O seu estabelecimento está preparado para receber pessoas com deficiência?

Muitos, ao ler essa pergunta, irão lembrar que o estabelecimento não tem uma rampa. Aqueles que já providenciaram uma, responderão que “sim, está”, com um sorriso no rosto de quem cumpriu o dever de cidadania. Por isso, peço desculpas se este texto chatear aqueles empresários que, carinhosamente, pensaram na rampa e tem ela como um troféu em frente a sua loja. Se o único sinal de acessibilidade que seu estabelecimento tem é uma rampa, infelizmente, tenho que dizer que ele não está preparado para receber pessoas com deficiência. Lucimara é uma jovem de 35 anos. No rosto de feições suaves, óculos escuros estilo Jackie Kennedy. Ela vai ao supermercado e, na lista de compras está uma margarina feita de milho. Ela pergunta para os funcionários - que não sabem e nem se interessam em procurar – se existe a tal margarina. Mais uma vez ela sai com esse item faltando na sua lista de compras. Talvez essa margarina estivesse na sua frente, mas é impossível saber porque Lucimara é cega. Embora seus dedos leiam qualquer frase em braile na mesma velocidade em que você está lendo esse texto, ela não pode, apenas tocando na embalagem, saber do que é feita a margarina disposta no balcão. Lidi tem 32 anos. Adora sair com os amigos, que sempre fazem questão da companhia dela. No centro da cidade onde mora há um restaurante de comida natural localizado no segundo andar de um prédio o qual ela nunca foi. Tudo porque cadeira de rodas não sobe escadas. Entre almoçar em um restaurante sem a presença da Lidi e almoçar em outro com ela, os amigos sempre preferem a segunda opção. O restaurante do segundo piso pode ser bom mas, se não acolhe a Lidi, não acolhe os amigos dela também. Em algumas situações, Lidi até encontra rampa para deslizar sua cadeira mas, dentro da loja, corredores estreitos, araras de mercadorias dispostas de maneira irregular, banheiro sem acessibilidade e atendentes despreparados são fatores que podem fazer com que ela e os amigos desistam de voltar “à loja com a rampa de acesso”. Lidi, Lucimara e cerca de 45 milhões de brasileiros que, de acordo com o Censo de 2010, declararam ter algum tipo de deficiência, não querem apenas uma rampa. Querem ter autonomia para consumir produtos em lojas nas quais possam circular por todos os ambientes, da entrada ao banheiro, com o mínimo de obstáculos e com recursos que atendam suas particularidades e que respeitem suas limitações. Lucimara independente de ver o seu reflexo no espelho, como toda a mulher, ela quer estar bonita e, para isso, tem direito a ter atendentes preparados para que a limitação da visão não a impeça de levar para casa os produtos que deseja. Tornar um ambiente acessível deixou de ser uma opção. É sinônimo de cidadania e pauta inserida em incontáveis leis que, na maioria das vezes, são descumpridas. Adaptar o estabelecimento não é fazer um favor ao cego, ao cadeirante ou a pessoas com outros tipos de deficiência. É agregar valor ao seu produto e serviço e conquistar um público que aguarda ansiosamente por essa atenção para retribuir com a sua fidelidade de compra. É ter senso de cidadania. É cumprir leis e encantar clientes. Cler Oliveira

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