A MOÇA DE GOIATUBA

JOSÉ GODOY GARCIA
Em Goiatuba Tem uma moça Que coração grrande Ela tem. A moça de lá É só chamar vem.

Mal rompeu o dia – a moça Foi levar café com leite Para o filho do patrão, Sentado ‘a beira da cama, Como fez sempre, esperava, Como fez sempre, que o moço Lhe reclamasse mais pão, Mas o moço não queria Nem pão nem café com leite. Queria – e com que paixão Dentro dos olhos! – queria-lhe Os peitinhos em botão. Daí o moço pediu-lhe Que se deitasse com ele Um pouco... que assim veria Que era bom o colchão. Mas a moça riu e disse Que não tinha precisão, Pois era dia e de noite Tinha dormido um tantão. Daí o moço pediu-lhe Que ela tirasse o vestido Depois a combinação Depois deitasse na cama Que era bem quente o colchão. Mas a moça riu e disse Não estar com frio não Que o vestido que vestia Tirar não podia não Que a patroa foi quem disse Que devia ter vergonha E cobrir-se com vestido, Calcinha e combinação... E se foi, deixando moço A se torcer de paixão. E quando foram chamá-lo, O moço tinha dormido E não acordou mais não. No outro dia, antes do enterro, Mal rompeu o dia – a moça Foi colher flores no mato Para enfeitar o caixão, E a cada flor que apanhava Dizia à Virgem Maria, Ao seu bentinho e a São João Que tantas flores bonitas O moço ao céu levaria, Mas a troco do perdão,

Pois uma das quatro velhas Que deram banho no morto, Disse que viu nos seus olhos, Quando os fecharam, o Sujo A dançar com danação. E a cada flor, uma lágrima Descia pelo seu rosto, Que morrer assim tão moço Como o filho do patrão E ainda ter de curtir penas Era mais que judiação. Enquanto apanhava flores Encontrou o pai do moço Que também a buscar flores Foi colher consolação. A moça, como fez sempre, Tomou benção do patrão. Ele tinha havido tempo A mocinha em sua casa, Mas só agora é que dava Com seus seios em botão. Sem largar a mão da moça Lhe pediu que ela tirasse Seu vestido de chitão, Que depois ia lhe dar Muitos de seda e sapatos Mais bonitos que os das outras Moças de todo o sertão. Mas a moça riu e disse Que não tinha precisão, Que era até muito bonito Seu vestido de chitão. Sem largar a mão da moça O patrão lhe suplicava Que ela tirasse o vestido, Depois a combinação, Depois a calça e, depois Deitasse nua no chão Mas a moça riu e disse Que o vestido que vestia Tirar não podia não, Que a patroa foi quem disse Que devia ter vergonha E cobrir-se com vestido, Calcinha e combinação... E daí se foi, deixando-o A se torcer de paixão.

. em pouco dormia . . A se torcer de paixão. Esses trens são mesmo uns bobos! Chega dói no coração. E os caixeiros-viajantes E o vigário e o sacristão E o revoltoso de trinta E o promotor e o escrivão E o juiz e o médico e os loucos E o boiadeiro e o peão E os policiais e os meninos E o dia todo e de noite Não parava a procissão.. Que ela deitasse no chão. Ao ver que Deus era um homem Foi levantando o vestido. Mas Cristo não a quis não. Que coisa. mas Deus as tira A trtoco de oração. A gente quer ter vergonha.e não acordou mais não. Com um peão de boiadeiro Das bandas de catalão..os homens mandam tirar. que nem os homens. mal se deitava No quintal. Sentiu uma dor doida Que lhe subia do ventre Para o peito e o coração. Vou fazer tudo o que pedem Na primeira ocasião. Pois sabia que as doenças Tão feias como era a sua Não saram. Dor tão grande que sofria Seu corpinho tamanino Nu bem no meio da igreja Como era terna adoração! Dor tão grande! Ela sé via O Cristo. Depois vai. estava dormindo E não acordou mais não.... E largando o crucifixo Lhe pedir. A moça de Goitatuba Se dava como se davam ao sol as ervas do chão. Mas não quero que eles morram.E quando foram buscá-lo Mais tarde. morre o patrão De tanto pedir a gente O que não posso dar não. E como as fontes que à terra As águas da terra dão E como as plantas que os frutos Dão a quem estende a mão E como céu que em estrelas Se dão de noite no sertão. me mandam deitar no chão. atrás da cerca De moita de são-caetano. A gente quer ter razão E bota o vestido novo Feito para a procissão . A moça de Goiatuba Deitou. gente! Que coisa! Mais parece mangação. Era só chamar – e vinha Como se dar o seu corpo Fosse a sua religião. Foi andando e entrou na igreja. Tadinhos! – Omo o patrão. De primeiro morre o filho. que nem os homens. E como as fontes que a todos De beber sempre lhe dão E como as plantas que os frutos Dão como consolação E como o céu que as estrelas Dá a toda escuridão. Uma vez.

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