actividade. e com a emphase do psalmo. 15 ix. * da Lógica de Genuense. e ao Oratório pertenciam o grammalico António Pereira de Figueiredo. João líl. e o padre Theodoro de Almeida. cursando as disciplinas da Grammatica latina. mas cia. o da Recreação philosophica e do insulso romance do Feliz Independente do inundo e da fortuna. Elle frequentara até aos quatorze annos as aulas dos Padres do Espirito Santo no mosteiro das Necessidades. a quem as leiras portupuezas laiilo deTcm. para cair e da Rhetorica de Quintiliano.ALEXANDRE HEBCtJLANO 225 isto Os estudos de Herculano foram incompletos. ficou-lhe comtudo essa feição auctoritaria. Este regimen conservou-se até á abolição dos conventos. se a evolução do espirito um dia a emigração para França não puzesse Herculano em*contacto com a sciencia com moderno. e longe de prejudical-o causoii-lhe a autonomia da intelligen- um grande rigor de critica e de melhodo. Quem escapava ao prurido a vida eivado da seducção da vida claustral. auctor do Novo Methodo. Assjm aconteceu a Herculano. Depois de Pombal ter expulso os Jesuítas o ensino publico Geou a cargo de outras ordens religiosas. que a educação catholica pela leitura da Biblia amoldou a um tom parabólico. de Frei Luiz de Sousa.t p. lèem-íre estas palavras aiitobiographicas : «essa congrefracfio celebre. pub'icados por Auvandro llt-rculano. que se mostrou sempre versado no conhecimento dos Concilios. todos passavam na sua educação pela de fieira dos frades. Isto bastava em um e pedantismo invencível. ficava para toda uma erudição theologica e casuista. sobre as Irmãs da caridade e soibre o Casamento civil.

Entre os seus estudos regulares cita-se lambem Tombo. e para manifestação monarcha. estava por tudo. a de adhesão entranhavel á pessoa do nobresa tirou os cavallos do coche real e pu- chou-o até Lisboa. D. sendo tino approvado segundo a classificação d'esse tempo. Foi uma honra inaudita . Deu-se a Villafrancada. com- tanto que o deixassem reinar. rães. e a das modinhas brazileiras era applicado aos hymnos em lou- vor do monarcha pela Constituição que jurara. o estylo pudor a Portugal. seguiu a direcção em que o impelliram. tanto se lhe dava ser constitucional. o povo comprehendeu o prejurio do monarcha. João vi rasgasse a Constituição e se proclamasse absoluto. a frequência da aula de diplomática. foram buscal-o a Villa Franca de Xira.! 226 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL De 1825 a 1826 frequentou Herculano o primeiro anno do curso malhemalico da Academia Real de Marinha. D. espalhando o pasquim: Álerla I alerta Que o rei deserta. com despara a aula de Commercio. espécie de Vitellio levado em triumpho. E tudo assim. haviam puchado o coche Quem se achar n'um meio as- . despótico ou simples presidente de Republica. João vi regressara sem nação ainda mais degradada recebeu-o com festas. na Torre dirigida da pelo paleographo Francisco Ribeiro Guima- Estava-se n'essa terrível época de indecisão politica» em que o sophisma do constitucionalismo pela monástico liga do partido com o absolutismo se via exposto a um acto de violência. A nobresa exigiu que D. e feito o exame do segundo anno obteve da Junta de Commercio uma espécie de diploma. durante sema- nas muitos titulares e militares de altas graduações recla- maram pela imprensa o serem incluídos na hsta dos que real. João vi. o que equivalia a ter de repetir o anno caso quizesse proseguir no Curso de Mathe- matica.

O homem é também alguma cousa feito pelos acontecimentos. Miguel chegou á barra. Miguel em Vienna de Áustria. fará a handa do arrocho. e por isso não nos ad- mira que. Rei chegou. se nâo é uma naturesa moralmente robusta. gritavam pelo Terreiro do rei absoluto Paço Viíxi D. sua irmã Isabel Mapode- que occupava a regência. Miguel chegou ria. fica perdido. Miguel a Lisboa. cantavam-se hymnos exaltados e parodias picarescas: D. João VI. chegou D. Herculano tinha então quinze annos. revelou-Ihe que não era filho de D. elle pendesse. Miguel de Portugal. Sua mile Ibe deu a mão Vem cá GIbo da miuba alma. — Não jures Constituiçiio. A torpe Carlota Joaquina. panhol Rei chegou. e como do hymno constitucional hes- uma réplica ao trágala. para tornar o filho um instrumento passivo da elle reacção absolutista. Herculano seguiu primeiramente o absolutismo. cantado ao um retor- compasso de cacetadas. perro. quem ousará culpar uma criança saida da escola dos Padres das Necessidades. Logo que D. e que se Ibe não obedecesse em tudo o desaucto- .— : : ALEXAUDEE HERCULANO 227 sim degradado. sem outros conheci- mentos além de umas vagas humanidades? A corrente era para o absolutismo e na aula do Commercio os aluranos açulados pelos que se sentiam despeitados com o desterro de D. a Lisboa. Em Belcm Desembarcoa. em uma época em que como era forçosa a decisão por se diz na phrase vulgar. a 22 de fevereiro.itk Acompanhava-se cada copla desenxaibida com nello estridente. declinou n'elle os seus res. Em 1828. antes de ter constituído o seu caracter. e começou então o regimen do terror. um partido.

as violências dos caceteiros. .: 228 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL rava declarando o seu adultério á nação! Os liberaes viam no estouvado Miguel apenas o Ramalhão. Os que pretendiam uma Carta constitucional * como base dos direitos políticos eram os Malhados. os Corcundas^ os Caipiras. Que lá está embalsamado Para sempre. os ros. que se fizera patrono da causa liberal. á falta de ideias que os delimitassem. eram chamados oS Realistas. Oh Porto ladrão. distinguiam-se por affrontosas alcunhas. o facto da independência doBra?^ por D. Pedro. Villa Nova jura A Constituição. Oh Braga fiel. as prisões por denuncias secretas e os enforcamentos converteram muitos pretendidos legitimistas em liberaes. os Orelhudos. rei. Não existe na nossa 2il. e as cantigas provocadoras. civil Bur- ou Miguelistas. a cujo desastre se (ez esta cantiga Quereis vér o vosso Ide v61-o a Queluz. de iferte a parte como: Os Malhados nSo queriam D. uma clara noção da independência os partidos. sem civil. Vacillava-se na onda dos acontecimentos. Mi- guel. Vieram ainda azedar mais o conflicto as insígnias de cores distinctívas. lançou muitos homens sinceros e ingénuos patriotas na usur- pação miguelista. Pois agora ahi o lôm Feito rei de Portugal. » Nome tirado dos cavallos que viraram a carruagem em que andava D. azul e vermelho para os absolutistas. azul e branco para os liberaes. filho do feitor da quinta do historia uma época de maior degradação e insensatez. Miguel por general. pessoa do rei os que só reconheciam a soberania na por investidura divina. ameo Jesus.

e como tendo já feito Portugal a sua colónia mais rica. Alexandre Herculano. percorrendo as ruas a todas as horas do dia. Onde encontravam ura Viva el-rei liberal conhecido. a em 1 1 de julho o declararam único a cidade de Portugal. Malhado Chucha! Judeu. Todos os biographos de Herculano guardaram um . Apenas do Porto reagia contra esta monstruosidade. Desde a proclamação de D. se lhe não ficasse im- pressa na face uma cicatriz. fomentada pelo. com os seus dezoito annos estava então no vigor da edade.ALEXANDRE HERCULANO 229 Effectivamente. que rei legitimo e a 3 de maio D. Os mais ballucinados partidários do throno e do altar formavam ranchos de caceteiros. com o clero. cantando o estribilho: Fora. iMiguel inveslin-se da soberania convocando as cortes á antiga. Miguel é rei. em odes e sonetos emphaticos. ou que ttJiha cara de ser malhado. e não contente de exaltar o rei como seu senhor. nosso senhor! Quem não correspon- dia a este salve era amachucado. Miguel i. fanatismo das ordens monachaes e pela imbecilidade das casas aristocrá- Os municípios fizeram manifestações de adhesão ao monarcha absoluto. nobresa e o povo. a liberdade era considerada como uma perder a desmoralisação do século. Acabou-se a guerra I D. derrubavam-no á cacetada. Esta phase da sua vida absoluto seria completamente desconhecida. cuja historia se repete oral- mente. que lhe ia depositar nas reaes mãos a Queluz. Miguel. logo a 13 de março de 1828 dissolveu a camará dos deputados. filiou-se também n'um bando de caceteiros. começou o systema de propaganda absolutista pelo espancamento pelas ruas. dia-se que Portugal só podia e existir entregando-se á liga do throno do altar. e no meio da estupidez publica ententicas. aos gritos: D.

Foi talvez por esta circumstancia de haver na sua mocidade pertencido ao partido do absolutismo. Corcunda! E em seguida: trabalhava o caceie. e accrescenta-se que o auctor d'esse ferimento oÈcial de marinha foi depois geu companheiro de emigraçào e seu iotimo amigo. ás Aguas Livres. Insultavam-se também alentados do com ditos: Fora. rixa com outro pequeno grupo de estudantes liberaes destimido. se nâo se visse ção. nâo exer- como Costa como uma acção tão profunda na renovação da litteratura portugueza da época do Romantismo. ou caminho da emigraCastilho. resultado de um ferimento em 1828 por um individuo com quem tivera uma contenda por causa de uma questão nascida de divergência de principios politicos. Herculano incensou o atrabiliário Miguel com va- 1 «Alexandre Herculano tinha na face uma cicatriz.) — . apenas' • em uma reiras. de que elle foi tes- temunha. No seu fervor reaccionário. e cujos heroes conhecia. Os talentos litterarios de Herculano achavam-se também elle atrophiados pela persistência das formas arcádicas.» (Actualidade. e era valente e por isso que. quando vieram ás mãos ao anoitecer. lhe atiraram a segurar. Ma- lhado! Fora. que Herculano nunca escreveu a historia d'esse heróico cerco do Porto. conhecida peio nome de gil-vaz da feira das Amo- Conta-se que a scena se passara por occasiao da festa do Espirito Santo. na feira annual das Amoreiras. setembro de 1877. dando-lhe uma navalhada no rosto.230 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL silencio systemalico sobre esta phase da sua vida. o Galhardo. seria ceria um dia forçado a seguir o e Silva. como se dizia na linguagem do tempo. * biographia que appareceu na Actualidade. Alexandre Herculano pertencia a um foi grupo de rapazes que andava de . de quem veiu a ser parente e amigo. Diz-se que o grande escriptor fora nos primeiros annos da vida ardente defensor dos principios por — um que se regia a antiga monarcbia. Dizia-se que lh'a dera um official de marinha. ali se encontravam os ranchos dos caceteiros mie se batiam guelistas. seallude á cicatriz. com outros campo constitucional.

e Sousa Monteiro. trazendo em remunera- ção cédulas de mil e duzentos e dois mil e quatrocentos réis em papel. Jurado inimigo do nosso monarcha. Innocencio Francisco da Silva mostrou-nos por lettra de Herculano uma d'estas Epistolas. onde ficara D. Referia-se a Lord Charles Stuart. infame e danada. e os poetastros iam recer-lhe as suas em caravana oíTe- Odes e Epistolas. em que se apodavam os liberaes da ruina da pátria. Miguel dava audiências ás quintas feiras nos paços de Queluz. e se atacava a Carta: A Que em março Carla maldita. cujas copias ainda se 231 conservam por mãos de ali curiosos. que pu- bhcou em Paris quando ali esteve por embaixador. a sua rica das bibliotheca era extremamente mais preciosas rari- dades da bibliographia portugueza. antigo legilimista também conservava outras peças d'esta phase litteraria bem como o curioso bibliophilo Rodrigo José de Lima Felner. Que já nos fizera perder o Brazil Por mio de um tratado vergonhoso e vil. que elle levava ao beija-mão de Queluz. . qual burro. . Pedro. Referia-se ao acto de 13 de março de 1828.. trazida do Rio de Janeiro. Ainda se repetem de memoria alguns versos de uma virulenta Satyra intitulada Os Pedreiros. Este periodo da vida de Alexandre Herculano servindo para caracterisar o meio social anterior ao cerco do Porto. patife da marca. Mi- guel dissolveu o parlamento e se tornou absoluto. N'essa Satyra fazia Herculano a historia da Carta constitucional. por ^ P Sluart brejeiro. . em que D. que negociou o tratado da independência do Brazil. jà foi tosquiada . e que em Lisboa mandou co- piar o celebre Cancioneiro do Collegio dos Nobres. D. meio deprimente em que as intelligencias mais robustas mal se podiam elevar acima dos preconceitos mantidos pela . ALEXANDRE HEBCULANO rios sonetos.

encerra curiosas revelações omittidas nas edições subsequentes em oitavo. ainda possuía toda a vigorosa ignorância da ju- ventude. e que a minha harpa estava afinada para cantar um tal objecto. este período tem a particularidade de nos explicar o vidade. traz algumas notas de va- lor autobíograpliico: «Eis o poema da minha mocidade: são os únicos versos que conservo d'esse tempo. eu olharia ao primeiro aspecto esta proposição como um absurdo. ainda queria conceber toda magnificência do grande drama do christianismo. nada mundo deixava para mim de respirar poesia. que desabrochou aos primeiros soffriaientos Crente. n'este em que. Não é esta a primeira das mi- nhas contradições. accordo de Como venceu Herculano este meio deprimente? Eis a base d'esta. entre tanto eu mesmo ha nove annos realisei este absurdo. pela hberdade. e espero em Deus e na minha sincera consciência. . Se hoje de quinhentos versos acerca me dissessem: Fazei um poema da Semana Santa. Engánava-me: a Semana Santa do poetíi não saiu semelhante á Semana Santa da re- 1 Adiante veremos como destruio estes seus primeiros ensaios. sâo a prova de que era um espirito profunda- mente poético.232 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL educação monachal. dedicado ao Marquez de Rezende e O poemeto lyrico em tes- temunho de amisade veneração. que não seja a ultima. xandre Herculano acha-se esboçada como reminiscência nos seus versos .estudo litterario. que reuniu com a Harpa do Crente. A Semana Santa. e seria um em continuador de José Agostinho de Macedo. Uma grande parte da vida moral da mocidade de Alee essas composições. — Quando eu compuz esa tes versos. A Harpa do publicada em três fascículos na primeira edição de 1838. porque estava doutrinas. * homem em elle grande parte da sua ulterior acti- Por se vê que Herculano seguia em littera- tura as velhas pautas académicas.

de 1838-. primeira serie. p. que animam o seu passado com uma dade e luz sympalhica. se chegasse aos trinta annos. ^. tendo essa consciência. vé-se que o christia- culano esta composição em nismo idealisado rito.» 233 Em seguida. que o seria em todo o paiz. para salvação d'este. amoroso e honrado. Era uma illusão do sentimento. Pedro V o ia tornando no seu animo um rei absoluto.» Determinada pelo próprio Her1820. . pois. factos. 32. e que até á consummaçâo dos séculos talvez nâo appareça outro: «Porque. diz que só como houve no mundo um Klopstock. tomando os mylhos do sacrifício o maior fado do universo. Ed. consinta de bom grado em deixar nas trevas o fruclo das suas vigilias. não acompanharam estes versos os outros da primeira mocidade no caminho da fo- gueira? Porque publico um poema falho na mesmissima es- sência da sua concepção? — Porque * terího a consciência de que ahi ha poesia. Outras recordações da mocidade vigorosa de Herculano transparecem nas suas Poesias. sacrificar-se pela causa Herculano era intelligente e novo. exclama. Na bella composição lyrica Moei-' Morte. até certo ponto em contradição com os mas cheio de dignidade: Eu nunca Oz soar meus pobres cantos Nos paços (los ícnliores! liymiio mentido Eu jamais consagrei Da terra aos oppresfores. que. e por isso não podia deixar de tiça. uma das jóias da poesia portugueza. e porque não ha poeta. descrê í llaTfa do Crente. e foi uma orientação prematura do seu espi- que as suas tentativas de tradução da Messiada eram os restos de uma preoccupação da mocidade.ÂLEXAKDBE HERCULANO ligião. porque mais tarde o soldado do cerco do Porto declara que na sua amisade por D. da jus- Na sublime poesia A Victoria c a Piedade.

Vede o. D'esta crise resultou uma transformação intellectual. Pela alta noite em solitário leito. no tronco do cedro A minha harpa infeliz pendurara. Herculano amara. como todos os portuguezes. Do coração os éstoà barmonisam. quebrada. os olhos filos. e surgiu um homem novo. Na poesia A Felicidade retrata esse primeiro desalento e desorientação da sua vida: Triste o dom do poeta ! No seio Tem vulcão que E a mulher que Nem sequer um as entranhas lhe accende. Meu engenho tornou -se um myslerio Que ninguém n'este mundo entendia. Ao amor este peito cerrara. p. prematuramente. Seg. velador de angustias. 63. em fio as lagrimas deslisam. edif. Um véo qegro cubriu-me a existência. e esses primeiros amores foram também cheios de decepção. que apressado bate. E. e passado de angustias. As magras mãos cruzadas sobre o peito. . a fronte lhe alaga o suor frio. tão moço. Que gelada. intimo cicio . É que É que É qae nas veias lhe circula a febre. dando mais relevo á sensibiUdade do poeta. E com o pulso. . vestiu de seus sonhos olhar lhe comprehende! E trahido. Estes versos são uma revelação fundamental do caracter 1 Poesias. PuF essas faces Olhae. que se liga á febre trau- mática resultante da aventura da feira das Amoreiras: Solevantado o corpo. . cavadas. pallidas. lá dentro á dor que o vae roendo. l Responde horrível.234 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ve-se essa grave crise pathologica. e maior poder de reaUdade á expres- são subjectiva do sentimento. que inútil corria.

finalmente aos quarenta e quatro annos. durava um momento Apoz vinba o remorso amargoso . devendo a D. 51. ALEXANDRE HERCULANO 235 I de Herculano. Poesias. que próprio confessa. deixando a gloria litteraria. fugía-me erabreabei-me por entre os deleites o goso ele. que esteve a afundar-se nos parcéis da politica. para justificar as suas queixas de desalento. vê-se que Herculano precisava de um pretexto imaginário. Apoz essas quadras tão cheias de espontaneidade. lidos isoladamente podem tomar-se como uma rajada á Manfredo. e as mudanças foi nos seus planos de trabalho. negro. Fernando o acolher-se a porto seguro. um véo um amor trahido que lhe cubriu a existência. segue se uma estrophe em que explica a turbulência dos seus primeialurdir-se da desesperança: ros annos como quem procurou £ Mas tocando-o. Aos vinte annos. mas aproximados de outros despeitos. Essa poesia é datada de maio de 1837. como do caracter. de um romântico incomprehendido. e ! neceu irreconciliável com Castilho • Essa brandura revela-se Pag. uma catastrophe moral. A transformação d'estes motivos mos- tra a tendência melancholica um dia havia de leval-o ao isolamento (na quinta de Vai de Lobos) e ao tédio (motivo da publicação dos Opiisculos. Herculano era de uma indole ao mesmo tempo como perma- amoravel e rancorosa. como se yê na Illustração. . revelou-o sempre na complacência aturou Bulhão Pato e Silva Túlio. aos foi trinta e dois annos o seu baixel ou esquife. o véo negro e o esquife foram substituídos por uma outra cousa. a única elle ambição de sua existência.. 218. o truncarem a sua carreira histórica. p. * mas as recordações mais antigas de que trata ó que nos interessam.) Voltemos ao pe- ríodo do primeiro desalento. Como com que forte. 2 r . ^ Se o coibia.

em várzea extensa E ás bordas do ribeiro que murmura. Diviso ás vezes. nos hábitos da sua mocidade.: : 236 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL flores. Na poesia tão repassada de melancholia e de verdade. para ir fazer-se trabalhador da terra. Esse bosque o pomar da minha terra. E illudo-me : essa várzea é do meu rio. E os perfumes de abril que eile derrama. E vem-rae á ideia o laranjal viçoso. ! : E morrestes. . peregrino e pobre. os amigos. o fogo da desdita Faça pender. Um dia esse eram para as flores as suas primeiras saudades. Pelas horas da tarde. para seguir através de uma illusão antiga. Por certo nRo viveis sol pendeu-vos. era apaixonado pelas e quando se deixava impressionar pelos desalentos da emigração. que eu Como viveis sem mim? Nas longas Que vou seguindo. Sob este rude céo. E as brancas flores. Sem que torne a vôr mais «sses que amava. Tristesas do desterro. em distancia um bosque De arvoredo onde bate o sol cadento. Morrestes sobre a terra. e deixaria tudo. E eu? talvez n'e9tes campos estrangeiros Minha existência. vias. Do monótono som da lingua sua. proprietário rural na quinta de Vai de Lobos. murchar. clara i Que Sb pendura sobre a lympha Lá no meu Portugal 1 Poesiasj p. Mirradas folhas para o chão fervente Ninguém se condoeu secou -se a seiva. amor da mocidade iiavia de apoderar-se do velho. Que por cuidados meus vos educara. e os dourados fructos. flores. Sem que torne a abraçar a arvore annosa. ir-se mirrando. que eu amava tanto. os Hvros. 17y. entre o ruido Dos odiosos folgares do Sicambro. Herculano allude ás suas çôes que vieram affei- com a edade a tornar-se absorventes amava tanto. . Aproximo-rae o sonho de um momento Então se troca em acordar bem triste. Ai pobres flores. Arvores. a admiração.

.. Um louro só . Fugiste. 204.. morte sede de um nome glorioso. 2 E Ga Que por mim cultivado crescera. 207. .. Que t5o fagueiros sonhos me tecias. egualmente bella pela realidade do sentimento. podesse de- sabrochar. o revelou com toda a franquesa no prologo da terceira edição da Historia de Portugal^ mas já nos seus versos escriptos no período da emigração faz vibrar com eloquência esse sentimento. Que deixara viçoso.. calado cemitério. que era o resultado e de uma vocação que se defmia. ! . gloria.. tu. e que saudara Desde além do oceano em seu delírio. ALEXANDRE HEBCULANO 237 I Em outra poesia A volta do Proschpto. e que penso. tudo devoras SÓ faltava um impulso para que esta vocação abafada pela acção deprimente do meio em que se achava. ^ o arbusto que oulr'ora plantara. Assim na Mocidade exclama: Oh. torna a alliidir a essa paixão pelas flores que cultivava: Conta se que o seu amor fôra trahído. Que entre angustias já mais esquecera . . Que engenho. e só me resta a pobre herança . . cedo repousar na terra ? Oh meu Deus. I £ serei leu. De vêr a luz do sol mais alguns dias Eu que Irei tilo existo. Uma das paixões mais prematuras de Herculano elle foi a aspiração litteraria. amor. e fallo e títo. esse impulso foi a necessidade forçada da emi- í Ibid. 2 Ibid. Dizer posso : Existi que a dôr conheço Do goío a taça só provei por horas . e meu Deus um anno meu sepulcbro cerra ! ao menos I . p. . oh . p. que mirrado achou de amor o myrto. .

. o ancião guerreiro.circumstancias em que se achou envolvido. a honra e vida. Ao perpassar do veterano. O . Em Na poesia a Cruz mutilada. A par da gloria litteraria sorria-lhe também a gloria militar. p. que esta harpa fallava de amores Era bello quando o estro accendiam Em minha alma da guerra os terrores. Adiante explicaremos essas. as tra- dições heróicas da resistência de Portugal contra as hostes napoleónicas. Ao vêr.: . o sol tostou c que enrugaram annos. junto do teixo Da montanha Que natal. Vem assentar-sc á luz meiga da tarde. dia este sentimento nacional se fortificasse * Poesias. e santo. 238 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL graçao para Inglaterra e França. descreve esta Era phase ideal da sua bello esse tempo da vida. retrata com toques tão vivos esse typo do veterano das guerras peninsulares desde a lucta desarrasoada contra os exércitos da Republica franceza até ao triumpho dos exércitos imperiaes. Com amorosa timidez os moços Saudam-n'o qual pae Assim do velho Pelejador. quo emfim. os derradeiros dias Derivara para o tumulo suaves Rodeiados de alTeelos * Quando um 12i>. que a existência Desgastou no volver de cem combates. que era uma das expressões de ver- dade na sua poesia. Na tarde do viver. devem lhe todos a liberdade. Na ode A juventude Felicidade. o seu paiz querido Já não ousam calcar os pés de extranhos. erí esse um ideal da sua velhice: Cansado. Na fronte calva. incendiavam-lhe a imaginação e inspiravam-lhe o sentimento nacional. Ha um como íulgor sereno Da aldeia semideus. os velhos A mão que os protegeu apertam gratos teclo.

umas vezes escrevia: «esta geração vae perdida. p. não comprehendeu logo a verdade das doutrinas politicas que mais tarde veiu a seguir. e á medida que os annos o faziam estacionar. Garrett precipilou-se no vigor dos annos e contra o sentimento da sua familia no movimento liberal. iri. . comprehensão da liberdade nunca se elevou » > Panorama. 2 Ibid. ^ Este ficou o typo do sentimentalismo de Herculano. : 66 (1836). 212 O Minho romântico. como não tinha em volta de si o estimulo d'essa geração enthusiastica da Universidade de Coimbra. se mentem as theorias dos políticos . outras vezes avivava o passado da: com uma saudade irreflecti- «Nós. Assim aconteceu. assim também nos dois chefes do movimento romântico se conservam os signaes da sua maneira arcádica. e que vimos as lagrimas do povo. não sabemos se aquellas lagrimas mentiam. vol.ALEXANDRE HEBCXJLANO 239 com O desenvolvimento da rasão. p. . Mas esse desenvolvimento foi mais tarde paralysado pela tendência contemplativa de uma exaggerada educação catholica. revelando-se como uma naturesa descontente. que escrevem no reflectiu-se silencio do seu gabinete suas obras. italiana Assim como nos escriptores da Renascença em Portugal existem vestígios da sua antiga adhesão á Escola hespanhola. Herculano. que assistimos á suppressão de uma parte dos velhos mosteiros do Minho.. .» * e mostrava-se partidário das velhas ideias. Herculano con- servou até ao fim da vida um certo despeito contra esta marcha dos primeiros passos políticos. voltava instinctivamente para a preconisação do regimen absoluto. que n'elles encontrava os soccorros da doença e o pão na decrepitude. ou dos versos de redondilha. o poeta tornar-se-ia es- pontaneamente historiador. I. d'onde se despren- deram pelo facto de assistirem no tempo da emigração á renovação das litteraturas românicas. a educação fradesca em todas as A yoI.

patroci- nada pelos governos reaccionários de Inglaterra.» (pag. os crimes. p. a grande moralisadora das nações modernasl As monarchias de D. aliás sempre sincero. Luiz xiv e Luiz xv.» Sem este passado de Herculano a situação não se poderia comprelitterato. como se lê no prologo que poz á Voz da Propheta. ^ Não devemos terminar esta época da vida de Herculano sem explicar as circumstancias que determinaram uma re- volução fundamental na sua vida pies ou ao partido liberal. a civilizarem a Europa? fascinação pelo principio do direito divino. Henrique* VIII. 2 O portuguez. e o clero modilicaram-se pelo seu influxo viJisação nada mais é que a íórmula profana do christianismj. \o\.. explica elle assim a miss5o histórica da monarchia absoluta: «Veiu o século xvi com elle veiu a monarcbia absoluta a nobresa essa grande civilisadora e moralisadora das nacòes modernas: : e como a cicivilisaram-se. Este periodo da vida de Herculano andava biographado por Innocencio Francisco da Silva em um caderno manuscripto com o titulo de Aleixo Fagundes Bezerro. Miguel. É assim que se tornam explicáveis todas as contradições d'aquelle caracter. por isso que fora possível ao II. de Leopoldo. assim fechou a rolacilo do seu espirito. der espiritual que se tem concentrado nem a incapacidade de dirigir a geração moderna que lhe concedeu o maior po- em um homem. Philippe II. misanthropia. o clero começou a ser verdadeiramente christão. No seu opúsculo O Clero 1 Ibid. a incredulidade dos monstros de Byron sâo o transumpto medonho e su* blime d'este século de exaggeração e de renovação social. hender de espirito do nem o retra- himento e despeito contra o seu tempo. publicado em ISil. 3.) A monarchia absoluta. — a conversão aos princi- A causa de D. Manuel. com a nobresa da — — — — prostituição iBto 8Ó por uma palaciana e com o clero do qucimadeiro. 123 : Novellas de camllaria. parecia radicar-se. espirito acima de e para o homem que uma causa de grande perigo soem Portugal propagou as formas renovação era a consequên- da cia litteratura romântica. o seu espirito veiu com o tempo a essa orientação primeira. que elle mostrava secretamente aos amigos. Carlos v. . essa de uma desorganisaçâo moral: «a anciã de liberdade a descommedida. França e Áustria. absolutismo dos primeiros annos de Herculano nao é tradicional . Nâo nos admirará encontrar no fim da vida Herculano julgando a Democracia moderna como um bando de ladrões.240 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL no seu cial.

Miguel redobrava de barbaridade. d'onde resultou o ter de emigrar escondidamente de Portugal. sem soldo. que o povo resumiu no ram a aoexím: Chegou 16 o paquete Trabalha o cacete T . a que nas províncias cor- respondiam os Milicianos. em 3 de março de 1830. do gabinete de Wellington e o advento ao poder de nistério hberal. Á medida que se foi organisava a resistência dos liberaes na ilha Terceira. o governo absolutista de D. revoltou-se 1 N'e8te9 tempos as notícias da resislencia liberal na ilha Terceira acirraselTageria miguelioa. atropellando com uma incrível imbecihdade os princípios mais intuitivos do direito internacional. Ou peio trabalho gratuito e forçado das Ordenanças. A queda um mi- em Inglaterra. e por isso insistiremos Ás 9 horas da noite de 21 de agosto de 1831. Herculano achou-se envolvido no pronunciamento militar de 21 de agosto de 1831. Herculano entendeu dever abandonar a causa que estava perdida perante a moral e a humanidade. bem explicada. por outro lado a reclamação da França contra o attentado de que foram victimas Saurinet e Bonhomme. onde se installou o Conselho de Regência. espécie de tropa de terceira linha. um empréstimo no estran- Em fins de 1830 e começo de 1831 créaram-se em Lisboa uns regimentos e terços chamados Ordenanças. ALEXAHDBE HERCULANO 241 governo absolutista contractar geiro. que se havia rebaixado pelas mais estupendas atrocidades. apenas com o direito de usar uma farda verde e chapéo de bicos. que se exarcebaram entre G de fevereiro e 16 de maçço de 1831. Esta circumslancia da sua vida nao anda n'ella.. deram á resistência liberal novas condições de vigor. ou pela repugnância dos assassinatos contra os liberaes. Herculano nomeado tenente de um d'esses terços. acabara de * desacreditar perante a Europa o governo absolutista.

ao nal! Viva D. Bento. também poeta de gosto arcadico e conhecido na litteratura do primeiro quartel d'este século pelo nome de Morgado de casa de Assentis Assentis.° 4. Miguel desfazia-se pelas provas manifestas da insensatez . ao chegarem ao Rocio. em communicaçâo ao Diário de Noticias) e saiu para ver a passagem do regimento de infanteria n. foi correndo as ruas da cidade. morava elle em uma casa contigua ao chafariz da Alegria. á Praça da também se escondera n'essa tivera o con- noite o liberal Galhardo. Herculano conse- guiu evadir-se. Ali ficaram ambos escondi- dos. como averiguou o sr. até poderem transportar-se para bordo ^a esquadra frauceza do almirante Roussin. e a esta orientação dos espíritos se deve at- tribuir a revolta de infanteria n. desfilando pelas ruas da cidade de Lisboa. (n'um pateo á direita da rua de S. A inti- mação do governo francez fora feita em 9 de julho de 1831. Mouti- nho de Sousa. e essa curiosidade que levou Herculano a seguil-a até ao Rocio. Francisco de Paula Cardoso. aquartelado no Ourique. Isabel MaAssumpção seriam levadas . pela uma hora da madrugada.° 4. indo bater á porta do antigo amigo de Bocage.242 HISTOKIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O regimento de infanteria n. recusan- do-se a todas as explicações. Em Mâe d'Agua. Herculano morava então em uma casa próximo do Largo do Rato. iOnvolvido na onda de povo que acompanhava o regimento. o regimento foi atacado por outras forças absolutistas que sairam para abafar o movimento. resultando mortes e prisões numerosas. que tinha o Tejo bloqueado em virtude de uma reclamação do governo francez. O perstigio do governo absoluto de D. Pedro Campo de som de musicas marciaes e gritando: Viva a Carta constitucioIV e D. ISo paço da Ajuda corria entre as ria.° 4. e Maria da que as infantas. determinou o bombardeamento no dia seguinte á uma hora da tarde. flicto com quem Herculano na feira das Amoreiras. damas e açafatas Anna de Jesus. Maria 11. e o acto inconsiderado do Visconde de Santarém.

A esquadra constava dos baixeis Le Ville Su/fren. VAlgesiraSy La de VAlger. Le Trident. arribando a Granville. quando já as agonias do desterro se achavam temperadas pela protecção a uma moralmente triumphante. que se dirigia para a ilha Terceira. que conhecera nos seus primeiros estudos. Marseille. até onde se demorou era o 1832 em que tomou parte na expe- dição de Belle-Isle. que recebia todos os que quizessem emigrar de Lisboa. e das fragatas Melpomene. Foi a bordo da fragata Melpomene. desembarcou em Plymouth. com a patente de gene- Envolvido na corrente da emigração portugueza começada em 18íá4 e continuada em 1828 e i831. (jue Alexandre Herculano se refugiou do partido que servira c achava em casual hostilidade. Herculano tomou causa parte n'esta terceira phase. Didon. . esta peripécia da sua vida tratou-a das e elle em um pequeno escripto das Len- Narrativas. Palias. * Como o governo de D. das corvetas Perle. com quem se De bordo da Melpomene. cou na Terceira alistou-se como circumstancia a que allude na sua prosa poética A Velhice. onde fò^ da ilha resistência dos hberaes. porque esperavam continuar os de Queluz e de Caxias com a of- idylios das quintas reaes ficialidade franceza. e com o então ral seu amigo Joaquim Rodri- gues Galhardo. p. vol. e dos brigues Endymion e Dragov. vindo depois para Jersey. que veiu a morrer reformado. iv.ALEXANDRE HEBCULANO 243 reféns. e as infan- para bordo da esquadra franceza tas como pulavam de contentes. Êgle. de Granville transportou-se a Rennes. pode vêr-se em uma carta do grande Panorama. Miguel era ludibriado pelo senso commum 1 europeu. Logo que desembarvoluntário da rainha. passou Herculano para um paquete inglez com o lente da Academia de Marinha Albino de Figueiredo. La Marengo. 243. com o capitão de cavalleria Chrisjá lovam Bravo.

Assim se termina a peca com geral satisfação. Um dos favoritos de D. mas que tem a desgraça de ser marido de uma mulher bonita. que não deixa escapar nem um gesto. foi migo. o rei asgigna a sentença de morte. e este estúpido D. e percebe-se que o actor imita alé á illusão D. ignóbil e barbara. Assim acaba o primeiro acto. caràcterisaodo o género litlerario do Vaudeville. e se n'e3te momento nilo batessem á poria. diz: «N5o nada mais prosaico. e arrasta-a bastantes vezes de um a outro lado da scena. para captar.244: HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL compositor allemão Mendelssohn. e comtudo o effeito é absorvente. O cartaz annuncia um personagem desconhecido. Miguel. e pede ao rei. maior é a alegria do publico. que chegou no meio d'este arranjo. é as delicias do publico. excellentes. é natural que os emigrados porluguozes que se achavam em Paris assistissem a esta representação que atraia orna coDCorrencia continua ao Gymoasíu. todos riem e applaudem. em pleno theatro. Uma revolta forçou-o a refugiar-se era casa d'efte guitarrista. a mulher bonita está sósinha. a mulher não o pôde aturar. e eis aqui a peça» Quanto mais o desconhecido procede de uma maneira estúpida. Miguel tem um terrível medo por causa da sua bravura e do seu amor pela liberdade. bastante inquieta: D. Miguel de theatro causa-nos o raaior pra?er. e cheio de jubilo se lança aos pés d'elle. esta composição do Luthier de Lisbonne versava sobre os suc- cessos que motivaram a expedição franceza de 1831. é meia noite. mas apenas elle entra em scena. porque quer para si a mulher e Gear em logar d'elle. Miguel forcou esta mulher a encontrar-se com elle na próxima noite. e além d^outras.lhe o amor. Miguel nas suas maneiras. 308 (Leltre Como se vê i) trad. que a civiiisaçâo de Inglaterra e França. e de que D. a de uma consciência de tão fino tacto e tão sem cerimonia.» Lettres de Mendelêsohn^ 1 sei de — ! p. observadas de perto. datada de Paris de 11 de janeiro de 1832. A peça nova que mantém a voga ao Gymnasio é o Guitarrista de Lisboa. pede-lhe de joelhos que a deixe. Mendelssohn. *de Rolland. até que D. nos hábitos e era todos os seus gestos. ^e a mulher nâo agarrasse uma faca. franc. por roais de um signal. No desenlace o guitarrista salva ainda uma vez o rei dos soldados francezes que acabam de chegar. nós rimos. nenhuma palavra. . * tudo impellia Herculano para abraçar os principies politicos. as cousas poderiam sair-lhe mais desagradáveis. Pelo menos assim escassa com- se caracterisou a si próprio: «Louvado Deus. No segundo acto. e emprega mil recursos. Miguel Ibe bota as ra5os. e assigna também a do favorito. demais a roais dá a entender que é rei. Vâhíi dansar. que entre tan- tas qualidades ruins de que a natureza nâo tal é. tenho algumas. lhe impunham á consciência. a auxiliai o e a mandar cortar a cabeça ao marido: Com toda a vontade responde-lhe D. que é o realista mais dedicado possivel. cantar diante d'elle. Miguel. que era a primeira a protestar contra o passado. e em quanto o guitarrista conhece que tem em caía D. Miguel íqtroduz-se em casa d'ella pela janella. d'este desgraçado. nós applaudimos. A cada nova barbaridade que commette.

que tanto impressionaram Garrett. que * um solemnissinio tolo. desconheceram ineptamente a e alta dade do auctor da Mocidade e por isso não morte e da Vkloria poderam explicar porque é que Herculano critica.ÂLEXANDBE HERCULANO 245 que apenas digo ou faço uma parvoíce. de modo que sempre tem a habilidade de me fazer titubear e quasi sempre a de sou me fazer confessar com exemplar humildade. . é também este o signal da «sua falta de disciplina philosophica. e isto bas- tava para que a sua bella organisação poética se desligasse para sempre do convencionalismo arcadico. das canções de Beranger. Nas amarguras do vidír. de Garmesmo rythmo. e como sendo este o lado impres- com que se impoz ao publico. ensinaram-lhe a tentar novas formas strophicas. esse sentimento exclusivo cora que nos tornámos conhecidos na Europa. desterro o sentimento estimulado pela realidade da e é eil-o que surge um grande poeta. o mesmo arranjo de phrase. a linguagem da saudade. nunca escreveu senão prosa poética quer na historia quer na polemica sionavel politica. um grande poeta. a intima analogia que rett . é ha n'elles o têm com os do poema Camões. a sente e expõe com uma admirável claresa e convincente lógica. p. As Poesias de Herculano trazem impressas as emoções novas da situação em que se achava ao sair de Portugal escravo. e bem podia ser um dos estímulos * da sua nova Panorama. Uma cousa nos surprehende na leitura dos versos soltos de Herculano. surgiu um homem foi novo. o Camões de Garrett em 1824. O conhecimento dos poemas de Ossian. Em verdade Herculano superiorie Piedade. iv. 242. fora escripto a mesma vaga saudade. dos versos de Lamartine e de Casimir Delavigne. os que o cercaram de admirações como historiador. mas uma cousa ficou profundamente portugueza.» foi A emigração para Herculano uma transfiguração da intelligencia. vol.

a revolta militar foi em que Herculano se achou compromettido fins d'esse em 21 de agosto de i83l. : Essa lagrima acceita é Do desterro enviar-te um quanto pôde pobre Olho. nas praias luas. em que se reconhece a cadencia garrettiana. e que Herculano empregou sempre nas suas reconstrucçôes poéticas do passado no romance histórico. a saudade que o devorava ilhas em Inglaterra. E devorou-a o mar. acharam no estudo de Filinto. o abysmo. que no fim da vida traduziu o Oberon de Wieland. Herculano deixa entrever esta circumstancia: . foram adoptados no estudo sempre profícuo das obras de Filinto Elysio. descreve Her- culano as primeiras emoções ao deixar a pátria. o tédio do desalento em França. quando foi reunir-se ao exercito liberal na Terceira. que ás vezes dão tanto relevo poético á phrase. Mais que os homens piedosa. eu te hei saudado. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Mas um facto nos revela que ambos estudaram essa versificação diííicil em uma fonte commum: os archais- mos.246 idealisação. Garrett e Herculano. peregrina eterna. e ainda em mez seguiu caminho da emigração para Ingla- terra. que inauguraram entre nós as formas litterarias do Romantismo. A vaga incerta. litte- No poemeto subjectivo Tristesas do desterro. irá depól-a. aos olhos turvos Nilo sentida uma lagrima fugiu-me. as indicações do espirito clássico para a transformação evolutiva da ratura moderna. Pelas ondas Do irrequieto mar mandei-te o choro saudade longínqua. Esses versos têm a bellesa do que é vivo: Terra cara da pátria. Sobre as aguas d'Âlbion nas ribas escabrosas Vera marulhando branquear de escuma A negra rocha em promontório erguido D'onde o insulano audaz contempla o immenso Império seu. Minha terra natal. e a impressão nova dos phenomenos vulcânicos das dos Açores. Da Que Que rola livre. Centre as dores do exilio. Como vimos.

o éden nativo e perdi mais. Perdi . : azas Pelo dorso das vagas rugidoras Eu corri além mar por eslas plagas. Em cujos valles nunca alveja a neve Junto de mim passou em suas Também mandei o filial suspiro. Oh meu Me pae. Quem. a tua imagem. d'ell8 o embora adeje Ao redor medo dos tyrannos? A nostalgia da sua natureza de meridional com uma commovente anciedade: Onde haja o sol da é expressa Oh. e as harmonias Que a natureza em vozes mil murmura Na terra em que nasci (p- 160. oh palria. oh meu pae. prófugo. Regtam-mo na alma qual buida frecha. em nublada noilo Ouvi o vento sul. como elle. . e a vinha e o cedro E a larangeira em flor. estala e deixa. esquece O tecto paternal. Onde encontravam filial piedade. de amante e filho. Que no peiío ao cravar-se. ALEXANDRE HERCULANO Já se acercava o tenebroso inverno 2á7 I 9( Vinha fugindo a rápida andorinha.. dae-me um valle minha pátria. como a memoria reflecte. 1 E A um ao começar o dia e ellas desciam coraçilo isempto de remorsos . e a brisa Matutina c da tarde. : . Pelas antenas. Caindo. alta noito. rijo E Da palria vinha: Seu sopro refrescou-nie as veias. Para um abrigo le ir pedir.) A pátria era para elle então llie um éden. Despedaçados Os affectos de irmão. o bom do velho As bcnçSos paternacs de Deus co'as bênçãos Sobre minha cabeça derramava. o ferro Da ferida occulto . Por entro um véo de involuntário pranto! Qu5o triste cogitar em mim desperta A imagem cara Á noite. . nunca. a saudade dos seus torna-se miia paixão que á linguagem: dá mais intensidade subjectiva Eu. que assobiava de ouvil-o folguei.

Eis o quadro da sua vida de emigrado em Plymouth: «Miss Parker. A Ingla- como todos sabem.248 msTOBiA DO romantismo em pobtdgai. que. Seria pela t Poesias. e os seus lodgings eram a pérola das albergarias de A principio. u. deu-nos — Miss Parker o único fô- lego vivo da Gram-Bretanha a quem. p. 4. Éramos ahi nove portuguezes. E se entre nós da um impio as mãos ergueram A barreira da morte. dirigida por Miss Parker. mas poucos dias podemos resistir aos abofoi mináveis temperos do paiz. ! Dorme Saciado talvez de dôr e aíFrontas já sob a campa o somoo eterno? Ah se um dia raiar para o proscripto O suspirado alvor do sol da pátria. podia servir de modelo ás outras ninhadas de emigrados que ain- da viviam Plymouth. mezes n'aquella cidade. 288. os dias terriveis acostumada da emi- gração de 1831. o que dava certo ár pythagorico e mysterioso á familia. — Durante a permanência em Ply- mouth Herculano entregava-se á poesia. em Plymouth. 2 Lendas e Narrativas. transcripto em todas as Selectas das escolas. p. a que não estava a lingua portugueza. . mediante a ba- gatella de três shellings semanaes por cabeça. em seis camas e três aposentos. na minha estada em quando partimos para Jerum cabazinho. excellente creatura que nos dera e luz por dois zella cama terra. era uma donde sessenta annos.» ed. e ahi escreveu em setembro de 1831 o bymno intitulado Deus. Ninguém tinha uma patroa como nós.» «Abandonámos emfim o sólo de Inglaterra. e derramou algumas lagrimas ao despedir-se de beneficio: ^ um nós. 173. Qual o seu. Inglaterra. havia-se encarregado de nos prepa- rar a comida. para mim o exilio occulla. Herculano com certa graça e humorismo. E agora É-lhe mysterio o meu destino. devi sey. de Plymouth. ai d'elle 1 ai d'elle * 1 descreve No pequeno escripto De Jersey a Granville. é o paiz da franca e sincera hospitalidade. em que levássemos a nossa matalotagem.

e pela nossa esquerda prolongavam-se quasi imperceplivelmente as costas de França. No horisonte. e sair uma libra maior que podia da bocca das nossas bolsas rumo do tinha Nós seguimos. em que nos achávamos poderia passar ao utilidade n'aquella situação. porque embarcação havia no porto de da passagem era apenas esterlina era o fôlego nenhuma outra com destino im- mediato para a costa fronteira. sul. o mudança do vento. posto que ameaçadora. destinado a transportar gado de França para as de areia. atravessando aquella estreita porção do canal que nos separava da França. e dirigirmo-nos a Granville. e o lastro era Se não fos- sem os terríveis balanços da embarcação. do Canal. como uma linha negra lançada ao través dos á capa. Comera necessário aproveitar aquella de- moda ou incommoda. mares.iXEXANDBB HEBCULÂNO volta 249 do meio dia quando saltámos no chasse-marée que de- via conduzir-nos de Jersey a Saint-Malò. ia em lastro. —O chasse-marée havia-se posto já O vento não consentia que surdíssemos avante. . porque o preço uma libra esterlina. e por isso o seu arfar se tornava mais suave. e o arraes. a segunda. Depois de apalparmos por longo tetnpo em volta de nós. pouco mais ou menos. quasi pela popa. que finalmente ahi po- deríamos tocar em terra na manhã seguinte. senão macio. . testável jangada para passarmos á França. que era necessário pôr a proa nas costas da Nor- mandia. sido momentaneamente uma vantagem de commodi. mais enxuto que esse Ao menos tínhamos um leito. veiu declarar-nos que seria impossível seguir o rumo de Saint-Maló. a pocilga tacto. e Saint-Ilélier isto por duas rasôes urgentissimas: a primeira. O chasse-mailhas rée. e a dade: o chasse-marée corria á bolina. . achámos por fim uma vela e alguns cabos. por único sentido de uma praia deserta. divisávamos ainda o promontório de Noirmont. lançados para uma extre- midade do areal fluctuante. de- pois de breve conferencia á proa com o seu companheiro. com que contávamos.

de Normandia. Renegando da torra sem gloria. toda a nossa consolação e abrigo. mendigo serei De outra terra meus ossos serão 1 Mas a escravo. 250 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Uma de pouca de areia húmida por pavimento.. eram. e esta situa- ção moral aggravava mais o desalento dos emigrados portuguezes. Os folgares odiosos. Gomo Garrett. ças de lona por e por agasalho e cobertura a tolda um miserável barco. também designou os com o nome ethnico de Sicambros: Sob este rude céo. que já citámos. ^ 1 Poesias. onde ambos se refugiaram. Miguel. algumas braleito. visinho das cosdifficil. delssohn. entre o ruido Dos odiosos folgares do sicambro Do monótono som da lingua sua . p. e em poucas horas aportaram a Granville.» No meio de uma borrasca nocturna foram lançados por cima de restingas «no tas recife de foi um . cheios de cotiplets engraçadíssimos. 104.. como se sabe pela carta de Meneram os Vaudevilles políticos. Mais chamar-te teu Glbo não sei: Desterrado. ilhéu. A saudade da pátria era para o poeta desterrado a preoccupaçâo absoluta. Nunca mais darei nome de irmão. e perguntou a si mesmo se uma terra escrava podia ser pátria do poeta: ! Terra iníame do servos aprisco. mas de re- pente saiu da sua prestação nostálgica. Herculano francezes. quo pugna por ferros. Que herdará deshonrada memoria. . com as trevas que nos ro- deavam n'esse momento.» a saida extremamente d'ali a entrada havia sido extraordinária partiram já como com o soJ alto. e de allusôes satyricas aos ministros da Restauração.. Para todos os emigrados era incerta a sorte dos parentes sob o regimen canibalesco de D.

: ALEXANDRE HERCULANO 251 São vigorissimas estas estrophes da poesia O Soldado. esse facto uma fatalidade imposta pelo meio social á inconsciência dos dezoito annos. voam. cinge-os Com seus irmãos as sacrosantas juras Beijando a cruz da espada. eco. Pranto de atroz saudade. cingem ferros. quanto ingrato É para Ennevoado o adormecido! Eu lá chorei. 112. e o ral I começo da campanha libe- Pela primeira vez a lilteratura portugúeza se inspirava dos conflictos da vida nacional: Mas quando o pranto mo sulcava as faces. : Repetiu o poeta — «Eia. o coração do rapaz de vinte e dois annos palpitava com ver- dade: «Onde é livre tem pátria o poeta.» se foi um dia Her- culano incensou a tyrannia. : Como bradar de um só Erguem -se. fevereiro de 1832. o foragido. Deus escutou do vagabundo as preces. D'elle leve piedade. . Na tivo bella ode Yictoria e Piedade. para a a expedição da ilha Terceira. Indissolúvel nó. descreve outra vez o mo- do desterro forçado. e o embarque em Belle Isle. O . árido o prado.. 1 /Wd. do infortuDÍo . na idade da esperança Da pátria a sua sorte Esta alma encaneceu e antes de tempo Ergueu bymnos k morlA . Que alento n''essas estrophes com que descreve o mento dos voluntários. ai. . partamos 1 Ao mar !» Partia a armada. i rio . e' alista- 2 de no dia iO a partida da armada. «Armas! — bradaram no desterro os fortes. solo do desterro. p. e o embarque na expedição para a ilha Terceira em 183á: vida. No desponfar da E Murchou-rae o sopro ardente saudades curli em longas terras Da minlia lerra ausente.

A £ enguliu e passou.j p. para os Açores e í Poesias. Nobresa o ser cruel. Onde espinhosas sarças só vegetam. no dia em que. rugindo. entre affumadas Pedras que em parte amarellece o enxofre. que pensam poeta. . . tira as imagens das impressões noilha Terceira os a natureza vulcânica das ilhas dos Açores assombra-o. e o balsSo negro Da E guerra despregámos em que era infâmia o ser piedoso. 177. 113. entre os dois mundos. nunca ter feito esque- cer Herculano como temperaram na realidade por isso procuram da vida as suas tintas impressionistas. á voz do Eterno. Restos informes de metaes fundidos Pelas chammas do abysmo. Desceu ao mar turbado. qual sumiria De soçobrada náo celeuma inútil.. * Vestígios de vulcões que hão sido extinctos nSo sabidos séculos. Que a lava em rios dispersou. p. Herculano vas que vae recebendo . deixando Só d'elÍG a côr em lascas arrancadas Das entranhas dos montes penhascosos. 2 Jbid. 252 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Pelas ondas azues. escumando. em que o golpe mortal descia envolto Das maldições no fel. Scinlillam Aqui e ali. e ao desembarcar na restos dos vulcões extinctos dão-lhe a trata o estado imagem com que re- da sua alma: Eu Ás já vi n'ama ilha arremessada solidões do mar. i guerra. e elle. Da cratera fervente. Tal ó meu coraçSo. nos areientos plainos. Da Os nossos lyricos modernos. e o vigor da estrophe na violência das anlitheses e no relevo das imagens. 2 As viagens para Inglaterra e França. A natureza é morta em lodo o espaço Em Que ella correu. Bera como a lava o desterro ao trovador. eorrendo aíToutos As praias demandámos Do velho Portugal.

eu te invoco. um dos sete mil e quinhentos bravos desem- barcados no Mindello. que a minha entenda. Santas inspirações morrer sentindo Do coração no fundo. Sobre u náo. na bahia da Biscaya. e jà oSo sonho Nem gloria. Que ella possa voar. a prenhe nuvem £ Desça. Solta. Âos pés do Omnipotente. Na ode bem uma enérgica A Tempestade. que esgotei tão cedo até ás fezes cálix da amargura : £ Eu. nem ventura. 89. p. amiga morte c sobre as vagas. esta poesia traz a seguinte nota « A bordo da Juno. sem rumo vague. que me estreita. . alma de Tyrteu que se interrogava. Porque seguir. Sem achar no desterro uma harmonia De alma. vagabundo e pobre. por entre os orbes. Eu. converte o terror da morte em esperança: Oh Que morte. 1 Poesias. dos tufões ludibrio. no fragor da metralha não podia deixar de ser foi um valente soldado. curvado ante a desgraça Esta espinhosa senda? ^ • Na primeira edição da : Harpa do Crente. e estourando a esmague. Entre escarcéos erguidos. eu que velo na vida. que a natureza Lançou a esta alma ardente. a grossa proa. deram-lhe um grande poder descriptivo. e aos pés calcado De quanto ha vil no mundo.n ALEXANDBB HEBCULAKO 253 para as cosias de Portugal. —Março de Era uma Herculano 1832. e leve a sua parte n'essa epopêa do cerco do Porto. 91. pedindo -te feneçam ! Meus dias aborridos: Quebra duras prisões. foram para o talento poético de Herculano o mesmo que a viagem do Oriente para Camões e Bocage.

do lado liberal esses espectáculos de degradação hu- mana (la Justiça das Alçadas. Impressão produzida pelos seus romances históricos. Pedro coadjuvada por e uma parte da aristocracia despeitada. litterario. O archipelago dos Açores foi o primeiro núcleo da resistência dos poucos hoe é essa mens Hvres que usavam o nome de portuguezes. No meio dos grandes combates . Nomeado bibliolhecario da Ajuda e das Fundação do Panorama.254 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POBTUGAL § II. — Sociedade : de Jurisprudência. Época brilhante de Herculano. e sua dissidência. ú maneira de Thierry. Cartas sobre a Historia de Portugal. António Fortunato Martins da Cruz e José Carneiro da Silva. (De 1832 a 1846. Logar que occopa até 1836 Trabalhos depois do cerco : — — — — — Repositório Jornal da Sociedade dos Amigos das Lettras (Lisboa 1836. e relira-se da politica. a expedição chegou á ilha de S. A revolução setembrista: 1836. na Revista Universal Lisbonense. segundo bibliolhecario da Bibl. tem inicial. Necessidades. bora dirigida pelos interesses dynasticos de D. uma condição mesologica de todas as ilhas. A Voz do Propheta. Missão d'este jornal.) O cerco do Porto nos versos de Herculano: Harpa do Crente. Passos Manuel. Pedro aproveitou esse primeiro núcleo e dirigiu-se de Belle Isle para os Açores a 40 de fevereiro de 4832. faziam com que os mais ob- scuros ainda se portassem como heroes. e desembarcou na ilha Terceira a 3 de março d'esse mesmo anno. do Porto. Dependência da casa real e seus estudos históricos do Panorama. como base da Historia de Portugal. espirito em que iv predo- mina o de independência. Vinda de Herculano para Lisboa em 1836 . — — — — — — — — — — — — — — — — A liicta pela liberdade inaugurada na ilha Terceira.) Durante o cerco do Porto: Bernardino António Gomes. D. Entra para a Academia das Scicncia? de Lisboa. Os romances históricos (Sociedade Propagadora dos Conhecimentos uleis. Alexandre Herculano nomeado em 1833. Miguel a 22. o quer que seja de grandioso pelo motivo Se do lado absolutista o povo era fanatisado para praticar as carnifici- nas. Boleto. Conílicto das ambições pohticas. emiv. redacção do Diário do Governo. Relações com Garrett e Castilho. não o fazem ministro da Instrucção publica.) 1840 deputado pelo Porto.

n . no dia 8 de julho.. reuniu as tropas na planície do Relvão. perfeitamente explicado por Agostinho José Freire. Pedro do reino. Garrett alhide a esta despedida solemne dos amigos da ali ilha de S. Pedro. D. que se fez em menos de quatro horas. contava vinte e dois annos. uns queriam. Foi ficado quiz que se dirigissem para o continente isso a vista do génio. Herculano. ALEXANDRE HERCULANO 255 e de falta de recursos. Na madrugada do beraes. procedendo ao embarque ás duas horas da tarde do dia 27 de junho. Foi sobre a praia que D. ainda não tinha ma- nuscriptos. começou o desembarque na praia do Mindello. avistaram terra entre Vianna e Villa do Conde em 7 de julho. a armada dirigiu-se para as costas do norte de Portugal. Miguel 20 de abril de i832. li- que saíssem iv em expedição para a ilha da Madeira. e do abandono dos seus inanuscriptos. que insurgiam mais do que todas as proclamações. Miguel. Miguel. e já admirava o auctor do Camões. que havia mudado a a sede do governo da ali ilha Terceira para S. que funccionavam havia quatro annos para man- terem o terror miguelino. e depois de uma intimação inútil ao commandante das tropas absolutistas da província. ló-se : t^Porto — Julho de 1832. dia 9 entraram no Porto os soldados li- e o povo arrancou immediatamente as forcas da Praça Nova. que pertencia ao batalhão dos voluntários. lano pinta * Hercu- com delicadas cores esta situação moral dos emi- 1 Na primeira ediçSo da Harpa do Crente. mas D. organisou a expedição com que projectava fazer o desembarque no continente. o Porto tinha em 1829 abandonado ás atrocidades do governo insensato de D. depois da adliesâo do archipelago ao regimen beral. Na poesia O Soldado. Pedro iv entregou ao batalhão de voluntários a ban- deira que lhe fura offerecida pelas senhoras da ilha do Fayal. e existiam ahi profundas feridas. havia a anarchia das opiniões. Por «m motivo estratégico.

E o grito: Ai do vencido! Nos montes retumbara. . e a saudade convertida em sanha de irmãos: Do meu paiz querido praia ainda beijei. se se não hmilavam as operações á defensiva. p. * Já era um bem em para o emigrado o poder ao menos ser sepultado chão portuguez. E o adro dos extranhos Seus ossos não guardou. como suprema táctica: eram 8:544 soldados e 2:100 voluntários. fez convencer que a causa estava As eram diminutas e convinha poupal-as. meçava por sordem forças um campanha da hberdade corevés. As linhas fecharam-se no dia 8 de setembro pelo ala- 1 Poesias. Cahiu. dorme tranquilio Deu-lhe repouso a morte. além de mais de 40:000 sitiantes em volta do Porto. n'estes campos Sepulchro conquistou.: 256 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL grados ao chegarem á pátria. 101. perdida. Que o vento some á tarde: Facho de guerra acceso Em Do labaredas arde! fralricidio a luva Irmão a irmão lançara. o triumpho de Souto Redondo em A 7 de agosto seguido de uma inexphcavel retirada em de* até aos Carvallios. As armas se hão cruzado O pé mordeu o forte. Foi a esperança nuvem. contra mais de 80:000 homens de todas as armas da parte dos absolutistas. A E No o velho e amigo cedro valle ainda abracei. Ao menos.

o trom da artillieriai a luba clamorosa Que oâ peil06 acccndia. convulsão horrível. nas do norte e á Serra do Pilar. sangreulo. 17 . I. Sonho do accesa Scena tremenda. febre. incrivel! E suspirei: nos olhos Me borbulhava o pranto. do morto. p. insepulto. Pediu-me infernal canto.» * Eis o quadro poético: E £ E a bala sibilando. Som cavo de exterior. torna a referir-se au combate de Ponte Ferreira em 23 de julba de 1832. 16. o insulto. retrata essas emoções da campanha em que era infâmia o ser humano. que trasbordava. sim! maldisse o instante Em que buscar viera. E as ameaças torvas. publicado no Pan. 91. E as pragas Do vencedor E a pallidez . Opúsculos. E d'e?ses que expiravam. t. IV. Oh. E os gritos de furor. terra em que artigo nascera. em um prefacio com que precedeu a edição definitiva da Voz do Propheta. Herculano. referindo-se a uma carga de baioneta. que precedeu a batalha de Ponte Ferreira. Por entre tempestades A 1 i. Era uma lucta desegual e des- esperada. do vencido.ALEZXKDBB HEBCULANO 257 fortificações que dos miguelistas no Alto da Bandeira. Eram um Em caos de dores. escreve estas linhas de rea- lidade que explicam os seus versos: «Assim vi morrer al- guns soldados do 5 de caçadores e de voluntários da rainha no temerário reconhecimento de Vallongo. p. Nu. — No A vida soldadesca. então obscuro voluntário. os livres foram grandes.. E a dôr.

eraflm. nâo quiz. Quando a mente accendida Crê na ventura e gloria Quando o presente é tudo. Oh Quando na vida nasce Esta mimosa flor. 258 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Que é. p.. a fome appareeeu com o seu terrivel séquito da cholera morbus e do desalento. . . 102. Contrários ainda ha pouco. Como a cecém suave. Os generaes projectaram abandonar a cidade. . mandou picar as amarras para a esqua- dra se fazer ao largo. como o tinham feito em 1829. lá eram! O seu thesouro de ódio. Na poesia de Herculano transparece este desalento: morte. ' £ os fortes lã jaziam Co'a face ao céo voltada Sorria a noite aos mortos Passando socegada. mas D. Delicioso amor. p. 106. Que me tingia tudo De sanguinosa cor. Irmãos. . nâo bastavam os combates nas linhas e as granadas chovendo dia e noite sobre a cidade. triumphar sem gloria.. índa nada a memorial 2 Ibid. Pedro iv era novo e brioso. A refrega era dura. na juventude É o dormil-o amargo. o somno teu Só é somno mais largo. Porém. Maldito era o triumpho Que rodeava borror. Mordendo o 2 pó. em fraternas lides Ura canto de victoria? É É delirar maldito. cederam. E 1 Poesias.

De agudas A baionetas renque brilhante Treinenle avançava Ao brado de — avante I E ao baço Dos ruido leves ginetes. morrer. 108. terra cxpirrava. qac imporia? Final suspiro ouvil-o 25d Ha-de a Irei pátria. A E i o globo incendido Um Poesias. traz mais um quadro de bata- lha com traços de realidade que raras vezes entram na idealisaçâo litteraria: E á voz Ao trom das trombetas. o poeta descre- vendo o abandono dos conventos pelos frades que andavam capitaneando em volta do Porto os povos fanatisados. No plaino calcando relva os tapetes. aos seios das alas Qual raio descia. E E a férrea granada Nos ares zumbia. tra a como se viu na guerra dos curas con- Republica hespanhola. Ao som das passadas De vJDte esquadrões E em meio do fogo. Peões. dos canhões. Na terra l dormir tranquillo. E aos árcs. de trabuco e cruz alçada. ^ Em rolos ondeando Nas azas do vento. pouco se alçava. cavaiieiros De iovolta ruindo. . revolta. ALEXAITDBE REBCULANO Morrer. p.. Da Os ferros cruzados Luctavam tinindo. N'essa outra poesia O Mosteiro deserto. Do fumo alvacento.

e da palria. era o Monge. por officio que ao intendente geral da poda corte e reino dirigiu o corregedor da comarca de Braga. P. P. Pelo pinhal da encosta ou da campina. Negros. era o . Monge que corria. Na dextra o ferro. se as circumstancias o exigissem. que diz «eu trouxe a espada. entre o irmão e o irmão vim metter a guerra entre elles. Ueverendíssima para sua inlelligencia e execução. P. palácio de Queluz em 22 de dezembro de 1831. Mandava mil golpes Em rochas partido. que blasphemo Preces vãs a Deus fazia. e vim trazer a desunião entre o pae e o filho. que os religiosos do convento de S. 1 Poesias. Fructuoso da dita cidade. açulando os irmãos segundo o espirito do versiculo de S. 2 t Secretaria d'Estado dos Negócios Ecclesiastico» e de Justiça.» O que elles interpreta- vam nos Ira. Luiz de Paula Furtado de Castro do Rio deMendóça. 260 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL E prenhe Com fero de estragos. uns vultos vaguear se viam : A cruz do Salvador na esquerda erguida. e tendo merecido a approvaçJo de sua magestade a louvável deliberação destes bons religiosos e fieis vassallos que n'isto mostraram conhecer que ninguém deve deixar de expor-se aos trabalhos e aos perigos para um fim tão justo e tão importante: Determina que Y. quando viram que se faziam preparativos para a defeza do reino contra os rebeldes. resolveram que. guardando o convento. ficassem dois d'elles. p. Reverendissima. Deus guarde a Y. Matheus. 2 púlpitos com allegorias. do soberano. ^ estampido. traça Herculano esto protesto: gargaíita da serra ou sobre o outeiro. andavam com a cruz erguida. Reverendíssima assim lh'o faça constar: quo de ordem do mesmo senhor communico a V. i No raeio do tropel avisíavam-se os frades animando os que combatiam contra a liberdade. 190. licia El-rei Nosso Senhor constou. Senhor Ministro Provincial dos Religiosos Menores reformados da Província da Soledade. aqui cumpriam-no á let- Na poesia do Na Mosteiro deserto. que se achavam enfermos. Entre as rápidos corriam E E E era o Monge que bradava.» tA . preces blasphcmando perdoeis a fileiras «Nào um só!» feros bradando. e os outros se apresentassem armados e se unissem aos mais defensores da religião. N'esse dia de atroz carnificina.: : .

apesar de nega- devemos todos os fructos que nos ligam ainda á civilisação moderna. sem gloria £ssas scenas de pranto e de luto Quem as trouxe a e:ta terra querida? Foi o Monge. n'esse plaiao de irmãos retíalo 261 No sangue o moribundo. p. o A o lume. perseguidos. D. que á tarde. 191. de toda a obra do Constitucionalismo tiva. e a ella. as turbas De inúmeros soldados Comprar com sangue o pão. 1 Poesias p. Do fogo céos toldados. foi essa a maior reforma. lembra esses grandes lances: Fanatismo brutal. .. £m desordenada fuga Betiravara-se os vencidos. Aterrados. ódio fraterno. e d'esse trium- pho resultou da liberdade em todo o paiz. f */6t(i. em que entraram em parada 8:384 beraes. £ por gandras e por montes. ^ mar avaro. Só reslava O £ os vencidos eram esses vicloria ^ Que a esperança da Arrastara. que em ânimos rudes Inslallou o furor fratricida. ^ Uma das batalhas mais decisivas do cerco 183í2. a peste. miserandos A uma guerra impia. Em Nos regelado inverno . Pedro conheceu que um dos seus primeiros actos depois da victoria seria a extincção do Monachismo em Portugal. foi a de 29 de 11- setembro de tas. Na bella ode A Victoria e a Piedadey Herculano.. por dias de amargura fez luctar o inferno. e dentro da cidade 7:140 contra 35:000 miguelis- venceram os que luclavam pela a força moral da causa iv vida. já no fim do cerco. nação atrophiada por esse parasita que a ata- cou desde a sua origem. 199. Eis contra o que. cadáver só do exlioclo. ALEXANDRE HESCULANO Vis. com sangue fome.

Onde o canhão troou por mais de um anno Contra invencíveis muros. mas a politica engodou todos os engenhos e levou-os comsigo. Pedro havia poetas: militava comnosco o auctor de D. e outros. Herculano acompanha-a dida ode de uma nota omittida nas edições ulteriores: «Este fragcedentes versos. torvo soltarei ura liymno Depois de triumphar. ainda que de pouca valia. Todos nós temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do 1 Poesias. jornalismo. Oh meus irmãos. os sete mil do Mindello não tiveram apenas eu. acha-se datada do Porto. sobranceira aos campos De sangue ainda impuros. offerecida Á Roem testemunho de sincera ami- sade. o mais obscuro de todos. em impia lucta Só essa c'rôa cila. 262 rasTOBiA DO romantismo em poktdgal Mas da íéra victoria. emfim. não flque esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. p. Harpa do Crente. i Como Na segunda serie da drigo da Fonseca Magalhães. pertence a mento. do Camões. a esplenA Victoria e a Piedade. Entre os soldados de D. o sr. A guerra da Restauração de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poético d'este século. mas de que só alguns capítulos estão trasla- dados no papel. E o mais é que poucos conhecem 111. que segue. colhéraos A Que a c'rôa de cypreste fronte ao vencedor veste. ao génio que me ensina Segredos das canções. e em minha hu- Oxalá que esse uma diminuta porção de tanta riqueza poética. da embriaguez da guerra Bem triste é o acordar! N'essa alta encosta. salvei milde prosa um cantor. mesmo trabalho. irei sentar-me. Eu. em agosto de 1833. de João Minimo. e que servirá para intelligencia dos pre- um livro já todo escripto no entendimento.. Lopes de Lima. Branca. Os homens de bronze. Pedir inspirações Á noite queda. . tomando o alaúde.

as ideias de soldado e de vencimento conglobadas n'uma só. quantos valentes caíram n'esse dial Eu ia amaldiçoar os cadáveres dos vencidos. no momento de expirarem. entre as affrontas da cruz. como tremenda e indeí — lével ignominia. tornando o livro menos va- . o som das armas final o gemido doloroso e longo da sua agonia. : meditação cap. que ainda por ahi jaziam. mor de enthusiasmo ao accommeltel-o.» A intuição do artista não o enganou n'este juizo. A ideia de perdão parecia me consolava da perda ideia torren- de tantos e tão valentes amigos. * A 1 Nao podemos explicar porque é que Herculano na ediç5o definiliva dos seus versos cortou todas as reíerebcias pessoaes. espalhados ao redor do fatal reducto em que estava assentado: ainda me soavam aos ouvidos o seu clacaindo-lhes das mãos. por via de regra. a que dava o . ajunta Herculano o fragmento do livro que andava Da minha Mocidade — Poesia em e esboço.ALEXANDEB HEBCULANO uma tanto cousa: que politica de poetas vale. . e o arranco do morrer. como poesia de esta nota. oh crença do Evangelho. O Porto estava descercado. antes de irmão de armas eu tinha sido christão. Os dentes me ran- geram de cólera. porém pareceu-me que bra-te de que elles se aievanlavam e me diziam:— Lemtambém fomos saldados: lembra-te de que fomos vencidos E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido. e eu te devi então. já politicos. o grito dos feridos. e Jesus Christo perdoara. o estertor dos moribundos. talvez a melhor das minhas pobres canções. . estampada na fronte do que ia transpor os umbraes do outro mundo. Então orei a Deus por elles. e a lagrima envergonhada de soldado me mas escorregou pelas faces. Havia n'essa tes de poesia. «O combate da ante-vespera estava ainda vivo na minha imaginação: eu cria vêr ainda os cadáveres dos meus amigos e camaradas. aos seus assassinos. o sibilar das bailas.» A titulo um pouco despeitada.

e collaborou no Repositório litterario. lenha. Bernardino António Gomes. e promover os hábitos da associação. 120 a 130. e outros com quem cooperou na fundação da e Socie- dade das Sciencias medicas de Litteratura. Dr. Herculano. desenvolver o gosto pela leitura. na casa do contraste do ouro se encontrava com os seus Íntimos amigos e camaradas Dr. todos os espirilos comprehenderam a necessidade de reformar a instrucção geral do paiz. Herculano desde mais fora passado á segunda linha. a quem dedicou a terceira serie da líoso por ioinlellígivel nos trechos . luz e cama. — 13 de maio — Porto. Estava então aquartelado em uma casa do Largo da Fabrica (hoje Largo do Correio) . 2. que continua desde dando-lhe agua. 2 de outubro de 1833. Sr.— 264 HISTORIA DO BOMANTISMO KM PORTUGAL génio novo. L. Branca."a> . Harpa do 1 Crente. e do estabeleci- mento do regimen parlamentar. e impedido no serviço da Bibliotheca publica do Porto."" «Rua do Largo da Fabrica. Narciso José de Oliveira. Depois do triumpho do cerco do Porto. conhecido afectuosamente entre estes condiscípulos da Universidade pelo Leitãosinho. e Ânlonio Feliciano de Caslilho. Em 5 de julho de 1833 eslava já a causa liberal triumphante. António Fortunato Martins da Cruz.* na rua dos Loyos. Aquartelará o sr.° bibliothesal. eslJo no caso supposlo. coronel de 2. apparecia de vez em quando n'este pequeno cenáculo Almeida Garrett. José Carneiro da Silva. Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo. O ronopimento com alguns personagens. meio de se exercitar a liberdade e a mais inspirados. Mello. Tida da guerra fizera-lhe desabrochar ura era essa a poesia por onde devia de começar a transforma- ção da litteratura. Herculano conheceu-o aqui de perto e foi o primeiro a julgar com justiça a influencia dos poemas Camões e D. Eiit o Boleio de aquarlelamenlo de Uerculano: n. mais do que a gloria das ar- mas presava tempo a gloria das lettras.*. sendo nomeado segundo bibliothecario. seria causa cl'esla amputação de fado Rodrigo da Fonseca Magalhães. cario da Real Bibliotheca d'esta cidade.

Á Sociedade das Sciencias medicas e de Litteratura pertenciam Agostinho Albano da Silveira Pinto. e João Pedro Ribeiro também contribuíram com algumas communicaçôes ricas para o Repositório. mas primeira ediçJo. José Carneiro da Silva. vem com o tilulo D. inaugurada em 13 de de- zembro de 1833. de 1838. com poesias para o Repositório littera- Algumas poesias não foram mais tarde colligidas na Harpa do Crente. Fundou-se no Porto a Sociedade das Sciencias medicas e de Litteratura. e depois reunida nas suas sessões em uma sala da Academia de Marinha a publicação de e Commercio * (hoje Academia Po- lytechnica). arremessando á lerra cedro mais frondoso 1 Repositório.. foi ommillida sem fundamento nas subsequente* edições. onde se in- seriram os trabalhos dos sócios. n'essa poesia acham-se tre- chos bastante eloquentes. 2 Na Pedro. ALEXANDRE HERCDLAKO iniciativa 265 particular. António Fortunato Martins da Cruz e Alexandre Herculano. Luiz offer- tou á Sociedade uma memoria biographica sobre Jacob de Castro Sarmento. 41. com a cadencia solemne dos threnos bíblicos: Sobre a encosta do Libano. e é uma d'essas A Elegia do Soldado. José de Urcullu. formada da Livraria do Bispo que abandonara a cidade á entrada dos liberaes. e Frei Francisco histó- de S. p. históricos e rio. ^ inspirada pelo sentimento geral da morte de D. a contar de 15 de outubro de 1834 começaram um jornal. Herculano contribuiu sempre com estudos críticos. Herculano era então segundo bibliothecario da Bibliotheca do Porto. no meio dos seus trabalhos de organisação. rugindo nólo furioso Passou um dia. em casa do Dr. D. o Repositório lilterario. da Harpa do Crente. Pedro iv em 24 de setembro de 183'j. António Carlos de Mello e Silva. A primeira redacção publicada do Repositório litterario diverge fundamentalmente da re- . que viviam na maior intimidade.

chorae lhe a morte! e — E dirigindo-se a D. O final da Elegia traz suprimida a ultima estrophe que está substituída por do Oriente outros se voltem. Chorae. — que só veia a morrer a 14 de novembro de jante: 1866. o symbolo do livre . Fugisle. Envolto era maldições. Nas orgias de Roma. E um choro lamentável. Elle. era susto. 266 HISTORIA DO ROMANTISMO Assim te EM PORTUGAL sacudiu da morte o sopro tu sorrias Do carro da vicloria. cujas variantes aqui apresentamos com referencia aos excerptos intercalados no texto acima: Pela encosta Plante-se a acácia. subindo ao céo. Folga vil oppressor Folga com os hy|)ocrilas do Tibre Morreu teu vencedor. lança-lhe uma imprecação ultra- Nas orgias de Roma. . daccSo de 1838. É pena que seja desconhecida. em susto. Que eu pelo bello sol que jaz no occaso sol esta outra Para o Calor Cá ficarei chorando.. e que ande desmembrada das Poesias de Ilerculano. Morreu teu vencedor. . em crimes. miserável. Esla poesia vem datada do Porto cm novembro dcl83i. ouviu só queixas E um choro não comprado. Plante-se a acácia Eile foi Rei — o liberal arbusto : Junto ás cinzas do forte combateu lyrannos. e luz buscando. Folga com 03 hypocritas iniquos. vil cora teus sócios oppressor. . Quando cheio de esperanças Filbo caro da gloria. Folga. Envolto em maldiçòe?. desgraçado. a prostituta. Miguel. . . ouviu só queixas em crimes. Elle subindo no céo. Fugiste.

até do Usurpador e seus partidários. e a divisão do poema em um ou mais cantos. e portanto. Pedro o heroe do poema.iro adulou Augusto Cantor humilde louvará «em mancha Depois da morte o justo. sitio do Porto e mais feitos do exercito libertador em Portugal e Algarves.» - O modo como estes assumptos estão formulados revelam o critério inferior que os concebeu. Faltava littera- ignoravam-se as obras primas das outras Foi Alexandre Herculano o que melhor comprehen- (leu a necessidade de uma renovação do critério litterario. devendo ser o sr. nos versos de Her- culano estão as provas eloquentes de como a vida do sol- dado n'essa grande a critica. 2 Ibid. D.°: escolhidos pela Sociedade das Sciencias medicas e de Litleratura. Sagra a vileza adoração aos vivos.° escripto em lingua portugueza com o tiO sitio do Porto. 3.» 5. p. p.. depois do desemá total aniquilação barque nas praias do Mindello. lucta era já por si um poema. liiras. Não faltava poético e enthusiasmo pela liberdade.° «A tulo de aUm poema Historia das campanhas. ALEXANDRE HERCULANO 267 O final da Elegia traz um traço pessoal que Dão deixa de ter hoje para nós um certo encanto: Eu também combali : — Das louro pátrias lides . acha-se sob o n. Também coibi um prantear o companheiro extinclo Kâo me será desdouro. nenhum memsentimento bro da Sociedade de Lilteratura emprehendeu o poema projectado nos moldes de Pedreira.. O poeta poderá escolher o melro que mais lhe agradar. uos artigos Qual é o estado da nossa Lilteratura? — Qual é i fíeposiíorio lillerario. que não seriam tratados de uma maneira uma ::alisfatoria. . M. ^ • No programma dos assumptos 4. 23.

ou. que devemos a renovação d'este género inteiramente extincto na Europa depois do xvi século. e é a elle e a Voss. o convenceu de que a poetro sia deve ter.268 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL * O trilho que ella hoje deve seguir? tica intitulados e nos estudos de esthe^ Imitação. a cujas obras Burger era familiar e de que mesmo traduziu alguns trechos. Passado esse estado moral que lhe suggeriu tão bellas composições lyricas. publicada depois por Herder. por ou- modo. A leitura de Homero. ás. ^ 71. 3 Nas Poesias de Uerculano. ^ cimento da lingua allemã e ingleza ievavam-no a traduzir algumas bailadas allemães de Burger e de imitar Lewis. Era a Leonor. p. além do bello de todos os tempos. e a este critério deveu Herculano a sua superioridade. p. . p. Unidade. de todos os paizes. As ideias de Her- culano estavam ainda bastante confusas. tim caracter de nacionalidade sem o qual nenhum * povo se' pôde gabar de ter uma litteratura própria. a vida da paz levou-o do estudo das tradições nacionaes para polemica erudita . nSo vem a bailada de publicada no Repositório. o qual na collecçâo.» Aqui estavam as bases para a transfor- mação da litteratura. e a O exemplo fazia mais do que a Iheoria. 4 e 13. a historia e para a é por isso que em uma carta a Soares 1 Repositório litterario. Bello. um pequeno prologo com que precede de Burger. p.. se pôde considerar como a histo» ria dos terrores e das esperanças. esquecida ou ignorada. dos preconceitos e dos sentimentos das ultimas classes da sociedade. exprime o verdadeiro caracter da litteratura moderna pela obra do poeta allemâo: «JBurger empregou admiravelmente a poesia nas tradições nacionaes. Repositório litterario.» em nota accrescenta: «teremos occasião de apresentar mais ex- tensamente esta verdade tantas vezes menoscabada. mas o seu conheSchiller. f>3 e seg. como a historia intellectual do povo. 2 Ibid. Schiller O Cavalleiro de Torifjenbiirgo.

escrevia: «Fui poeta até aos vinte e cinco anDOS. que só veiu a ser rea- lisado vinte e cinco annos mais tarde no Curso superior de Lettras. ALEXANDRE HEBCTJLAKO 269 de Passos.» * No ensino da Eloquência. a sua paixão era a historia no romance e na mono- Entre as theses propostas para serem discutidas na Sociedade das Sciencias medicas e de Litteratura. que julga necessário para nm povo que entrou no regimen parlamentar. o logar da Bibliotheca e se fixou em Lisboa.» Herculano já co- nhecia os cursos de litteratura moderna de Villemain. appareceu este assumpto: Qual o estado da vossa litteratura? Qual o trilho que ella hoje deve seguir? i Coube a Herculano o «en- cargo difllcultoso» de ralar por escriplo esta questão urinstitui- gente no meio da actividade da transformação das ções de um povo. mas a solução pro- posta para a reforma é capital: «Um Curso de Litteratura remediaria os damnos que devemos temer. quando em 1836 abandonou graphia. e serviria ao mesmo tempo bre elles de dar impulso ás leltras. Nâo admira esta débil comprehensão em quem tinha só vinte e quatro annos. p. bém um se fez uma compilação dos dis- cursos dos deputados da Constituinte «á maneira da que em França das orações dos representantes nacionaes * Râposilorio litterario.. sugger*e tamponto de vista sensato. diz elle: «encontraríamos finahnenle o espirito de liberdade e nacionalidade da actual litteratura. 6. Para a primeira parte era-lhe indispen- sável fazer a exposição histórica da litteratura portugueza fal-a a traços largos.» Esses vinte e cinco annos estão com toda a sua pujança ua Harpa do Crente. e so- moldou um plano rasoavel. por esse meio. . e foram completados no Porto. mas attribue a decadência da littera- tura do fim do século xvi e xvu ao abuso das metaphoras recebido da Itália.

Cicero. os Duque de Lafões. a Sociedade de propagação dos e Associação dos Advogados. José em concessão perpetua com a monarchia. Burke. Burdett. do Porto. a Socie- dade dos Amigos das Lellras. . nâo houve quem tornasse a achar o espirito dos revolucionários de 1820. Pitt. Este espiportugue- de . res. a Academia Real das Sciencias de Lisboa. rito e da Universidade de Coimbra. os estabelecimentos iitterarios propunham as suas reformas. mas o systema parlamentar era-lhe pouco conhecido. a von- tade nacional no voto. podemos inferil-o da fundação de as- como a Sociedade de Sciencias medicas e de Lit- teratura. Sheri- dan. e a sua manifestação na maioria do parlamento. discutindo os professores a reorganisação da Escola medica do Porto. pelo abbade Corrêa da seus membros eslerilisaram-se no momento em 1 Repositório UUerario. de Lis- boa. o que os indivíduos faziam sociações. Conhecimentos úteis. Costa Cabral. falseando a sua tradição revolucionaria conscientemente desempenhada pelo fundador o Serra. Canning e Fox. Um systema em que tudo se sophisma.» ricas queria o Em vez de regras theo- exame dos monumentos de Demosthenes. i829 e 1831. as reformas decretadas oíFicialmente precisavam da coope- ração de todas as energias individuaes e collectivas. e bem se vê que Herculano ad- quirira pontos de vista novos durante esse anno tormentoso da emigração. Mackintosk. 14. deve actuar poderosamente na oratória! Assim aconteceu. a Sociedade de Jurisprudência. p. mas surgiram os grandes oradoEstevam. conselho era salutar. Uma corporação pjersistiu na estabili- dade.270 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL * desde o principio da Revolução. No meio da transformação mental que se operava no paiz. iniciativa era uma novidade nos costumes zes era o fructo das três emigrações do elemento liberal em 1823. os Passos. Mirabeau.

assignando as sentenças de morte com o horriílco gatafunho AJigel! D. Miguel como legitimo monarcha e a tomal-o como seu protector.ALEXANDRE HEBCULAlíO 271 que procuraram viver do favor oíTicial. . mas contigua áquella em pezo. e depois de mil vacillaçôes appareceu a medalha gravada pelo francez Dubois. o segando inlitula-se Pelo zurro o burro. e já succumbia á sua degrada- ção interna: a Academia das Sciencias adheriu ao obscu- rantismo sendo a primeira a reconhecer D. e Contos de Garrett. data zurrar. Cousa estupenda ideia. que nem sabia escrever o seu nome. * tenfacto tando compor o Diccionario clássico da lingua!» De o primeiro e ultimo volume publicado do grande Diccionario da Academia acaba na palavra azurrar. Elle. e de Trigoso. Ainda era vivo o grande medievista portuguez João Pedro Ribeiro. No Repositório Ullerario. e o faria de uma epopèa se não se achasse empenhada em sair da palavra a^íírrar (o hrairc da — — lingua franceza) na qual desde longos annos amuou. A Aca- demia teve uma mandou cunhar uma medalha para perpetuar essa insoUtum decm. e por uma sala mais em que costumaI vam ser recebidos os académicos. o fundador da critica diplomática. escrevem Herculano e José Carneiro: «o fim do auctor foi ludibriar uma fracção d'este corpo respeitável. em i829. ^ da anedocta: A Academia ficou a No fim do artigo chasqueando a medalha da Aca- demia. in- * 2 Nas Fabulas Repositório litterario. Miguel official á concedeu uma recepção interior Academia graça especial permitliu que entrassem para no palácio. em que collaborava o in- signe João Pedro Ribeiro. 23. pelo a circulação menos. de António Caetano do Amaral. p. ainda a Academia das Sciencias era respeitada pelos trabalhos doeste. proteslou-se contra esta bajulação da inépcia: «D'esta futilidade de fez a Academia o assumpto uma medalha. Discutiu-se por muito tempo a inscripção latina e a allegoria. e de 1818.

e é — também a necessário que seja prompta . Das — Obras de Garreífy ^ t.. e fora bem con- veniente ter sido já de antemão preparada. que produções seria maií. grandeá calhamaços A portugueza. Deixando só memorias e memorias . . ter- minada guerra civil e logo que a desejada paz começasse a sarar as profundas feridas de tão sanguinosa e profiada lucta. hoje nem Em um artigo de Agostinho Albano da Silveira Pinto Sobre a instrucção publica pio: em geral.» Passados annos Herculano veiu a ser vice-presidente da Academia. Repositório litterario. mas foi-lhe impossivel incutir vigor a essa estabilidade filha da apathia idiotica. Não encontrassem por desgraça nossa Co'um pérfido azurrar zurrar maldito!. Em i834 o ataque a esse reducto do pedantismo tinha ser. para que.. Se os novos sábios no começo á erapreza. ousou tecer criminosa e ao uma pagina mesmo tempo * ridicula para a historia d'a- quella Academia. xvii.. A antigas manhas não perdendo o allinco. 272 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL d'elle. 24. se ! um Ires que Deus nos deu potencias d'alraa Lbes não sacasse duas â surrelfa. e era peio isso. Ficaram no azurrar sempre zurrando. grossos. A reforma pois da instrucção publica é necessária. se podesse offerecer á mocidade portugueza uma in- strucção regular e methodica e ao par da instrucção euro- e n'elle se descreve cora as cores as mais picarescas a Academia Real das Sciencias de Lisboa : Que Quanio Ob quanto deus maligno Inimigo de guapos académicos produções. 45. p. magestosa lingua. e digno de formar parte que amparada pelo estúpido poderio do governo d'essa época. . quanto fulgira Em gordos. Quanio seria mais. uma rasão de sarcasmo que se podia estimular. p. lê-se este bello princi- «Ha cento e quarenta annos que Leibnitz disse que aquelle que fôr senhor da educação pôde mudar a face do mundo.

Na sua algum tempo fora ai foi aí que teve a concentração para os adquiriu primeiros estudos históricos. Em um pequeno preambulo re-se ainda aos passados dias do cerco: «Os manuscriptos que se encontram n'este estabelecimento nascente.ALEXANDRE HEBCULAKO 273 instituições pèa.. que o saber especial com que mais tarde se revelou na redacPanorama e na Historia de Portugal. 110. p. talentos. para ser comparada l»iiblicado com o texto de 1358 refe- por Trigoso. Espalhados por dilferentes partes se reuniranj n'esta Bibliotheca.» ^ O segundo estudo versa sobre as Ghrouicas manuscriptas * Repositório liiierariOf p. Póde-se dizer. já formam uma collecção preciosa. e a ambição politica do parlameiílarisrao absorvia todas as vocações. 2i6í(i. nunca mais estudou e apresentou o a publicar phenomeno do estacionamento inlellectual. Herculano achou-se por .. da qual constituem uma das grandes ri- quezas. 18 . total elles poderam escapar de um naufrágio á força de incessantes cuidados que se lhes dedicaram. Esta orientação dos cé- rebros passou de pães a filhos na forma da única preoccu- pação dos que estudam d'este prurido geral — ser vida no Porto. —Salvos por assim dizer no meio do estrondo das armas. empregado publico. No Repositório littcrario começou Herculano «ma noticia sobre os Mufníscriptos da Bibliothvca publica da tarde tanto influiu cidade do Porto. a qual tem de ser o apoio mais flrme das * politicas . apoderava-se dos.» Para fazer as reformas era preciso estudar. 9. em (jue appurece já o lypo dos estudos históricos e biographicus com que mais para a popularidade do Pamrania.. de 1529. porque quando ção do um dia se deixou levar lambem pela ambição politica e se retraiu pelo despeito. O piimeiro estudo é uma noticia de uma recensão mais antiga do livro de Duarte Barbosa.

foram as duas únicas medidas radicaes que o systema constitucional executou. a sua nomeação para as Bibliothecas da Ajuda e Necessidades a veiu restituir-lhe as condições indispensáveis para re- construcção histórica que se tornara o ideal da sua vida. quando um dia Herculano por uma intransi- gência politica se demittiu da Bibliotheca do Porto. e na qual Herculano ascen- dendo intellectualmente. se achava n'aquella Bibliotheca. invadido por elevadíssimos importunos que o queriam honrar tirando-lhe o tempo.. citado por Barbosa Machado. a geração portugueza afundava-se na imbecilidade. Herculano contava examinar uma serie de apontamentos manuscriptos do cruzio D. depois da estincção das ordens monásticas. foi n'esses três annos que Herculano adquia melhor parte do saber que determinou sua vocação Foi em uma Bibliotheca que o insigne erudito Muratori pôde levar a cabo os seus espantosos trabalhos de erudi- ção medieval. 142 e luO. e o regimen liberal caía por não achar apoio 1 JHd. Fructuoso titulados in- Monumenta rerum mamorabilium ah anno 1569. e determinação do manuscripto de Frei Bernardo da Cruz. p. e que até hoje têm influído sempre na transformação da sociedade portugueza. e não obstante o immenso trabaliio de organisação riu a histórica. sema abolição dos frades. Para a Bibliotheca do Porto fez recolher Herculano os principaes thesouros litterarios da hvraria de Santa Cruz de Coimbra e dos mosteiros do Minho. mas faltava-lhe já a tranquiUidade moral. A abolição das Ordens monásticas e a extincção dos Di- zimes. Ckcumstancias imprevistas o embaraça- ram.274 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de D. achou-se envol- vido nos ódios e despeitos políticos. É esta uma phase ia nova que convém historiar. . Sebastião *. peado com as transi- gências do paço. cujo original.

isso era.ALEXANDRE BEBCULAKO 275 nas consciências. revela-sé n'este protesto conde Herculano O Mosteiro deserto. . sem que isso os seus collegas do ministério o soubessem. Pedro iv ao elle Marquez de Re- zende se que havia de dar liberdade a este povo. se os frades seriam ou não postos fora de Portugal. Depois de lavrado o decrelo que é a gloria de Joaquim António de Aguiar. onde mostra o monge dirigindo as carnificinas da lucta fratricida: Caia em pó o Mosteiro e maldilo O que erguel-o ouira vez inlenlar. \). e outros do luctas contra as perfídias qfié D. da exlincção dos Foraes. 200. sem a abolição dos Dízimos o trabaliio continuava com o caracter de servidão ecclesiastica. não queria que se extinguissem as Ordens religiosas. Foi n'essas iv adquiriu a hy- perthrophia de coração a que succumbia em poucos mezes. esses sophistas do constitucionalismo eram o ardiloso Palmella. Que insepultas verá branquejar. não se comprehende como empregou o seu estvio poético fazendo reviver o scnfimento de saudade pelas Ordens monásticas. e Joaquim António de na imprensa á sua composição e impressão. esteve para acon- tecer á lei que extinguia os frades. que era a foi lei O que da li- aconteceu á lei bertação da propriedade territorial. ^ Manuscriptos depositados na Academia das Scicocias. carta de D. o Conselho de Estado recusou-se a approvar o decreto. * que não queria saber o que A victo indecis^ão no espirito publico. Pedro da extincção das Ordens Aguiar assistiu iv assignou o decreto religiosas. Se ndo treme ante as nuas caveiras . 2 Depois d'estcs versos eloquentes de Herculano. mesmo Pedro jaez. É por que em uma lè. n'um momento de resolução D. 2 Poesias. o interesseiro Saldanha. que nistros de revogada por mi- uma aristocracia reaccionária.

^ como o seu único amigo. o octogenário passarinho. Herculano foi mandado a Coimbra para proceder á arrecadação da opulenta Livraria de Santa Cruz. p. Estava-se n'esta indecisão sentimental. spondeu que estava apontou para que não tinha para onde quando lhe retorquiram. o paiz estava extremamente pobre.276 HISTORIA DO BOMÁKTISMO EM POBTUOAL Era uma d'essas contradições Ião frequentes nos caracteres que não possuem uma disciplina philosophicã em que apoiem as suas opiniões. leve o grave defeito de chamou romanideaUsação do uma monachismo no momento em que viam bcstialisado. Herculano relata a retirada dos monges de Santa Cruz. para casa de um algum amigo. 21. Mas. I. 149. um frade entrevado sair re- com quando o mandaram ir. leso. a que ces históricos. Herculano declara que saiu apres- sadamente e que não pôde reter as bagadas de pranto. l. e o alimentar o falso ideal do monachismo a um povo atrophiado por elle elle era vinculal-o para sempre a esse esteio do obscurantismo. e os que 1 Opúsculos. A obra sentimental de Herculano. 2 Ibid. D'este facto dá elle conta no seu artigo a favor dos MonuCoimbra em 1834 obrigações do serviço publico.. Em 1834.» * Em outro pequeno artigo os Egressos. giosas. a imaginação do povo portuguez tanto precisava esquecer esses bonzos que o ha- A hquidação dos bens das Ordens relir. fez-se de um modo tumultuado. . para que? Para a camará o arrasar e fazer uma praça. Correu então a noticia de que se pre- mentos: «Levaram-nos a tendia pedir ao governo que esse bello edifício fosse dado ao Municipio. e a anedocta de ter ficado no convento oitenfa annos de edade. p. l. bibliothecas objectos de arte de pintura e escul[)lura. que chilreava em uma gaiola. Residimos ahi quando foi supprimido o convento de Santa Cruz. expropriação de thesouros do culto. II.

crystalisou-se ticos em phrases feitas. com as theorias dos polí- Foi por lisongear estes sentimentos de espíritos fa- 1 «Os velhos mosteiros do Minho o da Beira eslâo ha rauilo convertidos em casarias semelhantes a alojamentos de soldados.» culano põe aqui em confronto as lagrimas do povo. julgam os monHer- ges dos campos pelos frades viciosos das povoações.ALEXANDRE HERCULANO 277 haviam batalhado pela liberdade queriam recompensas. que deu em chorar os frades nos seus versos e em prosas poéticas. l. i. Esta seria a direc- ção scientiíica . que se agrava- ram com a revolução chamada de Setembro. para a ordem dos Benedictinos devia ser poupada: «Ainda hoje não ousaremos affirmar que a sua conservação fosse inteiramente desvantajosa: deixaremos decidir esta questão gravíssima por aquelles que. e os brados patrió- permaneceram elle estéreis. e que se não de uma um simples resumo Historia popular de Portugal. i. e das questões philoãopbicas ou politicas. porém onde nem uma pedra falia do passado.) . Herculano queria a reforma e não a extincção dos frades. vol. que actue por um cri- tério justo sobre a consciência da nação. de um brado de sentimentahsmo patriótico. Era esta a ideia fixa do espirito de Herculano ao tratar da educação publica. contra a estupidez lição que os entregava * dos municipios provinciaes. Portanto em vez chitectonicos. 212 (1837. As leis de indemnisação provocaram coníliclos.» Panorama. ao ver os frades deixarem os conventos. 2. a expansão sentimental communicou-se em fervor. reclamou com energia a favor dos monumentos ar- á demoMas o brado nunca foi ouvido. Herculano. Foi isso o fez. e os templos veneráveis da Edade Modia te derrubaram para em logar d'elleà se alevanlarcm salas ou armazéns. p. sem nunca * saí- rem d'entre o bulicio das grandes cidades. de mais ou menos âmbito. porque esse despreso dos monumentos provinha de que a nação ignorava a sua historia. p. onde nada respira uma ideia religiosa. ticos. mais força teria ainda hoje não existe uma simples vulgarisação da historia nacional. Como poderia dirigir o sea tempo? 2 Panorama.

que só precisava ser posta na evidencia do processo histórico. Pedro iv elle fora a a causa da reacção absolutista de i824. Palmeila era o senhor do machinismo constitucional tada por D.» dito é a substancia «O que levámos tade de do que temos escriplo tirado senão dois annos. Herculano inverteu as condições do phenomeno. 2 3 Ibid. e de que não havemos má von- homens exclusivos. o Duque de . em uma época de trans- condemnados estamos ^ deixar escoar a nossa vida no meio da lucta da antiga sociedade que morre e da nova sociedade que assassina.» D'aqui um caracter exacerbado. agora tirava partido dessa mesma Carta para se acobertar com ella e monopolisar a 1 Jbid.. Pedro iv. 115 (1839. occultando Carta decre- em 1826. p.278 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL natisados que se achavam perturbados com o golpe funda- mental do ministro Joaquim António de Aguiar. elle julgava complicando o presente que precisava transfor- mar-se apresentando-ihe já nos protestos do iibello. t. e os do seus absurdos. fo- campo temiam-no. t. nos criminaram de obscurantismo. que Herculano começou a exercer a sua primeira influencia moral. m. próprio o confes- homens de velhos hábitos a e velhas ideias (sômol-o ainda que o não queiramos acreditar) ição.) G7.» A sociedade nova é que era as- sassinada pela velha sociedade do monachismo e do absolutismo. . e insensivelmente se achou do partido da que victima. p.. torelle nando-se sempre descontente. Depois da morte de D. como sa: «nós. Md. Elle descreve esta situação inter- média: «Reprehendendo o passado em mos taxados de impiedade: affrontando-nos com o presente * em ha seus desvarios. a figura do passado. já nas imagens dos romances. postoque nos fique a paz da 2 nossa consciência. os do campo liberal absolutista d'onde saíra poupavam-o. 111.

mas ^ como ella tinha feito da Carta constitucional (de 182()>um escudo ao abrigo do qual escarnecia de toda a força moral. as maiorias dotudo. . Maria ii era facciosa. da facção Palmella) os favoritos da independência do tlirono. a facção" de Palmella intimidou-a com as exi- gências do povo. demilte o ministério popular desembarcar da esquadra ingleza surta no Tejo uns setecentos soldados com que procura defenou Setembrista. e que provocou a revolução de 9 de setembro de Taipa na camará dos pares: 1836 resume-se n'esta3 palavras proferidas pelo Conde da «A experiência tinha mos- trado que era impossivel sustentar-se qualquer governo patriótico tinliam nal. e ella de novembro de 1836. e faz 1 Diário do Governo. o mesmo acontecia no Conselho de Estado. um movimento a re- Ninguém conspirou. era preciso ferir o escudo para ferir o fim: a revqlução re- vogou a Carta constitucional... uma facção. e a minavam para marcha dos negócios era impossivel um ministério que não pertencesse á facção. foi um a'cto espontâneo da população de Lisboa o seu íim principal era aniquilar a facção que nos dominava. Todos os amigos da boa ordem viam com pesar que revolucionário era necessário. A situação politica começada com o parlamento de 1834. a rainha foge do paço das Necessidades para o paço da Ajuda. e não comprehendia cousa alguma do regi- men liberal. Em 4 bristas. de 24 de janeiro de 1837. . representadas na força moral dos Setem- entendeu que devia impòr-se á nação tornando os Cartistas (partidários da Carta de 1826. : volução de 9 de setembro appareceu pela força das cousas. e nos logares do poder judiciário tinham investido pela maior parte creaturas suas. cujos indivíduos se mesmos artigos da Carta constituciona camará dos pares tinlia-se crcado uma maioria presença de a si em feito dos seus Íntimos ..» * A joven rainha D. (Sessão de 21 de janeiro .ALEXANDRE HERCULANO 279 poder.

morto. que a cidade lhe deixou a impressão de um povo uma rainha saída do tumulo como continuando a sorte de Ignez de Castro. que passou por este tempo pela cidade de Lisboa. Alexandre dos funccionarios que não quiz jurar a elle. soffreu tudo adorando a sua rainha. foi que se potismo aggravando até descambar no mais franco des1842. como esti- mulo normal do poder. Herculano um Carta imposta pelos Setembristas. que se adaptava artificialmente á nossa vida nacioespíritos mais lúcidos. nal de 1826. com as foi ella mandada ju- rar em todo o reino em substituição da Carta constitucioiv. Os como Mousinho da Silveira. gundo onde se fixou de vez. dizia lar o para não vio- seu primeiro juramento. Pedro A Carta de 1822 era mais liberal e prestava-se a servara com foi a menos sophismas. e partiu para Lisboa. a opinião exercía-se na forma de sedição.se. Edgar Quinet. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Era uma doudice da mulher boçal e mal aconselhada. e e. quando entregou a nação ao arbitrio do em seu valido Costa Cabral.n vez da discussão franca e da modificação das opiniões. e os partidos perseguiam-se entre si como se o decahido esti- vesse fora da lei. Era um estado transitório da pratica do systema sem raízes tradicionaes nas instituições portuguezas. requereu a demissão de sebibliothecario. Depois que os homens da Revolução de Setembro de modificações que as cortes lhe fizessem. dada por D. A nação estava n'um gráo bem Ín- fimo de inconsciência animal. 4836 fizeram restabelecer a Constituição de 1822. a polemica tomava o caracter de accusação. governado por diz nas suas Vacances en Es- pagne.280 der. que hoje figuram no nosso pantheon constitucional. viam n'estas luctas de facções partidárias o gérmen de dis- . como se obde 1826 nas mãos de Palmella. e nal. N'esta primeira pratica do regimen parlamentar ainda se não conhecia a necessidade das opposições. e glorificando os grandes miseráveis de avidez sór- dida e de paixões sanguinárias.

(que Castilho por este tempo traduziu do francez) e Livro do Povo. descreve essa nova situação da sua alma. creu dos destinos da pátria. veiu então para Lisboa o nome de Herculano em fins de 1830. tão expressiva: Eis IS plagas da saudade Eis a terra de seus sonhos. com nada percebeu do que se passava e protestou contra a abolição da Carta de 1820 com dois folhetos intitulados a Voz do Propheta. Palavras de um Crente. achou todos os mesmas impressões: Conta.. ^ O proscripto. e repetia-se. Ibid. esse estado sentimental é só o que se acha na biblica fez A prosa impressão sobre os conservadores Cartistas. mas não as como o Dirceu das Lyras.. e vigorosamente poeta. que lhe Poesias.se que o seu amor fora trahido E que mirrado achou de amor o myrlo . I campos tão risonhos Eis da infância o tecto amigo. em pequenos períodos imi- tando a linguagem biblica. e pela primeira vez desVoz do Propheta e mais nada. Na poesia A volia do Proscrípto. usa esta forma dythirambica. . mas modelados sobre os escriptos revolucionários de Lamennais. sítios. apenas \inte e seis annos de edade. S07. Eis os gestos tão lembrados Eis os . Herculano.. 206. Ris a fonte qne murmura Eis o céo puro da pátria . . na poesia Felicidade. em prosa cadenciadn. . ALEXANDRE HERCULANO 281 solução do systema constitucional. * Herculano como verdadeiro peninsular consolou-se da decepção inesperada idealisando novos amores. . Eis o dia da ventura! . A chamada Revolução de Setembro produzia em Herculano um desalento moral.. p. p.

oh milagre de amor! . transcrevemos esses traços au- tobiographicos Mas. 220. é que se pôde bem explicar a verdade d'esta estrophe: No silencio do amor. 282 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL durou até ao fim da vida. e só quando em 1867 o auctor do titulo do casa- mento civil. Em fins de junho de 1837 foi-lhe confiada a redacção áo^Diario do Governo. veiu a casar catliolicamente com D. Quem virá a minha harpa acordar. p. do pobre. da ventura. * Seguem-se a estas outras eslrophes egualmenle apaixo- nadas. . Adorando-te. cantor. esses amores foram longos annos envolvidos no segredo. Marianna líerminia Meira. Serás tu. Se na terra este amor de poeta Coração ha que o possa pagar. isto 1 Poesias. ambos sexagenários. o seu tiklio politicos entre Setembris- por esses confliclos não o ac- commetteu de repente. e $19. em que o governo se defendia. Herculano redigiu-o apenas alguns mezes. p. meu consolo Eu te achei. serviu o seu grupo. Eu direi ao Senhor : lu m'a deste Em ti creio por ella. Outra vez vibrará um suspiro No alahude Eras Eras tu. oh liilia dos céos. oh meu Deus !» 2 Para Herculano o amor fora um motivo de idealisação no melo dos disparatados conQictos tas e Cartistas. até que deixou ir para diante a bacchanal.: . emfim. Quando aos pés da mulhçr enganosa Meu alento era canções derramei.. era um jornal de discussão politica como qualquer outro. que então não era o órgão da publicação official dos documentos legislativos. teve a sua hora de ambição. virgem pura dos campos. . eu te acbei. eras tu que eu sonhava tu quem cu já adorei. introduzido no código. 2 Ibid.

Era um fructo da emigração. e se publica todos os sabbados por 20 réis cada numero. José de Urcullu. numero de exemplares (200:000) que deve excitar a admiração geral dos nossos leitores. N'este periodo. acha-se inscripta a assignatura do Penny Magazine. até 1839. e em um artigo de D. explicar-se pelo facto da queda do ministério setem- em junho de 1837. 80. então em grande voga em Inglaterra. Este jornal teve tugal na época do uma grande livro influencia em Por- Romantismo. do Porto. que teve principio no dia 31 de março de 1832.ALEXANDRE HERCCLAKO 283 pôde brista ciaes. faz esteja fora da politica. Foi este o seu período fecundo. provocando-lhe o respeito pelos seus monumentos e a admiração pelos seus escriptores esquecidos. que começa em 1837 com a fundação do Panorama pela Sociedade propagadora dos Conhecimentos titeis. propagador de Íitteratura entre o povo. é que Her- culano disseminou os elementos que lhe deram mais tarde esse extraordinário poder espiritual que exerceu inconscien- temente sobre distribuía a nação portugueza. fatiando dos periódicos inglezes. No Panorama. e se entregue A com que Herculano totalmente aos trabalhos de íitteratura. apaixonando-o pelo seu passado tradicional e histórico. reproduziu-se typographicamente as formas do Penny Magazine. no Repositório litierario. . Este periódico é o Pennfj Magazine. e aquelle em que influenciou no espirito por- tuguez. que se bem como no Museu piltoresco. acompanhada de revoltas par- conspirações de despeitados e movimentos do exerpersistência do governo setembrista. cito. p. do Porto. como semanalmente. no das contas da So- ciedade das Sciencias medicas e de Lilter atura. consta de 8 paginas tas gravuras abertas com bastante delicadesa em 4/ com muiem páo.» * 1 Repositório liíterario. escreve: «Resta-nos dizer alguma cousa de ^tligioso um periódico que pela sua baratesa e prose publica.

taes como os chefes Manuel da Silva Passos. mas do lado dos Cartistas estava a argúcia e a violência material. e na parle das gravuras serviu-se dos velhos chés do jornal londrino. p. Casada então com o príncipe allemão D. Acerca d'esla época. Almeida Garrett e José Estevam. 1 ^ N'esle meio Herculano nada tinha a fa- 2 Panorama.° 115. Maria ii um pouco mais desafogada na sua soberania discri- cionária. como se vé na Época. 2i1. Fernando Saxe-Cobourgo. Herculano considerou esta graça como tendo-o posto cia a coberto nos seus meios de subsistên- das vacinações dos partidos. t. A fusão dos dois partidos temporária. os Cartistas faziam-se valer por este favoritismo do paço. Foi por real das suas livrarias dos palácios tanto em 1839. e a rainha D. do lado dos Setembristas estavam os principaes oradores.284 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O Panorama reproduziu materialmente em Portugal o Pennp cli- Magazine. este não podia olhar com indifferença os partidários da independência pessoal da rainha. in. Semana. A sua saida da redacção deve buir-se á participação mais activa que tomou na politica militante. Ar- chivo universal. e a este facto se deve atlribuir a eleição de Alexandre Herculano como deputado foi pelo Porto em 1840. que então se perseguiam cortando-se mutuamente os viveres. * da invenção Herculano foi redactor do Panorama até ao n. fez-se Em 26 de novembro uma liga ou espécie de fusão temporária entre os Setembristas e Cartistas. que Herculano saiu nomeado por D. escreveu Herculano na Carta sobre a Propriedade . mas continuou a contribuir sempre para atlri- essa interessante revista durante as duas séries mais notáveis d'essa publicação. Pela liga de todos os elementos reaccionários caiu em 1839 viu-se o ministério setembrista. hlterario tal ficou até hoje o lypo do jornal em Portugal. Revista universal lisbonense e Archivo pittoresco. Fer- nando bibliothecario da Ajuda e das Necessidades. Estes moldes balidos esterilisaram-se pela atrophia iitteraria.

soltou-ihe o terrível aparte: «Largue a cebental» Herculano callou-se e não pôde proseguir. elle preoccupa-se outra vez com a questão das em Portugal: «De- pois.» (Opuc.— ÁLEXASDRE HERCULAJTO zer. ficou despeitado No folheto. com a audácia de estudante de Coimbra. as gerações continuaram a dar o preço do seu suor para as pompas do clero. que. 5.» tratou o assumpto. a Posteridade á nossa me- moria. finceraraente o creio.) Herculano entendia que bastava uma re- forma nos frades. José Es- tevam. e isto por argumen- tos bistorícos: «Este estado indicava até onde a reacção po- camará dos deputados na legisapresentado um projecto de lei sobre aíjuella matéria." teve a bondade de fallar commigo e com outros membros da opposiçao. e quando o tenlou pela primeira vez estribando-se nos seus apontamentos. e a enlhesourar a sua má von- tade para o dia da vingança. ii. Deus á nossa inlelligencía. Mareca e Seabra. ex. que devem perdoar- nos.*. e nós os homens do povo batemos as palmas — digâmol-o em boa consciência Ê por isso sem saber o que fazíamos. linha . Pertencia éu á minoria da camará. e a cólera po- pular foi cega e bruta como são todas as grandes cóleras. e um ministério de instrucção pu- Rodrigo da Fonseca Magalhães. O clero ílcou litteralmente aniquilado. COJ lUteraria: testando eu e v. publicado Ordens monásticas em i841 por Herculano. e da politica. em vez da extincção." latura de 1840. e no seu zelo por fazer passar uma providencia. o ultimo dos quaes reluclou antes de acceder aos desejos de v. ex. V. ex. d'onde resultou que em 184! Herculano abandonou para sempre o parlamento. (propriedade lilteraria). ex.» (Pag. dos srs. Soure." (Garrett) na v. que só pensava em fusionar os partidos. extremamente raro. ou dissolvendo-os com favores ou ra- ptando-lbes as principaes individualidades. Este chegou. O Clero por tiiguez. reputava útil c justa. ex. Ferrer. Tinliam-ihe os seus correligionários promettido a creação de blica. para que mio a fizéssemos a esse projecto sobre que ia delibcrar-se. não sabia fallar 285 em publico. rccordo-me de quatro. I)'entre os indivíduos com quem v. não attendeu ao seu comprommisso.

quando sobreveiu a Revolução de 1836. e ao contrario de Chateaubriand deslumbrado pelas egreja. p. se as Ordens monásticas persistissem. no opúsculo do Clero portiiguez. latra figuras bíblicas.» anteriormente ao clero ata- Abraçando esta causa poética do clero secular. o sacerdociOy desapparecerá. 283 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL pular devia chegar a'esta parte. Herculano idealisava então o christianismo sentimental. entende que essa suppressão do rendimento eccle- siastico foi ferir os interesses do clero rural.. d'esses cérebros boçaes diz: «a classe mais respeitável do nosso paiz morria litteralmentc de fome. condemnane cheio de pezadas do-o a viver das esmolas da côngrua.. y> (Ibid. i5. idó- ha dois dias. mas a nação ficará esmagada debaixo d'ellas. é hoje philosopho. o templo do Crucificado cairá em rhinas. revelam a falsa direcção mental de Hercu- que impreca assim contra os políticos: «o povo. — Então appareceu uma mas feita lei.. indicava que era necessária uma reforma e não uma nhum progresso poderia aniquilação. d'aquella philosophia da ignorância e de corrupção.) Senle-se aqui outra vez o tom cavernoso da Voz do Propheta. voltou-se para o typo descripío por La- pompas da raartine nos Deveres civis do Cura. por causa do regulamento do jornal. reformal-as era dar-lhes força para nos atropliiarem mais. que vós nastes. cujo fim parecia remediar este mal. onde havia democra- . cava assim os inimigos selembristas. Nao se atrevendo a pronunciar-se sobre a questão dos Dízimos. o mais forte da sociedade. p. As conclusões do opúsculo emphatico lano. ii. cuja essência não era se- não o resumo da perseguição etc. Ai dos que abominam a cruz. vestidos de estamenha grosseira como um verdadeiro operário da granja religiosa. porque a cruz é eterna.» (IMd.) Ne- introduzir-se em Portugal. no Panorama. desenhava com ternura o typo dos parochos ruraes. — Se continuarmos lio e só vós lhe ensi- a caminhar assim por esta estrada de perdição.

. Mais ainda: pedia ao João. porque não havia ideias. começou a exercer então sobre o paiz in- um systema de pressão que ficou na historia com o Cabralismo. A marcha dos acontecimentos politicos seguiu o seu rumo disparatado. ninguém se entendia. que já estavam iden- tificados com a nação portugueza. até a esses pedia. póde-se inferir por este trecho Do que foi de uma carta de Herculano escripta ao fim de trinta annos. Seguro da força e do favoritismo da rainha. António Bernardo da Costa Cabral logo em 184^ appellou para a força bruta. Foi n'esla corrente clerical de idealisaçSo que em 1844 veiu a escrever o pequeno romance Aldina. sem critério algum reclamavam a in- tervenção estrangeira da Quadrupla allíança. por mais mal que alguém . os Cartistas torna- ram-se Cabralistas. este systema. do Parodio da licismo o em que fez pretende fazer para o cathoo Vigaria de Wakefield na que Goldsmith com família protestante. acerca da necessidade de pedir a favor dos inundados de Vallada: «Pedia a todos os governos possíveis. Como o valido de D. que sempre desconfiei que fosse o peior dos três. Maria perseguia duramente os Setembristas.ALEXANDRE HEBCULAKO / 287 tas e livres pensadores. é que levou Herculano a fazer sentir a sua falta reclamando a favor dos tos monumen- abandonados. A preoccupação saudosa dos frades. que se haviam insurgido. Se ainda reinassem os Cabraes. Ora. dando o extraordinário espectáculo de ir ao Porto como e ministro revolucionar a guarnição militar. restabeleceu a Carta de teiro I8Í2J6. e a tomar os monges como os lieroes principaes dos seus romances históricos. e que só pôde ser derrubado por meio nome de de uma revolução bastante séria 11 em 184G. de vergonha com que os podepolitico. ríodo é A historia da vida nacional d"este pe- commovenle pelo estado de falta cretinisação em que se achava o povo. em Torres Novas. e pela res públicos. Mais: pedia ao José. Pedia ao António.

a procella violenta. diz que só ura caso o fará faltar á promessa. Na Ulustrarão. de 1853 converteu-se em outra ailusão egualmente tene- brosa contra os que truncaram a sua actividade histórica. i. Quando Herculano veiu para Lisboa em 183G e tomou conta por alguns mezes da redação do Diário do Governo. e é ee a IIlustraçáo ge tornar politica. Yillemain viveu como Herculano estado psychologico. Porlo. elle também tdtra na appreheasão <Je perseguin'este ções á sua pessoa. n° 1. para quem a melan- cholia romântica tomou foi a forma do descontentamento. . porque sou navegante assas rude e inhabil das tempestades. Foi durante estes quatro annos que reuniu os materiaes. ^ que o fez abandonar a politica.» (Fag. de Portugal. 3 p. joniul lilterario de 184I>.) 2 Hist. espécie de vesânia hereditária iransmittida sob o terror do regimen absoluto. 1878. Herculano esteve com o favor do paço. devo-a a sua magestade el-rei. * Tal era a impressão d'esse tempo ao fim de Da «situação tranquilla em que se collocado» escrevia Herculano na advertência da sua Historia de Portugal: aEsta situação vantajosa e excepcional.288 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL pense dos ministros actuaes. xiv.s trabalhos lilicrarios o nio occupcm.» ^ Qm evitar com arte a fúria Por aqui se vê que durante esses terriveis quatro ana coberto nos do despotismo cabralista. Era uma natureza poética e violenta. ninguém de certo os compara com via aquelles amigos.» trinta annos. e raelleu mãos á obra da Historia de Portugal. 51) li promoLlendo a sua collaboranio quando oulry. a despeito de mais de tima proccUa violenta. EUe a creou para mim espontânea e generosamente: espontânea e generosamente m'a conservou. em quanto a geração que lhe succedeu seguiu o UlLra-Uoniantismo. que tem ameaçado afundar o meu débd esquife. tom. Cheguei a obler a Iriále Iranquillidade de incrédulo politico. 1 A Renascença. Iraz Herculano uma caria em (jue acccnlúa esta se^'unila phasc (\q (les[)cilo: «não mo imporia o que vae pelo mundo social. (ISíG. a que allude aqui de um modo depois vago e mysterioso.

é esta descri- pção do estado intellectual do paiz. a fundação da Sociedade propagadora dos Conhecimentos itteis. e comprehendia que as tradições nacionaes são o elemento mais sympalhico das lit- teraturas que se renovam com o intuito de estabelecer uma relação entre a sociedade e o escriptor. A Sociedade dos Amigos das Lellras. No primeiro numero do Panorama acha-se da Sociedade propagadora dos Conhecimentos ção portugueza. falta O nosso povo ignora immensas cousas que muito lhe imde instrucção senle-se até nas portava conhecer. a * que Herculano pertencera. 160. se acha falha- rem repetidas vezes as noções mais elementares de tudo quanto não ò objecto do seu especial estudo. Esta Sociedade fundou o Panorama em 1837. 1 que ganha diariamente no meio das outras nações. p. achou-secom bastantes recursos pecuniários. Entre os mesmos homens dados ás leltras.» p. e a sciencia em Portugal está ainda longe de ter aquelle caracter de uni- <lade. conhecia franceza. e á qual pertenciam todos €s -homens importantes do constitucionahsmo. e esta classes que pela sua posição social deviam ser illustradas. Collaborou no n. e começou a publicação de alguns inéditos da historia e da litteratura portugueza. cias imperiosas dissolveu-se por drcurnsiari' ^ em sessão de 45 de novembro de 183G. patrocinada pela rainha. e a Vida do Cardeal-Rei. que motivava o esforço iiteis: «A na- uma das que menos tem seguido este movimento progressivo da humanidade. cumpre conCessal-o. taes as Uejlexões sobre como.» 2 do Jornal àa Sociedade dos Amigos das Leltras. a Língua portugueza do árcade Francisco a litteratura José Freire. 63. 2 Jornal da Sociedade dos Amigos das Leliras.ALEXANDBB HERCULANO 289 não achoQ logo as condições para o desenvolvimento da sua actividade litteraiia. tantos séculos atra- sado pelo obscurantismo monachal. 19 . n.*' 5. sabia inglez e allemão. Herculano estava então em todo o seu vigor inlellectual. e emprehendeu a obra da elevação do nivel intelleclual do paiz.

«nem obsta o deixar de ser o prin- Herculano. porque para II.) Fizeram D. incalculável: O effeito do Pa- «logo ao 5. serviu apenas para ensaiar os habilidosos do jornalismo constitucional. .) «Quando {Pan.. porque além de continuar a ministrar-nos os seus interessantes artigos. forçosamente assim hade aconte- — cer. um certo numero de norama foi havendo uma assembléa geral e uma direcção para a administração do capital. p.» (Pan. Em uma circular de 1839. . do que uma imitação do Penny Magazine p. e para cá sóbe-se.*^ numero se tiravam 5:000 exemplares. x> t. 53. . caso único periódicas jornal em a historia das pubHcaçôes em Portugal. 6 de janeiro de i838. Sinceramente confessamos a nossa decadência intellectual .» {Pan.) . Silva Leal * Era 1839 creou-se ora Lisboa a Sociedade Escholastico-Philomatica^ cujo órgão de estudos foi o Cosmorama litterario. fazendo publicar um jornal que derramasse uma instrucção ci- variada. algumas pes- soas zelosas da instrucção publica nos têm presenteado com o fructo dos seus estudos . p. este começou apparecer nada mais era. formada por accionistas. e que podesse aproveitar a todas as classes de dadãos. do que de cá para lá. . i. * F.» Entre essas se distinguem Cunha Rivara.. a Vi.) «Assim a Sociedade propagadora dos Conhecimentos titeis julgou dever seguir o exemplo dos paizes mais illustrados. do seguinte modo: Meus senhores. lá desce-se.. quanto á forma. fallando-se da prosperilê-se: dade do Panorama. accommodando-o ao estado de atraso em que ainda nos achamos..290 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL No segundo volume do Panorama vem uma anedocta que dá ideia do estado dos nossos professores da Universidade de Coimbra: «e outro professor de certa Academia célebre. 1. cipal redactor o sr. . ii. Adolpho Varnhagen. t. Trigoso. e outros. 2. 2 1837. » (Pan.. p. vol.. Maria ii protectora da Sociedade. que dava a rasão de serem as viagens do Brazil mais de- moradas de lá para cá.

basta detalharmos algumas parcellas significativas. accionistas. o opúsculo do Collegio dos Nobres.» foram publicados oa ^ivista universal lisbonense. lit- a monographia. taes como: Prestações dos 1:405^700. 2:. O periodo da sua actividade artística está separado I ! 2 Alguns íragmonfos do Emtxco. foi Herculano encarregado da redacção do Panorama iníluiu desde 1837. sendo o principal educador da classe media em Portugal e o agente que mais desper- tou o sentimento patriótico. tendo a a quantia Sociedade em valores era 30 de julho de 1839. e os Annaes de D. em 1844. vendas avulsas réis. de Frei Bernardo da Cruz. em t2:000 acções de 5á>000 réis. era-lhe preciso redigir o pequeno artigo archeologico sobre cousas porluguezas. o excerpto clássico. el-rei Da Escola Pohjtechnica e em 1844.H3^4I5 l:G90fSijG0. de 1842-1843. Panorama. Sebastião. assignaturas e vendas avulsas do Panorama. a biographia histórica e teraria.ALEXANDBE HERCULANO 291 foi Por portaria de 2G de julho de 1838 permittido á Sc* ciedade o poder imprimir inéditos da Bibliolheca da Corte. A prosperidade económica era também excellenle. Seguindo o typo do Penny Magazine. Eurico. Com os recursos da Sociedade propagadora dos Conhecimentos blicou nteis. sendo o dividido de 10:000^000. João III. de ll:87GÍ(o20. de Frei Luiz de Sousa. esta circumstancia poderosamente na forma da sua actividade mental. «A batalha de Chrysas. Herculano cumpriu á risca este plano. el-rei em 1839. Em IC de agosto de 1839 os Estatutos da Sociedade capital então foram reformados. e o romance a histórico. * e em bem \S^\y e o romance histórico o assim a edição da Chronica de D. que estava enlâo em moda por toda Europa. assignaturas do do Panorama^ l:532(!ÍGá3. . é que Herculano pu- em i838 em Ires series as suas Poesias com o titulo de Harpa do Crente. e o Panorama seguiu sempre o mesmo systema. pelos correspondentes das provincias.

292 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL do período da sua actividade histórica por soífreu um em despeito que no conílicto dos partidos políticos 1842. seguiu o exemplo do auctor de Waverley. Não tinha tica. Os romances históricos de Waller Scott exerciam por toda a Europa uma fascinação pasmosa. como aquelle a deixara a Byron. coincide esta transformação da sua capaci- dade litteraria com o regresso para Lisboa 183G. Era esta uma forma iria de acti- vidade compatível os trabalhos da erudição. em 1859. e até certo attraindo para ini- ponto o ciou um estímulo de curiosidade que o historia. Her- culano debaixo d'essa impressão. não tinha uma vida um sentimento nacional a avivar. Herculano escreveu a foi poeta até aos vinte e cinco annosyj como com grande rigor biographico em uma em Carta a Soares Passos. Foi o campo da que aconteceu. em e condições que pouco o coadjuvavam. comprehende a serie de todas as suas tentativas de introducgão do romance hístorico em e Portugal. cujo primeiro volume data de 1846 e termina com o ultimo volume da Origem e estabelecimento da Inquisição em Portugal. e entregou-se com boa fé á causa pessoal da rainha. então acobertada com o nome de Cartismo. que vae de 1837 a 1840. O pri- meiro. porque Portugal estava inteiramente esquecido do seu passado. e com a natureza especial da actividade exigida para a redacção do Diário do Governo e depois do Panorama. tentativas reunidas sob o titulo de Len- das Narra4ivas. para se entregar exclusivamente ás narrativas novellescas em com prosa. deixando a poesia a Garrett. e os primeiros esboços dós dois roman- ces que formam o Monasticon. Herculano em Portugal a imitação das novellas de Waller Scott. não estava fortale- . o segundo período começa com os estudos para a Historia de Portugal. o conflicto já o ócio de espirito indispensável para toda a ideahsaçao poé- da soberania nacional da Revolução de Se- tembro lançou-o no temor da liberdade.

avô a seu neto sobre a Historia de Escócia.. nA forma pálida e sem relevo dos romances toricos de Herculano. e o interesse scientifico pelas tradições populares. estabelecendo a ideahsação da vida social da Edade Media. coadjuvando o poder de reconstrucção subjectiva a que não se poderia chegar se fi- . (de cordel) e assim adquirisse essa qualidade que já nos pas- satempos escolares o tornava um extraordinário narrador. separava-a assim da vida moderna. O estudo da philosophia escoceza nos cursos tão fecundos de Dugald Stewart. que o estylo rbetorico não coose- gue encobrir.de ScQtt que era por isto influiu elle próprio excedido oo as. O poder de Walter família Scott no romance histórico provinha espirito. era que o eíTeilo artistico está prejudicado por un^ esforço. deram-lhe a disciplina da observação psychologica.esde o Waverley Contos de em 1814 até aos um O de 18i8. e pelos contos da gente do campo sobre as atrocidades do exercito deCumberland. actuavam no seu na ainda persistiam as tradições das luclas pela in- dependência escoceza. fizeram que os seus personagens se tor- cas deixassem a impressão da realidade. c faltava-lhe esse talento desoriptivo. dom . que fizeram que devorasse com encanto todos os velhos roman- ces de cavalleria e novellas da litteratura ambulante.ALBXANDBE HBSCULÍlNO eido 292L com o estudo das tradiç<3es. romance histórico era um grande elemento para determinar a originalidade nas litteraturas modernas. de muitas drcumstancias que. com que observava os vivos no romance. d. É isto o que ex- impressão immensa produzida por Walter Scott na imaginação europèa. e as suas descripções pittores- lypos do vulgo. com que nassem plica a As suas viagens pelas montanhas da Escócia. o amor eolligia as tradições locaes. a infância fora embalada pelns canções jacobitas de uma velha tia.maravilhoso do Tudo hiS'- dialogo cora que vivifica peripécias menQS-fecundas. i^ne aiada não haviam sida exploradas.

* Os romances de Walter Scott foram lidos em Portugal pelas traduções francezas de Defautcom4)ré. (I83i) as imitações eram pálidos recortes de personagens conhecidos volta de em uma acção imaginaria. e se ás vezes o mestre era excedido na comprehensâo da época como nos Noivos de Manzoni. p. de Victor Hugo. e rio Scott. 306 . t. taes e como o Wavcrkt/. ou ás vezes a localisaçao de uma aventura de phantasia em uma determinada época. começou com menos recursos a romantisar a historia de Portugal. Era uma fascinao ção. e tórico e a historia. O romance nou-se histórico decaiu até ao pasticbe inconsciente.294 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL litterarios cassemos constantemente parodiando os modelos foram imitados histórica da antiguidade greco-romana. chega a dar a primazia ao romance. que vera também esti- em Inglaterra durante a emigração. p. de i830. Ibid. e foram grias domesticas da sociedade uma das principaes ale- que saía da atonia mental do ascetismo monástico. 243. Herculano obedeceu a esta tendênestabelecendo o parallelo entre o romance his- cia geral. e que conhecia o dialecto escocez. que mais tarde tinha de abandonar. tentou traduzir alguns dos principaes ro- mances de Walter Durward. Quintino Anna do Gierstein. ou o desenvolvimento prolixo de uma lenda. t. m. Icanhoe Sousa. no Panorama publicou alguns pequenos roman- ces baseados sobre a tradição colligida nas chronicas e no- 1 Panorama.. mas sem relação alguma tradicional. e tor- uma monoraania. Os romances de Walter Scott em todas as litteraturas da Europa. e como o bibliophilo Jacob com relação á historia de Fiança. Ramalho e Sousa. . ou egualado como na Notre Danie de Paris. iv. Herculano tornára-se o grande amigo de d'elle veiu a Ramalho herdar os apontamentos do Diccionaá que mais tarde vendeu Academia das Sciencias. nem realidade descriptiva. Her- culano não pôde resistir ao prurido do romance histórico.

com a como um pintor de natureza morta. tão indispensável na invenção dos typos. de os de- pela lógica ou condicionalismo dos caracteres. a Dama Pé de Cabra.ALEXANDRE HERCULANO biliarios. e as tradições populares. por isso vida e nunca leve uma discialém da lógica dos Pafaltava-lhe o poder de dar de metter movimento psychologico fallar ás paixões. e de fazer íinir os personagens. do Monge de Cister. pondo em circula- ção no romance a nomenclatura que seria melhor empre- gada como complemento do Elucidaria de Viterbo. e. por impossibilidade de exercer a analyse psychologica. A falta de verdade^no sentimento. dres das Necessidades. e as particularidades da vida provincial estavam bem longe de serem exploradas e observadas. É o lado inferior dos seus romances. abusou dos archaismos excessivamente. plina philosophica espirito. João como ao periodo das navega- ções do oriente. Faltava a Herculano o contado directo tradição viva do povo. á época neo-golhica. análogo ao de Thomaz Whrigt em Inglaterra. e ao mesmo tempo O essa falta de graça. 295 como o Bispo Negro. em que Garrett era tão eminente. assim. os romances históricos tanto podiam pertencer i. Roman- Como observaremos no seu nas consequências de toda a actielle vidade litteraria de Herculano. e de Paul Lacroix em França. e a Morte do Lidador. Faltava um trabalho prévio de erudição sobre os Costumes e vida domestica porlugueza. effeito exagerava as minúcias para altingir o da realidade. Apenas Garrett começara uma pequena exploração acerca dos Cantos populares portuguezes no seu ceiro. é a amostra do esforço violento do espirito de Herculano para ter graça. tão'necessaria nas linhas descriptivas. em este acção as lendas. e esta inferioridade explica-nos a sua incapacidade' para as composições dramáticas. levava Hercu- lano a reproduzir os sentimentos romanescos que então . A his- toria de Portugal não era conhecida. Mater-Galla ou o Doutor Pataburro. como á época de D. de fina ironia.

para quebrar as tradições do Allivio de Tristes e do Feliz Inde- pendente. porque todos os lentos que appareceram vieram orientados no sentido do romance histórico. como homem de um só parecer. de Victor Hugo.296 HISTORIA DO ROMAKTISMO EM PORTUGAL predominavam nas formas exageradas do Ultra-Romantismo. uma influencia profunda na litteratura. como romance revelação da vida moral e intima dos indivíduos. tyrannos que reinavam sem émulos sem conspi- . A leitura da Notre Dame^ de Paris. que reverteu em pouco tempo em um exerceram ta- poder espiritual sobre a sociedade portugueza. ou como emoções da Europa Frei Vasco. que tomou de assalto as em i831. como a soltura de D. bem que e débil. era esta a forma do talento de Herculano. ou a collisao do amor na alma de Cláudio Frollo. veiu sobrepôr-se no espirito de Herculano á influencia de Walter Scott. Herculano conhecia só uma paixão.) O amor des- peitado de Vasco é ainda uma reprodução de Cláudio Frollo'. No prologo da quarta edição das Lendas c Narrativas. como Eurico. Vivaldo a imitação de Phebus. em que se esgotaram. o despeito. e ao mesmo tempo a extensão da sua influencia: «Quinze a vinte annos são decorridos. a paixão pelos monumentos architectonicos da Edade Media. e sobre baseou a sua gloria. e Não comludo os elles se seus romances foram immensamente lidos. Herculano retrata as condições em que se achava a sociedade portugueza quando appareceram os seus romances. collocou-a Herculano na alma de um presbytero imaginário de uma época social tão pouco co- nhecida como a sociedade gothica da Península. que Victor Hugo exprime fazendo passar cela. desde que se deu um passo. e todos os seus personagens são individualidades isoladas do seu meio pelo despeito. á Sá de Miranda. O pro- blema do celibato clerical. e que expõe theoricamente no capitulo Ceei tuera lambem seguida por Hercu- lano no pequeno romance a Abobada (1839. foi a acção do seu na bella egreja de Notre Dame.

históricos Os romances de Herculano são parodiados com facilidade. João V. os resultados de taes tentativas. e o Ódio velho não cansa. vin. Um anno na Corte. Corvo. do sr. o auctor da Mocidade de D. Oliveira Marreca. posto que incompleta. inspiraram outras análogas. é licito suppôr. do sr. e pôde dizer-se que nâo ha anno que não lhe traga um progresso. Rebello da Silva . N'estes quinze ou vinte annos creou-se outra passagem do iniciação uma litteratura. Todos conhecem o Arco de SanfAnna. referindo-se ao facto da a Ilude de um género novo na litteratura es- cola do romance histórico: «A critica para ser justa não hade porém attender só a essas circumstancias hade considerar também. vasta concepção.. e dos que )y em rativas. údiS para ser justa deve pon- suas tentativas. e talentos da nossa litteratura a emprehenderem composições análogas de mais largas dimensões e melhor delineadas e vestidas. e que as emprezas editoras exploram lisongeando com phantasmagorias insen- satas esta orientação da curiosiadde publica. Mendes Leal. que ainda hoje domina. {Lendas e Narcas tentativas. que é quasl Scott.ALEXANDRE HERCULANO 297 rações na província do romance portuguez. romance de que já se imprimiram algumas paginas admiráveis. nos promette mas que na parte inédita. cujo ultimo volume acaba de imprimir o primeiro poeta portuguez (l'esle século. do incitaram a maioria dos gradualmente sr. I. Poucos escaparam a essa falsa e tardia corrente.. um emulo de Walter Emfim o Conde de Castella. inspirado pelo exemplo d*estas fra- dimensões maiores o auctor emprehendeu no Eurico e Monge de Cister. tudo. que a principio. os resultados foram histórico e monomania do romance do drama que esgotou a quasi totalidade dos escriptores por- tuguezes do Romantismo. e .» E em á mesmo prologo. do sr.) critica Herculano reclama que a derar os resultados^ essa dupla histórico. como por exem: plo os Irmãos Carvajales e O que foram Portuguezes.

nao é compre- hendido e repellem triumpbanteraenle estas questões como theorias allemãs. sentimento e intuição da historia. Rebello da Silva.typo para todas as épocas. Andrade Corvo e Marreca pecpelas mesmas qualidades. segundo a preoccupação do estylo. Herculano conheceu este vicio desgraçado com relação ao drama histórico: «Que resulta de se escolherem para objectos de composições dramáticas successos e indivíduos pertencentes a e uma geração e a uma sociedade cuja indoie modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vicio do theatro antigo: fazer abstracções e desmentir a verdadeira arte. a época accentua-se com o nome de um rei.298 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL servem de. que abandonou a advocacia.ahi em vez d'esses nomes tão conhecito- dos do fim do XIV século. mais ou a fiíria menos bem servida. Eis aqui está a receita. p. — Ponham-se . como resultados d'ella. a linguagem simula-se com archaismos e com tivo. » * mesmo se deve repetir para cita com o romance histórico: as imitações que Herculano de Men- des Leal. signaes algébricos: cortem-se táveis de então. e o das as allusões aos acontecimentos políticos ou pessoas no- drama pertencerá Isto á época e ao paiz que nos aprouver. por in- quem perguntar por tuito preparação philosophica para a analyse das paixões. e n'este sentido servem para condemnação da obra de Herculano. o dialogo destaca-se materialmente por meio de um risco significaá reduzem-se a aventuras sem nexo ma- neira dos imbróglios improvisados do theatro italiano. como em Arnaldo Gama. segundo de escrever. do Conservalorio. esgotado em fazer romances segundo 1 Mm. por na relação da obra com o seu tempo. . 137. Para algims escriptores o romance histórico tornou-se uma paixão exclusiva. morrendo no conflicto de uma sociedade mer- cam a cantil como a do Porto. as paixões uma construcção redundante.

e superiores em talento aos supracitados. as cantigas do povo em volta da sepultura do Condestavel pintam-nos mais ao i. João n. João pôde vér-se nas relações do Nobiliário Coudel Mór. sem vida. sem vida subjectiva como os do mestre. João * fíizia uma época. Duarte. costumes locaes) como rias fez Jacob Grimm. . no Mestre GiL ii O que terrível corte de D. descria do futuro da pátria? Eis as suas palavras cheias de illusão pessoal e de desalento: «Nós procurámos desentra- > Este romance é altribuido a Ignacio Pizarro de Moraes Sarmento nos ^5- boços de apreciações lilterarias. a de D. Luiz Lobo da Silveira acerca do e de Fernam da Silveira. João do que as pretendidas scenas da tavolagem. nos caracteres. vivo a época de D. porque uns não tinham talento. como i. Herculano conservava profundas illusões acerca da sua aptidão no romance histórico. se elle já em 1831). romances. c depois é que as creações li Itera- desenvolveriam esses assumptos. outros não tinham philosophia.ALEXANDRE HERCULANO 299 O typo fixado por Herculano. ^ de D. se não as conhecia. todos os outros sâo falsos no estylo. contos. e interpretal-as litterariamente. effeito para se julgar quanto Herculano andava longe do da realidade. e entremeando reviver ter. a linguagem de archaismos. anexins. no sentimento. Anles de fazer romances históricos convinha es- tudar as tradições nacionaes e populares (lendas. De facto são esses os priucipaes romances históricos produzidos depois das tentativas de Herculano. como os amores se comprehenderão nas aventuras de Juan Rodrigues dei Padron com a filha de el-roi D. pensando que pondo alguns nomes históricos conversando á maneira dos antigos diálogos dos mortos. nem invenção. superstições. diz -se que Herculano o retocou íundaoieutal- mente. no Monge de Cisera a vida na e a de D. 2 Vid Poetas palacianos. e á parte o de Garrett. usos. M2S como podia Her- culano inspirar-se das tradições portuguezas.

em vez de interpretal-a como litte- um estimulo de renovação do espirito nacional.800 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL nhar do esquecimento a poesia nacional e popular dos nossos maiores: trabaltiámos por ser historiadores da vida in- tima de uma grande. É uma sociedade a immobilisar-se na contemplação do passado. A tradição é o húmus d'onde floresce toda a concepção liga artística. Não comprehendeu o lado vivo do elemento tradicional. é pela tradição que a obra individual se ao sentimento da multidão. mas nunca arte ou littêratura. sem que contrafazer o passado na sua rudeza ou ingenuidade. repetiu-o em 1866 sete na polemica do Caterra. nobre e generosa nação que houve a qual no mundo.. chamada nação portugueza. nem ao menos lem esforço ou virtude para * morrer sem infâmia. metrificar o conto solarengo. apoiava-se no passado contra o presente que se demolia pela nova pratica do regimen parlamentar. Para Herculano a concepção raria foi uma querella de antigos e modernos. é uma habilidade estéril. abraçava-se a ella como um refugio. siste A verdadeira missão do génio con- em vivificar com a aspiração a Iradicionaes sempre sympathicas uma nova as velhas formas nacionalidade. desalentam em vez de impulsionar. já ou já não vive. Já se vê o ponto de vista falso em que considerava a tradição. Isto que Herculano escrevia aos vinte e nove annos. porque leva um de renovação. assim como os palmos de que es- perava não lhe negariam. Pôr outro intuito mais do em romance a lenda antiga. 306. Os romances e as pequenas novellas de Herculano são esta estreita reproducção imitativa do passado.» samento Civil. já se acham também em verso na Harpa do Crente. Fortalecemos este ponto de vista com o pensamento de Guizot: «Não ha 'de- 1 o Chronisla (Viver e crôr de oulro tempo) Panorama. . w. reproduzir o velho archaismo. ou se vive. sem tirar d'esse culto o estimulo perigo.

vida. e as algaradas contra os mou- ros e as bravatas dos senliores feudaes. des Origines du Gouvern. 2. nâo concebe alguma grande e nobre esperança. faltava-lhe o talento como artista. abâbou por duvidar da sciencia do séa notnenclatura culo. pouco importa o tempo que sociedade leva a cair. Adheriado á iniciação do regimen parlamentar em Portugal. tremos lâo anlinomicos seria a litteralura a imagem do pas- sado seria o symbolo querido por meio do qual se vulgarisassem as ideias novas. como erudito. a vida rompimento brusco com quem nos esclarecesse o quem nos força social revestisse de cores saudosas o pas- A única que poderia conciliar estes dois ex. pelo triumpho do systema representativo no cerco do Porto em 1833. precisávamos mais de futuro do que sado. mas immobilisou a moci- dade de duas gerações que nada comprehenderam d'esse grande periodo de renovação intellectual que vae desde a descoberta do homem^lmte-historico até hoje. desmorona-se sante. Herculano não compreliendeu isto.» * uma com uma ruina inces- Na renovação da sociedade portugueza da nacionalidade dependia d'este o passado. im- 1 Ilist. considerando vos como uma outra forma de gongorismo! Não faltava a Herculano a comprehensão das formas do romance histórico. e idealisando á vida clauslral. em que a classe a compartilhar com a realeza media era chamada pela eleição uma parte da soberania. Herculano.ALEXANDRE HERCULANO 301 cadencia quando as ideias se agitara. fez-se o escriptor predilecto da nação portugueza. quando em vez de avançar para o futuro ella não invoca senâò as lembranças e imagens do passado. representatif. .« leç. é então que a decadência é verdadeira. que se sente opprimida e doente. mas quando em um grande império a sociedade. que No fim da òomeçára por descrer do presente por de novos factos positi- uma doença moral.

que então surgiram — os caracteres profundamente disquer pela negrura. as cousas. diríamos quasi homéri- dos. João testavelmente a mais dramática da historia é incon- portugueza. Herculano teve historia um vago instincto da época mais eloquente da de Portugal para ser vivificada pelo romance. Sâo-no os factos políticos e a vida pessoas e as cousas. e a politicas.302 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL portava manter o respeito d'essa nova conquista da liber- dade politica estabelecendo a sua continuidade histórica. resto quasi apa- gado da existência nacional abafada pelo cesarismo. quando sua di- começava no resto da Europa: o povo dava signaes exteriores de que existia. porque as instituições feudaes que se haviam misturado com latada agonia a nossa priuiitiva índole social. como foi se extinguiram as cortes. fazendo sentir como o terceiro estado surgiu das classes servas. civil d'esse tempo. os elementos da vida social foram então chamados a uma grande lucla. e. quer pela da situação social do tinctos e altamente poelicos. e existia robusto. tinham já a to- cado então a meta do seu predomínio. e como o munici- palismo o único esteio da vida local. tanto os que deviam ser venci- — ficar vencedores combateram Os grandes energicamente. revolucionário não tanto para as pessoas para. formosura moral— todos nasceram . N'estes dois reinados operou-se transformação social: o fim do século xiv foi uma como um período re- volucionário. a mo- narchia esgotava a sua generosidade e os testemunhos do seu temor para com a aristocracia na véspera de dar prinia reptal-a. como os que deviam de cos. vultos históricos d'esse tempo os personagens extraordinários. as A nobreza era chegada ao apogeu da sua grandeza. e cipio ao duello de morte para que que devia durar cem annos. aqui o erudito foi superior ao artista: i que exerceria uma acção saudável no exercício das novas formas «A época dos reinados de D. como acontece sempre em similhantes situações. Fernando e de D.

unicamente se em devem contemplar. ex toIIo vem 3 de Lixboa para Santarém. o architecto da Batalha. contra os amores tresloucados de D. que na Europa inventou os fa- serão abstracções. sem o que artística se não com- prehende o deposito da tradição conservado por Affonso Domingues.»^ Nas Arrhas por foro de Hespa- nha falta a malicia bliauXy e que em Portugal vemos revelar-se n'esse rifam de escarnho. Por zer dos seus romances históricos. é n'esle campo que Herculano coUoca os seus principaes romances históricos como Arrhas por foro de fíespanho. Fernando. a Cister. cap. quando Her- culano escrevia esse quadro do advento do terceiro estado. Chr. Ferníindo: Ex voUo vai. avaliar e eicplicar. 134. . forem arrancadas do quadro cujo chão e luz apropriados a ellas. 36. o que elle escrevia dos dramalhões Ultra-Romanticos: «Se porém essas imagens tão aproveitáveis para a arte. 2 Ibid. consequência d'essa evolução primitiva. ficam convertidas o que mais é. entrava histórico das institui- ções da Edade portugueza e abandonava o romance. 135. e por ella somente se podem comprehender. com relações profundas com a época de inauguração do re- gimen parlamentar. foram o resultado e o 303 resumo d'esta.: ALEXANDRE HERCULANO paiz. em desenhos de morte-côr. p. de em que pinia D. Leonor Telles. 3 Fernão Lopes. p. dirigido apeisso póde-se di- quando se exerceu na actividade novellesca era nas por um vago instincto e sem plano. O Chronista e Mestre Gd.. etc. de D. o Monge i842. do Conservatório. Na península 1 Mem. Na Abobada falta esse espirito da liga secreta das confra- ternidades obreiras. Em com enlhusiasmo no estudo IVledia Abobada. das Jurandas.» * Eis a achada época em que surge á vida civil a classe popular. e perderão os seus lineamentos característicos popular.

vida. (n.° 4oS. por isso os seus romances ficaram sem de D. que a verdade tal guysa se foi a perder que nem podemos en novas aver. dizendo. mantendo-se apenas a tradição nas classes industriaes.» dia. João i. numerosos romances poéticos. que o Condestavel imitava seguindo quixotesas virtudes de camente Galaaz. ellas dissolviam-se. Herculano não tocou esta fonte originai de poesia. que ainda se conservam nos livros populares allemães estudados por Goôrres e pelos irmãos Grimm. na sua bibliotheca. ou da Compagno- nage. mesmo de si no Waverley: «Elle tinha lido os a época de Pulei.) ca de As cerimonias symbolicas das Mestrias. e havia um divertimento nos in- numeraveis reportorios de meron. nem já non anda na Yrmaidade.304 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL as Irmandades foram o primeiro núcleo de organisação vil. ci- e á medida que as garantias politicas eram reconheci- das pela realesa. Em uma canção do tempo de D. Falta este elemento no Monge de Foram dade a estes processos críticos elle que deram a superioridiz Walter Scolt. Duarte colligiu Cister. e que D. Affonso ni. píritos italianos. falla-se já da decadência das Irmandades. e de que ainda nos séculos xvi e xvii existiam restos nos emblemas dos oíTicios da procissão de Corpus era Portugal. que desde foram o exercício predilecto dos bons esprocurado Novelle. que o génio doesta na- ção elegante e voluptuosa produziu pelo modelo do Deca(cap. revelam a intima poesia dos costumes e da vida popular do terceiro estado. ui. que o citava aos seus companheiros de el-rei armas comparando-se a Arthur.) O talento de evocação do passado era proveniente d'esta communicação poética com a Edade Me- da qual foi um dos reveladores no seu estudo do Tm- . Os hábitos palacianos da corte rei precisavam primeiramente ser comprehendi- dos pela leitura dos poemas da Tavola Redonda. Tanto na Abobada como no 31estre Gil.

O modo como Herculano comprehendeu esse conflicto é débil. Garin le Loherain. Herculano quiz fazer também um poema era prosa. Nos escriptores christãos como Álvaro de Córdova. deixan- do-se arrastar pela declamação do UIlra-Romantismo. publicado por Immanuel Bekker desde 1829. e nos escriptores árabes citados por Dozy. Esta falta sente-se especialmente no Eurico de Ale- xandra Herculano. Eulogio. O Eurico c uma imitação do Cláudio Frollo. Herculano escreveu e fez representar no theatro do Salitre em 1838 o drama em . que se Herculano se daria ao tra- estudasse esse assumpto tradicional não balho de inventar um Eurico ultra-romantico. apagado. com uma donzella aralje Leocricia. a historia dos amores de Eulogio é tão bella. e sem ideal. A leitura dos Martyres de Chateaubriand revelou a Her- culano a poesia da raça golhica. a sociedade hispano golhica e árabe do século ix está tão viva. em em 1833. emíim a sublime vez de recompor a vida collecliva. como em 1810 revelara a Agostinho Thierry o génio dos frankos. por Paulin Paris. transportada para um quadro da Edade Media. Â ma- neira dos Martyres. Chamou de Roland. e morrendo theatralmente. uma realidade na collisão dos amores do arcebispo de Toledo.ALEXANDRE HERCULANO 305 tem. como o FierabraF. incitando-lhe essa pasmosa intuição histórica dos Recits Mérovwgiens. meditando phrases rhetoricas. em 183G. que a converte ao christianismo. metteu-se no subjectivismo phantasista. Berle aux graíids pies. os elementos para a vida social e domestica das raças germânicas existiam já bem accessiveis nas Canções de Gesta. refugiando-se ambos no amor mystico e morrendo ao mesmo tempo pelo martyrio. preoc- cupando-se com a Ihese social do celibato clerical. No meio do 20 seu fervor romântico. temos uma base de comparação perfeita. no meio de uma sociedade em conflicto de raça e de crença. da Notre Dame de Paris. em 1832.

onde . dependentes do mundo material. Maria Este quadro da renascença da litteratura dramática ficou tratado no livro Garrett e os Dramas. Herculano coUaborou com guns escriptos metaphysicos tórico Da Arte. Ha pois em cada obra d'essa só. (fragmentos) Tohu- Bohu. e nas Memorias do Conservatório com sobre a comedia Telles. 2 Jcrnal do Conservatório. como podia liga a esse manifestal-o no theatro? O facto da composição do Fronteiro de Africa é que é digno de reparo. ou três noites aziagas. artistica Ires — as miragem intellectual: As suas expresformas. a forma. O drama não lem importância artistica. Grão-Vasco. 108. o poeta da epopéa nacional os Luziadas. emfim o desenlio dos caracteres se Herculano não tinha este dom da visão subjectiva no romance. a terceira as condições relativas. e todavia inseparáveis: o idealj o poela. Dá-lhe o primeiro a substancia. como nos escriptos legorica Da Arte. também Herculano ^ como al- No Jornal do Conservatório. um elogio his- de Sebastião Xavier Botelho. a parte descriptiva supre em grande parte o movimento das paixões. p. elementos distinctos. o ideal. o pintor do quadro entre os doutores. Eraquanto Herculano philosophou disse deploráveis banalidades. porque se fervoroso movimento produzido por Garrett para a fundação de um Conservatório geral da Arte dramática. românticos. . acervo de phrases de uma visão al- em que contempla Affonso Domingues. começado a publicar em 8 de dezembro de 1839. O ideal é o mys- * Impresso fraudulosaraente no Rio de Janeiro em 1862. o segundo as condições absolutas. e O Menino Camões. ao qual pertenceu censor. Eis uma amostra «O siibstractnm da arte é um sões é que são varias. e com extensos pareceres A Casa de Gonçalo e o drama D.303 HISTORIA DO ROMANTISl^O EM POKTUGAL * prosa O Fronteiro de África. o archite- clo da Batalha. as situações. falta-lhe a linguagem.

ALEXANDRE HERCULAUO terio. que. todos enem nós mesmos e nas nossas cousas sejamos origiforça de nacionalidade. 29. 307 o poeta é o vidente. a cuja sombra crf. Herculano replicou com um artigo sarcástico Tohu-Bohii.. que a tempo 6 compasso entremos nas grandes harmonias do coro ge- í 2 /ornai do Conservatório. . parte em prosa e parte em verso. nem tanto em contacto com artístico e scientifico o movimento da Europa.ueí-te sacerdote do n)eu ciillo? insulla despiedado. que reagia contra representou o elemento as novas doutrinas lilterarias recebidas da admiração das obras primas do romantismo. ao qual se ligavam todos os espíritos posthumos da Arcádia. se rasão ouvir quizeres. p. que começa por umas considerações históricas justas. Te bradará com voz que tu desprésas Onde achaste Para n'elles — A rasio. elle da reacção clássica. E és Sem tu quem me ao menos pensar nilo lenho aliares? Onde achaste a trindade do meu culto? esses moldes tão sublimes vazar luas ideias? Esses moldes quaes sJo? a Natureza. gem da ideia. phantastico pelo Doutor in ntroqiie Ichheit. 2 O «Defensor de Horácio» era Castilho. 45. Sonho abphomelico. Md. lyrico.» * Não admira que Herculano viesse — a detestar a philosophia. Appareceu porque nâo sabia discernira imaem seguida no Jornal do Conser- vatório uma réplica. Os pedantes da Philosophia disseram á Trindade do Evangelho— Mentira!— Os pedantes das Poéticas dirão á minha trindade Anathema. as- signada por Um Quem Te defensor de Horácio: profana o aliar. mas termina lorpa. com uma graça «Estamos As considerações merecem ser citadas: em Portugal n'uma posição pouco vantajosa para a nossa ratura: litte- trados naes á nem tão isolados dos outros povos. a forma é a revelação escripta. p.

D'aqui a sincera devoção com que pri- meiro copiámos os fim os Francezes. como se viu na Allemanha com Herder e Miiller ao lado de Goethe e Schiller. e como tafúlos de fallar provinda imitamos ás cegas. taes como como o considerar a transformação da litteratura portugueza resultante das transformações sociaes de i833.» * Nos outros três tra- balhos que citámos da collaboração de Herculano nas Me- morias do Conservatório. p. que já aproveitámos na Historia do T/ieatro. nós religiosamente nos curvávamos ainda diante da sombra de colónias iongiquas dos uma auctoridade que já não existia. finalmente. (1 de março de 1840. em que o archaismo da linguagem suppria a falta de evocação da época ou a intelligencia da tradição que desenvolvia. sem vermos primeiro se nos fica bem a moda.» Italianos. exagerámos quanto nos dizem que é moda na capital. como estas Romanos. O trabalho fundamental deveria começar por uma renovação 1 Jornal do Conservatório. que obedeciam ainda aos cônsules de Roma quando já Alarico reinava em Roma. a im- perfeição dos dramas históricos por falta de um trabalho de erudição histórica a par da idealisação artística. 101. cabia-lhe como auctor dos romances históricos. na França Guizot e Thierry ao lado de Victor Hugo. proveniente de uma certa inca- pacidade philosophica para analysar as paixões.) . depois os Castelhanos e por E depois de indicar a propagação do a movimento romântico da Inglaterra para Allemanha e da AUemanha para a França. Ouvimos de longe no que vae pelo mundo. emphafalta tica e cheia de epithetos. O que Herculano dizia com tanto acerto dos dramas ultra-romanlicos apresentados ao Conservatório de 1840 a 184Í2.308 ral HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL de civilisaçâo que de toda a parte se alevanta. acham-se considerações bastante justas. a falsa linguagem figurada. accrescenta: «e nós. e de de imaginação para recompor syntheticamente os caracteres.

protestando que nós typos nacionaes dá-nos o intuito do Parocho da Aldéa: uma experiência. a começar pelo gallego. emprehende uma tuguezes. Faltou esta condição primaria. na politica e pratica- mente nas reformas que d'ella derivam. Retirado da politica desde I8i2. acha-se elle um enfatuamento auctoritario galeria de Typos porte- Herculano. deveu a parte mais justificável do seu desalento á falta de uma compreliensão e julgamento da critica sobre a direcção da sua obra. que só responderão com uma . só assim é que se pôde imaginar a graça de Herculano. ditos e feitos de Lazaro Thomé. como processo do nosso passado. e dos padres. e Herculano deixava-se adorar. que provocando a actividade mental influiria na critica doutrinaria e comparativa. quando Herculano se dignava collaborar em alguma das suas ephemeras revistas litterarias. Elle n'esta phrase era bem quer ser irónico. os des- peitos e as separações inutilisaram muitos esforços. nos longos discurVida. e por isso foram descoordenados lodos os movimentos de transformação de critica politica e intellectual. na edição de Tolentino. e Herculano. imagine-se uma das mais hirtas e insulsas caricaturas de Nogueira da sos da Silva. mas cáe na imprecação. politico ali no seu remanso de naufrago procuravam-no os no- vos escriptores. A falta não fecundou nem disciplinou os escriptores. que inespe- radamente declama rigo de dizer a favor dos frades: «arrosta com o pe- mal dos mudos.» Mas o gallego é que é lamentável. debaixo da campa do te monachismo. como frades. e essa no estylo de an- tigos hábitos mentaes. ella ficava com importância garantida. Na lllustração (jornal universal) publicada já em em mos «foi abril de 1845. em casa independente destinada ao bibliothecario real. que se concentrou no trabalho da Historia de Portugal. A mocidade em vez de trazer doutrina vinha pasmada de admiração. e por ultimo na Historia.ALEXANDRK HERCULANO 309 philosophica. vivia Herculano na Ajuda.

. despeitado da politica. emprezario da Companhia italiana fêl-o cantar na noite de 31 de abril de 1845. eruditíssimo. prestou a esta ultima um serviço que a nação não poderá bastantemente reconhe- Rackzynski demorou-se em Portugal até 1845. 131. 2) * A anctoridade romântica de Herculano crescia nal o . p.ar tiítique du Portugal. no momento em que os > Cartistas se tornavam Cabralistas. Q (Jqq^ da graça anda sempre ligado ao talento dramático. Os que assistiam a esse desempenho. 4. Aban- donando cer. e o Conde de Farrobo. posto em musica por Miro expressamente para a Academia Philarmonica. cheio de zelo e infatigável.» 3 a politica pela sciencia. lllustração..» (Cap. escreveu para a creaçâo da Opera nacio- drama lyrico os Infantes de Ceuta. Foi já deputado ás cortes. escreveram: «A poesia percebia-se pou» 2 co . p. p. de uma grande vivacidade de espirito.. O Conde de Rackzynski. . ^ 2 lllustração. que fora o primeiro a reclamar a favor dos nos- monumentos destruidos por falta da sua comprehensão. escriptor de rito um mé- geralmente reconhecido. conheceu portanto Herculano no seu período de fervor litterario. que veiu a Portugal (13 de maio a de i842) e estudou com tanto interesse não podia deixar de achar-se sos Arte d'este paiz. escreve de Herculano estas linhas: «É gos da verdade. Guizot. em contacto com Alexandre Herculano. que eu conheço um em Portugal. dos homens mais ami- O illustre fundador da historia da Arte portugueza. e Herculano não tendo possuído esta qualidade como não pôde dar retambém em historia nunca poderia sair dos moldes severos mas mortos em que escrevia Hallam ou tão característica de Garrett. * Dictionaire histórico. e já em Paris durante o anno de 1817 é que escreveu esse juizo sobre Heroílano.310 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL lagrima furtiva. quando. 157. de uma imaginação ardente. assim levo ao romance.

embora o Monge de Cister só apparecesse em 1848. ainda em 1844 publicou o á custa pequeno drama Os Infantes de Ceuta.ALEXANDRE HERCI7LAN0 311 voltou a sua poderosa organisação para a litteratura. recebeu as suas primeiras emoções dos romances históricos de Herculano. João úteis achados na Bibliotlieca real das Ne- cessidades. o Presbytero. do padre Theodoro de Almeida. que a Sociedade propagadora dos Conhecimentos mandou publicar lyrico em 48i4. Herculano reconcentravase cada vez mais no campo da historia especial. já era do Monge de conhecido por fragmentos no Panorama. Quando mais tarde em 1863. Annaes de D. A imaginação portugueza narcotisada pelas insípidas novellas do Allivio de Tristes. III. (1842-1846) se limitava desde a sua con- cepção primitiva ao periodo medieval: durante a Edade Media. a parte principal havia muitos annos que íicára incompleta no Panorama. que a Historia de Portugal em que tra- balhava Herculano. de que fora redactor exclusivo até junho de 1839. e Feliz In- dependente. colligir romances que veiu a sob o titulo de Lendas e Narrativas. do padre Matheus Ribeiro.» N'esla phrase de Rackzyushi contém-se u^ia revelação im- portantíssima. por isso escrevia Rackzynski. e é. talvez sobre notas levadas de Lisboa: «Elle escreve uma Historia de Portugal durante a Edade Media^ que. e da supracitada associação o romance histórico da sociedade gothica na península Eurico. Occupava-se em organisar o texto do manuscripto de Frei Luiz de Sousa. As primeiras impressões sâo sempre as mais indeléveis. sem duvida será uma obra de alta importância para as sciencias. Parle Cister. Herculano veiu desilludir os que esperavam ainda uma Historia de Portugal completa pondo no frontespicio da terceira edição «afó ao reinado de . A sua imaginação era apreciada pelos pequenos romances históricos publicados no Panorama. e na Illustração. Em 1843 e 1844 já Herculano abandonava o campo do romance histórico. e mais particularmente para o seu paiz.

por Hardung. Herculano era romanesco. já a aproveitada pela segurança da sua Foram estes dois volumes de Schaeffer os únicos traduzidos em francez. cujo quarto volume. Bens da coroa e Classes servas. Cremos que o complemento total do trabalho de 1 A Historia de Portugal de Schaeffer foi interrompida era 1839 para o se» auclor melter mios à Ilisloria de IJespanha. de 1853. da cilada collecçáo. Desde seus primeiros trabalhos. Durante sua permanência n'aquclla capital. esta posição vantajosa lhe proporcionou os meios de emprehender maiores trabalhos. i. embora continuasse dizendo que contrariedades innumeras lhe haviam truncado o seu lavor histórico. ficou o hmitte irrevogável do seu trabalho. os três volumes restantes. e acceitou em 181G o logar de preceptor em uma família aris- tocrática de Darmstadt. taes como Foraes. o joven aurtor excitou geral admiraci\o por seus profundos conhecimentos da historia de Ilespaniia e de Portugal. 1852 e 1854. War«estuda nbagen. Quando o primeiro volume da Historia de Herculano appareceu á luz obra de Schaeffer critica. Foi ali que publicou duas obras que fundaram sua . 23. Sendo depois nomeado professor de historia na Universidade de Giespen. Houve por tanto n'estes desgostos uma certa phan- tasmagoria theatral. acham-se algumas indicações biographicas acerca de SchaelTrir : «Nasceu csle deslincto bisloriador em Sclililz.312 HISTOBIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL D. com * os livros da Historia de Herculano. p. em 1839 que A obra foi conhecida em Lisboa. a 25 de abril de 1794. F. formando parte de um vasto é corpo de Historia dos Estados europeus. o primeiro volume da sua bella Historia de Portugal. pequena aldôa do Grâo-Durado de Hcsse. Schaeffer começou a occupar-se da peninsula ibérica.j> Revista universal lisbonense. que era admirador de Herculano. Em 1836 publicou o professor de historia da Universi- dade de Giezen. publica- dos ao fim de cruza m-se um longo intervallo. Ad. Henri Schaeffer. foi ali em 1846. formou-se no seminário histórico de Giessen. em 1850. e cremos que não sem influencia na determina- ção de Herculano em concentrar os seus estudos dispersos sobre as instituições sociaes portuguezas. Affonso Ilh não fez mais do que definir com verdade o plano do seu trabalho. vol. só se publicou o segundo volume. diz da obra de Scliaeffer : profundamente os factos e desassombrado de preoccupações. Em uns artigos publicados na Gazeta de Colónia intitulados Portvgal na AUemanha.

y. em Portugal. occupado com a agricultura e alegrando se quando o azeite dos olivaes de Vai de Lobos pertence ás melhores marcas do paiz. que :para fazer a historia do estado das pessoas. eram os únicos subsídios para sem a critica repulaçílo lilteria. da propriedade. das instituições municipaes. ALEXANDRE HERCULANO Schaeíler. o único trabalbo verdadeiramente scientitico que abrange toda a historia portugueza desde asorigeoâ da monarcbía até aos tempos modernos.) A ílist. nascera cujo titulo define nos moldes de uma monographia. p. que vae até ao mez de agosto de 1820. árabes e frankas. politica na Edade Media. fronto da superioridade de SchaeíTer para o enfraquecer. bem o intuito primitivo de Herculano. rinda boje.. Estas duds obras formam uma parte da vasta collerçío da Historia dos Estados Europeus de Ueeren e Uckerl. «O livro de SchaefTer.. é quasi inteiramente novo . . e a Historia de Portugal. t. Como Alexandre Herculano náo quer continuar a sua — obra monumental e vive em relrabimento philosophico. Foi o que fez Herculano. como o revelou Rackzynski. mas se elle diz que lhe nunca ninguém se serviu do coniir. a Historia de Vortuqal de llenrique Scbaeffer. auctor da Economia riava. de 1873. e o Elucidário de Viterbo. a Historia de fíespanha. Se a Historia de Portugal não passou além de ACfonso é porque essa obra. como o revela na Carta Nós julgamos. 313 truncaram o seu trabalho.. era preciso esboçar as transformações históricas da península para se comprehenderem essas justificações de formas sociaes romanas.» * Os trabalhos de António Caetano do Amaa historia social portugueza. etc* (Vid. e sobre tudo o seu intuito revela-se no nobre orgulho com que entende ler ino. de Portugal. que não pretendia passar além da Edaãe Media portugueza. desalentou Herculano. materiaes de erudição. luz ral e de João Pedro Ribeiro. da penalidade. a Actualidade. das formas tributarias. germânicas. com cuja amisade se gloa Garrett. vado esta ordem de estudos: «matérias de historia social cujo estudo não receiâmos dizel-o. iy. é. é muito estimado. da comparativa. estudos é que o relacionou A especialisação doestes com Luigi Cibrario. em Portugal. principalmente a parte que trata do estado ?ocial do reino nos primeiros tempos da mouarchia.

Ta- que foi aproveitada para a nota sexta úr His- toria de Portugal. mas não cial. 316. A Portugal também se estendeu a acção de Agostinho Thierry. por 1842. discute a questão dos nossos foi antigos chronistas. redigida por umas * cinco Cartas sobre a Historia de Portugal. p. 564. arl. 661. iii. como Theoderich. e cita directa- mente a obra de Agostinho Thierry. Leud-vi-ghild. discussão iii. que deriva da palavra árabe At- mostárabe. são quasi illegiveis pela forma de allegação jurídica estão escriptos. e é por isso que sendo importantes os dois volumes em que trata largamente da sociedade portugueza. em que A levou ideia de servir as doutrinas politicas conslitucionaes Agostinho Thierry a publicar no Coiirrier em 1820 français as suas celebres Cartas sobre a Historia de França. Estas Cartas mal revelam a seriedade do hisii toriador de 1846. se Portugal dado em dote a D. . mas cuja adscripção não pôde explicar porque descreve os Árabes como ainda no barbarismo. Rev. Na Carta reja. 502. Já se falia dos Mosarabes. T. universal lisbonense: 591 IV. 262 i. 879. foi mais longe na recomposição synthetica da vida so- faltava-lhe o talento narrador de um Thierry ou de um Michelet. 934. e á imitação das Cartas sobre a Historia de França. 973. ou adscripto aos árabes. 197 848. 911. Theod-mir. imitando puerilmente na Carta o sys- tema empregado por Agostinho Thierry para restabelecer a ortographia dos nomes germânicos. . que exerceram uma acção profunda na renovação dos estudos históricos e sobretudo no espirito democrático cado á critica appli- das instituiç(3es sociaes da Edade Media. 953. lisbonense. >i. 637. publi- cou Herculano na Revista universal Castilho. Dez annos de Estudos 1 Na . na Carta iv discute a necessidade de nova divisão das épocas da historia portugueza.314 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Herculano excedeu-os em critica de particularidades. . que Nodier satyrisou acremenle.

e por isso para elle o municipio nunca poderia ter outro desenvolvimento a liberdade mais do que dos impostos locaes. Herculano descreve de um condições em que se acha historia todo aquelle que emprehender escrever uma collecções impressas de de Portugal: «As que todos ou quasi todos os paizes possuem. derramados por obras escriptas em épocas nas quaes as luzes diplomáticas quasi que nâo existiam. que levou alguns escriptores contemporâneos a illudirem-se com os seus sentimentos democráticos. Documentos avulsos.ALEXANDRE HERCULANO históricos. submettendo-se. Faltava a Herculano esse poder de recomfez por a vida moral que tanto admirar era toda a Europa as Cartas de Agostinho Thierry. mal podem. monumentos acharem confundidos com diplomas forjados. mas Herculano era exclusivamente monarchico. foi passageira. . e os seus constantes protestos contra a absorpçâo do systema de centralisaçâo administrativa empregado pela monarchia constitucional contra essa instituição destinada a renlisar na sociedade moderna o self-gouvernemcnt. Pelo seu mo- narchismo o ideal da emancipação do municipio ficou infe- cundo por incompleto. ás vezes. Foi de Agostinho Thierry que Herculano aprendeu o seu municipalismo. No prologo da sua modo bem doloroso as Historia. faltam n'este nosso. e mais tarde contradictorio pelas suas afíirmaçôes anti-democraticas.ao processo analytico e doutrinário de Gul- Em todo o caso á primeira influencia da critica histó- rica de Agostinho Thierry deveu Herculano a comprehen- sâo da independência das instituições municipaes na Edade Media. e por isso esta influencia do grande historiador do Terceiro Estado zot. a Carla v encerra 315 algumas anedoctas sobre os costumes da sociedade portugueza. pelo errado da sua leitura e por se históricos. Outro caracter lèm os que se encontram nas Memorias da Academia real das Sciencias. materialmente extractados e mais nada. ser acceitos como aucloridades seguras.

imprimiram-se os documentos que serviram de illustração ou apparato ao seu livro. demiltiram-se os empregados com que embirrava. t. Como bastaria um individuo sem abundantes recursos pecuniários. biblio- thecario das Necessidades e obteve assim os fa- meios de subsistência para poder dedicar-se ao estudo. bibliographo. Nomeado da Ajuda.316 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL OU nas obras publicadas pelos seus sócios. frequentemente difficeis de decifrar. e se preoccupa a Academia das Sciencias não históricos. hade sepultar-se nos archivos públicos. aplanaram-lhe o caminho. os archi- vos estão sem inventario. cultando-se-lhe a Torre do Tombo. e recursos para explorar todos os cartórios dos mosteiros. como convém aos fins que se propõem os auctores que os citam. I. a tão grande empreza? Fora impossí- XI. nunca protecção que acceitou do paço: aFóra da situação tranquilla me teria abalançado em que me vejo colloa uma empreza. dos municípios e dos mosteiros. sem influencia. e descobrir entre milha- res de pergaminhos. antiquário. Herculano achoudifficil com monumentos se em uma : posição excepcionai. viajante. e assim enervaram aquella estéril. Assim. natureza forte tornando-o systematicamente A diíTi- culdade e o sacrifício eram o estimulo d'aquella natureza. conhecer os cartórios particulares das cathedraes. sem uma saúde vel. hade ser paleographo. de ferro. para tratar esta em- preza todos o serviram com boa vontade. tudo. Diz Herculano. cathedraes e collegiadas do paiz. que eu . quem se occupar da historia portugueza.) Ainda hoje esta situação de qualquer historiador portuguez é rigorosamente a mesma . mas toda esta boa vontade converteu-se facilmente em bajulação.» (Hisc. foi como quebrar-lhe á os braços. na maior parle reduzem-se a simples extractos. mas esses documentos. referindo-se cado. aquelle que faz ao seu intento: hade indagar nos tos estrangeiros monumenil- onde é que se encontram passagens que lustrem a historia do seu paiz: hade avivar as inscripçôes.

João Affoíiso \\ é que Herculano seria grato aos Braganças. t. tendo especialmente familista. . ponto de vista o que deu segurança ao cri- tério de Herculano. . Herculano sepára-se d'elles por les rio. João iv. 1. fazendo a historia do reinado de D. e as gerações é uma palavra que não encerra a ideia de raça. um sentido que é o que sob foi a forma de divisões dynasticas e biographias de reis seguido por Herculano. ram. Duarte. D.. de D. xiv. e pretendendo explicar as phases sociaes da ção portugueza. eis o mister da historia. 1. a existência u^o mas pelo condicionalismo do meio.) Foi este I. AíTonso v II. p. «Averiguar qual foi a existência das gerações que passat.) Phrases vagas. i. e pelas circumstancias que a modiíicam. Port. tratam a historia uma caracterislica bem profunda: «Elcomo uma questão de partido littera(Ib. e dando pelo fervor do eslylo imaginoso a medida do seu patriotismo. e D. mim o agradeça a nação.» (Hist. Pedro sem se insurgir contra essa dy- nastia dissolvente? Abandonaria a Historia para ficar agra- decido.» . ao paço deve a nação altribuir a interrupção do mo- numento: como e D. ALEXANDRE HERCULANO 317 próprio reconheço merecer a imputação de atrevida . Caracte* risando os antigos historiadores que faziam paginas rhetoricas sobre a Historia de Portugal appensando-lhe falsas tra- dições á maneira dos agiographos.y> X.. ria — Se este livro não fôr inteiramente inútil para a glo- da pátria. Fallava-lhe o estimulo do protesto. de povo. de gente. porque se comprehende só por si. Introd. de nacionalidade. fazendo-o estacar no limiar da sua construc- ção. Esta sitiiação vantajosa e excepcional devo-a tade el-rei. que nada significam.) Foi esta tranquillidade o que inuli- lisou Herculano. verdade? De D. a sua magestade mais que a (Ib. eu apenas a considero como maleria de sciencia. sem falsear a ii. consultando as fontes directas dos dona»- cumentos.. Elle a a sua mages- creoa para mim espontânea e generosa- mente.

o verdadeiro serviço á pátria teria sido o traduzir com fran- queza a obra de Scbaeffer.318 HISTORIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL Quando Herculano emprehendeu a Historia de Portugal^ começada a publicar em 1846. sem a Historia de Portugal de Schaeffer. publicada em 1836. tinha o defeito de tirar o perstigio ao historiador portuguez. porém. e de orientar a nova geração n'essa or- dem de trabalhos. e se possível fosse amplial-a até ao Cerco do Porto e estabelecimento do regimen parlamentar. Este trabalho. que termina na revolução nacio- nal de 1820. Luiz e de António Caetano do Amaral. de Frei Francisco de S. Herculano não se elevaria acima da erudição fragmentaria das monographias. esclarecel-a com notas ou additamentos dos seus estudos. nâo existiam somente as monographias de João Pedro Ribeiro. . Desde o momento que Her- culano sentiu que lhe era impossível levar a cabo a sua obra. o ponto de vista geral segundo o espirito scientifico moderno já estava de- terminado.

Por tanto o periodo dos primeiros séculos da monarchia portu- gueza é realmente o mais fácil para o historiador. tinha publicado os principaes Chronicôes.ALEXANDRE HERCULANO 319 llI. — — — — — — — — — — Uetira-se para a vida rural. O trabalho de Hercu- lano consistiu na severidade do methodo scientifico. — — — — Para fazer a Historia de Portugal estavam traçados os principaes lineamentos. conlradictada pelos actos. Para comprehensão moderna da qrganisaçâo romana na penínexistiam os bellos trabalhos de Savigny sobre a His- sula. Concordata. onde encontra novos desalentos. Roussew Saint-Hilaire applicava os novos methodos históricos á constituição da unidade hespanliola. e a queslfio da Situação da Academia das Scicncias. Abstenção da actividade litteraria e silencio systematico de Herculano. aban- a donando a credulidade dos nossos chronistas beatos. O Eu e o Clero. na Historia Espana. discutia com profun- didade a ethnologia peninsular. e publicados os documentos que in- teressam directamente as origens nacionaes. Os Portagalia^ Monumenta. as relações de dependência. e para o conheci- .) Aualyse da Historia de Portugal de HercuDesconhece a etimologia da peninsola. plicitamente tratada A Historia de Portugal estava im- como um capitulo da historia de Hes- panha. A queèiao do Casamento civil cm 18(10. toria do Direito romano na Edade Media. critica de Masdeu. de desmembraçâo e de autonomia politica explicam-se pelos accidentes de unificação ou desmembraçâo dos outros estados peninsulares.~(De 1846 a 1806. Pedro v noestado de espirito de Herculano. e o porque da desmembraAs luctas polennieas da Historia de Portuçâo do território portupuez. e o fullecimento de Herculano. lano. gal orientam o espirito de Uosculano no sentido aoti-clerical. InQuencia da morte de D. Florez. dos germanos e dos árabes. A visita do imperador do Brazil. na Es- pana Sagrada. por causa dos inúmeros recursos estrangeiros. e as épocas históricas dos romanos. A Historia das Origens da Inquincno em Portugal. Analyee geral das formas da sua actividade Conclusão.

raça nem tão pouco se conhecia ainda a ibérica. Desde que Herculano teve de entrar na vida intima do povo portuguez. Affonso ni. para a civilisaçâo árabe. Diniz. funda-se nos erros de methodo que prejudicaram as investigações de Frei Bernardo de Brito e nos preconceitos que até certo ponto viciaram as Memorias de António Pereira de Figueiredo. Não intelligente compila- era preciso talento para tratar os primeiros séculos de Portugal. e era de força caminhar sósinho. contida nas Inquirições de D. mas rehabilitada pela critica de hoje. Mas quando estes eruditos escreveram ainda não eslava creada a linguistica ou a philoJogia comparada. chamada turaniana ou que precedeu na Euos phenomenos de perty- ropa as migrações áricas. Também sistência de qualidades elhnicas. condemnada pelos chronistas peninsulares. António Caetano do Amaral e Paschoal José de Mello.320 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mento da organisação da sociedade germânica os luminosos Ensaios de Guizol e a sua Historiada CivilisaçãoemFrança. Não será este também que não quiz avançar? um motivo por Herculano. ou de recorrência aos pos primitivos. o trabalho desliga- va-se dos subsídios da historia de Hespanha. e por isso toda "a investigação deveria consistir quando muito em entender bem os geographos antigos. para a constitui- ção das povoações segundo as cartas communaes. desde que achou nma renascença na época de D. ainda não estavam determinados pela Antropologia. existiam os vastos estudos de Hammer e de Dozy. existiam os ricos documentos publicados por Munoz y Homero. para justificar o abandono das origens dos primitivos povos que habitaram o território portuguez. como um -da conhecimento sem proveito para a explicação do facto unidade nacional. bastava a capacidade para uma ção de tão abundantes e preciosas fontes. que é a verdadeira chave para reduzir os nomes de logares ás formas conhecidas das lingtias d'essas differentes raças. .

e mesmo os judeus) não se fez sen- nos povos que se tornaram independentes sobre o solo alta portuguez. Ptolomeu. com relação assim chamada pelos Plienicios. zes.» Como ex- plicar esse enigma? Tal é a missão do historiador. e organisar os dif- ferentes mappas da peninsula segundo cada um escreveu. da antropologia e tica da falta de applicação da moderna á interpretação dos geographos gregos e ro- manos. é porque era favorecido por condições na- turaes. e a so- lução só a poderá encontrar nos caracteres ethnicos que distinguem as raças. carthagine- mouros e árabes. tir O cosmopolitismo semita (phenicios. Plínio. é uma revolução que se fez com bem pouco ruido. que fizeram «malbaratar tantos estudos e tantos talentos históricos verdadei- ros» (i. 21 . ria ferenles desmembração e na unificação politica dos seus difestados. 1^) mas a sua' abstenção proveiu da ignorância da cri- linguistica. subordinando a evolução das raças da peninsula á antropologia mosaica. Itinerácorrigir-lhes os de Antonino. O erro de melhodo as épocas consistiu em que em fazer como syntheses prematui'as. porque essa apparente revolução estava na ordem das cousas. e este facto é de importância para dirigir a investigação das raças que se integraram no nosso typo nacional. Pomponio rio Mella. Herculano fugiu d'estas investigações. Se esse facto de unificação se fez tão com pouco ruido. textos viciados dos manuscriptos anligos. fixando a tribu Liizitana. Avieno.ALEXANDRE HEBCULANO 321 como Strabão. conhece que o facto da unificação d'esle paiz. e a Portugal. e determinando persistente através de tudo o typo ibérico. sula é A falta da ethnographia das raças antigas da penin- este fez com que Herculano não tivesse comprehendido phenomeno de oscillação social. como o typo originário e ideal da nossa raça. que se dá na penin- que sula. entre os outros estados ainda desagi^regados. SchaeíTer começando a sua Historia de o «enigma de Portugal. e Silio Itálico.

como se viu antes da unificação da Itá- ritório. a Itália. mas ha três. pelos commumente se aprecia a unidade ou identidade nacional de diversas ge- . nenhuma energia se extingue. mesmo nacionalidades sem tercomo o Judeu. e do Árabe na península e entre os Persas. Differente é a immobilidade persistente do Luzitano. cesse atrasada. Não nos admira. existem da geographia antiga de Portugal. extensão da lingua latina nos dialectos românicos. que podem quaes variar de uns para outros povos. como a Áus- a Suissa.322 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Nos phenomenos históricos. existem nações tria. de tradição e de orientação peculiar. com diversas linguas. a lingua é o producto que é a promptidão uma raça mais facilmente abandona. assim como nos phenomenos de ordem physica. É este ultimo ponto de vista o que se deriva da sciencia moderna. em aggregação. e o saber restabelecer a cadeia da evolução é o que caracterisa a capacidade do historiador. a obra de Herculano nas- sem mesmo uma clara exposição dos geo- graphos gregos e romanos. ou abandonando o seu território originário. Os caracleristicos de nacionalidade lixados por Herculano são illusorios: as raças sem o cruzamento com outras não produzem aggregado nacional com consistência e vida histórica. e a prova com que os povos conquistados adoptam a como a lingua dos conquistadores. Herculano vacillava na determinação dos caracteres de um povo e do condicionalismo que o mantém vacilvista. a sua historia devia de ser lambem lante e sem um ponto de Diz Herculano: aiMuitos e diversos são estes caracteres. e diíTerenle é a consi- deração dos phenomenos ethnicos de recorrência. e a circumstancia do território é também lia accidental. como as nações formadas da corrente das migrações germânicas. Expondo as suas ideias acerca do organismo collectivo de uma nacionalidade. portanto que na parte e da Allemanha. segundo os historiadores do século XVI. e dos eruditos do século xvni.

como â que nas mais longiqiias regiões vive afastada d'ella. A dissolução do domínio árabe não a explica. do colonato. Condado portugiiez se separa aulonomicamente.. origens dos concelhos. fora d'eslas três condições. da condição civil das classes populares. e território da Luzitania variou como o ter- segundo as épocas da con- quista e administração ritório romana não condizendo-com o sobre que se fixou Portugal. i a . (Livro vii. da dívisiio territorial administrativa. descrevendo em mais de volume e meio structura dos municípios romanos. Sâo elles— a tório.) Com estes princípios. ten- dência que produzia a independência de Portugal. descobriria a tendência separatista dos povos peninsulares. raça— a lingua— o E na verdade. Herculano concluiu cpie desapparecee ram degeneraram tolalmenle.)) {Uisi. Alfonso in. poi-que se lhe fosse accessivel esse problema comparado com a dissolução da unidade romana e da unidade golhica na península.ALEXANDRE HERCULANO 323 terri- rações successivas. qne mostrare- mos contradiclados pelos factos. é qne Herculano se dirigia na investigação do passado histórico de Portugal. (Livro a vi) Her- culano enceta um novo trabalho. e que nada influíram na dos estudos de etimologia peninsular influiu na orientação do aggregado nacional. a nação moderna senle-se tão perfeitamente extranha á nação antiga. e emfim o systema joô\cia\ e tributário. e como os dialectos raros ves- d'essas tribus célticas apenas se conservam tigios em toponymicos. 13. que começa até que o a sua narrativa pela morosa e quasi illegivtl exposição do domínio árabe e da reconquista neo-gothica. de Herculano. i. A falia errada arcbitectura da Historia de Portugal. mente a essência da sua Depois de tratar dos i conflictos dynasticos até D. P. das classes servas. como a raça dos Lnzilanos teve diversos cruzamentos. a Historia social portita gueza. cuja con- servação como individualidade nacional conslilue propriahistoria. lypos foraleiros.

instituições que variaram depois segundo a época e território do seu estabelecimento definitivo classes servas por em na- cionalidades. e critério historico-compa- sem a prévia preparação do estado de civilisação da peninsula e das condições que determinaram a separação da nova nacionalidade portugueza. Na explicação das instituições romanas. i a iii. não explicou a origem das mânicos.) O modo como me- ramente descriptivo. Na exposição das instituições germânicas. porque ora a altribue ao Conde D. sem conhecer o desenvolvimento . Ilenriqufi. saxões . desconheceu os resultados históricos determinados por Savigny acerca da unidade das instituições sociaes dos godos.324 III. lombardos. desmembração de Portugal da unidade momentânea Asturoleoneza é incomprehensivel. e a seu filho D. e accidentaes do feudalismo. que atas Irmandades. provenientes do mesmo tronca díonde esses povos se destacaram. sem a luz do rativo. torna-se de aridez invencível e uma a sem intuito para a comprehensão da origem das nossas instituições. Thereza pela perspicácia politica. que motivavam a sua desmembração. ora crê nas forças immanentes ao próprio Condado. frankos. o porque o não via rigorosamente egual na peninsula. e burguinhões. HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL isto é feito. uma decadência dos homens livres germas por uma elevação do escravo antigo. Aftonsa Henriques. Assim para Herculano. d'aqui a impossibilidade de comprehender os municípios e o colonato. aos planos superiores com que defende D. ignora as conclusões sobre as ori- gens da civilisação árica. conseguintemente. e por tanto nem conheceu não comprehenderia o seu caracter de resistência. P. e Livro viii. quando tem pos similhantes e idênticos. (Arimania) e se as conhecesse lenuou o seu estado pela servidão da gleba. para um único typo de feudalismo. não comprehendia o que elle considerava formas Herculano havia também francez. e separa essas instituições como ty- diíTerentes da constituição social germânica.

e Ptol. por isso a coHig:ição e € unilicação das monarcliias com o catholicismo servindoIhe de regimen policial. Com relação aos Árabes. nunca lhe appareceria como a causa de se não terem formado Estados federaes na península. Outra parle estendia-se desde o Douro até ao Tejo. a decadência inevitável does- Descrevendo os caracteres de uma nacionalidade Herculano indica o território.) Outra estendia-se desde o Ana até ao Sacrum. ou propriamente o território da Luzitania.ALEXANDRE HERCULANO (la 325 banda guerreira sobre a banda agrícola dos germanos. esse território acha-se dividido pelos geographos antigos. Pelo território se explica um dos porquê da nacionalidade por- lugueza. mas sem raízes senão a do encontro de duas crença sociedades que se odiavam. era ao que propriamente se chaou o território mava b) a Galliza dos Callaecos. som corrigil-os. Herculano não soube destacar o elemento mauresco. a sociedade árabe tríumpbante e a sociedade gothica decaída mas e fortificada pela chríslã. e era Plin.) a Turdelanía. {ab Ana ad Sacrum Turditani. principalmente por Slrabão. não pôde explicar a realeza com caracter electivo. e limila-se 'dos a transcrever os dados geographos antigos. a que os escriptores hespanhoes rabCf <:to foi chamaram Mosa- vagamente esboçada por Herculano como um la- existente. e elhnicas do antigo elemento por isso a definição das origens do elemento po- pular. nas seguintes zonas: a) Uma parte estendia-se desde o Cabo Nerio ou de Fi- pisterra até ao Douro. 6 por tanto de terem produzido tes povos. (Opinião c) lambem recebida por Ptolomeu. nem tirar do ter- ritório as deducçôes do methodo tão severo de Ritter. e na península a sua dependência das cortes. O ponto de vista chríslão falsificava-lhe na historia a comprehensão pliilosophica. . a sua tendência para tornar-se heriditaria. que provocava a revivescência de qualidades ibérico. e d'este rio até ao Guadiana.

» o Também Plí- nio diz «grccorum soboks omnia. Portanto os limites dos luzita- suas colónias. na lucta chamando os romanos e entregando-lhe as esse novo poder.» A fronteira luzitanica fixada pelos geoé graphos antigos nas margens do Douro gnificativo. fazem seus casamentos aa estylo dos gregos. como se vè pelo regimen emphyteutico da propriedade. a deuses hellenicos. onde existia um elemento ethnico de raça árica (distingue-se pela cohesão nacional) sobretudo as colónias gregas e romanas. Diz Strabão. e em um grande e como notaram Hoquemont Rac- zynski. a tendência de aggregação nacional começou a organisar-se na região de Entre Douro e Minho.. de muitas povoações das costas do norte. que ainda prevalece no Minho. (trigo grelado) em um grande numera de inscripçôes lapidares talento architeclonico. «que corre pelo terreno dos Gravios.323 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL facto Tiremos as deducções para o da nacionalidade. Segundo os geographos antigos desde o Douro Cabo de Finisterra o território era totalmente habi- tado por colónias gregas. para assim se acharem de frente os phenicios com nos determinam-se no ponto em que os phenicios na occu- pação da península ibérica.. Este fado que ainda hoje se authentica na belleza esculpiural das mulheres da Maia. apparece em muitos usos populares privativamente gregos. já então por causa d'esse nova povo chamada Span. de Vianna. diz Silio Itálico. até que pela stituir violência da sua situação os gregos íizeram-se sut|. um facto bem si- que só pelas colónias gregas do norte se pôde comprehender. fallando do Rio Lima. se encontraram com as colónias gre- . na descripção da Hespanha: «Nos que vivem junto ao Douro observam-se muitos rasgos da vida e costumes dos Spartanos ou Laconios. até ao A importância d'este facto 'exige uma maior com- provação. os gregos e phenicios andaram sempre em conflicto nas suas expedições mariíimas e commerciaes. coma os Jardins de Adónis.» E um pouco adiante: «Os Lusitanos ou Gallegos.

Aqui lemos os elementos heterogéneos bem caraclerisados para se estabelecer uma aggregação nacional. das colónias scythicas administradas pelos romanos. em que o génio da nova nação se manifestava com uma certa consciência histórica na conquista dos Ahjarves d^além-mar (em Africa) no reinado de D. era uma revivescência se- mita. determinado pelo antropologista Paul Broca como anáfá- logo ao berber da Africa. foi Por ultimo a terceira região. como refugio dos árabes conquistada pelas incursões marítimas. e conservou-se a aggregação pela acção vigilante das ordens de cavalleria. e os romanos. Sobre a persistência dos caracteres ethnicos primitivos de um povo através dos seus diversos cruzamentos e trans- . também o mais diíTicil de conquistar tanto para como para os neo-godos. a persistência dos caracteres ethnicos primitivos. normandos e frankos) e capazes de aproveitarem os estímulos da visinhança do mar. vèm-nos explicar a rasão da cil cohabilitação dos phenicios. conser- a raça primitiva mais pura e Aquitanios). Esse minio árabe propagou-se facilmente sobre o território onde existira a dominação phenicia. das colónias mauritanas. E isto que se deduz do antagonismo dos dois povos. do elemento carthaginez. Assimilou-se facilmente a refoi gião central (vid b) a titulo de libertação do dominio árabe. O typo ibérico hespa- nhol.ALEXANDRE HERCULAMO 327 gas da norte. do lado de Portugal estabeleceu-se um certo cosmopolitismo. e pelo grande numero de povoações maurescas que acompanharam a in- vasão sarracena. Do vando lado da Hespanha dava-se também o phenomeno da ou estacionaria (Bascos differenciação ethnica pelo apoio dos Pyremieos. uma fácil assimilação de raças progressi- vas (ex. com -. dos Alanos (elemento scylhico que acompanhou os germanos) da fácil conquista árabe. verifica-se na conquista árabe» em que o dominio do- sarraceno se não elevou lambem acima do Douro. a formação do t^po ou raça Mosarabe. João i.

Aqui podemos repetir com Paulo Broca. e que estas repetidas con- Mem. adoptando a cultura céltica^ phenicia. cujos caracteres physicos continuam por tanto a predominar no seu seio. mas ás vezes recordam-se.» * e os Celtibericos da península Das migrações e elementos célticos que entraillustre ram na população dos estados da Europa. os costumes.. em que os caracteres exteriores da o direito. nos alanos dos wisigodos e nos mouros dos árabes. wisigothica e árabe.»^ Esta af- firmação reforça extraordinariamente o primeiro facto da persistência dos caracteres elhnicos do Celtibero. o mesmo antropologista chega á seguinte conclusão: «O que se es- palhara por toda a Europa nâo era vilisação. adopôde esquecer com o andar do tempo até a exis- ptando a lingua. romana. uma raça. a nacionalidade da raça estrangeira. p. p. a administração e a cultura existis- foram recebidos pelos povos peninsulares. 1 t. mas ainda de uma forma mais abstracta se dá com ci- o dominio romano. Se vemos do lado ethnico dar-se uma transformação constante nos povos ibéricos. diz o Broca: illustre antropologista Paulo «A nação cruzada que resulta d'este mixto. pelo lado antropológico vemos apparecerem condições de persistência e revivescência do seu typo ibérico pos elementos scy- ticos dos Celtas. vilisaçâo. . sem que sem famílias romanas na península mas sim colonos sub- mettidos ao império. í Ibid. 868. no colonato ro- mano. 370. o que prova o seu caracter eminentemente progressivo. como o provam os Celto-Scytbas mencionados por Plutarcho hispânica. d' Antropologia. que os caracteres physicos persistem no Celtibero. i. a lingua. porque o bem inocula-se como o mal. que. se tinha inoculado de povo a povo. tência dos seus antepassados autoclhones. no turaniano do phenicio.328 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL » formações históricas. um facto análogo. mas uma ci- por assim dizer.

e conleutando-se em fazerem-se invasores' de propriedades alheias. como fizeram de uma grande parte. atrevidos somente para pequenas emprezas. e nem do terreno é para reunir muitas cidades por ser d'elle está fora porque uma grande parle civilisação. e propriamente salteadores. nem Sertório. a porque ao seu caracter emprelinndedor unem desconfiança que tèm uns para com os outros.ALEXANDRE HERCULANO 329 diçôes de revivescência fizeram com que o Cellibero não se esquecesse da sua origem. que são chamados Celtiberos e Borones.ervaç. não reunido se tendo em grandes communidades. 2 Slrabao. versão Cortês y Lopes. * Por consequência è no génio ethnico que se deve procurar a tendência separatista dos povos peninsulares. que invadiram a sua re- gião apresentando forças superiores. 383.» Ibiderrij p. de comvi- municação e sem nem tão pouco o modo de * o illustre antropologista ainda adlrma: «Ora a ob:. nem nenhum outro intentaria nem conceberia a ambiciosa pretenção de dominai os. Slrabâo explica por esta causa dominação dos Iberos por outros povos invasores: aEste mal. continua Strabão: «Porque a natureza estéril. que é o caracter fundamental da sua historia polilica. nem os Carthagi nem anies d'elles os Tyrios. nenhuma cousa eniprehendiam em giande. Nem depois dos Tyrios os Celtas. forma da civilisaçâo Comparando os pequenos estados da península aos a esta- dos independentes da Grécia. neses. qoe as línguas se extinguem sempre mui lei)tan)entc e que a maior parte tios povo? da Europa occidcntal tem muitas vezes unidade de lingua. actuou com mais intensidade entre os Iberos. pois. Diccior. Espana antigua.»- E explicando o génio separatista pela influencia do território.lo prova. 104. tuirá a e cujo conhecimento e disciplina constideíiuitiva d'esles povos. .ario geographico y histórico de la i. Porque é certo que se conseguissem sustentar-se nuituamente. teriam podido dominal-os. conservando sempre o seu typo a despeito mesmo dos crusamenlos que o\periD)ontaram. nem depois d'estes o salteador Viriato.

2/6/rf. que se criam sem pre^ caver as necessidades^ antes vivem pessimamente á maneira de feras attendendo só á necessidade presente. diz Strabão: «pois aqui não só se differenciam por seu valor. 114. e o descuido do futuro. hoje Bascos. 115. por isso que as montanhas da Ibéria trabalho agricola. de modo que nem as próprias cidades suavisam os seus costumes a não ser com diíficuldade. e assim nâo podem ser indicio de grande numero de cidades. falia e as suas muitas brenhas offerecem * ensejo para se atacarem uns aos outros.. os ódios locaes.» máxima ou Dos Iberos do norte. Pois em geral. nas suas revoltas mentos. . reappareceu na lucta contra os árabes. a Índole de salteador. etc. Ainda persiste o costume das povoações isoladas. ou como os gene- raes carlistas. » Ibid.330 ver. senão ^ também por suas crueldades.» No povo hespanhol persistem ainda hoje todos estes ca- racteres. e os cabecilhas como Viriato. como se vê pela adagio popular: «Quem vier atraz que feche a porta. explica profundae pronuncia- mente o génio hespanhol. A tendência separatista. nem os costumes de Ioda a Ibéria são como os que se observam em toda a costa marítima do nosso mar. e por ceita espécie de furor próprio das feras..» Da sua falta de Strabão referindo-se outra vez ao gé- nio indomável dos Iberos: «homens. os que vivem em pequenos povoados costumam ser bravios. p. nas guerrilhas das guerras napoleónicas. p. 3í6kí.. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL . desenvolvida nas guerras contra os romanos. o despreso pelos trabalhos agrícolas. e em todos os accidentes da sua historia nacional. e neste estado se acha a maior parte dos Iberos. povoas ou aldeias.» A persistência do espirito separatista é o caracter quasi 113. reapparecem como o Cid. p.

Portugal e Cas- de Leão. como as entre Leão. Sevilha. mas resistem a essa força unificadora os Asturos. quando estes no fim do século vn determinaram uma nova desmembração da peninsula. no reino de Castella.dynasticas. Circumstancias especiaes determinaram a in- vasão germânica da peninsula. como a de Sancho Magno. coexistindo com túrias e reino tella.ALEXANDRE HERCULANO 331 exclusivo da historia dos povos peninsulares. organisação do colonato. mas appareceram am- bições monarchicas e as preoccupaçôes . como acabámos de notar. sob a forma de conquista fizeram unificações violentas. Começa attingir a unificação politica. jungindo . Málaga. viviam em pequenas communidades. apesar de se assenhorearem profundamente da peninsula. pertur- bando a organisação racional dos estados da peninsula. As raças que e pela acção administrativa e precederam os Romanos. desmembração das AsGalliza. Cantabros e os Bascos. no de Aragão. e no século xiii entre Aragão. Como semitas. cuja tradição se conservou na cul- tura hispano-romana. a unificação outra vez com o esforço da reconquista christa a ou neo-gothica. os Árabes. Denia e Baleares. Castella e Navarra. Opera-se outra vez uma segunda unificaçiko (642- 6i9) pela acção preponderante dos Godos. Granada. Almeria. no de Portugal. prevalecendo a desmem- bração. povos em quem persistia mais puro o caracter ettmico pri- mitivo. Suevos e Alanos. Um sysa lema natural se estabelecer nas Confederações. nunca poderam desmembrando-se nos reinos de Toledo. no condado de do século XI Galliza e ia no condado de Barcelona. que oscilla no movimento de unificação e desme mb ração. Valência. Badajoz. Murcia. Navarra e Castella. As a ambiçíjes monarchicas. e a Hespanlia desmembra-se outra vez em estados autónomos dos Vândalos. os Romanos deram-llie a sua pri- meira unificação politica. sendo por isso os primeiros que resistiram aos Ára- bes. ligando a e Navarra com o Aragão. que debalde se tem querido converter em raça.

como Toro a Elvira. Palias e Montpellier. Foix. (situação separa- como tista até Fernando e Isabel) como ao estimulo da proximifacto ca- dade do mar. e a deduzir a necessidade da funda- ção do Federalismo peninsular emquanlo á constituição politica. Eis aqui o pital da vida histórica do povo portuguez. como a de Affonso vii. desmembravam outra vez os povos unificados. Gastella e parte de Leão. Galliza. deve attribur-se árico isto não só á preponderância de elemento em á Portugal facilmente aggregado ao Gclta marilimo. Urgel. circumstancia do meio histórico. as usurpações de Sancho (Gastella. a mediocridade fortalece-se no methodo exclusivo do nihil praeter fada.332 HISTORIA DO KOMANTISMO EM POUTUGAL a Navarra. Za- mora) unificadas (il57) em seu irmão Affonso até Affonso vn. pelas formas da vontade testa- como vemos nos mesmos monarchas citados. Zamora a Urraca? As usurpações monarchicas entre irmãos também foram uma causa transitória de unificação. Leão. como se os factos desconnexos po^ . Galliza a Garcia. que pelas navegações nos trouxe as condições económicas da independência nacional. Aragão é repartido por Jayme Gonquistador entre seus dois filhos. Aragão. mogénito. Portugal altingiu muito mais cedo as suas condições de estabilidade. As preocciípações dynasticas. Leão e condado de Gastella ao segundo íilho. Leão e Galliza. a Fernando deixa Gastella ao primogénito Sancho. o senhorio de Sobrarbe e Ribagorza ao quarto. Sanclio Magno faz em 1035 a desmembração deixando a Navarra ao seu primentária. Leão. todo o trabalho a deve visar pôr em relevo este grande destino em quanto â consciência nacional. Em quanto os estados peninsulares fluctuaramn'esta oscillação politica de tmificaçcio e desmembração. "fundindo Gastella. e como Fer- nando com a Gastella. Aragão ao terceiro. a Fer- nando. Leão. Zamora e Toro. Toro. Leão Affonso. Toda a erudição que não vise a uma demonstração é estéril. Navarra e os condados de Barcelona. Affonso ^ vii deixa Gastella a Sancho.

se repetem Portugal em Ha como reflexos no reinado de D. 52 (ed. com D. toria aí acharia grandes elementos para a his- da conjuração aristocrática que deu o throno a D. Bulias e In nostro proposuislis. já no tempo de Carlos Maguo e seus successores se convocavam os estados. : 73. (2. 2.*) . e a modificação do direito de reviudicta ou guerra privada (Guizot. Se Herculano. qne estes factos Civilis. Luiz a convocação dos delegados burgueen Franc. Julii. 3 Hist.» xlvi. apenas sabemos indirectamente ella que não foi baldada. (liG2. ano. sem comtudo o histo- riador querer corrigir o seu texto.) in. iir. de Portugal. tão necessária para a inlelligencia das Cortes portuguezas. iii Qui Non. Beatriz tendo ainda viva sua niullier a condessa Malhilde.» * Estes documentos estavam pu^ blicados pelo visconde da Carreira. celcslia Julii. ann. diz Herculano: «Aqui observamos somente que em França data do reinado de S. AtTonso ni. p. Mas o rigorismo dos factos não obsla a que se não erre ou na particularidade ou no ponto de vista. p.» ^ aqui a distinguir dois factos fundamentaes. t.ALEXANOBG HEBCULANO 833 dessem perceber-se mais do que as lettras baralhadas de um alphabeto. simul. diz Herculano: «Do mesmo modo que doeste rescripto ponti- succede com outros documentos capitães para a historia d'este reinado. II. pos- toque então de menos importância pratica. costume que se obliterou com í Ilisl. de ii xm das kai. ignora-sc fício a existência que deferiu d supplica. t. 44 e 45) e de grande significação social. zes aos parlamentos.* ed ) * Collecç. de Portugal. fonso Em quanto aos erros de ponto de vista indicaremos politica a comprehensão da vida do Terceiro Estado.. na direc- ção dos Monumentos históricos da Academia empregasse a sua extraordinária influencia para a acquisição do Cancioneiro da Vaticana. n. que Herculano confunde. é fácil o exemplificar estes dois casos pontificio em Herculano: acerca do rescripto Aífonso in que legitimou o casamento de D. Afuí. lect.

havia apoiar-se n^estas classes restituindo-lhes as suas anti- gas garantias. Do tado das classes servas na Peninsula desde o VI! até ao XII século. fund. no tempo de S.Luiz o costume de chamar á participação do governo a nobreza. em um ensaio de Herculano. até então desconhe- mas com origens no mallum germâ- nico.unlo-se os cadastros da no- breza. . (18o7). mas essas três ordens eram convocadas se- paradamente e era em separado que cada uma emittia o seu A ideia da convocação simultânea dos três estados. unicamente para subiu et ter essa classe altiva d nobreza do foro de el-rei. e constituindo esse a Philippe o Bello. chamados Livros de Linhagens. p. em i857. dizendo e zelo pela sciencia «aquelle que só conhece abnegação que n'esse duro lavor deixou passar os melhores dias da sua 1 Bechard. e Boularic. poder novo dos Estados geroes. Herculano. Drolt municipal au Mayen-Age. este facto ac- cidental da convocação simultânea dos Estados geraes ficaria infecundo para a liberdade moderna. 2 Ánnaes das Sciencias e das Leltras^ i. viu Her- culano n'esse fado apenas um meio de obslar aos impedirefere-se mentos canónicos. 381. No estudo das Classes servas.^ insiste em querer achar n'essa situação servil uma modificação benéfica da escravidão. desde que a realeza se separou do feudalismo pelo facto da hcr editar iedaãe. real. o clero e o terceiro estado avivava-se segundo o augmento do poder voto. La France sous Phit. Se as ciasses servas que se tornaram povo surgissem á vida politica por se elevarem da escravidão.334 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a preponderância do regimen feudal. via politica. lippe le hei. pertence (1302)* que encetou esta cida nas monarchias. No conHiclo da realeza com o poder senhorial. como as classes servas eram os homens-livres germânicos decaídos pelo de- senvolvimento das instituições feudaes. stituições É isto o que nos explica a evolução das ines- modernas. reunidos em commum para deliberarem. á sua situação desalentada.

como a Herculano é uma prova da . n. e a velhice de vaidades. Os escriplores estrangeiros scientiíica. da monarchia constitu- que pela tendência para o absolutismo provocou o 184:2. de fevereiro de 1847. reconhecendo-lhe a sua probidade consideram-no livies ini- apenas como o primeiro producto das inslituições ciadas em um revista paiz morto. e cuja recom- pensa única será escrever-lhe na campa: Aqui dorme um homem que conquistou para a grande mestra do futuro. pequeno povo? O seu competiam-lhe essas palavras. attende-se ai em primeiro logar á iníluencia das instituições liberaes sobreoescriptor: existe «Quando reflectimos que c somente ha poucos annos que alguma cousa que se assimilhe á liberdade de fallar tal ou de escrever. viril 335 sem saber o que a mocidade tem de gozos. a revolução movimento de 1836. para a Historia. mesmo com relação a este christianismo e o seu monarchismo lhe perturbaram sem- pre a boa vontade do critério.» critico inglez referia-se aqui aos O grandes esforços dispendi- dos em implantar as instituições liberaes políticos em ISáO. e aos erros cional. o são juizo e as opiniões illustradas vão fazendo progressos. algumas importantes verdades.ALBXANDBE HERCULANO vida.^» Herculano projectou este seu eoitaphio em i857. não obstante infeliz a tarefa e o êxito até hoje das suas instituições liberaes. o apparecimento de uma obra do sr. Mas que verdades históricas achou. a edade de ambições.° 100. as reacções de ^87 (reproduzido nos Opúsculos. como um Jacob Grimm. a Historia de Portugal do Herculano foi perfeitamente comprehendida.aptidão dos seus com- patriotas para tomar parte no progresso litterario e scientifico da moderna Europa.) de 1 Ibid. . no yv^ov dos qua* renta e sele annos.^ p. se tivesse renovado o metliodo da eru- dição histórica como um Savlgny. Na The Dublin Universilg Magazine. i829 e 1832. 182G. e que.

336 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL 1846 e a intervenção armada de 1847. tinha aos olhos da Europa o grande valor de demonstrar como qualquer cousa que Ihe á liberdade de fallar ou escrever transforma os espiritos. nem nos bellos trabalhos sobre os Iberos publicados nas Memorias da Academia de Vienna. não quiz aproveitar-se do Corpo das ínscripções tinas publicado por Hiibner. Pelo seu espirito catholico e pela sitivo de um critério po- da historia. Effeclivamente tudo isto atrasava a manifestação a da intelligencia portugueza. Na Grammatica de Diez teria achado a verdade para ratificar a sua ideia sobre a formação dialectos românicos fallados actualmente [)anha. Herculano não podia julgar com verdade a as grandes épocas da civilisação humana d'onde nossa pe- quena nacionalidade portugueza surgira. No juizo da citada revista acham-se estas phrases funsr. mas era verdade. tão importantes para determinar as raças que o habila- taram. (1846- 1877) n'essa obra nada se historica falia sobre a antiguidade pre- da península. Embora escripta com o critério scientificq. damenlaes: «nós reputamos o Herculano inquestionaBarros velmente o primeiro dos historiadores portuguezes. a Historia de Portugal ficou atrasada por incúria do seu auctor... não esquecendo nunca de que é inferior a eloquência.» Isto chocou profundamente o escriptor. como prova do estacionamento falta de um espirito. dos em Portugal . nem sobre a onomatologia phenicia e céltica d'este territó- rio. e até talvez lhe não seja superior em em energia e profundi- dade de saber . nem tão pouco dos grandes trabalhos de Waitz sobre os povos germânicos e sua constituição social. e se assimi- obra de Herculano. Citamos plo um exem- com relação á decadência romana e invasões germani- . e Hes- k Historia de Portugal ficou stereotypica e ella ficou a scien- cia progrediu. que derramam tanta luz sobre as divisões administrativas da península.

Se a nacãt) ron^ana dei^apparcceu sob as ruinas do Império do Occidcnle. e estas.lo haveria nem necessidade nem. depois de demolirem e de arrasarem quasi tudo o que representava o passado. Introd. e os códigos romanos continuaram a ficar em vigor. e islo revela o critério da escola histórica.ão romama. n. antiga. fanatisadas por esse mesmo christianismo. * se essa civilisação soíTreu foi mais por causa dochris- lianismo. não comprehendido por Iiercul«DU «A questão da duração d« direito roínano Iraz comsigo a necessidade d» examinar a durarJo do próprio povo em quem e para quem o direito existiu. porque continuou a escrever-se em latim. senos apparece Deus não como uma metáphoro. não : — . D'aquella revo- lução immensa nasceram as nações modernas. stência da legida^ao presuppCe a persistência da orgaaisaç&o jadiciariA. que se não pôde equiparar um aggregado material. onde o pensador procura as causas complexas e inlimameníe relacionadas dos movimentos que se operam nas sociedades humanas. descendo do septemtriâopara o Meio Dia da Europa. que a persirasio de existência para uma JegisLiçao sem objecto.ALEXANDRE HERCULAMO cas: 337 a civilisação «Foi um mundo que desabou com toda n'elle. a civilisação romana não se extinguiu. que desviou o curso da actividade humana para um estéril myslicismo. sem se preoccupar de que os mundos não desabam. 1 Diz admiravelmente Savigny. Por Hltimo. O mesnro aconteceria pouco mais ou menos se os vencidos tivessem perdido a liberdade pessoal ou a sua inteira propriedade nenhuma Ajuntae. Essa noção de Bossuet. e que sociedade é a um conjuncto moral.) Este período representa um systema completo de coma rhetorica falsa só prehensâo histórica. em que soltando a torrente das invasões é boa para o púlpito e não para a historia. e-oús n^o podemos admiltir a persistência do direito sem conf^talar previamente a fièrsistencia da nacionalidade • da «dmini:^trar. 22 .» {Historia de Portugal. do que das próprias invasões barba- ras. resumida e contida Deus soltou a torrente das novas migrações. Em uma primeiro logar procura o grandioso. renovaram quasi inteiramente as sociedades decrépitas.possibilidade de conservar a legislação romana. mas nunca era melápliora demetáphora.

afíirmar que elle se eífectuaria pelos ricos. que foram applicados íundamenlalmcDle nos grandes trabalhos de Savigny.» 338 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Na sua obra Estudos sobre os Bárbaros e a Edade Media. que era o interpretar os factos pela lei de continuidade. como necessidade de provar a doutrina da continuidade histórica. respondem aos que pretendem pintar a Edade Media como uma éra de decadência. que teriam reclamado e exigido direitos políticos e intervenção no governo. porque o feudalismo produziu e por sua vez a se communa produziu pôde pôr com mais claresa as communa. Isto é tão ver- dadeiro.. que esta solução não prejudicou em cousa alguma a a evolução total. Littré unicamente dirigido pelo critério da continuidade histórica chega a um resultado opposto ao de Herculano. p. que acreditava na demolição da sociedade antiga pelos invasores germânicos. e bem longe de espantarmo-nos da instituição n'ella o do feudalismo é preciso vêr officiaes producto de condições desde longo tempo determinadas. mas sem coraprehender o seu espirito.« ed. na primeira o desenvol- vimento da grande propriedade (latifundía perdidere liam) formava o gérmen de um novo poder senhorial. depois do desenvolpóde-se vimento religioso e do christianismo houvesse o tempo bas- um desenvolvimento politico. Littré restabelece a correlação das phases da sociedade moderna de- duzindo-a dos elementos romanos: «Se a vida do império não fosse truncada pelos bárbaros. * Op. O conDíclo entre a escola histórica (Savigny) e a eíco/a philosophica (Gans) acabou desde que a metapbysíca foi apeada por Âuguste Gomle completando a eyolbese scientiGca pela creaçUo da Sociologia. tante para operar-se se. Ita- e germânica era relação histórica. pelos poderosos. e na possibilidade d'esses povos bárbaros ainda inventarem formas sociaes mais perfeitas. * Não duas sociedades romana a democracia. Assim uma solução feu- dal estava na natureza das cousas mais do que se tende a acreditar.» Estes princípios. 2. cuja sendo possível admitlir nos reinos da conquiíta a adminislraçiSo da lei rojuizes e tribunaes romanos. cit. . pelos aristocratas. Herculano imitava apenas o processo da mana sem escola hiBlorica de Savigny no estudo das inçlituições sociaes. attríbuindo á Pbilosophia positiva a inlerprelaçáo de um progresso. XII.

e consequentemente a reacção das classes servas contra o feu- dalismo. a historia na- um certo numero de tradições claus- sem a poesia da elaboração anonyma. porque no seu estudo sobre As Classes servas da Península. e quando pretende entrar no funccionalismo das instituições sociaes não sabe achar o seu nexo e fica na mo- nographia particularista nam quasi illegiveis. Com íi princípios tão falsos de critério histórico como é que Herculano havia de considerar a invasão árabe da península. a sua organisaçâo administrativa o reconhecimento do seu poder politico em communas e em democracia. quando . não achado o princípio philosophico da Historia de Portugal. continuar seria sim dizer automática. Herculano emprehendeu a sua grande obra cional baseava-se sobre traes.ALEXANDRE HERCULANO 339 evolução foi interrompida pelas invasões germânicas. e deixou-se inércia. Por isso a Historia de Portugal deriva-se da chronica. se- não como cousas explicáveis por um providencialismo su- perior aos destinos humanos. Herculano obedeceu do na estimulo que vem de ura pensamento. mas a conquista conservou o systema da grande propriedade. isto é. e falseadas pe- los intuitos de um destino privilegiado reservado pela pro- . como es- Herculano nada viu d'esla evolução. jnlgava-as cravos que se elevaram. e as monstruosi- dades e devastações praticadas pela reconquista christã. em que os factos sem luz se torUma vez perdido o pensamento da uma violência por asa essa falta ficar Historia. ficio abandonando a Historia de Portugal falta como um edifalta interrompido não pela de material mas pela de destino. Não se conhecia em Portugal a critica histórica. civilisaçâo d'esta grande raça semítica. conservando o seu espirito nos pequenos factos accidentaes das biographias dos monarchas. em vez de achar o facto [)Ositivo da decadência dos homcns-livres durante o desenvolvimento do feudalismo.

mata a poesia das antigas eras. o pacto das cortes de Lamego. sciencia. As tradições mais queridas dos eruditos d'este paiz obcecado pelo catholicismo. sobretudo. e Martinri de Freitas. a fidelidade de zes. eram a pa- rodia do lábaro de Constantino ou o apparecimento de Christo a Affonso Henriques assegorando-lhe a victoria na batalha de Ourique. como Arlhur da ilha de Avalon. Ha muitos para quem dynastias nascidas de os séculos legitimam e santificam todo o género de fabulas. A critica. como o Sonho do Quinto Império do Mundo. São excellentes talvez as suas intenções. João vi estava tudo como d'anteSf como disse o proloquio popular.» mas exag- gerou a severidade da as tradições tura: critica repellindo incondicionalmente como Diz elle «Nâo ignoro o risco da situação com uma certa alem que me colloquei. espécie de Carta Magna dos portugue- uma invencivel credulidade na vinda de D. tendo o seu quartel general em Abrantes.' Aos olhos d'estes. dizem elles. na côrle de D. e que o padre Vieira tentou explorar na época da Restauração de 1640. Sebas- tião da ilha encantada. como legitimam e santificam todo as uma usurpação. é que tinha profundas ramificações po- pulares por se ligar aos restos mysticos do culto solar do polytheismo indo-europeu. as lamhem respeitáveis. como se a poesia de qualquer época estivesse nas patranhas mui posteriormente cãs da mentira são inventadas. seguros de que a providencia manteria por meios divinos o nosso destino no futuro da humanidade. ignorava-se que estávamos já envoltos na catastrophe. já Quando o exercito francez occupava o território portuguez. esta ultima. não . Herculano fortaleceu-se na concepção moderna consia historia derando «como matéria de falsidades. Reagindo contra este estado mental.340 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL vidência a este povo. Fiados no perstigio d'estas tradições que já no meado do século xvi eram conhecidas. os po- deres públicos muitas vezes abandonaram a defeza da na- ção á eventualidade dos acontecimentos.

porque conhecia ohorisonteintellectualportuguez. riosos colligem com sacrifício.iy p. a propósito de Egas Moniz.. quando.ALEXANDBE HERCULANO sei se 34i o -estes o mesmo se poderá dizer da sua intelligencia. a severidade do melhodo fez lél-o com interesse. porque elimina os sonhos e milagres. Choveram opúsculos por * vários padres e eruditos monacaes do theor e forma que Her- -culano definira no prologo da sua obra: «Muitas destas re- futações. na de monumentos ou diplomas legítimos se (llist. Para meu livro será um grande escândalo.» Assim aconteceu. com as in- jurias. llerculano de ler procurado diminuir a gloria de Portugal. não acharam dramalisada a lenda gratuita de Marlim de Freitas. e não adopta. que os partidários do absolutismo miguehno consideraram o palladio a que não resistia o conslitucionahsmo de D. e com falta todas as mais classificações que se costu- mam aggregar ao nome de qualquer escriptor moderno. conto. illusfrcs. até.» 2 Pôde vôr-se no Diccionario de Innoceocio essa lista de folhetos que os cu. não viram acatadas com auctoridade legal as Cortes de Lamego. No vol. e melhor fora (Iíist. X. que escrevia em 1847. hão-de estribar-se na opinião de his- toriadores e antiquários. ix. pro- fundos..» I. i)orque pretende quo a batalha de Ourique nào foi uma grande batalha. Pedro iv. já o prevejo. as chroiiicas e a tradição. porque acha que a língua portugueza deriva do latim. armados com um grande apparalo de patrologia. iii dos Opúsculos encontram-se os libei- los e róplic&i de Herculano. e insurgiram-se contra o escriptor e contra o livro. e de applicaçSo. de boa fé. eruditos. por isso que Raczynski considerava o primeiro volume como «um exemplo de critica sã.» Herculano previu a tem- pestade. gravissimos.) deixarem de olor. diz: contra a Historia de Herculano a resposta era continuar a applicar o mesmo critério scienlifico. p. se ella representa o atraso dos estudos históricos em Portu- tugal?. querem sustentar opiniões absurdas ou infundadas.» Eram estes os únicos tópicos da accusação 1 Portugal.Os pregadores serviram-se do púlpito lançando á Raczynfki.) Para que citar essa folhelada estéril e illegivel. . no seu D iccicnario histórico artístico de tBaslanles pessoas accusara o sr. não encontraram n'elle a narração do apparecimento deChristo a AíTonso Henriques. <liz elle: «Conto com as refutações. veiu o volume a pubhco.

e ao mesmo tempo uma crise da consciência. apenas es- creveu nas notas da obra: «Discutir todas as fabulas. foi liberdade e emancipação racionalista. foi ral e philosophia poesia e foi sciencia. em ânimos sagrados? Herculano poucas palavras já citadas Além <i'essas do prologo. Podia-se applicar o verso de Virgílio á polemica levantada pelos padres contra o auctor da Historia de Portugal: Tantae ne animis lera celestibus irae! Cabe por ventura tanta cófizera tão pouco. Esta crise. De facto esse encommodo representava ainda uma subserviência intellectual. e encommodou-secom essa lucta clerical. Foram os absolutistas que fizeram Herculano ral. Herculano fechouse em um christianismo tradicional. e civil que por ultio mredigiu os artigos sobre o Casamento e os Opúsculos com que os fundalibe- menta. que luctou contra a inlroducção das irmãs de caridade francezas no seu Manifesto ao partido liberal. o naram de ferrenho em christão semi-deista. o mesmo se pôde dizer do catholico clericalismo. Eu Clero. assim n'esse espirito de combate anti-clerical que historiou a parte diplomática das Origens da Inquisição em Poitugal. que para elle foi moda historia. que se prendem á jornada de Ourique fora processo infinito. que veiu pouco depois a ter a gloria de ser inseri pto como livre pensador pela Congregação do Index. levando-a a atacar a egreja no Concilio de Trento.342 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL execração publica o nome de a Herculano. determinou uma foi tendência theologica nas suas questões históricas. que pela sua tor- propaganda estúpida contra o sensato historiador. Foi melhor recommendação para Herculano n'esle recanto da península ser recebido como egual na phalange dos homens de sciencia da Europa. A apparição de Christo ao principe antes da batalha estriba-se . que desvendou ao paiz a torpeza da Concordata de 24 de julho de 1854 sobre o Padroado do Oriente. Herculano era catholico. como e o se vê pelos seus virulentos opúsculos de réplica e a Solenmia verba.

e assim qne acabou de concentrar-se n'elle theologicum. na verdade impossível que tâo grosseira falsidade servisse de assumpto a discussões graves. da segunda redul-a ao mylho da lealdade dos antigos cavalleiros. que o menos instruído aliimno de diplomática o regeitará como falso ao primeiro aspecto (o que facilmente poderá qualquer verificar no Archivo nacional. A lenda de Egas Mo- de Martim de Freitas. de Madrid. onde hoje se acha. não continuou a publicação da Historia foi foi esta posição que o tornou sympathico ao paiz inteiro. Se Herculano proseguisse na sua historia. A severidade da critica histórica não exclue itfha clara interpretação do fundo de realidade que existe nas lendas e tradições. remonta ção mais antiga do Livro velho das Linhagens do século XIV. por occasião da sua morte. O odium vor do Milagre de Ourique. i.) monarchia. Herculano exaggerou essa severidade com pre- juízo do effeito pittoresco que falta na aridez das suas dis- cussões e argumentações ínnumeras. Existem tradições análogas na historia de ouque merecem ser comparadas. sem sem interpreá redac- tar os vestígios symbolícos. que dirigiu a polemica a fa- o grande poder espiritual de que se achoíi espontaneamente investido. tão mal forjado.ALEXANDRE HERCULANO 343 em um documento. assim a crença nas Ilhas encantadas ou . eliminaria outras tradições que chegaram a influir profundamente na forma da nossa acti- vidade histórica. lhes investigar as fontes mais remotas. uma vez desviado do seu tra- balho e perturbado. como se viu nas palavras do Siglo futuro.» {Hist.. e Herculano de Portugal. são accidentalmente alludidas. p. ainda latejava ao fim de vinte annos.) a Das Cortes de La- mego diz de passagem: «Faremos devida justiça a esta invenção de alguns falsarios do século xvi. quando tratar- mos da historia das instituições e legislação do berço da (Ib. tros paízes. 486.) Parece.» Padres e miguelistas reagiram com força de impropérios. da primeira. niz.

Sem a pôde represen- nem o nem aspecto moral. í . Acceitar as tradições como historia é um syncretismo de incapacidade mental. tar ças. Apesar de reconhecer e demon- strar a falsidade das Cortes de Lamego. podemos applicar o seguinte penLittré: samento de historia. 169. tantas doações regias. não aos factos. N'esle caso se acharam muitas letidas forjadas. ella é mesmo. Com e felação ao caracter critico da Historia de Portugal. isto christâo na Ásia. mas por que diz respeito aos sentimentos e ás uma historia ficlicia ideias. que apparece em é. nem as crenuma época antiga. «A lenda nada lira á dignidade da com toda a certesa. mas que chegaram a exer- cer acção sobre o espirito publico. rejeital-as por maravilhosas e embusteiras é lúcida uma critica estreita sem uma comprehensão philosophica. com a condição não tomará por uma historia real. o ideal de a porém que nem as concepções. para quem a sabe uma parte accessoria sem duvida. Herculano prometef- teu discutil-as porque desde o século xvn foram a base fectiva da Constituição politica de Portugal. p. Foi Jacob Grimm que com a sua extraordinária erudição e intuição poética comprehendeu o quanto ha de verdade nas tradições. mas imlenda. a lenda do Preste João.»* a sua Historia de Herculano viu discutida ineptaraente 1 Études sur les Bárbaros. bastava a nossa actividade histórica ter sido determinada por algumas d'essas lendas tradicionaes para merecerem ser discutidas. o historiador não portante. onde as tradições e as lendas são totalmente eliminadas nem sequer discutidas. foi da existência de um reino lambem um dos motores que levaram emprehenderem a os nossos viajantes do século xv a em- preza do caminho da índia. um dos grandes estímulos das nossas expedições marítimas. e apreciar.344 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL foi encobertas.

N'este anno fundou o professor João de Andrade Corvo o jornal politico O Paiz.ração activa. a acção governativa um prol)lema insolúvel. a historia d'este ludi- a que succedeu um outro. Em 1^5 1 quebrou o seu a em que se declarara permanecer na triste Iranquillidade de incrédulo politico. que decidiu o seu rompimento definitivo com a politica.» e que ainda hoje conserva. apesar de ser profundamenle admirado. que elle escrevia em em 24 de julho de 4851: '<Em civilisação estamos dois furos abaixo da Turquia e outros tantos acima dos Holtentoles. no qual Herculano teve uma collabp. Herculano brio. bralista identificado com o poder pessoal de D.ALEXANDRE HERCULANO 315 Portugal. Maria restauração que se fez a despeito dos lamantaveis aconte- cimentos de 1847. o Duque de Saldanha foi ô chefe do mo- vimento paiz liberal que venceu e tomou posse da situação do em 1851. e sentiu que a sua actividade litleraria desde 1836 não exercia acção alguma sobre o espirito publico. a legalidade tornou-se um impossível. 24 de julho de 1851. com um pro- gramma 1 negativo.» Herculano. protesto de 1845. . que em i83tí se decidira sinceramente contra a soberania nacional pela Carta outorgada. appareceu o primeiro numero em 23 de julho.» o que se passava volta de Herculano era tão lamentável. do cabralismo: «facção saida do partido Cargloria. Na lucla contra a restauração subrepticia do governo caii. Herculano acompanhou Salnha no primeiro pensamento da Regeneração. em que apparecem algumas das ideias o />a»>. avillando-o. Agilâmo-nos no circulo estreito de revoluções incessantes e estéreis. o cartismo transformára-se na violência pessoal tista. com o nome de Regeneração. esse nome que já leve alguma * No prologo da faz ultima edição da Voz do Prophela. em 1851 reconheceu que tinha sido ludibriada a sua boa fé. mas descobriu logo a perfidia d'esse movimento.

Os artigos Hercu- lano conhecem-se materialmente pelos longos períodos cheios de incidentes. cujos privilégios e corpo fiscal sâo um estado no estado.'' Que as eleições fossem a representação das localidades.^ Considerava o coipo diplomático como inútil/' qu(3 desde que na Europa acabaram os segredos de estado. que ludibriou o paiz.34 i HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL exclusivas de Herculano: não quer a centralisação admi- nistrativa. allia-lhes preconceitos invencíveis de um espirito desequilibrado. e por este lado que ao manifoi festar-se em Portugal o espirito republicano. Em um artigo intitulado A Desegualdade e a Democracia (Paiz. d. nem o abandono do Padroado politicos de portuguez do Orienie. esta a causa da ter- minação do jornal no fim d'este culano professava.° por preconceitos de edu- cação e de hábitos mentaes que as tornavam inefficazesiP A restauração das formas munici- como meio de Nada mais reagir coutra a centralisação adminisfoi trativa. pela polemica imprecativa e pelo desvaneci-^' mento da erudição histórica. Acham-se ali paginas preciosas para a historia politica desde a Revolução de Setembro de 183Ô até á Regeneração em 18o I. 1.° um dos seus esteios. A leitura dos artigos do Paiz revela-nos as doutrinas politicas que Her- algumas sendo profundamente justas espirito estavam viciadas no seu Herculano queria: pães. Herculano por algum tempo considerado como 2. nena tros. em que Herculano se confessa desilludido foi de Saldanha. mesmo anno. quer nacional. 30 de agosto de 1851) . Era um vago presentimento da forma mais clara do mandato impe"ralivo. justo. etc. A estes princípios tão justos. que ás vezes dão alguma solidez á sua critica. na forma de dissertação pe-' zada. pela entrega do mandato a individualidades locaes. quer internacional- mente no regimen da publicidade. e a liberdade se fundava. nem o excesso do funccionalismo. uma exclusiva acção executiva nos minis- nem contractadores -dos rendimentos públicos.

e 2 o O Clero PoríuQucZj p. Herculano tirou partido d'esta aííirma- çao atrasadora. podemos consideral-a mas nâo com valor Iheorico. Outra ideia deprimente. Fernando e D. v. no prologo á Voz do Propheta Her- culano examinou outra vez o que era a Democracia.» e fareli- zendo consistir a actividade futura da humanidade na (jiosidade. Paiz. considerando «a Civilisação como a forma profana do Christianismo.» 81. e pelas suas sympatbias pessoaes dro elle. enlevando-se em uma * idealisação da confraternidade evangélica. e corollario do principio anterior. Pecomo uma noção pratica para ainda do que a apotlieosc a negação da Democracia e do que cons-derava da Monar- cbia. ^Jais tarde. 3. N'este campo foi estabelecendo uma divisão entre o Christianismo e o Catholicismo. Mas. (1851. censurando como de vistas sem alcance as doutrinas de Tocqueville. que propaga nos primeiros annos da redacção do Panorama^ em 1851 chegaram a actuar mais intimamente no seu espirito. e sobre vinte e quatro annos de reflexão concluiu que era a la- droeira. conside- rando as doutrinas democráticas como utopias individuaes. Estas ideias. porque analysando o estado de decadência da insti ucção popular propõe como meio de da verda- elevação do nivel intellectual ^padres viriuosos que propa- guem os principios suaves c eminentemente liberaes y> deira religião. peor com D. e que nas dilíerentes revoluções observara sempre a identificação do povo com a causa do tlirono. * - Com o tempo o seu espirito retrocedia.) . é a sua consagração constante da causa da religião. que elle como base essencial para refundir a geração futura. entre o clero opulento e os parochos ruraes.ALEXANDRE HERCULANO 347 sustenta como inexequível a egualdade politica. u. vivendo encostado ao i)aço desde 1831). para educar o povo e para regenerar o destino da nacionalidade. era: que a Monarcliia era a única condição de or- dem e de progresso para Portugal.

mesmo phenomeno se dá com a preoccupação em 1871 como questões vitaes do culo XIX o Immaculatismo e o Infallibilismo.348 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se a sua negação da Democracia elle nos sacos dos ladrões na rchia chega a se D. {A Pátria. causava graves apprehensões a desorganisação do secular. e o próprio Herculano. e tendo verda- deiro pezar de nao encontrar no pequeno oratório do lar a delicia espiritual de uma crença nunca discutida. das ordens monásticas. em 1851 se tornou para em 1873.) «Movia á piedade a situação do clero regular. a extincção das Em cas: 1856 ainda lamenta ordens monásti- «A extincção. alienada por um systema sensato e previdente. Durou a expedição scientifica de Herculano dois annos. e condemnava á miséria muitos indivíduos innocentes e respeitáveis. se o seu amor da Momanifestar-se em 1863 na confissão de que elle Pedro v vivesse mais tempo se tornava para considerando abresé- soluto. collegiadas e ligirem-se os diversos documentos históricos dispersos nas camarás municipaes. teria sido dez vezes foi.'' 47. que era um serviço patriótico o colsés. os que os ás suas dotações. atirava para o mercado ou desbaratava sem tino e sem previsão um enorme cumulo de propriedade territorial. nos cartórios das corporações extinctas. na . n.» mais útil á prosperidade geral do que realmente Estudos so- bre algumas questões sociaes. ao mesmo tempo que monges tinham despresava direitos legítimos. Em um artigo publicado no Paiz em 7 de outubro de 1851. propoz Herculano. por exemplo. o ligiosa. fazendo archivar na Torre do Tombo àquelles que interessassem á historia pátria. cuja Historia de Por- tugal estava interrompida no seu terceiro volume desde 1849. priíicipal mente relativas á Agricultura. Esta sugestão foi attendida. 1856. que. foi encarregado pelo governo de visitar todos os ar- chivos do paiz^ com plenos poderes para colligir e reclamar tudo o que entendesse a bem dos monumentos históricos.» Ib.

e quando o publico se interessava já pelo * 2 Carla.» D'essa viagem de dois annos e do trabalho histórico. pela interrogação das tradições poéticas dos romances. * de que ivpenas transcreveremos essas linhas que se ligam á sua paixão histórica: «Vi definhados e moribundos os restos das instituições municipaes. tirou Herculano ção.399.) .) Quando estava mais habilitado com documentos. do paiz e gaa como descen^ tralisação administrativa é a garantia da liberdade real. que o espirito moderno em Portugal na sua phase metaphysica se enganou conferindo a Herculano esse immenso poder espiritual. e o quadro lugubre- mente pezado das misérias publicas. das supersti» ções vulgares. ao fim de dois annos." 1. n. de ISTiS. pela persistência dos costumes. que o absolutismo nos deixara. é que Herculano pubhcou o seu quarto volume da Historia de Portugal. Carla acerca das freiras do Lorvío. que poderia ter sido saudável e fecunda para a sua intelligencia: «Durante mezes no decurso de dois annos. pela confrontação dos usos. que poderia ser útil se elle a não viciasse a li- preoccupação monarchico-religiosa. de tudo quanto ó preciso para apresentar um povo vivo na historia. da que os christãos senlimenlaes o reconheceram mesma fòima também como um vidente. do 22 de maio de 18a8 (/ornai do Commcrcio. Her- culano nada viu senão os Chronicões. volta Na da sua viagem das províncias. das diíferenciações dialectaes.» Foi por esta opinião histórica. pelo conheci- mento directo dos vários typos da etimologia nacional. dos anexins. — que com a sua a restauração da vida municipal é «a expressão da vida publica rantia da descentralisação administrativa. (1853. dos symbolos jurídicos.ALEXAMDRB HERCULANO 349 Carta aos Eleitores de Cintra allude a esta época.» N'esta viagem tao instructiva para um iiistoriador. dos contos. tive de vagar pelos districtos centraes e septemtrionaes do reino.

Herculano descreve a tempestade contra o primeiro volume da Historia como uma cousa passada. e dando vulto tórica a cousas. vii. 2 Ilist. que se dedicara com intimo mas ásperos desenganos o reconduziram ao tranquillo retiro d'onde não devera talvez ter saldo. . consideradas á luz his- e lilieraria eram insignilicanlissimas. discipulo de Frei João de 1 Hist. de ignorante. iv. ou eram falsos. var (ou tental-o ao menos) que taes ou taes entre milhares de monumentos çm que é. Um novo motivo veiu azedar o seu descontentamento. Já vimos as condições politica em que uma Herculano se separou da em fins de 1851 . que. elle se estribava . Herculano resolve truncar o seu trabalho. considerando como um erro o ter perdido tempo em refutação de libellos sem sciencia. Da primeira polemica. a publicação do quarto volume da Historia de Portugal eva conciliação com as lettras: lit- «IHusões de terarias a um momento o affastaram das occupaçôes affeclo.» * À parte os eííeilos de estylo.) «Assim elle commetteu um dupli- cado erro (cumpre coníessal-o aqui) malbaratando o seu tempo. . iv. de Port. e de retardar assim a continuação do seu trabalho. por tanto não foi a po- lemica passada que o fez depor a penna de historiador.. de que sempre abusa.» (184()-i8tí).» E mais adiante: «Como homem que o auctor.. v. propriamente não foi accusadodenada. ou não existiam.350 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL conhecimento do passado nacional. de inimigo da pátria. António Caetano Pereira. de Port. cumpria pro- porque para haver accusação contra o livro. . de vendido aos estrangeiros. de orgulhoso. e até de sario. fal- O livro. escreve elle: «O auctor do livro foi accu- sado de tudo: de impio.» ^ Os textos árabes apresentados pelo professor de árabe do Lyceu de Lisboa. teve a fraqueza de repellír €ssas aggressões. p. t. l. esse. ou mal interpretados. p.

I. Procura-se o motivo. Paschoal de Gayangos. não podia honra lheiro ali entrar com ati- em quanto se achasse como guarda-mór o conse- Macedo! Que fazer? D'este homem. De um novo embaraço.. e como trium- atropellou os textos para servir o seu intuito.. p.ALEXANDRE HERCULANO 351 Sousa.. contra quem rava um repto mortal. que estivera seis me- em Madrid junto de Gayangos como stibsidiado do go- verno. sendo dada zes a Augusto Soromenho. prin* em trabalhos históricos modernos . era um dos funda- dores da historia da Cosmographia e Geographia da Edade ' Op. como o seu livro era estimado e se julgava indispensável para a elevação do paiz. António tirou todas as consequên- Caetano Pereira perdeu a cadeira de árabe. Foi um pho completo. acharam-se sem au- thenticidade diante da critica compelenlissima do arabista hespanhol D.» O con- Joaquim José da Costa Macedo. XII. por onde queria demonstrar que a escaramuça de Ourique fora uma grande batalha campal. poz-so trabalho histórico.- em elle greve no mas próprio declarou terminaniemente que sendo-iho indispensável pro- seguir na investigação de documentos para a sua Historia no Archivo da Torre do Tombo. es- perava-se que proseguiria na publicação da Historia. tao rica e escolhida em tudo. escrevera Herculano no primeiro vo- lume da Historia: «Muito devi ao conselheiro Macedo. Sini- baldo de Mas. e este janeiro de 1852 escreveu em ^ de uma longa carta a Herculano pro- vando a ignorância que Pereira tinha do árabe. O opúsculo de Antó- nio Caetano Pereira fora levado para Madrid por D. um pretexto para inter- romper a obra. secretario perpetuo da Academia. que o oITerlou a Gayangos. . Herculano achava-^ repente surge em 1853 em toda a sua gloria. cit. facultando-me sem restricção o uso da sua cipalmente selheiro livraria. de que Herculano cias.

Herculatiò confessava aos que D licaria admiravam que o trabalho irrevogavelmente truncado! Tudo se moveu para o D. O rompimento de Herculano puramente pes- não deveria ser altendido. Academia das Sciencias secundou os esforços de Herculano. que lhe chama eminente sábio portuguez.^ já se vé que a confissão de Herculano não era de favor. O conselheiro Ma- Tombo. Pedro v demover daquella tyrauna resolução. crendo que os livros de Linhagens se orgaiiisaiam para libertar as relações da vida social do^ ataques dos impedimentos canónicos quô iam luz até ao sexto grão critério d43 parentesco. de Linhagens nasceram cofii a quando o direito de ooiiferir nobresa se tornou um dos di- reitos exclusivos da soberania no século xm. se contra Macedo se não apresentassem factos análogos aos que a paixão bibliographica fez praticar ao sábio italiano Libri. 3 Esla opinião demonetrámol-a na Historia do Direito portuguezj 18681 í . ainda imprimiu Em 185i uma pequena dissertação sobre a Origem provável dos Livros de Linhagens. que mais tarde serviu de prologo á edição d'esses livros nos Portugalice histórica^ Mommenta publicados X custa da Academia das Sciencias. os materiaes para o quintt) volume chegaram ix)- a ser colligidos. ^ Por este es- 2 Historia Vida do Infante D. no prologo da edição dé' 1803. Herculano confessa que até o rei foi ao pé d'elle pedir-lhe para continuar a Historia. (fragmentos da Parte i do Livro mas desde 1853 em diante tudo ficou suspenso. soal. citado com altos elogios por Avezac. IlcnriquCy p. lamen- tando-se da dissolução social. n'essa dissertação segue um errado caminho. para que a Historia de Portugal pocedo foi pois demittido de guarda-mór da Torre do e n'este intuito a desse ser continuada. port. pelo Visconde de Santarém e por Major. das cousas e dos homens. da Fazenda publica nos primeiros tempos da Monarchia. 196. Trai. ao passo que pela do comparativo se vé que os Livros independência do poder real.352 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Media.

em 21 de fe- vereiro de 1844. revela lambem que despeito profundo o íizera tornar esse assumpto histó- como um ataque aos seus inimigos. 184G-18ÍÍ)) pessoal em conflicto com o secretario perpetuo da Academia requereu para ser omiltido do catalogo dos sócios. e isto faz comprehenum temperamento bilioso que lhe dava ao caracter a forma do descontentamento. a Academia elegeu-o seu sócio correspon- dente da Classe de Sciencias moraes e Bellas Lettras. voltando por desillusão politica outra vez ao remanso litterario. Em 13 de fevereiro de 185^2 foi novamente eleito sócio eílectivo da quarta sec- ção (Historia e Antiguidades) da segunda classe (Sciencias moraes. politicas e Bellas Lettras) pela comuiissão encarregada por decreto de 7 de janeiro de 1852 dos trabalhos preparatórios para se consLituirem as secções das classes de que se compõe 23 a Academia. Diniz. para a qual nada trabalhou. dizendo cara no trabalho do Diccionario a Azmrar. estava-se então no fervor admirativo do Eurico. um espirito que se jul- Os despeitos de Herculano contra litteratura e historia. e que o clerica- lismo na sua forma particular de jesuitismo é que se tor- nava a preoccupação exclusiva de gava perseguido. porque andava occupado com ( a publicação dos três volumes da Historia de Portugal. sendo-lhe satisfeita a vontade em votação da assembléa geral de 19 de fevereiro de 18i)l. a politica ou contra a observam-se claramente nas suas re- lações com a der esse estado de Academia das Sciencias. que trabalhava já na época nova de transfor- mação n'esse politica do reinado de D. mas a publicação livro mesmo anno de 1854 do sobre a Origem do es- tabelecimenlo um rico da Inquisição em Portugal. Vimos como em que fi- 1835 escrevera da Acaden]^ das Sciencias. Nomeado sócio da Acade- . Foi durante este anno que collaborou activamente na redacção do Paiz.ALEXANDRE HERCULANO 353 tudo se deduz. Pertenceu durante sete annos á Academia.

códigos e leis consuetudinárias. era um favor pessoal para conlêl-o. quando se trabalhava na sua reforma. e os litterarios. e declarado sócio de mérito. Desde que Herculano resolveu suspender o trabalho da Historia de Portugal. em que . mesmo anno. Herculano nâo havia trabalhado na Aca- demia até este tempo. pequenos chronicons e monumen- tos de litteratura. é indicio de que se demittira antes de tempo. comprehendendo os documentos documentos jurídicos. em assembléa de 14 de annual de duzentos junho do mil réis. ao íim de alguns annos de interrupção dos monumentos. pelo trabalho dos pequenos prólogos que preceos monumentos históricos. quando um dia. nos Monumenta germânica da Academia de Berhn. mas infelizmente Herculano preoccupou se mais com a publicação dos documentos que illustravam a sua Historia do que com as necessidades dos que de futuro trabalhassem n'este mesmo campo. um acadées- mico perguntou pelo estado da publicação. embora merecida. Herculano creveu despeitado á Academia e mandou demittir-se. emprehendeu á cusg da Academia a publicação de um corpo de documentos históricos. era em I80O uma e da Academia de Historia de Ma- vergonha que estivesse de fora da Academia das Sciencias de Lisboa. A publicação começou em dem 1856. a reeleição para vice-presidente da Academia em 27 de de- zembro de 1855.354 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mia de Turim drid em 1851. que pezou sobre a Academia. e a sua elevação a sócio de mérito. Em 31 de janeiro e" em 8 de março de 1855 foi eleito vice-presidente da Aca- demia. Tendo já abandonado a continuação da Historia de Portugal. tendo Herculano o subsidio mensal de quarenta mil réis. a entrada de Herculano em 1852 foi uma graça. com a quantia Em rigor. esta collecção era moldada sobre as for- mas seguidas por Pertz. fundou em 1856 a expensas e com um subsi- dio mensal da Academia das Sciencias essa vasta compila- ção de Documentos para a Historia de Portugal.

AlTonso IV. que se julgava perdido. nologia da nossa historia.» 244 Hisloria do Cavalleiro Tubuli. Tal é a origem dos Portiigaliae mmimla histórica. AíTonso completando este corpo de Tundal.° 26C. Ernesto Monaci nos restituísse o grande hvro das nossas origens lillerarias. : 1 Tunguli. liga-se já ao estado melancholico do seu espirito na vida do campo. D.) ALEXANDRE HERCULANO 355 a parte da obra 31o- Tisava principalmente fortalecer com provas qne deixara escripta. onde se encerra a vida moral e imporlantissimas allusões históricas a essa revolução de palácio que fez substituir foi D. e as Ordenações de D. o Dr. e o grande Cancioneiro da Bihliotheca do Vaticano completado pelo Cancioneiro da Ajuda. Diniz e D. os Livros de Linha- gens. n. iir.° 26C : Barlaam e Josaphat^ no Cod. litterario com c as inapreciáveis íraducçôes das grandes lendas da Edade Media. é pequenos Chronicons. as Inquirições de Affonso para o conhecimento do estado e vida social no século xiu. (Na Torre do Tombo . 2 Historia do Cavalleiro Catalogo da Livraria de Alcobaça. Cod. Oulra vcrâio. para a vida intellectual da aristocracia das cortes de D. a tractos. Herculano não empregou a sua extraordinária influencia prira se proceder á publicação d'esse pasmoso monumento do Cancioneiro da Vaticana. parte principal. Cod. Vivia na catas trophe. Af- fonso Hi. parte na Torre do Tombo. preciso que um joven philologo. alguns Duarte. parte na Bibliolheca nacional. base da descoberta do texto aulhentico. n. os Foraes e os Diplomas de conque representa um verdadeiro serviço. d. Sancho n por seu irmão D. uma grande parte d'esse trabalho dis- pendeu-se improficuamente conliecidos em reproduzir documentos já como o Código Wisigothico. como a VV- mo S(T * e a Historia de Barlaam Josaphat. A parle iiâo publicada é que deveria ter sido entregue aos que esa orientação tudam. para da cbroiii. Esta segunda phase de descontentamento com a Academia.^ que acham entre os Afanuscriplos da Livraria de Alcobaça. como são os Obiturarios.

Herculano civil officiou immediatameríle ao governador de Lisboa. Prestou-se-lhe esta homenagem.» 25'. 2 A Pátria. . as ideias que havia exposto nos seus artigos po- no exame das antigas instituições municipaes fa- ziam crer que lhe seria sympathico o exercicio d'esta magistratura electiva. para que ou dissolvesse a o official que dera á sentinella a * Gamara ou punisse equível. de impedir os trabalhadores. á custa OOicio n. sobretudo quando se propagavam no publico os terríveis boatos da febre amarella. não pôde ser invadido pela auctoridade administrativa de- balde lhe representaram que a dissolução da Gamara era uma inconveniência. O que tem elle exigia era inex- porque a classe militar um foro especial. que são variante da sua preoccupação de catastrophes: altas regiões uma «Quando nas as regras do poder se desmente por tal modo mais triviaes do bom governo. lança estas phrases.« ey. acerca da collocaçâo de um columnello para^ií illuminc\ção do concelho. só resta encerrar-se no sanctuario da vida privada e deplorar a ruina da republica. casiâo em uma oc- em que os intelligentes esforços eram precisos. de 18o. O presidente com os demais vereadores insistiram pela foi iTis- solução da Gamara. quando assim estalam os civil.356 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Em líticos 1855 era Herculano presidente da Gamara municipaF e de Belém. Publicado no jornal A Pátria. Herculano. la- ços da vida ao homem honesto. mas inhabilitado pela sua condição social para obstar a esses abusos extremos. d.» t ^ Não era caso para tanto. Em um para o governo de 13 de outubro. ISori. Deu-se da Gaarli- porém um pequeno mara municipal e a Iheria n.'>. ordem que . além de outros com- mentarios pejorativos. o que levado a effeito por decreto oílicio de 31 de outubro de civil.'' conflicto entre os trabalhadores sentinella da porta do quartel de i. quando se tolera que os instrumentos da ordem publica se convertam impunemente em instrumentos de anarchia.

de Portugal. Pintavam- como um homem intratável por um entranhado e des- medido orgulho.ALEXANDRE UEUCULANO (l'este conílicto. Pedro.* voltou outra vez ao remanso litterario da Ajuda. lambem preoccupado com velleidades lb'o litterarias. final da Mas a intimidade de D. modestas e desinteressadas. Herculano descreve estas relações pessoaes com o jovcn monarcha com um des- vanecimento. um ultimo esforço para retomar os há- bitos litterarios em 1855: «Se. que o paiz inteiro consagrara. Pedro v foi para Herculano uma paixão exclusiva que lhe absorveu o tempo: «Era uma d'estas affeiçôes individuaes. . mas sem vantagem para o seu espirito. D. em ajuntar materiaes. Prologo da 3. conbecia os traba- lhos de Herculano. no desejo de lhe comprazer que achei alentos para galgar de novo a Íngreme ladeira d'onde foi animado por elle que prosegui me tinham precipitado. mas para concluir o quadro sincero da época mais obscura da nossa deturpada historia. se libertou Hercu- lano dos encargos da presidência municipal. que pinta o diz elle. de 18ti3. passado 1 A publícaçilo dos documentos d'esle conQicto am aono no jornal A Palria. Foi na affeição de D. Outros sentimentos me impelliram a isso. o tentei confesso ingenuamente que não foi para servir o paiz. e quiz conliecel-o de perto. que tentou homem theatralmente catoniano. aggcavado por pbrases. Começou por lhe pedir que tornasse a metter mãos ao trabalho da Historia de Portugal. Pedro v. e que a parte da organisação da fazenda publica é que era o remate obra.* edição da Hist. porém. revelam 2 um certo alarde que andava a par da sua modéstia. Pedro v foi procural-o ao seu gabinete de trabalho e travou com elle uma intimidade louvável. e pela linguagem brusca de um caracter indisciplinado.» - Por aqui se ve que a Historia estava planeada sómen(^ dentro dos hmites da Edade Media portugueza. para deixar no mundo um livro em vez de um fragmento. D. não para levar a cabo os ambiciosos desígnios concebidos na edade das audácias.

isto é condemnando a realesa ligada com o catholícismo.» edição da Ilisl. pagava assim uma divida contraída com o pae. que atro- 1 Todos 08 extracloa aulobiographicos quo seguem s5o de 1863. de Portugal. nos pedregaes da vida.» a compoNós hoje entendemos que os seiscentos mil réis de ordenado de bíbliothecario da Ajuda foram paia Herculano um desastre. e conseguiu temente. que encerrava a esperança da regeneração dos costumes públicos. ^ nhos dourados da ambição único dos vãos Ídolos do mundo a que fiz sacrifícios» estava concentrado no plano da Historia de Portugal. 2 Prefacio de 1863 na 3. O pensamento fundamental da vida de Herculano «solitteraria.» Ou estas palavras tèm um sentido mystico.. se vivesse. 358 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL que nascem como uma flor singela. porque lhe tirou o estimulo de es- crever a historia de Portugal para os portuguezes. Fora a este que eu devera uma situação isempta de pesados encargos. no geral dos ânimos. ou Herculano fechava o circuito das suas ideias politicas voltando por sentimento ás ideias que nos seus primeiros annos abraçara pelo perstigio da tradição. então na puerícia . . havia de exercer. qne. Escreve Her- culano na citada prefação: «Quando ha dezesete annos publiquei a primeira edição d'este volume. etc. destinava o encetada' trabalho ao estudo de um príncipe. porém este trabalho não era para servir a sua nação pessoal á realeza 1 nem a sua época. . singular espécie de absolutismo.» cair: * E accrescenta ao lyrismo em que se deixava «nem m^ o- pejo de confessar que elle começava a exercer já sobre meu espirito aquella espécie de absolutismo moral. a única esperança da manutenção da nossa autonomia e da nossa liberdade. a qual me tornava possível dedicar a maior e melhor parte do tempo ao duro e longo lavor que hoje exige sição histórica. provavelmente. Se elle o não confessasse mas uma divida com uma ab- soluta franquesa não ousaríamos suspeital-o.

A aproximação de D. submettendo-nos aos hespanhoes no tempo do Cardeal D. tinha para elle o attrativo do novo. mas alma era incompleto.» — «A do Buscou-me e desceu. de impiedade. ainda rude. além d'isso. A historia ad usitm Delphini foi não podia ser isto. era nobre. era grande. e a since- ridade. relata essas intrigas na alludida prefação: «Na procella em que nau- meu pobre livro. para pintar a amisado que trazia para elle o monarclia. Movia-o. iManuel.» a uma sinceridade talvez rude. Queria sondar o abysmo rei era de orgulho. porque nunca inquiriu se para chegar do throno ás regiijes do dever ou da justiça era preciso descer ou subir. de ódios implacáveis. Senão veja-se como . fragou o calumniado. de paixões impetuosas de que lhe fallavam com susto. de facto o orgulho inson- dável transparece nas suas palavras. João vi. João m. o inslincto próprio da sua edade e da sua Índole. ó que se não conhecia a si. associado aos satellites da reacção. finalmente a sua vida nacional. Pedro v de Herculano. . o nome do soberano fora murmurado em voz baixa. Herculano. como o tinha de ser depois o soberano . Henrique. completava-se malquistando o cidadão cona o soberano.ALEXANDRE HERCULANO 359 lo- phiou este povo extingiiindo-lhe a sua vida autónoma e cal pela reforma dos Foraes no tempo de D. como diria o mundo. a justilicar-se. . Malquistar com o cidadão Infelizmente a d'essas. a sua vida intelleUual enlregando-nos aos Jesuítas e aos Inquisi- dores no tempo de D. ou aos exércitos de Napoleão pelos absurdos diplomáticos de D. do elle Os que estavam em volta de Herculano conheciam-no. também que resultado do uma reacção contra as intrigas palacianas procuravam affastal-o de um espirito intransigente no meio das tergiversões da politica constitucional. tentativa falhou.» Depois accrescenta: «o rei achara que todas estas negruras de feroz ple- beu se reduziam impensado.

p. que equivale â no súbdito são magestade do rei.. mas á primeira oppunha-se o seu exclusivo humafe- nismo. resn- mem-se na phrase brusca mas verdadeira de Diderot~um escriptor só se cala quando não tem ideias. um estado psycholo- que se repetia periodicamente.360 elle julga HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL a- sua rudesa Iheatral pelo effeiío de atlralivo que eíTeito produzia no animo do monarclia.» Mas inconscientemente vae da sua própria intelligencia. Os motivos do de Herculano.» * São extraordinariamente assombrosas estas palavras. e porque tudo quanto desejou arrisca. do applauso gros- que vale o insulto . xiii. mas isto. em to- embora elle o diga. é inacreditável. como explica- subindo n'este diapsâo. Herculano imaginou-se tracasseado pelo jesuitismo acobertado das as repartições do estado. que assim augmentava a esphera do seu poder espiritual sobre a sociedade porsilencio systematico tugueza. á sua. como vimos na sua situação lyrica e na sua phase politica. mas um relâmpago para dentro de um caracter. a da nem o humilhava a dignidade humana. foi mosempre cumprido A critica exercia no espirito de Herculano uma ac- i Prefação. e chega a contrapor á soberania do rei a soberania ção da intima familiaridade que lhe dispensava D. ellas nos explicarão tantos factos de modéstia theatral revelados na imprensa pelo próprio Herculano. . para nós esse despeito litterario de Herculano era gico.. Ed. Pedro v: «Não tinha ciúme de uma soberania superior razão. porque dispunha da amisade intima do narcha. Só poderia ter disciplinado o seu espirito pela educação scientifica e philosophica. 1863. que chava as suas syntheses em eíTusóes poéticas. e á segunda o fervor das crenças christãs. e pelo salutar: es- «Achava onde retemperar o animo lasso do incessante seiro pectáculo da condescendência interessada.

A polemica sobre- a Historia de tremebundas da SoPortugal. Acima de tudo. não é um um ho- mem. por ter excluído a lenda milaí^n-eira de Ourique provoca a exnihil! clamação sincera: Oh tam magna A Historia ficou in- terrompida porque nascera limitada ás instituições sociaes da Edade Media. e nas réplicas lerunia Verba. o desgosto da censura clerical foi um pretexto que se tornou pose de eíTeito. quer que. Para o escriptor que visa ao fim social. como o próprio auctor o dá a entender no prologo de 18G3. se o injustiça.ALEXANDRE HERCULANO 361 ção perturbadora. também de um modo Todos os que pensam e escre- vem deviam ter sobre estes accidentes da vida litteraria uma completa disciplina de espirito. e assim se con- meio indirecto uma certa actividade mental em que se produz a maior somma de ideias. e dissolve-se lento. levou Herculano á hallucinação na carta ao patriarcha de Lisboa. A opinião fórma-se lentamente. ou demolidora espirito intelligente fé Um pela má e pela perversão calculada. nem um despreso obcecado de despeito pessoal. ab- negação. louvam e tam o seu poder espiritual sobre o seu tempo. o assim lhe augmen- mais se estabelecerá a necessidade de verificar a accu^ação. quanto mais flagrante íòr a escriptor serve as ideias. enervante pela bajulação feticbista. systema tâo peculiar em Herculano. nascerá o conflicto das opiniões. se o deprimem. o seu trabalho está sempre fora segue por do alcance da violação moral. porque. nem impor á admiração qual- nullo. a evolução do seu seja ella que procura actuar sobre tempo nunca succumbe diante da critica. nem um impressionismo doentio e esterilisador. o fado de apparecerem dois disparates escriptos pelo padre Recreio contra a Historia de Portugal. opinião com duas palavras de despeito pôde dirigir a de uma collectividade. . emfim. esse poder é para ser empregado a favor da maior eflicacia das ideias propagadas. mesmo nos seus actos publicados de. Eu e o Clero.

tanto pelo compasso dos annos. elle via lavrar em Portugal o jesuitismo. bem curta distancia os limites da imprudente em- . medindo oshorison- da existência não. introduzir-se nos conselhos da coroa. na collecção dos materiaes para a vasta edificação que emprehendera. Tal foi origem d'este livro. antigo. na qual fosse fé em que o subiria fácil a uma al- comparativamente a a outrem. devia de ser diversa da que eu previra. Inhibido de o sacriíicio completo da dignidade e proseguir. e revela clerical: a tinha. po- rém. Herculano attribuía a suspensão da sua Hisloria a machinaçôes clericaes: «Excedendo pouco a edade de trinta annos quando delineei os primeiros traços de tes uma erapreza ousada.. mas a preoccupaçâo re- ligiosa absorvia-a.lhe o remate. tinha firme tura. sem fe- risco certo da honra. que o seu objectivo na réplica foi o partido «Ao hvro sem intenção politica íiz seguir. e apoderar-se outra vez dos destinos da nacionalidade. A sua sorte. um perigo uma das mais negras pagi- nas da sua genealogia e que. Os importante para a solução da lucta que agita a Europa. e que. se não é o seu eterno re- morso. dotado de organisação robusta.» Era seguida refere-se ás animadversões que a obra suscitara. se ali- duvidei de que chegasse a completar o edifício cujos cerces lançava. e a participa- em i855. trouxe á luz com elementos novos. se recompozera para a sociedade. uma verdade e os três homens. 362 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Herculano abandonara a ção aos cargos públicos politica em 1851. «Em toda a parte e com todos encontrei a reacção in- fluente (jue me sem reduzia ao silencio e á inacção. um que Vendo no partido que engrossava a occultas. hade ser a sua eterna condemnação perante Deus volumes da Historia do i stabekcimento da Inquisição provaram sem réplica possivel. . pôr. tive a íinal de ceder e de char a preza. como pela intensidade dos esforços de que me sentia capaz.

^ítraidas de documentos de refalsado espirito. . sobretudo entre a mocidade das provincias mais inlelligentes e enérgicas. Quanto a um 2.^* ponto de vista superior so- 1 Carta ao minislro do Reino pela classe da Academia. as provincias do norte. Algumas d'essas vozes saíam do seio do sacerdócio. d'ai demora de quatro annos para o ultimo volume. e das negociações diplomáticas com a cúria. Um príncipe extranho que presa mais e conhece melhor os dias de grandesa o de gloria d'este paiz do que a maior parte dos filhos d'elle.* dizer. «Do mesmo modo que por meios foi-me indirectos me fora ti- rada a possibilidade de continuar a Historia de Porlugalr. N'essa lucla achei sympalhias e allianras por todo o paiz. não se leu. ou para melhor rer. que a serviam.» N'este despeito é que se demittiu de vicepresidente da Academia das Sciencias. emfim indirectamente restituída. Se a nao acceitei a oíferta.ALEXANDRE HERCULANO 363 a «Nâo O fiz sem luctá: disputei palmo palmo a minha vida intcllectual. a que leila a fraternidade litteraria e nobre maneira porque era de humilhação. e. * «Quiz proseguir e não pude. talvez a foi lançado como um repto mas ficou sem ecco. -— I)'além do Atlântico mais de uma voz amiga procurou con- solar o maldito da reacção e dos poderes públicos. A Origem da Inquisição em Portugal é uma dis- 'histoiia da cussão de attribuições canónicas dos bispos. apressou-se a oíTerecer oo perseguido um asylo junto de si. foi tiravam todos os vislumbres porque ainda esperava que não podesúltimos sete palmos de terra pátria a sem privar-me dos que todos temos direito. desejei e já não sabia que- Esta ideia o fazia pòr em relevo as intrigas diplomáticas li- para o Estabdmmenlo da Inquisição em Portugal. «Era tarde. 1856. este vro interrompido desde i85o ao parlido clerical. uma descia do throno.

A agitação socialista e apprehensijes da bur- guezia que acceitou as tropelias monarchicas pelo terror das novas aspirações «abriu caminho e subministrou pretextos por toda a Europa a uma reacção deplorável. A Historia das origens e estabelecimento foi da Inquisição em Portugal começada antes de 1852. O prologo d'este livro tem a desconnexão e o estylo de nalístico. encarregada' nominalmente de cumprir deixar de ser lerra natal. que é.— a defeza da A Historia da Inquisição em Portugal era da parte de aviso contra a reacção do clericalismo. A parte dramática. mostrandonos o século xvi. um exaltado artigo de fundo jor- mas é precioso para a revelação do estado de es- pirito de Herculano sobre os acontecimentos da Europa de- pois de 1848.» um dever. em que como se deu a alliança da monarchia e do clericalismo. e estado da sociedade portugueza através d'esses documentos. a obra era um repto fal- contra o partido clerical e contra a reacção pessoal que sificava o constitucionalismo.'i da diplomacia.» Herculano diz ral. o da maior degradação moral.364 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUaAL ! bre esta tremenda instituição. o seu livro era destinado a salvaguardar-nos do perigo futuro. que á sombra d'estes movimentos começa a reacção mo- ou propriamente o ultramontanismo. e deixou o largo campo do funccionamento instituição da que alrophiou esta desgraçada nacionalidade. os com as grandes catastrophes dos Autos de fé. Po- Herculano um . foi á parte morta e esté. que não pôde commum a todos os cidadãos. ril nada d'isso tocou Herculano. e deviam ter passado para o mundo da tra- dição. do indifferentismo ge- D 'esse com passado Herculano vê ainda um resto nos exér- citos permanentes «nascidos com o absolutismo e só para elle elle. a revelação dos costumes e vida domestica. nada processos do Santo officio.» Contra este erro politico oppõe Herculano uma ideia justissima «aniquilamento d'essa força bruta. e á custa das maiores monstruosidades ral.

de atrocidades sem exemplo. conhecermos a corte de ctura Roma em que. João iíi com a Guria para introduzir no seu reino o novo tribunal do Santo Oílicio. Herculano saiu a terreiro culo com o seu opús- A Reacção tiltramontana. de longas agonias. uma discussão pe- zadamente canónica contra bispos a causas. Era mais monótono e menos instruclivo. Os archivos do ai existem quasi intactos. confessando os seus anteriores desvios. e usurpação da jurisdicção dos quem competia exclusivamente o julgamento das em seguida uma exposição intrincadamente diplomática das negociações de D. que difíicilmente se podem ler. o eITeito do protesto também nullo . Os vinte annos de lucla entre D. da obra de Herculano. A simples leitura de um processo inquisitória!. com a predilecção em prosa desalentada. Não qui- zemos. O livro não produziu impressão. d'es- ses quarenta mil archivados.» (Pag. Ao fim de tanto trabalho Herculano in- terrompeu-se e só depois de quatro annos é que terminou a obra. como ria fez essa Historia? «Podíamos escrever flagícios da Inquisição. cônscio da sua ineíTicacia. de heresia. mas do assumpto em que revelava a sua erufoi dição dos cânones. d'esse drama de que se protrahe terrível tribunal por mais de dois séculos. João hebrea. porque logo em i857 se deu a usurpação do Padroado portuguez no Oriente pela cúria romana. ella dizia ter entrado na senda da própria reformarão. e poderisso tudo mos comparar com a os tempos modernos de liber- dade. para lhe obstarem. Perto de quarenta mil processos restam ainda para darem testemunho de scenas medonhas. Conhecermos a corte de na época em que a monarchia pura estava um rei absoluto em todo o seu na conjun- vigor e brilho.ALEXANDRE HERCULANO 365 a Htsto- rém. encerra mais lição do que to- dos esses três volumes. xm. elles elle lu e os seus súbditos de raça para estabelecer definitivamente a Inquisição.) Eis aqui está o livro. offerecem matéria mais ampla a graves cogilações.

porque todo o talento que nascesse insignificante só podia ser A ideia é abem um sitio deputado local adaptando-se pela longa permanência a essa localidade. resignando o mandato de deputado por Cintra. se lembraram votar 2í2 em Herculano nas eleições de 1858. que lhe quiz conferir D.° 1:399. procurava-se nas um sentido mystagogico. Foi assim que os do circulo 26. e que não acceita agora o mandato dos eleitores de Cintra. * Carta. se próprio não fizesse alarde da sua modesta superioridade acima das honras. Herculano escreveu então uma cio. surda. Fez um gninde sobre o paiz esta abstenção de Herculano. Herculano estava suas palavras eleitores já estado de mytho. de de maio. influíam sobre a sua lenda pessoal. na carta aos eleitores de Cintra dá-lhes a saber que rejeitou o diploma de deputado por um circulo da Beira. segue na rejeição da grã-cruz de S. por meio do Jornal do Commer- em que declara ter recusado essa honra do mandato que lhe quiz conferir um circulo da Beira. Era uma abelle negação catoniana. .366 HisTOniA DO romantismo em Portugal nas regiões do poder. Thiago. em desalento sobre o fntnro da nação. fez ainda mais ecco a rejeição de e Espada. porque logo testar em 1858 teve de pro- em um Manifesto ao Partido liberal contra a intro- dncçâo das irmãs da caridade francezas. Quanto distava Her- culano da ideia tão clara e tão justa do mandato imperativo! Era isto o que elle queria effeito sem o saber dizer. tam- 1N. porque não pertence a essa terra. Estes protestos. Pedro uma medalha da Torre v. em em estylo semi-biblico. de Cintra. e a sua opinião é que só existem deputados locaes (de campanário) capazes de satisfazerem as ne- cessidades dos circulos junto do parlamento. que ninguém saberia. O mesmo onde processo diz e pelo Jornal do Commer cio dá a saber ao paiz que recu- sou o diploma de deputado por Cintra. do 23 de maio de 1858.

dizia Commeiída da Torre um favor. as ponderafiz. Era o de ac- e Espada.» Por fim. talvez demasiado rudes.EXANDRK HERCULANO oG7 (n. e que fizesse eu me ditasse. litterario em Herculano escreveu ao Jornal do Commercio: «Veiu depois a Grã-Cruz de S. e recusou tam- bém.» * Esta necessidade de explicações diante do publico.AI.» Esta revelação aulobioluz para a um relâmpago de modéstia e abne- gação theatral. e com a sinceridade que elle encontrou em mim. «El- o sr. de 7 de dezeiubro de 1863. «NVimmenso consummo que n. Thiago. ções. proctirou-me nm dia ceitar a para me pedir. sumpto em harmonia com cumpria o que reputava o que a consciência graphica é Que um dever de rei. Tinha motivos para crer que el-rei. D. Por carta régia de 17 de maio de dado a mercieiros retirados 18()1. expuz-llie amplamente os motivos da minha recusa. Na carta alludida diz: «Deixo de parte a historia da recusa do pariato. Recusei. mercê Procedi n'essa hypothese do el-rei mesmo modo a heróica que procedi com D. de alta comprehensâo e de profundo sentir. logo que D. Pedro v. Aquelle grande espirito. Pedro.° 2:7i)2): bem em rei carta ao Jorjial do Commcrdo elle. Nem mais nem a iniciativa da menos. não era honra que se não tivesse do commercio. Fiz o 18t)2. fazem-nos tomar a sério estas palavras irónicas do próprio Herculano honras civicas: a propósito do seu despreso pelas se está fazendo. foi noníieado Herculano par do reino. complexo de extrema doçura. Concluiu por me elle que cada um de nós podia proceder n'aquelle asas próprias convicções. que Deus tem comsigo. instituída arlistico. fizera a respeito mesmo que vinha de da Commenda. que pasmou com abnegação. debateu sem se irritar. Luiz subiu ao Ihrono quiz honrar o amigo intimo de seu irmão com a grã-cruz de e S. Thiago. .<* 1 Jornal do Commercio 2:752. que lhe dizer. paia o mérito scientifico.

^ espanta-se de que eu nada escrevesse morte de D. e onde muitas podia escon- vezes o não encontrava. mas as admirações foram estéreis.fundo do que o d'elle. s.» 2:752. Pedro v era o amigo intimo de Herculano. . Pedro começava a degenerar A miem pai- * Jornal do Commerrio n. homem do povo. escreve-lhe a respeito da logo depois da perda do seu amigo: «V. aqui. Pedro v acabou de aggravar o estado psychologico de Herculano. que rompeu com a relação da capital refugi a ndo-se em Vai de Lobos. Em uma caria a monsenhor Pinto de Campos. e o reconhecimento do piritual conferido máximo poder indivíduo. D. de far- das bordadas. s. de de graduações. Pedro v. s. de 7 de dezembro de 1862. n'este mesmo humilde aposento onde escrevo a v. nâo me me custou a d'aquefie pobre rapaz. como nunca ninguém achou em elle era-o. Com a morte do joven monarcha. de insígnias.338 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL que se tem feito ha trinta annos. A es- espontaneamente a um morte de D. admira- vam-se mutuamente. que queira e possa morrer sem esta classificação. e nunca ninguém em Portugal chegara como elle a esse gráo de celebridade que se torna uma gloria nacional. de fitas. nha aífeição por D. rei nenhum. Não cré e v.^ na profundidade da aíilicção do pae que pôde escrever sobre o tumulo do filho? Se eu tivesse custava mais a morte um filho me morresse. vinha muitas vezes buscar lenitivo. títulos.^ que aquelle marlyr. deve adquirir em menos de meio século extrema celebr idade. Se este século pôde produzir santos. Era commigo. o coenta e dois annos. de tratamentos. para deixar o emprego do paço. y>^ Herculano contava cínde rótulos nobiliários. porque der-lhe que o nem sempre meu desalento acerca do futuro era mais pro- . Herculano achou-se soe isso influiu litário. Era uma amisade desinteressada como nunca teve rei. que esta terra nem comprehendia nem med'elle do que recia.

como o perfeito avaro leva o seu ouro e o enterra n'um logar solitário. Pedro é para mim uma d'aquellas ai recordações que se levam até ao tumulo. cousa que se dá poucos. mas revelam a incapacidade para me cabem na cova.ALEXANDRE HERCULANO 369 xâo. Deu-mo um por retrato seu e o Ancien Regime de Tocqueville. Esperava-se do joven monarcha 24 uma . acceitei-os e guardo-os. a coragem e abne- gação que revelou por occasião da febre amarella de Lis- boa fanatisou o povo. Felizmente aqueíla alma pura. o joven monarcha poria em obra to- das as sugestões do mestre. Pedro v admirava Herculano. in- intelligencia felizmente Deus não quiz que esta ultima luz da esperança a alumiasse os horisonles de rer. e não servia senão para enfraquecel-o. D. e eu a perceber como se pôde ser fanático. Desconfio de que se continuasse a viver chegaria a fazer de mina o que quizesse.» Estas palavras denotam uma boa alma. aquella grande não podia querer senão o justo e honesto. era um doente moral. hão de espirito dirigente. não lh'o acceitei. com o seu paiz e com a sociedade que o cercava. Fez-me commeiídador da Torre e Esa pada. o desalento de Herculano era ainda mais profundo. e se Pedro v estava desalentado no seu governo (como se prova pelas notas comparativas ao livro Grèce contempor a ine. uma nação condemnada moro a si- Era uma espécie de profanação dizer em um livro que eu sinto a respeito d'elle. de Abont. Não se alinham phrases milhante propósito. anuotado elle. Pedro v ia fumar o seu cigarro junto de Her- culano na vivenda da Ajuda. e que se es- condem. e se este tivesse ideias e conhecimento dos grandes progressos do seu tempo. São cousas pequenas que ir commigo. mas Herculano estava despeitado com o seu tempo. como quando D. Pedro v era eminentemente sympalhico á nação pela sua moralidade e aspiração de justiça. D. nunca se achou em uma tão perfeita har- monia o poder o joven rei espiritual com o poder temporal.

e um modo com um pessia servil-o mismo pirito nunca se prestou na propagação dos estudos philosophica a que chegara: d'este musculo scientificos. . D. a esperança futura. de 10 de dezembro de 1859. sabe-se que o joven monarcha ia bastantes vezes conversar e fupara o quarto de estudo do seu régio bibliothecario e mar historiagrapho. Pedro V rei absoluto. em CoimA geração nova. afixaram até cartazes procla- mando: Viva D. que aspirava a exercer o poder de justo e fecundo? Herculano desalentou-o catholico e estreito.370 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL cl'este paiz. Pedro v como metaphysico. Nas suas intel- boas intenções D. Pedro v cercava-se das primeiras ligencias do paiz. e exterior que se costuma entre nós dar a com a educação um príncipe sim- plesmente para figurar em recepções oííiciaes. o ser meta- physico era o cumulo da superioridade. estava n'esse estado de espirito. Descreve com 1 Carta de 17 de dezembro de 1876. Yimol-os bra. O seu estado de es- resume-se n'esta phrase estylosa. * Sem sair d'esta orientação religiosa dada por Herculano. Pedro v o mais que podia ser era metaphysico. facto ex- traordinário. Em um despacho secreto do embaixador hespanhol Pas- tor Diaz. Como aproveitou Herculano esta situação excepcional para dirigir a consciência de um rei. que era a synthese «O calor parece ir-se retirando chamado o coração humano. o embaixador hespanhol. acção profunda sobre a transformação nalistas ibéricos os jorunifi- sonhavam n'elle a personificação da cação dynasticá da peninsula. ainda esfrangalhados pelas esquinas em 1861. para captar-lhe as boas graças cendental que no de entrar en colóquios con «de filosofia trans- es possible eludir este cuando tf se tiene el honor tra- soberano. acha-se o fallava-l^he retrato de D. á medida que y> o Christianismo se vae alongando das consciências. não nos admira a sua consequente esterilidade. por algumas cartas de Herculano.

Isto anullava toda a sua boa vontade. ni necessidades para soste- ner los ferro carriles. composta de três cadeiras para aproveitar as aptidões dos homens que elle intellectualmente mais considerava. y raza latina habia dado de si todo lo que podia .* Historia geral e pátria.. ni iniciativa. . para a renovação politica obstavam os seus respeitos religiosos. na qual o «habia dicho con las el mayor los caminos de hierro paralizaban primeras industrias. que v.» Pastor Diaz explica em * parte estas afirmações porque «cm hijo de un alleman» mas não sabia explical-as como a obra da exploração catholicomonarchica sobre os povos raeridionaes. ni entusiasmos.ALEXANDRB HERCULANO 371 ços picarescos uma conversa entre o eraprezario Salamanca rei e D. 2. que viciava os seus poJ3res aphorismos económicos. destinada para Herculano.. Pedro v via os resultados de uma certa decadência. D. que no tenian actividad. para a renovação intellectual. prejudi- cava-o a indisciplina metaphysica. Mi Mission en Portugal. Pedro aplomo. mas era-lhe impossí- vel reconhecer as causas históricas. p. as conveniências de camarilha ataram-no. uma medida de expediente. y que Portugal y Espaiia no tenian industria. critica para saber Da sua dotação tirava todos os annos era trinta contos de réis para as urgências do estado. 204. não tinha a edade e experiência bastante para poder harmonisar-se com a Carla.» Em seguida Pastor Diaz resume as ideias fundamenlaes da metaphysica do joven monarcha» el «que mediodia de la Europa eran pueblos caídos y gasque la tados que ya no servian para nada. Foi por esta forma que mandou fundar o Curso Superior de Lettras como uma fa- culdade humanista. nem a julgar os que o cercavam. as cadeiras eram: 1. Por fim as formas constie tucionaes envolviam-no. ni comercio.* Litleraturas grega e * Ap. que se daba demasiada importância á Ia civili- zacion que podian aumentar.

No seu íelichismo pelo monarcba.3T2 latina. De facto Herculano não tendo feito disci pulitte- com raria com o los tilho os seus livros. Era o melhor que o joven rei podia conceber. Na caria a monsenhor Pinto de Cam- 1 Este joven monarcba linha a velleidaile lilteraria. reservava-se para o grande pue rhetorico Castilho. e cios próprio escreveu a pequena biogra- phia do escriptor. Insti- mas estava illudido foi solici- acerca do motivo da sua nomeação. a portugueza. quando morreu. Essa honra tada pelo sr. Assim flcou atrophiado na origem um pensamento generoso. correu a tradição que deixara Irinla volumes tio esciiptos iniviitos. se o Dantas não pro- vasse o seu alto valor. 3. Ilerculano exclamava com uncçào palriarchal Perdia as noites a escrever. apesar da insistência sublime de D. e recusou tamnomeação de professor de Litteratura. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL latina para o seu antigo perceptor de grammaticfi e portugiieza Viale. o sr. * Herculano pertencia como sócio correspondente ao tuto de França. sem acção sobre a nossa transfor- mação intellectual. Pedro v! Cas- bém a não quiz ser menos do que Herculano. e o sr. nome de Herculano era-lhes exlrauho. esto parodiou o dilo de Herculano: «Coitado! passava as noites sem dormir. poderia levantar uma geração ensino oral. e merecia essa honra. recusou-se formalmente a esse trabalho. quando pertencia á embaixada portuelle gueza de Paris. para fazer dormir os outros. em quanto os outros dormiam! Com uma malícia natural. .* e especialmente rista de Litteraturas modernas da Europa.» J)e reslo «sses pretendidos inédito» nunca appareceram. e a fundação tornou-se um arsenal de rhetorica espectaculosa. que se dislribue lilhographada pelos so-. Dantas. relações Pelas suas com Prosper Merimé e com outros escriptores francezes. que : era uma das formas do bom senso de C-isiilbo. Dantas conseguiu essa distincção scientiíica para o nosso paiz. em geral os fiancezes igno- ram o movimento intellectual dos outros povos. dizendo que empregava melhor a sua capacidade fazendo traducções paraphrasticas. do Instituto para fundamento da proposta e da votação.

e que sem eu solicitar me associaram áqucUa corporação illiístre. Uns leves conhecimentos das biologia. e asa pneumonia dupla. porque nâa pen- mente: «No sam como seguiu. Desde 1855. quando ainda se achava meio convalescente de uma sim começou falso consti- pação. Academia de Berhm admitlir Herculano. a etiqueta palaciana obrigou-o a descobrir-se. mas nâo é impunemente que se condemna a sciencia de um século. mas nada se coneu.ALEXANDRE HERCULANO 373 pos. Herculano escrevia ingenuaInstituto de França ha homens que me estimaram. Sabendo da chegada do imperador do Brazil a Lisboa.» Para a em mas conclue-se de tudo que verdade Herculano era extranho a estas solicisem a legenda dos amigos o caminho na vida. empenhava-se el-rei D. tações. 6 dos fanáticos admiradores nunca o verdadeiro mérito con- segue abrir por si Na sua carta a monsenhor Pinto de Campos. de 2 de junho de 1862. Fernando. como se pôde fazer ideia pela predilecção dos estudos de agricultura pubHcados por Herculano na Pavia. este preconceito hygienico levou-o gradualmente a profunda anemia que o fez succumbir ao primeiro ataque inflammatorio. d*essa imperícia. Herculano fallava em deixar a penna. de 2 de junho de Í862. Elle laborava n'esse preconceito económico* . que em poucos dias o levou uma á sepultura. leis geraes da tel-o-iam fortalecido coiii um regimen saudável que lhe prolongaria a vida até um alto cume. veiu immediatamente da sua quinta para cumprimental-o. e que hoje me sâo pouco affectos. falia adas poíitiialidades cortezãs em que sou fraco olficial. o seu espirito olhava para a vida dos campos um idylio de tranquillidade moral. Como um Gincinato ir como mo- derno.:o de facto era-o. porque a sua morte proveiu depois da viagem de recreio pela Europa. Foi victima da sua própria condemnaçâo. Herculano era systematicamente abstemio. para agar- rar-se á charrua. chamando-lhe gongorismo de phrases.

374 HISTORIA DO EOMAKTISMO EM PORTUGAL que a riqueza de Portugal da producção agricola. Herculano resolveu abandoreal. Mas a terra não venda fez-se. Com a morte de D. abandonando-a ao pro- prietário. começa ressarcir as perdas. da solidão. É por isso que o que adquire propriedades logo por dispender em volta de Lisboa. homem de lettras. que egualmente se despediu do serviço a quinta de Ladeiras. A situafoi em ção de Herculano como proprietário agrícola assim. que lhe deixara em testamento e Sousa. outro. o finado traductor de Walter Scott. para começar a reparação dos estragos do saloio. effeilo produzia-lhe profundos desalentos. e quando essa está já bem esterilisada. nenhum conhecia as relações do saloio com a terra. nar o logar de bibliothecario produzido pelos seus refugiando-se na sua quinta de Vai de Lobos. com o pequeno cafoi se- O mesmo exemplo real e guido pelo medico do paço o Dr. Bernardino António Go- mes. que se desgosta vendendo-a a quem tenha ainda illusôes sobre o rendimento da agricultura. propondo á Academia das Sciencias a compra dos apontamentos para um Diccionario portuguez. para o saloio a terra hade sustental-o sem trabalhar. Isto influiu na sua actividade. comprou também próximo de Santarém. Ramalho A Herculano a receber o juro de dez contos. zer-se a vez de colher. ficando lhe levava lambem só os meios produzidos pela litleratura. lhe deve advir exclusivamente sem se lembrar que o desenvolvi- mento das pequenas industrias locaes. precisou logo de dinheiro. e com o despeito contra a sociedade do seu tempo. Pedro v. que adquirira pital livros. ou seiscentos mil réis por anno. sâo o verdadeiro elemento da formação de valores capazes de se augmentarem pela troca com os produclos estrangeiros. até hoje abandona- das á espontaneidade popular e á persistência tradicional. passa para outra. e como nunca pôde toma como resolução ultima o desfatempo de bens que só trazem desgostos. Um. de . homem de sciencia.

sósinho. Ânnaes das Sciencias e das Leltras. es- A leitura raramente o acariintermináveis porque os hvros novos são raros. como que perdidos por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso paiz. A confissão d'este tédio é uma curiosa pagina psychologica: «Para o velho que vive na granja. e ao Para sair d'este estado doentio para acudir ás urgências mesmo tempo da terra. Illustração. I. como se zil imperador do Bra- a Vai de Lobos. . cia. onde as mil scducções da sua gloria o iam provocar.ÁLBXÁin>BB HERCULANO 375 modo que do o vácuo inlellectual revelava-se pelo tédio dos * longos serões de inverno. Paiz. dispersos trinta em um trabalho de annos pelos diversos jornaes. a corrente impetuosa do tempo parece chegar de súbito a pego dormente e praiar-se pela sua superficie. Para o velho do ermo. fácil de evitar nas cida- des. t. Semana. Repositório. N'esta extremidade. Til. etc. Panorama. ha na existência uma condição que todos os annos lhe prostra o animo por alguns mezes. espirito. na quinta. n'esses intervallos da vida exterior. mo- mancha negra na vida rústica. É o tédio das longas noites de inverno. Revista peninsular. vae-se convertendo no pouco a pouco em intolerável tormento. que vaguéa indefinito sem o norte da realidade. tormento fim. litica. á euménide da própria consciência. das horas es- téreis em que o pezo do silencio e da soledade cáe com duplicada força sobre o espirito. no casal. a inércia da intelligencia. doença ral. tria. Revista Universal lisbonense. Pá- O descontentamento que o fez romper com a pocom a litteratura e historia. é que emprebendeu a compilação dos seus peque- nos escriptos ou Opúsculos. o quer que seja da cellula circular e no qual ha por esmeradamente branqueada onde o grande criminoso é entregue. também o atacou no isoviu na visita do lamento do campo. — Nas noites de inverno. por 1 opúsculos. p.

VII e IX. cem vezes isso preferível. a cortar. l.) * Excaoações poéticas^ p. datada de 20 de dezembro de 1830. ha esta preciosa referencia á predilec- ção agrícola de Herculano: Larga o sacho ao frenético Alexandre. o trabalho do espirito. por mais que ella ame o repouso. a completar. 16. assim mental como corporal. ainda uma vez. apesar dos mais firmes propósitos.» «No estudo da lingua allemã andava sr. p. a accrescentar. na sua mocidade Herculano revela a paixão pelo tra- balho da terra. as suas horas de desenfadamento eram dispendidas em cavar e jardinar. Que esta con- fissão ingénua sirva para ser absolvido da espécie de cor* reria que. (1873. — Foi por que comecei a ajuntar os parte do membra de uma grande vi meu passado in- tellectual. é disjecta preferível.» O tédio das 1 Opúsculos.. na republica das lettras. 376 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente. Se Scbiller e o Phantasma o deixam livre E em culano. 236) e abor- também o tédio da vida campestre. porque já então. a corrigir.» Estas palavras encerram o desalento de uma ultima illu- sao. nota accrescenta: «O nosso amigo Alexandre Hera esse tempo. pela cultura das flores. ainda o mais árido. tasse ao cabo de cada desapparecerem os marcos negros junto dos quaes cumpria que longamente me assen- um dos poucos estádios que ainda me restam a transitar pela estrada da vida. como ainda hoje. Em uma Epistola de Castilho. ao fluctuar indeciso no vácuo. I. todo e na sociedade do Assentiz fazia ás noites leitura ^ da sua Iraducção do Phantasma de Schiller. Vencido o primeiro inverno. . p. recido da gloria htteraria encontrou (vid. faço. em principio de estudos ainda em quem já se admirava o infatigável mas fervor do trabalho.

da febre da iniciação. era era geral um estado de despeito de um espirito que não sabia deduzir dos actos descoordenados das pessoas a marcha progressiva das cousas. e o progresso social pelo que ha de mais retardatário —o in- fluxo religioso.ALEXAin>BE HERCULANO 377 longas noites de inverno veia-lhe destruir a ultima illusâo que o acariciara —o remanso da vida campestre. a nação atrasada conferiu-lhe por isso o po- der espiritual. que se traduzia ás vezes por siva. involuntário pelas contradições de toda a sua conflicto que o punham em com os seus maiores ami- gos. e foi isso talvez o que exerceu uma acção fasci- nadora sobre o espirito dos seus admiradores: nunca se mostrou satisfeito. taes como Garrett. Marquez de Resende. Diderot definiu profundamente o génio se n'essa ])\\rase — ime áme qui tourmente. tria. Castilho. um génio. Escrevendo sempre em todos os momentos graves da historia contemporânea. de quem se afastou irreconciliável. que não acreditava no futuro da páque não servia o seu paiz. Herculano vivia em continuo descontentamento. Uma do cousa parecia caraclerisar em Herculano a centelha génio. que a geração ia perdida. e se este estado de espirito proviesse da apprehensão do futuro. isto aca- bou de o definir. seria proclamado apesar de todos os seus erros. de que ello se sentia investido. avivava a tradição do monachismo. mas de que não soube usar. . Oliveira Marreca e Seabra. e perturbava a emanci- pação da sociedade acobertava a falta civil com um deismo christão com que osten- de critério philosophico. Rodrigo dá Fonseca Maga- lhães. Filho da ultima época do absolutismo. Era uma natureza descontente. infe- Mas esse descontentamento era o testemunho da sua rioridade. Esse desconten- tamento. rejeitando uma modéstia com apparato as honras sociaes. voltava-se para o passado. explicava a historia pela vontade dos indivíduos. a falta de disciplina mental revela-se n'elle d« um modo vida.

Mesmo. um dos grandes espíritos do século xvni. mantendo o equilíbrio contra as violências exteriores que a perturbam. Mas aqui a efficacia da acção augmentava com o isolamento individual do iniciador. e o silencio do escriptor tornou-se uma das formas do despreso pela sua sociedade. postoque declare que a gloria litteraria foi a sua única ambição no mundo. Desgraçado do escriptor que nâo se apaixona pela sua obra. Em Portugal ninguém se alevantára acima de Herculano. considerando-se a injustiça elle próprio filho da sua obra. calou-se para sempre. ao terminar a sua Historia da Decadência do Império romano. quando ou os desastres nos assaltam. tirando d'el]a própria o estimulo para o trabalho. a preoccupaçâo de um trabalho que se tornou uma manifestação da nossa vida. ao lembrar-me que me separava do antigo e agradável compa- nheiro da minha vida. o grande compositor da escola italiana. e que ia talvez firmar a minha reputação. ao acabar a sua Historia de França. Para Her- culano o trabalho não foi nada d'isto. O meu orgulho abateu-se logo. quando co- nheceu a profundidade de pensamento da escola allema que começava a preponderar na musica nloderna. ali o sentimento foge ás emo- a rasão se exerce. Herculano nâo o entendeu assim. Rossini.378 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL O silencio de Herculano na litteratura fora também um systema de celebridade mythica. um pensamento dominante. era um protesto como o do miUtar que quebra a espada no meio de uma campanha sem bravura. Quem .» A mesma emoção se dá com Michelet. e uma humilde melancholia se apoderou de mim. nâo se quiz empenhar em uma lucta do génio creador. declara: «Não dissimularei que tive uma primeira emoção de alegria n'esse momento em que me achava desembaraçado. é o apoio moral mais seali guro que se pôde descobrir. fosse qual fosse a duração que a minha obra alcançasse a vida do historiador de ora em diante seria breve e porcaria. e que. ções doentias.

que tenho guardado . a littera- fundar disciplina moral. sem eslimulos men- Contra esta admiração publica oppoz Herculano lencio syslemalico.i> O seu silencio era sybilino e a nação queria ouvil-o.ALEXANDRE HERCULANO \'isar 379 a dirigir o seu tempo.. para obtêl-a é necessário lisongear a época que só me- rece cautério. A legislação civil portuguezn eslava lia mais profunda immobilidade. de quem estava separado desde 1851. questão do Casamento em 18G5 uma foi aproveitada por Herculano para lançar aos ventos epistola prophe- Vejamos que relações existiam entre Herculano e esta conquista do civilismo. que não era. do seu antigo amigo António Luiz de Seabra.. mas cabe-lhe a gloria de ter feito a redacção do titulo sobre aguas. a ir de encontro aos erros. de exame de Roma. pu- em 18G6. e que paga a lisonja lançando-se na admira- ção feíichista. Era a ultima honra que lhe essa mesma o procurou para envolvel-o no nimbo de um livre pensador. d'essa polemica que se agitou na imprensa. civil A tica. e do alongo sique espero continuar a guarTbiago falia dar acerca das questões politicas e das questões litterarias. e isso cortou-Ihe a actividade. na carta em que em 186iá recusa a grâ-cruz lencio. fo- ram perturbal-o com uma nova honra. e desde 22 de dezembro d'esse anno livros prohibidos pela inscriptos no Index dos Congregação faltava. resultaram os opúsculos intitulados Estudos sobre o Casamento blicados civil. deixou-o taes. fura nomeado para a revisão da redacção litteraria dos artigos. lettras. consignada nas Ordenações . nomeando-o para a Commissão revisora do Projecto de Código Civil. a carta Em 1865 escreveu no Jornal do Commercio dando rela- parte ao publico de que redigira no Código a tiva ao emenda Casamento civil a propósito de umas iuepcias do Duque de Saldanha. Herculano conseguiu a admiração fetichista. um si- abandonando as de S. nâo pôde aspirar á gloria ria.

e como o francez e o sardo. era fácil apropriarmo-nos d'elles confeccionando uma cousa. Herculano fora nomeado officialmente como membro da Commissão instituições revisora. » O jurisconsulto António Luiz de Seabra pediu a assistência de Herculano para a questão de linguagem. pensámos nós que fora para servir a pátria com as suas luzes históricas acerca das do passado para se fazer evolutivamente a trans- ição para o civilismo moderno.dou HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL do Reino dadas a este paiz sob o dominio hespanhol ! É pas- moso. sobretudo quando se aproxima d'essa outra declaração acerca da Historia de Portugal. uma das diíTiculdades da redacção Herculano complicou o trabalho e introduzindo provincia- com a paixão dos archaismos.* do Cod. mas é glosal-os. mas o historiador não deixa na celebre carta ao de dezembro de !865: «Fui illusões sobre os seus actos. supre- soes e toda a qualidade de accidentes que provoca o par- lamentarismo. nismos particulares na redacção de artigos de auctoridade geral. Jornal do Commercio. em que diz que a pátria não lhe deve nada. Isto òpasmoso. um grande facto histórico. civil. imperativa dos artigos. porque m'o pediu o próprio auctor do projecto primitivo do Código. obra a uma commissão sem sem capacidade philo- sophica e histórica. assim se fez por d'essa alta missão um processo absurdo encarregando e submettendo depois a um jurisconsulto. plano. * A final o Código civil saiu estropeado da comCW. D'aqui resultou entre o redactor do Código um constante conflicto revisora. de i memSe bro da Commissão revisora do projecto do Código acceitei esse longo e laborioso encargo. não í> foi para servir o paiz. civil e a Commissão e um producto mórbido filho de emendas. alterações. escripta para uso do príncipe. Depois continua na carta: «Acceitei. Como existiam có- digos civis europeus. O paiz não precisa dos meus serviços. 462. . 1 Citaremos as palavras gaivagem e alcorcasj do art. . Diz elle. .

que só appareceu ao fim de doze annos.» Ninguém coexistir triste consequência d'esto erro de fazer dois princípios antinomicos. o marechal Saldanha. viu a alguns desse voto em contrario. referida carta ao Jornal do um Na Commercio. que desde a falsificação do movimento da Re-. o no mesmo Código contracto civil e o sacramento. e de contracto civil para os nâo catholicos. e na alludida carta exclama: «Ha dois ou três dias. levantou-se a polemica na imprensa. e em pratica essa disposição nova do Código o recurso de um so- phisma addiando esse progresso pela dependência de regulamento. generação de 1851 rompera com o militar empavezado. compilado dos códigos modernos. tornando o contracto licos. para os não catho- D'aqui resultou a impossibilidade de pôr civil. era quasi impossivel que não reproduzisse alguma das grandes conquistas do espirito civil moderno. até a minha. Fallava-se por toda a parte na legislação relativa ao casamento contida no pro- . civil de natureza excepcional. Herculano cáe na ingenuidade de declarar: «de a divisão do casamento uma proposta que fiz derivou em religioso e civil. Herculano. vim encontrar a opinião pu- da capital singularmente agitada. ir- ritou-se contra essa theologia da caserna. e de campo assaz remoto blica e solitário para não chegar até lá o ruido dos negócios do estado. embora no de- senvolvimento legislativo que devia tornar essa divisão cousa pratica. que se tornara o caudilho do clericalismo. foi assim inconscientemente que se introduziu n'elle a ideia do casamento reduzido á sua base histórica e philosophica de complicou o problema com um contracto. iniciativa uma bem poucas disposições se contenham do e. voltando do campo. Herculano uma proposta. que alterou capi- talmente essa ideia moderna: o casamento conservaria um duplo caracter de sacramento para os catholicos. saiu com um folheto a favor do sacramento.ALEXANDQE HEBCUIxlNO 881 missão. e a lei devia reconhecer esta antinomia. acatar a usurpação da egreja.

. o prinmonarchia absoluta.» Herculano nao podia perder este ensejo para trovejar propheticamente: «Alheio e indifferente ha muito a todos os debates lettras. dizendo que tentara (^pôr de accôrdo o sacerdócio e o império. cercando-o.» Herculano para justificar esta triste comprehensão da lei civil.. uma da mancebia. políticos. . em que os cânones se de- batem atrapalhadamente com para mostrar que o casamento á altura de dignidade jurídica lado. de- conservar-me extranho a este singular debate . — Expurgando-o das asquerosidades de que vinha polluido. Assim proce- dia o grande rio.. que foram a minha primeira não esperando veria nem crendo no futuro da terra onde nasci. cheia uma religião tran- de mythos atrasados e de supersiições degralegitimação inicial dantes. A theologia encostava-se ás hombrei- ras dos quartéis ..^. civil é a elevação da mancebia Mais lhe valera ter ficado ca- do que vir assim perverter o critério publico. § 2. veiu explicar a sua doutrina. como contracto civil- das garantias.. insuflando nos espíritos samento. «Na Ordenação o que o absolutismo fizera fora elevar a mancebia á digni- dade de matrímonio. dade historíca das sitória. Liv. iv. cipio perfilhado pela — A commissão acceilou. I a legislação consuetudinária. em que se dava á mancebia a sancção jurídica! Monstruoso. é. a deplorável ideia de que o contracto perante civil do ca- a única concepção universal e sublime pela continuicivilisaçôes. tit. das formulas. das condições dos contractos. escreveu três opúsculos Estudos sobre o Casamento civil. porque era Mas não um momento t> espectacu- loso.382 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL jecto de Código civil .. o mais pasmoso é a illusão do espirito publico que julgou vêr em Herculano um .» se conservou. 46. . dava-lhe aquillo de que carecia. desenganado até das e ultima illusâo. a gravidade e a auctorídade moral . pois. homem na conciliação do sacerdócio e do impéiniciador da liberdade de consciência. De que modo? Par- tindo de que o acto do casamento civil se achava já legiti- mado na Ordenação.

quando a nação imbecilisada soffrera a invasão estrangeira narchia: «Com. e pela solvem. e o que fizera civil fél-o com relação á emancipação rei também litleraria. á para padrinho * um que encontrou sé.ALEXANDBB HEBCULANO 383 Herculano contradictou immediatamente as doutrinas sobre o casamento escolhendo porta da pios civil. que visa a impressionar pela condemnação do presente e pela recomposição poética das crenças que se distheatral. vendendo á Academia das Sciencias os apon- tamentos de um Diccionario portuguez que lhe legara o traductor portuguez de \yalter Scott. mandou ao mundo como mandou Attila ou como um verbo de morte. a chamada pela sua morapidez da choiera ou da peste. A maior força na propagação dos princí- consiste no exemplo. e por syllogismo o camartello. e essa encobre-a por uma naturahdade simuladamente rude mas no fundo emphase de ura es ty lo figurado. Outras contradições e antinomias de caracter poderíamos expor. contra as doutrinas da ne- gação da propriedade que sustentara contra Gar- em 1851. inimiga do pas- sado e do futuro. que. mas as que ficam bastam para explicar tanto no homem como na sua obra. de 1848. casando em 1867 pobre catliolicamente. que tendo por lógica o escarneo. Deus a Inquisição. que provinham da falta de uma disciplina philosophica. Seu mister é apaa gar todos os santos aífectos da alma e incarnar no coração. se chama illustração. corre por todos os ângulos de Portugal e encasa-se em todos os po- voados uma cousa hedionda e torpe. A missão da Philosophia acha-se assim descripta no pro- logo do Monge de Cister. André Joaquim Ra- malho e Sousa. que só em 1878 pôde ser regulamentada. se chama Philosophia. . * Isto nSo foi sem influencia na falta de vigor em qoe ficou esta parte do Código civil. que elle suppriu no seu falta espirito por um vago sentimento religioso.

384

HISTORIA DO KOMANTISMO

EM PORTUGAL

em

logar d'elles,

um

cancro para o qual nossos avós nao

tinham nome, e que extranbos designaram pela palavra
egoismo.» Estas palavras authenticam
ciplina mental, e

umq

completa indis-

nm

enfatuamento que tornava incapaz de
annos a Philosophia
cousa medonha,

subordinal-a.
foi

De

facto durante muitos

para o espirito publico portuguez
fallava a

uma

de que se

medo, e era synonimo de abjecção, como

Republica era synonimo de anarchia. Assim se pervertiam
as ideias fundamentaes, e o resultado foi o ter a nação des-

cido até ao ultimo gráo da inconsciência,

como

se vê pela
espíritos

pratica dos sophismas do Constitucionalismo.

Os

dirigentes

iam com
de

a onda.

A

falta

uma

philosophia que* lhe dirigisse o critério,

resente-se

em

todos os pontos de vista históricos de Her-

culano; testemunha de
e litteraria, renovada

uma profunda

transformação social

em 1830

depois da queda da reacção

systematica da Santa Alliança, que pretendia abafar os princípios da

Revolução franceza, Herculano vè n'esse grande

facto a consequência de

um

individualismo criminoso, de

um um

egoismo selvagem, que só pôde ser temperado pela

abnegação do christianismo:
egoismo.

«O

caracter

estampado na

frente do século actual é o individualismo, ou mais claro, o

O

furor dos diversos bandos civis, que pelejam

por sustentar umas formas de governo ou por derrubar outras, e as luclas das opiniões litterarias, scientificas e reli-

giosas, não são por certo resultado de convicções profun-

das,

como eram

as Cruzadas, ou as
fé viva.»
*

Reformas protestantes
restabelecer a ver-

nos tempos de
dade.
facto das

uma

Convém

Cruzadas

foi

uma doença
feiticeria

de hallucinação

si-

milhante ao millenario, á

e aos semeadores de

peste; quando a Europa entrou na corrente do criticismo

1

Panorama,

t.

ii,

p.

107.

ALEXANDRE HEBCULANO

385

protestante, decaiu nas consciências o poder catholico-feudal, cuja dissolução se

completou na

politica pela

grande Re-

volução de 17^89. Todos os factos que se seguiram depois,

vieram d'este impulso, e Herculano não podendo estabelecer a sua intima continuidade não conseguiu comprehendel-os;

quando o regimen da

sciencia se generalisava pela

fundação da chimica, da biologia e das descobertas industriaes

como

a applicação

do vapor, da

telegraptiia e

de oudo ho-

tras

que multiplicaram as relações e
o impulso da
fé já

a actividade

mem,

não podia motivar as determinaas convicções demonstradas. Foi

ções humanas,

mas sim

assim que esse individualismo, que preponderou durante o
largo periodo da dissolução do regimen catbolico-feudal,

veiu a ser

também

disciplinado,

quando a Sociologia, systecollecti-

matisando os complexos factores sociaes, estabeleceu o accordo entre as forças staticas da sociedade ou o
vismo, e as forças dynamicas ou o individualismo, ou melhor,

na coexistência da conservação e da revolução como condição do progresso. As instituições modernas surgiram d'esta
dissolução, não comprehendida pelo nosso historiador.

Herculano apoiando-se unicamente na estabilidade do passado, linha

medo da

liberdade, e mostrava sentir a falta

do absolutismo
da ordem:

e da superstição,

porque eram as garantias

tempos de servidão, o poder absoluto dos reis è ministros era para o homem o que para a criança fora o pae, o aio ou o mestre— o temor ficava sendo ainda
elemento de vida publica; então o clero continha o povo

«Em

no aprisco da superstição; e a superstição também então se julgava elemento social. Quebradas as antigas formas de
governo, não por nós mas pelo século, achámo-nos geração
livre,

cora a educação e

com

todas as reminiscências do

passado: corrompeu se o povo não porque a sua Índole fosse

má, mas porque forçosamente se havia de corromper. Qual
é o

homem
25

que nascido

em

ferros e

em

ferros levado atè

386

HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL

á educação

viril,

se não torne licencioso, restituído de salto
*

á liberdade natural?»

O que vemos com

relação á politica reflec]e-se

também
civi-

nas concepções de Herculano acerca da litteratura: a
lisaçâo sendo para elle a fórmula profana

do Christianismo,

o Romantismo só podia

significar a

Arte christã. Aqui o

erro é desculpável, porque esta ideia prevaleceu algum

tempo na Europa.

Em
sitivas

geral dá-se

também ao Romantismo

o

nome de

Arte

christã; os críticos especiaes, desajudados das noções po-

da Sciencia das Religiões, suppozeram que a espe-

culação moral e subjectiva que se exprime no Romantismo

pela complexidade de sentimentos, era
consciência

um

novo estado da

humana provocado

pela elevação religiosa do

Christianismo; d'aqui determinaram

como

característico da

Arte romântica o vago, o indefirddo, como esforço para definir

morphologicamente essas entidades metaphysicas da
infinito,

immortalidade, na alma, e do

em

Peus. Sobre es-

tas bases ocas fizeram-se theorias criticas,

chamando ao
phase acha-se

Romantismo o Christianismo na

arte; esta

bem
ções,

representada pela escola cmanuelica dos românticos

francezes, e aquelles que generalisaram mais estas abstrac-

como

os poetas da Allemanha, fizeram

um

ultra-ema-

nuelismo, foram pantheistas. Para restabelecer a verdade

no problema, convém ter presente, que o Christianismo é um factor que se não pôde eliminar, mas que ainda não está compreliendido. O que representa o Christianismo como religião moderna? Uma consequência reflexa do estado dos
espíritos, e

não

uma

acção directa; por isso Christianismo

e Romantismo são manifestações simultâneas d'esse estado. As religiões antigas, como o polytheismo védico e grecoromano, eram formadas sobre mythos tradicionaes; esses

*

Panorama,

t.

ii,

p.

211.

ALEXANDRE HEBCULANO

387

mythos foram elaborados"
tos,

em

personificações, allegorias,

symbolos, e as suas formas foram decaindo

em

lendas, con-

epopêas e outras formas tradicionaes das lilteraturas

d'esses povos.

Á

medida que os mythos iam decahindo do

respeito sagrado, as religiões foram perdendo a sua base,

e dissolvendo-se; é por isso que o brahmanismo soííre no

seu seio

uma

transformação profunda, o buddhismo, e o
facilmente
substituído pelo

polytheismo greco-romano é

cbristianismo. Eis o grande facto: importa explical-o.

Em

vez da base mythicay o espirito

humano procurou para a
é o

sua crença

uma

base moral;

tal

pensamento d'essas

duas

religiões,

buddhismo

e cbristianismo, tão análogas nas

suas formas dogmáticas e cultuaes.

O desenvolvimento das

especulações moraes fez triumphar o cbristianismo sobre o

polytheismo mythico da civilisação greco-romana, e essa

mesma

especulação na forma de subjectivismo sentimental
litterarias

desenvolveu as manifestações

do Romantismo,
Cbristia-

differenciadas por esse caracter das litteraturas clássicas.

Por

tanto, a critica explicando o
factos,

Romantismo pelo

nismo syncretisoy os

elevando a causa aquillo que
passividade myslica do cbrissi-

também

era

um

resultado.

A

tianismo, que recebeu nos claustros a forma litteraria, é

milhante a essa impressionabilidade doentia da escola byroniana das litteraturas românticas; differem apenas no fim
individual.

Os que sentiram essa impressionabilidade,

e pra-

ticaram a especulação subjectiva do sentimento, como Petrarcha, Dante, Miguel Angelo, Shakespeare, Diderot,

tém

todos os caracteres de Românticos, postoque a consciência
d'esla renovação só apparecesse no século xix.

Havia
ciphnar

em
uma

Herculano

uma

incapacidade philosophica para

julgar bera o seu meio social, e sobretudo para poder dis-

geração.

A

exclusiva educação clerical deu-lhe

a comprehensão ascética sobre o mundo exterior; o retrato

que

faz

da sociedade porlugueza, immensamente carregada

dSo

HISTOBIA DO ROMANTISMO

EM FOBTUOAI.

em

1839, mais carregado ainda

em 18ol

nos artigos da

Paiz, ainda mais desalentado no prologo do quarto volume

da Historia
repete-se
civil

em

1853, e no prologo de despedida de 1863,
violência na carta sobre o
a

com mais

de 18651 Sempre

condemnação, e nunca

Casamento um ár de

esperança; era para quebrar todas as energias.

No

artigo

sobre o Ghristianismo escreve,
«Portugal converte-se

em

13 de julho de 1839:

em

paiz de bárbaros; o assassínio é

ura desafogo; a dobrez

um

mérito, o prejurio

um

calcula

de interesses, e apenas o parricidio será
rendo, nâo abominável, nâo maldito,

um

feito,

não horse re-

mas digno de

prehender nos jornaes.»
car a geração nova

*

Proclamava a necessidade de eduvia directa

como

para a transformação

do futuro, e apresentava o Ghristianismo como a panacêa exclusiva: «julgámos poder alevantar a voz em favor da religião,

que tão esquecida anda
falta

em

o nosso Portugal.

«>

E em

seguida lança sobre o futuro este olhar de previsão, que

denota a

de critério: «Ainda está occulto no provir

qual será o symbolo universal do Ghristianismo;

mas

a

missão do presente é

a religiosidade.
foi

y>

^

D'este

feitio a

sua

direcção sobre us espirites

uma

calamidade.

Em

1851,

em

artigo de

29 de outubro, no Paiz, escreve estes traços

sobre o estado de Portugal:

«A

historia politica é

uma

serie

de desconchavos, de tor-

pezas, de inepcias, de incnherencias indesculpáveis; ligados

comtudo por

um

pensamento constante, o de se enriquece-

rem

os chefes de partido! Ideias, não se encontram

em

toda
li-

essa historia,

senão as que esses homens beberam nos

vros francezes mais vulgares e banaes. Hoje achal-os-eis

amanhã reaccionários; hoje conservadores, amanhã reformadores olhae porém com attenção e encontral-os-eis sempre nullos.
progressistas,
;

1 Panorama,

t.

in, p.

219.
108.

2 Panorama,

t. ii,

p.

.

ALEXANDEE HEBCULANO

«A historia da nossa industria é a historia da lucta entre o trabalho e a administração. Quando o tem querido proteger os governos só lêm sabido contrarial-o. Lede a pauta
da alfandega, as
leis

dos foraes, esse calios de

leis

incohe-

rentes e parvas que se têm feito, e vereis sempre a

mesma

ignorância dos princípios económicos geraes, ignorância da
Índole e necessidade do paiz
. .

«A

historia da instrucçâo publica é similhante ás outras.

As escolas superiores tèm de estar em defesa permanentemente contra as aggressões dos politicos ignorantes, que as consideram como inimigas suas irreconciliáveis. As

escolas primarias, a instrucçâo do povo, a mais essencial

de Iodas para o bem da nação,
cida,

essa, abandonada, esque-

perseguida pelos tartufos politicos e não lendo força
elles

para luctar com

succumbiu ...»

remédio que apresenta, é derivado da

mesma

preoc-

cupação religiosa, quer (upadres virtuosos, para propagarem
os princípios suaves e eminentemente liberaes da verdadeira
religião.»* E ha que numero de annos havia já Augusto Comte demonstrado que os progressos têm uma evolução normal, primeiramente scientificos, depois moraes e conse-

quentemente económicos?

Quem

quizer

transformar

um

povo, antes de refrear-lhe coactivamente os costumes dôIhe noções verdadeiras das cousas, isto é, sciencia, que a

moral e

a industria brotarão d'essa energia mental.

Por fim,

Herculano

comparava Portugal aos últimos dias da decacomparava-se aos anachore-

dência do império romano,
tas,

e

comparava Lisboa a Nicéa discutindo subtilezas

theologicas quando os devastadores lhe
ros.

demoliam os mu-

Uma

cousa attenúa estas jeremiadas; eram parte obriestylo,

gada do seu

que precisava de metáphoras

violentas,.

1

Paiz, D.» 84, de 1851.

390

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL
para encobrirem a
falta

de paradigmas históricos de

eíTeito,

de abstracção e de analyse subjectiva.

No prologo da
que a

terceira edição da Historia de Portugal,

espécie de testamento litterario de Herculano, declara elle
gloria litteraria fora a única

ambição que o movera

e a ultima que o abandonara.

A

nação inteira reconheceu

unanimemente essa
a

gloria,

quando o escriptor se entregava

uma

absoluta abstenção de actividade intellectual; essa

descrença era a posse de
a que se visa, é

um

poder sem destino.

A

gloria,

um
;

estimulo diverso da vocação.

outro logar dissemos: «A vocação litteraria

Como em resulta de uma
que leva

organisação especial

é essa sacrosanta fatalidade

um homem
Du

a usar e gastar o seu corpo sacrificando -o á adi*
litteraria

vidade da intelligencia; a vocação

levava Anquetil
ir servir

Pérron a sentar praça por dinheiro e a

na ín-

dia, para lá descobrir o zend, resistindo a todas as seduc-

çôes das bayaderas, affrontando os chmas inhospitos da Ásia,

para estudar os dogmas das religiões da índia, e enriquecer a sciencia da Europa

com o
morrer
foi

livro

do Atesta;

foi

a vo-

cação

litteraria,

que

fez

Ottffried Mijller debaixo

do ardente

sol

de Delphos;

também

a vocação Htteraria,

que levou Agostinho Thierry a cegar sobre os monumentos
da Historia de França, e que o
fazia dizer, ante o Instituto,

quando
morrer:
via

não podia continuar o seu trabalho, perto da
fiz, e o que eu faria se tivesse minha carreira; eu tornaria a tomar aqueila

— Eis aqui o que eu
a

de recomeçar

que

me

trouxe a este estado. Cego, e soffrendo
allivio,

sem

esperança e quasi sem

eu posso dar este testemu-

nho, que da minha parte não será suspeito. Ha alguma

cousa que vale mais do que os gosos materiaes, que é melhor do que a fortuna, melhor do que a saúde, 6 o sacrifício pela sciencia.

— Para

o progresso do

homem

sobre a

terra, estas palavras valem mais do que o achado da mais

pura moral. Que diríamos de

um

Littré, d'esses dois san-

ALEXANDBE HEBCULÁKO
tos obreiros Jacob e

391

Guilherme Griram, de

um Pedro

José

Proudhon, ou de

um

Raspail, e-de tantos outros? Veneran-

das sombras que passaram imprimindo direcção ao seu

tempo; mas não se queixaram, e trabalhavam por

isso
*

mesmo que
conflicto

havia

quem

divergisse das suas opiniões.»

A

vocação não se preoccupa com a gloria, pelo contrario o

com o meio

social,

com

as opiniões estacionarias, é

com as ideias preconcebidas, uma condição natural para

o desenvolvimento da sua energia. Natureza melancholica,

um

pouco tendendo para

a

vesânia periódica da perseguiirritável,

ção, o

que se explica pelo temperamento

que se

caracterisava vulgarmente

como orgulho,

e pelo resto

de

orientação da tremenda crise do absolutismo, Herculano não
sentia na sua actividade o apoio inabalável de

Depois da polemica do Milagre de Ourique,

um destino. em que dera

um

relevo

pasmoso

ás inepcias de alguns padres obtusos^

julgou-se victima de
a qual

uma

vasta conspiração clerical, contra

nem

o próprio governo tinha força para o proteger!

Resolveu não progredir nos seus estudos históricos, dizendo

que lhe haviam quebrado a penna nas mãos. No prologo dos Opúsculos explica o seu isolamento: «Após largos annos consummidos na vida agitada das
baixel mais de
letlras,

em que o meu
do

uma

vez fora açoutado por violentas tempes-

tades, tinha, emfim, ancorado no porto tranquillo e feliz
silencio

e da obscuridade.

Herculano gosava os effeitos

thcatraes d'esta abdicação
a própria decadência.»

em

que «o

espirito sentia

bem
falta-

Para Herculano proseguir na Historia de Portugal
va-lhe

um

ponto de vista; escrever para apurar datas de

casamentos, de bulias e rescriptos que regularisavam os interesses de príncipes, é

um

mister

bem

ingrato.

Compreo pas-

hende-se que, nas luctas politicas da França

em que

1

Bibliographia critica, p. 196. (1878.)

392

HISTORIA DO ROMANTISMO

EM PORTUGAL

sado reagia pela Restauração contra os princípios de 1789

que se expandiam na sociedade moderna, Agostinho Thierry se lance ao estudo da historia como a um campo de batalha,

para sustentar que a Democracia de hoje era nascida

d'essas classes servas que luctaram contra os barões feu-

daes.

É

assim que se acha vida na historia, que se recon-

struo o passado.

Gomo
de

é

que Herculano podia comprehenpovo atrophiado pelo catholicismo,

der a vida

politica

um

se elle era

um

christão fervoroso e poético?

Como

julgar

a instituição da realeza, que atacou as garantias locaes foraleiras, se elle era sinceramente

monarchico? Como, apreadmi-

ciar os Municípios, se elle acceitava a centralisação

nistrativa

do constitucionalismo com

pequenas restricçôes?

Sem
•o

o intuito de

um

processo, de

um

inquérito, de

um
té-

protesto,

mesmo, não

se faz historia; Herculano tinha só

ponto de vista da veracidade diplomática, e por isso o

que produz essa obra fundamental, que ninguém lê, porque nâo tem encanto, atacou-o também a elle, aborredio

ceu-se do trabalho e abandonou-o.
nico,

No seu
a

desalento chro-

Herculano chegou

também

perder as esperanças

sobre a marcha progressiva do século xix: «Na minha decadência intellectual

vem-me

ás vezes ao espirito a suspeita

de que este século vae acabar nos braços do gongorismo scientificOf como o xvi expirou nos braços do gongorismo
das phrases e das imagens.»* Os grandes problemas da
atomicidade, da equivalência mechanica do calor, da analyse
spectral, da physica sideral, da synthese chimica, da histo-

chimia, da physiologia e pathologia cellular, do transfor-

mismo, da evolução orgânica, da psychologia experimental,
a constituição scientiíica dos factos sociológicos, na linguistica,

nas religiões comparadas, na archeclogia pre-historica,

na antropologia, ethnologia, na mesologia, elementos con-

^

Carla a Andrade Ferreira, de 15 de juobo de 1872.

ALEXANDRE HERCULANO

393

cretos de

uma

nova sciencia

— a Sociologia, toda esta somma
homem uma
nova consciên-

de esforços que asseguram ao
cia,

eram para

aquelle espirito dirigente os

symptomas de
de
es*

gongorismo
foi

scienlificol

A

consequência d'este estado mental

a impossibilidade de actuar sobre o seu tempo, e

educar
crever

uma
uma

geração.
vista,

Acceitando o ponto de

que Herculano tentava

vasta Historia de Portugal, e não

uma mono-

graphia das Instituições sociaes da Edade Media portugueza,
as proporções

que delineara, e o processo extremamente

analytico seguido, não só tornavam a sua realisação incompativel

com

a acanhada vida de

um

navam

essa obra gigante absolutamente illegivel,

homem, como torsem ac-

ção sobre o espirito e a educação publica, valendo unica-

mente para ser consultada de um modo parcial e sempre com menos vantagens do que qualquer monographia. aPortugal,

como

em

outro logar dissemos, é o paiz que mais

desconhece a sua historia; d'aqui resulta o abandono da
tradição nacional na arte, o despreso pelos seus
tos, a

monumen-

separação lamentável entre os escriptores e o povo,

a falta de convergência e de plano na actividade politica

dos que exercem a aucloridade,

e,

o que é mais

triste,

da

parte da nação a incapacidade de julgar as instituições abusivas

que atrophiaram a sua energia, e a apathia com que

se submetleu sempre a toda a
leza,

ordem de

tropelias da rea-

que ainda

em

1847 chamou sobre Portugal

uma

in-

vasão ou intervenção estrangeira para manter-se na sua

posse dynastica.

O maior

serviço que se pôde fazer a esta
d'ella se

nação é recordar-lhe a sua historia;

derivam todos

os estimulos de renovação intellectual, moral e económica,

porque os

factos

do seu passado são

bem

eloquentes para

convencerem de que, pela

influencia secular

do jesuitismo

se atacou mortalmente a manifestação da intelligencia por-

tugueza, pela extincção das cortes se abafou a vida nacional

e sacudir todas as invasões da esphera simplificar os serviços pú* blicos. é só porque exprimem com maior clareza a ideia que está na consciência de todos. como o portuguez. a rasão da sua independência para luctar por perce- berá como reduzido a beneficio de lisou uma familia se immobi- em feudo. vol. e explorar as fontes vivas da sua riqueza. que iam pela rapina as suas casas. ii. todos os esforços para o seu desenvolvimento serão improficuos elle em quanto não adquirir as ideias que hão de ser o estimulo ou o determinismo da sua própria acção. em um systema administrativo das colónias cujo fim era o engrandecimento dos governadores ou fidal- gos arruinados. é fornecer-lhe as noções que hão-de determinar os seus actos de transformação e de progresso. os povos não se movem pela vontade dos tribunos. nem os agitadores têm esse poder fascinador que arrasta as multidões tr'ora se julgava. É por isso que em um povo um povo apathico.394 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL partindo a orientação da vida publica da devassidão palaciana.e atrasado. 140. a propósito aYites dos levantamentos populares. Dizia como ou- um ministro francez. encadeiem-se-lhe os factos e elle comprehenderá ella. Se os tribunos têm acção sobre n'uma dada hora. . Para fallar a este povo sem interesses. politica. em grande parte alheio ás conquistas do seu tempo. que de se procurarem os chefes se procurassem as ideias que sugeriam esse movi- mento. e pelo regimen do absolutismo-cesarista dispende- ram-se as riquezas nacionaes pidas.» 1 o Positivismo. em faustos e fundações estú- em tratados que e arrumaram para sempre a nossa industria. p. a lição mais agradável e persuasiva é a da sua historia. e saberá pela expressão da sua soberania fundar um regimen de liberdade civil. official desempenhar «Pôr em relevo a historia d'esta pequena nacionalidade.

tinha sido testemunha ímmediata dos successos. 1846. '1817 e 1851. Era. a falsiíicação do movimento sublime de 18^0. investigando a causa da transformação do regimen absolutista em liberal desde a introducção das ideias francezas ou jacobinismo até á transigência provisória' do constitucionalismo inglez. e sentia as grandea indi- gnações da justiça. a epopéa do cerco do Porto. Maria n. que eloquentes factos para darem á nação a resistência que torna um povo livre e cmprehen- dedor! Estava Herculano em estado de emprehender este trabalho tão profícuo? Possuía todos os elementos concretos. ou começar as suas investigações partindo dos suctrabalha. mo. João vi. Isto. acima de tudo. co- nhecia os homens. fez á nação. Porque não fez esse grande serviço nacional? Porque se deixou amputar pela dependência. e não tratou de emancipar a sua consciência d'esse deismo estreito que o fazia considerar a clvilisação humana como que não a formula profana do christianissi. e essa obra tivemos porque as chronicas monáscatholi- fundamental nunca ticas e oíficiaes só a consignaram o que convinha ao cismo e â monarchia conciliados em explorar os povos pe- ninsulares. Todo esse miserável reinado de D. Sob o ponto de vista de lição era pela historia moderna que se devia começar. também o não fez para . acceitou o faévor do paço em 1839. em quanto á sua acção pratica e emquanto ao intuito philosophico. a dictadura perpetua atacada em 1836. os caracteres. segundo as condições emprehender o resumo ou condensação accessivel ao tempo e á intelligencia do vulgo. prevalecendo sobre a vontade nacional o arbítrio de D. para conseguir este fim. ouvido com adhesão espontânea. o historiador tem dois caminhos. ou em que cessos modernos para a antiguidade. o terror miguelino de 1828.ALEXANDRE HEBCTJLANO 395 Este deve ser o critério do historiador. Para se fazer resumo é indispensável as provas dos factos um bom uma obra fundamental onde fiquem com toda a sua amplitude.

« ed.396 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POBTUGAI. Havia muito que fazer. de Frei Luiz de Sousa. em Jacob Grimm. Sebastião. i. de Port. 3. na Historia 1 Bist. revelam a capacidade biblioiogica de Herculano. a educação Significa: A erudição autodidacta de Herculano encaminhava-o para este ideal. Assim leria exercido uma acção profunda sobre a renovação Portugal. da Academia das Sciencias moldados pela collecção dos Monumenta Geí'manica de Pertz. de Guizot. João III. monumentos portuguezes seduzido pelas vistas de Agostinho Thyerry. a edição da Chronica de D. O conhecimento da renovação histórica da primeira metade d'este século tentou-o. que escrevera toria de Portugal. e achar-se-ia cer- cado de discípulos formados na pratica das recensões dos inéditos. em Muratori.. t. ao empre- hender a Historia de Portugal «destinava lho ao estudo de um principe então na sua puericia . consignando as suas Memorias. como em Gujacio. e por ultimo o plano dos Portugalice Monumenta histórica.» «Ad usum Delphinil» também tem ás vezes a importância das manifestações do génio. de Frei Bernardo da Cruz. a edição do Roteiro de Vasco da Gama. _e uma bella His- de Roussew Sainte Hilaire. e se elle se houvesse limitado ao campo da erudi- çãe histórica teria sido o mais digno continuador dos tra- balhos críticos e paleographicos de João Pedro Ribeiro. A discussão da Chronica de D. . e nunca a Herculano faltaram os recursos para a publicidade.. n'este campo elle teria exer- cido a sua actividade até ao fim da vida. em La Gurne de Sainte Pelaye. o encetado traba* Preferindo refugiar-se no passado mais remoto.. e pelo exemplo de Schaeffer. e teria dos estudos his'oricos em educado-coma feti- severidade scientifica a geração que o admirou até ao chismo. que seriam de uma im- mensa luz para a historia do constitucionalismo portuguez.

de cujos moldes pretendeu desligar-se. ou um Meyer. quiz também a aptidão ser historiador. Unterholzner. guns exemplos: João derna. quiz metter em obra as suas Memorias sobre as amigas instituições sociaes portuguezas. Dubois-Reymond. mas isolar-se theatral. a superioridade de Savigny faz desenvol- ver a capacidade extraordinária de Jacob Grimm e os emi- nentes Guilherme Grimm. mas nenhum poder de evocação do passado. e essa esterilidade de vistas. um Darwin n'uma individualidade tempo. os espíritos supe- riores conhecem-se pela sua influencia. Koeliker. Citemos Miiller. e quando um dia se achou investido acima de inconscientemente de poder espiritual sobre esie paiz. O seu trabalho não influenciou o bastante para educar uma geração. Henle. tregavam também uma das e do ostracismo voluntário a que se condemnou. Para isto tinha apenas a severidade critica. Os verdadeiros homens de avalia pelo sciencia. Schwan. não espantam Florez ou de um um Muratori. Póde-se dizer que quando é um Herder. um homem influe sobre o seu um Lessing. como Herculano. nem as transformações politicas da península e synthetica para relacionar a nacionalidade portugueza com com o movimento como ós de geral europeu.ALIiXANDlU: HERCULANO 397 de Hespanha. é ter sido in- . recebendo as bajulações de mediocridades que' nem sabiam avaliar o seu methodo histórico. influencia que se al- numero e grandeza dos discípulos. tem o creador da Physiologia mo- como discípulos Bischoff. Dirksen. Virchow eHaeckel! O grande philologo Boeckh levanta o génio de Otifried ler e Miil- de Dissen. Nasse. e a sua Historia pouco se eleva uma monographia. Reichert. não soube exercel-o. Hasse. Eickhorn. essa impossibilidade foi de dirigir os que se lhe encausas do seu retraimento. etc. porque não tinha uma comprehensão phi- losophica das necessidades d'este povo. Assim ficou em tudo a meio caminho. os seus trabalhos de erudição.

saudando-o pelo insulso poema da Paquíta. um dos compositores mais originaes da Allemanha. sem ad- methodo scientiflco na historia. as suas obras eram lidas com recolhimento e orgulho. até o próprio que sem se saber como se elevou a sócio de mérito da Academia das Sciencias ter escripto cousa alguma. e julgando-o um génio dramático. quando Herculano morreu estava n'esse estado mental que só se define pela palavra moderna. dedicou-Ihe o seu romance histórico Ódio velho não cansa. Herculano vivia na lenda. Weber.398 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL fecundo. emfim. para Iriarchal quem era de uma inesgotável complacência. aturava Bulhão Paio. que . elle quirir a severidade do que sou foi em tudo um rhapsodista. e todo o Portugal e Brazil era considerado como o limáximo da capacidade portugueza. com Mendes Leal enganou-se elle tomando os Homens de Mármore como original. se tornou sem um dos seus mais Ín- timos commensaes. o apparecimento dos gran- des compositores allemães. mas nem por isso deixou de escre- ver esse vergonhoso livro dos Fastos da Egreja. tiram a sua originalidade da direcção do abbade Vogler. sugerindo-lhe a venda á Academia do manuscripto do Vocabulário de Ramalho. fortificando por meio d'essas legendas da amisade deslumbrada o poder espiritual que elle já possuia. plos são Emflm os exem- sem numero. Mayerbeer e Poizl. no retiro pada Ajuda. de Musset e de Byron. que exprime uma cousa moderna. frequentava-o Rebello da Silva. Infallibilidade. Em que serviu Herculano a sociedade portugueza. Outros ainda mais obscuros captaram a complacência do Mestre^ cujos ditos escreviam em notas e propagavam com uncção. Em volta de Herculano só se agru- param mediocridades. A acção de fatalmente sobre uma robusta individualidade reflecte-se uma geração. que ou- um dia parodiar o estylo digressivo Silva Tullio. em Era uma emoção que se não discutia. como um assommite bro.

ALEXANDBB HERCULANO 399 tanto precisava de impulso para se reorganisar desde que entrou no regimen do parlamentarismo? Revocou-a ao seu passado. Poucos serão os cérebros capazes de resistir a essa aura inebrialite da consagração publica. litterarias ou autolatria inconsciente. emfim inspirou-lhe um patriotismo negativo. fallou-lhe do cava- lheirismo dos capitães da Africa. que arredava o espirito publico da corrente das ideias modernas. as obras poéticas. Em vez de proclamar a ne- cessidade do conhecimento da renovação plnlosophica que se operava na Europa em 183á. Chea ter o gueza. fallou-lhes dos frades. fallou-lhe das resistências heróicas contra os mouros da fronteira. melteu-se em um gou systema de despeito pejorativo. fechou-se em um humanismo romântico com que deslumbrou a mocidade. mas ninguém lhe deveu uma ideia. meio poético e meio heterodoxo. Ninguém poderia de que se achava impulsionar mais a evolução da nacionalidade. qual a ideia que d'ai saiu fecundando o espirito moderno? Nada. Leiam-se os seys livros. debaixo d'essa rhetorica emphatica. Todos amaram e respeitaram ilerculano. único em vez de provocar o estudo das sciencias na- meio de fazer progredir e fecundar uma geração. e extinguiu a sua capacidade politica tornando-se apaniguado do paço. Herculano caiu em de cumulo da vaidade. mas patriótica. se é que tivesse a comprehensão do poder espiritual investido. . nenhuma noção iniciadora para a consciência. esse poder espiritual era o resultado do fetichismo por um homem. debaixo d'essa acumulação de factos concretos e de processos polémicos a que elle chamou historia. É que esse poder não tinha uma origem racional e orgânica. turaes. e outros o históricas. em vez da acção directa. esterilisou-nos na contem- plação de um christianismo pessoal. máximo poder espiritual sobre a nação porlumas não soube usal-o para dirigir uma época. altivez uma que uns chamavam caracter.

porque é a consa- a sociedade uma causa de pro- gresso. e para este o elles um bem. . pela eliminação d'aquellas individualidades que possuem o social na edade em que já não avançam. é que Littré. por isso Comte e com elle Maudsley entendem que maior poder a morte é um factor natural do progresso. Foi caso de Herculano. podem dizer como sa- saudando os novos obreiros da philologiá em França: que «Quando se tisfação ó velho. e á obra dos em novosi»* e Em 1858 escrevia Herculano no prologo das Lenda^ Narrativas. todos os antigos professores e naturalistas da escola taxonomica de Cuvier são de um desdém intolerante contra a philosophia zoológica. apesar posições. a morte é para gração da gloria. historique de la Langue frai^çaise. Préíace de la Gramm. D'onde se vê que é preciso que passe esta geração estacionaria para que as novas theorias entrem na circula- ção do ensino pratico. xix. sem saber usar d'esse poder. prestar em voltarmo-nos bom testemunho para aquelles que vêm. e. porque cessa de actuar uma força dissolvente. que sabem julgar-se e julgar as condições do meio social. p . entre os nomes que despontam apenas nos horisontes lilterarios. condemnam pelo descon- tentamento da edade as gerações que entram no conflicto da vida. não virá em breve alguém que offusque os que nos deixaram para nós somente um bem modesto 1 logar?» Aos quarenta e oito annos de edade.400 HISTORIA DO BOMANTISMO EM POETUOAL estacionamento intellectiial dá-se também nos cérebros os mais disciplinados pela participação scientifica. do immenso talento que se revela nas mais recentes comquem sabe se. E quando essas individualidades se acham investidas de um inimenso poder espiritual sobre a sociedade do seu tempo. elogiando a geração dos ultra-romanticos: «E todavia. Só os espíritos dirigidos por uma perfeita educação philosophica. e prestes a deixar a carreira. e principalmente contra o transformismo darwi- niano.

enojaram-n'o. A teiro educação fradesca de Alexandre Herculano no Mosdas Necessidades. e as modernas doutrinas íicas uma nova forma de gongorismo. segundo o sentido antigo quando passou o periodo da sua actividade litteraria no romance e na erudição histórica ficou-lhe um despreso profundo pelas sciencias modernamente constituídas. maior poder espiritual que as novéis intelligencias existiu n'esle paiz desauthorando que fallavam em cousas novas. Eslhetica. aliás sonoros ou moldados pelas fórmulas de uma obscura philosophia. de que não pôde tomar conhecimento. . Ethnologia. e elle envolveu no seu despreso soberano os novos que mais tarde appareceram sem o apoio das correntes otBciaes. (mais velho aiuda que o corpo) que quentemente ai me escapa o sentido de muitas cousas que por se escrevem. que o enfraqueceram. como Prehisloria. vem-me ás vezes ao espirito a suspeita de que este século vae acabar nos braços do scientifico.» estacionamento. «Ando é o que se lê em uma fre- carta: tão alongado da litteratura actual e está este espirito tão velho. e uma orientad'esta palavra. Linguistica ou Glotlologia. Mylho- graphia.— Na minha decadência intellectual. ção intellectual no sentido da Iheologia dos seus primeiros annos claustraes. 26 Demographia.ALEXANDBE HERCULAKO 401 Herculano ainda acreditava na possibilidade de se manifestar uma geração mais forte. caindo-me a mente cansada e gasta. mas os que o cercavam tantas home- nagens lhe deram. é o passado não é o condemnando o presente. nunca tifica. modificada por uma reorganisação mental scien- era simples humanista.. gongorismo como o xvi expirou nos braços Isto já do é o gongorismo das phrases e das imagens. foi a que allude mais de uma vez. porque elle mesmo ainda se sentia progressivo. Simbolismo comparativo e origens poéticas ou Paleontologia sentimental. Para elle a linguagem philosophica era scienti- apenas períodos sonoros. Mesologia. na sin- gular illusão de não achar senão períodos.

elação do milagre de Ourique na Historia de Portugal. e três capítulos Sobre a conversão dos Godos ao catholicismo. (1857) no Manifesto ao Partido ral. e que a imprensa reaccionária de Hespanha escrevesse isto por occasião da sua morte: «Nós.402 HISTORIA DO ROMANTISMO KM PORTUGAL Sociologia. (1858) e libe- nos Estudos sobre o Casamento civil (1865 e 1866. e outros elementos da pro- funda renovação Herculano. mas ape- sar de tudo. A geração nova precisava ser fortalecida. chegou a mandar construir na sua vivenda de Valle de Lobos uma affirmações deistas capella. Foi quanto bastou para que o clero portuguez lhe fizesse uma guerra dos púlpitos e da imprensa reaccionária. declarando lios com longas demonstrações dos conci- que as questões vitaes do nosso século eram o Immamlatismo e o Infallihilismo. Herculano caíra na primitiva orientação theologica. como se vê. repetiu-o reprovando o novo critério politico da Democracia na carta sobre as Conferencias do Ca- sino e no prologo em que precede nos Opúsculos a Voz do Propheta. Herculano continuou acredi- tando na divindade de Jesus. e n'este estado de espirito com uma simples noção de cri- tica histórica omittira por simples bom senso a r. já que nâo podia ser dirigida por E o que elle fez. scientifica d'este século. louvámos a misericórdia . reappareceu esse estado no motivo da composição do livro sobre as Origens e estahelecimento da Inquisição. os seus actos de caridade evangélica e as suas não obstaram a que algumas obras suas fossem incluídas no Index.) Ficou n'esse theologismo. e entre os seus papeis acha- ram-se como últimos escriptos quatro cartas contendo uma extensa discussão sobre assumpto religioso. (1854 a 1859) na polemica da Reacção ultramontana. Herculano não se elevou acima da metaphysica cbristã. atacando-o co- mo se fosse um Feuerbach. porque não dizel-o?— quando vemos quebrada pela morte a penna de um impio. Realismo na Arte. condemnando as tentativas de renovação mental.

Bem pressa estes «luminares do pensamento» que compartilham as suas opiniões se irão encontrar com elle. teria sido si um escri- ptor inglez notável.» São estes os chei- ros que escapam involuntariamente da gangrena da hypocrisia. dVlle um biltre litterario A sua morte não ó perda para ninguém. junta a as suas contas. e pela predilecção dos seus estudos canónicos e de historia ecclesiastica. As phrases contra Herculano são acima de tudo nma prova de estupidez. aggravou a ane- em que se deixara cair.) Spencer na sua Introducção á Sciênda social^ p. e nos últimos annos de Valle * El Siglo futuro. . 2 D'um Ecclesiastico com vinte e oito annos de exercido. mia a falta de hygiene na vida do campo. Herculano quiz ser abste- mo. de Madrid. mal acobertados com o almíscar beato e sensual de todas as sacristias. que livra a sociedade de iim inimigo. mesmo modo em Inglaterra. porque era um incrédulo.ALEXANDRE HERCnLANO 403 de Deus. dizendo: «M. ^ e isto será bem bom para a Egreja e para o Estado. se não enten- dêssemos que o deprimíamos com a conhecer chamar-lhe-iamos isso. Ap. porque Herculano não foi um livre-pensador.39â tirou a luz que âe encerra Doesto facto. não de primeira ordem. para melhor dal -o egreja. e pedimos * aò céo pela alma do desgraçado que mallogrou seus talentos sacrificando-os á revolução. (No Church-Herald de 14 do maio de 1873. mas de- um incrédulo amável e um perigosíssimo sujeito. Stuart Mill. Diário de Noticias. — um padre da Por um capricho de caracter. um facto psycholo- porque demonstram que a moral do christianismo já Mill hoje é ineílicaz para dirigir as paixijes dos seus adeptos. se a consciência de próprio. que lhe fizesse uma extrema presumpçâo. que acaba de prestar era innata.» Estas palavras tem o grande valor de gico. nem acompanhou a evolução da ideia revolucionaria depois de 1833. Na morte de Stuart do também os catholicos procederam J. de 21 de setembro de 1877.

uma significação profunda. entrando na agonia ás cinco horas da tarde até ás dez em que succumbiu. os médicos em conferencia julgaram-n'o irremediavelmente perdido. e no dia i3 aggravou-se progressivamente o seu estado. que po- remos em relevo como a conclusão do presente estudo. . sabendo que ia morrer pediu aos que para vèr as arvores. que o enfra- queciam profundamente. um silencio em volta do ficara mytho. Durante dias a imprensa jornalistica explorou a ção. durante a espectativa da audiência e recolheu-se a casa com uma pneumonia Não tinha o sufficiente vigor para ser tratado. o rodeavam que lhe abrissem a janella A noticia da sua morte causou uma impressão immensa. 1. emo- mas nenhum dos admiradores do typo lendário mostrou haver estudado as obras de Herculano. á meia noite. Na segunda viagem do imperador do Brazil a Portugal. 17. pedido do imperador consta que Herculano escrevera a sua Carla sobre yid. Opúsculos. a sympaihia pelas plantas. nenhuma voz se levantou explicando o homem com a severidade que compete aos que ficam na historia. * ir comprimenlar o amigo que lhe offerecera o asylo do seu desacostumado das etiquetas palacianas arrefeceu dupla. caindo immediatamente na consumpçâo adynamica. fez-se em um monumento. que se rompeu por alguns signatários reclamarem o seu dinheiro quando notaram que Estes factos encerram tudo em nada. Fallou-se abrirara-se subscripções.404 HISTOBIA DO BOMANTISMO EM POSTUGAL de Lobos soffria por vezes febres sezonaticas. no dia 12 de setembro de 1877. a sua ultima preoccupação. para irem ao cemitério da Azoia acompanhar o ul- timo despojo do homem em Portugal foi mais admi- rado. official se Iodas as celebridades do mundo que dirigiram a San- tarém. Em uma 1 sociedade apathica intellectualmente e^economi- A a Emigração. Aquelle amor que Herculano revefoi lava nos seus versos. Herculano entendeu do seu dever império.

Herculano era também um catholico. a eslimular-se para a acção.ALBXANDBR HERCULANO 405 camente. escreveu para uso de a li- um príncipe. obrigando-a a pensar. Herculano era monarchíco. A actividade de Herculano examinada com um intuito philosophico leva a deduzir uma illusão que fazia conclusão importante acerca da missão do escriptor: As sociedades humanas compõem-se de forças de conservação. o ter poder espi/iiual sobre em sophismar as uma sociedade n'estas condições deploráveis é claro um symptoma lisoa- de mediocridade. submettida a todas as trope- uma realeza parasitica occupada garantias consLitucionaes. que cessa a achar no illusão que perverte homem uma superioridade reconhecida unanimemente. prognosticando que o futuro da civilisação era a religiosidade. e por isso como vez historiador ao estudar as instituições portuguezas. e nos lembramos que a Herculano ella con- feriu indisputavelmente um absoluto poder a cri- espiritual. é então tica. como lias dtí a portugueza. É porque essa inteiligencia stalicas geou de algum modo as forças de conservação que preponderavam na sociedade portugueza. com intimas relações de favor com o paço. dizendo que a instrucção só podia alcançar-se á custa de padres instruídos. em de procurar n'csse problema das origens os elementos de evolução para as transformações iniciadas pelo regimen beral. declarando que ella nação nada lhe devia porque não fora para a sua obra. e por isso a analyse histórica scrviu-lhe para manter a veneração im- niovel do passado. a ter opiniões. as quaes deixadas a mesmas ten- . si naturaes e instinctivas. fallando contra a extincrão das ordens monásticas. com uma erudi- ção de canonistas e santos padres. é porque cora o seu trabalho não incommodou a apalhia mental incutindoIhe ideias. Quando téril se observa nos viajantes e diplomatas estrangei- ros o quadro da sociedade portugueza d'esta época tão es- do constitucionalismo. a discutir.

deve ter em vista impulsionar es- sas forças staticas. é por isso que o escriptor. escrevendo. emíim todos os que pensam por si devem ser revolucionários.406 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL dem para uma espontânea iramobilidade. só pôde ser admirado pelos que estiverem do lado da inconsciência. fallando. inventando. todo o homem capaz de ter ideias. o artista. ou quem não comprehende e põe as suas forças intellectuaes ao serviço do passado. Só assim é que essas forças de conservação se podem aproveitar como ba- ses de ordem. co- mo impulsos individuaes contrabalançados pela conectiviestável. tomando-as apenas como factos reaes que modiQcam as concepções subjectivas. . dade Quem não cumpriu a esta missão por instincto próprio. phantasiando^ imaginando. exercendo uma acção improgressiva.

Fez-se estylo nos relatórios. serviu-se da antiga rhetorica para envernisar as banalidades que supprissem a falta das ideias.LIVRO III A. F. DE CASTILHO (1800—1875) A superstição do estylo. ou realmente domina' uma atonia mental. sobre tudo aquellas que têm a ses sonoras apoio da auctoridade oflicial. O sçculo xvu em Portugal foi o século da rhetorica e dos oradores. uma incapacidade de formar juizos. e acceitava-se submissa- mente a opinião apoiada por uma auctoridade ofQcial do inundo politico ou litterario. e se exerce a palavra em phra- sem sentido. em que o constitucionalismo deu importância á burguezia pela necessidade das maiorias. Comprehende-se que o secula . ou não existe liberdade intellectual para poder ter ideias. e se adoptam opiniões preestabelecidas. para communical-as. o século xix. nos artigos de fundo do jornalismo e nas obras de litteratura. o culto e admiração pelas pomsocie- pas rhetoricas são um symptoma terrível em uma dade.

conservada durante lodo o século xvui. e o silencio systematico /de Herculano em 1859. A inca- pacidade da analyse scientifica e da concepção subjectiva conhece-se n'esse falso Jyrisrao seiscentista. até ás primeiras communicações com a Europa em 18á4 e i828. Achou-se assim fundada uma pedantocracia. que os dispensava das duras provas da vocação. pelas pela vernaculidade. glorificavam-no para alcançarem a vénia. o vulgo acceitava essas consagrações. I fácil lhe foi converter-se em /'pontífice litterario. virava-se. a que se deu o nome de Elo^ . atacar a liberdade í do Romantismo pre- ferindo a convenção arcádica. A morte de Garrett em 1854. porque diante das fogueiras da Inquisição. O vicio palavroso do regimen parlamentar manteve a necessidade da rhetorica na litteratura. os seus juizos conferiam talento. pelo iphrases arredondadas de locuções obsoletas. deixaram Castilho em campo como o luminar dos novos. nâo havendo entre nós liberdade intellectual quando ella se exercia com vigor nas Academias da Euro- pa. Foi n'este sidade e da instrucção elementar.40S HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL do gongorismo fosse rhetorico. manteve o habito de dis- pensar as ideias preferindo os effeitos meio que Castilho se tornou ítylo. uma vez re- conhecido como auctoridade. ninguém se oc- cupava com as ideias. bastava o estylo para a reputação e futuro de um homem. em que o cérebro humano desceu aos maiores contrasensos. reputações sem funda- mento. contornava-se. e os medíocres cerca- vam-no. persistiu na sociedade portugueza reorganisada pelo constitucionalismo. O talento oratório gastou-se todo em Sermões. O exagerado humanismo da Univerda palavra. porque nada havia a dizer. impor á burguezia. e na predilecção exclusiva dos poemas-chronicas. Esta situação mental. um grande escriptor pelo essabor quinhentista. a palavra servia unicamente de objecto e fim do discurso. que precisa ler í alguma cousa que admirar.

Castilho trans- com o Romantisrpo traduzindo Goethe e Shakespeare.CASTILHO 409 gio mutuo. Entrava-se em um vos outro regimen mental. focos de ideias que collocaram os no- em dissidência com um passado que se prolongara muito além do seu momento histórico. mas cia já era tarde. a critica scienlifica apeou-o. em que ponderava a scien- e a philosophia. As primeiras ideias que circularam perturbando este éden da idiotia pareceram igiu um attentado. .

persistência da tradição I. Castilho não querendo Amedrontado pelo ecco das luctas sociaes. Domicilia Máxima de Castilho. da egualdade. e o catholicismo n'essa coUigação obscurantista que desceu até ao absurdo da infallibilidade. e a monarchia en- trou na renovação das grandes guerras. o catholicismo e a monarchia. perturbaram com medonhas reacções a evolução da Europa. a poesia abafada pela rhetorica. Mamede da Castanheira do Vouga desde 1826 até 1834. que tendiam a fazer terminar o regimen revolucionário.Nascimento e lendas da infância de Castilho. —A pto do seu primeiro poema. veiu á luz com o despontar do século. e pela constituição de novas sciencias.— loQuencia do accidente desgraçado da cegueira sobre o seu talento e caracter. João vi em 1817. O século surgiu impul- sionado por novas doutrinas politicas. A piedosa confraternidade de Augusto Frederico de Castilho. Em 1820 celebra no Outeiro da Sala dos Capellos em Coimbra a conquista da soberania nacional. — — acclanoaçílo de D. e de sua mulher D. Primeiros estudos. segundo o intuito da sua laboriosa genealogia appensada á versão do drama Camões. mas esses dois poderes que se dissolviam. do Dr. assum- Castilho maldiz os principies da liberdade e — — — Quasi todos os agiographos encetam a vida dos santos dando-lhes sempre pães honrados. Influencia do poemeto de Ecco e Narciso na sua vida. em quem a propensão filiios. comprehender o século nas suas 11 u- ctuações de princípios e de crenças. — — arcádica nos seus ensaios. que se achavam sem destino em a nova era scientiílca o industrial. da virtude se ia sublimando até á predestinação dos O mesmo se deu com António Feliciano de Castilho. José Feliciano de Castilho. Em 1824 exalta nos mesmos Outeiros poéticos a restauração do absolutismo. nascendo em Lisboa. lente da faculdade de medicina e principal redactor do Jornal de Coimbra. Retiro no priorado de S.410 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL § (De 1800 a 1834.)-. a 26 de janeiro de 1800. adheriu ao lado statico .

coloridas e animadas pelo suavíssimo ese de que exerceram uma grande acção na * forma d'aquella individualidade. A sua infância está ornada com as doces lendas domesticas. p. p. e tão já ler e menino. e preferiu sempre a imitação á invenção. thema de admirações e de rtiputação de Castilho foi felizes ^ prognósticos para os parentes e amigos da familia. a familia Castilbo assegurou-se em breve da solidez c fortaleza das basee. Embalado nos frocos da lenda onde Castilho viveu comparado também a Homero c a Milton. apaixonando-se pelo geometria. Nas Excavações poéticas produz-se um testemunho de Joa- quim Machado de Castro em que o insigne esculptor da Estatua equestre fica tão assombrado com os talentos do menino cego para a escolptura. apesar de cego. tobiograpliico: Eis um precioso dado au- «Encetava eu a carreira do estudo.se o perstipróprios uma adoração ccjía e inconsciente cimentada por aíleições domesticas. e Melancholia. tão menino.» A um producto d'essas lendas domesticas propagadas por seus irmãos. na supposta biographia hespanhola de Cadiz exalla-se o talento de Castilho para as Mathematicas. que escreve pedir a uma jaculatória a Deus pela sua saúde. quando saiu * «Adquirida uma certa aura de rcpulação pelas insinuações llsongeirasqueos membros da familia llie dispensavam pela imprensa. era (nunca a minha vaidade o esqueceu) um . ua Chave do Enigma. A questão du Fausto. em que cila poderia assentar o edifício de uma escola litteraria inleirameule sua. 204 do Amor . que o ouvirem-me verem-me formar caracteres. e a Salinas. cantou a monarcliia absoluta. retratado por Diderot. tradições pirito sempre família. e á nação para que aproveite aquelle prodígio. relirou-se de corpo e alma para a admiração dos exemplares antigos cuja predilecção adquirira nos seus primeiros estudos.CASTILHO 411 das instituições. também cegos. 67. Comparam-n'o ao génio extraordinário de Sam- derson. jã a precocidade da sua retentiva. adquirida cora facilidade* sem critica por parecer desacato a estranhos o quebrar. ora se conta a sua fraqueza valetudinária. 2 Castilho.» gio de (iraça Barreto.

412 d'ella HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL para ser analysado pela critica desprevenida só dei- xou a Dú uma inconsciente mediocridade. É certo porém que estes campos áridos. O que Castilho seria sem as lendas fraternas podemos descobril-o pelo typo de um outro poeta também cego. convalescendo em fol- guedos innocentes. uma ali disfruclou a sau- dável liberdade e soltura da meninice. .» Mesquita e Mello vivia improvisando em saráos fa- morreu desconhecido depois de 1875. contribuíram bastante para lhe darem uma Sideia mesquinha da natureza. No seu diz poema em oitava rima O Porto invadido e libertado. distraído á sombra das arvores de quinta dos arredores de Lisboa (Lumiar) . e na de dezenove ân- uos em que agora se acha. i Em uma ^'1816.» Os cuidados assíduos de Ião atribulada infância. padeceu de vermes muito. Castilho cita em um dos seus livros este metrlGcador. (1815) soffre ainda aquella triste sorte. e quasi octogenário António Joaquim de Mesquita e Mello. Mesquita e Mello: «O auctor teve a desgraça de cegar quando contava apenas um anno de edade.í<le um pêlo verdura. esta pobresa de seiva. e alguns an- nos teve tosse convulsiva pela edade de quatro annos. natural do Porto. quando por uma calamidade lamentável veiu a perder relações uma das suas mais immediatas com ella. e á força da qual deitou grande quanti- /dade de sangue pela bocca. que se pulverisam com as ventanias constantes de julho e agosto. * Os primeiros annos do poeta correram esquecidos na amenidade campestre. esta devastação systemalica do saloio que esgota a terra nâo lhe consentindo . lê-se: nota ao Epicedio á morte de D. que ^Ihe durou muito. tendo um anno de odade. se tivesse ^irmãos que o proclamassem génio seria um segundo Casmiliares e Uilho. nas crises perigosas Vlã uma que atravessou. Maria em «O auctor caiu por uma grande escada.

Passados os dois annos. e em todo o tempo esteve cego havendo : aperto das capellas sobre os bugalhos dos olhos. e que fora educado por . Começaram então ciiagas grandes mui doridas fpor todo o corpo. prodígio. sabendo apenas se era dia ou noite. por onde distingue apenas vultos e cores. N'este mas não objectos mais pequenos. qualidades que mais tarde se desenvolveram por . e começaram olhos. comprehender a sua individualidade e dar a rasão dos seus defeitos.CASTILHO 413 OS carinhos e condescendências para com uma criancinha doente. foi como para chamar a attenção sobre o pequeno quem se dizia que aos sete annos compuzera um^oemasinho sobre as Flores. a cegueira. dezeseis annos de edade.causa de uma fatalidade. os caprichos satisfeitos. de que está absolutamente cego. que foi pelo espaço de dois annos não possível descobrir um único ponto d'estes. nem tem let- máo estado o auctor tem em seus irmãos. porque a luz lhe dores horrorosas. lit- É impossivel poder julgar com inteira justiça o mérito terario de Castilho. a beneficio de banhos de mar. e dureza de pedra tal ganharam volume maior que um ovo de pomba. tras. e terá sempre alguma adherencia da pálpebra ao globo no olho direito. as vontades adivinhadas. acintoso. que começando a sair se lhe jrecolheu. mas conservando-se sempre fazia ás escuras.» exlractada. que es- se applicam egualmente que elle. incharam-lhe as capellas superiores dos olhos. fizeram-n'o impertinente. quem lhe leia. d'este accidente pathologico sem considerar a influencia a que modifica profundamente lé: natureza moral. Na alludida nota do Epicedio de 1816 se iNa edade [de seis annos teve sarampâo. começou a melhorar de quasi todos os incommodos. restou-lhe a desinchar as capellas dos porém até hoje. cicatrizes e opacidade no olho esquerdo. e perança de continuar na vida de dedicam. de lettras a que seus pães o se vé pela nota A publicação do Epicedio.

o tempo desenvolveu a pericia. . cega de nas- cença. a imaginação que reconslitue as cousas e que procura adivinhar e lhe ram completamente temos o primeiro motivo do as intenções ensinou-lhe essa prosa digressiva e cheia de incidentes. até que distracções mais intensas. e que não sabia que o era. mas agradável. o animo reservado e rancoroso. í gnação. a alma. histórico de seu No Elogio irmão Augusto Frederico de havia ferido e derribado: eu escreve o poeta estas linhas autobiographicas: cruel «Uma enfermidade me . amparal-o. uma brandura que paíicou . mesmo os Ímpetos indomáveis da indi- . como a preienção litteraria. quando a fatalidade lhe cerrou a porta para todas as alegrias. Aqui litterato. Criança e cego! faz lembrar aquella dolorida e sentidíssima lenda allemã da filha de um rei. todos lhe occultavam essa infelicidade. a promptidão. estenderIhe a mão. sem ideias. a frescura. modo rece ingenuidade. pela situação já descripla. Um dia foi o seu noivo que lhe descobriu o se- gredo e a infeliz princeza morreu de melancholia.A graça. não foram mais do que as qualidades peculiares dos tempos infantis fixadas no \ homem Castilho. o absorve- povoaram a obscuridade. A situação excepcioplano. Escholastica. paixões de si vãs. a acuidade de outros sentidos deu-lhè a harmonia quasi sempre irreprehensivel dos seus versos. Assim estava aquella pobre alma no meio de tantas caricias e mei- guices da família. e brincara com uma primita da mesma edade. É este o momento mais poético da sua vida! Quem não hade protegel-o. e assim viveu não conhecendo a profun- didade da catastrophe. Cegou em uma edade em que elle mesmo nem sabia o que perdia. dar-liie as falias mais meigas. e mante- nal do seu espirito não lhe deixou ter um ve-o além do termo natural D'este em uma prolongada puerilidade. e é este o característico por onde se determinam todas as suas bellezas e defeitos.414 niSTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL uma mestra D. abrir-lhe o seio. sempre criança.

» 3 «O trato assíduo das chamadas humanidades. foi uma diíTerença de alcance endisciplinas elle Nas primeiras o meu livro. . que só por instincto podia adivinhar o que era ser irmão.CASTILHO 415 pendia mais de meio para a sepultura. o latim. 37. quando junto de mim. e eu levantei. . e litterarios: contando os seus mútuos estudos para «Dois annos contava eu apenas na vida. p. nasceu filho. a philosophia racional e moral.. passou a morte. para logo zeram desapparecer d'entre nós toda * a diíferença de an- Mem. mas lá dentro tinha-me ficado a melhor parte d'ella: os meus olhos se voltaram para o céo e nâo n'o viram. e a con- fraternídade ou identidade dos nossos gostos. e mais mim do que para todo o mundo. esta ca- beça fadada a muitos mais longos infortúnios.. de ca. eu fui o seu companheiro inseparável . como que já de dentro da sepultura. Emfim. levantei-a. de disvellos quasi maternos. a poética. como os outros (contam-n'o quantos admiraram mas cercava-me de aíTagos. assim entre nós as aprendemos sob a direcção de mestres abali- sados . p. 2 Ibid. do Conservatório. os braços de meu irmão me apertaram disserta Castilho e eu não vi meu irmão!» * Sobre esta dedicação sympalhica. 3 Ibid. o que era ser amigo. O meu selimo anno parecia nao dever completar-se: as lagrimas maternas e muitas outras caíam abundantes sobre mim.» 2 «os dois annos que eu demais contava tinham de o seu quarto pôr forçosamente no principio tre as nossas comprehensôes. e o que fosse morrer. a meus pães Desde essa hora até á uUima da sua existência terrestre. e uma pobre criancinha. satempos para estar commigo. a eloquência... 39.. nâo só chorava aquella criança sublime) ricias. tão frequente enlrò ir- mãos.. p. e as linguas. retratando Augusto Frederico. fi- o commum das nossas occupaçôes e passatempos. 38. renunciava os seus pas. eu o seu mestre.

como eu. p. adivinharão muitas viri tudes e não vilanias pelo 1 menos vicios. . permilti-me pois a triste 1 Mem. por mais que estude dissimuílaçôes. e alguma outra cousa ainda mais subtil. é lar- mister haver por necessidade e por espaço de tão gos annos. Aquelles a nem distraido quem sua des- graça houver iniciado n'esta sciencia. porque assim o digamos. que ise tornou como habitual. lhe possa dar trocados tos. nos. muitas excellencias e não menos mero som e modulação da voz humana. e d'aqui instincti- vas más vontades.. sentimos a forçosa necessi- dade de dar de mão ás amenidades uso e natureza. 416 mSTOBIA DO ROMANTISMO EM POBTUQAL . do Conservatório. interpretava também as intonações. não é somente. Entrados no mesmo dia e hora alumnos ás escolas de Direito da Universidade de Coimbra. e o habito constante de uma ironia. difficilmente se achará icorlezão ou comediante. elle não ouvia somente a linguagem das palavras. uma interprete dos pensamentos. mas o calor e a alma do discurso é o tom que o acompanha. como ao vulgo parece. e Castilho acompanhou-o. Castilho deu-nos a chave do seu caracter desconfiado e malicioso. ella o é principalmente das affeições e movimentos inarticulados do nosso animo as palavras não são. mais indeíinivel e mais sem nome que o repassa. Para comprehender bem feito a fundo esta verdade. para jos habituados a vér pelos ouvidos. Diz elle: «A Voz humana. até ao triumpho da causa liberal. e os gestos o seu trage. em cânones Augusto Mamede da com despachado prior de nheira do Vouga. um não interrompido estudo sobre a expressão fallada. vivendo elle n'esse retiro durante oito annos. que tinhamos de cursar inseparáveis até o fim. que. uma espécie de perfídia. que lh'os elle ou falsificados os sentimennão conheça. . 40. .» Frederico foi * litterarias tão do nosso Casta- Depois da formatura S. senão o corpo da phrase.

e deixados pela deficiência do pensamento. que dava communhão e convivência com os eápiritos elevados.. rio dava-lhe ao crité- uma tendência pejorativa. . que reve- lava em ditos profundamente^ sarcásticos. existiu o periodo da intonaçãOj e o periodo da gesticulação. Na sua mocidade compararam-n'o ao celebre cego inglez Samderson. ou da palavra. Castilho era eloquente não pela espontaneidade mas pela precisão e correcção descriptiva. Castilho mesmo que todos os que tinham poetado. Com a repetição d'estas cousas tomou-as Icomo uma realidade effectiva. bastava-lhe constância e pachorra para fazer o grande habito ou '(ção. idpar os vãos * Mem. As naturezas que reú- nem eslas três linguagens possuem o dom da eloquência. cipar a imaginação da mechanica aborrecivel da metrifica- ^continuavam a toada bocagiana. os serviam para colorir e fechar o endecasyllabo.. referindo-nos á ce^ gueira áe Castilho nunca tivemos outro intuito a nâo ser a deducçâo das modificações que este da intellectualidade. 27 p. e o que estes tinham de 'fluência. Começou por comprehender a lilteratura como uma no/bre ociosidade. do Conservalorio. o poder de comprehender as mullimodas intonações da palavra. progredindo-se evolutivamente de um para o outro. os outros ijeclivos disputaram em esmero de correcção.CASTILHO 417 vaidade de me julgar n'esla matéria bom juiz . as exigências da vaidade foram-n'o identificando a [Homero e a Milton. facto exerce nas formas É pasmosa moderna da a intuição como Castilho descreve essa outra linguagem de que a palavra é o corpo material. uma desconfiança. cuja biographia psychologica < foi escripta admiravelmente por Diderot.» * É im- portantissimo este facto psychologico. Só um uma espontaneidade fervente pôde emancomeçou por fazer versos muito harmoniosos. a sciencia philologia descobriu que antes da linguagem fallada. 39.

os encómios foram-n'o soprando em ambições. Aqui mirar. . aã sodales. e a que nós fazemos a apotheose. a consciência das formas. deslumbram a imaginação dos que se acham feri- dos pela sorte. essa hallucinação de luz faz vêr 1 jque o em todos os tempos. Muitas vezes as desgraças que assignalam os génios. brica. para virem dar forma e impulso ao tempo que precisa renovarse. tornar-se independente d'essa attenção que attenúa as fa- culdades inventivas. a habilidade chega a fazer-se adfoi for- É sobre estes dados psychologicos que se talento de Castilho. 'com uma intuição prophetica. nem o decurso si. e ao mesmo tempo a afllicção sâo |d'essa lucta. Estes são almas de excepção e não nascem presepe. tristezas.da sua vida lhe deu essa transfiguração sublinie. qualquer. em todos os logares. através da qual perpassam as ondas sodos seus desejos. O talento é o poder realisador. também eleitos. que a \ão ferindo e desferindo para ouvirem o canto das suas seus sentimentos. que assombra. mando o Eil-o nos estudos da boa latinidade. louva va-se.418 HISTORIA DO EOMANTISMO EM PORTUGAL Conversava-se sobre a habilidade da criança. Castilho não teve o horóscopo do génio. e columnas de fogo no deserto da vida. é ! um aleijão que opprime o que o traz. Por jeile j nunca se esqueceu de se fazer passar por isso. applaudia-se. que invejamos sem saber que fogo lento gera essa febre de inspiração. pelo habito machinal pôde chegar a dominal-as. pro- vocando os seus amigos para que o proclamassem príncipe [dos poetas contemporâneos. que a humanidade admira em creações eter- inas. e consolam-os assim persuadindo-os que . recebendo o pó sa- . O génio é a falta de consciência das forças que se agitam dentro do individuo. nem vem ao mundo pelo acaso de em uma qualquer noite lú- apparecem quando as circumstancias os evocam. dos noras das gerações. o génio é como uma harpa eólia.

Isto se chamava a edu- cação clássica. as controvérsias. na rua da Rosa. as notas. em que se gas- tava muito engenho. dos transportes. A intolerância fanática. espécie de Lyceu que havia ao Cunhal das Bollas. tim. os argumentos. (Outubro de 1810 a 1815. entendia-se que o privilegio do latim dava direito a ignorar tudo o mais. que não precisava de censura. com as quaes se graduava a intensi- dade das emoções. que tanta influencia teve sobre o talento do traductor de Ovidio. como registo. horas do mesmos trechos.Castilho retraia este importante personagem. e mais nada. os scholios. quem dá a um ou possue uma válvula de segurança! Era esta . . principalmente na peninsula. Esta era a sciencia que não compromettia. que distingue todos os mestres de la- O seu mestre José Peixoto ensinava e brandia a férula nos Geraes. tia A única apreciação consis- em desentranhar das palavras sentidos que o auctor nunca tivera. a certas com minúcias de etymologista. são morosas. Da leitura dos es- criptores da pura antiguidade formaram-se os gordos com- raentarios que abafavam os textos. era uma casuistica da arte. era elle que fornecia todo o apparato de citações. e de tudo isto saiu sciencia formal uma chamada Uhetorica. e con- servam a tradição do quietismo religioso*. e que fazia retumbar as salas das academias. torna a admiração habitual. dá-lhe uma continuidade de repetir os dia. firmava-se em bases convencionaes. e as intelligencias do Meio Dia. Sciencia dos Quintilianos declamadores.CASTILHO 419 cudido da cabelleira do supersticioso cultor que se extasia ante as bellezas dos exemplares que vae descobrindo ás noveis intelligencias. sem carecer de fundamento.) Latino Coelho no seu panegyrico de. Para comprehendel-as. A corrente das ideias que abri- lhantam o século xvni acha-se anathematisada entre nós em todos os escriptores contemporâneos d'ellas. era indispensável pensar.

Ás bellezas nativas. em quem A Castilho tomava por confidente dos seus desafogos métricos. Westes ditosos tempos matavam-se as horas compondo íepistolas sobre a amisade^ aos annos felizes dos conheci- {dos. ora originaes. A estes tem- pertencem os primeiros versos por- tuguezes de Castilho. catriviaes e fami- lumniando de sublime as expressões mais pos de vida litteraria que o orador escrevia sem pretenção.420 raSTORIA DO EOMANTISMO EM POBTUQAL uma O parte da educação liberal. ora versões de escri- ptores da antiguidade. em Portugal. como diz o seu panegyrista: «Nos geraes do Bairro Alto a Rhetorica Araújo Ribeiro. trazida do giiadrivitm da xviii. e achacado da enfermi- dade de fazer versos.» É chistoso este retrato escapado da penna do habil es- tyllista Latino Coelho. não Ihavia desembargador que não poetasse. Traduziu Pérsio e Juvenal. como aquelle reluziam visíveis mais lumes de poesia. edade media para as academias do século espirito clássico. Escrevia comedias de própria de que não resta hoje recordação no theatro nacio- Era Castilho o seu discípulo amado. com tanto esplendor e eloquência. juntava Maximiano perfeições. triumphou Castilho foi frequentar. nal. que liares próprio esquadrinhava. Era Maximiano um cultor apaixonado do velho Quintiliano. pobríssimos de engenho e invenção. que ali a com Maximiano Pedro de professava. ficou pouca memoria. de que lavra. Tinha por Cicero^um amor que raiava em adoração. quasi sempre opulentos de exemplares. que impoz na lucta da edade media o latim ao uso das linguas nacionaes. Calculava rhetoricamente os seus enthusiasmos em odes pindáricas. quanta é possivel em mestres de oratória. odes genelhliacas no nascimento dos príncipes. que um elle simples mortal hade achar desprevenido nos discursos do celeberrimo orador. bom humanista. e a elle elegia por auditório o Pindaro ephemero do Cunhal das Bollas. não havia chino .

empenhavam todo o seu esforço em cantar os gran- jdes á sombra dos quaes iam vivendo. progredir como carecia de amnão concebia como o espirito podesse os mestres. paro quando seguia. bem esteiados ia e en- gommados com emfim elle epithetos. mas um meio de entreter os intervallos das palestras famiUares. Quita. Foi levado na torrente. uma primeira consequência do seu caracter de infância força para resistir. Os poetas não sabiam o que era a dignidade do pensa- . A em que também a desgraça o colloincessante de uma mão que o guiasse. quintal da casa tiraram-lhe a energia da viriUdade. como torres de cartas. mais conhecido pelo nome arcadico de Elpino Duriense. do mundo fora das estreitas mesmo modo que as crianças li- mitam o universo ao cára. tornaram insensivelmente a poesia uma cousa j oíficial. a turba vatum nas pegadas de Horácio como os bons carneiros de Panurgio. a necessidade dependência continua em que nasceram. .CASTILHO 421 tâo bem ajustado debaixo do qual se não fosse aninhar um soneto. * sem a tutella da auctoridade. com Yiu na poesia o que todos os demais viram. não era a expressão profunda e séria das paixões humanas.menlo. do mesmo f modo que as charadas e adivinhações. curvou-se a ella. mesmo na Primavera descreve-nos a amisade e admi- ração que tributava ao sábio António Ribeiro dos Santos. este defeito macula |as melhores composições de Diniz. Os versos eram bera medidos. cerimoniosa. não alcançava não teve paredes da Rhetorica. das festas da corte. foi reconheceu-a. isto se vê nos volumes das composições dos sócios da Academia dos Obsequiosos do logar de Sacavém. Dias GoÍ'mes. havia admirações de transportes. Castilho seguiu o movimento. um brin- quedo infantil. Primavera. Garção. > Vid. e Filinto. por falta de individualidade. é .

era preciso que surgissem Humboldt.do século xvm. cantou-a com toda a ingenuidade Ida sua alma. José Agostinho de Macedo era tão vingativo como orgulhoso. 1 No /ornai de Coimbra. le * Quando cantou. o vive le roi no . fundara á maneira de Adisson. n.que o elevavam comparando-o a Pie de la Mirandela. um Espectador portugiiez para fustigar os que se rebellavam contra a sua theocracia. Assim começaram iditos. João vi. na morte de D. Levantou-se a polemica com Pato Moniz. de Voltaire. com o seu Epicedio chorado e miserado. um serviço lembrado á magnani- i^aidade Reinava n'este tempo também despoticamente o petulante padre José Agostinho de Macedo. Maria i concorreu. vê-se que nenhum lado o comprehendia.Poema extenso á coroação de D. como criança.» 1816. Representava entre nós a litteratura franceza. dois desacertos sobre Campes. os seus primeiros crelitteratura por- e póde-se dizer que conservou na P. Castilho não comprehendeu o fim para ^. com to- :dos os poetas. o atrevido padre aíTectava em tudo uma erudição de encyclopedista.422 HISTORIA DO EOítá^NTISMO EM PORTUGAL Castilho. não sabia que o atiravam á cara de um . . voltairiano orthodoxo.» i. Lera no Ensaio sobre os Épicos.tudo o pobre Pato Moniz. Era do rei. poemas didácticos á imitação do insonso Delille. não se esquece ide lembrar que já cantou ou carpiu a defunta rainha na 'sua urna cineraria. 2. Pela defeza do poeta nacional. procurou aviltal-o demonstrando Ique o seu Epicedio á morte de D. atacava em tudo e por . Schlegell e Quinet. foi embalado na doce illusão da origem divina da realeza. e tratou de os repelir em Portugal. Maria i era inferior ao ide uma criança. para nol-o apresentarem como a epopêa única que acompanha o movimento da Eur ropa moderna na Renascença. depois do roi est mort. a jTasso e a Pascal. tragedias racinianas.bom homem. odes á Rousseau.

° 59 . que reina antes de o ser. de quantos se lém assentado no throno portuguez. * abaixo de um pudor conveniente. e medíocre ainda no infortúnio. João vi era o rei mais bondosamente prosaico. não pôde deixar sem uns laivos maliciosos de verdade: «Mas D. . a lyra desceu tão baixo na mão dos poetas cesácomo no poema em três cantos: Á faustissíma acclamação de sua magestade fidelíssima o sr. D. D. vol. João passar esta noticia vi.CASTILHO ^^^3 lugueza esse espirito de reacção acobertado com um clas- . que indireita para o Brazil. próprio panegyrista Latino Coelho. ao todo. que José Agostinho de I Macedo sustentara nos sermões e nos libellos politicos. parte n. procura engrandecer. podia delinear assim um ediíicio composto de três pilhas de seiscentos e sessenta e três versos. Se '" |as individualidades se continuam na historia. mas repellia infelizmente para a nação todas as ambições da tragedia purpurada. Um rei. e uma errada comprehensâo dos mo- delos antigos. n. ao throno: Poema dedicado ao mesmo senhor por seu auctor AnA bajulação chega tambcm a tónio Feliciano de Castilho. escoltado pelos seus corlezes alliados. Medíocre na prosperidade. Jayme. o auctor da Besta esfolada e das analyses dos Lusiadas transmittiu o seu espirito ao auctor da Tosquia de um camélia e da Pream^ Ihular do poema D. queseacclima 1 Jornal de Coimbra de 1817.sicismo doutrinário e impertinente. quando desce enfadar os mesmos que Nunca reos. nem interessava pelas suas des- A sua corte podia ser uma comedia de intriga. xt. nem ad- mirava pelas suas acções. e mais seiscentos e cincoenta e três com outros cincoenta versos da dedicatória. embarca ao estrépito dos francezes. Só uma falsa ideia do sen- timento e da poesia. setecentos e sessenta e seis.^ João VI. mil setecentos e trinta e dois versos para cantar o mais su- pinamente alvar de todos os heroes. venturas.

Oa no peut rien voir de plus ridicule. p. que prosegue em se deliciar no Rio. João dentro de vi levado pelos tritões uma concha. reparte o seu animo entre condescendência e terrores. a toga de presidente da republica plo seguro para moralistas. é por isso que não lhe pôde negar seu canto. 178. que desconhece com um cosmomenor assomo de nostalgia. ao Augusto Heroe. que acceita as bases da Constituição. que depois ouvindo rugir ao longe o tigre popular. Este poema á coroação do monarcha é um mixto de al- legorias mythologicas. Le roi se tient debout sur une conque. et il est acorapagné de sa iiorabreuse famille. nos seus receios dynasticos. Cest Fo-chíni qui d'est rendu coupable de ce crime de lèse-majesté.^ Segundo a Lyra de Castilho o magnânimo João só devia suster as rédeas do Império Universal. quando viu Maria excelsa. como d'anpolitismo verdadeiramente assustador o tes na pavorosa Mafra. e depois com monachal sinceridade as anulla sem azedume e sem pezar. ainda abaixo das pinturas das salas da Ajuda que representam D.424 á HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL sombra dos coqueiros. Tel ost le sujei d'une peiíUure qui se voit dans» la eale d'au(iíence. Les Artes en Portu- 1 Revista Contemporânea de Portugal e Rrazil. com a sinceridade de um Manuel Borges.» Raczynski. vol. Quer remontar-se ab jove principmm.» * Eis o digno ideal para o interprete da dor pungente e da acerba magoa que rasgou o peito da infeliz Lysia. um canto sublimado ao Grande. . com a melodia soturna do canto- châo. É a burguezia coroada com todos os ac- cidentes afortunados ou adversos da sua despoetisada condição. tornada cinzas funéreas. não ii. 268. Tal é o espirito d'essa poesia. um rei assim é um exem- mas é o péssimo dos assum- ptos para poetas. o esplendor das Musas. qui represente le retour de ce souvcraín du Brcsil eo 1821. e pede. . vi 2 '«Jean — gal. p. um rei que a si decreta a coroa de imperador. ainda não disse tudo. ao Nume d'ella. sur une coquille. ao Pae da Pátria. (1860).

que só devia Do Império Universal suster as rédeas. depois de escarrar e pôr os olhos a beliscar na em alva. ao Pae da Pátria. n'esse e Phaetonte ufano. cuja harmonia é dada por aquella inspiração que o poeta Waller descobriu quando cantou a morte de Cromwell. e foram assim pisando o Esquadrão dos com mais vaidade. * nem uma voz de ferro. ao Nume d'ella. E mais que ao Pae da Pátria. campanudos. o engenho humano lodos o louvor jamais tecera: Cem boccas. CÀNT. em que inconscientemente se eleva ao mais alto cómico. Augusto Heroe. o A mente engenho da espécie humana não poa derão tecer todos os louvores. O nascimento do monarcha é brilhante de despejo: viu a luz primeira no suave maio. ' A mente De do mortal. V. que o assumpto egualem. O poema vae-se desdobrando em myriades de versos. e a elevação ao throno de Carlos ii. se larpando o lulo No Ihrono assenta dos Avos herdado Magnânimo João. e voz de ferro Natureza não dá. até as Pleyadas refulgentes se adornaram com novos resplendores. quando a esposa de Tilâo saiu mais bella dia Lampso soberbo derramando orvalho no carro d'ouro. quando. Se alguma vez n'este poema. 70. para exaltar até aos astros a camará municipal de Elvas por mandar deitar quatro gatos de ferro Castilho se em um sino mostrou um génio foi rachado. que egualem o assumpto. CASTILHO 425 sabe cl'onde começará a dar principio ao canto. porque natureza não dá cem boccas. linguas cento. limitada de mortal. I. surgiram com garbo novo do Oriente. começou pansa da bandurra. etc. 87.. nem um cento de linguas. Isto faz lembrar o canto de Vidigal no poema do Hys- sopé. Nâo podéra eu lambem negar meu canto Ao grande. . V. re- quebrados. e Scylla e Charybides astros 1 Dos vassallos o bem. o bem da Pátria Se a Pátria exulta.

eixo inconcusso. 104. justiça. João Sexto. só teu nome de um dos lusos rcsoando Basta a accender d'amor Vesúvio intenso. affavel. que a teus pós. dos quaes leite d'ellas e o nutriram aos bebeu os nobres bem que do fecundo gérmen bro- tam mil feitos immortaes. parecia que mostrava ao sal mundo uma univerfillias primavera. A idf^la de quem és.'^ martellado n'este diapsâo. que servem de honra á pátria e de brazão e de esmalte ao Throno. . JoSo vi só encontramos o melrifiEvangelista* de Moraes Sarmento (1773-1826) do qual |transcrevemos para aqui alguos versos como termo de comparação: Teu nome. No averno pararam os supplicios. 130. rectidão. Que o sangue em ondas faz rever nas faces. mais alta sempre Ao Globo. p. l'ara affrontar por li mil mortes juntas. eterno. r Jcador portuense João Egual a Castilho n'esta idealisaçSo de D. V. na montanha de Encetado cessaram as labaredas. 121. e que alvorota os pulsos. Esquecia dizer que o Fado sobre o molle berço bafejou o ao cingir a fronte a inveja com frondosos nardos. no até 170. Ao inundo ostentas piedade augusta. Y. ódio. Na bocca É 1 eixo d'ouro. e as da Noite nos rios infernaes tinham suspendido os hórridos flagellos. {Poesias. e no puro sentimentos. da guerra o V. Que Crcalda a mente.) Canto I. Ura gcnio liberal. Sagaz prudência. teu mundo roda. A ideia do quem és sopra em nós outros. Faisca que electrisa os seios d'alraa. O poema vae todo Nasceste Grande já: Teus Altos Feitos Fizeram-te maior: a Gloria herdada D'outra gloria immortal cobrir soubeste. brando Da santa paz o amor. As Graças tomaram-n'o em seus braços seus níveos peitos. para que fu- nâo podesse escurecera) briho e a gloria das • turas acções.426 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL deram tréguas ao mar.

João rapé n'um vi. faz-nos lembrar A leitura d'este poema uma estampa do frontispício das grossas edições da Academia da Historia porw. 179. como Beranger. não tendo ficado filhos legítimos do ultimo proprietário. lícia ^ com a renda annual e vitaartista. Estes factos defmem o caracterisam a sua feição. isto vemos nos sonetos de Garção.» 2 D.gueza. e soa outrosim servido conceder lhe íacul^iade para nomear serventuário. que se acba vago. 20. 2 Revista citada. N'este tempo a poesia descera ao mister de pregão mer- cenário. á similhança de Boileau. brade e rompa o silencio. conseguia a magra pensão do poeta cesáreo.CASTILHO 427 A falsidade Deosa que lhe appareceu n'um dextra do ideal disputa competência com aquella extasis sublime sustendo na um brilhante facho similhante ao da Tocha Oriental «a formosa e cândida Verdade. Decreto da niercé: «Por effeito da minha real munificência. v. ou os frescos estúpidos que estão nas salas do palácio da Ajuda. ^ Dedicatória do poema. e levante nas azas do louvor os Grandes Feitos do Monarcha Excelso. 2. de quatro mil cruzados. Uei por bera fazer. Castilho recebeu uma rendosa mercê em paga da sua oblata. gloria. Sobre este ponto diz o testemunho insuspeito de Latino Coelho: «Quando o poeta canta o povo.lhe merco da propriedade de um dos oíBcios de Escrivão e Chanccller da Correceuo de Coimbra. 5.* Isto parece uma caricatura grotesca em vez de um encómio para apregoar os feitos de D. seodo pessoa apta e approvada pela mesa do de3 . e despachou o poeta para o logar de escrivão. a quando se lembrava outr'ora de cantar os reis. p. cora attenç5o ao dislinclo talento que tem manifestado António Feliciano de Castilho. recebe a moeda do povo. João vi remunerou burguezmente aquella inspiração burgueza que o fazia seu Nume. pcdia-se esmola em verso.lo com que se dedica ao estudo das sciencias na Universidndc de Coimbra. nas satyras de Tolentino. e á grande applicaç. que nâo passou de escavar dos bolsos do coUete.» que o força para que surja. e desentranhar frangãos assados das algibeiras do casaco.

e uão ha litlerato. o maior monumento da sua decadência. Officios. Regulamentos. e lhe sar os despachos necessários. i. que é nm aviltamento da arte. canta-se a fugida do rei al- para o Brazii. Resoluções.) Desde este decreto data a annullação da sentença formulada por Garção: — em 8 Álmotacé que queiras ser de Excluído serás sendo poeta. . que se havia de perder nas não tenha sido ou não queira ser ministro. 1819. com dois ou trez folhetins. já o engrandece por fazer no logar da Azinhaga. Alaria a José Daniel Rodrigues da Costa. Portarias.» (Publicado nas Excafl. não se fazendo alteração na ordem normal e chancellaria. e protegido do Intendente Manique. Registadi» a íl. vações poéticas. as paginas vem recheadas de De- cretos. termo de Santa- rém. Diplomas. Nas notas ao poema. A mesma mesa o tenha assim entendido. A tensa da propriedadõ de um officio de escrivão tornou-se no longo reinado e regência de D. João pacho dos Negócios vi resolveu assistir e prover o des- em nome da rainha sua mâe. todos os papeis officiaes expedidos durante o reinado do monarcha celebrado. e o temporal que a esquadra soffreu na tura das ilhas. Provisões. Rubrica de sua magestade. auclor do Almocreve das Pelas. e assi^ gnar por ella durante o seu notório impedimento. de D. Avisos da Secretaria. e providenciar a faem Lisboa. 64. 26. foram levados para a inauguração do con- mãos das mediocridades lítterarias e dos palavreadores melaphysicos. João i o pagamento dos encómios dos poetas. Isto tornou inefficazesse sublime movimento nacional. por crear a companhia de veteranos e o monte pio hlterario. jcha do poema. por dar a herdade aos presos pelo nascimento da princeza.* canta-se o Decreto de 10 de fevereiro de 1792 em que D.428 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL N'este poema. um deposito de rezes vacuns. e a mande pasde junho de tvor dos expostos e mestras de meninas sembargo do paço. i. foi-lhe também dado o oflicio de escrivão em Portalet gre. e alguns versos que stitucionalismo. 2 Verso 350. que não ' É d'aqui que tira a já o exalta marli- tem acção. i Verso 27-2. Alvarás. Cartas regias. Palácio do Rio de Janeiro. um bairro Os obreiros das Cortes de Vinte. Editaes.

Bebido tinha da corrente escura Do Gallo insano. e a diligencia entre Coimbra e Lisboa. cujos princípios têm desterrado a paz do mundo inteiro e ras dos reis. deu-se uma tranformação no seu espirito. Abatido as Nações ao jugo. e as commendas. sâo o ecco das palestras domesticas que ouvia. Toda a insistência sobre poema. reas- sumiu os seus destinos. V. e diz que a egualdade e a liberdade são um criminoso orgulho. desdobrada aos olhos munificentes do soberano. e deixou-se levar pelos que lhe aconselharam este meio de tornar-se protegido. e os livros dos encyclopedistas operaram uma moliber- mentânea visão de Saulo. era isto zas. invernaes Celenas. Ha porém um um lado que defende Castilho. e prebendas com que assignalou vários individaos. e o encanamento do Cávado. tudo isto forma este uma espécie de Chronica em verso. ú morte. 291. * manchado de sangue as purpuao que se chamava ideias franceter escripto esse protesto con- Pouco depois de Castilho tra a liberdade moderna. Canto I. litulos. pondo termo ao domínio inglez de Beresford. acha-se assim descripta nesta paÓ criminoso orgulho. que veloz se alonga Lá junto ás altas.CASTILHO 329 barra de Aveiro. Be sangue as Régias Purpuras manchado. . O modo como elle julga os factos da sua época. tinha a fraqueza de criança. os teos princípios Tena desterrado a paz do inteiro Mundo. que o levou a figurar nos improvisos do Outeiro poético da Sala dos Capellos em quando a nação por- tugueza. nem tâo pouco deixa bem patente exemplo para fugirem os futuros escriptores. maldiz a Constituição hespanhola por querer estabelecer a responsabilidade real. dade. nâo deixa ver a minima parle dos seus ridicu- los e degradações. Quem primeiro sonhou louca egualdade^ E livres quiz deixar de lodo os homens. 299. A nova comprehensão da 18i20.

Deus lhe perle- mim. crueza não menor. quaes viu Grécia e Roma? 1 Memorias do Conservatório. pareciam. á luz do sol de Deus. como hymnos á razão. p. que seri«o na historia Dias douradoâ. se pôde. reproduzem e renovam o perdido. por então eram nullas: perdoo eu a quem ou nos entregou foi a taes livros desalmados nos entregou. . E lá as crenças da nossa infância pareciam estar secas. les antes a el- de corroborado o entendimento. vaidosas e insensatas parodias dos Livros Santos. digo. atroz. perante quem os maiores edas sublimes inspirahomens acurvam o joelho.» sias recitadas tas que celebraram os acontecimentos do^ dia 17. havia passado. nas noites de 21 e 22 de novembro de 1820. também meu pequeno engenho. mais um enxerto iia immensa arvore da insipiência para * Na Collecção de Poena Sala dos Actos grandes da Universidade de Coimbra. «O suão da philosophia do ultimo como por todos. senão muito mais ás feras que a de lançar crianças do monte. ao primeiro sopro do céo. apparecem os taes ingénuos fructos de perdição. fiz em ridículos versos um passatempo de presumpçosos e néscios. e Deus perdoe. sotterradas raizes^ que. entoei. respirando o seu ár.430 gina HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL autobiographica : século também por nós. porque de crenças taes sempre ficam vivas al- gumas ria. e a vei em todos os seus benefícios. e saboreando-se doe. ções de Moysés. como victima ao horrendo altar do nada. 43. mais um arrimo a suas impiedades. e ás vezes com melhomas emfim. figura António Feliciano de Castilho cora alguns Sonetos e Odes contra o despotismo: Despótico poder já nos n3o doma: Anle taes feitos. que arrastado de seu exemplo. se põem a escrever taes livros. entre os poe- d'elle brotarem fructos de perdição. sem si terem por a desculpa de ignorância. aos que.

alentada pelas clássicas e in- fatuadas tradições de todas as arcádias. Pedro Joaquim de Menezes. este culto intenso pelas Musas. pela eleição de alguma nova abbadessa. com seu irmão. p. lá se escutava uma 1 Op. N'este correr da inspiração. que celebrava as bases da Constituição portugueza tomadas da hespanhola. e de véos alvejantes que fluctuavam nas rações da noite. que se apaixonavam pelo principio da soberania nacional. como reducto da estabilidade. Castilho ia com a corrente. attribuindo-a á auctoridade paternal e a uma prevenção de segurança.CASTILHO 431 N'este afamado Outeiro. cit. . 41. celebrando teiro um novo Ou- poético para exaltar a restauração do despotismo. proclamado na Revolução de 1820. que de todo passou de moda. e que liam as obras dos encyclopedistas. foi Castilho teiro. reconhece a sua lamentá* vel contradicção. estudantes do quarto anno de Cânones.. a primeira a saudar a reacção do absolutismo. João vi ras- gou brutalmente a Constituição de 1822. José Frederico Pereira Marrecos. não podia deixar de se conservar sempre vivo em outras lyras. e quando em 1823 D. e ao som de escarros constipativos e maliciosos. José Maria Grande. nove senhoras muito respeitáveis e condescen- dentes ao appello do cantor palaciano. e deixou ao abandono os poetas que ficaram hoje a suspirar pelas brisas. Os mirantes. Castilho come- çou a ser então festejado nos Outeiros poéticos. figuraram Au- gusto Frederico de Castilho. velha usança. bordavam-se vi- de luminárias. de 1835. a Universidade foi de Coimbra. Silva Leilão de Almeida Gar- Eram estes os novos espíritos. Fernando José Lopes de Andrade. José Maria de Andrade. explicando* se acerca dos que o exprobavam de hayer saudado a reacção absolutista de 1823. e levado a recitar poesias n'este desgraçado Ou- nas Excavações poéticas. o padre Emygdio. artigo transcripto do n.« 17 da Guarda Avançada. a multidão apinhava-se no adro. e João Baptista da rett.

que foi outra tragedia em verso. e Joaquim Oli- José Dias Lopes de Vasconcellos. Castilho. com António Dias de que foi ministro em 1837. Pertencem gôa. que declamava docemente no ár a terna divisa do a glosal-os. veira. drama em dois actos. que o absolutismo reinante procurava abafar por todos os modos. e A festa do Amor fdial. cujo typo era desempenhado por Augusto Frepadre. O theatro n'esta crise politica adquire certo interesse entre os estudantes e os filhotes. Em casa do Dr. . Os poetas apressavam-se com ár.— 432 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL VOZ afflautada e argentina. com mais um prolongamento bons versos de Bocage e de na intonação da voz. fizeram-se bastantes representações particulares de 1824 a i82o. onde ò hoje o club. ^. em verso. Castilho também escreveu d'essas tragedias á João Baptista Gomes. a esta escola os João Xavier. d'este modo. em que ficou ignorada. resumia-se em um in- bom cera. que estavam no maior furor da moda em Coimbra desde 1816 até 1^2d. que seguia as pi- sadas de Monli. também inédito. Lá vae a mote. derico de Castilho. a tragedia voltairiana era o meio subrepticio de dar largas ao sentimento da liberdade. temperadas com todas as figuras e tropos do elmanismo. e actualmente ainda juiz do Supremo tribunal de justiça. mesma presteza de quem sabe apanhar mosquitos no A poesia. traduziu d'este poeta a tragedia Aristodemo. provimento de rimas. o verso por se endireitava com um nariz de com mais uma palavra. tomavam parte n'estas representações os filhos do cathedratico. José Feliciano de Castilho. Castilho escreveu depois cinco actos. e os repentes sarcásticos do Lobo da MadraEstes versos dos Outeiros políticos explicam-nos Castilho íbi como I irresistivelmente arrebatado para as composi- \ çôes dramáticas. que então morava ao Arco de Almedina. para salvar nos acasos da si lá spiração. intitulada Canace.

Pigault Lebrun era considerado em Portugal como o terceiro ho- mem de génio do século. a musica da opera era arranjada pelo organista João José Borges. agar- rada á musica da Semiramis ^ Rossini. O lente de musica da Uni- versidade e mestre da capella da sé. eis os assumptos obrigados das Musas. sabemos pela confissão de Garrett no Chronista. em Coimbra. e em Portugal chamava-se-lhe Outeiro.) 28 . confli- ctos Íntimos dissolveram a sociedade dramática. em uma d'estas récitas é que um tal Francisco Ignacio de Almeida veiu á scena recitar Castilho. hombro com hombro com Walter Scott. lornou-se uma parte obrigada das festas reaes. exé- Í quias. e uma nova Tamancomo se organisou para levar á scena a opera cómica Os qiieiros. aon. Em Hespa- nha este habito servil tomara o nome de Certamm.4 mulher amorosay O Pae de família. (1550-1830) por Francisco Martios de Carvalho. (Coriimliricense. com frente paia o cães. a ponto de algu- mas chegarem Sobre até nossos dias. xxxn. N'este tempo. a sua opera cómica foi traduzida na parte da prosa por António Ferreira de Seabra. Francisco da Boa- Morte regia a orchestra. escripta por Pigault Lebrun. nas festas religiosas.CASTILHO 433 De 1825 para 1826 arranjou-se um em novo Iheatrinho na casa de José Antó- roa do Sargenlo-Mór. e na parte métrica por António Feliciano de Castilho. os Machabeos. a tragedia de La Molhe. uma Ode de Feitas estas representações. um rochedo. e as comedias de Goldoni.* o estylo da modinha do século xvni predominava despoticameulo. A poesia. anniversarios. casamentos. nio Rodrigues Trovão. ou a de Garrett. Que o mar balia. traduzida poF João Baptista Gomes. 1870. e um aulo moderno de Santo António for- maram o principal reportório. etc. como 1 i o Tluatro enx Coimbra. que não era então outra cousa mais do que o artificio da metrificação. como a Joven Ldia. coroações. .

canonisaçoes. Castilho seguira a primeira vibração liberal de 1820. não poderiam. . p. e nos iv. d'elle documentos littcrarios. pela sua origem religiosa. > a essa deplorável litteraria dos Elo- em um que Summ."*» sr. <jue ainda sito em J 867 propunha a sua restauração^ a propó- da estatua a Bocage: «Vão longe aquelles dias dos tão já também agonimas eram donosa occupação afamados Outeiros poéticos de Portugal. Dr. 5 entre as * desde 1719. pela uma Academia. padroeiros. O Outeiro. 10. resuscitar egualmente aquelles certames nocturnos dos engenhos. e nos regosijos pompas budhicas da procissão do Corpo políticos. a primeira victima da liberdade portngueza. se intitula A t. de Castilho e da Camará de Selubal. a que se chamava também á maneira italiana litterario.. se os evocásseis vós. I).»^ como O sr. foi introduzido pela educação dirigida pelos que impozeram á Europa um absoluto humanis- mo. era quanto a juventude era e a politica nos não tinha a todos o de todo diz juventude.. não seria es^ um facto bem fecundo?. dessalgado. Também pa- gou homenagem gios dramáticos. 39 Lis- 2 Carias do ea:. como no celebre Outeiro da sala dos Capellos em Coimbra em 1822. F. p. no dia ou no triduo do anni versado do monumento? E se re- suscitassem. nha e Portugal. de varia Ilisíoria. foi usado [também ide Deus. di- vertimento Hespa- Jesuítas. Tejo. era uma cerimonia in- dispensável o congresso dos poetastros. O sua frequência na uso desle Itália. savam quando os eu e alcancei. Uberdade. serf via para celebrar as eleições dos abbadeçados. mas quem nos que ao pé do vossp Bocage resuscitado. Ribeiro GuimarSes. Elogio dramático aos annos do sereníssimo Pedro. e uma Ode á morte forma de Gomes Freire. A.434 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL milagres. bom estimulo de engenhos. e d^essa época restam príncipe real. conservou quasi sempre esse caracter e era essencialmente freira tico. em 1820. O ultimo represenlanle dos Outeiros poéticos foi Castilho. 1867. boa.

Pedro N'este anno Augusto Frederico de Castilho.» ollc um * monte. da €onfraternidade. c soou. que se distri- Cantata : Emquanto a palria dikemenie buiu no jantar Constitucional dado na Sala do Risco. em 1821. só dois. e a gosa. — A hora da perseguição era pois inevitável p. desampara commigo Memorias do Conservatório. João vi do Brazil. no Arsenal de ^Marinha em commemoração do dia 24 de agosto de 4820. eu permanecíamos ainda intactos das perseguições..CASTILHO 435 versos que se distribuíam pelos theatros nos espectáculos de gala. Castilho refugion-se da transformação constitucional junto de seu irmão. as nuvens das temj)estades politicas amontoadas ao longe. e de geral estima. que a tempo a presentiu. depois de largas as solações por todas as outras partes começaram também de ameaçar mios . amargo. D. fora despachado parocho da egroja de S. onde se conservou até ao fim do falia cerco do Porto. mas indispensável das grandes crises dos estados. Doesta época da sua vida o poeta au- tobiographicamente: ócios quasi «Emquanto nós ai disfructámos era sempre estudiosos as delicias da natureza. A morte de D. João vi em I82G veiu truncar repentinamente os planos do despotismo.. que se espalhou uo Iheatro da Rua dos Condes por occasião do regresso de D. Mamede da Castanheira do Vouga. Ê lambem d'este mesmo anno i o Canto: Agora que dos Céos o longo espaço. I . por meio de uma conciliação da soberania nacional cx)m a raonarchia da graça de DeuSj com esse produclo hybrido da Carta outorgada por iv. meu irmão. no qual faz a descripção das festas pelo an- niversario da Revolução de 5 de setembro de 18iO. que por tão inaccessivel lhes houvera- e íVucto «De oito irmãos que ao todo éramos. taes como a Cantata: Os ais do povo luso emfim venceram. ordenado de jpresbytero. 48. do bispado de Aveiro.

Sebastião.» A vida na residência de S. .. 204: Chave do enigma. Francisco Gomes. rão. 10. aprendendo do quando se plantavam as couves . 3Í9. fazendo os seus castellos retiro o vinho da frasqueira de — bebendo n'esse um cónego. á beira do sobreiral de S. * O campo influiu no caracter elle idylico do escriptor. Felicidade | 1 D'e5te criado o caeeiro de S. p. grande borda d'agua. que havia enterrado Ires priores.436 EISTOBIA DO BOMANTISHO EM PORTUGAL O seu remanso de oito amios.. muitas das bagatellas tello encorporadas nas Excavações poetkas. p. p. escrevia no ^ Templo das Musas. pendendo para a frivolidade. 2 3 Amor e Melancholia. 3 ] estava inteiramente occupado em fazer Iraducçôes dos clássicos latinos: «A esses annos da serra pertencem pois.» Era uma vida perfeitamente arcádica «catechisado pagão por Chompré. fora do passal. Mamede da Cas- Vouga «dormia descansado. indo ha- bitar o passal na antiga quinta das Limeiras dos Condes da Feira. aprendeu Castilho esse sabor vernáculo da sua linguagem. (1826-1834) a araisade entranhada de todo um povo. qoe ás vezes chegava ao plcbeismo.. como já n'outras partes declarei. Mamede da Castanheira do seu criado Francisco * Vouga tilho foi um periodo de remanso mental que confinou Casidylio... as traducçôes das Meíamorphoses e dos Amores de Ovidio. 4 Jbid.» Na vida tanheira do solitária de S. Noite do Casi> e os Ciúmes do Bardo. ficava sob a luz perpetua sempre chorado de nosso pae nos da alampada . romatisando. Mamede. e o confessa: «todas quantas aspirações benévolas eu tim a pa- tentear nos dois livrinlios que ainda hoje amo. e o templo onde o cadáver. 10^ Jjot.. traduzindo Ovídio. Excav. p. que era uma palhoça no Alto da Pedra Branca. Ibid. j Namorado da Ecco mysteriosa do convento de VaiCastilho identificava-se com a atitiguidade. 348. partiu no mundo do de Coimbra para a serra com seu irmão padre em 23 de outubro de 1826.

onde mimosea o vencido íis phrases: com es- Em bora má. e o bombardeamento continuo do cerco do Porto. lem- . o amor. . o poemeto da Noite do Castello traz a assignatura da «Residência parochial de S. Castilho saia do seu repara acompanhar o irmão padre que se envolvera na poHlica parlamentar. Ma- mede da tiro Castanheira do Vouga. ob nobre sem fausto. que Castilho escutava o ruido da arlilheria na acção da Ponte do Marnel. lambem Usurpa- publicando um opúsculo com a Epistola ao dor na saída de Portugal. n'esse mesmo anno publicou outra Epistola ao Povo nas Eleições de 1834. Por galerno os tufões. do porlo ó príncipe das trevas Em trea vezes desafierres má bora a proa infanda co'a8 Fúrias por Nereydas.» Era no retiro do Templo das Musas. Oommetta o mar. . O vate plebeu encarregou-se de desmentir estas palavras organisando uma remotíssima genealogia no drama Camões^ e fazendo-se no íim da vida visconde do seu nome. Vate plebeu. e ao leme a parca. 4 de junho de 1830. que de plebeu se presa Te envia o pensamento. Sequioso o cadafalso le pedia Mas foi lei do Senhor na infância do homem: Nio matarás Caim! —^ Deram-le a vida..» Com o triumpho da causa dos hberaes. Porque enchentes de sangue generoso Co'um pouco sangue vil se nilo remiam. pelo seu lado proclamoii-se liberal. onde proclama: Povo. ob rei sem jugos. Este opúsculo vendia-se a 60 réis. os sustos. N'esta Epistola 'Castilho indica ao povo em quem hade votar. CASTILHO 437 pela Agricultura e Felicidade pela Imtrucção nâo são senão re- miniscências d'aquelle praso da minha vida.

a natureza.. exaltando a grandeza vi com que D. tamfoi bém como lá colher seus louros. Ou suppondo polir-se Punham no perverter o único estudo seus pátrios modos. . . no lirocinio da Universidade. Acredi- tou-se nos Outeiros de Santa Clara e Therezinhas. o amor se e a lingua Estes. Castilho. cuino infantil.cola. mais '. terras de estrangeiros. João jurou as bases da Constituição e em seguida as rasgou. entrando em ferros no horror se acrisolaram deixando os pátrios muros. Pedro F. O trajo. Longe do pensamento. que deu começo ao poemasinho florianesco das Cartas de sumptos—o amor nâo um [Ecco e Narciso. a mesa. Emquanto os mais ou fofos volteavam. que se desdobra em uma prolixidade de fructos. Já dos trabalhos anteriores se descrimina qual hade ser o género de assumptos da sua predilecção. A fabula um brinco pha por desenha-se-lhe á phantasia graciosamente. Ou com o feio de acções nos desluziam. D. que influenciou m sua vida. e no Transito do sr.tarde. o somno. quando os Outeiros passaram para o theatro. parece que se jurara ou encartara poeta cesáreo da casa Bragança-Bourbon. Foi n'umas férias de Coimbra. es outros amem Que amaram só do Extranho Nunca o seu jugo! o que nos sirva. do chão natal profanadores. escolhe o mais infantil de todos os as- ^ correspondido de uma terna nymmancebo cruel. 438 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL brando que fujam d'aquelles que trouxeram da emigração o estrangeirismo: Procura os que Mais dos ferros Procura os que Peregrinos por já bons. filiou-se na es- para a qual tinha já tao bons preparativos. pelo que vemos do Tributo saudoso d memoria do Libertador. . Tudo verduras de uma infância perpetua. Vejamos agora como Castilho sente e ama deve-lhe apparecer com aquella transparência e graça dos sete annos. Nos andaram sciencia enthesourando.

através de Ovidio que só procurava engraçadas aventuras. depois d'elles. jogos. religioso. A mythologia é uma phase dos symbolos maleriaes que exprimem o sentimento determinada a unidade sciente. Demoustier. quando se ignora a concepção que traduzia. transformações de amores. peior ainda que as seccas e absurdas indicações do Diccionario de Chompré. o systema . e pelo decurso do tempo perdida a memoria d'elle e conservada apenas a forma que o lembra. scenas lascivas. no fogo da inspiração o muito que consegue é deixar-nos somente que qualquer sopro espalha. Um falso conhecimento das formas e das imagens falsiíicou-lhe a expressão do sentimento. brincos.CASTILHO 439 A mythologia é de todas as creações a que tem menos ella recursos poéticos. as differentes inter- um mesmo uma facto considerado em civilisações differentes dão-lhe existência múltipla. tudo isto encerra as causas de transformação e o sentido do polytheismo grego. homem. umas vezes o simples nome de um facto É um phenomeno constitnia-se em realidade independente pela lei audácia da metáphora: Nomen. Xenophanes e Thales procuraram interpretar. a mythologia peias Cartas um a Emília é uma thema para requebros de phrase e ternos versinhos de galanteria. Empédocles. sacramental dos mysterios eleusinos. o modo de per- petuar um successo. Era e tilho um foi pósinho calcinado assim que Cas- comprehendeu a antiguidade. de ordenados e de humano. para divertir uma soté- ciedade sem crenças. O orphismo de Pythagoras. O sentimento do maravilhoso é o primeiro que se manifesta no á sua poesia. inconque Pythagoros. é o primeiro vellio Esses typos do também que dá forma olympo são como con- chas sem pérola para os que só conhecem a mythologia pela rotina das Academias. numen. Outras vezes a dos phenomenos naturaes véla-se sob pretações de uma forma dramática. e uma corrupção ameaçada pelo dio.

Mo Gzestc exprimir na palria lingua. do regosijo da vida. os Mémnides Eginenses. IO. 1 Ensinou-lhe a conhecer a antiguiKoma. seu mestre de latim e de poesia «e muito bom poeta latino e portuguez. que afamou Venusa. Olha com brando rosto os fructos d'e!le.* . ed. Os sons da lyra. elevaram cia antropológica isto á altura de uma scien- que para alguns desasisados parece ficção divertida creada pelos poetas. o exclusivismo de Dupuis e de Creiízer. cuja mão plantou meu estro. foi elle que lhe fez exprimir na pátria lingua. É o que não sa* bem "os tilho poetas das Arcádias.440 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL evhemerista. na Grécia. na Pérsia. Peixolo oximio. Do Lacio Pindo interpreto facundo! Tu foste. que lhe excitou n'alma o pri- meiro amor das Musas da sábia Roma. um sentimento puro não viciado por ne- nhuma theologia convencional e arbitraria. Em Oh cantos que inda entilo soltava a custo. e ©s sons da lyra venushia. da apparencia das realidades. vate. na Etruria exprimem uma poesia. eximio Peixoto. a da primeira impressão do mundo. p. Cart. graças a ti. e esses typos ideados na índia.» Foi esse eximio interprete do Lacio Pindo. uma como curiosidade. Ohl ^ bem hajas interprete fa- cundo. 4. fructo das de José Peixoto. A mythologia comparada tem encontrado nos symbolos religiosos de todos os povos uma unidade que leva á lei da sua formação. Nome poético de Castilho Da Arcádia do 2 Graças. de Ecco. uma um deus ex machina para valer aos seus heroes nos lances difificeis. a eru- dição de Voss e de Lobeck. e os ternos quei- xumes do amante de Corina. As Cartas lições de Ecco e Narciso! a primeira obra que Cas- escreveu intencionalmente para o publico. quem primeiro o amor daa Musas Da sábia lloma me excitaste ii'al(i)a! Os altos versos do cantor de Eneas. o cantor de Eneas. os altos versos de Virgílio. Do amante de Corina as ternas queixa:^.

nâo seguir os trabalhos de Vossio. como quem aviva uns traços mal debuchados que se apagam. ella só apresenta uma serie de puerilidades engenhosas. que se prestavam facilmente á mechanica do verso. ama o ali fraco. ou Otfried Múller. nâo tendo no mundo quem lhe responda a natureza expansão que a lança para Castilho tinha que se lhe esconde. fried Muller como o achamos na pede- não o podia fazer sentir o José Peixoto. Creuzer. de Sapho. e as tradições clás- sicas da escola não o deixavam comprehender as cousas. os ímpetos vertiginosos de Phedra. homens pri- como engraçadas allegorias. Gui- gniaut. Preller. a mulher conserva ainda o seu ideal indiano de perfeição a fraqueza. d'elle. Aquelles vultos serenos de Olympo hellenico desenharam-se-lhe na phanlasia como figurinhas recortadas. . o heroe triumpha não o conhece. a Heloísa. é ella que é vencida pelo amor. restos a Olhada mythologia por outra qualquer face. é o que explica as uniões desnaturaes de Pasiphae. Ha na my- thologia hellenica o vencível. artista. Ecco entra também no coro das suas irmãs prostradas pelo amor. de Biblis. aquelle não sabe resistir e se deixa ferir. é amor com um caracter de fatalidade in- um destino diante do qual se verga. Dupuis. Andava n'este tempo em voga o chato e assucarado o. O amor grego.CASTILHO 441 dade. indefinível. um sentimento vulgar. do poeta. Era também do moda o systema de século a xviii. que deleitam a imagi- nação e nos desenfadam dos cuidados da vida. á A escolha da acção mede o artista: Eccoè a alma solitária. O forte. Castilho procurou reprodu- zil-as. Esta é a base de todos os raythos. finos tropos. rastia. É esta a tendência infantil. ainda Otnão tinha encetado esse trabalho. cartas a Sophia. as nobres e vetustissimas tradições dos mitivos. visualidades capri- chosas do paganismo. livro de Demoiistier intitulado Cartas Emilia sobre a Mythologia.

a frescura primitiva. doirado. cruel. Na paixão de Ecco e Narciso é que apparece o pathos. bello. verdade da alma da Grécia transparecia brilhante nas creações po- A educação litteraria de Castilho. a harmonia de todas as partes absorvendo-se na perfeição do conjuncto. já O Ovidio. A serenidade da arte clássica. era a forma menos grega que podia escolher. amável. das cores. particular- mente esculptural. deixando predo- minar em todas as creações um aspecto visível. a ali suavidade. lindo. Os mestres. A lard. acreditou n'elles com a boa fé de criança. juvenil. . antiga. nada d'isto se encontra n'esse m- nocente livro das Cartas cVEcco. para os insulsos anhelos que poz na bocca de Heloisa e Abai- A Carta presta-se ao monologo vago. está tuída substi- com um colorido de adjectivos — de gentil. e que nos poemas homéricos nem uma só vez é claramente citada. concebeu abstrusamente Ecco pelo tom da pastoral a escrever os seus de Longus. terno. pulares. não como um accesso natural e franco da alma licenciosos. nada. se achava sob a virga férrea da auctoridade ma- empeciam-no de descobrir estas cousas. mas como enredos devaneios lúbricos dialogados declamatoriamente para excitar a sensualidade das damas romanas em quanto âs escravas ham no touca- dor d'ellas. e isto variado segundo as exigências da metrificação. ingrato. (1836) apresenta va-lhe a serie d'estes violen- tos amores. forma de Carta linha sido adoptada por Pope. tem- pestuoso. a tulella forçada em que gistral. formoso. cujas Metamorphoses estava traduzindo.442 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAí. a nitidez dos traços. a que só se encontra mais tarde nas obras' de arte. tyranno. e os mesmos poetas illudiram-n'o. a natureza espontânea e simples. como é a poesia romântica. e pôl-a requebrados galan- teios pela casca das arvores do bosque. Sem se lembrar de que nos tempos ante-homericos era desconhecida a escripta. achadas pela ciitica moderna. scismador.

em em ais consuramo os dias. tola foi lèr a epis- da sua incógnita Amadora. quarta. o rei dos animaes não se enverlhe lança. é rojos e esperanças são ainda de uma alma isso tado pelas fernas lagrimas que chora. ameaças. gonha de arrastar os grilhões que o amor Ecco aspira é encher os campos com Narciso. até á puerilidade.CASTILHO 443 Os versos nem uma vez se quebram. ella No delido da paixão. que cresce nas verdes margens de um sereno rio augmeninfantil. faz esco- Tem um ideal burguez de commodidade. enfeita-o como um typo de um quadro ílamengo. que estas Nymphas vençam. faz ideia da vida. o mais com- pleto de todos os alarves. mas não importa. ao fazer da resposta. não sei porque influição amorosa. pelo arranjo domestico. privado da vista nunca pôde abandonar o lar. . Desculpe-se pela candura e ingenuidade da alma do poeta. ar- por que o assumpto se esgota depois da primeira carta. Narciso. 34. ais as noites vólo. Aquellas iras. ama-o. as circumstancias foram-lhe prolongando a infância. Tu. formosos lodos . e lhe envia paz e saúde. Era lagrima?. como tu. o que filhos formosos como com novas Nymphas que ven* çam as Nymphas suas rivaes. não se esquece das figuras da rhelorica do mestre Maximiano para medir as emoções: Etn lagrimas. e ornar as florestas É uma comparação de maior para menor. Esta gloria a ti mesmo basde ncgar-te? Pag. Ecco escreve no tronco de um choupo. João vi. que lhe lher. Depois começa a tirar-lhe da cabeça essa ^ Tu que podes encher os nossos campos De tiilios. estão inteiriçados pela promplidão dos epithetos. e invocando o exemplo dos ani- maes que também amam. que podes ornar estas florestas De Nymphas novas. ediç. Ecco vae queixando-se. de preferencia por Mecenas D.

tudo o mais não tem movimento.444 iiallucinaçâo. em um assobio de feira O poema ali é todo d'este feitio do mais teimoso O amor é uma cousa ainda não sentida. que só tem alegria em que cravar fundas settas. de cujo facho tem ouvido feitos. 2 Pag.* N'este ponto está esgotado o assumpto. bárbaros ef- Pede-lhe que não se fie n'elle. O amor é da rocha caucasea. faz do somno pacifico nma guerra. tem uma doçura ique nausêa. o poeta convtiníia os monólogos como uma criança inquieta. regrados. e aquelle que serve sempre de antonomásia. ção d'elle. A carta que o auctor recebeu de uma senhora. o auctor ousou chamar-lhe romance. 42. gira sempre no mesmo eixo. nem Uãô pouco adivinhada. ca- [denciados. Elle gera cuidados. a bém com sua figurinha de rhetorica: o mundo para mim é todo graças. e anda acompanhado do refilho ceio. adjectivados. citar os o Monstro. são como a linguagem de uma criança que dá uma lição bem sabida. metaphorisados. Foi este o livro que lhe deu nome em Portugal e no Brazil. pelo cor- 1 Pag. . 165. do ódio e do ciúme voraz. O esmero dos versos. Angustias para ti é todo o mundo. que se não |cansa de assoprar freneticamente |até quebral-o. da inveja. foi por isso que nos demorámos na apreciaa Apesar de toda mythologia académica d'este ^ livro. O resto do li- vro é digno de compaixão pelas futilidades da puerícia. porque desconhece o amor. do tigre hyrcano e de Megeras. que é pequeno infante mas é boliçoso e amigo de brincar. Á d'isto pede-lhe vista que se deixe de imaginações: e para mosnão se esquece de retorquir tam- trar em factos a verdade. t elmanismo. e faz murchar os prazeres. HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Dá graças ao céo. e exulta com o pranto e os ais arranca.

» a doçura e subli- . Não faltaram imitações dos poetastros do reino. e nunca mais seja vista por Mancebo algum durante resultado de — Vénus. servindo de representante das Senho- ras portuguezas toca o ridículo. 1 de abril. vem accusal-o. e depois escuta a sentença concebida n'estes 5 termos: «O Supremo tribunal de Cythera depois de haver atten- /tamente ouvido o discurso recitado por Aglaia. Castilho não concebia a poesia ctiva como a expressão subje- dos sentimentos. estava privado de contemplar o mundo exterior. o auctor defende-se em ou- tro discurso. nas Festas de Cythera. que foi.— Os Prazeres. e como tal determina que o seu credito pu- blico lhe seja reslituido por todo o Império de Amor: ora accusadora convencida. estas gra- se ri. como o da calumnia. contra o Poeta Auctor das Cartas d'Ecco e Narciso. assim como a sua defeza apresentada pela sua iMusa. do Amor e Melancholia. forma uma lenda revelada na Chave do Enigma. em que a mais nova das graças. defendendo o seu sexo atacado nas Cartas (TEcco. seja por Ires dias privada de tomar parte a sua estada no banho.— Os Jogos. e tendia constantemente para elle.» um espirito Eis o que não pôde soltar-se a livre das fjjxas. O Processo de Cythera. denando egualmente. Sobre este pedestal o proclamaram génio. Foi uma boa sociedade ças fizeram as delicias dos serões nas familias. declara que o accusado está innocenle.— Os Amores. Imagi- nava a natureza como a vira aos sete annos. Aglaia. Era mais um passo além do Piolho Viajante e do Feliz Independente. por isso a sua poesia linha «por objecto apresentar-nos os mais risonhos quadros campestres animados com toda midade do sentimento. Mareias e Branderinos escrevendo suas confidencias. é esta a causa de tudo aquillo de que a gente hoje d'esses tempos. Cythera.CASTILHO 445 reio de Lisboa.

saudade da natu- reza que se lhe furta. ridículo. insipid(^ Castilho sente de vez em quando uma ella. O poemeto affectado^^p emoção na sociedade portugueza. tiveram por objecto descrever o amor em to- das as suas differentes situações. o seu ár elegante. o ideal movimento roma/i//6'o. e pintar os campos todos os seus pontos de vista mais agradáveis. atrazada sempre na leitura um perigo. impossível. o prazer e a felicidade. um pastor coroando com murta e rosas as tranças da sua 1 bella pastora. d'ella quem lhes ensinou a tirar sons fáceis e harmoniosos. um banho que pasce no as aves a saltar de tão gentis um bosque extensíssimo e fron- doso cujas cimas sao meneadas por um zephyro.446 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Castilho não imagina a differença na ordem de factos que exprimem o táphoras e sia ou que exprimem o sublime. Dá-nos meimagens de similhança por ideias. 19. * em faz Quem esta ideia da poesia nâo podia elevar-se acima das Carias d^Ecco uma grande e piegas. valle. que vira Castilho já então aconselhava á mocidade que evitasse o «cantae a ternura. p. fronte A sua sempre risonha e serena . agora ouve as flores ramo em ramo ou por entre além vê como ellas. vae parq e engana-se. entre os Amores ao seio da Natureza. assim a poebello. sem affectaçao de magestade.» Eis o estafado das pastoraes calcadas sobre a do bucolismo e Daphne Chloe de Longus.» e iVarmo. quem offereceu a primeira flauta aos pastores. . Os primeiros cantos que ella inspirou. cresceu nas cabanas simplices dos primeiros homens. mas de rosas e de murtas os seus passos eram ligeiros. é um género falso. sonha em re- Ioda a parte um rio que corta os prados ao longe. Foi ella e não Pan. Finge valles Cartas d'Ecco. é a «Primogénita das Musas. nâo se coroou de louros. nasceu no meio das flocreoii-se restas. dizendo-lhe: amor. o seu trajo ura véo transpafrente.

Faço um rio correr por entre um bosque. gosar prazeres. risonhas. Vendo as aves voar de um ramo em outro Por entre as ílAres tão gentis como ellas. de Gessner que se pôde o até ao A falta de iadividuahdade facilita-lhe fallar pela bocca dos ternos pastores. Se de uma rocha no elevado cume Nâo me é dado sentir. p. Dou rebanhos ao campo. * Depois dos sete aonos Castilho nâo tornou a communicar com a natureza senão através de Florian. melifluas da su a Primavera. contemplando o 'mundo Vór. Se n. £ graça a todo o mundo. Finjo mil vailes. Vendo um bo?q«e extensíssimo e frondoso. Cartas d^Ecco.lo me é dado. que violetas ornara. Vendo como um pastor de murta e rosas Coroa as trancas da pastora bella. e d'onde cheiro as Oôres. Se os fracos olhos meus não descorlinam O sublime espectáculo dos campos. Cujas cimas um Zephiro mcnêa. É um como doestes li vi os que tra zem o sellofiQ esquecimento^ os insectos de nm dia de calor. os gemidos das grutas vem tudo quanto pôde dar a encher sonorosamente o verso. phanlastieas. Co'a8 Musas meditando eu sinto e góso Novas scenas. Que cm si retrata a abobada pendente. e luz ás sombras. Vendo um rio. que ao longe os prados corta. Agora entendem-se melhor as har- monias brandas. ab vêr quanto é grande a Natureza. não é preciso sentir quando o som das frautas. e mil Faunos que habitam as grutas. Elle nos diz ir que é pela estrada seio da natureza. Vendo um rebanho. Planto florestas. e dos idylios ar- lificiaes e de uma ingenuidade florida tola de Gessner. E um beijo em premio docemente furta. aonde ajunte as Nymphas. . aves á relva. o aroma dos festões. É poesia chamada pastoril. florestas onde as nymphas estão juntas.CASTILHO 447 ornados de violetas. que bailam em uma 1 Se a natureza me negou seus quadros. que no valie gira. 16. Mando mil Faunos habitar as grutas. ! Que o tolda e guarda.

448 HISTORIA DO ROMANTISMO EM POETUGAL restea do sol vinda por entre a folhagem do arvoredo. 2*22. real. correio (le Villa do Condo.monio que escreveu os Ciúmes do Bardo. 254.) . entablaron los dos amantes correspondência. Maria Isabel de Baena Coimbra Portugal. (p. Murió su esposa en 10 de febrero de 1837. Narciso um lado Este hvro liga-se á historia intima de Castilho. . (p.. • el afortunado ciego quien era ai que se habia pagado * hasta que cabo de mucho tiempo hubo de descubrir . . no obstante vários la iobstaculos en que no tuvo parte alguua vohintad. .) Foi na constância d'este matri- . Este successo co- meçado pela puerilidade innocente das Cartas de Ecco a * Na Chave do enigma explicara se mflhor eslas allugões. .» (p. La respuesta fué cuai asi lisongeaba el merecia una declaracion que amor próprio sin dei poeta. retar- idaron su himeneo hasta ano i834 . la [saber :del. G e 7. remefida de Azurara. . como se na biographia hespa- nhola: «se arrojo á escribirle á Coimbra donde residia. a qual. a caria recebida por (Castilho fura de 27 de selemhro do 182í. e o nome verdadeiro D. é uma Primavera não se ataca teve breve e duvidosa como a de um paiz sem vida. a gloria homem desmerecendo e o livro que uma influencia funesta sobre o gosto de todos e é pre- ciso modifical-a.. es- Uas palabras: «Si se os presenlase una Ecco «Iniitarieis voí a vuestro Narciso?» «puso despues una firma supuesta y jsi í las senas. Ha nas Cartas de Ecco que tornou sympathico o poemeto.. Vivió con ella poço mas de dos anos . para que queria le dirigiese la respuesta . .) O nome supposto eia Maria da Expectação Silva Carvalho.el nombre de su embozada amiga el . Cita-se por ser uma do das coroas da gloria de Castilho. e deu causa ao seu casamento com uma senhora le reclusa do con- vento de Vairâo. y él ha prometido escribir un libro-entero dedicado á su memoria.

tudo paia o poeta dos idylios loucuras.» O renascimento da critica. não me em mim próprio lastimo. n'esse mundosi- » Primavera. que se aproveita dos sentimentos novos da edade as suas creações arlisticas. da philosophia. as invenções. abjurava os «Áureos numes de Ascreo. é ai. íicções risonhos alista — * da culta Grécia amável» e diz que nâo se «debaixo das bandeiras triumphaes dos modernos espanca-numes. 29 . 41. do direito politico. minas. Castilho guardou fielmente a tradição arcádica. sempre teme aventurar-se pelos mundos da litleratura subjectiva do Romantismo. porém rio-me.CASTILHO 449 pueril da Narciso.) 2 lbid. apenas o mar os cuspir.» ^ Fique embora na á vista galeões alterosos á lucta mesma praia uns doce illusâo da sua poesia pastoril. e de passo tibio e mal seguro.y p. emquanío andam e na com os elementos. 43. que por um de tempestade. outros se aterram. da historia. pasmam. terminou com uma cerimonia também hecatombe da correspondência amorosa. o livro promete tido reduziu-se ás prosas piegas do Amor Melancholia. outros suspiram pelo instante do naufrágio para se arremessarem aos despojos. pag. (1837. as revoluções que agitaram o século que se abria. e cuido estar ven.lo dia um menino. ao tempo que de mim estão no choco tão grandes destinos do mundo. criança. lembra-se da invocação da D. Elle fante eram olho mesmo se sente in- no meio d'esle ruido de cyclopes: «quando a brincar me e me vejo em redor com flores e cordeiros. moderna paia Todas as ailusôes dos seus pró- movimento de Garrett no impulso dado Fazendo profissão de fé mythologica. sobre as cinzas ih qual mandou pôr uma pequena lápide que está era um quintal de uma casa de aluguer em Lisboa. enthesoura conchas e forma lagôasinhas na praia. desvairamentos. Branca e da inspiração que logos referem-se ao á litteralura nacional.

. ^aiJPrimavera úiz que teve a intenção de retratar-se na sua face moral. os rudimentos do theatro alguns personagens da tragedia clássica são o 1 Primavera. a poesia da natureza não foi achada nem por ali Daphnis. ficava n'esse instante Na Grécia. o sceptro era o cajado desfolhado. assim. profundo. A verdadeira. hylitteraria pothese gratuita que deu origem á tradição colismo. e dando expressão a esse sentimento. ples uma aposta. um dialogo de pastores sobre a lavoura. violentando a que o admirem. entra nas legendas da vida pastoricia dos reis da edade heróica. que mostra aos amigos.450 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL nlio. os heroes derrubam os monstros que andam roubando os bois. conservando-a „ tal como cantara o poeta tor- aos vinte e cinco annos. compunham pacifica. rebanhos. os successos de uma vida tão sim- como Suppoz-se assim uma edade de ouro. supporta- va-se. a vida pastoral tem também um caracter aryano. Quando o género bucólico era deslavado mas innocente. porque se não volta para as cabanas das serranias. hellenico. avivando as saudades do passado. A poesia veiu revelal-o na sua forma mais in- génua. pag. Stesichoro ou Theocrito. dá vontade de limpar o rosto d'essas falsas caracterisaçôes. na-se intolerante * De vez em quando com o seu bucolismo. 30. a intima poesia da natureza só se encon- tra reproduzida na primeira impressão virginal nos poemas da índia. as torrentes. Assim foram as velhas lendas de uma vida que passara. sobre os a alegria das cearas. ler. Paris do monte Ida. cantado nas theogonias orientaes. o boi. mal diz o tempo. do bu- O poema de Hesiodo. reminiscência da quinta ajardinada dos arrabaldes de elle se Lisboa onde lhe correu a infância. O divino poema do Eamayana eleva. as calmas. sudra que o ouvisse livre. Anchises era pastor da Troada. beatifica o que o escuta.

Elle não copia directamente da natureza. que também o reproduziram mais tarde. com as trage- com as epopèas. vem aliviar-se e desabafar. Deshoulières e Fontenelle çam . é accusado pelos seus de ter imitado os francezes. 267. poeta da côrle de Hieron e de Ptolomeu. Egger. elle confessa abertamente essa predilecção pelo género. á custa de muito esforço. e no meio das adulações. no palácio dos Plolomeus. I O próprio Salomão Gessner. e já de si Com cesá- uma alma sempre infantil. no bulício de Alexandria. cit. também poeta reo.. metralha de preceitos impostos pelos grammaticos. serviram-se do mesmo molde. Castilho não podia faltar á tradição bucólica. Racan. si com a comedia. aspirando a vida desassombrada dos campos. Sagrais. Todos os poetas pastoris segui- ram as pisadas de Theocrito. viram a natureza através do prisma baço dos seus Na renascença dos modelos da dias. canta sobre as reminiscências da Sicilia. franceza. Bernardim lUbeiro domina o bucolismo os poetas france. Mad. com os outros poetas a lographo chama melros fechados quem Timon o Sil- em uma gaiola. diz que é favor demasiado o chamar-lhc * génio pelos seus idylios. por chega a formar um género dominante. italiana. com que o vate de Syracusa chega.CASTILHO 451 fundamento da arte de Theocrilo! arte convencional e estreita. infehespanhola e portu- ctando a lilteratura gueza. a tocar a brandura e amenidade campestre. Estes diálogos de pastores absorviam sempre a I musa dos poetas cesáreos. e declara » Obr. as balisas ao género pastoral. idylios. Todos os nossos poetas lhe sagraram suis lyras. o génio pas- toril da Allemanha. nas Memorias de lilteratura antiga. floresceu também o idylio. antiguidade. . zes imitam os antigos e fazem dos quadros campestres uma liltelaii- aguarella descorada que serve de typo n'esta tradição raria . Theocrilo obedece a toda a. pag.

10. a tanta doçura por onde de todas as outras se extremam suas obras! Em conhecer a natureza. levam-nos elles uma infinita vantagem: amam-n'a mais deveras. navegam em mar de rosas. — Oh. e especialmente a natureza campezina. Todos os nossos poetas pastoris nada têm que vêr com as meras traducçôes de Gessner. todas minhas parochianas castas. Isto dizia de Gessner Florian. Castilho descreve a influencia de tão miríficos modelos: «Muito aproveitei em tão boa escola: leitores. meus como poeta não. (1837.— 452 HISTORIA DO BOMANTISMO EM PORTUGAL todo O desvanecimento que tem pelos seus mestres Florian e Gessner: «Alguma cousa porque farão para aqui palavras do meu Florian.» Estes poetas pastoris têm uma innocencia de leite. bem 1 o sabem. mas realidade. mais virtuoso que antes da lição. que como homem sim. retratam-n'a com tintas mais fieis. Isto não o escrevia eu. e ninguém me havia de ao sermão adormecer. havia de aos lêr e reler Gessner meus freguezes: e por certissimo tenho que todos meus aldeões se fariam probos. se nós podessemos lêr em seu original texta os bons auctores d'essa Allemanha. e porque tudo diga. Gessner não era para mim um nome. e virtude d'aquella tra- zendo bemaventuranças. Fosse eu parocho de que sempre á estação da missa. Não respira senão que logo vem aldeia. pag. mais terno. as verterei de muito boa- mente. um suavíssimo contubernal. me eram livros. um nem já as suas obras * nuvem. enlevar-nos-ia a tanta singeleza. que d'issa Primavera. que. vêm uma deosa em cada senão individuo presente. mas amplamente o sentia n'esse bom tempo que já lá vae. moral pura e fácil. vida e mundo. digno de o louvar pelo mui bem que o sabia compreliender e seguir. os Idylios ou Daphnis. Ninguém jamais fecha a Morte de Abel. d'eile são.) . sem já se sentir mais soffrido. mais mavioso. nem o dizia.

pag. 127. liO pag. sem paixão. sentia-me palpitar no um coração da edade d'ouro. na opinião do profundo Herder. II. líO. Poética. Minhas nativas pro. nem das bozinas dos pas- tores o delicioso colorido da natureza. se amolleceu. esconsos valles. Obras completas. ciciosos regatos. . fron- dentes arvoredos. Elle não tirou dos Alpes. em summa. 2. ^ de Augusto Schlegell. então é que poderam haver escriptos como Hermann e Dorothea de Goethe. mas na simplicidade e no remanso da vida. pag.CASTILHO 453 tive mui cabal e experimentada certeza. segundo João Paulo é uma espécie de requeijão fresco da aldeia. fissipide armento. penções benéficas se arraigaram minha interior aspereza." parle. Dat. que os fran^ cezes acclimaram ao pé do superfino idylico de Fonlenclle. e de João Paulo Richter não dá pelas plantas de Theocrito. se pomarinho e * um meu parocho. Quando se concebeu que a poesia do não consistia em frescas fontes. estavam fora da sociedade beatifica idylio civil. esvoaçava-me na cainteira beça uma alma de Árcade. 1 i. e ter- nas queixas de enamoradas pastoras. que todos de peito si a têm. foi então que Schiller verso: pode abrir o seu poema da Resignação com este «E eu também nasci na Arcádia» não menos enér- gico que o «E eu também sou pintor» de Gorregio. 1 mas Gastilho desa- 2 3 3 Primavera. um ecco amortecido de o mesmo poeta pastoril da Allemanha. nem das cabanas. bas mui brancas e cordeiros Florian fosse pommui nédios. II. compunha todo o meu económico futuro de uma choupana.» Que engraçada de infância! prolongada ainda até aos trinta e cinco annos edade do poeta! Mas Florian é Gessner . t. O primeiro erro de todos estes poetas bucólicos estava em não collocar o mundo pastoral fora da decantada edade de ouro. n'uma monotonia. Estas são as creaçôes puras do Romantismo. propôr-me-ia nas suas homilias como um santo da sua bemaventurança. 142.

Os idylios gessnericos. em que o poeta se mostra mais criança. A predilecção por Gessner e Fiorian. para tor- nar castas e probas as minhas ovelhas?* A immensa feli- cidade cansa. . e encontradissimas impressões que se passam no individuo. Josino. É n'este dos. e o poeta teve o intuito a com de imitar Fiorian e Gessner. agitações. uma pagina avulsa qual- quer. Até disse: «Quando será laia e que outro homem. a vi- bração da mesma corda. na França explica- se pelo exaggerado sentimentalismo propagado por João Jac- > Primavera. uma pessoa que nos está encommodando mata uma sede vivíssima das calmas com um de é como quem copo de agua morna.preciso o. da costumes dos nossos velhos. basta para ficar odiando para sempre o género pastoril. e os dos seus imitadores estafam . pela monotonia da felicidade é sempre o mesmo tom. A zino. Albano. são e alegria. é como estas caricias forçadas . pag. Primavei^a foi escripta (I82á) sob o influxo dos pasto- res Elmiro. Salicio. Causa lèl dó X) lembrar que foi. possa dizer na sinceridade da sua alma: — Se fosse paro- dio. deviam realçar n'este assumpto a força de dominar todos estes instinctos. leria Byron ou Schiller á estação da missa. a graça. a frescura. odeiava-o de morte. Minha morreu ensoado no violão do padre Leitão. pontaneidade e uma ignorância a candidez. deixou apparecer somente loquacidade e a indiscrição. a expan. para que a creaçâo do artista corresponda ás multímodas volições. Anfrizo.454 tou HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL com elle. aquelle livro. Auliso. nos de Castilho este defeito tor- na-se insuportável pela prolixidade e abundância dos versos e minúcias dos detalhes. é preciso contrastes. a esfeliz. Fran- que ornavam de grinaldas e festões entre o descante da a cabeça do Lilia Mémde to- nide Eginense. II. As qualidades de criança.

como quem * faz cartinhas de namocódigo rado havia um diccionario mythologico como um de pragmática palaciana. brinca andam Dryadas rora abre o roxo com Flora um Zephiro inconstante. 22í. comme aujourd'hui. . 2 si um estiramento de per io. on niil en a?u?re TÂmour el Ics toutes celles donl ce siécle s'étail affublé. Vertumnos in- Silvanos. p. ques Rousseau. dont cUe esl le fond naturel el Telement ínlime. e as graças. nâo com a sympathia sensual da Rediz Taine. voredos. ou employa Appolion et les Musses comme rbemisticbe el la cei-ure. p.» Taine. como nem com o espirito archeologico giria moderno. elle mesmo se transporta esse «On mundo: «Metti-me pythagorico aos vinte e três de vil alors le spectacle le plus extraordinaire el le plus ridicule. a soffridos. nascença. e era logar d'ella fa- bricado um Olympo. Favonios subtis. 2 Primavera. na ebulição do pleno século xix. lalin Graces comme les cédrats confiis el les billels doux. pour remplir un cadre vide el ajouler une parada de plus à 1 poésie II y eut une sori de jargon grec et convenable au méníie limbre qu'une perruque. citavara-se musas . Hamadriades. amorosa Vénus. não se contenta só em acon- selhar o leite e o mel dourado. A inspiração de Castilho alentava-se exclusivamente da tradição do século xvur. os ledos Eisos. 1 Olympe restaure non par sympalbie arcbeologique. a Aumez das flores. la séparée de la religion. elle próprio nota era dos. la Fonlaine et sts Fables. que fazia dizer que o auctor da Nova Heloísa desejava andar de quatro pés. mas por conveniência. com que. Foi quando se viu a poesia separada da religião. o poeta procura cha- mar para íi o mundo dos idylios. todo o sacro povo morador do Olympo. 36. era uma espécie de grega e latina lâo necessária como as um chino. il y eul un diclioncaire mylhologiqne comme un code du tavoir-vivre el les pauvres dieux anliques arriverent á celle bumilialion exlrôme de servir de pasliches et de paraveuts. Na sua ingenuidade infantU. exaggerou ainda mais todos estesdefeitos. Ali a natureza está revestida de páphias allegorias poá escuta pelos ar- voara Faunos os montes.CASTILHO 455 a Voltaire. mais par convenanie. com os dons de Pomôna enfeitam a natureza inteira. Castalias fontes. Nayades.

e permaneci na observância do voto até vinte e três de agosto do seguinte anno. seis tigres. se como pôde um livro que se compõe de feli- «Todos os amores de que se urde e tece a domestica acham aqui representados por um modo que se recommendam e d'elles se embae de mui bom grado o animo: o amor filial. que amisade. Delille. arvores. .» - dura! Fiquem por Sempre uma nauseabunda doçura. as pequeninas comparações de cousas fúteis.. quatro cães. 2 llid. flores. até o affecto aos animaes. didáctica. não lem acção. innumeras primaveras. com uma procu- rada melodia de versificação embala os ouvidos para não ouvirem. três cavallos. tilho faz uma infinidade de auroras: Cas- também e o seu inventario. Acabei o noviciado. despedi-me.» * e em logar de pro- A impossibilidade da vida aconselhava. uma lymphatica branuma vez destruídas estas funestas in- ílaencias dos poetas didácticos do Império. o materno. o paterno. A Primavera deveu o acolhimento á falta de leitura que soffreu a nossa 1 Primavera. p. lendo sido gastos os mezes. muitos invernos. A sua Primavera é uma bemaventurança de têl-a fátuos. dois gatos. p. e em França. agosto do anno de 18^2. eincoenta e seis occasos. em acabar de me resolver e appareliiar para tão grande façanha. tornava evidente a falsidade do ideal. passava em levista todas as descripçôes e ufanava-se de ter feito doze ^amellos. cidade. a creaturas de Deus. que desde a feitura do Poema decorreram alé esse. immensos estios. e mais vem de envolta com a recreação. o conjugal.456 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGA!. 284. 44. companheiras nossas n'este mundo. o mestre de todos estes pseudo-poeias. Castilho é como um d'estes poetas da decadência clássica na litteratura do Império pertence á escola descriptiva. fessar.

adaptando-a a as Modinhas bra- cantava-se a letra da Joven Lilia abandonada. graciosos da Colin e da Montoheu. no livro que escreveu d'esta viagem. As leitoras amáveis uma noites. Castilho não conhecia a Heloísa da legenda. o Fios Saneio- Foi isto o que deu largas ao poeta: festejaram-n'o com cartas anonymas. senão. exprimem á scismalicos enlevos e bran- dos queixumes que levavam (los piedade os meigos corações quinze annos. a ponto de nâo poder sustentar o papel do Narciso.CASTILHO 457 sociedade. de uma ária da Semiramis. enternecidos. não só emquanto ás palavras. ao pé dos romances moraes. descreve que hoje são para nós zileiras. (1828) que o auctor mais tarde ex- 'plica loquaz e puerihnente na Chave do Enigma. na prosa que acompanha as insonsasguadrinhas. João. Tínhamos apenas chronicas succulentas de fra- des! O pobre livrinho era ura manná. mas com- . como n'este tempo estavam ainda em todo o seu vigor Castilho. a baplisar frio nem com o livro de Rousseau. falia sem a influencia das lendas do- d'este costume da sociedade portugueza: até pela «As modinhas portuguezas são peregrinamente bellas e simples. e se cantarolavam em Modinhas. Depressa mereceu as honras de occupar um logar no çafatinho de costura. Kinsey. e mal feito. capellão de lord Aukland. Kinsey. históricas. que julgou Castilho mesticas. que então se traduziam por cá. parecem sortes da noite de S. esse titulo comprommettedor as quadrinhas não se atreveria um livro banal. de Rossini. ás estavam restrictas ás Mil Novellas e em que nâo appa- recia uma dada vogal. ao Grandisson. É este caso a origem do Amor e MelaiichoUa ou a Novissima Heloísa. pre- cioso pela grande quantidade de informações coUigidas. que viajou gal em Portu- em 1827. e andavam em moda. ou d'estes ternos dísticos que então era de costume bordar nos lenços de assoar ou pôr no papel dos rebuçados. e nas faltas suppria rum ou traga va-se a Biblia em família.

de desespero ou esperança. . e seu effeito é tal que. havia um ex- cesso de Vida que elle não sentia. mas e tendia já para a sua decadência pela confusão das árias tradicionaes com lia as fioritiires das operas italianas. Mas em roda do poeta le- vantava-se uma arte turbulenta. uma lenda engraçada. terno ou melancholico. o seu fumo formar em um vago nebuloso. Sâo geralmente expressão de algum sentimento amoroso. O Amor Melancho- de Castilho é uma serie de quadras amorosas em es- tylo de modinha. fizeram reviver a Modinha brazileira. quando bem acom- panhadas pela voz á guitarra. que se vulgarisou na sociedade burgueza' por ter apparecido n'esta corrente de extinguia. As relações de Portugal com João a còrle VI do Rio de Janeiro durante o governo de D. chegam a arrancar lagrimas dos ouvintes. era o Romantismo. que a realidade o humilha. devastadora.» Este mesmo enlhusiasmo achamos nos viajantes com re- lação aos cantos lyricos peruanos.453 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL posição da musica. apesar de acostumados á sua frequente repetição. um género que se Melhor lhe fora ces cartas a volta do auctor já ter subido á pyra fumegante com as doiria que respondia.

a Arte romântica não leve modelos. poéticas. O Drama Cainõe. e que é causa de tantas . Estes se chama- ram 'Goethe. como provocam sempre as ideias novas. Yae ao Brazil em 1854. Não XIX vale apresentar novameiíle o quadro litteraluras do renascimeoto de todas as . assignala uma transformação brilhante de que a humanidade só teve consciência nas suascreações. ao cabo viu-se ao sol da verdade que os que debatiam contra eram velhos académicos. era essencialmente naciomlisar-se.— 459 § 11 — Imprecaçõeá contra as doulrioaii do Romantismo. — A poesia arcàdica nas Excavações — Castilho. Miguel Fundação da Sociedade dos Amigos das Leiras. uma transigência provisória cora o Roclássicos. —X propaganda da Leitura repentina. Nomeio das perturbações politicas de 1847 v<ie á Ilha de S. : terminação da poesia clássica e da poesia romântica. realisando sentimentos (]ue se cujos impulsos não podem ser calculados nem medidos. Consequências da morte do Garrett: Castilho impõe de — — — — — ustraducções do latim. que já se não podiam desacostumar da senda aristotélica. setembrista chasquéa o movimento luanlismo: (1836 a 1831. anlitro 184G no opúsculo cómico da Chronica certa de Maria da Fonte. A Noite do lillerarias históricos. da Europa na al)ertura do século Seciiol si era preciso o hymno do rinuova. livre. — na litteratura. não com o nobre sentido que lhe deu mas como simples contraposição aos românticos. e subjectiva. O. Polemicas virulentas. 11- A grande individualidade alcançada pelas revoluções beraes e pelo desenvolvimento dos estutlos scientiOcos. Fp] jti§A3í Jiberdade que cada litteratura tirou forras para Romantismo não se implantou sem lacta. — Caslilbo regressa de novo aos estudos OiQuã' dros — As Metamorphoses de Ovidio traduzidas. lucta travada.i e Felicidade pela Agricultura. que agora se adopta por esse mundo. Como não previnem.) — Castilho faz Castello. e íunda a pedaulocraciaportugueza do Llogiomuluu. renhida. Diz Goethe na sua correspondência com Eckermann «A deos clássicos.

que pelo contrario. 203. nem de Schiller o que Florian dizia de Gessner. é. e que talvez por isso mesmo.» * tincção e 'levaram-n'a mais longe. de scepticismo moral. que elle maneja com tanta força e 2 ( dextridade. respondeu a [eBta allusão Garrett com as seguintes linhas: «Tem sido accusado de x cep tico. ii..3 Almeida Garrett que se deve a renovação da moderna litteratura portugueza.460 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL discussões e dissenções. Quando o nosso auclor ((iarreK) lança mSo da /cortante e destruidora arnaa do sarcasmo. cônscio do seu poder. é uma accusaçilo mais absurda. Schiller. t. de forma que hoje se es- As bellas traducçôes dos romances de Walter Scott por André Joaquim Ramalho e Sousa. João Paulo. como nol-o descreve clr- €umstanciadamenle no prologo dos Quadros Históricos de Portugal (1838): «A actual litteratura (onde a ha) em desconto de seus e. passarani por assim dizer desapercebidas. o único que me foi pareceu bom. É. No prologo da segunda ediçílo das Viagens na minha Terra. dormente da Roma pagã que acorda na Roma do christianismo. €ssa leitura não podia tornar castas e probas as suas ovelhas. 1 / Ejespraeche unt Eckermann. ern quem a faz. tem 436. a traducção do Oberon de Wielland por Filinto e pela marqueza de Alorna.'e um modo para se defender contra mim. que escreveu o seu tratado da poesia sentimental e dis- da poesia simples. como o. Castilho viu-se no meio d'este espirito novo. procedia de julgou seu methodo melhor. As suas primeiras palavras foram de maldição aos perturbadores da serenidade da velha Arcádia. Poelira. todo subjectivo. elle rara vez . Eu tinha adoptado para a poesia o pro- cesso objectivo. Os Schlegell apoderaram-se d'esta tende por todo o mundo. no que respeita á essência. Viu que não podia di- zer d'elles. Vejamos o pavoroso quadro d'essa invasão nos tal valles e amenidades do seu idylio. ou grande ignorância ou grande mú fé. que só denuncia. ^ outros grandes peccados de scepticismo religioso o que in- mais forte e indisculpavel è. p. foram as primeiras disposições para q Romantismo. mi- nha e de Schiller.

e a quem. vae tremular por cima da cabeça de Deus. para a adoração profunda do Eterno. vii. «Voltando á accusação de scepticismo. Âs mesmas suas ironias que tanto ferem. re^pfiiaos sempre. não ae dirige nunca contra individues: vè se que dtspréza a fácil vingança que. de invejosos que o calumniam. para que entendam a verdade que me abafa. como as suas obras. ou voar pelos alcantis e espinhos de todas as diííiculdades ou de todas as virtudes. veja. contra o? sophisque elle o faz. e largou falia por velhos os graves cothurnos e fidalga do seu tempo. caracteres de crenças tão fortes como de Catão. levantou-se en- uma grande confusão. para banquetes de cynicos sobre a lamagem nas ta- bernas. de Camões. depois que olhou para o espectro do Passado. mais puDidos Geara os seus cmulos com esse desprezo do bomem superior que se não apercebe de sua malignidade insulsa e insignilicante. de Frei Luiz de e aqui n'esta obra (Viagens) os de Fiei Diniz. . e quanto a nós. por cada dicterio insulso e ephemero com que o tem pertendido injuriar elle podia condemnar ao eterno opprobrio do um pelouriubo immoital. opiniões. ainda dizemos que não pôde ser scepHco o espirito que concebeu. porque sempre contra a hypocrisia. e disse ao Presente: Dança ao redor de mim. e lhe atirou veneno e riu.se toma nas mãos — que é mas.— CASTILHO 461 troduzido e refinado muito conhecimento de relações das partes e indivíduos do mundo entre si. Crenças. podia tomar de inimigos que o Dão poupara. remontada pelos céos. e lhe cuspiu na face e riu. para o embrião do Futuro.) «Depois que a Musa se chrismou depois que em Natureza. liberal e plcboa^ prestes para tudo. porque eu manancial de todas as dores Ímpias. para dançar núa com as prostitutas. misturada com uma decima sei essência sublilissima de egoismo esterelisador (não a como diga. — Francisca. tre todos os seus ministros te abri o magestoso —e riu. com tão poderosas armas. e contra os bypocritas e sopbistas de todas as cores. Ainda bem que o nào faz! mais importantes são as suas obras. depois que disse na sua nobre ou delirante ambição: Tudo émeu. de Joanninba^da Irm& Sousa. e em si achou rores com que pintou tão vivos. se fez cosmopolita. e d'ahi nos ter ex- premido para o coração uma quinta essência mui pura de interesse e aíTecto universal. sentimento?. e cravou no meio do mundo espantado bandeira livre de conquistadora que.» p.

os lamentos do Passado. disseram: Nós procuraremos salvar tudo — isto pelo amor. o incesto. No outro ouvido. almas indomáveis nascidas para o triumpho. um anjo lhe insinua que a felicidade toda assenta na paz interior. por onde se hão de embeber e quanto sangue hade manar. o de]cid]o. Outros. explica e defende o adultério. como é que o pé se lhe hade por sobre os olhos para que não veja o céo. o parricidio. enojam. horrores que o grande Solon nem qui- zera se julgassem possíveis. o infanticídio.» É com estas mesmas palavras que o clero tem amotinado as turbas contra todos os progres«O mesmo povo abre livros. 462 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL se ouviram os gemidos do Provir. palavras de agouro e maldição. com preten- ç5o a estylo biblico. as blasphemias do Presente. Appareceram sophismas do parricidio nos Salteadores de Schiller (este não podia tor- . quantos gemidos e arrancos ouvir-se. com que sorrisos e palavras se hade desesperar a agonia. almas generosas nascidas para amar.» — Estes dislates. como se consumma. e n'elles se encontra com a os mais formosos quadros de toda imaginável brandura. para verdade. o falricidio. quantas fibras descozer-se. que só das palavras compõe a sua sa- bedoria. o perjúrio. a virtude no amar sempre a todos e a tudo. disse: E a poesia lhe —Ide e os bafejou a todos. para que mais dôa como se hervara. com que gestos. no amar sem outro fim á porfia os senão o próprio amar. disseram —Nós assignalaremos as rodas do nosso : carro sobre estes três cadáveres do Tempo.» falso Aqui a jumenta de Balaam obrigou o propheta a fallar um ouvido um demónio lhe inspira como se embotam os punhaes^ para que a ferida seja mais vagarosa como se farpam. para lhes prevenir penas em suas leis. que não sare. lábios. (absurdo) corre aos theatros a aprender. alheias «O povo. nunca haviam sair de humanos fanático sos. «Por . a paz interior na virtude. que semelhantes ás que uma antiga religião defendia.. a trai- ção. o regicídio. «Uns.

não inventasles outro para a vossa própria consciência. functo o nâo contaminasse Oh quem a presença d'este vivo lhe não aggravasse a con- demnaçãoí Homens innovadores. mundo. nefandahomem. Calherina Hotvard e as j Prisões de Sihio Péllico. por thesou- ros sete vezes mais fartos de que vos rendem as vossas phrases magicas. Ramanticosj algozes do coração. É si do Bpm. Esla é o desprezador dos Deoses. porque entendia christâo que os cães como devem ser tratados como os tratava Malebranche) os horrores de . que assim como inventastes um veneno infallivel para cada virtude. d'aquelle supplicio. infernaes. mesquinhas que por minhas mãos as rasgo sem dó eu vos desprezo. os lábios que respiram e gemem pregados n'uns beiços mudos que exhalam morte. da alma e da fé. ! porque o contacto d'e5le deenterrasse esle morto. muitas vezes combina estas repugnan- cias: o (h: famoso monstro Nossa Senhora Paris. e os olhos que vem sobre dois globos que olham sem verem. desconhecido do mais pequeno recanto do cujas galas poéticas são . é um libello diffamalorio e in- fernal contra a natureza humana. eu escriptor eu.e do Mau Principio: sâo os dois extremos do mente amarrados entre pelo génio do homem. inventado por um antigo rei de chama Virgiho. sublimes. teme- . uma Juslina. Que digo? o mesmo litterario intitulado livro.CASTILHO 463 e castas as ovelhas de nar com os seus poemas mais probas Florian) e os extremos da affeição a um pobre câo no Je- icelyn de Lamartine. (admirava-se. e juntamente a lucta perpetua um Evan- gelho do amor materno. e por uma fama sele vezes mais alta do que a vossa. imagem Itália. a espantosa litleratura da nossa edadel como Oh quem porque soltasse esle vivo. não quizera ser o que sois. que resplandeceis na vossa gloria como Satanaz em seu throno de tão fogo. e as piedosas magoas de o um Leproso de Aoste. o vivo abraçado com um cadáver. e quasi mesmo momento. lhe a incomprehensivel. por Victor Hugo.

. 5. Oxalá que a minha cólera e o nem meu coração me levassem a dilacerar e a comer a tua carne crua. a collo. osêrdisEdic5o brazileira. um systema exclusivo de elocução Achilles apresenta esta os contrastes apparecem sempre onde ha verdade na arte. que formam o processo artistico do Roman- tismo. pelo clarão sinistro dos contrastes. o que ha de mau é uma creação nossa. 4.» detém ^ e a contempla cho- rando para que a leve ao E pelos o mesmo meus heroe diante de Heitor mostra esta impetuo- sidade indomável: «Cão. explica Victor Hugo o pensamais mento feia . tendem constantemente a mostrar-nos que a na- nem produz aleijões. 3 lá. não me suppliques de joelhos. . 6. d'este modo: «Tomae a disformidade physica a illuminae por todos os lados. e dotae esta alma seja com o sentimento mais puro dado a homens. doçura de caracter: «Porque choras tu. lá pôde transluzir o É a isto o que se chama um ideal de reflexão. Quadros históricos^ p. . Patroclo.» ^ Os contrastes na poé- moderna. agoureiro. evidente em mesmo. emsi quanto o bonito é um ideal immediato. e depois dae-lhe uma que 1 alma.» ptor tivesse consciência do que os cominastes que Se o escri- diz. como uma criança que ainda não sabe fallar. das nossas circumstancias. e por isso no fundo das cousas repugnantes. Mesmo em Homero. nâo são filhos de quintilianesca. XXII. que corre atraz de sua mãe e que a segura pela saia. pelo mal que tu tica me fizeste.464 HISTORIA DO B0MANTI8M0 BM PORTUGAL * rosa tem de ser a vossa ultima hora na vida. XTI. 2 Jlliada. 345. como se acham principalmente em Victor clássico Hugo. parentes. esta miserável creatura. onde existirem^ ainda alguns vestígios da natureza. o sentimento paternal. Fallando do Roi samuse. responder-se-lhe-ia. não tèm este fim immoral que lhe acha o tureza não conhece o feio. bello.

los X. os epigrammas de Victor Hugo. ra. aos discípulos de La llarpe. C. para nivellar a face a figura e da terra. clássicos.» E quem negará a perfeição mo- sublimidade da alma de Triboulet. fallarido por não servir para tornar probas e castas as suas ovelhas. entre nós Castilho enlhronisada.» bagagem de regras desligadas como os ossos de um esqueleto. Contra a ella prevalecerá. e traziam presentes taire. a definição de Vol- que o gpsto não é para a poesia outra cousa mais do enfeites para as mulheres. que ainda se regulavam nas suas composições pelo código épico padre Lc Bossou. a proscrij)ção do Romantismo.gsenç^ por. denominado por Victor Hugx) o lilteraturg. pag. 30 . ali apresentou Victor os esmaga com o pezo da do ignorância d'elles.Cas- lilho: «A liberdade e egualdadc que. Em toda a parte o Romantismo soíTreu uma lucta assim ridícula. Arnault e Etiénne. vão apagando já puiverisaudo o sèr próprio de tantas cousas. pedirem ao rei Car- janeiro.) /?6era//5- na foi^condemnado na_s^ua„ç. que os mostrou lhes que o gosto * Quadros historicon. o degradado bobo. as digressões sarcásticas de Ryron.CASTILHO 465 forme tornar-se-ha ral. as xenias de Goethe e Schiller. e mais que tudo mal compn hendidas pelos que se arrogaram o nome de Hugo o prologo de Cromweil. Quando Castilho proscrevia Schiller folhetinista francez. nia ameaça os Românticos. mesmo interpretado na musica por Verdi? O rno Romantismo. que aniigem a banalidade com as penas do fogo eterno e com a agoda hora da morte. dizia que quem escreve desdenhosamente do theaa DonzcUa dOr- leons merecia ser açoitado no pelourinho. sempre verdadeiro. Jouy.» ^ invadiram e senhorearam a lilteratn- Em em França a lucta do Romantismo linha levado Baoura Lormian. um iro de Schiller. foram confirmando aquelle aphorismo orienlal: «A verdade é grande. a bello.

fructos no regaço. o Harpa do Eurico e Monge de com a Crente de Alexandre Herculano. que se revoltava contra a poesia ama- xvm. e estava em elaboração o Al- •fageme. Em i837. estas cousas do E quaes são Mu- mundo passado cuja perda tanto dóe ás sas e á Virtude? são as formosuras e magnificências da religião. de 1580. amores nos olhos. o respeito aos finados e a seus sepulchros. d'onde não volverá.466 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL era a rasão do génio. o amor do es- tudo. mas renascerão. o quasi culto ás mulheres. Kí. e o 1 Cromwell. empolvilhada. quando a nossa lite qne vinha disputar competências de mocidade * neirada. aítastou-se d'entre nós. o aferro dos usos e modas pátrias. onde ainda a alguns poderia aproveitar. que o novo quebrou a ponte que os juntava. ás obras dos antigos homens. Mas d'onde virão estas cou- Do mesmo mundo velho? mal o creio. consolações. Cister. renascerão talvez diversas. renascerão quando nós já não formos. ediç. Renascerão sas? por tanto da própria natureza da terra. ás lições da experiência. arrebicada. ou do sopro do céo renascerão tarde. e assim como outras muitas boas artes e prendas. que o inundo velho tinha produzido. e riu de ufania vendo abysmar-se fabrica que assim parecia eterna. . já velha no século teratura havia sido enriquecida com um theatro nacional^ com com o Camões. foi recUnar-se á espera na beira da torrente dos dias. D. que nós dissipámos cora as leituras ephémeras. da indole da alma : humana que já uma vez as produziu. quando o Romantismo' eniva nós tinha sido implantadq por Garrett. Castilho descrevia os es- tragos do Romantismo n'este tom: «A poesia amável. e nas falias a que nas mãos e seio nos vinha of- ferecendo ramilhetes. pag. sem que primeiro se restaurem muitas óptimas cousas e todas suas. a benevolência e sociabilidade. Branca. a veneração ás cãs. com a alma que se renovava.

Esdo publico. o género pastoril leva a este refinamento. falto lodos. mas impossível onde se vive certeza sei sem muila brandura." Hercuuno também concebia assim a pb b- Vid. 20. e transigindo perava. a isto os idylios do Levam com campo. por fim sem ííis[)i- aação própria não sabe como contentar a todos. pag. . Castilho conl:>nos assim a primeira teigiversão da sua Musa «Saíram a Noite do Castello e Ciúmes do Bardo muito mais contraídos e apanhados tos a tos em cousas e palavras (sujeiisto) um plano. p.i. quando menos se esde individualidade. como se pôde observar na velha farça do Advogado Patelin. e sem de permanecer. as creaçoes românticas cas. o partido horaciano e caturra dos contubernaes pede que torne ao seu primeiro caminho. supr. Tudo isto se perdeu para nós aldeias se revolta o firme e não * que bens haja em seu logar posto a Philosoplua. astuto.r» K cl'este modo que nas povo contra qual- quer ministério. declara-se alfim romântico no poema da poemeto dos Ciúmes do Bardo. O género pastoral absorvera-llie todas as predilecções. Conhecendo que as suas obras tinham o defeito da prolixidade desconnexa. nobre. o poeta. poderes. ediç. quer dizer com do que estos poeme- (Primavera e as Cartas de Ecco) pois comludo muitos Prlmavara i. e porque vê que paftsadas obras não occupam meia hora o$ homens gravrs c Noite do Ccstello e no creve com as exigências f/. que aca- bava de enganar o honrado burguez commerciante. solerle ímde o typo do camponez AgneloL chega a pregar um logro ao trapasseiro Advogado. estas palavras são malevolentas. procurou Casin- delatando ao publico fanático e nada struído. vesano. pela innocencia imbecil do tilho sustenlal-o mundo dos ídylíos. fecundíssimo sentimento. Demais. como immoraes e scepli- Em verdade. 2.s* òons juizes. a que chama estiramento do periodo.: CASTILHO 467 íiraor do torrão natal. os. 3S3.

. e o culio das tradições artista ò de escola com o que dotacteando andri que se proteger. traiisfuga dos velhos para os novos arraiaes..desampare o novo: uns. 2 Ed. e Melancholia. de 1864. pag. A arte assim dá só estiramentos de períodos. outros. que as passadas não oc- ícupam meia hora os olhos dos homens graves zes. ora me levarem. e bons jui- Ohl quem reconheceu nunca a verdade da fabula do Velho. como o triste. e a dependência dos modelos para imitar. como os velhos poetas palacianos. No prologo da compor Não sou Noite do Caslello. segundo o exige o gosto artista é ainda do publico. da edição de i86i accrescenta: «Nas- creado. outro que não . evitando ir contra as rajadas que lhe po- dem arrancar as pennas fingidas com que se empavona. que por isso mesmo tigos e até os velhos opúsculos (Epicedios a D. d'este modo o mola o que pede es- em verso. Maria e poema um. mas não abjurei o clássico. houve e ha. pag. ajuramentado na escola clássica. a mediocridade as conveniências. João VL) A cada hora me diz torne ao meu primeiro caminho. O o que faz o gosto. vallo. confessa a sua deserção litteraria: aCommetti sim um poema romântico. mais depressa como explorador os entrei. tem elevação. fanatisado pe- 1 Primavera. devendo só a ella o primeiro favor que achei no publico. do rapaz e do burro. mina e educa o seu tempo.»^ E no prologo do Amor cido.»* A arte d'este modo não nem um fim sério. que para expiação talvez de algum grande peccado.entrega e desampara a publico os partos do seu tinteiro! Pois que não pôde ser contentar a todos. que estas ultimas obras se nâo lêem jsenão de escasso numero. de íá9 de novembro de Í833. que o á Acclamação de D. 9. ir-me-hei gosto e natureza como e por onde o meu juízo. 36.463 • HISTORIA DO ROMANTISMO EU PORTUGAL ficaram preferindo os ani. é um caminhar ora a ca- com um burro ás costas.

mas a jus- ^ Primavera. No ciúme do Olhello. a poesia suave e crente de Lamartine e dos lakistas. pag 21. de Lamennais.» ^ l É de 1836 a traducção das Palavras de um Crente. a Noite do Caslello. como uma causa de minas. desoladora. os Ciúmes sâo uma pagina intima e sem grandeza. pag. a litteratura moderna. inspirado pelos diclames da propria rasân. Espronceda e todos os da escola cha- mada satânica! Castilho deu justamente. elle vinga não a affronta própria. só cheguei mais larde a j fazer justiça a este livre e creador movimento da nossa jéra. esvae-se em imprecações e pragas e monologos de fraqueza. . em vez de tomar uma forma natural e sublime.- CASTILHO 469 Jos velhos génios da antiguidade. 9. o sentimento que procura communicar. pelas grandes applicações nas maravilhas das des- cobertas: a poesia das almas fortes e das almas doentes. byroaiano. * e diz que os que sonham com liberdade mentem ou deliram. cujos sentimentos sâo inspirados pela impressão que então exerciam os romances de Ma- dame de Radcliffe.sloricvs. arrastado pelo caudaloso exemplo. ^ Vejamos quem assim pensa como pôde contrafazer a poeCastilho olha a philosophia sia de um século agitado pelas conquistas dos eternos prin- cípios. Heine. e a Liberpolitica. e a poesia tumultuosa. l Rendi-me fascinado pelos seus perstigios. . os Ciúmes do Bardo. vertiginosa de Al fred iMusset. alllictiva. deu Shakespeare. o primeiro é uma edade media recortada. por Castilho. dade ou a independência levantaram ao brilhaiilis- em toda a Europa. e um poemeto impetuoso. um poema romanesco. 2 Quadros li. não se vè a offensa pessoal. o que significa que o i seu romantismo em litteratura correspondia ao setembrismo [ em politica. A Philosophia íDO que hoje tem ou a independência intellectual. como o comprehen. sem o saber.

Castilho é o ultimo representante da Arcádia. celebrando todos os pequenos interesses dos epithalamios ^xlos altos personagens. vendo o talvez o merecia. léem-se publico. obtendo por lassas bajulações pingues tenças. Monti depois de amai- 1 A falsidade d'esle poemeto pôde e\plicar-se por este facto da Biograpbia he?panliola de Castilho attribiiida a Thomaz Gome^.. ameaçar os ares.í 470 tiça e HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL é executor O dever que foram ultrajados . £u efpoía le sirvió madre. e veiu depois queimar os incensos do seu estro ás Moiiti. turno a revolução franceza para exaltar D.» Pag. d'ahí lhe vem o acolhimento do segunda vez desfazem-se como um papel doirado que se descolla. João vi a '^pensão de uma rendosa escrevaninha. João Monti Vaz-se o poeta dos successos da corte imperial. bem contra sua vontade. ter O defeito provém todo de o auctor renegado da catholica religião do classicismo é transi- gir 'com a seita dissidente salto. Como lAIonti. honras de historiographa ie outras achegas. 7v . e no Eco dei Commercio: «en este corto espaíio (1831-1837) goso Castilho de lodos lo3 atrativns de la vida de los tle aman- tes. O pobre mundo Bardo. de forma alindada. para tirar d'ai icondemnações contra V a França. lidos uma vez. e reproduzida na fíweta de Madrid. Castdho recebe também de D. que se chama elmanísmo^ Monti Icelebra a morte do republicano Bassevllle. com um idylio assucarado. um liomem de ta- que empregou a sua auctoridade a favor dos cânones antigos. mas obedece a uma força moral que da consciência. elle foi conquistas da liberdade e da intelligencia. * que tomara. impressa em Cadiz. a sua elegância e correcção a tém o Iqucr que é de receita. Castilho maldiz por seu vi. através de um vexame que em parle Os Ciúmes do Dardo. a litleratura de as- Nas luctas da escola ramantica existe lento. pela sonoridade do verso. de amiga y hasta de maestro.. traça o manto de vem uma malhe neira chateaubrianesca e vae bravejar aos ventos. lí em ponto grande o que é Castilho em proporções mais acanhadas.

Gomes de Freire. Castilho as pastoraes para traduzir também na com alTectada velhice abandona vernaculidade as obras capitães do romantismo. Monti arrepende-se de ter adoptado a melancholia de Ossian despresando os deo- ses da. Os for- escriptores servis. no principio foi d'este século. oppozeram-se com todas as ças á nova manifestação do sentimento. que transparece nas linguas nacioníies. 5. ou a revolução moral e sentimental que n. O Romantismo. refugiado na lingua latina. mas Bonaparte triurapha em Marengo. como se lè na el oficio sua biographia VI em dado hespanhol: «pues dado por D. segundo Frederico Schlegel. O génio da revolla.» (p. como um renascimento do espirito livre. no Tributo saudoso d morte do Libertador. espontâneo e creador da edade media. Pela sua nos versos a parte Castilho depois de prebendado pelo despotismo. que inspirava os fabliaux reapparecen na forma de e as grandes legendas seculares. Monli e Castilho primam pelo bem acabado da forma e pela versatilidade das ideias. Monti perde o seu historiographo.CASTILHO 471 diçoar a republica. obriga Musa a cantar também a liberda-le. a sua e já o poeta saúda o rival do Jupiler. sin que gobierno actual le haya indemnizacion que se acoslumbra en casos tales. aííerrados ás praxes académicas. Castilho titulo systema Juan liberal ficou com a queda dos privilégios no também sem a tença. um exagerado subjectivismo. chorando o maior dos reis e o rei mais dócej revolta-se contra o sangue do vil CapetOy sugado nas veias dos filhos da França.) Na sua velhice.is se deu htteraturas modernas da Europa.» . e depois do triumpho do cerco do Porto. é a lucla entre o espirito antigo. a puristas das convicçíjes e do caracter. e o espirito novo. pela pretençâo da lingua e pela incapacidade de tratarem scienlificamente os problemas da philologia. limita- dos á imitação do clássico.mythologia. «Â característica da edade media em litteratura. el a nuestro poeta la se abolió.

í No Romantismo dá-se a mesma lucta mas em vez de ser ia emancipação das linguas vulgares. da tragedias regulares não ultrapassando as três unidades. de sentimentos convenientes. domestico. os tempos um certo numero de meláphoras ooavenciovia-se naes. condemnando o ideal da arte determiiiado É por isso que lhe cabem algumas paginas n'este livro.4T2 HISTORIA DO KOMANTISMO EM POBTUQAL .€omniunicou-se á Inglaterra e á França. melhores escriptores. Quem por via a litteratura d'este modo fazia uma ideia falsa. e . a Por- . Em quanto se pensou assim. não é também aquillo que Cicero julgava. a rhelorica velha e cansada pela philosophia. é a liberdade do sen- ^timento. como quem tem os fios com que se fazem saltar os bonifrates. das dissertações fúteis. e se engrandece o luxo das cortes dos mona^-chas magnânimos. como por ter apadrinhado uma geração de medíocres que tanto custa Hoje a litteratura não é já parato brilhante. a introducção \em J83o. um Deus ex machina para os poemas apenas os as formas externas. os processos mechanicos com que dizer. de ap- com que se entretém a pompa das acade- mias. um consolo intimo. de deleitar. dos panegyricos. fins Travou se a lucta na Allemanha nos do século xvhí. a extinguir. não se passava das formas pautadas. uma nobre ociosidade. quando a definia como uma distracção liberal. Os embaraços para do Romantismo em Portugíil acham-se resumidos em Castilho. que procura manifestar-se j sem convenção. mais clássicos por assim tinham o segredo de mover. discutia se o mérito comparativo dos antigos e modernos. serviam. como ao que mais contribuiu para a decadência e esterilidade da litteraíura portugueza^não só pelos seus constan- tes protestos académicos. de arrebatar.se da erudição homérica para já invocava demonstrar que Mentor antigos. da archeologia de curiosidade. tugal o ?cco do que ia lá ejó chegou fóxajmiitQ depois da emigração. havia com saudade .

uma terrível. Sob esle ponto de vista. O despotismo de Carlos v e de Philippe n. e como -tinha sentido. reflecte-se em Pope. o estudo dos mythos. a litteratura esluda-se p:jra sa- tisfazer a necessidade do espirito.caracter impetuoso do norlo acha-o n^presen- íado em Shakespeare. que procura constanteos seus actos conscientes. abiiu este plano. a Eslhe- lica veiu dar-lhe altura e consciência. Pela litteratura chega a defmir-se o caracter histórico de uma época. Milton e Byclás- ron. faliam mais alto do que todas as op- pressõtís. a outra branda. Os jesuítas. As obras de arle têm o poder maravilhoso de nâo pode- rem ser falsificadas. que inventaram uma theologia no século XVI. yfazendo as applicaçijes das descobertas recentes. ÀdJissoUj Dryden. Marlow. os poemas seculares. imitador. revelava o caracter do povo que a Esta comprehensão nota-se na tendência geespíritos ral de todos os os livros em voltarem-se ao estudo de todos em ciue o génio do homem apparece mais inde- pendente das regras artiíiciaes. muitas ve- zes melhor do quQ pelas chronicas oíTiciaes que mentiam á verdade para não divulgarem as intrigas que formavam as ephemerides da corte. saxonia e normanda. e uma moral no século xvii. delatam os crimes mais escondidos á posteridade pela influencia que sentem. A litteratura tem hoje esta importância. susceptível de todas as modificações. as formações das legendas. com tendências sicas. batalhadora. o caracter normando. a philosophia da arte. determina las duas raças. como diz Michelet. violenta. não produziram apesar dos maiores esforços uma obra de arte.CASTILHO 473 falsas isso todas as suas creações viu-se eram na origem. anonymos. uma crea- ção humana. acanha o vòo espontâneo da . mente descobrir o homem tornando \Taine. o . Hoje era que a liUeralura era mais tal do que isto. infunde um a])aixamento da dignidade. na Historia da Litteratura ingleza. Ben Johnson.

esculptura. e é por fim architecto. as composições tém o arranjo de uma pequena intriga de amores de alcova. local como )uma manifestação de um grande mal orgânico. A corte admirava-o.474 HISTORIA DO ROMANTISMO BM PORTUGAL inspiração. lèm uôia analogia intima ^èntre si. va-o. no meio de uma pompa fictícia as suas cos- creações são lambem falsas .^- tapeçarias pediam-lhe rascunhos. na architectura. uma explicam a transfor- 4 mação de todas em Miguel Angelo se encontra ía successão natural e lógica na marcha ascendente da sua •inspiração. o Constitucionalismo l)ragantino. espiritualisa as aspirações vagas na poesia. a tempo è como um aleijão que sae da polé e se ri para desarmar os lilteratura picaresca não é mais do que isto. todos os den'eile dos últimos escriptores acham-se particulares da arte em gérmen. Para este fim basta-nos to- mar como feitos typo o poeta e prosador Castilho. elle borda e entretece cora as ílôres fingidas da sua palheta esta festa lúgubre e forçada do des- potismo devasso. e a lilteratura do seu de é um homem uma seus algozes. Assim a lltleratura ò como o templo onde íi/cam impressas as pegadas dos falsos sacerdotes que entram ide noite e ás escondidas para comerem as viandas postas ^diante dos Ídolos de barro. depois de esculptor descobre a pintura. Le- do século do monarcha que se dava o sol por symbolo. EUe apparece-nos como Lebruu na brun tem a inspiração corte de Luiz xiv. É pela litteratura que procura- vmos a decadência successiva do caracter portuguez. É por isso que nos serviremos de um exemplo da pinde Castilho tura. as a Academia respeil. musica e poe- a lei das transformações de as outras. pintura. As formas sia. . os estofos. delação da atrocidade politica contra o desenvolvi- mento social. o colorido ó como o dos méticos que purpureavam a face das velhas marquezas que provocavam acintosamente a sensualidade do monarcha. para fazer comprehender qual é a posição n'este ultimo periodo da litteratura portuguoza.

Todos estes caracteres se en- em Castilho Lebrun como pintor. alma de Miguel Angelo baldeada na côrle de Luiz xiv. Aquelle génio terrivel. com uma grandeza ou supenão tiveram ao menos a rioridadc apparente. e o despotismo sobre os outros artisla^i que queriam competir com contram reproduzidos Tanto a elle. pequeninas da foi desdenhado justamente no que elle tinha de mais bello e de verdade. o que faz illudir algum tanto . Lebrun ao menos sabia condescender nias. e força para renegarem os mestres.» Assim a arte convencional de Lebrun. antes a lisonjeava. Puget. foi per- seguido porque as suas composições tinham forte e enérgico um quê de no meio da mollicia que o despotismo do monarcha gerara. que ao vél-o disse somente libertada por Perseu. é a pequeneza e vulgaridade d'aquel- Íles que se deixaram influenciar. res- more de uma alvura de neve. Uma foi sociedade decadente não pôde comprehender a alta inspiração de um verdadeiro artista. Luiz xiv chamava-lhe um obreiro mui caro.CASTILHO 475 alvitre. não a ene lhe acerava os desejos. j apreciado por uma mulher. O grupo de Andromeda -Cuja belleza consiste nas formas delicadas. que cor« A época não via no artista a despertava da lethargia moral uma única reprehensâo. de creação profunda. era com as villa- por isso o inimigo nato de Puget. nâo em que cairá. e abjurarem da auctori- dade. era elle monumentos eram segundo o seu rigia os planos. Não era para aquelles olhos cos- tumados ás trevas das pequenas intrigas o verem o «máretiqueta. a gloria e commodava. como litterato. e a Castilho como poeta e prosador. conservadora da rotma. . o Milào de Crolona sò — coitado! \ mulher. de peitadora dos usos constituidoS. dava-lhe rendimen- tos pingues. Mas sobem de ponto cada vez mais as analogias da ^comparação. Em paga d'esta transigência.

e pela adoptara. à moins quM ne sa Irouvái à point nomnné quelque grand uaeurlrier pour Tassassiner au préalablo. Castilho. p. procla- flia-se o pontiíice da immobilidade e da rotina.» Oeuores. Ella lucta para apoucar os génios firmes de Lorrain e Poussin. renegando as ideias do seu tempo. ser o ultimo e mais declarado migo da revolução moral chamada Romantismo. a todo o espirito independente. apresentaremos os symptomas de uma de- generação lenta que se operou de dia para dia em Portugal. e tempo o que mais corrompeu a geração moderna pela sua 4 ao mesmo falta de consciência litteraria.ranco. parece-se cora esses não envere- monges bretãos que tmham \cebido o bastão do peregrino que dava uma perpetua 1 Efta misíío parece ler sido adivinhada admiravelmente por Qiiinet ao descrever o mfvim^^filo de inspiraçAo nacional. qual a sua primeira inspira- ção. Assim cabe perfeitamente na litteratura a Castilho a parte que tomou ini- moderna. Glande franceza tem de mais As transformações no seio de artisticas levam aos mesmos resul- tados. depois de todos os esforços para a formação de litteratura uma um povo que aspirava. determina-se a influencia que exerceu na mediocridade dos discípulos. * Em todas as composições de Castilho apparecem sempre . o que a arte bello. curado formação do seu talento como e em que tempo appareceu nas lettras. íos caracteres d'aquella infância de sua alma yihece. Tendo prolitterario. como o estylío é o mais alto gráo a que o como comprehendeu a antiguidade que litteratura. as qualidades que o fize- ram estyllista. Le Sueur. qual o seu ideal da poesia. ao cabo da os ou- lucta. a liberdade da moderna Europa. na litteratura porluguoza de 182 a 18iG: tque cetio lilleralure n'étail pas une oeuvre d'académie. qu'elle «'accordait Irop bion avec los instinots du la foulepour ne paá concourir à raiiinier ce peuple. sem coragem que desanimam resume em a si todos os caracteres de Lebrun. elevou o esforço. x.í 476 HISTORIA ©O ROMANTISMO EM PORTUGAL immobilisadora de todas as tendências. — . 5í). t. era ^ uma maldição continua a toda a innovaçâo. mais un cri d'e?pi. como es- tes espirilos inertes e tros.

nunca nos deixou vêr Como criança sempre desbaratada» mais que os seus ama o descriptivo e o excesso de d'ella colorido.-s. per- baps. He dispiaysi considerable tapoels of Porlupal lent in sonr. 1829. as good.ima habilmente torneadas. in aserics o{ I. may be remarked C-tíJilho. se tem todavia incessantemente applicado ás bellas-lettrns e ao cultivo das Musas. p. o poeta defendese d'este modo: «este descriptivo é tilho Portugal illustrated. que Casnão tinha o sentimento da natureza e que a pintava mal. as suas phrases. London. de facto é muito po- bre de originalidade. «Among the living Quando no Portugal lUustrado. bowever.ied. é imitador e de preferencia traduclor.) Exiraimos e-<ta cilaçào do livro de J. de Vasconcellos O consummado Gcrmanisfa. in faot be is very deGcient liis nol afler lhe truih of nalure. are monolonous. A mesma m- fancia nunca lhe deixou ter uma com individualidade própria. . and il is only to lhe barmony of his versos Uial be is indebted for bis poetical fame. Porém esta infância defeitos. in lhe style oí Ovidis one araong lhe mo?l remarkable of bis woik. postoque sua f.t Review of the litteraryh'st(^ryofPoit/gal (p. ou melhor. a dependência de amparo tornou-o também moralmente fraco. não forma plano. wlio lliough blínd from bis cradio. ó digressivo e interrompido de incidentes do discurso o estylo. M. que apesar de cego desde a meninice. 25. por isso que o Iítío de Kinsey é extremamenle raro. Dá provas de notável talento em em á geral considerados como bons. que todavia não uma são das suas obras mais notáveis. í)23864. linee. are nol generally re^jarded in originality. bem o conhece e defende-se ella. vae ao acaso da inspiração. respondendo a este juizo de um estrangeiro: «Entre os poetas hoje vivos em Portugal (18^0) notare- mos Castilho. His Ileroidcs. As suas Heroides. ó alguns outros trechos poéticos. bas nevertbeiess ioces-santiy applied bimseif (o lho belles-lellres and lhe culiivation of tbe Muses. Kinsey whick. M Kinsey. and bis mode of colouiing is though ibey are bappily lur. e o seu modo de colorir não é con- forme verdade da natureza. e é apenas á harmonia dos seus versos que deve poeta.CASTILHO 47T foi mocidade. no eslylo de Ovidio.» * a como disse. são talvez monótonas.dien.e olher pieces of poeiry 1 W.

um es- com combinações de Mnenwíiica. ou o seu ponto (informador) não houvessem de se me avantajar muito. entretido 1 Primavera. pag. que é o quem tem principal inenle a obra. com uma simplicidade que desarma. cerca-me de continuo. deixandoIhe o eslylo e a poesia. tes todos. . na sua vida domestica parecia vêr-se aquelle quadro de interior. de amor e de luz. 21)0 'í't'ò. . fazendo-o apaixonar por bagatellinhas como um Tratado de Metrificação. que o coadjuvava no que dizia respeito ao revolver. e o uso dos versos com leira pequena. an- meus projectos. o maior infortú- nio da sua vida. de lápis na mao. anjo. O Methodo repentino é nobre na intenção. tomou unicamente. mas piegas. de si dizia Kleist. paj». toda extremosa. caçadas poéticas de imagens. bem como se esvaíram muitos. como um toda boa.478 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL desbotado e de cores pouco vivas e próprias se com o de Gessner ou Kleist se compara. Já pôde ser que padre Kinsey. A diz perda de sua esposa (1 de fevereiro de 1837) foi como o em um post scriptum de um prologo. uma perda de que em nenhum tempo coração se poderá consolar: aQuebraram-se as forças para continuar no trabalho. p atr. empresta -me olhos para eu ver o mundo e as obras dos séculos. íizeram-n'o pirito pueril. 40.» Nos Quadros históricos (1S30) lamenta a morte de um modelo de irmãos. Milton entretido pela leitura de suas filhas: «Uma mulher. como . ^ Todas estas circumstancias o privaram da virtude masculina e superior da individualidade. apurar e digerir todos os successos. Primavera. a peito o vingar-me da natureza. ou quasi. o retrato da natureza:»* Castilho descobre em toda a parte esta fraqueza. 2 ^ Quadros IJiníoricos.»'^ . nem dis- corremos como Gessner. se lhes coubesse tirar ás escuras. mas é o melhor que eu soube eu que nem podia ir-me pelos campos fazendo.

como lavras. expressos nas diííerenles lin- cambiantes das palavras e formas prosódicas de outra gua. seguia ora verso a verso o poeta que torturava.CASTILHO 479 Por toda a parte as traducçôes occupara dário na litteralura. ora ^ lhe dava tratos de polé na redundância de parophrases. versando-o com mão diurna e nocturna chegou a apaixonar-se por elle. sem escolha. c c por isso que o reconhecem cumo um verboso parapliraseador. trasladar um valor secun- reconheceu-se a impossibilidade de com uma si precisão geométrica para uma lingua os ^sentimentos. e é a prosa que dá a mais ampla berdade ao pensamento. em prosa. e inventa por si. Castilho lançou-se aos poetas antigos serviu-se d'esla /abundância de phrases que trazia de memoria ordenadas em forma de vocabulário. quando desde e lempo de Golhofredo (Fontes qualor Júris. porque li- . lib. . É e«ta a critica que falia nas traducções de Castilho. Com esta esterilidaJe de alma e sem recursos de imagi. nação. acceilao texto ircéta forraa: Adde quod Edilis pompa qui funeris irent Arlifices solos jusscrgt eese decem. e quem sabe sentir é creador lambem. * um grammatico sem ver o intimo das pa- começa por não comprehender o poeta que traduz. v.servem para estudo. pur isso que se referiam ao direito consuetudinário das Doze Tábuas. e enterter o vazio do espirito e com o acinte de quem pensa a solidão do isolamento. Todas as traducções modernas sao . Para traduzir uma obra de arte é i preciso sentil-a novamente. vi. a tornal-o o seu dilecto. por : indefinidos. Ovidio foi o primeiro que lhe veiu á mão. 6C0. Para os 1 Nn traducçãO que fez dos Faslos de Ovidio. not. ia-as baralhando pacientemente. ca- sualmente. Traduziu. á x Tabula) ée restituiu o le\lo bisioricamente: Adde qucd Edictis pompa qui funeris irent Arliíices solos jus evat Case decena.

factos que engrandecem o século. sem profundidade. era lhe fácil pôr em vulgar essas personificações allegoricas. alcaicas. intelligencias em frivolidades. to- das animadas de vagas ideias philosophicas. mesmo não comprehende mais mesmas palavras são do' que as palavras e essas como senhas as- sacramentaes cujo valor não alcançam os profanos que repelem. ne- nhum a livro melhor do que ellas mostra quanto se ignorava antiguidade heróica e divina. tornará mais conhecido o exemplar antigo? Se elle . da epopèa germânica. cujo processo de poelisação já estava ensinado pela rotina da estafada rhetorica das Aca- demias do século xvn e xvin. diz um profundo critico moderno. e a reduzissem a ura ar- mazém de meíâphoras percebe-se. espirito e galanteria. p. d'onde extraíam todos os troposvulgares. 436) não vendo mais do que brilhantes nadas das imaginações antigas que adoravam falsos numes. não tinham assistido descoberta dos grandes poemas da índia. não po- diam por isso partir da unidade das tradições para a lei da 1 Tame. Que esses poetas académicos não comprehendessem a fabula. Castilho começou pelas Metamorphoses em i84l. perfumados de que uma dama romana dispenderia* voluntariamente no seu toucador. (Vid. para lerem Ovidio bastava-lhes qual- quer traclucção ou de Panckouke ou da collecçâo Nisard. Castilho diluindo cada hexametro do Sulmouense em três endecasyllabos portuguezes. «As Metamorphoses. . 17. pindaricas. Estas nobres legendas. pag. Eifai sur TiU-lÀve.r 480 HISTOBIA DO ROMANTISMO EM FOKTUGAL que não sâo latinistas. tornaram se nas mãos de Ovidio lindos contos ornados de felizes anlitheses. conhecendo pelas explicações do Diccionario de Chompré. das Iheogonias do norte. desbaratadas á para as suas odes saphicas.» Agora comprehende-se a fabula como Castilho obedeceu á sympathia que o uniu a Ovidio espirito futd. da mais larga e da mais pura poesia. epodicas. porque.

CASTILHO 481 sua formação. como o povo de meio de ler Roma se riu dos dormentes que despertaram em uma sociedade nova. até se tornar goslo convencional. ainda cá não chegara esse movimento. muila citação. comprehendeu Ovidio de lhe salvar o texto e ditos. não apparece um único resultado da critica arte. e ameaça nos com uma nova traducção. legendas e my- thos. Leonel da Costa. nenhuma apreciação da philosophia de nhuma interpretação da moderna sciencia da Mythologia. e em menor nu- mero de versos? 31 Virgilio não é isto que entre nós se pensa. mas faltara só vistas novas. pela inclinação De um sente-se do caracter um litlcralo byzantino. ha muita minúcia. os successos creações espontâneas de symbolos. nem descobrir como os povos perpetuam os dogmas n' essas religiosos. Barreto Feio. se em Portucem se escriptores lé é ali para commentarem o texto . quando só se achava ca- paz de traduzir melhor os termos da lavoura. a opinião de Taine sobre Ovídio não precisa de demonstração. todos o interprelãram mal. e tratou de apural-o com commentarios eru- no século xix este homem esforçou-se em voltar ao passado. . Castilho vive sente e amaldiçôa-o. Na traducção dos Fastos. Castilho insulta-os. deprime o trabalho d'estes homens. E CÁ)mo poderia elle comprehendel-o. as descobertas. ignora o preO espirito moderno ri-se d'elle. Castilho convidou mais de em nenhum livro. Odorico 3Iendes. n'um mundo phantastico. de Guigniaut. de Prelsobre a mythologia. tirado de Jacou. a Arte de Amar é uma composição erótica sem valor. ne- moderna. tudo o que ou tra- duzido das encyclopedias. um ihetorico da decadência. O século xvi. como simples pagão. com outros usos e costumes. a moderna antigitU dade. Oma Leitão. Castilho maldiz todos os traductores de Virgilio: João Franco Barreto. o direito. uma lisonja á depravação romana. Depois dos trabaltios de Kreulzer. melhor do que encontra o gráo de ignorância dos homens que gal escrevem. das notas dos scholiastes.

Até somente com a bondade natural se comprehende me- . fazem-no-Po comprehender melhor do que lodos os scholíos de Donato. S. ficou d'este modo privado de lêr o melhor e o mais profundo commenlario de Virgílio. por assim dizer. e chora por nâo chegado mais cedo. toda a inveja. Sérvio ou Despauterío.mSTOBIA DO ROMAKTISMO EM PORTUGAL É preciso uma alma pura de avalial-o. que formam o decurso da edade media. Castilho não formou ideia do que seja a Renascença moderna. que jurava pela infallibilidade de Virgílio. tão apta para receber a doutrina do chrístianismo. Paulo ter como elle alimentou e por assim dizer humana durante todo este perindo de aride sevícias feudaes. tinha mais alma para comprehendel-o do que tidas. Dante diz n'um dos tercetos da Divina Comedia. díz-Ihe que um espelho não reflectiria melhor á face. por ti eu fui chris- E Virgílio adiante. Como é que a arle é para aspirar aquelle perfume elle presentisse fez com que o cliristia- grammatico pôde traduzir este hemistichio divino: «Sunt lacrimae rerum» quando para el!e um um mister e Baixo Império? uma Ao menos lisonja á corrupção de um novo o grammatico de Ravena. um que o parodia em palavras men- O sentimento de Virgílio só pôde ser comprehendido de- ^pois de se conhecer ^refrescou a alma ^àez tbeologica. Uma palavra de Dante. A egreja chegou quasi a levantar-lhe alta- vem ao tumulo de Virgílio. todas as emoções que lhe cença. para salvar uma alma tâo pura. diriginti do-se ao seu guia: «por tâo. vendo o perturbado e querendo fortalecel-o. o espelho vem É a alma da Renas- em que se viu representada. um co- nhecimento a posteriori. simples. foi. boa por natureza para de raelancholia que nismo. res. Depois de se haver estudado a Renascença é que se achou desenvol- vido n'ella o génio de Virgílio.» eu fui poeta. uma legenda grotesca de Vir- gílio na meia edade. nem da acção que ella teve na Europa.

c o apresentarem isto I jque é uma incapacidade como faculdades superiores. o Cérebro arA B C repentino. em nota. Virgílio incompatível com 6 acerada por uma inveja incessante. do que com toda a ferramenta de palavras e synonymias. Que melhor commenlario de dade céltica. com apparencias de propriedade de expressão.* é um tra- e tanto como estes pintores chinezes que enten- dem que a verdade da pintura está em saber o numero de Muitas vezes nevruras que tem uma folha.CASTILHO 485 Ihor Virgílio. de 1805. da lima que desgasta as saliências do diamante. é por isso que a iodicamos. e limitam toda a sua arte a servil. 2 Ksta invenção. um processo meihanico de reproducção as analogias dos caracteres fazem com que conheçamos melhor o que estudamos. taes tificialy '^ lil- o como o tratado de Mnemónica. o traductor (io Homero. o delo de erudiçio Vide p arlmiravel livro fie Comparelli Virgilio nel mcdio eco. Na Quesião Ao Faiisto. Quem o accusa por isso? o que obriga a pòl-as em relevo. entre nós tem lambem a perfeição da symetria. verdadeiro moem que as lendas TÍrgilianas são explicadas sob o ponto de visla das origens. 69. Do seu génio pueril e infante provêm todas as suas obras terarias. 136 da Noite do Castello. linha uma maledicência de homem racliy- tico e descontente. feminina. os versos de lettra pequena. Castilho modernamente represenla-nos o mesmo que Pope na lítleratura ingleza. Causas fataes e irremediáveis obrigaram Castilho a per- manecer em uma perpetua infância. Graça Barreio queixa-se de nun^a ter encontrado eaa novidade nas obras de Caslilbo. p. nem aííeição diante do seu orgulho e vaidade lilleraría para elle a poesia não é mais do que uma gymnaslica de palavras. Castilho. critério para avaliar Virgílio. . acba-se a pag. encobre o vazio do artiílcio. Ed. 1 . Como a raça céltica o comprehendeu! do que esta bona índole vaidosa. não conhecia amigos. Castilho ficou pri- vado do melhor ductor íiel. o sr. em que. procurando conlornal-o para o metter dentro do engaste da rhetoríca mesquinha.

dada á luz por iim cidadão depara tudo. ou o Castilho em zero. sendo a musica de alguns composta pelo amador João Luiz de Moraes Pereira. o homem quem a cultura açoriana mais deveu. hoje desconhecidos. em Ponta Delgada. que motivaram folhetos.— e se- tempestade do absolutismo desencadeou-se com o golpe de estado chamado a— emboscada guiu-se o levantamento nacional. D'esta época de permanência na ilha de S. co- operou para a fundação da Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes. e as Noções veu os Primeiros exercidos de tares. Castilho occupou-se em collaborar no Agricultor michaeleme. politicas ii. e a virulenta réplica Ou eUf Qu elks. Por este tempo es- escreveu e um opúsculo de 57 paginas intitulado Chronica certa muito verdadeira de Maria da Fonte. para cujas escolas escreleitura. isto é. A de 6 de outubro. e sobretudo lações. É uma das infâmias da monarchia. mittido que tem tempo da Regoa. por convite do Visconde da Praia. pro- um regimen de duziram Castilho um levantamento popular nas provindas do norte. a tendência irresistível para ir necessidade de pela mâo de quem teve primeiro o trabalho de pensar. Logo em 4848 levantaram-se em volta de Castilho ruidosos confliclos Jilterarios. O meio influiu uma necessidade absoluta de adutambém na sua mediocridade. No meio d'eslas agifoi tações Castilho residir na ilha de a S. a idyllico. conhecido pelo nome de Maria da Fonte. Miguel. crevida por mim. vários com como o Thcccl. onde escreveu umas prosas poéticas intituladas Felicidade pela Agricultura. Maria que de 1842 a 1846 violência.484 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL ira-- seu anachronismo ductor. . tio. l3 um folhetim politico. a abundância estéril do seu estylo. rudimen- Hymnos. contra o qual a rainha champii uma intervenção armada estrangeira em 1847. que sou seu sapateiro do Pezo o Mestre Manuel da Fonte. As profundas perturbações iniciara pela facção cabralista causadas pelas ten- dências absolutistas de D. No remanso da ilha.

. que o sustenta. do Ensaio biographico o Auto da boa estréa foi então intercalado na paraphrase do drama ' Op. suppondo-o orignial: «K um dos mais for- mosos dramas do theatro portuguez inatacável obra do sr. composto Dr. Conseguido este fim. Armand Dumesnil. Confrontou o lugueza? o texto írancez com a paraphrase por- Nem suspeitava da existência do drama de Perde Castilho paI rot e Dumesnil. salas amplas e luminosas de isto um maravilhoso palácio de poesia. ... como se vé no artigo criticOy O Dr. . Castilho e a única admirável e —o drama Camões. António de Castilho. O drama Camões não conhece sua mãe.CASTILHO 485 Miguel resíilton a tradncção ou apropriação do drama fran- c^z Camões de Victor Perrot e tijhogiiiz fazer passar por original al6 18i9. em intercalar na sua paraphrase uma pequena em redondilhas. na interpretação do verdadeiro caracter do heroe.» Chama-se a impor como opinião uma primeira emoção critico irreflectida. António de Castilho. cit.4 dignidade das Letlras e as Litte- acha-se iim extraordinário juizo critico d'este trabalho. que excede muito o Camões de Garrett no estudo da época. e por isso as deturpações receram lhe surprehendentes intuições de génio é falso diante da historia: que morrera de parto! . Nunca se dirá bastante d'esse livro surprehendente. O Auto da boa estrêa. Icomposição que fingiu achada por Luiz Filippe Leite e que Iservia para illudir a boa fé critica de José iMaria da Costa le Silva. na intelligencia intuitiva do génio da nação. e no grande espirito poético e * dramático que anima todas as scenas.nhêira. Castilho con- comedia . 43. guarda-mòr da e sob o \ ' Torre do nome do Tombo amigo do quinhentista António Ferreira. qne CasNo opúsculo de Aiilhero do Quental roturas officiaes. p. ama uma filha do Conde da CaslaI que ainda encontra viva no regresso da índia re- cebe esmola de tentou-se uma preta.

e notando que os Lusiadas continuavam a ser o * Ainda em 1870 o sr. 2 Chave do Enigma. LeJmare. * Eis aqui a única obra inatacável de Castilho. Com o tempo Castilho persuadiu-se da propiia originalidade. Castilho fez Leitura repentina.^sua invenção dizia Castilho: «Também eu mas forcejei íiz uns Lusiadas. o que não vale menos. Mas aproveitando a superstição usual.e»mo engano. se- gundo a critica de Anthero do Quental. cia.486 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL Camões. Miguei /é que Castilho se apaixonou pelas questões de pedagogia. se os que dirigem a instrucção publica. ie em Í8o0 iy^nsíoymsi o Methode de Lcctiirej de Mr. são os pri- meiros a impedirem tudo quanto possa embaraçar a emancipação intellectual e moral. governos e padres. arvorou-se ao Brazil em 1854. pelo que recebeu até á sua morte um conto de réis de ordenado annual. \Methodo para em poucas lições se ensinar a ler com recreacão de Mestres e Discipulos. Romcro Ortiz no livro La literalura en el siglo xix. foi esla carta de alforria da puerí- Não cantei os portuguezes passados. • caiu no n. por que houvesse portuguezes futuros. no seu pequeno livro intitulado Leitura repentina. ^ e conseguindo por fim ser nomeada Commissario geral das escolas do Methodo repentino. a critica de Herbert Spencer contra a superstição usual que faz julgar a leitura como o fim da instrucção. Da. ^ CarU de 29 de março de 18C7 á Gamara municipal de Selubal. 212. Jse é que não vale mais. i»55 e iSoG.» '^ Infelizmente Castilho sobreviveu inefficacia jo bastante para vêr provada a da apregoada ma- (ravilha. envolveu-se um grande ruido sobre a em poleniicas virulentissiem apostolo indo mas^ como nha) a Tosquia de nm camello (José Crispim da Cu- em 1853. sò uns. . e a sua tentativa começou a ser chamada Melhodo portuguez Castilho. ilha Durante os dois annos de residência na de S. p. Nós seguimos í . a leitura ficará sempre arte estéril e uma uma aptidão sem destino.

que s#tornou foí também um apostolo da leitura. Cas- }tilho visou a uma acção directa sobre a litteralura portu- 'jgueza. nem a íórma nem a ideia me convidavam a utilisar-rae.i «Sem querer por esta particularidade julgar da analyse que presidiu ao trabalho do sr. mais vezes incomparavelmente. a pressão d'esse terror branco da disciplina das primeiras lettras. o. é essencialmente filho do Methodo por tugiiez. porque a nossa infância foi passada sob nossas escolas. que era parte obrigada da pe- dagogia portugueza. / Conseguido o Commissariado do methodo repentino.» Castifoi lho no meio da sua estéril propaganda. é certo que vtzeando as vogaes tanto com páo. que encerra a critica do prosei cesso para a leitura repentina: regra. atacou o poema como não servindo nem sequer para cartilha de escola. como sem páo em cima.) e não indo quasi caladinhas quando têm carapuça. que por aí tem apparecido de methodico e racional. Jayme. e não foi pequeno progresso. . atacado como imitador do methodo de Castilho n'estas phrases: «Faremos ver que tudo. Tozeiam . i. achava-se só em campo.CASTILHO 487 que eram. António Feliciano de Castilho. que ainda sob outras formas se conserva nas A pancada passou de moda. e resto persistente da tradição do ensino jesuítico. le desde 1859 Herculano fechára-se em um silencio syste- 1 Carta preambular do poema D. (sem páo. * João de Deus. eloquente nos protestos contra a pancada. Quando em cima o páo lhes vem Mas vilo quasi calarlinhas Quando carapuça lôm. que «Do Methodo apenas uma um dia me recitou com admiração um fervoroso apostolo do celebre pedagogo: • A. e. 9 João de Deus replicou com uma fina ironia. u. Garrett fallecera em 1854.

Uma : cousa lhe restava para impor a sua supremacia litteraria em ambos os hemispherios —o estylo. uma ou breve da lido infallibilidade do mes- ninguém podia ser sem trazer a chancella sacro- santa só obtida por bajulações e negação absoluta de novi- dade. pas- sando bullys de indulgência aos que se apresentavam nas Era moda trazerem todos os carta livros que se publicavam tre. princípios foram introduzidos no mundo pelos pensadores. um pontífice litterario. Um dos seides que o cercava chegou a sustentar na Re- vista Contemporânea. . Cas- o seu rebanho todos conformes em dar e receber o incenso de apparatosos duetos. que era elle e nao Garrett o verdaillusSo deiro príncipe da poesia moderna. odiando todas as manifestações litterarias. o nome de Castilho avocava a ^ a admiração dos novos. o trabalho da |sua ultima época (1858 a 1875) foi exclusivamente de } Iraducçôes. como Os Amores de Fastos de Ovidio. Reinava a doce paz no santo tilho e mundo das lettras.488 HISTOEIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL malico. Foi então que appareceram alguns escriplores desconheci- 1 No l. (1866) Georgicas de (1867) l sem a mínima acçSo sobre o espirito publico. como quem sabe que se lhe disputa arteirameole o seu logar. da» Lendas c Narrativas Herculano reclama para Garrett e&la primazia. (1858) Arte de amar.* por uma doce da edade veiu a considerar-se lides da imprensa. em 1861 foi Coimbra visitar os sitios poéticos da sua mocidade. j ' Com a propagÉida a favor do monumento a Bocage em Setúbal em si 4857. Comtudo a lilteratura da Europa avançava. de livros atrasados. e rio ^^ em um saráo littera- no theatro académico recebeu as homenagens da nova litteraria geração. Faltava-Ihe tudo para ser dirigente. Virgilio. tendo fatalmente de produzir • em dado tempo os seus resultados. (186^) J (1862) Lyrica de Anacreonte. e com a anedocta philantropica que se a liga á Epis- i tola á Imperatriz do Brazil. e novos . Ovidio.« vol.

se nâo podiam fazer accusaçôes de galUcistas.» Estas palavras de Hildebrand exprimem o facto que caracterisa a transformação do Romantismo na Europa. diz Ilildebrand. como tal incomprehensivel ao vulgo. as sciencias naturaes.CASTILHO 489 dos. tem-se tornado a iniciadora da actividade intellectual da Europa. e o de que se occupam com um notável desinteresse. estendendo á Europa civilisada riquezas que só pertenciam a um povo. Crime estupendo. os sá- bios de Alem-do-Hheno deixaram a lingua latina. a philosophia. Introd. era já preciso delel-os nos seus Ímpetos iconoclaslicos (18G")). os estudos históricos.. que pensavam e escreviam com independência. usada nos trabalhos eruditos pelos Scaligeros e Wolíius. xxvi. descobriram outra zir — de nebulosos. dedicam-se a esta obra de interpretação e de iniciação. que o principal trabalho dos philologos francezes. tornou-se camque era aquella em que uma espécie de álgebra. franca e altamente se reconheceu ha alguns annos para cá. o tradaclor da Historia da Litleratura (grega: «Por muito tempo ainda. e a vereda que ainda se y^ conhece lâo imperfeitamente. tem experimentado um impulso brilhante. inglezes e italianos será cora effeito o de implantar e aclimar nas suas patiias as con- quistas positivas da sciencia allemã. greg. exaltam-lhes o valor pela clareza e com essa forma * com que as revestem. É o que se comprehendeu. . pela lingua- gem vernáculíi. ha mais de sessenta annos. N'um estudo sobre Otfried Múller. a critica sobretudo. e que * Bistoi^a da Litter. mais susceptível de exprimir todas as biantes do pensamento. A Allemanha. tem necessidade de ser seria- mente preparada. de que tèm sós o segredo. por isso se pensava. antes de curar em con- tinuar esta corrente de estudos. Accusaram-os do crime de introdu- o e«:pirito allemão na litleratura. Grandes talentos que pareciam destinados a abrir vias novas.

Castilho nunca disse uma palavra do grande J}TÍco João de Deus. sem com tylo o meio social. um qualquer li- espirito de revelação artística. na lucta litteraria conhecida pelo nome de relação Escola de Coimbra. mais cedo se operou na Allemanha. e a a critica. cre achou apoio em Castilho. o seu triumpho consummou-se apesar da rações do silencio. O movimento d'esse espirito acompanhado em quanto deu escândalo. dos impulsos de iniciação tornou-se mais ferrenho tra- ductor.490 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAI. Estavam acostumados entre nós a considerar a litleratura como um divertimento. democrática e phiíosophica. como o vimos nas palavras de Gervinus: «transição da poesia para a sciencia e do Romantismo para da critica. Castilho a manifestação homens que ultrapassam condemnou da moderna intelligencia portu- gueza. e arvorou-se em chefe. Tudo quanto era medíonão com o inluilo de animar o juizo e amesqui- os talentos indecisos. escrevia-se por uma liabil curiosidade. que o RomanPortugal o primeiro ataque tismo emanueiicq recebeu em poesia a primeira aproximação da sciencia e da' philosophia. mas de perverter nhar os talentos provados. desde Í8G5 até 1875. e traduclor na forma quasi inútil de paraphrasta. e dos que se lhe se- guiram só deixou cair equívocos monosyllabos. como não indifferença pubhca e das conspiisso provinha dos indivíduos mas da época. e a synthese do talento resumia-se n'esta phrase: um es- á procura de foi novo uma ideia. em que morreu. É por que pôde já ser historiado nas suas três phases critica. Diante litteraria. do grande grupo dos auctoritarios que consti- tuem a Pedantocracia portugueza. As traducções não tinham um íim. Hoje era espalmado Anecreonte de uma traducção franceza em prosa para sonoro- sos versos portuguezes. um intuito.» Foijem J8G5. agarrava-se ao primeiro vro qne lhe caia debaixo da mão. mas sem nos darem uma commu- . Como tência se todos os a media da existornam retardatários nas suas opiniões.

e que a mocidade o evitava. Esta versão foi-liie fatal. sem a com a mais ingénua conQssão nova ' de ininteiligencia da obra. \ d'essa concepção baseada sobre as tradições celto- saxonicas! Castilho sentiu perder-se-lhe o seu poder espiritual. O juizo acerca do seu mérito resume em uma palavra. . com o ideal da Grécia. abalançou-se á Iraducção do drama de Shakespeare. que se es{)all)avam com abatimento por lodos os alfarrabistas. e para aíFirmar que também tinha o sentimento romântico. na l chamada Questão fausiiaíM» a q^^e adiante alludi- remos. Sonho de de S. a escola revolucionaria esmagou-o. traduz o Fausto de \ Díjinima preparação prévia. amanhã atacava de Molière recebendo da Academia das Sciencias os proventos jde metade das edições. por íim lembra-se de Goethe. imagine se convento. lislica i uma noite i como um acanhado humanista de comprehenderia a elevação ar- l sem saber inglez. a sua morte teve essa opportunidade. João. que se conservará como a fórmula delinitiva da sua individuahdade litteraria — era um árcade poslhumo. que Augusto Comle considera necessária de todo o progresso uma condição humano. e uma qualquer edição franceza.CASTILHO 491 as comedias nicação . Não se querendo dar por vencido. c a todos os seus defensores.

492 HISTOaiA DO romantismo km PORTUGAL g Hl. António de Serpa. e sna presistencia Periodo de critica histórica e comparativa. Mendes Leal. Andrade Corvo. á qual pertenceram Rebello da I Silva. com o theologismo-metaphysico chrise idolatravam em eram todos monarchicos sem motivo a casa de Bragança. do fetichismo liltera- nâo tratou nenhum 'socio de adquirir para o seu es- pirito uma qualquer politica disciplina philosophica. propagado ao Poractual. Latino Coelho. á maneira de líerculano. e cheios de I esperanças. trataram de /seguir as pizadas dos mestres. e em philoso- phia contentavam-se tão. que se re- essencialmente no lyrismo d'esse tempo. c) — — Periodo Sob a influencia dos três principaes vultos da transformação romântica da litteratiira porlugueza. continuou-se a escrever ro- jmqnçes ] históricos. poesias pelo gosto da escola do \ Trovador de Coimbra. a apatliia ineotal do atrazado meio romântico —Pliases da Escola dissidente de Coimbra: a) Período da indisciplina poeiica na Universidade. os jovens escriptores nSo a elevaram. Lopes de Men- i j donça. to. A Sociedade Philomatica teve o vicio orgânico da emphase rhelorica. Em vez de se porem ao corrente do movimento scientiQco da Europa. mas eleva- . nos estudos históricos contentavam-se com phrases de flectiu um patriotismo banal. criticas littera- rias á maneira de Castilho. enlao ainda jovens. Faltou á Sociedade Philomatica o conflicto de opiniões. A esta mesma phalange pertenceram os jornaes Uitterarios A Época e a Semana. formou-se em I 1 Lisboa uma sociedade com o titulo de Philomatica.) lho. Luiz Augusto Palmeirim.) — A pedantocracia portogueza — — Dissolução metaphysica da Escola de Coimbra contra dirigida por CasU* de sentimentalismo democrático em Lisboa. e uma clara comprehensâo das necessidades moraes da sociedade porlugueza. 6.— O advento da Pbilosopbia positiva. e disciplina ena opinião positiva. (De 1863 a 1872. e rio.

Todos os movimentos sociaes provêm na maior parle das noções que motivam os actos da vontade individual. o publico costumou se ás celebridades nâo discutidas. essa tura nâo têm ideias. esse governo. O periodo do Elogio mutuo corria sem protestos. Mendes Leil continuava na Academia as collecções encetadas pelo Visconde de Santarém. se se uma fornia de governo se es- terilisa. Latino Coelho seguiu a mesma vereda pelo ministério da guerra. politico. se uma sociedade estaciona. escalaram por turno. dissolvendo as admirações. o facto repellido em Lisboa com uma virulência desesperada. etc. É o que se observava em Portugal. esteriiisando-se nas transigências da ambição do poder. e inspirada por aspiração da com uma litteratura banal e sem inuma ignorância absoluta de qualquer sociedade. quebrando os velhos delos ligados a ideaes de convenção. e representantes do povo por chancella official. era o legitimo and Draiig do romantismo. A Sociedade Philomatica converteu-se liga espontaneamente n'uma de ambições politicas pessoaes. Quando um dia a província reagiu contra este foi marasmo mental. tornam-se jornalistas do mesmo partido moque narchico. é porque essa sociedade. Todos se si julgaram grandes homens e talharam-se entre purpuras do génio. e sem trabalho scientifico apodera- ram-se de todas as commissões rendosas da Academia das Sciencias e dos differenles ministérios. Como provocar n'estas condições moSturm interesse ou curiondade pelas ideias? Agitando os espíritos. uma lilteratura decae na corrente da mediocrilittera- dade. .CASTILHO 493 ram-se a si. porque a imprensa de Lisboa illudia systematica- mente a província. Rebello da Silva publicava umsi Historia de Portugal subsidiada pelo gover- no. perante o paiz fez-se por muitos annos um simulacro de opposição parlamentar. vi- clima de um constitucionalismo conservado pela ausência de critério tuito.

faz sem di- por isso algumas aílirmações dos escriptores dissidentes de Coimbra em 1805 provocaram sarcasmos dos * velhos mestres. que começa a um em 1865. critica dogmática moral. e que por algum tempo conhecido pelo nome de Escola de Coimbra. p. Thomaz Ribeiro. trada exclusivamente poética e metaphysica. até que começa a nova orientação mental pela propagação da Philosophia positiva. data de 187 J. que começa em 1808. 2 lleíerimonos a ura discurso do sr. que foi inu- no mysticismo societário. que levou os phenomenos apparentemente desvairados da politica a subordinarem-se ao critério da Sociologia. originado pela inlroducçâo de um espirito novo em Portugal. concen- em Coimbra. .494 HISTORIA DO BOMÁKTISMO EM FOBTUdAL intel- Proclamar qualquer ideia no meio d'esta beatitude lectual do Elogio mutuo. chegando até a eccoar no par- lamento portugnez os presagios por esse symptoma de dissolução 1^ Ê tempo de foi se estudar este movimento de dissi- dência. manifeslou-se no Porto tóricos com a propagação de trabalhos hiscritica em que se applicavam os novos processos da comparativa. 122. era n'esse foco de mocidade e de eíilorescencia moral. que se converteram e em polemicas acerbas em violências maleriaes. contra a ordem politica e até contra a Spencer: «Nenhuma revolução nas ideias se lacera. em que preponderava ainda lilisar-se a indisciplina metaphysica. acaa perturbação revolucionaria. em Coimbra. Divide-se rísticas esse em três phases caracte- critério intellectual: foi movimento inaugurado pela renovação de a primeira phase. alguma aspiração generosa. segunda phase. a terceira phase. iniciada em Lisboa peias Conferencias democráticas do Casino. ' Primeiros Principies. contradiclar a litterarios. Diz dos parallelos era como um atlentado contra a pátria./ bando com O único ponto do paiz onde se julgaria encontrar algu- ma actividade mental.çâo» .

A mocidade percebia assim a historia. Infelizmente a morte politica infligida a Portugal com a intervenção armada em 1847. aos pés da sua Rainha e do seu Rei!» parates. trocista e sem compreliensão das necessidades do seu tempo. Pedro v. um braço e uma ideia para vir depor como oblata n'esse trajecto. e aflirmava a sua aíTeirão ani- quilando o fuluro. tanto melhor. que aos mais invejáveis titulos .. João vi: «Saem do coração as manifestações da vossa dedicação. que tem uma crença. A Academia O rei respondeu á Felicitação. ao tactearem n'esta hora com mâo o solo do seu sentem lá dentro no coração de lodo elle a febre ver- tiginosa do enlhusiasmo. a Minha grande família como Rei.y> E antes de concluir airirma. o seu successor passou por Coimbra. vinte annos. Quando depois da morte de D. e o anciado estremecimento dos grandes júbilos! Passa o Hei e a Hainiia de Poriugal!.— Retribuo-as e agradeço as tanto mais. de Coimbra estava ternal. foi-lhe entregue uma Felicitação filhos assombrosas palavras: «Os paiz. Do coração as agradeço e retribuo. quanto mais espontâneas. formadas do que ha de mais vigor e de mais fuluro em cada provinda. alma de alma também enamorada. da Academia A baixeza excede os dispelo chão. de Vieira de Castro. ainda che- gámos a ver coladas pelas paredes proclamações impres- sas que diziam: Viva D. quanto abrangem ludo o que no mundo Me disvella— a Mmha família como homem.. e por uma commis- são composta além de outros estudantes. quando entrámos era Coimbra em 1801. pezava também sobre a mocidade de Coimbra. arvorando-se em antigo poder pa- do velho estylo da chancellaria de D.CASTILHO 495 entre as gerações académicas. onde se lêem estas da Universidade de Coima bra. Logar pois á Academia de Coimbra. em um tal gráo de inconsciência. Pedro V absoluto. e das phra- com as mãos ses incisivas era estylo de canlo de papagaio. mica jazia a mocidade acadé- então na mesma insensatez.

496 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL e dos soberanos são hoje (1863!) os de pães povo. Essa reacção manifestava -se pelo protesto. e compreheodia-se a historia pelas narrativas emocionaes de Michelet. pela formação de sociedades a de livres*pensadores como do Raio.» Anlhero intuitos litterarios. pretextando abstenção de plicou de um modo directo aos apodos de Castilho. em uma atmosphera de ideias recebidas de Proudhon e de Hegel. como o da inquisilorial Sala dos Capellos em !802 contra a disciplina da Universidade. por uma linguagem cheia de aspirações servidas por uma metaphysica. e a poesia pela audácia Vivia-se descriptiva de Victor Hugo. pedindo-lhe o perdão de acto. Carla Dom senso e bom gosto escrevia Anlhero do Quental atacando a pedantocracia: «Refundem-se as crenças antigas. á poesia. Castilho presenliu que não podia ser adorado n'esse meio mental. e que reagiam ousadamente contra a dissolução d'esse deplorável meio. existiam consciências isoladas que se insurgiam. é esía RepresenlaçAo de abril de 186Í ao Kei. para o céo dtijar cair orvalho benéfico sobre a existência tão rara e tão necessária do prín- cipe I). Geram-se com esforço novas ideias. de que nunca se Jibertou.» Os poderes puldicos n<1o se achavam enlào n'eálc grão do idioa Keprc«eolaçào nào foi allendida. e lançou-lhe um raio da sua cólera clássica. e Carlos. .y>*- amigos do seu d'esta geração Ninguém poderia suspeitar que no meio nulla. tia. com o seguinte íuiidametilo: «Voar depressa ao centro da familia para juntos orarmos a Deus pela áiialarão das vidas do Bei e da Rainha de Portugal. Desmoro- nam-se as velhas religiões. á politica. tjnha ainda a incoerência de ideias e preoccupação do eslylo. confundindo as novas ideias versatarios que com os disparates de linguagem dos uni- «tacteavam o solo do seu paiz. re- do Quental. destituindo os nebtdosos. que se applicava á critica litteraria. As instituições do passado aba- 1 Um documento ainda rriais vergonhoso para a mocidade académica. mas essa produziu jNa réplica em forma de caria uma grande impressão sobre o publico. a tudo.

Enlio degladiavam-ce 32 ao- . explorações?— Fora d'essa atmosphera corrupta.» A Carta produziu um grande effeito pelo que linha de brante vaí?as generalidades envoltas em uma deslum- pompa oratória. as almas sentem-se menores. 1. Estejamos certos de que na determinação serial do futuro que ^e prepara ba mais lógica. crente e formosa. «Eu jà quasi não cot fui de uma época que era considerada entre os academi* escolas. e como a edade heróica do pensamento. das. E nilo nos percaiuod em especulaçòeg philosopbícas sobre as origens. e n'ellas se dispenderam os primeiros esforços. menos dispostas ao sacriGcio e ás abnegações da consciência. sã. Sairão esses heroes das Academias lilterarias? das arcádias? das sinc-curas opulentas? dos corrilhos do elogio as águias das capoeiras? Saltarão as ideias salvadoras mutuo? Sairão do choque das maledicências e dos doestos? Nascerão as dedicações do crusameulo das vaidades? Darão a grande novidade os ledores de Horácio? Inventarão as novas formulas os que decoram as phrases rabugentas dos livros bolo- rentos que chamam clássicos? E os Sócrates e os Epicte- los descerão para as suas missões das cadeiras almofadalitterarias. menos ambiciosas de bem. Para — este Iraballio é que se querem os grandes homens. entre estas duviabalos.^te facto." serie. as causas ou os antecedentes d^e. das rendosas conezias das prebendas. das e. 1879) es«Em quo psze a muitos é forçoso reconhecer e^la grande rnelan)orpho!=e. era a edade das expansões lyricas. E. na Revista de Coimbra {n. de que na confecção arlifícial dos nosí^os systemas. das.° 1. nem sobre os perigos. íla traliir uma Humanidade em dissolução. nada ha mais eíficaz para estimular a apathia mental do que a seducção artística.CA8TILH0 497 lam-se. as «fperançiis que d'aqui podem advir. estes estas incertezas. O futuro não apparece ainda. Tinha o seu lanlo de evolutivo. quando não corrupta pelo menos esterilisadora. 1 * o creve ^ohre esta época: Dr. de que é preciso exuma Humanidade viva. mais toda tristes. é mais provável encontrarem-se as condições que precisam para viver e crescer os pirito homens úteis e necessários ás transformações do es- humano. Corroa Barata.

Assim ficou a poesia transal- formada nas suas normas para receber as sugestões truístas provenientes da moderna concepção positiva do dava em voga a philosophía dos Kant. Cá como lá passaram essas imaginosas theorias do mundo. provisória. os quaes. para tirar a poesia do sentimentalismo egoista. se me não engano. dos Hegel e dos Fichle. a phase dia deixar de sêl-o. emfim alargarIhe os espaços da idealisação. foi rasgadamente anti-clerical. cantaram-se as revoluções sociaes. republica- na-vermelha. que fnão sabia converter a sua aspiração revolucionaria irresponsavelmente essa aspiração.» . D'es8e tempo são. os srs. pela primeira vez na litteratura por- lugueza deixou a poesia de inspirar-se do ideal do christianismo. o erotismo amoroso substituiu-se pela pela hallucinação e enthusiasmo pela paixão do sacrifício. imagens mais profundas. a poesia era o único meio de exprimir modo mais efficaz intuito. que estes pliilosophos lambem foram no seu paiz como que os semi-deuses de uma era mythologica. verdadeiras e pittorescas. Dos brilhantes espirilos que sairam então da Universidade. do homem e das cousas. socialista. liberdade. de orientar os sentimentos no sentido de um mais elevado No Parnaso portuguez moderno esià representada esta phase^volucionaria mas importantíssima da poesia a adliesão consciente e positiva foi portugueza. entre outros. já aoffreram e?ta transfiguração que os aproxima do positivismo das concepções hodiernas. Diz Jules Soury. humanitária. Para luma mocidade que não estava acostumada a pensar. Anthero do Quental. e nem po- mas exerceu a acção fecunda de um im- pulso novo. e Jas novas formas politicas da Hespanha e da França. como a Polónia e a Irlanda. para dar-lhe formas mais espontâneas e vigorosas. e o em opi- nião democrática.498 HISTORIA DO ROMANTISMO EM PORTUGAL A indisciplina metaphysica iniciada pela escola de Coim- bra na forma de aspiração revolucionaria accentuou-se principalmente na poesia. Cantaram-se as dores dos povos oppressos. alguns ai eslâo bem conhecidos. e etc. que precedeu ás ideias democráticas. O lyrismo pessoal envergonhou-se das pequenas emoções do individuo e vibrou os grandes protestos humanos .

muitos outros livros e inuu- meras poesias dispersas pelas ephemeras dos últimos quinze annos. sendo des um o modo intellectual do outro. acreditar no que merece crença. pulsam a notonia. e o seu destino real de fé. revistas litterarias se já mesma corda sem mocom uma certa uncção mystica de justiça. Escola revolucionaria de Coimbra. metrifica-se bem. comprehendeu primeiro do que ninguém a necessidade de dirigir o senso critico. Francis Jeífrey. depois d'essa phase revolucionaria. e era preciso aproveitar certa hostilidade da opinião publica para lhe fallar a verdade sem rodeios. com colorido. inlelleclunl. inaugurada na poeestava sujeita a uma grande responsabilidade— uma o tra- balho sério. A sia. não se pôde ficar inertemenle rapaz de esperanças.» Na historia intellectual da Allemanha^ como o observa Gervinus. a poesia paira em vez de arrastar