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DICIONÁRIO SINÔNIMOS LÍNGUA PORTUGUESA

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Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva

E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Academ i a Bras i l ei r a de Letra s

Dicionário de Sinônimos da L í n g ua Po rt u g u e s a

Ac a d e m i a B r a s i l e i r a d e L et r a s

Rocha Pombo

Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva
E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa
2.a Edição

Rio de Janeiro 2011

C O L E Ç Ã O A N T Ô N I O D E M O R A I S S I LV A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS Diretoria de 2011 Presidente: Marcos Vinicios Vilaça Secretária-Geral: Ana Maria Machado Primeiro-Secretário: Domício Proença Filho Segundo-Secretário: Murilo Melo Filho Tesoureiro: Geraldo Holanda Cavalcanti C O M I S S Ã O D E L E X I C O G R A F I A DA A B L Eduardo Portella Evanildo Bechara Alfredo Bosi Preparação Ana Laura Mello Berner Revisão Vania Maria da Cunha Martins Santos Denise Teixeira Viana Paulo Teixeira Pinto Filho João Luiz Lisboa Pacheco Sandra Pássaro Produção editorial Monique Mendes Editoração eletrônica Estúdio Castellani Projeto gráfico Victor Burton

Catalogação na fonte: Biblioteca da Academia Brasileira de Letras P784 Pombo, Rocha, 1857-1933. Dicionário de sinônimos da língua portuguesa / Rocha Pombo ; [apresentação, Evanildo Bechara]. – 2. ed. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2011. 526 p. ; 23 cm. – (Coleção Antônio de Morais Silva ; v. 10) ISBN 978-85-7440-184-3 1. Língua portuguesa. I. Bechara, Evanildo, 1928-. II. Título. III. Série. CDD 469

Apresentação
E va ni l d o Becha r a

A

trajetória cultural de Rocha Pombo é o fiel espelho de um permanente bravo lutador que, vencendo as precariedades do torrão natal, galga honroso lugar no quadro dos intelectuais brasileiros. De nome completo José Francisco da Rocha Pombo, nasceu o autor deste Dicionário de Sinônimos em Morretes, na província do Paraná, em 4 de dezembro de 1857, com evidentes dotes literários, que cedo se manifestaram; mas foi para a carreira política que encaminhou seus primeiros passos, alcançando, aos vintes anos, lugar de destaque na Assembleia Provincial. Entretanto, se viu impotente para inverter suas posições diante das poderosas tramas parlamentares de uma política quase sempre afastada do interesse público. Salvou-o a alegria de ver publicado nesse mesmo ano seu primeiro estudo sobre instrução pública, na revista fluminense A escola, com transcrição na Revista del Plata, de Buenos Aires. Encontrara na atividade cultural o campo em que se iria destacar, mas um campo que pouco lhe dava para garantir com dignidade seu sustento e da sua família. Os obstáculos não o tiraram da trilha iniciada; em Curitiba, viu em 1888 publicado seu romance A honra do barão; em 1882, Dadá, a boa filha e, em 1888, Petrucelo. Também não lhe faltava o estro para o poemeto Guaíra, saído em 1886. Desiludido com os parcos recursos que seu torrão natal lhe oferecia, deixou Curitiba em 1897, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde poderia ter mais recompensada sua maturidade intelectual. Realmente na Capital, apesar de não diminuídas suas horas de trabalho intenso, encontrou ambiente mais propício às produções que vieram inúmeras. Os livros didáticos na área da História representam sua maior atividade, como Nossa Pátria, para crianças, que chegou a alcançar mais de sessenta edições. Sua História do Brasil, em dez volumes, acabada em 1917, consumiu-lhe doze anos de trabalho. As muitas horas de trabalho não lhe permitiam, para a confecção de seus estudos, a pesquisa atenta, a consulta aos arquivos para a composição das obras históricas. Mas o zelo e a honestidade profissional o faziam abastecer-se nas fontes mais autorizadas, e delas extrair o material que aproveitava. Um trabalhador operoso na mesma área de historiografia, Ro-

VIII

Rocha Pombo

dolfo Garcia, que, em 1935, sucedeu a Rocha Pombo na Cadeira 39 da ABL, assim a ele se referiu, no discurso de posse: “Rocha Pombo fez o que foi possível fazer (...). Entretanto, não há como desconhecer o extraordinário mérito da obra de Rocha Pombo, sua utilidade provada, os serviços prestados aos estudantes, que o estimam sobre todas as congêneres.” Seus pendores literários desde cedo aflorados nas tentativas de ficção acima lembrados, iriam estimulá-lo a compor uma obra sobre língua portuguesa. Autor de compêndios didáticos, cedo deve ter chegado à conclusão de que à bibliografia escolar, bem como ao escritor novel, faltava um bom, desenvolvido e atualizado dicionário de sinônimos, uma vez que, à época, o mercado só contava com produções portuguesas mais antigas, todas datadas do século XIX. Armou-se dessas fontes, algumas vezes transcrevendo-as literalmente, e das mais importantes francesas e espanholas no assunto, e partiu para elaboração deste seu, preocupando-se com mais extensão dos verbetes, e mostrando, quase sempre com muita propriedade, as diferentes franjas semânticas das palavras que integram a série sinonímica, evidenciando que não são, por isso, intercambiáveis. Saído em 1914 pela prestimosa Francisco Alves, vem agora esta 2.a edição editada pela sua Academia, para a qual fora eleito em março de 1933, embora nela não tivesse tomado posse por motivo de seu repentino falecimento, em junho do mesmo ano. Passado quase um século do aparecimento deste Dicionário de Sinônimos, de Rocha Pombo, pode ainda embrear-se com os melhores saídos em nossos dias.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa

ADVERTÊNCIA

Autorizo os Srs. Francisco Alves & Cia., cedendo à condição que me impuseram, a adotar na impressão deste trabalho a grafia que lhes convier. Rio, 1914
ROCHA POMBO

e alguns outros que designam movimento. “pronto a ouvi-lo”.. “vem a galope”. vinha com frequência a Lisboa. foi para o Brazil”. por “explica mais diretamente a intenção. “trazer”. no verão ia para o Alfeite. em vez de “para formar”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 1 A. Ninguém dirá que têm o mesmo valor estas expressões: – “Vou a Lisboa”. estava eu à vista da mesa servida. e a tal ponto que. e nunca mais houve novas dele. “Ir a”. “Foi para Viena como secretário de embaixada”. “lançou à terra”.. no entanto. nesta acepção. 2 A. Há entre “convidar para” e . por. como acrescenta Roquete. imediata”.. no entender de Roq. no tempo das caçadas ia para Salvaterra ou Vila Viçosa: e quando os franceses vieram a Portugal. tomaste por devoção vir os sábados à Penha de França”. ou o anfitrião ia para a mesa. “dirigir-se”. ou “apto para dirigir”. – Como preposições de fim para que. “encaminhar-se”. e convidou-me para jantar com ele domingo. Exemplos: “Ele se esforça por instruir-nos. “vir”. as nossas notas às duas acepções em que parece melhor fixado o valor da preposição a comparativamente com os seus sinônimos. as preposições a e para. ou o propósito de ir ou vir e voltar logo. ou “o objeto imediato da ação”. e às vezes para sempre”. para (exprimindo relação locativa). portanto. Essa diferença fica bem clara nestas frases: “dei um livro a meu filho”.. etc. Dizem muitos indiferentemente: “apto a dirigir”. para que sejamos cidadãos dignos. ou “pronto para ouvi-lo”. o que. – Confundem-se muito frequentemente. e há entre elas uma diferença análoga à que se lhes nota nos casos em que marcam relação de locativo. ou longa estada. segundo observa Lafaye. marcam ainda relação de dativo. a fim marca intuito menos imediato e mais preciso. pois. – As duas preposições empregam-se. e convidou-me a jantar. São raras as relações lógicas que se não possam marcar pela preposição a: “andamos a cavalo”. e – “virei para o Rio em junho”. “bateram-se à espada”. “trouxe uma flor para a menina”. além disso. está ela hoje. ou “vir a alguma parte” “indica a ideia de pouca demora”. “comemos a enjoar”. e “convidou-me para jantar”. quando residia em Queluz. e – “vou para Lisboa”. ia muitas vezes a Mafra. O próprio Roquete escreve: “serve (ou servem) a formar”. “fugiram a toda pressa”. “ação. E ainda este de Vieira: “Porque o pai fez uma viagem para as conquistas. – Restringiremos. com os verbos “ir”. – Estas preposições ex- primem relação de fim para que. a fim de que nos tornemos capazes de servir a pátria”. de. segundo Bruns. encontrou-me ele pela manhã. no segundo caso. pelo menos entre aqueles que se mostram mais fiéis ao espírito da língua. A e para. No primeiro caso. a fim. e emprega-se “quando se supõe somente possibilidade ou probabilidade de lograr o que se intenta”. não exclui. “pescamos à linha”. “matamos a tiro”. Entende Lacerda que “ainda os mais corretos escritores usam indistintamente das preposições a e para” quando querem exprimir relação de locativo. “levar”. João VI. propriamente a ideia de regresso. quase inteiramente despojada do seu valor de origem. “dá a entender intenção de grande” (ou pelo menos de alguma) “demora. Este exemplo de Roquete expõe nitidamente a diferença entre as duas preposições: “ElRei d. assinalam: para. “Ir para algures”. nem sempre. Não nos parece que seja assim. para. “morre à míngua”. como a prep. A distinção entre as duas formas revela-se muito clara nestas frases: “convidou-me a jantar”. Com 3 toda razão diz Aulete que a preposição a é de todas a mais vaga. o fim (ou o desejo) com que se executa a ação”. “virei ao Rio em junho”.

– Sopé e orla designam a parte do monte que assenta no plano horizontal ocupado por ele: sopé é a porção do dito plano onde a montanha começa. “O meu rebenque – diz o major – não serve para nada. sopé. ou de um lugar. rampa. adjacências.4 Rocha Pombo “convidar a” a mesma diferença que explica Lafaye entre “prier à diner” e “prier de diner”. de “vertidura de águas pluviais”. “não serve para nada”. – Há ainda em português outra preposição que deve. do alto do monte para baixo. base. de maior ou menor afastamento desse ponto. lados. circunvizinhanças. proximidades são pontos das cercanias. a primeira nega que ele sirva no momento. mais fácil de subir. falda (ou fralda) é também (na acepção em que a tomamos aqui) a parte inferior do monte: difere de aba porque acrescenta. cercanias são as paragens em torno de um lugar. diferençando-se a segunda da primeira pela noção acessória de contorno (e ambas dando ideia de convivência). arredores. ladeira. aclive. – Arrabaldes designa a . o seu alvitre de nada me serve. flanco. “a rampa do Pão de Açúcar”. e neste caso. ou de um município. pois que não resolve o embaraço em que me vejo”. como as fraldas de uma camisa. – Distritos são secções maiores que compreendem vários bairros. declive. e distinguem-se principalmente pela ideia. de um monte. para um fim que se tinha em vista presentemente. contornos. 3 ABA. e por sugerir alguma coisa de fecundidade. – Encosta é toda a parte inclinada de um monte. contiguidades. inclinação. imediações. orla. com esta diferença: a ladeira (lado suave de colina ou monte) é menos áspera. Dizemos: “a ladeira da Glória”. – Aba é a parte mais baixa e prolongada de um cone. ou lados designam apenas as partes opostas da montanha (ou de qualquer corpo) sem ideia alguma acessória.) exprime que o objeto de que se trata não tem serventia alguma. – Todas estas palavras designam situações em torno de um ponto. ou de uma povoação. e sugerem ideia de altitude. 4 ABAS. e vertente adita à significação de encosta a ideia de origem de rio. lado. orla é mais o recorte da aba. Bairros são secções de uma cidade. e mais afastadas que as circunvizinhanças. – Declive (ou declívio) é a inclinação da encosta. parte pendente de alguma coisa”. assim como comarcas são divisões mais extensas que distritos. o sentido de forma irregular. que marcam.. ilharga. enquanto que a rampa nem sempre é acessível. e o primeiro termo ainda se distingue do segundo por ser mais expressivo e mais belo. – Flanco e ilharga designam também os lados do monte. – Todas estas palavras designam “refegos. pois pode ser tão íngreme que se torne de difícil ou mesmo impossível ascensão. à ideia de extremidade e inclinação. etc. – Rampa e ladeira exprimem igualmente plano inclinado. ou da parte onde a montanha começa a destacar-se do plano sobre que assenta.. arrabaldes. proximidades. vizinhanças e circunvizinhanças são os lugares que se seguem às imediações. que lhe ficam imediatamente em volta. bairros. Esta última locução (que é mais geral – diz Laf. en- rindo uma ideia de amplitude. ser considerada como sinônimo da preposição para: é de. meu amigo. mas considerada de baixo para cima. mas suge- nias. – Lado. ou de superfície dobrada. Base é toda a porção do plano horizontal que o monte abrange. confins. redondeza. vertente. cerca- costa. de um chapéu. distritos. – Imediações são partes da cidade. “valer”: “não serve de nada”. com alguns verbos como “servir”. em certos casos. falda. comarcas. subúrbios. e aclive é também essa inclinação.

que reprimiram os inimigos”. – Por subúrbios entende-se toda parte habitada que fica sob a jurisdição da cidade. vencer com escarmento. que vingue. – Abafa-se uma conspiração antes que venha para a rua: abafa-se o pranto para que ninguém o veja. conter. – Contornos designa a totalidade dos arredores (de uma cidade ou de um lugar). – “Debelaram afinal as nossas forças aquele que foi o mais grave levante dos últimos tempos”.). “em todo o contorno da vila não se encontrou um morador pobre”. domar é submeter. sufocar é impedir de viver privando da respiração. de um embaraço. sufocar. não deixar que apareça ou que se desenvolva.. reprimir. – Abas são “os pontos extremos de uma povoação. – Abafar é impedir que respire. sendo o segundo termo mais vago. tudo que fica dentro dos limites do círculo visual de que se supõe centro à cidade. refrear é conter com esforço e trabalho. “nas cercanias de Olinda lutou-se toda a tarde”. ou o poder de”. subjugar. superar. arredores são arrabaldes mais distantes.. – Sufoca-se uma rebelião no seu começo.. pôr sob a autoridade. “não gosta de ponto algum das circunvizinhanças do Castelo”. reprimir é conter com mais energia e decisão. impedir que se manifeste. debelar é reprimir à custa de guerra. não se pode conter as lágrimas diante de um infortúnio. sobrelevar é “pôr-se acima de”. ou para além do circuito urbano. dentro do seu perímetro”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 5 porção de uma vila ou cidade que lhe fica fora dos muros. “tem casa nas vizinhanças da praça ou do bairro”. “o Méier. e mesmo tratando-se de homens. sujeitar é reduzir à obediência. sem grande esforço. de um transe. vencer é sair vitorioso de um combate. que se mova. – Reprimem-se movimentos subversivos da ordem pública.). humilhando o vencido. “morar em Pedrouços é morar nas abas de Lisboa” (Bruns. domar. porém. sofrear. jugular é reprimir. “mudou-se mais para as imediações do centro urbano”. o mais aprazível dos nossos subúrbios”. jugular. reprime-se a custo uma explosão de raiva ou de furor. contiguidades e adjacências. vencer. “acudiram-lhes alguns dos nossos. debelar. e chegou até os confins do país inimigo”. “a Tijuca é um dos mais belos arrabaldes do Rio”. suplantar. 5 ABAFAR. que cresça. conter é moderar. – Diremos com propriedade: “o bairro de Botafogo”. as porções habitadas que se seguem às abas. a império. é “matar por asfixia”. e quase sempre não povoados.. como estrangulando (do latim jugulare “degolar”. suplantar (etimologicamente “meter debaixo dos pés”) é vencer com orgulho.). “O homem que vê o que eu vi e abafa no peito o grito da indignação”. sobrepujar é superar depois de esforço e luta. nem luta material. sujeitar. dominar é submeter com império. (Fil. subjugar é submeter a jugo. “cortar a cabeça”). ou vencer em luta. é preciso que se contenha o instinto das multidões. superar é vencer e ficar superior a alguém ou alguma coisa. sobrelevar. tome forças. e confins são os limites em relação aos de outro. submeter. “a epidemia alastrou-se pela redondeza do nosso acampamento. Elys. . Cruz há algumas fazendas”. (Herc. até com força e violência. sofrear é conter com prudência e cuidado. ou tendo poucas habitações. subjugar pela força bruta. que opere. contidos. submeter é “reduzir à dependência. “aqueles jardins e pomares já eram adjacências e quase contiguidades de Jerusalém”. sobrepujar. refrear. “nos arredores de S. – Redondeza ou redondezas. dá ideia da inferioridade moral do que é domado. “nas vastas comarcas daquela província há distritos riquíssimos em minerais”. como senhor. ou um ponto dado. – Contém-se um ímpeto de cólera. dominar. “quando anoiteceu estávamos já nas proximidades da fazenda”.

. nem o gênio é capaz de suplantar a altivez de uma consciência”. – “É preciso cobrir bem o menino. o tutor os tutelados. “Ninguém se deve expor às friagens de junho se não bem agasalhado”. e não só fugindo. por meio de roupas ou cobertas”. – “é um termo genérico. e hoje é incontestavelmente a figura que sobreleva todas as outras ali”. as culpas dos filhos”. e evitar que se descubra”. os sicários. acobertar. – “Em poucos dias o general submeteu toda a província”. – Resguardar é também amparar “contra o tempo ou contra alguma coisa. tapar. ou que se agite.. – O pai sujeita os filhos. abafar significa “tolher a respiração. “. agasalhar. sobrepujou afinal todas as traições. expanda ou desordene alguma coisa”. ou em redor”. receptar. co- comida para que não esfrie. “Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio” (Herc). tapar o doente. ou não fazer conhecida uma coisa que nos interessa a nós ou a alguém. – Atabafar. – “Com aquele golpe certeiro conseguiu jugular a sedição”. ou que se torne pública a culpa de alguém”. mas evitando-lhe a ação. confinando ambiente respirável de modo a provocar suor ou calor artificial. mas defendendo-se. – “Ele. – Encobrir é “evitar que se veja ou se conheça algum intento.. atabafar. – “Resguarde-se do mal. acoitar. – “Abrigaram-se em nossa casa contra a tormenta”. subtrair. Dizemos tapar o menino no berço. de significação vaga quando se emprega fora do sentido reto de cobrir. “Encobrem algumas mais. para atravessar a praça”.. por fraqueza que se explica.. como neste exemplo: “Chegou a abrir-se a sessão. abrigar. tapar a cara com as mãos. – “O homem que não refreia os seus apetites é incapaz de refrear os seus ódios”. 6 ABAFAR. sonegar. – Ocultar é “não dar testemunho do que se viu. reter. – “O senhor não conseguirá suplantar-nos com todo o seu poder”. meu amigo. ou ainda “furtar alguma coisa à vista de outrem.. “à vista do vendaval iminente fomos abrigar-nos na enseada dos Reis”. – Neste grupo.” Oculta-se uma verdade para não comprometer inutilmente a honra . – “A autoridade venceu naquele conflito desigual”. – Abrigar quer dizer “amparar contra o mau tempo. – Abafa-se o doente para facilitar-lhe a transpiração. – Domam-se as feras. Como diz Bruns. como em: “abafou o processo. – Cobrir é “ocultar ou resguardar pondo alguma coisa em cima. – “Aquele homem dominou os outros tão completamente que ninguém mais pôde protestar”. abafa-se a conder. abafam-se as chamas para que se não propaguem... segundo Bruns. – “Subjugamos as tribos menos dispostas ao trato dos estrangeiros”. ocultar. os bárbaros. encobrir.. diante. com cuidado”..6 Rocha Pom bo “os Jesuítas tiveram aqui a grande missão de andar debelando paixões e barbarias”. que andava a superar as misérias daquele meio. meu filho.. es- brir. “Conviria que cobrisse a cabeça com a manta”. – “Agasalhe-se bem. a formação da culpa”. “cumpre que cada um de nós vença por sua parte os embaraços que sobrevierem”. resguardar. é “abafar com precipitação e energia”. “encobre-se a falta alheia tornando-nos até certo ponto cúmplice do delinquente”. – Abafar aqui significa “não deixar seguir os trâmites usuais”. ou impedir que pela evaporação esfrie um corpo. pois – que eu saiba – não tem cura quando sobrevém na sua idade”.. – Tapar – diz Bruns. fugindo ou fazendo dele fugir para um abrigo”.” 7 ABAFAR. “. – Agasalhar é ainda “defender-se contra o tempo. com a sua habilidade e energia dominou a revolta”.. mas os espertos atabafaram tudo antes que nós chegássemos”. “abafemos o triste incidente para que ninguém mais o explore”.

tremedal. mercadorias sobre que se tinha de pagar imposto. – Lameiral está nas mesmas condições: e indica série de lameiros.mas eu não sou homem que oculte a baixeza da minha esfera” (Garrett). pantanoso.. lameiro extenso. de aparecer. com a diferença de que atascadeiro é mais profundo. segundo Bruns. (Mont’Alv. lodaçal. onde a água se acumula. 8 ABAFEIRA. mas em caso algum se esconderá para que não suponham que se quer subtrair à ação da justiça”. distinguindo-se deste em ser terreno baixo que apenas os enxurros banham acidentalmente. – Reter é “conservar indevidamente em seu poder o que lhe não pertence”. charco. – Esconder é ocultar com mais cuidado e interesse. guardar. inculto. – Charco é “terreno alagadiço. – Tremedal é lamaçal vasto e profundo.. ou aquela cidade é o atascadeiro dos moços”. “O caboclo mete a cabeça no brejo e desaparece”. de água lodacenta. – Brejo. – Acobertar é “proteger um culpado. coberto de vegetação”. – Acoitar é “dar coito. lameiral. lameiro. chafurdei- ro. “. lodeiro. banhado. – Lodaçal é alagoa de lodo. e designa “porção de águas de chuva (ou de despejo) que fica temporariamente depositada em sítios baixos. – Banhado é “quase charco. chafurda.” É termo brasileiro. e que é vestido de vegetação rasteira. – Lamaçal é pântano mais extenso. ou “grande lameiro” . – Lodeiro (ou lodeira) é lugar “onde há muito lodo”. como os chiqueiros. – Pântano é “lugar coberto de camada de lama pouco profunda”. asilo. que parecia nem ter intenção de ocultá-lo”. lamaçal. – Lameirão (ou lamarão) é palavra de uso vulgar: aumentativo de lameiro. à ação ou poder de alguém”. (Aul. “O advogado subtraiu uma folha dos autos”. e quase que só se emprega em sentido figurado.).. – Subtrair significa “tirar com astúcia ou fraude. sem vegetação espontânea”. brejo. atoleiro. “O desgraçado escondeu tão mal o furto. não “acoberta o sol”. é “terreno balofo. de vasa. – Lameiro (ou lameira) é “terra baixa e pantanosa”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 7 de alguém. atascadeiro.. mas sem a intenção de encobrir-lhe o crime.. – Paul é “alagoa formada por enchente”. permanece.. terra onde há lama. É usado quase exclusivamente nesta acepção. sendo este verbo apenas de sentido mais vago e geral.” “O porão onde mora é uma horrível abafeira”. – Lagoeiro é termo popular. esconder o furto ou roubo que outrem fez”. terreno flácido e lodoso. lagoeiro. paul. ou a si próprio. “A nuvem encobre o sol”. enxurdeiro. segundo Bruns.. lameirão. de chavascal”.). pântano. – Sonegar é termo forense e indica propriamente “esconder e negar sob juramento”. – Receptar é “receber. – Atascadeiro ou (atasqueiro) diz o mesmo que atoleiro. pantanal. disfarçando-se para não ser visto ou descoberto”. – Abafeira... é “o estado do lugar não arejado. homizio”: é. Encobre-se.. Diremos: ele se ocultou em casa (deixou de sair. portanto. “Para libertá-los do infortúnio e subtraí-los à vingança”. mas não tanto e tão extenso como no lodaçal. ou em depressões de terreno”. – Todos estes vocábulos sugerem ideia de água suja e estagnada. furtar alguma coisa ou alguém ardilosamente às vistas. “aquele moço fugiu para subtrair-se ao serviço militar”. É quase encobrir.. – Enxurdeiro (ou enxurdeira) é lodaçal revolvido. mas não se acoberta um defeito físico: acoberta-se por piedade um foragido. Sonegam-se bens a inventário. etc. “ocultar contra a lei”. “os facínoras subtraíram-se às diligências da polícia”. embora menos que no lamaçal.. Só se acoita a um criminoso ou indivíduo que tal se julga. “Aquela casa. No Brasil é “terreno úmido. “terra encharcada devido a aluviões”. lenteiro. – Pantanal é aumentativo de pântano. e se estagna e abafa. onde se chafurdam animais.

degradar. “Tenta- . na rua. molhado. aviltar. apenas a saudamos com um aceno de cabeça? Não gritaremos. – Abater é “abaixar humilhando”. Tratemos de substituir baixar por abaixar e vice-versa. como arriar principalmente. arriar. que se examinem algumas formas para se ver que não é assim. É indigno de um homem abater a inocência. Excluindo a ideia acessória de alívio. – Abaixar é. descer. Abaixa-se a bandeira a meio pau (desce-se do alto para o meio da haste). descer. macular. Basta. ou não baixa a dar satisfações a ninguém”. “Os vícios nos abaixam.: “Não se taxe de nimiedade o estabelecer sinonímia entre estes dois vocábulos. nesses exemplos: não é tangível a impropriedade das frases? – “Dizemos ainda: baixou o câmbio”. – Abater acrescenta à ação de abaixar a ideia de força ou violência. A propósito escreve Bruns. rebaixar. Fig. no primeiro caso: – “Abaixa a cabeça!”? E não diremos no segundo: – “Baixei a cabeça. – Arriar é que é. fazer que uma coisa desça do lugar em que está até um certo outro lugar. 10 ABAIXAR. “ele baixou até o crime”.”? Se não há sinonímia entre os dois verbos. Que diremos a quem. de humilhação.” “Ele abateu a espada diante do general”. isto é. Abate-se o orgulho de alguém.. – Rebaixar é “abater infamando”. é ainda conexo de arriar. abater. neste sentido. Não se desce sem haver subido. “baixa da própria dignidade”: e não “abaixou”. abjeto. baixar. desacreditar. Dizemos: “abaixaram comovidos o pavilhão sagrado”: e não “baixaram”. 9 ABAIXAR. precisamente quando a advertência exige brevidade? Não é: – “Baixa os olhos!” que dizemos a quem queremos humilhar? Não é: – “Abaixa a mão!” que diz aquele que se vê ameaçado por alguém? E não obstante também se diz: – “Abaixa os olhos. ou chafurdeira (esta forma é extensão daquela) são lamaçais onde chafurdam porcos. no entanto. desdoirar. o verdadeiro sinônimo de arriar. manchar. – Abaixar e baixar parecem ser a mesma palavra e com perfeita identidade de significação. abater. ao encontrar a F. deslustrar. Arria-se a carga se é pesada.8 Rocha Pom bo (C. mas não se arria a bandeira senão quando se a retira da haste. desonrar. – Todos estes verbos exprimem intuito. desabonar. e figuradamente – casas imundas. ou ação dirigida a diminuir os créditos de alguém. e além disso dá mais completa a ideia de abaixar. abaixa-se a cortina por causa do sol. infamar. portanto. “Como é que ele se rebaixa até aquele papel ignominioso?” “O chefe o tem rebaixado ao ponto de convertê-lo em besta miserável”. É também baixar: “não desce. preposição que mais parece um a eufônico do que partícula significativa.. que à primeira vista só parecem diferir na preposição que prefixa o primeiro. pegajoso. se é indiferente empregar um ou outro. e verás a teus pés o que andas procurando”. por que diremos abaixar. equivalente quase perfeito de abaixar. de mais longa enunciação que baixar. – Lenteiro (como diz a forma de que se derivou – lento. ou lentar) é terreno úmido. difamar. depreciar. a virtude nos levanta” (Leitão de Andrade). Raciocinemos (no entanto) um momento. com esta diferença: pode exprimir também (arriar) a ideia de alívio. desprezível”. vai passar por uma porta mais baixa que a parte superior do objeto? Como diremos que. – Aviltar é “fazer vil. “Os inimigos abateram as armas. humilhar. Quem chega desce a carga.). – Descer é correlativo de “subir”. é rebaixar afrontando. abater. levando um objeto frágil à cabeça. deprimir. – Abaixar significa “descer do conceito em que se era tido”. só quem cansa a arria. e chafurdeiro. – Chafurda. envergonhar. envilecer. e significa. ou “abaixa”.

É preciso distinguir infamar de difamar. macula) e significam “marear um nome. por mais subtil que esta seja. 11 ABALANÇAR-SE. no sentido figurado. – Deslustrar e desdoirar. não a classe ou a dignidade (como acontece com o verbo degradar) mas o valor. deslustrá-lo infligindo-lhe alguma pecha infamante”. só se deslustra quem é ilustre. desmerecer na estima. “General. “Com aqueles destemperos só envergonham a família”. (Cast. – Macular e manchar são formas do mesmo termo latino (macular. como só se desdoira quem brilha no mundo. no entanto. no seu ódio sacrílego de brutos. “Meu pai não sente vergonha de deslustrar seu sangue”. no entanto. Diríamos: as más ações envilecem (quer dizer: fazem que se perca a estima. Crisóstomo para deprimir S. a boa reputação da vítima.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 9 ram aviltar-nos perante a nação”. no sentido com que entra neste grupo. – Envilecer é também fazer vil. e apresentam de comum a ideia de obrigar a descer da posição ou do conceito em que alguém estava. – Humilhar é “oprimir. “Glória alguma do mundo poderá induzi-lo a humilhar os pequenos”. ou o apreço. Significam ambos “privar da fama”.. – Degradar é “fazer baixar de grau. “naquele alcouce os mais nobres se aviltam”.: “Tem muito maior alcance a ação de desacreditar que a de desabonar”: quem desabona diminui o apreço. “Desluzia as gerações dos inimigos com a injustiça da sua malquerença”. pois. de hierarquia”. ou tentar destruir a fama dizendo da vítima e espalhando coisas que podem ser até aleivosas”. marcam os respetivos radicais. no entanto. arrojar-se. o valor”. ou tem glória. Deprimir – acrescenta – inclui “intenção de destruir no conceito com grande desejo de prejudicar”. assinalar diferença. muito mais expressivo e mais forte.. difamar “tirar a fama”. como diz Laf. como infamar é “privar da fama”. Exemplos: “A conduta daquele homem desonra a toda a família”. E cita como exemplo: “Este escritor afeta elevar S. ou rebaixa. atrever-se. arriscar-se. mas só as más ações desacreditam” (Bruns. (Camil). mas não o destrói. é privar da fama. mas este significa mais – “perder ou tirar o brilho.” (Boss. como desacreditar é “destruir o crédito”. e. atirar-se. “O intento daquele monstro é ainda infamar a memória do tio”. a fama de alguém com estigma infamante”. Pode-se definir precisamente: infamar “marcar de infâmia”. Bastanos o que diz Bruns. de intuito afrontoso. Propriamente falando. “Estas leves travessuras não depreciam um moço”. Agostinho.). do mesmo modo. e infamar é “ofender a honra. aventurar- . Exemplo: “Tentam. é. o direito de parecer digno). só eles vivem praticando atos que infamam”. na acepção natural. descer de posto. o mérito. e desabonar é “diminuir o crédito e o bom nome”. enfraquece. “A mínima suspeita macula aquela inocência”. “Não se compreende como aquele moço chegou a praticar atos que degradam”. quem goza de alta posição. – Deprimir e depreciar. “Ele se desacredita pelos próprios atos”. mas não dá ideia de força.) “Quem é aquele pobre-diabo de rodapés para desdoirar Camões?” – De deslustrar e desdoirar aproxima-se desluzir. castigar envergonhando”. não humilhe os vencidos”. “marcam uma ação que ataca. “Uma fraqueza desabona. – Envergonhar é “molestar alguém confundindo-lhe o pudor”. apresentam diferença equivalente à que. difamar. “Este crime envergonha a toda a geração”. o crédito de alguém. Macular é talvez mais fino e mais nobre: manchar é. Depreciar significa “diminuir o preço. empanar o luzimento”. – Entre desabonar e desacreditar convém. “Esta torpeza mancha toda uma vida”. quem desacredita arruína o crédito. difamar-nos. afoitar-se..). tornar abjeto “por abaixamento”. – Desonrar é “tirar a honra”. Uma pessoa depreciada ou deprimida não está mais na estima em que esteve”. o sinônimo mais próximo de rebaixar: significa “fazer decair do conceito. ofender o pundonor.

. pernoitamos em Campo Grande. ausentar-se. dali seguindo para ponto ignorado”. é “sujeitar-se a que lhe aconteça bem ou mal”. e discutir justiça?” – “Afinal animou-se a pobre viúva a ir a palácio.” – Azular é brasileirismo bem moderno. embora sem a intenção de esconder-se. como se se sumisse no espaço. seguir. azulou dali quando nos viu de longe”. Paulo. arriscar-se é “expor-se a um risco. “O exército fugiu perseguido pela cavalaria inimiga” (Aul. atirar-se é “lançar-se sem ímpeto. partir. – “Como é que um soldado se atreve a chegar tão perto da trincheira inimiga?” – “O pescador atirou-se ao mar. – Desaparecer é deixar de ser visto. pôr-se a caminho”. – “Ele se aventura a ir a Minas: se for feliz. arrojar-se é “precipitar-se. saindo de casa às 3 da tarde. Abala o garoto quando vê o policial. fig. portanto. desaparecer. mas perdeu o tempo”. e só com o fim de não continuar presente num lugar”. – “O bombeiro arrojou-se ao furor do incêndio. animar-se. “Espavorido. a ir à cidade convulsionada. coragem.) significa “sair precipitadamente e às ocultas. depois de haver meditado”. sem os receios ou escrúpulos usuais”. É sim quase perfeito de sair. – Apliquemos todos esses verbos. “F.10 Rocha Pombo -se.. desaparecer. “Depois da meia-noite desapareceram as crianças”. “Ousa o bandido falar em lei. Também do grupo abala o estudante assim que ouve falar em bomba. ousar. Paulo”. – Abalar (sent. Diremos: “Ele saiu da cidade há uma hora: e no outro dia partiu para S. azular. o companheiro foge” (Garrett). como diz Bruns. animar-se quer dizer “ter alma. atrever-se é “afoitar-se com audácia”. – Esgueirar-se é “azular com a ideia de esconder-se”. – Fugir aproxima-se de esgueirar-se com esta diferença: esgueirar-se é “desaparecer com astúcia. sumir-se. desapareceu da rua do Ouvidor”.. “o mais genérico de todos estes sinônimos. boa ou má”. mas distingue-se claramente de um e outro porque acrescenta à ideia de “pôr-se em movimento” a de “continuação de marcha iniciada”. como sair. – “Pois há quem ouse ir a comícios neste país arriscando a própria vida?”. “F. é “retirar-se sorrateiramente”. 12 ABALAR. ousar é. sair. “Partimos daqui no dia tal. e ainda se arriscou a andar pelos lugares mais públicos”. tentação”. afoitar-se é “não hesitar sem refletir muito no perigo. aventurar-se é “expor-se a boa ou má sorte”. de modo a não ser visto”. – Seguir aproxima-se. força. sem ideia alguma acessória quanto ao intuito de quem desaparece. se abalançou a publicar o artigo?” – “O homem afoitou-se a atravessar o escuro. risco. – Partir quer dizer – “começar marcha ou viagem. “Por que desapareceu o senhor de nossa casa?” – Sumir-se é mais que desaparecer porque dá ideia de “deixar de ser visto sem . fugir. Ninguém segue seu caminho sem haver começado a andar. voltará por S. atirar-se com ímpeto”. e salvou a criança”. perigo. é “empreender um lance de resultado incerto”. só confiando na ventura. e fugir é “deixar um ponto às pressas”. – “O sr. mas decisivamente”. e trouxe nos braços o menino desfalecido”. de partir e de sair. “O exército abalou dali ao ter certeza de que o inimigo estava a chegar”. esgueirar- -se. – “O gatuno pressentiu-nos e esgueirou-se”. retirar-se. e significa – abalar. e no outro dia seguimos para Mendes. para alguma coisa. tomar uma resolução súbita”. – Abalançar-se quer dizer “não hesitar. mais a ideia de deixar um certo lugar” que de “ir para outro”.). “desviar-se precipitadamente de alguém ou de alguma coisa para evitar incômodo. Não poderíamos trocar aí nenhum dos verbos. diferindo deste porque não dá. e tanto pode ter sentido favorável como desfavorável”: significa “atrever-se confiante e seguro. etc. a um perigo eventual”.

e de retirar-se principalmente. de frequentá-la”. 14 ABALIZADO. “Não arrefeceu nunca em Vieira aquele assinalado heroísmo da sua imensa fé”. a ideia de “não estar mais presente”. “F. “que se sumiu de nossa casa”. “Não se trata de um tipo qualquer. pois jamais me dissuadirão de que a Justiça está comigo”. às vezes) ideia de plano. pois enuncia “a ideia de mudar do que se era. mas em tal evidência que se fez digno de ser notado. insigne. por algum mérito ou aptidão. 13 ABALAR. consumado.). na consciência”. “O juiz ausentou-se durante as férias”. e não. apenas não fica muito firme nelas. “As suas palavras poderiam abalar-me alguma coisa. mas que fosse um escritor notável ninguém sabia”. grande. se destaca do comum e se põe em relevo. na acepção figurada. era um jornalista distinto. célebre. assinalado. – Ilustre é um desses vocábulos que parecem gastos pelo uso. mas de um moço distinto. de fim ou de necessidade com que alguém se retira: apenas marca a noção de “não estar mais presente onde se estava”. famoso. “deixou de ser visto nela. Do mesmo modo não confundiremos os dois termos para empregá-los indistintamente nesta frase: “O pobre viúvo sumiu-se do mundo” (isto é. com valor perfeitamen- ilustre. exímio. Diremos que um amigo (que continuamos aliás a encontrar na rua) desapareceu de nossa casa. não propriamente. . e aproxima-se em certos casos de desaparecer. e tido como exemplo. o que se distinguiu por alguma grande ação. mas ao fato de haver deixado a cadeira. – Assinalado é o que se destacou por alguma prova brilhante no seu ofício. Dizemos: “Ele me demoveu (e não – abalou) do intento de vingança”. “As armas e os varões assinalados” (Cam. Quem se deixa abalar nas suas convicções nem por isso as renuncia. mas não creio que cheguem a demover-me do meu propósito. o presidente suspende a sessão e retira-se”. – Demover diz muito mais. com toda a sua eloquência. ou do que se intentava”. conspícuo. “fazer que uma pessoa fique em dúvida a respeito de alguma coisa”. – Abalizado – dizemos de um profissional ou de um artista que se fez completo na sua profissão ou na sua arte. dissuadir. significa “mover um pouco”. é mestre abalizado no seu ofício”. te análogo ao que tem no sentido físico. É.” – Notável diz mais que distinto: designa o que se pôs. Mas ausentar-se não dá (como retirar-se. egrégio. nobre. “No meio do tumulto. afamado.Dicionário de Sinônim os da Língua Portuguesa 11 que se saiba o paradeiro ou o destino de quem se sumiu. digno. “F. preclaro. Em suma: quem desaparece nem sempre tem tenção de sumir-se: agora o que não é possível é que alguém se suma sem haver desaparecido. não apenas em simples destaque. famigerado. “O homem retirou-se da festa mais cedo do que se esperava”. Não diríamos neste caso – ausenta-se – pois que o nosso pensamento não é aludir ao fato de não ter mais o homem ficado presente. “F. “Tais coisas lhe disse o velho que o dissuadiu de casar” (tirou-lhe isto do espírito). ínclito. não consegue abalar-me neste modo de ver”. ou de intento. este verbo empregado aqui. portanto. Dizemos: “O homem. notável. – Distinto é aquele que. aqui. – Ausentar-se é “deixar de estar presente em alguma parte”. “Fazem esforços por abalar na alma do povo as crenças de que ele vive”. desapareceu para sempre). demover. eminente. mas a de “haver deixado um lugar”. “Demovemos uma criança de ficar no meio do barulho”. assim como retirar-se marca. – Dissuadir é “tirar do espírito”. é um escritor abalizado”. “tirar do estado de firmeza”. – Abalar. “demover operando no espírito. distinto. isto é. de sair.

mas. e hoje é termo de que só se usa na oratória parlamentar. só porque se trata de homens ilustres. “As afamadas laranjas da Argélia”.. apesar do que diz Bruns. ou o que “se assinala por algum grande mérito. ou na sua condição própria”. – Nobre.” “A nobre altivez daquela criança salvou-nos a todos”.. célebre enuncia não fama ruidosa. Henrique. “Este . afastando-nos um pouco do autor. podendo até ser a de um bandido. observaremos que: famoso é vocábulo menos nobre. “Entre os políticos ilustres de Itália. belo. significa “digno e excelente”... nenhum excede a Cavour pela função histórica”. e no seu lugar. ou onde aparece”. ou alguma grande qualidade ou aptidão. ou mesmo nas vicissitudes da vida”. “O preclaro varão que ilustrou o seu tempo”. com razão. eminente. É ainda preciso notar que tanto se aplica a pessoas como a coisas.. Há capitães ao mesmo tempo célebres e famosos como Alexandre. “Os afamados charutos da Bahia”. “A preclara majestade de d. Não seria muito próprio. é grande. Diríamos: “Job foi um varão insigne pela virtude da resignação” (e não – “um varão assinalado)”. como nota Lafaye. ou qualidades que dão lustre”. “Que nobre alma a daquela dama tão obscura e tão desventurada.. “O nobre ancião falou solene”. ou então em frases enfáticas. (porque. ou a coisas subsistentes.12 Rocha Pombo No seu sentido próprio.. boa ou má (em regra – má) “se espalha num dado círculo e com aparato”. mas decerto que não diríamos dele – o famoso Charcot. Diríamos: “O preclaro Tácito”. ou a coisas. mas “grandeza que tem alguma coisa de solenidade e de esplendor na história. ou feitos. mas melhor a coisas. – Digno é um epíteto mais modesto do que todos os precedentes: digno se diz daquele que “se porta discretamente no seu cargo. destacado por ações. Diremos: “famigerado bandido”. “famigerado conspirador. ofício. mas os preclaros são ao mesmo tempo ilustres. Mas preclaro diz mais e é mais nobre: exprime – “excelente.. é um médico afamado” (isto é – que tem bom nome ou boa fama de profissional na cidade onde clinica). de aldeia”. por exemplo: “preclaro representante da nação”. Mas rarissimamente poderíamos dizer sem flagrante absurdo.. Charcot é célebre. “famigerado desordeiro”. Aplicado a qualidades. e que por isso mesmo é merecedor de alguma coisa mais que o comum.. porque conserve uns laivos da antiga acepção.. pela sua grandeza moral. Nem todos os ilustres são preclaros.. chamar – famoso a um médico que se fizesse conhecido e ilustre fora do seu meio: diríamos antes – notável. “Nada tenho a dizer ao nobre senador”. Só por menoscabo diríamos: “famigerado cultor das musas”. conforme o caso. já lhe não caberia bem o epíteto).. mas a raríssimos grandes poetas ou grandes artistas chamaríamos com propriedade famosos. “F.. Afamado é quem ou o que tem fama.. ou “está tendo fama no seu tempo. diz menos que ilustre. é digna de respeito”. ou mesmo – grande. o grande Infante. “Aquela criatura. “tocam-se de perto.. função.” Difere de assinalado em que este “chama atenção mais para os feitos do indivíduo que se assinalou”. e deve aplicar-se a um fato ou a uma vida “que fez grande ruído no mundo”. missão. só se pode aplicar a pessoas vivas. – Afamado diz muito menos que famoso. mais do que rei no seu império do mundo”. – Preclaro e insigne aproximam-se de ilustre. – Famigerado quase sempre se toma em sentido pejorativo: designa indivíduo cuja fama. é um digno funcionário”. e no meio em que vive. e segundo observa Bruns. e insigne exprime “qualidade inerente à pessoa ou coisa insigne”.. tratando-se de um conspirador de alta raça. brilhante”. – Insigne é quem. – Famoso e célebre.. ou “preclaro ministro”. é de assinalado que mais se aproxima: ilustre quer dizer – “conhecido e brilhante por si mesmo. “F. ou melhor – célebre.

mas um simples abalo. e de consequências gravíssimas para a região convulsionada. Tanto podemos dizer – “um artista”. Só é grande o homem “excepcionalmente notável que foi consagrado pelo culto das gerações”. de grande massa”. Não poderíamos dizer. – Parece que se vê melhor nestes exemplos: “Temia-se um terremoto. Consumado significa – “subido à perfeição. o que é “muito falado. Há exímios poetas. ou o feito de proporções fora do comum “– que se incorporaram definitivamente na história humana”. convulsão. e tanto um como outro exprimem mais do que exímio quando se quer marcar precisamente elevação pela capacidade e pelo mérito. comoção. como diz Bruns. ou um serviço assinalado é não como entendem Bourg. tratando-se de pessoas. ou melhor. – Convulsão aplicar-se-ia para designar um terremoto violento de grandes proporções. tratando de coisas – a que “se eleva acima de outra coisa e se põe muito alto”. ou no desempenho de algum alto cargo”. Dizemos: “O egrégio tribunal”. “o grande Vieira”. – Trepidação é leve abalo. ou de que se tem sinais evidentes. artista eminente. Um favor. ou na sua profissão (principalmente na sua arte) “excede. notável de si mesmo”. muito raros outros caberiam nos dois exemplos. sobreleva aos mais hábeis”. menos extenso e menos sensível que o tremor de terra. Berg.. sim – é “um favor grande. “F. apenas sensível na superfície”. a uma profunda e acabada perícia na sua ciência ou na sua arte”. – Comoção é “estrondo ou abalo no interior da terra. – “é o que chega ao último grau da glória”. mesmo referindo-nos aos mais abalizados no seu ofício: “F. – Grande é um genérico que se não confunde entre os do grupo. 15 ABALO. – Abalo é “movimento amplo. é um conspícuo marceneiro”. agitação. – Todos estes vocábulos significam fenômenos sísmicos. Egrégio é “honrado e ilustre. tre- pidação. que tem nome ruidoso e brilhante”. – Tremor de terra é. e por isso “posto no pináculo entre os da mesma classe”. ou às proporções de grandeza dos seus pares”..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 13 homem. magistrado. e se diz daquele que na sua arte. Há ínclitos generais. como há ínclitos poetas. sem ser insigne. de estremecimentos. e. ou “F. estremecimento. aplicado a pessoas ilustres. conspícuo é o que se faz “tão ilustre e eminente que dá nas vistas de todo mundo”. – Eminente e conspícuo diz mais do que ilustre: eminente é o que “excede à estatura moral. no dia seguinte . ou das nossas letras”. ou o fato. é um artesão eminente”. tornou-se naquele momento figura assinalada pelo heroísmo com que fez frente ao inimigo”. e nem chegou a ser um verdadeiro tremor de terra. “F. segundo Roq. – Exímio exprime a “qualidade de superexcelência”. – Consumado aproxima-se de abalizado. digno de respeito pela compostura e gravidade na sua conduta. como há jogadores exímios. – Terremoto é “forte tremor de terra tendo consequências na crosta terrestre”. ou acontecimento extraordinário. um favor ou serviço que se manifesta. Mas diríamos: escritor. tremor de terra. “Ínclito”. excepcional. e por isso mesmo pouco intenso e pouco sensível. Entre todos os vocábulos deste grupo. como – “um filósofo consumado”. pois que estes não são mais que abalos menos amplos conquanto mais intensos e mais sensíveis”. “egrégio pastor de almas”. Dizemos: “o grande Infante”. mas um favor que no momento assumiu proporções que não teria em ocasião normal”: um favor insigne. Qualquer dos dois termos só pode ser. é figura conspícua da nossa política. terremoto. é verdadeiramente o egrégio e venerável patriarca daquela família”. – Agitação será mais “uma comoção continuada por algum tempo”. “uma série de abalos.

é mais genérico do que abalroar. mas uma formidável convulsão que alterou toda a topografia da ilha”. como aferrar. “decreto”). “com precipitação”. aferrar é “atracar com ferros (quaisquer que sejam)”. “Com muita gente armada a investiram e abordaram (a caravela) por duas partes”. “O bandido nos atacará em caminho se facilitarmos”.. “Não se ataca impunemente a honra alheia”.. e com intuito hostil”. desamparar. desajudar. Não há dúvida. quando esta se acha em iminente risco de perecer. – Assaltar é “investir à traição. consistindo a diferença apenas “nos meios de que se valem os tripulantes de um navio para aprisionar um navio inimigo”: abalroar. e decisivamente”. . bordo com bordo”. 17 ABANDONAR. e atracar é “prender de qualquer modo”. arremeter. aferrar.14 Rocha Pombo houve algumas trepidações do solo junto do monte. Diz Bruns. Abandonar é. da Acad. que o abalroamento de dois navios é devido ao acaso. – Abalroar. Quanto a abandonar. ou de sacrificar 1 O italiano conserva o verbo bandire. “O inimigo investe.” 16 ABALROAR. desdenhar. pôr de lado e esquecido”. abordar. “Acometeu-nos o inimigo sem que o esperássemos tão cedo”. mas não consegue abalroar a nossa embarcação”. – Atracar. porém. ligeiros estremecimentos: e depois tudo voltou à serenidade normal. (Dic. o verbo de significação mais genérica: “é ir hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. atracar. no outro dia. investir. neste grupo. desproteger. desapoiar. é – como define Aul. – Arremeter é “atacar com fúria. de emboscada.. desfavorecer. “não querer saber da pessoa ou da coisa que se abandona”. os quais se reputam deficientes ou nulos”. mas decerto não é em tal acepção que abalroamento é sinônimo de investida.” “O que se deu ali não foi um simples terremoto. da Acad. Bandon era ordem de bandir. como se disse. mas os três verbos sugerem o mesmo ato. impetuosamente”. (Dic. para melhor combater. o abandono se refere ao mal iminente a que se deixa exposto o abandonado. tomar ofensiva contra alguém”. “Assaltaram os brutos a fortaleza à noite”. de todos os do grupo. que: “o desamparo se refere ao bem necessário de que se priva o desamparado. Abandonar tem com efeito alguma coisa de “exilar. desvaler. Também se diz: “Assaltou-nos em caminho a tormenta”. “Os inimigos abalroaram uma nau de El-Rei”. – Atacar é. – “atracar com balroas. Abalroar. “desterrar”)1 que nos revela a existência de um substantivo mais antigo – bandon – de que nos vem bando (“pregão”. – Abordar é “aproximar-se uma de outra embarcação. pois. fugimos. – Acometer é quase assaltar: é “investir subitamente e com decisão”. se o faz. escreve Bruns.. “O inimigo nos atacou de frente”. “Vamos atacar o forte”.: “O antigo português tinha o verbo bandir (“banir”. Diz Roq. e como nos convencêssemos de que semelhante agitação subterrânea é prenúncio de catástrofes. “Ele não tinha motivos para agredir-nos tão insolitamente”. “Os bárbaros abandonaram os míseros náufragos ali na ilha deserta”. – Agredir é propriamente “provocar. “A vaca danada arremete contra todos”. agredir. é “atracar com balroas” (instrumento próprio para abordagem em combate). é “deixá-la entregue aos seus próprios recursos.) – Investir é “arremeter hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. O rico que não socorre a sua família pobre a desampara. etimologicamente. atacar. desarrimar. logo à noite repetiram-se uns estremecimentos. assaltar. desprezar. dessocorrer. “A primeira vez sentiu-se uma rápida comoção ao sopé da montanha. acometer.).

– “A amizade – diz ele – exige a naturalidade. “Desdenhando o poder dos homens. abnegação. É simples de ver que eu me não sinto desamparado só porque um sujeito me desprotege. acídia. se desampara ou se desdenha. mas os filhos fizeram mais: desarrimaram-no na velhice dolorosa: e afinal. inação. mesmo desprezado pelos amigos. – Desprezar é “não dar a alguém ou alguma coisa o apreço ou importância que se lhe dava”.. etc. ou se desprotege. conquanto não seja o aplicado. na perdição ou na desgraça. indolência. abstração. a santa continuou muda”. substituir um pelo outro. a abandona”. “Falamos à rapariga. preguiça. – Naturalidade é “maneira de se mostrar. e o definido por Bruns. como só se desampara aquele a quem devíamos valer. Nem sempre se despreza. desvaler sem desdenhar. auxílio”. e antes “fazer o contrário”).. O abandono dessa frase é sinônimo de renunciamento. e só se desarrima a quem precisa de nós. pelos próprios respetivos radicais.. Só nos desfavorece aquele de cujos favores dependíamos. pois em todos figura o prefixo negativo ou privativo des. pois que só se dessocorre aquele que está em perigo ou em situação difícil. tinha direito a ser por nós socorrido. Desarrimar não é propriamente dessocorrer. desmazelo.. de se vestir sem artifícios que deem na vista”. desarrimar (“privar de arrimo”). lhaneza. simpleza. neste grupo. É estranha a aplicação do termo feita por Bruns. morreu em amarguras. a paixão veemente só é real quando há abandono”. 18 ABANDONO. e ela respondeu com uma graça e naturalidade de criança”. mas aqueles que estavam conosco e se afastaram não fazem menos que desajudar-nos”. ou pelos outros indistintamente. “Aquele ricaço desdenha a nossa pobreza porque nós lhe desdenhamos a arrogância”. abandono. desalinho. entendemos: desvaler (“não acudir”). e só se abandona a quem. singeleza.. Mas aqui. no trajo. desafetação. – Quanto aos outros do grupo.. moleza. não foi dessocorrido de algumas almas piedosas”. como dessocorrer é “deixar de oferecer o socorro que se nos pede”. etc. e tão distintamente que em muitos casos não seria possível. abdicação. ingenuidade. acinte ou altivez”. a distinção será fácil desde que se tenha em vista o respetivo radical. Como estes. desprezo ou pouco interesse revelado por alguém”: diferençada. descuido. nas maneiras. languidez.. desleixo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 15 sua honra. mas o amor. como desamparar é “negar amparo”. desídia. – Abandono é um galicismo (neste grupo) que pode perfeitamente ser incorporado na língua. desapoiar (“deixar de apoiar”). desapercebimento. “Aquele homem. distração. – Desdenhar é “ter em pouca conta”. depois de o haver definido como sinônimo de naturalidade. pouco apreço. aquele a quem se abandona. “Os homens o desvaleram sempre naquelas angústias. ócio. pois. é: “negligência amável no falar. apesar de certos caprichos fúteis de um mal-entendido purismo. Pode-se desapoiar sem desproteger. – Desafetação já se não aplicaria com a mesma propriedade a uma criança. inércia. incúria. sem sacrificar alguma coisa da clareza e propriedade da expressão. negligência. é “tratar com desdém. segnícia. de dizer. desfavorecer (“negar favor”). abandonado de todo o mundo. naturalidade. desajudar (“negar ajuda. desafetação já “sugere ideia de esforço ou de propósito no . Aqui há seguramente lapso: o abandono dessa frase não é o que o autor definiu como sendo o abandon francês.” “Aquela candura da jovem princesa ressalta de todo o abandono em que se deixa ver lá no parque”. “Nesta causa pode um parente desapoiar-nos sem que nos prejudique. Todos estes sinônimos têm a significação geral “de indiferença..”. – Desproteger é “recusar a proteção que antes se dava a alguém”.

no falar. “Por negligência foi censurada a menina que não deu conta das lições. O descuido na elocução. e quase inconveniência que se não perdoa em gente de educação”.. “Ninguém há de ter o direito de acusar-me de incúria na minha profissão”. “Calino é o tipo do ingênuo: diz. A preguiça pode não ser um vício. – Descuido é (como se vê da formação do vocábulo) “falta de cuidado no trato. no vestir. – Simpleza sugere ideia de inconsciência. Se é mesmo vício a preguiça. ou dos temas a tempo: por incúria teve castigo”. o pessimista ou o misantropo. Pode ser oriunda de mal físico. e tendo também alguma coisa de moleza”. e ordinariamente revela falha moral. falta de energia. estado de torpor”. postura desafetada. acidentes de ânimo. conquanto diga Roq. que parece ter sido vulgar outrora. apatia. “Nada alterava jamais a lhaneza daquele caráter”.. “Este tipo vem aqui fingir desafetações de Tartufo. “Ele ficou em pasmo ante a simpleza daquele bárbaro ali impassível a tudo que se passa”. – Singeleza é a qualidade do que não tem “refolhos e malícias”. – Inação é um “estado de inércia passageiro.. Diz Lafaye que “a indolência é um defeito. está passando a ser quase um vício elegante. . mas “descuido culposo de quem deixa de parecer como deve. distinguindo-se desta em significar mais uma “inércia moral que afasta do trabalho. – Ingenuidade é a “singeleza de quem não oculta o que sente. é muito mais grave que simples desalinho. – Indolência e preguiça. sem desigualdades de relevo). de quase ignorância e parvoíce: é a “singeleza ou a ingenuidade do inculto e rude”. – Indolência diz etimologicamente – “falta de sensibilidade. – Languidez é um quase “desfalecimento semelhante à depressão mórbida. – Desalinho é “maneira ainda mais descuidosa que a negligência: é quase incorreção de costumes. ou de trajar”. “Pilhou-me a visita. ou de cumprir um dever do seu ofício”. ou surpreendeu-me nesta negligência em que se está em casa”.16 Rocha Pombo sentido de parecer desafetado ou natural”. “O descuido de quem se apresenta maltrajado em um salão de cerimônia é imperdoável”. Incúria é igualmente (conforme está indicando a própria etimologia) descuido. Diz Roq. Negligência sempre é menos do que incúria. – Moleza é “preguiça sensual”. como as crianças”. e antes um humor sempre igual. – Acídia (ou acédia.. Neste grupo não é bem assim. É ela “um relaxamento de ânimo. no gesto.” – Lhaneza é a qualidade do que é 2 Usa-se muito hoje do francês negligé em vez de negligência.. o contrário.” – Negligência2 diz também maneira descuidosa. as coisas mais sabidas do mundo.. enquanto que incúria é o próprio fato de não fazer o que devia”. naturalidade. pouca atenção com que alguém cumpre sua tarefa ou desempenha um dever. “Passam a ser censuráveis aqueles modos: aquilo já é desalinho. ou que torna avesso ao cumprimento do dever. indiferença por tudo que a outros merece cuidados ou atenção”. na postura. mais conforme à etimologia) é uma inércia mais de espírito ainda do que desídia (talvez originariamente uma e outra do mesmo radical grego). ou no desempenho de uma tarefa”: mais censurável sem dúvida que desalinho. nem disfarça o que faz. trajo sem capricho. lhano (do latim planus = liso. “A singeleza daquele viver é mais edificante do que todas as opulências dos grandes”. a preguiça um vício”. uma falta de ação para certas ocupações”. mas deve tirar a vontade de agir e de viver: a indolência chega a ser às vezes uma virtude para o cético. com toda gravidade. Desafetação pode simular-se. – Desídia é quase incúria. que cessa logo que desaparece a causa acidental que constrange o inativo”. não. parelho. – Inércia é “imobilidade. ou de frase.

pois. não tendo na conta devida”. “Havemos então de menosprezá-lo só porque. que é uma tibieza e fastio espiritual que a alma tem para o exercício das obras virtuosas. ou sem notar em torno de si coisas que lhe não deviam passar despercebidas”. menosprezar. porque se tenha trabalhado é que se fica em ócio: é este. 19 ABARATAR. não apenas falta de correção. especialmente para as coisas do culto divino e comunicação com Deus”. a importância. é “vender com prejuízo. a aversão ao movimento. que a define assim: “O sétimo e último vício capital se chama acídia. “Não pensem que ele vai agora baratear as aptidões”. mas “fazer baixar de preço”. fazer baixar o preço de alguma coisa”. no entanto. tendo ouvidos e não ouvindo. desapreciar. do que desleixo. distração sugerem ideia de estado bem semelhante a umas aparências de abandono. e figuradamente é. ou porque se descanse dele. baratear. menoscabar. como intr. mas uma desídia quase ostentosa. abrir mão de uma coisa facilmente. “ter em menor conta do que a antiga em que se tinha alguma coisa. – Ócio é antínomo de trabalho. “ter em menor apreço do que o devido”. a consideração”. como se vê do Leal Conselheiro e do Catecismo. por um motivo interior. é dar “por menos do justo valor. falta de correção. “Ele não há de consentir assim que lhe abaratem a honra de juiz”. um defeito mais punível que desleixo. olhando sem ver. porque a minha vida é muito atribulada de serviço”. Menosprezar não é propriamente “desprezar”. menoscabar. de Fr. – Deleixo (ou Desleixo) e desmazelo significam “relaxamento no cumprir o dever. que é mais “ausência de sentimento muito nítido do dever” – Desapercebimento. Abstração é o “desapercebimento de uma pessoa completamente alheada do meio em que se acha. abstração. – Segnícia é mais do que indolência. mais. não só “baixar de preço”. mas também “abater o valor. etc. pois. desestimar distinguem-se ligeiramente. “Os tais conluiaram-se no intento de embaratecer os bons ofícios do competidor”. Desapercebimento é “um como estado de inconsciência aparente. depreciar. a inércia e moleza do bárbaro”. parecendo que desmazelo é mais grave e mais culposo “porque exprime. do que preguiça. “Os meus instantes de ócio são poucos. o valimento de alguém”. tornar barato. – Menosprezar. “Míseras criaturas é o que elas são. – Malbaratar é “desperdiçar coisa estimável”.. mal- baratar. em que alguém fica sem dar atenção a nada. que se não sabe por que é que falha nos léxicos. – Abaratar (ou baratar) significa “diminuir o custo. não esteve conosco?” Menoscabar não é somente menosprezar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 17 e usar-se em vez de preguiça. Tem ainda. naquela causa. e ter os seus sentidos materiais como que suspensos ou apagados. a malbaratar na vida os melhores dons que lhes tocaram”. “Não é por menoscabá-lo que . Dizemos. ou as qualidades. a significação de “baixar de preço”. Distração é também desapercebimento. do que desídia. mais lazer do que inação. ou porque se seja forçado a ficar inativo. uma como tensão mental que a separa – dir-se-ia – das outras pessoas”. mas de quem parece “não pensar em coisa alguma. diminuir o crédito. porque junta a tudo isso alguma coisa de miséria moral mais lastimável: segnícia deve ser o “torpor estúpido. tocando sem sentir. A mesma diferença no sentido figurado. mas “prezar menos do que seria justo”. Mas este difere de baratear porque significa. desestimar. Bartolomeu dos Mártires. embaratecer. pelo menos no Brasil: “O café já barateou”. Usamos também de embaratecer. mostrando por ela pouca estima ou nenhum interesse”. desencarecer. – Baratear é “oferecer por menor preço”.

socorrer. “Ninguém decerto vai desencarecer-lhe os grandes serviços prestados à pátria naquele momento”.. saíam do inferno à noite para. com a significação que tem neste grupo. larva. “Aquela casa.” Sombra pode-se dizer que. e há entre eles uma certa distinção análoga à que se nota entre fantasma e abantesma. Abantesma é propriamente “fantasma sem forma definida. ou do remorso”. ou aquela consciência vive atormentada de fantasmas” (isto é. e tanto menos quanto estima é um sentimento mais profundo que apreço. ou melhor – “a alma de algum conhecido. que. inspira repugnância”. e como em penitência. – Avejão (fig. fantasma. – Trasgo é qualquer coisa como “figura ostentosa. atribuída à imaginação dos alucinados. Também se aproxima de “símbolo”. dando sempre a ideia comum de coisa sobrenatural. manes e lêmures. tendo figura humana mais ou menos acentuada. julga alguém ver. Em qualquer dos casos desaprecia diria sem dúvida alguma coisa menos. entre os romanos. avejão. de ser tão caro ou encarecido como era. “Encontrou no caminho um fantasma que o obrigou a voltar”. Este vocábulo (fantasma) significa imagem fantástica ou incorpórea. duende. Desestimar é “não ter em estima. não ter por alguém ou alguma coisa a mesma estima que se tinha”. – Desencarecer é deixar de encarecer. – Abantesma é forma popular de fantasma. mas quase sempre “para atormentar os vivos”.18 Rocha Pombo dele digo estas coisas”. lêmures. significando “forma vaga subsistente de alguém que foi vivo”. Espetro será o fantasma. “Não se desestima a um amigo só porque caiu em pobreza”.. manes. e causando terror. O mais vago de todos é o primeiro dos três: visão é “toda imagem que se julga ver. “coisa impalpável. visão. trasgo. sombra são vocábulos de significação mais genérica e vaga. ou à falsa visão de certos doentes. e que. é vocábulo de alta nobreza histórica. 20 ABANTESMA. e talvez porque sugira melhor esta última noção é que se distingue de todos os do grupo. de inesperado e súbito. “Só desestima o dinheiro quem lhe não sabe o valor”. quer durante o sono”. – Visão. É este verbo um sinônimo quase perfeito de desapreciar. “alma dolorosa”. quer em vigília. como a sombra” (fenômeno . “Imundos abantesmas vagavam naquela região mais do pecado que da morte”. de coisas falsas ou imaginárias e medonhas). como em: “O fantasma da dor. imaterial. – Duende designa alguma coisa semelhante ao que se chama vulgarmente “alma do outro mundo”.. além de terror. ou perseguindo os vivos”. “Quando encontrou no vestíbulo a larva de Aquiles. formas de aves ou de animais fantásticos”. deixar de estimar. mesmo instantâneo. e é de crer que junte à ideia de visão a de penitência.) é o que se poderia chamar também – “alma penada” – mas que toma “aspetos estranhos.. que se deixa ver sem perfeito relevo. aparição. espetro.. heroica – dir-se-ia – e terrível do diabo”. subtil. mas ainda conservando alguma coisa da forma humana”. sombra. significando assim – “alma penada”. – Espetro e larva designam também fantasmas. Aparição distingue-se de visão em “acrescentar à ideia de imagem sobrenatural a ideia de miraculoso. “espíritos que andavam vagando pela Terra. Larva será espetro menos nítido. às vezes. ou de ter na mesma conta exagerada em que se tinha (e tanto no sentido próprio como no figurado).. havendo apenas entre os dois a mesma diferença que há entre os respetivos radicais – estima e apreço. Lêmures e manes eram. aparição.. emudeceu”. “personificação”. Manes designava particularmente “as almas dos avós ou dos parentes falecidos”. por alucinação. “representação”. mas todos.. ou não corpórea.

a ataques”. no entanto. mas distinguindo-se o primeiro do segundo em significar “uma tendência ou qualidade própria. “Sedutor. alguma companhia.” 23 ABARROADO. enquanto que obstinado é o “que resiste. antes que cheguem à praça ou ao mercado público”. porfiado. nestas por exemplo: “O homem está obstinado em não aceitar o cargo”. “Ele é opiniático. “O poder de Roma abrangia multidão de povos” (Bruns. que parecem estar na mesma natureza. e nunca propriamente: “O incêndio compreendeu. essencial. firme. opiniático. compreender. “não cedem à vontade. Abranger. e ainda hoje. Diremos: “O incêndio abrangeu todo o quarteirão”. – Abarcar significa “apoderar-se da mercadoria como quem a prendesse nos braços”. Há o monopólio não fundado em lei. o que se escusa de agir. por exemplo: “Nesta relação não se compreendem (e não se abrangem) os casos a que se refere o ministro”. e faz o que . no entanto. constante. contumaz. e mesmo de abarcar”. – Obstinado e opiniático poderiam tomar-se em certos casos como sinônimos perfeitos. – Atravessar é “comprar as mercadorias em caminho. embirrante. etc. obstinado. em modo de ser. libertino. muito raros hão de ser os casos em que um se não possa substituir beçudo. – Abarroado quer dizer “teimoso.). a embaraços. pertinaz. – Cabeçudo é o que se deixa guiar só pela sua cabeça. ou reunindo-as por meio de sambarca”. ou da exploração de certas indústrias”. fundada em opinião. ou na índole do opiniático. como diz Lafaye.) – Açambarcar exprime a mesma ação de prender ou arrecadar mercadorias: mas “de modo mais amplo. por sua parte. de modo a fazer subir pela carestia o preço das coisas. Há. ABARCAR. caprichoso. “Abarcava todo o peixe que vinha à Ribeira”. Compreender é sinônimo que se pode ter como quase perfeito de abranger. birrento. (Aul. Entre os antigos. e é sem dúvida com esta significação que entra aqui o verbo monopolizar: é “tomar alguém. insistente. etc. persistente. ca- Abarcar e abranger significam “encerrar ou conter em si muitas coisas: em abarcar há ideia de esforço. relutante. tenaz.. devasso abarroado”. exprime alguma coisa de “alcançar”. 22 ABARCAR. afincado. Isto quer dizer que com efeito o opiniático e o obstinado. monopolizar. sombra era o mesmo que “alma”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 19 físico). em razões em suma. entre os dois bem marcada diferença. perseverante. o direito “exclusivo ou privilégio de vender ou comprar”. Deve notar-se. mesmo entre muita gente de cultura. encaprichado. teimoso. Teríamos de dizer. em abranger. – Monopolizar enuncia a forma legal de “exercer exclusivamente o comércio ou qualquer encargo ou função”. 21 açambarcar. mas por efeito de uma determinação ativa e refletida”. e sei que por coisa alguma se dissuadirá daquele intento”. não: “Cesar abarcou todas as dignidades da república”. tanto assim que em certas formas não poderiam ser trocados. aferrado. que mais talvez o uso comum do que a precisão ou a propriedade fixa em alguns o emprego de um de preferência a outro. aos desejos de outrem. atravessar. obstinado com insolência e por motivos torpes”. ou que não cede. insistente. abranger. – Todos estes verbos exprimem de comum a ideia de abuso contra a liberdade de comprar e vender. emperrado. enfeixando-as. No Brasil é muito comum dizer-se indiferentemente: “Abarcar ou abranger o mundo com as pernas”. ou mesmo alguma nação a propriedade de um certo gênero de negócios. – pelo outro.

e diz – “sujeito muito rico e com ares de ufano das suas riquezas”. apatacado. e perseverante como quem sabe o que vale a fortuna”. e não: caprichoso: “A caprichosa menina não atende a coisa alguma”. relutante contra as seduções do vício.. – Caprichoso é aquele que se mostra seguro e inabalável. resoluto. remediado. pelo menos se repetem esforços e tentativas. em agir”. além de significar “pertinácia em querer. etc. opulento. dá ideia de que. ou à citação feita por um juiz”. aferrado diz – “fixo como alguma coisa que se prendesse a ferro a uma outra coisa”.. milionário. obrar ou pedir”. Diremos..). – Ricaço é aumentativo de rico. Dizemos: “Ele está encaprichado no propósito de molestar-nos”. – Afincado. Relutante é “mais que porfiado. ou no seu intento. Embirrante é o que “insiste” nalguma coisa “por birra. pois enuncia a ideia de que o porfiado é “capaz de ir ao extremo. seguro conscienciosamente”. perseverante acrescentam à qualidade do que é firme a “ideia de esforço no propósito de conservar-se firme numa resolução. Constante é “ser sempre igual ao que se foi ou se prometeu ser. nas ideias. sem explicar-se. – Contumaz quer dizer “obstinado. quer. porfiado no trabalho. capricho. na vontade”. Emperrado significa o que se firma na sua opinião. antipatia ou aversão”. – Opulento é sujeito muito rico que “vive vida brilhante e sumptuosa. na atitude. não por acinte. numa resolução” (Aul. argentário. ou bens que excedem às próprias necessidades”. etc. que não atende.20 Rocha Pombo entende sem ouvir conselhos. Perseverante é o “que se conserva firme e constante num sentimento. – Emperrado. apatacado. ricaço. Afincado equivale a “fixo e seguro como uma haste que se fixasse ao solo”. seu intento. firme significa “obstinado. advertências ou mesmo ordens de ninguém. poderiam aproximar-se de caprichoso e cabeçudo. aferrado. relutante. persistente. porfiado. remediado marcam . capitalista. mesmo porque encaprichado reclama sempre um completivo. Birrento é “emperrado ou teimoso por birra. endi- nheirado. 24 ABASTADO. – Teimoso é “o que persiste em pensar ou agir como se o fizesse quase por acinte”. ou tem força para continuar firme no seu posto. – Constante. rico. e por extensão é aquele que “segue sua opinião. – Rico é aquele “que possui muitas riquezas. mas “por opinião ou capricho”. nem fraqueja”. etc. persistente na ideia de vencer. banqueiro. e não: “A encaprichada menina”. e fica imóvel. – Pertinaz já inclui alguma coisa de teimosia. firme significam todos “fixo no lugar. em querer. num intento ou numa tarefa”. “Testemunha contumaz”. de travar luta na resistência”. com obstinação e enfado”.. revel. como o animal que empaca (podendo dar-se-lhe empacado como sinônimo quase perfeito). “mais pelo prazer de contrariar do que por sincera convicção”. embirrante. nem cede. – Tenaz exprime “firme e vigoroso em pensar. ou não obedece à ordem legítima. Persistente é o que “sabe. – Aproxima-se deste o vocábulo insistente: o qual. portanto: “Contumaz no erro”. birrento. e difere de encaprichado por isto: porque encaprichado significa que se tomou “por acinte ou por vingança uma atitude caprichosa”. – Abastado é quem está “fartamente provido de bens para viver em abastança”. no seu desejo”. ostentando a sua riqueza”. Porfiado é ser “constante mostrando um certo brio e valor”. “que se não abala.. e reincide no seu modo de ver ou de conduzir-se sem se importar com o que é seguido por todos”. se não se teima propriamente. o que nem sempre acontece com caprichoso. ou ao que de nós se espera”. – Endinheirado. mas o pertinaz é um teimoso. “Este homem extraordinário é constante na virtude.

– Estragar enuncia a ideia geral de “destruir.) transtornando. “tirar a figura”. estragar. – Depravar é “perder as qualidades que tinha. afear. – Deturpar é “desfigurar deprimindo. Afea-se (ou afeia-se) uma coisa “tornando-a menos correta. Remediado é o que tem com que viver sem apuros. Capitalista é o que “vive dos rendimentos de seus capitais”. portanto. deteriorar. e acrescentam à noção geral de rico a ideia de apego ou amor ao dinheiro.). – Desvirtuar significa. preocupado só de lucros. ou o modo de ser de uma coisa ou pessoa. etc. convindo. ou ainda uma ideia do valor preciso ou das proporções da fortuna possuída. deturpar. próprio. que “vive de negociar. quase perfeito de afear. desfigura-se um texto tirando-lhe as belezas próprias da língua. impuro”. a natureza. deprimindo-a com perfídia”. ofendendo o pudor”. vivendo só pelo dinheiro”. desfear. – Dizemos: Abastarda-se uma geração. perverter com escândalo”. – Perverter é “mudar para mal” (Aul. – Estes verbos exprimem de comum a ideia de mudar a forma. demover. ou de transformar piorando”. corromper. viciar. tuoso”. perverter. ou de fazer que uma coisa não seja ou não se faça tão bem como devia fazer-se”. legítimo”. deixar imperfeito. Desnaturar é “alterar a natureza. e significa “alterar alguma coisa fazendo-a feia”. o “aspeto. ou de mais ou menos paixão com que se cuida do dinheiro. desnaturar. milionário exprimem a ideia de “possuidor de grandes riquezas em dinheiro. estragar desvirtuando. Desfea-se (ou desfeia-se) – isto é – “torna-se feio” o que “era bonito. adulterar. banqueiro. – Degenerar é “perder mais ou menos o tipo. – Viciar é.). Apatacado diz menos ainda. bonita”. fazer feio com o propósito de impressionar. pois: “O andar afea-lhe um pouco a elegância” (e não – desfea-lhe). O endinheirado é aquele que ajuntou algum dinheiro e saiu da pobreza.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 21 uma certa “mediania. o mérito. ideia que se sente em desfear. fazendo pior ou imprestável”. o modo de ser normal”. ou uma condição de fortuna que fica entre a do rico e a do pobre”. – Abastardar significa “fazer ilegítimo. degenera uma família. se bem que enuncie igualmente a ideia de “estragar. em geral. o valor próprio de alguma coisa”. “tirar a virtude. – Já se usam também como gradações da ideia expressa por este último vocábulo: bilionário. que se note: em afear não há tão viva a ideia de “mudar tornando defeituoso”. Milionário é o “ricaço que possui milhões”. as qualidades da sua geração” (Aul. correto.”: “Ele enfeia o caso para que nós não vamos”. ou melhor. menos que perverter. – Corromper é “pôr fora do estado de pureza própria”. – Desfigurar é. desvirtuar. segundo a própria etimologia. No Brasil usa-se também o verbo enfear (ou enfeiar) com o sentido de “exagerar. – Deformar é “mudar a forma primitiva. desfigurar. Banqueiro é o que “faz negócios de banco” (Aul. um indivíduo ou uma raça. Diremos. 25 degenerar. pois reduz a simples patacas as posses do sujeito. – Deteriorar é “alterar danificando. deformar. alterar a forma própria. defeiABASTARDAR. Argentário é o mais genérico e diz “homem dado a grandes negócios. – Adulterar é “fazer mudar alguma coisa falseando-a. profanando. miliardário. aqui. – Desfear é uma dessas anomalias morfológicas da língua que o uso impõe. capitalista. o brilho. “A idade a desfeou horrivelmente” (e não – afeou). deforma-se uma fi- . etc. É sinônimo perfeito. isto é. arquimilionário. depravar. pondo-a fora do seu estado próprio. é “estragar o que era puro”. ou especular sobre empréstimos e outras transações de praça”. – Argentário. as feições de alguém ou de alguma coisa” (Aul).

ministrar. Municionar é “abastar de munições de toda ordem. nem para prazo certo”. 26 ABASTAR. como função própria ou dever de ofício”. municionar. “A secretaria ministrará todas as informações necessárias ao juiz”. com certa cerimônia. “As colheitas excepcionais daquele ano abastaram (e não – abasteceram) toda a província”. e abastecer é “abastar gradualmente. significa “fornecer. para uma diligência”. abastecer. Municiar é “prover de munições para um certo tempo. as melhores índoles viciam-se fora do lar. pelos crimes”. – Munir significa propriamente “prover de armas e ou- tras coisas que tornem forte. e de predicação mais imprecisa e vaga.” – Municiar e municionar são formações vernáculas – de municio. fornir. fornecer. adulteram as nossas palavras quando as transmitem infielmente de propósito. Fornir é “prover do necessário. “A caravana. – “fazer com que alguma coisa chegue ao poder de alguém que necessita dela para se sustentar”: “Os americanos subministravam armas aos insurretos cubanos”. ao passar. para que se pervertam almas basta às vezes um instante. do indispensável”. e nem sempre com fim especial e imediato. – Aprovisionar é “abastar de provisões. “Nós sempre nos fornecemos (e não – fornimos) de tudo aqui mesmo no bairro”. ou “ficam bem municiadas as duas praças guardando aquele posto”.22 Rocha Pombo gura fazendo-a monstruosa. “E até de paciência vou munir-me para sofrer aquele biltre. corrompe-se o pão exposto à umidade. ou em obediência a uma ordem. significa “fornecer. apresentar. é que nos forniu de pão: agora o que preciso é ver quem no-lo forneça regularmente”. desvirtuam as nossas intenções quando as interpretam de má-fé. o segundo. “O grande comboio abastou então a praça. “Aprovisiona-se de água. Poder-se-ia ainda dizer sem . quaisquer que sejam estas”. o tempo devastador estraga formosura. Notemos ainda que subministrar sugere ideia de “ação clandestina. uma nação pelos erros. ou que habilitem a defender-se”. oferecer. Ministrar. no entanto. ou em cumprimento de um dever ou de um contrato”. municiar. – Abastar significa propriamente “prover do bastante. ou pelo menos de intuito que se procura dissimular ou encobrir”. subministrar. deprava-se um indivíduo. e por uma determinação própria. – “Quando chegamos àquela zona assolada pela seca foi necessário municionar muitos dos nossos postos. “Muniram-se de documentos contra a calúnia”. como por necessidade de acautelar o futuro ou prevenir algum mal”. munir. deturpa-se a memória de alguém. o primeiro. desnatura-se o homem no vício ou no crime. e – de munição. ou corrompe-se o menino nas más companhias. “Munam-se todos de roupas de lã para o inverno”. – Ministrar e subministrar são muitas vezes empregados indiferentemente. e fornecer é uma forma extensiva de fornir. e. prover. conferir. mu- nir. – Entre fornir e fornecer nota-se a mesma relação que entre abastar e abastecer. “Munem-se as praças de guerra esperando o inimigo”. pelos desregramentos. aprovisionar. Diremos também: “O menino está bem fornido (e não – fornecido) de carnes e com boas cores”. dar. prover pouco a pouco e com regularidade”. – Prover é o mais compreensivo dos do grupo. “Ele nos ministrou todas as coisas de que precisávamos”. no entanto. “Vai bem municiada a escolta”. deteriora-se o caráter fraco em luta com a miséria. de pão ou de carne uma praça onde havia necessidade de algum desses artigos”. “Só os colonos vizinhos abastecem (e não – abastam) o nosso mercado”. pois estavam quase todos completamente desprovidos de tudo”. Subministrar é – diz Bruns. e dali em diante foi ela sendo abastecida pelos lavradores dos arredores”.

. estragar. porém. – rápida e inesperadamente”: “Abateu o telhado”. pois só é suscetível de demolir-se o que foi construído. despenhar-se. – Tombar é “cair com fracasso. no sentido figurado. nem tanto. como para tornar a levantar. vastas construções. “Desabou a fachada de um edifício. deitar abaixo. o verbo abater e a forma perifrástica pôr ou deitar abaixo: “Diferençam-se em que abate-se uma coisa para que deixe de existir. e aproxima-se de destruir. caiu o chapéu de cima da mesa. Bruns. arrasar. renovando ou transformando: manda-se abater a árvore que intercepta a vista. – Destruir é. demolir. tirar de cima para baixo”. Tanto se derriba a árvore. dos do grupo. e sugere a ideia de que é “volumosa a coisa que tomba”. cio abalando a redondeza”. cai o balão que já estava no ar. Mas esta ideia é melhor expressa ainda pelo primeiro. caiu chuva.. cair “a aba ou a beira”. – Demolir é “desfazer pouco a pouco uma vasta construção. “Tombam árvores”. – Cair é. “Cai a casa. “Ouviu-se a descarga e o mísero tombou. “fazer que uma coisa deixe de ser . que também significa propriamente “desfazer o que foi construído”.” 28 ABATER. cair com ímpeto em lugar profundo”. abate-se a fortaleza que não convém deixar de pé. como no exemplo. como a muralha..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 23 deslize da pura vernaculidade: “Aprovisionar de pólvora a praça”.” – Desmoronar é “ir desfazendo-se” (Bruns. derruir. deita-se abaixo a muralha que se quer reconstruir.. precipitar-se. “Desmoronam-se castelos”. – Entendemos que derribar. 27 ABATER. Não se daria o mesmo. o verbo de sentido mais geral: enuncia a ideia de deixar uma coisa. “Despenha-se a avalanche inundando toda a várzea”. ou a de que é “extraordinária e sensacional a queda”. etc. “Ruiu todo o edifí- destruir. de municionar) é tudo que se aplica diretamente à defesa da praça. e deita-se abaixo aquela que se quer substituir.. Não se diria com propriedade: “Tombou-lhe dentre os dedos o charuto”. aluir. como dissemos. desprender-se e sair do lugar em que estava”.. caiu um raio sobre a torre.. Derribar é “fazer cair. e até. – Despenhar-se é vir abaixo desprendendo-se de grande altura (segundo a etimologia – “cair do alto de rochedo”). “desmoronam-se esperanças ou ilusões”. e munição (rad. como grossos muros. etc. aos que guarnecem a praça. porém: “A artilheria demoliu”. – Aluir é abalar-se. Podemos dizer sem grave ofensa à índole da língua: “A artilheria inimiga destruiu a colina” (isto é – “desarranjou-lhe a estrutura”). montanhas”. desmanchar. desmoronar. ou “Deixei tombar o lápis”. pelo menos tanto como abater. portanto. Provisão (rad. Mas diremos: “Tombam rochedos”. – Ruir é “cair. – Abater é baixar ou cair “a prumo – diz Bruns. “Daquela medonha altura precipitou-se o monstro no abismo e desapareceu”. se aproxima de deitar abaixo. demolir. aniquilar.. e mais ou menos rapidamente. “Abateu a terra em torno”. – Compara assim. o lugar em que estava para vir a lugar mais baixo. – Precipitar-se é “lançar-se com violência de cima para baixo. – Desabar significa propriamente “abater em torno com fracasso”. ruir. desmantelar. e deita-se abaixo. lançar-se para um lado estendendo-se”. de aprovisionar) é tudo quanto convém.) e caindo pouco a pouco. desabar. pois municionar tem predicação mais restrita. abater com estrondo”. cair.. tombar. desfazer. derribar.. “Ouvia-se cá de baixo o ruir dos cedros lá no Líbano”. arruinar. etc. como o castelo. “A parede aluiu com as chuvas”. mas deve aplicar-se “só a coisas de grande volume. derrocar. se se dissesse: “Municionar de água ou de pão a praça”. tanto para esse fim. desabou a barranca”.

“Do total a que chegou suponho que é preciso deminuir alguma coisa”. e deminuir (ou diminuir) é “fazer menor uma quantidade tirando dela uma outra quantidade”. “Deduzam da nossa dívida a importância dos serviços que temos prestado”. “Vai o tempo inexorável minuindo aquela robustez”. de tirar uma coisa da outra. quer se trate de quantias. Deduzir dá “ideia genérica de abater. esvaimento. ou mesmo – se destrói). como se desfaz um exército. aniquilaram num momento o inimigo”. uma fortuna. “Que da soma maior do dote se descontaria todo o oiro. um monte) até que fique rasa com o chão”. e em sentido mais restrito é estragar.24 Rocha Pombo o que era desarranjando-lhe a estrutura”. montanhas. “Derruíram em poucas horas as muralhas do forte”. “desguarnecer um objeto daquilo que o protege ou que lhe é essencial. em geral. uma cerca (isto é – se desfaz. dividindo-o. ou mesmo destruir assolando”. como se desmancha um muro. – Descontar é propriamente “deduzir de uma conta”. – Arrasar é “destruir completamente uma coisa (um edifício. instituições. minuir. desfalecimento. portanto. etc. deminuir. mas podemos também desmanchar um aparelho. ou “deixar de meter em conta”. desmantela-se um exército desfazendo-lhe a parte mais forte. privando-o de unidade de comando e de ação. consistindo apenas a diferença entre os dois em “poder subtrair aplicar-se somente a números”. – Arruinar é “estragar e reduzir a ruínas”. ou as cédulas do tesouro a recolher já sofrem desconto” (e não abatimento). 29 ABATER. “É preciso abater do ordenado do mês o que corresponde aos dias da licença”. – Desfazer é. É. prata e joias que a infanta consigo levasse” (Fr. Tanto se desfaz um muro. como bem define Aul. “mudar o estado de uma coisa de modo que não seja mais o que era”. – Abater. significa “deduzir de uma certa importância uma outra que se combinou não fosse paga”: Abateu 20 0/0 nas compras que fiz”. demolir grandes moles (rochedos. – Minuir é “fazer menor”. desmantela-se uma corporação que se desagrega e fica sem ter quem a dirija e represente. deduzir. “O bombardeio estragou enormemente a cidade”. demolir as fortificações de uma praça. Derrocam-se muralhas. – Desmantelar é. Derruir (ou deruir) é “pôr abaixo abalando. construções)”. Desmantela-se uma fortaleza arruinando-lhe as muralhas. verbo de sentido muito geral. depressão. “Com tais erros aniquila-se a obra de muitas gerações”. desmaio. Minuir é. – Derrocar (ou derocar) é “derribar com estrondo. como – figuradamente – se derrocam grandezas. esvaecimento. definhamento. descontar. de Souza). o mesmo que deminuir. um enredo. conservando-lhes as peças para armá-las de novo. subtrair. acabrunhamento. esmorecimento. quer de quantidades em geral”. aqui. “Descontam-se letras e outros papéis de crédito”. – Desmanchar é também desfazer. destruir com fracasso”. portanto. “Tito arrasou Jerusalém”. . uma cidade. mas sem ideia necessária de destruir. Não há dúvida que se desmancha uma intriga.. ou os muros ou paredes de um edifício”. e por extensão: “abater de uma quantia uma outra que já foi paga ou que não deve ser paga”. acobardamento. “Os títulos. como se desfaz um nó. neste grupo. languidez. “Carregando impetuosos. quase o mesmo que “minguar ou fazer minguar”. – Estragar é “desfazer. L. “Já deduziu da nota as parcelas que estavam marcadas”? – Subtrair é. 30 ABATIMENTO. “Arruinaram depressa todo um quarteirão da cidade”. – Aniquilar é “destruir reduzindo a nada”. uma floresta. etc. e até uma casa.

Desanima aquele que “deixa de sentir a indispensável coragem para vencer um embaraço. opressão. coragem. Desesperação é “o auge do desalento” – diz ainda Bruns. “A doença alquebrou-a. superar algum contratempo. perda de lucidez “em consequência de desfalecimento”. ou sofrer alguma coisa”. delíquio. O desânimo pode ser originado pela pusilanimidade: o desalento funda-se na experiência. ao cansaço ou à fraqueza”. desânimo. – Prostração diz mais que os três precedentes: é o “extremo abatimento. O organismo que se extenua por trabalho. mas decerto que se não dirá: – “desmaiou subitamente”. enfraquecimento. Desespera aquele que “perde de todo a coragem e a esperança”. – Esvaecimento será um desmaio “muito subtil. ou vencer um mal ou um sofrimento”. “É o desânimo que nos arreda de encetarmos a empresa: é o desalento que nos induz a não continuar o que não nos deu os resultados que esperávamos obter”.. o amor. refere-se melhor à perda da esperança.) do espírito: desanimar e desesperar marcam fenômenos da vida subjetiva. o que se imobiliza ou não tem regra na vida.. – Desmaio será um “desfalecimento súbito”. de energia”. alquebramento. levanta-se Portugal como por um prodígio”. – Depressão é o “abaixamento de forças produzindo abatimento do corpo e do espírito”. desilusões. vanescere) é o desfalecimento produzido por exaustão (e tanto no sentido moral como no físico). sim – só se dizem (como no entender de Bruns.. instantâneo”. mas não chegou a feri-la de desalento para as coisas de arte”.. prostração. quebra de forças ou de ânimo”: “Os meus alquebramentos não vão até o extremo de desalentar-me para a vida”. – Desânimo e desesperação. que “podem confundir-se: ambos significam falta de ânimo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 25 debilitação. etc. definha. desânimo. ou por doença ou desgosto. Quanto a desânimo e desalento diz Bruns. etc. “não há esperança. entregue inteiramente à dor. Análogas aplicações no sentido moral: a saudade. – Esmorecimento é quase desmaio. produzida por medo. – Languidez é o “estado de fraqueza. – Desfalecimento é a “perda de forças e de coragem”.. doenças ou miséria”. . em que se fica sem ação. e o desânimo à perda da coragem. o remorso. o que não se nutre convenientemente enfraquece. desalento. “Daqueles sessenta anos de esvaimento. podem produzir definhamento em almas extremamente sensíveis. debilitação e enfraquecimento “exprimem também diminuição de forças (tanto tratando-se do corpo como do espírito)”. – Acabrunhamento é o “estado de fadiga. porém. – Esvaimento (do mesmo rad. de coragem. Pode-se esmorecer subitamente. – Alquebramento é “diminuição. – Acobardamento é a “depressão de ânimo. principalmente morais) produzida por trabalhos. tédio e abandono em que fica um doente”. o desalento. tristeza.”. “Só a morte porá termo a todo aquele acabrunhamento”. por trabalhos. desânimo e desesperação dizem-se só do espírito”. – Abatimento é o “estado em que fica uma pessoa por efeito de grande dor ou choque (se é moral) ou de doença grave ou prolongado sofrimento físico”. que não esteja sujeita a profundas debilitações em certas crises. – Definhamento. – “Abatimento e prostração dizem-se do corpo e do espírito. – Segundo Bruns. “Não foi propriamente desmaio o que ela teve. mas um simples esvaecimento”. debilita-se. fortaleza moral. – Desalento é a falta de forças (físicas ou morais. por falta de coragem para arrostar um embaraço. um quase esmorecimento muito rápido. pois a ideia de subitaneidade já está contida em desmaiar. mas é mais lento e extenso. produzido por dores físicas ou morais. desesperação (desesperança e desespero). uma consequência necessária da crápula é o “enfraquecimento do espírito”. desalento.

“A desesperança de quem viveu sem pensar no destino pode chegar à desesperação de morte horrível. “F. a angústia em que fica quem perdeu a esperança. desobrigar-se. a privação de toda esperança. 31 ABDICAR. ceder. desistir. ou de um intento. ou encargo ou tarefa pesada. igualmente como aquele que abdica. quem larga como que “deixa fugir ou escapar a coisa largada”. Desesperação é a aflição. quem renuncia (como quem resigna) despoja-se do cargo ou da coisa renunciada. “Não há fortes que não tenham seus delíquios na vida”. Desespero significa mais a raiva. como se rejeita uma coroa. “Ele se desobrigaria do pacto se nós o maltratássemos”. largar.” – Renunciar é “depor voluntariamente”. ou em proveito de alguém. o desvario de quem se desengana de alguma coisa. Pode-se largar e abandonar. “Como é que se recusa entrada a um moço daquela ordem?” “Ele recusou tão bom emprego”. de aceitar”. ou “não querer coisa a que se tem direito. “tirar de si por vontade ou a contragosto”. “Desobrigou-se facilmente da grande missão”. “Abdica o rei o seu trono em favor de outrem. “Esaú cedeu a Jacob o seu direito de primogenitura”. ou algum cargo”. resignar. Recusar diz menos que rejeitar: é “deixar de receber. – Ceder é (como diz Aul. alguma dignidade ou alto cargo”. ou de um cargo que não mais lhe convinha ocupar. – Abdicar é “renunciar. e. desesperança e desespero. no entanto. – Demitir-se é “deixar de permanecer no cargo. – Desobrigar-se é “isentar-se da responsabilidade. mas sugere a ideia de que se “alivia de peso. que aquele que renuncia pode ser a isso forçado. – Largar e abandonar significam “deixar. atormentada de todos os desesperos do precito”. de permitir. ou vago).. no posto”. “deixar o que se tinha começado. mesmo de loiros”. Mas. rejeitar.. o que se exonera”. quem abandona “como que foge ou se afasta da coisa abandonada”. ou a função em que se estava”. em favor ou proveito de alguém. desistir da obrigação que se tomara. ou não se pode dizer que se larga depois de haver abandonado. livrar-se ou exonerar-se de um dever”. demitiu-se ele próprio daquelas funções”. mas quem resigna entende-se que mais propriamente renuncia do que abdica. “Como não lhe atenderam aos reclamos..”. – Delíquio aproxima-se de desmaio e de esvaimento: é o estado em que fica uma pessoa que desfalece “como se se dissolvesse”. exone- rar-se. – Exonerar-se é também demitir-se. largou o ofício de órfãs” (deixou-o livre. recusar. “O príncipe abandonou a sua causa”. “Renunciam-se (e não – abdicam-se) riquezas”. demitir-se. “despojar-se de alguma honra ou algum proveito antes de tempo”. pois quem abdica ainda usa do seu direito de passar a outrem a dignidade abdicada.. “Vou desobrigar- -me contigo da promessa que fiz”. – O mesmo deve acontecer a quem recusa.. ou sem nada mais ter que ver com a sorte dela. ou em cuja posse se estava legitimamente”. “Renunciai instintos ignóbeis” (Mont’Alverne). uma ignomínia. Rejeita-se uma proposta desonesta.) “desistir de alguma coisa em favor”. desiste-se de um pleito. – Desistir de. esquecendo-a. – Resignar é íntimo convizinho de renunciar e de abdicar. Quem rejeita não está de posse ainda da coisa rejeitada. é “abrir mão de.26 Rocha Pombo É preciso distinguir as três formas – desesperação. Desesperança é apenas a falta. abandonar. “O pobre está desobrigado de dar esmolas”. devendo notar-se que é sempre voluntariamente que se resigna. – Rejeitar é propriamente “lançar de si com veemência ou ímpeto”.. Quem se demite põe-se fora do lugar em que estava: quem se exonera liberta-se de um trabalho. renunciar. mas certamente não se pode abandonar e largar. pôr de lado alguma coisa. . é “abdicar em sentido amplo e geral”. Desiste-se de um emprego.

têm entre si alguma diferença. abençoar (ou abendiçoar). – Bento designa a benção da Igreja. “Os sacerdotes benzem tudo que é consagrado ao culto divino”. barriga. benzimento. significa “lançar benções acompanhando-as de preces e ritos apropriados à coisa que se benze. Dizemos – a benção do pão. – Bendito ou abençoado se diz para designar a proteção particular de Deus sobre uma pessoa. Benzer não é hoje usado senão para indicar as benções eclesiásticas ou supersticiosas. mas acrescentando-lhe ideia de “íntimo. Dizemos vulgarmente: “encheu a barriga.. O terceiro. Pão bento. da vela de uma embarcação”. – três verbos portugueses (bendizer. bentas com grande pompa na Igreja. de um tronco de árvore. como dizemos – a benção dos pais. exalçar”. significa propriamente “dizer bem. pedir bens e prosperidades para alguém”. – (entre bendizer. de atividade funcional”. – em forma convexa: “O bojo de um frasco. com esta diferença: louvar se diz em relação a Deus. se pode dizer no sentido moral e de louvores. e bento no sentido legal e de consagração. o instante em que nos vem alguma felicidade. profundo.) “é o nome científico da cavidade que encerra os intestinos do homem. “alargamento ou saliência” – diz Aul. sensível. e nunca – “encheu o abdômen”. posto que concordem na ideia principal. – Do verbo latino benedicere formaram-se – diz Roq. benzer e abençoar) torna-se mais sensível nos particípios destes verbos. benção. “sugere ideia de fecundidade. mas. dada pelo sacerdote com as cerimônias do costume. O primeiro. não já de abençoar. abençoar) que. – Entranha (ou entranhas) diz também ventre. pois. “As bandeiras militares. uma nação. – Também se sente a distinção nos derivados benção e benzimento (ou benzedura). Distinguem-se de abdômen e de ventre por significarem mais particularmente o estômago.. “O bojo de um navio. – Bojo é termo genérico. abençoado. de uma parede. extensivamente diz-se do vulto que essa cavidade apresenta exteriormente”.” – Barriga. “O justo bendiz (ou louva) ao Senhor tanto na prosperidade como na desgraça”. benzer. água benta. O que se diz de bendizer aplica-se a louvar. Benção é tanto o ato de abençoar como de benzer. a santos e a homens. pandulho. bojo. Bendizer e abençoar confundem-se muitas vezes na significação extensiva de “desejar. de um barril. e também “abençoam a assistência ao fim da missa”. significa “deitar a benção. nem sempre são abençoadas do Céu nos campos de batalha”. ou benções”.. entranha. bendizer pode referir-se também a coisas. bento. Todas as nações foram abençoadas em Jesus Cristo. Esta diferença – diz Roq. isto é – “sugerem ideia de ventre volumoso”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 32 ABDÔMEN. já não . bendizer. Benzimento é também ato de benzer. “Os pais abençoam os filhos para que sejam felizes”. – Vê-se. bendito. em vez da de volume. porque louvar é mais “fazer elogios” do que “dizer bem e dar graças”. a parte para onde vai o alimento quando é ingerido. Daí bojo com aplicação ao volume desabalado do abdômen. e não – louvamos. uma família. O segundo. louvar. ventre. significando “amplitude. 27 pança. Bendizemos a hora. que bendito. bendizer. e mesmo como significando “ato de benzer. Nossa Senhora é bendita entre todas as mulheres.. – Ventre é também abdômen. e às vezes abençoado. etc. pandulho. benzer. – Abdômen (diz Bruns. benzer. grandeza de volume de forma arredondada”. etc. pança são plebeísmos a que se dá sentido semelhante ao de abdômen. etc. 33 ABENÇOAR.”. a pança ou o pandulho”: não com a mesma propriedade – “encheu o ventre”. louvar.

pelo menos. – Fresta. Diremos: “Por uma fresta da porta mal fechada vi-a passar” (e não: por uma fenda). metediço.28 Rocha Pombo se pode mais aplicar a cerimônias de culto. orifício. rombo. buraco. a abertura é artificial”. é uma racha aberta de propósito com instrumento cortante. própria de dilatação ou contração dos corpos sólidos. – Racha é a “abertura por efeito de rotura” (Aul.): o que. “frinchas da madeira”. greta. – Quanto a greta.: “A diferença que existe entre a significação destas três palavras é bem fácil de notar. por uma fisga de roupa” (Herc. principalmente rombo.. ou da montanha. é uma rotura natural. Benzimento ou benzedura ficou tendo aplicação quase exclusiva a “coisas de cabala. de abertura longa e fina. mas a benzimento do fogo preferimos dizer – a benção do fogo. passa a ser orifício. – Buraco é “abertura.). além de grande força onomatopeica. – Interstício é propriamente “o que fica entre duas coisas”. ou no costado do navio”. – Frincha “dá ideia de fenda. intruso. – Furo e rombo designam “buraco. ordinariamente circular”. interstício. fisga. ou estreita: devendo notar-se: que fresta é das três a que exprime abertura menos estreita. escreve Roq. “Eu. furo. a abertura que há entre o quício e a porta. o óleo.” 35 ABELHUDO. frincha. fenda. é “o espaço que fica entre duas partes de um corpo que se separam”. – Vão é “todo o vazio ou espaço aberto num corpo”. cumprindo observar. “As bombardas fizeram rombos enormes na muralha. “Pelo vão de uma janela”. A segunda. entremetido. Fisga é quase o mesmo que fresta: apenas fisga dá ideia de abertura feita por um corte ou rasgão. no entanto. A greta e o resquício são naturais. nem sempre se dá em relação a aberta. fresta. oferecido. é. aberta. no entanto.. A terceira. O sacerdote benze o fogo. ingerido. introduzido. 34 ABERTURA. taralhão. tomando atitude em questões que lhe não pertencem”. – Se o buraco é muito fino. mas para ouvir o que se diz.. claro” e vagamente: “Frinchas da renda”. vão. que sugerem. saber de tudo que se faz. Este dá ideia ainda de rotura de grandes proporções. fenda. Nem sempre. o espaço livre entre duas ou mais partes de uma coisa”.). Poder-se-ia dizer igualmente sem grande impropriedade: “. fizeram enormes furos. rotura feita com mais ou menos violência. nem mesmo nos casos em que se aplica o verbo benzer. racha. ou dos efeitos do calórico. dá mais ideia de violência e de grandeza. por . falha. fisga são muito semelhantes pela ideia comum. pois esta enuncia apenas o “claro de greta grande. rigorosamente falando. resquício. a água.. abertura. A primeira. discutindo negócios alheios. que abertura sugere ideia de que a racha foi “feita de propósito” (como nota Roq. e por extensão qualquer fenda por onde penetra a custo a luz. in- trometido. e não dá ideia de proporções: tanto é buraco um rombo enorme feito através de uma montanha como é buraco o furo feito por uma bala através de uma parede. – Entremetido é. não propriamente abelhudo. resquício. – Abelhudo é aquele que vive (como a abelha num jardim) “metendo-se em toda parte. rotura. greta. mas com a cabeça coberta. mas o que “se mete com certa audácia naquilo que lhe não compete”. – Aberta é o mesmo que abertura. – Rotura é a “aberta deixada por um rompimento”. “por um vão da floresta. intrujão.” Rombo. e fenda é exatamente o contrário – enuncia apenas a ideia de que se não acham unidas ou apertadas as duas partes de um corpo que se disgregam. que mirava tudo. abertura e resquício. “As fendas que o sol fez no muro” (e não as frestas). a gestos ou figurações de supersticiosos”.

conversar ou obrar. o entremetido é abelhudo: só a inversa é que é menos exata. com muita propriedade. o oferecido aborrece. estirado. afetando graça. e até que metediço: é o que “entra onde não deve entrar. – Metediço é como se se dissesse oferecido: é o que “vai ou se mete em toda parte mesmo sem ser chamado”. dilatado. livre de obstáculos. o de amplo é exíguo (ou constrito). E uma vez que taralhão e gordo se equivalem. O antônimo de largo é estreito. notado que o termo se toma metaforicamente por gordo. que “uma sala é espaçosa quando. escreve João Ribeiro na última série das suas Frases feitas: “Atribui-se o ditado “Nunca o vi mais gordo” ao imprudente que. naturais ou afetados que o fazem ridículo. e o epíteto se aplica a pessoas afetadas. Repulsa-se o metediço. espaçoso. “campina dilatada e aberta. ou fim oculto em meter-se onde não foi convidado a ir. ao passo que taralhão parece o mais inofensivo. “Taralhão é o que se entremete onde o não chamam” (Bento Antonio). velhaco. Bluteau já havia. explanado. desfruta. é vasta quando as suas dimensões são extraordinárias”. – Vasto é mais do que amplo e espaçoso. – Intrometido é o mesmo que entremetido. Largo não se poderia também. ainda nela há muito espaço desocupado. e portanto contra o direito”. ou jocosos ou sérios. – Introduzido é mais que oferecido. portanto. e os taralhões são pardais que engordam muito. e a este trato ou modo de falar. lhe chamam taralhice.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 29 isso. e com mais atrevimento que desaso”. vasto. da Acad. a propósito de taralhão.) “Com grandes poderes e ampla jurisdição” (Dic. Assim. portanto. desenvolvido. largo. valendo-se de astúcias e perfídias”.” – Amplo ajunta à noção de dilatado a ideia de “vasto contorno. extenso. e de significação mais vaga. e mais ainda: é o “tipo manhoso e importuno que persegue com lábias. engana. suponho que o sentido passou de um ditado ao outro. explora. “Casa espaçosa”. “O entremetido parece sempre demasiado gordo”. com ridiculez. . que abrange todas as dimensões. por exemplo: larga jurisdição. 36 ABERTO. contendo muita mobília. “O assunto é muito amplo para ser tratado em meia hora”. amplo. Diz – “o que está desimpedido. é o que é amplo – largo e comprido – extenso. e em sentido lato dá ideia de “tão desmedido e aberto como se fora feito por arrasamento e assolação”. enquanto que oferecido diz também alguma coisa de dissimulado. Distingue-se de oferecido porque dá mais ideia de atrevimento e desaso. porque chamam de taralhão à pessoa gorda. Creio que por elipse se tirou da outra frase muito comum: “meter-se a taralhão”. lato. é ampla quando nela folga tudo o que contém. e em certos casos sugere ideia de amplitude: “Horizontes abertos”. Diz Bruns. ou pelo menos tendo algum interesse. intrusas e ridículas. aplicar (como acontece em relação a amplo) em certos sentidos morais: não diríamos. – Intruso é o que “se põe nalgum lugar alheio. se entremete onde não é chamado. (Aul. e “em frase chula quer dizer – aquele que tem um modo de tratar com termos.). desconfia-se do oferecido. larga liberdade. De toda a família é o mais forte. – Espaçoso é “o que compreende relativamente grande porção de espaço”. O metediço irrita. – Largo é o que “só tem grande a largura”: muito menos. largo direito. – Aberto é talvez o mais genérico do grupo. diz que amplo. A propósito de taralhão. – Ingerido (que se confunde bem com inserido ou enxerido) é o que “intervém em questões ou negócios pretendendo resolver ou adiantar o que é de competência alheia”. familiaridade ou importância. “Vasta campanha. – Intrujão é ao mesmo tempo metediço e abelhudo. de grande circunferência”.

vive-se à larga quando se gasta desregradamente. estirado. – Dilatado diz juntamente o que “é longo. no entanto. extenso. À larga diz “em plena trassenso. “até mais não desejar ou não querer”. desafogadamente. vasto. diz mais. a “de largura. “conforme é do nosso agrado”. desrazão. – À regalona diz ainda mais que regaladamente: significa “de maneira ostentosa. à vontade.. dilatados domínios. amplo.. à farta. largamente. desatino. Diríamos indiferentemente longo ou extenso caminho. – À farta equivale a “com fartura”. aberto”. nem com tanta propriedade. ou diz menos do que largo”. dilatado. Ninguém confundirá.. estas duas frases: “Falou largamente contra o governo”. regaladamente. “Não pudemos aguentar toda aquela estirada arenga”. “Chegamos ali. – Mas. à lar- liberdade”.30 Rocha Pombo vasto país. desvairo.. e à saciedade se goza um prazer se não se deseja mais. vive-se à farta se se não tem necessidade de calcular muito as despesas. ou se se tem com fartura o que é necessário. desconchavo. falta. dilatados tempos”. destampatório. Estamos folgadamente onde nada nos aperta ou oprime. “sem obedecer a escrúpulos”. desregramento”.). con- ga. claudica- . – A bel-prazer significa “segundo a própria satisfação”. ou (como em semântica) de sentido ilimitado”. – Estirado quer dizer “estendido. “Este vocábulo. à grande”. “Falou à larga contra o governo”. extravagância. portanto.. 38 ABERRAÇÃO. Trata-se à regalona quem se trata como grão-senhor. “Desenvolvido demais foi o discurso”. “Estão bem desenvolvidos os serviços da construção”. extenso. absurdo. príncipes”... vive-se desafogadamente quando se vive sem ânsias ou preocupações. “sem medir gastos”. à regalona. e na acepção usual referem-se mais ao comprimento do que à largura. – Lato é quase o mesmo que amplo.. A gosto exprime “sem constranger-se”. ou “com fartura”: acrescenta a isso a ideia de “com alegria e voluptuosidade de sibarita”. a gosto. error. “Dilatada campina. ou pelo menos nem sempre – campo longo.” – Desenvolvido refere-se a uma grandeza que tomou proporções notáveis: “O menino está desenvolvido”. plano. – Desafogadamente enuncia a ideia de “sem nenhum embaraço ou premura. longo exprime ainda mais particularmente a ideia de comprimento. É de mais força que largamente. igual. despautério. a uma parte do continente explanada como imensa campanha a perder de vista”. desconcerto.. despropósito. Camões disse: “Esperando com olhos longos o marido ausente”. deixa-se a criança brincar à vontade. de extensão. – Folgadamente corresponde a “com largueza” (Aul. folgadamente. “Percorremos as formosas e latas veredas daquela região”. vasto mar”. fica-se a gosto onde não há cerimônia. livremente. sugere. erro. além da ideia de amplitude propriamente. – Regaladamente diz mais do que “em abundância”. que é o mesmo que “até ficar satisfeito”. – Extenso diz menos que amplo. – Explanado. sem preocupações”. “sem apertos ou empecilhos”. fazendo-se mais convizinho de longo. com olhos extensos. – À vontade quer dizer “como quiser ou desejar”. à saciedade. disparate. e aproxima-se de à saciedade. na acepção lata. “sem regular cuidados”. ou como senhora rica “que cuida mais da mesa que da fama”.. mais desenvolvido que o normal”. Não diria decerto: “. enquanto que à larga sugere ideia de “incontinência. – “Estamos em nossa casa a bel-prazer. pois esta forma equivale apenas a “de modo amplo”. no sentido próprio. 37 A BEL-PRAZER... destempero. aberto”. diz “extenso. Passamos regaladamente “quando passamos como.

ou cometeste aberrações”. persistência ou “reincidência numa série de erros”. de aprumo. queda. “Este homem tem perpetrado tais absurdos. ou do que se dizia. – Desvairo (ou desvaire) será o desatino “leve e sem a graça do disparate”. porque absurdo é o fato “em si mesmo. mas. além de forma erudita. – Intr.. são erros de certa ordem.. – Extravagância é “tudo o que se desvia das normas usuais do bom senso e da boa razão” (Aul. Decerto que tratando de Lutero não diria o padre católico: “os absurdos”. mas nunca chegou a tais destemperos”. equívoco. Desrazão e contrassenso são casos particu3 Diz Laf. ao passo que aberração enuncia a ideia geral de aberrar.. e não: “os absurdos”. é o que não está “no mesmo tom. por extensão. – Despautério é forma popular de disparate. Dizemos também: “as aberrações do espírito humano”. Toma. devendo considerar-se que parece inseparável da ideia de culpa. – Destempero é extravagância “mais estrondosa e deplorável”... determinado. Aberração. é mais forte. – Disparate é desatino que tem “mais de graça que propriamente de doidice”. descuido. “contrário ao que é razoável”. desvio. ou em desacordo com aquilo de que se trata”. – Desconcerto é “disparate sem espírito. de equilíbrio mental”. lares de absurdo. LXXIX – que aberração era um termo de astronomia somente antes do começo do século XIX. e diz “absurdo. concreto”. transviamento da linha em que se ia. patada. ou melhor com a consciência vigente. confusão produzida por desvio do normal”. perder-se no caminho”. O que é absurdo ao sentir ou ver de uns pode deixar de o ser ao de outros.). e por isso aproxima-se muito de falta. “uma extensão de erro”. cinca. – Contrassenso é o mesmo que “contrário ao senso comum.. descaminho. despropósito que não vale a pena de combater ou destruir”. descaída.. “Simples faltas que nem se podem ter por erros. – Despropósito é “dito ou ação fora de propósito. deslize. é como se disséssemos. além de mais preciso. portanto. quer dizer “o erro que comete quem se desvia das leis do espírito. como se apenas o bom senso. engano. pois este vocábulo enuncia “o que é contrário ao senso comum”. – Desconchavo é também o que “desgarra das normas. aquilo que está “em colisão com a consciência”. poderia confundir-se com abuso: designa simples infração de raciocínio.. mas: “Disseste absurdos”. – Desrazão significa propriamente “contra a razão”. é destempero que chega a parecer excesso de doido. flagrante. e só se deve aplicar a deformidades e a erros extraordinários. ao modo de ver de todo mundo”. etc. – Erro é “tudo o que não se concilia com a razão. que não se ajusta à ordem de ideias ou de fatos que se seguia”. ou do que se tinha assentado”. verbo de predicação muito mais vaga.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 31 ção. outros percebidos ainda mais prontamente.. principalmente no plural. – Destampatório é “extravagância ou despropósito descomunal”. desacerto. ou mesmo os sentidos materiais bastassem para senti-los (contrassensos). conquanto seja este menos forte nesta acepção. uma acepção que o aproxima de absurdo. Mas entre absurdo e aberração deve notar-se pelo menos esta diferença facilmente perceptível: absurdo é termo genérico e que. – Desatino é “falta de tino. lapso. ou cometido estas aberrações”. uns percebidos quando colidem com o entendimento (desrazões). Revendo um tema. “as aberrações do demônio”.” – Error é. – Aberração3 significa propriamente o “ato de sair do caminho direito (aberrar). “F. ou dos princípios da lógica. em certos casos. e mais: “erros de entendimento ou de juízo que de . comete às vezes umas tantas extravagâncias. aplicado a fatos de psicologia. não diria o professor ao aluno: “Disseste.

de expediente na vida. néscio. Claudicação é propriamente o “ato de coxear”. em certos casos. lorpa. aburrado. simplório. pato. palerma. enfatuado. apalhaçado. lerdo. camelo. aburregado. como poderia parecer. – Cinca (ou cincada) é “erro de ofício”. maturrão. – Descuido é o “engano cometido por falta de atenção”. asno. ou “falta cometida por imperícia”. bufão. pasmado. do reto caminho”. apataratado. ignorante. toleirão. queda. em regra. e desvio é o “ato de mudar de rumo. Quer isto dizer que mesmo um indivíduo muito inteligente . burrego. e sempre sem as proporções e a gravidade que tem o erro propriamente”. patau. ou da direção em que se ia ou que tinha de ser seguida. aparvalhado. notando-se. estes. acamelado. basbana. pateta. basbaque. parvo. pataroco. boca-aberta. simples. tapado. embotado.” Podem.32 Rocha Pombo 39 ABESTALHADO. imbecil. apalonçado. fátuo. palúrdio. acaipirado. ajogralado. apapalvado. – Todos estes vocábulos exprimem de comum a ideia de “falta de inteligência. caipira. – Engano será o “erro ou a falta cometida sem culpa. Deslize é “ligeiro desvio da linha. matuto. de vivacidade. palhaço. estúpido. amatutado. – Equívoco é menos que descuido: é o engano “cometido contra a vontade ou intenção de quem o comete”. burro. ou por falta de noção exata do dever”. maninelo. idiota. obtuso. rude. de espírito para agir”. bolônio. doidivanas. estulto. apenas uma extensa e atenuada do seu radical. que podiam passar como apenas claudicações censuráveis. estólido. apalermado. descaída é mais “deslize ou lapso que propriamente queda”. deslize equivalem quase a claudicações: queda sugere de mais a ideia de culpa ou de pecado. boçal. viram todos como erros que logo tomaram o caráter de verdadeiros crimes”. parvoeirão. e inclui ideia de asneira agressiva”. rombo. beócio. lerdaço. de graça para agradar. aparvoado. ou que tem ares de besta”. patocho. bestiaga. atoleimado. – Lapso é quase equívoco: é engano devido mais à falta de memória que a desmazelo ou ignorância.) – Desvio e descaminho quase que se equivalem. aboçalado.Vejamos: Besta é tropo conhecido que designa o indivíduo em que aparentemente se denuncia uma indigência de entendimento e uma índole obstinada semelhantes ao que parece ter o quadrúpede desse nome: abestalhado. aumentando àqueles a ideia “de ingenuidade ou inconsciência”. ou de perder o caminho certo ou direito”. tolo. papalvo. jogral. bobório. – Desacerto é “erro ou falta cometida por irreflexão ou inadvertência”. papa-moscas. abobado. abasbacado. assentam mais propriamente a faltas de senso prático. patego. ingênuo. bobo. asneirão. pascácio. porém. já ele não sabia explicar tão frequentes equívocos. ignorantão. jumento. abasbanado. besta. abobalhado. bronco. parvoinho. mentecapto. tabaréu. e no sentido figurado designa o “ato de cometer erros por defeito de espírito. palonço. erro brutal. conduta”. patarata. e por fim. boto. que descaminho é o “fato de tomar caminho errado. mais por ilusão do que em consciência. Exemplo: “Repetem-se os lapsos. “Os seus deslizes nem são descaídas quanto mais quedas”. parvajola. asinino. não devendo entender-se que este (o derivado) seja sempre. truão. não tiveram mais desculpa os muitos enganos. – Descaída. ignaro. Quanto a alguns do grupo há uma observação a fazer. camelório. aplicável a cada um desses e o respetivo derivado. no entanto. mas. apatetado. (Aul. alorpado. sandeu. pacóvio. estupidarrão. amatungado. – Patada é plebeísmo que significa “despropósito grosseiro. e que se refere à diferença notável marcada pela derivação. quadrúpede. charro. significa “que se mostra besta. chocarreiro. aplicar-se a erros de entendimento. depois. alvar.

parvoinho” (pois parvajola é também forma diminutiva). por figura. a própria palavra pato. – Pateta designa indivíduo “desorientado e abobado”. O mesmo deve entender-se quanto aos outros do grupo que dão derivados. se ostenta parvo. – Palúrdio quer dizer “idiota. além de abestalhado. a medida do bom senso comum”.). – Besta. abobalhado = “que se faz de bobo”. – Camelo (fig. estúpido. graçolas charras. Temos ainda: parvoeirão (aum. ou palavras deturpadas e sem nexo. explorar facilmente”. incapaz de esforço físico ou mental”. com idêntica significação. Acamelado = “com ares de camelo”. mais com esgares. aliás. mandrião. como outros muitos do grupo. ignorante que se mete a sabichão. “tipo mais boçal e desfrutável que o bobo”. temos ainda bobório. e o segundo. equivale a “bobo insolente. com jeito de parvo”). – Basbaque é convizi- . – Bobo. lerdo no pensar e no agir”. dando ideia do “indivíduo lorpa. Parece dar-se o contrário com aparvoado (“feito parvo. que é forma erudita. como se sabe. – Parvoinho é simples diminutivo de parvo. – Tolo e estólido são formações do mesmo latino stolidus: a forma popular. muito usado pelo menos em grande parte do sul do Brasil. Dá apapalvado = “com jeito de papalvo”. modos e gestos de quase idiota. Dá apalermado = “com ares de palerma”. era. uma forma diminutiva ainda mais acentuada de pato. – Apalhaçado = “que se faz palhaço”. parecendo.. – Parvo quer dizer “pequeno de espírito. – Camelório diz “quase camelo”. diz C. Temos ainda alorpado = “feito. abrutalhado”. – Patego é como se dissesse “pequeno pato”. a de grande inépcia”. lasso. fácil de enganar”. maluco pretensioso”. “que se faz de camelo”. na Idade Média. disparates gaguejados a custo.) é o “indivíduo pesado. patego. – Patau (que também poderia ser uma adaptação do francês pataud) sugere. – Lerdo equivale a “pesado. meio parvo”) e aparvalhado (“semelhante a parvo. por fazer-se engraçado. não figure nos léxicos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 33 pode ser abestalhado (isto é – ter modos e ares de besta). além da ideia de parvoíce. do que propriamente com discursos ou ditos graciosos”. o que é “leviano com petulância”. ou parecendo lorpa”. fútil”. que é provincianismo algarvio. Dá apatetado = “com ares de pateta”. – Palerma é o indivíduo “quase idiota e que parece ter tanta incapacidade para pensar como para mover-se”. estúpido” – Lerdaço é aumentativo de lerdo. enganar. curto de compreensão como criança. – Patocho. preguiçoso. que se deixa iludir. Dá atoleimado – “que se faz de tolo”. e que significa o mesmo que patego. afetada. e por analogia significa o “indivíduo pobre de espírito que procura divertir os outros. que tem ares de bobo. Dá apataratado = “que se faz patarata”. – Lorpa é o indivíduo “inepto. dá bestiaga. Além de abobado e abobalhado. – Patarata é “pessoa tola. – Bobório quer dizer “bobo a afetar compostura de gente sensata”. rude. “meio pato”. diz melhor “o que não tem o discernimento. – Pataroco é outro provincianismo algarvio. e revelando isso por inépcias. que significa “estúpido e sem préstimo ou valor algum”. formas que pouco alteram a significa- ção que tem aqui. nem a compostura. conquanto. histrião por ofício do que propriamente idiota ou besta”. o jogral de corte. estouvado. mímica espalhafatosa. ou “que se assemelha a patarata”. (Aul. pataroco. – Palhaço significa mais – “bobo. e parvajola = “que. ou melhor. – Estólido. Do mesmo radical temos ainda: patau. – Papalvo quer dizer “simplório.) = “grande parvo”. patocho. palerma. Notemos ainda que entre abobado e abobalhado é preciso fazer uma ligeira distinção: o primeiro quer dizer que parece bobo. pretensiosa. demasiado ingênuo. que é a mais usada. impostora. de Fig.

abobado”. – Mentecapto é o que “não tem siso”. no entanto. de espírito entorpecido. fora do papel que lhe cabe. sem malícia e sem espírito”. – Fátuo é o “ignorante tolo e presumido”. tonto. que fica parado e em pasmo diante de coisas que não entende”. falto de inteligência”: bronco é o que “não entende por defeito de faculdade aperceptiva”. – Maninelo é o “bobo que se mete ridiculamente a gostar muito de mulheres” (corresponde ao nosso brasileirismo coió). quase papalvo. – Palonço equivale a “tipo sem vida. significando “estólido. – Enfatuado (ou infatuado) é “o que se torna fátuo”. no entanto.” Temos ainda: acaipirado = “com ares ou modos de caipira”. bobo que faz o seu papel com certo aparato”. – Sandeu (do esp. Ajogralado = dado a jogral. rude. crédulo demais”. ignorante. – Simples. rombo e tolhido. é o sujeito que “não sabe ainda bem o seu ofício”. desconfiado e escuso. – Néscio quer dizer “que nada sabe. obtuso. – Boçal exprime “estúpido e bobo que repugna. – Basbana. imbecil como basbaque”. por um prejuízo dos atenienses tido como estúpido ou pouco inteligente). É o mesmo que boca-aberta. – Obtuso é o bronco “que se esforça” e “quebra a cabeça” inutilmente porque é “incapaz de compreender”. idiota. – Pascácio assemelha-se bem a “bobo. extravagante. tipo desavisado”. O tabaréu. que “faz figura ridícula por inépcia”: caipira é o “homem do mato. grosseiro. segundo C. e. – Bufão é o “truão espalhafatoso. – Apalonçado = à semelhança de palonço”. Bronco e rombo equivalem-se na significação de “estúpido. curto de espírito. o mesmo matuto. convindo notar-se. de boa-fé excessiva. ou de inteligência pesada. desafrontado e chalaceiro”. meio bobo. – Simplório quer dizer – “despreocupado. O idiota é desequili- . amatutado = “com ares de matuto”. – Tapado. na acepção em que é aqui tomado. que diz mais chalaças do que salta”. estraga-albardas”.). – Abasbacado (ou embasbacado) = “que é ou se mostra como basbaque”. – Pacóvio é simplório da mesma família: “idiota e lorpa”. é aplicável ao indivíduo “inepto. tão massa-bruta que as moscas lhe entram na boca”. tosco do que propriamente bronco”. quase impertinente”. – Aboçalado = “que tem aparências de boçal”. significa o mesmo que “ingênuo. rombo é o que “não tem capacidade de raciocínio”. sem prática da cidade. sandio) equivale a “tapado. – Idiota e imbecil equivalem-se. estouvado. – Jogral é o “bobo de praça”. de Fig. inepto”. bruto de senso. que fala. como pateta”. – Doidivanas é o “indivíduo sem tino. desapercebido. rombo e rude têm uma sinonímia quase perfeita. rude equivale a “de difícil compreensão por desmazelo. – Estulto quer dizer “tolo. sem disfarce. no entanto. – Beócio. é muito empregado com esta significação. é provincianismo algarvio. por falta de estímulo”. ou que inspira asco ou aversão”. – Tabaréu tem significação muito parecida com a do nosso caipira. que salta e canta por dinheiro”. que “se atrapalha com a tarefa por falta de aptidão”. segundo a origem do vocábulo (designa habitante da Beócia. – Truão é o “bobo vagabundo. que tapado é aquele que parece ter o espírito “como que fechado para o mundo exterior”. – Papa-moscas está dizendo tudo por si mesmo: “tão inerte. farsista. obra.. vaga como doido. Ainda assim. que é imbecil. bronco.34 Rocha Pombo nho de palerma: é o “ingênuo que pasma de tudo. burro abobado. atabalhoado. imbecil”. – Chocarreiro é o “bufão insolente. – Rude significa mais “áspero. – Estupidarrão e toleirão são aumentativos de estúpido e tolo. parvo. – Bolônio é “indivíduo rústico e simples que se deixa enganar por todos” (Bruns. pasmado e imbecil”. “maroto estúpido. – Estúpido diz propriamente “rude. – Abasbanado = “parecendo basbana”.

não ouve.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 35 brado. completando esta fa- mília. – Pasmado. e diz “quase imbecil. Asneirão e asinino são meras gradações de asno: significando asneirão “grande asno”. alapuzado”. Toma-se. celeridade. pelo menos da cultura comum”. encostar-se. ou incapaz de esforço em coisas de espírito. – E vem agora. “chegar junto. abrutalhado”. sem agudeza de senso”. e “não vê. matungo. e imbecil é “quase idiota. que é “termo familiar que se aplica a um néscio que pretende impor-se como sábio”. sem nenhuma cultura intelectual”. – Ignorantão é aumentativo de ignorante. Ingênuo é menos que alvar: significa “sem malícia como criança. burrego. alvar.. “semelhante a asno” ou “que faz de asno”. avizinhar-se. e. e diz-se com propriedade da plebe e povo rude. jumento. e asinino. aproximar-se. apropinquar- -se. principalmente jumento – “o burro de carga. acostar-se. ou que ignora as coisas mais geralmente sabidas. Qual é aquele que tudo sabe? Pois só aquele que tudo soubesse de alguma coisa ignorante.. que equivale a “pequeno burro”. asinino. que sempre se toma em mau sentido. lerdo e inepto. É quase o mesmo que basbaque e palerma: apenas o palerma “parece não ver”. De burro. significando ambos “chegar perto”. – Charro é “gordo. asno. abordar. isto é. e diz Bruns. toda a zoologia transfigurada: quadrúpede. e não: “Apropinquei-me. no sentido figurado. chegar-se. Tanto a idiotia como a imbecilidade podem ter como causa algum defeito orgânico do cérebro. aplica-se ao sujeito esbodegado. inconsciente como o próprio instinto”. Mas já uma dife- . Pasmado equivale a “falto de vivacidade. o asno que é afeito ao jugo”. asneirão. ou o mais possível. contudo. e designa o estado da mais crassa e vergonhosa ignorância: aplicada às pessoas é injuriosa. achegar-se. burro. Ignaro é “uma expressão pejorativa de ignorante. o pasmado tem o curto senso fixo num objeto. e amatungado = “feito matungo”... mas é tão fraco de espírito”. e neste grupo. – Aproximar-se equivale a apropinquar-se. Alvar tem hoje. sentido desfigurado do próprio. segundo a etimologia. a palavra ignorante num sentido mais restrito. aconchegar-se. parecendo que este último sugere “ideia de pressa. Sobre estes dois sinônimos escreve Roq. burro. e por isso mesmo incorrendo frequentemente em enganos e caindo em ridículo”. bruto. nem sente mais nada”. inópia intelectual. ingênuo aproximam-se. – Matungo (brasileirismo do sul) no sentido que aqui tem. é menos atabalhoado. e burrego. maturrão. – Quadrúpede designa “sujeito. – Ignorante diz apenas “que não tem instrução”. Jumento (assim como burro) é o mesmo que asno. – Abeirar-se diz propriamente “aproximar-se da beira”..: “Todo homem é mais ou menos ignorante”. se bem que pareçam dizer. de sinceridade. grosseiro. amatungado. candura e boa-fé que tocam a parvoíce”. por analogia. ou ao lado de alguém”. ou que não tem a ciência necessária à profissão que exerce. como “abeirou-se do amigo”. temos: aburrado (ou emburrado) = que se obstina como burro”. Maturrão será um aumentativo de matungo. – Ignaro exprime – “inculto. “falto de cultura. o basbaque “não vê nem sente”. rentear.” – Chegar-se e achegar-se. Dir-se-ia: “Aproximei-me pouco a pouco. São todos termos chulos empregados para significar. decisão”. além de inculto. 40 ABEIRAR-SE. parecem a mesma coisa. Tanto se diz: “abeirou-se do precipício”. à primeira vista. para designar a pessoa que não sabe o que devia saber. conchegar-se. “não tem senso nem discernimento para distinguir coisas diferentes”. acercar-se. defeito de aptidão comparáveis à bruteza do asno ou do quadrúpede em geral.”..

– Avizinhar-se diz propriamente “fazer-se vizinho. enraivar-se. ao fim de alguma coisa. Não se confundem estas frases: “Ele chegou-se a nós” e “Ele achegou-se de nós”. enquanto que achegar-se pode ser empregado tanto com essa como com a preposição de. “Abordamos o abismo”. embravecer (embravecer-se. “irritar-se como as vespas”. rente”. melindrar-se. agastar-se. ou da árvore”. É preciso dizer: “Acostamo-nos à floresta ou à serra” (isto é – fomos até ficar muito junto à floresta ou à serra). Acostar-se é “juntar-se a alguma coisa pelas costas. – Abordar é propriamente “chegar à borda. Notemos que o prefixo a de aconchegar-se lhe aumenta uma ideia de ação imediata. – Conchegar-se e aconchegar-se significam “aproximar-se reciprocamente (uma coisa ou pessoa da outra) de modo a ficarem unidas. excitar-se. de propósito. zangar-se. ou “abordamo-nos na rua”. para pedir-nos socorro ou proteção. arrenegar-se. agravar-se. “Queremos ou desejamos aconchegar-nos o mais possível”. – Irar-se é: “perder a calma. “Quando a caravana se avizinhava de Jerusalém. e não: “conchegar-nos”. desgostar-se. ou com ele”. flagrante. em contacto. amuar-se por qualquer coisa. e também: “Renteamos com o acampamento.. “zangar-se a todo instante e por qualquer coisa”. apaixonar-se. irar-se. exasperar-se provocado por alguém ou por alguma coisa”. tão próprio como: “Aconcheguem-se mais”. – Zangar-se é quase o mesmo que “dar o cavaco”. ou raivecer (ou ainda enraivar-se) equivale a “encher-se de raiva”. exacerbar-se. enfadar-se. em torno de alguém ou alguma coisa”. assanhar-se. aborrecer-se como por impulsão súbita”. enfurecer-se. e não: “Encostamo-nos”. ou uniram: tanto não diz: “conchegaram-se”. “acercaram-se do forte. “Renteamos o despenhadeiro”. incitar-se. vimos no céu.. tomar-se . “Concheguem-se mais” não é. Dizemos: “Eles se aconchegaram” querendo exprimir que duas ou mais pessoas.. esquentar-se. pelo lado”. raivar). exasperar-se.” 41 ABESPINHAR-SE. pelo menos. e tornar-se violento e impetuoso como os loucos”. Dizemos: “Acostei-me à parede” (isto é – “pus-me rente à parede”) – o que é muito diferente de: “Encostei-me à parede” (isto é – “descansei o corpo apoiando-me na parede”). encolerizar-se. pois até à força podiam conchegar-se. enfurecer-se instantaneamente” (pois a ira dura menos ainda que o furor). e significa “pôr-se em volta. ou pelas costelas. pois este verbo não marca tão bem atividade e gradação como o outro. enraivecer-se (raivecer-se.. ou em círculo. perder a razão momentaneamente. encostar-se é “apoiar as costas a alguma coisa”. No primeiro exemplo. – Enraivecer-se. “abordei-o”. embravear). – Acostar-se e encostar-se enunciam ações diferentes. enquizilar-se (ou quizilar-se). – Acercar-se é formado de a + cerca (ou cerco) + ar. – Irritar-se é “perder a calma. enfrenisar-se. “Acercamo-nos dele”. indignar-se.. aproximar-se de súbito”. molestar-se. ou frenesiar-se (também no Brasil – enfrenisar-se) é “zangar-se. – Enfurecer-se é “irritar-se até o furor. No segundo caso. ele se aproxima de nós como para amparar-se. conquanto digam alguns lexicógrafos que se equivalem. irritar-se. e mais lidimamente com esta. aborrecer-se. e mais por vício de educação que por temperamento”. exaltar-se. – Abespinhar-se diz. impacientar-se. enfadar-se. tanto para agasalhar-se ou confortar-se como para resistir a algum mal”. estimular-se. – Enfrenesiar-se. anojar-se. atual. com a mesma solicitude se juntaram. – Rentear = “passar muito junto. ele apenas se pôs mais perto de nós. aproximar-se bem”. magoar-se.36 Rocha Pombo rença de sintaxe os distingue: chegar-se emprega-se só com a preposição a. segundo a própria etimologia.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 37 de rancor violento e brutal. segundo a própria etimologia. mostrando-se agitado e hostil. incitar-se e estimular-se equivalem-se com pequena diferença. – Ancorar equivale a fundear lançando âncora” (Aul. mostrar-se sentido por ofensa”. ou de grandes pecados. . – Abicar significa propriamente (assim como embicar4) “dar com o bico (a proa) em terra”. e quer dizer “pôr em seco.). ou “ressentir-se de alguma coisa desagradável”. aborrecido. atracar. devendo empregar-se. e sugere a ideia de que foi ofendido ou provocado aquele que se encoleriza”. enquanto que amuar-se significa mais “desgostar-se por suscetibilidade”. principalmente como pronominal: é “mostrar aversão ou repugnância. ou por afetação de melindre”. apor- tar. – Melindrar-se quer dizer “desgostar-se por motivos muito delicados. quase assanho. só tratando-se de pequenas embarcações. O próprio Deus pode encolerizar-se (e também irar-se. – Enquizilarse (ou quizilar-se) é mostrar-se menos que zangado: mais “indisposto por impaciência e antipatia ou quase aversão”. – Anojar-se é “sentir-se incomodado. quem se excita é como quem “se irrita despertando da sua calma habitual”. tirar para a praia”. arribar. – Fundear significa “dar ou tomar fundo”. – Indignar-se significa “encher-se de ira por algum motivo muito nobre. – Excitar-se. ou em presença de alguma coisa que se tem por indigna”. seja bom. e à tarde ancoramos a nossa nau mais junto à terra”. ou irritar-se) à vista de sacrilégios. Pode-se dizer. em fúria ou alvoroço hostil”. – Arrenegar-se equivale a “zangar-se maldizendo e blasfemando”. – Magoar-se é “sentir-se melindrado por alguma ofensa”. Incitar- -se é mais vizinho de estimular-se: quem se incita mostra “vigor anormal. por excesso de pundonor. ancorar. diz “fazer-se áspero. – Embravecer. e pode bem ser que não revele a sua irritação por mais do que animar-se de disposições infensas. fazer-se rude e quase furioso”. surgir. como neste exemplo: “Fundeou toda a frota na vasta baía. sair da serenidade habitual”. ansioso”. – Esquentar-se é “exaltar-se um pouco. mas perdeu alguma coisa na acepção comum. – Apaixonar-se é “sair do estado normal por exaltação de algum sentimento. ficar insofrido. inquieto. – Varar também só é aplicável a pequenas embarcações. – Encolerizar-se é “ir ao extremo da ira. fundear. – Agastar-se é “enfadar-se ligeiramente. ou embravecer-se (ou embravear) é “tornar-se bravio. varar. – Impacientar-se é propriamente “perder a paciência. conduzir 4 Convindo não confundir com embicar = “encaminhar pela bica”. – Aborrecer-se diz propriamente “sentir horror”. ou do que é normal”. – Aportar diz precisamente “tomar porto. distinguindo-se deste em sugerir a ideia de “desgostar-se como por fadiga”. parecer exausto de paciência”. e por ter sido instigado”. – Molestar-se é “mostrar-se ofendido por incômodo ou por importunação”. Quem se estimula contra nós é porque foi provocado ou importunado. “ancorar” depois de “haver fundeado”. feroz como bruto irritado”. violento”. – Assanhar-se é “ficar agitado. portanto. – Exacerbar-se. chegar.” ou “deixar de sentir o prazer que se sentia”. – Desgostar-se é propriamente “não ter mais o gosto que se tinha. – Exaltar-se é mais do que esquentar-se: é “fazer-se mais enérgico e veemente do que convém. rude. – Agravar-se é “fazer-se grave por desconfiança ou aborrecimento. 42 ABICAR. ou. do que aborrecido. ou seja mau”. triste e desgostoso”. – Enfadar-se é menos que aborrecer-se: é “quase amuar-se”. ou mesmo simples desprazer”. portanto. abordar. – Exasperar-se é “irritar-se em extremo.

ignóbil. – Chegar é o mais genérico de todos os do grupo. sendo de notar que a coisa abjeta é a que repelimos como indigna de nós. não chega – arriba. rodomoinho. A embarcação que sai. correspondente de abyssus) significa propriamente aquilo “que não tem fundo” e onde desaparece para sempre o que chegou a cair. – Atracar equivale quase a abordar: é “chegar e prender-se à terra ou a outra embarcação”. e quer dizer “alcançar o ponto demandado”.) parecendo aduzir à “noção de chegar a ideia de surpresa”. – Abismo (do baixo-latim abysmus. detestável. subvertendo-as. ou da passagem quando se as quer evitar”. escarpado. “procurar abrigo ou refúgio”. no entanto. sorvedouro. aborrecível (aborrível). báratro. se emprega esta palavra para designar os grandes perigos de que muito dificilmente se pode sair e que só se descobrem quando já é dificílimo evitá-los”. pois. tragando-as. como este. 44 ABJETO. vil. portanto. entrar de repente. É “por isso que. Há. “entrar num porto que não é o que se demandava”. traga- doiro. e que arrastam fatalmente para a profundeza. no entanto.38 Rocha Pombo ao porto. desprezível. de um lago. as embarcações que a imperícia ou a fatalidade leva até onde alcança a influência do torvelinho. ou sem ser esperado”. pois o remoinho pode também levar para os ares. – Báratro era o precipício onde se fazia cair o criminoso de certos crimes em Atenas: daí a significação de “profundeza como a do inferno”. baixo. particularmente. abominando. entre sorvedouro e tragadoiro a mesma diferença que se nota entre sorver e tragar. – profundo. e. de um rio. repelente. no qual se está exposto a cair. ação de correntes opostas. e caput “cabeça”) é um espaço vazio – diz Bourguig. despenhadeiro. tratando-se de navios: “entrar no porto ao cabo de uma viagem”. e a coisa detestável é a que não pode . portanto. chegar por via marítima” (Aul. – Abjeto é o mais compreensivo de todos os do grupo. no sentido figurado. e por extensão “chegar à terra ou ao porto. emprega-se no figurado para designar o que atrai irresistivelmente para a ruína ou a morte inevitável”. repugnante. – “desses terríveis remoinhos formados pela 5 Abismo é do baixo-latim abysmus. – Sorvedouro e tragadoiro confundem-se: este último. execrável. a ideia de tragar que predomina nesta palavra. são mais para temer os perigos. é mais forte e sugere a ideia da violência inevitável com que a voragem engole. onde. voragem. – Arribar significa “ser forçado a tomar porto”. abominoso. onde alguém é lançado como castigo. traga o que nela cai. mas volta ao porto sem ter seguido a seu destino. – Despenhadeiro diz propriamente “rochedo elevado e abruto” de onde há grande perigo em lançar-se alguém. e da dificuldade da marcha quando se as circula. – Surgir é “aparecer. entrar no porto”. abominável. por causa do escarpamento das beiras. significando quase o mesmo que detestável. precipício. por isso. – “Precipício (do latim prœ “para diante”. A forma culta é abysso (latim clássico abyssus. É. indigno. odioso. só a ideia de “absorção para o fundo”. como se dissesse: “apresentar-se. 43 ABISMO5. execrando. – Abordar significa propriamente “encostar ao bordo”. – Rodomoinho (ou remoinho) é quase o mesmo que sorvedoiro: não dá. dar com o bordo junto à terra”. – Pego é a parte mais profunda do mar. pego. – Voragem (do latim vorago) “é o nome” – diz Bruns. do grego abussos = a + bussos “sem fundo”). a ser precipitado. A ideia principal que sugere esta palavra é a do perigo da queda.

feroz e estúpida. Convém ainda advertir que abjeto ajunta à noção de detestável a ideia de baixeza. 45 ABJURAR. que nem ânimo tem para saber calar. a coisa abjeta deixaria de ser detestável. O descarado adulador. que. por seu interesse e com o fim de fazer fortuna por meios indecorosos. Segundo Roq. segundo a própria formação – “digno de desprezo”. que causa aversão”. É mais forte que execrável. abrenunciar. Note-se. ou aborrível. se detesta. – Execrando é “o que merece maldição de todo mundo”. que se fez para ser negado. podendo-se entender que reúne o valor destes dois: é repelente o que “se detesta ou repele com asco”.. são “palavras que apresentam a ideia de desprezo. – Aborrecível. porém. grosseiro e vil”. posto que sob diferentes aspetos. – Desprezível significa precisamente. o mais vil dos homens é o que vende sua honra e sua consciência para adquirir dignidades e riquezas. sem ser abjeta. “A vida fora de Paris é detestável” (não abjeta). “Note-se também que os católicos. que o verbo abjurar.. ou a coisa da qual não queremos saber. significa propriamente – “que inspira horror. que não encerra ideia depreciativa. Abominoso é o que “contém. Entre nós temos o exemplo do padre Guilherme Dias. trair. se afasta com horror”. repelido por todas as consciências como sacrilégio”. vil o que perde a estima dos outros e ainda a sua própria. portanto. Todo vício é baixo e desprezível. como algumas ocupações mecânicas. segundo os protestantes. convertendo o homem numa besta malévola. e é dos mais vagos do grupo. e que por isso são tidos em nenhuma conta. desprofessar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 39 ter a nossa sanção moral. – Indigno aproxima-se de ignóbil. – Sobre abjurar. – Ignóbil diz propriamente – “sem nobreza. e entregue de ordinário a gentes tidas por infames em seu proceder”. o que está cheio de abominação”. Abominando quer dizer – “que se há de abominar. ou uma coisa. nem instrução. Os católicos dizem que Henrique IV de França abjurou o protestantismo. Em caso algum. feroz e brutal na sua execução. ao passo que os protestantes qualificam esse ato com o verbo apostatar. – Repugnante é vizinho de repelente: é “o que se repulsa como coisa nojenta”. é baixo. que “afronta o nosso sentimento religioso”. – Odioso quer dizer – “que merece ódio”. apos- tatar. não é por todos aplicado ao mesmo ato: o que é abjurar para uns é apostatar para outros. é um poeta detestável” (não abjeto). São particularmente vis os vícios que desonram e infamam. Chamamos ofícios baixos aqueles que só exerce a gente miserável e abandonada. e muito vil o que as sofre contente. como costuma suceder na embriaguez.: Abjurar (do latim abjurare “negar com juramento”) é renunciar solenemente à religião que se tem seguido e que se reputa falsa. porém. que empregam o verbo apos- . e aplica-se ao que é baixo e desprezível. “F. a avareza. apostatar e renegar escreve Bruns. pode ser detestável. v.. enquanto os católicos dizem que ele apostatou do catolicismo. baixo de condição. porém chamamos particularmente baixos aqueles que supõem falta de vigor e de energia.. e não é recebida por nós. abjurou os erros do catolicismo. Um indivíduo. – Vil e baixo também se aproximam muito. renunciar. – Repelente oferece alguma coisa de comum com detestável e abjeto. Chamase vil o “exercício que se tem por desprezível em razão de ser sujo. como. renegar. o que “se condena. Baixo é o que por cobardia sofre injúrias de outrem. Baixo é o homem que abate a sua dignidade. converter-se. – Abominável é “o que é digno de condenação como coisa ímpia e nefanda”. que não exigem mais que um trabalho material e nenhum talento. g. – Execrável é o que “atenta contra lei sagrada”.

quando se emprega este termo. abrenuncia-se o espírito do mal. sem ódio. que sai do seu grêmio. sim. – Renegar é ao mesmo tempo abjurar e apostatar “passando a ter ódio à coisa renegada”. isto é.” Quem abjura afasta da consciência a coisa abjurada. a coisa traída. faltando à fé jurada com os da grei”. escola. Além disso. – Abrenunciar é mais forte que renunciar. diz Bourguig. sem mágoa. 46 ABLAÇÃO. de- sambição. – Desprofessar é neologismo aproveitável e perfeitamente legítimo: diz. abandona. Desinteresse diz-se do que é material: é desinteresse vender por baixo preço (com pequeno lucro). na fé. desamor. de ter na conta em que se tinha”. um erro sacrílego em que se vivia. a sua causa. Um sujeito que se passasse para uma religião nova (ou para outro partido. pois mesmo aquele que trai o seu Deus. ou um ateu – não se poderia dizer que apostatou: sim que renunciou. a opinião. e não a convicção. ou escola filosófica) e fosse combater a antiga – esse. nem sempre a renegará necessariamente. um indiferente em matéria religiosa. ceder um ganho lícito. – Quanto a abnegação e desinteresse escreve Bruns. desprendimento. O desinteresse cessa onde principia o interesse próprio. ou sem intenções hostis a respeito da coisa renunciada. põe longe de si a coisa (o princípio. amputação. abrenunciar significa “negar. – Trair neste grupo aproxima-se muito de renegar: é “negar ou protestar com perfídia.. detestar afastando com horror”. de reconhecer formalmente. de “dar testemunho. e ficasse sem nenhuma crença. “deixar de crer. de aceitar.). Quem apostata deixa. não assim os membros das outras religiões”. Abrenuncia-se a vida ímpia em que se andava. podendo ainda continuar a tê-la em respeito. o demônio. causa. é um apóstata. Henrique IV converteu-se ao catolicismo. ou do seu partido e vai para outro. a abnegação não tem limites. – “consiste a amputação em cortar um membro superior ou inferior: amputam-se os braços ou as pernas. altruísmo. interceder em favor de um inimigo. o principal móbil que leva à mudança de religião. desapego.: “Converter-se marca simplesmente uma mudança que se operou nas crenças. de que apostatou por uma outra coisa. e não a que se deixa. por conveniência própria. Abjurar diz propriamente “jurar contra alguma coisa. – “Em linguagem cirúrgica” – diz Bruns. O sujeito que desprofessa o seu culto pode passar a crer só consigo mesmo o que já cria.40 Rocha Pombo tatar. etc. segundo a própria formação. o sentido de ser o interesse. e que leva a passar de uma religião reconhecida falsa para uma religião considerada verdadeira”. como vimos. a crença. mas aquele que apostata é como o trânsfuga. desinteresse. lhe dão. Pode-se renegar sem trair: e a inversa também é admissível. etc. renunciar a uma herança em favor de um parente pobre: é abnegação ceder o que nos é indispensável. e até de consciência. o seu culto. tem-se em vista a religião que se abraça.: “Abnegação diz mais que desinteresse. – Sobre converter-se (que se aproxima de abjurar). princípio. devendo subentender-se que aquele que renuncia abandona apenas a velha crença. arriscar a saúde velando duran- . A ablação consiste em extrair de qualquer parte do corpo uma parte mórbida: faz-se a ablação de um quisto”. 47 ABNEGAÇÃO. De um sujeito que tivesse deixado a sua religião. “deixar de professar”. deixando apenas de continuar a fazer confissão pública da sua crença. lançando-a fora do espírito. e dele se diz com toda propriedade que apostatou. isto é. a sua seita. Este diz apenas. – Renunciar é aqui convizinho de apostatar. de exercer em público. Quantos traidores ficam preferindo de coração.

além dessa ideia. – Desmacular é neologismo perfeitamente admissível. 49 ABOLIR. a água. pois. limpar. – Altruísmo é o nome moderno da velha virtude cristã do amor do próximo. o pouco caso com que se vê passar uma felicidade a que se tinha direito”. – Acrisolar é “purificar como se apura em cadinho ou crisol”. Purificar é tornar puro. ou com preparações. “Lavam-se as mãos”. apurar. ou mundar (de mundus = puro. Desapego. Quase que só se usa hoje em sentido figurado.” Tanto se limpa com água. “A chuva lava o ar”. senão a “facilidade.” tirar a mancha ou as manchas”. Purifica-se o espírito. – Lavar é “limpar com água”. ou a coisas a que nos tínhamos afeiçoado”. purgar. verificar o que há de essencial nalguma coisa: e nesta última acepção não se confunde com purificar. acrisolar. e não – purifica”. desfeito. Também é usado figuradamente. – Purificar (como purgar e expurgar) exprime a ideia geral de “fazer puro eliminando impurezas”. e figuradamente “tornar puro aquilo que se manchara. o ar. e sugere ainda a “ideia geral de desmisturar. ou de coisas estranhas. – Apurar diz também “fazer puro separando fezes. infirmar. proscrever. de uma discussão. mas. limpo). e diz. – Mundificar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 41 te noites consecutivas o amigo doente”. a coragem estouvada com que se afronta um mal. Expurgar é tornar completamente puro o que ainda não se havia purgado ou purificado de todo. . purificar. “Tais amarguras dir-se-ia que te abluem a alma”. etc. extinguir. pelo menos quando é certo que a pessoa que se apega mostra mais vontade e esforço em apegar-se do que mostraria em prender-se ou deixar-se prender. – Abolir significa “declarar não existente. segundo a própria etimologia. – Desprendimento é a “indiferença com que se vê um perigo. – Acendrar é “limpar e fazer brilhante como os metais polidos”. anular. deduzir. – Abluir diz aqui propriamente a ação de “fazer puro como as coisas sagradas”. E em sentido translato também se usa: “Aqui (no Purgatório) – disse-me o patriarca – lavam-se almas”. Não se implantam liberdades onde não se expurgam erros”. Purgar é tornar puro fazendo expelir o que há de impuro no que se purga. – Desambição e desamor não fazem mais do que marcar a perfeita antonímia em que ficam com os respetivos radicais. E mesmo: “De uma certa quantidade de calda apura-se (não – purificase) tantos quilos de açúcar”. aptidões. substâncias estranhas”. no entanto. parece mais forte. Quase que só se usa no sentido figurado. “Naquele horrível sacrifício a mísera se desmaculou do nefando pecado”. muito judiciosamente: “Nestes entra o radical puro. mediante qualquer processo. ou com cinza. tratando-se de qualidades morais. 48 ABLUIR. invalidar. a decisão com que se renuncia a grandes bens. Sobre estes três verbos escreve Bruns. expurgar. tornar puro”. cassar. etc. o coração. suprimir. Limpe-se ele primeiro (ou lave-se) das acusações que lhe fazem”. revogar. segundo a própria formação. diz “fazer limpo. é “fazer livre de impurezas. ou aplicando-se a coisas morais: “Limpamo-nos de culpa e pena”. Tanto se apura como se purifica o açúcar. – Limpar é o mais genérico do grupo. lavar. acendrar. mas – “de um negócio. como se purifica o sangue. Desapego não é. de um esforço alguma coisa se apura. mundificar (também mundar). Os ventos rijos purificam o ar. antiquar. A fermentação purga o mosto. como com óleos. ab-rogar. nota-se no vocábulo ainda outra: a de uma causa que penetra no objeto impuro para o modificar e devolver-lhe a pureza primitiva. derrogar. desmacular. – Desapego e desprendimento dizem quase a mesma coisa.

de uma sentença.. 50 ABONO. “F. – Extinguir significa também abolir. mas em certos casos não se poderia empregar um pelo outro. não seria perfeitamente lídimo dizer: “Mais hoje. enquanto que derrogar exprime com mais propriedade “deixar sem toda a força. havia de abolir-se. O prefixo ab. Na fórmula legislativa: “Revogam-se as disposições em contrário” não seria permitido empregar o verbo derrogam-se. e. portanto. ou não tinha começado a produzir efeito”. tantos já foi derrogado por lei ulterior”. com esta diferença: supõe-se sempre um ato de autoridade que anule: o que não se dá quando se trata de invalidar. costumes. – abonação é a ação de abonar.42 Rocha Pombo apagado”. parece apenas mais ativo e mais forte do que o prefixo de. “como se não existisse”.. Neste caso empregaríamos o verbo suprimiu. tinha algum senão. ou estava inquinada de algum vício. costumes. ou a resolução que se tomara. quando muito. usos. Dizemos: “A lei de 13 de maio aboliu a escravidão”. e. e tanto se emprega tratando-se de leis. tratando-se de leis – “excluir. etc.. como de instituições. ou a lei tal aboliu tal repartição”. – Abono é o próprio ato de assumir alguém por um outro uma certa responsabilidade moral. isto é. – Antiquar é “deixar cair em desuso”. alguma coisa contra o direito. impostos. e desta mesma o art. de dar segurança pelo caráter ou pelas aptidões de uma pessoa. De um decreto que ontem ou há poucos dias se publicou e hoje se deixa sem efeito. Por isso ab-rogar se diz em referência a uma lei ou a um decreto que a autoridade competente deixou sem efeito e substituiu por outro: derrogar deve aplicar-se menos a toda uma lei do que a uma ou algumas disposições dela. e tanto se emprega tratando de leis. cortar alguma ou algumas partes delas. é quase o mesmo que anular. com esta diferença: é só uma nova disposição que derroga a outra. senão cassado. por exemplo: “O decreto. como de pessoas. é “prescrever por falta de aplicação”. o vigor de uma lei. – Infirmar é “tirar a força.. – Invalidar significa “tirar o valor”.. Aplica-se em regra nos casos em que a lei. garantia. Emprega-se tratando-se de leis. mais amanhã havia de extinguir-se a monarquia”. e sim: “. – Proscrever é “declarar excluído. ao passo que para suprimir basta o ato supressório. . ou a anular. porém. fatos de linguagem. ou uma infração essencial invalida um contrato. – Cassar é propriamente “declarar sem efeito o decreto que se tinha publicado. pois que a diferença que se quer ver entre eles é quase convencional. penhor. etc. Ninguém diria. e sim: “. melhor do que este. mas que não havia tido aplicação ainda.. “A nova lei ab-rogou a lei tal.. Do mesmo. – Revogar é quase sinônimo perfeito de derrogar: significa. mas só o juiz competente pode anulá-lo”. modo. e com certa razão. atenuar ou diminuir a força de uma lei cortando-lhe uma parte”.. mas decerto que não diríamos: “A lei tal aboliu um cargo no ministério tal”. instituições. portanto. sinal. mas ab-rogada. isto é. É antônimo de confirmar. mas significa também “eliminar. – Suprimir é mais genérico e menos técnico que derrogar. arras. segurança. o decreto ou a sentença anulada. – Anular diz propriamente “tornar nulo”. cancelado por ato público”. costumes. abonação. não se dirá ab-rogado. fiança.” – Ab-rogar e derrogar confundem-se de ordinário. etc. De uma lei não se diz cassada. Uma circunstância ignorada ou imprevista. pediu-lhe abono. a ação de declarar “não vigente”.”. ou “sem valor”. caução. pôr de lado parte de alguma coisa”.. isto é – não se faz indispensável que em lugar da disposição suprimida fique vigorando disposição nova. extinguiu. de um princípio jurídico ou filosófico”. hi- poteca. coisas.

: “A primeira palavra é o gênero a que pertencem as outras como espécies. fracassar. em linguagem jurídica se dá à caução diferentes nomes. segundo Bruns. chama-se indireta. juratória.). hipotecária. – Quanto aos quatro primeiros do grupo escreve Bruns. ou nascido na própria terra onde vive”. na escala antropológica. – Sinal é o dinheiro ou a coisa que o comprador ou um dos contratantes adianta como garantia do ajuste que há de fazer. penhor. escreve Roq. segundo as disposições da lei. por isso. isto é. falhar. ou que foi o habitante mais antigo que nele se encontrou (de modo que pode ser até adventício no país onde foi encontrado): enquanto que autóctone deve ser o povo ou o indivíduo que apareceu. o objeto não corresponder às condições devidas: é a garantia direta”. se chama centro de criação é que se encontraria o legítimo autóctone. gorar. – Originário = que “tem origem no próprio país. e significa “filho do país. origi- nário. ou na própria raça”. no que. e significa qualquer meio de assegurar a outrem que havemos de cumprir nossos deveres ou os ajustes que com ele fizemos. “O ibero é o aborígene da Espanha. mas quanto ao autóctone da península nada sabemos. segundo as diferentes relações em que se a considera: pignoratícia. Quer-se dizer. judicial ou legal. – Arras. etc. portanto. que indígena é o mesmo que natural. até a espécie humana – no próprio país onde se encontra. Apenas natural acrescenta à noção a ideia de incultura. – Quanto a caução. hipoteca e fiança. Fiança é a obrigação em que alguma pessoa se constitui voluntariamente de pagar por outra quando este o não faça. Pode ela ser consensual. Se a garantia é feita por outra pessoa que não o próprio comprador. e quanto ao autóctone desta parte da América nada sabemos até agora de positivo”. – Íncola é o que “habita um país que não é o do seu nascimento”. e que dá direito ao credor de pagar-se por eles.: “Abortar é não chegar a realizar-se por causa de um defeito intrínseco ou por uma força estranha o . – A garantia. nativo. malograr-se. e até estes dois com o terceiro do grupo. natural. ou não se sabe se seria possível afirmar a autoctonia daquele que é o mais antigo habitador da península”. ou “que é próprio do lugar do nascimento (Aul. diz o mesmo quase que sinal. – Nativo = oriundo. Mas a diferença entre eles marca-se bem neste exemplo: “O filho de europeu nascido no Brasil é indígena. próprio do país”. – Aborígene e autóctone confundem-se de ordinário. Só.. “O preço de um objeto vendido sob garantia é devolvido ao comprador se. – Segurança é propriamente “garantia moral”. ou por um terceiro que responde pelo cumprimento da obrigação. – Aborígene é o povo que se considera como o primitivo num país. A pessoa que a tal se obriga chama-se “fiador”. se não se cumprem as condições do contrato. indígena. pode ser direta ou indireta. em linguagem científica. parecendo que a diferença consiste apenas em ser o primeiro “escrito e formal”. que se formou. – Penhor é o móvel que se obriga ou empenha ao credor para segurança de uma dívida. Hipoteca é a obrigação de bens de raiz por alguma dívida. 52 ABORTAR.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 43 mas compreende-se que em casos tais não vale só a abonação de um parente”. íncola. ou de cumprir seu dever no caso em que ele o não cumpra. 51 ABORÍGENE. dada pelo próprio interessado que se obriga. frustrar-se. autóctone. portanto. e confunde-se com abonação. que subiu. mas decerto que não é aborígene senão o selvagem que aqui encontramos. antes de terminar o prazo em que a garantia cessa. fideijussória.

– Esteiro é um estreito braço de mar ou de rio que penetra nas terras. adoçar. mitigar. suave. atenuar. Malograr-se é não vingar. – Lagamar é “recôncavo mais vasto. a dor. a sensibilidade – como que adormecer. 53 ABRA.. 54 ABRANDAR. não suceder como se esperava” (Aul.). frustrar-se de todo e produzindo sensação”... “diminuir a intensidade do que é demasiadamente ativo” (Bruns. Fracassam conspirações. Falham planos. diminuir as proporções”. (É o que se chama no interior do Brasil igarapé. – Falhar é “não produzir o efeito desejado. aplacar pouco .44 Rocha Pombo impedir: aborta a conspiração malplaneada. – Fracassar é “falhar imprevistamente. moderar o ímpeto. abrigada (abrigo). onde as águas como que se espalham penetrando nas terras”. – Amenizar é fazer ameno.). – Angra é “um braço de mar. – Abrigada (ou abrigo) é “qualquer porção de mar manso (resguardado de certos ventos) onde os navios se podem refugiar contra tormentas”. – Suavizar é “fazer mais suave. amenizar. serenar. Também se chama furo ao pequeno canal que une duas porções de água maiores. como as campinas florescidas. segundo Bruns. duro. apaziguar. – Abra. – Golfo é porção considerável de mar que entra muito pela terra. de intensidade conveniente”. acalmar. reduzir força. enseada. moderar. abonançar. por muito útil que seja. isto é. de movimento.. uma abra alongada pelo interior da terra”. esteiro.. segundo o próprio radical. sensível. aprazível. temperar. isto é – o igarapé mais estreito ou menos franco à passagem de canoas). “fresco. meio doce”). mas que não penetra demais na costa”. – Temperar é “pôr em grau de força. – Enseada é “grande porção de água aberta. suavizar. – Recôncavo é “pequena enseada e metida mais para os fundos de uma baía ou de um golfo”. – Enternecer é tornar mais do que brando: é “fazer tenro. comovido”. – Adormentar é diminuir ou “suspender momentaneamente o movimento. – Calheta é um braço de mar ou de rio “apertado entre duas pontas de cer. como num rio. o lugar de bastante fundo que de qualquer modo está defendido do ímpeto das águas e dos ventos”. golfo.” – Atenuar é “fazer mais delicado. Frustrar-se é não obter o resultado que até certo ponto se tinha o direito de esperar: um filho inteligente frustra as esperanças do pai quando abandona o estudo pelo vício. enterne- lagamar. – Serenar é “fazer sereno. falham cálculos. adormecer. como fracassam grandes negócios planeados. é “fazer brando”. reduzir a menos. adormentar. Suaviza-se a voz. isto é. e aquela de que o governo chega a ter conhecimento. há de gorar se o público se não capacitar da sua utilidade. intenso nalguma coisa”. dócil. baía. “tanto na costa. – Moderar é “diminuir movimento. entrando por boca estreita e alargando-se no interior”. delicioso. O pai dirá que as suas esperanças se frustraram”. calheta. e “cuja abertura é ordinariamente bastante larga” (Aul. recôncavo. – Baía é “grande porção de mar que penetra na costa. angra. que aliás é mais preciso e mais forte. não ter bom êxito devido a causas alheias: malogra-se uma viagem quando um acontecimento nos impede de partir. os sofrimentos morais.). é. Gorar é não ter bom resultado aquilo em que fundávamos boas esperanças: uma empresa. terra”. – Adoçar diz propriamente “fazer doce” (como adocicar equivale a “tornar mais doce. falham esperanças. – Abrandar. e que sendo pouco profundo só dá curso a pequenas embarcações. a ação. forte. ampla e pacífica. tirar o que há de áspero. ou quando uma notícia nos obriga a retroceder depois de a ter principiado. conter em certos limites”.

cáustico.. – Abrasador (ou abrasante) significa propriamente “que reduz a brasas”: no sentido figurado diz. – Cálido e quente aproximam-se bastante. candente. – Sobre arder. . Também se diz: “sol carbonizante”. a violência. – Carbonizante significa propriamente “que reduz a carvão”. a emoção. – Acalmar. portanto. etc. que faz arder. Abrasar significa “reduzir a brasas” (sentido natural). abrasear e esbrasear. pois. arder. incendiar-se. está no mesmo caso de abrasante: vale por um superlativo de quente. queimar-se.. harmonizar. abrasear = “fazer da cor da brasa ou pôr em estado como de brasa”. como “sol abrasador”. “Como esta música ou esta voz lhe mitiga tantas dores. cálido.” “Não há nada capaz de mitigar-lhe aquela saudade”. antes. o verbo não encerra. etc. Não se diria com propriedade. em moderar há significação reguladora. Apaziguar diz propriamente “restabelecer a paz. ao mar. dos infortúnios. “que dias quentes”. Emprega-se. podem recrudescer: “o vendaval que acalmara (que ficara menos forte) ao amanhecer. e ajunta à noção de abrandar a ideia de “agradar. quando levanta 6 Há uma certa diferença entre abrasar. incinerar-se. quando se desenvolve a chama. inflama-se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 45 a pouco”. isto é. a sua significação é a mesma nos dois sentidos: serenar. devendo notar-se o flamar-se. quente. Quente é o que “pode ter mais ou menos calor. “que atua como o próprio fogo”. vermelho e crepitante como brasa”. Dizer que a idade acalma as paixões não significa tanto como “a idade modera as paixões”. Efetivamente. abrasar-se e queimar-se. comburente. – Ardente. pôr de acordo”. e o segundo exprime propriamente “que queima”. fazer cessar a tormenta” (Bruns.. – Candente se diz daquilo “que de tão quente parece ou branco ou vermelho”. abrasador.). Nem deve este adjetivo ser usado. – Mitigar é moderar o rigor. que tem referindo-se ao tempo. desencadeou-se depois com mais fúria”. Bruns. – Queimoso é o mesmo. ardente. consolar”. escreve Roq. – Cáustico e queimante dizem quase a mesma coisa: apenas o primeiro aplica-se para significar coisa ou droga que “destrói o tecido orgânico como se fosse fogo”. queimante. ardente. no entanto. ou cuja temperatura.: “Explicam estas palavras os diferentes graus pelos quais pode passar um corpo combustível desde o instante em que se lhe ateou fogo até que foi inteiramente consumido. porém. determinada por ação estranha. “tão quente que parece queimar como o fogo”. esbrasear = “tornar quase como brasa. conflagrar-se. com o verbo estar. inflamar-se.. tem cabida ao falar das calamidades. estabelece uma gradação ascendente no valor destes três adjetivos e dispostos nesta ordem: caloroso. ou que abrasa”. a rudeza. – Caloroso define-se pelo próprio radical. com o valor de cálido quando se diz: “clima quente”. etc. in- loroso. a violência. 55 ABRASADOR (ou abrasante). “é fazer diminuir a cólera. por exemplo: “a sopa está cálida”. e se manifesta à simples vista. – Comburente quer dizer “que produz combustão. na acepção que tem aqui. incendiar-se. queimoso. ca- seguinte: cálido é o que tem naturalmente um alto grau de calor. a ideia de ser a calma completa nem duradoura. – Abonançar – “fora do sentido reto. Quando penetra o fogo num corpo combustível. segundo Bruns. a agitação. pode aumentar ou diminuir”. 56 ABRASAR-SE6. e apenas menos forte que queimante. carbonizante. a moderação sendo constante: o que não se dá com acalmar. deixa supor que a agitação. dizemos que arde. considerados como tempestades da vida. ao vento. pelo contrário. o que de si mesmo é quente.

e ainda depois. e antes disso. – Abreviar é “diminuir o tempo em que alguma coisa se há de fazer.46 Rocha Pombo labareda e se propaga com rapidez e fracasso. resguardo. resumir”. – Reduzir significa neste grupo “fazer mais simples. acolhida. amparo. restringir. é o mais genérico do grupo. uma proteção. que significa “levar. Os descendentes de Hércules fundaram em Atenas outro asilo como o de Cadmo. Rômulo fundou também um asilo no bosque entre o Palatino e o Capitólio. caminho. asilo quer dizer: “lugar de refúgio. de onde ninguém pode tirar os que se acolhem nele”. encurta-se um Ilinc lucum ingentem. pouco mais ou menos com as mesmas diferenças”. Pas. refúgio. destruir completamente pelo fogo”. Pode abrasar-se um corpo sem formar labaredas: – tal é o ferro na frágua. e tomando ala faz rápidos progressos. 58 ABRIGO. e aplica-se particularmente às matérias líquidas e resinosas. queimou-se. aplicando-se tanto no sentido moral como no físico. 57 ABREVIAR. uma defesa contra a força e perseguição. roubar. Diferença-se. colher o que é demais. – Incinerar diz propriamente “queimar até reduzir a cinzas”. valhacoito. fazer menor o que se supõe grande no comprimento”. como trabalho mental. Tanto pelo fogo ordinário. como pelo incêndio. do qual faz menção Virgílio nos seguintes versos: diminuir. restam somente os resíduos incombustíveis. incendeia-se. que por isso se chamam inflamáveis. apesar de compacto. a decisão de um caso ou de um negócio. Abrevia-se um prazo. é apressar. Usa-se frequentemente no sentido translato. quando o corpo que deu alimento ao fogo. escreve Alv. e diz propriamente “fazer menor”. – Os quatro primeiros termos tomam-se no sentido figurado. encaminhar com mais presteza uma solução”. dificuldades de vida. . guarida. Cadmo fez edificar um asilo para todo gênero de delinquentes. Reduzem-se dificuldades de um negócio ou de uma campanha. diminuir em todas as dimensões. – Conflagrar é “pôr inteiramente em chamas. está todo repassado dele e feito brasa. houve asilos só para certos criminosos. et gelida monstrat sub rupe [lupercal. e quando a força do fogo ou do incêndio devorou a matéria combustível e a reduziu a cinzas. “Restrinja os seus gastos. “Vamos restringir todo o nosso esforço a nada arriscar em vão”. reduzir um prazo. aqui. despedindo chamas. – Encurtar é “diminuir distância. asilo.. quem Romulus [acer asylum] Retulit. aspirações. extensão. esconderijo. Etimologicamente. tirar”. caminho. O incêndio supõe um grande fogo que. arder de inflamar em que o primeiro designa a ação ordinária pela qual o fogo se apodera dum corpo e o vai consumindo. uma corda. – Restringir é “tornar mais curto ou limitado como que apertando os extremos”. abrasa-se. acolhimento. e até saudades. como se reduzem aspirações. se comunica aos corpos vizinhos. se queimam os corpos quando.. homizio. depois de consumido o que dava alimento ao fogo. encurtar. esforços. reduzir. ímpetos. Diminui-se tanto prazo. – Diminuir. pois. e por isso figura em outro grupo. o refúgio é um recurso contra a indigência. “Asilo é derivado do a privativo. e do verbo grego sylan. coito. e o segundo designa a força com que a superfície deste corpo arroja de si o fogo que a penetra. portanto.] O asilo é. e tudo irá melhor”. e segundo o seu verdadeiro sentido.. – Sobre asilo e refúgio. fazer menos demorado. a aflição etc. uma haste..

proteção momentânea contra algum mal ou perigo iminente”.). “Debaixo da árvore encontrou resguardo contra o sol”. distinguindo-se apenas em não dar. hospeda e agasalha”. 59 ABRIR. – Valhacoito é o “lugar seguro onde alguém se refugia e abriga contra o que teme ou procura evitar”.. o “lugar seguro onde alguém se oculta fugindo a perigo. em vez de: “. Emprega-se em sentido figurado para designar “abrigo ligeiro. teve bom acolhimento”. da morte”. soabrir. tem o melhor ou o mais cordial acolhimento o parente que não víamos de muito e que chega de surpresa”. em que têm amparo e defensão certa”. – Homizio é “valhacoito procurado por criminoso perseguido da justiça”. Chega-se a dizer: “A delegação de tal país teve boa acolhida na corte do imperador. como se vê neste exemplo: “A religião oferecia-lhe seguro acolhimento das lutas mundanas”. em vez de: “. es- cancarar. – Soabrir é “abrir muito pouco e instantaneamente”. – Coito (ou melhor. – cit. de garantia por lei ou costume. da Ac. do latim cautum) era a propriedade ou lugar “onde não podiam entrar as justiças de El-Rei”. fácil esconderijo. e acolhimento é “o modo como se recebe.. e hoje quase todos parece que preferem empregar acolhida. e busca num porto amigo um asilo fugindo à força superior que a persegue. onde alguém se furta a olhares de estranhos”. a igreja é um asilo para o criminoso.. proteger de qualquer modo. “A eles (montes) se acolhem (os homens) como a castelos e lugares.. portanto. escancarar) marcam estes vocábulos uma perfeita gradação de sorites.. por uma por- . Acolhida é. – Entreabrir é “abrir pouco e com cuidado. acolhida”. como asilo. E também: “Por mais pobre e humilde que fosse. soabrir. e onde. a ideia de segurança. – Dispostos em outra ordem (descerrar.. as pessoas que se recolhiam. – Acolhida e acolhimento confundem-se muito. ou a perseguição”.) – Esconderijo é “lugar. oferecia-lhe segura acolhida”.. Até em mestres se encontra confusão. mas de modo a poder-se ver e falar para fora. “O assassino buscou ou teve homizio seguro no sertão... entreabrir. entreabrir. – Resguardo é “defesa. “A casa de um antigo discípulo lhe serviu de abrigo no último período da vida” (Aul. onde alguém procura abrigo fugindo às vistas de pessoas a quem tenha de dar contas de alguma coisa”. ou na folha da porta. – Amparo significa o ato de acolher e sustentar ou apoiar... mesmo nos casos em que só caberia acolhimento. foi afinal ter na casinha do pobre fácil resguardo contra a tormenta”. abrir.. pois. Descerra-se uma porta. Busca a nau um refúgio em qualquer porto fugindo à tempestade que receia. “Perdido no campo.. Por uma janela soaberta mal se revezaria uma voz ou se distinguiria um vulto.” em vez de: “. ficavam fora e livres dela. “Recolhida naquele soberano asilo. pois. “Os bandidos têm o seu valhacoito lá no fundo da floresta”. couto.. se o afastamento que se operou no pano da cortina. ou uma cortina. ou na casa de alguém”. (Cardoso) “Por isso Tertuliano chamou judiciosamente à sepultura asilo. – Descerrar é apenas “desunir o que estava unido ou cerrado”.. e sagrado. a coitadinha dispensou o acolhimento que lhe quiseram fazer naquela casa”. deu-se toda a Deus”. Aul. “o próprio ato de receber como quem protege e acarinha”. – Guarida é propriamente a cova ou covil onde as feras se recolhem contra a chuva ou a tormenta. sempre escuro. ou de fora para dentro”..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 47 O hospital é um refúgio para os pobres doentes. descerrar. O couto é. “Tem boa acolhida em nossa casa um amigo que nos procura para pedir-nos um obséquio. deixa passagem apenas a um raio de sol ou a uma réstia de luz. (Vieira) – Abrigo é quase o mesmo que asilo. (Dic.

destruindo portanto a unidade ou o todo desmembrado. Em referência a caminhos de ferro. Tanto que não se diria. ligado. segundo a lei”. parcéis. escancara-se a gargalhar. – Soltar enuncia a ideia geral de “libertar coisas que estavam juntas ou presas umas a outras”. separar por sentença. em geral. apertado”. soabrem-se os lábios num ríctus imperceptível. diz Roq. separa-se a Igreja do Estado: em regra. sendo elas distintas e indicando coisas diferentes. coisas que haviam sido incorporadas ou ajuntadas. portanto. ou no seu lugar. – Distanciar é “afastar muito as pessoas ou coisas que se separaram”. – Afastar é “pôr uma longe da outra as coisas que se desuniram ou separaram”. que “os autores as têm confundido. uma gaveta. já não se emprega o verbo abrir.” Separa-se o trigo do joio. Abre-se uma caixa. separam-se os bons dos maus. e na acepção lata é “separar definitivamente”. – Desligar é antônimo de ligar e diz. eliminando os embaraços que se acharem entre uma e outra.48 Rocha Pombo ta entreaberta um homem não passaria. “desunimo-nos ao chegar à vila”. 60 ABRIR. Mesmo quando se abre um caminho não se faz outra coisa senão. duas ou mais coisas ou pessoas. cachopos. (Aul. alguma outra coisa”.. – Apartar é “impedir que continuem. duas ou mais coisas. – Divorciar é. sirtes. mesmo que nunca tivessem sido unidas. aqui. desmembrar. – Quanto às quatro primeiras do grupo. desprender. quase sempre junto das costas. Divorciam-se colegas.. baixos. tratando-se particularmente do vínculo conjugal. Abre-se uma janela para falar com alguém. banco. e onde rebentam as ondas. restingas. separar. Dizem os etimologistas que cachopos é corrupção de scopuli “rocha”. unidas”. distanciar. – Abrir. Abrolhos é voz usada em sentido transla- . e é só neste sentido que se diz – “abrir caminho”. – Escancarar é abrir completamente. pois o verbo desunir só se deve aplicar quando se trata de coisas que tinham sido enlaçadas. baixios. amigos que se separam para sempre. associadas. desligar. a ideia de soltar. ou um lado do caminho do outro lado. portanto. desunem-se. cada qual para o seu lado. afastar. desunem-se mesmo povos que eram amigos. apartar. – Desprender ainda exprime com mais força.. escolhos. Desune-se um casal (separando um do outro esposo). Abrir é “remover alguma coisa da abertura que está ocupando (fechando) de modo que deixe passar. ou as partes de uma coisa umas das outras. mas veria distintamente quem estivesse dentro da casa. – Todas estas palavras designam acidentes ou situações no mar (ou nos rios). por exemplo: “desunir os bons dos maus”. – Desmembrar é desunir ou “separar por membros”. um pacote de biscoitos. soltar. “separar o que estava ligado”. ligadas intimamente. desunir. e de modo mais preciso. – Desatar é “deixar livre uma coisa que estava presa por nó”. entreabrem-se os lábios a sorrir. desunem-se famílias que viviam em perfeita união. Cachopos são penhascos que saem fora d’água. separar “o que estava unido. “Fazem tudo por divorciar-me do meu partido”. fare- lhões... “de lés a lés”. “Nunca se divorciou da religião de seus pais”. porque em tal caso já não se trata só de “separar as margens”. – Desunir é antônimo de unir. e significa. por essa abertura desimpedida. separa-se uma coisa da outra. e que impedem ou dificultam a navegação. desatar. – Separar diz propriamente “pôr.) Abre-se a boca falando. recifes. separar uma da outra margem. alfaques. é “afastar uma coisa da outra”. “desunir. por exemplo. abre-se uma porta para que alguém entre. o mais possível. divorciar. 61 ABROLHOS.

Alcantilada é. mas pode navegar-se. Farelhões são “escolhos pontiagudos. São menores que os cachopos. e de impossível ou muito difícil acesso. ladeirento. – Empinado é o menos preciso destes cinco vocábulos. conforme a origem arábica. – Absconso e abscôndito não são apenas. “a encosta nua de um monte que fica vertical. por falta de altura de água. como parece. – Absconso . secreto. às vezes. e também arrecifes) designa “rochedo ou série de rochedos pouco destacados da água e perto da costa embaraçando a navegação”. – Restingas são baixos de penhascos. alcantilado. – Quanto às palavras que se seguem. Mesmo de uma ladeira pode dizer-se escarpada. para onde a corrente arrasta as embarcações. escarpado. escondido. recôndito. ou contíguos à costa. pode-se subir”. quase empinado”. mas com a circunstância de serem desiguais e muito fundos. e por isso perigosíssimos”. risco por causa da pouca altura de água. – Íngreme é “menos inclinado. empinados acima d’água. ainda empregado como adjetivo. formas eruditas de escondido. uns contíguos à terra. empi- nado. onde se corre. Escolhos são aqueles penhascos que estão debaixo d’água e não se descobrem bem: donde resulta serem mais perigosos que os cachopos. mas o parcel tem pouca altura. ou menos a pique do que alcantilado. ou de areia. clandestino. íngreme. por exemplo. de rocha ou de coral.. até a penúltima. pois não seria próprio dizer: “os escondidos desígnios de Deus”. sem dúvida.. Este diz precisamente “posto fora das vistas. e têm a circunstância de prolongar-se. – Abrupto difere de alcantilado e de íngreme em ajuntar à noção de “flanco a pique a ideia de áspero. – Ladeirento = “disposto como em ladeiras. Mas absconso e abscôndito já não seriam aplicáveis propriamente senão em sentido moral ou abstrato. outros formando ilhetas: e por sua grandeza. – mesmo porque escondido. “a escondida intenção de levar-me à forca”. no que se distinguem dos parcéis. – Banco é “cômoro ou elevação mais ou menos extensa de areia. inclinado.: “Baixos é palavra genérica. e designa o fundo do mar onde há pouca altura. mesmo muito íngreme.. cobertos de água.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 49 to para indicar aqueles cachopos que formam pontas como a planta chamada abrolhos ou estrepes. ou pelo menos não seja fácil encontrar”.. – Recifes (ou recife. que são baixos iguais.. Baixios (prolongamento de baixos) são bancos de areia em que. são baixios ou bancos de areia ou de pedra. por isso que se espraia largamente (chamando-se também por isso esparcelados). ou quase a prumo. Deve aplicar-se particularmente a coisas materiais. escreve Lac. 62 ABRUPTO. – Escarpado diz “íngreme e difícil de subir”. ocul- to. conserva alguma coisa da sua função de particípio. e por onde não se poderia subir ou descer sem grande esforço ou sem artifício”. onde não há fundo para navios de grande calado”. – Alfaques. por espaço de muitas milhas. aprumado. não se pode navegar sem risco. um monte. abscôndito. encoberto. de modo que não seja possível. e pelo perigo que perto deles correm os navios. O alfaque é breve e fundo. – Sirtes são baixos de areia movediça por entre penhascos. retruso. “as grandes verdades escondidas ao vulgo”. e por isso ali tocam os navios. Uma ladeira. escabroso”. – Aprumado = “talhado a prumo”.. 63 ABSCONSO. e tanto pode aplicar-se a um cume de monte como a uma encosta que seja tão íngreme que pareça levar como verticalmente ao pino do monte. se é tal o declive que torne penosa a decida ou a ascensão. andam assinalados nas cartas marítimas”.

.) “é a forma de governo monárquico em que o poder é exercido pelo soberano. o sol. – O absolutismo (diz Bruns. misterioso. e podendo aplicar-se tanto em sentido moral como físico. “O mísero ali ficou. devido à interposição de algum corpo opaco entre essa coisa e a nossa vista”. “O abscôndito espírito de Deus era sentido ali no oceano”. Também se dá o nome de despotismo à forma de governo em que o monarca não tem de obedecer a nenhuma lei. Chamamos casamento secreto ao que. escreve Roq. os acordos secretos. haveres e liberdade de todos os súbditos. Com o absolutismo podem conciliar-se intenções retas e benéficas. O despotismo é o abuso do absolutismo. retirado muito para a profundeza”. Os avisos. como. virtudes eminentes. – Clandestino é “o que é secreto e contrário à lei”. “O sol ficou oculto pela árvore ou pela nuvem. as quais velam pela vida. por exemplo. até que passasse o perigo”. os cabedais ocultos no seio da terra”. Deve aplicar-se a coisas materiais. por qualquer motivo que nos é pessoal. despotismo. o horizonte está encoberto. – Recôndito exprime “escondido muito longe. diz ainda abstruso. militarismo. – Tirania é palavra que tem hoje significação diferente da que teve em tempos idos. em Marrocos. que é clandestino vem a ser secreto: este é lícito. e chama-se clandestino quando o celebramos às escondidas sem observar as regras que prescrevem as leis canônicas. faltando à lei. Secreta é uma junta quando secretamente se celebra. oculto. repulsado à força”. caudilhismo. porque fica “como em segredo e reservado a alguns”. É agora tomada como enunciando a ideia de um excesso de poder político degenerando em dureza de mais rigor que o despotismo. 64 ABSOLUTISMO. “Nestes últimos tempos” – escreve Roq. e é clandestina quando se faz às escondidas. além de oculto. depois esgueirou-se para um ponto recôndito do parque. recônditos e humildes nesta miséria”. aquele. só porque governa como senhor absoluto. ou “a coisa que não podemos ver. ou procurando violá-la sem que ninguém o conheça. “Absconsos intentos da majestade em furor”. o secreto processo. não obstante ser permitida. os ocultos desígnios da Providência. retruso e hostil. Quanto a estes dois vocábulos. “Lá esteve tímido e retruso. Disto resulta que nem tudo o que é secreto é clandestino. e ainda às vezes negamos. ou a secreta vida das abelhas.. não declaramos. – Recôndito e retruso aproximam-se. nada disso. tudo. dados ou feitos por um ministro”. persegue e atormenta. – Retruso diz “posto para o fundo.50 Rocha Pombo ajunta à significação de escondido. e é clandestina quando se verifica clandestinamente contra o expresso mandado da lei. “O tempo. é o caso omisso que o monarca faz das leis que deve respeitar: quando o absolutismo oprime. chamadas leis do Estado. “Ficaremos para sempre no sertão. assim como abscôndito.. as operações. – Oculto é simplesmente “furtado às vistas” de qualquer modo. ditadura. a ideia de concentrado e profundo. porém. esse poder é limitado por leis. de onde pôde dar o bote certeiro”. tirania. converte-se em despotismo. quer dizer. “O trabalho secreto dos conspiradores. nem confessamos. . as intenções ocultas do mouro. e em certos casos figuradamente. – “tem-se dado tanto o nome de tirano como o de déspota ao rei absoluto. deixaram-nos sempre cuidadosamente encoberto aquele intento”. num canto da sala. retraído às vistas. porém. autocracia.. o céu. não”.: “Uma coisa é secreta quando ninguém ou poucos a sabem ou conhecem. humilhado. – Encoberto é o que ficou oculto. se estende ao despotismo. as maravilhas secretas da natureza. – Secreto se diz do que fica mais que oculto. O absolutismo é chamado autocracia ao falar-se da Rússia”.

tirano e déspota. ou acidentes ou mudanças imprevistas. seja legal ou de força. declaração definitiva”. determina ou dispõe imperativamente. categó- rico. Dizemos: “forma imperativa da lei. – Categórico diz o mesmo que “precisamente definido. Para compreender. intento. aquele em quem se reconhece um direito indisputável de mando. parecer. exige. ou que se funda na supremacia da força armada. – Irredutível apro- . obriga aos demais a fazer o que não devem contra toda a razão e justiça. – Decisivo equivale a “que põe termo a toda dúvida.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 51 o que é um grave erro. quer. claro”. imperativo.: “Quem é absoluto quer ser obedecido. ou tomara uma atitude imperativa” e: “fez um gesto. – Ditadura é um regímen excepcional que se caracteriza pela concentração de todos os poderes políticos do Estado nas mãos de um chefe. Entre imperioso e imperativo só existe a diferença marcada pelos respetivos sufixos. atitude. Quando se diz que uma pessoa. ou que não muda de resolução”. nem lhe façam observações. sentido imperativo de uma frase” (e não: imperioso). cabal. acima de contingências. – Arrogante é o que se impõe “com soberba e altivez. senão na aplicação delas. ou tomara uma atitude imperiosa”. – Sobre absoluto e imperioso. Quem é imperioso quer. pois. pode não o ser tanto no que toca à execução efetiva das suas ordens”. clama. incondicional. se aprovam ou não a sua conduta é. permanece inabalável nos seus propósitos. dúvida ou contestação. quer-se dizer que ordena mais com arrogância do que com autoridade. A tirania e o despotismo não estão nas instituições. pois ajunta à significação deste vocábulo uma ideia de excesso de orgulho com que se manda. com exatidão a diferença que existe entre as duas palavras. não na forma de governo. e que lhe deem provas de deferência e submissão. quando se diz que dispõe ou determina imperiosamente. decisivo. que é definitivo. absoluto significa “fora de contraste. arrogante. porque tão tirano e despótico pode ser o governo de um como o de muitos cônsules. tomados num sentido restrito. ordena de modo que não deixa lugar a dúvidas ou observações”. – Em sentido amplo. etc. exprime-se que essa corporação ou pessoa tem competência e autoridade para dispor ou determinar. como quem se presume forte e ufano da sua força”. definitivo. extremamente exigente neste ponto. livre de embaraços de qualquer natureza”. peremptório. inapelável. que não admite réplica. terminante. ponto secundário: o que ele quer é a execução efetiva e completa do que decidiu. que ordena. Sentimos bem nitidamente a distinção destas frases: “fez um gesto. sobretudo. – Militarismo é o sistema em que o poder político é exercido por chefes militares. não somente o opressor. senão o dominador”. e quaisquer que sejam as observações que lhe façam. senão nos atos dos que governam. É mais do que imperioso. déspota. Imperioso equivale a “que se impõe. ou de tal artigo de uma lei. resolve. – Definitivo = “que explica. “Opinião. e que. ainda quando seja seu igual na sociedade. não sujeito a contrariedade. ou uma corporação. para o homem absoluto. escreve Bruns. pretende que ante ele se observe uma postura respeitosa. irredutível. – Caudilhismo é adaptação do antigo espanhol (de capdillo “capitão”) para significar o regímen político caracterizado pelo predomínio de chefes de bando em certos países da América. positivo. e déspota. Tirano por conseguinte é o opressor. valendo-se do dito direito. que o não contradigam. que exige com império”. imperioso. 65 ABSOLUTO. que não deixa lugar a dúvidas”. basta ter presente que tirano é aquele que oprime a outro.

portanto.” Entre remitir e anistiar há esta diferença.52 Rocha Pombo xima-se aqui de decisivo: diferençando-se deste em sugerir também a noção do grau de força ou de capacidade com que a coisa ou pessoa irredutível não altera o seu modo de ser ou de agir. ou não tivesse sido perpetrado. 66 ABSOLVER. – Quanto aos três primeiros destes vocábulos. – Escusar e tolerar sugerem a ideia de “deixar que passe a falta sem puni-la”. – Ábsono diz propriamente “que discrepa. escreve Bruns. Pas. ou com a regra estabelecida ou vigente”. Perdoar é esquecer uma ofensa. o crime político”. desen- indultar. descriminar. “que não admite outra solução”. direta do grego. que se afasta de outro som. discordante. Remitem-se culpas. quer. perdoamos a pena. – Incondicional é “o que se não sujeita a condições. 67 ÁBSONO. agraciar. e dá prova mais de misericórdia que de justiça. acabado. desafinado. ou de redimir. e suspende a execução da justiça”. Despacho. – Inapelável = “de que não há recurso. discordante. não se submete a continências. malsoante. o mais próximo de ábsono: exprime não só destoante. escusar. – Desculpar diz propriamente “relevar a culpa.: “A remissão é concedida por quem cede dos direitos que lhe competiam acerca de alguma coisa. ou que era preciso seguir”. discordante. etc. – Desarmônico é o mais geral: exprime “que não faz harmonia ou acorde. destemperado. e tanto que. – Terminante diz propriamente “que põe fim”. desafinado. dívidas. desarmônico. ou em parte. não cede do que resolve. Este verbo dá também a supor que a pessoa a quem se faz a remissão tem certas condições que a tornam credora desse benefício. terminante. deixar como se não existisse. que não está . Remitir é desistir em todo. portanto. não sujeito mais a dúvida ou a nova resolução” – Cabal = “pleno. toado.: “Absolver é desligar o culpado dos laços que o prendiam. acima de eventualidades”. Confunde-se. – destoante é o que não condiz com o “tom próprio. ou do som conveniente”. – Peremptório = “que completa e decide. Absolvemos o acusado. completo”. desarmonioso. remitir. renunciando a qualquer desforra. pensa. – Malsoante diz propriamente “que soa mal”. decisão. perdoar. juiz. remitir dá uma ideia de resgatar. de acordo com Roq. anistiar. compete ao príncipe e ao magistrado. só o soberano ou o órgão legítimo da soberania nas repúblicas é que anistiam. discrepante. mas sugere ainda a “ideia de muito afastamento do som que convém ou da harmonia dominante”. ou que não se associa a outro som para formar harmonia”. – discrepante é. do que havia direito a exigir. – Desentoado é o que está “fora do tom próprio.. – Anistiar é adaptação moderna. – discordante é “o que se não põe ou não está fiel ao acorde. acerca de remissão. tribunal inapelável. ou não faz acorde com outro som”. discrepante. “imperativo”. destoante. ou a falta cometida”. fica fora de hipóteses. de desarmônico. diz Alv. é convizinho. tolerar. – Descriminar equivale precisamente a “absolver de crime”. ou a qualquer castigo. remitimos a dívida. do grupo. e significa “esquecer. Tanto quem escusa como quem tolera supõe-se que tem alguma superioridade sobre aquele a quem aproveita a escusa ou a tolerância. dissonante. convindo notar o seguinte: dissonante diz apenas “que não está de acordo com o som que se quer. – Indultar e agraciar dizem aqui mais particularmente “conceder perdão de crime de alta gravidade”. pecados. de que se não pode apelar”. com outros do grupo: dissonante. destemperado. desculpar. destoante. Quem indulta ou agracia exerce função soberana.

– Desarmonioso é o mais geral e absoluto do grupo: não precisa. – Sorver diz também “beber aos sorvos” (Aul. além disso. muito mais próprio dizer-se: “O doente não tem mais forças nem para deglutir alimento sólido. não sendo fácil. ou de “deixar que vá ao estômago. A consumação serve para a reprodução. 68 ABSORVER. – Comer é quase o mesmo que consumir. em regra. rapidamente”. consumar. ou uma voz pode ser desarmônica sem ser propriamente desarmoniosa. cujo sentido próprio é acabar. É. enunciada pelo prefixo ab. consumir. A esponja chupa a água. que é desordenado em si mesmo e fora de toda conveniência”. ou ao fundo”.” Só se aspira matéria gasosa. Um som. No meio de um tumulto a palavra ponderada é desarmônica (isto é. – Engolir exprime simplesmente a ação de “levar ao estômago”. ainda que o primeiro designe antes a ação de completar. e o segundo a de destruir. tomaram-se outrora indiferentemente um pelo outro. pois não se supõe que a esponja faça esforço em chupar a água. ‘No mar quase toda consumação se faz em proveito da reprodução’ (Buff. aspirar. – Sugar é equivalente de chupar. beber. atrair líquido quase sempre com esforço”. deglutir. – Chuchar parece a alguns uma simples forma popular de chupar. e rigorosamente. por outro lado. Diremos que “o oceano engole (e não – deglute) a embarcação”. consumir com avidez. com a significação que têm aqui.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 53 igual ao som dominante”. o fumo. deglutir marca. – Beber é “engolir líquidos”. consome-se uma certa matéria”. não afina pela desordem que aí reina).). ou o instrumento destemperado desordena de todo a harmonia. Assim consuma-se um ato. Distingue-se deste por incluir. mal engole caldos”. Sobre consumir e consumar diz Bourguig: “Consumar e consumir. tragar. – Absorver designa a ação de “consumir pouco a pouco. pelo nariz ou pela boca. a voz. Nos tempos coloniais dizia-se no Brasil “beber fumo”. – Entre engolir e deglutir pode notar-se diferença análoga. distingui-los precisamente.). a ideia do esforço com que se engole. –” Devorar é “tragar. porque em absorver há. Laf. – Sobre devorar. engolir sofregamente. devorar. chu- char. latino. “A ação de consumar – diz ele – não destrói em vão como a de consumir. de perfazer. – Tragar é “beber aos tragos e tomando bem o sabor. ou que está completamente fora do tom: é mais que desafinado. E tanto que dizemos: “o mar sorveu o frágil batel” (não – absorveu. destacando porções”. e até muitas vezes não faz senão causar prejuízo. enuncia a ação de “mastigar e engolir”. mas não marca a ideia de desligar de todo as partes que vão sendo sorvidas. sem mastigar”. – Desafinado exprime “que não está no tom próprio. por tragar ou aspirar. que não se afina convenientemente”. – Consumir acrescenta à noção de absorver a ideia de “extinguir lentamente. A consumpção não serve para nada. ou a voz desafinada não faz harmonia perfeita. chupar. engolir. o ar. – Aspirar é “atrair aos pulmões. sorver. o que nem sempre se dá em relação a chupar.: “Comer vem de comedo. ideia de esforço para consumir separando por partes a coisa a absorver). a ideia de esforço. sugar. A abelha chupa o mel. que não tem harmonia. de gastar (user). e significa mastigar e engolir . julga os dois verbos como quase perfeitos equivalentes. etc. mas outros o derivam (como Aul. – Destemperado é o que desafina de todo. comer. tragar e comer escreve Roq. de adjunto completivo: enuncia “que não faz acorde. O instrumento. que significa igualmente chupar. fazer que desapareça”. – Chupar = “sorver. O morcego chupa o sangue aos outros animais.) do latim sugere.

maravilhado. (Aul. c. c. dando porém a entender que a causa desse estado é algo que impõe medo. (Souza. – Abismado diz mais que assombrado. estatelado. Da boca do facundo capitão Pendendo estavam todos embebidos.: “Admirado.) – Enlevado exprime a nímia confiança que se põe num parecer.. ficamos admirados ao ver o que não esperávamos. enlevado. metido nos poros: a esponja embebe-se do líquido. diriam exatamente o mesmo que extático e extasiado.”. – Meditativo e meditabundo parece que têm a mesma significação. abstração. – Contemplativo é “absorto em coisas místicas”. de devoro. arrebatado “de grande admiração e como em esquecimento de si próprio”. mas no sentido em que aqui se toma quer dizer – profundamente atento.. III) – Embebido significa. respeito etc. amante enlevado num falso parecer. abismado. apreensivo. E casar-se com ela. Lus. “Eis que no meio da Missa fica subitamente arrebatado”.. e do. Lus. admirado. e no entanto diferençam-se assim: meditativo quer dizer – “dado. tão intenso que chega como a alienar-nos. assombrado e abismado escreve Bruns.) – Estático e estatelado. estático.” Assombrado é “muito admirado”. delíquio ou inanição. preocupado. de medo.. Num falso parecer mal entendido. (Cam. (Cam. ao pé da letra. ouvintes embebidos etc. a ponto de ficar como maravilhado da vista dessa pessoa. distração. significa comer ou tragar com voracidade ou sofreguidão”. pois nos representa como “caídos em abismo de que não se sai”.: “Arrebatado usa-se não poucas vezes para se exprimir um deleite mental ou corpóreo. e arrebatados em Deus”. – Impressionado diz propriamente “sob a tortura de impressão de dor. distraído. – Absorto exprime: como que “fora da consciência.. arrebatado. o mais usual destes termos.54 Rocha Pombo alimentos para sustentar-se. nas qualidades ou promessas de qualquer pessoa. assombrado. Estatelado acrescenta a estático uma ideia de esvaimento. embebido e arrebatado escreve Alv. de suspeitas”. que ama o afastamento. extasia- “tinha embebido em si a doutrina do Apóstolo” (Feo). meditativo. é o de menor significação. – Extático diz “absorto. e devorar. propenso a refletir. que vive ou está “como se tivesse a alma toda voltada para fora do mundo sensível. contemplativo. arroubado. que está “solitário. – Maravilhado diz mais que os três precedentes: ajunta-lhes a ideia de “grande surpresa e admiração que nos abalam e deixam em pasmo”.) “Saiam como fora de si. tragar vem de trogo. grego (τρώγω) e significa engolir sem mastigar. – Pensativo está ou fica por momentos quem “pensa ou parece pensar só nalguma coisa”. V) Homem arrebatado em Deus. insensível a tudo que está em torno”. se só os olhos pudessem julgar. pensativo. 69 ABSORTO. meditar em graves coisas”. ou da contemplação de suas qualidades. – Arroubado significa “arrebatado de altas emoções ou de sublimes pensamentos”. de desconfiança. .. – Sobre enlevado. Pas. etc. Estático exprime “parado. imóvel como estátua. extático. abstraído (abstrato). e numa concentração de todo o espírito num assunto”. meditabundo. d’enlevado. embebido. – Preocupado ajunta à noção de impressionado a ideia de “pungido de cuidados”. – Sobre admirado. enlevado em êxtase”. impressionado. – Extasiado “o mesmo que absorto e em pasmo”. latino. meditabundo diz mais “pensativo e triste”. de pressentimentos. – Apreensivo significa “tomado de cismas. (Feo. silencioso e melancólico”.

por assim dizer. e na consideração de suas abstrações. O homem que se aparta do trato e comunicação das gentes. merece o nome de abstraído. atraído para longe de”. de diversos lados ou para diversos lados”. distraindo-se de suas obrigações.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 55 pela visão interior vendo o que os olhos não têm a faculdade de ver”. Uma palavra casual nos leva insensivelmente de um objeto exterior a outro interior abstraindo-nos inteiramente daquele. servindo-se de uma por outra. pois a abstração se exerce de fora para dentro.: “A palavra abstração vem da latina abstrahere. evaporado. a da distração é exterior”. abstrair-se nisto. e é um novo objeto exterior que faz o . dissipado. e abstraído quando a referimos às pessoas. por assim dizê-lo. a metafísica. segundo a expressão de Bossuet. pois. Em nosso entender. o pensamento do indivíduo. abstractus “tirado. abstraídos nelas. ou se faz um ruído forte. Se estamos engolfados em nosso estudo solitário. distrai-nos. e assim dizemos: Este homem está sempre abstraído em seus estudos ou meditações. – Sobre abstraído e distraído lê-se em Laf. A causa das abstrações é antes interior. escreve magistralmente: “Encerra-se nestas duas palavras a ideia comum de falta de atenção. olhamos a abstração como uma coisa habitual. e designa a operação do entendimento por meio da qual desunimos coisas que na realidade são inseparáveis. como o resultado de um caráter particular. daquilo de que se trata. A palavra abstrato usa-se quando a aplicamos às coisas. para podê-las considerar cada uma em particular sem dependência nem relação com as demais. ocupando-se ele tão fortemente com estas ideias interiores que só atende às coisas que elas representam. mas quando. e a filosofia. incapaz de aplicar-se ao que quer que seja. O espírito do abstraído está longe do que vós lhe dizeis. e dizemos abstrair-se quando nos alheamos dos objetos sensíveis para nos entregarmos aos intelectuais. separando-nos da abstração. Diz-se de um homem que está distraído no jogo em amores. mas com esta diferença: que são as ideias próprias. No cabedal das línguas cultas ocupam um lugar muito importante as palavras que representam ideias abstratas. chamam tanto a atenção dos que as estudam que. há verdadeira e notável distinção entre as duas palavras. porém. Alv. diremos que nos distraiu. Querem alguns que distração seja diversão do pensamento de todo objeto exterior para atender aos interiores. – Abstração é. achando-nos no mais profundo desta abstração. nos fere repentinamente os sentidos qualquer objeto exterior. que o fazem abstraído. fixando-nos nela com exclusão de todas as outras. Enfim. e comumente de distraído por abstraído. e. e não que nos abstraiu.: “Abstraído. ocupando-se. e de repente entra uma pessoa. ao contrário. abstraído e abstrato. Falamos em abstrato quando o fazemos com separação de qualquer coisa. uma como alheação do homem concentrado naquele objeto interior que o tira como de si mesmo. corresponde à linguagem metafísica. Uma imaginação abstraída só à sua própria ideia atende como se não houvesse outras. distraído. – Sobre distraído. por concentrar-se. de cuja definição resultará que haja pouca diferença entre as duas palavras. e a distração. de dentro para fora. e sendo estas o objeto das ciências mais elevadas. Pas. o espírito do distraído é instável. em conversação consigo mesmo. abstração e distração vejamos Roq. ele deixa vagar seus pensamentos. a que procuramos voltar bem depressa”. são indiferentes e como insensíveis aos objetos exteriores. que significa – separar ou arrancar uma coisa do lugar em que está ou supomos estar. distractus “atraído de um lado e de outro. ele está à mercê de todas as impressões. como a matemática. como uma ocupação contínua. A distração é momentânea e como passageira. em vícios.

nos entretemos com o nosso próprio cogitar. isto é.56 Rocha Pombo homem distraído. reluzente. priva- que gozamos ou queremos gozar. silencioso e solitário para o comércio divino”. – Cândido. acrescenta à ideia de alvura a de pureza e imaculidade. cit. mas para o que prefere os prazeres à saúde. lustroso. Pedro. limpo. estando a contemplar um objeto. lúcido. e assim se entende ser voluntária. porém o homem de razão abstém-se dele quando sabe que lhe é nocivo. e os distraídos meditam pouco. fúlgido. delicado. pois temos desgosto e ainda pena de nos vermos privados daquilo que muito desejamos lograr. luzente. branco. escutamos outro diferente. quando. – Alvo e branco se confundem. de cândido. polido se diz de tudo a que se deu polimento. nítido. estilo absterso e brilhante”. Uma pessoa abstraída tem o espírito muitas vezes a grandes distâncias: ora está em Lisboa em frente da estátua equestre. e pena de não poder gozar dela. caso raro é que se prive de vinho. ou que nos é indiferente. e falam muito.). e perdem o fruto das conversações”. 71 ABSTERSO. porém. e este significa “livre de manchas. fulgente é o “que está fulgindo ou sendo brilhante no momento”. brunido se aplica mais propriamente ao brilho que se dá aos metais. Cândidas al- . Fácil nos é abster-nos do que não conhecemos nem amamos. privar-se. brunido. “Devem guardar o coração desempenhado. e atrai a sua atenção. Podendo o bêbado beber. – Polido e brunido aproximam-se. – Fúlgido é o “que fulge de si mesmo”. estando a ouvir um discurso que se nos dirige. brilhante. como dizemos: “Linguagem tersa. sem ser pelo brunidor. fulgente.: Abster-se exprime a ação sem referi-la ao sentimento que pode acompanhá-la. – Vemos que abstinência supõe que podemos gozar de uma coisa. dados a nossas ocupações. imaculado. terso. Ficamos abstraídos quando não pensamos em nenhum objeto presente. ainda melhor que alvo. refulgente. “Os abstraídos meditam muito e falam pouco. nitente. e tanto na acepção moral como na física. Aul. recolhidos conosco. atendemos a festins etc. – Escreve Roq. Para o que prefere sua saúde aos prazeres. a abstinência não é na realidade privação. ou as antiguidades de S. a abstinência é também privação. Elys. luzido. (Bern. admirando as belezas da Ajuda. ouvindo tal orador no palácio das Cortes. polido. quando. alvo. nem desejamos. É difícil que não fiquemos distraídos quando. quando estamos numa parte e o pensamento noutra. mas a distinção entre os dois consiste em que alvo ajunta à noção de branco a ideia de puro. A privação é de ordinário forçada. abstraído. Refulgente é um reforço de fulgente. mas que por certas razões dela nos abstemos. escutando um discurso enfadonho. mas. com dificuldade. ouvimos do lado uma coisa interessante. – Absterso é como um redobramento de terso. Tanto se aplica em sentido natural como em translato. ora está em Roma no meio da praça de S. ção. abstinência. As abstrações são mais próprias dos homens dados a meditações.) As distrações pertencem mais aos espíritos levianos e às crianças que se distraem com lindos nadas. polido e lustroso”. Vicente de Fora. límpido. luzidio. nitidez e brilho. (Cardoso) Ficamos distraídos quando. que a desvia do objeto a que ele a tinha aplicado. quando. Dizemos: “O aço já terso da ferrugem” (Fil. a estudos profundos. – Brilhante exprime “muito polido e luzente: que tem grande brilho”. “A força da oração o abstraiu deste desterro”. que nos agradam. nos privamos das coisas que conhecemos. 70 ABSTER-SE. privar-se supõe apego à coisa. mudamos a atenção para outro diverso.

portanto. Luzido acrescenta à noção de polido. o que se mostra moderado em todas as funções. “Nitentes florações nos trouxe a primavera”. porque depende de um encadeamento de raciocínios. não só este é mais intenso e complexo. moderado. Cândido livro. abstruso. principalmente quanto a bebidas que embriagam.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 57 mas de crianças. brilhante. que despede luz um tanto indecisa. e em sentido geral. temperado. – Sóbrio coisa abstrata é difícil de entender porque dista muito das ideias sensíveis e comuns. 72 ABSTINENTE. mas.. diáfano. frugal. – Abstido é quase o mesmo que abstinente. abóbada ou esfera luzente. – Luzido. discriminado. as inclinações da própria natureza”. – Segundo Roq. ou instantânea e fugaz. mas nem tudo que é abstrato é abstruso. luzente quer dizer – “que espalha luz em torno”. terso. Num sentido mais restrito embora. e muito menos a totalidade que deles resulta. riqueza. curto. luzidio. brilhante como a própria luz”. olhos reluzentes de cólera. Uma coisa abstrusa é difícil de compreender. nitente diz. fartura. opu- lência. – Abstinente é aquele que se abstém de alguma coisa por necessidade de consciência ou por sentimento de dever. um ponto luzidio no escuro da floresta. se abstém de alguma coisa: não designa. vistoso”. e no uso dos bens da vida”. O primeiro. É preciso notar-lhes. (Aul. – Comedido significa “que sabe regular. – Lustroso confunde-se com brilhante. pomposo. a lúcida visão do gênio. Tudo que é abstruso é abstrato. – Limpo diz – “livre de impurezas”: é o mais genérico do grupo. convindo notar-se que abstido deve aplicar-se ao que. cheio de luz. parco. sóbrio. comedido. abstêmio. particularmente no comer e no beber”. uma abstido. reduzido. designa “uma qualidade mais forte e que parece depender de mais esforço e energia moral”. alguma diferença marcada pelos respetivos sufixos. – Nítido ajunta à noção de limpo. está temperante no mesmo caso: significa “moderado nos apetites. – Continente designa “o que tem a virtude de sofrear os impulsos. Um tratado sobre o entendimento humano precisamente deve ser abstrato. Exemplos: “Nítidas frontes fulgem do meio da turba”. lúcido confundem-se muito. no entanto. – Abundância (do latim abundan- .) – Parco diz mais que sóbrio: é aplicável ao que é “pouco abundante. pequeno. além de limpo – “correto. – Moderado e comedido muito se aproximam. temperante. quase tacanho e avaro”. reluzente é forma redobrada de luzente. cuja relação não é possível descobrir nem seguir. como lustroso restringe ao que se lustrou ou poliu a qualidade que enuncia. – Límpido acrescenta à ideia de terso e puro a de lustroso. reluzente. e por extensão “o que se satisfaz com pequena quantidade de alimento”. Não seria próprio dizer. “no momento”. a ideia de esbelto. – Abstêmio é o que se abstém de excessos na mesa. – Frugal é propriamente o que se nutre “só de frutas”. no entanto. airoso. Dizemos com propriedade: luzidos batalhões. portanto: “lustrosa estrela”. propriamente uma qualidade (como se dá com abstinente) mas um estado. lúcido é o mais forte da secção: diz – “claro. apesar do esforço extraordinário que nossa inteligência faça para consegui-lo. diáfano. luzente. luzidio diz propriamente – “que é semelhante ao que brilha”. 73 ABSTRATO. é “o que só toma o alimento indispensável. a ideia de brilhante. 74 ABUNDÂNCIA. lustroso. e abstrusa dizemos que é a ciência da geometria transcendental. continente. medir as suas palavras e ações de um modo conveniente”.

– Acerca de preocupação e prevenção diz Roq. – Abusão é “falsa história. su- perstição. – Crendice é. à cega confiança em coisas ineficazes”. fanatismo. mas este supõe que o nosso espírito “foi induzido a deixar-se dominar” da falsa noção que nos impede de julgar livremente. absorve-o. ou conto mentiroso com pretensões a coisa séria e verdadeira. e absurda e ridícula. conforme define Aul. As preocupações não são boas . are) diz propriamente “em quantidade tão grande que satisfaz plenamente ao que se deseja”. – Riqueza é. as quais. do dinheiro. prejuízo. impedindo de julgar sãmente. e pode estender-se mesmo a coisas que não sejam religiosas. opinião que se tem de uma coisa antes de examiná-la diretamente. convindo não esquecer que patranha parece significar que as mentiras ou as tolices se referem a assuntos de religião. a convicção assentada.: “Estes dois termos exprimem uma disposição interior oposta ao conhecimento da consciência. que não pode ouvir nem conceber outras contrárias. induz em erro. e que é. e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos ou supostos deveres. Quem vive na fartura tem mais do que lhe é necessário. e que impede o ânimo de adquirir os conhecimentos necessários para julgar das coisas retamente. de um objeto. um excesso de credulidade que turva a consciência ou faz calar a razão. ou caso fictício com que se engana. Propriamente. crença popular sem fundamento. interessando-nos a respeito desse objeto. – “é sentimento de veneração religiosa fundado no temor ou na ignorância. Confunde-se com preconceito. – Superstição – diz Bruns. o preconceito parece mais a “suposta certeza”. ou de que alguém se persuade por ingenuidade. – Prejuízo diz propriamente “juízo antecipado. de perfeito acordo com Aul. – Todas estas palavras indicam ou sugerem defeito de consciência. O prejuízo parece mais um temor supersticioso. e que portanto nos impede de julgá-la de consciência”. f. de que não saímos como por um capricho do nosso amor próprio. superstição (superstitio. etc. e a faz injusta. peta. de abundare... “a superabundância de bens da fortuna e de coisas preciosas”. Quem vive na opulência goza com ufania da sua riqueza. de superstare) é uma depravação do senso religioso. crendice. e a prevenção tem seu principal assento na vontade. – Opulência é a “riqueza com aparato e ostentação”. A prevenção tira a imparcialidade do juízo. e o faz cego. um respeito cego a coisas vãs. prevenção. – Quem vive na abundância não precisa de mais nada para viver. de ab + undo. ou sem conhecê-la.. A preocupação nasce de alguma impressão viva e profunda que enche de seu objeto a capacidade do ânimo.. com a diferença que a preocupação reside particularmente no entendimento. preconceito. Podemos admitir ainda o preconceito da honra: não o prejuízo. A prevenção nasce de certas relações ou informações que nos deram. portanto. e cativa o pensamento. A prevenção é uma disposição antecipada da alma que a faz inclinar-se a julgar mais ou menos favorável ou desfavoravelmente de um objeto. da verdade. Aproxima-se-lhe peta. – Patranha diz – “grande tolice. preocupação.58 Rocha Pombo tia. ou por índole supersticiosa”. patranha. A preocupação é o estado do ânimo de tal modo cheio e possuído de certas ideias. A preocupação tira a liberdade do ânimo. – Fartura diz mais que abundância: significa “em quantidade tal que já excede ao que é suficiente”. f. do destino. não permitem à nossa alma o conservar seu equilíbrio e sua indiferença. um gênero de petas. como diz Roq. e que só aceitam os néscios”. 75 ABUSÃO. Dizemos: a superstição da honra. Quem viveu sempre na riqueza “não sabe o que é ser pobre”.

segundo o mesmo Roq. porém. senão também com uma espécie de alegria e consolação. concluir. ultimar. . – Rematar. para distingui-la. formal. de chegar. ao meio-dia acabou de correr. que nasce das opiniões supersticiosas. Há prevenções justas e razoáveis: é mister examiná-las. que a toda suspensão de trabalho ou ação pode aplicar-se. ultimar.. que se distingue de findar. – Acabar e findar têm muito íntima conexão. e faz cometer ações ridículas. Dizemos rematar quando queremos exprimir que se “pôs fim ou conclusão a uma coisa com um sinal próprio ou de um modo completo”. – Fanatismo. e às vezes alguma outra coisa que se lhe pode seguir”. finalizar. – Descontinuar é suspender o trabalho. e. ainda que não seja por muito tempo. porque podem prevenir-nos contra o engano”. rematar. Cessa-se por um instante. basta buscá-la num exemplo. sem indicar diferença alguma. Um exemplo: “Quando ouvimos aquela apóstrofe vibrante supusemos que o orador ia ultimar as graves acusações. concluído. como que estabelecendo uma certa relação de ordem ou de seguimento entre a coisa que se ultima. terminar. ultimado”: o que se remata “tem termo preciso. Findar é “ter fim”. não somente sem vergonha e sem consciência.. levar ao fim (ao cabo). senão puramente de uma ação que cessa. que findar enuncia simples fato em muitos casos em que acabar enuncia ação. findar. e fechar. portanto. – “Cessar – diz ainda Roq. cessar. acaba de sair. é romper a continuação ou seguida do fato com o que fica por fazer”. – Entre findar e finalizar dáse uma diferença análoga. mas a operação com que se conclui”. o princípio que teve essa coisa. – Finalizar. interromper. suspender. Quem diz ultimar indica a ação de “chegar ao termo de uma coisa deixando supor que se havia começado e que se vai ou pode dar princípio a outra. etc. rematar. e parecia terminar ou concluir já mais calmo. – Segundo Roq. não a coisa concluída. como se o que as faz houvera recebido alguma missão de Deus”. descontinuar. intermitir. “Acabamos a nossa tarefa” (e não – findamos). Como as ações destes dois verbos são em geral inseparáveis. rematou a tremenda objurgatória com uma invetiva ultrajante”. quando a um aparte do ministro. mas ele continuou no mesmo tom veemente. para sempre. Hoje se acaba minha fadiga. é pouco perceptível sua diferença. Em nenhum destes exemplos se pode usar sem impropriedade do verbo concluir. e até pode ser que solene”. Ontem se concluiu o negócio. injustas e cruéis. parar. não acaba de chegar. seriam sinônimos perfeitos se não fosse a nuança assinalada na predicação daquele primeiro verbo: o que se fecha fica “resolvido definitivamente. do termo e fim a que chega. “Findou o sofrimento da triste criatura” (e não – finalizou). no qual o que se acaba seja precisamente a ação de outro verbo: Amanhã acabarei de escrever. esforço “para chegar ao fim”. – Terminar é “ir ao termo. neste caso. “é um zelo cego e apaixonado. e é nesta última acepção. “Finalizamos o trabalho com muita fortuna” (e não – findamos). concluir representa a ação no deixar a coisa completa. mas a inversa não seria exata. fechar. de entrar. 76 ACABAR. “acabar representa a ação de chegar ao termo ou fim de uma operação. além de “ter fim” – chegar. Segue-se que em todos os casos em que se aplica findar pode aplicar-se acabar. terminar. por muito tempo. devendo notar-se. porque não se trata diretamente de uma coisa finalizada e completa por meio da conclusão. bem marcado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 59 para coisa nenhuma: devem combater-se como inimigas da verdade. portanto. acabar é. Finalizar enuncia ação. no entanto. – é um termo geral. fechar podem confundir-se.

desfigurado. Quantos têm perecido de fome. arruinado. mas morre muitas vezes às mãos de assassinos. que um homem faleceu quando acabou seus dias naturalmente. cansado. nos suplícios. e porque as plantas têm uma espécie de vida. Perece. nem se fina. alterado. e por uma espécie de eufemismo. mudado. alquebrado. expirar. do mesmo modo que diziam os latinos vita functus est. – Expirar é “render o último alento. para indicar que vai baixando pouco a pouco até acabar. – Fenecer é chegar ao fim do prazo ou extensão própria da coisa que fenece. 7 Figuradamente dizemos. – Finar-se exprime propriamente o acabamento progressivo do ser vivente. perecer. exausto. acabar. ou há de perecer tudo quanto existe. mortificado. Morre. – Fenece a vida do homem muitas vezes quando ele menos o espera. definhado. “Intermite-se a aplicação de um medicamento quando sobrevêm acessos do mal que se combate”.60 Rocha Pombo levar ao termo. . velho. nem se fina. fenecer. Descontinua-se quando “se deixa de prosseguir aquilo que é contínuo ou sucessivo”. exinanido. exaurido. de inimigos ou de rivais. ou morrer de todo. Falece o homem quando passa da presente a melhor vida. Fenecem as serras nas planícies. combalido. chegar ao limite”. cessar de todo. fina-se o homem. – Parar significa “cessar. extenuadas as forças. enfraquecido. – Extinguir-se significa “fenecer. Diz-se mui urbanamente. nem falece. envelhecido. que a serra vai morrendo. Morre tudo quanto é vivente. – Falecer é fazer falta acabando. nem falece (nem fenece). e não perece. Muitas vezes se acaba a vida antes que tenhamos acabado a mocidade. etc. curvado. nos naufrágios?! Todos os seres animados finam-se quando. quebrantado. “Para o relógio quando se lhe acaba a corda”. pagam o tributo à lei da morte. como descontinuar. enunciam ação de “cessar. aliás. acabar de existir no mesmo instante”. extinguir-se. nos incêndios. – Morrer é acabar de viver. tratando-se de movimento ou de função”. idoso. quebrado. e não morre. avelhentado. ou de se fazer sentir por intervalos”. nos cárceres. Perece um edifício. dar o último suspiro. e sugere a ideia do desaparecimento da coisa que se extingue. 78 ACABADO. inanido. cessar de agir. morrer. nos terremotos. perder a vida. demudado. aniquilado. consumido. – Intermitir é “suspender ou interromper de momento a momento. acaba. – Todos estes verbos significam “chegar ao fim”. de atuar. mas não se dirá que faleceu aquele que morreu na guerra ou às mãos do algoz”. O homem não morre só quando o prazo dos seus dias está cheio. ter fim. e por sua desventura também muitas vezes perece. uma cidade. prostrado. e às vezes por desastre ou infortúnio. Acaba ou fenece a serra. – Interromper e suspender. macerado. interrompe-se alguma coisa quando “se lhe corta ou suspende bruscamente a ação ou o modo de ser”. extenuado. de sede. Depressa se acaba o dinheiro a quem gasta perdulariamente. amofinado. também as plantas morrem. fatigado. acabar de ser”. gasto. ralado. – Perecer é chegar ao fim da existência. debilitado. quer se trate de duração ou de espaço. e de um modo mui genérico. finar-se. descomposto. falecer. – “Acabar – escreve Roq. e às vezes no mar. mas o irracional não falece. acurvado. Morre o vivente. suspende-se alguma coisa quando “se a interrompe por algum tempo e a deixa pendente”.. esgotado. desfeito. à míngua. abati- do. – significa chegar ao cabo ou fim de uma operação sem indicar a conclusão. acabrunhado. 77 ACABAR. falece. nem morre7. ou deixar de exercer por algum tempo função própria ou alheia”.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 61 transtornado. de remorsos”. – Exinanido = “aniquilado. de doença. macerado. Aplica-se mais propriamente à situação da vida que à própria vida. “que não é precisamente ao exercício das virtudes que se deve o estar gasto”. ou mesmo por algum sofrimento moral”. – Alquebrado se aplica ao velho que a doença. – Prostrado = “violentamente abatido. Todo velho deve ser idoso. o já não ter o vigor. . o estado do semblante. como diz Bruns. atormentado pelo sofrimento. – Curvado (e acurvado) enuncia ideia da postura daquele que a idade ou o sofrimento fez pender. velho é o que. com pequenas diferenças de nuanças. desmanchado indicam todos. de desgraça. mas o segundo dá ideia mais clara de extenuamento. isto é. ainda ontem tão altiva. alterado. que enuncia apenas a ideia de “não nutrido. – Amofinado = “ressentido de moléstia. – Velho e idoso distinguem-se assim: idoso é o que chegou à idade avançada. mortificado pelos padecimentos”. “Aquela figura. falto de forças (físicas ou morais). etc. Diz também “o que a moléstia afligiu. de todo o conspecto da pessoa abalada de sofrimento. – Esgotado. sem forças e sem ânimo”. mudado. esmagado de dores. – Definhado = “consumido. o que se deixa abater e como emurchecer de dor moral”. – Quebrantado convém mais àquele que se deixou abater por motivos que muitas vezes são imaginários. Agora está combalido: o tempo não poupa nem a glória. – Consumido indica melhor o que se sente “ferido profundamente na alma. por fadiga. – Combalido exprime “abalado. mais que os anos. – Acabado dizemos daquele em cuja fisionomia o tempo. Entre exaurido e exausto pode notar-se esta diferença: exaurido dá melhor a ideia da causa que exauriu. e sugere alguma coisa de resignação. curvada pelo infortúnio”. muito enfraquecido pelas privações”. – Como desfigurado – descomposto. transtornado. ou o que os trabalhos amofinaram”. mas há homens idosos que não se pode dizer precisamente velhos. demudado. de susto. mais exausto de forças do que devia estar. – Ralado = “vexado. – Abatido significa “desfigurado e enfraquecido. – Arruinado = tão alterado na saúde ou nas forças que parece perdido. desfeito. medo. mofino. muito esgotado de forças. – Confunde-se com aniquilado: notando-se que este ajunta a quebrantado a ideia de humilhação. – Acabrunhado ajunta à noção de abatido moralmente a ideia de profundo desânimo e tristeza. doença ou idade”.. – Enfraquecido = “falto de forças”. afligido. devido à idade avançada. – Envelhecido e avelhentado: o primeiro se aplica à pessoa que parece ter mais idade do que realmente tem. exaurido e exausto seriam quase sinônimos perfeitos se os dois últimos não sugerissem ideia do esforço que produziu o esgotamento. que parece estar morrendo”. sugerindo ideia de mal passageiro. – Quebrado se diz daquele que está enfraquecido. – Extenuado = muito exausto. se deles não se distinguisse em sugerir. É mais forte que inanido. – Gasto confundir-se-ia com os precedentes. e por isso falto de forças”. que parece tombar”. – Debilitado = “um tanto enfraquecido”. desmanchado. está hoje abatida. os trabalhos ou as doenças parecem ter feito mais estragos de que se devia esperar. – Cansado e fati- gado exprimem a mesma noção de “quebrado de forças”. também devido quase sempre a causas momentâneas. que parece velho sem o ser. e enuncia de maneira mais completa e mais forte a noção de esgotado. de sofrimentos. abateu e como que curvou. – Desfigurado está aquele que mostra na fronte “sinais de depressão física produzida por alguma doença. de trabalhos”. se sente enfraquecido e enfermo. a louçania que só a idade não extingue. avelhentado é o que tem ares de velho. – Macerado quer dizer “desfeito. – Mortificado = “ferido de angústias. que vai murchando e morrendo de desconsolações”.

É mais genérico do que perfeito. no entender de Bruns. da rudeza com que se molesta e aflige. e sugerir. completo. acrescentar que cabal. e que só se aplica a fatos morais ou a coisas de espírito. entristecer. – Cabal. “Um amigo 8 É tal a dificuldade que apresenta a falta de precisão absoluta do valor lógico de certas palavras que em muitos casos é forçoso admitir formas como esta – mais perfeitas – apesar do que. completo. vexar. aborrecer. Razões. sentenças. inquietar muito. O mesmo não se poderia dizer de acabado. – Afligir diz propriamente “abalar a alma violentamente.. a do aborrecimento. e aplica-se àquilo que foi elevado ao mais alto grau de perfeição. atormentar. amargurar. plenas informações. do mau humor em que se sente o apoquentado. perfeito. – Completo aplica-se apenas ao homem. – Oprimir dá ideia “do gravame.62 Rocha Pombo 79 ACABADO. muitas qualidades eminentes. apoquentar. notando-se apenas que “em cabal há uma ideia de justeza. – Amofinar e apoquentar são muito próximos: ambos exprimem a ação de diminuir a coragem com pequenas coisas. algumas linhas antes. pois um é encarado sob ponto de vista mais restrito que o outro”. definitivo”. – Perfeito significa propriamente “feito de modo completo”. portanto. como. “O que pode ser melhor – diz Laf. e exprime virtudes ou méritos em conjunto. – Acabrunhar significa “abater o ânimo pelo castigo ou pelo sofrimento. ou o artista (se se trata de uma obra de arte) pode ainda acrescentar alguma coisa. é o trabalho. amofinar. – não é perfeito. – Acabado. além de completo. pelo peso de algum desgosto ou de alguma desgraça”. sob o da figura: uma beleza completa reúne muitas perfeições. agoniar. a que o autor. desgostar. Delaf. – Pleno diz propriamente “cheio. angustiar. se diz em referência a uma “coisa que se fez de modo tão perfeito que nada se deixou a desejar”.me Mazarin era uma das mais8 perfeitas belezas da corte: só lhe faltava espírito para ser completa. diz o próprio Lafaye quando escreve que o que pode ser melhor não é perfeito. Distingue-se dos demais do grupo em conservar a atividade predicativa do verbo. a produção. no entanto. mortificar. sendo que amofinar sugere a ideia da tristeza em que fica o que se amofina. inquietar. dançarina completa). uma dançarina perfeita (e não – completo médico. M. às coisas que se lhe referem. magistral. um certo mérito. pleno. que satisfaz completamente”. opri- mir. e um esposo é completo. Pleno direito. Além disso. e significa “que reúne todas as qualidades.” É preciso. perfeito é mais extenso: aplica-se tanto ao homem como às coisas. ou com que se faz alguém sofrer”. o serviço no qual se reconhecem as perfeições do autor ou do mestre que o executou. diz também “alguma coisa de terminante. de pontualidade. importunar. – Humi- . soluções cabais (completas e decisivas). é antes perfeito. e dá ideia do desespero em que fica o que se aflige. ou a perfeição sob um ponto de vista particular. afligir. de exatidão que não há em completo. por exemplo. inteiro. – Magistral é “o que foi feito com mestria ou consumada perícia”. aquilo. é sinônimo perfeito de completo. molestar. ferir de grande mal. aqui. da impaciência. consternar. contristar. ou pelo menos as qualidades mais excelentes que caracterizam um tipo”. magoar. não é acabado”. cabal. sessão plena. pode não brilhar (ou não ser “beleza”) senão sob um certo ponto de vista. 80 ACABRUNHAR. e apoquentar. Dizemos: um perfeito médico.. incomodar. enquanto que perfeito é mais próprio para designar uma certa qualidade. essa ideia de execução. Uma beleza perfeita – diz o citado autor – tem a qualidade “beleza” em alto grau. explicações. humilhar.

quando estranha que se não possa dizer “a universidade de medicina de Lisboa. – Universidade devia ser o conjunto de todos os cursos que se podem fazer num país. – Angustiar é “pôr em grande aperto de alma. universi- dade. a escândalo. ou os mais duros corações”. à vista de alguma fatalidade. equiparados até certo ponto”. no entanto. que se lamenta como castigo do céu. ou mesmo uma só arte ou uma só ciência. pondo a alma em estado de confrac- ção tal que ela só sente forças para repugnar a vida”. – Agoniar é “impor ou fazer sofrer suplício ou aflição como de agonia”. ou numa cidade. deixando o atormentado como em conturbação. – Mortificar é “afligir até deixar exausto de forças ou de ânimo como se estivesse a morrer”. de rebaixar. nem a categoria do ensino que se dá no estabelecimento. liceu. Discordamos de Bruns. uma falta que se cometeu desapercebidamente. já que estes estabelecimentos em nada dependem da universidade de Coimbra. isto é. Uma academia. e equivale a “oprimir envergonhando”. e de assombro. um mal-estar. É nisto antes de tudo que consiste a diferença entre universidade e os demais termos do grupo. podendo ser que o vexado nem por isso se sinta ferido propriamente na sua honra. uma inadvertência. – Todas estas palavras designam estabelecimentos onde se ensina ou se estuda. – Desgostar é “contrariar o gosto de alguém. mas não nos humilha. Temos academia ou escola de . em aflição horrível”. ginásio. ou um pressentimento inquieta. porém. mesmo que não sejam todas as que se podem professar. de todo o grupo. os de predicação menos forte: uma suspeita. – Amargurar é “causar dor acerba e profunda. – Molestar e aborrecer aproximam-se do precedente. oprimir-nos. de diminuir os créditos. Não é propriamente a independência de que aí se fala. pois este já enuncia que a coisa que nos contrista “produz em nossa alma uma pena mais funda”. instituto. causar desgosto a alguém”. – Magoar enuncia a ação de “produzir ligeira dor. 81 ACADEMIA. vexar-nos mesmo: nem por isso nos humilhará. colégio. ou um aborrecimento que não é duradoiro”. – Também é convizinho destes importunar. “tira a calma e serenidade” (diz muito menos que aflige). Um garoto decerto que nos vexa (ou nos molesta) em público se nos expõe a algum ridículo. luto e tristeza que faz supor a alma como prostrada de dor imensa. fazer perder a paciência”. que realmente era de contristar os ânimos mais fortes. escola. um aperto em que nos põem. sendo-lhe. enfastiar. que determina a classe do mesmo e a denominação que lhe compete. por universidade designamos o estabelecimento onde se professam muitas faculdades. hoje. por parte de quem humilha. – Entristecer é propriamente “encher de tristeza”. em ânsias de dor”. ou uma escola toma a si apenas uma certa ordem de ciências ou artes. e diferençam-se assim: molestar sugere a ideia do incômodo que se causa à pessoa molestada. de abusar dos brios do humilhado: enquanto que vexar exprime a ação de expor a afronta. uma ligeira dor incômoda. Distingue-se de vexar por isso mesmo: porque sugere o intento. a universidade de medicina do Porto. – Inquietar e incomodar são. aborrecer é “pôr de mau humor. que significa “afligir ligeiramente. – Atormentar é “afligir de tormentos. ou ainda num vasto instituto de educação. ferir de grande angústia. “Ela entristeceu (ficou triste ou mostrou-se triste) diante daquela cena. Uma autoridade injusta ou estúpida pode afligir-nos. É menos intenso que contristar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 63 lhar acrescenta à ação de oprimir a ideia de afrontar. causar displicência”. – Consternar é “produzir um sentimento tal de pesar. ou alguma grande desgraça.

Liceu está no mesmo caso. – ou só – academia – há de subentender-se que se sabe já de que academia ou escola se está tratando: ou então. teríamos de juntar-lhe todos os que fossem necessários para designar as diversas ciências professadas. mais particularmente aplica-se a internato. pela simples razão de que esta ordem de institutos. Não se sabe como usar de nenhum desses dois vocábulos sem um restritivo que lhes designe a especialidade de conhecimentos que ministram. – Colégio e instituto são os mais genéricos do grupo. Escola é mais prática e mais popular. quer tratando-se de ciências. por ex. o nome de ginásios a colégios onde se ensinam matérias do curso preparatório. quer tratando-se artes liberais. desde – “intituto primário” – até – “instituto de altos estudos”. etc. por exemplo – universidade de medicina. matemática e teologia. escola ou academia de belas-artes. Mas o que certamente se não nos permitiria é que tentássemos dizer sem dislate clamante. compreende todas as academias de artes e ciências de Paris. o nosso interlocutor não terá noção exata. ou “academia de agricultura”. Deve notar-se. e dizer. O Instituto de França. em grande número de casos. O mesmo não se dá em relação à universidade. Mas esta forma não faria mais do que pôr em destaque e tornar flagrante um absurdo que passa disfarçado e que é tolerável enquanto não se tenta restringir expressamente o termo universidade. como a cursos práticos de artes e ofícios. ou “de aprendizes marinheiros”. de engenharia. ou onde se dá um cuidado mais especial aos exercícios físicos. por exemplo. academia de pintura. ou “academia de instrução primária”. Quando empregamos esta palavra para designar um instituto onde se professam apenas algumas faculdades. ou – “universo solar”. porém. e se quiséssemos dar-lhe os mesmos restritivos que são indispensáveis tratando-se de escola ou de academia. no entanto. ou onde se ministre ensino superior. mas não diremos “academia de artes e ofícios”.. pois a ideia dominante que o termo sugere é a da “reunião das pessoas que foram escolhidas e que ficam no estabelecimento em perfeita igualdade de condições”. etc. mas este se aplica tanto a escola de instrução secundária. ensina diversas especialidades ou classes de ciências.64 Rocha Pombo medicina. e só se aplica a estabelecimento onde se façam altos estudos. ou “de altas ciências”. Dá-se hoje. de medicina. que academia é mais nobre. e só por figura é que podemos aplicá-la para exprimir a totalidade das nações do nosso mundo.. – Academia e escola são usados. de letras. de direito. Instituto é ainda mais genérico e extensivo do que colégio: pode aplicar-se a toda categoria de estabelecimentos onde se estude ou onde se ensine.. . e pode abranger todo gênero de estudos. ou – “universo da estrela d’alva”. É preciso notar ainda que tanto academia como escola podem designar estabelecimento onde se ensinem diversas ciências ou artes. Dizemos “academia ou escola de belas-artes. Colégio é estabelecimento onde se reúnem pessoas (meninos ou adultos) para estudar. em vez de uma. ou melhor as artes ou ciências de toda uma categoria. de direito. escola de cirurgia. precisa do estabelecimento a que nos referimos. ou mesmo academia ou escola de música.. direito. e isto porque a palavra “universo” abrange todos sistemas de mundos. quando reduzimos o universo ao nosso mundo. não pecamos mais contra a precisão lógica do vocábulo do que. Se se disser só – escola. Ginásio designa estabelecimento (internato ou externato) onde se faz educação tanto moral como física de meninos ou moços. indistintamente. por exemplo – “universo mundial”. – Ginásio e liceu são os menos latos do grupo.

– Amimar é tratar com mimos. É natural também que a pessoa . arraial. Acarinham-se a todos os meninos. acanhamento. consolar. ameigar. grata conosco a pessoa a quem se agrada ou se afaga. 83 ACAMPAMENTO. gestos e atos. àqueles que são menos felizes do que nós. é mais expressivo e intenso. no enlevo de amar. bem impressionado. como. também por atos e palavras.. bivaque. hoje é termo poético. enchendo-as de afagos e mimos. e por extensão e figuradamente pode aplicar-se nos casos em que se trata de coisas morais ou abstratas. “por meio de carinhos. beijando-as.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 82 ACALENTAR. demonstrações de muita benevolência e afeto. sem tendas nem comodidades. timidez. mas particularmente designa o recinto ou área onde um exército em campanha ergue as suas tendas e se instala com certa comodidade e segurança. aqui. Entre acanhado e tímido é preciso notar diferenças que à primeira vista se não percebem distintamente. dispor bem.. Daí o fato de ser acarinhar menos expressivo de ternura do que acariciar. apoucado. agradar é apenas. sendo carícia sinal mais delicado ainda de amor do que meiguice. acariciar. “acampamento é termo genérico. agradar. por ex. pudibundo. no entanto. por palavras. se fosse criança a pessoa que se amima”. – Acalentar designa particularmente a “ação de aquecer a criança nos braços para que sossegue e adormeça”. minorar o sofrimento. entrando. palavra tomada ao espanhol.. antes de tudo porque são tenras. – Acanhado se diz do que tem “tão pouco desembaraço e vivacidade e que se mostra tão tolhido que parece diminuir-se aos nossos olhos”. – Se- gundo Bruns. isto é. pudicícia. doce. num salão sumptuoso. ou que se acham em situação em que tenham o direito de contar com a nossa bondade de coração. A pessoa tímida é natural que se mostre acanhada. 65 afagar. ou tornar esquecido ou menos intenso o pesar que aflige alguém”. amimar. esperanças. “Jesus acarinhava a todo o mundo. a sua ternura divina”. mesmo do que carinho. ou dirigindo-se a personagem ilustre. vergonhoso. pudor e pundonor. apoucamento. só se acariciam aquelas criaturas que merecem os nossos afagos e blandícias. e por todos que precisam da nossa assistência e socorro. tratando-as com afeto paternal. Este último verbo. – Bivaque (do frandês bivac) é o estado de um exército acampado ao ar livre. tímido. pois ambos indicam que se deseja fazer contente. com “manifestações delicadas de afeto e desvelo. Só se acaridam. ou a todas as criaturas desvalidas. mas as crianças ele acariciou sempre com um estremecimento que dizia bem até onde era capaz de ir. meigo o que é tratado”. Acarinha-se a um amigo. Afagar é fazer. acariciam-se as crianças. portanto. desejos. com muita brandura. a uma pessoa que se estima. deixar satisfeito. acaridar. pundonoroso. – Acaridar diz propriamente “tratar com caridade”. e tanto quanto afago o é em relação a agrado.. diz-se do terreno onde esse exército passa a noite ao sereno”. – Arraial. – Acariciar é “tratar com carícia”. – Consolar é. 84 ACANHADO. mimosas e têm o nosso amor comovido. como: “acalentar sonhos. isto é. de modo a fazer suave. reales. pudico. procurar diminuir a pena. de atos de amizade. é quase afagar. acarinhar. por extensão. modéstia. – Agradar. – Ameigar diz propriamente “tratar com meiguices. de palavras de conforto. e até vícios”. vergonha. designava o acampamento em cujo centro se elevava a tenda do rei. mostrando o amor que as almas bem formadas têm pelos que sofrem. mo- desto. pudor.

tacanho. – Fato designa “ato de certa importância. e significa “nímia susceptibilidade em questões de brio e amor-próprio. – Vergonhoso. é a virtude de ter pudor”. e pode ser tímida sem ser propriamente acanhada. O tímido pode não ser acanhado. no trato com toda classe de homens. consumado e reconhecido”. pudibundo se emprega para designar “o gesto. acanhamento diz o gesto tacanho. diz “escasso. mesquinho. na acepção moral desta palavra. nos impede de comprometer o nosso decoro. sem exal- tamentos. ato. a pequenez de alma e de espírito que diminuem um indivíduo e o tornam inútil. pudicícia é a “qualidade de ser pudico. timidez diz algo de tibieza de ânimo. que expressa a modéstia. à vista do que. de boa fama. mas pudor é o próprio sentimento que induz a escrúpulos delicados contra tudo que se oponha à honestidade e à decência. benigno e afável. sem o valor que se devia esperar”. trôpego. Acanhamento sugere alguma coisa de rude. diz mais do que tímido. não sendo a inversa perfeitamente verdadeira. neste grupo. de pudor. no falar. a postura contrafeita. fato. o recato. portanto. no sentido que tem aqui. mofino. apoucamento exprime a falta de ânimo. pois a vergonha. sem ambições exageradas. já não dá só ideia de simples tolhimento de alma: significa a vacilação. discreto. – Modéstia não parece que seja bem como definem os lexicógrafos – uma completa ausência de vaidade: é antes uma virtude dos sábios. e que se manifesta ou pela desconfiança que alguém nos inspira. esmero com que se defende a honra”. 85 AÇÃO. mas devem distinguir-se assim: pudico diz o “que tem pudor”. os modos e ares indecisos que revelam a timidez. aos olhos de outrem. não seria própria esta forma: acanhado e tímido. – Segundo Lac. A ação é o exercício de uma potência. nem por isso há de ser vergonhosa. mas o acanhado revela quase sempre timidez. de irresolução e perplexidade. assim. o enleio no movimento e na expressão. nem ímpetos – em suma sábio. portanto. sem o modo de ser normal. – Pudor e pundonor são palavras de significação muito distinta e que só por erro ou inadvertência são confundidas às vezes. comedido. e consiste num sentimento natural de justa medida em tudo – no agir. uma qualidade subjetiva. Modesto diz. ou ainda pela dúvida em que nos sentimos a nosso próprio respeito. – Apoucado e apoucamento não se podem confundir com os dois precedentes. por uma delicadeza da consciência moral. Uma criança é natural que seja tímida. razoável. – Pundonor parece termo que os espanhóis adaptaram da dicção francesa point d’honneur. indulgente. o modo que revela pudor. ato é um vocábulo concreto. nem mesmo se deve admitir apoucamento como degeneração ou vício da modéstia: segundo a própria formação. Pundoroso é. Apoucado. Uma criança tímida. ou pelo receio de que sejamos malsucedidos. de parecer. está em ação e produz o ato”.66 Rocha Pombo acanhada pareça tímida. cuidado. o enleio da pessoa pudica”. ação é “um vocábulo abstrato. mesmo porque é de supor que uma criança é inconsciente em questões de bons costumes. – Pudico e pudibundo também se confundem. pelos modos como se apresenta. Timidez é. no modo como se comporta. uma condição de índole. . o escrúpulo. quando emprega a sua energia. De sorte que se pode entender acanhamento como sinal de timidez. Ambos sugerem ideia de fina sensibilidade em questões de moral. – Pudor e pudicícia usam-se frequentemente um pelo outro. de retraimento.. A potência. moderado. “o que tem pundonor”. ato é o resultado da ação dessa mesma potência. trôpego. de um modo incorreto. imprestável. portanto. o pejo que.

– Peleja designa a luta encarniçada e corpo a corpo. é peleja formal e de resultados decisivos quase sempre. no entanto. e só por extensão se aplica no sentido de luta. como este. batalha. Além dessa acepção. rixa. – Pugna significa propriamente “luta a punho. “as lutas da imprensa ou do jornalismo” – diz outra. campanha. Dois inimigos separados por um rio ou por outro qualquer acidente. recontro. litígio. combate. por questões de pundonor”.. uma luta caracterizada pela elevação dos motivos. que significa. prélio. Mas a contenda parece uma gradação da pendência. 67 lide. pendência. litis “pleito. pleito. se apressam a investir um contra o outro”. – Briga e rixa são termos vulgares que significam “disputa escandalosa. desafio. Dizemos – “as lutas políticas” –. processo. mas sugere melhor a ideia da correção dos que pleiteiam. ou mesmo duas ou mais nações que não puderam chegar a acordo em relação a algum reclamo ou intento”. mais apaixonada. e esperando pela sentença (placitum) ou pelo desenlace favorável. contenda. sem armas”. – Desafio é “o ato de provocar outra pessoa para duelo”. mas sem leviandades”. convém. aplica-se o termo combate para designar qualquer luta em que a vida está exposta: o combate dos Horácios e Coriáceos terminou em combate entre dois homens”. violenta”. atacar”.. aliás. ou “o estado de conflito em que se põem duas ou mais pessoas. “As lides do jornalismo” – diz uma coisa. lutam. Pleito. Ação aqui é “o exercício da atividade hostil entre duas ou mais forças em conflito”. “marchar contra. em – “lides da impren- sa” sugere-se o afã nobilíssimo com que se trata das altas questões. luta convencionada. pequenina. aqui. ou medindo forças e destrezas com capricho. e pode assim apanhar-se no português prélio a significação de “luta em que os lutadores se adiantem. – Pleito é quase o mesmo que litígio: pode. – Duelo é “a luta entre duas (ou mesmo mais) pessoas. – Conflito é “o encontro hostil. briga. peleja. Lide será. e sem graves consequências”. Em – “lutas da imprensa” há a sugestão de que os trabalhos do jornalista amargaram no embate das intrigas e das perfídias. a oposição ativa em que se põem duas ou mais pessoas ou coisas”. por motivos fúteis.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 86 AÇÃO. mas não pelejam. ou pelo menos de grande importância. Pode dar-se entre . de troços de exércitos inimigos que travam luta entre si. guerra. regulada e solene. é a fase. portanto. contenda é “a fase a que pode chegar a pendência tornando-se mais viva. – Contenda e pendência aproximam-se bastante: ambos sugerem mais ideia de controvérsia e discussão que de luta material: se bem que se não lhes recuse esta última acepção. refrega. intensa. ire.. – Ação é o mais genérico do grupo: seriam raríssimos os casos em que não pudesse substituir a qualquer dos outros. – “é o encontro de ordinário imprevisto. significar também questão judicial propriamente. o choque. entre outras coisas. diferençando-se em que a rixa pode ficar só na disputa de palavras ou degenerar em briga.. discutindo sem má-fé. exprime “nobre questão em que alguém se empenha confiante na justiça”. – Combate – diz Bruns. duelo. Esta é o “litígio ou a questão em que se empenham duas ou mais partes trocando razões e argumentos. pugna. questão judiciária”. mas é muito mais próprio dizer – “as lides acadêmicas”. com que se empenham devotamentos pelas grandes ideias de que se presume que trata sempre um jornalista cônscio da sua missão. conflito. luta. – Batalha é combate de vastas proporções. combatem-se. – No latim prœlium figura como radical o verbo eo. não esquecer que lide (ou lida) vem de lis. – Litígio. só defendendo a sua causa. – Lide e luta tomamse ordinariamente quase como sinônimos perfeitos.

– Acerca de muitos destes vocábulos. caprichosa. oculta-se. É o acaso que nos leva ao lugar onde encontramos a felicidade ou a desventura. por isso. Luiz. e que este se trata e se desenvolve no processo. – Ação é termo genérico ainda neste sentido: é o “próprio ato de requerer ou demandar em juízo. obra arbitrariamente. favorece-nos ou esmaga-nos.: “Com muita razão diz um autor que a demanda dá origem e princípio ao litígio. reaparece.68 Rocha Pombo nações. dita. Ao ato de pedir ou requerer em direito se chama demandar. e de outros. demanda. – Questão designa “toda espécie de dúvida em que ficam duas ou mais pessoas e que deve ser dirimida em juízo. devendo notar-se que o primeiro termo só se aplica para designar a guerra terrestre. persegue-nos ou abandona-nos.. não se lhe referem fatos sucessivos: revela-se de quando em quando. felizes ou desgraçados. – Refrega é “recontro violento. questão. sina. sendo este apenas mais lato: é “a denúncia ou queixa que se dá contra alguém para reparação de agravo ou ofensa”. sorte. desejos. porque o que nós chamamos processo é em francês procédure. combates. Os que neste caso usam a palavra processo cometem um galicismo. boa fortuna ou má fortuna. de que os antigos fizeram uma divindade cega. que nos deixam estupefatos de prazer ou de dor. entre indivíduos. S. pois esta parece obrar de um modo constante. segundo nos é ela favorável ou contrária. fado. destino. fatalidade. Os feitos que correm em juízo. ou de certa fase de uma guerra”. produzindo debandada. ou a condição a que a fortuna ou o acaso trouxeram uma pessoa. entre poderes públicos. porém. preside a todos os atos da vida. “O acaso – diz ele – o mais fantástico de todos os seres desta série. – Escreve Roq. isto é. 88 ACASO. fortuna. mas ainda a ação proposta e disputada contenciosamente em juízo – o que vale o mesmo que litígio judicial ou pleito. pleito. e ao acaso só se imputam fatos isolados. volúvel. Fora da acepção jurídica. 87 AÇÃO. – “A sorte é ao mesmo tempo efeito e causa. consubstancia Bruns.. que no uso ordinário a palavra demanda não significa só o ato de intentar o litígio. tendo por isso muita analogia com a fatalidade. e avoir un procès quer dizer em português – ter uma demanda. indeciso entre inimigos”. querela. entre animais. os autos judiciais e termos que se fazem por escrito em qualquer litígio se chamam processo. processo. entre interesses. – Campanha exprime “todas as batalhas. bunal”. e delas provêm fatos. prepara combinações de circunstâncias tão impossíveis de prever como de impedir. fadário. o que se pode colher de Roq. ventura. É forma geral e extensa que pode abranger quase todos os casos em que figurem as outras do grupo. e deixando também indecisa a luta”. e todas as vicissitudes de uma guerra. ou perante uma autoridade superior”. casual. e neste caso diz o mesmo que litígio judicial”. É nisto que não se assemelha à fortuna. Pleito é palavra castelhana. furioso como tormenta. – Querela é equivalente quase a ação. efeito quando designa o estado. o uso do direito de pleitear perante um tri- . – Recontro é “combate ligeiro. pretensões.” Temos. querela se emprega para designar questões e dissídios de pequena monta. e distribui os bens ou os males segundo o seu desígnio. Note-se.. litígio. entre seres inanimados. À controvérsia judicial que se suscita quando o demandado não consente no que o demandante requer se chama com razão litígio. As suas manifestações não são constantes. estrela. de fr. Quantas descobertas são filhas do acaso? – A fortuna.

ventura. mas quando fazemos alusão às amarguras que quase todos tiveram de sofrer. que se conservou na língua (com a significação que tem aqui). não exprimiría- . por ex. ou uma série de fatos favoráveis ou desfavoráveis. – Sina marca melhor do que quase todos os do grupo o caráter de fatalidade das coisas que têm de suceder na vida de cada um. oh rapaz. porventura. se poderiam ser trocadas. ninguém pode resistir às leis do destino. lhe atribuímos um fato isolado. – “o alto destino de Napoleão”. como diz D. mesmo de boas letras. – São re- almente muito fáceis de confundir-se. Paulo. fortuna às elevadas (ou de mais vulto): a sorte de Creso ao lado de Ciro era mais invejável que a sua fortuna. a uma disposição superior e impenetrável. e ainda hoje se diz que “tal indivíduo nasceu em boa ou má estrela”. a predestinação de S. persegue-nos. – Fadário é – diz Aul. no cristianismo. que lhe deram origem. O nosso fado é intangível. mas sem coragem para corrigir-se. acompanha-nos. transformados em rãs ou outras alimárias. até que um certo acontecimento os venha libertar. puséssemos por acaso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 69 causa. Nas três frases seguintes vejamos. entre os antigos. se na primeira frase. e decerto que neste caso não empregaríamos sina. ou que tem boa ou má estrela. – Ventura e dita são também seres fantásticos sem vontade certa nem determinada. – A fatalidade (do latim fatum “o que está dito ou decretado”) distingue-se do acaso. ou sem preferências. 89 ACASO. – “destino extraordinário e irresistível que se atribui a um poder sobrenatural”. Por outro lado. sempre tomam-se a boa parte. em ser agente e não sujeito. – Estrela. Sina e destino seriam sinônimos perfeitos se o primeiro não se limitasse de ordinário às coisas funestas da vida. dizer – “a sina dos grandes homens”. e por mais que façamos. – O destino era.. porém. em vez de acaso. e dita. e no entanto. por acaso. no entanto. como é fatalidade. geralmente.. é outra palavra do mesmo gênero. A fatalidade não obra arbitrária e caprichosamente: obedece como a um impulso omnipotente. Podemos. O estava escrito dos maometanos é a fatalidade. apesar de terem passado as quimeras da astrologia. e que nos trazem fatal e inelutavelmente ao ponto em que só nos resta obedecer: ante o destino desaparece a nossa força. não nos deixa. não haveria talvez muita gente. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” Em qualquer desses casos. e procurando por isso consolar-se dos erros ou deslizes. não. qualquer das três formas. Refere-se mais particularmente a certas vicissitudes da vida mundana. a palavra sorte aplica-se melhor às condições modestas. sujeitos ao seu fado. às extravagâncias de que alguém se lamenta. como bem o prova a acepção que esta palavra tem nos contos de encantamentos em que se vêm príncipes. Dizemos. atribuindo-os ao seu fadário. – O fado é o estado que resulta das imposições do destino. quando. que hesitasse em empregar indistintamente. Eis por que denominamos destino à combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que se efetuam em virtude de leis inflexíveis. é claro. uma divindade cega a quem os deuses e os homens estavam submetidos: tinha nas mãos a sorte dos mortais. considerando-a um misto de acaso ou de fortuna. quando fazemos referência às ações ou obras que lhes deram lustre. da fortuna e da sorte. aniquila-se a nossa vontade: somos obrigados a obedecer ao destino. José de Lacerda. Refere-se à suposta influência dos astros no destino dos homens. Os seus decretos eram irrevogáveis e tinham o caráter da fatalidade. conservando-se-lhes uma perfeita propriedade: “Teria o nosso amigo visto acaso alguma coisa estranha lá no parque?” “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” “Terias.

reverenciamos tudo aquilo. decerto que exprimo dúvida também. portanto: – que acaso sugere contrariedade intencional e dá à pergunta a função de negar: – que por acaso é mais convizinho de porventura. – Reverência é respeito com temor filial. distinguindose esta forma daquela em sugerir. e se eu empregasse o advérbio acaso. que se tem ou se dá a alguém ou a alguma coisa. então. ou estranho que isso se tenha dado. – Fora dos casos interrogativos. a mesma ideia de estranheza e negação. o soberano. e quase nego. dizendo: “Terias visto ou encontrado acaso alguém à minha espera?” – é como se fizesse a pergunta insinuando a negativa. acatamento. as suas infelicidades. venerar. por alguma superioridade que julgamos haver nessa pessoa. – Deferência é o respeito que se tem aos sentimentos. à virtude. ou “sem que tivesses tensão”) passaste?” – A terceira frase: “Terias. em vez de indiferença. devendo notar-se que. com respeitoso temor. a tudo aquilo a que . como no exemplo acima. S. respeito. reverência. ponho em dúvida. que se dá às coisas santas. não mostraria o mesmo interesse. fomos dar conosco por acaso junto ao morro. Respeitamos os outros homens. isto é. a ideia do interesse com que se espera por uma resposta satisfatória quando se faz a pergunta. que ele tenha visto.. acaso nem porventura. veneração. oh rapaz.70 Rocha Pombo mos com a mesma precisão o pensamento de quem perguntava. em nenhuma dessas frases. há de ser a mesma que se acaba de assinalar. rebate. ao mérito. só muito raramente poderá a locução por acaso ser substituída por qualquer dos dois outros advérbios. em cuja presença estamos como o filho costuma estar diante de seu pai. Acatamos. ou aos objetos que julgamos mais dignos de respeito e honra. os pastores. “acatamento é todo ato externo com que mostramos o nosso respeito. Caim retrucou ao anjo que lhe perguntava por Abel: “Sou eu acaso o guarda de meu irmão?” Este acaso. etc. – Segundo fr. as coisas religiosas e sagradas. – Respeito é a atenção. nega intencionalmente o que se pergunta. ao saber. “És tu acaso meu filho?” “Veio ele acaso ter conosco?” “Tinha eu acaso notícia da tua chegada?” Em nenhum destes exemplos. Reverenciamos os mestres. mas aqui a minha dúvida é mais condescendente. Luiz. deferência. Veneramos a Deus. espécie de culto. – Na segunda frase que formulamos acima: “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” – também não poderíamos substituir a locução por acaso por simplesmente acaso. Quando pergunto se ele “viu por acaso”. como acaso. “sem que te apercebesses”. se há necessidade de distinção. os seus direitos. todas as pessoas a quem devemos esses sentimentos. respeitar. limpando a pena”: aí não caberia. Se eu empregasse a locução por acaso. Quando pergunto se o nosso amigo “viu acaso”. para dizer o que desejamos. “Chegamos por acaso à livraria. reverenciar. respeitamo-nos a nós mesmos. preferindo-os aos nossos próprios. respeito religioso. os pais. – Segue-se. ou às que reputamos como tais. mais ou menos. os nossos deveres. e não sugere. deferir. seria indiferente usar acaso e por acaso. Deferimos (rendemos deferência) à idade.. reverência ou veneração. feri o dedo por acaso. os nossos justos interesses. pelo menos. “Passaste acaso?” – equivaleria a – “Dar-se-á que tenhas passado?” ou – “Será possível que tenha passado?” E – “Passaste por acaso?” – diria: – “Por uma casualidade (isto é. desejos e gostos de qualquer pessoa. – Veneração é respeito profundo e submisso. 90 ACATAR. os magistrados. repulsa. os santos. ou consideração. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” – enuncia o meu intento de saber uma coisa que desejo e pela qual estou ansioso.

mas previno-me contra o frio. etc. “adiantarse” à coisa contra a qual se previne. Não será por isso que eu seja precavido. “guardar-se”: à vista do que. Quem acautela os negócios de outrem cerca-os de garantias. prevenção. “defender. acautelar. que lhe é própria) daqueles abismos”. prudência. precaução. de meticulosa cautela”. e é prevenido. prudente. em boa guarda”. Não diremos que o homem que segura a sua casa se acautele contra sinistros. admissível a forma: “está cauto”. precavido. que significa “prevenido de muito cuidado. – Acautelar diz. cauto. como os pais. os bens. portanto. Quem se previne põe-se de ânimo desconfiado contra alguém ou alguma coisa. quem previne males previstos faz o que supõe que os evita antes que eles ocorram: daí a diferença entre acautelar e prevenir. – Precaver em certos casos poderia confundir-se facilmente com prevenir. avisar. e acautelo-me deste ou contra este agasalhando-me. acautelam-se os cautos contra males iminentes. Mas entre acautelar e precaver há a diferença que provém de que aquele que trata de precaver-se toma cuidado. ou segurança. precaver se aproxima ainda mais de acautelar que de prevenir. “F. a fortuna. pôr a bom recato.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 71 tributamos algum gênero de culto. prevenir. Precaver-me é. defender-me antecipadamente do mal possível. apercebido contra alguma coisa . o modo de ser precavido. avisado. e precaução é o ato de precaver-me. precatado. disposições. prevenir-me é pôr-me de sobreaviso. pre- venido. ou em certas circunstâncias: e então “está acautelado”. sendo este “a disposição de ânimo em que fica quem se previne”. resguardos contra o mal que teme. e entre os respetivos conexos. aviso. tomar a dianteira”) enuncia a ação de “adiantar-se a tomar expediente acerca do que pode acontecer. mas é necessário não perder de vista o radical de cada um desses verbos: – venio. quem se acautela toma providências. cautela. – Precatar é “estar atento. Decerto que eu não me posso precaver contra a noite. prevenir com cautela.. guarda-se.. e quem se acautela cuida de resguardar-se contra coisas certas de que está prevenido. a atenção.” 91 ACAUTELADO. Acautelado é o que toma cautela no momento. os homens de virtudes. – Não há dificuldade em distinguir prevenção de sobreaviso. e seguiu logo cautelosamente pelo jardim”. mas sou prevenido e acautelado. a honra. pois. portanto. ficar ou pôr de sobreaviso a respeito de alguma coisa que se receia”. chegar”: prevenir diz. guardar-me. Entre cauto e acautelado fica sem dúvida cauteloso. a vigilância do espírito contra o que pode sobrevir”. ire significa “vir”. passar adiante. “vir antes”. mas julga apenas que isso é possível. consequentemente. prever. – Cautela é. cauteloso. e acautelar-me é dispor os meios de evitar alguma coisa que receio. ere “tomar cuidado”. nem se apercebe de que esteja para sobrevir sinistro. e contra essa possibilidade é que se apercebe precavendo-se. pois ele não cogita de um determinado mal. precaver.. “o apercebimento.. portanto. defende-se por assim dizer de eventualidades. é “uma medida de prudência posta em prática antecipadamente. a pátria. precatar. – Prevenir (do latim prœvenio... é o estado ou a atitude de suspeita em que se fica em relação ao que se deve temer”. Basta sentir a diferença que há entre estas formas: “Ela sempre se livrará cautamente (com a cautela. Designa qualidade própria: não seria. previdência. – caveo. ficou acauteladamente em casa”. A prevenção. Entrou. sobreaviso. Acautelam-se os interesses. ou está prevenido quem se põe ou se acha nesse estado. previdente. ire “chegar antes. – Cauto sugere ideia da firmeza e segurança do que sabe guardar-se contra os perigos. como já ficou exposto. pois.

– Condescender é “consentir por tolerância”.”. e assim. – Conformar-se é “estar. assentir. aquiescer. – Previdente é o que sabe prever. ou se nos manda. sendo o aviso esse estado de atividade consciencial em que se acha o avisado. nem supõe ação estranha. e sendo avisar a ação de despertar ou ter desperto o ânimo ou produzir esse estado. etc. de não discordar. a ideia que exprime”. – Aceitar é receber com agrado e boa sombra. ou ofereça essa coisa. Recebemos um presente. ou dê. uma oferta. a qualidade de quem sabe prever. tomamos amor. ódio. é o ato de prever tanto quanto é possível. 93 ACEDER. Não envolve. conformar-se. uma notícia. dar consentimento. – Prudência é mais que aviso: designa a virtude de uma sábia ponderação. e também aprovar. Tomamos o vestido. Aceitamos um obséquio. que se está de acordo e se consente”. aceitamos as condições de um contrato. de vistas. refletido e seguro no agir. autorizar o que se nos oferece ou propõe. o que ela diz por si mesma. 94 ACEITAR. a obrigação que se nos impõe. pois. etc. – Acep- quer que seja o motivo do consentimento”. tomamos o livro para ler. significação. sentido. L. regulado pela disposição das palavras”. con- descender. “é declarar que se aceita o que outros decidiram. tempo. – Receber é tomar o que se nos dá. uma ferida na guerra. “Tomar alguém uma certa coisa – diz ele – é havê-la para si. do conselho mais sábio para o caso. as armas para brigar. asco. ou exprimir de qualquer modo. do mesmo voto. consentir. e que se cooperará para o intuito geral. ou o que vem a nós. e prudente será aquele que possua essa virtude. – Muito judicio- ção dizemos dos “vários sentidos em que uma palavra pode ser empregada”. recebemos um hóspede. tomar. – Concordar é “chegar a acordo depois de dissensão. uma visita. – Avisado é aquele que está fortalecido do aviso que convém. ou o valor da frase ou do discurso. – Significação é “o valor semântico da palavra. ou se nos oferece. segundo Bruns. deixa. porém. apreendê-la com a mão (ou pô-la sob seu domínio). ou pôr-se em perfeita identidade de sentimentos. receber. o dinheiro que se nos deve. recebemos o foro que se nos paga. e prevenir-se contra surpresas. a espada. – Anuir é propriamente “fazer sinal. sob uma outra ordem. . 92 ACEPÇÃO. precatado designa aquele que se não deixará pilhar desprevenido em caso em que da atenção dependa o sucesso. – Aceder.72 Rocha Pombo certa que é para temer”. aderir. que se sente do mesmo modo”. entrever que se tinham outras tenções. um favor. nem ideia de movimento que no-la traga. – Assentir é “mostrar que se é da mesma opinião. o chapéu. – Sentido é “o valor da palavra conforme a aplicação que tem na frase.”. qual- samente estabelece S. e sem o qual não seria possível sair-se bem. de ideias. tomamos ocasião. Aquiescer é consentir voluntariamente e sem esforço”. etc. ou admitir por mero desejo de ser agradável ou de não contrariar”. a proposta que se nos faz. assentir. chamá-la a si. de modo de ver. que nos mande. concordar. – Consentir sugere ideia de “permitir. uma graça. que faz o ânimo calmo. ensejo. – Previdência é. anuir. a pena para escrever. uma injúria. e prever diz “ver antecipadamente o que se pode dar em relação a alguma coisa que se deve evitar”.. – Aderir é “dar aprovação afinal àquilo que se tinha recusado ou combatido”. uma certa gradação entre estes verbos.

) tomá-las pelo som e não pela significação. como a flecha. pois a coisa amarga. “apressar com precipitação”. Dizemos – dias amargos. áspero. – Precipitar quer dizer aqui “apressar. e falar. amargo. do (soído). o espinho. – Timbre não é propriamente o tom.. travoso. e acento a uma particularidade da voz de quem as diz. acre. um negócio. Uma coisa pode ser acerba tanto ao gosto como ao olfato. o tom que serve de norma. – Azedo (de acidulus. a espécie de sonoridade de um instrumento ou de uma voz”. toada. (Amargoso significa “um tanto amargo”). ácidos remoques. soni- ACENTO. tom. Matéria azeda é a que se alterou do normal pela fermentação: figuradamente azedo significa. um tanto ácido”. neste sentido. uma solução esperada etc. – Acelerar – diz Bruns. – Sobre estas duas palavras escreve Bruns. É o mais genérico do grupo. – Acento é o “modo como se exprime uma emoção”. pronúncia.. senão no natural. pelo qual se afinam outros. como está dizendo o próprio radical. o voo. “Tomar as palavras pela toada é (diz Aul. acérrimo. discutir na mesma. portan- .) – para significar quanto essas decepções e esses dias nos deixaram na alma uma impressão comparável à que na boca produz o gosto do fel. diminutivo de acidus) diz propriamente “meio ácido. apressar. suprir a qualquer dos outros que nele figuram. partícula que marca ideia de “alguma coisa de agudo. tanto se diz acerbo o som como a ironia. – Acerbo é “tudo que punge algum dos nossos sentidos”. ou pela mesma toada é discutir ou falar segundo os modos ou pela mesma forma por que outrem fizera. tom é a “maior ou menor intensidade de força com que se exprime”. movimento apressado para chegar ao fim.. Dizem muitos: – “palavras ácidas. como ao ouvido. e o acento dos minhotos. como o sabor lancinante do limão. etc. é interpretá-las à letra sem atender ao espírito delas”. ácido. – “denota impaciência (sofreguidão). acrimonioso. – Aligeirar é propriamente “fazer que se mova. 39). picantes como a coisa ácida: notando-se que não é usada pela maioria dos autores. etc.” 96 ACENTO. de acre” (Chass. antecipando. diapasão. Não obstante. – Ativar. acrimonioso. do grego. agro. apressurar. – Sonido (e soído) significa um “som particular. – Toada é o tom de uma voz. amargoso. conquanto menos pungente ao paladar. o diapasão de uma cantiga. agro são proliferações de ak. ali97 73 geirar. e só é sinônimo de amargo pela acerbidade. como o olhar ou como a censura. precipitar. – Diapasão é o som próprio de um instrumento. mas “a qualidade do som. azedo. – A maior parte destes adjetivos têm a mesma raiz: acerbo. e poderia. desejo ardente de alcançar o termo. que caminhe. ativar. – Som é “todo ruído que os corpos produzem quando em movimento ou em vibração”. etc.: “Dizemos a pronúncia do Minho. estas duas palavras confundem-se geralmente”. acérrimo. estranho”. Aligeiram-se os soldados pelo exercício. 98 ACERBO. – Apressurar é dar-se pressa desordenadamente. amargas decepções (como dizemos – “momento amargoso” etc. acre. mais ligeiro”. sugerindo a ideia de remoques ou palavras mordazes. ácido.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 ACELERAR. referindo-se pronúncia ao modo de serem ditas as palavras. azedo. travento. é “fazer mais ativo”. – Apressar denota ação viva. é dar mais rapidez ao movimento ou ao ato. som. é todavia mais ingrata. ou afastar-nos do princípio: é inerente a este verbo a ideia do pouco cuidado que resulta da própria pressa. timbre. no maior número dos casos. Aligeira-se o passo.. – Ácido é tudo que impressiona desagradavelmente.

semelhança ou analogia. referir.. (com res- peito a. esta preposição sobre marca.. Até uma menina é capaz de fazer uma acerba reprimenda. se exacerba. relativamente a.. etc. conduta. Falar. – A propósito de.. – Quanto a é outra locução que marca também conexão direta entre o objeto e o que se vai enunciar. ou com respeito a. – Sobre. mal humorado. diz ou faz. palavras azedas. modificam a ideia representada pelo verbo. a respeito de.). áspero e desabrido”.. Tanto pode ser aplicado no sentido moral como no físico.. – Em relação a. etc. mas a alguma outra coisa que com essa tenha pontos de relação.. (Bruns. A propósito de uma história podemos contar outra história muito diferente e que apenas nos tenha sido sugerida pela primeira.. como dizemos agras escarpas. revelando violência reprimida... e a respeito de. Usam-se indiferentemente com verbos que designam operação intelectual. ou pelo menos dá ideia da autoridade da pessoa que escreve. a colocação de tal ponto geográfico com respeito a tal outro”.. escreve ou faz alguma coisa. como acerca de e a respeito de. porém. (com relação a. ou em relação ao negócio): “O diretor ouviu o ministro sobre o negócio”. ou a respeito de.. Equivale a sobre.. mas reprimenda áspera deixaria supor que não fora feita em termos delicados. necessária.. ou falar sobre o que lhe diga diretamente respeito.. a propósito de alguma coisa não é propriamente referir o que esteja ligado a essa coisa. em referência a.. mas convém não esquecer que áspero sugere ideia de rude.. fazer. e parece áspero.. ou negócio. etc. Dizemos: agras penas. o que sai do seu estado de calma”. só se usa com esta classe de verbos... disputar acerca de.): e. Usa-se mais frequentemente no superlativo: acérrima invetiva...... escrever.. Divergem.... em relação a.. Dizemos: – “discussão azeda. colocação: como as disposições do testador com respeito a seus filhos. e a respeito de.. azedos momentos”.). ou exercício da palavra. no sentido figurado. falar. deliberar. Estilo acerbo pode não ser áspero.... se empregam com os que designam operação... É fácil de sentir a diferença que é palpável entre estas duas formas: “O ministro ouviu o diretor acerca do negócio” (ou a respeito do.. – Acrimonioso não se deve confundir com acre.74 Rocha Pombo to. A coisa acrimoniosa contém alguma acrimônia. acérrimos furores. como pensar. exprime muito mais vagamente a ideia de outras locuções deste grupo.. em alusão a. – Acre é o “que tem sabor picante e corrosivo” (Aul.) já enuncia mais precisamente que ao assunto.. – Em . rigorosa entre o caso e o que se vai dizer... Além disso. a propósito de... e em relação a.. Uma palavra áspera pode não ser acerba.. fixando-a na do objeto em que a ação recai ou se executa. – “Acerca de. estabelece uma relação precisa e direta entre o que vamos dizer. é um tanto acre. a conduta de Cícero com respeito a Otavio. Quem fala em relação a alguma coisa diz sem dúvida coisas que estão com aquela em relação mais direta do que quando fala a propósito da dita coisa. negócio azedo. sobre... “o que se irrita.. que molesta algum dos nossos sentidos”. inculto. 99 ACERCA DE..). e com respeito a. Confunde-se muito com acerbo. recriminações acérrimas... é que se prende o que se vai dizer.. quanto a. em que acerca de.” – Áspero é “tudo o que impressiona desagradavelmente. e o objeto sobre que se diz.. designa “o que é rude e violento. (ou com relação a. caso. ou com respeito a tal ou tal assunto. e aplicado a uma pessoa. meditar. mas ainda sem estabelecer dependência direta.. – Agro só se diferencia de acre em ser mais extensivo. diz “que mostra azedume.. em grande número de casos em que não seria perceptível uma diferença essencial mas muito subtil. etc.. ou relativamente a.

que se esteiam mutuamente.. ou mudar logo”. ou indispensável e próprio. montão. de segunda ordem. – Monte diz também “grande porção de coisas”. e só se usa. acumulando. – Aquele que adivinha vale-se de um tino misterioso. é falar considerando uma coisa que não foi citada. mas que se põe de reserva para momentos em que venha a servir”. por ser aí demais. sem dizer de modo expresso qual a coisa a que se alude”. etc. portanto. – Ruma é “porção de coisas uniformes. ruma. atinar. e que. tino) que nem todos têm. – Secundário é “o que é de menor importância. sobrepondo. pode permanecer apenas por algum tempo. – Acessório se diz de tudo que numa coisa (num corpo. e aludir é “indicar por sugestão. nem era necessário que se o fizesse.. equivalente a amontoamento. monte. cúmulo. falar acerca ou a respeito de coisa determinada clara.. 101 ACERVO. de areia. acertar. portanto. – Cúmulo dá ideia de grande quantidade de coisas formando monte. no sentido figurado. segundo Bruns. porque todos os que ouvem sabem já qual é a coisa a que se alude. precisa. e quase sempre à má parte. de gelo”. podendo por isso ajustar-se umas às outras. é cada uma das pilhas de coisas iguais e sobrepostas umas às outras. referir vagamente. fora da acepção jurídica. num pensamento. – Quem atina acerta com alguma coisa pondo em ação umas tantas qualidades de espírito (argúcia. “Que monte de absurdos!”. distinguem-se tão bem como os dois verbos que ordinariamente se confunde. nem de acaso.. de modo que ocupem o menor espaço possível”.. numa festa. – Acervo diz “grande porção de coisas”. – Sobressalente = “que sobra. contingente. etc. 102 secundário. pois. ideia de confusão. numa questão. e sugere. Um sujeito. 9 Usamos também acúmulo por acumulação. pode falar em alusão a certos fatos ou a certos homens sem os referir. atinar mesmo com as coisas de que absolutamente nada se sabia. de valor que não é principal. ou então ao cabo de algum esforço. de armas. rima.. em relação a outra coisa”. Falar em alusão é falar quase a propósito. e sem razão. – Montão é aumentativo de monte. – Quem acerta dá por uma coisa casualmente. “Que acervo de asneiras disse o homem em tão curtos instantes”. Falar em referência é. sobressalente. pois que referir é “indicar positivamente. de pedras. por exemplo. Não seria de bom gosto dizer: acervo de verdades. pilha. sem que faça falta no todo de que se elimina. ou num banquete político. e usa-se tanto no sentido natural como no figurado9. Quem arruma coloca em rumas as coisas que se devem arrumar. pelo próprio nome”. – Rima. – Contingente é “o que não é necessário. “não é parte essencial ou fundamental”. melhor ainda do que este. excesso de coisas que se vão reunindo. adivinhar. ACESSÓRIO.. e tanto se emprega no sentido próprio como no figurado: – neste último igualmente à má parte. desordem. – Pilha é “porção de coisas numa certa ordem”: pilha de tábuas. grandeza descomunal. que excede ao necessário. “um monte de laranjas.).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 75 referência a. 100 ACERTAR. – Subsecivo é o que pode ou deve ser eliminado. de um dom excepcional que só se explicaria por faculdades que o fizessem superior aos homens comuns. tenacidade. expressamente. de frutas. Adivinhar é. . etc. e em alusão a. e para cujo conhecimento o adivinho não se serve nem de esforço. mas de uma vidência maravilhosa. de sacos. subsecivo.

entre invenção e invento. Descobrem-se as minas. mas podendo ser também fruto de esforço”.. mas não a descobrimos. descobrimento. Alguns o quiseram fazer sinônimo de encontrar. nos apresenta uma pessoa ou coisa de que havíamos. que nos é útil. e. e exprime a ação daquele que pelo seu engenho. dizemos que achou. invento. como diz Roq. quase sempre por acaso. e andando à procura dela e encontrando-a. a minha diligência. pela praça encontrei uma procissão. deparar. – Descoberta e descobrimento designam o ato de “dar com alguma coisa oculta. Lucena diz: “Mais encontraram acaso as ilhas do que as acharam por arte”. – Descobrir é pôr patente o que estava coberto. – Achado é “aquilo com que se deu. e naquelas regiões até então ignoradas acharam um novo reino vegetal e animal. a não querer dar a entender que a andava buscando. me deparou”.: o descobrimento da América. e que invento se restringe às artes. invenção. Ex. ou que por casualidade se oferece. que nos subministra. diferente de nós. ou de nossa vista. além disso. Ninguém dirá que achou a procissão. um enterro. O que se descobre não estava visível ou aparente.76 Rocha Pombo 103 ACHADO. Só não se diz. pois o p. aos fatos de extraordinárias proporções realizados pelos navegadores e viajantes modernos. Esta distinção. Uma coisa simplesmente perdida achamo-la quando chegamos aonde ela está e a descobrimos com a vista. de revelar o que não era sabido”. descoberta. tanto moral como fisicamente. não deixaria de ter bom patrono entre os clássicos. a descoberta da pólvora10.. o estafeta. por exemplo: “A passagem com que deparei”: o que é erro. – Deparar. descobrir. etc. é achar o que era ignorado. pois o modo correto de falar é: “A passagem que o acaso. trabalho. – Acerca deste grupo escreve Roq. e não coberta ou oculta. proveitoso. a apanhou e guardou.. Ao passar 10 Se bem que se não siga sempre muito à risca esta distinção. mas fora de nosso alcance atual. as nascentes que a terra encerra em seu seio. etc.. assim como. viu no chão uma peça de oiro. mas a mesma espécie de homem. Colombo e Cook descobriram novos mundos. (3. É por isso que não se usa comumente nas primeiras pessoas: Dizemos que Deus nos depara um amigo. nem se há de dizer nunca: descobrimento da pólvora. dizemos igualmente que achou. mas só Deus poderia dizer: “Eu te deparei um amigo”.. – Sobre invento e invenção escreve o mesmo autor que “exprimem o que se inventou. exprime a ação de um agente. Pode-se. com a diferença que invenção é muito mais extensiva. porque ela estava manifesta. com a voz neutra. tendo-a perdido. 15). a obra do inventor. – Inventar corresponde ao latim invenire na sua significação restrita de “discorrer. que é composto da preposição de e do verbo latino parare “preparar”. acham-se os animais e as plantas que povoam sua superfície. feliz. imaginação. anda esta palavra em regra associada à ideia de bom. achar de novo”.. dizendo. A duas léguas de Lisboa encontrei o correio. encontrar. oculto ou secreto. que se encontrou. Descoberta aplica-se mais particularmente ao que se descobre no domínio das artes e das ciências. De um homem que. etc.: “Encontrar corresponde ao verbo latino invenire: na sua mais lata significação representa a ação de dar com uma coisa que se buscava. 104 ACHAR. o produto da faculdade inventiva (ou criadora). Descobrimento aplica-se às descobertas de grande alcance. in- ventar. etc. acha ou . mui razoável por certo. ou não conhecida. etc. estabelecer. o que se acha estava visível ou aparente. uma boa fortuna. etc. indo pela rua.. a mesma diferença que se dá entre ação e ato”. Muitos autores dos nossos dias dizem indiferentemente descobrimento ou descoberta da América.

significa enfermidade ou moléstia habitual. – Contingente sugere ideia de coincidência. mas cada uma delas indica modificações particulares que distinguem os diferentes gêneros de sofrimento”. – Fortuito vem de fortuna: é o sucesso extraordinário. moléstia. ou trabalho penoso de corpo ou de espírito. – Moléstia toma-se quase sempre na significação da palavra latina. em sentido desfavorável. – Doença. Fr. 10). Parece corresponder ao morbus dos latinos. sem que se ligue a causas que possam ser previstas: e. sani non sunt. e significa “que depende de certas condições ou circunstâncias. 4). caso acidental. 3. “Porque parecendo.. ocasional. que quer dizer doença permanente. – Quanto às quatro primeiras palavras deste grupo é ainda de Roq. abandono de forças. no mesmo sentido em que dizia Cícero: Qui in morbo sunt. moléstia do corpo acompanhada de dores. escreve Alv. 106 ACIDENTAL. de S. – Indisposição é “estado em que a pessoa fica ligeiramente fora do normal”. ou que não é permanente. mas favorável”. a terceira é preferível para indicar a falta de saúde que provém de fraqueza do corpo. contingente. ou novos usos. primeiro. 4. que vem e .. enfermidade. enfermidade. aleatório. mal. segundo Roq. ines- perado. Harvée achou ou descobriu a circulação do sangue. eventual. Pas. – Imprevisto supõe ignorância da possibilidade da coisa. (Tusc. quer dizer estado doloroso do corpo. – Incômodo é “mal passageiro”. Herschel descobriu um novo planeta. a segunda também se generalizou a todo incômodo. Volta inventou a pilha que dele tomou o nome de voltaica”. como o definiu Cícero: Molestia est œgritudo permanens (Tusc. segundo sua origem (do verbo latino doleo). – Achaque.. doen- ça. inopinado. 8). aqui tem decerto um sentido mais restrito. o que se segue: “Todas estas palavras enunciam um desarranjo ou desordem no estado normal da saúde do homem. segundo a força da palavra latina. debilidade da natureza no sentido em que disse Cícero: Infermitas puerorum et ferocitas juvenum” (Senect. casual. novas combinações de objetos já conhecidos. etc. a física acha as causas e os efeitos. mas não habitual. a última exprime bem a falta de saúde acompanhada de do- res ou incômodos físicos. segundo a origem árabe ax xaqui. tantas vezes sucedeu que veio a ser havido por mistério”. Copérnico inventou um novo sistema do mundo. que atua ou que se produz sem ser normalmente. que não se espera numa ocasião ou circunstância determinada”. indisposição. A primeira fez-se extensiva a todo defeito físico ou moral.. – Mal é termo genérico para designar tudo que causa dano ao homem. “supõe conhecimento da possibilidade de uma coisa. podendo substituir em quase todos os casos a todos os outros do grupo. 105 ACHAQUE. – Eventual distingue-se de todos os do grupo em enunciar apenas a ideia de coisa que ocorre. achaque. enfadamento. A mecânica inventa as ferramentas e as máquinas. “Acidental vem de acidente”. É o que acontece sem ser esperado. Inopinado supõe que não se havia pensado. L. – Acerca de acidental e de fortuito. mas o engenho penetrante inventa coisas novas. – Inesperado. isto é. – Enfermidade significa. Um engenho fecundo acha muitas coisas. coisa que pode ou não acontecer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 77 descobre coisas novas. portanto. incômodo (incômodos). e significa em geral o sofrimento que traz a alteração da saúde.. Dizemos com razão – doente o que não está são. “fraqueza. imprevisto. fortuito. falta de forças. incerto. se bem que no plural se aproxime de moléstia. nem nos viera à imaginação o que sucede”.

revés.. – Aplaudir é “dar sinais ostensivos. – Segundo Bruns. proclama-se. agitação. do destino. cumprindo um dever.. aceitar solenemente”. vitoriar. mas não provável”. aclama-se espontaneamente. e contra a qual nada se pode fazer. se declarasse autêntico. que se dá como de momento. – Calamidade (do latim calamitas. com vivacidade.. declarar com desvanecimento e no meio de extraordinário aparato”.. que é o único que hoje tem. – Desgraça é o mais genérico do grupo. – Glorificar é “fazer a consagração . que aniquila e destrói tudo. – Casual se diz de todo fenômeno cuja causa é desconhecida. – Aclamar é “aprovar. etc. abrangendo a significação de todos os outros: é todo acontecimento funesto. como se se fizesse escolha solene da pessoa aclamada. trazendo consigo a carestia e a penúria. mas para pior. “que aparece como circunstância que se não prevê”. formado do prefixo negativo des e de astre. destruição das searas pelas intempéries. 108 ACLAMAR. desgraça. – Revés é a desgraça que faz mudar completamente uma situação.. glorificar. e até somente numa família. e considerando-a até certo ponto como contrária às leis ordinárias. mas a uma série desses fatos que sobrevêm uns aos outros. é o reverso da medalha. (Bruns. uma grande desgraça causada. alegria. – Incerto é “tudo aquilo a respeito do que se está em dúvida. proclamar. acidente (do latim accidere. toda desgraça irremediável. livremente. segundo as superstições astrológicas. transforma completamente o estado precedente noutro estado muito pior. ou mesmo num indivíduo. desastre. pública ou privada. desgraça da qual é impossível sair. – Catástrofe é acontecimento extraordinário. ou não se tem certeza”. de que se aprova e sanciona”. num Estado. movimentos de delírio”. pois nesse caso não se atende a um fato adverso somente. se assim nos podemos exprimir. a força crescente dos sentimentos com que se manifesta aprovação.) – Vitoriar é “aclamar estrepitosamente. povoações e províncias.). numa sociedade. mesmo quando se fala de uma calamidade privada. vocábulo que significou primitivamente os estragos que a saraiva produz nos campos) significa. sem que nada a fizesse prever. Esta revolução completa pode dar-se num povo. – Aleatório “é termo jurídico: aplica-se a disposições que se tomam para o caso em que se dê uma circunstância possível. “suceder”) diz-se de qualquer desgraça que sobrevém inesperadamente. e que por isso se acredita que é devido ao acaso. isto é. mas sempre sugerindo a ideia de transtorno violento e profundo. se diz de qualquer grande desgraça.78 Rocha Pombo passa”. proclamar. 107 ACIDENTE. incendimento sagrado por alguém ou alguma coisa. glorificar – estes verbos marcam a gradação. – Proclamar é “dar sanção. – Desastre (vocábulo francês. muda. segundo a sua etimologia. e por extensão. delírio. e como se se tornasse publicamente reconhecido o que se proclama. isto é. – Ocasional significa propriamente “de ocasião”. pela influência nociva dos astros. porém. Como a destruição das searas é uma desgraça que afeta sobremodo a muitas famílias. “astro”) significa propriamente um grande infortúnio. calamidade. constituindo um conjunto que tem importância excepcional”. como se se desse testemunho. Em regra. que sobrevém como castigo. considerável.. vitoriar. catástrofe.. aplaudir. expressos. – Postos nesta ordem – aplaudir. que revolve. (Há muita diferença entre proclamar e aclamar. calamidade. no sentido figurado. entusiasmo. O sentido desta palavra é sempre coletivo. aclamar.

. estendendo. iluminar. quer no figurado. ou a evitar etc.. seja superior a forças humanas ou fique fora do nosso alcance. A glorificação deve ser um ato ou uma cerimônia tal que se compare à solenidade de culto: só a merecem os verdadeiros gênios e os santos.. aterrorizar.. – Elucidar é “fazer perfeitamente claro. – Aclarar é “tornar claro. como a própria luz”. distinguindo-se destes.. a vencer. – Alumiar diz propriamente “dar luz. a solidão.. A noite. – Explanar = “explicar tornando simples. Não se poderia dizer. atemorizar. – Esclarecer é “aclarar completando. fazer que se veja claro”. 109 ACLARAR.”) Ilustra-se uma obra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 79 de virtudes. mas que me apavora. aterrar. talentos que excedem ao que é grandeza comum entre os homens”. ou nos alumia o espírito. alumiar e iluminar. e não – “alumia. que me atemoriza ou me quebranta. de um enfermo. também poderíamos dizer assim: “Deus que lhe ilumine o caminho da vida”. etc. assustar.. amedrontar.. e: “Deus que lhe alumie o caminho escabroso que vai seguir” (isto é – que lhe torne claro o caminho). da ACOBARDAR. esclarecer. no entanto. desembrulhando aquilo que se não entendia. pois iluminar.. me acobarda. e não – “ilustra.. Dizemos: “Deus que o ilumine” (isto é – que lhe torne luminoso o espírito. fazendo fácil”. uma invetiva não acobardam.” O sol alumia a todos”. explicar..) não se pode dizer que seja cobarde. Muito bem nota Roq. decerto que ninguém teria a lembrança de arriscar: “Deus que o alumie.. que de um menino (de uma mulher. O grande homem ilustra (dá brilho) o seu tempo”. explanar. – Ilustrar significa “lançar luz. e pode-se dizer que a nuança entre uns e outros é marcada pelos respetivos radicais.” Pelo menos esta forma seria de lidimidade muito duvidosa. sem que só por isso haja necessariamente ficado de todo elucidada. explicando o que parecia obscuro ou estava confuso”. elucidar. ilustrar. Uma questão pode ter sido ilustrada por um mestre. em sugerir ideia do modo completo como a coisa elucidada ficou esclarecida.. e distingue-se de ilustrar em grande número de casos. ou de um decrépito. – Explicar é esclarecer como desdobrando. – Acobardar é “reduzir alguém a uma incapacidade absoluta de reagir”. mais por defeito da coisa que se explica do que da pessoa a quem é explicada.” “A palavra de Jesus alumia os cegos” (não – “ilustra. “pois que diante destes os homens ficam como se estivessem diante de divindades”. mas amedrontam uma criança... a atacar. mas nem sempre nos ilumina. projetar brilho sobre”. feitos. De sorte que só se entende que alguém se acobarda quando deixa de ter o ânimo que é próprio do homem. 110 intimidar. por exemplo. num sentido muito alto. etc. um assunto. esparzir claridade”. alumiar. quanto ao primeiro exemplo.. Quem se acobarda perde a coragem para repelir um ataque. significa “dar à inteligência uma nova e intensa claridade a que não escapem as coisas mais abstrusas”. e isto quer no sentido próprio. apavorar. um debate. Também não será próprio o verbo acobardar tratando-se de casos em que a coisa a resistir. E como um caminho só se faz claro a olhos que saibam ver. ou o relâmpago..” – Iluminar é de predicação mais viva e de ação mais direta que alumiar e ilustrar. É convizinho de ilustrar. quebrantar. A lição do mestre abalizado nos ilustra. o senso interior). que uma tormenta. inteligível. espavorir. e não – alumia-se. e sim medroso. ou um vulcão. . – Todos estes verbos enunciam ação de diminuir ou abater o ânimo de. tratando de cobardia. Mas. ou para atacar um inimigo que o afronta..

de coisa sagrada. abater inteiramente o ânimo aterrado”. o pavor que sentimos.. nos espavore”. Pode-se intimidar a todo o mundo talvez. um assassino acossado de remorso ou perseguido da justiça. feitos. como atemorizar é “causar temor”. que se inclui em aterrar. amofinar”. a presença daquele biltre intimidou o velho soldado (O velho soldado nem por isso perderia direito a continuar sendo o mais legítimo dos heróis: poderia mesmo juntar talvez agora ao antigo. – Feito é o mesmo que fato. um súbito terror de imobilizar. um grande espanto. Sente-se. mas é possível que explicasse suficientemente a sua quebra de ânimo como excesso de pudor. e sem razão. por exemplo: “A noite. “Só ao ver ao longe o filho do senhor. atemorizamos o mau estudante com a presença do pai. sagrado. etc. o heroísmo um tanto menos espetaculoso. um espírito supersticioso. igualmente a ideia do que tem de misterioso. – Espavorir é “fazer abalado de pavor.) Amedrontamos uma criança. como virtude contra o escândalo.) “Por estar na rua. representando-nos a vontade. Exemplos: “Bastou uma palavra mais alto e mais áspera para que o outro se intimidasse ali. submisso. – Quanto aos três primeiros escreve Roq. da sua tarefa. a iminência de uma grande desgraça nos aterroriza. deixar agitado de susto: e sugere a ideia da fuga que revela o espanto. mas – “nos apavora”. O fato tem uma relação direta com a coisa executada. – Amedrontar é “causar medo”. o mísero escravo intimidou-se”. e tem alguma coisa de análogo a aterrar por sugerir. O primeiro exprime “inspirar um medo. “A ação tem uma relação imediata com a pessoa que a executa. atemoriza-se o réu diante do tribunal. de salvar o seu decoro intimidando-se. que em atemorizar se inclui a ideia do motivo real.. de impressão violenta. Mas a diferença entre estes dois verbos é bem sensível quando se compara medo e temor. ou é de uma tão delicada modéstia que passa a ter sem dúvida outro nome. ou: “Bastou a presença do mestre para intimidar o menino”. o menino na presença dos examinadores. falsos ou duvidosos. mas aquele que se intimida – ou é de uma prudência tão meticulosa que se avizinha de cobardia. nem intimida. tão discutível e brutal. O segundo significa também “encher de terror”. portanto. ou – “O castigo do céu atemoriza os crentes”. “Na miséria ou na doença os mais fortes se quebrantam”. “O crente atemoriza-se do castigo divino”. quase sempre. más ou indiferentes. – Quebrantar é “fazer que se perca o ânimo. mas seguramente mais humano. e os fatos são certos. representando-nos o efeito. que leva alguém a perder o ânimo. façanhas. sinalando a palavra diretamente a intenção do que as executa. que se deixe abater. É dos mais extensivos do grupo. mu- .. o produto. “O sofrimento moral quebranta mais que os males físicos”.80 Rocha Pombo sua função. etc. é causar susto. – Apavorar diz propriamente “encher de pavor. Até os animais podemos assustar.. grave. etc. – Aterrar e aterrorizar confundem-se muito. (Ver o grupo. Daí vem que as ações são boas. ou então é mesmo de natureza ou de condição tímido por ser fraco. já que é tarde para defendê-lo a pulso ou à força de armas). o perdulário lembrando-lhe o futuro. lá fora. 111 AÇÕES. a parte que nela tem a pessoa. Não se poderia dizer. calando-se”. fatos. o movimento. (Ninguém diria amedronta. o que fica executado por meio da ação. e menos acobarda.) – Assustar é “produzir impressão súbita de espanto ou medo”. – Intimidar é “fazer tímido”. causar grande medo”. mas não sugere a ideia de mistério. com relação direta à essência ou qualidade do fato em si mesmo. proezas. (O outro aqui não é decerto um herói. como sobrenatural. Uma visão diremos que nos aterra.

– Asilar expressa a ideia de lugar seguro. De um revolucionário vencido que conseguiu fugir não se pode dizer que foi homiziar-se no estrangeiro (e sim – refugiar-se). pungir. – Ocultar é menos do que esconder. De um criminoso julgado. que se asila em nossa casa. fustigar. quem se esconde procura escapar tanto às vistas como à investigação de outrem. sim. – Refugiar-se diz propriamente “fugir e valer-se de algum lugar seguro para escapar a algum perigo”. a valor excepcionais. – Açoitar é “bater com açoite ou látego. que se considera com direito a essa coisa ou essa pessoa”. pois ocultamos uma coisa evitando apenas que outros a vejam. mas principalmente batendo. – Façanha (do latim facinus. chibatar (ou chibatear). comprometido em algum atentado ou algum movimento subversivo. magoar açoitando ou vergastando”. Um bandido. esconder-se. acossado do clamor geral. azorragar. chicotar (ou chicotear). mas o seu uso mais frequente é representar as ações nobres. – Surrar é o mais compreensivo do grupo: exprime a ideia geral de “molestar de qualquer modo. e tanto se faz às bestas lerdas. mas que se foi homiziar no estrangeiro. vergastar (verdascar). “obrar” etc. refugia-se na floresta. “Abrigamos em nossa casa bons e maus”. das que são contadas nos antigos romances”. abrigar. acoitar-se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 81 dada por eufonia a pronúncia dura de a na doce de ei. – Segundo Laf. refugiar-se. flagelar. como um assassino que foge da polícia. ou contra mal de que é perseguido”: “O hoteleiro abrigou da (ou contra a) chuva aquelas crianças”. refugia-se na Inglaterra ou na Suíça. e como castigo”. surrar. ocultar. – Homiziamos em nossa casa alguém “que sabemos condenado por algum crime”: e exatamente nisto é que este verbo se distingue de acoitar: este é mais extensivo: tanto podemos acoitar um menino que fugiu da casa dos pais. – Esconder é “furtar alguém ou alguma coisa à ação.) é feito heroico. . homiziar-se. cortante”. não se dirá que se refugiou. – Abrigar é “dar abrigo”. a esforço. asilar-se. Usam-se todos também no sentido moral. Esconde-se aquele que se esquiva à ação dos que o procuram. mas ultraja também. ato. devido à grande coragem. – Homiziar é sempre um delito. acoitar nem sempre. como aos homens que se deseja humilhar. abrigar-se. corresponde muitas vezes a obra. sagrado (asilo) em que alguém se julga a salvo de qualquer perseguição. ocultar-se. – Zurzir é “espicaçar. um anarquista. asilar. e sugere a ideia de “fortes golpes que molestam e afrontam a vítima”. ilustres de homens famosos e dignos de memória”.. es- conder. zurzir. mas só homiziamos o criminoso que tenta escapar à ação da lei penal. 112 ACOITAR. – Chicotar (ou chicotear) é “pungir a chicote”. a virtudes. Nem por isso asilamos a primeira. “fazer”. isto é – “acolher e amparar alguém contra risco iminente. 113 AÇOITAR. nem o segundo pode dizer-se. ao esforço de outrem. homiziar. – Vergastar (ou verdascar) é “bater com vergasta (ou verdasca) isto é – com vara muito fina e rija. Um político. ou com alguém a que essa pessoa esteja sujeita. – Azorragar é “bater com azorrague”. pois o chicote ou rebenque não só molesta. nem sempre. Vem acoitar-se em nossa casa o indivíduo que se julga culpado de algum crime. – Todos estes verbos enunciam ação de molestar fisicamente. afligir. proeza (em francês prouesse “action de preux”) “diz-se propriamente das façanhas da antiga cavalaria. de facere. e diferençam-se quase que só pelo gênero do instrumento com que se molesta. – Acoitamos uma pessoa que sabemos comprometida com autoridade pública. Quem se oculta deixa apenas de aparecer.

insinuar. a coisa a comboiar – carros. Acompanha-se uma irmã à igreja (não – segue-se)”. sem perder o seu caráter. – Fustigar é quase como zurzir: designa a ação “de picar. quando lhe fazemos sentir por meias palavras. quer para o servir. mas indo-lhe na retaguarda e sem perdê-lo de vista. etc. ou a verdasca”. Segue-se-lhe a pista a alguém. 115 ACOMPANHAR.” Pode aconselhar-se bem ou mal. navios. ou por meios indiretos e vagos. As forças escoltaram os prisioneiros até Pernambuco. e quer para observá-lo.. adaptar. e dá ideia de que nunca é uma só pessoa que escolta. ou o fato de cair. boiar. multidão (comboio). Um galé só sai da sua prisão escoltado. – Flagelar tem hoje uma acepção especial. em vez de dar um conselho”. – Acompanha-se uma pessoa quando se vai a seu lado e subentende-se que tomando parte nas vicissitudes que essa pessoa tiver no seu caminho. “acompanha no encalço”. em regra. Uma nação pode ser flagelada por uma inundação ou por um mau governo. alguma coisa que está no nosso interesse. – Insinuar está quase no mesmo caso de sugerir: é “introduzir. sugerir. é mais restrito que escoltar. e muito subtilmente. conveniente a um determinado uso. a isso o aconselhamos. sofra as alterações que o caso exige: acomodar um drama estrangeiro ao teatro português”.. seguir.. – transformar uma coisa de modo que. – Quanto a comboiar é preciso que se note que. – Adaptar é “fazer alguma coisa apta especialmente para uma calculada serventia”. Ninguém diria que sugeriu a Pedro que levantasse muito cedo: salvo se quisesse mesmo fazer uma simples sugestão. boiadas. (não – acompanha-se). ou a um caso determinado”. – Adequar é “fazer uma coisa proporcionada a um certo fim. Não se poderia dizer. Tanto pode flagelar-nos um inimigo como um infortúnio. – O sentido translato é análogo ao natural em todos estes verbos. 116 ACONSELHAR. a que faça alguma coisa que não faria de moto-próprio”. mas – “segue no encalço” (ou vai. levar até o íntimo do espírito ou do . como calamidade. – Sugerir é “fazer entrar no espírito de alguém. é também “encaminhar numa certa direção (num negócio.. – Apropriar aqui é “dar a uma coisa condições que a tornem própria para o fim que se deseja”.). por meio de razões insistentes e bons argumentos. ou mesmo na conveniência da pessoa a quem se sugere. ajustar. como a despiedade de um mau poeta.. – Chibatar (ou chibatear) é “aplicar a chibata. a conveniência de ocultar-se às vistas da polícia. bater com vergasta e repetidamente. ou por circunlóquios. adequar. escoltar. zurzindo para exemplar e corrigir”. quando dizemos explicitamente a Pedro que levante cedo. até que o fustigado perca a paciência e saia do estado normal de atividade ou de calma”. significando a ação de impor pena como suplício e castigo. 114 ACOMODAR. tomar o mesmo rumo de alguém. pois nunca se comboia senão para proteger. persuadir. – Escoltar é “acompanhar para proteger ou para vigiar”. de boa ou de má-fé. etc. – é sempre mais de uma.82 Rocha Pombo macerando. É claro que. isto é. Porque seguir é que diz inspirar. sugerimos a Pedro o que está no seu interesse. apropriar. benévola ou perversamente. numa situação difícil. portanto.).. tropas de carga. guiar. – Ajustar é “modificar uma coisa de maneira que com outra se combine”. com- “ir atrás. sempre se entende que é grupo. – Acomodar “é – diz Bruns. na vida. Além disso. – Aconselhar é “induzir alguém. e sugere noção da superioridade de quem chibata com respeito ao chibatado.

primeiro relutara ou não se tinha mostrado a ele propícia.. importante ou não. concerto. Dizem que se deram naquele momento sucessos imprevistos. pacto. e é de predicação mais precisa. um desejo etc. combinar. acordo. contrato. “para o coração”. O que se faz entre as pessoas que convêm chama-se convênio. Convenção é sempre mais solene e ato de mais importância do que convênio. ocorrer. porém. não obstante. ou suceder. Dão-se às vezes desgraças que surpreendem os mais fortes ânimos. de direito ou de interesses a que se submetem afinal partes que não puderam dirimir de outro modo a contenda ou a questão debatida”. – Inspirar. convênio.. se recorde. uma suspeita.: convindo não esquecer que insinuar envolve ideia de má vontade ou de intuito ilegítimo de quem insinua”. que chegou a fazê-lo. operar sobre o espírito ou o coração de alguém para que se oriente. – Persuadir é “insistir em que alguém creia. não há dúvida que em tais casos seja bem empregado: aconteceu o que tínhamos previsto. suceder. aplicável a qualquer fato.. ac (c por d) + cordo diz propriamente “ao coração”. Decerto que se não poderia dizer: “Passou-se uma catástrofe.” Ocorrer é o mesmo que suceder ou acontecer. 118 ACORDAR. Deram-se acontecimentos extraordinários em Lisboa. Nesta palavra acordo (accordo) figura a raiz cor. porém. concertar. convir. tratado. – Dar-se é. cordis. assentar. quando se quer dar a entender que do que sucede ou acontece se origina alguma consequência. emprega-se. três primeiros. – Acordar é.” – Suceder é o mesmo que acontecer.. assento. um verbo que em todos os casos poderia substituir a qualquer dos nar. convencio- passar-se. dizendo “sucedeu uma desgraça” – apresentamos o fato como consequência de tal ou tal existência: “na perfuração dos túneis sucedem desgraças amiúde. aqui. ajustar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 83 coração de alguém uma ideia. concordata. – Também se pode guiar mal ou bem. marcha. – Quanto aos três primeiros. Os que convêm fazem convênio: celebrar . combinação.. entrar em acordo. ou ocorrer.: “Acontecer é termo genérico. tão extensivo. para que a pessoa guiada não se afaste do reto caminho. etc. sem outra ideia acessória. acontecer não relaciona o fato com outro anterior nem o atribui a determinada causa. intento. diz Bruns. com mais energia. convenção. passar-se-ia um desastre se não fora a nossa prudência”. – Acordo supõe que a pessoa.. etc. é assistir com bons conselhos. concordar. aceite o que lhe propomos ou dizemos”. pois. “coração”. significando o mesmo que acontecer. que deu cors. 117 ACONTECER. Não é convicção que leva uma pessoa a persuadir-se: é antes a autoridade de quem persuade. etc. Geralmente. As ocorrências que se dão diariamente já não impressionam. ajuste. e. Por isso é que se diz muito acertadamente que onde nunca houve desacordo não seria próprio dizer que veio a dar-se acordo. de opiniões. tratar. a que chega quem faz acordo. – isto é – significa a união de sentimentos e extensivamente de ideias. dar-se. – Passar-se está quase no mesmo caso: não é. – Convenção é “o acordo. Guiamos os nossos filhos. Dizendo – “aconteceu uma desgraça” – referimo-nos à desgraça em si. pactuar. se incenda. como guia o mestre os seus discípulos. previsto ou imprevisto. aqui. se anime. como termo genérico. significa “sugerir mais diretamente. aconteceu um desastre. mas de razão. – Convir é encontrar-se com outra pessoa numa certa igualdade de intuitos. – Guiar é dirigir alguém nalgum serviço. portanto. não de vontades ou de impulsos propriamente. mas encerra ideia de causa anterior. contratar.

Trata-se tanto de altos interesses de nações como das coisas mais insignificantes do mundo. nos termos ou nas condições da lei. o recobro dos sentidos. – Concerto é um pouco mais que simples combinação: é “a harmonia perfeita a que se chega acerca de alguma coisa depois de haver ponderado todos os prós e contras”: pode não chegar a ser um contrato. – Concordata é termo jurídico que tem principalmente duas acepções: exprime “acordo ou convenção solene feita entre o sumo pontífice e um soberano”. “reduzir a escrito (ou dar-lhe toda autenticidade) um acordo a que se chegou. para que dele resultem direitos e obrigações legais ou morais”. expedito para exercer suas faculda- . mas dizemos também. 15): Ah! quem de sonho tal nunca acordara – Despertar é pôr ou pôr-se um homem esperto. – Tratado e contrato correspondem a convenção e convênio ou guardam respetivamente entre si a mesma analogia. – Concordar é convizinho de concertar: é “vir a acordo como os que se conciliam. deixando sentir que se havia antes discordado”. – Acordar exprime propriamente a cessação do sono. despertar. da resolução que se tomou. 119 ACORDAR. decidir. confrontá-las. como frequentemente sucede. – Combinação é o ato de combinar ou aquilo mesmo que se combinou. Dois exércitos não celebram tratado. ordenar os termos de um acordo ou de um convênio”. e representam a ação pela qual um homem sai. É certo. pois. que tratar tem uma significação muito menos precisa. – Contrato é “aquilo que se tratou reduzido a escrito. no entanto. como quando se diz: fazer um pacto com o diabo. ou nas condições de um arranjo ou negócio depois de haverem as partes discutido”. pois. é um compromisso que fica obrigatório para cada um dos que nele tomam parte. ou junto uma da outra. por acordo comum”. portanto. – Contratar é. ou o tiram.: – “Acordar e despertar são verbos ativos e neutros. de modo que fique sólido e perfeito”. juntá-las. Ajuste é. mas convenção: só poderes soberanos têm capacidade para celebrar. referindo-nos a negócios de pequena monta: “o tratado é devido”. – Combinar (do latim combinare – cum + bini “com” + “par”) diz precisamente “pôr uma coisa ao lado da outra. Mas tratado é uma convenção de alta categoria: só pode ser celebrado entre nações. portanto. ou ainda mais restrito – comercial. – Segundo Roq. – Assento diz propriamente “o registro solene de um convênio. depois de debate. da sentença que foi proferida”: assentar é. mas já envolve compromisso moral mais solene do que aquilo que simplesmente se combinou.) – Ajustar é “convir em alguma coisa. “entrar em concerto. que este termo se presta a ser tomado a má parte. celebrar contrato. a forma autêntica. e designa “ajuste entre credores e devedor”. “dispor. e também a cessação do sonho. tanto convenções como tratados. se bem que o mesmo se pode quase dizer de tratado. O que se combina fica assentado apenas mentalmente: não tem força de acordo ou de pacto feito. o pacto se faz sobre coisas cuja sanção é superior ao alcance das leis humanas. É precisamente em virtude do caráter de imutabilidade que o pacto reveste. – Concertar é. como se vê naquele verso de Camões (Canç. pois. o ato de ajustar. pactuar com os inimigos da pátria”. ainda quando não tenha sanção legal – não a podendo mesmo ter quando. do estado de adormecimento em que jazia. (Bruns.84 Rocha Pombo convenção é convencionar. – “O pacto é uma convenção formal em que cada pactário declara renunciar ao direito de romper o pactuado. compará-las”: combinar é. ou dos costumes. fora da acepção que tem neste grupo. e tem mais propriamente sentido jurídico.

Quantos homens acordam do sono da culpa. acudir. enlaçar de modo a tolher os movimentos ao que se encorreia”. a fazer alguma coisa”. ou por exemplos ou por medo. já se nota uma diferença fundamental: tratando-se de pessoas (ou quaisquer animais) só se emprega afluir quando se faz referência a muitos indivíduos. isto é. mas não chegam a estar assaz espertos para praticarem resolutamente a virtude!” 120 ACOROÇOAR. Colombo voltou da América encorrentado (não acorrentado). dureza. ou uma doença. – Estes três verbos enunciam a ação de correr. ou de quem nos quer tornar espertos. pois encerra ideia da tirania com que se agrilhoa. – Induzir. pois encorrentar diz mais propriamente “carregado de ferros. animar. – Prender é o mais genérico do grupo: diz “ligar uma coisa a outra. aqui. sendo que despertar anuncia sono profundo. Para o segundo os outros despertavam. e que se interrompe a horas desacostumadas. induzir. VI. – Animar é “infundir alma”. Entre os dois primeiros e o outro. ou seu intento. – Incitar é um pouco mais: é “induzir com grande esforço e vivo empenho”. é “levar alguém. insuflar coragem. marchar. ir ou vir para alguma parte. ou cordas. para um trabalho. – Alentar significa propriamente “dar alento. sustentar no esforço. mais ou menos intimamente. – Acoroçoa-se alguém na sua tarefa. É próximo de encadear. como se vê ainda de outros versos de Camões (Lus. isto é – por meio de cabos. prepotência com que se prende. no figurado é “coagir. acoroçoar (a + coração + ar) diz “avigorar o coração”: quer dizer – confortar alguém no que empreende. correntes. para sofrer um mal. cheio de correntes”. 121 ACORRENTAR (ou encorrentar). alentar. prender. incitar na tarefa. no sentido próprio. por meio de palavras persuasivas. conter dentro de certos limites”. 122 ACORRER. – Encorrear (ou acorrear) é “prender por meio de correias. encadear. afluir. Segundo a própria etimologia. amarrar. . do peso dos grilhões. a ideia da força. para sair do qual é necessário mais esforço nosso quando acordamos. isto é – dar vigor às forças do espírito para uma resolução. porque em afluir se inclui a ideia 11 Poder-se-ia notar entre estes dois verbos alguma diferença. do sofrimento do agrilhoado. distinguindo-se em sugerir. – Acorrentar (ou encorrentar)11. duz um menino a faltar às aulas não é talvez menos perverso do que aquele que o incita a praticar o mal. e não se possa afastar do posto em que se a fixou. Parece que a ação de acordar precede à de despertar. Não há ninguém que anime aqueles míseros no eito. de modo que a coisa amarrada fique segura. melhor do que este. A esperança nos alenta nesta luta. – A mesma diferença existe na acepção figurada. Com o exemplo do capitão animam-se os soldados a investir o baluarte. Uma só pessoa seria impróprio dizer que aflui. incitar. – Agrilhoar diz mais ainda que acorrentar. encorrear (ou acorrear). 38): Os do quarto da prima se deitavam. sem envolver ideia do modo como se a prende”. Animam-se os enfermos contando-se-lhes casos de cura prodigiosos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 85 des. – Amarrar diz propriamente “prender com amarra”. A palavra do santo velho alentava os moços. é “prender por meio de corrente”. Quem in- agrilhoar. que acordar supõe um sono ordinário e que acaba regularmente. incitando-o com palavras e afagos a que tenha coragem e se esforce por vencer.

identificar-se. com habituar-se. do indivíduo subjetivo. Paulo (isto é. Isto quer dizer que afluir significa (como na acepção própria. Tal ideia não existe em perseguir. aqui. ajusACOSTUMAR-SE. quando sente que o meio. 124 habituar-se. Quem acode atende a grito de socorro. pelo menos. afeiçoar-se. que um paulista nos viesse dizer que se acostuma em S. menos a nós próprios do que à ação do meio em que vivemos. por nos termos exercitado com esforço. de condição. e afazer-se a condição. nem de acorrer por afluir: por exemplo: em – “as famílias da redondeza afluíram à cidade no dia da festa” – não poderíamos (sem alterar o valor lógico da frase) pôr nenhum dos dois primeiros verbos no lugar de afluíram. tar-se. ou para determinado lugar. do caráter em suma. conseguintemente. dar-se. Ele se dá tão bem na roça como na corte. perseguir. M. adaptar-se. há-os também nos quais não seria permitido usar de acudir. Ela nun- . Costume. aclimar-se (aclimatar-se). hábito. pois entre o perseguidor e o perseguido a distância pode ser considerável”. meio ou vida nova. de cópia ou abundância. pois.86 Rocha Pombo de multidão. quase o mesmo que acostumar-se. e que em acorrer e acudir está implícita a ideia de pressa: não se acorre nem se acode devagar. amoldar-se. à procura de um ponto”. e a diferença entre os dois consiste em que aquele é de predicação menos intensa e mais vaga. sem motivo instante. se habituou a ir todos os dias à igreja. – Dar-se exprime. por exemplo. ou do modo de parecer peculiar a cada pessoa. Entre acostumar-se e habituar-se há. em Paris. mas quem ouve um grito de socorro não acorre apenas: acode. ou sem grande interesse de momento ou urgente. Por isso mesmo não se explicaria.” Devemos. – Acossar – diz Bruns.. ou a provocação: o que. 123 ACOSSAR. a obediência.” Outra diferença: como há casos em que afluir não substituiria nenhum dos dois. Entre acorrer e acudir é preciso também notar que é fácil marcar uma certa nuança. poder-se-ia dizer que ninguém acorre a um certo ponto. ou nalgum lugar. Esta ideia não há em acorrer e acudir: tanto podemos dizer “ele acorreu ou acudiu ao ver o desabamento”. como: “eles acorreram ou acudiram. que do exterior. na mesma terra onde nasceu e se criou e onde vive). não se acostuma no campo. porque “corre a socorrer”. natural) “mover-se lentamente (como os líquidos) numa certa direção. ou a alguma coisa que procura solícito impedir ou evitar. pois inclui mais ideia de modo de ser do espírito. o acossador tem à vista o acossado. acostumou-se. tanto maus quanto bons. ou por termos repetido muitas vezes”: devemos os nossos hábitos mais a nós próprios do que a outros. nem sempre se dá quanto a acorrer. tanto social como físico. mas depende de mim habituar-me a um certo serviço. – Costume é “tudo que forma o modo de ser próprio de alguém ou de um povo: o convívio é que o faz. Não está em mim acostumar-me numa cidade. lhe não é mais estranho como a princípio. – Hábito é “tudo que fazemos já quase maquinalmente. acomodar-se. Quando muito. de meio. – Confunde-se acostumar-se. a vivo interesse. ou cede a medo. modelar-se. mas nunca se habituará à vida dos boulevards. – Todos os verbos deste grupo enunciam ação de mudar de vida. a mesma diferença. afazer-se. Acostuma-se alguém com alguma coisa. – “é perseguir hostilizando. Resta observar que costume se poderia definir como significando hábito moral.. ou a perigo que viu. A. F. portanto. afinal. os nossos costumes. ou a um gênero de vida que nunca tive. e com a mesma sem-razão com que se confunde costume com hábito.

aditar. afinal. – Afeiçoar-se é “semelhante ao precedente: designa a ação de dar-se perfeitamente com alguma coisa (ou com alguém) amoldando-se a ela”. por exemplo. notando-se apenas entre os dois a diferença marcada pelo prefixo a de amoldar-se. mais extensa por acrescimento. ela procura ajustar-se ao modo de ser do esposo. aumentar. – Identificar-se é “acomodar-se tão bem com alguma coisa como se se fizesse igual a ela”. Aumentei o número dos livros da minha biblioteca. – Adaptar-se enuncia a “ação de se fazer alguém próprio. qualquer que seja o processo de crescimento. E não se diria: Acrescentei o número de livros porque o aumentei. etc. nesta acepção. a felicidade. unir. e este é o meio por que o aumento se verifica. Um ricaço aumenta suas rendas acrescentando novas propriedades às que já tinha”. em relação a outrem ou alguma coisa. a alegria. – Acomodar-se diz propriamente “ficar a gosto nalgum lugar ou com alguma coisa. capaz. adir.” – Acrescer é. de extensão. por acréscimo ou adição gradual de novas moléculas ou porções de massa. apto para uma certa coisa. de amplitude. “adicionar é reunir um todo (ou uma parte) a outro todo12 da mesma espécie: adicionar um ato à Constituição do Estado. 125 ACRESCENTAR. agregar. em regra. Para aumentar. – Acrescentar é tornar mais longo ou mais complexo: acrescentar um parágrafo à carta. – “O segundo” – diz Roq. de força. dar-se bem. – “é o meio. de intensidade. – Segundo Bruns.. adaptam-se rapazes à vida militar. Decerto nada impediria que uma pessoa. “ficar maior. amoldo-me a todas as contingências: só não posso modelar-me pelo sentir dos ímpios. acrescer. ou à índole das pessoas prudentes. a acostumar-se aqui. dizemos que acresce. aumenta-se. isto seria melhor juntar. O sentido translato é análogo. aclimar-se-ão neste trabalho ou neste meio se tiverem perseverança e cautela. ajuntar. adaptado da forma francesa. – Afazer-se aproxima-se mais de habituar-se. – Aclimar-se é “afazer-se. ou que não é propriamente o nosso”. adaptar-se a um clima novo. acrescentando. pois que se torna mais intensa. – Amoldar-se é propriamente “tomar alguém ou alguma coisa por molde ou modelo”. ficarem medida igual”.” – Ajustar-se quer dizer “pôr-se alguém. O que se junta ou ajunta forma parte integrante do todo. acrescenta-se. dizemos que aumenta. acomodo-me à compostura. – Aclimatar-se é o mesmo verbo. que se não dá com a vida do Rio. designativo de esforço por parte de quem se amolda: ideia que se não inclui em modelar-se. isto é.. afeiçoei-me sempre às condições da minha vida. pois ninguém se afaz a alguma coisa sem esforço. como ficam duas superfícies planas que se juntam. porque acrescentei alguns que me faltavam. identificou-se ele completamente com a sorte daqueles homens. pois. a coisa adicionada é menor do que a coisa a que se adiciona: esta fica para aquela como o todo para a parte. como a soma para a adição. a raiva. ou para algum serviço ou função”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 87 ca se pôde dar com os caprichos do noivo. Não assim o que se 12 Aliás. O aumento é sempre efeito da adição ou aditamento. . sem constrangimento. adi- cionar. juntar. e modelar-se diz o mesmo. o primeiro é o resultado. viesse. A dor. com alguma coisa. No verbo adicionar há implícita a ideia de que. pouco a pouco. 126 ACRESCENTAR. – Acrescentar é uma extensão de acrescer.” Quando uma coisa cresce de volume. Ajuntar é pôr umas coisas junto a outras. mais ampla. Quando uma coisa aumenta “crescendo. ninguém diria que acresce: e sim que aumenta. – Exemplos: afazemo-nos a uma tarefa nova.

e. Se nestes exemplos substituirmos o verbo crer pelo outro. crer. ou uma ou mais porções a um corpo fazendo-o maior. e agregar é aumentar o conjunto. are) e todos designam a ação de acrescentar. . parecendo. bastariam alguns exemplos para deixar clara a distinção que é preciso não esquecer entre os dois.. É exato. no entanto. sugere também alguma coisa de dúvida no considerar como certa a coisa em que se crê. “Creio em Deus”. Juntam-se coisas homogêneas. mas provavelmente devemos isso. agregam-se essas ou outras”.. – Confundem-se mui- to estes dois verbos. menos à imprecisa propriedade do vocábulo. como se vê dos nossos léxicos. portanto. não – “eu me ajuntarei ou ajuntar-me-ei”.” (porque ajuntar. e isso por uma injunção do nosso espírito. 127 ACREDITAR. aqui. aliás. Deu-nos adido e adição. em vez de – “aditamento constitucional”. e aquele de formação latina. ajuntar. unir”.. que se equivalem perfeitamente. é evidente que não faremos com a mesma precisão e a mesma força as afirmações que aí se formulam.. ajuntamos dinheiro” e não – “juntamos. Exemplo: “Convença-se de que me juntarei ao sr. pois cada parte agregada conserva a sua individualidade. – Adicionar. Aditam-se razões às que já foram produzidas: adiciona-se alguma coisa a uma coisa dada. É preciso. de convicção segura e inabalável. portanto. como parcela que vai aumentar. – Aditar diz. e como perfazer a soma”... só admite a forma pronominal recíproca: poder-se-á ainda dizer – “ajuntar-nosemos”. Por isso ajuntar é aumentar o todo. mas aquilo que outros nos afirmam”. que diz precisamente “ter como verdade.88 Rocha Pombo agrega. aditar e adir têm o mesmo radical (do. (estarei junto do sr. ao discurso lido: casos em que adicionar não seria pelo menos de muito escrupulosa propriedade.”. ou por uma tendência ou um modo de ser da nossa natureza moral. “ajuntar ao que estava feito. – Adir (de addere = ad + dare) significa “pôr ao pé.. Basta notar que se diz: – “juntamos os nossos esforços” e não – “ajuntamos. mas sem dúvida ninguém se animaria a dizer – “adição constitucional”. Enquanto que o verbo crer significa “considerar como verdade aquilo que está no coração ou na consciência”. referindo-se a uma peça complementar da Constituição. “ajuntamos laranjas. Crer encerra ideia de certeza profunda. não o que sentimos. ajuntar. é de mais lídima propriedade a aplicação do verbo acreditar. no entanto. – Entre ajuntar e juntar parece que há sempre alguma diferença. este de formação vernácula. É certo que dizemos – “ato adicional”. dos quais temos aditar e adicionar. que a uma desfiguração de sentido que se explicaria talvez por uma vantagem do menor esforço com que pronunciamos crer em vez de acreditar. por uma capacidade própria do nosso entendimento. e é só por engano talvez que lhe damos a significação perfeita de acreditar. Mas quem diz: “Creio que ele virá” – funda naturalmente a sua crença ou a sua confiança na afirmação daquele que tem de vir. que enuncia apenas o “ato de se pôr ou de ficar uma coisa juntamente ou em cooperação com outra”. Todos dizemos: “Creio que ele virá” – querendo dizer: “Acredito que ele virá”.” Isto quer dizer que ajuntar marca (pelo prefixo a = ad) a atividade.. em certos casos.) nesta questão”.. nunca – “me ajuntarei. “creio firmemente na imortalidade da alma”. e neste caso. notar que dizemos: aditar alguma coisa às provas feitas.. aos autos. adaptar. que o próprio verbo crer. “creio que ela não descerá jamais àquela miséria moral”. o esforço do sujeito que põe uma coisa junto de outra: o que não se dá em relação a juntar. peça que lhe fica como que apensa. deixando como apensa a coisa aditada”: adicionar exprime “acrescentar como adição.

os que precisam de amparo. não sucumbam. socorrer. a minha capacidade de triunfar. necessita cuidados assíduos para conservar-se. 80). ou para que multiplique as próprias forças e se ponha ainda mais no caso de alcançar o que almeja. cujo socorro se pede. – Auxiliar diz propriamente “dar auxílio”. Mais vale quem Deus ajuda Do que quem muito madruga. foi aquela (auxílio) admitida com certo ar de nobreza. isto é. e precisa de ter mais. isto é – que tenha vindo solícito ao lugar em que perigamos. não se segue necessariamente que nos haja acudido. – Segundo dêmico Francisco Dias (Mem. Quem nos socorre. e esta (ajuda) passou para o domínio do vulgo. pois entende-se que nós. além de ser quebradiço ou deteriorável. ou em Jesus. “segundo o aca- . e amparo (ou ampara-se) ao que nada tem”. a que se empregava era a portuguesa ajuda. valer. nos julgamos inteiramente perdidos. ou aumenta a minha força. como se vê dos seguintes provérbios em que no uso ordinário se não pode substituir um pelo outro: Deus ajuda aos que trabalham. era ignorada ou não usada até princípios do reinado de D. Depois que os poetas e escritores cultos foram alatinando a língua. IV. como ainda se vê em Camões. Dá-se ajuda (ou ajuda-se) a uma pessoa que está embaraçada com trabalho que não pode fazer. dá-se auxílio (ou auxilia-se) ao que já tem meios. quando gritamos. (Lus. junto da pessoa que se deve socorrer. Quem me auxilia apenas concorre para que eu vença. “acro se diz do que.” – Quebradiço é o que se quebra facilmente. quebradiço. Aquele que nos grita: Acudi-me! – solicita ansiosamente a nossa assistência nalgum perigo em que se encontra. não pereçam. vem apenas completar o nosso esforço e a nossa capacidade de defesa. mas acredita em visões. ajudar. 37) a palavra auxílio. sendo duro e pouco dúctil. Só se amparam aos desvalidos. que é latina (auxilium). O protegido não é sujeito que precise de socorro ou de amparo. proteger. acolhe e abriga. Nada mais frágil que “a saúde”. E a inversa é também admissível: só porque alguém nos socorre num grande embaraço. Há metais acros... Nem sempre quem acode socorre efetivamente. ou para que o faça mais prontamente. no entanto. que disse sentenciosamente: Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. Manoel. O vidro é quebradiço. abandonados. – Frágil aplica-se ao que.. isto é – aumentar a força de alguém que já não se julga fraco. Acudir dá ainda ideia de que a pessoa pela qual se grita deve fazer tudo pela nossa salvação. – O mesmo se pode dizer de quem me ajuda. frágil. salvar. 128 ACRO.. 129 ACUDIR.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 89 Muita gente não crê em Deus. – Socorrer não implica a ideia da presença da pessoa. – Proteger envolve ideia da superioridade de quem guarda ou ajuda. forças etc. A quem madruga Deus ajuda. defender. IX. Escreve Roq. auxiliar. guardem. espúrios. e o mesmo aconteceu com o verbo ajudar relativamente a auxiliar. amparar. dá-se socorro (ou socorre-se) ao que não tem o suficiente. em lendas fantásticas e contos da carochinha. mas antes de auxílio. e o protetor dá-lhe um auxílio poderoso para que ele se revigore. que. de que os sustentem.. ou mesmo num perigo. se quebra ao ser trabalhado.. – Amparar supõe o desvalimento completo da pessoa que se ampara. – Acudir é “correr em socorro de alguém”. protejam para que não caiam. – Bruns. da Acad.

“denunciar é manifestar aos juízes um delito oculto. e é designado pela frase de vil delator. “O acusador – diz Alv. etc. o denunciante. um homem vendido. que dá interpretações criminosas às coisas mais inocentes. o acusador acusa aberta e publicamente. – Valer aqui é muito próximo de socorrer. a palavra acusador é odiosa. Nos tempos modernos o uso tem quase fixado o valor de cada uma destas palavras. paga. que aviltam neste mister uma parte dos cidadãos. e que animam a calúnia com o interesse”. intentando uma ação criminal de roubo. descobre. por preço. quer protegendo-o. para que façam o que entenderem. e defere secretamente o que ele crê ter visto. e pode fazê-lo cumprindo dever de cargo. malsim. é “atribuir a alguém falta ou crime.. Contudo. 131 ACUSAR. de assassínio. quer ainda amparando-o vigorosamente ou defendendo-o”. e talvez a de algum vil interesse. que trafica às escondidas da honra e vida de seus semelhantes. como fazem os malsins. desastre etc. – Acusar é denunciar alguém como criminoso. ou exercendo direito . acusador. quer acudindo-lhe e dando-lhe socorro oportuno e eficaz. um judas infame. fundada e nobre. mas o delator é uma personagem odiada. acudir. Pas. ou por interesse. criminar. Os delatores formam a classe mais vil e infame: são a arma dos governos fracos e corrompidos. sem apresentar as provas.. – Malsinar é acusar como malsim. e não acusador. denunciar. – Acusar. o delator satisfaz sua maldade acusando os crimes ou delitos contra as leis. in- culpar. culpar.. O denunciante pode ser levado somente do zelo do bem público. Mais extensamente. ou suspeitas ao governo”. incriminar. malsinar. quer auxiliando-lhe os esforços. embaraço. – Delator vem do latim delactor: é um indivíduo que procura. outras (e são as mais comuns) é ato de malevolência. já para evitar ou remediar o mal que se denuncia. um homem corruto. e nas demandas chama- -se autor ao que intenta ação contra o réu ou acusado. O malsim exerce o seu ofício em tudo que respeita aos contrabandos. salvar. um traidor que finge viver com os outros em termos de boa amizade para vir no conhecimento de seus segredos. para fazerem a perdição da outra. amparar. “Valha-nos o céu nesta amargura”. um homem indignado. Mas quem acusa articula fatos com que pretende dar provas do crime ou da falta por que acusa. delatar. deixando este encargo às partes interessadas. já para assegurar-se da verdade da denúncia. e muitas vezes o que deseja fazer que se creia: o seu ofício é o de trair. A acusação pode ser às vezes um ato bom. isto é. que serão o seu corpo de delito. – Segundo Roq. o denunciante nutre seu zelo fazendo conhecer às autoridades as ações e opiniões condenadas em política. “Vendo-se já no último perigo recorreu a Deus que lhe valesse” (P. reclamando a devida punição”.) – isto é – que lhe acudisse. e por ofício.. nunca pelo bem público: procede com disfarce e ocultando-se. – Salvar “é pôr alguém livre ou a salvo de algum perigo. toma-se à má parte. que se aproveita de um abraço para introduzir no bolso do que chama amigo papéis.. ou mesmo para evitar ataques previstos ou repelir agressões”. denunciante. – será um homem irritado. o delator obra por maldade. defender “é ficar ao lado de alguém para impedir que outrem se aproxime hostilmente. “Quem me valerá nesta contingência?” 130 ACUSAR. aqui. – Delatar acrescenta à ideia de denunciar a de malevolência. Quando a acusação é justa.90 Rocha Pombo Quem nos defende é como quem se pusesse entre nós e o nosso inimigo e dos golpes deste nos guardasse. arguir. delator.. Man. Bern.

paremia. no entanto. que incriminar. rifão. “Poderá arguir-me de tudo. – Inculpar é “ver como culpa um ato que talvez não o seja”. seco de forma. brocardo. 324). – Todas estas palavras enunciam conceito. é levar muito longe e arriscar muito a sua argúcia de juiz. ditado. pronunciá-lo por criminoso ou réu”. dito. tendo portanto um sentido translato que apenas corresponde à noção que se quer sugerir. segundo Roq. e que significa provérbio. muito menos por sentença. a sabedoria vulgar. sem formular propriamente acusação”. nem paremia ou máxima. cré com cré – cá e lá más fadas há” – podem ser tidos como rifões. O anexim. ou que foi consagrado pela razão humana em todos os tempos... fazendo censuras mais com veemência do que com razões”. máxima. dar-lhe culpa. paremia é palavra grega (paroimia) pouco usada em nossa língua. – Prolóquio é sentença menos grave e profunda. pensamento... menos de não ter sabido defender a inocência”. mais brilhante de forma. ditados ou anexins. e como que condensam. axioma. princípio.. anexim. mas inculpar-me assim este gesto. preceito. conceito. prolóquio. parêmia. enquanto que provérbio pode ter autor conhecido. graçolas. prolóquio. dando normas ou noções em que se representa a experiência dos tempos. – Adágio não se confunde com dito. que juiz há de puni-la?” – não seria permitido o emprego de criminar. em frase rápida. brocardo. – Culpar e inculpar estão em caso análogo. não só rude. repreender com acrimônia. em termos precisos. rifão ou anexim. a frase.. provérbio. e como tal usou-a Vieira. como o rifão. considerar alguém como culpado. frívola e sempre velada. e enunciando conceito menos vulgar. “dizer ou declarar alguém autor de um crime. sugestiva. mas quase sempre chula. exprobrar culpa como invectivando. segundo – em ser o adágio sempre anônimo. dizendo: “E daqui nasceu aquela paremia ou provérbio: que o céu era para Deus. dito.. breve e incisivo. ou de parábola concisa”. melhor do que criminar. ou o código não incrimina esta conduta. e exprime “sentença sob uma certa forma de alegoria.” – Arguir é “acusar de falta. dada em poucas palavras. Neste exemplo: “Se a lei. máxima. delito. aforismo. ou provérbio. e em ser o provérbio mais grave.” (IV. Dizemos: “as sentenças. apotegma. sentença. sentença.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 91 ou faculdade própria. Adágio. anexim. – Sentença é um provérbio mais solene. cla- ra. mas decerto não seria próprio designar nenhuma dessas frases por adágio. – Incriminar tem-se geralmente como sinônimo perfeito de criminar. quase sempre mais longo. e a terra para os homens. ou os provérbios de Salomão”: e aí não caberia nenhum outro dos vocábulos do grupo. mas apenas por indícios. Distingue-se adágio de provérbio: primeiro – em dar o adágio noção simples e clara. e de sentido ainda mais profundo. pois é uma sentença moral mais profunda. trocadilhos. “Gato ruivo do que usa disso cuida”. apodos e chufas que de adágio ou provérbio. Segundo Roq. – Parêmia pode ser comparada a provérbio: é menos usada que este. São mais vizinhos de ditérios. como o ditado têm uma forma. – Culpar é “atribuir culpa a alguém. Diríamos: “Pode arguir-me de muita coisa. Note-se. – Criminar (criminari) é. 132 ADÁGIO. considerar como crime um certo ato”: e nesta acepção é bem distinto do outro. ou os grandes princípios de ciência ou de arte. provérbio. a moral vigente. senhor. tudo que se tornou clássico. significa “reduzir a crime. “lé com lé. ou sentença vulgar. a máxima . e mais vulgar que provérbio: propriamente é “a sentença. rifão – quase todos exprimem conceito exclusivamente moral. pode mesmo culpar-me de imprudente. ditado.

muito usadas antes da invenção da pólvora. profunda atribuída a uma alta autoridade”. dar uma noção. Um prolóquio vale sempre por uma proposição. de ação ou de execução. I. E é exatamente por isto que se distingue máxima de ditado: este é anônimo e popular: a máxima é menos comum e tem autor quase sempre conhecido e até indicado ao ser ela proferida. de religião. “regra de conduta. porque os primeiros foram de couro) e significa a arma defensiva oblonga ou oval. – Segundo Roq. e em regra tem quase o valor da máxima. e designam apenas um juízo enunciado com intenção de exprimir uma verdade. preceito ou noção expressa em breves termos”. – Brocardo é “máxima que se popularizou. Broquel. e nisto distingue-se dos outros. quer de arte. a máxima é sempre moral: o ditado pode exprimir apenas um conselho. o ditado é dos três o que mais se aproxima de adágio. broquel. como se vê daqueles versos de Camões: Vede-o no vosso escudo. se impõe. mas que se diferençavam na matéria ou na forma. pavês. Por isso. Além disso. e armas de arremesso. que presente Vos amostra a vitória já passada. porque se fizeram logo de ferro e aço. rodela. e que serviam para cobrir o corpo. Conceito é a síntese de uma noção a que se chegou pelo estudo ou pela reflexão. todas estas palavras designam “armas defensivas. significa escudo pequeno de madeira forrado de couro forte. enfiava-se no braço esquerdo pelas braçadeiras. os dardos. precisa. de arte.. – Aforismo tem menos de científico e de preciso do que axioma: designa também. mas eloquente. ditado e anexim confundem-se: o dito quase sempre tem ares de pilhéria. que provavelmente vem do bouclier francês e do buccula latino. aproxima-se de axioma. e daqui veio chamar-se também escudo às armas de uma família ou de uma nação. Este é o que se prescreve. um simples conceito vulgar. uma verdade. e deixou As que Ele para si na cruz tomou. – Princípio é mais do que preceito. – Dito. égide. – Apotegma é “juízo ou sentença. a mais conhecida de todas e a mais forte. Pa- . e que anuncia o assunto que se vai desenvolver. escudo. de ciência. palavra comum à língua castelhana. pois o preceito pode ser de moral. ou. ou mesmo por um período todo. Na qual vos deu por armas. – Pensamento e conceito são palavras de significação mais vaga. – Escudo vem do latim scutus (do grego skútos “couro”. o que já foi tão suficientemente demonstrado que dispensa mais demonstração”. – Preceito pode aproximar-se dos precedentes: é também uma norma ou regra de conduta. sentença jurídica ou moral criada por alguma grande autoridade”. Também os havia de metal. ou parte dele contra os botes de lança. pensamento é menos preciso – é “uma proposição de forma simples. que cobre a embraçadeira que está por dentro. se dá como regra: princípio é “o que está consagrado pela razão vigente. nele pintavam os guerreiros suas letras e divisas. ou o ponto de vista que vai ser seguido pelo orador”. como diz Aul. com seu brocal. (Lus. “dito notável ou palavra memorável de algum personagem ilustre”. 133 ADARGA. ou qualquer coisa que interesse ou que seja útil”. que é também “enunciado aceito por todos como sendo de si mesmo evidente”. ou no uso que das mesmas se fazia. pois esta é sempre uma noção resumida por grande autoridade moral. dando um conselho. e que em poucas palavras dá um sábio conselho. ou de dever. no meio tem um embigo de metal ou diamante. no entanto. golpes de espada. quer tratando-se de ciência.92 Rocha Pombo pela qual começa alguém um discurso ou um escrito. 7).

. obtemos um número equivalente a todos. cheia de serpentes. ajuntando um ou vários números a outro. – Total é o número equivalente a várias somas parciais.. – Pavês (do italiano pavese) era escudo grande e oblongo. medrar. no entanto. escudo ou couraça de pele de cabra. que cobria todo o corpo do soldado.... e que vem do italiano rotella. .. desenvolver-se com presteza. – Adarga é palavra comum à língua castelhana. Era arma antigamente usada em Espanha. – Avantajar-se significa “levar vantagem a alguém. obtemos a soma do gasto desse dia... “Nos colégios. 135 ADIANTAR.. – Soma é o número que se obtém ao praticar a adição. Com a adarga.. e significa propriamente o escudo de Minerva ou Palas. obtemos o total do gasto dessa semana”.. prosperar. entre mouros e africanos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 93 rece corresponder ao clypeus dos latinos. vai seguro. antecipar. florescer.. Fazendo a adição das verbas despendidas num dia da semana. que era escudo menor dos peões. proteção”. 136 Bruns. feito da pele da cabra Amalteia. – Adiantar-se e progredir podem confundir-se. – Rodela.. – “é a operação pela qual. não aumentam na proporção dos meus esforços. as mensalidades pagam-se adiantadas. Em dois lugares faz Camões menção desta arma defensiva. vingar.. 47. falando dos habitantes de Moçambique. Distinguem-se ainda estes dois verbos nestes exemplos: “o mal. a doença progride” (e não – adianta-se). “meus negócios não progridem” – há sempre uma diferença facilmente perceptível. e uma abertura onde se metia o dedo polegar para o segurar. I. “fazêla efetiva antes da época ou do dia em que deve adiantá-la”. œgis (do grego aigis. designa uma espécie de escudo pequeno e delgado. o pai de um aluno pode. avantajar-se. adiantamos ou antecipamos alguma quantia à conta dele”. antecipar ao tempo. antecipar a mensalidade”. de aix “cabra”).. – Progredir é. em Portugal.. a segunda exprime que os meus negócios não se desenvolvem. Há.. “os dias daquele enfermo se adiantam” (e não – progridem).. escudo de couro. em atividade vitoriosa: quem progride anda também para diante. – Adição – diz as somas do gasto de cada um dos sete dias da semana... isto é. Adicionando (ou reunindo) progredir.. ainda que impropriamente. tornou soma e adição sinônimos perfeitos... e em cujo centro estava a cabeça de Gorgona ou Medusa. palavra igualmente comum à língua castelhana. mas nem por isso devem considerar-se como sinônimos perfeitos. 134 ADIÇÃO. 87). O uso.. No sentido figurado quer dizer “defesa.. e com a hastea perigosa. (Lus. O uso também confunde soma com total... mas entre estas duas frases: – “meus negócios não se adiantam”.. soma. uma diferença subtil entre as duas expressões: adiantar refere-se ao ato... portanto.. – Quanto a estes verbos escreve Bruns. – Égide é palavra latina.. total. porém.: “Consideram-se estas palavras como sinônimos perfeitos: a quem se prontificou a fazer-nos um trabalho por certo preço. ADIANTAR-SE. e que vem do árabe addarca ou addara. e significa escudo oblongo de couro com duas embraçadeiras em que se enfiava o braço. A primeira diz evidentemente que meus negócios não se encaminham à solução que eu desejo. Quem se adianta marcha resoluto para a frente. diz ele: Por armas tem adargas e terçados . – Todos estes verbos dão ideia de “ir para diante no desenvolvimento próprio e natural”.

“F. grandes vidas. que se deixou influenciar. um verbo de predicação sempre relativa. partidista. a causa ou a ideia. ou que se fez defensor de uma ideia”. mesmo nos casos em que a cláusula correlata não está expressa. de uma doutrina: diz mais neófito propriamente do que adepto. Paulo”. gerações. ganha muito. o que é certo é que a empresa não deixa de prosperar”. ou o complemento terminativo não está claro.. Vinga a flor.. faccioso. e por aquela estultícia vitoriosa de que se ufanam. como ainda florescem países. parcial. facção. que se convenceu e aderiu ou se ligou a uma seita. partidário. ter bom êxito. é de supor que fica subentendido. a entrar nos mistérios de um culto.. ou mesmo de um partido”.”. prosperar com esplendor. a população que se multiplica”. “O novo credo. força ou poder”. nem “sectário de Jesus ou de S. as noções. adepto esforçado de uma causa. – Partidário é “membro de um partido. partido. – Iniciado (ao contrário do que pensam alguns) parece que diz menos que adepto. está iniciado no ocultismo” – equivale a – “F. – Florescer é “ir prosperamente em tudo. trabalha em excesso. – “A ideia fundamental do verbo medrar – diz Bruns. “A tua reforma. pois dizemos: “Os iniciados da religião bramânica”. a paixão com que se toma o partido. Dizemos: “sectário do calvinismo”. É. Quando eu digo: “Aquele rapaz tem-se avantajado muito nos seus estudos” – quero exprimir que o rapaz de quem se trata tem feito muito mais do que outros. crescer na fortuna”. de uma escola filosófica. como florescem povos. pois. quando observa que adepto designa um modo de ser. Partidista é quase o mesmo. O partidário pode pertencer apenas a . ade- rente. isto é. nunca: “sectário do Cristianismo”. pois o iniciado considera-se apenas “admitido a iniciação”. sequaz. sectário (sectarista). desenvolver-se brilhantemente”. – Adepto é “o que foi catequizado. “A causa da independência alcançou logo um grande número de adeptos”. prosperar. “Apesar de todos os contraventos. – Sectário diz propriamente “membro de uma seita.”. deixando supor que o sectário é sempre alguém que se afastou da sua antiga religião ou do seu partido. Além disso envolve também ideia de heterodoxia ou dissidência. e iniciado designa mais um estado do que uma condição: conquanto isto não signifique de forma absoluta a impropriedade de iniciado como puro substantivo. iniciado. “Eles se nos avantajam pelo ar desenvolto. ser feliz”. estabelecimentos. – é “o aumento. seita. etc. porquanto. mas nem por isso se pode dizer que ele prospere. as searas que abundam. os interesses que aumentam. como vai feliz na vida. de uma ciência. – Prosperar é “ir adiante. Medram o menino que cresce. faccionário.94 Rocha Pombo fazer mais ou melhor do que outrem”. O que prospera não só se desenvolve e aumenta. “As rendas se lhe aumentam sempre. “Tu te avantajarás a Pedro se fores esperto. crescer não obstante algum entrave. distinguindo-se este do primeiro em exprimir melhor o empenho. conseguir o seu fim. ou o novo partido já conta bom número de iniciados”. cidades. filho – disse o deputado ao colega sonhador – não encontrará adeptos”.. como vingam os nossos planos.”. “sectário de Lutero”.. “F.. parcialidade. Tem razão Bruns. habilitado a receber os princípios. quer em quantidade. e sugere ideia de obstinação e fanatismo. esforça-se muito. mas os seus negócios não prosperam”. – Vingar aqui (vincere) é próximo de medrar: significa “tomar vitalidade. quer em volume. Florescem letras e artes. a um partido. começou a estudar e a conhecer o ocultismo”. “Aquele tipo não te avantaja em coisa alguma”. 137 ADEPTO. as nossas esperanças. ou de uma ideia”. assecla. ou do que o comum dos estudantes.

adereço. sedicioso. ou se enfeita. apaixona-se pela sua causa. aderente sugere menos ideia de convicção ou de identidade de opiniões entre a pessoa que adere e a causa ou partido a que se faz adesão. Além disso. engalanar. a gralha da fábula se adorna. gala. Uma senhora se adereça. conquanto não pareça muito próprio. partidos. na expressão – é comum a todos os verbos deste grupo. e mostra-se por isso mais fútil ainda que a pessoa que se enfeita. 13 Também entre sectário e sectarista. ou contra instituições. de liga. de “adornar de coisas ligeiras. or- namentar. a uma ideia. isto é. trabalhando francamente por uma causa. ou mais correto no gosto. – Diferença análoga pode notar-se entre faccionário e faccioso13: o primeiro diz apenas “membro de facção”. Raros. ornato. da causa que se servia. pela ideia. é “o indivíduo que se liga a outro indivíduo”. insignificantes: e o segundo mais ainda que o primeiro. – A ideia de tornar belo. “pertencente a facção”. esforça-se pela vitória.) – Adereçar diz. perturbador. portanto. aprimorar. até pela etimologia (sequi). no aspeto. ou que se enfeita de joias. a uma causa que até aí havia hostilizado ou combatido. desordeiro. confunde-se com assecla: apenas sequaz envolve. embelezar. e parcialidade é o “bando. o grupo dirigido por um chefe”. mais vistoso. ideia de subserviência. no entanto. alindar. – Parcial. – Aderente se diz daquele que aderiu. do que ideia de incorporação. – Adornar e . de joias. – Enfeitar e ataviar aproximam-se. ou deseja disfarçar algum defeito. 138 ADEREÇAR. A facção distingue-se do partido em significar “grupo ou ajuntamento hostil e secreto contra outro grupo. adornar. primor. Sugere. e emprega-se frequentemente em casos como o exemplo acima. a que se enfeita quer parecer mais bela do que é. – Sequaz. ornamento. aqui. o seu apoio a um partido. portanto. enfeite. ou mesmo contra um homem”. pois atavio é adorno mais falso que enfeite. a pessoa que se adereça quer brilhar. separação. que deu a sua sanção. ou que se atavia de brilhantes. mas decerto ninguém dirá que uma senhora se adereça de fitas. de aliança. decoração. ataviar. “adornar de adereços”. Um só partido pode dividir-se em várias parcialidades. que sugerem. faccioso vale por “viciado de espírito de facção. atavio. mas o partidista exalta-se na defesa do seu partido. aformosear. E como já vimos. adorno. A facção só se faz partido quando assume o caráter e a força de coletividade legítima. embelecer. desligamento da doutrina que se professava. Ninguém diria que.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 um partido. designando este o sectário apaixonado de forte espírito de seita. da cegueira com que o assecla acompanha alguém ou alguma coisa. enquanto que partido designa apenas “reunião ou conjunto de indivíduos que defendem as mesmas opiniões. enfeitar. professar as ideias ou opiniões desse partido. ou se atavia. ideia de parcialidade ou partidismo pessoal. seita diz dissidência. algum partido ou seita. o que vai como se fosse na comitiva ou no séquito de alguém”. vãs. ornar. e por pouco se não diz sinônimo do nosso brasileirismo capanga. decorar. A liga ou aliança de algumas parcialidades pode formar um grande partido. e sim que se enfeita ou se atavia com as penas do pavão. ou sustentam a mesma causa”. isto é. afeito a maquinações”. por exemplo. – Assecla (como se vê da própria formação: ad + sequi) é “o que segue alguém. melhor do que assecla. a que se atavia exagera ou dispõe sem gosto os seus adornos ou enfeites. (Aliás. Além disso. entre eles poderiam confundir-se ou ser empregados indistintamente. de adornos de oiro ou pedraria. o verbo enfeitar é o mais genérico e vulgar.

ensinar.” 139 ADESTRAR. – Embelezar e embelecer. ágil” – portanto. deixa supor que os adornos de que se decora têm um fim especial. tornar-se perito. gracioso. são sinônimos perfeitos.. Mas note-se que não dizemos: adestrar na música. ou mesmo em alguma aptidão especial – no desenho. e para algum ato ou função extraordinária e de grande solenidade. Lindo exprime “belo gentil. afinal. ou na ciência do direito. fazer-nos mais destro. aliás.” (não se diria que vamos embelecer. mas é claro que referindo-nos a um exercício que seja mais mecânico do que de raciocínio. rápido. nas quatro operações aritméticas. numa função que não seja puramente espiritual. nas manobras militares. ou de alguma operação. nem “formosa criança”: mesmo porque – “formosa criança” já seria outra coisa). mesmo numa produção literária.. alegria ruidosa – tudo que se encerra em gala. A mesma diferença há. Dizemos: “lindo ramilhete. ou mesmo os nossos braços. A ornamentação de um templo. a alma. ou uma virtude.. ou na matemática: salvo se nos referimos apenas à técnica de algum instrumento. uma excelência suprema. etc. taful”. no tiro ao alvo.. ou na marcha. à custa de esforço. as nossas mãos. o caráter. entre ornar e ornamentar. de algum processo. de uma câmara só se faz excepcionalmente. – De ornamentar aproxima-se engalanar. de lavor artístico”. correto. a capacidade. bastará um exemplo para deixar bem clara a distinção que se sente entre estes dois verbos: “A cidade se embelece de dia em dia. aparato de festa. pois esta forma significa não – “fazer belo simplesmente” (embelezar). Aproxima-se por isso de ornato. e adorno tanto se aplica a pessoas como a coisas. loução.. e no entanto. e diz “tudo que aumenta a beleza”. ou na economia política”. uma expressão primorosa. primor “o alto grau de perfeição a que se eleva aquilo que se aprimora. Ainda outro: “Para a festa vamos embelezar toda a praça. num artefato. porém. ou políticas – em tudo. e excedem naturalmente ao simples ornato.96 Rocha Pombo ornar diferençam-se tão bem como adorno e ornato. etc. se se aceita a definição dos lexicógrafos. portanto. – Exercitar é mais genérico. pelo exercício. Esta. elegante – um alto grau. Aprimora-se a educação. de um palácio. mas – “tornar belo cada vez mais” (embelecer). – Tanto se adestra um animal como um homem.. e designa toda e qualquer ação de “aumentar as aptidões. Pode-se. Sendo. ou na poesia. e no entanto. ingênuo. por exemplo. em que é possível. na pugna. – Aprimorar é dar ao que é já belo. próprio do edifício ou da coisa de que se trata. Aformosear e alindar estão em caso correspondente. – Aformosear e alindar apresentam a mesma diferença que se reconhece entre formoso e lindo. desembaraçar. Ninguém seria capaz de dizer: “vou adestrar-me na filosofia. Também ornato deve confrontar-se com ornamento: este é uma decoração mais brilhante. nalgum ofício ou função. Ornato aplica-se mais a coisas.” (não seria próprio. na datilografia. exercitar. e designa “o que. ou no salto. infantis. instruir. adestrar a memória. E isso porque adestrar diz propriamente “fazer-se muito hábil. seriam perfeitamente lídimas estas outras formas: adestrar-se nas lides parlamentares. de mais imponência. portanto. Dizemos que se aformoseia o estilo. linda criança” (e não – “formoso ramilhete”. mas este sugere ideia de brilho. como se aprimora uma obra de arte. mais sumptuosa e augusta. e mais talvez de decoração. etc. Pode-se também adestrar num certo sentido: na corrida. é trabalho de acabamento. na dialética. ou pelo menos de rigorosa propriedade dizer que a cidade se embeleza). mesmo o espírito. num edifício. e que só se alindam coisas muito mimosas. etc. na escrita. a .

protelar. a época de pagamento de um imposto. como se ensina alguma coisa a um cavalo. demo- rar. Prorroga-se uma licença. num trabalho. – Procrastinar é “remeter continuamente para o dia seguinte o que se deve fazer”. – Instruir é “preparar alguém nalguma arte ou ciência.. – Prorrogar é “dilatar um prazo que se venceu”. Observase. “Nós insistimos por que se faça a coisa com urgência”: e ele a contemporizar muito impassível”.. um despacho. mas não se instrui um macaco ou um papagaio. no entanto. e ensina-se um papagaio a falar. demora-se um processo. e demorar exprime – “não mover. contemporizar. – Todos estes verbos sugerem ideia de espaçamento. comunicar-lhe. Evidentemente não seria próprio dizer que se adiou uma comemoração. para mais tarde”. do trabalho. num cargo. do vencimento de uma letra. Prorroga-se uma sessão do Congresso. retardar de propósito”. pois quem instrui opera sobre o espírito do que é instruído. – Ampliar confunde-se com dilatar: aquele sugere. Mas retardar quer dizer propriamente – “deixar para mais tarde”. repetindo muitas vezes. isto é. ou para impedir que da coisa que se protela alguém se aproveite se não for protelada. diferir. da função de transmitir o que deve ser aprendido. estirar. “o governo procrastina a solução de um negócio de tal monta”. e neste caso. por exemplo. reformas. (Aul. conquanto não tenha a força deste. para enganar. – Desembaraçar pode aproximar-se do primeiro verbo deste grupo: diz precisamente “fazer expedito. – A um papagaio ensina-se. subentendendo o complemento indireto da predicação. Quando digo: “ensinemos a mocidade”. lépido. Instruise um batalhão. que adiar é “transferir por dias”. numa virtude. infundir-lhe doutrinas. – Adiar é “deixar para outro dia”. profissão”. noções ou princípios. procrastinar. prolongar. no entanto. por meio do exercício”.. remanchar. segundo os lexicógrafos. mais espaçoso”.) Adiam-se negócios. – Transferir diz a mesma coisa. resoluções. retardar. trabalhos. aprazar. mister. uma entrevista. torná-lo mais largo. Difere-se uma resolução. Nestes exemplos: “A língua se amplia adaptando de outras os termos novos de . não dar no tempo oportuno”. ou a um cão. que ensinar. 140 ADIAR. demorar para ir ganhando tempo”. entravar ou reter por um certo tempo”. o vigor. prorrogar. mas podendo ser também por mero capricho.. isto é – afasta-se o termo desse prazo. delongar. exprimo nada menos do que exprimiria se dissesse: “instruamos a mocidade”. ordinariamente por desídia. – Dilatar é “ampliar um prazo que se fixara. etc. malévolo quase sempre. a função ou o processo que a isso se destine. instrui-se a mocidade. espaçar. formando-lhe. “O tribunal anda procrastinando a sentença”. – Demorar confronta-se com retardar: ambos dizem – “fazer que se espere. dilação. como construindo-lhe o espírito”. equivale a instruir. – Remanchar = “demorar com certa manha”. ou uma grande festa para o ano próximo. envolve mais ideia do processo. no entanto. Dilata-se o tempo que se tinha para fazer alguma coisa. mesmo neste caso. – Protelar = “demorar. sem marcar prazo fixo. transferir. Retarda-se uma solução. etc. do que propriamente ideia da ação de quem instrui. – Diferir é “deixar para depois. – Contemporizar é “entreter. esperto.. fazer parar. Notemos. ou por muito tempo.. dilatar. Apraza-se uma negociação. uma ideia de extensividade que se não encontra em dilatar.. um negócio. hábil nalgum ofício. – Aprazar é “assinar um tempo certo (prazo) para alguma coisa”. ampliar. com algum fim.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 97 força. diligente. Exercitamo-nos numa profissão. Pode-se usar também este verbo ensinar como só transitivo. alongar.

isto é. retarda-se a dita solução deixando-a para mais tarde. pelo menos não teria a mesma propriedade. conquanto. mágoa com isso que se faz. com desgosto ou desagrado. ou numa certa direção e até um dado limite. esta locução oposição ou resistência de pessoa estranha. se deixa para depois. e dificultando-a sempre. e delonga-se adiando-a indefinidamente. um prazo. Também não se diria: “vou ampliar no mundo a vossa fama”. por mais que. ou que tenhais . a qual não é eficaz para impedir a ação. – Estirar e espaçar significam.. que vencemos. Também não se compreende como se alongaria uma cabeça humana. (Camões. não obs- tante.. 2) – não caberia o verbo ampliando. ou por alguma conveniência ou cálculo. “vou ampliar a minha oficina com mais uma secção de roupas”. ou entre atos que se repetem. ou de nossa mesma vontade. sem sugerir noção de proporções. portanto. pois este verbo é que significa “estender. – Apesar indica mais forte oposição.. 141 A DESPEITO. mais ou menos forte. Prolongar é “estender para diante uma coisa longa”. procrastina-se prometendo sempre dá-la “amanhã” e não dando nunca. prolonga-se estendendo-a a começar de um dos extremos. Do mesmo modo. consentimento”. e assim enchendo tempo. neste outro exemplo: “. isto é – “ainda que vos pese. prolongar e delongar apresentam entre si as diferenças marcadas pelos respetivos prefixos. fazer mais longo. vinda das pessoas ou das coisas. “Submeto-me de malgrado” quer dizer “contra minha vontade. Delongar confronta-se com retardar. uma moeda. apesar. embora.. tornar maior um interstício. “todas estas locuções adverbiais exprimem uma oposição. ou resistência. – Significando a palavra grado “vontade. demorar: significa propriamente – “deixar para depois. e naturalmente só se diz de coisas que sejam longas. com desgosto meu”. de uma parte até à praça. isto é. I. que só tenham uma dimensão característica. Uma serpente contrai-se e dilata-se: e tanto se dilata engrossando. o Império. que se alonga uma esfera. ainda que. como se reconhece em ampliar. bem que. tornar mais vasto.98 Rocha Pombo que precisa”. malgrado... e podia ainda alongar-se essa rua prolongando-a. uma rua. – aí não caberia decerto o verbo dilatar. em que não só há desgosto senão também sentimento. é claro que malgrado. procrastinar. sem embargo. aqui. contemporiza-se quanto à semelhante solução falando em dá-la sem fazê-lo. – Segundo Roq. ou um quadrado perfeito. indica. e de outro lado até uma outra rua. Uma rua que se prolongou até uma praça por isso mesmo alongou-se. e sem marcar a ideia de fazer aumentar em todas as dimensões. Prolonga-se e também se alonga uma linha. “Apesar vosso levarei a minha adiante”. diferir. para outra ocasião”. e significa “contra sua vontade”. quer dizer “de má vontade. posto que. a ideia de fazer maior a distância entre diversas coisas. difere-se quando. – Alongar. por desídia. mas em cada uma delas há uma relação particular em que consiste sua diferença”. e sim – “vou dilatar. portanto. ainda. Alongar é “fazer mais extenso ou comprido”. mais aberto. como se dilata distendendo-se. mas alonga-se dando-lhe mais extensão. e nem o mesmo valor. mas ninguém dirá que uma serpente se amplia quando se distende. ou de compreensão. etc.. Ninguém diria. Mas: demora-se uma solução quando não se cuida de dá-la. sem dar ideia de limite. e contra a qual obramos”. “convém ampliar a todas as classes do curso primário aquela medida”. Malgrado seu é o mesmo que “a mal de seu grado”. as memórias gloriosas daqueles reis que foram dilatando a Fé. de mau grado. Espaçar enuncia. contemporizar. salvo se se lhes quer mesmo mudar a forma.

A despeito das leis. isto é – “com pesar. por certos incidentes insignificantes. ou dificuldade absoluta. “Apesar meu. de onde veio divinatio. aquele aprende mais porque é mais aplicado. – Ainda que tem mais extensão que as duas antecedentes. o gesto. em despeito do juramento. adivinhação. prognóstico. Bem se autoriza esta inteligência da palavra despeito com o seguinte mui elegante lugar de Vieira: “Tem-se acreditado a morte com o vulgo de muito igual. “Faz calor não obstante ter chovido”. vaticínio. vaticinar.. – Adivinhar. “conjeturar de qualquer modo”. prophetizo (de pró “antes”. tem mais energia e aumenta de força por ajuntar à ideia de oposição ou resistência o desprezo com que se vence. é claro que a locução a despeito. profecia. vel pastu futura divino). e neste sentido se usa hoje quando. porque se emprega também nos casos em que se trata de uma oposição puramente condicional ou possível. etc. falando dos cinquenta sábios que se renderam à doutrina de S.. com mágoa beijo a mão. ou em despeito. 142 ADIVINHAR. “O homem virtuoso observa pontualmente os preceitos de sua religião. pelo despeito com que pisa igualmente os palácios dos reis e as cabanas dos pastores”. presságio. e por extensão. – Sem embargo indica uma resistência menor de coisas ou circunstâncias.”. hei de vencer”. queremos predizer o futuro. e às vezes acertar com o que há de acontecer”. gestu. “Amanhã hei de ir ao campo ainda que chova”. e a despeito do imperador”. e significa literalmente “dizer uma coisa antes que aconteça. profetizar. com a diferença que é termo bíblico e teológico. – Predizer é o verbo latino predico. do próprio dever. pressagiar..” – Vindo despeito de despectus “desprezo”. “Digam embora que eu fugi”. e phemi “digo”) e vale o mesmo que dizer antes ou predizer. sem embargo dos insensatos motejos dos ímpios”. diz: “A constância firme até à morte com que defenderam a mesma verdade apesar. predição. hoje é “conjeturar por certos sinais ou pressentimentos sobre o futuro. a que chamamos agoiros.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 99 pesar” farei o que intento. e mais fácil de vencer: exclui o embaraço ou impedimento que pode delas resultar. em latim divino. mesmo que”. sem declarar por que modo se veio a sabê-la nem dar a conhecer o grau de autoridade que merece quem a prediz”. – Bem que = “ainda assim.. e tem a significação restrita de . beijo a mão que desejara ver cortada”. – Conquanto enuncia oposição ainda menor do que sem embargo. Confirma-se mais nossa asserção por outro lugar do mesmo Vieira. – isto é – em desprezo das leis. que significava antigamente “predizer o futuro pelo canto. ou sem embargo. agoiro.” – Por mais que exclui toda dúvida e indica resolução firme.. “Por mais que me hostilizem. onde. agoirar. era entre os pagãos “predizer o futuro por uma espécie de inspiração que eles supunham divina”. – Agoirar é o verbo latino auguro ou auguror. – Posto que = “dado mesmo. – Profetizar é verbo grego. que não cede a oposições. e exprime “por mais que assim pareça ou que seja de fato. o pasto das aves” (propriè est ex avium cantu. seus sinônimos. “Conquanto este seja mais inteligente. não obstante andar doente”. resistência.. – “O último destes vocábulos – escreve Roq. Catarina. “Sem embargo das queixas dos povos o mau príncipe prossegue em suas opressões”. – Não obstante exclui simplesmente uma oposição. prognosticar. “Não deixarei de protestar ainda que me matem”.. “Saio de casa. Isto pertence aos outros. nos quais não têm seu uso próprio as locuções não obstante. É mais forte que ainda que. – Embora indica pouca atenção ao embaraço ou à contrariedade. predizer. ou admitido que seja assim”. etc. – é o gênero a que os outros pertencem como espécies”..

a que Scaligero dá por origem o grego phátes “falador”.. “mentiroso” (fatuos primum vates vocatos esse apud omnes satis constat. – Sendo certo que a adivinhação. vate. segundo o poeta. e enfim. quiromante. prœsagio (de prae “antes”. porque nenhuma conexão têm com o que há de acontecer. – As predições que faziam os vates chamavam-se vaticínios. – O dom sobrenatural de conhecer as coisas futuras chama-se profecia. Vieira tinha a simplicidade ou mania de apontar como causas de grandes desgraças e calamidades. – “O adivinho (do latim ‘divinus. Quando as predições se fundavam no canto. (Lus. II. da natureza dos objetos sobre que se faz o prognóstico”. – Prognosticar é o verbo grego progignosko (de pró “antes”. Deste gênero são os sinais de que fala Virgílio no livro I das Geórgicas. guiados por mais seguras regras. forma mui facilmente o seu prognóstico acerca da crise e do termo da doença. no mesmo sentido em que o usaram Cícero e Terêncio: Is igitur qui ante sagit quam ablata res est dicitur prœsagire. sinto”) e significa “pressentir. astrólogo. – O agoiro é uma conjetura fútil. em latim vaticinor. Extensivamente aplica-se depois a qualquer sucesso ou sinal indiferente de que a superstição se valia para ler no futuro. 3). no voo. e assim se podem chamar ainda hoje aquelas conjeturas que os políticos for- mam sobre a sorte futura das nações. etc. que ainda o p. conheço”) e significa. porque eram acompanhadas de certo canto poético. O médico. precipitada. necromante. – Os astrólogos faziam inumeráveis prognósticos acerca de acontecimentos futuros. ou que os homens têm como tal. e supersticiosa. pelo qual se prediz alguma coisa futura. por uma espécie de tino interior de que se não sabe dar razão. I. mandin- gueiro. o que sucedeu em Évora no tempo de El-Rei d. ou profetizar cantando. tendo bem examinado o doente. João I e que o nosso Camões cita como um presságio daquele feliz reinado dizendo: Ser isto ordenação dos ceus divina Por sinais muito claros se mostrou Quando em Evora a voz de uma menina Ante tempo falando o nomeou. e somente é um sinal que indica ou anuncia coisa futura. e às vezes nascida de um pressentimento instintivo que não engana. mágico. fundados nas analogias e probabilidades que lhes ministra a história. divino’) é “– diz Bourguig. e gignosko “sei. e que. o qual se não pode chamar uma predição. –” propriamente falando. das aves.. id est futura ante sentire (Cic. e daquele estro ou furor que estimula o poeta quando estende as vistas sobre o futuro. id est avigerium. como a entendiam os antigos. bruxo. 1. profeta. – Tudo o que se prediz antes de acontecer é predição. o presságio é uma conjetura legítima e razoável.100 Rocha Pombo anunciar as coisas futuras em virtude do espírito de profecia. os prognósticos dos políticos e estadistas. pressagiaram a morte de Cesar. aquele . feiticeiro. – Vaticinar. raramente falham. IV. e feito o diagnóstico. os eclipses. 143 ADIVINHO. haríolo. era predizer. – Todas estas predições provêm do homem: não assim o presságio. e assim mesmo o anúncio que destas coisas faz o profeta. por meio de discurso certo ou conjetural. ter pressentimento. 31) Nescio quid profecto mihi animus prœsagit mali (Ter. de vates. e sagio “penetro. vel avigarrium. 7). serve particularmente hoje esta palavra para indicar um enigma que se propõe a alguém para o decifrar. os astrônomos. Heaut. De tais sucessos não se deve tomar nem bom nem mau agoiro. à phates).. fundados na suposta influência dos astros. avium garritus). De Divin. como disse Camões: Que o coração presago nunca mente. – Pressagiar é verbo latino. chamavam-se agoiros (angurium. em linguagem técnica.. “predizer. etc. é ilusória. prognosticam os eclipses.

o que profetizava cantando. semelhante dom. O do mágico (de magia. muito destro. penetrando subtilmente nos pensamentos dos outros. – Haríolo era o charlatão que dizia “a sina mediante uma espórtula”. não somente o dom de conhecer coisas ocultas. e reservava-se para os profetas exclusivamente a inspiração divina. não emana da divindade. e que lhe permite executar livremente toda sorte de prodígios. É este último sentido que o vocábulo conserva geralmente no figurado: designa então um homem muito hábil.. pois a Itália foi na Idade Média fecunda em homens dados a toda espécie de ciências ocultas. e a quem se atribuía o dom de predizer o futuro. entre os judeus e os cristãos. quer se lhe atribua a sapiência a um dom da Divindade. muito sagaz. ou mesmo à sua sagacidade natural”. Esta segunda acepção conserva-se no sentido figurado para designar aquele que anuncia. O bruxo. e phemi “digo”) era. os acontecimentos que prevê: aquele que nos ameaçou de tais desgraças foi verdadeiro profeta. A faculdade de conhecer que possui o adivinho estende-se sobre todas as coisas. – O profeta (do grego pró “antes”. o feiticeiro e o necromante possuem. em causar dano aos homens ou aos animais. ou a bruxa é. – Mandingueiro = “que faz ou usa mandingas”. e muitas vezes também em descobrir e revelar o futuro. – Astrólogo era o sábio versado no segredo dos astros e conhecedor da sua suposta influência nos acontecimentos humanos. As ciganas são quiromantes. – O feiticeiro (de feitiço “encantamento”) em francês sorcier (de sort “destino”) é aquele que tira sortes: recebe seu poder do demônio. superiores ao poder humano.. dispor dos espíritos e dos gênios. praticada ainda hoje em alguns lugares do Brasil. – O mágico. ou cuja arte se reduz a evocar os mortos. e manteia “adivinhação”) é propriamente o que prediz o futuro das pessoas pela inspeção das linhas da mão.. com efeito. com mais ou menos certeza ou probabilidade. etc. e no sentido figurado emprega-se sempre para designar um personagem que faz coisas agradáveis e maravilhosas. – O necromante (do grego nekrós “morto” e manteia “adivinhação”) é “um mágico que evoca os mortos. ou para os debelar. ou prevendo facilmente as consequências dos acontecimentos. – Vate era o que fazia vaticínios. mas ainda o poder sobrenatural de praticar ações maravilhosas. ao contrário. para saber deles o futuro ou as coisas ocultas aos vivos e que os espíritos podem revelar”.. Mandinga é a feitiçaria grosseira dos negros. quer se lha atribua ao estudo das ciências ocultas. isto é. consideravam-se os adivinhos como homens inspirados do Céu. e mais ainda que tudo isso. pois. e compreende o passado. como simples feiticeiros ou mágicos. Toma-se não raramente à má parte esta palavra. bruxo é palavra de etimologia muito duvidosa. cuja visão genial alcança o futuro. conhecimento que lhe submete todas as forças da natureza. no entanto. Entre os pagãos.. do inferno e emprega-o sobretudo em fazer mal. – Segundo Bruns. transportar-se para onde quiser. . o presente e o futuro. operar metamorfoses. ciência dos magos) provém de conhecimento das ciências ocultas. e hoje reserva-se o vocábulo para designar o grande poeta. eram tidos. – O quiromante (do grego kheir “mão”. Este parece termo introduzido pelos africanos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 101 que se julga dotado de um poder divino para descobrir e conhecer o que está oculto aos outros homens. a pessoa que tem pacto com o diabo para fazer malefícios. um homem que se julgava inspirado de Deus. como ainda hoje se lhe chama nas aldeias da Itália meridional). na maior parte das quais era indispensável o lume para brucciare (“queimar”) as plantas e ingredientes auxiliares das adivinhações em que o agente principal era o próprio diabo (il brucciato. parecendo ser de importação italiana.

epíteto. Paragens. Neste sentido genérico. e fronteiras são extensões (ou coisas) que ficam ou que estão uma defronte à outra: não é necessário que estejam contíguas ou unidas. porém. O adjetivo completa ideia do nome e o sentido da proposição: é necessário. – Imediata. tratando-se de duas coisas. confinante. Países. ou ajuntado ao substantivo para modificar-lhe a significação’. O espírito justo emprega o adjetivo mais próprio: a imaginação brilhante emprega o epíteto mais expressivo. distritos. a mesma linha divisória”. mais animada a ideia. o próximo verão. – Confim (ou confine) e confinante dizem propriamente – “que tem o mesmo fim. imediato. Limítrofe é o mais próximo de contíguo. menos distante”. Marca-se assim perfeitamente a diferença entre confim e confinante. sem graça. chegado confrontam-se. que jaz perto”. ou em geral a territórios. pegado. Mas. mas este é mais extenso. 145 ADJETIVO. a casa contígua à minha é desta limítrofe. ou contíguos. sem energia. A casa ou a aldeia próxima. É mais ainda que contíguo. ou unidos. – Junto é o que fica ao lado. S. – Pegado é quase o mesmo que unido. pode-se dizer que os dois coincidem exatamente um com o outro. não dando apenas a mesma ideia de ligação perfeita que se inclui neste último. vizinho. quer outro significa ‘vocábulo aposto. forma arcaica de tango. é “a que se segue à primeira. ou uma superfície da outra) que não fique espaço nenhum entre a coisa que está junta e aquela a que se junta”. mais do que próximo. e aquele só se aplica em referência a países. contíguo. próximo. pois só podem ser confinantes ou limítrofes territórios que tenham fim certo e preciso (limite) e cujos limites se encontrem. unido. pois que zonas. quer de tempo. As outras duas consideram o epíteto como exprimindo uma qualidade do substantivo.102 Rocha Pombo 144 ADJACENTE. contíguas são extensões (ou coisas) que se tocam (con=cum+ tago. zonas confins (não – confinantes. – Vizinho é o que se acha “mais por perto de nós”. – epíteto é termo da eloquência e da poesia. confins. – Chegado diz menos que pegado: significa “muito próximo”.. – Unido quer dizer “tão junto (um objeto. e pôr-lhe a ideia vivamente em destaque. nem confinantes. Considerando. Ninguém diria que. – Imediato. paragens não têm fim preciso ou limite certo). O adjetivo acaba a imagem do objeto: o epíteto dá-lhe colorido. pegado. o uso mais particular que se dá a cada um deles – adjetivo é termo da gramática e da lógica. limítrofe. ou se os limites não são fixos e precisos. vizinhos: Não se diria: paragens limítrofes. chegado. a proposição muda de termos: se tiramos o epíteto a proposição fica sem ornato. – Adjacente quer dizer – “que está nas imediações. É claro que a coisa imediata pode não estar unida à coisa precedente. Se tiramos o adjetivo. contíguo. Luiz: “Na língua grega. ou confinantes. por exemplo. os termos próprios serão adjacentes. – Próximo diz – “mais chegado. regiões. confim. As primeiras duas artes consideram o adjetivo como exprimindo uma qualidade do substantivo. Nesta frase: . ere “tocar”). mais pitoresca. e quer se trate de espaço. ou fronteiros. O epíteto faz mais viva. a próxima semana. e se a extensão não é certa. províncias. epíteto diz o mesmo que na latina diz adjetivo: quer um. dá vivacidade e energia ao discurso: é útil e conveniente. regiões. Aproximam-se de fronteiro. conveniente para vestir. unido. – Sobre estes dois vocábulos lê-se em fr. junto. ornar. limítrofe. sem que medeie coisa igual entre uma e outra”. fronteiro. propriedades rurais (todo território de extensão determinada) podem ser limítrofes.. necessária para modificar ou determinar a sua ideia.

e a proposição é falsa. que fica junto de uma repartição. assombrado. – Esconjurar não é apenas uma outra forma de conjurar. 148 ADMIRAÇÃO. surpresa.. enlevo. funcionários) que têm funções junto de outras autoridades. enlevado. e completa o sujeito da proposição. diz propriamente “tomado de admiração”. de certa missão. como se cria nos velhos tempos” – diz Bourguig. – Admiração é “o forte movimento de alma que em nós excita alguma coisa extraordinária. em nome de Deus. – Conjurar é mais que protestar contra a obsessão e que ordenar ao demônio que saia do corpo de um atribulado: é fazê-lo sair. como dizem alguns autores: é “conjurar imprecando. susto e assombro confundem-se frequentemente.” – Admirado. quer para substituí-las. ou está admirado de ver a justiça tão liberal quando a julgávamos tão somítica?” – Pasmo é a “admiração levada a uma intensidade tal que absorve todos os sentidos da pessoa que está pasmada”. designam pessoas (autoridades. como se vê deste exemplo de Vieira: “D. conjurar. Dizemos: adjunto do promotor público. 147 ADJURAR. e adido de embaixada. na surpresa que o assalta. maravilhado. e quase pinta aos nossos olhos um hórrido objeto. fica o mesmo sentido. etc. exorcismar) é “fazer as adjurações. entusiasmado (entusiasta). êxtase. e com significação análoga à que lhes fica assinalada respetivamente. assombro. adido. assustado. adjunto do lente de geografia. Tirado o epíteto. extasiado (extático).. pasmado. enquanto que adido se diz do funcionário. expulsá-lo com grande clamor. que se faça alguma coisa”.. entusiasmo. surpreendido (surpreso). espanto.. e admiração de seus doutores. aqui (com a função de predicativo). – Espanto diz – . Muitas vezes é empregado este vocábulo para exprimir a própria coisa que excita admiração. arrebatado. etc. mas a imagem descorada e amortecida”. exorcizar (ou exorcismar). Fernando.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 103 ‘O homem justo é digno da imortalidade’ – o adjetivo ‘justo’ determina a ideia principal.” – só uma distinção muito subtil é que poderia dar uma preferência formal por um dos três vocábulos. e que nós manifestamos principalmente pelo olhar”. ficou admirado. arrebatamento. Pasmado.. etc. etc. Mas vejamos. e particularmente “ordenar ao demônio que saia do corpo de um possesso.. – Adjurar é “concitar com império. ordenar em nome do próprio Deus.. admirado. esconjurar. É certo que nesta frase. maldizendo”. arroubo. e na maioria dos casos sem muita razão. proferiu aqueles horrores!. de um tribunal. a fama da Universidade. transportado. Nesta outra: ‘A pálida morte pisa com igual despeito os palácios e as cabanas’ – o epíteto ‘pálida’ dá uma cor à ideia principal.. espantado. o sujeito muda. “O sr. “Aquela cena estranha causa pasmo geral”. – Estes dois vocábulos Exorcizar (ou. – Empregam-se todos estes verbos em sentido figurado. professor. quer para auxiliá-las. em plena Câmara.. talvez melhor. – Espanto. arroubado. transporte. Tirado esse adjetivo. Mas adjunto se supõe sempre junto de uma outra pessoa (juiz. da pátria. ou o meu assombro) quando o moço. por exemplo: “Qual não foi o meu espanto (ou o meu susto. induzir energicamente. pasmo. – susto. de alguma coisa sagrada. 146 ADJUNTO. o menino emudeceu”. ou que deixe de atormentar alguma alma. maravilha.). repelindo. é renegar abrenunciando. os esconjuros (exorcismos) próprios para expelir o demônio de um corpo”.

“a grandeza dos Estados Unidos do Norte é o espanto de todo o mundo”. pois o que o auditório sente é mais admiração que surpresa ou pasmo). grande susto”. Fica-se maravilhado à vista de um prodígio. – Enlevo é “um êxtase mais sereno. tão brilhante e segura” (e não – assustados nem mesmo – espantado. – Surpresa é a “súbita impressão que nos causa alguma coisa que não esperávamos”... – Transporte é “arrebatamento da alma. “A população está assustada com aquele boato que ontem correu.. ou como tocada de centelha divina”. daqueles transportes de alegria passou à demência. “O moço está espantado de me ver marchar” (não – assustado. Entusiasmado é “o que está sentindo entusiasmo” (é um estado). o pobre. como se estivesse incendida do próprio Deus. extática. sacudida de paixão violenta”. Surpreendido é o que . serena e extática. “O auditório está assombrado de ouvir aquela palavra tão nova. – Arrebatamento diz – “admiração súbita e impetuosa”. gozando o seu arroubamento. é um como esquecimento da alma pela coisa que aprecia. a assistência. “O noivo. “Ali ficou.104 Rocha Pombo “admiração que é quase pasmo.. extasiado da íntima alegria da bemaventurança.. se parece como absorta. mas apenas uma desconfiança. diante do altar extasiada. – Susto é menos que espanto: é “espanto súbito. assustado e assombrado distinguem-se de igual maneira. “ele é grande entusiasta do capitão”.. admira ou adora”. que a fortuna não deixa durar muito. ou às próprias condições da natureza. – Maravilha (no sentido que lhe dá lugar neste grupo) é “sentimento de assombro tão vivo e intenso como se fosse produzido por alguma causa sobrenatural”. e muitas horas depois ainda a encontramos extática. nem: “pequeno espanto”. É um estado semelhante àquele “engano da alma. Dizemos: “pequeno susto. arrebatada. mas não seria muito próprio dizer (na acepção que lhes damos aqui): “pequeno assombro”. e.. mais inconsciente e mais delicioso.” – Entusiasmo é “o estado de agitação e arrebatamento em que fica a alma. e no qual parece tomada de pasmo e maravilha”. um sobressalto.. abalo mais ou menos forte. em pasmo. entusiasta é “o que se devota com entusiasmo por alguém ou por alguma causa” (é uma qualidade). causado por alguma coisa inesperada”. e é tomado também este vocábulo como significando a própria coisa que nos surpreende. “Naqueles arroubos da sua vida moral. “Vieira foi o assombro do seu século”. em todo o delírio da sua fé”. e sentindo-se como em deslumbramento de coisas divinas”. Vemo-la extasiada se ela se mostra como entregue ao seu êxtase. – Assombro é “grande espanto. “Senti um grande susto em toda a assistência”. ficou por longo tempo em adoração diante da imagem”. pareceu-nos em completa transfiguração: enquanto ela (a noiva). violenta impressão de surpresa e quase terror”. ou aquela conquista surpreendente) põe-me na alma agitada mais maravilha que alegria”.” – Arroubo (ou arroubamento) é o estado em que fica a alma “arrebatada de altas emoções. quase inconsciente nas profundezas do seu êxtase.” (não – espantada. causado pela suspeita de algum perigo). “Ele está entusiasmado com a vitória”. encheu de um vasto e grave clamor todo o templo”. – Êxtase (ou extasis) é “o estado de quase delíquio em que fica a pessoa que se arrebata. pois este vocábulo já enuncia um estado de alma que é mais alarme do que espanto). ou aquele invento. porque o que a população sente não é comoção de quase terror. “Aquilo (aquela ação extraordinária. – Espantado. “Ouvindo um lance daquela oratória grandiosa. ele vivia mais num instante do que outros num século”. “Transportado de cólera. admiração profunda e solene”. e a nossa maravilha provém de sentirmos que tal prodígio excede às forças humanas.

ou para alguém ou alguma coisa”. um problema.. autorizam-se com os clássicos. quer outro destes verbos. dentro do qual o áugure observava o voo das aves. ao alcance de todos os sentidos. “Olha-se de esguelha. . encarar. ou a arrogância. uma paragem. olhar. A palavra latina templum. Tanto podemos olhar sem ver propriamente como podemos ver sem ter olhado. vê-se vesgamente. Olhar é simplesmente “dirigir os olhos para algures. em grande pasmo para a coisa contemplada”. nem a capa lhe escapará nos ombros”. Resta dizer que sugere também a intenção – o interesse. para a abóbada celeste. e quem observa só estuda ou considera a coisa a observar aplicando 14 Fitar significa “fixar (os olhos) com muita atenção”. com apreço”. olhar com atenção”. – Observar e examinar confrontamse. sem embargo da restrição que fazem alguns autores quanto a ver. a mercê de ver com ambos os olhos. espanto ou alegria”. E quer um. dar de cara com. por que se os não tiver ambos abertos.. ou para os astros. ver. mas bastam alguns exemplos para ver como se distinguem. – com que se olha. ou vê-se preto. que vale mais por “perplexa. e. – Examinar é “fazer inspeção ocular. – Fitar e encarar ainda se confundem mais facilmente. – Ver e olhar distinguem-se essencialmente. como se a pessoa que contempla estivesse absorta. no destino”. “Vivemos aqui. etc. fitar. ou com desprezo”. estudo minucioso e com muita atenção”. Em contemplar sente-se também a sugestão de ideia semelhante. ou cor-de-rosa”. “Vê-se com os próprios olhos. – Considerar (de con = cum e sidus “astro”) confunde-se muito com o precedente. mas é certo que o último acrescenta força e intensidade à ação do primeiro. que procura entender as coisas do universo. dizemos de preferência surpresa... na floresta sagrada. “Ele encarou de frente o inimigo” (e não – fitou). consi- derar. da Sil. “Olhou e viu tudo cerrado” (R. que entra na composição do verbo contemplar. o espaço marcado no céu. “Ele fitou14 aquele ponto com muita insistência” (e não – encarou). ou com maus olhos. e a de contemplar mais própria da alma que se enleva ou extasia. apreciar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 105 está sentindo surpresa. até pela analogia da formação. perturbada”. contemplar. observar. portanto.. significava. Como bem define Aul. Ver exprime o exercício da fa- culdade de “receber pelos olhos a impressão que nos causam as coisas exteriores”.” Mas tanto esta como a forma do exemplo acima. – Olhar e encarar poderiam confundir-se em grande número de casos. etc. entre outras coisas. a coisa a examinar.. Vieira tem este exemplo: “Faça-me V. “Como é que encara o sr. Mas a diferença entre os dois verbos consiste em ser a ação de considerar mais própria do espírito que indaga. e se nos referimos mais à condição que ao estado momentâneo em que ficou a pessoa que se surpreende. em susto. uma obra de arte. – Contemplar é “admirar longamente. – Apreciar é “ver com muito interesse. conquanto no uso vulgar muitas vezes se empregue um pelo outro. admitem adjuntos modificativos da respetiva ação. examinar. Mas quem examina é de supor que tem perto. – Admirar é “ver alguma coisa com grande atenção. ou o desplante. a conduta deste moço?” (e não – fita). “Aquela criatura já considera gravemente na vida. – “encarar é olhar direito para fixar bem. Considerar sugere a ideia de ter (quem considera) o espírito voltado para o alto. fitar os olhos em. devíamos dizer: “Ele fitou os olhos naquele ponto. pois. M. Quem contempla e quem considera entende-se. 149 ADMIRAR. que está enlevado para o céu. “Eu pasmava de olhar e ver o homem” (Garrett). ou de relance.). Examina-se um caso. uma doutrina. a contemplar as maravilhas de Deus”.

arrebatador. admirável e admirativo: e eles próprios se encarregam de. Mas estupefaciente não é o mesmo que estupendo. por ser extraordinário.). dão no mesmo grupo. abalado e suspenso ante aquela cena.. excelente. (e não – estupefacientes). – Estupendo é “o que nos causa espanto. e examinar a conduta de alguém é ponderarlhe os atos. espantoso. por assim dizer.106 Rocha Pombo apenas os olhos. estupefaciente. “cheio de estupefações”. o que é estupefaciente nos faz estupefato. Se esses fossem sinônimos. curioso. Uma cena de canibalismo é estupefaciente.. estupendo. esplêndido. singular. – Todas estas palavras designam coisas que nos impressionam mais ou menos fortemente. afrontada de coisas anormais. também o seriam: estimável e estimativo. amável e amativo. – Estranho é “o que. e ainda melhor citando este exemplo de Vieira: “Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir. mas será admirativo” (isto é – cheio de sentenças.” (não com a mesma propriedade – admirável). grandioso. O astrônomo observa o céu (e não propriamente – examina). apesar do que dizem alguns autores: o que é estupendo imobiliza-nos de assombro. isto é. Há na história lances estupendos e edificantes.” (aquele discurso cheio de coisas que nos deixam estupefatos. excitando a nossa emotividade.ndo marcam uma certa diferença entre os dois: admirando enuncia a ideia – “que está sendo admirado. a alma. e que por isso causa movimento de alma anormal”... Não será o sermão admirável (isto é – ‘digno de admiração’). soberbo. ou porque excede ou está abaixo da medida comum”. estupefativo. assombroso.. a mesma raiz grega tup. – Curioso é “o que desperta interesse. pois este diz melhor que o primeiro “que gera estupefação”. – Extraordinário é “o que nos chama a atenção por estar fora da regra ordinária ou da ordem normal das coisas ou dos fenômenos. Parece que o mundo ficou até hoje ali. além de raro. e não se pode dizer que seja estupenda. 150 ADMIRÁVEL15. inverossímeis”. exclamativas e admirações). ou que se impõe à nossa admiração”. Dão os lexicógrafos como tendo o mesmo valor o adjetivo admirando. – Raro é “o que se faz notar por não ser frequente. surpreendente. distanciá-los. como se a tivesse sempre debaixo dos olhos. extraordinário. viva atenção (curiosidade) por ser original. como em estado de estupor. Mas incontestavelmente os sufixos vel e . esquisito. atônito. distinto de todos os outros da mesma espécie”. estranho. que sugere a ideia de bater. ou porque não se encontra comumente”. assombro tão grande que nos suspende.. – Excelente é “o que impressiona pela sua grandeza. raro. que está causando admiração. admirando. – É admirável “aquilo que provoca admiração”. impressionar vivamente. para estabelecer a respeito dessa pessoa um juízo seguro. Observar a conduta de alguém é seguir-lhe os passos. e Bruns. etc. como assombroso “o que 15 Roq. como se a tivéssemos batida. monstruosas. Vem ver como “está admirável a aurora!” (não – admiranda). Não se confundem também estupefaciente e estupefativo. porque sucede poucas vezes. pasmoso. pungir. como no precedente. tão nova e admiranda!. pela simples definição. su- . e maravilhoso “o que nos deixa maravilhados”. – Espantoso é propriamente “o que causa espanto”. enquanto que admirável diz – “digno de ser admirado”. ou imprevisto”. – Surpreendente é “o que nos causa admiração ou espanto porque se nos apresenta de súbito e sem que o esperássemos”.. desperta assombro”. é fora das proporções usuais.. como sinônimos.. raro. Em estupefaciente e estupefativo encontra-se. “Aquele discurso estupefativo deixava-nos imobilizados. magnífico.. maravilhoso. – Singular é “o que impressiona por ser único em seu gênero.

repreender. deixa que ela passe sem oposição. 151 ADMITIR. defeito ou falta. pela pompa e majestade. avisar.. concorrendo assim para que essa pessoa se dirija melhor em alguma conjuntura. “Pedro admitiu que o negócio fosse discutido lá mesmo no escritório”.” “O pobre marido ainda lhe tolera todos os caprichos e extravagâncias. sem castigo ou censura. receber. – Segundo Roq. aqui. fazer sentir uma inconveniência”. – Quem tolera alguma coisa é que a permite pelo silêncio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 107 perioridade ou distinção”. – Arrebatador é “o que produz admiração súbita. consentir.” – Censurar é “repreender como por direito de função. tacitamente. e como que invetivando”. é “repreender acusando de vício. imponente no seu modo de ser”: é mais que excelente: – é o que “sobreleva a coisas do mesmo gênero também excelentes”. Os príncipes admitem à sua audiência os ministros estrangeiros16 e recebem em suas cortes os grandes senhores das outras”. – Quem consente que alguma coisa se faça é porque se põe de harmonia com o sentir da pessoa que a quer fazer. quem aconselha dá à pessoa que é aconselhada – ou porque espontaneamente se interesse por ela. – Advertir é “admoestar mais formalmente e com certa autoridade”. tolerar. – Quem permite alguma coisa admite-a com autoridade.) que ela ignorava. verberar. – Avisar e aconselhar confrontam-se. arguir. A recepção é mais cerimoniosa: supõe certa igualdade. – “Antonio não permitirá que a escolta lhe penetre na oficina”. etc. entusiasmo impetuoso. surar. Em Roma. que vigiava sobre os costumes. – Admoestar (admonere. Mas quem avisa dá à pessoa avisada conhecimento de coisas (faltas. – Repreender é advertir. que é uma como admiração quase passiva”. pela raridade. – Soberbo é “o que se mostra augusto. ameaçando de castigo. “em termos brandos e amistosos. aconselhar. hoje não dizemos que o chefe de Estado admite o ministro ou embaixador. consideração e correspondência. de respeito religioso”. etc. produz pasmo. “Ele há de afinal consentir que a filha case.. estigmatizar.” 153 ADMOESTAR. e discutindo e mostrando a falta”. permitir. pela excelência. que sugere a ideia de “pensar”. inspira um sentimento de admiração solene. mas que recebe. As corporações. “ad- ência ou por sentimento de dever. como se a aprovasse mais pelo desejo de condescender com outrem do que por impulso de consci16 Aliás. – Esplêndido significa “admirável pelo brilho e perfeição”. – Pasmoso é “o que. “sentir”) é. chamar atenção para alguma falta. circunstâncias. mas com energia e mesmo com certa arrogância e aspereza. – Quem admite alguma coisa deixa apenas que essa coisa seja ou se realize.. isto é. advertir. censor era o magistrado que exercia a censura. 152 ADMITIR. “não só com autoridade. – Arguir. – Grandioso é “o que junta à grandeza serena e brilhante do que é excelso e majestoso a magnificência do sublime”. cen- mitir indica um ato de urbanidade pelo qual se franqueia a porta da casa ao que de um modo decoroso a ela se apresenta. ou porque se lhe pediu – uma noção clara do modo como essa pessoa se . – Magnífico é “o que. forte impulso de alma”. no qual figura a raiz men ou man. as sociedades literárias e científicas recebem em seu grêmio os homens notáveis e doutos. Um fidalgo admite à sua mesa e em sua sociedade um homem limpo a quem nunca visita. ou porque exceda ao que é normal. pelo esplendor.

Avisa-se a um amigo de que alguma coisa se trama contra ele. ou posição social do indivíduo. a que evite a companhia de um colega desmoralizado. assim como velhos de vinte e cinco. de uma senhora que vai para o leito. de verber. perfeitamente definido por Faria: “período da vida em que o organismo chega a desenvolver-se plenamente. como se vê nos moços ambiciosos que procuram guindar-se pela política. e impetuosidade nas paixões. Todos conhecemos jovens de quarenta anos. Dizemos – doença do peito. jovem. moço. voz derivada do verbo adolescere. ou o caluniador. A latitude dada assim ao período da adolescência é corroborada pela Academia espanhola que a define: “la edad desde los catorce hasta los veinticinco años”. Não seria próprio dizer. mocidade. Estigmatiza-se a calúnia. ou se supõe. dos quatorze aos vinte e cinco anos”. “marca”) é “verberar como indigna” (a coisa ou pessoa estigmatizada). – vem-nos do latim adolescentia. atendendo à sua etimologia. repreender violentamente”. Admoesta-se o filho ou o aluno. um ato iníquo do mau governo. De um médico. “crescer”. a época da vida que prin- . Também o que adoece naturalmente sente dor: o que enferma sente a fraqueza que provém do mal ou da doença. ou dor de ca- puberdade. e não – que adoeceu. isto é. ordinariamente estes dois verbos. Mas adoece uma pessoa quando deixa de estar sã. mocidade. Verbera-se uma injustiça do tribunal. reprovar com acrimônia. mancebo. porém. parecendo esta última expressão excluir a gravidade que o médico e o ministro devem ter. nem por isso está enfermo. de um ministro se diz que é bom moço. se esta o obriga a refrear os ardores da natureza. idade subsequente à puerícia. segundo a constituição. ou do peito. – Adolescência – diz Bruns. e com ela se confunde ao princípio. ou de momento. vigor. mas é suscetível de durar mais que ela. – Estigmatizar (formação vernácula de stigma “ferrete”. Aconselha-se a um parente mais moço. temperamento. quando a juventude principia: não se sabe. do figado. Sabemos. 155 ADOLESCÊNCIA. juventude. Dizemos: – longa enfermidade: e não – enfermidade rápida. por conseguinte. está doente. – Juventude é a quadra da vida em que se é jovem. juventude. – Confundem-se beça. que alguém enfermou ou do coração. – Mocidade vem-nos do castelhano mocedad (idade de mozo). portanto. não – que é bom jovem. ou dever a cumprir) com a pessoa que é avisada. Quem está sofrendo dor de dentes. “açoite”) é “arguir fortemente. em que se tem força. Adverte o chefe da repartição a um empregado que não cumpre o seu dever. – Verberar (verberare. 154 ADOECER. portanto. quanto pode durar. adolescente. ou de faltas que não cometeu. E depois do parto – que enfermou. portanto – que F. e dura mais ou menos. enfermou momentaneamente. e não – enfermidade.108 Rocha Pombo deve conduzir em certo caso. e repreende-o se ele reincide na culpa. no momento do parto – que adoeceu. ou com quem temos familiaridade. Não diríamos. Costuma-se dizer. A mocidade será. ou de ouvidos. censura-lhe a desídia. É de lamentar que o arguisse de males que não fez. principia com a puberdade. Este vocábulo está. ter o conselheiro autoridade moral em relação ao aconselhado. ou parecer dignos da carreira que abraçam. na linguagem comum. para que não repita a falta. mancebia. púbere. Principia quando a juventude. e não – que enfermou. pois. do coração. e que para avisar basta que a pessoa que avisa tenha motivos especiais de cuidado (interesse a zelar. enfermar. Segue-se que para aconselhar é preciso. e enferma quando a moléstia é de tal natureza que a debilite.

atribuindo à palavra moço a sua primitiva significação de solteiro. abnegação. – Venerável e venerando são definidos como sinônimos perfeitos. as grandes virtudes. renunciamento com que se ama a Deus”. no entanto. etc. e a mocidade é o tempo em que o homem conserva aquele vigor. fervor. – Reverencia-se aquilo que merece o nosso culto. a consideração que se tem pelas pessoas a quem se devem tais sentimentos”. e depois a autoridade subalterna à autoridade superior que representava diretamente o soberano. e venerando “o que se impõe à nossa veneração”. mas é pouco usado nesta acepção. significa rigorosamente o moço de poucos anos. veneração.: “A voz jovem (do latim juvenis) explica a ideia absolutamente. Pode-se mesmo. respeitável. ou disposição que são próprios da juventude. de respicere – re spicere – “olhar para trás”. “o grande apreço. No sentido próprio. os grandes homens. etc. Por sua vez diz Roq. por meio de grandes demonstrações de respeito e submissão. sobre os trinta a trinta e cinco anos”. porém ainda é moço. adorar é “amar com o mesmo extremo. Quem respeita fica. reverenciar. adorar. – 17 Segundo outros. “não dar as costas”) é todo sinal de atenção com que vemos ou tratamos uma pessoa ou coisa. Um homem de trinta anos já não é jovem.) de grande respeito por alguma coisa sagrada. No sentido figurado. como dos quatorze até os vinte e um anos. venerar. do espanhol mozo. e por extensão aquelas que pela sua grandeza moral assumem a nossos olhos um aspeto de santidade. e acaba ao entrar na idade madura. 156 ADORAÇÃO. era o juramento de fidelidade que o vassalo fazia ao senhor feudal. venerando. portanto. venerável. reverência. só Deus é que se adora. honrar. a profunda estima. mas em geral se usa por jovem. isto é. – Homenagem. Honramos os nossos pais. segundo a rigorosa propriedade da palavra. – Fora da acepção que esta. acata- mento. e tende a perdê-la de todo. no sentido próprio. honra. a sabedoria. acatamento confunde-se com reverência e mesmo com adoração. conservar. – Mancebo. – Honra é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 109 cipia com a puberdade. que não é muito frequente nos clássicos”. a nossa família. . como a velhice. chamar a si o ente acatado ou insinuar-se-lhe no ânimo. formado de manus e capere “mão” e “reter. acatar. Adorável é “o que é digno de ser adorado”. adorável. em compostura de perfeita discrição e gravidade. parecer. pode-se. “apto para procriar”. ter debaixo de”) e significando. do latim mancipium (de manceps. ou esta espécie de culto que rendemos às coisas em presença das quais nos sentimos humildes e de alma confusa e abalada. e podem durar mais ou menos tempo. as grandes virtudes. a voz moço. considerar venerável como significando “o que é digno de ser venerado”. A pessoa que a outra acata. dizer que “a mocidade é o espaço da vida compreendido entre a puberdade e a idade em que compete ao homem tomar estado. como algumas outras palavras deste grupo. do árabe mansubon17. – Mancebia significa propriamente a qualidade. – Veneram-se os santos e as coisas santas. respeitar. acatável. diante da pessoa que julga respeitável. isto é. em atitude de vivo apercebimento e vigilância. “o filho que ainda está sob a autoridade do pai”. gesto. palavra. – Puberdade é a idade em que o indivíduo se torna púbere. – Adoração é ato de adorar. – Respeito (respectus. a explica comparativamente: porque a juventude é a idade do homem entre a adolescência e a idade varonil. a condição de mancebo. homenagem. tem no XC. – Reverência é a manifestação (por atitude. ou que a algum santo ou divindade acata – procura. – Acatável é a pessoa que merece o nosso acatamento. aqui. respeito. – Veneração é respeito profundo.

vinagre. lisonjeiro (ou lisonjeador). etc. O bajulador humilha-se. e quando o não faz por uma requintada delicadeza será talvez com o pensamento de ganhar-lhe o coração. e – ‘movimento alfandegário’ à quantidade de mercancias que passam pela alfândega”. o discurso.. louvaminheiro. Aduana e alfândega são palavras de origem árabe. “a primeira destas palavras já quase desapareceu da língua: só a registramos aqui a título de curiosidade. pimenta. ‘armazém’) depositavam-se as mercadorias sujeitas a direitos. é termo de gíria. – Adubar. como diz Bruns. a todo o esforço que faz o adulador por insinuar-se no ânimo do adulado. adulador. Estabelecida esta diferença. de fazer-se-lhe simpático. de todos os vocábulos do grupo. aqui. – “serve de capacho ou de sabujo”. – Segundo Bruns. Só quando a lisonja é calculada. lisonjear. É quase adular. mas estende-se aos atos. Também se emprega no sentido figurado: aduba-se a narrativa. repugnante. obediência. Um manjar que se condimentou com perícia é apetitoso e restaurador. louvaminhar. e não se satisfaz “só com palavras. – Condimento é a porção mais substancial dos adubos e que serve não só para tornar a comida de cheiro e de sabor mais delicado. 157 ADUANA. um sujeito indigno. Quem lisonjeia pode querer apenas tornar-se agradável ao lisonjeado. é “juntar à comida que se prepara os adubos (como tomate. alfândega. E adular não se reduz a simples louvores ou ao intento de ser agradável só por palavras. e portanto que mais enojam do que louvam. engrossador. – Bajular exprime ação ainda mais abjeta que a do verbo adular. é que passa o lisonjeiro a ser adulador. aqui. condimento. alho. homenagem é “o sinal de respeito. e para explicação do seu derivado aduaneiro. bajular. . de coisas curiosas. No sentido que tem aqui. É mais termo criado pelo instinto de crítica do nosso povo para zurzir o vício de. ou não ser sincero no louvar: não será baixo. Aduba-se um prato especial para F. mas vai até os serviços mais asquerosos” que dele exija o bajulado. como para fazê-la mais nutritiva. soez. mas de etimologia diferente: na aduana (de dana. bajulador. ‘escrever’) registravam-se as mercadorias sujeitas a direitos. daí vem o dizer-se ainda ‘tarifas aduaneiras’. tempera-se a frase. alfande- gário. fazer louvaminhas. submissão e acatamento que se tributam a uma pessoa que consideramos como nosso superior”. louvores afetados e fúteis. juntando-lhe sal. – Tanto condimentar como temperar se usam também no sentido figurado. compreende-se que – ‘movimento aduaneiro’ se refira aos ingressos de direitos. pois louvaminhar não é senão lisonjear demais e continuamente. – Tempero é a quantidade dessas coisas que se juntam à comida. aduaneiro. portanto. empregado em linguagem popular para dizer o mesmo que lisonjear com certa intenção de insinuar-se no ânimo do lisonjeado. – O louvaminheiro não é tão sórdido como o bajulador. cheiros. O lisonjeiro não é. é o que enuncia ação que nem sempre é vil. no entanto.). nem sempre pelo menos. – Engrossar. e o grau de perfeição com que é ela temperada. em política principalmente. abrir caminho adulando os chefes de quem dependem as posições. tempero. 158 ADUBAR. excessiva. temperar. nem mesmo se envilece como o que adula: será talvez mais próximo do lisonjeador. que a tornem agradável”. gabos. isto é. – Lisonjeiro (ou lisonjeador). condimentar. Quem engrossa. – Temperar a comida é “dar-lhe o sabor próprio.. engrossar.110 Rocha Pombo 159 ADULAR. nem por isso se tem na conta de indigno como quem bajula. na alfândega (de fundag ‘depósito’. pode ser exagerado. Condimenta-se o estilo. adubo..

Unir é “juntar (coisas semelhantes. contrafazer. a de evolução natural. é preciso que nos unamos contra o inimigo comum”. nuanças da mesma ideia fundamental.. batidas da catástrofe”. o mesmo vocábulo. “Os governos prudentes aunam os partidos. – Imitar é menos ainda que contrafazer. ligar. estragando. os membros da mes- . no entanto. O prefixo. ou mesmo coisas diferentes) de tal modo que pareçam uma só coisa”. – Adulterar e falsificar confundem-se facilmente: exprimem ambos “a ação de tirar a uma coisa as qualidades que lhe são próprias”. “Coadunam-se os vários grupos políticos para conjurar a crise”. “Adunaram-se as hostes. falsificar é também convizinho de contrafazer. “são. unificar. etc. aliar. é inegável. procedendo natural e brandamente. Imita-se a conduta de alguém. e apresentam. portanto. unir. diminuindo o valor à coisa falsificada. congregar. com perfeita lidimidade. Aunar é. em seu favor. – Unir. Este verbo contrafazer sugere. aunar e coadunar. Por isso. portanto. ajuntar. Quem falsifica estraga sempre. Não se poderia dizer. quer de atos). “Aquela desgraça adunou os dois chefes”. pois a coisa imitada nem sequer incide sob a sanção dos códigos. deixa pior a coisa falsificada que pretende fazer passar por legítima. de aproveitar alguém. pode muito bem ser que não estrague o produto. corrompendo. Falsificase um produto de indústria introduzindo no mercado (e com o mesmo nome e com todas as aparências de que seja o mesmo) um outro produto que não tem as mesmas qualidades daquele. e adulterar é alterar a pureza própria de uma coisa dando-lhe outro aspeto. e como que impelindo. agregar. dizendo. exprimem. coadunar. Adunar é trazer com esforço. que opiniões ou ideias se falsificam. como se imita uma obra de arte. agrupar. tendo radical comum. Mas falsificar é fazer isso. unificar têm ainda o mesmo radical. incorporar.. nem lhe tire o valor próprio: é possível até que a coisa contrafeita seja superior à coisa legítima. – Adunar. pois ambos são formados do latim unus. converter num todo. portanto – “adunar muitas coisas”. aumentando-lhe ou diminuindo-lhe o peso. reunir. enquanto que falsificar só se aplica propriamente a coisas materiais. Adulterar distingue-se ainda de falsificar em poder empregar-se no sentido translato. o volume. Quem contrafaz pode imitar com tanta perfeição que se torne difícil distinguir a coisa legítima da coisa contrafeita. “um”. “Vamos unir os nossos esforços. a em aunar. Unem-se os esposos. “fingir com tal perfeição que aquilo que se imitou não se distinga facilmente da imitação”. Apenas as imitações nunca têm ou só excepcionalmente chegam a ter o mesmo valor da coisa imitada. – Coadunar acrescenta à ação de adunar a ideia acessória de concurso. pois (quer se trate de coisas. etc. mais a ideia de infringir direitos alheios. Aunar e adunar. porém.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 160 ADULTERAR. Carlos Magno pretendeu adunar à fé católica povos de mui diferentes crenças”. e ad em adunar. como se imitam gêneros de comércio. imi- 111 tar. mais sensível diferença de ação que a notada entre os três precedentes. reunir. por meio dos respetivos prefixos. como se adulteram ideias. Adulteram-se vinhos. Imitar é. Quem contrafaz. aunar.. falsificar. coisas diferentes que se pretende unificar. do esforço que outro fez – do que propriamente a ideia de falsificar. no entanto. que muito convém ter em conta: ad envolvendo ideia de impelimento. e a. 161 ADUNAR. estabelece uma nuança diferente. coisas diferentes. opiniões. coligar. de força. segundo Bruns.

e congregar “reunir todo o rebanho. aliar e coligar enunciam a mesma ideia de “fazer acordo moral” (sem. sugerir necessariamente a ideia de ficarem reunidas ou juntas. chamar ao aprisco todas as ovelhas”. os grupos. Nestas frases: “a desgraça encontrou os irmãos unidos”. alegar. – Ajuntar é “reunir com mais cuidado e trabalho”. etc. – Curvo indica a forma da figura que não é reta nem quebrada.. 163 ADUZIR. Coligar está. “gancho”) diz propriamente “em forma de gancho. – Incorporar assemelha-se a reunir: é “juntar uma coisa a outra ou muitas coisas entre si. do mesmo partido. – Recurvado é “meio curvo. se não da mesma natureza. mas que representa. ou se fosse tomar a forma de arco”. Unificar é “fazer de várias coisas. e mais particularmente entre nações. com pouca diferença ou irregularidade. recurvado.. etc. aquele significa “inclinado como se quisesse. incorporar no rebanho”. “juntar argumentos. “Uniram-se os chefes contra o ditador” (e não – reuniram-se). Unificam-se dois ou mais Estados (reúnem-se sob o mesmo governo supremo. outras razões e argumentos que deem força aos primeiros”. Têm ambos o mesmo radical (grex. alegando atenuantes ou justificativas em seu favor e procurando destruir a acusação. a argumentos já formulados. as pessoas que se ligam ou aliam). isto é. de modo que formem um só corpo”. e “o emissário foi encontrar os irmãos reunidos na casa do tio” – percebe-se bem claro como são distintos fundamentalmente os dois verbos. ar- queado. curvo. e também “tornar a unir coisas que se tinham desunido”. uma à outra. portanto. como coadunar em relação a adunar: aplica-se mais propriamente quando são muitas as pessoas. (não ligaram-se). conservam o mesmo valor e a mesma distinção que têm no sentido natural. incorporar do que unir”. em regra da mesma ordem. de fazer pacto mais solene. . uma companhia. “Aliaram-se o Brasil.112 Rocha Pombo ma família. o advogado do réu defende-o. etc. Este diz propriamente “em forma de arco”. – Adunco (ad + uncus. – Agrupar é “reunir em um só grupo. ou para defesa de uma mesma causa. Reunir é mais congregar. Dizemos: “O pobre velho já está ou já anda muito arcado (e não – arqueado). a República Argentina e o Uruguai”. Incorpora-se um exército. que se ligam. Ligam-se partidos. curvo e terminado em ponta. pois. Aliar (ad+ligare) sugere ideia de esforço mais ponderado e formal que fizeram os que se aliaram. Este verbo reserva-se para exprimir a ação de celebrar acordo de mais importância. “Reúnem-se as forças para a batalha” (não – unem-se). Reunir é “dar unidade a coisas que se achavam dispersas”. – Agregar e congregar apresentam diferença análoga à que se nota entre adunar e coadunar.” Arqueados são os supercílios de uma menina (e não arcados). gregis. etc. pois. Numa acepção mais ampla. – Alegar é. propriamente: agregar “fazer vir ao aprisco. mais ou menos curvo”. Ligam-se indivíduos.. de modo a fazer-lhe mais difícil a defesa. – Ligar. um só todo”. ajuntar. se se põem de concerto quanto a uma certa questão. indivíduos (não – aliam-se). arcado. – Arcado é um tanto diferente de arqueado. “Reuniram-se os deputados para a eleição prévia” (e não – uniram-se). 162 ADUNCO. O advogado do autor aduz provas mais positivas e cabais contra o réu. ou de anzol”. em relação a ligar. ou em grupos diferentes”. “rebanho”) e dizem. – Aduzir (adducere é “jun- tar a razões já expostas. uma secção de circunferência (arco). aliam-se formando um só). facções.

e dizemos alienígena. de uma pessoa. à inocência” etc. e versus. particípio de verto “voltado”. porém. que não é do país. O ádvena. que os referidos povos aqui são ádvenas. que está de passagem”. ou com os respetivos antônimos. quando nos referimos ao que chega em relação ao que vive na terra. Mas ádvena diz propriamente “indivíduo que chega. pois. alienígena. contra aquilo que se afirma em oposição à justiça. “A gente ádvena associou-se compungida à imensa consternação de toda a vila naquele instante”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 113 circunstâncias. forasteiro. Estrangeiro é propriamente “o que é estranho ao país. o que não é originário do país onde vive. porque não era a raça latina que ocupava o continente quando este foi conhecido. ádvena. pode não ser de fora do país. ou do lugar onde chega. no entanto. entretanto. foras- teiro. não se pode dizer que seja um forasteiro. ádvena aproxima-se mais talvez de estrangeiro que de adventício. indivíduo ou raça que não é a própria do país em que está”. – Resta notar que todos estes vocábulos só se empregam em relação. de convicção contra o intento com que se nos persegue. Essa gente ádvena aí diz “a gente que estava ali de pouso. ou seguindo diferente opinião ou partido. – Segundo Roq. – Ainda que o interesse e o amor-próprio sejam de ordinário as causas por que muitos se fizeram nossos adversários. pois este vocábulo deixa supor que o que chega há de sair logo.. ou mesmo que nele vive sem certos direitos (os políticos) e sem certos deveres (o do serviço militar). quando fazemos alusão à nacionalidade do indivíduo. inimigo. – Alienígena (alienus “alheio”. ou não são originárias. diferente da dos filhos do país onde o estrangeiro está. com outros. – Todas estas palavras designam pessoas que não nasceram no. êmulo. Estrangeiros podem ser até indivíduos que tenham nascido no país em que vivem (desde que os pais lhes conservem a nacionalidade de origem. todavia podem estes . ou desde que tenham aqueles indivíduos perdido a sua própria): o mesmo não se dá em relação a forasteiro. rival. estrangeiro. ou que nele se fixou. que nele está. do país onde se acham. e gignere “gerar”) emprega-se como antônimo de indígena (indu ou endo = in “no” (país) e gignere) e significa. ou pugnando por interesses que nos prejudicam. mas que nele vive longos anos. chegada por dias”. Os povos de origem latina são adventícios na América. quando consideramos o que veio de fora em relação ao que estava no país. estrangeiro. mas podendo ter-se fixado no país novo onde se encontra”. concorrente. “a palavra adversário compõese da preposição latina ad “junto”. contra o erro em que alguém está. etc. Não se poderia dizer. Por isso. Adventício diz igualmente “indivíduo ou raça vinda de outro país. “mudado”. 165 ADVERSÁRIO. – Forasteiro confunde-se frequentemente com estrangeiro. pois esta palavra designa melhor o indivíduo que é hóspede na terra onde se encontra. mesmo implícita. em confronto (expresso ou tácito) com os que são nascidos (indígenas) no país onde está o alienígena. demonstrações de defesa. ádvena. antagonista. competidor. o peregrino. Dizemos: adventício. Segue-se disto que forasteiro ainda é mais próximo de ádvena que estrangeiro. pois o adversário é com efeito aquele que se voltou contra nós outros. à verdade. 164 ADVENTÍCIO. mas apenas da cidade. – Adventício e ádvena têm a mesma etimologia (do latim advenire = ad + venire) e significam “indivíduo vindo de fora. quando queremos exprimir que o indivíduo estranho aí não tem intuito de fixar-se no país como os que nele se acham.

em ações louváveis. os de jogos e exercícios. no valor. mas sim nas doutrinas e partidos.. não há ação baixa. Não há propriamente rivalidade nas opiniões e ideias. Os êmulos correm a mesma carreira. que os Newtonianos são antagonistas dos Cartesianos em seus sistemas. até nos animais se dá certa rivalidade. e daqui vêm as palavras adversidade. as ações e todas as coisas que nos podem desagradar. inimigo. e graças. nobre. e sobretudo nos empregos. e ainda generosos e delicados: não assim o inimigo. somo-lo. mas posteriormente foi limitando-se a combates mais nobres e menos sangrentos. e os partidos que não saem da linha da nobreza. generosa. g. nem à contradição. vivem em harmonia. quantos são os males que a inimizade produz. a palavra grega antagonistes (antagonista em latim e nas línguas que deste se derivam) significava um inimigo armado e em ato de batalha. no heroísmo. isto é. æmulus. se é bem fundada. – Êmulo é também palavra latina. umas vezes por nossa natural inclinação. por bons motivos e com razão. os amantes em obséquios a uma dama. e sucesso adverso o que nos causa dano e conduz ao infortúnio. como os literários. Temos. no talento. os soberanos em sua grandeza e esplendor. Adversário não supõe ódio. muito de rival. rivais e antagonistas. Dois êmulos caminham. ou fazer dano: somos inimigos de certos manjares. e indica uma oposição mais forte que a precedente. pois abraça as pessoas. rivalis. que para isso é ele inimigo. ciência. Dizemos. – Competidor é “o que está contra nós na conquista de alguma coisa”. A inimizade é de ordinário uma paixão. no luxo. e até proclama. repreensível sobretudo em seus excessos. O vulgo não conhece mais que inimigos. Aquele pode favorecer-nos em tudo aquilo que não pertence à disputa. Os rivais têm interesses opostos que se combatem. a que ela não conduza. ou que se propõe imitá-la e até excedê-la. v. Pompeu e Cesar foram rivais. longe de excluírem as ideias de nobreza e urbanidade. – Rival é palavra latina. no mérito. supõe graves injúrias recebidas. Estende-se a inimizade. dois rivais acometem-se. Só os homens de mérito têm adversários e êmulos: e as almas grandes. pois. que todas as palavras anteriores. Tantos são os bens que da amizade resultam. no esplendor. de certos costumes. “propõe-se a fazer ou conseguir aquilo que nós também nos julgamos capazes de alcançar”. nas riquezas. como na generosidade. pois. nos interesses e inclinações. se nem sempre baixa. ao menos rancorosa. contrariar. porque costuma ser traidor. honras. Diferença-se. O êmulo reconhece. . – Por analogia chamamos sorte adversa a que nos é contrária. aos animais e às plantas”. este procura sempre fazer mal. sem se confundir com adversário. e também por prejuízos e caprichos. ou indiferentes. há muitos rivais em amor. “a todos os seres organizados e sensíveis. os ingleses e os franceses em seus adiantamentos científicos e industriais. tenaz. nem procedimento vil. faz com que receiemos o inimigo ainda depois de reconciliados com ele. Êmulo denota competição honesta. e também se rivaliza em ações virtuosas. pois antagonistes compõe-se da proposição anti. “contra”. pois este apenas concorre conosco. – Entre os antigos. generosidade. e designa a pessoa que compete com outra em arte. e as antigas adversar e adversia.114 Rocha Pombo ser amigos debaixo de outros respeitos. Esta palavra tem muita extensão em seus significados. e agonixomai. em sua significação metafórica. “eu combato”. sim. valendo-se de meios honestos. É mais do que simples concorrente. as supõem. o mérito dos competidores. Cícero e Hortênsio foram êmulos. e até heroísmo: é uma rivalidade mais distinta e elevada. galhardia. de certos prazeres. e não admite ódio nem inveja. adversamente.

mal-aventurado. não por isto. A república é adversa à monarquia. O parecer do relator foi desfavorável à pretensão. As partes adversas procuram mutuamente suplantar-se. pode queixar-se de sua desventura. diz Roq. desditoso. As partes opostas. se declara contra isso. infeliz. ao malsucedido. mas vulgarmente se toma por desgraça. No plural. os terremotos. as erupções vulcânicas. – oposto. do que. sem que o incomode nem o aflija a perda. tendendo a fins diferentes. aos fins. que não provêm do homem. Mas a sorte adversa só assume o caráter de adversidade quando persegue o indivíduo continuadamente. etc. a peste. desfortunado. – Adversidade e sorte adversa (ou fortuna adversa) dizem quase a mesma coisa: exprimem o fato de ser uma criatura “perseguida de males. desaventurado. as inundações. misérias. mas não é desgraçado nem desditoso. toda a sua fazenda. cai em infortúnio. do que quer impedir o triunfo alheio. sem consolo nem esperança de alívio. porque não deu motivo a elas por seu procedimento ou falta de prudência. “Caiu aquela nobre figura vencida pela adversidade” (isto é – pela constância da má sorte). caiporismo.. pela triste situação a que o reduziu sua desgraça. como é também desditoso. desfavo- 115 rável. – Desdita acrescenta à ideia do mal o efeito da desgraça. chamase-lhe calamidade. desafortunado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 166 ADVERSO. fortuna adversa. Desfavorável não se diz propriamente das pessoas. cada uma hostilizar a outra. – desfavorável. senão das suas opiniões. É desfavorável aquilo que. que vem da castelhana desdicha. infortunado. desventurado. infelicidade. vale por sofrimentos. tal como a fome. e significa todo sucesso lamentável que cai imprevisto sobre alguém.. O que perde no jogo. a guerra. é desgraçado no jogo. sorte adversa (ou adver- sa fortuna).” 167 ADVERSIDADE. – Infelicidade é o contrário de felicidade. tende a impedir o que outrem pretende. – Infortúnio vem a ser uma série ou cadeia de desgraças. As partes contrárias não tratam precisamente de fazer vingar o seu intento: o que pretendem é impedir que o contrário triunfe. – “Relativamente – diz Bruns. oposto. Por isso dizemos: Aconteceu ontem uma desgraça no mar. – “Desgraça”. contrário. com relação à triste situação em que se acha o desgraçado. desventura. As minorias declaram-se contrárias às propostas da maioria. – Desgraça é termo genérico. infortúnio. desgraçado. – Quando a desgraça é grande e se estende a infinito número de pessoas e a países inteiros. às tendências. e então fazem-se adversas. senão por sua má sorte. no rio. e se acha reduzido à maior miséria e aflição. O que perdeu. porém. e outras muitas grandes desgraças que afligem as nações. porque só fazemos relação ao fato. – às ideias. “Afinal teve no pleito ou na cam- panha fortuna ou sorte adversa”. desdita. de insucessos e coisas contrárias”. “explica o mal em si mesmo”. Frequentemente os pais têm ideias opostas a respeito do futuro dos filhos. e só por pura ponderação se chamará desdita à sua desgraça. Aquele que não sai bem nas suas empresas. e não – aconteceu uma desdita. a privação do que constitui o homem feliz. mal-afortunado. antes encontra adversidades. e . desgraça. e é mais usada esta palavra que desdita. calamidade. para conseguir o seu intento. sem deixar-lhe alívio ou descanso. em lugar de favorecer. do que tende a fins diferentes. desfortuna. consiste a sinonímia destes vocábulos em que: – Adverso se diz do que tende a prevalecer por meio da luta. pareceres e decisões. tristezas. sendo necessário para a realização do fato. caipora. – Desventura é má sorte. não só é desgraçado porque padece um verdadeiro mal. contrário. procuram. que é propriamente um infortúnio público e geral.

isto é. ou que não se saiu tão bem como costuma sair-se. “Se eu for mal-afortunado agora no meu intento. o mal-afortunado. impedindo o êxito que se calculava”. significando: – o último. que dá o segundo desses compostos. significa “sem fortuna. a causas misteriosas e inevitáveis. O homem desafortunado é o que não teve no momento. . E isto pela razão de ter a palavra aventura. Aquele. “o que não consegue chegar ao seu dia. falta que se atribui. e aquele. caipora. ou sem êxito no caso”. deve a desfortuna. “Tem padecido os seus infortúnios com serenidade e resignação” (não – as suas desfortunas). – Infortúnio e desfortuna. O desafortunado. é o sujeito “sem ventura”. voltarei logo de Paris”.116 Rocha Pombo às vezes quase o mundo inteiro. o mal-aventurado errou nos esforços que fez. transviou-se no caminho. pois é muito desafortunado sempre que pede alguma coisa à política”. o que é perseguido de desventuras”. – Mal-afortunado será um antônimo mais perfeito de bem-afortunado. o amigo que se perdeu num lance de honra. O desventurado lutou contra a sorte. malaventurado é antônimo de bem-aventurado. – Caipora e caiporismo são vocábulos adotados dos nossos indígenas. enquanto que desafortunado é antônimo de afortunado: marca-se assim uma distinção muito clara entre mal-afortunado e desafortunado: este. – Desventurado. “Tive a desfortuna de lhe não merecer simpatia”. ou desaventurado. o infortunado mesmo. – Entre infortunado e desfortunado há diferença análoga à que notamos entre infortúnio e desfortuna. – É conveniente notar ainda o que distingue estes compostos de ventura dos compostos de fortuna. falta de boa fortuna. – É preciso comparar alguns dos vocábulos deste grupo que têm o mesmo radical. “ele deixa tudo à fortuna” (e não – à ventura). infortúnio é grande desgraça que se prolonga (e quase sempre se usa no plural): desfortuna diz apenas “fortuna contrária. tanto que dizemos: “ele vai à ventura” (e não – à fortuna). o sacerdote que se deixou imolar pela sua fé. Em qualquer dos dois exemplos. Os lexicógrafos estão de acordo em considerá-los sinônimos perfeitos. ou com mau sucesso em certas circunstâncias”. foi malsucedido no empenho. a substituição de um adjetivo pelo outro mudaria o sentido da frase. ou “a predestinação. Como se viu. mal-afortunado – “com má fortuna. portanto. – Entre desfortunado e desafortunado há a diferença expressa pela partícula de intensidade a que figura no segundo antes da negativa des. ou a trama de algum espírito mau”. a boa fortuna que sempre tivera. “É preciso consolar uma criatura infortunada (perseguida de infortúnios)”. ou mesmo o infortúnio. – Entre desventurado e desaventurado não é perceptível diferença alguma. “a falta de boa fortuna em tudo quanto se tenta na vida”. é “o sujeito que se julga assim perseguido da má sorte”. e o primeiro. como já se disse. – “Foi ele tão desfortunado (tão sem boa fortuna) que não conseguiu sequer uma vez bater no alvo”. o menino que foi vítima de uma imprudência – são todos mal-aventurados. – Notemos ainda que mal-afortunado é muito próximo do nosso caipora. – Desventurados são os pais que têm uma velhice de desilusões e amarguras com os filhos. e este significa propriamente “que alcançou ou alcançará felicidade” (boa ventura. Mas entre os dois e mal-aventurado já se nota alguma distinção. “Um capitão tem a desfortuna de ver fugir e escapar-se o inimigo quando ia certo de esmagá-lo” (não – o infortúnio). uma significação que nele desaparece. “Não acredito que ele consiga o que quer. que se empenhou numa causa de alta grandeza moral e saiu batido de infortúnio. ou num certo caso. o rei magnânimo que foi deposto e banido. ou bem-aventurança). A ventura não parece tão cega como a fortuna.

O mesmo se pode dizer quanto a rábula (do latim rabere. que designam: causídico é aquele que trata de causas mais talvez com astúcias. patrono. os antigos usos. instigando-nos. – Jurisconsulto é o legista profundo. interventor. e também que haja muitos bacharéis muito mais alicantineiros e chicanistas do que tantos rábulas. jurisconsulto. dos estrangeiros em geral. ou do estabelecimento em relação aos seus subordinados. o patrocinador nos toma à sua conta. “estar furioso. artimanhas do que com lisura.) – Defensor é termo genérico que se aplica a toda pessoa que defende a outra. legista. portanto. protetor. aqui. e disserta ou escreve sobre leis. raivoso. tendências. e que se vale mais de chicana que de razões. o que defende causas de direito com autorização legal”. – Jurista é termo mais relativo à teoria que à prática. 170 ADVOGADO. fala e age por nós. – Causídico e rábula são termos depreciativos. rábula. e também com isso pode estimular em nós instintos. – Patrono é pois o que não só defende os direitos do seu cliente como cuida solicitamente de salvaguardar-lhe os interesses. violento”). ou perante alguma pessoa ou mesmo perante algum poder com cuja benignidade precisamos de contar para que nos absolva de culpas. advocatura é “o exercício. mediador. letrado. ou o senhor em relação aos seus libertos. – Legista é o que conhece as leis a fundo e as interpreta.” “A advocacia na campanha não dá o pão e tira o couro”. ou nos livre de males. – Patrono confunde-se com advogado e defensor. – Segundo Bruns. gritador. Designava antigamente o que defendia os interesses da plebe. os direitos das gentes. patrocina a nossa causa: pode ter para isso motivos que não sejam os mais legítimos. manobras. causídico. – Letrado. pa- droeiro. designa principalmente o advogado que dá consultas. muito mais valor do que muitos bacharéis. defensor. “Durante a minha advocatura no sul fiz menos fortuna do que inimizades. termo que hoje se tornou popular. . portanto. mais depreciativo do que causídico: aplicase ao advogado sem pergaminho. – Patrono. a praticar males que talvez não praticássemos sem o seu pa19 Patrono deu o nosso vernáculo patrão – o dono da fábrica. 169 ADVOGADO. Saraiva este nome: “advogado que fala muito e sabe pouco. (Nada disto impede sem dúvida que haja rábulas de 18 Hoje está-se introduzindo o neologismo direitista. patrono. Passou depois a significar o chefe da casa (pater) em relação aos agregados e protegidos19. e particularmente ao advogado que faz perante o júri a defesa de um réu. aplicado aos que conhecem direito ou seguem a carreira do direito. Advocacia é “a profissão do advogado”. – Rábula é. o estudante de direito é jurista18. o prazo de tempo que se levou advogando”. medianeiro. que debela os casos intrincados. O patrono defende-nos e protege-nos como se fosse nosso chefe ou nosso pai (patrão). intercessor. patrocinador e padroeiro assemelham-se muito (têm o mesmo radical). Assim define S. – Distinguem-se 117 perfeitamente estas duas palavras. conquanto nos léxicos se definam como significando a mesma coisa. intermediário.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 168 ADVOCACIA. defensor. isto é. patrocinador. os costumes passados”. e jurista é também aquele que conhece a história do direito. jurista. advocatura.: – “Advogado é. – É nosso advogado quem toma a nossa defesa perante algum superior nosso. coragens e ousadias que não sejam as mais recomendáveis. tagarela”.

terno. afeição. cortesania. amabilidade. O agrado é o testemunho da alegria que sentimos ao receber em nossa casa. ao passo que o mediador tem sempre algum interesse ou empenho em conciliar aqueles entre os quais se põe. meiguice. civil. e não ao contrário”. A civilidade é a convenção estabelecida na sociedade para que os seus membros se avenham . A ação de proteger (de protetor) naturalmente marca. sua solicitude e valimento. carinhoso. por assim dizer. fino. ou a triunfar numa certa conjuntura”. “cobrir. prestígio e valimento em favor de alguém e perante um poder a cuja presença esse al- guém não pode ir diretamente para alcançar o que deseja”. A amabilidade consiste em empregar todos os meios possíveis para nos tornarmos agradáveis à pessoa a quem a testemunhamos. Consiste na maneira cativante com que as pessoas de posição prendem a vontade dos que lhes falam. – Mediador. – Segundo Bruns. e por extensão é “o que nos ampara perante alguém de cuja munificência temos necessidade”. – Padroeiro é propriamente “o que exerce o direito de padroado”. a defesa de criminosos. a maior parte das vezes. Sebastião é o padroeiro da cidade (isto é – protege no céu a cidade do Rio de Janeiro).. Tanto o agrado como a afabilidade são geralmente provas de um caráter bem formado. mais se parece com intermediário: este. e fari ou afari “falar”) dá-se de superior para inferior. mas este é o que se interpõe entre duas pessoas “para servir apenas de veículo. meigo. ou faz simplesmente parte da bagagem das convenções sociais com que os homens pretendem enganar-se reciprocamente. complacente. cortesia.118 Rocha Pombo trocínio. benignidade. anima. “a afabilidade (do latim ad “a”. portanto. e vice-versa. – Defensor. 171 AFABILIDADE. agradável. ou ao falar em qualquer parte com uma pessoa. afetuoso. – Protetor (de protegere = pro + tegere. amável. indulgente. agrado. fineza. e não só nos ampara. afável. Tal que é amável com os estranhos é ríspido e intratável com os seus. melhor do que todos os outros do grupo. ocultar. ci- vilidade. a superioridade de condições da pessoa que protege sobre as da pessoa protegida. se mete entre duas ou mais pessoas ou facções. entre elas”: enquanto que intercessor sugere a ideia de que a pessoa pela qual se intercede precisa de defesa e proteção perante aquela junto da qual tem de agir o intercessor. porém. Poderia confundir-se com mediador. bondoso. delicadeza. é apenas o que se põe ou fica entre duas pessoas fazendo sentir a uma o que a outra quer. e não sendo mais por uma que por outra”. polidez. esconder”) é “o que nos toma sob sua guarda. ternura. – Interventor é “aquele que. Não é. bondade. urbanidade. benevolência. urbano. protege criminosos. bom. em nome de um terceiro. de acordo com as leis. cortesão. cortês. carinho. benévolo. complacência. como já vimos no parágrafo precedente. benevolente. mostrando-se assim afáveis. obsequioso. indulgência. S. induz os celerados a praticar crimes). – Medianeiro diz muito mais do que mediador: é “o que interpõe a sua autoridade. para restabelecer acordo ou ordem entre elas. amistoso. delicado. de qualquer condição que ela seja. como nos habilita a vencer na vida. muito claro. – Intercessor é a pessoa que se põe entre nós e aquele perante o qual precisamos de defesa. uma qualidade inerente ao caráter da pessoa que se mostra amável: ou tem fins interesseiros. benigno. Dizemos – “patrocinador de crimes ou de criminosos” (patrono de criminosos seria já coisa muito diferente: o patrono de criminosos toma. é toda pessoa que defende a outra. dá-se de superiores para inferiores. o patrocinador de criminosos acolhe. e vice-versa. polido.

– Cortesia é a demonstração do respeito que nos devemos mutuamente. não só com mostras de bondade. a acolhê-la.. isto é. com facilidade. – Delicadeza é a qualidade do homem muito polido. e sugere sempre. em estar de acordo com os desejos de alguém”. pois sem ela nos tornaríamos desagradáveis até aos nossos mais próximos. Basta conhecer certas regras e observar certas práticas para ser tido como homem civil. Nesta frase.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 119 mutuamente. áulico e até adulador” do que cortês. tratando-se de pessoas. A benignidade é. – Benevolência poderia confundir-se com benignidade. ou pela benignidade. como com sentimentos ternos. no entanto. a que se usa nos grandes centros urbanos. senão sinal de qualidades. – Complacência é também menos uma qualidade do que uma disposição moral: é a “boa vontade. que. Entre benévolo e benevolente não estabelecem os dicionários diferença alguma. – Polidez e urbanidade confundem-se no fundo. Uma pessoa é benévola. ou – os homens benevolentes). porém. finura e delicadeza. os tempos. uma ideia da excelência da pessoa benigna em relação àquela a respeito da qual assim se mostra. como se nos abrisse a alma. a atraí-la enchendo-a de meiguices e provas de amizade”.. A urbanidade é a civilidade de bom tom. – Complacente . – Cortesania é o requinte da polidez: é “a polidez da corte. afagando-nos. que isto quer significar que benévolo expressa melhor uma como qualidade pessoal. um movimento propício de coração em favor de alguém”. supomos que seria imprópria a mudança dos dois vocábulos: “Ele se mostrou benevolente comigo. e benevolente (“que está sendo benévolo”) uma disposição atual de sentimentos. de simpatia. ou pode ter benevolência com esta ou aquela outra pessoa. sincera. leva a sua mansuetude e tolerância a uma quase renúncia de si mesmo para ser-nos agradável. mostra-se de boa vontade com alguém no momento. revelando sempre por nós os seus afetos. a civilidade bem entendida deve reinar em toda parte. que obram e se exprimem nobremente. fino. de intimidade da pessoa que faz. suave no trato. – Afeição é a “conformidade moral que leva uma pessoa a chegar-se muito a outra. – Benigno é “o homem de natureza moral muito singela. Mas benevolência é apenas “uma disposição de alma. pois a polidez exige que não só nos tornemos agradáveis. – Polidez é a civilidade das pessoas de fino trato. – Carinho não é uma qualidade. A civilidade exagerada – a que o vulgo chama política – é ridícula e presta-se ao escárnio. perdeu hoje esse sentido: é mais “palaciano. Varia segundo os meios. Dizemos: “os reis benignos são amados do seu povo”. portanto. como indica a palavra. indício de bom ânimo. pela amizade. de modo a não se ofenderem nem se desagradarem.” – Cortesão. que se contenta de ter para com seus semelhantes sentimentos propícios”. a virtude das grandes almas. entretanto. tem-se não só para com as pessoas que conhecemos como também para com as desconhecidas. para com a pessoa que recebe o carinho. a diligência que se mostra em fazer o gosto de alguém. sempre que estas pareçam merecer-no-la. – Carinhosa é a pessoa que nos recebe. Contudo. é. Parece. senão que penhoremos as pessoas com quem tratamos. pois. “os homens benignos fazem-se queridos” (e não – os reis benévolos. O homem delicado é-o mais por temperamento. os lugares e a condição das pessoas. para ser um homem polido. e isso tanto mais me cativa quanto é certo que ele não é benévolo com todo mundo”. Complacente é o amigo que se compraz conosco. mesmo em família. e saber amoldar-se às situações. por índole talvez do que por educação. fazendo-se meiga. O amigo afetuoso é o que nos trata com afeição. necessário ter grande trato do mundo.

afásico. a faina dos campos. que só por extensão se pode atribuir a homens. O mudo não fala porque ignora o som da palavra. luta. que nos cansa. A indulgência supõe sempre uma autoridade ou poder mais alto que o da pessoa com quem se é indulgente. afônico. sereno e afável.120 Rocha Pombo 172 AFASIA. é “trabalho penoso. envolve mais a ideia de pressa que de trabalho. lucubração. – Lida é “trabalho afanoso. – Fadiga. ou diante de um infeliz. labuta. – Ternura é. a virtude de ser contrário a tudo quanto é mau. para exprimir o movimento geral das grandes cidades. labutação. ou então de que são capazes só as excelentes naturezas morais encontrando-se com as misérias da vida. julgada tão excelsa que o próprio Jesus a atribuía só a Deus. afadiga- é o nosso superior hierárquico. faina. todo esforço difícil”. e sugere ideia de afãs contínuos. “Os meus afãs não me deixam sentir estes pequenos incômodos”. ou de um trabalho urgente”. quando se mostra conosco tolerante. – Azáfama significa mais “o apressuramento com que se cuida da tarefa. mas um fino cavalheiro é aquele que sabe requintar a sua delicadeza e fazer-se “muito delicado”. 173 AFÃ. pois a afasia provém de alguma “lesão na substância nervosa frontocerebral. porque deixa supor sempre a inocência. e mesmo a faina das ruas. ou da pessoa amada. – São meigos os propensos ao amor. e afadigamento é uma extensão de fadiga. a candura dos simples edificada de instintivo sentimento de renúncia e de simpatia. pois que parecem deslumbrados mais de amar que de sentir o nosso amor. laboração. e a provas de afeto que nos comovem. Poder-se-ia dizer que é um predicamento divino. O afônico sente dificuldade ou mesmo impossibilidade na emissão da voz. mudo. – Mudez é propriamente a incapacidade orgânica de articular a voz. (Bruns. azáfama. claudica. É mais usado no plural. labor (lavor). ou de todo não pode falar. aqui. mento. bondoso é apenas “o que tem bondades quase que aparentes. Tanta lida para tão pouca vida. pois a surdez lhe impede ouvi-la. trabalho aturado e debaixo de barulho”. fadiga. mais misericórdia do que justiça. Um sujeito aforçurado gasta inutilmente as próprias forças. – O homem amistoso é o que nos trata como costumam tratar-nos os nossos legítimos amigos. A meiguice é a qualidade das crianças e das virgens. ou aquele de quem dependemos. e portanto fica ele incapaz de imitá-la. azáfama incessante”. – Bondade é a qualidade de ser bom. trabalho. pois. os que se mostram mais do que amáveis. de longas fadigas. – Fineza poderia considerar-se como sinônimo quase perfeito de delicadeza. pode ser completa (o que é raro) ou parcial. ou de amor na presença de uma criança que sofre. um sujeito . A faina de bordo. aforçuramento. e é próximo de aforçuramento. mudez. aquele homem não tem tempo de atender-nos”. – Bom é aquele que tem essa virtude. o que é cheio de deferências conosco”. “Na azáfama em que vive.) – Afonia é a falta de voz: mal ou defeito “que provém da laringe”. – A criatura indulgente conosco é a que tem para os nossos defeitos mais perdão do que rigor. e os esposos entre si. – Faina é uma outra forma de afã: é “todo serviço feito sem muita ordem e com pressa. lida. sendo a esta que é devida a gaguez”. afonia. – O afásico titubeia. uma delicadeza de sentimentos levada a extremos de meiguice. no entanto. Ternos são os corações que ficam como que em êxtase de piedade. conforme já ficou em outra parte definido. – Entre bom e bondoso há muita diferença. – Afã é “toda atividade penosa. pois que só os pais sabem ter com os filhos. e nos vence as forças”. Este.

equivalente aqui a retro (re que marca “retração”.. – Retirar (formado de re. à contensão mental com que é feita uma obra de arte ou de ciência”. e no plural – “trabalho pesado e afanoso”. – A palavra trabalho foi primitivamente aplicada à função do construtor. portanto. “Os trabalhos da vida” – é quase como se se dissesse – “as lutas da vida”. retira-se uma ofensa. chamar a si. sugere a ideia das penas e fadigas que produz todo exercício aturado. Só a ignorância. Lucubrar (de lucubrare (de lux) “trabalhar à noite”) significa propriamente “fazer serão”: e. de lida ou fadiga. Labuta é esforço afanoso. relativo a traves”). ao esforço. lucubração. e ter “três vezes”) + tirar. que não devem ser tomadas indiferentemente. . – Laboração é uma forma extensa de labor: é a ação de exercer o labor (laborar). “retrocesso”. – Lavor dizemos do trabalho “de agulha. feito por desenho. Quanto a labor confrontado com lavor. ou da lâmpada. – Luta é “trabalho doloroso. Afastam-se de nós alguns amigos. tem o sentido próprio de “afastar para trás. lavor. “viga. ou pondo-a de lado.. retirar. e a que aplicamos toda a intensidade do nosso espírito. “As nossas laborações naquele transe nos inutilizaram por muitos dias”. retira-se o chapéu de cima da mesa. No plural acrescenta a labor uma ideia de faina. mas indiretamente. ou melhor. desviar. separar. como se fora mesmo um combate. mas nem sempre sem fruto. – Entre labuta e labutação (que com os dois precedentes têm origem comum) deve notar-se análoga diferença. – Labor e lavor são. do gótico tairan segundo alguns. etc. ou conseguir alguma coisa”. – Labor é “todo esforço exercido com aptidão e gosto..: “Labor é palavra que tomamos diretamente do latim labor. Labutação é o mesmo que “labuta afadigada”. do que lidava com madeiras (trabs. palavras mui distintas. não. trabalis “próprio das árvores. chamando-a a nós. apartar. pôr para aquém”. afasta-se do espírito uma ideia sinistra. confundindo a pronúncia dos dois vocábulos. – Labor é sinônimo de trabalho. – Labor é trabalho longo e difícil. arredar.” Retira-se um exército. árvore grande”. voltando por onde tinha ido. lavor tem a mesma origem. e de qualquer ornato em relevo.” Resta acrescentar que lavor significa também “a perfeição da mão de obra.. escreve Bruns. lida penosa. O próprio latim tem retrahere “tirar para traz”. “As lutas da vida o venceram”. mas que também nos agrada e satisfaz”. No plural. nas línguas neolatinas. passando a significar “toda aplicação de aptidões no sentido de fazer algum objeto. – 20 Parece que estes têm mais razão do que aqueles. e que só não acabrunha as grandes naturezas morais”. dizemos. ainda quando os dicionários as confundam e as expliquem uma pela outra. que nos fatiga. 174 AFASTAR. cansa também. trave. lucubrações aplica-se mais particularmente “ao trabalho feito à noite. originou que lavor seja abusivamente empregado por trabalho ou faina. pois se formou de lavrar (laborare). ou mesmo de afadigamento”. portanto.. ou das nossas aptidões.. – Afastar (do latim abstare. isto é. o modo como um trabalho foi acabado”. afasta-se da parede o sofá. ocupação árdua de que se vive. deslo- car. por labor.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 121 afadigado despende forças. retira-se o filho do colégio. depois generalizou-se. “Naquela contínua luta do seu viver foi morrendo”. e por extensão significa – “tirar uma coisa do lugar em que estava. descaminhar (desencaminhar). à luz do gás. de ab + stare “estar ou ficar longe”) significa propriamente “tirar uma coisa ou pessoa de junto da outra”. que cansa o espírito ou o corpo. e segundo outros do latim trahere20 – retirar. – Lucubração é todo trabalho que nos absorve dia e noite.

– “é tirar uma coisa ou uma pessoa do ponto ou da linha em que alguma outra coisa ou pessoa vai passar. ou quando se desquitam. fechar. “Aquele sucesso imprevisto vem descaminhar-nos da vereda em que íamos” (isto é. aferrolha-se.122 Rocha Pombo Arredar é “desviar bruscamente. ligado. ou nem sempre estarão necessariamente desligadas. liga. Ferrolho é – diz Aul. fecho. temos aferro às ideias que defendemos com tenacidade”. diferençando-se segundo a peça com que se fecha: se se emprega o ferrolho. – “tranqueta de ferro . ferrolho. extensão – perverter. 163). desviamos do sentido uma lembrança funesta. Deslocam-se figuras da política em todas as grandes crises. arredam-se as cadeiras do meio da sala. Noutro sentido. prostituir”. propósito ou conveniência. se se emprega a tranca. tranca. retirá-la do ponto em que se acha”. Desencaminhar tem significação diferente.”. neste caso. – Desviar – diz Bruns. – Descaminhar. Desviamos o corpo para evitar um golpe. dar espaço ou caminho”. diz ele: “Feita a separação dos maus e bons. no sentido próprio e originário. ou algum fato suceder. – Deslocar é “mover alguma coisa do lugar próprio. exprime a ideia de “tirar ou de sair do caminho próprio. o trigo do joio.. Quando dentre muitas coisas se apartam algumas. misturado: sempre com referência a mais de um objeto. unir com firmeza” (do latim fixare). “Separa-se – diz Roq. e é. Só no sentido moral é que as coisas ou pessoas separadas nem sempre se julgam a distância umas das outras. fecho é a “peça com que se fecha. a fruta podre da sã.) – Apartar é “pôr de parte”. de completivo de predicação: é “tirar do bom caminho. 175 AFERRO. e apartamento os resultados morais da separação. Separar diz muito mais que apartar. (Por mais que digam os lexicógrafos. Arreda a multidão à passagem do cortejo. – Diz muito bem Bruns. separam-se os casados quando não podem viver juntos. tranca-se.. “A pulso desloca o rochedo. o processo mediante o qual se cerra. apego. 176 AFERROLHAR. falando do juízo final. e lá do alto deixa-o tombar sobre a cidade”. Se alguém se aparta do seu partido é que toma posição contra este. “Com perícia admirável desloca o dente e saca-o num instante”. no juízo final hão de separar-se os bons dos maus. é-lhe inerente a ideia de fim. – Fechar aqui exprime a ação geral de “cerrar. quando somos sedentários por gosto. Segundo Vieira. pois. designam formas ou modos particulares de fechar. prende alguma coisa”. desviar indica a ação de tirar de uma direção para fazer tomar outra diferente. melhor ainda que desviar.. descaminha-se o menino da escola.. Descaminha-se a gente. – o que estava unido. Separa o lavrador a palha do grão. desencaminhar não se confunde com descaminhar. – Os dois outros do grupo. desviamos uma criança que vai ser pisada. este verbo sugere ideia da atitude contrária em que fica a pessoa que se aparta em relação àquela de quem se apartou. e por.. portanto. trancar. parece que separação indica principalmente a ação de separar.” (III. ou da direção que se seguia”. como descaminhar. e nem carece. – Separar é “pôr duas ou mais coisas ou pessoas longe uma das outras”. põem-se estas em lugar onde fiquem separadas das primeiras. ainda que se não aliste em outras fileiras. Em sentido mais restrito.. Quando alguém se aparta de outra pessoa toma um lugar para longe dessa pessoa. Temos apego à casa. do caminho certo. tomando uma azinhaga”. vem fazer que tomemos outra rota).: “O apego é a constância que provém mais do hábito que da reflexão. e sossegados os prantos daquele último apartamento. um forte apego. O aferro provém da convicção.

Uma diferença essencial entre a afeição e a paixão é que a afeição se sente por aquilo que se possui. deixando de falar. dedicação. de lhe ser útil. tudo o que sei é que principiei a amá-la sem saber por quê. A afeição que temos às coisas nos induz a ter cuidados com elas. está-se humilhado e adora-se. ternura. de gozar da sua companhia. por assim dizer. Num sentido mais geral. inclinação. um livro. paixão. um cofre. propensão. amizade.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 123 (ou qualquer peça de ferro que se empregue em fechar) que. De que provém? Nasce. Só o pensar que a ternura da pessoa amada pode ou poderia repartir-se com outrem faz-nos estremecer. Fecha-se uma porta. ou inclinação comedida que se tem para alguém ou para alguma coisa. e ambicionamos encontrar-nos sempre e exclusivamente na sua presença. – Afeto e afeição – diz Bruns. no seu Traité des facultés de l’âme. – O amor é um sentimento que se pode considerar intermé- dio entre o afeto e a paixão. diz do amor: “O caráter distintivo do amor é o de preocupar exclusivamente o nosso pensamento com a existência de uma pessoa do outro sexo. correndo horizontalmente pelos anéis. Fecha-se a boca. e que cessei de a amar sem saber a causa”. Não são os defeitos da alma apenas que recusamos ver no objeto que nos apraz: são também os do corpo. recordou-se que esse defeito existia numa menina a quem amara desde a infância. O austero Descartes simpatizava com os olhos vesgos: procurando a origem de tal gosto. É certo que o amor aumenta com os méritos do objeto amado: não vem. pois esta é constante. Muitas vezes a paixão desaparece com o logro da coisa desejada. Também se fecha a alma. É por afeto ou por afeição que se sente prazer em encontrar a pessoa a quem se estima. a amargura sustém-nos. o .. não assim o afeto ou a afeição. a qual nos causa um como deslumbramento contínuo pelas qualidades e perfeições que a nossa imaginação lhe atribui. e é tal o seu fundo de benevolência que estende por sobre os vícios o véu das perfeições. uma gaveta. 177 AFETO (afeição). por que está abraçada. e o afeto só a pessoas. aferrolhar e trancar dizem “prender com segurança”. na paixão há arrebatamento. e às vezes cessa sem ela”. Adolphe Garnier. – diferençam-se apenas em ser a afeição extensiva a pessoas e a coisas. impedindo assim que se abra a porta ou janela em que está pregada”. e acabamos por amá-los. Tranca é uma barra semelhante ao ferrolho. no entanto. e que se procura a ocasião de a ver. uma carta. há nele algo mais da tibieza do afeto. fechando-os fortemente. Também se diz – “aferrolhar a fortuna”. não obstante. O amor. porém. quiséramos que só nós fôssemos o único que lhe interessasse. no entanto. Deliciamo-nos em ouvir falar dela. O amor recusa crer nos defeitos que vê na pessoa amada. amor. senão que os tomamos por perfeições. de tais méritos. Afeição é a tendência. sobrevive à infidelidade: sofre-se e ama-se. de madeira. não dizendo o que se sente. um portão... No afeto há moderação. quando este se dirige à sua amante La Chaux: “Ignoro a razão de já a não amar. apego. Antes de Garnier já Diderot definira admiravelmente o amor pela boca de Gardeil. Tudo nela tem encanto à nossa vista. vai embeber-se na ombreira ou noutra peça. e a paixão sente-se geralmente por aquilo que se deseja possuir.. significando que se a retém com usura ou somiticaria. podendo ser. Se no amor não há os arrebatos da paixão. Aferrolha-se ou tranca-se igualmente uma porta. – Paixão é o desejo veemente de obter e possuir a pessoa ou a coisa que desperta em nós esse sentimento. Figuradamente. ou não se expandindo. e não só os negamos. E assim como é ela que unicamente nos interessa. sem causa.

de um como voto feito. 178 AFETAÇÃO. não é um sentimento distinto do amor paternal: é a sua manifestação. Há pessoas que têm inclinação para o bem. O abuso que se faz desta palavra não exclui que a amizade exista: se ela é vã na boca da quase totalidade dos humanos. a uma pessoa. contrafação. seja amizade. da índole e do espírito do amigo. disfarçar. caracteres especiais pelos quais se pode determinar. contrafazer. mas em si. o sujeito que se finge quer ser diferente daquilo que é. representar de). fala. enquanto este exagera porque aspira passar por mais do que realmente é. amor ao próximo. Num sentido mais restrito. pois aquele que se sente levado por ela para o jogo. ou que duas pessoas têm entre si”. e procura. – A ternura não é sentimento: é a manifestação de um sentimento. O indivíduo afetado é o que anda. a dedicação leva às vezes ao sacrifício. fingido.. – A amizade – diz d. por exemplo. ou amizade. Quem afeta alguma coisa inculca sentir o que de fato não sente. José de Lacerda – é “o apego particular de uma a outra pessoa. – Fingido é aquele que faz por parecer o que não é: é mais hábil. por exemplo. disfarce. Não se pode dizer que há amizade sem que o tempo e as vicissitudes da vida a tenham cimentado e posto à prova. e o desejo de ser-lhe agradável e útil até a preço do próprio sacrifício. afetar. se. amor filial. fantasiado. pode facilmente triunfar da inclinação. a recordação originam o apego. a um hábito. fortalecendo-se. que se revela em tudo o que ao filho diz respeito. aparentar. simula- ção. no sentido que geralmente se lhe atribui. dissimulado. Se a inclinação. no sentido lato da palavra. também o origina a inclinação quando é fomentada. astuto. esta disposição. O hábito. – Afetação é “o modo contrafeito de mostrar sentimentos. não for combatida. mas ao qual o coração fica alheio. encobre com artifícios (fingimentos) o que sente. não obstante. como as há que têm inclinação para o mal. fantasia. propriamente. dissimular. aparência. traja e se apresenta fora do natural. portanto. e pelo qual nos consideramos ligados. a paixão. degenerará facilmente em paixão. pois. Um criado é dedicado a seu amo. contrafeito. simular. disfarçado. porém. ou de alguma ideia. Se a razão não pode dominar. que realmente não se têm”. intuitos. que o afetado. o apreço do caráter. amor à ciência. é a disposição e tendência natural do espírito para alguma coisa. só quer dizer que as relações do trato não são desagradáveis entre aqueles que se dizem amigos – a amizade verdadeira tem. iludir os . geralmente. aparente. Usa-se também este verbo como pronominal: o indivíduo que se afeta no dizer é o que procura apurar tanto a elocução que se torna ridículo.124 Rocha Pombo amor é o sentimento pelo qual se ama ou se quer bem a alguma pessoa: amor paternal. nem o amor. um homem é dedicado ao seu partido. Tem-se apego a um objeto. foge desse mal sem grande esforço. etc. pode tornar-se amor. etc. A ternura paternal. não é mais do que o embrião desses sentimentos. Vemos assim que esta palavra é menos expressiva que qualquer das três precedentes. a inclinação é a disposição e tendência natural do espírito para amar alguém em razão do que nessa pessoa nos agrada. assim como o animal tem apego ao homem. afetado. fingimento. simulado. ou em amor. – Inclinação. aptidões. dissimulação. mas o efeito de uma firme resolução. fingir (fazer de. fantasiar. tais são: a necessidade de expansão e de confiança recíprocas. a um animal. é esse próprio amor. a um partido. – O apego é um sentimento que pode ter maior ou menor intensidade. a reflexão. – Dedicação é o desprendimento de si próprio em favor de outrem. não é o sentimento. seja amor. ou para qualquer vício.

que se manifestam nos olhos.. “de afeto. A dissimulação pode não ser um defeito: o disfarce nem sempre. – Contrafação é. simulou um ataque pela retaguarda”. afetuoso. ou apreendido nos objetos pela nossa alma. aqui. que aos olhos de outrem encubram a verdade que não se deseja. O sujeito que dissimula faz por parecer estranho ao que se passa em volta de si. isto é. – Fantasiar é “iludir pelo aspeto. nestas frases: “O pobre homem está fazendo de Judas”. por exemplo. como. 180 AFETOS. reconhecida. – Os verbos fazer e representar em certas formas valem por fingir. reveste-se de artifícios (disfarces) que o desfigurem. ou representa de tolo). benigno. excita nela comoções. ou – de aversão para aqueles que se lhe representam como maus: e estas comoções comunicam-se ao corpo. no que diz. no entanto. por discrição.. não dizemos. ou movimentos – de atração para aqueles que se lhe representam como bons. afável”. Pelo menos diferençam-se eles em poder afetivo aplicar-se tanto a pessoas como a fenômenos morais.. “contrário ao que é natural que se esperasse dele”. ocultar o que pensa ou quer. que tem relação com afeto”. na cor do rosto. 179 AFETIVO. Dizemos – “criaturas afetivas”. Luiz. nos gestos. Usa-se o verbo fingir como transitivo e como pronominal. ou o mal. dissimular. e produzem nele efeitos proporcionados. Afetivo significa. e “nada mais falso do que a fantasia de que se valem os espertos contra a ingenuidade dos tolos ou das crianças”. portanto. próprio de afeto. é fazer crer pela aparência simulada”. assimilar e assemelhar. inculcando outra coisa que por ela se quer fazer passar”. Disfarce é muito semelhante a dissimulação. que o disfarçado tem intuito de enganar. mas – “demonstrações. – Ainda que os di- cionários deem como significando a mesma coisa e tendo o mesmo valor. “demonstrações afetuosas”. e às vezes em toda a pessoa do homem. como não obraria se fosse sincero. ou a dor. e afetuoso = “cheio de afeto. ou aparências. nas atitudes. qualidades afetivas”. O sujeito que se disfarça. ou ao que se devia esperar”. Quando .Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 125 outros. paixões. portanto.). por um falso exterior. e afetuoso só a pessoas. “o bem. muitas vezes. “o ato de fazer alguma coisa de modo contrário ao que é legítimo. no movimento do sangue. quer ou pensa. O que se fantasia impõe-se pelo efeito produzido sobre a imaginação dos outros. ou que tenha aparências de outra pela qual se quer que essa coisa passe. – Disfarçar é tomar aspeto. Mas quem simula faz que uma coisa pareça em vez de outra. convém distinguir estes dois adjetivos. – Aparentar é “mostrar aparências de que uma coisa é assim mesmo como se faz crer. ele finge ou finge-se de tolo. O homem que disfarça procura sempre arredar do pensamento dos outros a noção exata do que lhe convém: o que dissimula cala mais o que sabe ou o que sente do que disfarça o que deseja. como simular é próximo de fingir. sentido. portanto. Um homem prudente pode. o prazer. Quem se contrafaz obra. O dissimulado mostra-se alheio exatamente àquilo que de fato lhe interessa. a verdade. “Ela está fingindo que não nos vê”. – Simular e fingir têm de comum a significação de “ocultar. etc. “ele se faz de tolo” (o homem está fingindo ou representando de Judas. e que nem sempre se poderá dizer o mesmo do dissimulado. isto é. ou de que é tal como parece” (aparente). – Segundo S. “F. que uma coisa seja semelhante a outra (as palavras latinas simulare e similis deram-nos simular. ou que disfarça suas intenções. Parece.. “qualidades afetuosas”. se não se mostrasse contrafeito. ou – “criaturas afetuosas”. ou procura.

requentar. temperadas. e arrebatado pela paixão. Os simples afetos são comoções brandas e suaves que se podem ajustar com a razão. chamam-se mais propriamente paixões. do latim calens. 181 AFETUOSO. pode o leitor consultar o artigo – Paixões. aquentar pela segunda vez”. e apostados a rasgar cortesia”. “Assim por conseguinte cada um dos afetuosos suspiros tiram alguma coisa da ferrugem do pecado”. a seguinte passagem: . são brandas. impetuosas.. cozer. e arrastam o homem ao quebrantamento da lei e do dever. digo que neste Sermonário se admira um livro que tem mais frutos que folhas.. como diz Roq. – Escrevendo Maria. estabelecida a sinonímia e a diferença dos dois vocábulos – afetuoso e apaixonado – e também desenvolvido o pensamento de Fr. aquentar.. – Requentar é “tornar a fazer quente. começa Alves Passos observando que se sabe “o sentido em que estes dois vocábulos são sinônimos”. Apaixonado é o que obra como involuntariamente. – Na linguagem da retórica. Eufros. ferver. mas apesar disso. é ferver mal e mal”. “Nos Sermões de Fr. aquecer (do latim calescere.. e não se devem render a clamores dos que apaixonadamente insistem em perseguir a inocência”.. Fr. José de Jesus aquecer.. aferventa-se a sopa ou o café. P. violentas. Br. dar a alguma coisa começo de quentura”.. incoativo de calere) significa “fazer meio quente.” As paixões. “são afetos levados ao último grau e assenhoreando-se da vontade. Ferve-se a água. afetos e paixões são uma mesma coisa”. padecer a nota de apaixonada. “Aqueles a quem Deus cometeu o juízo. a vingança são paixões. depois de S. no meio de um líquido. a ambição. coze-se o feijão ou a carne. Souza.” Daqui nos veio a ideia do presente artigo. não assim as paixões. chamam-se simplesmente afetos. Quando fortes. a cólera. apaixonado. 182 AFERVENTAR. até que pela fervura do líquido chegue essa coisa ao estado que convém”.. Antonio de Sant’Anna. L. – Cozer (do latim coquere) é “preparar ao fogo. e favorável: o parecer apaixonado não é imparcial. O parecer afetuoso é cheio de carinhos. – Aferventar é “submeter um líquido a um grau de calor em que ele comece a ferver. por afetuosa. no parecer que sobre o mérito deles deu Fr. Afetuoso é o plenus amoris dos latinos. O autor da passagem citada amava o escritor dos Sermões. .. a compaixão. Brandão. no precedente parágrafo. o seu voto era imparcial – a amizade ao orador não o arrastava ao elogio dos seus sermões: eis aqui. de Barr. “Ao coração apaixonado nada se deve crer”. O amor sensual. de calere “estar quente”) designa a ação de “tornar quente”. – Há entre aquentar e aquecer uma diferença análoga à que se nota entre ferver e aferventar. o reconhecimento são afetos. para verificar-lhes a significação precisa. “antes sem temor de que a minha aprovação possa.. devem com madura consideração examinar as causas dos acusados e a intenção dos acusadores. José de Jesus Maria. A amizade. O afetuoso inclina-se para um objeto: o apaixonado é arrastado por ele. a nosso ver. doces. suave.. Luiz. “Eram caluniadores e apaixonados. a um certo grau de calor. e sua alma inclinava-se suave e gostosamente para as doutrinas expendidas neles.126 Rocha Pombo estas comoções. afetos – que citamos acima. lemos. o amor filial. e os fez julgadores. consideradas em si e nos seus efeitos. submeter alguma coisa sólida. e que. que violentas e impetuosas fazem muitas vezes emudecer a razão. isto é. – Ferver é “submeter um líquido a estado de ebulição por certo tempo”. Aquentar (radical quente.

e Berg. – Afinidade (affinitas. analogia. de que se compõe o sistema do mundo. a conexão ou conformidade existente entre as coisas sob um certo ponto de vista”. chamamos-lhe mais ordinariamente gravidade: e o mesmo nome damos a essa força considerada nos corpos de que se compõe cada astro. pelo modo de ser”. inerên- cia. toma o nome de gravitação”.: “Palavras científicas com que se exprimem as diferentes maneiras por que se manifesta essa força invisível que há na natureza.. a respeito desse astro. ou que seja comum aos dois.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 AFINIDADE. similaridade. e todos para um centro comum. conforme. quase igual a outra. – “Há” – diz fr. atração química. Quando consideramos a atração solicitando os corpos terrestres. é o estado de duas coisas que se prendem uma a outra e que são mais ou menos difíceis de separar. aderência. reservando o nome de coesão para designar a força que liga as partes que formam uma substância única ou homogênea (de um corpo simples)”. e solicitando-os uns para os outros. A mesma atração considerada nos grandes corpos. e a relação que os corpos ou suas partes têm entre si. de propriedade ou conveniência entre duas coisas. Quando o corpo é formado de substâncias de natureza diferente (isto é. afinidade. é a relação de sangue ou de aliança doméstica entre pessoas. – “A aderência. adesão. e cada uma das suas partículas. – A inerência é a relação que une a qualidade à substância. A atração que se dá quando os corpos se tocam. escrevem Bourg. – A coesão é a força que produz a coerência. ou astros. vizinhança: é a “relação de proximidade. a aproximarem-se uns dos outros debaixo de certas leis. pela forma. que os ponha num certo grau de conveniência. propriamente. e que só tende a mantê-los adunados. chama-se gravitação: tal é a dos planetas para o centro de suas órbitas – o qual. . denominase adesão ou coesão. aqui. escreve também Roq. a aproximaremse do centro da Terra. adesão. por isso. “algum lado ou aspeto pelo qual se liguem ou associem”. Luiz – “uma força universal na natureza que solicita todas as moléculas da matéria e todos os agregados dela. quando se trata de um corpo composto) dão os químicos mais particularmente o nome de afinidade à força que une as partes constitutivas do corpo. – Quanto a atração. semelhança. a semelhança de natureza. conexão. a natureza das propriedades ou do modo de ser entre duas ou mais coisas ou fenômenos”.. gravitação. – Analogia é o ponto. o aspeto. – Relação. atração. e no sentido lato. – Similaridade diz propriamente “igualdade de natureza. ou “o modo de ser semelhante entre duas ou mais coisas diferentes”. ou também atração de composição”. de affinis = ad + finis) sugere ideia de junção. – Parentesco. 184 AFINIDADE. “Isto não tem relação com aquilo” – quer dizer: não há entre isto e aquilo coisa alguma que os aproxime. também se chama atração planetária. relação. entre duas ou mais coisas. Chamase esta força atração. coesão. Quando ela exprime a tendência que têm os graves para seus respetivos centros de gravidade. gravitação. é “a relação de proximidade. fenômenos ou coisas”. a força que une entre si as partes constitutivas de um corpo. chamada atração. a forma. gravidade. ou coesão. A que se exercita sobre as últimas moléculas dos corpos recebe o nome de afinidade. – A adesão é a força que produz a aderência. “é o grau de afinidade. ou analogia entre pessoas.. – Conexão é. – A coerência é o estado das partes unidas entre si para formar um todo. contiguidade. muito aproximada de outra pela espécie. coerência. – Semelhança é “a qualidade de ser uma coisa parecida. semelhança essencial”. 127 parentesco. S. semelhança.

– Afirmar é “dizer formalmente aquilo de que se está convencido”.128 Rocha Pombo 185 AFINIDADE. – Fixar e afixar só se distinguem pelo que o prefixo ad acrescenta ao segundo. fazer aderir por meio de alguma substância glutinosa”. – Afinidade é “o parentesco resultante de uniões conjugais entre membros de famílias diferentes”. Duas coisas fixam-se (e não – afixam-se). certificar. demonstrar. chumbar. parentesco existente entre pessoas do mesmo casal”. – Ratificar é “repetir categoricamente o que se afirmou. do que se sabe”. como se fosse colada. aderir a outra”. segurar. declarar definitivamente aquilo que se tinha dito”. e diferençam-se . atar. como trazendo em favor da afirmação testemunhos ou documentos valiosos”.” – Assegurar é “afirmar com segurança. quer agnatos. quer cognatos. aplicar. asseverar. grudar. dá certeza daquilo que disse ele próprio. – Atestar é propriamente “dar testemunho de que uma coisa é como se diz”. o mesmo que grudar e colar: é “aplicar. 187 AFIXAR. é “fazer alguma coisa pegar a outra. colar. fi- xar. soldar. – Comprovar é “fazer prova mais forte de alguma coisa que se afirmou”. garanto-lhe que é exato o que ele disse”. – Colar é “afixar por meio de cola”.. Afins são. ratificar. – Afixar é propriamente “fazer fixo”. etc. “Asseguro-lhe. ligar. – Corroborar é “dar força ao que se disse. isto é. – Chumbar e soldar. ou superior. pegar. dá fiança. Só se afixa uma coisa a outra coisa. os filhos do mesmo pai e de mães diferentes. de pix “pez”) é. e vice-versa. mas num sentido geral é “prender fortemente”. ou por cima de outra”. cognação era “o laço de parentesco natural sem direitos civis”. pensa. só têm sentido figurado. com serenidade de quem não receia desmentido”. estável. segundo Aul. convictamente. atestar. etc. ágnato. não dando mais energia ao modo de afirmar. consan- guinidade. prender. ou que outro disse. aqui. ou fazer aderir. – Garantir é empregado frequentemente por assegurar. que significa “parentesco pelo sangue. pregar. cognato. os concunhados.” Na jurisprudência antiga. – Pregar é “prender por meio de prego”. Mas aquele que garante (na acepção que tem aqui este verbo) assegura a veracidade. aqui. – Apor e sobrepor também se distinguem pelos respetivos prefixos: – apor é “juntar uma coisa a outra. cognação. ou garanto-lhe o que digo. “o parentesco pelo lado masculino. – sobrepor é “pôr alguma coisa sobre. – Certificar é próximo de atestar: significa “dar por certo aquilo que se sabe. explicando. seguro. – Agnação e cognação marcam parentescos também “opostos”: o primeiro. de qualquer modo. – Cognatos são os filhos da mesma mãe e de pais diferentes. Consanguíneos são os irmãos. ou pôr uma coisa em cima de outra”. uma coisa a outra. por parte do varão”. argumentando. É diverso da consanguinidade. agnação. se não pertenciam pelo sangue à mesma família. aumentar o valor da afirmação que se fez. “Afirmei ontem que o rei fora deposto: confirmo hoje este despacho”. agnatos. “o parentesco pelo lado da mulher. convencer da certeza de que uma coisa é como se afirma”. assegurar. aqui. Confirmar é “afirmar uma segunda vez e dar testemunho solene do que se viu. – Demonstrar é “pôr em clareza e evidência aquilo que se disse. – Pegar (do latim picare.” – Grudar é “prender com grude”. 186 AFIRMAR. fez. por exemplo. ligar uma coisa a outra. – Segurar é “fazer firme. comprovar. sobrepor. apor. de- duzindo. ou mesmo os cunhados. dizer. corroborar. o segundo. isto é. confirmar. – Aplicar. afim. garantir.

prender como por meio de solda”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 129 claramente pelos respetivos radicais. triste. mas está como revelando no semblante a tristeza. ou por falta de ar. Desgostoso é. em geral. Também ficamos pesarosos (cheios de pesar) de não ter podido evitar um mal ou de não haver involuntariamente cumprido um dever.). de qualquer modo”. como definem os léxicos. menos que pesaroso.. supliciado. pois indica apenas a falta de prazer. corda. de boa vontade com que se faz. consternado. desgostoso. aflito. tris- teza. trabalhos. transe. o desgosto. ou que lhe alteram o humor normal. pena. A criatura magoada. magoado. – Prender = “Fazer sujeito. ou pelo que receia venha a dar-se. Quem está consternado mostra-se abatido de dor e de espanto. etc. segurar. opressão. ou ar viciado. a saudade que sente. e leva o aflito a obrar sem tino”. pesadume (pesadumbre. (Fil.). nos põe. ou mesmo pelo peso do chumbo”. doloroso. ou mesmo sem motivo real e preciso”. Angústia é uma opressão tão forte e dolorosa. penalizado. 188 AFLIÇÃO. atormentado. não só não sente prazer. de fios. ou devido à moléstia que afete a função respiratória. consternação. padecimento. ou a dúvida. como se a pessoa angustiada tivesse impedida a respiração. a sensação desagradável que se experimenta respirando mal. ligeira amargura”. numa aflição e ansiedade de quem se sentisse estrangular. tribulação. torturado. amargura. ansiedade.”. mágoa. – Pesadume (ou pesadumbre. – Agoniado está quem sente ou parece sentir essa aflição de hora da morte. – Agonia (do grego agon “combate”) é propriamente a luta que o moribundo trava com a morte na hora extrema. profundamente penalizado e inconsolável. desgosto. – Desgosto é o “mau grado que nos causa algum sucesso.. – soldar. e por extensão. Elys. atribulado. sofrimento. etc. – Tristeza é o “estado de compunção em que se fica. coisa que nos fere o coração”. pesaroso. um sucesso que não se esperava”. Opressão é. agoniado. dor. alguma coisa. ou a desconfiança. tortura. incomodado. indicando ambos a ação de prender uma coisa a outra: – chumbar. dorido. tirando-nos a calma e o sossego. – Mágoa é quase como desgosto. “unir. muitas vezes por algum motivo que não é grande.. e mostra-se um tanto ansiosa dessa preocupação. reter. angústia que abate o espírito (diz Bruns. angustiado.. laços. ou pelo mal que aconteceu. laço. angústia. fita. – Pesar é a “dor moral. “Nada viu que lhe aliviasse a saudade e pesadume”. Aul. se recebe. – Atar = “prender por meio de atadura. “prender como se ficasse seguro por chumbo. etc. etc. suplício. se vê. que perturba a razão. o sentimento de tristeza (condolência) que nos causa uma notícia. tormento. é “toda ânsia que se pareça com essa aflição de morrer”. – Inquietação é menos que aflição: designa o “estado de espírito em que o medo. – Aflição (de afligere (ad + fligere) “deitar por terra” é “grande incômodo moral. no entanto. – Opressão e angústia podem confundir-se. ou. amargurado. – Consternação é “a grande tristeza e desalento produzidos por alguma espantosa desgraça”. dolorido. inquieto. inquietação. ansioso (ansiado). espanhol). mas o segundo é mais forte. pesar. – Ligar = juntar e prender com liga ou ligadura. Uma pessoa triste dá indício de que tem na alma preocupações que lhe toldam vida.”. mas designa um desgosto ou pesar menos fundo. pesadelo. incômodos. porém mais fino e talvez mais sincero. do espanhol) = “tristeza lamentosa. – Amargura é dor mo- . A pessoa inquieta sente-se preocupada com alguma coisa que lhe desagrada. cit. agonia.

de dó. Longe. Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos”. aqui.. as lidas e penas que se sofrem na vida. O atribulado sente-se como que perseguido de aflições. no entanto. Entre ansioso e ansiado convém não esquecer que há esta diferença: o primeiro emprega-se no sentido moral: o segundo. ire). pois o penalizado mostra que avalia a dor do seu semelhante. – Padecimento é empregado na mesma acepção. transar”) era o tormento a que se submetia a vítima nos holocaustos. tormento como castigo.. as dores... quer pelo receio de alguma desgraça. pois.). como querem alguns autores. ou causada pela consciência de algum mal que se fez.. As dores do atormentado são dores que afligem e mortificam. Dor moral é a “comoção amarga. no físico. tanto morais como físicas. de algum bem que se perdeu. apenas o sofrimento físico – o padecimento é uma forma estoica de sofrer as coisas que nos amarguram. de significar. partes do corpo doloridas. dorido e doloroso confundem-se. (Almas doloridas. contrair”) significa “os tormentos a que se sujeitava o acusado quando não queria revelar alguma coisa que interessava à justiça”. de desejo inquieto e aflitivo em que fica a pessoa ansiosa. – Sofrimento é o mais genérico deste grupo. É assim que na oração simbólica (o Credo) se diz que “. ou provações comparáveis à tortura. quer morais. é o sofrimento do que vai ser justiçado. das amarguras: momento que se deseja “passe logo” (de transeo. ou por alguma pancada violenta. tortura”. magoado. no qual figura a raiz grega plek. – Dolorido emprega-se num e noutro sentido. – Transe é como a crise. e por extensão empregamos esta palavra suplício para designar padecimentos que se podem comparar aos de um condenado à morte. “O doente está ansiado”. deve notarse. – Tortura (de torquere “dobrar. preces.. sugestiva de “enleiar. e não seria fácil assinalar-lhes clara diferença.) – Dorido diz mais “triste. vozes doloridas. – Suplício (do latim supplicium. causadas por sofrimento físico ou moral”. – Trabalhos toma-se aqui como significando “as contrariedades. “A menina está ansiosa pelo noivo”. mas principalmente morais. Em sentido lato. que aflige e angustia abalando e pungindo os mais nobres e santos afetos da pessoa amargurada. a cabeça. de sofreguidão. de alguma esperança que se extinguiu”. – Ansiedade. (Doridos cantos. súplicas. o sentimento de funda tristeza que nos vence a alma no meio dos contrastes da vida. torcer. pode notar-se que doloroso quase que se emprega de preferência no sentido moral. ligeiras e vagas. ou o incumbido de pedir aos deuses nas preces públicas. os males. Quando muito.. o seguinte: quem padece sofre os males com certa resignação. quer físicas. juntas doloridas. e talvez até com uma quase ufania de os padecer. por exemplo: “tenho as mãos. sensibilizado”.. . – Tribulação é “trabalho aflitivo. ou então devida a alguma anormalidade de funções de qualquer dos órgãos. Hoje. quer pela impaciência com que espera o que deseja.. que nos causa a desgraça. (Não costumamos dizer. orações doridas). – Pena é “o sentimento de desgosto. é o estado de quase opressão. (e não – sofreu. Os três adjetivos dolorido. o sofrimento alheio”. mas doloridos). flagelo. e exprime “todo gênero de provações. ou longas e intensas”. – Tormento é a “dor e a inquietação ansiosa. – Dor é “toda sensação que nos molesta. e vede se há dor igual à minha dor!”.. causada por alguma alteração traumática dos tecidos. É mais propriamente a manifestação da dor que a mesma dor. o momento mais duro dos trabalhos. torturado se sente aquele a quem se infligem duros constrangimentos.130 Rocha Pombo ral acerbíssima. ou os pés dolorosos. “Oh vós que passais pelo caminho – clamava o patriarca bíblico – atendei.

“O vasto tropel de beduínos fazia estremecer a planura”. mas este acrescenta à multidão. rolo”) diz “ajuntamento feito como que em atropelo. nos dias de parada. por exemplo. que este último é particularmente empregado para designar uma reunião mais importante e solene. A hora em que há maior concorrência nas AFLUÊNCIA. – Incômodo (ou incômodos) é “a sensação de fadiga. como em turbilhões”. ruas da Baixa é à saída das repartições. tumultuoso. e comumente de assanho. quer se considerem em movimento. quer paradas. – Concorrência diz-se das pessoas com relação a um ponto dado. à turba e à turbamulta – a ideia necessária de movimento. no inverno é enorme a concorrência aos teatros. Assim. de alarde hostil. – Concurso representa a mesma ideia que afluência. – Multidão é uma grande reunião de gente sem nenhuma ideia acessória. como em “gróppo di vento”). ou não ter funções ou fins legítimos. as pessoas ou os grupos seguindo-se uns aos outros sem interrupção. – Aproxima-se de tropel e de turbamulta. . ajuntamento. – Aglomeração (cujo radical glomus significa “novelo. de que nós trataremos. como. é erro. multidão. são as de corporações políticas. no entanto. com que a pessoa incomodada se sente inquieta.. chusma. Cintra atrai no verão um grande concurso de gente. assembleia. de cuidado ou de dor.. mas entre os dois vocábulos há uma diferença essencial: afluência considera o movimento como contínuo e regular.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 131 ou que se experimentam nalguma empresa”. – Agrupamento é reunião por grupos. entre outras coisas. e traz consigo a desordem. “núcleo revolto.. concorrência. indica que a reunião pode não ser legítima. – Afluência – escreve ele – “considera as pessoas dirigindo-se para um ponto. afluência não se limita a designar a muita gente que se dirige a um ponto seguindo a mesma via. – Turba é a multidão indisciplinada e turbulenta. isto é. que ajuntamento é quase sempre tomado à má parte. formando conjunto que facilmente se destaca. Este é uma formação pleonástica de duas palavras do mesmo valor. aglomeração. senão toda a que vai convergindo para o mesmo sítio por diversas vias. “conjunto de muitas pessoas” é a ideia geral que encerram os seis primeiros vocábulos do grupo. e vale por grande ajuntamento desgovernado. aqui. mas neste movimento nada revela a ideia de continuidade. – Reunião é. turba. Empregar este vocábulo para designar a gente já reunida no ponto a que já convergiu. isto é. turba que se forma desordenadamente. tropel. triste e abatida”. reunião. seguindo todas a mesma direção: é o que se depreende da etimologia da palavra (em latim fluere. – Segundo Bruns. enquanto que concurso indica o movimento simultâneo de muitas pessoas que convergem por diferentes vias a um ponto dado. há grande afluência ao local onde ela se efetua. devendo notar-se. – Ajuntamento designa a reunião de pessoas que pararam num ponto para um fim determinado”. significando “correr para um sítio). ou gruppo significa. porém. multidão. de que trata o referido autor: e o mesmo se diz dos demais. o grupo de pessoas que se juntaram para algum fim: é muito próximo de ajuntamento e de assembleia. As outras três palavras que se seguem representam afluência de pessoas reunidas num ponto determinado sem ideia de estarem em movimento. 189 concurso. de pesar. anárquico. agrupamento. Na linguagem corrente. e é como se dissesse turba-multidão. O mesmo diz tropel. turbilhão”. que obra em confusão. ou indisposta. Tem formação análoga à de aglomeração (o italiano gróppo. turbamulta.

ardido. – Cortante diz apenas – “que corta”. uma navalha afiada. “pedra de amolar”). que intrepidez e que bravura: o capitão arrojado não mede bem as consequências da investida. um canivete. heroísmo. arrebatado. – Um instrumento afiado tem o fio muito fino. do que não se inclui. aguçado. arrebatamento. agudo. a propriedade do instrumento que foi afiado. denodado. – É ainda de Bruns: Exceto e afora empregam-se indistintamente. talhante. quer dizer – um ânimo seguro. ou à vista de embaraços ou obstáculos opostos ao que intentamos. mas decerto que não diremos – uma foice afiada. intrêmulo. este adjetivo afiado. destemido. nos campos de batalha. a ponta de um punção. mas investe o embaraço. corajoso. atrevido. – O desafrontado mostra que se não deixa impressionar ante um obstáculo ou perigo: antes fica altivo. impassível. valentia. exceto. violento. ousado. inconsideração. ou não o conhece. uma fé perfeita no próprio valor. impetuosidade. audacioso. – Arrojado é o que. sem preocupações que o levem a vacilar”. resoluto. violência. ânimo. Nem a todo gênero de instrumentos se aplica. heroicidade. confia- do. arriscado. – Desassombrado é semelhante a desafrontado: significa – “que não se assusta. heroico. denodo. não obstante. impavidez. arrojo. inconsiderado. como coisa que corta”. veemente. afoiteza. intemente. Arrojo é mais que denodo. imperturbabilidade. valoroso. valor. erecto à vista dele. penetrante. Nos dois exemplos seguintes nota-se essa particularidade: “Afora o mais novo. veemência. – Todas estas palavras designam qualidades ou estados de alma que se revelam ante os grandes perigos. atrevimento. temerário. valente. – Confiado é aquele que mostra em si mesmo uma demasiada confiança. intrepidez. tornando-se por isso muito cortante. O temerário leva a sua audácia e resolução até uma quase loucura. audaz. ousadia. incisivo. O verbo aguçar (do latim acutare) significa mesmo “fazer agudo”. exceto se diz melhor do que se exclui. Na afoiteza. Em sentido translato – “que opera. ímpeto. 191 AFIADO. precipitação. “Todos os irmãos são vadios. não só afronta. – Agudo diz – “muito vivo. bravo. audácia. 192 AFOITO. determinação. confiança. amolado. impávido. decidido. imperturbável. ardimento. desafogado. – . atua com força e decisão. desafrontado. mas na temeridade (que é às vezes uma como exageração do heroísmo) sempre há mais alguma consciência do perigo do que na afoiteza. que corta” – define Aul.132 Rocha Pombo 190 AFORA. que se mostra impávido e sereno. ou que se lança a encontro do perigo. ou faz uma ideia muito imperfeita do perigo. ou um espinho”. ou ignorância ou falta de prudência. – Cortante e talhante exprimem a qualidade. – Temerário já é mais próximo de afoito. no entanto. Diremos – um bisturi. exceto o João que é trabalhador”. impassibilidade. arrojado. e afora. temeridade. destemor. precipitado. decisão. intré- pido. – Aguçado significa – “de gume ou de ponta muito fina ou adelgaçada. animoso. não toma com calma as proporções do perigo: arremessa-se à luta com o desassombro e afoiteza de quem não sabe poupar a vida. e talhante sugere a ideia de separar de todo (talhar) a coisa que se corta”. pode ser o gume de uma faca. – O homem afoito. – Amolado se diz do instrumento que se aguçou a rebolo (mola “mó”. resolução. bravura. cor- tante. fino. há sempre. imponderado. coragem. todos os irmãos são uns vadios”. impertérrito. – Incisivo – “próprio para cortar. impetuoso. determinado.

O general inconsiderado meterá o seu exército em risco de desastres. Quer isto dizer que atrevimento é a decisão pouco refletida. – Inconsiderado significa o mesmo quase que afoito. Não seria de estranhar que muito sujeito ousado viesse a mostrar-se covarde. que é corajoso e intrépido”. inquebrantável em situações difíceis. – Destemido. pois. – Imponderado é convizinho dos dois precedentes. Impávido é “o que se não amedronta. O homem fisicamente fraco e até enfermo pode bem ser corajoso. “coragem resoluta. do que propriamente valor”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 133 Atrevido sugere a ideia de que o arrojado é inferior em forças àquele contra o qual investe. igual. Audácia é. pois. valor moral. talvez mais petulância que audácia.. – Valente e valoroso andam de ordinário confundidos. o temperamento normal que se não perde no meio dos embaraços. salvar-se pela vitória. denotando apenas a inconsideração mais leviandade que propriamente coragem. notando-se que imponderado e inconsiderado não envolvem necessariamente a ideia de coragem afoita que se encontra em arriscado. sem temer. Nem se diz.) – Determinado diz melhor a firmeza com que o resoluto executa o que resolveu. mas o sujeito intemente é o que não teme aquilo que é natural se tema. que zomba dos perigos.. (Resoluto parece dizer alguma coisa mais calmo e ponderado que decidido. e parece dar mais prova de irreverência que de destemor. Neste exemplo: “F. A decisão (decisio. – Audacioso (formação vernácula de audácia) não diz senão – “que revela alguma audácia (ou uma audácia menos nobre e legítima). sem agitar-se. “valentia moral”. – Audaz (conquanto oriundo da mesma raiz de que proveio ousado) envolve as ideias de intrépido. com um golpe de audácia. algum perigo”. – Ânimo não tem a força de coragem: é mais “a posse de si mesmo. de decidere [= de + cœdo. que não se abala de pavor”. O sujeito animoso é o que se conserva como é. é tão desgraçado: vejo. que teme tanto castigos do Céu. O valoroso tem mais de coragem. pode conservar espírito forte. A valentia é qualidade de que se ufanam os campeões. a índole. por isso mesmo. – Decidido é “que não vacila ante obstáculos ou perigos”. consequência da resolução que se tomou. ere] “cortar”) revela-se no ânimo seguro e pronto com que alguém se dirige em dada conjuntura. O valor consiste mais na grande- . isto é. intemente. Destemido é “o que nada teme. sendo a resolução um ato que resulta de reflexão. grandeza de alma no meio dos perigos. – Coragem (do baixo latim coragium “força do coração) designa propriamente a energia moral. que vivem sempre felizes” – parece que fica muito clara a significação do vocábulo intemente (apenas – “não temente”). e que para investi-lo tem de juntar ao arrojo a afoiteza. robusto. criaturas intementes. sem probabilidades de vencer: o afoito ainda pode. mas o primeiro se aplica de preferência ao indivíduo que é forte no físico. impávido poderiam confundir-se. desafrontada. a constância. pois a ousadia não é mais do que uma coragem que se funda na confiança que o ousado logrou de sucessos anteriores. alentado e animoso. com que alguém se arrisca a um perigo. que se mostra calmo e tranquilo ante o que pode sobrevir. propriamente”. – Arriscado quer dizer – “que se expõe a perigos mais do que se permitiria a uma coragem regulada pela prudência”. sem comover-se. de alma forte que de força muscular.. que despreza os tropeços”. sendo o destemor uma das grandes qualidades do herói. e até ímpias. no entanto. Impavidez é a “serenidade com que se encara. A determinação parece. que mostra ousadia extrema. arrojado. leviana e confiante. a firmeza com que se afrontam os perigos e se trata de os vencer. – Ousado é menos que atrevido. quase temerário.

O denodo é a qualidade dos que. pois o sujeito afoito pode ainda ter ideia do perigo. portanto. impassível são convizinhos muito íntimos. Precipitação é. – Impertérrito é antônimo de pertérrito. – imper- . no entanto. excelência de intuitos. para não trepidar ante a própria morte. nem mesmo ao que viesse a triunfar da fé. – Ardido é galicismo pouco usado (hardi) significando propriamente “atrevido. ou um inválido. de afronta. e só figuradamente se aplicaria à grandeza moral dos que triunfam pela excelência de virtudes mais excelsas: dizemos. ante só perigos. A própria formação destas palavras está. pois heroísmo é tudo isto junto: grandeza de alma. do que propriamente no vigor de um físico sadio e robusto. coragem desassombrada. esplendor das ações (sendo heroicidade a “qualidade de ser herói”). como já se disse. que não volta as costas ao inimigo. que se aventura. livre de receios”. pela constância. e significa. Ninguém diria. dá provas mais que de coragem comum. sem se aperceber do perigo. dos escarmentos”. Veemência é “a viva intensidade de uma apóstrofe. ou que se abalança a atos de audácia pouco refletidos (ardimentos)”. ou um impulso mais devido ao temperamento que à decisão de quem obra”. pois. ou que matasse uma criança. pois ímpeto quer dizer mesmo “decisão súbita e veemente” (e impetuosidade é a qualidade de ser impetuoso). a desgraça. alguma coisa mais que afoiteza. – Arrebatado é “o que se incende de sentimentos heroicos diante das desgraças. e conserva a coragem e a calma nos combates”. desafrontado. têm valor para arrostar o mal. – Intrêmulo. por esforço hercúleo. resolução é o “intento ou o propósito que se tomou depois de haver muito refletido na coisa que se trata de resolver”. A intrepidez é a qualidade daqueles que. além de impávidos. imperturbável. – Denodado significa “desprendido. por exemplo: – “um pedido”. – Precipitado confunde-se com inconsiderado e imponderado. – A bravura pode-se dizer que é a virtude dos homens de guerra. assim. de censura ou de exprobração”. – Impetuoso é o que cede a impulsos instantâneos da sua coragem e pratica atos heroicos que parecem mais inconsiderados do que atos voluntários de valor. explicando-lhes a diferença. O homem que salva de um incêndio uma criança. o ataque. – Resoluto é quase o mesmo que decidido: apenas no resoluto se supõe uma reflexão mais funda do que no decidido. que é animoso. – Heroico é o que se mostra digno de triunfar galhardamente pelo valor moral. – Intrépido é aquele que não vacila na investida. se mostram isentos de preocupações que não sejam as de se mostrarem desembaraçados de tudo para alcançar o que almejam. senão – “uma súplica veemente”. mas a precipitação enuncia mais claro um ato fora de toda consciência. – Violento é muito distinto de precipitado. – Veemente quer dizer “impetuoso e forte. Não se teria por heroísmo a valentia de um sujeito que vencesse a um enfermo. sendo a violência “uma perpetração. dos perigos. “que não se assusta diante do inimigo. Intrêmulo diz – “que não treme diante do perigo”. pois. que é um bravo o homem que num dado momento da vida se portou com a majestade de alma própria dos heróis. de um ato de coragem. rápido e violento”. no esforço e altivez com que se afronta a desgraça ou o inimigo. e apenas não pensar nas exatas proporções dele: o precipitado não cogita do perigo.134 Rocha Pombo za de ânimo. Um homem precipitado atira-se a um abismo sem o ver. de uma abnegação que excede a tudo que tem de augusto o heroís- mo: e é a isto que se deve chamar arrebatamento moral. sem pensar nele. o violento só não dá ao que vai fazer uma atenção perfeita. mas de uma bravura que vai até o delírio.

porque aquele. e não o alcança para castigá-lo. chega outro por detrás. O que levou as pauladas recebeu agravo. ou a afronta. escárnio. ultraje. que deprima. a ofensa. que é vingar-se: este homem fica decerto agravado. não vê nisto mais que uma injustiça. insensível diante do que vê. – Quanto a injúria e ultraje. o agravo pode vir de qualquer parte sem que afronte. afrontado. mas não afrontado. quando . Para o agravo é preciso que haja injustiça. segundo as leis do maldito duelo. porém esta. 193 AFRONTA. diz Roq. a ofensa junta ao agravo o desprezo ou o insulto. feito às qualidades pessoais de alguém. injúria. O que tem direito a um acesso. porque insulta seu amor-próprio e o humilha. avania. porque nas mulheres pode mais. e foge. porque em dizer aquela verdade não se dá a injustiça que exige o agravo para o ser. O mesmo confirmará outro exemplo: Está um homem com as costas voltadas. Tratar de feia a uma mulher formosa é um agravo que. “que se não perturba. Por isso. eu posso estar agravado. E assim. ficaria o que levou as pauladas agravado e afrontado juntamente: agravado. ou estado de ânimo. “que nada sofre. chegam dez indivíduos armados. – impassível. ou nos humilha. Quixote: que a afronta vem da parte de quem a pode fazer. sem ter nisto vaidade. insulto. de atonia moral. esta afronta-nos sempre. e dá-lhe duas bengaladas. e a pé firme. como já notou d. porque lhe deram à traição. a mulher. agravo. na opinião. chasco. troça. e faz e sustenta. e dão-lhe pancadas. privando-nos realmente do que nos pertence. ou do que ouve”. irrisão. não obstante que aquele nos causa um prejuízo efetivo. sustentou o seu feito sem voltar as costas. vexame. – ultraje apresenta a ideia de vilipêndio público em detrimento de alguém. ou uma declaração de sua insuficiência. ou um vício. afrontado. e faz o que lhe cumpre como homem de brio. sátira. se a este agravo acresceu um desprezo do seu mérito. ofensa. mas a multidão dos contrários se lhe opõem. Aquele prejudica-nos talvez sem nos afrontar. esta. Seja exemplo: Está um homem na rua descuidado. ainda que não haja injustiça. porém ofende aquele a quem se diz. Desconfiar da probidade de um homem de bem é uma injúria. apodo. em outro §: injúria apresenta a ideia de agravo violento. – “há esta diferença. nem pretender elogios. a vaidade que a modéstia”. tratá-lo publicamente de ladrão é um ultraje. crê-se agravado. não. crê-se ofendido. A impassibilidade pode. não se altera ante o perigo. – O agravo atropela nosso direito. toma-o como desprezo ou insulto. fica. zombaria. e não o deixam levar avante o que intenta. ainda que ela mesma conheça que a não tem. mas não afronta. ofendida uma mulher a quem se disputa a boa figura. Não agrava o que diz de outrem que é torto. Se o que deu as pauladas ficara de pé firme fazendo rosto a seu inimigo. nem olha como leves os insultos. ou no capricho. portanto. em regra. e o não conseguiu. não se pode dizer que dança mal sem fazer-lhe um agravo. ou o mal que o assalta”. remoque. porque o agressor lhe fez rosto. pois que a afronta há de ser sustentada: circunstância que não é necessária para constituir o agravo. e este não perdoa com facilidade. segue-o o homem. mete o homem mão à espada. De um homem que dança bem. porque a ofensa nos choca diretamente com o amor-próprio. mofa. porém.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 135 turbável –. quando realmente o é. de que decerto se não dará por ofendido. que se mostra indiferente. – “Entre o agravo e a afronta” – diz Roq. o homem. gracejo. chacota. para a ofensa basta que haja insulto. comumente. só nos incomoda com um prejuízo fundado. porém. ser uma virtude de estoico. dissimula-se o agravo mais facilmente que a ofensa.

A palavra com que se designou aquilo. é termo popular significando “a zombaria aparatosa que se faz com alguém. e que depois foi proibida pela Igreja porque quase sempre degenerava em orgia. Encara-se com terror a morte. às vezes mais brincando que ofendendo”. alimento”) é “refeição abundante e alegre”. escândalo.136 Rocha Pombo 194 AFRONTAR. – Remoque é “dito picante que disfarça uma censura ou repreensão”. escarnecer da vítima”. janta. o gesto. como é sabido. – Afrontar e arrostar. torpeza”) significando hoje “grande e farta refeição alegre. poucas haverá. um complemento que lhe determine a significação. com esta diferença. não devera passar de injúria. com ostentação.. porém. – Escárnio (do italiano schérno) é mais forte do que muitos deste grupo: ajunta à intenção de ofensa a ideia de nojo e repulsa. e tanto que reclama um adjunto quase sempre para que se torne ofensivo: gracejo de mau gosto. aqui. era a refeição com ares de cerimônia cultual. dirigido a algum defeito ou a alguma falta da pessoa a quem se ofende. ficou (do grego ágape “amor. comezaina. – Troça. – Brequefeste (do inglês breakfast “almoço. – Vexame é “tudo o que constrange. Arrostar peleja frente a frente. – Gracejo é de todos os do grupo o menos forte. – Chacota é “zombaria por ditérios ou termos burlescos”. breque- feste. que o não tenham por ultraje”. – Avanias são propriamente as “vexações. e passou para a língua significando vexames. Encarar necessita. 195 ÁGAPE. insultos. que expõem a vítima a irrisão pública.. e sugere o intento de insultar e expor à vergonha.: “No sentido figurado destes verbos – escreve ele – o menos expressivo é encarar. preferimos o de Bruns. por palavras engraçadas ou escarninhas”. arrostar. pândega. – Ao modo muito. – Mofa é também o sinal – palavras ou gestos – “com que se mostra desprezo por alguém. aqui. é mais modesto. Os exploradores do polo afrontam a morte por amor à ciência. e extorsões que os muçulmanos faziam aos cristãos”. excluindo a ideia de medo. – Chasco é muito semelhante a remoque. – Apodo (mais usado no plural) é “o remoque ligeiro. – Pândega é “rega-bofe estrondoso. que melindra o pudor”. festiva”. porém. – Patuscada é comezaina que desanda para a troça. o ataque. – Arrostar (vocábulo derivado do latim rostrum “esporão de navio”) é o mais expressivo deste grupo. Diz neste caso – “ofensa por meio de graçolas. – Bródio é quase o mesmo que patuscada. apenas o bródio é menos charro. – Comezaina é ágape menos nobre. irritantes”. portanto. jantar. banquete. com intuito de ofendê-lo”. é a palavra picante. – Irrisão é a “zombaria que consiste em rir. encara-se a sangue-frio o perigo. – Rega-bofe é grande folia de comes e bebes. encerram a de denodo.” – . maliciosos. e. gracejo pesado. patuscada. conquanto animado. – Insulto dá ideia de ofensa feita de propósito. por atos ou palavras. – Zombaria é o dito. de ditos pouco delicados. Afrontar a morte não é combatê-la: é encará-la impávido. violência. que os primitivos cristãos faziam em comum e às ocultas. rega-bofe. pode ser mesmo oferecer-se até certo ponto a ela. encarar. a atitude com que se falta ao devido respeito com alguém. o insulto disfarçado. expondo-o a ridículo. bródio. isto é. porém: que afrontar não implica a ideia de luta que existe em arrostar. patuscada de vagabundos. de entender de Lacerda e de Roquete. onde há mais fartura de comidas que delícias. acrescentando a este a ideia de desprezo. intentando obrigar o inimigo a que recue”. – Ágape. – Sátira.

como antônimo de urbs “cidade”) diz-se do que tem o caráter próprio da simplicidade aldeã ou camponesa. de rus “campo”.. etc. sem cultura. – Entre silvestre e selvático há diferença bem fácil de assinalar: flor sel- . no entanto. tanto falando de homens como de animais. e. o que nasce e vive nos matos. sugerindo ideia da luta que o moribundo trava com a morte. 196 AGONIZAR. – Estertorar acrescenta a agonizar a ideia do trabalho. Falando de sítios. terrenos ingratos. etc. isto é. epíteto menos frequente que campestre. grato. obri- gado. Diz-se de pessoas e de coisas. porém. as maneiras agrestes. reconhecido. sem fazer. O homem agreste é grosseiro a ponto de ser intratável. Por um obséquio fica-se agradecido. penhorado. e janta é o “jantar mais simples. 198 AGRESTE. a ideia de como o que recebeu benefícios quer dar provas da sua gratidão. à rudeza. não podem ser suportados por quem se habituou às delicadezas. – Agreste. do esforço e aflição de estertor em que se vê o moribundo. silvestre. refere-se à grosseria. – Penhorado = “obrigado. no entanto. inépcia. portanto.” – Campestre. campestre. do seu apreço por aquele que lhe fez bem. – Rústico (em latim rusticus. gentilezas. reconhecido por favores”. – Agonizar é hoje usado só como intransitivo. Por alguém que nos proteje ou socorre ficamos reconhecidos. melhor que os dois precedentes. Por uma gentileza fica-se grato. É assim que há pessoas que morrem sem agonia. Não é polido. para indicar a flor que não é cultivada. rústico. – E campesino. selvático. ou sem a beleza da arte. dado em honra de alguém. fundadas por mútua convenção social. de beleza natural. e pode faltar às leis da conveniência.. plantas raquíticas.. – Agradecido é o que não se esquece do benefício que recebeu. agreste exclui toda ideia de cultura. segundo o mesmo autor. mas. ou por algum motivo excepcional”. (do latim agrestis. diz Bruns. difere de agreste. – Banquete é “jantar solene. e geralmente só encerra a ideia de viver ou habitar no campo. selvagem. de ager “cam- po”). que não sofrem as ânsias da morte. dizendo-se indiferentemente – flor agreste ou flor silvestre. não conhece os usos da gente fina. apreciáveis os seus sentimentos. que implica a ideia de rudez moral. cativo. feito em família”. do que carece da polidez das cidades. devido mesmo à sua própria simplicidade. que não agonizam no momento de morrer. manifestações disso. os costumes agrestes. tem a mesma origem deste. – Obrigado = “que se julga em obrigação moral com alguém que lhe fez alguma fineza”.. podendo ser. 197 AGRADECIDO. e dá provas disso. para exprimir o ato de morrer. estertorar. São propriedades rústicas as que constam de terras de lavoura. “Um lugar agreste só tem rochedos escalvados. – Grato é igualmente o que é sensível ao benefício. – Em sentido desfavorável. refere-se a tudo que pertence ao campo cultivado. ao trato da boa sociedade. campesino. aplicado a pessoas ou ao que lhes é particular. – Cativo – tão reconhecido por serviços. ser agradável. pode. – Reconhecido dá. O homem rústico carece de urbanidade.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 137 Jantar é uma das duas refeições normais feitas diariamente. mas guardando intimamente a lembrança do bem que se lhe fez. rudez intelectual. rústico implica falta de tato. que se julga como preso moralmente àquele a quem as deve”.. à baixeza. – Silvestre é o que é próprio da selva. nem trabalhado com arte o objeto rústico. ainda assim. e nunca se toma em bom sentido. Confunde-se frequentemente com agreste. isto é.

que ele considera como uma arte pela qual sente gosto. – “é a arte de cultivar a terra. lavrador.138 Rocha Pombo vática decerto que não é simplesmente a flor que não foi colhida nos jardins. enquanto que a flor silvestre pode ser tão delicada como as que se cultivam. a agronomia é a teoria dessa arte. cultivador. porém. grosseira como a selva bruta. Há lavradores ricos. rural. pequenos agricultores. o que não está situado dentro da área urbana. No sentido rigoroso. – Agricultor e agrônomo também se confundem frequentemente. e com eles designa-se indistintamente o indivíduo. Agricultor é o proprietário que. que explora terras e as cultiva. Tratando-se de pessoas não se diz silvestre (e sim. conforme fosse o crédito fundado na propriedade rural em si. seja de conta alheia. e pequenos lavradores. agronomia. O agrônomo é o indivíduo versado na teoria da agricultura: pode ser agricultor ou não. sendo a ideia de propriedade e de riqueza inerente a este vocábulo. Colono só remotamente encerra a ideia de agricultura. grandes lavradores. rural se aplica à propriedade. visto que para ser agrônomo não é necessário possuir terras. rústico. ou mediante jornal. porém. Numa ordem de ideias mais restrita. agrônomo.. próprio da cultura dos campos”. à propriedade territorial em si. mas rústico se aplica ao que não está cultivado. A cultura dos campos efetuada constitui a agricultura. nem lavrá-las: basta ser entendido em agricultura. lavradores pobres. de artes. – Cultivador é um termo genérico que se pode dizer tanto do agricultor como do lavrador. e não obstante. a agronomia é teórica. por si próprio (ou de sua conta) e em ponto grande. estes vocábulos divergem entre si. de letras. se dedica à agricultura. senão que a exerce como ocupação. não só conhece a agricultura como arte. A agricultura é prática. seja para simplesmente povoá-la”. às propriedades territoriais”. porque se refere à profissão do indivíduo. a qual varia de processos à medida que a agronomia se aperfeiçoa. 199 AGRÍCOLA. seja de conta própria. o proprietário das terras que explora. O agricultor é. 200 AGRICULTURA. proprietário ou rendeiro. brutal como os que vivem nos matos. . ao campo onde se trabalha. não é indiferente empregar um em vez de outro. ou fundado na produção agrícola. – Entre rural e rústico (ambos oriundos de rus “campo”) há uma diferença análoga à que se acaba de ver entre os dois precedentes. etc. pois. agricultor. seja para que a cultive. ou crédito agrícola.. mas poder-se-á dizer selvático. este vocábulo. à vida dos que se dedicam à exploração das terras. inculto. e corresponde a agrário. agrícola (de ager e colere “cultivar”) já significa “relativo ao trabalho. trabalho agrícola (não – agrário). de determinadas plantas. Diríamos: crédito agrário. mas a flor sem beleza. se o homem de quem se trata é rude. agrário. Não há. – Agrí- cola e agrário não poderiam confundir-se: agrário (de ager “campo”) diz apenas “próprio do campo ou das terras utilizáveis. relativo às terras ocupadas. – Agricultura – escreve Bruns. e não à arte que ele exerce. disforme. O cultivador vive de cultivar: é a única ideia que o vocábulo sugere. O colono habita terra que não é sua própria. Ambos se empregam para designar o que não é da cidade. selvagem). Lavrador é o homem que lavra a terra. colono. Dizemos: medidas agrárias (e não – agrícolas). lei agrária (não – agrícola). – Os substantivos agricultor e lavrador confundem-se frequentemente na linguagem comum. indica uma especialidade: há cultivadores de cereais. no seu valor próprio. e corresponde a agrícola. quando seguido de um complemento. O agricultor.

e também fica-se com as faces banhadas de suor. – Molhar é propriamente “umedecer ao ponto em que a coisa molhada perca o estado de secura. A palavra. no entanto. os campos. – A perspicácia da vista vê claro por entre. dando atenção. – Alagar e inundar também se confundem. e estas durante muitos dias ficaram alagadas. olhando se sucede. ou que se presume sucederá ou virá. ou aguar tão bem como se a coisa banhada tivesse imergido n’água. os jardins. Irrigar. Espera-se o que é feliz ou agradável. e não – que se regam. molhar. Rega-se o canteiro. as ruas. as lavouras. para que não murche tão depressa. ou noutro líquido”. Mas alagar sugere a ideia de que a porção de espaço alagada ficou por algum tempo debaixo d’água (como formando lago). particularidades. – Sagacidade – diz Bruns. imergindo-os. A agudeza vê os objetos mais subtis. num vaso. argúcia (arguto e argucioso). e que se descobre o mérito que se oculta. dos fatos. atilamento (atilado).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 AGUARDAR. dizemos – que se irrigam.” – Banhar é “meter n’água alguma coisa. 202 AGUAR. as qualidades das pessoas e das coisas. alagar. obscuro. e por translação se aplicam ao entendimento ou à vista intelectual. É pela sagacidade que se apreciam. rega-se a goles de água ou de vinho a garganta ressequida. designa a qualidade especial de descobrir sem esforço o que é confuso. ou na grama orvalhada. do véu. inundar. – Banha-se o rosto. astúcia (astuto e astucioso). molha-se os pés na sarjeta.. “aguardar é estar à espera. ou de lágrimas. finura (fino). não é mais do que uma extensão de regar.. que se dizia dos cães que tinham delicadeza de olfato para achar a caça pelo rasto. juntar água a. o que se aguarda pode sê-lo ou não”. se o trabalho de umedecer as terras é feito por meio de canais. Esperar é ter esperança. sagacidade (sagaz). ou pondo-os debaixo de uma corrente de água. “exprimem diferentes qualidades da vista corporal. mas não dizemos – regar as ruas (sim irrigar). irrigar. A vista aguda apanha diferenças. represas etc. a dureza própria ou normal. A vista penetrante alcança o íntimo das coisas. e através da nuvem. no fundo dos objetos. segundo S. e os que. ou se tão abundantes são as lágrimas que as faces fiquem tão molhadas como se tivessem saído d’água. – Aguar diz apenas – “derramar água sobre alguma coisa. A ruptura do açude inundou o caminho. de invasão de água por excesso dela em outro ponto. tino (atinado). 203 AGUDEZA (agudo). molha-se a cabeça apanhando chuva sem estar coberto. e inundar envolve ideia de extravasamento. – Água-se uma flor. Dizemos – regar ou irrigar as plantas. minúcias que escapam à visão comum. perspicácia (perspi- caz). no seu justo valor. ressentindo-se da etimologia. Luiz. Irrigam-se as plantações. os campos. – Segundo d. do obstáculo... Mesmo tratando-se de campos. – “vem do latim sagax. ou o pensamento . José de 139 Lacerda. ou por transbordamento. mais finos. por sua posição. a densidade..” O homem perspicaz vê claramente através dos disfarces. A enxurrada inundou as ruas. subtileza (subtil). se representam como tais. regar. a solidez.” – Irrigar e regar confundem-se. – Os três primeiros substantivos do grupo.. As grandes chuvas alagaram os campos. esperar. as mãos. penetração (penetrante). emaranhado. mais delicados. regam-se as hortas. que deve suceder ou vir. se o suor é tanto. A penetração vê no interior. – Molha-se o dedo na salmoura. banhar. banhar de água. encher de água. ou se vem alguma coisa ou pessoa. aguardar algum bem que se deseja e se julga que há de vir.

especar e estear confundem-se com apoiar. acima”. ou o vigamento de um edifício. fazer firme. Astucioso – “que usa de astúcias para enganar”. dissimulado e malicioso”. o abaixamento de alguma coisa”. – Escorar. segundo a formação do vocábulo (susum pendere) diz precisamente “deixar pendente em cima ou no ar”. de sofismas. que exprime a ação ou o efeito geral que os três primeiros particularizam: escorar é dar apoio por meio de escora. se apoia e fica firme sobre o esteio. especar é fazer o mesmo com espeque. ou de cair. amparar. e tenere “conservar. – Suspender.” – Atilamento é “a habilidade. haste. especar. tão bem como amparar. ou a escora impede apenas que a coisa amparada se desloque de todo. Além disso. ou de inclinar-se demais. se inclui ideia de ação momentânea. estear. A diferença consiste. – Sustentar é uma ex- tensão de suster: dá ideia do maior esforço com que se apoia ou se mantém alguma coisa no lugar próprio. sustentar. sustendo-a. enquanto que a coisa que se esteia assenta. a perspicácia. estável. como define Aul. Uma trave que serve de apoio a outra nem por isso se deve dizer que a ampara. a agudeza natural. e estear é pôr em segurança. ponta. só se especa ou só se escora . – Amparar é “impedir.” – Tino é “a finura instintiva. escora alguma coisa para que não vire. que alguma coisa caia”. pois o espeque. pois em aguentar. suster. para sentir o que convém. Argucioso é o que usa de argúcias. especar um telhado. ideia de esforço. na discussão. penetrante”. O espírito arguto agencia razões para envolver o adversário na disputa. e é mais expressivo que o primeiro. para que daí não saia ou não se desvie”. – Aguentar é propriamente. segurar”) significa também “manter (alguma coisa) no lugar em que está”. mas não sugere. – “conservar em equilíbrio sobre a corrente da água”. – Argúcia será então a “subtileza no argumentar ou no discutir”. a facilidade de compreender. artifícios para enganar. mas que a ampara. – Apoiar é também “impedir a queda. o que é razoável”. ou tato muito subtil para apanhar o que nos interessa. suspender. Finura é frequentemente sinônimo de velhacaria e de diplomacia.140 Rocha Pombo que se disfarça. e por extensão – “manter alguma coisa no estado ou na posição em que se acha. comumente uma trave mais ou menos grossa. repousa. como observa Bruns. Escora é um espeque mais forte. apurado. esteio é uma peça muito maior e mais forte. com que se impede alguma coisa de virar de uma vez. Exemplo: “É uma criatura de tino admirável: e faz tudo com tanta habilidade e atilamento que maravilha os mesmos que a educaram”. Não se há de dizer. de madeira. – Astúcia é a habilidade no emprego de ardis. a oportunidade de obrar.. nem estear um galho de árvore para que não se quebre. ou não caia de uma vez. escorar. ou de pedra. apoiar. ou pelo menos de menor duração. segura. cavilha”) é uma peça com que se prende.. portanto. portanto. Astuto = “sagaz no enredo. Escorar e especar distinguem-se ainda de estear por isto: o que se especa ou se escora não descansa propriamente sobre a escora ou o espeque. de ferro. 204 AGUENTAR. e também de menor emprego de força que em suster”. em que assenta algum grande peso e fica firme. não penda. Se alguém impede que uma senhora dê uma queda não se diz que a apoia. empregando esteio. na distinção notada entre os respetivos radicais: o espeque (do inglês spike “espigão. – Suster (de sustinere. de madeira ou de metal. um como faro. – Subtileza é a qualidade de subtil. – Subtil = “agudo. a escolha do falar. Finura é um termo genérico pelo qual se designa a habilidade de ver. de susum “para cima. o cuidado meticuloso com que se faz alguma coisa sem nada esquecer do que lhe pertence.

como orador. que dá o verbo to stay “ficar. para fazer que permaneça seguro. institutor da infância (não educador). lente. portanto. e quase sempre ostentando seu saber oralmente. aio refere-se particularmente ao que educa fi- lho de príncipes ou de grandes senhores. tornando segura. por isso se diz: mestre de gramática. portanto. entre todos os do grupo. o mais expressivo da função de educar crianças. educador. inabalável na posição que se quer. preceptor. – Institutor é o que ensina meninos em estabelecimento público. pois o esteio (do inglês stay. 35) Amo é hoje desusado neste sentido. Instrutor militar. de esgrima. mas em cada um deles concorrem circunstâncias particulares que os distinguem entre si. guiá-lo pelo bom caminho (e até pelo mau caminho não deixaria de ser educar). formar (instituir) o espírito do educando.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 141 como provisoriamente. e pode-se dizer superficial e ligeira. e tanto que com perfeita propriedade se deve dizer: educador da mocidade (não institutor). Egas Moniz foi aio de d. cujos pais o confiaram à sua direção. de educar um menino. tendo recebido já o menino ou o moço que lhe veio do institutor. – Segundo Roq. preceptor. mestre. para o formar moralmente e facilitar-lhe todos os conhecimentos possíveis: dirige-lhe a educação e a instrução em geral.. professor. Segue-se. ensina em público uma ciência ou faculdade. de tudo quanto lhe interessa.: “Todos estes ensinam em público uma ciência ou faculdade. – Instrutor é propriamente o que dá alguma instrução prática. pois o próprio termo educador pode não ter a extensão que se atribui ao institutor. suportar. aguenta em cima. ou estar no mesmo lugar”) sugere a ideia de permanecer em posição vertical. Talvez que seja. pois sempre se subentende que a coisa a escorar ou a especar já não está em segurança. pedagogo (e pedagogista). ou ruína iminente. e que se esteia para fixar. e tem um certo número de discípulos. com se oferecer a dura morte O fiel Egas amo. diz Roq. Mas o educador faz tudo isso. de música. segundo o método escolástico. toma conta de toda a sua conduta. de equitação. orienta. diz com muito mais precisão “o que se encarrega de preparar na alma da criança os fundamentos sobre que há de assentar a educação futura”. – Quanto aos três últimos vocábulos do grupo. e resistir. – Quem educa não dá só instrução: nutre. lia ou explicava as doutrinas aprovadas pela escola ou universidade. para evitar uma queda. firme a coisa esteada. falando do mesmo Egas Moniz: Mas. para que venha a ser na vida o homem que se deseja. que é moderna na língua. Também lhe chamavam naquele tempo amo. amo. – Aio é a palavra que antigamente se usava em lugar de preceptor. – Professor é o que professa. que se especa ou se escora como um recurso de momento. O esteio apoia. III. O mestre dá lições a certas e determinadas horas. O mesmo não se dá em relação a estear. 205 AIO. expondo suas doutrinas como próprias. O preceptor dá preceitos e conselhos continuamente a seu aluno. e não o perde um instante de vista. Institutor. etc. catedrático. Educar é dirigir o educando. mestre é todo homem que dá lições. instrutor de ginástica. Afonso Henriques. contidas num . institutor. – Preceptor dizemos do que está encarregado de instruir. como ainda se lê em Camões. de dança. foi livrado (Lus. instrutor. ao encarregado da educação de qualquer menino. prepara num certo sentido o espírito do discípulo. Sugere este vocábulo a ideia de criar.: – Mestre dizemos do que ensina alguma ciência ou arte. – Lente ou leitor é o que.

no andar uma certa graça (airosidade). ornada com os retoques da modéstia. O catedrático pertence sempre a uma universidade (ou a uma escola): se ensina à antiga. – Catedrático é o proprietário de uma cadeira (cátedra) de universidade (ou de uma escola superior) em que ensina a faculdade de que está encarregado. A pessoa airosa pode não ser bela. suave. falando de Absalão. – Graça. são sinônimos de professor. ateneus. galhardo (galhardia). generoso. mas esta é menos distinta e brilhante. ou a uma universidade. deve aquela usar-se particularmente quando se fala do masculino”. gentil (gentileza). – Gentil é “o que tem delicadeza. – Nobre. e pedagogista é o versado em pedagogia. engraçado (graciosidade. à presunção com que o pedagogo alardeia a sua capacidade. nobre é o que. distinto (distinção). – A graça é mais que o simples donaire. é austero na moral. – Pedagogo e pedagogista. a quem chama galhardo e belo. é mais varonil que a formosura. O lente ou leitor pode pertencer. grácil (gracilidade). cavalheiresco (cavalheirismo). gracioso. mas é sempre condecorado com o título de mestre. gazil. – Gracioso é aquele ou aquilo cujo aspeto tem graça. tem também o nome de lente.. limita-se a representar aquela ideia com relação . – Elegante é “o que é bem modelado. elegante. diz: “Era de tão rara gentileza. tem nobre aspeto. Vieira. Gentileza é “a galhardia e bom ar” – diz Roq. e que. reuniões literárias etc. – “acompanhado de nobre presença. enquanto que o donaire é apenas uma aparência airosa. taful (tafulice. aqui. ou a uma corporação religiosa.142 Rocha Pombo compêndio. Disto nos deixaram exemplos dois mestres da língua. – Airoso se diz de quem apresenta um aspeto agradável. galhardo. nobre (nobreza). Graciosidade é a qualidade de ser gracioso. impressiona mais o coração que os olhos. graça). esbelto (esbelteza).. encanta. – Engraçado é o que mostra alguma graça nas maneiras. O professor pode não ser catedrático. elegante (elegância). fidalgo (fidalguia). porém. vistoso. diz: “Esta foi a pensão que pagou Absalão à sua gentileza”. galanteria). no porte. – Fidalgo é o que se mostra fino. podendo até não ter a profissão de pedagogo. bizarro (bizarria). guapo (guapice). além disso. donairoso (donaire). A nobreza confunde-se com a fidalguia. É donairosa a pessoa que é mais engraçada que graciosa. bonito (boniteza). pois a graça é uma prenda mais espiritual. principalmente o primeiro. e sendo esta privativa do sexo feminino. E o padre Bernardes. (V. no falar. belo (beleza). acrescenta às qualidades de airoso. 116) – Consiste a beleza e a formosura na boa proporção e harmonia das partes que compõem um todo. que têm hoje acepção muito diferente da antiga. lindo (lindeza). garbosidade). pois aludem. a palavra formosura. Tomam-se. cavalheiro. loução (louçania). cavalheiroso. garrido (garridice). falando de Fortunato de Chiaromonte. a de distinto. delicado nas maneiras. pertence-lhe o nome de professor”. 206 AIROSO (airosidade).” (V. Deve notar-se que pedagogo é o professor que ensina segundo a pedagogia. que consiste num modo de ser que atrai. delicado. A elegância consiste no modo de ser discretamente belo. neste grupo. de ser aprimorado sem afetação. e é distinto e gracioso”. etc. portanto. formoso (formosura). é “o dom subtil. porém. seduz”. galante (galantice. professam em academias. pois há muitos homens sábios e instruídos que. digno. se professa à moderna. nem mesmo elegan- te: basta que tenha nos modos. 441). sem pertencerem ao corpo universitário. quase sempre a má parte. tafularia). garboso (garbo. que tenha uns ares que nos agradem. do qual se não afastava. garbo próprios de fidalgo”.

bravo. –. além de elegante. e o Apolo Pitio.” – Galante. mimoso. sacudido. elegante e gracioso”. É assim que não chamamos formoso a um poema. “mas que não chega a ser formoso”. Grácil significa “delicado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 143 ao agradável. à ternura de um afeto: a tudo isso assenta propriamente beleza”. no entanto. que mofas não fariam as nossas damas de quem lhe louvasse a beleza do talhe? A formosura só se aplica ao físico. do embaraço. e também indica maior perfeição no objeto lindo. – Coisas análogas devem dizer-se em relação a taful. viciado por algum capricho ou costume.. põe a formosura no que está mais distante da beleza. – “Lindeza é palavra mais culta que boniteza. com asseios esquisitos. da ação”. possante. namorado. Taful significa – “loução. franzino. faceiro. da expressão do rosto. e ornato dos trajos. Garboso é o que. Bonito é palavra familiar que indica coisa agradável à vista. interessante”. os modos. dizer-se que são formosos. pois este adjetivo junta à qualidade de bonito um certo ar e graça que muito o aproximam de belo e formoso. engraçada. Gracilidade só deve aplicar-se ao que é pequeno. se pudesse vestir à francesa. e formosos para todos. Se a Vênus de Médicis. Neste sentido admira-se a beleza do Apolo do Belvedere. pode notar-se. pois distinto significa apenas – “que não se confunde com o comum. ao que obra diretamente sobre o espírito. com destreza e elegância (galhardia). Tafularia é a facécia do taful. Coisa galante quer dizer – bem ornada. Garbosidade é a qualidade de ser garboso. sendo esbelteza a qualidade de ser esbelto. Galantice é a qualidade de ser galante. ataviada com gosto. Gazil é corrupção de grácil. alegre. quando queremos designar o que tem maneiras de alto bom-tom. cavalheiresco”. Também se entende especialmente das boas proporções do rosto acompanhadas de graça e donaire. tafulice e tafularia. Boniteza é “a qualidade do que é bonito” – diz o mesmo Roq. bem proporcionado. o que tem aparências de saúde. do asseio etc. talvez com ditos engraçados. vivo. – Esbelto (ou esvelto) designa “o que é de formas corretas. etc. segundo S. forte. “homem de distinção. – Garbo é “um quase orgulho de ostentar figura e galhardia”. os ditos de que se serve o galante para agradar. que o primeiro . dizemos de preferência. – Galhardo (do italiano gagliardo) diz – “robusto. da tarefa. lépido. isto é. “refere-se ao gosto. pessoa de distinção”.. a Vênus de Médicis. a beleza aplica-se também ao moral. Luiz.. varonil. à expressão de um sentimento. com igual propriedade. – Bizarro exprime “esbelto e gentil. a palavra beleza representa a ideia da perfeição possível. desembaraço. são belíssimos para os inteligentes. – Gazil e grácil são adaptações do mesmo vocábulo latino gracilis. concerto. de boa disposição”. em cujo corpo se não encontra defeito. se mostra altivo. – Vistoso é apenas “o que parece bem à vista. e toma-se ordinariamente pelo oposto de feio. aprumo e coragem. isto é. ao que obra sobre os sentidos.” Quando se diz das pessoas. Tafulice é a qualidade de taful.” Galanteria é a arte de ser galante. entende-se particularmente das feições.. que se destaca do vulgo”. que se sai garbosamente. dos quais não pode. porém. que tomou na linguagem vulgar um sentido especial. de onde vem galante. como diz o prolóquio: “Quem o feio ama bonito lhe parece. graça. Bizarria é tudo isto junto: elegância. fino. os modos como ele se apresenta. – Bonito é um diminutivo de bom. – Tratando-se do homem. – Cavalheiroso e cavalheiresco são definidos como significando a mesma coisa. São os olhos os juízes da formosura. do Hércules Farnésio. as graças. o que é afeito ao trato de gente culta e fina. e por isso acontece muitas vezes que o gosto. festivo”. por ser mais expressivo. que pretende agradar às damas. brioso.

– Expedito é o que se não embaraça no agir. expedi- mais – “vivo. – Agitação. Ligeireza.144 Rocha Pombo designa propriamente – “que tem ou revela qualidades e maneiras que eram de rigor entre os antigos cavaleiros (nos tempos da Cavalaria)”. lépido. – Segundo Alves Passos: – “Rebelião é a desobediência. hijodalgo). pronto e gracioso”. aqui. – Lesto é “o que. – Segundo Bruns. bizarro e gentil”. etc. ligeiro. é a perturbação da ordem estabelecida. significa também “ligeiro. A garridice é. toma-se também à má parte. sem discrepar das boas normas”. uma qualidade que assenta nas crianças e nas meninas. lesto. – Revolta (to turn agaisnt em inglês) exprime tanto como voltar contra. revolução. insurreição. – Loução diz – “de aspeto gentil. sécio. papéis de crédito. conquanto haja talvez muitos velhos que se jactem de guapos. É o cavalheirismo. Fidalgo. bens. bravo. correspondendo a gentileza com gentileza. como os próprios modos (trajo.. alegre. sublevação. Na linguagem corrente. onzeneiro (ou onze- nário). destro. sendo expediência a “qualidade de ser expedito”. Louçania é. agilidade. – Re- . etc. usurário. por meio de atos tendentes a subvertê-la. garbo) de parecer loução. Algo significava haveres. a agitação é geralmente a precursora de qualquer das comoções designadas pelas outras palavras deste grupo”. expediência. além de ágil. para designar “leviandade.. destreza. “é o movimento anormal do povo quando os espíritos sobressaltados planeiam ou tramam contra os dirigentes. – Agilidade é “facilidade. segundo ostentava o antigo fidalgo”. diz Bruns. a resistência à autoridade opressora: exprime tanto como levantar contra. revolta. alegre. no falar. choque. como usurário.) “é termo corruto de filho d’algo (do castelhano hidalgo. rebelião. conflagração. convulsão. festivo”. ufano. fino. comoção. esquisito e engalanado”. “agiota. muito veloz” – do que propriamente ágil. é discreto e gracioso”. Pretende-se que esta subtil distinção se sente nestas frases: “Recebeu-me muito afável e cavalheiroso”. Bem se vê: a guapice só se encontra em moços. do prestamista que empresta dinheiro com usura abusiva”. abalo. leve. – Fidalgo (é ainda de Roq. pronunciamento. Com todas estas partes servia-se a pátria e adquiria-se a fidalguia”. e cavalheiresco enuncia – “próprio do cavaleiro. é “o que é no trato parecido com os antigos fidalgos. educação e qualidades nobres. para auferir ganhos. pois a destreza é “uma agilidade acompanhada ou servida de astúcia e arte”. tanto a qualidade de ser loução.. to. “Teve comigo um gesto cavalheiresco”.. – Ligeiro diz levantamento. – Guapo é “o que se mostra lépido. portanto. o que tem maneiras gentis e sentimentos cavalheirescos”. enfeites. – Garrido exprime – “vivo. rapidez. desembaraço natural no mover-se”. no sentido que lhe damos aqui. “delicado no trato. volubilidade” e principalmente “habilidade em escamotear”. na verdadeira acepção da palavra. 209 AGITAÇÃO. – Lépido. isto é. designa aquele que trafica em fundos públicos. ou da baixa de preço que estes sofrem. além de significar qualidade do que é ligeiro. 208 AGIOTA. 207 ÁGIL. valendo-se da alta. ágil tanto pode ser o homem como o simples animal. motim. agiota se diz. tanto o ato como a qualidade do que é cavalheiro (se bem que para exprimir a qualidade poderia usar-se de cavalheirice). ligeireza. – Onzeneiro (ou onzenário) é o usurário que exige usura requintada e faz questão de lucros descomunais. cataclismo. arruaça. – Destro só se aplica ao homem. sedição.

ou a guarnição de um presídio que se levanta contra o respetivo comandante (e sim – que está em revolta): como não diremos que está em revolta toda a população de um dos Estados da República. revolta é a guerra formal. a revolta é o duelo. a luta contra a autoridade. revolta. é a revolução em suma.. que se decidiu em favor do revoltoso.. – O levantamento é. rápida e tremenda. passageira”. se comunica rapidamente a todos os membros de um corpo.. A arruaça é o motim da mais ínfima ralé. A consequência da sublevação é a guerra civil. o estado das coisas. – Sublevação é mais extenso que levantamento: designa “o fato de insurgir-se em massa uma população inteira”. uma oposição ou resistência à autoridade. tratando-se de política. tendo chegado a depor autoridades. ou contra a autoridade constituída. Assim. ou por uma vasta província. O motim tende mais a perturbar a ordem que a combater a autoridade. ou pelo menos é aquele cujas consequências são de menor importância. Não diremos. perturba a ordem estabelecida. ou tomar disposições que não soubera justificar de outro modo. e se esta não for sufocada. segundo for a sua importância. e a revolta produz a revolução. virá a mudança da sua política – outra ordem de coisas – a revolução.. e antes achar-se de ânimo firme e resoluto em combatê-la. a revolta tem sempre alguma coisa de violento e terrível. indignado contra seus opressores. – Na linguagem comum. e revolução indica o triunfo da revolta. porém mais violenta. Rebelião é a declaração de guerra. semelhante ao tremor. ou em insurreição. – A insurreição. inspirada por alguns. – Comoção é quase o mesmo que convulsão: apenas não sugere tão necessariamente a ideia de violência e transtorno que se envolve em convulsão. pronunciamiento) “é termo puramente espanhol com que se designam as frequentes insubordinações dos chefes militares de Espanha. generalizada por todo um país. está em revolta ou revoltado”. – O motim é o menor dos movimentos contra a ordem normal.. de uma assembleia. segundo Bruns. – Conflagração é “convulsão . A rebelião não é algumas vezes senão uma simples desobediência. em revolução. ou do mesmo povo. que está em revolução a força que guarda um posto. – Choque diz “comoção instantânea. e a gravidade do que o origina.. Da rebelião passa-se à revolta. e a revolução é a vitória. Pronunciamento (ou melhor. Às vezes a simples rebelião de uma alta personagem motiva a revolta de um reino.. por exemplo. e que publicamente declara não reconhecer por legítima. um particular está em rebelião “quando se opõe aos decretos do poder público. e muitas vezes por pertinácia e falta de reflexão”. uma agitação tumultuosa e de curta duração. É de ordinário uma fermentação momentânea de algum bando do povo. – A sedição é um espírito geral de perturbação. que.. e a subverter toda a ordem política. revolução é apenas uma revolta mais extensa. à crispação produzida por uma impressão forte”. “o resultado imediato da agitação: degenera em revolta. “é o estado em que se acha um povo depois que se levantou e se armou para combater a autoridade a que estava sujeito. e quando um povo. – Rebelião designa a ação das pessoas. causada por descontentamento. A rebelião é ato de arremessar a luva. e é geralmente promovida pelo próprio governo quando lhe convém fazer alardes de força.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 145 volução é a mudança da ordem estabelecida. por uma série de atentados. uma revolução talvez menos formal e extensa. e revolução é a coroa de loiros para o vencedor. no entanto. O motim é um levantamento de pouca importância. de oposição. – Abalo é “o movimento contra a ordem. diz Roq.” – Convulsão é. mesmo sem certeza de que se consumem as mudanças operadas (e sim diremos – que está em revolução).

só se debatem questões de grande importância. vasta. e procurando vencê-lo. ou agitando-a. cuidar de alguma coisa para resolvê-la”. nem por isso o discute propriamente: apenas o faz lembrado e o põe à vista de outros ou do público. pondo-o em dúvida. – Controverte-se um assunto. oferecendo opinião sobre ele. discreto. grave na compostura”. Pode dizer-se. indicar. sério. um problema. uma opinião. além da sisudez. discutir. Em regra. chama sobre ele a atenção geral. isto é. defende uma opinião. tratar. que tem juízo. tem sido muito ajuizado em toda esta questão” – decerto que não caberia com lídima propriedade o adjetivo sensato. tem a calma. à conduta da pessoa a quem se o aplica. exalta-se mais. Sisudo acrescenta a assisado a ideia de “discreto. – Ajuizado diz propriamente – “que tem juízo”. pondo-lhe os termos muito precisos. – Quem agita uma questão. Assisado e sisudo também se confundem. – Discutir é “examinar todos os termos de uma questão. – Sensato. e procura impô-la a outrem. do “que tem uma compreensão exata das coisas. – Debater é ventilar e discutir esforçadamente. no entanto. mas procura desembaraçá-la. pois este designa qualidade. ou sugere a ideia da compostura que mantém essa pessoa num dado momento. avisado. isto é. na acepção que tem aqui. um princípio. cordato. prudência. “é uma conflagração que transtorna toda a ordem política de um país”. dando-o por ainda não liquidado. porém. judicioso. sisudo. muitas vezes até sem dela fazer mesmo a apologia. de uma questão. ou discutindo-a formalmente e debatendo-a. a serenidade e moderação do que é sábio. uma perfeita inteligência da . assisado. que tem uma justa medida das coisas”.146 Rocha Pombo tão violenta. disputar. Assisado quer dizer – “que tem siso”. faz isso – ou apresentando-a apenas em seus termos gerais. bom senso. – Cataclismo. uma ideia. ponderado. Quem discute sustenta sempre um modo de ver. – Ventilar e aventar exprimem um pouco mais do que simplesmente agitar: quem ventila ou aventa um caso. 211 AJUIZADO. ou a respeito de alguma coisa. e mostra interesse em que se trate de discuti-lo e resolvê-lo. ou graceja e zomba do que argumenta ou discute”. controverter. fazê-la simples e líquida. tomando-lhe em suma os termos gerais. geral como se fosse um incêndio”. grave. Aventar tem mais de expor. decerto que a não discute propriamente. clara e nítida. circunspeto. isto é. e sujeitando-o a disputa ou a debate. e o outro designa mais estado que qualidade. nem a debate tampouco. aventar. prudente. ou mesmo de estudar. quase que não faz mais do que apresentá-la à atenção de outros. sá- bio. e significa – “dar atenção. encontrando-se com adversário. nas quais têm muito interesse os que as debatem: tais como os casos políticos e os judiciários de alta monta. Quem trata de um assunto. 210 AGITAR. lembrar. analisar todos os aspetos de um caso”. sensato. tino. mas este refere-se mais particularmente ao estado. Quem aventa uma hipótese. Disputar é “uma forma de discutir e debater: o que disputa. – Tratar é o mais genérico do grupo. Nesta frase: “F. com vivo empenho. Entre aventar e ventilar não se notaria grande diferença fundamental. “que sabe julgar direito. Sensato confunde-se com ajuizado. assisado e sisudo são vocábulos que coincidem no mesmo radical sensus. – Prudente é a pessoa que. que em ventilar se sente já alguma coisa de intuito dialético: ventila-se um assunto estudando-lhe ligeiramente as proporções. ventilar. deba- ter. quase propor – do que propriamente de discutir. uma questão.

– Discreto é “o que se mostra atento nas palavras. . – Judicioso exprime – “que julga com bom juízo. é uma ala. no cumprimento dos seus deveres. conquanto exprimam ambos a continuidade ou sequência de coisas ou pessoas numa certa direção. enquanto que na série as coisas. de equilíbrio moral”. “é a série de pessoas ou de coisas postas umas atrás das outras.. Dizemos: “Ele marchou com gravidade para a forca”. – Ponderado é “o que nada faz sem refletir muito. como até ordinariamente obedecem a critério de classificação. “Ele foi sempre um homem sério” (isto é – “sempre foi probo e digno”). “O caso é muito grave”: nas quais se sente como grave diz muito mais do que sério. – Fila. aqui. série. – Cordato (de cor. – Linha e série não se confundem. Ainda podemos deixar. enquanto que gravidade é mais modo de ser exterior do que propriamente virtude. apercebido do que convém. que se mostra sagaz. medindo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 147 vida. e sem pesar os atos”. não só se sucedem numa certa ordem. um tino seguro para precaver-se dos males e perigos”. sincero e direito nos seus tratos. revelando ou afetando grande segurança de reflexão. Conforme a definição de Bruns. Aplicado a coisas ou fatos é que o vocábulo grave é mais forte que sério. A gravidade é própria dos homens velhos. cordis. que raciocina com acerto”. voltadas de frente uma para outra. que se satisfaz ou se concilia com o que é razoável”. dando provas de juízo e atilamento”. sem apreciar maduramente as coisas. que chega sempre à boa razão. acentuando muito as palavras”). – Fileira é propriamente uma série de filas. é um homem em cuja probidade se pode ter plena confiança. pois na linha as coisas podem estar sem regra de sucessividade. renque. mais uma qualidade moral do que modo de ser exterior. segundo Bruns. nem – “ostenta porte sério). fileira. nem sempre assim. “Ele foi sempre um homem grave” (quer dizer – “de maneiras lentas que o fazem parecer severo”). de tudo que se lhe passa em torno”. das suas condições. Quando se diz que F. A seriedade é. fila. – Avisado é “o que procede com acerto. entre seriedade e gravidade: “Ele falou sério” (isto é – “disse o que sente”). cauteloso. “O caso é muito sério”. na inteireza de caráter do que na simples compostura que se mostra ou afeta às vezes calculadamente. como nestas frases: “Trata-se de negócio sério”. “é a série de pessoas ou de coisas postas uma ao lado da outra com a frente voltada para o mesmo lado”. – Renque é “uma série de coisas ou de pessoas postas em linha”.. fechado e sereno. 212 ALA. aprumado no agir e no falar. “Trata-se de negócio grave”. bem clara a distinção entre grave e sério. conveniente nas ações. Seriedade é uma virtude que consiste mais na lisura de consciência. pelo menos. é um homem sério afirma-se que F. Ele falou grave (isto é – “pesadamente. tendo a frente voltada para o mesmo lado”. portanto. porque se sabe que tem sido sempre correto.. reservado. que parecem sentir o peso dos anos. não saindo nunca da linha normal no modo de portar-se”. na retidão de conduta. no seu grupo 493. – Circunspeto significa propriamente – “comedido. linha. não é a mesma seriedade de que trata Roq. que na acepção que tem aqui. “Ela tem o porte grave das matronas” (e não – “marchou com seriedade”. – Grave é “o que tem aspeto nobre. como se nunca estivesse desapercebido do seu posto. altivo e severo. nos seguintes exemplos. – Não assim. modesto. – Cada uma das duas longas filas que. estão separadas por um espaço.. liso. quanto à seriedade. sabendo bem discernir as coisas. “coração”) é o homem “prudente.

A vanglória é “uma ideia falsa ou exagerada que faz alguém de si próprio”. que alardeia méritos que não possui. por alguma honra. jactar-se. pelo menos. tanto se pode dizer daquilo que se possui. Mas só desvanecer-se de ser belo. ou de ter dançado uma valsa com mestria e elegância. que blasona de façanhas que nunca praticou. fanfarronada. de prosápia. Só se ostenta o que realmente se mostra. etc. fanfarrear. é “uma exaltação do amor-próprio que nos leva a ter um orgulho exagerado daquilo que se nos diz ou faz. intimar (intimação).. Gautier – o capitão Fracasso. Conforme o complemento da sua predicação. Assim de alardear. de valente. fanfarrear (fanfarrice. Blasonar (de qualquer coisa que seja) é sempre. Alardear. mas decerto que ninguém se lembrará de fazer ostentação de gênio. fortuna ou triunfo”. fanfarronice. tanto de todos os do grupo. A ufania é um como contentamento desvanecido. Fanfarronada (ou fanfúrria) é “a prosa do . é usado com um completivo: blasona-se de nobre.. O desvanecimento. e dá-lhe por isso uma importância que ela não tem. ostentar. ostentação) aquilo que se tem ou se supõe ter. como do que se não possui. vitórias com que apenas tem sonhado. ufanar-se (ufania). ou é invisível. fanfúrria). bazofiar. ostentações charras e ridículas que só se admitem naquele tipo de Th. aqui. Quem é que se não ufana da justiça que se lhe fez. ostentar (ostenta- ção). de piedade. os feitos. Ufana-se o artista da sua obra quando sente que ela lhe deu uma grande expressão da própria alma. ou de honras. uma alegria orgulhosa que se sente por haver alcançado alguma vitória. é que este verbo desvanecer-se envolve ideia que o aproxima dos demais deste grupo. – isso é outra coisa. num caso em que dessa justiça lhe pendia o crédito? Só quem pode não ufanar-se nunca de coisa alguma. mais de rigor do que o outro. de valentia. desvanecer-se (desvanecimento). vangloriar-se (vanglória). ou de magnanimidade. Agora. ufanar-se de haver ganho uma partida de bilhar. ou da honra que se nos faz – é coisa que se diz sem descaída moral. Mesmo desvanecer-nos da benevolência que se tem conosco. – Alardear e ostentar distinguem-se. Quem se vangloria de alguma coisa presume demais do que essa coisa vale. Só fanfarreia o boborio que berra e bufa de valente e corre de uma criança. entre todos os do grupo. – Desvanecer-se é “sentir vaidade por algum mérito. com ênfase. etc. vangloriar-se. – Fanfarrear é. nem alarde: é mais “um quase desvanecimento e alegria em que se fica de haver alcançado alguma coisa cujo valor se exagera”. gabar-se. ou que é material. por mais que signifiquem ambos “proclamar com aparato e desvanecimento (alarde. Fanfarrice é a qualidade de fanfarrão. A jactância não é propriamente ostentação. outro tanto se deve dizer de ufanar-se. – Jactar-se é dizer publicamente. – Vangloriar-se aproxima-se do precedente. – Bazofiar é “fazer ostentação ridícula ou escandalosa de grandeza.. posições que nunca ocupou. orgulhar-se ou orgulhecer-se. ou que pode ser visto por todos. Qualquer pode fazer ostentação de riqueza. porém. as qualidades.148 Rocha Pombo 213 ALARDEAR (alarde). ou de coisas fúteis e vãs é que é ridículo. Desvanecer-se da amizade de um homem digno é perfeitamente legítimo. bazofiar (bazófia). ou que é material. – Blasonar é quase o mesmo que bazofiar: apenas blasonar. – Sob este aspeto. Ninguém ostentará méritos que nunca teve. A bazófia é coisa semelhante ao que vulgarmente se chama prosa ou intimação. o que melhor acentua a ideia de todos alardes.. jactar-se (jactância). impróprio de um homem sério. Pode-se fazer alarde de rico (alardear fortuna ou cabedais) e fazer alarde de honradez. etc. blasonar. os próprios méritos. de tino. ou que se nos atribui”. de força. como entre si.

Neste sentido. – Tumulto é “grande comoção e alarido. – Rumor é mais “eco de vozeria. e até de dores violentas. que os moiros levantavam em qualquer acometimento ou conflito de guerra. contendem ou bulham. fazer crescer proporcionalmente”. celeuma. o sujeito que trata os outros com arrogância. – Algazarra é adaptação do árabe: era “vozeria. é “a confusão. as forças que empregam na manobra. – Bramido é “clamor de cólera.. ampliar.). que fazem mais bramar que gemer”. e compassarem com as vozes. segundo a origem grega. – Alvoroço é “manifestação estrondosa de alegria. é “conjunto de vozes desordenadas formando ‘coro de arruídos’”. – Berreiro é “grito ou gritaria monótona. – Sussurro é palavra onomatopaica desig- . tumulto. etc. – Ampliar é “tornar maior alguma coisa em todas as suas partes. de importante”. os motins destacados de uma comoção ou revolta”. borborinho. gritaria. – Celeuma. designa certo canto ou cantilena cadenciosa que os marujos e outros operários entoam quando trabalham para se animarem mutuamente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 149 fanfarrão. turba. Amplia-se um jardim. ou no trabalho. na acepção com que figura neste grupo. Intima. grito ou alarido”. conquanto menos usada. as palavras. Por extensão. em qualquer dimensão. José de Lacerda – “conforme a origem árabe. com ares de quem sempre está mandando (intimação). os atos do fanfarrão”. Só se orgulha de alguma coisa quem sente uma importância exagerada que dessa coisa lhe vem. dilatam-se alguns corpos sob a ação do calor. ameaçando”. designa a vozeria dos que se travam de razões. mais extenso. a desordem. rusga que barulho.. ser o primeiro a falar nos próprios méritos”. dilatar. como o berro de alguns animais”. ou de ódio”. – Orgulhar-se é mais que desvanecer-se. e também as vozes lastimosas dos que pranteiam. arruído. Por extensão. – Barulho é termo vulgar que corresponde a tumulto: é apenas um tumulto menos grave. algazarra. barulho. ou mais longo”. etc. dá-se o nome de celeuma à vozeria. tornar mais largo. de fazer fanfarronadas. Incorporamo-lo para designar a desordem e confusão de vozes no meio das quais nada se discerne. ou se amesquinham. berreiro. de entusiasmo. murmúrio. de arruído que propriamente essas coisas”. repercussão de desordem. e só figuradamente é que se emprega por ampliar. Alarga-se um caminho. – Arruído é quase tumulto. – Intimar exprime. bramido. uma rua: em geral. sussurro. Fanfarronice é “o modo de ser fanfarrão. 214 ALARGAR. em todas as dimensões. quando se diz. – Gritaria designa multidão de gritos. a forma orgulhecer-se. tudo que tem comprimento e largura. protestando. 215 ALARIDO. mais arrelia. bulha.” (Aul. a ideia de “blasonar de poderoso. gritaria. dilata-se um orifício. sig- nifica o clamor que se levanta ao travar-se a peleja. rumor. aqui. ou vozes em confusão e descompassadas. – Vozeria diz propriamente “multidão confusa de vozes”. – Alargar diz propriamente “fazer mais largo”. – Clamor é “como gritaria grave e aflita. – Bulha será um barulho insignificante. dilatam-se as narinas para aspirar o perfume. de ameaça. desordem estrondosa”. murmurinho. vo- zeria. de menores proporções. – Alarido – diz d. pedindo. abrir. – Gabar-se não é mais do que “elogiar-se a si mesmo. Dilatam-se as pupilas à medida que a luz ambiente diminui. uma praça. uma bola de borracha que se enche de ar. os gestos. alvoroço. por exemplo: “Vamos alargar o nosso campo de ação”. parece que é mais expressiva e até mais própria. – Turba. – Dilatar é também “fazer maior. clamor.

rebate. é o ato de dirigir-se alguém a outrem. O susto diferençase ainda do medo em levar-nos este a fugir da coisa que nos amedronta. o alarme. reclamo. O medo distingue-se do temor em ser este um produto da razão e até certo ponto da vontade. – Alarme. A causa do medo é determinada. real ou suposta. O rebate sempre encerra a ideia de defensa. de tambores com que se convoca o povo (ou uma guarnição militar) para defender-se quando sobrevém um perigo. Emprega-se esta palavra com muita propriedade quando nos referimos à previsão de acontecimentos muito desagradáveis. – Terror é um termo que mais se refere à causa do sentimento . Particularmente. tendo a mesma significação. – Clamor. e que nos induz a evitar aquilo que julgamos nos há de ser nocivo. quanto tempo nos separa ainda deles. do que pela propriedade de resumir a ideia dos outros seis do grupo. – Medo é termo genérico. como se o objeto do reclamo fosse fundado sempre em direito”.150 Rocha Pombo nando “rumor menos perceptível e mais confuso”. medo. chamamento. – Rebate é o toque de sinos. – Alarme – escreve Bruns. – diz-se do grito ou gritos que se soltam para anunciar um perigo. e não medo de Deus. este para repentina e inconscientemente. porém. O medo é mais ou menos prolongado. – Reclamo é “apelo instante e formal. ou de um mal que certos indícios nos levam a julgar não só possível mas até provável. e mais pelo extenso uso que se faz desta palavra. O temor é o estado do espírito que se perturba pela apreensão de um perigo.” – Chamamento designa a “ação de chamar com esforço. – Segundo Bruns. e não temor. é a confusão e gritaria que se manifesta num acampamento ou praça de guerra à aproximação. aqui. enquanto que aquele é um sentimento irresistível e espontâneo que nos assalta sem querermos. – Susto é uma espécie de medo que nos deixa como suspenso durante os primeiros instantes. a de defensa. enquanto que o susto nos deixa como suspenso: quando o susto assalta o homem. receio. o medo é um sobressalto violento e repentino que nos leva ao temor. Por isso se diz que temos o temor de Deus. ignorando. – Murmúrio é “leve sussurro como de água corrente. como um recurso de aflição.. que temos medo dos cães danados. assusta-nos o que não podemos definir.” – Apelo é “pedido de socorro. emprega-se este vocábulo para designar a perturbação que causa a ameaça. assombramento. porém. sussurro de multidão falando a um tempo e mal contido”. ou talvez desfiguração de murmurinho. ou de desejo ansioso em causa dependente de amparo. – Borborinho é também voz onomatopaica. cuja ocorrência temos por certa e próxima. assombro. a do susto não o é geralmente. susto. ou de viração em arvoredo”. clamor. ou a de instigar à fuga. – Murmurinho é como “vozeria abafada. no sentido próprio da palavra. do inimigo. Figuradamente. é o toque de clarim ou de tambor com que se reúnem os soldados. o susto dura pouco. Causa medo aquilo que vemos. e como termo de técnica militar. 216 ALARME. apelo. – Chamada é propriamente “a voz ou sinal com que se avisa ou com que se chama atenção e se convoca. a suspeita de algum perigo. é “chamamento com desespero. terror. pavor. sobressalto. espanto. ou com indignação”. pânico. 217 ALARME. chamada. temor. “a ideia comum aos sete primeiros vocábulos deste grupo é a do sentimento ou sensação penosa que nos assalta quando um perigo sobrevém”. e que conservamos contra nossa vontade. clamando. de testemunho ou de juízo da pessoa para quem se apela”.

ou o grande terror que se apodera de alguém à vista de um caso espantoso. hotel. mediante um pagamento convencionado que também se chama pensão. é o espanto que nos domina. tanto a cama como a mesa. “fazer tremer”) aplica-se aos perigos ou males que julgamos irresistíveis. mas sobressalto sugere ideia da inquietação em que se fica. pensão. e contra os quais é inútil qualquer luta. estala- gem. albergue. – Pousada é termo castelhano que se diz por estalagem. Foi o terror dos franceses que ocasionou a grande hecatombe da ponte de barcas do Porto. tem uma acepção especial para designar o estado de terror em que fica uma pessoa surpreendida de alguma coisa ou de algum fenômeno misterioso. morando fora o pensionista. Essa peste espalha o terror por toda parte. reina o alarme. ou o terror infundado que assalta a muitas pessoas. Certos estabelecimentos de caridade ainda hoje têm albergarias destinadas ao mesmo fim. quer seja pagando. Terror (do latim terrere. que imobiliza e como que maravilha. e se qualquer incômodo sobrevém que pareça sintoma dessa peste. é. em regra casa de família. Confunde-se com susto. – Estalagem é casa onde se recebem passageiros que não pretendem grandes comodidades. Na cidade em cujos contornos a peste faz muitas vítimas. pousada. Propriamente só se diz neste último sentido. para exprimir. Difere da casa de cômodos em dar esta ordinariamente só a dormida. – Pavor é “um medo incoercível.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 151 que ao próprio sentimento. – Guarida é o local onde se encontra abrigo contra a intempérie ou contra a perseguição. frequente dizer-se indiferentemente – o pânico. – Albergaria – escreve Bruns. guarida. – Assombro é grande espanto. – Albergue é propriamente a casa onde se hospeda aquele que está fora da sua terra. principalmente no Alentejo e no Algarves. o temor de sermos assaltados dessa peste nos leva a evitar a comunicação com as pessoas provenientes das localidades empestadas. ou impelir-nos a uma fuga insensata como o medo. se a hospedaria reúne certas condições de comodidade. O espanto pode deixar-nos paralisados como o susto. hospedaria. A suposta existência de uma terrível peste espalha um pânico geral”. 218 ALBERGARIA. – Hospedaria é casa onde se recebem hóspedes de cama e mesa. designando a casa. e até em só fornecer as refeições. e se ela sobrevém inesperadamente. colhe-nos o susto. – Espanto é uma forte impressão causada por alguma coisa que sobrevém inesperada e repentinamente. que nos impede de agir ou de fazer alguma coisa – do que propriamente temor. – Pânico é propriamente um adjetivo que qualifica o substantivo terror. porém. particularmente os pobres que iam de viagem”. ou que vence todas as energias morais”. pânico. e assombramento. e algum ou muito luxo. ou mal que se suspeita”. – Receio é menos que medo ou que temor: é mais – um estado de dúvida. e aquela. . quer devido à mera hospitalidade. onde se recebem hóspedes. aqui. Significa também a própria coisa ou fenômeno misterioso que assombra. e na qual são principalmente admitidos aqueles que trazem cavalgaduras ou veículos. por isso se diz que os bandidos espalham o terror por onde andam. – Pensão tem aqui um sentido particular. – “era o nome da dependência dos mosteiros destinada a hospedar os transeuntes. é denominada hotel. O medo da peste leva-nos a fugir da cidade. um grande terror que faz desvairar. do cuidado e preocupação que nos causa o mal que nos sobressalta. uma obediência a escrúpulos de qualquer ordem. ou – o terror. – Sobressalto é “a comoção que se sente sob a iminência de algum perigo.

e obtêm-se de iguais. conseguir. meio branco”. – Palácio diz-se de qualquer edifício grandioso. atingir.. de inferiores. e dos governadores ou vice-reis das colônias”. contração de palácio. a ser branca. ou tem protetor de valimento. As balas não chegavam à fortaleza. – Alvacento é a cor fixa que tira para branco. dignidades. da capacidade. tem força para fazer chegar balas a grande distância. “tocar. mas quando lá chegaram tiveram quem os agasalhasse. – Castelo (de castellum. obter. lograr. – Conseguir é o termo de nossa solicitude. – Alcáçar (ou alcácer). Consegue-se o que com diligência e perseverança se busca. é albescente.152 Rocha Pombo 219 ALBESCENTE. Logra uma grande fortuna o que cançar “denota esforço”. pois só impetramos graças de um superior. que fizemos diligência por ela. isto é. e mais restrita a tem ainda impetrar. lê-se em Bruns. palácio. disposto para habitação ou para outro fim. Os homens sóbrios e de bom temperamento gozam ordinariamente de boa saúde. sentir pelo tato”)”. A artilheria moderna alcança a grandes distâncias. porém. – sem relação aos meios empregados para isso. go- pode viver sem demandas nem pretensões. de superiores. alvadio. (Bruns. diminutivo de castrum. tocar. alcançar diz-se da possibilidade. entre branco e cinzento”. ou se pretende. pretendendo-as e solicitando-as com rogos e súplicas”. – Gozar é ter. Os náufragos alcançaram a praia depois de mil perigos. – Tocar (da mesma origem de atingir) ex- . – Quanto aos três primeiros. segundo Bruns. o fim a que se dirigem os meios com relação a eles. impetrar. paço. – Alcançar é o termo de nossos rogos. alcançar supõe sempre graça. – “Lograr é propriamente o termo de nosso desejo – diz Roq. útil. só se diz das residências das pessoas reais. pois. – Esbranquiçado significa “um tanto branco. Qualquer superfície que parece ter tido originariamente outra cor. – Alvadio diz-se da cor intermédia. se este viveu mais anos do que ele”. tudo o que nos é honroso. Noutra ordem de ideias. chegar designa o fato. Um homem chega à idade avançada. – Impetrar é alcançar do superior a graça que se havia solicitado. e tende. alvacento. ou que nos é grata. atenções. agradável. da força de efetuar. não alcança. etc. “fortaleza”) corresponde com exatidão a alcáçar (do árabe): era “a antiga habitação do rei. chegar. “era propriamente o palácio afortalezado onde os reis ou governadores faziam residência. Por não poder alcançar um ramo. enfim. – Lograr e conseguir podem supor justiça. – Paço. – Obter é alcançar uma coisa que se pretende ou deseja.. chegar diz-se do próprio fato. porém. Obtêm-se cargos. – Al- zar. defendida de fortificações”.) – Atingir (que também colocam alguns no grupo CCXXI) diz “alcançar ligeiramente. castelo. Vê-se. das dos bispos. Consegue um bom emprego o que solicita com mérito. 222 ALCANÇAR. favores. a de seu pai. ou do grande senhor. 221 ALCANÇAR. Alcança o perdão o que interpõe rogos humildes e pede misericórdia. possuir alguma coisa que nos dá gosto ou prazer sem indicar que a buscamos. temos de subir a um banco para lhe chegar com a mão. como se chegasse apenas a tocar de leve a coisa alcançada (ad + tangere. 220 ALCÁCER (ou ALCÁÇAR). esbran- quiçado. ou que a ela tínhamos direito. que este vocábulo tem significação menos genérica que o precedente (obter).: “Albescente diz-se daquilo que se está tornando branco. Em poesia diz-se dos atuais paços dos monarcas.

fazer subir”. escarpa. se este é da categoria das chamadas pessoas decentes”. como os olhos. de ladrões. ou quase a pique. passa a ser desfalque. a base do alcantil mergulha no mar. desfalque. precipício. – Multidão quer dizer “grande número”. quadrilha. de lídima propriedade dizer que se viu – “um bando parado”. talvez endireitando. deste em não sugerir com a mesma força a ideia de atividade. chusma. de assassinos. rancho. e ao perigo a que se expõem os que transitam próximo da sua beira. ou ao alto. a voz. magote. e tendo a base regada ou não de corrente”. fraga. – Riba e ribança confundem-se com ribanceira: este é apenas uma extensão daqueles. – “O úl- Alcance é. diferençando-se. legião. não com relação ao pendor. itaimbé. de panteras. etc. levantar. de . em montanha. – Precipício é termo geral que indica “todo acidente perigoso onde se pode cair”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 153 prime a mesma ideia. aventurosa. erguer. – Bruns. – Bando. 225 ALÇAR. como um edifício. nas contas que alguém é obrigado a prestar. escarpa. ou “um bando de estudantes na aula”. – Escarpa é “rochedo alcan- turba. que na linguagem vulgar só se aplica a aves. ou desde baixo. tirar para cima. em ordem eminente. ou é banhada por alguma corrente impetuosa. Exprime ele a ideia de “pôr em alto. – tilado. grota. 224 ALCANTIL. pedra escarpada que propriamente escarpa. – Segundo Bruns. – Grota é aberta. e sugere ideia de vida errante. despenhadeiro. turma. batiza-se atualmente sob o nome de irregularidade. grupo. as mãos. As fragas tornam a ascensão difícil. – Erguer é levantar pondo em pé. ou mesmo de algum particular. Um bando de estudantes só se vê na rua. enxame. sem mais ideia alguma acessória: multidão de pessoas. a diferença entre a quantia que entrega e a que devia entregar. – Alcateia é um coletivo que se emprega para designar “multidão de animais ferozes”. ou uma coisa acima da sua posição ordinária. improbidade e dolo. ou “na escola”. designa multidão. não tanto como o do alcantil. – Ribanceira considera a vertente como tendo pendor considerável. etc. – é o gênero em que entram os outros como espécies”. vista de frente. – Despenhadeiro é a vertente ou precipício considerado. – Elevar é “pôr em lugar alto. ou a caminho do colégio. bando. ribança. no entanto. etc. Figuradamente aplica-se a indivíduos da espécie humana aos quais se ligue alguma ideia que os ponha em relação com aqueles animais: alcateia de bandidos. timo destes vocábulos – diz Roq. 223 ALCANCE. elevar. despenhadeiro. malta. troço. a escarpa é quase sempre de acesso impossível sem ajuda de arte. – Alçar é levantar o que está caído. – Fraga é mais aspereza de serra. súcia.” 226 ALCATEIA. matula. mas relativamente à profundidade a que está a base. Não seria. de alguma corporação. horda. riba. Quase que destes dois se pode dizer o que se diz de alcançar e chegar. troça. mais ou menos larga e profunda. irregularidade. caterva. por isso. fazendo crescer para cima. matilha. a fim de não ofender a honra do ladrão. acrescenta irregularidade e escreve: “Quando o desfalque é cometido nos dinheiros do Estado. alcateia de lobos. corja. etc. de livros. e por onde quase sempre corre água. – Itaimbé é palavra do tupi designando rochedo a prumo. multidão. ribanceira.: – “Alcantil é a vertente talhada a pique. exaltar a dignidades. além de inépcia ou desmazelo. encosta muito íngreme”. Se o alcance acusa.

tapete. E também. banditismo. – Alfombra é o tapete de maiores ou menores dimensões. pelo menos. e no sentido figurado empregase para designar multidão laboriosa. no entanto: quadrilha de colegiais. que cobre o pavimento ou parte dele. Uma turba de sábios. destempero. tapete. orgia. – “Dos três primeiros vocábulos – diz Bruns. de parcelamento: um magote parece que deixa supor sempre outro ou outros magotes. e fora deste caso. feito de uma só peça. caterva de lobos. – Chusma significa “multidão em alvoroço”. mas agradáveis. e que não porá logo aqui mais de doze legiões de Anjos?” Este coletivo legião. mas sugere ideia de festa. – Horda sugere ideia de selvageria. mas sugerindo ideia de vagabundagem. Súcia. e também de divisão. pois neste coletivo figura o radical agmen = agimen. – Rancho é o mesmo que bando: apenas não sugere. – Quadrilha está nas mesmas condições de turma: designa “um certo número de indivíduos aprestados para a guerra”. tapeçaria. – Turma era “uma divisão tática na milícia romana”: diz. nem um enxame de vagabundos ou de vadios. ou de realizar algum intento. – Troço significa “multidão ou porção. como este. quando reprimiu a ira de Pedro. Dizemos: um rancho de fiéis. 227 ALCATIFA. designa multidão certa. e deixando supor que é multidão fazendo parte de uma série de multidões. podendo estar ou não fixo . mas em pequeno número”. confortável. e sugere também a ideia de que essas pessoas ou essas coisas fazem parte de multidão maior. Neste sentido continuou a usar-se para exprimir o motivo que impele. e está fixo nele. – Troça também diz “multidão”. de cores variegadas. Dizemos: quadrilha de salteadores. ou de aves. ou a causa especial que põe em movimento a legião: “legião patriótica. agir”. corja de vadios. – Alcatifa é o tecido rico. disse a este: – “Cuidas que não posso rogar a meu Pai. legião acadêmica”. ao ser preso. sugere sempre ideia de que se trata de defender uma causa.154 Rocha Pombo ideias. de lobos. nunca se diria. portanto. uma coisa fantástica. – Grupo é “conjunto de coisas ou pessoas reunidas. de gatunos. de facínoras. espesso.ere. coisa semelhante a batalhão. perversidade. de depravamento e banditismo. de missionários (não – um bando). de salteadores. portanto. – Enxame aplica-se mais particularmente tratando-se de abelhas. Não se diria: um enxame de lobos. e até de fereza (sobretudo os três últimos): súcia de malandros. etc. que cobre todo o pavimento de uma habitação. a mais extensa”.. caterva estão nas mesmas condições do precedente: juntam à noção de muitos indivíduos reunidos a ideia de indisciplina. ou malandros. de guerrilheiros por exemplo. legião negra”. toma-se sempre a má parte. de sapos. de bandidos. e parece que encerra ideia de atividade. bom ou mau. em atividade mais ou menos ordenada. de malfeitores. – Legião era entre os romanos um corpo de tropas. Quando Jesus perguntou pelo nome do espírito mau que atormentava o possesso: – “O meu nome é legião” – respondeu o espírito. alfombra. a mais exata. em tumulto”. – Malta designa também multidão. ou “legião da morte. de gente sem ordem”. desregramento: horda de bárbaros.. de estrelas. ou mesmo de coisas”. alfombra. E até sem cláusula é usado para designar “multidão de cães de caça”. de peregrinos. matula de desordeiros. pândega. de crianças. – Magote é semelhante a grupo e a turma: significa “porção de pessoas. isto é. corja. matula. “obrar. ou mesmo de velhos – seria. de intuito escuso. – é alcatifa que tem significação mais nobre. companhia. – Matilha é também coletivo de cláusula restrita: matilha de cães. ideia de aventura. – Turba significa “multidão desordenada. de ago.

coelho. a sua significação particular. tem a significação especial de pano de armação. sobrenome das pessoas segundo a diferença das famílias. sentina. assim como os nomes de animais. – Estes quatro vocábulos empregam-se indistintamente para designar as casas públicas de prostituição. não se dá tal sinonímia. Há tapetes de escada. sobrenome. – Prostíbulo (do latim prostibula “meretriz das ruas”) é o lupanar considerado como sentina onde as infelizes se degradam. – Antonomásia confunde-se com cognome e com alcunha. onde o vício ostenta as suas torpezas”. cada um deles tem. alcunhas de leais. e em termos forenses. e que se junta ao nome de alguém para torná-lo mais preciso. muito usada no tempos gloriosos de nossas guerras. mas diferença-se destes em não ser próprio e expresso.. por honra e mercê. de sala. – Prenome é propriamente o nome que precede ao nome de família e que é. A maior parte das casas que nas cidades se intitulam hotéis para pernoitar são alcoices. e João da Costa é o nome do indivíduo. Em João da Costa. – Tapete é termo genérico. mas apenas alusivo do indivíduo a quem se aplica: vale mais por um epíteto que designa o indivíduo sem nomeá-lo. etc. porque alcunha só significa apelido injurioso. por exemplo. alcatifas etc. nobres. apelido. notáveis. com que se designa um conjunto de tapetes. que tanto designa o estofo da alfombra ou da alcatifa como esses próprios objetos. aves. sardinha.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 155 no chão. – Citar é referir textos e autoridades . 230 ALEGAR. além de ser um termo coletivo... nome. peixes. e a segunda. – Lupanar (do latim lupa “meretriz”) é a casa onde residem meretrizes. – Apodo é quase o mesmo que alcunha. – Cognome é o designativo de alguma qualidade notável ou característica. etc. do que propriamente por um nome. pega. e o menos usado dos deste grupo: designa a casa de prostituição considerando-a sob o ponto de vista das orgias que nela se fazem”. e que acaba com ela. citar. “Os panos de Arrás são tapeçarias de muito valor artístico”. palavra árabe (alconia). de corredor. (Bruns. antonomásia.) – Sentina é o “prostíbulo imundo. João é o prenome. a suas vilas e cidades. 228 ALCOICE. foram apelidos nobres da descendência das famílias. porém. prenome. lupanar. – Nome é a palavra com que se designa ou distingue uma pessoa ou coisa. e quase sempre alusivo a algum defeito da pessoa. e já há muito.. que serve para cobrir as paredes. portuguesa. – Agnome é o epíteto que se adiciona ao cognome para fazer que ressalte alguma virtude ou qualidade própria do indivíduo. no entanto. – Tapeçaria. bordel. mas não é muito usado em português com esta significação. – Bordel é termo francês introduzido na língua. de mesa. Hoje. como perdigão. cognome. sendo que o apelido se transmite e distingue as famílias”. “a primeira. – Sobrenome é o nome que se interpõe entre o nome de batismo e o de família. – Segundo Roq. exemplo. exclusivo do indivíduo. prostíbulo. “alegar é agnome. – Segundo Roq. portanto. apodo. etc. Os reis davam. Costa é o apelido. onde impura a depravação moral. é trazer o advogado leis e razões em defensa do direito de sua causa”. – Alcoice é a casa onde se dão cômodos às parelhas que procuram ter comércio. 229 ALCUNHA. ou autoridade que prova o intento proposto. Emprega-se esta palavra de preferência às outras quando se alude à moralidade dos que frequentam essas casas: frequentador de lupanares. eram sinônimas em significarem o referir a seu favor algum dito..

contente. é alegria. de alegria. e pertence principalmente ao juízo e à reflexão. como está dizendo a palavra. Luiz. ou ledica como diziam os antigos. e até imoderada. satisfeito. ledo. segundo a força do verbo exultar. celebra-se com festas e regozijos.. ledice. pois representando todos um estado agradável no espírito do homem. fazer saber o chamamento do juiz. júbilo. e muito mais pelo regalo com que o tratava. Hoje. celebradas com festas. e só em poesia terá cabimento. formada da partícula reduplicativa re e gozo. ou gozo repetido ou prolongado. buliçosa. aquele supõe igualdade e sossego de ânimo. não assim o contentamento. festivo. conduz à felicidade. Ao contrário. alegra ao público. alegamos. causada. é alegria. tranquilidade de consciência. dizendo que é menos viva. Diríamos que o contentamento é filosófico. muitos há que sem mostrarem alegria gozam de felicidade. a alegria é desigual. – O júbilo é mais animado que a alegria. – Regozijo. exprime cada um deles seu diferente grau ou circunstâncias”. Seria para desejar que o uso lhe desse a significação modificada que lhe atribui D. etc. porque é demonstração exterior. ou é surda a seus gritos. – Alacridade é a . fizesse seu efeito no moiro de Moçambique. etc. como diz o nosso poeta. e em estilo forense é noticiar. Um fausto sucesso. jubiloso. citamos. quiçá louca em seus transportes. que interessa a toda uma nação. quase ufano da vida”. – Ledice. sem parecer alegre. que é afeto interior. Quando o contentamento se manifesta exteriormente nas ações ou nas palavras. Fr. é corrupção da palavra latina lœtitia. O homem alegre nem sempre é feliz. para sustentá-lo. não cabendo no coração. mas a jovialidade só assenta nos moços. de S. já ele estava mui contente pelo acolhimento que lhe fazia o Gama. álacre. temperamento irrequieto.. Pode fingir-se a alegria. danças. vozes.. em memória de faustos acontecimentos. ou pelo gosto que se logra. mais suave. não é a felicidade. porque na embriaguez do espírito se deixa arrastar da força do prazer. e mostra-se por sons. que “o contentamento é uma situação agradável do ânimo. que dá alegria. – Diz Roq. nem a acompanha. ou pelo bem que se possui. uma pessoa estar contente. exultação. que é saltar de gozo. A pessoa jubilosa mostra-se alvoroçada de alegria. porém. pois. jovialidade. ou o que eles dizem. Está exultante a criatura que parece ufana da sua felicidade ou da satisfação que tem. ou pela satisfação de que se goza. nem a ela conduz. Há velhos joviais. não será difícil fixá-la entre outros dos vocábulos deste grupo. e pertence à imaginação.156 Rocha Pombo em prova do que se diz. que. – Fixada a diferença entre alegria e contentamento. Pode. Para defender o réu. e defender-nos. gritos de aclamação. a palavra ledo é desusada. – Exultação é o último grau da alegria. a alegria. exultante. e peso ao nosso dito. alegam-se fatos e razões. citado perante o juiz. mas não lhe achamos autoridade suficiente para a estimar como tal. alacridade. e sempre a acompanha. tranquila e serena que a alegria. 231 ALEGRIA. bailes. contentamento. poética. e eles a usavam em lugar de alegria: em Camões ainda é frequente o adjetivo ledo em lugar de alegre. jovial. satisfação. e quase sempre se aplica às demonstrações públicas de gosto e alegria. alegou o advogado leis e razões tão importantes que por suas alegações conseguiu que ficasse de nenhum efeito a citação. rompe em saltos. Para dar autoridade ao que dizemos. Antes que o ardente licor. e produz contentamento no ânimo dos que foram causa dele. as pessoas. regozi- jo.. – Jovialidade significa “disposição natural para a alegria ruidosa mais inocente. muitas vezes prescinde da consciência. Citam-se os autores. alegre.

– Vigoroso refere-se à manifestação de força.. adiante. é o que iludiu ou procurou iludir a boa-fé dos outros”. pois que traiu abertamente. imediatamente depois”. Emprega-se frequentemente aleivosia por aleive. e não se poderia dizer que foi pérfido. traição. – Aleive é a própria calúnia que se disfarça. “é aquele cuja arca do peito apresenta uma ampla superfície”. o que perpetra calúnia. – Além. calúnia (ca- lunioso. – A deslealdade consiste em faltar com alguém. alento. ferindo ou prejudicando aquele a quem devia lealdade. mas é um pouco mais preciso que além. 234 ALENTADO. à vivacidade que indicam aptidões para praticar atos que necessitam de esforço. potência. aleivosia é a qualidade de ser aleivoso. isto é. infidelidade (infiel). passou para os inimigos sem astúcias com os seus próprios. – A falsidade consiste no modo traiçoeiro. deve notar-se que o segundo tem uma significação especial e precisa que seria bastante para excluí-lo deste grupo se não fosse a ideia fundamental comum que o põe em relação com os demais. – Adiante é também aplicado para designar ordem de situação. – Alentado. e é antônimo de antes. e caluniador. esforçado. falsidade (falso. aqui. traidor). Um homem alentado pode suportar grandes fadigas. propriamente. e particularmente com falso. nas maneiras dissimuladas com que procura alguém enganar a outrem para lograr do enganado alguma coisa. esforço. e confundese. aos nossos sentimentos”. É antônimo de atrás. ou para trás. – Após é de todos os do grupo o mais preciso: diz – “logo depois. perfídia (pérfido). fortaleza (fortidão).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 157 “alegria aberta e serena. 232 ALEIVE. vigoroso. e pode não ser pérfido. praticada com má-fé. portanto. pujante. reforçado. deslealdade (desleal). Quem é vigoroso é capaz de empregar grandes forças. Entre falso e falsá- rio. Entre os dois vocábulos traiçoeiro e traidor há diferença análoga à que notamos entre calunioso e caluniador. segundo Bruns. possança. potente. – Calúnia é “a falsa imputação que se faz a alguém de atos que lhe prejudiquem a honra”. à traição. reforço. o “ato de faltar à fé que se devia”. possante. dos bons princípios morais. posterior a alguma coisa”. pujança. – Depois quer dizer – “em seguida. Mas o traidor é sempre infiel. – Traição é. ao movimento. com perfídia e infidelidade. e sugere ideia de “posto à frente de alguma coisa”. aleivosia (aleivoso). designa situação do que se encontra “depois de alguma outra coisa e em relação ao lugar que ocupamos nós: é antônimo de aquém. aquele que exteriormente revela ter uma respiração fácil e poderosa (alento) que lhe permite fazer grandes esforços. Calabar foi traidor. que é nosso igual ou superior. Falso é o que nos diz aquilo que não sente. 233 ALÉM. – Calunioso é aquilo que envolve calúnia. (traiçoeiro. pois falsário é “o que faltou ao que prometeu solenemente. robusto. forte. a deveres ou compromissos que temos contraído. e essa capacidade .. que dissimula com ares de inocência o golpe que vai descarregar. valente. valentia. discreta e segura”. que nos promete o que não tem tenção de cumprir. depois. falsário). força. também relativamente a nós. caluniador). O homem desleal é o que sai das normas. vigor. etc. robustez.. além da distinção sob o ponto de vista das funções gramaticais. após. – Satisfação é “o estado de alma em que ficamos quando alguma coisa vem corresponder aos nossos desejos. pois a perfídia consiste em “faltar à fé parecendo fiel”.

etc. usada em sentido figurado por escritores de boa nota para designar o poder supremo. trazia uma grande espada à cinta. eficaz”. daquelas grandes virtudes ou daquelas construções maravilhosas”. porque Cícero diz na oração pro Marcello: Gladium vaginâ vacuum in urbe non vidimus – “não vimos na cidade espada desembainhada”. – Esforço é a ação moral ou física de que alguém é capaz. contudo. dizemos fortidão. montante. 6.158 Rocha Pombo manifesta-se exteriormente. 1. “Quando operou aquela possante máquina de guerra. o seu jogo enérgico mostram o vigor latente. que se impõe pelo enorme poder dos músculos” (possança). chanfalho. – Robusto (do latim robur “força”) diz-se da pessoa que no vigor muscular. Quando essa capacidade é atribuída aos animais. Há pessoas magras que são fortes.. que pujante se diz daquele que é capaz de vencer em pugna. pois dizemos também: a força da dinamite. foi Filinto Elysio.. – é palavra italiana e castelhana. Não se sabe ao certo qual era a forma desta arma ofensiva entre os romanos. ou álcool de fortidão maravilhosa”. Com gladios na segunda forma. e designa a arma que se julga corresponder ao gladius dos latinos. etc. no entanto. – Espada – diz Roq. assim como as há muito corpulentas que não são robustas. mesmo quando não as emprega: o movimento dos membros. que vem do latim bárbaro spatha. É reforçado o homem que tem mais desenvolvidos os órgãos de ação física próprios para uma certa função ou esforço: reforçado do peito. e que possante sugere ideia de “opulência de força” e “majestade de aspeto. 235 ALFANJE. – Forte é um termo genérico que exprime o poder de obrar ou de resistir. e espada de folha larga na ponta. mas deve ter-se como provado que se metia em bainha. que potente adita à noção de “poderoso. É preciso notar. como em latim. que se punha à cinta. só se aplica à força exercida pelo homem. portanto. que se deveu a vitória”. pois o vigor manifesta-se na energia dos movimentos.. preferimos dizer força. “A alma potente do justo a nada cede”. Afinal essas distinções não são essenciais. terça- do. sem nenhuma ideia acessória. que significa “espátula”.” “O gladiador estava ainda em toda a sua pujança”. dos braços. sabre. Foi. que. tanto pelo menos quanto à bravura do general. revela força e saúde. ou do antigo castelo. – Fortaleza é “a energia moral. “É à valentia dos soldados. segundo Varrão. – Reforço é “acréscimo de força. Exemplos: “A fé aumenta a fortaleza das almas”. a fortidão do seu gênio.” – Força é “capacidade de ação ou de resistência física”. Este vocábulo. – Possante quer dizer – “que tem grande força. cimitarra. é a qualidade de ser forte”. aumento de vigor”. O homem robusto tem membros atléticos. das pernas. onde diz: Detrás dos Vexillarios vão Hastatos. espada. O indivíduo esforçado é o que tem qualidades para vencer pelo trabalho. que sendo de pequena estatura. E zombando de seu genro Lentulo. – Gládio é a palavra latina gladius. a fortaleza daqueles muros.. na tradução dos Mártires. “Matéria explosiva.. “O leão tem mais força que o burro”. Confunde-se com pujante e potente. e que era longa. gládio. energético.”. quod ad cladem sit inventus). do grego spathe. E se se trata da propriedade correspondente nos inorgânicos. na forma opulenta dos membros. disse: Quis generum meum ad gladium alligavit? – “Quem foi que atou meu genro àquela espada?” O primeiro talvez que usou esta palavra em sentido reto. vem de cladis “matança na guerra” (quasi cladius. movimentos pausados: nisto se distingue sobremaneira daquele que é vigoroso. durindana. “A potência daquele espírito. a ideia de ativo. – Valente é aquele que não teme o perigo e é capaz de enfrentá-lo. tórax amplo. e também um castigo de .

Falando ele dos apóstolos. et alios minores. curta e curva. é mais ou menos extensa.. afinal. senão usando de um circunlóquio extenso e escusado. Miguel de Asnide era tão agigantado que trazia na cinta um montante por espada ordinária (D. II. de S. e assim nos servimos desta palavra. ou das areias da praia. finalmente. de aço fino. Os seguintes lugares de Vieira talvez possam servir de modelo neste caso. 15: Habent. que designa a conclusão. como disse Camões. falando dos habitantes de Moçambique. Depois de enumerar os formosos dotes de Helena. que não corta”. I. definitiva. de um discurso.. – Terçado do castelhano terciado. diz: “Flor enfim da terra. e usada por Fr. que significa. de figura curva. enfim. e por ele se designa uma espada grande. diz: “Como homens alfim levantados do pó da terra. mas é mister distingui-las. depois de se haverem vencido todos os obstáculos. 236 ALFIM. pesada e terrível. Alfim denota que. para zombarmos da valentia dos fanfarrões que se gabam de façanhas inauditas. logramos nosso intento. e também ao conseguimento do objeto que nos propusemos. quos semispathas nominant – em que não poderíamos deixar de empregar os dois vocábulos gladio e espada. e cada ano cortada . falando da peste: “O gladio que feriu o povo”. gladios majores.” (II. e assim dizemos: “Depois de havermos gasto tanto. ao cabo de tantas fadigas. que tem só um gume. – Alfanje é espada mouresca e turca. – “grande espada antiga. irrevogavelmente. quos spathas vocant. – Mais positivo e terminante que as duas expressões anteriores é o advérbio finalmente. de que usam os valentes e denodados cavaleiros em suas lides. Luiz) que se use esta palavra em sentido reto quando aludirmos aos usos bélicos dos romanos. Confundem-na muitos com enfim e com finalmente. De Re Milit. que depois de não poucos esforços de seu Mestre foram elevados a tão alta dignidade. ou de uma enumeração: “Enfim acabou de falar. – Quer o autor dos Sinônimos da língua portuguesa (D. – Cimitarra é “espada pérsica. e de três dedos de largo”. é espada curta e larga. que “alfim é expressão castelhana mas admitida em nossa língua. que se brandia com ambas as mãos para acutilar por alto. pelo que também se lhe dava o nome de espada de ambalas mãos. – Sabre é “espada pequena.. do Couto)” – Chanfalho é termo vulgar. pelo que nos atreveríamos a dizer que é a conclusão das conclusões. deixam alguma coisa que esperar: a terceira. 47).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 159 Deus. Segundo a preposição que se lhe ajunta. e os espanhóis da sua tizona. decisiva ou positiva sua significação. não. pois Camões. – Enfim é um modo translatício. ou o fim dos fins. – Durindana é termo cômico e burlesco. por fim. – Montante – define Aul.. Mui sensato é este parecer.. disse: Por armas têm adargas e terçados. larga... de Souza e por Vieira”. F.. É hoje usada na gendarmeria”. 24). e poética. terminou seu discurso”. L. É palavra muito usada nos clássicos. pelo comum desejada. As duas primeiras não resolvem absolutamente. ou pelo menos mais curta que o terçado. ou que desejávamos. Chama-se fim ao termo material de uma coisa. tivemos alfim a ventura de sair bem em nossa empresa”. como os franceses da sua flamberge. (Lus. ainda mais burlesco do que durin- dana: é “grande espada. por última conclusão. de uma arenga. velha. enferrujada. resta que se adote e se observe: do que duvidamos em tempos em que se vêm postergadas outras mais importantes observações acerca de nossa tão maltratada língua. de uma conversação. Fr. e nomeadamente se houvéramos de traduzir aquele lugar de Vegecio. – Diz Roq.

levou-nos por fim ao parque. es- tes dois advérbios “são atualmente pouco usados na linguagem culta. certos. são: “denominações comuns ao executor da alta justiça nos países onde vigora a pena de morte”. próprio da poesia e do estilo elevado. ou outro qualquer (que faça de algoz contra alguém. – Carnífice diz – “homem sanguinário. cobiçar o que é de outrem é cobiçar o que pertence a determinado indivíduo. Entre alheio e estranho também se nota a seguinte diferença: o alheio não é nosso. que o flagele e martirize como se quisesse tirar-lhe a vida). 240 ALHURES. (Roq. – “Entre com o arado do tempo”. que aquele que fala não conhece bem. para designar o indivíduo que imita contra alguém as funções do sacrifício.. O segundo. verdugo é palavra castelhana que se introduziu na língua portuguesa. sem determinar o lugar. e o primeiro não só pouco usado. – Quanto aos três primeiros. ou que lhe não ocorrem. acolá. – A locução por fim equivale a “finalmente”. 5).” 237 ALGOZ. estranho. (XII.). “em conclusão”. senão já quase desconhecido. – Alhures (pronuncie-se alures) exclui o lugar em que estamos. lá. é menos vago. subentendendo-se que é quase sempre a de morte. a ser sacrílega. carrasco. carnífice. algures. é simplesmente o que executa a sentença. alhures = “noutra parte”. Cobiçar o alheio é cobiçar o que não é nosso. por isso mesmo. dos que martirizam moral e fisicamente”. (III. de outrem não só indica que o objeto não é nosso. carrasco e verdugo. 146). 239 ALHEIO. algoz é esse indivíduo. o estranho não só não é nosso. dizemos afinal. isto é. e por certo merecedores de serem revividos”. além. – Carrasco e verdugo designam o indivíduo que tem o ofício de executor. tanto à vista como no sítio de que se acaba de tratar... senão que ignoramos se tem dono”. da execução religiosa. – Resta-nos dizer que o primeiro do grupo é hoje muito pouco usado: em vez de alfim. No sentido figurado. nem é preciso indicar. diz: “Abrasado finalmente o mundo”. não exclui nenhum. “Depois de nos mostrar toda a casa. que faz. aí. – Alguns “refere-se limitadamente a pessoas ou coisas indeterminadas. – Alheio indica apenas que o objeto não é nosso. diz Bruns. algures = “em algum sítio”. carrasco é termo popular. ou que é capaz de fazer morticínios”.. etc. suficiente não obstante para que em muitos casos as duas expressões não possam empregar-se indistintamente. Não obstante. são muito expressivos. – algures. “Carlos I de Inglaterra foi executado por um algoz mascarado que se prontificou a substituir o carrasco que havia desaparecido”. executor. isto é. – há uma muito leve diferença. – . – Segundo Bruns. e que passou. – Algoz é termo culto. e dá a entender que são conhecidas e que se poderiam nomear se necessário fosse”.160 Rocha Pombo 238 ALGUNS. verdugo. – Ali diz propria- mente – “naquele lugar”.. sacrificador. alheio e de outrem – escreve Bruns. 241 ALI. E começando aquele famoso exórdio do sermão sobre o dia de juízo. e aplica-se hoje com sentido análogo. posto que se refira igualmente a pessoas ou coisas indeterminadas. mas afirma que outrem é seu dono. – Executor substitui a quase todos os outros do grupo. – Sacrificador era o encarregado de sacrificar as vítimas entre quase todos os povos antigos. “Afinal chegou o nosso dia”. “algoz diz-se melhor de quem martiriza moralmente. de outrem. ou da tortura como cerimônia de culto.

A aliança entre soberanos (ou entre Estados) forma-se por via de tratados. – Neste grupo. e não requer as formalidades com que se estipulam as alianças. encravada no solo firme. o banquete nupcial. – Bodas. segundo Roq. pelo qual dá um ao outro poder sobre seu corpo. não impediram a aliança de duas famílias. – Acolá diz – “ali. conseguido este. Duas pessoas de gostos diametralmente opostos formam uma união desgraçada. ou mesmo não visível”. convertem-se em regras de direito público. consórcio. – Aí quer dizer – “nesse lugar”. 243 ALIANÇA. 244 ALICERCE. união. entre homem e mulher. – União é a palavra que mais se relaciona com as conveniências pessoais dos cônjuges. Assim dizemos que a diferença de religião. – Matrimônio. porém menos duradoira. enquanto que a coalizão se faz entre Estados. povos. bodas. que se refere precisamente ao contrato. e sobre a qual assentam os muros de uma constru- . – Alicerce (ou alicerces) é a “parte sólida. com que se soleniza esta festa de família. fundamento. isto é – no lugar em que se encontra a pessoa a quem nos dirigimos. supõe maior formalidade. casamento. Aliança diz-se com respeito às pessoas e às coisas. e tem lugar mediante convenções particulares. pelo contrário a palavra liga toma-se quase sempre em mau sentido. Há homens que contraem alianças que não estão em relação com a nobreza da sua prosápia. etc. – Confederação é “uma união. na parte oposta àquela em que estou. que. maciça de alvenaria. que obrigam as nações que se aliaram”. e refere-se propriamente às solenidades legais. ou entre partidos que. – Coalizão – diz Bruns. José de Lacerda).). noivado. do outro lado de um lugar ou um acidente à vista. peanha. e as condições. e também as bodas que a este se seguem”. isto é – no lugar que não é o em que me encontro eu presentemente e que está distante de mim. (Bruns. nuptiœ.. corporações. cada Estado. embasa- mento. “a palavra aliança refere-se ao que da união é aparente e se relaciona com as convenções sociais. naquele lugar que está à vista. 242 ALIANÇA. liga. nem o que está ocupando a pessoa com quem falo”. refere-se às pessoas. entre reis. base. – “Aliança é a união de vontades e forças para fins determinados. A palavra aliança toma-se indiferentemente. podendo ser boa ou má. núpcias. a desproporção das fortunas. têm interesses ou sustentam princípios diametralmente contrários. com que é estabelecida. A coalizão visa a matrimônio. sem relação necessária às leis religiosas ou civis de cada nação. – Casamento é o vocábulo que exprime a associação do homem e da mulher. ou entre partidos que não têm interesses opostos.. – Núpcias é palavra latina. para realizar-se. comumente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 161 Lá significa – “naquele outro lugar”. É termo genérico do direito das gentes. do castelhano boda. ou à anterior indiferença”. – Além significa – “mais para diante. exprime o contrato. – “é uma espécie de liga momentânea. e dela difere em que a liga se celebra geralmente entre Estados.” (D. mas que não é o que eu ocupo. – Liga é uma semelhante união. coalizão.. pedestal. significa o festim doméstico. porém liga. ao rito e aparato com que costuma celebrar-se o matrimônio. nem produz resultados iguais. em circunstâncias normais. confederação. etc. sem nenhuma outra ideia acessória”. ou cada partido volta ao seu anterior antagonismo. um fim. – Noivado é “expressão vulgar com que se designa a cerimônia religiosa do matrimônio católico.

sobre que se põe estátua ou busto. (J. corromper. – Corromper é. Há uma palavra que parece mais técnica para designar o assento geral. que sustém as colunas. “base. apoio”. assenta-se uma base. “pé”. às vezes movediça. – “Peanha é palavra portuguesa formada de pé e anha.. na maioria dos casos. tinha uma base (Roll. no entanto. ordinariamente de mármore. é termo de arquitetura. lançam-se fundamentos. permutar. de uso tão frequente no sentido figurado. boas palavras e artes”. e tratando-se de edifícios. “de pau”. pois. – Engodar é “atrair com presentes e mimos. 245 ALICIAR.162 Rocha Pombo ção”. apoderar-se da vontade e da ação de alguém para fins criminosos ou indignos”. é coberta de habitações ou de verdura. como um rochedo. pei- tar.). O fundamento é aquilo sobre que assenta a base. enganando com artifícios. escambiar. melhor no plural) é “toda a área de solo. – Subornar é “induzir de qualquer modo. e tratando de um edifício. se não estabelecerdes essa base mesma sobre fundamentos inabaláveis”. trocar. Base emprega-se ordinariamente no singular e falando de um objeto pouco extenso. o embasamento sobre os alicerces. a qual não se inclui. falando-lhe às ambições”. fazendo-lhe promessas. o aparelho de solidez e segurança sobre que repousa um edifício: é o vocábulo embasamento. pelo menos nem sempre. – Alienar exprime a ideia geral que os outros verbos deste grupo especializam: a ideia de desfazer-se . e designa a peça de pedra ou de madeira. “por todos os meios ilícitos e desonestos.. tra- ficar. e indica um corpo sólido. e do teutônico stall. e varia segundo as ordens de arquitetura”. – Pedestal (do francês piédestal. de apoio firme. que alguns querem seja corrução de lignea. seus fundamentos são como suas raízes. “pôr alguém a nosso favor e levá-lo a fazer o que é do nosso interesse”. a máquina de guerra dos antigos. muito mais o corrompido. enquanto que base designa apenas “os pontos por onde começa o edifício a erguer-se do solo”. sensível diferença: embasamento não é mais do que tudo aquilo que acima do solo serve de suporte ao edifício: assenta. Uma montanha é abalada até nos seus fundamentos. de pied. cuja base assenta nos fundamentos do templo” (Volt. que o caracteriza. chamada em francês tortue e que era móvel. aqui. – Base é termo geral. vender. mas não um fundamento ou fundamentos. – Sobre fundamento e base escreve Laf.. soco e cornija. como estes assentam sobre os fundamentos. – Aliciar é “trazer alguém para o nosso partido. a base está acima da terra e se vê: cavam-se. O fundamento está oculto na terra. – Seduzir é “desviar do reto caminho. J. “Não basta que a virtude seja a base de vossa conduta. é que “fundamento encerra a ideia de solidez. na palavra base”. compreendendo a estrutura subterrânea. subornar. poderia confundir-se com alicerce se este não sugerisse a ideia. sobre que assenta uma construção”.: “Fundamento usa-se mais no plural. consta de base. 246 ALIENAR. as estátuas monumentais.). etc. iludindo a boa-fé. – Fundamento (aqui. significando “a parte inferior sobre a qual repousam os corpos”.). Mas o que é decisivo na escolha entre estas duas pa- lavras. “O mago encerrou-me numa estátua colossal. ou como seu pedestal”. seduzir. corrompendo com habilidades e finuras”. no entanto. O ato de corromper envilece tanto o corrompido como o que corrompe.. a que falte alguém com o seu dever”. com ofertas e pagas. e sua base tem tanto de circunferência. cambiar. engodar. ou uma coluna: sua base é seu pedestal. – Peitar é “por meio de paga.. Entre este e fundamento há.

Haverá troca.. monda.. alguma diferença entre permutar e trocar. 248 ALIMPA. Fora do comércio. – A alimpa – diz Bruns. a opinião. de lugar”. Quando os mercadores de um país vão a outro (ou vão entre bárbaros. 247 ALIMENTAR. arrolar. As pessoas caritativas sustentam muitas famílias necessitadas. ou com sacho. e os trocam por outros desse país. da ferrugem e outros parasitas que os cobrem. mas sugerindo ideia da indagação e pesquisa que faz o que inventaria. de cedê-la. Nutre-se o rico de bons manjares. Os poderosos do sé- inventariar. indica a operação de trocar. limpando ao mesmo tempo. principalmente na vinha. alistou-se no partido (e não – relacionou-se. “troca”) distinguem-se assim: escambar. Alimenta-se o pobre com umas sopas. passá-la a outrem. – Sustentar significa prover do necessário para a vida. no entanto. relacionam-se fatos. – Alistar distingue-se dos outros deste grupo em sugerir a ideia de inscrever com certa solenidade a pessoa que se alista. os que ficam. o primeiro verbo sugere melhor a ideia de mutualidade entre os que fazem a transação. e. etc. – Manter diz propriamente – “conservar alguma coisa como está. a atitude. e cambiar é mais propriamente “trocar moeda de um por moeda de outro país”. No sentido figurado. dizemos que foi trocada. etc. sustentar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 163 alguém de alguma coisa. Relacionam-se os objetos que vão para o depósito. em geral. e nutre-se com as verdades da filosofia. por exemplo) levar artigos de comércio. – Nutrir explica esta mesma necessidade satisfeita em proveito do indivíduo pelos bons resultados da digestão. catalogar. nem – arrolou-se). dizemos que a lenha alimenta o fogo. culo sustentaram com sua influência e conselhos muitos erros e heresias”. que é pouco usado. Para haver permuta seria preciso que do país onde se vendeu ou trocou fossem também mercadores ao outro país. ou que se a permutou. não se pode dizer.” 249 ALISTAR. no seu lugar. Arrola-se a roupa. – é o ato de cortar os ramos desnecessários ou nocivos à existência da árvore. . dizemos que se vendeu. Se a cessão é feita mediante dinheiro. – Cambiar e escambiar (do mesmo tema cambio. Há. nutrir. diz o mesmo que relacionar. dar o sustento.” – Inventariar. as más ervas que crescem entre os cereais. poda. papéis. é arrolar e descrever minuciosamente os bens de um espólio ou de uma execução. nas condições em que se encontra. não propriamente permuta. arrolam-se os instrumentos e armas indispensáveis para a viagem. O literato alimenta-se lendo Horácio. – Relacionar é “dar em relação com as informações precisas”: ideia que se não encerra em arrolar. relacionar. mas mediante dinheiro (vender). sem mais ideia alguma acessória. a água as plantas. – Alimentar. de emprego. que diz apenas – “pôr em rol”. – Monda se diz do ato de arrancar à mão.. tráfico. ou que há permuta entre os dois países. a comida diária. Mantém-se a família. mantém-se a promessa. Catalogam-se livros. na acepção jurídica. permutar significa – “trocar de posto. e que se estabelecessem assim entre os dois mútuas relações de comércio. que “se refere à ideia da necessidade que de comer têm os seres viventes. manter. só por isso. Tanto assim que se diz: alistou-se eleitor. diz Roq. e com explicações que facilitem a respeito das coisas catalogadas o que se deseja saber de cada uma. – Catalogar é “arrolar em certa ordem. que os dois países permutam. – Poda é “o ato de cortar a rama supérflua que de ano para ano fica nos vegetais. se damos uma coisa por outra.

e serve para guardar ou conduzir pão. dobrada. – Mochila é “uma espécie de saco de sola para trazer roupa e outros artigos de uso que os soldados de infanteria e de caçadores em marcha põem às costas. e em que se leva fato de jornada. – Estojo é “uma caixa. – Cesta é “vaso grande. mochila. – Alforje (usado comumente no plural) é. segundo o prof. alcofa. a fim de resguardar ou de os transportar)”. etc. Coruja que o dr. picoá. carcás. de alforjes apenas em serem de coiro. madeira. e com a abertura no centro. seira. usado entre os tropeiros e homens do campo. bolsa. de taquara partida. etc. que serve para conter frutas. – Diz Bruns. V.” (Aul. e mais ou menos semelhante a uma bolsa para dinheiro”. etc. cesta. pois são sempre duas as bruacas. Diferem apenas. esparto. açafate. fechada por todos os lados menos por um (a boca) destinada a conter provisoriamente diversos objetos miúdos.. – Saco é “peça de pano ou de coiro. farinha. balaio. com bolsa para guardar dinheiro e mais misteres de um viajor”. Estojo de desenho. Pereira Coruja: “espécie de saco de coiro. carcás. – Guaiaca é outro. ou sobre as cavalgaduras. em forma de alforje.) – Balaio é “cesto grande. a fim de igualar o peso dos dois lados”. descoberto (ou mesmo com tampa móvel). segundo Aul. (D. Diferem. bruaca. – Alcofa é. que se conduz sobre cangalhas em viagem”. bordados. e que serve para conter ou transportar roupa.” – Seira = cesto de palha. assim define esta palavra: “Cinta de coiro lavrado. geralmente com asas. Diz o prof. lona. Dom. que a primeira e a terceira palavras deste grupo – aljava e carcás – são sinônimos perfeitos e com qualquer delas se designa o estojo onde se metem as setas e que se traz pendente do ombro. de três ou quatro dedos de altura. etc. grande. papéis. cesta de roupa suja (e não – cesto). aparelhos de profissão.). peçuelo. estojo de costura. É. “um saco fechado em ambas as extremidades. sem arco ou asas. pois. como se vê. de coiro ou de pano.. – Açafate (ou çafate) = “pequeno cesto tecido de vimes delgados e descascados. largo e leve. Seirão = “seira grande. quase . cesto flexível de vime. que o próprio cavaleiro leva consigo à garupa. do grego. Usa-se mais no plural. feito de varas entrançadas. – Bolsa é “um saco de qualquer estofo. em uma nota. guaiaca. peçuelos) é uma bruaca menor. saco. de modo a formar como dois sacos ou compartimentos. Vieir. etc. com divisões e escaninhos. fechado ou não com cadeado ou chave. cabaz. – cesto de bananas. es- tojo. – Picoá. seirão. ou mesmo de cabedal. acrescenta o mesmo autor. jacá. e este poderia comparar-se a bolsa ou estojo se não fosse a particularidade de ser a guaiaca presa sempre à cintura. Coruja. e diferentes objetos”. mala. acrescenta que é ordinariamente redondo. de madeira. de junco.164 Rocha Pombo 250 ALJAVA. rendas e também flores. no seu romance Divina Pastora. segundo definição de Aul. para guardar coisas de uso. servindo para guardar objetos de costura. etc. frutas. – Bruaca (ou broaca) é termo nosso. Usa-se para trazer ao ombro. cesta. Também se costuma chamar sapicoá”. um nome indígena mais equivalente a alforje. – Peçuelo (ou melhor. de cascas de embira. No Bra- sil dizemos – cesta de costura. seguro por meio de correias”. que se põe sobre as bestas de carga”. e outros quaisquer objetos”. Assim o define o prof. quanto à origem: aljava nos vem do árabe. alforje. José Antonio do Valle. oleado ou pano. e ordinariamente de forma retangular. ou folhas de palma.” – Mala é “saco de coiro. de junco ou de esparto. de palha. – Cabaz = “cesto fundo. – Cesto é uma cesta mais grosseira. para que se equilibrem sobre o animal. pois. é “mala de algodão ou linho com abertura no meio: serve para conduzir roupa ou mantimentos em viagem. cesto de feijão (e não – cesta).

“alma. e significando o mesmo que gelado. sopro. Álgido se diz do que comunica a sensação do gelo. mas não são almas. alma refere-se aos atos. a que os franceses chamam revenants. re- gelado. – Regelado é redobramento do precedente e diz – “muito frio. glacial. falando do demônio: “É espírito: vê as almas”. de spiro. inteligente e livre.. Vieira disse. no entender de alguns etimologistas. Deus. “privado de calor”. Além disso distinguem-se estes adjetivos por sua diferente significação. eu. frigidus) diz também “frio. termo latino que vem do grego anemos. briosa. É provavelmente esta última definição que caracteriza a diferença entre os dois. para condução de coisas miúdas”. – Gelado quer dizer propriamente – “reduzido à temperatura do gelo”. 252 ALMA. empregado mais no sentido moral. 251 ÁLGIDO. Daí vem chamar-se psicologia à parte da filosofia que trata da alma. melhor do que este (que designa apenas estado quase sempre). zona frígida (zona fria. gélido. alma e espírito nem sempre são sinônimos perfeitos. ou mais frio do que o gelo. “sopro”. gelado. devendo notar-se que. isto é. Dizemos: o gélido cadáver (e não – gelado). faculdades intelectuais ativas que àquele só são acessórias. aos afetos. ainda depois de separadas deles. espírito. e que tem o espírito penetrante. ao pensamento. e talvez com mais razão. em sua significação mais lata. profundo. representa esta palavra. No sentido figurado. almas do outro mundo. tal é aquele de Vieira em que. do que está frequentemente gelado. primeiro em encerrar a ideia de princípio subtil.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 165 sempre com asas. Frígido (do mesmo latim que deu frio. – Se- gundo Roq. que anima ou animou o corpo. exprime qualidade ou modo de ser. – Jacá = “cesto grande e grosseiro. alento”.. qualifica-se de álgido ao que vive no que é glacial: as plantas e os animais álgidos vivem nas regiões glaciais”. água gelada (e não – gélida). Os gregos designavam a alma pela palavra psyche. do movimento de todos os seres viventes”. os demônios são espíritos. “ar. sem relação nenhuma com o corpo. a gélida indiferença (não – gelada). e davam-lhe a mesma extensão que nós damos à palavra alma. coração. (Bruns. nem em todos os casos se podem empregar indiferentemente. diz: “Tudo isto que vemos (no . espírito.. “que quer dizer respiração”. poético e da linguagem vulgar. ar que se respira.. derivam a palavra alma do verbo latino alo. – Espírito é a palavra latina spiritus. ânimo. onde há muito frio”.. feito de esparto ou de taquara”. glacial.. frio. Os filósofos materialistas têm querido negar à alma humana a qualidade de espiritual. Diz-se que um homem tem a alma grande. Seja qual for sua etimologia. “vivificar. à inteligência.” – Gélido é termo poético. o princípio. aos sentimentos. “respirar”. e assim dizemos: as almas do Purgatório. mas nenhum se lembrou ainda de dizer que o espírito era matéria. are. segundo.. – “Álgido é termo científico e poético. nobre.) – Frio significa propriamente “sem calor”. Dizemos: clima frio. invisível que não é essencial ao outro vocábulo. vasto. e vale o mesmo que sopro ou hálito. sendo que espírito só indica substância imaterial. Noutra acepção. e clima frígido significariam outra coisa). alere. chamam-se almas. querendo encarecer o valor da alma sobre o corpo. Espírito difere de alma. a causa oculta da vida. frígido. outros. glacial é científico. em denotar inteligência. Alma desperta ideia de substância simples. do sentimento. ou “que não é quente”. vem de anima. Falando do homem. as substâncias espirituais que animaram os corpos humanos. senão em alguns. nutrir”. os anjos.

porém o uso tem preferido este vocábulo para designar a faculdade sensitiva e seus atos: representa. grego. – Coração só pode ser tido como sinônimo de alma e de espírito: de alma. “que de todos estes vocábulos. ou do rumo que se há de seguir nalguma viagem. ciência ou arte”. palavra árabe introduzida na língua espanhola. epacta. segundo a índole das pessoas a que é destinado. – Vademeco (latim vade mecum) = “folheto com indicações ligeiras. espírito. do mesmo modo que anima. . é provido de vária leitura e indicações interessantes. dos caminhos de ferro. – Indicador será um guia mais particular: indicador das ruas. moderna na nossa língua com esta acepção. humilde. vontade. – Repertório é uma espécie de almanaque acomodado às necessidades da gente do campo. – Prontuário é o “manual onde se acha prontamente o que se quer sobre algum ofício ou profissão”. no sentido restrito que tem neste grupo. ou quando nela se vê apenas a faculdade intelectual. dispostos por meses. quando é tomado como sede da fortaleza moral. anuário.166 Rocha Pombo homem) com os próprios olhos é aquele espírito sublime. vademeco. é o indicador dos pontos por onde se tem de passar. Particularmente. 253 ALMANAQUE. há também folhinhas eclesiásticas. Segundo os afetos que o ânimo experimenta. – Ânimo é a mesma palavra latina animus. fórmulas ou noções de uso frequente em algum ofício ou profissão”. além do calendário do ano. soberbo. e que passou desta para todas as línguas europeias. grande. prontuário. – Folhinha é o calendário adequado ao uso do povo. e ainda menos de espírito”. – Diz Bruns. e. nem sempre é de rigor a distinção que faz Roq. roteiro. imenso – a alma (II. as fases da lua e as variações dos dias. quase sempre valor. e à burocracia em geral”. é o conjunto das faculdades que formam a individualidade psicológica. (Usa-se neste caso mais propriamente de itinerário. esforçado: o que com propriedade (em muitos casos) não se poderia dizer de alma. e nisto se distingue de alma e espírito (se bem que nem sempre essencialmente). é uma espécie de almanaque cuja utilidade é particular às casas de comércio. manual. alma esforçada ou abatida. Também dizemos: espírito baixo ou altivo. chamamo-la espírito. esforço. ou altivo. Na sua significação primitiva vale o mesmo que alma. para uso do clero. letra dominical. quando exprime. indicação romana. re- pertório. guia. – A palavra anuário. entrada e saída do sol em cada um dos signos do Zodíaco. que se compõe de folhas sobrepostas que se vão retirando uma a uma cada dia. Como notamos entre parênteses. – Roteiro. o princípio das estações. número áureo. “livro pequeno. “órgão dos afetos”. vil ou soberba. se indicam os eclipses. vil. há o calendário parietal. da coragem etc. às repartições oficiais. pode ele ser baixo. pois. guia dos lavradores. – Guia. – O calendário indica a ordem e série de todos os dias do ano. ou intenção. elevado. calendário. de espírito. que contém em resumo aquilo que é indispensável em algum ofício. de anemos. etc. folhinha.) – Manual é vademeco mais extenso. ou de mero passatempo. nobre. é folheto ou pequeno livro em que se encontram todas as indicações indispensáveis aos que se ocupam de algum serviço: guia dos viajantes. só folhinha e repertório são genuinamente portugueses. designa também o santo ou a festa própria de cada dia do ano. – Em linguagem filosófica. 71). ciclo solar. Além do calendário folheto. eu é a alma. – Almanaque. indicador. designa um folheto ou livro (e às vezes livro bem alentado) em que. ardente. como esta. aqui. abatido. quando se considera a alma como ser pensante.

– Almejar é “desejar ardentemente. criador. que faz crescer”. segundo a contextura. criador. ou possuir alguma coisa que nos agrada. A arenga dirige-se. ou fazer as pazes com o amigo. É certo. homilia. arrazoamento. é a mais extensa. ou o que está acima dos nossos méritos”. com o fim de o convencer e persuadir. ou um alto posto na política. nutriente. sermão. Como diz Roq. prédica. como as que Salustio põe na boca de Catilina para animar e enfurecer a seus cúmplices. que nutre. – Criador é aquilo que é capaz de gerar. oração. como tendo por fim persuadir e mover. Ambiciona-se uma grande fortuna. pretender. dis- curso. – Aspirar é “desejar com esforço e veemência”. de todas as deste grupo. Os sábios e valorosos generais a acalmaram muitas vezes. – Almo (do latim alimus. – Ambicionar é “desejar demais.. – Arenga é uma espécie de arrazoamento oratório. pois. 167 apetecer. Nutriente (do latim nutriens) quer dizer “que nutre”. para excitá-lo à rebelião. e que excedem muito a nossa capacidade”. apetece riquezas. em perigosas e decisivas circunstâncias. ou de o excitar a alguma ação ou empresa. preleção. o cavalo do Pedro. Dizemos: as qualidades. desejar. no entanto. – Pretende-se um cargo de importância ou chegar a almirante quando se é simples marinheiro. – Entre nutriente e nutritivo há esta diferença: nutritivo (de formação vernácula) significa “de nutrição: que tem a propriedade de ser nutriente”. por isso. próprio dizer que F. – “é o gênero a que pertencem como espécies todas as composições oratórias. as quais devem atribuir-se antes ao artifício retórico dos historiadores e poetas que à eloquência dos seus heróis. fala. ao coração. as sublevações de seus exércitos com eloquentes e veementes arengas. – Cobiçar é “desejar o que não nos pertence. conferência. – Cobiça-se a bengala. querer do fundo da alma. vencer um embaraço. que. por isso que se razoa e se empregam razões para conseguir o fim que se deseja”. ou propriedades nutritivas de um produto vegetal (e não – nutrientes).. – Pretender é “desejar coisas muito altas e de grande monta. o leite é muito nutriente (e não – nutritivo). – Aspira-se um bom lugar na administração. que se dirige a um grande concurso para comovê-lo. que alimenta. e mui comumente para animar os soldados a empreender com denodo a batalha ou qualquer ação perigosa. – Deseja-se recobrar a saúde. Em contrário sentido fazem os grandes conspiradores arengas ao povo. tomam diferentes nomes. imoderadamente”. 255 ALMO. animado e vivo. 256 ALOCUÇÃO. São arengas também os estudados e cerimo- . Tudo o que se diz de viva voz a um auditório mais ou menos numeroso. de alo. – Apetecer é “desejar alguma coisa como por necessidade de ceder a exigências da própria natureza”. elogio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 254 ALMEJAR. arenga. é um arrazoamento. de produzir forças. e com serenidade e confiança nos votos com que se espera pela coisa almejada”. os fins e as circunstâncias. Arenga-se também a corporações respeitáveis. honras. Arengas são as que os antigos generais faziam a suas tropas em vésperas de combate. de nutrir. a pessoas eminentes. proclamação. nutritivo. etc. cobiçar. – Desejar é “ter vontade de conseguir ou de gozar alguma coisa: é querer com mais gosto”. prática. panegírico. – A palavra arrazoamento. e têm entre si algumas diferenças. ambicionar. – Apetece-se quanta fruta se vê nas mercearias. aspirar.ere) diz “fecundo. Não seria. em notáveis circunstâncias. poder. que andam quase sempre os dois aplicados indistintamente. – Almeja-se voltar à casa dos pais.

– Do substantivo os. a defensa.” – Fala é termo vulgar que vale o mesmo que prática no sentido em que aqui a tomamos. animados e engrandecidos por quantos meios subministra a arte da eloquência. “oração”. para persuadir. e só se dá de superior para inferior. tais são as que Jacinto Freire põe na boca de Coge Cofar e de d. para chegar aos fins que nisso propôs: o que verifica por uma dedução de ideias. de causas particulares em que ele devia decidir. socorra. vocal. favoreça. e daqui oratio. a formação e aprovação de leis. dirigida a um povo ou a um exército por um príncipe. proclamar. – Conferência tem aqui a significação particular que lhe damos . do alto do púlpito”. como as de Isócrates. ou por um general. que em seu sentido reto é um arrazoamento ou alocução disposta com inteligência e arte. aos que fazem os oradores modernos se lhes dá geralmente o nome de discursos. pensamentos. dizer muito alto”. que significa “falar. Diz-se ordinariamente do que o Papa dirige aos cardeais em consistório. os governadores e demais autoridades.... ao entrar um príncipe. – Alocução é discurso breve. a que nos ampare. Usa-se mais comum e geralmente em sentido religioso. de explanar”. – Prática é exortação menos solene e menos veemente que arenga. Às vezes corresponde às arengas dos antigos generais. pedir. tiraram os latinos o verbo orare. – Sermão é “uma prática religiosa. de Cícero. entendendo por ele uma composição literária feita por qualquer de nossos oradores acerca de algum importante assunto. De modo que àquilo que os antigos chamavam oratio.168 Rocha Pombo niosos discursos que. de Eschines. uma diferença muito subtil entre estes dois vocábulos: “prática sugere intenção de instruir. a estes arrazoamentos públicos orações.. como devida homenagem que se lhes rende e jura. – Prédica é o mesmo que prática religiosa. de Demóstenes. mental. diz-se com muita frequência que o coronel fez uma fala a seus soldados. Dizemos oração dominical. João de Castro. enquanto que “prédica sugere mais a ideia de anunciar. que ele quase sempre toma no mau sentido de razões longas ou ininteligíveis. Há. de Fox. ou nos perdoe as faltas que havemos cometido. raciocínios coordenados entre si. etc. e que nós traduzimos pela palavra oração. Chamaram os latinos orações aos discursos que compunham com o maior esmero..oris. assim chamavam. se bem que não exclua a noção de instruir. em grandes momentos. para importantes sucessos ou negócios públicos. e feita com certa solenidade.. Po- rém. falando do primeiro: “Fez aos turcos uma breve prática. o louvor de alguma grande vida”. – Preleção é o mesmo que “discurso didático. fúnebre. uma prática destinada a esclarecer algum ponto de doutrina ou alguma passagem das Escrituras”. agora lhe chamamos discursos no sentido oratório. um conquistador numa cidade. ou prática em que se explica uma lição”. – Panegírico é a “oração em que se faz a apologia. – Homilia é “um sermão menos formal e solene. e sempre destinada a nutrir esperança ou coragem na alma daqueles a quem se dirige”. um general. lhe dirigem as câmaras. por ocasião de algum notável acontecimento que interessa a Igreja. como a paz ou a guerra. as da Igreja segundo o ritual. mover e interessar a uma pessoa. ou fala dirigida a alguém sem aparato oratório. perante o povo. práticas impertinentes. ou sacropolítica.”: e do segundo: “Acabada a prática. suplicar. etc. ou a um ser superior. sobre questões de alta monta. – Proclamação é “uma fala ou arenga mais solene. onde diz. “boca”. escrita. o general à sua tropa. o superior a seus súbditos. como as orações que fazemos a Deus e aos Santos. rogar”. de Mirabeau. tais são os de Pitt. Esta palavra é mais bem recebida entre o vulgo do que arenga. ou melhor. no entanto. e chamamos ainda hoje. jaculatória.

ou mesmo ser indício de virtudes excelentes: a soberba é sempre fútil. diz Roq. 258 ALTANERIA. – Elogio é quase panegírico. fatuidade. Sendo o orgulho o alto conceito que temos de nós próprios. átrio. soberba. pelo desprezo com que encara o resto dos homens. em casas nobres. como o entende Roquete21. ou em geral. – Sobranceria.” – Vestíbulo é “o espaço que vai da rua até à porta que dá no interior. em regra sem grande extensão. é a altaneria exagerada até a presunção. chama-se galeria”. orgulho.) 257 ALPENDRE. – Segundo Bruns. – Nas suas manifestações. dá-se o nome de anteportaria. alpendrada. nos grandes edifícios”. rico. Empáfia tem ainda alguma coisa de ostentação e fanfarrice. como templo. altivez. pode dizerse. alpendrada o alpendre sobre que abrem as janelas de alguns chalets. arrogância e altaneria – do que propriamente orgulho. adro. inda que impropriamente. fazer-se legítimo: a soberba. que também nos dá átrio) é “o espaço que fica à frente do pórtico. portanto. ou quem se mostrasse soberbo de alguma coisa – estaria julgado só por isso. elogio histórico (e decerto ninguém diria panegírico histórico ou fúnebre. – Pórtico é “portal de grande edifício. o telheiro está contra o edifício ou isolado. Denominamos alpendre o adro coberto que há diante da porta de algumas ermidas e conventos. O sujeito altivo é aquele que está no mundo como quem está no que é seu. de ter preeminência sobre outros. – Adro (do latim atrium. cuja abóbada é quase sempre sustentada de colunas e que serve de entrada”.: “é um pórtico sustido em pilares diante da porta de algum edifício”. impostura. O orgulho pode ser nobre. A soberba não é só a manifestação do orgulho: é mais um falso orgulho. pelos ares insolentes. mais legítimo como testemunho. de estar acima de outros. telheiro. palácio. não se tendo como inferior a . um ridículo entono. – Altivez é antônimo de humildade. Hoje alpendre diz-se quase exclusivamente daquela parte de um pátio que está coberta por telhado. e sobretudo com soberba e empáfia. a altaneria e a sobranceria podem facilmente confundir-se com orgulho. pórtico. – A empáfia é a soberba arrogante. O orgulho pode ainda justificarse. que mostra o sobranceiro. sobranceria. vestíbulo. um orgulho afetado e estulto. forte. – Altaneria é uma afetação de altivez. – Aplica-se o vocábulo átrio ao “pátio que nos grandes edifícios leva da entrada até à escadaria. Ao alpendre. lida perante um auditório”. de alguma honra excepcional. Orgulho difere de soberba em ser um sentimento que não é incompatível com a discrição. a nobreza de alma e outras grandes qualidades morais. empáfia. elogio fúnebre.. Quem dissesse que é soberbo. e pode ser aberto. ou de não ter vícios torpes. etc. ou não”: diz-se mais particularmente do que se vê à entrada dos templos de alta construção. da nossa família.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 169 hoje comumente: designa a “composição literária ou científica. e consiste em parecer que se é altivo. Ninguém se vexaria de dizer que tem orgulho de algum bem magnífico. e à alpendrada.: “alpendre e alpendrada (ou alpendrado) têm por fundo o próprio edifício. que se mostra pelos gestos. do nosso valor.. que vive entre os homens como entre iguais. a magnanimidade. nunca. é possível que se torne para o orgulhoso em forte estímulo na sociedade e na vida. valente. e raramente deixará de revelar pequenez de espírito. mas distingue-se deste em ser mais justo. e que compreende certo espaço coberto. 21 Alpendre. pois que panegírico diz propriamente “discurso festivo e laudatório”. Dizemos.

e sem que se contradigam.. – Reconstruir. se é que alguma soberba exista que não seja tal.. – Dilema é a alternativa ou disjuntiva em que não há opção satisfatória”. os que não temos de onde cair” – a palavra alturas está aplicada também a elevação moral. mudar. emendar. altura. – Se se vai alterando pouco a pouco. contada da sua parte inferior até à parte superior: só se aplica a coisas físicas. reconstruir. e principalmente do último. – Alterar enuncia a ação geral que os outros verbos deste grupo particularizam: é dar – às partes. a fazer alarde de si mesmo. com muita empáfia. à cor de um corpo ou de um todo e também às suas condições ou ao seu modo de ser ou de funcionar – uma nova disposição. ambas possíveis. – Transformar também se confunde com reformar aqui. calculamos a dimensão da montanha ou da torre desde a base até o cimo. refazer. mas distingue-se de todos. Não é altivo o indivíduo que afronta um velho. no entanto. sofrem mais que nós outros. reorganizar. corrigir. ostentoso. renovar.) 260 ALTITUDE. sofreu alterações maiores do que se tivesse sido apenas reformada. Posso ir ao Porto por mar ou por terra: é uma alternativa. – Remodelar é “refazer alguma coisa sobre novos moldes ou modelos”. no segundo caso. a coisa que se renova toma um novo aspeto. ao peso. Ou casar. 261 ALTEZA. Nesta frase: “Os reis. (Bruns. usamos do verbo mudar. altura de uma torre. re- ternativa é a opção entre duas coisas ou ações. variar. – Disjuntiva é a opção entre duas coisas opostas. de superioridade. à forma. – Fatuidade é a soberba do imbecil. – Impostura. Deixa de ser altivez todo movimento de alma que não se funda numa perfeita consciência do direito. mas é usado este verbo para designar o ato de “dar organização diferente mesmo àquilo que já existia ou que ainda existe”. Impostor é o sujeito cheio de si. De resto. – Se a alteração é total ou completa. ou fazer-se freira: é uma disjuntiva. na maioria dos casos. – “Al- ção absoluta. renovar. transformar. à estrutura. A altivez é. 259 ALTERNATIVA. em caso algum teria sentido físico. das quais uma há de ficar precisamente prejudicada. conforme indica o prefixo re. – Reconstituir é “dar a alguma . como já se viu no § precedente. é “construir outra vez ou de novo”. dilema. mais do que soberba talvez.. do sagrado. – Se se muda de forma.170 Rocha Pombo ninguém. porém. – Pode-se dizer – alti- tude de uma montanha. remodelar. altura. é uma afetação de grandeza. No primeiro caso. Alteza. retificar. ou se se fazem alterações num certo sentido – dizemos que isso é modificar. quando tombam das suas alturas. de uma torre. reconstituir. – Altura. consideramos a elevação da torre ou da montanha sobre o nível do mar. ou que se mostra arrogante com uma criança. diferença-se deste modo: a coisa que se reforma conserva ainda os seus fundamentos: mudará apenas o que nela não pode ou não convém ficar. – Reorganizar seria propriamente “dar organização nova àquilo que havia deixado de existir”.. é a elevação de um corpo. modificar. substituir. chamamos a essa operação variar. ou de uma montanha. não é uma distin- formar. manifestação de legítimo orgulho. disjuntiva. A coisa que se transformou. do honesto. – Reformar é quase mudar. 262 ALTERAR. de orgulho – que se confunde com bazófia. – Alteza só se emprega tratando-se de elevação moral ou social. que significa alguma coisa como substituir.

– Fascinar. emenda-se o que está errado. a razão. Mas. – Cego só tem aqui sentido figurado e diz – “que perdeu ou tem perdida a visão da alma ou do entendimento. a que se confunde”. louco. como o cego tem perdido a vista”. o artigo correspondente a estes vocábulos: “As esperanças quiméricas. cego. Nesta palavra demente figura a raiz grega man ou men. e noutros poderia confundir-se muito com este. significa propriamente “enfeitiçar. As narrações complicadas. falsas aparências. a que se ofusca.” (Roq. que sugere a ideia de “pensar”. insano. as ilusões do amor-próprio. por exemplo. delirante. – Alucinado é o que subitamente desvaira e se arrebata como louco por efeito de alucinação. tudo o que é indefinido. desvairado como se tivesse subitamente enlouquecido”. perturbado por uma emoção violenta” (éperdu) como – “fora de si. lê-se em Bruns. ou curvo. dar quebranto”. sem confundir-se. – Sobre os três primeiros verbos deste grupo. do latim fascinare. e também o que não está ainda bem puro. Mente é. Mas aqui mesmo pode notar-se alguma diferença entre estes dois verbos. etc. renovando-lhe apenas os elementos”. o entendimento. – Demente é “o que está privado das faculdades de raciocinar. alucinado. pois. desvairado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 171 coisa uma nova estrutura. ofusca. e que fica em estado como de estupidez ou imbecilidade”. as promessas enganadoras. uma disposição íntima. as obras dos filósofos alemães? A imaginação é a faculdade que se alucina. retifica-se o que está torto. e no sentido figurado quer dizer – “enganar por meio de prestígios. e no sentido figurado é “alucinar. os raciocínios excessivamente subtis. As razões sofísticas. doido. insensato. completa como a de reconstituir. por simpatia. de- mente.) 264 ALUCINADO. estonteado. de que é autor d. corrige-se o que não está bem direito. – Refazer é um pouco menos que reconstituir em certos casos. cegar. A ação de refazer não é tão essencial. atordoado. mas devendo notar-se que este é mais extenso e de significação menos precisa. confundem. ou por antipatia com as pessoas interessadas – ofusca-se. perdido. – Retificar. fazer que desvaire por falta de uma visão perfeita das coisas”. magnífica”. Aquele que funda as suas esperanças de acenso no sorriso ou no aperto de mãos do ministro – alucina-se. Pode dizer-se que perdido encerra o valor dos dois vocábulos franceses (ou a eles. essencial que pode ser ou não diferente da antiga. 263 ALUCINAR. de entender. aturdido. confundir o entendimento ou a razão. – Louco é propriamente “o que perdeu a razão”. como. “o . encantar. ou a um ou outro deles é capaz de corresponder) éperdu e égaré: tanto diz – “agitado. “sentir”. Aqui. José Joaquim de Mora. fica muito próximo de perdido. Um sujeito que trabalhou o dia inteiro deve refazer-se das fadigas para a nova tarefa. Aquele que sustenta uma causa injusta. as impressões veementes. ofuscar. espantado como doido. confundir. – Deslumbrar é “turvar a vista por meio de luz muito forte”. alucinado” (égaré). ofuscá-la por alguma coisa brilhante. e no sentido figurado equivale a “perdido. deslumbrar. as questões espinhosas. Um doente de anemia vai reconstituir-se na ilha da Madeira. fascinar. – Cegar é “perturbar a vista de qualquer modo. na frase: “Preciso de refazer (ou de reconstituir) as minhas forças”. corrigir e emendar confundem-se: todos enunciam a ação de pôr uma coisa nas condições em que se quer que fique. alucinam. e que foi editada pela Real Academia da língua.: “Traduzimos da Coleção de sinônimos da língua espanhola. profunda. ou bem expurgado de erros. Quem pode ler.

– Insensato é “o que não tem senso comum. consignar positivamente”.. “privado do espírito. mas à cerimônia. “O enfermo foi assistido” – está direito (porque se quis dizer que o enfermo foi socorrido). 265 ALUDIR. uma ideia da coisa. e caracterizada pelos desvarios. às suas tropelias e infâmias. – Desvairado é “o que ficou em súbita exaltação que o põe agitado. neste caso. expor. ou com intuito de queixa. mas – “a cerimônia foi assistida” é construção viciosa (porque. de surpresa ou de susto”. – Indicar é “apontar precisamente alguma coisa. e por isso não pensa normalmente”. – Estonteado = “perturbado como quem acorda repentinamente. 22 Note-se que assistir tem diferentes acepções. pelo próprio nome. os gestos ridículos e estabanamentos do doido. diremos corretamente: “circunstância a que se alude”. por figura. ou o conjunto das faculdades superiores do homem”: demente exprime. sentindo-se apenas em estado que não é de perfeita lucidez”. – Entre aludir e referir há uma diferença notável. mencionar. não só de significação. não sendo transitivo. Refere-se uma coisa. – Expor é “fazer uma relação minuciosa do que se quer tornar conhecido de outrem. Sob o ponto de vista gramatical. nem declinou os nomes dos quadrilheiros”. sem a declarar pelo nome. indicar. há entre referir e aludir uma diferença que é frequentemente esquecida. assistir é verbo intransitivo e significa “estar presente a. portanto – “a coisa referida”. – Doido é quase o mesmo que louco: se se pode notar alguma diferença entre os dois vocábulos. e confunde-se ainda com articular. segundo os lexicógrafos. pois que o verbo aludir. Dizemos. ou – “o caso assistido”22. a faculdade. isto é –. portanto –. Dizer – “a coisa aludida” seria o mesmo que dizer – “a coisa. dizer onde se encontra. Declinar é. Atordoado = “menos que aturdido. não pode dar particípio passivo. ou ainda por desejo de instruir alguém sobre a coisa que se expõe”. mas ainda de função gramatical. Em vez de “circunstância aludida”. ou por dever de ofício. enun- ciar. Aludir é “referir indiretamente. expressas pela voz. – Delirante é “o que está como perturbado momentaneamente das faculdades intelectuais. muito próximo de referir. ou o ato procedido”. – Enunciar é apenas “declarar por palavras. sem tento no que faz”. é. da inteligência”. pois.172 Rocha Pombo espírito. Sente-se que referir seria indicar expressa e claramente fatos. incapaz de fazer juízo”. e assim privado de senso normal. Neste exemplo vê-se melhor a distinção: “O homem aludiu aos bandidos. referir. a que consiste em ser talvez a doidice uma forma de loucura mais completa e permanente. e que declinar seria dar os próprios nomes dos criminosos. sugerindo apenas. aflito. ou a que indivíduos se endereça o ataque: e neste caso se diz que ele aludiu a esses tipos. Referir quer dizer – “indicar de modo claro e preciso a coisa sobre que se quer chamar a atenção de alguém”. alude-se a uma coisa. sem tino”. formular por termos próprios”. mas nem sequer um fato teve a coragem de referir. .. – Insano diz propriamente – “o que está enfermo da razão”: a insânia sugere também a ideia de loucura instantânea. mais por inadvertência talvez do que por ignorância. que é “referir por palavras adequadas e precisas que esclareçam o articulado”. – Mencionar é indicar claramente. e não podemos dizer – “a coisa aludida”. declinar.”) Não se assiste a cerimônia. marcá-la ou mostrá-la”. Quando alguém nos diz intencionalmente que – “certos tipos execrandos escandalizam a moral pública” – subentende-se que nós sabemos a que tipos se dirige a apóstrofe. – Aturdido = “subitamente perturbado.

nas cidades arrendam-se ou alugam-se casas por semestre. . não seria possível a substituição. – Respetivo diz – “que compete. quer como externo. referente.. e por alguns menino que frequenta alguma escola.. ordinariamente de uma vez. etc. um empresário arrenda o teatro que quer explorar... ou a cada um em particular ou em separado”. e por preço que constitui renda ou rendimento para o proprietário. e dizemos que é alusiva quando apenas sugere ideia dessa coisa. e parece que todo o trabalho do ministro consistiu em dar toda amplitude à parte relativa a desfalques. a ideia contida em referente e relativo: diz – “que é próprio.. educando. – Educando é sinônimo bem próximo dos dois precedentes: e em muitos casos poderia substituir a um ou outro. arrenda-se por tempo mais longo e às vezes sem prazo certo. que se nota entre os verbos aludir e referir. portanto. quer de ciência. sublo- anos. isto é. termo que já foi genérico. isto é: aluga-se para um fim determinado. Uma companhia de cômicos aluga o teatro da povoação por onde passa. por dias. quando a indica direta e claramente. – Concernente exprime. 268 ALUNO. é uma designação que se refere ao estabelecimento onde o menino aprende. discípulo. relativo. F. que o instrui e guia. “Entre os alunos do colégio tal. não tem nenhum discípulo”. “Os alunos da minha turma foram aprovados” (decerto que não ficaria bem aqui dizer – educandos). ou do internato tal (os meninos que estão sendo educados nesse internato). por exemplo. e substituindo-o por alugar. Aluga-se um trem: alugam-se móveis (não – arrendam-se). como.. – Relativo exprime – “que tem relação com. quer como interno. 267 ALUGAR. Apresentaram-se os diversos clubes tendo envolto em crepe os respetivos estandartes.. sem a nomear. – A mesma diferença. palavras alusivas à má conduta de alguém. “Os meus discípulos são os melhores alunos do ginásio tal”. que pertence.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 266 ALUSIVO. Tanto posso dizer: os meus educandos (os meus discípulos. – Sublocar = “alugar a outrem uma coisa que se tem tomado a alguém por aluguel”. dar de aluguel mediante contrato”. – como aluguel e renda. ou por meses. que respeita ao próprio a que se refere. locar. Nas praias de banhos alugam-se casas aos banhistas. Em outros muitos casos. – Exemplos: Discurso alusivo a uma questão. Dizemos também que é discípulo de F. Os termos referentes àquele fato são ásperos. o uso vai mesmo postergando este vocábulo. nestes: “Respeito muito os discípulos de Loyola ou de Comte” (não educandos por certo). meninos cuja educação me está confiada). por curto tempo. aos defeitos da criança. – Locar = “alugar. alquilar. concernen- 173 te. há entre os dois primeiros adjetivos deste grupo: dizemos que uma coisa é referente a outra quando a ela se refere. – Alquilar. que se atribui à coisa a que se refere”. Procuramos naquele livro das Escrituras tudo que é concernente ao adultério. respetivo. a um ato. – Aluno é o car. e discípulo só se diz com relação ao mestre. Tanto podem locar os proprietários como os que estão no usufruto da coisa locada. que diz respeito a. de modo ainda mais preciso. – Discípulo é o menino que é entregue aos cuidados e esforços de um mestre ou professor. no entanto. arrendar. como: os educandos do instituto. só se diz atualmente falando de cavalgaduras e carruagens. que se prende à coisa a que se refere”. qualquer pessoa que recebeu lições de F. – Alugar e arrendar diferençam-se entre si – diz Bruns. e também se arrendam mediante contrato.. Aluno. quer de arte ou de moral. ou da aula de música. e pelo preço que se combina pagar.

dilú- culo. – Propósito é “resolução tomada. a que levamos o nosso intento.) é a meia-luz indecisa que precede ao nascer. sugere ideia de mistério. centro. mas dos recessos desta alma não sairão jamais os meus gemidos. contingente”) (Sar.174 Rocha Pombo 269 ALVA. 271 ÂMAGO. e no sentido figurado. e mais benigna que o sol. antes lhes dá motivo para se recrearem vendo alvorecer o dia. madrugada. in- acertar”. firme determinação”. alvor (ou albor). Matiza-se insensivelmente no horizonte a alvura com a cor cerúlea. seio. o propósito que temos formado. a que se destina o nosso trabalho”. crepúsculo. propósito. quer morais quer físicos. cerne. examinar: é portanto escopo “aquilo que se visa. – Mira é mais propriamente “o ato de fitar o alvo”. (Roq. íntimo. escopo. até que o astro do dia mostre seu afogueado limbo: eis a aurora. fim. pode dividir-se pelo pensamento em dois tempos que formam o que vulgarmente chamamos madrugada. afugenta as trevas da noite. a respiração das flores. – Dilúculo é termo poético designando o romper do dia. rósea. de recato. – Escopo é muito próximo de alvo e de fim. 270 ALVO. Começa o horizonte a fazer-se alvo com a aproximação do sol: eleva-se pouco a pouco esta alvura. – Profundeza e recesso. purpurina. Pode ser físico ou moral. âmago da vida. ou a disposição de alma em que nos deixa aquilo que temos desejo ou vontade de fazer. intenção. meio. coração. a harmonia das aves. – Interior designa sim- . é a alva. e vai crescendo e matizando-se de luminosas cores até que o sol o doire com seus brilhantes raios. é – como disse Vieira – o riso do céu. e alvorada – dir-se-ia – é uma extensão de alvor. o mais profundo nos seres..) – Alvor (ou albor. – Âmago é propriamente a medula. e em ondas de progressiva luz derrama-se no firmamento. Intento é propósito mais firme e seguro. – Fim é “o ponto a que se quer chegar. que é estranho ao eu. a vida e alento do mundo”. e também de mira. de creperus “duvidoso. aurora. o crepúsculo da manhã. medula. que se tem por fim atingir”. recesso. mais brilhante que a alva. – Crepúsculo (de crepusculum. a parte que fica no centro dos vegetais. como é muito usado também) é o primeiro sinal da alva. a alegria dos campos. imo. que é apenas o estado de espírito em que estamos. profundeza. – Alvo é “o ponto que se quer atingir ou onde se quer terior. – Fito é “o alvo sobre o qual temos toda a nossa atenção e esforço”. e com ela se patenteia de novo a formosura do universo. Ter em mira quer dizer “desejar. entremeia-se o oiro vivo dos apolíneos raios. miolo. além de profundeza. ainda não tinta de vivas cores. que sugere ideia de observar. fito. é o íntimo das coisas. – “A luz que aparece no horizonte. mira. que significa “ponto ou fim que se colima”. figura a raiz skeh. e que no momento prende a nossa atenção”. Aquela dor chegou às profundezas do meu coração. incerto. a determinação em que estamos de fazer alguma coisa”. espalha-se nas regiões etéreas. Esta luz suave. – Imo é também o mais profundo das coisas. in- tento. alvorada. mas só se emprega no sentido moral. No grego skopós. distinguem-se assim: recesso. ter os olhos sobre. que não cansa nossos olhos. A aurora. decisivo do que intenção. aqui. de intenção de ocultar.. resoluto. e parece dar mais ideia de festa do que exprimir propriamente fase do alvorecer. Dizemos: âmago da alma.” – Objeto é “tudo que está fora de nós. e que continua alguns minutos depois do pôr do sol. – Intenção e intento significam “o desígnio que nos leva a agir. pretender. objeto.

o ponto que fica a igual distância de todos os pontos da circunferência. selvagerias. áspero. Interior do coração. serenar. Dizemos: meio do caminho. a parte central. teso. para exprimir o núcleo. centro da arena – desde que sejam circulares. tão rigorosa distinção. Afrouxam-se os grilhões. beira etc. numa esfera. do edifício. recôndito. abrandar. Meio. a parte onde está a força. – Cerne é “a parte mais dura de muitos vegetais. enfraquece a mocidade vencida pelo vício. esta palavra miolo como designando toda a parte do pão contida dentro da côdea. – o coração da África indicando o meio dela. Estou afinal no meio dos meus amigos (como poderia estar no meio de bandidos). O centro da terra – é uma coisa: o meio da terra – é outra. abateu com as chuvas o rochedo. Abatem as desgraças aquele orgulho. abater ao que está elevado. Em nenhuma dessas frases seria próprio substituir nenhum dos dois vocábulos. suavizar. Naquela terra está o coração da pátria. acalmar aplica-se ao que está em alto grau de intensidade. Sossega o . tranquilizar. mas neste caso não lhe indicaríamos precisamente o centro. – Centro e meio. extremidade. não se reconhece. no entanto. – Diminuir é o mais genérico do grupo: diz “reduzir a força. a cólera divina. pelo estrondo. diminuir. castigos. quer abstratas quer concretas. Também dizemos – o coração da noite – para exprimir a plenitude dela. Mas este último sugere ideia de conchego. mas convém nunca esquecer que há entre eles uma diferença tal que se não poderiam substituir em grande número de casos com propriedade. cóleras. dos ossos” etc. – Em muitos casos poderia também confundir-se meio com seio. porque os há que não chegam a ter cerne”. senão ponto afastado da circunferência dela. Dizemos: centro da mesa. a vida. Amaina o temporal. – Coração só figuradamente é que entra neste grupo. – Amainar emprega-se quando a coisa se caracteriza pela agitação. meio da floresta. atenuar. ainda que fosse redonda. – Estes verbos têm de comum a ideia de “diminuir de intensidade”. Feriram a França no coração. – Me- dula é “o âmago. em certos casos poderiam ser usados indistintamente. aba- ter. afrouxar. o que fica por dentro da casca”. no entanto. interior do país. o sentimento característico das coisas. crescido. pelos estragos que causa. os laços que prendem alguma coisa. Até que enfim restituiu-me a sorte ao seio de minha família. ou. a substância mole que se encontra no centro das árvores. – Na linguagem vulgar. sossegar.”. ou. Uma pessoa mete-se no meio da turba (e não no centro). etc. Abrandam-se dores. sossegar ao que está inquieto. furente. – Afrouxar aplica-se ao que está apertado. acalmar. as cordas de um instrumento. num círculo. nem sempre. fazer baixar. por analogia. carinho. Em grande número de outros casos não seria possível usar um pelo outro. central de alguma coisa. altivo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 175 plesmente a parte interna. pelo furor. aplica-se a tudo que não é lado. abrandar ao que é duro. e além disso meio é mais extenso e genérico. O diâmetro passa pelo centro da circunferência (não – pelo meio). conforto. da cidade. – Miolo (corrução de medula) é “frequentemente empregada pela própria latina: pode definir-se. ao que parece irritado. Centro é termo de geometria para designar. ou tratandose de certas frutas. da floresta. o ponto que é equidistante de todas as partes da periferia. no entanto. enfraquecer ao que é ou está forte. 272 AMAINAR. descer. ou pelo menos esta não é forma tão precisa como aquela. – Íntimo quer dizer “profundo. Poderíamos dizer mesmo: meio da mesa. Enfraquece o exército pelas deserções. enfraquecer. afastado dos olhos como um mistério”. em delírio. a discórdia.

273 AMANSAR.. – Barregã (do castelhano barragana) é termo insultuoso e depreciativo. menos violento. é vocábulo que. e como que a ser seus servos ou seus companheiros. sendo. ou do viúvo. Diminuem as águas da enxurrada. menos forte. podem-se reduzir a viver na mesma habitação com o homem. por assim dizer. – Comborça. – Tranquilizar = “fazer mais tranquilo. diminuindo a agitação. diminui o furor. uma esposa ilegítima que vive na dependência e na sujeição: tendo estas ideias vindo até nós pela consideração dos usos e costumes dos países e das épocas em que o concubinato era legalmente tolerado. da qual a concubina era frequentemente uma como escrava. – Serenar. menos impaciente. etc. uma distinção social muito importante que con- vém considerar entre eles. – Sobre os primeiros cinco vocábulos deste grupo escreve Bruns. além da suplantação de um dos termos pelo outro. – Suavizar = “tornar mais suave”. – Segun- do Lacerda – “podem-se domesticar os animais bravios. este tem amantes. Por isso. agitado e aflito. nos países do Oriente. comborça.: – “Concubina é vocábulo que hoje apenas se emprega na linguagem da Igreja. e admitido até pela esposa legítima. menos ríspido. amásia. pelo contrário. diminui-se o prazo. Salomão tinha concubinas.176 Rocha Pombo enfermo. a dor. assim como amiga – termo mais escolhido – qualifica a mulher que vive das liberalidades do seu amante”. é que a palavra amante não encerra a ideia de coabitação. ao passo que no Ocidente. diminui a tristeza. isto é. segundo define Aul. Concubina (do latim cum “com” e cubare “estar deitado”) encerra a ideia de coabitação. A concubina é. que melhor que outro qualquer designa a mulher que só pelo interesse é concubina de algum homem asqueroso. o comprimento. Uma outra diferença importante entre os dois termos. o revoltado. concubina. que. como é comum para os designar a ambos com relação de reciprocidade. isto é. o pranto. Napoleão III teve muitas amantes. isto é. ou ao falar de mulheres ou da antiguidade ou da Idade Média. amiga. o desordeiro. mas não sendo frequente encontrá-la na casa do homem casado. Acalma-se a turba que bramava. e menos ainda que os domesticamos. domar. o volume. ou que pelo seu caráter não devera ter amorios. sem ofender demais (a não ser a ouvidos muito delicados) ser admitido em qualquer linguagem. Amante. ou de cônego: – Amásia é termo vulgar. barregã. se não enaltece a mulher. domesticar. a torna pelo menos igual ao homem. no entanto. 274 AMANTE. podendo a amante viver ou não na casa do homem solteiro. podem-se tornar submissos e obedientes. de sentimentos e de convívio. assim dizemos – barregã de frade. – Amante é o termo que se considera mais decente na nossa época. a extensão. Podem-se domar animais bravios. Há. Muito frequente é também que a amante de um homem seja casada ou viva com outro homem. a intensidade. onde a mulher é considerada como inferior ao homem. as aflições. como diz o próprio radical. melhor que – amante de frade. o peso. ou cônego. . o rigor. é “fazer sereno”. – Manceba está hoje sendo inteiramente desusado como sinônimo perfeito de amásia. diminuem as forças. a força. é qualificativo humilhante da concubina de homem casado. Podem-se amansar os animais ferozes. onde a mulher é geralmente considerada como igual ao homem. mas sem ficarem contudo tão obedientes que se possa dizer que os “amansamos”. estes têm concubinas. tanto no sentido moral como no físico. e o único que pode.” – Atenuar = “fazer menos forte”. manceba.

pois. emaranhado. tornar felpudo”. e que consiste no amor desordenado aos bens materiais. – Embrulhar é “apertar. avareza. – Avareza é vício de alma que torna sórdido o avarento. rugoso. anelado”. riçar (eriçar. reduzindo-a a massa informe. Aliás.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 275 AMARROTAR. gana. a seda. arrugar. pode ser tomado a boa parte. – Amassar é. na paixão pelo dinheiro. franzir. cobiça designa um sentimento vil. eriçar.) – Encarapinhar é “fazer muito crespo. é palavra árabe (mallôta) que designa “capote curto com capuz. toda ansiedade com que se quer alguma coisa ou se executa alguma função. Entre riçar e eriçar (ou erriçar) nota-se esta diferença: eriçar quer dizer “riçar momentaneamente. “Os cabelos se lhe erriçam de horror” (não – riçam). “frisar. franziu a testa afrontando-nos”. “agitado de cólera. arrepiar. ratinar. reduzir ao aspeto rude da marlota”. encrespar. cerrado como carapinha. isto é. Ambição significa principalmente o desejo de alcançar poder. achatando-a.. ouriçar”. cobiça refere-se apenas à riqueza. – Frisar. esta distinção não é essencial. – Enrugar. entre o qual e encrespar pode notar-se a distinção que consiste em ser o verbo crispar aplicável a fenômenos morais melhor do que o outro. áspero. – Encarquilhar é “encolher formando rugas. ou de encontro a outra. neste grupo. arrepiar. justo ao corpo muito deselegante e só usado pelos pobres”. e quando muito deve notar-se entre eles esta diferença: enrugar enuncia ação lenta e mais completa que a de arrugar. quando se a embrulha e amassa entre os dedos. enovelado demais. – Cupidez é bem fácil de confundir . enrolar e comprimir como se faz com embrulhos”. encrespar. enrolar em espiral” (Aul. Diremos: a alma lhe crispou de dor. “de um dia para outro uma grande dor lhe arruga as faces”. marlotar. significa “fazer felpudo. encarapinhar. encaracolar em forma de riço”. – Dos dois primeiros vocábulos. só ambição – diz Bruns. que é “fazer em riço. – Amarrotar é. cupi- dez. arrugar. crispar. e franzir poderiam facilmente confundir-se. – Machucar (ou amachucar) é amolgar. honras. que é o radical de amarrotar (e que deu também o verbo português marlotar). – Arrepiar (de arre “para trás” e pio = pilus + ar) significa “ouriçar (os cabelos). Amarfanha-se o papel. esmagar alguma coisa debaixo de outra. erriçar). Há ambiciosos que. fazer hirto como a marrafa” (cabelos do topete lançados para a testa). levantá-los e deitá-los para trás.. encarquilhar. embrulhar. – Avidez (conquanto da mesma origem latina avere) não se confunde com avareza. começando por ser um termo genérico para indicar todo desejo imoderado. – O mesmo radical deu-nos crispar. Velhice encarquilhada (cheia de rugas e mofina. “Enruga a pele o tempo”. sendo a de franzir momentânea. encaracolar. tirar a forma própria de alguma coisa. na ânsia e sofreguidão de acumular. pregas” (carquilhas). avidez. ao dinheiro... levantar o pelo” (frisa). gastam a mãos largas para obterem o que ambicionam”. 276 AMBIÇÃO. – Amarfanhar é “encrespar. – Encaracolar é “dar a forma de caracol. amassar. ganância. ma- 177 chucar (ou amachucar). longe de serem cobiçosos. e por analogia. segundo Aul. quebrar as linhas. cobiça. aqui. amassar. dignidades. enrugar. quebrantada). contrafazer. – Encrespar é “fazer crespo”. “dar a aparência ou o feitio de ratina (aos panos)”. ondulado. – Ratinar é. “deformar. frisar. amarfanhar. pô-los em sentido contrário ao em que estava ou que é o normal”. vincos. – Marlota. – O mesmo quase diz riçar. amarfanha-se uma roupa tirando-lhe o aspeto de lisura que lhe é próprio. “não liso e correntio. sentiu o coração a crispar-lhe de angústia (e não – “encrespar”).

ou maior . – Equívoco é palavra latina. aequivocos (de aequus. a significação de “desespero pelo ganho. Ou vem então de amphibolos. dúvida. que também é formado de amphi e bollo. E assim se diz – uma palavra ambígua e – uma frase anfibológica. – Ambiguidade. porque. ou porque elas mesmas têm várias significações distintas. artificial. v. 470). e ao qual se ajuntou depois logos “palavra. sendo às vezes impossível consegui-lo. pagou largo tributo a este depravado uso. e daquela frase pode-se entender que Heitor provoca a Aquiles. e vox. etc. ação feita em contrário ou em sentido oposto a outra. – Anfibologia vem do grego amphibólia. andar à roda. ou para mostrar agudeza de engenho. como ele mesmo confessa num sermão da Ressurreição (VI. jogando de vocábulos para divertir o auditório ou os leitores. 277 AMBÍGUO. Aí nenhuma das palavras é ambígua nem equívoca. ou fingido. dizendo: “Quem tirou o véu ao amor. e figuradamente “ambíguo. que em manhã tão alegre e tão festiva até os Evangelistas o usaram”. confusão. de dois lados”. que é o que parece querer-se dar a entender. ambiguidade. pois. e apesar de o ter como um defeito. mas de ordinário aplicase cupidez mais particularmente para designar desejo imoderado em questões de amor. ou porque se confundem com outras da língua que se pronunciam e escrevem do mesmo modo. duvidar”) e consiste em apresentar a frase um sentido geral. e significa “ferido”. incerteza na linguagem e nas ideias. e significa em geral multiplicidade de significações. os poetas invertem muitas vezes esta ordem. ainda que regularmente se ponha o sujeito antes do verbo. Não me estranheis o equívoco. discurso”. – Gana é termo do espanhol que significa “apetite desregrado. voracidade. ou este àquele. equívoco.. e se antepõe a muitos vocábulos para exprimir “separação. Refere-se antes ao giro da frase ou colocação das palavras que aos termos equívocos dela. porque o mostrou desvelado. em roda. que significa “ao pé. con- fuso. “voz”). É. ao contrário da ambiguidade. desviado ou apartado. mas regularmente tem dois sentidos – um natural e imediato. fome. não se emendava de cair nele. intensidade na ação. Mas o que nem todos sabem é que esta mesma partícula em alguns poucos vocábulos tem um valor mui diferente. Sabem todos que a partícula des é um prefixo que corresponde ao latino dis. – Ganância tem. Deste gênero é a seguinte: “Heitor Aquiles chama a desafio”. e outro. e bollo. desprezar “não prezar” etc. composto da preposição amphi. duvidoso. que só compreende a pessoa que fala. “igual”.178 Rocha Pombo com o precedente. posto que tenham um significado mui diverso. e às vezes tão disfarçado que só o entendem os que penetram a alusão. anfibologia. de ambigo. pela força do uso. desfazer. até raiva incontinente”. de modo que custa descobrir ou adivinhar o pensamento do autor. que admite diferentes interpretações. mas é anfibológico o sentido. “desmanchar o que está feito”. impreciso. segundo Roq. g. confusão. equívoco. vontade irreprimível. Vieira. anfibológico. Comete-se esta falta quando se constrói uma frase de modo que possa admitir duas diferentes interpretações. vário. “é palavra latina (ambiguitas.. incerteza. Chamam-se equívocas as palavras que se podem entender em dois ou mais sentidos. “Este equívoco do padre Vieira precisa explicação. O mau gosto dos nossos seiscentistas introduziu o uso dos equívocos como um ornato oratório. ou “que fere de dois lados”. privativo ou disjuntivo. a ambiguidade dúvida. pois indica “prolongação de ato. “rodear. que se acha só nos termos. esse lhe descobriu a cara. “lançar”. dúbio. sem escrúpulos e sem medida”. equívoco”. tão bom orador como era. incerto.

maldefinido.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 179 perfeição”. desvelado. sendo confusão quando a obscuridade é tal que nada nos deixe entender precisamente. A esta espécie pertence o verbo desvelar. ou é a forma a que se pode atribuir mais de um sentido”. e dubiedade é o estado de hesitação e perplexidade em que ficamos quando não temos um fundamento seguro para o modo como se há de agir. ou aquela que se não pode interpretar com segurança. – Linguagem duvidosa é aquela que não exprime pensamento certo. fixa. A anfibologia provém da ignorância das regras gramaticais ou da intenção dobre de quem fala. e descante. a ocultar o verdadeiro sentido”. se bem que em muitos casos se confunda com ambos. e também o mesmo concerto. como sucede com os charlatães e impostores. o vário modo de entender as coisas da fé. Entre dúbio e duvidoso pode notar-se uma diferença muito subtil que consiste em sugerir duvidoso. que é composto de des e velar. – Vário diz inconstante. . ou para a resolução que se tem de tomar. vago. que não for desembaraçada de termos ambíguos. ou de fim ilícito com que se fez ou deixou duvidosa a forma. Dizemos: a dúbia. o qual.. que pode variar ou que varia constantemente. ou atitude dúbia é apenas “a que dá lugar a mais de uma interpretação. – Área é a extensão de uma certa superfície. ou limitada. a forma que não for exata. – Imprecisa será a linguagem que não for “clara. que muda facilmente. porque véu é contração de velo (de velum latino) – o que forma equívoco com a significação geralmente aceita de desvelado. a incerta fortuna. – Confusa será a construção que “possa dar ensejo a enganos. descobrir”. emprega a palavra desvelado. como em francês o verbo dévoiler. v. ou espaço de extensão determinada. é a linguagem anfibológica destinada a induzir em erro. ou dos que se querem esconder na obscuridade. desvelar. melhor do que dúbio. significaria “privar de véu. mas de repente. pois este nunca deve jogar de vocábulos senão em obras jocosas”. volúvel. – Incerto é propriamente aquilo que não é determinado. ou dando da mesma uma ideia. descantar. precedido da partícula des. Desconfia-se da forma duvidosa: procura-se fixar a linguagem dúbia. recinto. área. – Dúbio é o que é incerto. ter muito cuidado. – Recinto é mais próximo de âmbito. porque delata engano. e deve ser evitado pelo literato. – Âmbito sugere ideia de superfície. que não significam “deixar de cantar” – o que seria “ficar calado” – mas sim “cantar muito e em harmonia ou concerto de instrumentos”. mas com a de “privado de véu”. e escorreita de relações maldistintas”. O equívoco é “indigno de um homem franco e honrado. a duvidosa. pois a dúvida é o estado de vacilação em que a frase nos deixa o espírito à vista dos termos em que está concebida. com o mesmo Vieira. e não significa “deixar de velar” – o que seria “dormir”. perfeitamente determinada”. pelo contexto da sentença. Ora. não com a significação do verbo desvelar-se. solícito”. lhe chamamos jogar de vocábulos. A isto chamam com razão os franceses jouer sur les mots. ou que pode deixar margem a alternativas de interpretação. É mais próximo de dúbio que de duvidoso. Linguagem dúbia. e no figurado “não cuidar” – mas sim “velar muito. significaria “sem véu”. ou a coisa de que se trata. que se designa precisamente. caprichoso. e nós. referindo-se ao verbo velar (velare) que significa “cobrir com véu”. andar muito. é neste sentido que o padre Vieira tinha usado este verbo e o seu substantivo desvelo. a ideia de esperteza calculada. g. A vária sorte. fazendo a partícula des privativa.. Linguagem duvidosa é “a que se usa de propósito para enganar. A ambiguidade é parto de limitado talento. que é indeciso. 278 ÂMBITO.

– Nômade (ou nômada) se aplica para designar o homem primitivo que não tinha morada. nômade. Temos ainda este exemplo: Aqueles dois moços. ate- morizar. – Vadio “é o que vaga por ociosidade. mas ambas se requerem essencialmente para o exercício da nobre virtude da beneficência”. que neste é necessária. que significa – “andar vagaroso. e um e outro a cada um distintamente. vaganau.. vadio. Daí a significação com que ficou esta palavra teatino na linguagem comum: designa o (homem ou animal) que anda vagando. e que nem sempre existem unidas no mesmo sujeito. ou habitação fixa. – Segundo Bruns. – Vaganau = “que vive a vagar. não se dirá. tunante. 279 AMBOS. – Ameaçar é “dizer ou protestar que se fará algum mal. ou que se imporá algum castigo (se se trata. ou o âmbito da praça. aplica-se a quem anda de terra em terra. neste último caso. Há entre os dois a diferença que consiste em sugerir o verbo intimidar a ideia de que a pessoa que intimida conta com a fraqueza de ânimo da . mas: “ressoou a voz por todo o âmbito da sala” ou “por todo o recinto”. – Escreve sobre estas formas o provecto Bruns. e sem mais objeto que o de não estar parado: de todos é conhecida a lenda do Judeu errante. – Errante. professor ambulante. dentista. os dois. de superior para inferior). quer dizer “que errou o caminho. airado. peregrino. vagabundo. trocista e malandro”. que não tem domicílio certo. passeante. como já se disse.: – “Ambos e um e outro distinguem-se em referir-se o primeiro ao conjunto dos dois. – Perdido. vagabundo. – Vagabundo acrescenta à ideia de errante a de ociosidade. ao conjunto. sem compreender a ideia de mister. outrora Teate. que não se submete a autoridades. e aquele. É assim que se diz indiferentemente: a área. aqui. um e outro. longe do próprio país”. desorientado” (equivalente ao égaré do francês). à ventura.” 280 AMBULANTE. teati- no. – Teatino propriamente era o monge pertencente a uma Ordem religiosa. mas sem a ideia. e um e outro deixaram no país legítimo renome. da explanada”. – Peregrino também apresenta aqui uma significação especial. como se não tivessem destino e se se não deixassem dirigir de nenhuma autoridade. só por distração”. 281 AMEAÇAR. – Vagante é o mesmo que vagabundo. ou ambos aqueles moços foram heróis na campanha. que não se ocupa de nada. assustar. intimidar. o que leva vida solta e alegre”.. de vadiagem: antes aproxima-se mais de passeante. perdido. amedrontar.. errante. – Ambos também se diferença de dois (ou os dois) em referir-se este ao número. ambulante diz-se de quem exerce um mister de terra em terra: músico ambulante. apenas análoga à própria (de romeiro): designa “o que viaja por terras estranhas. sem rumo fixo. despreocupado. e o mesmo significa atemorizar.” – Tunante é “o vadio de baixa classe. sem eira nem beira”. fundada nas primeiras décadas do século XVI na Itália. – Airado será “o vadio elegante. porém: “a voz ressoou por toda a área da sala”. – Intimidar diz propriamente “causar temor”. ou que não tem dono conhecido. vagante. vadiagem”. arcebispo de Chieti. Esta noção se ilustra pelo seguinte trecho de Vieira: “O querer e o poder fazer bem são duas coisas totalmente diferentes. e que tomou esse nome da circunstância de ser o seu fundador (Caraffa). do circo.180 Rocha Pombo pois designa “o espaço compreendido entre dados limites. Esses monges de Teate viviam a pregar de terra em terra.

Também não se atemoriza a uma criança. Entendem esses autores (seguidos por muitos outros) que deleite indica o maior grau de delícia. e sobretudo. – Assustar. ou a função mais aprazível é a do juiz que salva a inocência. aprazível. Deve notar-se uma certa diferença entre estes dois verbos: intimida-se a um menino ameaçando-o de cortar-lhe a mão se tocar no doce. porém. A trovoada amedronta até espíritos fortes (e ninguém diria – aqui intimida). “tolhê-lo. para que aquilo que causa prazer seja ameno.) Pode-se. amedronta-se o ladrão (que vai penetrar na casa) disparando para o ar o revólver. – Sobre delicioso. Deleite é o gozo dos sentidos”. delicioso diz muito mais que deleitável. que é um escrúpulo ou um forte movimento de consciência. – O que é ameno – diz Bruns. se atendermos a que a desinência oso designa “abundância”. é necessário que o gozo seja puro. ou que nos excita na alma um sereno prazer – e cândida alegria. Ora. etc. Entre delicioso e deleitável – não é possível ver as diferenças que notaram Roquete e Lacerda entre delícia e deleite. que é agradável é ameno.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 181 pessoa que é intimidada: o que não se dá com atemorizar. – Aprazível é aquilo “(tanto no mundo das coisas como na esfera moral) que nos encanta a vista.” É aprazível um panorama. o grato sensibiliza”. deleite carnal (não – delícia carnal). Portanto. O agradável apraz. enquanto que sem desar para ele. Entre agradável e grato nota-se esta distinção: o que é agradável dá prazer aos sentidos. (E não completa infelizmente o autor a exposição do seu modo de ver. agradável. os perfumes. deleitoso. ou induzi-lo a ceder a motivos imaginários”. encarece o mérito. Agradáveis são as belas paisagens. mas também. nem a criatura alguma incapaz de sentir o verdadeiro temor. bem se poderia admitir que um herói se atemorizasse do castigo divino. delicioso. Tudo o que causa prazer é agradável. Neste ponto ainda preferimos Bruns. o que é grato é relativo aos sentimentos. é delicioso o que nos arrebata. aqui. 282 AMENO. obteremos a verdadeira diferença que há entre os dois adjetivos”. atendendo aos fundamentos que ele oferece. mas. inocentemente deleitável. dizer que um herói se intimida. portanto. Querem os dicionaristas que deleitável e deleitoso designem a mesma ideia. não só exprime o prazer sentido. e nada mais aprazível no mundo do que ser útil ao nosso semelhante. isto é – que propriamente deve aplicar-se só em relação às sensações. o que é delicioso causa abundância de delícias. e o mais recente de todos eles chega a preferir a forma deleitoso a deleitável. e avel. gratas são as provas de amizade.. A delícia consola os sentidos e o espírito. falando da saudade: – o delicioso pungir de acerbo espinho. as demonstrações do reconhecimento. É deleitável o que nos dá prazer. as recompensas ao mérito. é “produzir medo súbito e quase pavor com que se ameaça alguém”. . segundo o qual – “delícia. deleitoso escreve o mesmo seguro Bruns. Só no uso comum é que se pode entender de delicioso como entende Lacerda. valor ou qualidades do que lhe dá origem. nem tudo. “qualidade”. suave. a boa música. E tanto é assim que dizemos: delícias do Paraíso (não – deleites). – é agradável. deleitável. a do artista que nobilita a sua arte.: “O que é deleitável causa-nos deleite. no entanto. Muito longe disso – é no sentido moral que delicioso exprime o mais alto grau do prazer23. grato. um medo sagrado. isto é. deleitável. Não seria próprio. – Amedrontar é que convizinha muito de perto com intimidar: quer dizer “impressionar algum ânimo fraco”. entender assim: que é deleitável o que 23 Já o poeta dissera. nem um idiota. – Delicioso é mais do que aprazível.

ou uns a outros”.. e com que se dá uma ideia.” Amassou o chapéu. mas ninguém diria: ajuntei meus irmãos para combinarmos a resolução mais acertada”. “Emaçamos os papéis. Usa-se também no sentido translato para exprimir o efeito de causar impressão forte (fazer mossa).. 283 AMOLGAR. ou ajuntar em maço. é “de uma certa coisa uma parte ou porção com que experimentamos a qualidade dessa coisa”. ajuntar. embotar. o pedaço. É por isso que dizemos: “aquele homem. Dizemos: uma prosa deleitável. reunir. depressa ajuntará dinheiro ou fortuna”. amassar. prova. ajuntar. reunir é “tornar a unir”.. de associar coisas em quantidade. arrumar. – Amolgar significa “tirar a um objeto ou a alguma porção desse objeto a forma própria deprimindo.182 Rocha Pombo produz deleite. rombo. nem – acumular as frutas que se estão colhendo.. registra este exemplo do Dic.. deformar. tirar a acuidade ou agudeza”. – Amostra é “o resumo. mostra. e não – deleitosa). unido ao outro. o fragmento de uma coisa. ou mesmo uma noção perfeita dessa coisa”. demonstração. ou – os peixes que se estão pescando: porque em todos estes casos não se subentende medida a encher. comprimir violentamente.. – Ajuntar e reunir são muito difíceis de distinguir-se: ajuntar é “pôr um ao lado. – Deformar é “tirar a forma própria. que lhe abolou o elmo. ou paragem (e não – deleitável). achatar. juntar sem ordem”. dobrando. a carteira. isto é. – Amossar é produzir mossa (marca de pressão violenta sobre corpo compressível). É usado igualmente no sentido moral.: “Com tamanha pancada. Aí deve usar-se o verbo amontoar. neste grupo. – Esmagar é “espremer. – Emaçar é “reunir. já excede à medida normal. mas não dizemos – acumular o trigo no campo. Aul. Dizemos – amostra do pano (e não – mostra). – Abolar é reduzir a bolo.. acumular as pedras que vêm da montanha. indício. – Amontoar é “reunir aos montes. 284 AMONTOAR. Por isso dizemos – acumular empregos ou cargos. com toda aquela atividade e economia. e não diremos: “aquele homem reunirá. Usa-se também no sentido figurado para designar o ato ou o efeito de causar funda impressão no ânimo de alguém. – Prova. – Sinal é. (e sim – reuni meus irmãos. tirar a forma de. amassando. segundo Lacerda.” – Amassar diz propriamente “deformar reduzindo à massa. formar montão.” Pode-se dizer indiferentemente: “reunir ou ajuntar as forças debandadas ou dispersas”. ou esmagando”. formar de algumas ou muitas coisas um só volume”.) – Arrumar é “propriamente pôr em rumas. “o que dá . esmagar. ou campo. sinal. É o mais genérico do grupo. amossar. de formar conjunto. Dizemos: o deleitoso vale. o livro. – Embotar é “fazer boto. – Todos estes verbos enunciam a ideia de reunir.. tanto no sentido figurado como no natural. 285 AMOSTRA. acumular fortuna ou riquezas. acumular. seja como for”. quebrar as arestas a. da Ac. ou reunir. triturar”. arranjar um sobre outro”. achatar. – Acumular é sinônimo quase perfeito de amontoar: apenas acrescenta à significação deste uma ideia de continuidade e de reflexão: o que se acumula já sobra. portanto – é “unir outra vez o que já fora unido”: e aí está no que consiste a diferença entre os dois. deu mostra ou mostras de indiferença (e não – amostras).... abolar. e é deleitoso o que está cheio de deleites. e arrumamos os maços no armário ou na estante”.. Entre amostra e mostra parece que não há mais diferença que a de ser o segundo mais aplicável no sentido moral. emaçar.

dizendo – imensidão do céu. para viver na contemplação e no estudo. em lugar isolado. 286 AMPLIDÃO. monge. Dizemos: aqui estamos a enfrentar com a imensidade (e não – com a imensidão. – É asceta qualquer pessoa que despreza o bulício do mundo e se entrega inteiramente a exercícios espirituais (sendo o ascetismo independente de qualquer ordem religiosa). amplitude. mas. de privações voluntárias. Esta é mais próxima de grandeza. denuncia. que é mais – grande extensão.. e gozar a seu modo de um isolamento que não é absoluto. Amplidão significa extensão sem ideia de quantidade precisa ou determinável. âmbito. – Demonstração. fora da acepção própria que tem na tecnologia científica. quando esta palavra se refere aos católicos romanos. grandeza. Dizemos ainda: tratar do assunto em toda a sua amplitude (e não – amplidão). e talvez exprime ou representa. quando o asceta o é só na aparência e nas exterioridades. – Grandeza é propriamente a qualidade de ser grande. O monge é como o desenganado que foge ao mundo e aos homens. eremita. – Vastidão é a qualidade do que é vasto. de infinito. – Indício é o que indica. é “uma prova mais completa. de vastidão. a não ser por figura muito forçada). hipócrita. fanático. salvo se a esta déssemos um completivo. – Amplidão e amplitude são duas formas vernáculas da mesma palavra latina amplitudo. amplidão infinita (e nunca amplitude infinita. manifestação mais decisiva”. vastidão. das estrelas). As palavras são sinais das ideias. – Anacoreta. cuida de uma ermida ou capela. da praça. As nuvens grossas são indícios de chuva”. Dizemos: a amplitude de um campo. aponta. imensidão sugere ideia de grande número. “aplica-se aos que se retiram do vaivém do mundo para sítio isolado. imensidão. o mesmo não se dá com imensidão. asceta. cenobita. religioso. leva ao conhecimento de algum objeto. amplitude fora do comum. – Solitário é termo genérico: diz-se indistintamente de quantos vivem em sítios apartados. denota. segundo Bruns. de infinito.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 notícia de outra coisa com que tem relação. devendo logo notar-se que ambos têm aqui sentido figurado. imensidade. – Entre imensidade e imensidão mal se poderia marcar uma diferença muito subtil. – Eremita (ermitã ou ermitão) é o religioso que. O cenobita (do grego koinos. ou melhor o sentido que por extensão se lhes dá comumente. e bios. do espaço. solitário. Este vocábulo toma-se sempre à boa parte. aquela é mais vizinha de imensidade. amplitude significa extensão maior ou menor. para com eles viver em comum. longe do convívio do mundo. 287 ANACORETA. aqui. é-lhe inerente a ideia de mortificação do corpo. etc. Figuradamente se diz de qualquer pessoa que vive retirada do trato social. extensão. – Há mais austeridade na ideia sugerida pela palavra monge que na do vocábulo cenobita. Na maioria dos casos. de quantidade extraordinária. etc. um sinal mais claro. Imensidade é mais do que sinônimo perfeito. de vida retraída. Em todas as religiões há ascetas. pois é equivalente de infinito. pois. é muito semelhante a amplitude e a grandeza: designa as proporções de uma superfície. de uma linha. enquanto que imensidade sugere ideia de ilimitado. frade. de um certo espaço mesmo. chama-se-lhe tartufo. a amplidão do espaço. – Âmbito é o espaço compreendido dentro de certos limites. O vasto âmbito da sala. “comum”. O . – Extensão. e aí vivem entregues à meditação religiosa. “vida”) é o monge que não procura precisamente a solidão. É dos mais extensos entre os do grupo. mas sim a companhia de alguns homens da sua feição.

– Suma é “o resumo que nos dá em substância a matéria de um trabalho”. – Fanático diz-se de quem é ultrarreligioso. pois pretende a bem-aventurança para si. – Extrato é a cópia literal de um ou vários trechos de uma obra. – Desconcerto é ausência de acordo moral – e a desordem que revela esse desacordo. no entanto. um sumário em que se indiquem apenas os capítulos de um livro. quer ligando-se a ela por votos. epílogo. – Religioso diz-se daquele que. como termo escolástico. Em acepção mais alta. porém. Em sentido lato. Em política. – Desordem é “falta de ordem normal”. desregramento. – Resumo é o livro que. – Resunta. súmula. porque se aplica a todos quantos se dedicam à vida religiosa. etc. Noutro sentido. porém. – “Na série de ideias em que os primeiros sete vocábulos deste grupo são sinônimos. ao lê-lo. como termo filosófico – anarquia será o vocábulo com que se há de designar “o regime social independente de autoridade política. no uso comum. desordem. – Compêndio é a exposição abreviada dos princípios de uma ANÁLISE. poema. – Epílogo é o “resumo que se faz no fim de um trabalho literário (discurso. ou os artigos de uma revista”. confusão. balbúrdia. 288 arte ou ciência. ou a direção da sociedade humana só pelas leis morais”. no entanto. dizse. religioso é sinônimo ainda mais próximo de monge e frade. observa os preceitos que ela lhe impõe. Mas religioso é palavra de mais lata extensão. de modo que. cizânia. se recorde o texto da obra principal. Noutro sentido. pensa ser inspirado pela divindade. Num sentido menos vulgar. – Desgoverno. suma. feita pelo que defende alguma tese. se têm como sinônimos perfeitos. consubstanciando-a e resumindo-a. propriamente só os que exercem o governo é que podem praticar desgovernos. – Sumário é uma exposição das principais matérias contidas no texto. o legítimo asceta é geralmente egoísta. des- extrato. é a repetição abreviada dos argumentos. destempero na administração da coisa pública.). quer que tudo e que todos se amoldem às suas imposições. análise diz-se de trabalho literário ou científico em que é examinado outro de igual natureza. – Argumento é o mesmo que sumário. discórdia.184 Rocha Pombo asceta. e fecha os olhos às desgraças da terra que não remedeia para não se distrair da contemplação em que vive. Nesta acepção. resunta. anarquia é “ausência de governo. quer por simples resolução. 289 ANARQUIA. mau governo. são precisamente distintas. de poder público”. mais frequentemente do sumário que precede a cada uma das divisões de um poema”. o frade é do convento. – Súmula é “uma pequena suma. é desregramento de autoridade. drama. desgoverno. Esta palavra toma-se a má parte. argumento. epítome. resumo. pode ter por objeto a crítica. dos costumes próprios de uma sociedade. o termo mais apropriado é epítome. – Desregramento é “desvio das normas. concerto. pois o fanático julga-se superior ao resto da humanidade. pró ou contra. reduz a sua doutrina. . caos. muito longe de ser “falta de governo”. – Anarquia e desordem são palavras que. compêndio. recapitulando a matéria de que no entrecho se tratou desenvolvidamente”. infração dos princípios morais. seja qual for a sua crença. é o mesmo que resumo. ou tão somente o fim de expor o objeto. sem pretensões a substituir outro. Entre monge e frade há a mesma diferença que entre mosteiro e convento: o monge é do mosteiro. se diz da obra literária que extrai abreviadamente a doutrina de outra. o plano e a sequência das ideias explanadas na obra de que se trata. porém. sumário.

para examinar-lhe a estrutura. maldição. é o “exame minucioso. Mas entre anátema e excomunhão nota Bruns. pois este é a maldição formal imposta pela Igreja. amaldiçoar... de qualquer grêmio).. anátema. por alguém que se sente abalado de grandes amarguras. – Destes dois vocábulos diz S. ânsia. ou quando labuta na incerteza de se qualquer sucesso. ou todo um organismo. se realizará ou não. de concerto moral. – Anatematizar e excomungar exprimem de comum a ação de excluir. devido à irrupção de paixões. de sagrados ressentimentos. como se tudo estivesse em turbilhões. Luiz. a arte de dissecar. hostilidades. a seguinte diferença: “o anátema dimana. – Cizânia é mais – “falta de harmonia. Nestes termos a eles se refere Bruns. “Vive em ânsias (ou na ansiedade) aquele que receia a cada momento . “Um prisioneiro espera com ansiedade o dia em que se há de ver livre”. e a dissecção consiste em dividir. de funda consternação. O monge partiu amaldiçoando a cidade. – Confusão é “a desordem que chegou ao seu mais alto grau. – Maldição exprime ideia mais genérica do que anátema.. criando transtornos. de uma família”. “visão da alma”.. – Discórdia é “desconcerto profundo e violento. “Deve ser horrível a ânsia com que o réu espera a sentença do júri”. dissecção.. Há ânsia quando se receia que um mal suceda”. enquanto que maldição é um como anátema lançado por alguma alta autoridade moral. 291 ANATOMIA. 293 ANSIEDADE. – Confundem-se or- dinariamente estes dois vocábulos. – Ana- tomia é. às injúrias e ao desprezo contra aquele que a Igreja anatematizou.. dos poderes eclesiásticos. o transtorno geral em que ninguém mais se entende. de boa paz” do que propriamente discórdia: e distingue-se desta ainda em sugerir a ideia de que foi um terceiro que a lançou ou acendeu. – Velho exprime simplesmente “o homem que tem chegado à idade da velhice”. excomungar. pertencendo a ela. – Caos é o estado que se compara ao da matéria amorfa. expulsar.. bom ou mau.. para o qual parece que não há mais corretivo. 292 ANCIÃO. Aquele filho que os pais amaldiçoaram. tornando-se difícil restabelecer-se a paz.. Não se compreende discórdia sem agitação. – Balbúrdia é grande desordem. 290 ANATEMATIZAR. sem desvarios e estrondos. o estudo de todas as partes de um órgão ou de todo um cadáver. e num sentido mais alto e abstruso. lhe não é obediente”. mas aquele é fulminado contra os que da Igreja se emanciparam: o seu fim imediato é o de incitar ao ódio e à perseguição. excomunhão.: “Ansiedade difere de ânsia como incerteza difere de receio.. velho. A excomunhão é a sentença ou decisão da autoridade eclesiástica pela qual se exclui do grêmio da Igreja aquele que. veementes furores”. banir do grêmio da Igreja (e no sentido geral. – Autópsia significa propriamente “vista de si mesmo”. – Ancião ajunta à ideia de velho a de autoridade: é o velho respeitável e digno de veneração pela sua sabedoria e probidade”. Há ansiedade quando o espírito está inquieto esperando que um sucesso feliz acabe de realizar-se. feito diretamente pelo médico”. separar em partes um órgão. O profeta que amaldiçoou os meninos perdidos. Como termo de Medicina. da organização de seres animados: é o extremo da confusão. ou “visão interior”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 185 de uma instituição. antes da criação da vida. neste grupo. como a excomunhão. E dá estes entre outros exemplos. autópsia.

“povo”) as que provêm da infecção do ar. ou enfermidades epidêmicas (do grego epi. – São palavras que quase sempre se empregam indiferentemente para designar as roupas velhas.. aos seus trapos: não seria próprio. no entanto. 297 ANEXAR. 296 ANDRAJOS. – Seguir é propriamente “continuar a viagem começada. 295 ANDAR. anexo. distrito ou paragem”. fica fazendo parte desta conquanto . entretanto. “que se diz das graves epidemias que semeiam a morte em províncias e nações.. ou que foi anexada a outra. roupas muito rotas e sujas. viajar”.” – Parece que não se distingue bem a diferença. Tais são a sarna. aperto do coração. etc. sobre”. ir de viagem de um lugar para outro. no entanto. e devido a causas puramente locais”. ou mesmo à mediania a que tivesse descido um homem rico. de um lugar para outro. o contágio (de cum e tago. e demós.. comunicando-se de umas a outras”. seguir. o cólera-morbo. – Estas palavras têm de comum a ideia. – Endemia é “mal próprio de um país. mas – a ânsia. por meio do ar. in- passar. de associação de uma a outra coisa. das outras pela ideia que sugere de grande miséria dolorosa e como que sagrada. sem relação a pontos determinados. “em. em certos tempos ou estações do ano”. transitar.. epidemia. referir-se. – Caminhar é fazer caminho. ou mover-se corporar. como não dizemos – a ansiedade. ou de certos climas.” – diríamos referindo-nos à pobreza. vestida com certo apuro. incorporado. doença que grassa pela terra. – Passar é “dirigir-se para algum ponto atravessando um caminho ou uma certa zona. Por excesso de modéstia. – Andar é mover-se dando passos para diante. que ansiedade sugere mais ideia de impaciência aflitiva. incerteza dolorosa – do que ânsia. etc. ou enfim. Acrescenta Bruns. que pode levar consigo certos miasmas morbíficos. que é angústia. – Ir é andar. mas – a ansiedade de quem espera. incorporação. e nunca decerto se empregaria no caso o vocábulo andrajos. ir. contágio. por tango “tocar”) é uma enfermidade que se comunica pelo contato.. poderia uma pessoa elegante. fazer caminho. A primeira distinguese. mais talvez sofrimento físico do que moral. etc. estendendose a províncias e reinos inteiros. endemia. ou pelas roupas. correndo às vezes toda a extensão do globo. a febre amarela. A coisa anexa. a peste de Levante. marchando ou caminhando para diante”. ou seja imediato.186 Rocha Pombo que lhe descubram o desfalque. 294 ANDAÇO. marchar. sujas ou rotas de que se cobrem os mendigos. Não dizemos – a ânsia. farrapos. molam- bos. antiq. Devemos acrescentar. trapos. os males venéreos. – Chamase epidemia. por várias regiões. caminhar. – Andaço é palavra vulgar que indica epidemia menor. ou fazer alusão aos seus farrapos. que é realmente muito subtil. – Molambos é brasileirismo significando – trapos. a esta lista a palavra peste. peste. de qualquer modo que se faça este trânsito: e tem relação a um ponto determinado a que a pessoa ou coisa se dirige. – Marchar é “andar ou caminhar compassadamente: dizse especialmente da tropa de guerra quando vai com ordem de marcha”. móveis. que usasse andrajos. Tais são certos catarros. a lepra. ou as ânsias da morte. anexado. que sugerem. – Transitar exprime a ideia geral de “passar além. ou então por orgulho gracioso. “Aqueles farrapos da antiga opulência. anexação. qualquer corpo infestado. – Segundo Roq..

escreve Bruns. Uma repartição que se anexou a outra fica apenas sob a mesma direção sob que esta se acha. e desde essa época. dá-se ideia do esforço e trabalho com que se angariam esses partidários. – Unido. – Recruta-se com autoridade. nenhuma delas fica imperando sobre a outra: eram duas. Mesmo quando se diz que se recrutam partidários para uma causa. Quando duas freguesias se anexam. recebe domínio alheio. quase sempre à força. dois primeiros. Essas freguesias. revirado. um Estado. angariamos amizades que nos sejam úteis na desgraça. Isto se entende principalmente em matéria política. mingau. do que forma parte de um todo. Neste exemplo marca-se bem a distinção entre os dois verbos: “A Alsácia-Lorena foi anexada à Alemanha em 1871. – Anexo diz-se. – Angu e pirão. papa. sendo o pirão apenas a farinha fervida ou aferventada em água ou em caldo de peixe. – Mexido e revirado são massas de farinha com peixe ou carne. apenas adstrito à soberania do país a que foi anexado. sendo apenas mais . tratando com boas maneiras a pessoa ou pessoas que se quer atrair ao nosso partido ou ao nosso serviço”. ficam dependentes da mesma diocese. tudo muito misturado e revolvido. isto é. Recrutam-se praças para um batalhão. escaldado. aliciar. admite-se que o angu é mais condimentado. melhor ainda que anexo. Angariamos adeptos para a nossa causa. recrutar. Uma força militar que se incorpora num exército perde inteiramente a sua forma ou condição antiga. formando corpo à parte. – A maior parte destas palavras são quaiseirismos comuns. recrutam-se os conscritos refratários. Alicia-se gente para a revolta. unido. dependente. ficou sob o pacto federal daquela outra república sem perder o predicamento de Estado. O Texas foi anexado à União norte-americana. sob o comando do mesmo chefe. operários para as nossas oficinas. uma ideia comum fundamental diferenciada por ideias acessórias): o que está anexo forma. o pensamento constante da política alemã tem consistido em fazer tudo por incorporar definitivamente aquelas províncias ao império”. um todo em que nenhuma das partes fica dependente nem nenhuma dominante. pois. – Sobre os ainda que per se constitua um todo à parte”. 299 ANGARIAR. dependente. – Alicia-se “enganando. – Angaria- -se “fazendo acordo. com aquilo a que foi anexado. e há quem alicie inocências para a miséria dos bordéis. ou um país qualquer que se anexa a outro continua a ser o que era anteriormente. destacando-se do México. Quando muito. perdendo o seu caráter individual. angu ou mingau. aplicam-se indiferentemente à farinha de mandioca escaldada em água. daquilo que recebe domínio alheio ou lhe pertence. seduzindo com muitas promessas e vantagens”. designa o que se associou a outro sem perder coisa alguma das suas condições próprias. porém. Um Estado que se incorpora a outro passa a fazer com este como um só corpo. mexido. Dependente diz-se do que.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 187 conserve o seu modo de ser ou o seu caráter individual. entre os brasil nem sempre se nota diferença essencial e precisa.: “Estes dois adjetivos exprimem ideias diferentes (isto é. desencaminhando. 298 ANEXO. 300 ANGU. – Escaldado é o mesmo que pirão. formam uma. Entre diversas províncias unidas não há nenhuma a que se atribua hegemonia ou preeminência. pirão. por exemplo. – Incorporar designa uma ação ou efeito mais completo que o da simples anexação. e passa a formar com esse exército um só todo.

– Tem-se vontade de sair cedo de casa (sem fazer disso grande questão). aspiração. malpreparada. vonta- de. ou que se não acha no estado ordinário”. leite. de sagu. muito bem estes dois verbos. é anormal (isto é. Tanto dizemos – escaldado de farinha (esta fervida em caldo de carne ou de peixe) como – escaldado de ovos. isto é. de milho. é vontade. de frutas. irregularidade. açúcar. Para minha alma enoiteceu no dia em que vi morta minha filha. numa certa regra que rege o maior número das coisas ou fenômenos de que se trata”. que não se põe de acordo com a ordem conhecida e aceita”. irregular. etc. monstruosidade. A estação tem sido muito anormal (fora do que comumente se observa). Quando chegávamos à fazenda. enquanto que a excepcionalidade consiste apenas em “não entrar a coisa excepcional na regra instituída. não está no seu temperamento. sente-se anelo (ou anelos) do Céu. etc. desejo. mas que se afasta da gramática pela construção viciosa ou absurda. – Anormalidade é ato anormal. – “Anoitecer é o fenômeno que observamos cada dia entre o pôr do sol e o cerrar da noite. vulgarmente. anoitecia. da regra comum. É uma anomalia moral um sujeito malvado professando uma religião de paz. disformidade. muito altas ou muito difíceis. excepcional. e só excepcionalmente é que ele se mostra calmo). como anseio é anelo mais ardente e fervoroso. 301 ANELO. – Excepcional é o que não se conforma com a regra geral. ou um sintoma aberrante em certo morbo”. as normas aceitas. excepcionalidade. – Mingau é um angu especial. – Desordenado é “o que sai da ordem vigente. – Papa significa “massa em geral”. de trigo. – É anômalo o que se afasta do usual. Difere muito de anormal. que não se opera segundo as condições normais. do que infringe a regra instituída. É anomalia de linguagem toda forma admitida pelo uso. anomalia. desordenado. qualidade do anormal. deformidade. – Enoitecer é o fenômeno anormal que se pode observar a qualquer hora do dia quando o tempo se escurece por uma causa qualquer. – Distingue Bruns.) com ovos. qualquer substância pouco consistente. excentricidade. anseio. As irregularidades de uma vida licenciosa nem sempre se poderá dizer que sejam anormais. pois apenas significa a disposição favorável de agir em qualquer circunstância. tem-se desejo de possuir algum bem que nos agrada ou nos encanta. É anômalo “um mal desconhecido. excêntrico. anor- extenso do que estes. – Anormal é “o que infringe a regra dominante. – Irregularidade é a qualidade do que é contrário à boa ordem. malidade. anormal. pois este não se adstringe a regra nenhuma. – Desejo é vontade mais viva.188 Rocha Pombo 303 ANÔMALO. As anormalidades . ou de arroz. feito de farinha (de mandioca. ou de coisas excelentes. Aquela calma em F. – De todos os vocábulos deste grupo. alimentam-se grandes aspirações que raramente se realizam. – Anelo é desejo mais intenso e solícito. 302 enoitecer. O eclipse enoiteceu a face da Terra (não anoiteceu)”. que se tem como fazendo votos e procurando vê-los realizados na vida. deforme. tem-se anseio (ou anseios) por alguma coisa que nos apaixona. mesmo que seja isso apenas aparentemente. e particularmente designa comida grosseira. – Irregular distingue-se de anormal em sugerir mais claro a ideia de infração culposa: ideia que não é essencial no outro. monstruoso. ANOITECER. etc. fica fora das leis. – Aspiração é desejo mais grave. o menos expressivo e forte. da ordem estabelecida. disforme. as leis conhecidas.

à justiça. e envolve ideia de vício. glosas. porque cada leitor se julga com direito de ser intérprete. interpretar. uma coisa. – Mais extensas que as anotações são as explicações. e aplica-se de preferência ao homem”. O anoso carvalho. um fenômeno. que vêm a ser como breves comentários das obras. É assim que a anotação instrui. fixando seu verdadeiro sentido. de original. derrama sobre o texto uma luz que a todos alumia. que se costuma pôr à margem do texto para explicá-lo. Mais extensão admitem as anotações.. – Deforme confundir-se-ia com monstruoso se este não sugerisse a ideia. secular. (Quem explica não faz menos do que “desdobrar aquilo que é complicado”.) – As apostilas são notas ou glosas (ou observações elucidativas) quase sempre pouco extensas. Mas disforme quer dizer “fora da forma usual. explicar. afastando-se do que se nota em todos ou no comum dos indivíduos. de anomalia na conformação (deformidade)”. por sua parte. explanação. à justiça. ou um sentido oculto ou obscuro que se aclara com autoridades e raciocínios. são extensas e eruditas explicações de um texto”. mas rigorosamente falando. as notas são curtas. explicação.. do centro que lhe é próprio. assim a interpretação. sem a forma própria do gênero. ob- servações. e só figuradamente é que se emprega excentricidade para significar “o que tem um indivíduo. cotas. explanar. senão que se estendem a facilitar a inteligência das coisas ao vulgo dos leitores”. “as anotações e as notas se empregam para aclarar e ilustrar (anotar) alguns lugares de uma obra. as quais.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 189 de gosto. de irregularidade repugnante à moral.”. da direção. – Secular é propriamente “o que conta séculos de existência. e só dizem o que é precisamente necessário para aclarar e ilustrar a obra. numa criatura nem sempre serão irregulares (isto é. apostilas. nem sempre serão contrárias à moral. anosa existência (carvalho. (Comento vale mais por nota e fica em relação a comentário como nota em relação a anotações. e a interpretação limita-se a apresentar razões pró e contra. – Antigo é “o que é tão velho ou tem tanta idade que já se acha fora de uso”. A anotação. pois não se limitam. apostilar. anotações. supõe ambiguidade. – Explanar é “explicar. Também se chama assim a nota marginal posta em autos. bem-feita. antigo. que lhe é essencial. notas. etc. interpretação. 305 ANOTAR. a referência à matéria deles. velho. à inteligência comum. etc. – Velho é “aquilo que está gasto.). que excede. em linguagem exata. tornando simples e fácil de entender um . que exagera a forma própria comum”.) – Assim como o fim das anotações é explicar com clareza e exatidão as frases e palavras. de afeições. comentar. – Cota é “a citação de autor posta à margem. – Disforme e deforme poderiam confundir-se se se disfarçasse o valor preciso dos respetivos prefixos. como aquelas. etc. de tendências. deforme significa “defetivo. idoso. comento. existência que conta grande número de anos). comentário. 304 ANOSO. coisas ou fenômenos do mesmo gênero”. – Excêntrico é propriamente o que sai do núcleo. – Segundo Roq. por engenhosa que seja a interpretação. – Idoso equivale a “anoso. conhecido só de alguns eruditos. Também se chamam notas os reparos e tachas que se põem a alguns escritos. ou para completá-lo. estragado pelo tempo”. – Anoso dizemos melhor tratando de coisas ou de fenômenos. ou cuja vida ou duração é tão extensa como um século”. a aclarar o sentido da frase ou palavra. sempre nos deixa em dúvida. e procura achar o verdadeiro sentido do texto que se interpreta.

sendo a treva (tenebra) a ausência completa da luz24. nublar. – An- tártico significa “que está abaixo do círculo polar do sul”. obscure- cer. a dor como que lhe nublou um tanto a razão naquele instante. Enoitar diz propriamente “pôr ou deixar em noite”. de uma forma um tanto vaga ou abstrusa. devendo notar-se que a predicação de obcecar é mais completa e direta. uma frase”. – Obcecar (no sentido figurado) confunde-se com obscurecer. que se isolou moralmente da nossa intimidade. É mais próprio. – Anuviar é “toldar de nuvens. austral. Terras. – Meridional quer dizer – “que fica ao sul de um outro ponto designado”. – Carregar tem uma acepção especial. ensombrar como se entre a coisa anuviada e a nossa vista passasse ou se interpusesse uma nuvem”. No sentido fig.” Escurece o tempo. escurecer. grave. – Ensombrar é “fazer sombrio. sendo apenas de menos intensidade que o outro. – Fechar equivale ao precedente. . ensombrou-se aquela alma à vista de tal cena. Em nenhum destes casos seria de tão lídima propriedade o verbo anuviar. segundo Bruns. – Escurecer é o mais genérico e vago do grupo. Quem se incumbe da explanação de um texto. A saudade ensombra-lhe o semblante. Eclipsar significa “escurecer pela interposição de corpo opaco entre a luz e o órgão visual”. à ideia de ante24 Poder-se-ia juntar a este grupo os verbos eclipsar e enoitar. e neste caso não seria aplicável meridionais. lúgubre”. dizer – hemisfério austral – em vez de hemisfério meridional. tem valor análogo. – Nublar é quase o mesmo que anuviar: apenas este sugere. escuro. carregar. 308 ANTECEDENTE. fechou a alma. pelo menos não tanto quanto as divícias lhe obscurecem o senso moral para a justiça”. como se vê deste exemplo: “Esta miséria jamais nos há de obcecar. de fazer sombrio. – Dizemos também – terras ou mares austrais – para designar os que ficam no hemisfério do sul. deixar em meia-luz”. entenebrecer. mares antárticos. de uma questão – há de explicar-lhe os termos e esclarecê-los de modo que se torne mais facilmente inteligível. – Tanto no sentido natural como no figurado exprimem de comum estes verbos a ideia de eclipsar. como se escurece a inteligência mais lúcida. aquele sacrilégio ficou para sempre a ensombrar-lhe as magnificências do sólio sagrado. A paixão política obscurece os espíritos mais luminosos. meridional. torvo. melhor do que aquele. prévio. – Austral designa todo o hemisfério oposto ao boreal. 307 ANTÁRTICO. – Antecedente é. toldar. ensombrar. 306 ANUVIAR. se pôs em guarda conosco. – Obscurecer sugere ideia mais sensível de atividade subjetiva: significa “privar de luz. de um problema. anterior. Quando se diz que F. “termo especulativo que. a ideia de turbação e escureza. fechar. obcecar. enquanto que carregar diz muito mais.. Muito raro será o caso em que. fazendo o radical tolda em toldar função análoga à de nuvem em nublar. cobrir de sombras. pois que significa “fechar ou fechar-se como hostilmente”. Ele carregou o semblante ao ver aquela miséria.. – Entenebrecer é mais forte que escurecer. portanto.190 Rocha Pombo texto. severo. ou a cor mais viva.. Dizemos: o tempo está meio nublado. que envolve ideia de toldação e ensombramento. precedente. exprimindo “a ação ou o efeito de fazer ou de fazer-se escuro. mesmo no sentido figurado: significa “fazer sombrio. não se possa substituir um pelo outro. no sentido figurado. um princípio. fazer menos claro e límpido”. quer-se dizer que F. – Toldar é semelhante a nublar.

precedentes. em geral. considerando-os como tendo fruído do que nos legaram. Dizemos: os antecedentes históricos de um certo acontecimento. ascen- ciso admitir uma certa distinção entre estas duas palavras como substantivos. entre o fato atual ou a coisa presente e o fato ou a coisa precedente. antigos. designa prioridade no espaço ou no tempo. de influência. – Pais. mas de modo indeterminado. 311 ANTECESSORES. são nossos ascendentes. ou daquilo em que lhes havemos sucedido”.. mas também necessário. como precedente. referindo-nos a todos os sucessos que são como determinantes desse acontecimento. maiores. O pobre como o rico. – Ascendente dizemos de qualquer dos parentes de que provimos: o nosso pai. aos privilégios. – Precedentes são os fatos que precedem imediatamente o fato de que se trata. enquanto que antecessor corresponde à ordem material de sucederem-se as pessoas umas às outras. outros que antes deles ocuparam os mesmos cargos. – Observa Bruns. mas não deverá dizer: os meus predecessores”. sem nenhuma ideia de causa nem de influência. segundo Lacerda. etc. às dignidades. o II ou o I. o nosso bisavô. As consequências provêm das causas antecedentes. os grandes. antepassados. fez-se novo contrato baseado em condições prévias”. mas só a primeira dessas denominações quadra bem na boca de todas as classes. fazendo alusão à conduta que parece explicar de perto o delito de que se acusa esse criminoso. Os reis. contam com desvanecimento grande número de predecessores. mas é preciso notar que. – Anterior e prévio devem distinguir-se. pais. Notando-se defeitos no contrato anterior. 310 ANTECESSOR. o gerente de uma empresa. não só anterior. os duques. Acrescenta Roq. – Confun- dem-se comumente estes dois vocábulos. o dono de uma casa de comércio. Neste vocábulo o que predomina é a ideia de que. etc. – É pre- “antecessor é o que ocupou algum lugar em relação ao que nele lhe sucedeu imediatamente. isto é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 191 rioridade. e predecessor é o que o ocupou antes do antecessor”. tem ascendentes. de figuras que os precederam na dignidade. que ascendentes é “o termo mais genérico e o menos pretensioso entre os primeiros três deste grupo. antepassados ou antecessores. O serventuário de um ofício. avós. O capítulo precedente ao capítulo IV é o capítulo III. Dizemos também: os precedentes de um criminoso. isto é. avoengos. como avós. pois não especifica se outros fatos ou outras coisas se intercalam ou não entre o fato ou a coisa atual e o fato ou a coisa anterior. que nos impede empregá-la em circunstâncias triviais. O que é anterior está antes ou precede. e corresponde mais ao cerimonial.. com muita razão: “Predecessor indica sujeito ou classe elevada. reúne frequentemente a de causa.. O capítulo de que se fala como anterior ao capítulo IV pode ser o III. – Antecedentes de um fato são todos os fatos de que esse fato decorre como uma consequência ou corolário. dentes. o que é prévio é. – Antecessores dizemos dos ascendentes. etc. 309 ANTECEDENTES. tiveram seus antecessores nos cargos. os funcionários da administração. o nosso avô. – Precedente indica prioridade ou anterioridade. não se intercala nenhum outro fato ou nenhuma outra coisa. dirá: o meu antecessor. o plebeu como o nobre. – Anterior. da justiça. Esta palavra encerra algo de nobre e de elevado. predecessor. aqui não designam parentesco de sangue . – Antepassado não se poderia dizer do pai nem do avô: só do bisavô para além se podem começar a contar os antepassados.

Hoje fazem-se muros só para cercar uma quinta. e. quizila. muralha.: “Na frase da milícia antiga – diz Vieira – o muro significava a fortificação mais estreita. – Adiantadamente exprime “com antecedência. aversão. prematuramente. e o antemural que cingia e defendia o muro”. ou que chegasse a época do pagamento). frequentemente exagerados. as que hoje se chamam fortificações ou obras exteriores. – Avós designa antepassados mais remotos. – Pais indica os mais próximos do nosso tempo. 314 ANTIPATIA. Sertorio. a fim de cingir e defender uma praça ou cidade fortificada. – Muralha é o muro de praça fortificada. dos Lusíadas: Oh tu. ou mesmo os antepassados. – Sobre ou direto: referem-se em geral às gerações que nos precederam. “contra”. antes de chegar à idade em que é mais comum que se morra). repugnância. F. – Aversão é sentimento que tem igualmente alguma coisa de desconhecido em suas causas. preveniu-nos antecipadamente que não viria hoje. A fortificação das cidades mais inexpugnáveis. e é assim que o emprega Camões na seguinte passagem do c. – Antigos parece encerrar ideia de mais afastamento ainda que avós. muro. muralhas para resistir aos inimigos que a quisessem atacar”. edificam-se muralhas só para fortificar e defender praças.192 Rocha Pombo 313 ANTEMURAL. – “Das duas palavras gregas anti. Que contra vossas patrias. rancor. horror. É mais forte que a antipatia. etc. segundo Alv. – Prematuramente significa “antes da ocasião própria em que alguma coisa se deve fazer ou deve dar-se”. e por vezes fabulosos. como aos de todas as raças e que viveram antes de nós. muitas vezes morais. consistia em muro e antemural: o muro que cingia e defendia a cidade. 312 ANTECIPADAMENTE. gana. mas parece não ser tão invencível . “reserva-se este nome para os homens célebres da antiguidade. antes do tempo devido”. e pathos. e é assim que muito se há delirado sobre ela. não só da nossa nação. oh nobre Coriolano. – Avoengos designa mais propriamente “a série dos avós ou progenitores de quem descendemos em linha reta” (Aul. segundo a arquitetura militar antiga. estes três vocábulos escreve Roq. compondo uma que poderíamos dizer literalmente contrapaixão (ou contrassentimento) formou-se a palavra latina antipatia (que se trasladou para as línguas derivadas) e que significa uma oposição ou inimizade natural ou irresistível dos seres uns contra outros. seus efeitos são prodigiosos. “paixão”.) e só por extensão é que se aplica este termo para designar os ascendentes em geral. F. ódio. aos homens.” – Maiores é “o termo genérico em que se compreendem todos os que viveram antes de nós.. asco. Catilina. adiantadamente. F. Passos. (VI. e do recinto da cidade. referindo-nos até a Adão e Eva. se bem que isto não seja essencial à palavra. Paris tem muros e muralhas. e vós outros dos antigos. pagou adiantadamente três meses do aluguel da casa (pagou antes que começasse a correr o aluguel. asca. conforme havíamos combinado (preveniu antes do dia ou da hora em que devia vir). vos fizestes inimigos. e o antemural. zanga. morreu prematuramente (isto é. IV. pois dizemos – nossos pais. muros para impedir a entrada de contrabandos e para que se recebam nas portas os direitos de octroi. construído segundo as regras da nova arquitetura militar. com profano Coração. parentes ou não”. que a defendem no largo. 104 e 372). – Antecipadamente diz “antes do prazo estipulado”. A causa de tal oposição é desconhecida inteiramente.

de gana (em sentido figurado) que é “um forte desejo de mal. 316 ANTIQUÁRIO. De qualquer modo que se manifeste. expressivas e com boa analogia. A aversão e a antipatia exercem-se indistintamente nas pessoas e nas coisas. merece louvor. a repugnância. e prefere os arcaísmos de nossos avós às boas expressões que o uso depois introduziu – este não se livrará da pecha de rançoso. Roq. As palavras e frases antiquadas ou desusadas “podem ainda usar-se em poesia e em estilo jocoso. posto que todos escrevessem em bom português. e significa a antipatia que os pretos têm a certos comeres ou ações. pois têm muito de caprichosos estes sentimentos que devemos chamar acidentais. O escritor que se serve de palavras e locuções antiquadas (ou desusadas). já excluído pelo uso”. É mais “tédio. que a forma não está em moda por ser muito velha”. 315 ANTIQUADO. e até de “quase ridículo”. Aproxima-se. mais naquelas que nestas. mas genuínas da língua. muitas vezes sem ódio”. que a repugnância é menos invencível que a aversão. Cada século tem seu cunho particular. repugnância que se tem a coisa torpe ou imunda”. às vezes gratuitamente”. arrelia do que aversão propriamente. de antipatia: quantas vezes se tem antipatia por uma pessoa só porque não a conhecemos de perto? – O ódio nasce quase sempre de poderosas e fundadas causas.. Luiz de Souza e Vieira diferem muito de Seita e Paiva. desusado. que de ordinário foram substituídas por outras mais bem derivadas e mais sonoras”. má vontade que se tem a alguém. o ódio. – Asca. parece com o tempo ganhar forças. e que muitas vezes acontece que uma e outra (aversão e repugnância) chegam a converter-se em afeto. O uso pode fazer ainda reviver. enquanto que arcaico significa apenas “que o vocábulo é muito antigo. – Entre desusado e arcaico deve notar-se a seguinte diferença: desusado diz propriamente “fora do uso. Sem nada mendigarem aos estranhos. talvez com desejo de vingança”. são cruéis e terríveis seus efeitos. e talvez com mais razão. nas ações. produzido sempre por alguma causa muito grave”. e ainda de capricho. em lugar da qual se usa em linguagem comum”. – “O domí- nio” – escreve Bruns. arqueólogo. por graves injúrias recebidas. no entanto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 193 nem tão profunda. e que esta o é também menos que a antipatia. – Obsoleto acrescenta à significação das duas outras uma ideia de – “excluído ou proscrito”. Barros e Fernão Mendes Pinto não escreveram como Fernão Lopes e Castanheda. encarniçamento e quase furor impulsivo contra alguém. aborrecimento. e até em amor. Diz. – Estas palavras “indicam coisa antiga que decaiu do uso”. e clássico para seus respetivos tempos”. de mera vontade. algumas vezes. Mas isto mesmo poderíamos dizer. obsoleto. arcaico. Camões e Bernardes não se parecem com Gil Vicente e Sá de Miranda. e cada escritor o estilo que lhe é próprio. é palavra vulgar que indica “aversão. segundo o mesmo Roq. não as obsoletas. para fugir à invasão do neologismo. – “em que o antiquário e o arqueólogo exercitam a sua atividade . – Zanga é “a quase aversão que se tem a pessoa ou coisa que se julga de mau agoiro”. – Rancor é “ódio profundo e oculto. – Horror é “grande aversão e repugnância. – A repugnância é ainda mais forte que a aversão. portanto. – Asco é “aversão. muitas expressões desusadas ou antiquadas. segundo a sentença de Horácio. – Quizila (ou quizília) é palavra da língua bunda. de ligeiros motivos. porém o que busca desenterrar velharias. e chega a inveterar-se na alma como um veneno mortal. mas as obsoletas parecem condenadas a perpétuo esquecimento.

– O contraste (do latim contra. – Oposição é aqui “o maior ou menor afastamento em que uma coisa fica da outra”. ainda segundo Bourg. e significa uma grande escavação aberta a modo de abóbada. essa proposição marca que Quinault é um medíocre poeta”. 227)”. e segundo a sua origem significa – cova profunda e escura. essa afirmativa marcaria que Quinault é um poeta de primeira ordem. cova. subterrâneo. Com estudo e paciência. contrariedade. É por antífrase que eles designavam o mar Negro sob o nome de Ponto Euxino (mar hospitaleiro). de horror. contradição. ‘conservar-se’) é a oposição que existe entre coisas contrárias. contraste entre as ideias ou as afirmações de alguém e as nossas”. – Contrariedade é “a relação que se nota entre duas coisas ou duas ideias opostas”.194 Rocha Pombo é o mesmo”. que as conhece. caverna.. em literatura. escura e medonha. o qual entrou no português como palavra culta e poética. e em geral sempre que se nota uma impressiva contrariedade entre duas coisas. – Segundo Roq. furna. o sentido real que está no pensamento do satírico. cuja disforme boca mostra ter uma légua de âmbito. Quando Boileau diz: “Asseguro: Quinault é um Virgílio” – a proposição: “Quinault é um Virgílio” “deve ser entendida em um sentido contrário ao que lhe é natural e próprio. a caracteres. distinguem a antífrase da contraverdade. muito mais restrita que contraste. e Berg. caverna. – Antiquário é o que tem gosto pelas coisas antigas. há. e diferença-se de todas as do grupo em acrescentar-lhes à significação comum a ideia de medo. buraco. porém. ou benévolas). Esta palavra não é poética. Esta palavra emprega-se nas artes. “é uma palavra ou uma locução que deve ser entendida num sentido contrário ao que exprime essa palavra ou essa locução. 317 ANTÍTESE. diz-se particularmente da fauce lôbrega de um vulcão. 318 ANTRO. mas admitido. Bourg e Berg. – A segunda do grupo é latina.. antítese “pertence exclusivamente à linguagem literária. – Arqueólogo é “o que é muito versado em tudo quanto respeita a antiguidades. e dizemos só da flagrante oposição que existe entre duas palavras ou duas ideias aproximadas: dizer que um homem é de uma ‘orgulhosa’ ‘simplicidade’ é fazer uma antítese. – Furna é cova profunda. Esta palavra é. toca. etc. de que nos deixou exemplo Bernardes na Floresta: “Estando em cima. dizemos: este santo homem”. antilogia. lapa. gruta. É também por antífrase que. Se não houvesse aí antífrase.. mas sem fundamentar claramente a distinção.. – “a primeira destas palavras é o grego antron. falando de um celerado. (II. que se aplica a situações. – Contradição é “desconcerto entre o que se disse e o que se está dizendo. portanto. um antiquário pode tornar-se arqueólogo”. ou entre os capítulos de um mesmo livro”. É por antífrase que os gregos designavam as Fúrias pelo nome de Eumênides (deusas benignas. oposição. e que a aproximação faz ressaltar melhor”. antífrase. as explica. – Antilogia “é a contradição ou desconchavo entre as ideias sustentadas pelo mesmo autor. que se dedica ao seu estudo. – Segundo Bourg. antino- mia. que deu o latim antrum. ‘frente a frente’ e stare. e defendida pelos lados como um recinto. pela antífrase. entre as duas palavras diferença considerável. contraste. qualidades ou modos de ser diferentes. – A antífrase. – Antinomia é “a oposição que se nota entre duas leis ou princípios”. e não somente às partes de um mesmo período. contemplando a horrenda furna e estômago do monte (Etna). que as coleciona (e que até com elas negocia). em filosofia. e Berg. que às .

– Cova é “abertura feita na terra. da grandiosidade excepcional que ela vai ter ou que apresenta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 195 outras não é inerente. – Buraco “será uma cova. a pompa que maravilham. e por analogia. – Os antros servem de covil às feras. e dizia-se antigamente aparelhos para dizer missa. grego krupta) e significa concavidade da terra entre penhascos. de produzir sensação. Chamam-se. trabalho ou obra. ou mesmo uma caverna menos profunda e de menores proporções”. – Lapa é palavra portuguesa. dispõem e arranjam diversos materiais ou coisas para a execução de qualquer obra. de asilo aos homens e de guarida aos ladrões. Diz mais que sumptuosidade. materiais. quase pelas mesmas palavras. sem majestade de encenação. mais ou menos ampla e profunda”. – Grandeza (segundo Lacerda. Às disposições para qualquer faustosa cerimônia ou festividade se lhes dá o nome de aparatos. como diz Luiz de Souza. mag- nificência. A significação da palavra aparelho é muito mais extensa que a das anteriores. os preparativos de uma guerra. os facínoras. ou de um banquete. 319 APARATO. “as ninfas e os deuses campestres habitam as grutas. as grutas são habitadas pelos anacoretas. e que sugere ideia de deslumbrar. vinda talvez do grego lápathos. apresto. Dizemos.” 320 APARATO. e coberta por um penedo ou chapa de pedra: isto mesmo significa a palavra lapa. brilho e formosura. as cavernas. – Segundo Roq. e as lapas dão abrigo aos pastores. pois que a significação desta palavra se estende a tudo o que se executa com pompa e ostentação. que “engrandecem” (aos que a contemplam).. mas abrange os instrumentos. Em estilo poético. luxo. como indica a própria origem latina. pois – os preparativos de uma função. – Pompa é o aparato ostentoso. ostentação. as feras.. do palácio. – Sumptuosidade.. do festim.. Quando se diz: “o aparato daquela cena” – quer-se dar ideia. das cores que um artista empregou no seu quadro. preparativo. a grandiosa disposição com que se celebra algum ato extraordinário. no sentido em que se . na Vida do Arcebispo: “E viu juntamente que ao pé do penedo se abria uma lapa que podia ser bastante abrigo para o tempo”. sem opulência de formas. – Magnificência é o esplendor. é o esplendor exagerado de um ato solene. disposições para todo exercício. assim como à reunião deles se chama aprestos ou aparelhos. – Toca = “buraco onde vivem ou se refugiam caças”. e quer dizer uma caverna na encosta de monte. de fazer sucesso. que repete. estende-se desde a ciência e manobras náuticas. figuradamente – sumptuosidade do estilo. como do brilho. e os zagais acolhem-se às lapas”. – Subterrâneo designa “em geral todo espaço que se encontra no subsolo”. pois não só as compreende todas. é a qualidade daquilo em que se faz ostentação de riqueza: sumptuosidade do templo. as cavernas. sumptuosidade.. etc. às vezes suscetível de ornato rústico. fausto. – Aparato é o movimento pomposo. pompa. o modo solene. majestade. grandeza. ou para carregar cavalgaduras. operações. não só das proporções dela. aparelhos aos arreios necessários para montar. o lugar onde alguém se esconde. aparelho.. – “quando se reúnem. esplendor. portanto. – Gruta é palavra castelhana e portuguesa (talvez do latim crypta. os antros. de um assédio. Não há pompa sem grandeza exuberante. dizemos que se fazem preparativos. desde o mais elevado até o mais ínfimo. alardo. desde o exercício e arte da pintura até o mais baixo ofício mecânico. e também. porque acrescenta à noção de grandeza a ideia de excelência. o que escrevera Roquete). com alguma vergonha.

os modos. impróprio seria. antigamente se lapidava. é o aspeto. soberania. ou não definida: “o que ela diz tem visos de verdade” (tem aparências vagas. e o objeto aparecido como extraordinário. ar (ares). e figuradamente. o exagero calculado com que se exibe alguma coisa. correr a pedradas. no viver. da qual nos deixa ver apenas uma parte”. – Grandeza indica luxo. distinguem-se. Grandeza refere-se “à parte material das coisas. Tanto se faz ostentação de riqueza ou de força muscular. ou do desejo de agradar ou de fazer figura. Como hoje se lincha. do espírito. isto é. tamanho de alguma coisa. – Visos quer dizer – aparência não clara. seriedade. considerado esse ato como coisa inesperada. porte ou conduta que ela mostra exteriormente. os gestos. visos. etc. neste caso) da febre amarela. que à primeira vista parecem sinônimos perfeitos. diz Lacerda. dignidade. – “a aparência é o efeito que produz a vista de uma coisa. exterior. a aparição do cometa de Halley”. Dizemos: o aparecimento do cadáver que se andava procurando. excelência. – Aspeto é a exterioridade que nos impressiona ao primeiro relance de olhos. etc. luxo de sapiência. – Luxo é toda manifestação exagerada do desejo de conforto. nos modos. imprecisas de verdade): – Mostra. aparição diz-se da coisa que aparece. como de talentos e virtudes. da corte. é brilho. lapidar. – Fausto é luxo custoso. de alguma coisa ou ação. mas. poder. exteriori- dade. aqui. o esplendor da mocidade. e majestade ao ideal das mesmas coisas”. ou pelo menos não perfeitamente lídimo. o que quer que seja de acento espiritual que distingue uma fronte humana. Há criaturas que fazem alardo de fortuna. o aparecimento (ou apa- bos. – O ar (ou os ares) com que uma pessoa se nos apresenta é o conjunto de tudo quanto da parte dessa pessoa nos impressiona à primeira vista: o semblante.. poderio. a voz. significa extensão. dizer: “. – Esplendor. no entanto. – Segundo Roq. e então se lhe chama exterioridade”. 321 APARECIMENTO. mas não se diz: o aparecimento. e lapidar é matar a pedradas. 322 APARÊNCIA. de um panorama. dava-se a morte pelo apedrejamento. etc. – Majestade indica decoro. e em sentido translato – seriedade. “é manifestação de uma coisa presente. semblante. de beleza. É de notar que se diria: “Ele vive com certo fausto” (isto é – com alguma pompa de quem deseja ser tido como rico). e do próprio ato de aparecer. – Estes dois ver- muito bem Bruns. por assim dizer. de erudição. lustre. senão a aparição do anjo Gabriel. e a ideia que nos resulta dela.196 Rocha Pombo toma aqui o vocábulo. – Alardo (ou alarde) é ostentação mais estrondosa. dando ideia da ufania de quem alardeia. mostra. de uma civilização etc. – Ostentação é o brilho e aparato. de poder.. Quando se diz que alguém foi apedrejado. de manifestar-se. – Majestade indica magnificência. estas duas palavras: – “Aparecimento é o ato de aparecer. ostentação (de grandeza e poder). com ‘certa’ sumptuosidade”. grandeza. maneiras. gravidade de alguma pessoa. deste modo: apedrejar é simplesmente jogar pedras a alguém ou a alguma coisa. Exterior é o que cada corpo mostra pela parte de fora: aplicado às pessoas. pelo que é às vezes enganosa. aparição. de poderio. quase sumptuosidade. – Distingue rição. O esplendor da natureza. Luxo no trajar. – Semblante é o modo de ser da fisionomia humana: é. 323 APEDREJAR. aspeto. enuncia-se apenas a ideia de que sobre essa pessoa se atiraram .

A um dicionário junta-se o suplemento. Esta rua é estreita.. caracteres diferentes. – Segundo Bruns. está como cingida de um e outro lado. têm. apêndice como o suplemento” – escreve pino. como a faculdade. estreita dir-se-á da que é pouco larga ou pouco ampla. no entanto. só (ou somente). e por isso está o pé apertado. cumeada). Podemos. – Recurso é termo genérico exprimindo “não só o ato de recorrer. por isso. no entanto. ou contrário à lei”. dar maior extensão à matéria. Não admite. anda o corpo apertado. por isso. e que. Falou exclusivamente do ponto que se controvertia (isto é. se bem sejam da mesma natureza da obra.” Parece. falou só desse ponto sem desviar-se para nenhum outro ponto). e apertada da que. e diz que esta expressão é imprópria. sumidade. gradação. o calçado é estreito. 324 APELAÇÃO. tope. expor novas aplicações. que frequentemente se ouve: calçado ou vestido apertado para indicar que o pé ou o corpo não se encontram neles à vontade. 326 APÊNDICE. culminância. ou com alguma parte dele. dizer-se: . para explanar a doutrina. de agir contra uma decisão ou um julgamento que se considera injusto. afirmamos que Estevão foi morto a pedradas. ou restringir-lhe o alcance. só (ou somente) enuncia quantidade sem relação determinada: F. os dois primeiros termos deste grupo. exclusivamente. 325 APENAS. a que fica superior a todas as outras. Falta-me apenas o quinto volume para completar a obra. alto. quando as decisões são apeláveis. não devendo. ou só.” – Apelação é “o recurso interposto da primeira instância para a segunda. píncaro. pois cume significa toda a porção superior das grandes elevações. zênite. – “são partes que se acrescentam a uma obra para completá-la. pináculo. – Com toda razão observa Bruns. Quando dizemos que Estevão foi lapidado em Jerusalém.. – Definindo. – Ápice é a parte mais elevada de um corpo. fastígio. 327 APERTADO. são diferentes dela no fundo. cume (cumeeira. portanto. sugere ideia de insuficiência ou insignificância para determinado fim: Não o compro porque tenho apenas cinco mil-réis. e está apertada entre altas paredes. Falando de superfícies. estreito. pois exclui todas as outras coisas do número daquelas que se salva ou a que se refere o enunciado. auge. diz Teixeira de Freitas: – “Agravo é um dos recursos frequentes da nossa ordem judiciária. que contém os vocábulos que no dicionário não estão incluídos”. que o agravo é o recurso de que se vale a parte perante a própria autoridade que deu a decisão. O suplemento completa o texto com artigos que lhe faltam. – Exclusivamente exprime exceção mais completa ainda. e que a apelação é recurso para juízo de instância superior à do juiz contra cuja sentença se recorre. e por ser estreito o vestido. não é rico: tem só (ou somente) quinhentas libras de rendimento. apogeu. ninguém diria com propriedade: – “ápice mais alto de um edifício ou de um monte”. melhor do que somente. no seu vocabulário jurídico. recurso.. A um código junta-se o apêndice que encerra as alterações que se fizeram a alguns dos seus artigos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 197 pedras. suplemento. dizer: o mais alto cume da cordilheira ou da montanha. cimo. O apêndice liga-se intimamente com o texto. agravo. – Apenas. o direito de reclamar. – “Tanto o Bruns. 328 ÁPICE. sendo demasiado estreita.

ou da fama. “No auge da fortuna. o mais alto de todos.. – Zênite é termo técnico de astronomia. como exprime culminância. – Alto é igualmente qualquer das porções elevadas de um corpo. de volume e de extensão.”. Em qualquer destes casos preferiríamos empregar cimo. Tanto é de lídima propriedade dizer: alto do monte. o cimo da planta. – Cumieira (ou cumeeira) é “a parte mais alta. pretenso. de algum corpo em geral. uma certa diferença. particularmente se diz do livro ou da obra que falsamente se atribui a quem não é seu autor. – Cume (do latim culmen) é a parte que se eleva também acima das outras. ou da ladeira. – Suposto – diz Roq. cumeada. Não seria próprio dizer: – o cume da ladeira.. nem – o cume do telhado. o ponto acima do qual não é possível ir. sem mais ideia alguma acessória. ou da colina. “Ele estava no auge da raiva. Mas pináculo envolve ideia de terminação da coisa elevada em ponta aguda.” – Apogeu. a sumidade e a outros do grupo. mas esta palavra é de aplicação mais restrita. – Cimo (do latim cyma) é propriamente a parte que de um corpo se destaca ou se faz saliente. também por analogia (com o fenômeno astronômico a que se dá esse nome). a cumeada dos Andes. alto da porta.” – Auge só se aplica a fenômenos morais. o cimo da escarpa. Tanto dizemos: o tope do monte. a ideia de grandeza. tope. Rigorosamente falando. é também a série dos cumes de uma serra ou cordilheira”. ou do muro. fabuloso. alto do palácio. ou de grandes construções. como: o tope do mastro. e de pouca ou nenhuma fé. A cumiada dos Pireneus. da colina. – Apócrifo é palavra grega (apókruphos) que significa coisa secreta. quase sempre melhor aplicada quando se trata de um edifício”. alto.198 Rocha Pombo o cume da ladeira ou da lomba. é “o auge supremo. Em linguagem eclesiástica. não conhecida antes. Entre cume e cimo deve admitir-se. e é aplicável no sentido translato. só devemos empregar cume tratando de montanhas. correlativo de nadir: em linguagem comum designa também “a culminância a que alguma pessoa atinge na esfera em que exerce o seu esforço. – Fastígio. – Cumiada (ou cumeada) é também “a parte mais alta. tratando-se de uma montanha. sem dar ideia necessária de grandeza ou de altura extraordinária.” “A linha desdobra-se pelo fastígio da cordilheira”. por analogia com a significação desta palavra como termo de arquitetura. e que a Igreja Católica não incluiu no cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas. fictício. alto da testa. falso. Culminância sugere ideia de imensa altura do pináculo. etc. em vez de todos os pontos elevados. mais à vista e mais brilhante de algum edifício. como o cimo do edifício.. “Ele ascendeu então ao fastígio da glória. O mesmo se poderia dizer de píncaro se este designasse. – “é palavra latina (suppositus) e significa o que se põe falsamente em lugar do verdadeiro. dá-se este nome a todo livro duvidoso. cume.” 329 APÓCRIFO. ou da escada. pela analogia da posição desse ponto com a do sol quando se acha no zênite. portanto. como: alto da árvore. da escada. – Pino é um correlativo de base: designa o ponto culminante de alguma coisa. e indica “o alto grau de intensidade a que é capaz de chegar um sentimento ou a que um fato pode atingir”. é a parte mais elevada. Sumidade acrescenta à noção de cimo.” – Tope (ou topo) é a parte superior de qualquer coisa. alto das ruínas. suposto. o cimo do chapéu. de autor incerto. nem mesmo – o cume da torre. “Ficamos até em pasmo.. Tanto podemos dizer: o cimo do monte. a contemplar o fastígio maravilhoso do templo. Ainda que a au- . Pode comparar-se a culminância. cujo autor não é conhecido. – Pináculo é mais expressivo do que pino.

do que de esforço puramente moral: e nisto distinguese de apologia. da pessoa de quem se trata. Deste modo perseguidos e caluniados os primeiros Cristãos. ou mesmo todos os vencimentos”. e sempre com intuito de só fazer que ressaltem as altas virtudes. (Roq. quer tirar proveito é fabulosa”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 199 toridade do livro suposto se repute suspeita. Fazem-se as apologias para desvanecer as acusações com que se agravam as classes mencionadas. ele conter doutrina boa e verdadeira. porque essas correm nos tribunais. ao senado e aos magistrados. pode. empregaria certamente de preferência – fictícia. ou porque se ache ou seja julgado inválido para continuar a servir. foi-lhes forçoso apresentar aos imperadores. A justificação consiste só nas provas que se deduzem do exame das testemunhas. Este é o verdadeiro caso da apologia. os lentes. pois por erro tem-se atribuído a autores clássicos obras que não escreveram. . cristã. suposta ou falsa. – Elogio é “o discurso. espalhadas entre o público e que vão tomando corpo com grave dano das pessoas acusadas até que acabam em perseguição formal pela justiça.) – Defesa é todo esforço feito para demonstrar a não culpabilidade de algum acusado. – Jubilam-se os professores. ou do exercício do cargo. conservando uma parte dos vencimentos. 330 APOLOGIA. e é qualquer discurso ou escrito no qual se defende um sistema. mas as acusações vagas. etc. significa defensa. para rechaçar as falsidades com que os pagãos procuravam fazê-los odiosos como inimigos dos deuses e de todas as potestades. É mais ato ou dever de ofício. como se estivessem nas respetivas funções. – Apologia. Fabuloso nem sempre exclui a ideia de verdadeiro. – O panegírico é um elogio mais incondicional. não permite a Igreja que se tirem argumentos para provar as verdades teológicas”. defesa. como um prêmio. faz a defesa de um réu (não a apologia). – Aposentar diz propriamente – “dispensar do serviço. Aquele homem nos disse coisas fabulosas do que se passa no sertão (coisas que se têm ou podem ter como verdadeiras. porém. justificação. a suposto. não as acusações jurídicas. – Fictícia é a coisa criada pela imaginação e que só nesta existe. “segundo o valor da palavra grega. de modo a que fique livre de penúria o aposentado. uma nação ou pessoa. como se dá em relação a fictício. uma opinião. 331 APOSENTAR. Um advogado. jubilar. etc. prestando serviços durante um certo prazo. apologias em defesa da religião mem de comum estes verbos a ideia de cessar alguém de exercer as funções do seu cargo. reformar. isto é – fabulosas). e perturbadores da ordem pública. – Falso é propriamente o contrário à verdade ou como tal admitido. – Fabuloso distingue-se de fictício em sugerir ideia de prodígio. um partido. – Pretensa é a coisa que se quer fazer passar por ser a verdadeira. Conhecemos orações fúnebres que são verdadeiros panegíricos. dos livros apócrifos. e serve para manifestar a inocência do acusado”. sistemático. contudo. dos documentos autênticos. ou o escrito em que se demonstra ou procura demonstrar como a pessoa elogiada é digna dos louvores que se lhe fazem”. e assegurando-lhe o soldo da patente. e contra elas advogam os letrados perante os juízes. ou porque fez jus a tal vantagem. mas que se tornam estranhas pela enormidade. Nas associações científicas e literárias é uso fazer-se o elogio dos sócios falecidos (não panegírico). na tribuna do júri. elogio. – Expri- panegírico. direito a todos os honorários do cargo. – Reformar é dispensar do serviço o militar que se fez inválido. Decerto que ninguém diria: “a promessa de que F. concedendo-se-lhes.

como de felicidades. como se diz: propagandista do casamento. Só se apropria de alguma coisa. Aplica-se também a coisas e a fenômenos. – é “simplesmente meter-se de posse dela. Aplica-se particularmente esta palavra para designar o sacerdote ou o clérigo que se incumbe de ir a terras de pagãos ensinar o Evangelho e instruir nas coisas cristãs. pregoeiro. de exprimir evangelizador a ideia de que aquele que evangeliza não faz menos do que proclamar alguma coisa de que ele próprio está ufano e espantado. causas augustas. etc. Napoleão apossou-se primeiramente do comando geral. propagandista de pílulas. João Batista foi “o precursor de Jesus Cristo”. etc. etc. tomá-la para si. Tanto se diz: propagandista da república. emissário. da desordem. apóstolo e missionário têm. Se se deve admitir entre eles alguma distinção. e também arrogar-se uma autoridade. – Propagandista é termo comum e geral que designa “todo e qualquer indivíduo que se encarrega de inculcar ao maior número alguma coisa. As refregas precur- . – Apóstolo (do grego apostolos. em obediência a algum voto. ideias excelentes. in- vadir. S. muito subtil. uma cidade. fazer-se senhor dela. de encerrar a palavra missionário a ideia de que aquele que missiona toma uma tarefa como sacrifício. por exemplo: missionário da revolta. – Invadir é acometer e entrar por força em alguma parte. damos o nome de apóstolo àquele que exerce na terra funções. e não deve ser empregado senão em casos que recordem a grandeza moral dos antigos missionários. que lhe não cabe. de uma escola literária. – Missionário é o que toma a si a propaganda de alguma causa sagrada. apropriar-se. a perfídia. mensageiro de algum príncipe”) designa propriamente cada um dos doze discípulos de Jesus. – Usurpar é tirar a outrem o que é seu. enviado. não tardou a invadir a Europa quase toda. e não cessa de chamar a atenção de todos para ela. núncio. ou desempenha missão equivalente à daqueles discípulos. O pregoeiro faz mais que o simples anunciador: fala muito alto. porém. grita em favor da coisa apregoada. etc. – Anunciador significa apenas “aquele que anuncia”. Nem sempre se apropria de alguma coisa aquele que dessa coisa se apossa. evangelizador. conquistar. usurpar. do socialismo.. missionário. Entre apossar-se e apropriar-se há uma diferença de ordem jurídica. retém-na em seu poder ou sob seu domínio.. anunciador. doutrinas de redenção. Por extensão. é só esta. “enviado. e conquistou parte dela. naturalmente fazendo-lhe a apologia. precursor. lugar à parte no grupo. mensageiro. de um sistema filosófico. portanto. a ignorância? Evangelizador. Não se evangelizam senão grandes verdades. – Apossar-se alguém de alguma coisa – escreve Roq. mas suas conquistas e invasões ficaram sem efeito quando os aliados o desapossaram de sua autoridade usurpada”. Não seria próprio dizer.200 Rocha Pombo 332 APOSSAR-SE. Quem seria capaz de dizer: evangelizar o erro. O que se apossa chama a coisa a si. No mesmo caso está evangelizador. aquele que se arroga a propriedade. Tanto pode ser anunciador de desgraças. propagandista. que resulta: de sugerir o vocábulo apóstolo o intento de fazer prosélitos. de chamar ao grêmio do Cristianismo. usando de prepotência. Por isso mesmo tem o vocábulo um valor peculiar. uma dignidade. 333 APÓSTOLO. por ele enviados a pregar a boa-nova a todas as nações. depois usurpou o império. – Conquistar é ganhar à força de armas um estado. – Precursor diz propriamente – “o que vai adiante de alguém anunciando-lhe a chegada”. o direito de ser o dono dessa coisa.

ou algum animal. de admitir a cômputo. ou ter valor só para nós. – E comparecer ainda sugere melhor a ideia da obrigatoriedade do ato de apresentar-se.. – Deter é “prender e conservar preso”. – Segurar é “prender e conservar em segurança”. segurar. compareceu à sessão. Um gesto precursor de tormenta. palavras escreve Lacerda: “Apoteose era a cerimônia mediante a qual era alguém posto no número dos deuses. 334 APOTEOSE. apreender. culto religioso. deter. Prende-se o monóculo na órbita ocular. alguma coisa. – Conta. deificação – Sobre estas duas valor. ou em geral. o – Apresentar-se é “fazer-se presente em alguma parte ou perante alguém”. 336 APRESAR. é “o ato ou disposição de pôr em cálculo.. – Diz Bruns. aqui. – Estima é a “consideração em que se têm as qualidades de uma pessoa”. A pessoa ou coisa estimada pode mesmo não ter valor. – Arrestar é termo jurídico e significa “apreender. mas o emissário supõe-se que leva incumbência mais alta. Deificação é um ato pelo qual se supõe a divindade onde não está senão a criatura. e captura os contrabandistas”. Ambos significam – “o que é mandado”. etc. Apreço é a “consideração particular que se tem pelo mérito. arrestar. embargando que siga ou que continue a estar onde estava. apresentou-se pronto para o serviço (e não – compareceu). chamar a si de direito alguma coisa”. apanhar. (e não apresentou-se).. tanto nos merece”. F. seriam sinônimos perfeitos se mensageiro não encerrasse a ideia muito clara de que a mensagem não é própria de mensageiro. a guarda fiscal apresa as mercadorias que os contrabandistas querem subtrair aos direitos. Dizemos: F. ..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 soras do arrasamento. consideração. navios. aparecer. em consideração das suas preeminentes virtudes. aqui. Não teve o rei em conta o meu serviço. Prende-se o cão à corrente. Supõe-se que aquele que se apresenta o faz por algum dever com a pessoa perante a qual comparece. mas daquele que a enviou. ou pelo direito da força”. – Emissário e enviado só se poderiam diferençar pela nobreza do vocábulo emissário. – capturar. rendendo a esta. – Prender enuncia a ideia geral de “impedir alguém. diz simplesmente – “posto a caminho”) não faz mais do que cumprir estrictamente a ordem que leva. aqui. A alta conta em que é preciso ter aquela propriedade. logo que estes morriam. pelo valor de alguém”. – Apreender é “prender. arrestar a alguém pela força do direito. A polícia captura os criminosos. estima. ou atando-lhe as asas. O enviado (esta palavra. em nome do qual ele vem. – Consideração é a “atenção respeitosa que se tem por alguma pessoa que. 337 APRESENTAR-SE. Prende-se o celerado em flagrante de homicídio. à audiência. prender. – Núncio e mensageiro. Prende-se a ave no viveiro. 335 APREÇO. pelos seus atributos morais. que “capturar é prender.. gêneros embarcados. comparecer. conta. pela sua posição. e cujo sucesso se lhe confia. pelo seu valimento. o préstimo de alguém ou de alguma coisa”. ou quase religioso”... pelos talentos. ou alguma coisa de locomover-se. e mediante ordem ou mandado de autoridade pública”. ou de mover-se livremente”.. e que “apresar é tomar como presa. Esta ideia não se encerra necessariamente em núncio. Aquele ar sereno precursor da saúde moral. Os romanos usavam assim a respeito dos imperadores.. ou subtraídos aos direitos a que estão sujeitos.

uma disposição natural do espírito para alguma arte ou mister”. A propensão. mais ou menos agradável ou lisonjeira. e a inclinação uma espécie de gosto.. como aptidão. idoneidade. mangueira. Além disso. Ter talento para a pintura é mais do que ter aptidão para a pintura. proteção. como o talento. capacidade. e assim diremos que certa pessoa tem. Tanto se diz – curral de porcos. só pode manifestar-se na prática. etc. e por isso pode dizer-se que o talento é a aptidão no terreno da prática. mais ou menos grande ou violenta. jeito. porém. – Talento. As disposições carecem de ser cultivadas. para o trabalho. – Mangueira é brasileirismo comum.. profundar. arrebata a alma seduzida pela promessa do repouso. a esgrima. de madeira ou de muro. inclinação. para a tarefa. Aprofundar é tornar ainda mais fundo o que se profundou. mas essa faculdade é menor que aptidão. às letras ou às ciências. feito de tela de arame. “estes dois verbos empregam-se geralmente sem outra distinção que não seja a da exigência da eufonia. aplicação de inteligência. – Aprisco dá ideia do abrigo em que ficam as ovelhas. pode-se empregar essa palavra falando de estudos ligeiros ou recreativos. – Os dois primeiros são termos literários. podendo ser ou não coberto”. onde se recolhe o rebanho”. redil. e o talento só se revela no exercício. presume exercício e prática. propen- são. a capacidade. segurança. – Capacidade é o conjunto de qualidades e conhecimentos necessários para levar a bem-determinada ordem de coisas. seguimo-la. como disposição diz menos que aptidão. significa “uma tendência própria. de ter certa vocação para ela. – Disposição também se diz da faculdade de ser próprio para uma dada coisa. as duas palavras quanto à sua aplicação: talento dizendo-se particularmente com relação aos estudos pu- . porém. diz um hábil sinonimista. desenvolve-se. na cultura. habilidade. a ginástica. aqui. como curral de bois. curral. entregamonos a ela sem reservas. além de designar dom natural (diz Bruns. – Curral é “um cercado. ou de cabras. tem aptidão para o negócio.202 Rocha Pombo – Aparecer dá ideia geral do fato de “se deixar ver” alguém ou alguma coisa. gosto. mas disposição para a dança e para a ginástica.). que F.” – Vocação. 339 APROFUNDAR. aliás. dizer no sentido figurado – o aprisco da Igreja. disposição.). ou contrariamo-la: e eis o motivo por que se toma esta palavra como sinônima de amor ou afeição. que significa “um vasto curral de bois”. – Aptidão (Bensabat) “é a capacidade natural para fazer uma certa coisa. Esta capacidade refere-se mais ao que requer estudo. vocação. há. enquanto que aptidão não se emprega bem senão falando de estudos sérios. – Segundo Bruns. 338 APRISCO. pois a aptidão pode ficar inativa. Aparece um grande sinal no céu. Usa-se. etc. talento. (Dizemos. a aptidão opera. fazer profundo. Apareceu a peste em Bombaim. como a dança. da felicidade. A inclinação. – Redil é “um curral para rebanho miúdo. entre eles uma diferença muito notável. diferem. ou uma disposição favorável. A propensão. não aptidão. inspira o desejo que solicita a aquisição de um objeto. ou de um vivo prazer. e não a combatemos senão com grande pesar e com poderosos recursos. Profundar é cavar muito fundo. por isso. pois este não sugere a mesma ideia de amparo. 340 APTIDÃO. ou da casa paterna (e não redil. No sentido figurado subsiste a mesma gradação”. exercita-se por si mesma. por isso aptidão não se aplica senão relativamente às artes liberais. que encerra aprisco). denota um poderoso atrativo.

mas creio que nunca terá gosto para a cultura antiga. – Escreve Roq. só e absolutamente. pois quando alguém diz – F. Um recruta pode ter aptidão para aprender o exercício. jantou aqui ontem. senão quando já não possa opor-lhes obstáculo. – Gosto é mais do que jeito: designa este “como senso íntimo que nos faz preferir uma coisa a outra”. de capacidade. vocábulo formado do grego stratos. armadilha. 342 ARDIL. negócios.: Ardil. – O ardil é o meio que se emprega para obter o fim desejado. é independente da ideia de aptidão. acrescenta por si só a exclusão de outro lugar determinado (lá) que direta ou indiretamente se contrapõe àquele em que nos achamos. astúcia designa só o que sugere fatos característicos dos outros vocábulos do grupo. A habilidade não só revela a ideia de se possuir o conjunto de qualidades e de conhecimentos necessários para levar a bom resultado uma determinada ordem de coisas. Vivo aqui. e sempre com bom resultado”. diz Bruns. adquiriu nela bastante idoneidade. não obstante. Cá tem maior extensão. arteirice. mas também o que o sugere. se o capitão vier a faltar. janto aqui – supõe. ou pelo menos a facilidade. Quando cá se contrapõe a lá indica a terra ou o lugar em que estamos comparando com outro de que já falamos. “exército”. ou um general que carece de talento. literários ou artísticos. – Jeito é muito próximo de disposição: é “o desembaraço. astú- vérbios“ valem o mesmo que ‘este lugar’. ou ‘neste lugar’ onde se acha a pessoa que fala. a habilidade. No estilo familiar entende-se – aqui por ‘nesta casa’. etc. etc.. e sem sugerir a menor ideia de dúvida. um tenente tem bastante capacidade para comandar a companhia. v. sem excluir determinadamente outro lugar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 203 ramente científicos. Mas – janto hoje cá. preferência. – Idoneidade. ou – passou ontem aqui a noite – é como se dissesse – jantou. cilada. o lugar onde vivo e onde janto. José de Lacerda – “oculta os meios de que se serve. estratagema e logro designam fatos. esta noite durmo cá – exclui determinadamente o lugar onde costumo jantar ou dormir. e sem referência alguma a outro lugar. a expediência. palavra não muito usada. não tinha nenhuma aptidão para a magistratura. a idoneidade adquire-se pela prática. emboscada. direção de assuntos. Convém ter presente que tanto a capacidade como o talento não podem existir onde não há aptidão. mas nem todos os chefes de corpo têm a idoneidade precisa para comandar uma divisão. empresas. de talento. mas sim. logro. e agó. pois além de designar o lugar onde se está. a discreta perícia com que nos sentimos para alguma coisa”. ou um escultor de capacidade. passou a noite ‘nesta casa’. “conduzo”) designa. não só fato. – Estratagema (do francês stratagème. à força de boa vontade e de estudo. g. e capacidade relativamente às coisas práticas da vida. mas sim. no sentido reto. obrando de modo que o lesado não conheça as intenções. Pedro parece ter jeito para as letras. F. 341 AQUI. que estes dois ad- A diferença entre os dois consiste em que aqui designa o lugar de um modo absoluto. cia. e procede com disfarce”. “O ardiloso” – diz d. os ardis de guerra . ou relação alguma respetivamente a outro. e também não é comum dizer-se – um banqueiro. aqui estou.: Aqui vivo. cá. – Dos cinco primeiros do grupo. arteirice. e conseguintemente este vocábulo encerra a ideia de faculdades adquiridas. e a que nos referimos como se vê no ditado vulgar – Cá e lá más fadas há”. Assim é que ninguém dirá – um poeta. senão que sugere a ideia de que por várias vezes já se praticaram tais coisas. estratagema. – Habilidade é vocábulo mais significativo que capacidade e idoneidade.

– Custoso é “aquilo que se não faz com facilidade”. resolução. penoso. é a realização de um engano habilmente preparado. quase idêntico à arteirice. fatigante. conforme a definição dos lexicógrafos em geral. – Note-se também que difícil e dificultoso ponderam a dificuldade. e o astucioso. Tarefa. difícil. com habilidade. além de difícil ou mesmo árdua. e obter dela o que queremos. o que é dificultoso supera-se com paciência. – “O que é árduo (escreve Bruns. mas não incluem a ideia de impossibilidade. ímprobo. sem mais noção alguma acessória. podendo dar ensejo a coisas desagradáveis a quem executa. – Trabalhoso é o que custa muito trabalho. dificultoso convém às particularidades. pareceria só aplicável à face su- . superfície. quem pretende insinuar-se no espírito alheio necessita ter arteirice”. Extensivamente. O que é difícil necessita pulso. obstáculos. designa a arte ou manha de quem tem inventiva para fraudes. é dificultoso reunir uma coleção completa de selos. – Intrincado é o que parece difícil. ou que é cheio de trabalhos. enquanto que árduo pode frequentemente encerrar essa ideia: árdua empresa é a de pretender corrigir defeitos morais”. pois este sugere ideia do grande esforço que exige a coisa trabalhosa. É difícil resolver certos problemas. rude. a astúcia obra simplesmente. não se desempenha senão à custa de esforço doloroso”. – Difícil diz-se do grosso do trabalho ou da empresa. – Cilada e emboscada designam “a surpresa que se prepara contra alguém para vencê-lo à traição”. talento. procurando-se enganar a vítima. aproveitando os descuidos e as ocasiões. perseverança. – Arteirice.204 Rocha Pombo para surpreender ou vencer o inimigo. espinhoso. diz-se dos meios extraordinários que se combinam com arte e manha para surpreender de improviso a pessoa que visamos. – Logro é o ardil caviloso. a cilada é feita com astúcia. missão dolorosa. misto de finura e de falta de escrúpulos. sem que ela no-lo possa negar. dificultoso. A emboscada sugere a ideia de que o autor se esconde ou se disfarça para o assalto. até pela sua formação. doloroso. como – superfície de um poliedro. mas diferençando-se desta em que o arteiro planeia com arte. e quase sempre mais à alma que ao nosso valor físico. ou para conseguir os seus fins empregando vias tortuosas mas habilmente combinadas. – Doloroso = “que se faz com esforço que mais punge e amarga que fatiga”. malícia e ruindade. é árduo escrever para o teatro. trabalhoso. 343 ÁRDUO. fatigante”.). – Espinhoso = “que é de difícil execução porque exige grande habilidade e fortuna”. força. coragem. Mas esta palavra. mais porque está embaraçado e difícil de entender que pelo trabalho que poderia dar. custoso. Tanto dizemos – superfície do mar. “A raposa tem astúcia. da terra. tato. pormenores. intrincado. da sua essência. com perseverança. que leva o lesado a ser o próprio a oferecer o que pretendemos. O estratagema difere do ardil em contar este com a impossibilidade de defesa. etc. Pode não ser mesmo difícil a missão. mas há de ser muito penosa. como fato. e o estratagema em levar o lesado a não poder negar-nos o que pretendemos. Fatigante é aquilo que só se faz com muita fadiga. é “a parte exterior do corpo”. Noutra acepção. – Ímprobo é “o trabalho excessivo. – Superfície. – Fatigante não é o mesmo que trabalhoso. – Astúcia é um dom natural. 344 ÁREA. julgando que obra em seu proveito. – Penosa é “a tarefa que. é muito difícil. – Armadilha é “a cilada que se arranja contra alguém para que se deixe cair como no laço a veação”. A arteirice maquina.

A infecundidade daquela fazenda é devida à má administração. para ter efeito. No sentido natural.. – Improlífico = “incapaz de procriar”. e até homem estéril (e ainda esforço. para gerar. “além de infecundo. Não obstante. ou porque seja seco. seco. portanto. pelo menos. É um pouco menos que ímprobo. improdutividade. em todo caso. ingrato. sequidade. como do trabalho que não compensa o esforço feito. mas sugere mais claro a ideia do esforço que se fez 25 E isso por mais que se nos objete neste caso que o super que figura no termo enuncia uma ideia de relação entre a face e o centro do corpo. Supõe-se. etc. ou onde só nascem plantas inúteis ou daninhas”. – Ingrato.. improdutivo. Trabalhei quanto pude. como planta estéril. E por quê? Simplesmente porque a palavra superfície sugere que o corpo ao qual se aplica tem outra face que não é superior. quanto. – Área é “superfície limitada de qualquer modo. tanto na coisa explorada. que a improdutividade está. nem árido. Infrutuoso é “o que não é tão abundante em frutos como se esperava”. de um campo. esterilidade sugere. maninho. o uso autoriza o emprego deste vocábulo mesmo nos casos em que não se trata de face superior. infecundidade. e até ser um defeito remediável pela rega artificial. – Improdutivo também enuncia ideia geral de estéril. infecundo. – Estéril é termo de mais extensividade do que árido. trabalho.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 205 perior dos corpos.). infrutuoso. A infrutuosidade de uma planta. Dizemos. – Infecundo é “o que não tem qualidades de natureza próprias para produzir amplamente”. Área de um polígono. cansado. ser um acidente. visos de perfeitamente lógica uma expressão como esta. – Terreno árido é o que nada produz. 345 ÁRIDO. E tanto parece assim que ninguém se arriscaria a dizer – superfície do céu – por exemplo. Os meus esforços não foram tão infrutuosos como eu receava (aqui não seria tão próprio usar infrutíferos). tanto se diz do terreno. sacrifício estéril). Tanto dizemos – superfície horizontal. cabra estéril. A sequidade pode. Dizemos – a esterilidade das regiões polares (não. ou à falta de custeio próprio (não – esterilidade). para que produzisse. estéril. improdutivo por falta de cultura”.). Não tem. infrutífero.” etc. – Sáfaro é também “exausto (terreno). mas tudo que fiz foi completamente improdutivo (não sem dúvida – estéril. Deve notar-se. e nada tendo com a posição em que se encontre a face. de uma sala. no agente que a explora. pelo menos. por exemplo: a superfície inferior da caixa25. A infecundidade diferença-se da esterilidade pelo seguinte: dá o primeiro uma ideia muito nítida de que a coisa infecunda não tem qualidades criadoras. só se aplica aos animais. que a aridez é mais propriamente devida à natureza do terreno. ou porque lhe faltem outras qualidades de terra fecunda. infrutuosidade. além da noção que exprime. contra a qual não há ação corretiva possível. ou à imperícia de quem trabalha ou de quem cuida da planta. esterilidade. não produz com a abundância que se esperava. No sentido translato. sáfaro. de incapacidade para produzir. pois esterilidade exprime a ideia geral de incapacidade para produzir. “poder-se-ia confundir com infecundo se . ou não as exerce se as tem. como a de uma tarefa ou um trabalho supõe-se que é devida mais. aridez. improlífico. infecundidade. inclinada. portanto. A maninhez supõe-se que é mais devida a abandono do que às qualidades da terra. como – superfície vertical. ou terreno estéril. ou a circunstâncias estranhas. – Terra ou terreno seco é aquele a que falta umidade suficiente para que se torne produtivo. – Maninho (do latim malignus) quer dizer. maninhez.. tanto zona estéril.. – Infrutífero é propriamente “o que não produz os frutos que devia produzir”. ou improdutivo por falta de cultura – bravio. a ideia de aridez absoluta.

– No seu grupo 457. – Armada é o conjunto total dos vasos de guerra de uma nação. tré- guas. frota.206 Rocha Pombo não marcasse. umas vezes chama frota. tais foram as que ajudaram D. 57) E ainda: Foi das valentes gentes ajudada. pela sua comum falta de recursos. porque constava de treze navios”. 348 AROMA (aromas). (Lus. como diz o nosso poeta: Tu26 a quem obedece o mar profundo. as comboiadas por nau ou naus de guerra. esquadrilha. sim. Em todo caso. e não terem o objeto determinado que tem o armistício. – Tréguas distingue-se de armistício pela sua generalidade. De armas fortes e gente apercebida A recobrar Judéa já perdida. o que bem distingue armistício de tréguas é o fato de serem sempre estas de muito maior duração que aquele. ou pelo desejo de se combinar a paz. Sancho I a tomar Silves. III. melhor do que este. combinada entre dois exércitos em campanha. A de Pedro Álvares Cabral. tais eram as que os fenícios e cartagineses enviavam à Espanha na infância da navegação. – Frota (escreve Roq. (Lus. III. planear a paz. e em tempos modernos. geralmente a anos. “As tiranias sacrílegas não voltam: os monstros são improlíficos (e não – infecundos) para a história”. bem provida de armas. O armistício tem ordinariamente por fim recolher os feridos. mas o armistício é absolutamente a mesma coisa que a suspensão de armas – frase que designa a interrupção momentânea da luta. mas talvez esquadra mui numerosa. etc. armada. outras. Obedeceste à força portuguesa. em vez de ser definitivo. 346 ARMADA. – Esquadra é uma reunião de navios de guerra com o objeto de proteger o comércio. como as que vinham todos os anos do Brasil para Portugal.. e pela duração que é inerente ao sentido do vocábulo. odor. enterrar os mortos. porque só constava de três embarcações.) “é a reunião de navios mercantes dados à vela com o objeto de exportar e importar mercadorias de um para outro porto marítimo mais ou menos distante. hálito. nem ainda o de esquadra. cheiro (cheiros). podia chamar-se armada. suspensão de armas é locução vulgar. enquanto durou a guerra com os holandeses. e ainda a circunstância de deixar entender que os exércitos beligerantes se recolhem a quartel”. suspensão de armas. “armistício é termo diplomático e técnico. 347 ARMISTÍCIO. Afonso Henriques a tomar Lisboa. que venceu os turcos nas águas de Lepanto. à que comandava Vasco da Gama. a noção de incapacidade própria e talvez ingênita para a procriação”. senão o de esquadrilha. – Segundo Bruns. 86) 26 Lisboa. olor. que passava. perfume. Ajudada também da forte armada Que das boreais partes foi mandada. porém. Pode-se dizer que as tréguas são um tratado de paz que.: “Fragrância per- . em rigor. Toma-se às vezes por esquadra. esquadra. Camões. ou de hostilizar o inimigo. As tréguas são geralmente motivadas pela nenhuma eficácia das operações entre os beligerantes. e D. diz Roq. nenhum destes nomes lhe é próprio. se limita a um espaço determinado de tempo. no mar. dar tempo a discutir uma proposta. ou em terra. fragrância. ou frota armada. ou entre duas nações que estão em guerra. Da germânica armada. João de Áustria. tal foi a de d.

Melhor do que tirar. o perfume das plantas”. e ao fumo ou vapor odorífero que elas despedem”. que não sugere. ou da parte de onde se arranca. da pimenta. de lenteiro. a pena pungente de haver cometido erro ou culpa.. – Segundo Lacerda. 350 ARREPENDIMENTO. se saca. O aroma supõe. Daí se refere a impropriedade de frases como estas (que aliás se encontram até em autores de nota): “arrancou da espada”. acompanhado do desejo veemente de emenda e reparação.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 207 tence exclusivamente às flores. um jasmim. ideia. de azinhavre. pelo menos nem sempre. – Hálito só figuradamente é que entra neste grupo. Tem fragrância uma rosa.” – Olor é “o cheiro particular de cada flor. a angústia que nos atormenta a consciência quando delinquimos. – Indica a palavra remorso. Odor de floresta virgem.. o uso autoriza o emprego desta palavra tratando-se de qualquer substância que dá perfume.. sem restrição da qualidade do cheiro”. – Sacar enuncia a mesma ação de arrancar. lenhos (raízes). arrependimento “é o sentido pesar. remorso. além disto. mesmo de força por parte de quem saca. porém de pouco tempo. diz-se comumente das substâncias que produzem bom e agradável cheiro. que se aplica a – toda droga cheirosa. – Perfumes. pesar. em português aplica-se particularmente às matérias odoríferas. ou se arranca) um dente. uma açucena. tirar.. contrição. Fragrância explica a ideia de um cheiro grato. Esta supõe um efeito passageiro em seu estado natural. do cravo.” – Odor pode aproximar-se de fragrância e de cheiro. no plural. compunção. encerra ideia de esforço. de jardim. “O olor da rosa lhe é gratíssimo. significando “suave emanação de algumas substâncias”.. – Pesar é a recordação molesta e penosa causada pela falta que se cometeu. e significa a dor profunda e sincera de ter ofendido a Deus por ser quem é. “Os hálitos que vêm da recendente alfombra. e porque o devemos amar . arrebatar. que se exalam em fumo cheiroso. – E no grupo 215: “Apesar de que o cheiro pode ser bom ou mau. aroma. unguentos de grande fragrância.” – Arrebatar acrescenta à noção de arrancar a ideia de violência e rapidez. 27 E. um lírio. e por meio da arte algumas vezes se faz durável. e aroma exprime ideia de mais larga duração”. no sentido translato. cheiros. ou odor acre de carniça. mas arrancar indica força. extrai-se de um livro o que ele tem de substancial. – Diz muito bem Bruns. uma causa permanente de fragrância. que arrancar e tirar exprimem um ato de força. agradável ou desagradável. mas sem a ideia de resistência por parte da coisa ou pessoa de que se saca. atrição. nem da coisa sacada. – Contrição é palavra religiosa. Extrai-se oiro da mina. extrai-se (como se tira. e também distingue-se de perfume por “sugerir sempre ideia da substância de que mana. – Aroma é palavra grega. bálsamos. no entanto. “Arrebatou-lhe o livro sem que ela tivesse tempo de gritar sequer por socorro”. o verbo tirar. como é a vida das flores. de pomares. ou sejam – resinas. óleos. 349 ARRANCAR. O aroma é próprio das drogas e das árvores que o produzem.. posto que em francês parfums corresponda a aromas. É aromática a árvore da canela. – Extrair diz propriamente “tirar para fora. ou perpetramos algum grave delito. em seu sentido próprio27. não só por parte de quem arranca. sacar. extrair. do alcanfor. o remordimento. “arrancara da casa a pobre criatura que nem mais se movia. esta última.. um cravo. como resistência do que é arrancado. tirar do lugar em que estava”. penitência.

. ou a outro rio. no entanto. mas o que é inegável é que a arte existe por si própria. padecem do mesmo mal. que significa “abundante curso de água. – Regueiro (ou regueira) é propriamente o sulco por onde se escoa a água do rego. – Ribeirão é propriamente “ribeiro grande”. ao Danúbio como ao Alfeu. Consolemo-nos da penúria. ribeiro. Aqui. – Riacho é diminutivo de rio. o arrependimento do contrito. que o francês seja no caso mais rico. senão do verdadeiro amor divino. o designativo imediato pelo que exprime quanto às proporções da corrente de água é ribeira. no mesmo caso. artístico. regras e preceitos que a constituem – métodos. torrente. algumas considerações a propósito da escassez de vocábulos de que. pode-se dizer talvez. riacho. porém. regato. portanto. a reparação aquieta o arrependimento. pois frequentemente nessa língua se emprega fleuve e rivière. 352 ARTE. mesmo porque todas as línguas conhecidas.208 Rocha Pombo de todo o coração sobre todas as coisas. – Depois de rio. com o desejo de sofrer penas que lhe resgatem a culpa cometida”. e por extensão é toda porção insignificante de água corrente. se ressente a língua portuguesa. – Córrego é “regueiro mais rápido. no Distrito Federal. por menos que o latim rivus no-lo autorizasse. (e é mais por isso que também damos aqui este grupo): “Coisa feita com arte.. ribeirão. e que quase sempre seca no estio”. não conseguiu fixar o valor próprio que o termo deve ter no português. Tanto aplicamos o vocábulo rio ao Amazonas. apenas menos amplo. Vejamos até que ponto há justeza nestes dois modos de exprimir-se. porém. dor que não provém do receio do castigo. temos rios que nem são ribeirões. e é raro encontrar ruisseau também sem atributivo. mas que. ela subsiste pelo simples fato de haver métodos. – Arroio será de menores proporções que riacho. O artifício é a arte manifestada no trabalho que analisamos. – Faz Bruns. como ao Sca- mandro. navegável ou não”. e diz menos que ribeiro. córrego. ou as formas com que se designam as pequenas correntes de água. – Torrente é “volume de água que se despenha. – Atrição é quase o mesmo que contrição: é também termo de teologia. O uso. artificial. coisa feita com artifício – são expressões vulgares que exprimem que o objeto de que se trata está feito com primor. que corre impetuosa e desordenada”. que socorrer-nos da adjetivação quando é preciso marcar a grandeza dos rios.” – Penitência é ao mesmo tempo “a compunção. embora mais estreito. A contrição alcança-nos o perdão de Deus. regras e preceitos que o artista há de observar para produzir. Temos.) “é uma contrição levada ao mais alto grau. ou regato sem dizer petit ruisseau? – Rio é a corrente de água mais ou menos considerável que vai ter ao mar. – A compunção (define Bruns. – Ribeiro é “pequena corrente de água que brota de nascente. independentemente de qualquer manifestação. Como é que há de o francês enunciar a noção de riacho. 351 ARROIO. – Regato é “o mais diminuto dos cursos de água perene”. artifício. os remorsos. por exemplo. apertado entre margens altas”. a não . perseguem o malvado impenitente até à sepultura”. pois é a dor profunda (e amargurada) de ter ofendido a Deus. rio. o tempo diminui o pesar. regueiro. e exprime a ideia de que o atrito se impressiona mais com o castigo do que com a dor da consciência. ribeira. Não nos parece. enquanto que são numerosos os diminutivos dessa palavra. profundo e vasto do que são de ordinário os rios. para designação de rio. – So- bre arte e artifício escreve Bruns.

de carpinteiro. A gramática. o artifício é a habilidade com que a obra foi executada. ciência. A arte faz o artífice. tais são todos os ofícios fabris. de tal modo que todas estas palavras. são adjetivos substantivados. – como dizemos: – uma coisa foi feita sem arte. zographikós. – Artes liberais chamavam os antigos as que ornavam o espírito. a estatuária. um trabalho ou ocupação qualquer. além disso. – Mister. dizer – que ela está feita com arte – é como um pleonasmo. os boticários. Ciência diz-se de um conjunto de conhecimentos que dependem intrinsecamente de certos . mas não há arte: – querendo-se exprimir que o autor da obra empregou na execução dela alguma habilidade.. 353 ARTE. etc. mas não revelou talento. pois se não houvesse a arte de a fazer ela não existiria”. entre artificial e natural uma antonímia que se não nota entre natural e artístico. que hoje temos como substantivos. e pode ser mecânica ou de outro gênero. um trabalho de engenho. a música. concordando com o substantivo feminino subentendido téchne ‘arte’. o homem de uma ordem. – Sobre estes dois vocábu- los. ofício. a poética. o artista.) nem são homens de ofício propriamente. a arquitetura. ou nesta obra há algum artifício. são as que dependem do trabalho das mãos. a escultura. ou de certa classe: tais são os médicos. O artifício é que não pode existir sem manifestação: não há artifício onde nada há que o revele. a que os gregos chamavam cheironaxia. – Artes mecânicas. Há. em oposição às que só exerciam os escravos. etc. palavra mais usada antigamente do que hoje (mester).. – A isso convém acrescentar: sob um ponto de vista mais elevado. architektonikós. que é um artífice. – Belas-artes são as que nos suscitam ao mesmo tempo sensações. Dizemos também (e aqui se marca muito claramente a distinção que é preciso notar entre os dois vocábulos): – neste trabalho. de que nós fizemos arte. a eloquência. mecânico ou de mãos. é o mesmo que ofício mecânico ou fabril. ou banaysos téchne. mas hoje se entendem principalmente aquelas em que predomina o espírito. poietikós... não impedem que a arte seja. a lógica. e eram cultivadas por homens livres. Conseguintemente dizemos – que uma coisa está feita com artifício – para exprimir que nela há primor de execução. a profissão. a arte. a arte consiste no talento com que é feita uma obra. mas não é um artista. sentimentos e ideias agradáveis. sem excluir nem exigir um trabalho material”. a arquitetura. etc. venha por síncope da grega areté. Tanto que dizemos: – uma coisa foi feita com arte. a retórica. téchne. cuja execução depende principalmente do espírito do artista. escreve Bruns. rhetorikós. – Profissão é aquele modo de vida que cada um exerce publicamente. logikós. eram artes.) 354 ARTE. que a obra é artificial. os quais não se chamam artistas (pelo menos nem sempre. pois representam a variação feminina de grammatikós.. a dialética. mas não se pode dizer que seja artística. o homem hábil. tal é o de ferreiro. ermoglyphikós. pois abrangia toda disciplina em que se davam regras e preceitos. dialektikós. o ofício faz o operário. etc. a estatuária. assim como a pintura. antigamente só exercidas por escravos. a profissão. guiado por Bourg. como a pintura. tais como a poesia.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 209 serem empregados. todavia ela equivale a esta outra. mister. o jornaleiro. O ofício requer um trabalho material. os cirurgiões. que se propõem imitar a natureza na sua maior perfeição. e Berg. os advogados. (Roq. profissão – “Posto que a palavra latina ars.: “Arte diz-se de qualquer conjunto de regras que têm por fim guiar na prática. a pintura. etc. ‘virtude’. que entre os gregos tinha mui lata significação. do latim ministerium.

é arte. A arte do agrimensor não tem por missão demonstrar a evidência das regras que a formam. conduzem a um resultado previsto: ciência. Ela funda as suas regras em princípios evidentes. como qualquer outro profissional que se julga oprimido e angustiado na vida. proletário. – A geometria é a ciência que se ocupa de medir as linhas. no entanto. 356 ÁRTICO. atribuindo os seus males à má organização da sociedade. – Operário e obreiro. que grava no espírito de modo tal que a dúvida não pode subsistir ante a evidência das suas verdades. da grande causa (e não operários). ao oficial que se tem por senhor do seu ofício. enquanto que . portanto. tendem principalmente a dotar a inteligência com a verdade. Esses princípios podem guiar na prática. – Profissional é todo aquele que exerce uma profissão. trabalhador. – Proletário sugere ideia da condição social a que se sente reduzido ainda o operário. resulta que entre estes dois vocábulos existe a seguinte sinonímia: Arte dir-se-á do conjunto de regras que. ou – operariado profissional. – Artesão é tico é adjetivo menos extensivo que setentrional.. – Entre operário e trabalhador nota-se uma certa diferença. por exemplo: os obreiros da fé. uma distinção que se não deve esquecer. A gramática.. Há entre os dois termos. boreal. – Artista é “o que exerce uma arte liberal”. A filologia. porém. – Operário confunde-se hoje ordinariamente com proletário. sendo o conjunto de vários conhecimentos. conhecimentos que. mesmo que possam guiar na prática. do conjunto de conhecimentos que formam um sistema. essa demonstração foi feita alhures. e a ciência que instrui. obreiro. do princípio de que é a arte que aplica. os volumes.. artífice. Mas essas regras são consideradas apenas quanto à sua utilidade no trabalho de determinar a área do campo. e isso é quanto basta para se dar por exato o resultado da aplicação das regras demonstradas. os obreiros da civilização. O operário entende-se que tem aptidões especiais para o trabalho de que se ocupa. pois. confundem-se aplicados aos que vivem de algum trabalho manual. artista. setentrional. – Obreiro. – Ár- operário. mas essa utilidade nada importa para a ciência do geômetra. comumente. que demonstra. proletariado dos titulares. formas portuguesas oriundas do mesmo original (do latim opera). é ciência”. tendo por fim subministrar umas tantas regras para a correta expressão do pensamento. as superfícies. – Oficial e mestre também se confundem. encerra ela as regras necessárias para proceder-se à exata avaliação de qualquer terreno. pois este o que pretende é demonstrar a verdade dos seus princípios. oficial. – Artífice é “o oficial mecânico que fez uma certa obra”. profissional. norte. Mas a palavra mestre. Tanto que dizemos já – proletariado intelectual. Dizemos. Mas ninguém se lembrou ainda de dizer – operariado intelectual. como um título ou tratamento.. o homem do trabalho que protesta e reclama. O proletário é. A agrimensura é a arte de medir os campos. não como expressão da verdade. por exemplo. Partindo. “o que tem por ofício alguma arte mecânica”. qualquer que seja a forma que apresente.210 Rocha Pombo princípios gerais. o operário que reivindica. o trabalhador supõe-se que entende de todo e qualquer serviço para o qual não se exija um préstimo especial. 355 ARTESÃO (ou artesano). – Proletário é tanto o operário. não inculcarlhes o valor prático. dá-se. e efetivamente as regras da agrimensura fundam-se nos princípios da geometria. pois só se diz do que está para além do círculo polar do norte. aplicadas. mestre. pode ter uma significação mais alta e mais extensiva.

Disse-me ela que virá hoje à tarde. Este. artificial. fictício. Hemisfério boreal (o que fica para cima do equador). ideia do intento de “fazer acreditar que a coisa fingida é a coisa real”. A tudo que é artificial nem sempre caberá o epíteto artificioso. o processo. – Fingido é “o que imita calculadamente a coisa verdadeira pela qual quer passar. ou de marcenaria – também dizemos – artifícios de caça. – Ficto quer dizer “fingido. simulado. – Articular é “dizer a palavra destacando-lhe bem as sílabas”. 359 ARTIFICIAL. Zona ártica (oposta à antártica). falso. verdadeiro. como artificioso. F. no entanto. – Falso é “o que não é exato. nada se concebe. artificioso. fingido. fin- mos que significa “feito pela arte ou pela indústria do homem”. proferiu na Câmara um belo discurso. . pois. – Artefacto é qualquer produto de trabalho mecânico.” – Simulado exprime o mesmo que fingido. conforme já se viu. Dizemos. – Pronunciar é “enunciar a palavra com clareza e precisão”. Resta observar que artifício se emprega ainda no sentido translato: o que não se dá com o outro.. Mas artifício aproxima-se mais de artefacto quando se aplica também a coisas que se fizeram com certa arte. de enganar. 357 ARTICULAR. artefacto. – Artificial já vi- falar. factício. só se aplica tratando-se de coisas não propriamente materiais ou concretas. proferir. – F. articulou com receio algumas palavras. – Ficto. puro”. pois só aplicamos o nome de artifícios a certa ordem de artefactos. – Boreal se aplica a tudo que fica para o norte do equador. – Artificial é “todo trabalho feito com arte”: opõe-se a natural. – Fictício é “o que só existe na imaginação.. àqueles que sugerem a ideia de que foram feitos “para enganar”. melhor ainda do que este.. – Artificioso é também o que se fez com artifício. ficto. fictício e fingido são formas oriundas do mesmo original (fingo. é o meio. – Falar é “comunicar-se com alguém por meio de palavra viva”. – Dizer é “expressar por meio de palavras”. tento de que passe por natural e verdadeiro”. América setentrional (a que fica a norte da meridional). isto é. – Norte emprega-se para designar. por exemplo. em vez de setentrional. para fazer alguma coisa (e. Chama-se a um navio de guerra. ou o conjunto de meios que se emprega para alcançar um resultado. suposto. é evidente a distinção que se nota entre os dois vocábulos. pronunciar. – Proferir é pronunciar em voz alta e com certa solenidade. o hemisfério onde se conta a latitude. – Artifício. ou de pesca. por mais clara que lhes seja a comunidade de estrutura. ou devido a circunstâncias de momento”. e dá. portanto. – Não se poderiam gido. – Factício significa também “feito ou criado pelo homem. Latitude norte (ou setentrional). 360 ARTIFÍCIO. em que não tenha entrado algum artifício – e que não seja.. porém. para conseguir um artefacto). mas talvez com in- confundir estes dois vocábulos. ao palácio de uma embaixada. Ele pronunciou aquela palavra com certa intencionalidade. aceito como tal”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 211 setentrional quer apenas dizer – “que está para o lado do norte”. dizer. Se ele me falar sobre isto. “Vou desfazer os artifícios de que usou contra mim”. o que é inventado. Aí mesmo. “território ficto” da respetiva nação (querendo significar que se consideram a embaixada e o navio de guerra como se fossem prolongamentos do território nacional). no entanto. legítimo. mas em regra com o intuito de iludir... 358 ARTIFICIAL. ere). Do mesmo modo que dizemos – artefactos de cerâmica.

no entanto. portanto. para exprimir “brilho ou fulgor”. – Assassinar é “matar a homem que se não pode defender. – Assassino é o que.. morte... Neste exemplo: “Os bandidos foram cometendo. assassinato. E. com a mesma propriedade. não é assassinato. praticou morte envenenando alguém? E não seria o caso de dizermos então que F. é o termo próprio para exprimir – trucidar.. dizem que “o homicídio é o fato de dar a morte a outrem. Num país onde fosse permitido assassinar. enquanto a terminação . que F. Dizem-nos agora os citados autores: “L’homicide. Diremos. em direito seria preciso marcar talvez uma certa diferença entre os dois. ou à traição. e que assassinato designa o próprio crime. – é uma prova o podermos dizer: “as brasas estão quase apagadas”. cometido sem premeditação. e não – “as áscuas estão quase apagadas”. – De que entre estas duas palavras não existe sinonímia perfeita – diz Bruns. tirar o vigor”. no entanto. voluntária ou involuntariamente. ou de que grosseiro artifício se valeu para obter aquilo. mata- dor. Também se diz – “brilhar como uma áscua de oiro”. Só é crime.ato em assassinato sugere a ideia de crime ou delito. o “ato de matar”. assassínios em massa. seria pleonasmo o dizer-se – “brasa viva”. isto é. matar. 362 ASSASSINAR. pois se o fosse.” (Em nenhum destes casos caberia artefacto. por exemplo. em toda aquela região desolada. e áscua. trucidar. homicida. commis avec préméditation ou guet-apens. o meurtre.” – seria possível empregar. est un meurtre. “ferro em brasa”: expressões que parecem autorizar-nos a empregar o termo brasa para exprimir calor.. assassínio. Conclui-se ao menos de tudo que assassínio designa o ato em si mesmo. 363 ASSASSINO. matança. com injustiça e crueldade”. homicídio. se nomme assassinat”. degolar. ou das vantagens que tem sobre a vítima”.). expressão que é muito trivial. meurtre. massacrar. – Degolar é “matar cortando o pescoço”.. isto é. Entre assassínio e assassinato não fazem os léxicos distinção alguma. – Massacrar (do francês massacrer. São os mesmos autores indicados que definem: “Le meurtre. e matar com perfídia e violência. infração de lei. seria preciso notar que a desinência . homicide. . Na guerra. degolar equivale quase. decerto que é morte. a ideia de ser completa a incandescência: ideia que não é inerente à palavra brasa. a morte de criatura humana feita com a responsabilidade do que matou. adaptado do alemão matsken “degolar”) é “matar em massa gente sem defesa” (Besch.” Parece que não poderemos traduzir este vocábulo francês meurtre só por morte. mata o seu semelhante. ou melhor.. Logo. O homicídio.212 Rocha Pombo “É fácil de ver de que rude. assassinatos em vez de assassínios? Bourg. cometido voluntariamente. como vemos algures. a morte. no seu artigo sobre assassinat. – Áscua implica. ou abusando da sua força. será homicídio.. – Matar enuncia a ideia geral de “tirar a vida a um ser vivo”. à traição. brasa.) 361 ÁSCUA. cometeu assassínio? Sob um ponto de vista filológico. e abusando o matador da sua força. O homicídio involuntário é uma desgraça e não um crime”. Nem sempre. e Berg. Nem será morte se o que o fez não usou de violência. morticínio. fazer cessar. capitulado nos códigos. no sentido que esta palavra tem aqui. commis volontairement.io de assassínio marca simplesmente forma substantival. massacrar. a ação de matar com premeditação e abuso de força.. o homicídio voluntário. portanto. Só figuradamente se emprega este verbo para significar – “exaurir. – Trucidar é “matar com excessos de barbaridade.

e tendo muito de comum as duas preposições ad e ob. é assaz incrédulo para. Não se entende a mesma coisa ao dizer: “Tenho o suficiente para a viagem” – revelando. seja irracional”. O que é assíduo indica mais empenho. e o sítio supõe-se que será longo. “F. porém. desde que se lhes encontra mais constante e mais repetido que o que é frequente. impedindo que nele entre ou dele saia embarcação alguma. onde se tenha metido o inimigo. ou de uma fortaleza. ideia necessária de cerco propriamente. – Sítio. esta maneira de se exprimir. um bosque. menos vezes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 213 o assassínio não figuraria nas leis penais: não seria propriamente assassinato. – É matador “aquele que mata. que não se tem dinheiro de sobra. bastante. porém. 365 ASSÉDIO. E. ameaçando-a. O assédio poderia consistir apenas em manobras a certa distância. 364 ASSAZ. um posto militar. mas assíduo (Bruns. Besch. Este vocábulo. pondo-a em perigo crescente. “Livro assaz despretensioso”.). como ainda a ideia do aperto em que se põe a praça sitiada. bloqueio. Podemos dizer – matança de bois ou de ratos. – A julgar no fundo o mesmo radical. ou de inocentes. nem “apertar o assédio”. sítio. – Matança é “morte de muita gente. no entanto. pode frequentemente confundir-se com bastante. Assédio (de ad + sedes. “apertar o sítio”. sem mais ideia alguma acessória. não é simplesmente assédio: é mais próximo de cerco. 366 ASSÍDUO. um forte.. – O que é assíduo é só pela respetiva estrutura.” diz claramente que o indivíduo do que se trata não é crédulo. com suficiente. Bastaria notar que se diz: “fechar o sítio”. no entanto. quando menos em grande número de casos. Não se diz que um bom empregado é frequente. são frequentes as que se fazem muitas vezes. cerco. O cerco pode ser de curta duração. – “Estes três vocábulos” – diz Bruns. e não – “fechar o assédio”. pois não só dá ideia da duração que podem ter as operações de guerra. e – matança de mulheres. não seria possível. Não devemos dizer. ou de assideo = ad + sedeo) é a operação de acampar um exército hostilmente junto ou diante de uma cidade.. bastante é mais que suficiente. no propósito de rendê-la”. cercando-a por vários.) aplica-se mais propriamente a operações militares destinadas a trancar um porto. – Sítio sugere ideia da importância da praça sitiada. não dá o cerco ideia alguma da coisa cercada: pode ser uma grande cidade. confundir os dois vocábulos. – “assim dispostos apresentam a sua gradação descendente”: assaz é mais que bastante. sendo puramente adverbial. seja homem. portanto. ou mesmo por todos os lados. assédio e sítio não se diferençariam senão pela forma. uma aldeia. – Sítio (de obsidium formado de obsideo = ob + sedeo) deveria ter o mesmo valor de assédio. dir-se-á do livro que não tem pretensões. ou à vista mesmo de uma praça. ou mesmo uma casa. . – Morte é o que praticou o matador. sem sugerir. – Bloqueio (do alemão blockhaus “pequeno forte de madeira”. mais vivo intento que o que é frequente. frequente. e incapazes de defender-se”. – Cerco é termo genérico e designa aqui a operação de “instalar forças militares em torno de uma praça. suficiente. morticínio de bois. ou de grande número de animais”. Além disso. – Morticínio é “matança de criaturas humanas em grande número. – Bastante indica maior quantidade que suficiente. São assíduas as visitas que se repetem com insistência e com certa regularidade. – Quando se diz: “Tenho o bastante para fazer esta viagem” – entende-se que não há necessidade de esquivar-se a gastos supérfluos.

consonância. – Subscre- ver é simplesmente “pôr o nome por baixo de algum escrito”. como. Subscreve-se uma lista. ou para que se tenha mais tarde testemunho autêntico da verdade . harmonia imperfeita”. etc. um contrato. feita das mesmas letras mas de sons ou acentos nem sempre iguais. senão de ritmo. Parecem significar ambas a ciência dos astros e das leis que lhes regem os movimentos. uma declaração. 370 ASTROLOGIA. menos precisa. ou numa reunião em que se tomaram deliberações”. do aspeto. para isto. 368 ASSONÂNCIA. ou igualdade de sons”. de resolução coletiva que foi tornada. A matéria abrange todo o gênero a que pertence a coisa de que se trata. E como nem todos os versos carecem de rima. isto é – que terminam por palavras “cujas desinências têm da sílaba predominante para o fim as mesmas vogais. medo e preto.. como.. matéria. – Assonância significa “semelhança de sons.). do curso e movimento dos astros. – Ata é soante. e a segunda. versos que terminassem em besta e lesta. diz-nos o que sabe. ou julga sem fundamento científico. por exemplo. termo. – Rima é a “perfeita igualdade de som e de acento no fim de dois ou mais versos”. – Firmar é “assinar documento para que se torne autêntico”. mas tudo quanto a ela é acessório. – Assinar designa o ato de “pôr a própria pessoa o seu nome por baixo de algum escrito. auto. para que se saiba que é ela quem escreve”. por exemplo: fala e casa. rimado. e chamava-se comumente astrologia judiciária. e por isso mesmo mais vaga. astronomia. – Assunto é o ponto particular e determinado de que se trata no discurso ou no livro. para produzir efeitos jurídicos. – Duas palavras gregas de origem – diz Roq. objeto. que consiste no estudo e conhecimento do céu e dos fenômenos celestes. a primeira de astér “astro”. e por isso merece a estima dos sábios. registro. aquilo de que nos ocupamos atualmente. 369 ASSUNTO. e não só essa coisa. e designa a verdadeira ciência dos astros. ou em credo e enredo. subscrever. o objeto é o alcance que pode ter o assunto (Bruns. regra”. A matéria de que o historiador se ocupa é a história. “a narração por escrito do que se passa em uma assembleia. Entende-se por astrologia a suposta arte de predizer futuros acontecimentos. Dizem-se consoantes os versos de rima com pouca propriedade chamada literal. – formadas. rima. assento. O assunto de história tratado por Arriaga é a revolução de 1820. – Consonância diz propriamente “sons que se correspondem. influxo dos astros. – Matéria é palavra de maior extensão que assunto. Firma-se uma letra. em poética dizem-se assoantes os versos que em vez de rima têm apenas assonância.214 Rocha Pombo 367 ASSINAR. firmar. pôs entre elas uma notável diferença. posição. – Assunto e objeto também se distinguem. de astér e nómos “lei. O assunto é o ponto em si. O uso. valendo-se o astrólogo. só se chamam rimados os que a têm. O astrólogo conta o que imagina.. e logo “discurso”. porém. isto é. mas diferentes consoantes”. uma felicitação coletiva. busca e acha aplauso entre o néscio vulgo. – Auto é “o registro solene de cerimônia que se celebrou. um artigo de imprensa. 371 ATA. – Astronomia é termo mais moderno. assoante. o astrônomo funda-se em cálculos que não falham. Assina-se uma carta. con- ainda que não faça propriamente parte dela. Mesmo um outro pode subscrever por nós.

– Cético é o que não crê senão quando sente a verdade em plena evidência. O primeiro. O cético argumenta contra as grandes verdades da religião. Significa mais – “contrato escrito. irreligioso. na acepção em que aqui consideramos este vocábulo. ímpio. porque a procurou inutilmente. idólatra. e theos “deus”) é o homem que não crê na existência de Deus. de uma sessão do Congresso. é antiquado: equivale a auto. esquife. ou superioridade de espírito. “féretro pobre”. – Termo é convizinho de assento: é o “auto conciso de um ajuste. pagão. veneração. – ataúde e caixão são sinônimos perfeitos. contra tudo que merece grande respeito. é sacrílego: nem sempre.) – Assento. des- crido. descrente. designa a maca em que o cadáver é transportado até a beira da sepultura. (Aul. por extensão. – Irreligioso diz apenas “que não tem religião alguma”. – Descrido enuncia de modo mais completo a noção de descrente: é como se se dissesse – um descrente definitivo. – Segundo Bruns. – Ateu (do grego a privativo. heterodoxo. que duvida ou vacila em crer. e muitas vezes mostra-se amargurado de não aceitá-las porque lhe parecem contrárias à razão humana. – Esquife diferença-se de tumba em não ter tampa. sacrílego. em confiar”. – Ímpio é – diz Lacerda – “o que não tem piedade. Tanto dizemos – “féretro sumptuoso”. tumba. infiel. – Descrente é “o que não crê com firmeza. Mais restritamente – “é a narração circunstanciada de qualquer ato. o cético. desde que impiedade encerra a ideia de ufania contra Deus e os homens. pois descrido significa – “que não crê decisivamente. leigo. ordena-se o registro de um fato. – Tumba. em regra. designa “o que não crê nas verdades que a religião ensina ou que a Igreja manda crer”. ou a súmula de um sucesso. herege (herético). na acepção que tem aqui. judiciária ou administrativa. será verdadeira a inversa. que se desiludiu de crer”. ou de um papel importante. Entre cético e incrédulo é preciso notar a seguinte distinção: o incrédulo não crê porque não cogita de saber a verdade. incrédulo (incréu). no entanto. escrita e autenticada pelo respetivo escrivão e testemunhas”.. mas ainda é certo que se não aplica geralmente a caixão pobre e desguarnecido. cético. – Infiel é palavra de significação muito restrita. caixão. e por isso despreza o culto público e o objeto desse mesmo culto”. amor. O incrédulo zomba da religião. féretro. como – “féretro humilde”. ou diligência. e.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 215 sobre o que se fez ou resolveu”.). O ímpio. 373 ATEU. – Féretro é termo genérico que pode substituir qualquer dos outros deste grupo. reduz-se a auto uma deliberação. – Incrédulo é vocábulo de significação mais extensa: designa “o que não crê facilmente”. ou prova escrita de contrato do que propriamente – registro autêntico de resolução que se tomou”. toma-se por termo uma confissão ou um testamento”. – Sacrílego é o que atenta contra coisa sagrada. porém. faz-se assento de um acordo ou de um compromisso. para que fique lembrança dele” (Aul. e que se rebela contra Deus. con- . não só é termo mais escolhido. profano. e quase sempre é um leviano e fútil. 372 ATAÚDE. gentio (gentil). que detesta Deus e a humanidade. O ímpio é quase um celerado. como esta. e no sentido restrito em que é tomado neste grupo. e da qual é tirado para se enterrar. que não sente pelo semelhante senão ódio e desprezo. ou de um clube. – Registro é o “ato de se lançar em livro próprio a cópia ou o extrato de um documento. apenas.. sem a solenidade deste. – Incréu é forma contrata de incrédulo. que afeta uma falsa independência moral.

e a de pagãos distingue aqueles que observam cegamente. ou gentios todos os povos que não eram da sua religião. chamaram-se pagãos (pagani) os povos que ficaram infiéis. são. nações. gentes. Observa Fleury que entre estes gentios incircuncisos alguns havia que adoravam o verdadeiro Deus. si dum paganus erat. fecerit testamentum. etc. paganus era oposto a miles. Pretendem alguns sábios que os gentios foram assim chamados porque não têm outra lei mais que a natural e as que a si mesmos se impõem. e este mesmo nome deram depois aos Cristãos”. etc. É termo que se pode aplicar a todos os que desconhecem a religião cristã e celebram cultos bárbaros. (Lus. mas nem todos os gentios são pagãos. Senhor. uma religião mitológica. e obedeceram à sua vocação. eram gentios. – Gentio era “toda a gente que ficava fora da nossa grei”. de uma religião. Confúcio e Sócrates. porque os infiéis se recusaram a alistar-se na milícia de Jesus Cristo.216 Rocha Pombo siderada neste grupo: é o qualificativo com que na Idade Média os Cristãos designavam os maometanos. ou. como se lê nos Atos dos Apóstolos. que têm uma lei positiva e uma religião revelada que são obrigados a seguir. que se chamavam pagus. isto é. E não a mim que creio o que podeis. retirados das cidades. aos infiéis. – que tem opinião diferente dos demais sectários (heteros “outro” + doxa “opinião”). como também foram bárbaros para os romanos todos os povos que se encontravam fora de Roma. 45) – Idólatra designa propriamente “o que adora ídolos”. de Brama. Os gentios foram chamados à fé. por oposição aos judeus e aos Cristãos. os sectários de Mafoma.. Cita Ainsworth a favor desta opinião a passagem seguinte: Miles. como lhes chamou d. ou porque. e aos quais se concedia a permissão de habitar a Terra Santa. Depois do estabelecimento do Cristianismo. propriamente falando. dos gentios. os pagãos persistiram em sua idolatria. como entre nós o é paisano a soldado ou militar. como diz S. depois de convertidas ao Cristianismo as vilas e cidades.: “Assim como os gregos e os romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não fossem eles próprios. Sobre esta e a palavra pagão escreve Roq. na visão do campo de Ourique Aos infiéis. se quando era ainda paisano. ainda se conservou a idolatria nas aldeias (pagi). porque não queriam militar debaixo das bandeiras de Cristo”. gentios. continuaram a adorar os falsos deuses. S. ou um culto de falsos deuses. E acrescenta: Hinc et fortasse christiani gentes dixere paganos. Jerônimo. de Xaca. os pagãos são gentios. ou porque preferiram deixar o serviço a receber o batismo. “o soldado. quod Christi vexillis non militarent = “daqui veio talvez chamarem os Cristãos pagãos aos gentios. de uma doutrina – que não se submete à autoridade que a regula. e de outras falsas divindades. Paulo foi o apóstolo das gentes. Afonso Henriques. de Fo. entre os latinos. segundo observa Fleury. que refutavam a pluralidade dos deuses. e com fanatismo. são pagãos. Ut portet nomen meum coram gentibus (IX. 15). por- que. contanto que observassem a lei natural e se abstivessem de sangue. mas não eram pagãos. como crê Barônio. Pelo que. como foi ordenado no ano 310. adoradores de um só Deus. A palavra gentios não designa senão as pessoas que não creem na religião revelada. ou fosse. assim também os judeus chamavam goim. onde exerciam sua religião. É antôni- . tivesse feito testamento”. Os adoradores de Júpiter. A Igreja nascente não falava senão de gentios. o nome de pagãos foi dado aos infiéis que. – Heterodoxo se diz do membro de uma igreja. porque os imperadores cristãos obrigaram por seus editos aos adoradores de falsos deuses a retirar-se para as aldeias ou lugares de pouca conta. ou infiéis. III. Seja como for.

culpa. Há crimes graves. cogitação. para os crentes. – Desvelo é o “cuidado e vigilância contínua de quem se empenha com afinco em realizar alguma coisa. 374 ATENÇÃO. – Herege (ou herético) é o que levou a heterodoxia ao extremo de discutir com certa paixão e sustentar graves erros em ponto de fé. não se lhe pode atribuir a gravidade do crime. Muitas vezes comete-se delito sem infringir as leis . quebra. – Leigo e profano distinguem apenas o que nada tem com a religião. solicitude. crime. ou a atenção é demorada e persistente. ou de efetuar negócio de grande importância. – Cuidado é a “atenção zelosa. é “uma espécie de reflexão prolongada e persistente”. em vez de num objeto externo. pe- cado. transgressão. de extremo cuidado e grave aplicação com que se estuda e trata de resolver alguma alta questão. A paixão do Redentor é um assunto de meditação. intensa aplicação”. junta à noção de leigo a de ímpio e sacrílego. indefectível com que se faz alguma coisa”. a diligência levados quase a um verdadeira inquietação por aquilo que nos interessa ou de que devemos dar contas”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 217 mo de ortodoxo. o cuidado. necessitamos refletir. chama-se aplicação. grande. seja porque revelem instintos depravados no criminoso. contensão. a consumar-se por circunstâncias independentes da vontade do autor. Não obstante. como bem define Bruns. citaremos – o atentado contra Carnot. ou que não diz respeito a crença nenhuma. – Profano. a propriedade. – Apercepção é a “capacidade própria da inteligência para conceber ideia das coisas reais”. ou de executar alguma tarefa”. tentativa. exprime-se que o ato criminoso foi planeado e começado a perpetrar. desvelo. 375 ATENTADO. – Cogitação enuncia “o ato ou a operação de pensar sobre alguma coisa”. reflexão. – Dedicação é quase solicitude e desvelo: é “a boa vontade e empenho com que se cuida de cumprir um dever. – Segundo Bruns. – Meditação. – Vigilância é um cuidado contínuo. – Atenção é o ato pelo qual o nosso espírito fixa o seu poder sobre algum objeto externo. os direitos ou os interesses alheios são atacados ou aniquilados. – Solicitude é a “atenção. e crimes leves. ponde- ração. – os frequentes atentados dos governos contra as liberdades públicas. uma atividade que está sempre alerta (vígil “que vela”). Se. cuidado. – Crime é o ato pelo qual a vida. delito. Como exemplo da primeira acepção. que não pertence ao clero. seja por ser o ato praticado contra quem ou contra aquilo que é geralmente respeitado. apercepção. aplicação. – Na primeira. não meditar. meditação. dedicação.. instigados pelos Jesuítas. não de reflexão. Antes de empreender um negócio importante. uma atenção que se não deixa iludir. indica-se com esta palavra um desses crimes que causam indignação. infração. quebrantamento. as nossas faculdades se fixam sobre objetos internos. – atentado tem duas acepções muito distintas. que não cessa de agir enquanto não consegue o seu fim”. – Ponderação sugere ideia de atenção mais profunda. enquanto que a meditação se exerce sobre fatos cujas consequências se conhecem antecipadamente. porém. em muitos casos. Na segunda acepção. violação. há entre os dois vocábulos uma diferença notável. esse ato chamase reflexão. apontaremos – o atentado que alguns nobres. – Delito é uma infração à lei. praticaram nas terras da Boa-Hora para assassinarem el-rei D. não chegando. Como exemplos da segunda. porém. e que consiste em que a reflexão deduz consequências. a honra. Se a reflexão. José. falta. – Contensão significa “profundo esforço espiritual. vigilância.

diligente. ou se as circunstâncias da tentativa são excep- cionalmente notáveis. A autoridade que dá uma ordem absurda comete transgressão. – Falta = “omissão menos grave do que culpa”. e que exprime um sentimento. Tudo que exerce a ação que lhe é própria. não de cada uma das suas partes. da lei. uma paixão. gesto. neste grupo. 377 ATIVO. atitude benigna. que pode ser facilmente perdoado. de quebrar a lei. Um braço estendido horizontalmente não pode permanecer muito tempo nessa posição. ou indiferente. zeloso. – Postura difere de atitude em revelar este o sentimento próprio. e por extensão. etc. quebrantamento = “ato de infringir lei ou preceito”. das leis morais. também. e geralmente aplica-se este termo só a casos de pouca importância. – Atividade é antônimo de inércia. passa esta a ser um atentado. evitar frases como estas: a postura da cabeça. Dizemos – infração involuntária. experto. ou o preceito moral”. – Culpa = “ato ou omissão menos grave do que crime”. – Violação distingue-se dos dois precedentes em encerrar a ideia da força. O celerado que lança uma bomba explosiva sobre uma multidão. ou só da cabeça ou dos membros. – Infração é o ato de “infringir. mais ou menos grave. mata ou tenta ferir ou matar o seu semelhante. solíci- to. e frequentemente. Há o pecado mortal. A postura de uma pessoa é decente conforme os olhos que a veem. desvelado. solerte. mas quem comete violação tem sempre culpa. não uma tentativa. O negociante que não pagou os impostos devidos cometeu infração das leis fiscais. O crime quase sempre imprime baldão em quem o comete. e aquele. O gesto é rápido. – dizemos da direção que se dá aos membros. é ativo. – Posição – referindo-nos somente ao que desta palavra é relativo às pessoas. – Gesto é um movimento do corpo todo. – Pecado é infração da lei religiosa. – Quebra. que opera os efeitos que lhe são naturais. a postura das mãos. é “o que. e nunca – violação involuntária. Quem deseja mal ao próximo comete pecado. e o pecado venial – o que não importa em perda da graça. pressuroso. e nisso difere também da atitude. aludir à apreciação alheia. Quem erra um golpe ou um tiro de bala contra uma pessoa comete uma tentativa de morte. Particularmente aplicado a . Assim dizemos – atitude serena ou ameaçadora. Devemos. parecendo que o segundo é muito mais forte. o delito. que na atualidade a dominam”. É preciso não esquecer que atitude e postura se dizem do conjunto do corpo. 376 ATITUDE. aquele que pela sua gravidade como que mata as almas. postura. isto é. cuidadoso. apressurado. posição. mesmo que não mate ninguém. Se a pessoa alvejada tem uma alta representação social. postura.: frases nas quais posição ou gesto seriam o termo adequado. na pessoa. ansioso. infringem-se as leis morais sem cometer delito. mas que não chegou a consumar-se por alguma circunstância alheia à vontade do autor. do propósito com que a lei é infringida. quem fere. moirejante. ou suplicante. Não é possível violar (de violo. – Tentativa é propriamente um atentado. ou a prática de um crime ou de um delito que se começou. nos revela as disposições. como comete infração das leis penais quem furta uma carteira. verbo latino oriundo de vis “força”) sem cometer violência. à cabeça. – Ati- tude. afanoso. afadigado. portanto.218 Rocha Pombo morais. ao busto. pois esta resulta da consciência com que a infração foi cometida. não. os sentimentos. comete um atentado. – Transgressão é propriamente “o ato de fazer alguma coisa passando por cima das leis”. Quem comete uma infração pode não ter culpa.

ou quem se impacienta por ver que ela tarda a chegar”. convizinho desses dois: experto é o “homem que. “mostra escrúpulo em cuidar da sua tarefa. impaciente de cumprir o seu dever ou de executar algum serviço. afanoso. enérgico. assíduo em dar conta de seu mister ou de algum encargo”.. – Violento é o que se exerce . – Afadigado = “ansioso no trabalho. a afligir-se por ver cumprida a sua tarefa. em suma. forte. cansado mais do que talvez exigiria a tarefa”. Está ansioso aquele que procura chegar ao termo de uma coisa. ou com que obram as causas. dizemos que é ativo aquele que se move na vida com desembaraço. que é de vivo engenho e de fácil penetração”. mostra zelo. além de ser ativo. “prudente com astúcia”. solícito. – Afanoso = “ativo. a sua força e virtude constituem a eficácia. Um discurso ativo surpreende e não deixa tempo para a dúvida. O mesmo não se deve entender quanto ao diligente. convencendo e persuadindo”. violento. sagaz.” – Desvelado é mais que cuidadoso: é “aquele que não descansa antes de haver cumprido a sua tarefa”.. – Solerte é. e a viveza com que se empregam os meios para obter um fim. – Moirejante = “esforçado. – Pressuroso = ativo. A natureza poderosa dos meios. pois este se supõe sempre que exerce a sua atividade com muito bom senso. Caixeiro solerte. portanto. segundo Lac. em defender os interesses que lhe estão confiados”. se por sua virtude combate com segurança os efeitos do mal. Pas. é cuidadoso. perícia. perdendo-se ou dispersando-se inutilmente. pois a atividade pode não ser ponderada e sair da justa medida. empenhado com grande esforço. e que os seus esforços são regulados cuidadosamente pelo esmero com que procura dar conta da sua tarefa. e o caráter do que é ativo. que é pronto nos misteres de que se ocupa. – Enérgico diz propriamente “que opera com grande atividade.: “A diligência. com atividade as suas aptidões. esforçado na sua lida”. Observa com razão Bruns. como define Aul. mas de um estado anormal em que ela se encontra. além de ativo e diligente. esse medicamento ativo é um remédio eficaz. Nem sempre a esperteza é uma virtude de que nos possamos desvanecer: antes pelo contrário. mas chega a inquietar-se. e se a sua ação sobre ela é de natureza que afugenta a doença. – Solícito diz “cuidadoso e diligente. – Quanto aos dois primeiros.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 219 faculdades do homem.. que é expedito em adiantar os seus negócios. “não consegue o que pretende”. – Apressurado = “que tem pressa em fazer. que “ansioso não se diz de uma qualidade da pessoa. eficaz. astuto. afadigado como um moiro”. tem uma pronta e clara inteligência das coisas. que exerce. constituem a atividade. – Zeloso é o que. vigilante.. 378 ATIVO.. Por isso o homem ativo nem sempre conseguirá fazer o que deseja. e o caráter do que é eficaz. mas um discurso eficaz previne-a e combate-a. Na acepção figurada que lhe dá lugar neste grupo dir-se-ia. Solerte diplomata. quase precipitado”. vivo interesse nos encargos que lhe são confiados. E neste sentido depreciativo aproxima-se mais de ladino. Nem sempre o homem ativo pode ser tido como diligente. ou trata bem da sua tarefa ou de um negócio que lhe compete. ou “enquanto”. – Experto é tomado frequentemente a má parte. Um medicamento ativo produz prontamente o seu efeito.. que de ativo e diligente. – Cuidadoso se diz daquele “que desempenha com cuidado o seu cargo. além de ativo. esmerado. diz Alv. impaciente por acabar. ou das causas. – Diligente será o homem que. porém. – Ansioso é o que se não satisfaz com ser apenas solícito e desvelado. e obra com energia em toda a economia animal. que se exerce com muita força”.

é ator enquanto está no palco. em presença (prœ).. direta ou indireta dele. Atribui-se uma obra ao que se crê ser autor dela. e – imputar é atribuir-lha aplicando-lhe logo o mérito ou o demérito da ação. comediante. provas. Atual significa verbos escreveu Lacerda. Dizemos que um remédio é enérgico se ele é mais do que ativo. alguma coisa.º) em considerar-se o atributo como existente. Cômico ou comediante é aquele que tem a profissão de ser ator no teatro: cômico. predicado.220 Rocha Pombo com atividade anormal e brusca. Papel de boa qualidade.º) em o atributo constituir estado.: “Quem representa no teatro uma personagem qualquer. cômico. e o predicado. Um discurso enérgico é feito em termos fortes. se age prontamente. imputar. e deveria imputar-se isso aos maus governos. que opera com energia demasiada. rápida. repetindo Roquete: “Exprimem ambos a ação de referir a alguém uma coisa. modo de ser. A eternidade é um dos atributos de Deus. “A diferença” – diz ele – “deve ser a mesma que se nota entre presente e atual. impetuosa. ou por mero passatempo. imputar toma-se quase sempre em mau sentido”. 381 ATRIBUTO. lhe pertence tão indiscutivelmente que a pessoa ou coisa deixaria de ser o que é se lhe faltasse tal atributo. A tolerância é um dos predicados do espírito livre. cessa de o ser logo que se retira para entre bastidores. diferençam-se na linguagem vulgar: 1. – Predicado é o que se exige na pessoa ou coisa para ser tida como válida ou verdadeira. – Propriedade é aquilo que. a torna distinta e inconfundível. contingente. em que – atribuir é dar alguém por autor de alguma coisa vagamente. – Qualidade é o que faz com que uma coisa seja tal como se diz. e de modo áspero e sem atenção a conveniências que normalmente se guardariam. incisivos. artista. alguma instituição. se o é como representante das personagens que entram na comédia. e que é violento se abate o organismo e pode até pôr em risco o doente. – Atributo “se diz daquilo que. qua- bre estes quatro vocábulos escreve Bruns. argumentos. As excelentes qualidades de uma pessoa”. no entanto. que facilitaram a conquista. estando na essência da pessoa ou da coisa.. Atribui-se a ruína dos impérios aos conquistadores. Artista é um termo muito extensivo. Atribuir toma-se indiferentemente em boa ou má parte. agora. e o predicado como exigido. não porque a língua o autorize. 2. Predicado e atributo.” 380 ATRIBUIR. – Sobre estes dois lidade. com força mais que normal”. – Forte = “que atua com muita força. constituindo uma das suas virtudes. diante de nós. (Bruns. se é considerado como pago para fazer rir o público. Fortes razões. diferençam-se.) 382 ATUALMENTE. dando-o como autor dela. que em lógica são sinônimos perfeitos. por simples asserção. faça-o por profissão. presentemente. presente. hoje. propriedade. mas porque o uso assim o tem estabelecido: Rafael foi artista. que parece muito estreita a sinonímia que existe entre os dois primeiros advérbios deste grupo. próprio. Remédio forte. e artista se intitula o meu sapateiro. ação. um discurso violento ataca sempre alguém. 379 ATOR. comediante. essencial. claros. pertencendo exclusivamente à pessoa ou coisa. imputa-se . A propriedade do ímã é atrair o ferro. – Nota Laf. acidental. atual. O que é ou está presente acha-se aqui mesmo. – So- um fato à pessoa que julgamos ser causa mais ou menos remota.

“Ele foi rico em outros tempos. agora está pobre. no ou o tempo que não é o passado de que se falava”. espírito. mas a fato passado há muito tempo. “Opõese o presente aos séculos passados” (Volt. modas. – Presente refere-se sem dúvida tanto ao futuro como ao passado. como a época atual. Dizemos: “Felizmente hoje não me deixo afrontar daquelas abusões. – mas à fase da vida em que nos achamos. operar (obrar). Quando produz sobre alguma coisa o efeito que lhe é próprio. dizemos que opera (ou obra. que hoje marque também ideia muito semelhante a presentemente. nem por vir em geral”. no entanto. Quem diz hoje refere-se a fato em oposição a fato ocorrido ontem. em oposição a outra fase passada. E quando exerce influxo (ou influência) sobre alguma coisa. segundo o mesmo Laf. Ilustra o autor essas definições com profusão de exemplos extraídos de clássicos. Seja como for. Não se confundem. 383 ATUAR. de um povo. porque estes . ou em referência aos reis seus predecessores. nem em ideia. de sorte que o que é atual não está nem em potência.” É evidente que tanto numa como noutra língua esses advérbios estão postos – maintenant em lugar de aujourd’hui. sob diversos aspetos – costumes. O francês.. com o seu maintenant (main + tenant). Quem diz presentemente não faz decerto referência em oposição a fato que tivesse sucedido ontem. ou há poucos dias. exatamente como em português. Emprega-se. “emprega-se sobretudo para opor uma certa época da vida de um homem. estes três verbos. tanto atuais como futuros”. maintenant il est pauvre”. e agora em vez de hoje. nem em expectativa. dizemos que influi. nem limitando o que afirmamos ao próprio dia atual – hoje.. e não é difícil apanhar a natureza e extensão dessa relação em todos os do grupo. dizemos que atua. “Il était riche autrefois. presentemente de maneira absoluta. nesta ou a esta hora” associa a noção mais vaga de “nos ou os dias que correm.). atualmente é relativo. Só mesmo dando-lhe muita latitude é que admitimos. “o rei que reina atualmente” – empregar-se-á de preferência quando se quiser sugerir alguma relação com os reis que hão de vir depois dele. atual caracteriza-se unicamente por sugerir uma ideia de realidade em oposição ao que poderá ou poderia ser. influir. e querendo marcar uma certa relação com o passado. Mas disse d’Alembert com perfeita justeza: “Os acadêmicos. – Hoje. e nem por isso fica livre da extensão que é admissível. hipotético. ou da humanidade. “O rei que reina presentemente” – dir-se-á de maneira absoluta. “Opõe-se o estado presente de uma pessoa a suas calamidades passadas” (Vauv. Em suma: hoje é tanto o dia atual propriamente. portanto.” – referindo-nos não a abusões que tivéssemos precisamente ontem. às épocas precedentes. parece. como os dois advérbios precedentes. portanto. Um sucesso pode influir sobre coisas futuras (não operar. marca relação com outro tempo. agir.” É preciso notar que hoje. que é a forma vernácula do mesmo verbo latino operare). segundo a linguagem da antiga metafísica. dá com precisão admirável o nosso agora. – Agora (do latim hac hora) é também advérbio que à noção precisa de “neste ou a este momento. ser ainda mais próprio para o passado. – Quando uma coisa (ou mesmo uma pessoa) exerce ativamente a sua força (física ou moral) sobre outra.).). no entanto. nem atuar. o tempo em que se está vivendo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 221 ‘que está em ato (actu) e não em potência (potentiâ)’. e marca alguma coisa em oposição com o que é ideal. “Nós nos preparamos atualmente para reinar um dia com os santos no céu” (Bourd. possível ou futuro. “Nossa natureza está presentemente corrompida” (Mol.). etc..

glorioso. Porte. esplêndido. semblante majestoso. ou: “é possível que tenha de operar ainda alguma transformação política imprevista”. 385 ATURDIR.. contrariando-se muito. ou mudar a ordem. atordoar. pomposo. que é augusto e venerando como as coisas sagradas”. se bem que mais genérica. com a mesma significação de obrar. e em cuja presença se sente um como religioso temor. contur- distinguem pela causa que produz a perturbação. – Perturbar é interverter. A alma se lhe conturba ao saber daquela desgraça. Aguentam-se grosserias de um biltre. Uma tormenta. uma queda. O ar majestoso da rainha. ou de uma autoridade ignorante. – Imponente é o que. – Tolerar é também sofrer por efeito de prudência ou de boa educação. O que tem dores padece. andar. ou majestade. A augusta fronte do pontífice. O homem caritativo suporta com bom semblante os defeitos e fraquezas do próximo. postura imponente. – Padecer exprime particularmente o sofrimento físico do indivíduo. o gesto soberano de desdém. – Conturbar exprime a mesma noção geral de pôr em desordem e confusão. por não dar escândalo. ou que se vê na pobreza. pode ser incluído neste grupo. “Aquele discurso atuou fortemente no espírito da Câmara. – Grandioso = “aquilo cuja pompa e mag- . Aguenta-se a estupidez de um funcionário imbecil. uma pancada na cabeça – atordoam. padecer. imponente. porém é sofrer em silêncio. enfermidades. e é possível que se destine a operar uma verdadeira revolução no seio do ministério”. O filho submisso atura a rabugice do velho pai. solene. poder. ostentoso. ou contrafazendo-se. conquanto pouco tolerado pelos vernaculistas escrupulosos. A luz forte perturba a vista (não – conturba). a situação ou estado normal de alguma coisa. O que tem desgostos domésticos. to- lerar. ou injuriado. um grande rumor ou vozeria – aturdem-nos. ou que nos fazem. – Augusto é o que é tão grande. sofrer. a majestosa cerimônia da sagração do bispo. 386 AUGUSTO. e só se no. – Segundo Roq. – Atordoar aplica-se mais particularmente à ação de perturbar por efeito físico: um cheiro muito forte. – Aturdir e atordoar têm de comum a ideia de perturbar os sentidos. sobera- bar. 384 ATURAR. grandioso. – Pontifical = “que tem aparência de pompa religiosa. aguentar. pontifical. uma bebida alcoólica. gesto. perturbar. alterar as condições. sofre. a figura augusta do patriarca. sumptuoso e magnífico ao ponto de sugerir a ideia de coisa sagrada e divina. se impõe ao respeito ou à admiração de todos. – Também agir. – Aturar é sofrer com repugnância e de mau grado. – Solene = “que tem caráter de formal e brilhante autenticidade”. solene. – Suportar é sofrer com paciência e conformidade. O rei prudente tolera alguns abusos contra sua autoridade para evitar maiores males”.. suportar. e portanto acima de todos os do seu gênero.: – Sofrer “exprime a ideia geral e absoluta de levar o mal que nos acontece. ou da sua classe. magnífico. – Aguentar é vocábulo de uso comum (com a significação que tem neste grupo) e enuncia a ideia de sofrer com esforço. O soberano olhar da princesa. – Soberano é o que está no mais alto grau de poder.222 Rocha Pombo enunciam ação que depende de atividade e quase de esforço consciente). – Majestoso é o que esplende pela sua aparência grandiosa e sublime. mas sugere mais particularmente a ideia de perturbação do senso interior. Préstito imponente. pela sua grandeza. majestoso. Aturdir significa “perturbar o senso confundindo-o”.

salva- guarda. isto é. e pode ser empregado tan- to no sentido abstrato como no concreto. no entanto. 389 AUSPÍCIOS. ou por uma impressão muito vaga. – Empolar = “crescer. crescer. orgulho e ufania”. – Pomposo = “que tem mais que o aparato de solenidades usuais. que vem a certa hora. o menino. avolumar-se. ampliar-se. fa- vônio. empolar. brando vento aprazível. – Glorioso = “que ascendeu à elevação do que se fez ilustre e excelente. – Observa Bruns. encorpar. impulso próprio”. quase imperceptível. – Brisa é também muito próximo dos precedentes: é “vento suave e fresco”. Avulta o prestígio do general. aumentar é relativo à quantidade. portanto. e entre os dois deve notar-se a diferença que consiste unicamente em aplicar-se o primeiro só a coisas concretas. se for devido a forças interiores. – Dilatar-se = “ampliar-se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 223 nificência excedem à grandeza comum”. ou maior do que era”. e o de crescer é minguar.. ou que não é contínuo por muito tempo”. – Viração “é vento fresco. ou mais largo”. ou de matéria que se acumula”. zéfiro. – Aura é “brisa fagueira. – Esplêndido = “sereno e brilhante. – Ostentoso = “que. dilatar-se. avul- tar. propício como o favônio”. a biblioteca. então. ainda mostra ostentação. – Aragem é um brando movimento do ar. – Amplificar-se ajunta à significação de ampliar-se a ideia do esforço com que se faz maior o que já era grande. o rio. avulta aquela grande figura no meio da turba. avolumar-se como empola”. fazer-se mais largo ou extenso”. e crescer. propício. em que não se atende nem à quantidade. e que. nem ao volume. ou a minha febre. exagerar. Se o incremento ou desenvolvimento for devido à afluência do que vem do exterior. brisa. inchar. empolamar. que “o antônimo de aumentar é diminuir. – Ampliar-se = “tornar-se de proporções maiores. – Avultar pode dizer-se que é muito mais extenso e compreensivo que avolumar-se. patrocínio. proteção. mais sólido e de maior vulto”. amplificar-se. aragem. Não se diz: avoluma-se a minha dor. – Magnífico sugere ideia do que chegou ao máximo esplendor e grandeza. etc. – Inchar = crescer com esforço. fazer mais compacto. engrossar. – Engrossar = “fazer-se mais grosso”. – Há casos. fazer-se túmido. além de esplêndido e aparatoso. “cada um dos vocábulos deste grupo sugere a ideia . que nos cause mais pela quentura ou pela frieza do que pela força. ou por efeito de gás que se dilata. – Engrandecer = “fazer-se grande. excelente e augusto”. os meus males avultam com os meus receios. crescer como um tumor”. 387 AUMENTAR. – Intumescer = “inchar demais. Cresce a planta. Aumenta a fortuna. viração. que se sente apenas pela agitação das folhas. ou a minha felicidade (e sim aumenta-se). crescer é relativo ao volume. digno de honras sobre-humanas. e isso porque aumentar considera concurso alheio. engrandecer. – Exagerar = “dar proporções fora do normal”. fazer-se mais extenso. – Empolamar (outra forma de empolar) = “fazer empolado demais”. a que sopra alegrando os prados”. consideraremos o modo como esse incremento ou desenvolvimento se opera para empregar um dos verbos aumentar ou crescer. o verbo adequado será aumentar. – Zéfiro é “brisa matutina. mas sim ao incremento. usaremos de crescer. – Encorpar = “tomar maior corpo. 388 AURA. – Avolumar-se é muito próximo de aumentar. intumescer. ao desenvolvimento. – No entender de Bruns. que tem o brilho ostentoso da riqueza”.

390 AUSPICIOSO. sem embargo . que se pode prever terá esplêndido sucesso”. à vista do que apresenta. ativa. Há. portanto. neste vocábulo uma grande vaguidade de significação. por si mesmo. “As leis são a salvaguarda dos cidadãos”. sem embargo. socorro ou amparo. Auspícios podem ser bons ou maus. e que até são malvados. severo. é o mais expressivo de todos os deste grupo. esse favor. Pode ser auspiciosa uma estreia. não obstante.224 Rocha Pombo de uma influência eficaz para o logro do que outrem deseja”. – Salvaguarda não é vocábulo muito usado. o que. Pode ser esperançoso um estudante. sem contudo ir até auxílio imediato ou intervenção ativa. Assim se diz que “uma empresa principiou sob bons auspícios”. ou por alguns conselhos ou recomendações. etc. como também de mortificação e penitência. de avis e spicere “ver. que se manifesta pela benevolência. – “a austeridade consiste em sujeitarmo-nos a regras rígidas da maneira de viver. pode ser-lhe retirado por várias circunstâncias: e eis aí a versatilidade e inconstância dos auspícios. cobre. assim como os romanos costumavam consultar os auspícios – isto é. Em proteção (do latim pro “adiante”. têm costumes mui rígidos e austeros. e o que designa maior eficácia: literalmente “guarda que salva”. acontece que homens que não fazem profissão de virtude. ou auxilia ou socorre. pois. este vocábulo designa a influência favorável. nem ampara. na qual. se arriscavam confiados apenas na proteção que os deuses lhes haviam de confiar. que põe ao abrigo de grandes perigos. esperançoso. Este termo sugere sempre a ideia de autoridade revestida do poder de defender. observando-as estrictamente e sem delas nos separarmos. – Auspícios (do latim auspex. um casamento. como depende muitas vezes do temperamento e do gênero de vida que muitos são obrigados a levar. e tegere “cobrir”) predomina a ideia dos meios que se adotam para pôr o protegido ao abrigo de algum mal. – Prometedor é o que. o mesmo não se dá quanto a auspicioso. – Segundo Roq. auxílio. etc. quando eram favoráveis os auspícios. inflexível. duro. quando desde princípio tem o favor do público. inalterável. o que a proteção pode fazer é impedir que se chegue à situação de necessitar de ajuda. um poeta. rígido. pois a proteção defende. – Esperançoso é “o que inspira esperanças de grande sucesso. É prometedor o menino que fez alguma coisa extraordinária para a sua idade. prometedor. por um apoio indeterminado. mas nem sempre ajuda. os presságios tirados do voo ou do canto das aves – antes de se aventurarem em alguma empresa. inexorável. inabalável. que pugna em favor daquele que é protegido ou melhor patrocinado. assim também. por analogia. ríspi- do. – Patrocínio denota proteção eficaz. – Se auspícios tem a significação um tanto vaga. refere-se antes à nossa conduta conosco mesmo que com os demais. um natalício. como se vê no grupo precedente. porém. rigoroso. auspicioso significa sempre – “que começa sob a influência de bons augúrios. pelas suas qualidades e dotes próprios. A austeridade. do superior para o inferior: ideia que não é inerente à proteção. Os fracos procuram a proteção dos poderosos. Ainda que geralmente se tome a austeridade em sentido de aspereza e rigorosa virtude. mas vaga e um tanto ou quanto incerta. entendendo-se que o patrocínio provém sempre do forte para o fraco. autoriza a esperar-se que venha a dar o que promete. porém. de salvar. 391 AUSTERO. deixa prever que alcançará o êxito que aspira”. contemplar”) é o termo que designa menor influência benéfica.

genuíno”. em outros sucede o contrário. e por essa razão sempre é temida. se administra pelas suas leis próprias. – Independência pode-se dizer que se confunde com soberania. ou uma província. formal. são austeros consigo mesmos. A austeridade consigo mesmo não é incômoda a ninguém. solene. – A severidade exerce-se de ordinário antes com os demais que conosco. ou um documento formal pode não ser autêntico. “que não se dobra. pois encerra muito claro a ideia de que a coisa ou pessoa inabalável não cede a esforço. – Formal é “o que se fez na devida forma.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 225 disto. relação autêntica. um gênio austero e rígido também costuma sê-lo com todos. todos se viram pelos excessos a que de ordinário arrasta”. – Inabalável é mais forte que inalterável. bem que os homens severos costumem ser pontuais e exatos no cumprimento de suas obrigações. – Solene é “o que. e mais ainda com os que dele dependem. soberania. Dizemos: carta. e se a aplicarmos às ações. – Autênti- co designa “o caráter de legitimidade que toma o ato ou a coisa que se fez com todos os requisitos que lhe são próprios. admitir-se algum coração duro que não seja propriamente cruel. e a severidade o é pelo caráter e os princípios. Não podemos deixar de ter certa admiração pelo homem austero. subentendendo-se que essas leis ficam sempre dentro de alguma lei geral. que parece o mesmo sempre”. juramento solene. – Inalterável é “o que se não move exteriormente. e faz como aborrecível a virtude. O homem severo não se aparta nunca de seus princípios. e como tal capaz de produzir todos os efeitos jurídicos”. em sentido moral. Muitos homens. ou mesmo um distrito ou um município goza de autonomia quando ele se governa. se fez com grande aparato e plena publicidade”. no entanto. independência. e que por isso é claro. Não inclui necessariamente a ideia de autenticidade: um ato. e vem a parecer mais áspero e grosseiro que severo. segundo a própria formação do vocábulo. sem serem severos com os outros. – O homem rigoroso tudo exagera. e de gênio áspero. – Inexorável é “o que não cede nem a súplicas e lágrimas”. – Tomamos aqui estas palavras na acepção política. espanta a todos. positivo. pois só se torna autêntico o ato formal depois de legalizado juridicamente. ao mesmo tempo que o rigoroso os leva a um extremo que é mais prejudicial do que útil. – Infle- xível exprime. do que é mais que rígido: dureza de alma é quase crueldade. que não muda da resolução tomada”. indicará ela certo caráter virtuoso. indicará extremada rigidez. declaração formal. e nada lhe contenta o excessivo rigor. – Duro dizemos. de propósito. A austeridade chega a converter-se em hábito. ou limitadas por alguma autoridade superior. Dizemos que um Estado. Se aplicarmos esta palavra aos princípios ou causas. contrato. pouco conforme às vezes com a equidade. 392 AUTÊNTICO. mostrando-se firme e seguro no seu modo de ver ou de obrar”. ou melhor. pois não se concebe um Estado independente sem que seja por isso mes- . porém. 393 AUTONOMIA. e por isso não são raros os casos em que a rispidez não exclui a magnanimidade e outras virtudes de coração. – Ríspido aplica-se ao que se excede nas manifestações da severidade. contra o rigor. Diz La Bruyère que um filósofo austero. – Inabalável é “o que não muda de opinião. A rispidez quase que depende mais do temperamento e da educação que propriamente das qualidades fundamentais da criatura. O severo não manifesta condescendência alguma. nem de temer o severo. além de formal e autêntico. podendo. a severidade com os outros pode ser obra de virtude ou de vício.

tacanho. ainda quanto a isto. gastando o menos que é possível. um serviço. quer natural.226 Rocha Pombo mo soberano. é exercida pela União. olhar. e vive ansioso por entesourar tudo o que adquire. aliás. só é empregado como adjetivo. e muito excepcionalmente como adjetivo. sem reconhecer acima de si nenhuma outra autoridade. aqui. apreciar é ver com apreço. apreçar (apreçar e apreciar). potestade. é preciso notar uma diferença essencial. – Força. porque esta palavra se refere somente a este gênero de produção. cobiçoso. e tanto se aplica no sentido moral ou abstrato. e que nos conste. Os Estados do Brasil são autônomos. poder. A significação da palavra publicista é restrita. e converte a criatura humana em simples animal. examinar com interesse e cuidado. e em relação a avarento está no mesmo caso de avaro. com autoridade. – Segundo Lacerda. só se diz escritor fazendo-se referência ao estilo. Entre avarento e avaro. e que o inverso se dá em relação a avaro. “autoridade é a superioridade legal. calcular o valor venal de alguma coisa. fona. Dizemos: a sorte avara (e não – avarenta). Potestade supõe o poder que a sustenta. agarrado. Avalia-se uma propriedade. – Entre apreçar e apreciar há. sovina. já se vê. 394 AUTOR. 395 AUTORIDADE. mesquinho. como se avalia um esforço mental. escritor. cainho. publicista. humana. porque pensa e discorre bem. de modo que o mesmo homem pode ser bom autor. – Damos. Deve dizer-se mesmo que a distinção entre os dois verbos se regula pela que existe entre os respetivos radicais: apreçar é estipular preço. a soberania. ávido. Chama-se autor o que dá à luz qualquer escrito. força. isto é. 396 AVALIAR. e mau escritor porque escreve incorretamente o que pensou com profundidade. aqui. hoje o nome de publicista a todo aquele que. Isto quer dizer (por mais que digam. Também se chama escritor qualquer autor literário. escreve para o público. quer a lei seja divina. “Pobre está já (Roma) tão decaída da antiga potestade”. porque se refere exclusivamente ao que escreve sobre direito público”. ou de opinião”. pois isso é comum a toda aquela categoria gramatical. A avareza é um vício que mata a alma. não só pela ex- . – Ávido é também adjetivo. – Avarento é “o homem que tem a paixão da riqueza. – Avaliar é “calcular o valor de uma coisa”. um sofrimento. que os léxicos dão como sendo a mesma coisa. – Poder é a autoridade que se acompanha da força necessária para fazer-se obedecer. não há caso algum na língua em que ele se nos apresente como substantivo. porém. 397 AVARENTO (avaro). Mas ávido distingue-se de um e outro. interesseiro. – Apreçar é “dar o preço. a diferença que consiste em não ser inerente ao segundo a ideia de cálculo. portanto. do conjunto dos Estados. somítico. ainda que se prive a si mesmo dos bens mais comuns da vida”. – A soberania política consiste na qualidade de poder um Estado existir por si mesmo. – “Estes três vocábulos aplicam-se aos homens de letras que publicam obras de sua composição. que é a entidade representativa de todo o país. é “a resultante dos elementos materiais em que funda o poderoso o seu poder”. como no sentido físico. de algum trabalho ou produção”. o avarento é um enfermo de consciência (não – o avaro). salvo figuradamente. Os nossos clássicos davam a esta palavra a significação geral de poder. o contrário os lexicógrafos) que avarento pode ser empregado como substantivo (significando – “homem avaro”).

pássaro. acrescenta. danos puramente materiais. as coisas inúteis”. reconhecer. o morcego não é pássaro nem ave (porque não é ovíparo). como dissemos. que danifica a qualidade. verdadeira. diligenciar. estrago ou avaria”. em regra. volátil. e perda de colheitas. como está dizendo claramente a palavra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 227 tensividade. poupando em excesso”. a andorinha. fazendo-se em tudo mais indigente do que é. o que não se dá em relação a avarento. – Perda é o dano total. o seu bocado como o cão o seu osso”. provar que uma coisa é certa. – Estrago é o dano que prejudica parte do que se possui. e até procurando lograr os outros se for possível sem parecer propriamente gatuno”. – Prejuízo é “desfalque resultante de perda. estragos nas árvores.” – Lesão é termo bem mais extensivo do que dano: designa “toda sorte de prejuízos que de qualquer modo se cause a pessoas ou coisas”. a águia. estrago. O condor. o morcego são voláteis. ga para designar estrago de mercadorias a bordo de navios. constatar. – Verificar é “empregar os meios convenientes para cada um a si mesmo convencer-se de que alguma coisa sucedeu como se conta. – Tacanho aproxima-se de mesquinho: é “o estreito. mas cobiçoso não inclui necessariamente a ideia de avareza. Também significa. prejuízo. que diminui a quantidade. – Volátil aplica-se a todas as aves. Como diz Roq. – Pássaro é “a ave pequena. dano. verificar. como pela significação própria. – Mesquinho. e. – Ave é “o nome ge- nérico que se aplica a todo animal ovíparo provido de asas”. guarda o seu dinheiro. apertado no despender. no entanto. – Somítico deve comparar-se muito de perto com tacanho e mesquinho. achar a verdade. – Segundo Lacerda: averiguar é procurar. o avestruz. os estragos podem sê-lo. e só particularmente é que significa – “ansioso de riquezas”. – Avaria. – Cobiçoso não diz propriamente o mesmo que avarento. que prefere sofrer vexames a gastar o seu vintém”. além da acepção especial em que mais particularmente se empre- . O pardal. medindo tudo com muita escassez. o pato são aves.) é “o que esconde. entre os nossos clássicos. a todo animal que voa mesmo sem ser ave. a estes uma certa ideia de torpeza: o somítico é mesquinho com os outros para só gastar com aquilo que lhe dá prazer. e considerados como reparáveis por meio de gastos pecuniários. é “o que exagera a sua pobreza. ou não. lesão. – Fona é “a criatura miúda” que faz questão das coisas mais insignificantes. como o animal agarra a sua presa”. o que. ou pelo menos considerável do que se possui. que vive a apanhar os restos. nada faz que lhe não redunde em proveitos pessoais”. a galinha. Ávido é “o que deseja ardentemente alguma coisa pela qual anseia. ou melhor. 398 AVARIA. “o que cede muito aos seus lucros. Um temporal causa avarias nos muros da quinta. – Agarrado aproxima-se de cainho: é “o que prende quanto tem. e que procura alcançar com solicitude e esforço”. 399 AVE. dizemos dos danos causados principalmente pelas grandes chuvas e inundações. e quase sempre o que vê em poder de outros. – Sovina é “a pessoa mesquinha. aqui. a águia é ave. – Cainho (fig. o tucano são pássaros. o sabiá. – Interesseiro é. nem mesmo a de mesquinhez. As avarias são suscetíveis de reparação. perda. Este quer “para guardar”. 400 AVERIGUAR. e até pródigo”. – “pode o cobiçoso ser liberal. de voo curto”. o pardal é pássaro. no entanto. – Dano é “o mal que provém de nos haverem diminuído o valor de alguma coisa que nos pertence. o cobiçoso deseja muito adquirir. magnífico.

depois de exame. de diante para trás. a verdade sobre alguma coisa. aqui. discernir. adequado. – Bispar é vocábulo popular. as medalhas têm anverso e reverso”. “dê-nos qualquer ideia que nos avivente ao menos a memória” – não admitiriam. perdendo-se entre as lombas da campanha. – Discernir é “ver claramente. Anverso é o lado principal. devisar. verso. – “O avesso” – diz Bruns. porque o que se quis exprimir é que a nova desgraça tornou a antiga dor tão viva como tinha sido). através de algum obstáculo”. dizemos: “à folha ou à página tal verso” (isto é – “à página oposta à página numerada”). que significa “tornar vivo”. “Logo que saímos da floresta. 404 AZADO. – Constatar (que muitos se dão o luxo de condenar como galicismo escusado) é “estabelecer. distin- ação de “receber pela vista uma impressão direta do mundo exterior”. verificar é “ver clara. – Descobrir é aqui “ver ao longe. – Enxergar é “avistar mal. ou na própria coisa vista. – Avivar é “dar mais vida. os vários aspetos”. deixar clara a verdade”. mais rapidez.” 401 AVESSO. ver. avistamos muito ao fundo do campo a casa da fazenda”. reverso. sem a ideia de que a vida seja completa”. Aquela desgraça vem avivar-me a dor antiga (e não – aviventar-me. distinguir”. e iremos ter ainda hoje à fazenda”. O pano tem avesso. a face. se nos apresenta como favorável. no entanto. – Ver designa a bulos há a diferença marcada pela partícula verbal incoativa entar que figura no segundo. entre eles a seguinte diferença: azado dizemos do que. – Distinguir.228 Rocha Pombo e que é exata etc. descobrir. As frases: “avivente um bocadinho o fogo da lareira”. etc. lobrigar. Há. – Entre estes dois vocá- guir. anverso. sem quebra de rigorosa lidimidade lógica. oportuno. como se se houvesse eliminado algum obstáculo entre a nossa visão e a coisa descoberta”. ou posto em ordem. direção. mais intensidade etc. e oportuno dizemos do que vem a . – Inverso significa “de modo contrário ao que é natural. e dar disso testemunho”. 402 AVISTAR. oposta à da frente. bispar. inverso. ser empregados indistintamente. ou avistar mal e mal. propício. regulada esta pelo lado em que a folha se liga a outras”. mais atividade. o verbo avivar. aviventar. “Enxergamos muito confusamente a caravana. descobrir.” – Em suma: averiguar é “reconhecer a verdade”. – Verso é “a parte de uma superfície. conveniente. Referindo-nos a um caderno ou a um livro sem numeração por páginas e sim só por folhas. – Avistar é “alcançar com a vista alguma coisa”. – Azado e oportuno poderiam. separando ou discriminando a coisa vista de outras coisas. é “enxergar ou mesmo lobrigar com esforços”. – Reconhecer é “chegar ao resultado de ver que uma coisa é realmente como se dizia. ou mais particularmente de uma folha de papel. – “é o lado pelo qual uma coisa não deve ser vista. à primeira vista.” – Aviventar é “dar um pouco de vida. enxergar. ou a parte oposta ao reverso. – Devisar é “perceber pela vista. ou de livro. O reverso é a parte oposta ao lado principal. muito usado com a significação de “enxergar ou avistar com dificuldade e rapidamente”. ou “mais vivo” em absoluto. de cima para baixo. 403 AVIVAR. sem que o esperemos. próprio. voltado da direita para a esquerda.” – Lobrigar é “ver indistintamente. “aviventemos alguma coisa a nossa marcha. mal devisar alguma coisa estando-se no escuro”. ou sentido que não é o próprio”.

Bailam os moços e moças do povo em suas festas e reuniões. – Dança é palavra mais nobre. além de aziago. na verdade. dança. aqui. jongo. samba. dançam os cavalheiros e senhoras nobres em suas salas. e dizia a todos: ‘Eu assento que nada fica mal à Majestade. – Nefasto significa “cheio de desgraças e calamidades”. pois El-Rei D. ainda hoje. ou fosse feito para tal fim”. dançou em público com seus cortesãos. ora mais rápidos. folia. a nossa. quando se trata de honrar a virtude’ (Anecd. favorável. “Chegou o momento oportuno de jogar a partida”. designa o conjunto ou série de movimentos com que se executa uma dança. ao som de flautas. – Infausto diz menos que aziago. agoi- rento. senão para a maneira de pisar. muito alegre e festivo. não feliz”. e assim como os animais retouçam de contentes e alegres. – Aziago se diz. – Conveniente diz também – “que é favorável. – Próprio. fan- dango. como acreditava o espírito supersticioso dos antigos. ou do cálculo que fizemos. e ao som de rústicos instrumentos. infausto. O bailar é uma espécie de instinto nas criaturas racionais. ora mais graves. João Afonso Teles. 405 AZIAGO. talvez semelhante ao que chamam hoje contradança. daquilo “que anuncia desgraças”. – Propício é “o que se apresenta oportuno. que não só dá regras para mover o corpo e os membros a compasso. e só exprime a ação física de bai- lar. é uma dança rápida ao som de pandeiro ou adufe. ‘saltar. no sentido em que esta palavra se pode confundir com dança. Diz Bruns. isto . bailam os próprios selvagens à sombra de frondosas árvores. II)”. cantando. com mais ou menos ligeireza. e fazer as cortesias e mesuras que a boa educação prescreve. ter o corpo em elegante postura. nefasto. dança e folia escreve Roq. A língua francesa. faziam-se antigamente folias por ocasiões de alegria pública.. funesto. folgança. ‘saltar’. executando concertadamente todos os movimentos. além da de aziago. entre várias pessoas. A dança é uma arte semelhante à que entre os gregos se chamava orchestike.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 229 encontro dos nossos desejos. de ballizô. – Folia. significa – “que se adota. (e não – o “momento azado”). tem três que determinam as ideias acessórias destes saltos e movimentos. porém. – Adequado exprime – “que se ajusta ao que pretendemos. quem baila dá saltos. – Funesto. como se viesse a propósito. – Agoirento é “o que. bailam os homens por alegria e diversão. A folia indicava noutro tempo (que hoje é palavra antiquada) certo modo particular de bailar. – Baile é nome genérico e vulgar. em que os próprios reis não duvidavam tomar parte. vantajoso ao fim que se deseja”. e faz movimentos de corpo mais ou menos compassados.: “Não defendemos a etimologia do verbo bailar. “O momento parece azado para uma tentativa” (e não – oportuno) – desde que veio inesperadamente. em que era muito eminente. e prometendo sucesso”.. 406 BAILE. No dia em que armou cavaleiro a D. bailado. tem só um termo para significar estes movimentos – é o substantivo danse. mais pobre que a nossa. como a palavra de origem francesa (folie ‘loucura’) o está dizendo. e que se assemelha à dança das bacantes.. mas é certo que ao que nós chamamos bailar chamavam os latinos saltare. Port. sugere “a ideia de sinistro. dar saltos’. é lúgubre e sinistro”. ou que convém ao fim que se colima”. que “baile. e seu verbo danser. e designa particularmente o movimento regular do corpo e seus membros ao compasso e tom de música. por isso. Pedro I sabemos que tinha gosto particular de bailar a folia. a dança é própria de gente nobre e cavalheira. – Sobre baile. e. fatal”. E. pois exprime apenas – “não propício.

– Tartamudear é precipitar as palavras de modo confuso. – Folgança ou folguedo é termo popular que designa toda espécie de diversão com que se descansa do trabalho. – Bailado. é a dança mímica espetaculosa”. muito clara. é o mesmo que fandango. – Balancear “é pôr ou ficar como suspenso. ou solene. como as . o bailado. É defeito comum à infância e à extrema velhice. “F. apesar do nosso desejo e até do nosso esforço. Quem vacila quer agora uma coisa. confundi-las num ruído surdo que não as deixa claramente entendidas. O mesmo se deve dizer de embalançar. balbuciamos. baile é propriamente a festa. – Bala é “o projetil de forma cônica ou esférica que pode ser lançado por armas de fogo.. mas não há corpo de dança. como acabamos de dizer. – Jongo é “dança ou bailado em público e ao ar livre”. quer dizer: na bailarina considera-se o baile. vacilar. Vacilamos entre coisas que nos repugnam e que nos impõem (não – hesitamos). indeciso. – Fandango é “festa de danças ruidosas. As danças ou bailados executavam-se ao som de grandes tambores. tangidos à mão. e dizemos que dança bem quando se atende ao modo como executa as diferentes danças em que toma parte. duvida tomar. fandangos etc. mas indica particularmente baile popular. espingardas ou canhões”. – Duvidar é “hesitar por não ter certeza. ou um conhecimento exato do que se deve fazer”. ou danças mímicas. que pode ser arremessado com força”. – Samba é também bailado popular. Hoje está quase inteiramente extinto no Brasil”. os movimentos do corpo. e dançarinas que executam jotas. – Noutro sentido. oscilante”. usado pelos africanos. da Espanha passou para toda a América colonial. uma polca. nos teatros há corpo de baile. mas não há mestres de baile (senão noutro sentido). comparando-as. Nos teatros há bailarinas que executam os bailados. ou ter gagueira) é falar com dificuldade. – Balançar é outra forma de balancear. feitas mais de barulho que de bailados. há mestres de dança. 407 BALA. Assim. buciar é “não pronunciar claramente certas articulações. duvidar. No sul do Brasil. 409 BALBUCIAR. embalançar). e que consiste em danças. uma valsa são danças. Note-se que estes três verbos entram aqui no seu sentido figurado. De uma pessoa se diz que baila bem quando se atende à maneira como faz cada um dos movimentos que entram na dança. e os movimentos com que essas danças se executam constituem o baile. bailados são as próprias danças. mas aplica-se comumente esta palavra a toda festa livre e reles. cortando as palavras e repetindo várias vezes a mesma sílaba antes de pronunciar a seguinte. projetil. na dançarina considera-se a dança. É a gagueira um defeito dos órgãos vocais. Pode ser isto um efeito acidental da comoção ou da emoção. depois outra. Hesitamos em preferir um de dois ou três bons empregos que se nos oferecem (não – vacilamos). a ideia de que a pessoa que hesita tem desejo de não hesitar. – Bal- de qualquer forma. Colhidos de improviso. misturá-las. logo mais uma outra. tar. – Gaguejar (ser gago. ou um defeito natural que provém dos órgãos da voz. hesi- é. – Distingue-se este dos dois últimos verbos do grupo em dar. mais ou menos ruidosa. não sentimos razões suficientemente fortes que nos levem a tomar uma resolução”.230 Rocha Pombo 408 BALANCEAR (balançar. antes da abolição. como medindo os motivos de escolha e decisão. ou em tomar a tarefa que se lhe propõe”. Mas tanto este como balançar sugerem melhor a ideia de ficar em dúvida entre duas ou mais coisas. gaguejar. – Projetil é “qualquer corpo. – Hesitar enuncia o estado de espírito “em que. uma mazurca. tartamudear.

é muito usual. mas particularmente mais pelas baixas que pelas altas. e for obrigado a cessar pagamentos. – Comum significa propriamente “de todos”. – Familiar se diz “da linguagem ou dos termos usados em família”. falência.. ou não sobressai acima da ordem habitual das coisas. o art. – Bourg. comerciante ou não. (Bruns. cujo passivo é superior ao ativo.. A falência é o estado de um comerciante que cessou seus pagamentos. 798 do Cod. – Falência. ter mais dívidas que bens) e. ou que nelas estão parados à espera que alguém os ocupe. – Vulgar se diz do que é próprio do vulgo. 263 do Cod. O que é vulgar carece de uma certa nobreza que não é comum entre o vulgo. 2. 411 BANCARROTA.’: logo.. ou não merece apreço. A bancarrota simples é a falência que é acompanhada de falta grave. e também “que não é raro”. de si mesma.. sem certa nobreza. sem que haja todavia fraude da parte do falido: é um delito da competência dos tribunais correcionais. dizendo – ‘a bancarrota que foi qualificada de fraudulenta. grosseiro. portanto. vulgar.. a falência passa a ser uma bancarrota. por falta de recursos presentes. comum. vulgar. nem de falta grave. seja declarado em falência se. é o estado dos comercintes falidos ou quebrados – isto é. à declaração de falência. não ficam contudo bem em todas as ocasiões. e não à bancarrota. A falência não é. porém.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 231 crianças. Daí se vê que há entre falência e quebra diferenças essenciais: 1. que é comum. Pen. expressão ou linguagem que não se salienta de nenhum modo. pode dar-se que um comerciante cujo ativo exceda de muito ao passivo. – Corriqueiro se diz do que corre na boca de todos. não puder solver compromissos. – banal se diz do termo ou expressão que é usado por todas as classes sociais. pode continuar seus pagamentos e escapar assim. de trivium “encruzilhada”) dizemos do termo ou expressão própria dos que andam pelas encruzilhadas ou pelas esquinas. isto é. resumem assim: “A quebra é o estado de um devedor. quebra. dir-se-á ordinário do termo. – Segundo Bruns. porém. – Sobre estes três termos de jurisprudência escreve Teixeira de Freitas: – “Bancarrota denota geralmente entre nós o estado de falência ou quebra de qualquer comerciante. fraudulenta. na ordem de ideias em que consideramos a sinonímia destes vocábulos. e Berg. daí resulta que comum se diz do termo ou expressão que não é elevada. Como. As pessoas nervosas tartamudeiam quando vivamente emocionadas”. A bancarrota fraudulenta é corriqueiro. à falência. familiar.. conseguintemente. o vulgo não se compõe só do que é ínfimo. aplicá-lo àqueles termos que têm algo de indecente ou de baixo. – Ordinário se diz do que não se destaca do comum. ordinário.) 410 BANAL. e significa o mesmo que falência ou falimento. aplica os epítetos casual. Acompanhada de fraude ou de falta grave. entretanto. resulta daí que vulgar se diz dos termos e expressões que. punível quando não é acompanhada de fraude. Isto ainda mais se confirma pela redação do art. 3. – Trivial (do latim trivialis. e. “que é frequente”. ou quando menos “de muitos”.º) ao contrário. – Quebra entende-se de comerciante. ou quebra. e como o que não é raro tem pouco valor. a bancarrota pode não ser fraudulenta. .º) a falência é um estado exclusivamente próprio aos negociantes. Por imperfeição natural. gaguejamos.°) um comerciante pode estar em estado de quebra (isto é. O que é trivial é baixo. E demais. se goza de um crédito suficiente. trivial. que cessam seus pagamentos. sem ficarem mal na boca de ninguém. culposa. do Com. Este vocábulo pode considerar-se só neste sentido.. e impróprio de pessoas decentes. ainda que não seja fraudulenta.”.

– Filarmônica é a banda de música particular. nem mesmo – orquestra popular. – Banda é uma corporação de músicos pertencente a algum batalhão. não podendo o banido voltar jamais ao território de que foi expulso. mas sem se lhe determinar o ponto para onde deve retirarse. Fanfarra é o mesmo que charanga. celerado. Segundo alguns autores. Pode-se distinguir estes dois últimos vocábulos pela particularidade que apresenta celerado de sugerir a ideia de bandido ou malfeitor impulsivo. para sempre. Não se poderia dizer – orquestra militar. degredar. sendo a pena de banimento muito mais grave que a de deportação ou mesmo desterro. que deu scelero. desterrar. proscrever. deportar. ou do batalhão naval. expa- nia. filarmônica. – Celerado “é o bandido monstruoso que praticou. or- questra. – Salteador é o ladrão que ataca os viajantes nos caminhos. Quando o salteador opera com outros. pois o banimento importa a perda. ou que assalta de noite as habitações isoladas. estandarte. e como tal da competência dos tribunais ou câmaras criminais”. O salteador vive do roubo. ou de privar da pátria ou do país onde se vive ou mesmo se está de passagem ou de pouco. 413 BANDEIRA. 412 BANDA. – Charanga é a banda formada só com instrumentos metálicos. 414 BANDIDO. – Bandeira é qualquer pedaço de pano preso a uma haste e arvorado de modo a que se o aviste de longe. como sinal ou como distintivo. 415 BANIR. e não é raro que seja também assassino. “crime”. do grupo. ou mesmo a algum estabelecimento público: a banda da polícia.232 Rocha Pombo a falência acompanhada de fraude: é crime. – Estandarte é a bandeira de forma e cor fixas. – Segundo Bruns. aqui. ou orquestra do batalhão. – Banir é o mais forte de todos. esta palavra encerra a ideia de pena infamante. O banido é expulso. “cheio de crimes”. – Música é. bando- leiro. ou que é capaz de praticar. de que sceleratus é particípio). como não seria a ninguém permitido arriscar esta monstruosidade: a banda do teatro lírico. pavilhão. o malfeitor pode viver do roubo sem nunca assassinar. – Todos estes verbos têm de comum a ideia de expulsar da terra. ou a bordo de navios. No Alentejo dizem que os ciganos e os malteses são malfeitores. doido. Os vocábulos bandido e malfeitor são frequentemente empregados como qualificativos das pessoas de má índole”. salteador. – Insígnia é qualquer emblema que distinga. a palavra menos enérgica. ou em teatros. “pelo menos na mente de quem ordena o ato”. simbolizando uma nação. facínora. – Facínora (e facinoroso) é também o sujeito perverso. fanfarra. – Bandido é o malfeitor perseguido pela justiça. ou feita e mantida por alguma associação. ou que seja próprio para representar alguma instituição. – Vexilo é termo antiquado correspondente a estandarte: era a bandeira militar. e entre todos obedecem a um chefe. dos direitos de pátria. a banda do regimento. insíg- – “malfeitor é. – Orquestra é o conjunto de professores que executam altas peças de música em concerto. vesânico. triar. é bandoleiro. “o termo genérico aplicável a todo grupo de músicos que executam alguma composição musical”. grandes crimes” (scelus. – Pavilhão pode-se dizer que é o nome que toma o estandarte nas tendas de campanha. assim como pode ser ladrão e assassino. música. desfraldada à frente dos exércitos. vexilo. charanga. malfeitor. – Exilar exprime simplesmente o ato de . exilar.

próprio de bárbaro. Não se liga a este vocábulo nenhuma ideia de pena infamante. Este vocábulo designa o ato de sair da pátria. falto de humanidade. e neste caso quase sempre indica atitude infensa. Poderíamos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 233 enviar para fora da pátria. colônia ateniense na Silícia. – Desterrar diz propriamente “fazer sair da terra onde se habita”. com o andar dos tempos. por sua viciosa pronúncia. corrompida. mas ordinariamente infringindo as leis da sintaxe. (Crueza é a própria ação cruel. não só se lhes confiscavam os bens. – Degredar é enviar para o degredo. 416 BARBARIDADE.) – Crueldade é a inclinação à prática de atos sanguinários. Por isso que os gregos e romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não eram eles. de todo o grupo. desumanidade. esqueceu a pureza da língua grega. ou da terra em que se tem domicílio. ou da língua deles eram tiradas. ou protesto implícito contra a política existente ou contra as ideias dominantes na terra de onde se retirou o êxul. Cometem-se estes de muitos modos na língua”. vemos sofrer o nosso semelhante sem socorrê-lo. chamar barbarismos galicanos ao que mui francesmente se chamou galicismos. (Fereza é o ato mesmo de ferocidade. crueldade (crueza). é o prazer que mostram certas naturezas experimentar à vista de espetáculos que tanto têm de bárbaros como de cruéis. a deportação é semelhante ao banimento (?). posto que nele predomine a ideia de prepotência por parte de quem decreta a pena. – Deportar é desterrar perpetuamente para uma colônia distante. – De Soles. ou mesmo sentimento 28 Segundo Teixeira de Freitas (Vocabulário jurídico. – “Significam estas duas palavras” – diz Roq. com a diferença que o barbarismo é uma locução viciosa. vem a palavra solecismo. seja só como pena infamante (degradação). – Segundo Lacerda – barbaridade é a disposição do homem rude. por egoísmo. deram com muita razão o nome de barbarismo às palavras e expressões que. sem polícia. (Será. se pareciam com as dos bárbaros. – Expatriar não é pena que se imponha. ou por dureza de alma. ferocidade (fereza). e portanto figuradamente. quando ainda os franceses tinham a sua semibárbara de Ronsard. – “em geral erros de linguagem. o solecismo é um defeito da construção da oração e que pode provir de ignorância ou de descuido. própria do vulgo que tudo adultera. ou para longe do país onde se acha o deportado28. e. e também a ferocidade própria da fera. – Proscrever é. ação. ou limitando-lhe a menor distância em que pode ficar do seu domicílio. 48). e não a da gravidade da culpa da vítima. é a manifestação de um certo prazer à vista de sucessos fortuitos ou provocados que trazem consigo derramamento de sangue. por orgulho. mas até se fixava um prêmio para aquele que tirasse a vida ao proscrito se encontrado na pátria. que. o modo. Muitas vezes até o exílio é voluntário. fixando a residência em que o desterrado deve cumprir a pena. pois. que temos uma linguagem culta e polida desde Camões. sem outra ideia acessória além da de inculcar que a ausência será longa. nós outros. solecismo.) – Desumanidade é a ausência de sentimentos humanos. 417 BARBARISMO. por esse ato.) – Ferocidade. o trato que denuncia a índole sanguinária. ou só explicável no selvagem. seja como infamante e aflitiva. . com referência ao homem. portanto. Mais comumente proscreviam-se aqueles que procuravam escapar à ação da justiça. é a indiferença com que. o mais próximo de banir: era antigamente (em Roma e na Grécia) o ato de expulsar da pátria e proibir que o proscrito a ela regressasse sob pena de morte.

– Chata é “barcaça larga e de pouco fundo. barca. nem respeita lei alguma. alvarenga. xaveco. batelão. tartana. embarcação. canoa. de Fig. O escaler distingue-se do outro em ser movido ou poder mover-se tanto a remos como a vela. A jangada é uma embarcação. lancha. – Xaveco – espécie de fragata usada outrora pelos mouros no corso do Mediterrâneo. os autores que o precederam: “Os antigos egípcios. deram o nome de bárbaros a todos os estrangeiros. usada outrora. no entanto. O iate. – Navio é a embarcação destinada a navegar no mar alto. depois os gregos. galeota. pequeno escaler. – Batel e escaler são pequenas embarcações que conduzem para bordo dos navios não atracados ao cais. no serviço de transporte de cargas dentro da baía”. é maior. nau. com dois ou três mastros”. nem gozam dos benefícios da civilização. – Como os precedentes. – Barcaça é barca maior. mas carece de aperfeiçoamento em tudo quanto constitui o que se chama um povo civilizado”. enquanto que embarcação designa qualquer corpo flutuante que pode conter pessoas ou coisas. mas não é um barco. A nação bárbara conhece e respeita em geral essas leis. e servia tanto para a guerra como para o tráfego marítimo. bote. elegante e luxuoso. – Barca = “embarcação larga e pouco funda” (C. para os quais é termo genérico. sim”. Uma nação selvagem não conhece. como força agressiva.) fazendo alusão ao esforço e trabalho com que é levado. sem exceção. iate. e vice-versa. estreita e comprida. – Gôndola – “pequena embarcação (como a galeota) movida a remos. 419 BARCO. empregada. escuna. de vela e remos. – Galera = “antiga embarcação. navio. mas só se diz dos barcos cobertos. catraia. brigue. Servem ambas para o trasbordo de cargas. caravela. na polícia. bergantim. e que serve também para o serviço de carga e descarga de navios.. – Bote é batel de rio. como o iate.). à imitação destes os romanos. igara. – Nau era o maior navio outrora empregado principalmente na guerra. – Galé é embarcação de baixo bordo. – Resume Lacerda assim. – Manchua – “pequeno barco usado nas costas da Ásia”. barcaça. – Galeota (diminutivo de galé) é pequeno barco. de um só mastro. galé. gôndola. nem convenções sociais. usada principalmente para recreio”. – Barco é “termo genérico. sobre estes dois vocábulos. ou mar)”. – A fragata. todos os vocábulos que se seguem apresentam de comum a ideia de “próprios para transporte por água (rio. como o batelão e a alvarenga. galera. piroga. inferiores nas ciências. manchua. – Catraia é bote pequeno. – Batelão (aumentativo de batel) é “barca rasa e grande. nas artes. e transporte de passageiros de terra para os vapores. rebocadas dos navios para os trapiches ou vice-versa. de vela e remos. e. galeão. junco. de galé) – “antigo navio . – Embarcação não se diz hoje dos navios de guerra. menos porém que embarcação. – Tartana era um xaveco menor. selvagem.. movido a remos. e hoje os chineses. serve mais para recreio. – Lancha é “embarcação pequena e sem tilha (coberta) que anda tanto à vela como a remos”. – Selvagens são os habitantes das selvas. pois é restrito à ideia de construção. por considerarem todos. sendo o batel movido só a esforço do remeiro. Talvez por isso é que se diz – “batel da vida” (e nunca – escaler. era inferior à nau. – A caravela era menor que a fragata. chata.234 Rocha Pombo 418 BÁRBARO. larga e aberta como a alvarenga”. nas letras. e pode até prestar-se para longas viagens. que não cultivam as artes. fragata. etc. batel. – Galeão (aum. barco.

ou que não temos como tal o que vulgarmente se lhe atribui. de dois mastros. natural. do francês bátard. (C. do XI ao XV século. . antigamente bastard. poeta ambulante da língua d’oc. – de casado e solteira ou vice-versa.) – Bergantim – “pequena fragata. e de uso nas enseadas e nos rios. ou pelo descuido. e stard “nascido”. ou que não é havido de matrimônio celebrado com as solenidades da lei. nau de guerra”. tautologia. de castelo em castelo. coisa degenerada29. – Segundo Roq. ou de bas “vil. – Escuna – “brigue tendo vergas no mastro da proa e sem mastaréu de joanete”. espécie”. que no norte da França. uma obra. redundância. – Brigue – “bergantim maior”. fino e leve. peça bastarda a que não tem as medidas próprias da sua espécie. que lhe damos na Arte Crítica. e quer dizer – “exces29 Segundo Roq. etc. perissologia.. mas há entre eles diferenças mui notáveis”. que compete a qualquer filho ilegítimo. e nós mesmos chamamos. que andava pelo sul da França cantando sonetos e trovas. que eles têm na educação da prole. temperado do agudo e grave da legítima. gr. um livro é espúrio. de pai eclesiástico. por exemplo. entre os celtas. O filho bastardo pode ser natural. etc. que vale o mesmo que – “baixamentenacido”. também ordinário. – Piroga e igara – “canoas de índios”. v. Luiz – “exprimem a qualidade do filho que é ilegítimo. ou pela imoralidade que acompanha o ato em que são gerados. Bastardo significa. e também o que não tem pai certo. ou da união dos sexos. – Trovador é a designação equivalente a troubadour. quando dizemos que uma produção. – Canoa – “pequena embarcação. quanto à degeneração. rapsoda. 421 BASTARDO. por ser uma alteração dela. em algumas línguas. poetas da língua d’oïl.). de matrimônio clandestino. não tanto à ilegitimidade do matrimônio. porque não só denota bastardia. que daí se presume provir aos filhos. – Bastardo é denominação genérica. se dedicavam à poesia épica. e parece referir-se. baixo”. trovador. de barreguice. vem do alemão boest “degenerado”. – Redundância é o termo genérico de que os outros do grupo especializam a significação. E chamamos espúrio o que nasce de pessoas entre as quais há esse impedimento. – “Todos estes vocábulos” – escreve S. trombeta bastarda a que dá um som misto. e aos quais se devem os primeiros romances de cavalaria. – Bardo era. – bastardo. quando não em verso (Bruns. ou pela ordinária desigualdade da condição dos pais. isto é – que lhe não conhecemos o autor. e é ainda correspondente aos trouvères. letra bastarda a que é degenerada da romana.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 235 de alto bordo. senão que dá a entender que o pai é incógnito porque a mãe se facilitava a vários quando o concebeu. 422 BATOLOGIA.. Desta última acepção da palavra espúrio nasceu o sentido figurado. de Fig. de mãe religiosa. ou espúrio: são duas espécies de bastardia. e art “raça. e também movida a remos”. o nome que se dava aos poetas e cantores populares. ilegíti- mo. vate. – Junco – “pequena canoa ou batel. feita quase sempre de um só tronco de árvore escavado”. 420 BARDO. espúrio. Chamamos natural o que nasce de concubinato. em geral o que nasce de pessoas entre as quais não há impedimento algum legal que lhes vede o contraírem matrimônio. usado pelos chineses”. – espúrio é termo desonroso. – Vate era o profeta que fazia os seus vaticínios em estilo elevado.

e tinha o costume de repetir cada coisa duas e mais vezes. falou deste Ovídio naquela passagem do liv. redundante. e não são fáceis de evitar como o precedente. e é demasiado grosseiro para que nele caiam ainda escritores medíocres. o que não é absolutamente necessário naquela passagem. porém. verbosidade aparatosa. que repetia um pensamento com as mesmas expressões que havia empregado a primeira vez. encarecimento. é justamente o que Boileau chama com graça – ‘estéril abundância’. não obstante. porque Sêneca era um dos seus autores favoritos. de mostrar que se sabe dizer uma mesma coisa de muitas e diferentes maneiras. e seu estilo é. não a larga até haver apurado quanto sua rica imaginação lhe podia sugerir para ilustrá-la. . redundância nímia. – “que indicam três defeitos do estilo que. o qual supõem que era gago. são entre si distintos. ausentou-se. . O segundo (tautologia) e o terceiro (perissologia) opõem-se à concisão. A toda inútil repetição de palavras chama-se batologia. do grego tautologia (de tautó ‘o mesmo’ + logós). . . II das Metamorfoses. na pedra chamada in- dex. . Sub illis Montibus. – Das três outras diz Roq. E com efeito. e variá-la de cem maneiras diferentes. . voltou. é . entre o muito que sempre ocorre quando se escreve sobre matérias bem-estudadas. . e perguntou-lhe se tinha visto para que parte fora o gado que pouco antes andava apascentando. chamado Batto. e ainda outros a atribuem a um pastor que fazia o mesmo que o mau poeta. – Tautologia. mudou de forma. – Perissologia (de perissos ‘que é demais’ + logós). et erant sub [montibus illis. . e estavam ao pé daqueles montes’. três ou mais vezes as sílabas iniciais das palavras até que rompem a falar. Sêneca afeta mais concisão na frase. . é nímio e prolixo muitas vezes. Mercúrio o transformou. . porque. . . duvidando Mercúrio que ele cumprisse a palavra. O primeiro defeito (batologia) opõe-se à elegância. . indignado. sem embargo. rogou a este que não o descobrisse. é a repetição inútil da mesma ideia ou pensamento por termos diferentes. – O que não sabe omitir. As frases de Ovídio são bastante concisas. e. daqui se chamaram battos a todos os que repetiam sem necessidade uma mesma palavra. . erant. . Vieira também cai algumas vezes neste defeito: o que não admira. oferecendo-lhe em prêmio uma novilha. outros a atribuem a um mau poeta do mesmo nome. palavra grega battología (de báthos e logos) sobre cuja origem não estão de acordo os autores. . .236 Rocha Pombo so de palavras para ornar o estilo. e como os que o são repetem duas. amplificá-la. variando-o de muitos modos diferentes. – Esta afetação. é superfluidade de palavras. dado serem todos contra a elegância e concisão da frase. Pelo que. inquit. . diz Ovídio. isto é – ‘descobridora’ ou ‘denunciadora’. e também exageração. O velho prometeu-lhe que sim. . ou para fazer mais explícito o enunciado”. . como a origem e composição de cada uma delas o dá a conhecer. porque gosta de variar um mesmo pensamento. e para tentar sua cobiça ofereceu-lhe uma vaca e um touro se lhe dissesse a verdade. no qual refere como Mercúrio furtou a Apolo o gado que andava guardando. e não havendo ninguém visto fazer o roubo senão um pastor velho chamado Batto. Consiste principalmente este defeito em amplificar demasiadamente um pensamento. . em colhendo entre mãos uma ideia. O velho então respondeu-lhe: ‘Agora há pouco ao pé daqueles montes estavam. . Dizem uns que se deve ao nome do fundador de Cirene. A verdade é que a palavra grega Báthos significa ‘tartamudo’ ou ‘gago’.

– que às práticas afetadas de piedade alia a mais refinada velhacaria. Elementos bélicos. mar- membranas carnosas e sem osso que for- cial. e guerreiro o que é prático. e explora os incautos. como dissemos. de uma religião malcompreendida. neste grupo. Propriamente. a segunda é científica e poética. não lhe qualifica a entidade física. que com tanta razão dizia: Quem não sabe calar. Neste sentido. – Marcial (de Mars. Em suma: é militar mais próximo de bélico. que lhe é próprio ou que serve para ela. do que convicta e segura de uma crença racional e verdadeira. A primeira é palavra vulgar. Comparando militar com guerreiro. e engana e arruína sem fé nem consciência. intuitos belicosos. aprestos bélicos. No sentido que tem aqui. podemos estabelecer que militar qualifica o que é teórico. virtudes que não tem. A parte mais macia e delicada dos beiços. 425 BÉLICO. guerreiro. na sua boa-fé e simpleza. 424 BEIÇO. dominados de instinto militar). mas de hipócrita que afeta grande devoção. É termo concreto. incendimento marcial. . Ajudam os beiços a fala e a mastigação: só os lábios osculam e beijam”. lábio. só qualifica o abstrato. belicoso. mais por tolice que por cálculo. – Dizemos bélico daquilo “que concerne à guerra. e como tal só deve aplicar-se ao que é material. isto é – nas festas de igreja. – Tartufo é aquele – diz Bruns. que faz dessa pessoa mais um monomaníaco do que um religioso. mais por simplicidade de espírito que por interesse” (Bruns. – Carola é o que faz consistir toda a sua religiosidade nas superfetações do culto. – Hipócrita é o que finge sentimentos. tem uma acepção que só o uso autoriza. Pode um povo. que não só afeta ser virtuoso. enquanto que marcial se diz tanto do que é abstrato como do que é concreto. militar.). são os lábios. como reveste todos os seus atos e discursos de melíflua unção: aconselha a virtude. – Belicoso é termo abstrato. hábil em coisas de guerra. nas procissões. e não ser guerreiro. e quando abrem o sorriso deixam ver alvos dentes. material bélico. o deus da guerra. ou que a ela é relativo. – Segundo Roq. hipócrita. que se insinua habilmente na simpatia alheia. atitude belicosa. não um escritor judicioso. nem escrever [sabe. chamam-se beiços.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 237 um declamador. tartufo. Quando belicoso se diz do homem. e como tal só pode qualificar o que é moral: furor belicoso. ingênuo. – Militar (do latim miles ‘soldado’) dizemos de tudo o que é relativo à carreira das armas. Marte) significa propriamente o que é relativo a Marte. inspira o temor de Deus.” 423 BEATO. etc. e marcial mais de belicoso”. caráter belicoso. carola. – Guerreiro é o que é afeito à guerra. e incorporou-se na língua para designar o refinado hipócrita em matéria de religião. ou um indivíduo ser belicoso.. inculca o bem. as “duas mam a parte exterior da boca. pois este. à profissão do soldado. aplica-se à pessoa que parece mais obsedada. – Tartufo é o nome do protagonista de uma comédia de Molière. mas a moral: os povos bárbaros são belicosos (isto é – dados à guerra. e incorre na censura do citado Boileau. induz a observância das práticas religiosas. É vocábulo mais extenso que belicoso. – Beato. beato “aproxima-se muito de hipócrita. tanto no homem como nos animais. esta palavra designa a pessoa que é muito solícita nas suas devoções e práticas religiosas. e cobrem os dentes quando se fecham. Supõe-se sempre no beato um espírito fraco. e também um grande guerreiro pode acontecer que não tenha instintos belicosos. que são as bordas em que muitas vezes brilha a cor do rubim. Porte marcial.

caridade. Por outro lado. – Altruísmo está quase nas mesmas condições: é o “amor dos outros”. 428 BIBLIOTECA. humanidade. – Graça é um benefício ou distinção que se concede sem merecimento particular de quem o recebe e sim só por afeto. e também a autoridade deste. – Mitra é o mesmo bispado ou dignidade de bispo. galardão que se dá em agradecimento ou recompensa de bons serviços. talvez sem sugestão de ideia religiosa: é mais. é o nome positivista do amor ao próximo. – Filantropia é a mesma caridade. – é termo genérico que significa todo ato de benevolência afetuosa que distingue e prefere a pessoa favorecida. a divisão eclesiástica que fica sob a administração de um bispo. o amor ao próximo é uma locução que vale muito pouco porque não fixa sentimento nenhum. . – Amor ao próximo (ou do próximo) é também uma virtude evangélica: é a que mais se aproxima de caridade. nem sempre aquele que mais esmolas dá será o mais caritativo. Ninguém diria: – “Vou à biblioteca do Sr. portanto. considerada como pessoa jurídica e na sua capacidade de possuir bens temporais. Vamos recorrer da vigararia para o bispado. Acrescentei de alguns volumes a minha pequena biblioteca (e não – livraria). 429 BISPADO. Um homem que não dá esmolas pode ter em alto grau a virtude da caridade. e sem ideia alguma de dever”. livraria. – – Segundo Bruns. posição ou valimento por parte de Bispado é a jurisdição do bispo. devendo notar-se que. Emprega-se também para designar o conjunto dos bispos de uma província eclesiástica ou de uma nação. Mudou-se a biblioteca nacional para a Avenida (não – livraria). – Obséquio é simplesmente “ato de delicadeza com que se procura agradar ao obsequiado”. quem o faz sobre quem o recebe. mitra. – Caridade é propriamente “o amor do nosso próximo. – Humanidade é apenas o conjunto de qualidades que levam a criatura a ter sentimentos simpáticos. amor ao próximo. favor. “o conjunto de livros destinados à leitura”. filantropia. – Favor – diz muito bem Roq. no entanto. dádiva. – Diocese é o território dentro do qual exerce um bispo a sua autoridade e jurisdição. ou o prazo durante o qual exerce o bispo a sua função. uma qualidade da alma do que virtude social. obséquio. – Benefício é um dom gratuito que inculca ideia de ação sagrada. diocese. – Não é possível confundir estes dois vocábulos. – Biblioteca é. consideração ou piedade de quem a outorga. episcopado. – Mercê é prêmio. por isso mesmo. por isso mesmo que é mais do que a própria caridade exterior ou praticante. graça. – Episcopado é a função. Alves”. como ninguém se animaria a perpetrar: “Vim da livraria pública. – Beneficência é “a virtude de fazer o bem espontaneamente. mercê. como que obedecendo aos impulsos da própria natureza moral. – Todos estes vocábulos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia de abnegação que leva um homem a interessar-se pelo seu semelhante.. Podese dizer que é mais uma virtude interior..238 Rocha Pombo 426 BENEFICÊNCIA. – O bispado de Mariana. – Livraria é multidão de livros destinados à venda. F. como sendo nosso irmão”. 427 BENEFÍCIO. – a ideia comum aos termos deste grupo é que os atos por eles expressos se aplicam em favor de alguém. uma virtude social. ou da livraria municipal”. tanto com os outros homens todos como com os próprios animais. altruísmo. e de superioridade de fortuna.

e laminas seguras. em cuja superfície se figuram os diversos acidentes da superfície da terra. redondo por todas as partes. 430 BOIAR. Escudos de pinturas diferentes. 432 BOLHA. ou esfera terráquea. esfera celeste. Vêm arnezes. Na nossa antiga forma de eleições. Por este nome é conhecida entre os doutos a terra que habitamos. e não se podem usar indistintamente umas por outras”. manda os dilijentes Ministros amostrar as armaduras. Mitra rendosa. bala. arcabuzes. vesícula. – A imensa diocese de Mato Grosso. – O meu episcopado tem sido tormentoso. O episcopado americano. não ir ao fundo. e designa um corpo esférico. por esforço. chamavam-se pelouros a umas bolas de cera dentro das quais se metiam os papelinhos contendo os nomes das pessoas de que se fazia escolha para juiz ordinário etc. Flutua a cortiça. – Nadar é. A primeira chama-se globo terrestre. mas elevada e científica. ou os signos ou constelações celestes e a que estão adaptados círculos astronômicos que representam o curso do sol na eclítica. flutuar. de cujo centro todas as linhas que se tiram até à superfície são iguais. e de seu uso nos deixou Camões bom exemplo na estância LXVII. ou impor penas no espiritual. a segunda. ajunta-se-lhe o qualificativo – terrestre. não vulgar. e de bom soído. ou terráqueo. com a terminação exagerativa ouro. e para mais clareza.. – A mitra vai reclamar contra a extorsão que contra ela cometeu a municipalidade. – “Todas estas palavras designam um corpo esférico. isto é –. ou esférica (oca ou sólida). globo. Por ser palavra hoje pouco vulgar. sobrenadar. e daí a locução – “sair nos pelouros”. É palavra vulgar. O corpo que boia pode nem ser visto à tona ou à superfície da água. espingardas de aço puras. esfera. “lançar”. nadar. Mitra muito rica. e peitos reluzentes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 239 O bispado só pode condenar. – Globo é palavra trasladada do latim. Pelouros. borbulha. Nadam os animais. – Flutuar é “ficar em cima da água ou de qualquer outro líquido”. – Boiar é “não ir para o fundo da água”.. e tem mais lata significação que globo. globus. é mais poética do que bala. – Pelouro. vem provavelmente de pela. e tomar alguma direção. mas cada uma delas exprime uma espécie de redondeza. etc. pois o corpo que sobrenada quase que fica todo fora da água. e significa um corpo sólido perfeitamente redondo: no que concorda com globo. do canto I dos Lusíadas: Isto dizendo. palavra muito usada dos nossos antigos antes que tomássemos dos franceses a que hoje se usa. – Sobrenadar é mais que flutuar. que alguns querem venha do inglês ball (que se pronuncia bol) e designa especialmente os corpos esféricos maciços com que se joga. – Boiam as urtigas marinhas. O episcopado brasileiro. com a diferença que esfera é termo de geometria. bala. empola. 431 BOLA. Designa particularmente toda máquina redonda e móvel. – Se- gundo Roq. e designa toda sorte de projetil que saia das bombardas. – São tomados aqui todos estes vocábulos como significando particularmente as pequenas elevações que se formam na pele. – Bolha . Dividiu-se em três a diocese do Amazonas. Malhas finas. quando muito poderá ter uma parte fora da água. ou “sobrenada se tem altura”. Teve ele sessenta anos de episcopado. pelouro.. – Esfera é também voz grega. – A bola é redonda por todos os lados. ou então de pello.. de geografia e de astronomia. flutua a jangada. “ser nomeado ou eleito”.

bastão. – Margem é toda a extensão de terra chã. – Gorgolhão (ou gorgolão) é “golfada. – Ribanceira é “como ribança mais áspera”. e quando é de rios. ribança. golfada. – Cacete (do francês casse-tête) é o bastão grosseiro de que usam os garotos e valentões de praça ou de estrada. – “Todas estas palavras” – diz Roq. quase que não tem largura. – Ribança é “continuidade. – Torrente é “uma quantidade de água que se despenha em cachões e impetuosamente”. – Segundo Bruns. é de terra vegetal. margem. contendo ou não serosidade. jorro. mui fresca e produtiva. de qualquer madeira. genérico dos demais deste grupo. O cáustico forma bolhas. – Cachão é “a bolha ou borbotão que forma um líquido ao correr com força”. Dizemos – “pernoitar à beira do rio ou do mar”. ao longo dos rios. – Riba designa “margem de rio onde a terra é levantada”. – Ribeira.. praia e costa – “indicam coisas que têm relação imediata com as águas do mar ou dos rios. e por isso aprazível à vista. ribanceira. e tanto se aplica relativamente a rios como relativamente ao mar. – Pau é o bordão considerado mais como arma que como amparo. gorgolhão. – Golfada é o “jacto que sai por um canal ou aberta”. beira. tor- rente. riba. Uma pancada pode produzir empola. costa. varapau. de ordinário coberta de água no cacete. inverno e descoberta no verão. supõe-se ser de areia. “bordão é o pau grosso a que alguém se arrima. segurando-o por baixo da extremidade superior. e como que lhe serve de barreira”. – Vesícula é termo científico. cachão. – Borbulha é uma saliência ainda menor que a bolha. bengala. margem. coberta de verdura. O bordão é usado pelo viandante. ou certa extensão de ribas”. Estes dois termos dizem-se mais ordinariamente dos rios que do mar. e é o símbolo de certas autoridades”. jacto. distinguindo-se deste apenas em sugerir a ideia de maior porção da margem que a beira pode compreender. – Borbotão (ordinariamente usado no plural) é “o fluxo desordenado ou jacto impetuoso que faz a água ou qualquer líquido ao sair de um lugar para outro”.. e é por assim dizer a orla da margem. 434 BORDA. – Praia é toda a extensão de terra plana que as águas do mar cobrem e banham com suas enchentes. 435 BORDÃO. de junco. ou costa. referindo-se a borda. e de uso geral nas cidades modernas. 433 BORBOTÃO.240 Rocha Pombo é a pequena saliência que encerra matéria serosa. e quase sempre de areia. o cajado pelo pastor. –. – Bengala é o bastão de cana. jacto cheio. ribeira. mais ou menos elevada. da ribeira. mas ninguém diria sem absurdo ou pelo menos impropriedade clamante: “pernoitar à borda do rio”. da praia. . – Bastão é uma grossa bengala de castão. – A empola ocupa maior superfície que a bolha e pode estar ou não cheia de aquosidade. – Beira é quase sinônimo perfeito de borda. – Cajado é o bordão que tem a parte superior em forma de arco. – Costa é a porção de terra ao longo do mar. devido aos nateiros. cajado. mas cada uma delas a seu modo. ribeira. e é frequentemente chamado também varapau. o pau pelo camponês. – Jacto é “uma porção de líquido ou fluido arremessada com ímpeto”. – Sendo borda a extremidade prolongada de qualquer superfície. praia. ou borbotão que sai com ímpeto e ruído”. – Jorro é “uma porção de borbotões impelidos com força”. o varapau pelo desordeiro. quando é do mar. pau. – Ribeira é a margem mais ou menos em declive.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 436 BORRASCA. – Vendaval é “o temporal mais forte e tempestuoso”. luco. também se emprega para designar a chuva de neve que cai nas altas montanhas quando é impelida por um forte e frio vento do norte. emaranhado”. – Restinga é o capão que fica no meio do campo ou junto a algum rio. cientificamente.)”. . cuidado com esmero. restinga. – Tempestade é o mau tempo em que há violenta agitação do ar. – “O vocábulo borrasca” – diz Bruns. é a protuberância natural que têm no dorso certos animais. – Arvoredo é também. é também brasileirismo. giba. mata. É palavra indígena que incorporamos à língua (formada de taba “habitação” + oera “que foi”). ideia que é igualmente expressa por marreca. tempestade refere-se mais à agitação do mar. selva. – Gibosidade (além de designar a qualidade de giboso. arvoredo. distinguindo-se desta em sugerir a ideia de ser o fenômeno mais rápido. – Corcunda e marreca designam tanto o defeito como a própria pessoa que o tem: a corcunda é uma corcova considerável. corcunda e marreca. – Temporal é “borrasca que se prolonga por dias”. e borrasca à impetuosidade e fúria dos ventos”. e muito usada em significação translata. refre- 241 ga. Aquiles. como bosque. se consagravam a divindades bucólicas”. Os vendavais da vida. mas sem a ideia de ser basto ou espesso. e que se encontra agora mais distante da casa. de ter giba) é o defeito. floresta. – Capoeira é “mata que já foi capão. acompanhada o mais das vezes de chuva. capoeira. significando “bosque nas vizinhanças quase sempre de habitação”. – “pertence melhor à linguagem marítima que à terrestre... – Tormenta muito se aproxima de tempestade. – Capão. não obstante. chamada bossa. é “a tormenta furiosa do mar. só de pessoas. sertão. formada quase sempre de grandes árvores. diz Bruns. vendaval. multidão de árvores. temporal. – Bosque é o “nome que se dá a uma porção de árvores reunidas”. menos violento e talvez mais imprevisto. procela. 437 BOSQUE. Parece provir da semelhança que apresenta com a restinga no meio do mar. mesmo que seja muito forte”. opulenta. a giba pouco aparente é mesmo. suprimindo-lhe a sílaba inicial. segundo Lacerda. Usa-se muito igualmente no sentido figurado. – Giba (em latim gibba) é o nome científico de qualquer protuberância que existe no que devera ser plano. saraiva e trovoada. – Bossa aqui. Pind. As montanhas são as gibosidades da terra. – Luco é termo poético significando “o bosque cheio de flores. – Refrega é “rajada de vento que não chega a ser tormenta. aguaceiro. ou da má fortuna. em estilo poético. tormenta. – Sertão é “a grande floresta desolada e sem habitantes”. gibosidade. 438 BOSSA. Bossa. Na linguagem dos marítimos. – Procela. – Aguaceiro é “uma carga de água súbita e violenta”. tapera. giba e corcova dizem-se de pessoas e de animais. Só quem foi colhido por uma borrasca nos Pireneus é que se pode fazer uma ideia da fúria dos elementos na terra. como as três últimas. corcunda. É termo nosso que os primeiros povoadores da terra fizeram da palavra desertão (grande deserto). entre os gregos. ou da sorte.. procela horrenda do cruel Mavorte (Diniz. Por extensão designa o defeito físico das costas ou do peito daquele que é algo corcunda. marreca. – Mata é “a selva rude. corcova. – Tapera é o capão ou bosque pouco espesso onde ainda se encontram vestígios de habitação antiga. como os que. – Selva é “o bosque espesso. porque é súbita. é apenas menos extensa que a floresta”. o vulto que faz a giba. capão. tempestade. e onde se abriga a criação miúda”. – Corcova é a giba considerada como aleijão.

é curto. o uso baniu esta última: nos grandes centros urbanos ninguém mais diz botica. – Sucinto. bota. na estação. – Mas. O que é conciso exprime brevemente o pensamento. Botim é a bota de cano baixo. que melhor se diz do discurso ou da obra. (Bruns. – “Olho é a parte que na ramagem das árvores e arbustos indica o lugar onde se hão de formar os botões e as gemas na época do desabrolhar dos vegetais. A qualidade de conciso consiste em enunciar o pensamento em poucas palavras. – Preciso é antônimo de difuso. tendo o cano mais ou menos alto. O que é conciso pode ser perfeito (e é enérgico e simples). O que não é conciso é prolixo. – Lacônico também dizemos do que é enunciado no menor número possível de palavras. – Breve é o que se faz em pouco tempo: discurso breve (breve demora no campo. farmácia. que do estilo.. pois o vocábulo farmácia (do grego phár makon “remédio.) designa propriamente “a arte de preparar medicamentos”. e não breve. – Segundo Bruns. o que é lacônico emprega só as palavras absolutamente indispensáveis. desprezando tudo quanto seja circunstância acessória ou pormenores. O primeiro sinal de vida que dá o olho constitui o botão. Botina (ou botinha) é o 30 De botica temos o diminutivo botequim. na sua curta vida sofre o homem bastante.) – Broto é o mesmo rebento ao apontar. 442 BREVE. na cidade. conciso. olho. com a significação que todos conhecem: loja reservada onde se vendem bebidas. – Sapato é o calçado de couro grosso quase sempre. curto. ou então aberto na frente. pois a quantidade que este adjetivo enuncia não exclui a riqueza nem o adorno. preciso. O que não tem tanto comprimento como devia ter ou se supunha que tivesse. para que não se torne difícil o ato de calçar. – Bota é o calçado de cano alto. . rebento. qualifica aquele escrito ou fala em que o escritor ou orador se atém exclusivamente ao essencial. 441 BOTIM. lacônico. – Bo- botim de senhora ou de criança. 440 BOTICA. o que é lacônico pode correr o risco de ser afetado. e que. A loja onde se vendem remédios e drogas chama-se botica (do grego apotheke “lugar oculto ou reservado”). dizemos indiferentemente breve ou curto: é breve a vida do homem. sucin- tim e botina (ou botinha) são diminutivos de bota. sapato. botina. rebento. reno- vo. Falando-se do tempo.30 e sim farmácia. sem ampliações nem ornatos. portanto. – Conciso. tanto da raiz como dos galhos da planta. ou renovo. broto. designa também a gema quando está prestes a dar a folha ou a flor”. ao que é característico próprio do assunto. gomo. – Gomo é corrução deste último vocábulo. to. não breve: uma obra que nos empolga sempre nos parece curta. cobre o pé e a perna até um pouco acima do joelho ordinariamente. havendo.242 Rocha Pombo 439 BOTÃO.. no entanto.). tomando consistência. porém. só se diz com propriedade das novas hastes que saem da raiz da planta. Todos os estilos podem ser precisos. gema. lacônico e sucinto só se dizem do que é relativo ao estilo. mas muito usual entre a nossa gente do campo. quase sempre guarnecido de elásticos. e em excluir quanto seja alheio ao assunto. veneno” etc. e que só cobre o pé. – Rebento. forma a gema. – Calçado é o nome genérico de todos os deste grupo. entre os dois alguma diferença. calçado. – Só o uso autoriza-nos designar pelo vocábulo farmácia a loja ou estabelecimento onde se vendem drogas e remédios. este. consistindo a precisão no emprego dos termos mais adequados. como dissemos.

mas sem intensidade que chegue a deslumbrar”. ou “brilhante em bruto”. – Flamear (ou flamejar) é “emitir brilho como de chama. donativo. dar claridade como corpo inflamado”. isto é. ou “extrair brilhantes”. E. reluzir. luzir. – Fulgir31 é “luzir vivamente”. de todo o grupo. Estes dois verbos parecem envolver a ideia de que a luz que fulgura ou refulgura mais deslumbra e cega do que ilumina propriamente. – Fuzilar é “despedir lumes. Resplandece o sol quando vem nascendo. esplender. brilhar solenemente. refletir fulgurações. e nunca “brilhante lapidado”. e sem diferença alguma sensível entre nenhum deles. – Esplender dizem muitos autores que é o mesmo que resplandecer. sem ideia de gradação de intensidade. tremeluzir. coriscar (coruscar). relumbrar. luz muito viva e radiosa”. chispar. como ninguém se lembraria de perpetrar: “um adereço de diamante”. rebrilhar. 445 BRINDE. relampadejar). mimo. – Brilhante é o nome que toma o diamante depois de lapidado. designa o objeto esquisito. – Luzir é simplesmente “emitir luz”. ou refletir. – Relampejar e os três verbos que se seguem (relampejar. intensa. “o mineral no estado nativo. “um anel de diamante”. dom. faiscar à maneira de raios”. . – Relumbrar é luzir como chama ou como lume. marca uma diferença bem sensível entre os dois verbos. – Este último vocábulo. – Diamante é. ou pequeno raio ou faísca elétrica”. A forma coruscar é mais fiel ao latim coruscare. – Todos estes verbos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia fundamental de emissão de luz. cintilar vagamente. não lapidado”. luzir. encantador. pois. – Tremeluzir é “dar luz indecisa. – Refulgurar é fulgurar outra vez. como despedindo jactos de luz”. – fragmentos em ignição que saem de um corpo ferido por outro. – Rebrilhar é “brilhar de novo. – Coriscar é “luzir como corisco.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 443 BRILHANTE. o mais expressivo. que neste figura. relampaguear e relampadejar) enunciam a ideia de luzir instantaneamente. ou que está em combustão ou em estado candente. “Aquela doce e gloriosa luz vem resplandecendo dalém dos montes”. vaga”. como trepidando. fulgurar. Ninguém dirá: “mina de brilhantes”. fulgir. – Conquanto de- 243 signem a mesma pedra preciosa. portanto. resplender. refletir esplendor. esplende majestoso na amplidão do céu. É. tem fulgir na sua estrutura a raiz grega fleg (phleg) que sugere ideia de “queimar”. 444 BRILHAR. diamante. Dizemos. – Cintilar é “brilhar com rápidas intermitências. luz muito forte. (Aqui não seria. translu- zir. – Rutilar é “luzir com luz viva e fugaz”. mimo. esplender com majestade. flamear (flamejar). “diamante em bruto”. como chispar é “desprender chispas”. – Resplendecer é o mesmo verbo mais fiel à forma latina (resplendescere). faiscar. ou raios luminosos”. e refulgir é “emitir ou refletir luz quase com a mesma intensidade da que brilha”. no entanto. a partícula incoativa ecer. vacilante. presente. não seria possível confundir as duas palavras nem empregá-las indiferentemente. refulgurar.) – Resplender é “luzir amplamente. dádiva. resplandecer (resplendecer). “diamante lapidado”. – Faiscar é propriamente “despedir faíscas”. clara como a do sol”. 31 Como fulgurar. irradiar. relampaguear. pelo menos tão próprio. – Resplandecer é “reluzir. espargir luz. – Reluzir diz melhor – “refletir luz”. o verbo esplendendo. oferta. com luz mais viva”. rutilar. relampear (relampejar. – Fulgurar é “brilhar de luz muito forte e instantânea”. como relâmpago. fuzilar. cintilar. refulgir. – Transluzir é “emitir luz através de alguma coisa”. fino. – Irradiar é “lançar. – Brilhar é “emitir de si próprio.

faceto. – Bufo (transplantação do italiano) indica também o que é burlesco. uma prova de boa vontade. principalmente nas manhãs de inverno”. o que desperta riso. Para exprimir caricatura tem o francês a palavra charge (= representação exagerada. negrume. – Bufão é o mesmo que bufo. – Cômico é “o que é próprio da comédia. grotesco. que é quase sempre seguida de tempestade”. – Negror e negrume só por figura é que se tomam por “bruma muito espessa. negror. o mesmo que gênero burlesco. seria o mesmo que ópera-cômica. Buscar inclui sempre a ideia de movimento por parte de quem busca. bufão. nuvem. escura e que quase sempre se desfaz em chuva”. com mais propriedade do que este. muito fechado. – “O brinde” – diz Bruns. como substantivo. grotesca de fatos.244 Rocha Pombo que por gentileza se oferece a alguém. – Extravagante é “o que saiu do normal. – Truanesco é “o que faz coisas ou diz tolices de truão. que não guarda a devida compostura”. truanesco. Quando a dádiva tem um fim benéfico. em suspensão na atmosfera”. que é bobo de praça”. – Grotesco sugere ideia de “caprichoso. Ópera-bufa. mas emprega-se. O que nos parece . chiste e graça que se não confundem com a zombaria. Procura-se (mas não se busca) uma palavra no dicionário. e este vocábulo não inculca que o objeto que constitui o presente reúna qualidades determinadas. névoa. – O presente é uma prova de amizade. de alguma coisa). bufo. procurar não inclui nem exclui essa ideia.. nimbo. – “é um obséquio.: “Pretendem alguns que em buscar há mais diligência ou empenho que em procurar: não nos parece que tenha fundamento essa distinção. – Burlesco diz propriamente “por diz muito judiciosamente Bruns. ou de homens e coisas. – Bruma é “cerração espessa. ampla. Caricato equivaleria. cerração. 446 BRUMA. ridículo. bulcão. – Caricato é o que tem a aparência de caricatura. feito para causar alegria e riso. literal ou gráfica.. e só pode consistir em algo de delicado”. – Dom é uma prova de munificência. que é demasiado até o ridículo. excêntrico. nevoeiro. esquisito ao ponto de cair no ridículo”. mas de esquisitice. – Ridículo é termo genérico aplicável a “tudo que provoca o riso ou que merece escárnio”. faceta. – Nimbo é “a nuvem grossa. densa e baixa”. 448 BUSCAR. – Bulcão é “nuvem muito densa e negra. ao nosso carregado ou exagerado. procurar. Busca-se ou procura-se por toda parte aquilo de que se necessita. neblina. por brincadeira. hilaridade”. portanto. – Névoa é “vapor aquoso que pela sua densidade não sobe muito nem se desfaz em chuva. burla. impedindo que se veja claro a pouca distância”. ou o motejo. que escurece o ar e ameaça de tormenta”. – Nevoeiro é “grande névoa. nevoeiro principalmente no mar. Gênero bufo. dito para que outros riam”. – Destes dois verbos caricato. cerração profunda”. cômico. – Cerração é “forte nevoeiro que cobre os campos ou o mar. – Faceto quer dizer – “engraçado. 447 BURLESCO. extravagante. pairando ordinariamente na encosta ou no cume dos montes”. como de burla. ou bulcão ou caligem. – Neblina é “nevoeiro menos denso e muito chegado à terra”. – Caligem é “nevoeiro muito denso e escuro. – Dádiva é uma prova de generosidade. esquisito. caligem. – Nuvem é “acumulação de vapores. chistoso. por gracejo. mais ou menos densos. por exemplo. – A oferta considera-se como feita de inferior a superior”. o burlesco. recebe o nome de donativo. e esta palavra (que tomamos do italiano) designa a representação caprichosa.

mas o patíbulo sugere ideia do castigo merecido pelo paciente. cabedelo. ou sobre os ombros. é “o ponto onde um rio. – Guedelha é “uma pequena porção. sem notáveis acidentes. ou sem elevação que se destaque muito do continente”. imponente”. Ambos designam o instrumento de suplício nos países onde subsiste a pena de morte. e tanto se diz do homem como de certos animais. – Cascata é a queda. e designa “o conjunto dos pelos que vestem a cabeça do homem”. pontal. – Cabedelo é – Entre cadafalso e patíbulo. de todos. catarata. o instrumento mais ignominioso: é “o aparelho onde se estrangulam os condenados à pena última”. que se julga serem sinônimos perfeitos. – pa. em desordem. patíbulo. mudando bruscamente de nível. – Cabeleira. desnudada e cheia de montículos de areia”. se bem que encerre a ideia de menor volume de águas. – Cachoeira. um necessitado busca ou procura um emprego”. – Guilhotina é “o aparelho moderno. promontório. – Corredeira é brasileirismo equivalente a cachoeira. – Marrafa é uma porção de cabelo riçado. “diz-se de todo o cabelo. e vale por um pequeno cabo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 245 acertado estabelecer é que quem procura sabe que existe o que anda procurando. Um inquilino procura casa para onde mudar-se. – Catadupa e catarata dizem-se da queda de um grande volume de águas e de grande altura. e aplica-se particularmente a uma praia que avança para o mar. – Grenha designa cabelo embaraçado. A cachoeira pode ser formada por um salto vertical (e então chama-se mesmo salto) ou por um plano muito inclinado”. que uma pessoa tem na cabeça. principalmente quando é em profusão. melena. Cabo é “a grande porção de terra que se mete pelo mar. ou descida de águas por entre rochedos. Lesurques morreu no cadafalso. designa catadupa. catadu- delha. – Forca é. 450 CABO. – Promontório é o cabo que termina em rocha escarpada ou em monte. sugerindo. e igualmente se diz dos cabelos postiços compostos de modo que cubram os naturais ou a calva”. – Madeixa é “um negalho. enquanto que aquele que busca ignora se há o que anda buscando. composta e ordenada. Também se diz de cada uma das duas porções em que se divide a cabeleira ao penteá-la. aqui. grenha. – Salto. rápido. não penteado. – Melena significa certa porção de cabelo. forma cachões. cabelo. coma. salto. é preciso admitir uma certa diferença. segundo Lacerda. . usado principalmente em França e durante a Revolução. caindo pelas faces. a ideia de que o fluxo das águas é menos vivo que na cachoeira. guilhotina. forca. para decapitar de modo instantâneo os condenados”. – Pontal é “uma ponta de terra para o mar”. segundo Bruns. ao patíbulo sobem os monstros. 449 CABELEIRA. longa. caindo sobre a testa ou para os lados. por mais que o uso geral não dê por semelhante distinção. – Rápido é “a parte de um rio onde a água muda um tanto de nível sem formar queda”. revolto. 452 CADAFALSO. no entanto. quando o volume delas não é muito considerável. ou um cabo de pequenas proporções. ideia que se não encerra em cadafalso. – Cabelo é do grupo o termo genérico. 451 CACHOEIRA. como diz o latim promontorium (mons in mare prominens). uma porção de cabelo enovelado ou em trança”.. gue- “um diminutivo de cabo. corredeira. cascata. madeixa. uma madeixa de cabelo da cabeça ou da barba”. marrafa. – Coma é “cabeleira farta.

conta. se mostra esquivo. – Caduco. além de calado. 455 CALCULAR. ao alquebramento das forças. reservado. Deve notar-se entre os dois vocábulos a seguinte diferença: senectude refere-se mais particularmente ao físico. aplicado às pessoas. por isso é que este vocábulo sugere ideia de estar em silêncio. não articula palavra alguma por um motivo qualquer. estimar. é obra. – Senectude é a idade avançada. pois. senilidade. silencioso. – Velho é o homem avançado em idade e sem mais o vigor de moço. 454 CALADO. diz Roq. aplicável tanto a pessoas como a coisas: o que é ou está silencioso exclui a ideia de rumor. de guardar em segredo o que não deve ser divulgado. Decrepitude (ou decrepidez) é a qualidade de decrépito. gesto. que está de todo gasto. ou não revela o que sabe ou o que sente”. – Taciturno é aquele que. esmar. e mesmo que silencioso. também designa a qualidade do que chegou à extrema velhice. guarda silêncio. pois à ideia de falar pouco reúne a de muito cuidado em não dizer o que é inconveniente. – Inválido é o que.246 Rocha Pombo 453 CADUCO (caducidade e caduquice). de ar severo. – Quieto é propriamente o que não se agita. o romance da sábia língua do cálculo. ou pela idade. desfeito. contar. orçar. ou por deformação orgânica. aqui. consiste em fazer numerações e algumas operações aritméticas para conhecer uma quantidade: é. e senilidade. cálculo. escrever e contar. caduquice é “manifestação de caducidade. – Tratando dos seis primeiros vocábulos deste grupo. mudo. se tornou incapaz das funções que lhe eram próprias. nas escolas de primeiras letras. – Calcular é executar operações aritméticas. que contém o mesmo radical latino que o primeiro (senex “velho. prudente”. calmo. de caduco”. carregado. que não está mais na lucidez da sua razão e que caiu em quase idiotia. velho (velhice).: – “A palavra contar é a mais genérica de todas estas. O que está mudo não pronuncia palavra alguma. reserva e cautela. mais de rotina que de ciência. mas o que é calado nem por isso se entende que esteja ou seja mudo: basta que fale pouco e com muita prudência. – Velhice é o estado de exaustão a que chega o velho. sombrio. – Calado é “o que está sem falar. ensina-se a ler. discreto. senectude. – Decrépito designa “o que não tem mais forças para viver. nem se move demais. taciturno. ancião”). palavra etc. uma diferença que se não deve esquecer. no entanto. evitando o convívio e tudo vendo com maus olhos. e que chega ao seu fim”. – Invalidez é a qualidade ou condição de inválido. desordenado. – Quieto. – Reservado é um tanto mais expressivo que o termo calado. quase sinistro. o que está calado também cômputo. Entre caducidade e caduquice há muita distinção: caducidade é “a idade ou a qualidade de caduco”. de- crépito (decrepitude). por assim dizer. computar. suputar. e senilidade à diminuição da energia moral e física ao mesmo tempo. de sorte que um sujeito que esteja calado ou mesmo que seja mudo pode não estar silencioso. avaliar. Há entre calado e mudo. mas este ensino. – Sombrio é quase o mesmo que taciturno: apenas sugere melhor a ideia de tristeza que em taciturno como que desaparece ou se disfarça sob o ar de esquivança ou mesmo de repugnância que este encerra. ou por algum motivo. ou fazer operações . de ser discreto. – Silencioso é termo genérico e muito extenso. ou por defeito orgânico (e então é mudo). designa o que tem perdido as forças do espírito. inválido (invalidez). ou por moléstia.. quieto. sombrio. calado. diz o mesmo que “sereno.

atalho. e apenas se aplica no sentido próprio. quase sem refletir”). É assim que tanto dizemos – via terrestre. de uma receita provável por ser baseada em dados que não devem variar muito”. – Esmar é “orçar ligeiramente. e o astrônomo computa sobre tábuas de sua ciência para fixar o tempo e o instante mesmo da repetição de um fenômeno. cálculo diferencial.. ou fluvial (e não – estrada. sem base segura: é pouco menos vago apenas do que esmar (não sendo este mais que uma contração daquele.. – Dizemos – cálculos astronômicos. dois. picada. partindo de termos conhecidos para chegar a um desconhecido. vereda. Há. sem calcular. A palavra computar não é conhecida do vulgo. via. Um menino conta primeiramente pelos dedos – um. em vez da qual usa de contar. – Trilha (ou trilho) é caminho estreito. e com muito mais razão está longe de poder calcular por divisões. adicionar os números dados. para chegar a um conhecimento. Para estabelecer o orçamento de um ano econômico suputam-se (hoje só se usa – orçam-se) as receitas e os gastos prováveis. Contamos quando numeramos. ou fazer um cálculo. em suputar uma ideia de cômputo falível”. O comerciante tem seu livro de contas em que assenta tudo quanto se refere a seu débito e a seu crédito. estradas de ferro. o geômetra. – Todas estas palavras têm de comum a propriedade de designar “espaço aberto conduzindo de um lugar a outro”. trilha. aberto por entre obstácu- . algébricos. começando por um. O astrônomo calcula a volta dos cometas. combinar. pois. em lugar de combinar. raciocinar. – Computar é reunir. fazer o cálculo de um gasto. Todo homem deve saber contar. etc. dois e três fazem cinco. já se diz também – caminho de ferro. etc. o infinito. O computar é próprio dos doutos. vici- na. etc. de comércio. Assim é que o cronologista computa os tempos. como – via marítima. – Caminho não sugere mais que a ideia de “espaço ou trilho livre entre dois pontos”. isto é. nem mesmo caminho). – Contar entra em mui variadas locuções. como se pode ver nos dicionários”. Por influência do francês. – Avaliar é “estabelecer o valor de uma coisa. Há estradas de rodagem. etc. – O cálculo é uma verdadeira ciência formada de muitos métodos mui sábios. para conhecer o total ou o resultado que se procura. pois é uma operação determinada e limitada a cálculo. segundo Bruns. três. etc. – Via só dá ideia do meio de comunicação entre um e outro ponto.. e como que ressentindo-se disso no significado. multiplicações e diminuições. de uma despesa. relativo a assuntos de interesse material. O amo toma contas a seu feitor. “computar com dados cuja exatidão se julga a mais perfeita possível. de administração. etc. quando queremos saber o número de certas coisas. – Suputar (que é desusado) é. e este deve ter suas contas claras e em dia. carreiro. 456 CAMINHO. – Orçar é “calcular aproximadamente. isto é. infinitesimal.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 247 particulares da ciência dos números. e rigorosamente falando não computa enquanto não pode dizer – um e dois fazem três. integral.. construído com mais ou menos arte. pois esmar é “estimar a olho. a uma demonstração. dois. estrada. sem os fundamentos com que se orça”. e de modo que se preste ao tráfego de veículos”. calcular a esmo. e até certo ponto tem necessidade de saber calcular. – O contar olha-se como negócio que poderemos chamar econômico. a uma prova. – Estimar é determinar o valor de uma coisa. – Estrada é “caminho largo. com mais fundamento do que quando se estima”. – O cômputo compreende-se no cálculo e na conta. senda. mas não rigorosa. raia. – Calcular usase no sentido figurado. etc. azinhaga.

hino. etc.. é um “hino religioso. astuto. o desgosto em que se fica. não obstante. – Sofístico só se diz dos argumentos. trilha. a locução – caminho vicinal – para indicar os “pequenos caminhos.) enuncia a ideia de meios hábeis. à vontade. Empregam-se meios capciosos para levar alguma pessoa a confessar aquilo mesmo que nega obstinadamente. do tom. Designa particularmente o poema lírico sobre tema popular. O que é capcioso dirige-se ao entendimento. – Lassidão é a “completa exaustão. numa certa direção”. – Canto é “toda composição poética que pode ser cantada”. Talvez só se explique isso pela beleza fônica do vocábulo. – Canseira é “o abatimento geral que impede de agir. – Argucioso é “o que usa de .. desânimo e prostração em que põem a fadiga e o cansaço”. – Cansaço é “a depressão de ânimo e de forças físicas que se seguem a esforço longo ou violento”. – capcioso (do latim captare “tratar de apanhar. Aplica-se particularmente este vocábulo ao discurso ou argumento com que se enreda alguém de modo tal que toda escapatória se lhe torna impossível. – Segundo Bruns. Diz-se das palavras. solene. Não se compreende como é tão usada esta palavra na frase – a senda. – Vicina é termo pouco usado.. São só para nós as canseiras da vida. 457 CANSAÇO. dos modos. sub-reptício. uma promessa insidiosa conduz a imprudências. velhaco.. ou insidioso não é fácil de descobrir. aberto pelo tráfego de carros”. ob-reptício. astucioso. o esgotamento. a indisposição. e mesmo heroico”. azinhaga por onde se evitam as longas curvas do caminho geral”. – Fadiga é o “cansaço que resulta de longos trabalhos. Um argumento capcioso leva ao erro. insidioso. – O cântico lo. panegírico”. argucioso. que levam de um caminho geral ou de uma estrada. – Atalho é “caminho estreito. e até – “a larga” senda do progresso. – Raia é. – Picada é “trilha mal aberta em floresta. – O hino é “um cântico que pode ser patriótico. falaz. “uma curta trilha destinada a jogos de corrida”. – Carreiro é “caminho estreito. Ficou a morrer de cansaço quando deixou a forja. o que é insidioso. pois este designa melhor o sulco. etc.. canto. lassidão. – Arguto diz-se do que é subtil e engenhoso. ardiloso. o sofístico descobre-se facilmente. se se atende à respetiva origem (do latim semita de semis + iter) deve significar “meio caminho”. no que é arguto há muitas vezes algo de capcioso. falacioso.. fazer esforços para apoderar-se de”. e só daqueles com que se pretende enganar o entendimento sem nenhum outro fim imediato.. aqui. – Azinhaga é também “caminho estreito”. e mais frequentemente se toma à boa que à má parte. No capcioso há engano.248 Rocha Pombo 458 CÂNTICO. sofístico. empregando-se. subtil. canção. 459 CAPCIOSO. devidos à faina muito agitada e aflitiva”. trilha é vocábulo mais próprio e mais usado do que trilho.. – Senda.. destinados a apanhar a alguém como se apanha um animal a que se armam laços disfarçados. – Vereda é “trilha tão maldistinta que apenas parece marcar o rumo seguido”. canseira. em vez dele. (não – os cansaços). ou caminho muito estreito por onde mal pode passar-se. – Canção é termo muito mais próprio do que canto para significar “a poesia que é própria para ser cantada”... – Insidioso (do latim insidiœ “ciladas”) revela ideia de laço preparado para nele fazer cair alguém. no insidioso há má intenção. (não – de canseira). religioso. a passagem rápida para transpor um embaraço. traiçoeiro. fadiga. caviloso. mas sugere a ideia de “complicado e escuso”. para os lugares vizinhos”. O que é capcioso. cortando-se apenas as árvores. arguto. Nesta acepção.

Dizemos – gestos falazes ou falaciosos. além de astuto. como a serpe na relva”. cada uma delas ajunta à ideia fundamental alguma acessória que a modifica. rendição. cabido. capítulo é “a assembleia em que o cabido toma as deliberações para que tem autoridade”. é o que emprega astúcias contra outrem”. só à linguagem. enganando. Aplica-se. – Sub-reptício = “que se conseguiu iludindo. passando a guarnição da praça rendida a ser prisioneira do vencedor”. quer dizer – de enredos. Que eu pelo rosto angélico apertava. e pode aplicar-se tanto à linguagem como à própria pessoa. ou ato de capitulação. – Caviloso é “aquilo em que há sofisma ou má-fé. É expressão vulgar. – Velhaco é “o que usa de fraude para enganar. em lugar dela usam os poetas a palavra frente. face. V. mas mudo e [quedo. e de alguns animais brutos. Mas no lago entraremos de Aqueronte. mas entre nós só significa a parte anterior da cabeça do homem. lhe preside e manda! E Camões. semblan- te. – Cara é da palavra grega kára. sagacidade consegue o que deseja”. e significava cabeça. rosto. de surpresa ou dolo”. ou karé. – Astuto só se pode referir às pessoas. qual soberana. sabe usar de disfarce para encobrir o seu intento enganoso. A rendição supõe que a entrega é feita “sem ajuste prévio nem condições. Não é admitida em estilo elevado. – Subtil é “o que induz a erro sem que a vítima se aperceba. nos Lusíadas. – “designa-se a parte mais nobre do homem.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 249 argúcias. – Traiçoeiro é “o que age com perfídia. – Falacioso é “o que usa de falácia. com leda fronte. 56: Estando c’um penedo fronte a fronte. – Falaz é também “enganador. que mente. – São bem distin- “a entrega da praça feita e regulada por uma convenção prévia. José Agostinho de Macedo diz na Meditação: Mas que pasmosa arquitetura é esta Deste corpo. de falsidades”. Não fiquei homem. E junto do penedo outro penedo. tanto às pessoas como aos discursos. de argumentos capciosos. – Ob-reptício = “que se obteve por meio de ardil. como quem prepara emboscadas”. 460 CAPITULAÇÃO. gestos. tos estes dois sinônimos. e sim – tipo falacioso. é o que se insinua habilmente no ânimo de outrem. e que importa conhecer para não as confundir”. para fugir a um compromisso”. armando traição”. vulto. ou ocultando a verdade ou qualquer circunstância que conhecida seria motivo para que se não nos concedesse”. I. frente. E no c. preside e manda. Também só se deve referir ao discurso. isto é. – Astuto é “o que com arte. de caput “cabeça”) distinguem-se assim estes dois vocábulos: cabido é “a corporação de cônegos de uma sé”. fraude ou mentira para enganar”. mentindo. finura. de subtilezas e disfarces”. não. a capitulação é . e às vezes incivil e grosseira. eu sinto? [A frente Qual soberana. ou fronte (que vêm ambas de frons). – Ardiloso é “o que emprega meios enganosos e traiçoeiros. cume ou cimo. Ambos significam o ato de entregar-se ou de se considerar vencida uma praça de guerra. etc.” 461 CAPÍTULO. 462 CARA. fronte. mas não seria próprio dizer – tipo falaz. – “Por estas palavras” – diz Roq. – Conquanto prove- nham do mesmo original latino (capitulum. parte que ao corpo. que eu palpo. – Astucioso é “o que. portanto. que inventa e dissimula para fazer cair em erro”. astucioso. 51: Que não no largo mar. Mas.

e como é no rosto que mais avultam as feições humanas. quando a consideramos voltada para nós. F. sombrio.. dócil. as disposições que formam o humor podem ser e são quase sempre momentâneas. marcando simplesmente uma certa disposição do espírito. em que o nariz forma uma espécie de bico. ânimo. É expressão mais elevada que a palavra cara. é significar esta palavra vulto o relevo do corpo humano. Que os soluços e lágrimas aumenta. – Caráter. feitio. 33 E aqui está a verdadeira distinção entre caráter e humor: no caráter há fixidez de disposições. mas em desejo aceso? (Lus. e da seguinte: E com o seu apertando o rosto amado. . tempe- – Chamavam os latinos rostrum ao bico das aves. complacente. pois só se diz dos racionais. – “o caráter e o humor resultam de disposições do espírito que são particulares a uma pessoa. Dizemos – um caráter leal (não – um humor leal). os nossos antigos chamavam. como se infere destes versos de Camões: Quem32 de uma peregrina formosura. do que na alma se passa.. por ser a parte saliente do corpo. – Da palavra latina facies vem o nosso vocábulo face. (Lus. sobretudo visto de perfil. ramento. e ao que com ele se parecia. humor. O mais comum. Dizemos – F. para a franqueza: uma disposição. compleição. entende-se sempre como sendo uma disposição permanente do espírito. ou que é passageira33. Toda disposição de espírito própria para estabelecer uma séria distinção entre um homem e um outro homem é um elemento do caráter. usa-se. ao esporão da proa das embarcações. significa por extensão toda ela. II. e muitas vezes equivale à representação exterior. ou com o seu contrário. porém. ou com a mesma propriedade um caráter ou – um humor. que tem preso Em pedra não. etc. sombrio. idiossincrasia. usam-na os poetas para indicar o mesmo rosto. uma perfeita equivalência entre caráter alegre. e humor alegre. marcando. constituição. não somente uma simples disposição do espírito. – À palavra latina vultus muitas vezes corresponde a nossa semblante. “O semblante (o vulto) muitas vezes indica os sentimentos da alma”. e ainda hoje os castelhanos chamam rostro à cara dos racionais. e não – de humor austero. rabugento. mas uma disposição tal que possa estabelecer uma notável distinção entre um homem e um outro homem. Vultus animi sensus plerumque idicant (De Orat. para a probidade. III. e é poética. é de um caráter austero. alegre. natural. esquisito. Que o coração converte. 142) 32 Subentende-se: pode livrar-se. Pode dizer-se igualmente. De um vulto de Medusa propriamente. está de bom humor. Um caráter leal é a disposição permanente para a lealdade. que no rosto se mostra. índole. como se vê da precedente citação de Camões. Não há. Por suavidade de pronúncia se diz rosto. sombrio. ou a parte da cara desde os olhos até à barba.. significando rigorosamente a maçã do rosto. de tendências. 41) – Semblante (talvez do francês semblant) é o rosto considerado como expressão dos afetos ou paixões. no entanto. II. O humor resulta de um certo número de disposições do espírito que têm relação com a melancolia. 35). muito a propósito. e Berg. pode entender-se que essa disposição é permanente. e não – está de bom caráter. e talvez “rosto formoso”. instinto. com a sociabilidade ou a falta de sociabilidade: tais são as disposições para ser alegre. – Segundo Bourg. pois humor. ou pouco mais ou menos permanente. especialmente as disposições do espírito que têm relação com a moralidade são elementos essenciais do caráter. gênio. que. feição. como se vê deste lugar de Cícero.250 Rocha Pombo 463 CARÁTER. ou quase permanente. ou para ser triste.

Também significa o tino. – Segundo Lafaye –. não tem sentido. a perspicácia com que se faz alguma coisa espontaneamente. – Feitio. a inclinação de cada um”. a índole de cada um. por isso. gênio e temperamento há tanta semelhança que poderiam facilmente confundir-se os três vocábulos”. e não se enoja arrebatadamente. enquanto que compleição e temperamento designam o estado de saúde interior. A união da índole. viciosos. e segundo o qual julgamos as coisas. – Feição é. Estas duas palavras fazem conceber uma proporção entre os elementos do corpo. de costumes e hábitos. natural exprime as qualidades do caráter. sugere melhor a compleição. – Índole é “o modo de ser. como feitio. os humores. de cum + 34 Pode mesmo ter mau gênio e ter boa índole. a despeito do que diz Bruns.. – Instinto é o modo de ser ou de agir quase inconsciente. e – uma compleição delicada”. Quando se é de um natural brando. considerados no seu grau de força ou de vivacidade. a ideia de uma certa força ou violência atribuída aos elementos. feição parece enunciar melhor a ideia de modos exteriores. – Ânimo é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 251 portanto. humor leal. e os animais principalmente. que os movimentos da sensibilidade. é o modo de ser do espírito. Dir-se-á. o gênio e o temperamento forma o caráter de cada indivíduo. Comparando compleição e temperamento. complicado’) exprime uma certa união de todos os sistemas e aparelhos orgânicos. formado pela índole e o gênio. a conformação dos membros. aqui. que sabe moderar os transportes de ira. melhor. temperamento dá. – que é naturalmente inclinado à verdade. as disposições naturais para o bem ou para o mal – ou melhor. A constituição representa (é ainda de Laf.) antes o bom estado exterior e visível do corpo.. – Temperamento (de temperare ‘misturar. Poderia aproximar-se muito de humor. O homem que não se irrita facilmente. nem sujeito a fortes movimentos de paixões. e que é eminentemente própria para distinguir um de outro homem. plexus ‘dobrado com. as suas emoções. tem boa índole (e não se dirá – tem bom gênio)34. à virtude. a natureza moral. a índole. Mas. sem refletir nem cogitar do que se vai fazer. importado diretamente do gre- . e essa ideia torna-se como que característica da própria mistura ou amálgama. pois. – Há naturais (ou naturezas morais) benfazejos. – Idiossincrasia é termo erudito e moderno. quando se é brando por temperamento ou compleição. – Entre índole.) e temperamento não significam mais que o humor. mais ou menos viva de cada um. um – temperamento forte. de preferência – um temperamento ardente. no exercício de alguma função ou na prática de certos atos. a natureza de cada indivíduo.. no modo de encarar as pessoas e as coisas. bruscos (e não – compleições. nem temperamentos). e – uma compleição biliosa. – Temperamento é a sensibilidade. tem bom gênio (e nem por isso terá sempre boa índole). Mas o homem – diz Roq. é o impulso natural a que obedece o homem. – Complexão (ou melhor – compleição que é mais vernáculo. que se refere à moralidade. isto é. escreve o mesmo autor: “Complexão (do latim complexio. sólida e capaz de resistir às fadigas. O humor não resulta de disposições que tenham relação com a moralidade.. ao bem. no entanto. – Gênio é a disposição natural com que cada um revela a sua vontade. não se cometem crueldades. revelada na maneira de ser. bons ou maus. adoçar’) anuncia um amálgama de coisas violentas que têm necessidade de corrigir-se e que se corrigem uma pela outra. como por inspiração. – Feição e feitio bem que se podem confundir. o estado de espírito em que se está em certa situação.. sobretudo entre as partes líquidas. uma saúde robusta. não se é arrebatado... e não sob o ponto de vista do bem ou do mal.

como intransitivos. Em regra. Para isso seria necessário admitir que esse homem sabe que não tem vergonha e quer ou deseja tê-la. significando “disposição particular do temperamento e constituição. Observemos. e Lac.. como entendem Roq. de ser. sede. em virtude da qual cada indivíduo sente de modo diverso os efeitos da mesma causa”. esqueleto.) 464 CARCAÇA. miséria. nem protetor.. Neste caso empregaríamos. portanto. não se pode carecer de cem contos. “Preciso falar-lhe” (isto é – tenho obrigação de. o verbo precisar. sugerindo ideia de “cortar.). ou de proteção. Por isso. precisar. significam evidentemente “ter falta do que é indispensável”. para coisa alguma. O argumento que pia. ou precisão de falar-lhe). por último. 35 O verbo precisar também pode ter significação diferente quando rege algum outro. mas falta que se sente e que passa. em que figura a raiz grega ker. Como não se carece de meia dúzia de chapéus para não andar descoberto (sim – de um chapéu). necessidade. expressa que lhe conviria muito alcançar ou possuir essa coisa. inó- (do latim carescere. Quem precisa de alguma coisa. 466 CARESTIA. Também não se diria que “F. ou carere. careza. “Preciso de falar-lhe” (isto é – tenho necessidade. Quando se diz que. Quem necessita de alguma coisa dá ideia de que essa coisa lhe é necessária. – Careza é a qualidade de caro. nem de um banquete para matar a fome (sim – de um pouco de pão). – Carecer carece de lógica é que não é senão absurdo. – Entre precisar e necessitar poderia ser mais difícil estabelecer diferença do que entre estes e aquele primeiro verbo. a ser necessidade quase”. Em bom português não se poderia dizer que – “um homem carece de honra ou de vergonha”. – Carência é “a falta de alguma coisa. (Aul. – Segundo Bruns. escassez. ou do animal. Quem carece de alguma coisa é que não tem essa coisa que lhe seria útil. 465 CARECER. encurtar”) significa propriamente “ter falta daquilo que se deseja ou de que se precisa”. Há. É conveniente notar ainda que não carece daquilo que nunca se teve. mais de carecer do que precisar. e carcaça é termo que só em linguagem familiar se pode dizer por esqueleto. fome. O sujeito que carece de emprego. portanto. a base ou o fundamento do organismo humano”. carência. – Arcaboiço (de que não cogita o autor citado) é a “armação de ossos que formam. arcaboiço. carece de cem contos para realizar um negócio que planeou”. um artigo. de preço mais alto que o comum.252 Rocha Pombo go. por assim dizer. e conforme se emprega ou não entre os dois a preposição de. penúria. não tem nenhum emprego. nem – que necessita de cem contos. uma grande diferença entre careza e carestia: esta sugere ideia de carência. formam o esqueleto. sem dúvida. A carcaça é a porção de ossos que formam o tronco do homem ou o bojo dos animais.. de escassez que obriga à privação muita gente. necessitar. pobreza. isto é. no entanto. “Ele sacrifica-se a trabalhar dia e noite porque precisa ou porque necessita”. Ninguém carece daquilo que lhe não seria de proveito. .. Necessitar aproxima-se. – Carestia é “o preço elevado das coisas determinado pela falta ou pela grande escassez dessas coisas”. ou conveniência em falar-lhe). indigência. – Esqueleto é palavra científica. – os ossos do corpo completo do homem. dizemos que – um negociante precisa de cem contos para ampliar as operações da sua casa (e não – que carece. que estes verbos precisar35 e necessitar. e até mesmo de quase penúria: ideia que se não inclui na palavra careza.

mas esquecendo-se que nem todo cargo é ofício. pois. a cargo pela necessidade. senão cargos. em abastança”. pois. lugar. Entre cargo e encargo não é muito raro notar uma certa confusão. É. corresponde. e ali a fome já espreita as vidas. Dizemos inópia tanto em referência à falta de dinheiro. Lavra a miséria num país. função. – Emprego encerra a ideia de estar o empregado sujeito a um trabalho permanente e obrigatório. ou como direito anexo a uma dignidade. aflitiva de algum bem. isto é – de ser curto. é que não temos as notícias que esperávamos. isto é.” (e em nenhum . com efeito. Confundem-se às vezes estas palavras. de fazer ou cumprir um certo dever aquele que toma o cargo ou o ofício. Certos cargos no governo e na administração do Estado são verdadeiros ofícios que de direito se exercem. “tomo o encargo de avisá-lo a tempo. do alto funcionalismo (não – empregos). pode ser bem físico ou moral”. etc.. parco. A ideia própria de ministério é a de que a pessoa que o exerce desempenha um certo cargo por outra pessoa. todo ofício vem a ser cargo. que dependem de nomeação ou de eleição. carência absoluta de alguma coisa”.) e que significa “falta. Há cargos da magistratura. “os meus encargos estão satisfeitos”. do grego peina “fome. mesquinho. colocação. – Pobreza é “a qualidade de ser pobre. às vezes até adquirida por herança. isto é – de achar-se alguém em tal penúria que precisa de recorrer à caridade de seus semelhantes”. Encargo não é mais que a obrigação que decorre de um cargo ou de um compromisso que se tomou. “meios.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 253 por exemplo. – Segundo Roq. – Miséria é “o estado de penúria. Mais restritamente é “a falta do necessário”. falta absoluta. em toda a sua extensão. – Necessidade. e tanto se pode (como. Um homem que luta heroicamente para viver pode estar até em penúria sem ser indigente. pede socorro”. insuficiente para o fim a que é destinada”. – Escassez é “a qualidade de escasso. Dizemos: “cumpro os meus encargos”. + ops. como à falta de talento. de ser. ofício. portanto. de não possuir meios de viver folgado. clamante do indispensável”. – Penúria [latim penuria. imposta pelo destino”.)] é “pobreza extrema e dolorosa. Um sujeito rico pode achar-se em verdadeira miséria de vida se é um perdido. da diplomacia. em nome de outrem. 467 CARGO (encargo). enquanto que os ofícios constituem. por mais distintas que sejam estas duas palavras.. por assim dizer. emprego. ministério. que inspira piedade. é pobreza horrível e desventurada. – Inópia é a palavra inopia que importamos do latim (de inops = in neg. papel. e sugere a ideia de que “o necessitado solicita auxílio. aliás. “temos carência de notícias a respeito de alguém ou de algum sucesso”. não se pode dizer que sejam propriamente ofícios. a coisa escassa. sem que tenham mais título que sua eleição ou nomeação. mas os cargos de prefeito ou de intendente municipal. – Sede e fome entram aqui numa acepção muito particular: exprimem “necessidade ansiosa. de moralidade. ou da autoridade que a nomeia. Tem-se fome ou sede de justiça (isto é – clama-se por uma justiça sem a qual teremos de perecer). etc. necessidade violenta” (Chass. pode definir-se como significando “contingência fatal. muitos outros entre os vocábulos deste grupo) empregar no sentido moral como no físico”. recursos. uma qualidade permanente. que sugere. Há empregos vagos na repartição tal (não – cargos). o emprego muito diferente do cargo. de indigência que comove. porque os que os desempenham só o fazem ou devem fazer por um certo tempo. – Indigência é “a qualidade ou estado de indigente. – a ideia própria da palavra ofício é a de obrigar (ao que exerce o ofício) a fazer uma certa coisa útil à sociedade. força”.

o cão. tratando de graves assuntos. sentimentos caridosos (e não – ato caritativo. nem – sentimentos caritativos). e carnívoro pertence ao que come carne. 469 CARNICEIRO. como fez Camões naquela apóstrofe aos assassinos de Inez de Castro: Contra uma dama. estes dois adjetivos. mas não é reduzido a este só alimento. e cavaleiros? (Lus. o gosto. o lobo são animais carniceiros. o homem. III. bilhete. Ato caridoso. a obrigação que se aceita num certo caso. Feros vos amostrais. por uma necessidade de natureza. a função própria que se toma num dado momento. de um ministério. Carnívoro é termo mais próprio de ciências naturais. O primeiro indica o apetite natural. é muito caritativo”. as epístolas de S. dizem que o nome de carniceiro pertence àquele que. Paulo. . – Diz Bruns. ó peitos carniceiros. – Colocação é quase o mesmo que emprego: ajunta apenas à significação deste a ideia de que o emprego é permanente e quase sempre de certa importância. e sem razão. que se ceva de carniça. – Papel figura neste grupo com o sentido translato que se lhe dá em frases como estas: “fiz do melhor modo que pude o meu papel”. portanto. Significa. o costume. cheio de caridade”. epístola. – Caridoso diz apenas – “de caridade. Estes dois adje- tivos designam em geral os animais que se sustentam de carne. por mais que muita autoridade de nota o queira. ou tratando de assuntos que lhe interessam mais ou menos diretamente. e o uso geral o admita. – Missiva é a carta considerada com relação à pessoa que a manda. ou de assunto ligeiro. está no seu papel”. como. que se confundem. mas essa distinção não basta. caritativo. Criatura caritativa. – O bilhete difere da carta: em se ocupar só de um assunto. e é antônimo de frugívoro. carnívoro é o que come carne. “F. – Lugar é “qualquer emprego. – Função (ou. de pequena importância. Os naturalistas. – Caritativo é propriamente “o de natureza moral dada a atos de caridade. em conter poucas palavras e excluir as formas cerimoniosas que encabeçam e concluem as cartas ordinárias. o leão. indício de caridade. por exemplo. É possível. carniceiro é termo vulgar da língua. e não – caridosa. funções) é “o conjunto das obrigações. Parece. mas as respetivas terminações marcam entre eles uma diferença bem sensível. às vezes. e pode nutrir-se de frutos da terra. “F. por isso mais usado é. – Segundo “caridoso indica maior e mais frequente caridade que caritativo”. mais ordinariamente – emprego por pouco tempo ou de pequena monta”. O tigre. como quase sempre é usada. principalmente quando o conteúdo delas interessava a muitos. Deveres caridosos (e não – deveres caritativos). 130) 470 CARTA.254 Rocha Pombo destes casos – cargo ou cargos). – Epístolas dizemos das cartas dos antigos. dos serviços próprios de um cargo. a nosso ver. e que isso é “devido à índole da terminação oso”. missiva. o segundo anuncia simplesmente o fato. com a significação de cruel e sanguinário. que se ceva de carne crua. quando comparam estas duas espécies de animais. capaz de sentimentos de caridade”. o gato são carnívoros. e não pode viver de outra coisa. se nutre de carne. o hábito constante. próprio de caridade. o instinto. em forma literária e em tom solene. é termo pouco usado. – Carniceiro é o animal que Bruns. 468 CARIDOSO. emprego ou ofício”.. Familiarmente dá-se hoje o nome de epístola a uma carta muito longa e em estilo pretensioso. – carta é o termo usual com que se designam os escritos que se dirigem a alguém dando-lhe notícias... carnívoro.

ou palácio. a casa dos coelhos. palacete. (Aul. colmo. pardieiro. tenda. barraca. de proteção. aqui. coberta de tela de lona ordinariamente”. pelo menos com a mesma propriedade –. hoje muito em voga. e sugere melhor a ideia de conchego. – Tugúrio (latim tugurium. a morada humilde e desolada. – Mansarda afasta-se um pouco do francês de que a tomamos (mansarde é propriamente água-furtada ou trapeira. às casas habitadas de um distrito. é “o lugar. grandioso e magnífico”. isto é – o último andar de uma casa tendo a janela ou janelas já abertas no telhado): tem. – Palácio é “o edifício de proporções acima do normal. ou de ramos de árvores para habitação de pastores”. – Cabana (do italiano capánna) é “casinha coberta de colmo ou de palha. asfalto ou ardósia. ou choupana. e por extensão. mais a significação de “habitação . castelo. passou a designar também a própria casa.). – Lar é a “habitação considerada como abrigo tranquilo e seguro da família”. – Morada é “à habitação onde se mora. – Arribana é “palheiro que serve mais para guarda de animais e trem de viagem propriamente que para habitação. portanto. significando “casa de escada exterior. de convívio amoroso: “teto paterno”. lar. de tegere “cobrir”) é “o abrigo onde qualquer vivente se recolhe. – Barraca é “tenda ligeira. e forma grande saliência sobre as paredes”. fogo. onde mora gente muito pobre”. por modéstia ou por falsa humildade. vivenda detestável. casebre. nas estatísticas. choupana. onde alguém como que se refugia afastando-se do mundo”. chalé. ou de uma povoação: “a aldeia vizinha não chega a ter cem fogos”. toda parte onde se abrigam alguns animais: a casa do escaravelho. junto ou no meio das roças ou lavouras”. arribana. palhoça. designa. o sítio. usa-se quase sempre com um adjetivo: bela vivenda. ordinariamente revestida de madeira. – Casebre é “pequena casa velha e arruinada. – Fogos é o nome que se dá. à própria habitação magnífica. onde alguém se aloja provisoriamente”. a sua choupana). – Choça é “habitação ainda mais rústica e grosseira que a choupana”. prestando-se quando muito para pernoite ao abrigo de intempéries”. Por isso. – Tenda é “armação coberta para abrigo provisório ou de passagem em caminho ou em campanha”. 255 tugúrio. também de tegere) é quase o mesmo que tugúrio: apenas teto não se aplica a um abrigo de animais. palheiro. ou onde se fica por algum tempo. choça. cômodo. palácio. que é o que significa propriamente esta palavra habitação. neste grupo. mansarda. ou biombo – tudo será habitação. portanto. Este nome dá-se também. habitação. canto. – Palheiro é propriamente o lugar onde se guarda palha: designa. – Colmo. é “o colmo tomado pela cabana que é dele coberta”. – Choupana é – diz Aul. prédio. “abrigo ou habitação muito rústica e grosseira”. De “ato de habitar”. – Palhoça é “pequena casa coberta de palha”. o mais genérico. teto. “era-lhe o céu um teto misericordioso”. que se habita: casa. morada. no português usual. aqui. ou habitualmente ou por algum tempo”. e sugere a ideia da maior ou menor comodidade com que a gente aí se abriga e vive. “prédio rico e elegante”. solar. – Canto. etc. Dizemos que o selvagem procura a sua choça (e não. – Teto (latim tectum. – Chalé é palavra da língua francesa. Palacete é diminutivo de palácio. – “casa rústica de madeira. de uma cidade. – Casa é “o edifício de certas proporções destinado à habitação do homem”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 471 CASA. – Habitação é. no estilo suíço. vivenda. onde se abrigam à noite os camponeses. em linguagem vulgar. designando. – Vivenda é a “habitação onde se vive”. biombo. cabana. de todos os vocábulos deste grupo. cujo teto de pouca inclinação é coberto de feltro.

de gabinete”. menos precária. pode ser favorável ou desfavorável. compara a conjuntura com a circunstância dizendo: A conjuntura e a circunstância estão para o fato como dois círculos concêntricos estão para um ponto dado: a circunstância é o círculo circunscrito na conjuntura. tendo passado por herança de pais a filhos desde alguns séculos”. – Conjuntura é o vocábulo com que se indica o conjunto de circunstâncias que nem estão no fato. mas. termo vulgar. a suposição é gratuita. de Newton. a suposição é mais familiar. A conjuntura. a propriedade que consta da casa e do terreno onde está construída”. que não tem outro fundamento que a má vontade da pessoa que supõe. termo científico. entra na conversação ordinária. – Circunstância (do latim circumstantia. onde se vive com opulência”. de modo que formam um corpo ou sistema. à explicação das coisas. contudo. é “uma parte de prédio que se aluga por baixo preço e por pouco tempo ordinariamente”. distinguem-se mais em que: a hipótese é uma suposição puramente ideal. sempre que este fato se possa relacionar com princípio geral: aos casos particulares não têm os magistrados senão leis gerais para aplicar. nem com ele se relacionam imediatamente. – De suposição e hipótese escreve Roq. de circumstare ‘estar à roda de’) diz-se das particularidades de um fato. como alegação. aqui. ou das coisas que. num dado momento. aqui. e outro. a situação da França em 93.” A situação em que me encontro agora. e muitas vezes se toma em mau sentido. A hipótese é mais certa. – Pardieiro é – diz Aul. do prœs “garante. designa “a casa que é nossa própria. sucesso. – “edifício velho e em ruínas”: “Já me cansam estas perpétuas ruínas. luxuosa. de Leibnitz chamam-se hipóteses e não suposições. – Biombo é “um pequeno recinto separado de uma sala por meio de tabique móvel. suposição. A hipótese refere-se às ciências: à instrução. etc. funda-se numa verdade filosófica. incômoda e difícil. propriedade real”. e a suposição toma-se por uma proposição ou verdadeira ou aprovada.256 Rocha Pombo humilde. situação. – A hipótese toma-se muitas vezes por um conjunto de proposições unidas e ordenadas. mas que. separadas do fato. Hoje é “habitação nobre. assim como a circunstância.” . gratuita ou falsa. suposição. Particularmente se diz de todas as hipóteses que se podem considerar nas ciências abstratas. distingue assim as três primeiras palavras deste grupo: “Caso se diz do que se considera possível: em caso de desgraça. se se der o caso de não ter ele filhos. hipótese. Os sistemas de Descartes. Também se diz de um fato que apresenta tal ou tal caráter. – Prédio (latim prœdium. têm com ele alguma relação.. – Cômodo. circunstância. – Castelo era antiga habitação fortificada.” – Situação é. aqui. onde há pobreza”. penhor. à inteligência. 472 CASO. fora das cidades. fiador”) é propriamente “bem de raiz. etc. “o conjunto de circunstâncias que determinam o estado ou a condição de uma coisa. pessoa. só tem por base a verossimilhança.: “Além da primeira diferença que há entre estas palavras (e que consiste em ser um. – Bruns. a situação atual do país. conjuntura. Um sinonimista francês. estes pardieiros intermináveis” (Garrett). e que serve de dormitório. – Solar é “a propriedade (terras e casa) considerada como representando uma tradição de família. e onde residiam os grandes senhores feudais. porque esta só de longe se relaciona com o ponto de que aquela está próxima. Costuma-se dizer: “vou para o meu biombo” para significar que se vai para casa. Roubaud. têm com ele alguma relação imediata: os crimes perdem muito da sua gravidade quando neles ocorrem circunstâncias atenuantes.

mas como um estado de alma. pureza. expiação”) sugere ideia do “sofrimento que se impõe como punição do crime. o próprio prazer honesto. 474 CASTIGAR. inalterada”. e culpa da outra. tanto do corpo. mas castigar indica principalmente a ideia de corrigir. pudico. mesmo de uma brutal violência. – Punição é “o ato de punir”. punição. – Castigo é “tanto o ato de castigar. e até os defeitos. nem mesmo sabe que é inocente. que intemerato sugere uma ideia que nem. nem sentiu. venham a sair moralmente imaculadas. absoluta. pena. A pessoa pudica teme. Punem-se crimes. Esta virtude é mais ordinária no sexo feminino. a perseverança. será essencial em imaculado: a ideia de – não violado. e nem ainda conhece o que pode alterar a perfeita integridade da alma e do corpo”. descuido. – Punir implica a ideia de imposição de pena. deve ser continente. S. A viuvez. (A pessoa casta nem pensa em semelhantes prazeres. mas também os erros. que está na sua plena integridade”. mas da outra não supõe necessariamente culpa. ou de honesta vergonha. castidade. Por isso mesmo é que não se pode considerar a inocência como propriamente uma virtude. ações voluntárias. como do espírito que se estende a todos os tempos e momentos da vida. de algum modo. censura. que qualquer sopro impuro a embaça e murcha: um só instante de fraqueza. – Pena (latim pœna. inocência. – Incorrupto é “o que não foi corrompido. quando contrárias à lei: e castigam-se.). Mesmo referindo-nos à própria Virgem. virgem. castigar a frase”. omissão. que é são e puro de espírito. – Pudicícia é a castidade acompanhada de pudor. Neste sentido dizemos até – “castigar o estilo. sabe coartá-lo dentro dos mais estritos limites. ilibado. ainda quando permitidos. um só pensamento voluntário faz perder o merecimento desta angélica virtude. intemerato. pois o inocente não conhece o mal. é a excelência. e o lustre da virgindade: Ela supõe uma alma inocente. que regula. ou grande falta que deve ser punida”. puro. – Pureza não é propriamente uma virtude particular. ou delito. Castigar supõe autoridade de uma parte. de alma fiel. inocente. cândida. os apetites e prazeres sensuais. aperfeiçoar por meio da repreensão. a honra. e quando cede ao dever. e aí estará talvez o que torna a virtude da castidade diferente de muitas das que figuram neste grupo. no entanto. impoluto. etc. Pode haver criaturas que. – Virgindade exprime uma continência universal. – Punir supõe autoridade de uma parte. – Continência exprime a abstinência atual dos prazeres da carne. Parece. delitos. virgindade. não só as ações voluntárias quando contrárias à lei. pudicícia. castigo. – Ilibado (latim illibatus = in + libatus) quer dizer – “intacto. – Impoluto é “o que não foi poluído.). O celibato cristão demanda continência perpétua. e cora de os ver ainda levemente transgredidos. intacta. . dizemos indistintamente – imaculada ou intemerata. isto é – do que não tem malícia. virgem. – “É a castidade” – diz fr. imaculado (imáculo). e perfeita. que nem experimentou. mas sim erro.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 473 CASTO. Luiz – “uma virtude. que não passe a segundas núpcias. (Lac. Em poesia não é muito raro empregarse imáculo por imaculado. como o próprio sofrimento com que se castiga”. que não ficou alterado na sua pureza”. e sujeita à autoridade sagrada da lei. incorrupto. as faltas. conti- 257 nente. nem sabe pensar no mal. É uma flor delicadíssima. punir. – Inocência tem aqui a acepção de candura: é a qualidade do inocente. pelo menos em todos os casos. um modo de ser. continência. do grego poiné “vingança. – Intemerato e imaculado podem dizer-se sinônimos perfeitos.

nomeia por ordem. – Segundo Bruns. Do mesmo modo difere prisão de cativeiro. passar por herança ou legado”. – Enumeração é a lista que se faz com o fim de atender ao total que apresenta. 477 CAUSA. – Relação é quase o mesmo que lista: apenas deixa supor que as coisas ou pessoas relacionadas estão inscritas numa certa ordem. móvel. mas prisioneiros. O cativo pode conservar ainda a sua dignidade. a nomenclatura inscreve denominando. cativeiro. A escravidão não só humilha. – Nomenclatura é uma lista de nomes. prisioneiro. etc.°) que cada objeto catalogado se faça acompanhar de algum esclarecimento que melhor o caracterize e distinga dos outros. pretexto. prisão. servidão. 476 CATIVO. denomina-se nômina. como despoja a criatura de quase todas as suas qualidades humanas. motivo. – Prisioneiro aproxima-se de cativo: é “o que fica em poder do seu vencedor”. a lista apenas inscreve. – Todas estas palavras designam aquilo que se tem como determinante das nossas ações. Hoje. pois o primeiro designa apenas o fato de “achar-se alguém privado por algum tempo de agir livremente. perdeu a sua liberdade. Sempre que a enumeração careça dessas condições. – Escravo é “o que passou a ser propriedade de outrem. A servidão é muito diferente da escravidão. ou não tanto a esmo como numa simples lista. ou da botânica. – Causa é o que produz uma ação. supondo-se que estes esperam sempre o seu resgate. pelo menos nem sempre. pode possuir bens. lista. O catálogo de uma livraria ou de uma biblioteca compreende o título das obras que a formam. e não escravo. por exemplo. O servo é considerado como pessoa. mas – lista dos convidados. por exemplo – rol dos convidados.º) que a enumeração seja metódica. e que. o nome dos respetivos autores. é o fato em virtude . principalmente tratandose de ciências. Fazemos a lista dos livros que desejamos comprar. Fazer uma nômina dos empregados por ordem de antiguidade. vemos que: o catálogo inscreve e circunstancia. O judeu em Babilônia foi cativo. – Cativo é propriamente “o que foi capturado. Nomenclatura geográfica. só se lhe pode dar o nome de lista ou relação. o que se deixou prender na guerra. É condição essencial do catálogo: 1. atendendo a que nessa lista a única indicação numérica é a dos números de ordem. – Catálogo (do grego katalogos “exposição desenvolvida. a nômina inscreve. ou ao conjunto das coisas enumeradas. ficando sob a dependência de outrem”. nem mesmo servo. em certos casos. razão. escravo. Recapitulando. enumeração. a sua condição pessoal. Quando a nomenclatura inscreve ou classifica nomes de pessoas. certas indicações numéricas. ou obedeça a uma certa ordem. mas diferentes entre si. de usar da sua liberdade”. nomenclatura. etc. Não diremos.258 Rocha Pombo 475 CATÁLOGO. mas não poderiam ser aplicadas indistintamente. pode ser vendido. – Rol é a lista que contém. escravidão. ao lado do nome das coisas ou pessoas arroladas. auferir lucros do serviço que presta a seu amo. O cativeiro não humilha. 2. nômina. etc. De tudo isto é privado o escravo. de expressões que formam grupo separado. rol. o rol inscreve e conta. relação. Fazemos ou organizamos o catálogo de uma biblioteca. portanto. e a enumeração inscreve ou expõe sucessivamente para que cada unidade contribua para o conjunto. servo. – Servo é “o que está sujeito a outrem”. na guerra não se fazem cativos. minuciosa”) dizemos das relações ou enumerações de muitas coisas da mesma espécie. mesmo aquelas que parecem mais semelhantes.

os vícios e os defeitos mais censuráveis. pungitivo. que condena. mordaz (morden- te). não poupa ninguém. pungente. – Entre mordaz e mordente há diferença bem sensível: mordente significa mais “espicaçante. causticante. pune e instrui”. Gritos lancinantes = os que entram na alma de quem os ouve como lancetas. é frequente vê-la empregada como signifi- . – Pungitivo é “o que tem qualidades para pungir. devida ao sufixo de atividade ante. – palavra causticante (em vez de – cáustica). Dizer – “santo” a um bandido seria dizer-lhe uma palavra pungente. ferino. postura) para exprimir exatamente o contrário do que diz ou afeta. – Motivo e móvel são os nomes que damos ao fato. cruciante. que opera tanto sobre o espírito como sobre o coração”. isto é – que usa de uma palavra ou frase (ou mesmo gesto. designa “o que é rude e violento. rasga como estilete”. como já vimos em outro grupo (o XCVIII) é “o que tem sabor picante e corrosivo”. – Picante é “o que é acre. atitude. as suas armas são um gracejo vivo e picante. – Pretexto é “uma razão falsa ou fictícia que se dá para não dar a verdadeira”. Diremos com mais propriedade – estilo cáustico (em vez de – causticante). Talvez porque se julgue esta palavra como originada do verbo ferir. áspero e desabrido”. frases pungitivas. – Cáustico (segundo resume Bens. penetrar afligindo”. o que corta. brutal. como ao paladar a pimenta”. picante. acre. próprio de fera”: e no sentido figurado – “o que é rude. no sentido figurado. ao intento. pungente. A causa da intervenção da força pública foi o tumulto que ali se levantou. como – olhar irônico. ou de conduzir-nos deste ou daquele modo em dadas circunstâncias. sobretudo. – Entre cáustico e causticante parece haver apenas a distinção marcada pela ideia de atualidade. isto é – capaz de pungir (mas não – pungente).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 259 do qual se dá um outro fato. terebrante. picante. deixou de vir devido ao mau tempo (o mau tempo foi causa da ausência). – Pungente é um tanto mais forte e subtil que mordente: o que punge “penetra como espinho”. Um espírito mordaz ataca tudo e todos. Um espírito satírico ataca. ofende a boa reputação. que se inclui em causticante.) “denota certa malignidade irritante. saudação. cruel”. – Razão é “o motivo que se invoca para justificar algum ato. e. provocador” do que só mordaz. – Motivo é simplesmente o que opera em nós excitando-nos. atraindo por isso o ódio ou o desprezo de todos. irrita. satírico. chufas. e pica. ditos e expressões picantes. Aquela palavra ou aquela frase saiu causticante como ferro em brasa (e não – cáustica). mas que só pungem a certas almas. e algumas vezes a indignação e a veemência: é um moralista ou um juiz de mau humor. satírico. impelindo a nossa vontade de praticar uma ação. ou o que diz ironia. 478 CÁUSTICO. abocanha a honra. mordaz. um caráter mais ou menos maligno. – Irônico é o que contém. etc. um gênio acerbo. Há palavras. Po- deria ainda alguém dizer – sátira mordente (e talvez não – sátira mordaz). à consideração. feroz. irônico. – Ferino é “o que é selvagem. Um espírito cáustico emprega a ironia.. Parece também que este tem mais força que o primeiro. discurso. o móvel que se dá como causa da ação”. – Lancinante é “o que penetra causando grande dor. até carinhos irônicos. que nos leva a fazer alguma coisa ou a agir de certo modo em dadas circunstâncias. invetiva. sarcástico. F. etc. Dizemos tanto – termos irônicos. – Móvel é “um motivo mais ponderoso. picar. É usado mais frequentemente no superlativo: acérrima ironia. – Acre. escarninho. lancinante. elogio. motejos para fazer sobressair o ridículo e os defeitos dos outros. Dizer – “bandido” a um santo será usar de uma palavra pungitiva. de flagrância.

coisa às cegas” – escreve muito bem Lac. empregam-se indistintamente celeste e celestial. cruel e pungente em extremo”. divinal.. divino e divinal. que tem origem no céu”.. Antônio. é com danças e divertimentos que o povo festeja S. deífico. João. amargamente”. que em certos casos é fundamental. Como ninguém diria – a ternura divina daquela mãe (mas – a ternura divinal). Ninguém diria – misericórdia divinal – em referência à misericórdia de Deus (e sim – misericórdia divina). “o que é como se fosse celeste”. 481 CELESTE. de ofender mostrando repugnância”. intuito de humilhar. às cegas. 479 CEGAMENTE. para o fazer ou deixar de fazer. rememorar. significando: o primeiro. ou aconselha que se faça”. Pedro e S. de alegria. designa. festejar. quer seja atual. . tendo a mesma significação. – Deífico é também termo poético. – Festejar (do latim festus “alegre”) é. celestial. – Terebrante. quer passado. – Solenizar é celebrar com pompa extraordinária. é “o que punge como acúleo (como verruma. entretanto. e não – corpo celestial)]. equivalente a – “o que envolve ou manifesta escárnio. – Consideram-se aqui estes vocábulos na acepção que lhes é comum. como dos grandiosos. Fazer alguma coisa cegamente é fazê-la porque se põe confiança na pessoa que manda. pois este pode valer ainda como um restritivo de firmamento. dos três primeiros verbos deste grupo. – “Fazer alguma celebra-se um aniversário com grandes festejos. – Rememorar é “repetir uma comemoração. Aproxima-se-lhe muito escarninho. recordar outra vez uma data ou acontecimento”. Dizemos: cólera celeste (cólera divina) e não – cólera celestial. – Celeste significa – “próprio do céu (e também de Deus) que está ou que aparece no céu. no sentido em que aqui o tomamos. solenizar. celestial. celígeno. que é como nojo pela pessoa ou coisa escarnecida”. o semblante celestial de uma menina (e não – celeste). vindo do céu. época extraordinária na vida de uma nação ou uma família”. em certos casos. 480 CELEBRAR. acontecimento.) até o mais fundo da vida”. o único que claramente encerra a ideia de festa. – Entre divino e divinal há uma distinção análoga. e a fim de bem gravar no espírito a lembrança do acontecimento que se soleniza. marcada pela partícula de extensividade que figura no segundo. comemo- rar. conforme se vê em – corpo celeste (referindo-nos a um astro. S. – Sarcástico é “o que envolve mais do que ironia pungentíssima: é o que revela desprezo. persuade. – Comemorar é “celebrar festa solene que recorde algum sucesso. divino. O padre celebra a missa. – Celestial. – Cruciante vale por “aflitivo como o sacrifício da cruz. – Celígeno quer dizer – “nascido no céu.260 Rocha Pombo cando – “o que fere sem piedade. (Bruns. – Celebrar encerra duas ideias principais: a de ser grande o número de pessoas que concorrem e a do aparato da festa ou da cerimônia celebrada. É com hinos de louvor e de alegria que a Igreja católica festeja um santo. doloroso em excesso. que vem do céu”. do céu” [nem sempre – celeste.). – Entre celeste e celestial há uma diferença. – “é fazê-la sem razão suficiente. – Celebrar e solenizar dizem-se tanto dos acontecimentos alegres como dos tristes. – Célico e celígeno são termos usados na poesia. Na maioria dos casos. significando mais – divinizante – que propriamente – divino. celebram-se exéquias. de indicar o modo de render homenagem a qualquer pessoa ou acontecimento. célico.

e solteiro – às vezes até solteirão – quando queremos pôr em relevo o seu estado de independência. como se vê em Ferreira: “Mausoléus aos mortos não dão vida”. que é forma antiquada) é “toda construção grandiosa levantada à memória de um morto. – Mausoléu (do latim mausoleum) foi primitivamente nome próprio. que é apenas o espaço que se abre na terra para guardar o cadáver. guarnecido de muros. como diz a etimologia.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 482 CELIBATÁRIO. designando os sepulcros grandiosos dos reis. solteiro. sepultura. enquanto que celibatário encerra frequentemente a ideia de não poder ou não querer contrair matrimônio. portanto. ou qualquer construção acima do solo. esconder”: designam. igualmente do grego sarkophágos [de sarx (genit sarkós). só com a significação figurada de sepulcro. carneiro. a não ser no último exemplo deste artigo. e na maior parte dos casos podem ser empregados indistintamente. O próprio animal pode ter sepultura (não – sepulcro). 6). tem no português a mesma significação de monumento sepulcral. túmulo. Sepulcro é mais nobre. – Sepultura é. pois. – Concordam es- 261 tes vocábulos em designar a pessoa que não casou. monumento. sepulcro. – Sarcófago. – Sepulcro e sepultura (do mesmo latim sepelire) sugerem a ideia de “ocultar. mauso- léu. – Das quatro primeiras palavras deste grupo escreve Roq. estendeu-se a todo sepulcro magnífico e sumptuoso. É um mausoléu menos sumptuoso. cova. que designava o magnífico e sumptuoso monumento sepulcral que a rainha Artemísia mandou erigir a seu marido Mausolo. recipit (4. – Jazigo é “o pequeno edifício. jazigo. passou depois a ser nome apelativo. campa. (Eleg. porém. 11). e em geral – sepulcro em que o cadáver se consumiu. por exemplo – sepultura rasa. 483 CENOTÁFIO. que entre os latinos também tinha. indica essa ideia sem nenhuma outra acessória. . como se vê da seguinte passagem de Floro: In mausoleum se (Cleópatra). fizemos nós túmulo. que designava uma espécie de pedra calcária que consumia as carnes. – Carneiro é o lugar subterrâneo. e taphos “sepulcro”). contenha-lhe ou não os restos”. O carneiro pode ser levantado do solo. Nenhuma das duas têm saliência. De um ancião se diz que é celibatário quando se quer designar o seu estado social. quase o mesmo que cova: apenas a cova é uma sepultura ainda mais tosca e mais ligeira. onde se depositam os cadáveres ou os ossos dos membros de uma família”. Dizemos. da palavra grega kenotaphion (de kenos “vazio”. e phagein “comer”] é adjetivo substantivado concordando com lithos “pedra”.). e a que os nossos antigos chamavam moimento. “carne”. e por extensão – o sepulcro feito desta pedra. mas cada um deles recorda particular circunstância pela qual se diferençam”. – Hipogeu só será usado hoje em linguagem poética: designa. – Monumento (ou moimento. e não – sepulcro raso. – Solteiro. – Cenotáfio.: “Designam estes vocábulos o monumento elevado à memória de algum defunto ilustre. onde se depositam cadáveres. que em sentido reto significava “montículo”. ordinariamente em forma de templo. Da palavra latina tumulus (a tumore terrœ). mas – sepulcro levantado da terra. hipogeu. e não – solteiros. sarcófago. Dos sacerdotes católicos dizemos que são celibatários. sepulcra regum sic vocant. o lugar onde se sepultam os mortos. de não sujeição aos laços da união conjugal (Bruns. supõe alguma coisa mais que simples sepultura. Mais tarde. e numa necrópole. É este o nome que mais comumente se dá aos depósitos de cadáveres que não são propriamente simples sepulturas. catacumbas. erigido à memória de defunto enterrado em outro lugar.

repartir as quotas dos impostos. que são inseparáveis de tudo que é humano. sendo que a censura leva consigo a repreensão. mas sempre com fundamento e equidade. julgá-las literariamente. porém os meios de que se valem são muito diferentes. repreender e corrigir as obras. à razão. é mais extensa. Por extensão.262 Rocha Pombo como insinua a própria etimologia. comentário. e notar-lhes os defeitos. e sempre violenta. segundo as regras da arte e do bom gosto. rara vez imparcial. que era entre os romanos a declaração autêntica que os cidadãos faziam de seus nomes. à verdade. sobretudo. repreensão. exprobração. . Aprova a censura o que muitas vezes condena a crítica. raramente imparcial. senão o de examiná-las. ponderação. e. aos bons costumes. observação. distinguir’) e significava a arte de julgar as obras de engenho. porque é o juízo fundado que se faz das obras. dá-se ainda hoje o nome de catacumba ao grande túmulo comum. e. nem sempre. objurgatória (objurgação). como coisa a mais conducente para a boa moral pública. com o que o cargo de censor vem a ser o de uma espécie de magistrado na república literária. castigando aos que os pervertiam com seu desordenado procedimento. crítica. para que se despreze. magistrados da primeira plana. se ridiculizam os defeitos. como era o dos antigos na política. admoestação. cujos mui importantes cargos eram guardar o padrão ou registro do povo. pois não se pode julgar de uma obra sem notar defeitos maiores ou menores. no uso comum. – Campa é. residência. Muitas obras há que pela solidez dos princípios. em especial. nem com o desempenho das regras de bem escrever. adotando os meios de reformá-los. mais moderada. ao exame. a sátira. sem se importar com o estilo. propriamente. Tem muita relação com a censura. Não há coisa mais difícil que fazer uma boa crítica. a censura supõe a crítica. subterrâneo. dos costumes públicos. – A sátira é um juízo. porque a crítica. julgamento e correção dos livros. A crítica supõe a censura.: “Censura vem da palavra latina census ‘censo’. em que. e pela utilidade das verdades que defendem ou anunciam. “a lápide que cobre o sepulcro ou mesmo a sepultura rasa”: toma-se frequentemente pela própria sepultura. família e bens. – Crítica é palavra grega kritiké (de krino ‘julgar. pois muitas pessoas pouco instruídas e muito audazes atrevem-se a censurar sem serem capazes de fazer a devida crítica. e esta é uma das circunstâncias que a diferençam daquela – a censu- ra – cuja significação. aprovando-os ou desaprovando-os. reproche. dar a conhecer suas belezas. a correção e o castigo do que aparece contrário à lei. para que se emende ou evite. assim como pode acontecer que a crítica literária nada tenha a dizer onde a censura moral muito tenha que repreender e condenar. Distinguem-se também em que o objeto da crítica não é precisamente o de censurar. Este nome. no entanto. podem talvez ter por objeto a correção e o desengano. mas que pela má disposição das matérias. impureza da linguagem. sátira. como vimos. recriminação. Não há coisa mais fácil que agradar ao público com uma sátira. confusão e obscuridade do estilo. – Catacumbas eram as vastas construções subterrâneas destinadas a guardar cadáveres. reprimenda. como a sátira. veio a ficar reduzido à censura dos costumes públicos. faz ver o erro como tal. representa o ridículo. 484 CENSURA. advertência. ante os censores ou censitores. cuidar da polícia. são irrepreensíveis aos olhos da censura. cova. pondo de parte o que pode merecer elogio. remoque. – Das três primeiras do grupo. diz Roq. são defeituosíssimas aos olhos da crítica. arguição. Assim que a crítica.

pois. – “o rito é a reunião de todas as cerimônias de um culto religioso. de criticar malevolamente”. para que o admoestado não reincida nela”. – Observação é “o ato de advertir fazendo considerações sobre a falta cometida ou sobre o dever que se deixou de cumprir”. – Arguição é “o ato de acusar alguém de falta ou erro. liturgia. por exemplo. ou para a falta em que se caiu mais por descuido que por desídia”. ou pelo patriarca de alguma seita. mostrando-lhe. ou em termos menos positivos. – Repreensão “é o ato de condenar o erro ou a falta cometida: o que é sempre feito com certa acrimônia. – Se- gundo Roq. entre nós. é católico do rito grego. ritual. – Objurgação é “o ato. – Exprobração enuncia a ideia de “lançar em rosto as culpas. no entanto. – Ritual e rito confundem-se aqui. – Admoestação é “o ato de fazer sentir o erro ou falta cometida. o conjunto de cerimônias que. – Objurgatória é “a repreensão áspera. 485 CERIMÔNIA. e não – católico da liturgia grega. de superior a inferior”. prescreve as cerimônias com que se devem celebrar os ofícios divinos. Quando se diz – ritual romano – já não se marca tão bem. E. estão prescritas por quem tinha autoridade para estabelecer o rito. Signi- fica – “ato de lançar em rosto a alguém a falta cometida. o rito grego. – Entre liturgia e rito há diferenças essenciais. sobre a coisa a respeito da qual se pondera. ou vícios de alguém”. mais como invetivando-o do que simplesmente fazendo-lhe acusações e censuras”. que F. liturgia é também “o modo como se regula a execução das cerimônias de um culto público”. Mas nesta frase. As cerimônias são o modo por que o rito se executa. ilustrada de exemplos e largas considerações. por exemplo: “Vamos celebrar o ato com todo o rigor do ritual” – não seria admissível a palavra rito. para os diferentes atos de um culto. ou para estabelecer uma opinião. Rito exprime mais que cerimônia. ou em termos mais ou menos ásperos”. com o intuito de envergonhá-lo”. a censura ou acusação desabrida que se lança à face de alguém. – Ponderação será “uma advertência ou observação mais disfarçada. rito. e autorizadas pelo Sumo Pontífice. – Advertência é “o ato de chamar atenção para o mal que se fez. Daqui vem que a eficácia da sátira é maior e sem efeitos mais perigosos. A admoestação é sempre feita em termos brandos. Uma crítica necessita ser mui bem fundada para corrigir. – Comentário é “o exame ou mesmo a crítica. Não dizemos – o rito romano – senão quando queremos diferençar as cerimônias do culto católico romano das de outro culto também católico mas não romano. essa diferença: o que . e mais reflexionando. sobre a conduta de alguém”. com razões e argumentos. ou faltas. senão compiladas por escrito para sua execução. ou com tanta evidência. por isso se diz – o rito romano. – Ritual é. – Reproche é palavra francesa de que muito se abusa. esta recreia mais que instrui. não precisamente postas em prática. O ritual romano. como cometeu tal erro ou falta”. a acusação mais grave e violenta com que se rebate a outra censura ou acusação”. Dizemos. do que propriamente advertindo”. – Remoque é “dito ou frase picante que mal dissimula a intenção de repreender. – Recriminação é “a censura mais forte. ou de acusar desabridamente”. a maneira de executá-lo são as cerimônias”. É evidente que aplicamos rito quando queremos assinalar diferenças de liturgia ou de cerimônias entre cultos da mesma religião.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 263 Aquela instrui mais que recreia. – Reprimenda = “admoestação formal e severa. ou defeitos e vícios. Uma sátira ligeira pode fazer esquecer o mérito mais sólido”. ou melhor – a ação de objurgar.

que faz convergir”. labareda. planura. o chamariz tanto atrai o público a alguma parte. – Atrativo é termo genérico. – Flama tem a mesma significação (é a forma erudita do latim flamma. por assim dizer. e grande labareda ou brasido”. pois. que se eleva e ondeia em línguas de fogo. e fogo. – Chispa planície. engodo. mas não se pode dizer – o fogo da razão. – Dos três primeiros vocábulos deste grupo diz Bruns. ou vasta planície . pelo menos nem sempre. fogo. no sentido translato. uma récula de garotos. – Isca é “tudo que se prende ao anzol para atrair e enganar o peixe”. é “o que serve para provocar. “a parte mais luminosa do fogo. deve notar-se com cuidado a diferença que há entre uma e outra. como o lume. uma porção de crianças. é “tudo que serve para engodar alguém”. Dizemos – o fogo da mocidade. que chama atenção.: – “O chamariz é o que atrai o público a alguma parte. chispa. e centelha dá ideia da luz produzida pela fagulha (e é como se se dissesse – partícula de chama). – Faísca. e figuradamente. – Negaça. de que chama é a forma popular). seduzir. como pode atrair. do que – o lume dos olhos. o que causa calor. de situação aprazível. isto é – não no alto nem na encosta de montanhas”. Isso. para um ponto. entende-se. ou para algures. Dizemos – liturgia católica (e não – rito católico – salvo se quisermos distinguir entre rito católico e rito protestante). porém é palavra preferível para o estilo culto. ou – o fogo dos olhos. ou a certa altura delas”. e comunicam o calor e ardor da paixão. cêndio. faísca. atrativo. 487 CHAMARIZ. fagulha. em ala. chispa e centelha designam todas “pequenas porções de fogo ou de matéria inflamada que se desprendem de fogo maior”. como o fogo. centelha. – Incêndio é “grande fogo ou fogueira que se alastra e devora”. reclamo. negaça. mas não se dirá – o lume da mocidade. – Labareda designa grande chama. lume. enganar”. – Lume exprime propriamente o que dá luz e claridade. in- dá ideia da rapidez com que a partícula ardente se desprende. ou queimam. é mais correto dizer – o fogo. pois que. fagulha. mais que o uso indicado. particularmente. porque a palavra chama se tornou vulgar. o resultado do fogo: é o fogo aplicado à matéria combustível (e a esta circunscrito – como diz muito bem Bruns. designando “tudo que atrai. – Planura é quase o mesmo que planície: apenas sugere ideia de beleza de panoramas. No uso vulgar confundem-se estas palavras. – Fogueira é. É certo que se diz – o lume. planalto.264 Rocha Pombo parece que aproxima este termo ritual mais de liturgia que mesmo de rito. Todavia. – Planalto é “grande planura elevada. um bando de aves. De engodo quase que se pode dizer outro tanto.). – Chama é. o reclamo é o que desperta a atenção para o chamariz”. queima e abrasa. tomadas essas palavras em sentido restrito. enquanto que planície é “toda extensão de terras chãs e baixas. Só de reclamo é que se não poderia fazer. e que se levanta em forma piramidal acima do corpo que arde. flama. esplanada. num sentido mais extenso. mas. 486 CHAMA. mas é porque nos olhos há estas duas propriedades. e num sentido geral. Dizemos – o lume da razão. 488 CHAPADA. um cardume de peixes etc. isca. fogueira. – Chapada é “extensão de terras mais ou menos planas no alto de montanhas. é “o nome que se dá ao pássaro que se deixa na gaiola de alçapão para chamar os outros”. o engodo é a astúcia que o engana. é essa matéria acesa. segundo Lacerda. ou cintilam e dão luz.

Às grandes cheias do Tejo deveria chamar-se inundações. a figurada de – multidão excessiva. por exemplo: “Não se faça engraçado”. Hoje usa-se muito. nos gestos. como inundação. estendem suas águas pelas veigas. É também o contrário de vazante. ou o que emprega chiste ou graça leve. pois. frase pilhérica. no sentido translato: dilúvio de gente. – Folgazão é o que se diverte. com mais ou menos espírito”. os homens”. antes de tudo. também. que parece alagar todo um continente”. do francês plateau. chama-se a isto com propriedade cheia. e inundam os campos e prados vizinhos. faceto. pois ordinariamente é o imbecil que procura ser engraçado: o mesmo não se pode dizer – é até justo que o contrário se diga do gracioso. e por extensão – toda superfície de terreno plano que não chega a ser planura. e também: gênio. modos chistosos. em que pode ser tomada.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 265 muito alta. – Esplanada é “uma arca muito plana em volta ou à frente de algum edifício”. e até gestos. isto é. Nesta frase. dilúvio de misérias. o que provoca riso por meio de gracejos”. como estilo faceto. no entanto. Todos estes vocábulos se aplicam tanto às pessoas como às coisas. Distingue-se ainda cheia de inundação em que aquela só se diz de rios ou ribeiras. Quando as águas alteiam nos rios. O engraçado pode não ter graça nenhuma. e transbordam nalguns sítios que alagam. Tanto se diz – pessoa chistosa. Há rios que enchem e vazam em época certa. . dilúvio de alegrias. por isso. que se eleva gradualmente”. Diz-se – inundação de bárbaros. mais brincando ruidosamente que falando. além da natural. – Dilúvio é “grande inundação. ou – “não faça de engraçado” – não caberia certamente o vocábulo gracioso. enchente. Quando os rios saem da madre. o emprego de enchente por cheia. folgazão. espírito folgazão. – Engraçado é simplesmente “o que tem graça. pelos contos ou façanhas imaginárias que inventa e que inculca. Cheia tem só a significação reta. gracioso. dilúvio. Moço folgazão. que quer parecer espirituoso. crescimento. inundação. e esta. – Entre engraçado e gracioso há grande diferença: este último é o que tem graça fina e delicada de si mesmo. e diverte os outros. e então quando a respeito desses se diz – enchente – não se quer dizer – cheia. não. moço engraçado. porque muito se parecem com as do Nilo. na gentileza da figura. e designam duas coisas que se não devem confundir. 489 CHEIA. este é gentil fazendo graças. isto é. e não se pode dizer – cheia de bárbaros”. subtil e galante. – Gracioso é “o que mostra mais graça nos modos. e esta. não conhecem limites. pilhérico. trocista. são eles contudo distintos quanto à etimologia. É muito comum. Dizemos tanto – criatura faceta. diz-se que há inundação. conto faceto. nem sempre a enchente é cheia. os fatos. pois graciosas só podem ser as pessoas de apurada cheia e inundação diz Roq. – De 490 CHISTOSO. Usa-se. – Faceto é “o que encerra. – Chistoso dizemos do “que nos distrai e faz rir com ditos picantes mas sem malignidade”. dito engraçado. aquele é o que mostra certa graça. – Enchente diz no sentido próprio – abundância. o que sabe dar uma nota fina e original sobre as coisas. ou nos ditos”. fase em que alguma coisa se avoluma: daí a acepção particular de – cheia. moço pilhérico. como – palavras chistosas.: “Posto que no uso comum da língua se confundam estes dois vocábulos. etc. e sem necessidade. espirituoso. engraçado. e. inundação pode dizer-se também do mar. – Espirituoso é “o que tem espírito quando conversa (ou quando escreve). O moço engraçado pode fazer-se ridículo: o gracioso. de depósitos de água. do que mesmo nas palavras. – Pilhérico é “o que faz rir pelas pilhérias.

e mesmo pela discrição dos gracejos. brincadeiras com os outros. Naquela acepção. devemos empregar exclusivamente o verbo incubar. É termo popular (o mesmo que pronóstico. que é termo bem diferente. e indispõe porque irrita. que fala muito. com muitos gestos e acionados. O chocalheiro é leviano e indispõe porque importuna: o chocarreiro é petulante. Não assim o linguarudo. gárrulo. 492 CHOCAR. e torna-se importuno falando a torto e a direito”. muito amáveis. como às vezes se ouve. como fazem os passarinhos e as crianças”. presumindo de tudo entender e falar muito bem”. e formado de prognóstico). é – como se diz em linguagem popular – o que “dá de língua” a propósito de tudo. – Parlador já não é também o indivíduo que só fala muito. por ser amigo de dizer novidades. – Chocalheiro é “o que fala muito e indiscretamente. e finamente galantes.. não guarda reserva em coisa alguma. . 491 CHOCALHEIRO (chocarreiro). pelo ar simpático. ou falar maldizendo. fazendo barulho. pois só se diz chocarreiro daquele que diz chocarrices. pernóstico. parlador. desordem”. isto é. linguarei- ro (linguarudo). – Parlante dirá um pouco menos que parlador. pois este vocábulo não se emprega hoje para designar simplesmente o indivíduo que fala muito.. que divulga quanta coisa lhe disseram. – Pernóstico é “o sujeito pretensioso no falar. que é mais falador que linguareiro.. chalaças grosseiras e próprias de gente baixa. mas sim – “o indivíduo que fala da vida alheia”. – Com o linguarudo pode confundir-se falador. graçolas. mas há de sugerir sempre a ideia de que pelo menos é pouco substancioso o que diz o parlante. Deve dizer-se – incubadora artificial.266 Rocha Pombo educação. que significa “embrulhada. garabulho. que é mais parlapatão do que linguareiro e do que linguarudo. sem atender à causa. e empregamo-la para designar “o sujeito que fala muito embrulhando tudo”. Falando das doenças que se desenvolvem pouco a pouco antes de se declararem abertamente. parlante. deve notar-se que chocar é não só relativo à transformação que se vai operando no ovo. emprega-se a forma falante que não encerra de modo algum a ideia de falar por maldade. confusão. e agitando-se. ares trocistas. Também se diz – gênio trocista. como se vê do próprio artigo transcrito. Garabulho (ou garabulha) é palavra importada do italiano garbuglio. – Gárrulo é “o que fala como se falasse sem pensar. e sempre sobre coisas fúteis. para rir à custa destes”. designando tanto um como o outro uma mesma operação. graçolas. – O linguareiro é o que diz tudo que sabe. O linguarudo fala mais ainda porque tem o vício de intrigar e maldizer que pelo desejo de falar. movendo-se. significando indivíduo que simplesmente fala muito. incubar. nem o indivíduo que fala da vida alheia: designa mais propriamente o sujeito que mais fanfarreia do que fala.” 36 Ou melhor – quase perfeitos. – Trocista é “o sujeito que faz pilhérias. Confunde-se mui comumente chocalheiro com chocarreiro. por ter o vício de não guardar nenhum segredo. e que é o calor que ao ovo comunica a ave que sobre ele se mantém. falante. Mas o linguareiro não tem malícia propriamente: fala por ser leviano. mas também à causa dessa transformação. não – chocadeira artificial. falador. – Incubar refere-se apenas à operação ou transformação. estardalhaço como um chocalho..: “Ainda que estes verbos sejam sinônimos perfeitos36. que nos agradam até pelos gestos. – Sobre estes dois verbos escreve Bruns. isto é.

(Segundo Bruns. luta propriamente do que simples encontro. ou em geral – coisa de que essa pessoa se ressinta”. pois não só indica as lágrimas que provêm de dor e aflição. Jeremias lamentou poeticamente . têm um embate terrível. ge- contraste. Choram também as videiras e os ramos quando se cortam. mas ideias que se embatem. – Lamentar é queixar-se com pranto e mostras de dor. do abalo que pode causar uma frase nossa. senão de simples oposição. caminhando uma para outra. vêm embater contra a costa. um levando o outro de impelida. ou mesmo recuando ambos depois de se encontrarem. que o vento impele. ao avistar-se. conflito. do latim fleo. fazem chorar os olhos. etc. embate. ou verter lágrimas chama-se chorar” – diz Roq. lagrimar. que o prejudique moralmente. Aquele que melindra nem sempre ofende propriamente. encontro. lamentar. ou um deles recuando ao encontrar-se com o outro.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 493 CHOCAR. como se diz no artigo. As ondas alterosas. O embate é violento. fazem contravapor os respetivos maquinistas. com lamentos – e talvez soluços. – Quando às lágrimas se juntam vozes queixosas. ou mesmo um ato que se ponha em contraste com os sentimentos da pessoa a quem nos dirigimos. na palavra choque apenas a de encontro (que não é senão o fato ou o ato de chegar uma coisa diante de outra)37. pois que melindrar supõe. não se entende que sejam ideias apenas contrárias ou opostas. pois esta palavra dá ideia do abalo que o encontro produz. Na palavra embate predomina a ideia de violência e de impetuosidade. É termo genérico. mer. porque neste derramam-se lágrimas com lamentos e soluços. – Melindrar é “ofender os melindres de alguém. 494 CHOQUE. dizemos que tiveram choque. dá-se entre as máquinas um choque mais ou menos violento. como as que por alguma circunstância se destilam das glândulas lacrimais. ou diante da qual falamos ou agimos”. elevam-se a grande altura. melindrar. os ácidos. – Ofender é aqui tomado na acepção especial de “fazer a alguém coisa que o moleste. quer dizer o que esse alguém possui de mais delicado e sensível na sua natureza moral”. – do castelhano llorar. Ideias em conflito. se caminhavam devagar não terão mais que encontro. desfazem-se em espuma. soluçar. que lhe é característica.) – Conflito é mais embate. carpir. O pranto é mais forte e intenso que o choro. Pode haver encontro sem haver choque. ou mesmo do que choque. – “Ao derramar. Chora-se de alegria não menos que de tristeza. O fumo. por exemplo. De duas pessoas que caminhem apressadamente e que esbarrem uma com a outra ao dobrar de uma esquina. que o magoe. – Contraste é a oposição que existe entre duas coisas: não inclui ideia de choque. mas não de terríveis efeitos. e também exprime canto lúgubre em que se chora alguma grande calamidade. – O verbo 267 chocar sugere a ideia. nem de luta. na maioria dos casos. O navio que embate (ou bate) contra um rochedo abre-se e afunda: o mal não seria tão grande se tivesse havido somente choque. prantear. pranteia-se. 495 CHORAR. da “impressão rude que produz uma ofensa. ofender. nem mesmo de encontro. que é excessiva a suscetibilidade de quem se julga melindrado. se. e 37 Por isso mesmo é que é preciso admitir que choque não é simplesmente encontro. o choque pode ser ou não violento. – São os dois primeiros vocábulos deste grupo os substantivos com que se designa o encontro mais ou menos violento de dois corpos que se embatem. Duas locomotivas lançadas a todo vapor em uma mesma via.

Refere-se. gemendo e pranteando”. traduzir este lagrimare pelo nosso chorar não seria menos do que diminuir deploravelmente aquela grande figura. de que o nosso poeta fez mui frequente uso. fortaleza. III. ch’io [rodo. exprimir aflição. e para exprimir esta ação de profunda dor. Chorou-te toda a terra que pisaste. cidade fortificada. – Segundo Bruns. mas fortaleza nunca se deve dizer de uma fortificação pequena. e a esta espécie de poema elegíaco se deu com razão o nome de lamentações. X. mas também oferecer grandes meios de defesa. Os semeados campos alagaram Com lagrimas correndo piedosas. na acepção em que é preciso tomá-lo neste grupo. usavam do verbo carpir. – Soluçar é “prantear e gemer com aflição. praça. ou pelo menos desgrenhar os cabelos. XXXIII. Do uso de carpir-se sobre os defuntos se faz menção na Crônica de d. é de uma força e intensidade que o tornam indispensável na língua. o qual. e a que se chamava carpideiras. Mais te choram as almas que vestindo Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. Se o inimigo se apoderar da cidade. o Gange e o Indo. veio a significar quase o mesmo que lamentar. este vocábulo especialmente às ações que demonstram dor e mágoa. 496 CIDADELA. O forte pequeno é um fortim. De todas estas palavras. É condição da cidadela. forte (fortim). – Lagrimar é “verter lágrimas”. – Forte e fortaleza confundem-se muito frequentemente. e acompanhar os enterros. (Inf. (Ibid. para significar “verter lágrimas como por efeito de imensa dor. den seme. Os grandes prantos são sempre acompanhados de gemidos. e carpir-