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Os Descaminhos do Meio Ambiente - Carlos Walter Porto Gonçalves

Os Descaminhos do Meio Ambiente - Carlos Walter Porto Gonçalves

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(DES)CAMINHOS
DO MEIO
AMBIENTE
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ed itoracontexto
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Copyright© 1989 Carlos Walter Porto Gonçalves
Todos os direitos desta edição reservados à
Editora Contexto (Editora Pinsky Ltda.)
Capa
Francis Rodrigues
Revisão
_./-::-. .. Maria Silvia Gonçalves e Luiz Roberto Malta
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Com• nosição
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Veredas Editorial
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�__@×*"¯ Dados Iqternacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
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_(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
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Gon�lves,·,. arlos Walter Porto.
•"¶ . _ Js.(dés)cammhos do meiO ambiente I Carlos Walter Porto
Gonçalves, 14. ed.-São Paulo: Contexto, 2006. (Temas aruais).
Bibliografia.
ISBN 85-85134-40-2
L Ecologia humana. 2. Homem - Infuência ambientaL
3. Homem - Influência na natureza L Título
89-0131 CDD-304. 2
Índices para catálogo sistemático:
L Ecologia humana 304.2
2. Ecologia social 304.2
3. Homem e natureza: Ecologia 304.2
4. Meio ambiente: Influência do homem: Ecologia 304.2
5. Natureza e homem: Ecologia 304.2
EDITORA CONTEXTO
Diretor editorial: Jaime Pinsky
Rua Acopiara, 199 - Alto da Lapa
05083-110- São Paulo- 51
PABX: (11) 3832 5838
contexto@editoracontexto.com.br
ww.editoracontexto.com.br
2006
Proibida a reprodução total ou parciaL
Os infratores serão processados na forma da lei.
SUMÁRI O
I. Intução ............ ,. . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . 7
I. O Contexto Histórico-Çultul de onde emerge
o Movimento Ecológico . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10
il . Lutas Soiais, Lutas Ecológicas . ø ø e ø ø ø e ø ø • . . . . . . 18
I. O Conceito de Natuz não é Natural . . . . . . . . . . . . 23
V. A Natueza no Dia-a-Dia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
V. Os (Des)Caos do Coceito de Natur�
no Ocidente æ æ æ æ ø æ æ æ w æ æ æ æ æ æ æ æ . . . . . . . . . . . . . . 28
VI. A Ciência diante da Natureza . e e e e e e e e e e e e e • e . . 37
Vl. A Haonia Natl. Haonia? . . . . . . . . . . . . . . . . . 61
I. O Homm na Natureza e a Natza no Homm .. . e . 75
X. Soiedade Na. Natu? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 94
XI._ Soiedade Moera e Natuz ................. 10
X. Temp e Traao: Putividade . . . . . . . . . . . . . . . 103
Xll. A Técnica, a Soiedade e a Natuza ... .e e e e e . .. o . 1 1 8
XIV. Natuza e Relaçõs Soiais . . . . . . .. ø e ... . ...o . 1 25
V. Ecologia, Librdade e Igualdade: Autonomia . e . + + e e 136
XVI. Notas Bibliogcas . . æ . . ..æ . . ø .. .... ... .e . . . 145
A Cico Mendes
que me ensinou que
a dfesa d natueza começa pel tera;
sem tera n h planta;
sem tera n se plnta.
Plante a Refora Agáa!
I NTRODUÇÃO
Como qualquer texto, este ensaio elege sus iteroutors: os que
mt nos movimntos eológicos e os que se identca com
eles sabm o porquê do emprgo desse plurl. Tento aqui estabele­
cer u diálogo com esss companheiros, com vistas a tazer algu­
ma contibuição pa o desenvolvimnto de nossas lutas. Em suma,
tta-s de u esforço no sentdo de apntar a complexidade e a
diversidade daquilo que consttui os mvimentos ecológicos.
De fato, pace não haver capo do agir huo com o
qual os ecologistas não· se envolvam: proupam-nos questõs que
vão desde a extinção de espéies como as baleias e os micos-leõs,
a explosão demgca, a corida aaentsta, a uranização de­
senfeada, a continação dos alimntos, a devastação das fors­
tas, o efeito estufa, as técnicas centadoras até a ijunçõs do
poer políco que nos oprime e explora. Pouri rfetir sobre o
porquê de invadmos tantos camps diferentes, empregando deli­
brnte u estlo que tnsita ent o rigor cientíco-flosóf­
co e o manifesto plítco. Pa tanto m v obrigado a fazer uma
viagem por tertóios que me erm pouco familiars e o f com o
cuidado que essas situaçõs exigem: pisa devagar, sentir a con­
sistência do chã, sabendo que o próximo passo da caminhada não
seria necessariamente em solo tão f quanto o que já havia pi­
sado e domado. Estou, pr out lado, convencido de que os pla-
8 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
nos de viagem, as diversas flosofas que aprndemos ao longo de
nossas vidas estão comprometdos com os fndamentos histórico­
cultus que insttuíam nosso mundo. Assim, esses planos . são
maados não só plo pnsamento herdado, �as também plas prá­
tcas soiais insttuídas, sendo, poranto, pare do que quermos ver
suprdo.
A viagem é longa e pa isso conto com a paciência do
leitor. Sei que a paciência não é uma virtude na soiedade em que
vivemos, marada plo pragmatismo, plo imediatsmo, pla preo­
cupação com a prdutvidade ·e com a efcácia. Quase sempre a
exigência é d rspostas imediatas, pis, afnal, os problemas são
urgentes e pace que o apoalipse está próxim. Devo observar
que esta postura, todavia, é, ela própria, prisioneira deste mesm
mundo que se pretende questonar. Assim, só me resta faer o con­
vite pa essa viagem plas entnhas do pnsamento-ação herda­
do, onde possams loa outas foras de pensar, sentr e agir
bastante próxmas de nós e que quedaram sufocadas e silenciadas
como é o caso das formulaçõs dos chamados flósofos pré-socráti­
cos. Por que fcaam sem nos ser aprsentados, eles que falavam de
uma physis, de u natueza muito próxima daquela que nós eco­
logistas intuúnos e que os físicos, biólogos e flósofos contemporâ­
neos redescobrm? Que motivos levaram a que fcassem silencia­
dos? Seram os mesmos motvos plos qus tentam nos silenciar,
nos desqualifcar como interoutors? Essa é u das questõs
que tentai elucidar nest ensaio. Poderemos descobrr que mui­
tos, antes de nós, levantam essas questõs e que muito temos que
aprnder com suas proposiçõs e com suas derotas. Afmal, a rzão
nem sempre está com quem venceu, embora os vencedors smpr
apresentem as suas vitórias como sendo vitórias da Razão. Os ven­
cidos são assim desqualifcados e, não sejamos ingênuos, a des­
qucação dos dertados de ontem é uma das esttégias para a
produção de novas vitórias-derotas aqui e agora. Resgatar essas
·
tajetóras nos penite superar a ar ogância muito comum naqueles
que s deixam levar pelos modismos e, devemos ser siceros, o
movimento ecológico está na moda.
Estou consciente dos limits que um brve ensaio coloa a
tal empritada, mas não poderia me far à oportunidade de defa-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 9
g uma rfexão sobr questões que me paecem decisivas na
orentação das prátcas ecológicas.
Minha proposta é rea uma breve contextualização d
condiçõs histórco-culturais d quais emerge o movimento ecoló­
gico no mundo e no Brasil. Logo a seguir, estabeleço um diálogo
com outos diversos movimentos sociais, procurando loalizar o
que temos em comum e o que nos diferncia, temátca que é reto­
mada ao fmal do tbalho. Analiso adiante o modo como a soie­
dade oidental constuiu o seu conceito de natureza, cacterizado
por uma espécie de deslocamento do homem, no processo de de­
senvolvinento e declíio da Antguidade.gco-romana. Prouro,
em seguida, tomando por base as novas descobrtas de físicos, so­
ciólogos e antopólogos, fndamentar uma concepção em que Ho­
mem e Natureza são concebidos como parte de um mesmo proesso
de consttuição de difernças. O homem é a naturza que toma
consciência de si própra e esta é uma descobrta verdadeimente
revolucionáia numa sociedade que disso se esqueceu ao se coloar
o prjeto de dominação da natureza.
No capítulo subseqüente, busco as raízes mais rcentes que
nos pnnitem comprender melhor a progssiva devastação das
nossas condiçõs de vida. Aí me depao com a soiedade indus­
tial, ignorante das implicaçõs metafíicas de seus próprios fun­
damentos.
Finalmente, prourei fndamentar o movimento ecológico
como um movimento de caráter político-cultural, demonstndo que
cada povo/cultu constói o su conceito de natureza ao mesmo
tempo em que institui as suas relaçõs soiais.
Trt-se, portnto, de um ensaio sobr o conceito de natu­
reza subjacente à nossas relaçõs soiais.
O CONTEXTO HI STÓRICO-CULTURAL
DE ONDE EMERGE
O MOVI MENTO ECOLÓGICO
A década de 196 marca a emrgência, no plano polítco, de u
série de movimntos soiais, dent os quais o ecológico. Até en­
tão, o questionamento da ordem sóio-polítca e cultural estava por
conta dos movimentos. que- de diferntes maneiras- se rivindi­
cavam soialistas (os soial-demoratas, os comunistas e msmo os
anarquistas). O movimento opráo constituía o eixo em toro do
qual se fazia a cítca teórica e prátca da ordem insttuída e o ca­
pitalismo apaecia como a causa de todos os males com que os ho­
mens se defontavam. Toda u cultura, cujas matzes estão loa­
lizadas no século X, havia se desenvolvido no interior do movi­
mento opráio. No século XX, em alguns países do mundo, oor­
rm revoluçõs que se prolamam soialistas e que vão tentar pôr
em prátca outos princípios de organização soial. Ao msm tem­
po, no iterior dos países capitalista ms desenvolvidos, os ta­
balhadors conquistam u série de diitos cujo atndimento,
acrditava-se, seria impossível nos macos daquela soiedade: jor­
nada de tabalho de oito horas, semana de cinco dias, férias rmu­
neradas de tta dias, salário-desemprgo, apsentadoria, assistên­
cia mdica gratuita e educação pública, ent outos. O movimento
Ô
práo começa, de cera fora, a se insttuciona porque cou­
b ao Estado gerir e administar essas conquistas no interior dos
países capitalstas, enquanto que nos. Estados que se rivindicam
como soialistas os próprios tabalhadors vão prdendo, pouco a
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 1 1
pouco, o contole das instituiçõs cradas no prodo rvolucioná­
ro, em virtude da crscente centção e buroratização. É nesse
contexto, na década de 1960, que começam a emergir com feiçõs
autônomas uma sére de movimentos, tais como os movimentos das
mulers, dos negos, os movimentos ecológicos, etc. É possível
encontr manifestaçõs desses diferentes segmentos soiais em pe­
rodos anteriors, mas é indiscutível· que eles não só não const­
tuíam os mais signifcatvos movimentos de questionamento da or­
dem instituída, como tmbém tnham as suas espcifcidades su­
bordinadas aos intersses d causa maior da emancipação do pr­
letariado. A par dos anos 60, contudo, observa-se a crscente
pacipação desses movimentos na cena política ...
Uma verdadeira rvolução nos costumes já começa a des­
pontar nos anos 50, a partr da descobera dos antconcepcionais e
das manifestações de rbeldia dos jovens, exprssas em gande
pae em toro do rock-a-rol. Não se tatava mais, plo menos
no caso dos paíes capitalistas desenvolvidos, de acabar com a mi­
séra e a exploração que caacterzam o desenvolvimento capita­
lista no século XI e prira metade do século XX, até porque as
condiçõs de vida haviam se mocado sensivelmente em virude
das próprias lutas opráas. O italiano Antonio Gramsci, intelec­
tual-militante comunista, havia feito u observação interssante
acerca dessa situação já na década de 1920. Dizia ele· que as pró­
prias conquistas operas, n medida em que erm insttucionali­
zadas pelo Estado capitalista, signifcavam também uma consolida­
ção deste rgime sóio-políc<ultural. E chamava a atnção paa
o fato de que as rvoluçõs anticapitalistas haviam oordo exata­
mnt nos países onde as classes dominantes, seja por cacterísti­
cas histórico-culturais· próprias, seja devido à fagilidade do movi­
mento operário loal, opunham maior rsistência à demandas dos
"de baixo".
A década de 196 assistirá, poranto, ao crscimento de
movimentos que não criticam exclusivamente o modo de produção,
mas, fndamentalmente, o modo de vida. E o cotidiano emerge aí
como categoria centl nesse questonamento. É claro que cotidia­
no e História não se excluem; todavia, há um desÍoamento de ên­
fa.e: enquanto o movimento opráio em sua verente maista do
12 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
minante (social-democtata e Ieninista) insistia na "missão histórca
do proletaado" que, u vez vitorioso sobr a burguesia capita­
lista, rsolvera então todos os problemas cotidianos, os movimen­
tos que emergem na década de 196 paem < situação concreta de
vida dos jovens, d mulheres, d "minorias" étnicas, etc. paa
exigir a mudança dessas condiçõs. É como se observássemos um
deslocamento do plano temporal (História, fturo) para o espacial
(o quadro de vida, o aqui e o agora).
Os exemplos dos beatik e dos hippies são bem a expres­
são dessa postura. Neste sentdo, muito contbuiu a visão da ver­
dadeira chacina que era cometida no Vietã priro pela Frnça,
depois pelos EUA, ao mesmo temp em que oora a difsão dos
meios de comunicação de massa. Agora, a guera podia ser vista
todo dia na hora do jantar, via satélite, enquanto crescia, em con­
taparda, o movimento pacifsta nos EUA e na Europa. Também
nesta direção e completando esse quadro, rgist-se a crse no in­
teror do chamado "bloco soialista" ent a URSS e a China. O
soialismo de vertente ststa que se autoproclamava uma via
única passa a ser questionado. Aal, foram profdos os proble­
mas criados pelas tentatvas de industalização da China, um país
essencialmente camponês, segundo o modelo soviético. Uma ex­
pressão que parcia ter caído em desuso com a chegada da esquer­
da ao poder em alguns países voltou à baila: Revolução Cultural. •
O movimento ecológico tem essas raízes histórco-cultu­
rais. Talvez nenhum out moviento soial tenha levado tão a
fndo essa idéia, na verdade essa prtca, d questionamento das
condiçõs presentes de vida. Sob a chacela do movimento ecoló­
gico, vermos o desenvolvimento de lutas em toro de questõs as
mais diversas: extnção de espéies, desmatamento, uso de agrotó­
xicos, urbanização desenfeada, explosão demográfca, pluição do
da água, contaminação de alimentos, erosão dos solos, dimi­
uu o das teras agrcultáveis pela constção de gdes bara-
n g un a a nuclear, guera bacterológica, corda aentista,
I uolu 11 ue an a concentação do poder, ent outas.
N o h g pr 1ticamente, setor do agir huo onde oorm lutas e
Î v mi • 1 ·
que o moviento ecológico não seja capaz de in-
npur ,
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 1 3
No entanto, nem sempr as pessoas que se mobilizam em
tomo dessas questõs o fazem enquanto movimento ecológico. Por
exemplo, quando os pescadores e camponeses de Ponta Grssa dos
Fidalgos, distto do município de Camos, no nore do estado do
Rio de Janeiro, mobilse conta o assoreamento da Lagoa
Feia, estava se baendo por u modo próprio de uso das condi­
ções naturais de produção - a tera e a água -, prourado gantir
o seu tadicional modo de viver e de prduzir e não se mobilizando
enquanto movimento ecológico. Por outo lao, isso não impdiu
que jovens, sobrtudo universitáos, a eles se juntassem em nome
do movimento ecológico, dando apoio concreto à luta dos co
neses e pescadores conta o tipo de uso que os usineiros e fazen­
deiros queram fazer dos mesmos rcursos naturais. Quer dizer, a
ecologia tem interessado aos mais diferntes segmentos da soie­
dade, apesar de nem todos pam
da mesma motivação polítca e
ideológica. Essa situação, verca-se, não está liv de ambigüida­
des e contdições.
No Brsil, o movimento ecológico emerge na década de
1970 em um contexto muito especíco. Vivia-se sob u ditadura
que se abateu de maneira cruel sobre diversos movientos como o
sindica e o estudantil. A nossa esquerda de então acreditava que o
subdesenvolvimento do país se devia fdamentalmente 8 ação do
imperalismo, que tnha com aliado intero a oligarquia latndiá­
ria. Essa era a rzão do atso e da miséra em que vivia o povo
brasileiro e, em decorência, deveríamos nos bater por uma rvolu­
ção antirialista; de caráter popula, e com o apoio de setors
da burguesia nacional. Assim, acrditava-se, estaa aero o cami­
nho para a moderação da sociedade brasileira, etapa necessária
para consolidar u classe operária que pudesse empunha a ban­
deira do soialismo. E isso paecia pacularente possível quado
se tomava por rferência o exemplo de Cuba que havia consguido
se libertar do gupo impralista, ou seja, Davi vencera Golias. To
davia, aqui a burguesia naional não optou por essa via e se aliou à
buguesia interacional. A FP - Federação d Indústas do
Estado de Sã Paulo foi a gnde aculador dessa aliança desde
a década de 50. Acusando a esquerda de "nacionalismo demagógi­
eoppulista", a FP vai rotula de "verdadeio nacionalism"
J'
aquele que prpõ o desenvolvimento da nação arindo, assim, as
portas do paí 8penetação do capital estangeiro paa que venha a
contibuir para o su desenvolvimento. Verca-se, pornto, u
deslocamento da consideração da questão nacional do plano das
condiçõs soiais - como er coloado pela esquerda - para um
plao técnico-econômico desenvolvimntsta. A burguesia conse­
gue atr não só os investntos estangeiros como também o
apoio da tecnoburoracia civil e, sobretudo, mt. A par da
Junta Mit de 1969 e do govero Médici, assiste-se 8consolida­
ção desse regime autoritáo e desenvolvimentista que vai mosta,
contando a crença da esquerda até então, que ao imperalismo
não interessava a não industalização do país. Será justamente sob
a égide do capital interacional que o Brasil alcançará o mor de­
senvolvimento industial de sua História. Esse desenvolvimento se
fazia ainda
.
num país onde. as elites dominantes não tnham por ta­
dição respeito seja pla natureza, seja pelos que talha. A he­
raça escravocrata da elite brasileira se manifestava numa visão
extemamente prconceituosa em relação ao povo,
.
que seria "des­
preparado". Quanto ao ladio, bastava o desmatamento e a am­
pliação da área cultivada para se obter o aumnto da produção e
isto nos levou a u tadição de pouco rspito pla conservação
dos recursos naturais, a não ser nas lets dos hios e nos súnbolos
da nacionalidade. A distância ent o discurso e a prtca· é gtan­
te: o próprio nome do país, Brsil, é o de u madeira que não se
enconta mais, a não ser em museus e jains btânicos e a nossa
bandeira cada vez corsponde menos ao ve�e de nossas matas ou
ao amarelo do nosso ouro. O azul de nosso céu é cada vez menos
nítido, seja plas queimadas que imdem até que aviõs levantem
vôo dos aeroporos, seja pla poluição de nossos cents indus­
tiais. E o branco, bem ... a cor da paz só se comprende como pia­
da diante de uma ralidade de confitos ent a UR e os camp­
neses ou da presença dos militas no poder quando chegaa no
ponto de prnder líders sindicais, em nom da "segurança nacio­
nal", porque estes faziam manifestaçõs conta as empresas multi­
nacionais aqui instaladas par gerar o nosso desenvolyimento.
Eis o contexto histórico-cultural do qual emerge a preou­
pação' ecológica no Brasil na década de 1970 ... Tecnocrats brasi-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE
15
leiros, pacipantes de semináos e colóquios intracionais, de­
cla que a "pior poluição é a da miséra" e tntam atair os ca­
pitais estngeios pa o país. A pressão da proupação abien­
talista que cresce a nível interacional obrga as insttuiçõs fna­
ceis públicas e prvadas a coloam exigências para a ralização
de investintos aqui: há que se ter procupação com o meio a
biente. Assim, ates que se houvesse enraizado no país u movi­
mnto ,�ológico, o Estado cou diversas insttuiçõs pa gerr o
meio ambiente, a f de que os ansiados investmentos pudessem
aqui aport. Diga-se de passagem que estas insttuiç�s incluem,
nos seus quadros, técnicos que s proupam efetvamente com as
condiçõs de vida, porém a lógica destas insttuiçõs é deternada
pla polítca global de atação de ivestmentos e não plo valor
intseco da questão ambiental. Por out lado, são váos os
exemlos de concessão de emprstmos interacionais, sobretudo
do Banco Mundial e do Banco Interamercano de Desenvolvimento
- BI -, paa que se fzesse a demaação d ters indígnas, d
teras de posseis e rlatóros de impacto ambiental, cujos rcur�
sos não foram utos para os f aos quais se destnava.
Uma out questão importantísia que é. prciso observar
é a que se rfer 8 descentção dos empreendintos, f­
qüentmente rivindicada pelo movimento ambientalista. É prciso
ter em conta que as gndes emresas multnacionais têm possibili­
dades efetvas de descenta seus establecimentos, mantendo,
tdavia, o contole emprsaal, o poder centdo. Já u em­
prsa de pqueno pore não tem como o fazer. Deste modo, há que
se distingur ente dscentalizaã técnica, isto é, quando u
mesma gnde empresa descent geogcamente seus
estabe­
lecimentos que, no entanto, contnuam sob u contle centa­
do da m e dscentalizaão sóio-política, que d rspito ao
diito efetvo de c unidade de proução autodetenna seus
destnos. Como se vê, só na aparência a descentção multna­
cional se concilia com a descentão prposta pelo movinto
abientalista.
Também em fmais da década de setenta, com a anista, r­
tom ao Brsil diversos exilados políticos que vivencia
os
movimentos ambientalistas eurpus e que vão tazer u enon
16 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
enriquecimento ao movimento ecológico brasieiro. Juntar-se-ão a
outs que aqui já vinham defendendo teses ecologistas, como é o
caso de José Lutzemberger. É interssante observar que o movi­
mento ecologista é socialmente mais enado no Rio Grande do
Súl, onde a AGAPAM (Associação Gaúcha de Peservação A­
biental) runiu ecologistas a pair da luta conta a Borgaarde,
empresa multnacional que pluía as águas do Rio Gurba, n
Grande Porto Alegre e onde José Lutzemberger, ex-agônomo de
u gande emprsa multnacional de agotóxicos, romp com a
prspectva da agoquíica e assume prfdaente a causa eco­
lógica e soial. A maior pae dos exilados políticos que abraçam a
causa ecológica se concenta no Rio de Janeiro, estado onde já se
desenvolviam algumas lutas abientaistas, sobretudo no norte­
fuminense (Caos e Macaé, por exemplo) e em Ca Fro (luta
pla preservação d dunas).
São essas, poranto, as ts fontes mais importtes de
preoupação ecológica no Brasil: o Estado, interssado nos inves­
tmentos estngeiros que s chegam caso se adotem medidas de
caáter prservacionista; o movimento soial gaúcho e fuminense,
se bm que essas lu� oorssem em todo o Brasil - vide a luta
nacional da Federção das Assoiaçõs dos Engenheiros Agrôno
mos do Brasil- FAEAB, lideraa por Walter La, conta os
agrotóxicos usados indiscrminante e a elaboraçãó
·
de seu
"Receituáio Agonômico"; e, fnante, a contibuição dos exi­
lados polítcos que aqui chega em fnais da déada de 70.
Assim, de diferents lugas soi�s emergem discursos
ecológicos e prátcas contaditórias ent si. Do ponto de vista d
elites emprsaais e tecnoburorátcas, a maior pae dos ecolo­
gistas são românticos e cont o prgesso e o desenvolvimnto.
E nenhum momnto aitm que os ecologistas são cont a sua
concepção de prgrsso e de dsenvolvimnto. Se, por exemplo, o
movimnto ecológico brasileiro no poe fcar indifernt 8miséra
em que vive a mior pate da nossa população- e esse é um desa­
fo que d u certa espcifcidade ao movimento eológico ent
nós - isso não signifca que se deva faer vista gro�sa ante a de­
snada utação da agoquíica com o objetvo de prpicia o
aumento da proução agícola. Ao contário, deve-s propugna
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 17
pr wa·rfonna aa que incorr outs princípios tecnológi­
cos e que nã coloque, inclusive, os caponeses e demais agrcul­
trs n extma depndência dos bacos e das indústias de ago­
tóxicos. Sab-se que não é mra casualidade o fato de que u dos
dietors do Baco do Brsil, insttuição rsponsável por mais de
80% do crdito agícola no paí; seja executivo de um d maio­
rs fábricas de prutos agoquíicos au instaladas. Consider­
se ta' õém que a indústia bélica, a que mais crsceu na déada de
1970, não é a única fonna d gerar emprgo paa os tabalhadores
brasileiros. Do mesmo modo, a defesa da Azônia não oore
porque é considerada u santuáo intoável, m sim pelo rco­
nhecimnto d que há mais de dez m anos a vivem povos indí­
genas e, há plo menos u século, psseiros e serngueiros que fa­
zem uso da fo�sta sem a destir. Esss povos da foresta reivin­
dica hoje a constituição d "rservas exttvistas" na Amazônia,
prposta que tem rcebido o apoio de diversos ténicos que nela
vêel a possibiida de valorzação econômica da forsta, sem a
costumeira destiçã. Enfm, ser conta a instalação de grandes
hideléticas não signifca estar cont a energia. O que se deseja é
a abrtra de l debate liv e demorático sobr as diversas al­
tratvas energétcas pa o país.
Fica evident, portanto, que o movimento ecológico está
inserido nwa soiedade contitóra e, por isso, são diversas as
propostas aera da apropriaçã
o
dos rcutsos naturais. Saber dis­
tinguir dente esss difernts usos - o que implica estar atento a
quem os propõ - é wna das nossas tafas políticas, pis se todos
falam em defesa do meio ambiente por qu as prtcas vigentes são
tão contaditórias.e, pior, devastadors?
LUTAS SOCIAIS, LUTAS ECOLÓGICAS
De onde emerge o movinto ecológico? Talvez seja interessante
observar os diversos movimentos sociais e verca o que o ecoló­
gico tem em comum com eles e em que se diferncia. Vários são os
movimentos sociais que s aprsentam: são os opráos, os cam­
pneses, os indígenas, as mulheres, os negs, os homossexuais, os
jovens, et. que s orga e luta ... Há um taço comum a es­
ses movimentos: todos eles- emergem a par de deterinadas con­
dições sociais de existência que lhes dão substância.
Há u deterinada condição operáa que foi instituída
atavés de aciradas lutas e que confgura a vida de importantes
segmentos da soiedade. Sã homens e mulheres que não têm
meios de produzi a sua própra extência; que form expulsos da
tera ou nacerm flhos de famíias que foram·expropradas· da ter­
ra e que se vêem obrigados a vender a sua força de tabalho, nem
sempre fazendo aquilo de que gostam ou que melhor saberam fa­
zer. Em virtude dessa condição, lutam cont os baixos saláros,
conta a insalubrdade do meio ambiente da fábrca, conta os rt­
mos das esteiras e das linhas de montagem, enf, conta uma de­
terinada fora de viver, por uma outa fora de viver æ¬. A condi­
ção opráa pode ser obserada com razoável grau de nitidez não
só no fuxo diáo do "rush" das nossas cidades ou atvés dos
camnhõs de bóias-fias, como também atavés de seus movimen­
tos rivindicativos como geves, "operaçõs-tga", passeatas,
etc ...
OS (ES)CAMINHOSDOMEIO AMBIENTE 19
Os camponeses, ao contio, dispõem geralmente de w
pequeno pdaço de tera e de seus instmentos de tbalho; ta­
balham com seus failiaes e vs gatr a rprodução das suas
faias pratcando w agcultura de subsistência e vendendo
u pequena paela excedente dessa proução. No interor de
u Siedade ·capitalista, como a nossa, com feqüência se vêm
aaçados por "gileiros" que possuem títulos falsos de proprie­
dade; pla chegada de u esta que "valoriza" as suas trs -
e atás das estadas vêm os "gileiros", fazendeiros e espculado­
res; pela astúcia. das gndes emprsas e dos bancos que prometem
paga muito . bm se eles produzirem o tabaco, o tomat, a erilha
ou o algoão ... mas depois que se "especia" vêmse obriga­
dos a comprar o que não mais prouzem, establecendos u
toa desigual, onde, ao fnal e ao cabo, quse sempr prdem a
sua tera e vagam plo teritório, indo pa as fntes pioneiras, pa­
ra as aônias da vida, onde se toma possiros e, como t, r­
começam a sua vida camponesa, até que por lá cheguem, outa vez,
a estada, o "grileiro'!··· Há, prtanto, também, u condição
camponesa que pde ser rzoavelmnte loalizada, embra sua
maior ou menor nitdez, t como na condição oa, dependa
das lutas soiais em curso.
Os povos indígenas com sua cultu e seus tertóros tn­
tam rsistr 8 extnçã não só fíica, m também cultul... Até·
porque a vida é mais que biológica: é w detennado modo de ser,
pnsar, sent e agir. Cada vez mais, os povos indígenas a a
sua singularidade, a sua difernça, enfm, a sua cultura. Há, por­
tanto, u existência que poerís chamr de objetiva, inspi­
rndo o movimento dos indígenas e essa objetvidade, sabmos, de­
rva exatamente da sua ação como sujeitos de sua prória
Históra, da sua singularidade.
A mulhers tambm vêm afando a sua singularidade.
Recolhidas ao lar, consideradas como incapazes de agir senão pla
emoão, vistas como objeto sexual� as mulhers, sobrtudo a par
da década de 6, têm oupado cada vez mais espaços na soiedade.
Cada vez se toma mais difícil que o tbual absolva o homem que
matou sua mulher valendo-se da alegação de "defesa legít da
20 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
honra". Há aqui, mais u vez, u condição-muler rzoavel­
mente delineada, da qual emerge o movimento feminista.
Os �egos, tdos como inferiors e por isso escavizados,
lutm pla librdade desde o primeiro dia em que, a contagosto,
puseram sus ps no Brasil. Em 1888 vim o reconhecimento for­
m da sua liberdade, muito embora a favela em nada seja melhor
que u quilomb. Além dos diversos prconceitos a que ad �e
acham submetdos, ou até mesmo por isso, os negros são a grande
pacela da ppulação caerária. Essa condição social de oprssão
e exploração sob a qual se acham vem também sendo a base objeti­
va de onde provém a consciência da negitude, atavés dos seus
movimntos.
Os homossexuais, em virtde dos prconceitos da socieda­
de, se vêm compelidos a viver em guetos, escondidos, onde são
obrigados a conviver com outos excluídos. Lentamente, vão con­
seguindo o seu direito de romper bar eiras formadas pelos ms
invisíveis do preconceito ... Cada vez se mostm mais lúcidos, na
mdida em que não afam a sua opão sexual como sendo a cor­
rta ou a verdadeira, confore a ideologia sexista dominante. Cada
vez mais reivindicam o direito 8dferença; o direito de não serem
discriminados pela sua opção sexual que, diga-se de passagem, é
da inteira rsponsabilidade de cada u. Também aqui existe u
condição socia objetva de onde emerge u mvimento.
O mesmo pode ser dito do jovem que se vê obrigado, 8
mdida que se aprxima da idade adulta, a aceitar rgras de cuja
elaboração não paricipou. Eis a verdadeira raiz do chaado con­
flito de gerações. Toda aquela energia que durante a infância e
adolescência se desenvolveu atavés de folguedos e brinquedos lú­
dicos tem de sér reprimida paa que s imponha o mundo "séro"
dos adultos, onde se tabalha sem prazer, onde a aeitação de tudo
s toma sinônimo de maturidade.
Muito embor a condição de jovem seja sempre passagei,
ela expressa com vigor problemas que a sociedade aprsenta, m
que a ideologia dominante desqualica como "coisas da idade".
Sem perder de vista que a condiçãojovem é extmamente dieren­
ciada nas diversas classes soiais e que em determinadas classes,
como a oprária por exemplo, os conceitos de criança, adolescente
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE· 21
e jovem são quase sempr desttuídos do mesmo signifcado que
têm para as outas classes, é preciso destaca a existência de u
condição soial jovem de onde se originam movimentos soiais
que, via de rgra, questionam os valores culturais dominantes.
E o movimento ecológico? Existe u condição soial
ecológica? Aqui. tlvez se imponha u maior precisão no que es­
tou chado de condição social. Ela d rspito, ent ·outs
coisas, a modo como a sociedade, ao. institur suas rlaçõs, con­
fora o cmo dos indivíduos. Há um corpo operrio, camnês,
indígena, mulher, nego, homossexual e jovem, por exemplo. Não
há um coro ecológico enquanto condição soial. Não há, para o
movimento ecológico, essa base objetiva, produzida e instituída
soialmente atavés de lutas. Essa é u difernça extmamente
signifcatva: o movimento ecológico é mais diso, não aprensí­
vel do mesmo modo que os demais cors que se movimntam so-
ciale politcamente. .
Esse cater difso não desqualifca o movimento ecológi­
co. Ao contário, é a fonte da sua rqueza e dos.seus problemas en­
quanto movimento políto e cultural. Ao propugnar uma outa re­
lação dos homens (soiedade). com a natuza, aqueles que consti­
tuem o movimento ecológico estão, na verdade, propondo um out
modo de vida, u out cultura. Choam-se com valors já consa­
gados pla tadição e que, ao msmo temo, prtuam os pr
blems que queremos ver suprados. É por esse caáter difso de
um movimnto que, no fndo, aponta paa uma outa cultura, que
os ecologistas se encont envolvidos com questõs tão diferntes
como a luta conta o desmatamnto, cont os agrotóxicos, os ali­
mentos continados, o crescimento da população, a urbanização
descontolada, o gigantismo tecnológico e o nuclea, a poluição, a
ersão dos solos, a extnção de as, etc.
Na tjetóra desse movimnto, muitos têm sido os con­
fontos com outos movimentos que também prou a as
suas singularidades. Quando os ecologistas eurpus se coloam
conta o complexo industial militar, cont o militarsmo, se de­
fontam não s com os emprsáros do setor, mas tbm com os
operários que nele tbalham e temem perder seus emprgos.
Quando, no Bri, denunciamos a contaminação de rios por mer­
cúio usado por garimpiros, pequenos prdutores, nos vimos
"apiados" pla gde imprnsa, inclusive por uma gde cental
de televisão que tem interesse no setor. Neste caso, a gde em
22 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
pDs8 sc mOsu8 ms OOmpcIcnIc p8t8 OVìI8t 8 OOnI8mtn8ç8O dOS
ttOs cm VttIudc d IcOntO8s mms sOhsItO8d8s dc guc dìspÔc. Os
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p0bìtO8 mObìltz8d8 pì8 Ldì8 cm nOm dc O8us8s cOOìÓgìO8s c,
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tndO cngtOssm O cXctOtIO dOsdcspOssuídOsutb8nOs.
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Oc l8IO, 8gucìc tìO ptOV8VclmcnIc DOOu scm OOnI8mtn8ç8O, nO cn-
I8nIO, 8 ptOduç8O dc OutO hOOu OOnOcnu8d8 cmgdcs cµtcs8s,
Os OOmìIOs pì8 pOssc d8 Icn8 sc tnIcnsthOm8m c 8 OOnOcnu8ç8O
m8n8 8umcnIOu. M8ts 8tnd8, O mOVtmcnIO cOOìÓgtOO sc V0, OOm
ucgu0nOt8, 8lVO dc susptI8 dc OumpltOtd8dc OOm Os pOdctOsOs.
ÍsIcs, pOt su8 Vcz, n8O t8tO 8Ousm Os cOOìOgtsI8s dc tOmUsmO,
scmptc guc csks sc OOìO8m OOnu8O gtg8nItsmOd8s Otd8dcs, O gt-
g8nIìsmO d

ìnd0suì8s, O OOmpìcXO ìndusuì8ì mìÌtIm, O nuOìc8t,
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¡cdt8 c OuUs OOts8s dO g0ncm. ¡Ot IudO gu8nIO c ì8dO, pì8
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mOVtmcnIO cOOìÓgtOO sc V0 OOOpI8dO Ou nh8ç8dO, 8O s8bOt d8s
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mctO 8 dcsOOm8nç8s gcnct8ltz8d8s. O csI8bcìcOtmcnIO dc um8
Ouu8 Dì8çàO, m8ìs h8nnÔnìO8, dOs hOmcns OOm 8 n8Imz8 - Icm8
dc guc UI8tct m8ìs 8dt8nIc - VtnOuì8-sc, Ou n8O, 8O csI8bclcOt-
mcnIO d8 h8nHOnì8 n8s tcì8çÔs dOs hOmcns çnuc st?Ím O8sO nc-
g8UVO, OOnsI8I8-sc, nO mtmO, u tnOOt0nOt8, pOts scndO O hO-
mcm Imbcm n8Iutcz8, dO tctnO a, pOt guc n8O csI8tímOs
submcItdOs 8s ìcts d8 hmOnì8 cnm nÓs?Lmìc8O n8Oc m8ts ttOO
guc O scu OOmp8nhcìtO ìc8O, um g8IO nßO cmspOdctOsO guc scu
VtzìnhOg8IO,u 8ndOnnh8 n8Ocm8tsdOgucsu8ttm88ndOttnh8...
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gucsIÔs cXucm8mcnIc OOmpìcX8s. ÍmpltO8 OuuOs V8ìOtcs, O guc
pOt st sÓ OOìOO8 gucsIÔs dc Otdcm OuìIut8ì, HOsÓhO8 c pOìíItO8.
ÍmpìtO8 um ouuO OOnOctIO dc n8Imcz8 c, OOnscgucnIcmcnIc, OuUs
ÍOnn8s dc Dì8OtOn8mcnIO cnuc Os sctcs VtVOs, OOm O mundO tnOt-
götOO, cmm, dOs hOmcns cnm st.
O CONCEITO DE NATUREZA
NÃO É NATURAL
É comum ent aqueles que se envolvem com a problemática eco­
lógica citar outas sociedades como modelos de relação ent os
homens e a natureza. As comunidades indígenas e as soiedades
orientais são, via de regra, evoadas como modelos de u relação
hannica com a natuza. Se em diferntes rligiões o paraíso é
projetado no rino dos céus, paa diversos ecologistas este se loa­
l em outas soiedades. Há uma virtude nesse proedimento: ele
oferece um consolo, enquanto ii, para o mundo em que vivemos
-que concretamente não tem consolo. Isto não deixa de ser, 8sua
moda, u crítca 8soiedade que não é t e qual os modelos ci-'
tados, d as utopias. Nesse sentdo, as utopias têm um luga con­
.creto num mundo onde não existem concretamente, sendo por isso
sonhadas e prjetadas enquanto utopias. Por outo lado, esse pro­
cedimento não deixa de ser também u fga dos problemas con­
cretos, muits vezes derivada de uma incomprensão das razõs
plas quais em nossa soiedade e cultura as coisas são do jeito que
são.
Toa soiedade, toa cultu cra, inventa, institui uma
determinada idéia do que seja a natuza. Nesse sentido, o conceito
de natuza não é natural, sendo na verdade criado e insttuído p­
los homens. Constitui um dos pilares atvés do qual os homens
erguem a suas rlaçõs soiais, sua produção material e espiritual,
enfm, a sua cultura.
24 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Dessa fora, é fndamental que rfitamos e analisemos
como foi e como é concebida a naturza na nossa soiedade, o que
tem servido como u dos suportes para o modo como produzimos
e vivemos, que tantos problemas nos tem causado e conta o qual
constituúnos o movimento ecológico.
A NATUREZA NO DI A-A-DIA
Sem que nos apercebamos, usamos em nosso dia-a-dia uma série de
expressõs que tzem em seu bojo a concepção de natureza que
predomina em nossa soiedade. Chama-se de buro ao aluno ou a
pssoa que não entende o que se fala ou ensina; de cachoro ao
mau-cater; de caval ao indivíduo mal-ducao; de vaca, pira­
nha e vea àquele ou àquela que não fez a opção sexual que se
considera coreta, etc ... Juntemos os teros: burro, cachoro, ca­
valo, vaca, piranha e vead são todos nomes de as, de sers
da natuza tomados - em toos os casos - em sentido negativo-r
em oposição a comportamentos considerados cultos, civilizados, e
bons. O antopólogo Lévi-Stauss nos ensina que os rmanos cha­
mavam de bábaros aos outs povos tdos por eles como não civi­
lizados e que a palavra "báaro" originalmente signifcava canto
desaculado d (l es. Poranto, bába era o que é da naturza­
ave - por oposição ao que é da cultu- rmano. Chama-se de sel­
vagem àquele que s enconta no pólo oposto da cultura. E, notem
bm, selvage quer dizer da selva, mais u vez, do plano da na-
tz
A natuza se dfe, em nossa sociedade, pr aquilo que
se opõ à cultua. A cultu é tomda como algo superor e que
conseguiu contlar e dominar a natuza. Da se toma a rvolução
,neolítica, a agriCULTUR, um maro da Históra, posto que com ela
o homem passou da coleta daquilo que a natueza "natualmente" d
26 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
p8t8 8 OOìcI8 d8guÎìO guc sc pì8nI8, guc sc OuìIìVu. LOm 8 8gìOuì-
Iut8 nOs IOm8mOs scdcnImìOs c n8O m8ìs nÔm8dcs. lmìuVOs s8O
8gucìcs guc VìVcm d8 O8ç8, d8 psO8 c d8 OOìcI8 Ou dc um8 8gì-
Ouìtut8 ìtìnct8nIc, pOsIO guc n8O OOnscgucm m8nIct 8Íctuììd8dc dO
sOìO, ncOcssìt8ndO mìgt8t pctìOdìOmcnIc cm busO8 dO 8ììmcnIO.
LOm 8 8gtìOuìtm ìttìg8d8 8ìguns pOVOs sc csI8bcìcOcm sObD um
dcIctmÎn8dO IcnìIÓtìO dc m8ncìm m8ìs pcm8ncnIc, m8ìs cstáVcì. A
Vìd8 sc IOm8 mcnOs ÎnOOnsI8ntc, dOmcsIìO8-sc 8 n8tutcz8 c, 8ssÎm,
ÍOm8m-sc OsbctçOs d8s OìVìììz8çÔs n8 McsOpOtmì8,nOÍgìIO, n8
LhÎn8, cIO. OOmÎn8t 8 n8mtcz8 c dOmìn8t 8 ìnOOnsIöOì8, O ìmptc-
VìsíVcì, c dOmÎn8t OÎnsIÎnIO, 8s puìsÔcs, 8s p8ìXÔcs.
Jcm-sc OOmO ncOcss8tìO O mìÍíOìO d8sìcìs p8t8cVìI8tguc
DIOmcmOs 8O DÎnO 8nìm8ì, tìdO OOmO ìug8t dOs ÎnsIìnIOs. OÍsI8-
dO, 8 ìcì c 8 Otdcm s8O IOm8dOs OOmO ncOcss8tìOs p8t8 cVìt8t O
pnm8dO d8 n8tutcz8, Ondc Dìn8 O O8Os Ou, nO máXÎmO, 8 `ìcì d8
scìV8¯, Ondc IOdOs ìut8m OOnu8 IOdOs. U8sI8 um t8pìdO Oìhm sObtc
Os dìVctsOs ÍsI8dOs OOnsutuídOs OOm su8s ìcìs c Otdcns p8t8 nO-
t8tmOs O gu8dtO dc ÍOmc, dc gucn8s, dc OptcssÔs c VìOì0nOì8s dc
IOdOs Os tìpOs guc cìcs mcsmOs ÎnsIìIuH8m cm nOmc d8OìVÎ1Îz8ç8O
p8t8 OOnst8t8mOs 8 ÎnOOnsìsI0nOì8 dcsIc IìpO dc 8bOtd8gcm. N8
Vctd8dc, cnOOnu8mO-nOs dì8nIc dc um OOnOcìIO dc n8IuDz8 guc
¿ustìuO8 8 cXìsI0nOì8 dO ÍsI8dO. ÍsIccOOndìç8O dc `OìVÎììz8ç8O¯ c
`pnmìIìVOs¯ s8O Os pOVOs guc n8O I0m ÍsI8dO. ÍsI8 cum8 d8s t8-
zÔs p8t8 guc scOh8mc dc Îng0nuO 8O cOOìOgìst8guc Oìt8 OÎndígc-
n8OOmO mOdcìO dctcì8ç8OcnmOhOmcm c 8n8tutcz8.
Aìcm dìssO, 8 cXptcss8OdOmìn8t8n8Iutcz8sÓIcm scnIìdO
8 p8tbt d8 ptcmìss8 dc guc O hOmcm c n8O-n8Iutcz8. . . M8s s O
hOmcm c t8mbcm n8tmz8, OOmO Í8ì8t cm dOmÎn8t 8 n8Iutcz8?Jc-
n8mOs guc Í8ì8t cm dOmìn8t O hOmcm t8mbcm. . . Í 8guì 8 OOnu8-
dìç8O hO8 cVìdcnIc. Ahn8ì, gucm dOmÎn8tì8 O hOmcm? OuttO hO-
mcm? ÍssO sÓ sctì8 OOnOcbIVcì sc 8OcìtásscmOs 8 ìdcì8 dc um hO-
mcm supctìOt, dc um8 t8ç8 supctìOt, put8 - c 8 HìsIÓn8 ¿á dc-
mOnsuOuà fa 8s OOnscgu0nOì8sdcsI8sOOnOcpçÔcs.
A n8Iutcz8 c, cm nOss8 sOOìcd8dc, um Ob¿cIO 8 sct dOmì-
n8dO pOt um su¿cìIO, o hm, muìIO cmbOt8 s8Ib8mOs guc ncm
IOdOs Os hOmcns s8O ptOptìcImOs d8 n8tutcz8. AssÎm, s8O 8ìguns
pOuOOs hOmcns guc dcì8 Vctd8dcÎt8mcnIc sc 8pmpn8m. A gdc
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 27
maioria dos outos homens não passa, ela tambm, d objeto que
pode a ser descaado. A visão tdicional da natureza-objeto
versus homem-sujeito pace ignora que a palavra sujeito com­
porta mais de um signifcado: ser sujeito quase sempr é ser ativo,
sr dono do seu destno. Ma o tero indica também que podemos
ser ou estar sujeitos - submetidos - a determinadas circunstâncias
e, nesta acepção, a wavra tem conotação negativa . . . Eis a o para­
doxo do humanismo moero: sua impriosa necessidade de ar­
mar uma visão de mundo antopontca, onde o homem é o ri de
tudo, o fa esquecer o outo signifcado do tero "sujeito" - o
sujeito pode ser o que age ou o que s submete. A ação tem a sua
contparda na submissão.
Já vimos como em tomo do conceito de natureza se tecem
no dia-a-dia as rlaçõs soiais. Talvez seja agor interessante lo­
c de onde brota essa visão de naturza ente nós.
OS (DES)CAMI NHOS DO
CONCEITO DE NATUREZA NO OCI DENTE
Podemos dizer que a sepaação homem-natuza (cultu-natureza,
história-natreza) é uma característica macante do pnsamento que
tem dominado o chamado mundo oidental, cuja mat flosófca
se enconta na Gréia e Roma clássicas. Quando aos que é o
pensamento dominante no Ocidente, queremos deixar clao que a
ação desse pensamento - que opõ homem e natueza - cons­
ttui-se conta outs foras de pnsar. Não devemos ter a ingenui­
dade de acrdit que ele se afmnou perante outas concepçõs
porque er superor ou mais rcional e, assim, desbarcou-as. Não,
a afmnaçã desta oposição homem-natureza se deu, no coro da
comlexa História do Ocidente, em luta com outas foras de pn­
samento e prátcas soiais. Ter isso em conta é importante não só
par compreender o proesso histórico passado, m, sobretudo, pa­
ra comprender o momento presente. Isso porque o movimento
ecológico coloca hoje em questão o conceito de natuza que tem
vigorado e, como ele perassa o sentir, o pensar e o agir de nossa
sociedade, no fndo coloca em questão o modo de ser, de prouzir
e de viver dessa sociedade.
No Ocidente, já houve época em que o modo de pensar a
natueza foi radicalmente diferente do que tem dominado nas épo­
cas modema e contemporâea, muito embora possamos encontr
na Idade Média e ente flósofos do período clássico grego essa
mesma visão dicotomizada, parcelada, oposta, ente homem e natu-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENE 29
rza. As coisas eram diferntes, pr exemplo, n chaada épca
pr-socrátca 1 quando os flósofos Tales, Anadr, Anaxíe­
nes (todos de Mleto);- Xenófaes (de Cólofon); Heráclito (de Ée­
so); Pitágoras (de Samos); Parênides e Znão (de Eléia); Melisso
(de Lmos); Epédoles (de Aggento); Filolau (de Cróton); Ar­
quitas (de Tornto); Anaxágoras (de ClazÓmna); Diógenes (de
Apolônia) e Le:cipo e Demórito (d Aber) desenvolveram u
conceito de nza bastit diernte daquele que vai coiéçar a
s impor
p
rncipante após Sórates, Platão e Arstóteles.
E o flósofo Gerd Boreim quem nos d:
Em nossos dias, a naturza se contrapõe ao psíquico, ao
aníico, ao espiritual, qualquer que seja o sentido que se
emprste a estas palavras. Mas para os gregos, mesmo de­
pois do príodo pré-socráico, o psíquico tabém pertence
à phsis. Esta imporante dimensão da phsis pode ser
melhor compreendida a par de sua gênese mitológica
( . . . ) Os deuses grgos não são entidades sobrenaturais,
pois são comprendidos como parte integante da natureza
( . . . ) Esta presença (dos deuses) transparce ainda na fase
que é atrbuída a Tales: "Tudo está cheio de deuses!" ( . . . )
Segndo Jaeg�r, Tales_ emprga a palavra deus "em u
sentido u tanto distinto daquele em que a empregariam a
maiora dos homens". Os deuses de Tales não vivem em
u região longínqua, separada, . pois tudo, todo o mundo
que xodeia o homem e que se oferece ao seu pensamento
está cheio de deuses e dos efeitos de seu poder. "Tudo
está cheio de misteriosas forças vivas; a distinção entre a
natureza animada e inanimada não tem fndanto algum;
tudo tem uma alma". Esta idéia da alma, de forças miste­
riosas que habitam a phsis, transfora-a em algo inteli­
gente, empresta-lhe certa espiritualidade, afastando-a do
sem-sentido anárquico e caótico. Veja-se, como exemplo,
o fragmento 67, de Heráclito. "Deus é dia e noite, inver­
no e verão, guera e paz, abundância e fome. Mas toma
foÎ vaiadas, assim como o fogo, quando misturado
com essências, toma o nome segundo o perfme de cada
uma delas. " O ainda o fagmento 6: "O rlâmpago (que
é a Ô de Zus) govera o universo''. Esta idéia de que
deus prtence em algum sentido à physis é característica de
todo o pensamento pré-socráico e continua viva mesmo
em Demócrito ( . . . ) À phsis pertence, portanto, u princí-
30 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
pio inteligente, que é reconhecido através de suas mani­
festaçõs e ao qual se emprestam os mais variados nomes:
espíito, pensamento, inteligência, logos, etc.
A palavra physis indica aquilo que por si brota, se abre,
emerge, o desabrochar que surge de si próprio e se mani­
festa neste desdobramento, pondo-se no manifesto. Trata­
se, pois, de u conceito que nada tem de estático, que se
caracteriza por uma dinamicidade profunda, genética. "Di­
zer que o oceano é a gênese de todas as coisas é virtual­
mente o mesmo que dizer que é a physis de todas as coi­
sas", aímna Wemer Jaeger rferindo-se a Homero. Neste
sentido, a physis encontra em si mesma a sua gênesf; ela
é ark, princípio de tudo aquilo que vem a ser. O "pôr-se
no manifesto" encontra na physis a força que leva a ser
manifesto. Por isto pôde Heidegger dizer "a physis é o
próprio ser, graças ao qual o ente se toma e permanece ob­
servável".
Há ada um trceiro aspecto que caactera a phsis para
os gegos:
A physis é a totalidade de tudo o que é. Ela pode ser apre­
endida em tudo o que acontece: na aurora, no crescimento
das plantas, no nascimento de animais e homens. E aqui
convém chamar a atenção para um desvio em que facil­
mente incorre o homem contemporâneo. Posto que a nossa
compreensão do conceito de natureza é muito mais estreita
e pobre que a grega; o pergo consiste em julgar a physis
como se os pré-socráticos a compreendessem a partir da­
quilo que nós hoje entendemos por natureza; neste sentido,
se comprometeria o primeiro pnsamento grego com uma
espécie de naturalismo. Em verdade, a phsis não designa
principalmente aquilo que nós, hoje, compreendemos por
natureza, estendendo-se, secundariamente ao extranatural.
Para os pré-socráticos, já de saída, o conceito de physis é o
mais amplo e radical possível, compreendendo em si tudo
o que existe. Não se compreende o psíquico, por exemplo,
a partir do modo de ser da natureza em seu sentido atual,
como não se entendem os deuses a partir do nosso conceito
mais parco de natureza. À phsis pertencem o céu e a ter­
ra, a pedra, a planta, o anima e o homem, o acontecer hu­
mano como obra do homem e dos deuses e, sobretudo,
prtencem à physis os própros deuses. Devido a esta am-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 31
plidão e radicalidade, a palavra phsis designa outra coisa
que o nosso conceito de· natureza. V ale dizer que na base
do conceito de physis não está nossa expriência da natu­
rza, pis a phsis possibilita ao homem uma expriência
totalmente oua que não a que temos face à natureza. As­
sim, a physis compreende a totalidade daquilo que é; além
dela nada há que possa merecer a investigação humana.
Por isto, pensar o todo do real a partir da phsis não impli­
ca � ·naturalizar" todos os entes ou restringir-se a este ou
aquele ente natural. Pen�ar o todo do real a partir da phsis
é pensar a partir daquilo que determina a realidade e a to­
talidade do ente.
Pensando a phsis, o flósofo pr-sorático pensa o ser e a
par da physis pode então chegar a u comprensão da totalida­
de do real: do cosmos, dos deuses e das coisas paticulares, do ho­
mem e da verdade, do movimento e da mudança, do animado e do
inamado, do comportento humao e da sabedoria, da política e
da justiça.
É com Platão e Aristóteles que se começa a assistir a um
certo desprezo "pelas pdras e plas plantas" e a um privilegia­
menta do homm e da idéia. Não nos devemos esquecer de que os
consagrados fundad
o
rs da Filosofa, acima citados, viveram du­
rante o chamado apogeu da demoracia gega2• Imediatamente, os
acontecimentos que desembocaram na guera do Pelopon'so colo­
caram em crise o regime soial e polítco de Atenas. É exatamente
no interior dessa crise que desponta a chamada flosofa gega.
Três questõs então aqui se colocam. A p

eira diz respito à
paulatna desqualifcação dos pensadors anteriors como expres­
sando um Jensamento mítco e nã flosófco. Assim, o flósofo se­
ra um pnsador superor em rlação aos que o atecederm. A re­
tórica, a da argumntação, e o sofsta, que tanto a cultvava,
passam a ser trmos pjorativos. Ninguém quer ser rtórico ou so­
fsta. Em segundo lugar, observamos que com esse proesso se ini­
cia u mudança no conceito de phsis, de natuza que, s num
prmeiro momento não aparce senão debilmente, pouco a pouco se
amá até atingir contemporneamente essa concepção de natu­
rza desuada e dest natuza não-hua. Relembraos que
esse processo se afmna com a crse d democia gega. Final­
mnte: hoje, como no passado, a rfexão se im exaúnente nos
32 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
momentos de crise, quando setors d soiedade se colocam a ta­
fa de rpnsa seus fndamentos, seus valores, seu modo de ser. O
movimento ecológico está bem no cento destas complexas ques­
tõs. Não é por acaso que, moderamente, a problemáica ecológi­
ca tansita ent a Ciência, a Filosofa. e a Política, recoloando in­
clusive em novas bases a rlação entr esses tês planos.
Mas foi sobretudo com a ifluência judaico-cristã que a
oposição lmem-ntreza e espírito-matéria adquiriu mor di­
mensão. Os cristãos vão a decididamente que "Deus criou o
homem à sua imagem e semelhança". Note bem: o homm foi cria­
do à imagem e semlhança de Deus (Deus aqui aace com leta
maiúscula e não como paa os pré-socráticos). O homen' é, assim,
dotado d u privilégio. Com o cristanismo no Ocidente, Deus
sobe aos céus e, de for, passa a agr sobre o mundo imperfeitÓ do
dia-a-dia dos morts. Lalizado num luga privilegiado, estaté­
gico, do alto, Deus a tudo vê e contola. A assimação aristotélico­
platônica que o crstianismo fará em toda a Idade Média leva 8
cristalização da sepaação ent espíito e matéria. Se Platão falava
que só a iia era prfeita, em opsição 8 radade mundana, o
cristianismo operaá sua própria leitu, opondo a pereição de
Deus à imperfeição do mundo material. Essa leitura de Astóteles
e Platão efetuada pla lgjá na Idade Média se fez evitando-se
outs leituras atvés da censur, como muito bm o demonstu
Umbrto Eco em O Nome d Rosa. Enfm, com o crstianismo, os
deuses já não habitam ms esse mundo, como na concepção dos
pré-sorátcos. E, apesar da ausação de obscurantismo que mis
tarde os pnsadors moderos lançaão. aos tempos medievais, a
dívida que a Ciência e a Filosofa moderas têm para com a Idade
Média é maior do que se adite. Foi na Idade Média, pr exemplo,
que teve início a prtica de dissecação de cadávers no Ocidente
europeu. Esse fato é de u iortâcia muito gde e se consti­
tuiu numa decorrncia lógica de uma Filosofa q� spaa coro e
a. Se a a nã habita mais o corpo depis de moro, este,
como objeto, pode ser dissecado anatomicaente. Ana, aquilo
que o anima (do ggo âi, a) não está mais prsente. O
corpo, matéria, objeto pode então ser dissecado; esquatejado, di­
vidido. O sujeito, o que faz viver, foi paa os céus ou paa os in-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 33
inferos e o corpo pode, então, virar objeto . . ø O método experi­
mental já estava em prática nos monastérios e universidades católi­
cas muito antes de Galileu.
É com Descartes, todavia, que essa oposição hmm-nt­
reza, espírito-matéria, sujeito-objeto se tomará mais completa,
constituindo-se no cento do pensamento modero e contemporâ­
neo. Em seu Discurso sobre o Métod René Descartes afrma que
"é possível chegar a conhecimentos que sejam muito úteis à vida"
e que
em vez dessa flosofa especulativa que se ensina nas es­
colas, pode-se encontrar numa outra prática pela qual co­
nhecendo a força e a ação do fogo, da água, do ar, dos as­
tros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam
tão distintamente como conhecemos os diversos misteres
de nossos ofícios poderíamos empregá-los da mesma ma­
neira em todos os usos para os quais são próprios e assim
nos tomar como que senores e possuidres da natureza
(os grifos são meus).
Dois aspectos d flosofa cartesiana aqui expressos vão
marcar a moderdade: 1 2) o caáter pragmáico que o conheci­
mento adquire - "conhecimentos que sejam muito úteis à vida em
vez dessa flosofa especulativa que se ensina nas escolas". Dessa
fora, o conhecimento cartesiano vê a natureza como um recurso,
ou seja, como nos ensina o Dicionrio do Aurélio, um meio para se
atingir um fm, e 22) o antropocentsmo, isto é, o homem passa a
ser visto como o cento do mundo; o sujeito em oposição ao objeto,
à natureza. O homem, instmentalizado pelo método cientíco,
pode penetar os mistérios da natureza e, assim, toma-se "senhor e
possuidor da natureza". À imagem e semelhança de Deus, tudo
pode, isto é, é tod-poderoso. Lewis Munford percebeu com pro­
fundidade a herança medieval de Descartes ao afmnar que "des­
graçadamente persistiu o hábito medieval de sepaar a alma do ho­
mem da vida do mundo material, ainda que houvesse sido debilita­
d a teologia que o apoiava". O desprezo pelas coisas materiais da
Idade Média começa a ganhar, a partir dos séculos XVI, XVII e
XVII, um outo sentido, positivo, na medida em que "se pode en-
entar uma outa prática onde poderíamos empregá-los da mesma
34 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
maneira em todos os usos para os quais são próprios' ' , como dizia
Descartes. O antopocentismo e o sentido pragmático-utilitarista
do pensamento cartesiano não poem ser vistos desvinculados do
mercantlismo que se afrmava e já se torava, com o colonialismo,
snhor e possuidor de todo o mundo. Amal, na Idade Média, a ri­
queza dos senhores feudais e da Igreja advinha da propredade da
tera e, na verdade, da exploração dos servos que para a utem
pagavam um. tbuto ou renda. Com o desenvolvimento mercantil e,
com ele, da burguesia a riqueza passa cada vez mais a depender da
técnica (ver a esse respeito o capítulo sobre produtividade). A
pragmátca flosofa cartesiana enconta um tereno fértil para ger­
minar. O antopocentismo consagrará a capacidade humana de
dominar a natureza. Esta, dessacralizada já que não mais povoada
por deuses, pode ser torada objeto e, já que não tem alma, pode
ser dividida, t como o corpo já o tinha sido na Idade Média. É
uma natureza-morta, por isso poe ser esquaejada . . .
Com a instituição do capitalismo essa tendência será leva­
da à últimas conseqüências. O lluminism, no século XVII, como
que antecipando esse desfecho se encar gará de limpar a flosofa
renascentista de seus tços rlgiosos medievalistas. A crítica da
metafísica - de mta além e phsis, natuza, ou seja, daquilo que
está além da natureza, na concepção iluminista, será feita em nome
da fsica, isto é, em nome da natureza tomada aqui no sentido do
concreto, do tangível, do palpável. Para compreender o mundo é
necessário partir do próprio mundo e não de dogmas religiosos ou
que estão além do mundo, quer dier, metafísicas.
A Revolução Industial evidencia a força dessas idéias ou,
como preferem alguns, a Revolução Industial é a base dessas
idéias.
O século X será o do tiunfo desse mundo pragmático,
com a ciência e a técnica adquindo, como nunca, um signcado
cental na vida dos homens. A natuza, cada vez mais um objeto a
ser possuído e dominado, é agora subdividida em física, quúnica,
biologia. O homem em economia, sociologia, antopologia, histó­
ria, psicologia, etc. Qualquer tentativa de pnsar o homem e a na­
tuza de u forma orgâica e integrada tora-se agora mais dif
cil, até porque a divisão não se dá somente enquanto pensamento.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 35
A realidade objetva constída plos homens - o que inclui, ob­
viamente, a subjetvidade, sem o que o homem se tnsfora num
sr exclusivamente biológico - está toda dividida: a indústa têxtl
está sepaada da agrcultura. Se, pr exemplo, no início, cada in­
dusti
à
têxtil constuía suas própras máquinas, encomendando p­
ças aos aesãos, com o anto do númer de indústas têxteis se
criou um merado paa indústias de , máquinas; as 'indústas de
máquinas se espcializam, etc. A divisão soial e técnica do tba­
lho faz pae do mundo concreto dos homens e não pnsa de modo
fagmentado, dividido, dicotomizado, passa a ser cada vez ms ca­
racterstico daqueles que pam ter prdido o sentido de realida­
de . . . São "os que querm voltar ao passado", que "não vêm o
progrsso da História que está sob sus olos", "são româticos",
"idealista", dizem. Sã "ir onalistas" e, assim, "se rfugiam
em sitas religiosas que os arigam". Se o ral é o rcional abso­
luto que a civilização capitalista industial cria, de fato, tem senti­
do cha d iracionalistas e sonhadores os que não se ident­
cam com essa razão, o que nã quer dizer que nã possa haver u
ro crtca alteratva 8razão que oprme e devasta.
A idéia de u natureza objetva e exteror ao homem, o
que prssupõ uma idéia de homem nãon e for da natuza,
crist-se com a civilização industal inaugurada plo capitalis­
mo. As ciências da naturza se sepa d ciências do homem;
cria-se um abismo colossal ent u e out e, como vermos mais
aiante, tudo isso não é só uma questão de concepção do mundo. A
ecologia enquanto saber e, sobrtudo, o movimento ecológico ten­
t denuncia as consqüências dessas concepçõs, embora o fa­
çam, muitas vezes, prados plos princípios e valors dos seus
dettors . . .
NOTAS
1. Diga-se de passagem que chaar os pnsadores que viveram ates do sé­
culo V a.C. , na Grécia, de pré-socráticos já revela um preconceito, na
medida em que se os nomeia pela referência não aos atributos que lhes
são próprios, mas pela evocação daquilo (ou de quem) não são e que lhes
sucede - Sócrates -, o que na verdade signifca recusar-lhes identidade e
36 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
cidadania. Esss homens que nos legaram teses das quais, infelizmente, só
nos chegaram fragentos num estilo de linguagem para nós pouco fami­
liar, têm sido alvo de muitas atenções sobretudo nos últimos anos.
2. Esse marco, apogeu, só tem sentido para nós, porque para os gregos do
século V a.C. aquela época não implicava necessariamente o ápice de um
processo, muito embora fizessem referência aos perigos que rondavam a
democracia grega e que criavam a possibilidade do seu declíio.
A CI ÊNCI A DIANTE DA NATUREZA
Temos insistdo em que toda soiedade, toda cultu, cria um de­
tenninado conceito de natureza, ao mesmo tempo em que cria e
institui suas relaçõs soiais. No interor destas rlaçõs sociais
está embutda, prtanto; uma detenninada concepção de natureza.
Ora, a ciência moera é também instituía por u soiedade, por
u cultura, num proesso que começa a se confgurar com o Re­
nascimento no século XVI e se con�olida nos séculos XVil e
XX. Em conseqüência, a ciência instituía por esta sociedade taz
nela, subjacentes, os pressupostos do real-imaginário desta cultura
que a instituiu como relação social. Estamos, portto, longe da
crença que vê a evolução das idéias - no caso, da ciência, - como
algo que paira acima dos morts. Ao contio, consideramos que
o saber cientíco, insttuído soialmente, como todas as instifui-
õs, não é defnitivo ou imortal.
Ainda que com os riscos de fazermos uma caracterização
umária dos prssupostos que icorora da soiedade que a criou,
podems �r que a ciência modera se congura em toro de tês
ios:
1) A oposiçã homem e ntureza.
2) A oposiçã sujeito e objeto.
3) O paraigma atomítico-inividualist.
38 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
A OPSIÇÃO HOMEM VRSUS NATZA
Já discormos nos capítulos anteriores a respito desta
oposição, tão maante no pnsamento oidental, ente o hmem, a
cultura, a história, de um lado, e a natreza, de outo. Nossas uni­
versidades estão ,estuturadas com base nesta oposição: de um lado,
as ciências da natureza e, de outo, as ciências huas. As ciên­
cias humanas vivem rdicalmente sepadas das ciências da nature­
za e, assim, descobras ralizadas em um ou outo desses camps
fcam nele isoladas, como se houvesse u alfândega proibindo
que saíssem das fonteiras de cada grnde áa do conhecimento.
Assim, por exemplo, se a descobera do código genétco abriu a
biologia para tocas com a quúnica, pois o gene está inscrto no
ácido desoxirribonucléico, o ADN, o msmo não oor ente a
biologia e as teorias de comunicação, a inforática e a ciberética,
muito embora a biologa tbahe com as noõs de código, pro­
ga e memóra . . . Em sítese, é necessário rompr as bariras da
biologia não só para a <Ca como tambm pa as ciências so­
ciais, a teoria da comunicação, por exemplo. E tudo isso sem a
preocupação de reduzir o biológico ao soial ou vice-versa, evitn­
do equívoos do dainismo soial que de moo unilateral reduziu
o soial ao natural, ao biológico.
Mesmo a geoga que, em princípio, não caberia dento
dessa oposição, rproduz no seu interior essa dicotomia atavés da
spaação ent a geogra física e a geoga humana. Os geó
grafos talvez tnham a chance de pnsar em nova� ahordagcns
desta rlação ent o físico e o humano. Toavia enquanto se
mntverm dento dos parâtos do pnsamen.o herdado, poucas
chances terão de super o prblema. Se refetos bm, observa­
remos que a ecologia vem ocupando esse espaço teórico e político
que os geógafos não têm sabido oupar. Na verdade, é de um ou­
t conceito de natureza e, conseqüentemente, de homem que a
ciência, a soiedade e a cultura contempvrnea carecem.
A busca de algo que comprove que o homem não é nat­
z se constitui numa verdadeir obsessão do pensamento herado
no Ocidente. O homem é um ser soial, dizem-nos. Pa o de­
monstr, lança-se mão d exemplos de crianças que form encon-
OS (DES)AMINHOS DO MEIO AMBIENE 39
tadas completamente isoladas de uma soiedade-cultura. As d-
culdades de aiculação da linguagem, os gestos incompreensíveis e
até a postura corral difernte são citados como evidências de que
o homem só é homem se vivendo socialmente, no ambiente de uma
cultura. Or, essa tese só teria substânca se observássemos em vá­
rias comunidades animais como se dá o comportamento de cada in­
divíduo de cada espécie e deois observando o caso de um indiví­
duo em cada comunidade que também fosse encontado completa­
mente isolado e verifcássemos que o comportamento dos indiví­
duos isolados não aprsentava difernças fndamentas em relação
ao da sua msm espécie, o que nos pritiria acrditar que o
comportamento dos animais diferentes do homem deriva exclusi­
vamente de características genéticas e não da convivência deles em
grupo. Mesmo que se pudesse dizer que um grupo de indivíduos da
mesma espécie apresenta deterinadas cacterísticas (enquanto
grupo) que advêm de sua esttu genética, ainda assim caberia
explica por que um indivíduo isolado não apresenta as mesmas ca­
racterísticas quando está sozinho e quando está vivendo em grupo.
Parece evidente que a d
i
ferença detectada se deve 8 soiabilidade
derivada da vida em grupo que teria, no míimo, a capacidade de
slecionar certos atbutos e potencialidades genétcas. Neste caso,
prceb-se a dimensão do pensamento de Spinosa quando afava
que too ser é potência e que a potencialidade de cad ser se de­
senvolve na rlação.
O desenvolvimento recente da etologia, ciência que estuda
o comportamento dos as na sua vida em gupo e, também, da
soiobiologia indica, no míimo, que o viver em sociedade é uma
característca do rino dos seres vivos, sobretudo dos as.
Mais adiante veremos com mais detalhes que tal poblema, em su­
ma, só se coloca em virtude do prssuposto atomísticoindividua­
lista que tem dominado o pensamento oidental e, por conseqüên­
cia, a ciência modema.
Dizer, portanto, que o homem é um ser soial como se isso
o distinguisse dos demais seres da natureza pode ser u afrmação
altssonante mas que pouco faz avançar qualquer esforço de dife­
renciação ente o homm e a natuza, na medida
e
m que os seres
vivos, sobretudo os as, já vivem socialmente. Isso não quer
i i
40 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
dizer que o homem não seja um animal soial, mas que é social
porque é a e os as vivem soialmente. Por outo lado,
essa constatação não autorza uma interrtação ingênua que rdu­
ziria o homem ao rino a sem maiors refexõs. Assim com
ente os as há difernças signifcatvas, e homem tem também
as suas espcifcidades.
Outos auto�s, como Uvi-Stuss, vão tentar dist o
homem da natureza plo fato de os homns estabelecerm interdi­
çõs ou proibiçõs pa o acaalamento. Ou seja, o rlacionamento
sexual ent os hwos está sujeito a rgs aitáas, aciais,
culturais, onde uma sére de possibilidades estão int�rditadas. Por
exemplo: irmãos consangüeos, pai e flha, mãe e fho nã podem
casar ente si. Assi, cada cultu teria suas próprias interdiçõs,
seus próprios tabus, e nisso os homens se distnguiriam dos ani­
mas, da naturza, onde rinaa a promiscuidade ou, se se preferr,
nenhuma lei existria rgulando os acasalaentos. Essa tese, que
quase levou a que se confndisse o objeto da antopologia com o
estudo das relaçõs de parentesco, tuxe-nos uma sére de conhe­
cintos imporantes a rspito das rlações ente os homens. To
davia, o próprio Uvi-Stauss em prefáio rcente a sua antiga obr
Estas Elmentares d Parentesco rconhece que s houver
spaação ent natureza e cultura a linha divisória é extmente
tênue. E assÍ a em virtude de ter tdo acesso a inúros ta­
balhos rgorosos e cientícos que admitem a existência de rlaçõs
de parentesco e de interdiçõs ente alguns pratas superores.
Ironicamente, se a atopologia, com Uvi-Stauss, muito cont­
buiu para a comprensão do homem isso se deu apesar e até por
causa da ilusão de ter pnsado encontr o divisor de águas que se­
pa a natuZa da cultur, isto é, as relaçõs de paenteso . . .
E poeríamos alonga a lista de tentativas que se fr
no Ocidente paa a essa separação ent natureza e cultua,
evoando os exemplos em que a linguagem, a técnica e o tbalho
apacem como a chave da separaão.
Tais consideraçõs nos levam a pnsar n apantemnte
contaditóra difculdade que nós oidentais temos paa conviver
com a difernça. Se natuza e homem são diferntes e na chamada
.natuza os sers são diferntes ente si, por que não aceita com
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 41
tanqüilidade esse fato? Não se pode localizar a a tendência sem­
pr presente no pensamento oidental em sua vertente dominante e
hegemônica de querr justifca a dominação do homem sobr a
natureza e de alguns homens sobre outos homens argumentando
com as diferenças de natureza? Enm, não seria a tendência a
tansformar a diferença em hierarquia, em superior e inferior, o que
explicaia essa discriminação do diferente na nossa soiedade-cul­
tura? Retomemos essas questõs mais adiante. Por ora, avace­
mos um pouco mais na análise das difculdades advindas pa a
ciência modema em conseqüência da concepção de mundo. que tem
predominado em nossa soiedade.
A OPOSIÇÃO SUJITO VUS OBJTO
No mundo modero, com Descartes, o método gaha maior
destaque. O sujeito " o h "q dispondo do domíio de método
cientíco poderá ter aceso aos mistérios da natureza e, assim, tor­
nar-se senhor e possuidor desta, utido-a para os fms que de­
sejar. Hoje, vemos jovens universitários desejando a too custo
domina o método científco que lhes d a chave de acesso à ra­
lidade das coisas. Anal, temos de ser prcos, pois se conti­
nuarmos nessas discussõs mtafísicas, flosófcas e especulatvas,
nunca chegaremos a nada - dizem-nos · não apnas os jovens, mas
tm professors e ps_uisadores que estão certos de que dis­
põm do segdo do acesso aos mistérios do mundo. Nã se aer­
cebem de que eles mesmos foram insttuídos pr esta soiedade e
cultura.
Paa os gregos, a palavra mto signifcava caminho a ser
seguido. Ora, a ciência tenta, exatamente, conhecer o que é desco­
nhecido. Em outas palavras, o cientista constói um deterado
objeto que · considera signifcatvo e que aredita ser indevida ou
insufcientemente conhecido. Daí a prátca comum ent os cien­
tistas de pasa em rvista as diferntes abordagens de um determi­
nado fenômeno e, depois, propor u outa interretação, um outo
·aminho. Nesse sentido, a ciência caa do conhecimnto pr­
umido paa o desconhecido, tenta d-cifr o que está cifado.
42 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
O, se a ciência camnha em direção ao desconhecido, qual é o
caminho - o mto ¯ que leva até lá? Estnho paradoxo esse o de
pretender domina um método que nos prmita desvenda o misté­
ro da natureza das coisas antes de ent numa relação efetiva com
elas. Na verdade, como nos ensina o fíico e flósofo Gaston Ba­
chela, nenhum método pode ser constuído a não ser na rlação
com o objeto. Ou, como dizia Eesto "Che" Guevara, "EI camiío
se hace a caminar" . . . Estas observaçõs, sabemos, poderão ser
classifcadas de "espntaneístas" ou romântcas e seremos, talvez,
censurados pr essa associação pouco usual de Bachelad e Gueva­
r, quando eles se envolviam com preocupaçõs tão difernts. To­
davia, talvez o que autorza exatamente essa aproximação seja a
abertura e a fexibilidade de espíito que esses dois homens conse­
guiam ter diante de questõs tão sérias como a ciência e a políti­
ca . . . Seriedade e rigor cientíco não devem ser, poranto, confn­
didos com dogmatismo.
Sujeito e objeto prssupõem uma relação, um diálogo per­
manente, pois é nessa tensão que se produz o conhecimnto. O su­
jeito, o cientista, não é o lado ativo que se opõe ao objeto, o lado
passivo. Não se pode fazer qualquer prgunta ao objeto que nos
dispomos a investigar . . .
A separação ent espíto e matéria, tão caa à flosofa
medieval, assume feiçõs moderas na separação en�e sujeito e
objeto. O homem - o sujeito - debruça-se sobre a natureza-objeto,
tomada coisa. Não há problema, portanto, se dividimos a natureza
em ttos objetos cientícos quanto possível, pois se tata de uma
"natuza-morta". Estanho seria se nos dias de hoje a natureza e
os homens não estivessem devastados e massacrados em função
desses pressupostos. A revolução industial, muito mais que uma
profnda rvolução técnica, foi o coroamento de um processo civi­
Iizatório que almejava domina a natureza e paa tanto submeteu e
sufocou os que a ele se opunham. O absurdo é que tal projeto teve
- de antemão - de coloca o homem como não-natureza, pois se o
homem não fosse assim pensado a questão da domnação da natu­
reza sequer se colocaria. Ironicamente, a falácia dessas teses que
opõm peremptoriamente o homm à natureza fca' evidenciada na
constatação de que historicamente a dominação da natureza tem si-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 43
do, via de regra, a históra da dominação do homem pelo homem e
isso, evidentemente, não tem nenhuma justifcativa na naturza . . .
Pensar a naturza, portanto, signifca tzer 8 tona profn­
das implicaçõs flosófcas e nós que assumimos plenamente a
ecologia temos de ir o mais fundo possível nessa reflexão para não
resvalarmos nas siplifcaçõs que tantos danos nos têm causado.
Em nome da ciência, do seu rigor teórico e metodológico,
tem-se justifcado toda uma prática de dominação dos homens e da
natureza. Já vimos muitos amnarem que a culpa por este desdo­
bramento não é da ciência. A ciência não é um saber que para
acima dos homens, mas futo de uma relação social instituída. Af­
nal, foi em nome de um saber objetvo, capaz de promover a felici­
dade humana, que a ciência se amnou fente 8 flosofa e 8reli­
gião, com os iluministas do século XVI. . . Os dogmas religiosos
que tantos obstáculos colocavam 8 compreensão do mundo deve­
riam ser abolidos para dar passagem 8vida . . . Aqueles que hoje vê­
em a ciência servir par a destição de hiroshimas e nagasais, pa­
ra a corda aamentista, para o genocídio e para o aniquilamento
das condições naturais da vida, devem-se interogar sobre o con­
texto sóio-histórico que instituiu essa ciência . . . Muitos já o estão
fazendo e, sobretudo ent os jovens, vemos uma fontal recusa a
esse prjeto civilizatório. Não é por acaso que a ecologia enconta
ente eles gnde simpatia. Muitas vezes se tem tentado desqualif­
car esse movimento exatamente por esse seu perl de jovialidade.
E como os jovens, pela própria (de)formação que a sociedade lhes
impõ, não são iniciados nos argumentos "sérios", "cientícos" e
"racionais", sentem-se deslocados, indo muitos buscar em seitas
religiosas e prátcas místicas abrig�para as suas angústias e espe­
ranças. É comum ente eles se criticar a razão, pois o que consta­
tam é que em nome dela se explora, oprime e devasta. Recordemos
Herbert Marcuse que alertava os jovens pa o fato de que chamar
de rcional a General Motors era fazer-le um elogio que ela não
mercia . . .
É preciso enfatizaos que a visão de mundo que tem sido
hegemônica em nossa sociedade, com seus conceitos de natureza e
d homem, não s amnou porque era melhor ou superor. Aceitar
ssa tese só tera sentido se ignorássemos que muitas d questõs
4 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
que hoje levantamos já o haviam sido no passado por outos que
foram sufoados, silenciados e oprimidos. É esse "silêncio dos
vencidos" que tentmos resgatar, vendo na história o lugar de ten­
são não sô ente teoras m, sobrtudo, ent prátcas; percebndo
que aquelas que porventura são instituídas . fazem questão de se
arsentm como naturais e, com isso, prouram ofuscar que, ao
se instituím, o fzeram sufoando outas possíveis práticas que te-
riam dado origem a u outa história.
.
É por isso que devemos buscar na história, ds-cobrr
aquilo que o discurso ofcial encobre e, com isso, superar aquela
arogância típica dos ignorantes que, muitas vezes, pensam que
estão sendo inovadores ou criativos . . .
As instituiçõs que se impuseram em nossa sociedade pre­
tendem aparcer a cada um de nós como habituais, rotineiras, eter­
nas, em suma, natrais. Não deve nos escapar esse sentido de na­
tureza que está embutdo na afmação que acabamos de fazer.
Nela o natul quer dizer o imutável. . . Com freqüência ouvimos di­
zer que sempre houve rcos e pobres ou opressores e opridos e
que, pranto, isso é natural - logo, imutável. Isso não passa de
uma boa maneira de se deixar tudo como está. Pretende-se congelar
a história, a soiedade e a cultura, enm, manter o status qu. A
natureza é evocada como a imagem do "é assim" desde os primór­
dios, do sempre igual, do ms. Portanto, devemos ter muito cui­
dado quando nos tentam convencer de que isso ou aquilo é natur�
pois, quase sempre, o que se está querendo exatamente escamotear
é aquilo que é da natureza da história, da soiedade e da cultura,
isto é, a tensão e o confito de onde o novo, o diferente, podem
brotar.
A ci_ência, ela própria, também é instituída e, dessa forma,
como expressão de uma relação soial não pode ser encarada como
estando acima ou abaixo dos homens que a instituíam.
O PAADIGMA ATOMÍSTICO-IDIVUALISTA
DA CIÊNCIA MODERNA
Uma outa característica que tem marcado a ciência mo­
dema, e com ela a abordagem do que seja natureza e homem, é a
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 45
concepão atonstico-individuaista nela prdominante. Como nos
d Serge Moscovici:
Tudo agora é moldado segundo esse padrão: átomo perma­
nente, indivisível, ou mônada s�m portas nem janelas, or­
ganismo lutando pela sobrvivência - o mais forte há de
vencer! - animal agregado a uma horda; compmdor ou
vendedor no mercado; sábio isolado à voltas com os
enigmas do universo. Em física, em biologia, em econo­
mia, em flosofa, em toda parte, o indivíduo é a unidade
de referência. Expressão acabada da essência das coisas e
do homem, encaa a natureza humana e atesta seu estado
originário.
Ao longo do século X, ·a investgação reducionista tiun­
fou em todas a fentes. Nos d Edgard Morn:
Isolou e recenseou os elementos constitutivos de todos os
objetos, descobriu as menores unidades da matéria, prmei­
ro concebidas como moléculas e depois como átomos, re­
conheceu e quantifcou os caracteres fndamentais de toda
a matéria, massa e energia. Assim, o átomo rsplandeceu
como o objeto dos objetos, pmo, pleno, insecável, iredu­
tível, componente universal dos gases, líquidos e sólidos.
Todo movimento, estado ou propriedade podia ser conce­
bido como quantidade mensurável em referência à unidade
prmeira que era própria dele. · Assim, a ciência fsica dis­
punha, nos fnais do século X, duma bateria de grande­
zas que lhe permitia caracterizar, descrever e defnir um
objeto, fosse ele qual fosse. Trazia, ao mesmo tempo, o
conhecimento racional das coisas e o seu reconhecimento.
O método de decomposição e de medida prmitiu· expr­
mentar, manipular, transfoÎ o mundo dos objetos: o
mundo objetivo.
Na física, o átomo; na biologa o organismo, depis a cé­
lula e, fmalmente, a unidade elementa, a molécula; nas ciências do
homem, o indivíduo - enfm, por toda a parte a unidade element,
ndivisível, nuclea, o indivíduo, reinava.
Todavia, foi no prosseguimento das psquisas cientíicas
· esse padiga começou a ser problematado:
4 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
No início do século X o átomo já não é u unidade
priira, indivisível e irdutível: é um sistema constituído
por partículas em interaçõs mútuas - um sistema. E não
vai ser tão fácil transfora a patícula na nova unidade
indivisível e iredutível. Rutherford transformou o átomo
num pequeno sistema solar constituído por paculas gra­
vitando em .toro de um núcleo, tão maravilhosamente or­
denado como o grde sistema astl. No entanto, a ordem
newtoniana não foi tansferda· dos céus para os subterrâ­
neos do átomo. As paculas sofem de u · ''crise de
identidade": não é possível isolá-las de modo prciso no
espaço e no tempo e hesitam entr a dupla e contraditória
identidade de onda e de corúsculo. Perde por vezes toda a
substância (o fóton, em repouso, não tem massa). É cada
vez menos plausível que seja um elemento primeiro: ora é
concebido como um sistema compsto por qurks (e
o qurk sera ainda menos rdutível ao conceito clássico
de objeto do que a partícula), ora é encarado como um
"campo" de interação especíca. Enfm, foi a própria
idéia de unida� elementar que se torou problemática:
não existe talvez uma última ou primeira realidade indivi­
dualizável ou isolável, mas sim M connu ¯ teoria do
Bootstrap - ou uma raiz unitária for do tempo e do espaço
(Morin, Egard. D 'Esgn, 1972).
Com o desenvolvimento da etologia, ciência que estuda os
hábitos dos as e d suas acomodaçõs à condiçõs do am­
biente, fcou cada vez mais di comprender a evolução da vida
a, tomandose como paâmeto o comorento de u indi­
víduo a part da dissecação do seu coro em labortório. Há que
se rconhecer, hoje, que a vida em soiedae já existe naquilo que
chamávamos de ntz, sobrtudo no rino a:
Agor começamos a prceber a fgilidade dessa divisão.
Enquanto nosso intersse se voltava para os mecanismos
fsiológicos, para os aparelhos seOsorais e para os esque­
letos, tomando o indivíduo como unidade de análise, tanto
no homm com no animal, as associações estabelecidas
por este último eram consideradas curiosas e esporádicas.
As colméias de abelhas e as colônias de forigas servi
mais para tema de discursos morais, que matéria para con-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 47
clusões cientícas. Entretanto, auem as inforaçõs ar­
mazenadas e classicadas com muito cuidado por inúmeros
psquisadores. O levantamento das associaçõs estáveis
coin benefcio rcíproco, em numerosas espécies, mostrou
a corelação entre as exigências do me�o e as regularidades
de u comprtamnto eminentemente social. Em suma,
existe sociedade em toda a parte onde existe matéria viva
rlativamente organizada; ela não começou com nossa -s­
pécie ( . . . ) Pt, golfnhos e até pássaros possuem fa­
culdades de aprndizagem e criação de novos comporta­
mentos e delas dependem para seu alimento e reprodução.
Contraando o lugar-comum de uma maturação biológica
individual, os animais, à semelhança das crianças em esta­
do selvagem, isto é, sozinhos, isolados, não se desenvol­
vem normalmente e é-lhes indispensável o contato com a
mãe e os semelhantes (Serge Moscovici).
Essas descobertas não tomam os homens iguais aos outos
as, pois cada espécie se organiza soialmnte de modo pr&
prio.
Na Economia, a mais bem situada das ciências huas,
onde se avançou no sentido da utilização dos recursos teóricos e
mtoológicos d ciências da natureza, o paradigma continua a ser
o do indivíduo. É como se tudo tivesse começado com Robison
Cruso na sua ia, sozinho, preocupado, não s sabe bm por que,
com a poupança e com o excedente. . . . A psicologia mas primária
est subjacente a essas teorias domantes. Na economia o homo
economicu é visto sob a ótica da "propnsão paa o consumo",
' 'propnsão para a poupança", etc. Vercou-se na economia um
verdadeiro rtoesso em relação a Quesnay, Ad Smith, David
Ricardo, Karl Ma e Stuart Mil que, · apesar d dierenças que os
Nparam, sempr pensaram o proesso econômico como constituído
r - e constituindo - relaçõs e classes sociais.
Se não houver, por exemplo, uma pae da sociedade to­
tal mente desprovida de mios próprios para produzir a sua vida,
o trabalho assalaado não existe e sem ele o capital não tem senti­
d 9 . . E esse processo de expropração do tabalhador da tera e de
us outos instmentos e meios de produção não foi econômico.
48 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Ele se deu atvés da violência, com muito sangue, suor e lág.
Isso quer dizer que paa a economia fncionar sob a for capita­
lista prssupõ, não só na origem m no dia-a-dia, mecanismos
ext-econômicos dos quas lança mão paa gantr que o taba­
lhador venda a sua capacidade de tbalho. Talvez uma históra
acontecida no séulo passado sjrva para esclacer o caráter soia
da economia: um empresáo inglês, de nome Peel, rsolveu se
tnsferr para a Austáia. Lvou consigo dinheiro e inúmers fa­
mias sob o seu patoíio pa migm. Deste modo, tinha o di­
nheiro, os tbalhadores e, na Austáia, recursos naturais em
abundância. Todavia, aquelas famias que havia sido exprpria­
das da tera na Grã-Brtaha, ua vez chegadas à Austáia rsol­
veram se apropra d teras ali . disponíveis. Peel fcou com seu
dinhei sem se valorzar, pois havia esquecido de levar pa lá u
juiz pa decretar que a tera era propredade privada e, assim,
aquelas faias fca privadas de as utlizar; a polícia paa
prnder quem desobedecesse à Lei; u pade par dizer que aquilo
era sagdo e o professor para dizer que tudo aquilo er natul.
Como nada disso foi instituído por Peel, o capitalismo teve de es­
prr mais alguns anos pa se implantar com tudo isso que é ne­
cessáo para a sua existência.
Como se vê, o capital é uma relação socia que se instaua
num contexto de luta e não porque é melhor, mais raciona ou natu­
r. Estamos, pranto, muito longe de u concepção atomísti­
coindividualista. A continuidade/reprodução de uma sociedade em
bases capitalistas pressupõe não só a gantia dos .meios materas
necessários a cada ciclo de produção, mâs também a rprução
das classes soiais, fazendo com que haja sempre pessoas sem con­
diçõs de prduzirem/manterm as suas próprias vidas e que, as­
sim, precisam se submeter aos donos do capital. Como não há ne­
nhua lei objetva que govera essa luta para rprodução das rela­
çõs sociais - posto que ela prssupõ luta - a economia nunca
poderá ser uma ciência exata. Em suma, não há como contnua
pensando em teros de indivíduos. A sociedade hua não é uma
soma de indivíduos!
Por todo o lado cai por tera o paradiga ãtomístico-indi­
vidualista e, com ele, to uma visão que opõ natureza e cultura.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 49
Não é mais possível continuar dizendo que o homem é um animal
soial, pois não é isso que nos distingue dos demais seres vivos.
Tanto Morin como Serge Moscovici, ent outos, inforam-nos de
u sére de pesquisas rigorosamente controladas, onde existem
"comportntos e papis tdicionais tnsmitdos de u ger­
ção a outa por iniciaçõs individual e coletiva".
O DIA-A-DIA IDIVIDUALISTA
Esta concepção atomístico-individualista que pnetou a
imaginação do homem modero - sua ciência, sua flosofa, seus
conceitos de natuza e de homem -, não se desenvolveu indepn­
dentmente do que ocoria na vida cotidiana dos homens do século
XV.
Dessa époa em diante, cada vez mais as rlaçõs meran�
tis penetram a vida dos homens. Não só nas cidades mas também
nas áas rurais começou a se generaar a prátca de os senhors
feudais cobrarem aos seus servos taxaçõs e tibutos em dinheiro e
não somente em dias de tabalho ( corvéia) ou em produto (parte da
produção que podia ser a meia, a terça ou a quaa). A geografa
social muda: quando um servo paga o tibuto ao senhor somnt
em tabalho ou em produto, ele o faz no interor do feudo; quando
ele se vê obrigado a efetuar o pagamnto em dinheiro, ele tem de ir
ao mercado, 8feira, 8cidade. Ent o senhor e o servo temos agora
não só o dinheiro, mas também a cidade e o comerciante. Ent os
camponeses começa a se produzir uma diferenciação social: de um
lado, alguns camponeses rcos, de outo, camponeses pobrs. É
claro que o número desses últimos era maior, pois exatamnt plo
fato de muitos deles produzirem a mesma coisa pa vender no
mercado, criava-se u situação de ofera maior que a proura.
Assim, muitos deles se viam obrigados a contair dívidas com juros
altíssimos junto aos comerciantes para, voltando ao feudo, pagam
us tbutos em dinheiro. Isso levava a que, no próximo ciclo de
produção, o camponês tvesse de produzir cada vez mais com o
lho no mercado, pois tinha que pagar não só o tbuto devido a
nhor, como tabém o que havia conto de empréstmo, acres-
50 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
cido dos juros. Tudo isso, na prátca, tduzia-se em dedicar cada
vez mais seu tempo 8produção para o mercado, assim como desti­
nar parcelas cada vez maiores de sua gleba (parte da tera que usa­
va enquanto pagasse o tbuto) com essa fnalidade. Quanto mais
tempo e espaço passa a dedicar ao mercado, isto é, 8produção de
valores d troca, menos tempo e espaço dedica 8produção de va­
lores d uo. Assim se vê obrigado a adquirir na cidade as cojsas
que antes produzia no âmbito doméstico. Muitos camponeses joga­
dos nessa situação começam a perder as suas teras e a vagar pelo
teritório, como indivíduos isolados, desterados, 8 procura de
quem os empregasse.
As comunidades camponesas começam a ser dissolvidas
não só por esse processo, mas também pela violência pura e sim­
ples de aristocratas ávidos em ganhar dinheiro, aburguesados, en­
quanto u grande número de indivíduos sós vagabundeia, mendi­
ga, perde seu emprego.
É a isso que muitos vão chamar cinicamente de "conquista
da liberdade individual", na medida em que os servos-camponeses
passaram a fcar livres da opressão feudal e ganharam a liberdade
de ir e vir, não estando mais presos 8tera. Adam Smith, no fmal
do século XVI, aa que essa mobildade individual se cons­
tituía na fora mais livre de relacionamento social: os servos, li­
vres de oprssão feudal, podiam i para qualquer lugar e os capita­
listas também ganhavam maior liberdade na medida em que com
esses tabalhadores livres podiam emprgar seus capitais produtiva­
mente. Se o servo, ao deixar de ser camponês e se tansforar em
u assalariado em potencial pode, agora, toar de senhor, ou me­
lhor, de patão, ele se verá constangido de múltiplas formas a pro­
curar sempre u patão. Em outs palavras, ele pode tocar de
patão mas terá sempre que buscar u patão. Se antes era mais fá­
cil loalizar no senhor o seu opressor, agora a questão se tora
mais difsa, mistifcada pela idéia de liberdade individual.
Esse individualismo que cada vez mais se ava e que
concretamente aparecia legitimado, posto que contariava a ordem
senhoral dos Estados absolutistas, pereará as diversas institui­
çõs, inclusive a ciência, a flosofa e suas concepções de natureza
e homem. Portanto, o paadigma atomístco-individualista que ca-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 51
racteriza a ciência modera tem profndas raíes na ralidade his­
tórico-concreta dos homens, marcada por intensas revoltas capo­
nesas da burguesia mercantil e industial conta o primado da
nobreza.
O NATAL É O JSTO. É?
Natureza e justça se toram quase sinônimos a partr de
fnais do século Xil. Adam Smith. proura o preço natul, o
preço justo, enfm, o ral valor d mercadorias. A natureza passa
a ser uma. espécie de modelo paa a soiedade: t ordem é justa
porque está d acordo com a natureia. A natuza, ao contário dos
homens, não tem subjetvidade, dizem. Portanto, pode ser estudada
objetivamente e a comprensão d suas leis, dos seus processos,
da ordem que a govera deve servir de ponto de referência paa
uma sociedade racional, livr das paixões, das ideologias e da
subjetividade típica dos homens.
Atentemos para essas palavras tão cas 8ciência modera:
lei, regras (regulrs), processo e ord. São todas palavras
de vocabulário jurídico e, conseqüentemente, político, na medida
em que o direito está bem no cento d relaçõs socias. A ciência
que vai apacer ao cidadão comum como neuta, como ç . luga da
verdade, retira do campo jurídico e político os seus conceitos mais
signicativos . . . Acrescentemos, 8 guisa de maior esclacimento,
que o campo jurídico-político, por sua vez, é o luga da tensão, do
confito e da luta, portanto, onde menos se pode falà em neuti­
dade.
No entanto, essa visão se imprá, não sem luta, sufoando
outs visõs e práticas sociais. A busca de uma ordem natural pa
os homens levaá 8 suprvalorzação das ciências da natureza. A
física newtoniana será o paradigma da cienticidade. Augusto
Comte, considerdo por muitos como o fndador da sociologia,
chaá a nova disciplina pelo nome de fsica social.
Todavia, se a concepão newtoniana do universo consegue
nos explicar o movimento sicronizado dos astos, elá não dá conta
inteiramente da evolução do universo, pis consttui uma visão
52 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
apnas sincrônica e não diacrônica. Tal e qual wn relógio, o mo­
vimento dos astos imaginado por Newton era etero, sempre
igual . . . Ficava, poranto, em abero o problema da evolução. Hegel
tentará explicar a evolução atavés de u dialética fechada que ti­
nha wna fnalidade dada de antemão, já que a humanidade caminha
em direção 8 Razã (ao Espúito Absoluto). Mas Hegel, apesar da
sua genialidade, não consegue explicar para o espíito do século
XIX a evolução com base na natuza e sim com base na idéia. O
século XIX terá de esperar por Chales Da para conseguir wna
explicação "natural" da evolução. Com ele, a evolução fca prova­
da como wn proesso natural e, portto, objetivo. De Da para
o "dasmo" foi wn passo. O "dainismo" torou-se o para­
digma de cientcidade: Ratzel e Kropotn, apsar de suas posi­
çõs antagônicas, prolamam-se como geógrafos dastas;
Spencer na soiologia e W. Moris Davis, na geologia, também. A
evolução passa a ser concebida como wn processo natural, inexo­
rvel e independente da vontade dos homens. Tem o seu tempo
certo, como u futa que não pode ser ar ancada antes ou depois
do tempo. . . Daí, com feqüência serem tachados de radicais ou
"ideológicos" aqueles que desejam mudar a ordem soial e políti­
ca, posto que são conta a ordem natral d coisas que é u
evolução lenta, gradual e segura. Portanto, a ordm é necessária
a progresso.
E isso tudo em meio ao progresso concreto das chaminés
das indústias na paisagem negra de poluição da Inglatera e de to­
dos os países que s industializavam. Cada fábrca especializada
também exigia um saber especializado e, assim, a ciência fag­
mentada, individualizada, dicotomizada, torava-se, no míimo,
corente com wn mundo de homns fagmentados, onde uns pen­
savam e outos oprvam, isolados, individualizados, fagmentados.
Se Adam Smit vai falar da "mão invisível" que estabele­
c o equilíbrio ente a oferta e a procura, pouco a pouco essa ' 'mão
invisível" começará a ser assoiada cada vez mais ao Estado, auto­
ridade reconhecida para goverar todos esses átomos eráticos. E
alguns países, a "mão invisível" terá o nome de Plano, goverando
a tudo e a todos par gaantr o progesso materal que, segundo se
acredita, antecede necessariamente a liberdade.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 53
O tunfaismo que envolve a visão do século XIX tem
alimentado o silêncio sobre aqueles que tentaam uma outa histó
ra, outs instituições, outa relação dos homens com a natza,
out relação dos homens ente si, outa relação ente o saber e a
sociedade: os socialistas utópicos, os anarquistas e os comunistas
tavaa bathas memoráveis: 1848 e 1871 , por exemplo. Ma
chamou a atenção para a historicidade da matéria, da natureza e
dos homens e fez consideraçõs acerca de u evolução n�o-linear
da históra humana; Fourier foi sensível 8 opressão e exploração
das mulheres; Pldhon e Ba nos falaram do poder opressor
do Estado; Frud recusou as interrtações biológicas e natstas
do psiquismo e encontou na história de vida individual, condicio­
nada sócio-culturalmente, as razões do histerismo e outas mani­
festaçõs do psiquismo; Nietzsche recusou a razão totalitária e re­
descobriu uma outa Grcia silenciada pelo tiunfo do rcionalis­
mo. Haeckel crou a ecologia e se coloou fontmente conta a
fagmentação do. conhecimento em nome do moniso. Enfm, essas
falas apontavam para a gstação de um outo mundo e o fato de
estes projetos terem sido derotados não signifca que eles não t­
vessem suas razões. Aal, derota não signifca ero, mas, sim­
plesmente u d conseqüências possíveis da luta. Só para os
vencedores a históra é a históra da Razã, com R maiúsculo, e
não a vitória de u razã, de u verd, sobre outos possí­
veis históricos. Os problemas com que hoje nos defontamos são
tbém-problemas dssa Razã e de suas práticas vitoriosas.
A CIÊNCIA CLÁSSICA EM CONONTO
COM OS NOVOS FDAMNTOS DA CIÊNCIA
Já vimos como o atomismo-individualista começa a ser
questionado plas novas descobertas da física, da biologia, da so­
ciolgia, da economia, etc. A separação platônico-medievalista en­
t idéia e matéria ou espíito e matéria, taduzida moderamente
pla separação ent sujeito e objeto, atavés de Descaes, começa
também a ser abalada nos seus fndamentos pelas nova práticas
cientícas em desenvolvimento.
54 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Frud, apesar de ter assinado wn manifesto em defesa do
positivismo em 1912, assenta wn poderoso golpe nesta concepção
flosófco-cientíca. Em primeiro luga, ao não aceita que a histó­
ria de cada wn derve de causas biológicas, ou melhor,fsiológicas.
Recusa, assim, o natsmo que grssa no século XI. Cada vez
mais, seu interesse se desloca paa a etologia, a aqueologia, a
flosofa, e a história, apesa de sua fonnação médica. O rcém­
inauguado Museu Freud, em Londrs, rvela que 70% da sua bi­
blioteca era constituída de livros dessas áreas e não de medicina.
Em segundo lugar, Freud estabelece com a psicanálise uma rlação
ente sujeito e sujeito e não de sujeito-objeto. Na prtica psicanalí­
tica, o sujeito cognoscente, aquele que se prpõ a conhecer, não
se relaciona com wn objeto de conhecimento, m com u outo
sujeito que também se propõe a conhecer. O "objeto" de conheci­
mento só tem sentdo se ele de alguma maneira fala, isto é, existe
enquanto sujeito. Estamos assim diante de wna outa prátca cient­
fca, muito longe de positvismo.
Na atropologia, pelo menos desde os fncionalistas Mali­
nowski e Margaeth Mead, não se pode julga w povo, uma cult­
r, enfm, wna comunidade a par dos valores de quem as estuda.
Lévi-Stauss no seu excelent Raa e Hitór nos aponta as limi­
tações do etocentismo. É peciso que os atopólogos não tomem
os povos que estudam como siples objetos, m que deixem que
eles falem par comprenderm os seus valores como valors pró­
prios e iredutíveis a uma outa cultura. A crítica ao etocentsmo
- que via os outrs povos como sendo estágios de wn úico desen­
volvimento da cultura europia - por sua vez, não pode descambar
para wna espécie de relativismo cultual que acabe por ignorar a
especifcidade de cada cultua. Se isto muitas vezes ooreu, foi
porque, nesse caso, a crítica também se fez de fora, como alguém
que compara de cima as diversas cultuas e declaa que cada povo­
cultura é diferent. Deve fca cla, fmalmente, que essa crítca
necessária ao relativismo só se torou possível pela crítica perti­
nente deste ao etnoentismo. O antopólogo que se propõ a co­
nhecer wn povo-çultura deve deixar que ele fale para tentar com­
prendê-lo. As comunidades prmitivas, por exemplo, não podem
mais ser tatadas como objeto. Voltaremos a esse assunto mais
adiante.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENE 55
Na biologia, também, cada vez mais s prcebe a limitação
da prática cientíca apoiada no atomismo-individualista e na rla­
ção sujeito-objeto. Levar um exemplar, um indivíduo de u espé­
cie para o dissecar no laboratório e daí explicar, pela sua aatomia,
as suas características comportentais rvela toda a tadição flo­
sófca do Ocidente. Cada vez mais os biólogos buscam desenvolver
práticas cientícas estudando as plantas e animais em seu "labo­
ratóro natural". Colocam placas, pulseiras e colares cocados
em as e prou observa os seus movimentos e relações no
seu próprio ambiente. Percebe-se que o comportamento de plantas
e as, particularente destes, não é, como se julgava, derivado
simplesmente da sua anatomia, do seu cóigo genético, constatan­
do-se que as relações soiais ente os animais (bioenose) também
"selecionam" característcas genétcas, torando mais complexas
as teorias biológicas. O fenótipo já não é mais, simplesmente, uma
exteriorização do genótipo, mas a emergência de u complexa
rlação ent este e o ecossistema.
Ma, se outos mértos não teve, pelo menos soube colo­
car a questão da relação do sujeito com o objeto, do conhecimento
com a ralidade que existe fora de quem conhece, atavés do con­
ceito de "práxis". S� até então, dizia ele, os flósofos se encarga­
r de interretar o mundo, cabe também tsforá-lo. E a se
coloca a questão: não é essa a essência do conhecimento desde a
Grécia clássica até a moderdade? A ciência e a flosofa não se
propõm exatamente a torar conhecido o desconhecido, mergu­
lhando nos mistérios do mundo? Por que, então, essa separação
ent a interpretação e a tansforação do mundo? A práis, en­
quanto formulação de Ma, super a dicotomia clássica ocidental
ente teoria e prática, ente sujeito e objeto, ente tabalho intelec­
tual e braçal, pois prssupõe a refexão e a ação como dois mo­
mentos necessáios do agir huo. Essa concepção implica neces­
sariamente o não dogmatismo.
E váios campos do conhecimento a relação sujeito-ob­
jeto vem sendo repensada. Se ants todo o problema estava na
melhor compreensão/explicação do objeto, não havendo problema
no outo pólo da relaçã, isto é, o sujeito, cada dia niais se impõ
rfletir sobre os limites do próprio sujeito que deseja conhecer e
56 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
que, tenha ele consciência ou não, está inserido numa cultura, num
detenninado momento, com as especifcidades individuas psiqui­
caente taduzidas em cada um. Quando Gaston Bachelard, físico
e flósofo, d que o objeto designa o método muito mais que nós o
designamos, uma leitura aprssada pode ver um grande objetivismo
nessa formulação. Gostaria de fazer, exataente, a leitura oposta: é
preciso que estejams atentos ao objeto, abertos e fexíveis,. para
adequarmos o método de investigação à suas paiculaidades.
Quem dispõe de . um método a priori e o aplica rigidamente a um
objeto, é exatente aquele que privilegia o sujeito. Da decor o
subjetivismo da análise. Na verdade, não há a uma relação sujeito­
objeto, m sim uma rlação do sujeito consigo mesmo atavés de
um método geral. Em suma, a rlação sujeito-objeto constitui um
diálogo pranente, poranto, o método de investigação terá de ser
constantemente adequado.
O desenvolvimento das práicas cientcas, sobretudo no
século XX, tem apontado nessa direção tanto na física, como na
biologia, antopologia, pdagogia, soiologia, históra e geografa.
Toavia, o peso da tradição, de uma espécie de condicionamento
histórico, ainda se coloa como obstáculo a uma ação tnsfrma­
dora nos lugares onde se desenvolvem as práticas cientícas: as
universidades administada plo Estado e os centos de pesquisa
das grandes cororaçõs multinacionais. E virtude de complexas
tias sociais, econômicas, políticas e culturais, os cientistas, em sua
maior pare, têm fcado confmados em seus centos de psquisa
e laboratórios consagando, .deste modo, a separção ente tabalho
intelectual e tabalho brçal. Na comunidade acadêmica ainda do­
mina a crença de que a ciência é o guia de ação para uma prática
social racional. A tadição rcionalista do iluminsmo se faz pre­
sente ente nós com gande força: mesmo . ente os ecologistas
existem aqueles que acreditam que os técncos e cientistas devem
orientar as práticas de apropriação da natureza. Ora, a ciência e
a técnica são condiçõs necessáias m não sufcientes para ga­
rt um uso rcional dos recursos natuis. Até porque o conhe­
cimento cientíco se desenvolve numa rlação sujeito-objeto, en­
quanto a prátca social se d numa relação ent sujeitos, onde
o agir racionl está condicionado por outs variáveis, sobrtudo
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 57
psíquicas, sociais e culturis. A ciência tem de rconhecer os limi­
tes de sua comptência: um emprsáo capitasta vê na forsta
amazônica uma possibilidade de uso diferente da que, pr exemplo,
concebem os/caboclos posseiros da rgião. Se o ponto de vista ca­
pitalista é o prvilegiado, o desdobramento será uma ou váas so­
luçõs técnicas deterinadas com este objetivo, porém, se o ponto
de vista dos posseiros e cabolos é o que prevalece, necessaria­
mente outas soluçõs técnicas advirão. A ciência efetivamente não
tm competência para decidir qual dos dois pontos de vista é o
mais racional, pois isto é uma decisão política que envolve lutas e
que, numa perspctiva demorática, implica sujeitos livremente
discutindo e deCidindo.
Aqueles que partem de um conhecimento cientíco obtido
de antemão e depois, em nome dele, tentam impor u prática so­
cial estão, na verdade, consagrando essa sepação ente conheci­
mento e ação, ente tabalho intelectual e braçal e, dessa fora,
desqualifcando outos valores que se forram em outos contex­
tos, com outos objetivos e fmalidades. É como se a "consciência
viesse de fora", forulação, aliás, defendida explcitamente por
Karl Kautsk, social-demorata-maista alemão, herdeiro testa­
mentário de Engels e que uma vez assumida por Ln virou ver­
dadeiro lema na esquerda bolchevique. Ma, pelo menos, dizia
que o comunismo é o movimento real que suprme o estado de coi­
sas existente, forulação bem diversa da dos mistas que, como
critcava Marx, agem como os reforadors soiais utópicos, como
Platão e Thomas Morus que, de fora, prgavam o advento do mun­
do novo . . . Os mais vaados moventos so
c
iais tentam 8sua moda
suprmir o estado de coisas reinante em nosso mundo, como as lu­
tas dos operios, dos camponeses, das mulhers, da juventude, dos
negros, dos homossexuais, dos ecologistas, etc. Todos, no entanto,
são vistos, por muitos maistas como questões secundárias diante
da luta de classes . . . Talvez tenhamos aí uma boa pista para com­
preender a crscente prda de iuência dos comunistas nos mo­
vientos de contestação. A luta de classes torou-se cada vez mais
rtórca na boca dos maistas, uma vez que estes persistem em
falar de fora de uma consciência ideal que os opráos, os campo­
neses, a juventude, as mulheres, os negros, os indígenas, os ecolo-
58 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
gistas não têm. Não é aqui o lugar para desenvolver essa tese, m
creio no ser iossível que a inspiração d Ma consiga nos aju­
dar a compreender esses movimentos e outos que se maifestam
particulannente no século XX; contudo, parece-me irováel que
os marxistas o façam.
E TUDO VOU SISTEMA
Desde Isaac Newton que o universo foi cientifcamente
concebido como u sistema. Todavia, não tinha evolução, sempre
rptia o mesmo movimnto, t como u rlógio que ma o
tempo dos outos seres mas não o seu próprio tempo. No século
XIX, com Charles Dain, verifca-se que há evolução da natureza
e o homem deixa de ser u criação divina, passando a ter u as­
cendência menos nobre: os primatas. No entanto, em todo lugar, os
cientistas andavam em busca daquela unidade elementa indivisí­
vel: o átomo, o organismo - ou a molécula - o indivíduo.
Ainda no século 'X, o segundo prncípio da teroinâ­
mica, esboçado por Caot e forulado por Clausius (1850), into­
duz uma concepção inovador que vai mexer profundamente com
os físicos. Edgar Morin rproduz bem a formulação de Clausius
quando d que
. . . enquanto todas as outras formas de energia podem se
transformar integralmente umas nas outras, a energia que
tem a forma de calor não pode reconverter-se inteiramente
e perde assim uma parte de sua aptidão para efetuar traba­
lho. Ora, toda transformação, todo trabalho liberta calor,
contribuindo assim para esta degradação. Esta diminuição
ireversível da aptidão para transformar-se e para efetuar
um trabalho, própria do calor, foi chamada por Clausius de
entopi. Segundo Clausius "a entropia do universo tende
para o máximo", isto é, para uma morte térmica. Se, de um
lado, as premissas de Clausius foram contestadas na medi­
da em que ele pnsou o conunto do universo como um
mgasistem fechado, por outro, abriu uma questão im­
prtante, impensável nos marcos newtonianos. Nestes mar­
cos, o universo era etero e, portanto, sempre igual a si
mesmo e Clausius aponta para a sua morte. Em 1877,
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 59
Boltzmann "elucida a originalidade energética do calor a
um nível até então ignorado: o das microunidades ou mo­
léculas constituindo um sistema. O calor é a energia pró­
pria aos movimentos descoordenados das moléculas no
seio de u sistema e todo aumento de calor corresponde a
u aumento de agitação e a uma aceleração desses movi­
mentos' ' . Assim, todo aumento de entropia é u aumento de
desordem intera e a entropia máxima corresponde a uma
desordem molecular total no seio de um sistema ( . . . ) O se­
gundo prncípio da terodinâmica já não se formula uni­
camente em termos de trabalho. Formula-se em termos de
ordem e desorde. Forula-se em teros de organização
e desorganização, visto que a ordem de u sistema é
constituída pela organização que combina num todo os
elementos heterogêneos. A Teoria dos Quanta se encarre­
garia de colocar mais um problema para quem acreditava
numa ciência exata, determinística. (E. Morin).
Apesar _dessas questõs, o imaginário racionalista derivado
do lwninismo do século XVil sairá fortlecido no século XIX. A
degradação do calor que se observava em qualquer máquina, e que
no limite levava 8 perda de sua capacidade de tabalhar, levaá 8
invenção do terostato - que se desliga automaticamente sempre
que a temperatur atinge um determinado ponto. O alemão Diesel
t u importt contibuição 8 tecnologia modema ao inven­
tar um óleo com uma determinada viscosidade (o óleo diesel) que
evita o atto mais intenso ente as peças de uma engrenagem, re­
tardando o seu aquecimento e aumentando, assim, a sua capacidade
de tabalho. A ciência taduzida em tecnologia marcava mais um
tento.
No século XX, cada vez mais, a idéia de sistema começa a
ganhar consistência. Já vimos como na física, com Rutherord, o
átomo deixa de ser uma substâcia indivisível e vir sistema. Com
E. Durkheim e, sobretudo, com o antopólogo Malinowski surge de
modo explícito a idéia de sistema social. Os urbanistas, os soció­
logos e geógafos urbanos d Escola de Chicago - Burgess, por
exemplo - começam a ver a cidade como um sistema já na década
de 1920.
Por todo o lado o sistema resplandece: sistema atômico,
sistema solar, sistema celular, ou molecular, sistema social, sistema
60 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
urbano. Ao reducionismo atomístico-indi�idualista até então domi­
nante e que procurava o indivíduo e a sustância indivisível opõe­
se agora o sistem holista. Onde reinava o indivíduo, reina agora o
too, culminando com a teoria geral dos sistemas de Ludwig Von
Bertallanf. Nesta, o termo forte não é só sistema, mas a pretensão
de uma teoria geral. Enfm, o sistema ganhou cidadania e o todo é
mais que as paes. Vê-se o todo em toda pae e não as paiculari­
dades de cada sistema. Afmal, o átomo, a célula, os astos, a so­
ciedade, a cidade só têm em comum a palavra "sistema". Ionca­
mente, a florsta agora impede que se vejam as árvores. O modo
como cada um desses sistemas emergiu e se constituiu importa me­
nos do que o fato de serem sistemas. Nada de genealogias e qual­
quer preoupação com a história é denunciada como historicismo.
Fala-se até de miséra de historicismo . . . Não s vê, porém, que os
sistemas existem sob deterinadas condições e não sob qualquer
condição. Assim, não se prcebe que os sistemas também se deg­
d, se tnsfora ... Ficamos, pois, diante de um novo reducio­
nismo: o do todo, o sistemiso. Não é à toa que E. Haeckel, que
em 1 866 criou o tero ecologi, s dizia monista, concepção flo­
sófca que vê o mundo como um too aiculado.
Dada a especifcidade deste tbalho, deixamos o conceito
de ecossistema pa um ttamento à pae. Todavia, tomava-se
importante perceber esse contexto geral onde o sistemismo ganhou
importncia. De passagem, devemos anot que esse processo se
desenvolveu palelamente ao fortalecimento do papel do Estado
fente à vida dos indivíduos, tanto na sua vertente capitalista clás­
sica, como é o caso do naismo e do fascismo, como na vertente
que s prtendia anticapitalista, o stsmo. Tambm, por toda
parte, o Estado que fala em nome de tods se confgura como tota­
litário. Coincidência ou não, o fato concreto é que os conceitos de
sistema e de totalidde se a ao mesmo tempo que o Esta­
do-todo. E não é por acaso que cresce também a resistência a esse
estado de coisas.
A HARMONI A NATURAL. HARMONIA?
A física foi indiscutivelente a ciência ente as ciências até, plo
menos, as déadas de 50/60 de nosso século. A valorização dos fí­
sicos segue paralela aos êxitos da Revolução Industial, ao desen­
volvimento do maquinismo. Sem sombra de dúvida, vivemos numa
soiedade mecâica, a socieda
d
e industal. A razão técnica deve
muito à física. Não é essa a situação da física e dos físicos atua­
ment. A biologia começou a ganhar tereno, sobretudo, a pair
dos anos 60 e com ela a ecologia. A biologia, ciência da vida, pa­
rce que se a a pair dos escombros de Hiroshima· e N agasa­
k. Nã é à-toa que esta rferência é tão cara aos ecologistas que
comemoram em todo o mndo "Hiroshima nunca mais! " É prciso
que tenhamos em conta que Hiroshima foi uma das vertentes possí­
veis da física que, até 1945, s era vista pel
o
lado das suas conti­
buiçõs para o bem-estar da humanidade. Muitos repetirão· que o
prblema não é da física nem dos físicos, mas si de mau uso que
os polítcos dela e deles fzerm. Deste modo, isenta-se de rspon­
sabilidade o cientista que, assi, deve fazer ciência sem consciên­
cia. Mais adiante mostmos que esta questão é mais complexa,
querendo, no entanto, desde já apontar o carter mecâico e não
orgânico da sociedade em que vivemos e apontar que a física, na
sua verende hegemônica, levou isso à út con�qüências.
É necessário cada vez mais afmnarmos a v
i
da até porque
1945 abre, de fato, uma nova página na história da humanidade
62 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
intoduzindo a possibilidade ral de destuição completa de toda
fonna de vida. Tudo isso nos leva a u reflexão mais prfunda
acerca do conceito de natureza que está subjacente aos movimentos
ambientalistas.
Como já vimos, nosso cotidiano está povoado de expres­
sõs pejorativas que opõm a cultura à natueza. Ao mesmo tempo,
existem outas expressõs que apontam rumo a outa direção: cha­
mamos, pr exemplo, de gatinho ou de gatinha a pessoa que ama­
mos ou pr quem temos algum afeto. Nesse caso, cabe bem a de­
nominação de romantismo.
No chamado mundo oidental, vivemos de fato essas duas
verentes: ou vemos a natureza como algo hostil, luga da luta de
todos conta todos, da chamada lei da selva, ou vemos a natureza
como haronia e bondade. Se a natureza é o lugar de luta de todos
coot todos, nada mais necessáo do que o Estado para impor a
lei e a ordem. Relembremos que todo Estado em crise acusa os
seus críticos de serem aqueles que desejam o caos, a barbárie e a
selvageria e já sabemos qual é o signifcado desses tennos. Com is­
so desqualifcam os seus cticos como sendo aqueles que querem
volta ao Estado da natuza, à adade. Não se apercebem ou
não querem se aperceber de que a crítica a u deterinada ordem
não quer dizer necessaramente que se queira a desordem, mas sim
uma outa ordem ... E nem que se queira rtomar à Idade da Pedra ...
Já ente aqueles que vêem a natureza como bondade e •
haonia encontamos, infelnte, muitos que contaditoria­
mente paam do mesmo ponto de vista que acreditam crtcar: a
natureza é bondosa e harônica e os homens é que destoem a na­
tureza. Como se vê, o homem tmbém não é natureza, mantendo­
se, portanto, a dicotomia sociedade-natueza, homem-natureza. A
prmeira vertente afn a o antopocentismo e a segunda o natura­
lism. Homem e natureza caem um fora do outo. Vemos reprodu­
zir-se ente os ecologistas a mesma ambigüidade que, por exemplo,
viveu a geogafa no século passado. Frederic Ratzel, geógrafo
darwinista, afmnava a idéia de espaço vital e, com ela, a lei do
ms forte que predominaria na natureza. O Estado deveria estar
consciente dessa lei de fero estabelecida pela natureza. Já P. K
pt e E. Reclus, tmbém geógrafos dstas, valorizavam a
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 63
solidariedade ente as espécies, tirando d conclusões opostas à
de Ratzel, sendo que tanto Kropotin com Reclus eram nitantes
anarquistas e, prtanto, antiestatstas . . . A diculdade est em rom­
pr com um dos pressupostos da flosofa psitvista que é o de
querer encontr na natuza o paradigma ou modelo para a socie­
dade humana.
Não existem palavras naturais para falar de natuza. As
palavras são criadas e instituídas em contextos sociais especícos e
também por este modo o conceito de natureza não é natural. É por
isso que tem sentido - e poder-se-ia dizer de maneira mais contu­
dente que é necessário compreender bm o conceito de natuza
que nossa soiedade instituiu.
O ECOSSISTEMA
As descobras cientícas deste século, prncipalmente as
provenientes da biologia, conseguiram apontar pa um conceito
mais sólido que é o de ecossistem, menos ambíguo e vago que o
de natureza e meio ambiente. Todavia, se o conceito de ecossiste­
m tem servido para superar a concepão atomístico-individualista,
na verdade egoísta, ao privilegiar o tod tem levado ao que Edgar
Morin chamou aprpriadamente de concepção ecoft.
O ecossistema compreende, antes de ms nada, o bi6topo- o
mio geofísico - e a biocerwse conjunto das interaçõs ente os
seres vivos de todas as espécies que povoam este biótipo. Constitui,
assim, uma unidade complexa de carter organizador ou sistem.
Fa sentido, num cero nível de rfexão, a idéia de harmonia
e de equilíbrio que reina em cada ecossistema. A rgulaidade e
a invariância sobrssaem, t como num relógio:
A ordem de relojoaria é a da rotação d tera sobre si própria
e em toro do sol, que arrasta na sua esteira a alterativa re­
gular do despertar e do adormecer; desencadeia à sua hora o
canto do rouxinol e o canto do galo; a caça da águiá, da rapo­
sa, do leão; o movimento dos rebanhos em direção aos seus
pontos de água; sazonalmente, recomeça a queda das folhas,
o surgimento dos rebentos, o estaar dos casulos, o cio dos
64 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
machos. A ordem física prolonga-se na ordem viva, ela
própra regida por "programas genéticos", fabricadores de
invariância e de repetição; assim, a natureza aparece como
permanência, regulaidades, ciclos.
E, no entanto, quando olhamos,
g
uer a muito longo term
?
quer de perto, esta ordem subitamente vacila e se fende. A
escala de centenas de milhares de anos o subsolo fende-se
e se desloca; a crosta terestre enruga-se, subleva-se, aba­
te-se, os continentes derivam; as águas inundam as terras e
as terras emergem da
á
gua; as forestas tropicais e as calotas
glaciais avançam ou recua; as erosões cava, nivelam,
pulverizam. Olhando muito de perto e a curto termo, ve­
mos uma confusão de seres unicelulaes e de animálculos,
uma trapalhada e uma desordem de plantas misturadas, en­
treparasitadas através das florestas, selvas, savanas, mata­
gais, insetos agitados por movimentos desordenados, ani­
mais rla terra ou do céu de comportamento desconcertante
e, por todo o lado, uma autofagia peranente da vida co­
mendo a vida, uma luta feroz de todos contra todos, onde
se entrecaçam, se entredevoram, se entrecombatem, se en­
tredestroem, numa desordem sem lei, irrisoriamente cha­
mada lei da Selva.
Como conjugar estas duas visões que, até aqui, sempre se
repeliram u�a à outra, uma feita de ordem e de harmonia,
a outra de desordens e de luta? Estas duas visões, contrá­
rias, são ambas de per si 'verdadeiras', mas estas duas ver­
dades não podem encontrar o seu sentido senão na idéia de
ecossistema e de eco-organização. (Edgar Morin
).
ANTAGONISMOS E COMPLEMENTARIEDADES
Na verdade, cada ecossistema é um todo que se organiza a
partir das intrações dos seres que o constituem. Assim, o todo,
o ecossistem, só existe pelas interações ente as partes e são essas
complexas interações que o constituem.
Nesse sentido, o todo não é mais que as partes. Todavia,
o ecossistem emerge a partir de uma série de ações
egoístas e retroage sobre os diversos seres que manifestam
qualidades de que não disporiam isoladamente. Nesse sen­
tido, o todo tabém seleciona as pates, condicionando-as.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 65
É esta complexidade que o pensamento reducionista, seja
ele egoísta ou ecoísta, não quer reconhecer. Cada ecossis­
tema· "é uma organização espontânea que, baseada em su­
portes geofísicos deterinistas e em seres geneticamente
determinantes, faz-se a si mesmo, sem ser incitado ou
obrigado por um programa, sem dispor de uma memória
autônoma e duma computação própria, sem ser organizado
e ordenado por um aparelho de controle, regulação, deci­
são, govero. Pelo contrário, toda eco-organização nas
ç
e
de açõs "egoístas", de interaçõs "míopes", de interco­
municações banhadas e por vezes submersas no vago, no
ruído, no erro, em nichos ou em meios sem clausuras nem
barreiras, abertos às correntes de ar, de água, abertos às
correntes de vida selvagem (evadidos, foras da Lei e fugi­
tivos de outros ecossistemas) abertos a correntes de morte
(vúus, epidemias). E é através deste fervilhar cego, míope,
egocêntrico, entre desordens, destruições, proliferações in­
descritíveis que um Uni verso ¯ Umwelt ¯ se organiza".
(Edgar Morin).
En, a espontaneidade é eco-organizadora.
Na natureza as interaçõs que se operam na biocenose são
ao mesmo tempo complementars - associações, sociedades, sim­
bioses, mutualismos; - concorenciais - competiçõs, rivalidades; e
antagônicas - parasitismos, fagias, predações.
À primeira vista, o caráter organizador daquilo que é asso­
ciativo, ·solidário, cooperativo, parece opor-se ao caráter
desorganizador e destruidor daquilo que é concorencial,
predador, biofágico. Mas, olhando pela segunda vez, esta
oposição toma-se ambígua e relativa. Se, por exemplo,
considerarmos no conjunto a relação animais/plantas, esta
é caracterizada já não apenas pela biofagia animal, mas
também pela simbiose generalizada que garante o circuito
oxigênio/gás carbônico de uns as outros:
66 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Antagonismo e complementariedade não se excluem um ao
outro. Nada é mais complementar do que as interaçõs que
constituem a cadeia tr6fca que nutre e reorganiza a vida de
um ecossistema. Nela o predador come a presa, que come
outra presa, que come a planta, que se alimenta da decompo­
sição de todas as mortes acumuladas e conjugadas. É, em su­
ma, a devoração em cadeia que constitui a cadeia alimentar.
A predação não é simplesmente destruição. Se consideÏos
a curva demogáca de uma espécie predadora que vive ex­
clusivamente de uma presa, por um período longo de tempo,
veremos que a diminuição de número de presas provoca, por
escassez, a diminuição do número de predadores, num pro­
cesso de retração que s6 um acidente exterior ao ciclo pode
interromper. Portanto, a relação antagônica externa, a do pre­
dador e sua presa, prduz sua própria regulação e tora-se
fator organizacional. A prdação, não deixando de ser fator
de dstiçã, tora-se também fator de coneraã do co­
medor e do comido, fator de conservação deste antagonismo
organizacional. (Edgar Morin).
Deste modo antagonismo e complementariedade não se ex­
cluem.
A IEGRAÇÃO DA VA NA ORDEM CÓSMICA
A rdiação solar taz energia à vida. A rota da tera et
tomo do seu própro eixo e o movimento que faz em tomo do sol
pruzem as variaçõs dianoite e as estaçõs com suas alterân­
cias cíclicas de luz, temprtura, hidrologia, segundo as latitudes e
rgiões.
Esses ciclos geofísicos condicionam a organização bioló­
gica dos idivíduos, das espécies, dos ecossistemas, que segundo a
alterância sazonal e de dias e noites sincronizam a sua atividade,
o sono/vigilâcia e os seus processos de fecundação, gerinação,
hiberaçõs, mores, etc . . .
O desenvolvimento recente da cronobiologia veio mostar
a profndidade dessa rlação ente o mundo vivo e a ordem cósmi­
ca, atavés da idéia de rit circain, ou seja, da propriedade
que têm os rtmos biológicos iteros - endógenos - de mostar,
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 67
em condições ambientais constantes, uma periodicidade próxima de
vinte e quatro horas. É como se cada indivíduo, espécie e mesmo
ecossistema tivesse um relógio próprio que se movimentasse no pe­
ríodo de uma volta completa da Tera sobre si mesma (aproxima­
damente 24 horas). Completa Edgar Morin:
Foi assinalado um número extremamente elevado de rtmos
circadianos numa grande diversidade de seres unicelulares
e pluricelulares, em todos os níveis d organização bioló­
gica, tanto molecular, celular e orgânica, quanto além do
organismo individual, ao nível d população e do seu
comportamento ecológico e social.
Assim, a ordem do sistema solar não se limita a comandar
os grandes ciclos da biosfera. Os cicJos cosmofsicos estão
no interior de cada indivíduo vivo. E próprio da eco-orga­
nização constitui u poli-relógio que concilia o grande
relógio astrogeofsico e os inúmeros micro-relógios vivos.
Constitui-se assim um grande ciclo eco-organizador, total­
mente físico e totalmente biológico, feito da conjun­
ção/sincronização dos ciclos geoclimáticos, atmosféricos,
biosféricos e das miíades de microciclos individuais, in­
terconjugando-se e intersincronizando-se uns aos outros. E
esta priodicidade multiforme desencadeia, controla, ritma
todas as atividades fndamentais dos seres vivos: alimen­
tar-se, repousar-se, reproduzir-se.
Fora da faixa equatoral, o duplo ciclo dos recomeços cot­
dianos e anuais diversifca-se, diversifcando sazonalmente a alter­
nância dia/noite, o clima, a exposição ao sol, a nebulosidade, a
pluviosidade, o calor, o fio. Ar asta na sua poliesteira os recome­
ços e mtamorfoses, onde toda a natureza, vegetal e animal, des­
perta, renasce (primavera), desabrocha (verão), murcha, defnha
(outono), adormece, atofa-se e more (invero).
Assim, os aumentos sazonais de temperatura desencadeiam
germinação e crescimento em certos vegetais e infuem na sua fo­
tossítese e na sua rspiração. Mais feqüentemente do que as va­
riações 'de temperatura, as variações priódicas de luz desenca­
deiam e contolam a diferenciação e a foração vegetais. (Assim,
por exemplo, as plantas de dias longos, como os cereais ou as er­
vilhas, só florescem quando a luz do dia ultapassa as doze horas,
68 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
enquanto as plantas de dias curtos, como o milho ou o milho-pain­
ço, só forscem em menos de doze hors.) Tudo se passa, portan­
to, como se o grande relógio cósmico desencadeasse e contolasse
quer direta (luz), quer indiretamente (temperatua), todas as opera­
ções vitais de cada vegetal, mas sincronizando-se com os relógios
biológicos interos que fncionam neste veget
O próprio universo animal está sob o comando conjugado
do gande relógio geocósmico, dos rlógios vegetais e dos relógios
individuais, tato nas ações cotidianas como na atividade sexual, o
nascimento, o crscimento, e o desenvolvimento e, por vezes,
mesmo a senescência e a morte.
"Ao msmo tempo os seres vivos modifcam a nebulosida­
de, a insolação, a tempratura, a composição quúnica do ar. As ár­
vors fazem baixa as temperaturas e subir as míimas; diminuem a
veloidade e a turbulência do vento; aument a umidade do a e
confor solos que rtêm mais umidade' ' .
Na Aônia, por exemplo, pesquisas recentes têm de­
monstado que grande pae das chuvas que lá caem é proveniente
da eaotranpiraão, isto é, da umidade que evapora da própria
foresta. Se atentaros para o fato de que cerca de 70% dos corpos
dos seres vivos é constituído de água a Amazônia pode ser vista
como u grande "oceano verde' ' que atua como u elemento
equilibrador daquele ecossistema e de vastas rgiõs para onde se
desloa a massa equatorial contnental, quente e únúda. Aqui fca
evidente o papel do mundo vivo no equilíbrio dinâico de proes­
sos físicos como as chuvas. A vida está, portanto, inserida na or­
dem cósmica não s ao nível micro os r�os circadianos - como
também ao nível mcro como elemento de redistibuição de umida­
de de que, por sua vez depnde paa existir.
NATZA, VA E MORTE
Viver de morte, morrer de vida.
(Heráito)
Apsa d iúeras espécies vivas que hoje conhecemos,
é preciso considerar que elas constituem uma Úima paela das
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE
69
que existim. As prfndas alterações por que já passou nosso
planeta com a foração/de�tuição de montanhas, avanços e recuos
d calotas polares, invasõs e recuos d água do m fazem d
história da natureza u campo onde, em vez de ser ressaltada a
estabilidade dos ecossistemas em estado de clí

, deveríamos res­
saltar a aptidão que aprsentam para construir estabilidades novas.
Cada ser· vivo expele incessantemente resíduos, matéra�
degradadas e tóxicas que tendem a poluir o seu ambiente, e
o ecossistema produz assim incessantemente a sua própria
poluição. Ao mesmo tempo, sofe um excesso de morte em
rlação à morte· "natural": perece-se não só de senescência
(velhice) e não só para alimentar os outros, mas também de
acidente, de risco, de fome, de carência. Simetricamente, o
ecossistema sofe de um excesso de vida, de uma orgia de
ovos, esprmatozóides, germes, esporos que se alcanças­
sem a existência quebrariam todas as rgulaçõs ecológi­
cas, destruiriam as condições de vida para a maior parte
das espécies e provocariam a morte generalizada. Dema­
siada vida (crescimento exponencial duma população) é
mortal quer para si próprio quer para as outras vidas. O
excesso de vida destrói as suas próprias possibilidades de
vida e trabalha para o excesso de morte.
Assim, a cadeia trófca mostra-nos que toda pdridão se
converte em alimento, que todo o resíduo se converte em
ingrediente, que todo o subproduto se converte em maté­
ria-pr, que todo resíduo 'morto é reintroduzido no ciclo
de vida. As decomposições, excrções, defecações são os
festins dum fervilhar de insetos e microorganismos; adu­
bam e remineralizam os solos que alimentam a vegetação.
O ecossistema come não só a sua própria vida e sua pró­
pria morte, mas com a sua própria merda, e o excremento
pode tomar-se o alimento do alimento do seu defecador
( . . . )
Temos de ver agora que o excesso de vida responde ao ex­
cesso de morte (é prque a morte flmina cegamente que
uma louca proliferação de esporos, germes, ovos, sementes
é necessária à vida) e que o excesso de morte responde ao
excesso de vida (pois é sobretudo ao nível dos esporos,
germes, ovos, sementes, embriõs, larvas, recém-nascidos,
que a mrte devasta a vida nas suas hecatombes). Assim, a
oposição entre a fecundidade desenfreada e a mortalidade
desenfeada desempnha um papel global de fio mútuo e
70 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
toma-se regulação demográfca. O excesso de morte tem­
pera o excesso de vida que tempera o excesso de morte, e
a confontação da sua ubris cria a regulação na recorrência
fundamental vid -morte. A eco-organização é alimentada
e regenerada, não pela vida, mas também pela morte, e é
regulada pelo antgonismo entre os dois excessos.
Entrevemos aqui que a morte é muito mais que a morte,
visto que é, não só desorganizadora/destruidora, mas tam­
bém nutritiva, regeneradora e, enfm, reguladora. O desen­
cadeamento desorganizador da morte integra-se na cadeia
organizadora da vida, impulsiona-a e regula-a. A morte de­
sorganizadora é também reorganizadora. (Edgar Morin).
É em meio a essa turbulência destuidora/cradora que os
ecossistemas aparentam harmonia. Atingem o clím que é o esta­
do de equilírio para o qual tendem todos os ecossistemas e no
qual podem manter-se indefnidamente, se não houver nenhum aci­
dente extero aos ciclos que os constituí. Uma modifcação m­
nima, mas duradoura, de temperatura, por exemplo, pode tansfor­
m toda a existência de um ecossistema.
Há evolução ecossistêmica porque há ao mesmo tempo
uma história planetáa ir eversível e entrechocada, uma
extrema sensi
b
ilidade dos ecossistemas, uma extrema apti­
dão para reconstruir estados-clíax. Todas estas mudanças
e metamorfoses se efetuaram através de clímaces sucessi­
vos, que provieram de mudanças e metamorfoses. Assim, a
natureza viva tende para o estado estacionário enquanto
efetua a sua evolução. (Edgar Morin).
É por isso que é preciso afn ar, como o faz Morin, que:
a qualidade eco-organizadora mais notável não é manter
incessantemente em condições iguais, através de nasci­
mentos e mortes, o estado estácionário do clíax: é ser
igualmente capaz de produzir ou inventar novas reorgani­
zações a partir de transformações ireversíveis que sobre­
vêm no biótopo ou na biocenose. Assim, surge-nos a virtu­
de suprema da eco-organização: não é a estabilidade, é a
aptido para construir estabilides novas, n�o é o re­
gresso ao equilíbrio, é a atido d reorganização para
reorganizar-se a si mesma d mod novo sob o efeito d
's (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 71
tWvas reorganizaões. Por outras palavras, a eco-organi­
zação é capaz de evoluir sob a irrupção prturbadora do
novo e esta apti
d
ão evolutiv: é o que permite à vida, não
s6 sobreviver mas desenvolver-se, ou antes, desenvolver­
se. para sobreviver (os grifos são meus).
Infelizmente, a concepção atomístico-individualista conce­
beu a evolução tomando como prncípio fndaental a mutaÇão
genétca. A eco-evolução está marcada por inúmeras mutações
ecológicas, isto é, reestrutuaçõs novas sob o efeito de perta­
ções a longo e a curto prazo: submersões, emersões, enrugamentos,
elevaçõs, erosõs, topicalizaçõs, glaciaçõs, deserticaçõs,
migrções, aparecimentos de novas espécies.
A concepção atomizada da evolução vê como prncípio de
sobrevivência a seleção "natural" das espécies. Não vê que esta
seleção é insepavel duma integação ecossistêmica,
n vê que as condições d seleção se modiicam em fm­
çã d evolução dos ecossistemas que produz fVas re­
gras de integraçã e tWvos critérios de seleçã. Não vê,
sobretudo, que o que é · "selecionado" não são apenas as
espécies aptas para sobreviver em tais ou tais condiçõs,
mas tudo aquilo que favorece a regulação e a reorganiza­
ção dos ecossistemas. Não foram apenas indivíduos e es-
pécies que se selecionaram, mas retroações, anéis, que
auto-estabilizando-se à custa de outras possibilidades, se
tomam selecionadoras em relação a indivíduos e espécies.
Aquilo que é selecionado é tudo aquilo que pode fortalecer
uma cadeia, um ciclo, um cicuito; é tudo aquilo que reor­
ganizá. (Edgar Morin).
E, mais complexo ainda, não são apenas essas retoações e
novas inter-relaçõs que "selecionam" os indivíduos e as espécies.
Estas também elegem ecossistemas, como é o caso d migrações
de pássaros e outos animais que sazonalmente chegam a se deslo­
car de um hemisféro a outo, atavessando oeanos e continentes
pa adotar outos ecossistemas.
72 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
DIVERSIDADE, RESISTÊCIA
E VITALIADE ECOSSISTÊMICA
A diversidade genética no seio de um ecossistema aumenta
a sua capacidade de resistência à pertuaçõs. Onde existe ho­
mogeneidade, quando um indivíduo é atngido, todos os seus se­
melhantes rapidamente também o são. É conhecida a experência
implantada no início deste século na Aônia pela empresa norte­
amercana Ford. Num ecossistema de extema vaedade genétca
como o da Floresta Amaônica, a homogeneização paa o cultvo
da boracha torou extemamente vulnerável o novo ecossistema,
levando à falência a grande plntation. Mais rcentemente a "Re­
volução Verde" experimentou o mesmo insucesso, na medida em
que selecionava u espécie de alto rndimento e a cultura assim
implantada perdia toda a defesa diferenciada em relação à prgas.
Num ecossistema de gde diversidade genética a bioe­
nose também se complexca, crando múltplas relaçõs de anta­
gonismos e complementedade que toram t ecossistema, deste
modo, mais apto a observar perturbaçõs.
No entanto, não basta distbuir aleatoriamente múltiplas
espécies num determinado lugar para constituir um ecossistema.
Ente as espécies e o ecossistema se inscrvem as complexas rla­
ções biocenótcas que constituem o ecossistema que co-seleciona
as espécies.
E mis: a diversidade ecológica apresenta rsistência mor
conta agessões e prtuações quando o ecossistema tem u
fonteira abert para outos ecossistmas; e quando o limite ent
dois ecossistemas é impreciso, o que fa com que cada um dos
ecossistemas vizinhos se consttuam tendo como um de seus com­
ponentes as sucessivas invasõs e migrçõs de um a outo.
Todavia, há que se rssaltar que a diversidade não é in­
compatível com a existência de u espécie dominante. Aá, todo
ecossistema é dominado por uma ou váas espécies que fon o
grosso da biomassa. As esteps e pradaias são dominadas pela
aliança erva-herbívoros; as forstas são domnadas por u espé­
cie (carvalho, pinheiro, castanheira ou serngueira) . . .
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 73
Mas espécies dominantes forecem justamente uma enorme
quantidade de alifiento a uma grande variedade de espé­
cies: os caalhos das forestas de carvahos são acompa­
nhados por uma multidão de comedores de carvalhos, de
comedores de detritos de carvalhos, d� comedores destes
comedores. As espécies dominantes, longe de impedirem a
diversidade, arrastam consigo uma esteira de diversidade.
Mas favorecem não um máimo mas um 6tmo de diversi­
dade. (Edgar Morin).
Podemos afmnar que a riqueza de variedade de espécies
favorce a flexbilidade dento de certos lirtes, muito mais largos
do que um ecossistema mas homogêneo. Assim como uma espécie
perfeitamente adaptada à condiçõs ambientais se mosta mais
fágil diante de reequilibrações necessárias, os ecossistemas diver-
.
sifcados estão mais aptos para se rorganizam, sobrtudo quando
estão abros a outos ecossistemas.
Dste modo, diversidade, vitalidade, rsistência, abertura e
complexidade caminham juntas e pacem mutuamente interligadas.
ESPNANEIADE, AUONOM E DEPENDÊNCA
É,
d
e fato, surpreendente vercar que milhões de seres di­
ferenciados - que vão desde o substato geofísico até os seres vi-.
vos mais variados (plantas e animais aos milares), sem nenhu
apalho cental, sem nenhum contole, sem nenhum govero -
consigam produzir situações de equihbrio ou que tendam para esse
estágio . . . Mais ainda, onde cada ser vivo não está voltado paa a
sobrevivência e para a organização do todo, do ecossistema, mas,
pelo contário, é "intovertido" para O· seu próprio interesse, a sua
própria sobrevivência de indivíduo, de gupo, de espécie. Está na
verdade destinado ao "para-si" e não ao "para-todos". Isso pode­
ria sugerir que o individualismo grassa com toda a força. Todavia,
cada ser vivo autônomo e singular é, ao mesmo tempo, uma exi­
gência existencial para o out. Esta exigência é que cra imedia­
tamente uma solidaiedade e uma complementaiedade do out em
relação a si próprio. No dizer de Morn:
74 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
a exigência existencial do outro introduz literalmente o ser
egoêntrico nas interdependências e nas inter-retroaçõs
policêntricas/acêntricas. Nas e pelas rtoações regulado­
ras e as cadeias trófcas, o ser autoêntrico anela-se na
eco-organização policêntrica. Assim, as ações ' 'egoístas' ' ,
sendo constitutivas das interaçõs nas quais se engrenam e
tomando-se por isto co-produtoras das regulações e dos
anéis de que fazem pate, transformam-se sem cessar de ser
egocênticas, em ações solidárias, e isto ao msmo temp
em que o anel transfora a destruição em regeneração, a
podridão em alimento, a morte em vida. A exigência do
outro é a dependência de si não só em relação ao outro,
Ï também em relação ao prcesso eco-organizacional,
isto é, o plurianel, onde o autos adquie e assume a sua
dupla identidade, a sua identidade "egoísta" e a sua iden­
tidade ecológica. Onde, em- suma, o "egoísmo" produz
"generosidade". Deste modo, toda autonomia é depn­
dente.
É preciso compreenderos que a espontaneidade que está
no interior de cada ecossistema produdor de ciclos, ca­
deias, interações e retroações é futo de uma longa históra
evolutiva através da qual, exatamente, constitufam-se es­
sas interações complementares, antagónicas, bem como es­
sas cadeias trópicas. Desde modo, a complexidade espon­
tânea dos ecossistemas evoluídos precisa de uma história e
de uma ·experiência onde acaso e necessidade, incertezas e
determinações produzem os equilírios dinâmicos. Em su­
ma, é a aliança entre espontaneidade e não-espontàheidade
que permite à espontaneidade enriquecer-se e desenvolver.
Todas essas considerações nos lev� à necessidade de su­
perar as duas concepçõs de natueza que dominam na soiedade
ocidental: ou a natureza é o lugar onde todos lutam conta todos,
onde impera a "Lei da Selva" ou a natureza é o luga da bondade e
da hanonia. .. Or, a natureza não é nem u caos nem tapouco
u cosos pereitamente ordenado e organizado. Ela é, na oportu­
na expressão de Morin, u caoso.
É prciso romper com o pnsamento simplifcador e exclu­
dente e a a comlexidade. Anal, alguns só querm falar da
rosa. Outos só destacam o espinho. É necessáriq qu

s· elabore a
visão que comporta tanto a rosa quanto o espinho: a vi
s
ão da roseira.
t. •?:• •
O HOMEM NA NATUREZA
E A NATUREZA DO HOMEM
Um dos problemas da ecologia e do pensamnto ecológico tem sido
a questão do ttamento dado ao homem. Já vimos que essa di­
culdade tem profndas rízes no nosso processo civilizatório. Não
.
é raro ouyirmos f�es do tpo: "o homem está destuindo a natur­
za! ", ao msmo tempo que se evoca o exemplo de comunidades in­
dígenas como modelo e paradigma da rlação homem-natureza. E
au cb a interogação: não são os indígenas homns? Se o são, e
essa é uma verdade inquestionável pelo menos para a biologia, de
que tpo de homem estamos falando quando se a que o "ho­
mem está destuindo a natureza"? Claro que quando se tata dos
indígenas está-se falando de uma out sociedade - de uma outa
organização social, de u outa cultura. Ora, se isto é verdadeiro,
não são os homens enquanto categoria genérica que estão destuin­
do a natureza, mas sim o homem sob deterinadas foras de orga-
nização social, no seio de uma cultur.
Na verdade, quando evoamos o indígena como modelo
estamos remetendo para a idéia de um passado idealizado, de um
paraíso perdido, de um "bom selvagem". É como se se tatasse da
lembrança de uma infâcia, boa por natureza, que foi prertida no
su proesso de desenvolvimento civilizatório . . . Ora, toda cultura é
uma criação dos homens; é insttuída num prcesso cheio de ten­
sõs ente diversos possíveis históricos. Se a nossa soiedade-cul­
tura insttuiu a fora prsente de relação com a natureza e dos ho-
76 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
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A DIICLDADES DA BIOLOGIA E DA GEOGRIA
A bìOìOgt8 8O sc 8htm8t OOmO OtÔnOt8, sObtcIudO 8pÓs
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dc smIcsc cnm O hOmm c 8 n8Iutcz8. U8sI8 8OOmp8nhm dc ptIO
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Ocnuc 8s gucsIÔcs gucgOsI8tí8mOsdc ptOpOt, um8, dcO8-
táIct IcÓttOO OOm su8s ímpìtO8çÔs mIOdOìÓgtO8s, ìmpÔ-sc 8 8ná-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 77
lise d dculdades da biologia, da ecologia e da geoga, pois
ela nos pace de fndamental imporância. Essas disciplinas mos­
t-se prisioneiras do conceito de população.
Etimologicamente, população derva do latim populu que
signca povo. A par de 1785 a palavr população começou a
ser utlizada numa outa acepção, que nada mais tem a ver com a
idéia de povo. O surgimento deste novo signifcado está rlaciona­
do à insttuição do Estado nacional moero que tinha a necessida­
de de unifcar sob a égide de um só poder, de um só govero, os
diversos povos e culturas que habitavam a sua base tertorial.
O novo conceito de população inspirava-se nas proupa­
çõs de contole, de quantidade, de medida, de informação, ou se­
ja, tomava-se um conceito estatístico. A palavra estatstica, por
sua vez, surgida por volta de 1815, deriva do alemo Statistik que
se relaciona a Estad. Obscura relação essa que envolve estatstica
e poder de Estado . . . Logo ela que se prtende a ranha da neutali­
dade! Não nos esqueçamos, ainda, de que a estatística foi criada
como forma de aumentar ou de estabelecer o conhecimento e o
contole do Estado sobre o povo, sobre a população. Desta fora,
o conceito de população foi perdendo gradualmente a sua qualida­
de de povo e se tnsformando nu conceito genérico, matemátco
estatístco. Quer dizer, a população enquanto conceito estatístico
paradoxalmente se despolitza quanto mais faz pae da· polica,
sobrtudo do Estado. O conceito de população passa cada vez mais
a se associar à idéia de conjunto, tal como defnida pelo matemát­
co Cator como "u coleção de óbjetos distintos e defnidos de
nossa percepção ou de nosso pnsamento": Podemos falar de u
população de cadeiras, de uma população de colhos, de u po­
pulação de automóveis, de u população de canhões, de uma po­
pulação de romances, etc. Assim, são abstaídas as especicidades
dos objetos - cadeiras, coelhos, automóveis, canhõs, romances - e
se privilegiam os aspectos matemático-estatísticos. Não é de esta­
nhar, portanto, que as teses e idéias formulada a pair desta pre­
missa culminem em conclusões apocalípticas do tipo malthusiano
que falam de explosão demográfca, uaização desereada, etc. 1
E sabemos o quanto essas idéias estão prsentes na -biologia, na
ecologia, na geograa e no movimento ecológico.
78
CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Se projetássemos o fdice de crscimento demogco da
Inglatera do século X para o século X, obteríamos, no míi­
mo, o tiplo da populaçãó já alcançada hoje, m se t não oor­
reu, isso não se deveu à existência de alguma política de caáer
neomalthusiano que rveresse essa cua, m sim à conquistas
soiais efetuada sobrtudo plos tabalhadors,' que leva à mu­
dça da qualidae de vida.
Ao privilegiam o lado mtemátco-estatstco, os cienti­
tas e ténicos como os do Club de Roma, por exemplo, deixam de
lado a consideração da natuza dos fatos de que estão tatando e
por isso podem fala em "crscimento exponencial" das máquinas
e dos homns. Em primeiro luga, deve fca cla que coloaçõs
que apntam u reprodução exponencial de um prtenso "esto
que" de máquinas e de homens exigem u aálise do caráter des­
sa .reprodução2. Entre os homens, pr exemplo, é possível fnda­
mentar a idéia da reprodução em algum critéro biológico, já que a
espécie hua compora o macho e a fêmea. No entanto, o fato de
existir um mesmo número de homens e mulheres em dois países di­
ferentes não quer dizer que o crescimento demográco será o
mesmo em abas as rgiõs. Por outo lado, quando consideramos
a (também no dizer do Clube de Roma) "ppulação" de máquinas,
não encontamos qualquer fdamento biológico para - com base
num deteninado número de máquinas - prver qual será o seu
fturo número. O aumento do núro de máquinas depende do
modo como a sociedade institui sua relação com elas, o que obvia­
mente nos remete para um outo campo de análise que, embora te­
nha suas conseqüências quantitativas, não é detenninado por isso.
Se a máquina é instituída soialmente, assim como a dinâmica do
cescimento do. seu número, a crítica ao crescimento exponencial
do número de máuinas coresponde à. críica a u detennada
fora de organização sócio-cultural, orgaização essa que, diga-se
de passagem, foi aada pela negação de outos possíveis modos
de institur rlações com as técnicas. Enm, uma população de má­
quinas não gera, nem biologicamente, uma outa população de má­
quinas. Se a "população de máquinas" está aumentando exponen­
cialmente isso se deve à instituição da propriedade prvada capita­
lista, às conveniências da concorrência, da busca do lucro, da con-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 79
quista de novos mrcados; em suma, à acumulação do capital e
não, simplesmente, número anterior de máquinas.
Mesmo quando cónsideraos duas populações matemátco­
estatítcaente da mesma ordem de grandeza, como é o caso d
populações da Nigéra e da Alemanha em 1980, veremos que elas
não se rproduzem demografcaente da mesma fora. É comum
compam-se essas situações para denunciar a "explosão demo­
gráca" nigerana, aá a única conclusão possível para qúem
pare de premissas conceituais do tipo população. Insisto: em tais
procedimntos "cientícos" a conclusão/solução está pronta desde
o início e a pesquisa é feita para comprovar o que já está decidido
anteriorente. Tudo isso para deleite de certos pesquisadores cujas
polpudas bolsas e salários saem daquelas pessoas que estão se re­
produzindo exponencialmente em virtude, ente outas coisas, da
ignorâcia a que estão submetidas e dos parcos salários que prce­
bem. . . Ninguém em pleno gozo do seu juízo pode considera a
Alemanha u modelo ou paradigma de reproução demogáfca,
/
até porque há duas décadas que esse crescimento é negatvo (-0, 1%
ao ano). Essa situação aponta pa o envelhecimento da população
e, salvo novas e possíveis descobertas no campo do rejuvenesci­
mento, ameaça o país com a possibilidade de não gantir a sua r­
produção demográfca. É claro que essa situação não tem tazido
maiores problemas à Alemanha em virtude: 1) do crescente proes­
so de automação de suas emprsas' e da conseqüente tendência à
diminuição da demanda de força de tabalho; 2) da enore liquidez
de capital de que dispõ o país para assegura um bom sistema de
atendimento à velhice e à saúde em geral; 3) das precáas condi­
çõs de vida em algumas regiõs do Mediterâeo europeu, no
norte da África . e no Oente Próximo, sobretudo na Turquia que
geram uma forte emigração de pobres para a Alemanha, garantin­
do-lhe o contngente populacional que vai exercer as fnções mais
indesejáveis para aquela sociedade, numa versão realista só compa­
rável 0 imaginação de Fritz Lang quando fez seu excelente flme
Metópols (1926).
Estas considerações, por outo lado, não autorizam a inter­
pretação de que se devera aplaudir o comportamento demográfco
do povo nigeriano. Estou perfeitamente consciente do que signica
80 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
para os nigerianos� sobretudo para os explorados e oprimidos, su­
portar cerca de um milhão e meio de novos habitantes por ano.
Estou consciente também d profundas desigualdades soiais que
lá existem devido ente outas questõs à injusta distbuição da ri­
queza. Só citei esses dois exemplos - Nigéria e Alemanha em 1980
- pela sua comparabilidade matemáico-estatística, que nos permite
rfetir sobre a prcaedade do conceito de população.
O comprometimento da biologia com o pseudoonceito de
ppulação é histórico. A biologia foi alçada ao prmeiro plano da
ciência no século XIX, mais prcisamente depois da publicação da
grande obra de Charles Dain A Origem d Espécies. Nela,
Dan demonstou o que até então não tinha explicação, ou seja,
que a evolução das espécies é um fenômeno natural. Isto touxe um
grande alento para o imaginário raionalista-iluminista do século
XI, que via na natureza livr das paixõs, das subjetividades e
ideologias a fonte onde devíamos buscar os fndamentos para u
ordem hua evidentemente justa porque natural. Há uma infor­
mação de caráter biográfco que me pace importantíssima para
analisar o comprometimento da biologia com o pseudoconceito de
população: ao par paa sua viagem de pesquisa pela América no
navio "Beagle", Dain leva consigo o livro Ensaio sobre os
Princíios d Populaã, do pastor Thomas R. Malthus. Como é
amplamente sabido, Malthus amnou que havia uma tendência para
o crescimento da população maior que a do crescimento da dispo­
nibilidade de alimentos. E concluí que a escassez de alimentos,
por sua vez, acabava por provoa epidemias que dizimavam o ex­
cedente populacional, rpondo o equilíbrio.
Esta idéia se constiturá num dos pilas da teoria dai­
niana da seleção d espécies. Diga-se de passagem que quando
Malthus formulou o seu princípio da população, ele tinha em mente
combater a "Lei dos Pobres" (Poor Law), que destinava boa pae
dos impostos ingleses ao atendimento dos necessitados. Dizia
Malthus que tais leis eram contas à ordem natural (ou divina)
das coisas; constituíam uma intererência indevida do Estado, e,
assim, deviam ser abolidas. Como vemos, com Darwin, o conceito
de população migrava de um campo político-moral para o da biolo-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 81
gia e ganhava nesse novo tereno wna validade que talvez não ti­
vesse onde originalmente for pnsado e elaborado.
O, se as plantas e a (inclusive o how.em em cr
circunstâncias) extaem do ambiente aquilo que este espontanea­
mente oferece, o homm, após o advento da agicultra, interfer
dirtamente na proução de alimentos. E aqui devemos sublinha
cultura na palavra agricultura. Enf, quando se tata do animal­
homem, da espécie humana, devemos ter em conta a sua complexi­
dade para não tsportarmos "d-malthusiaente" pa os
homens aquilo que não lhes coresponde. Isto se tora tanto mais
importante quanto sabemos que o pnsamento darwin-malthusiano
constitui a fonte libral-conservadora que ainda domina a ecologia,
a geoga e o movimento ecológico. Malthus encaa bem essa
ideologia: é liberal na medida em que propõe a não intervenção do
Estado no que chama de "leis natus" e, por outo lado, é con­
srvaor na mdida em que agumentando em defesa d "leis na­
turais", busca ignorar que a pobreza e a miséra convivem com a
/
riqueza, o luxo e o desprdício, n sendo, portanto, o problema
do descompasso ente popUlação e proução de alimentos uma
questão nt, mas sim u decorncia do modo como são pro­
duzidos, distibuídos e consumidos esses alimentos3. É interssante
observar que a tnsforação da lei de população de Malthus nwna
mer relação matemátca ent PA (progessão aritética para a
pdução de alimentos) e P (progressão geomética para o crs­
cimento da população) é wna rdução simplcadora da sua teora.
A, mais u vez, consttamos o desloamento matemático-estatís­
tico de modo a escamotear o caátr político-ideológico do con­
ceito de população. Tal proedimento, a bem da verdade, foi ado
tado pelos neomalthusianos, sobretudo após a Segunda Guer
Mundial, quando o Terceiro Mundo começa o seu "gande despr­
t" e a questionar as estturas mercantis-coloniais atualizadas
plo imprialismo que os mantêm em situação de profunda miséria
asa do invejável esto d sua elites que vivem (bm) de ex­
portar -imentos e outas matéras-primas.
Os cientstas que tabalham com o "conceito" de popula­
ção abstem a natureza dos fatos que aalisam, considerando-os
exclusivamente do ponto de vista mtemático-estatístico. Ora, que
82 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
validade tem u análise que deixa de lado exatamente o essencial,
isto é, o modo de organização soial e cultul que instituiu uma
deterinada dinâica de crscimento? Mais séro ainda: estes auto­
res se esquecem de que eles próprios, enquanto pesquisadores, r­
fletem a organização soial e cultural que os insttuiu e crou e, por
não consideram a foração sói<ultul que· cria sujeitos-ps­
quisadors que só vêem objetos, acreditam ser a sua psquisa mais
objetiva porque alicerçada na prtensa neutalidade do métódt
matemtico-estatístico. Enfatzemos que, areditando-se livres d
paixõs, subjetvidades e ideolúgias esses autores estão, na verda­
de, comprmetdos até a medula com a ordem instituída em meio a
confitos e lutas, sufoando outs possibilidades histórcas. Assim,
é pereitamente coerente que eles mtenham a ordem soial e
cultul reinate à margem de suas análises ou, para usar uma lin­
guagem que lhes é failiar, considerm a ordem social e cultural
como u dado constante, na verdade imutável. É a miséria do neo­
positivismo ...
Talvez pla falta de oportunidade de acesso a outas abor­
dagens, os militantes ecologistas ainda se acham prisioneiros des­
s análises que, ao invés d contibuir pa a superção dos pro­
blemas com que nos defontamos, pertua-os.
A HOMIZAÇÃO OU DE COMO A NATEZA
SE FZ HOMEM
Estávamos acostumados à idéia de que nossa fsiologia,
nossa anatomia descendem da dos primatas; deveríamos
habituar-nos à idéia de que o mesmo acontece com nosso
corpo social.
(Serge Moscovici)
Estudos rcentes de aqueologia e sociologia vêm peri­
tindo d maior consistência à intuição genial de F. Engels a res­
pito do presso de homização. A tadicional dicotomia homem­
naturza que conforou o sar na soiedade ocidental volta a ser
questionada. A questão ambiental pace exigir u novo paradig­
m onde natuza e cultura não caia u fora da out.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIOAMBIENTE 83
Até então contentávamo-nos com teses do tipo "o homem
é um
a soia" como se a soiedade nos distinguisse dos de­
mas animais. A socialidade está inscrita no reino a muito
mais profndamente do que até bem pouco tempo podíamos imgi­
nar. Dizer que o homem é um fabricador de instumento, um hm
faer, como caáter distintivo do homem,
·
é ignorar que os chim­
panzés são ocasionalmente fabricadors de instumentos. Como
demonstam Premack e Gadner, esses mesmos chimpanzés têm
virtualmente aptidão para a linguagem elementa, para o . exercício
lógico e semântico. Reduzimos o homem então ao reino da nature­
za, da adade? Não, simplesmente colocamos em outas bases
a especicidade do homem. A cultura humana não sai da natureza,
ao contáo, é u d suas qualidades. O homem, por natureza,
produz cultura. E o faz desenvolvendo-se a par de um patamar já
alcançado pelos primatas, pelos homínidas até chegar ao hm sa­
pien. Há, portnto, contuidade e descontinuidade no proesso
de consttuição do homem.
A Natreza se fazendo Homem
Já vimos que os seres vivos, animais e vegetais, interiori­
zam os ciclos astofí
s
icos como, por exemplo, o do dia e da noite
(movimento de rotação da Ter) e o d estações (movimento de
tanslação). Todavia, ocorem anda movimentos a curtd ·e médio
prazos que pertuam essa constância "rlojoira" e provocam
prturbaçõs nos ecossistemas. Sabe-se que no fmal da era terciária
vercou-se u mudança cliinátca que f�z com que· a Tera fcas­
se mnos úmida. A seca decorente levou a u dinuição da co­
brura forestal e a um aumento pronunciado da área de savana.
Animais gigantescos, que estavam bem adaptados a u enore
disponibilidade de aimentos (biomassa), desapacerm. Outos,
que habitavam as forestas, viram-se obrgados a se aventura nas
savanas e a desenvolver um outo modo de vida diante de novas
condiçõs ecossistêmicas. Com disse Leri-Gourhan, a partir de
então a hominiação jamais deixaia de andar sobre os próprios
pés. O homida dierncia-se do chimpanzé não pelas suas apti­
dões intelectuais nem simplesmente plo peso do cérebro, mas sim
84 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
pela locomoção bípede e pla postura ereta. O bipedismo é o ele­
mento decisivo que librtará a mão de toa e qualquer obrigação
loomotz. A opsição do polegar em relação aos demais dedos
aumenta a força e a precisão da preensão e faz da mão um instru­
mnto polivalente. Assim, o bipdismo abre o cainho que conduz
ao hm sapiens: a posição de pé liberta a mão; a mão liberta os
maxilaes; a vertcalização e a liberção dos maxilaes libertam a
caixa craniana d sujeições mecânicas, abrndo assim novos cami­
nhos ao processo evolutivo. Proesso esse que establece profn­
d interaçõs ent o eossistema, o sistema genético, o cérebro e
a soiedade-cultura atavés de uma nova práxis - a c!ça.
Vários estudiosos têm apontado certas características que
já se mostm em primatas evoluídos tais como separaçõs, prvo­
cadas entr outs coisas pela pressão demogrca, e que acabam
por levar à constituição de colônias extateritoriais. Acredita-se
que, com a substituição progressiva da florsta alimentadora pla
savana, gupos de jovens prtas tenham iniciado essa avent
que conduziu ao hm sapien. Toavia, novas mutações haveram
de oorr, torando mais complexa a vida que se desenvolve na
savana.
A savana é um campo favorável para o emprgo total das
aptidõs bípedes, búnanas e cerebrais paindo d necessidades e
pergos que ela signca. Servi de estúnulo ao desenvolvimento
das aptdõs de todos os tipos já existentes no antpassado da fo­
rsta. A busca do alimento tora-se prigosa. É prciso poder in­
trpretar em sinais os movimentos mais ímos, em indícios os
vestígios mais suts, é preciso estar sempre alera, individual e co­
letvamente paa a defesa e, se for preciso, para o ataque. É nessas
condiçõs que vão se espalhar pla savana pquenos grupos que,
provavelmente saídos de uma só fonte, vão no decorr de centenas
de milhars de anos e até msmo de milhõs de anos, diferncia-se
genetcamente.
É sobre esses seres que agirão prssões seletvas em bene­
fício de tudo aquilo que desenvolve a agilidade, a habilidade, a
técnica, isto é, as característcas cada vez .mas homnídeas. Já por
a se vê que sobreviver na savana exige cada vez mais o desenvol­
vimento da memória, da aiculação dos estúnulos advindos do ex-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 85
teror. Deste modo, "wna relação cada vez mais intensa e comple­
xa vai establecendo-se ent o ecossistema e o homfida. O ecos­
sistema para o caçador-caçado é w emissor de inforações múlti­
plas que ele saberá decifar cada vez mais sutlmente; neste aspec­
to, o ecossistema é co-produtor e co-organizador da caça, práxis
produtora e organizadora que vai sobreestimular os desenvolvi­
mentos físicos, cerebrais, técnicos, cooprtivos, sociais". (Edga
Morn). Esse ecossistema favorce a seleção de mutaçõs genéticas
que apontam para u prxis mais complexa.
A Caça Civizadora
A caça teve início há milhões de anos. Prgediu lenta­
mente e acentuou-se nos últmos 50 mil anos até por volt de 8
mil anos a, quando deixou de ser a prncipal atividade de maior
pare dos povos, muito embora sobreviva anda hoje (em condiçõs
�muito mais adversas que no passado) em algwnas regiões d Á­
ca, d Austáia, d Amazônia e d Ásia.
Edgar Morn nos d que
a caça deve ser considerada Ì fenômeno humano total;
não só atualizou e exaltou aptidões pouco utilizadas e sus­
citou novas aptidões; não só tansformou a relação para·
com o meio ambiente; também transformou a relação de
homem para homem, de homem para mulher, de adulto pa­
ra jovem. Mais ainda; seus próprios desenvolvimentos,
correlativamente às transforações operadas, transfora­
ram o indivíduo, a sociedade, a espécie. A caça na savana
habiliza e habilita o homínida: faz dele o intérprete de um
número muito grande de stimuli sensoriais ambíguos e tê­
nues que se transformam em sinais, indícios e mensagens,
com o reconhecedor transformando-se em conhecedr. A
caça faz com que a inteligência tenha de se haver com o
que há de mais hábil e astuto na natureza, o animal-presa e
o animal-predador, com abos dissimulando-se, esquivan­
do-se, enganando-se. Faz com que encontre o que há de
mais prigoso: o grande caívoro. Estimula aptidões es­
tratégicas: a atenção, a tenacidade, a combatividade, a au­
dácia, o ardil, o engodo, a amadilha, a espreita.
86 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Com a caça se desenvolve também uma complexa organi­
zação social que, partindo da socialidade já presente nos primatas,
dela se dierencia.
É que a sociedades primáticas vão passar por signifcati­
vas mudanças a partir da caça: a soiedade dos primatas mantinha
no mesmo espaço os machos e as fêmeas, com os jovens se afas­
tando somente para a periferia próxima. Já a sociedade hominídea,
com a caça, vira separar ecológica, econômica e culturalmente os
sexos.
Assim a caça produz novas rlações entre os sexos, pois
enquanto a caça leva os homens cada vez mais longe, a
materidade, por seu lado, conserva as mulheres nos abri­
gos, à exceção dos babuínos em cujas sociedades as fê­
meas vão com o grosso do bando e com o seu filho à
costas. As crianças bímanas não podem, como os pequenos
quadrúmanos, agarraem-se nas costas de sua mãe e o
prolongamento da fase infantil viria fazer com que as mu­
lheres se dedicassem cada vez mais aos cuidados matemos.
Permanecendo sedentárias, as mulheres passam, então, a
dedicar-se à foragem e à colheita, cuidando das necessi­
dades vegetais do grupo. Uma dualidade ecológica e eco­
nômica instala-se, a partir de então, entre homens e mulhe­
res. (Edgar Morin).
A caça implicaa cada vez mais
uma organização coletiva para a escolha do tereno, a pre­
meditação do ataque, a sincronização dos movimentos es­
tratégicos, o desenrolar de Ì programa de operações
tanto preparado como improvisado e, fnalmente, a divisão
do produto da caçada. ( . . . ) Pouco a pouco forar-se-á uma
densa solidariedade entre os homens: as longas relaçõs de
homem para homem nas provas, nos perigos, nos triunfos
vividos juntos; as homossexualidades latentes ou pratica­
das que alimentam a amizade; o prolongamento da adoles­
cência à medida que a caça praticada por adultos se com­
plexifca, faz com que Ü amizades juvenis sejam transferi­
das paa a idade adulta (amizade juvenil já presente entr
os chimpanzés). (Idm).
Enquanto se desenvolve essa solidariedade ente os machos
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 87
as mulheres permaneceram uma "camada" social em que a
ajuda mútua estava sempre subordinada à fdelidade espe­
cífca e essencial às crianças e, eventualmente, ao macho.
Surge, então, uma extraordinária diferenciação sociológica
e que se toma diferença cultural entre o grupo de homens e
o de mulheres. (Idem).
Todo esse processo leva ainda a uma profnda diferen­
ciação ente as sociedades primáticas e a hominídea que instaura
uma verdadeira economia.
Se consideraros a economia como o sistema organizador
da extração de recursos (produção), da sua distribuição,
circulação e consumo, podemos dizer que a sociedade pri­
mática não dispunha de uma economia. A extração dos re­
cursos entre os primatas não era socialmente organizada,
exceto em momentos esporádicos da caça coletiva; a extra­
ção dos recursos não era tecnologicamente organizada,
embora
-
eventualmente técnicas rudimentares fossem utili­
zadas; o consumo não era distribuído segundo regras e
normas mais ou menos igualitárias. (Idm).
Já a sociedade hominídea organiza suas duas práticas eco­
lógicas - a caça e a colheita - segundo uma divisão do tabalho
ente homens e mulheres e segundo uma técnica inerente sobretudo
à caça. Já existem, com a caça, regrs coletivas de repartição (dis­
tbuição e consumo) artculadas a uma "produção coletiva".
Assim, esboça-se com tais regras um primeio sistema eco­
nômico. Sem ele a coesão e a complexidade social (homi­
níea) desmoronam-se . . . Estas regras não servem apenas
para manter a complexidade adquirida, também a autopro­
duzem de modo permanente. Deste modo, a economia não
é apenas um setor específco que tem por objetivo a produ­
ção de recursos e ainda mal é um sistema especializado de
produção de artefatos. É bem mais do que uma organiza­
ção de sobrevivência, pois uma sociedade pode sobreviver
sem economia, como o fzeram, sem dúvida, as primeiras
sociedades de australopitecos, e podemos ver que o fm­
damento original da economia não é a "produção" dos re­
cursos, que é pré-econômica, F sim a organizaçã d
relaçã ecológico-soil, segundo M modo autoprodutor
88 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
d complexidde socil. É verdadeiramente um modo de
organização/produção de alta complexidade, partindo (á)
de um certo nível de complexidade. A organização econô­
mica emerge, assim, como cultura no sentido elevado do
termo. Essas regras de organização/produção são, princi­
palmente após o hm erects, adquiridas e, portanto, de­
vem ser transmitidas, ensinadas, apreendidas, reproduzidas
em cada novo indivíduo no seu período de aprendizado pa­
ra poder autoperpetuar-se e p
e
rpetuar a alta complexidade
social. Assim, toda cultura organiza uma economia e lhe
confere Ì deterinado signifcado no interior de uma
determinada complexidade social. (Idem).
O PATRIÔNIO CULTURAL
COMO CONDIÇÃO NATURAL DO HOMM
Edgar Morin distingue, com propriedade, a reprodução da
cultura em cad indivíduo da auto-reproduçã da cultura "que é a
reprodução de uma nova sociedade a par de uma colônia de jo­
vens culturalmente forados que se separa da antiga". É atavés
dessas novas colônias que os grupos sociais se multiplicam partin­
do de um tonco comum. Foi assim que as sociedades hominídeas,
do hm erectus, puderam se estender pelo mundo antigo manten­
do sua alta complexidade. Assim, diversos gpos puderam desen­
volver novas aptidões na convivência com novos ecossistemas, di­
versifcando as culturas dos povos não só no sentido de novas pro­
gressões, mas também de rtocessos.
A regressão de comportamentos inatos no hm sapiens
atavés do que estamos chamando de cultura não signifca que os
códigos que toda cultura institui sejam capazes de substituir o có­
digo genético:
Ao contrário, o código genético do hominídeo desenvolvi­
do, principalmente do sapiens, produz Ì cérebro cujas
possibilidades organizadoras são cada vez mais aptas à
cultura, isto é, à alta complexidade social. No entanto a
cultura constitui, a partir de então, para a sociedade, um
centro epigenético dotado de relativa autonomia, tal como
o próprio cérebro, do qual ela não pode ser dissociada, e a
verdade é que ela contém em si informação organizacional
.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 89
que será cada vez mais rica. Isso é o mesmo que dizer que
a cultura não constitui um sistema auto-suficiente, já que
precisa de um céreõro desenvolvido, de um ser biologica­
mente muito evoluído; neste sentido, o homem não se re­
duz à cultura. Todavia, a cultura é indispensável para pro­
duzir o homem, isto é, um indivíduo altamente complexo
numa sociedade altamente complexa, a partir de um bíed
nu cuja cabeça se vai dilatar cada vez mais. (Edgar Morin).
Essa complexidade culturl adquirida, que necessita de um
cérebro desenvolvido e apto paa a complexidade, vai peritir que
u soiedade, atavés desse patônio genético-cultural, conser­
ve essa complexidade cultente desenvolvida em condiçõs
ecológicas inteiramente novas.
A cultura constitui com efeito uma estrutura de acolhi­
mento favorável a toda e qualquer mutação biológica indo
no sentido da complexifcação cerebral, sobretudo se num
setor primordial, o cérebro se encontra saturado e já não
pode mais ocupar-se de um novo progresso organizacional.
A patir de então, todo salto cultural qualitativo para a
fente e todo salto cerebral qualitativo, também para a
frente, favorcem-se mutuante e a evolução sóiocultu­
ral representa um papel decisivo na evolução biológica que
conduz ao sapiens. (Idm).
O Cérebro, o Jovem e a Ligaem Homiiate
Com vistas a evitar u interretção ingênua que loaliza
num simples e s
ú
bito acaso da mutaçã genética o surgimento de
um cérbro prnto e acabado e a partir daí o surgimento da cultura
e do hm saiens, tora-se melhor falaos de um processo de
cerebralização e da juvenilzação.
A idéia de cerebralização deve sr entendida na sua com­
plexidade biológica e sóiocultural como um prcesso que não é
linear nem paralelo, onde esses teros se conjugam e se rlacio­
n. O cérebro do sapiens possui muito mais aptidõs do que as
que utos ainda hoje.
O cérebro p�sou de 50 cm
3
nos antopóides para 60 a
80 cm
3
nos hominídeos e em seguida para 1 . 10 cm
3
com o hm
90 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
erects, antes d atingir
l
·SO cm3 no homem de Neanderthal (h
m sapiens neanerthale
n
sis) e no lm saiens sapien.
O desenvolvime
n
t
o
da complexidade social exige por pae
do cérebro individual um �onhecimnto cada vez mais preciso do
meio ambiente exterior e
t
<bm da própria organização interior à
soiedade; uma memórii U\ais ampla e apurada; possibilidades de
assoiaçõs; aptdõs pa �scolher, decidir e julga gande número
de situaçõs diversas e i
m
Previstas. Tudo isso contbui pa favo­
rcer toda e qualquer JUUção que aumente as potencialidades do
cérebro e não só quanto
a
o númer de neurónios do córtex superior
do cérebro. Favorece t:�m as mutaçõs genétcas que peritam
conexõs ente partes d
o
Cérebro até então independentes ente si
e, com isso, a emergên
cia
de novos centos cerbrais associadors
e organizadores. Trata�
se
de "uma reorgaização sistêmica mais
complexa, para o que co
n
libui, justamente, o aumento do número
de neuró
n
ios". (Idm).
Relembremos qu
e
� próprio crescimento do cérebro se fez
possível pelo bipedismo e pelo advento do fogo, que libertou o
maxilar de sujeições mecâicas.
Dvemos ter cllO que o aumento da complexidade social,
que o desenvolvimento
d
� caça prite, exigiu o desenvolvimento
da linguagem, que, p
o
r
s
ua vez só pôde se desenvolver plena­
mente a partir de detefl <das mutações genétcas. "A caça coleti­
va, a rpação dÕ arl
e
1o, o tansporte de u crscente vae­
dade de coisas, tudo isso f<zia prssão par u organização soial
mais complexa, que solll�nte é possível com uma comunicação
mais flexível". (Idm). N�o se tata, prtnto, de uma sociedade
mais complexa que pre
c
is<
de u mior comunicação ente seus
indivíduos; é preciso ac
e
s�entar que estaos diante também de in­
divíduos mais complexo
s
que vão exigir uma mais complexa co­
municação. "Talvez sej
a
1iais sensato pnsar que foi a linguagem
que criou o homem e
n
� o homem a linguagem, desde que se
acrescente que o homíi� �riou a linguagem", d Morn. Também
aqui, no que concere à It guagem, vemos o quanto é difícil com­
prendê-la a não ser Sl pbndo a dicotomia oidental consagrada
ente cultura e naturza.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 91
É sabido que o hm saiens nasce em mdia com apenas
23% do tamanho médio do seu cérebro, enquanto que os chimpan­
zés nascem com cerca de 70%. De certo mdo, esse cérebro menor
do sapiens à época do nascimento é o que permite a conforação
biológica atual do coro da mulher, que teria necessariamente outa
confguração caso ele já apresentasse a sua dimensão total nos re­
cém-nascidos. Além disso, sabemos que o sapiens recém-nascido
não dispõe de condições biológicas para garatir sua sobrevivência.
Ele vai prcisa de u nova "placenta", de um novo "úero" paa
s desenvolver plenamente, o que implica o conjunto de sabers
acumulados que terá ·que adqur pa tomar-se homem. Esse fato
de per si já prite que o desenvolvimento do cérebro se dê con­
comitantemente com os estúnulos não só ecológicos m, sobrt­
do, cultis. "Assim, o prolongamento da infância está ligado de
modo multidimensional à sociedade: perite intega as estturas
sóciocultrais nos cérebros e as estturas fndamentais dos cér­
bros nas esttras sóiocultuais, permite o desenvolvimnto tanto
intelectual como afetivo do indivíduo". (Idm).
\ Quanto mais complexo socioulturalmente for o desenvol-
vimento, mais a infância se prolonga na adolescência (proesso de
juvenilização), pois mior é o patmônio cultural adqudo que
tem de ser aprendido, assimilado, reproduzido.
O interessante ainda é que o adulto, apsar de n nossa so
ciedade se pensar e agir de modo contáo, pode contnua aprn­
dendo, alcançando novas adaptaçõs, adquirindo novas estatégias,
novos conhecimentos, mesmo depois da infância e da adolescência,
pois cerebralmente dispõe de caracteres genéticos paa isto. É
exatente a morte da criança e do adolescente que anda sobrvi­
vem no adulto que podemos caacterzar como o fenômeno da se­
nilidade.
Assim, "é perfeitamente evidente que o grnde cérebro do
sapiens só podia surgir, ser bm-sucedido, tunfar, depois da for­
mação de uma cultura mais complexa, e é surendente que se te­
nha podido durante muito tempo acreditar exatamente o contá­
rio". (Idm).
O papl da evolução biológica na evolução social e cult­
ral do homem é muito maior do que se pensava; todavia, vimos
92 CARLOS WALTER P. GONÇ
A
L
VE
S
tbém que a cultura, coisa que até rcentem
en
te sequer se sus­
pitava, é capital para a continuação da evo
lu
ção biológica até
o sapiens.
O fato de as sociedades huas dese
nv
olverem ao longo
do tempo um patmônio de saber sem o
·
qu�
c
ada indivíduo no
interior d u soiedade-cultura não conseg1
e v
iver, não quer di­
zer que os homens saltam da natureza paa a
cul
tura. Na verdae,
desenvolvem a sua natureza. O fato de s apro
pri
am dos poes­
sos de rprodução biológica e de daem um s
ent
ido a eles atavés
da agicultura e da pcuára no signifca a an
ula
ção dos pressos
de rproução biológica. Quando essa rproà

ão não se dá, em
virtude de desequilíros nos novos proessos
d
e
fuxo de matéria e
energia que escapam ao contole do_s homens,
é p
rciso rconhecer
os limites que se colocam ao asoluto domíi
o
� pelos homens -
desses processos. Quando a soiedade humaJ
a
passa a contolar
processos físicos de proução de energia, cor
o o
que se d com a
máquina a vapor, aumenta incrvelmente o pod
er
de produzir novas
sínteses de matéria e energia. Com o aprofnd
am
ento e generaa­
ção desse proesso desencadeia-se u eno
r
e devastação que
aponta novamente para esses proessos, que
esc
apam ao domíio
dos homens. Com isso rvela-se o que a soi
eda
de modera tenta
raliza e teima em ignora: que a cultur ns
o e
xclui a natuza,
mas se desenvolve no interior dela, raliznd
o
novas síteses de
matéria e energia soialment instituídas e, pranto, passíveis de
novos caminhos, novas agri-culturas, novas
fo
ns de mediação
ent o homem e o seu out orgâico-inorgâ
ico.
É prciso rompr com o cartesianismo
d
o res cogit, o
sujeito que pnsa e a res eensa, o mundo qu
e
s aprsenta diante
de nós. Ente a cabeça que pensa e o mundo qv
e e
stá à nossa fnte
existe o corpo que é o que cada um de nós tetl
p
ara esta no mun­
do. E o coro não admite a separação ent o
ho
ll em e a natueza:
ele comporta os dois indissociavelmente. E es
s
e
c
oro é, como vi-
mos, não só descendente fsiológico dos prun
ata
s mas desdobrou,
sob novas foras, a socialidade que neles já es
t
a
v
a presente.
É como nos ensina Serge Moscovici:
"
E
stávamos acostu­
mados à idéia de que nossa fsiologia, nossa a
na
tomia descendem
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 93
d dos prmatas; deveramos habitua-nos à idéia de que o mesmo
sucede com nosso coro soial".
NOTAS
1. O famoso relatório do Clube de Roma, Os Limites do Cresciento, publ­
cado em 1972, está fundado nessas premissas teórico-metodológicas.
2. Os termos "estoque" de homens e "n
i
cursos" humanos, largaente utili­
zados pelos cientistas do Club, são bastante reveladores dos pressupos­
t
9
s que orientam as reflexõs "científcas" da prestigiosa instituição .. .
3. E importante destacar a nova onda liberal que grassa nas décadas de 70 e
80 e ataca a intervenção do Estado em nome da lberdade do mercado,
quando este já está completamente dominado pela presença dos grandes
monopólios empresariais. É a hipocrisia neoliberal que quer a lvre con­
corrência entre desiguais: as pequenas, médias e grandes empresas de
caráter multinacional. Ironicamente, são essas grandes empresas que têm
manifestado enorme preocupação com o problema abiental, pois a exi­
gência de combate à pluição pode ser um importante pretexto para fa­
vorecer a maior concentração ainda do poder econômico, já que as pe­
quenas e médias empresas não teriam condiçõs de atender a essas exi­
gências. Aqui os que se interessam pela questão ambiental não podem ser
ingênuos: tal desdobramento claramente contraria uma das principais
propostas do movimento ecológico que defende uma autêntica descen­
tralização do poder a nível local e regional e não uma simples descentrali­
zação geográfca das empresas, sob o controle de um poder econômico e
polítco cada vez mais concentrado.
SOCI EDADE NATURAL. NATURAL?
No capítulo anteror, prouramos expr 8 luz das novas descober­
t cientícas a complexidade que envolve o conceito de naturza,
sobretudo no que d rspito ao a-homem. Já salientamos
que o homm infelizmente tem sido analisado, nos diversos estudos
ecológicos, como u ser estitamente biológico.
O, o hmem é u ser que por natureza produz cultur;
esta é a sua especifcidade natul. Diferentemnte do pensamento
cornt, os homens ao longo da história cram nor, regras e
instituiçõs não para evitr cair no estado de natureza. Ao contá­
ro, eles o fazem desenvolvendó a sua própra natueza não so­
mente em fnção dos estíulos advindos do meio ambiente,
m
as
também das rlaçõs que os homens estabelecem ent si.
O homem é u animal que vive nos mais diferntes ecos­
sistemas, não só se adaptando a eles mas, também, sobretudo a
parr da rv

lução neolítica, moldando-os a ele, em virtude das
suas necessidades histórico-culturalmente desenvolvidas. É empiri­
camente observável que mesmo em ec
o
ssistemas com características
similas, os povos que os habitam não aprsentam as mesmas ca­
rcterístcas sóciocultuis. A história precedente com o patmônio
cultural herdado, em certos casos tazidos de outas experiências
em outos ecossistemas, as influências sofdas em contato com
outros gpos - tudo isso leva a que cada povo-cultura seja singu­
la e irredutível a qualquer outro. Cada povo-cultura é uma expe-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 95
riência única e rdical e é no interior desse abiente cultul que
se desenvolvem os atibutos e qualdades sem os quas, para os in­
divíduos que nele vivem, a vida não vale a pena ser vivida.
Tudo isso implica que devemos aprfundar a rflexão a
respito da idéia de soied natural, tão comum ent aqueles
que se envolvem com a ecologia. O que é u sociedade natural?
Ora, o simples fato de existirem diversOs povos e culturas já nos
indica que é u atibuto próprio da espécie hua desenvolver
múltiplas formas de organização sóiocultural e, assim, nenhum
desses povos-culturas pode ser apontado como natural em relação
aos outros. Essa diversidade de povos e culturas rsulta das cria­
ções e invenções efetuadas pla espécie humana em situações his­
tóricas singulas e iredutíveis. Deste modo, todos os povos e
culturas sã e n sã naturais, a não ser que os queirmos sub­
meter a um modelo único que considermos natural. E qual sera
esse modelo cultural? Isso, mais u vez, faz-nos lembrar dos hor­
rors da expriência nazifascista o.æ A idéia de uma sociedade natu­
r tem, de fato, uma fore conotação ecofascista.
Na verdade, esta tendência a buscar na natureza o para-
\
digma paa a sociedade está foremente enraizada na cultura oi­
dental, paculaente após os séculos XVI e XX, em certas
vertentes do Iluminismo e do Racionalismo. A flosofa positvista,
com absoluta hegemonia nos meios cientícos, é a maior expressão
desse fato. Amal, conore já constatamos, sob a ótica positivista
a natureza é algo objetivo e, portanto, suas leis estão livres das
paixões, das ideologias e das subjetividades. Deste modo, aplicar
aos homens estas leis objetvas seria encontr a soiedade natu­
rlmente justa.
O que o Iluminismo racionalista não conseguiu incorporar
foi a idéia de que as relaçõs humanas, sóio-historicamente insti­
tuídas, não se establecem exclusivamente em fnção de intersses
práicos imediatos como aqueles que se desenvolvem na mediação
homem-natureza (técnica), m também num campo de rlações
intersubjetivas que é mediado simbolicamente (relação homm-ho­
mem). Todo o racionalismo modero veio se desenvolvendo em
tomo da relação sujeito-objeto, sem levar na devida conta que é
uma out razão que move a rlação sujeito-sujeito na soiedade. É
96 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
da incomprensão dessa problemátca que part a mnia de cha
de iracional ao povo indi�o que se recusa a comer cae de vaca
- animal considerado sagado pelos hindus - quando gande pae
da população mor de fome, ao mesmo tempo em que se esquece,
todavia, de que no nordeste brsileiro assim como na periferia de
nossas gandes cidades, milhõs de seres huos' morm de fome
sem que essas pssoas se atvam a comr cae de cachoro. E
neste útimo caso sequer existe a atenuate de esse a ser con-·
siderdo sagrado . . . :or que não o fazem? Do ponto de vista bioló­
gico não há nada que os impeça e, no entanto, fcamos hororiza­
dos quando lemos nos joras que se anda comendo rato no nor­
deste. Em contapaida, não nos causa incômodo ler também nos
jorais que apsar da nossa alate crise habitacional for
constídos nos últimos anos ms metos quadrados de rsidências
par automóveis (garagens) do que de casas par sers humanos
que "subvivem" nas favelas, cortços e alagados. Olhada assim, de
um ponto de vista crtico, nossa sociedade tambm apace como
iracional o que não nos iJ�de de encontos explicaçõs ra­
cionais para esses fatos . . .
Toda cUltura observada de fora ou sob a ótca de outs
valores aparce como iracional. E suma, tod e qualquer cul
é w sem sentid que faz sentid para as pessoas que nl vivem.
Nenhuma cultua é, assim, rcional,, ao mesmo tempo que todas o
são do ponto de vsta de seus próprios valors.
É imporante sublinhar que no interior de cada povo-cultu­
ra, dependendo da naturza de sua organização soial, desenvol­
vem-se tensõs, conflitos e lutas d cater variado. Sabemos que
aquilo que genericàmente denominamos de cultura oidental (ou
geco-romana ou judaicocristã) compora profndas dfernças no
espaço e no tempo.
As diversas culturas não são imutáveis; novas foras de
organização sóioultural são inventadas e criadas; novos atibutos
e quaidades desabroham e outos são inibidos num presso a­
solutante sem f. O homem não é simplesmente um ser inaca­
bado, é mais do que isso: é um ser inabáel. E esta é uma idéia
pliticant essncial, pis sigica que s o homm n tm fu, a
tolerância e o respito, sobrtudo paa com quem pnsa diferente,
OS (DBS)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 97
devem estar absolutamnte assegurados ent nós. Isto não nos
teros coloados pela tadição liberal que fala de direito à liberda­
de, inclusive para que um homem possa oprmir e explorar outo
homem em nome do progsso e da livr iniciativa quando a ini­
ciativa dos demais está sendo negada. A li®rdade fndada na pro­
predade privada se é positiva para quem é prpretáo, signifca
para aquele que não o é o cerceamento da possibilidade de pleno
desenvolvimento de suas potencialidades. A sociedade que pode­
mos imaginar a partir da situação concrta em que vivemos não se­
rá mais natural do que essa à qual estaos submetidos e questo­
namos. Ela, talvez, prmita que outas potencialidades forsçam.
Talvez mais pssoas consigam se libertar do jugo a que estão sub­
metdas . .. m ela não signifcará d modo algum o f da história,
pois novas tensõs, conflitos e lutas nela se desenvolverão. Outos
possíveis históricos estarão nela sendo inibidos e são eles que
apontarão o sentdo d mudanças e tansformaçõs que terão que
advir.
À primeira vista, estas considerções acerca do complexo
\
desenvolvimento dos povos e das culturas, na verdade, sobre a
históra, parcem fgir à temátca cent d�ste ensaio que propõ
uma rfexão sobre a . ambígua idéia de naturza. No entanto, tais
observaçõs são fndamentais à nossas rfexões, pois toda cultu­
ra elabora os seus conceitos, inclusive o de natureza, ao . mesmo
tempo em que institui as suas rlações soiais. Em nossa s
o
iedade,
por exemplo, a natureza é vista como algo passível de ser domina­
do e submetdo ao Homem todo-poderoso . .. E só não vê quem não
quer a ítima relação dessa idéia com os propósitos de· dominação e
submissão de um homem pr outo homem. Veremos com mais
detalhes adiante que curiosamente aqueles sers huos que estão
submetidos, explorados e oprmidos é que são, com feqüência, as­
soiados à natureza: os ídios, os negros, as mulheres, os oprá
ros, os camponeses, os jovens, as crianças.
Um conceitochave de toda cultura é o conceito de natur­
z. Essa afação talvez abra u pista interessante para novas
rfexõs, libertandonos da aradilha em que até agora estivemos
endados tentando busca aquela caacterística que faria o homem
saltar do reino da natureza paa o rino da cultura. O homem é um
98 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
ser social? É um fabricador de instmentos, um lmo faber? É um
animal falante, lmo linguisticus? É a existência da interdição para
os casamentos, as rlaçõs oe pantesco que o distinguem dos ou­
ts animais? . . . As novas descoberts cientícas fazem car por ter­
ra todas essas tentativas, pois como nos diz Serge Moscovici, "tu­
do nos incita a pôr f à visão de uma natureza não-humana e de
um homem não-natural".
Talvez o necessário seja que todos os que se interessam
pela ecologia aem com veemência - com todas as implicaçõs
da decorrentes - que a sociedade tem limites na. sua rlação com
os outos seres orgânicos e inorgânicos, que habitam o nosso pla­
neta . . . Mas falar em liites - o que à primeira vista pareceria uma
solução é, na verdade, problemático. Quem determina os limites?
Quem, em nome do que ou de quem terá o poder de impor esses
limites? Poder-se-ia alega que quando se tta da vida, da sobrevi­
vência da espécie, essas questões toram-se menores porque o que
importa é a sua preservação antes que seja tarde. Porém aqui, sa­
bemos, não há consenso. Ao contário, há um verdadeiro divisor de
águas ente os próprios ecologistas: pa aqueles que consideram a
vida num sntido estitamente biológico, não há problema quanto à
fora de prservação, desde que isso seja feito com efcáia. To­
davia, existem outos - ente os quais me incluo - que acreditam
que o desenvolvimento da vida hua em toda sua plenitude exi­
ge um trno onde os homens livrmente possam defnir seus des­
tnos e a inexistência dessa condição impede o desabrochar ine­
rente à vida humana que é negado em nome de uma vida puramente
vegetativa, biológica. Esta questão não é nova, e está mesmo na
origem da flosofa na Grécia atiga: os gegos originaamente
chamava pólis ao muro que demarcava, delimitava, a cidade do
campo. Posterimente, pólis passou a designa o que estava conti­
do inturos. Cidadão era aquele que poia participar da discus­
são sobre os destinof da pólis. Escravo er aquele a quem estava
vedado esse direito,. também fora do alcance d mulhers. Política
era a ae de defnir os limites pa a vida na pólis. Tiraia, quado
w defnia os limites para toda a pólis. Democracia, quando todos
os cidadãos goveravam e autoefniam esses limites.
As revoluçõs burguesas estenderam os direitos de cidada­
nia não distinguindo, como os gegos, cidadãos de escravos, ao
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 99
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NÓs, cOOìOgtsI8s, Oh8m8mOs 8 8Icnç8O p8t8 8 pOsstbtìtd8dc dc tc-
Vcts8O dcss8 Icnd0nOt0 cOO-sutOtd8 cngumIO h8 IcmpO, dcscnVOì-
VcndO Ouu8s lOm8s dc tcl8ç8OOOm 8 cXIcns8O dc nOssO OOtpOguc
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ntO8s dc Ouu8s tcì8çÔs cnuc Os hOmns, cnhm, O dcscnVOìVt-
mcnIO dc um8 OuU OuìIut8. ¡nstsItmOs. 1945 - HttOshtm8-N8g8s8-
k - é um m8tOO stnguì8t n8 hts�Ón8 dO ptOcssO OtVtìtz8IÓttO, pOts
OOìOOu OOnODI8mcnIc 8 pOsstbtìtd8dc clcUV8 dc cXUng8O d8 Vtd8
n8OsÓd8cspOtc hum8n8,m8s dc IOd8cspcOtc dc Vtd8.
Íts 8 t8z8O m8tOt dO mOVtmcnIO pì8 Vtd8 guc, OOmO n8O
pdt8 dctX8t dc sct, é um tmpuìsO t8dtO8ì, nO scnUdO m8tsptOmn-
dO dO IcmO, Ou s¿8, guc busO8 tt à riz d8s OOts8sp8t8 dcì8l8zct
cmctgtt um pcns8t, um 8gÎt c um scnut m8ts ì0OtdO. A htsIÓtt8¿8
dcmOnsuOu guc n8O Omh8 ncOcssm8mcnIc p8t8 8 ltcnIc. AssO-
Otcd8dcs guc sc OOnstdct8m Os mms OtVt1tz8dOs lOt8m 8s tcspOns8-
Vcts pcì8s m8tOtcs b8tb8ttcs dO nOssO scOuìO. AusOhWtIz, gulag c
Os bOmbmdctOs dc napal nO Ntcm8,pt cXcmpìO, n8O pOdcm sct
8pOnI8dOsOOmOsuHbOìOs dcptOgcssOd8hum8ntd8dc.
SOCI EDADE MODERNA E NATUREZA
A extema fagmentação do conhecimento, sobretudo a parir
d
o sé­
c
ulo XIX, consagou a sepaação ent o homem e a naturza. A in­
fuência de Descaes, Galileu, Libniz e, particulamente, de Isaac
Newton contibuiu paa forro imaginário iluminista, fundado na
i
déia de uma physis ordenaa t e qual um rlógio, cujos pontiros
fazem sempr os mesmo movimentos. O universo newtoniano é
''relojoiro", mecanicista, sincronizado e não diacronizado. Como
j
á salientamos, Hegel ainda tentou formular u história d soie­
dades, m o fez enquanto história d idéias, história do espíto.
Só na segunda metade do século XIX, com Dain e o seu Origem
d Espécies, termos uma históra da evolução dos seres vivos.
Mas o mundo concreto, cotdiano, já estava profndamente mer­
gado no universo mecâico da Revolução Industial; no turi­
l
hão da vida urbana; no esvazianto do capo; na fuligem d
cidades e regiões negras de pluição. Daí em diante, veremos a in­
compatibilidade ente o mundo mec
â
nico da fíica e o mundo orgâ­
nico da biologia, incompatbilidade essa instituída pla moema
soiedade industial burguesa.
A física modema começou pelos céus, com a astofísica,
onde ms· facilmente se percebm as rgularidades, ao contário do
Jllundo d platas e dos as, menos constante à escala da vida
cotidiana dos homens. Amal, os dias e as noites se sucedem rgu­
laente: a Lu, o Sol e os demais astos podem ter as suas loali-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 101
zaçõs prevists atvés d cálculos matemátcos. Já o mesmo não
podia ser feito com as plantas e animais, que têm ciclos vegetativos
vaados: nascem, florescem e mrm em tempos diferenciados.
Enfnn, o mundo vivo se mostava de uma outa complexidade não
redutível aos mecanismos da lei da gravitação universal.
A idéia de mecaismo, proveniente da física, rapidamente
deixou os céus e desceu à tera para - atavés das máquinas - se
consttu na imàgem de progesso palpável e tangível para a hu.
manidade. A "razão técnica" se impunha à medida que a burguesia
e o seu capitalismo se afmnavam.
A vida concrta dos indivíduos inseridos nas rlações so­
cias capitalistas passou cada vez mais a ser contolada pelo reló­
gio, esse mecanismo rgular por excelência, cuja fnção é sincro­
niza os movimentos de cada um: para que a fábrca funcione é ne­
cessário que todos estejam a postos, à mesma hora, no mesmo lu­
gar; a fábrca exige que as matérias-primas cheguem no tempo
certo; os comerciantes devem estar a postos para comprar e vender
na hora certa; as demais fábricas devem forecer em tempo hábil os
insumos; enun, tudo deve ser sincronizado através de uma rede de
tansportes e comunicaçõs com o máximo de precisão horária pos­
sível. Afmal, ' 'ti is rn' ' e Deste modo, nesse mundo, o reló­
gio se toma um mecanismo de signcado fndamental, pois per­
mite rgular, contolar e sincronizar. a vida social fazendo-a fn­
cionar.
Assim, fcam evidentes as profndas raíes, socialmente
istituídas, que darão suporte real à concepçõs teórco-metodoló­
gicas que privilegiarão nas suas análises o sincrônico e não o dia­
crônico. O Funcionalismo, o Esttsmo e a Teora Geral dos
Sistemas - que pivilegiam o estudo do moo como um determina­
do fenômeno (sistema) atua, em detmento da análise do modo
como se constitufm as condições do seu fncionamento - gaham
uma solidez mas aparente que real. Isso porque embora a realidade
apaeça à primeir vista como fncional - no caso da relação cida­
de-campo, por exemplo, dando a imprssão de que tais pressupos­
tos são capazes de dar conta teoricamente da ralidade do dia-a-dia
-, logo apace u gve, um confito e múltiplas tensõs que si-
102 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
na a existência de contadiçõs no interior da apaente fn­
cionalidade do sistema.
Em rlação às chaadas ciências da natureza, essa prima­
zia do sincrnico foi tão longe que levou à extinção dos cursos de
históra natual e a sua segentação nas áreas da quíica, biologia,
geologia e, mais rcentemente, da ecologia.
Nas duas últimas décadas, toavia, tem-se notado a reai­
zação de inúmeros seminários, congrssos e colóuios de caráter
interdiscipliar que tentam rverter essa situação. Não são peque­
nos os obstáculos a essa abordagem no interior das universidades,
pois o corporativismo se enraizou nos coraçõs e mentes da maor
pae dos nossos cientistas e pesquisadores que acredita que o
moo com nossa soiedade instituiu a divisão do tabalho cientí­
co é a úc possível. . . Não conseguem perebr que essa postura
está profndamente comprmetida com a soiedade existente e, em
pae, é coresponsável plos problemas vivenciados pr ela.
TEMPO E TRABALHO: PRODUTI VIDADE
O relógio, não a máquina a vapr, é a máquina-chave d modema
era industrial.
(wis Munford)
Com o advento da sociedade capitalista nos fmais do século XVII,
a ciência e a técnica passa a assumir um lugar centl na vida
dos homens. A idéia de progresso é associada à industalização,
um dos sinônimos de moderação. É a técnica, acredita-se, que
tomará possível menores custos de proução, maior quantidade de
produtos num mesmo tempo de tabalho. Produtividade, eis a pala­
vra-chave!
O conceito de produtividade implica o de tempo e o de
tabalho. Produtvidade é um conceito temporal, pois é medida
(núro) do resultado do tabalho numa deterinada quantidade de
tempo. Assim, a idéia de produtividade só podia ganha a impor­
tâcia que alcançou se as noções de tempo e de tabalho já estives­
sem também consagradas. E o mundo ocidental nem sempre teve a
concepção de tempo e de tabaiho que apreenta hoje. · Em outas
palavras, as noçõs de tempo e de tabalho passaram por uma pro­
fnda tsforação até srm apropriadas moderamente plas
burguesias mercantil e industal em sua preoupação com a pro­
dutividade.
O TEMO E A OREM MONÁTICA
Os físicos que mderamente leva mais longe o con­
ceito de tempo não percebera o quanto a sua concepção estava
enraizada no mundo medieval. Lewis Munford constata:
10 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Foi, sem embargo, nos monastéros do Ocidente que o de­
sejo de ordm e poder ( . . . ) se manifestou pela primeira vez
, depois da larga incerteza e sangrenta confsão que acom­
panhou a derrocada do Império Romano. Dentro dos muros
do monastério estava o sagrado: sob a regra da Ordem f­
caram de fora a surpresa e a dúvida, o caprcho e a irregu­
laridade. Opostas à futuações eráticas e aos ruídos da vi­
da mundana se achava a férea disciplina da regra. ( . . . ) Por
uma bula do Papa Fabiano, no século VII, decretou-se que
os sinos dos monastérios seriam tocados sete vezes nas
vinte e quatro· horas. Estas divisõs do dia fcaram conhe­
cidas como horas canônicas, fazendo-se necessário encon­
trar um meio para contabilizá-las e assegurar sua repetição
regular.
Acredita-se que os relógios mecânicos que a seguir come­
çaa a ser implantados - como o prir, que se atibui ao mon­
ge Gerberto, depois Papa Silveste I, no século X ¯ seram prova­
velmente de água e teriam sido legados dos tempos romanos ou
tidos ao Ocidente atavés dos árabes. Todavia,
o monastério foi a sede de uma vida regular, e um instru­
mento para dar as horas a intervalos ou para lembrar o res­
ponsável que era hora de tocar os sinos. É um prduto
quase inevitável desta vida. Se o relógio mecânico não
apareceu até que as cidades do século XII exigiram uma
rotina metódica, o hábito da ordm mesma e da regulação
formal da sucessão do tempo, havia se convertido em uma
segunda natureza do monastério ( . . . ) Assim, pois, não es­
tamos exagerando os fatos quando sugerimos que os mo­
nastérios - em um momento determinado houve quarenta
mil homens sob a regra beneditina - ajudaram a dar à em­
presa humana a batida e os ritmos rgulares coletivos da
máquina: pois o rlógio não é simplesmente um meio de
manter a regularidade das horas, mas também para a sin­
cronização das ações dos homens (Idm).
No século XI já existem város regists de relógios me­
cânicos e em 1370, Heirich Von Wyck havia constído u rlógio
modero bem projetado. O interssante é que são as tores das
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 105
igejas os lugares prferidos para faer soar as horas nas cidades da
Idade Média:
As nuvens que podia paralisar o relógio de sol, o gelo
que podia deter o relógio de água numa noite de invero,
não eram já obstáculos para medir o tempo: verão ou in­
vero, de dia ou de noite, se dava a conta do ritmo do soar
das horas. O instrumento prontamente se estendeu para fo­
ra dos monastérios e o som regular dos sinos trouxe uma
nova rgularidade à vida do trabalhador e do comerciante
- as batidas do relógio da torr quase deterinavam a
existência urana (Idm).
O rlógio, instmento de medida do tempo, é o súnbolo
que sintetza a ord monática e a ord comercial na cidade da
Idade Média. Assim como a orde montica é auto-insttuída,
coq suas horas canônicas, e indepnde dos tempos físicos ou bio­
lógicos, o crescente desenvolvimento do comércio que expermen­
t as cidades da Idade Média vai ser rgulado plos relógios me­
cânicos. Esse tempo abstato, medido matematicamente, advindo
dos mnastérios, vai ser aproprado pla burguesia merantl, cujas
proupaçõs - plo próprio caráer da sua atividade - são sempre
de ordem quanttatva. A, u negócio msta-se mlhor do que
out plo seu rendimento medido em cis. Assim, pouco a pou­
c, a idéia de quantdade passou a pvalecer nas anáises e avalia­
çõs sobr a noção de qualidae. E · o dinheiro, sabmos, é uma
medida abstata que serve de equivaente paa qualquer mercado
ria. É o equivalente geral, cujo valor vaa na razão dita da sua
quatdade. Pode-se adquir mais ou menos mrcadorias de quali­
dades diferentes em fnção da quatidade de dinheir que se pos­
sui. O tem asto insttuído com o rlógio (horas canônicas)
encont n prática burguesa meratl u _terno sólido.
Lwis MUinford chega mesmo a dizer que "hoje nenhuma
mquina é tão onipresente como o relógio". Di, ainda, que
na orgem mesmo da técnica modera, apareceu profetica­
mente a máquina automática precisa, que só depois de sé­
culos de ulteriores esforços ia tambm provar a perfeição
desta técnica em todos os setores da atividade industial.
Houve máquinas movidas pla energia humana, como o
106
CARLOS WALTER P. GONÇALVES
moinho hidráulico, antes do relógio; houve também diver­
sos
tipos de autômatos que assombraram ao povo no tem­
plo
, ou paa agrada à ociosa fantasia de algum califa mu­
çulmano; encontramo-las ilustradas em Herón e em Al-Ja­
zai. Mas agora tínhamos uma nova espécie de máquina, na
qual a fonte de energia e transmiss�o eram de t natureza
que asseguravam o fuxo regular de energia dos trabalhos e
faziam possível a produção regular de produtos estandadi­
za
dos. Em sua relação com quantidades deterináveis de
en
ergia com a estandarc:ização, com a ação automática e,
fnalmente, com seu próprio produto, o tempo exato, o re­
lógio tem sido a máquina principal na técnica modema: e
em cada príodo tem seguido à cabeça: marca uma perfei­
çã
o pa a qual aspiram outras máquinas ( . . . ) Ademais, o
relógio é uma máquina produtora de energia cujo "produ­
to" é segundos e minutos: per sua natureza essencial dis­
so
cia o tempo dos acontecimntos humanos e ajuda a criar
u
ra crença em um mundo independente de seqüências
matematicamente mensuráveis: o mundo essencial da ciên­
ci
a. Existe relativamente pouco fndamento para esta cren­
ç
a na comum experiência humana: ao longo do ano, os
di
as são de duração desigual e a relação entre o dia e a
noite não somente muda continuamente, senão que uma
p
equena viagem do leste ao oeste muda o tempo astronô­
m
ico em um certo número de minutos. Em teros de orga­
ni
smo humano mesmo, o tempo mecânico é ainda mais es­
tranho: enquanto a vida humana tem suas próprias regula­
ridades, o bater do pulso, o respirar dos pulmõs • mudam
de hora em hora segundo o estado de espíito e a ação e,
no mais largo lapso dos dias, o tempo não se mede pelo
calendário senão pelos. acontecimentos que os preenche. O
p
astor o mede segundo o tempo que a ovelha dá a luz a um
cordeiro; o agricultor o mede a partir do dia da semeadura
ou pensando na colheita; se o crescimento tem sua própria
d
uração e regularidades, por detrás destas não há somente
matéria e movimento, senão fatos do desenvolvimento: em
bteve, história. Enquanto o tempo mecânico está formado
p
or uma sucessão de instantes matematicamente isolados, o
tmpo orgânico - o que Bergson chama duração - é cu­
mulativo em seus efeitos. Ainda que o tempo mecânico
Pssa em certo sentido, acelerar ou ir para trás, como os
p
onteiros de um relógio ou as imagens de um flme, o tem­
p
o orgânico se move só em uma direção, através do ciclo
do nascimento - crescimento - desenvolvimento - deca-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENE 107
dência e morte e o passado que já é morto segue presente
no futuro que ainda há de nascer.
Ao redor de 1345, segundo nos infonna Thore, o tempo
já estava dividido pelo sistema sexagesimal - muto com 6 se­
gundos; a hora com 60 minutos; o dia com 24 horas (múltiplo de 6)
e o ano em 365 dias. Este marco abstto do tempo dividido serviu
de referência para a ação e para o pensamento e "em um esforço
para chegar à prcisão neste aspecto, a exploração astonômica dos
céus concentou mais ainda a atenção sobr os movimentos regula­
res e implacáveis dos . astos atavés do espaço". Já nos anos que
corem pelo século XV, u jovem mecânico de Nuremberg, Peter
Henlein, cria "relógios com muitas roas com pequenos pdaços
d ferro" e, no fa deste mesmo século, os relógios domésticos já
haviam sido introduzidos na Inglatera e, como não podia deixar de
sr, na região de Flandres. Portanto, o relógio sai do ambiente fe­
chado dos monastérios, ganha as tores das igrejas, govera o coti­
diano das cidades comerciais e, fmalmente, enta em casa. Assim,
antes de Galileu dizer que "a linguagem da natureza está escrita
\ em números" ou é matemática, ou de Benjamin Fr dizer que
"Tempo é Dinheiro", o dia-a-dia dos homens já estava marcado
pela quantifcação de horas, do tempo . . .
Diz Lewis Mumford:
Quando se considera o tempo não como uma sucessão de
experiências, mas sim como uma coleção de horas, minutos
e segundos, aparecem os hábitos de acrescentar ou de eco­
nomizar tempo. O tempo cobra um caráter de espaço fe­
chado: pode dividir-se, pode preencher-se, pode, inclusive,
dilatar-se mediante o invento de instrumentos que ecomi­
zem tempo.
E continua:
O tempo abstrato se converteu no novo âbito da existên­
cia. As mesmas fnçõs são reguladas por ele: se come não
porque se tem fome, mas porque está na hora; se dorme
não porque se está cansado, mas poque está na hora. Uma
consciência generalizada do tempo acompanhou o emprego
mais extenso dos. relógios. Ao dissociar o tempo das se-
108
CARLOS WALTER P. GONÇALVES
qüências orgânicas, se faz mais fácil para os homens do
Renascimento satisfazer a fantasia de reviver o passado
clássico ou os esplendores da antiga civilização romana. O
culto da História, aparecendo primeiro no ritual diáo,
abstraiu-se fnalmente como uma disciplina especial. No
século XVII apareceram os jorais e a lieratura periódica:
inclusive no vestir, seguindo Veneza como centro da mo­
da, as pessoas mudavam a moda a cada ano em vez de a
cada geração.
Não se pode ainda esquecer que o rlógio mecânico, ao fa­
zer os
ponteiros se -moverem no espaço de u cículo peritu
também u concepção de espaço abstto que nada tem a ver com
o espaç
( concreto da geografa de cada dia dos homens. As cartas
geogácas, a catogafa; passam a ter u grande desenvolvi­
Il ento, pois as viagens podiam se feitas com economia de tempo se
auxiliada
s pelo sistema de coordenadas geogcas. Os mercadores
muito s
e interessa por essas cartas, tendo fcado famosa a pro­
jeção Mercator, cujo nome, diga-se de passagem, não faz referên­
cia a su inventor, m sim a u profssão (mercador).
T
B
ALHO:
DE SO
\
RIENO A REDENÇÃO DA HAADE
'rabalho, do latim vulgar tripaliare, torturar, derivado de
t
r
ipalwn · "instumento de tortura composto de três paus";
<a idéia inicial de "sofrr passou-se à de esforçar (se), lu­
t, pugnar e, por f, trabalhar.
'rabalhador, século XV.
(
Dicionário Etimológico d Lfngua Portuguesa, de Antô­
nio Gera1do d Cunha, Rio de Janeiro, Nova Fronteira,
1 982).
A relação ente a sociedade e a linguagem é evidente, pois
é atavé

da linguagem que cada u comunica aos outos os seus
sentimentos, desejos e aspiraçõs. É no contexto da sociedade que
as palavras ganham (e mudam de) signcado com o devir da soie­
dade. A palavra tabalho, por exemplo, nem sempre teve o mesmo
signif
ca
do no mundo oidentl. De sinônimo de sofimento, can-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 109
saço, penalização e até tortura, pouco a pouco, yai . gahando um
signifcado positvo à época do Renascimento. A palavra inglesa,
de origem latina, lbor; ponos, do gego; travai!, do fancês e Ar­
beit, do alemão, todas rmetem ao signifcado de dor e esforço da­
queles que tabalam, estando· também associadas à idéia de misé­
ra e penúia, sobretudo em gego e em alemão, onde têm a mesma
r etimológica que pobrza (penia e Arut, rspectivaente).
A partr do século XI, segundo Han a Arendt, o taba-
lho passa
-
da mais humilde e desprezada posição ao nível mais eleva­
do e à mais valorizada das atividades humanas, quando
Locke descobriu que o trabalho era a fonte de toda pro­
priedade. Segiu seu curso quando Adam Smith afrmou
que o trabalho era a fonte de toda a riqueza e alcançou seu
ponto culminante no 'sistema de trabalho' de Ma, onde o
trabalho passou a ser a fonte de toda a prodÚtividade e ex­
pressão da própria humanidade do homem.
Paa o crstianismo, o sofmento tem um signifcado ao
mesmo tempo positivo, pois "é mais fcil um camelo passar pelo
\ buraco de u agulha do que um rico ent no reino dos céus' ' . O
tbalho enquanto sofmento é, assim, a depurção dos pecados
para que se alcance o paíso. O desprzo que o cristianismo tem
pelo coro, pela cae, locus do prazer e da sensualidade, é que le­
va à idéia de que "o tabalho dignifca o homem". O coro está
sempr à mercê da sedução demoníaca por isso é prciso mortcá­
lo. Todo esse desprezo judaico-cristão pelo tabalho, pelo coro,
fcou consagrado no Ocidente plas oposições tabalho manual
versus tbalho intelectual e idéia versus maéria. É possível identi­
fcar já em Platão essa distinção ente tabalho intelectual e braçal,
que o cristanismo levará longe. A práxis crstã é plena de evidên­
cias que apontam nesse sentido, como, por exemplo, a autofagela­
ção dos corpos e a identifcação do crstão com os corpos que so­
frem, os corpos doentes, sobretudo o dos leprosos. Maior sofi­
mento consequentemente maior depurção. É dos pobres, dos so­
fdos, o rino dos céus . . .
A par dos séculos XV e XVI, com o desenvolvimento do
comércio e das manufaturas, começamos a obserar uma mudança
1 10 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
no conceito de tbalho, atavés da crítca ao óio aristocrátco. É
sabido que a riqueza da astocrcia feudal e da Igreja provinha da
prpriedade territorial, imóvel, atavés dos tibutos que os servos­
caponeses estavam obrigados a pagar par contiuar tendo dito
ao usuto das teras senhoriais. Nos iterstícios da sociedade
feudal, a partir dos séculos X/X e sobrtudo do século XI, crs­
c a burguesia mercantl, cuja riqueza é exprssa em dinheiro, um
bem móvel. Para a burguesia mercantil, a rqueza dependia da sua
capacidade de emprender, de gera cada vez mas dinheiro em cir­
culação e esta é a sua rã de .ser. À burguesia mercantil não inte­
rssa o ócio. Ao contrio, é da negação do ócio, do negócio, que
ela vive: a preocupação de aliar seus negóios impele a burgue­
sia a se itressar pelo conhecimento da técnicas que tomem pos­
sível aumenta a gama de produtos que comercializa no mercado. A
preoupação com a produtvidade, sinônimo de efcácia do tabalho
no universo burguês, expresso pelo mis (e não pelo mlhor) que
se produz numa deterinada unidade de tempo, vai ser consagada,
sobretudo com a Revolução Idustial dos séculos XVIe XX. É
preciso ter em conta que ente os séculos XV e XVI ocoreu
u verdadeira revolução agícola, caacterizada pela itodução
de novas técnicas de cultivo, de drenagem de rios e constção de
canais nas teras ar endadas com objetivo de produzir para o mer­
cado; teras essas que antes eram cultivadas pelos servos-campone­
ses com a fmalidade de garantir seu próprio alimento. Assim, teras
que eram usadas paa produzir o que se destinava ao próprio uso
de quem as cultvou (produção .de valores de uso) passam a ser uti­
lizadas tendo em vista a produção para a venda ao mercado (pro­
dução de valores de toa).
Pa a burguesia que começa a se forma, a riqueza depen­
de do crescimento da capacidade de tbalhar a ter, do rndi­
mento do tabalho. O tabalho, prtanto, com a acensão da bur­
guesia, passa a se tomar. um conceito positivo e, pouco a pouco, a
máquina, pela sua capacidade de potencializar o tbalho, vai ad­
quirdo um signifcado cada vez mais imporante.
Como o Renascimento falava de um homem genérico que,
confore advogou Descas no século XVI, com sua capacidade
de penetar os mistérios da physis poderia descobrir novos usos pa-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 1 1 1
r a natuza, pneceu a crnça numa divisão natural ente os
que pensam e os que fazeJ, ent os que tbalham com a ment e
os que tabaha com as mãos ou com o coro. Todavia, não foi
fácil consagr essa distnção ente os séculos X e XVI até
porque muit das "invençõs" desse período form realizadas por
homens comuns como artesãos e camponeses.
O advento do mundo das máquinas, sobrtudo da máqui�
a vapor, consagrou toda u tadição flosófca e polítca atualiza­
da pela burguesia. A máquina não é propriedade de todos, m da­
queles que conseguiram concentr o capital em suas mãos e vai
sr usada paa ampliá-lo. Assim, desde o início, o burguês tem um
olho no merado, nos seus competdors, e outro no aumento da
produtvidade, condição para ganhar a concorência. O rto das
máquinas fca subordinado à competição e desde o início os que
tabalha vão ter que sofer os seus desígnios. A máquina é a ex­
prssão palpável e tangível que encaa toda u flosofa, toda
uma concepção de mundo. Tal como um rlógio pode fncionar de
dia e de noite, no invero e no verão independentemente dos ciclos
da natuza e dos coros dos homens, a máquina subordina os ho­
mens a sua batida indiferente. Daí a idéia de universalidade contida
na máquina, pois o seu prncípio pode ser levado aos mais dife­
rntes campos da ação hua.. . Todavia, cada ecossistema tem
.
seu próprio rito e proesso de propuçãoreprodução. Cada ser
humano tem seus próprios humores e movimentos não rdutíveis ao
movimento rtilíeo e uniforme das máquinas . . .
No caso da agicultua, a mecanização será mais tardia,
pois as máquinas tendem a ser especializadas, exigindo para isso a
homogeneização dos proessos de cultivo. Já sabemos que essa
prática, a formação de plantações homogêneas, implica simplifca­
çõs e tora os ecossistemas muito mais vulneráveis. A tentativa
rcente da chamada "Revolução Verde" mostou a impossibilidade
de tansplantar a lógica do mundo ficomecânico paa o campo
biológico-orgânico. Os gastos cada vez maiores com adubos quí­
micos paa gantir o equilíbro dos ecossistemas simplcados têm
apontado para rendimentos decrscentes, quando olhados pela ótica
fmanceira, conforme demonsta o relatório do Clube de Roma Os
· Liites d Crescimento.
1 12 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Se ainda considernos a questão do uso das máquinas
pelo lado dos homens que as operr
n nas ind
ú
stas, veremos quão
gves são as suas conseqüências no que d respeito ao barulho, à
poluição do ambiente intero das fábricas, ao stess, aos acidentes,
etc. Aliás, se consideranos o sigcado da' palavra acidente - do
senso comum, dicionarizado: "acontecimento casual, fortuito, im­
previsto" - veremos que a exprss
ã
o não é oportuna com rlação
ao processo de tabalho. Afmal, o
ri
to unifore e rgular das
máquinas, acelerando ou dinuindo
a sua
intensidade ao sabor das
circunstâcias do mercado e da con
corrência, submete os operáos
a uma exigência de monotonia impOSsível de ser atendida por um
ser humano. Deste modo, o "aciden
te de tabalho" é inernte à ro­
tina do sistema de fábrica, nada tendo de acontecimento casual,
foruito, imprevisto como diz o dicionário do Aurélio. O mesmo
pode ser dito com relação ao tnsito de automóveis que também
exige uma atenção sobr-h
uf
a. Neste campo, os acidentes po­
dem ser mados m não evita
dos, como o demonsta o siste­
m de t
â
nsito dos países tdos como mais civilizados. O que sera
de estanhar é a ausência de acident
es nas fábricas ou no tânsito e
não a sua ocorrência . . .
A mudança do conceito de
t
abalho de u conotação ne­
gativa a
·
outa positva está, portnto, assoiada à ascensão da bur­
guesia mercantl e depois industial ao poder; à produção de mer­
cadorias; ao tempo abstato. Não é
à-toa que
f
oi nos lugares onde
era maior o desprzo plo coro, ist
o é, nos monastérios, nas minas
e nos exércitos que as máqui
l
as iniciaram sua tajetória até se
constituím no mito de redentoras d humanidade.
ECONOMIA/ECOLOGIA:
VALOR DE USON ALOR DE TOCA
Enquanto os ecologistas falam do uso racional dos rcur­
sos natus, os economistas se proupam com o prço e com o
valor de toa das mercadorias. Essas são falas exclude
n
tes, onde
valor de uso e valor de toa necess
a
a
mnte se opõm.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 1 13
O, toda mercadora, é, como tal, produzida não para o
uso de quem a faz, mas sim para a ta. Exclua-se o caso dos
camponeses que noralmente vendem o pqueno excedente da sua
produção, porque isto não é característico da produção capitalista
de mercadorias: um capitalista do setor siderúrgico, por exemplo,
não prduz aço paa si próprio e depois vende o excedente. Para o
capitalista, o "uso" precípuo da mercadoria é lhe servir como valor
de toca medido em cifas. Não é nada incompatível um empresário
diabético, dono de u usina de açúcar. Na verdade, o capitalista
se abstai do vaor de uso podendo mudar de setor de atividade ao
sabor das circunstâncià do mercado. Para ele, o valor de uso é
simplesmente um veículo pa o valor de ta. Ta fenômeno ob­
viamente não é natural, ao contrio, foi insttuído com a sociedade
burguesa. Não é de esthar, portanto, que o ecológico fque su­
bordinado ao econômico numa sociedade onde a generalização das
relaçõs mercantis é a tônica. A começar pela separação do taba­
lhador d condições naturais de produção.
O esvaziamento do campo e a urbanização· são manifesta­
ções evidentes desse proesso. Aal, a exprpração do tbalha­
dor é condição da mobilidade do capital. O capital não pode migrar
de um setor paa outro ou de u região para outa se não houver
tabalhadors que o acompanhem. Poe-se observa nitidamente
que os fuxos migratórios seguem o rumo da expansão do capital.
Como foi na indústia que o capital mais plenamente se apoderou
do processo produtvo, não é de estanhar que tnha sido em toro
das fábricas que se constituíam as grandes aglomeraçõs urbanas
após o advento do capitalismo. A organização do espaço é social­
mente institída. Deste modo, com a separação do tabalhador da
tera, as rlações soiais começam também a ser mercantilizadas. A
maior pate da população agora exproprada se vê obrigada à venda
de sua capacidade de tabalho por um preço, por um salário. Para
satisfazer as suas necessidades, sejam do estômago, sejam da fanta­
sia, tem de pagar o prço da mrcadoria. O uso de u mradoria,
isto é, à satisfação do desejo de consumi-Ia está, portanto, na de­
pndência da disponibilidade de dinheiro para adquir-la e, por­
tanto, do salário que se percebe. O valor de
.
uso está subordinado
ao valor de toca. Deste modo, pode-se comprender a aparente ir-
1 14 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
rcionalidade do ato de se atir tomates, cebolas ou pintnhos aos
rios, como a imprnsa dive�as vezes divulga, quado o prço por
eles oferecido não gate aos propretáros dessas mercadoras os
lucros que esperavam, enquato milhõs de pessoas passam fome
nas priferas urbanas e nos campos, assistndo m�itas vezes ao es­
ptáculo pela televisã.
Nas ters lberadas pela expulsão dos camponeses, passa­
se a produzir não o que é mais adequado à composição fíico-quí­
mica-orgâica dos solos, mas aquilo que o merado demanda. Se o
produto é prcível, como o são a maior pa dos produtos agrí­
colas, há que se d u sobrevida ao valor de uso, pois se eles se
deteroram deixam de ser comprdos, prdendo assim o valor de
toca. Daí a prátca da utlização de conservates quíicos para ga­
rantr que o produto fque mas tempo nas prteleiras à espera de
alguém que pague o seu prço. Mas uma vez, o econômico se so­
brepõ ao ecológico: o valor de toa ao valor de uso.
A noção de tempo que está por t desse processo é o
tempo do capitl e não a temporaidade dos ecossistemas ou dos
tabalhadores. É o tempo da concorncia, tduzido no interior das
unidades de produção, nas fábricas e fazendas, pela proupação
com o rndimento do tabalho, com a produtividade. São profndas
as implicaçõs recíproas ent a ecologia e a economia instituídas
pla ordem capitlista. Todavia, os economistas pouca atenção de­
dicam à ecologia, ·sendo raro o curso de economia que ofereça em
su cur cuo a disciplina eologia O mesmo poe ser dito dos cur­
sos de ecologia que pouca atenção dedicam à economia, a despeito
de a duas disciplinas terem, inclusive, o msmo radical oiks ¯
eco , que signifca "casa", "morada", "habitat". De fato, o que
pace existr ente elas é um diálogo de surdos, onde os intero­
cutors falam mas não ouvem: o ecologista fala do valor de uso e o
economista fala do valor de toca. A segmentação do conhecimento
mosta aqui concretament as suas conseqüências. Valor de uso e
valor de toa são as duas faces da mesma moeda, a mercadoria,
embor o especíco da mercadoria seja o valor de toca.
O valor de uso diz respeito à qualidade de um produto, à
necessidades que ele pode satisfazer, seja a fome, seja a fantsia.
Toda mercadoria tem uma utlidade determinada cultente. Já
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 1 1 5
o valor de toa d rspeito à quantidade, rmete ditamente ao
dinheiro, essa mercadoria que faz com que inevitavelmente em
nossa sociedade o maior seja o melhor, pois quato maior a quanti­
dade de dinheiro disponível, maiores são as chances de usufuir
dos bens e serviços de que temos necessidade, Em suma, no mundo
capitalista é o valor de toca que move a sociedade e não o valor
de uso que é simplesmente um veículo pa a realização daquele. É
a quatdade, portanto, que se impõ à qualidade; a economia à
ecologia, o abstato (o tempo de tbalho, a produtvidade) ao con­
creto (as qualidades de cada produto).
Assim, de nada adianta aos ecologistas acusar os econo­
mistas por não manifestarem procupaçõs ecológicas, se os pró­
pros ecologistas não superarem o ecologismo naturaista - que só
se preocupa com os efeitos natuis - das práicas sóio-econômi­
cas, instituídas estas atvés de muitas tensões e lutas e que, por­
tanto, nada têm de natuis. Tal procedimento nos permitirá enten­
der por que se todos se dizem em princípio a favor da ecologia
muitos, na prática, agem conta ela . . . Em outas palavras, é preciso
romper com a tese muito dndida ent os ecologistas de que "os
homens estão destuindo a natureza", aação que mais confunde
do que esclaece quem �ão os verdadeiros amigos e inimigos de
uma prática socialmente justa e ecologicamente responsável. Af­
nal, na nossa sociedade, a maor pae da população não dispõ da
tera e dos dems recursos natus e, poranto, não é diretaente
responsável plo uso que é dado a esses rcursos. Os proprietários
das ters e de outos meios de p�odução é que, em fnção da pró
pra concorência, vêem-se comlidos a aumntar a produtividade
de suas empresas sob pena de deixarem de ser capitalistas. E, paa
isso, lançam mão das técnicas ms efcazes, sejam elas ecológicas
ou não. Deste modo, não rspeit os tempos dos ecossistemas ou
os humors do tabalhadores, como bm o demonstou Charles
Chaplin em Temos Moders. Se os homens, em sua maior pae,
fcam sepados da extensão natur dos seus coros, isto é, da
naturza, vêem�se obrigados a comprar no mercado auilo que po­
dera produzir, caso as condiçõs fossem outs. Para o capita­
lismo isso signifca desenvolvimento, pois são mais pessoas ven­
dendo a sua capacidade de tabaho, gerando lucros para os empr-
1 16 CARLOS W. PORTO GONÇALVES
sários e comprando mercadoras. Assim, quanto ms s separa o
homem da natuza, mais meradoras podem ser vendidas e maior
produção é contabilizada pelos indicadores de desenvolvimento,
como PI, PN, a rnda per cita, etc . . .
É interessante neste aspecto verica o lugar rservado à
mulher na nossa sociedade: a casa. Restta sobrtudo ao lar, a
mulher desenvolve no âmbito doméstco u economia cuja mag­
nitude causaria espanto caso fosse contabilizada. Todavia, a mu­
lher em casa usualmente não produz para o mercado; não produz
valores de toca, mas sim bens para o uso familiar. Sua produção
não é em sére, ao conto, cada casa tem um sabor próprio,
mesmo que se use o mesmo aroz e o mesmo feijão. O tempro de
cada casa é próprio, cada um tm a sua própria singuladade, a
contáo do mundo dos homens, comptitivo e rpetitivo na busca
da efciência, da maior produtividade. Trata-se de duas lógicas
contapostas; a da mulher - enfatzando o valor de uso e a qualida­
de; e a dos homens - centda no vaor de toca e na quantidade.
En, o capitalismo se a ao desorganizar os diversos
sistemas de produção fndados no valor de uso e a prmeira condi­
ção paa isso é separa os indivíduos da sua ambiência sóio-natu­
r. Alguém comprara o seu arroz e o seu feijão se dispusesse de
condiçõs naturais para produzi-los por conta própra? Alguém
compraria máscaras de oxigênio, como já oore no Japão, s o ar
da sua cidade fosse puro? Alguém comprara água engar afada se
os mananciais que abastecem a cidade fossem limpos? Alguém
compraria plantas oramentais se existissem bosques na cidade ou
quintal em suas casas? . . . Separa o homem da natureza é, porto,
u fora de subordiná-los ao capital. O pior é que mais rcente­
mente surgiram empresas que vendem "a puro", "água limpa" ou
companhias imobiliáas que vendem paisagens despoluídas, fazen­
do uso, inclusive, de jargõs ecológicos em sua propaganda. . . O
que seria de uma empresa que vende máscaras de oxigênio se o a
das nossas cidades não fosse contaminado? É pura ideologia, senão
deslavado cinismo fazer propaganda "ecológica" quando se vive
da polução.
O movimento ecológico prcisa de muita lucidez paa s
mover nesse uiverso contaditório. Se quermos estabelecer u
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 1 17
out rlação c
o
m a natureza, devemos ter clao que isso implica
u outa :lação dos homens ent si e, dessa fora, se fa neces­
sária muit luta pa rverer o quadro atual. Nesse sentido temós
muito a aprnder com a luta dos tabalhadores que, a despeito do
discurso d
ominate, foram os verdadeiros "civilizadores'' do capi­
taismo. . . Como hoje é comum falar-se no Brasil de capitalismo
selvagem, é importante lembrar que inicialmente também na Euro­
pa e nos Estados Unidos as condiçõs que o capitismo .mpôs aos
tbalhadores e ao meio ambiente foram extmamente duras. Por
volla de 1 830
, a jorada de tabalho er de 14 a 16 horas; começa­
va-se a t
bahar aos 6-7 anos de idade, como bem o demonst
Charles Di
ckens, no caso da Inglatera e Vítor Hugo, para a Fran­
ç. Apsa d acusaçõs de desordeiros e subversivos, foram os
talhadors com suas lutas que conquistaram a joma�a de taba­
lho di
áa d
e 8 horas, a semana de 5 dias, as férias remuneradas de
30 dias e limitaçõs adicionais ao tabalho das crianças e das mu­
lheres. Em
Manchester, por volta de 1840, segundo fontes ofciais
d autoridades brtânicas, a expectatva média de vida de um op­
r
á
io ao na
scer era de 1 7 anos! Essas' conquistas efetvamente ate­
nu as condiçõs de vida . e de taalho dá gande maiora dá
população. Não nos esqueçamos de que foi a par dessas con­
quistas opráas e populaes que o capitalismo desenvolveu a in­
d
ústia de rou
pas esportivas para o lazer de f de semana e toda a
"
ind
ú
s
t
a do
tuismo", passando a merantilizar o tempo livre do
tabalhador
que hoje, indiscutvelmente, é .respnsável pela expan­
são de emprsas capitalistas para novas áas, levando para regiõs
longíquas - com seus hotéis e outs atividádes comerciais - um
sistema de
"
prços de tusta" que a população local desconhecia e
a que tem de se subrdina. Dessa fora, se hoje nosso ambiente
está poluído e nossa qualidade de vida prejudicada, depende de nós
com nossa lut
a, e sabendo enconta nossos verdadeiros aliados, a
conquista de
u ambiente-soiedade saudável.
A TÉCNICA, A SOCI EDADE
E A NATUREZA
Nenhuma sociedade hua teve com a técnica a rlação que a so­
ciedade européia estabeleceu para si própria e depois expandiu
mundo afora ao longo do século X. Que qualquer sociedade use
técnicas é uma verdade banal. Todavia, o aparto técnico da cha­
mada sociedade industal é outo, a ponto de ele ser visto como a
condição por excelência do desenvolvimento dos povos a par de
então. A "razão técnica" ganha u dimensão inaginável, daí a
exaltação da ciência e da técnica em oposição à flosofa especula­
tiva e aos dogas religiosos. A "razão técnica" está preoupada
com o agir-com-vistas-a-u--imediato, com a efcácia. Está li­
gada à intervenção do homem na natuza, aos processos de taba­
lho. Todavia, este é um dos capos da ação humana que é const­
tuído também pela relação dos homens ente si, mediatizada por
relaçõs simbólicas, itersubjetvas. São rlações complexas de
duas ordens diferentes, porém imbricadas: rlação sujeito-objeto,
no que d rspito à rlação do homem com a natureza e sujeito
sujeito, no que d respeito aos homens. Uma não pode ser rduzi­
da a outa, embora haja infuências rcíprocas. No entanto, como
vivemos· numa soiedade macada plo produtivismo, a "�ão téc­
nica" torou-se a úica razã. Os próprios homens, os tabahado­
res, passaram a ser levados na conta de objetos, de fators de pro­
dução, de rcursos huos e . e ! e
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 1 19
Vários aUtors assinalaram que a sociedade capitaista pro­
priaent dita começou a se a efetvamente quando o capital
s desloou da esfer do comércio para a esfera produtiva. A ma­
nufatu é a primeira expressão disso, ao reunir sob um mesmo teto
vários tabalhadors, combinando os tabahos parcelares de cada
um deles sob o comando do capitalista. A par d o advento da
máquina toma-se-á u possibilidade e no presso de desenvol­
vimento capitaista a manufatu foi sendo pouco a pouco substi­
tuída pela "mauinof". A inovação tecnológica toma
-
se sinô­
nimo de progesso e a históra recente da tecnologia é vista como
u sucessão peranente de técnicas que substituem u às ou­
t. Por que a maquinofatura substitui a manufatua? Porque é su­
prior tecnicaente, nos rspondem. Mas por que a maqunofatura é
mais produtva? Porque produz mais unidades físicas de mercado­
ras na mesma unidade de tempo. Og esta rsposta é tautológica: a
maquinofatura produz mas, por isso é mais produtiva! Todavia, a
rsposta a esta questão é fndament para que comprendamos a
relação que nossa soiedade instituiu com a técnica. Na verdade, a
maquinofatua é superior no sentido de mais produtiva, porque im­
plica para o capitalista um maior contole sobre os homens e a na­
tureza. Vejamos:
1 - Sobre os hmn: Na manufatura a energia é fnda­
mentalmente dos própros homens, dependendo dos seus coros o
rito do proesso de tabaho. Daí, mu (mão) e fatra (fazer).
O¿ por mais que se queira exigir de um tbahador, o seu coro
tem um limite psíquico e biológico que consttui um obstáculo efe­
tivo à demanda do capital por apliar peraentemente· a sua pro­
dução. Aqui adquirem pleno sentido as lutas operáas pla redução
da .jorada de tbaho. A manufatu aprsentava, pois, limites à
dinâica da acumulação capitalista. Com a maquinofatura o capital
se libera desses limites. Agora é a máquina que faz (maquino +
fatura), fcando o tabaador subordinado ao rtmo que o capital
impõe. Deve-se destacar anda que na manufatura o saber fazer
estava encaado no· próprio corpo do tabalhador, já na maquino­
fatua há todo um saber contido na máquina que o tabalhador vê
diante de si, que não lhe perence u vez que fcou tansformado
num mer apêndice dela, aimentando
-
a.
120 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
Com a maquinofatura o tabalhador sofe uma segunda ex­
propração - a prmeira foi a da tra e demais meios de produção -
agora é exprpriado do seú saber. Com a maquinof, a batida
rgular e constante da máquina marcará o ritmo. O fsico-mecânico
se impõ ao biópsicossocial dos homens, bem no coração da socie­
dade industial: a fábrica. O taylorsmo, técnica organizacional de­
snvolvida a par de fmais do século XX e que se generalizará
no século XX, perceberá isso com acuidade. A "gerência cientíca
e racional do tabalho" - é assim que o taylorismo se autodenomi­
na - será, no dizer do próprio Taylor, pautada no: 1) "O adminis­
tador assume • o o o cargo de reunir todo o conhecimento tadicional
que no passado foi possuído pelo tabalhador e ainda de classifcar,
tabular e rduzir esse conhecimento a rgras, fórulas"; 2) "Todo
possível tabalho cerebral deve ser banido da ofcina e centado no
d�paamento de planejamento ou projeto"; 3) "Talvez o mais
proemient elemento isolado da gerência cientíca modema seja a
noção de tarefa. O tabalho de todo operário é inteiramente plane­
jaco pela gerência pelo menos com um dia de antecedência, e cada
homem recebe, na maioria dos casos, instçõs escrtas completas,
porenordo a tafa que deve executar, assim como os meios a
serm utdos ao fazer o tabalho ( .. . ) Esta tafa especifca não
apenas o que deve ser feito e o tempo exato prmitdo para isso
. ( ... ) A gerência cientíca consiste muito amplamente em preparar
as tarefa e sua execução".
O que era feito de uma maneira empíica no início do sé­
culo X, é agora efetuado com o conhecimento prévio das regrs,
leis e fórulas. O contole rigoroso do movimento do coro do
tabalhador submetido ao tempo do capital ! Eis o cere da cienti­
cidade aplicada ao. capo das rlações soiais no sistema de fábri­
ca . . . Na verdade, tata-se da ei:ação o. mais completa possível
da subjetvid daqueles q não detêm a prpe d máuinas
e dos outos meios de produção. Trata-se de um desmembramento
do coro: a cabeça, de um lado, planeja e projeta, e, de outo, os
braços, as peras, os dedos e ouvidos, executam. No limite dessa
tendência à eliminação do elemento subjetivo temos a rcente ro­
botização. Afmal, os robôs não reclama da jorada de tabalho,
não fazem "cera", não faem grve. São tabalhadores mecânicos,
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 121
progrados. A robótca compora essa irônica contadição. Nela,
alguns tbalhadors altamente qualcados têm por fnção prepa­
r rtinas de tabalho para u. grnde parcela de tabalhadors
que, em contast, não prcisam de qualquer qucação, mas
simplesmnte de serm capazes de ler as rotinas. Talvez resida aqui
uma d razõs da implantação dos chamados sistemas de ensino
de massa hoje. Assim, o extmo prpao de uma parcela diminuta
de tbalhadores core paralela à nã quacação da gnde maio
ria. Aqui se coloca a questão: o que signifca a natuza hua
nesse contexto sóio-histórco espcíco? A natureza, os demais
objetos de tabalho e .instumentos de prdução, as máquinas por
exemplo, tomam-se um outro para os tbalhadores e não um seu­
outro. Não cabe a eles pnsar, planejar e projetar em íntima rela­
ção com seus objetos de tabalho. Essas prácas são desenvolvidas
em outos lugars: nas universidades, centos de pesquisa ou nos
"depaentos de planejamento ou de projetos" como d Taylor.
Assim, se consagm no plano da soiedade lugas que crstalizam
a sepaação ente tbaho intelectual e tabalho braçal. Coroa-se o
processo de sepação homem-natuza, ao ser negada à gnde
maioria da população aquilo que é próro da naturza hua, ou
sja, a faculdade de cria, imagina, inventa, sonha que os ho­
mens ar ogantemente exaltam como indicadores da sua superori­
dade . . .
2 - Sobre a ntreza: O desloamento da fonte da rique­
za - que nas soiedades agráas pré-capitalistas se localizava na
tr - paa a indústia deu um novo sentdo M tabalho.
Ora, a capacidade de ra tabalhos está relacionada ao
dispêndio de energia. Não há tbalho sem energia. Iaginemos,
.por exemplo, u situação em que um empresáo tenha adquirido
todos os meios de tabalho: matéras-p, máquinas, edifícios;
tenha conttado o númer adequao de tabalhadors paa opr
a prdução, mas tenha fcado na depndência da energia do vento
paa mover o seu emprendimento . . . Se não ventasse em suas pla­
gas e sim nas do vizinho, ele preria a concorência em virtude
dos "humores" do deus Eolo . . . A inconstância dos ventos não
prite ielir a máquina com a rguladade que o capital �quer.
Eis u d razõs de o capital não desenvolver esse tipo de ·ener-
122 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
gia. As manufaturas holandesas, por exemplo, que tdicionalmente
utiliza a energia eólea não conseg resistir à concorência
d maquinofaturas inglesas, sobretudo após essas passam a uti­
zar o cavão · na produção do vapor como fonte de energia. E,
com o uso da máquina a vapor o capital conseguiu um contole so
bre a energia e assim se "libertou" d imposiçõs dos ciclos da
natureza.
A energia hidráulica, tdicionamente usada atvés das
rodas d'água, fcou secund em virtude da oscilação do re­
gime dos rios, seja pelo desmatamento desenfeado, seja plo con­
gelamento do invero. Só após a invenção do fo de cobre que
peritu conduzir à longa distância a energia produzida pelas que­
das d'água com o auxíio de retansmissors é que as grndes cen­
tais hidreléticas ganharão importância, pois anteriorent a pos­
sibilidade de utlização da força hidráica plas empresas tzia,
em contapartida, a inconveniência de rstngir a �herdade de sua
loalização.
Fica evident, wranto, que o capital não pode fcar · n
depndência dos tempos d natureza, m rquer, ao contáo, a
subordinação a si dessas tempores.
Como vemos, não é simplesmente por u razão técnica
que a nossa sociedade se desenvolve tecnologicamente, mesmo
porque nenhuma técnica tem em si mesma raão. O motor das mu­
danças e do desenvolvimento tecnológico, demonst-o ampla­
mnte a história, tem sido fndamentalmente da ordem do plítco,
n mdida em que se tata da tntatva de obtenção de um maior
contle sobr os tbalhadors e sobr a natuza.
Assim, a téemca não pode ser vist indepndentemente de
um determinado contexto social, polítco e cultu. A técnica, me­
diação ent o soial e o natu, é instituída num campo de rla­
çõs intersubjetvas e, dessa fora, logge_ stá de ser neut. Ela
rfet u razão que venceu e com a qual se compromete: "Todas
as pssoas que se encontm tabalhando nos teas mecânicos es­
tão a de moo forçado, porque não podem existir de nenhum ou­
to modo; via de rga são pssoas cujas faias foram destídas
e seus intersses ar ados ... ", dizia um insptor goveramental
inglês em 1834.
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 123
Os ecologistas não podem fcar, portanto, prisioneiros do
mito da razão ténica, dessa verdadeira aadilha ideológica que a
sociedade mdera insttuiu e que se tora muitas vezes co-respon­
sável pelos prblemas que enfntamos. As técnicas são apenas
meios concebidos para realizar deterinados fns. Isso não quer di­
zer que só existe u técnica para alcança determinado f . . 4 E se
existem diferentes metas paa a vida hua, devemos ter bm
compreendida essa questão ent meios e fms que rege a relação da
so
iedade-cultura com a técnica. Se a técnica assumiu o lugar
proeminente que ocupa na nossa sociedade, isso não é uma questão
natural, inas decorrência de um processo de muitas tnsões e con­
flitos no qual outos possíveis históricos, acusados de inexeqüíveis
ou romântcos foram sufoados. Dois séculos de revolução indus­
ta já nos peritem concluir que a técnica é uma condição neces­
sária m não sufciente pa rsolver os problemas com que a hu­
manidade se defonta, competência essa que a "razão técnico-cien­
tíca", tmbém conhecida como "razão instmental" pretensio­
sam
nte avocou paa si.
O exemplo da Revolução Verde deve perecer bem vi­
vo
em nossas ments. Baseada no prncípio da seleção de sementes
mais produtivas e em certas técnicas de manejo da tera, foi alar-
dea
da como a solução defmitiva paa os problemas da fome no
mundo. O geneticista Eest Borlaug chegou a ganha o prêmio·
Nobel da Pa pelas suas descobertas que, acreditava-se, acabaiam
com a fome, ua d mais fortes razõs dos confitos e d guer­
rs. A necessidade de adquirir as sementes num banco, além dos
recursos fmaceiros inerntes à implantação do conjunto de técni­
cas da rvolução verde levou a uma maior concentação de tras, a
expropriação dos c�poneses, enm, aumentou a miséria nos paí­
ses e regiõs onde foi implantada. Além disso, a homogeneização
provoada pela seleção genética torou os ecossistemas mais vul­
neráveis e, portanto, mais dependentes de insumos como defensi­
vos,
aumentando, por conseqüência, a dependência fmanceira dos
prdutors.
Assim, é prciso que fque claro que a solução dos pro­
bl ma ambientais não é de natuza técnica, m de uma opção
124 CARLOS W. PORTO GONÇALVES
político-cultural, pis, aa, a técnica deve sri à sociedade e
não esta fcar subordinada àuela.
NOTA
1 . Recurso, segundo o dicionário do Aurélio, é meio para se atingir um f.
Quando se fala de recursos humanos, qual é o fim, a finalidade desses re­
cursos? O uso da expressão nos revela que, ironicamente, a vida humana
deixou de ser a meta da sua própria existência . . .
NATUREZA E RELAÇÕES SOCI AI S
Ao longo deste ensaio, em diversos momentos, defendemos a tese
de que toda sociedade-cultura cria um deternado conceito de
natureza, ao msmo tempo em que insttui as suas relações sociais.
Dissemos, inclusive, que a tadição oidental tem fcado prisioneira
de u verdadeira obsessão na tentativa de encontar o que fez
com que o homem satsse do rino da natureza paa o da cultura.
De nossa pae, procuramos demonstr como natureza e cultura se
condiciona reciproamente, o que prssupõ não assimilar u
coisa a outa, m prourar entnder que o homem, por natuza,
prduz cultua 1 . Esta tese nos rmete a uma out perspectiva de
refexão que é a de considerr o conceito de natuza como um
conceito-chave de cada cultua e, atavés dele, compreender as r­
laçõs soiais que a cacterm.
Na soiedade oidental, vermos que subjacentemnte à
rlaçõs soiais insttuídas em meio a tnsõs, confitos e lutas,
elabora-se um conceito determinado d natuza que fndaental­
mente dela desloa o homem. E aí se toma fáil pereber por que o
imagináo oident costwirmente assoia à naza os seg­
mentos ou classes soias oprimidos e explordos, naturalizando
ssas condiçõs:
I . As mulhers, por natreza, são fgeis e emotivas e, assim, de­
vem ser mantdas em lugas prtegidos, como o lar.
126 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
2. Os pvos indígenas são selvagens, sendo da selva, d natreza,
também são passíveis de dominação e de discrminação.
3. Os negos são, por ntreza, inferors, poranto, incapazes de
pensar rcionalmente (leia-se caesianamente).
4. Os oprários, por natreza, são incapazes de planejar, projetar,
enfm, d pensa e, por isso, devem fca restitos à operaçõs
manuais, ao fazer.
5. Os homossexuais, porque tnsgidem u lei d natreza,
adotam u comportamento desviante em relação à sua condição
biológica. Como se o ser homem ou mulher fosse defnido ex­
clusivament pla genitália.
6. Os velhos� que pel natreza da idade, estão incapacitados para
o tbalho, sofem naturalmente essa discriminação.
7. E tambm são discriminados os adolescentes que, pela natreza
da idae, são irevitavelmente rbldes e contestadors. Com r­
lação aos adolescentes verifca-se, anda, u certa tolerância,
pois s tta de u condição passageira uma vez que também
inevitavelmente amaducerão, perdendo essa disposição con­
testatória "típica da idade".
8. As cranças são consideradas na perspctiva do que elas serão e
não plo que são efetvamente. São por isso educadas paa o
fturo. Não têm presente porque, pel natreza da sua idade,
são irsponsáveis.
Ao olhanos para esse elenco de segmentos e classes so­
CiaS instituídos e consagados pela cultu ocidental, atdo
pela sociedade modema, deduzimos o seu prfl dominante: u
soiedade branca, européia, machista e burguesa.
Toda a tessitura de relações sociais apace como sendo
obra da natuza: é por natureza que opráos, camneses, í­
dios, negos, mulhers, homossexuais, crianças, adolescentes e
velhos são oprimidos e explorados e os homens brncos e bugue­
ses são os que domnam. Como se essas categoras não tivessem
sido instituídas n e pel lutas sociais ao longo da nossa história.
É preciso observar que todo pvocultura classifca, dis­
tngue e sepaa os diversos sers da natuza, forando conjuntos,
tal como CantOr os defniu para a matemáica, rssaltando inclusive
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 127
que a idéia de conjunto era uma noção intuitiva. Deste modo, todo
povo-cultua distingue as dierenças macho e fêmea; branco, preto,
aaelo (e as demis cores); crança, adolescente e velho, etc. Po­
de-se dizer que toda cultua tem um substato prmário que se
apropria das diernças da natuza. Entetanto, nem toda cultura
tansfora essa difernça em hierarquia, em superior e inferior, em
dominante e dominado, como o faz a nossa, justifcando como obra
da natureza aquilo que, na verdade, nela foi instituído ao longo de
tensões e conflitos.
As contadições dessa ideologia dominante, que tora na­
turais as suas prátcas de dominação, fcam evidentes quando anali­
samos seu próprio discurso: sobre os negros e indígenas diz-se que
são indolentes e preguiçosos. Ao mesmo tempo, fala-se que são
povos tecnicamente rudimentaes e que por isso passam a maior
parte do seu tempo procurando o alimento. Ora, das duas uma: ou
eles passam u dia todo dorindo, dançando e não tabalhando,
mostando-se, assim, indolentes e preguiçosos ou passam o dia to­
do procurando alimentos e, portanto, tabalhando.
Na verdade o que ocore é que não se respeitam as dife­
rnças ente os modos de vida que cacterizam cada povo-cultur.
Os europeus quando impuseram a sua dominação mercantil-colo­
nialista, a partir do século XVI, vi-se em contato com outos
povos que tnham uma outa rlação com o tempo, o espaço, o ta­
balho, a natureza, enfm. Esses povos não aceitaram passivamente
a dominação mercantil-colonial, daí a escravidão que lhes foi im­
posta. E foi uma escravidão muito mais cruel do que aquela que os
gregos e romanos conheceram na Antiguidade, em virtude do seu
caáter mercanti. A escravidão gega, por exemplo, defia-se pela
negação à vida pública, considerada atibuto e priviégio dos cida­
dãos. Escravo, portanto, era aquele que, t como as mulheres e os
stgeiros, não tinha dirito à vida pública. Mesmo a servidão da
Idade Média era mais branda que a escravidão modera, instituída
pelo mercantlismo colonial. Afmal, o senhor feudal cobrava dos
lCrvos uma deterinada renda sob a fora de produto in natr,
ou através de dias de tabalho prestados (corvéia). Ora, se esses
pr dutos eram cobrados in ntr, como o tgo, o vinho, etc. ,
d 'tia um limite para o seu consumo, que seria maior ou menor em
1 28 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
fnção do número de mmbros da core da aristoracia feudal. Em
tennos mais claros: de nada adiantava exigir toneladas de tgo se
não havia como consumi-tos na própria core. Esclarça-se que a
astocracia feud não se coloava o objetivo de comercialização
dos excedents. Assim, por se cobrar o tibuto in natra, estabele­
cia um limite paa a explorção do servo-camponês. Somente à
medida que os senhores feudais se v cada vez mais enredados
pla burguesia ·mercantl atvés das dívidas com ela contaídaS é
que começaram a cobrar seus tbutos em dinheiro ou mais dias de
tabalho dos servos. A par daí, as revoltas camponesas se acir­
ram, como que antecipando a recusa que os demais povos coloca­
rão à dominação européia colonial-mercantl. Isso porque quando o
objetivo é acumular dinheiro, não há mais limite par a exploração
do tabalhador e da natuza. Mmal, qual é o limite do dinheiro? É
o limite dos números e estes, sabemos, não têm limites. Essa preo­
cupação abstata com os números, que adquire concretude sócio­
histórca com o dinheiro, levará a burguesia mercantil a uma im­
piedosa dominação dos demais povos, tudo em virtude da preocu­
pação com o "crscei e multiplicai". Daí a considerção dos povos
que não se submtem a essa lógica como indolentes e preguiçosos.
Diga-se de passagem que não foi só na América, Ásia e Áica que
os europeus impuseram a sua lógica mercantil. Mesmo no interior
da Europa diversos povos soferam o etoídio inerente à lógica
mercantil. No a de unifcar teritó�os, estabelecer u lígua
· única, um exército. único e um sistema d pesos e medidas único ·
que facilitasse as toas mercantis, város povos fora arasados
cultente por essa lógica homogeneizadora, de unifcação, que
nega fundamentamente a difernça. Assim, à medida que os Esta­
dos nacionais iam-se fondo na Europa, unifcando o mercado e
tudo aquilo que ele imlica, város povos foram sendo cultural­
mente dados na própra Europa, ants _que os europus se im­
pusessem destindo outos povos-cultus fora do velho conti­
nente. Os bascos, por exemplo, são exprssão da rsistência cultu­
ral de um desses povos ainda hoje, na Europa.
São profdas, portanto, as implicaçõs decorntes do
não rconhecimento das difernças inerentes a cada povo-cultua.
Já vimos que o tempo abstato, taduzido em linguagem
mtemátca e assimilado pela física modema, tnsfonnado em tec-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 129
nologia mecânica da indústa, é uma insttuição que se afmna com
a quantidade, com o valor de toca, com o mais e não com o me­
lhor. Os tempos de cada ecossistema e de cada homem inserdo em
uma deterinada cultua são, assim, submtidos e subordinados
pla rda viva de uma cultura, a oidental burguesa; o que não
quer dizer que não haja no interior dessa própria sociedade-cultura
burguesa outs possibilidades o que é evidente nos próprios con­
fitos que se dão no seu interor, onde vários segmentos e classes
sociais tentam a sua singularidade.
As mulheres talvez sejam as maiores responsáveis plas
mudanças culturais e comporamentais que se verca nessa se­
gunda metade do séulo XX. Para a ideologia machista dominante,
a diferença-mulher seria dada pela sua natureza biológica que a
fagiliza. A condição biológica de rprodutora da espécie serve
feqüentemente de justifcativa para o seu conmamento ao âmbito
rstto do lar, ignorando-se, por exemplo, o fato de que em diver­
sas "sociedades primitivas" o rsguardo após o nascimento cabe
aos homens e não à mulhers. Portanto, não é natural o ttamento
que damos a essa diferença biológica. Não sendo, para a ideologia
machista dominante, o coro-mulher adequado ao tbalho, lugar
do sofmento, como vimos, ele acaba sendo considerdo como me­
ra fonte de sensualidade e prazer. Daí a tadicional concepção da
mulher-objeto sexual. Tudo isso numa sociedade tecnologicamente
sofsticada como a nossa, onde o argumento da disponibilidade da
força física, atbuto que se acredita rstito aos homens, não se
coloa paa impedir que a mulher oup outos lugas sociais.
O importante é que, apesa d práticas machistas, as mulhers com
suas lutas têm demonstado que diversos outos atibutos e quali­
dades delas poderiam se desenvolver plenamente nos marcos de
ua outa relação social homem-mulher, uma vez que não é a natu­
rza biológica da mulher que defne o lugar que elas oupam so­
cialmente.
O mesmo pode ser dito quando se analisa a condição ope­
rária. O que justifcaa que deterinados homens e mulheres pas­
sem todo o dia de tbalho exercendo fnções rotineiras, onde não
se exige nenhuma criatividade? Já vimos o que Taylor pensava a
rspeito do pael do tabahador no processo produtivo. Há toda
1 30 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
u ideologia e, sabemos, toda ideologia é ideologia de u prát­
ca concreta, que acredita ser natural que alguns pensem e mujtos
outos façam. Ora, uma análise minimamente atenta e sem precon­
ceitos é capaz de perceber que nenhum processo produtivo se de­
senvolveria se não houvesse a manifestação criatva de quem pro­
duz concretamente. Mesmo uma análise da história da técnica re­
velará todo o talento e criatvidade que sempre acompaham a
vida de quem tabalha. Um grande número de inventos, de aesãos
e camponeses foram apropriados pelas primeiras manufaturas. O
interesse dos tabalhadores pelo conhecimento elaborado é reco­
nhecido historcamente. Vejamos o depoimento de um atesão que
viveu por volta de 186 em Nova Iorque:
O sindicato do cobre dava oportunidades para estudos re­
gulares, assim como conferências todo sábado à noite, que
eram assistidas por 2.50 a 3.00 pessoas. Nunca houve
força humana que me impedisse de feqüentar aquelas con­
ferências de sábado. Eu palpitava em meu intenso desejo
de saber. A fome mental é tão dolorosa quanto a fome físi­
ca. Todo sábado à noite alguns grandes eruditos falavam
numa audiência pública e proporcionavam os resultados
mais encantadoramente iluminantes das experiências e es­
tudos. Algumas vezes o professor Proctor nos falava das
maravilhas da astronomia, ciência da qual aprendíamos so­
bre o tempo, o espaço, luz, movimento, etc. As verdades
colhidas nessas conferências toravam-se pate vital de.
m e davam-me signifcado maravilhosamente inspirador
do mundo. Aquelas conferências eram oportunidades pre­
ciosas para ouvir autoridades em ciência falarem do que
faziam e pnsavam. Assisti a essas conferências e fe­
qüentei as aulas por um príodo de vinte anos. (Hen
Brawerman).
Esse depoimento é altamente demonstatvo do interesse
dos tabalhadors plo conftecimento cientíco.
Um outo depoimento dessa mesma época, de Henry
Mayhew, dá conta da preocupação dos tabalhadores com a ciência
e a cultur.
Os tecelões eram antigamente quase os únicos botânicos da
metrópole e seu amor à fors até hoje é uma característi-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENE 1 31
ca marcante da classe. Estamos informados que há alguns
anos eles passavam suas hors de lazer, e em geral toda a
famia, pintando aos domingos, nos pequenos jardins nas
proximidades de Londres, agora em sua maioria cheios de
edifícios. Não há muito tempo, havia uma sociedade ento­
mológica, e eles estava entre os mais aplicados entomo­
logistas do Reino. Esse gosto, embora muito menos geral
que antigamente, continua ainda sendo um tipo da classe.
Houve certa vez uma sociedade foricultura, uma socieda­
de histórica, uma sociedade matemática, todas mantidas
plos tecelões da seda; e o famoso Dolland, inventor do
telescópio acromático, era tecelão, do mesmo modo Simp­
son e Edwards, os matemáticos, antes de saím de seus
teaes para o serviço público para ensinar matemática aos
cadetes de Woolwich e Chatham.
E anda nos infora Henr Bravennan:
A Royal Institution, que existia na Inglaterra para estimu­
lar o progsso da ciência e sua aplicação à indústra, foi
obrigada, quando se torou lugar elegante de visitar e de­
sejou preservar sua exclusividade, a tijolar sua porta trasei­
ra de modo a impedir o acesso de mecânicos que entravam
sorrateiramnte na galeria.
E não prcisaamos i à Inglatera ou aos Estados Unidos
pa colhennos exemplos da cratividad, interesse e capacidade de
sistematizar conheciinentos dos operários. Aqui mesmo no Brasil,
na prmeira década deste século, foram inúmeras as escolas cradas
pelos anarco-sindicalistas que gozvam de gande simpatia ent os
tabalhadors. Portanto, não têm o menor fndamento as alegaçõs
de que os tabalhadors só estão aptos a desenvolver trefas sim­
ples, rtineiras e, sobretudo, manuais. É preciso considerar, ainda,
que novos acontecimentos vieram modifcar a condição de vida
operária, como a exigência da qualcação de uns poucos, cuja
função é preparar a rtna de tabao da mior pae dos tabalha­
dors e o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa;
l brtudo, da televisão, cuja pnetação nos meios oprários e po­
pulas parce desloar as suas proupaçõs não mais para o de-
�o de aquisição de conhecimentos, mas para u laer instumen­
taliado e alienante.
132 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
No entanto, se quisermos ver a criatvidade operáia nos
dias atuais, termos de mergulhar no espaço da fábrca. Essa crati­
vidade é usada, sobremaneira, paa ludibria os patõs, seus ca­
patazes e a legislação existente, aenizando as duras condiçõs de
vida e tabalho a que estão submetidos.
Dois exemplos, talvez, ilustm essa criatvidade: na déca­
da de setenta, os operários da COSIP A - Companhia Siderúrgica
Paulista - instit o Dia da Amnésia, assim relatad
o por Mari­
lena Chauí:
Como se sabe, para entrar na COSI A, diariamente os
operários devem apresentar documentos de identifcação
forecidos pela empresa quando são admitidos. A entrada
e a saída se fazem por tuos fxos, pois os altos-foros
não podem ser apagados, de modo que a empresa fnciona
durante vinte e quatro horas ininterruptamente. Sendo
"Zona d Segurança Nacional" e sendo a greve ilegal, a
COSI A está sob rigorosa vigilância militar e seus operá­
ros não têm direito a formas interas de organização e de
controle do trabalho. A informação é controlada e as rela­
ções entre os trabalhadores são vigiadas. Sob essas condi­
çõs, os operários realizaram uma grve espetacular, que
não pôde ser reprimida nem punida: O "Dia da Amnésia".
Nas condiçõs de disciplina e vigilância existentes, sem
contar com um espaço para troca de idéias e de infora­
çõs, sem possuir imprensa própria e sem poder confar
naquela produzida pelo sindicato ofcial, "pelego", os
operários da COSI A criaram u imprensa sui generi
para a preparação da gve: as portas dos banheiros foram
convertidas em páginas de jorais e boletins informativos,
os escritos sendo apagados ao fmal de cada tuo pelos úl­
timos operários a usarem os banheiros. Estabeleceu-se a
comunicação entre os trabalhadores dos vários tuos,
neutrlizando as inforçõs vindas tanto do sindicato
quanto da administração.
No "Dia d Amnésia", todos os operáios d COSIA so­
feram um repentino esquecimento: esqueceram em casa o
documento de identifcação. Isto signifcou que cada op­
rário, para ser admitido no interior da fábrica, precisava
passar por longo e minucioso exame de identifcação. M­
lhares de trabalhadores foram se acumulando em longas
flas d espera, aguardando a identifcação. Os tuos fo­
ram sendo interompidos e as atividades da COSI A foram
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 133
sendo lentamente paralisadas, até alcançar os altos-fomos.
Aannada, a direção da empresa aceitou negociar com os
grevistas que, prante a lei, não eram grevistas.
O segundo exemplo ocoreu no Rio de Janeiro, no ano de
1
987, ente os tabalhadors da Rede Feroviária Federal S.A4 -
RPA. Como se sabe, toda categoria profssional tem u data­
b
ase para acordos salariais anuais. Os feroviáos haviam estabe;
lecido um acordo com os patõs, no caso o próprio Estado, quan­
do
dois meses depois, mudanças na polítca económica do govero
de
tona u espiral infacionária que, nesse breve período, cor­
ro
eu o salário dos tabalhadors. Sem condiçõs de desencadear
ll movimento rivindicatvo por melhores saláos fora da data­
b
ase, os tabalhadors desencadea um movimento pela imediata
ga
rantia de condiçõs de segurança no tabalho, conforme especif­
ca
do no próprio rgulamento da empresa. Isso porque as condiçõs
o
peracionas dos tns não estavam de acordo com as próprias
no
rmas estabelecidas pela emprsa, coloando em risco a vida dos
tbalhadores e dos usuáios daquele sistema de tanspore. Desta
fon
na, os tabalhadores forçaram a direção da empresa a vir rne­
g
oia com eles não só as condições de segurança, mas tabém os
seus salários já coroídos pela infação. Foi a "Grve do Zelo",
semelhante à ralizada plos metalúrgicos de São Paulo no início
do
s anos 80. Neste último caso, os talhadors executava "as
t
aefas e os tabalhos seguindo rigorsamente, zelosamente, todas
as
noras técnico-cientícas impostas pla produção", e o rsulta­
do foi que nenhum dos produtos pde ser converido em mercado­
ria, pois todos eles apresentavam defeitos de fabricação que os tor­
navam inaproveitáveis.
Podemos concluir, poranto, que sem a intererência atva e
co
nsciente dos tabalhadors, sem suas hailidades e exprências,
sinlplesmnte não há proução. A "Grve do Zelo" é nada mais
na
da menos que "a batalha da cometênci real conta a come­

1cia iológica. É u batalha cultural. " (Malena Chaw'
É importante sublinhar que toda essa cratividade é usada
co
nta os patõs, seus capataes (executivos ou não) e as leis vi­
gentes, embora muitas vezes cumprndo-as formalmente. A utiliza­
ç
ã
o dessa criatvidade acionada com vistas a burla a opressão e a
1 34 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
explorção, explica-se pelas própras condições sociais de existên­
cia dos tabalhadores. Certamente uma criatividade capaz de uma
interferência positiva e de um desenvolvimento pleno sob outas
relaçõs soiais. Não há, portanto, nenhum fundamento para a dis­
cração dos tabalhadores manuais, como se eles fossem inca­
pazes de gerr, planejar, projetar. É possível, por exemplo, perce­
ber uma dimensão política em versos aparentemente apolíticos co­
mo " . . . As rosas não falam, simplesmente as rosas exala o per­
me que roubam de ti", de autora de Cartola, do moro da Man­
gueira. A sofsticação litráa desses versos, que chegaram até nós
graças à sensibilidade de Sérgio Porto, mosta que a imaginação e
a criatividade são atbutos da espécie e não de grupos, camadas ou
classes eleitas (na verdade autoprolamadas). Se na maior parte dos
seres humanos essas qualidades não são desenvolvidas plenamente,
não é efetivamente por incapacidade absoluta, mas sim por viver­
mos numa sociedade onde não existe só a dominação da naturza,
mas também, a dominação do homem pelo homem. Assim se des­
perdiça levianament o maior patmônio criativo que a natuza
produz: o. próprio ser humano.
A naturaização das rlações soiais, em suma, escamoteia
o seu caráter de relaçõs instituídas atavés de lutas e confitos e
que, portanto, nada têm de naturais, a não ser para as classes do­
minantes que concebem a sua dominação como obra da própra
natureza, como se fossem por ela eleitos. Para as classes dominan­
tes, as relaçõs sociais istituídas e que são as da sua dominação,
são relações não só naturas, mas também ir acionais, desqu­
cando, assim, outos possíveis histórcos que não tiveràm continui­
dade. Aliás a idéia de continuidade histórca esconde outas vonta­
des e desejos que, por terem sido derrotados em deterinadas si­
tuaçõs de luta, aparcem como fagmentos, o que é típico da his­
tóra dos oprimidos e explorados. É o "silêncio dos vencidos". As­
soiar à natureza os segentos e classes sociais oprmidos e explo­
rados é decorência de uma sociedade que vê o homem como se­
nhor e possuidor da naturza, que crou um "Deus (que) crou o
homem à sua imagem e semelhança", alijando desse prvilégio os
demais seres que devem, por isso, servir ao homem. São ftimas as
rlaçõs que se estabelecem ente a concepção de que o homem
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 135
deve domina a natureza e a idéia de que o homem deve dominar
outos homens (mulheres, crianças, adolescentes, velhos, negos,
ídios, homossexuais, operários, camponeses, etc.) - na medida em
que estes últmos são socialmente vistos como seres da natureza.
É preciso, pois, desenvolver um outo modo de pensar e de
agir que incorore uma outa relação com a naturza-mulher; a
natureza-negro; a natuza-índio; a natureza-criança; a natureza­
adolescente; a natuza-velho; a natureza-homossexual; a natureza­
opero; a natureza-camponês, enfm, com a natureza-natureza,
sobretudo, com a natureza-homem, que sabmos é independente­
depndente do seu ecossistema. Em suma, é de uma outa cultura
que falamos, patindo, é clao, da situação histórico-concreta em
que vivemos, com seu conceito de natureza instituído e instituinte.
Eis a questão maor que os movimentos ecológicos apontam ainda
que de maneira diferenciada: como abordar as diferenças da natu­
rza sm tnsforá-las em hieraquias? Assim, tata-se de um ou­
to projeto de soiedade; de um outo sentido para o viver; de u
outa cultura que subordine as técnicas aos seus fns e não fque
subordinada a elas. Afmal, um outo modo de vida exige um out
modo de produzi-Ia.
ECOLOGI A, LI BERDADE E I GUALDADE:
AUTONOMIA
Vivemos u momento crítco. Um momento que clama por lucidez,
criatvidade e imaginação. De todos os lados, à direita e à esquer­
da, avalia-se que vivemos uma intensa crise no plano econômico,
no plano jurídico-político, no plano dos valores e das noras, da
arte e da cultura. A ciência, cada vez mais tsforada em força
produtiva, encont-se com a necessidade de rpensar seus fnda­
mentos epistemológicos. e metodológicos, enf, sua relação com a
flosofa.
Há, indiscutivelmente, uma ideologia da crise. Nela, as
contadiçõs e os confitos do mundo modero aparecem numa
perspectva apocalíptica. É o f do mundo! Para o pensar-agir
conservador a crise de valores � o prnúncio do caos e da desor­
dem, já que não se apercebe que o que está· em crise é a sua ordem
de dominação.
Por outo lado, os meios que se prtendem críticos acusam
a rão cientíca e técnica de suprimir a liberdade por sua ít
rlação com o Poder. Saber é Poder! E se deixa conquistar pelo
iracionalismo . e . A esse respeito observa Sérgio Paulo Rouanet:
Há um núcleo de verdade no novo irracionalismo: o con­
ceito clássico de razão deve ser efetivamente revisto. D­
pois de Ma e de Freud, não podemos mais aceitar a idéia
de uma Razão soberana, livre de condicionamentos mate­
riais e psíquicos. Depois de Weber não há como ignorar a
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 137
diferença entre uma razão substantiva, capaz de pensar fns
e valores, e uma razão instrumental, cuja competência se
esgota no ajustamento de meios a fns. Dpois de Adoro
não é mais possível escamotear o lado repressivo da razão,
a serviÇo de uma astúcia imemorial, de um projeto de do­
minação da natureza e sobre os homens. Depois de Fou­
cault, não é lícito fecha os olhos ao entrelaçamento do sa­
ber e do poder. Precisamos de um racionalismo novo, fun­
dado numa nova razão.
É preciso rconhecer: a rzão que numa das perspectvas
iluministas se prtendia emancipadora fca associada à dominação,
quando o Estado que oprme e domina o faz e fala em nome da ra­
zão. É comprensível que a rebeldia conta o Estado se tansfore
em rbeldia conta a rzão, a ciência e a técnica. Como nos lembra
Rouanet, Macuse chamara a atenção dos jovens "mostando-lhes
que consider rcional a General Motors era fazer-lhe um cum­
primento que ela não mercia, para que eles começassem a dar-se
conta de que existe u outa Razão que, longe de se opor à vida,
perite combater as forças que verdadeirmente a asfxiam". Tor­
na-se necessáo, poranto, o exercício da razão ctica, como con­
dição de um agir crítico e lúcido.
O desenvolvimento da rzão não foi e não é linear, pois
não está imune ao processo de desenvolvimento histórico que efe­
tvamente o inventa. e institui. É contaditóro. É por isso que se
exige lucidez. E nome da razão a humanidade pode se libertar,
m quando ela s faz ideologia, em seu nome se oprme e devasta.
É prciso ainda distnguir, como J. Haberas, a razã instn­
ta/, em toro da qual se desenvolve a mediação homem-natureza (a
técnica), da razã comnicativa, que se desenvolve no plano das
noras e cujo terno é a intersubjetividade. Confundir esses dois
planos é uma das cacterísticas do capitalismo monopolista de
Estado (campo ocidental) e do capitalismo de Estado monopolista
(campo oriental, URSS, sobretudo) uma vez que em ambos tudo se
tansfora em questão técnica.
A intervenção estatal na vida cotidiana do cidadão é uma
demonstação do caráter cada dia mais autoritáio das sociedades
contemporâneas. Esse aspecto, contudo, o liberalismo na sua mio-
138 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
pia não reconhece como u das decorências "naturais" do seu
próprio modo de ver, que só fala de liberdade e igualdade no plano
do merado, sem considerar ·o autortarismo oprssor e explorador
que se desenvqlve por detás das ports das fábrcas, dos bancos,
das fazendas, escolas, quartéis, hospitais, igrejas e lares.
Quando se proura refetir sobre o conceito de natureza
que está no cento da constituição de cada povo-cultura, é preciso
muito cuidado, pois a questão envolve múltiplos aspctos, do ético
ao tecnológico, do econômico e político ao cultural . . .
Quando falamos em uso racional de recursos, e sabemos. o
quanto essa bandeira é car aos ecologistas, é preciso fcar atentos
para as múltiplas conseqüências que a palavra racional evoca. A
razão técnica e cientíca não é a razão no seu todo. Um das con­
quistas da moderdade é o reconhecimento de que não só a nossa
rlação com a natuza deve ser rgida de modo racional, m tam­
bém as relaçõs ente os homens. Sabemos que o imaginário racio­
nalista separou a relação homm-natureza - lugar da relação sujei­
to(homem)-objeto(natuza), da relação homem-homem(sujeito-su­
jeito) e, o pior, torou-as equivalentes. Em outas palavrs, deu à
rlação homem-homem o mesmo caráter atbuído à relação ho­
mem-naturza(sujeito-objeto), instrmentalando, assim, as rela­
çõs sociais.
Ora, as rlações sociais são mediatizadas simbolicamente
atavés das noras, valors e objetvos histórco-cultralmente
instituídos e instituintes. Sabemos hoje, prncipalmente após Freud
·
e graças também a alguns antopólogos, que a razão não está sepa­
ra da "iraão" por u muralha da China: o hm sapiens é tam­
bém hm dmens. A vida está povoada de "sem sentidos" sem os
quais não tria SeJtido viver, como o amor, a paixão, a a, o jo­
go, o prazer. Neste capo intersubjetvo, a razão instmental en­
conta os seus limites, pois ele é o campo do confito, da luta; en­
f, da política. O fato de esses campos serm confndidos leva a
que as nor e valores fquem subordinados à raão instumental.
Aí se concenta um dos propulsores do crscente autoritarismo tec­
nocrátco das sociedades contemporâneas. Confsã que, diga-se
de passagem, enconta-se ente cientistas, flósofos e técnicos, que
não se apercebem de que o agir humano é mdiatzado simbolica-
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 1 39
mente num campo de intersubjetividade onde, muitas vezes, os in­
tersses especícos de um grupo, segmento ou classe social se im­
põem graças, inclusive, à utização de argumentos de cater téc­
nico-cientícos para justicar a sua dominaçã, sem o demonstr
explicitmente.
Ao mesmo tempo, a questão ambiental coloca na ordem do
dia a rflexão sobre a tadicional distibuição de competência por
áas de conhecimento. No campo do sabr cientíco, qual seria o
lugar da ecologia?
Não é fortuito que em toro dela venham sendo chamados
diversos colóuios, encontos e semnários interdisciplinares. Veri­
fca-se que a questão ambiental não pode ser reduzida ao campo
especíco das ciências da natuza ou das ciências humaas. Ela
convoca diversos campos do saber, pois a questão ambiental, na
verdade, diz respeito ao modo como a sociedade se relaciona com a
natureza. Estão a implicadas, portto, as rlações sociais e as
complexas relaçõs ente o mundo físico-quúnico e o mundo orgâ­
nico. Nenhuma área de conhecimento especíco tem competência,
pois, para decidir sobre ela, embora muitos tenham com que con­
tbuir . . . A não ser que se acredite que cabe aos cientistas e técni­
cos decidir sobre o devir. da sociedade. Por aí se abre o caminho
em direção ao totalitarismo que entende a razão técnico-cientíca
como sendo a rzã absoluta. A opinião discordante dessa racio­
nalidade é taxada, por oposição, de iracional e por aí se produz
simbólica e politicamente o louco, o desordeiro, o dissidente, o
subversivo.
A questão ambiental é, assim, mais que um canipo inter­
disciplinar, pois nela se entcruzam o conhecimento técnico-cien­
tíco; as normas e valores; o estétco-cultural, regidos por razões
diferenciadas, porém não dicotômicas. Ela requer um campo de
comunicação intersubjetiva não viciado e não manipulado para que
a região comunicativa possa se da efetivamente. Enm, requer,
fndamentalmente, dmocracia. Vemo-nos, assim, lançados no ter­
reno d pólis, da política, ou seja, dos lites que os homens livre
e autonomamente se auto-impõm. Qual o uso (correto ou incorre­
to) que se há de fazer de um determiado ecossistema, por exem­
plo? O que. é o verdadeiro ou o falso? Essas questõs, que aparen-
140 CARLOS WALTER P. GONÇALVES
temnte são abstatas, aprsentam-se concretamente no dia-a-dia de
cada um de nós e foi em tomo desses temas da lei e da justiça que
emergiu o logos grego - a ideia de um conhecimento racional - a
flosofa.
A complexidade da questo ambiental decore do fato de
ela se inscrever na interface da soiedade com o seu-outo, a natu­
rza. A difculdade em lida com ela, nos mos do pensamento
herdado, é evidente: no mundo ocidental, natureza e sociedade são·
teros que s excluem. As ciências da natureza e as do homem vi­
vem dois mundos à pae e, pior, sem comunicação. Não há como
tatar a questão ambiental nesses ms. Hoje sabemos que essa
é u das foras de se orga o saber, não a única! Nas diver­
sas regiõs do conhecimento científco, prcebemos a inquietação
que se maniesta no questionamento dos seus fndamentos. Mais
que . interdisciplinaiedade se impõe uma atitude mais radical, no
sentido de ir à rz do problema: se impõ u tansdiciplinaeda­
de. O primeiro passo já vem sendo dado na medida em que vários
pensadors e pesquisadors sensíveis percebem que a razão não
govera toda a vida e que o paradigma atomístico-individualista
não d conta da complexidade dphysis.
Tudo nos leva a crer que pae desse imroglio em que nos
vemos imersos se deve ao fato de teros aceito, durante muito
tempo, sem mais rfletir, a idéia de que a razão se rduzia à razão
cientíca e técnica . . A relação sujeito-objeto, característica da ra­
zão cientíca, não pode ser tansposta sem as necessáias media­
ções para o tereno do social, campo onde se desenvolvem as rela­
çõs sujeito-sujeito expressas simbolicamente. Aqui é o tereno dos
valores e d noras, do imaginário, do estético, do político. Não
se pode tatar esse _campo com os mesmos procedimentos da rela-
ção teórica, onde sujeito e objeto se colocam como pólos de uma
relação dialógica de um certo tipo de complexidade. Não há solu­
ção cientíca para o desejo ou para o prazer estétco. Não existe,
aá, resposta cientíca para o que seja a ciência. O máximo que
se pode desejar no campo do agir humano é a gatia, que se ob­
tém na luta, de que nele haja liberdade; que não haja dominação,
manipulação ou rprssão para que o agir comuncativo seja efeti­
vaente lvre e a sociedade possa decidir com conhecimento de
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 141
causa. Os cientistas, flósofos e técnicos têm uma grande responsa­
bilidade nesse processo; por isso mesmo devem rconhecer preli­
minarmente os seus limites e possibilidades. A eles se atibui a res­
ponsabilidade de elucidar e desvendar os mistérios do mundo para
que nele se possa agir racionalment. Tal projeto, gestado a pair
do século XVI, é de uma forma ou de outa ainda hoje assumido
acrticamente pela melor pae dos que se dedicam à universidade
ou à polítca. (Obviamente não se incluem nesse rol aqueles, infe­
lizmente muitos, que estão ocupando esses lugares por motivos me­
ramente fsiológicos.)
Acredita-se costumeiramente que a ciência e a técnica
consttuem a salvação para a miséria e a injustiça sem se coloar
em discussão o signifcado dessa idéia. Ora, na medida em que não
se aponta os limites, no sentido mais profndo do tero, do co­
nhecimento cientíco e técnico para rsolver os problemas com
que a sociedade humana se defonta, o que implica reconhecer
tbém o seu capo de validade, estamos ajudando a peretuar
o mito. O iluminismo, que tanto lutou conta o apelo à religião e à
autordade como argumentos de verdade, acaba, pela prática acríti­
ca, por produzir novas autoridades e novos mitos. Ironicaente
temos agor o "Papa da Física"; o "Papa d Matemática"; o "Papa
do Direito", o "Papa da . . . " Tal tíulo, surgido no século Xlpara
designar "o sucessor de São Pedro na chefa da Igeja Católica",
nomeia um caso especíco de poder, defnido no interior de uma
instituição que se vale de critérios que não são racionais do ponto
de vista cientíco, mas sim do teológico. Estaho caminho percor­
r a razão iluminista na sua versão instmental dominante!
A relação d sociedade com o seu-outro, a natureza, de­
senvolve-se atavés do agir comunicatvo que estabelece os fms
imaginários, sóio-historicamente insttuídos, plano em que a razão
técnico-cientíca não dispõe de plena autordade pa decidir, pois
est é o campo d relação sujeito-sujeito e não da relação sujeito­
objeto. Confndir esses dois campos é ajudar a manter o iroglo
e a peretuar os graves problemas que precisamos supera. Não se
tata de dizer, como tem sido comum na crescente tendência ao ir­
racionalismo, que a ciência e a técnica são os responsáveis pelos
problemas da sociedade, uma vez que elas próprias são sempre ins-
CARLOS WALTER P. GONÇALVES
tituídas socialmente e esta é u verdade que prcisamos relem­
brar. A questão nos seus devidos teros é, portto, indagar o que
a sociedade quer fazer com a ciência e a técnica. É preciso que a
sociedade se aproprie no sentido forte do termo, isto é, político, da
ciência e da técnica, o que não é simples no contexto histórco
concreto da sociedade em que vivemos. Que a sociedade rompa de
vez com a idéia de que seus problemas serão solucionados mera­
mente pela aplicação de uma deterinada técnica, seja ela qual for,
pois este é o tereno seguro que leva à tecno
c
racia. Evita tal risco
exige, portanto, maior lucidez quanto mais graves se tomam os
problemas com os quais hoje nos defontaos, o que demanda uma
outa atitude por parte dos técnicos, cientistas e flósofos.
É preciso reconhecer que foi efetivamente de fora dos mu­
ros das universidades e centros de pesquisa que ecoou o gto con­
ta a degradação das condiçõs de vida. O crscente intresse pela
questão ambiental ganhou dimensão enquanto questão social e po­
lítica a pair da década de sessenta sob contoros româticos e
idealistas e a crescente desconfança em relação à ciência e à técni­
ca. Comelius Castoriadis percebeu com acuidade esse problema
quando observa:
Há mais do que dependência material, política e social da
ciência instituída com respeito ao sistema instituído. Há, e
igualmente importante, a sua dependência com respeito à
metafísica implícita e não consciente dessa sociedade, li­
nhas de força ideológico-imaginárias do campo histórico
contemporâneo. Experimentação, quantifcação a todo pre­
ço, mesmo se trivial ou não prtinente, no mínimo formali­
zação, expansão ilimitada do paradigma cibemético-infor­
macional (que toma o lugar dos paradigmas "mecânicos"
do século XVIII e energético-evolucionistas, do século
XIX), preocupação exclusiva com o poder-fazer e com a
organização com fns em si - estes não são, no domínio
científco como nos outros, senão sintomas manifestos da
transformação do homo sapiens em homo comutans, do
zoon logon echon em zoon logistikn.
Como . se surpreender, portnto, quando uma determinada
situação não se deixa modifcar por colóquios cientícos? Como se
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 143
surrender com a difculdade quase insuprável de apreensão d
questõs que ultapassam este quadro e virtualmente o destom?
Com a vericação de que t tentativa não po ser efetuada plos
prsioneirs da cavera cientíca com seu olhar prgado nos viso­
rs luminosos, nas telas dos· apalos e nos resultados emitidos
plos computadors? Como se surrender também com o fato de
que tantos jovens, rcusando-se a se tnsform em as lO
gísticos, sem possibilidades, todavia, precisamente em virtude do
sistema que os "educou", de mosta a inconsistência teórica desse
sistema, dêem fqüentemente uma exprssão irracionalista a sua
rvolta? (Corelius Castoriadis).
Sabemos o quanto nos dias atuais o ttamento da questão
ecológica vem sendo domestcado, institucionalizado. Há uma cor­
rnte muito fore ente os ecologistas que tenta tansforr a
questão ambiental em problema exclusivamente técnico, toran­
do-a, assim, prisioneira do que pretende questionar. É a tecnocra­
cia ambientalista que não quer rconhecer que a técnica é, ela
msma, como vimos, insttuída socialmente e que somente a par
da Revolução Industial é que passou efetivamente a ser considera­
da como o motor da sociedade.
Sabemos, ainda, que a dominação da naturza é um prjeto
absurdo, pois se o homem é também natureza quem o dominaria?
Deste mdo, a forulação de um outo conceito de natuza envol­
ve também um outo cnceito de homem e, obviamente, de uma
outa soiedade que tome a técnica por aquilo que ela verdadeira­
mente é, ou seja, apenas um meio para se atingr um deterinado
f. E os fms que um deterinado povo-cultura se coloa, como
vimos, não são exteros e imutáveis.
Nas condições histórco-concretas em que vivemos hoje é
prciso i mais longe que o verde, súnbolo do movimento eológi­
co. É prciso também i além do verelho, súnbolo do soialismo
que tem, pelo menos, a virtude de aontar para a igualdade social
efetiva ent os homens. Todavia, essa luta pela igualdade deve ser
capaz de rconhecer a diferença e não reivindicar a homogeneidade.
En uma luta para que todos tenham condições iguais de
afar a sua diferença. A luta conta a desigualdade social não é
u luta pela igualdade no sentido de que todos os seres humos
14 CARLOS W. PORTO GONÇALVES
são iguais. Ao contrio: o que os seres huos têm de igual é a
sua diferença. É no plano da póli, isto é, da polítca que haver­
mos de insttuir condiçõs iguas paa que as individualidades fo­
rsça. A autonomia de cada ser huiano se desenvolve no seio da
sociedade, portanto, todos devem ser igualmente livrs para esta­
belecer as rg, as nors, as leis. Não foi a Biologia quem dis­
tnguiu homens pa pensa, planejar e decidi e homens paa faer.
Foi o tereno movediço, tenso e contaditório da História que os
insttuiu assim. E a História não é o passado. Ela se dá aqui- e ago­
r e cabe a cada um de nós decidir seus (nossos) destnos.
NOTAS BI BLI OGRÁFI CAS
De moo deliberado optei pr indicar aqueles livros que, de uma
maneira mais
d
ita, infuencia este tabalho. O leitor pode no­
tar que em. cada capítulo há uma detenninada obra em que me
apóio. A escolha desses tabalhos foi sendo feita ao longo de mui­
tos anos de leitura. Seria enadonho, poranto, fazer aqui uma lon­
ga lista de livros sobre os quais me debrucei, até porque muitos fo­
ra lidos com objetvos outos que os desse ensaio.
Indico, por capítulo, aqueles livros em que um detennina­
do autor, segundo a minha avaliação, melhor conseguiu tatar a
problemática em questão. Talvez o meu mérto esteja nas relaçõs
que estableço ent as teses de diversos autores dierntes. Eles
não são, obviamente, rsponsáveis pela leitura que deles faço.
Fugindo à regas estitamente acadêmicas, não indico as
páginas de onde rtirei as citaçõs de cada autor. Não foram so
mente essas paes que achei importntes. Foi a obra como u to­
do. Se as cito é prque acredito que o autor forulou a questão de
um modo que eu não conseguia fazer melhor. Por outo lado, se
alguém quiser conferir, a obra está indicada e o leitor poderá seguir
as minhas pegadas. Para isso indico ainda livros e artigos que es­
crevi sobre o tema ao longo dos últimos anos.
146 CARLOS W. PORTO GONÇALVES
Cap. II
GONÇALVES, C. W. P. Paix d T: Ensaios Críticos d
Geografa e Ecologia, Rio de Janeiro, Rocco/SOCII, 1 984.
. "A Geografa está em Crise. Viva a Geogra", in
Boletim Paulista d Geogrfa, São .Paulo, Associação de
Geógrafos Brasileiros - AGB, 1978.
Cap. III
DANIL, H. e MICOLIS, L. Jaarés e Lobisomens. Rio de Janei­
r, Achiamé, 1 982 .
. CASTORIADIS, C. e COH-BENDIT, D. Da Ecologia à Auto­
nm. São Paulo, Brasiliense, 1983.
Cap. I
GONÇALVES, C. W. P. e BARBOSA, J. L. Geografa d Natu­
reza, Coleção Geografa Hoje, Rio de Janeiro, Ao Livro
Técnico, 1988.
Cap. VI
BORNHEI, G. Os Filósofos Pré-Socráticos, São Paulo, Cult,
1985.
DESCARTS, R. Discurso sobre o Métod, Coleção Os Pensado­
rs, E. Abril, São Paulo.
Cap. VI
GONÇALVES, C. W. P. "Possibilids
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d Técnica Dinte d Questã Ambiental", in Anais do IÇ
Semáo Universidade e Meio Ambiente, SEMA, Belém,
1987.
MORI, E. O Enigma d Homem, Rio de Janeiro, Zaa, 1979.
. O Métod: A Natureza d Natureza, Publicações Eu­
ropa-América, Portugal, s/d.
MOSCOVICI, S. A Socied Contra a Natureza, Petópolis, Vo­
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MARX, K. O Capital, Livro 1 , vol. 2., Rio de Jaeiro, Civilização
Brasileira, 1971 .
OS (DES)CAMINHOS DO MEIO AMBIENTE 147
MARCUSE, H. Raã e Revoluã, Rio de Janeiro, Paz e Tera,
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