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do texto que se chega gramtica, no o contrrio.

USO LINGSTICO E A NOO DE CERTO E DE ERRADO D-me um cigarro diz a gramtica do professor e do aluno e do mulato sabido mas o bom branco e o bom negro da nao brasileira dizem todos os dias deixa disso camarada me d um cigarro (Oswald de Andrade. Poesias reunidas. So Paulo: Difuso Europia do Livro, 1966: 102.) O que se nota, a, que, fora de conviver com uma cultura que lhe diz que h acerto, na linguagem culta, e erro, na linguagem popular, o usurio da lngua mesmo um literato, como Oswald de Andrade tem assimilada a noo de que existe gramtica apenas na lngua do acerto ( a gramtica do professor e do aluno), e aceita esse jogo. Com toda essa atitude de pegar ferrenhamente em armas contra o controle e o policiamento da lngua nossa de cada dia, o que o poeta assume, no fundo, que, em me d um cigarro, h, de fato, uma infrao gramtica, que no seria cometida pelo mulato sabido, mas que o povo (o bom branco e o bom negro da nao brasileira) tem o direito de cometer. Alis, o prprio Oswald de Andrade que, nessa mesma obra, se refere lngua que falamos como uma lngua com a contribuio milionria de todos os erros (grifo meu), o que atesta uma aceitao pacfica da velha noo de erro lingstico. Concluindo, devo dizer que, se se admite, em uma comunidade lingstica, a existncia natural de uma norma de prestgio que, para sucesso das relaes sociais, pode e deve ser buscada, por outro lado se exige que, para falar sobre padres da lngua, seja avaliado o uso, e isso se faa com o suporte da cincia lingstica. Exige-se, assim, que a avaliao da norma-padro resulte de uma recolha das presses atuantes, o que s se faz com os princpios da cincia da lngua: e que a avaliao imanentemente lingstica explique as aes, e que a avaliao sociocultural, legitimamente esclarecida pelas lies da cincia, responda pela valorao. O mais diletantismo, que, necessariamente, resulta em mistificao, em burla, em sofisma, afinal, em nada aproveitvel. A gramtica de uma lngua em funcionamento no se faz com regras de conduta, cujo conhecimento deva necessariamente preceder o uso, para que haja linguagem. E, principalmente, lies de simples certo e errado, com tanta facilidade e tanta agilidade distribudas e com tanta avidez - cada vez mais - consumidas, representam tudo aquilo que a cincia lingstica ensina que a linguagem no tem: um corte discreto e pr-moldado em sins e em nos configurando a lngua.