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Vândalos, baderneiros e queridinhos

Alceu A. Sperança

Vândalos, baderneiros e queridinhos Alceu A. Sperança Antigos territórios vândalos, entre o Norte e o Sul

Antigos territórios vândalos, entre o Norte e o Sul de Portugal e Espanha atuais: os vândalos foram varridos do mapa pelos romanos

O verbo “vandalizar” esconde o fato de que os romanos

vandalizaram terrivelmente o povo vândalo, cuja nação varreram do mapa. E todos os que apreciam a boa dança com certeza deveriam

ser baderneiros. Ou seja, apreciadores da bailarina italiana Marietta Baderna (1828–1870), que encantava os jovens cariocas em meados do século XIX. Mas aí são velhas histórias. Modernamente, o que merecem os vândalos e baderneiros? No mínimo, uma severa condenação, a começar pela reparação possível aos males causados. Quando o vandalismo e a baderna são de pequena monta, como quebrar roleta de lotação ou pichar muro, o castigo normalmente é a prestação de serviços comunitários. Mesmo porque não faz sentido meter garotos que logo vão amadurecer e criar juízo entre bandidos que poderão recrutá-los para as redes criminosas que infernizam a sociedade – aí a grande asnice de reduzir a maioridade penal.

Os maiores vândalos e baderneiros, que causam graves e grandes

prejuízos, sim, deveriam amargar uma cana firme. No entanto, são endeusados como benfeitores da humanidade. Que benefício há no grande vandalismo de pôr abaixo florestas, criando desertos e surrupiando das novas gerações a herança que lhes deveria caber?

Dançarina italiana Marietta Baderna Os desastres ambientais causados pelos vândalos com gana de lucrar a

Dançarina italiana Marietta Baderna

Os desastres ambientais causados pelos vândalos com gana de lucrar a qualquer custo geram prejuízos à humanidade para os quais até a reparação fica difícil. Nem as multas resolvem: na Amazônia os derrubadores de florestas quando apanhados pagam as multas dando gargalhadas. Quantos anos de serviços comunitários deveriam prestar esses vândalos? Também não pode haver contentamento, a não ser para uma parcela ínfima da humanidade – menos de 0,01% – na baderna em que está virada a economia mundial. Ela sacrifica mais de um bilhão de seres humanos, empobrece muitos milhões inclusive nos países mais ricos e estende a fome para outros tantos que vivem nas nações pobres e são escorraçados quando migram para pátrias que se orgulham de sua riqueza e prosperidade. Abastança no mais das vezes construída metendo a mão nos bens das nações colonizadas. O que esses vândalos e baderneiros ganham, porém, é uma escandalosa riqueza. São badalados, festejados, invejados e imitados. São os queridinhos da mídia, dirigem grandes corporações e controlam vastas redes de comunicação e entretenimento via carteira publicitária. O queridinho Google, oráculo do nosso tempo, e a amada Microsoft, o gênio da raça, compram terras no Brasil a perder de vista: resta verificar se compram para preservar ou para se unir aos vândalos que as pelam.

Há poucos atos de vandalismo piores que endividar terrivelmente o povo brasileiro sem a anuência

Há poucos atos de vandalismo piores que endividar terrivelmente o povo brasileiro sem a anuência plebiscitária da população. Na arena dos leões financeiros e neoliberais, os que vão pagar vos saúdam, ó imperadores deste mundo! Basta olhar para o orçamento nacional e saber o que é um vandalismo bem badernado: quem realmente governa o País é quem leva a parte do leão. Os maiores vândalos e baderneiros financiam as campanhas eleitorais dos próceres do planeta, controlam as rédeas do poder e seguem à risca o conselho do megalopolitano Políbio: “Como as massas são inconstantes, presas de desejos rebeldes, apaixonadas e sem temor pelas consequências, é preciso incutir-lhes medo para que se mantenham em ordem”. E dê-lhe bomba de efeito moral e bala de borracha! Políbio foi capturado pelos romanos e feito escravo. Seus sequestradores, os grandes vândalos da época (vandalizaram até os próprios vândalos), conquistaram o fervoroso amor de Políbio, numa espécie de antecipação da Síndrome de Estocolmo: “Roma é a obra mais bela e útil do destino”, defendeu. Hoje, a obra mais bela e útil é a “terra da liberdade”, de onde partem ações de muito vandalismo e baderna pelo mundo afora.

O autor é escritor