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Dono de casas em Chelas ameaça processar Estado

Diário de Notícias – 13.03.2007

Isaltina Padrão
Tiago Lourenço (foto)

O presidente da Fundação D. Pedro IV, Canto Moniz, ameaça levar o Estado a tribunal
caso a instituição seja obrigada a vender os fogos do Bairro das Amendoeiras, em Chelas
(Lisboa). Desde 2004 que este património é gerido por esta entidade. Antes disso, a
mesma função era desempenhada pelo Instituto de Gestão e Alienação do Património
Habitacional do Estado (IGAPHE).

"Se for necessário, resolveremos este diferendo em tribunal." É desta forma que Canto
Moniz responde à proposta feita pelo secretário de Estado do Ordenamento do Território
e das Cidades, João Ferrão, no âmbito das novas regras de gestão que quer impor nos
bairros dos Lóios e das Amendoeiras. Para o Bairro das Amendoeiras admite-se "a
possibilidade de aquisição dos fogos por parte do moradores".

Algo que Canto Moniz só aceita se à Fundação D. Pedro IV forem cedidos terrenos
camarários e verbas do programa ProHabita que lhe permitam construir tantos fogos
como os que tiver de vender. "A política social assenta no realojamento e no
arrendamento. E não na alienação de património", sustenta, em declarações ao DN,
Canto Moniz, para quem não faz sentido "vender habitação a quem tem o seu problema
habitacional resolvido". Sobretudo, diz, "quando há tantas famílias a necessitar de casa"
(ver caixa).

Também os moradores dos Lóios e das Amendoeiras contestam as alterações propostas


pelo secretário de Estado em relação à gestão que tem vindo a ser praticada pela
Fundação D. Pedro IV nos 1400 fogos das duas urbanizações. Há muito que os inquilinos
classificam a actividade da fundação como "terrorismo social repleto de ameaças". E
exigem que a gestão do património seja retirada à instituição presidida por Canto Moniz.
O consenso era geral nos plenários que ambos os bairros realizaram ontem à noite.

"A fundação já deu motivos mais do que suficientes para o Estado lhe retirar a gestão
dos dois bairros", disse ao DN Eduardo Gaspar, da Associação Tempo de Mudar para o
Desenvolvimento do Bairro dos Lóios, antes do plenário onde foi votada uma moção de
repúdio às aprovações feitas pelo secretário de Estado. Este morador questiona como é
possível fazer uma actualização progressiva da aplicação do regime da renda apoiada ao
longo de cinco anos quando a reabilitação dos edifícios tem de ser feita em oito. "Em
todo o lado se reabilita primeiro e se actualiza a renda depois. Não faz sentido ser de
outra forma", sublinha, lembrando que a primeira coisa que a Fundação D. Pedro IV fez
ao tomar posse do património foi actualizar as rendas, o que em alguns casos se traduziu
num aumento de 1500%.

No Bairro das Amendoeiras, os moradores perguntam se a prometida venda de casas aos


inquilinos será feita legitimamente. "Em 1974 foi celebrado um acordo com o Estado que,
perante uma renda fixa, nos permitia adquirir a casa ao fim de 25 anos. Já passaram
32", diz António André, da comissão de moradores, receando que o Governo não
considere os pagamento já feitos, aquando da venda dos imóveis.

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