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Variantes da Língua e falantes da língua Portuguesa

Variantes da Língua e falantes da língua Portuguesa

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O texto traça algumas reflexões sobre a língua portuguesa e conceitos sobre as suas variedades, a partir da constatação do preconceito que se tem aos registros incultos verificados em boa parte dos territórios nacional, e um reforço conceitual sobre a unidade lingüística como um processo imanente entre ela e a sociedade.
O texto traça algumas reflexões sobre a língua portuguesa e conceitos sobre as suas variedades, a partir da constatação do preconceito que se tem aos registros incultos verificados em boa parte dos territórios nacional, e um reforço conceitual sobre a unidade lingüística como um processo imanente entre ela e a sociedade.

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SÉRGIO R. A.

VENTURA

Variantes da Língua e falantes da língua Portuguesa

Rio de Janeiro/Campus Madureira 2007

SÉRGIO R. A. VENTURA

Variantes da Língua e falantes da língua Portuguesa

Artigo apresentado ao prof. Francisco Lacerda como requisito parcial para aprovação na disciplina Trabalho de Conclusão de Curso.

Rio de Janeiro/Campus Madureira
2007

“Todo homem é ligado por uma secreta tendência a uma parte da natureza de que é agente e interprete”. (Ralph Waldo Emerson)

RESUMO

O texto traça algumas reflexões sobre a língua portuguesa e conceitos sobre as suas variedades, a partir da constatação do preconceito que se tem aos registros incultos verificados em boa parte dos territórios nacional, e um reforço conceitual sobre a unidade lingüística como um processo imanente entre ela e a sociedade.

Palavras-chave: Língua. Linguagem. Sociolingüística. Variação dialetal. Língua Culta. Língua Inculta. Sociedade.

A língua, segundo Fiorin (2000), é algo difuso e único enquanto unidade de compreensão, livre e cárcere enquanto falada e propriamente natural e injusta enquanto ideologia. Como unidade compacta de língua, o português e outros idiomas se encerram em si como mães e filhas determinadas pelo fator tempo que as introduz o gérmen da rejuvenescência. Com isso, pretende-se que uma língua em si não subsiste sem que seus reflexos atinjam todos os pontos de uma ou várias regiões por que é falada. Ela mantém sua qualidade de língua por que é falada pelos seus naturais. Uma língua é sempre produto e subproduto de si mesma e, com ela, variantes de sua subdivisão constante perfazem o núcleo e semente de todas e quaisquer regiões onde suas variedades determinadas pela diatopia ou regiões por onde ela é expressa tem uma qualificação ou importância consoante o nível de desenvolvimento socioeconômico e cultural da região. Desse modo, a língua mantém uma relação de extrema importância com a sociedade e tem seu papel determinado nas camadas sociais que a utiliza, de forma hierárquica, apenas pelo grau de desenvolvimento em que se estrutura uma região. É essa questão da língua com a sociedade em que se desdobrará esse artigo.

Eis a questão de quem esquece que fala o português para falar o “purtugués” dos gramáticos normativistas. É esse preconceito cultivado por quem fala e por quem ouve de que a realidade mostra a sua fraqueza. Quando se começa a falar em Português, nós, como conscientes lingüísticos, devemos ter em conta todos os fatores ou alguns dos significantes que incorreram na diversificação de várias contingências do português. Bagno (1999) mostra que em toda e qualquer variedade de língua pode ocorrer deslocamento de significados ou mesmo ocorrência de palavras singulares que não são usadas em outra variante da mesma língua. Ressalte-se a mistura e união de povos de culturas e línguas diferentes, com entonações vocais particulares, que se entrosaram

na nossa história, a história do Brasil, e continuam sendo os principais geradores de um plurilingüísmo evolutivo, corrente em várias nações. A idéia de que existe uma só variedade de língua, como o Português, é em última instância, uma tentativa de elucidar que não importa quantos netos já adquiriu esta avó, convém apenas o fato de que ela é o português lembrado em seus posteriores. Como diz o Fiorin (2000), “toda língua são rastros de velhos mistérios”, – toda língua em determinada região sofre variações, que podem ser positivas ou negativas dependendo do grau de divisão categórica ou de camada social dessa língua. Sabe-se que numa nação encontram-se co-relacionados vários conjuntos dialetais ou variedades lingüísticas determinadas que, dependendo do grupo a que pertence, irão se destacar em relação à de outros grupos. Segundo Tânia Alkimim1, “qualquer língua, falada por uma comunidade, exibe sempre variações”. Pode-se afirmar, mesmo, que nenhuma língua se apresenta como entidade homogênea. Isso significa que qualquer língua é representada por um conjunto de variedades. Concretamente, o que chamamos de “Língua Portuguesa” engloba os diferentes modos de falar utilizado pelo conjunto de seus falantes do Brasil, em Portugal, em Angola, em Moçambique, Cabo Verde, Timor, São Tomé e Príncipe, etc. O que se nota é que a língua, dentro de determinada comunidade, sofre certo prestígio e desprestígio em relação ao grau de desenvolvimento socioeconômico de uma região. Essa relação acaba favorecendo muitos preconceitos em relação a muitas comunidades lingüísticas.

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Apud MUSSALIN, Fernanda e BENTES, Anna (orgs). Introdução à Lingüística: Domínios e fronteiras, v1. São Paulo: Cortez, 2001 (p.21-42). As variedades lingüísticas que se entrosam num país continental, como o Brasil, têm muita história e são, desse modo, a maior riqueza deste, visto que a língua é a expressão direta de uma cultura e o Brasil, pela sua história e contingência de imigrantes, abarca uma variedade dos mais diversos grupos com variações de cultura e língua particulares. É, para Benveniste (1963), dentro da, e pela língua, que indivíduo e sociedade se determinam mutuamente – dado que ambos só ganham existência pela língua. Assim é, que a linguagem sempre se realiza dentro de uma língua, de uma estrutura lingüística definida e particular, inseparável de uma sociedade definida e particular. Voltando a questão da valorização da língua, é importante frisar que dentro de uma nação, sempre se terá uma língua institucionalizada como a língua padrão, mesmo que inconscientemente. Pode-se dizer que a língua padrão sempre acompanha o desenvolvimento econômico e histórico de uma ou várias regiões. No Brasil, por exemplo, é comum termos como língua padrão ou privilegiada, a língua que se fala nas regiões metropolitanas ou nos centros de maior produção econômica do País. Desse modo, nos locais de menor produção econômica, teremos uma língua menos valorizada. Esses aspectos econômicos e sociais influenciam nos valores que se constrói sobre determinada variedade lingüística. O dialeto nordestino é menosprezado e defasado por uma questão simbólica, é uma região improdutiva, castigada pela seca, assim como outras, uma região pobre, carente de recursos e outros determinantes. Já regiões como São Paulo, Rio de Janeiro, entre outros, engendram a maior concentração da economia do país e, como afirma Alkimim (Ibidem), “o melhor modo de falar e as regras do bom uso da língua correspondem aos hábitos lingüísticos dos grupos socialmente dominantes”.

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Uma das diferenças que podemos encontrar quando nos referimos à língua padrão ou culta está na associação que dela se tem às classes elitizadas das não elitizadas. Na classe elitizada, predomina o domínio culto da língua, o que é explicado pela visão de mundo a que se atribui o falante culto. Quanto mais se conhece o mundo, mais enriquecedor se torna a língua pessoal. Uma visão de mundo abrangente permite que o falante constitua uma bagagem lingüística e cultural tanto de seu meio social quanto de outras camadas sociais. O tipo de registro desse falante consciente pode variar segundo o contexto em que se encontra. Falantes de regiões com pouca escolaridade, provindos de famílias pobres, com um contato limitado com outras camadas sociais, adquirem uma língua homogênea ao seu ambiente e costumes, que tornam, desse jeito, a língua com uma característica pobre, diferenciada e sobreposta às ideologias de raça, meio e momento. Muito se fala sobre a língua e, dentre as várias definições que a assistem, parece louvável a de Celso Cunha (1984 p.25), em que afirma que: “a língua é um conjunto de sinais que exprimem idéias, sistema de ações e meio pelo qual uma dada sociedade concebe e expressa o mundo que a cerca, tendo ela que viver em perpétua evolução, paralela a do organismo social que a criou”. O sistema de sinais ou signos é o ponto fundamental para se chegar aos níveis mais elevados da língua. A língua começa a existir como uma necessidade, e como parte fundamental da linguagem, de decodificação da realidade que cerca o indivíduo. É a partir dessa realidade, que o indivíduo se molda como instrumento social. A língua, para Saussure (2000), é um “fato social, no sentido de que é um sistema convencional adquirido pelos indivíduos no convívio social”, ou seja, não podemos separar a língua do contexto social, visto dever este sua existência à língua. Pois é utilizando-a em sua plenitude que podemos descrever o que somos, o ambiente social que nos envolve e os meios de participação construtiva de uma sociedade progressiva.

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Sem a língua a limitação do homem viria à tona, fazendo com que o ser desprovido dela se fechasse e se excluísse do quadro social e, embora exagere Bertoni (Apud Cunha1984 p.34), pode-se, mesmo, afirmar que a “língua é o próprio pensamento”. O que se depreende é que ao nível dessas variações enfraquecidas, pela superficialidade preconceituosa de muitas camadas sociais, dada a sua condição social, existe uma associação do nível lingüístico ao nível cultural. É um erro, pois toda língua é adequada à comunidade que a utiliza, é um sistema completo que permite a um povo exprimir o mundo físico e simbólico em que vive2. A língua portuguesa, falada no Brasil, exige muita atenção – todos sabemos –, o número de falantes é muito alto e as diferenças existentes quanto à disposição, proximidade e distanciamento das regiões, os níveis de infra-estrutura e socioeconômicos da maioria, garantem, evidentemente, uma heterogeneidade da língua falada e, ao contrário dos que a pretendem homogênea, devemos ter em mente essas diferenças e, com elas, avaliar os nossos conceitos de língua de prestígio e de desprestígio, de modos que se possam amenizar muitas das discriminações irrefletidas cultuadas por uma massa que se julga no limiar da fonética portuguesa e nas asas da gramática normativo-prescritiva.

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________________________ 2 Ibidem p.7 _______ REFERÊNCIAS BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. 31. ed. São Paulo: Ed.Loyola, 1999. CUNHA, Celso Ferreira da. Política do idioma. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. FIORIN, José Luiz. Linguagem e Ideologia. 7. ed. São Paulo: Ed. Ática, 2000. MUSSALIN, Fernanda e BENTES, Anna (orgs). Introdução à Lingüística: Domínios e fronteiras, v.1. São Paulo: Cortez, 2001. SAUSSURE, Ferdinand. Curso de Lingüística Geral. 28. ed. São Paulo: Ed. Cultrix, 2000.

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