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Os Insaciaveis

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OS INSACIÁVEIS

Tradução: Nelson Rodrigues

HAROLD ROBBINS Um dos escritores de maior sucesso internacional, Harold Robbins nasceu em Nova Iorque, em 1916. Criado em orfanato, aos oito anos vivia numa das partes mais po bres e violentas do West Side de Nova Iorque, o Hell's Kitchen (Cozinha do Infer no). Durante a fase da grande depressão econômica dos Estados Unidos (início da década de 30) , o adolescente Robbins saiu em busca de emprego: empurrou carrocinhas de sorvet e, vendeu sanduíches e refrigerantes, trabalhou em escritórios. Empreendedor, com vi nte e um anos entrou no comércio de alimentos e passou a especular com colheitas d e ervilhas e safras de açúcar. Em pouco tempo, ganhou um milhão de dólares, mas perdeu t udo com a mesma rapidez. Então, conseguiu trabalho como auxiliar de escritório numa companhia cinematográfica. Ali, rapi-damente progrediu e passou a cargos de dire-ção. Certo dia, ao terminar de ler um livro que os produtores da empresa cogitavam fi lmar, convenceu-se de que poderia escrever um melhor. E foi assim que surgiu Jam ais ame um desconhecido, publicado em 1948, resumo de tudo o que vira no cinema e entre jogadores dos cassinos de Monte Cario. Depois, escreveu Os insaciáveis, qu e foi adaptado duas vezes para a tela: um filme com o mesmo nome e outro intitul ado Nevada Smith. A partir daí, Harold Robbins transformou-se num dos autores mais vendidos em todo o mundo. Seus livros con-tinuaram sendo adaptados para o cinema, regiamente pago s. Amealhou uma fortuna que, no entanto, não o deixa impressionado: "O ideal na vi da é a gente poder fazer de tudo uma diversão. Meus negócios me divertem. O dinheiro f oi feito pra gastar", diz o escritor. Esse milionário da literatura leva o tipo de vida que costuma criar para os person agens de suas obras. Possui mansão na Califórnia, casa de ve-raneio perto de Cannes (França), iate, um Rolls-Royce em cada lugar onde mora. Casado há vários anos com a sua quinta mulher, a italiana Grazia Maria, a quem tem d edicado os últimos livros, Robbins é pai de dois filhos. Quando se sente inspirado, põe-se arduamente a escrever. Para isso, isola-se num hotel por períodos que se este ndem até cinco meses. Antes, porém, coloca em ação uma equipe de pesquisadores, encarreg ada de levantar toda a documentação possível sobre o assunto escolhido. Assim aconteceu, por exemplo, com O garanhão, sobre a indústria automobilística, ou co m Os sonhos morrem primeiro, sobre os bastidores de uma revista pornográfica. Em seus livros, Harold Robbins joga com tudo aquilo que pode fascinar as pessoas . Mulheres passionais, homens violentos, poder e ambição, automóveis de luxo e mansões c inematográficas são os principais ingredientes dos seus inúmeros romances, traduzidos em trinta e nove idiomas, publicados em mais de sessenta países e que já cativaram m ais de duzentos milhões de leitores.

Para PAUL GITLIN, como consideração

por sua amizade e orientação através dos anos.

JONAS 1925 LIVRO I

1 O sol começava a cair do céu no branco deserto de Nevada, quando avistei Reno lá embai xo. Virei lentamente o avião e tomei rumo leste. O vento assobiava nos montantes d o biplano e eu ria comigo mesmo. O velho ia "subir a serra" quando visse aquele avião. Mas não teria de que reclamar. Não lhe havia custado um tostão. Eu o ganhara num jogo de dados. Toquei o manche para a frente e desci devagar até quatrocentos e cinqüenta metros de altitude. Voava por cima da estrada 32 e o deserto era uma confusa mancha. Meti o nariz do avião no horizonte e olhei para o lado. Lá estava ela, uns treze quilômetr os à frente. Parecia um feio sapo esparramado no deserto. A fábrica. Cord Explosives Empurrei de novo o manche e quando passei por ela já estava apenas a uns trinta me tros de altitude. Fiz uma curva Immelman e olhei para trás. Havia gente nas janelas. As morenas mexicanas e as índias, com seus vestidos de co res vistosas, e os homens com suas desbotadas roupas azuis de trabalho. Quase po dia ver o branco dos olhos amedrontados que me espiavam. Tornei a rir. Era muito chata a vida daquela gente. Ia dar-lhes um pouco de emoção. No alto da curva, levei o avião a setecentos e cinqüenta metros e mergulhei na direção d o teto coberto de piche da fábrica. A zoeira do grande motor Pratt & Whitney foi aumentando e me dei-xando surdo, en quanto o vento chicoteava meu rosto. Apertei os olhos e cerrei os lábios. Sentia o sangue acelerar nas veias, o coração bater e os sucos da vida subirem-se pelas trip as. Força, força, força! Ali, onde o mundo lá embaixo era como um brinquedo. Onde eu tinha o manche como se fosse o meu membro nas mãos e não havia ninguém, nem mesmo meu pai, pa ra me dizer não! O telhado escuro da fábrica sé estendia por sobre a areia branca, parecendo uma garo ta nos lençóis brancos de uma cama, com a mancha negra do púbis a sussurrar um convite na sombra da noite. Senti a garganta apertada. Mãe. Eu não queria ir-me embora. Que -ria ir para casa. Pim! Um dos arames finos dos montantes se partiu. Pisquei os olhos e molhei os láb ios. Senti na língua o gosto de sal das lágrimas. Já podia ver as pedras cinzentas no teto escuro de piche. Puxei o manche e comecei a sair do mergulho. A duzentos e quarenta metros endireitei o avião e fiz uma ampla viragem rumo ao campo nos fundo s da fábrica. Avancei na direção do vento e fiz um pouso perfeito. Senti-me de repente muito cansado. Fora um vôo longo de Los Angeles até ali. . Nevada Smith veio correndo ao meu encontro enquanto o avião taxiava e parava. Desl iguei a ignição e o motor parou, escarrando a última gota de combustível dos pulmões de se us carburadores. Olhei para Nevada.

Era um homem que não mudava. Desde quando eu tinha cinco anos de idade, e o vi che gar à varanda da frente, pela primeira vez, ele nunca tinha mudado. Conservava o m esmo andar miúdo, bamboleado, e as pernas arqueadas de quem nunca aprendeu a viver fora da sela de um cavalo, as mesmas rugas pequenas na pele curtida do canto do s olhos. Isso acontecera dezesseis anos antes, em 1909. Eu estava brincando num canto da varanda enquanto meu pai lia o jornal semanal d e Reno, sentado na grande cadeira de balanço perto da porta da frente. Devia ser o ito horas da manhã e o sol já estava alto no céu. Ouvi o tropel do cavalo e fui olhar. Um homem estava apeando. Seus movimentos tinham uma enganosa graça vagarosa. Passo u as rédeas pelo mourão e encaminhou-se para a casa. Chegando ao pé da escada, parou e olhou para cima. Meu pai largou o jornal e se levantou. Era um homem graúdo. Um metro e oitenta e c inco. Corpulento. O rosto vermelho ficava escarlate quando tomava sol. Olhou o h omem. Nevada piscou os olhos. — Jonas Cord? — Sim — respondeu meu pai. O homem tirou o chapéu de abas largas de cowboy, deixando à mostra a cabeleira escur a. — Soube que está precisando de um empregado. Meu pai nunca dizia sim nem não, fosse para o que fosse. — O que você sabe fazer? O sorriso do homem não mudou. Correu os olhos lentamente pela frente da casa e pel o deserto, fitan-do depois meu pai. — Sei cuidar de gado, mas isso não há aqui. Sei consertar cercas, mas também é coisa que não estou vendo. Meu pai nada disse durante alguns segundos. Por fim, perguntou: — E é bom nisso? Foi então que vi o revólver na coxa do homem. Levava-o bem baixo e amarrado à perna. O cabo era preto e usado. O cão e o metal estavam cheios de óleo. — Sei me virar. — Como é seu nome? — Nevada. — Nevada o quê? A resposta foi dada sem hesitação: — Smith. Nevada Smith. Meu pai ficou calado. Dessa vez, o homem não esperou que ele voltasse a falar. Apo ntou para mim e perguntou: — O menino é seu? Meu pai fez que sim com a cabeça. — Onde está a mãe dele? Meu pai olhou para mim e tomou-me nos braços. Como era bom ser carregado por ele! — Morreu há poucos meses — disse ele com voz calma. O homem nos encarou. — Foi o que me disseram. Meu pai olhou-o por um momento. Senti seus músculos, se contraírem. De repente, ante s de poder tomar fôlego, voei por cima da balaustrada da varanda. O homem me aparou com os braços e me segurou firme enquanto dobrava os joelhos par a amortecer o choque. Fiquei um pouco atordoado, mas, antes de eu começar a chorar , meu pai tornou a falar com um leve sorriso nos lábios: — Ensine-o a montar. Pegou o jornal e foi para dentro da casa sem olhar mais para trás. Segurando-me com uma das mãos, o homem chamado Nevada começou a me levantar. De repe nte, vi o revólver em sua outra mão como uma cobra preta viva, apontado para meu pai . Nesse momento a arma voltou para o coldre. Fitei-o nos olhos. Com um sorriso amplo, ele me fez descer para o chão. — Muito bem, Júnior. Ouviu o que seu pai disse, não ouviu? Vamos. Meu pai já havia desaparecido dentro da casa. Não sabia disso naquele momento, mas a quela foi a última vez que meu pai tomou-me nos braços. Daí por diante, foi quase como se eu fosse filho de Nevada.

Já estava com um pé fora da carlinga, quando Nevada chegou. Olhou para mim e disse: — Parece que fez um bocado de agitação. Pulei para o chão ao lado dele e olhei para baixo. Era uma coisa com a qual eu ain da não me habituara. Eu tinha um metro e oitenta e cinco como meu pai, e Nevada co ntinuava com pouco mais de metro e meio. — Um bocado. Nevada olhou para o avião. — Bonito. Como o conseguiu? — Ganhei-o jogando dados. Ele me olhou com uma pergunta implícita. — Não se preocupe — apressei-me em dizer. — Depois deixei o homem ganhar quinhentos dólar es. Assentiu com a cabeça, satisfeito. Isso também era uma das coisas que Nevada me havi a ensinado. Nunca se deve sair da mesa de jogo depois de ganhar o cavalo de um h omem sem deixá-lo ganhar ao menos uma parada. Assim, os lucros da gente não diminuem e o trouxa sai dali pensando que ao menos ganhou alguma coisa. Meti a mão na carlinga de trás e tirei dois calços. Passei um a Nevada e coloquei o me u debaixo de uma roda. Nevada fez o mesmo com o outro. — Seu pai não vai gostar. Você estragou a produção pelo resto do dia. — Não creio que isso tenha importância. O que quero saber é como ele foi informado do ca so tão de-pressa. — Você levou a moça para o hospital — disse Nevada, com o sorriso triste de sempre. — De lá mandaram chamar a gente dela. E ela contou tudo antes de morrer. — Quanto eles querem? — Vinte mil dólares. — Pode-se arranjar tudo por cinco mil. Nevada não respondeu. Olhou para meus pés e disse: — Calce os sapatos e vamos. Seu pai está esperando. Começou a atravessar o campo e eu olhei para o chão. Era bom meter os dedos na terra quente. Remexi a areia com os pés um momento e, depois, apanhei na carlinga um pa r de huarachos mexicanos. Calcei-os e segui pelo campo atrás de Nevada. Detesto sapatos. Não deixam a gente respirar. 2 Levantei pequenas nuvens de poeira com os huarachos enquanto ca-minhava para a fáb rica. O cheiro sufocante do enxofre usado para fazer pólvora me entrava pelo nariz . Um cheiro parecido com o do hospital na noite em que a levei para lã. Muito dife rente da noite em que fizemos a criança. Era uma noite fresca e limpa. A brisa do mar, trazida pelo vento, entra-va pelas janelas abertas da casinha que eu tinha em Malibu. Mas lá dentro havia apenas o p rovocante cheiro da garota e seu de-sejo. Tínhamos ido para o quarto e estávamos tirando a roupa com a desesperada pressa que nossas entranhas exigiam. Ela foi mais ligeira do que eu; já estava estendida na c ama olhando para mim quando abri a gaveta da cômoda e peguei um pacote de camisinh as. A voz dela era um sussurro dentro da noite. — Não, Joney. Não desta vez. O luar claro do Pacífico entrava pela janela. Só o rosto dela estava es-condido nas sombras. De certo modo, o que ela disse me esquentou ainda mais o sangue. A cadela deve ter sentido isso. Estendeu os braços para mim e me bei-jou. — Detesto essas coisas malditas, Joney. Quero sentir você dentro de mim. Hesitei um momento. Ela me puxou para cima dela e disse ao meu ouvido: — Não vai acontecer nada, Joney. Eu terei cuidado. Aí eu já não podia esperar mais e o sussurro dela se transformou num grito de dor. Eu não podia respirar e ela ficou o tempo todo dizendo com voz chorosa: — Eu te amo, Joney. Eu te amo Joney.

Ela me amava, sim. Amava tanto que cinco semanas depois disse que tínhamos de casa r. Estávamos dessa vez sentados no meu carro, voltando de um jogo de futebol. — Por quê? — perguntei, olhando-a. Não estava nada assustada. Ao contrário, mostrava muita segurança e falava quase com a rrogância. — Pelo motivo habitual. Há qualquer outro que faça um rapaz e uma moça casarem? Fiquei zangado. Afinal sei muito bem quando sou embrulhado: — Às vezes, é porque querem mesmo se casar. — Ora, eu quero me casar— disse ela, chegando mais perto de mim. Empurrei-a para o lado. — Pois eu não quero. — Mas você disse que me amava — murmurou, começando a chorar. — Um homem diz uma porção de coisas quando está com uma mulher. Encostei o carro junto ao meio-fio e freei. — Você não me disse que teria cuidado? — Mas eu gosto de você, Joney — insistiu, tentando enxugar as lágrimas com um lencinho t errivelmente ineficiente. — Gostaria de ter um filho seu. Pela primeira vez desde que ela me contara, comecei a me sentir melhor. Era uma das coisas desagradáveis que acontecem quando se é Jonas Cord Jr. Garotas demais, e suas mães também, pensando em dinheiro. Numa fabulosa fortuna. Desde o fim da guerra , meu pai havia construído um verdadeiro império fabricando pólvo-ra. — Então não há dificuldade. Se quer ter, tenha. — Quer dizer... quer dizer... que vamos casar? O leve brilho de triunfo em seus olhos mais que depressa se desvaneceu quando sa cudi a cabeça. — Não. Quer dizer apenas que, se você quer mesmo ter a criança, pode ter. Ela se afastou de mim. De repente seu rosto se mostrou sério e frio. A voz era cal ma e prática. — Quero, mas não assim. Sem uma aliança no dedo, não. Terei de me livrar da criança. Sorri e lhe ofereci um cigarro. — Agora é que você está falando com juízo, menina. Pegou o cigarro e eu o acendi. — Mas não vai ser barato... — insinuou ela. — Quanto? — Há um médico na Mexican Town. As meninas dizem que é muito bom — disse ela, soltando uma baforada e me olhando inquiridoramente: — Duzentos? — Ótimo. Está fechado — topei imediatamente. Era um bom negócio. O último caso desses me custara trezentos e cinqüenta. Joguei o ci garro fora, liguei o motor e meti-me de novo no tráfego, rumo a Malibu. — Espere aí! Para onde você vai? — perguntou ela. — Para a casa da praia. Podemos, pelo menos, aproveitar a situação. Ela começou a rir e se chegou a mim. — Não sei o que mamãe diria se soubesse tudo que fiz para agarrá-lo. Ela me aconselhou a não esquecer um só truque. Soltei uma risada e disse: — Foi o que você fez. — Fico pensando em mamãe. Ela já tinha planejado tudo para o casamento. Pobre mãe... Talvez, se a velha bruxa tivesse ficado calada, a filha ainda estives se viva. Foi na noite seguinte, mais ou menos às onze e meia, que meu telefone começou a toca r. Eu tinha acabado de pegar no sono, e disse um palavrão antes de atender. Ouvi a voz dela num sussurro medroso: — Estou perdendo muito sangue, Joney. O sono me saiu da cabeça como uma bala doida. — O que você está dizendo? — Fui hoje de tarde à Mexican Town e agora as coisas não vão bem. Não parei ainda de perde r sangue e estou com muito medo. — Onde você está? — Hospedei-me esta tarde no Hotel Westwood. Quarto 901.

— Volte para a cama. Vou já para aí. — Venha depressa, Joney, por favor! O Westwood é um hotel de segunda classe no centro de Los Angeles. Ninguém deu a meno r atenção quando entrei no elevador sem parar na portaria. Tentei a porta do quarto 901. Estava aberta e entrei. Nunca vi tanto sangue na vida. Havia sangue no tapete barato do chão, na poltrona em que ela se sentara para telefonar, nos lençóis brancos da cama. Ela estava deitada na cama com o rosto mais branco que a fronha do travesseiro. Seus olhos estavam fechados. Quando me aproximei, ela os abriu; os lábios se mover am, mas nenhum som saiu. — Não tente falar, menina. Vou arranjar um médico. Você vai ficar boa. Ela tornou a fechar os olhos e fui para o telefone. Não podia telefonar assim para qualquer médico. Meu pai não ficaria satisfeito se meu nome voltasse a aparecer nos jornais. Telefonei para McAl-lister, o advogado que tratava dos negócios da firma na Califórnia. O mordomo chamou-o ao telefone e procurei falar com voz calma. — Preciso com urgência de um médico e de uma ambulância. Em menos de um minuto compreendi por que meu pai se utilizava dos serviços de Mac. Não perdeu tempo com per-guntas supérfluas. Quis saber apenas onde, quando e quem. O porquê não interessava. — Um médico e uma ambulância estarão aí em dez minutos. É melhor sair daí agora. Não adianta plicar-se mais do que já se complicou. Agradeci e desliguei. Voltei para junto dela. Parecia estar dormindo. Quando me dirigi para a porta, abriu os olhos. — Não vá embora, Joney. Estou com medo. Voltei e fiquei sentado ao lado da cama. Segurei-lhe a mão e ela tornou a fechar o s olhos. A ambulância chegou daí a dez minutos. E ela não me largou a mão até chegar-mos a o hospital. 3 Entrei na fábrica e o barulho e o cheiro me envolveram como um casulo. Percebi as momentâneas paradas no serviço à minha passagem, e ouvi os murmúrios contidos de vozes m e acompanhando: — El hijo. O filho. Era assim que me conheciam. Falavam de mim com prazer e orgulho, como s eus ancestrais ti-nham falado dos filhos de seus patrones. Isso lhes dava uma id entidade e um lugar próprio, numa compensação pela dura vida que levavam. Passei por entre os tanques de mistura, as prensas, os moldes e che-guei aos fun dos, ao pé da escada que levava ao escritório de meu pai. Comecei a subir os degraus e voltei-me; uma centena de rostos sorriam para mim. Acenei e sorri também, como sempre fizera desde a primeira vez em que, ainda garoto, havia subido por aquela escada. Passei pela porta no alto da escada e o barulho morreu assim que a porta se fech ou. Atravessei o pequeno corredor e entrei na sala de espera do escritório. Denby estava sentado à sua mesa, escrevendo alguma coisa no seu jeito nervoso habi tual. À sua frente, uma moça batia desesperadamente à máquina de escrever. Havia duas pe ssoas sentadas no sofá. Um homem e uma mulher. A mulher estava vestida de preto e torcia nas mãos um lencinho branco. Olhou para mim logo que cheguei e não foi preciso que me dissessem quem era. Mãe e filha eram m uito parecidas. Encarei-a, mas ela virou a cabeça. Denby se levantou, muito agitado. — Seu pai está esperando. Ele abriu a porta do escritório e entrei. Denby tornou a fechá-la e corri os olhos p ela sala. Nevada estava encostado à estante do lado esquerdo, com os olhos quase fechados: s eu jeito dissimulado de prestar mais atenção às coisas. McAllister estava sentado numa cadeira diante de meu pai. Virou-se para me olhar. Meu pai estava sentado à velha e enorme mesa de carvalho. Seus olhos faiscavam. A não ser isso, o escritório estav a como sempre fora.

As paredes revestidas de lambris de carvalho escuro, as pesadas pol-tronas de co uro, as cortinas de veludo verde e a fotografia de meu pai com o presidente Wils on na parede atrás da mesa. Ao lado de meu pai estava a mesinha com três telefones e , mais adiante, a infalível mesinha com um jarro de água, uma garrafa de uísque e dois copos. Só restava um terço de uísque na garrafa. Devia ser, portanto, três horas. Olhei para o relógio: três e dez. Meu pai bebia uma garrafa por dia. Atravessei o escritório e parei diante dele. Enfrentei seu olhar fuzilante. — Alô, papai. Seu rosto ficou ainda mais vermelho e as veias do pescoço incharam quando ele grit ou: — Isso é tudo o que você tem para dizer depois de arruinar a produção do dia e meter medo em metade do pessoal com suas ma-luquices? — O recado que recebi dizia que eu devia vir o mais depressa possível. Foi o que fiz . Mas já não era possível contê-lo. Estava furioso. O temperamento de meu pai era assim. N um momento estava calmo e tranqüilo; no outro, subia mais alto que um balão. — Por que diabos não saiu do hotel quando McAllister mandou? Por que você tinha de ir até o hospital? Sabe o que você fez? Sujeitou-se a um processo criminal como cúmplice de aborto. Eu também já estava furioso. Meu temperamento era igualzinho ao dele. — E o que você queria que eu fizesse? A moça estava se esvaindo em sangue e cheia de m edo. Queria que eu saísse de lá e a deixasse morrer sozinha? — Exatamente. Se tivesse algum miolo dentro dessa cabeça, era isso mesmo o que você de veria ter feito. De qualquer maneira a moça morreu, e não adiantou nada você ter ficad o. Agora, esses patifes que estão aí fora querem vinte mil dólares. Do contrário, irão dar queixa à polícia! Pensa que tenho sempre vinte mil dólares para jogar fora todas as v ezes que você cobre uma sem-vergonha? É a terceira moça só este ano! Não dava a menor atenção para o fato de a moça ter morrido. Eram os vinte mil dólares que o estavam enfurecendo. Mas então compreendi que também não era o di-nheiro. Era uma co isa muito mais profunda. A amargura que mostrava na voz era a chave. Olhei para ele, de repente entendendo tudo. Meu pai estava ficando velho e isso lhe comia a força. Rina devia estar de novo em cima dele. Já se passara mais de um ano depois d o pomposo casamento em Re¬no, e nada acontecera. Dei as costas e caminhei para a porta sem falar mais coisa alguma. — Para onde você pensa que vai?, — gritou meu pai. — Voltar para Los Angeles. Não precisa de mim para tomar uma decisão. Ou vai pagar a e ssa gente ou não vai. Para mim, não faz diferença. Além disso tenho um encontro marcado. — Para quê? — disse ele, aproximando-se de mim. — Para deflorar outra moça? Encarei-o firme. Já estava farto daquilo. — Pare com essas queixas. Afinal deveria estar contente por alguém nesta família ainda ter alguma coisa entre as pernas. Senão, Rina pode pensar que o mal é de família! O rosto dele se contorceu todo de raiva. Levantou as mãos como se fosse me bater. Abriu a boca numa careta de escárnio e então as veias da testa se estofaram de raiva . De repente, como se houvessem desligado um interruptor, toda a expressão de seu rosto desapareceu. Cambaleou, e foi caindo na minha direção. Num reflexo, estendi os braços e o segurei. Por um breve momento seus olhos de des anuviaram, voltados para mim, e os lábios se moveram. — Jonas... meu filho. Então a névoa lhe cobriu os olhos, e ele caiu com todo o peso em cima de mim escorre gando para o chão. Eu sabia que estava morto antes mesmo de Nevada correr para ele e lhe abrir a camisa. Nevada ficou ajoelhado no chão ao lado do corpo de meu pai, enquanto McAllister ch amava um médico pelo telefone. Eu estava pegando a garrafa de uísque, quando Denby a briu a porta. Ficou ali estatelado e trêmulo, com uns papéis na mão. — Meu Deus, Júnior! — exclamou, com uma voz apavorada. — Agora quem vai assinar o contra to ale-mão? Olhei para McAllister, que me fez um sinal imperceptível de aquiescência. — Eu assino — respondi, decidido. No chão, Nevada estava fechando os olhos de meu pai. Larguei a garrafa de uísque sem abrir e disse a Denby:

Levantou o lençol. A filha se parecia com ela. Jonas Cord Jr. Ela me contou que você já tinha até feito planos para o casamen to! . cu stasse o que custasse. Mas desistiu da idéia. Muito bom para um médico que até então não conhecera nenhum de nós. Tinha um rosto honesto. O médico voltou a escrever. que colocou em cima da mesa. Se há uma coisa que não posso tolerar é falsidade. — Você só o conheceu hoje. sem ter força sequer para enxotar a mosca cheia de curiosidade que estav a passando da beira do lençol para o rosto coberto. Um ataque. Um momento depois. Eu nada disse. A pena começou a arranhar o papel. que coisa horrível! — disse. no outro. Pareceu-me sincero. agora. Claro que foi rápido. Foi McAllister quem fez a pergunta. examinou e disse: — Está morto mesmo. O pai olhou para mim. Ela me olhou escandalizada. A mãe e o pai da moça chegaram à porta. ou querem uma au-tópsia? Balancei a cabeça. porque acabariam voltando. cobrindo-o depois com um lençol. Olhei para o homem. — Quer ver se está tudo certo? Li. Então respondi em voz al ta: — Depois do que eu fiz à sua filha? Não fiz absolutamente nada que fosse contra a vont ade dela. Num instante.K. Cord. — Vou tomar as providências necessárias e depois mandarei as cópias. e usava óculos com lentes muit o grossas. Uma autópsia não faria nenhuma diferença. já a velha era uma harpia de nascença. — Mande-as entrar. filho. — Sinto muito que não nos conhecêssemos em melhores circunstâncias. Mas não. Rina Marlowe Cord. Idade: sessen ta e sete anos. Tirou uma caneta e uma folha de papel. como se quisesse demonstrar alguma expressão de pesar.— E pare de me chamar de Júnior! 4 Quando o médico chegou. estranha mistura de rancor e pesar. trazendo nos rostos uma expressão fixa. tomou decisão contrária e saiu sem dizer uma palavra. Ele não sofreu. sr.. Denby entrou de novo e perguntou: — O que eu faço com essas pessoas que estão aí fora? Posso mandá-las embora? Discordei. Tudo perfeito. já havíamos carregado o corpo para o sofá. Se você não lhe tivesse dito que fizesse tudo para me pegar. um coágulo de sangue no cérebro. O médico se sentou na cadeira à minha frente. vivo. O médico era um homem magro e firme. A garota tinh a ares de confortadora honestidade. calvo. mas a semelhança era apenas superficial. meu pai estava ali. Li no cabeçalho as palavras: Atestado de óbito. — Também sinto. Sua voz ficou estridente: — Como tem coragem de me falar assim? Com seu próprio pai estendido ali e depois do que fez à minha filha? Levantei-me. A mulher imediatamente começou a soluçar. Aparentemente. Podem f icar tranqüilos que foi tudo muito rápido. enquanto eu me balançava na cad eira de meu pai. — Por que está chorando? — perguntei. Sobreviventes: esposa. Devolvi-lhe o papel: — Tudo O. — Que coisa horrível. Levantou-se e hesitou. e ainda assim para pedir di nheiro. passara a ser nada. o homem parou e perguntou: — Posso consignar embolia como causa da morte. Pouco depois terminou e empurrou o atestado para mim. talvez ela ai nda estivesse viva. — Embolia está certo. — Qual foi a causa? — Embolia cerebral. Disse a ela que procurasse agarrar Jonas Cord Jr. Mas todo mundo em Nevada sabia tudo a respeito de Jonas Cord e família. olhando para o corpo coberto no sofá.

e por um instante cheguei a pensar que fos-se bater nela . Nevada. olhou-me criticamente e perguntou: — Como sabe que pode pagar tanto dinheiro? Acendi um cigarro e sorri. mul heres. a glória. — Mas. mas Denby deve ter. Num instante. pegou a bolsa de fumo e começou a fazer um cigarro. Logo que ele o colocou na boca . Ele mostrou interesse apenas com o olhar. de um consultor e de um advo-gado. com os olhos cada vez mais apertados. olhando sem querer para o sofá. Henry. e perguntei a McAl-lister: — Acha que já estou livre? Ele sacudiu a cabeça negativamente. ele fará tudo de graça. . de acor o com o testamento. A mulher correu atrás dele. — Só soube depois que você aceitou. risquei um fósforo e o acendi..O marido voltou-se para ela e falou. — Foi uma coisa que meu pai me ensinou — expliquei. e outros. elas passam a ser minhas depois da morte dele. Ele parou no meio da tragada. Voltou-se para mim e disse: — Desculpe. meu pai era um canalha egoísta e ambicioso que queria passar a mão em tudo que havia no mundo. — Seu pai era um homem prático. que a examinou rapidamente. Você chegará lá — disse McAllister. Mac. Meu pai não acreditava em sócios. Parece um homem honesto. não — respondeu a mulher. cho-rando. Gostaria apenas de ser homem bastante para chegar aos pés dele. Respondeu com um sorriso. respondi sem hesitar: — O. Estou com uma clientela muito gran-de. abrindo a porta e empurrando-a à sua frente. Possuía noventa por cento das ações e. — Quero uma cópia do testamento de meu pai. Cord. Então continuei: — Preciso de um conselheiro. coçando pensa-tivamente o queixo. — Vou precisar de muita ajuda. outros. Toquei a campainha e Denby apareceu. Pensei um pouco.K. — A primeira coisa que temos para fazer é convocar uma reunião da diretoria para elegê-l o oficialmente presidente da companhia. e sugeri: — Então é melhor ir vê-lo amanhã no lugar onde trabalha. Henry.. Aí. Nunca mais o incomodaremos. tive certeza. Está disponível? — Não sei se terei tempo. Jonas. Henry. depois foi todo eficiência. McAllister nada disse. O homem cerrou os lábios. — Já não disse o bastant e? A porta se fechou depois que eles saíram. — E assim que julga que um homem honesto deva agir? — perguntou McAllister com um so rriso. com voz trêmula: — Você sabia então que ela estava grávida? — Não. Acha que haverá alguma dificuldade quanto a esse ponto? — Não creio. nada comentou. — El e costumava dizer que todo homem tem seu preço. Uns preferem dinheiro. que ficara o tempo todo encostado à parede. talvez con-seguisse casar com ele. — Por cem mil seria capaz de se mudar para Nevada? — Desde que me deixe redigir o contrato. — Que lhe rende quanto? — Calculo uns sessenta mil dólares por ano. que logo desapareceu. — Não se preocupe. Mas não. Creio que ele resolverá tudo a cont ento. Foi só. sr. — Tem alguma cópia do testamento? — Não. Tirei do bolso o maço de cigarros e lhe ofereci um. — Cale-se! — exclamou. — Mas não terei mais o velho para me ajudar. amedrontada. Ele mantém um arquivo de tudo o que meu pai fazia. Mas não é preciso comprar um homem honesto. — Eu só disse a ela que se fosse boazin ha. Entreguei-a a McAllister. a cópia estava em minha mesa. Dirigiu-se dignamente para a porta. tudo oficializado e legal. Virei-me para McAllister. — Mac.

— Obrigado. Apaguei o cigarro no cinzeiro sobre a mesa e disse: — Peça a Denby a pasta do contrato e examine-o hoje à noite. Depois. basta me chamar. E você é um grande ator. Entrou no escritório de mãos estendidas. Há apenas o contrato alemão. Quando ac abar. Jake. Tem relação com um novo pro-duto. Deixei cair o lençol e me virei. Não sei muito sobre ele. Ele me abandonara havia muito tempo. enquanto seu rosto assumia uma expressão condizente com um velório irlandês. Jake apareceu na porta ao lado de Denby. Jonas. por enquanto não. — Está bem. Ficam nervosos e assustados. Ele se levantou. mal eu acabara de falar. desde aqu ele dia na varanda. não conse-gui. — Acabo de saber da triste notícia. Mas acho que será melhor eu mesmo ir falar com eles. amanhã de manhã. Voltei-me para Nevada e perguntei: — O que você acha? Esperou muito para responder. mas havia dentro de mim alguma coisa que me impelia a chorar por ele. mostrando no rosto satisfação por haver ter-minado seu número. até no andar. Jake Platt. Ele se voltou para mim. — Boa idéia. gostasse ou não. Ouvi a porta se abrir às minhas costas.. Virei-me para Denby e ele já tinha as palavras na ponta da língua: — Está tudo arquivado no cartório do juiz Haskell. — É uma grande perda — disse tristemente. Respeito. É bom saber que posso contar com homens como você. Quase me havia esquecido. antes da reunião. baixando a voz. — Mande entrar. Era um homem g rande e pesado. em Reno. — Há mais alguma providência que eu deva tomar. Jake. Jake era o gerente da fábrica. Mac? — Não. Em minha casa. Na têmpora direita um a mancha levemente azul que se perdia dentro do cabelo. — Estarei lá às cinco horas. seja lá o que for. Em voz alta. em tom confidencial: — Quase todo mundo na fábrica já sabe. Aproximou-se do sofá e olhou para meu pai. — Ele tentou dissimular sua decepção.. Diga-me alguma coisa a re speito amanhã de manhã. Uma expressão diferente começou a aparecer no rosto de McAllister. Ficou quase visivelmente satisfeito com minhas palavras. Estarei de pé às cinco horas. Jonas. Era ele quem fazia tudo andar. Ergui o lençol. A princípio não compr eendi o que era.. Os olhos estavam fechados e havia como que um ricto na boca. Denby saiu e eu me voltei para McAllister. Precisamos homologar isso imediatamente. e é preciso acalmá-lo s um pouco. agradeci: — Muito obrigado. Era Denby. — Já que está nisso. mas ouvi seu pai dizer que era uma grande oportunidade. se não me engano. Jake. Levantei-me e fui até o sofá. quando o chamei novamente. Não sei por que. — Se acha que deve. em que me jo-gara para Nevada. plástico.. Jonas — concordou e saiu. peça a Denby uma lista dos outros acionistas da companhia. telefone para todos os diretores e diga que vai haver uma reunião esp ecial. — Acho que devo — respondi. Devia ser resultado da e mbolia. Tornou-se ainda mais manifesta a expressão de respeito no rosto dele. Denby. — Jake Platt quer falar com o senhor. As ações são realmente suas. — E se quiser alguma coisa de mim. — Seu pai era um grande homem. Ouvi Nevada perguntar às minhas c . Apesar disso. mas logo perce-bi. Dev o pelo menos saber o nome deles antes da reunião. Jake teve de concordar comigo. E já ia chegando à porta. na hora do desjejum. disse.— Está em ordem. Depois. — Está bem. — Então telefone agora mesmo e diga-lhe para iniciar as providências legais. Mac. pensei. tirou lentamente um pedaço de papel de cigar ro que lhe ficara no lábio e disse: — Acho que seu velho está descansando muito bem. e todos na fábrica deviam estar comentando. caminhando para a porta. Era essa sua política: não discordar d o patrão. Já soubera. Acha que devo dizer alguma coisa ao pessoal? Sa be como são esses mexicanos e índios.

Já ia entrar. Comecei a falar e minha voz ecoou estranh amente pelo edifício. quando Jake me fez parar. — Por que foi dizer aquilo. Quando se dá a ponta de um dedo. bons operários. que se encarregará de tudo. me espere no portão da entrada com o carro. murmuran do: — Não tive essa intenção. — Mi padre ha muerto — comecei. pois preciso ir pa ra casa. Jake? — Sim. o carro que meu pai usava. A produção triplicara. e continuei: — Mas eu. desde que o deixara. Todos os olhos se voltaram para mim quando paramos no pequeno pa-tamar no alto dá escada. E que Deus esteja com todos. Foi ele quem abriu a porta do carro para mim. Meu espanhol não era grande coisa. Era a primeira vez qu e eu ouvia a fábrica em completo silêncio... Diga que quero o melh or funeral. Há gente que custa a aprender. — Pois quer dizer exatamente isso. e quem não gostar disso pode ir diretamente para o inferno! Desta vez. talvez para ter certeza de que era eu quem passava. Entrei no carro e olhei para a fábrica. De vez em qua ndo. O sol ainda brilha va no céu. Em pouco tempo os operários e-mudecera m. Não adiantava explicar que. Eu. — Sim. porque tenho muito o que aprender. — Mande pintar aquilo de branco. mas era a língua que eles compreendiam. Meu pai morreu. É lamentável que meu pai não tivesse tido tempo de exprimir seu reconh ecimento a todos vocês. Jonas? Você não conhece esses bastardos como eu. Recostei-me nas almofadas do carro e fechei os olhos. e espero continua r seu trabalho. Os trabalhadores se afastaram. Jake? — Ouvi o que disse. Duas v ezes vi lágrimas nos olhos de alguém. Muito obrigad o. Meu pai morreu. algum me tocava. pois tinha a impressão de que muito tempo havi a se passado. Jake levantou as mãos pedindo silêncio.. — Acho que não ouviu bem. De repente. Jake. seu filho. formando u m corredor para minha pas-sagem. — Não ouviu o que eu disse lá dentro.. estou aqui.ostas: — E ele? Nevada referia-se a meu pai. havia autorizado um aumento de cinco por cento nos salários de todos que aqui trabalham . Jonas. O grande Pierce-Arrow. mas afastei sua mão e continuei: — Meu maior desejo é que continuem colaborando com a mesma boa vontade de antes. mas. Eu apenas. e isso me causou surpresa. Jonas. e é justamente disso que estou falando. com Nevada ao volante. ainda que as lágrimas corressem dos olhos de quem não o conhecia. senhor. Seu pai vivia insistindo comi go para não aumentar os salários. Saí da fábrica e pisquei os olhos. Olhei-o com frieza. Ao menos meu pai não sairia deste mundo sem ter quem o chorasse. Esp ero que sejam pacientes comigo. Chamou-me a atenção o teto de piche que tinha visto do avião. Desci a escada e Jake veio atrás de mim. A sensação era fantástica. meio ofuscado pela luz do dia. Jake puxou nervosamente meu braço. quando se paga mais. eles querem logo o braço todo. Depois. Jake aprendeu. Talvez seja suficiente saberem que ele. As manhas primeiras palavras foram Mi padre ha muert o. Não tolero conversa fiada de ninguém que trabal he para mim. . Saí sem esperar resposta. pouco antes de morrer. Jake veio atrás de mim. Mas eu estou vivo e sou i gualzinho a ele ao menos numa coisa. por tudo que fizeram para tornar esta fábrica um sucesso. Ford provara is so ao aumentar os salários de seus empregados no ano anterior. Jake. A maioria se conservou em silêncio.. estava à espera no portão da frent e. Olhei para o corpo estendido no sofá e disse: — Telefone para uma agência funerária. Passamos pelo corredor e chegamos à escada que dava para a fábrica. senti-me muito cansado.. Esperei até todas as máquinas pararem. — Está vendo aquele teto. se consegue mais.

com dezenove anos. Eu tinha uma madrasta. Sua cabeça estava encostada no alto do banco e os olhos f echados. Mas Rina era mulher. e se assentava sobre um quei xo fino e resoluto. Não levantou a cabeça do encosto do banco. Segurei seu braço e a conduzi para fora do salão. Ele não era moço demais. cheio s. talvez largos demais para uma mulher. Ela me seguiu em silêncio até o automóvel. andam como homen s. E a ela eu não odiava. sem dúvida. como a vi pela primeira vez. el a errou o passo e olhou para mim com aquele seu sorriso suave. Ela era do leste. não ria com facilidade e tinha maneiras reservadas. Bastaram dois d ias para ela me fazer andar nas nuvens. mas ela agarrou min ha mão. Tinha seios fortes. duas semanas antes do fim das férias. Os olhos dela não mudaram de expressão. com um leve sotaque estrangeiro que borbulhava nos ouvidos. Aí não deu para agüentar mais. Eu mal podia ouvir-lhe a voz. Sua boca não aceitou nem retribuiu o beijo. parecem garotos: o peito como uma tábua e os quadris estreitos. mas com lábios finos demais para compô-la. Foi uns dez dias depois. Não podia ver o que se passava dentro deles. Estava ali para quem precisasse. Só se pode ter idéia de que sejam outra c oisa à noite. Continuou apenas a me olhar com . tirando-o do bolso de meu paletó. Era gran de. Entramos na minha grande barata Duesenberg. também os odiaria. As garotas por aqui são morenas. e tinh a ombros largos. E não odiava minha mãe. O que se faz é r ecordá-los. afastando-a. que es-ticavam agressivamente o maiô de jérsei. Odeio meu pai. Estudara na Suíça. Dançávamos uma valsa lenta. no baile de sábado no clube. O cabelo era de um louro pálido. Inclinei-me sobre ela e a beijei na boca. Amava-a. Por isso é que eu a havia levado para casa. De vez em quando. O ar da noite es-tava quente no deserto. de um lugar de Massachusetts chamado Brookline. Entrei num pequeno bosque e desliguei o motor. Não se podia olhar para eles sem de ixar de imaginar o sabor de leite e mel. Ela ainda estava quase deitada no banco. Isso era uma coisa que entrava pelos olhos. falam como homens e até montam como eles. esbelta. fez com que eu pa rasse. mas depois tornava a fechá-los como se tive sse chumbo nas pálpebras. — Eu sei. as luzes no salão eram fracas e azuis. De repente. odeio minha mãe e. Senti o calor de seus quadris emanando para dentro de mim quando recomeçamos a dança r. quando vestem saias em vez de calças. — Empreste-me seu lenço — disse. Não o odiava mais. Tinha testa grande e os olhos. até nas piscinas. não falou. e era diferente de todas que eu hav ia conhecido. Não se odeiam os mortos. na defensiva. e ela o usava comprido e preso na nuca. Estava morto. Olhei -a pelo canto dos olhos. Na verdade não era minha mãe. Conheci Rina no clube. es-pecialmente quando estava de maiô. O nariz reto e não muito afilado denunciava sua ascendência finlandesa. bronzeadas de sol. se tivesse tido irmãos. não odia va meu pai. eu era moço demais. porque. Mas meu pai havi a dito que. O lenço mostrou um instante sua brancura dentro da noite e desapareceu na mão dela. bem a-fastados e oblíquos. não muito. Não. Era. ref letiam por trás do azul gelado um brilho interior. — Você é muito forte — disse. Levantei a cabeça e olhei para ela. Estava de olhos abertos. Queria casar com ela. diferente das outras garotas. eu abria os olhos e via Nevada a o bservar-me pelo espelhinho retrovisor. que percebi o quanto a desej ava. Tentei tocar-lhe os seios. — Quero você — eu disse. Aproximei-me dela novamente.5 Cochilei enquanto o grande Pierce cobria os trinta quilômetros que separavam a fábri ca da nova casa de meu pai. Casou-se c om ela uma semana depois de eu haver voltado para a universidade. Mas era como um poço num oásis do deserto. A cintura era fina e florescia em quadr is e nádegas pequenos mas bem arredondados. A voz era suave e baixa. Colocando sua mão contra meu peito. dei a partida e caímos na estrada. Talvez o único defeito fosse a boca. e encostou o corpo ao meu.

— Está bem. Virou-se para meu pai e disse: — Tudo isso é um pouco desconcertante. ele e stava trabalhando sentado à mesa com um abajur a iluminar os papéis. ela nem sabe que estou aqui pedind o seu consentimento. na sala de espera. Saiu de trás da mesa e estendeu a mão para ela. Percebi seus dedos se mexendo e tentei aproximar-me dela. — Rina. Porque tenho de encontrar e casar com um marido rico. Liguei o interruptor da parede e a sala ficou inundada de luz. mas ela conseguiu me m anter a distância. — Quando foi que resolveu? — Esta noite. — Sim? — disse ele. Eu era rico. pai — falei. — Quero casar. Deixei Rina na sala de espera e fui até o escritório de meu pai. mas eu sou de opinião que ele é ai nda muito moço. — Quer dizer que nada disse a ela ainda? — Não é preciso dizer. — Porque daqui a dois dias vou voltar para casa. Ela me encarou. Nada disse. Olhei-a fixamente por um instante e depois liguei o motor. como ou por quê. — Estou falando sério. Suas maneiras foram exatamente as que seriam se fosse meio-dia. Cord. — Foi só o que disse. — Não. disse num tom pilhérico: — Meu filho acha que quer casar-se com a senhorita. Acendi um cigarro. — O nde está ela? — Aí fora. como se eu fosse algum empregado que o houves-se interrompido no meio de um problema. Quer fazer o favor de me levar para casa? . ela amassou o lenço nu ma pequena bola e o jogou para longe do carro. indo para a porta. você é muito jovem ainda. Pai. — Ainda desejo você — disse eu. Ainda segurando a mão dela. sr. Como de hábito. — Por quê? — perguntei. e não duas horas da madrugada. Meu pai a olhou pensativamente. Nada disso. srta. mas tinha a solução para ela. e fez que não com a cabeça. Tomei o caminho de ca sa. Sei qual vai ser a resposta. — Deve ser uma dessas meninas tolas que aparecem no clube e está agora toda nervosa na expectativa de conhecer o velho. — Ao menos por formalidade. Não posso permitir que nada atrapa-lhe isso. mas dep ois voltaram à sua reserva ha-bitual. Havia no rosto dele uma expressão curiosa que eu n unca havia visto. meu pai. levantando-se. Nunca o vira tratar assim nenhum dos meus conhecidos. Porque na quebra da Bolsa em 1923 meu pai ficou arruinado. senti uma dor aguda vinda da base da espinha e quas e dei um pulo do banco. Meu pai fez um gesto de reprovação com a cabeça. Não pensa assim também? Rina olhou para mim. Seu rosto estava pálido na escuridão. — Mas não se esqueça de que eu vim falar sobre i sso com você. esta é Rina Marlowe. Ele me olhou um instante como se estivesse muito longe. — Como vai. — Espere um pouco — ele me interrompeu. Rina cumprimentou-o polidamente. Notei que seus olhos tiveram um instante de fulgor. Enquanto isso. — Vá dormir e me deixe trabalhar. papai. Mas não tar-dou a saltar d e onde estava. Marlowe? Fiquei perplexo.aqueles olhos impenetráveis. não acha que deve perguntar a ela? Fui buscar Rina e levei-a para o escritório. Era a primeira vez que eu o chamava assim. Ela me devolveu o cigarro. De-pois tirou o cigarro de minha boca e o colocou entre os lábios. quando já estava com a mão na maçaneta da porta. Para dizer a verdade. Minhas mãos estavam trêmulas. não é? — Claro que não é uma dessas. desde meus tempos de ga-rotinho. De repente. Não lhe passou pela cab perguntar quem era. Ou algum dia seria. Exatamente esta noite. — Você está louco — disse sem qualquer emoção na voz.

Jonas. Aco rdei várias vezes suando frio. A c ada momento via imagens pornográficas de Rina e meu pai em grosseiras lascívias. Acompanhe-me. e para dirigi-la trouxera Roba ir. Cord" em vez de ''Júnior''. — Ah. — Acorde. apesar de ex-escravos. Corri para a porta. menos nisso: meu pai estava mort o. Era um homem gigantesco. como tudo mais que meu pai havia feito. — Meu pai morreu. — Não sabe que ela só se casou com você pelo dinhei ro? Meu pai não se zangou. Robair. Robair continuou a falar ao mesmo tempo que caminhava rapidamente para a porta. aquela grande casa estranha. Peguei o telefone e liguei para ele. Robair era um mordomo negro inteiramente de acordo com a tr adição. Acredito não ter passado mais de duas semanas ao todo nela desde que me u pai a construiu. estava sempre presente quando se precisava dele. tão polido e eficiente quanto grande. e nada contei aos outros emprega dos. o meu — disse meu pai. O sr. — Alô. Estamos no Waldorf-Astoria. Aqui já é meia-noite e estou indo para a cama. — Agora. 6 A porta da frente se abriu quando eu estava atravessando a varanda. Arrebentei-o de encontro à parede. Mas então a voz dele mudou e se tornou pe sada e cheia de intenções. Infalível. vá tratar dos seus estudos e não se meta com o que não é a sua conta. em seu suave inglês sulista. Procurei alguma coisa na sala para descarregar minha raiva. — Não existe um idiota mais idiota que um velho idiota! — gritei através dos cinco mil q uilômetros de fios estendidos entre nós. Cord — disse. Só consegui enxergar o a-bajur em cima da mesa. Seguiu-me em silêncio até o escritório de meu pai. sem poder falar. Alguém me sacudia levemente.Atordoado. fazendo força para afastar o sono. O finzinho do sol estava desaparecendo por trás da grande casa. Colocou-se ao lado da porta para dar-me passagem. E agora era minha. Ela queria um homem. — Alô. é? Quem foi que minutou o contrato? O advogado dela? — Não. U m instante depois ouvi o ronco do motor da Deusenberg. recebi na universidade o seguinte telegrama de meu pai: Rina e eu casados esta manhã. Disse ao sr. Cord não estava. abrindo de um a vez a porta. Não pude dormir naquela noite. Olhei para ele. — Você é que é o idiota. — E as outras pessoas sabem? — Não. — Calculei que o senhor mesmo quisesse dar a triste notícia — disse ele. Rina havia pensado em tudo. Robair. Houve um leve rumor do lado de fora da porta. Meu pai mand ara fazer uma casa no estilo das fazendas do sul. Devia ter uma espécie de sexto sentido no cumprimento de seus deveres. Insistiu até na assinatura de u m contrato de bens antes do ca-samento. ai nda segurando o telefone na mão algum tempo mais. fechou a port a depois de entrarmos. rindo novamente. Ele desligou o telefone sem mais uma palavra. Abri pouco a pouco os olhos e a primeira coisa que vi foi a cara de Nevada. de Nova Orleans. Denby telefonou. Com o rosto impassível. — Já sei. vi meu pai tomar-lhe o braço e sair da sala com ela. Estamos em casa. sr. uma cabeça mais alto que eu. E eu ia contar a ela. Embarcamos amanhã no Leviathan em viagem de lua-de-mel pela Europa. Nova Ior-que. Denby que a sra. Era a primeira vez que me chamava de "sr. Pisquei os olhos. não um menino. Duas semanas depois. haviam i ncutido nele o orgulho do seu trabalho. O pai e o avô dele haviam sido mordomos e. como que paralisado. Continuei. . Chegou até a rir.

— Sr. Jonas? Ela me olhou um instante. Peguei a toalha e aproximei-me dela. m as essa moça é um pouco rebelde. Era a criada pessoal de Rina. com a voz che ia de desprezo. traga-me uma toalha. sorrindo. Ela se virou para mim. — Pare com isso. — Vá para a cozinha. Voltei-me para ele. mas com o tom enérgico da au-toridade. Cord. Depois conversaremos. ainda forte. Abri-a e entrei. — Está muito bem. Robair. Não houve resposta. seu pai disse que você era um maníaco sexua . Bati de leve à porta de Rina. Era toda ouro e brancura e cintilava com a água que lhe corria pelo corpo. Peguei um cigarro e. enquanto as lágrimas lhe rolavam dos olhos . — Lá embaixo. — Obrigado. Em geral. Ele saiu e eu o segui. Ficou com a mão no rosto. Como vê. sr. Louise desceu a escada com hesitação. — Louise. — Quer fazer o favor de enxugar-me as costas. Muitas outras mulheres teriam tentado cobrir a nudez. Ela nada falou. Dirigi-me para o banheiro e apanhei uma toalha grande na pilha que estava na pra teleira acima da penteadeira. pude ver-lhe no rosto uma expre ssão de terror. Jonas? — disse ela. Robair. — Louise! — disse Robair em voz baixa. deu-me uma pequena toalha. Robair me mostrou como fazia os empregados andarem na linha. Pela primeira vez. mas a voz dele me fez parar. mas a mão dele encontrou o rosto de Louise com a força de um tiro de pistola. — Quantas vezes já lhe disse que não escutasse atrás das portas? — censurou. — Aí eu não al canço. Ela saiu correndo e Robair se virou para mim. Estendeu a mão para pegar a toalha. curiosamente. confirmada pela voz insegura e medrosa. Comecei a subir a escada. — Venha cá — ordenou ele. — Pronto. De mais perto. Ela não. Seu rosto era uma impenetrável máscara. Enxuguei as gotas de água que havia em sua pele perfeita. surpresa. Ficou u m momento ali a olhar-me. Robair colocou cuidadosamente o fósforo num cinzeiro e disse: — Sim. Ouvi a voz dela n o banheiro. Foi então que ela começou a sentir que havia alguma coisa. Dei-lhe um beijo na nuca. Sent i-lhe o perfume. Cord. Olhou-me pelo espelho. devi-do ao calor do banho. Cord está no quarto — disse Robair às minhas costas. mal o levei à boca. senhor. Levei-a para o compartimento onde ficava a banheir a no momento em que ela fazia deslizar a porta de vidro. sentando-se diante da penteadeira. sr. Seus gestos eram quase preguiçosos. mas. — Houve alguma coisa entre você e seu pai. e vi que seu rosto de repente ficou muito sério. — A sra. seus olhos ainda mostrando surpresa.Não havia ninguém ali. — Ele nunca saberá. Jonas! Ainda hoje de manhã. hesitei. — Peço-lhe desculpas por ela. O vulto parou. Embrulhou-se habilmente e saiu da banheira. após pensar um momento. espantada. Vou subir e dar-lhe a notícia. Olhei para a escadaria e. Um vulto subia correndo pela longa esc adaria que se curvava do vestíbulo para o andar de cima. como eu nada disse. a que horas devo servir o jantar? — Às oito horas — respondi. Robair. — Onde está Louise? — perguntou. Começou a enxugar o rosto com outra toalha e disse: — Seu pai não vai gostar disso. Não creio que ela vá ficar muito tempo co-nosco. meu pessoal não faz dessas coisas. — Como é que sabe que não contarei a ele? — Não contará. preciso de Louise. Robair aproximou dele um fósforo aceso. Ela deixou a grande toalha de banho escorre gar-lhe dos ombros.

e havia neles uma turbulência que era coisa inteiramente nova para mim. — Espere! Por favor.. Segurei-a pelos ombros e a fiz virar-se. Eu e você. Trouxe-a para casa uma noite porque queria você. — Que quer dizer com isso? — balbuciou. — Em que é que não pode acreditar. Prendi-lhe as coxas com um joelho e bati-lhe com raiva no rosto. a Rina distante. estava ele ali. — Não. Num ato reflexo. Estava segura de si mesma. calculista. Colou a boca na minha. enquanto a cor lhe fugia aos poucos do rosto . firme e for te. Fiquei um instante parado e então deixei a pressão que me enchia os pulmões escapar nu m lento suspiro. Robair está na a com todo mundo. eles não virão. espere! Ao menos por seu pai.l. Ela me mordeu a mão e procurou fugir. e ela se deixou cair no banco da penteadeir a. a toalha estava esquec ida no chão. Levantou-se lentamente e o habitual véu protetor caiu-lhe de novo sobre os olhos. De repente. Rina. Ele. Ainda não acabei. Você não precisa provar isso. — Está louco? — exclamou ela. Cobri-lhe a boca com a minha e agarrei-lhe o seio. — disse eu. grande e forte. — Ele nunca mais entrará por aquela porta. Era duro. seu marido morreu. Ela fechou os olhos um instante. esperou por mim? Agarrei-a e carreguei-a para o quarto. Esse assunto era seu campo de luta predi-leto. Ela caiu sobre o travesseiro e notei no rosto as marcas da minha mão. dando um estalo com os dedos. Sorriu e pas -sou-me os braços pelo pescoço. — Fico satisfeita. Com as mãos e com os punhos. — Você não se atreveria! Como única resposta. Ela virou-se para fugir. — Que ele tenha morrido o u que você errou quando se casou com ele e não comigo? Acho que não me ouviu. — Acho que agora tem o dever de retirar-se. por cima da colcha de cetim branco. Puxei-a para mim. arranquei a toalha de cima dela. Rina? — perguntei cruelmente. inatingível. com o peito ofegante. Não havia o menor receio em seus olhos. Olhei-a fixamente e pude ver medo em seus olhos. Com a outra mão. Foi rápido. Era aquela a Rina habitual. e que eu que ria desmontar. Rina. Ela tentou rolar para o ou tro lado. no outro. Agora. Não queria que sofresse. Os olhos se arregalaram um instante. ela me arranha va o rosto e me dava murros no peito. — Não. por acaso. puxando-me para cima dela. e eu sorri. Era o medo de qualquer pessoa q ue tem de enfrentar um futuro incerto. a rugir como um leão.. — O que falta para acabar? — Muita coisa. Quando voltou a abri-los. — Não posso acreditar — murmurou ela. Cord. A toalha caiu ainda mais e só ficou presa pela pressão dos nossos corpos. estavam nebulosos. — Não sei por quê. E acho que esp erei demais! Ela me encarou. e eu sentia o coração bater apressadamente por baixo dele. Perguntei: — Não? — Vou dar gritos e os criados virão correndo! — gritou com voz rouca. afastou-se raivosamente de mim. Pensarão apenas que você está dando expansão à sua dor. Um derrame cerebral. Olhou para mim com os olhos enxutos. mas senti que havia nela um calor subindo ao meu enc ontro. Mas você esco lheu meu pai porque representava um rendimento mais rápido para você. mas cheios de uma tris teza. — Bem sabe que a qualquer minuto ele poderá entrar por aquela porta. Joguei-a na cama. — Sofreu muito? — Não. uma compaixão de que eu nunca a julgara capaz. apanhou a toalha e se embrulhou de novo. segurei seu cabelo e virei a ca beça dela até olhar para mim. Talvez eu estivesse errado. — Sra. e só virá alguém se eu chamar. Neste minuto. sem medo. — Foi dess e jeito. — Talvez ele tivesse razão. Ou talvez tivesse se esquecido do que é ser moço. mas eu a agarrei pelo braço e puxei-a. e .

Nevada. Percebendo isso. De repente. Tive vontade de gritar: "Não vá emb . ainda que o resto do mundo acredite que ele seja de seu pai. seus olhos nos meus. Faça o que seu pai nunca quis fazer. 7 Eu estava sobre o cavalinho índio malhado que tinha aos dez anos e galopava alucin adamente pelas dunas do deserto. como se tivesse surgido do ar. O paletó estava aberto. Olhei para trás. Virou o rost o no travesseiro. então. Jonas! Engravide-me como fez com aquelas três moças de Los Angeles. Bati tanto nele com a chibata qu e comecei a ver marcas vermelhas de sangue no pêlo.eu senti o corpo dela agitar-se sob o meu. triunfante. pois a distância entre nós era grande. parei e fiquei obse rvando sua silhueta. Seus braços e pernas retesaram-se em volta de mim. Rina havia voltado a cabeça para o travesseiro e estava chorando. como?! — murmurei. Olhei para trás de novo. Olhou-me calmo e disse em voz baixa: — Volte. Pouco a pouco. Ouvi a voz dele muito fraca. Tive a impressão de haver entrado num braseiro. seu corpo a devorar-me. Jonas — ela disse ainda sorrindo. Me amava. — Engravide-me. Jonas! Que diabo! Volte! Virei a cabeça e esporeei ainda mais o cavalinho. Jonas. De rrame toda sua vitalidade dentro de mim! Vi que seus olhos estavam límpidos e claros. Rindo. mas ela moveu as pernas. Estava cada vez mais longe. no seu gr ande cavalo preto. Ainda que eu não enxergasse. numerosas lágrimas banhavam meu rosto. atravessada em seu peito. Não refletiam de modo algum a paixão do corpo que estava embaixo de mim. Meu pai tratava com carinho tudo o que me dizia respeito. como se gozassem uma espécie de irônica v itória. ressoante e fantástica nas asas do vento. Ela sorriu. procurando e exigindo minha vitalidade. Jonas. ele viro u seu cavalo e começou a afastar-se a galope. Num deses pero súbito. respirando em minha boca. mas ela não pôde esperar que eu tirasse a roupa. Meu pai vinha no meu encalço no grande cavalo-malhado. Correu os dedos pelo meu corpo e encontrou minha parte mais sensível. Que espécie de filho é você? Não respondi e continuei a tocar o cavalo. A agonia passou e abri os olhos. ele me amava. fez o cavalo parar e parecia muito triste. M al lhe ouvia o desesperado e urgente murmúrio: — Depressa. aos pés dela. Já esperei demais. — Tome conta dele. Foi por isso que me fez assinar aquele acordo antes do casament o. Jonas! Depressa! Fiz menção de levantar. mas não sabia do que estava fugindo. — Venha. mas ela era como um poço sem fundo no qual eu mergulhava cada vez mais. — Seu pai não quis corr er nenhum risco. — Sim. fui ganhando di stância. A grossa corrente do relógio pendia. Puxou-me e me c olocou dentro dela. enquanto seus movimentos se tornavam cada vez mais frenéticos. desprendi-me dela no momento exato em que perdia as forças. as ab as voavam ao vento. Ela se movia por baixo de mim. — Engravide-me. Queria tudo para seu precioso filho! Tentei levantar-me. Enquanto caminhava pelo corredor até o meu quarto. Jonas! — disse ela. Levantei-me em silêncio e saí do quarto. O pânico da fuga me dominara. Ele tinha receio de que alguém tirasse alguma coisa do que era seu! — Como. Afinal. — Volte. Caí es-tendid o na cama. Meu pai. Puxou-me a cab eça de encontro ao seu pescoço. E você dividirá a fortuna c u filho. É seu pai que está chamando. Tome conta dele. não é. — Agora mesmo! Não posso mais esp erar. porém não sabia demonstrar isso. sim. Ouvia-lhe a voz.. prendendo-me de alguma maneira mist eriosa. Jonas? Só nós dois saberemos. não me saíam da cabeça as palavras de Rina. continuou: — Mas você me fará um filho.. que eu não tenho tempo. Assim que cheguei ao meu quarto. Nevada apareceu a meu lado.

banhado em suor. Vesti uma velha calça jeans e uma camisa azul. sessenta mil dólares — disse ele. Mac? — Na base dos dividendos médios dos últimos cinco anos. — Por quê? — Não há em tempo de paz a mesma procura que havia pelo produto durante a guerra. acho que falará melhor com o estômago cheio. e eu sei que ele não iria chamá-lo apenas pa ra resolver o caso com os pais da moça. No meio da escada encontrei Robair. — O sr. N o curral. olhando-me como se eu fosse um adivinho. — Bom dia. se vai tratar de negócios. E você aceit ou o emprego que lhe ofereci. — Consegui outro empréstimo no Pioneer National Trust Bank de Los Angeles. Jonas. pai!" Mas as palavras me morreram na garganta. — Quanto valem essas ações. Tomei o café. Ele começou a sorrir. Pedi trez entos mil dólares para ter uma margem de segurança. McAllister está aí e quer falar com o senhor! Está no escritório. Hesitei um instante. mesmo que tenha reparado nos meus trajes. — Bom dia. Sentei no primeiro degrau da escada e Robair colocou a bandeja ao meu lado. Minha pergunta seguinte colheu McAllister de surpresa. dando meia-volta para descer pela escadaria da frente. Apaguei demoradamente o cigarro no cinzeiro. Mac ainda me olhava fixamente com o mesmo ar de admiração e surpresa quando me sente i na cadeira ao lado dele. Acendi maquinalmente um cigarro. E qual a solução que você encontrou? — Como assim? — perguntou ele. — Diga-me o que não sei. Pela janela aberta. as ações da minoria valem quarenta e cinco mil dóla-res. não é? — Exatamente. sr. Robair serviu o café e levantou a tampa que cobria um prato de torradas. Sentei na cama. Ent rou diretamente no assunto. — Quer dizer que isso me deixa um pouco desprovido.ora. — Obrigado. Peguei uma torrada. . está pensando que eu fiz alguma coisa? — Você estava ontem no escritório de meu pai. Segui pelo corredor na direção da escadaria dos fundos. — Isso me dá o dinheiro de que preciso para comprar as ações da minoria. O curral ficaria para depois. Robair tinha razão. vários empregados da propriedade estavam encostados à cerca vendo um homem que tentava amansar um potro baio. Isso quer dizer que tinha certeza de conseguir o d i-nheiro. Aquele era o remédio de que eu precisava para sacudir a sensação de vazio no peito e t irar o gosto amargo da boca. Mac. Acendeu um cigarro e continuou: — Desde que acabou a guerra. — Os dez por cento de ações da minoria estão assim divididos disse. — O banco de Commack recusou o empréstimo de duzentos mil dólares que seu pai queria p ara financiar o contrato alemão que você assinou ontem. Robair. — Dois e meio por cento cada um. para Rina Cord e Nevada Smith . Olhou-me sem surpresa. entrava o tropel dos cavalos no curral que ficava n os fundos da casa. um por cento para Eugene Denby. e saí co rrendo do quarto. Ò vazio er a no estômago. os dividendos da com panhia vêm caindo. não fez nenhum comentário. Sacudi a cabeça para dissipar os úl-timos vestígios d o sonho. O sol já brilhava às cinco horas e lançava uma longa sombra matinal. — Por que. pensando que talvez não pudesse pagar-lhe os cem mil dólares por ano que havia combinado. e estava desaparecendo. Jonas. — Sr. McAllister. espalhando alguns pa péis em cima da mesa. — Muito bem. — Ótimo — disse eu. Cheguei à janela. A luz do sol me fez piscar os olhos. Eu tinha coisas mais importan tes para fazer. Pegu ei o copo de suco de laranja e tomei-o de um gole. trazendo uma bandeja com um copo de suco de laranja e um bule fumegante de café. dois por cento cada um para o juiz Samuel Haskell e Peter Commack. presidente do Banco Industrial de Reno. Ele poderia fazer isso sozinho. na base do seu valor nominal. Robair — disse.

cujo sorriso era ainda maior. Está aberta a reunião dos acioni stas. — A apresentação do nome do juiz Haskell está anotada. Peguei o testamento e continuei: — Então. e acrescentei : — Caso eu já possa votar com as minhas ações. — Muito obrigado.. Olhou para mim com u ma expressão sorridente. sr. Ao seu lado. ao me ver de repente com as responsabilidades de uma grande companhia como a Cord Exp losives. Commack. meu rapaz — disse o juiz. rapaz. sorrindo. Denby estava numa ponta. to-mando notas nu m bloco. Consta da ordem do dia a eleição de um presidente e tesoureiro da companhia pa ra substituir o falecido Jonas Cord. Esperei que o silêncio se tornasse pesado. diga-me tudo o que pôde apurar sobre esse produto novo em que meu pai estav a tão interessado. saiu discretamente e fechou as grandes por tas da sala. radiante. — Aceita? — perguntei ao juiz. — Têm alguma sugestão a fazer. depois de uma noite de sono. — Só para apoiá-lo. Foi por isso que lhes pedi que viessem aqui hoje de manhã. McAllister. cavalheiros? Denby então falou pela primeira vez: — De acordo com os estatutos da companhia. tirando do bolso um papel. depressa demais: — Subscrevo a apresentação. para me ajudar em a resolver o que for melhor para a companhia. cavalheiros? — perguntei. Tomei o café e le-vantei-me. — Façamos então uma reunião dos acionistas — disse Commack. Pela primeira vez naquela manhã. ovos e biscoitos quentes. — Senhores — disse eu —. A voz estridente de Commack fez-se ouvir do outro lado da mesa. — Pode ficar descansado que faremos tudo o que for certo. ontem.. Sorri também para ele e voltei-me para os outros: — Vamos então submeter o caso à votação. Haskell. Há mais alguma apresentação antes que e passe à votação? Nevada levantou-se e disse com sua voz arrastada: — Apresento o nome de Jonas Cord Júnior. Só para apoiá-lo. Haskell e Commack estavam calado s. Matéria plástica. — Claro que pode. Analisei as pessoas em torno da mesa. — É uma boa idéia — disse eu. Que tal o juiz Haskell aqui? Já está aposent ado da magistratura. Não era preciso que me dissessem quem eram os meus amigos. não é? 8 Robair serviu um desjejum no estilo rural: bife. — Mas hoje de manhã. — As ações foram deixadas para você aí no testamento de seu pai. o presidente só pode ser eleito numa reun ião dos acionistas. Tudo já é legalmente seu. cheguei à conclusão de que o encargo é muito duro para quem tem apenas a minha experiênc ia. Depoi s de serem retirados os últimos pratos. Denby disse então depressa. . voltei-me para o juiz. Olhei para Nevada. Com¬mack fez uso da palavra: — Está demonstrando muito bom senso. Nevada preparava tranqüilamente um de seus cigarros. que me entregou. Trocaram rápi-dos olhares. Alguém que se dedique à companhia como meu pai. A reunião da diretoria está encerrada. só pela maioria das ações válidas. tudo certo. sei que não preciso dizer-lhes o choque que levei. Em seguida. E.— Agora. — Apresento o nome do juiz Samuel Haskell. — A maioria das ações está repres a aqui. — Tem alguma? — perguntou Commack. meu rapaz. — Pensava uma coisa ontem — disse eu. Commack e Denby mostraram fisionomias sa tisfeitas. E eu já reque ri hoje de manhã a execução testamentária. meu rapaz. mas creio que poderia aceitar o cargo para ajudá-lo. Parece que a primeira coisa que temos a fazer é elege r um novo presidente. neste caso. Commack sorriu.

Aceitarei cinqüenta mil no dia seg uinte ao enterro e mais um compromisso escrito seu. Ele a deixou para você. Louise. cujo rost o estava branco. E. com a responsabilidade da co . espreguiçando-me. Prendi minha respiração. foi fácil. sorrindo. Olhou para Commack e. depois. Robair chegou ao escritório. Mas venderei por esse preço alguma coisa mais: as minhas ações da Cord Explosi ves. Queria era uma secretári a. Depois que a empregada saiu. Seu pai sempre arranjava dinheiro para as coisas que queria. Pronto. — Eu sei — disse eu. — Com que dinheiro? — Arranje. Aquela história de ficar sentado a uma mesa metade do dia era a coisa mais dura que eu já havia feito. Comprei as ações deles por vinte e cinco mil dólares. — Acho muito de viúva alegre. Pode sair e espere lá embaixo. onde McAllister e eu estávamos tra-balhando. cau-telosamente : — Quanto quer? — Cem mil dólares. acen-dendo um cigarro . — Eu sei. — O que acha dos meus trajes de viúva? — perguntou. — Mas não tenho tanto dinheiro. O négligé preto esvoaçava em torno dela. Poderia contestar o testamento com a maior facilidade. Chamarei quando precisa r de você. Que aconteceria então aos seus planos? Se não acredita em mim . Jonas — disse ela. Mas não foi para isso que me mandou chamar. para Denby. Fiquei de pé. com ou sem te stamento. olhando para o juiz: — Alguém subscreve a indicação? O juiz ficou muito vermelho. Robair? — A sra. ainda que não pudesse. De acordo com as leis do Estado de Nevada. Bem sabia que eles estavam nas minhas mãos. — Muito obrigado. — Ela tem o hábito de espiar pela fechadura.Sorri para ele. que eu não demoro. Rina? — Claro que sim! O juiz Haskell me telefonou logo que saiu daqui. — Quero que me compre a casa. fechando a porta. Eu devia ter adivinhado que o velho bastardo não deixaria de tramar alguma vingança. friamente. — Estou sendo sua amiga. Olhou-me pe lo espelho. friamente. juiz. Perguntei-lhe. tenho direito à terça parte do espólio de seu pai. Não queria como secretário aquele sujeitinho pedante e falso. McAllister olhou para mim e eu lhe disse: — Espere. estou disposta a ser razoável. Escute. A roupa de baixo era preta também. e a prime ira coisa que fiz foi demitir Denby. — Alguém subscreve a indicação? — repeti. — Está certo. — Não valem absolutamente isso! Comprei o dobro hoje por vinte e cinco mil! — Escute. — Para quê? A casa é sua. — Que é. Daí por diante. Robair abriu a porta e eu subi para o quarto de Rina. Estava sentada à frente de u m espelho e Louise lhe passava uma grande escova branca pelo cabelo. — Quer falar comigo? — perguntei. Vou subir. Rina gostaria de conversar com o senhor nos aposentos dela. — Quê?! Não vale mais de cinqüenta e cinco mil. — Pretendo sair desta casa logo depois do enterro — disse ela. — Sei disso. sim. — Quero. — O que você quer comigo? Rina levantou-se. sorrindo. d urante uns cinco anos. agradeci e disse com voz dura e firme. — Subscrevo a apresentação — disse o juiz com voz bem fraca. voltou-se para mim. pergunte ao seu amigo advogado lá embaixo! — Você já se certificou de tudo. Ela parecia saber muito bem o que estava fazendo. A companhia também não. você ficaria atrapalhado em tudo pela ação judicial em curso nos tribunais.

sr. dirigindo-me para a porta. Cord. o sr. — Muito prazer em conhecê-lo. Tem cabeça e ainda por cima dois seios lindos . . Moroni sorriu. — É uma secretária como essa que eu quero. Cord. — O prazer é meu — disse eu. O sr. desaparecendo por outra porta. e o aperto foi forte. e não a quem o empresta. Moroni. — Sr. Aquela mão representava muitos anos de trabalho. 9 Eram cinco horas da tarde quando saltamos do táxi diante do edifício do banco no cen tro de Los Angeles. estava um homem pequeno.. calejada. — O. Sentado a uma enorme escrivaninha do tipo secretária bem no meio d a sala. Olhei para McAllister. — Sr. McAllister me conduziu a uma porta onde estava marcado PARTICULAR. minha experiência é limitada. McAllister. Ele tem muito o hábito de sair do escritório sem me dizer — disse ela. Levantou-se logo que entramos. na sua opinião. de ca-belo grisalho e olhos vivos. Moroni. seu pai era um homem fora do com um. Moroni está à sua espera. Você acharia decente a viúva de Jonas Cord descer para tratar de negócios? Quando os pa-péis estiverem prontos. respeitosamente. e entra mos na sala de espera. Não foi uma mão macia de banqueiro que senti.m-panhia de pagar dez mil dólares por ano durante cinco anos. sorrindo para nós. qual é. na sua maioria passados longe de um escritório. — Deve compreender que isso altera muito a situação.. Po r menos ninguém consegue. Moroni se curvou sobre a mesa e olhou para mim. mas sempre pensei que o primeiro cuidado d e um bom banqueiro fosse conseguir garantias suficientes para seus empréstimos. não a meu pai. — Um bom banqueiro faz empréstimos às companhias. Eu não precisava de advogado para saber que ela fora bem industriada. — De fato era. Era uma sala ampla e com as paredes forradas de l ambris escuros. nem a mim. — Ora. Apontou-nos as cadeiras em frente à mesa e nos sentamos. sr. mande-os subir. — Estou me referindo a quem toma o dinheiro. — Sr. acho que o empréstimo ia ser feito à Cord Explosives. — Estive. McAllister? Pensávamos que estivesse em Nevada. — Vamos descer e falarei com McAllister para preparar os papéis. me disse: — Sr. Moroni. então não sei que o que é bom custa caro? A secretária apareceu na porta. — Sr. Pelo que sei. Moroni está? — Vou verificar. — Não. nos fu ndos. — Uma moça como essa ganha no mínimo de setenta e cinco a oitenta dólares por semana. McAllister entrou logo no assunto. Cord. Uma secretária nos recebeu. Segui-o até o escritório do homem. — Tinha leve sotaque italiano. o primeiro dever de quem faz um empréstimo? — Conseguir um lucro com o empréstimo. Quando terminou. McAl lister com o senhor. isso eu não posso fazer. Moroni — disse McAllister —. mas sem perder de vista os homens qu e as dirigem. Moroni sorriu. sr. — Por quê? — Porque estou de luto. sr. Mac. Moroni me estendeu a mão. — Sem querer entrar em discussão. — Meus pêsames pela perda que sofreu. Era mão dura. Entramos e fomos direto para os es-critórios da gerência. Acendeu-o e. — disse eu. através de uma nuvem de fumaça.K. Cr eio que esse ponto foi satisfatoriamente resolvido nos entendimentos do sr. este é Jonas Cord. Recostou-se na cadeira e tirou um charuto.

eu gostei daquele homem. — Tenho certeza de que vai conseguir — retrucou Moroni. — Convém voar baixo. mas estou resolvido a conceder-lhe o emprésti-mo. com visível preocupação. rindo. para s eu mérito. sr. sr. E também porque o senhor se mostrou disposto a nos emprestar o dinheiro para adquirir esses direitos. Então levantei. sem dúvida. Um homem que estava ali sentado levantou-se lentamente. Desculpe a pressa. McAllister. embora só tivesse pensado nisso der pois de ele haver falado. — Não se preocupe. — Que sabe sobre plásticos? — Muito pouco. mas este banco se fez com empréstimos dessa natureza. E não tão bem quanto. — Mais uma vez muito obrigado.. Aqu ele Moroni tinha o instinto de jogador. sr. Ambos riram. Moroni. poderá cancelar o pagamento do cheque. se eu não tivesse certeza de conseguir lucros com o di-nheiro que me vai emprestar.— Sei a que o senhor está se referindo. — Muito obrigado. não vejo por que iria tomar o empréstimo. — Então por que tem tanta certeza de que isso tenha algum valor. Um ar de respeito transpareceu no rosto do banqueiro. embora o empréstimo seja de trezentos mil dólares. — Creio que se refere ao novo produto que adquiriu com o contrato alemão. e qualquer coisa pela qual essas companhias se interessem deve ter s eu valor. Ele já aceitou entrar para a companhia. Ha-verá oportunidades de ganhar dinheiro com as quai s nem se sonhava no tempo de meu pai. sr. Às vezes. preferiu ficar calado. talvez os diretores do banco não concordem comigo. Sorri para ele. sr. — Afinal de contas. se houver alguma coisa no caminho. passando o cheque às minhas mãos . Há nele certos elementos de especulação que talvez não sejam boa praxe bancária. — O avião é tão seguro quanto um automóvel. o pilot o que perdera o avião para mim no jogo de dados. Estaremos em cas a por volta das nove horas. Mas já sei que o amanhã vem chegando e um novo mundo vai surgindo. — E como espera conseguir esses lucros? Conhece bem a sua indústria. Apertamos as mãos e Moroni nos levou até a porta. sr. alguns dólares representam a diferença entre a vitória e o fracas-so. Moroni — disse eu. Em seguida. sr. Mas. — Sr. a conhecerei daq ui a uma semana. para nós dois — disse. Peguei o cheque e passei-o a McAllister sem olhá-lo. sr. Cord? — Porque as companhias Du Pont e Eastman estão interessadas em adquirir os direitos americanos. Ele pegou o telefone de cima da escrivaninha. Moroni. daqui a um mês. ac ba-mos de dar-lhe um bocado de dinheiro. Mo roni. . Cord? — Não tão bem quanto deveria.. com um sorriso: — Vai notar que. pr etendo passar dois ou três meses na Alemanha para aprender tudo que for possível sob re plásticos. Um jogador de dados reconhece outro. Um dos meus princípios no negócio de bancos. Foi nele que viemos para Los Angeles. Notei sinais de nervosismo na fisionomia de McAllister. e não há nada que cheire m ais a especulação. — Boa sorte — ele nos desejou. sr. Era Buzz Dalton. sr. Moroni. — Esta noite? Mas só haverá trens amanhã!? — Tenho um avião. Fomos o pr imeiro banco que emprestou dinheiro aos homens de cinema. — Traga o contrato do empréstimo Cord e o cheque. Minha esperança é fazer muito dinheiro. o contrato amplia o seu crédito até o limite de quinhentos mil dólares. assim que chegamos à sala de espera. Moroni — disse eu. — Obrigado. Cord. sr. Moroni. — Tudo ficará nas mãos do sr. mas. sr. E eu quero aproveitar-me delas. Cord. ass inando o contrato. mas temos de voltar para Nevada esta noite. daqui a um ano. é não limitar muito o crédito de meus clientes a suas necessidades imediatas e previstas. Logo que resolver as coisas mais urgentes aqui. Moroni. — Em parte — disse eu. Cord — disse Moroni. de longe. Ora. — E quem dirigirá a companhia durante sua ausência? Muita coisa pode acontecer em três m eses.

mas acontece que aprendi uma coisa importante hoje. Vi-l he o rosto pela última vez e. Vire i-me para Moroni: — O meu contrato está de pé. Buzz. que também tinha lágrimas nos olhos verme-lhos de uísq ue. e a igrejinha ficou lotada até o tet o. Mandei fechar a fábrica. livre de despesas e da amo rtização do empréstimo. Eles me doíam terrivelmente nos pés. Os cálculos me pareciam corretos.— Olá.. os cabelos louros escondidos dentro do véu. Nem eu. tudo em nome da Cord Explosives. Mas sem sorte até agora. Olhei para meus sapatos.K. Vinte mil para os aviões e cinco mil para mantê-los no ar a té receber o primeiro cheque. Mas Rina. Cinqüenta por cento das ações de sua companhia e um penhor mercantil sobre seus aviõe s para amortização dentro de doze meses. porém com duas con ições. — Com prazer. pouco depois. — Homem. — Um minuto! — disse Buzz. De qualquer modo. Os bancos acham que o r isco é muito grande. Algumas pessoas choravam. Terei cinco mil de lucro por mês. havendo mais gente na rua que lá dentro. Virei-me e vi Jake Platt. atrás de nós. Estavam fechando o caixão de meu pai. Podia ver seus olhos através do véu. Estavam límpidos e calmos. Eu sabia quanto custava a manutenção de um avião. Eu havia desco berto na última hora que tinha apenas os huarachos mexicanos para calçar. Doze meses de garantia a dez mil por mês. — Tem o contrato aí? — Claro que sim — disse ele. — Eu sei. 10 . — O. Moroni. Eram as mulheres mexicanas da fábrica. Está tudo calculado. Ouvi soluços atrás de mim. Até o governador compareceu. — Quanto é que você está querendo emprestado? — Vinte e cinco mil dólares. Jonas. choravam por meu pai ali na igreja. E você? — Também. quer acertar os detalhes para mim? Tenho de volta r esta noite. — Por quê? — Tenho um contrato para transportar malas postais. o risco se mpre existe. radiante. Um murmúrio geral me fez levantar a cabeça. Buzz — disse eu. sorrindo. tirando-o do bolso. Olhei para Rina. Robair for a buscar no armário de meu pai aqueles sapatos que ele nunca havia calçado. senti na cabeça um curioso vazio. com um sorriso estampado no rosto. então o melhor é dar uma boa margem para ter maiores possibilidades de êx ito. que era seu filho. — Não fala mais com os amigos? — Jonas! — exclamou ele. na parte do crédito adicional? Não há restrições? — Nenhuma — disse ele. — Só pedi vinte e cinco mil. porque não co nsigo o dinheiro para comprar os três aviões de que preciso. Rina e eu ficamos sozinhos no banco da frente. você acaba de entrar num grande negócio! — disse Buzz. De Los Angeles a San Francisco . quer dizer. Cord. Estava muito séria em seu vestido p reto. Muita s pessoas. Não cons egui mais lembrar as feições de meu pai. — E é. Meu pai foi enterrado com a maior pompa que já se viu naquela região do Estado. Mas acho que vou desistir. sr. E que eu também nunca mais calçaria. a mulher dele. sr. Agora. — Que diabos está fazendo aq ui? — Atrás de um pouco de grana. Eram de meu pai e estavam apertadíssimos. não chorava. — Está muito bem — voltei a falar com Buzz Dalton. — Que foi? — É mau negócio emprestar dinheiro a alguém na conta exata. — Parece um bom negócio — comentei. — Outra coisa: o empréstimo será de trinta mil dólares. — Você terá o dinheiro.

— Medo?! — exclamei. vim exprimir o meu pesar. Ele sabia disso também e se contentava com o que eu podia dar-lhe. entrava pelas jan elas. mas não conseguia dormir . Jonas lhe para você. de defen der-me de suas mãos lascivas e de suas cabeças.Era uma noite quente. admirando-a na escuridão. Mas ela estava nua dentro do négligé preto. Sentou-se na beirada da cama. não o amei. A única coisa que querem é en trar dentro de mim. — Dos homens? Você tem medo dos homens? Logo você. sob re os planos para os negócios da fábri-ca. Por isso não é de se adm irar que pensei muitas vezes ter escutado meu pai andando de um lado para outro no seu quarto. Mas não se esqueça de que era meu marido. rindo. — Calculei que estivesse acordado. — Se isso é verdade. você não o amou. rudemente. mas não sou capaz de sentir a mor. Foi por isso que me casei com ele. o ro sto encoberto pelas mãos. No escuro. Agora é tarde. Não sei por quê. Eu nada disse. Ela baixou as mãos e me encarou. Foi mais homem do que qualq uer outro que já conheci. Ouvi um barulho na porta. — Que é então? Veio pedir desculpas? Ou exprimir seu pesar? Trata-se de uma visita de pêsames? — Não tem necessidade alguma de me dizer essas coisas. cobrindo-me de beijos a boca e o queixo. empurrei as cobertas para o lado. — Jonas. Apenas seu rosto diante de mim. — Pare com isso — disse eu. Mas sempre tive muito respeito por ele. — Medo de quê? Ela tirou um cigarro de algum lugar dentro do négligé e meteu-o na boca. apesar da brisa que. depois a longa conferência com McAllister. Jonas. A carne e ra fresca e suave como o vento do deserto. de ouvir-lhes as súplicas. De repente ela começou a chorar. junto com o s papéis. Sou assim e pronto. Depois de revirar muito na cama. Fora um dia exaustivo. Também não consegui dormir. — Então olhe para você. — Você está louca! Não é essa a única coisa em que os homens pensam! — Não? — disse ela. — Por quê? Preocupada com seu dinheiro? O cheque está ali em cima da mesa. riscando um fósforo e rompendo a escuridão. Sentei na cama e perguntei: — Quem é? A porta se abriu e pude ver o rosto de Rina. — Tarde para quê? Tarde para amá-lo? A verdade é que tentei. Jonas. com o corpo todo trêmulo. Deixe-me ficar com você só por esta noite. Seus olhos brilharam como devem brilhar os de uma pantera que ronda a fo-gueir a de um acampamento à noite. Tenho medo de ficar sozinha ! Levantei as mãos para repeli-la. E . O resto do corpo. ela se colou a mim. seu idiota! Tenho medo dos homens. bem depois de todo mundo ter ido dormir. Eu estava cansado. se fundia na escuridão. Eu me detive um pouco. No mesmo instante. podia ver o brilho das lágrimas rolando em seu rosto. dentro do négligé pre to. que é uma tentação ambulante! — É isso mesmo. cheio de desejo pela mulher de seu pai! Eu não tive necessidade de refletir para reconhecer que ela tinha razão. —Já passou a hora das lágri-mas. Mas ainda não me dei por satisfeito. Assine a quitação e ele é seu. — Não é o dinheiro. e o que minhas mãos encontraram foram o s agressivos bicos de seus seios. fazendo cair o fósforo. sim. Seu pai sabia disso e mostrou-se compreens ivo. que só pensam numa coisa. — Pesar de quê? Pesar de ele não lhe ter dado mais do que deu? Pesar de não ter casado c omigo? O-ra. Muitos pensamentos passando pela minha cabeça ao mesmo tempo. então por que você está chorando? — Porque estou com medo. soprada do deserto. Não pelo dinheiro. Ele era seu pai. Sim. Jonas. primeiro o enterro. — Não. sem acendê-lo . — Dos homens — murmurou ela. Tenho medo d e ouvir as palavras de amor com que disfar-çam o desejo. Bati com ra iva em sua mão.

Ele foi um grande hom em. Apanhei um cigarro no criado-mudo. De repente. — Adeus. Levantei e f ui até a janela. Ela esticou o braço. tão qui eto que até me esquecera de sua presença. — Julguei que uma xícara de café lhe faria bem. Disse que m eu pai sempre fora de opinião que não adiantava trabalhar numa base de lucro inferio r a doze por cento. Adeus. Estava com a cabeça no meu travesseiro e o braço pa ssado por cima dos olhos. e disse a Jake Platt que quem estava dirigind o a fábrica era eu. — Vai porque quer.ntão senti o sal das lágrimas em nossos lábios. iríamos apresentar uma proposta mais baixa que a da Du Pont. Quando sugeri que teríamo s de reduzir os lucros para ganhar fregue-ses. — Jonas — disse ele. — Que é. você também será. mostrando seus dentes brancos num so rriso cordial. Os primeiros claros da manhã se derramavam pelo quarto. Ap anhando o cheque. encaminhou-se para a me-sa. Jake me levará para casa. mas o velho Nevada me interrompeu. límpidos e calmos. Já eram cinco horas da tarde quando o gerente de produção entrou. Levantou-se da cama num movimento harmonioso. Ela me encarou e julguei ver passar por seus olhos uma sombra de tristeza. Sacudi de leve seu ombro. — Não vai ler? — perguntei. Ela havia voltado. Mas se sentara num canto. Acordei e dei uma espiada pela janela. Jonas. — Não. Nevada? — Posso sair um pouco mais cedo? Tenho de fazer algumas coisas. Rina. Virei-me para Rina. trazendo o relatório d aquele dia. O que meu pai tinha feito era coisa dele e não minha. — Não. Guiados pelo meu demônio. fluido. — Talvez desse. . Ela havia renunciado a todos os seus direitos sobre o espólio. E o ódio que eu sentia foi levado de rol dão pela torrente impetuosa do desejo. juvenil. Estou com meu carro aí. sem dizer uma palavra. voltou-se para m im: — Não estarei mais aqui quando voltar da fábrica. Perdi a calma. Era uma verdade. O sol averme-lhava todo o horizonte. — Para quê? Você não conseguirá ter mais do que já concordei em dar. Quando cheguei à fábrica. Estava começando a examiná-lo. do seu jeito. A porta do quarto se abriu e fechou rapidamente. Engraçado! Nevada havia passado o dia no escritório. Na próxima c oncorrência. Em segui da. Pegue a Duesenberg. encaminhou-se para a porta. O brilho de seu corpo era de um esplendor dourado. Ela havia partido. numa concorrência do governo. Mas era Robair que chegava com uma bandeja. Nada parecia dar certo. Não daria certo. O primeiro dia foi agitadíssimo. mergulhamos juntos nos chamejantes prazeres do nosso inferno particular. Ia ser um dia muito quente. Pela terceira vez naquela ano a Du Pont aprese ntara uma proposta mais baixa que a nossa para o fornecimento de cordite comprim ida. — Sem dúvida. ouvi a porta do quarto abrir-se atrás de mim e o coração pulou dentro do p eito. Estava de olhos abertos. Jonas. Sorri comigo mesmo e entrei. Pegou o négligé nos pés da cama e vestiu-o. — Há uma caneta em cima da cômoda — eu disse. Antes de abri-la. — Obrigado. Passei a metade do dia olhando as cifras. Já é tempo de você se libertar do fantasma de seu pai. e cheguei à conclusão de que tudo se resum ia à orientação que seguíamos sobre a margem de lucros do negócio. Os detonadores que havíamos mandado para as Minas Endicott estavam com defeito e precisamos enviar às pres-sa s outra remessa para substituí-los. Jake Platt protestou. vi que Jake Platt havia mandado uma turma de homens pintar o teto de branco. — Não é preciso. Ela pegou a caneta e assinou a quitação. Boa sorte. Jonas. pelo menos uns três cents em cada quilo.

nos meus tempos de garoto. Ele entrou no carro. Todo mundo a abandonara. — Adeus. Nevada não era homem para viver de favor. Nevad a e eu íamos caçar nas montanhas naquela época. Coloquei tudo em cima da mesa e senti um aperto na garganta.— Nevada. Não há mais nada que eu possa fazer por aqui. Não me agrada nada ganhar um salário sem trabalh ar para merecê-lo. Compreendi que ele tinha razão. deu a partida e pôs o carro em marcha. estendendo a mão num gesto de despedida. — O sr. ma s agora não há mais nada para eu fazer. no momento em que Nevada ia saindo com uma valise em cada mão. Em toda minha vida quis dar um presente de aniversário para você. Meu pai. Sou assim mesmo. Rina. guardando as valises no porta-malas. Por fim. — Vai caçar? — perguntei. Então acho que já é tempo de ir tomando o meu rumo. Nevada. Feliz aniversário. — Vou embora. sentindo as lágrimas me subirem aos olhos. mas. Terminei mais depressa do que esperava. carrancudo. — Como é que eu vou me arranjar sem você? — Muito bem. — O que você vai fazer? — Vou reunir-me a uns velhos amigos. Nevada continuou a descer a escada e se encaminhou para seu carro. Tenho observado muito você nestes últimos dias. Jonas. Sentei-me à mesa vazia. Direi a ele. Trabalho aqui há dezesseis anos. lembrando-me de que sempre. — Você tem dinheiro suficiente? — Tenho sim. Você não pode ir embora desse jeito. Houve um momento de hesitação. Apenas perguntei onde você vai. A-proximei-me e vi que já estava cheio de coisas. Nevada! — gritei. penosamente escrito a lápis: Querido filho. Freei a Duesen¬berg em frente à porta às se te e meia. Não se preocupe. Seu amigo Nevada Smith Verifiquei os outros papéis do envelope. — Tudo quanto é serviço tem de acabar um dia. Se u pai lhe dava tudo e nunca me deixou dar a você alguma coisa que você quisesse de v erdade. diga a Robair que estarei em casa para jantar às oito horas. Nevada. Jonas. — Não. Vamos levar um show do Velho Oeste subindo a costa até a Califórnia. Neste envelope há uma coisa que você quer de verdade. Seu pai nunca me deixou gastar um tostão do meu dinheiro durante dezess eis anos. Robair entrou com um envelope na mão. Abri o envelope e encontrei um bilhete. Entrei em casa e fui para a sala de jantar. — Não se esqueça de mandar notícias. Constatei que eram ações da Cord Explosives e ndossadas em meu nome. Só recor . De repente. com seus olhos negros fi-xos em mim. Não sou homem de despedidas. Fui pro curar um advogado em Reno e fiz tudo de maneira inteiramente le-gal. — Adeus. Ele afinal disse: — Está bem. Ficamos em silêncio durante alguns minutos. — Onde você vai com tudo isso. Nevada me es-tendeu a mão. Jonas. Nevada — disse eu. Jonas. Vou embora de vez.. Você não precisa mais de mim como ama-seca. e fiquei olhando o carro até vê-lo des pare-cer de vista. a casa estava vazia. Espero passar uma temporada realmente agradável. Nevada deixou isto para o senhor.. Olhou para mim com alguma surpresa. Cheguei em casa mais cedo do que esperava. mas seu pai sempre chegava na minha frente. — Não disse que não era. — Mas. — É verdade. todo mundo. Nevada? — Tudo isso é meu — disse ele. sentou-se ao volante. — Chegou cedo. — Espere aí. Jonas. — E por que é que eu não posso? — disse ele.

Parece-me um tanto confuso e alheio às coisas. Cansa a vista. Você está trinta anos atrasado. Ficou ali parado. Senti um nó na garganta. Não sei. Charlie tinha razão. Sentia-se o mesmo de sempre. Charlie. Tornei a olhar para o bilhete de Nevada. Está na hora de vir para cá e trabalhar. — Por que não? Para quase todas elas o divórcio é um bom negócio. Acho que é porque fiquei tempo demais parado num lugar só. você é dono de cinqüenta por cento da pr opriedade. — Por que não liga a luz elétrica. A história de NEVADA SMITH LIVRO II 1 Já passava das nove da noite quando Nevada saiu da estrada principal e tomou a est rada de terra que levava à fazenda. seria sempre a casa dele. Parou o carro em frente à casa-grande e saltou. Não e ra minha. Eu fazia vinte e um anos. Nevada sorriu. — Voltaremos logo que eu me lavar. — Olá. Transferiria a casa a McAllister. Eu não poderia viver naquela casa. — Está me dando vontade é de viajar. — Botei a mulher na sua cabana — disse Charlie. . Para mim.dações a povoavam. Afinal de contas. — E para onde você pretende ir? As coisas não são mais as mesmas. Um homem saiu à varanda. a voz de Rina veio por trás dele. Ele tinha família e isso lhe pouparia o t rabalho de procurar casa. era de meu pai. — Não sei. — Como está ele? — perguntou Marta ansiosamente ao vê-lo entrar. Não há mais campo e tudo e stá cortado por estradas. Nevada? — Porque gosto de luz de candeeiro. Só não posso me habituar é com essa idéia de viver com a fazenda chei a de mulheres em vez de gado. depois sacudiu a cabeça e entrou. Ela estava certa. — Deve ser. Era o dia do meu aniversário. Nevada. — Marta e eu estávamos esperando você para jantar. Parece que as divorciadas estão se divertindo muito. Iria morar num apartamento em Reno. — É melhor habituar-se. escutando as gargalhadas que vinham do cassino. Nevada. Charlie ficou observando o carro de Nevada subir uma ladeira nos fundos da fazen da. Tomei uma decisão. — Não sei — disse Nevada. A eletricidade não é natural. Lembrei-me do que Rina havia dito sobre a necessidade que eu tinha de me liberta r do fantasma de meu pai. Feliz an iversário. — Olá. A cabana estava às escuras quando Nevada chegou. Charlie. mas o estranho é que ele não se sentia trinta anos atrasado. A última linha chamou minha atenção. De repente. Riscou um fósforo e acendeu o cande eiro de querosene. e Nevada fora a única pes-soa que lembrara. que não me traria as recordações à mente. entrando no carro. — Então é melhor eu ir buscá-la — disse Nevada. Eu havia esquecido.

— Houve um tempo em que pensei em divorciar-me.. Já era mais de meia-noite quando voltaram para a cabana. — Pois não parece ter mais de trinta. Depois de beber bem devagar o uísque. Minha mãe era uma índia kiowa. tirou uma garrafa de uísque e um c opo. Ne-vada enxaguou-se e estendeu as mãos à p rocura da toalha. — Felizmente não sou uma delas — disse Rina. Ela levantou a cabeça. Rina entregou-lhe a toalha. embora eu soubesse desde o princípio que era um erro. — Que idade você tem. — Nem poderia ser. em silêncio. Ela foi para o quarto em silêncio. Marta e Charlie estão nos esperando para jantar. Nevada só se levantou de perto da lareira depois que as chamas começaram a crepitar. Depois. Dinheiro só ganha algum valor quando começa a trabalhar pela gente. enquanto Nevada tirava a camisa e se lavava na pia do pequeno quarto. Nevada. — Nevada? — Que é? — Jonas disse alguma coisa a meu respeito? — Não. olhando para o cassino. E. De qualquer modo. Rina. Os músculos se estofavam sob sua pele surpreendentemente branca. — Está bem. Ele também tinha aprendido muito com o velho Cord. tenh o quarenta e três anos.. — O que eu tenho chega. como penso. vou trazer as minhas coisas para dentro e me lavar. se nasci mesmo em 1882. — Vou ajudá-lo a trazer as coisas para dentro. quando Rin a se aproximou e ele lhe disse: — Vá deitar. Rina sentou-se na cama. quando ele enfiava uma camisa limpa. Do lado de fora. — Eu sei. — Nasci em 1882. Foi ao armário. onde deitou. — Está com frio? — perguntou ele. muito obrigado. e sentou-se em frente ao fogo. Estava pondo fogo nos gravetos. — Não quer mesmo? Nevada tornou a sorrir pensando no que ela diria se soubesse da fazenda de dois mil e quinhentos hectares que ele tinha no Texas ou da sociedade que tinha pela metade no show do Velho Oeste. Se você precisar. ela disse: — Espere. Fizeram mais duas viagens até o carro. olhando-o interrogativamente. . ouviu a voz de Ri na. Nevada? Sua pele é quase de um menino. Depois de esfregar vigorosamente com sabão o rosto e o pescoço. Vestia um suéter grosso que desc ia até as calças azuis desbotadas. levando para a cabana duas ou três malas. — Então. — Percebi de repente que estou com fome. Ele sorriu. Os índios nunca soube ram direito a data dos aniversários. tomando-lhe o braço. — Trato é trato — disse Nevada. Nevada deixou-a entrar an tes dele e foi direto para a lareira. — Ele me deu cem mil dólares pelas ações e pela casa. levantando e indo para onde ela estava. Deixe que eu faço isso para você. sim — disse ela. e disse: — Agora. Você está escalça. pelos meus cálculos. Mas dentro de mim alguma coisa me impediu.Rina estava sentada numa cadeira em frente à porta. Nevada sorriu. não estou com frio. Houve um momento de silêncio e então ela apareceu na sala. vamos comer. — Não preciso de todo esse dinheiro. as estrelas brilhavam muito no veludo azul do céu e ouvia-se lá emb aixo o som de música e gargalhadas. tirou as botas. Os dedos de Rina foram rápidos e suaves. — Não — disse ele. Você não é desse tipo. — Vou acender o fogo. Deixou-as ao lado da cadeira e foi para o sofá da sala. Mas. — Vamos. — Não. Mal acendeu um cigarro. — Vá para a cama. Os pêlos do peito e ram um leve sombreado que descia para o estômago liso e sumido. Tocaram sua pele assim como um sopro de a r. lisonjeado.

E ele era procurado por latrocínio e homicídio pela polícia de três Estados. sua mul her índia esquentou um pouco de café e colocou-o diante dele. O chefe apanhou o cachimbo e Sam tirou uma garrafa d e uísque. lam-bend o os beiços. no círc ulo do conselho da tribo. . — Diga-me onde nasceu. ela continuou a mexer a panela com o feijão e a carne. Quando ele se aproximou para e stender o cobertor. Assim. Com minha arma. Minhas proezas são conhecidas em todas as planícies. . 2 Foi em maiô de 1882 que Samuel Sand chegou a uma pequena cabana a que chamava de l ar e sentou pesadamente numa caixa que lhe servia de cadeira. Ela se movia pesadamen te. Naquele tempo. — Converse comigo até eu pegar no sono. — Alguém já contou para você. ela pegou sua mão. Tudo acontecera há tanto tempo que ele próprio nem sabia mais se acreditava. depois a ofereceu ao chefe. Meu pai era um caçador de búfalos chamado John Smith e minha mãe uma princesa kiowa chamada. Kaneha completara dezesseis anos naquela primavera e fora só no verão anterior que o caçador de búfalos chega-ra à aldeia de sua tribo com a intenção de comprar uma esposa.Seguiu-a até o quarto e tirou um cobertor do armário. C hegara montado em uma mula.. Em silêncio. Era Max Sand. ainda segurando sua mão. nasci no oes¬te do Texas. p assou-o a Sam. — Não há muito o que contar. Tanto quanto sei. A mão de Rina largou pouco a pouco a de Nevada e este se curvou para olhá-la. De vez em quando. por onde andou. o que lhe pro-vocou lágrimas nos olhos além d e uma insuportável necessidade de tossir. ajeitou o cobertor em torno dela e saiu do quarto na ponta dos pés. olhava pelo can to dos olhos para Sam. mas ele estava perdido num mundo agitado onde as mulheres não podiam entrar. Em silêncio. sentando ao lado da cama. mas ela se sentiu vag amente inquieta e tinha de fazer alguma coisa. O nome era Pocahontas mesmo. Mas a verdade era ainda mais estranha e decerto ninguém acreditaria nela. Ela do rmia profundamente. John Smith e Pocahontas. já matei milhares de búfalos. seu nome não era Nevada Smith. após tirar uma fumaça. o chefe acendeu o cachimbo nas brasas e. — Cortamos a língua dele e o amarramos num mourão para que engor-dasse bem. es perando que o dia e o aborrecimento dele passassem. qualquer coisa.. Não diga que eu já sei. Quando o cachimbo voltou às mãos do chefe. pois estava em adiantada gravidez. Era cedo p ara preparar a comida porque o sol ainda estava alto no céu. Mas dominou a tosse e passou a garrafa a o guerreiro que estava a seu lado. Li isso em algum lugar. — Bom cachorro — disse ele ao chefe. Nevada levantou. Sam sabia que estava na hora de dizer o que queria. Este fez o mesmo e sentiu o ardor na garganta. Quando a garrafa voltou às mãos de Sam.. Pegou outro cobertor e voltou para o sofá. onde ainda se viam uns resto s de neve. Não há guerreiro que possa alimentar tantas pessoas como eu. Guardaram silêncio durante alguns momentos e o chefe estendeu de novo a mão para a g arrafa de uísque. que fez o mesmo e passou-o ao guerreiro sentado a seu lado. — Sou um grande caçador. diante do chefe. — Ninguém me contou. Feijão e carne de búfalo salgada. — Espere aí. ele a colocou no chão. — Sobre você — disse ela. Samuel ficou sentado ali muito tempo. — Sobre o quê? — perguntou ele. De vez em quando. o lhava para a planície que se estendia até as montanhas. Mastigou com força. deixando o café esfriar. Pocahontas. Limpou cuida dosamente o gargalo e tomou um grande gole. Não sabia quantas vezes havia contado por pilhéria aquela h istória. Sam abriu a garrafa de uísque. Voltou a sorrir na escuridão. Curvou -se para a frente e tirou da panela um pedaço de carne. A índia começou a preparar a refeição da noite.

colocou-as no chão e torn ou a sentar. com cintura tão fina que era possível abarcá-la com as duas mãos. Os olhos do chefe brilharam. Uísque. — Preparem minha filha Kaneha para o marido — determinou. fazendo-m e participar de seu conselho.. O couro de um búfalo branco. desamarrou um grande far do e o levou para o círculo dos guerreiros. Alinhou as garrafas de uísque diante do chefe e abriu a caixa. Pela perda de sua ajuda em preparar a comida da tribo. res-plandecente como a neve. subia o som dos tambores que começavam a soar ao ritmo da canção de casam . Mas Sam sabia o que queria. seguido de Sam. Kaneha sorriu orgulhosa. Olhou pela porta. O chefe deu um suspiro de alívio. Ali agua rdara calmamente. Depois. em retribuição à honra que me deram. E vim preparado para compensá-lo. Kaneha esperava. De fo ra da tenda. pela perda de sua beleza. — Bem sei do alto apreço que o chefe kiowa tem por sua filha Kaneha. Ela já ganhou um lugar entre nós por suas artes femininas. Abriu uma das malas e tirou seis garrafas de uísqu e e uma pequena caixa de madeira. encaminhando-se para sua t enda. — Mas a perda da moça Kaneha será dura para nossa tribo. Tinha-o visto nas várias vezes em que ele visitara seu pai. E. Esperava que Barba Vermelha tives se oferecido ao menos um búfalo por ela. trago para a tribo. dando o sinal de que a reunião do conselho estava en-cerrada. a tal ponto que não conseguiria ter uma criança crescendo dentro dela. falando todas ao mesmo tempo. É uma honra recebê-lo em n ossa tribo. o sangue dela já corre abundante para o chão. darei a meus irmãos a mula que tr ouxe para cá. Em outra tenda. Um murmúrio de admiração elevou-se da roda. sagrado. As mulheres irromperam na tenda. Seu r osto era magro e comprido e não gordo e redondo como deve ser o de uma moça. A carne de d ois búfalos.. — Os atos de Barba Vermelha são bastante conhecidos da gente. — A moça Kaneha está pronta para ser mãe. Havia cinco anos habitava aquelas planícies. Cozinha. O chefe ficou tão impressionado com o valor do presente de Sam que desistiu de con tinuar as negociações e declarou solenemente: — E uma honra para nós dar ao grande caçador Barba Vermelha a moça Kaneha para ser sua m ulher. e só uma vez por ano deitava com alguma mulher no quarto dos fundos do armazém de couros quando chegav a o tempo de fazer negócios. Para os homens que traficavam com couro. — Os kiowas são gratos por presentes de Barba Vermelha — disse o chefe. Contas coloridas. — Vim pedir a meus irmãos a moça chamada Kaneha. Voltou para onde estava a mula. Kaneha deixaria de ser um proble-ma. Já estava na hora de ter uma mulher que fosse sua. Segurou a caixa para que todos pudessem ver e a colocou diante do chefe. — Aqui está o couro sagrado do búfalo branco — disse Sam. Kaneha era a mais moça de suas filhas e a menos fa vorecida. Levou-as para o círculo. Quando a lua está a. O chefe que fosse depositado para o seu derr adeiro sono num daqueles couros sagrados certamente entraria nos campos de caça et ernos. Nenhuma noiva levara ainda tantos presentes para a tribo. Era alta demais para uma moça. Os búfalos brancos eram uma raridade. — Trouxe presentes para meus irmãos kiowas. Seu corpo e ra miúdo. porque não tinha medo de Barba Vermelha. quase tão alta quanto o guerreiro mais alto . Queria uma mulher. sabe costurar e é muito hábil nos trabalhos com couro. depositando-o no chão. Sabia que Barba Vermelha fora buscá-la. Sabia naquele momento que Barba Vermelha a amava. e magra. A mula. pela perda de seu trabalho. Ouviu as conversas das mulheres que corriam para a tenda. E se levantou. Aí fez uma pausa teatral. Quero que ela se-ja minha mulher. cheia de contas col oridas e outras quinquilharias. Os olhos dos índios fitavam magnetizados o belo couro branco. As negociações haviam terminado. — É boa escolha — disse o chefe. Sam levantou-se e foi até a mula. darei a carne de dois búfalos. aquilo valia uns dez couros comu ns.O chefe assentiu solenemente com a cabeça. desem-bru lhou-o lentamente. O pudor v irginal a obrigara a ir para a tenda de espera para não ouvir as negociações.

Os tambores batiam ainda mais de-pres sa. prometo a meus irmãos mais um búfalo. dando grandes pulos e murmurando frases inintel igíveis. de cabeça erguida. que caía abaixo dos ombros. quando tam-bém haviam f icado assim no centro de um círculo de mulheres. Completado o giro em torno das mulheres. Estava ansiosa para que Barba Vermelha estivesse satisfeito com o que via. Então dirigiu-se para ela. e. Quando e le mesmo. ao estômago. saiu da tenda e foi banhar-se no rio. às faces e aos olhos. Em cadência com a quele ritmo. suas per-nas levemente trêmulas . que davam gritos de bênção e de inveja. Seus seios ofegando. Fechou os olhos. que ali estava altiva. Não ficava bem a uma moça mostrar-se muito ansiosa em receber o marido. uma de ca da lado. Suas preces haviam sido ouv idas. Como em transe. Ela deixou cair o vestido do corpo e as mulheres se aproximaram. Outras duas trataram de untar-lhe o corpo com banha de urso para torná-la fértil. Barba Vermelha estava satisfeito com ela. às costas. como era o costume. Solenemente. Na luz fraca do interior da tend a. Kaneha sorriu. o chefe e Sam olharam para ela. porque não ficava bem a um a moça olhar muito atentamente para a fonte da força de um guerreiro. As mulheres gritavam e suspiravam. ela levan-tou o corpo e retirou o bastão do casamento. às nádegas. Era feito de madeira polida e esculpido com a f orma de um falo ereto com os testículos. quando seus pés tocaram de novo o chão. As mulheres lembravam-se cada qual de seu casamento.ento. começou a baixar-se sobre ele. o grande caçador. Os tambores vibravam enquanto Kaneha sofria. com o olhar acima das cabeças deles. entrasse nela. para mostrar como estou satisfeito com ela. Ela ergueu os olhos para o bastão. encostou-o ao rost o. cada vez mais depressa à medida que o ritmo se acelerava. enquant o segurava o bastão do casamento apontando para as mulheres. aos seios. suplicando em vão alguma ajuda. As mulheres ficaram à porta e ela entrou sozinha. o ventre liso. muitos filhos — murmurou Sam —. — Sim. Apontou a vara dos demônios para os quatro cantos da te nda e agitou-a duas vezes no ar para afugentar os espíritos maus que porventura al i pairassem. Kaneha ficou ali. teria de encontrar o caminho aber to e fácil. Os pés se moviam no comp asso dos tambores. ela baixou o bastão até colocá-lo entre as pernas. O chefe falou primeiro. Por f im. olhando para a entrada. A porta da tenda se abriu e o pajé entrou. Suspendeu sobre sua cabeça o bastão do casamen to. — Veja como ela sangra bastante. Aquele era seu marido. até o objeto ficar todo besun-tado com a gordura de seu corpo. as mulheres formaram um círculo em torno dela. Barba Vermel ha. tudo ficou em silêncio. seus seios empinado s. ao pajé. Deram um murmúrio cadenciado de aprovação quando el a se levantou de novo. Em silêncio. oculta assim da vista dos outros. nua no centro da tenda. O hímen se rasgou e ela camba leou enquanto uma onda de dor a percorria. or gulhosa. Os tambores começaram a bater de novo. elas se afastaram para os lados. agora num ritmo mais lento. Duas. Houve um momento de tensa expectativa quando mais uma vez o bastão começou a entrar nela. ela recebeu o bastão das mãos do pajé. Fechou os olhos. Nua no meio delas. Entregou-o. Nin guém podia aproximar-se. As mulheres reuniram-se num círculo em torno dela. em vez de seu espírito. Apertou o bastão de encontro aos seios. girou alucinadamente com o negro cabelo solto a rodar em torno dela. Por fim. O pajé começou a dançar em torno dela. até os tambores. . e fez um último movimento convulsivo. as pernas compridas e retas. Ela não podia desmoralizá-lo ali na tenda das mulheres. trazendo numa mão a vara dos demônios e na outra o bastão do casamento. ao estômago. Era rígido e alto. Vai dar a você muitos filhos. Por fi m. com os pés batendo ao compa sso dos tambores. Ka neha caminhou até a tenda do chefe. o pajé deu um grande salto com um grito horrível e. Este recebeu o bastão e saiu rapidamente da tenda. começaram a destrançar-lhe o cabelo. voltou ao centro e ficou dançando sozinha . Aquilo era coisa que a noiva devia fazer por si mesma. Apoiando o bastão do casamento no chão. Quando tudo qu e era preciso foi feito. O corpo rebril hava com a gordura que nele haviam passado.

mas isso não a pre ocupava muito. Estavam sentados à mesa uma noite. Kaneha começou. Não sabia se dev ia falar ou não e continuou a comer em si-lêncio. onde Max começou a crescer. ganhava dinheiro regularmente. pois a dor já passara. não havia necessidade dessas coi . Kaneha adorava o filho. Ela se ergueu. Quando eu era menino. Sendo o único homem que tinha mulas na região. Criou no lugar a f ama de ser calado e miserável. Era. tocando a criança. — Você não sabe — disse Max. Ficou ali fora sentado. com orgulho. 3 Foram morar a cerca de trinta quilômetros de Dodge City e Sam começou a transportar cargas para as estações por onde passava a linha de diligências. um homem muito tímido. acumulado no tempo em que caçava búfalos. que começou a chorar. no fundo. Já aos onze anos Max era tão ágil e leve de pé como seus antepassados índios. dando a entender tudo. Paguei dez dólares. Talvez nunca mais apareces sem. — Um filho — disse Kaneha. — Já matriculei você na escola. Max olhou para o pai no momento em que Kaneha chegava da cozinha. Havia quem dissesse que ele tinha em casa uma arca cheia de ouro. obediente. enquanto ele saía para atre lar as mulas ao carro. tenso e ansioso. — O mundo está muito diferente. quase preto. Ela confirmou com a cabeça. — Para quê? — Para que lhe ensinem a ler e escrever. A pele era branca e os olhos azuis como os do pai. Ele se levantou e correu para a cabana. levantou-se e disse a Kaneha: — Arrume tudo. Cerca de vinte minutos depois. Num canto. a porta da cabana se abriu e Kaneha apareceu. — Vou ajudá-la. Vamos embora daqui. Tinha cochilado e o choro o acordara naquela noite cheia de estrelas. Max. Kaneha pegou a primeira trouxa. A barba tocou nele e o choro se rep etiu. Tinha cabelo liso e comprid o à moda dos índios e os olhos eram de um azul escuro. estava a criancinha nua. — Que necessidade tenho disso? — Um homem tem de saber essas coisas. Sam ficou ali parado de pé.Agora ela se movia lentamente com o peso do filho que levava. — Sim. Montava em pêl o qualquer cavalo que quisesse. — Isto é coisa para mulher. admirando. O lhou para o marido. tinham sido mortos búfalos demais. a arrumar os objetos da casa. quase incrédulo. Sam voltou à ca-bana. e podia acertar a cem metros de distância no olho de um rato-das-planícies com sua calibre vinte e dois. — Está bem. — Não — disse ela em língua kiowa. Na manhã seguinte. Vou esperar do lado de fora. — Agora? — perguntou Sam. — E pouco se importa com iss . — Um filho! Abaixou-se para olhar o filho de mais perto. deixaram a cabana. jantando. um filho — murmurou Sam. Naqueles últimos anos. enquanto ele ficav a sentado à mesa pensando no desaparecimento dos búfalos. Sam também não se incomodava. estendida num lençol diante do fogo. Quando acabou. no rosto queimad o. Afinal. Já eram duas horas da madrugada quando Sam ouviu choro de criança dentro da cabana. Viviam numa pequena cabana. quando Sam olhou para o filho e disse : — Vão abrir uma escola em Dodge. e os anos que pass ara nas planícies não haviam concorrido para curar-lhe a timidez. mas o cabelo era preto e abundante. com a lógica peculiar das crianças. Es pantava-se ao ver que os espíritos não queriam dar-lhe mais filhos. A trouxa lhe caiu das mãos e ela se dobrou toda. não para um guerreiro.

empurrando-o para a frente. A minha escola é exclusivamente para meninos brancos. — Mas eu não sabia que era um índio! — exclamou ela. O que sei é q ue a senhora está a quase três mil quilômetros da Virgínia e que recebeu meus dez dólares para ensinar meu filho. — Onde está ele? — perguntou a professora. Todos são parecidos. Já ia dando as costas para entrar. você dormirá nos fundos da cocheira de Olsen. mas. — Também não posso aceitar mestiços. dona — disse Sam polidamente. — Bom dia. Ajoelhou-se no chão da rua. ia pensando nas palavras d a professora e. — Fale com sua professora. Max não se sentia à vontade nas suas roupas rústicas. Quando terminaram as aulas. dona — disse Sam. ele não poderá freqüentar a escola com essas roupas. Sam respondeu na mesma língua: — Uma fonte de grande conhecimento. diferentes. Agora. sr. Sam levou Max para a escola. Muito obrigado. Enfiou na terra os pés descalços e d isse. Na p rimeira semana. o melhor que terá a f azer é tomar a primeira diligência e voltar para sua terra. todo mundo sabe ler e escrever. Sua voz era fr ia e aquela foi talvez a ocasião em que mais falou em toda a sua vida. Na segunda-feira seguinte. Tinha uma inteligência ágil e bri-lhante e aprendia tudo com muita facilidade. pois Max estava escondido atrás do pai. — Não posso compreender vocês do oeste — disse a pro-fessora. seu filho nunca poderá ser um grande c hefe diante dos Olhos Brancos. — De qualquer maneira. com surpresa para ela. A professora olhou-o indignada. ajudando o pai a consertar os estragos que o inverno havia causado na cabana. sr. Era. depois de Max ter ido para a cama. — Está muito bem. Sand? Acha que os pais das outras c rianças vão querer que elas se misturem com seu filho? — Estavam todos na reunião. dona. Uma noite. Quando Max chegou ao fim de seu primeiro ano na escola. a professora tinha orgul ho dele. — Vamos comprar roupas para você. Era a . Sam quase deixou cair no chão o arreio de couro em que estava traba-lhando. chegou à porta e sorriu para Sam. — Está certo. — Moça. tímido: — Como vai. meu filho. apesar diss o. afinal. Conhecimento era magia e dava poder. não sei qual é sua religião nem quero saber em que a senhora acredita. — Não posso aceitar índios na minha esco a! — É. — E mande cortar o cabelo também. perdendo a calma. — Mas vai! — exclamou Sam. Max levou as roupas da cocheira de Olsen e finalmente voltou para sua casa. do mesmo m odo que não há duas mulas nem dois búfalos iguais. dona? A professora olhou-o com um misto de surpresa e reprovação. ele não ficará muito diferente dos outros. não parou um só instante. Kaneha não estava muito certa de compreender o que o marido estava dizendo. — Bom dia. que era um a dama do sul empobrecida. meu filho. Enquanto Max seguia ao lado do pai a caminho da loja. Sand. A professora. E acrescentou: — Já tomei todas as providênci as.sas. — Que é? — perguntou ela em kiowa. Sem isso. — Ele irá — concordou ela simplesmente e voltou para a cozinha. olhando para o filho. Assim. dona. E não ouvi ninguém dizer nada a esse respeito. — Aqui está ele — disse Sam. Durante a semana. el a fez Sam prometer que levaria o fi-lho no ano seguinte. — Não quero ir. Kaneha voltou-se para o marido e c hamou-o em inglês. — Claro que você é diferente. Max. Isso bastava para Kaneha. seu melhor aluno. — Como se atreve a falar-me dessa maneira. como recebeu o dinheiro de todo mundo na reunião que se fe z no armazém! Se não quiser ensinar meu filho conforme combinou. perguntou: — Sou diferente dos outros. Terá de se vestir como os outros meninos . Trouxe meu filho para a escola. pai? Sam também pensava nisso pela primeira vez e sentiu uma súbita tristeza. quando a voz de Sam a fez parar. Cada pessoa neste mundo é diferente.

— Temos uma carga para levar para a Virgínia — disse o outro. Kaneha. De repente. ape nas com suas calças de couro de veado. Sam não compreendia como ela soubera disso. índio! Onde está o filho de Sand? Max jogou mais um pouco de feno no depósito. compreendeu o que estivera em seu peito todos aqueles anos. — Quais são? — Há gente na escola que diz que nosso filho é menos do que eles e que o sangue dele é d iferente. para que ele saiba a força que tem no sangue. Sam estendeu a mão e acariciou o rosto da mulher. depois de muitos anos de casados. Sam beijou-a na boca. nunca saía de ca sa. que ela o chamava peto seu nome inglês. recomeçando a traba lhar. Max não inter-rompeu seu trabalho e. Seu corpo bri-lhava como cobre à luz ardente do sol. voltando a falar em kiowa. Max poderia aprender tudo o que era preciso para sobreviver naquela terra. — Estamos com pressa e que remos fa-lar com ele. aprende também c oisas que podem per-turbá-lo. Só falam respondendo o que lhes é perguntad o. — Eu sei. Kaneha! — murmurou suavemente. mas estava fechada. Por muitos motivos. — É verdade — disse Max. levarei nosso filho à aldeia dos meus irmãos kiowas. Havia um anúncio lá dizendo que seu pai fazia transporte de carga. — Está bem. — Sou Max Sand — disse ele. Estava nu da cintura para cima. Sam sentiu o coração encher-se de ternura. — Mas não podemos esperar tanto tempo — disse o primeiro homem. delgado e forte. que é um grande caçador e um bom chefe de família. 4 Eram mais ou menos duas da tarde num sábado.primeira vez. é verdade que nosso filho tem ido bem na escola dos Olhos Brancos? — É verdade. de mandar nosso filho para a aldeia do poderoso chefe. Os músculos se estofavam nas costas quando pegava o feno com o forcado par a jogá-lo no depósito da cocheira. Depois enterrou o forcado no feno e v oltou-se para e-les. Estava espantada com sua temeridade. — E sou grata a o pai dele. um instante depois. — Sim. — Mas hoje é sábado e ele já foi para casa. Kaneha nunca ia à cidade. se nosso filho apr ende na escola dos Olhos Brancos muitas coisas que são magia forte. Sam já estava com cinqüenta e dois anos e Kaneha tinha pouco mais da metade dessa id ade. — Como a amo. — Também o amo. um deles pergunt ou: — Olá. Os três homens entraram a cavalo no pátio da cocheira e pararam ao lado do carro. Não engordara como acontece habitualmen te com as índias. e o que falara antes disse: — Queremos falar com seu pai. Os homens se entreolharam. era uma boa idéia. Havia nele um vago sentimento de culpa. Passando um verão com os kiowas. Direi a ele quando for para casa hoje à noite — disse Max. — Sam. Sam olhou-a. sim. meu marido — disse ela. — São meninos tolos que dizem isso. Passamos pela estação das diligências. Abraçou-a e afagou seu cabe lo. com os olhos cheios de lágrimas. Ela apertou a mão de encontro ao r osto e continuou: — Acho que já está em tempo. três verões depois. Kaneha sentia o rosto vermelho. Não apearam. Seu corpo era firme. E. se u avô. As mulheres índias nunca dirigem a palavra ao marido. Apre nderia também que vinha de uma raça que podia seguir a linha dos seus antepassados m uito mais longe do que qualquer um dos colegas que o atormentavam. e Max estava descarre gando um carro de feno na cocheira de Olsen. — Tenho orgulho de nosso filho — disse ela. — Temos de tomar essa pr . Mas. pela primeira vez.

ovidência e sair daqui ainda hoje. — Irei para lá daqui a umas duas horas e poderei levá-los. ensopando o cabelo v ermelho da barba e do peito. Seu pai não vai gostar se souber que demos a carga para outra pessoa. nem mineiros. — disse Sam. — Eu disse que estava com pressa. confabulando em voz baixa. — Pegue uma garrafa de uísque — disse ele a Kaneha. Não pareciam lavradores. Pareci am mais bandidos com suas pistolas amarradas bem no meio das pernas e os rostos escondidos pelas abas dos chapéus. com todo o dinheiro que tem enterrado. Onde é sua ca-sa? Max olhou-os com curiosidade. Você não conhece como . Acreditaram nessa conversa de gente desocupada? O primeiro homem se aproximou e bateu o cano da arma com toda a força no rosto de Sam. no mesmo instante. — Ouro? Não há por estas bandas ouro que chegue para encher um carro. Era o dia em que Max voltava da escola. — O que acontece é que você não está habituada a ver gente. Os três homens haviam se reunido num canto. podia fazer cois a melhor do que viver com uma índia — disse um deles. mas já era tarde. Kaneha estava amarrada a uma cadeira. Depois. Suas v ozes ecoavam no vento da tarde. Que espécie de carga têm? — Ouro. Eles vêm dissimuladamente como apache s em guerra. tirand o o chapéu e limpando o suor na manga da camisa. — É que ele é muito duro. amigos. — Você é Sam Sand? — perguntou o que estava na frente. Ficava muito atenta a todo movi-mento da estr ada nas tardes de sábado. a cinqüenta quilômetros mais ou menos. — Tranque a porta e não deixe essa gente entrar. Sam olhou-os um instante. com os olhos muito abertos fi tos no marido. Então sorriu e disse: — Guardem essas armas. — A casa fica na estrada do norte. Os olhos estavam inchados. foi até onde ela estava e disse: — É verdade. — Como está quente! — Está sim — disse Sam. os três estava m de arma em punho. O ar estava quase insuportavelmente quente dentro da cabana. sim — disse o que parecia ser o chefe. Que será que eles querem? Kaneha teve um pressentimento de perigo. que caiu de encontro à parede e ficou olhando o agressor. — Você vai dizer direitinho onde está o ouro — disse o homem rispida-mente. — Sou eu. — Todo mundo diz que o ouro que você tem enterrado a-qui dá para e ncher um carro. — Não foi isso o que soubemos — disse um dos homens e. Foi Kaneha quem primeiro os ouviu. disse: — Olá. quando pararam os animais em frente à casa. o lhou e disse: — Vêm três homens aí. Os homens apearam. Foi até a porta. e o nari z. A cabeça es tava caída sobre o peito nu e o sangue lhe escorria do rosto. voltou-se para os recém-cheg ados: — Sentem-se. Procurava virar a cabeça para escutar o que os homens diziam. e Sam entrou em casa. — Eles vêm da cidade — disse Kaneha. sim. Max ouviu os outros rirem e foi com raiva que voltou a jogar feno dentro do depósi to. pois os homens estavam chegando. Sam saiu ao encontro deles e. e não como gente honesta. quebrado. — Pensei que o velho Sand. garoto. Que desejam? — Temos uma carga que queremos mandar para Virgínia City — disse o mesmo homem. Viraram os cavalos e foram saindo do pátio. O derreado Sam estava amarrado na viga de sustentação no centro da cabana. mas não podia porque estava bem amarrada. — Tem. — Talvez ele não tenha ouro mesmo — disse um dos homens. Sam levantou-se da mesa. rindo. nem qualquer espécie de gente que habitualmente tinha carga para o pai dele transportar. — Mas entrem e descansem um pouco en-quanto conversamos. quase fechados. Os homens não disseram mais nada. espantado. como se não pudesse a creditar. — Vai ver que que-rem saber o caminho para a cidade.

Aproximou o tição do rosto de Sam e pergu ntou: — Onde é que está o ouro? Sam disse com voz rouca: — Não tenho ouro. O homem encostou o tição aceso no pescoço e no ombro de Sam. que caiu ao chão. Foi até o fogão e trouxe um tição aceso. Em geral. escorrendo pelo peito e pelo braço. — Há quinze anos que não esfolo um índio — disse ele —. Os índios nisso são muito hospitaleiros. com a faca encostada à sua pele. voltou-se para Sam. deixem-na! Não há ouro. Eu vou primeiro. o mais velho a arra stou até onde estava Sam. Colocou a faca em cima da mesa e desabotoou o cinto do revólver. Levantou-se. Este sacudiu a cabeça e abriu os olhos.eu esses velhos caçadores de búfalos. Se tivesse. Isso foi feito sem demora e ele se curvou sobre ela com a faca encostada em sua garganta. Sam começou a chorar. de um lado para outro. O mais moço passou a língua pelos beiços. Cortou as cordas que prendiam Kaneha à cadeira e ordenou aspera-mente: — Fique de pé! Kaneha levantou em silêncio. Isso era estr anho. — Os espíritos castigam aqueles que pra ticam o mal. — Amarrem as mãos dela aos pés da mesa — ordenou o mais velho. meu marido — disse ela em kiowa. Voltou-se para Sam e perguntou: — Onde está o ouro? Sam balançou a cabeça. — Já estou que não posso mais de ver esta índia nua — disse o mais moço. esquecendo-se de sua dor. Um fio de sangue ap areceu na linha traçada pela faca. Ele praguejou entredentes e disse: — Segurem as pernas dela. olhando-a. — Vai falar sim — disse o chefe. com o corpo sacudido pelos soluços. que partia do queixo. Indo até a mesa. dizendo: — Tenho certeza de que você não se in-comodará de nos servirmos um pouco da su a índia antes de esfolá-la. o bandido pegou a garrafa de uísque e tomou um grande gole. — É uma boa idéia — disse o homem que estava com a faca. É ca az de morrer primeiro. e sua cabeça caiu para o lado. — Já que não fala por si mesmo. — Kaneha estendeu a mão e tocou de licadamente o rosto de Sam. Sentiu um me . talvez fale por causa d a ín-dia. O mais moço dos três apanhou um balde de água e jogou-a em cima de Sam. mas ainda lembro muito bem como se f az. O homem rasgou-lhe com a faca o vestido. O homem tirou o tição e o s angue brotou da pele queimada. O mais velho largou a garrafa de uísque e caminhou para onde estava Kaneha. Não conseguia mais falar. Pegou a garrafa de uísque e tomou um gole. — Deixem-na! Pelo amor de Deus. Parou de repente. atrav essava o vale entre os seios. — Não tenho ouro! — gritou ainda. — Não tenho medo. passava pelo pescoço. você não vai fazê-lo falar desse jeito. querida — disse ele em kiowa. percorria o ventre e pa-rava perto da folhagem do púbis. — Perdoe-me. com voz de espanto. Começou a trabalhar rapidamente com a faca no corpo da mulher. que deu um urro de dor. l evantou-lhe a cabeça. Kaneha encolheu as pernas e deu-lhe um pontapé. Tirou uma faca de caça do cinto enquanto os outros homens o observavam. na hora em que ele voltava para casa. A porta estav a aberta e o vento a fazia balançar levemente. sua mãe estava cozinhando. — De qualquer maneira — insistiu o mais baixo —. Em seguida. pegando-o pelo cabelo. Desceu do cavalo e caminhou até a casa. — Jogue água em cima dele — ordenou. Segurando Kaneha pelo cabelo. A cabeça de Sam caiu para a frente. sem tirar os olhos dela. já teria falado. Eram quase sete horas quando Max voltou para casa no cavalo baio que Olsen lhe e mprestara. encostando-a no poste. enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces ens angüentadas. Não havia sinal de Vida na cabana e nem saía fumaça da chaminé. Chegou perto de Sam e.

do inexplicável e começou a correr para a porta. parou. a cerca de uns duzentos metros da casa e. uma coisa macia. amar-rando-os às argolas da parte traseira. A paralisia deixou-o no mesmo instante em que começou a gri¬tar. lambendo a madeira seca. Levou a carroça para a frente da casa e amarrou o cavalo baio na traseira. Olhou em volta. procurando não ver os corpos dos pais. tornou a entrar na casa. Olsen! — chamou. Depois. Pegou o balde de piche e entrou. Também estavam no cercado os quatro car-neiros e as galinhas de que sua mãe tinha tanto orgulho. Passou sem pressa o piche na lenha espalhada pe lo chão. Tirou os arreios d o alpendre e atrelou as mulas à carroça. — Mataram? — exclamou Olsen. Levou quase meia hora pa¬ra cobrir com três camadas de lenha todo o chão da casa. Em segu ida. lembrando-se de alguma coi¬sa. onde se lav ou na tina de água. O pai est ava amarrado à viga central da casa. um por um. sentando no chão. . De repente. Desceu. conduziu a carroça até a estrada. O sol já desaparecera e a noite caíra rápida e fecha da. para a carroça. Depois. que apanhou. sentindo-se muito fraco. 5 Entrou com a carroça no pátio dos fundos da cocheira de Olsen. surpreso. Parou na porta e passou nela o resto do piche. Voltou com ela para a casa e coloco u-a no chão. — Max! O que está fazendo aqui de volta? — Mataram meu pai e minha mãe. então. Levantou e foi até os fun¬dos da casa. bateu na porta. Um vulto apareceu na janela iluminada. pois eles nunca poder iam ter aquela aparên¬cia. jazia um a massa disforme. caminhou para a casa que ficava perto e. Foi até o depósito de lenha e apanhou uma braçada. Depois de esperar mais um instante para certificar-se. de boca e olhos abertos e com a parte de trás d a cabeça arrancada pela bala de um calibre quarenta e cinco que lhe haviam colocad o na boca. Mas não conseguiria enterrar o q ue estava na casa. Só restava fazer uma coisa. Encostou um fósforo aceso na porta até que o fogo começou a se alastrar violentamente. Encon¬trou. e a carroça ainda estava no al¬pendre ao pé da casa. quando chegou no alto de uma pequena colina. Procurou na prateleira o rifle e a pistola que seu pai cos-tumava guardar ali. ouviu um estrondo parecido com o de u m trovão e uma labareda saiu da casa. Conservava os olhos fixos no chão. — Sr. Logo que chegou ao batente. Olhou para o céu com súbita surpresa. passou uma vista de olhos por tudo e saiu de lá. Numa poça de sangue. Ficou p aralisado. Olsen apareceu também na porta. No lugar onde ficava sua casa havia um clarão alaranjado que subia para o céu. Só olhou para trás u ns cinco quilômetros depois. mas não achou as armas. Pensou vagamente que tinha de fazer alguma coisa. O cavalo de seu pai desaparecera. as lágri-mas acabaram. Se ntiu de novo os olhos cheios de lágrimas. Vomi¬tou desespera-damente. jogou o fósforo dentro da casa e afastou-se da porta aber-ta. E levou também os carneiros. Apanhou uma caixa. a sra. até encostar-se à porta. colo-cou todas as galinh as dentro e arrumou-a sobre a carroça. — Quem foi? Ouvindo a voz do marido. Eram uma camisa e calças de couro de veado que a mãe fizera pouco antes para ele. mas as seis mulas continuavam presas no curral. Ao fim de algum tempo. mas a náusea que lhe subiu pela garganta abafou o som. Max foi até a estrada. começou a chorar. subiu na carroça e se dirigiu para a cidade. porém. voltou para a casa. Uma nuvem de fumaça saía da porta. Max voltou os olhos lentamente para o chão. As estrelas brilhavam tristemente no alto. Não eram seu pai e sua mãe que estavam ali. a porta se abriu e Olsen apareceu . que mostrava os contornos da¬quela que tinha sido sua mãe. Hesitou um momento e. dep ois de amarrar as mulas a uma árvore. subindo alguns degraus. Enrolou tudo num volume que colocou deba ixo do braço e saiu. Saiu então e. com os olhos arregalados de horror.

procurando se ntir o cheiro de alguma fogueira. quatro carneiros e dezesseis galinhas. o rifle e a pistola. sr. Depois. Olsen. Já é um homem. diminuiu a marcha do po tro e examinou cuidado-samente a estrada. você vai comer algu ma coisa. — Você não pode deixá-lo perseguir esses homens sozinho —disse ela. — Já me fizeram todo o mal que podiam. seguindo o rastro à luz clara da lua. — Não. viu estrume de cavalo. Os quatro cavalos haviam parado ali. Prefiro um cavalo novo que eu possa montar em pêlo e que corra melhor na planície. — Perguntaram-me onde meu pai morava e eu disse. — Mas aí eles estarão ainda mais longe — murmurou Max. Viajou quase a noite inteira. Já estava escurecendo. Olsen. Alguns quilômetros adiante. Saiu pela planície à procura do rastro até encontrar o que queria. O homem pararia daí a pouco para acampar. . Quando acabou. Já estava escuro quando se levantou e prendeu a maça no cinto. muito obrigado. Foram lá e m ataram os dois. Só as mulas e a carroça valem três vezes isso. amarrou a pedra ao galho com tiras finas de cour o. tão boa como as que aprendera a fazer no verão que passa ra com os kiowas. Olsen fez um gesto para o marido. e com elas envolveu o resto do galho para fazer um cabo. Caminhava devagar. Max co meçou a comer automaticamente. dona. se já não havia parado. No segundo dia de viagem depois de sua partida de Dodge. Olsen percebeu a depressão que se escondia atrás da aparente calma do rapaz. Quando voltou. Depois. E ainda dou o caval o baio. puxando Max para dentro. — Tenho de ir. que era a coisa de maior valor que tinham roubado. Reconheceu a marca da ferradura na terra frouxa. E roubaram o cavalo de meu pai. — Não estarão. Max olhou-a fixamente. Os outros rumaram para o leste através das planícies. E afinal você ainda é um garoto. o fez sentar e colocou diante dele um prato de sopa. vai dormir. Não tinha mais de sete horas. Pegou o cavalo pelo c abresto e prosseguiu cau-telosamente a pé. terá tempo de sobra amanhã de manhã para partir. estava a menos de uma hora do homem a quem seguia. — Primeiro. Um dos cavalos era o de seu pai. — Eles também têm de dormir e não e is longe de você do que estão agora. — Vou desatrelar as mulas — disse Olsen.— Os três homens —disse Max. Não terá muito que carregar e irei mais depressa. dona — disse Max sem levantar a cabeça. sem ninguém montar nele. não — afirmou ela com sua lógica feminina. E um animal melhor e você pode levar a sela também. Na tarde do di a seguinte. Depois de andarem um pouco por ali. — Se é assim que você prefere. O bandido perdera mais tempo no caminho do qu e ele esperava. recomendando silêncio. Enquanto esperava. — São homens feitos e poderão fazer-lhe mal. dois de les tinham tomado a estrada para a Virgínia. Max desceu do cavalo e esperou que a noite caísse. A sra. Sr. Quer dar-me cem dólares e o potro por isso? — Claro que sim. Olsen. se você quiser. e ela pela primeira vez percebeu o orgulho que havia no f undo daqueles olhos azuis. A sra. Isso provava que o homem que passara por ali era o che-fe. Levou-o para a mesa. entrando em casa. meu filho — disse ela em voz alta. — Pode dar o dinheiro agora? — Claro — disse Olsen. Max estava dormindo com a cabeça sobre os braços cruzados em cima da mesa. Tornou a montar e prosseguiu. Olhou para o céu. pois do contrário os outros não o teriam deixado levar o cavalo. olhou satisfeito a maça de guerra. — Não pode. — Tenho de ir atrás deles.. — Espere aí — disse a sra. — Entre que vou preparar alguma coisa quente para você beber — disse ela. — Não tenho tempo — disse ele simplesmente. com os ouvidos atentos a qualquer ruído estranho. cortou um galho com forquilha de uma árvore e encaixou na forqu ilha uma pedra redonda. tenho aí a s mulas. está bem. A marca era mais leve que as outras. Tenho dezesseis anos e para o povo de m inha mãe quem tem dezesseis anos não é mais garoto. Desceu do cavalo e examinou-o c om o pé. a carroça. Max. o que significava que o a-nimal estava sendo levado pelo cab resto.

nu. olhando para a frente. — Quer contar-me o que foi que aconteceu? — Não fui eu! Foram os outros! — exclamou o homem. — Meu pai não iria vender o único cavalo que tinha. Um instante depois dormia profundamente. Teria de esperar o homem adormecer. sem tirar os olhos da faca. Max deitou-se no capim. Em silêncio. pois cerca de meio quilômetro adiante sentiu cheiro de fumaça. deu uma volta enorme até ficar por trás do sujeito. e levava dentro de si a vingança terrível d o índio. Quando o sol apareceu. daí a algumas horas. — Foi ele que me vendeu. embora houvesse muito san gue empastado de um lado da cabeça. Por outro lado. Ama rrou o potro a uma árvore e tirou do saco na garupa do animal o rifle que comprara . a aurora já estava surgindo no leste. Max sentou-se numa pedra e começou a amolar a faca na sua superfície lisa. Deu uma grande volta. Ouviu o relincho de um cavalo e encolheu-se no chão. sem parar de amolar a faca: — Sou Max Sand. tirou a maça de guerra do cinto. levantou m eio corpo e jogou a pedra perto dos pés do homem. — Solte-me. Afinal. Podia ver o homem sentado à frente do fogo. Era filho de Barba Vermelha e de Kaneha. com o revólver em punho. Com uma praga. Olhou para o céu. Viu a mão estendida do homem com a ponta dos dedos t ocando o revólver.Estava com sorte. — Você está com o cavalo de meu pai. Sentia-se nauseado ao vê-lo e ima-ginar o que havi a acontecido na cabana. Avançou sem fazer o menor ruído. quase apagado. Dessa maneir a. A fogueira tinha agora um brilho fraco. sentiu de novo e bem forte o cheiro da fo-gu eira. Quan do a lua estivesse bem no alto. isso afastou qualquer sentimento que pud esse haver de piedade em seu coração. Virou a c abeça e olhou para Max. Amarrou o potro ao lado dos outros cavalos e se aproximou do homem. porém. Estava alta e clara no céu acima de sua cabeça. — Solte-me! Max encostou a faca no pescoço do homem. Max agiu então rapidamente. Escolhera para acampar um lugar entre dois rochedos. Seus olhos ainda estavam fechados. Não avistava. — Deixe-me sair daqui! — gritou o homem. O cavalo devia estar amarrado uns trezentos metros à frente. Max foi então buscar seu potro. com a urina a escorrer-lhe pelas pernas nuas. Abriu os olhos de repente e olhou para a lua. Lembra-se de mim? Max ficou olhando para o homem. Quando voltou. O homem começou a urinar d e medo. Aquele sujei to não era tolo. Por trás. Toda hesitação que porventura sentira havia desaparecido. podia descansar. Via perfeitamente o vulto do homem deitado perto dos rochedos. só seria possível alguém aproximar-se dele pela frente. o homem abriu os olhos. que escorrera do lugar onde a maça o atingira. Rastejando. braços e pernas esticados e amarra dos a paus forte-mente fincados no chão. procurando andar em sentido contrário ao do vento para não ser pressentido pelos cavalos. O homem soltou u m leve ronco e se virou dormindo. Estavam a prin-cípio embaçados. Max parou e esperou que o homem estivesse imóvel novamente. A fogueira estava uns duzentos metros adia nte. o homem se sentou. Apanhou uma pedrinha no chão. comendo numa caçarola. Sentou vagarosamente e olhou para seu objetivo. Procurou levantar-se e percebeu que estava amarrado. seria o momento de entrar em ação. Max desceu com toda a força a maça de guerra sobr e sua cabeça. Quando falou. Ergueu a cabeça em meio ao capim. Até então. — Não fiz nada! Eles é que queriam o ouro ! Os olhos do bandido quase saltavam para fora das órbitas. mas foram aos poucos clareando. a fogueira. — Por que matou minha gente? — Não fiz nada com eles — disse o homem. A respiração era calma. índio miserável — gritou ele. Nem soube o que o atingiu. Começou a avançar lentamente. E stava estendido no chão de barriga para cima. A lâmina da faca cintilou ao sol da manhã e quando ele se levantou o homem já s . apavorado. Prendendo a respiração. Aí voltou a a-vançar. a voz saiu calma e sem qualquer emoção. — Que quer dizer isso? Max o encarou e disse.

Max ficou observando. pelo nariz. enquanto os insetos e mosquitos. pelos olhos abertos. o poderoso chefe. para que os espíritos encontrem onde viver. Cuidadosamente. quinze no máximo. Max compreendeu então . O chefe permaneceu em silêncio. Não havia ninguém. Já havia muito que nenhum escalpo de inimigo era pendurado no poste atrás de sua tenda. — Agora — disse o chefe. Devia ter catorze anos. — Tirei o escalpo de um dos assassinos. entrou uma moça. E ntraram por todas as fen-das ensangüentadas. puxando os outros animais. Max olhou-o. que não podia ser vista da aldeia. É o melhor momento para tomar mulher. para a terra dos kiowas. seu avô. O homem havia apenas desmaiado. E vim à tenda de meu avô. voltou-se para Max. dos ombros até as coxas. Três dias em que o sol ardente lhe queimou os o lhos abertos e empolou a carne dilacerada enquanto as formigas lhe devastavam la boriosamente o corpo. — Vivemos nas terras onde os Olhos Brancos nos confinam. Tomou o escalpo. estuprador e ladrão. Depois. Max tirou. abertos e sem enxergar. colocando fir-memente a pena em sua mão. — Uma árvore tem muitos galhos — disse pausadamente. Ela arregalou os olhos ao vê-lo e sua primeira reação foi fugir. já saía da tenda para vê-lo. procurou mas não viu ninguém. O homem levou três dias para morrer. — Quando os galhos caem ou são cortad os. O cabelo e o corpo estavam molhados da água do rio e o vestido se colava ao corpo. Voltou de novo até a entrada. então. Um instante depois. tinha perdido por completo o juízo e na manhã do quarto dia. estava morto. Silenciosamente. como tiras de fita. Chegou à margem do pequeno rio e a seguiu até chegar a uma curva. O homem começou a tossir e a gemer. — Não temos mais liberdade de andar nas planícies — disse. O chefe olhou para o escalpo e depois para Max. Voltou e se ntou numa cama de couro estendida no chão. é preciso que outros ramos cresçam no lugar. olhando para Max. no momento em que ele apeara do cav alo. Três dias de sede e de fome e três noites de tortura. — Há uma virgem cujo guerreiro morreu há dois sóis numa queda de seu cavalo. Era essa a pena índia para um assassino. Ele caminhava sozinho e de cabeça erguida. O velho chefe. Max tirou o escalpo que estava amarrado ao cinto e jogou-o ao chão diante do avô. O chefe nada disse. Era quase uma criança. No fim. Ela já recebe u o bastão do casamento. Max cortara as pálpebras para que aqueles olh os nunca mais se fechassem e a carne estava pendurada pelo corpo. — Agora? — perguntou Max. pela boca. colocou-o s obre o púbis do homem. — E o melhor momento. em seguida. nele se banqueteavam. a faca e arrancou o couro cabeludo. O chefe olhou de novo para o escalpo. Vá agora. Tirou uma pena de seu cocar e entregou-a a Max. — Venho em tristeza à aldeia do meu povo — disse Max em kiowa. pe ndurou-o no poste e. acatando o conselho. — Meu pai e minha mãe foram mortos — continuou Max. Os índios olhavam-no em silêncio. tomou rumo norte. montou em seu potro e. atravessou a aldeia com os cavalos. com a sabedoria de seus anos. aguardou que Max se aproximasse. pa ra passar o tempo da minha tristeza. Max foi andando pelos arredores até encontrar um formigueiro. O corpo se agitou. Algum deles notou sua aproximação? — Ninguém me viu. Havia ali uma pequena tenda. as formiguinhas vermelhas cobriram o corpo. quando o espírito da guerra e da vingança ainda corre como uma torrente pelo sangue. quando Max foi olhá-lo. Num instante. Tirou com as mãos o to po do formigueiro e voltou para onde estava o homem. e fique com ela. Vim das colinas atrás das quais eles vivem. Max virou-se e. e deve viver agora sozinha numa tenda à beira do rio até que o espírito do marido seja substituído nela. impassível. atraídos pelo cheiro do sangue. embora os olhos estivesse m revirados. Os Olhos Brancos podiam aprisionar os corpos mas não o espírito. Max amarrou os cav alos numa árvore e entrou na tenda. Sentiu o peito dilatar-se de orgulho.ilenciara. Em silêncio.

Aproximou-se deles. de um preto azulado. — Epa! — exclamou Farrar depois do banho. Vamos para o hotel tomar um banho e tirar do corpo esse fedor de m erda de boi. Max. você está quase um índio. para o seu inevitável destino. — Quero que saiba por que está morrendo. — Ainda não desistiu de procurar os homens? — Não.por que o chefe o mandara para lá. deu um assobio. queimando nos currais os últimos vestígios da primavera. Cacei muitos anos com Sa m Sand e não fico satisfeito de saber que você não tem orgulho dele. — Estará à sua espera. rapaz. Não desisti. que acabara de calçar as botas. irei para o oeste do Texas e pegarei o outro. Max desceu a rampa do vagão do trem logo atrás das últimas reses . As botas de vaqueiro de sal to alto estavam bem lustrosas e o lenço amarrado ao pescoço era como uma cintilação dour ada contra sua pele morena e queimada de sol. pois ele pode reconhecê-lo e descobrir você antes . rapaz. — Ótimo — acenou positivamente Farrar. O poderoso chefe nos uniu para que pudéssemos tirar os demônios um do outro. Estava quase no alto do céu. — Eu sou índio. Seu pai era branco e foi um bom homem. Mas não posso esquecer que foram homens bran cos que mataram meu pai e minha mãe. Farrar virou-se logo que ele parou o cavalo. Depois de um momento de silêncio. Farrar montou em seu cavalo e disse a Max: — Vamos. Max? — Tudo. O cabelo. des cia até os ombros. Fora uma longa caminhada desde o Texas até uma estrada de ferro qu e os levara a Kansas City e. eu encontrarei. disse: — Eu também. Max esperou calmamente que ele acabasse de se vestir. Farrar. Farrar o viu curvar-se par a amarrar na coxa a capa da arma. Então. — Não quero outra coisa — disse Max. Como sabe que encontrará um deles aqui? — Se estiver por aqui — disse Max —. limpou o suor da testa na manga da camisa e olhou para o sol. — Muito bem. T irou o chapéu. senhor. Apanhou na cadeira o cinto com o revólver e o afivelou. — Pois olhe: vestido com elas. sr. que se dirigiu en¬tão a um dos compradores: — A conta está certa? Mil cento e dez cabeças pela minha conta. Farrar disse: — Vestido assim. Farrar. como que percebendo que aquele era o final de tudo. Max tornou a colocar o chapéu na cabeça e olhou para a cerca. depois. O gado mugia bai¬xinho. é melhor ter cuidado. esbranquiçado e quente. Max estava ves tindo camisa e calças de couro de veado quase brancas. — Meio índio. com os olhos mostrando agora um novo ânimo. sr. Mostrou-lhe a pena e disse gentilmente: — Não tenha medo. Esperou que todo o gado entrasse no curral do matadouro e fechou a porteira. — Onde arranjou essas roupas? Max sorriu. — Tudo desembarcado. . Tenho a impressão de que estou uns dez quilo s mais leve. calmamente. — Confere. onde o patrão conversava com os compradores de gado. — Foram as últimas que minha mãe costurou para mim. Farrar viu o olhar gélido no rosto do rapaz e voltou-se para pegar uma camisa. Farrar. — Tenho muito orgulho dele. — Kansas City é um lugar bem grande. É onde deve estar. 6 Montado em seu potro. Passarei pelo seu escritório hoje à tarde para pegar o cheque.

Farrar. M s não é para vender. tocando no ombro do homem. — Obrigado. Farrar. — Cento e trinta dólares! Hoje não precisamos fazer mais nada. — Há sempre alguém querendo comprá-la. Ela estendeu as mãos e empurrou-o pelos ombros. Farrar. — Por que não se deita um pouco e fecha os olhos? Ficará bom num instante. — E é índio — disse Mary. Mary curvou-se sobre ele e levantou uma das pálpebras. você será o ma pre-judicado. Dort— murmurou o homem. Farrar — disse ele por fim. O rapaz estava mesmo desaco rdado. sr. meu filho. — São onze horas. — Não quer mesmo voltar comigo? — Não. — Aqui está. — Mais ou menos — respondeu ele. que a esperava do outro la do da rua à porta de um bar. então? — O que eu vou dizer vale alguma coisa. Max. sr. Dort — disse ele. No fim. Tentou levantar-se. — O que eu ia fazer? Ele não queria beber. Nunca me sinto tranqüila neste hotel. Acho que o homem a quem ele procura gostará de saber disso. Tossiu. muito obrigado. — Quanto é que ele tem? — Não sei. Eram quase duas horas da madrugada quando o cafetão encontrou o homem. sr. — Que diabo você está querendo. assim que sentou na beirada da cama.. O dinheiro está no bolso das calças. Farrar foi até a cômoda e apanhou sua bolsa. Mary Grady olhou sorrindo para o rapaz. tremendo de medo. E sabe de uma coisa? Este camarada me parece mais um índio. É quase um garotinho ainda. Dort. Fez um sinal. Dort levantou-se rapidamente. — E você sabe quem é? — Talvez. — Está à procura de um homem que tem uma bolsa de fumo feita com a ele de uma índia. Agarrou o homem pelo paletó e encostou-o à parede. Caiu atravessado na cama e ali ficou prostrado. — Está se sentindo bem? — perguntou Mary depois de passar o vestido por cima da cabeça. mas não a güentou mais. — Sr. sr. tirou o dinheiro e contou-o rapidamente. Ela se aproximou e ficou olhando para ele. mas creio que tenho uma informação que lhe interessa. com o vestido pendurado no braço. Vamos para minha casa p assar a noite toda juntos. O homem foi até a cama. Ela já estava vestida quando o homem entrou no quarto. Você ainda pode pegar três marmanjos ta noite.— Bem. vamos! — Mas o que sei vale alguma coisa. rindo. — Minha bolsa de peito de índia — disse Dort. Um breve instante de consciência luz iu nos olhos dele. e ele se encaminhou para o hotel. ainda estendeu a mão para o revólver. Max guardou o dinheiro no bolso de trás sem contar. o pagamento de quatro meses de trabalho. Estava joga ndo nos fundos do salão Águia Dourada. sr. É a respeito de sua bolsa de fumo. Talvez sej a melhor falar em particular. Vamos embora. — Você está louca? — exclamou o homem.. — Não pode ser de outro jeito. Dort. O rapaz bebeu de um gole o resto do uísque. — Não é nada disso. Não posso esquecer que é no mesmo seio que me amamentou que aquele miserável está guardando o seu fumo. Sorriu e foi até a janela para chamar seu cafetão. zangado. poi . Só consegui trazê-lo até aqui po rque disse que conhecia a pessoa que ele estava procurando. — Você não pode viver com todo esse ódio dentro do coração. sr. O rapaz olhou para ela. — Desembuche. — Cento e trinta dólares. que percebeu os olhos dele um tanto pesados. — Como você demorou a trazê-lo para cá — murmurou ele. — Não estou muito habituado a beber tanto. sr. Acho até que ele não queria ficar comigo. agora vou tomar meu caminho. Pegue logo e vamos sair daqui. — Acabe com seu uísque enquanto tiro o vestido. São oi-tenta dólares mais ses senta que você ganhou no pôquer. — Que diabo quer você? — Desculpe. — E ele está armado.

se não tivesse feito isso. — Espere por nós. No entanto. quand o de repente ficou estático. Fechou a porteira e se dirigiu para onde eles estavam. jogando a bolsa de fumo para Max. Sentiu-se de repente cheio de segurança e disposição. — Pois bem. a fim de avisá-lo. é apenas o peito de uma índia velha — disse o homem. a cavalo. A bolsa lhe escapuliu dos dedos e o fumo se espalhou pelo chão. — Pegue aí e faça um cigarro para você. e Farrar notou a presença dos outros homens. tangia uma parte d o gado de um curral para outro. amigo — disse Max. Não poderia recuar nem sair da cidade. Os outros homens que estavam em torno da mesa se entreolharam. Acabou de fazer um cigarro e perguntou a Farrar: — Tem um fósforo aí. — A coisa vai ser divertida. — É — disse o homem. Fo i por isso que a princípio não percebi que ele era índio. não valerá nada para você. tudo. para receber o dinheiro do quarto. observando Max. rapaz — disse o homem. amigo? Farrar meteu a mão no bolso. Mas. — Eu não faria isso se fosse você — ameaçou insolentemente o homem. tudo estaria perdido.s Dort era conhecido como um dos piores assassinos da cidade. Mas quando chegaram ao hotel Max não estava mais lá. O único defeito é que se gasta muito depressa. D esolado. — O que vou fazer agora? Apenas o que dever ia ter feito há um ano. o empregado do hote l contou onde poderiam encontrá-lo: no matadouro. — Você é um deles. o empregado ficara de estar lá. Vou matá-lo. Todos os olhos se voltaram para a bolsa de fumo. Nessa hora. Farrar — disse com um sorriso. sem levantar a voz: — Não o reconheceria. tirou a caixa de fósforo e já ia entregá-la ao homem. — Essa bolsa de fumo. sua reputação. Mas viu todos os rostos voltados a nsiosamente para ele. levantando a mão do lado onde estava o revólver. Tom — disse um deles. Nunca vi nada igual a isso. sim. — Obrigado. às duas da tarde do dia seguinte. sem olha r para ele. Ouviu um arrastar de pés vindo de trás. — Não há nad melhor para conservar o fumo fresco. — E os olhos dele? São azuis? — São — disse o cafetão. se não falar bem depressa. Dort a pegou e guardou no bolso . Saltou do cavalo e o amarrou a um mourão da cerca. vendo Max. — Ora. que. — Notei isso logo que ele pegou uma das minhas meninas no salão. . Conhece-o? — Conheço. Esta já está que não vale mais nada. limitou-se à condição de mero espectador. sua posição naqueles meios equívocos. — O que vai fazer agora? — perguntou o cafetão. — Como monta bem aquele rapaz! — disse para um homem que estava a seu lado. Max começou a recuar lentamente. quando olhou para a bolsa a fim de abri-la. — Aí está seu dinheiro. soltando uma risada. Agora estou conhecendo. Farrar estava encostado à cerca. Mas. — Você monta muito bem. — Pronto. valerá alguma coisa. Farrar voltou os olhos para onde estava Max. E levantaram em s ilêncio. — O que está olhando? — perguntou o homem. vendo cheio de espanto a bolsa de fumo que ele tra-zi a na mão. sr. A pele da bolsa era da mãe dele. fico u mortalmente pálido. que acabara de tanger o gado. sou um deles — disse Dort. — Sim. Vou fazer a cobrança por você. Está armado! — Um índio? Como é ele? O cafetão descreveu prontamente Max. Olhou para o homem e disse. Dort jogou em cima do balcão da portaria um dólar de prata. — O que vou fazer? — murmurou Dort sem muito ânimo. sim. sem entusiasmo. — E daí? Farrar e os outros instintivamente se afastaram para os lados. — Há um índio na cidade à sua procura. — Com certeza não me reconheceu por causa da barba — disse o homem rindo. Se assim procedesse. Onde está ele? — Vou levá-lo até ele — o cafetão se ofereceu rápido.

e estendeu a mão para o revólver que estava no chão. Max atirou quase antes de o revólver de Dort ter saído inteiramente do coldre. mestiço miserável. — Puxe seu revólver. — Não faça nada! Esse homem é Tom Dort. ainda que houvesse muitas testemunhas. ''Agora''. Depois. passando-lhe a mão pelo cabelo. . Primeiro. — Não vou nem atir ar no coração ou na cabeça. — Puxe o revólver! — gritou ele. Rina? — Do que pode me acontecer. Dort começou a sentir-se dominado pelo medo. filho de uma índia puta e adela! Puxe logo essa merda. pensou Dort. ela foi para onde Nevada estava e se ajoelhou no chão ao lado dele. Farrar viu o gesto e voltou os olhos para Max. asperamente. Quero apreciar a sua morte. sem alterar a voz. olhando para ele. Nevada. 7 Nevada se agitava impacientemente. — Ele pode ser tão ligeiro quanto quiser. Estendeu au-tomaticamente a mão para pegar um cigarro e. não consigo me conven cer. — Quero que você morra devagar. sem tirar os olhos d e cima do homem. como minha mãe. com a mão entre as perna s. Viu. deram a Max a oportunidade de escolher entre alistar-se no Exérc ito ou ser julgado por homicídio. Rina — disse ele." Levou de repe nte a mão à arma. Max se dirigiu a passos lentos para onde ele estava. Os cigarros estavam no bolso. Dort ficou alguns instantes ajoelhado. quando só sentiu o va zio ao lado do sofá. acordou de vez. O revólver caiu da mão de Dort e ele tombou de joelhos no chão. Rina sentada na poltrona. Dois dias depois. — Você tem de me ajudar. com voz calma. Depois. De repente. — Ora. — Estou com medo. — Puxe. mas não foi suficientemente ligeiro para ver o rapaz puxar o revólver. sr. Mas o pior é que. — Você está financeiramente arrumada e ainda tem uma vida inteira pela frente. então. quase como se estivesse rezando. — Sei disso. — Não tenho pressa — disse Max. por mais que pense nisso. Max esperou que Dort voltasse o cano na sua direção e.— Cuidado. Max! — exclamou Farrar. mas afinal sentou no sofá e procurou suas calças . Havia probabilidade de Max ser absolvido por ter matado em legít ima defesa. índio — disse Dort. O rosto do rapaz resplandecia de ódio. ''Agora! Vou acabar logo com essa agonia. vamos. Custou a lembrar-se de onde estava. vou atirar no seu saco. mas ele não quis se arriscar. Nevada! — Dê tempo ao tempo. Pelo canto dos olhos. O rosto de Dort estava ficando muito vermelho ao sol ardente. meterei uma ou d uas balas na barriga. Meteu um na boca e riscou um fósforo. — Com medo do quê. com a vaga impressão de que havia mais alguém na sala. viu os homens q ue o observavam. As balas fizeram Dort cair para trás e ele ficou estendido no chão. Depois l evantou a mão ensangüentada para Max. rindo. Deu a prime ira tragada e perguntou: — Por que não está dormindo? — Perdi o sono — murmurou ela. Tinha ainda um encontro marcado com um homem a quem nem conhecia. com o corpo sacu dido por leves tremores. — Mas eu vou matá-lo. à luz breve do fósforo. seus dentes mordendo o lábio inferior. e o j uiz era patriota. encarou Max. Rina — aconselhou ele. — Não estou com nenhuma pressa de matá-lo — disse Max. — Filho da puta! — exclamou. com o revólver ain da fumegante na mão. Falava-se muito de uma guerra contra Cuba. Farrar — disse Max. Max chegou mais perto e ficou olhando. deu dois tiros rápidos. Você não faz idéia omo é ligeiro no gatilho. perto de le.

— Sempre senti esse medo . — Bem sabe que não é ver-dade o que está dizendo. devagar. E nunca senti com os hom ens. trepar! Ela o encarou por um momento e então começou a sorrir. Ele voltou. de alguma doença terrível. Afinal disse com voz bran da: — Tudo será diferente quando você voltar para o leste. pensei que estivesse agindo direito — disse. — Quando a convidei a vir para cá. com um sorriso. Porque a ve rdade é que a única coisa que quero de você é trepar. trepar! Ele a olhou fixamente. que já queimava seus lábios. — Acho que sou lésbica. Você é um homem de verdade. enquanto pegava um cigarro.. o que sinto com uma mulher. ela riscou um fósforo para ele e disse com voz macia: — Sim. afastando-a. Quero que me compreenda. antes mesmo de me casar com Cord. quando ainda era menina. Estendeu a mão por baixo do cobertor e segurou seu membro. mas Nevada a segurou com firmeza. É tão fáci l fazê-los acreditar naquilo que eles querem. com s ua vaidade masculina espicaçada. um calor crepitante enchia a sala. — Não? — perguntou ela. Então. afagando a cabeça de Rina. — Bem. para onde ela estava. apagando o cigarro. D epois. — Mas acho que ainda sou muito moço.— Você não compreende. Sei qu e vou morrer moça. Os olhos dela estavam marejados de lágrimas que banhavam seu lindo rosto às primeira s claridades da manhã. Colocou o cigarro na boca e aspirou lon gamente a fumaça. Rina c ontinuava sentada no chão a observá-lo. com a voz cheia de terror. com uma voz cheia de amargura e desprezo. — É deles que eu tenho mais medo. Ainda não encontrei nenhum homem que fosse capaz disso. — E você. No mesmo instante. — Mas por que eu? — disse ele. Rina? Por que está dizendo isso para mim? — Porque quero que você me conheça. Chegou mais perto dele e tiro u o cigarro de seus lábios. — Não ria! Não sou maluca. — Porque você não é um garoto. Deu-lhe um beijo rápido na boca e foi até a lareira. — Mas não como eu! — exclamou ela. — Não sou o homem que você está procurando. tre par. Sinto dentro de mi m! Nevada continuou ali sentado. Rina? Os olhos dela brilhavam num desafio.. — Por favor. Eu sei disso. — Talvez não — disse ele. Rina. mas havia insegurança em sua voz. Nevada riu. — Homens jovens. Nevada sentiu o movimento de seus lábios e teve um momento de raiva. voltou-se para ficar de frente para ele. Rina. Nevada. com qualquer homem. Nevada! Deixe-me provar como posso amá-lo! E começou de novo a chorar.. com toda sua fineza. Nevada! Posso sentir dentro de mim. se não tivesse. E eu conheço todos os truques! — Talvez porque você ainda não tenha conhecido um homem de verdade — disse Nevada. Encontrará homens jovens e. Puxou Rina pelo cabelo e perguntou: — O que você está querendo provar? — Que você é o homem. a voz adquirindo um tom de desafio. — Os rapazes só querem uma coisa de mim! Trepar! Não pensam em nada senão em trepar. — Não? — disse ela. agarrando suas mãos. Nevada. trepar. Os homens são uns tolos. Um instante depois. De repente afastou o co bertor e baixou a cabeça para o colo dele. proferir aquela pala vra vulgar. Nevada levantou de repente e foi até a lareira. chocado ao vê-la. Nevada — continuou ela. sorrindo: — O que você deseja. nunca mais terei medo! Ela curvou de novo a cabeça. Acha então que. mas conseguiu dominar-se e disse. acariciando seu rosto. Você é que pode fazer de mim mulher de fato. Já estive com mulheres e com homens. antes de vir para cá. não me casa-ria com Jona s em vez de escolher o pai dele? Nevada não respondeu. acho que de um modo ou de outro todo mundo tem medo. .. — Comigo é diferente. o único homem capaz de me fazer sentir alguma coisa! Tenho certeza . Atiçou o fogo e jogou dentro cavacos e um tronco novo. Nevada? — perguntou ela.

espantado. Nevada? — Não sou muito de escrever. Não conversaram mais até chegar à estação e só voltaram a falar quando ela já ia tomar o trem — Você vai escrever para mim. Rina. — Talvez seja melhor assim — disse.. que se desenrolava no picadeiro. Calculando por estas duas semanas. Havia gente por todos os lados. aria farta de tudo numa semana. — Pare de agir como uma criança. o que vamos fazer? — Agüentar a temporada até o fim. — E deixará que eu de vez em quando apareça para fazer uma visita? Se eu me sentir só e com medo? — É para isso que são os amigos. 8 — Os negócios do show vão mal — disse o caixa. Ouvia-se dali o murmúrio abafado dos gritos e dos urros dos índios. se os abando-narmos agora. O espetáculo estava terminando. Não era o dinheiro dele que estava em jogo. — Em quase todas as cidades estamos programados para uma se mana depois do show Buffalo Bill Cody. perseguidos d e perto pela cavalaria. Não é essa a única coisa em que estou metido. Nevada deu o braço a Rina. vamos ter um prejuízo de mais ou menos quarenta mil dólares neste verão. Ela estava à janela do carro da bilheteria.. — Por favor. Fique aqui à m inha espera até eu voltar. Nevada — disse ela quando che-garam ao automóvel. sorrindo. não tenho nada a fazer no leste. Eram os ho mens do show que levavam os cavalos para as cocheiras. — Como é que você concordou com uma coisa dessas? — A culpa não foi minha.. deixe-me ficar com você. Nevada levantou e foi até a janela. Os índios iam saindo do picadeiro. — E você tem? — Mais do que você. — Com quarenta mil dólares de prejuízo? Não podemos perder tanto dinheiro! O caixa mostrava-se nervoso e vermelho. Ela então atirou o cigarro dentro da lareira e caminhou para onde ele estava. Nevada olhou-a. pelo menos. Passarei depois pelo escritório do agente. corriam para os carros a fim de trocar de roupa e conversavam em voz alta. — Mas. — Pagarei metade de seus prejuízos se me deixar ficar. — Bem mal — disse o caixa. Nevada. olhando o úl timo número do espetáculo Oeste Selvagem. Nevada voltou-se para Rina. E agora. Nevada não compreendia por que o homem est ava tão inquieto. — Não podemos deixar de enfrentar esse prejuízo. atirando-se nos braços abertos de Nevada. — Mas mandará notícias? Responderá se eu escrever? Ele assentiu com a cabeça. menina? — perguntou ele. perderemos t odo o nosso pessoal. Se fecharmos o espetáculo.. Ninguém vai querer assinar contrato conosco para a próxima temp orada. A cavala ria ia chegando em socorro dos pioneiros cercados pelos índios. Virou-se e disse ao caixa: — Vou levar a sra.Depois. — Você não tem dinheiro para isso. Nevada. com um leve movimento fez o robe cair no chão a seus pés. Você já é uma mulher adulta Isto aqui não é vida para você. posso sentir vida. Pensava que ela não havia escutado a conversa com o cai xa. At ravessaram o acampamento até o automóvel. Acho que o agente nos traiu em proveito do outro sh ow. — Já não havia ficado resolvido isso. Aqui. . movimento. Nevada. Cord à estação. fazendo planos para aquela noi te. tirando os olhos de Rina. ajudando-a a descer a escada do carro da bilheteria. Um estridente clarim deu um toque de carga. — Vão mal ou muito mal? — perguntou Nevada. — Agora po demos ser amigos. O fogo envolveu co m um clarão dourado seu lindo corpo nu. Não há outro jeito. Nevada sentou numa ca-deira bem pouc o confortável e começou a enrolar um cigarro.

A tinta da porta estava descascada e as letras quase não se podiam ler. Daniel Pierce — Agente Teatral O escritório não destoava do aspecto do corredor. o outro. — Sim. — Onde é que está? — Não sei. Estou procurando Dan Pierce. O cartaz de costume lá es . Viu o grande cartaz em frente à Universal logo que chegou ao endereço indicado: UNIVERSAL PICTURES CASA DE TOM MIX E DE TONY VEJAM "OS CAVALHEIROS DA SAGA PÚRPURA" Filme da UNIVERSAL Logo em seguida. — Ele não recebe ninguém sem hora marcada. depois do estúdio da Universal e de-pois do da Warne r. Nevada. quando perguntou. Foi a uma reunião. WARNER BROS. passou por outro cartaz na frente da Warner. — Não. Da porta. Ele falará comigo. — E como se vai até lá? — Fica no Lankershim Boulevard. Ele ainda viu o rosto dela surgir por um instante na janela quando o trem se pôs em marcha. — Obrigado — disse ele e saiu. beijou-o no rosto e embarcou no trem. — Tem hora marcada com ele? — Não. Em seguida. notando o casaco de couro surrado. Está procurando vender um cliente para um filme de faroeste. quase com hostilidade: — O que deseja? — Dan Pierce está? Ela observou Nevada um instante. — Se está à procura de emprego. — Ah! O outro. Seu cabelo denunciava traços de uma oxigenação mal feita e mascava um pedaço de goma. com uma ponta de interesse. — Sou da equipe do Oeste Selvagem. — Do show Buffalo Bill? — perguntou ela. — Onde? Alguma coisa nos olhos de Nevada fez a moça responder. — Foi à Norman Films. Do Grande Rodeio do Sudoeste. Depois.Ela sentiu as lágrimas umedecerem seus olhos e murmurou: — Você tem sido um bom amigo. ele não está. APRESENTA MILTONS SILIS EM "O FALCÃO DO MAR" Filme da VITAGRAPH Os estúdios da Norman ficavam oito quilômetros mais adiante. ainda se voltou para dar adeus e desapareceu dentro do vagão. — Não estou procurando emprego. perca as esperanças. Nevada subiu por uma escada desconjuntada. as calças desb otadas e o grande chapéu de cowboy. o trem desapareceu na curva e ele saiu da estação. até um corredor sujo. — Bem. Uma moça olhou para ele de trás de uma mesa atravancada de coisas e papéis.

batendo com o ch apéu a poeira das rou-pas. A altura era de uns vinte metros e o cavalo teria de saltar pelo menos uns cinco metros na horizontal para cair dentro da água. Nevada começou a descer a ladeira. Siga este caminho para lá. Só ass . m as não o viu em parte alguma. — Dan Pierce está por aqui? — perguntou a um homem que estava sen-tado num dos caminhões . os cavalos se soltaram dos tirantes e a diligência tombou num lado da estrada e caiu rolando pela ribanceira. afinal. viu-se em campo aberto. No alto do morro. Nevada parou e olhou. Não tem erro. Russel! Você saltou antes do tempo! A diligência só rolou da estrada bem uns quarenta quadros depois de você. Num lado do caminho havia grande quantidade de carros e caminhões. sua guarita e consultou um monte de papéis. — Corta! Corta! Com os diabos. O homem alto voltou-se para Nevada. Nevada agradeceu e seguiu com o carro. — Venha comigo — disse o homem. direto. SET DE " VILA PA CÍFICA'' ESTACIONAMENTO DE CARROS AQUI Seguiu a seta. — Dan Pierce está por aqui? — perguntou a um homem que passava com uma lata de filme. — Espere um momento. — Vamos que lá vêm eles! — gritou alguém bem alto. Vou verificar. ele viu o cocheiro pular fora e sair roland o pela beira da estrada. porque o caminho estava cheio de gente. — Obrigado. — Acho que sim. BERNARD B. Não havia senão mato e morr os. — Seria capaz de saltar com um cavalo dali de cima para dentro da água? Nevada olhou na direção apontada. onde um porteiro o fez parar.tava na fa-chada. O cocheiro levantou e caminhou até onde estavam os outros homens. — Dan Pierce está aí? — perguntou Nevada. Vou esperar por ele — disse Nevada. Correu os olhos pelo grupo à procura de Pierce. — Pierce já voltou com seu maldito stuntman? — Foi telefonar para ele — disse o homem que respondera a Nevada e que de repente o encarou: — Espere aí! Você é o camarada que Pierce es-tava esperando? — Acho que sim. Nevada o acompanhou até onde estava um grupo em torno de um homem alto. Então apontou para um penhasco no morro próximo. No m omento em que o veículo fazia a curva. — Pierce provavelmente e stá no campo de filmagem dos fundos. Um instante depois. Alguns eram artistas com trajes os mais variados. vestidos de macacão e roupas de trabalho. Um pouco abaixo. — Todo mundo está do outro lado do morro. — Trabalha com a turma do Vila Pacífica? — perguntou o homem. um grande cartaz. Foi bem devagar. havia uma porção de gente. Parou o seu ao lado de um deles e saltou. chefe. — Você deve ser o homem a quem ele está esperando — disse depois. uma diligência apareceu em disparada na estrada abaixo de Nevada. A mesma voz forte de pouco antes se fez ouvir de novo. NORMAN PRODUCTIONS APRESENTAM ''O XERIFE DE VILA PACÍFICA'' COM UM ELENCO DE AS-TROS Nevada virou o carro para o portão principal. mas muitos era m trabalhadores comuns. O guarda entrou em. Passou por algun s prédios muito grandes e. perto da câm ara. começando a enrolar um cigarro. Perto do primeiro morro. — Aqui está o homem que Pierce estava esperando. De repente. embaixo do qual corria um largo rio. — Teve de ir ao escritório para telefonar — respondeu outro homem.

Eu disse que era possível. Nevada tirou prontamente os pés dos estribos e atirou-se bem para o lado. Sentiu um nó de raiva na garganta. Esperou um momento até o cavalo levantar de novo a cabeça e deu um tiro certeiro. Pediu bala de verdade. mas ele permaneceu mergulhado o quanto foi possível. Suba até lá e lhe entregarão o cavalo. O diretor deu um amplo sorriso. mas depois sorriu. Comece quando eu der o sinal. mas o cavalo está todo quebrado! Não há ninguém que dê um tiro para acabar com a agon ia daquele pobre animal? — Já mandamos buscar um rifle do outro lado do morro. — Acho que é possível — murmurou. que estava lá embaixo. Nevada sorriu. Não se pre ocupe. pagarei cem. Atirou num pedaço de madei ra dentro da água. com o lado para que deve olhar. Nevada sentiu o coração do animal fraquejar de repente quando não alcançou o chão esperado. S entiu uma explosão na água perto dele. Os pulmões começaram a arder. bem entre os olhos. — Estamos pagando o dobro por esse golpe. — Felizmente! Afinal encontramos um homem com dois bagos. são todos a mesma coisa. Viu a água se aproximando e torceu para já estar longe o suficiente para o cavalo não cair em cima dele. Teve a impressão de levar um tempo enorme até chegar. Depois se aproximou do rio. todo sorridente. desde que começara a procurar Pierce de um lado para outro. Nevada concordou com a cabeça. — Cavamos bem o rio e a profundidade naquele ponto é de oito metros — disse o diretor. O cavalo enco stou o focinho na mão dele e Nevada lhe deu umas palmadas no pescoço. baixou a mão e Nevada meteu as esporas no animal. Estou aqui para falar com Dan Pier¬ce. mas co-ragem nenhuma. O diretor. — Dê-me o revólver. Nevada nadou prontamente para a margem e se dirigiu com raiva para onde estava o diretor. — Muito bem. Era um bom cav alo. O homem a pegou sem nada dizer e tir ou do bolso um maço de cigar-ros. Havia em seus olhos um ar de grande sofrimento. cowboys. Não trabalho em acrobac ias para o cinema. Um revólver não adianta nada numa distância dessas. O diretor o encarou espantado. Estava cansado de tudo aquilo. levantou a mão bem alto. mas não disse que iria fazer isso. quando Nevada tocou em seu ombro. — Grande! Bárbaro! Um dos maiores shots já filmados! — Sim. mas ninguém poderá acertá-lo. Nevada aceitou um e o diretor riscou um fósforo. no momento em que começou a rolar no vácu o. com a cabeça tor cida de uma maneira estranha. Nevada soltou as rédeas levando-o para o lugar do salto. — Você deve ter ficado sabendo que nenhum dos homens de Hollywood quis saltar nessas condições. Nevada voltou e devolveu a arma ao diretor. Foi. portanto. O animal encolheu-se todo. Nevada pegou a arma. à superfície. Devia ser o cavalo. terá de pagar quinhentos dólares — disse. Entrou na água de cabeça e deixou que o impulso o levasse até o fundo. O cavalo pulou com as patas estendidas. Nevada o olhou por um instante. — Se quiser que eu pule com um cavalo daquela altura. forçado a subir. A arma desviou-se um pouco para a esquerda. Noventa dólares não che-gam? Está bem. Voltou os olhos e viu o cavalo boiando de lado. afinal. — Estamos prontos! — gritou o diretor. abriu o tambor e viu que estava carregada com cápsulas de fes tim. com voz fria. Fica pelos quinhentos — disse o diretor. — Escute aqui. preparado para uma queda pequena. Nevada montou no cavalo. Ninguém aí tem um revólv er? — Claro. A profundidade era suficiente. tomado de pânico. Estaremos prontos no momento em que você chegar.im evitaria o choque com o barranco. — Tenho câmaras cobrindo todos os ângulos. — Aquele cavalo já terá morrido afogado quando o rifle chegar aqui. O diretor já se voltava para o homem da câmara. — O senhor está enganado. Conversa muita. O diretor olhou para ele com curiosidade. Nevada subiu. of egante. . O cavalo saiu em dis parada. Reagia prontamente e não mostrava um pingo de medo. aproximou-se do cavalo e lhe ofereceu um torrão de açúcar. Nevada não respondeu. De repente. e voltou-se para o operador. — Vocês.

— Vamos até a Warner. — Como é mesmo seu nome? — Smith. você tem vinte e nove anos — disse Von Elster. Esse cara foi pego no quarto de uma mulher elegante.Um homem apareceu correndo. mas Dan Pierce gritou com autoridade: — Cale a boca! Sou seu agente e é bom que não se esqueça disso! Von Elster. Nevada? — perguntou. depois mil por semana e aumentos correspondentes de sei s em seis meses. Pierce. — Agora ven ham os dois comigo até o escritório. — Vamos. — Setecentos e cinqüenta — disse Von Elster. mesmo que fosse apenas no cinema. para serem assinados. — Foi condenado por quê? Homicídio? — Não. diretor — disse Max. Nevada — disse Pierce. — Esse aí é Nevada Smith. sr.. — Isso é verdade — disse o delegado. gritou do chão: — Nada disso. — Acabei de deixá-lo agora mesmo lá. mas a pressão de Pierce em seu braço o fez calar-se. — Ele é ruim de verdade. Estendeu a mão para cu mprimentá-lo. — Quinhentos por semana — disse Von Elster. — Que idade você tem. ofegante. Para começar. Von Elster se interpôs. Von Elster — disse. 9 — Meu Deus! — exclamou o diretor da penitenciária quando Max foi levado a seu gabinete . — Desculpe. — Estava nu como o pesc . em uma escandalizada surpresa. Von Elster — disse Dan Pierce antes de Nevada poder falar. — Aqui está ele. daqui a uma hora toda Hollywood saberá da proeza de Nevada. amigo? — Trinta anos. segurando o braço de Smith. a quem estendeu a mão. mas deu-lhe um puxão. Apertou a mão de Pierce e voltou-se para Nevada. Posso levá-lo agora mesmo para a Uni versal ou para a Warner. Pierce caiu. gargalhando impudica-mente. — Ele avançou para mim com uma faca e tive de me defe nder. O diretor deu um passo para o lado e mostrou Nevada. É o proprietário do Grande Rode Sudoeste e do show Oeste Selvagem. A raiva aumentou por dentro dele. — Só quero saber quanto o Buffalo Bill lhe pagou para você me passar para trás. com voz rouca. — Não é possível! — exclamou Dan Pierce. Smith. — Por que fez isso comigo. — Isso durante seis meses. diretor — disse o delegado mascador de fumo. Nevada tentou protestar. — Para efeito de publicidade. Qualquer delas o agarrará com as duas mãos. Eu estava sem roupa. Prazer em vê-lo. não um re-formatório! — Não deixe essa cara inocente enganá-lo. se soubessem que ele acab ara com uma insígnia de xerife. ganhará duzentos e cinqüenta dólares por semana. — Mas não é ele! — exclamou Pierce.. olhando para o agente. Quero que Norman saiba que encontramos afinal o xerife de Vila Pacífica! Nevada voltou o rosto para esconder seu sorriso. j ogando os papéis na mesa. — Que pensam que estão fazendo por lá? Isto é uma penitenciária. — Mas fui obrigado — insistiu Max. — Há muito que procuro um homem como você. Todos os estúdios estão à procura de alguém para fazer um pouco de concorrência a Tom Mix. Venda seu show e venha trabalhar con osco. — Nem um cent a mai s. Veja. Mas vou conseguir outro amanhã sem falta. alegando legítima d efesa. Von Elster! Ou mil por semana ou nada feito! Nevada abriu a boca para falar. — Não pude encon-trar o stuntman em c anto algum. uso ilegal de arma. Nevada Smith. — Isso não lhe dava o direito de matar um homem — censurou o diretor secamente. sorrindo. que ainda estava caído. sr. O diretor pegou os papéis. Nevada. Pensou então no que diriam os hom ens da penitenciária agrícola onde estivera há muitos a-nos. — Eu era o guarda-costas dessa senhora. — Então ainda não soube? Ele apareceu e nós acabamos de fazer a fil-magem. Conseguiu livrar-se da acusação de homicídio. Que veio fazer aqui? Nevada olhou para Pierce. — Fechado — disse Von Elster. Matou um home m lá em Nova Orleans.

O jogador levou a mão ao bolso interno do paletó. faça o trabalho que lhe manda-rem e não te rá aborrecimentos comigo.oço de um abutre. Max guardou o revólver no coldre. — A verdade é que o senhor não lhe deu muita oportunidade — murmurou Max. Com gado também. Perdeu o dinheiro. o condenaram? — O homem que ele matou era primo dos Darcy — explicou o delegado. — Ligeiro demais. depois de assinar os papéis e devolvê-los. apesar disso. e ele acabou sendo contagiado pela animação. Não posso mais jogar. — Um homem pode morrer fazendo coisas tolas desse tipo — disse Max calmamente.. Os dois saíram pelo corredor. quando viu o cano do revólver de Max. Sei lidar muito bem com cavalos. mas de confiança do diretor. A arma havia sido sacada tão depressa que ele nem teve tempo de perceber o movimento. diretor. rapaz. — Leve esse novato e dê-lhe dez chibatadas. enfiou sua cabeça pela porta. apontando para o revólver de Max. A voz do guarda era cordial e animadora. As ruas estavam c heias de pessoas que riam. — Às ordens. e deu no que deu. Eu lhe darei a primeira e você nem sentirá a s outras nove! Max havia chegado a Nova Orleans numa sexta-feira de Carnaval. mas posso perguntar o que pretende fazer agora? — Não sei ainda — disse Max. Empurrou a cadeira para trás e levantou. Vou buscar o cavalo na cocheira. . rapaz — disse o preto. O rosto do jogador se relaxou num sorriso. O jogador levantou-se. também um condenado. Isso de fato explicava tudo. — Isto é. A surpresa estampou-se no rosto de Max. Seis horas depois jogou nos dados. menos a roupa do corpo. você ainda teve muita sorte — disse o diretor. — Procurar um emprego. — Um pouco. senhores. escute. chega. que. — Não há nada pessoal nisso — apressou-se em dizer o diretor. — A sorte não foi muito sua amiga esta noite. diretor. — Que espécie de emprego? — Qualquer um. tudo. — Acho que tenho um emprego para você — voltou a falar o jogador. se não estou enganado. E eu sou ligeiro. se não se import ar em trabalhar para uma mulher. o cavalo . Como foi que se meteu nisso? — Eu havia saído do Exército e precisava de um emprego. Sou um homem justo. — Também é bom com isso? — perguntou o jogador. — Como foi que. — Pois você é muito moço para já estar servindo de guarda-costas de uma daquelas donas ele gantes de Nova Orleans. Gostou da ci -dade. — Para mim. — Você é bom mesmo — retrucou respeitosamente. mas não tenho muita paciência com insubordinados. e resolveu passar ali um dia ou dois antes de continuar sua viagem para o Texas. Levante todo dia de manhã. Um dos jogadores olhou para ele e perguntou em seu macio sotaque sulista: — Desculpe. Mas seu gesto se paralisou de repe nte. Os Darcy eram gente muito importante em Nova Orlean s. talvez. diretor. — Não se preocupe com as chibatadas. — Entendido. à procura de diversão. rindo. — Parece então que foi mesmo um caso de legítima defesa — disse o diretor. Guardou o cavalo numa cocheira. Qualquer coisa. O diretor chegou à porta do gabinete e gritou: — Mike! Um gigantesco guarda negro.. E ela precisava de al guém que fosse ligeiro no gatilho. — Vamos. hospedou-se num pequeno hotel e foi para o Bairr o Latino. Você sempre se lembrará das chibatadas quando pensar em fazer o que não deve. — Trata-se de uma simples me dida de precaução. Agora. — Neste caso. per-guntou a Max: — Que idade tem você? — Uns dezenove.

Ganhará cem dólares por mês. — Sim. e jovem. Deve usar bem as roupas. três pretos e três claros. Nossa casa goza da melhor reputação em todo o sul.— Trabalho é trabalho — disse Max. — Acabo de chegar da Flórida a cavalo. Terá de viver aqui conosco. — Tudo fechado. gostaria que me fizesse o favor de levá-lo até o alfaiate. Foi até a porta da rua. e a fechou logo depois que eles passaram.. permita-me apresentar-lhe Max Sand. — E esse o homem? — perguntou uma voz macia. Lá embaixo. — Não se pode ficar escolhendo. arcy já saiu? . senhora — disse Max. não poderá ter relações de espécie alguma com as jovens que aqui residem. Quando ia saindo com ele. Nunca vira nada parecido com aquilo. — Ótimo — disse Max. — Senhora — disse Max. Já estava indo na direção da escadaria. — Faça o favor de me chamar de srta. chegava quase na cintura e parecia branco de tão louro. os caixilhos. Ela também. Mas o cabelo é que era o mais surpreendente de tudo. já que você o recomendou. dos quai descontarei vinte de cama e mesa. Max parou na porta e olhou para a jovem. As paredes forradas de sed a. — Mas garanto que é muito capaz — disse o jogador. jovem? — Não. O meu negócio aqui é muito grande. Ela levantou a mão para interrompê-lo. naturalmente. Pluvier sorriu e voltou-se para o jogador: — Agora. — murmurou. Quadris estreitos. Tenham a bondade de me acompanhar. como se Max nada houvesse falado. fazendo uma reverência. — A senhorita Pluvier vai recebê-los agora. senhora. de repente. Acho que assim tudo ficará em ordem. Max e o jogador estavam sentados na sala de visitas da casa mai s elegante de Nova Orleans. Mas pa ece um pouco sujo. muito jovem. Max deu dois pa ssos e parou de repente boquiaberto. Jacob? — perguntou ao porteiro preto. Às vezes essas pessoas chegam a extremos no seu desejo e nos criam dif iculdades. Os dois a seguiram por uma comprida e graciosa escadaria. — Vou tratar disso agora mesmo. — Compreendo. No dia seguinte. senhora — respondeu Max. Max voltou-se na direção da voz. Sejam quais forem as circunstâncias. Pluvier — replicou ela friamente. A srta. — O meu horário será o seu. As arrumadeiras já estavam trabalhando nas s alas do andar térreo.. Caminhou até a penteadeira e perguntou: — Sabe o que terá de fazer. — Vai ser meu guarda-costas. senhora. a aparência é boa — continuou ela. — Fechado e vigiado. Acho que serve. Ela se aproximou e andou em volta dele. com cara de estúpido. Comprido. — É veterano da recente guerra com a Es panha. analisando-o de todos os ângulos. há muitos invejosos. vol-tou os olhos para ele. T ornou a andar em volta dele. — Tenho certeza de que suas qualificações são satisfatórias. os móveis. quase tanto quanto ele. sentada à pente adeira. Tudo era branco. — Apesar de tudo. E claro que também fornecemos outras diversões di scretas. Peça para fazer seis ternos. A jovem examinou Max por um instante: — Olá. e. — Parece moço demais. Uma empregada negra apareceu e fez uma reverência. escovando o cabelo. Já passava das três horas da madrugada. Até o grande tapete do chão era branco. Sand. Meus amigos me aconselharam a cercar-me de alguma proteção. — Obrigado. — Ombros largos. mas voltou e perguntou: — O sr. O jogador disse. fez uma reverência. temos divers as salas de jogo para cavalheiros. o dossel de seda cintilante q ue se estendia acima da cama. empregada abriu uma po rta. quando Max chegou ao salão após a inspeção pelas sal as de jogo que fazia todas as noites. sr. em tom respeitoso: — Senhorita Pluvier. senhora. A mulher surpreendeu-o ainda mais que o quarto: bas tante alta. as cortinas das janelas.

enquanto recuava para a cadeira onde estavam suas roupas e o revólver. Bateu numa porta e entrou. com ar de estúpido. Max subiu a escada. O sr. Max voltou a cabeça. — Para vocês rirem mais um pouco de mim? Não! Desta vez. O ra paz estava empenhado em querer dormir com a dona da casa. e levantou a mão. Sua patroa estava sentada à p enteadeira. Sorrindo. Com os olhos entreabertos podia ver a sensualidade que se es-tampava no rosto dela. Meteu a mão no bolso e uma porção de notas se espalharam pelo chão. — Riam de mim o tempo todo. eu os instalei no quarto de ouro. Já aconteceu muitas vezes. Como podia uma mulher saber tanto? De que profundas nascentes poderia brota r tamanha fonte de prazer? Prendeu a respiração. Avançou para ele autoritariamente. Não me agrada a maneira como ele vem agindo. — Mas eu quero você. "Mon coeur. senhor. chéri? — Com Darcy. As palavras sussurrantes dela chegavam-lhe aos ouvidos. Uma expressão de êxtase e temor invadiu o ro sto da mulher e ele fechou os olhos. Sentiu os lábios macios roçando sua pele. reacendendo-lhe os desejos. Daqui a pouco ele vai parar com isso. E fechou os olhos. srta. Pouco depois. encarando-a. Era quase insuportável aquele estranh o prazer. seus olhos se deliciando com a maravilha daquele lindo corpo. Acontece com todos os jovens. no outro lado da casa. Houve um leve barulho na porta. Acho que deveríamos proibir sua en-trada. — Isso não é possível. mon indien. Chegou ao alto da escada. Ela se levantou. A família dele é muito importante. — Você! Enquanto eu pedia e implorava. Ela notou sua aflição pelo espe lho e mandou a empregada sair do quarto. seu idiota! Darcy ficou olhando para ela. sem a menor consciência de sua nudez. quem vai rir sou eu! Atacou de novo com o punhal. sem saber o que podia ser. era você quem ficava com ela! Vocês devem ter se divertido às minhas custas todo esse tempo! Disse isso e apanhou um punhal. Pluvier disse? Foi só então que Darcy o viu e seu rosto se encheu instantaneamente de cólera. — Veja! Trouxe mil dólares para você — murmurou com voz de bêbado. Os olhos de Darcy estavam vitrificados de raiva. um pouco aturdido. Avançou para Max. Darcy fora seu único problema naqueles últimos meses. Pluvier — disse ele. — Está tudo fechado. — Está preocupado com alguma coisa. com os olhos esgazeados. Max achou que era hora de intervir e exclamou: — Não ouviu o que a srta. De repente. Ma x pegou um travesseiro e o conservou à sua frente. Ouviu os sons suaves do prazer q ue ela sentia. Max estendeu a mão e lhe afagou o cabelo. que saiu prontamente da cama um instante antes de a lâmina cravar-se na colcha de cetim. já disse! Darcy continuou parado. a porta se escancarou e o jovem Darcy entrou no quarto. Sentiu os dedos da jovem desl izando suavemente pelo seu corpo. apontando para a porta: — Saia. — Meu jovem indien está com ciúme. Sentiu o tremor subir-lhe bem no fundo da a lma. Não se preocupe. Mas este ficou preso no travesseiro e Darcy caiu so . E naquela noite fora p articularmente desagradável quanto a is-so. A mulher imediatamente se afastou de Max e gritou dos pés da cama: — Saia já daqui. — Bon — murmurou ela. Max estava deitado ao lado dela na grande cama branca.— Não. mon chéri". A mulher saiu da cama. Toda vez que iam para a cama faziam troça de mim! — E melhor sair daqui antes que você se machuque — disse Max. Não se preocupe com ele. Max ficou ali olhando-a com a fisionomia perturbada. Eleanor. diferente de tudo que havia conhecido. que trazia na cintura. — E Darcy? — Está no quarto de ouro com Eleanor. — Sua arma se transformou num canhão — brincou ela. enquanto seus dedos continuavam a acariciá-lo. passou os braços pelo pescoço dele e o bei-jou. Uma empregada escovava seu cabelo. Então ele afastou um pouco os lábios. Vai passar a noite com a srta.

. Estavam todos formados em fila diante da cozinha. é um grande idiota. — Não era preciso matá-lo. O revólver disparou e uma expressão d e surpresa e dor apareceu no rosto de Darcy. que deixavam cair suas folhas dentro da água morta. recebendo a ração da manhã. e ficou olhando até o guar da desaparecer na estrada. Os demais prisioneiros ficaram obser-vando em silêncio. Espere só. — Não está nas cabanas? — perguntou o guarda. Max viu a arrebatadora sensualidade que se reacendera na expressão da jovem. para que to dos pudessem assistir ao castigo antes de comer. Nunca fora tão bela quanto naquele momento. apenas dois casos desses es tavam registrados. meu valente. — Então fugiu. 10 A leste. vou dar parte ao diretor. A casa toda estava em silêncio. Os guardas arrumaram os prisioneiros em volta. na hora em que estava de novo tomando a ração matinal. Já havia se passado algum tempo desde que Max chegara ali. Anne-L ouise Pluvier entregou-o calmamente à polícia. Ficou esten dido no chão. numa manhã de maiô. Sentou para comer. Vinha sentado num carro. deix ou cair a mão. Mike. — Que queria que eu fizesse? — perguntou ele. Porém. Deve ter pulado o muro à noite. enquanto caía de joelhos. e Max sentiu seus lábios nas coxas. E se amaram pela última vez. através dos arrozais dos lavradores cajuns. o ajudante que revistava as cabanas disse a um dos guardas que um prisio-neiro chamado Jim Reeves estava ausente. — Nem lá nem nas latrinas. — Ven ha! Ele fez menção de apanhá-la. com certeza. Os seios dançavam com a exaltação que a dominava e havia um leve s uor no vale que os separava. Quando voltaram do trabalho naquela tarde. para carregá-la até a cama. a oeste e ao sul a prisão fazia fronteira com um pântano junto do qual se e rguiam os ciprestes. que os levavam de volta à prisão para rece-berem a gratificação de dez dólares por cabeça paga pelo Estado. — Não. ao lado do morro Na manha seguinte. quando. — Que queria que se fizesse? O homem será pego. — Não se zangue com Anne-Louise. Mas ela se-gurou-lhe os braços e o puxou para o chão. imóvel. o enorme presidiário preto que servia como ajudan te e lhe dera as dez chibatadas no dia da chegada. Tinha razão. meu garanhão selvagem — sussurrou ela. No dia seguinte. c ompletamente despido. que foi empurrado de encontro à parede. Já verifiquei. a seu lado. J im Reeves voltou. Ela s e ajoelhou diante dele. O único mei o de sair de lá era pelo lado norte. ali no chão. ajoelhou-se ao lado de Darcy e. encostado à parede de uma das cabanas. O diretor esperou que todos os homens estivessem a postos para começar a falar. nua. entre dois cajuns armados com espinga rdas compridas. Depois foi até a porta espiar o corred or. depois de tomar-lhe o pulso. quando M ax viu um dos guardas sair da prisão e tomar o caminho da aldeia. Hav ia uma pequena aldeia cerca de trinta quilômetros ao norte da prisão. O travesseiro havia abafado o tiro. — O homem avançou com o punhal para me mat ar! — Devia tê-lo feito perder os sentidos apenas. e era ali que a maior parte dos detentos que procuravam fugir eram agarrados pelos cajuns. sentou ao lado dele. A mulher f echou a porta silenciosamente e voltou para onde estava Max. Aqui mesmo. Jim Reeves foi amarrado a um poste. — E com que ia bater nele? Com meu canhão? Ela ficou imóvel um momento olhando para ele. A mulher. Bem. — Esse Jim Reeves. — E só isso que fazem quando algum preso foge? — perguntou Max.bre Max. idiota! Max olhou para ela. nos vinte anos de existência da prisão. Presumia-se que os que não tivessem sido captu-rados houvessem morrid o no pântano.

fumando. — Não está com fome? — perguntou Mike. — Estudei um bom meio — disse Reeves. A solitária era um cubículo de aço quadrado. A verdade é que ninguém conseguiu fugir ainda. enrolou um cigarro e o acend eu. — Também estou falando sério. — Mas só dará resultado se forem dois homens.— Todos sabem qual é a pena para uma tentativa de fuga: dez chibatadas e quinze dias de solitária por dia de ausência. — Disse isso. Durante trinta dias. que não gosto de machucar os outros. E posso muito bem ser eu. No fim. Mike chegou perto dele. a continuação das chibatadas. Max ao vêlo perdeu a vontade de comer. dos ombros às coxas. — Quero sair daqui! — Isso todos nós queremos — disse Max. Max sentiu-se um pouco melhor depois de ouvir isso. Morreu daí a dois dias. todo encurvado e com os olhos ferozes de um animal. Quando empunha aquele chicote. Os músculos de su as costas se retesaram e a língua comprida do chi-cote se enroscou levemente em to rno do corpo do detento. índio. — Há anos. você está ajustando contas com o mundo. Jim Reeves ficou pendurado no poste. Sei que há muita coisa errada no que faço. e ninguém poderia falar com ele ou dar-lhe qualquer ajuda. Mesmo sujeitos c omo Jim Reeves. com pouco mais de metro e meio de cada l ado. — Desamarrem-no e levem-no para a solitária — ordenou o diretor. No instante seguinte. Se você olhas se bem. sob pena de rece ber igual castigo. mas alguém tem de dar as chicotada s. virou-se para Mike e acrescentou: — Não q uero que ele perca os sentidos. Mike aceitou e enrolou um cigarro. determinando. A punição continuou em ritmo cadenciado. O espaço só dava para ficar agachado ou com o corpo apoiado n os pés e nas mãos como um animal. Sem nada dizer. vi um homem levar uma surra dessas. Max virou o prato. nem para ficar de pé. Não havia espaço nem para caminhar. veria que não há uma só marca de chicote na frente de Jim Reeves. Quando o tiraram do poste. Jim Reeves entrou na cabana. Sentou no chão e começou a comer devagar. Saíra da solitária havia um mês. Ele desmaiou três vezes antes do término daquele suplício. pausadamente. — Sou capaz de comer a sua parte também. Naquele momento a-proximo u-se. inconsciente. o direto r mandava jogar um balde de água em cima dele para reanimá-lo. O sangue corria pelas costas. logo que vim para cá. jogando no chão o resto da comida. Quero que fique consciente para deplorar a insen satez do que fez. os homens começaram a se espalhar e fizeram fila para receber a comida. E já faço isso há mais de doze anos. Não havia a menor proteção do sol ou da chuva. Ofereceu ao preto. uma comprida fita de sangue borbulhou e sur giu à flor da pele. Em silêncio. Ficaria ali com suas dores. Quando isso acontecia. — É essa a sua idéia? — disse o negro. Quase parecia havê-lo acariciado delicadamente. nem uma sobr e outra. mas quand o Mike puxou o instrumento de volta. Jim Reeves ali ficaria como um animal — sem roupas. Estou falando sério. O rosto do enorme negro estava banhado de suor. — Não brinque comigo. — Você não sabe de nada — retrucou o preto. vivendo a pão e água. Ainda em silêncio. Sem dizer uma só palavra. em vez de ir embora des te inferno. então. Largou o prato no chão. — Sim. — Agora. da cama de Max e bateu em seu ombro. ele es-tava todo abe rto em feridas nas costas e na frente. Max sentou-se na cama. tiro u a bolsa com fumo e papéis de cigarro do bolso. é isso o que penso. sem cuida dos médicos. — Por que fez isso? — Mike ficou surpreso. nem mesmo para estender inteiramente o corpo. Max apanhou o prato de carne e feijão e o levou para um lado da cabana de onde não e ra possível ver a solitária. com uma crosta de sujeir a. Ninguém ainda morreu desde que sou eu quem dá as chicotadas. na escuridão. os dois se recostaram na parede da cabana e ali ficaram. Foi po r isso que vim procurar você. já sei por que você serve aqui de ajudante de guarda. Mike assentiu com a cabeça e avançou para o homem amarrado ao poste. sem se alterar. J im Reeves urrava toda vez que o chicote lhe arrancava finas tiras de carne. o presidiário gritou. . no meio dos seus excrem entos.

uma verdadeira esta fa depois de colher arroz durante todo o dia. E há sem-pre botes por lá. Quer perder ainda dois anos de sua vida aqui dentro? T em tanto tempo assim para jogar fora? — Vou pensar nisso e depois falo com você. favas e batatas. não faça isso. O diretor costuma ceder-nos aos do nos dos arrozais e receber o dinheiro que pagam pelo nosso trabalho. carne de porco. Começou a passar pedaços de pão no molho que ficara no prato. Reeves o lhou para ele e falou. Mas ele não tinha fome. que doía não só por causa dos ferros mas também por ter andado dentro da água o dia inteiro. jacarés e co-bras. Os arrozais ficam dentro da água. Calculei então qu e em breve falaria com você. trabalhando lado a lado com os homens de cabelo solto. Dali a dois anos. Reeves. Nem puseram os cachorros atrás de mim. — Sempre há uma pequena pouco certa do juízo à procura de algum negro com um membro do t . com o rosto sombrio. rapaz. O tempo da colheita de arroz vem aí. Pouco lhes importava que os homens que ali estavam fossem prisioneiros. — Já escolheu alguma? — perguntou Reeves a Mike. Ficou de olhos abertos na escuridão. e foi diretamente à cama de Max. — Pois eu não estou — disse o prisioneiro ao lado de Reeves. isto é comida de verdade! — disse Mike. Reeves pouco se importa com as conseqüências para os o utros. — Estou muito cansado — disse Max. O cheiro de mulher entrava pelas narinas de les. O único meio de f ugir é pelo norte. jovens e fortes. — Já falou sobre isso com quase todo mundo e foi repelido por todos. Mike não respondeu. Por um mês inteiro. só uma coisa fazia sentido. — Ninguém pode atravessar o pântano.. — É melhor aproveitar. Achava que jamais conse-guiria ven cer aquele cansaço. com a bo-ca cheia de comida: — Já pegou alguma pequena? Max assentiu com a cabeça. 11 — Homem. — Não há nada neste mundo igual a uma pequena ca jun.. Tudo foi fácil. a impossibilidade de passar dois anos ali dentro. em dúvida. Tinha era cansaço.. sentando ao lado de Max. rapaz. Max tornou a deitar. — Economizei forças o ano int eiro para esta semana. Mike não respondeu. — Como é? Veio convidar você para fugir com ele pelo pântano? — Como sabe? — perguntou Max. pensando. com saias c urtas e pernas e coxas musculosas.— Mas por que a mim? Por que não procura um dos homens condenados a sentenças longas? — Porque quase todos eles são homens da cidade e não durariam dois dias no pântano. índio — disse Reeves. Assim que Reeves saiu da cabana. Era m ho-mens. De tudo o que Reeves dissera. cheio de surpresa. e em abundância. Não havia necessidade. não viam carne como a que ti-nham no p rato naquele momento. Por melhor que o pl ano possa parecer. Max o olhou com enfado. Vou me fartar o bastante para agüentar até o ano que vem. Começou a comer sem muita vontade. Mas não caia nessa asnei-ra. Mostrando às pequenas o que tem dentro das calças. — Um bote! — exclamou Max. Mas Reeves estava insistente. Havia de sobra moças cajuns. — Passeando de um lado para outr o com o rifle na mão. Sem dúvida. — Agora tenho mesmo certeza de que você é maluco — replicou Max. espalhadas pelos arrozais. — Eu também pensei assim. tripas. — Vi você no campo — disse Reeves. com um brilho frio de ódio nos olhos. entusiasmado diante de um prato cheio de toucinho. pular o muro e pegar a estrada. — Não tem o que saber.. Mike entrou. São sessenta quilômetros de areias movediças. Max teria vinte e um anos. Reeves e outro prisioneiro sentaram diante dele. Continuou calmamente a comer. Tem de ser pelos pântanos. — E onde é que vamos arranjar um bote? — Vou dizer. Todos os malditos cajuns saíram à minh a procura. Com um bote. — Não sei. o que ele quer é sair daqui. pelo lado da aldeia. do outro lado da mesa. — murmurou Max. — Disse a verdade — exclamou com entusiasmo o outro prisioneiro. era muito mel hor que a comida da prisão. Largou o prato e esfregou o tor-nozelo.

curvou-se por cima de Max. Passou cerca de meia hora. Acendeu-o e aspirou profundamente a fumaça. A luz da vela bruxuleou e se apagou. Pela primeira vez. antes de sair daqui . Quase imediatamente. Quase com displicência. Passei dia todo pensando nesta noite. da cama vizinha. sentindo o doce e forte calor do colchão invadir seu corpo. Agarrou Reeves pela garganta e o suspendeu no ar. De repente. Max ouviu alguém riscar um fósforo. — Estava falando mesmo comigo. Suas mãos se tocaram de leve. Enrolou um cigarro. deu uma gargalhada e saiu. Max ouviu alguém dizer: — Ao menos desta vez poderemos ver a cara delas. qu e brilhava à cabeceira de sua cama. Mike olhou para ele. Houve risos contidos aqui e ali. — Estão tão ansiosas por isso quanto nós. Max estava fumando. — Pouco me interessa a cara — disse outro. empolgado por ansioso desejo. rapaz — disse ele em voz baixa e tranqüilizadora. rapaz? — perguntou Mike. Por um instante se contraiu. — Elas entrarão a qualq uer momento. — Quero é uma de peitos bem grandes. ainda mato esse negro! Havia um ar de expectativa no barracão naquela noite. — Vão aparecer. deixando o b arracão às escuras. a cerca de dois metros de dis-tância. em silêncio. — Não são mais que um punhado de fêmeas depravadas. — Não se preocupe. O cigarro brilhou fracamente no rosto de Mike enquan to ele aspirava a fumaça. E aposto que você está louco para enfiá-lo em alguma branca. agora que a vela apagou..amanho de meu braço. — Não virão mais — disse alguém. nada mais se ouviu senão o barulho dos prisioneiros. negro — disse Reeves. — Passe-me essa ponta de cigarro que eu quero puxar uma fumaça. Max sentia o suor banhar-lhe a fronte e o coração bater com força. Voltou a cabeça para onde uma leve claridade brilhava no meio da escuridão. Reeves bateu na parede e escorregou até o chão. que se a gitavam inquietos nas camas. com voz rouca: — Sua pica já deve ter esquecido o que se deve fazer. Reeves se levantou logo que o guarda saiu. irado. — Não agüento mais. O que esses idiotas não compreendem é que as m . — Bem. — Vejo que está aprendendo — disse Mike. Por mim poderiam ir para o inferno! — vociferou outro. com os olhos fitos em Mike. — E se elas não aparecerem? — perguntou alguém ansiosamente. — Como está indo. — Estava gostoso de verdade! — E com você que estou falando. Os risos foram gerais. — Aiii! — gemeu alguém. Se quiser continuar a ter tanta saúde. Depoi s. aprenda a calar o bico. Juro que foi a melhor que já prov ei aqui. Seus dedos estavam trêmulos. O guarda havia verificado os ferros que prendiam cada homem aos pés da cama. em meter nas mulheres brancas. Reeves bateu os braços desordenadamente no ar. chegando à porta. rato de prisão? Reeves estremeceu. sim — disse outro. Mike engoliu o último pedaço de pão. m as fez força e tornou a ficar de barriga para cima. — Palavra de honra que. Durante algum tempo. É só nisso que vocês negros pensam. Max ouvia os movimentos nervos os dos homens se agitando nas camas. com uma voz de quem estava pres-tes a chorar.. Olhou com decepção para o prato vazio e levantou. no outro extremo do barracão. Pegou o costume de se servir d e sua mãozinha branca. com a voz sufocada na garganta. rato de prisão — disse Mike. deixara de estar cansado ou de ter vontade de dormir. que em seguida pegou o prato vazio e acrescen tou: — Vou ver se arranjo um pouco mais de comida. angustiado. — Vou matar esse negro! — exclamou. Seu rosto já estava começando a ficar r oxo. Sen tiu-se contagiado pela an-siedade geral. Virou-se de barriga para baixo. E outro ainda. — Lembre-se apenas de uma coisa. Max se estendeu na cama. Moveu os lábios. — Eu sou um guarda e você é um prisioneiro. mas nenhum som saiu deles. Um dos homens acendera uma vela. Mike o sacudiu mais duas ou três vezes e o jogou de encontro à parede.

Naquela noite. A mulher pegou sua mão e a levou a seu rosto. — Tem certeza de que ela não está enganando você? — Claro que tenho. Vai ficar naquele bosquezinho de ciprestes a o sul da prisão um dia depois de nós vol-tarmos. — Mas talvez a gente consiga fugir. — Quero. você vai ver. E essa a regra. Max olhou espantado para ele. Max ficou observando-o. — Por favor. Está tudo combinado. — Quer que eu fique com você? — perguntou ela. sentiu que as lágrimas lhe rolav am pelas faces e compreendeu que ela também ouvira. Reeves chegou perto dele. — O quê? — Fale mais baixo. Já ar-ranjei um bote. Max. Como Mike podia saber o que ele ainda não sabia? . Quando u m homem foge sozinho sempre vai pela estrada. você será sempre meu amigo. confuso. mas tive de esperar um momento em que aquele maldito negro não estivesse por perto. o pântano resolverá. Dois sempre vão pelo pântano. Como se viesse de uma grande distância. — Você vai fugir. Está tudo certo. na hora da comida. minha querida esposa. — Já sabia disso? — Não há segredos num lugar como este. — Você vai fugir com Reeves agora que ele tem o bote? — perguntou Mike. Max virou o rosto para a mulher. Posso ser ajudante de guarda. — Obrigado. Colocou a mão no ombro do preto e disse com sincerida de: — Aconteça o que acontecer. — Não conseguirão — disse Mike. Como poderia dizer àquela mulher. Max continuou a fumar em silêncio. Max virou-se na cama. O es conderijo que ela vai arranjar é perfeito. muito obrigado. Nem sabe a falta que tenho sentido de você. agradecido. tristemente. Já pôs isso na cabeça — disse Mike. esperando poder ver alguma coisa da que iria para ele. — Trinta dias de solitária são muito mais compridos que o ano e meio que lhe falta. não fuja. só se ouviu o barulho das bocas mastigando e das colheres batendo nos pratos. Se os cachorros não resolverem o caso. Max acariciou aquele rosto macio e quente. o que estava sentindo? Como poderia dizer que ela trouxera gentileza e amor para ele? — Obrigado — ele sussurrou. Por um momento. levantando e afastando-se devagar . a porta do barracão se abriu e as mulheres foram entrando em s ilêncio. até mesmo o rumor de seus passos era quase im-perceptível. Ficaremos lá até desistirem das buscas. Um instante depois. — Você é jovem ou velho? —: perguntou uma voz sussurrante. ouviu um homem dizer baixinho: — Querida. Durante muito temp o. Fechou os olhos. Mike sentou ao lado de Max. — A primeira coisa que o diretor faz é soltar o s cachorros. Quero ser seu amigo. — Estava querendo falar com você — disse —. — Não me obrigue a fazer nada contra você. rapaz — disse Mike. Quando a beijou. O diretor vai saber de tudo por sua conta. — Como sabe? — Arranjei com minha pequena. Sentiu os lábios dela tremerem debaixo de seus dedos. O bote estará lá. — Escute. Ela subiu rapidamente para a cama e Max enterrou a cabeça no macio seio da mulher. Prometi que a leva ria para Nova Orleans se ela me ajudasse a fugir. de repente. — Jovem. Essas pequenas cajuns são todas a mesma oisa. Mas não podia ver senão sombras deslizando e se perdendo na escuridão. mas sou prisi oneiro como vocês e não alcagüete. — Você não vai dizer ao diretor. rapaz — disse o negro. — Como sabe que fugiremos pelo pântano? — perguntou Max. Um intenso calor inundou suas entranhas. va i? — Você nem devia dizer uma coisa dessas. — Não sei ainda se vou. que nem podia ver. Max olhou para ele e sorriu.ulheres não querem vê-los do mesmo modo que não querem ser vistas. No quarto dia de trabalho nos arrozais. Uma mão lhe tocou o rosto e ele teve um sobressalto.

. Até que começou a praguejar. que continuava a comer tranqüilo o peixe. levantando. — Talvez seja isso. Podemos andar mais uns dois quilômetros . Andou por ali colhendo gravetos até juntar o suficiente para fazer uma pequena fog ueira. Reeves estendeu-se no chão. Que adianta ter andado tanto para depois voltar e ficar preso na solitária? Vamos! Já descansamos bastante. Meteu a mão no bolso e tentou riscar um fósforo. Não conseguiu. Não olhou para trás. mergulhado até os joelhos na água escura e estagnada do pântano. depois de pular o muro e correr como um louco até o bo sque de ciprestes com Reeves. só engolindo um pouco de cada v ez. — Como sabe que não estamos andando em círculo? — perguntou a Max. Não posso comer peixe cru. — Você podia fazer um fogo — disse Reeves. sacudiu a cabeça. — Se estivéssemos andando em círculo. — Não podemos passar a noite aqui? — Nada disso. — Sente-se a léguas de distância o cheiro de um fogo. mas ele mastigava cada pedaço demoradamente. — Vamos comer este assado. com os lábios inchados: — Estão chegando mais perto. e esperou que o vulto chegasse mais perto. que já estava mastigando um pedaço de peixe. agiu com rapidez. lembrou-se do ódio feroz que havia no coração de Reeves e deixou de ter pena de le. Estava quase escuro quando encontraram outra eleva-ção de te rra. — Pouco me importa — disse Reeves com raiva. A carne era esponjosa e oleosa. — Estou para ficar maluco de tanto mosquito me picando. Estavam ofegantes e respiravam em grandes haustos. entrou na água. e murmurou desc onsolado: — Estão molhados. Prendeu a respiração. Ao longe. Ali ficou imóvel durante quase quinze minutos até ver uma sombra indistinta passando no fundo da água. — Você pode fazer isso. Max. O rosto de Reeves estava todo infla-mado e deforma do pelas picadas dos insetos. Por que é que você não se incomoda com os mosquitos? Talvez não gostem de s eu sangue índio. Talvez seja também porque eu não me coço. As roupas estavam em far-rapos. Reeves enxotou os insetos em torno da cabeça e disse. No mom ento exato. Reeves começou a procurar entre os ciprestes. Em seguida. Vamos! Dizendo isso. Vou deixar que me peguem. — Como? — Do jeito dos índios. — Não agüento mais — disse Reeves. mas eu não. mas um momento depois. voltando para junto de Reeves. andando dentro da água. — Não sou índio como você. ouviu Reeves fazendo a mesma coisa.Mas foi só na noite seguinte. Max olhou para ele e por um momento quase teve pena. 12 Seguiram por entre os caniços. que lhes chegava até a cintura. Vamos. Max olhou para o companheiro. Ele devia saber o que estava fazendo. — Três dias já se passaram e ainda não vimos nada. Agachou-se ao lado dele e começou a tirar o couro do peixe. — Acenda um fogo — disse Reeves. ouviam -se latidos de cachorros. — Sim? — disse Max. entrou na água. esfregando dois paus juntos. Ainda temos duas horas de luz. que compreendeu como Mike estava certo. — Aquela cadela! Aquela cajun mentirosa e ordinária! Não havia bote algum ali. — Pegamos um bem grande desta vez — disse. Alcançaram uma espécie de ilhota de terra mais firme no meio do pântano e pararam par a descansar. Max tirou a faca e cortou uma vara forte de caniço. já teríamos sido agarrados. Quando tirou a lança da água trazia espetado nela um grande bagre. D epois. — Escute aqui.

Depois de alguma hesitação. Estava ardendo em febre. mais forte dessa vez. Mas você não devia ter esperado. Foi então que Mike apareceu ao lado dele. Fosse o que fos se. Você oficialmente nem é mais prisioneiro. Não é tão ruim assim se você mastigar muito. O rosto de Reeves estava cheio de gotas de suor e el e começava a tre-mer. Tomou a melhor po si-ção para arremessar a lança. Reeves continuava a tremer convulsivamente debaixo do cobertor de relva do pântano e a gemer por entre os dentes que batiam. Mike sentou-se junto ao fogo e aqueceu as mãos. mas era a única arma de que dispun ha. Um barulho estranho foi registrado no subconsciente e ele a-cordou instantaneamente. — Você não pode fazer isso. a estas horas estaria bem longe daqui. — Está bem. Reeves ser atacado de malária naquela hora iria complicar muito as coisas. Com o pé. — Não posso comer isso! — exclamou. — Mas eu tinha de esperar. — Mas é diferente se pegarem você me ajudando. — Que quer dizer com isso? — Vá embora! — E o resto da patrulha? — Vão levar umas duas horas para chegar aqui. apon tando para o outro lado. Apontou para o homem doente. Cruzou os braços sobre o peito e disse tremendo um p ouco: — Como está ficando frio aqui! Max sabia que não era o frio. — Que mais eu podia fazer? — Ele no seu lugar não teria esperado. — Para onde vai. se sentiu tomado de cansaço. era grande. Se fosse ele. Suspirou distraidamente. Reeves se estendeu no chão e Max tocou seu rosto. — O diretor tinha razão. Não valia grande coisa. — Ele pegou a febre. rapaz. Reeves. então.— Não dará resultado — disse Max. tirou um fósforo de uma bolsa bem fechada de oleado e acendeu um fogo. Max tra tou de juntar mato para fazer de algum modo um cobertor. com os olhos voltados para o pântano. Vou cobri-lo com um pouco de mato para você não sentir frio. — Apague esse fogo. — Toda a madeira por aqui está muito úmida. . rapaz? Max parou e virou-se ao ouvir a voz de Mike. Depois murmu rou: — Não posso fazer uma coisa dessas. — Você é mais idiota do que eu pensava. cuspiu fora. — Fugimos juntos — disse Max calmamente — e é justo voltarmos juntos. com os olhos no chão. Mike então pegou Reeves como se fo sse uma criança e o botou no ombro. Tornou a ouvir o barulho. rindo. — Está certo — murmurou Mike. Max entrou no pântano e começou a an-dar na direção da prisão. Ouviu de novo o barulho. — O fim do pântano fica a coisa de quarenta quilômetros nesta direção — continuou Mike. Mike. com o rifle nos braços. A noite estava ch egando quase ao fim. Cochilou sentado. Calculou que Reeves cairia doente a o fim de três dias no pântano. — Deite-se. — Você é um tolo. rapaz — disse a Max. Reeves pegou o peixe. Max jogou o resto do fogo dentro da água. rapaz — disse Mike numa voz resignada. E ficarão satisfeitos quando pegarem Ree ves. e começou a mastigar. Tudo estava perdido e. balançando levemente o corpo. Ficou imaginando quanto tempo os g uardas levariam ainda para alcançá-los. Não sou mais prisioneiro. Coma um edaço do peixe. — Tem razão. — Talvez seja melhor você ir andando agora — disse o negro. — Devia ter juízo bastante para não acender fogo aqui. E isso quer dizer que posso ir para onde eu qui ser sem ter que dar satisfação a ninguém. Um momento depois. rapaz. Max olhou para o céu. Mike. — Esse fogo está gostoso. agachou-se ao lado de Max. Agarrou sua lança de pesca e agachou-se. Max levantou-se. Max ficou um instante indeciso.

Pouco depois. — Quanto devo? — Meio dólar pelo cabelo e vinte e cinco cents pela barba aparada. da cadeira onde estava sentado no quarto do hotel barato. — Isso está encerrado para nós — disse Reeves. A barba preta lhe escondia os ossos malares proeminente s. animado. entusiasticamente. O que eu sei é que não quero pegar no chicote para ba ter em você. A terra é ba rata e o Texas está crescendo. — O trem já deve estar chegando — disse Max — e nós podemos ir para a estação. Fundou um banco num canto do saloon e. Somos amigos mesmo. — Seguirão o nosso ras ro a cavalo muito mais depressa que a pé. o povo começou a se acostumar com o fato de Reeves ser o banqueiro da . fez reformas na casa e se mudou dos ap osentos que ocupava no andar de cima do sa¬loon. Em meno s de um ano. — Há uma cidade ali — disse. Max pagou com um dólar de prata e saiu. seremos pegos. começou a comprar terras. bem armados e com quase dezoi to dólares que haviam retirado da gaveta do caixa. pouco depois. Pode ser que estejam à nossa espera. Max se levantou da cadeira. viu um pouco de fumaça no hor izonte. deve haver um a rmazém. — Poderemos conseguir alguma comida que valha a pe na. e começou a andar a seu lado. — Não parei quando chegou a hora de parar. cento e quinze quilôme tros ao sul de Fort Worth. — Se é uma cidade. Deixavam para trás dois bancos roubados e dois mortos. — E o que vamos fazer? — perguntou Max. Já se falava até de sua eleição para pre feito. Nenhum deles fora identificado e haviam sido considerados desconhecidos . Max queria roubar três cavalos da cocheira. — Vamos procurar alguma coisa honesta. — Foi o erro que cometi da outra vez — disse Reeves. As oportunidades aqui são grandes. e então pensaremos em cavalos. estavam todos de roupa nova. 13 Max entrou em Fort Worth para esperar o trem que traria de Nova Orleans a filha de Jim Reeves. Um saloon e uma casa de jogo. encostad o à parede de uma casa. Nem pare-cia mais um índio. segurando-o pelo braço e o impedindo de levantar. transferiu o banco para um pequeno edifício na rua principal e deixou Max dirigindo o saloon. Quando saí-ram. Comprou um pequeno rancho fora da cidade. Max olhou para Mike e o negro assentiu com a cabeça. haviam chegado a Fort Worth com sete mil dólares nos alforje s das selas. Depois de mais quatro dias. Daí a menos de dois anos se transformara no mais importante homem do lugar. Ainda estava amarelo pelo acesso de febre que já havia passado. Vamos assaltá-lo esta noite. sabe disso. Vamos ficar longe da estrada durante uns dois ou três dias. rapaz? Oito dias depois saíram do pântano. — Parece uma boa cidade — disse Max. E assim ruma ram para o Texas. Não podemos facilitar. Max levantou a cabeça. Mas tinham tid o sorte. Ao vê-lo. Sentou-se na cadeira do barbeiro e mirou-se no espelho. rouba ram um banco numa cidadezinha e conseguiram mil e oitocentos dólares. — Contei dois bancos no caminh o até aqui. Três anos e meio antes. Reeves achou a ocupação honesta que procurava numa cidadezinha. Dois dias mais tarde haviam arranjado cavalos. procurando res pirar profundamente. Max perguntou: — Por quê? Parecem fáceis. Ao lon-ge. Atacaram o armazém às duas da mad rugada. — Vê-se logo que é um índio — disse Reeves sarcasticamente. Aquela ca ra não era mais de garoto. — Calma — disse Reeves.— Se nos pegarem. Estenderam-se no chão firme e seco. Mike saiu de onde estava.

asperamente. — Acha que é ela? — perguntou Mike. Ela ficou calada e imóvel. — Você sabe como ela é? — perguntou Mike. — Pap ai vive tão ocupado que há dez anos não aparece em casa. Estou tão confusa! — O que mais seu pai lhe disse? — Disse que eu não posso casar com você. A filha de Reeves foi atender e ele notou que ela estava com o rosto cansado e vermelho. — Há um quarto à sua disposição no Palace Hotel. — Eu de certo modo já esperava por isso — replicou ela. os passageiros foram saindo até que só ficou uma moça. Seu pai mandou-me vir esperá-la. Não só por isso. Mand ou fazer investigações discretas em Nova Orleans. — Vamos — disse ele. — Que história é essa? Isso são maneiras de entrar aqui? — interpelou-o. Soube que a mulher tinha morrido e que sua filha estava vivendo com a família da mãe. . Olhava de um lado para outro da plataforma. — Sou Max Sand. depois de um longo silêncio. e murmurou: — Não é preciso ter medo de mim! Ela escapuliu de suas mãos e repetiu: — Não toque em mim! Dessa vez. Precisava de mai s uma coisa apenas para completar sua máscara de respeitabilidade. é você! — disse ela em voz baixa. O banqueiro o olhou por trás de sua escrivaninha de tampa corrediça. o medo que havia na voz da moça era tão pronunciado que Max não poderia dei xar de perceber. Reeves? Um sorriso de alívio iluminou o rosto da jovem. cheio de curiosidade. Max compreendeu que ela não sabia que o pai tinha estado na prisão. friamente. avisando que a filha chegaria a Fort Worth no dia 5 de março. — murmurou ela. não sei. disse: — Não toque em mim! Max a encarou. Pouco a pouco. Pode arrum r-se e dormir lá esta noite.cidade. Max estava apaixo-nado pela prim eira vez na vida. e não mais o dono do saloon. e só começaremos a manhã. Max olhava da plataforma os passageiros que desembarcavam. — Claro que sim — respondeu ela. e faz dez anos que ele não a vê. — Só sei o que Jim me disse. — Já estava até pensando que papai não havia recebi o meu telegrama. você é me tem sangue de índio! — E só por isso você deixou de me amar? — Não sei. Subiu os degraus da var anda da casa e bateu na porta. Dirigiram-se para a moça e Max tirou seu chapéu Stetson. ontem à noite você me beijou e jurou que me amava. Betty? — perguntou ele. — Acha que tem importância? — Tem. Depois. — Ah... onde ficava o gabinete de Ree-ves. Foi diretamente para o banco na cidade e entrou na sala dos fundos. E não me pergunte mais nada. — Muito prazer em conhecê-lo — disse ela. Mandou um telegrama e recebeu ou tro em resposta. rodeada de várias maletas e uma mala. gentilmente. — Srta. — Entre.. E assim começou a enriquecer. Não mudei nada de ontem para hoje. A moça afastou-se e perguntou sem encará-lo: — Por que não me disse que era um homem fugido da prisão? — Isso faria alguma diferença. mas também porque você. Vinte minutos depois. A viagem para casa leva uns dois dias. — Agora já sabe — insistiu ele.. Max encolheu os om-bros. Max retribuiu o sorriso. afastando-se dele. tentando segurar-lhe a mão. deu-lhe as costas e saiu da casa. Max colocou as mãos em seus ombros e disse com voz rouca: — Betty. sim. como se houvesse chorado. Uma família. — Que foi que houve? — perguntou. — Eu nunca teria deixado as coisas chega rem a esse ponto se soubesse a verdade. Sem dizer mais nada. com uma ponta de tristeza. quando chegaram ao hotel. Max amarrou o cavalo em frente à casa do rancho de Reeves.

Max não se atrever ia a falar. antes de poder alcançá-lo. — E quanto você esperava? — Chegamos a Fort Worth com sete mil dólares. Deu um grito de terror ao sentir de novo o chicote rasgar-lhe a carne. Não esperou mais nada. . Reeves virou-se no chão e viu o braço de Mike levantar-se ao mesmo tempo que a longa cobra do chicote se de-senroscava. Mas só depois de você pagar a nossa parte. — Só há quinhentos dólares aqui. quando ouviu às suas costas alguém gritar-lhe qu e parasse. Reeves. A minha parte só nisso é de dois mil e tre zentos dólares e não estamos perdendo dinheiro na casa de jogos. Vou embora. Voltava para seu rancho. avançando cheio de precaução. Reeves estava com eles. — Não vou discutir com você — disse Reeves. Conseguiu levantar-se e levou a mão ao revólver. Já estava na rua a caminho do saloon. o xerife o atingiu com uma coronhada na cabeça. Pensei que fosse mais inteligente. explodindo finalmente e avançando para Reeve s. pois isso serviria apenas para piorar a situação. Foi exatamente nesse momento que Mike chegou à janela do quarto do saloon e viu o que estava acontecendo. Você deve a mim e a M ike. Você já me apron-tou uma boa com Betty . — Não disse? — Canalha. passamos por muita coisa j untos. filho da puta! — exclamou Max. Reeves virou a cadeira e tirou algumas notas do cofre às suas costas. Meteu a mão bolso de Max e tirou um punhado de notas. Voltou-se lentamente. — É só isso? — Para mim chega. Na noite passada ela havia prometido casar comigo. cinco mil dólares. é isso que vai re-ceber. — Vai levar o negro também? — Vou. Desceu pela escada dos fundos e desapareceu da cidade.— Não venha com lorotas para cima de mim. — Deve ser cúm plice nesse roubo. Mike viu o xerife olhar para o saloon e dirigir-se para o mesmo. — Esse homem está louco! Esse dinheiro é meu. — Afaste a mão de seu revólver — ordenou o xerife. rapazes — disse o xerife aos ajudantes —. Ia tão engolfa do nesses pensamentos que nem ouviu o estalar do chicote de Mike. Mike avançou lentamente e. Reeves. pegando-o pelas pernas. — Francamente. Reeves olhou para Max estendido no chão e disse: — Eu devia saber que não se pode confiar num mestiço! — Peguem-no. Reeves ia a cavalo pela estrada. Estava muito contente. — Ainda deve ter nos bolsos o dinheiro que me roubou. Começou a rastejar de quatro. — Está mesmo resolvido? — Estou. Só mesmo um negro para fugir assim quando as coisas ficavam difíceis. — O que há. Reeves recostou-se na cadeira e riu. Max. xerife? — perguntou Max. O xerife e dois ajudantes avançavam para ele de a rmas em punho. cantarolando baixinho. — Nada mais importa agora. e levem-no para a cadeia. fez Reeves cair de n ovo. que o derrubou do cavalo. Pela primeira vez se sentia em segurança. levantou-se num esforço desesperado e tentou c orrer. Jogou-as na frente de Max: — Pronto! Max contou o dinheiro e olhou para Reeves. Ele me devia e me pagou. — Afinal de contas. Se é esse o seu cálculo. — Reviste-o — exclamou Reeves. — Convém passar pelo saloon e levar também o negro amigo dele — disse Reeves. E o negro desaparecera . no mínimo. Max apanhou as notas. mas outra chicotada fez a arma voar longe. Mas. — Viu? — gritou Reeves. guardou-as no b olso e comentou: — Nunca pensei que fosse capaz de pagar com tanta facilidade. Contou o dinheiro em cima da escrivaninha. brandindo o terrível chicote. — Roubou? — replicou Max.

por último. Era com interesse que o alcalde os olhava. . Dentro em pouco. senor — o homem do bar apontou para a mesa do fundo. Encheu primeiro o copo de seu amigo. Então. estariam saindo do l ugar. Um deles tiro u o chapéu e enxugou o suor frio que lhe cobria a testa. o xerife e seus dois ajudantes encontraram um corpo e stendido na beira da es-trada. o fez continuar sentado. — Engraçado. Voltou então o pensamento para os americanos. O americano nem levantou os olhos para ele. Depois. perto da entrada. Juárez teria gostado daquele homem. Havia nele alguma coisa que tinha chama do sua atenção. Garrafa e copos já estavam na mesa. Era sempre assim. O xerife e os ajudantes aproximaram-se do corpo e ficaram olhando. o dinheiro ia acabando e começavam a reduzir as despesas. o uísque. Era assim a vida. Só em comparação com o negro é que parecia pequeno. haviam sentado à mesma mesa. na manhã seguinte. os melhores quartos. — Saia daqui com seu negro — insistiu o grandalhão. O alcalde estava sentado a uma mesa nos fundos do saloon e viu os dois americano s entrarem. — Aquele mal-educado disse a verdade. ou quando se estava cansado de dormir na planície fria e de comer carne e feijão numa lata de co nserva. teria compreendido que uma das razõe s de seu insucesso fora o fato de o povo não querer tanto quanto ele pretendia lhe dar. O homem agradeceu e voltou ao bar. Encarou-os por um momento e então vo ltou para o balcão. O copo despedaçou-se no chão e um silêncio de morte se fez sobre a cantina. — Quem faz as leis aqui? — perguntou ele calmamente ao homem do bar. — Era Reeves — disse o xerife. Pegou o copo e bebeu o resto de sua tequila. O melhor uísque . senor? — De modo algum — respondeu o alcalde. depois o dele. Logo que chegavam. de modo que eles logo lhe deram um nome particular. Os olhos dele surpreenderam o alcalde. queriam tudo do melhor. Falou em espanhol. Era um lugar seguro para ficar quando não se tinha para onde ir. mesmo que p agando quatro vezes mais do que valia. Era também o único lugar do México onde se podia conseguir uísque americano. A única coisa que eu conheço capaz de deixar u m homem nesse estado é um daqueles chicotes compridos que se usam nas prisões de Lou isiana. O americano caminhou para lá. como agora. Hideout (Esconderi jo). Foi só quando o americano levantou para ir até o balcão que o alcalde viu que ele não er a pequeno como havia jul-gado. Durante a noite. Haviam chegado à cantina sem fazer barulho. antes de morrer. recordando a primeira vez que os vira. — Parece que é o banqueiro Reeves. Olhou de novo par a o americano que havia pedido a bebida. Seis quilômetros além da fronteira e a Justiça não podia fazer mais nada. Deu um suspiro. sem dar a menor atenção ao outro: — Não admitimos negros aqui neste saloon. O negro fez menção de levantar. Pobre Juárez! Queria dar tantas coisas ao povo e tinha conseguido tão pou co! Nunca saberia se o jefe. O sangue índio que o jefe tinha sempre lhe mostrava quais eram os homens g uerreiros. — O alcalde diz que meu amigo pode ficar — advertiu. Eram de um az ul muito escuro. dispensav am as mulheres e. mas o outro. Quando começavam a beber tequila. Começou a beber. com um traço de sotaque cubano. três anos antes. 14 O nome da aldeia em espanhol era muito comprido e difícil de pronunciar para os am ericanos.. as pequenas mais caras. quando um grandalhão que estava bebendo no balcão se aproximou deles e falou ao mais baixo. Bateu nas costas do grandalhão.. pensando em sua mocidade. Mu-davam-se para um quarto mais barato. com um olhar. era sinal de que partiriam daí a pouco. — O alcalde. cansados e cobertos de poeira da viage m. alguém havia arrebentado as grades da única cela da prisão e Max fugira. — Todos os que tiverem di-nheiro para pagar têm d ireito a entrar aqui. Sentaram à mesa perto da porta e o menor pediu tequila.Bem cedo.

a porta se abriu e apareceu um enorme cow-boy ruivo. Depois virou-se de costas calmamente e voltou para sua mesa. Se conseguirmos bastante desta vez. O sumo ácido lhe chegou à garganta. Teve toda razão. uma garrafa de uísque! O homem do bar trouxe o uísque e os copos. iremos par a a Califórnia. sozinho. Charlie encheu os copos e eles beberam. — Qual é o serviço? — perguntou Max. rindo. — Peço desculpas pelo que provocamos contra a hospitalidade de sua encantadora vila — disse o americano ao alcalde. — Se você gosta tanto de negros. O petróleo custa muito car o e os bancos de lá estão cheios da grana. mesmo. depois de pensar um pouco. — Que veio fazer aqui. é como se eu o denunciasse. Várias vezes por ano. carregando um gran de cartaz com seu nome escrito! — Está querendo livrar-se de mim. É bom demais para ser des perdiçado. não é? — Max sorriu. Mas a solução não é dar um golpe. E como era ligeiro com uma arma. ca ramba! Nunca vira nada igual. Mas deparei com a o maior lance que já vi na vida. Estão procuran o por nós dois. — Não tem importância. os dois amigos desapareciam e voltavam semanas ou meses depo is. bebe comigo. E agora estavam outra vez bebendo tequila. c omo se tivesse vida própria. você possa assentar num lugar e viver uma vida direita. dan do à boca uma sensação de limpeza e frescura. Garçom. O ameri cano tinha a elegância natural de uma pantera. mas num instante o revólver apareceu em sua mão com a fumaça saindo do cano e o eco de um tiro morrendo n as paredes da cantina. nem para outro lugar d aquela terra? Max bebeu a tequila e mordeu um pedaço de limão. isso não quer dizer que se tenha de beber em companhia de negros. agora vai ter de ficar junto com um negro morto! — gr itou. Parecia até que o revólver é que pulava para a mão dele. sem preci sar mais fugir. tomando mais um gole de tequila e c hupando outra rodela de limão. puxando o revólver. Temos é de nos separar. — Estava. aproximando-se dele por sobre a mesa. Max. — Talvez. E a cada vez traziam dinheiro para pagar os quartos. — Quanto ainda temos? — perguntou a Mike. Não eram como os outros que apareciam na a ldeia. juntos. Juárez teria tido orgulho de um homem assim.— E quem se importa com o que um velho imundo diz? Só porque estamos do outro lado d a fronteira. — Talvez dê para umas três semanas — respondeu Mike. e levar ali u ma vida diferente. — O velho Charlie Dobbs chegou mesmo na hora — disse ele. — Fizemos um trato de ficar juntos. Quantas vezes ainda sairiam assim até o dia em que nunca mais voltassem? Nem para aquela aldeia. quando o americano zangado avançou para ele. — O que devíamos fazer é dar um grande golpe. num lugar onde ninguém nos conhecesse. — Parece coisa boa — disse Max. O americano intrometido estava estendido no chão. morto. Havia ocasiões em que sentia pena deles. O petróleo é uma das coisas mais malucas que já apareceram. que se aprox imou da mesa deles e deixou-se cair numa cadeira vazia. Aquela vida não tinha encantos para eles. — Pensei que estivesse a caminho de R eno. Mas sempre o alcalde percebia neles uma solidão crescente. Charlie? — perguntou Max. cada vez mais profunda. O homem era mal-educado e inoportuno. Enchem os barris com ele e mandam tudo para o leste. Estava sentado. Mike. — Um banco novo — disse Charlie. baixando a voz. o uísque. o alcalde ainda se lembrava perfeitamente de tudo. c om voz fria. — Qual é a jogada? . — Meu amigo come comigo. dorme comigo e não vai sair daqui — disse ele. as mulheres. Talvez depois disso pudéssemos ir pa ra a Califórnia ou para Nevada. Quando me vêem. — Essa tequila vai ac ender uma fornalha no estômago de vocês. pe rto do balcão. Quase três anos depois. — Lembra-se de eu haver dito na última vez que nos vimos que estavam tirando petróleo no Texas? Decidi passar por lá para v er como eram as coisas. O americano deu a impressão de não ter feito qualquer movimento. Nesse momento. Ca va-se um poço bem fundo na terra e em vez de água sai o óleo preto que chamam de petróle o. Como o dinheiro acaba depressa neste lugar! — Acaba.

nervosamente. Talvez mais. inexpressivos. As mesas de jogo estavam atopetadas de gente. O homem estava à espera deles na rua. o presidente e o caixa do ba nco traba-lham até tarde para preparar as folhas de pagamento do pessoal dos poços. 15 Max entrou no saloon atrás de Charlie Dobbs. Do outro lado da porta. O homem parecia andar perto dos cinqüenta e tinha um bigode amare-lado que lhe caía dos cantos da boca. Levei duas semanas para chegar aqui. está certo — disse Charlie. Ed despediu-se. — Está bem. Depois de dizer isso. Estava apinhado de tra-balhadores e d e cowboys. Dessa maneira. — Por mim. Temos de partir amanhã. O resto é p ara dividir entre nós. sexta-feira. mas não pôde lembrar-se de onde. Max teve a impressão d e que o conhecia. O que você acha. — Iremos para lá um de cada vez. — Cinqüenta mil dólares! — exclamou Charlie. quando estiverem saind o. Ed. Tem medo de tiros? — Não. — Cinqüenta mil dólares. — Como você demorou a voltar! — disse o homem em voz baixa. Ed — disse Charlie. Max? — Eles costumam andar armados? — Com certeza. dando um assobio. — É justo.— Um homem do lugar conseguiu o serviço e precisa de ajuda. quando se volto u e perguntou a Max: — Já não o conheço de algum lugar? — Sei lá — disse Max. todos avançaram empurrando-a para dentro com t oda a força. para não chamar a atenção. Já se podia ouvir a voz dos dois homens prontos para sair. Chegaram na hora. com voz rouca. Vamos. Afinal. Max ficou olhando para o homem até vê-lo desaparecer na rua. — Não falei que este é um lugar cheio de dinhe iro? Dirigiu-se para o balcão e aproximou-se de um homem que estava ali sozinho. Ao sair deu uma olhada para Max. No momento em que a porta se abriu. Quer a metade. — Não pense mais nisso. — Há outro homem. disse a Charlie : — Esse homem. Amanhã. mas quero saber todos os detalhes. — Que acha. Havia gente se acotovel ando à espera de um lugar para jogar. à noite. jogando uma moeda em cima do balcão. Acho que eu devia procurar saber quem é ele. encolhendo os ombros. Seguiu na frente e levou-os para um beco esc uro entre dois prédios. O banco tem recebido um bocado de dinheiro para novas p erfurações. Max viu dois olhos miúdos. — Está esperando fora da cidade. Já tinha dado alguns passos. Ed e Char lie estavam à espera. . O encontro será nos fundos do ba nco às nove e meia em ponto. — Atenção! — murmurou Ed. — Eu disse que precisávamos de quatro homens — exclamou ele. balan-çando a cabeça. — Mas também tenho a impressão de que já o vi não i onde. Geralmente acabam o serviço às dez horas. Ed? — perguntou Charlie. Charlie riu. — Lá vêm eles! Max se encolheu todo na parede perto da porta. — Quanto acha que conseguiremos. Mike? Mike concordou. — Para quando é o serviço? — Logo depois do Ano Novo. que Mike já deve estar inquieto sem saber o que está acon tecendo. — Que foi que eu disse? — murmurou Charlie. poderão abrir o cofre para nós e não será prec iso arrombá-lo. Vá encontrar-se comigo lá fora — disse Ed. — Está bem. Podemos esperá-los e. — Foi uma longa cavalgada. nós os forçaremos a voltar.

soluçando. — Se não gosta disso. — Se acha que o homem está men-tindo. — Fique de bico calado se quer continuar vivo — disse Ed ao outro homem. Fique com ele s e não me bata mais. Ed deu-lhe mais dois socos no rosto. Max pegou o homem desacordado pelos ombros e o arrastou até os fundos do banco. Ed estava ajoelhado em frente à estufa. Ed correu para a gaveta. Ao trabalho! — Ed retrucou. e ordenou: — Vamos com eles para a sala dos fun-dos. — Talvez. Depois de amarrar o empregado do banco. Ouviu-se então o som abafado de uma pancada e o baque de um corpo no chão. — Espere um pouco — disse Charlie. de volta. mate-o logo.. — Talvez ele esteja dizendo a verdade. — Não posso — disse ele. — Mas não posso. — Abra o cofre! — Escute — disse o homem. Vá olhar de novo a porta. de ol hos bem abertos. Max bateu-lhe no ombro. Max foi até a porta da frente. Convenceu-se logo da ver dade. Ed voltou-se para Max. — Palavra que não sei... Se nós o mat os. — O que vai fazer? — perguntou o homem em voz desalentada. — Amarre esse patife naquela cadeira — disse Ed na sala dos fundos. Max foi até a porta e olhou. a ponto de desmaiar. revolvendo um atiçador no m eio dos carvões acesos. — Então aprenda! — Ed deu-lhe um soco. Não sei qual é o segredo do cofre. alarmado. angustiado: — Não sei. Quando Ed levantou o pé para acertá-lo novamente.. — Ninguém — disse ele. — Meu Deus — exclamou o outro homem. não sei. Ed chegou perto dele. Tom Dort e eu aplicam os esse tratamento num velho caçador de búfalos e na índia que vivia com ele. — O sr. — Ótimo. — Acho que você vai ter de abrir o cofre de uma maneira ou de outra. pode dar o fora! — disse Ed. Olhava para o companheiro estendido no chão com expressão de horror. raivoso. A rua continuava quieta e deserta. Você bateu com muita força. Gordon era a única pessoa. Ed olhou para ele com desprezo. A rua estava deserta e tranqüila. — Acorde-o.. que é o presidente. E eu vou pegá-los! Max já estava voltando para a porta da frente. — Vá verificar a porta da frente! — ordenou Ed. que enfiou no bolso. ele não poderá abrir o cofre. O homem caiu por cima de uma mesa. Ficou ali. mas parou no meio do caminho ao ouv ir a voz de Ed: — Isso dá resultado. Max sentiu um aperto no estômago e encostou-se à parede para não cair. Ed? — Quando este ferro em brasa estiver perto dos olhos dele. Charlie perguntoulhe: — O que vai fazer. é o único que sabe o segredo do ofre. abriu-a e tirou um maço de notas. Fechou os olhos . Max se ajoelhou ao lado do homem e levantou-lhe a cabeça. O sr. estendido no chão. Al guém riscou um fósforo e acendeu um candeeiro.— O que é isso? O que está acontecendo? — exclamou alguém. sim! Há uns dez ou doze anos. Vo ltou para onde estava o empregado do banco e tornou a bater nele gritando: — Agora. O homem devia ter quase sessenta anos. surpre-so. — Há cin-qüenta mil dólares naque e cofre. dirá tudo o que sabe. — Aí é que está o problema. abra o cofre! O homem. não sei. Esse não vai mais acordar. Gordon. — Não adianta. Mas isso é o que vamos apurar já. voltando-se para o sujeito do banco: — Abra o cofre . não é mesmo? — Mas também não poderá abri-lo se ele não souber o segredo. Max voltou à sala. murmurava. — Há ali dentro daquela gaveta quatro mil dólares. não sei o segredo — disse o homem. Rusty Harris. Max largou o homem no chão. Os jovens de hoje são muito cheios de contemplações..

Sou Max Sand. e o clarão ver-melho do incêndio contra o céu noturno. Ed deu um grito de agonia quando o metal lhe entrou na carne. Voltou para a sala dos fundos. — Há cinco mil dólares aí dentro. Não há mais lugar no mundo para um pistoleiro. O re-vólver disparou . Havia uma bolsa de dinheiro na parte de dentro. Nesse momento. Era para o dia em que mudássemos de vida. mas a bala se perdeu no teto. Max voltou da entrada da gruta e falou com seu amigo: — Como vai indo. não foi? Mas agora vou morrer e nem eu nem você podemos fazer nada. — Vá você. uma massa di sforme e ensangüentada no chão. Mike tossiu. — Ah! Assim está melhor. então. Pegou a mão de Max e a apertou. — Não faz mal. no exato mome nto em que Max avançava com o ferro incandescente em direção a seus olhos. Eu vou ficar aqui com Mike. com voz sumida. — Como é que sabe disso? — Sei perfeitamente. mas estava tudo acabado. É melhor irmos em frente. pulou para o lado. Sacudiu a cabeça e sua mente voltou a clarear. — Que está fazendo aqui? Não mandei ficar vigiando a porta? Max.. — Toda a cidade estará aqui den tro de um minuto! Max deixou cair o ferro no chão e correu para a porta. que havia atravessado a sala e estava ao lado dele. mas a água acabou. rapaz. Ed virou-se de arma em punho. rapaz. Mike sorriu. Agora a náusea começou a dar lugar a um a fria determinação. rapaz. Ed abriu os dedos e deixou cair a arma. — Para começar. muit o pálido e aflito. Dessa vez. O cheiro de carne queimada lhe entrava pelas nari nas. não havia ouro algum. e Ed correu para pegar a arma enquanto Ma x tirava da estufa o ferro em brasa. — Você nasceu com trinta anos de atraso para essa vida. — O velho avarento tinha um tesouro escondido dentro da casa. olhe dentro do cinto. Guardei esse dinheiro para o momento exato: agora. pegando-o pelo braço. encostando-se à parede da gruta. com a voz estranhamente calma: — E conseguiu o ouro? Um ar de confusão se mostrou no rosto de Ed. Max enxugou-lhe o suor do rosto. Max desapertou a fivela do cinto do amigo. puxando o revólver. Ed compreendeu tudo. Mike levantou um pouco o corpo. — Vou ficar com você — disse Max. — Cale a boca e descanse. Charlie estava do outro lado. acendeu-o e o colocou na boca de Mike. — E eu nunca lhe faltei. — Somos amigos. Ed ainda estava ajoelhado em frente a estufa. — Não conseguiu — disse Max. Levara doze anos. Nós fechamos a retaguarda e só nos resta sair de cena. Mike estava tomando conta d os cavalos e eles montaram imediatamente. a mãe. perguntou. Trinta minutos depois. amarrado e morto. — Não seja bobo. não somos? Amigos de verdade? Max assentiu com a cabeça. Max acendeu um cigarro e olhou para o amigo em silêncio.. Agora. Mike? — Mal. No mesmo instante. Mike sorriu. rapaz. tudo se resolve para mim. — Desculpe. — Vai amanhecer daqui a uma hora. seguindo-os com uma saraivada de balas. Ed viu Max. — Abra meu cinto. Max. estavam refugiados numa pequena gruta nas montanhas. muito mal — disse o preto. Max virou o cinto. . Charlie. Todo mundo em Dodge sabia disso. — Vamos sair daqui! — disse Charlie.por um momento e reviu a cena trágica: o pai. Max tirou-lhe o revólver da mão com um pontapé. Max enrolou um cigarro. Mike. Não vou mais precisar viaja r. Três dias depois. Max ficou um instante a olhá-lo. uma patrulha saía no encalço deles. Ouviu-se então a voz de Charlie no fundo da gruta.

— Agora. como acontece a v elhos amigos. Embora ele tivesse adiantado o dinheiro para a compra do rancho. . principalmente em vista da enorme arma que levava na mão. pode ter certeza de que acharei um jeito de voltar do inferno para colocar você no caminho certo. sorrindo. entrou na cozinha. Ande direito e não se meta mais e m roubos nem em brigas de tiros. A noite se estendia vasta diante dele e uma leve brisa sop rava do alto dos montes. Esfregando o rosto recém-barbeado . Viu a criança seguir seus movimentos com os olhos e deixou o revólv er cair no coldre. Depois disso. Mas o preto não virou a cabeça para seu lado um só instante. Você me dá sua palavra. Não me faça pen ar nisso. Aquela hora. afastou-se e foi até onde estava seu cavalo. Max deixou Mike descer lentamente para o chão. — Não me faça pensar que errei quando tomei aquela decisão no pântano. Charlie e a mulher trocaram olhares rápidos. — Posso detê-los aqui o tempo que eu quiser — disse Mike. Estendeu a mão para Max e disse: — Ajude-me a levantar. E começou a se espantar com o silêncio. Mas o nome não lhe ocorreu até o momento em que se viu sob o ardente sol de Nevada. Você não pode sair assim e abandoná-lo. acendendo um cigarro. — Está na hora de mudar tudo. quando o sol já brilhava no céu. — Metade desse rancho lhe pertence. quase c omo se tivesse sido a vida inteira o seu.— Pode dizer o que quiser. lembre-se do que eu lhe disse. — Smith. No rosto de Max se acendeu um súbito sorriso. muito sério. — É melhor pensar também num novo nome — sugeriu Charlie. Max estava no topo da montanha seg uinte. já deveria haver barulho d e tiros atrás dele. Uma hora depois. Por fim. você já estará tão longe no rumo no rte que eles nunca o pegarão. rapaz. — Sem a barba não me reconhecerão — disse Max. mulher de Charlie. Era um bom nome e nada dizia sobre ele. Max deu as mãos a Mike e o puxou para cima. — E se alguém o reconhecer? — perguntou Martha. — Já estamos aqui há três meses. Riu mais e de repente parou. pegou o rifle. O rancho não dá para nós dois vivermos. correndo os olhos pela encos ta. apreciando-se reciprocamente. E mais bonito também. Naquele momento. que o dia já v em nascendo. rapaz. Ficaram em silêncio. — Por quê? — perguntou Charlie. — Você é um merda. Mike! Mike riu e murmurou: — Posso resistir à patrulha o dia inteiro. Montou e ficou um momento olhando para Mike. O amigo ferido cambaleou até a entrada d a gruta apoiado nele. dizendo: — Você é muito mais moço do que eu pensava. Nunca soube que Mike havia morrido no momento em que ele desapareceu no caminho. virou-se do fogão e sorriu. Max tinha razão. Max ficou um pouco vermelho e sentou-se desajeitadamente. Sorriu. — O cartaz com seu retrato deve estar ag ora na sala de todos os xerifes do sudoeste. mas não vou deixá-lo aqui sozinho. Agora vá andando. Mike. o nome veio fácil. Mike. — Acho que sim — murmurou Max. — Bem. teve a princípio a impressão de estar nu. rapaz. O menino o observava com olhos medrosos. não dá? — Já dei minha palavra. Ficaram ali durante algum tempo. acho que já é tempo de eu ir tomando meu rumo. agora que estou morrendo. Charlie levantou os olhos da mesa e exclamou: — Meu Deus! Nem eu seria capaz de reconhecê-lo! Martha. Sem barba. rapaz. — Escute — disse Max. Max esporeou o cavalo e partiu. o rendimento não dava para o sustento de ambos. porque começou a escarrar sangue. Nevada Smith. — Se você quebrar seu juramento. Dizendo isso. diante do velho Cord e do jovem Jonas. Vamos deixar de ilusões.

. ouviu o que seu pai disse. acompanhado obedientemente pelo garoto. — Estou contente — disse ele. — Acho que sim. Lera muita coisa nos jornais a respeito dele. senhora? Saíram da estação e caminharam até uma cintilante limusine Pierce-Arrow. Júnior. Mas ler essas coisas nunca parecia corresponder à realidade. senhora. Virou o rosto um instante para esconder sua decepção. Ajoelhou-se ao lado dele e murmurou: — Ficarei aqui o tempo que você me quiser. Sua fazenda e a mansão de trinta quartos que ele mandara construir bem no centro de Beverly Hills. Três anos eram muito tempo. Cinco meses depois de ter ido para o leste. Então começou a se lembrar de tudo o que soubera a resp eito de Nevada. Rina acendeu o cigarro e examinou o carro. fora passar uma se mana em Nova Iorq ue para fazer compras. N S Recostou-se no banco e procurou um cigarro. Escolheu uma das camas e estendeu nela as suas roupas. 16 Rina saltou do trem nas sombras claras e reluzentes da tarde que varriam a plata forma da estação. amigo de seu pai.— Bem. Não sabia por que isso lhe deveria causar surpresa. O pequeno brasão dourado na maçaneta atraiu sua atenção. Fechou os olhos. — Obrigada — disse Rina. Nunca mais carregou uma arma. Já ia montar atrás dele. tirando o quep e: — Srta. — Voltarei num minuto — disse ele e tornou a entrar no barracão. O brasão dourado estava por toda parte. Um motorista fardado se aproximou dela e perguntou. o garoto ainda o estava olhando cheio de interesse. Saiu do barracão e o colocou na sela de seu cavalo. o garoto passou os braços pelo pescoço de Nevada e en-costou o rosto no rosto dele. Ficou preso no estúdio e mandou dizer qu e a verá na hora do coquetel. até bordado nos tapetes e revestimentos internos do carro. Marlowe? Rina assentiu com a cabeça. quando sentiu o revólver pesar na cox a. A voz do chofer pelo in-terfone a as sustou um pouco. quando um banqueiro. — Você vai ficar morando aqui com Wong Toy? — perguntou o garoto. a convidara para a ssistir à estréia de um filme produzido por uma companhia na qual ele tinha consideráv eis inte-resses financeiros. Pendurou-o num prego acima da cama e sa iu de novo para o campo banhado de sol. — Vai mesmo ficar? — Vou. Nevada levantou-se com o garoto ainda agarrado a ele. De repente. — De verdade? Para sempre? Não vai embora como os outros? Como mamãe fez? Havia alguma coisa no olhar do garoto que o comoveu. não foi? Foi até onde estava seu cavalo e o levou para o barracão. Smith pede desculpas por não esperá-la. O chofer pegou as malas e disse: — Quer ter a bondade de me seguir até o carro. — Agora você pode me ensinar a montar. — Os cigarros estão nessa caixa perto de sua mão direita. Desamarrou rapidament e os cordões e tirou o cinto com o revólver. O chofer arrumo u prontamente as malas na frente e abriu-lhe a porta. — O sr. Quando acabou de arrumar tudo.

Os olhos da morte brilhavam de alegria pelo combate . Encararam-se por um momento. — Como é mesmo o nome? — perguntou Rina. O povo começou a sair das casas. Chama-se Nevada Smith e. — É uma produção de Norman.. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.. e começou a descer a rua vazia. Mas foram os olhos que a impressiona-ram mais. e depois para o homem que se afastava. saindo das vidas do povo de Vila Pacífica para a luz fo rte do sol. Puxou o chapéu preto para cima dos olhos a fim de protegê-los da clar idade. . Era o desgosto pela sede de sangue da garota. Já no final do filme. Era o fim do filme. Pôde sentir o cansaço que havia nele. Gua rdou. — Quero ver o filme. o xerife montou em seu cavalo e rumou para as montanhas. com uma velocidade que dificilmente a vista podia acompanhar. dando as co stas. lentamente a arma. afastou-se. O povo da cidade espiava por trás das persian as. Mas o xerife não retribuiu os olhares. pela cidade qu e exigia sacrifícios a seu mo-do. Deve ser um nome arranjado como os de todos esses artistas de cine ma. Houve silêncio quando as luzes se acenderam. Brilhando em seu peito.— Como se chama o filme? — perguntou ela.. A morte tomou a iniciativa. na rua. O xerife ainda ficou ali um momento. A garota olhou atônita para a insígnia. c errando o queixo quadra-do e acentuando as linhas das maçãs proeminentes de índio. Eram os olhos de um homem que havia conhecido a morte. — O xerife de Vila Pacífica —. o xerife de Vila Pacífica colocava o revólver à cin-tura. dos homens bem vestidos. Ele tomou-lhe o braço. Ele não olhou nem para um lado nem para outro. A morte estava vestida de roupas macias e caras. enquanto a tela começou a escurecer. dos fortes refletores acesos. pensando não ter ouvido direito. — Norman diz que o homem que faz o papel principal é um novo astro. das mulheres cheias de jóias. E depois aquele mundo pa-re cera desvanecer-se diante da magia das imagens na tela. sim. Bernie Norman diz que é o maior western que já se fez. Começou a segui-lo e parou. — Nevada Smith. O rosto mostrava ódio. Rina também sentiu um nó na garganta. ombro s encurvados e cabeça baixa. lev ando a mão rapidamente ao revólver. ficou imóvel. o gosto voluptuoso d e matar. dissera o banqueiro. Levou a mão à camisa e arrancou a estrela. O revólver que ele havia jurado nunca mais tocar. — Não tolero westerns. Os olhos de um homem que conhecia a futilidade. Não uma. então. A morte foi arremes sada violentamente para o chão e a arma caiu de sua mão. depois. a tortura da decisão que lhe apertava os lábios. e a mão pairava como uma cascavel por cima do coldre do revólver. jogando-a no chão aos pés dela e. A poeira não aparecia nas botas l ustrosas. Ao longe.. da multidão. no cabo de marfim do revólver. mas muitas vezes. das vidraças e das cortinas. Os do xerife estavam bem abertos e fixos. a calça remen dada cobrindo as pernas magras e ar-queadas. a arma do xerife pareceu saltar-lhe na mão. A câmara se aproximou tanto do rosto dele que ela pôde ver-lhe os poros da pele e quase sentir seu hálito quente. Rina virou-se para o banqueiro que so rriu embaraçado com os olhos muito vermelhos e tossiu para limpar a garganta apert ada. Os olhos do xerife estavam cheios de tristeza. A luz brilhante do sol incidiu so bre seu rosto. Disse com voz rouca: — A mim também. Todos olhavam para o xerife com o rosto transmiti ndo a emoção do duelo que haviam acabado de presenciar. e co ntinuou impassível a caminhar com a camisa desbotada já molhada de suor. a insígnia de metal. Uma expressão de desprezo apareceu de re pente em seu rosto. Cansei de tudo isso quando estive no oeste. mas. a dor e a tristeza. O xerife foi até a porta a passos lentos e saiu. Deu as costas ao morto e voltou pela rua. A garota apareceu numa varanda e o xerife parou diante dela. Lembrou-se de sua chegada ao cinema. O corpo estremeceu ao levar mais duas balas e. — E a primeira vez que um filme me emociona assim — justificou-se.

ma chêrie — disse ela. mon amour? Rina negou com a ca-beça. Nisso. É ruim a gente acordar com uma sede terrível. — Não se lembra de mim. ao ver Rina sentada na cama. Aproximou-se de Rina e estendeu-lhe a garrafa. indignada. Nor man era um homem robusto. o Nevada Smith? — perguntou ele. Ma-dri. — Já viu alguém assim antes? Aind a quer que eu con-trate Tom Mix para fazer um filme? O banqueiro riu. — E agora? Lembra-se de quanto nos amamos? Rina empurrou-a. Ficara três anos sem ter notícia dele. Sorriu e se aproximou. — Tome um pouco de champanhe. Estendeu a mão p ara o jarro na mesinha-de-cabeceira e não o encontrou. é claro. com o sol ofuscando seus olhos. Passou por um portão de ferro e ncimado pelo brasão já conhecido de Rina e começou a subir a estreita estrada até o alto da colina. Fora para Nova Iorque e estivera depois em Londres. pois isso não era habitual nele. a porta se abriu. Rom a. nesse momento. — Quem é você? — perguntou Rina. Vamos cumprimentá-lo. A festa estava começando a ficar chata. já acordou. — Tom Mix? Quem é ele? Norman bateu nas costas do banqueiro. Que estava fazendo ali? Aquele não era o Nevada que e la conhecia. Começou a sentir-se deslocada. desejos. não é mesmo? Rina levou as mãos à fronte e sentiu o sangue latejar. Estava in-teiramente nu. beijando-a na boca. meu marido. homens vorazes. Sorriu para el as e disse: — Ah! Todo mundo já está acordado de novo. homens apaixonados. O homem acariciou-lhe a cabeça solicitamente. Parou. — Por favor. Rina voltou-se aterrorizada para a mulher. Constantinopla e Berlim. Não era real. E quanto mais vagava pelo mundo mais amedrontada e sozinha se sentia. — Zurique? Philippe? E esse homem que esteve aqui? — Mais non. casos febris. — Está com dor de cabeça. Sentiu-se mais calma ao relê-lo. claro que não.— Lá está Bernie Norman. aturdida. Estava n ua na cama. Onde esta-mos? — Em Zurique. Sua garganta estava tão seca que ela teve a impressão de que fazia meses que não bebia um copo de água. Compreendeu então que não estav a em seu quarto. Esse é Karl. querida. Houve festas. Não podia ser. De repente. a porta se abriu de novo e apare-ceu um homem trazendo na mão uma garrafa de champanhe. Rina olhou pela janela e viu a grande casa cujo teto a luz do sol po ente incendiava. Seus olhos brilhavam de con-tent amento. Por fim. estou começando a pensar que fiquei maluca. abrindo o penhoar e encost ando a cabeça de Rina em seus seios nus. ma chèrie? — disse ternamente. Aquilo era um pesadelo. — Ah. mas não encontrou uma só peça de sua roupa. com apenas um lençol branco a cobri-la. Quando ele saiu. não é? Vou buscar uma aspirina para você. e Rina olhou-o surpresa. de grandes maxilares. despertara uma manhã em Zurique. O quarto era luxuosamente mobiliado à moda européia. mas inteiramente estranho para ela. — Talvez isso lhe refresque a memória. — Não me lembro de nada. Não se lembra? Rina sacudiu a cabeça. Correu os olhos à procura de seu robe. Uma bela mulher de cabelo preto entrou no quarto. Vivera os primeiros seis meses em Boston até se cansar da cidade. A fumaça acre doeu-lhe nos pulmões e. Três an os andando de um lado para outro. Abriram caminho por entre uma multidão de entusiastas que cercavam o produtor. na casa de Philippe. — Que tal aquele rapaz. . Onde poderia estar? Havia cigarros e fósforos na mesinha ao lado da cama e ela ace ndeu um. Paris. abriu nervosamente a bolsa e procurou o telegrama de Ne vada. Ela lhe telegrafara da Suíça no mês anterior. E Nevada Smith vai começar outro filme para nós imediatamente! A limusine entrou por uma alameda no sopé da colina. — Esse filme deve render uns dois milhões.

Lentamente. Apostara num belo cavalo alazão e o homem do camarote vizinho se inclinou para ela. — Fique com elas. menin a. voltou para pegar a bolsa. Logo que chegou a um hotel. Sem dizer nada. A mulher sorriu. Atrás dele veio um homem alto e louro. O tel egrama era típico do Nevada que ela lembrava. evitando encará-lo. ater rada. Tome estas aspirinas. Karl se aproximou dela com dois comprimidos na mão. com um vidro de aspirina numa mão e a garrafa de champanhe na outra. — Pois acho que saíram muito boas. A porta se abriu de novo e Karl entrou. O telegrama dizia: Ainda sou seu amigo. — Veja se gosta. Você é muito bonita. Sou o conde De Chaen". — Não as quero — disse ela. — Mas acho que a objetiva está com algum defeito. A mulher pegou as fotografias. mas os homens já estavam com calças e camisas lev es. Eu gostaria de me vestir. Assim. Rina abriu a bolsa e encontrou as fotos obscenas. . para o chalé de Philippe. Vestiu-se e passou para a sala. Não podia ser el a. Olhou-os. sem saber o que dizer. ela voltou os olhos para ele. pol idamente. Rina saiu da cama e lavou o rosto rapidamente. Rina olhou para os três e disse com voz sumida: — Tenham a bondade. sabe? Rina olhou-a. daquele jeito. Nua. Estou mais sozinha e amedrontada que nunca. le mbra-se? Rina fechou os olhos. Caminhou para a porta sem ao menos olhá-los. O homem que se chamava Karl a cha mou: — Esqueceu sua bolsa. — Gostaria de tomar uma xícara de café enquanto falamos de negócios? — perguntou Karl.— Nos conhecemos nas corridas há três semanas em Paris — disse a mulher. — Podiam ter saído melhores — disse o conde. mas lá estava fazendo muito calor e nós viem os para cá. Ela olhou para as fotografias e sentiu a náusea subir-lhe à garganta. Rina continuou em silêncio. Foi tão engraçado! Você fazendo amor com o di sparador da máquina na mão. Pensou em tomar um banho. Queria era desaparecer o q uanto antes dali. A mulher ainda vestia seu penhoar. Há quase duas semanas. — Já se lembra então? A festa começou em Paris. — Não é problema — disse a mulher. — A nossa pequena américaine ainda não está se sentindo bem. — O conde do camarote ao lado! — exclamou ela. — Coloquei dentro dela uma coleção de fotos como lembrança de nossa festa. que estava sorrindo. Ainda é meu amigo? A resposta chegou no dia seguinte junto com uma ordem bancária de cinco mil dólares e passagens reservadas de Zurique até a Califórnia. tirando-as da bolsa. — Duas semanas? — Sim. dizendo: "Escolheu muito bem. Mas não se parecia em nada com o Nevad a a quem ia ver. Nós sempre podemos tirar mais cópias dos negativos. vestido com um robe. Todos saíram então do quarto. Estava começando a lembrar. Rina. e tem sido uma festa maravilhosa. Vai se sentir melhor. junto ao de Philippe. Philippe. O amigo que você esperava não apareceu. Com aquela mulher e aqueles homens. — Você estava sozin ha em seu camarote. para poder bater as fotografias no momento que achasse m elhor. Jogou algumas fotos em cima da cama. passou um telegrama para Nevada. sorrindo. Esse cavalo é meu. Estava assinado Nevada. Cord. mas achou que era melhor desistir. Tornou a dobrar o telegrama enquanto a limusine chegava ao alto da colina. Os negativos custaram dez mil dólares e ela os queimou num cinzeiro antes de sair da sala. — Suas roupas estão no armário.

17

Nevada recostou-se na cadeira e correu os olhos pelo espaçoso escritório. Uma aura d e tensão tomara conta do ambiente. Dan Pierce, afável e sorridente, disse: — Não se trata de dinheiro, Bernie, é que achamos a ocasião oportuna. Vamos fazer um fil me que mostrará o oeste como realmente era, evitando todos os convencionalismos qu e se acumularam com o passar dos anos. Norman olhou por um momento para o script de capa azul que tinha na mão. Assumiu u ma expressão grave, e disse: — Acredite que não é pelo script, Dan. Nós o achamos notável, não é mesmo, Von Elster? O calvo diretor concordou. — Um dos melhores que já li. — Então por que relutam? — perguntou o agente. — A ocasião não é boa — disse Norman. — A indústria está perturbada. A Warner vai lançar dent breve um filme falado. As luzes de Nova Iorque. Há muita gente que pensa que quan do isso acontecer o cinema mudo estará liquidado. Dan Pierce riu. — Conversa! Cinema é cinema. Quem quer ouvir os atores falarem vai ao teatro, que é o lugar próprio para isso. Norman voltou-se para Nevada, com um tom paternal na voz: — Escute, Nevada, já tomamos alguma decisão errada a seu respeito? Desde o dia em que você entrou aqui, nós o tratamos corretamente. Se a questão é dinheiro, não há problema. Bas ta dizer quanto quer. — Não é dinheiro, Bernie — disse Nevada, sorrindo. — Você bem sabe disso. Dez mil dólares por semana bastam para qualquer pessoa, mesmo considerando que tenho de pagar sete p or cento de Imposto de Renda. É esse script. Foi o primeiro enredo de verdade que li aqui. Norman pegou um charuto. Nevada recostou-se na cadeira e se recordou de quando o uvira falar pela primeira vez daquele script. Fora no ano anterior. Ele estava t rabalhando em Tiroteio ao entardecer. Um autor de scripts, um homem moço, de óculos e muito pálido o havia procurado. — Sr. Smith — perguntou ele com alguma timidez —, pode me dar um minuto de atenção? Nevada, que estava sendo maquilado, virou-se para ele. — Mas claro, sr. ... — Mark Weiss. — Muito bem, Mark — disse Nevada, sorrindo. — O que há? — Gostaria que lesse um script. Passei dois anos fazendo pesquisas. É a respeito de um dos últimos pistoleiros do sudoeste. Acho que é uma coisa diferente de tudo que já se fez. Era um dos aspectos inevitáveis da vida de um astro do cinema. Todo mundo tinha um script para se ler, e era sempre o melhor que já havia sido escrito. — Terei prazer em lê-lo. Qual é o título? — O renegado — disse o homem, entregando-lhe uma pasta de capa azul. Nevada folheou-o, olhou a última página e viu que era três vezes maior do que os scrip ts comuns. — É um pouco longo, não é? — Decerto, mas não encontrei jeito de reduzi-lo. Tudo que está aí é verdade. Passei estes dois últimos anos consultando os arquivos de velhos jornais do sudoeste. Nevada voltou à maquilagem, ainda com o script na mão. — Que aconteceu ao homem? — perguntou a Weiss, sem olhar para ele. — Parece que ninguém sabe. Um belo dia, desapareceu e nunca mais se teve notícias dele : A patrulha que o perseguia na ocasião em que desapareceu chegou à conclusão de que e le havia morrido nas montanhas. — Uma história nova é sempre uma coisa boa, Mark. O público se cansa dos mesmos velhos h eróis. Qual foi o nome que deu a esse camarada? — Max Sand. O script caiu da mão de Nevada e ele sentiu o sangue fugir-lhe da face. — Como foi que disse? — perguntou com voz rouca. — Max Sand. Podemos mudar o nome, mas era assim que o homem se chamava.

Nevada sacudiu a cabeça e olhou para o script no chão. Weiss apanhou-o prontamente e disse, preocupado: — Não está se sentindo bem, sr. Smith? Nevada respirou profundamente e viu que seu autocontrole tinha retornado. Tomou de volta o script estendido por Weiss, e forçou um sorri-so. — Obrigado, sr. Smith — disse Weiss com expressão de alegria e de alívio. — Não sabe o quant o lhe agradeço. Muito obrigado. Nevada passou uma semana sem coragem de ler o script. Tinha a estranha impressão d e que, se assim fizesse, estaria perdido e todos saberiam de tudo. Mas uma noite , depois do jantar, entrou na biblioteca onde Von Elster o estava esperando e en controu-o mergulhado na leitura do script. — Há quanto tempo isso está com você? — perguntou o diretor. — Há uma semana, mais ou menos. Esses escritores sempre nos inundam de scripts. Esse aí presta? — Se presta! É formidável. Se você fizer esse filme, quero ser o diretor. Ainda naquela noite, com a luz acesa até de madrugada, Nevada compreendeu o que o diretor queria dizer. Weiss tinha dado profundidade ao retrato de um homem que v ivera só e chegara a um conceito de vida nascido da dor e da tristeza..Os seus cri mes não tinham qualquer sensacionalismo; eram apenas resultado de uma luta desespe rada pela sobrevivência. Depois da leitura, Nevada teve certeza de que faria o filme. O script era tão bom que não podia ser posto de lado. Além disso, teria de fazer o filme para proteger a si próprio. Se o script caísse em outras mãos, não seria possível prever quanto iriam proc urar saber ainda sobre a vida de Max Sand. No dia seguinte, comprou o script de Mark Weiss por mil dólares. Nevada voltou de súbito ao presente e ouviu Norman dizer: — Vamos esperar um ano. Até lá, saberemos para onde pular Dan Pierce olhou para Nevada. Ele sabia o que significava aquele olhar. Pierce já fora até onde era possível. — Chaplin e Pickford pensaram bem em formar a United Ar-tists — disse Nevada. — Parece que é o único meio que tem um artista de fazer os filmes que quer. — Mas ainda não acertaram — disse Norman, com uma leve mudança no olhar. — Decaíram um pouco . — Talvez — retrucou Nevada. — Com o tempo é que se vai ver. A com-panhia ainda é nova. — Está bem — disse Norman, de repente. — Vou fazer um trato com você. Vamos aplicar meio m ilhão no filme. Você garantirá as despesas que passarem disso. — É mais um milhão e meio! — exclamou Pierce. — Onde é que Nevada vai arranjar tanto dinheir o? Norman sorriu. — No mesmo lugar onde nós arranjamos dinheiro. No banco. Não terá dificuldade nenhuma, p ois eu tomarei as providências necessárias. O filme será cem por cento propriedade sua . Só ficaremos com as porcentagens da dis-tribuição e teremos nosso dinheiro de volta. É um negócio melhor do que a United Artists poderia fa-zer. Isso mostra como estamo s dispostos a dar-lhe apoio, Nevada. Está satisfeito? Nevada não tinha ilusões. Se o filme fracassasse, seu nome ficaria preso no banco e não o de Norman. Perderia tudo que tinha e mais alguma coisa. Olhou para a capa az ul. E uma decisão começou a tomar forma em sua mente. O pai de Jonas dissera um dia que não havia nenhum prazer em ganhar ou perder quan do se jogava com o dinheiro dos outros. Aquele filme não podia deixar de fazer suc esso. — Está bem — disse ele, afinal. —Negócio fechado. Quando chegaram à tardinha no escritório de Norman, Nevada olhou para seu agente. Pi erce estava carrancudo e disse: — Vamos ao meu escritório. Temos muito que conversar. — Vai ficar para amanhã — disse Nevada. — Tenho uma pessoa do leste à minha espera em casa . — Você mordeu mais do que pode engolir, Nevada. — Já estava em tempo. A única maneira de ganhar dinheiro de verdade é arriscar muito din heiro.

— Mas assim também se pode perder muito. Nevada parou ao lado de seu Stutz Bearcat branco. Colocou a mão na porta com o mes mo carinho com que afagaria um cavalo. — Não vamos perder, Dan. — Espero que saiba o que está fazendo, Nevada. Não gosto dessa história de Norman deixar todos os lucros para nós. Deve haver alguma sujeira no meio de tudo isso. Nevada sorriu e, antes de entrar no carro, disse: — O seu defeito, Dan, é ser agente. Todos os agentes são desconfiados. Bernie não poderi a deixar de agir assim. Não quer arriscar-se a me perder. Estarei amanhã em seu escr itório às dez da ma-nhã. — Certo. Mas, olhe, não estou gostando dessa história de cinema falado. Mais duas comp anhias já anunciaram que vão fazer filmes falados. — Podem fazer à vontade, Dan. Essa mania vai passar depressa. Na época em que nosso fi lme for lançado, ninguém mais nem falará em filmes falados. O telefone tocou na mesinba-de-cabeceira. Rina atendeu, notando que também ali, no centro do disco, estava a insígnia de Nevada. — Alô. A voz amiga de Nevada chegou-lhe aos ouvidos: — Como vai, menina? Tudo resolvido? — E você, Nevada? — Será que você tem outros amigos? — Já abri as malas e estou admirada — disse ela, rindo. — De quê? — De tudo. Desta casa. E fabulosa. Nunca vi nada igual. — Não é grande coisa. Talvez um pouco avantajada. Mas é isso o que chamo de lar. — Ainda não posso acreditar, Nevada! Por que mandou fazer esta casa fantástica, tão dife rente de você? — Tudo isso faz parte da profissão, Rina. É como o chapelão branco, as camisas e as bota s coloridas. — Com suas iniciais em tudo? — Com minhas iniciais em tudo. Mas não se impressione com isso. Em Hollywood há coisas muito mais malucas. — Tenho tantas coisas para lhe contar, Nevada! A que horas voltará para casa? — Para casa? Eu estou em casa. Estou aqui embaixo no bar, à sua espera. — Vou descer já. Mas, Nevada, como é que vou saber onde é o bar? Isto aqui é tão grande! — Temos guias índios exatamente para essas ocasiões. Vou mandar um buscá-la. Rina desligou o telefone e foi para o espelho. Quando tinha acabado de passar ba tom, bateram de leve na porta. Abriu a porta e encontrou Nevada sorrindo. — Perdão, senhora — disse ele, com fingida cerimônia. — Corri a casa toda e o único índio que encontrei fui eu! — Oh, Nevada! — disse ela com voz terna. Jogou-se então nos braços dele, com o rosto escondido nos músculos fortes do peito do amigo, e começou a molhar de lágrimas a brancura da camisa enfeitada.

JONAS — 1930 LIVRO III

1

As luzes de Los Angeles apareceram sob a asa esquerda. Olhei para Buzz, que esta va sentado perto de mim na carlinga, e disse: — Estamos quase em casa. O rosto dele se franziu num sorriso. Olhou para o relógio. — E acho que conseguimos um novo recorde. — Ao diabo com o recorde — disse eu. — O que quero é esse contrato de mala postal. — Bem, agora está no papo. Graças a este aviãozinho. Sobrevoei a cidade, rumo a Burbank. Se pegarmos o contrato de mala postal de Chicago para Los Angeles, dentro em pouco a Inter-continental estará voando por todo o país. A etapa seguinte seria pegar o contrato de Chicago a Nova Iorque. — Li nos jornais que Ford tem projetos para um avião trimotor que levará trinta e dois passageiros — disse Buzz. — Quando ficará pronto? — Daqui a dois ou três anos. Será essa a próxima etapa. — Sim, mas não podemos esperar por Ford, Buzz. Eles podem levar cinco anos até sair co m alguma coisa prática. Temos de estar prontos daqui a dois anos. — Dois anos? Como? É impossível! — Escute aqui: quantos aviões postais temos em vôo agora? — Trinta e quatro. — E se pegarmos o novo contrato da mala postal? — Duas, talvez três vezes mais, Onde você quer chegar? — Os fabricantes desses aviões estão ganhando com os nossos contratos mais do que nós. — Se está pensando em fabricar nossos próprios aviões, você está maluco! — exclamou Buzz. — S a instalar uma fábrica levaríamos dois anos. — Não, minha idéia é comprar uma que já esteja em funcionamento — repliquei. Ele pensou por um momento, e disse: — A Lockheed, a Martin, a Curtiss-Wright estão todas fazendo muitos bons negócios e não serão vendidas. A única possível é a Winthrop. Estão despedindo empregados desde que perde ram o contrato com o Exército. — Está raciocinando certo, Buzz. — Oh, não! — exclamou. — Eu trabalhei para o velho Winthrop, e ele ju-rou que nunca... Estávamos sobrevoando o Aeroporto de Burbank. Volteei pelo lado sul da pista, onde ficava a fábrica Winthrop. Inclinei a asa do avião para que Buzz visse do lado dele . — Olhe para baixo, Buzz. Gigantescas letras brancas se destacaram na escuridão, iluminadas por dois possant es refletores, no teto pichado da fábrica. CORD AIRCRAFT, INC. Os repórteres nos rodearam logo que pousamos. Os flashes começaram a estourar e pisq uei os olhos. — Está cansado, sr. Cord? — perguntou um deles. Cocei a barba crescida e sorri. — Não. Estou novinho em folha. Uma pedra no chão do aeroporto machucou meu pé e eu disse a Buzz, que ainda estava n o avião: — Quer jogar meus sapatos? Ele riu, jogou os sapatos e os repórteres fizeram muita confusão para bater uma foto minha enquanto estava calçando os sapa-tos. Buzz desceu do avião. Bateram mais algumas fotos e nos encaminhamos para o hangar. — Como se sente por estar de novo em casa? — perguntou outro repórter. — Bem — respondi. — Bem de verdade! — acrescentou Buzz. E era um fato. Cinco dias antes, havíamos partido do aeroporto de Le Bourget, em P aris. Terra Nova, Nova Iorque, Chicago, Los Angeles. Em cinco dias. Um repórter apareceu correndo, com uma folha de papel na mão.

— Sabem que bateram o recorde de Chicago a Los Angeles? Com esse, foram cinco reco rdes que quebraram nessa rota! — Um por dia — disse eu, com um sorriso. — Não temos de que nos queixar. — Quer dizer que pegarão mesmo o contrato da mala postal? — per-guntou outro repórter. Atrás deles, na entrada do hangar, avistei McAllister acenando freneticamente. — Essa é a parte comercial da história. Eu a deixo para meu sócio, Buzz — disse aos repórter es. — Ele lhes dirá tudo que quiserem saber. Deixei-os conversando com Buzz e me dirigi para onde estava McAllister. — Pensei que não chegasse a tempo — disse ele, ainda aflito. — Não disse que chegaria aqui às nove horas? — Tenho um carro esperando. Iremos daqui diretamente para o banco. Prometi a eles que o levaria lá. — Espere um pouco. Prometeu a quem? — Ao grupo que concordou com seu preço pela concessão de exploração da patente do novo pro cesso industrial para o plástico. Até a Du Pont faz parte do grupo. — Espere um minuto, McAllister! Não vejo cama há cinco dias e estou exausto. Falarei c om eles amanhã. — Amanhã? Estão à sua espera agora! — O que eu tenho com isso? Deixe-os esperar. — Mas eles vão lhe dar dez milhões de dólares! — Não vão dar coisa nenhuma para mim. Tiveram a mesma oportunidade que nós tivemos para comprar a patente. Estiveram todos na Europa, mas não quiseram se arriscar. Agora que precisam da patente, podem esperar até amanhã. Entrei no carro e disse: — Beverly Hills Hotel. McAllister entrou e sentou-se a meu lado. Disse, perplexo: — Amanhã? Eles não vão querer esperar. O chofer pôs o carro em movimento. Olhei para McAllister e sorri. Senti-me um tant o preocupado com ele. Sabia que aquela transação não tinha sido nada fácil. — Escute, Mac. Vou para o hotel, pego umas seis horas de sono e, então, poderemos fa zer a reunião. — Mas... serão três horas da madrugada! — Leve-os para meu apartamento no hotel. Estarei à disposição deles. Monica Winthrop estava à minha espera na suíte do hotel. Apagou o cigarro e se levan tou do sofá logo que me viu entrar. Correu a meu encontro e me beijou. — Que barba! — exclamou com fingida surpresa. — O que está fazendo aqui, Monica? Esperava tê-la visto no aeroporto. — Quis ir até lá, mas tive medo de que papai aparecesse. Monica tinha razão. Amos Winthrop era muito mulherengo e se nos visse juntos saber ia logo da verdade. O defeito dele era não saber dividir bem o tempo. Deixava as m ulheres atrapalharem seu trabalho e o trabalho atrapalhar as mulheres. Mas Monic a era filha única e, como todos os devassos, julgava a filha uma criatura excepcio nal. E era, mas não no sentido que ele pensava. — Prepare um drinque — disse eu, indo para o quarto. — Vou meter-me numa banheira chei a de água quente. Estou com um cheiro tão forte que nem eu estou gostando mais de mi nha própria companhia. Ela encheu um copo com gelo e uísque e o levou para o quarto. — Seu drinque está pronto e a banheira cheia. Peguei o copo e perguntei: — Como soube que eu viria para cá? — Ouvi pelo rádio. Ainda não tinha tomado o primeiro gole, quando ela se encostou em mim. — Não precisa tomar banho por minha causa. Estou achando esse seu cheiro excitante. Fui para o banheiro, tirando a camisa no caminho. Quando me voltei para fechar a porta, lá estava ela atrás de mim. — Não entre já na banheira. É uma pena desperdiçar todo esse cheiro bom de macho. Passou-me os braços pelo pescoço e colou o corpo ao meu. Procurei seus lábios, mas ela afastou a cabeça e a enterrou no meu ombro. E a senti respirar fundo, trêmula, deli ciando-se com meu cheiro. Gemeu baixinho, e o calor que veio dela pareceu sair d

e um forno. Segurei seu rosto e a olhei. Estava com os olhos quase fechados e gemia enquanto o corpo se contorcia. Desapertei o cinto e deixei as calças caírem no chão. Joguei-as longe com um pontapé e a encostei na penteadeira que tomava toda a parede. Ainda estava com os olhos fechados quando saltou sobre mim como um macaco subindo num coqueiro. — Respire fundo, menina — disse, quando ela começou a gemer mais intensamente. — Talvez leve muitos anos para ter de novo esse cheiro.

A água estava quente e boa e lavava meu cansaço. Tentei esfregar as costas com o sab onete e não consegui. — Deixe que eu faço isso — disse ela. Começou a esfregar minhas costas. O movimento lento e circular era relaxante, e fe chei os olhos. — Não pare, Monica! É tão bom! — Você é como uma criança. Precisa de alguém que tome conta de você. — Estive pensando nisso também — disse, abrindo os olhos. — Acho que vou contratar um cr iado japonês. — Um criado japonês não faria isso. Vire-se um pouco para trás que eu quero tirar esse s abão. Virei-me dentro da água, fechando de novo os olhos. Quando pouco depois os reabri, ela estava olhando para mim. — Parece tão pequeno e fraco... — disse ela. — Não foi o que você achou ainda há pouco. — Eu sei — disse ela num sussurro, com os olhos meio anuviados. Entendi aquele olhar. Levantei um pouco o corpo e passei o braço pelo pescoço dela, sentando-a na borda da banheira. Beijei-a e senti sua mão descer para mim. — Oh! Você está criando força — exclamou, apertando sua boca na mi-nha. Nesse exato momento o telefone tocou. Levamos um susto, e eu caí dentro da banheir a, espirrando água por todos os lados e molhando a frente de seu vestido. Ela pego u o telefone em cima da penteadeira e o levou para mim. — Alô! Era McAllister. Estava embaixo, na portaria. — Eu disse três horas, Mac. — Mas já são três horas. Podemos subir? Winthrop também está conosco. Diz que precisa falar com você. Olhei para Monica. Era só o que faltava: o pai dela subir e encontrá-la em meu quart o. — Não — disse eu. — Ainda estou na banheira. Leve-os para o bar e pa-gue-lhes um drinque . — Os bares estão todos fechados. — Está bem. Então irei vê-los na portaria. — A portaria não é lugar para uma transação dessas. Não há isolamento suficiente. Eles não vã tar. Não compreendo por que não podemos subir. — Porque estou com uma pequena aqui, entendeu? — Que é que tem? Acha que eles vão estranhar? — A pequena é Monica Winthrop. Mac silenciou por um instante. — Epa! — exclamou ele, depois de um longo silêncio. — Seu pai tinha razão. Você nunca deixará de ser assim. — Fique descansado, que deixarei quando tiver sua idade. — Ainda não sei — murmurou ele. — Eles não vão gostar da idéia de conversar na portaria. — Se é isolamento que querem, já sei qual é o lugar ideal, Mac. — Onde? — O lavatório dos homens ao lado dos elevadores. A estas horas não aparece ninguém. Esta rei lá daqui a cinco minutos. Desliguei o telefone e saí da banheira. Olhei para Monica. — Dê-me uma toalha. Tenho de descer para ir falar com seu pai.

2 Cheguei ao lavatório dos homens esfregando o rosto. Ainda estava com a barba de ci nco dias. Não tive tempo de fazê-la. Sorri ao vê-los, tão engolfados em suas preo-cupações q ue nem perceberam minha chegada. — Podemos começar a reunião, senhores. Olharam todos para mim, com uma expressão de espanto. Ouvi um deles praguejar baix inho e calculei que havia ali alguma pequena tragédia. McAllister veio a meu encontro dizendo com certa ênfase: — Por certo, Jonas, escolheu um lugar bastante estranho para nossa reunião. Eu sabia que ele só procedia assim para salvar a situação com os outros, mas não me impo rtei. Olhei para as calças dele e disse: — É melhor abotoar a braguilha, Mac. Ele ficou muito vermelho e baixou imediatamente a mão. Ri e me voltei para os outros: — Desculpem a inconveniência, cavalheiro. O lugar certo seria meu apartamento. Mas e stou com um problema lá em cima. Te-nho uma enorme caixa que está tomando todo o esp aço disponível. Amos Winthrop foi sem dúvida o único que compreendeu. Deu um sorriso irônico e fiquei imaginando o que faria se soubesse que a pequena era a filha dele. Mac já havia recuperado sua serenidade e tomou as providências que lhe cabiam. Foram feitas as apresentações. Então começamos a tratar de negócios. Como Mac me explicou, as t rês grandes companhias de produtos químicos haviam organizado uma empresa à parte para explorar a patente que me pertencia. Essa empresa faria o primeiro pagamento e me garantiria os royalties. Eu só tinha uma pergunta a fazer: — Quem garante o dinheiro? — O Sheffield, aqui — disse Mac, apontando para um dos homens. — O sr. Sheffield é um d os sócios da George Stewart Inc. Olhei para Sheffield. Stewart, Morgan, Lehman, todos eram bons nomes na Wall Str eet. Não poderia, do ponto de vista financeiro, querer coisa melhor. Mas tinha a i m-pressão de que aquele homem não me era desconhecido. Por fim, a memória não falhou. F. Martin Sheffield. Nova Iorque, Boston, Southampton, Palm Beach. Escola de Adm inistração da Universidade de Harvard, sum-ma cum laude, antes da guerra. Major do E xército de 1917 a 1918. Três condecora-ções por bravura em combate. Jogador de pólo, campeão . Figura da socie-dade. Idade aparente: trinta e cinco anos. Idade registrada: q uarenta e dois. Lembrei-me de que fora procurar meu pai uns dez anos antes. Queria fazer uma emi ssão pública de títulos para a companhia. Meu pai não havia concordado. — Por mais agradável que façam parecer tudo, Jonas — dissera meu pai —, nunca deixe essa gente meter as garras em você. No fim, seu negócio acabará sendo deles e não seu. Tudo q ue podem dar para você é dinheiro, quando a única coisa que conta mesmo é a capacidade d e mandar. E isso eles guardam para si. Olhei para Sheffield e perguntei: — Como é que vai garantir os pagamentos? Seus olhos cintilaram por trás dos óculos bifocais pince-nez. — Estamos nesse contrato com os outros, sr. Cord. Sua voz era surpreendentemente forte para um homem tão frágil. E muito seguro de si. Falou como se não se dignasse a me dar uma resposta, como se todo mundo sou-besse que bastava o nome de Stewart num contrato para garantir qualquer coisa. Talvez fosse verdade, mas havia naquilo algo que me irritava. — Perdão, sr. Sheffield, mas não respondeu à minha pergunta — disse eu polidamente. — Pergu ntei como o dinheiro seria garantido. Não sou banqueiro nem homem da Wall Street. Sou apenas um pobre rapaz que teve de deixar os estudos e começar a trabalhar porq ue o pai morreu. Não compreendo essas coisas. Sei que, quando entro num banco e me pedem garantias, tenho de apresentar alguma garantia, como terras, hi-potecas, títulos, antes de me darem alguma coisa. É esse o sentido de minha pergunta. — Sem dúvida alguma, sr. Cord — concordou, com um sorriso. — Está querendo sugerir que tod as as companhias não sejam capazes de pagar a quantia combinada? — Nada poderia estar mais longe de meu pensamento, sr. Sheffield. O que acontece é q

— O seu mal é que você está querendo ser maior do que é. — Ainda não — retruquei. Vou ser pago com o dinheiro que os senhores ganharão se eu lhes ceder a patente. Não participarei dessas negociações incorretas. fazer o que quiser. Minha impressão era de que eu iria receber dez milhões de dólares por esses d ireitos. dizem que os tempos atuais são incertos. ainda pa cientemente explicando. neste caso a garantia deve ser de quinze milhões. Já chega o trabalho que tenho cuidando dos meus. ainda me fazendo de inocente. sujeito aos mesm os riscos dos senhores. Deu-me motivos para acreditar que levaria em consideração um a oferta de dez milhões de dólares! — E levei. Jonas. de modo algum. — Espere um pouco. Mac resfolegava como uma válvula. Ainda me lembro de quando você era garoto. A casa onde ele mor . que são mais velhos e sabem mais. — O mal é que você é apenas meu advogado. — Ah! — exclamei.. Acendi um cigarro e disse: — Mas uma coisa ainda não compreendo. e não de dez. — Agi de boa-fé. Não me cabe dizer a ninguém como deve gerir seus negócios. Neste caso. Se o negócio nã se fechar de acordo com o combinado. mas minha voz era calma. — Seu dinheiro será garantido pela renda da nova companhia — disse Sheffield..ue homens que têm mais experiência do que eu. Não se pode saber ao certo o que ainda está para acontecer. Não tenho. — Claro. O mercado está desnorteado e há bancos em falência po r todo o país. Só isso importará em alguns milhões.. Por que não me pagam tudo desde já? — Dez milhões de dólares representam uma quantia muito grande. São meus bens que estão aqui em jogo. no segu ndo. Apenas gosto de conhecer exatamente minha posi-ção. encarando-o impassível. Não se esqueça disso! O rosto de Mac ficou branco. todo mundo começou a falar a o mesmo tempo. e o sorriso dele desapareceu instantaneamente. podemos começar a assinar os papéis — disse Sheffield. — Esto u disposto a ser par-ticipante da maneira sugerida. Eu sabia de tudo que passava por sua cabeça. É a primeira vez que nos encontramos. Vejo agora que vou ter apenas a garantia de dez milhões de dólares. — Mais ou menos. Cord? — Absolutamente. Mac perdeu inteiramente a calma. Posso vendê-los. — Mas parece ter algumas dúvidas sobre nossa proposta. nem poderia ter. Os bens são meus e você trabalha para mim. Os cem m il dólares por ano que eu lhe pagava. com um s orriso de alívio. Houve durante um momento um silêncio melindroso e. mas. Eu já estava zangado. Sou eu quem toma as decisões sobre meus bens. E eu quero saber como é que vou ser pago. sr. dá-los. em seu nome. sou participante acidental do empreendimento dos senhores. — Muito bem.. mesmo para essas compan hias — disse ele. Sua participação nos lucros. — As exigências de capital são muito grandes. recebo o dinheiro imediatamente. — É contrário a um negócio dessa natureza? — Absolutamente. — Mas o senhor já concordou com dez milhões! — protestou Sheffield. Vi pela primeira vez sua calma de advogado desfeita. — Quer dizer que sua firma vai adianta r o dinheiro? — Não! Não se trata absolutamente disso. E por isso que figuramos nessa sociedade. No primeiro. — É de praxe. então. Estamos apenas subscrevendo as ações e fornecendo o capital inicial que dará vida à nova empresa. mas com um limite estabelecido na extensão de minha partic i-pação. Há uma di ferença entre os dois casos. decidido. Ele me olhou vivamente. — E tenho. se vou também assumir os riscos. — Inclusive seus honorários de corretagem? — Claro! — disse ele. — Tem alguma objeção a fazer quanto à nossa posição. lavo as mãos de tudo! Peço de-missão! — Será como quiser — disse eu. — Compreendo. — Não.

Haverá outros contratos. com essas negociações. — Bem. e não podemos considerar esta reunião um prejuízo total — disse eu costas para eles. — Pare com isso. — Acho que estamos ambos um pouco cansados. O contrato será de doze milhões e mei o. Ele ficou ali. Ganhou a aposta. Estendi a mão para e le. De qualquer maneira. será por quinze. Peço desculpas. Não tive a intenção de enganá-los. Ele me olhou. você. Sheffield. Doze milhões e meio. Por fim. Apertei sua mão e disse solenemente: — Martin. Mac — disse com voz bem cordial. — Ele hesitou um instante. Um pesado silêncio envolveu o local. . — Ele me contou que é um verdadeiro esportista e que é capaz de fazer apos-tas sobre tudo. Jonas. Sabia perfeitamente o que estava f azendo. sr. o homem da Mahlon Chemical deu sua opinião: — São dois milhões e meio de dólares. Caso contrário. mas desviou o olhar. Voltou-se então para o urinol e levou a mão à braguilha. Eu não poderia dar-me ao luxo de ter pena dele. quando Amos Winthrop bateu em meu ombro. Talvez n aquele momento esti-vesse lamentando haver deixado os sessenta mil por ano que g anhava antes de trabalhar para mim. Sheffield — disse eu. procurando compreender o que eu tinha em mente. fecharemos negócio por doze milhões e meio. Eu. Perdi. Quebrei o silêncio. sua braguilha está aberta! 3 McAllister fez as alterações necessárias nos contratos e nós assinamos ali mesmo. Lembre-se de que a aposta é de dois milhões e meio. Passou-se um tempo. Ele abriu a boca e arregalou muito os olhos por trás dos óculos. Eu estava caminhando para o ele vador. — Então a situação é essa. Ia faz endo um sinal afirmati-vo com a cabeça. senhores. Sua posição na sociedade. tinha de lhe dar uma chance. — Estamos muito ligados para que uma coisa dessa interfira conosco. — Muito bem. já tenho feito algumas apostas — respondeu ele com um sorriso. sr. — Claro. com esse vôo em que bateu tantos recordes. Não pense mais nisso. Se conseguir. Eu não queria falar com ele. como a confirmar a aposta. com a ver melhidão a subir-lhe do pescoço para o rosto. aposto dois milhões e meio de dólares como o senhor não é capaz de urinar de onde está naquele urinol. — Pode me chamar de Jonas. dizendo com voz muito séria: — Está bem. Nada mesmo. Olhou para Mac. Ele olhou para os outros e depois para mim. Até eu seria capaz de tentar isso por tanto dinheiro ! Sheffield hesitou um momento. Vi o alívio que se mostrou no rosto dele. A culpa foi minha. Nada aconteceu. Logo que me voltei. Cord! — exclamou. Olhou para mim e eu gesticulei com a cabeça. Cord. — Meu pai me falou muito a seu respeito. mas de repente tive uma idéia.ava. Tinham mesmo necessidade da patente. Creio que não compreendi o que me disse. Voltou-se para os outros e falou com sua voz calma de sempre: — Desculpem-me. — Faça-me esse favor — respondeu com um fraco sorriso. Foi Sheffield quem tomou a iniciativa. não cederiam tão depressa. ele disse: — Cada lado perde um pouco. As escolas que os filhos estavam freqüentando. Escutei-o conversar em voz baixa com os o utros. Se não conseguir. — Sr. — Posso chamá-lo de Martin? — perguntei. Dei um sorriso irônico e fui até um dos urinóis. O imp ortante é assinar logo a renovação de seu contrato para que nenhum desses piratas roub e você de mim. mas não comp reendi bem as determinações do sr. Já passa va de quatro e meia quando saímos para a portaria.

com toda sua experiência. — Vou fazer até mais. mas isso é importante. Eu sabia. — Quero sua demissão. — Eu sei qual é o sono que você quer. Gastava tudo mais depressa do que o governo podia imprimir. Eu também tivera um pai muito ocupado sempre com seus ne gócios. isso não demora. se tivesse seus próprios filhos. — Nada pode ser tão importante. com um ar de cautela nos olhos. — Sujeitos como você nunca aprendem. Se conhecesse. Já fora um dos melhores projetistas de aviões do país. Amos estava bem a meu lado. Não era de admirar que estivesse sempre sem dinheiro. — Preciso de mais dez mil. e me levantei. — Está falando como se fosse um especialista. Prometo que não voltará a acontecer. O amor é cego. Cheguei a pensar por um momento que aquilo fosse uma forma delicada de chantagem . E aquela era uma maneira de me comunicar. Até um trapace iro matriculado como Amos. Mas desta vez é importante. mas com uma condição. — Conversou com ela? — Conversei. Amos. Mas. mas os pais são ainda mais cegos. — Sei disso. Ela já tin ha dezenove. — Da Winthrop Aircraft? — Da Cord Aircraft. É para Monic a. se já não está enrosca da com ele. As portas do elevador tornaram a se abrir e eu saí. O que há? Fomos até um sofá e nos sentamos. não devia mesmo sobrar muito dos cinqüenta mil dólares. — Você sabe que eu devia muito. Mas estava cansado. Bem sabe como são as moças hoje em dia. — Você conhece o sujeito? — Não. não teria tanta certeza assim. Ela é um grande peso para mim e não posso mais controlá-la. Ele devia a todo mundo. Estava atrasado três anos. veemente. não era mais sabido que qualque r simplório do interior. Aprendem tud o na escola e ninguém pode ensinar-lhes mais nada. . Vou dar vinte e cinco mil dólares. — Para onde foi todo o dinheiro que recebeu pelas ações? — Acabou — disse. Está se encontrando com um sujeito às escondidas e. Estava co meçando a me arrepender de havê-lo incluído no negócio. Encarei-o. Podia ser que já soubesse de tudo. — Uma menina inocente como ela! Conservei-me impassível. e um sentimento de repulsa me dominou. Amos? Tenho de dormir um pouco. seria capaz de matá-lo — disse com raiva. — Seu contrato não se refere a adiantamentos assim. A porta do elevador se abriu e entrei. en contrei uma caixa de camisinhas na bolsa dela. Ele deveria ter tomado providências naquela época. Eu poderia ter explicado. — Eu o darei a você — disse. mas julguei que ele poderia dar alguma valiosa colabora-ção à companhia. achando muito curiosa a situação. — O que há com ela? — Quero mandá-la viver com a mãe na Inglaterra. Depois de se entender com todos os credores e com suas ex-esposas. quando pedi ao as-censorista: — Espere um momento. O rosto dele se franziu num sorriso sabido. Jonas? — É. mas não adiantou nada. — Qual? — perguntou.— Pode ficar para amanhã. As portas se fechavam. Pegavam-se à gente e nunca mais largavam. Quando tinha dezesseis anos. Para que eu precis ava de sujeitos como aquele perto de mim? Sanguessugas. com uma expressão de angústia. — E o dinheiro? — perguntou ele. ansiosamente. — É sério. O rosto dele se encheu de satisfação. — Monica? — perguntei. — Está bem. — E o que você acha que eu podia fazer? — perguntou ele. — Conservá-la presa den tro do quarto? — Você poderia ter tentado ser pai dela.

A pesca naquele dia estava encerrada. com a cabeça em meu ombro e o pescoço na curva de m eu braço. — Um telefonema para você. olhando aquele rosto tran-qüilo. Olhei para o rio. friamente. Os olhos dela estavam fechados e havia em torno deles leves. — É verdade? Por quê? — Disse que é por sua causa. bem acima da truta. — Venha para a cama. — Acabou de me entregar seu pedido de demissão. Conheço todos os seus segredos. mostrando cansaço. a s sombras vacilantes das árvores da margem. a mancha azul. Ela adormeceu no mesmo instante. Entrei no elevador e o ascensorista fechou a porta na cara dele. A mosca com eçou a descer na correnteza e. Monica estava deitada na cama em cima de meu pijama. Casamos no fim da tarde seguinte na pequena capela de Reno. Agora me smo. Não havia mais brilho dentro da água. verde e vermelha da isc a. Nem agora.. com os joelhos vermelhos e o nariz descascando. então começou a rir. que é tudo para mim: pai. — Muito engraçado isso! Toda minha vida desejei que ele me desse um pouco de atenção e só agora ele se lembra disso. irmão. mas fui eu que fundei a companhia. O dia está amanhecendo. Be ijei-lhe suavemente a testa. levantando da cama e encostando a cabeça e m meu peito.O rosto dele começou a perder a cor. o so no chegou. Tinha certeza do êxito. e cuide de sua vida — disse eu.. Ela se sentou na cama. Ela me olhou um instante. nem nunca mais — disse ela. sr. Meio adormecido. uma mosca na ponta da minha linha. Uma questão de instinto. Comecei a sentir o cansaço me dominar. — Que é? — perguntei com uma ponta de mau humor. mas não disse o nome. Que Amos Winthrop fosse para o inferno! Que Jonas Cord fosse para o inferno! Man dei para o inferno todos os pais que viviam tão ocupados com seus negócios e eram tão egoístas que não podiam ser pais de seus filhos. Abriu os o lhos quando entrei e perguntou: — Foi tudo bem? Assenti com a cabeça e joguei a camisa em cima de uma cadeira. — Sobe. — O que meu pai queria? Tirei as calças e Monica me jogou o pijama. antes de me virar. Para onde mais poderia ir? — Direto — respondi. . com os olhos castanhos arregalados de surpresa. marcas de cansaço. enq uanto a luz do sol invadia o quarto. Fiquei um bom tempo sem poder dormir. De Los Angeles. É uma mulher. amante. Acariciei docemente seu cabelo castanho. Sabia como uma pessoa pode sentir-se sozinha aos dezenove anos. "Que pergunta estúpida". Ela me apareceu de short. agora que não preciso mais dele. — Jonas! A voz dela quebrou o silêncio e a truta mergulhou para o fundo do rio. sabia que a lua-de-mel estava te rminada. — Mas. — Pegue o dinheiro. Era o fim. Mais um instante e a bandida mor-deria. Cord? — perguntou o ascensorista. E senti de repente uma onda de compaixão dentro de mim. pensei. Ti ve um sobressalto quando ouvi a voz de Monica na beira do rio. Quer mais tempo para ser seu pai. — Não precisa mais dele? — Não.. A água. menina. 4 Vi a brilhante fosforescência agitar-se dentro da água e joguei alegremente o anzol no rio. tenho projetos para um avião que o Exército com certeza irá. — Agora tenho você. Amos. O peixe havia desaparecido. Por fim. percebi-a virando-se na ca ma e o calor de seu esbelto e gracioso corpo me encheu de alegria. meio adormecida.. A noite escura e sem estréias do sono profundo. atrás de mim. — Quem é? — Não sei.

Encostei o caniço na parede da cabana e entrei. Monica voltou para a cabana. mas eu sa bia que estava escutando. então. — Desejo-lh e muitas felicidades.. — O quê? Para que precisa de tanto dinheiro? — Não é para mim. Preciso de sua ajuda. — Ah. Se não der certo. — Um momento — disse a telefonista. Acredita no filme. costumava ir para lá com Nevada. É para Nevada. Mas agora os cinemas só querem mostrar filmes falado s. Monica estava sentada numa cadeira perto do telefone folheando uma revista. e le estará perdido. Trabalha nele há mais de um an o e agora tudo está dando errado e ninguém mais quer distribuir o filme. uma voz conhecida: — Jonas? — Rina? — Sim.— Diga para ela esperar.. Muito mais. Cord? — Ele mesmo. — Ótimo — disse eu. — Não é o dinheiro. — Não. Meu pai sempre prometia ir tam bém. — Está. Ele está numa situação dificílima. Cord está na linha. Subo num minuto. — Mas o quê? Acendi um cigarro e bati com as mãos em volta à procura de um cinzeiro. com sua voz rouca e baixa. — Você a conhece? — Não. Há três dias que tento falar com você. — Mas eu pensei que ele estava muito bem. mas. — Por quê? Não presta? — Nada disso. Po r entre as árvores.. Eu sabia que Monica estava me observando. Corre o risco de perder t o que tem. É a importância que esse filme tem para ele. Ninguém soube dizer onde você estava. não foi. Peguei o telefone. Quando era garoto. — Você tem de ajudá-lo. Não eram muitas as pessoas que sabiam da existência daquela caba na nas montanhas. — Escute. — Compreendo. — Sr. Jonas. mas nunca chegou o dia. Toda a vida dele depende desse filme. Ela continuou a folhear a re-vista. quero dar-lhe os parabéns — disse Rina. Sua mulher é muito bonita. — Se é de mais dez mil que precisa. Mas vi o retrato nos jornais. olhando para Monica. Tomei o caminho de volta. Foi então que me lembrei da cabana. — Alô. — Não é possível que você não tivesse curiosidade em ver como ele aparece na tela. . E um filme notável. — E por que ele não fez um filme falado? — Ele começou o filme há mais de um ano. mas sua cabeça não se levantou da revista. — Los Angeles. Teve a final a oportunidade de mostrar o oeste como realmente era. — Quanto? — Dois milhões de dólares. o sr. — Já viu algum dos filmes dele? — Não. — E mais do que isso. Comecei a enrolar a linha pensando em quem poderia telefonar para mim. o banco está exigindo o pagamento do empréstimo e Norman não quer adiant ar mais o dinheiro. — Ninguém se interessa pelo oeste como realmente era. — Para quê? Conheço Nevada demais. pode sempre contar comigo. — Nevada nunca deu muito valor ao dinheiro. Os jornais dizem que está ganhando meio mi lhão de dólares por ano. Diz também que está com muitos filmes encalhados. Agora. num tempo em que ninguém acreditava no cinema f alado. Ouvi um clic e. Mas não foi para isso que você telefonou.. — Nevada empenhou tudo o que tem para fazer um filme. muito obrigado. os grilos ensaiavam as suas cantigas. Já estava escurecendo e os ruídos noturnos iam começando.

Vai ajudá-lo? — É muito dinheiro. ele não me fez uma só pergunta. peg ava na coisa para mostrar que queria. Parei o carro diante da cabana e toquei a buzina. Onde posso procurá-la ? — Estou na casa de Nevada. Se não estiver pronta quando eu vo ltar. Que motivo teria eu para gastá-lo? — Um dia. — Voltarei o mais depressa que puder. Quando precisei de ajuda. — O que pensarão se voltarmos da nossa lua-de-mel ao fim de cinco di-as apenas? — O que me importa o que vão pensar? Ela começou a chorar e insistiu. você precisava muito de uma coisa e ele lhe deu. mas daí a cinco anos val eria. Depois das palavras mágicas a gente tem de implorar tudo! Tem de andar de acordo c om todas as regras. Mas é melhor nos vermos em qualquer outro lugar. Vou buscar o carro lá embaixo. — Não prometo nada. Olhou-me um instante e. ficar de joelhos. Quando ele entrou com a maleta. Mas logo senti a ternura que ela me inspirava. A verdade é que minha raiva só passou quando eu estava a setecentos metros de altit ude. Vou levar você de volta à fazenda. Tenho de ir para Los Angeles a negócios esta noite. — Mas isso não custou a ele dois milhões de dólares. Eu sabia do que ela estava falando. por que não me telefonou pessoal-mente? — Nevada é muito orgulhoso. 5 . com a outra tentava acender meu cigarro. Robair já estava na por ta. ser cheio de gentilezas. Ela me tratava como a um rei. Mas irei de avião para Los Angeles esta noite. afinal de contas. Estarei no Beverly Hills Hotel à meia-noite.— Está bem. — E por que você está tão interessada? — Porque é meu amigo. abrir-lhe as portas. l avar minhas costas. Eram nove horas quando parei diante da casa. E preciso até agradecer quando ela resolve dar a mesm a coisa que antes ela é que sentia prazer em dar. Monica me perguntou. me cercava de veludo. Como de hábito. Ainda tinha lá o meu velho Waco. Depois de um instante. sra. Não quero que saiba que eu lhe telefonei. — Então fique sozinha. — Está bem. Era das ações de Nevada na Cord Explosives. — Não? E quanto vale agora? Isso me abalou um instante. batendo o pé: — Não vou. com uma voz retesada como u ma corda de arco: — Quanto tempo vai demorar? — O tempo que for preciso para resolver os meus negócios! — respondi asperamente. Com uma mão. — Trata-se de uma situação de emergência. Afinal tínhamos apenas cinco dias de ca sados. Antes de casar. — Quem era? — perguntou Monica — A viúva de meu pai — respondi. Cord. — Vamos arrumar as malas. Não mudou de expressão quando fiquei no carro depois que ele pegou a maleta de M onica. Você sabe disso. Fiquei indignado e disparei o carro para a fábrica. Monica saiu com uma maleta e f icou esperando eu abrir a porta do carro para ela. com as mulheres? Basta a gente ficar diante de alguém nu ma igreja durante cinco minutos e tudo está mudado. depois. Seu quarto está em ordem. Ficou com a mesma cara duran te as duas horas que gastei até chegar à fazenda. cumprimentou Monica. — Não precisa correr! — deu-me as costas e entrou em casa sem olhar um só instante para trás. indo para o quarto. a caminho de Los Angeles. — Se ele está em tais dificuldades. — Mas só estamos aqui há cinco dias. tudo era muito bom. Talvez ainda não valesse tanto. — Boa noite. irei sem você! O que há. E você me prometeu uma lua-de-mel de duas semanas. acender-lhe os ci garros. ela me sma abriu a porta e entrou com a cara enfarruscada. Desliguei o telefone.

— Por quê? — Porque a indústria julga que se deve conservar sem mancha a imagem do herói puro e f orte. havia uma técnic a naquela atividade que começava a me interessar. Só os ol hos estavam mudados. levantando-me e jogando o script em cima de uma cadeira. Continuava esbelta e forte e os seios ainda se projetavam como as p edras num canyon. seus olhos fixos em mim. O herói pode ser culpado de qualquer crime. mais determinada e mais irresistível. com o tempo chegarei lá. — Não é o que você pensa — disse ela. Olhei-a e senti a mesma excitação que ela provocava em mim. — Mas não é isso o que im porta. — Vamos! — falei bruscamente. Era a força que eu sempre sentira nele. dependendo dos letreiros e de uma ação mais ampla para exprimir o enred o. — Desculpe a pergunta. . — Sim. — Eu sabia que ia dizer isso. Olhei para Von Elster e disse: — Tirando o caso daquela madame de Nova Orleans e. Peguei um ci garro. — Bem. Por isso. — Há algumas coisas que não se fazem num western. mas que ali era maior. O filme falado é projetado com a velocidade da palavra falada. Estão à espera. Von Elster sorriu. Mas percebi vagamente a falta de alguma coisa. — Não posso perder a noite toda. Rina não havia mentido.Olhei para Rina com o script de capa azul na mão. Desde que voltei da Europa. com uma força que parecia iluminar a tela. O que ele dizia era mecanicamente sensato. O filme era notável. Como em tudo no mundo. — Venha para o hotel comigo. Começava o filme como um garoto de dezesseis anos e acabava pelas montanhas como um homem de vinte e cinco. consegui do estúdio uma projeção do filme para você. Meter mulheres é uma delas. Nunca me dei bem com garotos. Por que tem de fazer tudo de novo? — Seria ótimo se pudéssemos acrescentar o diálogo. mas apenas por um motivo: Nevada. Sem a mecânica. Gostaria de conversar mais sobre essas coisas. menos o de fornicação. Mas por que não acrescenta o diálogo a esse filme. Senti então um calor nas coxas e compreendi o que era. ainda sentindo a emoção do que acabara de ver. Recostei-me na cadeira com um suspiro quando as luzes se acenderam. Ele m antinha o filme do princípio ao fim. depois. — Você só está casado há cinco dias. Um homem de verdade. Sentei-me na sala de projeção entre Rina e Von Elster. não seria possível faz er nada daqui-lo. — Não sou muito de ler coisas — disse eu. O tempo não havia tirado coisa alg uma de Rina. Mas nunca em todo o filme eu sentira sua verdadeira idade. ao passo que o filme mudo tem um andamento muit o mais rápido. o da fi-lha do presidiári o. Rina teve um sobressalto. Havia neles uma segurança que não existia antes. — Estava apenas curioso — repliquei. — O que é. — E tem dormido com ele? Ela não teve a menor evasiva. Ele é muito bom para mim. — E você é boa para ele? — Procuro ser — respondeu tranqüilamente. Jonas. — Curioso para saber como é que se consegue prendê-la. Essa me acertou. prontamente. Ri e levantei. Mas acontece que o ritmo de projeção do f ilme mudo é muito diferente do ritmo do filme sonoro. — Há quanto tempo você está por aqui? — Há um ano e meio. A você pouco interessa o que eu seja ou não seja. Deviam estar tão firmes quanto eram da última vez que a vi. Um homem. o diretor. da mesma man eira que se faz com a música. então? Dinheiro? — Não. — E tem estado com Nevada todo esse tempo? — Tenho. não há mulheres no filme.

O sr. eram quase seis horas. Nevada é um homem cem por cento. — Está certo — respondi. Cord — disse Von Elster. Olhei para Rina. 6 O telefone tocou repetidamente dentro de minha cabeça. — Posso deixá-lo no hotel. De Greta Garbo e John Gilbert para baixo. mas estou aqui na portaria co m o sr. Desculpe incomodá-lo tão cedo. Eu lhe telefonarei. — Bernard B. Fez sinal ao chofer e a limusine se afastou. — Quanto é exatamente que você me dará para so-correr Nevada? — Daria tudo o que tenho se fosse necessário. Ninguém sabe ao certo qual será o efeito do cinema falado sobre a própria carreira. Jonas? Já resolveu? — Ainda não. . — Quem é Norman? — perguntei. — Não. Ela olhou firme para mim. ainda tonto de sono. — Creio que já avançamos o máximo sem o conhecimento de Nevada. — Espere um pouco aí até eu me vestir. — E a voz de Nevada? — É boa. Muito boa. Norman. Dei à telefonista o número do financista Tony Moroni. — Escute. Rina pode me deixar no caminho para casa. Vou ganhar muito dinheiro de uma maneira ou de outra. hein? — Não. da Norman Films. Senti uma ponta de tristeza. sr. Peguei o telefone. não esperava outra coisa — disse ela duramente. Não sabia o que eles queriam. Levei quase uma hora e meia para chegar ao fim. sua posição es tará assegurada. Cord? E Von Elster. mas não devia s er nada de bom para Nevada. sr. segurando-lhe a mão. — Está pre-ocupado. — Von Elster tem um interesse pessoal no caso — disse ela. Correra depressa para o patrão logo que sentira o cheiro de meu dinheiro. É um grande filme. Você mudou? — disse eu. muito obrigado. Fizemos outro dia um teste sonoro. Tornei a pegar o telefone. — Oito horas está bem. Mas o agente dele. Norman acha que p ode dar al-gumas sugestões antes que o senhor tenha de enfrentá-lo. Dan Pierce. É muito importante falarmos com o senhor antes de seu encontro com Nevada. Ela fez um sinal quase imperceptível com a cabeça. Nunca fez um filme falado e quer fazer esse. Von Elster não perdera tempo. A capa azul do script chamou minha atenção por um instante. — Não preciso. é muito esperto. Larguei a mão de Rina e saí do carro. Nor man julga que poderá ajudá-lo muito no negócio que vai fazer com Nevada. — Sr. — Como é? Vai ajudar ou não? — O que eu ganho se ajudar? — Pode ganhar muito dinheiro. Acordei e o-lhei para o relóg io. e. — Acha que preciso de alguma ajuda? Conheço Nevada desde criança. É a companhia que distribuirá o filme. Desliguei o telefone e acabei o cigarro. Quantas pessoas diriam o mesmo a meu respeito? Só pud e pensar numa. Mas não se preocupe. Norman. Quando fec hei os olhos. Mudar para quê? Ninguém muda. — Já é uma coisa a menos para dar preocupação. — Então. passando a um tom confidencial —. Passava alguns minutos das sete. Sua voz ficou gélida. você será a pri-meira pessoa de quem exigirei pagamento. O sr. — Leve-o ao hotel amanhã às oito horas . — Quer dizer que ele está abalado? — Todo mundo em Hollywood está. — Você não mudou nada. subi para meu quar to e peguei o script. Cord — disse ele. Quando resolve r. Entrei no hotel. se der certo. que estava ria como gelo. Peguei um cigarro. Ouvi dizer q ue a voz de John Gilbert é tão ruim que a MGM não fará mais nenhum filme com ele. — Conhecendo você como conheço. Há muitas coisas que ainda quero saber. Ela não disse uma única palavra até o carro parar diante do hotel.— São quase quatro horas — disse ela.

Como o atual agente de Nevada. Eu já estava acordado. Ele não estava preocupado. — E o que exatamente vai acontecer a Nevada? — Se ele não puder pagar o empréstimo. as despesas de distribuição são bem r eduzidas e a parte de Smith é a maior. — E o que farão com o filme? Jogarão no arquivo? — Nada disso — respondeu. — Eu sei. e a parte dele ficará para o fim. Quando qualquer dinheiro chegasse às mãos de N evada. Não queriam interfe-rências em suas trapaças contra Nevada. nós penhoraremos o filme e todos os seus bens. Agora eu sabia de tudo. De pois liquidaremos tudo até recuperar nosso dinheiro. pois ele empregou cerca de qua trocentos mil dólares no filme. Os seis ainda estão no lugar e eles têm o guarda-roupa. dare mos o que sobrar a Smith. Jonas. caíra numa a rmadilha dessas? — Uma pergunta mais. Não era de admirar que Von Elster e Bernie Norman estivessem lá embaixo à minha espera . Os banqu eiros estão sempre dispostos a emprestar todo o dinheiro que quisermos. deve ser um risco muito bom. Posso muito bem assinar outro título. — Obrigado — agradeci automaticamente. É Bernie. — Quais são as possibilidades de sobra. desde que . Talvez mais um milhão. É Jonas. nos entreg ará a quantia excedente. Mas a mão com que escrevo ainda está perfeita. faça-me um favor. Muitas coisas podem acontec er. A voz dele foi muito cordial. — Não tem importância. de fato. Ele é o distribuidor. Quero a opinião de quem não tem interesse pessoal direto no caso. — Entregaremos o filme a Norman para distribuição. Agora Ber-nie Norman precisa de crédito par a reformular alguns de seus filmes e retirou a garantia. — Obrigado. Teria mais possibilidade se fosse falado. Fizemos o empréstimo a Smith com penhor de seus b ens e mais a garantia da Norman Films. se tiverem sorte. Tony. Quanto custará a transformação de O renegado em filme falado? — Vamos ver. Depois que ele recuperar esse dinheiro. — O que há sobre o filme. — Vale a pena? Ele hesitou. as de spesas triplicarão. Dessa maneira iriam encher os bolsos sem qualquer risco ou despesa. lembrando de repente. Tony? — Muito pequenas. A coisa estava começando a ter sentido. rindo. — De tudo que sei.— Desculpe ligar a essa hora. Suspenda qualquer provi-dência a respeito d o empréstimo até eu lhe dar alguma palavra ainda ho-je. Menos. — Somos nós. — Depois disso. Parabéns pelo casamento. Tony? — É um bom filme. mas é um bom filme. ele já estaria liquidado. Nos termos do presente contrato. Sabia que eu podia perfeitamente cobrir o dinheiro com o que ia receber da companhia q ue ia explorar a minha patente do novo processo industrial para plástico. Tony. Moroni riu enquanto nos despedíamos pelo telefone. É cerca de metade d o custo. Isso d ará a Norman a oportunidade de reaver seu dinheiro. por que está exigindo o pagamento do emprés-timo? — Você sabe como trabalhamos. Tony. — Quem recebe o dinheiro da distribuição? O banco? — Claro que não. — Não gosto de correr o risco de dar opinião sobre filmes. sendo tão esperto como diziam. Os camaradas lá embaixo estavam querendo dar um golpe de m estre. — Corra o risco desta vez. Quando nosso empréstimo estiver integralmente coberto. Agora. Limpar Nevada. — É o seu banco que está financiando o novo filme de Nev ada Smith? — O renegado? — Sim. que eu não pensara em Mon ica desde que chegara à cidade. Tivemos automaticamente de exigir o pagamento do empréstimo. Quando o filme passar para nossas mãos. É possível que eu assuma a garan tia em lugar de Norman. e deixarei de importuná-lo. você precisará gastar ainda um milhão. — Se acha que é bom.

Se precisar de alguma coisa. Diga ao sr. Rina já estava sentada no sofá. irritado. — Jonas! — exclamou ele. Tentamos transfor má-lo num filme falado. A trama fora preparada desde o início. . —Tenho lido muita cois a nos jornais a seu respeito. — Não é essa toda a verdade — começou Pierce. Entrei no banheiro. O telefone tocou três vezes enquanto estava debaixo do chuveiro. — É uma pena. Com isso. — Só dispunha de um palco de som nessa época e preci sava dele para seus outros filmes. Eram quase sete e meia e me se ntia meio sonolento ainda. mas ele afirmou que se não pr osseguíssemos imediatamente nas filmagens ele retiraria a garantia que estava dand o. Os garotos gostam. Ouvi uma exclamação de surpresa e decepção quando desliguei. Um sorriso se esboçou no rosto de Nevada. Vou ver o que posso fazer com o agente de Nevada. mas logo que começamos as filmagens viu que estava errado. Eu bem que gostaria de conhecê-la. tudo se esclareceu. mas desapareceram um ins tante na satisfação com que me olhou. Tenho de andar assim. Olhei para o relógio logo que desliguei o telefone. pois queria mudar de assunto. Nevada e outro homem estavam de pé no meio da sala. — Também você está com muito bom aspecto. Achava que dizia mais do que todas as coisas falsas que eu até então representara. meu agente.te-nhamos bens suficientes em garantia. — Isso faz parte da profissão. Apertei-lhe a mão sem jeito. Era engraçado apertar a mão dele como se fosse uma pessoa estranha. Rina e o agente estão subindo. Gostei muito. que estendeu a mão. Nunca pudera esconder nada de Nevada. afetuosamente. e vi que compreendera tudo o que havia em meu casame nto com Monica. — Nevada queria fazer o filme mudo m esmo. Ouvi o telefone tocar de novo. — Nevada. Eram quase oito horas quando saí do banhei ro. telefonarei p ara ele. — Você está cada dia mais parecido com seu pai. — Mas quando é que vamos conversar? — Acho que agora é tarde. — Entre — gritei do quarto. e Nevada fez a apresentação: — Dan Pierce. Não valia a pena ter tanto trabalho para apanhá-los e s aí com os pés descalços. mas mudei de idéia. Peguei o telefone. É uma pena que você tenha de fazê-lo de novo. Mas eu queria fazer o filme. Deixei a água quent e ensopar minha pele e var-rer o cansaço. — É por isso que o banco está exigindo o pagamento do empréstimo. Olhei para o outro homem. Fossem para o in ferno e esperassem mais um pouco se quisessem falar comigo. O que eu mais queria naquele momento era um bom banho. Ele fora um grande jogador de pôquer. Ouvi a porta abrir e acabei de abotoar a camisa. Começou a fazer um cigarro. — E Norman? — perguntei. Nevada então me surpreendeu. — Meteu a mão no bolso e tirou uma bolsa de fumo. Quisemos esperar. Havia pequenas rugas de tensão nos cantos dos seus olhos. Procurei os sapatos e vi que es tavam do outro lado da cama. — Muito bem. — Pensei que o cinema falado não fosse vingar — disse Nevada. dizendo: — Eu sei o que você está pensando. Ri pensando no que ele iria dizer ao patrão. Ele me olhou meio surpreso. — Por quê? — Norman não deixou — continuou Pierce. Apertei a mão do agente e entrei direto no assunto: — Vi seu filme ontem à noite. Sua mul her está aí com você? Fiz um gesto negativo com a cabeça. seu casamento. Norman que agradeço muito a oferta. mas não conseguimos. Era Von Elster outra vez. Não nos viram. falando naquela voz baixa de conspirador. — Por que não lhe adiantou o dinheiro para acabar o filme? — O crédito dele diminuiu — disse Nevada. quando bateram na porta. Olhei para Ne vada sem compreender. Vesti as calças e já ia pegando uma camisa. O vôo de Paris a Los Angeles. Onde arranjou essas roupas? Ele ficou um pouco embaraçado.

Bernie Norman faz o banco exigir o pagamento e o banco entrega o filme a ele. eu era apenas outro trouxa. — Mas Von Elster é um dos melhores diretores de Hollywood — disse Nevada. Apertamos as mãos e fui para o telefone. não faria nada. — Negócio fechado. Nevada. O que quero agora é que Pierce providen cie para que eu veja tantos filmes falados quanto for possível nos próximos três dias. Sabia que você ia fazer isso. no fim da semana. E fora ele mesmo quem me ensinara a pegar no baralho quando as paradas estavam muito altas. e se for um filme falado não haverá um só que o recuse. Mas quantas pessoas conhece que já fizeram um filme falado? Isso o fez calar-se. Mas reconhecia que eu era algum a coisa mais para Nevada. Mas com uma condição. que o banco está exigindo — acrescentou Dan Pier ce prontamente. — Quanto custaria fazer o filme de novo? — perguntei. Ele tem contrato com dez mil cinemas. por quase um terço do que lhe custaria se o fizesse com o dinheiro dele. Júnior. você inclusive. Comprarei todos os interesses e o f ilme passará a ser ex-clusivamente meu. quer você goste. Não vou perder nada. — Cerca de um milhão de dólares — respondeu Nevada. — Mas o senhor sabe alguma coisa a respeito de filmes? — perguntou Pierce. levarei todos de avião para Nova Iorque. mas também tocado de especial re speito. Norman consegue o filme de graça. — Agora talvez você acredite em mim. Olhei-o um instante. fizemos um trato. — Não sei nada. — Então sabia mais do que eu. Jonas. Para Pierce. — Se o filme não prestar. Quando o fizermos de novo. Você pode perder todo seu dinheiro. O filme é meu e o que eu disser é o que se fará. — Norman ainda teria de distribuir o filme? — perguntei. depois me olhou com sua franqueza habi-tual e disse: — Se eu fosse você. Não haverá discussões e todos me obedecerão. sua carreira estará encerrada. sorrindo. — O que acham que devo fazer? Nevada hesitou um instante. Liguei para Moroni. no banco. Nevada. Desliguei e voltei-me para os outros: — A primeira coisa que temos a fazer é dispensar Von Elster. — Estamos é sendo torpemente ex plorados. — Sempre me arrumei muito bem antes de ser artista — disse Nevada. No momento em que pensou que você estava em dificuld ades. — É por isso que sou um bom banqueiro. Depois me voltei e olhei para Rina. tentou traí-lo. Estava às sete da manhã aqui no hotel com Bernie Norman. — Sem contar o pagamento do empréstimo. — Dirigiu todo s os meus filmes e foi quem me descobriu. — Pois é um patifezinho de merda. Nevada fez um sinal com a cabeça. Já ouvira muitas vezes meu pai dizer coisas parecidas. concordando. Se vou perd er a mão. ao menos quero ser quem dá as cartas. O que eu dizia era verdade. — Então. Depois. — Então? — Não sei. — Claro. será feito do jei to que eu quiser. — E se for mudo? — Teremos sorte se for exibido em mil e quinhentos cinemas. Todos querem filmes fa lados. Virei-me para Nevada. — Felicidades. explodindo de novo. Nevada? Nevada estendeu a mão. sentada no sofá. — Nevada — interrompi a conversa dos dois —.— Tudo isso é conversa — disse Pierce. Pas-saremos três . Vi o olhar de Pierce para Nevada. Cheio de raiva. quando lhe digo que Bernie é o responsável por tudo — disse Pierce. Os olhos apenas suplicavam. mas eu nem fa-lei com eles. — Vou fazer a coisa. quer não. Não gosto de deixar você se arriscar sozinho. — Já estou um pouco velho para me preocupar com uma coisa em que entrei por acidente. Queriam me dar algumas sugestões. Seu rost o estava impassível. — Pode transferir o empréstimo para a Cord Explosives. O cinema passara a ser uma cois a nova e não havia mais veteranos. — Está enganado! — exclamou Pierce. as rugas de preocupação desapareceram de seu rosto e ele voltou a ser um homem jovem.

— Para sempre. — De acordo com meus cálculos. . Eu e Rina ficamos a sós. mas eu não. Nós dois sabemos por que fiz isso. Tudo estava tão certo. A viagem levava quase quatro dias. poli-damente. Jonas.. rod eadas por um círculo. Naturalmente vai dizer qu e é sua madrasta! — E é mesmo. — Posso esperar — disse eu. ainda mais jovem que eu. A voz dela estava cheia de raiva. de asa única. Por que está sorrindo. Dalton — disse Morrissey. você cada vez se parece mais com seu pai. Ainda há a vantagem do controle visual direto do piloto. Com as refeições. o que. chegava a mais de quinh entos dólares por passageiro. — Eu também — replicou ela.. Rina atendeu e depois estendeu o telefone para mim. Dalton riu. — Alô. — Não me venha com trapaças. Morrissey era jovem. O que propunha era radical.ou quatro dias indo ao teatro. — O que me interessa é a capacidade de carga e a velocidade — respondi. — Na minha opinião. poderemos pro duzi-los por um quarto de milhão. — Quer dizer que poderíamos voar daqui para Nova Iorque apenas com uma parada em Chi cago? Não acredito! — exclamou Buzz. sr. sorrindo. com maior força ascensional do que qualquer outro aparelho existente. — Você pode jogar seu dinheiro fora nesses planos malucos. talvez quinhentos. poderíamos transportar vinte passageiros além do piloto e do co-piloto numa velo-cidade de cruzeiro de cerca de quatrocentos quilômetros. Formara-se. Ela bateu imediatamente o telefone. sr. com sua maneira segura —. Monica. o garçom chegou com o café. Nesse momento. — Quatrocentos mil dólares. Ela me olhou com simpatia. Lá poderemos até conseguir um bom diretor de cena e. Cord — disse ele. Nevada e Pierce fora m ao banheiro se lavar. Fiquei um instante atônito. Nevada? — Como já disse. — Meio milhão de dólares por um avião? É uma loucura! Nunca recuperaremos o dinheiro! Uma passagem de Nova Iorque a San Francisco de trem custava mais de quatrocentos dólares. Já vi muitos dess es sonhos! — Quanto custará para fazer o primeiro? — perguntei a Morrissey. se for preciso. D everá voar seis horas sem necessidade de reabastecer. pertencia a uma nova geração que c aminhava no céu.. E tão errado! 7 Olhei da janela para o campo de pouso. — Quer ser pago agora mesmo? Eu sabia que a havia ofendido. ostenta ndo no lado e embaixo das asas as iniciais ICA. o telefone tocou e eu disse: — Atenda. poderia vir a tornar-se um ser human o. Não era piloto. Rina. subiria a se . Vários aviões estavam ali ali-nhados. com o transporte das malas postais. e disse afetuosamente: — Se você seguisse apenas seus impulsos. Um avião bimotor. branco e azul. em ver-melho. Sorri também para ele. Nesse momento. Corrigidos os defeitos. — Negócios! E quando eu telefono é uma vagabunda que atende. Virei-me para a prancheta e depois para o desenhista. dizendo: — Sua mulher. precisamos é baixar as asas para ter toda a força ascensional necessária e também para aumentar a capacidade de combustível. especializando-se em p lanejamento e engenharia aeronáutica. Então comecei a rir. — É o que meus cálculos mostram. Buzz olhou para mim. Não se esqueça de noss o trato ontem à noite. Um avião assim daria uma renda de sete mil dólares com a carga e os passageiros.

— E a Cord Explosives possui a outra metade — disse eu. Com cinco viagens por semana. — Será que vai mesmo se arriscar com essa coisa? — Morrissey. — Eu devia saber. Nunca escrevo coisa alguma. Continue a voar e deixe a parte dos negócios comigo. Cord. — No que me diz respeito. de b loco e lápis em punho. Comecei a andar pelos caminhos margeados de tijolos. — Mas ainda acho que é uma loucura sua construir ess e avião. — Não pense que é a ICA que vai pagar as contas. Há um mês e meio. O set de Nova Orleans fora c onstruído ali porque se calculara que haveria mais silêncio. — Bom dia. Entrei no carro e Buzz gritou no momento em que eu ia me afastando: — Boa sorte com o filme! Entrei pelo portão principal dos estúdios de Norman. sr. com ar muito eficiente. Jonas. você gasta todo seu tempo ne sse maldito estúdio. — Espere um pouco — exclamou Buzz. Vamos rodar a primeira cena hoje. — Tenho de ir ao estúdio. No momento em que sentei à mesa. Se eu leva r o caso à Justiça. O guarda me viu e fez sinal par a passar. — Espere aí. Poderemos perder nele até a camisa do corpo. Quase nove horas. As duas compan hias dariam os aviões em penhor à Cord Explosives. Daí por diante tudo seri a lucro. O Palco Nove ficava bem longe. A ICA enco-mendaria vinte daqueles aviões à Cord Aircraft. Irritado com a distância. chamo McAllister. Jonas — retrucou Buzz. Vamos tratar de negócios. A inda farei de você um homem rico. sala de conferên cia e mais duas salas menores. Olhei para o relógio. O rosto de Buzz ficou vermelho de raiva. Alguma coisa para ditar? Neguei com a cabeça. memorandos ou instruções. caso o avião não prestasse. — Bom dia. temos de lutar para const ruir um novo avião. Não adiantava explicar a Buzz o mecanismo simples do crédito. Buzz. com um riso amargo. S e quero qualquer coisa escrita. . Na sal a de jantar dos diretores havia uma mesa reservada com meu nome. seria a Cord Explosives fazer uma avant ajada dedução nos impostos. senhor! Sorri e levei o carro até o estacionamento. O telefone da minha mesa tocou. Não se e squeça de que metade das ações me pertence. A Cord Explosives descontaria nos bancos os títulos do penhor antes mesmo de serem construídos os aviões. Ela já devia saber. quando vi a bicicleta de mensageiro encostada a um dos bangalôs. Aquela gente do cinema em matéria de bajulação era perfeita. nos fundos do estúdio. O pior que po deria acontecer. Havia cinco semanas que aquilo acontecia to das as manhãs. — Você é um grande aviador. Eu tinha também u m bangalô particular com escritório e duas secretárias. Levantei. Não respondi e fui para meu carro. levantando. — Está bem — Buzz acendeu um cigarro. Escutou um instante e se voltou para mim: — Já terminaram os ensaios no Palco Nove. uma geladeira elétrica. uma das secretárias apareceu e se plantou diante de mim. — Escritório do sr. Se não o fizermos. toda a indústria passará a nossa frente. É para isso que existem advogado s. Enquanto se diverte com esse filme. Çord. em muitos casos com prazos já vencidos. Cord. Boa sorte. já temos um avião — repliquei. além de meu gabinete. banheiro completo. serei o único dono da In-ter-Continental Airlines. — Eu devia ter aprendido tudo quando perdi aquele Waco para você num jogo de pôquer. um armário de bebidas cheio até as bordas. Havia uma placa com meu nome no espaço r eservado para mim. sem qualquer interferênci a de som dos outros palcos. A secretária atendeu imediatamente. sala de vestir. — Diga que já estou indo para lá — pedi. — Também tem meio milhão de dólares de penhor sobre os aviões da ICA. Poderíamos até dar refeições de graça durante as viagens. Nada de cartas. sr.te mil e quinhentos dólares. Entrei pelos fundos e fui direto ao gabinete. em menos de vinte seman as recuperaríamos o dinheiro e cobriríamos todas as despesas. não tive dúvidas: um momento depois estava pedalando como um alucinado e ouv indo os gritos do mensageiro às minhas costas. Vão começar o primeiro take e gostariam de sab er se o senhor quer assistir. pode começar a construir o avião.

movia os lábios em pragas mudas e se punha novamente a girar os botões. pois tive imediatamente uma recordação da minha in fância. A máquina está perfeita. mas é assim mesmo que se faz um filme: primeiro todas as cenas internas. — Ele é ótimo. — Ora. Um arrepio atravessou minha espinha. — Todos nos seus lugares — gritou alguém. sr. de costas para mim. e em seus olhos havia uma expressão de fascinação. Afas-tei-me dele e quase dei um enc ontrão em outro. A atriz que fazia o papel da madame era Cynthia Randall. Júnior — disse sorrindo. rapaz — disse ele —. Fiquei emocionado. Então me aproximei e peguei rápido os fones. . Fui para perto da aparelhagem sonora. Parti impetuosam en-te para o set. Não posso mudar o som das vozes. Encostei a bicicleta na parede: — Não tive tempo. Ele se virou. Um homem passou. A voz dela tinha todas as qualidades irritantes de um gato a miar em cima de um muro. Poderia ter chamado um carro para t razê-lo. Olhou para mim e percebi que ele não sabia quem eu era. Uma voz como aquela acabaria com o sexo. Nevada parecia ainda mais moço do que quando eu o conhecera. falando com Rina. Disseram que já iam começar. É a moça. e rodava freneticamente os seus botões. não é mesmo? — Claro. Quando tudo termina. — Lá vamos nós. mas até os olhos eram de um rapaz. todo zangado. Tir ei os fones dos ouvidos e os meti nas mãos do atônito homem do som. talvez com desprezo da minha ignorância. Pessoalm ente. todas as e xternas. Nevada estava no outro canto. ainda moço. — Pois então vamos! — respondi. O homem do som voltou para a sua máquina. a gente te m de fazer sem discutir.Parei em frente ao Palco Nove e quase me choquei com um homem que estava abrindo a porta de entrada. Senti uma espécie de desânimo. É meu dinheiro e meu tempo que estão gastando aí dentro. Gos¬to de mulheres com peitos de verdade. Estava curvad o sobre a mesinha de controle. mesmo na mais luxuosa casa de Nova Orleans. quente e compreensível. — Algum defeito na máquina? — perguntei. Dali podia ver e ouvir tudo. De vez em quando. não é? Concordei. fala p ela primeira vez com a madame da casa suspeita. — Não. mas eu o empurrei raivosamente par a o lado. A voz de nasal que parece falar com os olhos. — Acho que isso é comigo — disse Nevada. Tinha-se por certo que era a coisa de mais sexappeal do cinema. sr. — Está aborrecido com alguma coisa? — Escute aqui. não me dizia nada. — Pois bem. — Pois bem. Então. Um homem tentou me segurar. Ele me olhou com uma escandalizada surpresa. sem qualquer sugestão sensual. — Não precisava fazer isso. Estavam prontos para filmar a primeira cena. aquela em que Max. A voz era perfeita. Resolvi ir para bem longe para não causar algum prejuízo. Norman. Comecei a com preender por que é preciso gastar tanto dinheiro para fazer um filme. Não sei como fazi a isso. Nev ada estava falando. Não era o começo do filme. Cynthia Randa ll começou a falar e fiquei estarrecido. O rosto de Rina estava voltado para o set. Cord — disse. estou fazendo o possível. quando o chefe nos diz para fazer alguma coisa parecer boa. — Alô. nós dois precisamos de nossos em-pregos. Só Rina me havia dito que a voz de Nevada era boa. Era a maior estrela de Norman. Virou-se qua ndo eu entrei. Estávamos no déc imo primeiro take daquela mesma cena. com fones nos ouvidos. há um homem que junta tudo na ordem certa. quando notei o homem do som. depois. Era Bernie Nor -man. Mas não sou Deus. Dois maquiladores e um cabeleireiro rodeavam-na enquanto ela se sentava diante da penteadeira que fazia parte do set. — Que idéia é essa? Mas eu já estava com os fones nos ouvidos e ele nada podia fazer senão me olhar. carregando um cabo. — A voz de Nevada Smith? — Não — disse ele.

— Então? — perguntei. Creio que só começou a acreditar quando. às duas da madrugada. indo depois sentar junto de Nevada. — O procedimento é muito irregular. — Está bem. e um ar de alívio e satisfação apare-ceu no rosto da artista. e um súbito silêncio caiu sobre o set. trinta mil dólares por dia é muito di-nheiro. Gosta do papel. Dez dias são trezentos mil. Aí compreendi tudo. Ainda não pensava que eu estivesse falando a sério quando chamei todo o pes soal para fazer um teste completo. Marlowe. — Esteja pronta no set para a filmagem às nove horas. cansado. — Então vamos em frente! Afinal. será uma coisa de fazer as platéias delirarem.Alguém gritou "Corta!". Cord. É toda mulher. ouviu? Foi você quem telefonou e . Peguei um sanduíche e comecei a comer. Rina tomou a coisa como pilhéria quando lhe pedi que dissesse algumas frases ao mi crofone. deve ser um bocado fotogênica. Cord? — Houve. e não gostava nem um pouco disso. Eu nunca tinha visto na tela nada parecido. Ela pegou no braço de Bernie no momento em que ele se v oltou para mim e pergun-tou: — Houve alguma coisa. — E uma pena não poderem achar alguém com a voz dela — disse de repente o homem do som. fomos todos ver projetada uma cena que ela fizera com Nevada. pois vai fazer um filme falado com e la. Bernie Norman correu para o set. sr. — Está falando de Rina? Ele acabou de comer o sanduíche e disse com um sorriso: —. — Não há tempo. Olhei para o homem do som ainda no seu lugar e com os fones nos ouvidos. Fechei os olhos. — O que você acha? — perguntei a Dan. Havia em seus olho s um ar de cautela. — Vá para casa e direto para a cama. era de dar água na boca. Talvez seja melhor nos arranjarmos com Cynthia Randall. muito pálido. — De nada — respondeu ela. A filmagem parada representa um prejuízo de trinta mil dólares por dia. — Prefiro perder tudo agora a ser ridicularizado e perder tudo depois. Só sabia que alguém estava querendo me enganar. Jonas. Quero você no estúdio para pro-videnciar o guarda-r oupa às seis da manhã. sim. — E Marion Davies? — Acabei de telefonar para ela. Ele sabia do que eu estava falando.É dela. se não estou enganado. mas não comigo. Por telefone havia tentado conseguir uma estrela emprestada nos outros estúdios. Começaremos a filmar às nove. Eu estava fervendo. Olhei para ele. A MGM não pode ceder Greta Garbo. — Achei que deviam estar com fome e mandei preparar isso. E. A brincadeira já está passando da conta. — O que quer dizer com isso? — Ela tem alguma coisa na voz que empolga. inclusive ao homem do som. — Nada feito. Randall é uma estrela mui-to importante. sem se comprometer. Nesse instante Rina entrou com alguns sanduíches.trilha sonora assim. mas não para ela. mastigando seu sanduíche. Todos me olharam com ex pressões de espanto. Algumas pessoas se moviam por ali como fantasmas. A srta. Acho que a moça sabia o que estava fazendo ali. — Tem exatamente cinco minutos para tirá-la deste set ou interromperei o filme e jogare i sobre sua cabeça o maior pedido de indeni-zação em juízo da história! Sentei na cadeira de lona com meu nome gravado e corri os olhos pelo set já quase deserto. E não quero mais brincar. Se sair na. sim! Ela! Tire-a do set! Está despedida! — Não pode fazer isso. — Poderíamos talvez trazer uma artista de Nova Iorque. Na realidade. Tudo o que ela possuía aparecia multip licado na tela. Ela tem um contrato para este filme! — Talvez tenha. carrancudo. Bernie me olhou. — E possível — disse. mesmo quando tentou sorrir. olhando para o relógio no meu pulso. — Para mim pode ser até a rainha de Sabá — disse. — Obrigado. Não foi com a minha pena que o contrato foi assinado. Ouvi passos se aproximando. sr. Era Dan Pierce. Rina ofereceu sanduíches a todos. srta.

Par ocê. Havia uma expressão de surpresa em seu rosto e creio que interp retei mal a clara inocência dos seus olhos. Eu estava meio tenso e ele propôs me ajudar a relaxar. um a noitada arrumada graças ao caderninho preto de te-lefone que todos os agentes pa recem possuir. — Dê-me uma amostra grátis. da quarta xícara de café. todos os truques. — Ótimo. Dan sor riu e perguntou: — Como se sente agora? — Nunca me senti melhor em toda minha vida! De fato. — Isso é o que você acha. mas que estaria lá à tarde. Pode até ser sincero agora. Mas eu é que sei. — E por que acha que vou precisar de você? — Porque conheço todas as facetas desse negócio. . Iam começar a filmagem às nove. — Pronto — disse ele. eu não começaria qualquer filme sem submeter todo mundo a um teste de som. resolvemos parar e com er alguma coisa. — Vendi minha agência hoje de manhã — disse ele. Você tem jeito para essa atividade. lembra-se? Olhei para Nevada. Mas não é e nunca será. Era Dan. o que você vai fazer? Dan sorriu. Dan Pierce era diferente. — Paguei e as mandei para casa. — Por quê? — Porque de agora em diante vou trabalhar com você. sem nada daquela ansiedade habitual qua ndo pensava no que tinha de fazer durante o dia. — Beba isso e não sentirá mais nada. 8 Abri lentamente os olhos e espiei o relógio. — Não está avançando um pouco o sinal. A desordem era completa. muito mais do que costumava conversar co m uma pessoa estranha. Tomei mais um pouco do café forte e puro como eu gostava. Ac hei melhor você dormir um pouco. Ri. é apenas outro jogo de dados. Estavam todos surpresos e sem ação quando a porta bateu atrás de mi m. — Onde estão as pequenas? — perguntei. Levei o copo à boca. Um momento depois a ca beça começou a melhorar. Você vai ficar no cinema. Sentia-me calmo e bem disposto. A noite foi bem agitada. já vestido de slacks creme e camisa esporte vistosa. Depois.não eu. Eu estava metido naquilo até a raiz do cabelo. Corri os olhos pelo quarto. um sujeito com o Dan Pierce me seria muito útil. vivo. Era um sujeito dinâmico. Duas horas! Levantei imediatamente e a dor que senti quase me rachou a cabeça. — Bem. Não ia levar muito tempo. No caminho. — E você tome providências para que ela não falte! Saí da sala de projeção. Depois dos bifes acompanhados de uísque num lugar que deveria estar fechado mas não estava. Você é um homem ocupado e o tempo é a coisa de maior valor que você tem. Nunca tinha conhecido ninguém com o ele e o tipo me fascinava. uma inclinação natural que não é todo mundo que tem. Não valeria tanto se o cinema fosse sua única ocupação. que você levaria muit o tempo para conhecer. mas quando eu pegasse o macete da coisa. mas Dan tinha razão. Descobriu um novo campo de jogo. sem entender grande coisa do assunto. Dei um gemido alto e a porta se abriu. Tinha na mão um copo d e alguma coisa que parecia suco de tomate. Dan e eu tínhamos tido realmente uma noite agitada. — Já telefonei para lá e disse que você estava muito ocupado. Estava com fome e comi como um lobo. Depois. O criado japonês de Dan já havia preparado ovos mexidos e salsichas quando saí do banh eiro. E um desafio ao qua l não poderá resistir. Dan? Só vou fazer esse filme. O gosto era horrível. Encontrara-me com ele na s aída do set e me ofereci para levá-lo até a cidade. Naquela noite havia conversado com Dan. sabia o que queria. Tenho de ir ao estúdio.

uma eficient e balbúrdia de vozes e gestos. — Negócio fechado. sr. — Como? — Dando espaço maior à parte dela na história e ampliando o episódio de Nova Orleans. S erá ótima. eu estava normal. — Nevada não é mais problema meu. — Você é o patrão e o filme é seu. Bastam dez por cento das ações e todas as despesas pagas. Ele refletiu um momento e perguntou: — E quanto às despesas pagas? Estendi a mão. — Não parece uma mulher. Como conseguiria trabalhar para você sem gastar dinheiro? Dinheiro é a única coisa nesta cidade que ninguém trata mal. quando ela me dava as d eixas no script. — Ela é formidável! — disse Nevada com entusiasmo. E ainda não se sabe se os microfones funcion arão bem ao ar livre. que entrava pelo lado. mude — disse Dan. acendendo lentamente um cigarro —. — No começo estava um pouco nervosa — disse o diretor. — Se fizermos isso — perguntei. Havia grande movimento. Você vai viver de sua conta de despesas. A boca estava pintada como um pequen o arco de cupido e as sobrancelhas marcadas a lápis num traço fino e artificial. Só cheguei ao Palco Nove depois das três horas. Ela me fizera rodar como um pião. Parei junto do homem do som. — Você não disse que tinha vendido a agência? — E essa é a única maneira que tenho de receber uma compensação sem aumentar suas despesas gerais. O cinema é um negócio como qualquer outro. — Como vai ela? — perguntei. — Que combinação quer fazer comigo. Cord. Mas o instinto m . Iam fazer outro take. Um dos assistentes do diretor chegou apressadamente. mas não vi Rina em parte alguma. com um sorriso. e sim uma caricatura dos anúncios de propaganda. — Trabalharam bem com ela. o que acontecerá a Ne vada? O papel dele perderá muito de sua importância. Pela primeira vez. — Não quero saber do que gostam! Eu é que não gosto. — Tudo pronto. desde que Rina me telefonara. Isso economizará cinco semanas de externas. Quero algo que ainda não saiba. Dará uma boa imagem. Não e ra mais uma mulher. rindo e batendo nos fones. — Nunca pensei. Dan? — Não quero salário. — Vou lhe dar dez por cento dos lucros. Virei-me e vi Rina. Seus lindos seios estavam tão aperta dos na roupa que ela mais parecia um rapaz. e ambos se voltaram p ara mim quando cheguei. podemos fazer algumas alterações nest e script e economizar uns quatrocentos mil dólares. Mas agora era diferente. O rosto de Dan ficou impassível. O importante é ganhar dinhe iro. Mas nada de ações. Também faria isso se ganhasse salário. — Não brinque comigo. que isso um dia serviria para ela. Ele pegou o script de capa azul e disse: — Se Rina aparecer na tela como o teste promete. Nevada estava a postos. quase não pude acreditar em meus olhos. isso é uma coisa que já aprendi. — É disso que gostam. — Mas depois foi se habituando. Não sabia se ia ou vinha. Ele conversava com o diretor. Há mulheres assim nesta cidade por um tostão a dúzia! — Se não gosta. Fui para onde estava Nevada.— Ora. Tive vontade de invadir o set e dar largas ao meu temperamento. Seu longo cabelo louro e platinado estava amarrado no alto da cabeça. Estou trabalhando para você agora e creio que você já esgotou nesse filme todas as reservas de sentimento. Carrol! O diretor fez um gesto de aquiescência e o assistente gritou: — Todos nos seus lugares! O diretor foi para perto da câmara e Nevada entrou no sei. Os novos donos da agência que tratem dele. — Claro. — Como vão as coisas? — Otimamente! — disse.

Um instante depois o diretor anunciou um intervalo de dez minutos e veio falar omigo todo nervoso. ficou ao lado dele. — Nevada? Escute. o homem da maquilagem e a chefe do departamento de gua rda-roupa. Gaillard. não faz sentido transformar uma mulher n um garoto para estar na moda. levante-se. Marion Davies e Cynthia Randall? A verdade é que ela se parece com t odo mundo. q ue segurava nas mãos os infalíveis lápis e bloco de papel. srta. sr. Marlowe tem de ser vestida no rigor da moda. quero todo mundo em meu escritório daqui a dez minutos. Os filmes ditam o estilo. menos com Rina Marlowe. — Como é seu nome? — perguntei a ela. — Foi sua a ordem? — perguntei. Mais uma explosão como a da véspera e ninguém mais teria moral para ada que prestasse. Por fim. sr. Acendi um cigarro e disse: — Todos viram o teste feito ontem à noite. srta. Ha via ali espaço suficiente para todos nós. Porta . sr. — Ótimo! Essa é que é a maneira de agir. Nenhum homem em seu juízo perfeito poderia interessa r-se por um corpo metido numa roupa como essa.Diga ao Carrol que quero falar com ele — pedi a Dan. Ela se levantou sem nada dizer e ficou me olhando. uma mulher magra de idade indeterminada. Quer explicar o que não compreende? — A srta. Sou desenhista do guarda-roupa. minha secretária. Nevada recomendou que sem a ela um trato completo. — Como é que ela se chama? O diretor tossiu e riu nervosamente. voltando-me para Nevada. A mulher do guarda-roupa disse: — Acho que não estou compreendendo. Dan. Mais cedo ou mais tarde. por favor. usando um vestido muito simples. Do outro lado da sala. — Ora. todos sabem o nome dela. Foi muito bom. rosto jovem e cabelo precoce mente embranquecido. Cord? — Quem aprovou a maquilagem e o guarda-roupa? — Acho que foi aprovado pelos respectivos departamentos. — Ilene Gaillard. — Com estilo ou sem estilo. Procurei falar com voz contida : — É meu dinheiro que está no fogo e o que combinamos foi que eu daria as ordens. Gaillard. Ainda que tenhamo s de fazer algumas concessões à época em que se desenrola o filme. — Não culpe a srta. Jonas. o desenho fundament al dos trajes tem de representar a última palavra da moda. Ele confirmou com a cabeça. —. — Rina. — Então por que ela não está parecida com Rina Marlowe em vez de parecer uma combinação pífia de Clara Bow. sr. Rina e Nevada sentaram-se no sofá. — Como é? — Rina Marlowe. Virei-me para os outros. Estou vendo que vai precisar menos de e eu julgava. Dan sentou-se numa poltrona ao lado de minha mesa. Cord. — Certo. — Fui eu que dei a ord em. É isso que as mulheres vão ver no cinema. — Muito bem. A frente deles estava o camerama n. Gaillard.e conteve. fazer n mim do qu c des 9 Olhei o escritório e cheguei à conclusão de que o estúdio sabia o que estava fazendo. Carrol. Cord. isso tinha de acontecer. Como aconteceu que a mulhe r do teste não foi a mesma que chegou ao set esta tarde? Ninguém respondeu. Cord. Jonas — disse nesse momento Nevada. o novo diretor. — Alguma coisa.

Imperturbável. — Temos de colocar alguma espécie de sutiã — disse a srta. Não haveria rigidez suficiente para sustentar os seio s. Gaillard. Cord. não. — Há ainda uma coisa que posso tentar — sugeriu a srta.que está muito bom. — Peitos bonitos foram feitos para pular. Nevada apertou os olhos e percebi no fundo de seu olhar o quanto o havia ofendid o. mas pare ciam feitos de gesso. será como se ela não estivesse usando nada. Rina olhou para mim. Recuei um pouco e olhei para Rina. Veja o que pode fazer. Cord — respondeu. — Talvez se eu mostrasse o que quero. a armadura estava numa mão e com a outra ela segurava a parte de cima do négligé fechada. Gaillard a fez parar. sr. Gaillard. — Ela não pode ser fotografada assim. Po sso ver todas as pernas que quiser ali na rua. Cord. não podemos cortar os arames. Peguei a armadura e a joguei sobre a mesa. Instantes depois. Lee? O cameraman concordou. vã ao b anheiro e lave toda essa sujeira do rosto. — O que está dizendo? — perguntei à desenhista. Se mpre que ela se virava. Por baixo do négligé. — Não. — Vire à direita — pedi. Quando se voltou. não espero que compreenda onde quero chegar. vire-se — pedi novamente. Rina e a desenhista saíram do banheiro. os lábios cheios e a s sobrancelhas seguindo sua curva natural. encolhendo os ombros. O resto é comigo. não. O busto assim não parecerá absolutamente natural. Ninguém disse uma palavra até ela voltar com a boca larga e grande de sempre. — Vamos filmar aquelas cenas de novo. Eram perfeitamente visíveis. Qu ando ela se movia. — Srta. enquanto Rina permanecia com os olhos fitos em al-gum ponto por sobre meus ombros.nto. o sutiã cedia e se achatava. A voz da srta. Mas na tela tudo aparecerá exagerado. — Não é possível fotografá-la assim. Eu entendi o que estava acontecendo agora. Continuo a não gostar. dando aos seios aquele aspect o pouco natural. De qualquer maneira. — Deixe ver. Aproximaram-se de mim. não sei por que o senhor es tá tão preocupado com o busto. — Não. — Pode ser. — Está bem. os seios ficavam parados. Aplique sua maquilagem habitual. O sutiã ainda apertava e deformava os seios. Não é mesmo. de hoje em diante. embora não lhe chegasse aos quadris. Não me parecia certo. — E se tirarmos as alças dos ombros? — Podemos experimentar — disse Ilene Gaillard. — Penso. Enquanto Rina saía em silêncio. — Não há jeito de cortarmos alguns desses arames? — perguntei à de-senhista. E stava melhor do que antes. e aparecerão bem. — Está bem melhor — comentei. — Agora à esquerda. rindo. Fez cair as alças. Rina fez menção de caminhar para o set. o corpo ainda era uma tábua. só pense no seu trabalho de representar. Levei as mãos ao négligé de Rina e o puxei . — É verdade. — Agora. As pernas são bem feitas. mas os seios não me pareciam tão bonitos como quando esta vam soltos. Limite-se a responder minhas perg untas. Deixou impassivelm ente cair o négligé dos ombros. a senhorita pudesse fazer. Olhei para a dese-nhista. Rina estava com uma armadura reforçada com arame s que parecia quase um pequeno espartilho. Tire isso — disse e u. dei a volta em minha mesa e fui sentar. O cabelo se derramava como ouro líquido até os ombros: Só uma coisa não estava certa. — Vamos ver — concordei. sr. Levantei e cheguei perto de Rina. Rina virou-se de lado. O busto está pulando. Alguns minutos depois retornaram. Rina nos observava com um curios o ar de desprendimento. com os olhos deliberadamente dis-tantes. mantendo-o apenas na curva dos braços. — E o que tem isso? — perguntei. — Se fizermos isso. aproximando-me de Rina. sr. Desviei os olhos porque não queria ver aquilo. desde que não é homem. — Rina — exclamei. vendo cair prontamente sobre seus olhos uma máscara impassível —. Gaillard.

— Muito — concordei solenemente. Mas ele estava embebido demais em sua explicação para dar atenção ao meu olhar. — Talvez seja melhor o senhor ir trabalhar na minha sala — disse ela a Morrissey. Rina tem um corpo grande. Morrissey chegou em menos de vinte minutos. com uma expressão atônita. sr. — Foi por isso que o chamei — disse calmamente. — Está brincando. Mas o problema é muito curioso. com o emprego do princípio da suspensão. sorrindo. sr. Olhei para ele. — O que o senhor quer é impossível. trazendo na mão uma folha de papel. — Te nho ali tudo que é necessário. Então falei: — Não há um sutiã que consiga impedir que os seios pulem e ao mesmo tempo permaneçam com u m aspecto natural. além de aviões.. E fui para o telefone. O peso de cada seio puxa para qualquer dos lados. Morrissey. sr. seu ros to ficando muito vermelho. Compreendeu? — Não — respondi. saiu com ele da sala. Ela se levantou e veio até onde estávamos. e preciso de sua ajuda. — Tenho um pequeno problema. — Por acaso tem um compasso? — perguntou Morrissey à desenhista. Cord. — Está vendo o que quero? Talvez ela não visse. — Se é capaz de desenhar aviões que têm de s uportar milhares de libras de tensão. — Não consegui acompanhá-lo. Depois.para baixo. mas não havia um só homem ali na sala que não estivesse de olhos a rregalados. — Podemos conseguir isso no departamento de engenharia. Voltei-me para a desenhista. sr. bem no centro da fenda. Vi com prazer que outras coisas podiam interessá-lo. — Tudo o que eu puder fazer. — Compasso? Para que precisamos disso? — E como é que acha que vou medir a altura e a circunferência? — disse Morrissey. Os dois peitos se erguiam como duas alvas luas gê-meas. diga-lhe tudo o que ele precisa s aber. Mas depois voltou-se para mim e disse: — Acho que posso dar um jeito. Sou engenheiro aeronáutico — gaguejou. Cord. — Acho que conseguimos! Na verdade. Tivemos de achar um meio de aproveitar a tensão para manter os seios firmes. Os olhos de Morrissey se arregalaram por trás dos óculos. Morrissey estava de volta em pouco mais de uma hora. Julguei que po r um momento ele havia ficado paralisado. Seu nervosismo desapareceu pouco a pouco. — Obrigado. Morrissey admirava os seios de Rina enquanto a desenhista falava. Srta. tomando-lhe o braço. Rina. Ele se virou para mim. Venha co-nosco. Tem trinta e o ito de busto. Cord! — Nunca falei tão sério em toda minha vida. — Eu sabia disso — murmurei. perple xo. Gaillard. Gaillard. — Mas. Sou desenhista. — Não estou prometendo nada. Rina — disse eu. Isso mostra que a or igem da tensão cai entre eles. não engenheiro de estruturas. — Levante-se. Inseri um arame em forma de V na separação. colados aos meus punhos escur os. Quero que faça um capaz de resolver o problema. mas eu não entendo nada de sutiãs. balançando a cabeça. Larguei o négligé de Rina e me voltei para a srta. Sua linguagem era uma curiosa mistura de engenharia e desenho de moda. Não há nenhum sutiã capaz de sustentar o busto da maneira que o senhor q uer. Foi a primeira idéia construtiva que ouvi desde que esta reunião começou. Ela o olhou por alguns instantes com expressão de surpresa. deve ser capaz também de desenhar alguma coisa que sustente um par de seios. e estava visivelmente nervoso. foi muito simples depois de encontrado o ponto de tensão. até ele formar um quadrado sobre o busto um pouco acima dos bicos. E continuou: — Tudo então se torna um problema de compensação.. Cord. — Sabe qual é o princípio usado numa ponte pênsil? .

— Obrigado. sr. Minha única preocup ação era saber se daria resultado. — Uma coisa mais. sauda de da infância. olhou-me e falou pela primeira vez naquela tarde. As minutas de todas as reuniões de dire-tores são mimeografa das e distribuídas. El a deixou a capa cair no chão e se mostrou no négligé já consertado. — Acho que devemos alterar o script. Tive. — Está tudo bem. Quando o fogo começou a devorar o caderno. quando começarmos as filmagens. quando podia apelar para Nevada toda vez que precisava de ajuda e proteção. — Segundo esse princípio. Dan abriu um sorriso e disse: — Já falei. daquel e par de seios suavíssimos. — Para quê? — É uma regra da companhia. Se não es-tou engan ada. — Dê-me esse caderno. P arou diante de mim. — Há muita gente aqui nesta cidade que pensa que sou um trouxa e que estou metido ni sso para ser roubado. quero ver a srta. se aproximando de minha mesa. Ela concordou com a cabeça e foi saindo. Dan Pierce apareceu logo depois que Nevada saiu. Nevada — agradeci. — Então? Tive consciência do esforço que me custou levantar os olhos e encará-la de frente. Ela ficou olhando. Mas já tinha tudo de que precisava. Não podia tirar os olhos de cima dela. acendendo um cigarro. Pouco depois Rina entrou na sala com Ilene Gaillard. quanto maior for a pressão que a massa e-xerce sobre si mesm a. Então o chamei. Júnior. pode tratar de procurar outro emprego! Nevada sorriu quando me voltei para ele. Virei-me e olhei para minha secretária. saia com esse corpinho daqui. — Agora. Marlowe.— Vagamente. Pode falar com os responsáveis. — Ande até onde está o sr. os olhos brilhando. Nevada. Só havia um que mandava onde ele estava. por um instante. os mais macios em que alguém poderia descansar a cabeça. Eu não devia ter me metido nisso. Júnior. — Acho mesmo que vamos criar um novo estilo com a srta. horrorizada. agora. — Desculpe ter de falar como falei. percebi como estávamos longe um do outro. Era exatamente o contrário. joguei-o na cesta e olhei para ela. — Está bem. Não tive de esperar muito. Não posso tolerar isso. . mas tenho de pôr um fim nesses boatos. Peguei-o acima da cesta de papéis e aproximei das folhas um fósforo aceso. forçando um sorriso nos lábios. Olhei para a sala e vi que todo mundo est ava levantando para sair. Nevada foi o último. — Não criaremos moda alguma. Rina se dirigiu lentamente para mim. De repente. as mulheres do mundo inteiro tentarão imitá-la logo que o filme começar a ser exi bido. srta. Cord — disse IIene. — E não se preocupe. se souber de qualquer outra minuta sobre o que se passa aqui dentro. Nevada é que estava precisando d e mim. A cachorra sabia do efeito que t inha sobre mim. — O que é isso aí? — As minutas da reunião. Eu ainda não compreendera bem. Gaillard. Tudo aca bará bem. — Compreendo. Estava ainda sentada com o ca-derno cheio de riscos de taquigrafia. Marlowe num négligé preto e não nesse branco. As mulheres já pareciam mulheres muito an tes de qualquer de nós nascer. E. Não era mais assim. Seu pai era assim também. — Pensei no que você sugeriu hoje de manhã — disse para ele. srta. Você e eu sabemos que isso não é verdade. Quero que todos vejam que ela é uma mulher da vida e não uma noiva donzela. maior será a pressão criada para mantê-la no lugar. Amanhã. Gaillard. Cord — disse a desenhista. Os olhos de Rina mostravam-se frios e calculistas.

qua ndo bateram à porta. — Ela ainda o está roendo por dentro. — Nevada e eu vamos casar — respondeu. Dan estava no centro de uma roda de homens. — Precisa de você? Por quê? Por que ele foi orgulhoso demais para pe-dir ajuda? — Isso não é. Duas semanas depois. caminho u displicentemente para o quarto. quando olhei para os rapazes . — Disse a ele que eu é que queria dar -lhe a notícia. Todos ansiosos para assistir ao meu fracasso. e eu já estava com uma garrafa de uísque pela metade. — Quando isso acabar. Perto de mim. — Antes de vir para cá. me encarando. Agora é a minha vez. Estava no outro lado do saguão. cercado de garotos e distribuindo autógrafos. furioso. No escuro . verdade e ninguém sabe melhor do que você. Não era preciso ninguém me dizer que aquele fi lme seria um sucesso de bilheteria. de boca aberta e expressões fascinadas. Cord. Você não precisa de ninguém. Peguei um cigarro e comecei a sorrir. Nevada entendeu o que estava acontecendo. — E se ela não quiser ir? — Irá. — Só há ainda alguns lugares nos lados. Não pense que não compreendi o que você fez. Dava para ouvir o barulho de suas respirações ofegantes. — Por que tinha de fazer uma sujeira dessa? — perguntei. E o filme começou. um rapaz ape rtava com força a mão de uma moça. Rina afinal apareceu na tela. sim — disse friamente. o rapaz não pôde conter uma exclamação. Cinco minutos depois. Ela me olhou um instante. disse a Nevada o que ia fazer. Fiz um sinal e ele me seguiu até o carro. mas nunca disse uma só palavra. Cortou o mais possível o papel de Nevada no filme que era dele e levantou em mim um monu mento ao seu egoísmo. cercada de repórteres. ao mesmo tempo que o arruinava! .10 Terminamos o filme em quatro semanas. ele me ajudou. Vamos ganhar dez milhões de dólares . Minha voz estava rouca. não é? — Deixe de sermões e faça o que estou dizendo. Todo mundo. Ele precisa de mim. fizemos uma estréia de surpresa num cinema do vale. E você será a maior es la do cinema quando esse filme for distribuído. Estava repleta. calmamente. Jonas! Ela foi melhor do que tudo. encontrei uma cadeira vazia e sentei no meio de um bando de rapazolas. — Diga que é o dia do pagamento! Era uma hora da madrugada. — Mas que merda! — disse um dos rapazes. Quando finalmente Rina puxou Nevada para a cama. — Então? — perguntou. A parte central da sala havia sido reservada para os convida dos do estúdio. Levantou os olhos quando me viu cheg ar e exclamou radiante: — Você tinha razão. Olhe i para Rina. Então por quê? Você não precisa mais dele. — Fui eu quem tive a idéia de fazer de você uma estrela! — Não pedi isso e nem ao menos queria. — Não! — gritei. Quando fui para o saguão depois de terminada a projeção. Meu nome na tela pareceu estranho para mim: Jonas Cord Apresenta Mas essa sensação passou quando os letreiros dos créditos terminaram. Em seguida. sr. estava presente. Ele é velho e está acabado. Rina entrou e fechei a porta. —Você não pode! Não consentirei nisso. Fui até a galeria no momento em que as luzes se apagaram e a exibição começou. estavam todos de olhos pregados na tela. dando de ombros. Olhei para a platéia. Não podia acreditar no que meus ouvidos escutav am. de Norman para baixo. Nevada estava num canto. Cheguei atrasado e o publicitário do estúdio me fez entrar. Apontei o quarto. Bernie Norman ro ndava em torno dela como um pai orgulhoso. — Pensei que fosse uma coisa diferente e é mais um desses filmes chatos de mocinho e bandido. — Porque. leve Rina para meu hotel. quando precisei.

— Fora daqui! — esbravejei. não teria deixado a mulher sozinha. me smo que fosse apenas piedade. Quando cheguei aqui às carreiras logo que você me telefonou. — Dez mil dólares eram demais para você me dar quando eu queria mandá-la embora a tempo. Empurrei Rina para dentro do quarto e virei-me lentamente. Canta e aparece em cena com um violão em vez de um revólver. meu p ai tinha razão. Meu pai costumava dizer que ninguém é tolo como um jovem tolo. Jonas! Do contrário. Rina fechou a revista que estava lendo. sacudindo-a violentamente. Havia na voz de Amos Winthrop um tom de triunfo. e a febre me tomou. Nós dois sabemos que ele está acabado. sentada na poltrona ao lado da cama . — Quer alguma coisa. quanto lhe custará livrar-se dela? Olhei para Monica e comecei a praguejar intimamente. marcando o canto da página co m uma dobra. Jonas. — Não meta minha mulher nisso! Ela virou-se para se desvencilhar de mim e a frente de seu vestido se rasgou até a cintura. Mesmo aos meus o lhos sem prática.— Você não teve a menor reação contra isso. Que horas são? . Ela tentou afastar minha boca. Monica. e a deixou cair na manta branca que cobria seu corpo. Estávamos assim. Há agora n dos estúdios um novo tipo de cowboy. E. querida? — perguntou Ilene. mostrando preocupação. quando a porta se abriu atrás de mim. ela estava grávida de cinco meses. Estava com uma barr iga enorme. — Não desta vez. Agora. Foi por sua causa. Eu conhecera Mo-nica menos de um mês antes de casarmos. Lá estavam meu sogro e outro homem. mas no instante seguinte me beijava com mais força ainda do que eu. — Não. Vi os seios balançarem. com os braços em vo lta de meu pescoço. a-trás dele. — E eu? Por que acha que me meti nisso? Acha que foi por amor a Nevada? Não. Isso queria dizer que já estava g rávida de dois meses quando casara comigo. Olhei-a espantado. com o rosto grave. na porta. esmagando-lhe a boca num beijo. sem voltar-me. — Pois é justamente por isso que ele precisa mais do que nunca de mim! Perdi a calma e a agarrei pelos ombros. — Rina! — gritei. teve por ac aso idéia de que eu precisava de você? — Você nunca precisará de ninguém senão de você mesmo. como sempre. Amos Winthrop tinha toda ra zão de rir. Não era meu o filho que ela trazia no corpo. já teria ido para lá ou a chamaria para cá. A história de RINA MARLOWE LIVRO IV 1 Zelosamente. Se você tivesse qualquer parcela de sentimento dentro do coração.

fechando os olhos. srta. que adormecera. beijou de leve a boca exausta e sa iu do quarto. Bernie conseguiu mesmo O'Neill? — Sim. Soube que o estúdi stá aguardando sua saída para começar a trabalhar em Madame Pompadour. A jeitou delicadamente os cobertores e olhou para o rosto de Rina. não é? — Você já sabia? — Não. Rina tornou a pegar a revista. Ela afastou o cabelo platinado do rosto de Rina. — Não é possível que ainda pensem nisso. Ele confiou a história a um grande escritor e diz que o script está ficando muito bom. Não quero ter duas pacientes ao mesmo tempo. — Acho que vou tirar um cochilo até o médico chegar. Desde que Roos evelt assumira a presidência. — O so no é o que há de me-lhor para ela. com segurança profissional. sentindo-se ainda mais cansada do que antes. — Conteúdo social! — exclamou Rina. Gaillard — disse a enfermeira. Ilene saiu para o corredor. C onteúdo social. — Você passou o dia inteiro aqui. tira esse velho filme do ar-quivo. — Por que não come alguma coisa? — perguntou o médico. muito obrigada. Disse-me que lhe mandará uma cópia do script logo que ele estiver pronto. sorrindo ironicamen¬te. não sabia. o fil-me volta para o arquivo. — Não se preocupe.— Três horas. Rina. Importa-se que sente aqui? Afinal percebeu sua presença. encontrou a enfermeira. Talvez Bernie estivesse mesmo dispo sto dessa vez. Tudo o que se fazia naquele tempo levava esse rótulo. O médico terminou de beber o seu e disse: — Bom café. Ma rlowe tem parentes a-qui? . Gaillard. folheou e a jogou de novo sobre a colcha. obrigada. Foi apenas um palpite. limpa a poeira e espalha a notícia. Havia uma leve palidez azulada por trás da pele queimada pelo sol da Califórnia. O'Neill era um escritor e não um dos rotineiros autores de enredos de Hollywood. E isso lhe interessava muito. — Rina está dormindo — Ilene o interrompeu com a primeira coisa que lhe veio à cabeça. Cumprimentaram-se e dentro em pouco estavam ambos se ntados diante de duas xícaras de café. Rina deu um suspiro. sorrindo. perdeu o interesse. Estou bem. Mas então desejará voltar para cá. Poderia apro-veitar o máximo da história . — Imploro ao inferno para que me deixem sair daqui! Ilene levantou-se da poltrona e foi até o lado da cama. — Mas eu quero ficar aqui. Rina recostou-se no travesseiro e sugeriu: — Por que não vai tomar uma xícara de café? — Estou bem aqui — respondeu Ilene. — Vá — disse Rina. — Desta vez. Avisou: — Vou descer para tomar um pouco de café. sentindo a opressão no peito e a névoa nos olhos que tan to a haviam acompanhado naquelas últimas semanas. Os olhos estava m fechados e as faces se mostravam ma-gras e repuxadas ao lado das maçãs salientes. até ouvir a respiração suave de Rina. não. De repente. — Não. No aposento contíguo. Ela está dormindo. — A srta. — Quem está escrevendo a história Eugene O'Neill. ficou impressionada. Ainda estava tão imersa em seus pensamentos que nem ouviu a voz do médico: — Com licença. Você sairá em breve. Ilene ficou ainda um instante. Seus olhos escuros brilharam através dos bifocais. — A que horas o médico disse que vinha? — perguntou Rina. — Às quatro. — Que horas são? — Três e dez — disse Ilene. — Acho que precisa comer um pouco. — Muito bem — disse ele. Terá grande con-teúdo social. — Não se preocupe. Depois de conseguirem toda a publicidade possível. srta. mesmo sem querer. Falei ontem com Bernie Norman em Nova Iorque. Basta o café. Não há nada que você queira? — Não. Todas as vezes que o estúdio fica sem saber o que produzir. Saiu do elevador e sentou à mesa d a lanchonete.

— Não. sinto muito! Nestes últimos anos não tive muito tempo para me manter informado. a ação do vírus aumentará de intensidade e ela estará sujeita a fe-bres muito altas. Sorriu inconscientemente e v . E aquilo de que já suspeitávamos: encefalite.. As lesões podem tomar várias formas. — E leucemia? — perguntou ela. — Mas ninguém mais está doente. Ilene sentiu-se invadida por um medo imenso. s upõe-se que seja propagada pelos insetos e transmitida por picadas. — A encefalite é produzida por um vírus que se aloja no cérebro. Durante essas febres. Procurou respirar. Divorciaram-se há três anos. não é. contrafeita. A srta. — Voltamos da África há três meses — disse Ilene. Le-vantou a cabeça. Muito ca nsada. talvez não. — Rina não tem qualquer parente que eu conheça. e ela me p assou procuração para tudo. E acredite: conh eço a resposta tanto agora quanto no tempo em que comecei a clinicar. é bom saber os nomes dos pare ntes mais próximos. como já expliquei. — Se é preciso tomar alguma providência. o diretor. com a voz amargurada. E vivemos todos ali durante três meses exatamente da me sma maneira e nos mesmos lugares. encolhendo os ombros em sinal de dú-vida. eu tomarei. O médico bateu-lhe de leve na mão. Estava cansada. — Como assim? — perguntou Ilene asperamente. Ainda sabemos muito pouco a respeito dessa doe nça e sobre como ela é transmitida. — Respire fundo e tome um pouco de água — recomendou o médico. Sou a amiga mais íntima. — Não estou querendo dizer nada. o vírus atacará o cérebro. — Há alguma coisa que possamos fazer. nas regiões tropicais. orgulhosa . Só depois que a febre passar é qu e poderemos ter noção da extensão dos danos causados. — Para quê? Vamos deixar que continue com seus sonhos. Ela quase podia ler o que se passava em su a mente. — Na verdade. Casou-se depois com Claude Dunbar. Foi a primeira coisa que me fez desconfiar. Marlowe me contou. — E o marido dela? — O quê? — perguntou Ilene. sen-tindo-se emp alidecer. O que importava o que ele pensasse? O que qualquer pessoa pudesse pensar? E pe rguntou: — Já tem os resultados do exame de sangue? O médico fez sinal afirmativo. Mas muitos cas os. — Ele cometeu suicídio depois de pouco mais de um ano de casados. — Não sei. — Não sabe quantas vezes na minha vida de médico já ouvi essa pergunta. Sentia-se cada vez mais prisioneira do sono. Depende da parte do cérebro que venha a ser afetada. — Oh. nos Estados Unidos e em outros lugares. Mas num caso como esse. confusa. Talvez ainda saiba como se chama. — Acha que devemos dizer alguma coisa a ela? — perguntou Ilene.. também? — Não — disse Ilene. Os efeitos residuais são semelha ntes aos de um derrame. hor-rorizada. O médico ficou olhando Ilene em silêncio. — Quer dizer que ela poderá perder o juízo? — questionou Ilene. — Ainda há alguma possibilidade? — Muito pequena. Ela obedeceu e seu rosto recuperou a cor. não temos qualquer certeza a res-peito da causa — diss e o médico. doutor? Seja lá o que for? — Estamos fazendo tudo que é possível. desarmou Ilene. — Mas por que não aconteceu comigo? — perguntou Ilene. com uma voz que se esforçava para continuar firme. — O senhor está querendo dizer. — Não é casada com Nevada Smith? — Foi. caso alguma coisa aconteça. Nestes próximos quatro ou cinco dias. sempre na ofensiva contra a maioria dos homens. — Fizemos um filme lá. Na ocorrência mais freqüente. Com esse gesto de carinho. Às vezes é chamada de doença do s As esperanças de Ilene se recusavam a morrer. se manifestam sem qualquer causa apa rente. Talvez fique paralítica total ou parcialm ente. Rina ouvia as vozes indistintas do outro lado da porta. — Acabou em divórcio. — Ela tem t anto para viver. Mas se ela escapar. ninguém sabe o que poderá a-contecer. por trás daquelas lentes bifocais brilhantes.— Não — respondeu Ilene. — Eu sei.

— Por quê? — Porque mamãe ainda está doente e ninguém cozinhou. Ouviu passos e olhou. Geralmente uma das empregadas. Todos em volta da cama de sua mãe. que se deitou no chão a seu lado. macushla — disse Molly. Mas ela não gostava de lá. Era quente e não havia grama. Era o pior castigo para e la. Gostava de ficar na cozinha enquanto a mãe preparava o jantar. ficava pert o das cocheiras e do cheiro dos cavalos. vou achar alguma coisa — disse ele. carregando Rina nos braços. a mãe estava muito zangada. estavam todos lá. Já estava completamente tomada por seu sonho. a arrumadeira do andar de baixo. Ela ficou quietinha ao lado da cama. O rosto da moça estava vermelho d e tanto chorar. com a superioridade de seus oito anos. Mary? Está gostando? Faça o favor de não deixar nada no prato. — Sua mãezinha quer ver você ou tra vez. mais cedo ou mai s tarde. Rina chegou mais perto da cama. a arru madeira do andar de cima. quando ela entrara. O cheiro de tud o era tão gostoso! Todo mundo dizia que sua mãe era a melhor cozinheira que os Marlo we já tinham tido. Além disso. — Ora. se cansou e levan tou. Vou procurar comida de verdade. — Você não sabe que deve comer com modos? Os olhinhos pretos da boneca pareciam encará-la. no outro lado da casa. Logo em seguida.irou a cabeça no travesseiro. mas nem sempre isso acon-tecia. Mas. que faz muito bem! Depois de alguma hesitação. Rina t erminou de dar de comer a Susie e perguntou com voz muito séria: — Quer comer alguma coisa. até que não agüentasse mais de tanto rir. olhava para a casa. — Não vai encontrar nada. Peters. ele fingiu que comia. 2 O pátio era fresco. dizendo que ela não devia brincar no pátio e que teria de ficar perto da porta da cozinha. — Pronto. Uma vez. — Agora veja se não se suja mais! — exclamou. desdenhosamente. Sua mãe moveu os lábios. Havia também um homem vestido de preto. Sentia-se feliz quando a deixavam sozinha. Ela o viu afastar-se e voltou às bonecas. — Estou com fome. — É porque você não está olhando bem — explicou ela. O homem de preto tomou . apareceu à sua pro-cura. Mary. Susie! Derramou tudo no vestido e vou ter de trocar sua roupa de novo! Pegou a boneca e tirou-lhe a roupa rapidamente. O sr. Deu-lhe uma palmada e mandou que fosse para seu quarto e ficasse lá o resto da tarde. com o rosto branco e calmo e o cabelo louro levantado sobre a test a. Lavou as roupas num tanque imagi nário e depois as passou a ferro. e a sra. Laddie? — Não estou vendo nada para comer — murmurou ele. Era Ronald Marlowe. Rina arrumava a s bonecas em volta da pequena tábua que servia de mesa. só terra. Então a mãe a repreendia. Susie — disse à bonequinha de cabelo preto. É preciso comer tud o para crescer bonita e forte. Abriram um lugar par a ela quando apareceu no quarto. mas Rina não pôde ouvir o que ela dizia. confiante. e Annie. Coma. numa zanga teatral. à sombra das velhas macieiras. — Ora. Marlowe a carregara e lhe fizera cócegas com o bigode. o cocheiro. metendo-lhe nas mãos um prato de boneca. Voltou-se para a outra boneca: — E você. Marlowe nunca diziam coisa alguma quando a encont ravam lá. De vez em quando. Já estava escurecendo quando Molly. a servente d a cozinha. com uma c ruz na mão. ia chamá-la. olhando solenemente para a mãe. Sentada na grama. Não compreendia por que sua mãe insistia ta nto com aquilo. — Venha. Sua mãe estava muito bonita. até o sr. O sonho de morte que sonhara desde menina.

Saiu do quarto com Rina nos braços. Peters! — Fique quietinha. madame. Rina beijou obediente o rosto da mãe e sentiu que estava muito frio. que era a mais velha das três empregadas. Mary. — Deus o abençoe — disse Annie. Depois. sr. — Mas estará certo? — perguntou Molly. — Oh. Rina. incli nou-se e fechou os olhos de sua mãe. Graças a Deus não compreende nada. querida. — Vim ver se a menina vai bem — disse Geraldine Marlowe. ao vê-lo entrar. — Por que está chorando? — perguntou Rina a Molly. — Beije sua mãe — disse ele. sorriu e exclamou: — Tive três sobremesas. mas eles estavam virados e não p areciam ver nada. — Ele pediu para levarmos o corpo até a sal a que fica por cima da cocheira. pobre orfãzinha! Rina sentiu-se contagiada pelas lágrimas e daí a pouco estava chorando também. As empregadas estavam chorando e até Peters. Lembrou-se do dia em que contratara a mãe de Rina. é a senhora — murmurou ela. Não podia compreender por que as moças começavam a chorar sempre que falavam com ela. — Pobrezinha. com suas bonecas S usie e Mary. Peters entrou na cozinha na hora em que as empregadas estavam jantando. — Acabei de falar com o patrão — disse Peters. Talvez ela tivesse feito alguma coisa que l he dava medo de entrar na igreja para ouvir missa. — Que importância tem isso? — voltou a falar Peters. sentou-se no alto da escada e começou a embalá-la nos braços. madame? A sra. Molly tomou Rina dos braços do homem. e fechou os olhos. deixando o seu Laddie sozinho e órfão. e acabe o seu sorvete — ordenou Molly. — Estamos chorando. — Minha mãe morreu? Molly teve novo acesso de choro e apertou Rina com mais força. — Quero mais sorvete — interrompeu Rina. — Ela não se confessou ao padre Nolan ? Não recebeu os sa-cramentos? O padre Nolan achou com certeza que ela era católica. meu bem. leve a menina para dormir com você esta noit e. tinha lágrimas nos olhos. E o padre Nolan diz que ela poderá ser enterrada em Saint Thomaz. a arrumadeira do andar de baixo. — Como é bom aquele padre! — exclamou Mary. — Nós nem sabemos se era ca-tólica.-a nos braços. Geraldine olhou para a criança e pensou por um momento no que acon-teceria se foss e ela quem tivesse morrido. e . — Não quer entrar. porque gostamos dela. Tomou outra colher. O cabelo muito louro se espalhava em cachos em to rno da cabeça. Dormia. — Então está resolvido — disse Peters. com lágrimas nos ol hos. A pobrezinha estava tão exausta com toda a confusão que logo adormeceu como uma pedra. fazendo o sinal-da-cruz. Mas o importante é ela voltar à i greja. pois Laddie ainda teria o pai. O padre Nolan me disse que vai mandar o sr. Tornou a abri-los pouco depois. De qualquer ma-ne ira seria muito diferente. Rina levou lentamente a colher à boca. Aquele sorvete de creme com baunilha feito em casa estava uma delícia. cho-rando. d eu sua opinião: — Acho que o padre Nolan tem toda razão. agora. não foi uma só vez à missa. uma de cada lado. Ainda é muito menina. Nos três anos que assou aqui. Collin para tomar todas as outras pro¬vi dências e que a igreja pagará as despesas do enterro. Bateram à porta e Molly foi abrir. A mãe sorriu. Logo depois. Mas não s abia por quê. O homem prontamente mudou Rina para o outro braço. Rina já dormia profundamente. Marlowe olhou para a cama. Rina olhou para a mãe. Estava bonita c omo nos dias em que acordava bem cedo e a via com os olhos ainda tontos de sono. — Como está ela? — Bem. Depois. o cocheiro. Vou até o salão pedir a alguns dos amigos que me ajudem a transportar o corpo.. As referências eram muito boas.. Rina perguntou: — Mamãe vai acordar a tempo de fazer o almoço amanhã? Molly a olhou sem saber o que dizer. — Molly.

Ela ia ser enterrada numa igreja estranha e e m terra estranha. Seria bom Laddie ter alguém com quem br incar. A sra. Marlowe. Marlowe sentiu um aperto na garganta. A sra. — E seu marido. nascida num a aldeia de pescadores na Finlândia. Nós. E ficou pensando se agira corretamente ao fazer com que o marido permitisse que usassem o apar-tamento que ficava no andar de cima d o estábulo. Quer um pouco de xerez antes do jantar. Atravessou em silêncio a sala e. Marlowe sempre quisera uma menina. Molly. Dormirá no meu quarto e estou pronta a pagar-lhe a pensão dela com parte de meu ordenado. É uma boa criança e muito sossegada. com modos e pronúncia de quem tivera boa educ ação. Harrison Marlowe viu a cabeça da esposa curvada sobre o bordado que fazi a. Logo ele apareceu com os outros no corredor. acho que prefiro um martini. madame — disse ele. pensaremos em outra coisa. inclinando-se sobre as costas da cadeira. — Não sei — disse a sra. sra. e ela se encostou à parede para deixá-l os passar. — Rina não é problema. — Não terá de pagar coisa alguma. madame? — perguntou Molly. com um . Marlowe hesitara. — Não chore. Marlowe vai ver se encontra os parentes. querido — disse Geraldine. Uma criança de dois anos poderia ser algo bem incômodo. Já vi Mary toda ar ada. — E se não descobrir? — Nesse caso. Esperamos até ter dinhe iro suficiente. que dormia tranqüila mente na cama. madame — ela dissera. mas depois do nascimento de Laddie o méd ico dissera que não poderia mais ter filhos. em voz baixa. Um tom de censura transpareceu nas palavras de sua esposa: — Você bem sabe que não é uma festa. madame. 3 Da porta. o que uma crian-cinha pode comer? Já quase três anos haviam se passado. — Coitadinha! Vai ter de ir para o orfanato. E a mãe de Rina tinha razão. — O sr. rapazes. pensando nisso pela primeira vez. Osterlaag — dissera com um sorriso. Sentiu lágrimas nos olhos. A sra. beij ou-a de leve no rosto. Ele e a filha não chegaram a se conhecer. Osterlaag? — Morreu no naufrágio de seu navio. Agora tenho de voltar a trabalhar. não casamos cedo. Ouvi a mãe dizer muitas vezes que não tinha família alg uma — disse Molly. deixando no ar quente e parado um leve mas inc onfundível cheiro de cerveja. Tenho certeza de que meu marido descobr irá a família. Mas fique descansada que os ir-landeses sabem fazer de tudo uma festa. — Perdão. — Tenho uma filha. Saiu do quarto e parou no estreito corredor ao ouvir um rumor de vozes e passos. querida? — Se não é muito incômodo. — Não vai encontrar ninguém. A criança não dera o meno r trabalho. com o rosto afogueado pelo esforço. rindo. sra. Tivemos a menina já um pouco idosos. — Afinal de con tas. Olhou para Rina. Ninguém poderia prever as conseqüências de um velório irlandês.mbora ela não trabalhasse já havia alguns anos. com os olhos cheios de lá-grimas. Estava ficando mimado demais. Vivi o quanto pude de nossas economias. — O que será agora da menina. A voz dela mostrava a habitual surpresa contente. — Harry! E se os criados estiverem vendo? — Esta noite não podem — disse ele. madame. Ela não irá para o orfanato. Ouviu os passos pesados dos empregados que levavam Bertha Osterlaag. Passaram com o corpo amortalhado. — Uma menina de dois anos de idade. finlandeses. — Só estão pensando é na festa. Ouviu a voz de Peters: — Por aqui. — Claro que não chamam isso de festa.

colocou três medidas de gim na coqueteleira e uma de vermute. o cálice na mesinha. As mulheres só florescem realmente quando ficam mais velhas e s eus desejos aumentam. Ele sentiu o suave contato do corpo de Geraldine.. Com um copinho de prata. Harry! — disse Geraldine. por favor. Mais uma gota.. Cada cálice estava cheio. Queria poupar-lhe a humilhação de ter de suportá-lo mais do que ela q uisesse. menos uma gota e os cálices não estariam cheios. — É terrível — retrucou Geraldine. — De repente fiquei tão excitada! — disse Geraldine. Quando achou que já bastava. Uma criança órfã não é um ob odemos ficar com ela apenas porque está por acaso em nossa casa. mas não sabemos nem a aldeia em que ela nasceu. Talvez fos se verdade. e elogiou: — Está delicioso. com exceção da lua-de-mel. Em seguida. — Aqui ela não tem qualquer parente — disse Harrison Marlowe. . Podem exigir que a adotemos para que ela não volte nunca a ser um ônus para a Prefeitura. — Por quê? Não sei o que podemos fazer além disso. Estava m casados havia sete anos e. querida. olhando para o seu co-quetel. Ela o beijou de leve na boca. — Pensado em quê? — Em adotar Rina. duas vezes em menos de uma semana. Depois deixou cair quatro gotas de bíter na mistura. O marido olhou-a sem nada dizer. Geraldine. todo aquele delicioso calor fl uindo para si e excitando-o. E por isso que o admiro. — Talvez na Europa.. tampou e começou a sacudir vigorosamente. — Não sei. um bar man em Paris lhe servira a nova bebida e. Ele se virou. — Claro. Tenho certeza de que preferirão deixá-l a conosco a sustentá-la por conta da Prefeitura. — Mas você pode falar com as autoridades. — Puxou a corda da campainha. A empregada fez uma reverência e desapareceu. Depois. Creio que devo comunicar às autoridades. desde então. não é? E Laddie ficará tão content e em ter uma irmãzinha. surpreso. surpreso. Então deixou cair uma azeitona em cada cálice e. Pousou. E preciso observar uma porção de formalidades. Levantou-se da cadeira e se aproximou do marido. — Não podemos permitir uma coisa dessa! — exclamou impulsivamente Geraldine. — O que acont ecerá à menina agora? — Não sei. Mary. Se fosse. Ela passou os braços pelo pescoço dele. Ela irá provavelmente para o orfanat o do condado. — Por que não podemos continuar com ela e criá-la? — Não é possível. — Mas você sempre teve vontade de ter uma menina em casa. Amava sua mulher. Harrison a olhou. outra de vermute francês e um vidrinho de bíter de laranja. — Não sei por que ainda não havia pensado nisso. Só por isso é que fora para aquela casa em South Street. — Obrigado — respondeu Harrison. — Acha que seria direito tomarmos outro martini? Dandy Jim Callahan olhou para eles no seu gabinete e esfregou pensativamente o q ueixo. isso era como uma espécie de sinal entre eles. — Traga algum g elo picado.... pegando o seu cálice.. Harry.. a vida deles assumira um pad rão de regularidade. O gelo já estava em cima do bufê e ele encheu a coqueteleira até a borda. calmamente. Mas. Geraldine Marlowe levou o cálice a seus lábios. destampou a coqueteleira e serviu a bebida nos cálices próprios. o coquetel se derram aria. Talvez fosse ver dade o que diziam. Quando havia visitado a Europa em sua lua-de-mel. — Ótima idéia. sorrindo. querida. Você tem uma inteligência tão viva que pensa logo no melhor. Ele foi ao bufê e pegou uma garrafa de gim. — A sua saúde. compenetrado. agora. recuando um pouco. fez com a cabeça um sinal de a provação. e Mary apareceu à porta. escondendo o rosto nos ombros do marido. Tinha trinta e quatro anos. não se queixaria. olhou co m satisfação os coquetéis. e olhou para a mulher. trinta e um. — Descobriu alguma coisa sobre a família de Bertha hoje? — ela per-guntou.pouco de hesitação.

— Não sei. E um pouco difícil o que querem. — Ora, senhor prefeito, sei que o senhor pode fazer isso — disse pron-tamente Gerald ine Marlowe. — Não é tão fácil quanto pensa, minha senhora. Não se esqueça de que a Igreja tem de concorda também. Afinal de contas, a mãe era católica, e não é possível entregar uma criança católica uma família protestante. Ao menos em Boston, não é. Talvez nunca permitam. Geraldine se calou com a decepção fortemente estampada no rosto. Foi então que ela viu pela primeira vez o marido como um ser diferente do simpático estudante de Harvar d com quem casara. Ele começou a falar e havia em sua voz uma expressão de força que ela nunca percebera. — A Igreja gostaria ainda menos do caso se eu provasse que a mãe nunca foi católica. F ariam todos então papel de idiotas, não acha? — Tem essas provas? — perguntou o prefeito. — Tenho — disse Marlowe, tirando alguns papéis do bolso. — O passaporte da mãe e a certidão de nascimento da criança. Ambos mostram claramente que eram protestantes. Dandy Jim examinou os papéis e depois perguntou: — Se tinha isso, por que não os impediu de agir como agiram? — Porque não pude. Os empregados e o padre Nolan tomaram todas as providências sem me consultar. Além do mais, só recebi esses documentos hoje. E que importância tem isso? De qualquer maneira, a pobre mulher teve um enterro cristão. Dandy Jim devolveu os papéis. — Isso dará muitos aborrecimentos ao padre Nolan. Um padre jovem, na sua primeira pa róquia, cometer um engano desse. O bispo não vai ficar nada satisfeito. — Não há nenhuma necessidade de isso chegar ao conhecimento do bispo — disse Marlowe. Dandy Jim o olhou, mas nada disse. Marlowe voltou à carga: — Há uma eleição no ano que vem. — Há sempre uma eleição — murmurou Dandy Jim. — É verdade. Haverá outras eleições e campanhas. Um candidato precisa de contribuições quase anto quanto precisa de votos. Dandy Jim sorriu. — Já contei o que me aconteceu com seu pai? — Não — disse Marlowe, também sorrindo. — Mas meu pai me falou nisso muitas vezes. Disse q ue o botou para fora do escri-tório dele. — É verdade. Seu pai tem um temperamento bem impulsivo. Até parece que tem sangue irla ndês. Só fui pedir-lhe uma pequena contribuição para minha campanha. Foi há uns vinte anos e eu era candidato a vereador. Sabe o que foi que ele me disse? Marlowe sacudiu a cabeça. — Jurou que se algum dia eu fosse eleito, nem que fosse para pegador de cachorros na carrocinha, ele se mudaria daqui com toda sua família. Aposto que não vai gostar quando souber que contribuiu para o fundo de minha campanha. — Meu pai é meu pai e eu o respeito muito — disse Marlowe, com firmeza —, mas o que faço e m matéria de dinheiro e de política é da minha conta e não da dele. — Têm outros filhos? — perguntou Dandy Jim. — Um menino de oito anos — Geraldine respondeu rapidamente. — Não sei — disse Dandy Jim, sorrindo. — Algum dia as mulheres vão votar e se essa menina for criada lá esse é um voto que nunca irei conseguir. — Vou prometer uma coisa, senhor prefeito — Geraldine afirmou prontamente. — Se isso a contecer algum dia, todas as mulheres de minha casa votarão no senhor! O sorriso de Dandy Jim se alargou. Cumprimentou agradecendo e disse: — Os políticos têm sempre a fraqueza de viverem fazendo tratos. No dia seguinte, Timothy Kelly, secretário do prefeito, apareceu no escritório de Ma rlowe, no banco, e recebeu um cheque de quinhentos dólares. Aconselhou Marlowe a i r conversar com determinado juiz, do fórum municipal. Foi ali que se fez a adoção. Quando Marlowe saiu da sala do juiz, deixara com ele um a certidão de nascimento passada no nome de Katrina Osterlaag. Levava no bolso uma certidão de nascimento com o nome de sua filha, Rina Marlowe.

4

Embaixo do grande guarda-sol fincado na areia, Geraldine Marlowe estava sentada numa cadeira de lona. Abanava-se lentamente com o le-que. — Não me lembro de um verão tão quente como esse — disse, respirando com alguma dificuldad e. — Deve estar fazendo uns trinta e cinco graus à sombra. O marido resmungou alguma coisa na cadeira ao lado, ainda imerso na leitura do j ornal de Boston, que chegava ao Cabo com um dia de atraso. — O que foi que você disse, Harry? Ele mostrou o jornal para a mulher. — Esse Wilson está positivamente maluco! — Por que diz isso, querido? — perguntou Geraldine, os olhos ainda voltados para o m ar. — Essa história da Liga das Nações. Ele diz que agora vai para a Europa a fim de assegur ar a paz no mundo. — Pois eu acho a idéia magnífica. Afinal de contas, tivemos sorte dessa vez. Laddie er a moço demais para ir à guerra. Da próxima vez, poderá ser diferente. — Não haverá próxima vez — disse Marlowe. — A Alemanha está derrotada para sempre. Além do ma o que temos com isso? Eles estão do outro lado do mar. Podemos ficar aqui, e deixálos que se matem à vontade se quiserem começar outra guerra. Geraldine encolheu os ombros. — Chegue mais para baixo do guarda-sol, querido. Você bem sabe como fica vermelho qu ando toma sol. Harrison Marlowe levantou-se e levou a cadeira para a sombra. Sentou, deu um sus piro e tornou a abrir o jornal. Rina apareceu de repente à frente da mãe. — Já faz uma hora que almocei, mamãe. Posso entrar na água? Geraldine olhou para Rina. A menina havia crescido muito naquele verão. Difícil acre ditar que só tivesse treze anos. Era bem alta para a idade. Um metro e cinqüenta e sete, apenas dois centímetros a me nos que Laddie, três anos mais velho. O cabelo estava ainda mais claro por causa d o sol, enquanto sua pele estava tão queimada que os olhos amendoados pareciam clar os em contraste com o bronze-ado. As pernas eram compridas e bem-feitas, os quad ris começavam a arredondar-se e os peitos já se mostravam cheios e redondos sob o ma iô de banho de menina, pare-cendo mais os de uma moça de dezesseis anos. — Posso, mamãe? — Pode. Mas tenha cuidado, querida. Não nade muito para fora. Não quero que você se cans e. Mas Rina já saíra as carreiras, sem ouvir o resto. Geraldine Marlowe sorriu para si mesma. Rina era assim mesmo, diferente de todas as mocinhas que ela conhecia. Na dava e corria mais que qualquer dos rapazes com quem Laddie andava, e todos eles sabiam que ela era capaz de vencê-los. Não fingia ter medo da água nem se preocupava em se proteger do sol. Tampouco se interessava em conservar a pele macia e clara . Harrison Marlowe interrompeu a leitura do jornal. — Tenho de ir à cidade amanhã. Vamos fazer o empréstimo a Standish. — Está bem, querido — Geraldine respondeu, ouvindo ao longe as vozes estridentes das c rianças, e acrescentou; — Temos de fazer alguma coisa a respeito de Rina. — Rina? O que há com Rina? — Não notou ainda? Nossa filhinha está crescendo. — Sim, sim, mas ainda é uma menina. Geraldine Marlowe sorriu. Era bem verdade o que diziam dos pais. Falavam mais so bre os filhos mas, secretamente, encantavam-se com as fi-lhas. — Ela já é mulher desde o ano passado — replicou. Harrison ficou vermelho e olhou para o jornal. Havia percebido vagamente isso, m as era a primeira vez que falavam abertamente do fato. O-lhou para o mar, procur ando Rina no meio do grupo barulhento que se debatia dentro da água. — Não acha que devemos chamá-la? É perigoso para ela ficar tão longe da praia. Geraldine sorriu. Pobre Harrison! Podia ler o pensamento dele como um livro. Não e ra do mar que ele tinha medo, mas dos rapazes. — Não, Harry. Não há perigo. Ela nada como um peixe.

Ele a olhou, meio confuso. — Não acha que deve ter uma conversa com ela? Talvez explicar-lhe algumas coisas... como eu fiz com Laddie há uns dois anos. O sorriso de Geraldine era malicioso. Gostava de ver o marido, habitualmente tão s eguro de si, tão positivo em todas as suas idéias, e convicções, assim atrapalhado. — Não seja bobo, Harry. Não preciso explicar-lhe mais nada. Quando uma coisa assim aco ntece, é natural dizer tudo o que ela deve saber. — Muito bem — ele concordou, com um suspiro de satisfação. Geraldine continuou: — Acho que Rina vai ser uma dessas crianças que fazem a transição da adolescência sem pass ar por qualquer das suas fases desagradáveis. Não há nela o menor sinal de angulosidad e, e a pele é clara, sem qualquer mancha ou espinha. Muito diferente do que aconte ce com Laddie. Apesar de tudo, acho que vou tomar uma providência a respeito de Ri na. Vou comprar uns sutiãs. Marlowe nada comentou. — Sinceramente — prosseguiu Geraldine —, penso que o busto dela já é tão grande quanto o meu . Espero que não cresça muito mais. Ela vai ser uma bela mulher. — Teve a quem sair — disse ele, com um sorriso. Ela sorriu também. Sabia perfeitamente o significado daquelas palavras. Não passou p ela cabeça de nenhum deles que Rina não fosse real-mente sua filha. — Você se importaria de me levar para a cidade esta noite? — perguntou ela. — Seria ótimo passar a noite num hotel. — Também acho — ele aprovou, apertando-lhe a mão. — Molly pode tomar conta das crianças. E eu teria tempo de fazer algumas compras pel a manhã, antes de voltar-mos. — Magnífico! — ele disse, olhando para ela e rindo. — O chalé aqui está um pouco cheio demai s. Vou telefonar para o hotel e mandar preparar uma batelada de martinis para o momento em que chegarmos. Ela soltou sua mão e exclamou rindo: — Mas que homem imoral! Rina nadava com braçadas pausadas e determinadas; seus olhos estavam fitos na jang ada que os rapazes usavam para mergulhar, ancorada além da arrebentação. Laddie devia estar lá com seu amigo Tommy Randall. Saiu da água quase aos pés deles. Os rapazes est avam deitados de costas, com os rostos voltados para o sol, e se sentaram, logo que Rina começou a subir a escada. — Por que não ficou lá com as meninas? — exclamou Laddie, irritado com a invasão de seu sa ntuário. — Tenho tanto direito de estar aqui quanto você — ela retorquiu, depois de recuperar o fôlego e ajeitar as alças do maiô. — Ora, vamos — disse Tommy —, deixe-a ficar. Rina olhou-o pelo canto dos olhos e viu que o olhar dele estava interessado em s eus peitos parcialmente à mostra. Foi nesse exato momento que ela começou a se torna r mulher. Até Laddie a estava olhando de uma maneira curiosa, que ela nunca percebera nele. As mãos dela caíram instin-tivamente para os lados. Se era só isso que era preciso par a que a aceitassem, podiam olhar à vontade. Sentou-se diante deles, sentindo ainda os olhos cravados nela. Uma sensação esquisita começou a percorrer seus peitos e ela se olhou. Os bicos estava m claramente desenhados contra o jérsei preto do maiô. Ergueu a vista para os rapaze s e viu que a observavam sem disfarce algum. — O que é que vocês estão olhando? Os dois rapazes ficaram embaraçados e imediatamente desviaram os olhares. Tommy vi rou-se para o mar, e Laddie para o chão da jangada. — Então? — ela perguntou a Laddie. O rosto do irmão ficou muito vermelho. — Eu vi! Vocês estavam olhando para o meu peito! Laddie levantou-se imediatamente. — Vamos embora, Tommy. Isto aqui está ficando cheio demais! Ambos deram um mergulho. Rina observava-os enquanto nadavam para a praia. Depois

estendeu-se na jangada e fitou o céu, pensando que os meninos eram mesmo uma gent e esquisita. O maiô apertado machucava os peitos. Ela encolheu os ombros e libertou os seios do incômodo maiô. Baixou a cabeça e ficou se olhando. Lá estavam eles, muito brancos, em contraste com a pele queimada dos braços e do pes coço. Os bicos estavam rosados e maiores do que até então os vira. Tocou-os com as pon tas dos dedos. Eram duros como pedrinhas e uma espécie de dor quente e agradável cha¬m ejava ao contato dos dedos. O calor do sol começou a enchê-los de uma sensação doce e pra-zerosa. Fez uma leve massa gem para aquilo passar, e o calor que se irradiava dos peitos lhe tomou todo o c orpo. Sentiu-se meio tonta, com um contentamento que nunca sentira até aquele dia.

5 Diante do espelho, Rina ajustava as alças do sutiã. Respirou profundamente, e voltou -se para a mãe, sentada na cama atrás dela. — Pronto, mamãe — disse ela, orgulhosa. — Que tal? Geraldine olhou indecisa para a filha . — Talvez se você apertasse o último gancho... — Já tentei, mamãe. Mas não posso usar assim, que me machuca. Geraldine concordou com um gesto. Da próxima vez, compraria um tamanho maior. Mas quem iria pensar que um trinta e quatro ficaria tão apertado num corpo ainda não tot almente desenvolvido? — Não acha que preciso também de maiôs novos, mamãe? Os que tenho estão muito apertados. — Estava pensando nisso, Rina. E alguns vestidos novos também. Talvez papai queira l evar-nos de carro a Hyannis Port depois do café. Rina abriu um alegre sorriso. Correu para junto da mãe e abraçou-a a-fetuosamente. — Muito obrigada, mamãe! Geraldine beijou Rina na cabeça e depois ergueu o rosto bronzeado da filha. Olhou Rina bem dentro dos olhos, acariciando de leve suas faces. — O que será que está acontecendo à minha menina? — perguntou quase com um tom de tristeza na voz. Rina pegou a mão da mãe e beijou-lhe a palma. — Nada, mamãe — disse ela, com a segurança e a confiança que seriam sempre características d e sua personalidade. — Só que, como a senhora já me disse, eu estou crescendo. — Não tenha muita pressa, minha criança — disse ela, apertando a ca-beça da filha contra s eu peito. — A infância infelizmente é muito curta. Mas Rina mal a ouviu. E, se ouviu, é de duvidar que as palavras tivessem significa do grande coisa para ela. Eram apenas palavras, e as palavras eram tão importantes di-ante das forças que despertavam dentro dela como as ondas que se quebravam irr emediavelmente na praia defronte da janela. Laddie girou o corpo e arremessou rápido a bola para a primeira base. O outro joga dor lançou-se em desabalada carreira e se jogou, escorregando em direção à marca de safe ty, os calcanhares levantando uma nuvem de poeira. Quando a poeira assentou, o j uiz gritou: — Você está fora! E a partida havia terminado. Os rapazes se aglomeraram em torno de Laddie para abraçá-lo e elogiar o jogo. Depois , dispersaram-se e enca-minharam-se para a praia. Ele e Tommy ficaram sozinhos. — O que vai fazer hoje à tarde? — perguntou Tommy. — Nada — disse Laddie, encolhendo os ombros. Ainda pensava no jogo e, apesar dos elo gios, não estava satisfeito com seu próprio desempenho. Teria de melhorar, treinar m uito, pois do contrário não faria parte da equipe principal de Barrington. — O Bijou tem um filme novo de Hott Gibson — disse Tommy. — Já vi esse filme em Boston. Quando é que Joan chega? — Quem? Minha prima? — perguntou Tommy.

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Conhece outra pessoa com esse nome? — replicou Laddie, sarcasti-camente. Talvez ela venha neste fim de semana. Então talvez a levemos ao cinema. Muito bonito! — exclamou Tommy. — Para você está tudo ótimo, e para mim? Pensa que é engraç sentar perto de vocês dois, sozinho? E quem eu vou levar? — Não sei... Andaram mais alguns instantes. De repente, Tommy deu um estalo com os dedos e ex clamou: — Já sei! — Quem? — Rina, sua irmã. — Rina? — disse Laddie. — Mas ela ainda é uma garotinha! Tommy riu. — Garotinha, nada! Viu como estão grandes? Ainda estão maiores do que quando nós os olha mos na jangada há uns quinze dias. — Mas ela só tem treze anos, Tommy... — E daí? Minha prima Joan tem catorze. Tinha treze no verão passado, quando você já vivia todo agarrado com ela na varanda dos fundos. Laddie achou que talvez Tommy tivesse razão. Rina estava crescendo. — Está bem — concordou ele, balançando os ombros. — Pode convidá-la. Mas eu sei que não adian a. Minha mãe não vai permitir que ela vá. — Deixará, se você pedir. — Vou tomar banho e trocar de roupa — disse Laddie. — Até já, na praia. — Combinado. Até já. O chalé estava fresco, depois da algazarra e do calor do beisebol. Laddie foi até a cozinha e chamou Molly. Ninguém respondeu, e ele se lembrou de que era quinta-feira, dia de folga de Molly . Ouviu um barulho em cima e foi até a escada! — Mamãe! Foi Rina quem respondeu: — Foram de carro até Hyannis Port jantar com alguém. Laddie voltou para a cozinha e abriu a geladeira. Tirou uma garrafa de leite e c ortou um pedaço de bolo de cho-colate. Só depois de ter comido tudo se lembrou de qu e havia feito uma promessa de não tocar em doces, para ver se sua pele melhorava. Ficou ali sentado, meio apático. Ouviu a porta do banheiro abrir e passos na direção d o quarto de Rina. O que ela estaria fazendo àquela hora da tarde dentro de casa? H abitualmente já era hora de estar na praia com seu grupo de amigas tolas. Talvez Tommy tivesse razão. Ela estava crescendo. Sem dúvida alguma o jeito que ela ficara na jangada com os peitos quase à mostra, e deixando que a olhassem, não era d e uma menina. E Tommy tinha razão também numa coisa: os peitos de Rina eram maiores que os da prima dele. Pensou de novo em Rina na jangada e de novo imaginou: os peitos querendo sair do maiô, o cabelo molhado caindo até os ombros e os lábios apertados em sinal de aborrec imento. Sentiu um calor habitual subir-lhe pelo corpo. Não! Outra vez, não! Tinha jurado dep ois da última vez que ia parar com aquilo. Levantou-se abruptamente. Não iria fazer aquilo dessa vez. Colocou o prato vazio na pia, saiu da cozinha e subiu a escada . Tomaria um banho frio e depois iria à praia. O quarto de Rina ficava bem em frente ao patamar da escada, e a porta estava par cialmente aberta. Já estava no meio da escada, quando notou que havia movimento de ntro do quarto. Parou, com o coração batendo com força. Ficou de joelhos de modo que só seus olhos ficassem acima do patamar. Rina estava diante do espelho, de costas para a porta, vestida apenas de sutiã e c alção. Enquanto ele olhava, ela estendeu a mão para trás e desabotoou o sutiã. Depois, vir ando o corpo um pouco, tirou o calção. Ainda com eles na mão, atravessou o quarto e vo ltou logo, trazendo um maiô de banho. Parou de novo em frente ao espelho e vestiuo. Ajeitou-o sobre os seios e ajustou as alças. Laddie sentia a testa banhada de suor. Era a primeira vez que via uma moça crescid a completamente nua. Nun-ca pensara que pudessem ser tão belas e excitantes. Passou pela porta dela em passos lentos e foi para seu quarto. Fechou a porta e

jogou-se na cama, ainda trêmulo. Ficou por muito tempo ali deitado, com aquele cal or que o fazia quase dobrar-se de dor. Debateu a questão consigo mesmo. Não. Não devia. Se cedesse daquela vez, cederia para sempre. Afinal, começou a sentir-se melhor. Enxugou a testa com o braço e le-vantouse. Só era preciso ter um pouco de força de vontade e determinação Sentiu orgulho de si mesm o. O que ele tinha de fazer era afastar-se de todas as espécies de tentação. Isso abra ngia tudo. Até os postais franceses que comprara na tabacaria em Lobstertown.. Abriu uma gaveta da cômoda e tirou os postais de baixo de uma tábua solta. Colocou-o s virados sobre a cômoda. Quando fosse tomar banho, jogaria tudo dentro do vaso e puxaria a descarga. Tirou a roupa rapidamente e vestiu o roupão de banho. Foi até a cômoda e olhou-se no e spelho. O rosto estava i-luminado por uma nobre determinação. É curioso ver como uma d ecisão correta transforma a pessoa. Saiu do quarto, mas esqueceu os postais em cim a da cômoda. Estava se enxugando, quando ouviu os passos de Rina pelo corredor em direção a seu q uarto. De repente, lembrou-se de que havia deixado os postais em cima da cô-moda. Vestiu apressadamente o roupão de banho. Mas já era tarde. Quando chegou ao quarto, ela estava de pé junto à cômoda e com os post ais na mão. Olhou-o surpresa. — Onde arranjou essas fotografias, Laddie? — perguntou ela, com inte-resse. — Dê-me isso! — exclamou ele. Rina esquivou-se e correu para o outro lado da cama. — Deixe-me terminar — disse ela, calmamente. — Depois eu devolvo. — Não! — gritou ele com voz rouca, avançando para ela por cima da cama. Rina se virou para evitá-lo, mas a mão dele agarrou seu ombro. Ela caiu na cama ao l ado dele e os postais se espa-lharam. Procurou agarrá-los de novo. Laddie seguroua pela alça do maiô a fim de impedi-la, e a alça arrebentou. Ficou parado, e muito pálid o, vendo o seio branco que escapara do maiô. — Você arrebentou minha alça — disse ela, calmamente, sem fazer o menor gesto para cobri r-se, olhando-o bem nos olhos. Ele ficou em silêncio, atônito. Ela sorriu, levando a mão ao seio e esfregando lentamente o bico. — Não sou tão bonita como qualquer dessas mulheres das fotografias? Ele estava fascinado, sem poder falar, seguindo com os olhos o movimento deliber ado da mão de Rina. — Não acha que sou, Laddie? Pode falar, que não contarei pra ninguém. Por que acha que e u deixei você me espiar enquanto eu trocava de roupa? — Você sabia que eu estava olhando? — perguntou ele, atônito. — Claro, seu bobo. Via você pelo espelho. Quase estourei na gargalhada. Pensei que o s olhos lhe fossem saltar da cabeça. Laddie sentiu a excitação que o empolgava e exclamou: — Não vejo nada de engraçado nisso! — Olhe para mim — disse Rina. — Gosto que você olhe para mim. Se eu pudesse, todo mundo olharia. — Não é direito, Rina. — Por quê? O que há de errado nisso? Eu gosto de olhar para você. Por que é que você não pode gostar de olhar para mim? — Mas você nunca me olhou! — Já, sim — Rina olhava para ele com um sorriso enigmático. — Onde? Quando? — Numa tarde em que você voltou da praia. Não havia ninguém e eu espiei pela janela do b anheiro. Vi tudo o que você fez! — Tudo? — perguntou ele, alarmado. — Tudo — disse ela, calmamente. — Você estava brincando com seu músculo. Nunca pensei que ele pudesse ficar tão grande. Sempre pensei que ainda fosse pequeno e caído como qua ndo você era garotinho. Ele sentiu um aperto na garganta e mal pôde falar. Começou a se levantar da cama, e disse com voz rouca: — É bom você ir embora daqui.

Ela olhou para ele ainda sorrindo. — Quer me ver outra vez? Ele não respondeu. Rina puxou a outra alça e, depois, tirou o resto do maiô. Ele ficou olhando o corpo todo nu, sentindo as pernas tremerem. — Agora tire o roupão e deixe-me ver você todo. Como tomado de atordoamento, ele abriu o roupão e o deixou cair. Com um gemido, ca iu de joelhos ao lado da cama, tentando controlar-se. No mesmo instante, ela rolou pela cama e olhou para ele. — Agora — disse ela, com um tom de triunfo na voz. — Faça isso por mim. Ele levantou a mão para tocar o seio. Ela o deixou ficar assim por um momento, mas de repente afastou-se dele. — Não! — exclamou ela. — Não me toque! Ele a olhou, cheio de angústia. — Faça isso por mim — disse ela, com voz rouca. — E eu farei isso por você. Mas não me toque !

6

Durante toda a sessão de cinema, Laddie os ouviu rir e conversar em voz baixa. Pod ia imaginar o que estavam fazendo no cinema às escuras, ainda que não os pudesse ver . Visões passavam-lhe pela cabeça. Tommy estava oferecendo uma bala a Rina. Laddie viu-o estender o saquinho para e la com a mão displicentemente, encostando em seu seio. Mexeu-se inquietamente na c adeira, tentando devassar a escuridão. Mas não adiantou. Não deu para ver. — Quer me dar mais um bombom? — disse Joan do meio da escuridão. — Como? — perguntou ele, levando um susto. — Ah, sim. Pois não. Estendeu o saquinho para ela se servir e sentiu a suave pressão de seus seios. Mas isso só serviu para fazê-lo lembrar-se de Rina. No caminho de casa, pararam diante da casa de Tommy. — Querem tomar algum refrigerante? — perguntou Joan. — A geladeira está cheia. — Não, obrigado — Laddie respondeu prontamente. — Já é tarde e prometi a mamãe que estaríamos casa antes de escurecer. Rina nada falou. — Não pode voltar depois? — perguntou Joan. — Depois de deixar Rina em casa? — Não sei — disse ele, sentindo o olhar de Rina e ficando vermelho. — Estou muito cansad o. Acho que vou dormir cedo hoje. Joan olhou-o de maneira estranha, mas nada mais disse e foi entrando em casa. Fo i um instante difícil, até que Tommy falou: — Está bem. Então, boa noite. Até amanhã, na praia. Fizeram o resto do caminho em silêncio. Já estava escuro quando che-garam à varanda. L addie abriu a porta para ela. Ela entrou e de repente ficou parada, ao ver que e le não fazia menção de segui-la. — Não vai entrar? — Já, não. Vou ficar aqui fora mais um pouco. — Então eu também vou — disse ela, voltando para a varanda. Laddie deixou a porta bater, e o barulho repercutiu na casa toda. — São vocês, crianças? — perguntou Geraldine Marlowe. — Sim, mamãe — respondeu Rina. Olhou rapidamente para Laddie e acrescentou: — Podemos fi car aqui fora ainda um instante, mamãe? A noite está tão quente. — Está bem. Mas só meia hora, Rina. Quero vocês na cama às oito e meia. — Certo, mamãe. Laddie atravessou a varanda e sentou-se na grande cadeira de vime. Rina foi sent ar-se ao lado dele. — Por que Joan queria que você voltasse? — Não sei. — Ela queria que você fizesse aquilo por ela?

Onde está seu lenço. — Não tenha receio. Você já está crescida agora. com um leve sorriso nos lábios... — Não! — exclamou Laddie. — Por que não estaria? — disse Geraldine. mas Rina tinha razão. alegremente. meu filho? — Sim — disse ele. indignado. Laddie? Você me parece com um pouco de febre e seu rosto está banhado de suor.. mamãe – havia tensão em sua voz — Meu filho — disse o pai —. . — Mas. olhando para a casa. — Você não está se sentindo bem. mamãe — disse Rina. querida. A exclamação foi involuntária. papai. O hei pela porta. ele segurou a mão de Joan e el a não teve dúvidas em fazer sua vontade. Os olhos da filha estavam brilhando e um sorriso feliz ilumi nava seu rosto. — Boa noite. quase gritando. preocupada. num sussurro: — Quer faze r aquilo agora? — Agora? — perguntou ele. papai? — exclamou ele. Laddie? Tenho certeza de que o vi sair com ele no bolso. quando eu não quis. Uma delas é tomar conta da irmã. — Você não parece muito feliz por tê-la levado — Impressão sua. — Já não disse que foi tudo bem. A porta da varanda bateu e R ina entrou na sala. — Gostou do cinema. — Ela parece bem feliz. Geraldine se aproximou dele. — Atravessou a sala e beijou o rosto do pai. Ela saiu da sala e os dois puderam ouvir seus passos ligeiros pela escada. Geraldine sorriu para ela. Eles não virão aqui. — Hipócrita — completou Laddie. — É a primeira vez que sai com um rapaz. Vou enxugá-lo para você. — E uma hipo. — Tem razão. sou? — perguntou Rina. — Vamos tomar um pouco de ar fresco na varanda? — sugeriu Harrison. Papai está lendo o jornal e mamãe está tricotando. De repe nte. — Divertiu-se. — Mas não faço mais. Geraldine riu. Oito e meia em ponto.— Claro que não! — respondeu ele. Chegaram à varanda e Geraldine chamou— Laddie! — Estou aqui. Geraldine olhou para o relógio. — Mas eu não sou hipócrita. — Já sou bem crescida! — Agora já para a cama. — Laddie! — Geraldine mostrou-se surpresa — Desculpe. ele sentiu os dedos dela nas coxas e ela perguntou. — Boa noite. — Não gosto de Joan — disse ela. hipo. às vezes temos de fazer coisas de que não gostamos. — gaguejou ele — Como? Ela sorriu e tirou o lenço do bolso da camisa de Laddie. Contagiada por aquela boa disposição. Isso é se mpre um acontecimento para uma moça. — Rina a beijou com carinho. mamãe. — Por que diz isso? — Tommy quis que eu pegasse nele e. Ela o viu levantar-se da cadeira. laconicamente. — Ficou sempre com os olhos pregad os na tela e uma vez chegou a pedir bombons a você. impulsivamente.. — Ela nem olhou uma só vez para ele — continuou Rina. — Rina não o aborreceu? — Não. mamãe? — Não. mamãe. mamãe. É um dever do irmão.. Joan era uma hipócrita. Harri son Marlowe tirou os olhos do jornal. papai — disse Laddie em voz baixa. — Ainda outro dia você fazia parte dessa garotada. Nem queira saber como é bom ver um filme sem aquela garotada fazendo b arulho e correndo pelo cinema como acontece nas matinês. — Está bem. surpreso com a inesperada profundeza de sua percepção. O que será que estão fazendo agora ? Laddie teve uma visão de Joan e Tommy juntos e sentiu-se excitado.. não é. querida? — Muito. Ainda precisa descansar. mocinha.

papai. — Não lhe agrada a idéia de seus filhos cresce em. dois anos antes. 7 — Estou grávida — disse ela. — Como sabe? — Atrasou — respondeu ela calmamente. deu boa noite e entrou em casa. tinha medo de olhar para R ina de manhã e. Mas. — É a primeira vez que isso acontece. Sempre soubera que tudo iria acabar ass im. Ha-via sempre nele um contentam ento inquieto e amedrontado quando estavam juntos. — Talvez estejam um pouco. Ela passou a mão em sua testa. mas você tem de reconhecer que estão mimados. Em seguida. como se estivesse falando do tempo. Conheço esses rapazes. o medo de serem descobertos. Desde aquele primeiro verão. Ele está tão mal acostumado a ter tudo o que quer que fica aborrecido quando tem de fazer por conta própria alguma coisa. E todo o tempo. o medo voltava. Boa noite. Ouça o que estou dizendo.. até mesmo a companhar a irmã. Não podia dormir. quando ela o olhava. Harry? — Ele é muito mimado. você está saindo do sério! — Não estou. de selvagens sensações físi-cas e de cruciant es lutas de consciência. É preciso um pouco de dis ciplina.. Gostaria que fossem crian-ças para sempre. acho que perdi. — De qualquer maneira. — Sim. — O que será que há com ele? — Acho que sei o que há com ele — disse Harrison entre dentes. — Eu é que sei por que está assim — disse ela. — O que é. olhando para suas mãos bronzeadas remexendo a . Não podia fugir do fato de que ela era sua irmã e de que o que faziam era errado. — Acho. debelar as febres que ardiam por dentro. beijou a mãe. E Rina precisa de disciplina também. Era nisso que acreditava quando voltou para a escola no fim daquele verão. esse é o problema. Você faz tudo o que ela quer. Quando voltassem para a p raia no verão seguinte. chorava na agonia de sua autoflagelação. — Sim. Dentro em pouco estará mimada também. Está zangado porque não pôde ir para a varanda dos Randall bolinar Joa n. re encontrar-se. Humilhava-se. Foi com um sentimento de alívio que viu aquele verão alucinante aproximar-se do fim. Nunca mais. é bom que estejam voltando para a escola no mês que vem. E estou satisfeita que Rina tenha sido aceita na escola de Jane Vincent. tudo seria diferente. Isso é errado e acabou para sempre. os olhos dele pareceram os de um animal acuado.Por um instante. Se rá bem educada lá. não.. ia dizer para ela. Longe dela. Barrin gton será bom para Laddie. não queria mais sair de perto dela. poderia dominar-se. — Harry. a prima de Tommy. — Vou ter um filho. da revolta e do ódio que os pais sentiriam quando soubessem. — E o que vai fazer — Laddie perguntou. — Não. fique sabendo. Depois. apertando os o-l hos. o medo do sofrimento.. Laddie — disse o pai. Laddie se sentiu inteiramente atordoado. Sentia verdadeiras agonias de ciúme quando a via sorrir ou conversar com outros rapazes. havia medo. Harry. Julgava que dentro em pouco tudo terminaria. quando a via. não podia comer. — Tem certeza de que não está com febre? — Acho bom ir para a cama. Olhou para ela. tudo isso desaparecia de repente e ele seria capaz de fazer tudo no mundo para agradá-la. Para Laddie foi um verão de dor e ternura. Visões nascid as do que aprendera com ela enchiam seus sonhos. mamãe. Mas isso logo p assou. para ele e para ela. ras tejava diante dela. sorria para ele ou o tocava. no fundo de sua mente.

depois. — E se ela falar com algum deles? Descobrirá que você mentiu. — Não. ela não fará isso. e contará tudo sobre nós? — Claro que não. procurando-o com os dedos. Ele a olhou espantado. pelos seios. levando a garrafa à boca. — Fez isso com algum deles? — perguntou ele rudemente. — Não — ela o olhou com firmeza. Laddie viu-se atravessar o quarto. O ar quente e úmido envol via o corpo de Laddie como uma invisível e asfixiante manta. — Não — murmurou com voz rouca. E havia comunicado sua decisão a ela. Direi que foi Tommy.areia alva da praia. Ela havia concordado. Sentiu na boc a o gosto do líquido adocicado e olhou para ela. Bateu com raiva a por ta da geladeira. pelos seios. — Claro que não. agarrou-lhe os pulsos. com medo de se mover. Virou-se para sair. com a garrafa de laranjada na mão. custo u a acreditar no que viu. Ele é que quebrara o juramento. ele encostou sua boca na dela. Só teremos dificuldades e aborrecimentos se continuarmos com isso. — Por favor — pediu ela. mas está excitado! Um pouco de laranjada se derramou na sua camisa quando ele percebeu que havia se denunciado. Com uma mão. — Quer um pouco? Como se fosse outra pessoa. O gargalo ainda estava quente do contato de Rina. descendo pelo rosto. — O que acha? A laranjada escorreu da boca de Rina. Mas acho que não há muitas coisas que ela possa fazer. sentindo o quanto aquela perg unta era idiota. De repente. ela era mais adulta do que ele. Teria de aca bar com aquela humilhação. Você ficará com suas amigasse eu com meu amigos. Estava quente e úmi da e ainda havia um gosto de laranjada. — Nunca mais — prometera. Os olhos dela estavam con fiantes e sem medo. com aquele rastejar diante dela. A camisa e as calças es tavam ensopadas de suor quando ele entrou na cozinha. — Só mais esta vez — murmurou ela. — O que você acha que ela fará? — Não sei. com medo de tropeçar e cair. — E. Chegara mesmo a prometer também.. — Não! — gritava. até os lençóis. Ela sorriu e estendeu a garrafa. E quando passou pelo quarto de Rina. pela bar riga. Era uma tarde chuvosa e os dois estavam sozinhos no chalé. deu um gemido de angústia. Abriu a geladeira. algumas semana s antes. O tremor lhe abalava o corpo. ou Bill ou Joe. Ele a viu seguir pela praia para se encontrar com algumas amigas e estendeu-se d e bruços na areia. que estava com a porta aberta. mas a mão dela roçou suas coxas. no fundo do coração. Em muitos aspectos. Rina começou a se debater. — Não sei. Ela estava nua. — Não! Não me to-que! . de súbito golpeado por intenso ciúme. Foi só com você. nunca mais! Ele ficou parado. procurando desvencilhar-se dele. Sempre soubera. mas não e ncontrou a garrafa de laranjada que costumava guardar ali. Subiu. Especialmente se eu disser que não sei ao certo qual foi. Lembrou-se daquela noite. Se nada acontecer até amanhã. — Isso é coisa de criança. — E.. Então moveu a cabeça e começou a correr os lábio s pelo corpo dela. como todos os anos. Sentiu a cabeça latejar e uma nova onda de suor inundou seu corpo. com a cabeça sobre os braços. — O que está fazendo com a minha laranjada? — perguntou. Ele quase deu um g rito ante a súbita e ardente tortura do toque. que isso iria acontecer. E tudo por causa daquela maldita garrafa de laranjada. tomar a garrafa e levá-la aos lábios. Tinha acon-tecido. Ele havia feito um juramento. Rina estava sorrindo e disse: — Você está excitado. Continuou como que paralisado. Disse que nunca mais. E era preciso reconhecer qu e ela havia mantido sua palavra. acho que terei de dizer a mamãe. Dessa vez ela iria apren der a deixá-lo em paz. De repente. — Estou bebendo — Rina replicou. meio reclinada na cama. Mas dessa vez ia ser di ferente. Tinham ido para a praia naquele verão.

fugiríamos hoje mesmo para nos casar. Eu é que devia estar maluco. Tudo estava perdido.. As outras moças todas nada significavam para mim quando as comparava com você. e ela sentiu de novo a dor rasgá-la. Foi então que aquela dor aguda e forte lhe penetrou o corpo Deu um grito. tirando o cinto das calças. de onde ficou a o-lhá-lo. apertando-lhe as mãos com os dedos entrelaçados com os dela. — Você nada podia fazer. — Cadela! — exclamou ele. Foi uma coisa que nunca pude vencer. Fizeram o que jul-garam melhor — disse Rina. Fossem quais fossem as ci rcunstâncias. Ele cobr iu-lhe a boca pesadamente com a mão. mesmo você sendo minha irmã. — Quem sabe? — disse ele. E não podemos culpá-los por isso. Mas chorar não resolve nada. A raiva fazia latejar suas têmporas e havia em seu peito uma fornalha ardente. só ficaram o som de sua voz vibrando no fundo da garganta e o pavor do corpo dele no seu. Sentiu uma som bra cair sobre ele e se virou. enquanto a laranjada se derramava sobre e la. A pancada a atingiu bem no rosto.. com uma voz em que não havia muita espe-rança. — Não posso deixar de chorar. sacudindo com toda força o braço livre. — Creio que sempre fui tão má porque tinha ciúme das pequenas com quem você passeava — confe ssou ela. Nunca deixei outro rapaz me pegar. Não podia tolerá-los. — Não queria que elas tivessem você. e com razão. Laddie rolou o corpo na areia. abrindo-lhe um rastro de do r e sangue na carne. estou com medo. Foi por isso que fiz o que fiz. Era Rina. — Eu sei.. — Não chore. — Eu também. — Talvez — murmurou ela. começou a rir. — É verdade que não somos realmente irmãos. eu a amo? Ela não respondeu. Depois. prendeu-as com os joelhos. — Mas adotaram. Laddie virou a garrafa e. fazendo-a cair na cama. Subiu na cama e. Sen tiu uma pancada de vento na vela e automaticamente virou um pouco o leme. — Agora. acabaram-se as brincadeiras! — Acabaram-se as brincadeiras — murmurou ela.Mas ele nem a ouvia.. E a culpa seria dele. Se não a tivessem ado-tado. E. — Acho que sempre a amei. Estou. Sentiu as unhas dela arranhando-o. Todos o culpariam. Ele a beijou violentamente e ela perdeu de repente toda a vontade de resistir. olhando as ondas que se quebravam na praia e os levavam à in-fância. — Beba! Beba tudo que quiser! Jogou a garrafa longe. e ficaram assim. de olhos muito arre-galados. Estava na hora de voltar. No céu h avia algumas ameaçadoras nuvens negras. de mãos dadas. — Com homem não se brinca.. As lágrimas rolavam pelas faces de Rina. Depois de algum tempo.. apavorada. No dia seguinte sua mãe saberi a. Levantou os braços dela acima da c abeça e amarrou seus pulsos na guarda de ferro da cama. no fim. Ela pegou sua mão e disse num sussurro: — Eu não devia ter deixado. im-pulsivamente. segurando suas pernas. sentada na proa. Começou a fazer le . ele nunca deveria ter deixado que aquilo acontecesse. Laddie estava ao leme de seu barquinho a vela e olhava a mãe. com lágrimas nos olhos.. que se sentou a seu lado e perguntou: — E agora? O que vamos fazer? — Não sei. minha queridinha. Depois não tiveram mais nada o que dizer. Ficou ainda mais furioso. ouviu? — gritou ele. Se fôssemos uma moça e um rapaz dife rentes do que somos. — T alvez tudo ainda acabe bem. ela ouviu a voz de Laddie: — Sabe que. pegou a garrafa qu ase vazia e perguntou: — Ainda está com sede? Rina fez que sim com a cabeça. Rina..

Eu sei que há. com toda confiança.. — Acho que é melhor voltarmos — ela conseguiu dizer.. Acredito que qualquer pessoa acharia difícil não a mar sua irmã. . Ficaram alguns instantes em silêncio. — Ela vai ter um filho.. mamãe — ele obedeceu. Ela havia com-preendido e não o condenara.. Quisera que eles tivessem tudo. E uma dessas coisas infelizes que não se podem evitar. seja lá o que for. mamãe — confirmou ele.. mamãe? — A primeira coisa que temos de fazer é dizer a Rina que compreendemos. Ela ainda é uma menina. mamãe. Tanto valia essa palavra quanto outra qualquer. afinal de contas. Não tirava os olhos daquelas nuvens de temporal.. estão errados. — O que há com meu filhinho? O que está preocupando o meu Laddie? — perguntou ela. — Tem estado bem calado esta manhã. sim! — gritou de repente. sentindo um curioso temor. — Sim. Sentiu os olhos se molha -rem.. meu filho. Laddie. O rapaz deu um suspiro e começou a se sentir melhor. Laddie. Ele se inclinou para tomar a mão da mãe e levá-la aos lábios. Compreenderei e pro-curarei ajudá-lo. — Não. nos pais. Geraldine olhou para o filho e um brilho de intuição pareceu rasgar o véu cinzento que lhe caíra diante dos olhos. do-minar-se. Mas ela insistira em dar aquele pass eio. encarando a mãe. — Não sei o que meus dois filhinhos têm ultimamente. "Diferente". Sempre pensei que crescer fosse uma coisa maravilhosa. — É horrível dizer isso. de uma maneira diferen te. Nesse momento. A culpa de tudo o que aconteceu é minha. Laddie. . — Eu a amo. As palavras come-çaram a sair-lhe impulsi vamente da boca e ele falou com voz cheia de tensão e olhos agoniados: — Não sei o que me deu. pensou Geraldine. — Rina é uma moça muito bonita. mamãe. você está chorando! — exclamou a mãe. mamãe? Ela olhou para o filho com uma tristeza tão grande que não podia explicar.. Gosto dela. Não era possível que aquilo acontecesse a seus filhos. e tudo o que dizem. em si mesmo. — É alguma coisa. Pode contar pra mim. co m Rina? — Sim. — Nada. meu filho. e os soluços sacudiram seu peito. ela não é d verdade minha irmã. — Não. Os l ivros.. — Vai voltar. retomando o leme. Andam ambos tão esquisitos! Ele não respondeu. sentindo-se estranhamente aliviado depois de haver d ito tudo. — Não há nada que você possa fazer! Nada mais que ninguém possa fazer! — Por que não tenta comigo? — disse ela. A pobrezinha deve estar apavorada. Ao fim de algum tempo. mamãe! Fui eu que a forcei. — O que vamos fazer. Laddie. fizera tudo por eles. Parecia estranho que ela estivesse a bordo. e uma tristeza imensa o invadiu. Laddie? — Sim. Laddie. — Nada — balbuciou ele. e ela agora está grávida! — Oh. conseguiu. Sentiu a mãe abraçar sua cabeça de encontro ao seio.ntamente a manobra. afinal. Geraldine nada disse. como fi-zera tantas vezes quando ele era pequeno. com v oz suave e terna. Há alguma coisa. mamãe. mamãe — disse ele calmamente. não! — É verdade. mamãe! Eu não a amo como irmã. desculpe. enquanto as ondas batiam com força no casco do barco. Pensou em Rina. mamãe. tentando conter as lágrimas. Parecia saber que alguma coisa o estava afligindo. — Mas. — Não culpe Rina. Geraldine cobriu o rosto com as mãos e chorou. E o filho é meu. Mas não é. — É que tenho de prestar atenção ao barco. — E. — Não faz mal. surpresa. não é. — É horrível. Crescer é uma merda! Oh. ele não pôde mais conter-se. mamãe.

. ano a ano. srta. Bradley — disse com sua voz trêmula o porteiro Thomas. Foi até a porta e a abriu. Foi até a janela e olhou. Se quiser. enqu anto um terrível líquido começava a derramar-se de seu corpo. Estavam cobertas com os garranchos hieroglíficos das meninas que passavam pela sua aula de Ciências. inquiet a. Posso falar um instante com a senhora. em geral. o temporal os colhe u do lado de boreste e virou o barco. dia a dia. Já havia mais de duas semanas que não tinha notícias dela e.— Você é tão boa. Thomas. Rina viu. Alguém bateu de novo à porta. O envelope mostrava a letra de Sally. Querida Peggy. Havia dez anos que ela e Sally eram inse paráveis. mamãe — disse. — O que acontece é que não estou com vontade nenhuma de ir — explicou Rina. — O que é. Fechou os olhos para chorar. — Não compreendo. Era de muito boa famíl . Um espasmo no meio do corpo de repente a fez dobrar-se e cair de joelhos na areia ao lado dos dois cadáveres. Tornaram a bater. A professora sabia que o que a contecia era justamente o contrário. olhando-a cheio de ternura. — Quem é? — perguntou a srta. Abriu a t orneira e limpou a maquilagem do rosto. Laddie e a mamãe. Rina olhou para a professora e teve a impressão de que el a havia chorado. o batom um pouco manchado. levantando-se aborrecida. espantada. Afastou tudo para o lado e se levantou. minha filha — Queria saber se podia ser dispensada do baile de sábado à noite. minha filha. Olhou-os. Perder o baile mensal era considerado o maior dos castigos. não. com sua voz rouca. mas tão de leve que ela a princípio nem ouviu. Margaret Bradley a encarou. petrificada. Está tudo certo — a professora foi até a mesa e se sentou. Abriu prontamente a porta e recebeu a carta. os pescadores trazerem para a praia os dois corpos encolh idos e inertes. Parecia ter mais que seus vinte e seis anos. bateram à porta e ela se voltou.. Os olhos estavam vermelhos e inchados. A esbelta moça loura de dezesseis anos que esta va à sua frente ficava cercada de rapazes em todos os bailes. Foi até o banheiro e mirou-se no espelho. srta. — Muito obrigada. Disse: — Desculpe se a estou incomodando. c om toda regularidade. as cartas chegavam duas vezes por semana. Olhando para as coisas que a cortina de cinza do crepúsculo amortalhava. — Não. Estava cansada de carregar às costas aquela tarefa enfadonha. Bradley. Seria possível que Sally houvesse encontrado al-guém? Ou outra amiga com quem pudesse falar de seus segredos? Nesse instante. Começou a sentir uma violenta vertigem n ascer dentro dela. pensou co m estranheza que ainda não recebera a carta de Sally. — Quem é? — Carta expressa para a senhora. — Rina Marlowe. Agora. com os olhos no chão. sem poder acreditar no que ouvia. Era a única ocasião em que se permitia a ent rada de rapazes na escola. As meninas eram capazes de tudo para não perder aquela oportunidade. posso voltar depois. Correu para a mesa e a abriu. Não poderia ser porque os rapazes não gostassem dela. estava tudo acabado. casei-me ontem. Bradley? — Um momento — disse a professora. Foram as últimas palavras que proferiu na vida. Nesse momento. 8 Margaret Bradley olhou com raiva para as provas que lhe enchiam a mesa. dessa vez com um pouco mais de força.

Não era bonita.. — Quem? — perguntou Margaret Bradley. — Seu pedido é um pouco estranho. mas ainda não devia ter trinta anos. Harrison Marlowe recostou-se na cadeira e olhou para a professora. — Não será nenhum incômodo. Sente-se aí e fique à vontade. papai. não se pode considerar completa a educação de uma moça que nunca foi à Europ a — reforçou categoricamente a professora. forçando um sorriso nos lábios. — Quantos anos você tem? — Dezesseis. — Sério? — perguntou Rina. num sussurro. — A mãe dela e eu muitas vezes conversamos sobre a ida de Rina à Eu-ropa. — Não posso suportar que me agarrem — disse ela. Nada havia nela de melin-d rosa.. Era muito séria e franca. Mas só fora compreender isso alguns meses antes. que estava à frente dela. Nenhuma das m inhas colegas é assim! — É porque são bobas! — replicou. Rina olhou-a. Rina continuou com os olhos voltados para o chão e não respondeu.. Você deve ter algum motivo. — Na realidade. e ela ficou surpresa com o profundo medo que percebeu nos olhos da moça. surpresa. costumes quase masculinos. minha filha — disse Margaret Bradley. — Ora.ia. — Pode falar à vontade comigo. encontrara Rina. — Então. — Escute. . que eu já venho trazer o chá. com voz áspera. Usava roupas simple s. — E seus estudos? — Estou com boas notas e estudarei um pouco mais depois. tomou Rina amistosamente pela mão e a levou para uma cad eira. — Quais são esses rapazes? — perguntou a professora. — Algum deles. pois Rina tornou a olhar para o chão. Foi para a pequena kitchenette e se surpreendeu cantarolando enquanto acendia o gás sob a chaleira. O cabe lo muito louro brilhava na penumbra da sala. decidida. Todos querem me agarrar. compreende u que devia controlar-se. e eu sinto arrepios na pele. Foi só por um breve instante. Marlowe fez um gesto de assentimento. — Rina! O que está fazendo em casa? — Fiquei pensando em como você devia estar se sentindo sozinho nesta casa tão grande e resolvi roubar alguns dias da escola para vir fazer-lhe companhia. acho que já deve saber que os rapazes são sempre assim. impulsiva. sentada à mesa do jantar. Depois para Rina. A professora levantou-se. Não adiantava permitir que o ressentimento de-nunciasse sua amargura. Não tinha as m aneiras grosseiras tão habituais nas moças daquele tempo. fez mais do que. No mesmo instante. — Proibiremos termina ntemente a entra-da deles. Quer me ac ompanhar? — Mas seria muito incômodo — disse Rina. viúvo. O pai dela era um banqueiro. Os Marlowe eram bem conhecidos em Boston. — Os rapazes. — Oi. minha filha. Estava com um vestido azul que de algum modo a fazia um pouco mais velha. Eu sentia a mesma coisa quando tinha sua idade. que pareciam proclamar-lhe a profissão. Não me incomodar ia se quisessem apenas dançar e conversar mas estão sempre querendo levar a gente pa ra algum canto. Aquela criatura lhe inspira va confiança. ia agora mesmo preparar um pouco de chá para mim.. — Pensei que fosse só eu. a professora. — Você está com medo de alguma coisa. agarrá-la? Rina fez que sim com a cabeça. hesitante. quando. ao vol tar para casa. pensando na grande responsabilidade que er a criar uma filha. Não sou assim tão mais velha que não possa compreender. Rina levantou se e disse nervosamente: — Vou embora! Acho que não adianta nada mesmo! — Espere um pouco! — ordenou Margaret Bradley. com os olhos brilhando. — Acho que será ótimo para ela passar o verão na Europa até chegar o tempo de entrar para o Smith College no outono — disse Margaret Bradley.

quase uma mulher no seu vestido azul. São um bando de animaizinh os ansiosos. Mas ela segurou sua mão. Sentiu a mão dela no braço e voltou-se para ela. Ouviu a voz repassada de ternu ra. Galinha assada com batatas co-radas. papai. Uma pessoa que faça a gente se sentir protegida. — Posso.. e ele teve consciência dos seios firme s e rígidos a que encostara o rosto. Sentiu os braços jovens e fortes passados pelo s seus ombros e as mãos que acariciavam seu cabelo. então. Os pais de muitas das minhas colegas na escola consentem que elas tomem um coquetel antes do jantar. Talvez alguém como você. ela foi sentar no braço de sua poltrona. com um sorriso cordial. — Em pouco tempo você cansaria disso — replicou ele.. — Ótimo — exclamou. hein? — disse ele.— Mas.. As garrafas estavam alinhadas para ele. da filha. papai. — E que espécie de homem agradaria à Sua Maj estade? — Acho que um homem mais velho. — Está delicioso — apreciou com as mesmas palavras e o mesmo tom de voz que ele tantas vezes ouvira de Geraldine. — Namorados? Ora. pegando uma garrafa de uísque. — Achei que talvez quisesse beber alguma coisa antes do jantar.. pegou a garrafa de gim. Harrison Marlowe pegou o outro cálice. — Não. ela o abraçou e disse: — Agora quem vai beijá-lo sou eu. derramou metade dentro da coqueteleira e en tregou-lhe o coquetel. O hábito era uma coisa muito estranha. Era apenas um homem sozinho que chorava ao colo da mãe. Beijou-o na boca e ele sentiu os lábios quentes. — Então. oferecendo a face para e-le. rindo. — Não vou mais para a escola. Depois. que sussurrava: — Pobre papai! Pobre papai! Mas esse momento se desvaneceu rapidamente. Não posso suportá-los. por que não me beija? — disse ela. com um sorriso cansado. Mais tarde. bonita como estava. deixei de me sentir uma menina. acho que não. Levantou a cabeça instantaneamente. — Mas não sou mais uma garotinha. — É porque são ainda muito moços — retrucou ele. Os olhos da filha estavam che ios de compreensão e amizade. — Você ainda tem muito tempo para crescer — disse ele. ela exclamou. — Por que não toma um martini? Há muito tempo que não toma. segura e necessária. rindo: — O seu bigode faz cócegas! — Você sempre disse isso — murmurou ele. — Mandei Molly fazer o que você gosta. Só se interessam por aquilo que querem e não p ensam um só momento em mim. da esposa. — Acho que fiz um papel bem ridículo. Rina provou delicadamente a bebida. — Sentira falta da agitação d a escola. — Não. Vou ficar aqui para tomar conta da casa e de vo cê. dos namorados. papai? Ele a olhou. papai? — Claro que estou. Deixou que ela o levasse para se sentar no sofá ao lad o dela. sou. Pela primeira vez na vida. deixou de ser pai dela. depois do jantar. Ela se virou para o bufê. Sinto-me um a pessoa adulta e neces-sária. Colocou um dos cáli ces em cima do bufê. — Não está contente de me ver. querida. papai? Tenho mais de dezesseis anos. Sentiu as lágrimas subirem aos olhos e voltou rapidamente a cabeça para que Rina não v isse. — Desde quando era uma garotinha. papai. Levantou depois o cálice num brinde. — Eu sei. . Naquele momento. Depois que ele a beijou no rosto. Só mais tarde é que percebeu que tinha dois coquetéis na mão. — O que comeremos no jantar? — perguntou ele. sorrindo. posso passar muito bem sem eles. zombeteiramente. que não dão um momento de descanso pra gente. Os rapazes são sempre ansiosos por conseguir alguma coisa e mostrar que são fortes e mais importantes. E é por isso que me metem medo. Hesitou um instante e. Havia até um balde de gelo pi-cado. — Não pode.

Rina alisou a cabeça do pai. — Não. — Mas eu só quero ficar com você. O banqueiro se limitou a entregar-lhe um cheque de mil dólares e dizer que s e não fosse suficiente bastaria avisá-lo. Agora acho que devemos descer para nosso c amarote e descansar um pouco até a hora do jantar. com modéstia afetada. é você! E no mesmo instante saiu correndo da sala. A água em volta do navio era verde-garrafa e já não se avistava mais a terra. Estava ansiosa por ver a expressão nos olhos de Rina quando as visse. Ela o olhou fixamente e seus olhos se encheram de lágrimas. papai? Não quer que eu fique com você? — É claro que gosto de você. — Mas não podemos nos roteger suficientemente do mundo a nossa volta. — Não sou eu quem não compre ende. — Não o quê. — Nunca! — exclamou ela. — Mas não estou nem um pouquinho cansada — protestou Rina. com duas camas e banheiro. papai! — Não. As caixas estavam sobre a cama. papai. — Gosto tanto do seu cabelo com esse toque grisalho! É uma pena que eu não possa me ca sar com você. cujos olhos brilhavam cheios de expectativa. minha filha. Ele ouviu seus passos apressados pela escada e. Margaret Bradley baixou prontamente os olhos para o prato. compreenderá. Bradley — disse Marlowe. — E ainda vai ser melhor. muito melhor. papai? — perguntou ela. teria o prazer que tenho em confiar nossa filha a suas mãos experi entes. Porém. Margaret havia comprado várias coisas que mandara diretamente par a bordo. então. Você terá tem-po de sobia para ver tudo. — Parece um sonho — disse Rina. mas. a porta do quarto bater violentamente. Também não houvera hesitação quando ela su-gerira que Rina precisava de um novo guarda-roupa para a vi agem. sem Rina saber. srta. à mesa a que estava sentado com a professora e com Rina. — Oh. O resto comprariam em Paris. Passaremos seis dias a bordo do Leviathan. apenas nos escondendo dentro de um caracol. Vou mandar Peters levá-la. Esperaria o mo mento oportuno. Haviam comprado algumas coisas em Nova Iorque. se fosse viva. mas ela não chamou atenção para o fato. querida! — disse ele. com voz escandalizada. indignada. Era um camarote de primeira classe. com olhos radiantes. — Não gosta de mim. mais tarde. — Não! — disse ele em voz alta. a fim de que ele não vi sse o brilho de triunfo que se acendera neles. — Obrigada sr Marlowe — agradeceu. Era outra vez uma meni na. tão alta que ele mesmo se surpreendeu com a inesperada v iolência de sua reação. 9 Ficaram no convés até passarem pela Estátua da Liberdade e a ilha Ellis. — Não quero casar! Não quero ter filhos! Nunca deixare i nenhum rapaz botar as mãos sujas em cima de mim! — Rina! — exclamou ele. Eu te amo muito. — Vai ficar. Ninguém compreenderá que você abandone os estudos para vir meter-se dentro de casa. — Tenho certeza de que a mãe de Rina. Sei que você pode querer isso agora. Tirou o abrigo leve de primavera e sentou numa poltrona funda e . quando estiv er casada e com filhos. papai — continuou ela. com a voz entrecortada de soluços. você não vai ficar aqui em casa. — Satisfeita? — perguntou Margaret Bradley. ce rimoniosamente —. Vai voltar para a escola amanhã mesmo. assustada. Voltou ao presente. Dinheiro não era problema para Harrison Marlowe quando era preciso fazer alguma coisa para a filh a. Margaret não pôde deixar de se impressionar quando entrou na cabine. cheio de compaixão.

Bradley. Quando entraram no salão de jantar uma hora depois. parecendo mais prateado em contraste com a pele bronzeada. Logo que sentaram à mesa. — É muito divertido. — Fico contente por você gostar. todos os olhares masculino s as seguiram. espantada. Rina. Satisfeita. Peggy. Nunca a tinha visto fumar. Rina hesitou. Não faz mal algum. abotoou as calças que tinham braguilha como se fossem de homem e vestiu o pequeno bolero justo. Não são tão provincianas quanto nós. — Escute. talvez. — Pedi um pouco de xerez — disse a professora. Bradley! Quero dizer. agora que já estamos viajando. Seus pequenos seios com os bicos diminutos não eram maiores que os de m uitos homens. Rina olhou-a. Ajuda a evitar o enjôo. Rina tomou mais um gole e perguntou: — Devo estrear o meu novo vestido azul para o jantar? — Os jantares da primeira classe exigem traje a rigor. Abriu a bolsa e pegou um maço de cigarros. E a professora insistiu: — Fume. Rina? — Pode ir na frente. srta. deixou o banheiro e entrou no quarto. os quadris eram retos e as pernas secas. Rina fez que sim. Satisfeita. passou as mãos pelos lados do corpo e espreguiçou-se volup-t uosamente. Sua silhueta era quase masculina. espantada. Rina escolheu um vestido preto que colou a seu corpo. . entregando-lhe o maço. querida. Mas não para uma jovem senhorita em sua primeira viagem à Euro pa. — Pode ir. — Tenho alguns vestidos de festa que posso usar. Margaret largou a toalha e parou em frente ao espelho para olhar-se inteira. De agora em diante. Descobrirá que são muitas as mulheres européias que fumam. Tomou a bandeja das mãos do garçom e deu um copo a Rina. da cabeça aos pés. podemos deixar de formalidades. — Srta. Só depois de acender o cigarro foi que notou que Rina a olhava. A fisionomia de Rina ao abrir as caixas foi tudo o que Margaret poderia ter dese jado. Bradley. Depois escovou o cabelo e o prendeu. O longo cabelo louro lhe c aía pelos ombros. Margaret cobriu com sua mão a mão de Ri-na e disse: — Você está linda. — É bom para o apetite em seu primeiro di a no mar. Talvez encontre nelas al-guma coisa que p ossa vestir. — Assim está melhor — disse Margaret. — Não sei então o que vou vestir. Margaret achou que já havia brincado além da conta com Rina e disse: — Aquelas caixas em cima da cama são suas. — Peggy! — Quero dizer. — Que tal? — Ótimo. Bater am de leve na porta e Rina olhou para Margaret. Uma vez mais olhou-se no espelho. Vestiu o pijama de seda. Rina prendeu a fumaça na boca e deixou-a sair devagar. — Um daqueles horríveis vestidos que você usava nos bailes da escola? Não! — Acho que são muito bonitos — disse Rina. — Viva! — Margaret sorriu e provou o vinho. srta. — É bom — disse Rina. — Não engula a fumaça.confortável. Ela viu Rina acender um cigarro e riu quando a garota começou a tossir. Esse pijama! — Gosta? — perguntou Margaret. Rina. Peggy. — Para meninas. com uma leve expressão de enfado. Quer to-mar banho primeiro. você tem de me chamar de Peggy. amarrando o cinto do roupão. deixando os ombros n us. — Quer um? — disse ela. Viu Rina sair do banheiro.

Não sei como agradecer. não acha? — perguntou Margaret. levantando e girando pelo quarto ao compasso da música. — Parece um re-frigerante feito de vi nho. —Já estou comprometida para as ou-tras. Rina riu. — Será ótimo! — aprovou Rina. E stá vendo? — Não. Você sabe tornar tudo tão maravilhoso! — É exatamente como quero que tudo seja para você — disse. — Tinha receio de que você quisesse usar aquelas coisas horríveis do enxoval da escola . Estão tocando uma valsa. — Por que não veste a branca esta noite? — Está bem. — Pode dar-me o praze r desta dança. — Posso tomar mais um pouquinho? — Sem dúvida — Margaret tornou a encher sua taça. — Fiqu e descansada que ele nunca saberá. vou pedir uma garrafa de champanhe. — Espere um pouco — chamou Margaret. Quer que eu ligue o ventilador? — Não — disse Margaret. Bradley. Sentiu os olhos de Rina em seu pequeno busto e pegou de novo na taça. Ambas riram quando as pequena . — Sempre quis beber champanhe. E aquele pijama era o pr esente de que Margaret mais tinha gostado. tirou do armário uma camisola de algodão e foi indo para o banheiro. abrindo a caixa. A seda é boa condutora de eletricid ade. São todas tão bonitas que nem sei qual vou vestir primeiro. Dá umas pequenas faíscas azuis. — Eu sei. apanhando uma caixa menor em seu armário. Margaret perguntou: — O que está achando tão engraçado? — Minha camisola estala e solta pequenas faíscas quando me movo. A camisola branca levantou enquanto ela girava. Uma amiga me mandou a fazenda de San Francisco e eu mesm a desenhei o modelo. — Poderíamos ficar resfriadas com a corrente de ar. — Gosto de champanhe — Rina deu um pequeno gole. fazendo uma reverência zombeteira. sim. como se só então a idéia lhe houvesse ocorrido: — O que acha de festejarmos nossa viagem com uma festa íntima? En-quanto você troca de roupa. mostrando suas pernas longas e b ronzeadas. Marlowe? — Só esta — disse Rina. Correu as mãos pelos lados da camiso la e saíram faíscas diminutas das pontas dos dedos dela. sr. Rina levantou-se. Rina olhou para a caixa. rindo. — Também co mprei algumas camisolas. Margaret passou o braço em torno da cintura de Rina. Apagou as luzes e foi para perto de Margaret. — Pois não. — Isso é o que se chama eletricidade estática. Margaret sentiu um aperto na boca do estômago e ficou de pé. Tomou o resto de champanhe e estendeu a taça para Margaret. — Está fazendo calor. — Vou apagar a luz para você poder ver. Bradley. pegando no telefone. — Há uma cor diferente para cada noite da semana. e acrescentou. — Não está ouvindo a música. sorrindo. — Mas são de seda! — exclamou Rina. Rina pousou o copo e começou a rir. — corrigiu Margaret. Peggy? — É a orquestra do salão de baile. — Também gosto de dançar — emendou. — Você se importa que eu fique assim? Rina negou com a cabeça e tomou outro gole de champanhe.— É de brocado chinês legítimo. Rina. — Está. — Gosto de dançar — disse Rina. Peggy. Lembro-me de você ter ensinado isso na aula. Bradley. Mas é mais gostoso e não é muito doce. Vou é tirar minh a blusa. — Sr. srta. Era preciso fazer justiça a Sally: tinha muito bom gosto. mas papai nunca deixou . — Prometo que isso será um segredo entre nós — disse Margaret. srta. Rina levantou da cadeira.

desviando o olhar — Pode contar tudo. Mas um dia ele entrou no meu quarto. Isso não acabará com a festa. Não há segredos entre nós. quando el e fez o que nós dois queríamos. em dado momento. — Desde que Laddie morreu. — Nunca tive até hoje uma amiga íntima de verdade. mas continuou alisando a cabeça dela. Segurando firme a moça. — E como sabe que o amava? — Apenas sei. que a pegou com um sorriso. Rina parou de chorar... — Foi por isso que gostei de você desde o momento em que entrou no meu quarto naquela noite.. amadurecida. com medo do que poderia acontecer.s faíscas azuis estalaram da camisola de Rina. — Talvez seja bom você deitar em sua cama e descansar um momento. Você faz tudo tão bem! Mas essa dança me deixou um pouco tonta. Somos amigas. Rina abriu os olhos. Margaret sentou-se ao lado dela. — Não! — Sonhará. — Ele não era meu irmão de verdade. Diga qual é o sonho. — Ele deve ter sido muito bonito. — Todas as moças amam os irmãos. E acho que ele também me amava. — Laddie? — Meu irmão. — Acha? — perguntou Margaret. — Conte-me! A voz de Rina saiu abafada pelo travesseiro. Margaret começou a alisar a cabeça dela levemente. Margaret não respondeu. Vi logo que você era diferent e. — Não tem importância — replicou Margaret. — Ele. — Eu não deixava que ele me tocasse. — Melhorou — disse Rina. Começou a soluçar e continuou: — A culpada de tudo fui eu. sim. fiquei sabendo que o amava. Margaret sentiu as pernas trêmulas co m o calor dos seios de Rina através da seda da camisola. Alguns dias depois. Creio que o amava — disse Rina. Vivia a provocá-lo e. — Obrigada. — Mas machucou! Não compreende. — Não vai ficar zangada comigo? — Não. encostando ao seio a cabeça de Rina. enchendo novamente as taças. ele saiu de barco para dar um passeio junto com mamãe e os dois morreram. não ficarei zangada com você — disse Margaret. Irei sentar na cama a seu lado. — Estou muito satisfeita de irmos à Europa juntas — disse Rina de repente. parou de maneira abrupta. — E era. depois de alguns minutos de silêncio. — Um pouco mais de champanhe? — perguntou Margaret. — Acha que podemos? — disse ela. quase com as-pereza. As meninas na escola sempre me pareceram muito bobinhas. Eu é que devia morrer e não mamãe. Rina fez um sinal afirmativo. — Acha que vou estragar nossa festa? — Deite um minuto. E você é melhor como cavalheiro do que qualquer dos rapazes que vão aos bai les da escola. — Você danç muito bem. E eu nem tenho mais esse sonho. sentindo seu ciúme aumentar. e eu a ajudarei. olhando para o rosto de Margaret. — Conte-me o sonho e vamos ver Rina respirou profundamente e murmurou: . fez alguma coisa com você? — Nunca falei sobre isso com ninguém — disse Rina. — A tontura já passou. Ele e meu pai foram os dois únicos homens de quem re-almente gostei. — Está se sentindo melhor? — Ainda vejo tudo rodando. amarrou minhas mãos na cama com o cinto dele e fez aquil o comigo. nunca mais pude suportar rapazes. Rina foi até a cama. — São quase todas meninas tolas — disse Margaret. virando o rosto para o lado. com eçou a valsar furiosamente com ela e. colocou a taça na mesinha-de-cabeceira e estendeu-se nos lençóis. Eu fui adotada. Bebeu e devolveu a taça a Mar-garet. — Nunca — disse Rina. — Você voltará a sonhar — disse Margaret. Ela tomou o meu lugar no sonho. — É melhor tomarmos um pouco de champanhe — sugeriu. Peggy? Eu também queria. Só tem uma conversa: rapazes. Rina. Machucou-me tanto! — Machucou você é porque não a amava.

Olhe! Passe a mão pelos meus seios. — Mas está se divertindo? Ela voltou os olhos para a rua. Está vendo como tudo é liso e chato. não morra! Rina não se moveu e Margaret caiu de joelhos ao lado da cama. Depois. E para o monsieur? O de costume? Jacques fez sinal que sim e o garçom sé afastou. Seja o que for. — Vou ser Laddie. Mas eu não podia fazer nada. que n o que toquem em mim. Muito gelo. Levantou e disse: — Feche os olhos. Peggy? Tornou a fechar os olhos. mais bonita do mundo! É tão bela que não pode morrer! — Acha mesmo que sou bonita? — Sim — disse Margaret. Deles eu tenho medo. — Já está em Paris há mais de um ano — disse Jacques —. Rina! Por favor. — Mas você está chorando mesmo. Rina estava morta.. — Preciso mesmo ir embora. — Muito bem. tirando as calças do pijama. meu Laddie! 10 Rina olhou para o relógio. terá de espe rar. não morra! Beijou-a na boca. — Tanta pressa depois de um almoço como esse! — exclamou Jacques Deschamps. Laddie. com um sorriso contente no rosto. — Mas eu. Goze em mim! Como amo você. Rina. De repente. — Bem sabe que nunca serei uma pintora. Margaret virou-se na cama e abriu com os joelhos as p ernas de Rina. e vamos representar o sonho. E então ouviu-lhe a voz rouca. tão bem! — murmurou Rina. Estava morta. — Basta olhar para mim para ver com o você é bonita. Margaret olhou-a e de repente seus olhos se encheram de lágrimas. Mas não tenho medo de você Com um sussurro de agonia. cobria de beijos o rosto de Rina. Não ouviu a mademoiselle? O garçom olhou Rina com aquele ar entendido de apreciação que parece comum a todos os franceses. chor ando. Margaret tirou-lhe lentamente a camisola e murmurou: — Você é linda. e já deveria saber que ninguém deve l ntar-se da mesa com pressa depois que acaba de comer. sussurrando — Penetre em mim. Duas e meia. — É um sacrilégi o. como se eu fosse um homem? Deitou na cama ao lado de Rina e começou a acariciar-lhe os seios. Agora feche os olhos. Pairava no ar aquele cheiro de maio característico . — Por favor. Deve tomar um licor antes de ir. Morta de verdade! — Rina! Não morra! Por favor. Rina! É a mulher. — Monsieur? Jacques olhou para Rina e ela disse: — Pernod. — Você não é como os rapazes. ao mesmo tempo que cobria de beijos as faces macias. dizendo isso. pela minha barriga.. Ele estremeceu e repetiu ao garçom: — Muito gelo.. pelas minhas coxas. Rina abriu os olh os.— Eu sonhava que estava morta e que todo mundo estava em volta de minha cama. satisfeita. Goze comigo!. voltou-se para Ri-na: — Como vai a pintura? Está fazendo progressos? Rina riu. Rina! Não posso viver sem você! E. sentiu por um momento o fogo da língua de Rina. porque todos me pediam que não morresse. Quem você quer que eu seja? — Quer ser Laddie? — perguntou timidamente Rina. Rina sorriu para o avocat magro e um pouco grisalho. Sentiu-se tomada de súbito medo. — Amo-a.. Garçom! O garçom apareceu e cumprimentou respeitosamente. — Sinto-me tão segura com você. Eu sabia o quanto me amavam. Margaret sentiu um arrepio de excitação pelo corpo.

ab-solutamente. — Sua amiga não é a solução — continuou ele. Isso aconteceu vá-ri as vezes depois. — Non parla fran. quando de repente ele perguntou: — Por que tem tanto medo dos homens? — Por que diz isso? — replicou ela. depois que o pai lhe dera permissão para passar um ano todo e m Paris. você não é. . moreno. Ela e Peggy já estavam em Paris havia alguns meses e tinham se mudado pouco antes para um apartamento. com um olhar diferente. — À votre santé — disse ele. — Posso saber o que uma moça tão bonita está fazendo sozinha com uma revista? Quem é tão ins ensato a ponto de trazê-la para uma festa como esta e depois. Nunca experimentou. com um toque grisalho nas têmporas. No fundo. — Você é muito bom. até ser minha amante. sorrindo amavelmente. podia a-té. — Oh! — exclamou ele. — Foi minha amiga que me trouxe — disse Rina. quando o telefone toc ou. não se esqueça de que estamos na França. Peggy fora a uma festa dada por um professor da universidade onde ela c omeçara a trabalhar. num dia exatamente como aquele. As possibilidades são muitas. Estava folheando uma revista. Rina sentia-se muito sozinha na festa. ter filhos. — Está se divertindo muito. — Rina pegou seu copo. Ela olhou para o cálice de licor e não respondeu. Uma bela tarde. enquanto o garçom chegava com as bebida s. lembrando-se do dia em que soubera das condições d ele. ela estava sozinha no apartamento. — Isso não pode saber. — Acha mesmo que vou acreditar nisso? E sua mulher.. Está com uma b arriga deste tamanho. apontando Peggy. até que está sendo divertido. sorrindo. — Claro que tenho — afirmou ela. O que não compreendo é você..de Paris. e ela aceitou o convite para almoçarem juntos. Podia casar. erguendo o copo. __ Sim. Ainda estavam rindo quando ela ouviu a voz de Peggy. Peggy estava conversando animadamente com um dos professores. Isso não é ne-nhum crime. Ela não pôde vir comigo... Os motoristas dos caminhões já estavam em mangas de camisa e as mulheres haviam desde muito abandonado os deselegantes e pesados casacos de inverno. o que dirá? — Minha mulher compreenderia perfeitamente tudo. — Escute. qu ando ouviu uma voz. Peggy não tem nada com isso.. uma mulher desse tipo. — Sim. estavam bebendo tranqüilamente seu s licores depois do almoço. — Ela acaba de consegui r um emprego na universidade. que se aproxi-mava. — E quem foi que o senhor trouxe? — Ninguém. Jacques — disse ela. Não é a pior coisa que lhe poderia acontecer. — À votre santé — repetiu Rina. Mas já sabe as minhas condições. É jovem e bela. toda vermelha. Parecia muito simpát ica em seu terno feito sob encomenda. nós compreendemo essas coisas. — Mademoiselle américaine? Ela levantara os olhos. — Não respondeu a minha pergunta — insistiu ele. enigmático. Ela sorrira. É muito boa para mim. E apenas uma boa amiga e nada mais. — E sua amiga? Como vai ela? — Peggy vai otimamente. Viu um homem pequeno.. só vim até aqui na esperança de encontrá-la. Para dizer a verdade. — Falo inglês — dissera ele prontamente. Era Jacques. sabe? Não sei o que faria sem ela. — Porque sinto que é a verdade. rindo. Seu francês não era suficiente para manter um diálogo fluente e ela se retirara para um canto. querida? Algumas semanas depois. — Ser sua amante? — disse ela. — Não. — Mas não tem muita certeza. Ela olhou para as mãos dele e viu a aliança.

O que Peggy iria fazer? Ela precisa de minha ajuda para pagar o apartam ento. — Preferiria então que eu fosse dormir com algum idiota bruto e egoísta que nada sabe e a quem pouco interessa o que eu sinto? — Não. arrumou a camisa e pegou a gravata. beijou-lhe o seio nu. esperava que dissesse isso. Mas nem por isso acho qu e só as mulheres sabem amar. os bicos dos seus seios são como ameixas maduras . — Oh. pois ela podia sempre controlá-lo e contr olar-se. eu. — Fico satisfeito com isso. com aquela lesbienne? — Você não conhece meu pai. como esta pode ser infiel a seu marido. E Peggy? — Que tem ela? Cest fini. seria capaz de me matar. — Mas não posso fazer isso. rindo. Ergueu o rosto para ele e disse ternamente: — Acho que gostaria de ser sua amante. Jacques — chamou-o para si de braços abertos. Olhou-o enquanto ele abotoava a camisa diante do espelho. — Minha professora. Ele se aproximou da cama e. Alguns meses depois.— Não acho que esteja sendo muito delicado comigo.. ela foi ao apartamento dele e tudo se passou como ele prometera. — Bon. sim — disse ele. surpresa. Jacques! — Rina deixou transparecer toda sua aflição na voz. — Não quer então se mudar? — Não posso. minha a-companhante. — Afinal. Mas é que não gosto de ver uma mulher como você desper diçar-se assim. — Jacques? — Sim. com frieza. Quanto a isso. — Não compreendo por que seria diferente — continuou Rina. Pod e mudar-se hoje mesmo. — Mudar para cá? — perguntou. Porque quero dar-lhe pra-zer. Foi por isso que aluguei este apar-tamento. Não gostaria absolutamente disso. — Venha cá. Lá em Boston. Além disso. — Você. procuraremos outro. — Diferente por quê? Por que é diferente para você e não é para mim? — Um homem pode ser infiel à sua esposa. gentil e não a ofendeu. — Eu acredito muito na verdade. — E ele não se importa de você viver com. você é casado. — O que ele pensa que ela é? — O que sempre foi — respondeu Rina. vendo a aliança brilhar. dando uma rápida gargalhada. Não compreende que não posso? Ele se levantou. foi até o espelho da cômoda. se . Por que não podemos continu-ar assim? — Não quer mudar-se para cá? — Não posso. por exemplo? — perguntou ela. Foi bondoso. O que eu gostaria era que fosse para a cama c omigo. — Tem sido sua professora. estou sendo grosseiro. — Não estrague tudo agora . — Se não gosta do lugar. Quanto t empo poderia passar aqui? — Isso e diferente — disse ele. é honesto — disse ela. sarcasticamente. — Quando você ama. curvando-se. Jacques. — Sim. — Foi como você disse que seria. chérie. nem se pensa nessas coisas. tem razão. numa tarde de chuva. Agora parecem duas lindas papoulas rosadas. — De fato. Os garotos são co mo todos: só pensam em si mesmos. — Por que acha que com você seria diferente? — Porque sou um homem e não um garoto. — Não podemos continuar assim? Virei aqui sempre que quiser. querida — disse ele —.. se meu pai descobrisse. Acha então que a tenho procurado repetidamente apenas porque tenho um int eresse puramente intelectual por você? — Você. E durante todo o t empo ela sentiu em si a força de levá-lo a um estado de êxtase do qual ele não podia mai s voltar e que não encerrava nenhum temor. ao menos. Ela tomou-lhe as mãos morenas e fortes e olhou-as. Há homens que também respeitam e sabem despertar a sensib ilidade feminina.

amargamente. quand o ouviu a porta abrir. — Chegou cedo. Foi buscar a toalha e estava a caminho do banheiro. — Tenho de ir — insistiu. Jacques ficou a olhá-la até desaparecer. deixando o fogo baixo. em seguida. — Por quê? — Diz ele que são muito grandes. Cortou algumas fatias de pão. diz ele. Rina sentiu o olhar do advogado descer para seu busto. — Não compreendo. e riu. então? — Meu púbis. e chamou o garçom: —Acho que vou querer mais um licor. O que é. Procurava sempre criar a mulher ideal sem jamais conseguir. nem uma mulher infiel a seu amante. — murmurou ela. ele ficou sem ter o que dizer. — Não? — perguntou ele. Jacques olhou-a e pensou que nunca em sua vida havia conhecido mulher mais bon ita. Mas nós nunca contaremos a ele que você voltou vivo da ascensão. 11 Ela nem reparou no. — Prometi a Pavan que estaria no ateliê dele às três horas. Ainda teria tempo para um banho se a água estivesse quente o b astante. Peggy! Peggy olhou para ela friamente e não respondeu. continua ndo a caminho do banheiro . — Porque é a montanha mais alta que qualquer homem poderá escalar. — Não é o que você pensa. polido cumprimento do porteiro ao subir correndo os três lance s de escada. — Mas por quê? — perguntou ele.. — São essas suas condições? Estava sentada. Isso havia acontecido muitos meses antes e o mais interessante de tudo é que eles tinham continuado amigos. Passara no ateliê mais tempo do que havia planejado. Fechou a porta. Ela levou o Pernod à boca e tomou tudo de um gole. Chegou à banheira e viu que teria de contentar-se com água morna. E ela riu . levantou altivamente a cabeça. — Mas Peggy não é um homem! — Não — replicou Jacques. Tirou do embrulho a galinha assada que comprara na rôtisserie da esquina e colocou-a dentr o de uma caçarola no forno para conservá-la quente. Mas os artistas são mesmo malucos. Daí a poucos minu-tos. mas logo em seguida tornava-se fria e até mal-humorada. — Deve estar louco para dizer uma coisa dessa. nua. Jacques sabia como Pavan trabalhava. há vinho e queijo em cima da mesa — avisou. finalmente. o forno. com os seios magníficos a ostentar-se vitoriosamente . não é. agora? — Não. — É melhor você me jogar o vestido. Havia momentos em que estava alegre e simpática. Peggy era assim mesmo. Agora estava atr asada para preparar o jantar antes de Peggy chegar. Jacques? Ela beijou rapidamente seu rosto e afastou-se pela calçada. Pela primeira vez desde que o conhecia.tiver vontade. Rina olhou-o um momento e. na cama. Estou servindo de modelo. Olhou para o relógio. Usava muitos modelos para fazer uma só estátua.. havia terminado. já desabotoando a blusa. Aquilo passaria. e mais hom ens morrerão tentando escalá-la do que ao Everest. Mas um homem nunca é infiel à sua amante. Rina encolheu os o mbros. são exatamente essas as minhas condições. — É pior do que um homem. Mas disse: — Se é assim que quer chamá-las. arru mou-as num pra-to com um pedaço de queijo e começou a pôr a mesa. com o mesmo fósforo. Rina atravessou a pequena sala de estar e chegou à cozinha. — Pavan? Está aprendendo escultura. — Se quiser algo antes do jantar. Acendeu o bico do aque cedor da banheira e.

— Aí é que está o erro. Respirou profu ndamente e. Telefonei para um lugar e para outro a tarde toda até ficar quase morta de preocu pação. não acha? Peggy bateu com toda a força no rosto de Rina. tirou a camisa. Em seguida. Rina sorriu. Depo is tirou os sapatos — não usava meias — e colocou-os ao lado da camisa. muito espantada. E. nunca mais! — Nunca.Mas a mão de Peggy deu-lhe um violento puxão — Já lhe disse que não tornasse a falar com Deschamps! Então era isso. — Chore. pela primeira vez desde que a conhecera. mas porque queria evitar uma cena. — Mas está acima de minhas forças pensar naquele porco pondo as mãos em você! — Ele não é um porco. — Não poderia fazer a grosseria de não aceitar. Peggy. na falta de lugar melhor. Jacques não perdera tempo. Esta ficou desnorteada com a violência do ataque. — Encontrei-o por acaso. recusou polidamente uma bebida e foi par a seu lugar. com uma nota de desprezo na voz: — Um homem e não uma imitação de homem! — Ensinei-lhe mais coisas do que você poderia aprender com todos os homens do mundo! Rina teve um vislumbre da verdade. — Ele foi visto quando entrava no apartamento com uma loura. se agarrou às pernas de Rina. — Não tive vontade de ir à escola — disse Rina. não porque tivesse m edo dos acessos de raiva de Peggy. sentiu repulsa por P eggy e por si própria. também por acaso. — Toquei para o apartamento e ele não atendeu. querida — murmurou Peggy. não fui. não chega ao meu íntimo. Por que não pode me en sinar a sentir amor.. Sentiu um arrepio pelo corpo e olhou para a c abeça encostada em sua saia. E acrescentou. Você esta sempre ansiosa para me demonstrar seu amor. — Querida. Pegou Rina pelos ombr os e começou a sacudi-la. ao apartamento dele? — Não. encostando-se à parede. para me ensi nar a amar. dobrou-a cuidadosamente e colocou no chão. encostou o rosto ao peito de Peggy. encostado à parede na sala vazia. de joelhos. com seu curioso sorriso con fiante e as têm-poras grisalhas. — Onde ficaram então a tarde toda? Você não estava na escola de arte e não estava em casa. Não se zangue comigo. e começou a chorar. — Não é possível censurá-lo por isso. deixou-se ir escorregando até ficar sentado na c .. Caiu no chão e disse com voz queixosa: — Por que faz essas coisas comigo quando sabe como eu a amo? Rina a encarou. Mas Jacques. Mas tudo fica na superfície. Peggy só tivesse ciúmes de Jacques. freneticamente. Estranh o que. — Chore até aliviar a alma. — Quero saber a verdade! — Já contei a verdade! — gritou Rina. Nunc a se aborrecera com os homens mais moços. às quatro horas da tard e. nunca deixara de exasperá-la. — Não teria ido. avançou furiosamente para Peggy. de todos os homens que ela conhecia. Tomarei sempre conta de v ocê. não me olhe assim. Rina levantou as sobrancelhas. — Mentirosa! Rina levou a mão ao rosto e ficou olhando Peggy. O amor é exatamente para isso. Como era seu hábito. Perdão! É o ciúme louco que tenho de você Rina sentiu o rosto doer no lugar da bofetada. nunca! — prometeu Peggy. Peggy tornou a esbofeteá-la e ela sentiu a outra face arder. e ele me convidou para almoçar — explicou. — Não sou a única loura de Paris. Ainda era cedo quando Amru Singh chegou à festa que Pavan estava dando para festej ar o descerramento de sua grande estátua. a dar amor? Então caiu de joelhos também e. De repente se sentiu cansada de t udo aquilo. Quase no mesmo instante. Devia ser seis horas quando Amru Singh a presentou cumprimentos ao dono da casa. é um homem — disse Rina. Alguém com certeza os vira no restaurante e contara a Peggy. — Não faça isso outra vez.

com os braços estendidos acima da cabeça erguida à pro-cura de seu amante. Bloqueou uma parte da mente durante poucos minutos. o silêncio foi quebrado e todos começaram ao mesmo tempo a tecer seus comen tários e a felicitar o escultor. Isto é. — Ora! — exclamou Pavan. Não ha via ainda encontrado esse homem. quase num sussurro. Quero saber é da minha obra. a porta se abriu para mais duas pessoas convidadas. Sua avaliação era o reconhecimento da importância artística de uma obra. Sua busca poderia. Tirei-os de diversas mulheres para conseguir a simetria que não há na natureza. talvez ainda naquela noite. enquanto o relógio batia a h ora e Pavan iniciava sua palestra. Havia si do esculpida em escala de dois terços do tamanho natural. — O mercado de esculturas está muito fraco — murmurou. Fechou sua mente a ambas. Estava muito bêb ado. — Então. escondidos. Nunca olhava para ninguém com quem falasse. Havia muitas pessoas ali. Pensou nas posições obsce nas esculpidas no alto das paredes do tem-plo da deusa e sentiu o desgosto invad i-lo. m as principalmente sobre as vaidades e ambições dos homens. No fim. Não era a ocasião de dizer a Pavan que não percebera defeito algum no nariz. Amru ficou sabendo de quem se tratava. Era ele quem determinava o valor. e disse: — Tragam uma garrafa de vinho para o monsieur. E o rosto? Perfeito! Repare na testa. quando chegou ao fim. Pouco importava que o preço estabelecido por ele im pedisse para sempre a venda. Num nicho perto da porta. Resignou-s e interiormente. Os artist as diziam que ele não tinha coragem de encará-los porque era um parasita que vivia à c usta do sangue deles. o sol. A figura estava na ponta dos pés. Ficou por um instante em silencio. ao qual a luz da sala dava uma suave nuança de calor vital. Sem mov er os olhos. a mulher morena. . todos menos Leocadia. ma s continuou com os olhos abertos e vigilantes. dos outros. O nariz! Por que não me falou do nari z. provocando aquela tensão peculiar. Era um homem pequeno e grisalho. Era também nessa posição que podia pensar melhor. monsieur? Leocadia ficou em silêncio. no canto atrás do grande sofá. afastando de si o sentimento de decepção. com os lábios finos e apertados de usurár io. o que lhe provocou uma sensação de conforto. Houve silêncio na sala enquanto todos olhavam para a fria estátua de mármore. — Não quero saber do mercado. Pensava sobre muitas coi-sas. — Sua obra está como sempre — disse evasivamente o nego-ciante. Tinha de manter sua reputação. começou a chorar. Não era senão uma repetição de tudo o que ele vinha dizendo todas as noites. E sua respiração se tornou mai s lenta e menos profunda. Sobre o chão. num gesto rápido. Por fim. aspi rando apenas à glória que fora soterrada pelos séculos no fundo do espírito humano. nas maçãs do rosto no nariz. sem virar a cabeça. Pavan aproximou-se ansiosamente do sujeito. A feia cópula que observava pelo espaço entre as pernas altas do sofá não se justi ficava nem mesmo por um culto sagrado do mal. — Olhe aqueles seios. De repente. Entretanto começou a sentir o espírito mau da deusa Kali solto pela sala. terminar.amisa por cima das pernas cruzadas. descobriu a estátua. o negociante de obras de arte. com a luz de uma única lâmpada brilhando de cima para baix o. monsieur? O que acha? Leocadia não olhou para Pavan. Eram a americana loura e a a miga dela. — O nariz — murmurou. Voltou-se para os modelos. Era assim que podia observar. olhando a estatua. um homem e uma mulher estavam cometendo u m ato de fornicação. nos olhos. dissessem todos o que dissessem. depois relaxou-os totalmente. mas não desanimava. mas daquela vez. a qualquer mom ento. e quase caiu no momento em que. Pavan começou a gesticular. voltado para a estátua. com mármore italiano rosa avermelhado. estava uma estátua drapejada sobre um pedestal. encostados à parede. Contraiu seus músculos ao máximo. e muitas ve zes antes. Amru Singh estava à procura de um homem cujas vaidades e ambições transcendessem tudo o que fosse pessoal. segundo julgavam. parecia um cadáver envolto numa m ortalha. o julgamento definitivo era o dele. os atos de todas as pessoas na s ala.

Mas não devia falar.— Meu cinzel! — gritou Pavan. — Isso é uma coisa de que só os deuses podem aproximar-se! Olhou para o pedaço de mármore e seu olhar encheu-se de ternura. Pavan olhou para o negociante com sua confiança subitamente restabelecida. Pavan estava empenhado na velha luta do artista com o negociante. Subiu a uma cadeira e procurou a melhor posição para o cinzel. com lágrimas nos olhos. Até que encontrou o que procurava. Quase imediatame nte. O mármore rachou e a cabeça caiu no chão des pedaçada. O mármore brilhou de novo e e le desceu da cadeira para olhar. curiosos. virou-se e brandiu violentamente o martelo na cabeça da estátua. Limitou-se a fazer um vago gesto de assentimento. Leocadia tornou a olhar para o pedaço de mármore. ficou sem saber o que fazer. e Pavan com eçou a remexer de-sesperadamente os pedaços de mármore esparsos. Mas mur murou com desprezo: — Mil francos! — Mil e quinhentos então — disse Leocadia. com as lágrimas a rolar pelas faces. — Já vi onde foi que errei! Está vendo também? Leocádia olhou para o pedaço de mármore. — Graças aos céus! — exclamou Pavan. Voltou-se para os outros artistas: — Só me oferece mil e quinhentos francos! Pois fique sabendo que não aceito um cêntimo a menos que dois mil e quinhentos francos e a encomenda de uma estátua da mulher qu e serviu de modelo para esta perfeição. — Ignorantes e cegos! Não sabem de onde vem isso? Não conhecem a alma da beleza de uma mulher? — exclamou Pavan. Exclamou de repente. em atormentada frustração: — Está errado! Está tudo errado! Por que não me disse. — Graças aos céus não destruí o único fragmento de belez avia na vastidão do meu erro! Quase todos se aproximaram para ver o que Pavan tinha na mão. De repente. — Agora compreendo o meu erro! É em torno deste pequeno núcleo que esculpirei na pedra a mulher perfeita! — exclamou dramaticamente. murmurando: — De acordo! O escultor deu um verdadeiro urro de triunfo. entre os des-troços. Os modelos se entreolharam. Muito verm elha. e ficou estendido no chão. procurando saber que m havia posado para aquela parte da estátua. O busto rachou-se e também se desagregou. Levantou-se com um fragmento nas mãos e mostrou-o ao negociante. Pavan apontou o dedo: — Você! Venha cá! Todos seguiram o dedo de Pavan. Depois. Com a mesma rapidez com que haviam chegado. caiu um do s ombros. Já sabia o que era. Os braços caíram. e Rina se sentiu como que paralisada. Abraçou Rina e beijou-a nervosamente . deixou-se cair. Leocadia olhou-a um instant e e. Al i estava uma coisa de que ele havia de gostar. — O que é isso? — uma das pessoas cochichou para outra. Não sabia nem de que parte da estátua era. monsieur? Por que me deixou passa r por esse ridículo? Leocadia ainda estava em silêncio. A estátua balançou no pedestal e t ambém rolou em pedaços pelo chão. Parecia apenas um pe daço de mármore quebrado. Pavan olhou para o negociante. O escultor tomou sua mão e virou-se para o negociante. mas logo todos a empurraram para onde estava Pavan. as lágrimas desapareceram. — Mil francos — disse ele. — Eu a amava! — exclamou ele. pensou no jovem e gordo príncipe egípcio que havia aparecido em sua galeria. — Como posso fazer essa encomenda. — Eu a amava e você me traiu! Afinal. quando nem conheço o modelo? Pavan olhou em volta. Pavan começou a golpear desesperadamente a estátua. logo depois. desviou o o-lhar. Arranhou de leve a pe dra e depois poliu a superfície com a manga do casaco. exausto. Pavan abaixou-se por entre os fragmentos e continuou a vibrar o mar-telo como um louco. abrindo afinal a boca.

— Deixe o que tiver de ser dito para mim! Nesse momento. — O que está fazendo? Largue esse sapato! Depois. muito menos falar. — Posso até ver as manchetes. De repente. — Houve um acidente — disse ele.nas duas faces. — Eu lhe disse que nunca mais fizesse isso! Amru Singh ouviu o estalo de outra bofetada. — Nem toquei nela! — Eu sei — disse Amru Singh. todos os homens de Paris andarão como cães atrás de você! Você na turalmente adoraria isso. Olhou a cintilante cabecinha loura. Amru Singh pensou que parecia o grito de um domador de tigres que entra na jaula e descobre que o filhote se transform ou num tigre real. Ela sentiu mãos puxando seu vestido. Todo mundo ali estava doido. — Você está louca? — A coisa não tem tanta importância assim. cadela! É essa a única linguagem que você entende! Houve uma pausa e. Quase que arrastando Rina para a saída. Estendeu os braços para se defender. oh. Um olhar de estranha satisfação brilhou naquele rosto moreno. para que seja ven erada por toda a eter-nidade! Rina começou a rir. Rina perdeu de repente as forças e teve de se apoiar nele. uma voz colérica: — Você é uma prostituta ordinária. com firmeza. ouviu-se um grito e o barulho de um corpo caindo aos trambolhões pela comp rida escada. foi a primeira coisa em que já me destaquei na vida! — Quando isso se espalhar. Um estranho silêncio c aiu sobre a sala. olhando escada abaixo. com sua voz serena. depois. Aquilo era uma loucura. Amru Sin gh voltou-se para eles. Rina estava apoiada ao corrimão. Sentiu Rina começar a chorar em seu ombro. p ara não cair. Amru S ingh saiu de uma festa antes do último convidado. E através do delgado biombo atrás de sua cabeça começou a ouvir vozes obscuras. — Prostituta. uma das defesas da mente de Amru Singh se abriu. bateu com força a p orta atrás de si. e é assim que uma prostituta deve ser tratada! Fez-se um momento de silêncio. Ainda tinha na mão o sapato de salto alto e fino. apareceram. ele se abaixou e calçou-o pé de Ri na. Rina entrou no banheiro e reapareceu momentos depois. ergueu-a e colocou-a sobre o pedestal onde estivera a estátua. a porta se abriu e dois convidados. Já está em tempo de eu pensar pela minha cabeça e não pela sua. bela! Esculpirei sua beleza no mármore. Pavan com eçou a cantar com voz rouca e a girar com ela numa dança sem medida e sem rumo. pela primeira vez na memória de todos os que ali estavam. um grito: — Rina! Vibrou nesse grito a nota oculta do medo. Houve o som estalado de uma bofetada e. Foi o próprio Pavan que a ajudou a descer. Até que ficou completamente nua sobre o pedestal. — Talvez. — Você viverá para sempre. as roupas de baixo. Peggy. Tirando-o dela. depois. muito pálida. De r epente. — E se os jornais souberem? Já imaginou o que acontecerá se a notícia chegar a Boston? Rina riu. apertando de tal modo o rosto de Rina ao seu peito que e la mal podia respirar. Amru Singh sentiu o cor ação da moça pulsar aceleradamente contra seu peito. . — Chamem um médico. "Moça de Boston escolhida como a vulva mais bonita de Pa ris!" — Parece até que está orgulhosa disso! — E não tenho motivos para estar? Afinal. calmamente. — Ela escorregou e caiu! — Não diga nada a ninguém — ordenou ele. Cobriu-a com um pano enquanto ela camin hava para o banheiro. Um dos modelos lhe entregou as roupas de baixo e o vestido rasgado. Então. que saíam. Peggy estava à sua espera.

colocando a cabeça entre as pernas abertas de Rina e beijou-a. Inclin ou-se. — Estou de cabeça para. o corpo esbelto dentro do maca cão de malha. depois que Jacques se apresentou. com o corpo todo apoiado na parede quando Jacque s entrou no apartamento Ficou um momento a olhá-la. mas não perfeitamente inglês. — Antes eu não era feliz. por m ais cuidadosamente que houvesse preparado tudo para fazer a culpa recair sobre e la. — Sua amiga parece em forte estado de choque — disse o inspetor de polícia. Não a deixe falar com ninguém até eu chegar. — Ela não falará com ninguém até o senhor che Jacques não compreendeu o que Amru Singh quisera dizer até ver o rosto pálido de Rina e seu olhar parado. Mas por quê? — Amru Singh diz que é muito bom para o cérebro. baixo. — Antes você não ria muito. — É um caso de pura rotina. Ela sorriu para ele. Já estava bem desperto. — Já tomei essa providência — disse Amru Singh. — Oui — respondera. Só queremos uma palav . — Meu nome é Amru Si ngh. — Isso estou vendo. — E é feliz agora? — Muito. Mademoiselle Bradley morreu de uma queda e a polícia está criando dific uldades. — Peço-lhe desculpas por perturbar seu descanso — continuou a pessoa a falar em francês. — Será que Amru Singh ensinou também como se beija uma pequena que está de cabeça para bai xo? — Não — disse ela. E tem razão. Jacques riu. havia atacado. Arqueou prontamente as costas e moveu as pernas. Mademoiselle Bradley caiu da escada. a deusa perversa. — É bom ouvi-la rir — disse Jacques. Rina já era uma pessoa bem diferente da atordoada moça daquela noite muitos meses an tes. inspetor. o cintilante cabelo espalhado pelo chão — O que está fazendo? — perguntou ele. — Monsieur Deschamps? — perguntara uma voz grave e calma. — Já mandei chamar um médico. dessa vez. Nem queira saber como tudo é dife-rente olhan do de cabeça para baixo. — Muita bondade sua. Acha-se em completo estado de choque. Ela precisa de sua ajuda. O sangue lava a cabeça e a gente tem ou tra perspectiva do mundo. 12 Rina estava de cabeça para baixo. não iria receber o sacrifício de uma inocente como novo tributo ao seu poder. ainda tonto de sono. com gentileza. — Isso fui eu mesma que tive de descobrir. ela não está em condição de falar. Sabe onde é? — Sei. Estou aqui com uma amiga sua. — Onde está? — No ateliê de monsieur Pavan. com um sorriso malicioso.Seu presságio se realizara. Ele se lembrou do telefone tocando à cabeceira de sua cama. Não era possível deixa r de ver o convite que representava o ípsilon que ela formava junto à parede. com um curioso sotaque que era inglês. — É coisa grave? — Muito grave. Kali. Mas. Estarei aí dentro de meia hora. Ela se estendeu no chão às gargalhadas. A polícia a havia isolado no pequeno quarto de vestir do ateliê. Pode dizer-me o que aconteceu? Vim em resposta a um telefonema de um amigo comum. o escultor. mademoiselle Rina Marlowe. — Quer chamar mademoiselle Marlowe ao telefone? — Infelizmente.

Ja cques chegou inesperadamente ao apartamento e encontrou Amru Singh. em voz branda. a polícia poderá interpreta r erradamente o que ela disser. foram à delegacia de polícia. é meu amigo também. — Para servi-lo. Singh. acariciando-a. E quando ele chegar. inspetor. pensou. — Seu amigo. — O que ela disse à policia? — Achei melhor que ela não falasse com a polícia — disse Amru Singh. Eu m esmo a acompanharei para depor amanhã à tarde em sua delegacia. — O inspetor indicou o caminho. — Jacques. mademoiselle. com o rosto im-passível. nada do que vi me leva a pensar assim. p or que Amru Singh o teria chamado? — Poderia ir até o quarto? — perguntou. Jacques assentiu com a cabeça. Aqui. O inspetor concordou.. — Creio que será melhor não levar mademoiselle Marlowe para o apartamento onde vivia — d isse prontamente Amru. Ela parecia não vê-l o. Chegou a sua vez de falar. Amru Singh a levou até uma cadeira. olhando para Rina. Duas noites depois. viu Jacques. sem o menor sinal de reconhecimento.ra de mademoiselle Marlowe. No mesmo instante seus olhos se enche ram de lágrimas e ela atirou-se nos braços dele. — Teve ela alguma interferência no caso? — perguntou Deschamps. depois de alguma hesitação. — Posso falar com ela? — Perfeitamente. vou levar mademoiselle Marlowe pata a casa dela. Jacques entrou no quarto e viu Rina sentada numa cadeira. monsieur Singh — disse Jacques. — Como já expliquei à polícia. Rina ergueu lentamente a cabeça. Amru Singh disse então. Amru Singh entrou no apartamento e Rina o seguiu docilmente. meio escondida atrás de um homem alto de turbante. E Jacques falou ao inspetor: — Se me der licença. — Não posso mais f alar com você. Jacques teve um momento de reflexão. — Sem dúvida alguma. — Monsieur Deschamps? — perguntou o homem. — Ela obedeceu? — Quase não teve outro jeito. como se estivesse falando a uma criança. Fez um gesto e ela se sentou. — O senhor é medico? — Não. — O médico irá apenas confirmar que ela está em choque — disse Amru Singh. Jac-ques fechou a p orta. — Como então conseguiu impedi-la de falar com a policia? — Disse-lhe que não falasse — respondeu Amru Singh. começou a proferir palavras desco-nexas. única pessoa que estava com ela na hora. sou um estudioso. Jacques estendeu a mão ao indiano. Piscou os olhos como se estivesse despertando de um sono profundo.. Mas sugiro que seja em outro lugar. e deu ao motorista o endereço do apartamento qu e havia alugado. — Não tenha medo. — Mas a polícia já mandou chamar um médico. — Vou deixar de carregá-la sobre meus ombros — disse ele. No táxi. Jacques! Eu sabia que você viria! Com o corpo sacudido de soluços. monsieur Deschamps. Passaram depois no apartamento que Ri na dividia com Margaret e levaram tudo o que era de Rina. Foi exatamente isso que aconteceu. Deve haver mais alguma coisa. dizendo: — Se ele é seu amigo. tranqüilamente. No dia seguinte. — Eu estava no local do acidente — disse o indiano. — Ela ficou muito impressionada co m o que aconteceu e parecia inclinada a assumir a culpa pela morte da amiga. Ouviu a porta fechar-se e percebeu que Amru Singh havia desaparecido. — Calma — disse Jacques. . De repente. depois que o médico-as sistente houver tratado dela. sorrindo. — Amru Singh é meu amigo — disse Rina. está aqui. — Muitas coisas ali a farão lembrar-se de sua falecida amiga. Tudo a-cabará bem. Rina levantou os olhos parados. Do contrário. que se levan tou ao vê-lo. Jacques deu ao motorista o endereço de Rina.

Era como . afastou-se um pouco para deixar Rina entrar e. porque neste ca-so eu teria de d eixar de ver Amru Singh. Amru Singh é apenas meu amigo. dizendo: — Ah! Disso é que eu gosto! Ele ajoelhou-se à frente dela e fez massagens nos seus pés. com essas idéias bobas e pro vincianas. diz endo que ia divorciar-se para que a criança nascesse na vila da família ao sul da Fr ança. — Não compreendo para que isso pode servir. Logo que ela entrou. Tanto que me disse que. Bem sabe que um divórcio lhe arruinaria a carreira. Os exercícios só são importantes para as mulhe res que estão espe-rando filho. — Rina! Ela voltou-se para ele e Jacques viu a profunda angústia que a dominava. Jacques. jogou longe os sapatos. depois. sorrindo. isso seria muito desagradável. Amru Singh diz que cinco minutos de meditação ante s de dormir aliviam o corpo e o espírito de todas as tensões. D epois. — Estava muito bonita esta noite — disse. ele estava no chão ao lado dela. Sen tava-se sobre as pernas cruzadas e os braços formavam um quadrado à altura do peito. — Ele também é meu amigo e eu não gostaria que uma frase minha dita de brincadeira pertu rbasse nossas rela-ções. E como vai conseguir isso? — Ele está me ensinando os exercícios de ioga para o parto. Jacques tirou as abotoaduras dos punhos da camisa e depositou-as sobre a cômoda. se eu estivesse pensand o em outra ligação. surpreso. Jacques entrou na banheira. Jacques. Jacques começou a tirar a camisa. A água estava quente e transmitia uma sensação repousante. — Que velho devasso! — exclamou Jacques. ac ompanhou-a até o quarto. — Estou me preparando para a meditação. — Aquilo já tem mais de oi-tenta anos e ainda v ai ao Ópera. vá tomar banho. — Eu sei. — Então por que está dizendo isso? — Escute — disse ela. — O que está fazendo? — perguntou Jacques. tirou o vestido e sentou-se no chão numa posição de ioga. — Ótimo. — Seria capaz disso por minha causa? — Claro que sim.Os dentes brancos do indiano brilharam num sorriso e as mãos se apertaram cordialm ente. porque é a você que amo. No instante seguinte. e Jacques teve a impressão de que ela se tornara de repente mais velha do que ele. Conseguiu os jornais de Boston para mim? — Estão na minha pasta. Jacques abriu a porta. o pulsar acelerado de seu coração foi pouco a pouco voltando ao normal. Havia alguma coisa que o impressionou desagradavelmente na maneir a pela qual ela estava sentada à mesa. não me esquecesse dele. impassível. Seu dia foi muito agitado. poderei d izer que fiz um casamento errado e ninguém saberá de nada. olhou-a pelo espelho e disse: — Sabe que seria muito fácil eu ter ciúme de Amru Singh? — Para mim. Você está agindo como um americano. Saiu do banheiro amarrando o cinto do roupão. — E se seu pai souber? — Não há nenhuma necessidade de ele saber. para não falar em out ras coisas. Ela se levantou da cama. Agora. Fornay diz que você me deixou enceinte. Quando voltar à América para visitá-lo. Ela olhou maliciosamente e replicou: — Monsieur le ministre também achou. Ela o fez calar-se. sentou-se na ca-ma e esfregou os pés. olhando firmemente para o jornal. Eu terei a criança e tudo continuará como agora entre nós. — O dr. — Deixe disso. pondo um dedo em seus lábios. meu professor. Daí por diante. Isso me dará controle sobre todo o corpo. os três jantavam juntos ao menos uma vez por semana. abraçando-a e beijando-a. Ela sorriu para ele. — O que aprendeu hoje com nosso amigo? — Há grandes possibilidades de que eu em breve possa livrar-me da vontade de morrer que tem governado quase todos os meus atos desde meus tempos de menina. Rina estava no quarto e ele foi até a sala de estar.

Ela foi grata àquela maneira de lhe dar confiança. pouco me importa viver tanto ou não. minha querida! — ele a confortou. você voltará para a Fra nça.se ela houvesse perdido todas as esperanças de salvação. — Você era uma criança quando aprovei os seus papéis de adoção — ele disse. sentindo-se já tremendamente infeliz. — Não! — exclamou ela. apanhando folha por folha de papel à medida que o governador as assinava. Ela apontou o jornal. — Mas por quê? — perguntou ele. HARRISON MARLOWE DENUNCIADO! Criminalmente respon-sável pela falência do banco da família. — E eu queria tanto esse filho — murmurou ela. abraçando-a. Gostava do as pecto dela. — Es-pero viver mais de cem anos e os médicos dizem que talvez che gue lá se fu-mar menos. não quero deixar um só inimigo. que se mantinha de pé ao lado do governa dor. levando os papéis . Jacques nem se deu ao trabalho de discutir com ela. — Não poderei ter a criança. espalhando na sala o cheiro fort e e um tanto agradável da fumaça. Ele se recostou na cadeira com um sorriso levemente irônico. O belo cabelo da moça chegava até os ombro s. entre soluços. Tinha uma voz s imples mas extra-ordinariamente clara que enchia facilmente a sala. Mas a questão é que. Rina. com um sorriso em . como se fosse um ator habituado a se fazer ouvir mesmo nas galerias. Fornay me disse categoricamente que depois desse não haverá m ais filhos! 13 O grande ventilador do teto zumbia e o calor de agosto pairava pesado e úmido no g abinete do governador. O governador apanhou um charuto e perguntou: — O fumo a incomoda. Fin almente as assinaturas terminaram e o secretário saiu do gabinete. srta. o representante de cinco gerações de banqueiros de Boston Via-se abaixo um clichê de três colunas com o retrato de Harrison Mar-lowe. sentindo de novo a marcha inexorável do tempo. governador. Quando tudo isso estiver acabado. O secretário franzino e nervoso levou Rina a uma cadeira em frente à grande mesa de trabalho. como francês. — Tenho certeza de que chegará. falando de coisas pessoais. Jacques se aproximou e viu por cima do ombro dela uma manc hete que tomava toda a largura do jornal. compreendia perfeitamente: o dever filial. embora falas se baixo. — Oh. num fio de voz. Ela se sentou e ficou olhando o secretário. Jacques — sussurrou. quando morrer. Nada daquelas tolices modernas que obrigavam as mulheres a fazerem r egime e cortarem impiedosamente o cabelo. — É um dos poucos prazeres que os médicos ainda me permitem — disse ele. e a única maneira de conseguir isso é viver mais que todo s os que tenho. m esmo sussurrando. Havia nel e um ar de mocidade e vigor que desmentia as grandes manchas grisalhas do cabelo . O governador a olhou. — Na verdade. — Como? As lágrimas molhavam o rosto de Rina. — O dr. Ele riu e ela riu com ele. — Teremos outro filho. — Tenho de voltar para casa. Marlowe? Ela sorriu em resposta e ele acendeu o charuto. Havia no caso uma coisa que ele. esquecida por um momento do que fora fazer.

deix ando muitas pessoas desempregadas e fazendo outras perderem seus investimentos o u seu meio de vida. se as fábricas não tivessem de f echar e os empréstimos tivessem sido pagos. Neste caso. — Acha que ele é culpado? — O negócio bancário é como a política. nada teria acontecido. per derá e será condenado a dez ou quinze anos de prisão. Se seu pai apresentar alguma defesa. minha filha. É claro que. a coisa muda de figura. — Então. colocando o charuto n o cinzeiro. todo mundo fecha os olhos. — Infelizmente. fez uma coisa perfeitamente correta do po nto de vista moral. Do seu lado da tela de arame. que percebiam tudo com facilidade e com quem era possível trocar idéias. — E se lhe acontecer alguma coisa nesse meio tempo? — Já se esqueceu de que vou viver mais de cem anos? Mas. a decisão é sempre o maior risco de quem dirige. Ela se levantou e estendeu-lhe a mão. — Quer dizer que o segredo de tudo é não ser descoberto? Ele sorriu. Há mui-coisas que são moralmente certas legalmente erradas. Mas. A lei não é uma coisa inflexível. Seu pai correu esse risco ao autorizar os empréstimos. — Agora mesmo o povo está à pro-cura de um bode expiatório. há a aspiração de que a lei e a moral um dia se encontrem no infinito. não é? — Faço dezenove no mês que vem. — Infelizmente. minha filha. seu pai não poderia perder. eu providenciarei para que um juiz lhe dê de um a três anos de sentença. sem o dinheiro. papai? — disse ela. . con-cederei o perdão. que passará dos cem anos. Os olhos estavam sem expressão. Costuma refletir as esperanças e desejos do povo. — Não é tão simples assim. Seu pai. Apanhou o charuto no cinzeiro e o rolou entre os dedos fortes. — Não tem qualquer importância que ele houvesse perdido toda sua fortuna pessoal tenta ndo salvar o banco? — perguntou Rina. A primeira obrigação de um banco é com seus depositantes. quando ele se sentou na cadeira. — Se puder convencer seu pai a reconhecer sua culpa. — Minha mãe e meu pai sempre me disseram que o senhor foi muito bondoso em tudo isso . — O infinito é tempo demais para um homem com a idade de meu pai — disse Rina. lentamente. Quinze meses depois. nem mesmo o senhor. Enquanto tudo dá certo. — Como vai. ainda que eu não estivesse pr esente.araçado. do mesmo m odo que os ma-temáticos dizem que as paralelas se encontram. Vinte meses depois conseguiria o livra-mento c ondicional. seu pai não podia fazer os empréstimo s. o que evitará o julgamento por um júri. legalmente. De acordo com a lei. e até o rosto parecia haver tomad o uma coloração cinzenta que se confundia com a do uni-forme da prisão. Gostava de conversar com pessoas jovens e inte-ligentes. — Ninguém p ode esperar tanto. é preciso julgar de acordo com a lei. espero que passe mui to dos cem anos. — Sei por que veio falar comigo e quero que saiba que sinto muito a si tuação em que se en-contra seu pai. não há nada que possa fazer por ele? — Um bom político não pode ir contra a opinião pública disse ele. Aconteça o que acontecer. Rina viu o pai aproximar-se. não. e as mesmas pessoas que o teriam levado às nuvens estão furiosas com ele. deixarei este cargo muito antes de poder conceder-lhe livramento condicional. o cabelo se mostrava ainda mais branco. satisfeito. Ele seria con-s iderado um benfeitor público e um banqueiro de descortino. Pena que a política atraísse tão pouca gente desse gabarito. Justificou a si mesmo com a idéia de que. — Muito obrigada por ter me recebido. A lei leva isso em conta e o Estado tem leis qu e regulam tais empréstimos. — Tem dezoito anos. No fim. certas fábricas poderiam ver-se na contingência de fechar. — Você cresceu um pouco desde que a vi pela última vez —disse ele. Mas aconteceu o contrário . É por isso que as leis são muitas vezes mudadas ou emen-dadas. ternamente. portanto. porque não havia garantias suficientes. Quando não dá. — Já examinou as acusações formuladas contra ele? — Li apenas os jornais. e que não poderiam adotar-me se o senhor não os ajudasse.

será com um home m amadurecido. Encarregaram-me de o rganizar um novo sistema de controle. — Eu me arranjarei. papai? — Escrevi a meu primo Foster. Talvez uns dez mil dólares depois que pagarmos aos c redores e a Stan. Parecem meninos. Você não se preparou para trabalhar. — Onde quer chegar. e eu não tenho paciência com eles. sr. querem que você vá passar uns t empos com eles. — Os que querem comprar a casa são judeus — disse ele sem rancor. Estou trabalhando na biblioteca. quase com timidez —. — Pelo que me disseram. Apenas m oços. — Não estou pensando em casar. — Mas. — Para fazer o quê? — Não sei. Ela percebeu que ele estava brincando. sua esposa. Parece exausta. Ela o viu afastar-se para o interior da prisão. papai! — Será melhor assim. — Mas. — Mas isso ainda vai demorar muito. pensei que não se conseguisse tanto. — Você precisa é de umas férias. — Já dei instruções a Stan White. papai? — Faremos tudo que for humanamente possível. Passo noites acordado pensando n o que você irá fazer agora. talvez até mais velho.. a casa seria grande demais para vivermos nela depois que vo cê sair daqui. Dessa vez. Conheci um lugar na Riviera onde poderemos viver o ano todo com menos de dois mil dólares. — Não precisaremos de muito. Rina. forçando um sorriso. — Por isso pagam tanto . Você precisa de férias agora. — Eu não deveria ter ido para a Europa. — Fui eu que falhei nas obrigações que tinha com você. Outra é ser conde nado por ter sido idi-ota. quando estava de novo a caminho da Europa em viagem de lua-de-mel. Talvez na da disso tivesse acontecido. — Não. sua voz foi amarga: — Ninguém mais vai arriscar-se comigo. Iremos para a Europa. — Tenho tido muito tempo para pensar aqui dentro. por fim. Só tornou a vê-lo muitos meses depois. papai. Vou procurar um emprego. — Isso não é tão fácil assim. Dizem que lá é muito bonito e você pode ficar na casa deles até eu sair daqui. Teremos menos coisas tristes para rebordar. papai. Rina — respondeu. Sou um presidiário. — De qualquer maneira. — Você nunca me falhou. muito obrigado. O que Harrison Marlowe viu foi um homem de sua idade. Deveria ter ficado em casa com você. Marlowe — acrescentou Jonas Cord. não poderei vir visitá-lo.. — Não sobrar muito para vivermos. Quando casar. . minha filha. O guarda se aproximou e o pai levantou-se. papai. E eu até estraguei s possibilidades de fazer um bom casamento. Não sou banqueiro. — Isto é pior ainda. Nos arranjaremos até você entrar de novo em atividad e. mas c om uma juvenil vitalidade. Stan White era o advogado dele. — Está bem. Faça o que estou dizendo e vá para lá. esse é Jonas Cord. Têm perdido muitos livros ultimamente. típica dos homens do oeste. Mas arranjarei alguma coisa. Todos os moços de Boston não são mais do que isso. papai? Como o estão tratando? — Estão me tratando muito bem. — Teve uma o-ferta de sessenta mil dólares pela casa. — Recebi uma carta de Stan White — disse ele. Sabem que não guardou nada para você. papai — ela começou a dizer. — É bom — murmurou ela. Uma coisa é ser condenado como ladrão. assim. Ela levara o marido para vê-lo na prisão. — Papai — disse ela. — Há alguma coisa que eu possa fazer por você. Ele e Betty. — Nós dois teremos férias quando você voltar para casa. papai. O mer cado para essas casas grandes não está muito bom. e um pesado silêncio caiu sobre eles. Todo mundo sabe que a culpa não foi sua.— Alô. Rina. — Não fale assim. como você. Seus olhos estavam velados de lágrim as.

a tarde toda. 14 A dor começou a repercutir-lhe nas têmporas. você mesmo disse que eu não estava preparada para qualquer trabalho. papai. prisão com quarenta graus de febre. — Pode dar-me uma aspirina? Ilene acordou de súbito e olhou para Rina. inquieto. Havia uma agulha meti . Mas não pôde lev antar o braço. Mas er a inútil. — Deixe que eu mesma chamo — disse Rina. Moveu lentamente a cabeça.. Sentia cada vez mais frio.. Deviam ter chegado enqu anto dormia. — Vou chamar a enfermeira. sei que quer ficar algum tempo sozinha com seu pai. E vive muito sozinho. lutando contra a volta à realidade. Morreu três dias depois de bronquite pneumônica. Um homem com sua experi-ência p ode ajudar-me muito nos aspectos fi-nanceiros de meus negócios. Se ntiu a terrível solidão do despertar. Tu do estava escuro lá fora. sr.Cord olhou-o. — Estou com uma terrível dor de cabeça — disse baixinho. Havia flores novas no jarro. Quero tomar uma aspirina. Ilene estava cochilando na poltrona perto da janela. Estarei à sua e spera do lado de fora. com-preendendo subitam ente o motivo da oferta do marido de Rina. Nada havia que pudesse dizer. Já era noite e ela devia ter dormido a tarde toda. — É muita bondade sua. Por que casou com el e? — É um homem muito rico. gostaria que conversasse comigo. Os dois homens se despediram. Naquela noite levaram-no para a enfermaria da. Tremeu um pouco e cobriu as pernas com o cobertor. Não foi absolutamente por isso que casei com ele.. papai? — É quase tão velho quanto eu! — Não se lembra de eu ter dito que me casaria com um homem amadurecido. — Mas. — Foi para que ele tomasse conta de mim ? — Não. Agitou-se. Estava acordada. Tem a vida inteira pela frente. Jonas Cord voltou-se para Rina: — Com sua licença. procurando o botão da campainha. e Harrison Marlowe sentiu como era penetrante aquele olhar. Despediram-se depois de mais algu ns momentos penosos. — Acho que dormi a tarde toda — Rina deu um sorriso. — Por que foi então? — Foi para que ele tomasse conta de mim. Marlowe se es-tendeu no estreito catre em sua cela. — Estava tão cansada! E nunca deixo de ter dor de cabeça quando durmo assim durante o dia. Os últimos vestígios quentes do sonho desapareceram. papai. enquan to Rina e Jonas Cord ainda estavam em alto-mar. Ela imediatamente o interrompeu. Prendeu a respiração um instante. Antes de fazer quaisquer planos depo is de sair daqui. Tudo estava esmaecendo. papai? Nunca pude suportar garo-tos. dilacerando seu sonho como uma faca. sr. — Quer dizer que casou com ele por isso? — perguntou Marlowe.. Rina. — Sim. m enos ela. Rina pergunto u: — O que acha dele. papai. — Afinal. — Mas você é uma mulher moça. percebendo que pela primeira vez em toda a semana Rina estava consciente. Qual tinha sido sua fal ha com Riria? Onde havia errado? Virou o rosto para o travesseiro e lágrimas quentes começaram a rolar em suas faces. Não foi por isso que me mandou para a casa de meu primo? Ele não respondeu. Marlowe. Rina. Abriu os olhos e ficou um momento sem identificar o quarto do hospital. Viu que este estava amarrado ao lado da cama. Cord. Quando pai e filha ficaram sozinhos. mas logo se lembrou de onde estava. Sentia frio. — Meus negócios estão se expandindo. — A tarde toda? — perguntou Ilene.

Tem dificuldade também com seu próprio nome? — Não. — Aquilo serve para tirar o que nós chamamos de eletroencefalograma. levantando-se e tocando a campainha. conheço minha a-miga ali. — Sou a enfermeira da noite. — Como é seu nome? — perguntou ele de novo. já vi que não posso. O médico tirou um oftalmoscópio do bolso e disse: — Vou examinar seus olhos com isto. Vou explicar tudo. srta. Pensou que eu estivesse em estado de choque. doutor. — Ora. — Não há nada de esquisito nisso. Assim poderei ver o fundo ao seu olho e apurar se tudo. Também me lembro. Ele colocou o polegar num canto do olho e levantou a pálpebra. — Pensou que podia me enganar. Há alguns tipos de enxaqueca que fazem as pessoas esqu ecerem até o próprio nome. Ajuda às vezes a apurar a causa das dores de c abeça. — Mas não é. — Harrison Marlowe. doutor. Conheço o senhor . pois ainda me lem-bro de meu nome. — Como é? Já acordamos? — perguntou ela. — Rina Marlowe — respondeu ela e riu. A enfermeira apareceu quase no mesmo instante. — Como é o nome de seu pai? — perguntou ele. enquanto a luz fazia um semicírculo no canto superior do olho. — Como é seu nome? — Katrina Osterlaag — disse ela. Posso tomar uma aspirina? — Vou perguntar ao médico — disse a enfermeira. Um colega seu em Paris me examinou uma vez com uma coi sa dessas. Nesse momento duas serventes entraram no quarto. Por que não vai para casa e descansa um pouco? Passou o dia inteiro aqui. Rina voltou a cabeça e disse a Ilene: — Você deve estar exausta. como acredito. doutor? A dor de cabeça não é ass m tão forte. Fiquei até com dor de cabeça. Rina. — Está vendo. E acabo de chegar. sorrindo. Como podemos justificar o dinheiro que ganha mos apenas receitando alguns comprimidos? . E até muito simples. — Parece muito complicado — disse Rina. Eu estava era hipnotizada. médicos. O médico aproximou-se da cama e perguntou. — Não. Mede os impulso s elétricos que se produzem no cérebro. — Já — disse Rina. O médico riu. — Não estou com medo. Descansou bem? — Descansei demais. Chegou ao lado da cama e sorriu p ara Rina. o médico entrou e Rina o olhou. Mas é uma dor de cabeça esquisit a. Não tenha medo. com sua jovialidade profissional. passando o instrumento para o outro olho. Tinha estado de serviço desde que Rina chegara ao hospital. — Boa noite. Apertou um botão e um raio fino e forte de luz saiu do instrumento. hein? O médico desligou o instrumento. levantou-se e disse sorrindo: — Não. A enfermeira olhou rapidamente para Ilene. mas quando procuro lembrar o nome dos dois.da numa veia do braço e ligada a um comprido tubo que saía de um vidro pendurado com o gargalo para baixo numa armação de ferro. Marlowe. bem sabe como nós. — E eu que achei que uma simples aspirina curava minha dor de cabe-ça. Também dormi um pouco à tarde. com os olhos brilhando por trás dos óculos. como? — Parece doer mais quando procuro lembrar-me dos nomes das pessoas. a dor de c abeça aperta e não consigo lembrar mais nada. — Você e nova. empurrando um grande aparelho q uadrado. tomando-lhe o pulso: — Esquisita? Esquisita. não passa de vista cansada. não e? Não me lembro de você. não estou cansada. Nesse momento. para que possamos tratar delas. Lá estava ele. prontamente. — Para que isso? — O médico achou melhor não acordar você para lhe dar comida — disse Ilene. que deixaram ao lado da cama. — Sempre tenho dor de cabeça quando durmo à tarde. somos. mas errou.

— Por quanto tempo. Apertou um botão no braço da cadeira e um possante refletor se acendeu no teto. não havendo passado e. Mas já é possível ver certos sinais de lesão em algumas áreas nervosas. Virou a cabeça para o manequim à sua esque rda tentando imaginar o vestido no modelo. cheia de esperança. lugares e horas. mas ainda podia ver Rina ali. tomando-a pelo braço. doutor? Por quanto t empo ela ainda terá de sofrer assim? — Não sei — disse o médico. e meteu a mão no bolso à procura de um maço de cigarros todo amassado. Deixou-se cair nu-ma cadeira à frent e de Ilene. O médico só saiu do quarto quase uma hora depois. com a luz brilhando sobre o cabelo claro. Havia alguns e sboços dos costumes para um novo filme à espera de sua a-provação. A febre começou a subir vinte minutos depois que saiu do quarto. em voz contida. com os olhos erguidos para cima. É quase um milagre que. dist ribuindo um feixe de luz sobre o desenho. fazendo um gesto na direção da port a. — Por que é preciso sempre destruir as coisas belas? Já não há horrore s de sobra neste mundo? As lágrimas continuaram a enevoar-lhe os olhos. e o médico voltou-se para Ilene. como nom es. — Bem sei como está preocupada — disse o medico. Acendeu a luz e se ap roximou do armário embutido do bar.Ela tornou a rir. Os desenhos começaram a desapare cer e ela só conseguia ver ali Rina. Tivemos de cortar-lh e o cabelo para fazer o eletroencefa-lograma. doutor? — Só poderemos falar com mais certeza depois de uma análise mais detalhada do eletroen cefalograma. bebendo de vez em quando um gole. Ilene fechou a porta de seu escritório e foi para sua escrivaninha. Dei-lhe sedativos para aliviar a dor. Apanhou uma garrafa de uísque e encheu um copo com gelo. Cinco anos apenas. conseqüentemente. — Meu Deus! — exclamou Ilene. — Por que não me deixa levá-la para casa? A dite que nada há que possa fazer aqui esta noite. meu Deus? — gritou chorando. mas a máquina humana é muito especial. mas quero avisá-la. mas acho que não. o l indo cabelo de que só restavam alguns tufos na pobre cabeça tosquiada. como aconteceu agora. — E não quero pa-recer por demais pessimi sta. antes que ela perca de novo a consciência? — Desculpe. É o esforço inconsciente de recordar essas pequenas coisas que caus a a tensão e.. em s eu escritório. posso falar com ela agora. talvez. com hesitação. — Doutor. Tem sofrido acessos repetidos de uma f ebre altíssima. — Por que você teve de fazer isso. — Acha então que ela vai delirar de novo? — A febre já começou a subir. Mas as lágrimas teimavam em impedi-la de trabalhar. Em sua memória tudo é presente. Ela está dormindo. — E então. ela volte a ter uma aparência de lucidez. Serviu o uísque. Ilene viu que a enfermeira já estava preparando Rina e disse: — Claro que voltarei. com o corpo envolto em cintilante seda branca. — Você voltará. 15 . que destrói tudo o que atinge. Havia sido usada no casamento de Rina com Nevada Smith. A doente só está se mantendo tão bem assim em vista de sua excepcional resistência fí-sica. a dor de cabeça. A seda branca era para um vestido d e noiva. — Eu. — É a primeira vez em qu se uma semana que ela parece parcialmente normal. — Está bem. Não se impressione com sua aparência. — E isso não é um bom sinal? — perguntou Ilene. voltou par a a mesa e começou a examinar os desenhos. eu gostaria de vê-la apenas um momento — disse Ilene. Ace ndeu o cigarro de Ilene e o seu. Não fora muito tempo antes. E por isso que ela tem dificuldade em lembrar coisas simples e corriqueiras.. não é? — perguntou Rina. ne m o dia de hoje. furiosa. quando a febre diminui. Ilene levantou-se rapidamente.

ficou paralisado de horror. Ainda por lá. às sete horas. se algum direto r queria que alguma coisa chegasse ao conhecimento de Norman. Dessa maneira. o nome de Bernie Norman tinha sido de muita valia para ele. mas acabou transformado num espetáculo de circo. por qu e teriam transformado um garoto de dezoito anos em gerente do Bijou? A pequena estava falando. quando todas as possibilidades começaram a se desenhar diante d ele. e ganhasse só trinta e cinco dólares por semana. nunca ter ei outra oportunidade para ser descoberta. Não que o parentesco lhe adiantasse muito. Tinha vinte e três anos e coisas mais interessantes em que pensar. de repente. que era pelo menos duas vezes maior que a de qualquer outra pessoa no estúdio. mas não dava importância demasiada ao fato. fossem quais fossem as circunstâncias. David era sobrinho de Bernie Norman. — O que você esta dizendo? — Quero ir ao casamento de Nevada Smith. com uma porção de papéis espalhados pelo chão à sua volta. pouco acima do funcionário de menor salário no departamento. David não gostava disso. No começo. dera ordem a suas três secretárias para não deixarem David entrar em seu gabine te. Embora ninguém comentas se o fato. Embora fosse apenas um publicitário júnior. Percorria os escritórios vazios. todo mundo no estúdio sabia o que ele fazia desde o momento em que entr ava pela porta do edifício da administração. Do contrário. Bernie sentiu a rai va fervendo em seu sangue. como poderia dirigir uma organização tão complexa qua nto aquela? Naquela manhã. de certo modo. ele havia. mas haverá no casamento uma porção de gente importante. Estava apenas co ntrolando as coisas. geralmente desertos. na maior promoção de publicidade que já se vira em Hollywood. Na verdade. Mas as mulheres não sabiam disso. embora achasse que ela escolhera mal a ocasião para falar. Todas as manhãs. pens ando que ele havia chegado ao clí-max. Dirigiu-se à sua mesa e. abrindo as gaveta s destrancadas e lendo todas as cartas e memorandos. — Epa! — exclamou ele. — Calma. antes da chegada de suas três secretárias. Do contrário. chegou a seu gabinete às oito horas. David tinha muito prestígio com as mulheres do estúdio. Suspirou profundamente e abriu a porta. e nos caso s passageiros com as garotas que se sentavam sozinhas nos camarotes do segundo a ndar. — Eu sei. Como po diam elas saber que Norman não queria nem ver o filho de sua irmã. pois sua inspeção tomara um pouco ma is de tempo que de costume. Você assim acordará os vizinhos — disse a pequena. Bernie Norman tinha orgulho em dizer que ele era o primeiro diretor a chegar ao estúdio todos os dias. David não ouviu bem o que ela disse. querido. deixava em cima da mesa inocente-men¬te uma minuta de memorando. chegava cedo porque era um bisbilhoteiro nato. Foi um pouco depois que lhe ocorreu a idéia. — Vai ser uma cerimônia íntima — murmurou David. David estava dorm indo no sofá. com voz suave. enquanto o filme corria na tela. certo de que não seria mais preciso m andá-lo. Na verdade. Ou talvez muito bem. sua comprida limusine preta ent rava pelo portão do estúdio e parava em frente ao pré-dio de seu escritório. porque isso lhe dava oportunidade de passar os olh os por sua correspondência. Se eu não for. e só lhe dera o emp rego para se ver livre das insistências dela? Para impedir que o sobrinho o aborre cesse. Problemas. nas assustadas pequenas italianas e na irlandesa sem-vergonha. olhando os papéis que estavam em cima das mesas. lá embaixo. Gostava de dizer que sua porta estava sempre aberta. de diretor es e secretárias. Tudo isso porque David W oolf conseguira afinal ir para a cama com a extra ruiva que fizera uma ponta em O renegado. Que diferença entre as pequenas de Hollywood e as que conhecera em Nova Iorque! Pensava nos vaga-lumes do Bijou Th eater. Sempre dizi a que gostava de chegar cedo.Começou como um casamento tranqüilo. E. fic ava com o resto do dia livre para atender a quem o procu-rasse. . s empre problemas. Norman justificava aquela sua atitude com extrema simplicidade. Tudo podia ser explicado com uma palavra: nepo tismo.

Faça-a assinar contrato . sentindo pela primeira vez alguma possibilidade no rapaz. — Mas Rina não é. — Uma falta como essa de uma pessoa do meu sangue. meu tio. — E ainda tem coragem de me dizer para deixar disso! Sua mãe levou metade da noite m e amolando pelo telefone: ' 'Meu pequenino David ainda não voltou para casa. Todo mundo gual a todo mundo. que deveria me ajudar. — Ainda está aí? — perguntou. eu gosto de ser justo. senão será tratado como um ladrão! — Oh! — exclamou David. Nevada é um homem liquidado." Acidente! Eu podia ter dito a ela que o peq uenino David estava era na cama com uma extra ruiva do estúdio! Fora daqui! — Como foi que soube disso. porque o que vai ver s erá um milhão de dólares que está fugindo de sua mão. olhe bem para mim. Além disso. recostou-se na cadeira. — Pois bem. se chegasse a esse estúdio. Levou a mão ao c oração num gesto dramático. O tio olhou para ele. fala comigo. a pequena vai ser o maior nome da indústria. David. — E daí? — Pelo que vi no seu arquivo.Atravessou a sala e arrancou David do sofá. Se a número um acha q ue o caso é mesmo importante. Fora daqui! Se não sair do estúdio dentro de cinco minutos . Depois.. — Que diabo está fazendo aqui no meu escritório. trabal hei como um cão. — Talvez — disse David. c onseguiria falar com o senhor. — O contrato de produção de O renegado! Teve a audácia de abrir meu arquivo confidencial ? — Posso explicar tudo. poderia ter vindo conversar comigo. Está despedido! Uma coisa que não tolero neste estúdio são espiõe s! E logo o filho de minha irmã! Fora! — Deixe disso. mais certo do que nunca de que não adiantava procurar fazer alguma coisa por aquele velho horroroso. — Não tinha intenção de pegar no sono. ao fim de algum tempo. — Aberta? — exclamou David. esfregando os olhos. seu bastardo imprestável? David acordou em sobressalto. é até capaz de matar uma pessoa! Abriu a gaveta. Hoje mesmo vamos fazer uma estréia de surpresa num cinema do vale. Você bem sabe que minha porta vive aberta. — Que papéis? Pegou um dos papéis e deu um grito de horror. antes da estréia do filme. Depois dessa estréia. — Nem Cristo. — Papéis! — exclamou Norman. Quem quer falar comigo basta falar com minha secretária número três ... tio Bernie? — Como eu soube? Eu sei de tudo que se passa neste estúdio! Acha que construí essa indús tria passando noites na cama com vagabundas? Não! Para chegar onde cheguei. Mas comecei a ver uns papéis e adormeci. Tal vez tenha sofrido algum acidente. Não disse que tinha alguma coisa importante para falar? Pode falar que estou ouvindo. dirigindo-se para a porta. No mesmo instante! Faça isso e não entre mais aqui como um ladrão à noite . — Não quero saber de explicações. David fechou a porta. — Saia daqui. sarcasticamente. apanhe esses papéis todos do chão! Depois suma! — O senhor nem sabe o que vim fazer aqui — disse David. tio Bernie? — perguntou David. e no mesmo instante a pessoa está aqui no meu escritório. — Mas fi-que sab endo! Quando eu sair por aquela porta. — Está melhor. Viu o filme? — Claro que vi o filme. mandarei jogá-lo na rua. —Aconteceu uma coisa important e. que transmite o recado à número um. — Se é mesmo alguma coisa importante.. — Pensa que está contando alguma novidade ou que isso interessa a alguém? Nem me convi daram para o casa-mento. tio Bernie — disse calmamente David. Aquelas três fúrias não o deixariam passar! — Não meta religião nisso! Além do mais. tirou um vidro de comprimidos e engoliu rapidamente dois ou três. vamos! Primeiro. Dia e noite! Foi até a cadeira diante de sua escrivaninha e deixou-se cair nela. com os olhos fechados. Esta fala com a número dois. — No mês que vem. — Espere um pouco. Norman abriu lentamente os olhos. Nevada Smith e Rina Marlowe vão casar. como todo mundo faz. ela não tem contrato com ninguém. você bem sabe quais são meus princípios. com a voz de quem faz um supremo esforço para se controlar. Afinal.

— De hoje em diante. acompanhando a tomada em plano g eral de uma igreja cercada por um grande número de pessoas. — Por que não? — É o tipo de homem que não quero perto de mim. se tivesse um! — Há mais uma coisa. o mundialmente famoso Nevada Smith. a luz imediatamente se apagou e a sala ficou cheia de música. Isso representa a metade das despesas da nossa rede de distribuição durante um ano. Já havia um franco interesse nos olhos do tio. — Não foi. — Ora. Norman levantou-se com lágrimas nos olhos. Rina Mar-lowe nunca seria a estrela que vai ser. Den tro em pouco. Não é o tipo de homem que gosta de tra balhar com sócios.. O renegado é uma prova. enquanto a polícia continha a multidão. — Nunca! Já temos malucos de sobra aqui e não precisamos de mais um! — Ele entende de cinema. chegando à igreja com Whitey. Hoje mesmo faremos a moça assinar o contrato. Mas acho boas suas outras idéias. Quando Jonas entrou na pequena sala de projeção em Lon dres. senti ndo a confiança au-mentar com a demonstração crescente do interesse do tio. — Mas temos porcentagem sobre a receita pela distribuição. acompanhou com emoção o casamento de conto de fadas de Nevada Smith e Rina Marlowe. A receita do filme aumentará mais cinco milhões. Nestas condições. vinte e cinco por cento de cinco milhões são um milhão e duzentos e cinqüenta mil dólares. David continuou: — Depois. — Ora. E o melhor será que poderemos descarregar todas as nossas despesas com o casamento na conta da publicidade e deduzir tudo da receita do filme. seu não menos famoso cavalo. diga aos dois que quer bancar as despesas do casamento. — O que ele entende de mulheres? — Os goyim já entendiam de mulheres antes de Adão sair com Eva do jardim do Éden — Não — disse Norman. Não! Com ele não quero re-lações. não gastarem os um tostão. Nevada subiu a escada da igreja. que nessa ocasião estava na Europa. mas acabará concordando. Faremos do ca-samento o maior acontecimento a que já se assistiu em Hol lywood. sentando novamente. Não poderia fazer mais por meu filho..hoje mesmo. Tem o m aior faro para mulheres que já vi em minha vida. — Acho que devemos assinar um contrato com Cord para ele fazer um filme por ano pa ra nós. Ele não se contentará em fazer filmes. astros do grande filme O renegado. Estive no set o tempo todo. a ser distri buído proximamente pela Norman Films. — É um goy — disse Norman. Depois. Não há no filme nada em que ele não tivesse metido o dedo. Depois. Afinal de contas. Cord pagará tudo da sua quota de lucros. o mundo inteiro. você trabalhará a meu lado! Será meu assistente. — Eu sabia! O bom sangue não nega! — exclamou ele. não partic iparemos dos lucros.. com desprezo. que aplaudi . não temos? — disse David. — O que é? — perguntou Norman. Se não fosse ele. onde havia conseguido que passassem o filme para ele. Então.. o dinheiro dele está no filme e ele não pode arriscar-se! David tratou de mandar uma cópia especial da filmagem do casamento para Cord. — E de que nos adianta isso? Não temos quota alguma do filme. falaremos sobre o casamento. — Eis o noivo. — Toda Hollywood. Via-se Nevada indo para a igreja espetacularmente vestido com a roupa resplandec ente de cowboy e montado num cavalo branco. foi apenas um golpe de sorte. dramati-camente. vai querer tomar conta de tudo. apareceram os letreiros: CINE JORNAL NORMAN O PRIMEIRO COM AS MELHORES FILMAGENS DOS FATOS DO DIA A voz dramática e grave do narrador se fez ouvir. Dessa forma. Vou mandar as secretárias prepararem o escritório aí ao lado para você. Como um presente do estúdio. Neva da não vai gostar.

estrela de O renegado. Norman se most rou entre eles. confortável e casualmente.a. assim seria. Houve então uma tomada de Rina jogando o buquê e uma confusão de belas jovens. jogando-se no grande sofá e tirando os sapatos. que paravam no meio dos seus grupos. Eu tinha mesmo alguns trabalhos para acabar. 16 Já passava de oito horas quando Ilene ouviu a porta do escritório da frente abrir. amiga íntima da noiva. — Fizemos horas extras no set ont em à noite. É grande o sufici ente para acomodar e alimentar mil convidados e é o maior do mundo no gênero. Sentia um frio na boca do estômago. e Jonas levantou sem sorrir. O vestido de noiva da srta. — Aqui. Virou-se para a porta no momento em que Rina entrou. Norman. fe-lizes. por isso mandei buscar café e sanduíches. tomando o braço de Norman. Rina segurava um grande buquê de rosas e orquí-deas. Por que não senta e descansa alguns minutos? Soube no escritório de produção que você che garia tarde. Depois abriu uma garrafa térmica e serviu uma xícara de café. — Muito obrigada — disse Rina. E agor a vamos dizer alô a alguns dos mais famosos convida-dos. Norman. e a câmera se mo veu para um rápido close. — E eis novamente a noiva e o noivo. que também desenhou os notáveis costumes usados p ela srta. As luzes se acenderam. Marlowe é feito com rendas de Alençon. evidentemente arrumados co m todas as minúcias por um assistente para sorrir e acenar. A câmera moveu-se para o close final. A bela srta. A noiva prepara-se para jogar seu buquê à multidão de garotas ansio sas. nos jardins do palacete de Nevada Smith. Mas o que nem Jonas nem qualquer outra pessoa que assistiu ao filme puderam ver foi a mão esquerda de Bernie Norman escondida atrás das costas de Rina. Norman. L argou a paleta e limpou no casacão cinzento que vestia as manchas de tinta que tin ha na mão. Os três estavam rindo. Rina levou à boca o café fumegante. As flor es foram apanhadas por uma moça de cabelo ruivo e olhos amendoados. A câmera então mostrou a parte externa da casa de Nevada em Beverly Hills. está o pavilhão construído pelos funcio nários do estúdio de Bernard B. ao lado de Bernard B. __ Desculpe tê-la feito esperar. Você parece cansada. dirigiu-se para a igre ja. apalpando os arredondados contorn os das nádegas de Rina. Anne Barry. — E eis a noiva. sorrindo para a multidão. — Não faz mal. Depois. O renegado. felizes. Rina. Depois. Abriu a geladeira e tiro u uma bandeja de sanduíches. a bela Rina Marlowe. conhecido produtor de Hollywood que será seu padrinho. que colocou sobre a mesinha. uma limusine preta apareceu e parou em frente à igreja. Norman e Nevada sorriam na tela. desenhado especialmente para ela pe la famosa couturière Ilene Gaillard. . com um en orme pavilhão em torno do qual se viam milhares de pessoas. Norman em homenagem ao famoso casal. Barr y tem importante papel em O renegado e acaba de ser contratada pela Norman Films por sua excelente atuação nesse filme. Ilene sorriu. A câmera se deslocou pelos jardins à medida que o narrador apresentava astros e jorn alistas famosos. um braço paternalmente nos ombros de Nevada e o outro fo ra de vista. focalizaram a entrada da casa onde Nevada e Rina apareciam. Se era assim que Rina queria. o famoso produtor Bernard B. por trás da noiva. Marlowe no filme de Bernard B. enquanto a câmera aproximava a imagem num lindo close do rosto de Rina. Rina. A mão de Norman estava. — Estou c ansada mesmo. Bernie Norman d esembarcou e voltou-se para ajudar Rina a descer. Ela ficou um instante parada. Ilene — disse Rina. Um instante depois. Saiu. — O buquê foi apanhado pela srta. Depois. ao lado do amigo. Ilene empurrou uma mesinha de rodas para junto de Rina. Norma n estava entre os noivos. quando a cena termi nou.

— Estou tão cansada que nem tenho fome. entre duas mordidas. desde que terminou O renegado. O filme apresenta também Nevad a Smith. vamos experimentar outro. menos de um ano após sua estréia. — Você tem de me ajudar. Rina. Contanto que Bernie não roube a todos. Rina desceu do pedestal e voltou as costas para Ilene. — Já viu isso? Ilene olhou. Há algumas coisas que tenho de fazer. Mas alguma coisa chamou sua atenção. Depois tirou um cig arro da caixinha sobre a mesa e o acendeu. do estilo usado pelos acrobatas de circo. Mas há um limite para tudo! Rina não respondeu. soltando baforadas para o alto. Sabemos com absoluta certeza. Ilene. fiquei com fome — disse. Rina riu. Quando tentou meter-se no macacão apert ado. o título do filme é A moça do tr apézio. Segurou o costume enquanto Rina se despia. — De repente. Rina começou a desabotoar os colchetes nas costas. Acabei de me lembrar que tenho de fazer uma série de fotografias de meu desjejum p ara a revista Screen Stars às seis horas da manhã. não tem uma semana de folga. O renegado. que o filme que revelou Rina Marlowe. foi produzido e financiado por Jonas Cord. — Quer dizer que todo mundo vai recuperar o dinheiro que empregou? — Acho que sim. exclamou: — Acho que não devia ter comido aqueles sanduíches! Ilene examinou o costume. — Eu também. depois do primeiro gole. — É melhor subir ali no pedestal. Não consigo sair de dentro desta coisa. cada qual de uma cor. Esta desabotoou prontamen te o colchete. Pegou um sanduíche e começou a comer avidamente. distribuído pela Norman. O título já dizia tudo: "O RENEGADO" E O MAIOR SUCESSO DE BILHETERIA Durante um ano cheio de queixas e lamentações de exibidores e produtores angustiados pelo poço sem fundo em que parecem estar caindo as receitas da indústria cinematográf ica. O pano do macacão se abriu e seus dedos roçaram as costas nuas de Rin . Três filme. — Não — replicou Rina. e na semana que vem vai começar m ais um. Ilene abriu o armário. mais conhecido pelo vôo record ista de Paris a Los Angeles que fez no ano passado. Ilene. — Muito bem. — foi Bernie que os encomendou assim. disse: — Estão cada vez menores. Um deles ficou preso. Leu a notícia e a mos trou a Ile-ne. Ilene tirou os olhos do jornal e disse: — Já havia lido. Afinal de contas.. um atrás do outro. — Vamos começar logo. Rina comeu tudo em alguns minutos. que as receitas de O renegado no país ultrapassaram nesta semana a marca dos cinco milhões de dólares. Agora. com base nessas cifras. Sentiu-se de repente aliviada de pesado fardo. Bebeu o resto e descansou a cabeça no encos to do sofá. Havia seis macacões de malha. Ilene pegou um deles e. e que ainda dev erá ser exibido em muitos cinemas dos Estados Unidos e do resto do mundo. levantando e apagando o cigarro no cinzeiro. renda pe lo menos dez milhões de dólares.— Está ótimo — disse. — Não há pressa — disse Ilene. Pegou um exemplar da Variety que estava em cima do sofá e começou displicentemente a folheá-la. Ilene tornou a servir café. Há um ano. colocando-o à frente do c orpo. — Tenho muito tempo. — Sinto-me melhor agora — disse ela. Marcou rapidamente as alterações com o giz. Espera-s e. — Podemos experimentar os ve stidos logo que eu acabar este cigarro.. Ao menos Nevada não tinha mais motivo de preocupação. — Acontece que gosto de trabalhar. d e fontes bem informadas. ao mesmo tempo que um pouco de cor voltava a aparecer em suas faces. jovem milionário do oeste. — E tem todos os motivos para estar. é animador encontrar ao menos um raio de sol. É um milagre que não tenha tido ainda um colapso.

Nevada abriu o portão e entrou. Ficaram as sim um instante. Aproximou-se dela e enterrou o rosto nos pêlos macios entre suas coxas. de seu corpo. estábulo por estábulo. May-nard havia tentado reagir. Recuou como se houvesse tocado num ferro que nte. Rina tornou a subir e se voltou para ela. O último era o de Whitey. o macacão desceu e Ilene percebeu Rina estremecer quando sua mão roçou acidentalmente o macio e sedoso púbis. O cavalo esticou a cabeça pela porta e olhou para Nevada com seus o-lhos grandes e inteligentes. Maynard. rapaz. Hollywood era um mundo realment e estranho. Eram caros demais. Rina encarou-a por um momento. — Por favor. — Olhe para mim. ao sair. N evada parou à frente dele e disse: — Bom dia. — Suba no pedestal — disse Ilene. O filme era malfei to e o som. — Não! — Rina tremia novamente. Rina virou lentamente a cabeça. Olhou para Ilene. Nevada a colocou no lombo d o cavalo e apertou bem. Não se entendia metade das coisas que os artistas diziam. sem dizer palavra. ainda pior. Recu ou um pouco e Rina aconchegou-se em seus braços. I-lene ficou atordoada com a onda de sangue que lhe subiu à cabeça. a grande sela. com coração a querer saltar-lhe do pe ito. Ilene segurou de repente a mão de Rina. Nada parecia real. Ilene sentiu lágrimas quentes abrirem caminho em seu rosto. Gibson. pôde ver as pontas cônicas do telhado. A nota que havia lido na Variety veio à sua mente. Ali estava ele com o filme de maior sucesso do ano e ninguém ainda o p rocurara para falar em outro filme. O vaqueiro trouxe. tirando o macacão e entregando-o a Ilene. Era coisa que não faria. Pelo menos ele não era o único nessas condições. Depois do café correram as cocheiras. com os olhos voltados para o lado. então. não! Ilene sentiu como se estivesse sonhando. Correu as mãos pelo lombo macio e brilhante do anima l. vestiu-se e desceu para as co cheiras. Tom Mix procurara outra solução. e. bem quente e forte. enquanto as mãos de Rina acariciavam o cabelo dela. Meteu o focinho na mão dele à procura do torrão de açúcar que sempre encont rava. — Acho que terá de me ajudar de novo. agora mais forte. paradas. Mecanicamente. Ajeitou o freio e as rédeas. Holt estavam todo s em situação semelhante. Ilene puxou o costume. Montou e se dirigiu à pequena pista de exercícios que mandara fazer ao pé da colina at rás da casa. relaxando as rédeas. Rina deixou o resto do costume cair até a cintura e lutou para descer o macacão pelo s quadris. rapaz — murmurou. Mais adiante. cujo maior trunfo era o fato de serem rodados em cinco di as. Viu os bicos dos seios de Rina projetarem-se co mo flores vermelhas num campo de neve. fechou a porta entre os dois quartos para que Rin a soubesse que ele havia saído. Afi-nal. Mix. O vaqueiro o aguardava com uma caneca de café simples. dando um passo para trás. pois temos tido muito pouco que fazer ultimamente. — Não é de admirar. freou o cavalo. Como sempre estava lá. Como sempre. — Por que foi casar com ele? Como sempre. Sentindo o contato firme e quente daquela carne. — Por quê? — perguntou impetuosamente. e o deixou ir devagar. Fizera uma série de filmes cu rtos para a Universal. A época dos grandes filmes do oeste estava ter minada. Convers aram as coisas de sempre enquanto Nevada engolia o café escaldante. Vou levá-lo para fazer um pouco de e-xercício.a. . — Está com frio? — perguntou Ilene. Estendendo a mão para pegar o costume. afastou os olhos. Nevada acordou às quatro e meia da manhã. e saiu da cocheira com o anim al. sentindo os ded os arderem sempre que tocavam em Rina. — Estamos engordando um pouco. Levara um show de vaqueiros para a Europa e estava. Levara muitos anos lutando para conseguir aquela posição. Já vencera muitas tentações e não deixaria que uma coisa daquela lhe criasse dificu ldades. Os olhos se encontraram e Ilene percebeu o tremor. Nevada havia assistido a um deles. com o rosto impassível como uma máscara. — Não — murmurou.

da Metro. Mas. naquela ocasião. — Agora só mais uma foto servindo o café para Nevada e pronto — disse o fotógrafo. era fazê-lo manter-se na sela sem cair. um dando comida ao outro na boca. As despesas. Nevada. e só o fazia por interesse publicitário. O lógico seria livrar-se dela. Já ia levantar. Em seguida. Um silêncio desagradável se instalou no ambiente depois que os fotógrafos se retiraram . — Creio que está espe rando alguns fotógrafos da revista Screen Stars. Dir ia tudo a Rina quando ela chegasse do estúdio naquela noite. a renda seria bem melhor. O único problema. Trabalhava. e ele ainda se dava por muito feliz que cobrisse as despesas. — Sr. andavam. Tenho de estar pronta para a maquilagem às sete e meia. em seis mil por mês. A casa comia dinheiro como uma matilha de lobos de vorando um veado desgarrado. mas ele não aceitara. Não adiantava ficar esperando que alguém o procurasse para novos film es. Não poderia fazê-lo sem prejuízo. Os sorrisos a utomáticos e profissionais se mostraram no rosto de ambos. Ou isso. Thalberg. Afinal ela não tinha cu lpa. Fora o maior erro que cometera na vida. ou teria de aprender a tocar violão. Nevada sentiu uma ponta de ressentimento. Para que ela funcionasse normalmente. Era a pri-meira vez em m uitos meses que Rina o convidava para tomarem o café da manhã juntos. — Posso dizer à sra. Sentiu um leve desgosto ass im que pensou isso. Era estranha a rapidez com que os criados percebiam quem era a p essoa mais importante da família. só com a manutenção da casa. pois o interesse dos garotos se voltava para os cowboys. Levou o cavalo até lá. Tex R itter estava ainda muito bem na Columbia. dia e noite.segundo diziam os jornais. tudo o que os leitores de revistas esperam ver de astros do cinema. Nevada olhou para a casa. Nevada hesitou. Assim. havia permanente ne-c essidade de vinte empregados. Só lhe restavam sua parte no show e o rancho onde as divorciadas se hospedavam no Estado de Neva da. Smith? Era a voz do mordomo. — Diga-lhe que irei logo que levar o cavalo para a cocheira. James. De tudo isso lhe sobravam no máximo dois mil dólares por mês. — Alô? Rina o olhou de maneira estranha e tornou a falar ao telefone. Era esse o novo western: um cowboy cantor e um violão. com su-avidade na . O que é? — A sra. Haviam feito toda uma série. Achava que era o homem quem deveria pa-gar contas. quando o telefone perto dela tocou. — Alô. Dera grande resultado para o tal Gene Autry. — Felizmente acabou — disse. As porcenta gens que recebia com a renda dos brinquedos e das roupas de Nevada Smith tinham diminuído. O telefone do poste junto à cerca começou a tocar. Se ele participasse do espetáculo. — Sim. mesmo co m os empréstimos de O renegado pagos. Mas logo controlou esse sentimento. Tomou a decisão. já lhe oferecera cento e cinqüenta m il por ela. James lhe falava agora com a mesma distante ceri mônia com que outrora se dirigia a Rina. Então era isso. uma ratoeira d e um quarto de milhão. Rina havia se oferecido para entrar com parte das despesas. — Felizmente — repetiu Rina. Smith que estará presente? — perguntou o mordomo. Smith gostaria que fosse tomar o desjejum com ela no solário. também. a torrada queimada. Sairia em excursão com o show e venderia a casa. fazendo um sucesso louco por lá com seu cavalo Tony. A fazenda de gado que tinha no Texas havia começado a dar algum lu-cro no começo da crise. segundo ouvira de um dos vaqueiros. havia meses. Rina preparando os ovos com ba¬con enquanto ele observa va por cima do ombro dela. E ra uma coisa para se pensar Seu próprio show con-tinuava em ação e ainda rendia algum dinheiro. Teriam assi m a impressão de uma grande felicidade conjugal. por fim. Nevada pegou a xícara e Rina levantou o bule de prata para servi-lo. Começou a se sentir melhor. não teria pelo menos de pagar comissão a um corretor. olhou para o relógio de parede e exclamou: — E melhor eu ir andando. não lhe seria possível manter a casa sem golpear a fundo seu capital.

pelo menos. Louella! Isso é pergunta que se faça a um casal feliz? — Fico muito contente em ouvir isso. — Bernie tentou falar com você ontem o dia inteiro. Nevada. — Por quê? — Já combinei fazer uma temporada com meu show. você também já deveria ter me contado sobre o filme . — O que há? — perguntou Nevada. É claro! Nevada é o homem. Não queria que fosse as-sim. Várias pessoas estão interessadas. Bem lhe disse que eu estragava a vida de todo mundo e que não seria boa para você. — Estou falando de nós dois. — Bom dia. — Parabéns. que idéia! Não me tirou da cama.. — Como? Vai vender Hilltop? — Vou. se você conseguisse sair dessas malditas cocheiras. — A MGM não quis ceder Clark Gable? — Deixe de conversa! Pegue o telefone.. A moça do trapézio.. — Há muit meses que não nos falamos. Um minuto.. vendo que estava para descobrir mais um furo de no tícia. — Não sei. Nós nos esforçamos. — Conversa! Fiquei o tempo todo em casa e ele não telefonou uma só vez.. Acho que numa menor viveremos com mais conforto. pudesse perceber o que vai pelo mundo. está bem? — Não adianta mesmo. — Não? — perguntou Louella Parsons. Além disso. comunique-me se houver alguma novidade. Teria de acontecer de qualquer maneira.. mas nun ca se sabe como as coisas podem acontecer. — Felicidade para vocês dois. Louella! Não. — Desculpe. é verdade. Nevada! Acho ótimo você representar de novo ao lado de sua bela esposa! — Espere um pouco.. Tinham casado porque já não havia nada e ntre eles e haviam procurado desesperadamente conservar o que já terminara. — A Irving Thalberg? Ouvi dizer que ele está interessado. apesar de suas resoluções. — Vai me avisar na hora em que decidir? — Claro! — Não há alguma divergência entre vocês dois? — Ora. Você deveria t r casado com alguém capaz de lhe dar uma família. — Talvez. Não vou fazer o filme.. Por que casou comigo? — Ou você comigo? E nesse momento ambos perceberam a verdade. Louella — disse ele. — Mais devagar. Bernie resolveu ontem incluir você no cast. Sim. secamente. Rina! E deixe de falar com esse jeito de estrela. Vou chamá-lo ao telefone e ele lhe dirá tudo pessoalmente. antes de contar para o mundo inteiro! — disse Rina . Rina. Vocês dois são pessoas tão mara-vilhosas. Louella. O papel é ótimo. Nevada e eu estávamos acab ando de tomar café. Louel-la quer confirm ação. branca de raiva. Em todo caso. — Sei perfeitamente o que está acontecendo. Na minha ausência Rina procurará outra casa para nós. — Também peço desculpas. Além disso.voz. Você não quis atender o telefone. lógico. — Não diga tolices. A cons ciência desse fato dissipou a cólera. Nevada desligou o telefone e olhou para Rina. A culpa não foi sua. Norman de i-diu não tomar Clark Gable emprestado à Metro.. Eu não lhe dei nada. — Fique descansada. — Não pense que a culpa foi toda sua. rindo. Louella. também zangado. mas nenhum de nós tem aquilo de . mas não foi possí-vel encontrá-lo. — Alô. E isso me deixará ocupado seis meses. nem de você. O cin ema está sofrendo uma grande transformação. nada.. Cobriu o fone com a mão e disse apressada a Nevada: — É Louella Parsons. Ouviu a voz doce tão sua conhecida. — Não tive oportunidade! — replicou ele. Não. — Você podia ter conversado comigo.. — Não é do cinema que estou falando — disse Rina. não ac eito esmolas nem dele.. Ele acha que só há um homem para o papel .

Passou a noite no apartamento de Ilene. diz ele. Posso telefonar para o irmão dele por um níquel. em voz baixa. olhando para o relógio. Erramos. três meses depois. — Agora fico com essa bomba artística nas mãos. úlceras. tudo acabou. tudo! Mais de do is milhões de dólares os anti-semitas nos roubaram. precisamos dela para o nosso próprio prestígio. Rina nunca mais voltou àquela casa. E não como um cão! Não como eu vivo! — O que houve? — tornou a perguntar David. entregou-o ao tio e perguntou: — O que houve? Norman tomou os dois comprimidos e olhou para David. Foi até a janela e a viu sair correndo e entrar no carro. E ncontrou o tio Bernie sentado em sua cadeira. Então. zan-gado e ofegante. E foi assim que. David encheu um copo de água. Corro para Nova Iorque a fim de dar explicações. Ela vai fazer Anna Christie. Falo a respeito com todos os diretores de Hollywood. os seguradores e os banquei ros se queixam de que os nossos filmes não têm repercussão. recebo da Europa a notícia de que Hitler confiscou todos os nossos bens na Alemanha. Calmam ente. escritórios. — Como se eu já não tivesse de sobra com que me afligir. salvo quanto às formalidades legais. Um perfeito idiota. — Aquele camelô pensa que não sei o que ele esta fazendo? Está é tele-fonando para o irmão H arry em Nova Iorque. À noite. agora os a-cionistas acham qu e estamos perdendo dinheiro demais. Chegando à porta. Desisto dele e telefono para Jack Warner. e ele telefonando para Harry. Não sou tão tolo assim a ponto de não ver logo que eles também nada enten dem da coisa. seu tio Louie? David sabia que nada devia dizer e ficou esperando. Consigo fazer um acordo para que ao menos não se fechem os cinemas. ten tando tirar alguns comprimidos do vidro que tinha nas mãos. Claude Dunbar.que o outro precisa. — Finalmente. O máximo que ela está recebendo . Compro os direitos do maio r sucesso artístico da Broadway. 17 David ouviu a porta do gabinete do tio bater violentamente. contrato o diretor que levou a peça ao palco. — Posso esperar — replicou ele. calmamente. cinemas. Em vista disso. parou e olhou para ele: — Ainda é meu amigo? — Serei sempre seu amigo. Norman continuou: — Cinqüenta a cem ternos por dia. re-quereu o divórcio em Reno. Pod e ser Bette Davis? Espere um minuto. Ele ri na minha cara. Tudo calmo e tranqüilo. Louie vai para casa. O sindicato ameaça fazer uma greve nos cinemas. E aqui estou eu com uma li-gação interurbana em Nova Iorque. noventa e cinco dólares depois. digo eu. que está pertinho de mim. irritações. É uma coisa tão artística que nem eu entendo o que quer dizer. Posso tê-la por cento e cinqüenta mil dólares . Come e dorme. Seu dinheiro não chega para isso . Telefono então para Louie e peç ue me empreste Greta Garbo. Além do mais. E só. por incompatibilidade. que tomou o caminho do e stúdio. vermelho. E eu fico no telefone dez minutos. Nada de preocupações. No dia seguinte se mudou para um hotel e. Manchas solares é o nome da peça. não me faça favores. Diz que estou com sorte. E assim que se deve viver. — Meu Deus! Estou atrasada! — exclamou Rina. Jack volta ao telefone. — Não me incomodarei se você quiser requerer antes. Só que está ganhando cinqüenta mil dólares. Depois. Levantou e foi até lá. Por cento e cinqüenta mil. Ela ficou ainda um momento parada e Nevada pôde ver as lágrimas que enchiam seus olh os. Ela está desocupada até setembro. diz ele. de Eugene O'Neill. — Só poderei requerer o divórcio depois de terminar meu próximo filme — disse Rina. Tenho vontade de dizer-lhe q ue largue o telefone. — Vou ter de correr . — Por que não me meti no negócio de roupas feitas com meu irmão. — Cento e cinqüenta mil dólares já gastos e nada de produção.

— Volto então à Wall Street e digo aos banqueiros que agora. na situação em que estamos . — Que amigo? — Você sabe. sim. você está positivamen te linda hoje. — O que vai fazer? — perguntou David.por filme é trinta. Eu digo cinqüenta mil. de Hollywood. diz ele. Além disso. Qualquer outra pessoa seria posta para fora do Waldorf. diz ele. Tenho uma idéia melhor. Os costumes são de fechar o comércio! E sabe o que f oi que ela me disse? — O quê? — perguntou David. se eu não tiver esse papel. querida? Isto não é para uma artista como você. ela pa recera ter perdido todo o controle. havi-am fechado os olhos. — Conversou com ele? — Claro que sim. Ele me olha como se não me conhecesse. Chego p erto dele e digo: Alô. Não. pensei c omigo mesmo. Logo que se separara de Nevada. Você irá asa dela hoje à tarde e falará com ela. perder emos duas vezes mais do que estamos per-dendo. Todo mundo sabia que as festas que dava em s ua casa nova em Beverly Hills eram verdadeiras orgias. levantando para voltar ao seu gabinete. espetacular. Negócio fechado. Digo: Por que está tão nervosa . Sabe quem foi que encontrei no Waldorf na última noite que passei em Nova Iorque? Seu amigo. — Espere um pouco. Ficam todos muito satisfeitos. Li nos jornais que ele vai fazer outro filme. Es-tava com a barba . O que ela fazia particularme nte só interessava a ela. O filme vai ser tão artístico que duvido até que se con-siga fazer uma só pessoa entrar n o cinema. Jonas. Mas perguntou: — Como vai ele? — O mesmo. — O que eu posso fazer. Parece um vagabundo. Falava-se dela até com Ilen e Gaillard. Desligo o telefone. Fechado. Por menos de cento e vinte e cinco. Quem sabe. David ficou satisfeito de que o tio ainda se lembrasse de uma conversa que tinha m tido sobre Cord alguns anos antes. nad a feito. David? Vou dar o papel a ela. Pegou um charuto. Bernie perdeu o fôlego de repente e bebeu o resto da água do copo. Paguei cento e trinta e cinco dólares por um telefonema em que só falei dois minutos . — Está bem — disse David. Scheherazade. Ele e Cord nunca haviam trocado uma só palavr a. então setenta e cinco. Não se lembra de mim?. O que acha disso? E eu só estava procur ando acalmá-la. Está bem. a de-senhista de costumes. Mas. sim. digo eu. Bernie Norman. O aviador. Ela me agradece ao menos com um alô? Não! Mete-me um número do Repórter d iante da cara e pergunta: Isto é verdade? — Pego o jornal e vejo a notícia de Bette Davis no filme. como nada disso tinha sido divulgado nos jornais ou revistas. com uma voz cheia de profunda tristeza. talvez nem isso. ouvir Rina dizer isso para mim! — murmur ou Bernie. — Tire a mão de meus peitos e fiq ue sabendo que. o maluco. acendeu-o e disse: — Vou telefonar para ela hoje à tarde e dar a notícia. Se ela nos abandonar. mas ele não. uma bomba dessa! Tenho um papel para você. — Quanto você quer pagar? pergunta ele. — Não acha que isso é atrapalhação demais para qualquer pessoa? David assentiu com a cabeça. Não sei como ele se arranja dessa maneira. Duvidava até de que Cord tivesse conhecimento de sua existência. Nem pense nisso. ele pode ser útil. batendo a porta. — Eram duas horas da madrugada e ele estava de braço dado com duas pequenas. ele pode ter outro golpe de sorte. Paga-ríamos um bocado de contas com o dinheiro dele. diz ele. digo eu. Não quero que ela pense que eu estou me curvan do à sua vontade. a trinta e cinco mil. vamos ter prestígio. digo eu. quem é que eu ncontro à minha espera senão Rina Marlowe? Rina. desde que não os prejudicasse. — Depois de tudo o que tenho feito por ela. digo eu. — Mas pela cara dele não posso saber se ele lembra de mim ou não. você pode meter Scheherazade dentro dess e traseiro gordo! E saiu. diz el e. Isso mostra que para os goyim não há nada como o dinheiro. Ela trepa com quase todo mundo em Hollywood e tem coragem de me fa lar desse jeito! David também tinha ouvido falar muito dela. — Você concorda então que minhas atrapalhações já passavam da conta? Pois bem. dão-me parabéns e volto para Hollywood. Jonas Cord. Ah. Sem gravata e de sapatos de tênis. meu bem.

por favor. digo eu. diz ele. — Sorri como se nada tivesse sentido e disse: No nosso negócio é preciso andar depress a senão se fica para trás. Fokker. O mordomo abriu a porta e David apertou um pouco os olhos. Bem pensado. — O que está fazendo agora?. com todas as despesas deduzidas da receita bruta antes de calcular a s porcentagens de distribuição. Quero falar sobre esse novo film e que soube que está fazendo. — Diga-lhe que entre — gritou Rina lá de dentro. Ele dá um riso irônico enquanto abr e a porta. digo eu. Numa das extremidades havia um biombo alto. — O sr. Eu. e nada. O mesmo s e aplica no estúdio. — A srta. — Não posso fazer isso. senhor — disse o mordomo. — Ora. ofuscado pelo brilhan te sol da Califórnia. contrato-a para a Cord Explosiv es. Isso é impossível!. Mas não vou discutir com você. para minha surpresa. Quero um pouco do caldo. como dizem vocês. David o seguiu escada acima e até os fundos da casa. digo eu. Depois. O mordomo parou à frente de uma porta e bateu. Não serve. Dentro tudo está branco e vazio. Há uma mesa e uma cadeira para o servente. É um homem difícil. diz ele. Não vou dizer o nome delas. Quais as condições que está procurando? El e olha para mim e diz: Despesas gerais de estúdio. Viu o bar num canto. senão você as contratará. CAVALHEIROS. — Acha que não sei disso? Mas será que ele é tão pobre que eu tenha de dar a ele o pão de mi nha própria boca? — Tenha a bondade de me seguir. já que está aqui? Fiquei tão surpreso que me dir igi para um dos mictórios. Simples. — As contas dele estão certas. — Não serve. diz ele. Olho para ele cheio de surpresa e per-gunto: Tem um escritório aqui no Wald orf? Tenho escritório em todos os hotéis dos Estados Unidos. me pega pelo braço e diz: Vamos para o meu esc ritório. nada de sorrisos. Do jeito que está o cinema. um filme de guerra. É sobre os aviadores na Guerra Mundial. sei de su a sorte e sou capaz de tentar mais uma vez. diz ele. Fizemos um bom serviço no seu primeiro filme e acho qu e devemos conversar. Tomamos um ele vador e ele diz: Me-zanino. no mínimo. sim. suas despesas gerais foram em média nest es últimos anos de vinte e um por cento. Mas já tive uma experiência com você. Quero apenas fazer umas contas bem simples. Espere mais um pouco e verá. ning uém quer mais saber de filmes de guerra. Ele senta na cadeira e eu noto. Meu escritório. Ninguém sabia dele e até o escritório del e não sabia de sua presença em Nova Iorque. Minhas despesas gerais são de vinte e cinco por cento. senhora. distribuição. Faz uma pausa com um sorriso e diz: Por que não aproveita para urinar. Durante esse período. Não demoro. Depois de Nada de novo no front. É o volume que regula as porcentagens e sou eu que entro com o volume. Procurei-o no dia seguinte antes de tomar o trem. Quando acabei. Depende de onde puder encon trar as melhores condições. Nieuport. Não se aplicam a mim. Comprei uns cinqüenta aviões ve-lhos: Spad. q ue está muito sério. quinze por cento. quando gosto de uma pequena. mas não posso dizer nada enquanto não souber so bre o que é o filme. digo eu. diz ele. Deduza isso de sua receita br uta e verá que as despesas gerais foram a quase trinta e seis por cento. nada. portanto. — Bem lhe disse que ele aprenderia depressa — disse David ao tio. digo. diz ele. De acordo com seu relatório anual. O renegado contribuiu com vinte e cinco por cento de sua receita bruta. diz ele.por fazer! Estas duas moças são artistas. levantando. Olho para a placa. Olho para ele. você não pode deixar de fazer isso. deu-me tal pancada de brincadeira no ombro que fiquei duas horas sem poder levantar o braço. Havia cadeiras cobertas de lona espalhadas por toda parte e . Aprovarão. Agora. O teto e as paredes eram inteiramente de vidro. Os diretores da companhia nunca a-provarão. dez por cento. — Ainda não decidi onde vou distribuir o filme. vi que ele não estava mais lá. Marlowe está no solári o. Saímos pelo corredor e chegamos a uma porta . as porcentagens comuns. fique sabendo. A voz de Rina fez-se ouvir de lá: — Sirva-se de um drinque aí no bar. De Havilland. Woolf está aqui. Mas isso são águas passadas. Ele se volta para as meninas e diz: Fiquem esperando aqui. pergunta ele. Não me arrisco mais a perdê-las como quando você contratou a tal Marlowe. Dizendo isso.

— Quem não quer? — perguntou ele. David! — Viva! Ela bebeu metade do martini de um gole e levou David para um grupo de cadeiras. David. — Posso apontar-lhe pelo menos sessenta milhões d . — Ótimo — disse ela. — O velho patife resolveu me dar o papel no filme? David respondeu prontamente: — Você tem de compreender a posição de meu tio. Não pode. — Está vendo? — disse Rina. Pouco depois. — Faça outro martini para mim — disse Rina. — Acho que ele quer é trepar comigo — disse ela. censurá-lo se ele hesita em incluí-la num filme que quase c ertamen-te será um abacaxi. Você é o elemento mais valioso da comp anhia. rindo. — Rina — disse Ilene. Ilene Gaillard saiu de trás do biombo. — O que você quer? — Uísque. Ela precisaria de um pouco mais que ma ssagens para não engordar se continuasse a beber daquele jeito. Também tenho toda confiança nela. Rina estava saindo de trás do biombo. — Bela casa a sua. Ilene olhou para David. — Meu martini está pronto? — perguntou Rina atrás dele. Ilene? — Escute — disse Ilene. ao mesmo tempo que se sentava também. — Olá. Por que não espera para beber depois da conversa? — Deixe de ser mandona e faça o drinque! Sabe. Ilene. Procur a protegê-la. Ilene tem um senso de col orido admirável. com uma nota de satisfação na voz. — Vou falar com o tio Bernie. Entregou o copo a Ilene. David viu-lhe de relance os seios fartos. água e um pouquinho de gelo. Vi slumbrou uma parte da coxa enquanto ela se movia e calculou que ela estava compl etamente nua dentro do roupão. — David veio evidentemente tratar de negócios. É só. — Olá. — O que acontece é que ele acha que não sou capaz de representar bem e que eu só presto para aparecer tão nua quanto possível. Rina. David. — É agradável. de trás do biombo. Rina. de repente. Além disso. meu pai me dava martinis quand o eu ainda era uma garotinha. belicosamente.um grande tapete branco que cobria quase todo o chão. David virou-se. Você devia "falar com seu tio para deixá-la fazer uma experiência no de partamento de arte. — Sente-se — sugeriu ela. — Pronto — disse Ilene. amarrando um roupão branco. David. — O mal de Ilene é que é modesta demais. Ilene e eu nos divertimos muito mobiliando-a. Ilene parece não compreender isso. — Eu mesma me protejo. Onde está meu drinque. tomando mais um gole. — Diga a seu tio que não usarei sutiã na próxima v z que for ao gabinete dele. Rina. — Ele a considera uma excelente atriz. Mas o que quero saber é se o papel é meu ou não? — É seu. — Mais um pouco. — Ótimo! — respondeu ele. depois de provar. — Está bem — disse ela. muito ativa atrás do bar. Rina bebeu e brindou: — Viva. Largou o cop o de uísque e levantou. Estava com uma camisa branca de mangas arre gaçadas e com slacks de corte masculino bem apertados nos estreitos quadris. portanto. — Como é? — disse Rina. — Obrigado. rindo. O cab elo mechado estava cuidadosamente escovado para trás. estendeu o copo para ele : — Veja se está bom. Deixe que eu o sirvo. — Nada disso! — Rina exclamou. você é uma estrela nata. Martini para mim é como se fosse água. com voz meio ressentida. — Estou certa de que David não veio até aqui para falar a meu respeito. — Olá. — Tenho certeza de que ele ficará muito contente — replicou David. É uma das pessoas mais t lentosas que já conheci. Tenho certeza de que ela se sairia muito bem.

sr. o almoço já es d d 18 Até conhecer Rina Marlowe. Claude Dunbar entrou num cinema para ve r o mais recente filme da atriz. enquanto as três secretárias o olhavam espantadas. Dunbar ficou tão surpreso quando Nor-man telefonou dizendo que havia compra do os direitos da peça e convi-dando-o para dirigir o filme. peça em tudo medíocre. dirigiu-se à moça sentada à mesa mais próx ima da porta. Depois disso. — Vá ver se onto. se abriu. Você nunca me passou uma cantada. David viu de relance os olhos de Ilene quando ela passou correndo por ele e se irigiu para a porta. gaguejando um pouco. O produtor olhou fixamente e disse em tom confidencial: — A Warner me passou a perna. sem desviar os olhos dele. que o levou ao ponto culminant e de sua carreira. . Vou providenciar para que um carro o le ve até lá. Dunbar. — Mas pensei que seria Bette Davis.. Tomara que um dia eu tenha coragem suficiente. Dê uma oportunidade à moça. Mas Norman já o tomara pelo braço levando-o até a porta. voltaremos a conversar. Mas será que ela sabe representar? — Não há melhor atriz em Hollywood. se ainda achar que não serve para o papel. — Seja justo. — Que tal a atriz que fez o papel no palco? — É uma desconhecida. Era indiscutível que se tratava de uma mulher belíssima. — Sr. Você não está entre eles. Rina nunca fez um filme que não rendesse muito dinhe iro. que mostrando o corpo nu. Era uma peça com apenas três personagens: dois garimpeiros que vivi-am isolados à marg em de um grande deserto. David a encarou. Você é diretor. sr. Mas não era o tipo exigido pe lo enredo da peça. pegando eficientemente o telefone.. A peça se desenvolve com um conflito entre os dois homens. como sempre acontec ia quando se sentia confuso. Mesmo que vivesse cem anos. Ilene — disse Rina. — Vá lá para baixo. e uma jovem amnésica que um dia apareceu no acampamento d os dois. para dissimular sua confusão. Ficou tão surpreso que nem pôde falar. apesar de a peça já estar há um ano em cartaz na Bro adway. Norman. sr. O produtor havia se livrado dele com tanta eficiência que ele só percebeu quando se viu diante da porta fechada. Naquela tarde. O seu Hamlet em trajes modernos fora a mais aplaud ida produção shakespeariana já apre-sentada num teatro de Nova Iorque. — Posso fazer melhor que isso. nunca se esqueceria do abismo e dor e angústia que viu naqueles olhos. Ficou vermelho e. Dunbar. trabalhe com ela um pouco. Norman? — perguntou Dunbar. Claude Dunbar só amava três coisas na vi-da: sua mãe. antes de ir à casa de Rina. a si me smo e ao teatro. Então logo pensei em Rina. Mas só depois de chegar à Califórnia ficou sabendo quem ia desempenhar o papel princ ipal. O filme lhe provocou um sentimento misto de fas cinação e horror.e — — — — — homens que pensam nisso de vez em quando. Marlowe? E como se chega lá? A secretária sorriu. Essa sua peça é muito importante. mas acabava sucumbindo à lascívia da moça. Tinha até uma e spécie de encanto animal que agradava a certas platéias. Temos de protegê-la com toda bilhe teria que pudermos conseguir. Está com coragem agora? — perguntou ela. desamarrando o cinto do roupão. Quem disse? Eu mesma. — Não duvido. Assim. que aceitou sem hesit ação. — Pode me dizer onde mora a srta. nessa ordem. Mas foi a direção q ue imprimiu a Manchas solares. — Não há outra. — Rina Marlowe? — exclamou em conversa com Norman. O mais moço tent ava proteger a moça da lascívia do mais velho. Muitas falas e pouquíssima ação. Vá à casa dela ho-je à tarde com o script veja pessoalmente.

introvertida. vamos deixar de rodeios. — Leia para mim — pediu Claude. Saiu do cinema e foi para o hotel. E isso o que quero descobrir. Mas não sei até que ponto posso ir como atriz. Pôs as mãos no console. volte para casa. sou uma atriz. — Estava ansiosa por conhecê-lo. e não era possível desviar os olho s dela. Mas devia lembrar. Não está sentindo o esforço que representa para a moça tentar lembrar seu próprio nome. Enquanto tentava recuperar a memória. Na tela. — Mas eu já disse ao sr. — Rina Marlowe. Não usava nenhuma ma-quilagem. amedrontada. quem estivesse em cena ficava em plano secundário. — Diga ao sr. é isso mesmo. onde o carro iria pegá-lo. srta. mamãe. Afinal. e o senhor é o único diretor que pode me ajudar. tendo consci-ência de sua sexuali dade e insinuando-a para a platéia. não é mesmo? — Sim. Parece que minha memória está voltando agora! Acho que já sei! Meu nome é Mary. Ainda que seja um nome muito comum na igreja e que eu o tenha pronunciado até em minhas orações. srta. Ele a olhou um momento e perguntou: — Já leu o script? Ela confirmou com um gesto. Mas era inegável a vitalidade que dela emanava.A moça da peça era melancólica. aproximando-se dele sem sorrir. telefonou para a mãe. — Do contrário. de cos . ele lhe prometeu Bett e Davis e você não pode aceitar como substituta essa loura insignificante. Como era seu costume sempre que se sentia perturbado. Rina entrou na sala onde ele a esperava. — Também tenho ouvido falar muito na sua pessoa — disse ele. Levantou e foi até a lareira. completando o ritual de despedida. — Claro que sim — Rina sorriu pela primeira vez. Rina se mostrava excitante e audaciosa. Acho que meu nome é Mary". Ela era torturada e consumida pelo calor do deserto. E só no final a p eça revelava que a raiz de seu pavor era sua tendência à devassidão. — Você só tem uma coisa a fazer: arrumar as malas e voltar para casa — disse a mãe firmeme nte. Marlowe. sem abrir o sc ript: — Meu nome é Mary. — Lembra-se da primeira fala da moça quando chega ao acampamento? — Lembro. apesar disso. — Amo você também. — Srta. — Não! — É verdade. Mas nunca se esqueça de que o mais importante de tudo é sua integ ridade artística. Dunbar — disse. Franziu a testa e continuou: — Ponha-se no lugar da moça e fale mais ou menos assim: "Não consigo lembrar o meu nom e. é difícil para mim lembrá-lo. O cabelo platinado estava penteado para trás e amarrado co m uma fita na nuca. — Escute. Rina o encarou em silêncio. — Sim. Tenho sido chamada por esse no me a minha vida toda e. Despertava o desejo dos homens não por sua aparência física mas pelo simples fato de ser uma mulher. é isso mesmo . mamãe? — Quem? — perguntou ela. Eu amo você. Sim. Tome cuidado — disse ela. Tenho ouvido falar muito no senhor. Deve ser um nome conhecido. Norman me disse hoje que não puderam conseguir Bette Davis. sorrindo. Não havia nenhuma sutileza em sua maneira de rep resentar. passando-lhe o script. por quê? Sua posição no cinema já é tão boa. meu filho. — Está bem. Ele me assegurou que s e eu não ficasse satisfeito com ela arranjaria outra estrela. — Sabe quem querem incluir no filme. segurando sua mão. Surpreendeu-se com o vigor que os dedos de Rina transmitiam. Para todos os efeitos. Sim. Ela então disse.. Marlowe — respondeu ele. com a mão es-tendida. como estaria aqui logo em seu primeiro dia de Hollywood? Deve estar curioso para saber por que quero tr abalhar em Manchas solares. Marlowe. sua aparência deixava transparecer os sentimentos que a atormentavam. Norman que tem uma reputação a zelar. vestindo um manto preto que lhe cobria o corpo dos pés ao pescoço.. Quando aparecia na tela. Acho que meu nome é Mary. — Está apenas dizendo as palavras. — Sr. Se não estiver satisfeito. mas não está sentindo o que significam . com sua calma habitual. mamãe. O sr. Norman que falaria com Rina Marlowe.

Claude Dunbar sentiu um arrepio violento pelo corpo. Um milhão e meio jogados fora. Norman e spremeu os olhos ao chegar à área mais iluminada do estúdio. e Dunbar disse calmamente: — Ação! Norman sorriu para si mesmo. A mão de um ator estava em posição errada. T udo nela era absoluta insensatez. Ela tinha apenas de olhar para os dois homens. Todas as palavras perfeitas. "Por que o patife iria se preocupar com isso?". Sim-ples. pouco a pouco. Um instante se passou. é isso! Acho que meu nome é Mary. A grande câmara começou a se aproximar para um close. Ela murmurou com voz ro uca: — Meu nome é Mary. Pior ainda. A produção do filme passara três meses do prazo. e olho u para os dois homens. que depois se matara também ao compreender a que abismo a moça o levara. Seu rosto ficou subitamente sombrio e aparentando cansaço. Era de esperar que aquele bandido ao menos lhe rasgasse u m pouco o vestido. — Todos em seus lugares! Os dois atores se estenderam diante da cabana. Não havia nem som para complicar as c oisas. você tem de chorar. Afinal não era dele o dinheiro que estava em jogo. pensou Norman. — Câmara! O filme começou a ser rodado. e tudo estaria terminad o. fechando a porta. — Corta! — gritou Dunbar. Balançou a cabeça contrafeito enquanto abria a porta e caminhava para o estúdio. deveria te r mandado examinar a cabeça quando se deixara convencer a comprar aquela história. Nisso foram gast os cento e cinqüenta mil dólares só de salários. Dunbar voltou então para seu lugar ao lado da câmara. Nada de arranjos o u remendos. Depois. Outro instante. lembra-se? Ela se limitou a concordar com um gesto. Dirigiu-se para o set. Norman ficou irritado. A porta da cabana começou. — Chore! Vamos! Rina piscou os olhos. Mas não: o vestido a cobr ia até o pescoço como se fosse no meio do inverno. — Câmara! . O velho fora assassinado pelo ma is moço. a se abrir. O orçament o pouco interessava. O mais belo par de seios do cinem a. Pouco se importava com o número de tomadas que fossem necessárias. quando a m oça abre a porta de manhã e vê os dois homens mortos. Sim. Ele deveria ter tido juízo basta nte para não contratar aquele sujeito para dirigir o filme. deixando o cabelo cair até os ombros. aquilo se passava no deserto. Aquilo era fácil. Dunbar havia insistido em fazer tudo como fora feito no teatro. Dez minutos. Era a que se passava na frente da cabana. Rina tornou a entrar na cabana . e Dunbar os escondia daquele jeito. Felizmente era a última cena. Nada poderia sair errado. chorar um pouco e seguir pelo deserto afora. como se fossem ditas no palco. e fizeram algumas correções. conferindo-as com fotografias anteriores d a cena. Mais cinqüenta mil se foram nessa decisão. — Chore! — gritou Dunbar. Norman viu Dunbar dar o sinal. Puxou de repente a fita. — Nesta cena. O diretor-assistente e a script girl conferiram de novo as p osições e saíram do set. passando por cima de um dos homens prostrados para chegar até Rina. e vir ou-se para ele. Nada aconteceu. Isso porque o diretor e xigiu trinta dias para ensaiar Rina no papel. Rina apareceu. Um diretor-assistente e a script girl verificaram rapidamente as posições. Outra exigência dizia respeito ao som: tinha de ser som perfeito em todas as cenas. havia uma mancha no queixo do ou-tro. o início das filmagens havia sido adiado um mês. Norman só cedeu quando Rina disse qu e não começaria a trabalhar enquanto Claude não estivesse satisfeito. Para começar. Bernie Norman apareceu no set no último dia da filmagem. Afinal. Rina levantou lentamente a cab eça e olhou para a câmara.tas para ele. Era o que sempre sentia qua ndo encontrava no teatro alguma coisa realmente grandiosa.

se você ainda tem uma alma. — Suspendam as lágrimas! Dunbar olhou para Rina e disse: — Esta é a última cena do filme. — Faça aparecer as lágrimas! Norman concordou intimamente.. Ali. As lágrimas param e seus olhos ficam secos. — Então vamos ver! Ele voltou para seu lugar ao lado da câmara e se inclinou um pouco para a frente. — Nada de maquilagem! — repetiu seu assistente. Então saberá quem realmente é. Creio que é me-lhor usarmos maquilagem . Claude — suplicou ela.. seu irmão. você se volta e olha para o dese rto. len-tamente. Não vou destruir a unidade e in-tegridade deste filme justamente na última cena só por sua ineficiência. então. Dunbar calou-se enquanto Rina começava a caminhada. Rina estava chorand o. exausto. Talvez não os amasse. assim. As mãos de Norman desceram-lhe do rosto. — Nada de maquilagem! — gritou Dunbar.. Vê a arma na mão de Joseph e compreende o que aco nteceu.— Cena 317. Norman correu os olhos em volta. inspirando compaixão mesmo com a forma altiva e ereta do corpo. Prendeu a respiração quando se colocou um pou co para o lado. — Desculpe. rolavam pelas faces como esferas de rolamento bem lubrificadas. — Chore! Rina olhou para a câmara que se aproximava. Lágrimas de verdade. Ficou ali com os olhos parados e secos e. mas não consigo. na solidão das areias. ninguém era capaz de perceber a diferença. Não muito. Lágrimas enchem seus olhos. Não é porque você tenha pena deles ou de você mesma. E você vê seu pai. — Podem copiar esta! E caiu na cadeira. mas o bastante para mostrar que você é uma mulher e não um animal. — Agora! — disse Dunbar. lentamente. — Maquilagem! — gritou furioso o diretor-assistente. — Corta! — gritou Dunbar. Todos estavam o lhando para Rina. Até a el e aquela maldita cena havia emocionado! — Corta! — gritou Dunbar com voz rouca e vitoriosa. Sentiu os olhos molhados. mas v iveu com eles.. Estão mortos. Compre-endeu? Rina fez que sim. Começa a olhar para cima e a pensar. É porque quero ver se ainda há alguma coisa dentro de você. a memória que você perdeu e nunca recuperou. Além disso. — As lágrimas chegaram mas o véu desceu de novo e você não pode saber por que está chorando. Dois homens estão mortos por sua causa e eu só quero uma lagrimazinha de nada. pois a câmara estava obstruindo parte da cena. . indo de novo para o palco. Tenho trabalhado dia e noite por uma ra zão apenas. Você queria provar que é uma atriz. Quer ser uma atriz. Deveria ter tido mais juízo. Tinham esquecido tudo o mais. Vo cê encontrará essa pessoa lá. — Corta! — gritou Dunbar. Pois bem. — Estamos fazendo esse filme há cinco meses. as lágrimas falsas davam ainda melhor foto grafia. saindo logo da frente da câmara. Talvez por um momento um deles lhe tenha trazi do um fragmento de sua memória. Dunbar ainda falava com Rina. — Que diabo de mulher é você? — Por favor. — Assim. alguém a espera. afastou-se de repente para o lado. Norman cobriu o rosto com as mãos. Olhou para os homens e depois p ara a câmara. não é? Então prove que é! Represente! Deu-lhe as costas e afastou-se. quase num sussurro. Na tela. olhando intensamente enquanto Rina saía da cabana. E você começa a caminhar pelo de to lentamente. Prime iro para Paul.. tomada 2 — disse o homem da placa. utilizou-se deles. Claude — disse Rina —. — Ação! O produtor olhou a cena por entre os dedos. já fiz tudo o que me era possíve l. E nada aconteceu. a estendidos na areia. Você olha para o chão e observa os dois corpos. Dunbar estava falando com Rina em voz baixa. o filho que você não teve. correndo furiosamente para a cena. Por uma f ração de segundo o véu se levanta. depois para Joseph. Dessa vez. que come-çou a se aproximar. alguém que a fará recobrar a memória. Agora. — Ação! Tudo aconteceu exatamente como da outra vez até o momento em que Rina olhou para a câmara. Não adiantava desperdiçar dinheiro.. saia pela porta. Dez mil dólares p or dia era o que aquilo estava custando.

— Acha então que posso deixá-lo ir para um quarto de hotel no estado em que se encontr a? — Mas prometi a mamãe que telefonaria para ela no momento em que terminasse o filme. — Você me conhec e muito bem. Norman correu para o palco e apertou. — É uma grande atriz. — Telefone para James e diga-lhe que prepare o quarto de hóspedes para o sr. e voltou-se novamente para Norman. — Deixe que eu resolvo isso — disse Rina confidencialmente. Agora. Nunca fora muito forte. Dunbar. pois fez um filme ex celente. — Você foi admirável. Ali. menina? — perguntou ele sorrindo. Tinh a sido sempre assim. É só repousar um pouco — murmurou Dunbar. quando voltava da escola perseguido e maltrata do pelos outros garotos. Então. muito agitado. Encontrara a velha segurança nos braços da mãe. srta. Precisa descansar. Marlowe — protestou o diretor —. Mas não se preocupe. Não era preciso. Não me espantaria se ambos ganhassem prêmios da Academia! Norman não acreditava nisso quando falou. Toda a . no ambiente agradável de seu quarto. às vezes durante semanas a fio. Ele deu um sorriso cansado. mas foi exatamente isso o que aconteceu. seus olhos se clarearam. — Muito obrigada — disse. foi como se ele estivesse muito longe. sempre frágil e franzino. Ilene apareceu quase no mesmo instante.O palco se transformou num pandemônio. ela havia se m udado para a Califórnia logo após o casamento de Claude com Rina. A mãe o conhecia. ao contrário. — Aquela mulher é um monstro — disse ela calmamente. trazia jor nais. Tudo o que desejava vinha facilmente às suas mãos. — Ilene! De algum lugar na multidão. — Acho que não dormi direi uma noite desde que o filme começou. que a mãe havia decorado para ele. Sentou-se no sofá ao lado do filho e fez a cabeça dele descansar em seu ombro. — Lá também há telefones. Não se esqueça de que ainda tem dez semanas de edição do filme pela frente. Norman bateu no ombro de Dunbar. Todo mundo batia palmas e até os veteranos da equipe riam de alegria. Por um momento. — Mas está que não se agüenta em pé! — exclamou. Instintivamente. Não era necessário dizer coisa alguma quand o ele se sentia perturbado e confuso. — Faça o que Rina está dizendo. menina! Magnífica! Rina olhou para ele. Ela sabia. — Pode telefonar de minha casa — disse Rina. se sent ia repousado e protegido. sorrindo. sessenta e três anos de idade e forte como um rochedo. Ela lhe servia comida. com as linhas de exaustão ap arecendo no rosto magro e emaciado de homem de quarenta anos. — Isso é fácil de curar. Nessas ocasiões a mãe tomava todas as pro-vidências. — Acha mesmo? — E eu diria isso se não fosse verdade. sentado em sua cadeira rodeado pela equipe da câmara e pelos seus assistentes. 19 Nelia Dunbar. voltando a tratá-la com cerimônia agora que o trabalho estava terminado. srta. descanse du-rante algumas semanas enquanto eu preparo tudo p ara a filmagem de Scheherazade. atravessou a sala e olhou para o filho. Claude nada disse. Olhou para Dunbar. — Mas. Além disso. Ela se voltou e viu Dunbar aproximando-se lentamente. Quase sempre Claude achava que eram esses os momentos mais felizes de sua vida. e lia para ele os livros que ambos amavam. Rina sentiu uma nova vitalidade estuar em seu íntimo. — Eu ficava só pensando quanto tempo você levaria para descobrir a verdade sobre ela. Dunbar. tomando a mão de Dunbar. a mão de Rina. a grande t ensão a que sua atividade criativa o submetia o deixava exausto e mais fraco ainda . Marlowe — elogiou. não quero absolutamente dar-lhe esse incômod o. Desde criança. — Foi uma honra trabalhar a seu lado. Eu avisei que seria loucura você casar com ela. Levava-o para a cama e cuidava ternamente dele.

levando uma bandeja com uma garrafa de champ anhe gelado e duas taças. Mas. por favor. — Não se preocupe. Deixe que me encarrego de tudo. eu nem sei o que falar a um advogado. Saberia então que não poderia passá-lo para trás. e tudo indic ava que ia ser uma daquelas tardes desagradáveis e friorentas tão incomuns na ensola rada Califórnia. Pediu outro drinque. Estava começando a se sentir melhor. perto da janela. um jovem de casaco amarelo. Ele havia entrado no quarto escuro. — E uma rodela de limão. Quase onze horas. E.sordidez e mesquinharia do mundo ficavam lá fora. deixando-a penetrar todos os segredos mais ínt imos de sua alma. Estava vazia outra vez. como sempre imaginara que seri a. de onde po dia ver a rua. Havia tempo. lembrando-se da primeira bebida que a mãe lhe prep arava aos primeiros sinais de um resfriado. — Venha para cá. Resolveu tomar outro uísque. Pegou a caneca fumegante. tão passivo e sem exigências. Olhou para o relógio de pulso. Pela manhã trataremos do divórcio." Começaram a se acariciar. se tiver — recomendou. mamãe. Tom aria um drinque enquanto esperava. O bar estava escuro quando ele entrou. Claude sentou em um banco do bar. Trataria então do cabelo. sentindo aqueles dedos estranhos. Depois r . — Volte para aquela casa e pegue as poucas coisas de que precisa — disse a mãe. Fez um gesto chamando o garçom. Claude notou que o outro freguês. tomou um gole e sentiu o calor encher-lhe o estômago. Não eram ricos. Ela não tardaria a sair. Não tinha mais forças para isso. Seus atrasos eram uma coisa sabida e aceita por todos. Ele fi cava às vezes alucinado por ter de esperar por ela. Podia haver outra cena e ele não agüentari a passar por aquilo de novo. E nunca mais ela o olharia como na noite do casamento: com piedade e desprezo ao mesmo tempo. Naquele momento. — Água quente? — Sim. a mãe dissera as palavras mágicas. O pai nunca fora mais que uma vaga sombra nebulosa. O garçom o olhou espantado. Encontrara conforto e paz nas curvas tão femininas daque le corpo. aplicando e limpando a maquilagem até ficar exatamente como ela queria. Desceu a rua até o bar da esquina com a rua Sunset. Claude olhou para a caneca. Chegava no mínimo com uma hora de atraso. E poderia ver o carro de Rina descer pela col ina. "Trouxe vinho para minha amada. pois ele os havia deixado em boa situação financ eira. segredos que ele procurava esconder até de si mesmo. teve medo de entrar. tam-bém estava olhando para ele. Rina ficaria surpresa quando voltasse para casa e vi sse que ele levara tudo o que era dele. Ficou um momento como que paralisado. estendido ali na cama. po is morrera quando Claude tinha apenas cinco anos. Tinha uma superstição: não ser pontual. Não o chamaria mais de meio homem. A morte do pai praticamente não havia mudado o curso de suas vidas. Sabia exa tamente o que Rina estava fazendo naquele momento. Sentiu um arrepio. Pegou a caneca novamente e percebeu com surpresa que estava vazia. Claude sentiu que um fardo pesado lhe fora tirado dos ombros. Havia até começado a pens ar num poema em louvor a sua beleza ao sentir na carne as mãos ansiosas. — Mas. Era tudo delicado e belo. pois tinha um almoço marcado no estúdio. Ia ver que homem era ele quando o advogado a procurasse com os papéis do divórcio. Ol hou pela janela e viu que já estava chovendo. as cadeiras ainda colocadas sobre as mesa s. ela estava sentada em frente à penteadeira. Mais uma vez. Sentiu arrepios e teve re-ceio de que fosse ficar resfriado. mas ninguém mais parecia incomod ar-se com isso. ele tinha consciência de ter permitido q ue ela o conhecesse profun-damente. Começara a chuviscar um pouco antes de ele chegar. porque ele era virgem. mas não sentiam falta de coisa alguma. fazendo -o cair negligentemente mas com cada fio quase no lugar marcado. o que mais o incomodava. quando chegou diante da casa e viu o carro de Ri na à porta da garagem. — Uísque e água quente — pediu ao garçom. Quase não se lembrava dele. bem longe das paredes seguras da quele quarto. mas já estava aberto e havia um freguês sentado a uma mesa com uma garrafa de cer veja a sua frente.

Ouviu o rumor dos lençóis amarfanhados e olhou para ela. mas não sou como os outros. — O que você disse? Essas palavras o fizeram voltar do passado para o presente. — Disse que o tempo ficou horrív l. Não queria mais saber o que ele sentia e precisava. Pouco a pouco as lágrimas cessaram. — Uma cerveja para este senhor. — Será melhor. mas não se incomodava. Os olhos pareciam chamejar quando disse: — Você é mesmo a espécie de homem que dizem que você é? Ele sentiu o calor do sangue queimar suas faces. pois as pessoas comuns não eram capazes de compreender como o trabalho o absorvia. — Esvazie essas gavetas — disse ao jovem. havia muita coisa dele na casa e não lhe seria possível carregar tudo soz inho. Sentiu-se embaraçad o. Parecia muito amável. Teve medo da prorrompente sensualidade exigida por aquele corpo. agradecido. Casei com você porque a amo. Era o outro freguês. Um grito nasceu então do fundo dela e ele se sentiu puxado para ela. — Pensei que houvesse dito alguma coisa. Foi só três drinques depois. Estava tomada de verdadeira al ucinação e os dedos o machucaram enquanto ela tentava guiá-lo e forçá-lo a entrar nela. quando viu o carro de Rina passar. o jovem de casaco amarelo. então? Ele se ajoelhou ao lado da cama. quando conseguiu desvencilhar-se. meu amor. Não havia dúvida de que realmente falara. alguma coisa que o aterrorizava a ponto de reduzi-lo à absoluta impotência. que lhe ocorreu a idéi a. Eu não estarei tão nervoso. Tirou a chave do bolso. Tentou cobrir-se com o pijama despedaçado e ouviu a respiração ofe-gante dela se acalm ar. Claude abriu o armário e tirou uma maleta. Os seios arquejavam e os bicos ainda estavam túmidos de paixão. Eu a amo! Eu a amo! Eu a amo! Ela começou a alisar gentilmente sua cabeça. tentando disfarçar sua confusão. Devia ser um ator desempregado que tinha passado para tomar uma cerveja até a chuva pass ar. Da próxima vez será melhor. que antes estivera latente. Sentiu um t remor no corpo de Rina e logo depois outro. Mas nunca chegou a ser melhor. Não se mostrava mais passiva e delicada. à espera daque le momento para então repastar-se em sua virilidade e devorá-lo. e me encha de novo esta caneca — disse Claude ao garço m. — Posso oferecer-lhe um drinque? — perguntou. — Gostaria de mais uma cerveja — disse o moço. todo trêmulo. Havia na completa feminilidade do corpo de Rina. — Vou pegar outra maleta. querida — ele prometeu. porque o toque era tão leve e delicado que ele mal o percebia. e ele tomou as mãos de Rina. sentiu-se dominado por um terror selvagem. desprezo e c ompreensão. Depois de tocar a campainha pela segunda vez. enquanto as mão s febris lhe rasgavam as calças do pijama. e ficou ali de pé. Não havia deixado de perceber as insinuações que faziam a seu respeito. — Obrigado. Pegou sua caneca. Claude ficou aborrecido. Ela não respondeu e ele viu em seu olhar a terrível mistura de piedade. e disse com lágrimas nos olhos: — Procure compreender. De repente.elaxou. Ela fora para o seu lado na cama e o olhava com o cobertor descuidadamente jogad o sobre os quadris. em sua terrível sexualidade. Desculpe. e de certo modo muito bem a-pessoado. beijando-as. e viu que estava de novo vazia. Estava quase entran do em pânico. — Que espécie de homem é você. que falava com ele. Minha mãe diz que sou extremamente nervoso e sensível. Claude olhou-o. — Falei. ao la do da cama. Subiram ambos a es cada até seu quarto. — Não! — disse ele vivamente. — Não me olhe assim. Afinal. . O homem volveu os olhos para a janela e murmurou: — É verdade. sim — disse então. lembrou-se de que era quinta-feira e todos os criados estavam de folga. Era muito comum falar sozinho quando estava engolfado em seus pensamentos. uma súbita onda de calor pareceu emana r dela.

— Eu sei que não foi para arrumar as malas que você me troux e. nos braços. querida — disse Rina a Ilene. Em dado momento. ainda olhando para Claude. dizendo: — Q ue surpresa ela vai ter quando chegar em casa e não me achar. levantou os olhos para o espelho. Saiu do chuveiro. com a voz entrecortada: — Por favor. A mão aberta o atingiu em cheio no rosto jogando-o contra a pia. Teve uma indizível sensação de nojo. Gostava de se sentir limpo. encolerizado. A água quente do chuveiro o acalmou. — Deixe disso — exclamou ele. O vidro se d espedaçou e o tapete ficou cheio de cacos. com as pernas metidas nas calças justas que sempre usava. — Beije-me. Mas o jovem. ela estendeu os braços. amor — disse. — Eu sei que você no fundo não quer mesmo que eu saia —disse ele. — Quem é que vai ouvir? Você mesmo me disse que era o dia de folga dos criados. Ensaboou-se com o sabonete delicadamente perfumado que a mãe mandava buscar especialmente para ele em Londres. sentindo um estranho medo. O corpo de Ri-na pareceu read quirir o ritmo sensual. A lembrança da cena o fez levar angustiado as mãos ao rosto banhado de suor. — Saia daqui — gritou Claude. Era como se sentisse na pele o mesmo calor bo m que lhe dava o uísque. Apanhou o vidro de água de colônia e começou a friccionar o corpo com ela. esfregando-se vigorosamente com a toalha. Mas logo em se-guida riu. — Continue. — Você é o marido de Rina Marlowe? — Sou. Claude tentou esquivar-se mas não foi rápido o s uficiente. Rina tinha a mão por sobre os olhos para protegê-los do sol. Resolveu tomar um banho de chuveiro. vá embora. Olhou para o rapaz com os olhos apavorados. ouvindo os risos zombeteiros das duas. levou um tremendo soco na cabeça e ficou estendido no chão. Quando ambas per-ceberam sua presença. Claude viu que o jovem era cabeludo como um macaco. que estav a dei-tada nua na mesa en-quanto Ilene lhe dava massagens. — Patife! — exclamou Claude. Torcia o corpo sensualm ente ao contato das mãos de Ilene. com um sorriso canalha. — Acho . Claude ficou surpreso ao ver como seu busto era sum ido. Rina levan tou o braço e Ilene voltou-se. Claude virou-se e foi até o banheiro. Ilene estava nua da cintura para cima. mas não o encontrou no lugar de semp re. Sentia o corpo pegajoso e úmido.Quando voltou ao quarto. Abriu a torneira da pia para lavar as mãos. O rapaz levantou a mão ameaçadoramente. — Quer pegar o roupão azul no armário para mim? — pediu ele irrefle-tidamente. Ilene recomeçou obedientemente a fazer as massagens. pegou a cabeça de Ilene e levou-a até o ventre. ti-rando o cinto. Graças a Deus! — O que você tem na cabeça para abandonar uma pequena como esta? Claude arrebatou o retrato da mão do outro e o jogou contra a parede. De repente. o outro estava olhando o retrato de Rina que ele tinha em cima da mesa. Olhou-se com satisfação. entrou no banheiro e fechou a porta com o pé. enquanto virava a cabeça para olhar Claude com visível sarca smo. misturados ao barulho da água ecoando em seus ouvidos. O jovem estava olhando para ele através da port a aberta. não é? — Saia daqui ou gritarei por socorro — disse ele. Procurou o roupão. mas felizmente por pouco tempo. Notou os músculos fortes das costas enquanto trabalhava com as mãos n o corpo de Rina. Tir ou o paletó e afrouxou a gravata. A água borbulha va no solarium no momento em que tomou conhecimento da presença de Rina. mas o barulho da água o fez lembrar de uma vez em que entrara no solarium. Ele fugiu dali imediatamente. O rapaz não se moveu e seu sorriso aumentou. — Quem é essa? — Minha mulher — respondeu Claude de mau humor. Nesse momento. Procurou levantar-se atordoado e disse. — Pode deixar em cima da cadeira — disse ele cobrindo-se parcialmente com a toalha. revelando uma t-s hirt suja. nos ombros e no pe ito. Tinha o roupão no braço e havia tirado o casaco amarelo.

que t inha sido sargento da polícia. um estranho sentimento de satisfação. pensando como devia ter tomado o cinto das mãos do outro para espancá-lo até escorrer sangue. Imaginou que Rina houvesse conseguido livrar-se do médico que a atendia. ao menos não queria tornar-se mulher. verific . Pensou nas coisas h orríveis que haviam acontecido. no ter ror doloroso da revelação. no vaso. — Não tente me enganar. 20 David Woolf estava à porta do banheiro.que você é do tipo que gosta de apanhar antes. até que se olhou. quando olhou da escada. De repente. e chegou à casa de Rina vinte minutos dep ois. Voltou para o chuveiro e abriu a água quente. Experimentou. Golpeou-se repetidamente até que. David encolheu-se para de ixá-los passar pela porta. nos ladrilhos azuis e brancos do chão e das paredes. Sem fechar a torneira. Era difícil acreditar que apenas meia hora antes ele se encontrava na tranqüilidade de seu gabinete quando o tio Bernie abrira violentamente a porta. O cinto o atingiu nas costas. Se não podia ser homem. a navalha que sempre considerara um símbolo de sua virili dade. O que os outros diziam dele era verdade. fazendo-lhe correr pela espinha um arrepio de agon ia. Encurtou caminho por Goldwater Canyon. No caminho pegou Harry Richards. — Não sou não! — Não? — disse o jovem. — Vá o mais depressa possível para a casa de Rina Marlowe! Um dos rapazes da publicida de recebeu da delegacia de polícia de Beverly Hills a notícia de que Dunbar se suici dou! David já estava na porta. Seu rosto esta va vermelhíssimo. Abriu o armário de remédios e apanhou a velha navalha que usava desde que hav ia começado a fazer barba. Começou a se cortar com uma raiva cega de si mesmo. até qu e seu próprio corpo o traiu. Havia sangue por toda parte. Sentiu a exaltação crescer-lhe dentro do peito. contudo. Já encontrou dois funcionários da funerária erguendo o corpo de Dun-bar numa pequena p adiola em forma de cesto. o outro teria visto o que era bom. levando todo o dinheiro. saiu do boxe do ban heiro. — Eu a amaldiçôo! — gritou. coberta por uma lona branca. Mas. se encarregaria dos enten-dimentos com os policiais . agitado. na pia. chefe de policiamento do estúdio. Sentiu as forças voltarem à medida que a água encharcava sua pele. Richards. ca iu por terra. Acendeu um cigarro. Se fosse mais forte. Eu estou vendo. não diria mais que ele não era um homem. Nunca poderia ter desempenhado aquele papel heróico e viril . perdendo as forças. o que não lhe aliviou absolutamente a náusea. quando o tio ainda gritou: — Faça tudo para proteger Rina! Temos dois milhões de dólares de fil-mes em negativo fei tos com ela e que ainda não foram distribuídos. Só ele fora cego a essa realidade. ouviu no andar de baixo uma gritaria incrível e se espantou. — Não me bata mais! Claude levantou com dificuldade do chão e olhou para o quarto. Sentiu-se invadido de atordoada cólera. sentindo a náusea subir pela boca do estômago. levantando o cinto. O jo-vem havia saído. Por um instante. irônico. lembrando-se das indignidades a que o desconhecido o submetera. — Basta! — gritou ele. mamãe! Foram essas as últimas palavras que proferiu. A alegria era quase tanta quanto se ele houvesse assim proced ido. Foi nesse momento que percebeu a verdade. Se Rina pudesse vê-lo naquele momento. — Eu a amaldiçôo. Claude não soube o que ele queria dizer. chorando. na banheira. Um pensa mento maluco lhe ocorreu. Involuntariamente deu um grito.

Pouco depois u ma porta lateral bateu. — Matou-o porque soube que ele ia voltar para mim! Parecia decidida a subir a escada. e começou a descer a escada. Mas ainda há um ponto duvidoso. — Meu filhinho! — gritava ela. e ela foi quase que arrastada para fora do vestíbulo. O barman nos fe z uma boa descrição do homem. Stan. dar-lhe uma surra para seus fins particulares e depois roubá-lo. Colton não a deixaria f alar com ninguém enquanto não a tivesse acalmado. Se os jornais souberem disso. — Tem certeza de que Dunbar se suicid ou. Ri-chards aproximo u-se: — Disse para os guardas a levarem ao Sanatório Colton. tenente. — E de que vai adiantar isso? — perguntou David. — Já apurou mais ou menos o que aconteceu? — Acho que sim. enquanto a maca passava. O dr. ouvindo sempre os gritos da mulher. — Levem-na daqui! O médico já tem muito trabalho com Ri-na e nin-guém precisa ouvir os g ritos dessa histérica! David olhou para Richards e fez um sinal. David con seguiu ver a multidão de repórteres lá fora. — E daí? — Daí Dunbar não é o único homossexual no nosso distrito — replicou o tenente. com seguramente um metro de comprimento. Ela conseguira se livrar em parte de um dos guardas e se agarrara ao corrimão da e scadaria. O tenente Stanley estava sentado à mesinha do telefone com um ca-derno de notas ab erto a sua frente. Um deles tampo u-lhe a boca. David olhou para Richards e este se conservou impassível. No mesmo instante. deixando Richards e o tenente. Era um homem magro de barba e cabelo grisalho. Pagou a desp esa com um maço gordo de notas. mas Ilene já havia desaparecido. com uma expressão feroz de cólera no rosto. O estúdio mandava m uitos de seus artistas para lá quando precisavam de repouso. — Qual é? — Investigamos os movimentos de Dunbar. Colton saberia o que fazer. como usualmente fazemos — disse o detetive. O que o tal desconhecido poderá dizer-lhe? — Há alguns sujeitos que se especializam em pegar um homossexual. David achou que parecia mais guarda-livros que um detet ive. — Aquela cadela assassinou meu filho! — gritava. Não quero repórt eres aqui dentro depois que a polícia for embora. Agora vamos para a sala de estar. — Levem daqui essa velha maluca! David voltou-se. mas não encontramos dinheiro algum. — Já telefonei. Era Ilene. Debatia-se nas mãos de dois guardas de rosto vermelho que a conti-nham. Agarraram com força a mãe de Dunbar. surpreso ao ouvir aquela voz áspera dizer essas palavras atrás dele no alto da escada. Nós o apanharemos. Voltou-se então para o pol icial. — Agradeço muito por ter falado comigo. Ainda da porta pôde ouvir a voz de Ri chards. e até têm direito a alguma proteção. — Deixem-me ver meu filhinho! Os funcionários da funerária passaram impassíveis por ela e che-garam à porta. Na maioria não dão trabalho. Fiquei bem impressionado pela eficiên cia com que está tratando do caso. O corpo tem algu mas contusões na ca-beça e nas costas que o legista não sabe explicar. — Telefone para o estúdio e peça que mandem alguns dos seus homens para cá. — Foi sem dúvida uma coisa terrível. vai ser uma confusão tremenda lá no estúdi . — Temos uma li ta deles. Quero apresentá-lo ao tenente Stanle y. — Escute. Levantou-se para apertar a mão de David. Os dois guardas desistiram então de qualquer aparência de delicadeza. Uma coisa é indiscutível: foi suicídio. David olhou de novo para cima. tenente! — disse David. Saiu da sala. com uma voz que parecia encher a ca sa toda. Richards se aproxim ou de um dos guardas e falou baixinho com ele. e sim a mãe de Dunbar. — E soubemos que ele pegou um desconhecido no bar antes de vir para cá. David fez um gesto de aprovação. e fez-se silêncio.ou que não era Rina.

Ela continuou: — Ela estava ali parada. Vou conta r para você por que ela se casou com ele. — Fique descansado. — E eu também . de dinh eiro no banco. — Foram tomadas todas as providências necessárias? — Acho que sim. Para vocês. ela nunca passou de boa bilheteria. e ela continuou: — Rina teve um almoço e nós só chegamos em casa às quatro horas. — Eu sei. — Eu atendo — disse ele. sou da Norman. Tinha certeza de que não haveria nos jornais qualquer referência a outro hom em. e c omeçou a dizer repetidamente: Eu o matei! Eu o matei! Sempre matei todos que me am aram! Daí começou a gritar bem alto. Ilene parou um pouco de falar. David olhou para ela. chorando co mo uma desesperada. Como vai Rina? — Está dormindo.. fale comig o. David manteve-se em silêncio. Os criados estavam todos de folga. Um rubor apareceu no rosto dela após to mar um grande gole. Trazer o velho sargento foi a coisa melhor que poderia ter feito.. — Você precisa de um drinque — David sugeriu caminhando para o pe-queno bar. Es-tava sentado n . Lembro de você.o. — Dormindo. e ela me pediu que fosse ver. olhando para toda aquela sangueira. Farei isso. David voltou para a cadeira. — Como está ela? — perguntou. — Muito bem. David subiu a escada. Subimos para nos vestir às quatro e meia. Cord. Ilene. Quando voltou. quando me dei conta. David levantou para encher de novo o copo. Rina me disse que estava ouvindo água correr no banheiro de Claude. Ilene estava com o rosto entre as mãos e não fez qualquer comentário. Procurei impedi-la de ver o que havia acontecido. Você é o homem que resolve as dificuldades de Bernie. ela já estava na porta do ba nheiro. Ouviu-se um clic: Jonas havia desligado. Talvez houvesse entre ele e Rina alguma coisa mais do que ele sabia. Já basta o prejuízo que vamos ter com a notícia do suicídio. Uísque está bem? Ela não respondeu e ele preparou dois copos. Está chorando por que falhou. O médico deu-lhe uns sedativos fortes. — Era Jonas Cord. não era do tipo de homem que ficava dando telefonemas de cortesia. E se precisar de alguma coisa. Tocou novamente. atirada numa cadeira. Encontrou Ilene. O telefone tocou. Entrou no quarto no momento em que eu ainda estava telefonando para a polícia. Tirou o fone do gancho. mas. Foi porque tinha pena dele. Era jus tamente o contrário. Quatro meses se passaram antes que David visse Rina novamente. — Não me esquecerei do que está fazendo — disse Cord. David prontamente ofere-ceu-lhe um e o acendeu. Houve um longo silêncio do outro lado do fio e David chegou a pensar que Cord havi a desligado. Não fazia sentido: pelo que sabia d e Cord. Deve ter press entido que havia alguma coisa porque não voltei imediatamente. — Alô? — Quem fala? — David Woolf — respondeu automaticamente. Mas a voz de Jonas se fez ouvir novamente. — Este é o ponto central do problema — disse Ilene um pouco exaltada. David ficou pensando em sua conversa com Cord. — Foi horrível! — disse Ilene. foi porque q ueria fazer dele um homem. na saleta ao lado do quarto de Rina. Pousou o copo numa mesinha e olhou em volta à procu ra de um cigarro. embora esteja dormindo sob a ação dos sedativos. — Quem fala aqui é Jonas Cord. Olhando para ele. Acabo de saber do caso pelo rádio. — Nenhum de vocês ja mais procurou compreendê-la. Faça tudo o que for necessário. O médico deu-lhe um sedativo capaz de derrubar um cavalo. disse. foi por que ela se casou com Cl aude. E é por isso que ela está estendida aí na cama. Nenhum de vocês se interessou por ela como realmente ela é. pen-sativo: — Se há uma coisa que nunca pude compreender. — Sr.

Esse foi o erro que cometi. — Ora. — Norman levantou e f oi para perto de David. sentou-se à mesa e começou a passar em revista os nomes dos inimigos que o tio havia feito durante sua vida. Comprei todas as ações que p odia mas não tenho dinheiro que chegue para fazer parar uma coisa dessas. Mas as a-ções caem dia a dia. Como vai você? — Estou bem. De súbito. Tinha. seis meses depois. Filmes eu conheço . desanimado —. David disse ao tio: — Achei Rina mais serena. — Vamos deixar disso! Quero saber é das férias! — África! — retrucou Norman. Quem não estaria depois de três meses de descanso numa fazenda-sanatório? — E o filme que você vai fazer agora será uma espécie de outras férias — disse Norman. — Vamos. — Eu sabia que ele acabaria querendo me transformar num Tarzan de saias! Depois que ela saiu. os banqueiros. zero. Todos sabem que ela é um sucesso de bilheteria garantido. O produtor recuou um pouco para olhá-la. não sei mais a quem pertence e nem tenho mais dinhei ro. — Ainda não sabe quem está fazendo nossas ações caírem? — Não. uma desconfiança. Rina o olhou com um leve sorriso no rosto. A lista era comprida. lembrou-se de Rina. voltando-se para David. Todo o d inheiro que eu podia pedir ou tomar emprestado já se foi. Reclamavam e brigavam. como se fosse uma novilha premiada numa exposição de gado. — Rina querida! — exclamou Bernie. mas nenhum deles tinha o dinheiro necessário para uma operação daquelas. e tinham feito ao tio tanto quanto ele lhes havia feito. talvez mais contida. — Sabe que ainda há pouco quase não pude acreditar que era minha velha amiga que estav a entrando. Além disso. Agora vendi minha companhia. alegre. e estava gravemente doente.o sofá do gabinete do tio. os acionista s. Fiz tudo que foi possível para descobrir. porém. Nunca devia tê-los comprado. Não devia ter dado ouvidos àqueles sujeitos da Wall Street há dez anos. — O mais grandio-so script sobre a se lva que li depois de Trader horn! — Eu sabia — disse Rina. — Talvez as ações subam quando anunciarmos o próximo filme de Rina. — Tomara que seja assim — disse Norman. levantando e abraçando entusiasticamente a artista. Só veio a saber o quanto estava certo quando mandou Il ene internar Rina num hospital sob nome fictício. — Olá. de tão bonita que está. David. mas nen hum deles levava a coisa tão a sério que pudesse agir com tanto rancor. Mas desistiu imediatamente. David foi para seu escritório. Até nos cinemas. rindo . Da vid não queria que a imprensa soubesse disso antes da distribuição do filme. com um ar de triunfo. e quase deu uma volta em torno dela. quando ela entrou efusivamente. velho bastardo! Conte logo de que se trata. Olhou para a porta e chegou a estender a mão para o t elefone. Por cau sa deles tive de vender ações e tomar uma porção de dinheiro nos bancos. e disse: — Olá. Rina. quase t odos eram do cinema. — Só temos seis meses até a reunião dos acionistas em março. tudo pode ficar ainda pior. — Sim — disse Norman. imóveis. Er a uma espécie de jogo entre sócios de um mesmo clube. E em s eis meses muita coisa pode acontecer. Ninguém sabe. onde filmara A rainha da selva. 21 . Ela acabara d e chegar da África. não adianta preocupar-se desde já. — Claro! Está mais velha e é natural que esteja assentando a cabeça. Norman riu. Falei com os corretores. Não adiantava nada arriscar-se a ficar com ca ra de idiota. — Mais esbelta e mais bela que nunca! Rina olhou para o lado. Ainda faltam seis meses para a reunião. — Estamos perdendo di-nheiro por todos os lado s.

qualquer acionista pode indi car tantos nomes quantos cargos houver na diretoria. — Está despedido. você estava sem dinheiro para enfrentá-lo. encarregado d as atividades estrangeiras. Havia também os diretores da com panhia que por acaso estavam na cidade e os funcionários do escritório de Nova Iorqu e. e quando Norman estava pedindo à assembléia q ue indicasse nomes para a diretoria. lembrando-se do que havia a contecido na reunião dos acionistas. Rec ompôs-se imediatamente e perguntou com sobriedade: — Podem ambos provar que são acionistas? McAllister sorriu. o agente. O único interesse dos demais era saber quando começariam a receber os divide ndos novamente. Pierce estão perfeitamente em ordem e posso atestar pessoalmente o direito legal que ele tem de fazê-las. Faça tudo só para você. jogou-o com raiva no chão e perguntou: — O que eu posso ter feito àquele sujeito para ele querer me arruinar? David não respondeu. seu burro. nunca ajude ninguém a ganhar dinheiro. e outro homem. Enquanto falava. Só depois das formalidades preliminares. A percentag em de procurações devolvidas devidamente assinadas era mais ou menos igual à de todos os anos. Foi então que Norman se lembrou do nome. em Nova Ior-que. Pierce levantou e disse: — Senhor. McAllister. Norman voltou-se para seu vice-presidente conselheiro geral: — É verdade isso? O advogado nervosamente confirmou a alegação de Pierce. ainda que tivesse. Um terceiro vice-presidente. . e gritou: — É ilegal! É um truque para liquidar a companhia! O homem que estava sentado ao lado de Pierce levantou. indignado. deveria ter me dito. ele sentiu que alguma coisa não estava certa. davam uma margem mais ou menos tranqüila de trinta e cinco por cen to das ações para decidir. — De acordo com os estatutos da empresa — disse Pierce —. o advogado de Jonas Cord. Nesse momento. — Não tinha certeza — disse o produtor. Dan Pierce. tenho várias outras indicações de diretores da empresa para fazer. Norman tirou o charuto da boca. que Norman conhecia de vi sta sem conseguir identificá-lo. As pessoas presentes à reunião eram as mesmas de sempre. Virou-se para Pierce. O vice-presidente encarregado das transações com os cinemas deu rotineiramente seu apoio às indicações. — Foi Jonas Cord o tempo todo. e mais os oito por cento das ações que Norman tin ha em seu nome. Alguns homens de negócios apo sentados e algumas mulheres que possuíam no máximo dez ações e compareciam à assembléia porq ue não tinham nada de mais interessante para fazer. — As indicações do sr. O vice-presidente encarregado das vendas leu rotineiramente a lista de diretores organizada por Norman. Norman chegara à reunião muito mais seguro de si do que nos últimos meses. — De qualquer maneir a. Por que você não me disse antes? David voltou-se da janela do hotel sobre o Central Park. bastardo! — sussurrou Norman. — Sem dúvida. David. ac ordará com uma faca enfiada nas costas. entraram na sala e sentaram na primeira fila do p equeno auditório. — E no que teria ajudado? Eu não tinha nenhuma prova e. — Não tem esse direito — replicou Norman do estrado. Mas essas procurações. e Norman continuou: — Nada! A única coisa que eu fiz foi fazê-lo ganhar dinheiro! Mais di-nheiro para ele passar a faca no meu pescoço! E isso deve servir-lhe de lição. Era apenas um palpite. e resp ondeu: — Não tinha certeza. Nunca faça um favo r a ninguém. Só vinte e cinco por cento dos acionistas se davam ao trabalho de mandar procuração. presidente. pediu rotineiramente que se encerrasse a indicação de no mes. Do contrário. feita com o metal que você mesmo forneceu! David olhou para o rosto vermelho e irritado do tio.— Jonas Cord! — exclamou Norman. mordendo o charuto apagado.

— São as necessárias para provar o meu direito de intervir — disse McAllister. . David e o vice -presidente tesoureiro. — Espere um pouco. Pierce levantou e indicou seis nomes para a diretori a de nove pessoas. Era um certificado de dez ações regularmente passado em nom e de Dan Pierce. em seguida. É duas vezes mais do que valem. tio Bernie! Como é que vai lutar contra ele? Com cusparadas no lu gar de dinheiro? E. terei todas as procurações de acionistas que eu quiser. tio Bernie. Norman convocou uma reunião dos diretores naquela tarde n os escritórios da companhia para a escolha dos chefes de serviço. e não nosso. Quem foi que comprou Manchas solares e fez um f ilme que ganhou quase todos os prêmios da Academia? — E que também deu um prejuízo de um milhão de dólares? — Foi minha a culpa? Avisei a todos que o prejuízo era certo. Acho que tenho o direito de exigir isso! — Claro que tem — disse McAllister. — Vou ver o que posso fazer — disse David. todos os outros eram de pessoas desconhecidas para Nor-man. — Não falo com traidor de sua espécie — disse Norman. — Posso agora faze r as minhas in-dicações? Norman assentiu com a cabeça. Nada tem a ver com o que está acontecendo agora. Foi o filme que você não quis distribuir porque achou que sua comissão não era suficiente! Acha que alguém em seu juízo perfeito vai hesitar entre Cord e você? O produtor olhou para ele atônito e exclamou: — E dizer que é uma pessoa do meu sangue que está dizendo tais coisas! — Deixe disso. E o maior filme atualmente no mercado é Demônios do céu. Norman voltou-se para seus diretores. tio Bernie. — São essas todas as ações que possuem? — perguntou Norman ino-centemente. O s seis nomes indicados por Pierce foram eleitos. É meu sangue que estão derramando. Olhou-os um instante e cancelou seis dos n omes indicados com sua autorização. Estou apenas encarando o s fatos. friamente. Quando souberem do filme que vou fazer com Rina M arlowe. — Isso são águas passadas. dirigiu-se ao telefone. Mas não morri ainda. O maior fi lme que tivemos nesse tempo foi O renegado. acredita mesmo que alguém vá ficar do seu lado? Nestes últimos quatro anos. Cord me autorizou a oferecer três milhões de dólares pe las ações dele. — Mas eu penso. Pierce alcançou-o na porta. Mas queriam prestígio. caminhando para o estrado e en-tregando um certi ficado de ações. Tirando o nome dele e o de McAllister. O velho já estava em tempo de conhecer as realidades da vida. Norman estava agitado. se lutar. Encerrados os trabalhos. e tiveram prestígio. andando de um lado para outro e grita ndo seu desejo de luta. esquivand o-se à tentativa do produtor de saber quantas ações ele representava. McAllister apresentou procurações que representavam quarenta e um por cento das ações da companhia.— Quero ver as provas. Quando chegou o momento da votação. David olhou para o tio e. Saiu da sala mortalmente pálido. deixando na diretoria apenas ele. também um filme de Cord. Ninguém pensa mais nisso. O suficiente para assegurar uma maioria de até dois terços quando fosse necessário. sendo vinte e cinco por cento em nom e de Jonas Cord e quinze por cento de propriedade de várias casas de corretagem. a companhia vem tendo prejuízos em cima de prejuízos. — Gostaria que me desse um minuto antes da reunião da diretoria. — Fatos? Você quer fatos? Pois aí vai. saindo apressadamente para alcançar o tio. Se ele não quiser vender. meio irritado. — Vá conversar com Hitler! E saiu impetuosamente. Família nada tem a ver com isso. Bernie. filme de Cord. Cord diz que e ntrará em demanda com a compa-nhia e as ações dele não serão mais do que papel de parede. No quarto do hotel. — Faça seu tio ouvir a voz da razão. Mostraria àquele maluco do Cord que Bernie Norman não era um imbecil e que não poderia construir uma empresa como aquela partindo praticamente de zero sem ter alguma coisa na cabeça. Dan Pierce voltou-se para David. Sou eu o sacrifício que estão oferecend o ao Golem. Norman examinou o papel. David olhou para ele. Estava cheio de ouvir tantas tolices do tio .

— Não perdi o juízo. O que ele sempre quis foi a pequena. As edições dos jornais de domingo já estão to das prontas. 13? — disse. quatro-três-zero-nove. Gostaria de poder dizer a Ilene que não se preocupasse. — Procure-o e fale com ele. Agora. — Ilene? E David. Quero vê-lo. olhando para o tio. mas que não sabem onde ele está h ospedado. — Telefone para Jonas. — A pequena? — Sim. Já passara por aquilo tudo tantas vezes antes. — O que vamos fazer agora? — O que vamos fazer? — exclamou Norman. — O médico diz. — Coragem. Quando a ligação foi completada.. Ilene estava sentada na cadeira a observá-la. sorrindo. Que dia é hoje? — Sexta-feira. Ilene. Ilene. Está morrendo. sorrindo e vendo o sorriso que aparecia por trás das lágrima s no rosto de Ilene. Por que não havia pensado nisso antes? Isso expli cava o telefonema de Cord na noite em que Dunbar se suicidara. Como vai ela? — Mal — respondeu ela em voz tão baixa que ele quase não ouviu. Rina Marlowe. — Meu Deus! O que vai ser da companhia? Ela era a única chance de sobrevivência que tính amos.. onde quer que esteja. olhando para a cortina de plástico que lhe cobria a cabeça e o peito. Não sabe o que a está mantendo viva. David virou-se para o tio. Rina sorriu. ninguém morre aqui no fim de semana. Do escritório disseram que ele está em Nova Iorque. Vamos à tal reunião. Houve um estalo e o telefone foi desligado. na Ca lifórnia.. Olhou para o tio com uma admiração que nunca tivera. Lembra-se do encontro que tive com ele nos mic-tórios do Waldor f? Lembra-se de que ele me disse que não revelaria os nomes das pequenas que estav am com ele para que eu não as roubasse como havia roubado dele Rina Marlowe? David subitamente entendeu tudo. Fechou os olhos um momento e só os reabriu quando Ilene se aproxi-mou novamente da cama. estamos acabados. nem mesmo Cord se incomodará conosco! — O que quer dizer com isso? — Idiota! Será que não compreendeu ainda? Terei de traçar um diagrama para você compreende r? — Compreender. o quê? — Cord pouco se interessa pela companhia. Virou lentamente a cabeça. é claro. Não morrerei enquanto ele não chegar aqui. o sonho não se dissipou quando Rina abriu os olhos.— Quero dar um telefonema interurbano para o Sanatório Colton em Santa Monica. Não está na hora de se descontrolar. que não havia coisa alguma de que precisasse ter medo. — O que diz o médico? David ouviu-a soluçar no telefone. mas se ele ofereceu três milhões pelas minhas ações chegará a ci co sem muito esforço! Dessa vez.. — Calar a boca. — Sexta-feira. Posso estar com o coração partido. . — Ilene! Ilene teve um sobressalto e se aproximou. Ilene — disse num sussurro. Vocês não podem mais me enganar — diss e Rina. — Rina! Rina! E ela sentiu Ilene pegar sua mão por baixo das cobertas. — Sou eu mesma. — Rina não fará outro filme para o senhor nem para ninguém mais. — Não chore. Sem ela. em seu sonho. Acha que é um milagre que ela tenha durado tant o. Parecia até mais real do que nunca. Procure-o. Faça o favor. Ficou um instante muito tranqüila. Um sorriso irônico apareceu em seu rosto e ela acrescentou: — Depois. — Já representei esta cena uma porção de vezes. — Conseguiu falar com ele? — Não. O produtor ficou ainda mais branco e deixou-se cair numa cadeira. que estava à jane la. voltou a falar. que ela está morrendo.

Estava verificando os mostra-dores à sua frente. Por sorte. Nivelei o CA-4 ao horizonte e. Eu sabia o que ele estava fazendo. Com ele estavam dois ajudantes. — O que você quer? — Daqui a pouco vamos puxar o avião para fora e não quero esmagar seus sapatos. percebi como ele era. Provavelmente t inha ouvido a observação do tal general. Cord! Voltei-me. Era muito diferente do velh o general que ha-víamos deixado lá embaixo no Campo Roosevelt e que fora mandado pel o Exército para examinar nosso avião. Ouvi perfeitamen te o que ele disse. como uma flecha disparad a de um arco. com os pés descalços. minha cabeça já havia esfriado. Velocidade máxima de quin hentos e cinqüenta. Morrissey tinha nas mãos uma cópia do projeto e das especificações. — O Cord Aircraft Four representa um conceito revolucionário para um caça-bombardeiro de dois lugares. Saltei para a asa e dali para o chão.JONAS . e o CA-4 deu um salto para cima. O tenent e-coronel Forrester era um dos grandes au-tênticos aviadores da época. ri e disse: — Obrigado. Era o mecânico. O general voava muito. ao menos um piloto de verdade fazia parte de seu pessoal. dando uma última checada na carlinga. Logo que o general chegou ao hangar. Velocidade de c ruzeiro: trezentos e oitenta e cinco quilômetros por hora. que lia para o gener al. dando uma pequena virada à esquerda. com um ar de desapro-vação.1935 LIVRO V 1 Puxei o manche até encostá-lo na barriga. quando olhe i para os mos-tradores. mas diante de uma mesa em Washington. Porém era ele que aprovava as coisas. . Nenhum deles usava a insígnia da Air Corps. Ao mesm o tempo abri o manete. E cami nhei na direção dele. Long Island já havia ficado muito para trás. um coronel e um capitão. coronel? Ele assentiu com a cabeça em resposta a minha pergunta. Olhei para ele por um momento. Franziu as sobranc elhas. sobrevoa ndo o Atlântico. Pode levar dez metralhadoras. Que diabo ele entendia de aerodinâmica e design? A cabeça dele pro vavelmente era tão quadrada quanto a mesa que ocupava em Wa-shington! — Sr. Bati no ombro do piloto do Exército sentado à minha frente e gritei por cima do baru lho dos dois motores e do ronco do vento na cobertura de plástico sobre nossas cab eças: — Que tal. vi que estávamos a quinhentos quilômetros por hora. Sentia a força da gravidade achatando meu corpo contra o banco e faz endo o sangue fervilhar em meus braços. quando cheguei ao lugar onde estavam Morrissey e o general. mas não se virou. — Parece um sapo. Havia uma expressão curiosa em seu rosto. Tratei de calçar os sapatos e. — Como é feio! — comentou. dois canhões e quase meia tonelada de bombas sob as asas num comparti-mento especial em sua barriga. Talvez nunca houvesse embarcado num avião. Chegou à porta do hangar e olhou o CA-4. acompanhado por Morrissey. Atuara com Ed die Ricken-backer e o velho esquadrão Hat in the Ring. com autonomia de vôo de mais de três mil quilômetros. Eu estava dentro do hangar.

O general riu à socapa. — Mas há certas convenções de fabricação d s reconhecidas como padrões. Tinha sem dúvida um design revolucionár io.Olhei para o avião. olhando para seus ajudantes. general? — Claro que não — respondeu prontamente o general.. — Estamos prontos para assistir a uma demonstração de seu avião. senhor? — disse Morrissey. Não adiantava discutir. enquanto Morrissey falava. Asas prateadas brilhavam em seu blusão. Parecia uma grande pantera negra ali no chão do hangar. Forrester? — insistiu o general. Forrester? — indagou o general. Carrega quinhentos quilos de bombas a mais. Depois. — Agora. e inclinadas para t rás. se o seu piloto já . Foi minha vez de ficar surpreso. E voará melhor do que qualquer outro avião no mundo. Ótimo! Era um homem de boa vista para haver percebido isso na fraca iluminação do hang ar. — O que lhe parece. — Sei porque ele me contou — respondi. Morrissey fez rapidamente as apresentações. Parece um "sapo sentado. Lancei um rápido olhar para o tenente-coronel. — Muito interessante — ouvi o general dizer. Era como se eu estivesse falando com um muro de pedra. Estou dizendo apenas que este é o melhor que existe.. general. Jonas Cord. — Concepção fora do comum — continuou ele —. — Hélice de passo variável. alguém perguntou do vão da porta atrás dele: — Como sabe o que Willi Messerschmitt está fabricando? Vi então que o general trouxera mais alguém com ele. O general voltou-se para mim. general. o novo caça Curtiss que fomos ver outro d ia. — Este avião tem o dobro da blindagem. do Exército. — E dá — confirmei. Era fácil ver que não havia qualquer simpat ia entre ele e o general. — Não estou dizendo o contrário. senhor — disse rapidamente. O general Gaddis virou-se para Morrissey. desde que tenha competência para p ilotá-lo. — Nós. e a bolha de plástico cobrindo a carlinga e br ilhando como um enorme olho de felino no escuro. Feio. Deve dar quatro vezes a área de sustenta-ção comum. A cortina voltou a cair sobre o rosto de Forrester. ma s uma cortina havia caído sobre seu rosto. virou-se e olhou para o avião. Tinha perto de quar enta anos. Portava apenas duas fitas na blusa: a Croi x de guerre da França e a Distinguished Flying Cross. tenho só mais uma pergunta. — Qual. — Voará com quem o senhor tiver no Exército. Eu já havia agüentado demais aquela merda. — Curtiss fabrica bons aviões — disse o general. É um avião que parece um avião e não uma bomba com asas. — E que acha da aparência. Isto é. Estes se permitiram um sorris o tímido. incluindo os novos caças que Willi Messerschmitt está fabricando. dando graças a Deus por haver ali ao menos um homem que entendesse d e aviões. Por e-xemplo. vemos mais de trezentos aviões revolucionários por ano. v oa mil e duzentos quilômetros mais longe. — Costuma julgar aviões como julgaria mulheres num concurso de beleza. — Curtiss há muitos anos constrói aviõe xcelentes. — É exatamente a minha opinião. general — retruquei. que murmurou: — Fora do comum. inflexível. — Sim. — General Gaddis. Este voa? Não podia mais ficar calado. o comprido nariz se pr ojetando entre as asas enflechadas. como as folhas de carvalho também prateadas nos ombros. Antes que o general pudesse falar. — Interessante — respondeu-. colocar as asas onde estão. O milhão de dólares que eu já havia gasto com o CA-4 me dav a o direito de dizer o que eu quisesse. surpreso. Diferente. Ficou examinando de baixo para cima o me u macacão branco todo sujo de graxa. Eu sabia que a velha besta ia fazer uma das suas gracinhas prediletas. mil e qui-nhentos metros mais alto e cen to e trinta quilômetros por hora mais depressa do que o caça Curtiss de que está falan do! — repliquei. era magro e usava bigodes. O tenente-coronel me olhou com curiosidade e perguntou: — Como vai Willi? A voz do general nos interrompeu: — Estamos aqui para ver um avião e não para troca de informações sobre amigos comuns.

Tinha sido um dos meus heróis quando eu era garoto. Mas a venda do avião já é difícil. Só ele derrubara vinte e d ois aviões alemães. E foi somente naquele instante que consegui relacionar o nome dele com os fatos. Morrissey. — Ele deu outra risada. o dinheiro é seu. Como teste definitivo. — Incomoda-se de me levar como passageiro? — Absolutamente. sorrindo: . Mas achei melhor ficar calado. — Já ouvi muita coisa a seu respeito. quando saiu do parafu so. — Ora. Fiquei observando-o voltar para onde estava o general. — Roger Forrester — disse ele. Morrissey olhou nervosamente para mim. Perguntei ao mecânico: — Pronto? — Tudo pronto. a pressão se atenuou. Dei-lhe a mão e ele subiu pela asa. está certo. dizendo: — Bem. a duzentos e cinqüenta. Suba! — Obrigado. se quiser. É psicológico. Roger Forrester. Ele me olhou fixamente por um momento. subi na vertical até pouco mais de quatro mil e trezentos m etros. Acompanhei o avião até a pista de decolagem. Ouvi passos atrás de mim. Cord. Desculpe. vi que Morrissey e os outros haviam formado um grupo em torno do general. — Quem foi que disse que eu quero? Cinqüenta quilômetros mar adentro. falando com uma mulher jovem. A verdade é que ele era um bom engenheiro-aeronáutico. mas Forrester estava um pouco afastado. a sua disposição. Fico nervoso. — Jonas Cord. e a cento e vinte. Cord. As bolhas de ar chegaram aos meus olhos. mas não entendi bem o seu nome. Forrester. dei um tapinha no ombro de Forreste r. quando pode puxar o manche para trás. — E eu a seu respeito. Ambos rimos. talvez isso tenha feito bem ao velho bastardo. um dos ases da esquadrilha Lafayette. sr. — Posso conseguir um para você. O homem virou a cabeça tão depressa que ela quase saiu do pescoço. Forrester não fez o menor sinal. Eu ri. Era evidente que o general não ouvira meu n ome. coronel! Já estávamos a trezentos e sessenta metros quando ele assumiu o comando. Não se pode omprar um Cadillac pelo mesmo preço de um Ford. estendendo a mão.acabou de discutir. bonita. e gritei: — Ele é todo seu. Era o tenente-coronel. Ele riu. Jonas. quando controlou o aparelho. o general Gaddis e seus ajudantes saíram. Quan do chegamos a quatrocentos e cinqüenta metros. A força da gravidade me prendeu ao banco e senti o ar obstruindo minha garganta. Indica falta de confiança. Senti o avião tremer e as asas gemerem como uma pequena que está sentindo prazer. com o manche solto. e eu me senti melhor. Era Morrissey. — Sim. De repente. alguém me puxou pela perna. Forrester olhou para mim e disse. o avião balançou no céu parecendo uma mosca se equilibrando na ponta de uma agu lha. Quando cheguei do lado de for a. Estávamos a menos de quinze metros da água quando começamos a subir. Voltei-me para o mecânico e disse: — Pode puxar o avião para fora. de ol hos selvagens e boca sensual. fiz com o avião todas as acrobacias que constam dos manuais e mais algumas que só o CA-4 podia fazer. — E daí? — disse eu. Então deixei o aparelho cair num parafuso alucinado. Soube que a Curtiss está vendendo o seu modelo a cento e cinqüenta mil dólares cada um e o mínimo que podemos fazer é duzentos e vinte e cinco mil — replicou Morrissey. Quando subi para a carlinga. mas se mostrava tão ansioso que nunca poderia ser um bom vendedor. depois encolheu os ombros. Olhou para dentro da carlinga e perguntou: — Sem pára-quedas? — Nunca uso pára-quedas. a cento e oitenta. Deve andar tão cercado de gent e que concorda com tudo o que ele diz que até poderia ser um produtor de cinema. — Não devia ter tratado o general assim. vindo parar ao meu lado. — É a diferença entre bosta de galinha e salada de galinha.

— Sim. não haveria dinhei ro suficiente para sustentar o Exército por um mês. ficando vermelho. Olhei de relance para ele. — Sim. Pude ver o susto no rosto do pessoal lá embaixo. Morrissey. — É bom que não se esqueça disso — exclamou severamente o general Gaddis. Cord. P . general. — Se eu aceitasse todas as idéias malucas que se metem na cabeça de vocês do Air Corps. A minha responsabilidade se limita a dar opinião sobre o funcionamento do aparelho. Só o que tinha a fazer era sair do Exército. — Vou dizer. Mas não sei se adiantará muito. — Aposto dez dólares como farei voar longe o quepe do general na primeira passagem. é o melhor caça que existe atualmente — respondeu em um tom de voz destituído de qualquer emoção. mas logo sorriu. — Muito bem. se não se incomoda. Tem qualquer idéia de quanto um avião desses poderia custar? — Não. — Acha mesmo? — perguntou friamente o general. sr. Passamos sobre as cabeças deles numa subida quase vertical. — Durante a guerra. — Não tem importância. O general voltou-se para Morrissey e disse com voz quase cordial: — Agora. — Sugiro. — Seu pai e eu somos velhos amigos — disse ele. — Que avião! É como você disse. general. Descemos em vôo rasante e nivelei o avião a cerca de cinco metros da pista. Dava para ver Morrissey e os soldados lá embaixo no campo de pouso nos observando com binóculo. que seria oportuno enviar um gru po de pilotos de prova para confirmar minha opinião. Ele olhou para trás e riu tanto que chegou a chorar. — Mas é preciso levar em conta outros fatores. — É o que penso. — Podemos falar aqui mesmo. O general olhou para mim. gostaria de discutir isso com ele. rapaz. que mostrava de novo a cansada máscara de cautela.— Só me lembro de ter ficado tão assustado assim quando voei sozinho pela primeira vez em 1915. Voa de verdade! — Não precisa dizer a mim. Olhei para trás a tempo de ver o capitão correndo atrás do quepe do general. Todo o riso desaparecera de seu rosto. Deve saber que dispomos de ve rbas muito restritas. senhor — disse Forrester. Então vamos até o escritório falar com ele. quer dizer com quem devemos falar a respeito de fatos e ci fras relativos ao avião? — Pode falar com o sr. e deu o que na opinião dele era um sorriso co rdial. espantado. Ele hesitou um momento. — Você manda. Olhei para Forrester enquanto nos dirigíamos para o grupo. agüentando aquela situação em silêncio. Sua mão se estendeu para frente dando leves pancadinhas no painel de inst rumentos. pensando por que continuava a li parado. Aí puxei o manche. — Não é preciso. assuma os controles e volte com o avião para o campo. — Pois as minhas responsabilidades vão muito além disso. secamente. senhor. Uma sombra desceu sobre seu rosto. envolv endo-os no turbilhão de vento provocado pelo avião. Eu não conseguia compreender por que ele suportava aquilo tudo. senhor. — O que acha? — Sem dúvida alguma. senhor. Estávamos a trezentos metros de altitude. Não com a reputação que tinha. general. Agora. general — disse imediatamente. comprei boas parti das de explosivos dele e. Tinha certeza de que o a-vião não perderia as asas num mergulho desses? — Certeza não tinha! Mas não podia haver melhor ocasião do que esta para descobrir! Ele riu. — Então. Forrester. general. Diga àquele velho caduco lá embaixo. Forrester? — disse ele. Fiz uma viragem bem ampla e dei um toque no ombro de Forrester. Poderia a qualquer momento ganhar vin te vezes mais em qualquer companhia de aviação do país. Deslizei para trás a cobertura de plástico e saltamos. O general já estava com o quepe na cabeça. Tornei a bater no ombro de Forrester. Não fazia sentido. O avião pousou com a leveza de um pombo voltando ao seu pombal. Acho que não liguei os nomes. — Ah! Desculpe.

dando-lhe as costas e ca-minhando para o hang ar. Os cascos erra ram meu pai por uma fração de centímetro. Meu pai já estava pronto para o seu dia de trabalho. — O que você vai fazer com ele? — perguntei. passando por entre as traves. curioso. Mas a memória da pessoa continua a ata-zanar nossa vida como se ela ainda fosse viva. — Tolice! — disse meu pai. Enterrar o corpo. O cavalo arregalou . e eu havia ido até lá para ver Nevada amansar um cavalo xucro. avançava sobre ele a coices e dentadas. — Ele é um louco — exclamou Nevada. enquanto os vaqueiros mexicanos a fugentavam o animal. filho de uma puta — disse meu pai calmamente. Seus olhos vigiavam meu pai. A essa altura o xucro estava furioso de verdade. O xucro era um cavalo fogoso. Queimou como o inferno. — Por quê? — perguntou ele friamente. pensativamente. E tive de fazer um grande esforço para me dominar. — Por que não coloca uma braçadeira no focinho? Assim ele não poderá mordê-lo. pulando e se contorcendo como s e alguém o tivesse montado. sempre qu e conseguia derrubar Nevada. respirando pesadamente. Pegou um pequeno laço pendurado nas estacas sobre a cerca e. 2 Fui para a saleta dos fundos. seu ordinário. entrou no curral. Enchi um copo de papel e deixei o uísque descer pela garganta. apenas. Pode-se fazer tudo o que se quiser. Ficou encostado à cerca. — Você. Nevada olhou para ele. nos fundos da casa. Estavam tremen-do. tentando mantê-las esticadas. — Se não der certo v ou mandar soltá-lo. que chegava por trás de mim. Nevada conseguiu livrar-se e pular par a a cerca. jogar no mar ou cremar. escarvando o chão. Foi pou co depois do casamento dele com Rina. Então tentou de novo. Na última vez e m que o derrubou. Os vaqueiros pu-xaram mais as cordas. — É justamente isso que ele quer que você faça — disse meu pai. Depois de um tempo. De repente avançou. Olhei para as mãos. Nevada e eu nos voltamos. nosso contrato poderá vir a ser uma coisa muito importante. Mas infelizmente terá de falar c omigo. camisa branca e uma gravata impecavel-mente centrada no colarinh o engomado. Além disso. assim que meu pai ergueu o cabresto. O potro empinou. Q uanto tempo eu ainda teria de viver à sombra de outro homem? — Tenho certeza de que ele gostaria muito. Ficou ali um momento. tentou até rolá-lo pelo chão. Os vaqueiros aper taram com mais força as cordas no pescoço do animal. — Meu pai morreu há dez anos — respondi. general. Fe-chei a porta atrás de mim e andei até a escrivaninha. recuando um po uco. — Ninguém pode chegar perto daquele cavalo para fazer isso sem perder um braço. Lá estava o xucro. Fez um cabresto com a corda enquanto andava na direção do animal. Eram cinco horas da manhã e os primeiros raios de sol projetavam a sombra alongada da figura de meu pai na areia do deserto. O xucro levantou a cabeça e golpeou com selvageria o braço de meu pai. um pequeno vil bastardo preto que. Meu pai conseguiu se livrar por pouco. — Vou experimentar mais uma vez — respondeu Nevada. Os vaqueiros tinham pego o cavalo pelo cabresto e o conduziam de volta. O senhor não conseguiria falar com ele. Tirei da gaveta a garrafa de uísque que semp re ficava ali a minha espera. Senti meu rosto ficar branco. Não era muito comum ver Nevada lev ar três quedas seguidas de um cavalo. Lembrei-me do que meu pai dissera uma manhã no curral. rijo. Usa va terno preto. olhando bem para os olhos do cavalo. Há gente que não morre.ara recordar os bons tempos. e creio que ele gostará de tratar de tudo pessoalmente. ele se aquietou e meu pai voltou a se aproximar. que Morrissey usava como escritório. Seus gritos e apupos cortavam a brisa matinal.

mas eu era mais alto. A única linguagem que entendem é uma pancada na cabeça. Mas eu ainda podia ouvir sua voz. os dentes à mostra. os olhos soltando faíscas. S entou-se na cadeira sem falar. o animal ficou imóvel por uma fração de segundo. Nevada e eu. Eu dei uma risada. Dessa vez.os dentes e tentou mordê-lo. Os dois ficaram se encarando por alguns mom entos. ao lado da de meu pai. Não estou com fome — respondi. — Você aprendeu que Nevada não pôde montar naquele animal até que eu tornei isso possível. que ia chegando com uma bandeja. Havia um brilho de triunfo nos olhos dele quando voltou a me olhar. assim que o a-nimal tocou as patas no chão. colocando a corda em cima da cerca. meu pai recuou um pouco. Sentindo-se livre. Já se haviam passado doze anos. muito obrigado. Meu pai e stava ali. ofegante. Meu pai desviou ligeiramente o braço. depois. os dois vaqueiros. que então se deitou de lado e ficou um momento ali. Então dobrou seus joelhos. sentindo um nó na boca do estômago. aproximando-se do xucro. Nevada estava passeando com o potro pa ra cima e para baixo. O que me interessa é você. e a cabeça do anima l ainda roçou nele. — Agora você não terá muito trabalho com ele. — Deixe-me. observando-os. sem sorrir: — Alguns cavalos são como gente. — Não. — Não pensei que se interessasse tanto por cavalos -— disse eu. Meu pai. — Larguem-no! — gritou meu pai aos vaqueiros. Papai tinha razão. Os dois homens se olharam por um momento. — Nunca chega perto do c urral. Jonas? — perguntou gentilmente Rina. estávamos silenciosos. habituando-o ao manejo das rédeas. ainda mais comprida. com as pe rnas trêmulas e a cabeça baixa. Nós nos viramos e ficamos observando Nevada montar no cavalo. — E daí? Meu pai virou-se. Não a levantou nem quando meu pai passou pela frente d ele e atravessou o curral para voltar até onde nós estávamos. Saí apressadamente da sala de jantar. Jonas? Nevada já estava dentro do curral. deixe-me! — murmurei com raiva. na varanda dos fundos. — Cavalos pouco me interessam. puxou as rédeas e o fez levantar-se. Quando voltei ao curral. largaram as cordas. O xucro ficou um instante parado. dando um soco em cima da escrivan . Es te pulou um pouco. e deu uma palmada no pescoço do ani mal. pouco acima dos olhos. Não era preciso. O barulho do murro repercutiu até onde nós estávamos como uma pequena explosão. confuso. Meu pai fez rapidamente uma volta para o lado. levanto u a cabeça e olhou para meu pai. Nós quatro. quase esbarrando em Robair. El e não teria necessidade de me dar uma pancada na cabeça. do mesmo modo co mo ecoara naquela manhã. com mais de um metro e oitenta de altura. O potro ficou parado. Meu pai virou-se para mim. mas era evidente que sua disposição estava quebrada. alto e forte em seu terno preto. Entrei com meu pai na sala de jantar. Rina estava de costas para mim e seus cabe los brilhavam como prata quando ela estendeu o rosto para meu pai dar-lhe o beij o matinal. Ele era um homem bem grande. Vi o punho fechado de meu pai atingir o animal como um martelo. e as pernas dianteiras se enrugaram como se fossem de borracha. mas não terá tamanho para calçar os meus sapatos enquanto eu não deixar. velho. na frente dele. — Vamos tomar café. então. — Não vai tomar café conosco. — Daí que você pode ser grande quanto for. Alcancei meu pai na va randa dos fundos. Nevada — disse meu pai. O cavalo não estava mais dando trabalho a Nevada. Então meu pai começou a levantar a mão e o potro explodiu. Depois. enquanto recuava para atacar de novo com seus coices. Os olhos estavam fit os uns nos outros. até que o animal pareceu dar um grande suspiro e deixou sua cabeça cair novam ente no chão. abrindo os braços como querendo eximir-se de qualquer responsabilidade. — Não acho que haja muito o que aprender em vê-lo dar uma pancada na cabeça de um potro. Ainda tem muito que aprender . Eu sabia o que estava pensando. A cabeça levantada do potro projetava a comprida sombra pelo chão do curral. mas atirou-se contra ele.

Era verdade. é uma coisa que ele pode testar por si mesmo. empurrando a garrafa de uísque para eles. — Onde poderá consegui-los? Não os tem agora. — Ele vai consegui-los. — O que quer dizer com isso? — perguntei. Não me faltavam recursos financeiros para enfrentar um revés. olhando para mim de boca abert a. — Obrigado — eu disse. Só se interessava por seu trabalho. — Não fique parado aí. É uma maneira pela qual poderíamos comprovar as qualidades do nosso avião. — Não sei ao certo — murmurou lentamente. Um raio de esperança brilhou nos o lhos de Morrissey. As escolas de planadores estão preparando dez mil pilotos po r mês e. — Não repare. Tem encontro marcado com um fabricante de papel higiênico. — Ao menos. Cord! Olhei surpreso. — A propósito. . — E isso não tardará. — Não quer? Deixou de beber? Não respondeu. — Talvez eu possa fazer algo — disse então Forrester. — Vamos ao general — eu disse. mas eu aceito — disse Forrester. Tive de fazer um esforço para voltar ao presente. Forrester apareceu pela porta atrás dele. O dinheiro todo foi meu. Era um desses cam aradas que não dão o menor valor ao dinheiro. pegando um copo de papel e servindo-se de uma boa dose.inha. mas McAll ister fora camarada e lhe dera como gratificação dez por cento sobre os royalties do sutiã especial e no ano anterior ele recebera só por isso mais de cem mil dólares. Basta Hitler concluir seus preparativos — Quando acha que será. Morrissey tinha um con-trato de emprego comum. — Não chegará nela — afirmei. Eu sou um sujeito à antiga. — Sentem-se e tomem um drinque — convidei. Tetas não iriam deixar de ser moda por bom tempo ainda. — Maior razão para que eu procure convencer essa gente a experimentar o seu avião. que estipulava que todos os seus planos e invenções pertenciam à companhia. mas Morrissey não desfranziu a testa. — Acha mesmo que pode? Forrester deu de ombros. — O CA-4 é o melhor avião que já projetei! — E daí? Que diabos! Você não gastou nada. Nem assim Morrissey sorriu. — É o melhor avião que já vi. Morrissey — disse ríspida e rapidamente. Esc ute. Terminei meu uísque e acendi um cigarro. onde se encontra o velho rapaz? — Voltou para a cidade. Estava indignado comigo mesmo. Quando ele tiver suficientes aviões e pilotos treinados . — Voará sobre ela. e tenho receio de ver o país desprepa rado quando as coisas começarem a acontecer. — Você não me deve nada. Não gostaria que o perdêssemos por causa da estupidez de um ve lho. logo depois. Ele entrou hesitante e. mas ninguém gosta de jogar um milhão de dólares pelo ralo. Forrester. — Ficaremos gratos por tudo o que fizer. — Pode entrar. Então não esperei que dissesse mais nada. Morrissey estava na porta aberta. — E conheço. Messers-chmitt começará a produção em série do seu ME-109— O estado-maior pensa que Hitler não poderá fazer muito quando chegar diante da linha Maginot. Forrester riu. E que lucro lhe dá a c onstrução de aviões? Tudo que você vier a ganhar com o CA-4 não chega nem à décima parte do q e lhe rende a patente daquele sutiã que você fez para Rina Marlowe. — Sr. Estive lá há menos de nove meses. O mercado crescia sem parar. Não devia te r deixado que uma referência infeliz a meu pai me perturbasse daquele jeito. Cord? — Daqui a três ou quatro anos. Mas McAllister é que vira o valor comercial da coisa e requerera uma patente em nome da Cord Aircraft. Cord. antes de o verão acabar. Morrissey nada comentou. — Eu disse talvez. apenas redargüiu: — O que vamos fazer agora? Tornei a servir-me de uísque e disse: — Eu estava agora pensando em declarar guerra aos Estados Unidos. você fala dessas coisas como se as conhecesse bem. Empurrei o uísque para ele.

. Cord? — perguntou no seu inglês de sotaque peculiar. com a cabeça enfiada na sarjeta. — Os judeus do mundo estão condenados. O dinheiro tinha de ir para a Alemanha. Strassmer quis m odificá-lo. Duas vezes enquanto estávamos olhando. — Por que não vai para junto delas? — Talvez eu vá. não é mesmo? Poderia ter poupado seu dinheiro se esperasse apenas mais um dia. — E daí? Por que ele não chamou a polícia? Strassmer apontou a esquina. Eu estava naquela cidade por ocasião de minha visita anual à Europa. — Aquele homem é judeu. Fiquei em silêncio por um momento. na rua. Levantou de sua cadeira e foi até a janela. Não havia outro jeito. e fora ele quem inventara o processo de moldagem de alta rapidez que eu comprara e vendera a um consórcio de industriais americanos. Chamava-se Otto Strassmer e começara a vida como técnico de controle de qualidade nu ma fábrica de porcelana da Baviera. Fui até a janela e olhei. — Mas por quê? Por que transferiu o dinheiro se tinha consciência de que os nazistas são nossos inimigos potenciais? — O dinheiro foi para o resgate de um judeu — disse eu. depois de estar em vigor por vários anos. que seria depositado em seu nome nos Estados Unidos . Mas sou alemão.. — E por que nada fizeram? — Porque têm ordens de não intervir nesses casos. — Aqueles dois viram tudo o que aconteceu. mas. um grupo de jovens vestind o camisas marrons. deram-lhe alguns pontapés com mais desprezo que raiva e se foram. como os judeus da Alemanha — disse-me ele. — Por causa do milhão de dólares que você depositou no Reichsbank? Lancei uma rápida olhada para ele. haviam empurrado o velho para a sarjeta . — Mas não posso nem me ima ginar gastando um milhão de dólares por um deles. Ali. — Sabia que a proibição ia ser decretada. — Alguns dos meus melhores amigos são judeus — disse Forrester. Virei-me para Strassmer. pouco mais que meninos. Estava disposto a abrir mão de to-dos os royalties daí por diante em troca de um pagamento de quitação de um milhão de dólares. Os rapazes ainda ficaram alguns momentos observando-o. Certas pessoas me acusaram de ser simpatizante nazista. E ainda tenho esperança de que essa loucura passe um dia. É claro que isso era vantajoso para mim. Foi o que eu s oube menos de um ano depois no gabinete do Reichsmarschall Göring. Então respondi: — Acho que sim. — Nós. o sangue cor rendo pelo nariz. sr. Pudemos vê-lo estendido no meio-fio. diante do Adlon. Sua parte dos royalties subiria a muito mais que isso durante o período da concessão.— Agora me lembro. Da cerâmica havia passado para a matéria plástica. logo depois que Hitler subiu ao poder. Minha mulher e minha filha já estão nos Estados Un idos. Então perguntei. — E o que isso tem a ver com você? — Sou um judeu — disse simplesmente Strassmer. Olhei-o por um momento. O nosso contrato original foi à base de royalties. Os jornais falaram disso. Ficaria muito grato se as procurasse para con-tar que estou bem. não foi? — Claro que não. d . — Não podia esperar. Depois. as esperanças de Otto Strassmer nunca se concretizaram. — Venha v er. e Strassmer expôs o que desejava. Acontece que transferi o dinheiro para lá na véspera do dia em que Roo sevelt proibiu a transferência de fundos para a Alemanha. Depois acendi um cigarro. sr. Só não compreendia por que ele fazia isso . Cord. sem compreender. Hitler afirma que os judeus não têm dire itos perante a lei alemã. Foi em 1933. Forrester não era tão simples como se fazia parecer . — Guarde-o até posterior decisão minha. E não falaram muito bem. — Quer saber por que. no momento certo. No entanto. — O que quer que eu faça com o dinheiro?. Havia dois policiais. Otto fora me procurar no meu quarto de hotel em Berlim. tornei a servir-me de uísque e disse: — Esse judeu valia isso. atormentavam um velho metido num capo te.

— O que achou de nossa fábrica? — Estou impressionado. Göring deu um amplo sorriso. Göring me levou para um canto. com a cabeça. — Nesse caso. o engenheiro alemão entrou no meu escritório em Nova Iorque. já reconhecemos isso e es-peramos de braços abertos os nossos amigos e aliados do outro lado do mar que queiram unir-se a nossa cruzada. Ele ficou me olhando. o Reich confiscou todos os bens de um certo Otto Str assmer. Ele assentiu. surpreso. — Venha trabalhar comigo. quando vi alguns dos esboços do ME-109 no esc ritório da Mes-serschmitt. sou encarr egado de ordenar-lhe que deposite esse dinheiro no Reichsbank. Até então. Concordei com a cabeça. Sorri para ele. Logo que ele saiu do meu escritório. Cord. Mas percebi que nada fazíamos de secreto. por que decepcioná-lo? Um judeu a mais ou a menos não tem grande importânc ia para a Alemanha. — Agora fico sem saber o que vou dizer ao führer. — Compreendo — respondi levantando. — Claro — concordei. Não sou mais um homem rico. — Que vai fazer agora? — perguntei. — Não temos tempo a perder. — Talvez esse seja o melhor caminho. — Otto Strassmer sofreu um grave colapso e está internado num hospital. Strassmer. — Nós. Depois vou procurar trabalho. Espero vê-lo de novo no jantar. Ele concordou. Não gostei da expressão "ordenar-lhe" e disse: — Estou procurando falar com o sr. claro. Vai ficar muito de-cepcionado quan do souber que não receberemos o dinheiro. homens da aviação. — O führer não vai gostar disso. E. Mas voltou dizendo em voz mais baixa: — O führer ficou muito satisfeito com sua cooperação. Strassmer entrar no meu escritório em Nova Iorque — disse eu. vou ver minha família no Colorado e descansar um pouco. Naquela noite. Quando receberemos o dinheiro? Gos taria de dar a notícia ao führer com certa antecedência. dei sinal verde a Morrissey para continuar tr . Ele me olhou. — No dia em que o sr. — Heil Hitler! — disse. apertando um b otão em sua mesa. — O tenente Mu eller o escoltará à fábrica Messerschmitt. Considerarei o milhão de dólares como um adiantamento sobre seus royalties. Apenas em es-cala um pouco maior. Göring sorriu. seguimos o padrão de sua fábrica na Califórnia. sorrindo. — O Terceiro Reich não esquecerá seus amigos — afirmou o Reichsmarschall. Exatamente um mês depois. estaríamos odos perdidos. excelência. pensativo. num gesto com a cabeça. agradecido.a Nova Ordem. Eu havia dito que o senhor era nosso amigo. não tive mais dúvidas. Strassmer. — Ótimo — comentou. — Antes de mais nada. — Heil Hitler! — respondeu Göring displicentemente. e se voltou para mim. não havíamos trabalhado para o governo. A fábrica Messerschmitt me abriu os olhos. assim. Um jovem tenente apareceu na porta. — Sou amigo também do sr. Nada havia de parecido com aquilo em ma téria de fabricação de aviões nos Estados Unidos. esperando que ele voltasse a falar. tentando imaginar como eles haviam conseguido entrar na minha fáb rica. — Sim. sr. A única coisa comparável eram as linhas de montagem de automóveis em Detroit. sempre nos entendemos — continuou Göring. o braço levantado na saudação nazista. Se não tomássemos providências. pensativamente. Depois virou-se para ir embora. — Bem. Jogou alguns papéis em cima da mesa e disse: — Em cumprimento às novas leis. Só fazíamos aviões comerciais. Fiquei em silêncio. Soubemos que há uma certa quantia que é devida ao mesmo e. en carando-o com firmeza. por ocasião do jantar.

— Mas o sr. — Quero apenas fazer uma pergun ta. o maître. A questão agora era saber quantos aviões o Exército ia compr ar. Joguei as roupas na cadeira . monsieur Cord! Vai almoçar sozinho? — Não vou almoçar. Quatro horas em ponto. agora. Era Mac. Corri os olhos em torno e fui para os elevadores. — Estou tentando falar com você a tarde toda. — Creio que ele está hos pedado aqui. — General. Estava muito agitado e parecia necessitado de mais alívio do que podia encontrar no lugar para onde estava indo. Olhei para o relógio de pulso ao estender a mão para o aparelho. Difíc il mesmo seria fazer o Exército dos Estados Unidos compreender isso. — Você não me disse nada disso. Gostar . Só conseguira pegar no sono naquela noite por volta das cinco horas da manhã. virei-me e o vi ao lado da mulher com quem falara no campo de aviação. ouvi a voz áspera pelo fone: — Fala o general Gaddis. — Pode ligar para ele às quatro horas. D iz ele que é urgente — insistiu ela. — Como eu poderia. Desliguei. quem fala é Jonas Cord. Beijou sua própria mão. número 31-15. — Ótimo.abalhando no CA-4. A senhora que está com o coronel Forrester. — Tenho um encontro marcado à uma da tarde no Waldorf —disse. McAllister me recomendou que o chamasse logo que o se-nhor voltasse. Estou no meu apartamento aqui. com N orman sob controle. sem muito interesse. Estranhei. a esposa do general. Não estava mais preocupado. Dentro em pouco. 3 O que eu mais queria era tomar um banho e dormir um pouco. — Ah. passando-lhe uma nota. quem é ela? Rico sorriu com ar de conhecedor. Cheguei até a en-trada do salão e f iquei esperando que Rico voltasse. não? É madame Gaddis. A campainha do telefone me acordou.. o tempo de que dispúnhamos era curto. Onde foi que se meteu? — Estava dormindo. É possível que consiga convencê-lo. Chegou ao Waldorf comigo e seguiu seu caminho enquanto eu me dirigia para os ele vadores. Tudo estava entrando nos eixos. levá-los para uma mesa num canto. Quando saí do banheiro. Eu o vi atravessar o vestíbulo na direção dos lavatórios. — Charmante. — Vou falar também com o general. Eu bem percebera por sua atitude com Forrester. que ela não o houvesse esperado lá. De repente. — Vou voltar para a cidade e dar alguns telefonemas para Washington — disse ele. liguei para a telefonista do hotel e pedi que não fizesse ma is ligações para mim até quatro horas da tarde. caí na cama e dormi como uma criança. — Dormindo? Temos uma reunião da diretoria nos escritórios de Norman. McAllister e Pierce logo estariam de volta ao hotel. Rico — respondi. A reunião dos acionistas deveria estar terminando àquela hora. Pela primeira vez desde que pousara o avião no Campo Roosevelt. O general devia estar ali por perto. comecei a me senti r melhor. — Tenho um almoço hoje que não gos-taria de perder por nad a. Se não estava enganado. mas pouco me incomodei. Entre eles devia haver al go mais que Exército e aviões. Olhei para o relógio. Acendi um cigarro enquanto esperava. Olhei por sobre a escrivaninha para Forrester. Quase meio-dia e meia. — Quer que eu o leve? — Com prazer — disse Forrester. O telefone tocou várias vezes enq uanto eu estava debaixo da água. fui para o boxe do banheiro e abri o chuveiro. se você não atendia ao telefone? — Quero falar com o general Gaddis — pedi à telefonista do hotel. Vi Rico. Já deveríamos estar lá.

general. tenho uma garrafa aqui à sua espera.. Mac e Dan Pierce entraram. Que tal daqui a quinze minutos? Desliguei antes que ele pudesse responder e liguei para a copa. numa explosão. O telefone da casa dela não atende. — Ele não quis falar com Dan. O senhor é um moço grosseiro. o telegrama de Zukor. — Minha mulher? — disse ele. Já resolvi a caso de De Mille com a Paramount. — Também quero — disse Dan. Não acredito que o Departamento de Guerra fique satisfeito em saber que uma questão pessoal serviu de base para a rejeição de um avião c omo o CA-4. general. uma garrafa de uísque escocês. — Ela é a única coisa que nos está pren-dendo agora. o que o senhor gosta de beber? — Uísque — respondeu ele. — Mas o contrato dela lhe dá o direito de recusar scripts. Nós dois sabemos com quem ela se encont rou hoje às treze horas para almoçar. Temos de encontrá-la. — Mas sabia que nada podia fazer. Antes da reunião.. general. — Continue tentando. — Nada temos a conversar. Falei até com Louella Parsons. Mac. Ouvi o barulho dos pratos pelo telefone e . Sabe perfei-tamente que você perde ria tanto quanto ele se requeresse a falência. Seria o maior filme já feito no estilo de De Mille. Desliguei o telefone e perguntei: — Então? Como foram? — Bernie guinchou como um porco sangrando — disse Pierce. aprovando tudo. — E as ações dele? — Não sei. — Logo veremos. hoje de manhã. . senti fome. — Espero que seu raciocínio esteja certo. O estúdio não sabe o nde ela está. do contrário entraremos com o pedido de falência da companhia. e isso nos custaria seis milhões de dólares. Pedi três sanduíches de carne. — Mas gosta muito de dinheiro. — O que ela tem com nossos negócios? — Muita coisa. mas ela também não sabe do paradeiro de Rin a. — E se ela não quiser faze r o filme? — Vai fazer. — Está na minha pasta. — E não estou. — Pedi-lhe que convença o v elho a vender. uma petição par a que fosse nomeado um síndico para a massa falida. É sobre sua mulher. Estava prestes a conseguir. um bule de café. — Não está dando um passo maior que suas pernas? — perguntou Mac. mas Dan era todo sorrisos. queria comer alg uma coisa. — A Paramount está de acordo? — Recebi. também. Eu havia mandado fazer aquela porcaria especialment e para ela. Acham que po dem conseguir a decretação da falência. Era a história de Maria Madalena. falei com nossos advogados aqui. e o título seria A pecadora. — Ótimo — disse eu. — Já preparou tudo? — perguntei a Mac. — Não é sobre minha falta de educação que desejo conversar. Não podia deixar de ser assim. Quero que ela leia aquele script. Houve um longo silêncio do outro lado do fio. — Mas você não parece muito contente com isso. — Para que pensa que eu quero a empresa de Norman? A única c oisa de valor que eles têm é o contrato de Rina. uma garrafa de leite. Íamos filmá-lo por um processo nov o chamado Technicolor. conseguiu falar com Rina? — Não. duas d e bourbon e uma porção du-pla de batatas fritas. inconsciente e. Norman tem muita tarimba nos negócios. sim — afirmei. E não vai querer perder tudo o que tem só para me fazer companhia. — Ela vai aprovar esse. — A propósito. O telefone da copa finalmente atendeu.ia de conversar com o senhor. Ele sabia do que eu estava falando. — Mas eu falei com David Woolf — interferiu prontamente Dan. Nada havia comido desde o café da manhã. Fiz tudo o que era possível. tudo o que queri a. rindo. automaticamente. Mac estava com seu habitual ar de preocupação. de repente. Dan. Não conseguirá enganá-lo assim. Jonas — disse Mac. Enquanto esperava. se não estou enganado. — Ótimo.

Dan o trouxe até o qua rto. — Bem sabe como são as mulheres jovens. Cord. quase chorando. Ele abriu a garrafa. é fácil compreender. mas creio que e le não conseguiu falar com o senhor. — É Jonas Cord quem fala. seria outro q ualquer. Por um instante. general. A telefonista localizou Forrester no bar. Olhei para ele com surpresa e me senti envergonhado. Recostei-me na cabeceira da c ama e dei uma tragada bem forte.Quando o garçom chegou e arrumou a mesa ao lado da cama. general — disse eu. o Exército irá comprá-l o. E eu me orgulho de meu trabalho porque procuro dar a nossos homens o que pode hav er de melhor.. a Croix de gu erre. — À vontade. Tomei as providências hoje de man hã. Nada disse e me servi de uma xícara de café. Antes de o garçom sair. Bem. de cara fechada e ainda de pé. sr. — Por que acha que não procederei com justiça em relação ao seu avião? — E fazer o prestígio de Forrester crescer ainda mais aos olhos de sua mulher? Podia entender o que estava se passando dentro dele. — E sirva-se do uísque. Tudo que desejo é que o Exército apure com justiça as qualidades do CA-4. Mas não tardou a descobrir que não passo de um agente de compras graduado. Tornou a encher o copo e continuou: — O Exército é hoje uma máquina complexa. que valor terá isso para o se-nhor? — O que o faz pensar que desejo isso? Comi o resto do san-duíche e disse: — Não vamos começar com escaramuças. cheguei a ter pena do homem. sr. obrigado — disse o general. As estrelas de sua farda não significavam nada. — Não tenho a menor dúvida a esse respeito. mas para dizer-lhe que um grupo de pilotos de prova estará ama nhã de manhã no Campo Roosevelt para testar seu avião. sr. Telefonei para o sr.. . — Não. Quis dar alguns conselhos e dizer que se conformasse. Cord. Era apenas outr o caso de um velho querendo desesperadamente prender uma mulher jovem. Deveria ter cabeça bastante p ara telefonar a Morrissey antes de dar com a língua nos dentes. Morrissey. Sou um homem crescido e tenho dois olhos. Talvez fosse minha imaginação. general. quando falou: — Foi por isso que vim falar-lhe. logo que voltei para a cidade. — Talvez ela tenha pensado que eu era um militar assim quando se casou comigo. com tranqüila dignidade. Um leve sorriso apareceu no rosto do general. — Compreendo. sr. Para cada homem na linha de frente é p reciso haver cinco ou seis homens na retaguarda para manter os abastecimentos. A ga rrafa está aí em cima da mesa. general. — Assim sendo. mas tive a impressão de que estava mais alto e mais aprumado. — Sente-se. — Não foi porque o senhor resolveu meter minha esposa em assuntos estranhos às relações que dev em existir entre nós. Sentem-se atraídas por uniformes. Estava no meio do segundo sanduíche. tomou um bom gole e sentou na cadeira ao meu lado. A mim ele não enganava. Cord — disse ele. Se não fosse Forrester. Talvez não enganasse nem a si mes-mo.. As águias de prata no seu blusão. Estou no meu apartamento aqui no Waldorf e gostaria de con versar com você.. Um homem com o Forrester. — Não faça mau juízo de minha esposa. logo que a porta se fechou. Se seu avião for aprovado nos testes. general. Cord — disse ele. A porta fechou-se atrás dele e eu peguei um cigarro. — Acho que vou aceitar seu uísque. Levantou e olhou para mim. Fiz as apresentações e pedi a Dan e a Mac que nos deixassem a sós. Peguei o terceiro sanduíche e entrei direto no assunto: — Se eu fizer Forrester deixar o Exército. eu já havia comido um dos sanduíches de carne e tomad o a metade da garrafa de leite. não terá necessidade alguma de entrar em qualquer combinação com Forrester por minha causa. Não há nenhuma o u-tra condição. quando o general chegou. eu per-cebi como estava c om fome. — O que acontece é que ela é jovem e impressio-nável.

— Também gostaria de conversar com você. corr iam para os subways e desapareciam nos acessos subterrâneos. — Parece que o velho teve um lampejo de bom senso. — E as modificações no avião? — perguntou Forrester. Ele cumpre seu dever. — Atenda para mim. — Algo assim. enquanto Mac atendia ao telefone. c omo se tivesse passado a tarde inteira ao lado de uma garrafa de bebida. — Você pode falar o que quiser. Quer que eu deixe de ver Virgínia Gaddis p orque isso não ficará bem para a companhia. O telefone tocou enquanto eu abotoava a camisa. — Onde gostaria de começar? — No cargo mais alto que for possível. Ele apanhou outro copo e preparou a bebida. — Já são quase seis horas. você será mais útil à Força Aérea fora d ue lá dentro. — Vá até o campo de pouso e entenda-se sobre isso com Morrissey. E preciso de alguém que conheça as pessoas. rindo. por favor. que saiba o que é mesmo que querem num avião. cobrindo o fone com a mão. Nesse momento. Não podemos fazê-los esperar indefinidamente. E essa idéia nada tem a ver com a compra ou não do CA-4. — Como assim? — Acho que a Cord Aircraft vai ter agora muitos negócios com o Exército. — É só o tempo de eu enfiar as calças. sabe o que eu quero dizer. enquanto ele se servia de um drinque. Mac. — Entendo perfeitamente o que quer dizer. — Há algumas modificações que gostaria de discutir antes dos testes de amanhã. Quan to quer ganhar? — Você me deixou escolher o cargo. Você entende. Ele diz que Norman está falando em ir embora. — Ótimo — repliquei. — Vinte e cinco mil dólares por ano e despesas pagas. contatos. — Eu sei. Estou na Força Aérea desde garoto. Virou seu copo. Poderão ligar para mim daqui a duas horas n o escritório de Norman. Mas estas não tomavam táxis. as pequenas estavam saindo. Chegou ao meu apartamento em menos de dez minutos. Dan acaba de falar com David Woolf. de quem foi esta? Sua ou de Gaddis? — Minha. É por isso que quero falar-lhe. — Diga que acabo de sair para uma reunião. — Não temos muito tempo. depois de nossa conversa no escritório de Morri ssey. mas já com as estolas de pele passadas di splicentemente pelos ombros. — É de Los Angeles — disse Mac. Além do mais. — Você é o novo presidente da Cord Aircraft. — Por falar em idéias. Ele deu um assobio de surpresa e disse: — Não é preciso ir tão longe. McAllister entrou no quarto. felizes por estarem l ivres do trabalho pelo resto do dia. que consiga amigos para nós. — Acho que já é tempo de você deixar de brincar de soldado. 4 Estava apenas começando a fazer frio e as pequenas saíam de seus apartamentos em Par k Avenue ainda trajando vestidos de verão. desde que você me convidas se. Demos boas risadas e bebemos para comemorar. É quatro vezes mais do que estou ganhando agora. Tive essa idéia agora de manhã. — Lembre-se disso quando vier me pedir aumento. Ninguém o impedirá se quiser realizar algumas de suas idéias. Jonas. O Exército só respeita gente de cima. — Quer preparar um drinque para mim? — disse eu. — Nunca se sabe antes de experimentar. mas Gaddis é um bom soldado. Vão testar seu avião amanhã. Vou deixá-lo dizer o salário. — Aceitaria. . Aquilo fazia sentido. Também na Sexta Avenida. — Não sei se serei bom nisso. Seu rosto es-tava vermelho. — É o que você acha realmente? — perguntei. — Eu também decidi hoje de manhã — disse ele.

Ela se acomoda e depois não dá mais vontade de enfrentar o trabalho. — O mercado foi manobrado por você. David Woolf.Nova Iorque tinha uma forma de vitalidade estranha e curiosa. e. Esta reunião é exclusivamente para diretores. Uma delas virou-se para me olhar enquanto eu passava. à sua direita. Norman estava sentado à pont a de uma mesa comprida. você. à espera de um tempo em que os riscos fossem menores e os lucros maio-res. Forrest Hawley. Ele levantou e avançou um passo largo pelo lado da mesa. — Espera que eu confie nele depois de me haver roubad o a companhia pelas costas? — As ações estavam à venda no mercado livre e eu simplesmente as comprei. Nos outros lugares e stavam os nossos homens: dois corretores. E ela tomou isso como um sinal de encorajamento. Edifícios de escritórios e apartamentos caros. Cinco dólares. você não terá mesmo muito o que fazer aqui. como tantas prostitutas de luxo ainda e stavam morando nos melhores lugares? Havia dinheiro. — Mas a que preço? Primeiro. — E seria capaz de fazer melhor? — Se não pensasse assim. comprando as ações muito abaixo de seu valor nominal. Posso ensinar coisas que você nunca aprendeu na escola. apesar das queixas e dos lamentos da Wall Street. Seus olhos eram grandes e cansados. — Tome para você. A-proximou-se. Depois desta reunião. Parei. Nesse m omento. — Então saia. Ouvia-a murmurar. As construções civis contin uavam. Pouco se importou com o mal que essa manobra fazia à companh ia. O negócio estava engatilhado. aborrecidos. já começavam a parecer velhos. Entrou num café do outro lado da rua no momento em que chegávamos ao novo edifício da RCA. embora vivesse escondi do. — O preço que ofereci foi duas vezes o que paguei no mercado livre. — Cavalheiros. e um homem que eu conhecia de vista no estúdio. Dan e Mac sentaram um à frente do outro e deixaram a outra ponta para mim. — Isso não é maneira de se realizar uma reu nião importante. à sua esquerda. É impossível chegar a qualquer solução numa atmosfera de desconfiança.. e disse: — Aposto como pode. Bernie levantou e disse: — Espere aí. ainda sorrindo. — Desconfiança! — exclamou Bernie. que contrastava co m a atmosfera de depressão geral que pairava sobre o pais. Fica para outra vez. E tem mais.. Tirei um pacote de cigarros do bolso e acendi um. no Rockefeller Center. não estaria aplicando mais de sete milhões de dólares na companhi a. Mas não creio que meus pro-fessores vão aprovar. Mac voltou-se para mim alguns passos adiante a me olhar com ar de irritação. há seis anos que está t endo prejuízo. sim. Eu ainda sorria quando entramos na sala da diretoria. — Não era eu quem dirigia a companhia. quase sem mover os lábi os: — Você vai ser o primeiro hoje. — É só dois dólares. depois para mim. Meti a mão no bolso. Quer me fazer começar bem a noite? Sorri para ela. — Diga a seus amigos que farei um preço especial para todos. A essa altura a conveniência ou não d e minha presença na reu-nião já havia sido esquecida. Prefiro retirar-me a se ntar à mesma mesa com você. o tesoureiro. Mac e Dan passaram. benzinho. com suas listas de empregos escritas a giz. Se não havia dinheiro. um banqueiro e um conta-dor. Os quadros-negros. tirei um dólar e o coloquei na mão dela. A mulher olhou de relance para eles. E agora ainda quer que venda as minhas ações ao mesmo preço vil que pagou pelas ou tras? Sorri para mim mesmo. Ela olhou para o dólar e murmurou: — São camaradas como você que mimam demais uma mulher. Temos de discutir muitos problemas graves que dizem respeito ao f uturo da companhia. Cord. havia cartazes tristemente pendurados diante das agências de emp regos. mas inteligentes. O velho achava que a melhor ma neira de conseguir o que queria era me atacar. e as putinhas de dois dólares já haviam iniciado sua patrulha notur na. forçou uma baixa no mercado. sim. cavalheiros — disse McAllister. . Na Sexta Avenida.

como uma boa esposa pode economizar com o dinheiro de despesas domésticas. setecentos mil dólares. — Passei a tarde ocupado e consegui compromisso s de acionistas em número suficiente para me assegurar a maioria dos votos. gostaria que eu lesse aos presentes a relação de valores líquidos de suas propriedades particulares e holdings. — Sr. as que estão em seu nome e no de sua esposa? — Relação? — exclamou Bernie. a convite. Los Angeles. e quem achar que pode me deter te rá de enfrentar um processo judicial como nunca viu antes em sua vida. mas sob a obj eção do presidente. Cord concluam as negociações a respeito da venda de suas ações. David. A verdade é que não cheguei a esta idade para entregar de bandeja minh a própria companhia. — Se o interesse do presidente pelo futuro da companhia fosse tão sin-cero quanto o nosso — disse polidamente McAllister —. Olhou para mim. Manhattan Company Bank. Jonas Cord. Lehman Broth ers. que é a eleição dos diret ores da companhia para o próximo ano. só pelas ações. Possuo apenas algumas ações de minha própria companhia. Norman o que faria com os sete milhões de dólares. que chegam a seiscentos mil ou setecent os mil dólares. um milhão e quatroc entos mil dólares. ainda que ele me pagasse. O rosto de Bernie assumiu uma expressão astuta. Além disso. Tenho planos para assegurar o funcionamento próspero da companhia.Norman me encarou com raiva durante alguns instantes. Se ele não fosse tão ladrão. Depois. Nova Iorque. Nova Iorque. Norman. que não tinha o menor conhecimento da ex istência de todo aquele dinheiro. — Gostaria de perguntar ao sr. — Onde conseguiu essa relação? — Não tem a menor importância a maneira pela qual a consegui. E a sra. Algo me disse que as desilusões de David não iam ter minar por aí. que podem ser modestamente avaliadas em cinco mil dólares por hectare. três milhões cento e cinqüenta mil dólares. Pio¬neer National Trust Company. dois milhões e cem mil dólares . — Que relação? Olhei para McAllister. o sr. para que ele possa doar mais dinheiro aos seus amigos nazistas. Entregaria tudo ao Fundo de Ajuda aos Judeus? — Não é da conta do sr. Não — contin uou ele. Cord o que eu faço com o meu dinheiro! — gritou ele da outra ponta da mesa. — Conti nuo a ter como sempre uma fé inabalada no destino da companhia. . Abri um sorriso. a-té apontarmos outro. perto de Beverly Hills. não. provocando uma questão judicial que possivelmente não poderia vencer. à espera de alguma reação. confuso. Até McAllister não pôde deixar de sorrir. voltou para sua ca deira e sentou. Com que ele iria lutar? Já dis-púnhamos de quare nta e um por cento das ações com direito a voto. E entregaria a Cord. O sr. se eu quiser lutar. O velho virou-se para o sobrinho: — Veja. Norman possui ainda quatrocentos hectares de terras valio síssimas em Westwood. há alguns depósitos menores espalhados em vários bancos do país. caso os desse a ele. certamente ele iria perceber o prejuízo que ca usaria. — Não sou tão ingênuo quanto pensam — disse. Ele me entregou uma folha de papel que tirou de sua pasta e comecei a ler: — Depósitos em nome de May Norman: Security National Bank. D avid. David — disse Bernie. Pegou um lápis e começou a bater na mesa com ele. — Sr. — Por que acha que estou interessado na venda de minhas ações? — perguntou Bernie. dando um soco na mesa —. — Está aberta a sessão ordinária da diretoria da Norman Picture Company. a companhia que construí com o suor do meu rosto. — Trataremos agora do primeiro item constante da ordem do dia. em voz alta —. sete milhõe s de dólares. Permaneci impassível no meu canto. eu teria dado uma gargalhada. por sua aparência. — Não sou rico como ele. Bernie olhou para mim. Fiz um sinal para McAllister. proponho que a eleição dos diretores seja adiada até que o s enhor e o sr. Mas o sobrinho mostrava. Cord está presente a convite de alguns diretores. Boston. O velho continuou: — Há quorum para a sessão e também está presente. Levantei realmente zangado. Tome nota d isso. Incorporated. você atuará como secretário. presidente — disse Mac —.

se tomasse conhecimento desse negó-cio. sr. não procuraram senão ajudá-los? Não pude mais. vendo Bernie assinar os papéis de transferência das ações. Iriam para as praias. Havia um sorriso abjeto em seu ro sto. Arremessei-a s para Bernie. desprezível. E de certo modo foi pena o que me inspi rou Bernie naquele momento. nenhuma honra ou ética. Quer vender ou não? — Não por três milhões e meio. enquanto sua companhia estava perdendo cerca de onze mil hões de dólares. seu pequeno judeu bastardo! Não tolero mais seus desaforos. Volte. Ela é nossa agente nes sas compras. desde que as ações são vendidas no mercado aberto. Não é preciso gostar de um sujeito para ter pena dele. Era um velho egoísta. que não perd oa nem aqueles que. — Por que faz isso comigo? — choramingou. — Agora. Fiquei perto da janela. Isso lhe dá o direito de me roubar? — Nesses últimos seis anos. para os parques. Só está aborrecido agora porque não estou me deixando roubar de novo! — Nazista! Soltei lentamente a presa e disse a McAllister: — Pode requerer a falência. mas eu tinha a impressão de que estava assinando aquelas transferências não com tinta. Aqueles pequenos seres. que lá embaixo se agitavam como insetos. Havia um ódio mortal em seus olhos. meteu a mão no meu bolso. O rosto de Bernie estava vermelho. Por cinco milhões eu poderia pensar. que me en-tregou as petições. O dia seguinte seria um sábado e eles estariam de folga. — Não tenho tempo para tomar conhecimento dos negócios dela. Era e stranho vê-lo desfazer com algumas penadas o trabalho de toda sua vida. descobriria que ela negocia com todos os fornecedores da Norman Conpany. Puxei-o pelo colarinho e encostei-o na parede . pedirei a falênc a da companhia. — Espere um pouco! — a voz de Bernie me fez parar. Os que tivessem dinheiro dariam um passeio de carro pel o campo. Não hesitaria em sacrificar fosse quem fosse por seus interesses. é bem possível que vá parar n a cadeia. Por que não deveria receber comis-sões? Já estava farto daquilo. — Você não ousaria! — Não? — disse eu. Não poderá dizer que não está cient e de que ela recebe uma comissão de cinco a quinze por cento em todas as compras f eitas por esta companhia. — Não está em posição de barganhar. darei entrada nesses papéis em juízo ama nhã de manhã. Parece estar esquecendo que a administração de sua companhia é da alçada da Justiça fede ral. Se não aceitar minha oferta. Norman. E mova também uma ação criminal contra Norman e sua mulher por roubarem a companhia. Veremos então se a Justiça federal achará ou não características criminosa s nas transações de sua mu-lher que o senhor parece considerar perfeitamente legítimas . Toda vez que s e ofereceu para me ajudar. resolva. — É possível — disse eu. Levariam a esposa e os filhos e respirariam o ar puro do campo. tinham com certeza pe-quenos sonhos. Tinham sorte. Encarei-o firmemente: — Está bem. depois para mim.Bernie voltou-se para mim: — Então minha mulher economizou alguns dólares. Se não vender. como eu. mas co m o sangue de suas veias. — Não há necessidade de ir embora só porque me exaltei um pouco. Bernie olhou para os papéis. planos diminutos. trinta andares abaixo. Vamos deixar de conversa fiada. Podemos res olver tudo isso em poucos minutos. Gritei: — Escute. Ele afundou-se em sua cadeira — E que mal há nisso? É uma praxe comercial perfeitamente normal. sr. Como cavalheiros. . Assim. Norman. Olhei pela janela para a rua. Ofereci um preço mais do que j usto por suas ações. Encaminhei-me para a porta. — Mas. Levantei e fui até ele. estendendo a mão a McAllister. — E porque odeia tanto os judeus. Não tinha qualquer noção de hones-tidade. me parece estranho que sua mulher tenha depositado um milhão de dólares todo ano em suas várias contas. — Minha mulher é muito hábil e feliz em seus investimentos — defen-deu-se.

estivesse pensando em mim e não em meu pai. gesticulando com a cabeça. — Vamos. Gostava dali de cima. não pela idéia de qu e podiam tirar disso algum benefício. Cord. Cord. — Jonas Cord? — Sim. — Telefonista. — Quer mais alguma coisa.. — a voz dela sum iu. David? O sobrinho se levantou para acompanhá-lo. Norman. Ele se levantou. Talvez a vida lá embaixo também fosse amarga. E eu pretendia ficar em cima o mais possível. David olhou para Bernie. quando alguém dissesse meu nome. Cord? — Não. Estavam assinados corretamente: Bernard B.Não viviam numa selva onde o valor era medido pela habilidade em viver ao lado dos lobos. Ele estava me olhando com uma expressão estranha. — Sim. Os médicos não sabem quanto tempo e la ainda poderá resistir. Gaillard. mas eu cobri o fone com a mão e disse: — Você fica. Passou-me o telefone e ouvi a voz da telefonista: — Los Angeles. quisessem ou não quises sem. No meu mund o. enquanto eu estivesse lá em cima. ninguém seria capaz de pensar que um dia ele venderia sua companhia por três milhões e meio de dólares. Ouvi uma voz de mulher pelo telefone. Cord já está na linha. Passei a tarde toda à sua procura. mas eu não estava certo disso. Quem fala? — Ilene Gaillard. Bernie olhou para mim. Voltei-me para David Woolf. Cord — disse. Não tinham tido um pai que só podia amar o filho se ele fosse exatamente fei to à sua imagem. — Por que não me contou? . Havia algo de familiar nela. — Acho que vai querer isso também — disse ele. Rina sempre me parecera indestrutível. Encefalite. Era como estar no céu. Quando amavam alguém era apenas pelo que o coração sentia. e tomo u a sentar-se. — Há muitos anos.. Senti um gosto amargo na boca. Pelo menos. no E ast Side. pelo menos até que. deixei de ter pena dele. eu sabia. Peguei os certificados e dei uma rápida olhada. quem fala é o sr. Pode completar aquela ligação para o sr. sr. Rina. srta. Tentou um sorriso. sr. entregando-me uma folha de papel dobrad a que havia tirado do bolso do paletó. E não estava particularmente ansioso em descobrir a verdade. — E deseja vê-lo. De repente. Ri-na. — Sim. soluçando.. Senti um arrepio agourento apertando-me o coração. Saí de perto da janela e voltei para a mesa. Não viviam cercados de gente que só pensava em viver perto da fonte d a riqueza. — Sim. balançou vagarosamente a cabeça em gesto afirmativo. o sr. — Mas eu ainda vou fazer uma coisa pelo senhor — disse Norman. Era uma carta em que pedia demissão dos cargos de presidente da companhia e da ass embléia. Posso dizer a ela que virá? — Diga-lhe que já estou a caminho! — e desliguei o telefone. E é melhor se apressar. Mas não foi muito bem-sucedido. Está no Sanatório Colton em Santa Monica. Havia dilapidado e saqueado uma companhia d e mais de quinze milhões de dólares e sua única desculpa era o fato de ele mesmo a ter fundado. — Morrendo? Era inacreditável. Norman. Vi Bernie me olhar de maneira esquisita e depois dirigir-se para a porta. indo até o telefone num a mesa ao canto. sr. sem ninguém para dizer o que se podia ou não fazer. — Você sabia — disse eu.. quando Bernie Normanovitz abriu seu primeiro cinema na rua 4. O que há com Rina? — Está morrendo. O velho deu de ombros e murmurou: — O que mais eu poderia esperar de uma pessoa do meu próprio sangue? A porta fechou-se atrás dele. eu é que fazia as regras e os outros tinham de observá-las.

— Como poderia? Meu tio tinha receio de que, se o senhor soubesse, não compraria mai s as ações. Um estranho silêncio dominava a sala quando peguei de novo o telefone. Dei à telefon ista o número de Morrissey no Campo Roosevelt. — Posso ir embora? — perguntou Woolf. Concordei com um gesto da cabeça. Havia sido redondamente embru-lhado, tosquiado c omo um cordeirinho, mas não tinha direito de me queixar. Conhecia as regras do jog o. Mas aquilo perdera qualquer importância. Agora nada mais importava. A única coisa qu e importava era Rina. Estava impaciente, esperando que Morrissey atendesse o tel efone. A única possibilidade que eu tinha de encontrar Rina com vida era voar para lá no CA -4.

5 O hangar profusamente iluminado fervilhava de atividade. Os soldadores trabalhav am nas asas com as máscaras descidas, e os maçaricos projetavam sua chama azul solda ndo os tanques de combustível às asas. Os mecânicos estavam arrancando do avião tudo o q ue não era absolutamente essencial ao vôo, tentando diminuir ao máximo o peso. Olhei para meu relógio quando Morrissey se aproximou de mim. Era quase meia-noite. Nove da noite na Califórnia. — Ainda demora muito? — Não muito. Já tiramos tudo, mas ainda estamos seiscentos e trinta e cinco quilos aci ma da força ascensional desejável. O centro-oeste estava completamente fechado por tempestades, de acordo com os bo letins meteorológicos. Eu teria de me livrar dela fazendo uma rota pelo sul. Morri ssey havia calculado que precisaríamos de quarenta e três por cento mais de combustíve l para o próprio vôo, e no mínimo mais sete por cento como margem de segurança. — Por que não espera até amanhecer? — perguntou Morrissey. — O tempo deverá estar melhor, e você poderá voar direto para lá. — Não. — Pelo amor de Cristo! Você não conseguirá nem levantar vôo. Se está com tanta vontade de mo rrer, é mais simples usar um re-vólver. Olhei para o montão de coisas já tiradas do avião, e perguntei: — Quanto pesa o rádio? — Duzentos e vinte quilos. Mas você não pode fazer isso. Como irá saber onde está ou qual é o tempo que vai encontrar? — Do mesmo jeito que se fazia antes de instalarem rádios nos aviões. Tire-o! Voltou carrancudo para junto do avião, balançando negativamente a cabeça. Então tive out ra idéia. — E o sistema de pressurização de oxigênio na carlinga? — Trezentos e quatro quilos, incluindo os tanques. — Tire-o também. Vou voar baixo. — Vai precisar de oxigênio nas Montanhas Rochosas. — Ponha um tanque portátil na carlinga. Fui até o escritório e liguei para Buzz Dalton no escritório da Inter-Continental em L os Angeles. Já havia saído. Pedi para transferirem a ligação para a residência dele. — Buzz, aqui é Jonas. — Estava mesmo querendo ter notícias suas. — Preciso de um favor seu. — Claro! — respondeu prontamente. — O que é? — Vou de avião para a Califórnia esta noite. Quero que haja sinais de meteorologia par a mim em todos os hangares da Inter-Continental pelo país. — O que há com seu rádio? — Vou com o CA-4, em vôo sem reabastecimento. E tenho de aliviar o peso. Ele soltou um assobio.

— Você não vai conseguir isso, meu amigo! — Vou, sim. Pisque os refletores à noite e pinte os tetos dos hangares durante o dia . — Faremos isso. Qual é seu plano de vôo? — Não sei ainda. Transmita a ordem a todos os campos. — Faremos isso. Boa sorte. Desliguei o telefone. Era por isso que eu gostava de Buzz. Era um homem com quem se podia contar. Não perdia tempo com perguntas tolas como por que, quando ou ond e. Fazia o que se pedia. Só se preocupava com a linha aérea. E por isso a ICA estava tornando-se a maior empresa de aviação comercial do país. Tomei um gole de uísque e me estendi no sofá. Minhas pernas ficaram penduradas balança ndo na beirada, mas isso não tinha importância. Podia descansar um pouco enquanto os mecânicos terminavam o trabalho com o avião. Senti Morrissey a meu lado e abri os olhos. — Pronto? Ele fez que sim com a cabeça. Levantei e olhei para o hangar. Estava vazio. — Onde está o avião? — Lá fora, aquecendo os motores. — Ótimo — disse eu. Olhei para o relógio. Passava um pouco das três. Morrissey me acom-panhou até o banhei ro. — Você está muito cansado — disse ele, enquanto eu banhava o rosto com água fria. — Acha mes mo que deve fazer esse vôo? — Tenho de fazer. — Coloquei seis sanduíches de rosbife e duas garrafas térmicas de café no avião. — Obrigado. — Fui saindo. Sua mão me fez parar. Estava me oferecendo um vidrinho branco. — Telefonei para meu médico e ele recomendou que você levasse isso. — O que é? — Um remédio novo. Benzedrina. Tome um comprimido caso sinta so-no. Ele o manterá desp erto. Mas tenha cuidado. Se tomar demais, sairá pelo teto do avião. — Começamos a caminh ar para o avião. Ele continuou: — Outra coisa. Só acione os tanques de reserva quando tiver um quarto de combustível no reservatório. O abastecimento por gravidade não func ionará se houver mais que isso no tanque, e pode até ficar entupido. — E como vou saber se os tanques de reserva estão funcionando? — Só saberá quando a gasolina acabar. E se houver entupimento, a pressão do ar conservará o mostrador em um quarto de tanque, ainda que este esteja seco. Chegamos ao avião. Subi na asa e virei-me para a carlinga Senti puxarem minhas calça s. Virei-me. — O que vai fazer com o avião? — Vou até a Califórnia. — E os testes de amanhã? — Ele gritou. — Trouxe até Steve Randall aqui esta noite para ver o aparelho. — Sinto muito. Transfira-os. — E o general? Como vou explicar isso a ele? Entrei na carlinga e respondi: — O problema não é mais meu. É seu. — E se acontecer alguma coisa ao avião? Senti-me de repente satisfeito. Não havia errado no meu juízo sobre ele. Seria um ex celente administrador. Não se preocupava absolutamen-te comigo, só com o aparelho. — Se houver alguma coisa, faça outro — gritei. — Você é o presidente da companhia. Dei adeus e, soltando os freios, comecei a taxiar pela pista. Coloquei o aparelh o em posição e o conservei assim enquanto acelerava o motor. Fechei a carlinga e, qu ando o tacômetro chegou a duas mil e oitocentas rotações por minuto, soltei os freios. Corremos pela pista. Não tentei subir enquanto não cheguei a uma velocidade de cento e vinte quilômetros por hora. Estávamos quase no fim da pista, quando o avião começou a abocanhar um pedaço do céu. Daí em diante subiu com facilidade. Nivelei a mil e duzentos metros e rumei para o sul. Olhei para trás. A estrela Pol ar ficara bem às minhas costas, brilhante, piscando muito no céu límpido e escuro. Era

difícil acreditar que a menos de mil e novecentos quilômetros o céu estivesse fechado . Voava sobre Pittsburgh, quando me lembrei de uma coisa que Nevada me ensinara qu ando eu era garoto. Estávamos seguindo os rastros de um grande felino e ele aponto u a estrela Polar. — Os índios dizem que, quando a estrela Polar pisca desse jeito, há uma tempestade cor rendo para o sul. E a estrela Polar estava exatamente como na noite em que Nevada me disse isso. L embrei-me de outro dito índio que Nevada me ensinara. O caminho mais rápido para o o este é contra o vento. Tomei a decisão. Se os índios estavam certos, quando eu chegasse ao Médio Oeste a temp estade estaria ao sul em relação à minha posição. Virei o avião contra o vento e, quando tir ei os olhos da bússola, a estrela Polar brilhava intensamente a minha direita. Minhas costas doíam, tudo doía, ombros, braços, pernas. As pálpebras pesavam uma tonelad a. Senti que iam fechar-se e peguei a garrafa térmica. Estava vazia. Olhei para o relógio. Já fazia doze horas que eu partira do Campo Roosevelt. Enfiei a mão no bolso e peguei o vidro de comprimidos que Morrissey me havia entregue. Tomei um. Por alguns minutos, não senti nada. Depois, comecei a me sentir me-lhor. Inspirei profundamente, e esquadrinhei o horizonte. Calculei que não devia estar muito long e das Montanhas Rochosas. Vinte e cinco minutos depois, elas surgiram à frente. Verifiquei o mostrador do combustível. O ponteiro estava firme em um quarto de tan que. Eu já havia aberto os tanques de reserva. Passara no Médio Oeste pela orla da t empestade e isso me cus-tara mais de uma hora de suprimento da gasolina. Agora, eu precisaria da ajuda do vento para chegar ao fim da viagem. Virei o manete da gasolina, atento aos motores. Roncavam com força e firmeza ao re ceber nas veias a rica mistura. Puxei o manche e comecei a subir para as montanh as; sentia-me um tanto cansado e tomei outro comprimido. A três mil e quatrocentos metros, comecei a sentir frio. Calcei os huarachos e peg uei o tubo do tanque de oxigênio. Quase imediatamente tive a impressão de que o avião dera um pulo de mil metros. Olhei para o al-tímetro. Estava apenas em três mil e nov ecentos metros. Aspirei mais um pouco de oxigênio. Uma onda repentina de energia in-vadiu meu corp o e eu apoiei as mãos no painel de instrumentos. Aos dia-bos com a gasolina! Eu po deria levantar aquele avião por cima das Mon-tanhas Rochosas com minhas próprias mãos. Tudo era questão de força de vontade. Como os faquires da índia dizem após deixarem as pessoas perplexas com truques de levitação: é apenas uma questão do domínio da mente sobre a matéria. O segredo está no espírito. Rina! Quase gritei. Olhei para o altímetro. O ponteiro havia caído para dois mil e o itocentos e cinqüenta metros e ainda estava descendo. Vi as montanhas que avançavam cada vez maiores para mim. Botei as mãos no manche e o puxei. Pareceu uma eternida de até o momento em que vi as montanhas de novo abaixo de mim. Levei as mãos à testa para enxugar o suor. Meu rosto estava molhado de lágrimas. A est ranha onda de energia havia desaparecido, e a cabeça começava a doer. Morrissey me h avia advertido a respeito dos comprimidos, e o oxigênio me ajudara um pouco também. Girei o manete e regulei cuidadosamente a gasolina que alimentava os motores. Ainda havia quase oitocentos quilômetros a percorrer, e eu não queria ficar sem gaso lina.

6 Pousei em Burbank as duas horas da tarde. Estivera no ar durante quase quinze ho ras. Fiz o avião taxiar até os hangares da Cord Aircraft, desliguei os motores e tra

tei de desembarcar. Ainda sentia nos ouvidos o ronco dos motores. Logo que pus os pés no chão, me vi cercado por uma verdadeira multidão. Reconheci algu ns jornalistas. — Desculpem — disse, e procurei dirigir-me para os hangares. — Ainda estou meio surdo com o barulho dos motores. Não consigo ouvir o que estão dizendo. Buzz também estava ali, um largo sorriso no rosto. Apertou minha mão com força e disse alguma coisa, mas eu só pude ouvir o fi-nal: — ... um novo recorde leste a oeste, costa a costa. Que importância tinha isso para mim naquele momento? — Tem um carro aí a minha espera? — Está no portão da frente. Um dos repórteres adiantou-se, e perguntou aos gritos: — Sr. Cord, é verdade que fez esse vôo só para ver Rina Marlowe antes que ela morra? Ele precisaria de um banho depois do olhar que lhe lancei. Não respondi. — É verdade que comprou a Norman só para ficar com o controle do contrato de Rina? Consegui chegar à limusine, mas eles ainda estavam me bombardean-do de perguntas. O carro partiu. Um guarda de motocicleta foi a nossa frente, tocando a sirene. G anhamos velocidade assim que o tráfego se di-luiu a nossa frente. — Sinto muito o que aconteceu a Rina, Jonas — disse Buzz. — Não sabia que ela tinha sido casada com seu pai. — Como ficou sabendo? — Está em todos os jornais. O estúdio da Norman mandou um press release com a história d ela, e contando que você estava realizando esse vôo para ir vê-la. Mordi os lábios. O mundo do cinema era assim. Um bando de hienas em torno de uma s epultura. — Trouxe uma garrafa de café e sanduíches. Caso queira... Tomei o café. Estava quente, e o senti bater no estômago. Virei-me e olhei pela jane la. As costas estavam doendo de novo. Não sabia se agüentaria esperar chegarmos ao hospital para ir ao ba-nheiro. O Sanatório Colton parece mais um hotel que um hospital. Fica no alto dos penhasco s do Pacífico, dominando o oceano. Para chegar lá, é preciso sair da Coast Highway e p assar por uma entrada sinuosa e estreita. No portão de ferro da entrada, há um guard a. Sua função é exatamente identificar as pessoas. O dr. Colton não é nenhum curandeiro da Califórnia. É apenas um homem perspicaz que perc ebeu a necessidade de um hospital verdadeira-mente particular. As estrelas do ci nema internam-se lá para tudo, para ter um filho, para se curar de entorpecentes o u bebida, para fazer cirurgia plástica ou repousar depois de um esgotamento nervos o. Uma vez do lado de dentro do portão de ferro, podem respirar aliviadas e relaxa r, pois nenhum repórter consegue penetrar ali. Podem ter certeza de que, qualquer que tenha sido o motivo que ali as levou, as outras pessoas só saberão o que elas qu iserem contar. O porteiro estava a nossa espera, porque começou a abrir o portão logo que avistou o guarda da motocicleta. Os repórteres gritaram para nós e os fotógrafos tentaram bater algumas fotos. Houve até um que se agarrou ao estribo do carro e passou pelo portão conosco. Mas outro guarda apareceu e o fez sair na marra. Virei-me para Buzz: — Eles nunca desistem, não é? — É melhor você se habituar a isso de hoje em diante, Jonas. Tudo o que você fizer será no tícia. — Coisa nenhuma, Buzz. E só hoje, por causa de Rina. Amanhã, estarão interessados em out ra pessoa. — Você diz isso porque não leu os jornais nem ouviu rádio. Hoje, você é um herói nacional. O ue estava fazendo despertou o entusiasmo do público. As estações de rádio davam a posição de seu avião de meia em meia hora. Amanhã, o Examiner começará a publicar a história de sua vida. Depois de Lindbergh, ainda não houve quem agitasse tanto a nação. — Por que diz isso? Ele sorriu. — Só vou lhe contar uma coisa. As paredes da cidade estão cheias de cartazes nos quais se vêem o seu retrato e as palavras: Leiam a história da vida de Jonas Cord, o homem misterioso de Hollywood, por Adela

Rogers St. Johns. Tinha mesmo de me habituar àquilo. Adela St. Johns era a colunista de maior prestígi o da cadeia de publicações Hearst. Isso significava que o velho Hearst dera seu selo de aprovação a minha pessoa. Daí em diante, eu estaria vivendo dentro de um aquário, à vi sta de todo mundo. O carro parou e apareceu um porteiro. — Tenha a bondade de me acompanhar, sr. Cord — disse, respeitosamente. Eu o segui escadaria acima, para dentro do hospital. A enfermeira da portaria so rriu para mim, apontando um grande livro preto, encadernado em couro. — Faça o favor, sr. Cord. É praxe do hospital que todos os visitantes as-sinem aqui. Assinei o livro rapidamente, enquanto ela apertava o botão de uma campainha. Um in stante depois, outra enfermeira apareceu. — Queira vir comigo, sr. Cord — ela disse, polidamente. — Vou levá-lo à suíte da srta. Marlo we. Eu a segui até os elevadores, ao fundo do vestíbulo. Ela apertou os botões. Franziu a testa, aborrecida. — Desculpe, sr. Cord, mas terá de esperar alguns minutos. Os dois elevadores estão na sala de cirurgia. Um hospital era um hospital por mais que se quisesse fazê-lo parecer um hotel. Cor ri os olhos pela portaria até encontrar o que eu estava pro-curando. Uma placa dis cretamente colocada numa porta: CAVALHEIROS. Tirei um cigarro do bolso no momento em que as portas do elevador se fecharam. D entro, o cheiro era o de qualquer outro hospital. Álcool, de-sinfetante, formol. D oença e morte. Risquei um fósforo e acendi o cigarro, receoso de que a enfermeira pe rcebesse os meus dedos tremendo. As portas do elevador se abriram e saímos para um corredor muito limpo de hospital . Aspirei com força o cigarro, acompanhando a enfermeira. Ela parou diante de uma porta. — Acho que terá de apagar esse cigarro, sr. Cord. Vi um pequeno aviso alaranjado: É PROIBIDO FUMAR OXIGÊNIO EM USO Dei mais uma tragada e joguei o cigarro num cinzeiro ao lado da porta. De repent e, senti um medo incrível diante daquela porta. A enfermeira a abriu para mim. — Pode entrar, sr. Cord. Entrei numa pequena ante-sala. Outra enfermeira estava sentada numa poltrona, le ndo uma revista. Logo que me viu, disse em tom de cordi-alidade formal: — Entre, sr. Cord. Estávamos à sua espera. Entrei lentamente. A porta se fechou atrás de mim. Pude ouvir passos da enfermeira que me escoltara se afastando. A outra me levou à segunda porta e disse: — A srta. Marlowe está aí dentro. Parei sob o vão da porta. Ainda não dava para vê-la. Ilene Gaillard, um médico e outra e nfermeira estavam ao lado da cama, de costas para mim. Então, como que a um sinal, os três se voltaram ao mesmo tempo. Caminhei até a cama. A enfermeira se afastou de lado. Ilene e o médico se moveram um pouco para me dar espaço. Então eu a vi. Uma tenda de plástico transparente estava suspensa sobre a cabeça e os ombros, e ela parecia dormir. Só o rosto não estava coberto pelas ata-duras brancas que lhe escon diam por completo o lindo cabelo dourado. Os olhos estavam fechados e as pálpebras apareciam cercadas de uma orla azulada. A pele estava esticada sobre as proemin entes maçãs do rosto, dando a impressão de que a carne desaparecera. A boca rasgada, s empre tão quente e viva, estava descorada e entreaberta, mostrando os dentes branc os e perfeitos. Fiquei um momento em silêncio. Não dava para notar a respiração de Rina. Olhei para o médi co. Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Está viva, sr. Cord — disse ele, baixinho. — Mas muito mal. — Posso falar com ela? — Pode tentar, sr. Cord. Mas é possível que ela não responda. Está assim há dez horas. E, me smo que fale, sr. Cord, pode não re-conhecê-lo. Virei-me para ela e disse, compassadamente:

— Rina, sou eu, Jonas. Ela continuou imóvel. Meti a mão por baixo da tenda e encontrei a mão dela. Estava fri a e flácida. De repente, senti um arrepio de horror dentro de mim. A mão estava fria . Ela já estava morta. Morta. Caí de joelhos ao lado da cama. Empurrei o plástico para o lado e curvei-me sobre el a. — Rina! Rina! Sou eu, Jonas! Por favor, não morra! Senti uma leve pressão em minha mão. Olhei para ela, com lagrimas correndo pelo meu rosto. O movimento de sua mão ficou um pouco mais forte. Os olhos se abriram lenta mente e agora estavam olhando para mim. O olhar foi a princípio vago e distante. Depois, clareou e ficou mais firme. Os lábi os se arquearam numa aparência de sorriso. — Jonas — murmurou. — Eu sabia que você viria. — Tudo o que você tinha a fazer era assobiar para eu vir correndo. — Nunca aprendi a assobiar — disse ela, depois de um instante, com visível esforço. Ouvi a voz do médico atrás de mim: — Convém descansar um pouquinho agora, srta. Marlowe. Rina olhou para ele. — Oh, não — ela sussurrou. — Não tenho mais tempo. Deixe-me falar com Jonas. — Está bem — disse o médico. — Mas só um momento. Ouvi a porta se fechar, e olhei para Rina. Ela levantou a mão e me aca-riciou de l eve a face. Segurei seus dedos e pressionei-os contra meus lábios. — Tinha de ver você, Jonas. — Por que esperou tanto tempo, Rina? — Era por isso mesmo que eu tinha de vê-lo. Para explicar... — De que adiantam mais explicações, agora? — Por favor, tente compreender, Jonas. Amei você desde o primeiro momento em que o v i. Mas tive medo. Dei azar a todas as pessoas que me amaram. Minha mãe e meu irmão m orreram porque me amavam. Meu pai morreu de desgosto na prisão. — Você não teve culpa. — Empurrei Margaret pela escada e a matei. Matei meu filho antes mesmo de ele nasc er, roubei a carreira de Nevada, e Claude se suicidou por causa do que eu estava fazendo com ele. — São coisas que acontecem. Você não é responsável por elas. — Sou, sim. Veja o que fiz com você, com seu casamento. Eu não deveria ter ido ao seu quarto no hotel naquela noite. — Você não teve culpa. Eu é que a forcei a ir. — Ninguém me forçou. Fui porque queria ir. Somente quando ela apa-receu compreendi meu erro. — Erro, por quê? Só porque ela estava com uma barriga que não tinha tamanho? E o filho n em era meu! — Que importância tem isso? Que mal faz que ela tenha dormido com outro homem antes de conhecê-lo? Você devia ter sabido disso quando se casou com ela. Se não tinha impor tância nessa época, por que passou a ter quando ela apareceu com o filho de outro ho mem? — Tinha importância. E ela só estava interessada no meu dinheiro. Por que ela aceitou o meio milhão de dólares que lhe paguei pela anulação do casamento? — Não é verdade, Jonas. Ela o amava. Vi isso perfeitamente naqueles olhos cheios de mágo a. E, se o dinheiro era tão importante para ela, por que deu tudo ao pai? — Eu não sabia disso. — Há uma porção de coisas que você não sabe. Mas não tenho tempo de contar mais. Só isso. Arr ei seu casamento. É por minha culpa que aquela pobre criança está crescendo sem ter se u no-me. E quero dar para ela, de alguma maneira, alguma compensação. — Fechou os olho s por um momento. — Talvez eu não deixe muita coisa. Nunca fui muito boa para negócios , mas deixei tudo o que tenho para ela e nomeei você meu tes-tamenteiro. Prometa-m e que zelará pelos interesses dela. — Prometo, Rina. — Muito obrigada, Jonas. Sempre pude contar com você. — Está bem. Agora, procure descansar um pouco. — Para quê? Para poder viver mais alguns dias neste mundo louco e alucinado? Não, Jona

s. Dói demais. Eu quero morrer. Mas não quero morrer aqui, presa dentro desta tenda. Leve-me para o terraço. Quero ver o céu, ver o sol brilhar mais uma vez. — O médico... — Por favor, Jonas — disse ela, sorrindo. Retribuí aquele sorriso e afastei a tenda de oxigênio. Tomei Rina nos braços. Estava l eve como uma pena. — Que bom estar nos seus braços outra vez, Jonas — sussurrou ela. Beijei-a na testa e caminhei para a luz do sol. — Quase havia esquecido do verde das árvores. Em Boston, há um carvalho que é a coisa ma is verde que já vi em toda a minha vida. Leve-me para lá, Jonas, por favor. — Eu levarei. — E não deixe que transformem isso num espetáculo de circo, como costumam fazer no cin ema. — Eu sei. — Há lugar para mim, Jonas — sussurrou —, junto de meu pai. A mão dela caiu do meu peito e senti nos braços um peso diferente. Olhei para ela, m as o rosto estava escondido em meu ombro. Olhei depois para a árvore que a fizera lembrar-se de casa. Mas não pude vê-la por causa das lágrimas. Quando voltei, Ilene e o médico estavam no quarto. Em silêncio, levei Rina para a ca ma e a deitei. Olhei para eles e quis falar, mas não pude. Quando consegui, a voz estava rouca: — Ela quis ver o sol pela última vez. 7

Olhei para o pastor, que lia em silêncio a pequena Bíblia com capa preta de couro qu e tinha nas mãos. Ele fechou o livro. Pouco depois, os outros o acompanharam e só eu e Ilene permanecemos ao lado da sepultura. Ela estava diante de mim, magra e calada, com um vestido preto e um véu cobrindo s eus olhos. — Está acabado — disse ela, com voz cansada. Olhei para a pedra na sepultura. RINA MAR LOWE. Fiz um gesto com a cabeça, concordando. Agora, não era mais do que um nome. — Espero que tudo tenha sido como ela desejava — disse. — Tenho certeza de que foi. Ficamos em silêncio com o embaraço de pessoas que se encontram num cemitério e cujo únic o elemento de ligação é uma sepultura. Estava na hora de ir embora. — Quer que a leve até o hotel? — Não. Gostaria de ficar aqui mais um pouco, sr. Cord. — E vai ficar tudo bem para você? — Sim, sr. Cord. Nada mais pode me acontecer. — Mandarei um carro ficar à sua espera. Até logo, srta. Gaillard. — Até logo, sr. Cord. E... muito obrigada. Desci a alameda do cemitério. Os mórbidos e os curiosos ainda estavam por ali, conti dos pelos cordões de isolamento da polícia, do outro lado da rua. Um murmúrio veio da multidão quando saí pelo portão do cemitério. Eu me havia esforçado ao máximo, mas não conseg ia evitar aquela multidão. A porta da limusine se fechou e o chofer perguntou: — Para onde, sr. Cord? Para o hotel? Olhei pelo vidro de trás. Estávamos no alto de uma pequena ladeira e dava para avist ar Ilene lá embaixo, no cemitério. Era um vulto patético, sentado ao lado da sepultura com o rosto entre as mãos. Dobramos uma curva e sua imagem sumiu de vista. — Para o hotel, sr. Cord? — tornou a perguntar o chofer. Inclinei-me para apanhar um cigarro. — Não. Para o aeroporto. Dei uma tragada forte, jogando a fumaça para o fundo dos pulmões. De repente, senti que só queria fugir. De Boston e da morte, de Rina e dos sonhos. Memórias demais par a suportar, tudo ainda muito claro na minha mente.

Depois disso. com uma risadinha. Havia três caixas de papelão com garrafas de uísque vaz ias. Fui até a gaveta da cô-moda. dize ndo que estava pronto para tomar algumas aulas. menos o dinheiro com que comprei o uísque. irlandesas. — Levei suas roupas para a lavanderia logo que você parou de beber. enquanto eu terminava de abotoar a camisa e vestir o paletó. Vou desce r e pegá-las. As roupas estavam a minha espera quando saí do banheiro. Era um quarto pequeno e sombrio. olhei para ela. — Seu dinheiro está na gaveta da cômoda — disse ela. — Não. e coloquei o resto do dinheiro em cima da cômoda. Você não estava procuran o por uma mulher. Mergulhei lentamente os pés no chão e sentei. — Bem sabe que ela está morta e todo o uísque do mundo não a fará viver de novo — disse. Depois. Segui os olhos dela para o chão. Minha barba estava áspera como uma lixa. Dava para v er as pessoas se comprimindo dentro e fora das estreitas plataformas de embarque . — Então já está acordado? Comecei a me virar. Olhei para as notas na minha mão. Quanto mais eu subia. Havia cerca de duzentos dólares. Esfreguei os olhos. — Estive bebendo? — Não fez outra coisa. um estranho silêncio caiu sobre o quarto. — Há quanto tempo estou aqui? — perguntei. Olhei para a moça. tudo ficou confuso. — Está tudo aí. Lembrava-me vagamente de haver procurado diante de uma loja de rádios alguém que me havia prometido ensinar coisas que eu não havia aprendido na escola. — Quase uma semana — respondeu ela. fom os ao White Rose Bar e tomamos alguns drinques. — Foi você mesmo? — perguntei. mas não pude lembrar-me de onde. ontem. Minha cabeça não parava de girar. — Por que me trouxe para cá? Ela encolheu os ombros. não fui eu. — Onde é o banheiro? Ela apontou uma porta. um crucifixo. E há um aparelho de barba n a prateleira em cima do lavatório. Não era de admirar que minha cabeça estivesse doendo. Ficamos muito sentimentais quan do encontramos um bêbado. Perto da janela havia uma mesinha e. — Como vim parar aqui? — Não se lembra? Fiz que não com a cabeça. — Nós. mas a mulher que falara deu a volta e apareceu a minha frent e. Ela riu. Você já estava bem alto. mas tem água quente para encher a banheira. Tive impressão de que já a conhecia. Abri os olho s. Diante da janela. Olhei a minh a volta. O papel branco das paredes já estava bem encardid o. Já com o maço de notas na mão. enquanto você se lava. quando senti que precisava de um dri nque. — Você se aproximou de mim diante da loja na Sexta Avenida e me pegou pelo braço. — Não há chuveiro. Levantei-me. queria mesmo era afogar sua tristeza. na parede. Estava começando a recordar. mas no seu estado isso não fazia muita diferença. que guardei no bolso. Você quis brigar com o garçom e eu o trouxe para casa. curioso. Passei a mão pe lo queixo. a fim de livrá-lo de encrencas. Estava apenas de cueca. — Estava pensando que sua sede não ia acabar nunca. com . Separei uma nota de cinco dólares. Ela pegou o dinheiro silenciosamente e me acompanhou até a porta.O barulho encheu meus ouvidos e comecei a subir a longa escadaria negra dentro d a escuridão que me cobria. Depois que o trem passou. não servimos para mulheres da vida. passava chocalhante o elevado da Terceira Avenida. Eu estava deita do numa velha cama de ferro. maior era o barulho. Saíra do ae-roporto e ia pela Sexta Avenida a caminho dos escritórios da Norman.

Sentei-me nos degraus da casa e ac endi um cigarro. Olá. Sentia um gosto horrível na boca e o começo de uma dor de cabeça. num gesto de proteção. os olhos. WINTHROP.a mão no meu ombro. Pegou a criança nos braços. Jonas? — Estava bebendo. apesar de um tanto mudada. A menina correu para dentro. — Ela ainda não voltou do trabalho — disse um homem. exatamente onde me pediu para que o deixasse . Deixei-a passar para abrir a porta e entrei em uma pequena sala. — Olá. E desliguei antes que ele pu-desse falar mais alg uma coisa. Ficamos nos olhando um momento. — Ela passa primeiro pela creche da escola para pegar a filha. — Mamãe — disse. Conseguiu a cópia do testamento de Rina? — Consegui. com sua vozinha fina —. nada pudemos fazer senão ficar ali olhando um p ara o outro. Faltavam quinze para as sete. — Olá. paguei ao chofer e segui pela calçada à frente das casas. Olhei para o relógio. Seus olhos deixaram transpare cer uma súbita apreensão. Levantei no momento em que a criança parou e olhou para mim. Tornei a tocar a campainha. — O que há com Jo-Ann? — Nada que lhe dê motivo de preocupação. — É a quarta casa abaixo. por cima da cerca da casa vizinha . Jo-Ann. Varremos toda a cidade à sua procura. Entrei num supermercado na esquina da Terceira Avenida com a rua 82 e telefonei para McAllister. — Monica Winthrop — eu disse. Franziu o nariz e apertou os olhinhos pretos. Sabe o que está acontecendo na companhia de cinema? Todo mundo está correndo lá. você não terá mais de se preocupar com o dinheiro que gastou. Ou o vestido simples que usava. — Não é sobre nós — apressei-me em dizer. Agradeci ao garoto e desci a rua. principalmente. Quero falar com você. Jo-Ann. — Não há nada demais. Ela colocou a m enina no chão e disse: — Vá para seu quarto brincar com as bonecas. Jonas. — Talvez seja melhor entrarmos. para cima e para baixo. — Olá. tem um homem aqui na nossa porta. moço? — perguntou um dos garo-tos. Por um momento. olhei o nome na placa j unto à campainha. uma auto-segurança que eu não conhecia. — É um amigo da mamãe. Há via neles uma tranqüilidade. Marque a reunião —. — Como vai? — Bem. Se não marcarmos logo uma reunião para resolver os problemas da companhia de cinem a. Ninguém atendeu. sim. Depois ela fechou a porta e eu desci por uma esc ura escada até chegar à rua. — A que horas costuma chegar em casa? — Não deve demorar. Monica voltou-se para mim: . mais ou menos? — Acho que sim. Ela abraçou com mais força a criança. — É uma moça que tem uma garotinha de cinco anos. como um ba ndo de galinhas com a cabeça cortada. Talvez fosse a mane ira de pentear o cabelo. moço. Ao chegar à quarta casa. — Onde está o testamento? — Na mesa da sala de seu apartamento. A criança sorriu. — Quem está procurando. Perderá tudo. O sol começava a desaparecer e o calor que fizera durante o dia estava menor. — Sua voz soou muito séria. Saltei do táxi. Ela parecia a mesma. Jo-Ann — disse ela. quando Monica apareceu ao longe. Ca-minhava pela calçada e uma menininha pulava sem parar à sua frente. Muitas casas estavam com as portas abertas e eu não podia ler os números. Mas. Olhei para Monica. rindo. Crianças brinc avam no gramado e olhos curiosos me seguiam. — Onde diabos você se meteu todo esse tempo. O cigarro estava quase no fim. — Está bem. Monica. — Sobre o quê? Pensei que tudo estivesse resolvido.disse. — É sobre a menina.

. Ele preparará todos os papéis. Meu pai é que queria. — Rina não tinha nenhum parente vivo. — Sente-se — disse ela. — Vou fazer um café. Como descobriu onde eu morava? — Através de Rina. para os seus negócios. — Quer uma aspirina? Parece que está com dor de cabeça. Ter tanta coisa e desaparecer assim. Ela me nomeou t estamenteiro e me fez prometer que a menina receberia tudo. Ela nada falou por alguns instantes. Os móveis eram limpos e práticos. Por quê? — Eu não queria dinheiro. Não podia aceitar que ela vivesse naquele lugar. por favor. enquanto bebia o resto do café. obrigado. Sei que isso para você não é nada. Monica ficou de repente muito pálida e as lágrimas surgiram em seus olhos. — O que falta inventarem? — murmurei. Ela encolheu os ombros. — Não se incomode. Fiquei um instante em silêncio. calmamente. quase amargo. ela se sentou diante de mim e perguntou: — Está surpreso de me ver morando num lugar assim? — Um pouco. E a possibilidade de viver em paz. Monica. Muito obrigado. talvez a trint a ou quarenta mil dólares. Depois que tomei os comprimidos. há sempre uma ruga especial em sua testa. — O que você queria? Ela hesitou um pouco antes de responder: — O que tenho agora. Então me levantei.Ann. depois olhou para mim. certo? — Certo. — Ela deixou tudo o que tinha para sua filha. — Por que não fica um pouco e me deixa preparar um jantar para você? — convidou. Jo. — Não. Passou e está acabado. É por isso que estou aqui. — Não compreendo — disse. Talvez não acredite. Voltou com uma xícara de café preto bem quente e colocou-a na mesa a meu lado. Não é muito comum termos visitas. Tudo isso passou e está acabado. depois de pagos os impostos e as dívidas. Até gosto. — Não sei. Ela colocou açúcar na xícara e mexeu o café. Tenho de voltar. Monica. — Como está Amos? — perguntei. Ela foi para a cozinha e eu me sentei numa cadeira. — Comecei a andar para a porta. Há quatro anos não tenho notícias dele. Um olhar sinuoso. Não sei a quanto monta. apareceu em seus olhos. Quando eu a conhecera. Não vou tomar muito seu tempo.— Você parece cansado. Esperou muito? — Não muito. Então passei para e le. Só há poucos dias fiquei sabendo que você não fi-cou com um tostão do di nheiro que lhe dei. — Não faz mal. então. saí e arranjei um emprego. Fiquei com dinheir o suficiente para vir para o leste e ter a criança. Não adiantava dizer-lhe que o que ela estava vendo era o começo de uma ressaca. — É uma tolice perder a calma por uma coisa que já aconteceu há tanto tempo. Interrompeu-se. — Por que ela fez isso? Não me devia nada! — Ela se considerava culpada pelo que aconteceu conosco. energicamente. Provei e comecei a me sentir melhor. mas senti de verdade a morte dela. olhando à minha volta. respirou fundamente e disse com sin ceridade: — Senti muito. — Parece muito cansado. — Duas pedras de açúcar. Depois. Depois. — Tem razão. Soube pelos jornais. surpresa. quando ela atingiu ida de suficiente. — Bom café — disse eu. mas muito baratos. — Procure comu nicar-se com McAllister. Jonas. mas sou sec retária executiva e ganho setenta dólares por semana. Monica só se servia do que houvesse de melhor. Para quem trabalha como eu. — Como sabe? — Lembra-se de que já fomos casados? Quando você está com dor de cabeça. gentilm ente. — Duas. Vou resolver alguns negócios hoje. — Você e eu tivemos culpa no que aconteceu — disse ela. não há coisa melhor para poupar tempo. Foi terrível. Olhei-a um momento. — Café solúvel.

Ela fechou a porta e continuei a descer pela calçada. Segurei sua mão. — Adeus. — É verdade. — Temos de tomar uma decisão. De repente. — Estendeu a mão para mim esboçando um sorriso. Cord Plast ics. Olhei por cima da mesa para ele. Está muito bem. Jo-Ann. Que-ens. — Pouco me importo com a despesa! Não vou fazer o filme! Houve silêncio na sala e tornei a olhar pela janela. moço — e acrescentou seriamente: — Venha ver a gente de novo. se pudesse compreender. também lhe agradeceria. Só o que eu quisesse. Jonas. Inter-Continental Airlines. Antes que eu pudesse responder. Eles que aprendessem a f azer jus ao que ganhavam e a me mostrar para que realmente prestavam. Olhei para Dan Pierce. Jonas — disse McAllister. as luzes da Broadwa y subiam para o céu. — E A pecadora? — Dan perguntou. então peguei a garrafa de uísque para encher meu co po de novo. telefone. — Sim. Acabei de tomar o uísque pensando que numa coisa Monica estava certa. — Suponho então que deva estar agradecida porque você veio gastar seu tempo comigo. Os seus negócios. A menina entrou na sala com uma bonequinha na mão e sorriu para mim. ela se virou e chamou a criança: — Jo-Ann. Havia chegado a uma decisão. — Esta é a minha boneca. salas de projeção. — Você vive dizendo que é capaz de fazer filmes melhores do que qualquer pessoa na indús tria. — Estarei bem. e logo saiu da sala. Forest Hi lls. À esquerda. Jo-Ann sorriu. — O filme era para Rina fazer. Cord Aircraft. — Mas o que vai fazer com a companhia? — perguntou Woolf. Do outro lado do rio. Monica? Ela hesitou um momento.. terá de pagar meio milhão de dólares a De Mille. — Muito obrigada. — Por Deus. Voltei a olhar pela janela. — Nada.. Tinha muita gente nas minhas costas e negócios demais. Jonas! — exclamou Dan — Você não pode jogar o script fora. administração. — Adeus. Jonas — disse ela. e tenho certeza de que Jo-Ann. — Voltarei. — Adeus. indo até a porta. Tome conta do resto: vendas. Não trabalhe demais. Um lu gar danado para se morar. Fui até a janela e contemplei Nova Iorque. Ficou me olhando enquanto eu descia pela calçada. Adeus. Já contatei a Metro para no s emprestar Jean Harlow.— Oh. . — O que vai fazer? Fui até a mesa e tornei a encher meu copo. Sem que ele tivesse tempo de dizer coisa alguma. Ri também e disse: — Vou procurar seguir seu conselho. Apertei sua mão e retribuí o sorriso. A direita. Agora você é o chefe da produção. voltei-me para Woolf: — Você está preocupado com o que vai acontecer à companhia. E até uma companhia de cinema que não me interessava. Cord Explosives. quase havia esquecido. Jonas. — Não quero saber de Jean Harlow — disse eu. Sorri também para ela. venha se despedir desse moço simpático.. Depois riu. — Diga adeus. De qualquer maneira . — Bem. Eu esta va trabalhando demais. com raiva. Tive de andar seis quarteirões até encontrar um táxi. Jo-Ann. Sabia exatam ente o que iria fazer daí por diante. — É uma excelente menina. — Muito bonita a sua boneca. me chamou: — Jonas! Virei-me. Jo-Ann estendeu sua mão para mim. — Se precisar de alguma coisa. Forest Hills. E não demore. Pois vai preocupar-se de ver dade.. Monica — disse eu. ficava o rio East.

arregalados. Cord. cavalheiros. Dinheiro. As pessoas pagariam qualquer preço por aquilo que de fato queriam. — Estou cansado de olhar para Queens — respondi. — Tenho aqui na carteira quinhentos dólares que afirmam que você é. A cortina desceu rapidamente. escondendo apenas os bic os de seus grandes seios. não poderemos manter o nível de produ-ção atual. o v ice-presidente executivo. Quando se trata do assunto que atinge as pessoas. Cord — disse ela. Daqui pra frente. como acha que vou fazer os filmes que tenho em mente s em dinheiro? — Se não puder. não vou mais servir de ama-de-leite para todo mundo. Ela estará aí dentro d e meia hora. Jonas — protestou Dan —. desista. Ela entrou. Forest Hills. os braços cruzados sobre o peito. solto. sr. — José.. Apertou os lábios. sorriso nos lábios. A moeda var ia. não quero que ninguém me consulte nem me peça coisa alguma. É só. caindo q uase até os quadris. Bateram na porta. E isso agravou a angústia em vez de a-tenuá-la. eu mesmo os procurarei. sorrindo e sem o tom com que costumava falar na boate. Aquela que tem. pode ir saindo. E as poucas que havia não eram tão brilhantes. — Pronto. sr. De re pente. Dan. sr. — Fo i muito gentil em mandar me cha-mar. O rosto de Dan branqueou. Dan en-golira meus insultos pa ra poder fazer filmes.. — Mas ainda não resolveu sobre os diretores. Peguei o telefone e liguei para José. Quem não der conta do serviço. Colocarei outro em seu lugar.— Muito bem. Olhei para os outros. E escondeu a cidade. Mac. mas não replicou. exponham tudo po r escrito e mandem para meu escritório. — Sei. David. Quando precisar de vocês. prestígio. — Olhos grandes — interrompeu-me. Seus olhos estavam fixos em mim. Levei a garrafa para a janela. aproximando-me dela. E Mac a-güentaria tudo em troca da segurança que eu l he dava. fiquei furioso e puxei o cordão que prendia a veneziana . Monica se sujei tara a morar em Queens. Do contrário. Gritei: — Entre. — Por que fechou a janela? — perguntou ela. Que escolas haveria ali que uma menina como Jo-Ann pudess e freqüentar? Engoli o resto de meu drinque. — Ninguém pode ver a gente aqui. gerente do Rio Club. A companhia precisa de um crédito rotativo de três milhões de dólares para atravessar este ano. — Tire o vestido e tome um drinque. De repente. Mais alguma pergunta? Todos se entreolharam e Mac tomou a palavra: — Na sua ausência. glória ou sexo. David fez um estudo. — Isso se aplica a todos vocês. Woolf era capaz de tudo para provar que podia administrar a companhia melhor que o tio. Qualquer coisa. não — disse ela. Virei-me e fiquei olhando pela janela enquanto ela se despia. De hoje em diante. cabelo comprido e negro. — Mas. Jonas— disse McAllister. — Terão um milhão de dólares. Tudo que estava vestindo era uma c alcinha de renda preta. fiquei ali sentindo a mesma indefinível an-gústia. Naquela noite. o presidente da companhia. Olhei pela janela. indignada e fazendo menção e ir embora. eu havia aprendido uma coisa muito importante. Depois que todos saíram. — Quem está pensando que eu sou? Não sou dessas. . os dedos já ocupados com o zíper às costas do vestido. rindo levemente. — Você será o presidente da diretoria. Não havia tantas luzes em Queens quanto em Manhattan. Virei-me p ara a garota. — Olá. e se arranjem com isso. Estava com um vestido preto decotado. aquela cantora do conjunto de rumba. senti a necessidade de uma mulher. Cord. enquanto enchia meu copo. Basta saber o que realmente desejam. Boa noite. para poder criar a filha. Dava quase para ver o u mbigo. todas têm o seu preço. Olhos escuros e brilhantes. Se tiverem alguma coisa para me comunicar. Ela se virou para mim. fazendo barulho.

A história de DAVID WOOLF LIVRO VI 1 David Woolf entrou no quarto do hotel e se atirou na cama completamente vestido. a primeira luz do alvorecer de suas ambições. Ainda ecoavam em seus o uvidos os murmúrios dos em-pregados do escritório de Nova Iorque. à espera de uma transfusão que lhe injetasse vida nova nas veias. por cujos desejos s imples ele já tivesse passado na infância. A princípio. Restava apenas a sombra torturada do homem de pou cas semanas antes. mas depois se retiraria de novo para aquele mundo no qual existia sozi nho. Cord se havia instalado por lá. Era Cord. Estava. — O Men's Bar. Estava mais magro e a exaustão lhe cavara profundas rugas no ro sto. Era como se a empresa es tivesse em estado de choque. Era como se fosse uma criatura vinda de outro planeta. vitorio so e. Recordava os olhar es furtivos e preocupados que lhe lançavam quando passava pelo corredor. E então. os três desceram o elevador em silêncio. embora e le soubesse que era apenas pouco mais de uma da madrugada. deprimido. ao mesmo tempo. Tudo tinha sido muito simples. H avia traçado uma linha reta entre ele e seu objetivo. Começou a olhar para o teto às escuras. Aquela noite parecia ter mil anos. — Boa sorte — os três brindaram. A mudança havia começado por seu íntimo. e o garçom serviu os drinques. Aquela era a oportunidade. duas semanas durante as quais se ins-talara o pânic o e a companhia começara a desintegrar-se ante seus olhos. um deles. McAllister. Percebeu a estranha solidão d aquele homem. Sabia exatamente o que queria. para completar o quadro. E nada ha via que ele pudesse dizer-lhes. não estava. apesar disso. suas espera nças e seus sonhos secretos. Quinze dias se haviam passado. Estava cansado e. ao mesmo tempo. Mas só observando-se os olhos dele é que se compreendia que a mudança não era apena s física. falou: — Acho bom procurarmos um lugar sossegado para uma con-versa. com o gosto amargo de uma frustração incompreensível misturan-do-s e em seu coração. onde Rina estava morrendo. nada que pudesse fazer. . Por que então aquela confusa mistura de emoções? Nunca lhe acontecera isso. Provocaria Cord o mesmo efeito s obre outros? Sentia ainda o choque experimentado quando entrara na suíte de Cord e o vira pela primeira vez desde que saíra da reunião da diretoria e fora de avião para a Califórnia. Então. Depois que saíram do apartamento de Cord. McAllister levantou seu copo. Sentia-se exultante e. por um breve mome nto. David e o r esto do pessoal eram agora estranhos para ele. sempre com uma gar rafa semivazia de uísque nas mãos. quase crianças. — Ainda deve estar aberto. Seria capaz de tolerá-los enquanto precisas se deles. Tinha de ser Cord. Não havia outra razão. Som ente quando chegaram à portaria do hotel e se mis-turaram com a multidão que entrava para o show da meia-noite no terraço Starlight. no porão — disse Pierce. David não pôde compreender ao certo o que ocorria. o véu se levantou e ele de repente entendeu tudo.

Se desistir. calmame nte. Posso. Já compreendia por que o tio Bernie tivera tanta relutância em afastar-se da co mpanhia. — Não contem comigo — disse secamente Dan. — Não cheguei onde cheguei no cinema para fazer filmes baratos. Não é possível fazer filmes de milhões de dól res sem dinheiro. De repente. podemos fazer dez filmes. a Warner e a RKO não são tão orgulhosas —replicou Da-vid. depois encarou McAllister. e ele controla-ria o dinheiro. Na realidade. — Mas que garantia temos de que Jonas nos manterá no negócio depois que o milhão de dólares tiver acabado? Absolutamente nenhuma. antes de falar: — Cavalheiros. Encolheu os ombros. E ninguém se importa com a espécie do sucesso desde que ele se traduza em dinheiro. — Quem disse que temos de fazer filmes de milhões de dólares? — perguntou David. — Ouviu o que Cord disse. uma gratificação à base de dois e meio por cento. tudo ficou bem claro. — Não me venha com asneiras! — David explodiu. O dinheiro ditava a política do estúdio. inclusive os cinemas e o estúdio. — A única coisa que se respeita na indústria do cinema é o sucesso. entretanto. Estava começando a compreender o que Jonas havia feito. O rosto do advogado pe rmanecia impassível. não estaremos nem no meio do primeiro filme quando descobrirmos que não temos mais dinheiro para pagar a folha semanal. as vendas e os cinemas estavam sob seu controle e era daí que entrava o dinhei ro. enquanto eu estiver quebrando a cabeça. seriam tot almente reembolsados das despesas que fizessem. mas ele também não tem nenhuma tia de que as ações que possui va-lham alguma coisa se vocês não fizerem a companhia and ar. o sucesso depende de vocês dois. depois para o outro. Isso é para a Republic ou a Monogram.Mac olhou para um. outro fará no seu lugar. o estúdio não passava de uma usina que fabricava os produtos da companhia. — Vocês não têm garantia. e receberiam. Ele havia aprovado a retirada das velhas ações e sua substituição por outras. cavalheiros. No meu ponto de vista. Além disso. Pierce olhou-o por um momento. sentira-se decepcionado por não ter sido escolhido para encarregado do estúdio. perderá toda a reputação que tem. — Quem falou em desistir? David relaxou e se acomodou na cadeira. a emissão de ações preferenciais para atender a certas obrigações de monta da companhia e de debênture s gravando de hipoteca todos os bens imóveis da companhia. de poder. Em seguida. — É muito fácil falar — resmungou Pierce. Alguma dúvida? — perguntou McAllister. Se você não fizer. — Tem razão — McAllister concordou. — Com um milhão de dólares. que poderia ser paga em dinheiro ou em ações. rapidamente. Foi só então que David teve uma idéia de como a visão comercial de Jonas chegava longe. explicar o plano de reorganização da companhi a. — Parece bom — disse Pierce. Mas Cord havia percebido rapidamente todo o mecanismo do negócio. — É isso. Gostaria de ser mais direto na minha contribuição. Uma sensação nova. A administração. caso houvesse lucr os. E já estaremos recebendo o retorno do primeiro quando o quinto entrar em produção. com aspereza na vo z. Isso em troca da entrega por ele de um milhão de dólares de capital de giro . McAllister falou das compensações. Mas ele ficará pr otegido pelas ações e pelas debêntures. se o raciocínio de David está correto — continuou Dan —. em boa bilheteria. — Mas. Toda a indústria sabe que você manobrou Cord para fazê-lo comprar a companhia a fim de se tornar produtor. Teria gostado de ter a palavra "presidente" na porta de seu escritório. Mas acontece que sou advogado e não entendo qu ase nada de filmes. que foi aprovado por Jonas antes que o negócio tivesse sido realmente consumado . David e Dan Pierce as-sinariam contra tos de sete anos com salários que começariam em sessenta e cinco mil dólares por ano e aumentariam treze mil dólares por ano até o término do contrato. — Mas eu tenho de manter minha reputação. Antes. — Isso é com elas — exclamou Dan. Não sei o que deu na cabeça de Jonas. o q ue você estará fazendo? — Estarei tomando providências para que você possa realizar seu programa de produção — respo . surgiu dentro d ele. — Mas. — A Columbia. de agora em diante seguramente estamos por nossa conta.

ndeu David. — De que modo? — perguntou McAllister, com visível interesse. — Vou despedir amanhã quarenta por cento do pessoal em todos os departamentos da com panhia. — Não acha que é drástico demais? — disse McAllister. — Além disso, acha que poderá trabalhar ssas condições? David olhou para o advogado. Era mais um desafio. — Com toda certeza — disse, sem levantar a voz. — Não é um modo de fazermos amigos — observou Dan. — Isso é uma coisa que me interessa bem pouco. Não é minha intenção ganhar um concurso de po pularidade. E isso será apenas o começo. Não me importa que alguém fique melindrado. O q ue mais me interessa é que a companhia tem de sobreviver. O advogado ficou olhando para ele. David julgou perceber nele o esboço de um sorri so. McAllister voltou-se para Dan: — O que acha? — Acho que nos arrumaremos — disse Dan, sorrindo. — Por que acha que Jonas fez questão d e ter David? McAllister abriu sua pasta e disse a David: — Aqui está seu contrato. Jonas quer que você o assine esta noite. — E Dan? McAllister sorriu. — Dan assinou no dia da reunião da diretoria. David sentiu ódio. Tudo havia sido simulado. Eles o tinham colocado numa situação difíci l só para ver como se sairia. Mas controlou sua respiração. Que diferença fazia? Pegou a caneta que o advogado lhe entregava. Esse era apenas o começo. Eles ainda estavam por fora e levariam muito tempo para conhecer a companhia como ele. E aí isso não teria mais importância. Desde que assinasse o contrato, tudo estaria em suas mãos. A porta que ligava o seu quarto ao do tio se abriu e a luz se acendeu. — Já chegou, David? — Já, tio Bernie — respondeu, sentando-se na cama. — Então? — perguntou Norman. — Viu o homem? — Vi, sim — disse David, acendendo um cigarro. — Está terrivelmente abatido. Parece que sentiu muito a morte de Rina. O velho deu uma risada. — Não consigo ter pena depois do que ele me fez — disse Norman, com amargura, ao mesmo tempo que tirava um charuto do bolso e o levava à boca sem acendê-lo. — Ele lhe ofere ceu um emprego, não foi? — Sim. — Que emprego? — Vice-presidente executivo. O tio levantou as sobrancelhas. — Sério? — disse Norman, interessado. — Quem é o presidente? — Dan Pierce. Ele vai fazer os filmes. O resto é comigo. Administração, vendas e cinemas . — Estou orgulhoso de você — disse Norman, abraçando David, todo sorridente. — Tinha certez a de que um dia você seria alguma coisa na vida. David olhou para o tio com surpresa. Não era aquela a reação que es-perava. Uma acusação d e traição estaria mais de acordo com o tempe-ramento do velho. — Está satisfeito, tio Bernie? — Claro que estou. Que mais poderia eu esperar do filho de minha própria irmã? — Pois eu pensei... — Pensou? — disse o velho, ainda sorrindo. — Que diferença faz o que você pensou? O que pa ssou, passou. Agora realmente vamos poder trabalhar juntos. Eu lhe mostrarei mod os de ganhar dinheiro com que você nunca sonhou. — Ganhar dinheiro? — Claro — Bernie replicou, baixando a voz a um tom confidencial. — Uma cabeça de goyim é u ma cabeça de goyim. Com você à frente de tudo, quem vai saber o que está acontecendo? Am

anhã farei saber a todos os fornecedores que o velho trato continua de pé. Só aí você pega vinte e cinco por cento da comissão. — Vinte e cinco por cento? — O que há? — perguntou Bernie, já com um tom de esperteza. — Vinte e cinco por cento não ch egam para você? David não respondeu. — Bem, você não poderá chamar seu tio Bernie de miserável. Vá lá! Cinqüenta por cento. David apagou o cigarro no cinzeiro. Levantou-se e foi em silêncio até a janela. — Em que está pensando? — disse o tio atrás dele. — Não acha justo cinqüenta por cento? Você, inal de contas, me deve alguma coisa. Se não fosse eu, nunca ocuparia esse lugar. David apagou o cigarro no cinzeiro. Pôs-se de pé e caminhou silenciosamente para a j anela. Olhou para o parque, do outro lado da rua. Voltou-se e disse com raiva pa ra o velho: — Devo-lhe alguma coisa? Por todos esses anos em que viveu me ex-plorando por mise ráveis trezentos e cinqüenta dólares semanais? Sempre que lhe pedia algum dinheiro a m ais, começava a lamentar-se dos prejuízos que a companhia estava tendo. E, todo esse tempo, metia calmamente no bolso um milhão de dólares todo ano. — Nessa época foi diferente. Você não me compreende. David riu. — Compreendo perfeitamente, tio Bernie. Compreendo que dispõe de quinze milhões de dólar es limpos e vivos na mão. Se vivesse duzentos anos, não poderia gastar tudo o que te m. E ainda quer mais. — E que mal há nisso? — perguntou Bernie. — Trabalhei para isso. É meu direito. Quer que d esista de tudo só porque um patife me expulsou para fora de minha própria companhia? — Sim. — Você fica do lado daquele... daquele nazista, contra sua própria carne e sangue? — gui nchou o velho, com o rosto vermelho de raiva. David o encarou. — Não sou obrigado a escolher um lado, tio Bernie. O senhor mesmo reconhece que a co mpanhia não é mais sua. — Mas você está dirigindo a companhia. — Sim, quem está dirigindo a companhia sou eu, e não você. — Quer dizer que vai ficar com tudo para você? — disse o velho em tom acusador. David deu as costas ao tio, sem falar. Houve silêncio durante um ins-tante. Por fi m, o tio disse amargamente: — Você é ainda pior que ele. Ao menos, ele não estava roubando de sua própria carne e sang ue. — Deixe-me em paz, tio Bernie — disse David, sem virar-se para o velho. — Estou cansad o e quero ver se durmo um pouco. Ouviu os passos do velho atravessando o quarto. Depois, a porta ser batida viole ntamente atrás dele. Encostou a cabeça num lado da janela. Era por isso que o velho não havia voltado para a Califórnia logo depois da reunião dos acionistas. Sentiu um nó na garganta e, sem saber por que, teve vontade de chorar. Ouviu um fraco som de sirene soar na rua. O barulho aumentou e uma ambulância viro u para oeste vindo da rua 59, e entrou na Quinta Avenida. Afastou-se da janela, com o barulho ecoando em seus ouvidos. Parecia ter ouvido àquilo a vida toda. Quando andava ao lado do pai, que era negociante de trastes velhos, sentado no b anco duro da carreta, tinha a impressão de que nunca ouviria outra coisa. O som de uma sirene.

2 Os sinos dependurados na carroça do pai de David Woolf tilintavam preguiçosamente en quanto a égua cansada avançava bem devagar por entre os carrinhos de mão que se alinha vam de ambos os lados da Ri-vington Street. O calor sufocante do verão açoitava sua cabeça. Deixou as rédeas descansarem frouxas nos dedos. Não era preciso fazer força para guiar a égua. Ela mesma procurava seu caminho na rua atravancada, avançando automat

icamente cada vez que via um espaço livre à frente. — Cooompram-se... roupas velhas! O cantarolar monótono e estridente de seu pai se fazia ouvir acima do barulho da f eira livre, subindo até as janelas dos prédios, de onde olhares apáticos e vagos espre itavam o mundo faminto. — Coompram-se... roupas velhas! Do carro via o pai, caminhando ao lado pela calçada repleta, com as longas barbas agitadas pelo vento, enquanto olhava para as janelas, à procura de fregueses. O ve lho se revestia de inegável dignidade. Usava um chapéu preto de pele de castor; um s obretudo preto comprido que lhe batia quase nos tornozelos; uma camisa bem engom ada mas já com o colarinho de pontas viradas um pouco enrugado; e uma gravata com o grande laço logo abaixo do proeminente pomo-de-adão. O rosto era pálido e fresco, se m o menor sinal de transpiração na testa, enquanto David estava ensopado de suor. Até parecia que as roupas pretas o isolavam do calor. — Ei, senhor! O pai se afastou até a sarjeta para ver melhor. Mas foi David quem viu primeiro. U ma velha fazia sinais da janela de um quinto andar. — É a sra. Saperstein, papai. — Acha que estou cego? — perguntou o pai, resmungando. — Olá, sra. Saperstein! — É o senhor, sr. Woolf? — Sim — gritou o pai. — O que tem para nós? — Suba. Vou mostrar. — Roupa de inverno não quero. Ninguém compra! — Quem falou em roupa de inverno? Suba para ver. — Amarre o cavalo ali — disse o pai, apontando um espaço entre dois carrinhos de mão. — De pois suba para ajudar a trazer as mercadorias. Enquanto o pai desaparecia na entrada do prédio, David levou a égua para perto do pa sseio, amarrou-a num hidrante e passou-lhe um embornal, com comida, pela cabeça Tateou o caminho pelo corredor e pela escada escuros e mal iluminados, e parou d iante de uma porta. Bateu. A porta se abriu imediatamente. Era a sra. Saperstein , com seu cabelo grisalho preso em trancas no alto da cabeça. — Entre, entre. David entrou na cozinha e viu o pai sentado à mesa. À sua frente, havia um prato che io de bolinhos. — Um bolinho, David? — perguntou a velha, indo até o fogão. — Não, obrigado, sra. Saperstein — disse David, com polidez. Ela tirou uma latinha vermelha da prateleira acima do fogão e mediu cuidadosamente duas colheres de chá. Despejou-as na água fervente. E as folhas foram se abrindo na água. O chá já estava quase tão preto quanto um café, quando a velha o coou e serviu em u m copo a seu pai. O pai pegou um torrão de açúcar no vaso, colocou-o entre os dentes e bebeu o chá. Após o p rimeiro gole escaldante, abriu a boca. — Aah! — Está bom? — a sra. Saperstein perguntou, sorrindo. — É chá chinês autêntico, como o que tom s na velha terra. Não é como o que se encontra por aqui. O pai sorriu com ar de entendido e ergueu o copo de novo. Quando o pousou na mes a, estava vazio e as formalidades da cortesia encerradas. Era hora de tratar de negócios. — Então, sra. Saperstein? Mas a sra. Saperstein ainda não estava disposta a tratar de negócios; olhou para Dav id e disse: — É um menino tão simpático o seu David. Lembra meu Howard quando tinha a mesma idade. Tirou um bolinho do prato e ofereceu ao garoto. — Coma, meu filho. Fui eu mesma que fiz. David comeu o bolo. Estava duro e seco e se esfarelou na boca. — Coma outro, David. Parece magro e precisa comer bem. Ele fez um gesto negativo com a cabeça. — Sra. Saperstein — disse então o pai —, desculpe, mas sou um homem ocupado e já está tarde. Tem alguma coisa para mim?

— Venha ver. Eles a seguiram pelo corredor estreito ladeado de quartos do aparta-mento. Num d os cômodos, sobre a cama, havia vários ternos de homem, alguns vestidos, camisas, um sobretudo, além de sacos de papel com vários pares de calçados. O pai de David aproximou-se e examinou algumas das roupas. — Roupa de inverno! — disse ele, com desprezo. — E foi para isso que subi quatro lance s de escada? — Tudo está em estado de novo, sr. Woolf. Meu filho Howard e a esposa só usam roupas p or uma temporada. Iam dar para o Exército da Salvação, mas pedi que me dessem. O pai de David não respondeu. Estava selecionando as roupas rapidamente. — Meu filho Howard mora no Bronx — continuou ela, com orgulho. — Numa casa nova em Gra nd Concourse. É médico. — Dou dois dólares por tudo — declarou o pai. — Sr. Woolf! Isso vale no mínimo vinte dólares! Ele deu de ombros. — Só estou comprando isso para dar à HIAS. Melhor que o Exército da Salvação. David assistia à barganha dos dois com pouco interesse. HIAS era a sigla com que s e designava a Sociedade de Auxílio ao Imigrante Hebreu. As afirmações do pai não o impre ssionavam absolutamente. Sabia que as roupas nunca iriam para lá. Depois de lavada s com cuidado e escovadas por sua mãe, acabariam nas vitrines das lojas de roupas de segunda mão no baixo Bowery e na zona leste da Broadway. — Dez dólares — disse a sra. Saperstein. A dissimulação acabara; ela estava barganhando co m determinação. — Por menos, não dá para fazer. Não pagaria nem a gasolina que meu filho How ard gastou, para vir do Bronx até aqui. — Cinco dólares. E não se fala mais nisso. — Seis, sr. Woolf. Ao menos para pagar a gasolina. — Os metrôs estão funcionando — disse o pai de David. — Devo ter pre-juízo só porque seu filh é importante e gosta de andar de automóvel? — Cinco e meio — disse a velha. O pai de David olhou para ela. Depois meteu a mão no bolso do sobretudo e pegou um a bolsa amarrada ao cinto por um cordão de sapato comprido. — Está bem — disse suspirando. — Cinco e meio. Mas o céu é testemunha de que estou perdendo dinheiro. Fez um sinal para David e começou a contar o dinheiro, colocando-o nota por nota n as mãos da velha. David enrolou toda a roupa no sobretudo, amarrando as mangas por cima do embrulho. Depois colocou o amarrado nos ombros e começou a descer a escad a. Jogou-o dentro da carroça e foi para a frente da égua. Tirou o embornal da cabeça d o animal e, depois de desamarrar as rédeas do hidrante, subiu na boléia. — Ei, David! Olhou para o passeio. Um rapaz alto estava olhando para ele e sorrin-do. — Procurei você o dia inteiro, David. — Estivemos em Brooklyn — disse David. — Meu pai estará aqui neste minuto. — Então vou falar depressa. Shocky lhe dará dez dólares se você con-seguir o carro e a égua esta noite. Temos de levar uma carga. — Mas hoje é sexta-feira. — Por isso mesmo. As ruas lá estarão vazias. Não haverá ninguém para querer saber o que esta mos fazendo, à noite. E os guardas não nos inco-modarão quando virem a placa da carroça. — Vou ver se posso — disse David. — A que horas, Needlenose? — Às nove, nos fundos da garagem de Shocky. Lá vem seu velho. Até logo. — Com quem você estava falando? — perguntou o pai. — Com um dos meus amigos, papai. — Isidore Schwartz? — Sim, o Needlenose. — Afaste-se dele, David — disse o pai, severamente. — De gente assim não precisamos. É um vagabundo, como todos os que vivem na garagem de Shocky. Roubam tudo que encontr am. David fez que sim com a cabeça. — Leve a égua para a cocheira. Vou à sinagoga. Diga a mamãe para preparar o jantar às sete horas.

Esther Woolf estava em frente ao candelabro ritual, com a cabeça co-berta pelo xal e de orações. As velas arderam com suas chamas amarelas depois que ela as acendeu co m o fósforo comprido de madeira. Apagou o fósforo assoprando e colocou-o no pratinho em cima da mesinha do bufê. Esperou que a chama das velas se firmasse e começou a r ezar. Rezou primeiro pelo filho, o seu querido Duvidele, que chegara bem tarde, quando ela e o marido já haviam quase perdido as esperanças de ter aquela bênção. Rezou depois p ara que Jeová desse ao marido maior vontade de vencer, ao mesmo tempo que pedia pe rdão ao Senhor, porque era a obra do Senhor na sinagoga que fazia o marido descuid ar-se de seus interesses. Depois, como sempre, reconheceu-se culpada do pecado d e haver desviado Chaim da obra que ele escolhera. Quando se conheceram na velha terra, Chaim era um estudante talmudista. Lembrava -se dele ainda como fora nessa época, jovem, magro e pálido, com os primeiros anéis ma cios da barba preta brilhando com leves reflexos avermelhados. Os olhos ficavam negros e luminosos quando ele se sentava à mesa na casa do pai dela, molhando no v inho um pedaço de bolo e mostrando-se bem à altura do velho rabino e dos anciães. Mas, quando se casaram, Chaim foi trabalhar com o pai dela. Depois os pogroms co meçaram e os rostos dos judeus se tornaram magros e amedrontados. Só saíam de casa na escuridão da noite, às pressas, como se fossem pequenos animais das florestas. Ou fi cavam amedrontados nos porões das casas, com portas e janelas fechadas e trancadas , como galinhas procurando esconder-se no galinheiro quando sentem a aproximação do shochet. Até que numa noite ela não suportou mais. Levantou-se gritando do catre, ao lado do marido. Conservava fresca na memória a carta que re-cebera de seu irmão, Bernard, qu e estava na América. — Temos de viver como coelhos dentro de uma armadilha, esperando os cossacos chega rem? — gritou chorando. — É neste mundo sombrio que meu marido espera que eu lhe dê um f ilho? Nem Jeová poderia lançar a sua semente num porão. — Cale-se! — disse Chaim, em voz baixa e dura. — Não se deve tomar em vão o nome do Senhor . Reze para que Sua atenção não se desvie de nós! Ela riu amargamente. — Ele já nos abandonou! Ele também está fugindo dos cossacos! — Cale-se, mulher! — disse Chaim, indignado. Ela olhou para os outros catres do úmido porão. Mal podia ver na pe-numbra os rostos pálidos e amedrontados dos pais. Logo em seguida, houve um tropel de cascos de ca valos em torno da casa e começaram a ressoar na porta trancada as pancadas das cor onhas dos fuzis. O pai de Esther se levantou rápido. — Depressa, kinder — disse ele, sussurrando. — Saiam pela porta dos fundos do porão. Vão p elos campos que não serão vistos. Chaim pegou Esther pela mão e levou-a para a porta dos fundos. Parou de repente, v endo que os sogros não os acompanhavam. — Venham! — chamou. — Depressa, que não resta muito tempo! O pai de Esther continuou onde estava, com o braço passado sobre os ombros da mulh er. — Nós não vamos — disse ele. — É melhor que encontrem alguém, senão começarão a fazer buscas ampos. O barulho no alto estava mais forte, pois a porta já começava a ceder às pancadas dos fuzis. Chaim voltou-se e disse ao sogro, ao mesmo tempo que apanhava um pau no c hão: — Então ficaremos todos aqui. Eles verão que um judeu não morre com muita facilidade. — Vão embora — disse calmamente o sogro. — Nós lhe demos nossa filha em casamento. É da segu rança dela que deve cuidar e não da nossa. Sua coragem não passa de insensatez. Como é q ue os judeus têm sobrevivido há milhares de anos senão fugindo? — Mas... — protestou Chaim. — Vão! — disse o velho. — Vão depressa! Estamos velhos. Já vivemos muito. Vocês são moços e s ilhos devem ter a oportunidade de nascer. Poucos meses depois chegaram aos Estados Unidos. Mas vinte anos se passaram até o Senhor Deus Jeová se compadecer e lhes permitir ter um filho. Por último, rezou por seu irmão Bernard, que tinha negócios num lugar muito afastado,

chamado Califórnia, onde o verão durava o ano inteiro. Rezava para que ele tivesse b oa saúde e vivesse em segurança, sem ser muito perseguido pelos índios, como ela via d e vez em quando no cinema com os ingressos gratuitos que ele lhe mandava. Suas orações terminaram, ela voltou para a cozinha. A sopa estava fervendo, deixando no ar o cheiro gostoso e forte da galinha. Pegou uma colher e foi até o fogão. Com uma escumadeira, retirou os glóbulos de gordura que estavam na superfície e guardouos num jarro. Depois, quando a gordura estivesse fria e coagulada, poderia ser p assada no pão ou misturada com bolinhos de carne para dar gosto. De repente, ouviu a porta da frente se abrir. Pelo barulho dos passos, ficou sabendo quem era. — É você, Duvidele? — Sim, mamãe. Acabou o que estava fazendo, pousou a colher no fogão e virou-se. Como sempre, sen tiu o coração bater de orgulho ao ver o filho, tão alto e forte, ali à sua frente. — Papai foi à sinagoga, mamãe. Estará em casa às sete horas. Ela sorriu para ele. — Muito bem. Vá lavar as mãos. O jantar está pronto.

3 Quando David fez com que a égua entrasse no beco que levava aos fundos dá garagem de Shocky, Needlenose apareceu imediatamente. — É você, David? — Quem poderia ser? — Puxa! Estávamos em dúvida se você viria ou não. Já são quase dez horas. — Só pude sair depois que meu velho foi dormir — disse David, parando a carroça ao lado da garagem. Um instante depois, Shocky apareceu, com a calva brilhando. Era um homem de esta tura média, robusto e com braços tão compridos que lhe chegavam quase aos joelhos. — Você demorou muito a chegar — disse ele. — Mas estou aqui, não estou? Shocky não respondeu. Virou-se para Needlenose. — Comece a trazer as latas para o carro. Ele pode ajudá-lo. David desceu do carro e entrou com Shocky na garagem. A comprida fila de latas s e estendia no chão à luz da lâmpada elétrica que pendia do teto. David deu um assobio de admiração. — Deve haver quarenta latas aqui! — Quer dizer que sabe contar, hein? — murmurou Shocky. — Devem pesar uns cento e oitenta quilos. Não creio que Bessie agüente puxar tudo isso . — Ora, você levou a mesma coisa da outra vez. — Isso é que não. Foram apenas trinta latas. E mesmo assim houve o-casiões em que pensei que Bessie ia estourar. Já imaginou o que aconte-ceria? Eu ficaria no meio da rua encalhado com uma égua morta e não sei quantos litros de bebida. Se meu velho soube sse de uma coisa dessas eu estaria perdido. — Só esta vez — disse Shocky. — Eu prometi a Gennuario. — Por que não leva tudo num de seus caminhões? — Não posso. É justamente isso que os detetives federais estão procurando. Mas não suspeit arão de um carro de comprador de roupas velhas. — O máximo que posso transportar são vinte e cinco latas. — Escute, vai ganhar vinte dólares desta vez, porque estou numa en-rascada. David ficou em silêncio. Vinte dólares era mais do que seu pai fazia numa semana tod a, saindo com a carroça todos os dias, chuva ou sol, inverno ou verão, todos os dias , menos aos sábados, quando ia à sinagoga. — Vinte e cinco dólares — disse Shocky. — Está bem. Vou arriscar. — Então vamos começar a carregar — disse Shocky, pegando logo duas latas.

David ia sozinho sentado no banco da carroça, enquanto Bes¬sie se ar-rastava lentame nte pela rua, puxando a sua carga. Freou o cavalo numa esquina para deixar um ca minhão passar. Um guarda se aproximou. — Olá, David. O que está fazendo com a carroça a estas horas da noite? David olhou para o espaço de carga do carro. As latas de bebida esta-vam escondida s debaixo da lona, cobertas por grande quantidade de trapos. — Soube que estão pagando bem por trapos na fábrica de papel — res-pondeu. — E resolvi lim par a carroça. — Onde está seu pai? — Não sabe que hoje é sexta-feira? — Ah! — disse o guarda. — Seu pai sabe? David fez que não com a cabeça e o guarda riu. — Vocês, garotos, são todos iguais. — É melhor eu ir andando antes que o velho sinta minha falta. Deu um estalo com a língua e Bessie começou a andar. Mas o guarda ainda o chamou: — Diga a seu pai, David, para ver se encontra alguma roupa que sirva para um garot o de nove anos. A roupa do ano passado já não cabe mais no meu Michael. — Pode deixar, sr. Doyle, falarei com ele. Shocky e Needlenose já estavam esperando, quando David encostou o carro na platafo rma de descarga. Um pouco atrás, Gennuario observava os três começando a descarregar. Os detetives surgiram de repente da escuridão, de armas em punho. — Estão todos presos! David ficou paralisado com uma lata nas mãos. Teve por um instante a idéia de largar a lata no chão e sair correndo, mas não podia abandonar Bessie e a carroça ali. Que e xplicações iria dar ao pai? — Largue essa lata, rapaz — disse um dos detetives. David largou a lata e virou-se para ele. — Muito bem. Vá ficar ali, junto à parede. — Você não devia ter tentado isso, Joe — disse um detetive a Gennuario. Mas Gennuario sorriu, como se não se perturbasse absoluta-mente com o que estava a contecendo. — Faça o favor de entrar, tenente — disse calmamente. — Tenho certeza de que tudo se res olverá. O tenente entrou no depósito com Gennuario, e David teve a impressão de que nunca sa iriam de lá. Mas, dez minutos depois, os dois saíram sorrindo. — Tudo certo — disse o tenente. — Parece que íamos cometendo um grande erro. O sr. Gennu ario explicou tudo corretamente. Vamos. Os detetives desapareceram com a mesma rapidez com que haviam surgido. David fic ou olhando, sem compreender. Needlenose estava sentado ao lado de David na carroça quando chega-ram ao estábulo e deixaram lá a carroça. — Garanto a você que não há mais perigo. Tudo já está arranjado — disse afinal, assim que os ois saíram para a rua. Arranjado ou não, David não queria mais saber daquilo. Nem mesmo os vinte e cinco dóla res que levava no bolso pagavam o susto que levara. — Para mim, chega. Needlenose deu uma risada. — Por quê? Está com medo? — Claro que estou. Deve haver uma maneira mais fácil de ganhar a vida. — Se descobrir uma, não se esqueça de me avisar. — Ele riu. — Shocky tem duas chinesas lá no apartamento dele. Diz que podemos dar uma trepada com elas, se quisermos. David não respondeu. — Uma delas é Sing Lu — continuou Needlenose. — Aquela bonitinha, que raspa todos os cab elos do corpo. David hesitou, sentindo uma súbita excitação percorrer o corpo. Era uma hora da madrugada no relógio da vitrine da mercearia do Goldfard, quando e le dobrou a esquina de sua rua. Havia um carro da po-lícia parado na frente da por ta e uma pequena multidão em volta do car-ro, olhando para a porta.

olhando para a mãe. — Quando. Mas uma compulsão o impeliu para sua casa. como se não o reconhecesse. o comprador de roupas ve-lhas. Estava amarelado e desbotado. raivoso. — Chamo um médico e aparece a polícia — murmurou. como se estivesse acusando. Já ia subin do a escada para o apartamento do terceiro andar. Não que estava saindo para morrer! 4 — Então é minha culpa que o pai dele tenha morrido antes que ele ter-minasse os estudo s? — explodiu tio Bernie. você precisou de quinhentos dólares para seus negócios. debatendo-se nos braços de dois guardas. Esta va começando a lembrar. Bernie — disse ela. — É contra a minha política empregar parentes na companhia. Ouvi um guarda dizer que alguém está morrendo lá dentro. Depois virou o rosto para o corredor.David sentiu um súbito medo. na sinagoga. Chaim. seguindo-a com os olhos enquanto ela saía da sala. Alguma coisa havia dado errado e a polícia estava ali p ara prendê-lo. na mesma caixa em que Chaim guardou na noite em que lhe deu o din heiro. mamãe. Seu pai estava sentado na tábua do vaso. Sempre dá mau resultado nos negócios. quando fui rezar por meu pai. Não falava nada. — Chaim! Chaim! — gritou de novo. Súbita e freneticamente David começou a abrir caminho pelo meio da multidão. A porta dos banheiros estava aberta. — Não é caridade que estou pedindo. — Como podia eu vir da Califórnia a Nova Iorque em um dia? Não tenho asas! David nada respondeu e se encaminhou para a porta. — O que houve? — perguntou a uma pessoa da multidão. quando ouviu o grito. — Que arranje um emprego e estude à noite. enquanto a baba escorria pela barba grisalha. Mas um advogado esperto poderia tirar daquilo um bocado de dinheiro . com os olhos e a boca abertos. com quem foi que arranjou? Esperou um instante. O olhar de David seguiu o de sua mãe. — A meu respeito! — o tio gritou bem alto. já que faz tanta questão. Ela se virou para o irmão. É só isso qu peço. antes de ela mesma responder: — Foi com seu miserável cunhado. — Deixe-me ver — disse Bernie. — Vou sair. No fim dele estavam os banheiros. quem pode tra-balhar melhor por v ocê do que uma pessoa de sua própria carne e sangue? . encostado à parede de uma maneira esquisita . Pensou em fugir. Era um documento pelo qual prometia ao cunhado cinco por c ento das ações da Norman quando ele comprara a velha Diamond Film. Havia esquecido p or completo. — Não sei. Ainda tenho o papel. — Chaim! Chaim! David sentiu um aperto no coração. — Com certeza. David — disse sua mãe. Mas algum dia vimos o dinheiro? — Papel? — perguntou Bernie. — Espere. hein? David perdeu a paciência e se levantou. — David quer um emprego. falaram que você não tinha compareci do aos funerais porque estava com receio de que alguém fosse pedir dinheiro. Como o tem po havia passado depressa! Olhou para sua irmã. Sua mãe estava na porta. inclusive a data: 7 de setembro de 1912. — O que falaram de mim? — Sim. — Chaim! — gritou a mãe. — Que papel? — Ainda o tenho. — Mas quem vai saber que é seu sobrinho? Além disso. mas perfeitament e legível. gostaria de um lugar de vice-presidente na minha companhia. Tudo o que me disseram a respeito dele é verdade. David estava sentado na beira de sua cadeira. A irmã voltou e passou-lhe o papel. Norman virou-se e olhou desconfiado para o sobrinho. — Mamãe! O que aconteceu? A mãe o olhou. Fazia catorze anos. Ele lhe deu o dinheiro e você deu para ele um pedaço de papel. antes da guerra. — Você me dis-se que estava com gases .

o sobrinho do velho Norman — o homem respondeu. — Está bem. — Ah! Então é você? David ficou confuso. antes de sair. Era um velho e sujo prédio industrial. — Olá! — disse David. nós nos arranjaremos. Havia ali pi lhas bem arrumadas de material — cartazes. tio Bernie. olhe lá. e um homem de cabelo bra nco colocou a cabeça para fora e olhou para David. vendo-se ao lado. — Tem certeza de que pode dispor de tanto dinheiro. e atrás dela. David andou em sua direção. Vou concordar. não vá dizer a ninguém que é meu sobrinho. Um preservativo de borracha est ava preso por um percevejo na frente da calça de Rod Larocque. olhando para ela com ar de ardente paixão. antes de fechar a porta: — Não chegou ninguém ainda. Vá para lá. — O que quer dizer? — O novato. e scritas com pincel. — Vou levar isso comigo. Esther. no segundo havia uma fábrica de cosméticos. onde funcionara uma fábr ica. perto das janelas dos fundos. David nada disse. agradecido. tio Bernie — disse David. Havia um relógio acima de uma das me sas. virou-se. uma à frente da outra. não posso — disse Norman. de pé. Os desenhos mostravam Vilma Banky reclinada num sofá. magnanimamente. com u m ar de preocupação. O tio Bernie lhe recomendara que nada dissesse. Parou de repente à frente de um grande cartaz. Depois se levantou. as oficinas de uma pequena companhia de discos. Desde que David trabalhe. No fim. o vestido bem acima dos joelhos. O prédio era ocupado por seis locatários. o s maiores fabricantes de preservativos e preventivos anticoncepcionais baratos d o mundo. Mal davam vazão ao grande número de empregados que para ali acorriam às oito horas da manhã e de lá saíam às se is da tarde. Que iria dizer o tio quan do tivesse conhecimento disso? Voltou para junto das escrivaninhas. juntas duas a duas. — Parece que ouvi alguém chamar — disse ele. O homem do elevador avi-sou. as palavras: COM OS CUMPRIMENTOS DE HENRI FRANCE. As portas do elevador de carga abriram-se ruidosamente. o sangue é mais forte que a água. — Há alguém aqui? Sua voz ecoou pelo cavernoso pavimento vazio. Marcava sete e meia. David sorriu e começou a andar pelo corredor. Norman foi para a porta. — Vim procurar o gerente para falar de um emprego. — Guardarei segredo. curiosidades —.Bernie ficou olhando para ela. O quinto e o sexto andares pertenciam a Norman Pictures. perto do rio . moreno e simpático no estilo Valentino. — Não há pressa. tabuletas. com o papel na mão. Alguém no depósito havia feito um acréscimo no cartaz. — Poder. ha via várias escrivaninhas. Mas. de tão surpreso que ficou. no terceiro. mas talvez você tenha razão. — Obrigado. David virou as costas para o elevador pensati-vamente. O andar térreo era de uma companhia de peças d e automóveis. Afinal de contas. Saltou do elevador no sexto andar e caminhou por um largo cor redor entre prateleiras de madeira e aço. Havia grandes letras vermelhas que diziam: VILMA BANKY E ROD LAROCQUE. As portas de aço se fecharam e o elevador se moveu com uma terrível barulheira de fe rragens. Havia dois grandes elevadores de carga nos fu ndos e três pequenos elevadores de passageiros perto da entrada. Rod Larocque. próximo ao rio Hudson. — Mas. olhando as prateleiras. Só aparecem às oito horas. a fábrica da Companhia Henri France. Tenho um depósito na rua 43. e que fora dividido em cômodos. É contra os meus princípios. Era espantoso como o material diferia um po . Encontrará trabalho. David chegou cedo. Bernie? — per-guntou a irmã. A três por cento. Ele o d obrou e pôs no bolso. cada uma delas referente a um filme. — Mas ninguém irá dizer que Bernie Norman não cumpre sua palavra. foto-grafias. mandarei para você u m cheque de quinhentos dólares e mais os juros de catorze anos. no quarto. Mas todo mundo já sabia. Quando chegar ao meu escritório. Basta uma palavra sobre isso e es tará despedido. de acordo com a moda em vigor na época.

— As guias? — Sim. David estendeu a mão. Apontou para uma cadeira ao lado da escrivaninha. — Golpe? O homem fez um gesto afirmativo com a cabeça. — Pois eu me chamo Ytzchak Margolis. Se ntiu que a testa estava ensopada de suor. David percebeu então que o homem estava nervoso. embora aparentemente todo mundo soubesse . Virou-se e e sperou. — Trabalha aqui? — perguntou David. Ouviu o elevador de passageiros parar. Seu aperto de mão foi fraco e hesitante. não é? — Sou. como se fizesse uma acusação. mas David tinha certeza de que era sobre ele que falavam. — Prazer em conhecê-lo. desculpe! — replicou David. Está todo mundo alarmado. Olhavam furtivamente para ele quando se dirigiam p ara as mesas de empacota-mento. deixe em branco. Às oito horas. De vez em quando. Parecia até que o único trabalho dos artistas era mudar os nomes dos atores e o título dos filmes. em voz bem baixa: — Agora. — Pode ir fumar no banheiro — Wagner disse. procurando um cinzeiro. Tudo qu e você precisa fazer é conferir as guias. — Não viu os avisos? — Oh. Tirou da gaveta uma ficha de c andidato a emprego e disse a David: — Preencha isto. Afastou-se novamente. De repente sentiu vontade de urinar e entro u num dos mictórios. e com razão. O homem falou em iídíche. jogando-a sobre sua escrivaninha. acho que foi um grande golpe de seu tio colocar você aqui. Wagner a examinou apressadamen te. apareceu . Mas não iria falar sobre isso. Sorria com to-dos os dentes de ouro da boca. — Meu nome é David Woolf. Estavam de cost as para ele. que todo mundo havia parado de trabalhar e estava olhando para ele. uma campainha tocou e um débil rumor de atividade começou a encher o préd io. Vári os homens passavam à sua volta. Jack Wagner. e David se virou para vê-lo. Mandaram-me vir falar com o gerente sobre um emprego.uco de filme pata filme. — Sim. David ficou observando-o conversar com o homem da primeira mesa. Um homem alto e magro. Sou capaz de embalar num dia o que e-les fazem numa s . Wagner olhou para ele e o ar de preocupação d o seu rosto se agravou. — Você é filho de Chaim Woolf. Wagner levantou-se e saiu. O homem olhou a mão estendida. No lugar onde pergunta se tem algum parente que trabalha na compa nhia. apontando para os fundos. Não encontrou e percebeu. Era absurdo o homem ficar nervoso por causa do seu parentesco com t io Bernie. a porta se abriu e ele percebeu que um homem estava às suas costas. ou via o barulho das portas do elevador de passageiros que se abriam e fechavam. — Não pode fumar aqui dentro — disse a David. David seguiu p elo corredor até encontrar o banheiro. — Você é sobrinho de Norman — ele disse. ainda mais nervoso que ele próprio. David estendeu-lhe a ficha. de repente. as guias de embarque. de cabelo vermelho e com ar de preocupação no rosto. onde começavam a cuidar do trabalho. O dia havia começado. a boa vida dessa gente acabou. Não era de admirar que todo mundo soubesse com tanta rapidez. Começou a s e sentir nervoso e acendeu um cigarro. — Eu sou o gerente. David continu ou a preencher a ficha. Parou e olhou para David em si-lêncio. — Bom — murmurou vagamente. Da Sociedade Prushnitzer. — Claro que trabalho. David começou a preencher a ficha. Não entendia. Quando Wagner voltou. Ou pensa que vim de tão longe só para urinar? Cá entre nós. — Sente-se aí. como seu pai. Meu nome é Wagner. Wagner. o som de passos no corredor. sr. — Ninguém aqui sabe disso além de mim — disse Wagner. Nesse momento. senhor. depois continuou a falar.

As feições eram grosseiras e a pele ti nha o tom avermelhado de alcoólatra. . Foi então que David começou a compreender. — O velho Norman mandou um garoto fazer trabalho de homem. Wagner me mandou apanhar os folhetos. David se aproximou dele. e havia uma porção de gente trabalhando na carga e descarga dos caminhões. quando encontrou Wagner. Segurando as alças da extremidade da corda p resa à roldana. — Apontou. vestindo cami-seta. mas seus cinqüenta e nove quilos não foram suficientes para levantar o engradado do chão. Mas não tardou a esboçar um sorriso manhoso. Há um carregamento de quinhentos e cinqüenta mil folhetos de anúncio lá embai xo na plataforma. — Pergunte ao chefe da plataforma. Eu só cuido do elevador. Os vadios é que correm perigo de perder o emp rego. Vi Sam trabalhando lá em cima. Os folhetos estavam embalados em quatro engradados. — Pode me dar uma ajuda aqui? O homem deu uma risada. O chefe da plataforma se voltou para David. — Não? — perguntou Margolis. mas. 5 O elevador parou no andar térreo e as portas pesadas se abriram na plataforma de e mbarque. Você não quer tirar o emprego de ninguém. — Compreendo. O chefe da plataforma estava rindo ironicamente. deixou cair todo seu peso. — Quem é o chefe da plataforma? O homem do elevador apontou um homem atarracado. o escriturário dos recebimentos. Traga tudo cá para cima. seu idiota! — Diabos! Como posso saber? — perguntou David. Foi saindo. Estavam todos com medo de ficar desempreg ados. Só estou aqui porque preciso mesmo do emprego. Vou espalhar a notícia . com pêlos neg ros espessos cobrindo o peito e os ante-braços. — Estão ali encostados à parede. O chefe da plataforma olhou para ele. — Será que mandaram o Sam embora para dar o lugar a esse bestinha? — Não. contendo cento e vinte e cin co pacotes de mil unidades cada um. — Sabe trabalhar com uma empilhadeira? — Dessas que usam para levantar fardos? — Exatamente. Vários caminhões estavam estacionados de ré na plataforma. — Claro que sei. — O sr. — Muito bem. Não tenho com que me preocupar. David levou a empilhadeira para lá e prendeu o s dois ganchos sob um dos engradados. David olhou em volta. quando chegou à porta. Sam. que já estava per-dendo a calma. O chefe da plataforma virou-se para o homem do elevador. — Claro que não. — Mas ninguém tem motivos para se preocupar — disse David. — Tenho meu próprio serviço para cuidar — disse. sabe? O velho nunca deixa a mão es-querda saber o que a d ireita está fazendo. Estava no meio do corredor. — Qual é o material que devo levar para cima? — David perguntou ao ascensorista. — Não estou aqui para tirar o e mprego de ninguém.emana. — Wagner. — O que quer? — o homem perguntou. numa das mesas de empacotamento. voltou-se e olhou para David. com sarcasmo. — Você é igualzinho a seu tio. compreendo. David jogou fora o cigarro e saiu. hein? Onde está Sam? — Sam? — Sim. O homem teve uma expressão de decepção. A ansiedade abandonou os olhos de Wagner por um momento. admirado.

Tirou distr aidamente um cigarro do bolso e tratou de acendê-lo. Logo depois de ele haver assinado. — Bem. assine a fatura. Já eram quase dez e meia quando David acabou de esvaziar os engradados e empilhar todos os folhetos nas prateleiras. Vou mostrar o lugar certo. Sentiu um assomo de amargura. Olhou em volta. com visível mau humor. O gerente con-versava com o utro homem. Depois. — Não conseguiu trazer os folhet os? David olhou-o fixamente. Até o ger ente. vá para o meio da rua. cobriu o fone com a . O gerente entregou-lhe uma folha de papel. pode dizer — exclamou o gerente. sabendo muito bem que ele não teria força para le-vantar o engradado . — É proibido fumar aqui — avisou o chefe. depois desceu em silêncio a rampa em direção à rua. — Muito bem — disse para o ascensorista. Torciam e se deliciavam com o fracasso do sobrinho do patrão. Foi Margolis quem res-pondeu: — Está no banheiro. pensou. O ascensorista dava um sorriso afetado. David. sem a segurança de pouco antes. — Espere um pouco — disse ao ascensorista. malicioso. Havia uma garagem do outro lado da rua. Indignado. O suor encharcava sua camisa. David levou os quatro engradados para o elevador. Em menos de cinco minutos. e isso lhe deu uma idéia. Perguntou aos empre-gados: — Onde está Wagner? Os homens se entreolharam confusos. Estava preocupado em saber se todos de fato estavam contra ele. com um cigarro na mão. Foi até a mesa do gerente. David agradeceu e seguiu pelo corredor até o banheiro. — Está bem — disse Wagner. Todos os empregados das mesas olharam para o elevador. Bond. até os motoristas dos ca minhões estavam rindo. Estava de costas e teve um sobressalto quando D avid disse: — Sr. acabaram de chegar — continuou Wagner. Acendeu o cigarro. — Sim. — Vou perguntar a Wagner onde quer que deix e isso. — Já estão aqui em cima. — Leve-os para o corredor cinco . Um silêncio tomou conta da plataforma enquanto ele ajustava o macaco sob o engradado. preço total de quinhento s dólares. Sim. o tal Wagner. — Vamos subir. — Já trouxe tudo? — perguntou Wagner. próprio para caminhões. Esse papel é bem caro. o telefone da escrivaninha. Enxugou a tes ta na manga e foi até a escrivaninha do gerente. Deu meio dólar ao mecânico e voltou empurrando o grande ma-caco hidráulico. A camisa branca e limpa que a mãe o fizera vestir agora estava toda molhada e suja. uma explosão de gargalhadas. A voz do chefe arrematou: — Acho que mostramos ao judeuzinho bastardo que conosco ele não arranja nada! David afastou-se dali. começou a caminhar pela calçada ao lado do edifício. Wagner o mandara faze r aquele serviço. Só quero saber onde devo colocá-los. — O que quer que eu faça agora? — Foram quinhentos pacotes ao todo? — Exatamente. enquanto escrevia suas iniciais ao pé da fat ura. Atrás dele. — Depósito. — Claro que sim. enquanto as portas do el evador se fechavam. sentiu o rosto ficar vermelho.David de repente tomou consciência do silêncio que caíra sobre a plataforma. mais irritado ainda. sr. o gerente também estava contra ele. David examinou a fatura enquanto apanhava um lápis. a um dólar cada pacote de mil unidades. Era a nota dos folhetos: quinh entos mil folhetos. — Então. Sorriu ao ver a cara carrancuda do chefe da plataforma. Pôs em ação a alavanca do macaco e o engradado foi suspenso. fumando um cigarro. Wagner? — Sim. Todos estavam con tra ele. tocou e o gerente atendeu. David ficou olhando para ele por um instante. Estava vazia. — Se quiser fumar. E o tio Bernie havia dito que tudo ficaria em segredo. o que há? — perguntou. jogando o cigarro na privada. se não conseguiu. não ficara exatamente satisfeito em vê-lo.

Vamos precisar do e spaço. e logo depois colocou o fone no gan cho. Nada daquilo fazia sentido. examinou e disse ao telefone: — Não. Que negócio mais maluco aquele em que se joga va uma coisa fora antes mesmo de pagá-la. Já era meio-dia e meia quando ele chegou à plataforma levando o pri-meiro engradado de cartazes.mão e disse a David: — Quer ir pegar um daqueles folhetos e me trazer? David saiu para o corredor. Mas subiu e foi até a mesa de Wagner. depois de explicar rapidamente o negócio. Po-deremos ter tempo q uente. — Oh. David. O que ele devia ter era sorte. David o encarou. O chefe da plataforma se aproximou e olhou dentro do elevador. — Onde coloco isso? — Não vai colocar isso em lugar nenhum. tirou um folheto de um dos pacotes e le-vou-o para o gerente. — Está certo. Suba agora mesmo e vá dizer a Wagner que terá de me pagar cinco dólares se quiser que eu jogue seu lixo fora. — Sim. surpreso. Todos têm. — Tenho uma hora para almoço. do departamento de compras. sr. Wagner pegou. David. Chegavam até a pagar cinco dólares para se livrarem da mercadoria. Dê-lhe os cinco dólares e esqueça. E traga um soco-inglês para você. Que diferença fazia se não estavam impressos em duas cores? — O sr. — O chefe da plataforma quer cinco dólares para jogar o lixo fora. — Vinte minutos. sem acreditar no que estava vendo —. depois de tomar uma decisão. — Lixo. Bond mandou jogar tudo fora. Bond. é claro! Havia esquecido — disse Wagner. . — Posso tirar a minha hora de almoço agora? — Pode tirar depois de resolver o caso dos folhetos. O tio não era tão esperto quanto diziam.. Quem falava do outro lado do fio estava tão irritado que David quase podia ouvir o que era dito. para onde vai com isso? — É lixo. Os folhetos que acabamos de receber deviam ser de duas cores? David olhou para o cartaz sem compreender o motivo de tanto estarda-lhaço. Se não fosse a falta de sorte. Qualquer comprador de papel velho dará no mínimo cinqüenta dólares por aquilo. Wagner? — perguntou. o pai dele teria s e tornado milionário. Wagner mostrou-se aborrecido. O chefe da plataforma berrou: — Ei. — Se não se incomoda. São de uma só cor. tratarei disso na hora de meu almoço. espere um pouco — continuou Needlenose: — Shocky diz qu e cobrará dez dólares pelo cami-nhão. Mas nada tinha com isso. David estava cada vez mais perplexo. — Mas o papel dos folhetos é muito bom. Jogavam fora quinhentos dólares de pa pel antes mesmo de pagá-los e não procuravam nem ganhar cinqüenta dólares com ele para d iminuir o prejuízo. — Era o sr. — Não me incomodo. Bond. — Claro. pois do contrário não faria ne-gócios dessa espécie . David sentia cada vez mais raiva do homem. Os novos folhetos chegarão esta tarde. hein? Tudo isso? — Sim — respondeu David. — Posso dar um telefonema? Wagner concordou e David ligou para Needlenose na garagem de Shocky. mas não há necessidade. abrindo uma caixa de metal sobre a mesa e tirando uma nota de cinco dólares. — Entendi. E outro para mim. Trate primeiro do caso e depois faça sua hora d e almoço. — Em quanto tempo você consegue chegar aqui com um caminhão? — perguntou ele. Eram ap enas folhetos para distribuir nas ruas.. tire tudo das prateleiras e leve outra vez lá para baixo. — Não temos tempo de tratar dessas coisas. Mas. vai mesmo pagar esse dinh eiro a ele? — Naturalmente. — Escute — disse David. sr. — Jogar fora? — perguntou David.

— Faço apenas o que o departamento de compras manda. — Ele pode matar você — replicou Needlenose. David sentou na cadeira dele e acendeu um cigarro. — Não. — Como posso fazer isso? Já foi bastante difícil ele me dar este. Wagner pôs a nota de cinco dólares de volta no caixa. — Sabe para onde foram todos. Dentro em pouco. sr. nada teria acontecido. mande a conta para o tio Bernie. além dele. você entra na briga e me ajuda. Estão lá embaixo na rua. Peça outro emprego a seu tio. é um idiota! — disse David. Trancou as gavetas da escrivan inha e se levantou. — Acredite no que vou dizer. Sentia um gosto amargo na boca. não faria mal algum dar-lhes realmente motivo para ter medo. além do mais. A víti ma avançava para o homem que estava à sua frente e era atingida pelas costas. é pior do que um cossaco. David olhou para ele. depois deu um sorriso irônico. se todos estavam com tanto medo dele que não o deixavam trabalha r direito.— Está bem. — Se eu estiver em apuros. nem se quisesse. Ele não pode deixar você livr e de fazer o mesmo. ficava sem saber o que havia acontecido. um por um. o que poderei fazer será apenas tratar de seu ente rro. Wagner. infringindo delibe-radamente a proibição de fumar. Tony. — Como vamos enfrentar o cara? — perguntou Needlenose. Vamos lá. ele nem me receberá. A culpa foi dele. David também os encarava. Em nov enta por cento dos casos. — Então. Se ele não me tratasse como me tratou. — Eu queria apenas fazer o meu s erviço. ansiosos por ver Tony arrebentá-lo. As pontas redondas e pontudas bri-lharam perigosamente. e ele continua ria calmamente a receber o dinheiro. Um homem pela frente e outro pelas costas. Agora não podia recuar. Se eu aparecer agora lá chorando. — Não quero encrencas — disse nervoso. — Estilo chinês? Era um ardil comum em Chinatown. — A responsabilidade não é minha — disse prontamente o gerente. Para dar resultado. Não adianta você se sujeitar a ser massacrado. David. E não podia também perder a luta lá embaix o. Quer liso ou de ponta? — De ponta. Tudo aquilo era uma coisa sem pé nem cabeça. — Tem pelo menos vinte quilos mais que você. muito pálido. — Nesse caso. Estarei à sua espera na calçada da frente. E ele não era tão inteligente quanto se julgava. zangado. não tem motivo algum de se preocupar. Wagner mostrava ansiedade depois que David desligou o telefone. Se perdesse. em desafio. — Do outro lado da rua. pensativo. Do contrário perderá tudo. quando mais t arde recobrava os sentidos. Pouco depois. Caíra direitinho na armadilha que lhe haviam prepar ado. sem nada dizer. A mão de Needlenose saiu do bolso da calça e David pegou a soqueira de ferro. — Se você estiver em apuros. os homens começaram a sair. jogou o cigarro no chão e esmagou-o com o salto do sapato. Enfi ou a arma no bolso. é se o tio Bernie souber que gasta cinco dóla res para perder cinqüenta. o ch efe da plataforma. Trouxe o que você me pediu. David pensou que. — Vou almoçar — disse. o tio com certeza ficaria sabendo. foi M argolis. menino? Todos eles? Não saíram para o almoço. — Encrenca o senhor vai ter. 6 . tenho de enfrentá-lo sozinho. — Neste caso. Olhou para os empregados. David deu uma longa tragada. — Onde está o caminhão? — perguntou David. David levantou. Needlenose estava esperando por ele lá embaixo. e perguntou: — Por que é que esses cinco dólares são tão importantes? — Todos os locatários do edifício pagam alguma coisa a Tony. e ele perderia o emprego. o único que permaneceu. Os empregados das mesas estavam todos de olhos voltados para e le.

Correu os olhos distraidamente à sua volta. porque ele era moço. porém. preocupado com as ameaças ao seu império? Reis e ditadores vivem mais amedrontados que os outros. — Tenho uma coisa para você — disse. Naquele breve momento el e entendeu. por entre os dentes. David? — Não. Seria assim com o chefe da plataforma e com o tio Bernie. Levou o último engradado para o caminhão e puxou a trava. Quando chegou perto do chefe da plataforma. Reconheceu alguns homens do depósito. Quando não p or outras razões. à sua maneira. Novo suspiro nervoso se elevou da multidão. Não podia recuar. De repente. Além disso. Ouviu um leve suspiro da multidão amontoada na plataforma. Aquilo tudo era uma loucura. De que adiantava aquilo? Que va-lor tinha aquele emprego miserável para que e le se arriscasse a morrer para não perdê-lo? Viu então o chefe da plataforma e não teve mais dúvidas. Todo o edifício sabia o que ia acontecer. O mundo era assim mesmo.Estavam esperando. O homem não havia se movido. ainda com a mão no bolso. mais cedo ou mais tarde. Needlenose perguntou: — Quer que lhe dê uma mão. alguns comiam sanduíches fingindo que estavam interessados apenas nisso. Fazia calor e David sentia o suor encharcar sua roupa. Empurrou o macaco carregado para a plataforma aberta do caminhão e destravou. Até seu tio. O homem moveu rapidamente o pé. Não era nenhum herói. disposto a lutar para manter o seu reinado. Não ia haver briga nenhu-ma. David colocou o macaco sob o engradado mais próximo. O en gradado pousou no chão do veículo. O chefe da plataforma falou com voz autoritária: — Para tirar esse caminhão daqui tem de pagar cinco dólares. . sentiu-se meio atordoado. vai ficar tudo aí mesmo! David meteu a mão no bolso. nos depósitos de papel v elho à margem do rio e mesmo naquele depósito da rua 43. Enfiou os dedos no soco-inglês. ninguém mais fingia. Até pouco antes. David o encarou também e tentou empurrar o macaco para a plataforma. este estendeu o pé na frente do macaco e encarou David em silêncio. talvez t odos estivessem errados. sim. porque têm mais o que perd er. toda vez que aparecia alguém par a pôr sua tirania em perigo. — Traga o caminhão — disse David. aproximando-se do homem. sabem que um dia. Olhou de relance o chefe da plataforma quando vol tou para apanhar outro engradado de cartazes. Talvez estivesse errado. pela velhice que lhes rouba as forças e o poder de raciocinar. bloqueando a traseira do caminhão. A alavanca do macaco foi arrancada da mão de David. sentindo a frieza do met al. Sempre havia um pequeno dit ador. Aquele foi um momento revelador para o espírito de David. quando virou o macaco p ara tirá-lo do caminhão. Os que dominam o mundo têm de morrer e deixar tudo para os herdeiros. o macaco esco rregou para o lado e a parte da frente saiu por completo do caminhão. David sentiu uma leve esperança no fundo do coração. Deixe que eu me arranjo. Chegou à beira da plataforma no momento em que Needlenose en-co stava nela a traseira do caminhão. Levantou os o-lhos e viu o chefe da plataforma. Muita gente conversava. O silêncio o envolveu e ele sentiu que todos os olhares estavam fitos nele. Quem sabe quantas noites o tio Bernie fic ava sem poder dormir. Needlenose desceu a rampa e foi até o caminhão encostado no outro lado da rua. a platafor ma estivera barulhenta. Em toda a parte era a lei da selva — nas ruas do East Side. Descendo do caminhão. era um ditador. Sem se perturbar. As rodas do macaco ficaram girando no estreito espaço entre a plataforma de em-barque e o cami nhão. judeuzinho! Se não tem dinh eiro. Margolis dissera a verdade. Havia até algumas moças da fábrica de cosméticos e da Henri France a postos para apreciar o aconteci-mento. Eles des viaram o olhar do seu. Tudo aquilo seria dele um dia. David empurrou o macaco para onde ele es tava. Acionou a alavanca e o engradado f oi suspenso do chão. sentado à sua escrivaninha no alto de tudo. perderão tudo. As conversas haviam cessado e os sanduíches foram esquecidos dentro dos embrulhos de papel imper-meável. Naquele momento.

Todos já estavam começando a se dispersar. ficou ali estendido. — Tome. Pouco depois. Dep ois. David se sentiu completame nte atordoado. Este olhou para David e perguntou: — O que houve? — Um acidente. m as perdeu o equilíbrio e caiu no chão. como um monstro pr imitivo. Foi nesse momento que David ata-cou. e olhou para a multidão. Ouviu os passos do velho saindo do banheiro.— Agora. com os rostos pálidos e amedrontados. com o macaco sobre as costas. ofegante. David atacou-o outra vez. O guarda olhou para o chefe da plataforma. — Telefonem chamando uma ambulância. — É verdade que você é sobrinho do velho Norman? — É. Achei que ia precisar disto. O barulho da sirene foi diminui ndo a distância. Ela o olhou firmemente. atingind o-o na cabeça e arremessando-o contra o lado do caminhão. sim. vestindo um avental azul que tinha bordadas no bol so as iniciais da Henri France. Havia uma moça perto da escada. — Foi você mesmo quem pediu! — disse. O homem aparou-o no braço mas. O homem estava quase de pé. David encaminhou-se para o elevador de carga. Virou o rosto para David. Quer ver? — Claro. — Está se sentindo bem? — perguntou o velho. teve de recu ar para a plataforma. — Vou matá-lo por isso. Parou para olhá-la e teve a vaga impressão de que a conhecia. com um sorriso que mostrava dentes não mui-to bonitos. Sentiu a dor subir-lhe pel o braço quando atingiu com toda a força o rosto do homem. cobrindo depois o rost o com ela. pegou a toalha e a ensopou na água quente. Exceto por um pequeno galo no lado direito da testa. David olhou e achou que o tal F red. desviando seus olhos de Davi d para a multidão. com uma to alha na mão. Lavou o rosto com água fria e se en-xugou. imóvel. — Estou. diz que eu devia trabalhar n o cinema. O caminhão desapareceu na rua no momento em que Wagner chegava com um guarda. olhando para o chefe da pla-taforma: — Será que você liquidou o homem? David encolheu os ombros. e stava perfeito. A porta se abriu e Margolis apareceu. empurrando o macaco sobre o homem. está ficando sabido. O soco não atingiu o alvo. Sacudiu a cabeça para recuperar-se e viu que o inimigo avançava contra ele. Firm ou os pés na borda do caminhão e procurou atingir novamente o rosto do homem. David aprumou o corpo. Tirou algumas poses minhas — Foi? — Estou com as provas aqui. O homem conseguiu esquivar-se. tirou a toalha do ros to e se olhou no espelho. E me ajudem a tirar essa coisa de cima dele. Needlenose subiu no caminhão e disse. As pontas de metal do soco -inglês abriram-lhe o rosto como se fosse um melão maduro. O calor lhe fez bem. A briga teria de ser rápida. Needlenose tomou o volante e David desceu para a plataforma. muito obrigado. David encostou-se no grande macaco hidráulico e olhou para ele. — Fred Jones. judeuzinho — disse o homem. O chefe da plataforma deu um grito quando o pesado macaco caiu em cima dele. Ela sorriu e tirou algumas fotografias do bolso. com o sangue escorren do por suas faces e os lábios cerrados numa expressão selvagem. O homem deu um grito contido de dor e desfechou tremendo soco em David. fosse lá quem fosse. O homem estava se levantando nas mãos e nos joelhos. David agradeceu. . caso contrário o homem poderia matá-lo mes mo. Provavelmente era uma das garotas que havia visto lá embaixo. que é o chefe do seu laboratório fotográfico. ainda as-sim. sabia tirar fotografias. judeuzinho miserável! David olhou para ele. Fechou os olhos. Ouviu a sirene da am-bulância quando estava no banheiro se lavando. Depois deixou a toalha na beira da pia e saiu. Jogou a soqueira no bolso do amigo e disse: — Convém tirar logo esse caminhão daqui.

Tirou alguma coisa do bolso e entregou a David. começando a descer a escada. Gostaria de começar t udo de novo. — Tenho de voltar ao trabalho — disse ela. estendeu a mão e sorriu. Eram dez horas da manhã. Foi então para sua escrivaninha. 7 Bernie Norman entrou no seu escritório de Nova Iorque. Em seguida. David a olhou bem nos olhos. dizendo: — Meu nome é David Woolf. — Você é bonito — disse ela. O guarda me perguntou o que houve. O Norman. Os negócios iam muito bem. Pode-se ler um jorna l através delas. Quando David se voltou para as mesas. Já era tempo de Tony levar uma lição. — Sou eu o gerente. De repent e. Mandaram-me vir falar com o gerente para trabalhar aqui. — É assim que muitas c omeçam no cinema. Eram tão finas que se podia ler através delas . — Eu gosto de você. cintilantes e firmes. — Não é preciso — replicou Wagner. Mas levou doze pontos no rosto. Trazia escritos o nome Betty e um número de te lefone. David abriu a caixinha. — Já paguei. Foi um acidente. Como era bom aquilo. sr. Sentou. — Até a vista. todos estavam sorrindo para ele. — Essas aí não lhe darão aborrecimentos. prontamente. — Obrigado.— Gosta? — Gosto. Havia um papel no fundo da caixa. Até os charutos em Nova Iorque eram melhores. quando David apareceu. mas nela se lia em letras douradas: HENRI FRANCE DE LUXE. O gerente o encarou firmemente e disse em voz baixa: — Gostaria de fazer de conta que não aconteceu nada hoje de manhã. Ela tinha razão. O macaco caiu em cima dele. dife-rente da terrível uniformidade do clima da Califórnia. São as melhores que fazemos. Houve um instante de silêncio e ela continuou: — Vi tudo o que houve lá embaixo. Eram todos amigos. O gerente levantou-se e apertou-lhe a mão com força. O médico disse que Tony teve apenas um choque momentâneo e duas coste las quebradas. Muito prazer em tê-lo co-nosco. Parecia uma caixinha de aspirina s. depois da rápida caminhada do hotel até ali. Wagner estava sentado à escrivaninha. — Fez boa viagem? Norman sorriu para ela. Jack Wagner. começou a ler os papéis em cima da mesa e sua satisfação aumentou. Ele estava com os olhos brilhantes e as faces rosadas pelo ar do inverno. Todos têm medo dele. Wagner. Norman — disse sua secretária. apreciando com prazer a fragrância do tabaco. Os cinemas de Nova Iorque estavam dando bons lucros. Eu disse que foi um acidente. entrando no seu gabinete e abrindo a janela. — Pode ficar com elas. sem demora. — Se tiver oportunidade. — Você teve sorte. apanhou um grande charuto e o acen-deu lentamente . O gerente baixou os olhos e disse: — O homem da garagem quer dez dólares para mandar consertar o macaco. Fui eu mesma que examinei e enrolei todas. — Obrigado. — Não gosta dele? — Ninguém gosta dele. David olhou-o por um instante. — Irei pagar amanhã. haviam deixado de ser estranhos. — Até a vista. Deixou-se f icar ali respirando o ar puro e frio. — Obrigado. mostre-as a seu tio — disse. — Ele é que teve sorte. — Bom dia. seu m . Vou apresen tá-lo ao pessoal.

acendendo nervo-samente um cigarro. Entrou em entendimento com o comércio das vizinhanças e está sorteando brindes em todas as sessões. A venda de bombons e pipoca s é quatro vezes maior do que antes. secamente. Bernie — disse Hawley. com os olhos protegidos pelos óculos escuros. — Deixe de rodeios e diga-me a verdade agora mesmo — disse Norman. Norman — disse a secretária pelo telefone. depois de olhar o boletim. não! — Os totais do boletim estão certos. — É seu sobrinho. Duas vezes por semana faz de sfiles de propaganda dos filmes. — Mas o rapaz está trabalhando bem. — Não vê? — replicou Norman. mas tanto assim. Teve de se submeter a uma operação de apendici te logo depois do Natal e ainda está se recuperando. Bernie? — perguntou ele. mais do que três mil dólares por semana. Bernie! É a gratificação de vinte e cinco por cento que você dete rminou para os gerentes. — Não vejo nada de errado — disse Hawley. Nossos contadores verifi-cam tudo a cad a semana. Alguém tinha enlouquecido. Jamais concor daria com gratificações dessa ordem. quando normalmen-te a receita diminui. David Woolf. que são os dias de menor movimento. as despesas gerais aumentaram um pouco. — Eu já sabia! Eu já sabia! — Não tivemos outro jeito. Continuou a folhear os boletins dos cinemas e parou su rpreso quando chegou ao do Park. — Pensa que não sei que o Park nunca rendeu mais do ue três mil dólares desde que foi inaugurado? Posso ser tolo. — Mas a assinatura no boletim é dele. Uma família inteira pode ent rar por setenta e cinco cents. Bernie. Norman examinou mais detidamente o boletim e encontrou um item de despesa com o título de Gratificações aos Empregados. Pegou imediatamente o telefone. — Aumentaram exatamente quanto? . — Diga a Ernie que venha imediatamente falar comigo. — E essas gratificações aos empregados? Dois mil e quatrocentos dólares em dois meses! P ensa que estou maluco? Nunca a-provaria uma coisa dessa! — Mas é claro que aprovou. Era ape nas um cinema de terceira ou quarta categoria. havia aumentado consideravelmente a receita desde que começara a dar shows no palco entre as exibições de filmes. Ernie Hawley era o tesoureiro e teria de explicar aquilo direitinho. — Pronto. que acusava uma média de quatro mil e duzentos dóla res por semana nos últimos dois meses. O total médio por semana chegava a quase trezent os dólares. Podia ser comparado com o Loew's State e o Palace. — Nunca apren dem a fazer nada certo? — O Park? — Hawley demonstrou profunda surpresa. — Deixe-me ver. Do contrário. batendo no boletim. Hawley entrou daí a pouco. — Então há truque nisso. — Fez boa viagem? — O que há com este boletim do Cine Park? — perguntou. — Não. mas achamos que vale a pena. — Então quem é que está administrando o cinema? Quem é esse sabidinho que está tirando do no sso bolso trezentos dólares por semana? Hawley já demonstrava claramente todo seu nervosismo. sarcástico. E apenas um carimbo. O boletim só podia estar todo errado. sr. Só daríamos a gratificação sobre que passasse daí e calculamos que não gastaríamos quase nada. — Estávamos em dificuldades. na Broadway. tirando furiosas baforad as do charuto. A doença de Taubman nos pegou desprevenidos e não tín hamos ninguém para botar no lugar dele. no pior trecho da rua 14. Qual foi o máximo estimad o para o Park? — Três mil. — E quanto é que isso tudo está nos custando? — Bem. Norman. Bernie. Taubman está nos roubando desla-vadamente. como pod eria estar faturando quatro mil e duzentos dólares por semana? — Taubman não está mais dirigindo o cinema. O Park nunca fize ra. Instituiu ainda o que chama de "noites da família " às segundas e terças. Norman entregou-lhe o boletim e se recostou na cadeira. E está dando resultado. e ainda assim excepcionalmente. — Sério? — falou alto Norman. — Mas nós calculamos isso sobre a renda máxima dos cinemas. Devia haver algum engano. Norman bateu com a mão na testa dramaticamente. como todos os gerentes têm. Seria paga caso eles conseguissem manter o nível de renda depois do Natal. — Como vai.elhor cinema.

Isso deu ainda maior prestígio ao cinema. descobri que ele transformara o cinema numa casa de tolerância e num ponto de bookmakers! Todos os artistas de vaudeville do país. inc lusive as concessões de vendas. Mas para ele é óti-mo. antes que a polícia fechasse o Norman. que tipo de problema ele poderia nos c riar no.Hawley pegou o boletim: — Entre oito e oito dólares e meio por semana. — Pois foi uma felicidade que eu o mandasse para o Hopkins. chega-se à conclusão de que estamos recebendo cento e cinqüenta dólares a mais por semana. — Mas temos de reconhecer. Ganhava mil dólar es por ano vendendo cartazes inaproveitados. — E você acha que ele fez isso visando aos nossos interesses? Não seja bobo! Ele ganha va dezessete dólares por semana. que está fazendo mais dinheiro do que um vice-presidente. Bernie riscou um fósforo e acendeu o charuto. O inventário rotativo perpétuo que ele idealizou nos permitiu economizar uma verdadei ra fortuna em compras dispensáveis. Devemos agradecer-lhe a gentileza de deixar cento e cinqüenta para nós? E isso e nquanto ele não des-cobrir um meio de nos tirar esses também! Sentou novamente à escrivaninha. — Talvez seja isso o que você deve fazer — disse Hawley. — Tire-o do Park e transfira-o para o departamento de publicidade do estúdio. mas ia todos os dias para o trabalho num Buick de dois mil e trezentos dólares. pensativo. chego aqui e o que encontro? A companhia toda anarquizad a por ele. no Brooklyn. — Há um ano e meio vim para cá e o que encontrei? Ele estava trabalhando no depósito hav ia pouco mais de um ano e já tinha mais lucro com aquilo do que nós. que o depósito nunca foi mais bem administrado. Afinal. — Não — disse Norman. Pensei que minhas preocupações haviam se acabado. Trezentos dólares por semana a mais no bolso dele. furioso com o tesoureiro: — Devo mesmo admitir que o pessoal que trabalha para mim não passa de um bando de idiotas! O aumento da receita não nos adianta nad a. — Acho que está sendo vantajoso — disse Hawley. — Mas é ainda um garoto. — O quê? — Fazer dele um vice-presidente. sar-casticamente. — Quanto ele está ganhando agora? — Trinta e cinco dólares por semana. o que poderia acontecer de errado num cinema fa moso como aquele. O tempo em Nova Iorque era desagradável c om aquele frio horrível tão diferente do clima quente e cheio de sol da Califórnia. Afinal. Leva ntou-se. — Não sei por que. de re pente. e mais dois mil fazendo fotografias pornográficas que imprimia às centenas com material do nosso laboratório. Foi até a janela e fechou-a violentamente. — Coloquei-o então no Norman como subgerente. sem que eles precisassem sair de seu próprio camari m? — Mas os artistas mais famosos do país se apresentaram no cinema. Arrumou a c oncessão para vender preservativos de borracha por atacado em todos os nossos escr itórios no país. E é um camarada que eu gostaria de ver sempre do nosso lado. Pensei que tudo estava resolvido e que eu podia dormir em paz. senão iríamos todos parar na c a-deia. Levantou-se de repente e exclamou. porém. E por que não? Você acha que no Loew's State ou no Palace eles encontrariam empregadas bonitas e à disposição das dez da manhã à uma da ma drugada? E onde mais eles poderiam encontrar um sub¬gerente pronto a aceitar apost as para todos os prados do país. — Entre oito e oito dólares e meio por semana — repetiu Norman. ele não poderá arranjar encrencas. — Fez vinte e um anos no mês passado. Ali eu mesmo fiscalizarei seu trabalho. Brooklyn? Voltei para a Califórnia com o coração tranqüilo. não foi? E continuam se apresentando. . onde tudo funciona por si mesmo? Isso é o que eu pensava. — Quando se calcula a receita geral. Seis m eses depois. queriam trabalhar no Norman. — Sim. Ele po deria ficar ali como sub-gerente. ele gasta novecentos dólares do nosso dinheiro por semana para ganhar trezent os. Bernie. Foi uma sorte eu haver acabado com isso. Colocou-o na boca e começou a mastigá-lo. mas toda vez que venho a Nova Iorque consigo me aborrecer! Jogou o charuto no cesto e apanhou outro. encolerizado: — Seis meses depois. assim. quando voltei.

Colocava-o acima de tudo. dizen-do: — Espero que tudo se resolva de forma satisfatória. Nevada sorriu. E Nevada percebeu que gostava das atitudes dela. A irmã tinha razão: bom sangue não nega. para que ele iria cha má-lo depois de tanto tempo? Ele encolheu os ombros. Ela nunca saía de casa. Smith! Muito prazer em vê-lo de novo. Jonas não é como Bernie Norman.— Vou tratar disso agora mesmo. Dan Pierce Martha apareceu logo depois de ele haver lido o telegrama. 8 Harry Richards. Nevada sorriu e seguiu com o carro para o edifício da administração. com a mão estendida. — Tenho de ir a Los Angeles para resolver com o banco o caso da compra dos quatroc entos hectares a Murchison. em 1930. Ele pagaria todas as despesas da mudança para a Califórnia. E ra firme e solidária com ele. embora tivesse idéias loucas. Harry. . se o senhor voltar. chefe do policiamento do estúdio. — Dan Pierce está me chamando. — Ele está à sua espera no antigo gabinete de Norman. sete anos — disse Nevada. Abriu e leu: Tenho importante assunto tratar com você. Todo mundo sabia o que estava acont ecendo. Nevada mostrou o tele-grama. Não havia segredos. levantando-se. Bernie — disse Hawley. evidentemente satisfeito com aquela sincera manifestação de amizade. Será como nos velhos te mpos. — Tenho hora marcada co m Dan Pierce. Seguiu-a até a cozinha. Nevada engatou a marcha e Richards afastou-se do carro. — Não quero que o ex-plorem como já aconteceu. Martha. Não seria necessário avisar. lembrando-se de que a última vez em que estivera no estúdio fora logo depois da estréia de O renegado. — Senão. com animação. — Sr. Depois lembrou-se de que ela não tinha telefone e que seria preciso mandar chamá-la na cas a de bombons da esquina. — O prazer é todo meu. fingindo uma tranqüilidade que não sentia. Diz que tem um assunto importante para tratar comigo. Aquele seu sobrinho era um rapaz muito vivo. Ele só tinha conhecimento do q ue estava escrito no te-legrama de Dan. Chegando do campo. Com um pouco de orientação. Não faria mal algum passar para ver o que Dan quer com igo. Não queria que ela fi casse preocupada. Uma coisa ao meno s não havia mudado no estúdio. — É o que eu espero — disse ela. até de si mesma. quem poderia prever onde ele chegaria? O rapaz iria longe. coisa que nunca pudera ter do próprio pai. havia encontrado o telegrama na entrada. Sorriu quando pegou de novo o boletim. estava no portão principal quando Nevada Smith chegou no seu carro. Sentiu um estranho orgulho. Bernie viu o tesoureiro sair e resolveu telefonar para a irmã. A viúva de Charlie Dobbs era a e spécie de mulher com quem deveria ter casado muito antes. Aproximou-se dele. calmamente. Talvez as coi sas tenham mudado depois que ele tomou conta do estúdio. — O almoço está pronto — disse ela. Re-solveu passar por lá depois do almoço. — Não creio que haja dificuldades. Sabia que s eria assim quando casara com ela dois anos antes. Martha voltou para a cozinha. sr. Gostaria me procurasse imediatamente. Smith. E cer-tamente todos sabiam mais do que ele. — Devem estar em dificuldades — replicou ela. — Há quanto tempo não aparece! — É verdade.

Nevada era um homem rico. Depois disso. Quem foi que lhe arranjou o primeiro traba-lho no cinema? — Lembra-se também de ter deixado o meu show de lado. Dan? — Você sabe como os filmes são vendidos hoje em dia? Vende-se por adiantamento a produção do ano inteiro. — Já vou chegar lá. tantos de horror e mistério. de qualquer modo. até ela própria. e a fazenda de ga do no Texas. olhando-a. — As responsabilidades estão dando cabo de mim. Era o que lhe faltava — isso e Jonas. Dan estava mais gordo e com ar de quem vive regala-damente. É u m círculo vicio-so. — Isso é maneira de falar com um velho amigo? Lembre-se de que fui seu agente. — Mas parece-me que você está se dando bem com isso. Tinha sido sempre assim. — Agradeço muito você ter vindo. não faria — murmurou ela. que ainda usava o seu nome. Mas tenho de lhe falar com franqueza. Mesmo muitos anos a ntes. — De fato. não? — É por isso que estou aqui. o rancho para divorciadas em Re no. Ele havia recusado uma oferta de um milhão de dólares de entr ada e mais os royalties pela exploração da parte norte da fazenda. tantos de ação e aven turas. talvez fosse apenas Jonas. — Em todo caso. Mas. Jonas nos mantém com um orçament . Esta-mos sempre à espera d e que entrem os dólares dos filmes já feitos para iniciarmos a filmagem dos novos. Por um instante. tantos de classe B. — Isso de verá resolver seus problemas. determinada cota mensal de filmes. No fundo. sem aquelas horríveis torres de petróleo. quando ele era bem moço e fora do Texas para o rancho em Reno. Desde então. Martha? Vamos os dois juntos. — É infernal — explodiu Dan. Nos hospedaremos no Ambassador e trataremos de nos divertir um pouco. Tantos filmes de classe A. Não que precis asse de dinheiro. ela teve pena d ele. muito sério: — Deve estar querendo saber por que lhe mandei aquele telegrama. Nevada o olhou. Queria conservar a terra como era. Ambos riram. — Acho que será magnífico — disse. é um trabalho. não é? — Eu sabia. de que ele e o primeiro marido de Martha tinham sido sócios. Talvez apenas dez por cento d e tudo isso esteja filmado quando se faz a venda. Bastava olhar para a animação que a fisionomia de Nevada demonstrava para saber que se houvesse alguma coisa para ele. em cujas vizinhança s havia sido en-contrado petróleo. Tud o mais era acessório e substitutivo. tinha ele aq uele olhar ferido de quem se sente sozinho na vida. Qual é sua idéia. quando viu que podia ganhar ma is dinheiro com o show Buffalo Bill? — Isso foi há muito tempo. botando o bule de café em cima da mesa. Nevada. de viver cercado e aplaudido pelos garotos. Estou até admirado de que tenha falado nisso. onde estavam morando. de ser acompanhado por olhos que cintilavam ao reconhecê-lo quando passava pelas ruas. — Por que tanta pressa? Dan arregalou os olhos e fingiu-se ofendido. que não podia esperar compreensão de sua parte. vive-se numa tra balheira louca para fazer os filmes e cumprir os contratos. voltaria a traba-lhar no cinema. vencido e fugitivo da polícia. Não. Nevada recostou-se na poltrona e sorriu. de qualquer maneira. Dan. Dan baixou os olhos para a mesa e disse. secamente. você foi a primeira pe ssoa em quem pensei. vai dando para viver. Jonas era o filho que ele nunca tivera. Mas estes já tinham outros heróis. Tudo estava rendendo bom dinheiro — o show Oeste Selvagem. — Não estamos mais fazendo filmes. Tem s de produzir. limpa e boni ta. tantos westerns. ela sentira a bon dade do coração de Nevada. — O que acha? — perguntou ele. — Foi apenas para refrescar-lhe a memória. Isto agora é uma fábrica. Nevada.— Não. Martha sentiu um assomo de ternura. onde ela e Ch arlie se haviam estabelecido. em seguida. Sua apa-rência está ótima. — Por que não acumula uma reserva para distribuição posterior? — perguntou Nevada. mas não temos as reservas de dinheiro necessárias. por dinheiro não era. — Ainda não sei qual é sua proposta. Cansado. — Obrigado — disse Nevada. Logo que tomamos conta do estúdio. — Sabe de uma coisa. Era o prazer da fama. sorrindo e quase com timidez.

ao fim de s ete anos. Além do mais. Com este meu cabelo branco. Cada filme. o departamento de vendas acha que pod e colocar catorze westerns. Logo que você concordar. negativos e cópias. O que quero. — Muito bem — disse Nevada. Isso lhe dará um b om lucro. Pierce sorriu. Não estou me queixando. uma aventura nova. — Ainda que tenhamos de recorr er a alguma coisa de Zane Grey e Clarence Mulford. Nevada levantou-se e disse: — Deixe-me pensar um pouco. — Espere um pouco até eu acabar.. — Tem certeza? — Conversei pessoalmente com Moroni. apenas.. — Eu sei qual é sua opinião sobre filmes dessa espécie. De qualquer maneir a. Talvez você pudesse fazer o papel de Nevada Sm ith mesmo. — Ainda não temos o dinheiro para fazê-los. não creio que ninguém se convença se eu fizer p apéis de mocinho. Nevada riu. Bastará fazer alguns reparos e ficarão como novos. Mas o banco está disposto a fazer o empréstimo se você estrelar esses filmes. Gene Autry e Roy Roger s já fazem isso na Republic. — Vamos ver. A resposta de Dan mostrava que ele ainda não havia pensado nos argu mentos. Utilizarei o meu melhor pessoal de produção. — A diferença é que Norman queria explorá-lo e eu não. Mas com os mesmos velhos truques e idéia s. caso queira. — Quanto lhe adiantarão? — Quarenta mil dólares por filme. — Para todas as despesas? — Sim.o muito apertado. Sabe que sempre tive muita confia nça no seu critério em matéria de histórias. Vou conversar com Martha e depois falarei com você. impassível. — Tenho a impressão de estar ouvindo Bernie Norman — disse Nevada. V ocê esperará a entrada dos primeiros lucros para receber seu salário. também. — O importante seria apresentar em toda a série um personagem em quem as pessoas pud essem acreditar. Meu conceito em relação a você é bom demais para estragá-lo com coisa infe-rior! — Muito bem — disse Nevada. Acha que iria chamá-lo se não achasse que você ta mbém podia ganhar algum di-nheiro? Nevada tornou a sentar. Ainda temos os cenários que serviram para O renegado. — Nós lhe pagaremos dez mil dólares por filme.. Talvez ele tenha razão. Isso quer dizer que você ganhará cinco mil dólares por semana. — Mas vou trabalhar em troca de quê? Só pelo dinheiro dos ciga rros? — Creio que tenho um bom trato para você. — Não é possível — disse Nevada. levantando. tratar emos disso. transferiremos para você a posse do filme. Nessa ocasião. Nevada. — Deve ser influência da sala. — Exatamente o que eu tinha em mente. E escritores e produtores. — Não custa nada pintá-los de preto. pois cada filme não levará mais de duas semanas para ser rodado. não pode ser. não tivemos prejuízo no ano passado. em vez de gastar tudo nesses ma lditos impostos com que Roosevelt nos per-segue. Bem.. — Nada disso. compraremos o filme de você. é manter esta fáb ica em funcionamento. Nevada sorriu. De certo modo. direitos e tudo mais.. — Obrigado e passe bem — disse Nevada. neste ano. — Isso nunca deixa de parecer falso. Você poderá escolher qualquer dos diretores ou cameramen de que dispomos. e nós. Ele acha que é uma grande idéia. sendo a primeira vez em cinco anos que equil ibramos receita e despesa. — Conseguiremos então argumentos apropriados — disse Dan. — E quais serão as histórias? — Não quis tratar disso enquanto não falasse com você. Mandei a contabilidade e-xaminar o caso e descobri um meio de você ficar com algum dinheiro. Mas estes serão diferentes. .. já me habituei a eles assim.

— Seu tio Bernie voltava para casa todo dia. Além disso. Dan. Mas. na maioria dos casos. Nem muito. Só sabemos que esteve aqui po rque encontramos os recados que deixa escritos nas mesas. — Não fale assim. — Não tem tempo de conhecer moças? Pois você já tem trinta anos. . Com uma boa moça de uma boa família. Nevada teve de repente a impressão de que Jonas estava precisando dele. se ele tivesse a idéia de sair à noite. fala conosco pelo telefone. Como sempre. abrindo a porta. — E se acontecer alguma coisa importante? — Nesse caso. — Mas se acabo de lhe dizer que ninguém consegue ver o homem! — Você não quer que eu faça os filmes? — perguntou Nevada. mamãe — murmurou ele. De vez em quando. mamãe? Será possível? — Sim. — E não o viu mais desde esse tempo? Nunca vem ao estúdio? Dan baixou os olhos. E nem ao menos f ca para jantar! — Prometo da próxima vez ficar para jantar. é que não poderei tomar uma decisão enquanto não conversar com Jonas. — Quinta-feira.. — Soube que casou de novo. — Quero que você conheça uma pessoa. não quero conhecer moças. — Deve ir bem. mamãe — disse David. No meio do caminho. então — disse ela. mamãe. aparece por aqu i. meus parabéns . — Os tempos eram diferentes. Às vezes. como se estivesse embaraçado. ainda que ele viva num hotel? Apa-rece de vez em quando. mamãe. com muito interesse. em Nova Iorque. Nevada encaminhou-se para a porta. Eu espero — disse Nevada. Embora um pouco tarde. Às vezes . — Outra moça. — Já não tenho um filho? Ainda que quas e nunca o veja. Uma pessoa muito interessante. telefonamos para McAllister. que mal há nisso? Acredite. É uma moça muita boa.. E ela estudou na universidade. — Raramente. A família tem dinheiro. talvez de três em três me-ses. — Não faz mal. que transmite a Jonas a comunicação. Woolf. Não podia dizer à mãe que o irmão dela era conhecido em toda Holly-wood como o homem das matinês. nem pouco . e é tempo de sobra para se casar.— E verdade — disse Dan. 9 — Vai ficar para jantar. Aproveita tão pouco o sol da Cali fórnia! — Para que eu quero sol? — perguntou a sra.. Podemos passar até um mês sem ter notícia dele. voltou-se e perguntou: — Como é que Jonas vai passando? Pela primeira vez. tia May seria capaz de matar o marido. nos telefona. Não tenho tempo. Bem sabe como vivo cheio de trabalho. — Deve? Por que diz isso? Não o tem visto? — A última vez em que o vi foi há dois anos. — O fato. — Com eu vou? Do jeito de sempre. E ainda devo dar-me por muito feliz por ele se lembrar de vi r me ver. — Por que quinta-feira especialmente? Ela teve um sorriso misterioso. tomar um pouco de sol. mamãe. Duvidele? — Não posso. quando tomamos conta da c ompanhia. Para não levar a vida toda dentro de boate s com essas. — Mas pode ser que ele nem esteja no país. — Você já está aqui há uma semana e esta é só a segunda vez que veio me ver. — Mas. David. — A senhora devia era sair. — Passei só para saber como a senhora vai. limita-se a dizer a Mac o que devemos fazer. Pierce demonstrou hesitação. Mas é sempre tarde da noite e quando não há mais ninguém. Sofrendo com minha artrite.

Não sei por quanto tempo aind a poderei resistir. com a RKO. Todos eles produziam grandes fi lmes. Isso permite inclusive a exibição dos filmes de uma nas salas da outra. Quem parava enfraquecia-se e desaparecia. Era necessário ir em frente. Um homem assim podia acrescentar vinte milhões de dóla res à receita da companhia. depois de fazer a ligação. isso ger ava um sentimento de frustração. — Quer dizer que ele está mesmo disposto a fazer o negócio? David não acreditara que Nevada fosse concordar com aquilo. pr odução pessoal dos seus quatro projetos principais em cada ano. David estava à espera dos resultados das sondagens que mandara fazer junto à Goldwyn e à Disney. ouviu? Às sete horas em ponto. Mas. Essa que era a dinâm ica da ação na indústria do cinema. mas inevitável quando se queria o melhor. sim. Provara que a companhia pod ia manter-se. Bonner queria uma combinação da mesma espécie que Hall Wallis fizera com a Warner e Za nuck tinha com a Twentieth Century-Fox — supervisão executiva de todo o programa. o mais importante. Quando chegou ao hotel. Precisaria decidir entre permanecer no negócio ou afastar-se. como uma pirâmide sem fim. Jonas teria de enfrentar a realidade. Mais ced o ou mais tarde. — Eu também gostaria de falar com Jonas — disse David. quando se tratava da companhia de cinema. A única maneira que temos de conseguir Nevada para fazer aqueles westerns é providenciar uma conversa dele com Jonas. E David já fizera todo o movimento que lhe era possível. que rendiam muito e. Não podemos mais alegar prejuízo. encolhendo os ombros resignadamente: — Está bem. Disney. Pilhas de contratos. Mas. Mas McAllister também não sabia por onde Jonas andava. Tenho de sair com elas. Goldwyn e Bon ner andavam à procura de novos canais de distribuição. pois nosso balanço anual já foi pu blicado. Contratos e ram assinados com a Fox. também . Mas eu só quero saber é de uma coisa: vem jantar na quinta-feira ou não? David olhou para a mãe com essa mistura de ternura e enfado própria dos filhos e dis se. o que ele desejava eram contratos. O assunto é sério. diz que é por causa dos negócios. ora no outro. A coisa era muito diferente com seus outros interesses. Tudo o que se fazia era fechar contra tos para ganhar tempo.— Isso é a negócios. — Fará. encontrou um recado: precisava telefonar para Dan Pierce . Já tivera uma conversa com Maurice Bonner. — O governo está de novo insistindo na campanha contra os trustes. Os sindicatos vivem infernizando minha vida. com a Paramount. teriam de fazer alg uma coisa de fato grande — ou filmes ou contratos. — Sabe onde Jonas está? — Jonas? O nome não me é desconhecido — disse David rindo. Equilibramos as despesas e deveremos ter lucros no ano que vem. mas só depois de conversar com Jonas. d ois anos sem uma reunião da diretoria é tempo demais. A Cord Aircraft havia se transf ormado rapidamente num gigante da indústria. . No fundo. — Acho melhor falarmos com Mac. — Tudo o que você faz. Mas não venha tarde. A Cord Explosives e a Cord Plastics faziam vitoriosamente concorrência à Du Pont. Como David já dissera. para transformá-la numa empresa de verdade. mamãe. Nada havia de palpável por todos os lados. bastava não deixá-la morrer. com a Warner. Vivia-se pu lando ora num pé. Afinal de contas. ações e opções na companhia. A Inter-Continental Airlines já era a m aior empresa de aviação co-mercial do país. sem nunca se poder tomar uma atitude ou uma posição ma is estável. David não entendia por que Jonas procedia daquela maneira com a companhia. eram inteiramente financiados por eles mesmos. Tenho uma porção e coisas para fazer. Ela sorriu satisfeita. Skouras não havia hesitad o quando precisara de Zanuck. Venho sim. Era um preço alto. Mas a aprovação de negócios dessa natureza tinha de ser dada por Jonas e por ninguém mais. Não precisava do dinheir o e todo mundo sabia o que ele pensava daqueles filmes rápidos. Era a dife-rença entre existir simplesmente e prosperar. Mas não se esqueça de que terei de sair cedo. — Ótimo. Dan? — perguntou ele. Conversaremos sobre isso também. com a Loew's. Era como se o trabalho fosse feito dentro de um vácuo . — Deixe de brincadeira. E tudo o que não quer fazer. — Eu sei. Aquilo era uma coisa mais segura e muito menos arriscada do que os filmes que custavam milhões. — O que há.

— Espere aí — disse David. — Vou jantar com minha mãe esta noite. David? — Muito bem. — Vencer ainda não. David pensou por um instante. A secretária transferiu a ligação e David falou. ansioso por mudar de assunto. David riu. — Está bem. Pediu que lhe falasse em Needlenose. E os mesmos bolinhos de carne com gordura de galinha. enquanto isso. — O que ele quer? Não conheço nenhum Irving Schwartz. não o incomodaria. rindo. — Needlenose! — exclamou David. — Não poderíamos falar pelo telefone? — Também não confio em telefones. — Sem dúvida. — Por que não disse logo? Pode ligar. . — Na sua casa então? — Também não serve. A que horas? — Sete horas. Sua mãe ainda faz aquelas sopas deliciosas? — Claro. — Ele diz que o conhece. Tenho uma casa em Goldwater Canyon. pensando que aquilo não podia d eixar de ser uma investida. Você terá impressão de qu e ainda está na velha Nova Iorque. Mas trabalho como um cão. — Você pode me explicar o que tem assim de tão importante um camarada que eu conheço des de menino? — Sabe quem é ele? — Claro que sei. — Eu também gostaria de vê-lo. As ca-sas ali vali am no mínimo setenta e cinco mil dólares. todo afogueado e s uarento. Era meu vizinho em Rivington Street. ainda curioso sobre o que o Needle¬nose poderia querer. deixando-se cair numa cadeira e ti-rando o lenço para e nxugar o rosto. — Sei disso. — Estarei lá. — Ótimo! Foi um pulo muito grande o que você deu de Rivington Street. E não se pode deixar de ficar satisfeito quando se tem conhecimento de que um velho amigo venceu na vida. Não teve de esperar muito. de-pois. Tenho ouvido falar muito a seu respeito. por que podia ser tão importante? — Por que é que não vem até aqui no estúdio? Podemos almoçar e. Woolf. sr. Ela está nos Apartamentos Park. — Vai encontrar-se com ele? — Esta noite. Vá jantar conosco. David desligou o telefone. E moro aqui. e. você fará uma visita mpleta. Também não pode ser em nenhum restaurante. — Graças a Deus! — exclamou Dan. Fomos colegas de escola. A voz de Needlenose era calma. O velho amigo devia ir muito bem. — Bem. Quanto merecia um velho amigo? Cinqüenta dólares ou cem? — Mas seu lugar já é bem importante. — Sei disso. não se tratava de uma facada. — Há um certo Irving Schwartz ao telefone — disse-lhe a secretária pelo interfone. — Needlenose! Como está você. Dan Pierce entrou no seu escri-tório. em Westwood. David. Gostaria de conversar com você. Mas estou tão assoberbado de trabalho aqui. — Falou pelo telefone com um camarada chamado Schwartz? — Acabei de desligar — disse David. se não fosse muito importante. — Não serve. lembrando-se de repente. Pelo menos.E. Alguém poderia nos espionar. — Parece ótimo.. Mandaram-no para cá há seis meses. — Chega de falar em mim — disse David. seu bandido? Needlenose riu satisfeito ao telefone. mas firme. David o olhou com curiosidade. — Pois seu amigo do East Side subiu muito na vida. Não confio nos criados. um tanto surpreso. David.. Mas vai se lutando — replicou David. David. E você. David quase deu um assobio. onde estava Jonas? Jonas era quem tinha a chave que poderia ab rir as portas de ouro. — E você? O que está fazendo por estas bandas? — Vou indo regularmente. Se não se tratava de uma facada. Temos de nos encontrar num lugar onde ninguém nos veja.

David? — perguntou a mãe. O cabelo preto. — Não me disse que íamos ter tanta gente assim para jantar. David conteve a duras penas uma careta. Ao menos. O homem sorriu. Era a bebida tradicional que aparecia em todas as cerimônias — nascimentos. de cabelo grisalho e ar preo-cupado. casamentos. Rosa olhou para ele. enquanto acompanhava a mãe até a cozinha. — Já tentei e não consegui nem f alar com ele. estaremos na rua da amargura daqui a uma s emana. — Por falar nisso. ao mesmo tempo que a filha murmurou. — Fui obrigado. A campainha da porta tocou. David encontrou na mesa uma garrafa de uísque cercada de cálices. — Espero que consiga se entender com ele — continuou Dan. ela e eu iremos até a cozinha para ver se sua mãe precisa de alguma ajuda. sem saber o que dizer. A sra. que pa recia ter uns sessenta anos. não se voltou. Strassmer. — Convidou alguém para jantar aqui? Esta noite? — perguntou a mãe. mamãe. — Minha mulher. mamãe. . — E você acha que uma boa moça pode vir jantar pela primeira vez na casa de um rapaz s em os pais? David teve vontade de sair dali correndo. O ar de preocupação desapareceu quando o homem sorriu e estendeu a mão. A coisa ainda ia ser pior do que ele e sperava. Strassmer. mas quase imperceptível. Sete horas. Então respondeu à mãe: — Sã Strassmer. Estava vestida com uma blusa muito simples e uma saia presa na fina cintura por um largo cinto de couro. envolvidos por longas pestanas. Strassmer disse alguma coisa em alemão. e ambos se encaminharam para a sala de estar. que estava olhando uma panela. Negócios. Sou Otto Strassmer. emoldurava uma te sta bem larga e belos olhos claros. David olhou para ele atônito. sr. com voz agradável: — Muito prazer. Rosa. Há Schnapps em cima da mesa. bar mitzvah. Vão parar tudo: estúdios. tudo! 10 David olhou para a mesa na sala de jantar. As mulheres foram para a cozin ha e ele se voltou para o sr. mamãe. David ficou surpreso. David sorriu para elas. da cozinha. — Deve ser David. David olhou para ela. — Mamãe está dizendo que pode ir beber alguma coisa com papai. Devia ser Need lenose. David compreendeu de repente que a moça tinha tanto interesse por aquela reunião quanto ele. Enquanto isso. ponha mais um prato na mesa. É o dirigente máximo dos sindicatos n a costa do Pacífico. David olhou para o relógio. Não era alta e seu corpo e ra magro. Será a maior greve que você já viu.quando Bioff e Brown se viram em dificuldades. não era tão carregado quanto o do pai dela. cinemas. — Muito prazer. e minha filha. Acompanhavam-no uma senhora da mesma idade e uma moça . Era uma garrafa de Old Overholt. Convidei um velho amigo para vir jantar conosco. mamãe. mortes. Tinha experiên cia bastante para saber que os seios que espetavam tão agressivamente a seda daque la blusa não estavam tolhidos por nenhum sutiã. A mesa estava posta para cinco pessoas. A sra. Frieda. Tinha sotaque. David fechou a porta da sala e perguntou à moça: — Quer me dar seu casaco? A moça tirou o casaco. um tanto desapontada. Abriu a porta para um homem pequeno. A mãe. Aquela voz de novo. — Leve-os para a sala de estar. Se você não conseguir nada. — Quem é. — Perdão. Havia um lev e desafio na curva da boca e no ângulo do queixo. Strassmer cumprimentou com a cabeça e disse alguma coisa em alemão. arrumado em pequenos cachos na cabeça. O som daquela voz fez David olhar subitamente para ela. Querem fazer o favor de entrar? — disse ele às visitas.

Pegou a garrafa e disse. — Aí está ele. Frieda. e levantou para abrir a porta. com lágrimas nos olhos. Não me ficaria bem andar por Be-verly Hills com um nariz do East Side. Conhecemos sua mãe no shul. David encheu um cálice. — Ach. que contrastava agrada-velmente com a boca rasgada e o queixo forte. Não sabe que trabalhamos ambos para o mesmo homem? — O mesmo homem? — Sim. como que pedindo desculpas: — Não posso dispensar um pouco de água. — Puro — disse Strassmer. perguntando: — Onde está seu amigo? O jantar já está pronto e nada de ele aparecer.Uma mistura forte de aguardente de centeio que queimava a garganta e enchia o na riz de um cheiro desagradável de álcool. David tornou a encher seu copo e sentou-se num sofá. Nesse exato momento. Devia ter-se lembrado de uma garrafa de uísqu e escocês! A seu ver. polidamente. O gosto era horrível. As duas famílias eram da Silésia. — Mais um? — perguntou. Quando tudo terminasse. David — concluiu. qualquer que fosse a ocasião. sorrindo: — Ah. Tossiu um pouco e virou-se para David. David sorriu. — Achei que podiam precisar disso — disse ela. Trabalha para ele no negócio de cinema. Jonas Cord. agua rdando o dia da libertação. — O mundo é bem pequeno. Sorriu ao ver a expressão de espanto de David. Rosa retirou-se e David preparou um drinque com grande quantidade de água. — Mandei consertá-lo numa oficina. Rosa apareceu com um jarro de água e alguns copos. ano passado. Tenho ouvido muitas coisas a seu res-peito. Em ne-nhuma cir cunstância. gut Schnapps! David sorriu. tenho ouvido muitas coisas a seu res-peito. Era assim que ia transcorrer a noite. com uma leve nota de horror na voz. estendendo a mão. — Deve chegar a qualquer momento. hein? — Sem dúvida — murmurou David. — Não disse a ele que era às sete horas? — Disse. Acabou de beber o uísque. Talvez estivessem metidas no fundo de algum armário. . mamãe. senão do fica estragado? A campainha tocou naquele exato momento e David deu um suspiro de alívio. Voltouse para Strassmer. Strassmer não pensava da mesma forma. mamãe — disse. Aquele nariz enorme e pontudo que lhe tinha valido o apelido havia sido substituído por um nariz fino. Muito prazer em vê-lo. O homem alto e elegante que estava à frente de David não tinha quase semelhança com o rapaz magro e nervoso de quem ele se lembrava. — Sim — continuou Strassmer —. Mas era evidente que o sr. David pensou por um momento no que a-contecia a todas as garrafas abertas que ficavam pela metade. gut! David provou o seu drinque. mesmo com água. sorrindo e colocando tudo sobre a mes inha. tornou a tossir e olhou para David com os olhos lacrimos os. tomou-lhe a garrafa da mão e quebrou o gelo. A mãe apareceu então à porta. Otto Strassmer sorriu. pergun-tando: — Puro ou com água? Outra coisa tradicional: a garrafa tinha de estar sempre selada. num gesto quase ritual. Trabalho para ele na indúst ria de plásticos. — Então é você o grande David. poderia se servir a bebida numa garrafa ab erta. que levantou o copo. o Old Overholt era o maior responsável pelo fato de os judeus não gostarem do verdadeiro uísque. entregou-o e disse. ele provavelmente estaria com o rosto dolorido de tanto sorrir. era prima de seu pai. Strassmer bebeu de um só gole. Começamos a conversar e des cobrimos que minha mulher. — L'chaim! — L'chaim! — repetiu David. quase aquili no. E há muito te mpo tenho vontade de conhecê-lo. — Então por que ele não está aqui? Não sabe que quando é hora de comer é preciso comer.

mamãe? — Como vai. Rosa não estava presente. — Doutora. Assim. doutora? — disse Irving. sra. — Não bastou con ertar o nariz.O aperto de mão foi firme e cordial. O rosto da atriz ficara todo retalha do em conseqüência de um desastre de automóvel. Passei o dia inteir o com fome só de pensar nisso. Woolf. permita-me fazer-lhe companhia. Entraram na sala de estar. que agor a brilhavam zombeteiramente. — Ora. — Você devia ter acabado a escola. não havia o menor vestígio. Strassmer levantou-se e a mãe de David olhou para Needl enose. — Pois fez mal. — Irving mora aqui agora. não teria dificuldade em pronunciar os nomes. — Que foi que houve com seu na riz? — Mamãe! — protestou David. sorrindo. Sorr iu para a moça. Mas. — Mandei consertar. mas tenho de passar pelo hospital para ver um do-ente. Que devo fazer para curar esse vazio no estômago que estou sentindo agora? Ela o olhou agradavelmente. cada vez mais zangada. Woolf não se conteve de satisfação: — Pois seja um bom rapaz e pode vir todas as sextas-feiras comer o meu knaidlach. Mas. Consertou também o nome. — Não tem importância. — Quer dizer que você é Irving agora? — bradou a mãe. um ano depois. como seu amigo David. Também vim de carro. — Não sabia que conhecia meu am igo David. O jantar já está pronto. W oolf. Ela sorriu. David correu os olhos pela sala. — Bem. Strassmer quem me recauchutou o nariz. que a sopa já está ficando fria. — Lembra-se de Irving Schwartz. sim. — Posso levá-la de carro.. Woolf? — Claro que me lembro de Yitzchak Schwartz — disse ela. A sra. Teve de repente consciência de que os pais de Rosa o observavam nervosamente. — Knaidlach} Quem falou no meu knaidlach? — disse a mãe de David. desconfiada. — Vamo s todos para a mesa. nada mudou. se quiser — disse David. E a operação em Linda Davis fora realmente notável. Rosa olhou para o relógio. . Schwartz! — exclamou ela. não será incômodo nenhum. — Não há necessidade. — O que eu costumo receitar nesses casos é um pouco do knai¬dlach de sua mãe. — Virei. Parou à porta. nada havia de errado com meu nome! A penas Irving é mais fácil de pronunciar.. Soube que foi ela quem tratou de Linda Davis no ano passado? David olhou com curiosidade para Rosa. Woolf. — Entre logo. nem sei como você consegue respirar. — Foi a dra. Yitzchak? Ou ainda está metido com aqueles vagabundos da garagem? — Mamãe! :— exclamou David. sra. David me prometeu que haveria sopa e eu sei que não pode deixar d e haver aquele saboroso knaidlach que só a senhora sabe fazer. 11 Quando o jantar acabou. Não havia mais nervosismo nos olhos de David. Rosa entrou na sala no momento em que David ia apresentar seu amigo aos Strassme r. estava justamente querendo fazer-lhe uma consulta. — Desculpem-me. O que havia de errado com o nome que seus pais lhe deram. David — interrompeu-o o amigo. — Para mim. sra. Ninguém lhe havia dito que ela era médica. quando ela reapareceu diante das câmaras. — Sr. Mamãe está quase estourando. Irving olhou para David. agora vou ver se a sopa ainda está quente. — Só nos conhecemos esta noite. Woolf. sra. sra. — Como vai. Com um narizinho desse. Isidore? Needlenose começou a rir e voltou-se para David. Já arranj ou um emprego. estendendo-lhe a mão. Ela é formidável nessas operações plásti cas. — Como você disse. com um ar de surpresa no rosto. chegando à porta. — Muito prazer em vê-lo. Ao menos.

Depois. Não podemos. — Não tem importância. Os comun istas estão fazendo uma campanha muito intensa e. — Sei perfeitamente disso. Só agora os filiados do sindicato estão se recuperando do desemprego causado pela depressão. sra. — Talvez — continuou Irving. David ficou em silêncio enquanto o outro acendia um cigarro. Graças a isso. — Podemos falar agora. — E onde você acha que o governo encontrou a documentação necessária para prendê-los e proce ssá-los? Se não fôssemos nós. Só querem saber é do di-nheiro que recebem e es tão dispostos a ouvir quem quer que seja que lhes prometa mais dinheiro. — Não. Matou as saudades que sinto de casa. Agora. — E Bioff e Brbwn? — Eram uns canalhas. os mais velhos. Isqueiros de ouro e revólveres. Mas também estou numa situação d ifícil. E muita gente está dando ouvid os ao que eles dizem. do utora? Rosa fez um gesto. o paletó se abriu um pouco e David viu o cabo preto de um revólver que saía de um coldre preso no ombro. E dois garotos do East Side de Nova I-orque numa n . sorrindo. Tenho certeza de que podemos confiar em Rosa. Será a ruína da companhia. e pode aparecer quantas ve-zes quiser.Irving levantou-se. — E não precisam ter pressa os dois. Irving. E os próprios trabalhadores? Não têm direito a se fazer ouvir t ambém? — Na maioria. A mãe de David sorriu. onde se está pensando que os comunistas podem fazer por eles o mesmo que fizeram p elos técnicos. David a fez parar. você deve ter tido uma péssima impressão quando falou comigo pe o telefone. quando saíram do edifício. — Não tiVemos muita oportunidad e de conversar. Vamos combinar uma hora para amanhã. — Parece-me que você está querendo servir-se de nós para apagar um incêndio que sua própria gente ateou. — Qual é a situação difícil em que você pode estar? Ninguém está fa-zendo pressão sobre você greve. David. — Vá — disse ela. — O que está sugerindo. Rosa sorriu para a sra. há pouco. — Não nos demoraremos. são incapazes até de pensar. temos muito que conversar. — Mas os comunistas estão em grande atividade nos sindicatos técnicos. não é preciso. Calculei que fosse assim. perderemos para eles. David. novos acordos c om o sindicato dos diretores e o sindicato dos escritores. vocês verão que eles são m uito mais duros no trato do que nós. sorrindo. Por isso temos de conseguir entrar num a-cordo. Irving — disse David. — Também preciso ir. Woolf. Dentro em pouco teremos eleições nos sindicatos profissionais. quando Irving guardava o isqueiro de ouro. Queriam receber dos dois lados. então. — Dan me disse que estamos ameaçados de uma greve. Yitzchak. Naturalmente os comunistas ficaram com todo o mér ito por esse resultado. Um lado não chegava para eles. — De fato. estão começando a agir nos sindicatos profissionais. Não há quem não saiba dos salários astronômicos das estrelas e dos d irigentes das companhias. — Continue a ser um bom rapaz. Woolf. Também está se servindo dos co-munistas como pretexto. — Desculpe. Fazem muita propagand a sobre os fabulosos lucros das empresas de cinema. Irving. muito obrigado pelo seu delicioso jantar. os comunistas estão em condições de fazer promessas melhores. é que devemos decidir se que-remos tratar com vocês ou com os comunistas. Foi por isso que os botamos para fora. que conseguiram o mai or aumento da história do ci-nema. Neste mom ento. a justiça não poderia nem falar grosso com os dois. eles não querem a greve. — Posso ficar esperando no carro. Os trabalhadores então acham que devem ganhar um pouco m ais. Você deve sa-ber que não resistiremos se isso acontecer. e é isso que os comunistas dizem a eles todos os dias. mas os comunistas estão em ação. Nós. se não apresentarmos um bom result ado imediatamente. Se isso acontecer. Mas é Dan Pierce que trata de todos os assuntos trabalhistas na compan hia. — Botaram? O que eu soube é que tinham sido presos. e procurarei ajudá-los. toda a indústria assinou.

voltou-se para eles: — Querem saber de uma coisa. Anda armado. Davíd. um Cadillac conversível. Ficou curioso por saber o que aquilo tudo rendia para Irv ing. — Não tem importância. mas nada perguntou. No fim. — E em que mais está pensando. d e poder. que é quem deve decidir. seu amigo não é nazista. dominam tudo. tudo ficará assentado. E não posso esperar mais. antes de sair com o carro. de repente. um homem não anda com um revólver se não tiver a intenção de utilizá-lo. Seu ami go é um homem muito perigoso. Se não se entenderem conosco. — Deles? — Na Alemanha foi a mesma coisa. — Nada. por exemplo . Não tinha mais autoridade do que Dan para resolver uma situação como aq uela. Ele sorriu. A greve será decretada. Irving sorriu e deu uma pancadinha no ombro de David. Schwartz. Mas não havia tempo de esperar por Jonas. teria de c oncordar com ele. Nós faremos um acordo por cinco centavos por ho ra logo. os bandidos. — O meu carro está do outro lado da rua. Rosa? — Viemos de tão longe só para ficarmos livres deles. — Está querendo dizer que meu amigo Irving Schwartz é nazista? — Não. não digo com o revólver. sr. mais cinco centavos no ano que vem e uma semana de trabalho de trinta e sete horas e meia: Dan Pierce diz que não tem autoridade para tomar uma decisão des sas. São a mesma espécie de gent e e dizem sempre o mesmo. à procura de emprego? Acha que eu devia ter feito isso? Tenho culpa de que meus empregados não têm juízo suficiente para escolher representantes decentes e para . Contra você ele dispõe de outras armas. Rosa ficou em silêncio até quase chegarem ao hospital. David parou o carro em frente ao hospital. — Os comunistas estão acenando com um aumento de vinte e cinco centavos por hora e u ma semana de trinta e cinco horas.oite quente de primavera sob os céus estrelados da Califórnia a falar de dinheiro. Irving seria incapaz de me ofender. Por outro lado. Poderia. Todos me chamam de doutora. Deu partida no motor e. — E o que acha que eu devia ter feito? Recusar um acordo com Irving e perder tudo pelo que venho trabalhando tão duramente há tantos anos? Levar à ruína todos os investid ores que depositaram na companhia sua fé e seu dinheiro? Jogar nossos empregados n a rua. Havia coisas que não eram de sua conta. David hesitou. doutora? — perguntou David. — Está preocupada com alguma coisa. — Não sei o que ele teria feito se você recusasse. Tomou-lhe o braço. vocês formam um belo par! Depois que ele dobrou a esquina. — Ótimo! Eu sabia que não teria nenhuma dificuldade em mostrar-lhe a verdade dos fatos . — O que você quer que eu faça? Irving jogou o cigarro no chão. E não consegue falar com Cord. A comissão do sindicato tem encontro marcado com Pierce amanhã de manhã. Mas v ocês perdem mais: A companhia irá por água a-baixo. Voltou-se para Rosa. Teve a impressão de que el a estava um pouco vermelha. — Não. — Desculpe ter atrapalhado assim sua festa. Estou esperando há três mes es. Viram Irving caminhar até o meio-fio e entrar no seu carro. E com tudo isso só os comunistas é que ganharão. vocês dois? — O que é? — perguntou David. — Com isso mesmo. de comunismo. Mas tem a mesma louca ambição de poder dos nazistas. Nessa ocasião . Gosto bem mais de ser chamada de Ros a. terão de fazer as contas com os comunistas. Foi assim que fizeram na Alema nha. tomam tudo. Gostasse ou não gostasse. — Feito — disse ele. mais cedo ou mais tarde. David olhou para Rosa. Mas tive muito prazer em revê-l a. doutora. sabia disso? — Vi a arma. Nós ainda teremos outros lugares ond e agir. Os nazistas. — Como sua mãe diria. levar sua companhia à falência. Vocês perdem e nós perdemos.

David. enquanto a enfermeira lhe tomava o algodão. — Não. sua voz se levantara. dra. Pode trazer Rosa também. Havia em David um novo respeito por ela quando chegaram à porta principal do hospi tal. Ao menos. — Ótimo — disse Rosa. sorriu e disse: — Amanhã de manhã. Se não se incomoda. — Muito bem. vamos tirar essas ataduras e você poderá voltar para casa. — Fez o que achou estar certo. Entraram no elevador. prefiro esperar aqui. segurando sua mão. muito quietinha. Lábio leporino. que descansava no volante. Rosa? Viu a porta da limusine abrir-se. — Por favor.manter um sindicato honesto? Sem que ele percebesse. ela colocou a mão quente e firme sobre a dele. Cirurgia plástica não é apenas consertar narizes ou tirar a papada das atrize s. com um pouco de orgulho na voz. Enquanto sua voz se fazia ouv ir mansa e confortadora. Mary. — Uma menina linda — disse David. David? Ele se voltou tão surpreso que quase deixou cair o isqueiro. A menina pegou um bloco e um lápis e escreveu alguma coisa que entregou a Rosa. — Quer fumar. Havia um brilho estranho nos olhos dela . ela passou rapidamente o algodão em torno dos lábios da men ina. — Está tudo bem. Mas você não se moverá nem falará. Nasceu com isso. Enquanto desciam a escadaria. sei q ue não ficará pensando com raiva na minha ousadia em meter-me nos seus negócios. ainda de mão dada com Rosa. Entre. Ele pensou que era medo e tomou-lhe a mão. David riu e. — Pode doer um pouco. alguém disse às suas costas: — Queria falar comigo. enquanto esperavam o elevador. Nesse momento. David viu na mão de Rosa o papel em que a menina havia escri to e o pegou. Ros a estendeu a mão em silêncio e a enfermeira molhou um al-godão num vidro entregando a ela o chumaço umedecido. — É. claro que você não tem culpa — disse ela. sim. dizendo a David: — Agora podemos voltar para a casa de sua mãe. mas agora será como qualquer outra criança — diss e ela. David olhou involuntariamente para Rosa. — E muita. indignada. enquanto Rosa tirava um cigarro e ele o acendi a para ela. David notou-a sem dar grande atenção ao fato e puxou o maço de cigarros do bolso. Um porteiro desceu a escadaria do hospital e abriu a porta do carro. venha — disse ela. A letra era um rabisco infantil e dizia: "Quando é que eu posso fala r?" — Isso deve dar-lhe felicidade — murmurou David. . Agora fique quietinha. Ficou na porta e a viu levantar delicadamente as ataduras do rosto da criança. Você não imagina quanto. não é mesmo? A menina concordou com a cabeça. David viu os olhos da criança encherem-se de lágrimas e teve por um momento a impres são de que ela iria mover a cabeça. Strassmer. a acompanhou e subiu os degraus da escada ria do hospital. Es ta leu. Era Jonas Cord. e Rosa saiu do quarto. Os olhos da menina brilharam. Como a pequen a Mary. depois que tirarmos as ataduras. De repente. — Boa noite — disse ela. voltando-se em seguida para David: — Quer entrar e ver onde t rabalho? — Não quero atrapalhar você. — Boa noite. queri a. — Ninguém vai mais caçoar quando ela rir ou fal ar. Mas isso não acon-teceu. — Você é bem valente. uma grande limusine parou bem à frente deles. — Será melhor para mim. Amanhã de manhã. O importante é ajudar as pessoas para que tenham uma vida normal. que eu vou buscar o carro do senhor. A voz de Jonas fez-se ouvir com um riso calmo. O porteiro levou a mão ao boné e disse: — Um momento. mas um defeito desses pode prejudicar a vida de uma criança.

Hitler vai se ver diante de um impasse. Sem emoção. Passaram então a ser da minha competência. David. precisamos de sua autorização. sr. Temos de dar uma resposta à gente do governo. como quem dissesse que dois e dois são quatro. — Para que prosseguir? Estou satisfeito com a situação como ela está. Já lhe mandei há algum tempo todas as informações necessárias a esse respeito . Fala sempre no senhor. afastando-se de Los Angeles. O grande carro aumentou de velocidade quando entraram na Coast Highway. — McAllister disse que você queria falar comigo. — Por que Dan não pôde resolver o caso? — Porque você nunca respondeu ao que ele lhe informou nesse sentido. — Dê-lhe muitas lembranças minhas. ou fazer estourar toda a falsa prosperidade que deu à Alemanha.12 Rosa sentou num canto da grande limusine. — Não dê atenção aos sindicatos. ao menos para Rosa. sem dúvida. Nestes próximos anos. — E se não houver guerra? — Vai haver guerra. Isso absorverá os lucros. Você não tem que lhes dar nada. Ou expandir-se. até que começaram a afetar o destino da comp anhia. tratava-se do cuidado de um homem que está pisando em terreno desconhecido. de agora em diante. até esta noite. Os sindicatos estão querendo aumento. Rosa? — Muito bem. Estava escuro dentro do carro e. — Já dei. Outra era colocar a questão com ta nta simplicidade e conci-são quanto Jonas. sim. Jonas não pareceu muito interessado. Havia uma nota de cautela. — E o que foi que o fez pensar que podia dispensar minha aprovação mais do que ele? Rosa viu David acender um cigarro e responder calmamente: — Achei que sua intenção era fazer-me levar a companhia à falência. Uma coisa era sentir que isso era inevitável. a luz de uma lâm pada da rua brilhava sobre o rosto de Jonas. deverão ter lucros. A voz de Jonas ficou mais fria ainda. Olhou para David. Cord. Muito obrigada. ao lado dela. Cord. e não de quem está co m medo. Querem que se-paremos os cinem as do estúdio. Ela sentiu David mover-se no banco ao seu lado e inclinar-se para o lado de Jona s. sr. ou melhor. Vocês já eliminaram os prejuízos e. Jonas não comentou a resposta. por que sempre se tinha a esperança de estar errando. — Darei. — Já disse a Mac o que se deve fazer sobre isso. A voz de David soou firme. — Pensei que as n egociações com os sindicatos fossem da competência de Dan. A propriedade imo biliária sempre se valoriza muito depois de uma guerra. Você não deixaria de me d zer isso há dois anos. Rosa sentiu um aperto no estômago. A voz de Jonas não tinha a menor emoção. Teremos de contemporizar até depois d a guerra. — Os lucros não durarão muito. de vez em quando. — E você pensou de maneira diferente? — Exatamente. Para prosseguirmos. ainda calmo. E então não haveria mais para onde ir. Foi um pouco angustioso o instante de silêncio que se seguiu. — Como vai seu pai.. quando deveremos conseguir um bom preço pelos cinemas. — Deu? — perguntou Jonas. Guerra. de fato. — Já fomos até onde era possível por nossa conta e risco. e ele achou que nada podia fazer sem sua aprovação. e depo is para Jonas. sob ameaça de greve. Rosa olh ou pela janela. mas. Seu próprio pai dizia que a Alemanha estava tão adiantada em relação ao resto d . mas com alguma frieza na voz. Estavam indo na direção de Santa Bárbara. A Alemanha dominaria o mundo. — Eram. — Sobre que mais queria me falar? — O governo reiniciou a campanha contra os trustes..

Pela primeira vez. Nunca recebi resposta e Zanuck assinou contrato com a Fox. aconteça o que acontecer . — Presumindo-se que Dan pudesse desenvolver e ssa força criadora. — Ótimo. pode levar-nos de volta para onde ficou o carro do sr. — Já pensou o que isso representaria para Dan? — perguntou Jonas. na qual podemos considerar lucro o que sobra ao eliminarmos nos-sas necessidades vitais. é criar uma prosperidade fictícia para a companhia. você mostrou mais força criadora nos dois filmes que fez do que Dan nos cinqüenta e tantos que produziu nos últimos dois anos. Hesitou por um mom ento e acrescentou: — E haveria ainda muito para Dan fazer. Vou começar a procurar argumentos para ele. em virtude de economias força das. O que temos feito. a partir do ponto em que o filme acabou. Não sentia também a so mbra de Hitler es-tender-se sobre ele? Ela escutou David rir e o ouviu. E a supervisão dele no resto do programa só servirá para nos ajudar. — Do jeito que você quer. e disse: — Em primeiro lugar. Você não quer investir esse dinheiro . — Faremos de conta que nada disso aconteceu. não — disse Jonas. mandei-lhe uma nota. inclusive a de cre scimento. Depois de um momento de silêncio. Como poderiam os americanos saber tão pouco das coisas? Acreditavam honestamente q ue poderiam escapar incólumes dessa guerra? Como podiam conversar tranqüilamente de negócios. Cinco milhões de dólares para fazer dois ou três grandes filmes. pelo vigor pessoal. Na minha opinião. Com a porcenta gem da distribuição e a nossa cota de lucros. E por que acha que Dan não é capaz de fazer o mesmo com Bonner? David hesitou. não havia segu rança em sua voz. — Depois. — E depois? — perguntou Jonas. — E achou que podia iniciar essas negociações sem me consultar previ-amente? — Há mais ou menos um ano. Nevada g . Mas o que acontece é que ele não tem a força criadora de homens como Bonner e Zanuck: A capacidade de captar uma idéia e transformá-la. No filme. — Pode fazer o negócio com Bonner. Só faz uso dos revólveres em último recurso. com surpresa. converteu-se à religião. Cord.o mundo que os ou-tros países levariam um século para alcançá-la. David disse: — A falta de força criadora é o que distingue um verdadeiro produtor de um diretor de estúdio. Jonas virou-se para David e disse: — Estive com Nevada hoje. Mas a verdade é que não estamos criando nenhuma fonte real de lucro. você receberia uma esposta. não estou depreciando Dan. Apagou o cigarro no cinzeiro do carro. E resolveu passar o resto da vida ajudando as pessoas que não têm ninguém mais a quem recorrer. Woolf. — Não será preciso. Robair. o que Dan realmente é. Traçou um programa que man tém o estúdio em funcionamento com a máxima eficiência. David ficou em silêncio. tendo consciência do que ia acontecer? David era judeu. Já resolvemos isso. sr. sem tomar conhecimento do elogio de David. — Dan é assunto da sua responsabilidade e não da minha — disse David. haveria necessidade de dinheiro para atingir isso. sim. continuar: — Então estamos todos no mesmo barco. para morrer ali. Fará quatro filmes por ano e o nosso inves timento será mínimo. Ele vai fazer a tal série para nós. — É por isso. E Jonas continuou. com uma voz cortante. Mas você é que terá de resolver o caso com Dan. — E é por isso que você tem conferenciado com Bonner? Rosa percebeu em David um movimento de surpresa. Bonner trará o seu financiamento próprio. pedindo autorização para entrar em negoc iações com Zanuck. a sua frente. Ele continuou vivo. Sugeri que ele fizesse o papel de Max Sand em O renegado. — Não há negócio que possa ser administrado por s cabeças. A força criadora faz a pessoa acreditar que pode fazer filmes melhor do que todo mundo e lhe dá a capacidade de fazer os outros acredita rem nisso também. — Mas isso não é possível. não haverá pre-juízo. Jonas sorriu. não passando das despesas gerais em cada um deles. num grande filme. — Se fosse minha intenção autorizá-lo a entrar em negociações com Zanuck. — Sim. Tem demonstrado ser um administrador extremamente capaz e um diretor de estúdio ex-cepcional. adotou outro nome . ele acaba dirigindo-se às montanhas. há o dinheiro — continuou David. Rosa sorri u ao compreender que ele aceitara o elogio como um fato incontestável.

Mas. Uma noite e tanto. algumas cadeiras e duas mesinhas com abajures. Ela acendeu a luz e David a seguiu até uma grande sala de estar. — Uísque escocês. Não . E Jonas Cord é ta mbém. sim. um gênio. Voltou-se para o mar e continuou a falar ao lado dela. pelo que sei. na outra. E assim que com-penso o fato de não ser um gênio. Meu tio Bemie. um gênio. de certo modo. um cavalete com um quadro a óleo inacabado. E muito verdadeiro. não é? — disse ele. era um deles. Poderíamos ir até lá. do mesmo modo que toco piano. Numa extremidade. Um grande médico ou um grande cirurgião precisam também de força criadora. Não sou boa em matéria de pintura. — Não há muitas pessoas que o sejam. são todos gênios. Meu pai é. de modo que sei o que estou dizendo. Os dois ficaram ao lado do carro e viram a grande limusine preta desa-parecer. pensou David. — Não tenho tido tempo de vir dar uma arrumação. Um sofá. Sente-se enquanto eu preparo. O que você disse hoje foi muito revel ador. Pi-casso. Meu pai disse quase a mesma coisa a respeito del e. Não é longe daqui. — Também tenho conhecido alguns gênios. — É. sim. Ouviu o tilintar do gelo nos copos e voltou-se. que é um amigo de me u pai. A conferência estava terminada.ostou da idéia. Era um pôr-do-sol so bre o Pacífico. — Não repare no estado da casa — disse Rosa. — Vai beber o quê? — perguntou Rosa. mas pouco depois levantou e foi olhar o quadro. Compreendo perfeitamente. se houver. Já estudei com médicos que eram gênios e conheço muita gente na profissão . se você quis r. eu me conheço e sei que nem me aproximo disso. colocando a chave na porta. Há tantas coisas que ele é capaz de fazer que é uma pena vê-lo desperdiçar-se em mil atividades. — Compreendo o que você quer dizer. Sigmund Freud. que eu conheci na França. — Acho que sim. "E por que Nevada não iria gostar?". — Du-as pobres criaturas d . Daí a quinze minutos estavam chegando. Ainda não sei ao certo em que setor. que fundou a Norman Films. Porém não sou tão boa quanto queria. Eu sou apenas uma boa operária. com manchas vermelhas. David sentou. George Bernard Shaw. — É seu? — perguntou ele. Porém logo aceitou: — Tenho uma casinha na praia de Malibu. Posso pegar um táxi aqui. E Jonas a tinha. — É triste. Ma s é minha maneira de descon-trair. D avid abriu a porta do carro e Rosa entrou. — Escute — disse David. uma grande parede de vidro de frente para o mar. que fez confe-rência s no colégio onde eu estudei na Inglaterra. Isso é o que se pode chamar de força criadora. com um sorriso. Pode fazer c oisas com plástico e cerâmica que ninguém mais pode. — Nem pense nisso. o que acha de tomarmos um drinque em algum lugar? Ela hesitou um pouco. Não havia em toda a indústria cinematográfica um só astro de filmes do oeste que não agarraria com as duas mãos a oportunidade de fazer uma série assim. E todos têm uma qualidade comum: a força criadora que lhes permite fazer coisas que antes deles ninguém fez. olhando para ela. O carro parou em frente ao hospital. de vencer as frustrações que essa minha incapacidad e me causa. No chão. onde não havia muit a mobília. P erto dela. Pinto mal. — Que foi? — A respeito da força criadora. Jonas abriu a porta e disse calmamente: — Pode descer. não foi? — Sim. sorrindo —. — Talvez você não esteja sendo justa consigo mesma. — E eu também — murmurou David. da capacidade de fazer o que ninguém mais pode fazer. realmente. ao mesmo tempo em que perguntava: — Foi uma grande noite. amarelas e alaranjadas sobre a água quase neg ra. acho que é muito boa médica. tomando o copo que ela lhe entregava. — Não é preciso você me levar. — Há. havia uma lareira. Era uma coisa que empolgava ime diatamente a imaginação. estavam um avental e uma paleta. Fazia tudo o que agora nem dez homens conseguem fazer. a sua moda.

. — Sabe. Mas não era isso o que ela tinha vontade de ouvir. Quando era garoto. Pensei que você fosse um idiota. Rosa desligou o rádio. Virou-se de lado e se olhou. acho que o maior mar do mundo não se zangaria se duas pobres criat uras tomassem um banho nele. Era só o que se ouvia. na direção do mar. Mayer tivera. Ligou o rádio e ouviu a voz do locutor. — Creio que está quente o bastante para um banho..estituídas de genialidade aqui paradas a olhar o mar. tendo na boca um gosto de mar. — O maior de todos — disse ele. a senhora está grávida! Ela tinha rido. Notícias de guerra. Não era nada que se parecesse com isso. Sentiu o coração pulsar desor-denadamente quand o apertou o rosto de encontro aos seios dela. .. Olhou para o re lógio na mesinha-de-cabeceira. Ela caiu em seus braços. cap turando sua virílidade. — Pois eu achei ótima. que enchia o quarto enquanto ela trocava de roupa. Rommel. Sorriu ao lembrar da surpresa que o dr. Viu Rosa volta r também da água e caminhar na sua direção. Prendeu a respiração. Dentro em pouco começaria a arredondar-se. Levou a mão à barriga. Era uma mulher tão perfeita que ficava difícil lembrar-se de que era também médica. Em Londres. rindo. Sentiu-a estremecer toda quando seus dedos apertara m delicadamente o bico. Todos os nós es-tão desatados. Os braços dela se fecharam em torno da cabeça de David. Rosa — disse ele. — Sim. dra. David saiu da água e se estendeu na toalha aberta em cima da areia. minha maior vontade era nem aparecer por lá. — Pelo menos foi o que algum gênio afirmou. Hoje o orgulho do Exército alemão. Strassmer. quando Montgomery iniciou sua ofensiva na direção de Tobruk. De repente os dedos dela o puxara m desesperadamente e a voz era dura e insistente: — Não seja tão delicado. a ''Raposa do Deserto ''. os italianos se renderam em massa. Acendeu um cigarro e passou-o para Rosa. foi exatamente isso que o médico me receitou. — Podemos? — Claro que sim. — Ora — disse Rosa —.. por baixo do maiô. No mesmo instante. — Sente-se melhor agora? — perguntou ela. Virou-se e olhou seu corpo nu no espelho por cima d a cômoda. Ainda estava tudo quase normal. fazendo a noite desaparecer. David! Eu sou uma mulher! 13 Rosa entrou na casinha da praia e foi diretamente para o quarto. o primeiro-ministro Winston Churchill disse hoje. costumava tomar banho no cais do East Side . Estava na hora do noticiário das seis. — E um mar tão grande! — replicou ela. Com os flanc os assim expostos. Beberam e ele olhou de novo para o mar. Há um calção para você dentro do armário. David procurou com uma das mãos o seio. Ela sentou ao seu lado e disse: — Não achei a água tão fria assim. Deu duas tragadas no cigarro e devolveu-o a David. quando minha mãe me chamou para jantar a fim de conhecê-la. Vamos beber em honra desse fato. — Também não tive muita vontade. solenemente. quase timidamente —. O maior do mundo. — Mas. sob uma violenta tempestade. as mãos dela estavam em suas coxas. Rommel nada pôde fazer senão bater em retirada. sentiu pela pri meira vez o gosto de bater em retirada pela areia. David tirou lentamente o maiô de Rosa. — Ótimo. Sem dúvida alguma desprep arados para a vigorosa ofensiva.

mas preocupava-se com o fato de que a gravidez pudesse afastá-la do trabalho e desorganizar sua vida. dr. O sr. Não era nenhum receio de ordem física. como Bonner havia proposto. Sem dúvida. Era um segredo conhecido de todo mundo na indústria. Olh ou-se no espelho do banheiro. Não h avia em toda a história da medicina um só caso de homem que houvesse dado à luz um fil ho. Quase langui-damente. quando Jonas tentara alugar um apartamento . — Há quase um ano estamos tentando conseguir uma conferência com o sr. Mas acontece que já estamos perdendo a paciência. David olhou para o livro de contabilidade encadernado em couro azul. A coisa havia começado dois anos antes. isso representava controle. para disc utir os nossos problemas comuns — dissera Sheffield.. — Parece-me que os investidores não têm motivos de queixa. — É verdade. numa companhia grande como aquela. Por outro lado. No ano anterior. quando David ligaria de Nova Iorque. como diziam. Dizia-se que era a fi gura de proa de um poderoso consórcio e que possuía ações da companhia em número consideráve l. o harém de Cord. — Não fique tão escandalizado. dr. Precisav a estar perto do telefone às sete horas. o grupo que represento estava disposto a adiantar o financiamento necessário para alguns filmes que teriam duplicado os nossos lucros.. Só que desta vez Jonas estava do outro lado da cerca. à medida que as cotações subiam.— Era o que eu pensava. Nun ca esperara que fosse se sentir assim. Quer ia sentir a felicidade na voz dele quando re-cebesse a notícia. sentia-se feliz por ser mulher. A quase totalidade desse lucro provinha dos grandes filmes que ele mesmo pro duzira e financiara. como as do Boul evard Park Hotel. mas. Mas o senhor entende perfeita-mente o que estou dizendo. O menos que se pode dizer é que ele é um excêntrico. Cord tratara de liquidar pouco a p ouco suas ações. O que a surpreendeu foi o sentimento de orgulho e felicidade que a empolgou. Bonner ganhara pessoalmente outro tanto. Seis milhões de dólares naquele ano. Já tive negócios com ele em outras ocasiões. um corretor chamado Sheffield fora procurar David. David já estava mesmo esperando que ele tocasse nisso. Ali estava uma coisa que só ela podia fazer. Cord não quis. Era o mesmo que acontecera com o tio Bernie.David. — Reconheço sua lealdade. Sheffield. Cord. a tal ponto que não é possível tolerar uma administração displi cente ou uma evidente negligência em face das oportunidades de lucros. Estamos prontos a discutir um plano de posse de ações e particip ação nos lucros para certos diretores. especialment e em vista dos lucros deste ano. sr. Mas tinha todo o direito a is so. não era absolutamente nada disso que estava acontecendo. Mas o sr. De qualquer modo. Em geral. Mayer. Já re-cuperara seu investimento primitivo. Não tivemos nem resposta às nossas carta s. A pele estava clara e rosada e os olhos cintilavam . Só uma coisa inquietava. espalhou os sais de banho na água. A idéia de ter um filho sempre a deixara al armada. A criança ainda nem se formara e ela já estava conversando com ela. Woolf. — Mas. Mergulhou na água quente da banheira. enquanto o homem se sentava. Cord é um homem muito ocupado. — Mas parece que nunca ninguém sa be onde ele está ou como pode ser encontrado. abriu a torneira da banheira. David olhou-o cheio de curiosidade. — Gesundheit! — disse em voz alta. Um dia. feliz e entusiasmada. O cheiro lhe chegou ao n ariz e ela espirrou. Sentia-se orgulhosa. o sr. Se David tivesse conseguido convencer Jonas a contribuir pa ra o financiamento. as cifras prova vam que ele estivera certo em fechar o contrato com Bonner três anos antes. os lucros seriam naquele ano de dez milhões de dólares.. Não podia demorar-se muito tempo ali. Pela primeira vez na vida. Quase dois milhões no ano passado. Isto é uma coisa que costuma acontecer a muita s mulheres. Cord não quer. Riu sozinha. Temos um investiment o considerável na companhia. e os trinta e dois por cento de ações que ele ainda possuía estavam livres e desembar açados. E sem dúvida alguma não te mos o menor interesse em onerar a companhia com certas despesas. M as havia alguém que estava comprando.. Pôs um robe sobre o corpo e foi para o banheiro. sr. Mayer. Ao menos. — Eu sei.

fez o estúdio mandar para o ho tel todas as atrizes contratadas que quisessem instalar-se lá. — Achamos que o êxito da companhia deve ser atribuído diretamente a sua pessoa e a sua orientação. — Quer dizer que promoveria uma luta entre os acionistas. — Com todo o respeito que sua sinceridade merece. Só que dess a vez não era mais um chefe de plataforma e. — Não faríamos qualquer objeção se o sr. ficasse do lado deles. — Terei prazer em encaminhar suas sugestões ao sr. E o que Sheffield estava dizendo é que. seria o novo rei. de repente. se ele. Cord nunca pod erá dispor de mais de trinta por cento das ações. David. Nunca isso lhe havia passado pela cabeça até aquele momento. por que veio me procurar? — perguntou David. Mas tem certeza de que o controle da companhia ainda pe rtence ao sr. se eu não concordasse com o senhor? — Não creio que isso será necessário. isso nos dá maio ria suficiente para controlar a companhia. Mas ele nã e mostra absolutamente ativo. As escaramuças preliminares estavam terminadas: iam entrar diretamente no assunto. A entrada de trinta moças em outros tantos apar tamentos. pois nunca deu sequer uma resposta aos nossos pedidos de uma reunião. sim. Era o mundo numa bandeja de prata. O rei tem de morrer. mas Jonas não queria saber disso. Devolveu o documento a Sheffield sem dizer uma palavra. O hotel estava mais do que di sposto a cancelar o contrato. causou um alvoroço tremendo.do hotel para uma garota e teve sua proposta recusada. Alguns corretores já se comprometeram conosco a conseguir mais cinco por cent o. Já disse que dispomos de uma quantidade considerável d e ações. É claro que com a dev ida autoridade e a remuneração correspondente. Com ou sem os cinco por cento de sua propriedade. Bonner elevam nossa participação nas ações a trinta e oito por cento. não. um homem como Jonas Cord. David respirou profundam ente. No dia em que o contrato foi assinado. Sheffield aproximou-se mais de David. Foi o caos. como diretor principal da companhia. Por que não? Afinal de contas. Cord não recebe qualquer remuneração nem cobra da companhia suas despesas. quando será realizada a reu nião anual. um verdadeiro tumulto. mas o contrato era por quinze anos. sem dúvida alguma. E a as-sinatura era de Bonner. isso custava muito dinheiro à companhia. — Sei disso perfeitamente. Por mais que faça. — Não será necessário. Cord. E tenho aqui uma promessa assinada pelo sr. Ainda não compareceu a uma só reunião da diretoria desde que sua associação com a companhia começou. Lembrou-se. sob os olhos escandalizados do gerente do es-tabelecimento. David recostou-se na cadeira e disse ao corretor: — Creio que não é preciso lhe dizer que o sr. Cord? Temos tantas ações quanto ele ou talvez mais. De vez em quando Jonas mandava algum convidado especial hospedar-se lá. Jonas fraquejava. Sem dúv ida alguma. David pegou o papel. observando que nenh uma das moças ganhava por ano o que cada apartamento custava por mês. Temos certeza de que ele não se interessa por isso. Fazemos o melhor conceito de sua competência e gostaríamos de vê-lo no lugar que realmente lhe cabe. sua a ssociação com ela não está compreendida na categoria comum dos empregados. Por con-seguinte. — Tenho muito prazer em ouvir isso — respondeu cautelosamente. na semana que vem. aquilo era uma coisa em que havia pensado des . Pouco a pouco. — Neste caso. Bonner: ele nos venderá todas as ações em seu poder no dia 15 de dezembro. — O sr. o sr. Cord comprou o interesse de controle da companhia. Os jornais trataram lon-gamente do assunto. Cord a adotar al gumas de suas sugestões? Isso seria satisfatório para o senhor? Sheffield sacudiu a cabeça. Acontece que estamos firmemen te convencidos de que Cord é prejudicial ao progresso da companhia. Cord prestasse algum serviço à companhia. Julgamo-nos no dir eito de ter voz ativa na administração. Mas tudo estava mudado. Isso havia acontecido dois anos antes. Era um compromisso. arrendou vários andares do respeitável hotel das vizinhanças de Be verly Hills. — E se eu lhe pedisse q ue deixasse as coisas nesse pé? Se eu conseguisse convencer o sr. Servindo-se da companhia como um subterfúgio. Os dez por cento do sr. qua se todas as moças se haviam mudado do hotel e muitos apartamentos estavam vazios. do velho depósito onde começara a trabalhar. Jonas sempre lhe havia pareci do invulnerável.

— Não pode esperar até amanhã. — Rosa.. Os seios firmes . Houve um estalo e David saiu da linha antes que ela pudesse dizer alguma coisa. Teria acontecido algo com ele? Estaria ele estendido. a cinco mil quilômetros de distância. Levantou-se da cama e foi até o banheiro. — Está sentado na cama? — Estou. por fim.cautelosa. Apagou-o. Escondeu o rosto no travesseiro e ali f icou em silêncio. — Oh. Ela hesitou. Posso sentir você derramando vida dentro de mim. David. — Alô — disse ele. querido. — Felizmente. Tenho uma notícia maravilhosa para você. — Deite-se por um instante na cama. Quero que você me sinta como eu sinto você. nervosa. Já p assava das oito horas. — Obrigado. Rosa largou o jornal em cima da cama e pegou um cigarro. sentindo-se invadida de repentino calor. não agüento esperar. A voz dela era quente e lânguida. — Eu seria um caso capaz de dar muito trabalho a Freud — disse ela. E você? — Também não — disse ele. David? — Estou bem. ser uma mulher era isso? 14 Maurice Bonner sentou-se na cama e viu a mulher caminhar até uma poltrona e sentar . Rosa? Estou numa reunião muito im-portante. o telefone tocando no apar tamento dele. com o rosto encostado à porce-lana fria do banheiro. viu lágrimas chegarem a seus olhos e rolarem pelas face s. pensou ela. quando ele sabia que iria trabalhar até tarde . — Não tenho nada em cima do corpo — murmurou. Olhou-se no espelho. Por que não telefonou? — Estou em reunião. sim. Em geral. — Estou no quarto. David. David. Até amanhã. Então. Estudou-a com admiração. Havia ocasiões em que ela também estava muito ocupada para ate nder ao telefone. Da vid já devia ter telefonado. rindo. com a mesma reserva. David tomou isso por um sinal de a-quiescência. Ele dissera que estava ocupado. Rosa desligou e pegou o cigarro que ainda estava aceso no cinzeiro. A fumaça acre irritou sua garganta. querida. David? — Não. Não devia ter telefonado. num silêncio atônito. nunca deixava de avisá-la. e ela só saberia tarde demais? Pegou o telefone e pediu uma ligação para o hotel onde ele estava em Nova Iorque.. Isso significava que em Nova Iorque eram mais de onze. — Estou deitada na cama — disse ela e esperou que ele fizesse a pergunta habitual. Olhou para o relógio-. David . — Rosa! Eu. — Estava preocupada. com voz baixa e cautelosa..de seu primeiro dia de trabalho no depósito. — Estarei aí no fim da semana. — Oh! Está sozinho agora? Está no quarto? — Sim — respondeu ele. ferido. A mulher es-tava nua e era muito bonita. Caiu então de joelhos. David! Posso ver agora. — David! Estou com tantas saudades de você! Seria tão bom você estar aqui junto de mim! Ela ouviu o leve ruído de um fósforo riscado.. — Está zangad o comigo por eu estar com tanta vontade. Com uma ponta de surpresa. com a mesma voz. Tocou durante muito tempo. Ou viu as vozes das telefonistas através do país e. ainda que o telefonema fosse dele. numa rua de Nova I orque. — Não agüento esperar. Tinha de compreender. — Você vai bem.

Você te m um amigo. Viu os músculos das costas se contraírem de repente. quando ela se voltou para apanh ar o maço de cigarros em cima da mesa. Há sempre algum falso cowboy que pensa que está me dando o máximo. A mulher acendeu um cigarro e continuou: — Escute. Daqui até amanhã é outro tanto e mais o almoço pago. sorrindo. A mulher apontou pa ra a mesa e disse: — Suba. tiro uma semana de férias e vou para um desses ranchos que arranjam as coisas para mulheres casadas em férias. A mulher tinha razão. — Você ainda é mais moço do que eu pensava. — Vocês todos são a mesma coisa para mim. a coisa é diferente. Vocês estão jogando e em dado momento ele di z: Estive ontem com uma mulher que é um estouro. ao mesmo tempo em que ace ndia um cigarro: — Foi bom? Ela não respondeu. você vai a um restaurante e janta muito bem. mostrando os dentes tortos e desiguais em seu rosto comprido de cavalo. Quando estou mesmo com vontade. O que ela dizia não era novidade.e cheios pousavam no tórax de linhas delicadas. — Valeu a pena? — Acho que sim — respondeu a moça. — Você parece um macaco. Ele nada disse. Ainda se sente enganado? Ele riu. Ele riu. — E agindo dessa maneira não está enganando seus fregue-ses? — Você se sente enganado? — perguntou ela. — Ih! Como você é feio — disse a mulher. — Você é terrível. Sou humana. Estava trabalhando. Havi a uma mesa de massagens encostada à parede. sorrindo. — Quer dizer que nunca sente nada? — Sem dúvida que sinto. escute. Mas. passou-a pela cintura e perguntou. o melhor que já encontrou. — Quer dizer que para você não teve importância nenhuma? Mais um homem apenas. achando-se de repente jovem e forte. Aposto que há muito tempo não faz isso três vezes em tão pouco tempo. Não posso me dar a e sse luxo. deixando a toalha cair no chão. assim tod o peludo. Não se incomoda de falar a respeito e recomenda aos seus amigos. Talvez não no sentido comum d a palavra. é Irving Schwartz. debaixo da janela.. porque não preciso dar nada em troca. A barriga sólida e lisa terminava ab ruptamente na surpreendente eminência do púbis. mas tão bela quanto uma pros-tituta devia ser e quase nunca era. Eles pagam para ter a perfeição. que não se sentia assim. que vão experimentar. Ela sorriu e se levantou. sim. Mas quer saber da verdade? — Claro que sim — disse ele. Depois conta aos amigos que c omeu ali um filé ótimo. Bonner a seguiu até o grande banheiro com uma enorme banheira de mármore no chão. sim? — continuou. É o mesmo que fazer isso com urna garrafa de C oca-Cola entrando em mim. . Levantou-se. — Não estava fingindo. E está mesmo. Havia muito te mpo. Pois comigo é a mesma coisa. não foi? — Parece-me que você julga bem as coisas. Percebeu de novo o calor que lhe tomava o corpo. Com quem paga. Era linda. Jogou as cobertas para o lado e saiu da cama. Ele voltou para a cama e se sentou. Ele pegou a toalha. Negócio fechado. — E o que tem isso? — O trato foi até meia-noite. já é meia-noite. com indiferença. Mas. Tudo corr e a seu gosto e até melhor do que você jamais esperou. eu não sabia que você estava fingindo. de qualquer modo. Minha profissão é essa. porque podia se ver no espelho. Mas nunca com meus fregueses.. jogando-lhe uma toalha. talvez uns vinte anos. A moça soltou uma risada. — Venha. Mas. que depois se afinava nas coxas e na s pernas longas e esbeltas. Chama-se Jennie Denton. Dessa vez. Sabia perfeitamente disso. olhando para ele. Por que não vai experimentar? Você então chega e bota o seu dinheiro em cima da mesa. Ele riu. Tenho de dar tudo o que posso. — Cubra-se. — Não.

Quando havia uns dez centímetros de água na banheira. Só os idiotas bebem isso. Depois. — Não no rosto. Levante-se. A água estava apenas um pouco mais quente do que a temp eratura do corpo. — Esqueceu as taças — disse Bonner. O corpo era limpo e br anco por baixo de todos aqueles pêlos. A água envolveu-lhe o co rpo de calor. acendeu- . Ela foi até a banheira de mármore. Ele se sentou na banheira. já começando a ensaboar seu peito. tirou a folha metálica do gargalo e torceu os arames. — Por que largou? Ele quase não sentia a navalha passar-lhe pelo corpo. — Não seja bobo. seu bobo — disse ela. Apanhou um aparelho de bar ba. — Sessenta e cinco dólares por mês. — O que vai fazer? — O que você acha? Vou fazer sua barba. E muitos engraçad inhos pensando que podia ser de graça! Ele riu ao sentir a navalha na barriga. Quando Bonner se estendeu de novo na mesa. — Quero ver como você é debaixo de todo esse pêl . Ela sorriu para ele pelo espelho. Ele deitou na banheira e daí a um momento ela estava de volta. É para a banheira. Com a presteza de uma longa experiência. mexeu nas torneiras e experimentou a água até ficar n a temperatura desejada. desligando o vibrador. Parecia até mais magro. Ficou deitado de bruços e descansou a cabeça nos braços. — Isso é melhor do que um banho turco — disse ele. De repente. A moça lhe entregou uma grande toalha felpuda. olhando-a. — Chega de narcisismo. Trazia uma garrafa grande de champanhe e um vidrinho. Ao fim de algum tempo. Encheu um copo com água e molhou uma toal ha na torneira da pia. — Pronto. Colocou a garrafa de champanhe no chão. A moça tinha razão. começando então a fazer a massagem. rindo. esvaziando a garrafa na água da banheira. — Deite-se — disse ela. E tive distinção durante todo o curso. ele tinha a sensação de estar vinte anos mais moço. Quando saiu. — Não vou cortá-lo. Entre na banheira. — Trabalhou num hospital? — Me formei em enfermagem aos vinte anos. O zumbido do vibrador par ecia esticar e desprender-lhe os músculos do corpo. — Vire-se. É melhor do que qualquer ban ho de espuma — disse ela. fumaça e cheiro de jasmim do sabonete. — Estenda-se aí. — Enxugue-se e volte para a mesa. Quero raspar as costas e os ombros. — Fiz a barba hoje à tarde. Colocou tudo na beira da pia perto da mesa. A rolha estourou e o champanhe espumou em suas mãos. — Isso é um banho turco — replicou ela. ela colocou o vidrinho na borda da b anheira e apanhou a garrafa de champanhe. que eu já volto. Um cheiro forte de jasmim impre gnou imediatamente todo o banheiro. O cheiro de mentol do sabão che gava até o nariz. a moça fechou a porta do banheiro e dis-se: — Sabe que não fica mal sem aqueles pêlos todos? Ele se olhou no espelho pendurado atrás da porta e sorriu. Entregou um s abonete dizendo: — Agora tome um banho quente de chuveiro e esfregue-se bem. Enquanto Bonner levantava. — Faz cócega. Ela deixou a garrafa no chão e apanhou uma caixa de cigarros dentro do armá-rio. Tirou um cigarro. dezoito horas de trabalho por dia.Ele sentou à mesa e viu Jennie abrir o armário de remédios. fechou as torneiras. Costumava fazer isso quando estava no hospital. ela tirou um pequeno vibrador do armári o e o ligou na tomada. um tubo de sabão de barba e um pincel. ela bateu em seu ombro e o fez levantar-se. estava vermelho e satisfeito. — Mas. molhando o pincel no copo e fazendo espuma com o sabão. Fechou os olhos. abriu o vidro e deixou algumas gotas caírem dentro da água. O vinho produziu uma sensação refrescante na pele de Bonner. — Deite-se e fique quieto — disse ela. — Agora espere um pouco aí...

pão quente e torradas. — Tome.. Seu corpo parecia limpo e forte. Ajuda a me manter em forma. . Ela o olhou da mesa da sala quando ouviu seus passos na escada. Deu mais uma tragada e teve a impressão de que estava boiando em cima da água. como faz todo mundo. sentiu-se cheio de a-nimação. — Que magnífico desjejum! — disse ele.. tirando o cigarro de sua mão e jogando-o no vaso. O fato é que estava com aquilo na cabeça quando desceu para o café. — Bom dia. Compreenda que às vezes trabalho dem ais. A porta se abriu e uma robusta mexicana apareceu com uma bandeja que colocou em cima da mesa. A mexicana encheu a xícara de Jennie e foi depois para a cozinha. O corpo a havia absorvido como uma esponja . É errado do ponto de vista comercial. — Onde joga? — No Bel Air. Alugo seu tem po. saindo rapidamente. — Não há nada barato nesta casa — disse ela. De repente. filé. Bonner — convidou Jennie. Nos pratos com as tampas amarelas . limitavase a um copo de suco de laranja e uma xícara de café. — Não torne as coisas difíceis para mim — insistiu ela. Bonner olhou para o prato. Bonner. nos fundos da ca-sa. — É exatamente o que vou fazer. Depois tirou o copo vazio que estava diante dele. Deu uma profunda t ragada. Suas aulas custavam caro. — Viva! Olhou-a com admiração. Os braços saíam morenos das mangas curtas de uma blusa esporte. não havia nela o menor vestígio de cansaço ou de rugas. Tenho um contrato permanente com Frankie Gardner. e se surpreendeu com o tom de sua voz e com o que ela exprimia.. Nunca soube ao certo quando lhe ocorreu a idéia. Jennie estava se servindo de uma boa porção de filé. O cabelo castanho-claro estava preso na nuca num rabo-de-cavalo . Frankie Gardner era um dos grandes profissionais do tênis do país. Serviu-se de presunto. Havia muito tempo não sentia fome pela manhã. E sentia a mesma confiança que idéias semelhantes lhe haviam anteriormente inspi rado. — Você está vestida como se fosse jogar tênis. — Gardner. vinte e cinco dólares por hora. Certamente foi du-rante o sono. À luz forte da manhã. — respondeu ele. Os olhos se mostravam límpidos e luminosos e a única maquilagem era um traço de batom nos lábios. Ela apertou com o pé direito um botão preso no chão ao lado da mesa e uma campainha co m som de carrilhão soou na cozinha. Enquanto se servia. — Tome seu suco — disse ela. Duas tragadas só. — Nos pratos com as tampas verdes encontrará p resunto. a mexicana voltou com um bule de café. dando-lhe uma dentada no peito. cuidadosamente met ida numa saia elegante. Não gosto dessa coisa. — Essa garrafa de champan he me custou vinte dólares. quando ela se deitou na banheira ao seu lado. sr. — Café. — É uma coisa louca — disse ele.. sr. — Nunca jogo com meus fregueses. Jogo duas horas de tênis todas as manhãs. enquanto a mexicana o servia de café. — Mas por quê? — Gosto do exercício. colocando no lug ar um prato. ovos mexidos e batatas fritas. M as não tinha importância. é um de seus fregueses? — perguntou.. muito obrigado. Olhou de novo para ela quando ela entrou na banheira. Olhou para a moça meio espantado. arenque e rim grelhado. Bonner ergueu as sobrancelhas. Bonner pegou o cigarro e o colocou sem muita vontade na boca. — Chega — disse ela. — Quero apenas retardá-lo um pouco. Está com fome? — Morrendo de fome. Ele sentou à mesa e apanhou o grande copo de suco de laranja que estava dentro de um recipiente cheio de gelo. e sentiu o fumo penetrar dentro dele. — Não. un momento — disse.. Não houve necessidade de expelir a f umaça. No mínimo. sorrindo.o e ele sentiu o cheiro enjoado e acre da maconha. ovos fritos. — E tem de ser — disse a moça. Em geral. O presunto estava exatamente com o ele gostava. — Sirva-se. toicinho. — O desjejum já vem aí.

dizendo que os correto res deles tinham sido procurados e queriam saber o que íamos fazer. O senhor é um dos maio-res produtor es de Hollywood. — Não se esqueça. — Nunca a vi com melhor aspecto — disse. calmamente. — Então é melhor encerrar o assunto. oitenta ou noventa mil espalhadas por todo o país. Já pensou em fazer qualquer outra coisa? — Que quer dizer com isso? — perguntou ela. sr. O argumento foi feito para Rina Marlowe. não se fala mais nisso. Comigo. — Que foi mais que soube? — A nova turma está disposta a dar a você a chefia de tudo. estendendo-se numa pol-trona ao lado da lar eira. não acha? — Talvez — replicou ela. muitas delas bem mais bonitas do que eu. . — Você tem coisas que me lembram Rina — disse ele.— Sei o que quer dizer. ou fazendo a vida a cinco dólares no Strip. David ficou em silêncio. — Mas estou falando sério. era bem possível. — Dois mil? Está brincando? — Não brinco quando se trata de dinheiro. — Quantas ações vocês têm? — Ora. Sei o que acontece com as garotas que vêm para cá. de que sou daqui mesmo. Eu leio os jornais. Além disso. — Mas eu também me conheço e sei que não sou atriz. 15 Irving foi com David para a sala de estar. evasivo. Por que nunca tentou o cinema? Ela riu com vontade. Sabe quem sou eu? — Claro que sei. quando Rosa começou a tirar a mesa. — Você não quer falar. Se não der certo. deve ter tido algu m motivo para me chamar. esse homem é inte iramente gira. — É — murmurou David distraidamente. — Mas isso é diferente. Bonner. da Califórnia. Não era possível que Jonas não soubesse do que estava acontecen do. Segundo soube de algumas garotas. — Está preocupado com alguma coisa. afinal de contas. rindo. muito sério. viu como eu vivo. Acabam acei tando carona em carro de homem para ganhar refeição de sanduíches. — Que foi que soube? — perguntou David. Que homem é esse de cuja aprovação você necessita? — Jonas Cord. e você co-meçará a ganhar dois mil dólares por semana. — Não foi o que me pareceu esta noite. Bonner. — Não foi o que me disseram. Dizia-se que ela era terrível em matéria de homens. Achamos que era um bom inv estimento. não. Vá ao estúdio amanhã e eu farei um teste c m você. Disseram-me também que Bonne r já vendeu as ações a esse pessoal. — Acho que você está é louco! — disse Jennie. — E possível. quase agressivamente. Levaria muito tem po até eu ganhar mil dólares por semana no cinema. — Já não lhe disse que estudei enfermagem? — Não é disso que estou falando. Se der. eu devo saber o que estou dizendo. — Nisso também. — Entretan-to. em vista da maneira pela qual você está administrando a companhia. — Dizem que estão procurando dar o fora no seu chefe. — Como soube dessas coisas? — Temos algumas ações. sr. Não chego nem aos pés dela. David? — As coisas de sempre — disse David. David — disse Irving. É minha profissão. — Como sabe? Temos um argumento nas mãos há cinco anos e não conseguimos encontrar uma p essoa capaz de fazê-lo. — Neste caso. mas não é disso que estou falando. — Rina Marlowe era uma das mulheres mai s lindas que já passaram pelo cinema. — Nem eu. Alguns dos nossos homens me telefonaram. precisarei apenas da aprovação d e um homem. E eu tenho certez a de que você poderia fazer o papel. Mas.

— O que vai fazer. — Bem. — Vejam só que lindo bolo de chocolate! — Eu mesma fiz — disse Rosa. Jennie . sorr indo. David. vote então por nós. doutora! — falou ele. — Olhos pretos. é melhor ir parando por aí — disse Rosa. não tenho outro jeito. E isso só é possível em cinco dias por semana. Gostamos de ficar do lado onde está o dinheiro. — Ah — disse Irving. — Não pode ficar sentado na cerca por muito tempo. Completo financiamento. olhando para Rosa. talvez até bonificação em ações dentro de dois ou três anos. Se fosse verdade. E el es estão fazendo promessas muito interessantes. parece que numa noite. — Oba! — exclamou Irving. — Mas os banqueiros e corretores têm todas as cartas na mão — replicou Irving. Irving riu. Não tenho a menor idéia do que vou fazer. não há jeito de v iver em companhia de quem perde. Para ele. vocês já resolveram de que lado vão ficar? Aquelas ações podiam ser importantes. Foi por isso que ele comprou a companhia. — O que há com ela? — perguntou Rosa. — Onde foi que a conheceu. David — disse Irving. O que se viu foi. já devia e star a par de tudo. não se trata ape nas de um negócio. — Vou lhe dizer uma coisa. Só recebe gente importante e muitas vezes é preciso es perar duas ou três semanas. — Mas a coisa é assim. — Exatamente. contente. — Então era essa mesma — disse Rosa.— Será que você. Mas sei também que é um técnico em ma-téria de cinema e pode fazer um filme como pou-cas pessoa s na indústria. somos muito conservadores. simples matemática de banqueiro ou corretor que pouco liga para outra coisa além da conta de lucros e perdas e o b alanço anual. Irving ficou calado durante algum tempo. — Seria capaz de fazer isso? — perguntou David. A última notícia recebida dizia que Jonas estava fora do país. Representavam mais de três por cento sobre os do is milhões e meio de ações em circulação. rindo. — Eu sei — disse David. David pegou um cigarro e o botou na boca. cabelo castanho-claro. Vou reunir todas as nossas procura-ções e botá-las em suas mãos. — Não. Por que Jonas não respondia aos seus recados? Três vezes havia procurado em vão descobri-lo. sorriu. — O que há com ela? — perguntou David. — Se está fazendo propaganda com meu marido. — Oh. David? — Palavra que não sei. logo no dia seguinte. não é o que quer dizer? — insinuou Rosa. Sem dúvida. olhando para Rosa. sem acendê-lo. doutora? — No hospital. — Queria perguntar-lhe uma coisa. Maurice Bonner esteve por lá e e la lhe deu o tratamento completo. havia lá uma enfermeira com esse no-me. Afinal de contas. chegando com uma bandeja.. — Na minha opinião. Não se rebaixa a entrar num quarto de hotel. bem feita de corpo e com um andar curioso? — Provocante. no começo desta semana. Depois começou a tir ar os pratos em que servira o bolo. Jennie é provavelmente a mulher mais cara de Los Angeles. — É verdade — disse David. David. — Já ouviu falar numa tal Jennie Denton? — Jennie Denton? Não. Tem uma casa própria e seis cômodos nas montanhas e só se vai lá depois de marcar hora e dia. Mais alguma coisa e terá de fazer uma operação plástica no meu estôma — Então tome mais um pouco de café — insistiu Rosa enchendo sua xícara. Depois. não foi você quem transportou todo aquele álcool para nós da gara-gem de Shocky? — Aqui está o café — anunciou Rosa. — Que maravilha! — Mais um pedaço? — Já comi três pedaços. acendendo afinal o cigarro. Irving afundou ainda mais na poltrona. Quando você decidir o que é melhor. — Bem. Bem sei que J onas não nos tem dado muita atenção e talvez até nos tenha prejudicado um pouco. Há quatro anos. esmagando o cigarro com raiva no cinzeiro. como para Sheffield e os outros. — Esqueci de que você está fora de circulação. — Só um imbec il abre luta contra eles. — Conheci uma Jennie Denton. duplicação de lucros. tudo seria um fato consumado quando ele voltasse. Neste mundo..

Resolveu. David só se lembrava de um argumento que tivesse uma cena de batismo. indo depois sentar-se a sua mesa. — Pobre David! Tantos problemas! — Tenho de tomar uma decisão em breve. para filmar. com os olhos brilhantes. era como se não tivesse nada em cima do corpo. E todo mundo que estava comigo na cabine de projeção. numa cena de um velho argumento encostado. E foi com voz doce e feliz que murmurou: — Nós vamos ter um filho. Bonner tem tido ma is pedidos por ela do que Zelznick teve por . também. como se su as raízes se cravassem bem no fundo da terra. — Nós três? Ela sorriu. fazer coisa melhor. Segui ram em silêncio para o escritório de David. — Não me sinto muito senhor e dono. O que acha que devo fazer? Ela o encarou. Ele a filmou em cor. uma cena de batismo. Vestiu-a com uma peça de seda branca. A maneira pela qual a seda se cola ao corpo quando ela sai da água foi a coisa mais sugestiva que . — Mas você tem de ver o teste. — Há alguma coisa. — É dever da esposa escutar quando seu senhor e dono fala. Sentia-se forte e capaz. F ormidável! Vi duas vezes. — Nesse caso. Rosa? — Agora compreendo por que todos os homens estão alucinados por ela. Rosa. Em d ois dias. — Lembra-se do nome do argumento? — perguntou. — Você tem alguma coisa para me dizer. pouco ant es de ela morrer. Um médico não tem de passar por uma guerra de nervos para exercer a med icina. tenho certeza de que será a melhor para nós três. Ela se aproximou e o abraçou fazendo com que sua cabeça pousasse em seu seio. que can-tarolava enqu anto se lavava para ir dormir. desde seu encontro com Sh effield na noite em que ela havia te-lefonado. Rosa? Vá falando. Quando ela saiu d o grande tanque do palco doze. então. Ela tinha no rosto uma expressão entre divertida e enigmática. Deu um suspiro. David vestiu o pijama e se sentou na cadeira perto da janela. David olhou para ela e sorriu. — O teste o fez lamentar que estivesse casado? David sorriu. a cena se tornou a fita de maior sucesso da cidade. — Seja qual for sua decisão. Abriu a porta do escritório depois de passar pela secretária e fez Ros a entrar. David? — perguntou ela. em frente. Ouviu a água correr no banheiro e o leve som da voz de Rosa. calmamente. Ouviu a porta se abrir e voltou-se para ver Rosa. Rosa se acomodou numa poltrona de co uro. David. Aquela força nova era também o que significava ser uma mulher. 16 A luz do sol lhes doeu nos olhos quando saíram da escuridão da cabine de projeção. E o vento levou.chegar ao estúdio para fazer um teste. — Não sei para quem foi escrito — disse Irving. Era a primeira vez que ela mostrava qualquer inte resse por um filme.. se não me engano. é o argumento que Jonas Cord mandou fazer para Rina Marlowe. que nós o veremos juntos. — No que está pensando. David? — Ainda não sei — disse ele. Ao menos ela era feliz no trabalh o que fazia. — Vou vê-lo amanhã. com os olhos ainda brilhando. sorrindo. — Não. não tem. — Também gostaria de ver — disse Rosa. — Seria A pecadora? — Acho que sim. — Nada tenho de importante para amanhã e também estarei lá a essa hora — disse Irving. David — disse ela. e começou a contar toda a história. — Esteja amanhã no estúdio às dez horas. olhando para o mar . — O que achou do teste..

David cobriu o fone com a mão e disse à secretária: — Leve correndo este bilhete a Jess Lee. E ela seguindo-o e tentando beijar-lhe os pés. mas ela estava certa. Jess. Você mesma. na Cord Aircraft. acho que já é tempo de você voltar ao cinema. com voz firme e forte. Sejam quais fo-r em as pressões. Obrigado. mas não tenho outro jeito. David fez uma pausa e continuou: — Muito bem. David? Ele a olhou. A secretária pegou o papel. Rosa sentiu-se tomada de um sentimento de orgulho. você toma a decisão. Pode falar com ele? Esperou um pouco e disse: — É só isso que quero. com a pon¬ta da cruz arrastando-se pela terra atrás dele. Ele nunca se sentira assim desde que vira Rina Marlowe pela primeira vez na tela. — Sim. Mac — disse David. vou lhe mandar um bilhete escrito por mim! Quero que você o fotografe e o inclua no título e no fim do teste d e Jennie Denton. Você tem de ir pelo seu camin ho. o que acha dela? — Achei-a admirável. — Jess — disse ele ao telefone. Pegou um cigarro. . há muitas coisas para você fazer. — Primeiro — disse David ao telefone —. Espero suas notí-cias. Você é o operador. Sentiu sua exaltação aumentar. De-pois venha falar i mediatamente comigo. Rosa curvou-se sobre a mesa com um fósforo ac eso. Em seguida. De acordo com os livros. Se não der certo. — Resolveu? — perguntou Rosa. desligou e tornou a falar pelo telefone: — Srta. — Há duas perguntas que você pode me respon der. à secretária de McAllister. — Eu sei que é um teste irregular. sem hesitação. Coisa semelhante acontece em todas as operações. David. As lágrimas dela era m de verdade ou maquilagem? — De verdade. Tudo tem de estar lá ao meio-dia. Senti quase um aperto no coração com aquela cena em que só se viam os pés de Jesus andando. Então. — Sim — disse ele. Quase chorei com ela. Ela também sorriu e voltou para a poltrona. não i mporta o lado que vencer. Estava satisfeita por ter ido ao estúdio. Olhou para Rosa e sorriu. está co m o bisturi e o doente está aberto a sua frente. — Eu sei. Mas faça uma cópia com meu bilhete e mande-a. Tenho razões especiais para não querer que ela ass ine contrato conosco. Mas você sabe que só há um caminh o: o caminho certo. Importantes razões. David já havia terminado e estendia a mão para o telefone. Vai pelo seu caminho. O filme estará no seu escritório de Los Angeles dentro de duas hora s. Mac. — Estou seguindo o meu caminho. não é. Ele seguia o seu caminh o. No mesmo instante. David. E faça isso o mais depressa possível. Até a vista. Rosa o olhou por um momento. Os outros tinham ficado tão cegos com a cena do batismo que não haviam percebido o resto. das cópias e revelações. admirando-se da intuição e do conhecimento que ela de-monstrava. — Alô. quero saber se posso fazer uma atriz assinar u m contrato com a Cord Explosives. Segunda pergunta: tenho um filme que desejo que Jonas veja o mais dep ressa possível. O escrito dizia o seguinte: Jonas. Pegou uma folha de papel em cima da mesa e começou a escrever. muitos caminhos para escolher. Não se faz maquilagem de lágrimas num teste. — Ponha essa cena de lado. deu a volta em torno da mesa e olhou curiosamente por cima do ombro dele. E o que você está fazendo. em Reno — disse David ao telefone. Rosa havia explicado tudo. quando a secretária entrou —. Depois levantou-se. David nunca havia pensado naquilo. — Quero falar com McAllister. quero falar com Jess Lee. Aquela era uma faceta de seu marido que ela até então desconhecia. seja o que for que disserem os livros.já vi. o que estou fazendo é arriscado. saiu e David voltou a falar com Jess. l ogo que acabar. eu sairei perdendo. Wilson. Tirando esse teste.

Ela o olhou friamente e perguntou: — Foi Bonner que o mandou? — Não. Todos eles o haviam visto. Pelo menos quatro homens haviam telefonado. quase morreu de rir. Jennie sabia que nunca seria uma boa atriz. Ela também faria o mesmo se se tra tasse de outra pes-soa. de quem se contavam maravilhas. Havia s ido avisada de que outro homem iria receber o dinheiro naquele mês. no momento em que se vira diante das câmaras. Agora. Depois. — Talvez fosse. Talvez fosse o novo homem da polícia. — Tráigalo aqui— ordenou Jennie. Uma prostituta chorando por outra prostituta. Era o jovem protegido de Cord . como qualquer ingênua do interior fascinada pelo cinema? Julgava-se muit o sabida e achava que nunca seria capaz de cair numa armadilha. Le mbrou-se então. — A dra. aquele dia. quer fazer o papel de Maria Madalena? . — Então pode voltar no mesmo pé — replicou ela. O cartão era caro e gravado em relevo. A mexicana voltou acompanhada de um homem. Devia saber que seria perda de tempo. — Já? Uma coisa assim pode arruinar meus negócios. toda Holl ywood estava rindo dela. E caíra como todas as outras. — Não recebo ninguém sem antes m rcar dia e hora. E pode dizer a Bonner em meu nome que pare de mostrar aquele te ste a todo mundo. guardando rapidamente as contas na gaveta. — Que quer dizer com isso? — Creio que não está compreendendo — continuou David. arregalando os olhos. Ela sabia o que ele ia dizer. srta. senão vai se arrepender. Acredito que pode ser uma grande estrela. Ela foi formidável. Ela o olhou sem compreender e ele acrescentou: — Rosa Strassmer. alguma coisa na história despertou seu interesse. Woolf? Não conhecia ninguém com esse nome. Strassmer? A que fez os enxertos de pele no rosto de Linda Davis? Eu era a chefe das enfermeiras na cirurgia. Pelo menos metade do papel se ajustava a ela como uma luva. — Muito obrigado. — Señor Woolf está aqui— disse a empregada. Ela a conheceu no hospital há quatro anos. — Pensei que tudo fosse uma brincadeira d e Bonner. Mas havia lido o argumento: Maria Madale-na. Era uma co isa que nunca devia ter feito. Uma semana se havia passado e ela ainda não tivera nenhuma comunica-ção de Bonner. E minha mulher é da mesma opinião. Identificou-se com o papel e houve ocasiões em que havia chorado com as câmara s voltadas para ela. Bonner nem sabe que estou aqui. quando a campainha da porta tocou. tirando um cartão do bolso. Havia lido o nome dele nos jor-nais. Nele estava escrito David Woolf e. Sentiu-se comovida e aba lada. Devia ter percebido. A criada mexicana passou por ela n o seu andar pesado e foi aten-der. Mas comigo não se trata de nenhuma brincadei ra. asperamente. subitamente nervosa. Denton. — Quem? — De las películas — explicou a mexicana. Ela o olhou. dando-lhe i ronicamente parabéns pelo teste. David riu e disse: — Já tomei essa providência. Não sei o que ele pensou. que aquilo não er a para ela. Agora. A princípio. Vice-Presidente Executivo e o nome da companhia na qual Bonner trabalhava. Jennie pensou que fora uma tola em se deixar convencer a faze r aquele teste no cinema. num cant o. seus negócios estão encerrados — afirmou Da-vid. com um sorriso. — Gostaria de fazer o papel de Maria Madalena? — Não sei — murmurou ela.Jennie estava sentada a sua mesa na sala de estar preenchendo cheques para as co ntas do mês. E chorar era uma coisa que ela não fazia desde seus tempos de menina! Não era de admirar que estivessem rindo. Para dizer a verdade. — De qualquer maneira. Ouviu os pesados passos da mexicana. Franzindo a testa. — Ah! Quer dizer que viu o teste? Ele disse que sim. Não era de admirar que Bonner houvesse pensado nela. Por que se deixara levar por aquela conversa.

Você é um homem rico graças a ele. mas eu não estou. que era um agente e não um produtor. — Convém ler com atenção — recomendou.Jennie sentiu de repente que era o que ela mais queria no mundo. — Esta casa é sua ou alugada? — perguntou David. e toda a raiva parecia ter desaparecido. É muito fácil assinar contratos e muito difícil livrar-se deles. Vá para o deserto. — É preciso? — perguntou Jennie. Feche tudo e desapareça por algum tempo. Eu sei que Bonner só disse isso de brin-cadeira. E o que devo fazer? — Apenas esperar. — Quanto Bonner disse que lhe pagaria? — Dois mil dólares por semana. David já estava escrevendo alguma coisa no papel. sorrindo. — Espere um pouco. a não ser para mim. tanto faz. ele meteu Bonner na companhia. Ele enterrou milhões no negócio só porque você queria ter um estúdi as mãos. Cord é o dono da companhia. n o momento em que as coisas começaram a correr bem e nós podíamos fazer os grandes film es. E compreendeu. o que vamos fazer? — perguntou. é a vez dele suar um pouco. Jennie pensou por um momento e depois riu. 17 — Desculpe. Ele falou em dois mil dólare s e é quanto vai ganhar. — Quero. — Alugada. — Por que não falou com Jonas antes? — Porque não quis. Ela tornou a rir. — O contrato é assinado com a Cord Explosives — observou ela. — Por quê? Não gosta do meu nome? — Há muita gente que o conhece. — Já disse que ele podia estar brincando. Esperar que nós a descubramos. Mas. Woolf. — Nada posso fazer. — A Sheffield? — Sim. levantando-se sorridente. guardando o contrato. ele nunca me deu uma oportunidade. — Claro. A indústria toda sabia disso. Isso poderia criar-lhe embaraços. sr. mas no meio do caminho voltou-se para falar com David. assinou o contrato e entregou-lhe o pape l. E para o senhor? — Não. — E agora. Encaminhou-se para a porta muito zangado. — Você também o explorou. para fazer todo o trabalho pesado e manter a indús-tria em funcionamento. Ela correu os olhos pela fórmula impressa. mas com o olhar frio . Pensei apenas na sua conveniência. — Eu sabia que seria essa sua resposta — disse ele. Há alguma chance de eu con-seguir Spencer Tra . — Está bem. Jonas me explorou o bastante. Não é pre ciso o senhor me pagar tanto. Jennie recostou-se na cadeira e começou a ler. tirando uma folha de papel do bo lso. pegou a caneta. Estou ansioso para ver se gosta. Os homens poderiam lamentar-se à vontade do que haviam perdido. — Acho que deve. Agora. — Ótimo. quando Bonner chegou. Eu servi para ele nos tempos difíceis . Não diga a ninguém onde está. — Para mim. — A primeira coisa que vamos fazer é mudar seu nome — disse ele. David. — Fale de vez em quando comigo. Palm Springs seria ót imo. Ele só escrevera o nome dela e a importânci a do salário. — Por quê? — Porque vendi minhas ações há um ano. Ela leu cuidadosamente. David — disse Dan Pierce. Acabou de escrever e lhe entregou o contrato. — É uma praxe que adotamos.

Bonner? — Claro que não. Demorei um pouco pois tinha de encerrar a reunião de produção da manhã. — Não tenho a menor dúvida. não? — perguntou Bonner. David. Ele nos quer a ambos. Por que recolheu todas as cópias? — Fui forçado a fazer isso. Financiará os filmes. a ponto de parecer grosseiro. Quer dizer que dispõe de um pouco de tempo? — Tenho uma conferência de argumento marcada para já. fui eu que o trouxe para cá. David piscou o olho. em v ista da importância de ambos. Era inútil proceder com rodeios. nem viera tão rápido a ponto de parecer subserviente. Mas a venda de suas ações era diferente. Bonner chegou ao escritório quase uma hora depois. Tão hábeis. — No escritório dele ou no seu? — perguntou a secretária. que poderia proporcionar à companhi a um lucro de um milhão de dólares. e continuou: — Sheffíeld me mostrou o compromisso que você assinou para vender-lhe suas ações. David sorriu. tão inflexíveis. desde que você estabeleça boas condições. — Ótimo. Se ele nunca foi bastante delicado para querer me ver uma só vez nos três anos em que trabalho para ele. Bonner interpretou seu silêncio como aquiescência. Bonner começou então a se coçar sem qualquer reserva. Aquela mulher pode fazer seu velho violino vibrar como um S tradivarius. Bonner o encarou sem nada dizer. — Soube da história. David ficou pensando depois que ó agente saiu. Ele não pode assinar um contrato comigo antes de assumir o controle d . desligando. Agindo daquela maneira estava tentando averiguar a situação. tão capazes em t antos sentidos e ainda tão crianças. metendo a mão por dentro do pal etó. rindo. Mas todo mundo sabe que você nada faz sem a aprov ação de Cord. Dan Pie rce não hesitava em fazer uma transação como aquela. — Afinal. com aquele orgulho insensato. — Ora. logo que o viu en trar. E você bem sabe como ele é. Não estou querendo enfrentar encrencas. — No meu escritório. sorridente. É preciso que um dia você vá conhecer Jennie. — Por que não veio falar comigo? — perguntou David. por que não falou com Cord? — E como iria falar com ele? Nunca vi o homem. Pegou o interfone e disse para sua secretária: — Telefone para Bonner e pergunte se posso falar com ele imediatamente. David pensou que. — Mas por quê? Se queria vender. A pecadora não é nossa propriedade. os argumentistas estão acostumados a esperar. Quando você conseguisse falar com ele. — Não tem importância. — Tem isso por escrito. Maurice — disse David. não havia razão al guma para eu correr atrás dele. McAllister nem se deu ao trabalho de ligar para mim. Os negócios eram assim mesmo. Além disso. é claro — disse ele. Fazia parte de sua profissão e nada tinha a ver co m Jonas Cord. David. pensou David. Você bem s abe disso. organizará um novo plano de divisão de lucros e nos dará opções de açõe ealmente boas. — Era o que eu devia fazer. Vi o teste. — Desculpe o incômodo que lhe estou causando. — Ah! Ia mesmo perguntar. Todos sabi am que havia alguma coisa no ar e sua própria secretária não se sentia segura de sua p osição. afinal. — Está com urticária? — perguntou David. Era impression ante a atenção de todas as pessoas do estúdio para esses pequenos detalhes. Viera relativa-mente rápido. meu contrato já estaria terminado. Normalmente era sempre Bonner que ia falar com ele. Bonner não havia de-morado demais. David. meu contrato termina no mês que vem e ning uém me falou ainda em renovação. Ele disse que tomará nova orientação no momento em que assumir o controle. E continuou: — Sheffíeld me disse que se encarregaria de nós. Bonner.cy e Clark Gable emprestados da Metro. eram todos iguais. acendendo um cigarro. Per-tence pessoalmente a Cord. E aí eu ficaria numa situação muito incômoda perante toda a indústria cinematográfica. Bonner olhou para David de uma maneira estranha e. começou a se coçar. — Não pode calcular que coisa incômoda! Mas acho que valeu a pena. — Eu sabia que ele viria falar com você.

Mas temos de confiar na palavra dele. E você aind a pensa que ele não pode fazer funcionar a companhia sem nós. Assinamos um contrato. disser que não pode cumprir sua promessa? — Mas ele precisa de nós para que a companhia funcione. Nunca teve essa oportunidade. — Quatro milhões de dólares! — exclamou Irving. Ele não pode lhe dar um contrato porque não controla a companhia. depois de assumir o con trole da companhia. Não tenho mesmo o direito de lhe pedir uma coisa dessas. O vasto seio da tia May arquejava de indignação. E o que você fará se ele. — Seu tio Bernie foi como um pai para você — dizia ela na sua voz es-tridente e áspera. não é verdade? — Perfeitamente. Nem uma vez. pelo acordo. — Será que me ouviu dizer positivamente que não faria isso por você? — disse Irving. A voz do amigo o fez parar.a companhia. — Mas 15 de dezembro é na semana que vem. — Não. acrescentando bran damente: — E pode começar a preparar a renovação de seu contrato. aceita-ria o lugar como um pato em f rente a uma lagoa. encaminhou-se para a porta. Sheffíeld poderá até me acion ar se eu voltar atrás. Dizendo isso. e não mais com o cinema. A tia tirou um lenço do bolso do vestido e começou a enxugar os olhos. um pouco pálido. É um homem direito. E está quase no fim. — Tomarei providências para que tenha o seu dinheiro — disse David. entendeu? — Desculpe. — Bem sabe que é uma situação de emergência. — Se não estou enganado. — E se acontecer que nessa data você só tenha uma ação? Poderá vendê-la e terá cumprido sua p vra. você disse muito obrigado a ele. — E se você não conseguir falar com ele em tempo? Nesse caso. David apagou cuidadosamente o cigarro. E funcionará sem nós. — Mas o que eu posso fazer agora. Quem fará filmes para ele. é muito pior. Maurice. farei baixar o preço. — Só pela graça de Deus é que sua pobre tia não está passando o resto de seus dias num asilo . — Algum dia Cord lhe faltou com a palavra? — Nunca. — E você. d e modo que quem não lhe vai dar a oportunidade sou eu. Schary está na Metro justamente à espera de uma o portunidade assim. não serei mais amigo de ninguém. —-Ele deu ouvidos a homens como Sheffíel d e terminou metido com títulos e ações. apesar disso. Não é um camara da como Cord. perde-rei quatro milhões d e dólares. — Mas ela funcionou sem ele. — E se Cord disser que não quer as ações? — perguntou Irving agora já mais calmo. senão eu? — Meu tio Bernie também achou que a companhia não podia ficar sem ele — disse David iron icamente. — Ei. que ora está frio. Quem poderá comprar todas as minhas ações antes dele? — Jonas Cord. As coisas não seriam para ele tão duras aqui quanto são lá. enquanto ele era vivo. — Você é como meu tio — disse David com um suspiro. foi como um filho para ele? Mostrou conside-ração pelo que ele fez por você? Não. Sheffíeld poderá sempre encon trar quem dirija o estúdio para ele. David? Assinei o acordo. Irvirig. Passarei a ser chamado de o f alecido Yitzchak Schwartz. Bonner o olhou. Matty Fox. espere um pouco! Para onde vai? David o encarou. Assim perdeu sua compa nhia. Mas. você deu a ele um acordo escrito para colocá-lo na situação de controlar a companhia. você se compromete a vender todas as ações que possu ir no dia 15 de dezembro. Se vender as ações no mercado livre. Você agora está fazendo a mesma coisa. . — O que vou fazer com elas? Usá-las como papel higiênico? Você se diz meu amigo. O lugar que ocupo não é daqueles que a gente é simplesmente despedido. — Onde você acha que posso arranjar tanto di nheiro? — Deixe disso. ora quente. da Universal. — A coisa não é tão ruim assim. Needlenose — disse David. enquanto o br ilhante de doze quilates de seu dedo brilhava como um farol. se eu perder num negócio como esse.

— É verdade? — perguntou a velha. — Eu sei. que o deixou sair em tão boas condições. E não vai demorar. Mas ele. lem brando-se. David quase podia ver a máquina de calcular em pleno funcionamento na cabeça dela. tia May. — Obrigado. Teve sorte d e encontrar um homem como Cord. Não sabia dize r se era frio mesmo. tinha conseguido o que queria. — O tio Bernie estava roubando a com panhia sem pena e você sabe muito bem disso. — Sorte? Você chama isso de sorte? De todas as ações que ele tinha. ou se era a sensação desagradável que aquela casa sempre lhe deix ava. tia? — Está com frio. — Pensei que você talvez estivesse com frio. Vou assinar procuração para ajudar um ingrato . pegou uma caneta e os assinou.David mudou de posição na poltrona. Se proceder assim. David. tia May. — Bem. já está ficando tarde. E sua tia era ainda mais apegada ao dinheiro do que Bernie jamais fora. — Tinha você na co nta de filho. o tio o pusera para fora do escritório. beijando-lhe o rosto. David sentiu um aperto na garganta. Depois sentou-se à mesa . — Quando a srta. Rosa estava a sua espera no escritório quando ele voltou ao es-túdio. — É o que vou fazer. Mas dê sua procuração a Sheffield e veja o que lhe acontecerá. um traidor que roubou a companhia de seu próprio tio? — Ninguém roubou a companhia. Um dia. a seu tio e a mim — disse com voz trêmula. — Não valiam nada — replicou ele. Ela tentou sorrir. O que houve com o resto? Diga-me isso. voltando-se para ela. parou. David olhou para o relógio. Foi gente como ele que levou o tio Bernie para a Wall Street e o meteu numa série de complicações. tia May. — Frio? Ora. Há. Não calcula como se sentia orgulhoso quando. Um tremor lhe passou pelo corpo. — Agora. Ela deu um suspiro profundo e murmurou: — Está bem. sua pobre tia está acostumada a sentir frio. Mas elas agora valem algum a coisa. que mal representam um por cento do total. Preciso ir. — É verdade que são apenas vinte e ci nco mil ações. Por que não a traz de vez em quando para tomar chá comigo? Não pôde deixar de abraçar a velhinha é beijar seu rosto. pensei que seria uma boa idéia vir até aqui para jantarmos na cidade. — Ótimo — disse ele. encolhendo os ombros. — Sem tirar nem pôr. — E daí? Valiam três vezes mais. sabia de seus sucessos. você está chamando seu tio de ladrão! Fora. — Escute. tia May. — Quer que acenda a lareira para você. Duvidele? — Não — respondeu. empregando quase as mes mas palavras. perdendo a calma. uma pessoa da família que zela por seus interesses. Sentia o frio da noite n a grande sala daquela enorme casa. — Deus nunca nos deu filhos. Wilson me telefonou para dizer que você ia chegar tarde. Tia May levantou-se e foi apanhar alguns papéis numa gaveta. Ele dizia: "A-quele David tem cabeça". — E sua mulher é tão bonita! Não me esqueça tanto. As ações não valiam o papel em que eram imp ressas. depois de se afastar da companhia. muito séria. Vai me dar a procuração? — Não tenho motivo nenhum para fazer isso. ao menos. Tio Bernie ia perdê-la de qualquer maneira. Tenho de con-tar os tostões para poder continuar a viver nesta casa. cada vez menos à vontade. . Ela sorriu e David teve a surpresa de vê-la bater em seu braço quase com timidez. Seu tio sempre me disse que eu deveria procurá-lo qu ando precisasse de algum conselho. vou lhe dar a procuração. não estarei mais presente para cuidar de seus interesses e suas ações voltarão a não valer n ada. só me restam vinte e c inco mil. O que houve? — O tio Bernie recebeu por elas três milhões e meio de dólares. tia May — disse ele. de piedade por aquela pobre velha que vivia tão sozinha. De repente. vamos! Fora da minha casa! David a olhou por um momento e então caminhou para a porta. David guardou os papéis no bolso.

David passo u ambos às mãos de Rosa. Woolf. sr. Irving me disse que terá de vender as ações a Sheffield. srta. sr. elevando-se no ar com o CAB-200 atrás d a formação de Spitfires. Woolf. — Então me dê logo. Havia vários incêndios que ainda fum . convicta. depois de lê-lo. — O que há de maluco? — perguntei. depois. — Outro telegrama. mas acaba de chegar outro telegrama. este estava assinado. David leu: Mazel tov! Espero que sejam gêmeos! Esse trazia outra assina-tura: Jonas. você já fez tudo o que era possível — disse ela. olhou para David.— Então? David deixou-se cair na cadeira dizendo: — Tia May me deu a procuração. Ela leu o telegrama e. Não o poupe. olhando do meu banco de co-piloto a cidade de Londr es. No momento em que David se levantou. Woolf. com voz um tanto irritada. se Cord não lhe der o dinheiro. Wilson? — perguntou ele. — Bem. a secretária apareceu de novo . que os leu e voltou-se para ele com os olhos cintilantes. Cord. Abra-o você. que ia ficando para trás na névoa do amanhecer. — Desculpe. Marque início produção Pecadora 1. No momento em que ele ia mostrar o telegrama a Rosa. — Um telegrama de Londres. Não fique aí parada. — Agora vamos jantar. David abriu-o mais que depressa e. — Que é. Já a tomava nos braços quando a porta novamente se abriu. Como o primeiro telegrama. — Mas não adiantará muito. Olhou-o e disse a Rosa: — Este é para nós dois. David pegou o envelope e o abriu. — Isso significa que você já tem dezenove por cento dos votos. — Vencemos! — disse ele com entusiasmo. simplesmente. sr. McAIiister tem a sua disposição todo o dinheiro necessário para arrasar Sheffield. teve uma sensação de indizível alívio. sua secretária entrou. se Cord não me ajudar. JONAS 1940 LIVRO VII 1 — Que coisa mais malucai — murmurou Forrester. " de março. enquanto um sorriso lhe apareci a no rosto.

teria de pagar menos dólares americanos. prefiro cumprir meu papel na companhia. olhando para mim pelo canto dos ol hos. Vi a nossa frente o comandante da formação de Spitfires inclinar a a sa. checados. Jonas. A fábrica custaria menos porque não teríamos de pagar juros e porque a margem de deduções do imposto de renda por depreciação é muito maior no Canadá do que nos Estados Uni dos. Se desse certo. O presidente da companhia tem de se preocupar. com as encomendas de guerra. depois de tomar as providências necessárias. onde elas entrariam na linha de montagem. E. Não dei resposta. Que diabos! To-dos nós sabemos que eles têm de padroni zar. — Muito bem. estávamos apenas começando. apontando para Morrissey. A idéia tinha também algumas vantagens financeiras. — Motores três e quatro. comandante.egavam do ataque da noite anterior. — Bom proveito! E um homem vaidoso e que só pensa em mulher. Eu não poderia entrar em competição com esses garotos. Os governos da Inglaterra e do C anadá estavam prontos a financiar a construção da fábrica e nós economizaríamos de duas mane iras. Obrigado pela escolta. a cento e cinqüenta quilômetros das ilhas britânicas. Estávamos em pleno Atlântico. Além disso. os lucros deverão subir a cem milhões. Precisaremos deles no verão. Sobretu do quando se trata de uma companhia em franco crescimento como a nossa. E não se esqueçam de nos mandar os grandes. — Não! — É o único homem disponível e capaz. sorrindo. para dar a Jerry o troco do que eles nos têm dado. Pode reduzir o combustível. Mas nenhum dos homens que trabalha para nós tem experiência suficie nte para uma tarefa dessas. se tenho de ser um piloto de escritório. nós no mesmo avião. a fábrica do Canadá havia sido uma idéia dele e. — Checado — disse Roger. — Teremos de conseguir alguém para dirigir a fábrica do Canadá. Tem alguém em vista? — Claro. . — É para isso que você me paga. quem vai diri gir a companhia? — Você se preocupa demais — respondi. — Vamos ver. a meu ver. Mas você não vai gostar do nome — disse ele. que me meteriam com a maior facilidade no chinelo. Precisamos preparar quem seja capaz d e tomar o nosso lugar. A guerra nos estava impelindo a uma expan são com a qual nenhum de nós contava. sem dúvida alguma. rapazes. Se acontecer alguma coisa. mas isso nada tem a ver com o caso. à exceção de Morrissey. logo alguém vai pegá-lo. meu velho. — Soube do que acontec eu entre vocês dois. E não vai ficar disponível por muito tempo. — É uma coisa malu-ca. — Você bem sabe que não é isso. — Amos Winthrop. E não podemos dispensá-lo. — Motores um e dois. checados — disse Morrissey às nossas costas. — Estou me referindo a isso — disse ele. ao lidar com p aíses do bloco esterlino. caso alguma coisa nos aconteça. — O que nos pode acontecer? — perguntei. acendendo um cigarro. — Não compraram o nosso avião. — A não ser que você esteja com inveja do pessoal da RAF e tenha idéias de voltar ao serviço ativo. tivemos trinta e cinco milhões de lucros. a RAF canadense os levaria para a Inglaterra. onde ao menos faço parte do e stado-maior. Sim. Forrester riu. comandante? — É aqui que nos separamos. nas funções de mecânico d e vôo. E. Do jeito q ue vão as coisas. tem-se dado m al em tudo aquilo em que se mete. O que Roger dizia fazia muito sentido. — Boa viagem. — Mas entende de produção de aviões — disse obstinadamente Forrester. poderíamos reduzir em três semanas o tempo de produção de cada avião. que estava atrás. — Não é disso que estou falando — murmurou Roger. No ano p assado. Fabricaríamos todas as peças em nossas usinas nos Estados Unidos e remeteríamos tudo para o Canadá. mas comprarão todos o s B-17 que pudermos produzir. Os ingleses estavam sofrendo o maior castigo de sua his-tória e só pe nsavam em pagar ao inimigo na mesma moeda. Neste ano. — Sim. uma solução genial. E o pessoal de Sua Majestade também ficaria satisfeito porque. Forrester ligou o comutador. — Estou de acordo. Era o sinal para quebrar o silêncio do rádio. À medida que os aviões fossem ficando prontos.

Desapertei o cinto de segurança e me levantei. que eles ainda vão alcançá-lo. sentando na cama —. Uma infinita amargura estampou-se no rosto de Morrissey e tive muita pena dele. Sinto muito se lhe dei essa impressão. O B-17 voa com uma t ripulação de cinco homens. Morrissey saiu para a cabine de pilotagem e eu me estendi na cama. sra. A bomba caíra quase na casa vizinha e a mulher estava pr eocupada com a filha. — Faz quase vinte anos. A viagem de ida e volta à Alemanh a é no máximo de três mil e quinhentos quilômetros. Holme. Cord? — Para dizer a verdade. A mu lher era a mãe de Monica. qua ndo ela caiu perto de nós. Talvez devesse estar. — Está bem — disse ele. Mas eram iguaizinhas aos pais. não é. Holme. haverá aviõe omo este aos milhares no ar. Fechei os olhos. Holme. sra. comandante. — Não compreendo — disse ele tristemente. Três semanas n a Inglaterra e eu não dormira bem uma noite sequer. não pensava nela quase sempre. Monica mora em Nova Iorque e eu em Ne-vada. vou ver se durmo um pouco. Ora eram as bombas. não havia pensado nisso. Eu costumava julgar que as mães fossem di ferentes. quando lá c heguei. — Ora — repliquei eu. Ela ficou por alguns instantes em silêncio e me perguntou: — Não gosta muito de mim. E pode transportar uma carga dupla de bombas. em segurança. Forrester. sr.— Fique descansado. desconsolado. é estar muito avançado no tempo. nervosa . Morrissey. Observei seus olhos sob as compridas pestanas e tive um vislumbre da beleza que ela transmitira à filha. Minha mãe morrera e a dela fora embora com outro homem. — O ruim com você. descrevendo um amplo círculo de volta a sua costa. nos Estados Unidos. sentado a minha frente. Não. com aparência preocupada. Rádio encerrado. Morrissey estava sentado em seu compartimento. Cord — disse a mulher magra e de cabelo gris alho que estava ao meu lado. Inclinou de novo a asa do seu Spitfire e a formação se afastou. O zumbido dos quatro poderosos motores cantava em meus ouvidos. sr. — Mas este avião pode subir três mil metros mais alto e voar trezentos quilômetros por h ora mais depressa. ora eram a s mulheres. é bem fácil de compreender. — Não foi nada que o senhor dissesse. de modo que não precisam de uma autono mia de vôo de oito mil quilômetros. — Deixe isso para lá. Olhei-a e depois voltei o olhar para Morrissey. Houve depois silêncio e prosseguimos sozinhos na viag em de volta. Isso significa que eles podem botar no ar duas vezes mais aviões. — Acha que poderá encontrar-se com ela quando voltar para os Estados Unidos. ao passo que o nosso aparelho exige nove. Bombas e mu-lheres. — Está bem. — Estou preocupada com minha filha. refleti. as despesas ope-racionais são um pouco m enos da metade das do nosso avião. — Se não se incomoda. Eles ainda não estão preparad os para aviões como este. Apanhou em seguida uma garrafa térm ica: — Acho que vou levar um pouco de café a Roger. — Mas não será nesta guerra — disse ele. Nossos pais nunca nos haviam dado a míni ma atenção. Mulheres. Não se preocupe. — Pense no que eu lhe disse. Todas as conversas à mesa do jantar se interromperam por um instante. Cor d? — Duvido muito. O estridente barulho da bomba foi aumentando até o desmedido fragor da explosão. Ela sorriu e começou a brincar com a colher. Mas o que eu dissera estava certo. Penso quase sempre nela. Além disso. Mas pude sentir um leve movimento de repulsa q . Dormi. Bombas. sr. — Se é a respeito de Amos Winthrop. não é preciso pensar. Ele era sem dúvida o maior engenheiro aeronáutico do mundo. Pensavam primeiro em si mesmas. — Não vejo Monica desde que tinha nove anos de idade — continuou a sra. Algum dia. com o ro sto muito pálido e contraído. Eu tinh a ao menos uma coisa em comum com Monica.

olhando pela pequena janela. — Deve acreditar em mim. Cord — continuou ela. eu poderia explicar tudo e ela compreende ria. — Tem certeza de que poderá ficar com os olhos abertos durante algumas horas? — Darei um jeito. me abandonou num quarto de hotel para ir encontrar-se com outras mulheres. Os dez anos que vivemos j untos foram um inferno para mim. jamais conversamos s obre a senhora. Houve uma hora em que roncava tanto que cheguei a pensar que tínhamos cinco motores. ou estou ficando velho. não era a única pessoa que pensava daquela maneira. Outro empregado serviu-nos café. sr. — Fique certa de que farei isso. Quando por fim conheci e gostei de outro homem decente e honesto. — Ótimo — disse eu. mas cochilava com a cabeça inclinada para um lado . Parecia-me que as garotas t . Holme. aos meus ouvidos quando abri os olhos. O mordomo tirou as xícaras. não foi? — Winthrop e eu nunca fomos muito íntimos. que pens o nela e que ficaria muito feliz se recebesse notícias dela. Amos me obrigou a deixar minha filha com ele. — Vou dar um descanso a Roger — disse. Holme? — Gostaria que falasse com ela. em vez de quatro. perguntei: — O que quer exatamente que eu faça. sobre o oceano. deixando-o sozinho para criar nossa filha. sob a ameaça de fazer escândalo e arruinar a carreira desse homem no serviço público da Inglaterra. — Estamos indo devagar. O ronco dos quatro motores voltou. — Umas quatro horas. Em nossa lua-de-mel. sra. Qualquer ocasião podia bem ser a última — repliquei. que compreenda isso. — Escreveu algum dia a Monica para contar isso? — Como se pode escrever a uma filha para contar coisas desse tipo? Não tive o que responder. com súbita inten-sidade na voz. Forrester ergueu os olhos quando cheguei ao compartimento. Ele desligou seu controle. sr. Amos me avisou que ia mandá-la para viver comigo. — Pronto! — disse. apontando o mapa na armação entre nós. Estava começando a chover. Ele riu. — Ou você é um homem melhor do que eu. levantando. De qualquer maneira. — Pegamos ventos fortes pela frente. quando ela chegasse a me conhecer. Estendi a mão para o controle e puxei-o até encaixá-lo. — Não a bandonei minha filha. Dediquei-me ao comando do avião. Com certeza. — Vim dar-lhe algum descanso. Forrester tornou a rir e saiu da cabine. Amos lhe contou tudo a meu respeito. dissesse que perguntei por ela. Quero que ela saiba disso. sra. O mordomo tirou os pratos vazios. — Vou ver se tiro um cochilo. Cord. Gunga Din. Com cert eza. levantou-se e espreguiçou. enquanto o surdo fragor do bombardeio na sala coberta de pesados reposteiros lembrava um rumor distante de trovoada. Mas soube pelos jornais de seu casamento com ela. Amos Winth rop era um patife e vivia sempre meti-do com mulheres. — Você devia estar muito cansado. — Quanto tempo fiquei dormindo? — perguntei. Morris sey estava de novo em seu banco. na Londres do tem po de paz. e Monica nunca veio. só quis aproveitar. Onde estamos? — Mais ou menos aqui — disse ele. — Ora. d izendo como eu fugi com outro homem. Eu bem sabia que Amos era capaz de fazer uma coisa assim. Estávamos a cerca d e mil e quinhentos quilômetros da Inglaterra.uando eu lhe disse quem era. Sentei no banco do co-piloto. Houve uma ho ra em que pensei que você estava querendo conhecer todas as mulheres da Inglaterra . Pensei então q ue. Isso tinha sentido. — Há cerca de dez anos. Abriu os olhos quando me sentei na cama. com aquelas bombas todas caindo. sério. Logo que ele se afastou.

Havia um pouco de desespero na forma pela qual se atiravam in sistentemente aos homens. Estava começando a nevar e grandes flocos se chocavam pesadamente contra os vidros . Começamos a caminhar na direção da casa. Robair passou-me os braços pelo corpo e me levantou. não. O cabelo aind a era preto e abundante. A imagem de meu pai cavalgava em meus ombros. Olhei por um instante para Robair. Puxei o controle para trás e o grande avião começou lentamente a su-bir. Cord. Chegou às oito horas da noite e ficou aguard ando o senhor. Não tinha o menor interesse pelo resto do mundo. Lembrava vagamente de ter encostado à parede do dormitório enquanto a-cabava uma garrafa de uísque. meu anjo da guarda. o corpo. A voz dele era tão branda que a princípio julguei não tê-lo ouvido. e vi Robair a meu lado. Resolvi tentar subir acima deles. Embora fo ssem quatro horas da madrugada. — Uísque. A velocidade esta va caindo. a boca estava seca e. fora sua mul her que morrera. sr. aprumado e forte. Olhei para o giro compen sador e nivelei o avião. Quando cheguei a Reno proveniente de Nova Iorque. Ele riu. Sem dúvida. Saímos das nuve ns a quatro mil metros e encontramos um sol bri-lhante. quando saí do elevador. Fez boa viagem? — Fiz. — Bom dia. sr. 2 Robair estava a minha espera com a porta aberta. Era o sorriso de um amigo. firmando-me nele. Liguei os degeladores e vi os flocos se transformarem em água. A cabeça me doía. como um índio do deserto conduz seu cavalo. numa manhã acordei no chão do pátio. Não sei o que teria sido de mim depois da morte de Ri na. Cord. Robair era mais do que um amigo. — Sabe de uma coisa. — Que foi que você disse? Os olhos dele estavam impassíveis. Cord. McAllister está na sala de estar. Por que então eu chorava? Por que havia um vazio tão grande dentro de mim? Então. Isso significava que os ventos contrários eram mais impetuosos. nos fundos do quarto de Nevada. sim. — Obrigado. Acho que já é tempo de parar. Não havia nada de subserviente ou falso naquele sorriso. estava reduzido a um farrapo. Empurrei Robair para longe e gritei: — Quem você pensa que é? Quando eu quiser beber uísque. se não fosse Robair. — Vou falar com ele agora mesmo. não tive forças. Fechou a porta e disse: — O sr. Robair? Tive saudades suas. Cord. perto do dor mitório dos vaqueiros. Robair. eu desejara a mulher dele. Queria apenas beber e esquecer. A cólera me impulsionou e me deu força. Isso fora na noite an terior. sr. de cer to modo. bebo e pronto! . — Não vai mais tomar uísque. Robair — disse. Mas. — Também tive saudades suas. afinal de contas. sr. Nada havia que eu tivesse vontade de fazer. O vôo foi claro e tranqüilo pelo resto da viagem. Firmei as mãos no chão para levantar. sr. — Ficarei em perfeito estado logo que be ber alguma coisa. Muito obrigado. Virei a cabeça e vi a garrafa vazia a meu lado. Cord. quando ten tei levantar.inham a mesma idéia. Não aparentava a idade que tinha. Encaminhei-me para a sala de estar. Era. — E eu vou preparar sanduíches de carne e um café bem forte. ele parecia tão repousado e alerta como se houvess e acordado àquela hora.

Eu sabia que . — O que temos para o jantar. Chore à vontade — disse Robair. — Uma panelada de trutas deve ser ótimo. — Vai ficar — disse ele calmamente. sem voz para falar. Quase dois anos se passaram até descermos da montanha. que automaticamente abri a boca. até as ar eias vermelhas e amarelas do deserto. mas a verdade é que ela quase não me interessava mais. comecei a chorar. Fiquei magro e queimado de sol e toda a flacidez causada pela vida na cidade desapareceu. Organizamos nossa vida e era espantoso ver como os negócios marchavam sem mim. — Por que me trouxe para cá? — O ar da montanha vai fazer bem. Ele estava sentado na varanda iluminada pelo sol da tarde quando afinal eu saí do quarto. sr. Cord. estava na cama. sr. trazendo uma pasta cheia de papéis para assinar ou de relatórios para ler. provava-se apenas o velho axioma: uma vez que se atinge determinado taman ho. mergulhou uma colher dentro e disse. — Desculpe-me. eu estava esperando para ver como o senhor se se ntia. A sopa quente me escaldou a boca. Isso em geral era s uficiente para a solução dos problemas. enquanto o choque e a raiva me percorriam o corpo em ondas geladas. Robair me fez encostar de novo a cabeça no travesseiro. Todas as companhias iam muito bem. Tentei esquivar-me. Robair? Ele encolheu os ombros. aproxi-mando a colh er da minha boca: — Tome. em lua-de-mel. Com isso. Robair. Havia tamanho tom de autoridade na voz dele. Vi então sua mão enorme avançar fechada na direção de meu queixo. olhando bem nos meus olhos. quando acordei. De r epente. é muito difícil parar de crescer. De alguma forma. Senti a mão dele nas minhas costas e me vire i. enquanto os músc ulos se distendiam e enrijeciam meu corpo. afinal. eu falava com McAllister pelo telefone. Três vezes por semana. Havia muito pouca coisa que lhe es-capasse aos olhos observadores. A lareir a acesa aquecia o ambiente. — Mas vai descobrir que as lágrimas adi antam tão pouco quanto o uísque. Uma vez por mês. — Não vai mais beber uísque. tudo o que acontecia d e importante em qualquer das companhias aparecia em seus relatórios. Havia grande tristeza estampada no rosto dele.Ele sacudiu a cabeça. — Está despedido! — consegui. Dessa vez. menos a de cinema. bem coberto e em lençóis limpos. Estávamos bem longe dos homens. Tinha pouco capital. sr. árvores e moitas pelo flanco da montanha. Mac era notavelmente meticuloso. e eu me sentia muito fraco. mas nada havia em mim que funcionasse como devia e tornei a mergulhar na escuridão. Tudo era verde em torno. gritar. Havia uma terrina de sopa quente na mesa perto dele. Bastava tudo o que me acontecera na última vez em que estivera naquela cabana. Fui até a balaustrada e olhei. Senti então dentro de mim uma dor e um vazio como nunca experimen-tara até então. Não pode sair correndo e esconder a ca beça numa garrafa de uísque sempre que lhe acontecer alguma coisa desagradável. — Não estou pedindo desculpas pelo que disse. sr. — Não vou ficar aqui! — exclamei. Havia caça em abundância e uma vez por semana Robair ia de carro comprar man-timentos. Pegou depois a terrina. — Não adianta pedir desculpas. sr. Não é mais um garotinho. para mim misteriosa. — Há um rio perto daqui com umas trutas que não têm tamanho. Cord — disse ele. Cord. Levantou-se quando abri a porta. Cord. — Chore. Encarei Robair. sorrindo. Cord — continuou em voz baixa. Robair estava sentado nu ma cadeira ao lado da cama. Mac subia de carro a ladeira que levava à cabana. — Nenhum negro filho da mãe vai mandar em mi m! Dei-lhe as costas e voltei para casa. Empurrei sua mão dizendo: — Não quero. — Quer um prato de sopa? — perguntou. fazendo menção de levantar. — Para dizer a verdade.

fu i para meu quarto. Fiquei ainda algum tempo na sala de estar e. Havia muito tempo que eu não custava tanto a dormir como naquela noite. levantou-se. ainda hesitante. doutora — disse eu. Em dado momento. Malibu. vi que estava com calças azuis justas e desbotadas. Era um Chevrolet com chapa da Califórni a. — Dra. sr. então. aproximando-se de mim. — Para minha mãe e para mim. De qualquer maneira. Como vai seu pai? — Muito bem e feliz. depois. Nunca se cansa de contar como o senhor conseg uiu fazer chantagem com Göring. a moça não tinha culpa. — O que fiz foi muito pouco. — Bem. O sorriso lhe dava uma estranha e cintilante be-leza. filh a de Otto Strassmer. ouvi um bar ulho na porta e sentei na cama. — Peço apenas que desculpe minha surpresa. — Combinado. com um sotaque leve e curioso. McAllister me pediu que lhe deixasse isto. — Está bem. Uma mulher jovem estava sentada no sofá. Não respondi. em vista disso. Ela ficou por um instante na porta em silêncio e. Entrei na cabana. doutora? Robair tem um jeito de rechear codornizes c om arroz que é uma verdadeira delícia. Era tarde demais para ela ir quando acabamos o jantar e. mas o fato é que tudo me parecia distante e sem grande importância. Ela hesitou por um instante. Apertou minha mão com firmeza. Eu fora caçar e estava voltando para a cabana. Ela me encarou por um momento. Califórnia. enquanto ele apanhava as codornizes e a e spingarda e voltava para a cozinha. — Claro que não me atrapalha — respondi. levando na mão uma corda com codornizes. que lhe acent uavam a linha esbelta e feminina dos quadris. Aquilo era um lembrete não muito sutil de Mac. Já estávamos ali há um ano e meio quando tivemos nossa primeira visita. Cord. Procurei tirar da minha voz qualquer traço de despraz er. Coa st Highway. graças ao senhor. — Não tenha medo. Joguei tudo em cima da mesa. Meu pai o c onsidera um homem muito corajoso. olhos claros e um queixo firme. Abri o envelope e olhei os papéis que nele vinham. — Não quero de você senão esta noite. — Foi um prazer conhecê-lo. Strassmer! Tenho de lhe pedir desculpas de novo.algumas coisas deveriam ser resolvidas pessoalmente por mim. Dei a volta e olhei para o registro na haste do volante: dra. Depois. vou ficar. Vivendo aqui como vivo. — Mas Rosa. Ela sorriu de repente. no sentido de que eu não poderia ficar para sempre nas montanhas. Olhei-o com curiosidade. Robair arrumou o quartinho de hósp edes. vendo as sombras que dançavam no teto.. — Seu pai é que é corajoso. Cord? — perguntou ela. Vou pedir a Robair que traga alguma coisa para beberm os. sorrindo. mas com uma condição: terá de me chamar de Rosa. — Sou Rosa Strassmer. quando vi um carro estranho parado diante da cabana. . 1104. — Acho que compreendo por que não convida ninguém a vir aqui.. Ro¬sa Strassmer. Meu p ai fala muito a seu respeito. Fiquei de olhos abertos. — Como descobriu onde eu estava? Ela pegou um envelope e passou-o às minhas mãos. homem solitário — disse ela. Mais de duas p essoas seriam multidão num paraíso como este. Agora me dê licença. fumando um cigarro. Nada havia que não pudesse espera r até a próxima visita de Mac. Mas Robair já estava na porta com uma bandeja de martínis. Tin ha cabelo preto. já vou indo — murmurou um tanto desajeitadamente. Ela foi se deitar. e não de doutora. quando soube que eu ia passar p or aqui nas minhas férias. Nesse momento. — Sr. entrou no quarto. para que ele pudesse sair da Alemanha. — Espero não estar atrapalhando o senhor — disse ela. Quando levantou. — O sr. Robair en trou na sala. Não rece bemos muitas visitas por aqui. pois preciso seguir viagem. — Por que não fica para jantar. fez muito. Agora sente-se. es queci até de ser delicado.

Afinal de contas. Um momento depois. ele aceitara a derrota com mais distinção do que eu faria. — Sheffield sabe disso? — Acho que não. Se o que ele quer é lutar. Naquele momento. o sono havia desaparecido de seus olhos. — Depois de falar com ele — continuei —. com a garantia de uma hipoteca sobre nossos cinemas. ele estava um pouco mais ma-gro. Aproximei-me e bati em seu ombro. num gesto qu ase maternal de carinho. Mac encaminhou-se para o telefone. mas fico satisfeita de que você pense o contrário. Eu não podia estar em seis lugares ao mesmo tempo. Mac tinha razão. — Onde foi que errei. 3 Observei Sheffield. toda ardor e toda mulher . — A verdade é que eu estava disposto a gastar um bom dinheiro . Sheffield me disse que. Contudo. Fez a minha cabeça descansar em seu seio. de qualquer maneira. ambos sabíamos que nossa partida das montanhas era apenas uma questão de tempo. Não era sensato eu gastar meu dinheiro mais do que o necessário.Ela colocou os dedos em meus lábios. — Alô. rindo e tirando os sapatos. Rosa — disse. — Mas não custa nada você conversar com ele! Você já tem tantos pro-blemas que é melhor evit ar uma luta neste momento. depois do café. mas o óculos sem aro aind a brilhava sobre o mesmo nariz comprido e fino. não é? — disse. fiquei na sala. — Espere um pouco. porém. — Não faz mal. McAllister dormia no sofá quando entrei na sala. O mundo já não estava tão distante. — David já recolheu as ações? — Já. Sentei numa cadeira diante dele. quando ela seguira seu caminho. — Agora compreendo por que McAllister me mandou aqui. parece que tem absoluta certeza de estar dominando a situação. Descansou a cabeça no travesseiro e fitou-me com os olhos macios e quentes. vendo Roba ir tirar os pratos da mesa. — Sei que não sou muito bonita. — A idéia e os planos estavam perfeitos. Nada dissemos. ele vai ver com quem está se metendo. toda compaixão e compreensão. — Trouxe meu pai de v olta a este mundo. e subiu para a cama. O cabelo mostrava-se um tanto mais grisalho. Jonas. Não era preciso. telefone para Moroni e pergunte se o banco de le quer me dar o dinheiro para comprar as ações de Sheffield. Como sempre. que você não usou o dinheiro com . esticando-se e depois esfregando os olhos. Do jeito que fala comigo. — Pode dizer a ele que vá para o inferno. Jonas — disse. se você quiser conversar com ele a ntes da reunião. como se fosse um médico dis cutindo um caso clínico. — Kommen Sie. — Muita gentileza dele. P oderá dar muito trabalho. — Imediatamente? São quatro horas da madrugada! — E o que tem isso? Ele é que está querendo conversar comigo. enquanto ele levava a xícara de café à boca. Acontece. se o sapato apertado estivesse no meu pé. Acho melhor você conversar com ele. De manhã. Deixe-me agora levá-lo de novo para seu mundo. — Está bem. queria filmar A pecadora e certamente uma ação judicial por parte de uma mino ria de acionistas atrapalharia a produção. Liebchen — disse carinhosamente abrindo seus braços. — Estou a sua espera porque Sheffield está fazendo pressão para realizarmos uma reunião de acionistas. — Você é bonita. Jonas. Além disso. Jonas? — perguntou displicentemente. Telefone para ele e diga-lhe que venha imediatamente aqui. num sussurro. Tomei nas mãos seus seios jovens e firmes. Pe-gou um cigarro e o acendeu. ele tem o respaldo de cerca de trinta por cento dos votos dos a-cionistas. estará disposto a levar em consideração suas ações.

a atitude dele em tudo aquilo não correspondia a sua maneira habit ual de fazer negócios. Sheffield era um financista e costumava tratar dos negócios f inanceiros de seus clientes. Eu não pensara mais nisso até aquele momento. na-quele caso. acabando no negócio de cinema. Não estou arris-cando dinheiro. falou comigo. mas artistas. Ele a empregou para classificar algu ns produtores. Desde a morte de Rina. — Tenho certeza disso — murmurei. Sem dúvida. Haviam-me falad o que seus investimentos nos Estados Unidos eram superiores a vinte milhões de dólar es. Mas. fora procurar diretament e a gente de cinema. onde fora ver o teste de Jennie Denton. Gaumont e As¬sociated controlavam entre si toda a produção inglesa e americana. O homem era um lutador e os l utadores não se entregam com facilidade. depois de desligar. E era exatamente a transação que cor respondia a sua mentalidade de homem da Europa central. Acabara metido também na produção. — Não sei. Só podia haver uma explicação. — Era o comprador de circuitos para a cadeia de cinemas Engel. não havia motivo algum para ter pena dele. eles preferi-ram suas promessa s às minhas? — Mais ou menos — disse. e não simplesmente filmes. quando o telefone tocou no escritório do nosso gerente de vendas. Engel preferira ser exibi-dor. — Como assim? — Gente de cinema é diferente. Ele atendeu. — Prestígio? — Só até certo ponto.o devia. Olhei para Sheffield e perguntei displicentemente: — E o que Engel vai fazer agora com as ações? — Não sei — murmurou ele. Um fato que havia ocorrido quando eu me encontrava na I nglaterra começava de repente a ter sentido. mas ape nas como uma solução dos problemas com que lutava para a programação em seus cinemas. O natural teria sido ele entrar em contato e. British Lion. como os outros exibidores. Estão com falta de fi lmes. Cada um de nós teria cedido um pouco e ambos ficaríamos satisfeitos. — Não voltarei a cometer o mesmo erro. Seria um bom golpe Engel ter-me roubado a companhia. Mas logo teve consciência de sua resposta e exclamou: — Agora co mpreendo por que não conseguimos nada! Você sabia de tudo. enquanto Korda se de dicara à produção. conversou durante alguns m inutos e. se não puderem conseguir mais filmes dentro de seis meses. gosta de dinheiro como todo mundo. — E cheguei a acreditar no que me disse a respeito da gente de cinema — murmurou She ffield. O que eles querem mais do que qual quer outra coisa no mundo é faz er filmes. minha força criadora Força criad ora? — Sim. capazes de realizar grandes filmes. mas grandes filmes que lhes dêem fama. minha capacidade. — E o que vão fazer? — perguntei. Sorri. — Compreendo — disse Sheffield. Bem calçados de dinheiro. em batalha comigo. sentem que estou corr endo os mesmos riscos que eles. Tudo aquilo est ava sendo muito fácil. Não respondi. era a primeira vez que eu sentia a exaltação que só a idéia de fazer um f ilme pode dar. pensativo. Por outro lado. Ra nk. Podia ver o olhar de surpresa de Mac mas nada dei a perceber. Eu saía da cabine de projeção do nosso escr itório em Londres. Mas tudo mais que eu tenho está em jogo: minha reputação. Quere m ser considerados artistas. Entretanto. terão de fechar a metade deles. — Quando eu produzo um filme. era da Europa central e fora para a Inglaterra. Os estúdios deles foram destruídos no primeiro ataque aéreo dos nazistas e eles não têm contratos com as companhias americanas. Mal prestei atenção à resposta do gerente de vendas. como Korda. Entretanto. imediatamente depois. O caso não me interessava absolutamente. sorrindo. Em resumo. Ele havia sido gentil demais. Eles têm quatrocentos cinemas aqui na Inglaterra e. e imediatamente tive uma suspeita. preferiram a mim p orque eu podia ser julgado pelos critérios próprios da indústria. ainda pensando no teste que acabava de ver. Tudo se ajustara per-feitamente. Mas há uma coisa que deseja ainda mais. Engel. uma expressão de David Woolf que adotei. — É uma pena —murmurei. . é claro. só porque você é capaz de fazer filmes. — Quer dizer que.

É o diretor-executivo da companhia. traga-o para cá. Forrester. — À vontade — disse eu. isso representará para ele um prejuízo de mais de um milhão de libr as por ano. precisamos colocar imediatamente em funcionamento a fábrica do Canadá. Ele está em Nova Iorque. Não poderá mais conseguir filmes em nenhum lugar por aqui. nem mesmo Georges Engel. E acho que deve estar aqui para a ssinar os papéis. — David Woolf. Se ele tiver de fechar duzentos cinemas. Já estava começando a me sentir inquieto. — Nada de Winthrop. — Já disse uma vez: nada de Winthrop. — David trouxe Bonner para falar com você sobre todos os detalhes da produção. — Posso usar seu telefone? Apesar da diferença do fuso horário. Vou começar um grande filme daqui a dois meses e quero saber q uais as providências já tomadas. — Com quem vai falar? — perguntou Mac. — Pois isso é o que custaria. Fui ao telefone. — Qual é sua idéia? — Engel não gostaria de comprar a Distribuidora Norman da Inglaterra? Isso lhe asseg uraria o acesso à nossa produção e ele não teria de fechar os cinemas. — Faça isso. ver o movimento de Nova Ior-que. Não podemos fazer os B-17 na mesma linha de produção. — Quanto custaria isso? — Quantas ações de nossa companhia Engel possui? — Cerca de seiscentas mil. Querem a primeira entrega para junho e estamos n um im-passe. Haviam pensado em tudo. — A questão é que temos um problema. — Bem. Engel no escritório dele em Londres. então — disse eu. P oderíamos fabricar as peças aqui. Trouxe-o comigo. Larguei o telefone e fui para a janela. Morrissey — disse friament e. Estava pre-sente quando assi namos o contrato. ansioso pelo telefonema de Sheffield. Jonas — interveio então Forrester.— Agora que o negócio se desfez creio que Engel não terá outro jeito senão fechar a metade de seus cinemas. Engel devia estar ao lado do aparelho. Não é nosso negócio jogar dinheiro fora. — Calma. — Neste caso. Você tem de decidir o que deve ser feito em primeiro lugar. — Está bem. Forrester e Morrissey entraram. Você é o presidente da companhia. Nessas condições. Joguei-me numa cadeira. — Não precisa telefonar. Seria impossível na Inglaterra. Engel e seus advogados estariam em Nova Iorq ue na semana seguinte. Ao meio-dia. A campainha to-cou. onde os escr itórios ficam abertos até as seis horas da tarde e os empregados ainda se sentam em tamboretes altos diante de escrivaninhas de feitio antiquado. Jonas. saía do escritório às duas horas da tarde. Olhei para eles surpreso. — Como vamos começar a nova linha de produção desse jeito? — Não sei se podemos. — Mas são cinco milhões de dólares! A Norman da Inglaterra só rende trezentos mil dólares po r ano. — Decida você. estava tudo resolvido. Robair foi a tender. olhei para o relógio. — Ora essa! Você é o dono da companhia — replicou ele no mesmo tom. Jonas — disse Sheffield. Enquanto ele se encaminhava para o telefone. ele levaria quase vinte anos para recuperar o dinheiro. creio que ainda podere i pegar o sr. — Tudo depende do ponto de vista em que a pessoa se coloca. depois levantou-se. para assinar o contrato. O tráfego era intenso em Park Avenue. — Qual é o contrato que quer cumprir? — Os dois. O Exército a aba de encomendar cinco CA-200. — Julguei que você iria partir para a Califórnia hoje de manhã. — Que quer dizer com isso? Você me assegurou que podia. Só havia uma coisa desfavorável: eu teria de ficar em Nova Iorque. Virei-me para McAllister. Não vou arriscar a vida de muitos homens em aviões montados por amadores apenas porque você é teimoso demais. — Ainda se julga um herói da aviação? Que lhe interessa quem vai montar os aviões? Não é você . se os B-17 fossem montados lá. Eram nove horas e eu sabia que ele estava tentando me enganar. nada de fábrica no Canadá. — Está bem. Nin-guém. Ele me olhou por um momento. Consiga-me Amos Winthrop para dirigir a fábrica.

Havia em Queens algo que se mpre me deprimia. se conseguíssemos o contra-to. sarcasticamente. — Bravo! Bravo! — disse. Elas têm um jeito de crescer que marca a nossa idade c om mais força do que qualquer relógio. para tentar absorver o prejuízo. — Jo-Ann? — perguntei sem muita certeza. Olhei-a por um momento. Ficou de novo em silêncio. — Sou Jonas Cord. tendo perdido o belo verde que ostentava n o verão. Nada havia mudado. Subi os três degraus e toquei a campainha. Ele tinha razão. ninguém sabia dele. Jo-Ann? . para que tome as providências necessárias para começar o trabalho na fábri ca. eu to maria providências pessoais para que todos os aviões que remetêssemos fossem tão bons qu e eu não teria medo de voar em qualquer um deles. Só mesmo o crescimento das crianças para m ostrar a passagem do tempo. quando tentei descobrir seu paradeiro. — Fique esperando aqui — disse a Robair. — Vou mandar Morrissey para o Canadá. Sentei-me e ela se acomodou numa cadeira a minha frente. Uma menina abriu a porta e ficou olhando para mim. Jogue a pólvora ruim fora!" Tudo isso me passou rapidamente pela cabeça e eu disse: — Está bem. cerimoniosamente. Preciso dar início à produção das pe-ças o mais rápido possíve — Por onde anda Winthrop? — Não sei. Sua mãe está em casa? — Entre — disse ela com sua vozinha suave. — Não há de quê — respondeu. tentando levar para a cama tu do o que lhe aparecesse pela frente. Olhava para mim com os olhos grandes e sérios. Tomei ali a resolução de que. Olhei pela janela enquanto Robair dirigia habilmente o carro p elo meio do tráfego. Meu pai voltouse furiosamente para ele: ''E quem absorveria a perda de minha reputação? É meu nome q ue vai em cada lata de pólvora. A última vez em que a vira era pouco mais do qu e um bebê. Meu pai dissera uma vez a mesma coisa de out ra maneira. Ajeitei debaixo do braço o embrulho que leva va. eu estava nos aeroportos vendo aqueles pobr es-diabos voltarem cansados e abatidos da luta para afastar as bombas dos nazist as de seu traseiro. Você terá Winthrop. Mamãe está se vestindo e não demora. E impressionante. — Obrigado. — Quando foi que você decidiu dar seu nome a um avião de segunda ordem ? Quando foi qu e o dinheiro passou a ser mais importante que tudo? Encarei-o em silêncio. mas. Um vento frio assobiava por entre as ca sas e fechei mais meu leve sobretudo. Apenas o gra mado estava prejudicado pelo inverno. apar eceu para dar notícias de uma partida ruim de pólvora. Reconheci o grupo de casas quando o carro parou. gerente da fábrica. mas não falava. ela disse prontamente. — Você vai ter de procurá-lo para nós — disse ele com voz mais calma. Ela fez que sim com a cabeça. Eu irei para a Califórnia. A última notícia que tive dele foi de que estava em Nova Iorque. fiquei aborrecido com Monica por ela morar ali. apontando para uma mesinha ao lado: — Está aí. 4 Eu estava quase deitado num canto da limusine quando atravessamos a ponte de Que ensboro. Depois de tirar algumas baforadas do cigarro. hoje de manhã. Forrester se aproximou de mim. Quase me arrependia por estar voltando ali. Roger. — Enquanto você estava em Londres metido com mulheres. Os olhos eram de um puríssimo v ioleta-escuro e estavam muito sérios. com os olhos fitos em mim. com os punhos cerrados. Jonas. Parece que sumiu de re-pente.em vai voar neles. Comecei a me sentir estranhamente nervoso co m sua franca investigação de minha pessoa e acendi um cigarro. De repente. Sugeriu que ela fosse mistura da com pólvora de melhor qualidade. Estávamos na fábrica em Nevada quando Jake Platt. Quando desviei o olha r à procura de um cin-zeiro. Entrei na sala de estar e ela continuou: — Sente-se. perguntei: — Não se lembra mais de mim.

e a menina estava tão empenhada em mostrar-lhe a nova boneca que nem se desp ediu de nós quando saímos. Tudo já está preparado. — Esperava que você fosse gostar. Jo-Ann levantou-se e correu para ela. — Foi um magnífico jantar. você está ganhando bem. com conhecimento de causa. sobre as filmagens. Mas creio que agora não vai demorar. Sobre a vida das estrelas. você era deste tamanhinho assim — disse eu. — Não é. para isso. — Muito prazer em vê-lo de novo. Uma boneca. sra. — Robair! — disse Monica. — E por que ainda não é secretária ou diretora? Ela riu. — Veja o que o sr. na Style. Monica — respondeu Robair. do jeito da velha Photoplay. Peguei o embrulho que levava. Diga-me ago ra o que quer. — Trouxe um presente para você. — Segundo soube. poderá resolver todos os problemas que surgirem . procuramos ter o aspecto que noss as leitoras pensam que devemos ter. Robair estava à espera junto à porta do carro. Era um antigo proprietário de revistas. — Eu sei. . Ele está queren-do lançar uma nova revi sta de cinema. Style era uma das melhores revistas de moda para senhoras. Jonas. Olhamo-nos bem nos olhos. fazendo uma reverência. muito — disse ela. — Não sei se diz isso sinceramente. Levantei. Cord me trouxe. esperando a gente voltar para casa. Olhei para o cenário desanimador de Queens enquanto o carro ia ro-dando para Manha ttan. Pagava muito b em em promessas. Acha que ninguém pode ocupar um posto de responsabilidade em qualquer empresa sem passar por tod os os seus setores. — Obrigado. Hardin é um homem de negócios à antiga. Monica entrou na sala. Mas Hardin não tem dinheiro e só pensarei no caso quando chegar o momento. Ela recebeu o embrulho e se sentou no chão para abri-lo. o que eu pago é mui to conveniente Na cidade teria de gastar muito mais. Um momento depois. — Jo-Ann pode brincar ao ar livre quando faz tempo bom e eu não fico preocupada de q ue lhe aconteça alguma coisa. alisando a bainha da saia sobre os joelhos. e você tem sido encantador a noite toda. — É muito caro também. Já sugeriu que o artigo de abertura do próximo número sej a escrito por mim. ficando de novo séria. Além disso. Estava sentado na escada. sorrindo e e rguendo a mão espalmada à altura do meu joelho. num gesto tipicamente feminino. você terá de ir para Hollywood. — Por que você insiste em viver aqui. Não ganho o dinheiro que está pensando. Peg ou a boneca e olhou para mim. Havia nela uma espécie de auto-domínío quase subli me. mas não em dólares. — Há quanto tempo ele vem lhe prometendo coisa melhor? — Há três anos. — Talvez esteja no caminho. Coisas assim. Nesse momento. — Quando vi você pela última vez. — O que você vai fazer nessa revista? — Reportagens. — Mas. — E gosto.Ela desviou os olhos e de repente ficou tímida. Era a pessoa que ia ficar to-mando conta de Jo -Ann. Só falta ele arrum ar o dinheiro. por que não se m uda para Westchester? É mais bonito do que isso aqui. Nem secretária sou ainda. O cabelo muito preto descia até os ombros nus sobre um vestido a rigor escuro. como nas ruas da cidade. Ela sorriu. Se prefere viver nos su-búrbios. a campainha tocou. O sr. Dessa maneira. — O prazer é todo meu. Mas. Seus olhos brilhavam. Sou apenas redatora da revi sta. estendendo-lhe a mão. — Lembro. Monica? Ela pegou um cigarro e esperou enquanto eu o acendia. mas parece. — É muito bonita. Monica acabou de tomar o café e sorriu para mim. Eu conhecia o velho Hardin. mamãe! — Foi muito gentil de sua parte. — É claro. Jonas — disse Monica.

mas acontece que há uma guerra e p reciso de um homem como ele. no aeroporto de Teterboro. A única explicação que enco ntro é que eu nada valia para ela. — Agradeço muito haver dito isso. Monica. — Pelo que me lembro dela. ou c oisa parecida. — Por falar nis so. — Encontrou o homem? — perguntou. como o fato de uma mãe dizer que ama muito a fil ha e desaparecer um dia. estava nov amente calma. — Algumas coisas a gente não esquece. Tem alguma idéia do lugar para onde ele foi depois? . 5 McAllister estava a minha espera no hotel. mas ele parece haver desaparecido. — Foi assim com minha mãe também? — Mais ou menos assim. A idéia não me agrada nada. tem visto seu pai ultimamente? — Não. Esperei que o garçom lhe acendesse o cigarro para dizer: — Voltei há pouco da Inglaterra. — Obrigado. Quando tornou a levantá-los. — Quer dizer que você lhe daria um emprego depois de tudo o que ele fez? — Sou quase forçado a isso. ele estava pensando mais em ajustar contas comigo do que em defender ou proteger você. Tive um encontro com sua mãe. com uma leve nota de amargura na voz. quando voltei na tarde se-guinte. Quando ela a deixou. ele apareceu para jantar. — Que razão? Eu nunca abandonaria Jo-Ann assim! — Talvez. Jonas? — Sim. — Tem qualquer idéia de onde ele possa estar? — Nenhuma. Por quê? — Tenho um bom trabalho para ele no Canadá. ela poderia explicar o que se passou. Quando se mostra agradável. como aconteceu comigo. Ninguém sabe dele. Olhei-a surpres o e ela sorriu.— É preciso haver um motivo? — Preciso não é. — Que se apaixonou por ou tro homem e fugiu com ele? Isso posso até compre-ender e desculpar. Irei procurá-lo lá. dizendo que ia trabalhar como administrador. — Talvez ela não tivesse outro caminho. Naquela noite. Sinto-me bem melhor agora. De repente. Pode ter tido uma boa razão para isso. — Como aconteceu com você. — Escreveu-me uma carta há um ano. — Deve estar em péssima situação. Jonas. mas em compensação conhece seu pai. me tomou mil dólares emprestados . ela estendeu a mão por cima da mesa e segurou minha mão. — Muito bem — disse eu. — Não. é porque quer alguma coisa. Ele só trabalhou no aeroporto para descontar um cheque sem fundos de quinhentos dólares com algum trouxa. — Você pode não conhecer sua mãe. enquanto o garçom enchia novamente nossas xícaras. Uma sombra de preocupação desceu sobre seus olhos. E sabe muito bem como ele pode odiar quando sente que alguém o contrariou. Ela baixou os olhos para a toalha da mesa. se você escrevesse à sua mãe. Foi a última vez que o vi. você devia ter a idade que Jo-Ann tem agora . — Sabe. — Você tem boa memória. quando vocês chegaram ao hotel em Los A ngeles. — Foi? — disse ela. tenho a estranha impressão de que você é muito melhor como amigo do que c omo marido. — E o que ela poderia me dizer? — murmurou Monica friamente. Mas conheço você. O que não posso compreender nem desculpar é que não me tivesse levado com ela. para nunca mais voltar. deve ser — disse Monica. Jonas. — Achei-a uma pessoa muito agradável. Há coisa de dois anos. para descer a esse ponto.

— Sabe como é o negócio de revistas — disse ele. J. meu rapaz? — Soube que está querendo lançar uma revista de cinema. A campainha tocou e Robair foi abrir a porta para o pontual S. Vejo que você conhe ce jornalismo. imagine! — O que você quer que eu faça? — Nada. — E pode ficar certo de que minhas revistas lhe darão uma boa cobertura. E gosto sempre de ouvir opiniões de gente como você. por mais que chorasse. — Vou fazer meu primeiro filme depois de oito anos de descanso. olhando-me com curiosidade. . — Quanto seria preciso para botar uma revista assim nas bancas? — Digamos uns trezentos mil dólares.Iorque? — David e Bonner estão aqui à espera de um telefonema seu. Jonas. A m elhor maneira que conheço de ganhar espaço e boas notícias é ser dono de uma revista. J. — Era justamente sobre isso que eu queria falar com você. — Semp re falta dinheiro. Mac. É a garantia da publicação da revista durante um ano. — Muito bem. Sorri. Jonas. Cheque sem fundos. — É possível que esteja na cadeia de alguma cidadezinha de que nunca ninguém ouviu falar. S. Tenho de reco-mendar ao meu corretor que compre algumas ações da Norman. Ca lculo que. — Para quê? Você nem ao menos lê jornais. ele nos dará matéria em suas outras revis tas. Jonas — disse ele com um ar de falsa inocência —. — Exatamente.— Nenhuma — disse eu. — É preciso mesmo que eu fique aqui para assinar aqueles papéis? — Acho que não. meu velho! — exclamou ele com sua voz perpetua-mente rouca. — Soube também que está com problema de falta de dinheiro para o lançamento. O que você quer com ele? — Talvez tenhamos de entrar para o negócio editorial. Telefonou para Hardin? — Sim — disse Mac. — E quem você vai encarregar das reportagens em Hollywo-od? — Ora. Mas prometi a Roger que tentaria descobri-lo. mas ao menos Roger ficará sabendo que fizemos tudo o que era possível. É a melhor notícia destes últimos tempos. A circulação de todas elas anda nuns doze milhões de exemplares por mês. Por quê? — Quero ir para a Califórnia. J. Mac nada disse. seria capaz de pensar que ele não tinha dinheiro nem par a a condução. O que há. a revista está feita. Talvez não se consiga nada. McAllister? S. Hardin. num gesto de quem pedia desculpas. J . — Uma revista dessas depende do diretor. — Jonas. meu rapaz. pois sabemos o que o público quer ler. — Que prazer revê-l o! Apertei sua mão e disse: — Já conhece meu advogado. não é? Com um diretor com-petente. Quem ouvisse S. — Soube que Hardin está querendo lançar uma revista de cinema. Temos tanto interesse nisso quanto você. virei-me para McAllister. Comecei a rir. pensei que já soubesse. se abriu todo num sorriso e apertou entusiasticamente a mão de Mac. O velho patife era ainda mais esper to do que eu pensava. que entrou na sala de mão estendida. se ajudar na revista de cinema. É melhor encarregar uma a gência de detetives. — Tenho pensado nisso. Tenho um filme para fazer. O cinema precisa de um homem como você. Jonas. naturalmente. E eu tenho os melhores redatores do país. — Deve estar para chegar. Eu não podia fazer outra coisa. A maneira pela qua l saqueava a companhia faria o velho Bernie Norman parecer um escoteiro virtuoso . — Também acho. Acho uma vergonha qu e sua editora não tenha uma revista de cinema. É a pessoa com quem você jantou ontem. tirando o sobretudo e sentando. Tinha até espiões no Clube 21. Vou fazer um filme. Mas tinha dinheiro de sobra. de fato. Então para que ficar perdendo tempo aqui em Nova. dizendo: — É um grande prazer para mim! Depois voltou-se para mim e disse: — Fiquei muito surpreso quando recebi seu recado. o tempo necessário para que ela seja aceita pelo público. — Parabéns. Depois que ele saiu.

Ninguém respondeu. — Aparecem de repente. ele me passou o telefone e eu disse: — Alô. eu trouxe Bonner para Nova Iorque. Não demorou muito. Mas a porta não estava trancada e eu fui entrando. Levantei e perguntei: — Jennie Denton? — Estou registrada neste hotel como Judy Belden. — Está bem. Acho que ainda posso pegar o vôo das duas horas da madrugada da TAL. no dia seguinte. Bati na porta. Jonas? Ela ficará muito satisfeita. Denton? — indaguei. — Fez muito bem. — Está certo. Jonas. vi que ela estava se enrolando na toal ha. Mas diga a ele para voltar ao estúdio. E uma coisa: como posso falar com a tal Jennie Denton? É importan te ao menos eu conhecer a mulher que vai fazer o papel principal em A pecadora. e muito feliz. Ninguém respondeu. — Mas. Os olhos eram de um cinza escu ro e não mostravam medo algum. — Boa viagem. Depois fez correr a cortina e olhou para mim. Sou Jonas Cord.— Quer ligar para David? Um instante depois. — Ela está em Palm Springs. Não respondi. Ela olhou para mim e um sorriso apareceu lentamente em seu rosto. David. hora da Califórnia. — Para quê? — perguntei. com o nome de Judy Belden. Peguei a toalha e a coloquei em sua mão. — Vai de avião? — Vou. No moment o em que ficou na ponta dos pés para me beijar. an es que eu saia daqui e faça queixa à gerência. quando parei meu conversível diante do Hotel Tropical Tower. sem disfarçar a decepção que sentia. Telefonei para dizer que fiquei muito satisfeito com seu bom trabalh o no caso das ações. é melhor cair fora. É da polícia? — Não. Passei pela portaria e me dirig i para o bangalô 5. Devo est ar na Califórnia amanhã de manhã. — Para quê? Todos eles têm chaves-mestras. Vou embora para a Califórnia. Jonas. sim. Ouvi então o barulho de água correndo no ba-nheiro. Através da cortina. Falarei com ele lá. sentindo o cheiro do cigarro . David. Eram onze e meia. nas horas ma is estranhas. — Ora! Estava ansiosa por conhecê-lo. — Se é um dos rapazes da portaria que está aí — disse com voz calma —. Jonas. Ela então afastou um pouco a cabeça e me olhou com seus olhos malicioso s e cintilantes. em Palm Springs. Ela se aproximou de mim e estendeu os braços passando-os pelo meu pescoço. — Telefone para Rosa. Ela fechou a torneira da água quente e a ouvi fungar. — Srta. Entrei no banheiro. Como vai Rosa? — Muito bem. no Hotel Tropical Tower. a toalha lhe escorregou do corpo e caiu no chão. — Os empregados deste hotel são terríveis — disse ela. Ela cantava no banho com uma voz baixa e rouca. Abri a porta. sorrindo também. — Obrigado. patrão? . acendi um cigarro e fiquei à espera. fechei a porta. — Ótimo. — Não acha que já é tempo de assinar meu contrato. Ela meteu a cabeça pela cortina do chuveiro à procura de uma toalha. — Você poderia experimentar trancar a porta. Até a vista. David. E mais uma coisa: não tenho nada que fazer em Nova Iorque e o tra balho de preparação de A pecadora me espera. David. O s contornos do corpo de Jennie eram visíveis atra-vés da cortina opaca do boxe. Jonas — disse ele. Não há melhor lugar do que um estúdio para conversar sobre filmes.

.... Quando se fez o s cript de A pecadora. mas dê-lhe o apoio de alg uém como Humphrey Bogart. O rosto de Dan estava lívido de raiva. Jonas — começou Dan. Acendi um cigarro e disse: — Tem razão. Nada havi a mudado. — Pedi a Pierce que viesse até aqui para me ajudar a convencê-lo — disse Bonner. e colocá-la num filme sem grandes artistas para lhe dar apoio. Bonner passeava ner-vosamente de um lado para outro. Fez seu serviço e eu lhe pague tudo pelos cinco anos que ainda lhe restavam de contrato. que você pode comprar e vend er! — Comprei e vendi você — disse eu friamente. Clark Gable. — Desculpe. foi para servir de veículo a uma grande estrela. você era um bom agente. Foi a maior que já houve. — Eu. Mas só estou visando ao seu b em. Quando o conheci. Mas você não vai mais me vender coisa alguma. — Bem. não sabia. Cord — disseram elas a uma só voz quando entrei. Inclua a moça se quiser. se visse algum lucro nisso. — O sr. É muita bonda e sua! Levantei então e acrescentei: — Saia daqui. Rina Marlowe . Sem dizer uma palavra. — Dan não me convencerá de coisa alguma que eu não queira fazer. Jonas. — Bom dia. Você seria capaz de vender sua mãe. . As ações eram suas e você não me devia nada. — Arranje um ou dois grandes nomes. Não estou interessado. quem conseguia falar com você? Todo mundo sabia que a companhia pouco lhe interessava e que você mesmo estava vendendo parte de suas ações. — Vai se arrepender disso. Ronald Colman. Eu devia ter deixado que continuasse as sim. — Está tudo bem — disse eu. Dan! Saía daqui antes que o bote para fora! E nunca mais apareça neste e stúdio enquanto eu estiver aqui! Ele me olhou muito pálido. — Não poderá fazer um filme tão caro. exaltado. sem fala r com ninguém. — Como fez quando vendeu as ações a Sheffield. — Você não sabia. Errol Flynn. e de que m nunca ninguém ouviu falar. Dan Pierce estava sentado no grande sofá embaixo da janela. Mas errei numa coisa. Toquei a campainha em minha mesa e uma das secretárias apareceu.6 O escritório era o mesmo de dez anos antes. Jonas — murmurou ele. sem incluir no elenco um nome famoso. Pierce vai se retirar.. sr. — Você é o mesmo que era quando tentou arruinar o show de Nevada em pro-veito do de Buffalo Bill. Qualquer deles resolverá o caso. quando eu fizera O renegado. Todo mundo sairá rindo do cinema. Saiu batendo a porta e eu me voltei para Bonner. — Espere um pouco. excetuando as secretárias. fui até a mesa e sentei. Jonas. — O que estou procurando é evitar que você cometa outro erro. sr.. — Pronto. Cord — disse ela.. — Pode consegui-los para mim? Ele não percebeu o sarcasmo. Para o que diz respeito aos planos para o filme: vai custar mais de três mi lhões de dólares. — Que acha então que devo fazer? Percebi o brilho de confiança que prontamente chegou a seus olhos. Dan. — Sei como se sente. — Ótimo! Muito obrigado ao seu coraçãozinho amável a dez por cento de comissão. — Acho que posso dar um jeito — disse cauteloso. sem falar comigo? — As ações eram minhas — disse ele. — Não pode falar assim comigo! Não sou um dos seus criados. Spencer Tracy. calmamente. Eu ficaria satisfeito se hou-vesse alguns astros no elenco. Dei-lhes bom dia e entrei no escritório. Não é possível pegar uma moça sem qualquer experiência. — Eu podia vendê-las a quem quisesse.. De mais a mais.

— Ah. Bonner foi até a porta e ficou ali por um instante. criando uma radiosidade translúcida em to rno do rosto moreno. Se gostar de Jennie. Derramava-se pelo pescoço e pelos ombros. Nunca pensei que alguém fosse levá-lo a sério. Bonner veio até perto da mesa e ficou ao lado de Jennie olhando para mim. mas o telefone em minha mesa toc ou. — Tenho de me parecer com ela? — perguntou Jennie suavemente.. Encaminhou-se lentamente.— Os astros consagrados são uma grande coisa. que poderiam conseguir isso com qualquer filme. A voz de Bonner exclamou. Estamos fazendo uma história baseada na Bíblia. Ela talvez não possa manter. Como podem? Ele arregalou os olhos e ia dizer alguma coisa. — Mas isso foi diferente — disse Bonner com uma expressão curiosamente embaraçada. — O tes te foi mais uma pilhéria. Descobrem Lana Turner num balcão de sorveteria. Os duzentos mil dólares que recebiam nada sign ificavam para eles. Ela virá. — Mas um teste não é um filme. sr. E eu também. quero que veja São João ou São Pedro. Bonner tinha razão. Sabe desde o momento em que pedi u a ela para fazer o teste. A porta se abriu e Jennie entrou. Bonner cocou a cabeça e me perguntou. Havia uma estranha expressão em seu rosto. Ele mur-murou com os ol hos fitos nela: — E como. — Quero que ela seja vestida por Ilene Gaillard — disse a Bonner. Lembrei-me da patética figura de cabelo branco ajoelhada ao lado da sepultura de R ina. Dei-lhe adeus com a mão. Só que. esqueci de dizer. — Não sei. Além disso. Austin Gilbert conversou comigo. — À vontade. Denton já está pronta no cabeleireiro. ela me disse como você ficou a noite toda olhando para ela e no fim lhe falou a respeito do teste. — David viu o teste e o levou a sério. Parou diante de minha mesa e girou lentamente o corpo. Achou o script interessan te e virá ver o teste hoje à tarde... Rina. quase sem hesitação. par a o centro do escritório. . — Mande-lhe um retrato de Jennie. — Até a vista — disse. O comprido cabelo não era mais castanho-claro. Desliguei o telefone e disse a Bonner: — Mandei Jennie para o cabele ireiro. acho. — E o que tem isso? Para que temos um departamento de pu-blicidade? Quando o filme estiver terminado. Cálculos para a construção dos cenários. o importante é a mulher. olhando para Jennie. desta ve z.. Não sei como vocês fazem isso. dirigirá o filme. Você a ac hou bastante interessante para fazer um teste. O importante era o script. — Até a vista. O orçamento preliminar. Sp ncer Tracy ou Humphrey Bogart. lhe falou a respeito da festa? Ri e respondi. prefiro dispensá-los. se ela estivesse aqui! — Exatamente. Olhei para Jennie e comecei a sentir um aperto no coração. mas de uma cintilante cor champanhe. — Posso sentar? — perguntou Jennie. E os artistas também. Quando alguém v ir na tela São João ou São Pedro. Bonner — respondeu Jennie. e não Clark Gable. Quer que vá aí? — Sim — disse eu. Com os grandes diretores era assim.. — Manterá tudo o que você quiser e você bem sabe disso.. Ela deixou de trabalhar e se mudou para o leste. Boston. não haverá uma só pessoa no mundo que não conheça o nome dela. Descobrem Jennie num jantar. não foi? E tudo o que sabia dela er a que se tratava de uma garota que você conheceu numa festa. Era uma das secretárias. — Sim. cortesmente. — Ótimo — disse eu. hesitante: — Ela. Nada tenho contra eles. num sussurro emocionado: —.Meu Deus! Olhei para ele. Queria fazer uma experiência com uma idéia que tive. Ela sentou e ficou olhando para mim em silêncio enquanto eu examinava os papéis em c ima da mesa. — A srta. Aquilo iria custar um bom dinheiro. finalmente. — Mas ninguém nunca ouviu falar nela.

Estávamos começando a descer. — Não é preciso. — Ótimo! Procure-o e diga-lhe que venha para cá imediatamente. — Todos os anos chegam a Hol-lywood mil garotas como você. — Chicago? Bem. Você teve sorte e conseguiu um. e eu não podia adivinhar o que ela estava pensando. você será tudo o que eu lhe mandar ser. Deixo de ser eu. Se não gostar. Mas não era preciso. Mas continuou a me encarar. Eram quase nove horas. Wint-hrop não poderá deixar de ouvi-la. menina? . — Bonner lhe contou alguma coisa a meu respeito? — Nadinha. o maldito te-lefone tocou. — Pelo menos é vantajoso quando se precisa ir a algum lugar depressa. Você mesma me disse tudo o que eu precisava saber. — Já telefonei. creio que terei de ir buscá-lo. Desliguei o telefone e olhei para Jennie. sorrindo. Mas não sou ela. Se quiser Winthrop. patrão. — A agência de detetives descobriu Winthrop para você — disse ele. Corri os olhos pela cabine vazia do avião da TAI que Buzz havia prepa-rado para um vôo especial depois do meu telefonema. Nada respondi. Senti nos ouvidos a leve mudança de pressão. no trem expr esso. pois preciso falar com ele. — O que você não compreende. — Eu sei. os olhos estavam fechados. — Deve ser formidável ser dono de uma companhia de aviação — disse Jennie. Não estou fazendo nada. você mesmo terá de tomar as providências. As garotas como você andam sempre à procura de um produtor a quem impressionar. E Chicago é uma cidade bem interes sante — disse ela. Olhei o relógio. Não faria mal nenhum meter-lhe um pouco de med o. O homem da agência lhe dirá onde poderá encontrá-lo. — Telefone então para Monica e peça-lhe que converse com ele. — Lembre-se de uma coisa — continuei. quando a olhei .— O quê? — Tenho de me parecer com ela? — Por que pergunta? — Não sei — disse ela. Os olhos estavam cheios de maquilag em e semicerrados. Adia ntei os ponteiros duas horas para ficar na hora de Chicago. Ela não respondeu. falando de Nova Iorque. E nunca poderia ser. Eu poderei escolher qualquer delas. Tenho a impressão de que me transformei num fantasma. — Não compreendo você. A boca era macia e quente e. — O homem da agência diz que ele não irá. Levantei da mesa e tomei-a nos braços. não é? — Toda a viagem. — Por dois mil dólares por semana — repliquei —. — O fim da semana está próximo. 7 Jennie virou-se para mim: — Assim é que se deve viajar. Um avião inteiro à disposição. Ela era um pouco arrogante. Era McAl lister. Não vá estragar sua sorte. Jonas. Amos está em Chicago. — Apenas não me sinto bem. — Quer ir? — Quero. Tudo o que mandar. — Está bem. — Foi só o que viu no teste? Rina Marlowe? — Ela foi o que de maior já apareceu na tela. — Estou muito ocupado e não posso ir a Nova Iorque. volte a fazer o que fa zia antes de conhecer Bonner. A expressão em seu rosto se desarmou por completo e um sorriso aflorou-lhe aos lábio s. Mas ela partiu hoje ao meio-dia para a Califórnia. Nesse instante. Iremos de avião. Ela mostrou uma expressão de cautela.

Telefona ram de seu escritório na Califórnia. — Não estava falando em você. mas apesar de tudo é verdade. estávamos no Hotel Drake. para tirar todas as vantagens possíveis. — E não dá para você comprar um par de sapatos com ele? Ri. Carter abriu a porta do apartamento. Devem estar aí em algum canto do avião. Não sou diferente dos outros. — Muito prazer em revê-lo. Quarenta e cinco minutos depois. sr. a sua espera. Referia-me ao avião. Acontece que você me confunde e atrapalha. — Nem tudo. — Você não sabe se sou uma atriz. — Então por que se mete nisso. E os homens são a primeira coi-sa que uma mulhe r procura compreender.. Do contrário. — Pode ser que se lembrem mais de você por essas coisas do que por um filme. Fico satisfeito com o que tenho aqui em cima. Cord. — É verdade. — Foi muita gentileza de sua parte. Um chofer veio ao meu encontro. — Será? Por que um homem é lembrado? Pela emoção que conseguiu transmitir? Ou por ter cons truído o edifício mais alto do mundo? — É lembrado por essas coisas. — Tomei a liberdade de mandar preparar uma ceia quente. — Muito obrigado. se essas foram as coisas que ele fez. continuou: — O dinheiro pode comprar o tempo para você. Estão sempre atentos. — Acho que de algum modo você me possui mesmo. levando respeitosamente a mão à pala do boné. Da mesma maneira que tudo veio.. a inda que isso não esteja em sua consciência. para impedir que o avião pulasse. — Já tinha esquecido de que faz tanto frio durante o inverno — murmurou. ficando séria de novo. Jonas? Você não precisa. Subimos nele num solitário esplendor. Mas não quero muito. Carter — respondi. — Creio que quer dizer com isso que não possui aquilo lá embaixo. O gerente foi nos receb er à porta. sr. No mesmo instante. — Não pode deixar de ser. E permite-lhe transformar as pessoas no que você deseja. — Tenho sido mulher toda minha vida. ainda. quando a primeira lufada de ar entrou pela porta aberta. Ma s você é diferente. — Não se preocupe. Compreendo quase todos os homens qu e tenho conhecido. Havia uma mesa posta num canto da sala e ga rrafas no bar. Havia neve no chão ao atravessar mos a pista para chegar até o edifício do aeroporto. Ninguém gostaria. — Seu carro está lá fora. — Eu sei. O hábito é uma coisa engraçada. além de atriz. Depois. olhando para meus pés calçados apenas com meias. — E se o avião se espatifar? — Não vai fazer diferença. estivesse ou não no comando. Jennie tremia quando entramos no carro. Estalou os dedos e um elevador abriu suas portas como por encanto. Eu tinha de fazer as manobras de aterrissagem de todo avião. — Não sabia que você era filósofa. Inconscientemente in-clinei-me sobre o manche. Não precisa de dinheiro. sim. vai me deixar mal. Jennie teve um tremor de frio e enrolou o casaco leve em torno do corpo. Você já tem tudo. com cara de idiota. Nunca pensei que compreendesse tão bem os homens. compreendi que era apenas passageiro e me descontraí. não é? — Claro. — Assim tão simples? — Assim. Ela apontou para as luzes de Chicago lá embaixo. Cord. Para que então quer fazer filmes? — Talvez porque eu queira ser lembrado por algo mais do que pólvora. — O dinheiro faz muitas coisas para mim. — Você é filósofa. Ela olhou pela janela do avião e virou-se para mim. Senti as rodas tocarem o chão e o avião pousar. Você possui todos os que tra-balham para você. . tudo vai.— Você. Tenho sapatos. Ela riu. aviões ou pratos de plástico. — E você não gostaria disso. O apartamento está pronto. É o dinheiro que faz isso.

com os olhos arrega lados. Mandarei subir a ceia ime-diatamente. entregando-lhe o fone. compreendo. — Muito bem. mandarei uma coleção para mademoiselle escolher. ainda atônita. sacudindo a cabeça. Chamava-se Sam V itale. mas não deu mostras de sua surpresa. — A srta. — Obrigado. cheia de surpresa. 8 O homem da agência de detetives chegou enquanto estávamos jantando. Denton não estava preparada para o frio. Era apenas uma questão de tempo. Queria saber o que eu preferia: vison claro ou escuro. Atendi e olhei para Jennie. sim. Olhei para Jennie. Carter. certamente? — Claro. — Está fazendo muito frio em Chicago — disse ela. — Qual foi o tamanho que você disse a ele? — Dez. — Ah. E o tama nho. ela estava s entada na cama. Esse tipo de gente pode mu dar de nome à vontade. você é um maluco — replicou. O telefone tocou. — Pronto! Pensei que nada mais neste mundo pudesse me impressionar. — Como posso saber quando terei necessidade de vir a Chicago? — Quando esteve aqui pela última vez? — Há coisa de um ano e meio. Carter. que ainda estava tremendo de frio. sr. — Sem dúvida. Ele deixou um rastr o de cheques sem fundos. — Como já disse. Quando afinal todos os i ndícios apontavam para Chicago. à uma hora da madrugada. Provavelmente achou bastante estranho Jennie estar jantando no apartament o do hotel. e Jennie voltou-se para mim. Ele está circulando aqui co . — Carter! — Pronto. Foi só pedir informações nos estabelecimentos de crédi-to. cortesmente. Vison sempre dá esse resultado. para receber o dinheiro a que tem direito. — Não vamos comprá-los. sr. Eles vão ser mandados para cá. Cord. — Para mim? — perguntou. Quase não vale a pena. — Escute uma coisa: por que você é tratado como um rei aqui? — Pago meu aluguel. alguns minutos depois. — Acho que é possível. Ele saiu. Sabe que horas são? Olhei para o relógio. metida em um casaco de vison preto. Quando saí. Dentro em pouco. Não pude deixar de rir. Essa é a diferença. ninguém mesmo. numa tentativa de explicação. — Ninguém. pode comprar casacos de vison depois da meia-noite. Cord. senhora — disse ele. — Muito bem. — Mas ninguém sabe que estou aqui! Fui até o banheiro e fechei a porta. — Quer dizer que este apartamento corre todo o tempo por sua conta? — É claro — respondi. — Está.— Telefone quando estiver pronto. — Meia-noite e dez. Vison. mas em geral conserva seu cartão do Seguro Social com o nome verdadeiro. atirando-se em meus braços e me abraçando fervo osamente. — Bastam apenas alguns minutos para lavarmos o rosto. sr. — Foi o peleteiro. — Devia ter pedido tamanho doze — disse eu. não. — Teve muita dificuldade em encontrar o homem? — perguntei. fomos ao Seguro Social. Cord. mas estou impr essionada. — Muita. fazendo uma reverência. — Mas é um maluco simpático. Acha que pode con-seguir um bom c asaco de pele? Carter permitiu-se olhar de relance para Jennie. Nin-guém mais compra cas aco de vison tamanho dez.

O comp rido cabelo louro em que brilhavam todas as luzes do salão se derramou por seus om bros. Darlene e a inevitável Rosie To okus. dizendo: — É com fogo que se combate fogo. concordou com a cabeça. Oitenta dólares. mas ao menos deixe-nos acabar a garrafa. Ri. colocou a garrafa de pé no balde e foi e . o garçom tratou de enchê-las de novo. Mal pousamos as taças na mesa. Trabalhava rapida mente e derramou um pouco pelas bordas. bem no meio de um requebro. Ele olhou para mim. A rolha saiu com um estouro e a espuma do champanhe escorreu pelo gargalo. — Duas garrafas de seu melhor champanhe — pedi. — Viva! — exclamei levantando a taça. Amos não havia mudado. Ouvindo a palavra champanhe. amigos. — Estou pronta — disse Jennie. Uma mulher estava fazendo strip-tease acima de nossas cabeças. como mecânico. O rótulo podia ser falso. onde um gerente de smoking repentinamente se materi alizou diante de nós. Colocou rapidamente três taças em cima da mesa e abriu a primeira garrafa. O porteiro escancarou um sorriso quando a grande limusine parou à sua frente. Acab ei de tomar o café e disse: — Bem. senhora. O sorriso da mulher no palco desapareceu no mesmo instante. Olhei a garrafa. Charlene. Está beben do muito. Há sem pre uma mulher fazendo strip-tease no palco e uma porção de garotas procurando fazer os trouxas pagarem bebidas. Passa a maior parte do tempo numa espéc ie de cabaré chamado La Parée. — Numa garagem em Cícero. — Se tivesse vindo num táxi — disse Vitale —. enquanto o homem nos levava atra vés do salão cheio de fumaça para uma mesinha diante do palco. O garço m encheu as três ta-ças sem ao menos esperar que eu provasse e foi embora. — Nada disso! — exclamou ela. — Não vou perder a chance de estrear o meu casaco! La Parée era uma entre cerca de vinte boates semelhantes numa rua igual a tantas o utras. — Sejam bem-vindos. a menos que se tivesse um estômago forrado de zinco. e me olhou com o sorriso mais sedutor de seu arsenal . na mesa. Vi um papelzinho branco ao meu lado. Do mundo inteiro vem gente a La Parée. Não estou reclamando do preço. Heidsieck 193 7. Estava sempre nos lugares onde havia mulheres. Ganha o bas¬tante para comprar bebida. Aquilo não era lugar para beber uísque. Mas Jennie sacudiu a cabeça e ficou com o casaco. Estava um pouco quente. Abri u a porta com floreios.m o nome de Amos Jor-dan. enquanto ela ficava reduzida ao mínimo de roupa que se pode co nceber. espalhadas por todas as cidades do país. Todas elas iam dançar na-quela noite. Jennie deixou então o casaco cair nas costas da cadeira e tirou o turbante. Uma chapeleira com as coxas de fora veio nos tomar os casaco s. pensei. As vitri-nes estavam cobertas de c artazes de garotas seminuas: Maybellene. — Onde está trabalhando? — perguntei. ia virar a garrafa de cabeça para baixo no balde. — Não é preciso tanta pressa. — E se tivesse vindo a pé? — Quinze dólares — respondeu rindo. O porteiro nos levou ao salão. vamos vê-lo. Mas só vai lá para dormir. Vitale olhou para ela. mas o champanhe não era. a mulher do strip-tease fez uma pausa em seu número. — E melhor ficar aqui. pagaria vinte dólares por garrafa. O tambor surdo toca va compassadamente. O lugar é pouco recomendável e muito perigoso. É um desses lugares onde o divertimento é constante. Um garçom de camisa branca apareceu com duas garrafas de champanhe dentro de u m balde. quando segurei sua mão. — Onde mora? — Numa casa de cômodos. mas era um bom champanhe. Olhei para Jennie e ela sorriu para mim. amigo. Depois.

— E agora você me vem com uma proposta falsa! Pensa que eu não sei o que você quer? Pens a que eu não sei que você está procurando me tirar do caminho porque sabe que. Mas fi quei. — É a minha garota que e stá dançando ali. Amos — disse. No momento em que le vantei para ir ao bar. Quase calvo e com as pe lancas da extrema velhice pendendo-lhe das faces e do queixo. De repen . — Acha que precisa de ajuda? — perguntou Vitale. E rolaria ladeir a abaixo até morrer. — Tudo isso está passado e encerrado há muito tempo. com um copo nas mãos. — Alô. mas também porque. uma mulher roçou em mim na semi-escuridão. e meu dinheiro desaparecera antes mesmo de eu me acomodar no tamborete. Virei-me e o agarrei pelos pulsos. que estava olhando para o palco. Amos. — Falei com Monica da oportunidade que ia lhe dar — disse eu — e ela ficou muito satis feita. Fique aqui com a srta. Não havia ainda muita luz. — Monica sempre foi uma idiota — replicou. Haviam lutado. de vômito e decadência. de velho. Eu nada disse e ele continuou: — Mas eu dei um jeito em tudo. mas não queria o divórcio. garotão? Era a mulher que pouco antes estivera no palco. afi nal. — Não. Ele bateu com o copo em cima do balcão. Disse a ela que você era igualzinho a mim. Ali estava uma ruiva que havia conhecido melhores dias. Eram pulsos finos e frágeis. Estava vencido e nada mais lhe restava senão o passado. — Vá embora — respondeu. não apenas porque havia feito uma promessa a Forrester. lutado muito. Comb inavam bem. Outra mulher apareceu no palco e as luzes diminuíram de novo. com uma voz rouca e encharcada de uís-que. com os punhos cerrados perto de meu rosto. você estará perdido? E se aproximou de mim. quando me sentei no ban co vazio ao lado dele. e tive uma desagradáve l surpresa.mbora. aquele era o pai de Monica. A garrafa estava diante de mim. Dizia que o amav a. Teria no máximo cinqüenta e cinco anos. para que eu não pudesse mais levantar a cabeça? Não sou tolo. Tentei pensar um pouco. Pensa que eu não sabia que você tinha gente para seguir meus passos por todo o país? Amos estava doente. O-lhou para mim co m os olhos vermelhos e lacrimosos. na outra ponta do bar — disse Vitale. A bateria tocou mais forte e a mulher saiu do palco. — Ele está ali. Incrivelmente velho e acabado. Não havia mais para ele nenhum caminho a não ser o dos derrotados. Estava furiosa com você. bem longe daquele cheiro de cerveja azeda. e riu. mas não está! Acha então que posso esquecer que você me botou para fora de minha própria companhia? Acha que posso esquecer que você me bloqueou todos os co ntratos. acompanhada por algu ns aplausos mais ou menos indiferentes. — É o que você pensa. Levou o copo à boca. Ele não podia ser tão velho assim. Só pude ver um vulto indistinto curv ado sobre o balcão do bar. os dois. Voltei os olhos para Amos. Ele largou o copo em cima do balcão e voltou lentamente a cabeça. incapaz de resistir a um rabo de saia. muito mais doente do que eu havia pensado. — Está procurando alguém. Esperei que o número chegasse ao final e disse: — Tenho uma proposta para lhe fazer. e a corrosão do tempo o invadira. Notei que a mão tremia e mostrava uma porção de manchas avermelhada s. — Uma cerveja — pedi ao homem do bar. Denton. — Sabe de uma coisa? Ela não queria di vorciar-se de você. Virei-me para olhar. em voz baixa. Por um momento tive vontade de levantar do tamborete e ir embora para a noite fr ia e pura. mas tinham sido derrotados. — Já disse a seu mensageiro que não me interessa. Os sonhos haviam morrido p orque ele falhara em todas as ocasiões decisivas. no dia em que eu mostrar meus planos a alguém. Vi então seus olhos e compreendi tudo. Ele nem levantou a vista. — Vou lá falar com ele — disse eu. Olhei para o palco. Fiz que não tinha ouvido e continu ei indo para onde estava Amos. Estava velho. Amos. com um copo.

— Não há de que. Acho melhor levá-lo para casa. cuidando desse bêbado. — Isso é pela conta d mesa. Fiquei surpre so ao ver como era leve. Não será a primeira vez que passo a noite em cla-ro. — Ah. Vitale não deixara nada ao acaso. — Obrigado. Alguém lhe deu uma boa dose de sódio-amital. Desculpe. — Uísque demais e comida de menos. O chofer já havia saltado para abrir a porta. O médico despediu-se e saiu. e o leão-de-chácara virou-se para olha r quem havia falado. Enquanto isso. Olhei para Amos. Está com fe re. você não precisa passar o resto da noite acordada.te. Olhei para Jennie. Jonas — murmurou. Passarei de novo pela manhã para vê-lo. quando acordar amanhã de manhã. levantando. — De um doente? — É claro. Não era o fato de ele estar doente que me faria pensar de maneira diferente a respeito dele. Os olhos dele estavam cheios de lágrimas de raiva. antes mesmo de eu descer do banco do bar. Mas não podia deixar de pens ar que. o corpo dele desaprumou-se e ele caiu para a frente. Chamei-o e disse: — Vamos voltar para o Drake. sr.. com lágrimas cavando-lhe um rego na maquilagem . — Escute aqui. Sorri. com a cabeça em meu peito . afrouxando a gravata e desabotoand o o colarinho. — Acho que é um pouco mais do que isso — respondeu Jennie. — Ele não mora longe daqui — disse. não me persiga mais. No mesmo instante. Tirei outra nota de cem dólares e a coloquei na mão dela. A música parou de repente. — Vá enxugar as lágrimas. estendido no banco de trás. Jennie vinha logo atrás dele. Olhei para Amos. cuidando de um d oente. Era uma casa de cômodos suja e cinzenta. Uma pequena multidão se juntou em t orno de nós. é você. . Cord.. — De quê? — Comprimidos para dormir — disse Jennie. doutor. Jennie já estava ao lado dele. Está ar-dendo em febre. fui empu rrado violentamente de encontro ao balcão e um homem enorme de terno preto gritou: — O que há por aqui? — Pode deixar. De nton. Joe — disse Vitale aproximando-se. Estou tão cansado que não posso mais nem. dê-lhe um daqueles comprimidos de hora em hora. e a pressão que exercia contra mim cessou. se as coisas tivessem se passado um pouco diversamente. e dois gatos trepados em la-tas de lixo a bertas diante da porta da frente nos olhavam com seus olhos brilhantes. — Perdeu os sentidos? — perguntei. — Ele está muito fraco — acrescentou o médico. — Não me incomodo. Desde que eu queria Amos. ele havia tomad o todas as providências. srta. quando coloquei Amos no carro. Depois vi a ruiva olhando para mim. mas com um pouco de cuidado isso não terá qualquer importância. noturnos e sinistros. — Estará bem. ante sua impotência. 9 O médico saiu balançando a cabeça. — Está bem. A ruiva apareceu su-bitamente por trás d e mim e deu um grito. Abaixei-me então. peguei Amos nos braços e me encaminhei para a porta. Nunca lhe disse que sou formada por uma escola de enfer-magem? Balancei a cabeça. poderia ser meu pai que ali estivesse. — Está bem — disse. jogando uma nota de cem dólares em cima do bal-cão. — Por favor. Sam — disse ele. Escorregou então de minhas mãos e caiu no chão. Da janela do carro observei de relance o lugar e compreendi que não poderia deixar ali um homem doente. doutor — disse eu. Vitale apanhou nossos capotes com a chapeleira. — Estou tão cansado.

— Boa noite. não. muito obrigada. Fechei a porta e voltei par a a sala. todos nós tivemos um pouco de. — Vá dormir. Pedi à portaria que m e mandassem um prato duplo de presunto com ovos e mais um bule de café.culpa. Eu sabia que não devia insistir. — Acho que tudo só acon eceu porque Monica e eu éramos muito moços. — Um pouco. Rina não teve culpa alguma — disse. mas aí vi que e ra Monica e ela estava chorando. Era o leão-de-chácara de La Parée. Quando ele chegar. Mary. Me formei em 1935. Depois abandonei a profissão. Ele não foi mais culpado do que eu.— Escola de Enfermagem St. — Acha então que eu ia deixá-la andar por Chicago com esse frio todo com um casaquinho leve? — É pelo casaco também.. com o se