Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva

E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Academ i a Bras i l ei r a de Letra s

Dicionário de Sinônimos da L í n g ua Po rt u g u e s a

Ac a d e m i a B r a s i l e i r a d e L et r a s

Rocha Pombo

Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva
E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa
2.a Edição

Rio de Janeiro 2011

C O L E Ç Ã O A N T Ô N I O D E M O R A I S S I LV A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS Diretoria de 2011 Presidente: Marcos Vinicios Vilaça Secretária-Geral: Ana Maria Machado Primeiro-Secretário: Domício Proença Filho Segundo-Secretário: Murilo Melo Filho Tesoureiro: Geraldo Holanda Cavalcanti C O M I S S Ã O D E L E X I C O G R A F I A DA A B L Eduardo Portella Evanildo Bechara Alfredo Bosi Preparação Ana Laura Mello Berner Revisão Vania Maria da Cunha Martins Santos Denise Teixeira Viana Paulo Teixeira Pinto Filho João Luiz Lisboa Pacheco Sandra Pássaro Produção editorial Monique Mendes Editoração eletrônica Estúdio Castellani Projeto gráfico Victor Burton

Catalogação na fonte: Biblioteca da Academia Brasileira de Letras P784 Pombo, Rocha, 1857-1933. Dicionário de sinônimos da língua portuguesa / Rocha Pombo ; [apresentação, Evanildo Bechara]. – 2. ed. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2011. 526 p. ; 23 cm. – (Coleção Antônio de Morais Silva ; v. 10) ISBN 978-85-7440-184-3 1. Língua portuguesa. I. Bechara, Evanildo, 1928-. II. Título. III. Série. CDD 469

Apresentação
E va ni l d o Becha r a

A

trajetória cultural de Rocha Pombo é o fiel espelho de um permanente bravo lutador que, vencendo as precariedades do torrão natal, galga honroso lugar no quadro dos intelectuais brasileiros. De nome completo José Francisco da Rocha Pombo, nasceu o autor deste Dicionário de Sinônimos em Morretes, na província do Paraná, em 4 de dezembro de 1857, com evidentes dotes literários, que cedo se manifestaram; mas foi para a carreira política que encaminhou seus primeiros passos, alcançando, aos vintes anos, lugar de destaque na Assembleia Provincial. Entretanto, se viu impotente para inverter suas posições diante das poderosas tramas parlamentares de uma política quase sempre afastada do interesse público. Salvou-o a alegria de ver publicado nesse mesmo ano seu primeiro estudo sobre instrução pública, na revista fluminense A escola, com transcrição na Revista del Plata, de Buenos Aires. Encontrara na atividade cultural o campo em que se iria destacar, mas um campo que pouco lhe dava para garantir com dignidade seu sustento e da sua família. Os obstáculos não o tiraram da trilha iniciada; em Curitiba, viu em 1888 publicado seu romance A honra do barão; em 1882, Dadá, a boa filha e, em 1888, Petrucelo. Também não lhe faltava o estro para o poemeto Guaíra, saído em 1886. Desiludido com os parcos recursos que seu torrão natal lhe oferecia, deixou Curitiba em 1897, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde poderia ter mais recompensada sua maturidade intelectual. Realmente na Capital, apesar de não diminuídas suas horas de trabalho intenso, encontrou ambiente mais propício às produções que vieram inúmeras. Os livros didáticos na área da História representam sua maior atividade, como Nossa Pátria, para crianças, que chegou a alcançar mais de sessenta edições. Sua História do Brasil, em dez volumes, acabada em 1917, consumiu-lhe doze anos de trabalho. As muitas horas de trabalho não lhe permitiam, para a confecção de seus estudos, a pesquisa atenta, a consulta aos arquivos para a composição das obras históricas. Mas o zelo e a honestidade profissional o faziam abastecer-se nas fontes mais autorizadas, e delas extrair o material que aproveitava. Um trabalhador operoso na mesma área de historiografia, Ro-

VIII

Rocha Pombo

dolfo Garcia, que, em 1935, sucedeu a Rocha Pombo na Cadeira 39 da ABL, assim a ele se referiu, no discurso de posse: “Rocha Pombo fez o que foi possível fazer (...). Entretanto, não há como desconhecer o extraordinário mérito da obra de Rocha Pombo, sua utilidade provada, os serviços prestados aos estudantes, que o estimam sobre todas as congêneres.” Seus pendores literários desde cedo aflorados nas tentativas de ficção acima lembrados, iriam estimulá-lo a compor uma obra sobre língua portuguesa. Autor de compêndios didáticos, cedo deve ter chegado à conclusão de que à bibliografia escolar, bem como ao escritor novel, faltava um bom, desenvolvido e atualizado dicionário de sinônimos, uma vez que, à época, o mercado só contava com produções portuguesas mais antigas, todas datadas do século XIX. Armou-se dessas fontes, algumas vezes transcrevendo-as literalmente, e das mais importantes francesas e espanholas no assunto, e partiu para elaboração deste seu, preocupando-se com mais extensão dos verbetes, e mostrando, quase sempre com muita propriedade, as diferentes franjas semânticas das palavras que integram a série sinonímica, evidenciando que não são, por isso, intercambiáveis. Saído em 1914 pela prestimosa Francisco Alves, vem agora esta 2.a edição editada pela sua Academia, para a qual fora eleito em março de 1933, embora nela não tivesse tomado posse por motivo de seu repentino falecimento, em junho do mesmo ano. Passado quase um século do aparecimento deste Dicionário de Sinônimos, de Rocha Pombo, pode ainda embrear-se com os melhores saídos em nossos dias.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa

ADVERTÊNCIA

Autorizo os Srs. Francisco Alves & Cia., cedendo à condição que me impuseram, a adotar na impressão deste trabalho a grafia que lhes convier. Rio, 1914
ROCHA POMBO

A distinção entre as duas formas revela-se muito clara nestas frases: “convidou-me a jantar”. portanto. “encaminhar-se”. “trouxe uma flor para a menina”. está ela hoje. No primeiro caso. e nunca mais houve novas dele. propriamente a ideia de regresso. nesta acepção. no entanto. Entende Lacerda que “ainda os mais corretos escritores usam indistintamente das preposições a e para” quando querem exprimir relação de locativo. além disso. imediata”. Com 3 toda razão diz Aulete que a preposição a é de todas a mais vaga. São raras as relações lógicas que se não possam marcar pela preposição a: “andamos a cavalo”. “ação. no segundo caso. e há entre elas uma diferença análoga à que se lhes nota nos casos em que marcam relação de locativo. A e para. – Restringiremos. ia muitas vezes a Mafra. e – “virei para o Rio em junho”. as preposições a e para. pois. – Confundem-se muito frequentemente. estava eu à vista da mesa servida. o que. ou “pronto para ouvi-lo”. como acrescenta Roquete. “matamos a tiro”. quando residia em Queluz. Essa diferença fica bem clara nestas frases: “dei um livro a meu filho”. marcam ainda relação de dativo. “levar”. “morre à míngua”. “pescamos à linha”. como a prep. para. “dá a entender intenção de grande” (ou pelo menos de alguma) “demora. 2 A. ou “vir a alguma parte” “indica a ideia de pouca demora”. – As duas preposições empregam-se.. – Estas preposições ex- primem relação de fim para que. as nossas notas às duas acepções em que parece melhor fixado o valor da preposição a comparativamente com os seus sinônimos. tomaste por devoção vir os sábados à Penha de França”. O próprio Roquete escreve: “serve (ou servem) a formar”. ou o propósito de ir ou vir e voltar logo.. “trazer”. e a tal ponto que. “lançou à terra”. “bateram-se à espada”. “Ir para algures”. “dirigir-se”. “vir”. “Foi para Viena como secretário de embaixada”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 1 A. João VI. Não nos parece que seja assim. e – “vou para Lisboa”. no entender de Roq. vinha com frequência a Lisboa. para (exprimindo relação locativa). “fugiram a toda pressa”. Ninguém dirá que têm o mesmo valor estas expressões: – “Vou a Lisboa”. “pronto a ouvi-lo”. e alguns outros que designam movimento. e “convidou-me para jantar”. ou “apto para dirigir”.. “Ir a”. ou o anfitrião ia para a mesa. no verão ia para o Alfeite. Este exemplo de Roquete expõe nitidamente a diferença entre as duas preposições: “ElRei d.. etc. a fim. a fim de que nos tornemos capazes de servir a pátria”. o fim (ou o desejo) com que se executa a ação”. E ainda este de Vieira: “Porque o pai fez uma viagem para as conquistas. “comemos a enjoar”. não exclui. a fim marca intuito menos imediato e mais preciso. e emprega-se “quando se supõe somente possibilidade ou probabilidade de lograr o que se intenta”. Há entre “convidar para” e . segundo observa Lafaye. Exemplos: “Ele se esforça por instruir-nos. por “explica mais diretamente a intenção. nem sempre. – Como preposições de fim para que. e às vezes para sempre”. com os verbos “ir”. por. segundo Bruns. quase inteiramente despojada do seu valor de origem. “virei ao Rio em junho”. ou “o objeto imediato da ação”. no tempo das caçadas ia para Salvaterra ou Vila Viçosa: e quando os franceses vieram a Portugal. em vez de “para formar”. “vem a galope”. assinalam: para. pelo menos entre aqueles que se mostram mais fiéis ao espírito da língua. e convidou-me a jantar. foi para o Brazil”. e convidou-me para jantar com ele domingo. de. encontrou-me ele pela manhã. ou longa estada. Dizem muitos indiferentemente: “apto a dirigir”. para que sejamos cidadãos dignos.

ou de um lugar. mais fácil de subir. – Imediações são partes da cidade. e neste caso. pois pode ser tão íngreme que se torne de difícil ou mesmo impossível ascensão.) exprime que o objeto de que se trata não tem serventia alguma. “O meu rebenque – diz o major – não serve para nada. – Todas estas palavras designam situações em torno de um ponto. 3 ABA. o seu alvitre de nada me serve. Bairros são secções de uma cidade. sopé. arredores. aclive. – Sopé e orla designam a parte do monte que assenta no plano horizontal ocupado por ele: sopé é a porção do dito plano onde a montanha começa. assim como comarcas são divisões mais extensas que distritos. imediações. com esta diferença: a ladeira (lado suave de colina ou monte) é menos áspera. proximidades são pontos das cercanias. de um monte. adjacências. e vertente adita à significação de encosta a ideia de origem de rio. “não serve para nada”. en- rindo uma ideia de amplitude. orla é mais o recorte da aba. ser considerada como sinônimo da preposição para: é de. e por sugerir alguma coisa de fecundidade. à ideia de extremidade e inclinação.4 Rocha Pombo “convidar a” a mesma diferença que explica Lafaye entre “prier à diner” e “prier de diner”. pois que não resolve o embaraço em que me vejo”. como as fraldas de uma camisa. – Declive (ou declívio) é a inclinação da encosta. redondeza. em certos casos. subúrbios. cerca- costa. base. Base é toda a porção do plano horizontal que o monte abrange. mas suge- nias. Esta última locução (que é mais geral – diz Laf. vizinhanças e circunvizinhanças são os lugares que se seguem às imediações. que marcam. 4 ABAS. – Lado. cercanias são as paragens em torno de um lugar. – Todas estas palavras designam “refegos. do alto do monte para baixo. mas considerada de baixo para cima. de um chapéu.. circunvizinhanças. confins. vertente. declive. contiguidades. o sentido de forma irregular. bairros.. comarcas. ilharga. diferençando-se a segunda da primeira pela noção acessória de contorno (e ambas dando ideia de convivência). – Arrabaldes designa a . distritos. parte pendente de alguma coisa”. ou lados designam apenas as partes opostas da montanha (ou de qualquer corpo) sem ideia alguma acessória. que lhe ficam imediatamente em volta. “valer”: “não serve de nada”. de maior ou menor afastamento desse ponto. rampa. lado. a primeira nega que ele sirva no momento. – Distritos são secções maiores que compreendem vários bairros. – Aba é a parte mais baixa e prolongada de um cone. arrabaldes. falda (ou fralda) é também (na acepção em que a tomamos aqui) a parte inferior do monte: difere de aba porque acrescenta. de “vertidura de águas pluviais”. com alguns verbos como “servir”. e aclive é também essa inclinação. e o primeiro termo ainda se distingue do segundo por ser mais expressivo e mais belo. ladeira. etc. e mais afastadas que as circunvizinhanças. e sugerem ideia de altitude. falda. meu amigo. Dizemos: “a ladeira da Glória”. – Flanco e ilharga designam também os lados do monte. enquanto que a rampa nem sempre é acessível. ou de uma povoação. orla. – Rampa e ladeira exprimem igualmente plano inclinado. “a rampa do Pão de Açúcar”. ou de um município. ou de superfície dobrada. contornos. flanco. e distinguem-se principalmente pela ideia. inclinação. proximidades. ou da parte onde a montanha começa a destacar-se do plano sobre que assenta. – Há ainda em português outra preposição que deve. para um fim que se tinha em vista presentemente. lados. – Encosta é toda a parte inclinada de um monte.

. impedir que se manifeste. – Diremos com propriedade: “o bairro de Botafogo”. tudo que fica dentro dos limites do círculo visual de que se supõe centro à cidade. submeter. que se mova. “aqueles jardins e pomares já eram adjacências e quase contiguidades de Jerusalém”. de um embaraço. nem luta material. “quando anoiteceu estávamos já nas proximidades da fazenda”. “o Méier. jugular é reprimir. – Abafa-se uma conspiração antes que venha para a rua: abafa-se o pranto para que ninguém o veja. “mudou-se mais para as imediações do centro urbano”. suplantar (etimologicamente “meter debaixo dos pés”) é vencer com orgulho. – Redondeza ou redondezas. que vingue. dá ideia da inferioridade moral do que é domado. ou para além do circuito urbano. até com força e violência. jugular. sufocar.). o mais aprazível dos nossos subúrbios”. – Abas são “os pontos extremos de uma povoação. “cortar a cabeça”). – Sufoca-se uma rebelião no seu começo. não deixar que apareça ou que se desenvolva. domar. sobrepujar é superar depois de esforço e luta. sofrear. Elys. porém.). sofrear é conter com prudência e cuidado. “tem casa nas vizinhanças da praça ou do bairro”. ou tendo poucas habitações. contidos. (Herc. que cresça. reprime-se a custo uma explosão de raiva ou de furor. ou o poder de”. ou vencer em luta. vencer. “nas vastas comarcas daquela província há distritos riquíssimos em minerais”. como senhor.. sujeitar. – Reprimem-se movimentos subversivos da ordem pública. superar. conter é moderar. “acudiram-lhes alguns dos nossos. – Abafar é impedir que respire. “O homem que vê o que eu vi e abafa no peito o grito da indignação”. pôr sob a autoridade. sujeitar é reduzir à obediência. vencer é sair vitorioso de um combate. “a epidemia alastrou-se pela redondeza do nosso acampamento. subjugar pela força bruta.. – Contornos designa a totalidade dos arredores (de uma cidade ou de um lugar).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 5 porção de uma vila ou cidade que lhe fica fora dos muros. debelar é reprimir à custa de guerra. debelar. “em todo o contorno da vila não se encontrou um morador pobre”. submeter é “reduzir à dependência. as porções habitadas que se seguem às abas. é “matar por asfixia”. “a Tijuca é um dos mais belos arrabaldes do Rio”. sufocar é impedir de viver privando da respiração.). domar é submeter. (Fil. sobrelevar é “pôr-se acima de”. não se pode conter as lágrimas diante de um infortúnio. “não gosta de ponto algum das circunvizinhanças do Castelo”. suplantar. e confins são os limites em relação aos de outro. é preciso que se contenha o instinto das multidões. arredores são arrabaldes mais distantes. sendo o segundo termo mais vago. reprimir. e chegou até os confins do país inimigo”. 5 ABAFAR. reprimir é conter com mais energia e decisão. vencer com escarmento. – “Debelaram afinal as nossas forças aquele que foi o mais grave levante dos últimos tempos”.. e quase sempre não povoados. humilhando o vencido. que opere. superar é vencer e ficar superior a alguém ou alguma coisa. ou um ponto dado. dominar é submeter com império. de um transe. “morar em Pedrouços é morar nas abas de Lisboa” (Bruns. a império. tome forças. contiguidades e adjacências. sobrelevar. refrear é conter com esforço e trabalho. como estrangulando (do latim jugulare “degolar”. dentro do seu perímetro”. subjugar. – Por subúrbios entende-se toda parte habitada que fica sob a jurisdição da cidade. subjugar é submeter a jugo. – Contém-se um ímpeto de cólera. “nas cercanias de Olinda lutou-se toda a tarde”. que reprimiram os inimigos”. conter. Cruz há algumas fazendas”. sem grande esforço.. dominar. “nos arredores de S. sobrepujar. refrear. e mesmo tratando-se de homens.

Dizemos tapar o menino no berço. – Abrigar quer dizer “amparar contra o mau tempo. abafar significa “tolher a respiração. resguardar. meu amigo.. – “Abrigaram-se em nossa casa contra a tormenta”. ou que se torne pública a culpa de alguém”. meu filho. tapar.. – “É preciso cobrir bem o menino. agasalhar. “Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio” (Herc).. nem o gênio é capaz de suplantar a altivez de uma consciência”. abafa-se a conder. acoitar. com cuidado”. – Resguardar é também amparar “contra o tempo ou contra alguma coisa. ocultar. sobrepujou afinal todas as traições. – Ocultar é “não dar testemunho do que se viu. os bárbaros. ou impedir que pela evaporação esfrie um corpo.6 Rocha Pom bo “os Jesuítas tiveram aqui a grande missão de andar debelando paixões e barbarias”. que andava a superar as misérias daquele meio.. “Ninguém se deve expor às friagens de junho se não bem agasalhado”. Como diz Bruns. e hoje é incontestavelmente a figura que sobreleva todas as outras ali”. abafam-se as chamas para que se não propaguem. – “é um termo genérico. por meio de roupas ou cobertas”. encobrir. tapar a cara com as mãos. – Encobrir é “evitar que se veja ou se conheça algum intento. as culpas dos filhos”. – “O senhor não conseguirá suplantar-nos com todo o seu poder”. sonegar. abrigar. é “abafar com precipitação e energia”. – O pai sujeita os filhos. reter. – “Em poucos dias o general submeteu toda a província”. “Conviria que cobrisse a cabeça com a manta”. – Tapar – diz Bruns. “abafemos o triste incidente para que ninguém mais o explore”. ou que se agite. – “Aquele homem dominou os outros tão completamente que ninguém mais pôde protestar”. mas evitando-lhe a ação. – Atabafar. es- brir. “. – “A autoridade venceu naquele conflito desigual”.. – “Subjugamos as tribos menos dispostas ao trato dos estrangeiros”. a formação da culpa”. confinando ambiente respirável de modo a provocar suor ou calor artificial. co- comida para que não esfrie. – “Resguarde-se do mal. – Abafa-se o doente para facilitar-lhe a transpiração. “cumpre que cada um de nós vença por sua parte os embaraços que sobrevierem”. para atravessar a praça”... – Abafar aqui significa “não deixar seguir os trâmites usuais”. – “Ele..” 7 ABAFAR. “. ou ainda “furtar alguma coisa à vista de outrem. – “Agasalhe-se bem.. acobertar. 6 ABAFAR. “à vista do vendaval iminente fomos abrigar-nos na enseada dos Reis”. atabafar. por fraqueza que se explica.. de significação vaga quando se emprega fora do sentido reto de cobrir. e evitar que se descubra”. expanda ou desordene alguma coisa”. mas defendendo-se. fugindo ou fazendo dele fugir para um abrigo”. tapar o doente. segundo Bruns. – Agasalhar é ainda “defender-se contra o tempo. como neste exemplo: “Chegou a abrir-se a sessão. mas os espertos atabafaram tudo antes que nós chegássemos”. pois – que eu saiba – não tem cura quando sobrevém na sua idade”. “Encobrem algumas mais. ou não fazer conhecida uma coisa que nos interessa a nós ou a alguém. “encobre-se a falta alheia tornando-nos até certo ponto cúmplice do delinquente”. com a sua habilidade e energia dominou a revolta”. como em: “abafou o processo. – “O homem que não refreia os seus apetites é incapaz de refrear os seus ódios”. – Neste grupo..” Oculta-se uma verdade para não comprometer inutilmente a honra . ou em redor”. receptar. diante.. o tutor os tutelados. – Cobrir é “ocultar ou resguardar pondo alguma coisa em cima. os sicários. – “Com aquele golpe certeiro conseguiu jugular a sedição”. – Domam-se as feras. e não só fugindo.. subtrair.

homizio”: é. lameiro. atoleiro. ou “grande lameiro” . “Aquela casa. é “o estado do lugar não arejado. chafurdei- ro. coberto de vegetação”. (Mont’Alv. asilo. etc. É usado quase exclusivamente nesta acepção. atascadeiro. – Atascadeiro ou (atasqueiro) diz o mesmo que atoleiro. com a diferença de que atascadeiro é mais profundo. onde se chafurdam animais. terra onde há lama. enxurdeiro. – Pantanal é aumentativo de pântano. “O desgraçado escondeu tão mal o furto. (Aul. lamaçal.. É quase encobrir. – Esconder é ocultar com mais cuidado e interesse. de chavascal”.. “O caboclo mete a cabeça no brejo e desaparece”. – Subtrair significa “tirar com astúcia ou fraude. e se estagna e abafa. brejo. onde a água se acumula.. pantanal. guardar. “aquele moço fugiu para subtrair-se ao serviço militar”. – Enxurdeiro (ou enxurdeira) é lodaçal revolvido. lameirão. pântano. lodaçal. segundo Bruns. mas não se acoberta um defeito físico: acoberta-se por piedade um foragido. ou em depressões de terreno”. “Para libertá-los do infortúnio e subtraí-los à vingança”. mercadorias sobre que se tinha de pagar imposto. charco. – Brejo. esconder o furto ou roubo que outrem fez”. banhado.). “A nuvem encobre o sol”. lagoeiro. ou a si próprio. – Acoitar é “dar coito. chafurda. embora menos que no lamaçal. que parecia nem ter intenção de ocultá-lo”. – Tremedal é lamaçal vasto e profundo. “terra encharcada devido a aluviões”. é “terreno balofo. 8 ABAFEIRA. – Reter é “conservar indevidamente em seu poder o que lhe não pertence”. lameiro extenso. – Lameiral está nas mesmas condições: e indica série de lameiros. e que é vestido de vegetação rasteira. “. “O advogado subtraiu uma folha dos autos”. lodeiro. – Banhado é “quase charco..). – Todos estes vocábulos sugerem ideia de água suja e estagnada. furtar alguma coisa ou alguém ardilosamente às vistas. sendo este verbo apenas de sentido mais vago e geral. disfarçando-se para não ser visto ou descoberto”.” “O porão onde mora é uma horrível abafeira”. e quase que só se emprega em sentido figurado. – Acobertar é “proteger um culpado. mas não tanto e tão extenso como no lodaçal..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 7 de alguém. mas sem a intenção de encobrir-lhe o crime. No Brasil é “terreno úmido. – Lodeiro (ou lodeira) é lugar “onde há muito lodo”. permanece. ou aquela cidade é o atascadeiro dos moços”.. – Receptar é “receber. distinguindo-se deste em ser terreno baixo que apenas os enxurros banham acidentalmente. como os chiqueiros.. segundo Bruns. de água lodacenta.. Só se acoita a um criminoso ou indivíduo que tal se julga. sem vegetação espontânea”. Sonegam-se bens a inventário. “ocultar contra a lei”... – Lagoeiro é termo popular. não “acoberta o sol”. pantanoso. – Charco é “terreno alagadiço.mas eu não sou homem que oculte a baixeza da minha esfera” (Garrett). – Lameiro (ou lameira) é “terra baixa e pantanosa”. mas em caso algum se esconderá para que não suponham que se quer subtrair à ação da justiça”. – Lamaçal é pântano mais extenso. “os facínoras subtraíram-se às diligências da polícia”. – Abafeira. inculto. – Lodaçal é alagoa de lodo. – Lameirão (ou lamarão) é palavra de uso vulgar: aumentativo de lameiro. paul. Encobre-se. de aparecer. Diremos: ele se ocultou em casa (deixou de sair. lenteiro. – Paul é “alagoa formada por enchente”. portanto. de vasa. – Sonegar é termo forense e indica propriamente “esconder e negar sob juramento”. – Pântano é “lugar coberto de camada de lama pouco profunda”. terreno flácido e lodoso. e designa “porção de águas de chuva (ou de despejo) que fica temporariamente depositada em sítios baixos. lameiral. à ação ou poder de alguém”. tremedal..” É termo brasileiro..

10 ABAIXAR. abater. infamar.. só quem cansa a arria. – Todos estes verbos exprimem intuito. no entanto. Abate-se o orgulho de alguém. abater. pegajoso. “Tenta- . ou “abaixa”. é rebaixar afrontando. isto é. na rua. 9 ABAIXAR. a virtude nos levanta” (Leitão de Andrade). É indigno de um homem abater a inocência. de mais longa enunciação que baixar. Excluindo a ideia acessória de alívio. ou lentar) é terreno úmido. – Arriar é que é. nesses exemplos: não é tangível a impropriedade das frases? – “Dizemos ainda: baixou o câmbio”. e significa.: “Não se taxe de nimiedade o estabelecer sinonímia entre estes dois vocábulos. rebaixar. por que diremos abaixar. degradar. macular. desprezível”.). – Descer é correlativo de “subir”. mas não se arria a bandeira senão quando se a retira da haste. ou chafurdeira (esta forma é extensão daquela) são lamaçais onde chafurdam porcos. equivalente quase perfeito de abaixar. É também baixar: “não desce. e verás a teus pés o que andas procurando”. depreciar. descer. e além disso dá mais completa a ideia de abaixar. Dizemos: “abaixaram comovidos o pavilhão sagrado”: e não “baixaram”. como arriar principalmente. levando um objeto frágil à cabeça. Arria-se a carga se é pesada. – Rebaixar é “abater infamando”. – Lenteiro (como diz a forma de que se derivou – lento. neste sentido. Basta. “ele baixou até o crime”. deslustrar.” “Ele abateu a espada diante do general”.8 Rocha Pom bo (C. baixar. A propósito escreve Bruns. “Os vícios nos abaixam. e chafurdeiro.. apenas a saudamos com um aceno de cabeça? Não gritaremos. desonrar. – Abaixar é. de humilhação. deprimir. abjeto. preposição que mais parece um a eufônico do que partícula significativa. Que diremos a quem. ou não baixa a dar satisfações a ninguém”. o verdadeiro sinônimo de arriar. aviltar. Fig. – Abaixar significa “descer do conceito em que se era tido”. desacreditar. é ainda conexo de arriar. “baixa da própria dignidade”: e não “abaixou”. descer. – Chafurda.”? Se não há sinonímia entre os dois verbos. desdoirar. molhado. – Abater acrescenta à ação de abaixar a ideia de força ou violência. arriar. no primeiro caso: – “Abaixa a cabeça!”? E não diremos no segundo: – “Baixei a cabeça. envilecer. que se examinem algumas formas para se ver que não é assim. difamar. e figuradamente – casas imundas. que à primeira vista só parecem diferir na preposição que prefixa o primeiro. manchar. portanto. envergonhar. precisamente quando a advertência exige brevidade? Não é: – “Baixa os olhos!” que dizemos a quem queremos humilhar? Não é: – “Abaixa a mão!” que diz aquele que se vê ameaçado por alguém? E não obstante também se diz: – “Abaixa os olhos. Abaixa-se a bandeira a meio pau (desce-se do alto para o meio da haste). “Como é que ele se rebaixa até aquele papel ignominioso?” “O chefe o tem rebaixado ao ponto de convertê-lo em besta miserável”. abater. ou ação dirigida a diminuir os créditos de alguém. abaixa-se a cortina por causa do sol. humilhar. fazer que uma coisa desça do lugar em que está até um certo outro lugar. Não se desce sem haver subido. com esta diferença: pode exprimir também (arriar) a ideia de alívio. – Abater é “abaixar humilhando”. – Aviltar é “fazer vil. Tratemos de substituir baixar por abaixar e vice-versa. desabonar. ao encontrar a F. vai passar por uma porta mais baixa que a parte superior do objeto? Como diremos que. se é indiferente empregar um ou outro. – Abaixar e baixar parecem ser a mesma palavra e com perfeita identidade de significação. Quem chega desce a carga. “Os inimigos abateram as armas. Raciocinemos (no entanto) um momento.

“Uma fraqueza desabona. “Com aqueles destemperos só envergonham a família”. empanar o luzimento”. o direito de parecer digno). no sentido com que entra neste grupo. mas não o destrói. (Camil). e desabonar é “diminuir o crédito e o bom nome”. atrever-se. descer de posto. por mais subtil que esta seja. “A mínima suspeita macula aquela inocência”. só se deslustra quem é ilustre. – Deslustrar e desdoirar. Pode-se definir precisamente: infamar “marcar de infâmia”. É preciso distinguir infamar de difamar. afoitar-se. apresentam diferença equivalente à que.. o mérito. “Ele se desacredita pelos próprios atos”. no entanto. enfraquece. “Esta torpeza mancha toda uma vida”. no entanto. muito mais expressivo e mais forte. a boa reputação da vítima. ofender o pundonor. “marcam uma ação que ataca.. “Meu pai não sente vergonha de deslustrar seu sangue”. – Desonrar é “tirar a honra”. marcam os respetivos radicais. Propriamente falando. Exemplos: “A conduta daquele homem desonra a toda a família”. atirar-se.. arrojar-se. mas não dá ideia de força. Depreciar significa “diminuir o preço. ou rebaixa. do mesmo modo. tornar abjeto “por abaixamento”. – Envergonhar é “molestar alguém confundindo-lhe o pudor”. Exemplo: “Tentam. Uma pessoa depreciada ou deprimida não está mais na estima em que esteve”. como só se desdoira quem brilha no mundo. no seu ódio sacrílego de brutos. (Cast. – Envilecer é também fazer vil.). “Este crime envergonha a toda a geração”. – Entre desabonar e desacreditar convém. Crisóstomo para deprimir S. o valor”. castigar envergonhando”. Diríamos: as más ações envilecem (quer dizer: fazem que se perca a estima. é privar da fama.). não humilhe os vencidos”. “O intento daquele monstro é ainda infamar a memória do tio”. na acepção natural. mas só as más ações desacreditam” (Bruns. o sinônimo mais próximo de rebaixar: significa “fazer decair do conceito. como desacreditar é “destruir o crédito”. macula) e significam “marear um nome.” (Boss. difamar-nos. Deprimir – acrescenta – inclui “intenção de destruir no conceito com grande desejo de prejudicar”. “naquele alcouce os mais nobres se aviltam”. desmerecer na estima. não a classe ou a dignidade (como acontece com o verbo degradar) mas o valor. pois. aventurar- . assinalar diferença. é. arriscar-se. Macular é talvez mais fino e mais nobre: manchar é. difamar “tirar a fama”. E cita como exemplo: “Este escritor afeta elevar S. Agostinho. “Estas leves travessuras não depreciam um moço”. “Glória alguma do mundo poderá induzi-lo a humilhar os pequenos”. 11 ABALANÇAR-SE. – Humilhar é “oprimir. quem goza de alta posição. no sentido figurado. Bastanos o que diz Bruns.) “Quem é aquele pobre-diabo de rodapés para desdoirar Camões?” – De deslustrar e desdoirar aproxima-se desluzir. “Desluzia as gerações dos inimigos com a injustiça da sua malquerença”. – Degradar é “fazer baixar de grau. ou o apreço. como infamar é “privar da fama”. mas este significa mais – “perder ou tirar o brilho. como diz Laf.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 9 ram aviltar-nos perante a nação”. ou tentar destruir a fama dizendo da vítima e espalhando coisas que podem ser até aleivosas”. e. – Macular e manchar são formas do mesmo termo latino (macular. quem desacredita arruína o crédito. difamar. e apresentam de comum a ideia de obrigar a descer da posição ou do conceito em que alguém estava. “Não se compreende como aquele moço chegou a praticar atos que degradam”. no entanto. – Deprimir e depreciar.: “Tem muito maior alcance a ação de desacreditar que a de desabonar”: quem desabona diminui o apreço. ou tem glória. só eles vivem praticando atos que infamam”. e infamar é “ofender a honra. o crédito de alguém. de hierarquia”. de intuito afrontoso. deslustrá-lo infligindo-lhe alguma pecha infamante”. Significam ambos “privar da fama”. “General. a fama de alguém com estigma infamante”.

atirar-se é “lançar-se sem ímpeto. sumir-se. – Abalançar-se quer dizer “não hesitar.). – “O bombeiro arrojou-se ao furor do incêndio. e discutir justiça?” – “Afinal animou-se a pobre viúva a ir a palácio. pôr-se a caminho”. e tanto pode ter sentido favorável como desfavorável”: significa “atrever-se confiante e seguro. portanto. retirar-se. e só com o fim de não continuar presente num lugar”. etc. voltará por S. animar-se. de partir e de sair. ousar é. mas decisivamente”. e trouxe nos braços o menino desfalecido”. é “empreender um lance de resultado incerto”. “Ousa o bandido falar em lei. azulou dali quando nos viu de longe”. diferindo deste porque não dá. arrojar-se é “precipitar-se. Também do grupo abala o estudante assim que ouve falar em bomba. como se se sumisse no espaço. se abalançou a publicar o artigo?” – “O homem afoitou-se a atravessar o escuro. fugir. mais a ideia de deixar um certo lugar” que de “ir para outro”. animar-se quer dizer “ter alma. arriscar-se é “expor-se a um risco. coragem. ousar. “Depois da meia-noite desapareceram as crianças”.. afoitar-se é “não hesitar sem refletir muito no perigo. – “Pois há quem ouse ir a comícios neste país arriscando a própria vida?”.) significa “sair precipitadamente e às ocultas. azular. “o mais genérico de todos estes sinônimos. aventurar-se é “expor-se a boa ou má sorte”.” – Azular é brasileirismo bem moderno. desapareceu da rua do Ouvidor”. – Partir quer dizer – “começar marcha ou viagem. partir. “desviar-se precipitadamente de alguém ou de alguma coisa para evitar incômodo. “O exército fugiu perseguido pela cavalaria inimiga” (Aul. tentação”. e no outro dia seguimos para Mendes. sair. É sim quase perfeito de sair. esgueirar- -se. desaparecer. Ninguém segue seu caminho sem haver começado a andar. e ainda se arriscou a andar pelos lugares mais públicos”. a um perigo eventual”.10 Rocha Pombo -se. embora sem a intenção de esconder-se. ausentar-se. tomar uma resolução súbita”. – Abalar (sent. para alguma coisa. – “O sr. sem os receios ou escrúpulos usuais”. pernoitamos em Campo Grande. perigo. força. – Esgueirar-se é “azular com a ideia de esconder-se”. atirar-se com ímpeto”.. Abala o garoto quando vê o policial. – “Ele se aventura a ir a Minas: se for feliz. “Partimos daqui no dia tal. de modo a não ser visto”. e significa – abalar. “Espavorido. desaparecer. Diremos: “Ele saiu da cidade há uma hora: e no outro dia partiu para S. como diz Bruns. 12 ABALAR. – “O gatuno pressentiu-nos e esgueirou-se”.. sem ideia alguma acessória quanto ao intuito de quem desaparece. – Fugir aproxima-se de esgueirar-se com esta diferença: esgueirar-se é “desaparecer com astúcia. atrever-se é “afoitar-se com audácia”. – “Como é que um soldado se atreve a chegar tão perto da trincheira inimiga?” – “O pescador atirou-se ao mar. “F. só confiando na ventura. – Desaparecer é deixar de ser visto. mas distingue-se claramente de um e outro porque acrescenta à ideia de “pôr-se em movimento” a de “continuação de marcha iniciada”. a ir à cidade convulsionada. seguir. Paulo”. boa ou má”. Paulo. como sair. é “sujeitar-se a que lhe aconteça bem ou mal”. fig. saindo de casa às 3 da tarde. mas perdeu o tempo”. dali seguindo para ponto ignorado”. – Apliquemos todos esses verbos. é “retirar-se sorrateiramente”. risco. “Por que desapareceu o senhor de nossa casa?” – Sumir-se é mais que desaparecer porque dá ideia de “deixar de ser visto sem . “F. o companheiro foge” (Garrett). depois de haver meditado”. e fugir é “deixar um ponto às pressas”. e salvou a criança”. Não poderíamos trocar aí nenhum dos verbos. “O exército abalou dali ao ter certeza de que o inimigo estava a chegar”. – Seguir aproxima-se.

assinalado. assim como retirar-se marca. este verbo empregado aqui. “As suas palavras poderiam abalar-me alguma coisa. ou de intento. isto é. afamado. apenas não fica muito firme nelas. “Fazem esforços por abalar na alma do povo as crenças de que ele vive”. pois enuncia “a ideia de mudar do que se era. “O homem retirou-se da festa mais cedo do que se esperava”. pois jamais me dissuadirão de que a Justiça está comigo”. e tido como exemplo. insigne. digno. por algum mérito ou aptidão. com valor perfeitamen- ilustre. não propriamente. Diremos que um amigo (que continuamos aliás a encontrar na rua) desapareceu de nossa casa.). – Abalar. e aproxima-se em certos casos de desaparecer. Mas ausentar-se não dá (como retirar-se. 14 ABALIZADO. ou do que se intentava”. “As armas e os varões assinalados” (Cam. “demover operando no espírito. Dizemos: “Ele me demoveu (e não – abalou) do intento de vingança”. Do mesmo modo não confundiremos os dois termos para empregá-los indistintamente nesta frase: “O pobre viúvo sumiu-se do mundo” (isto é. e não. mas em tal evidência que se fez digno de ser notado. – Abalizado – dizemos de um profissional ou de um artista que se fez completo na sua profissão ou na sua arte. distinto. não apenas em simples destaque. era um jornalista distinto. “Não arrefeceu nunca em Vieira aquele assinalado heroísmo da sua imensa fé”. dissuadir. Não diríamos neste caso – ausenta-se – pois que o nosso pensamento não é aludir ao fato de não ter mais o homem ficado presente. – Assinalado é o que se destacou por alguma prova brilhante no seu ofício. 13 ABALAR. consumado. “O juiz ausentou-se durante as férias”. “Demovemos uma criança de ficar no meio do barulho”. mas não creio que cheguem a demover-me do meu propósito. de sair. o que se distinguiu por alguma grande ação. não consegue abalar-me neste modo de ver”. mas de um moço distinto. de frequentá-la”. eminente. mas a de “haver deixado um lugar”. famigerado. na acepção figurada. “F.” – Notável diz mais que distinto: designa o que se pôs. a ideia de “não estar mais presente”. mas que fosse um escritor notável ninguém sabia”. “F. mas ao fato de haver deixado a cadeira. “F. egrégio. – Ilustre é um desses vocábulos que parecem gastos pelo uso. notável. significa “mover um pouco”. portanto. na consciência”. Em suma: quem desaparece nem sempre tem tenção de sumir-se: agora o que não é possível é que alguém se suma sem haver desaparecido. ínclito. “que se sumiu de nossa casa”. exímio. demover. – Dissuadir é “tirar do espírito”. famoso. “Não se trata de um tipo qualquer. às vezes) ideia de plano. – Ausentar-se é “deixar de estar presente em alguma parte”. aqui. de fim ou de necessidade com que alguém se retira: apenas marca a noção de “não estar mais presente onde se estava”. Quem se deixa abalar nas suas convicções nem por isso as renuncia. te análogo ao que tem no sentido físico. é mestre abalizado no seu ofício”. – Demover diz muito mais. Dizemos: “O homem. grande. . – Distinto é aquele que. É. e de retirar-se principalmente. “deixou de ser visto nela.Dicionário de Sinônim os da Língua Portuguesa 11 que se saiba o paradeiro ou o destino de quem se sumiu. “tirar do estado de firmeza”. “Tais coisas lhe disse o velho que o dissuadiu de casar” (tirou-lhe isto do espírito). célebre. com toda a sua eloquência. o presidente suspende a sessão e retira-se”. “No meio do tumulto. é um escritor abalizado”. se destaca do comum e se põe em relevo. conspícuo. desapareceu para sempre). nobre. “fazer que uma pessoa fique em dúvida a respeito de alguma coisa”. preclaro.

ou “está tendo fama no seu tempo. Diríamos: “O preclaro Tácito”. ou onde aparece”. ou a coisas subsistentes. conforme o caso. ou melhor – célebre. é digna de respeito”. função. missão.. “As afamadas laranjas da Argélia”. ou então em frases enfáticas.. de aldeia”. (porque. ou “preclaro ministro”. “famigerado conspirador..” “A nobre altivez daquela criança salvou-nos a todos”. ou a coisas. mas “grandeza que tem alguma coisa de solenidade e de esplendor na história. mas melhor a coisas. “Nada tenho a dizer ao nobre senador”. eminente.. “tocam-se de perto.. é um digno funcionário”. mas os preclaros são ao mesmo tempo ilustres.. Só por menoscabo diríamos: “famigerado cultor das musas”. Não seria muito próprio. “Os afamados charutos da Bahia”. e no seu lugar. célebre enuncia não fama ruidosa... Há capitães ao mesmo tempo célebres e famosos como Alexandre. “Este . “famigerado desordeiro”. – Famigerado quase sempre se toma em sentido pejorativo: designa indivíduo cuja fama. ou mesmo – grande. ou na sua condição própria”. “Entre os políticos ilustres de Itália. ou o que “se assinala por algum grande mérito. brilhante”. como nota Lafaye. afastando-nos um pouco do autor. nenhum excede a Cavour pela função histórica”.. com razão. e que por isso mesmo é merecedor de alguma coisa mais que o comum. “O nobre ancião falou solene”. Henrique. ofício. diz menos que ilustre. “Aquela criatura. ou alguma grande qualidade ou aptidão. ou mesmo nas vicissitudes da vida”. significa “digno e excelente”. É ainda preciso notar que tanto se aplica a pessoas como a coisas.. por exemplo: “preclaro representante da nação”. Nem todos os ilustres são preclaros. só se pode aplicar a pessoas vivas.. apesar do que diz Bruns. mais do que rei no seu império do mundo”. – Afamado diz muito menos que famoso. mas a raríssimos grandes poetas ou grandes artistas chamaríamos com propriedade famosos. porque conserve uns laivos da antiga acepção. e deve aplicar-se a um fato ou a uma vida “que fez grande ruído no mundo”. Mas rarissimamente poderíamos dizer sem flagrante absurdo. Afamado é quem ou o que tem fama... Charcot é célebre. “F. tratando-se de um conspirador de alta raça. e hoje é termo de que só se usa na oratória parlamentar. chamar – famoso a um médico que se fizesse conhecido e ilustre fora do seu meio: diríamos antes – notável. “A preclara majestade de d. – Preclaro e insigne aproximam-se de ilustre. boa ou má (em regra – má) “se espalha num dado círculo e com aparato”. observaremos que: famoso é vocábulo menos nobre. Mas preclaro diz mais e é mais nobre: exprime – “excelente. o grande Infante.. “F.” Difere de assinalado em que este “chama atenção mais para os feitos do indivíduo que se assinalou”.. é grande. é um médico afamado” (isto é – que tem bom nome ou boa fama de profissional na cidade onde clinica). é de assinalado que mais se aproxima: ilustre quer dizer – “conhecido e brilhante por si mesmo. Aplicado a qualidades. “O preclaro varão que ilustrou o seu tempo”. e segundo observa Bruns... – Nobre. – Digno é um epíteto mais modesto do que todos os precedentes: digno se diz daquele que “se porta discretamente no seu cargo. podendo até ser a de um bandido. Diremos: “famigerado bandido”. – Insigne é quem. – Famoso e célebre.. “Que nobre alma a daquela dama tão obscura e tão desventurada. e no meio em que vive. belo.12 Rocha Pombo No seu sentido próprio. e insigne exprime “qualidade inerente à pessoa ou coisa insigne”. já lhe não caberia bem o epíteto). mas. ou feitos. só porque se trata de homens ilustres. ou qualidades que dão lustre”. Diríamos: “Job foi um varão insigne pela virtude da resignação” (e não – “um varão assinalado)”. destacado por ações. mas decerto que não diríamos dele – o famoso Charcot. pela sua grandeza moral.

tratando-se de pessoas. “egrégio pastor de almas”. – Exímio exprime a “qualidade de superexcelência”. um favor ou serviço que se manifesta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 13 homem.. tremor de terra. Dizemos: “O egrégio tribunal”. ou na sua profissão (principalmente na sua arte) “excede. como – “um filósofo consumado”. Egrégio é “honrado e ilustre. Só é grande o homem “excepcionalmente notável que foi consagrado pelo culto das gerações”. menos extenso e menos sensível que o tremor de terra. que tem nome ruidoso e brilhante”. sem ser insigne. e por isso “posto no pináculo entre os da mesma classe”. “uma série de abalos. – Eminente e conspícuo diz mais do que ilustre: eminente é o que “excede à estatura moral. ou melhor. conspícuo é o que se faz “tão ilustre e eminente que dá nas vistas de todo mundo”. ou o fato. notável de si mesmo”. como há ínclitos poetas. – Consumado aproxima-se de abalizado. no dia seguinte . sobreleva aos mais hábeis”. Entre todos os vocábulos deste grupo. 15 ABALO. ou das nossas letras”. – Abalo é “movimento amplo. – Comoção é “estrondo ou abalo no interior da terra. o que é “muito falado. – “é o que chega ao último grau da glória”. aplicado a pessoas ilustres. – Agitação será mais “uma comoção continuada por algum tempo”. Não poderíamos dizer. convulsão. mesmo referindo-nos aos mais abalizados no seu ofício: “F. – Todos estes vocábulos significam fenômenos sísmicos. Dizemos: “o grande Infante”. tratando de coisas – a que “se eleva acima de outra coisa e se põe muito alto”. – Terremoto é “forte tremor de terra tendo consequências na crosta terrestre”. magistrado. Há ínclitos generais. ou acontecimento extraordinário. ou às proporções de grandeza dos seus pares”. mas um favor que no momento assumiu proporções que não teria em ocasião normal”: um favor insigne. Há exímios poetas. “F. e por isso mesmo pouco intenso e pouco sensível. mas um simples abalo. ou de que se tem sinais evidentes. estremecimento. agitação. Tanto podemos dizer – “um artista”. é verdadeiramente o egrégio e venerável patriarca daquela família”. como diz Bruns. excepcional. ou o feito de proporções fora do comum “– que se incorporaram definitivamente na história humana”. “Ínclito”. e de consequências gravíssimas para a região convulsionada. de grande massa”. Um favor. – Convulsão aplicar-se-ia para designar um terremoto violento de grandes proporções. muito raros outros caberiam nos dois exemplos. é figura conspícua da nossa política. sim – é “um favor grande. terremoto. ou “F. Consumado significa – “subido à perfeição. e tanto um como outro exprimem mais do que exímio quando se quer marcar precisamente elevação pela capacidade e pelo mérito. comoção. e. segundo Roq. Mas diríamos: escritor. pois que estes não são mais que abalos menos amplos conquanto mais intensos e mais sensíveis”. – Grande é um genérico que se não confunde entre os do grupo. e nem chegou a ser um verdadeiro tremor de terra. “o grande Vieira”. artista eminente. – Parece que se vê melhor nestes exemplos: “Temia-se um terremoto. – Trepidação é leve abalo. de estremecimentos. e se diz daquele que na sua arte.. tornou-se naquele momento figura assinalada pelo heroísmo com que fez frente ao inimigo”. é um conspícuo marceneiro”. tre- pidação. é um artesão eminente”. ou um serviço assinalado é não como entendem Bourg. – Tremor de terra é. a uma profunda e acabada perícia na sua ciência ou na sua arte”. Qualquer dos dois termos só pode ser. como há jogadores exímios. digno de respeito pela compostura e gravidade na sua conduta. Berg. “F. ou no desempenho de algum alto cargo”. apenas sensível na superfície”.

da Acad. desamparar. Não há dúvida. “Com muita gente armada a investiram e abordaram (a caravela) por duas partes”. mas uma formidável convulsão que alterou toda a topografia da ilha”. (Dic. desprezar. acometer. é – como define Aul.. aferrar é “atracar com ferros (quaisquer que sejam)”. como se disse.14 Rocha Pombo houve algumas trepidações do solo junto do monte. e com intuito hostil”. que o abalroamento de dois navios é devido ao acaso. – Assaltar é “investir à traição. logo à noite repetiram-se uns estremecimentos. desdenhar. “decreto”). O rico que não socorre a sua família pobre a desampara. investir. desvaler. é “deixá-la entregue aos seus próprios recursos. – Abalroar. arremeter. que: “o desamparo se refere ao bem necessário de que se priva o desamparado. Abalroar. “desterrar”)1 que nos revela a existência de um substantivo mais antigo – bandon – de que nos vem bando (“pregão”. bordo com bordo”. “não querer saber da pessoa ou da coisa que se abandona”. “O inimigo investe.” “O que se deu ali não foi um simples terremoto. mas os três verbos sugerem o mesmo ato. “Não se ataca impunemente a honra alheia”. 17 ABANDONAR. escreve Bruns. consistindo a diferença apenas “nos meios de que se valem os tripulantes de um navio para aprisionar um navio inimigo”: abalroar. assaltar. neste grupo. ligeiros estremecimentos: e depois tudo voltou à serenidade normal..: “O antigo português tinha o verbo bandir (“banir”. desapoiar. ou de sacrificar 1 O italiano conserva o verbo bandire. desproteger.. . “Acometeu-nos o inimigo sem que o esperássemos tão cedo”. porém. e como nos convencêssemos de que semelhante agitação subterrânea é prenúncio de catástrofes. como aferrar. é “atracar com balroas” (instrumento próprio para abordagem em combate). (Dic. desajudar. “A primeira vez sentiu-se uma rápida comoção ao sopé da montanha. “com precipitação”. desfavorecer. pôr de lado e esquecido”. atracar. impetuosamente”. “Vamos atacar o forte”.) – Investir é “arremeter hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. – Agredir é propriamente “provocar. dessocorrer. Bandon era ordem de bandir. “Os bárbaros abandonaram os míseros náufragos ali na ilha deserta”. quando esta se acha em iminente risco de perecer. Quanto a abandonar. e decisivamente”. “Assaltaram os brutos a fortaleza à noite”. mas decerto não é em tal acepção que abalroamento é sinônimo de investida. Também se diz: “Assaltou-nos em caminho a tormenta”. o verbo de significação mais genérica: “é ir hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. os quais se reputam deficientes ou nulos”. – Atacar é. “Os inimigos abalroaram uma nau de El-Rei”. se o faz. – “atracar com balroas. “O inimigo nos atacou de frente”. “A vaca danada arremete contra todos”.. pois. e atracar é “prender de qualquer modo”. Abandonar tem com efeito alguma coisa de “exilar. – Atracar. Diz Roq. é mais genérico do que abalroar. agredir. da Acad. Abandonar é. – Acometer é quase assaltar: é “investir subitamente e com decisão”. Diz Bruns. etimologicamente. tomar ofensiva contra alguém”. abordar. “O bandido nos atacará em caminho se facilitarmos”. de emboscada. o abandono se refere ao mal iminente a que se deixa exposto o abandonado.). mas não consegue abalroar a nossa embarcação”. desarrimar. “Ele não tinha motivos para agredir-nos tão insolitamente”.” 16 ABALROAR. de todos os do grupo. fugimos. no outro dia. aferrar. para melhor combater. atacar. – Abordar é “aproximar-se uma de outra embarcação. – Arremeter é “atacar com fúria.

distração. como só se desampara aquele a quem devíamos valer.. abstração. desajudar (“negar ajuda. acídia. abandonado de todo o mundo. tinha direito a ser por nós socorrido. – Desdenhar é “ter em pouca conta”. – Desafetação já se não aplicaria com a mesma propriedade a uma criança. incúria. mas aqueles que estavam conosco e se afastaram não fazem menos que desajudar-nos”. simpleza. É simples de ver que eu me não sinto desamparado só porque um sujeito me desprotege. “Desdenhando o poder dos homens. mas os filhos fizeram mais: desarrimaram-no na velhice dolorosa: e afinal. desleixo.. a distinção será fácil desde que se tenha em vista o respetivo radical. ingenuidade. como dessocorrer é “deixar de oferecer o socorro que se nos pede”. mesmo desprezado pelos amigos. e tão distintamente que em muitos casos não seria possível. Aqui há seguramente lapso: o abandono dessa frase não é o que o autor definiu como sendo o abandon francês. e só se abandona a quem. ou pelos outros indistintamente. – Quanto aos outros do grupo. a santa continuou muda”. desafetação. desprezo ou pouco interesse revelado por alguém”: diferençada. ou se desprotege. como desamparar é “negar amparo”. segnícia.. abdicação. É estranha a aplicação do termo feita por Bruns. negligência. depois de o haver definido como sinônimo de naturalidade. apesar de certos caprichos fúteis de um mal-entendido purismo. a abandona”. substituir um pelo outro. lhaneza.” “Aquela candura da jovem princesa ressalta de todo o abandono em que se deixa ver lá no parque”. moleza. mas o amor. de se vestir sem artifícios que deem na vista”. indolência. Só nos desfavorece aquele de cujos favores dependíamos. Pode-se desapoiar sem desproteger. aquele a quem se abandona. morreu em amarguras.. desafetação já “sugere ideia de esforço ou de propósito no . O abandono dessa frase é sinônimo de renunciamento. desfavorecer (“negar favor”). – Naturalidade é “maneira de se mostrar. languidez. desídia. a paixão veemente só é real quando há abandono”. e o definido por Bruns.. “Aquele homem. inércia. desapercebimento. – “A amizade – diz ele – exige a naturalidade. pois. Todos estes sinônimos têm a significação geral “de indiferença. – Abandono é um galicismo (neste grupo) que pode perfeitamente ser incorporado na língua. descuido. desvaler sem desdenhar. 18 ABANDONO. – Desproteger é “recusar a proteção que antes se dava a alguém”. Mas aqui. acinte ou altivez”. “Os homens o desvaleram sempre naquelas angústias.. entendemos: desvaler (“não acudir”). e ela respondeu com uma graça e naturalidade de criança”. desmazelo. de dizer. inação. “Nesta causa pode um parente desapoiar-nos sem que nos prejudique. é: “negligência amável no falar. não foi dessocorrido de algumas almas piedosas”. desapoiar (“deixar de apoiar”).. pelos próprios respetivos radicais. desalinho.”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 15 sua honra. “Aquele ricaço desdenha a nossa pobreza porque nós lhe desdenhamos a arrogância”. “Falamos à rapariga. e só se desarrima a quem precisa de nós. preguiça. Desarrimar não é propriamente dessocorrer. conquanto não seja o aplicado. naturalidade. pouco apreço. etc. se desampara ou se desdenha. pois em todos figura o prefixo negativo ou privativo des. pois que só se dessocorre aquele que está em perigo ou em situação difícil. é “tratar com desdém. ócio. Nem sempre se despreza. etc. no trajo. singeleza. desarrimar (“privar de arrimo”). nas maneiras. abandono. Como estes. na perdição ou na desgraça. abnegação. – Desprezar é “não dar a alguém ou alguma coisa o apreço ou importância que se lhe dava”. sem sacrificar alguma coisa da clareza e propriedade da expressão.. neste grupo. e antes “fazer o contrário”). auxílio”.

A preguiça pode não ser um vício. que cessa logo que desaparece a causa acidental que constrange o inativo”. “Este tipo vem aqui fingir desafetações de Tartufo. – Simpleza sugere ideia de inconsciência. É ela “um relaxamento de ânimo. O descuido na elocução. Negligência sempre é menos do que incúria. Diz Lafaye que “a indolência é um defeito. e antes um humor sempre igual. no falar. Diz Roq. mas deve tirar a vontade de agir e de viver: a indolência chega a ser às vezes uma virtude para o cético. enquanto que incúria é o próprio fato de não fazer o que devia”. ou que torna avesso ao cumprimento do dever. uma falta de ação para certas ocupações”. de quase ignorância e parvoíce: é a “singeleza ou a ingenuidade do inculto e rude”. e tendo também alguma coisa de moleza”. Neste grupo não é bem assim. – Languidez é um quase “desfalecimento semelhante à depressão mórbida. – Indolência e preguiça. na postura. ou no desempenho de uma tarefa”: mais censurável sem dúvida que desalinho. “Nada alterava jamais a lhaneza daquele caráter”. – Inação é um “estado de inércia passageiro. – Desalinho é “maneira ainda mais descuidosa que a negligência: é quase incorreção de costumes. pouca atenção com que alguém cumpre sua tarefa ou desempenha um dever.16 Rocha Pombo sentido de parecer desafetado ou natural”. Se é mesmo vício a preguiça. – Moleza é “preguiça sensual”. “Calino é o tipo do ingênuo: diz.. a preguiça um vício”. como as crianças”. as coisas mais sabidas do mundo. – Singeleza é a qualidade do que não tem “refolhos e malícias”. Pode ser oriunda de mal físico. lhano (do latim planus = liso. com toda gravidade. “Pilhou-me a visita. – Inércia é “imobilidade. não. mas “descuido culposo de quem deixa de parecer como deve. Desafetação pode simular-se. Incúria é igualmente (conforme está indicando a própria etimologia) descuido. – Indolência diz etimologicamente – “falta de sensibilidade. apatia. estado de torpor”. conquanto diga Roq. parelho. no gesto. está passando a ser quase um vício elegante. ou de trajar”. mais conforme à etimologia) é uma inércia mais de espírito ainda do que desídia (talvez originariamente uma e outra do mesmo radical grego). que parece ter sido vulgar outrora. – Acídia (ou acédia. “A singeleza daquele viver é mais edificante do que todas as opulências dos grandes”. o contrário. “Ele ficou em pasmo ante a simpleza daquele bárbaro ali impassível a tudo que se passa”. – Desídia é quase incúria. sem desigualdades de relevo). é muito mais grave que simples desalinho.” – Negligência2 diz também maneira descuidosa. ou surpreendeu-me nesta negligência em que se está em casa”. ou de frase. e ordinariamente revela falha moral. . trajo sem capricho. postura desafetada.. nem disfarça o que faz. ou de cumprir um dever do seu ofício”.. e quase inconveniência que se não perdoa em gente de educação”. “Por negligência foi censurada a menina que não deu conta das lições.” – Lhaneza é a qualidade do que é 2 Usa-se muito hoje do francês negligé em vez de negligência. – Ingenuidade é a “singeleza de quem não oculta o que sente.. naturalidade. “O descuido de quem se apresenta maltrajado em um salão de cerimônia é imperdoável”. ou dos temas a tempo: por incúria teve castigo”. “Ninguém há de ter o direito de acusar-me de incúria na minha profissão”. – Descuido é (como se vê da formação do vocábulo) “falta de cuidado no trato. no vestir. distinguindo-se desta em significar mais uma “inércia moral que afasta do trabalho. acidentes de ânimo. falta de energia. “Passam a ser censuráveis aqueles modos: aquilo já é desalinho... indiferença por tudo que a outros merece cuidados ou atenção”. o pessimista ou o misantropo.

diminuir o crédito. o valimento de alguém”. – Menosprezar. ou as qualidades. a significação de “baixar de preço”. fazer baixar o preço de alguma coisa”. mas uma desídia quase ostentosa. mal- baratar. uma como tensão mental que a separa – dir-se-ia – das outras pessoas”. parecendo que desmazelo é mais grave e mais culposo “porque exprime. “ter em menor conta do que a antiga em que se tinha alguma coisa. do que desídia. tocando sem sentir. é dar “por menos do justo valor. mais. não só “baixar de preço”. A mesma diferença no sentido figurado. ou porque se descanse dele. desestimar distinguem-se ligeiramente. – Baratear é “oferecer por menor preço”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 17 e usar-se em vez de preguiça. que se não sabe por que é que falha nos léxicos. e figuradamente é. não tendo na conta devida”. – Segnícia é mais do que indolência. olhando sem ver. não apenas falta de correção. pois. que é uma tibieza e fastio espiritual que a alma tem para o exercício das obras virtuosas. 19 ABARATAR. a inércia e moleza do bárbaro”. por um motivo interior. mas “prezar menos do que seria justo”. a malbaratar na vida os melhores dons que lhes tocaram”. depreciar. Bartolomeu dos Mártires. Dizemos. distração sugerem ideia de estado bem semelhante a umas aparências de abandono. mas “fazer baixar de preço”. porque a minha vida é muito atribulada de serviço”. um defeito mais punível que desleixo. Distração é também desapercebimento. e ter os seus sentidos materiais como que suspensos ou apagados. – Ócio é antínomo de trabalho. pois. “ter em menor apreço do que o devido”. porque se tenha trabalhado é que se fica em ócio: é este. que a define assim: “O sétimo e último vício capital se chama acídia. Abstração é o “desapercebimento de uma pessoa completamente alheada do meio em que se acha. desestimar. – Abaratar (ou baratar) significa “diminuir o custo. ou sem notar em torno de si coisas que lhe não deviam passar despercebidas”. menosprezar. pelo menos no Brasil: “O café já barateou”. mas de quem parece “não pensar em coisa alguma. “Não é por menoscabá-lo que . menoscabar. Mas este difere de baratear porque significa. etc. “Havemos então de menosprezá-lo só porque. a importância. mais lazer do que inação. Desapercebimento é “um como estado de inconsciência aparente. abrir mão de uma coisa facilmente. do que desleixo.. “Os tais conluiaram-se no intento de embaratecer os bons ofícios do competidor”. a aversão ao movimento. tendo ouvidos e não ouvindo. abstração. Usamos também de embaratecer. mas também “abater o valor. porque junta a tudo isso alguma coisa de miséria moral mais lastimável: segnícia deve ser o “torpor estúpido. – Malbaratar é “desperdiçar coisa estimável”. falta de correção. em que alguém fica sem dar atenção a nada. “Míseras criaturas é o que elas são. de Fr. é “vender com prejuízo. como intr. tornar barato. “Não pensem que ele vai agora baratear as aptidões”. não esteve conosco?” Menoscabar não é somente menosprezar. desencarecer. ou porque se seja forçado a ficar inativo. como se vê do Leal Conselheiro e do Catecismo. naquela causa. que é mais “ausência de sentimento muito nítido do dever” – Desapercebimento. – Deleixo (ou Desleixo) e desmazelo significam “relaxamento no cumprir o dever. Tem ainda. do que preguiça. Menosprezar não é propriamente “desprezar”. “Os meus instantes de ócio são poucos. no entanto. “Ele não há de consentir assim que lhe abaratem a honra de juiz”. desapreciar. menoscabar. a consideração”. embaratecer. baratear. especialmente para as coisas do culto divino e comunicação com Deus”. mostrando por ela pouca estima ou nenhum interesse”.

formas de aves ou de animais fantásticos”. sombra são vocábulos de significação mais genérica e vaga. “Só desestima o dinheiro quem lhe não sabe o valor”. manes e lêmures. Abantesma é propriamente “fantasma sem forma definida.. mas quase sempre “para atormentar os vivos”. ou perseguindo os vivos”. duende.. Desestimar é “não ter em estima. “coisa impalpável. atribuída à imaginação dos alucinados.. e tanto menos quanto estima é um sentimento mais profundo que apreço. e que. e é de crer que junte à ideia de visão a de penitência. imaterial. socorrer. aparição. além de terror.. – Duende designa alguma coisa semelhante ao que se chama vulgarmente “alma do outro mundo”. – Avejão (fig. e talvez porque sugira melhor esta última noção é que se distingue de todos os do grupo.) é o que se poderia chamar também – “alma penada” – mas que toma “aspetos estranhos. de ser tão caro ou encarecido como era. subtil. aparição. “espíritos que andavam vagando pela Terra. como em: “O fantasma da dor. quer em vigília. emudeceu”. “Encontrou no caminho um fantasma que o obrigou a voltar”.. ou de ter na mesma conta exagerada em que se tinha (e tanto no sentido próprio como no figurado). mas ainda conservando alguma coisa da forma humana”.” Sombra pode-se dizer que. “Aquela casa. é vocábulo de alta nobreza histórica. não ter por alguém ou alguma coisa a mesma estima que se tinha”. que se deixa ver sem perfeito relevo. avejão. “Não se desestima a um amigo só porque caiu em pobreza”. dando sempre a ideia comum de coisa sobrenatural. – Abantesma é forma popular de fantasma. sombra. Espetro será o fantasma. às vezes. entre os romanos. Em qualquer dos casos desaprecia diria sem dúvida alguma coisa menos.. heroica – dir-se-ia – e terrível do diabo”. de inesperado e súbito. e como em penitência. como a sombra” (fenômeno . significando “forma vaga subsistente de alguém que foi vivo”. deixar de estimar. “alma dolorosa”.18 Rocha Pombo dele digo estas coisas”. ou melhor – “a alma de algum conhecido. “personificação”. inspira repugnância”. “representação”. fantasma.. – Visão. É este verbo um sinônimo quase perfeito de desapreciar. quer durante o sono”. “Imundos abantesmas vagavam naquela região mais do pecado que da morte”. Larva será espetro menos nítido. – Espetro e larva designam também fantasmas. com a significação que tem neste grupo. ou do remorso”. Manes designava particularmente “as almas dos avós ou dos parentes falecidos”. espetro. e há entre eles uma certa distinção análoga à que se nota entre fantasma e abantesma. significando assim – “alma penada”. trasgo. de coisas falsas ou imaginárias e medonhas). ou aquela consciência vive atormentada de fantasmas” (isto é. ou à falsa visão de certos doentes. mas todos. e causando terror. – Desencarecer é deixar de encarecer. que. “Ninguém decerto vai desencarecer-lhe os grandes serviços prestados à pátria naquele momento”.. O mais vago de todos é o primeiro dos três: visão é “toda imagem que se julga ver. mesmo instantâneo. julga alguém ver. Aparição distingue-se de visão em “acrescentar à ideia de imagem sobrenatural a ideia de miraculoso. por alucinação. ou não corpórea. Também se aproxima de “símbolo”. “Quando encontrou no vestíbulo a larva de Aquiles. havendo apenas entre os dois a mesma diferença que há entre os respetivos radicais – estima e apreço. lêmures. manes. tendo figura humana mais ou menos acentuada. Este vocábulo (fantasma) significa imagem fantástica ou incorpórea. saíam do inferno à noite para. Lêmures e manes eram. – Trasgo é qualquer coisa como “figura ostentosa. larva. 20 ABANTESMA. visão.

enquanto que obstinado é o “que resiste. no entanto. e nunca propriamente: “O incêndio compreendeu. entre os dois bem marcada diferença. nestas por exemplo: “O homem está obstinado em não aceitar o cargo”. – Monopolizar enuncia a forma legal de “exercer exclusivamente o comércio ou qualquer encargo ou função”. devasso abarroado”. “Sedutor. – Todos estes verbos exprimem de comum a ideia de abuso contra a liberdade de comprar e vender. encaprichado. embirrante.) – Açambarcar exprime a mesma ação de prender ou arrecadar mercadorias: mas “de modo mais amplo. em razões em suma. mas distinguindo-se o primeiro do segundo em significar “uma tendência ou qualidade própria. Teríamos de dizer. obstinado. antes que cheguem à praça ou ao mercado público”. opiniático. ou que não cede. – Abarcar significa “apoderar-se da mercadoria como quem a prendesse nos braços”. não: “Cesar abarcou todas as dignidades da república”. “Ele é opiniático. etc. birrento. perseverante. Isto quer dizer que com efeito o opiniático e o obstinado. – Abarroado quer dizer “teimoso. em abranger. teimoso. mesmo entre muita gente de cultura. ou da exploração de certas indústrias”. etc. sombra era o mesmo que “alma”. libertino. exprime alguma coisa de “alcançar”. pertinaz. monopolizar. constante. muito raros hão de ser os casos em que um se não possa substituir beçudo. a ataques”. “não cedem à vontade.). Deve notar-se. caprichoso. que parecem estar na mesma natureza. firme. (Aul. ou na índole do opiniático. enfeixando-as.. a embaraços. No Brasil é muito comum dizer-se indiferentemente: “Abarcar ou abranger o mundo com as pernas”. mas por efeito de uma determinação ativa e refletida”. compreender. emperrado. atravessar. Diremos: “O incêndio abrangeu todo o quarteirão”. como diz Lafaye. Há. tanto assim que em certas formas não poderiam ser trocados. Compreender é sinônimo que se pode ter como quase perfeito de abranger. Abranger. “O poder de Roma abrangia multidão de povos” (Bruns. “Abarcava todo o peixe que vinha à Ribeira”. insistente. – Atravessar é “comprar as mercadorias em caminho. persistente. insistente. abranger. afincado. 21 açambarcar. Há o monopólio não fundado em lei. e ainda hoje. o que se escusa de agir. e sei que por coisa alguma se dissuadirá daquele intento”. o direito “exclusivo ou privilégio de vender ou comprar”. e faz o que . por sua parte. e é sem dúvida com esta significação que entra aqui o verbo monopolizar: é “tomar alguém. ABARCAR. porfiado. 22 ABARCAR. ou mesmo alguma nação a propriedade de um certo gênero de negócios. alguma companhia. – Cabeçudo é o que se deixa guiar só pela sua cabeça. que mais talvez o uso comum do que a precisão ou a propriedade fixa em alguns o emprego de um de preferência a outro. ca- Abarcar e abranger significam “encerrar ou conter em si muitas coisas: em abarcar há ideia de esforço. de modo a fazer subir pela carestia o preço das coisas. aferrado. relutante. – pelo outro. e mesmo de abarcar”. por exemplo: “Nesta relação não se compreendem (e não se abrangem) os casos a que se refere o ministro”. contumaz. essencial. – Obstinado e opiniático poderiam tomar-se em certos casos como sinônimos perfeitos. aos desejos de outrem. ou reunindo-as por meio de sambarca”. no entanto.” 23 ABARROADO. fundada em opinião. obstinado com insolência e por motivos torpes”. Entre os antigos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 19 físico). em modo de ser. tenaz.

. – Opulento é sujeito muito rico que “vive vida brilhante e sumptuosa. remediado marcam . e reincide no seu modo de ver ou de conduzir-se sem se importar com o que é seguido por todos”. “que se não abala. – Abastado é quem está “fartamente provido de bens para viver em abastança”. Embirrante é o que “insiste” nalguma coisa “por birra. relutante. e não: “A encaprichada menina”. banqueiro. portanto: “Contumaz no erro”. apatacado. porfiado no trabalho. Perseverante é o “que se conserva firme e constante num sentimento.. se não se teima propriamente. relutante contra as seduções do vício. nem cede. etc. advertências ou mesmo ordens de ninguém. pois enuncia a ideia de que o porfiado é “capaz de ir ao extremo. em querer. – Endinheirado. aferrado diz – “fixo como alguma coisa que se prendesse a ferro a uma outra coisa”. “Este homem extraordinário é constante na virtude. numa resolução” (Aul. ou à citação feita por um juiz”. etc. – Rico é aquele “que possui muitas riquezas. sem explicar-se. “mais pelo prazer de contrariar do que por sincera convicção”. Porfiado é ser “constante mostrando um certo brio e valor”. – Afincado. como o animal que empaca (podendo dar-se-lhe empacado como sinônimo quase perfeito). – Aproxima-se deste o vocábulo insistente: o qual. endi- nheirado. pelo menos se repetem esforços e tentativas. que não atende. persistente na ideia de vencer. Constante é “ser sempre igual ao que se foi ou se prometeu ser. embirrante. na atitude. “Testemunha contumaz”. remediado. seguro conscienciosamente”. antipatia ou aversão”. em agir”. ou no seu intento. dá ideia de que. e por extensão é aquele que “segue sua opinião. no seu desejo”. capricho. num intento ou numa tarefa”. etc. – Contumaz quer dizer “obstinado. 24 ABASTADO. Dizemos: “Ele está encaprichado no propósito de molestar-nos”. obrar ou pedir”. Relutante é “mais que porfiado. e não: caprichoso: “A caprichosa menina não atende a coisa alguma”. o que nem sempre acontece com caprichoso. aferrado. – Pertinaz já inclui alguma coisa de teimosia. – Teimoso é “o que persiste em pensar ou agir como se o fizesse quase por acinte”. seu intento. além de significar “pertinácia em querer. e difere de encaprichado por isto: porque encaprichado significa que se tomou “por acinte ou por vingança uma atitude caprichosa”. e fica imóvel.). quer. Afincado equivale a “fixo e seguro como uma haste que se fixasse ao solo”.. com obstinação e enfado”. persistente. poderiam aproximar-se de caprichoso e cabeçudo. mesmo porque encaprichado reclama sempre um completivo. – Emperrado. revel. na vontade”. ricaço. – Constante. não por acinte. – Ricaço é aumentativo de rico. de travar luta na resistência”.. Persistente é o que “sabe. milionário. ou bens que excedem às próprias necessidades”. argentário. ou não obedece à ordem legítima.. ou tem força para continuar firme no seu posto. mas o pertinaz é um teimoso. e perseverante como quem sabe o que vale a fortuna”. apatacado. – Caprichoso é aquele que se mostra seguro e inabalável. nas ideias. – Tenaz exprime “firme e vigoroso em pensar. resoluto.20 Rocha Pombo entende sem ouvir conselhos. opulento. nem fraqueja”. ostentando a sua riqueza”. porfiado. capitalista. firme significam todos “fixo no lugar. ou ao que de nós se espera”. Diremos. perseverante acrescentam à qualidade do que é firme a “ideia de esforço no propósito de conservar-se firme numa resolução. firme significa “obstinado. birrento. e diz – “sujeito muito rico e com ares de ufano das suas riquezas”. mas “por opinião ou capricho”. rico. Emperrado significa o que se firma na sua opinião. Birrento é “emperrado ou teimoso por birra.

– Argentário. ideia que se sente em desfear. – Adulterar é “fazer mudar alguma coisa falseando-a. – Perverter é “mudar para mal” (Aul. o valor próprio de alguma coisa”. a natureza. e significa “alterar alguma coisa fazendo-a feia”. deteriorar. desfigura-se um texto tirando-lhe as belezas próprias da língua.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 21 uma certa “mediania. Diremos. pois reduz a simples patacas as posses do sujeito. quase perfeito de afear. Afea-se (ou afeia-se) uma coisa “tornando-a menos correta. ou de transformar piorando”. ou de fazer que uma coisa não seja ou não se faça tão bem como devia fazer-se”. deprimindo-a com perfídia”. as qualidades da sua geração” (Aul. perverter com escândalo”.). ou ainda uma ideia do valor preciso ou das proporções da fortuna possuída. correto.) transtornando. vivendo só pelo dinheiro”. degenera uma família. corromper. depravar. deformar. o mérito. bonita”. deixar imperfeito. que se note: em afear não há tão viva a ideia de “mudar tornando defeituoso”. alterar a forma própria. “tirar a figura”. ou especular sobre empréstimos e outras transações de praça”. em geral. profanando. – Deteriorar é “alterar danificando. ofendendo o pudor”. milionário exprimem a ideia de “possuidor de grandes riquezas em dinheiro. – Deturpar é “desfigurar deprimindo. – Dizemos: Abastarda-se uma geração. tuoso”. – Viciar é. o modo de ser normal”. o brilho. é “estragar o que era puro”. deforma-se uma fi- . deturpar. adulterar. desnaturar. pois: “O andar afea-lhe um pouco a elegância” (e não – desfea-lhe). – Depravar é “perder as qualidades que tinha. – Deformar é “mudar a forma primitiva. preocupado só de lucros. fazer feio com o propósito de impressionar. Milionário é o “ricaço que possui milhões”. banqueiro. perverter. ou o modo de ser de uma coisa ou pessoa. legítimo”. desfigurar. estragar desvirtuando. – Desvirtuar significa. – Desfear é uma dessas anomalias morfológicas da língua que o uso impõe. portanto. afear. arquimilionário. desvirtuar. pondo-a fora do seu estado próprio. No Brasil usa-se também o verbo enfear (ou enfeiar) com o sentido de “exagerar. etc. etc. – Estragar enuncia a ideia geral de “destruir. defeiABASTARDAR. segundo a própria etimologia. – Estes verbos exprimem de comum a ideia de mudar a forma. Apatacado diz menos ainda. – Corromper é “pôr fora do estado de pureza própria”. e acrescentam à noção geral de rico a ideia de apego ou amor ao dinheiro. aqui. fazendo pior ou imprestável”. ou de mais ou menos paixão com que se cuida do dinheiro. – Abastardar significa “fazer ilegítimo. miliardário. Remediado é o que tem com que viver sem apuros.”: “Ele enfeia o caso para que nós não vamos”.). ou uma condição de fortuna que fica entre a do rico e a do pobre”. 25 degenerar. – Desfigurar é. – Já se usam também como gradações da ideia expressa por este último vocábulo: bilionário. estragar. viciar. que “vive de negociar. Desfea-se (ou desfeia-se) – isto é – “torna-se feio” o que “era bonito. Banqueiro é o que “faz negócios de banco” (Aul. impuro”. capitalista. se bem que enuncie igualmente a ideia de “estragar. próprio. “tirar a virtude. ou melhor. isto é. menos que perverter. convindo. o “aspeto. um indivíduo ou uma raça. O endinheirado é aquele que ajuntou algum dinheiro e saiu da pobreza. as feições de alguém ou de alguma coisa” (Aul). desfear. É sinônimo perfeito. Desnaturar é “alterar a natureza. Argentário é o mais genérico e diz “homem dado a grandes negócios. “A idade a desfeou horrivelmente” (e não – afeou). – Degenerar é “perder mais ou menos o tipo. demover. Capitalista é o que “vive dos rendimentos de seus capitais”.

prover pouco a pouco e com regularidade”. as melhores índoles viciam-se fora do lar. – “Quando chegamos àquela zona assolada pela seca foi necessário municionar muitos dos nossos postos. prover. de pão ou de carne uma praça onde havia necessidade de algum desses artigos”. Fornir é “prover do necessário. deprava-se um indivíduo. Poder-se-ia ainda dizer sem . Notemos ainda que subministrar sugere ideia de “ação clandestina. pois estavam quase todos completamente desprovidos de tudo”. “E até de paciência vou munir-me para sofrer aquele biltre.22 Rocha Pombo gura fazendo-a monstruosa. apresentar. fornir. Diremos também: “O menino está bem fornido (e não – fornecido) de carnes e com boas cores”. ou corrompe-se o menino nas más companhias. Municionar é “abastar de munições de toda ordem. conferir. adulteram as nossas palavras quando as transmitem infielmente de propósito. – Ministrar e subministrar são muitas vezes empregados indiferentemente. no entanto. e fornecer é uma forma extensiva de fornir. como função própria ou dever de ofício”. “Vai bem municiada a escolta”. Municiar é “prover de munições para um certo tempo. e nem sempre com fim especial e imediato. como por necessidade de acautelar o futuro ou prevenir algum mal”. mu- nir. corrompe-se o pão exposto à umidade. – Aprovisionar é “abastar de provisões. ou em obediência a uma ordem. ou pelo menos de intuito que se procura dissimular ou encobrir”. 26 ABASTAR. – Entre fornir e fornecer nota-se a mesma relação que entre abastar e abastecer. nem para prazo certo”. “O grande comboio abastou então a praça. deturpa-se a memória de alguém. quaisquer que sejam estas”. significa “fornecer. oferecer. municionar. ou que habilitem a defender-se”. “A secretaria ministrará todas as informações necessárias ao juiz”. munir. – Abastar significa propriamente “prover do bastante. Ministrar. o segundo. ou em cumprimento de um dever ou de um contrato”. Subministrar é – diz Bruns. deteriora-se o caráter fraco em luta com a miséria. no entanto. – “fazer com que alguma coisa chegue ao poder de alguém que necessita dela para se sustentar”: “Os americanos subministravam armas aos insurretos cubanos”. “A caravana. e abastecer é “abastar gradualmente. abastecer. “Aprovisiona-se de água. e de predicação mais imprecisa e vaga. – Munir significa propriamente “prover de armas e ou- tras coisas que tornem forte. e – de munição. dar. ao passar. fornecer. “Nós sempre nos fornecemos (e não – fornimos) de tudo aqui mesmo no bairro”. “Muniram-se de documentos contra a calúnia”. pelos desregramentos. uma nação pelos erros. e. ou “ficam bem municiadas as duas praças guardando aquele posto”. subministrar. o primeiro. e dali em diante foi ela sendo abastecida pelos lavradores dos arredores”. ministrar. significa “fornecer. pelos crimes”. desnatura-se o homem no vício ou no crime. municiar. “Só os colonos vizinhos abastecem (e não – abastam) o nosso mercado”. “Munam-se todos de roupas de lã para o inverno”. “As colheitas excepcionais daquele ano abastaram (e não – abasteceram) toda a província”. com certa cerimônia. para que se pervertam almas basta às vezes um instante. “Ele nos ministrou todas as coisas de que precisávamos”. do indispensável”. é que nos forniu de pão: agora o que preciso é ver quem no-lo forneça regularmente”. aprovisionar. desvirtuam as nossas intenções quando as interpretam de má-fé. “Munem-se as praças de guerra esperando o inimigo”. e por uma determinação própria.” – Municiar e municionar são formações vernáculas – de municio. para uma diligência”. – Prover é o mais compreensivo dos do grupo. o tempo devastador estraga formosura.

desprender-se e sair do lugar em que estava”. montanhas”. “desmoronam-se esperanças ou ilusões”. como o castelo. desmantelar. e aproxima-se de destruir. Podemos dizer sem grave ofensa à índole da língua: “A artilheria inimiga destruiu a colina” (isto é – “desarranjou-lhe a estrutura”).. – Tombar é “cair com fracasso. – Desabar significa propriamente “abater em torno com fracasso”. se aproxima de deitar abaixo. o lugar em que estava para vir a lugar mais baixo. e deita-se abaixo. cai o balão que já estava no ar. “Daquela medonha altura precipitou-se o monstro no abismo e desapareceu”. desmoronar. porém: “A artilheria demoliu”. aluir. como para tornar a levantar. que também significa propriamente “desfazer o que foi construído”. lançar-se para um lado estendendo-se”. – Precipitar-se é “lançar-se com violência de cima para baixo. “Despenha-se a avalanche inundando toda a várzea”. estragar. “Ouviu-se a descarga e o mísero tombou. pelo menos tanto como abater. pois só é suscetível de demolir-se o que foi construído.. Derribar é “fazer cair. aniquilar. – Abater é baixar ou cair “a prumo – diz Bruns.. aos que guarnecem a praça. etc. demolir. arrasar. – Cair é. ruir. deita-se abaixo a muralha que se quer reconstruir.. mas deve aplicar-se “só a coisas de grande volume. cio abalando a redondeza”. Mas diremos: “Tombam rochedos”. pois municionar tem predicação mais restrita. e sugere a ideia de que é “volumosa a coisa que tomba”. portanto.” – Desmoronar é “ir desfazendo-se” (Bruns. cair “a aba ou a beira”. deitar abaixo. Provisão (rad. como dissemos. caiu chuva. – Despenhar-se é vir abaixo desprendendo-se de grande altura (segundo a etimologia – “cair do alto de rochedo”).” 28 ABATER. cair com ímpeto em lugar profundo”. desabar. ou “Deixei tombar o lápis”. o verbo de sentido mais geral: enuncia a ideia de deixar uma coisa. – Aluir é abalar-se. de municionar) é tudo que se aplica diretamente à defesa da praça. demolir. como grossos muros. ou a de que é “extraordinária e sensacional a queda”.) e caindo pouco a pouco. desabou a barranca”. – Entendemos que derribar. como a muralha. Bruns. “Desabou a fachada de um edifício. “Abateu a terra em torno”. tombar..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 23 deslize da pura vernaculidade: “Aprovisionar de pólvora a praça”.. renovando ou transformando: manda-se abater a árvore que intercepta a vista.. “Ouvia-se cá de baixo o ruir dos cedros lá no Líbano”. tirar de cima para baixo”. 27 ABATER. Mas esta ideia é melhor expressa ainda pelo primeiro. – Ruir é “cair. no sentido figurado. se se dissesse: “Municionar de água ou de pão a praça”. derruir... tanto para esse fim. abate-se a fortaleza que não convém deixar de pé. como no exemplo. “Desmoronam-se castelos”. cair. – rápida e inesperadamente”: “Abateu o telhado”. caiu o chapéu de cima da mesa. Não se diria com propriedade: “Tombou-lhe dentre os dedos o charuto”. o verbo abater e a forma perifrástica pôr ou deitar abaixo: “Diferençam-se em que abate-se uma coisa para que deixe de existir. e até. – Compara assim. – Destruir é. etc. Tanto se derriba a árvore. etc. derrocar. abater com estrondo”. derribar. “fazer que uma coisa deixe de ser . “Tombam árvores”. “A parede aluiu com as chuvas”. porém. Não se daria o mesmo. precipitar-se. dos do grupo. despenhar-se. arruinar. – Demolir é “desfazer pouco a pouco uma vasta construção. e mais ou menos rapidamente. nem tanto. desfazer. vastas construções. e munição (rad.. e deita-se abaixo aquela que se quer substituir. “Ruiu todo o edifí- destruir. de aprovisionar) é tudo quanto convém. “Cai a casa. desmanchar. caiu um raio sobre a torre.

– Aniquilar é “destruir reduzindo a nada”. quer de quantidades em geral”. como se desfaz um exército.. “O bombardeio estragou enormemente a cidade”. “É preciso abater do ordenado do mês o que corresponde aos dias da licença”. “Do total a que chegou suponho que é preciso deminuir alguma coisa”. portanto. montanhas. instituições. “Descontam-se letras e outros papéis de crédito”. ou as cédulas do tesouro a recolher já sofrem desconto” (e não abatimento). Derruir (ou deruir) é “pôr abaixo abalando. Não há dúvida que se desmancha uma intriga. ou “deixar de meter em conta”. de tirar uma coisa da outra. – Estragar é “desfazer. 29 ABATER. “Deduzam da nossa dívida a importância dos serviços que temos prestado”. . ou mesmo destruir assolando”. uma cidade. conservando-lhes as peças para armá-las de novo. “mudar o estado de uma coisa de modo que não seja mais o que era”. construções)”. “Que da soma maior do dote se descontaria todo o oiro. – Descontar é propriamente “deduzir de uma conta”. “Com tais erros aniquila-se a obra de muitas gerações”. etc. – Minuir é “fazer menor”. deduzir. uma cerca (isto é – se desfaz. neste grupo. “Derruíram em poucas horas as muralhas do forte”. – Desfazer é. ou os muros ou paredes de um edifício”. desmaio. prata e joias que a infanta consigo levasse” (Fr. desmantela-se uma corporação que se desagrega e fica sem ter quem a dirija e represente. – Arrasar é “destruir completamente uma coisa (um edifício. languidez. uma floresta. um monte) até que fique rasa com o chão”. e até uma casa. subtrair. desfalecimento. ou mesmo – se destrói). – Derrocar (ou derocar) é “derribar com estrondo. “Já deduziu da nota as parcelas que estavam marcadas”? – Subtrair é. descontar. em geral. como se desmancha um muro. esvaimento. uma fortuna. deminuir. acobardamento. portanto. quer se trate de quantias. etc. “Arruinaram depressa todo um quarteirão da cidade”. privando-o de unidade de comando e de ação. “Tito arrasou Jerusalém”. dividindo-o. acabrunhamento. e deminuir (ou diminuir) é “fazer menor uma quantidade tirando dela uma outra quantidade”. o mesmo que deminuir. de Souza). É. significa “deduzir de uma certa importância uma outra que se combinou não fosse paga”: Abateu 20 0/0 nas compras que fiz”. aqui. um enredo. “desguarnecer um objeto daquilo que o protege ou que lhe é essencial. como bem define Aul. esmorecimento. “Os títulos. mas podemos também desmanchar um aparelho. Minuir é. verbo de sentido muito geral. – Arruinar é “estragar e reduzir a ruínas”. como se desfaz um nó. “Vai o tempo inexorável minuindo aquela robustez”. L. consistindo apenas a diferença entre os dois em “poder subtrair aplicar-se somente a números”. – Desmanchar é também desfazer. quase o mesmo que “minguar ou fazer minguar”.24 Rocha Pombo o que era desarranjando-lhe a estrutura”. demolir as fortificações de uma praça. 30 ABATIMENTO. definhamento. minuir. destruir com fracasso”. Derrocam-se muralhas. depressão. demolir grandes moles (rochedos. desmantela-se um exército desfazendo-lhe a parte mais forte. – Desmantelar é. – Abater. “Carregando impetuosos. Tanto se desfaz um muro. e em sentido mais restrito é estragar. esvaecimento. Desmantela-se uma fortaleza arruinando-lhe as muralhas. e por extensão: “abater de uma quantia uma outra que já foi paga ou que não deve ser paga”. Deduzir dá “ideia genérica de abater. como – figuradamente – se derrocam grandezas. aniquilaram num momento o inimigo”. mas sem ideia necessária de destruir.

– “Abatimento e prostração dizem-se do corpo e do espírito. ao cansaço ou à fraqueza”. desânimo. prostração. produzida por medo. etc. opressão. delíquio.. principalmente morais) produzida por trabalhos. entregue inteiramente à dor. – Depressão é o “abaixamento de forças produzindo abatimento do corpo e do espírito”. desalento. – Alquebramento é “diminuição.. desânimo.. desalento. – Desânimo e desesperação. definha.. o que não se nutre convenientemente enfraquece. – Desmaio será um “desfalecimento súbito”. Pode-se esmorecer subitamente. mas não chegou a feri-la de desalento para as coisas de arte”. ou por doença ou desgosto. de energia”. pois a ideia de subitaneidade já está contida em desmaiar. desesperação (desesperança e desespero). O organismo que se extenua por trabalho. o amor. – Acabrunhamento é o “estado de fadiga. O desânimo pode ser originado pela pusilanimidade: o desalento funda-se na experiência. Quanto a desânimo e desalento diz Bruns. mas decerto que se não dirá: – “desmaiou subitamente”. levanta-se Portugal como por um prodígio”. – Esmorecimento é quase desmaio. debilitação e enfraquecimento “exprimem também diminuição de forças (tanto tratando-se do corpo como do espírito)”. tristeza. ou sofrer alguma coisa”. o remorso. por trabalhos. – Acobardamento é a “depressão de ânimo. “Só a morte porá termo a todo aquele acabrunhamento”. um quase esmorecimento muito rápido. fortaleza moral. – Desfalecimento é a “perda de forças e de coragem”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 25 debilitação. que não esteja sujeita a profundas debilitações em certas crises. perda de lucidez “em consequência de desfalecimento”. – Segundo Bruns. – Esvaimento (do mesmo rad. Desanima aquele que “deixa de sentir a indispensável coragem para vencer um embaraço. produzido por dores físicas ou morais. porém. o desalento. quebra de forças ou de ânimo”: “Os meus alquebramentos não vão até o extremo de desalentar-me para a vida”. ou vencer um mal ou um sofrimento”. Análogas aplicações no sentido moral: a saudade. “Não foi propriamente desmaio o que ela teve. em que se fica sem ação. vanescere) é o desfalecimento produzido por exaustão (e tanto no sentido moral como no físico). “Daqueles sessenta anos de esvaimento. – Languidez é o “estado de fraqueza. . alquebramento. coragem. desilusões. – Desalento é a falta de forças (físicas ou morais. – Definhamento. – Prostração diz mais que os três precedentes: é o “extremo abatimento. mas um simples esvaecimento”.) do espírito: desanimar e desesperar marcam fenômenos da vida subjetiva. de coragem. debilita-se. instantâneo”. que “podem confundir-se: ambos significam falta de ânimo. sim – só se dizem (como no entender de Bruns. Desespera aquele que “perde de todo a coragem e a esperança”. tédio e abandono em que fica um doente”. o que se imobiliza ou não tem regra na vida. podem produzir definhamento em almas extremamente sensíveis. – Esvaecimento será um desmaio “muito subtil. por falta de coragem para arrostar um embaraço. desânimo e desesperação dizem-se só do espírito”.. etc. doenças ou miséria”. superar algum contratempo. Desesperação é “o auge do desalento” – diz ainda Bruns. e o desânimo à perda da coragem. uma consequência necessária da crápula é o “enfraquecimento do espírito”. enfraquecimento.”. “A doença alquebrou-a. – Abatimento é o “estado em que fica uma pessoa por efeito de grande dor ou choque (se é moral) ou de doença grave ou prolongado sofrimento físico”. “não há esperança. mas é mais lento e extenso. refere-se melhor à perda da esperança. “É o desânimo que nos arreda de encetarmos a empresa: é o desalento que nos induz a não continuar o que não nos deu os resultados que esperávamos obter”.

desesperança e desespero. mas certamente não se pode abandonar e largar.. é “abdicar em sentido amplo e geral”. ceder. – Delíquio aproxima-se de desmaio e de esvaimento: é o estado em que fica uma pessoa que desfalece “como se se dissolvesse”. “Renunciam-se (e não – abdicam-se) riquezas”. renunciar. – Demitir-se é “deixar de permanecer no cargo. “tirar de si por vontade ou a contragosto”. quem larga como que “deixa fugir ou escapar a coisa largada”. ou de um cargo que não mais lhe convinha ocupar. ou de um intento. ou a função em que se estava”. “deixar o que se tinha começado. recusar. no entanto. “O pobre está desobrigado de dar esmolas”. – Exonerar-se é também demitir-se. 31 ABDICAR. igualmente como aquele que abdica. “Como é que se recusa entrada a um moço daquela ordem?” “Ele recusou tão bom emprego”. atormentada de todos os desesperos do precito”. ou não se pode dizer que se larga depois de haver abandonado. ou algum cargo”. desistir. mas sugere a ideia de que se “alivia de peso. devendo notar-se que é sempre voluntariamente que se resigna. o desvario de quem se desengana de alguma coisa. Desesperação é a aflição.”. pois quem abdica ainda usa do seu direito de passar a outrem a dignidade abdicada. largar. Quem se demite põe-se fora do lugar em que estava: quem se exonera liberta-se de um trabalho. desistir da obrigação que se tomara. largou o ofício de órfãs” (deixou-o livre. uma ignomínia. em favor ou proveito de alguém. ou “não querer coisa a que se tem direito. de permitir. ou em cuja posse se estava legitimamente”. – Abdicar é “renunciar. esquecendo-a. – O mesmo deve acontecer a quem recusa. “Renunciai instintos ignóbeis” (Mont’Alverne). Pode-se largar e abandonar..) “desistir de alguma coisa em favor”. de aceitar”. “Ele se desobrigaria do pacto se nós o maltratássemos”. “O príncipe abandonou a sua causa”. o que se exonera”. ou encargo ou tarefa pesada. que aquele que renuncia pode ser a isso forçado. a privação de toda esperança. – Largar e abandonar significam “deixar. alguma dignidade ou alto cargo”. . – Rejeitar é propriamente “lançar de si com veemência ou ímpeto”. “Vou desobrigar- -me contigo da promessa que fiz”. livrar-se ou exonerar-se de um dever”. abandonar. como se rejeita uma coroa.. mesmo de loiros”. “Não há fortes que não tenham seus delíquios na vida”. desiste-se de um pleito.26 Rocha Pombo É preciso distinguir as três formas – desesperação. Mas. mas quem resigna entende-se que mais propriamente renuncia do que abdica. desobrigar-se. ou em proveito de alguém. é “abrir mão de. quem abandona “como que foge ou se afasta da coisa abandonada”. Quem rejeita não está de posse ainda da coisa rejeitada. pôr de lado alguma coisa. “Desobrigou-se facilmente da grande missão”. “despojar-se de alguma honra ou algum proveito antes de tempo”. – Ceder é (como diz Aul. Desespero significa mais a raiva.. – Desistir de. exone- rar-se. Recusar diz menos que rejeitar: é “deixar de receber. demitiu-se ele próprio daquelas funções”. resignar. “Como não lhe atenderam aos reclamos. – Resignar é íntimo convizinho de renunciar e de abdicar.” – Renunciar é “depor voluntariamente”. “A desesperança de quem viveu sem pensar no destino pode chegar à desesperação de morte horrível. Rejeita-se uma proposta desonesta.. quem renuncia (como quem resigna) despoja-se do cargo ou da coisa renunciada. “Abdica o rei o seu trono em favor de outrem. Desiste-se de um emprego. rejeitar. ou vago). “Esaú cedeu a Jacob o seu direito de primogenitura”. e. “F. no posto”. Desesperança é apenas a falta. – Desobrigar-se é “isentar-se da responsabilidade. ou sem nada mais ter que ver com a sorte dela. demitir-se.. a angústia em que fica quem perdeu a esperança.

Dizemos – a benção do pão. têm entre si alguma diferença. benzer. ou benções”. pandulho. pois. “alargamento ou saliência” – diz Aul. significa propriamente “dizer bem. 27 pança. Bendizemos a hora. bento. água benta. pança são plebeísmos a que se dá sentido semelhante ao de abdômen. bojo. – Também se sente a distinção nos derivados benção e benzimento (ou benzedura). bendito. em vez da de volume. – Ventre é também abdômen. O segundo. – Do verbo latino benedicere formaram-se – diz Roq. – Bento designa a benção da Igreja. louvar. benzer. entranha. profundo. que bendito.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 32 ABDÔMEN. – Vê-se. e mesmo como significando “ato de benzer. Esta diferença – diz Roq. o instante em que nos vem alguma felicidade. sensível. ventre. 33 ABENÇOAR. da vela de uma embarcação”. – três verbos portugueses (bendizer. não já de abençoar. uma família. exalçar”. dada pelo sacerdote com as cerimônias do costume. porque louvar é mais “fazer elogios” do que “dizer bem e dar graças”. bentas com grande pompa na Igreja. louvar. com esta diferença: louvar se diz em relação a Deus. etc. O terceiro. significando “amplitude. barriga. de uma parede.. a pança ou o pandulho”: não com a mesma propriedade – “encheu o ventre”. – Abdômen (diz Bruns. benção. e nunca – “encheu o abdômen”. pedir bens e prosperidades para alguém”. benzer e abençoar) torna-se mais sensível nos particípios destes verbos. de atividade funcional”. bendizer. grandeza de volume de forma arredondada”.”. pandulho.. e também “abençoam a assistência ao fim da missa”. abençoado. Dizemos vulgarmente: “encheu a barriga. Bendizer e abençoar confundem-se muitas vezes na significação extensiva de “desejar. “O bojo de um navio. Pão bento. etc. O que se diz de bendizer aplica-se a louvar. Daí bojo com aplicação ao volume desabalado do abdômen. Benzer não é hoje usado senão para indicar as benções eclesiásticas ou supersticiosas. bendizer pode referir-se também a coisas. Nossa Senhora é bendita entre todas as mulheres.) “é o nome científico da cavidade que encerra os intestinos do homem. mas.. Todas as nações foram abençoadas em Jesus Cristo.. O primeiro. abençoar (ou abendiçoar). benzimento. uma nação. – Bendito ou abençoado se diz para designar a proteção particular de Deus sobre uma pessoa. Distinguem-se de abdômen e de ventre por significarem mais particularmente o estômago. “Os pais abençoam os filhos para que sejam felizes”. a santos e a homens. “As bandeiras militares. Benzimento é também ato de benzer. posto que concordem na ideia principal. extensivamente diz-se do vulto que essa cavidade apresenta exteriormente”. abençoar) que. isto é – “sugerem ideia de ventre volumoso”. e às vezes abençoado. “Os sacerdotes benzem tudo que é consagrado ao culto divino”. benzer. etc. Benção é tanto o ato de abençoar como de benzer. – Bojo é termo genérico. – (entre bendizer. “sugere ideia de fecundidade. – Entranha (ou entranhas) diz também ventre. mas acrescentando-lhe ideia de “íntimo.” – Barriga. nem sempre são abençoadas do Céu nos campos de batalha”. significa “lançar benções acompanhando-as de preces e ritos apropriados à coisa que se benze. significa “deitar a benção. se pode dizer no sentido moral e de louvores. como dizemos – a benção dos pais. – em forma convexa: “O bojo de um frasco. “O justo bendiz (ou louva) ao Senhor tanto na prosperidade como na desgraça”. bendizer. e bento no sentido legal e de consagração. e não – louvamos. já não . de um tronco de árvore. de um barril. a parte para onde vai o alimento quando é ingerido.

“As fendas que o sol fez no muro” (e não as frestas). que abertura sugere ideia de que a racha foi “feita de propósito” (como nota Roq.. por . A segunda. oferecido. “frinchas da madeira”. nem sempre se dá em relação a aberta. “As bombardas fizeram rombos enormes na muralha. no entanto. claro” e vagamente: “Frinchas da renda”. além de grande força onomatopeica. mas com a cabeça coberta. tomando atitude em questões que lhe não pertencem”. dá mais ideia de violência e de grandeza. pelo menos. – Buraco é “abertura. metediço. Fisga é quase o mesmo que fresta: apenas fisga dá ideia de abertura feita por um corte ou rasgão. o óleo. é “o espaço que fica entre duas partes de um corpo que se separam”. entremetido. é uma rotura natural.” Rombo.): o que.” 35 ABELHUDO. Diremos: “Por uma fresta da porta mal fechada vi-a passar” (e não: por uma fenda). greta. “por um vão da floresta.28 Rocha Pombo se pode mais aplicar a cerimônias de culto. e não dá ideia de proporções: tanto é buraco um rombo enorme feito através de uma montanha como é buraco o furo feito por uma bala através de uma parede. – Abelhudo é aquele que vive (como a abelha num jardim) “metendo-se em toda parte. 34 ABERTURA. e por extensão qualquer fenda por onde penetra a custo a luz. fisga. por uma fisga de roupa” (Herc. resquício. fresta. ou da montanha. aberta. a água. intrujão. é uma racha aberta de propósito com instrumento cortante.. A greta e o resquício são naturais. ou estreita: devendo notar-se: que fresta é das três a que exprime abertura menos estreita. in- trometido. fisga são muito semelhantes pela ideia comum. vão. – Fresta. – Quanto a greta. greta. – Aberta é o mesmo que abertura. escreve Roq. fenda. que mirava tudo. mas o que “se mete com certa audácia naquilo que lhe não compete”. fenda. frincha. o espaço livre entre duas ou mais partes de uma coisa”. interstício. é.).). A terceira. no entanto. abertura e resquício.. O sacerdote benze o fogo. que sugerem. a abertura é artificial”. – Se o buraco é muito fino.: “A diferença que existe entre a significação destas três palavras é bem fácil de notar. ou dos efeitos do calórico. – Entremetido é. rigorosamente falando. Benzimento ou benzedura ficou tendo aplicação quase exclusiva a “coisas de cabala. cumprindo observar. passa a ser orifício. abertura. a abertura que há entre o quício e a porta. Este dá ideia ainda de rotura de grandes proporções. – Frincha “dá ideia de fenda. – Interstício é propriamente “o que fica entre duas coisas”. ordinariamente circular”. não propriamente abelhudo. intruso. própria de dilatação ou contração dos corpos sólidos. – Vão é “todo o vazio ou espaço aberto num corpo”.. – Furo e rombo designam “buraco. discutindo negócios alheios. Poder-se-ia dizer igualmente sem grande impropriedade: “. “Eu. buraco. de abertura longa e fina. – Rotura é a “aberta deixada por um rompimento”. nem mesmo nos casos em que se aplica o verbo benzer. mas a benzimento do fogo preferimos dizer – a benção do fogo. Nem sempre. ingerido. mas para ouvir o que se diz. a gestos ou figurações de supersticiosos”. rombo. ou no costado do navio”. A primeira. orifício. “Pelo vão de uma janela”. saber de tudo que se faz. rotura. taralhão. introduzido. principalmente rombo. falha. resquício. rotura feita com mais ou menos violência. pois esta enuncia apenas o “claro de greta grande. fizeram enormes furos. racha. e fenda é exatamente o contrário – enuncia apenas a ideia de que se não acham unidas ou apertadas as duas partes de um corpo que se disgregam. – Racha é a “abertura por efeito de rotura” (Aul. furo.

Assim. – Aberto é talvez o mais genérico do grupo. ao passo que taralhão parece o mais inofensivo. é vasta quando as suas dimensões são extraordinárias”. – Metediço é como se se dissesse oferecido: é o que “vai ou se mete em toda parte mesmo sem ser chamado”. “O entremetido parece sempre demasiado gordo”. enquanto que oferecido diz também alguma coisa de dissimulado. e em sentido lato dá ideia de “tão desmedido e aberto como se fora feito por arrasamento e assolação”. ou pelo menos tendo algum interesse. dilatado. aplicar (como acontece em relação a amplo) em certos sentidos morais: não diríamos. explora. “Taralhão é o que se entremete onde o não chamam” (Bento Antonio). – Introduzido é mais que oferecido. familiaridade ou importância. lhe chamam taralhice. ou jocosos ou sérios. Creio que por elipse se tirou da outra frase muito comum: “meter-se a taralhão”. . Distingue-se de oferecido porque dá mais ideia de atrevimento e desaso. – Intrometido é o mesmo que entremetido. extenso. afetando graça. porque chamam de taralhão à pessoa gorda. com ridiculez. “campina dilatada e aberta. de grande circunferência”. O metediço irrita. larga liberdade. e os taralhões são pardais que engordam muito. e até que metediço: é o que “entra onde não deve entrar. engana. é ampla quando nela folga tudo o que contém. Largo não se poderia também. e mais ainda: é o “tipo manhoso e importuno que persegue com lábias. com muita propriedade. livre de obstáculos. e com mais atrevimento que desaso”. (Aul.). por exemplo: larga jurisdição. Diz – “o que está desimpedido. velhaco. e em certos casos sugere ideia de amplitude: “Horizontes abertos”. diz que amplo. vasto. amplo.) “Com grandes poderes e ampla jurisdição” (Dic. largo. a propósito de taralhão. e o epíteto se aplica a pessoas afetadas. – Ingerido (que se confunde bem com inserido ou enxerido) é o que “intervém em questões ou negócios pretendendo resolver ou adiantar o que é de competência alheia”. conversar ou obrar. portanto. desconfia-se do oferecido. e de significação mais vaga. “Casa espaçosa”. da Acad. – Espaçoso é “o que compreende relativamente grande porção de espaço”. De toda a família é o mais forte. Repulsa-se o metediço. o oferecido aborrece. A propósito de taralhão. Bluteau já havia. – Largo é o que “só tem grande a largura”: muito menos. estirado. e portanto contra o direito”. que “uma sala é espaçosa quando. portanto. se entremete onde não é chamado. lato. – Intrujão é ao mesmo tempo metediço e abelhudo. notado que o termo se toma metaforicamente por gordo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 29 isso. explanado. e “em frase chula quer dizer – aquele que tem um modo de tratar com termos. O antônimo de largo é estreito. o entremetido é abelhudo: só a inversa é que é menos exata. ainda nela há muito espaço desocupado. desfruta. espaçoso. ou fim oculto em meter-se onde não foi convidado a ir. E uma vez que taralhão e gordo se equivalem. naturais ou afetados que o fazem ridículo.” – Amplo ajunta à noção de dilatado a ideia de “vasto contorno. Diz Bruns. valendo-se de astúcias e perfídias”. desenvolvido. largo direito. – Vasto é mais do que amplo e espaçoso. “Vasta campanha. 36 ABERTO. o de amplo é exíguo (ou constrito). – Intruso é o que “se põe nalgum lugar alheio. intrusas e ridículas. escreve João Ribeiro na última série das suas Frases feitas: “Atribui-se o ditado “Nunca o vi mais gordo” ao imprudente que. suponho que o sentido passou de um ditado ao outro. “O assunto é muito amplo para ser tratado em meia hora”. contendo muita mobília. e a este trato ou modo de falar. é o que é amplo – largo e comprido – extenso. que abrange todas as dimensões.

à farta.. vive-se desafogadamente quando se vive sem ânsias ou preocupações. falta. – Regaladamente diz mais do que “em abundância”. ou pelo menos nem sempre – campo longo. à vontade. no sentido próprio.. à lar- liberdade”. à saciedade. sem preocupações”..). Não diria decerto: “. “Desenvolvido demais foi o discurso”. plano. a “de largura. Camões disse: “Esperando com olhos longos o marido ausente”. – Lato é quase o mesmo que amplo. “sem medir gastos”. “conforme é do nosso agrado”. Passamos regaladamente “quando passamos como. – Desafogadamente enuncia a ideia de “sem nenhum embaraço ou premura. disparate.. – Dilatado diz juntamente o que “é longo.. “sem apertos ou empecilhos”. nem com tanta propriedade. “sem obedecer a escrúpulos”. error. “Percorremos as formosas e latas veredas daquela região”. Ninguém confundirá. igual. regaladamente. e à saciedade se goza um prazer se não se deseja mais. mais desenvolvido que o normal”. desconcerto. “Chegamos ali. desafogadamente.” – Desenvolvido refere-se a uma grandeza que tomou proporções notáveis: “O menino está desenvolvido”. a uma parte do continente explanada como imensa campanha a perder de vista”. diz mais. largamente.. desvairo. diz “extenso. desregramento”. folgadamente. vasto mar”. e na acepção usual referem-se mais ao comprimento do que à largura. – À vontade quer dizer “como quiser ou desejar”. ou como senhora rica “que cuida mais da mesa que da fama”. ou (como em semântica) de sentido ilimitado”. vive-se à farta se se não tem necessidade de calcular muito as despesas. “sem regular cuidados”. É de mais força que largamente. Estamos folgadamente onde nada nos aperta ou oprime. – Estirado quer dizer “estendido. extenso. fica-se a gosto onde não há cerimônia. – A bel-prazer significa “segundo a própria satisfação”. com olhos extensos. “Estão bem desenvolvidos os serviços da construção”.. no entanto. despropósito.. pois esta forma equivale apenas a “de modo amplo”. con- ga. 38 ABERRAÇÃO. vive-se à larga quando se gasta desregradamente. a gosto. enquanto que à larga sugere ideia de “incontinência. desrazão.. despautério. livremente. – Mas. à grande”. estirado. destempero. deixa-se a criança brincar à vontade. ou “com fartura”: acrescenta a isso a ideia de “com alegria e voluptuosidade de sibarita”. “Dilatada campina. longo exprime ainda mais particularmente a ideia de comprimento. “até mais não desejar ou não querer”. que é o mesmo que “até ficar satisfeito”. desconchavo. ou diz menos do que largo”. “Este vocábulo. À larga diz “em plena trassenso. portanto. 37 A BEL-PRAZER. – Folgadamente corresponde a “com largueza” (Aul. vasto. – À regalona diz ainda mais que regaladamente: significa “de maneira ostentosa. dilatados domínios. além da ideia de amplitude propriamente. – “Estamos em nossa casa a bel-prazer. – Extenso diz menos que amplo. na acepção lata. “Não pudemos aguentar toda aquela estirada arenga”. príncipes”.. Diríamos indiferentemente longo ou extenso caminho. absurdo. “Falou à larga contra o governo”. desatino.. fazendo-se mais convizinho de longo. amplo. dilatado. claudica- . à regalona. Trata-se à regalona quem se trata como grão-senhor. destampatório. aberto”. estas duas frases: “Falou largamente contra o governo”. ou se se tem com fartura o que é necessário.30 Rocha Pombo vasto país. de extensão.. dilatados tempos”. – Explanado. – À farta equivale a “com fartura”. A gosto exprime “sem constranger-se”. erro. aberto”. sugere. e aproxima-se de à saciedade. extravagância. extenso.

– Contrassenso é o mesmo que “contrário ao senso comum. flagrante. uma acepção que o aproxima de absurdo. Mas entre absurdo e aberração deve notar-se pelo menos esta diferença facilmente perceptível: absurdo é termo genérico e que. ao modo de ver de todo mundo”.). além de forma erudita. uns percebidos quando colidem com o entendimento (desrazões). ou dos princípios da lógica. lapso. são erros de certa ordem. em certos casos. Desrazão e contrassenso são casos particu3 Diz Laf. ou melhor com a consciência vigente. é o que não está “no mesmo tom. – Destempero é extravagância “mais estrondosa e deplorável”. – Despautério é forma popular de disparate. – Desconcerto é “disparate sem espírito. é como se disséssemos. – Despropósito é “dito ou ação fora de propósito. determinado.. Decerto que tratando de Lutero não diria o padre católico: “os absurdos”. por extensão. pois este vocábulo enuncia “o que é contrário ao senso comum”. – Desrazão significa propriamente “contra a razão”. verbo de predicação muito mais vaga. “contrário ao que é razoável”. desvio. descuido.. devendo considerar-se que parece inseparável da ideia de culpa. e só se deve aplicar a deformidades e a erros extraordinários. – Extravagância é “tudo o que se desvia das normas usuais do bom senso e da boa razão” (Aul. deslize. de equilíbrio mental”. quer dizer “o erro que comete quem se desvia das leis do espírito. ou do que se tinha assentado”. patada. cinca. é destempero que chega a parecer excesso de doido. ou em desacordo com aquilo de que se trata”. “Este homem tem perpetrado tais absurdos.. Dizemos também: “as aberrações do espírito humano”. confusão produzida por desvio do normal”. outros percebidos ainda mais prontamente. mas. mas nunca chegou a tais destemperos”. – Disparate é desatino que tem “mais de graça que propriamente de doidice”. ou mesmo os sentidos materiais bastassem para senti-los (contrassensos). conquanto seja este menos forte nesta acepção. – Desconchavo é também o que “desgarra das normas. equívoco.. que não se ajusta à ordem de ideias ou de fatos que se seguia”.. engano. ao passo que aberração enuncia a ideia geral de aberrar. persistência ou “reincidência numa série de erros”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 31 ção. principalmente no plural. lares de absurdo. – Aberração3 significa propriamente o “ato de sair do caminho direito (aberrar). e mais: “erros de entendimento ou de juízo que de . não diria o professor ao aluno: “Disseste. – Erro é “tudo o que não se concilia com a razão. descaminho.. desacerto. descaída. Revendo um tema. “F. poderia confundir-se com abuso: designa simples infração de raciocínio. Toma. aquilo que está “em colisão com a consciência”. Aberração..” – Error é.. “as aberrações do demônio”. – Desatino é “falta de tino. etc. e diz “absurdo. é mais forte. aplicado a fatos de psicologia. despropósito que não vale a pena de combater ou destruir”. ou cometeste aberrações”. O que é absurdo ao sentir ou ver de uns pode deixar de o ser ao de outros. e não: “os absurdos”. como se apenas o bom senso. – Intr. – Destampatório é “extravagância ou despropósito descomunal”. portanto. – Desvairo (ou desvaire) será o desatino “leve e sem a graça do disparate”. porque absurdo é o fato “em si mesmo. além de mais preciso. ou cometido estas aberrações”. e por isso aproxima-se muito de falta. “Simples faltas que nem se podem ter por erros. “uma extensão de erro”. perder-se no caminho”. de aprumo. ou do que se dizia. transviamento da linha em que se ia. mas: “Disseste absurdos”. concreto”. comete às vezes umas tantas extravagâncias.. queda. LXXIX – que aberração era um termo de astronomia somente antes do começo do século XIX.

ignaro. não tiveram mais desculpa os muitos enganos. pateta. apalhaçado. e desvio é o “ato de mudar de rumo. amatungado. aburregado. aplicar-se a erros de entendimento. abobado. aplicável a cada um desses e o respetivo derivado. Claudicação é propriamente o “ato de coxear”. notando-se. beócio. que descaminho é o “fato de tomar caminho errado. Quanto a alguns do grupo há uma observação a fazer. alvar. jogral. atoleimado. obtuso. estes. apapalvado. do reto caminho”. e no sentido figurado designa o “ato de cometer erros por defeito de espírito. apataratado. Deslize é “ligeiro desvio da linha. boca-aberta. – Patada é plebeísmo que significa “despropósito grosseiro. truão. patarata. abasbanado.) – Desvio e descaminho quase que se equivalem. erro brutal. viram todos como erros que logo tomaram o caráter de verdadeiros crimes”. tabaréu. palerma. ou de perder o caminho certo ou direito”. e que se refere à diferença notável marcada pela derivação. Exemplo: “Repetem-se os lapsos. simples. e sempre sem as proporções e a gravidade que tem o erro propriamente”. maturrão. palonço. pascácio. aboçalado. burrego. sandeu. aumentando àqueles a ideia “de ingenuidade ou inconsciência”. idiota. acamelado. basbaque. patocho. bestiaga. e inclui ideia de asneira agressiva”. de expediente na vida. queda. parvoeirão. depois. camelo. lerdo. patego. amatutado.” Podem. asno. e por fim. porém. boto. – Lapso é quase equívoco: é engano devido mais à falta de memória que a desmazelo ou ignorância. acaipirado. palhaço. – Equívoco é menos que descuido: é o engano “cometido contra a vontade ou intenção de quem o comete”. apatetado. de vivacidade. mais por ilusão do que em consciência. rude. palúrdio. ou “falta cometida por imperícia”.32 Rocha Pombo 39 ABESTALHADO. ajogralado. já ele não sabia explicar tão frequentes equívocos. bobo.Vejamos: Besta é tropo conhecido que designa o indivíduo em que aparentemente se denuncia uma indigência de entendimento e uma índole obstinada semelhantes ao que parece ter o quadrúpede desse nome: abestalhado. – Cinca (ou cincada) é “erro de ofício”. bobório. quadrúpede. asinino. (Aul. descaída é mais “deslize ou lapso que propriamente queda”. apenas uma extensa e atenuada do seu radical. significa “que se mostra besta. pacóvio. bufão. apalonçado. papa-moscas. jumento. no entanto. fátuo. enfatuado. apalermado. aburrado. simplório. – Descaída. estupidarrão. tapado. assentam mais propriamente a faltas de senso prático. ou da direção em que se ia ou que tinha de ser seguida. abobalhado. bronco. rombo. camelório. ignorantão. ignorante. conduta”. besta. pasmado. que podiam passar como apenas claudicações censuráveis. toleirão. ou por falta de noção exata do dever”. caipira. maninelo. – Todos estes vocábulos exprimem de comum a ideia de “falta de inteligência. aparvoado. – Engano será o “erro ou a falta cometida sem culpa. ou que tem ares de besta”. de espírito para agir”. doidivanas. como poderia parecer. Quer isto dizer que mesmo um indivíduo muito inteligente . tolo. não devendo entender-se que este (o derivado) seja sempre. deslize equivalem quase a claudicações: queda sugere de mais a ideia de culpa ou de pecado. asneirão. imbecil. em certos casos. matuto. aparvalhado. parvajola. em regra. parvo. mentecapto. ingênuo. patau. burro. “Os seus deslizes nem são descaídas quanto mais quedas”. estulto. estólido. mas. estúpido. parvoinho. pataroco. – Desacerto é “erro ou falta cometida por irreflexão ou inadvertência”. – Descuido é o “engano cometido por falta de atenção”. chocarreiro. lorpa. abasbacado. de graça para agradar. basbana. charro. bolônio. boçal. alorpado. pato. lerdaço. papalvo. embotado. néscio.

(Aul. na Idade Média. disparates gaguejados a custo. impostora. Notemos ainda que entre abobado e abobalhado é preciso fazer uma ligeira distinção: o primeiro quer dizer que parece bobo. estúpido” – Lerdaço é aumentativo de lerdo. estouvado. incapaz de esforço físico ou mental”. preguiçoso. que é a mais usada. ignorante que se mete a sabichão. – Besta. com jeito de parvo”). equivale a “bobo insolente. – Palúrdio quer dizer “idiota. palerma. não figure nos léxicos. uma forma diminutiva ainda mais acentuada de pato.). lasso. – Patau (que também poderia ser uma adaptação do francês pataud) sugere. com idêntica significação. abrutalhado”. e parvajola = “que. que tem ares de bobo. – Camelório diz “quase camelo”.) é o “indivíduo pesado. Dá apataratado = “que se faz patarata”. – Patocho. que é provincianismo algarvio. – Lerdo equivale a “pesado. que se deixa iludir. patego. temos ainda bobório. histrião por ofício do que propriamente idiota ou besta”. patocho. – Patarata é “pessoa tola. curto de compreensão como criança. fútil”. diz melhor “o que não tem o discernimento. ou palavras deturpadas e sem nexo. modos e gestos de quase idiota. explorar facilmente”. do que propriamente com discursos ou ditos graciosos”. Do mesmo radical temos ainda: patau. parecendo. Temos ainda alorpado = “feito. – Patego é como se dissesse “pequeno pato”. aliás. formas que pouco alteram a significa- ção que tem aqui. nem a compostura. – Pataroco é outro provincianismo algarvio. – Lorpa é o indivíduo “inepto. que é forma erudita. a própria palavra pato. mais com esgares. e revelando isso por inépcias. meio parvo”) e aparvalhado (“semelhante a parvo. além de abestalhado. “meio pato”. – Estólido. pataroco. – Pateta designa indivíduo “desorientado e abobado”. diz C. – Parvo quer dizer “pequeno de espírito. O mesmo deve entender-se quanto aos outros do grupo que dão derivados. ou “que se assemelha a patarata”. parvoinho” (pois parvajola é também forma diminutiva). – Apalhaçado = “que se faz palhaço”.. muito usado pelo menos em grande parte do sul do Brasil. – Palhaço significa mais – “bobo. a de grande inépcia”. abobalhado = “que se faz de bobo”. – Camelo (fig. por fazer-se engraçado. Acamelado = “com ares de camelo”. Dá apatetado = “com ares de pateta”. afetada. conquanto. ou melhor. estúpido. era. graçolas charras.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 33 pode ser abestalhado (isto é – ter modos e ares de besta). Dá apalermado = “com ares de palerma”. que significa “estúpido e sem préstimo ou valor algum”.) = “grande parvo”. – Tolo e estólido são formações do mesmo latino stolidus: a forma popular. o jogral de corte. o que é “leviano com petulância”. e por analogia significa o “indivíduo pobre de espírito que procura divertir os outros. – Parvoinho é simples diminutivo de parvo. – Bobório quer dizer “bobo a afetar compostura de gente sensata”. “que se faz de camelo”. “tipo mais boçal e desfrutável que o bobo”. – Basbaque é convizi- . pretensiosa. fácil de enganar”. Dá apapalvado = “com jeito de papalvo”. além da ideia de parvoíce. como outros muitos do grupo. dá bestiaga. como se sabe. e o segundo. se ostenta parvo. a medida do bom senso comum”. ou parecendo lorpa”. – Bobo. mandrião. mímica espalhafatosa. Dá atoleimado – “que se faz de tolo”. – Papalvo quer dizer “simplório. Além de abobado e abobalhado. de Fig. dando ideia do “indivíduo lorpa. enganar. Parece dar-se o contrário com aparvoado (“feito parvo. maluco pretensioso”. por figura. – Palerma é o indivíduo “quase idiota e que parece ter tanta incapacidade para pensar como para mover-se”. rude. lerdo no pensar e no agir”. demasiado ingênuo. e que significa o mesmo que patego. Temos ainda: parvoeirão (aum.

34 Rocha Pombo nho de palerma: é o “ingênuo que pasma de tudo. pasmado e imbecil”. rude. “maroto estúpido. ou de inteligência pesada. – Tapado. ignorante. – Enfatuado (ou infatuado) é “o que se torna fátuo”. farsista.” Temos ainda: acaipirado = “com ares ou modos de caipira”. – Apalonçado = à semelhança de palonço”. – Beócio. quase impertinente”.. – Chocarreiro é o “bufão insolente. bobo que faz o seu papel com certo aparato”. falto de inteligência”: bronco é o que “não entende por defeito de faculdade aperceptiva”. – Doidivanas é o “indivíduo sem tino. O idiota é desequili- . que “se atrapalha com a tarefa por falta de aptidão”. significa o mesmo que “ingênuo. – Pascácio assemelha-se bem a “bobo. tipo desavisado”. – Maninelo é o “bobo que se mete ridiculamente a gostar muito de mulheres” (corresponde ao nosso brasileirismo coió). imbecil como basbaque”. – Tabaréu tem significação muito parecida com a do nosso caipira. por falta de estímulo”. rude equivale a “de difícil compreensão por desmazelo. abobado”. – Estupidarrão e toleirão são aumentativos de estúpido e tolo. desapercebido. imbecil”. curto de espírito. e. convindo notar-se. inepto”. obra. de boa-fé excessiva. segundo a origem do vocábulo (designa habitante da Beócia. – Estulto quer dizer “tolo. Ajogralado = dado a jogral. bronco. sem malícia e sem espírito”. rombo é o que “não tem capacidade de raciocínio”. amatutado = “com ares de matuto”. idiota.). – Bolônio é “indivíduo rústico e simples que se deixa enganar por todos” (Bruns. o mesmo matuto. por um prejuízo dos atenienses tido como estúpido ou pouco inteligente). no entanto. – Papa-moscas está dizendo tudo por si mesmo: “tão inerte. burro abobado. ou que inspira asco ou aversão”. tosco do que propriamente bronco”. é provincianismo algarvio. É o mesmo que boca-aberta. que salta e canta por dinheiro”. é o sujeito que “não sabe ainda bem o seu ofício”. que tapado é aquele que parece ter o espírito “como que fechado para o mundo exterior”. é muito empregado com esta significação. estraga-albardas”. tão massa-bruta que as moscas lhe entram na boca”. sem prática da cidade. sandio) equivale a “tapado. – Jogral é o “bobo de praça”. é aplicável ao indivíduo “inepto. na acepção em que é aqui tomado. – Basbana. – Fátuo é o “ignorante tolo e presumido”. no entanto. que é imbecil. – Abasbacado (ou embasbacado) = “que é ou se mostra como basbaque”. – Mentecapto é o que “não tem siso”. crédulo demais”. que fala. atabalhoado. sem disfarce. – Abasbanado = “parecendo basbana”. estouvado. Ainda assim. que fica parado e em pasmo diante de coisas que não entende”. extravagante. – Sandeu (do esp. obtuso. Bronco e rombo equivalem-se na significação de “estúpido. quase papalvo. – Néscio quer dizer “que nada sabe. – Pacóvio é simplório da mesma família: “idiota e lorpa”. parvo. fora do papel que lhe cabe. bruto de senso. rombo e tolhido. – Rude significa mais “áspero. de espírito entorpecido. segundo C. rombo e rude têm uma sinonímia quase perfeita. que “faz figura ridícula por inépcia”: caipira é o “homem do mato. desafrontado e chalaceiro”. tonto. – Obtuso é o bronco “que se esforça” e “quebra a cabeça” inutilmente porque é “incapaz de compreender”. no entanto. significando “estólido. de Fig. como pateta”. – Simplório quer dizer – “despreocupado. O tabaréu. – Simples. – Aboçalado = “que tem aparências de boçal”. vaga como doido. – Boçal exprime “estúpido e bobo que repugna. – Estúpido diz propriamente “rude. – Bufão é o “truão espalhafatoso. desconfiado e escuso. que diz mais chalaças do que salta”. grosseiro. – Palonço equivale a “tipo sem vida. – Truão é o “bobo vagabundo. – Idiota e imbecil equivalem-se. meio bobo.

– Abeirar-se diz propriamente “aproximar-se da beira”. ou que não tem a ciência necessária à profissão que exerce. – Charro é “gordo. asno. se bem que pareçam dizer. alvar.. nem sente mais nada”. a palavra ignorante num sentido mais restrito. – E vem agora. maturrão.. e imbecil é “quase idiota. por analogia. e “não vê. “não tem senso nem discernimento para distinguir coisas diferentes”. e diz “quase imbecil. de sinceridade. ou o mais possível. aconchegar-se. Toma-se. e neste grupo. inópia intelectual. 40 ABEIRAR-SE. ingênuo aproximam-se. – Quadrúpede designa “sujeito.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 35 brado. lerdo e inepto. “falto de cultura. sem agudeza de senso”. asneirão. burro. É quase o mesmo que basbaque e palerma: apenas o palerma “parece não ver”. Asneirão e asinino são meras gradações de asno: significando asneirão “grande asno”. o basbaque “não vê nem sente”. que equivale a “pequeno burro”.. celeridade. à primeira vista. parecem a mesma coisa. acercar-se. no sentido figurado. mas é tão fraco de espírito”. e por isso mesmo incorrendo frequentemente em enganos e caindo em ridículo”. matungo. não ouve. temos: aburrado (ou emburrado) = que se obstina como burro”. decisão”. Qual é aquele que tudo sabe? Pois só aquele que tudo soubesse de alguma coisa ignorante. burro.: “Todo homem é mais ou menos ignorante”. ou incapaz de esforço em coisas de espírito. que é “termo familiar que se aplica a um néscio que pretende impor-se como sábio”.” – Chegar-se e achegar-se. São todos termos chulos empregados para significar. asinino. o asno que é afeito ao jugo”. completando esta fa- mília. encostar-se. Sobre estes dois sinônimos escreve Roq. Tanto a idiotia como a imbecilidade podem ter como causa algum defeito orgânico do cérebro. sentido desfigurado do próprio. que sempre se toma em mau sentido. – Aproximar-se equivale a apropinquar-se. “chegar junto. Mas já uma dife- . chegar-se. significando ambos “chegar perto”. – Ignorante diz apenas “que não tem instrução”. ou que ignora as coisas mais geralmente sabidas. defeito de aptidão comparáveis à bruteza do asno ou do quadrúpede em geral. para designar a pessoa que não sabe o que devia saber. conchegar-se. grosseiro. sem nenhuma cultura intelectual”. – Ignorantão é aumentativo de ignorante. “semelhante a asno” ou “que faz de asno”. e designa o estado da mais crassa e vergonhosa ignorância: aplicada às pessoas é injuriosa. Ingênuo é menos que alvar: significa “sem malícia como criança... Jumento (assim como burro) é o mesmo que asno. De burro. Pasmado equivale a “falto de vivacidade. ou ao lado de alguém”. o pasmado tem o curto senso fixo num objeto. acostar-se. Alvar tem hoje. é menos atabalhoado. aplica-se ao sujeito esbodegado. além de inculto. burrego. e burrego. amatungado. – Ignaro exprime – “inculto. Tanto se diz: “abeirou-se do precipício”. abordar. Maturrão será um aumentativo de matungo. parecendo que este último sugere “ideia de pressa. toda a zoologia transfigurada: quadrúpede. avizinhar-se. e amatungado = “feito matungo”. e asinino. candura e boa-fé que tocam a parvoíce”. isto é. inconsciente como o próprio instinto”. achegar-se. contudo. – Matungo (brasileirismo do sul) no sentido que aqui tem. jumento. Dir-se-ia: “Aproximei-me pouco a pouco.”. principalmente jumento – “o burro de carga. bruto. pelo menos da cultura comum”. aproximar-se. alapuzado”. e diz-se com propriedade da plebe e povo rude. como “abeirou-se do amigo”. e não: “Apropinquei-me. e. segundo a etimologia. Ignaro é “uma expressão pejorativa de ignorante. e diz Bruns. – Pasmado.. apropinquar- -se. abrutalhado”. rentear.

pois este verbo não marca tão bem atividade e gradação como o outro. “zangar-se a todo instante e por qualquer coisa”. ele apenas se pôs mais perto de nós. irritar-se. indignar-se. – Avizinhar-se diz propriamente “fazer-se vizinho. encolerizar-se.. pelo lado”. com a mesma solicitude se juntaram. Não se confundem estas frases: “Ele chegou-se a nós” e “Ele achegou-se de nós”. segundo a própria etimologia. aborrecer-se. ou com ele”. e não: “conchegar-nos”. – Conchegar-se e aconchegar-se significam “aproximar-se reciprocamente (uma coisa ou pessoa da outra) de modo a ficarem unidas. aborrecer-se como por impulsão súbita”. “acercaram-se do forte. encostar-se é “apoiar as costas a alguma coisa”. esquentar-se. tão próprio como: “Aconcheguem-se mais”. atual. ou “abordamo-nos na rua”. exacerbar-se.. embravecer (embravecer-se. – Enfrenesiar-se. enfrenisar-se. ao fim de alguma coisa. e mais por vício de educação que por temperamento”. agravar-se. arrenegar-se. ou uniram: tanto não diz: “conchegaram-se”. – Rentear = “passar muito junto. em contacto. ou frenesiar-se (também no Brasil – enfrenisar-se) é “zangar-se. É preciso dizer: “Acostamo-nos à floresta ou à serra” (isto é – fomos até ficar muito junto à floresta ou à serra)..36 Rocha Pombo rença de sintaxe os distingue: chegar-se emprega-se só com a preposição a. “Queremos ou desejamos aconchegar-nos o mais possível”. e também: “Renteamos com o acampamento. “abordei-o”. vimos no céu. – Zangar-se é quase o mesmo que “dar o cavaco”. para pedir-nos socorro ou proteção. e não: “Encostamo-nos”. Acostar-se é “juntar-se a alguma coisa pelas costas. embravear). No primeiro exemplo. e tornar-se violento e impetuoso como os loucos”. aproximar-se bem”. – Acostar-se e encostar-se enunciam ações diferentes. agastar-se. – Irar-se é: “perder a calma. zangar-se. ou pelas costelas. anojar-se. em torno de alguém ou alguma coisa”. – Abordar é propriamente “chegar à borda. enfadar-se. – Abespinhar-se diz. melindrar-se. tomar-se . “Quando a caravana se avizinhava de Jerusalém. incitar-se. exasperar-se provocado por alguém ou por alguma coisa”.” 41 ABESPINHAR-SE. ele se aproxima de nós como para amparar-se. rente”. tanto para agasalhar-se ou confortar-se como para resistir a algum mal”. assanhar-se. e mais lidimamente com esta. “Concheguem-se mais” não é. enquanto que achegar-se pode ser empregado tanto com essa como com a preposição de. raivar). enfurecer-se instantaneamente” (pois a ira dura menos ainda que o furor). ou raivecer (ou ainda enraivar-se) equivale a “encher-se de raiva”. aproximar-se de súbito”. ou em círculo. enfadar-se. excitar-se.. No segundo caso. irar-se. desgostar-se. magoar-se. exasperar-se. Dizemos: “Acostei-me à parede” (isto é – “pus-me rente à parede”) – o que é muito diferente de: “Encostei-me à parede” (isto é – “descansei o corpo apoiando-me na parede”). molestar-se. – Irritar-se é “perder a calma. apaixonar-se. enraivar-se. de propósito. exaltar-se. ou da árvore”. pelo menos. Dizemos: “Eles se aconchegaram” querendo exprimir que duas ou mais pessoas. e significa “pôr-se em volta. “Renteamos o despenhadeiro”. enraivecer-se (raivecer-se. flagrante. “irritar-se como as vespas”.. conquanto digam alguns lexicógrafos que se equivalem. perder a razão momentaneamente. impacientar-se. pois até à força podiam conchegar-se. estimular-se. – Enfurecer-se é “irritar-se até o furor. “Acercamo-nos dele”. enquizilar-se (ou quizilar-se). “Abordamos o abismo”. enfurecer-se. amuar-se por qualquer coisa. – Acercar-se é formado de a + cerca (ou cerco) + ar. Notemos que o prefixo a de aconchegar-se lhe aumenta uma ideia de ação imediata. – Enraivecer-se.

portanto. – Desgostar-se é propriamente “não ter mais o gosto que se tinha. ou de grandes pecados. – Anojar-se é “sentir-se incomodado. incitar-se e estimular-se equivalem-se com pequena diferença. conduzir 4 Convindo não confundir com embicar = “encaminhar pela bica”. ou. apor- tar. e quer dizer “pôr em seco. segundo a própria etimologia. ou embravecer-se (ou embravear) é “tornar-se bravio. – Esquentar-se é “exaltar-se um pouco. mostrando-se agitado e hostil. – Enquizilarse (ou quizilar-se) é mostrar-se menos que zangado: mais “indisposto por impaciência e antipatia ou quase aversão”. varar. – Varar também só é aplicável a pequenas embarcações. – Indignar-se significa “encher-se de ira por algum motivo muito nobre. inquieto. e pode bem ser que não revele a sua irritação por mais do que animar-se de disposições infensas. fundear. – Embravecer. ou seja mau”. quem se excita é como quem “se irrita despertando da sua calma habitual”. ou “ressentir-se de alguma coisa desagradável”. O próprio Deus pode encolerizar-se (e também irar-se. atracar. fazer-se rude e quase furioso”. devendo empregar-se. – Assanhar-se é “ficar agitado. – Melindrar-se quer dizer “desgostar-se por motivos muito delicados. – Fundear significa “dar ou tomar fundo”. aborrecido. – Apaixonar-se é “sair do estado normal por exaltação de algum sentimento. como neste exemplo: “Fundeou toda a frota na vasta baía. 42 ABICAR. enquanto que amuar-se significa mais “desgostar-se por suscetibilidade”. . e sugere a ideia de que foi ofendido ou provocado aquele que se encoleriza”. surgir. portanto. – Agastar-se é “enfadar-se ligeiramente. feroz como bruto irritado”. parecer exausto de paciência”.” ou “deixar de sentir o prazer que se sentia”. diz “fazer-se áspero. – Aportar diz precisamente “tomar porto. – Arrenegar-se equivale a “zangar-se maldizendo e blasfemando”. – Enfadar-se é menos que aborrecer-se: é “quase amuar-se”. – Abicar significa propriamente (assim como embicar4) “dar com o bico (a proa) em terra”. abordar. – Impacientar-se é propriamente “perder a paciência. chegar. distinguindo-se deste em sugerir a ideia de “desgostar-se como por fadiga”. – Molestar-se é “mostrar-se ofendido por incômodo ou por importunação”. e à tarde ancoramos a nossa nau mais junto à terra”. mostrar-se sentido por ofensa”. “ancorar” depois de “haver fundeado”. do que aborrecido. sair da serenidade habitual”. ficar insofrido. quase assanho. – Excitar-se. – Exaltar-se é mais do que esquentar-se: é “fazer-se mais enérgico e veemente do que convém. – Exacerbar-se. violento”. tirar para a praia”. – Exasperar-se é “irritar-se em extremo. só tratando-se de pequenas embarcações.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 37 de rancor violento e brutal. seja bom. – Encolerizar-se é “ir ao extremo da ira. em fúria ou alvoroço hostil”. Quem se estimula contra nós é porque foi provocado ou importunado. mas perdeu alguma coisa na acepção comum. ou do que é normal”. Pode-se dizer. principalmente como pronominal: é “mostrar aversão ou repugnância. triste e desgostoso”. ou por afetação de melindre”.). ou em presença de alguma coisa que se tem por indigna”. – Magoar-se é “sentir-se melindrado por alguma ofensa”. ancorar. rude. Incitar- -se é mais vizinho de estimular-se: quem se incita mostra “vigor anormal. e por ter sido instigado”. arribar. – Ancorar equivale a fundear lançando âncora” (Aul. – Agravar-se é “fazer-se grave por desconfiança ou aborrecimento. ou mesmo simples desprazer”. ou irritar-se) à vista de sacrilégios. – Aborrecer-se diz propriamente “sentir horror”. ansioso”. por excesso de pundonor.

por causa do escarpamento das beiras. voragem. pois. e quer dizer “alcançar o ponto demandado”. subvertendo-as. “entrar num porto que não é o que se demandava”. de um lago. repugnante. – Despenhadeiro diz propriamente “rochedo elevado e abruto” de onde há grande perigo em lançar-se alguém. indigno. onde. É. execrável. A embarcação que sai. – Voragem (do latim vorago) “é o nome” – diz Bruns. são mais para temer os perigos. – Pego é a parte mais profunda do mar. – “Precipício (do latim prœ “para diante”. significando quase o mesmo que detestável. – Abjeto é o mais compreensivo de todos os do grupo. as embarcações que a imperícia ou a fatalidade leva até onde alcança a influência do torvelinho. abominável. rodomoinho. é mais forte e sugere a ideia da violência inevitável com que a voragem engole. só a ideia de “absorção para o fundo”. precipício. abominoso. por isso. É “por isso que. de um rio. como se dissesse: “apresentar-se. não chega – arriba. vil. “procurar abrigo ou refúgio”. baixo. entrar no porto”. – Sorvedouro e tragadoiro confundem-se: este último. 43 ABISMO5. particularmente. e. a ser precipitado. ação de correntes opostas. ou sem ser esperado”. onde alguém é lançado como castigo. sorvedouro. A forma culta é abysso (latim clássico abyssus. do grego abussos = a + bussos “sem fundo”). tragando-as. no sentido figurado. e a coisa detestável é a que não pode . 44 ABJETO. correspondente de abyssus) significa propriamente aquilo “que não tem fundo” e onde desaparece para sempre o que chegou a cair. detestável. – Abordar significa propriamente “encostar ao bordo”. ou da passagem quando se as quer evitar”. – Surgir é “aparecer. e por extensão “chegar à terra ou ao porto. a ideia de tragar que predomina nesta palavra. abominando. entrar de repente. pois o remoinho pode também levar para os ares. Há. portanto. e que arrastam fatalmente para a profundeza. – profundo. no entanto. no entanto. entre sorvedouro e tragadoiro a mesma diferença que se nota entre sorver e tragar. aborrecível (aborrível). repelente. sendo de notar que a coisa abjeta é a que repelimos como indigna de nós. execrando. pego. e caput “cabeça”) é um espaço vazio – diz Bourguig. e da dificuldade da marcha quando se as circula. emprega-se no figurado para designar o que atrai irresistivelmente para a ruína ou a morte inevitável”. dar com o bordo junto à terra”. – Arribar significa “ser forçado a tomar porto”. – Chegar é o mais genérico de todos os do grupo. – Rodomoinho (ou remoinho) é quase o mesmo que sorvedoiro: não dá. ignóbil. portanto. no qual se está exposto a cair. como este.38 Rocha Pombo ao porto.) parecendo aduzir à “noção de chegar a ideia de surpresa”. traga- doiro. – Atracar equivale quase a abordar: é “chegar e prender-se à terra ou a outra embarcação”. desprezível. – Báratro era o precipício onde se fazia cair o criminoso de certos crimes em Atenas: daí a significação de “profundeza como a do inferno”. mas volta ao porto sem ter seguido a seu destino. chegar por via marítima” (Aul. odioso. tratando-se de navios: “entrar no porto ao cabo de uma viagem”. escarpado. se emprega esta palavra para designar os grandes perigos de que muito dificilmente se pode sair e que só se descobrem quando já é dificílimo evitá-los”. – “desses terríveis remoinhos formados pela 5 Abismo é do baixo-latim abysmus. traga o que nela cai. despenhadeiro. – Abismo (do baixo-latim abysmus. báratro. A ideia principal que sugere esta palavra é a do perigo da queda.

trair. Baixo é o homem que abate a sua dignidade. Baixo é o que por cobardia sofre injúrias de outrem. são “palavras que apresentam a ideia de desprezo. – Desprezível significa precisamente. renegar. o mais vil dos homens é o que vende sua honra e sua consciência para adquirir dignidades e riquezas. como algumas ocupações mecânicas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 39 ter a nossa sanção moral. g. Todo vício é baixo e desprezível. apostatar e renegar escreve Bruns. como. – Abominável é “o que é digno de condenação como coisa ímpia e nefanda”. – Odioso quer dizer – “que merece ódio”. – Execrável é o que “atenta contra lei sagrada”. apos- tatar. e muito vil o que as sofre contente. que. porém. convertendo o homem numa besta malévola. abrenunciar. renunciar. – Aborrecível. que não exigem mais que um trabalho material e nenhum talento. e não é recebida por nós. v. grosseiro e vil”. a avareza. – Ignóbil diz propriamente – “sem nobreza. é um poeta detestável” (não abjeto). 45 ABJURAR. e entregue de ordinário a gentes tidas por infames em seu proceder”. Abominoso é o que “contém. São particularmente vis os vícios que desonram e infamam. feroz e brutal na sua execução. e aplica-se ao que é baixo e desprezível. não é por todos aplicado ao mesmo ato: o que é abjurar para uns é apostatar para outros. portanto.. segundo a própria formação – “digno de desprezo”. Convém ainda advertir que abjeto ajunta à noção de detestável a ideia de baixeza. converter-se. abjurou os erros do catolicismo. que não encerra ideia depreciativa. ao passo que os protestantes qualificam esse ato com o verbo apostatar. – Sobre abjurar.: Abjurar (do latim abjurare “negar com juramento”) é renunciar solenemente à religião que se tem seguido e que se reputa falsa. Um indivíduo. O descarado adulador. feroz e estúpida. Entre nós temos o exemplo do padre Guilherme Dias. significa propriamente – “que inspira horror. Os católicos dizem que Henrique IV de França abjurou o protestantismo. por seu interesse e com o fim de fazer fortuna por meios indecorosos. nem instrução. é baixo. ou uma coisa. Note-se. que causa aversão”. que nem ânimo tem para saber calar. como costuma suceder na embriaguez. Abominando quer dizer – “que se há de abominar. “F. Segundo Roq. “A vida fora de Paris é detestável” (não abjeta). se detesta. É mais forte que execrável. sem ser abjeta. vil o que perde a estima dos outros e ainda a sua própria. – Repugnante é vizinho de repelente: é “o que se repulsa como coisa nojenta”. que se fez para ser negado. – Indigno aproxima-se de ignóbil. “Note-se também que os católicos. ou a coisa da qual não queremos saber. segundo os protestantes. que empregam o verbo apos- . e que por isso são tidos em nenhuma conta. enquanto os católicos dizem que ele apostatou do catolicismo. desprofessar. repelido por todas as consciências como sacrilégio”. porém. Em caso algum. pode ser detestável.. porém chamamos particularmente baixos aqueles que supõem falta de vigor e de energia. baixo de condição. que “afronta o nosso sentimento religioso”. o que está cheio de abominação”. podendo-se entender que reúne o valor destes dois: é repelente o que “se detesta ou repele com asco”. – Repelente oferece alguma coisa de comum com detestável e abjeto. que o verbo abjurar. se afasta com horror”. o que “se condena.. Chamamos ofícios baixos aqueles que só exerce a gente miserável e abandonada. Chamase vil o “exercício que se tem por desprezível em razão de ser sujo. e é dos mais vagos do grupo. – Execrando é “o que merece maldição de todo mundo”. posto que sob diferentes aspetos.. – Vil e baixo também se aproximam muito. a coisa abjeta deixaria de ser detestável. ou aborrível.

A ablação consiste em extrair de qualquer parte do corpo uma parte mórbida: faz-se a ablação de um quisto”. na fé. etc. tem-se em vista a religião que se abraça. a sua seita. Este diz apenas. abandona. desinteresse. – Quanto a abnegação e desinteresse escreve Bruns. interceder em favor de um inimigo. escola. Pode-se renegar sem trair: e a inversa também é admissível. pois mesmo aquele que trai o seu Deus. Henrique IV converteu-se ao catolicismo. um indiferente em matéria religiosa. isto é. causa. a sua causa. mas aquele que apostata é como o trânsfuga. o principal móbil que leva à mudança de religião. lançando-a fora do espírito. ou do seu partido e vai para outro. – Abrenunciar é mais forte que renunciar. um erro sacrílego em que se vivia. de ter na conta em que se tinha”. – Renunciar é aqui convizinho de apostatar. princípio. – Trair neste grupo aproxima-se muito de renegar: é “negar ou protestar com perfídia. altruísmo. renunciar a uma herança em favor de um parente pobre: é abnegação ceder o que nos é indispensável. põe longe de si a coisa (o princípio. diz Bourguig. de- sambição. isto é. – “consiste a amputação em cortar um membro superior ou inferior: amputam-se os braços ou as pernas. Além disso. devendo subentender-se que aquele que renuncia abandona apenas a velha crença. – Sobre converter-se (que se aproxima de abjurar). abrenuncia-se o espírito do mal. o seu culto.). deixando apenas de continuar a fazer confissão pública da sua crença. não assim os membros das outras religiões”. e até de consciência. De um sujeito que tivesse deixado a sua religião. O sujeito que desprofessa o seu culto pode passar a crer só consigo mesmo o que já cria. amputação. de que apostatou por uma outra coisa.. ou um ateu – não se poderia dizer que apostatou: sim que renunciou.40 Rocha Pombo tatar. arriscar a saúde velando duran- . ceder um ganho lícito. Abjurar diz propriamente “jurar contra alguma coisa. é um apóstata. Abrenuncia-se a vida ímpia em que se andava.” Quem abjura afasta da consciência a coisa abjurada. o sentido de ser o interesse. e ficasse sem nenhuma crença. Desinteresse diz-se do que é material: é desinteresse vender por baixo preço (com pequeno lucro). e dele se diz com toda propriedade que apostatou. faltando à fé jurada com os da grei”. ou sem intenções hostis a respeito da coisa renunciada. “deixar de crer. que sai do seu grêmio. nem sempre a renegará necessariamente. Quantos traidores ficam preferindo de coração. quando se emprega este termo. e que leva a passar de uma religião reconhecida falsa para uma religião considerada verdadeira”. segundo a própria formação. – Desprofessar é neologismo aproveitável e perfeitamente legítimo: diz. sem mágoa. abrenunciar significa “negar. Quem apostata deixa. e não a convicção. como vimos. desapego. ou escola filosófica) e fosse combater a antiga – esse.: “Converter-se marca simplesmente uma mudança que se operou nas crenças. podendo ainda continuar a tê-la em respeito. a crença. desprendimento. detestar afastando com horror”. sem ódio. de aceitar. e não a que se deixa. de exercer em público. – Renegar é ao mesmo tempo abjurar e apostatar “passando a ter ódio à coisa renegada”. sim. por conveniência própria. a opinião. 46 ABLAÇÃO. o demônio. etc. 47 ABNEGAÇÃO. de reconhecer formalmente. O desinteresse cessa onde principia o interesse próprio. “deixar de professar”. a abnegação não tem limites. desamor. – “Em linguagem cirúrgica” – diz Bruns. de “dar testemunho. lhe dão. a coisa traída. Um sujeito que se passasse para uma religião nova (ou para outro partido.: “Abnegação diz mais que desinteresse.

” Tanto se limpa com água. Purifica-se o espírito. ou a coisas a que nos tínhamos afeiçoado”. segundo a própria etimologia. ou de coisas estranhas. substâncias estranhas”. diz “fazer limpo. e não – purifica”. – Acrisolar é “purificar como se apura em cadinho ou crisol”. pois. ou aplicando-se a coisas morais: “Limpamo-nos de culpa e pena”. Desapego não é. é “fazer livre de impurezas. E mesmo: “De uma certa quantidade de calda apura-se (não – purificase) tantos quilos de açúcar”. de uma discussão. Também é usado figuradamente. segundo a própria formação. – Desambição e desamor não fazem mais do que marcar a perfeita antonímia em que ficam com os respetivos radicais. ab-rogar. senão a “facilidade. E em sentido translato também se usa: “Aqui (no Purgatório) – disse-me o patriarca – lavam-se almas”. a decisão com que se renuncia a grandes bens. pelo menos quando é certo que a pessoa que se apega mostra mais vontade e esforço em apegar-se do que mostraria em prender-se ou deixar-se prender. Purgar é tornar puro fazendo expelir o que há de impuro no que se purga. 49 ABOLIR. anular. extinguir. nota-se no vocábulo ainda outra: a de uma causa que penetra no objeto impuro para o modificar e devolver-lhe a pureza primitiva. no entanto. e figuradamente “tornar puro aquilo que se manchara. Os ventos rijos purificam o ar. etc. purificar. “A chuva lava o ar”. “Lavam-se as mãos”. . ou com preparações. Quase que só se usa no sentido figurado. – Altruísmo é o nome moderno da velha virtude cristã do amor do próximo. – Apurar diz também “fazer puro separando fezes. – Mundificar. a água. Desapego. acendrar. etc. lavar. ou mundar (de mundus = puro. Sobre estes três verbos escreve Bruns. o ar. limpo). e sugere ainda a “ideia geral de desmisturar. – Abluir diz aqui propriamente a ação de “fazer puro como as coisas sagradas”. o pouco caso com que se vê passar uma felicidade a que se tinha direito”. Limpe-se ele primeiro (ou lave-se) das acusações que lhe fazem”. Quase que só se usa hoje em sentido figurado. ou com cinza. cassar. – Desapego e desprendimento dizem quase a mesma coisa. apurar. como com óleos. antiquar. verificar o que há de essencial nalguma coisa: e nesta última acepção não se confunde com purificar. mundificar (também mundar). mas – “de um negócio. Expurgar é tornar completamente puro o que ainda não se havia purgado ou purificado de todo. tratando-se de qualidades morais. tornar puro”. Não se implantam liberdades onde não se expurgam erros”. limpar. mas. – Abolir significa “declarar não existente. o coração. parece mais forte. 48 ABLUIR. A fermentação purga o mosto. deduzir. purgar. além dessa ideia. e diz. acrisolar. aptidões. expurgar. Purificar é tornar puro. “Naquele horrível sacrifício a mísera se desmaculou do nefando pecado”.” tirar a mancha ou as manchas”. proscrever. de um esforço alguma coisa se apura. “Tais amarguras dir-se-ia que te abluem a alma”. como se purifica o sangue. – Limpar é o mais genérico do grupo. desmacular. – Purificar (como purgar e expurgar) exprime a ideia geral de “fazer puro eliminando impurezas”. muito judiciosamente: “Nestes entra o radical puro. infirmar. a coragem estouvada com que se afronta um mal. – Acendrar é “limpar e fazer brilhante como os metais polidos”. – Lavar é “limpar com água”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 41 te noites consecutivas o amigo doente”. – Desmacular é neologismo perfeitamente admissível. mediante qualquer processo. invalidar. derrogar. Tanto se apura como se purifica o açúcar. revogar. desfeito. – Desprendimento é a “indiferença com que se vê um perigo. suprimir.

sinal. a ação de declarar “não vigente”.. O prefixo ab. extinguiu. ou estava inquinada de algum vício. mas significa também “eliminar. ou não tinha começado a produzir efeito”. de um princípio jurídico ou filosófico”. por exemplo: “O decreto. tratando-se de leis – “excluir. enquanto que derrogar exprime com mais propriedade “deixar sem toda a força. mas em certos casos não se poderia empregar um pelo outro. Por isso ab-rogar se diz em referência a uma lei ou a um decreto que a autoridade competente deixou sem efeito e substituiu por outro: derrogar deve aplicar-se menos a toda uma lei do que a uma ou algumas disposições dela. não se dirá ab-rogado. – Abono é o próprio ato de assumir alguém por um outro uma certa responsabilidade moral. havia de abolir-se.42 Rocha Pombo apagado”. o vigor de uma lei. . alguma coisa contra o direito. porém.. isto é. hi- poteca. – Invalidar significa “tirar o valor”. de dar segurança pelo caráter ou pelas aptidões de uma pessoa. pôr de lado parte de alguma coisa”. – Extinguir significa também abolir. – Suprimir é mais genérico e menos técnico que derrogar. Dizemos: “A lei de 13 de maio aboliu a escravidão”. Aplica-se em regra nos casos em que a lei. etc. com esta diferença: supõe-se sempre um ato de autoridade que anule: o que não se dá quando se trata de invalidar.... isto é. Emprega-se tratando-se de leis. etc. ou “sem valor”. “F. etc. de uma sentença. não seria perfeitamente lídimo dizer: “Mais hoje.”. Uma circunstância ignorada ou imprevista.. 50 ABONO. pediu-lhe abono. como de pessoas. portanto. garantia. Ninguém diria. É antônimo de confirmar. penhor. e tanto se emprega tratando-se de leis. Do mesmo. isto é – não se faz indispensável que em lugar da disposição suprimida fique vigorando disposição nova. fiança. com esta diferença: é só uma nova disposição que derroga a outra. mais amanhã havia de extinguir-se a monarquia”.. De uma lei não se diz cassada. como de instituições. caução. parece apenas mais ativo e mais forte do que o prefixo de.. e desta mesma o art. – Revogar é quase sinônimo perfeito de derrogar: significa. costumes. costumes. coisas.” – Ab-rogar e derrogar confundem-se de ordinário. mas ab-rogada. “como se não existisse”.. cortar alguma ou algumas partes delas. portanto. e. – Antiquar é “deixar cair em desuso”. tantos já foi derrogado por lei ulterior”. ou a lei tal aboliu tal repartição”. – Proscrever é “declarar excluído. e. “A nova lei ab-rogou a lei tal. atenuar ou diminuir a força de uma lei cortando-lhe uma parte”. usos. mas só o juiz competente pode anulá-lo”. e com certa razão. ou a resolução que se tomara. abonação. instituições. De um decreto que ontem ou há poucos dias se publicou e hoje se deixa sem efeito. e tanto se emprega tratando de leis. fatos de linguagem. ou a anular. segurança. costumes. Neste caso empregaríamos o verbo suprimiu. pois que a diferença que se quer ver entre eles é quase convencional. Na fórmula legislativa: “Revogam-se as disposições em contrário” não seria permitido empregar o verbo derrogam-se. impostos. arras. mas que não havia tido aplicação ainda. é quase o mesmo que anular. ou uma infração essencial invalida um contrato. ao passo que para suprimir basta o ato supressório. cancelado por ato público”. – abonação é a ação de abonar. melhor do que este. modo. e sim: “. o decreto ou a sentença anulada. tinha algum senão. quando muito. – Anular diz propriamente “tornar nulo”. é “prescrever por falta de aplicação”. e sim: “. – Cassar é propriamente “declarar sem efeito o decreto que se tinha publicado. senão cassado. – Infirmar é “tirar a força. mas decerto que não diríamos: “A lei tal aboliu um cargo no ministério tal”.

malograr-se. penhor. “O ibero é o aborígene da Espanha. Pode ela ser consensual. judicial ou legal. ou nascido na própria terra onde vive”. e significa qualquer meio de assegurar a outrem que havemos de cumprir nossos deveres ou os ajustes que com ele fizemos. hipoteca e fiança. chama-se indireta. ou “que é próprio do lugar do nascimento (Aul. e quanto ao autóctone desta parte da América nada sabemos até agora de positivo”. natural.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 43 mas compreende-se que em casos tais não vale só a abonação de um parente”. na escala antropológica. e que dá direito ao credor de pagar-se por eles. próprio do país”. – Originário = que “tem origem no próprio país. Fiança é a obrigação em que alguma pessoa se constitui voluntariamente de pagar por outra quando este o não faça. etc. – Sinal é o dinheiro ou a coisa que o comprador ou um dos contratantes adianta como garantia do ajuste que há de fazer. e até estes dois com o terceiro do grupo. que indígena é o mesmo que natural. antes de terminar o prazo em que a garantia cessa. o objeto não corresponder às condições devidas: é a garantia direta”. – Aborígene é o povo que se considera como o primitivo num país. falhar. por isso. isto é. – Quanto aos quatro primeiros do grupo escreve Bruns. origi- nário. Apenas natural acrescenta à noção a ideia de incultura. que subiu. segundo as diferentes relações em que se a considera: pignoratícia. que se formou. no que. ou na própria raça”. – Íncola é o que “habita um país que não é o do seu nascimento”. nativo.: “A primeira palavra é o gênero a que pertencem as outras como espécies. 52 ABORTAR. ou não se sabe se seria possível afirmar a autoctonia daquele que é o mais antigo habitador da península”.: “Abortar é não chegar a realizar-se por causa de um defeito intrínseco ou por uma força estranha o .. gorar. – Aborígene e autóctone confundem-se de ordinário. pode ser direta ou indireta. Mas a diferença entre eles marca-se bem neste exemplo: “O filho de europeu nascido no Brasil é indígena. e significa “filho do país. portanto. ou que foi o habitante mais antigo que nele se encontrou (de modo que pode ser até adventício no país onde foi encontrado): enquanto que autóctone deve ser o povo ou o indivíduo que apareceu. – A garantia. mas quanto ao autóctone da península nada sabemos. se chama centro de criação é que se encontraria o legítimo autóctone. indígena. parecendo que a diferença consiste apenas em ser o primeiro “escrito e formal”. Só. fracassar. diz o mesmo quase que sinal. se não se cumprem as condições do contrato. segundo Bruns. portanto. escreve Roq. frustrar-se. – Arras. fideijussória. em linguagem jurídica se dá à caução diferentes nomes. 51 ABORÍGENE. ou de cumprir seu dever no caso em que ele o não cumpra. Se a garantia é feita por outra pessoa que não o próprio comprador. Quer-se dizer. segundo as disposições da lei. em linguagem científica.). Hipoteca é a obrigação de bens de raiz por alguma dívida. – Nativo = oriundo. autóctone. – Segurança é propriamente “garantia moral”. dada pelo próprio interessado que se obriga. até a espécie humana – no próprio país onde se encontra. e confunde-se com abonação. mas decerto que não é aborígene senão o selvagem que aqui encontramos. – Quanto a caução. ou por um terceiro que responde pelo cumprimento da obrigação. juratória. A pessoa que a tal se obriga chama-se “fiador”. íncola. hipotecária. “O preço de um objeto vendido sob garantia é devolvido ao comprador se. – Penhor é o móvel que se obriga ou empenha ao credor para segurança de uma dívida.

recôncavo. moderar o ímpeto. – Angra é “um braço de mar. – Amenizar é fazer ameno. – Temperar é “pôr em grau de força. – Moderar é “diminuir movimento. dócil. como as campinas florescidas. duro. esteiro. comovido”.. acalmar. Suaviza-se a voz. – Serenar é “fazer sereno. – Baía é “grande porção de mar que penetra na costa. aprazível. Fracassam conspirações. reduzir a menos. adormecer. – Fracassar é “falhar imprevistamente. falham esperanças. aplacar pouco .). Falham planos. – Enseada é “grande porção de água aberta. temperar.44 Rocha Pombo impedir: aborta a conspiração malplaneada. amenizar. abrigada (abrigo). – Abrandar. enseada.. e “cuja abertura é ordinariamente bastante larga” (Aul. O pai dirá que as suas esperanças se frustraram”. segundo Bruns.. mas que não penetra demais na costa”. ampla e pacífica. – Abra. e aquela de que o governo chega a ter conhecimento. diminuir as proporções”. entrando por boca estreita e alargando-se no interior”. sensível. delicioso. abonançar. reduzir força. isto é. conter em certos limites”. mitigar. suavizar. a sensibilidade – como que adormecer. onde as águas como que se espalham penetrando nas terras”.” – Atenuar é “fazer mais delicado. Também se chama furo ao pequeno canal que une duas porções de água maiores. não ter bom êxito devido a causas alheias: malogra-se uma viagem quando um acontecimento nos impede de partir. – Adormentar é diminuir ou “suspender momentaneamente o movimento. – Enternecer é tornar mais do que brando: é “fazer tenro.. como fracassam grandes negócios planeados. tirar o que há de áspero. falham cálculos. os sofrimentos morais.). 54 ABRANDAR. adormentar. enterne- lagamar. baía. “diminuir a intensidade do que é demasiadamente ativo” (Bruns. moderar. a ação. a dor. (É o que se chama no interior do Brasil igarapé. forte. que aliás é mais preciso e mais forte. isto é – o igarapé mais estreito ou menos franco à passagem de canoas). 53 ABRA. uma abra alongada pelo interior da terra”. de intensidade conveniente”. o lugar de bastante fundo que de qualquer modo está defendido do ímpeto das águas e dos ventos”. apaziguar. ou quando uma notícia nos obriga a retroceder depois de a ter principiado. calheta. meio doce”). isto é. de movimento. terra”. suave. – Lagamar é “recôncavo mais vasto. – Esteiro é um estreito braço de mar ou de rio que penetra nas terras. segundo o próprio radical. – Recôncavo é “pequena enseada e metida mais para os fundos de uma baía ou de um golfo”.). – Falhar é “não produzir o efeito desejado. e que sendo pouco profundo só dá curso a pequenas embarcações. “fresco.. “tanto na costa. Frustrar-se é não obter o resultado que até certo ponto se tinha o direito de esperar: um filho inteligente frustra as esperanças do pai quando abandona o estudo pelo vício. golfo. – Abrigada (ou abrigo) é “qualquer porção de mar manso (resguardado de certos ventos) onde os navios se podem refugiar contra tormentas”. Gorar é não ter bom resultado aquilo em que fundávamos boas esperanças: uma empresa. – Calheta é um braço de mar ou de rio “apertado entre duas pontas de cer. adoçar. é. angra. atenuar. Malograr-se é não vingar. é “fazer brando”. – Golfo é porção considerável de mar que entra muito pela terra. intenso nalguma coisa”. não suceder como se esperava” (Aul. por muito útil que seja. – Adoçar diz propriamente “fazer doce” (como adocicar equivale a “tornar mais doce. frustrar-se de todo e produzindo sensação”. como num rio. – Suavizar é “fazer mais suave. há de gorar se o público se não capacitar da sua utilidade. serenar.

– Abrasador (ou abrasante) significa propriamente “que reduz a brasas”: no sentido figurado diz. ardente. incinerar-se. – Comburente quer dizer “que produz combustão. Nem deve este adjetivo ser usado. ou que abrasa”. consolar”. – Abonançar – “fora do sentido reto. isto é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 45 a pouco”. abrasear e esbrasear. – Carbonizante significa propriamente “que reduz a carvão”. por exemplo: “a sopa está cálida”. como “sol abrasador”. pois. arder. harmonizar. “Como esta música ou esta voz lhe mitiga tantas dores. ardente.. Não se diria com propriedade. cálido. que tem referindo-se ao tempo. pode aumentar ou diminuir”. Dizer que a idade acalma as paixões não significa tanto como “a idade modera as paixões”. Bruns. a agitação. conflagrar-se. Emprega-se. fazer cessar a tormenta” (Bruns. estabelece uma gradação ascendente no valor destes três adjetivos e dispostos nesta ordem: caloroso. devendo notar-se o flamar-se. escreve Roq.: “Explicam estas palavras os diferentes graus pelos quais pode passar um corpo combustível desde o instante em que se lhe ateou fogo até que foi inteiramente consumido. queimoso. vermelho e crepitante como brasa”. – Queimoso é o mesmo. a violência. a violência. Quando penetra o fogo num corpo combustível. a moderação sendo constante: o que não se dá com acalmar. quente. – Cáustico e queimante dizem quase a mesma coisa: apenas o primeiro aplica-se para significar coisa ou droga que “destrói o tecido orgânico como se fosse fogo”. segundo Bruns. . ao mar. e o segundo exprime propriamente “que queima”. a sua significação é a mesma nos dois sentidos: serenar. etc. etc. comburente. portanto. incendiar-se. “que atua como o próprio fogo”. em moderar há significação reguladora. inflamar-se. – Mitigar é moderar o rigor. pôr de acordo”. in- loroso. Efetivamente. com o valor de cálido quando se diz: “clima quente”. o que de si mesmo é quente. “que dias quentes”. carbonizante. desencadeou-se depois com mais fúria”. porém. – Ardente. a emoção. queimar-se. podem recrudescer: “o vendaval que acalmara (que ficara menos forte) ao amanhecer. com o verbo estar. abrasear = “fazer da cor da brasa ou pôr em estado como de brasa”. 56 ABRASAR-SE6. que faz arder. abrasador. “tão quente que parece queimar como o fogo”. – Sobre arder. ou cuja temperatura. na acepção que tem aqui. quando levanta 6 Há uma certa diferença entre abrasar. Abrasar significa “reduzir a brasas” (sentido natural). deixa supor que a agitação. a ideia de ser a calma completa nem duradoura. Quente é o que “pode ter mais ou menos calor. dos infortúnios..” “Não há nada capaz de mitigar-lhe aquela saudade”. e apenas menos forte que queimante. o verbo não encerra. está no mesmo caso de abrasante: vale por um superlativo de quente. cáustico.). – Candente se diz daquilo “que de tão quente parece ou branco ou vermelho”. etc. – Cálido e quente aproximam-se bastante. e se manifesta à simples vista. – Acalmar. tem cabida ao falar das calamidades. 55 ABRASADOR (ou abrasante). quando se desenvolve a chama. esbrasear = “tornar quase como brasa. incendiar-se. abrasar-se e queimar-se. “é fazer diminuir a cólera. antes.. – Caloroso define-se pelo próprio radical. ca- seguinte: cálido é o que tem naturalmente um alto grau de calor. a rudeza. Apaziguar diz propriamente “restabelecer a paz. candente. e ajunta à noção de abrandar a ideia de “agradar. considerados como tempestades da vida. Também se diz: “sol carbonizante”. dizemos que arde. pelo contrário. ao vento. determinada por ação estranha.. no entanto. queimante. inflama-se.

e do verbo grego sylan. é apressar. restam somente os resíduos incombustíveis. Cadmo fez edificar um asilo para todo gênero de delinquentes. que por isso se chamam inflamáveis. incendeia-se. a decisão de um caso ou de um negócio. – Os quatro primeiros termos tomam-se no sentido figurado. – Restringir é “tornar mais curto ou limitado como que apertando os extremos”. que significa “levar. asilo. acolhimento. uma corda. e até saudades. caminho. uma proteção. fazer menor o que se supõe grande no comprimento”. escreve Alv. despedindo chamas. – Reduzir significa neste grupo “fazer mais simples. houve asilos só para certos criminosos. diminuir em todas as dimensões. aqui. O incêndio supõe um grande fogo que. homizio. pois.. – Encurtar é “diminuir distância. como se reduzem aspirações. 57 ABREVIAR. uma haste. Os descendentes de Hércules fundaram em Atenas outro asilo como o de Cadmo. quem Romulus [acer asylum] Retulit. acolhida. aspirações. Pode abrasar-se um corpo sem formar labaredas: – tal é o ferro na frágua. – Incinerar diz propriamente “queimar até reduzir a cinzas”. como trabalho mental. tirar”. encurta-se um Ilinc lucum ingentem. resguardo. apesar de compacto. Abrevia-se um prazo. esforços. quando o corpo que deu alimento ao fogo. ímpetos. Usa-se frequentemente no sentido translato. e o segundo designa a força com que a superfície deste corpo arroja de si o fogo que a penetra. et gelida monstrat sub rupe [lupercal. fazer menos demorado. e por isso figura em outro grupo.] O asilo é. se comunica aos corpos vizinhos. arder de inflamar em que o primeiro designa a ação ordinária pela qual o fogo se apodera dum corpo e o vai consumindo. restringir. queimou-se. encurtar.. – Diminuir.46 Rocha Pombo labareda e se propaga com rapidez e fracasso. roubar. caminho. esconderijo. colher o que é demais. Tanto pelo fogo ordinário. e antes disso. o refúgio é um recurso contra a indigência. do qual faz menção Virgílio nos seguintes versos: diminuir. a aflição etc. e aplica-se particularmente às matérias líquidas e resinosas. Rômulo fundou também um asilo no bosque entre o Palatino e o Capitólio. de onde ninguém pode tirar os que se acolhem nele”. coito. dificuldades de vida. encaminhar com mais presteza uma solução”. 58 ABRIGO. depois de consumido o que dava alimento ao fogo. Diferença-se. “Restrinja os seus gastos. e quando a força do fogo ou do incêndio devorou a matéria combustível e a reduziu a cinzas. aplicando-se tanto no sentido moral como no físico. pouco mais ou menos com as mesmas diferenças”. reduzir um prazo. Diminui-se tanto prazo. Reduzem-se dificuldades de um negócio ou de uma campanha. . – Sobre asilo e refúgio.. reduzir. e tudo irá melhor”. e segundo o seu verdadeiro sentido. abrasa-se. amparo. Pas. uma defesa contra a força e perseguição. extensão. portanto. – Abreviar é “diminuir o tempo em que alguma coisa se há de fazer. “Asilo é derivado do a privativo. como pelo incêndio. e tomando ala faz rápidos progressos. destruir completamente pelo fogo”. está todo repassado dele e feito brasa. asilo quer dizer: “lugar de refúgio. Etimologicamente. valhacoito. e diz propriamente “fazer menor”. – Conflagrar é “pôr inteiramente em chamas. e ainda depois. guarida. refúgio.. “Vamos restringir todo o nosso esforço a nada arriscar em vão”. resumir”. se queimam os corpos quando. é o mais genérico do grupo.

portanto. foi afinal ter na casinha do pobre fácil resguardo contra a tormenta”. de garantia por lei ou costume.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 47 O hospital é um refúgio para os pobres doentes. Acolhida é.. “O assassino buscou ou teve homizio seguro no sertão. da Ac. deixa passagem apenas a um raio de sol ou a uma réstia de luz. (Dic. as pessoas que se recolhiam... – Resguardo é “defesa. em vez de: “. O couto é. – Acolhida e acolhimento confundem-se muito. – Entreabrir é “abrir pouco e com cuidado. es- cancarar. a ideia de segurança. soabrir. ou de fora para dentro”. “Perdido no campo. ficavam fora e livres dela. Busca a nau um refúgio em qualquer porto fugindo à tempestade que receia. em vez de: “. tem o melhor ou o mais cordial acolhimento o parente que não víamos de muito e que chega de surpresa”. em que têm amparo e defensão certa”. por uma por- . – Dispostos em outra ordem (descerrar. como asilo. – cit.. 59 ABRIR. (Vieira) – Abrigo é quase o mesmo que asilo.. escancarar) marcam estes vocábulos uma perfeita gradação de sorites. soabrir. se o afastamento que se operou no pano da cortina. Descerra-se uma porta. proteção momentânea contra algum mal ou perigo iminente”.).. o “lugar seguro onde alguém se oculta fugindo a perigo. e sagrado. “o próprio ato de receber como quem protege e acarinha”. distinguindo-se apenas em não dar.. Aul.) – Esconderijo é “lugar. – Coito (ou melhor. “A eles (montes) se acolhem (os homens) como a castelos e lugares. Emprega-se em sentido figurado para designar “abrigo ligeiro. – Descerrar é apenas “desunir o que estava unido ou cerrado”. e onde. E também: “Por mais pobre e humilde que fosse. deu-se toda a Deus”. couto. a coitadinha dispensou o acolhimento que lhe quiseram fazer naquela casa”. sempre escuro. da morte”. “Os bandidos têm o seu valhacoito lá no fundo da floresta”. Por uma janela soaberta mal se revezaria uma voz ou se distinguiria um vulto.. ou na folha da porta. – Amparo significa o ato de acolher e sustentar ou apoiar. – Guarida é propriamente a cova ou covil onde as feras se recolhem contra a chuva ou a tormenta.. e hoje quase todos parece que preferem empregar acolhida. “Tem boa acolhida em nossa casa um amigo que nos procura para pedir-nos um obséquio..” em vez de: “. mesmo nos casos em que só caberia acolhimento. oferecia-lhe segura acolhida”. mas de modo a poder-se ver e falar para fora. ou uma cortina. Até em mestres se encontra confusão. onde alguém procura abrigo fugindo às vistas de pessoas a quem tenha de dar contas de alguma coisa”. onde alguém se furta a olhares de estranhos”. como se vê neste exemplo: “A religião oferecia-lhe seguro acolhimento das lutas mundanas”. (Cardoso) “Por isso Tertuliano chamou judiciosamente à sepultura asilo. pois. – Homizio é “valhacoito procurado por criminoso perseguido da justiça”. “A casa de um antigo discípulo lhe serviu de abrigo no último período da vida” (Aul.. “Recolhida naquele soberano asilo.. teve bom acolhimento”. ou na casa de alguém”. fácil esconderijo. do latim cautum) era a propriedade ou lugar “onde não podiam entrar as justiças de El-Rei”. Chega-se a dizer: “A delegação de tal país teve boa acolhida na corte do imperador. – Soabrir é “abrir muito pouco e instantaneamente”. – Valhacoito é o “lugar seguro onde alguém se refugia e abriga contra o que teme ou procura evitar”. pois.. descerrar.. hospeda e agasalha”. e busca num porto amigo um asilo fugindo à força superior que a persegue. a igreja é um asilo para o criminoso. proteger de qualquer modo. entreabrir.. “Debaixo da árvore encontrou resguardo contra o sol”. abrir.. ou a perseguição”. entreabrir. e acolhimento é “o modo como se recebe. acolhida”.

” Separa-se o trigo do joio. Cachopos são penhascos que saem fora d’água. Desune-se um casal (separando um do outro esposo). parcéis. Abre-se uma caixa. por essa abertura desimpedida.. fare- lhões. – Desunir é antônimo de unir. diz Roq. ou no seu lugar. desatar. “desunir. separar. – Desmembrar é desunir ou “separar por membros”. entreabrem-se os lábios a sorrir. e que impedem ou dificultam a navegação. a ideia de soltar. alfaques. um pacote de biscoitos. recifes. separar uma da outra margem. Abrolhos é voz usada em sentido transla- . soltar. apertado”. soabrem-se os lábios num ríctus imperceptível. cada qual para o seu lado. separa-se uma coisa da outra. – Desprender ainda exprime com mais força. aqui. por exemplo: “desunir os bons dos maus”. duas ou mais coisas. separam-se os bons dos maus. “Fazem tudo por divorciar-me do meu partido”. e de modo mais preciso. – Desligar é antônimo de ligar e diz. “separar o que estava ligado”. 61 ABROLHOS. alguma outra coisa”. desunem-se famílias que viviam em perfeita união. – Desatar é “deixar livre uma coisa que estava presa por nó”. “desunimo-nos ao chegar à vila”. mesmo que nunca tivessem sido unidas. ou as partes de uma coisa umas das outras. desligar. Abrir é “remover alguma coisa da abertura que está ocupando (fechando) de modo que deixe passar.. desunem-se mesmo povos que eram amigos. e é só neste sentido que se diz – “abrir caminho”. Mesmo quando se abre um caminho não se faz outra coisa senão. Abre-se uma janela para falar com alguém. escolhos. já não se emprega o verbo abrir. restingas. – Todas estas palavras designam acidentes ou situações no mar (ou nos rios). ou um lado do caminho do outro lado. ligado. distanciar. – Apartar é “impedir que continuem.. ligadas intimamente. portanto. e na acepção lata é “separar definitivamente”. abre-se uma porta para que alguém entre. Dizem os etimologistas que cachopos é corrupção de scopuli “rocha”. escancara-se a gargalhar. – Escancarar é abrir completamente. sendo elas distintas e indicando coisas diferentes.) Abre-se a boca falando. coisas que haviam sido incorporadas ou ajuntadas. – Afastar é “pôr uma longe da outra as coisas que se desuniram ou separaram”. associadas. por exemplo. baixos. sirtes. – Abrir. Tanto que não se diria.48 Rocha Pombo ta entreaberta um homem não passaria. porque em tal caso já não se trata só de “separar as margens”. que “os autores as têm confundido. em geral. pois o verbo desunir só se deve aplicar quando se trata de coisas que tinham sido enlaçadas. mas veria distintamente quem estivesse dentro da casa. e significa. uma gaveta. apartar. afastar. banco. cachopos. Em referência a caminhos de ferro. desprender. divorciar. separar “o que estava unido. – Quanto às quatro primeiras do grupo. amigos que se separam para sempre. segundo a lei”. é “afastar uma coisa da outra”. separar por sentença. quase sempre junto das costas. o mais possível. “Nunca se divorciou da religião de seus pais”. desmembrar. unidas”. desunir. duas ou mais coisas ou pessoas. 60 ABRIR. Divorciam-se colegas. (Aul. portanto. separa-se a Igreja do Estado: em regra. “de lés a lés”. destruindo portanto a unidade ou o todo desmembrado. e onde rebentam as ondas.. – Separar diz propriamente “pôr. – Divorciar é. – Distanciar é “afastar muito as pessoas ou coisas que se separaram”. eliminando os embaraços que se acharem entre uma e outra.. – Soltar enuncia a ideia geral de “libertar coisas que estavam juntas ou presas umas a outras”. baixios. tratando-se particularmente do vínculo conjugal. desunem-se.

. ou menos a pique do que alcantilado. Uma ladeira. abscôndito. e por isso perigosíssimos”. mesmo muito íngreme. por isso que se espraia largamente (chamando-se também por isso esparcelados). empi- nado. – Absconso e abscôndito não são apenas. cobertos de água.. às vezes. Alcantilada é. não se pode navegar sem risco. alcantilado. por exemplo. onde não há fundo para navios de grande calado”. mas com a circunstância de serem desiguais e muito fundos.. – Banco é “cômoro ou elevação mais ou menos extensa de areia. como parece. quase empinado”. formas eruditas de escondido. Baixios (prolongamento de baixos) são bancos de areia em que.. – Quanto às palavras que se seguem. recôndito. – mesmo porque escondido. 62 ABRUPTO. escreve Lac. – Absconso . por espaço de muitas milhas. e por isso ali tocam os navios. 63 ABSCONSO. “a encosta nua de um monte que fica vertical. empinados acima d’água. escondido. – Ladeirento = “disposto como em ladeiras. O alfaque é breve e fundo.: “Baixos é palavra genérica. se é tal o declive que torne penosa a decida ou a ascensão. ocul- to. ou de areia. inclinado. Farelhões são “escolhos pontiagudos. até a penúltima. – Aprumado = “talhado a prumo”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 49 to para indicar aqueles cachopos que formam pontas como a planta chamada abrolhos ou estrepes. “a escondida intenção de levar-me à forca”.. que são baixos iguais. e também arrecifes) designa “rochedo ou série de rochedos pouco destacados da água e perto da costa embaraçando a navegação”.. íngreme. um monte. mas o parcel tem pouca altura. ou pelo menos não seja fácil encontrar”. andam assinalados nas cartas marítimas”. de modo que não seja possível. “as grandes verdades escondidas ao vulgo”. – Abrupto difere de alcantilado e de íngreme em ajuntar à noção de “flanco a pique a ideia de áspero. – Íngreme é “menos inclinado. secreto. mas pode navegar-se. e pelo perigo que perto deles correm os navios. – Sirtes são baixos de areia movediça por entre penhascos. e de impossível ou muito difícil acesso. clandestino. risco por causa da pouca altura de água. aprumado. por falta de altura de água. conserva alguma coisa da sua função de particípio. sem dúvida. – Recifes (ou recife. ainda empregado como adjetivo. são baixios ou bancos de areia ou de pedra. ladeirento. outros formando ilhetas: e por sua grandeza. e por onde não se poderia subir ou descer sem grande esforço ou sem artifício”. pode-se subir”. conforme a origem arábica. São menores que os cachopos. pois não seria próprio dizer: “os escondidos desígnios de Deus”. Mas absconso e abscôndito já não seriam aplicáveis propriamente senão em sentido moral ou abstrato. e têm a circunstância de prolongar-se. encoberto. Escolhos são aqueles penhascos que estão debaixo d’água e não se descobrem bem: donde resulta serem mais perigosos que os cachopos. – Restingas são baixos de penhascos. e tanto pode aplicar-se a um cume de monte como a uma encosta que seja tão íngreme que pareça levar como verticalmente ao pino do monte. – Escarpado diz “íngreme e difícil de subir”. e designa o fundo do mar onde há pouca altura. onde se corre. de rocha ou de coral. escabroso”. escarpado. no que se distinguem dos parcéis. ou contíguos à costa. uns contíguos à terra. para onde a corrente arrasta as embarcações. – Alfaques. – Empinado é o menos preciso destes cinco vocábulos. Mesmo de uma ladeira pode dizer-se escarpada. Deve aplicar-se particularmente a coisas materiais. ou quase a prumo. retruso. Este diz precisamente “posto fora das vistas.

as maravilhas secretas da natureza. por qualquer motivo que nos é pessoal. persegue e atormenta. aquele. só porque governa como senhor absoluto. esse poder é limitado por leis. é o caso omisso que o monarca faz das leis que deve respeitar: quando o absolutismo oprime. Secreta é uma junta quando secretamente se celebra. as intenções ocultas do mouro. retirado muito para a profundeza”.. É agora tomada como enunciando a ideia de um excesso de poder político degenerando em dureza de mais rigor que o despotismo. O despotismo é o abuso do absolutismo. Quanto a estes dois vocábulos. ou “a coisa que não podemos ver. nada disso. – Recôndito exprime “escondido muito longe. os acordos secretos. retraído às vistas. oculto. retruso e hostil. e é clandestina quando se faz às escondidas. – Clandestino é “o que é secreto e contrário à lei”. Os avisos. – Encoberto é o que ficou oculto. quer dizer. autocracia. não”. ditadura. escreve Roq. Também se dá o nome de despotismo à forma de governo em que o monarca não tem de obedecer a nenhuma lei. porém. o secreto processo. e ainda às vezes negamos. 64 ABSOLUTISMO. – O absolutismo (diz Bruns. “Absconsos intentos da majestade em furor”. os cabedais ocultos no seio da terra”. até que passasse o perigo”. humilhado. “O sol ficou oculto pela árvore ou pela nuvem. assim como abscôndito. além de oculto. recônditos e humildes nesta miséria”.. dados ou feitos por um ministro”. de onde pôde dar o bote certeiro”. repulsado à força”. haveres e liberdade de todos os súbditos. os ocultos desígnios da Providência. o céu.50 Rocha Pombo ajunta à significação de escondido. “O trabalho secreto dos conspiradores. e em certos casos figuradamente. “Lá esteve tímido e retruso.) “é a forma de governo monárquico em que o poder é exercido pelo soberano. misterioso. Disto resulta que nem tudo o que é secreto é clandestino. . num canto da sala. nem confessamos. O absolutismo é chamado autocracia ao falar-se da Rússia”. despotismo. “O abscôndito espírito de Deus era sentido ali no oceano”. diz ainda abstruso. e chama-se clandestino quando o celebramos às escondidas sem observar as regras que prescrevem as leis canônicas. ou procurando violá-la sem que ninguém o conheça. Deve aplicar-se a coisas materiais. Chamamos casamento secreto ao que. tudo. virtudes eminentes. “Ficaremos para sempre no sertão.: “Uma coisa é secreta quando ninguém ou poucos a sabem ou conhecem. “O mísero ali ficou. militarismo. como. converte-se em despotismo. – Retruso diz “posto para o fundo. deixaram-nos sempre cuidadosamente encoberto aquele intento”. “Nestes últimos tempos” – escreve Roq. se estende ao despotismo. não declaramos. faltando à lei. tirania. – Recôndito e retruso aproximam-se. – Secreto se diz do que fica mais que oculto. – “tem-se dado tanto o nome de tirano como o de déspota ao rei absoluto.. devido à interposição de algum corpo opaco entre essa coisa e a nossa vista”. e podendo aplicar-se tanto em sentido moral como físico. as operações. Com o absolutismo podem conciliar-se intenções retas e benéficas. – Oculto é simplesmente “furtado às vistas” de qualquer modo. a ideia de concentrado e profundo. porque fica “como em segredo e reservado a alguns”. chamadas leis do Estado. ou a secreta vida das abelhas.. o horizonte está encoberto. e é clandestina quando se verifica clandestinamente contra o expresso mandado da lei. depois esgueirou-se para um ponto recôndito do parque. o sol. por exemplo. não obstante ser permitida. “O tempo. as quais velam pela vida. que é clandestino vem a ser secreto: este é lícito. em Marrocos. – Tirania é palavra que tem hoje significação diferente da que teve em tempos idos. porém. caudilhismo.

porque tão tirano e despótico pode ser o governo de um como o de muitos cônsules. escreve Bruns. nem lhe façam observações. parecer. e que lhe deem provas de deferência e submissão. etc. exprime-se que essa corporação ou pessoa tem competência e autoridade para dispor ou determinar. ou uma corporação. absoluto significa “fora de contraste. pode não o ser tanto no que toca à execução efetiva das suas ordens”. e quaisquer que sejam as observações que lhe façam.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 51 o que é um grave erro. valendo-se do dito direito. aquele em quem se reconhece um direito indisputável de mando. e déspota. “Opinião.: “Quem é absoluto quer ser obedecido. pois. exige. ou acidentes ou mudanças imprevistas. – Militarismo é o sistema em que o poder político é exercido por chefes militares. arrogante. senão na aplicação delas. – Caudilhismo é adaptação do antigo espanhol (de capdillo “capitão”) para significar o regímen político caracterizado pelo predomínio de chefes de bando em certos países da América. sobretudo. – Categórico diz o mesmo que “precisamente definido. se aprovam ou não a sua conduta é. claro”. incondicional. – Definitivo = “que explica. tomados num sentido restrito. Dizemos: “forma imperativa da lei. que exige com império”. – Em sentido amplo. Quando se diz que uma pessoa. clama. para o homem absoluto. não sujeito a contrariedade. que ordena. ou tomara uma atitude imperativa” e: “fez um gesto. categó- rico. – Decisivo equivale a “que põe termo a toda dúvida. pois ajunta à significação deste vocábulo uma ideia de excesso de orgulho com que se manda. dúvida ou contestação. ordena de modo que não deixa lugar a dúvidas ou observações”. sentido imperativo de uma frase” (e não: imperioso). peremptório. – Ditadura é um regímen excepcional que se caracteriza pela concentração de todos os poderes políticos do Estado nas mãos de um chefe. Tirano por conseguinte é o opressor. ou tomara uma atitude imperiosa”. A tirania e o despotismo não estão nas instituições. Para compreender. não somente o opressor. como quem se presume forte e ufano da sua força”. com exatidão a diferença que existe entre as duas palavras. quer-se dizer que ordena mais com arrogância do que com autoridade. 65 ABSOLUTO. declaração definitiva”. basta ter presente que tirano é aquele que oprime a outro. não na forma de governo. que não deixa lugar a dúvidas”. É mais do que imperioso. atitude. – Arrogante é o que se impõe “com soberba e altivez. decisivo. imperioso. resolve. Sentimos bem nitidamente a distinção destas frases: “fez um gesto. quando se diz que dispõe ou determina imperiosamente. determina ou dispõe imperativamente. terminante. acima de contingências. ou de tal artigo de uma lei. que é definitivo. Imperioso equivale a “que se impõe. ponto secundário: o que ele quer é a execução efetiva e completa do que decidiu. Quem é imperioso quer. seja legal ou de força. tirano e déspota. que o não contradigam. e que. inapelável. senão o dominador”. permanece inabalável nos seus propósitos. livre de embaraços de qualquer natureza”. – Sobre absoluto e imperioso. que não admite réplica. cabal. déspota. intento. irredutível. positivo. extremamente exigente neste ponto. imperativo. Entre imperioso e imperativo só existe a diferença marcada pelos respetivos sufixos. senão nos atos dos que governam. quer. pretende que ante ele se observe uma postura respeitosa. definitivo. – Irredutível apro- . obriga aos demais a fazer o que não devem contra toda a razão e justiça. ou que não muda de resolução”. ainda quando seja seu igual na sociedade. ou que se funda na supremacia da força armada.

tribunal inapelável. Absolvemos o acusado. perdoamos a pena. Tanto quem escusa como quem tolera supõe-se que tem alguma superioridade sobre aquele a quem aproveita a escusa ou a tolerância. deixar como se não existisse. ou que era preciso seguir”. completo”. de acordo com Roq. remitimos a dívida. destoante. – Ábsono diz propriamente “que discrepa. Perdoar é esquecer uma ofensa. – Escusar e tolerar sugerem a ideia de “deixar que passe a falta sem puni-la”. anistiar. dívidas. que se afasta de outro som.: “A remissão é concedida por quem cede dos direitos que lhe competiam acerca de alguma coisa. – discrepante é. perdoar. dissonante. não cede do que resolve. de desarmônico. Confunde-se. destemperado. diz Alv. Remitem-se culpas. fica fora de hipóteses. direta do grego. e dá prova mais de misericórdia que de justiça. Este verbo dá também a supor que a pessoa a quem se faz a remissão tem certas condições que a tornam credora desse benefício. ou que não se associa a outro som para formar harmonia”. compete ao príncipe e ao magistrado. – Desentoado é o que está “fora do tom próprio. “imperativo”. remitir. Pas. é convizinho. descriminar. – Malsoante diz propriamente “que soa mal”. destemperado. agraciar. do grupo. ou em parte. desculpar. remitir dá uma ideia de resgatar. – Quanto aos três primeiros destes vocábulos. de que se não pode apelar”. pecados. destoante. – Terminante diz propriamente “que põe fim”. – destoante é o que não condiz com o “tom próprio. – Desculpar diz propriamente “relevar a culpa. renunciando a qualquer desforra. e tanto que. malsoante. discrepante. com outros do grupo: dissonante. só o soberano ou o órgão legítimo da soberania nas repúblicas é que anistiam. discordante. decisão. – discordante é “o que se não põe ou não está fiel ao acorde. discordante. 67 ÁBSONO. ou a falta cometida”. e suspende a execução da justiça”. ou com a regra estabelecida ou vigente”. terminante. escreve Bruns. não se submete a continências. discordante. 66 ABSOLVER. – Anistiar é adaptação moderna. – Indultar e agraciar dizem aqui mais particularmente “conceder perdão de crime de alta gravidade”. ou de redimir. portanto. acima de eventualidades”. pensa. ou não tivesse sido perpetrado. toado. portanto.: “Absolver é desligar o culpado dos laços que o prendiam. – Descriminar equivale precisamente a “absolver de crime”. desarmônico. tolerar. juiz. ou não faz acorde com outro som”. escusar. ou do som conveniente”.. – Desarmônico é o mais geral: exprime “que não faz harmonia ou acorde.” Entre remitir e anistiar há esta diferença. – Incondicional é “o que se não sujeita a condições. discrepante. “que não admite outra solução”. desafinado. – Inapelável = “de que não há recurso. e significa “esquecer. convindo notar o seguinte: dissonante diz apenas “que não está de acordo com o som que se quer. desarmonioso. do que havia direito a exigir. quer. mas sugere ainda a “ideia de muito afastamento do som que convém ou da harmonia dominante”. acerca de remissão.52 Rocha Pombo xima-se aqui de decisivo: diferençando-se deste em sugerir também a noção do grau de força ou de capacidade com que a coisa ou pessoa irredutível não altera o seu modo de ser ou de agir. ou a qualquer castigo. Quem indulta ou agracia exerce função soberana. o mais próximo de ábsono: exprime não só destoante. desafinado. etc. desen- indultar. – Peremptório = “que completa e decide. acabado. Despacho. o crime político”. não sujeito mais a dúvida ou a nova resolução” – Cabal = “pleno. que não está . Remitir é desistir em todo.

– Entre engolir e deglutir pode notar-se diferença análoga.). – Engolir exprime simplesmente a ação de “levar ao estômago”. pelo nariz ou pela boca. e o segundo a de destruir. E tanto que dizemos: “o mar sorveu o frágil batel” (não – absorveu. consumar. aspirar. É. Distingue-se deste por incluir. destacando porções”.) do latim sugere. Assim consuma-se um ato. devorar. “A ação de consumar – diz ele – não destrói em vão como a de consumir. além disso. O morcego chupa o sangue aos outros animais. de perfazer. ideia de esforço para consumir separando por partes a coisa a absorver). etc. ou que está completamente fora do tom: é mais que desafinado. No meio de um tumulto a palavra ponderada é desarmônica (isto é. – Desarmonioso é o mais geral e absoluto do grupo: não precisa. sorver. porque em absorver há. distingui-los precisamente. – Consumir acrescenta à noção de absorver a ideia de “extinguir lentamente. de gastar (user). Um som. o fumo. ou o instrumento destemperado desordena de todo a harmonia. que é desordenado em si mesmo e fora de toda conveniência”. Laf. e significa mastigar e engolir . que não tem harmonia. em regra. engolir sofregamente. não sendo fácil. consumir com avidez. – Absorver designa a ação de “consumir pouco a pouco. tragar e comer escreve Roq.” Só se aspira matéria gasosa.: “Comer vem de comedo. muito mais próprio dizer-se: “O doente não tem mais forças nem para deglutir alimento sólido. ou de “deixar que vá ao estômago.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 53 igual ao som dominante”. rapidamente”. – Sobre devorar. pois não se supõe que a esponja faça esforço em chupar a água. cujo sentido próprio é acabar. tomaram-se outrora indiferentemente um pelo outro. e rigorosamente. fazer que desapareça”. ou a voz desafinada não faz harmonia perfeita. enuncia a ação de “mastigar e engolir”. por outro lado. – Destemperado é o que desafina de todo. latino. a ideia de esforço. sugar. tragar. a ideia do esforço com que se engole. – Chupar = “sorver. – Desafinado exprime “que não está no tom próprio. comer. por tragar ou aspirar. A esponja chupa a água. consumir. – Aspirar é “atrair aos pulmões. ou uma voz pode ser desarmônica sem ser propriamente desarmoniosa. consome-se uma certa matéria”. ‘No mar quase toda consumação se faz em proveito da reprodução’ (Buff. – Chuchar parece a alguns uma simples forma popular de chupar. engolir. mas não marca a ideia de desligar de todo as partes que vão sendo sorvidas. –” Devorar é “tragar. Nos tempos coloniais dizia-se no Brasil “beber fumo”. – Sugar é equivalente de chupar. sem mastigar”. não afina pela desordem que aí reina). chu- char. o que nem sempre se dá em relação a chupar. ainda que o primeiro designe antes a ação de completar. – Sorver diz também “beber aos sorvos” (Aul. – Tragar é “beber aos tragos e tomando bem o sabor. enunciada pelo prefixo ab. deglutir marca.). O instrumento. julga os dois verbos como quase perfeitos equivalentes. que significa igualmente chupar. a voz. deglutir. A consumpção não serve para nada. 68 ABSORVER. beber. atrair líquido quase sempre com esforço”. – Comer é quase o mesmo que consumir. – Beber é “engolir líquidos”. que não se afina convenientemente”. Diremos que “o oceano engole (e não – deglute) a embarcação”. A consumação serve para a reprodução. e até muitas vezes não faz senão causar prejuízo. ou ao fundo”. Sobre consumir e consumar diz Bourguig: “Consumar e consumir. com a significação que têm aqui. de adjunto completivo: enuncia “que não faz acorde. chupar. A abelha chupa o mel. mas outros o derivam (como Aul. mal engole caldos”. o ar.

e no entanto diferençam-se assim: meditativo quer dizer – “dado. (Feo. e devorar. Da boca do facundo capitão Pendendo estavam todos embebidos.: “Arrebatado usa-se não poucas vezes para se exprimir um deleite mental ou corpóreo. “Eis que no meio da Missa fica subitamente arrebatado”. – Contemplativo é “absorto em coisas místicas”. – Extático diz “absorto. assombrado e abismado escreve Bruns. admirado. extático. mas no sentido em que aqui se toma quer dizer – profundamente atento. – Arroubado significa “arrebatado de altas emoções ou de sublimes pensamentos”. distração. c. – Apreensivo significa “tomado de cismas. respeito etc. de devoro. e numa concentração de todo o espírito num assunto”. Pas. preocupado. enlevado. abstração.. (Aul. Estático exprime “parado. extasia- “tinha embebido em si a doutrina do Apóstolo” (Feo). contemplativo. – Sobre enlevado. a ponto de ficar como maravilhado da vista dessa pessoa. dando porém a entender que a causa desse estado é algo que impõe medo. – Impressionado diz propriamente “sob a tortura de impressão de dor. etc. (Souza. tragar vem de trogo. propenso a refletir. arrebatado. é o de menor significação.: “Admirado. – Abismado diz mais que assombrado. que está “solitário. latino. estatelado.) “Saiam como fora de si. – Extasiado “o mesmo que absorto e em pasmo”. que ama o afastamento.”. delíquio ou inanição. (Cam. impressionado. V) Homem arrebatado em Deus. embebido e arrebatado escreve Alv.” Assombrado é “muito admirado”. estático. Estatelado acrescenta a estático uma ideia de esvaimento. arrebatado “de grande admiração e como em esquecimento de si próprio”. distraído. meditabundo. silencioso e melancólico”. imóvel como estátua. grego (τρώγω) e significa engolir sem mastigar.) – Enlevado exprime a nímia confiança que se põe num parecer. amante enlevado num falso parecer.. pois nos representa como “caídos em abismo de que não se sai”. e do. ao pé da letra. pensativo.) – Estático e estatelado. embebido. . o mais usual destes termos. (Cam. e arrebatados em Deus”. de pressentimentos. meditabundo diz mais “pensativo e triste”. abstraído (abstrato). se só os olhos pudessem julgar.. ou da contemplação de suas qualidades.. tão intenso que chega como a alienar-nos. ficamos admirados ao ver o que não esperávamos. abismado. III) – Embebido significa. significa comer ou tragar com voracidade ou sofreguidão”. Lus. apreensivo. maravilhado. nas qualidades ou promessas de qualquer pessoa.. metido nos poros: a esponja embebe-se do líquido.. que vive ou está “como se tivesse a alma toda voltada para fora do mundo sensível. c. enlevado em êxtase”. – Meditativo e meditabundo parece que têm a mesma significação. 69 ABSORTO. de desconfiança. Lus. – Pensativo está ou fica por momentos quem “pensa ou parece pensar só nalguma coisa”. meditar em graves coisas”. – Maravilhado diz mais que os três precedentes: ajunta-lhes a ideia de “grande surpresa e admiração que nos abalam e deixam em pasmo”. de suspeitas”.54 Rocha Pombo alimentos para sustentar-se. de medo. – Absorto exprime: como que “fora da consciência. diriam exatamente o mesmo que extático e extasiado. – Preocupado ajunta à noção de impressionado a ideia de “pungido de cuidados”. assombrado. arroubado. d’enlevado. meditativo. ouvintes embebidos etc. Num falso parecer mal entendido. – Sobre admirado. insensível a tudo que está em torno”. E casar-se com ela.

de cuja definição resultará que haja pouca diferença entre as duas palavras. ocupando-se. por assim dizê-lo. segundo a expressão de Bossuet.: “A palavra abstração vem da latina abstrahere. – Abstração é. ele deixa vagar seus pensamentos. Querem alguns que distração seja diversão do pensamento de todo objeto exterior para atender aos interiores. – Sobre distraído. – Sobre abstraído e distraído lê-se em Laf. pois. o pensamento do indivíduo. ele está à mercê de todas as impressões. Pas. em conversação consigo mesmo. distraído. há verdadeira e notável distinção entre as duas palavras. incapaz de aplicar-se ao que quer que seja. corresponde à linguagem metafísica. e designa a operação do entendimento por meio da qual desunimos coisas que na realidade são inseparáveis. ao contrário. distraindo-se de suas obrigações. Uma palavra casual nos leva insensivelmente de um objeto exterior a outro interior abstraindo-nos inteiramente daquele. ocupando-se ele tão fortemente com estas ideias interiores que só atende às coisas que elas representam. abstraídos nelas. em vícios. servindo-se de uma por outra. nos fere repentinamente os sentidos qualquer objeto exterior. merece o nome de abstraído. chamam tanto a atenção dos que as estudam que. olhamos a abstração como uma coisa habitual. a que procuramos voltar bem depressa”. No cabedal das línguas cultas ocupam um lugar muito importante as palavras que representam ideias abstratas. e a distração. separando-nos da abstração. uma como alheação do homem concentrado naquele objeto interior que o tira como de si mesmo. dissipado. porém. e sendo estas o objeto das ciências mais elevadas. abstraído e abstrato. distrai-nos. A palavra abstrato usa-se quando a aplicamos às coisas. atraído para longe de”. e abstraído quando a referimos às pessoas. e assim dizemos: Este homem está sempre abstraído em seus estudos ou meditações. O espírito do abstraído está longe do que vós lhe dizeis. A causa das abstrações é antes interior. daquilo de que se trata. de diversos lados ou para diversos lados”. a da distração é exterior”. Em nosso entender. e a filosofia. diremos que nos distraiu. mas quando. abstração e distração vejamos Roq. Uma imaginação abstraída só à sua própria ideia atende como se não houvesse outras. são indiferentes e como insensíveis aos objetos exteriores. e de repente entra uma pessoa. abstrair-se nisto. que o fazem abstraído. e dizemos abstrair-se quando nos alheamos dos objetos sensíveis para nos entregarmos aos intelectuais. pois a abstração se exerce de fora para dentro. e na consideração de suas abstrações.: “Abstraído. mas com esta diferença: que são as ideias próprias. Se estamos engolfados em nosso estudo solitário. fixando-nos nela com exclusão de todas as outras. ou se faz um ruído forte. e não que nos abstraiu. que significa – separar ou arrancar uma coisa do lugar em que está ou supomos estar. por assim dizer. para podê-las considerar cada uma em particular sem dependência nem relação com as demais. como uma ocupação contínua. e comumente de distraído por abstraído. escreve magistralmente: “Encerra-se nestas duas palavras a ideia comum de falta de atenção. distractus “atraído de um lado e de outro. evaporado. como o resultado de um caráter particular. por concentrar-se. achando-nos no mais profundo desta abstração. a metafísica. de dentro para fora. o espírito do distraído é instável. Enfim. Alv. e. abstractus “tirado. como a matemática. A distração é momentânea e como passageira. Diz-se de um homem que está distraído no jogo em amores.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 55 pela visão interior vendo o que os olhos não têm a faculdade de ver”. O homem que se aparta do trato e comunicação das gentes. e é um novo objeto exterior que faz o . Falamos em abstrato quando o fazemos com separação de qualquer coisa.

56 Rocha Pombo homem distraído. estilo absterso e brilhante”. fulgente. – Brilhante exprime “muito polido e luzente: que tem grande brilho”. luzente. escutando um discurso enfadonho. quando estamos numa parte e o pensamento noutra. – Alvo e branco se confundem. e assim se entende ser voluntária. caso raro é que se prive de vinho. – Vemos que abstinência supõe que podemos gozar de uma coisa. ou as antiguidades de S. e falam muito. quando. Uma pessoa abstraída tem o espírito muitas vezes a grandes distâncias: ora está em Lisboa em frente da estátua equestre. isto é. silencioso e solitário para o comércio divino”. ora está em Roma no meio da praça de S. e os distraídos meditam pouco. e perdem o fruto das conversações”. que nos agradam. reluzente. ouvimos do lado uma coisa interessante. lustroso. estando a ouvir um discurso que se nos dirige. A privação é de ordinário forçada. sem ser pelo brunidor. Dizemos: “O aço já terso da ferrugem” (Fil. nítido. – Escreve Roq. – Absterso é como um redobramento de terso. ainda melhor que alvo. refulgente. cit. e pena de não poder gozar dela. branco. brilhante. e tanto na acepção moral como na física. polido e lustroso”. a abstinência não é na realidade privação. abstinência. acrescenta à ideia de alvura a de pureza e imaculidade. recolhidos conosco. brunido se aplica mais propriamente ao brilho que se dá aos metais. “Os abstraídos meditam muito e falam pouco. porém. mas a distinção entre os dois consiste em que alvo ajunta à noção de branco a ideia de puro. limpo. dados a nossas ocupações. privar-se. Elys. límpido. – Fúlgido é o “que fulge de si mesmo”. de cândido. Vicente de Fora. ou que nos é indiferente. a estudos profundos. mudamos a atenção para outro diverso. admirando as belezas da Ajuda. nitidez e brilho. alvo.: Abster-se exprime a ação sem referi-la ao sentimento que pode acompanhá-la. escutamos outro diferente.).) As distrações pertencem mais aos espíritos levianos e às crianças que se distraem com lindos nadas. Pedro. como dizemos: “Linguagem tersa. As abstrações são mais próprias dos homens dados a meditações. brunido. Ficamos abstraídos quando não pensamos em nenhum objeto presente. com dificuldade. Refulgente é um reforço de fulgente. luzido. priva- que gozamos ou queremos gozar. 71 ABSTERSO. Fácil nos é abster-nos do que não conhecemos nem amamos. – Cândido. e atrai a sua atenção. polido. privar-se supõe apego à coisa. quando. ouvindo tal orador no palácio das Cortes. nitente. mas que por certas razões dela nos abstemos. 70 ABSTER-SE. fulgente é o “que está fulgindo ou sendo brilhante no momento”. Aul. luzidio. pois temos desgosto e ainda pena de nos vermos privados daquilo que muito desejamos lograr. quando. Para o que prefere sua saúde aos prazeres. nos privamos das coisas que conhecemos. delicado. fúlgido. terso. que a desvia do objeto a que ele a tinha aplicado. Podendo o bêbado beber. nos entretemos com o nosso próprio cogitar. “A força da oração o abstraiu deste desterro”. e este significa “livre de manchas. polido se diz de tudo a que se deu polimento. a abstinência é também privação. imaculado. mas. porém o homem de razão abstém-se dele quando sabe que lhe é nocivo. ção. Cândidas al- . É difícil que não fiquemos distraídos quando. lúcido. mas para o que prefere os prazeres à saúde. (Cardoso) Ficamos distraídos quando. Tanto se aplica em sentido natural como em translato. nem desejamos. estando a contemplar um objeto. atendemos a festins etc. (Bern. – Polido e brunido aproximam-se. abstraído. “Devem guardar o coração desempenhado.

olhos reluzentes de cólera. como lustroso restringe ao que se lustrou ou poliu a qualidade que enuncia. – Frugal é propriamente o que se nutre “só de frutas”. vistoso”. – Límpido acrescenta à ideia de terso e puro a de lustroso. a lúcida visão do gênio. pomposo. – Abstêmio é o que se abstém de excessos na mesa. discriminado. lúcido é o mais forte da secção: diz – “claro. medir as suas palavras e ações de um modo conveniente”. principalmente quanto a bebidas que embriagam. opu- lência. airoso. abstruso. propriamente uma qualidade (como se dá com abstinente) mas um estado. – Comedido significa “que sabe regular. abóbada ou esfera luzente. o que se mostra moderado em todas as funções. portanto. diáfano. lustroso. uma abstido. no entanto. as inclinações da própria natureza”. Tudo que é abstruso é abstrato. Dizemos com propriedade: luzidos batalhões. Exemplos: “Nítidas frontes fulgem do meio da turba”. um ponto luzidio no escuro da floresta. e por extensão “o que se satisfaz com pequena quantidade de alimento”. cheio de luz. a ideia de esbelto. apesar do esforço extraordinário que nossa inteligência faça para consegui-lo. alguma diferença marcada pelos respetivos sufixos. luzente. curto. – Luzido. reduzido. a ideia de brilhante. pequeno. e em sentido geral. (Aul. designa “uma qualidade mais forte e que parece depender de mais esforço e energia moral”. “no momento”. 72 ABSTINENTE. “Nitentes florações nos trouxe a primavera”. brilhante como a própria luz”. – Abstido é quase o mesmo que abstinente. reluzente. – Nítido ajunta à noção de limpo. – Continente designa “o que tem a virtude de sofrear os impulsos. diáfano. continente. 73 ABSTRATO. além de limpo – “correto. portanto: “lustrosa estrela”. mas. – Limpo diz – “livre de impurezas”: é o mais genérico do grupo. 74 ABUNDÂNCIA. Cândido livro. não só este é mais intenso e complexo. riqueza.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 57 mas de crianças. abstêmio. mas nem tudo que é abstrato é abstruso.) – Parco diz mais que sóbrio: é aplicável ao que é “pouco abundante. se abstém de alguma coisa: não designa. – Lustroso confunde-se com brilhante. convindo notar-se que abstido deve aplicar-se ao que. ou instantânea e fugaz. lúcido confundem-se muito. comedido. brilhante. parco. frugal. temperado. que despede luz um tanto indecisa. e muito menos a totalidade que deles resulta. – Abundância (do latim abundan- . sóbrio. moderado. fartura. no entanto.. reluzente é forma redobrada de luzente. – Sóbrio coisa abstrata é difícil de entender porque dista muito das ideias sensíveis e comuns. – Abstinente é aquele que se abstém de alguma coisa por necessidade de consciência ou por sentimento de dever. e no uso dos bens da vida”. – Segundo Roq. Uma coisa abstrusa é difícil de compreender. luzidio. Num sentido mais restrito embora. O primeiro. – Moderado e comedido muito se aproximam. porque depende de um encadeamento de raciocínios. Luzido acrescenta à noção de polido. nitente diz. particularmente no comer e no beber”. Não seria próprio dizer. é “o que só toma o alimento indispensável. quase tacanho e avaro”. luzidio diz propriamente – “que é semelhante ao que brilha”. cuja relação não é possível descobrir nem seguir. e abstrusa dizemos que é a ciência da geometria transcendental. está temperante no mesmo caso: significa “moderado nos apetites. terso. temperante. Um tratado sobre o entendimento humano precisamente deve ser abstrato. luzente quer dizer – “que espalha luz em torno”. É preciso notar-lhes.

ou caso fictício com que se engana. da verdade. um respeito cego a coisas vãs. e cativa o pensamento. O prejuízo parece mais um temor supersticioso. Quem viveu sempre na riqueza “não sabe o que é ser pobre”. – Superstição – diz Bruns. e que só aceitam os néscios”. de abundare. e a prevenção tem seu principal assento na vontade. A prevenção nasce de certas relações ou informações que nos deram. um excesso de credulidade que turva a consciência ou faz calar a razão. – Riqueza é. de que não saímos como por um capricho do nosso amor próprio. Quem vive na opulência goza com ufania da sua riqueza. absorve-o. su- perstição. “a superabundância de bens da fortuna e de coisas preciosas”. não permitem à nossa alma o conservar seu equilíbrio e sua indiferença. de um objeto. A preocupação nasce de alguma impressão viva e profunda que enche de seu objeto a capacidade do ânimo. – Todas estas palavras indicam ou sugerem defeito de consciência. – “é sentimento de veneração religiosa fundado no temor ou na ignorância. impedindo de julgar sãmente. etc. preconceito. e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos ou supostos deveres. opinião que se tem de uma coisa antes de examiná-la diretamente.58 Rocha Pombo tia. ou sem conhecê-la. portanto.. ou conto mentiroso com pretensões a coisa séria e verdadeira. f.: “Estes dois termos exprimem uma disposição interior oposta ao conhecimento da consciência. – Acerca de preocupação e prevenção diz Roq. ou por índole supersticiosa”. prejuízo. induz em erro. fanatismo. crença popular sem fundamento. superstição (superstitio.. Dizemos: a superstição da honra. e a faz injusta. As preocupações não são boas . e absurda e ridícula. – Quem vive na abundância não precisa de mais nada para viver. preocupação. A preocupação tira a liberdade do ânimo. 75 ABUSÃO. do dinheiro. Confunde-se com preconceito. a convicção assentada. do destino. e o faz cego. – Crendice é. mas este supõe que o nosso espírito “foi induzido a deixar-se dominar” da falsa noção que nos impede de julgar livremente. de perfeito acordo com Aul. o preconceito parece mais a “suposta certeza”. f. e que impede o ânimo de adquirir os conhecimentos necessários para julgar das coisas retamente. e que portanto nos impede de julgá-la de consciência”. patranha. Quem vive na fartura tem mais do que lhe é necessário. ou de que alguém se persuade por ingenuidade. prevenção. peta. Podemos admitir ainda o preconceito da honra: não o prejuízo. – Abusão é “falsa história. de superstare) é uma depravação do senso religioso. – Opulência é a “riqueza com aparato e ostentação”. A prevenção tira a imparcialidade do juízo. A prevenção é uma disposição antecipada da alma que a faz inclinar-se a julgar mais ou menos favorável ou desfavoravelmente de um objeto. Aproxima-se-lhe peta. conforme define Aul. Propriamente. interessando-nos a respeito desse objeto. A preocupação é o estado do ânimo de tal modo cheio e possuído de certas ideias. com a diferença que a preocupação reside particularmente no entendimento. are) diz propriamente “em quantidade tão grande que satisfaz plenamente ao que se deseja”. como diz Roq. as quais. – Fartura diz mais que abundância: significa “em quantidade tal que já excede ao que é suficiente”. e pode estender-se mesmo a coisas que não sejam religiosas. – Patranha diz – “grande tolice. crendice. de ab + undo.. e que é. à cega confiança em coisas ineficazes”.. que não pode ouvir nem conceber outras contrárias. um gênero de petas. – Prejuízo diz propriamente “juízo antecipado. convindo não esquecer que patranha parece significar que as mentiras ou as tolices se referem a assuntos de religião.

bem marcado. concluído. – é um termo geral. Findar é “ter fim”. terminar.. – Segundo Roq. e. – “Cessar – diz ainda Roq. fechar podem confundir-se. não a coisa concluída. no qual o que se acaba seja precisamente a ação de outro verbo: Amanhã acabarei de escrever. – Entre findar e finalizar dáse uma diferença análoga. finalizar. e às vezes alguma outra coisa que se lhe pode seguir”. que nasce das opiniões supersticiosas. ultimar. fechar. que se distingue de findar. Há prevenções justas e razoáveis: é mister examiná-las. senão puramente de uma ação que cessa. Hoje se acaba minha fadiga. como que estabelecendo uma certa relação de ordem ou de seguimento entre a coisa que se ultima. concluir. que findar enuncia simples fato em muitos casos em que acabar enuncia ação. injustas e cruéis. “acabar representa a ação de chegar ao termo ou fim de uma operação. para distingui-la. no entanto. mas a inversa não seria exata. descontinuar. sem indicar diferença alguma. rematar. e parecia terminar ou concluir já mais calmo. terminar. ultimar. Ontem se concluiu o negócio. Segue-se que em todos os casos em que se aplica findar pode aplicar-se acabar. suspender. – Terminar é “ir ao termo. findar. formal. é romper a continuação ou seguida do fato com o que fica por fazer”. e faz cometer ações ridículas. não acaba de chegar. porque não se trata diretamente de uma coisa finalizada e completa por meio da conclusão. Em nenhum destes exemplos se pode usar sem impropriedade do verbo concluir. rematou a tremenda objurgatória com uma invetiva ultrajante”. segundo o mesmo Roq. basta buscá-la num exemplo. etc. de entrar. do termo e fim a que chega. ainda que não seja por muito tempo. o princípio que teve essa coisa. de chegar.. Como as ações destes dois verbos são em geral inseparáveis. ultimado”: o que se remata “tem termo preciso. além de “ter fim” – chegar. interromper. Finalizar enuncia ação. rematar. não somente sem vergonha e sem consciência. e fechar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 59 para coisa nenhuma: devem combater-se como inimigas da verdade. – Rematar. acabar é. “é um zelo cego e apaixonado. “Acabamos a nossa tarefa” (e não – findamos). por muito tempo. que a toda suspensão de trabalho ou ação pode aplicar-se. intermitir. como se o que as faz houvera recebido alguma missão de Deus”. 76 ACABAR. seriam sinônimos perfeitos se não fosse a nuança assinalada na predicação daquele primeiro verbo: o que se fecha fica “resolvido definitivamente. – Finalizar. levar ao fim (ao cabo). . portanto. – Acabar e findar têm muito íntima conexão. “Finalizamos o trabalho com muita fortuna” (e não – findamos). é pouco perceptível sua diferença. e é nesta última acepção. concluir representa a ação no deixar a coisa completa. Quem diz ultimar indica a ação de “chegar ao termo de uma coisa deixando supor que se havia começado e que se vai ou pode dar princípio a outra. e até pode ser que solene”. “Findou o sofrimento da triste criatura” (e não – finalizou). parar. senão também com uma espécie de alegria e consolação. – Descontinuar é suspender o trabalho. porém. esforço “para chegar ao fim”. para sempre. mas ele continuou no mesmo tom veemente. mas a operação com que se conclui”. – Fanatismo. Dizemos rematar quando queremos exprimir que se “pôs fim ou conclusão a uma coisa com um sinal próprio ou de um modo completo”. portanto. cessar. Cessa-se por um instante. ao meio-dia acabou de correr. quando a um aparte do ministro. Um exemplo: “Quando ouvimos aquela apóstrofe vibrante supusemos que o orador ia ultimar as graves acusações. neste caso. porque podem prevenir-nos contra o engano”. devendo notar-se. acaba de sair.

inanido. Morre. Depressa se acaba o dinheiro a quem gasta perdulariamente. e não perece. uma cidade. – Fenecer é chegar ao fim do prazo ou extensão própria da coisa que fenece. e às vezes por desastre ou infortúnio. nos terremotos. morrer. Muitas vezes se acaba a vida antes que tenhamos acabado a mocidade. – Extinguir-se significa “fenecer. e por sua desventura também muitas vezes perece. expirar. avelhentado. de sede. acaba. alquebrado. arruinado.60 Rocha Pombo levar ao termo. cessar de todo. fatigado. combalido. extenuado. mortificado. nos naufrágios?! Todos os seres animados finam-se quando. interrompe-se alguma coisa quando “se lhe corta ou suspende bruscamente a ação ou o modo de ser”. ou deixar de exercer por algum tempo função própria ou alheia”. alterado. Falece o homem quando passa da presente a melhor vida. curvado. abati- do. exausto. suspende-se alguma coisa quando “se a interrompe por algum tempo e a deixa pendente”. para indicar que vai baixando pouco a pouco até acabar. – Expirar é “render o último alento. – Interromper e suspender.. Perece um edifício. Descontinua-se quando “se deixa de prosseguir aquilo que é contínuo ou sucessivo”. quebrado. consumido. gasto. – Morrer é acabar de viver. – Perecer é chegar ao fim da existência. fina-se o homem. quebrantado. desfeito. enunciam ação de “cessar. mas o irracional não falece. ou morrer de todo. – Finar-se exprime propriamente o acabamento progressivo do ser vivente. – Todos estes verbos significam “chegar ao fim”. aliás. acabar. dar o último suspiro. de inimigos ou de rivais. nos suplícios. exinanido. idoso. mudado. envelhecido. macerado. pagam o tributo à lei da morte. esgotado. prostrado. e porque as plantas têm uma espécie de vida. Morre o vivente. “Para o relógio quando se lhe acaba a corda”. Quantos têm perecido de fome. ou de se fazer sentir por intervalos”. finar-se. desfigurado. falecer. perecer. fenecer. – Parar significa “cessar. e às vezes no mar. descomposto. 7 Figuradamente dizemos. definhado. nos cárceres. do mesmo modo que diziam os latinos vita functus est. e por uma espécie de eufemismo. amofinado. que a serra vai morrendo. extenuadas as forças. como descontinuar. “Intermite-se a aplicação de um medicamento quando sobrevêm acessos do mal que se combate”. extinguir-se. aniquilado. – Falecer é fazer falta acabando. nem falece (nem fenece). exaurido. Fenecem as serras nas planícies. ou há de perecer tudo quanto existe. – Fenece a vida do homem muitas vezes quando ele menos o espera. debilitado. Diz-se mui urbanamente. quer se trate de duração ou de espaço. à míngua. enfraquecido. cessar de agir. nem morre7. demudado. acabrunhado. nem falece. acabar de ser”. ralado. chegar ao limite”. velho. etc. nos incêndios. acabar de existir no mesmo instante”. – Intermitir é “suspender ou interromper de momento a momento. Perece. cansado. 78 ACABADO. também as plantas morrem. e de um modo mui genérico. acurvado. perder a vida. Acaba ou fenece a serra. de atuar. falece. nem se fina. e não morre. – “Acabar – escreve Roq. ter fim. mas morre muitas vezes às mãos de assassinos. tratando-se de movimento ou de função”. 77 ACABAR. que um homem faleceu quando acabou seus dias naturalmente. mas não se dirá que faleceu aquele que morreu na guerra ou às mãos do algoz”. e sugere a ideia do desaparecimento da coisa que se extingue. – significa chegar ao cabo ou fim de uma operação sem indicar a conclusão. O homem não morre só quando o prazo dos seus dias está cheio. nem se fina. Morre tudo quanto é vivente. .

ainda ontem tão altiva. curvada pelo infortúnio”. de trabalhos”. o já não ter o vigor. – Debilitado = “um tanto enfraquecido”. desmanchado indicam todos. transtornado. – Quebrado se diz daquele que está enfraquecido. Aplica-se mais propriamente à situação da vida que à própria vida. com pequenas diferenças de nuanças. como diz Bruns. medo. – Confunde-se com aniquilado: notando-se que este ajunta a quebrantado a ideia de humilhação. – Mortificado = “ferido de angústias. demudado. velho é o que.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 61 transtornado. muito esgotado de forças. – Combalido exprime “abalado. se sente enfraquecido e enfermo. – Envelhecido e avelhentado: o primeiro se aplica à pessoa que parece ter mais idade do que realmente tem. desmanchado. sugerindo ideia de mal passageiro. de desgraça. – Prostrado = “violentamente abatido. atormentado pelo sofrimento. o que se deixa abater e como emurchecer de dor moral”. mudado. muito enfraquecido pelas privações”. doença ou idade”. ou mesmo por algum sofrimento moral”. e sugere alguma coisa de resignação. – Abatido significa “desfigurado e enfraquecido. – Definhado = “consumido. afligido. – Alquebrado se aplica ao velho que a doença. se deles não se distinguisse em sugerir. – Consumido indica melhor o que se sente “ferido profundamente na alma. de remorsos”. que enuncia apenas a ideia de “não nutrido. de doença. “que não é precisamente ao exercício das virtudes que se deve o estar gasto”. que parece tombar”. de todo o conspecto da pessoa abalada de sofrimento. os trabalhos ou as doenças parecem ter feito mais estragos de que se devia esperar. – Curvado (e acurvado) enuncia ideia da postura daquele que a idade ou o sofrimento fez pender. – Enfraquecido = “falto de forças”. “Aquela figura. também devido quase sempre a causas momentâneas. de susto. – Esgotado. . e por isso falto de forças”. a louçania que só a idade não extingue. falto de forças (físicas ou morais). Entre exaurido e exausto pode notar-se esta diferença: exaurido dá melhor a ideia da causa que exauriu. É mais forte que inanido. – Extenuado = muito exausto. – Gasto confundir-se-ia com os precedentes. Diz também “o que a moléstia afligiu. – Cansado e fati- gado exprimem a mesma noção de “quebrado de forças”. – Arruinado = tão alterado na saúde ou nas forças que parece perdido. o estado do semblante. mortificado pelos padecimentos”. esmagado de dores. mais que os anos. devido à idade avançada. Todo velho deve ser idoso. de sofrimentos. mais exausto de forças do que devia estar. está hoje abatida. mofino. – Desfigurado está aquele que mostra na fronte “sinais de depressão física produzida por alguma doença. exaurido e exausto seriam quase sinônimos perfeitos se os dois últimos não sugerissem ideia do esforço que produziu o esgotamento. sem forças e sem ânimo”. por fadiga. – Como desfigurado – descomposto. que parece velho sem o ser. ou o que os trabalhos amofinaram”. abateu e como que curvou. mas há homens idosos que não se pode dizer precisamente velhos. que vai murchando e morrendo de desconsolações”. etc. – Acabado dizemos daquele em cuja fisionomia o tempo. que parece estar morrendo”. – Exinanido = “aniquilado. desfeito. avelhentado é o que tem ares de velho. – Velho e idoso distinguem-se assim: idoso é o que chegou à idade avançada. isto é. – Macerado quer dizer “desfeito. alterado. – Acabrunhado ajunta à noção de abatido moralmente a ideia de profundo desânimo e tristeza. mas o segundo dá ideia mais clara de extenuamento. – Quebrantado convém mais àquele que se deixou abater por motivos que muitas vezes são imaginários. – Amofinado = “ressentido de moléstia. e enuncia de maneira mais completa e mais forte a noção de esgotado. macerado.. Agora está combalido: o tempo não poupa nem a glória. – Ralado = “vexado.

definitivo”. e um esposo é completo. – Amofinar e apoquentar são muito próximos: ambos exprimem a ação de diminuir a coragem com pequenas coisas. – Acabrunhar significa “abater o ânimo pelo castigo ou pelo sofrimento. – Afligir diz propriamente “abalar a alma violentamente. pleno. – Perfeito significa propriamente “feito de modo completo”. muitas qualidades eminentes. não é acabado”. a do aborrecimento. ou pelo menos as qualidades mais excelentes que caracterizam um tipo”. – Completo aplica-se apenas ao homem. é o trabalho. Distingue-se dos demais do grupo em conservar a atividade predicativa do verbo. O mesmo não se poderia dizer de acabado. mortificar. ferir de grande mal. perfeito é mais extenso: aplica-se tanto ao homem como às coisas. a que o autor. de pontualidade. no entanto. da impaciência.me Mazarin era uma das mais8 perfeitas belezas da corte: só lhe faltava espírito para ser completa.. soluções cabais (completas e decisivas). pode não brilhar (ou não ser “beleza”) senão sob um certo ponto de vista. inquietar muito. completo. enquanto que perfeito é mais próprio para designar uma certa qualidade. e dá ideia do desespero em que fica o que se aflige. aborrecer. pois um é encarado sob ponto de vista mais restrito que o outro”. Razões. inquietar. pelo peso de algum desgosto ou de alguma desgraça”. M. e significa “que reúne todas as qualidades. cabal. ou a perfeição sob um ponto de vista particular. sob o da figura: uma beleza completa reúne muitas perfeições. por exemplo. “Um amigo 8 É tal a dificuldade que apresenta a falta de precisão absoluta do valor lógico de certas palavras que em muitos casos é forçoso admitir formas como esta – mais perfeitas – apesar do que. ou o artista (se se trata de uma obra de arte) pode ainda acrescentar alguma coisa. Uma beleza perfeita – diz o citado autor – tem a qualidade “beleza” em alto grau. apoquentar. aquilo. dançarina completa). além de completo. da rudeza com que se molesta e aflige. amofinar. opri- mir. – Oprimir dá ideia “do gravame. incomodar. é antes perfeito. e sugerir. sendo que amofinar sugere a ideia da tristeza em que fica o que se amofina. do mau humor em que se sente o apoquentado. – Magistral é “o que foi feito com mestria ou consumada perícia”. e aplica-se àquilo que foi elevado ao mais alto grau de perfeição. inteiro. “O que pode ser melhor – diz Laf. afligir. amargurar.” É preciso. 80 ACABRUNHAR. às coisas que se lhe referem. magoar. atormentar. – Humi- . vexar. molestar. – Pleno diz propriamente “cheio. aqui. o serviço no qual se reconhecem as perfeições do autor ou do mestre que o executou. – não é perfeito. se diz em referência a uma “coisa que se fez de modo tão perfeito que nada se deixou a desejar”.. como. explicações. diz o próprio Lafaye quando escreve que o que pode ser melhor não é perfeito. desgostar. entristecer. magistral. e exprime virtudes ou méritos em conjunto. a produção. essa ideia de execução. sessão plena. plenas informações. diz também “alguma coisa de terminante. É mais genérico do que perfeito. acrescentar que cabal. um certo mérito. Pleno direito.62 Rocha Pombo 79 ACABADO. e apoquentar. Dizemos: um perfeito médico. de exatidão que não há em completo. e que só se aplica a fatos morais ou a coisas de espírito. importunar. angustiar. uma dançarina perfeita (e não – completo médico. ou com que se faz alguém sofrer”. notando-se apenas que “em cabal há uma ideia de justeza. humilhar. portanto. é sinônimo perfeito de completo. – Cabal. perfeito. – Acabado. completo. Além disso. contristar. sentenças. que satisfaz completamente”. algumas linhas antes. Delaf. consternar. agoniar. no entender de Bruns.

“Ela entristeceu (ficou triste ou mostrou-se triste) diante daquela cena. luto e tristeza que faz supor a alma como prostrada de dor imensa. ferir de grande angústia. mesmo que não sejam todas as que se podem professar. pois este já enuncia que a coisa que nos contrista “produz em nossa alma uma pena mais funda”. ou os mais duros corações”. “tira a calma e serenidade” (diz muito menos que aflige). hoje. – Molestar e aborrecer aproximam-se do precedente. ou numa cidade. e equivale a “oprimir envergonhando”. instituto. aborrecer é “pôr de mau humor. ginásio. – Mortificar é “afligir até deixar exausto de forças ou de ânimo como se estivesse a morrer”. uma falta que se cometeu desapercebidamente. ou mesmo uma só arte ou uma só ciência. – Consternar é “produzir um sentimento tal de pesar. de abusar dos brios do humilhado: enquanto que vexar exprime a ação de expor a afronta. que significa “afligir ligeiramente. podendo ser que o vexado nem por isso se sinta ferido propriamente na sua honra. em aflição horrível”. em ânsias de dor”. liceu. ou um aborrecimento que não é duradoiro”. por universidade designamos o estabelecimento onde se professam muitas faculdades. causar desgosto a alguém”. que determina a classe do mesmo e a denominação que lhe compete.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 63 lhar acrescenta à ação de oprimir a ideia de afrontar. Discordamos de Bruns. que realmente era de contristar os ânimos mais fortes. quando estranha que se não possa dizer “a universidade de medicina de Lisboa. universi- dade. ou uma escola toma a si apenas uma certa ordem de ciências ou artes. – Atormentar é “afligir de tormentos. – Todas estas palavras designam estabelecimentos onde se ensina ou se estuda. a universidade de medicina do Porto. pondo a alma em estado de confrac- ção tal que ela só sente forças para repugnar a vida”. de rebaixar. É menos intenso que contristar. e diferençam-se assim: molestar sugere a ideia do incômodo que se causa à pessoa molestada. um mal-estar. isto é. fazer perder a paciência”. no entanto. porém. os de predicação menos forte: uma suspeita. a escândalo. e de assombro. – Inquietar e incomodar são. – Angustiar é “pôr em grande aperto de alma. de todo o grupo. escola. mas não nos humilha. causar displicência”. – Entristecer é propriamente “encher de tristeza”. – Amargurar é “causar dor acerba e profunda. de diminuir os créditos. Não é propriamente a independência de que aí se fala. – Desgostar é “contrariar o gosto de alguém. à vista de alguma fatalidade. 81 ACADEMIA. Uma autoridade injusta ou estúpida pode afligir-nos. colégio. – Agoniar é “impor ou fazer sofrer suplício ou aflição como de agonia”. uma ligeira dor incômoda. oprimir-nos. ou ainda num vasto instituto de educação. Temos academia ou escola de . – Também é convizinho destes importunar. enfastiar. uma inadvertência. ou alguma grande desgraça. deixando o atormentado como em conturbação. Um garoto decerto que nos vexa (ou nos molesta) em público se nos expõe a algum ridículo. Uma academia. – Universidade devia ser o conjunto de todos os cursos que se podem fazer num país. equiparados até certo ponto”. – Magoar enuncia a ação de “produzir ligeira dor. É nisto antes de tudo que consiste a diferença entre universidade e os demais termos do grupo. Distingue-se de vexar por isso mesmo: porque sugere o intento. nem a categoria do ensino que se dá no estabelecimento. ou um pressentimento inquieta. vexar-nos mesmo: nem por isso nos humilhará. por parte de quem humilha. que se lamenta como castigo do céu. um aperto em que nos põem. já que estes estabelecimentos em nada dependem da universidade de Coimbra. sendo-lhe.

escola de cirurgia. ou onde se ministre ensino superior. em vez de uma.. de engenharia. e dizer. Não se sabe como usar de nenhum desses dois vocábulos sem um restritivo que lhes designe a especialidade de conhecimentos que ministram. etc. ou mesmo academia ou escola de música. Ginásio designa estabelecimento (internato ou externato) onde se faz educação tanto moral como física de meninos ou moços. Escola é mais prática e mais popular. de direito. porém. de direito. Mas o que certamente se não nos permitiria é que tentássemos dizer sem dislate clamante. – ou só – academia – há de subentender-se que se sabe já de que academia ou escola se está tratando: ou então. ou “academia de agricultura”. Colégio é estabelecimento onde se reúnem pessoas (meninos ou adultos) para estudar. e só se aplica a estabelecimento onde se façam altos estudos. quer tratando-se de ciências.. ou “de aprendizes marinheiros”. não pecamos mais contra a precisão lógica do vocábulo do que. e isto porque a palavra “universo” abrange todos sistemas de mundos. academia de pintura. ou onde se dá um cuidado mais especial aos exercícios físicos. que academia é mais nobre. – Ginásio e liceu são os menos latos do grupo. e se quiséssemos dar-lhe os mesmos restritivos que são indispensáveis tratando-se de escola ou de academia. ou – “universo solar”. pela simples razão de que esta ordem de institutos. e só por figura é que podemos aplicá-la para exprimir a totalidade das nações do nosso mundo. ou “de altas ciências”. direito. quer tratando-se artes liberais. teríamos de juntar-lhe todos os que fossem necessários para designar as diversas ciências professadas. ensina diversas especialidades ou classes de ciências. Dá-se hoje. por exemplo. Instituto é ainda mais genérico e extensivo do que colégio: pode aplicar-se a toda categoria de estabelecimentos onde se estude ou onde se ensine. Liceu está no mesmo caso. escola ou academia de belas-artes. Se se disser só – escola. – Colégio e instituto são os mais genéricos do grupo. O mesmo não se dá em relação à universidade. mais particularmente aplica-se a internato. . desde – “intituto primário” – até – “instituto de altos estudos”.. mas este se aplica tanto a escola de instrução secundária. de letras. Dizemos “academia ou escola de belas-artes. Mas esta forma não faria mais do que pôr em destaque e tornar flagrante um absurdo que passa disfarçado e que é tolerável enquanto não se tenta restringir expressamente o termo universidade. por ex. compreende todas as academias de artes e ciências de Paris. ou – “universo da estrela d’alva”. no entanto. – Academia e escola são usados. por exemplo – universidade de medicina. etc. precisa do estabelecimento a que nos referimos. O Instituto de França. ou “academia de instrução primária”. em grande número de casos. o nosso interlocutor não terá noção exata. ou melhor as artes ou ciências de toda uma categoria. pois a ideia dominante que o termo sugere é a da “reunião das pessoas que foram escolhidas e que ficam no estabelecimento em perfeita igualdade de condições”. Deve notar-se. de medicina.. o nome de ginásios a colégios onde se ensinam matérias do curso preparatório.64 Rocha Pombo medicina. e pode abranger todo gênero de estudos. por exemplo – “universo mundial”. Quando empregamos esta palavra para designar um instituto onde se professam apenas algumas faculdades. indistintamente. como a cursos práticos de artes e ofícios. mas não diremos “academia de artes e ofícios”. quando reduzimos o universo ao nosso mundo. É preciso notar ainda que tanto academia como escola podem designar estabelecimento onde se ensinem diversas ciências ou artes. matemática e teologia.

É natural também que a pessoa . apoucado. 83 ACAMPAMENTO. esperanças. Daí o fato de ser acarinhar menos expressivo de ternura do que acariciar. Acarinha-se a um amigo. acarinhar. – Bivaque (do frandês bivac) é o estado de um exército acampado ao ar livre. no entanto. Acarinham-se a todos os meninos. minorar o sofrimento. também por atos e palavras. como. a sua ternura divina”. doce. dispor bem. com “manifestações delicadas de afeto e desvelo. – Arraial. é mais expressivo e intenso. pudibundo. isto é. vergonha. consolar. 84 ACANHADO.. por extensão. e por extensão e figuradamente pode aplicar-se nos casos em que se trata de coisas morais ou abstratas. só se acariciam aquelas criaturas que merecem os nossos afagos e blandícias. aqui. mas as crianças ele acariciou sempre com um estremecimento que dizia bem até onde era capaz de ir.. – Ameigar diz propriamente “tratar com meiguices. bem impressionado. acanhamento. mesmo do que carinho.. no enlevo de amar. demonstrações de muita benevolência e afeto. a uma pessoa que se estima. “Jesus acarinhava a todo o mundo. àqueles que são menos felizes do que nós. timidez. sem tendas nem comodidades. meigo o que é tratado”. pundonoroso. amimar. se fosse criança a pessoa que se amima”. portanto. – Se- gundo Bruns. reales. diz-se do terreno onde esse exército passa a noite ao sereno”. por ex. pudicícia. num salão sumptuoso. procurar diminuir a pena.. mimosas e têm o nosso amor comovido. beijando-as. pudor. de palavras de conforto. deixar satisfeito. apoucamento. acaridar. ou tornar esquecido ou menos intenso o pesar que aflige alguém”. agradar é apenas. designava o acampamento em cujo centro se elevava a tenda do rei. acariciar. – Amimar é tratar com mimos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 82 ACALENTAR. entrando. arraial. por palavras. Este último verbo. hoje é termo poético. gestos e atos. bivaque. antes de tudo porque são tenras. e até vícios”. mo- desto. – Consolar é. A pessoa tímida é natural que se mostre acanhada. de atos de amizade. palavra tomada ao espanhol. mas particularmente designa o recinto ou área onde um exército em campanha ergue as suas tendas e se instala com certa comodidade e segurança. – Acalentar designa particularmente a “ação de aquecer a criança nos braços para que sossegue e adormeça”. com muita brandura. como: “acalentar sonhos. Só se acaridam. tratando-as com afeto paternal. sendo carícia sinal mais delicado ainda de amor do que meiguice. isto é. “acampamento é termo genérico. vergonhoso. – Acanhado se diz do que tem “tão pouco desembaraço e vivacidade e que se mostra tão tolhido que parece diminuir-se aos nossos olhos”. e tanto quanto afago o é em relação a agrado. acariciam-se as crianças. 65 afagar. pudico. de modo a fazer suave. mostrando o amor que as almas bem formadas têm pelos que sofrem. – Acaridar diz propriamente “tratar com caridade”. agradar. modéstia. – Agradar. é quase afagar. grata conosco a pessoa a quem se agrada ou se afaga. Entre acanhado e tímido é preciso notar diferenças que à primeira vista se não percebem distintamente. desejos. ou a todas as criaturas desvalidas. “por meio de carinhos. ou que se acham em situação em que tenham o direito de contar com a nossa bondade de coração. enchendo-as de afagos e mimos. ou dirigindo-se a personagem ilustre. ameigar. e por todos que precisam da nossa assistência e socorro. pudor e pundonor. Afagar é fazer. tímido. pois ambos indicam que se deseja fazer contente. – Acariciar é “tratar com carícia”.

66 Rocha Pombo acanhada pareça tímida. de um modo incorreto. aos olhos de outrem. no trato com toda classe de homens. comedido. A ação é o exercício de uma potência. por uma delicadeza da consciência moral. ato é o resultado da ação dessa mesma potência. uma condição de índole. o recato. Pundoroso é. tacanho. imprestável. pelos modos como se apresenta. consumado e reconhecido”. moderado. “o que tem pundonor”. que expressa a modéstia. acanhamento diz o gesto tacanho. portanto. sem o modo de ser normal. o pejo que. – Pundonor parece termo que os espanhóis adaptaram da dicção francesa point d’honneur. de parecer. mas pudor é o próprio sentimento que induz a escrúpulos delicados contra tudo que se oponha à honestidade e à decência. é a virtude de ter pudor”. portanto. não sendo a inversa perfeitamente verdadeira. – Fato designa “ato de certa importância. na acepção moral desta palavra. Apoucado. mesquinho. – Segundo Lac. cuidado. discreto. à vista do que. o modo que revela pudor. pois a vergonha. uma qualidade subjetiva. ato. o escrúpulo. Ambos sugerem ideia de fina sensibilidade em questões de moral. assim. e consiste num sentimento natural de justa medida em tudo – no agir. fato. ato é um vocábulo concreto. esmero com que se defende a honra”. mesmo porque é de supor que uma criança é inconsciente em questões de bons costumes. benigno e afável. . pudicícia é a “qualidade de ser pudico. diz mais do que tímido. A potência. portanto. já não dá só ideia de simples tolhimento de alma: significa a vacilação. mas o acanhado revela quase sempre timidez. sem ambições exageradas. nos impede de comprometer o nosso decoro. timidez diz algo de tibieza de ânimo. sem exal- tamentos. está em ação e produz o ato”. diz “escasso. nem por isso há de ser vergonhosa. sem o valor que se devia esperar”. os modos e ares indecisos que revelam a timidez. De sorte que se pode entender acanhamento como sinal de timidez. 85 AÇÃO. mas devem distinguir-se assim: pudico diz o “que tem pudor”. e que se manifesta ou pela desconfiança que alguém nos inspira. não seria própria esta forma: acanhado e tímido. razoável. indulgente. Uma criança tímida. quando emprega a sua energia. trôpego. neste grupo. no modo como se comporta. a pequenez de alma e de espírito que diminuem um indivíduo e o tornam inútil.. – Modéstia não parece que seja bem como definem os lexicógrafos – uma completa ausência de vaidade: é antes uma virtude dos sábios. nem mesmo se deve admitir apoucamento como degeneração ou vício da modéstia: segundo a própria formação. e significa “nímia susceptibilidade em questões de brio e amor-próprio. o enleio da pessoa pudica”. Uma criança é natural que seja tímida. ação é “um vocábulo abstrato. apoucamento exprime a falta de ânimo. de irresolução e perplexidade. – Apoucado e apoucamento não se podem confundir com os dois precedentes. no falar. Timidez é. mofino. no sentido que tem aqui. O tímido pode não ser acanhado. ou ainda pela dúvida em que nos sentimos a nosso próprio respeito. a postura contrafeita. – Pudor e pudicícia usam-se frequentemente um pelo outro. Acanhamento sugere alguma coisa de rude. pudibundo se emprega para designar “o gesto. o enleio no movimento e na expressão. de retraimento. – Vergonhoso. – Pudico e pudibundo também se confundem. de boa fama. de pudor. trôpego. nem ímpetos – em suma sábio. – Pudor e pundonor são palavras de significação muito distinta e que só por erro ou inadvertência são confundidas às vezes. ou pelo receio de que sejamos malsucedidos. Modesto diz. e pode ser tímida sem ser propriamente acanhada.

peleja. batalha. significar também questão judicial propriamente. campanha. – Pleito é quase o mesmo que litígio: pode. mas não pelejam. aplica-se o termo combate para designar qualquer luta em que a vida está exposta: o combate dos Horácios e Coriáceos terminou em combate entre dois homens”. convém. – No latim prœlium figura como radical o verbo eo. Ação aqui é “o exercício da atividade hostil entre duas ou mais forças em conflito”. – Batalha é combate de vastas proporções. “As lides do jornalismo” – diz uma coisa. – Peleja designa a luta encarniçada e corpo a corpo. “marchar contra. não esquecer que lide (ou lida) vem de lis. diferençando-se em que a rixa pode ficar só na disputa de palavras ou degenerar em briga. – Pugna significa propriamente “luta a punho. pleito. ou mesmo duas ou mais nações que não puderam chegar a acordo em relação a algum reclamo ou intento”. mas é muito mais próprio dizer – “as lides acadêmicas”. Dizemos – “as lutas políticas” –.. – Conflito é “o encontro hostil. por motivos fúteis. desafio. Esta é o “litígio ou a questão em que se empenham duas ou mais partes trocando razões e argumentos. – “é o encontro de ordinário imprevisto. no entanto. exprime “nobre questão em que alguém se empenha confiante na justiça”. – Briga e rixa são termos vulgares que significam “disputa escandalosa. Dois inimigos separados por um rio ou por outro qualquer acidente. processo. contenda é “a fase a que pode chegar a pendência tornando-se mais viva. pendência. contenda. Mas a contenda parece uma gradação da pendência. e só por extensão se aplica no sentido de luta. refrega. se apressam a investir um contra o outro”. Em – “lutas da imprensa” há a sugestão de que os trabalhos do jornalista amargaram no embate das intrigas e das perfídias. a oposição ativa em que se põem duas ou mais pessoas ou coisas”. – Contenda e pendência aproximam-se bastante: ambos sugerem mais ideia de controvérsia e discussão que de luta material: se bem que se não lhes recuse esta última acepção. Pode dar-se entre . violenta”. luta convencionada. e pode assim apanhar-se no português prélio a significação de “luta em que os lutadores se adiantem. Lide será. Pleito. intensa. que significa. – Desafio é “o ato de provocar outra pessoa para duelo”. combate.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 86 AÇÃO. e sem graves consequências”. o choque. é peleja formal e de resultados decisivos quase sempre. entre outras coisas. e esperando pela sentença (placitum) ou pelo desenlace favorável. pequenina. regulada e solene. só defendendo a sua causa. briga. combatem-se. – Combate – diz Bruns. portanto. ou medindo forças e destrezas com capricho. litígio. com que se empenham devotamentos pelas grandes ideias de que se presume que trata sempre um jornalista cônscio da sua missão. – Lide e luta tomamse ordinariamente quase como sinônimos perfeitos. uma luta caracterizada pela elevação dos motivos. conflito. – Litígio. duelo. litis “pleito.. atacar”. como este.. recontro. guerra. é a fase. mais apaixonada. em – “lides da impren- sa” sugere-se o afã nobilíssimo com que se trata das altas questões.. “as lutas da imprensa ou do jornalismo” – diz outra. discutindo sem má-fé. mas sem leviandades”. questão judiciária”. aliás. Além dessa acepção. ou pelo menos de grande importância. sem armas”. por questões de pundonor”. de troços de exércitos inimigos que travam luta entre si. lutam. ire. aqui. pugna. prélio. 67 lide. ou “o estado de conflito em que se põem duas ou mais pessoas. rixa. – Duelo é “a luta entre duas (ou mesmo mais) pessoas. mas sugere melhor a ideia da correção dos que pleiteiam. – Ação é o mais genérico do grupo: seriam raríssimos os casos em que não pudesse substituir a qualquer dos outros. luta.

litígio. É forma geral e extensa que pode abranger quase todos os casos em que figurem as outras do grupo. os autos judiciais e termos que se fazem por escrito em qualquer litígio se chamam processo. entre poderes públicos. obra arbitrariamente. mas ainda a ação proposta e disputada contenciosamente em juízo – o que vale o mesmo que litígio judicial ou pleito. que no uso ordinário a palavra demanda não significa só o ato de intentar o litígio. e delas provêm fatos. querela. “O acaso – diz ele – o mais fantástico de todos os seres desta série. Ao ato de pedir ou requerer em direito se chama demandar. ou perante uma autoridade superior”. tendo por isso muita analogia com a fatalidade. porém.. por isso. isto é. fadário. pretensões. e distribui os bens ou os males segundo o seu desígnio. furioso como tormenta. de que os antigos fizeram uma divindade cega. Luiz. e deixando também indecisa a luta”. fatalidade. É o acaso que nos leva ao lugar onde encontramos a felicidade ou a desventura. segundo nos é ela favorável ou contrária.” Temos. – Ação é termo genérico ainda neste sentido: é o “próprio ato de requerer ou demandar em juízo. consubstancia Bruns. felizes ou desgraçados. e ao acaso só se imputam fatos isolados. combates. entre indivíduos. – Acerca de muitos destes vocábulos. dita. Fora da acepção jurídica. S. – Escreve Roq. ventura. entre interesses. pois esta parece obrar de um modo constante. que nos deixam estupefatos de prazer ou de dor. preside a todos os atos da vida. devendo notar-se que o primeiro termo só se aplica para designar a guerra terrestre. produzindo debandada. indeciso entre inimigos”. ou de certa fase de uma guerra”. caprichosa. – Campanha exprime “todas as batalhas. Quantas descobertas são filhas do acaso? – A fortuna. – Refrega é “recontro violento. favorece-nos ou esmaga-nos. fortuna. e que este se trata e se desenvolve no processo.68 Rocha Pombo nações. porque o que nós chamamos processo é em francês procédure. boa fortuna ou má fortuna. demanda. prepara combinações de circunstâncias tão impossíveis de prever como de impedir. pleito. efeito quando designa o estado. o que se pode colher de Roq.. Note-se. desejos. Pleito é palavra castelhana.: “Com muita razão diz um autor que a demanda dá origem e princípio ao litígio. e avoir un procès quer dizer em português – ter uma demanda. – Questão designa “toda espécie de dúvida em que ficam duas ou mais pessoas e que deve ser dirimida em juízo. e todas as vicissitudes de uma guerra. casual. e de outros. volúvel. persegue-nos ou abandona-nos. oculta-se. bunal”. À controvérsia judicial que se suscita quando o demandado não consente no que o demandante requer se chama com razão litígio. não se lhe referem fatos sucessivos: revela-se de quando em quando. ou a condição a que a fortuna ou o acaso trouxeram uma pessoa. 87 AÇÃO. 88 ACASO. sina. – Recontro é “combate ligeiro. entre seres inanimados. fado. querela se emprega para designar questões e dissídios de pequena monta. – “A sorte é ao mesmo tempo efeito e causa. Os que neste caso usam a palavra processo cometem um galicismo. – Querela é equivalente quase a ação. sendo este apenas mais lato: é “a denúncia ou queixa que se dá contra alguém para reparação de agravo ou ofensa”. estrela. entre animais. sorte. destino.. É nisto que não se assemelha à fortuna. de fr. processo. reaparece. Os feitos que correm em juízo. As suas manifestações não são constantes. o uso do direito de pleitear perante um tri- . e neste caso diz o mesmo que litígio judicial”. questão.

– Sina marca melhor do que quase todos os do grupo o caráter de fatalidade das coisas que têm de suceder na vida de cada um. da fortuna e da sorte. José de Lacerda. – O fado é o estado que resulta das imposições do destino. porventura. O estava escrito dos maometanos é a fatalidade. mas quando fazemos alusão às amarguras que quase todos tiveram de sofrer. entre os antigos. sempre tomam-se a boa parte. Sina e destino seriam sinônimos perfeitos se o primeiro não se limitasse de ordinário às coisas funestas da vida. no entanto. apesar de terem passado as quimeras da astrologia. em vez de acaso. e no entanto. por acaso. ou sem preferências. Paulo. ou uma série de fatos favoráveis ou desfavoráveis. como diz D. é claro. a predestinação de S. como bem o prova a acepção que esta palavra tem nos contos de encantamentos em que se vêm príncipes. transformados em rãs ou outras alimárias. quando fazemos referência às ações ou obras que lhes deram lustre. dizer – “a sina dos grandes homens”. que se conservou na língua (com a significação que tem aqui). Dizemos. e decerto que neste caso não empregaríamos sina. puséssemos por acaso. no cristianismo. uma divindade cega a quem os deuses e os homens estavam submetidos: tinha nas mãos a sorte dos mortais. atribuindo-os ao seu fadário. oh rapaz. mas sem coragem para corrigir-se. acompanha-nos. não nos deixa. e ainda hoje se diz que “tal indivíduo nasceu em boa ou má estrela”. não. e por mais que façamos. qualquer das três formas. e dita. e procurando por isso consolar-se dos erros ou deslizes.. como é fatalidade. – O destino era. ou que tem boa ou má estrela. e que nos trazem fatal e inelutavelmente ao ponto em que só nos resta obedecer: ante o destino desaparece a nossa força. é outra palavra do mesmo gênero. – “o alto destino de Napoleão”. se poderiam ser trocadas. porém. que lhe deram origem. considerando-a um misto de acaso ou de fortuna. por ex. Por outro lado. se na primeira frase. lhe atribuímos um fato isolado. – São re- almente muito fáceis de confundir-se. não exprimiría- . a uma disposição superior e impenetrável. Eis por que denominamos destino à combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que se efetuam em virtude de leis inflexíveis. fortuna às elevadas (ou de mais vulto): a sorte de Creso ao lado de Ciro era mais invejável que a sua fortuna. não haveria talvez muita gente. geralmente. 89 ACASO. – Ventura e dita são também seres fantásticos sem vontade certa nem determinada. aniquila-se a nossa vontade: somos obrigados a obedecer ao destino. – “destino extraordinário e irresistível que se atribui a um poder sobrenatural”. às extravagâncias de que alguém se lamenta. – Estrela. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” Em qualquer desses casos. Os seus decretos eram irrevogáveis e tinham o caráter da fatalidade. mesmo de boas letras. Refere-se à suposta influência dos astros no destino dos homens. quando. – A fatalidade (do latim fatum “o que está dito ou decretado”) distingue-se do acaso. Podemos. em ser agente e não sujeito. Refere-se mais particularmente a certas vicissitudes da vida mundana. ninguém pode resistir às leis do destino. persegue-nos. – Fadário é – diz Aul. Nas três frases seguintes vejamos. ventura.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 69 causa.. O nosso fado é intangível. que hesitasse em empregar indistintamente. até que um certo acontecimento os venha libertar. a palavra sorte aplica-se melhor às condições modestas. A fatalidade não obra arbitrária e caprichosamente: obedece como a um impulso omnipotente. sujeitos ao seu fado. conservando-se-lhes uma perfeita propriedade: “Teria o nosso amigo visto acaso alguma coisa estranha lá no parque?” “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” “Terias.

e quase nego. etc. rebate. há de ser a mesma que se acaba de assinalar. 90 ACATAR. ao mérito. respeitamo-nos a nós mesmos. feri o dedo por acaso. “Passaste acaso?” – equivaleria a – “Dar-se-á que tenhas passado?” ou – “Será possível que tenha passado?” E – “Passaste por acaso?” – diria: – “Por uma casualidade (isto é. veneração. – Segundo fr. preferindo-os aos nossos próprios. então. só muito raramente poderá a locução por acaso ser substituída por qualquer dos dois outros advérbios. ponho em dúvida. que se dá às coisas santas. em nenhuma dessas frases. portanto: – que acaso sugere contrariedade intencional e dá à pergunta a função de negar: – que por acaso é mais convizinho de porventura. dizendo: “Terias visto ou encontrado acaso alguém à minha espera?” – é como se fizesse a pergunta insinuando a negativa. acatamento. devendo notar-se que. respeitar. as coisas religiosas e sagradas. desejos e gostos de qualquer pessoa. distinguindose esta forma daquela em sugerir. a mesma ideia de estranheza e negação. mais ou menos. “És tu acaso meu filho?” “Veio ele acaso ter conosco?” “Tinha eu acaso notícia da tua chegada?” Em nenhum destes exemplos. não mostraria o mesmo interesse. com respeitoso temor. em cuja presença estamos como o filho costuma estar diante de seu pai. isto é.. repulsa. Se eu empregasse a locução por acaso. fomos dar conosco por acaso junto ao morro. reverência. à virtude. os magistrados. ou consideração. que ele tenha visto. oh rapaz. pelo menos. reverenciar. em vez de indiferença. reverência ou veneração. “acatamento é todo ato externo com que mostramos o nosso respeito. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” – enuncia o meu intento de saber uma coisa que desejo e pela qual estou ansioso. os nossos deveres. ou às que reputamos como tais. se há necessidade de distinção. como no exemplo acima. as suas infelicidades. reverenciamos tudo aquilo. os nossos justos interesses. a tudo aquilo a que . “sem que te apercebesses”. mas aqui a minha dúvida é mais condescendente. e se eu empregasse o advérbio acaso. deferir. por alguma superioridade que julgamos haver nessa pessoa. limpando a pena”: aí não caberia. – Segue-se.. os pais. – Fora dos casos interrogativos. S. a ideia do interesse com que se espera por uma resposta satisfatória quando se faz a pergunta. Veneramos a Deus. espécie de culto. respeito. nega intencionalmente o que se pergunta. Reverenciamos os mestres. que se tem ou se dá a alguém ou a alguma coisa. os pastores. Caim retrucou ao anjo que lhe perguntava por Abel: “Sou eu acaso o guarda de meu irmão?” Este acaso. acaso nem porventura. ao saber. respeito religioso. como acaso. – Reverência é respeito com temor filial. os seus direitos. Luiz. seria indiferente usar acaso e por acaso. Deferimos (rendemos deferência) à idade. decerto que exprimo dúvida também. ou aos objetos que julgamos mais dignos de respeito e honra. Respeitamos os outros homens. e não sugere. venerar. – Na segunda frase que formulamos acima: “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” – também não poderíamos substituir a locução por acaso por simplesmente acaso. Acatamos. todas as pessoas a quem devemos esses sentimentos. Quando pergunto se o nosso amigo “viu acaso”. ou estranho que isso se tenha dado. – Deferência é o respeito que se tem aos sentimentos. Quando pergunto se ele “viu por acaso”. “Chegamos por acaso à livraria. o soberano. – Respeito é a atenção.70 Rocha Pombo mos com a mesma precisão o pensamento de quem perguntava. para dizer o que desejamos. os santos. – Veneração é respeito profundo e submisso. ou “sem que tivesses tensão”) passaste?” – A terceira frase: “Terias. deferência.

pôr a bom recato.. Basta sentir a diferença que há entre estas formas: “Ela sempre se livrará cautamente (com a cautela. e quem se acautela cuida de resguardar-se contra coisas certas de que está prevenido. e acautelar-me é dispor os meios de evitar alguma coisa que receio. como já ficou exposto. resguardos contra o mal que teme. ficou acauteladamente em casa”. que lhe é própria) daqueles abismos”. pois. de meticulosa cautela”. admissível a forma: “está cauto”. ire significa “vir”. Entre cauto e acautelado fica sem dúvida cauteloso. cauteloso. prudente. Mas entre acautelar e precaver há a diferença que provém de que aquele que trata de precaver-se toma cuidado. Quem acautela os negócios de outrem cerca-os de garantias. mas julga apenas que isso é possível. A prevenção. é o estado ou a atitude de suspeita em que se fica em relação ao que se deve temer”.. passar adiante. previdente. é “uma medida de prudência posta em prática antecipadamente. “vir antes”. “adiantarse” à coisa contra a qual se previne. precaução. precaver se aproxima ainda mais de acautelar que de prevenir. previdência. pois. aviso. sobreaviso. guarda-se. consequentemente. e entre os respetivos conexos. prevenir.. acautelam-se os cautos contra males iminentes. “guardar-se”: à vista do que. cautela.. sendo este “a disposição de ânimo em que fica quem se previne”. Não diremos que o homem que segura a sua casa se acautele contra sinistros. mas é necessário não perder de vista o radical de cada um desses verbos: – venio. prevenir com cautela. Acautelam-se os interesses. nem se apercebe de que esteja para sobrevir sinistro. os homens de virtudes.. como os pais. ere “tomar cuidado”. defende-se por assim dizer de eventualidades. quem previne males previstos faz o que supõe que os evita antes que eles ocorram: daí a diferença entre acautelar e prevenir. portanto. e acautelo-me deste ou contra este agasalhando-me. “defender. defender-me antecipadamente do mal possível. – Cauto sugere ideia da firmeza e segurança do que sabe guardar-se contra os perigos. a pátria. – Precatar é “estar atento. apercebido contra alguma coisa . pre- venido. pois ele não cogita de um determinado mal. ou está prevenido quem se põe ou se acha nesse estado. “o apercebimento. mas sou prevenido e acautelado. avisar. cauto. e precaução é o ato de precaver-me. guardar-me.. Quem se previne põe-se de ânimo desconfiado contra alguém ou alguma coisa. Não será por isso que eu seja precavido. etc. acautelar. ficar ou pôr de sobreaviso a respeito de alguma coisa que se receia”. ou segurança. Designa qualidade própria: não seria. Entrou. prudência. a atenção. Acautelado é o que toma cautela no momento. precavido. precatar. e contra essa possibilidade é que se apercebe precavendo-se. ou em certas circunstâncias: e então “está acautelado”. em boa guarda”. chegar”: prevenir diz. disposições. – Acautelar diz. portanto. – caveo. Precaver-me é. avisado. precaver. tomar a dianteira”) enuncia a ação de “adiantar-se a tomar expediente acerca do que pode acontecer. prever. a vigilância do espírito contra o que pode sobrevir”. o modo de ser precavido. e seguiu logo cautelosamente pelo jardim”. que significa “prevenido de muito cuidado. portanto. os bens. prevenir-me é pôr-me de sobreaviso. ire “chegar antes. prevenção. e é prevenido. a fortuna. “F. – Não há dificuldade em distinguir prevenção de sobreaviso.” 91 ACAUTELADO. – Cautela é. – Precaver em certos casos poderia confundir-se facilmente com prevenir. a honra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 71 tributamos algum gênero de culto. precatado. Decerto que eu não me posso precaver contra a noite. mas previno-me contra o frio. quem se acautela toma providências. – Prevenir (do latim prœvenio.

uma notícia. dar consentimento. e sendo avisar a ação de despertar ou ter desperto o ânimo ou produzir esse estado. e também aprovar. – Significação é “o valor semântico da palavra. “Tomar alguém uma certa coisa – diz ele – é havê-la para si. 92 ACEPÇÃO. aquiescer. uma ferida na guerra. a ideia que exprime”. e que se cooperará para o intuito geral. tomamos amor. regulado pela disposição das palavras”. deixa. – Aceder. de vistas. nem supõe ação estranha. assentir.”. Aquiescer é consentir voluntariamente e sem esforço”. e prevenir-se contra surpresas. as armas para brigar. a pena para escrever. 94 ACEITAR. ensejo. sentido. ou dê. de modo de ver. ódio. – Concordar é “chegar a acordo depois de dissensão. pois. que se está de acordo e se consente”. uma visita.72 Rocha Pombo certa que é para temer”. segundo Bruns. o dinheiro que se nos deve. – Sentido é “o valor da palavra conforme a aplicação que tem na frase. ou pôr-se em perfeita identidade de sentimentos. refletido e seguro no agir. qual- samente estabelece S. que nos mande. – Assentir é “mostrar que se é da mesma opinião. “é declarar que se aceita o que outros decidiram. sob uma outra ordem. tomamos o livro para ler. o que ela diz por si mesma. conformar-se. do mesmo voto. 93 ACEDER. a obrigação que se nos impõe. recebemos um hóspede. . – Receber é tomar o que se nos dá. e prudente será aquele que possua essa virtude. ou se nos oferece. apreendê-la com a mão (ou pô-la sob seu domínio). concordar. Aceitamos um obséquio. entrever que se tinham outras tenções. de ideias. – Muito judicio- ção dizemos dos “vários sentidos em que uma palavra pode ser empregada”. nem ideia de movimento que no-la traga. sendo o aviso esse estado de atividade consciencial em que se acha o avisado. – Previdência é. – Conformar-se é “estar. que se sente do mesmo modo”. – Anuir é propriamente “fazer sinal. aceitamos as condições de um contrato. que faz o ânimo calmo. de não discordar. receber. uma certa gradação entre estes verbos. ou se nos manda. etc. um favor. do conselho mais sábio para o caso. autorizar o que se nos oferece ou propõe. a proposta que se nos faz. etc. – Previdente é o que sabe prever. uma oferta. asco. aderir. consentir. ou exprimir de qualquer modo. – Consentir sugere ideia de “permitir. significação. porém.. chamá-la a si. recebemos o foro que se nos paga. con- descender. uma graça. e prever diz “ver antecipadamente o que se pode dar em relação a alguma coisa que se deve evitar”. uma injúria. tomamos ocasião. e sem o qual não seria possível sair-se bem. – Avisado é aquele que está fortalecido do aviso que convém. o chapéu. ou o valor da frase ou do discurso. ou admitir por mero desejo de ser agradável ou de não contrariar”. – Prudência é mais que aviso: designa a virtude de uma sábia ponderação. a espada.”. ou ofereça essa coisa. anuir. – Acep- quer que seja o motivo do consentimento”. tempo. e assim. precatado designa aquele que se não deixará pilhar desprevenido em caso em que da atenção dependa o sucesso. é o ato de prever tanto quanto é possível. – Condescender é “consentir por tolerância”. Tomamos o vestido. etc. tomar. – Aderir é “dar aprovação afinal àquilo que se tinha recusado ou combatido”. Não envolve. ou o que vem a nós. Recebemos um presente. a qualidade de quem sabe prever. assentir. – Aceitar é receber com agrado e boa sombra. L.

desejo ardente de alcançar o termo. – “denota impaciência (sofreguidão). – Azedo (de acidulus. que caminhe.” 96 ACENTO. apressurar. e o acento dos minhotos. e poderia. o tom que serve de norma. – Aligeirar é propriamente “fazer que se mova. movimento apressado para chegar ao fim. tom é a “maior ou menor intensidade de força com que se exprime”. ácido. partícula que marca ideia de “alguma coisa de agudo. – Acelerar – diz Bruns. de acre” (Chass. – Apressurar é dar-se pressa desordenadamente. ativar. como ao ouvido. Aligeira-se o passo. tanto se diz acerbo o som como a ironia. – Sobre estas duas palavras escreve Bruns. portan- . 39). amargoso. a espécie de sonoridade de um instrumento ou de uma voz”. Aligeiram-se os soldados pelo exercício. senão no natural. estas duas palavras confundem-se geralmente”.. agro são proliferações de ak. mais ligeiro”. etc. como o olhar ou como a censura. – Acento é o “modo como se exprime uma emoção”. e só é sinônimo de amargo pela acerbidade.) tomá-las pelo som e não pela significação. diapasão. mas “a qualidade do som.. áspero. Dizem muitos: – “palavras ácidas. azedo. é interpretá-las à letra sem atender ao espírito delas”. como o sabor lancinante do limão. amargo. como está dizendo o próprio radical. um tanto ácido”. conquanto menos pungente ao paladar. e acento a uma particularidade da voz de quem as diz. pois a coisa amarga. – Diapasão é o som próprio de um instrumento. ou pela mesma toada é discutir ou falar segundo os modos ou pela mesma forma por que outrem fizera. “apressar com precipitação”. como a flecha. é dar mais rapidez ao movimento ou ao ato.) – para significar quanto essas decepções e esses dias nos deixaram na alma uma impressão comparável à que na boca produz o gosto do fel.: “Dizemos a pronúncia do Minho. agro. som. uma solução esperada etc. é “fazer mais ativo”. um negócio. pronúncia. e falar. azedo. ali97 73 geirar. discutir na mesma. acre. picantes como a coisa ácida: notando-se que não é usada pela maioria dos autores. – Precipitar quer dizer aqui “apressar. antecipando. do grego. o diapasão de uma cantiga. do (soído). sugerindo a ideia de remoques ou palavras mordazes. ou afastar-nos do princípio: é inerente a este verbo a ideia do pouco cuidado que resulta da própria pressa. – Ácido é tudo que impressiona desagradavelmente. – Sonido (e soído) significa um “som particular. 98 ACERBO. neste sentido. etc. – Ativar. – A maior parte destes adjetivos têm a mesma raiz: acerbo. travoso. tom. “Tomar as palavras pela toada é (diz Aul. – Acerbo é “tudo que punge algum dos nossos sentidos”. – Toada é o tom de uma voz... soni- ACENTO. amargas decepções (como dizemos – “momento amargoso” etc. acrimonioso. referindo-se pronúncia ao modo de serem ditas as palavras. suprir a qualquer dos outros que nele figuram. ácido. Dizemos – dias amargos. é todavia mais ingrata. – Apressar denota ação viva. acre. É o mais genérico do grupo. o voo. toada. acérrimo. o espinho. no maior número dos casos. Uma coisa pode ser acerba tanto ao gosto como ao olfato. Não obstante. ácidos remoques. etc. – Timbre não é propriamente o tom. pelo qual se afinam outros. travento. diminutivo de acidus) diz propriamente “meio ácido. apressar. precipitar. (Amargoso significa “um tanto amargo”). timbre. estranho”. acrimonioso. Matéria azeda é a que se alterou do normal pela fermentação: figuradamente azedo significa. – Som é “todo ruído que os corpos produzem quando em movimento ou em vibração”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 ACELERAR. acérrimo.

. Equivale a sobre. a propósito de alguma coisa não é propriamente referir o que esteja ligado a essa coisa... Usam-se indiferentemente com verbos que designam operação intelectual. etc.. – Agro só se diferencia de acre em ser mais extensivo.. 99 ACERCA DE. e parece áspero. revelando violência reprimida. e o objeto sobre que se diz.. diz “que mostra azedume. áspero e desabrido”. Confunde-se muito com acerbo. designa “o que é rude e violento. deliberar. Quem fala em relação a alguma coisa diz sem dúvida coisas que estão com aquela em relação mais direta do que quando fala a propósito da dita coisa. em relação a. exprime muito mais vagamente a ideia de outras locuções deste grupo...). falar. palavras azedas. (com res- peito a. a conduta de Cícero com respeito a Otavio. – A propósito de. ou exercício da palavra. e a respeito de. “o que se irrita. ou a respeito de. modificam a ideia representada pelo verbo.” – Áspero é “tudo o que impressiona desagradavelmente. etc.. referir.. Usa-se mais frequentemente no superlativo: acérrima invetiva.74 Rocha Pombo to. em alusão a.. A propósito de uma história podemos contar outra história muito diferente e que apenas nos tenha sido sugerida pela primeira.. como pensar. disputar acerca de. é um tanto acre. que molesta algum dos nossos sentidos”.. mas reprimenda áspera deixaria supor que não fora feita em termos delicados. ou relativamente a. em que acerca de. etc. colocação: como as disposições do testador com respeito a seus filhos.. caso... e a respeito de. só se usa com esta classe de verbos. ou falar sobre o que lhe diga diretamente respeito.. escrever.. – Acrimonioso não se deve confundir com acre. fazer. (ou com relação a. mas a alguma outra coisa que com essa tenha pontos de relação. Dizemos: – “discussão azeda. e com respeito a. – Quanto a é outra locução que marca também conexão direta entre o objeto e o que se vai enunciar.... sobre.. semelhança ou analogia. ou negócio.. e aplicado a uma pessoa.. se exacerba.. É fácil de sentir a diferença que é palpável entre estas duas formas: “O ministro ouviu o diretor acerca do negócio” (ou a respeito do.. estabelece uma relação precisa e direta entre o que vamos dizer. mal humorado. fixando-a na do objeto em que a ação recai ou se executa.) já enuncia mais precisamente que ao assunto.. escreve ou faz alguma coisa.). a colocação de tal ponto geográfico com respeito a tal outro”..). quanto a. mas ainda sem estabelecer dependência direta. – Em .. como dizemos agras escarpas.. (Bruns. azedos momentos”.): e.. – Em relação a. relativamente a.. necessária. inculto.. Dizemos: agras penas.. ou com respeito a tal ou tal assunto.... conduta. (com relação a. em referência a. a respeito de.. se empregam com os que designam operação.. A coisa acrimoniosa contém alguma acrimônia... no sentido figurado. mas convém não esquecer que áspero sugere ideia de rude. – Acre é o “que tem sabor picante e corrosivo” (Aul.. Tanto pode ser aplicado no sentido moral como no físico. Além disso. negócio azedo. esta preposição sobre marca. ou pelo menos dá ideia da autoridade da pessoa que escreve.. recriminações acérrimas. Falar.. a propósito de. Até uma menina é capaz de fazer uma acerba reprimenda. em grande número de casos em que não seria perceptível uma diferença essencial mas muito subtil. rigorosa entre o caso e o que se vai dizer. Estilo acerbo pode não ser áspero. é que se prende o que se vai dizer. diz ou faz. – “Acerca de. etc....... Uma palavra áspera pode não ser acerba. porém. ou com respeito a. Divergem.... e em relação a.. ou em relação ao negócio): “O diretor ouviu o ministro sobre o negócio”. meditar. – Sobre. acérrimos furores. como acerca de e a respeito de.. o que sai do seu estado de calma”..

– Ruma é “porção de coisas uniformes. ou num banquete político. sobrepondo. Adivinhar é. desordem. expressamente. mas que se põe de reserva para momentos em que venha a servir”.. de segunda ordem. acertar.). Não seria de bom gosto dizer: acervo de verdades. – Secundário é “o que é de menor importância. atinar mesmo com as coisas de que absolutamente nada se sabia. – Sobressalente = “que sobra. pois. numa questão. em relação a outra coisa”. acumulando. e em alusão a.. fora da acepção jurídica. por ser aí demais. Quem arruma coloca em rumas as coisas que se devem arrumar.. tino) que nem todos têm. montão. ou indispensável e próprio. pelo próprio nome”. nem era necessário que se o fizesse. pois que referir é “indicar positivamente. de um dom excepcional que só se explicaria por faculdades que o fizessem superior aos homens comuns. num pensamento. e para cujo conhecimento o adivinho não se serve nem de esforço. melhor ainda do que este. – Acessório se diz de tudo que numa coisa (num corpo. segundo Bruns. “não é parte essencial ou fundamental”. sem que faça falta no todo de que se elimina. ACESSÓRIO. numa festa. e sugere. podendo por isso ajustar-se umas às outras. – Monte diz também “grande porção de coisas”. pode permanecer apenas por algum tempo. – Montão é aumentativo de monte. – Aquele que adivinha vale-se de um tino misterioso. contingente. precisa. 102 secundário. de modo que ocupem o menor espaço possível”. pode falar em alusão a certos fatos ou a certos homens sem os referir. referir vagamente. ideia de confusão. cúmulo. e que. portanto. de valor que não é principal. e sem razão. sem dizer de modo expresso qual a coisa a que se alude”. – Quem acerta dá por uma coisa casualmente. – Contingente é “o que não é necessário.. de armas. Falar em referência é. porque todos os que ouvem sabem já qual é a coisa a que se alude. grandeza descomunal. monte.. pilha. rima. – Quem atina acerta com alguma coisa pondo em ação umas tantas qualidades de espírito (argúcia. 100 ACERTAR. “um monte de laranjas. equivalente a amontoamento. ruma. falar acerca ou a respeito de coisa determinada clara. etc. – Subsecivo é o que pode ou deve ser eliminado. subsecivo. tenacidade. e aludir é “indicar por sugestão.. – Acervo diz “grande porção de coisas”. distinguem-se tão bem como os dois verbos que ordinariamente se confunde. Um sujeito. 101 ACERVO. que excede ao necessário. etc. mas de uma vidência maravilhosa. 9 Usamos também acúmulo por acumulação.. “Que acervo de asneiras disse o homem em tão curtos instantes”. nem de acaso. e tanto se emprega no sentido próprio como no figurado: – neste último igualmente à má parte. de sacos. é cada uma das pilhas de coisas iguais e sobrepostas umas às outras. de frutas. – Rima. portanto. . ou mudar logo”. e só se usa. é falar considerando uma coisa que não foi citada. no sentido figurado. etc. atinar. de areia. “Que monte de absurdos!”. de pedras. excesso de coisas que se vão reunindo. ou então ao cabo de algum esforço. – Cúmulo dá ideia de grande quantidade de coisas formando monte. sobressalente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 75 referência a. que se esteiam mutuamente. adivinhar. Falar em alusão é falar quase a propósito. e quase sempre à má parte. de gelo”. – Pilha é “porção de coisas numa certa ordem”: pilha de tábuas. e usa-se tanto no sentido natural como no figurado9. por exemplo.

. mas fora de nosso alcance atual. tendo-a perdido. uma boa fortuna.: o descobrimento da América. Só não se diz. a mesma diferença que se dá entre ação e ato”. é achar o que era ignorado. Descobrimento aplica-se às descobertas de grande alcance. oculto ou secreto. com a voz neutra.. Esta distinção. a não querer dar a entender que a andava buscando.76 Rocha Pombo 103 ACHADO. além disso.: “Encontrar corresponde ao verbo latino invenire: na sua mais lata significação representa a ação de dar com uma coisa que se buscava. nos apresenta uma pessoa ou coisa de que havíamos. Colombo e Cook descobriram novos mundos. mas podendo ser também fruto de esforço”. quase sempre por acaso. etc. acham-se os animais e as plantas que povoam sua superfície. como diz Roq. e que invento se restringe às artes. Descoberta aplica-se mais particularmente ao que se descobre no domínio das artes e das ciências. pois o modo correto de falar é: “A passagem que o acaso. – Acerca deste grupo escreve Roq. que nos subministra. ou que por casualidade se oferece. de revelar o que não era sabido”. – Descobrir é pôr patente o que estava coberto. ou não conhecida. e exprime a ação daquele que pelo seu engenho. dizemos igualmente que achou. ou de nossa vista. a descoberta da pólvora10. mas só Deus poderia dizer: “Eu te deparei um amigo”. in- ventar. viu no chão uma peça de oiro. e andando à procura dela e encontrando-a. indo pela rua. tanto moral como fisicamente. pela praça encontrei uma procissão. 15). Ao passar 10 Se bem que se não siga sempre muito à risca esta distinção. deparar. um enterro. assim como. as nascentes que a terra encerra em seu seio. a minha diligência. descobrimento.. O que se descobre não estava visível ou aparente. aos fatos de extraordinárias proporções realizados pelos navegadores e viajantes modernos. com a diferença que invenção é muito mais extensiva. nem se há de dizer nunca: descobrimento da pólvora. trabalho. que é composto da preposição de e do verbo latino parare “preparar”. dizendo. A duas léguas de Lisboa encontrei o correio. encontrar. etc. o produto da faculdade inventiva (ou criadora). que se encontrou. entre invenção e invento. descoberta. etc. e. me deparou”. porque ela estava manifesta. exprime a ação de um agente. mas a mesma espécie de homem. De um homem que. – Achado é “aquilo com que se deu. Alguns o quiseram fazer sinônimo de encontrar.. – Deparar. estabelecer. Pode-se. – Inventar corresponde ao latim invenire na sua significação restrita de “discorrer. etc. o estafeta. feliz. não deixaria de ter bom patrono entre os clássicos. Uma coisa simplesmente perdida achamo-la quando chegamos aonde ela está e a descobrimos com a vista. Muitos autores dos nossos dias dizem indiferentemente descobrimento ou descoberta da América.. invenção. imaginação. Ex. a apanhou e guardou. Ninguém dirá que achou a procissão. que nos é útil. etc. É por isso que não se usa comumente nas primeiras pessoas: Dizemos que Deus nos depara um amigo.. proveitoso. mui razoável por certo. 104 ACHAR. descobrir. e não coberta ou oculta. – Descoberta e descobrimento designam o ato de “dar com alguma coisa oculta. dizemos que achou.. Descobrem-se as minas. (3. o que se acha estava visível ou aparente. por exemplo: “A passagem com que deparei”: o que é erro. Lucena diz: “Mais encontraram acaso as ilhas do que as acharam por arte”. invento. etc. a obra do inventor. diferente de nós. pois o p. acha ou . – Sobre invento e invenção escreve o mesmo autor que “exprimem o que se inventou. achar de novo”. e naquelas regiões até então ignoradas acharam um novo reino vegetal e animal. anda esta palavra em regra associada à ideia de bom. mas não a descobrimos.

“supõe conhecimento da possibilidade de uma coisa. – Moléstia toma-se quase sempre na significação da palavra latina. e significa “que depende de certas condições ou circunstâncias. 4. eventual. 3. caso acidental. se bem que no plural se aproxime de moléstia. que quer dizer doença permanente. 10). podendo substituir em quase todos os casos a todos os outros do grupo. etc... A mecânica inventa as ferramentas e as máquinas. – Indisposição é “estado em que a pessoa fica ligeiramente fora do normal”. ou que não é permanente. incômodo (incômodos). no mesmo sentido em que dizia Cícero: Qui in morbo sunt. como o definiu Cícero: Molestia est œgritudo permanens (Tusc. que atua ou que se produz sem ser normalmente. – Inesperado. – Quanto às quatro primeiras palavras deste grupo é ainda de Roq. ocasional. 8). Copérnico inventou um novo sistema do mundo. A primeira fez-se extensiva a todo defeito físico ou moral. achaque.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 77 descobre coisas novas. Harvée achou ou descobriu a circulação do sangue. que não se espera numa ocasião ou circunstância determinada”. indisposição. segundo a origem árabe ax xaqui. sem que se ligue a causas que possam ser previstas: e. a física acha as causas e os efeitos. “Porque parecendo. aleatório. doen- ça.. coisa que pode ou não acontecer. – Incômodo é “mal passageiro”. – Imprevisto supõe ignorância da possibilidade da coisa. Volta inventou a pilha que dele tomou o nome de voltaica”. casual. enfermidade. segundo Roq. mas o engenho penetrante inventa coisas novas. ines- perado. novas combinações de objetos já conhecidos. em sentido desfavorável. de S. – Enfermidade significa. falta de forças. significa enfermidade ou moléstia habitual. segundo a força da palavra latina. mal. abandono de forças. tantas vezes sucedeu que veio a ser havido por mistério”. incerto. quer dizer estado doloroso do corpo. mas cada uma delas indica modificações particulares que distinguem os diferentes gêneros de sofrimento”. – Acerca de acidental e de fortuito. 106 ACIDENTAL. escreve Alv. enfermidade. (Tusc. Parece corresponder ao morbus dos latinos. Um engenho fecundo acha muitas coisas. debilidade da natureza no sentido em que disse Cícero: Infermitas puerorum et ferocitas juvenum” (Senect. – Doença. e significa em geral o sofrimento que traz a alteração da saúde. Inopinado supõe que não se havia pensado. imprevisto.. mas favorável”. 4). a segunda também se generalizou a todo incômodo. que vem e . inopinado. É o que acontece sem ser esperado. “fraqueza. moléstia. aqui tem decerto um sentido mais restrito. fortuito. portanto. – Contingente sugere ideia de coincidência. a última exprime bem a falta de saúde acompanhada de do- res ou incômodos físicos. Pas. sani non sunt. – Eventual distingue-se de todos os do grupo em enunciar apenas a ideia de coisa que ocorre. enfadamento. isto é. moléstia do corpo acompanhada de dores. primeiro. nem nos viera à imaginação o que sucede”. L. Herschel descobriu um novo planeta. 105 ACHAQUE. segundo sua origem (do verbo latino doleo). – Mal é termo genérico para designar tudo que causa dano ao homem. o que se segue: “Todas estas palavras enunciam um desarranjo ou desordem no estado normal da saúde do homem.. Fr. “Acidental vem de acidente”. – Achaque. ou novos usos. – Fortuito vem de fortuna: é o sucesso extraordinário. mas não habitual. ou trabalho penoso de corpo ou de espírito. a terceira é preferível para indicar a falta de saúde que provém de fraqueza do corpo. contingente. Dizemos com razão – doente o que não está são.

que é o único que hoje tem.) – Vitoriar é “aclamar estrepitosamente. proclamar. e por extensão. e até somente numa família. como se se fizesse escolha solene da pessoa aclamada. vocábulo que significou primitivamente os estragos que a saraiva produz nos campos) significa. mesmo quando se fala de uma calamidade privada. porém. se declarasse autêntico. sem que nada a fizesse prever. proclamar.. 107 ACIDENTE. formado do prefixo negativo des e de astre. vitoriar. se assim nos podemos exprimir. que se dá como de momento. aclama-se espontaneamente. – Catástrofe é acontecimento extraordinário. – Aleatório “é termo jurídico: aplica-se a disposições que se tomam para o caso em que se dê uma circunstância possível. povoações e províncias. desgraça da qual é impossível sair.). vitoriar. segundo as superstições astrológicas.. como se se desse testemunho. transforma completamente o estado precedente noutro estado muito pior. aceitar solenemente”. delírio. isto é. Como a destruição das searas é uma desgraça que afeta sobremodo a muitas famílias.. que aniquila e destrói tudo. muda. segundo a sua etimologia. glorificar – estes verbos marcam a gradação.78 Rocha Pombo passa”. (Há muita diferença entre proclamar e aclamar. pois nesse caso não se atende a um fato adverso somente. aclamar. 108 ACLAMAR. “astro”) significa propriamente um grande infortúnio. alegria. aplaudir. num Estado. Esta revolução completa pode dar-se num povo. e como se se tornasse publicamente reconhecido o que se proclama. Em regra. revés. mas a uma série desses fatos que sobrevêm uns aos outros. desastre. ou não se tem certeza”. a força crescente dos sentimentos com que se manifesta aprovação. mas sempre sugerindo a ideia de transtorno violento e profundo. do destino. declarar com desvanecimento e no meio de extraordinário aparato”. “suceder”) diz-se de qualquer desgraça que sobrevém inesperadamente. pública ou privada. – Segundo Bruns. que sobrevém como castigo. que revolve. catástrofe. é o reverso da medalha. calamidade. proclama-se. – Glorificar é “fazer a consagração .. – Postos nesta ordem – aplaudir. cumprindo um dever. – Desastre (vocábulo francês. movimentos de delírio”. O sentido desta palavra é sempre coletivo. e considerando-a até certo ponto como contrária às leis ordinárias. com vivacidade. entusiasmo. toda desgraça irremediável. numa sociedade. livremente. e contra a qual nada se pode fazer. abrangendo a significação de todos os outros: é todo acontecimento funesto. ou mesmo num indivíduo. mas para pior. – Aplaudir é “dar sinais ostensivos. glorificar. se diz de qualquer grande desgraça... etc. pela influência nociva dos astros. – Proclamar é “dar sanção. incendimento sagrado por alguém ou alguma coisa. e que por isso se acredita que é devido ao acaso. – Casual se diz de todo fenômeno cuja causa é desconhecida. – Calamidade (do latim calamitas. constituindo um conjunto que tem importância excepcional”. isto é. calamidade. trazendo consigo a carestia e a penúria. – Incerto é “tudo aquilo a respeito do que se está em dúvida. expressos. uma grande desgraça causada. acidente (do latim accidere. – Ocasional significa propriamente “de ocasião”. considerável. agitação. – Desgraça é o mais genérico do grupo. – Aclamar é “aprovar. desgraça. de que se aprova e sanciona”. – Revés é a desgraça que faz mudar completamente uma situação. mas não provável”. no sentido figurado. destruição das searas pelas intempéries. (Bruns.. “que aparece como circunstância que se não prevê”.

assustar.. O grande homem ilustra (dá brilho) o seu tempo”. que uma tormenta. inteligível. – Explanar = “explicar tornando simples. alumiar e iluminar. e: “Deus que lhe alumie o caminho escabroso que vai seguir” (isto é – que lhe torne claro o caminho). talentos que excedem ao que é grandeza comum entre os homens”. um debate. fazendo fácil”. pois iluminar. amedrontar. explicar. decerto que ninguém teria a lembrança de arriscar: “Deus que o alumie.. De sorte que só se entende que alguém se acobarda quando deixa de ter o ânimo que é próprio do homem.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 79 de virtudes. mas nem sempre nos ilumina. espavorir. etc. ou um vulcão. seja superior a forças humanas ou fique fora do nosso alcance... da ACOBARDAR. como a própria luz”. Mas. – Elucidar é “fazer perfeitamente claro. também poderíamos dizer assim: “Deus que lhe ilumine o caminho da vida”. ou para atacar um inimigo que o afronta. quebrantar... elucidar.. É convizinho de ilustrar. – Explicar é esclarecer como desdobrando. Dizemos: “Deus que o ilumine” (isto é – que lhe torne luminoso o espírito. e não – “alumia. e não – alumia-se. mas que me apavora. aterrar. projetar brilho sobre”. em sugerir ideia do modo completo como a coisa elucidada ficou esclarecida. me acobarda.” O sol alumia a todos”. e sim medroso. A noite. – Ilustrar significa “lançar luz. explanar.. – Alumiar diz propriamente “dar luz. Uma questão pode ter sido ilustrada por um mestre. de um enfermo.” – Iluminar é de predicação mais viva e de ação mais direta que alumiar e ilustrar.. . Não se poderia dizer. a vencer.. Também não será próprio o verbo acobardar tratando-se de casos em que a coisa a resistir. um assunto. e distingue-se de ilustrar em grande número de casos. significa “dar à inteligência uma nova e intensa claridade a que não escapem as coisas mais abstrusas”. ou de um decrépito. e não – “ilustra. – Aclarar é “tornar claro. quanto ao primeiro exemplo. explicando o que parecia obscuro ou estava confuso”. mas amedrontam uma criança.. – Acobardar é “reduzir alguém a uma incapacidade absoluta de reagir”.. aterrorizar. distinguindo-se destes.. apavorar. feitos. ou nos alumia o espírito. ilustrar. o senso interior).. iluminar.. atemorizar. 110 intimidar. ou a evitar etc. – Todos estes verbos enunciam ação de diminuir ou abater o ânimo de. E como um caminho só se faz claro a olhos que saibam ver. alumiar. e isto quer no sentido próprio.) não se pode dizer que seja cobarde. mais por defeito da coisa que se explica do que da pessoa a quem é explicada. A lição do mestre abalizado nos ilustra. Muito bem nota Roq. ou o relâmpago.” “A palavra de Jesus alumia os cegos” (não – “ilustra. uma invetiva não acobardam. esparzir claridade”. que me atemoriza ou me quebranta.”) Ilustra-se uma obra. estendendo. desembrulhando aquilo que se não entendia. A glorificação deve ser um ato ou uma cerimônia tal que se compare à solenidade de culto: só a merecem os verdadeiros gênios e os santos.” Pelo menos esta forma seria de lidimidade muito duvidosa... Quem se acobarda perde a coragem para repelir um ataque. tratando de cobardia. a solidão. num sentido muito alto. etc. 109 ACLARAR. quer no figurado. a atacar. e pode-se dizer que a nuança entre uns e outros é marcada pelos respetivos radicais. que de um menino (de uma mulher. – Esclarecer é “aclarar completando.. por exemplo. fazer que se veja claro”. esclarecer. “pois que diante destes os homens ficam como se estivessem diante de divindades”. no entanto. sem que só por isso haja necessariamente ficado de todo elucidada.

que se inclui em aterrar. e tem alguma coisa de análogo a aterrar por sugerir. o perdulário lembrando-lhe o futuro. O segundo significa também “encher de terror”. O primeiro exprime “inspirar um medo. etc. 111 AÇÕES.. quase sempre. ou é de uma tão delicada modéstia que passa a ter sem dúvida outro nome. nos espavore”. portanto.) Amedrontamos uma criança. e menos acobarda. – Quanto aos três primeiros escreve Roq. ou – “O castigo do céu atemoriza os crentes”. ou então é mesmo de natureza ou de condição tímido por ser fraco. nem intimida. por exemplo: “A noite. sinalando a palavra diretamente a intenção do que as executa. amofinar”. de coisa sagrada. com relação direta à essência ou qualidade do fato em si mesmo. o pavor que sentimos. um grande espanto. fatos. ou: “Bastou a presença do mestre para intimidar o menino”. Uma visão diremos que nos aterra. mas aquele que se intimida – ou é de uma prudência tão meticulosa que se avizinha de cobardia. façanhas. o produto. Sente-se. falsos ou duvidosos. que leva alguém a perder o ânimo. tão discutível e brutal. já que é tarde para defendê-lo a pulso ou à força de armas). o menino na presença dos examinadores. O fato tem uma relação direta com a coisa executada. Mas a diferença entre estes dois verbos é bem sensível quando se compara medo e temor. proezas. como atemorizar é “causar temor”. igualmente a ideia do que tem de misterioso. deixar agitado de susto: e sugere a ideia da fuga que revela o espanto. – Quebrantar é “fazer que se perca o ânimo. “O sofrimento moral quebranta mais que os males físicos”. mas – “nos apavora”. (O outro aqui não é decerto um herói. mas não sugere a ideia de mistério. que em atemorizar se inclui a ideia do motivo real. de salvar o seu decoro intimidando-se. um súbito terror de imobilizar. Não se poderia dizer. Exemplos: “Bastou uma palavra mais alto e mais áspera para que o outro se intimidasse ali. – Intimidar é “fazer tímido”. o que fica executado por meio da ação.80 Rocha Pombo sua função. a parte que nela tem a pessoa. atemorizamos o mau estudante com a presença do pai. um espírito supersticioso. mas é possível que explicasse suficientemente a sua quebra de ânimo como excesso de pudor. etc. más ou indiferentes. – Feito é o mesmo que fato. que se deixe abater. feitos. Pode-se intimidar a todo o mundo talvez.) – Assustar é “produzir impressão súbita de espanto ou medo”. etc. a iminência de uma grande desgraça nos aterroriza. e sem razão. um assassino acossado de remorso ou perseguido da justiça. – Aterrar e aterrorizar confundem-se muito. a presença daquele biltre intimidou o velho soldado (O velho soldado nem por isso perderia direito a continuar sendo o mais legítimo dos heróis: poderia mesmo juntar talvez agora ao antigo. – Espavorir é “fazer abalado de pavor. o heroísmo um tanto menos espetaculoso. grave. Até os animais podemos assustar. representando-nos a vontade. o movimento. Daí vem que as ações são boas. de impressão violenta..) “Por estar na rua. É dos mais extensivos do grupo. mu- . causar grande medo”. (Ninguém diria amedronta. – Amedrontar é “causar medo”. representando-nos o efeito. calando-se”. mas seguramente mais humano. lá fora. “O crente atemoriza-se do castigo divino”. é causar susto. como sobrenatural. submisso. da sua tarefa. como virtude contra o escândalo. “Na miséria ou na doença os mais fortes se quebrantam”. sagrado. e os fatos são certos.. abater inteiramente o ânimo aterrado”. (Ver o grupo. – Apavorar diz propriamente “encher de pavor. o mísero escravo intimidou-se”. “Só ao ver ao longe o filho do senhor. “A ação tem uma relação imediata com a pessoa que a executa.. atemoriza-se o réu diante do tribunal.

– Açoitar é “bater com açoite ou látego. ocultar-se. ao esforço de outrem. refugia-se na Inglaterra ou na Suíça. mas que se foi homiziar no estrangeiro. – Surrar é o mais compreensivo do grupo: exprime a ideia geral de “molestar de qualquer modo. – Ocultar é menos do que esconder. abrigar. ou com alguém a que essa pessoa esteja sujeita.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 81 dada por eufonia a pronúncia dura de a na doce de ei. corresponde muitas vezes a obra. . devido à grande coragem. surrar. que se considera com direito a essa coisa ou essa pessoa”. zurzir. a virtudes. não se dirá que se refugiou. 113 AÇOITAR. como aos homens que se deseja humilhar. cortante”. – Homiziar é sempre um delito. De um revolucionário vencido que conseguiu fugir não se pode dizer que foi homiziar-se no estrangeiro (e sim – refugiar-se). – Zurzir é “espicaçar. ocultar. homiziar-se. mas principalmente batendo. refugia-se na floresta. como um assassino que foge da polícia. homiziar. acoitar nem sempre. mas ultraja também. flagelar. – Segundo Laf. Quem se oculta deixa apenas de aparecer. – Acoitamos uma pessoa que sabemos comprometida com autoridade pública. Um bandido. proeza (em francês prouesse “action de preux”) “diz-se propriamente das façanhas da antiga cavalaria. Vem acoitar-se em nossa casa o indivíduo que se julga culpado de algum crime. – Homiziamos em nossa casa alguém “que sabemos condenado por algum crime”: e exatamente nisto é que este verbo se distingue de acoitar: este é mais extensivo: tanto podemos acoitar um menino que fugiu da casa dos pais. asilar. das que são contadas nos antigos romances”. que se asila em nossa casa. ato. afligir. isto é – “acolher e amparar alguém contra risco iminente. – Todos estes verbos enunciam ação de molestar fisicamente. fustigar.) é feito heroico. De um criminoso julgado. “obrar” etc. Esconde-se aquele que se esquiva à ação dos que o procuram. “fazer”. quem se esconde procura escapar tanto às vistas como à investigação de outrem. magoar açoitando ou vergastando”.. e diferençam-se quase que só pelo gênero do instrumento com que se molesta. nem sempre. pois ocultamos uma coisa evitando apenas que outros a vejam. – Asilar expressa a ideia de lugar seguro. “Abrigamos em nossa casa bons e maus”. e tanto se faz às bestas lerdas. – Esconder é “furtar alguém ou alguma coisa à ação. Usam-se todos também no sentido moral. ou contra mal de que é perseguido”: “O hoteleiro abrigou da (ou contra a) chuva aquelas crianças”. mas o seu uso mais frequente é representar as ações nobres. asilar-se. pungir. es- conder. nem o segundo pode dizer-se. ilustres de homens famosos e dignos de memória”. – Azorragar é “bater com azorrague”. chicotar (ou chicotear). – Vergastar (ou verdascar) é “bater com vergasta (ou verdasca) isto é – com vara muito fina e rija. e como castigo”. pois o chicote ou rebenque não só molesta. sim. a esforço. de facere. refugiar-se. vergastar (verdascar). acossado do clamor geral. Um político. 112 ACOITAR. esconder-se. – Façanha (do latim facinus. um anarquista. acoitar-se. azorragar. – Refugiar-se diz propriamente “fugir e valer-se de algum lugar seguro para escapar a algum perigo”. – Chicotar (ou chicotear) é “pungir a chicote”. sagrado (asilo) em que alguém se julga a salvo de qualquer perseguição. a valor excepcionais. abrigar-se. comprometido em algum atentado ou algum movimento subversivo. mas só homiziamos o criminoso que tenta escapar à ação da lei penal. – Abrigar é “dar abrigo”. Nem por isso asilamos a primeira. chibatar (ou chibatear). e sugere a ideia de “fortes golpes que molestam e afrontam a vítima”.

persuadir. por meio de razões insistentes e bons argumentos. levar até o íntimo do espírito ou do . em regra. Acompanha-se uma irmã à igreja (não – segue-se)”. ou por circunlóquios. e muito subtilmente. guiar. e sugere noção da superioridade de quem chibata com respeito ao chibatado. bater com vergasta e repetidamente. ou a verdasca”. etc. isto é. pois nunca se comboia senão para proteger. – Chibatar (ou chibatear) é “aplicar a chibata. numa situação difícil. sugerir. – Escoltar é “acompanhar para proteger ou para vigiar”. Não se poderia dizer. alguma coisa que está no nosso interesse. – Ajustar é “modificar uma coisa de maneira que com outra se combine”. a que faça alguma coisa que não faria de moto-próprio”. e dá ideia de que nunca é uma só pessoa que escolta. quer para o servir.82 Rocha Pombo macerando. 115 ACOMPANHAR. insinuar.. boiar. – Fustigar é quase como zurzir: designa a ação “de picar. é mais restrito que escoltar. Porque seguir é que diz inspirar. escoltar. – transformar uma coisa de modo que. ajustar. adaptar. – Adaptar é “fazer alguma coisa apta especialmente para uma calculada serventia”. como calamidade. boiadas. Tanto pode flagelar-nos um inimigo como um infortúnio.. significando a ação de impor pena como suplício e castigo. Além disso.. ou o fato de cair. etc. – Quanto a comboiar é preciso que se note que. a isso o aconselhamos.). a coisa a comboiar – carros. ou a um caso determinado”. – Insinuar está quase no mesmo caso de sugerir: é “introduzir.. sugerimos a Pedro o que está no seu interesse. apropriar. sem perder o seu caráter. – Apropriar aqui é “dar a uma coisa condições que a tornem própria para o fim que se deseja”. (não – acompanha-se). – Acomodar “é – diz Bruns. até que o fustigado perca a paciência e saia do estado normal de atividade ou de calma”. sofra as alterações que o caso exige: acomodar um drama estrangeiro ao teatro português”. benévola ou perversamente. – Acompanha-se uma pessoa quando se vai a seu lado e subentende-se que tomando parte nas vicissitudes que essa pessoa tiver no seu caminho. 116 ACONSELHAR. Ninguém diria que sugeriu a Pedro que levantasse muito cedo: salvo se quisesse mesmo fazer uma simples sugestão. Segue-se-lhe a pista a alguém. – Aconselhar é “induzir alguém. em vez de dar um conselho”. – O sentido translato é análogo ao natural em todos estes verbos. As forças escoltaram os prisioneiros até Pernambuco. 114 ACOMODAR. na vida.). ou por meios indiretos e vagos. Uma nação pode ser flagelada por uma inundação ou por um mau governo. quando lhe fazemos sentir por meias palavras. adequar. como a despiedade de um mau poeta. ou mesmo na conveniência da pessoa a quem se sugere. multidão (comboio). sempre se entende que é grupo. – Flagelar tem hoje uma acepção especial. “acompanha no encalço”.” Pode aconselhar-se bem ou mal. navios. tropas de carga. – Sugerir é “fazer entrar no espírito de alguém. seguir. portanto. é também “encaminhar numa certa direção (num negócio. mas – “segue no encalço” (ou vai. com- “ir atrás. e quer para observá-lo. quando dizemos explicitamente a Pedro que levante cedo. – Adequar é “fazer uma coisa proporcionada a um certo fim.. conveniente a um determinado uso. É claro que.. zurzindo para exemplar e corrigir”. tomar o mesmo rumo de alguém. Um galé só sai da sua prisão escoltado. de boa ou de má-fé. a conveniência de ocultar-se às vistas da polícia. – é sempre mais de uma. mas indo-lhe na retaguarda e sem perdê-lo de vista.

tão extensivo. aplicável a qualquer fato. ocorrer. etc. ajuste. significa “sugerir mais diretamente. – Persuadir é “insistir em que alguém creia.: “Acontecer é termo genérico. de opiniões. Decerto que se não poderia dizer: “Passou-se uma catástrofe. suceder. – Dar-se é. aqui. ou ocorrer. cordis. ou suceder. concordata.. Dizendo – “aconteceu uma desgraça” – referimo-nos à desgraça em si. primeiro relutara ou não se tinha mostrado a ele propícia. de direito ou de interesses a que se submetem afinal partes que não puderam dirimir de outro modo a contenda ou a questão debatida”.. que chegou a fazê-lo. diz Bruns. se incenda. marcha. ac (c por d) + cordo diz propriamente “ao coração”. se recorde. etc. – Acordo supõe que a pessoa. passar-se-ia um desastre se não fora a nossa prudência”. aceite o que lhe propomos ou dizemos”. etc. aqui. Deram-se acontecimentos extraordinários em Lisboa. tratado. “para o coração”. Nesta palavra acordo (accordo) figura a raiz cor. para que a pessoa guiada não se afaste do reto caminho. Por isso é que se diz muito acertadamente que onde nunca houve desacordo não seria próprio dizer que veio a dar-se acordo. – Acordar é. – Também se pode guiar mal ou bem.. – isto é – significa a união de sentimentos e extensivamente de ideias. não de vontades ou de impulsos propriamente. Os que convêm fazem convênio: celebrar .: convindo não esquecer que insinuar envolve ideia de má vontade ou de intuito ilegítimo de quem insinua”. tratar. acordo. portanto. contratar. como guia o mestre os seus discípulos. combinar. assentar.. assento. a que chega quem faz acordo. dar-se. – Quanto aos três primeiros. O que se faz entre as pessoas que convêm chama-se convênio. emprega-se. – Convir é encontrar-se com outra pessoa numa certa igualdade de intuitos. dizendo “sucedeu uma desgraça” – apresentamos o fato como consequência de tal ou tal existência: “na perfuração dos túneis sucedem desgraças amiúde. Não é convicção que leva uma pessoa a persuadir-se: é antes a autoridade de quem persuade. não há dúvida que em tais casos seja bem empregado: aconteceu o que tínhamos previsto. convencio- passar-se. quando se quer dar a entender que do que sucede ou acontece se origina alguma consequência. entrar em acordo. concordar. Dizem que se deram naquele momento sucessos imprevistos. aconteceu um desastre. operar sobre o espírito ou o coração de alguém para que se oriente. importante ou não. pacto. 118 ACORDAR. não obstante. um desejo etc. intento. um verbo que em todos os casos poderia substituir a qualquer dos nar. pois. Geralmente..” – Suceder é o mesmo que acontecer. e. previsto ou imprevisto. convir. Convenção é sempre mais solene e ato de mais importância do que convênio. – Passar-se está quase no mesmo caso: não é. 117 ACONTECER.” Ocorrer é o mesmo que suceder ou acontecer. – Inspirar. acontecer não relaciona o fato com outro anterior nem o atribui a determinada causa. mas encerra ideia de causa anterior. é assistir com bons conselhos.. pactuar. com mais energia. convênio. sem outra ideia acessória. convenção. três primeiros. Guiamos os nossos filhos. – Guiar é dirigir alguém nalgum serviço. e é de predicação mais precisa. que deu cors. As ocorrências que se dão diariamente já não impressionam. Dão-se às vezes desgraças que surpreendem os mais fortes ânimos. combinação. significando o mesmo que acontecer. – Convenção é “o acordo. porém. “coração”. concerto. porém. concertar. uma suspeita. mas de razão. ajustar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 83 coração de alguém uma ideia. contrato. como termo genérico. se anime.

deixando sentir que se havia antes discordado”. – Contratar é. tanto convenções como tratados. ou nas condições de um arranjo ou negócio depois de haverem as partes discutido”.: – “Acordar e despertar são verbos ativos e neutros. pois. da resolução que se tomou. de modo que fique sólido e perfeito”. como frequentemente sucede. ou dos costumes. “entrar em concerto. – Assento diz propriamente “o registro solene de um convênio. mas já envolve compromisso moral mais solene do que aquilo que simplesmente se combinou. mas dizemos também. portanto. É precisamente em virtude do caráter de imutabilidade que o pacto reveste. – Concerto é um pouco mais que simples combinação: é “a harmonia perfeita a que se chega acerca de alguma coisa depois de haver ponderado todos os prós e contras”: pode não chegar a ser um contrato. 119 ACORDAR. o pacto se faz sobre coisas cuja sanção é superior ao alcance das leis humanas. expedito para exercer suas faculda- . “reduzir a escrito (ou dar-lhe toda autenticidade) um acordo a que se chegou. ou junto uma da outra. “dispor. despertar. no entanto. – Concordar é convizinho de concertar: é “vir a acordo como os que se conciliam. – Concertar é. como quando se diz: fazer um pacto com o diabo. confrontá-las. – “O pacto é uma convenção formal em que cada pactário declara renunciar ao direito de romper o pactuado. celebrar contrato. O que se combina fica assentado apenas mentalmente: não tem força de acordo ou de pacto feito. o recobro dos sentidos. Mas tratado é uma convenção de alta categoria: só pode ser celebrado entre nações. Dois exércitos não celebram tratado. e representam a ação pela qual um homem sai. juntá-las. depois de debate. pactuar com os inimigos da pátria”. da sentença que foi proferida”: assentar é. ou ainda mais restrito – comercial. a forma autêntica. compará-las”: combinar é. portanto. – Contrato é “aquilo que se tratou reduzido a escrito. ainda quando não tenha sanção legal – não a podendo mesmo ter quando.84 Rocha Pombo convenção é convencionar. – Combinação é o ato de combinar ou aquilo mesmo que se combinou. o ato de ajustar. ordenar os termos de um acordo ou de um convênio”. pois. nos termos ou nas condições da lei. mas convenção: só poderes soberanos têm capacidade para celebrar. que este termo se presta a ser tomado a má parte. por acordo comum”. Ajuste é. Trata-se tanto de altos interesses de nações como das coisas mais insignificantes do mundo. e designa “ajuste entre credores e devedor”. – Acordar exprime propriamente a cessação do sono. pois. e tem mais propriamente sentido jurídico. – Tratado e contrato correspondem a convenção e convênio ou guardam respetivamente entre si a mesma analogia.) – Ajustar é “convir em alguma coisa. para que dele resultem direitos e obrigações legais ou morais”. ou o tiram. (Bruns. do estado de adormecimento em que jazia. fora da acepção que tem neste grupo. – Segundo Roq. É certo. – Concordata é termo jurídico que tem principalmente duas acepções: exprime “acordo ou convenção solene feita entre o sumo pontífice e um soberano”. é um compromisso que fica obrigatório para cada um dos que nele tomam parte. 15): Ah! quem de sonho tal nunca acordara – Despertar é pôr ou pôr-se um homem esperto. e também a cessação do sonho. decidir. referindo-nos a negócios de pequena monta: “o tratado é devido”. se bem que o mesmo se pode quase dizer de tratado. – Combinar (do latim combinare – cum + bini “com” + “par”) diz precisamente “pôr uma coisa ao lado da outra. que tratar tem uma significação muito menos precisa. como se vê naquele verso de Camões (Canç.

é “prender por meio de corrente”. e não se possa afastar do posto em que se a fixou. afluir. do peso dos grilhões. 38): Os do quarto da prima se deitavam. prender. já se nota uma diferença fundamental: tratando-se de pessoas (ou quaisquer animais) só se emprega afluir quando se faz referência a muitos indivíduos. conter dentro de certos limites”. como se vê ainda de outros versos de Camões (Lus. mas não chegam a estar assaz espertos para praticarem resolutamente a virtude!” 120 ACOROÇOAR. Entre os dois primeiros e o outro. Animam-se os enfermos contando-se-lhes casos de cura prodigiosos. 121 ACORRENTAR (ou encorrentar). aqui. – Animar é “infundir alma”. insuflar coragem. A palavra do santo velho alentava os moços. amarrar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 85 des. Uma só pessoa seria impróprio dizer que aflui. e que se interrompe a horas desacostumadas. acoroçoar (a + coração + ar) diz “avigorar o coração”: quer dizer – confortar alguém no que empreende. no sentido próprio. . pois encorrentar diz mais propriamente “carregado de ferros. Quantos homens acordam do sono da culpa. 122 ACORRER. Para o segundo os outros despertavam. alentar. encadear. correntes. É próximo de encadear. dureza. – Acorrentar (ou encorrentar)11. acudir. Não há ninguém que anime aqueles míseros no eito. ou cordas. ou seu intento. – Prender é o mais genérico do grupo: diz “ligar uma coisa a outra. é “levar alguém. – A mesma diferença existe na acepção figurada. Colombo voltou da América encorrentado (não acorrentado). – Estes três verbos enunciam a ação de correr. mais ou menos intimamente. induzir. por meio de palavras persuasivas. incitando-o com palavras e afagos a que tenha coragem e se esforce por vencer. Com o exemplo do capitão animam-se os soldados a investir o baluarte. – Acoroçoa-se alguém na sua tarefa. ir ou vir para alguma parte. para sair do qual é necessário mais esforço nosso quando acordamos. cheio de correntes”. ou por exemplos ou por medo. A esperança nos alenta nesta luta. duz um menino a faltar às aulas não é talvez menos perverso do que aquele que o incita a praticar o mal. VI. isto é – dar vigor às forças do espírito para uma resolução. incitar. a ideia da força. sendo que despertar anuncia sono profundo. ou uma doença. – Alentar significa propriamente “dar alento. – Amarrar diz propriamente “prender com amarra”. melhor do que este. animar. ou de quem nos quer tornar espertos. – Agrilhoar diz mais ainda que acorrentar. pois encerra ideia da tirania com que se agrilhoa. sem envolver ideia do modo como se a prende”. distinguindo-se em sugerir. Parece que a ação de acordar precede à de despertar. prepotência com que se prende. isto é. – Incitar é um pouco mais: é “induzir com grande esforço e vivo empenho”. para um trabalho. no figurado é “coagir. a fazer alguma coisa”. encorrear (ou acorrear). Quem in- agrilhoar. isto é – por meio de cabos. sustentar no esforço. incitar na tarefa. – Induzir. do sofrimento do agrilhoado. para sofrer um mal. porque em afluir se inclui a ideia 11 Poder-se-ia notar entre estes dois verbos alguma diferença. enlaçar de modo a tolher os movimentos ao que se encorreia”. Segundo a própria etimologia. – Encorrear (ou acorrear) é “prender por meio de correias. que acordar supõe um sono ordinário e que acaba regularmente. de modo que a coisa amarrada fique segura. marchar.

ou nalgum lugar. tar-se. – “é perseguir hostilizando. nem de acorrer por afluir: por exemplo: em – “as famílias da redondeza afluíram à cidade no dia da festa” – não poderíamos (sem alterar o valor lógico da frase) pôr nenhum dos dois primeiros verbos no lugar de afluíram. ou a alguma coisa que procura solícito impedir ou evitar. natural) “mover-se lentamente (como os líquidos) numa certa direção. meio ou vida nova. 124 habituar-se. afeiçoar-se. afazer-se. a obediência. Tal ideia não existe em perseguir. Paulo (isto é. Ela nun- . em Paris. afinal. de cópia ou abundância. que do exterior. ou a um gênero de vida que nunca tive. Costume. e que em acorrer e acudir está implícita a ideia de pressa: não se acorre nem se acode devagar. pois inclui mais ideia de modo de ser do espírito. se habituou a ir todos os dias à igreja. quando sente que o meio. aclimar-se (aclimatar-se).. não se acostuma no campo. Esta ideia não há em acorrer e acudir: tanto podemos dizer “ele acorreu ou acudiu ao ver o desabamento”. do caráter em suma. porque “corre a socorrer”. por exemplo. conseguintemente. pois. Entre acostumar-se e habituar-se há. modelar-se. M. e afazer-se a condição. Resta observar que costume se poderia definir como significando hábito moral. ou por termos repetido muitas vezes”: devemos os nossos hábitos mais a nós próprios do que a outros. tanto social como físico. Isto quer dizer que afluir significa (como na acepção própria. 123 ACOSSAR. ou para determinado lugar. F. Entre acorrer e acudir é preciso também notar que é fácil marcar uma certa nuança. ou do modo de parecer peculiar a cada pessoa. com habituar-se. mas nunca se habituará à vida dos boulevards. adaptar-se. dar-se. por nos termos exercitado com esforço. menos a nós próprios do que à ação do meio em que vivemos.86 Rocha Pombo de multidão. na mesma terra onde nasceu e se criou e onde vive). – Hábito é “tudo que fazemos já quase maquinalmente. – Costume é “tudo que forma o modo de ser próprio de alguém ou de um povo: o convívio é que o faz. Quando muito. do indivíduo subjetivo. pelo menos. lhe não é mais estranho como a princípio. ou cede a medo. Quem acode atende a grito de socorro.. – Todos os verbos deste grupo enunciam ação de mudar de vida. – Confunde-se acostumar-se. quase o mesmo que acostumar-se. – Acossar – diz Bruns. pois entre o perseguidor e o perseguido a distância pode ser considerável”. tanto maus quanto bons. ou a provocação: o que. acomodar-se. aqui. ou sem grande interesse de momento ou urgente. mas quem ouve um grito de socorro não acorre apenas: acode. Ele se dá tão bem na roça como na corte. de condição. ajusACOSTUMAR-SE. de meio.” Devemos. Não está em mim acostumar-me numa cidade. perseguir. a vivo interesse. nem sempre se dá quanto a acorrer. Acostuma-se alguém com alguma coisa. ou a perigo que viu. o acossador tem à vista o acossado. identificar-se. a mesma diferença. e com a mesma sem-razão com que se confunde costume com hábito. os nossos costumes. como: “eles acorreram ou acudiram. há-os também nos quais não seria permitido usar de acudir. acostumou-se. amoldar-se. à procura de um ponto”. mas depende de mim habituar-me a um certo serviço. sem motivo instante. e a diferença entre os dois consiste em que aquele é de predicação menos intensa e mais vaga. que um paulista nos viesse dizer que se acostuma em S. – Dar-se exprime. A. poder-se-ia dizer que ninguém acorre a um certo ponto. portanto.” Outra diferença: como há casos em que afluir não substituiria nenhum dos dois. hábito. Por isso mesmo não se explicaria.

Decerto nada impediria que uma pessoa. mais ampla. ficarem medida igual”. – Acomodar-se diz propriamente “ficar a gosto nalgum lugar ou com alguma coisa. de intensidade. pois ninguém se afaz a alguma coisa sem esforço. – “é o meio. etc. Para aumentar. afeiçoei-me sempre às condições da minha vida. a felicidade. dizemos que acresce. A dor. No verbo adicionar há implícita a ideia de que. dar-se bem. a acostumar-se aqui. O aumento é sempre efeito da adição ou aditamento. com alguma coisa. 125 ACRESCENTAR. – Segundo Bruns. a coisa adicionada é menor do que a coisa a que se adiciona: esta fica para aquela como o todo para a parte.. – Adaptar-se enuncia a “ação de se fazer alguém próprio. por acréscimo ou adição gradual de novas moléculas ou porções de massa. isto é.” – Ajustar-se quer dizer “pôr-se alguém. E não se diria: Acrescentei o número de livros porque o aumentei. O sentido translato é análogo. que se não dá com a vida do Rio. – Acrescentar é uma extensão de acrescer. acrescentando. ninguém diria que acresce: e sim que aumenta. Quando uma coisa aumenta “crescendo. agregar. Não assim o que se 12 Aliás. Um ricaço aumenta suas rendas acrescentando novas propriedades às que já tinha”. juntar. de amplitude. – Acrescentar é tornar mais longo ou mais complexo: acrescentar um parágrafo à carta. O que se junta ou ajunta forma parte integrante do todo. unir. pois que se torna mais intensa. identificou-se ele completamente com a sorte daqueles homens. . – Exemplos: afazemo-nos a uma tarefa nova.” Quando uma coisa cresce de volume. e este é o meio por que o aumento se verifica. ou à índole das pessoas prudentes. amoldo-me a todas as contingências: só não posso modelar-me pelo sentir dos ímpios. afinal. em regra. em relação a outrem ou alguma coisa. e modelar-se diz o mesmo. aumenta-se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 87 ca se pôde dar com os caprichos do noivo. “adicionar é reunir um todo (ou uma parte) a outro todo12 da mesma espécie: adicionar um ato à Constituição do Estado. – Aclimar-se é “afazer-se. acrescenta-se. o primeiro é o resultado. pouco a pouco. – Afeiçoar-se é “semelhante ao precedente: designa a ação de dar-se perfeitamente com alguma coisa (ou com alguém) amoldando-se a ela”. de força. como ficam duas superfícies planas que se juntam. de extensão. Ajuntar é pôr umas coisas junto a outras. pois. a raiva. ou para algum serviço ou função”. a alegria. – Identificar-se é “acomodar-se tão bem com alguma coisa como se se fizesse igual a ela”. acomodo-me à compostura. por exemplo. qualquer que seja o processo de crescimento. isto seria melhor juntar. apto para uma certa coisa. Aumentei o número dos livros da minha biblioteca. acrescer. nesta acepção. aumentar. aditar. adi- cionar. adaptam-se rapazes à vida militar. – Amoldar-se é propriamente “tomar alguém ou alguma coisa por molde ou modelo”.. – “O segundo” – diz Roq.” – Acrescer é. ela procura ajustar-se ao modo de ser do esposo. “ficar maior. – Aclimatar-se é o mesmo verbo. 126 ACRESCENTAR. – Afazer-se aproxima-se mais de habituar-se. sem constrangimento. adaptado da forma francesa. ou que não é propriamente o nosso”. como a soma para a adição. notando-se apenas entre os dois a diferença marcada pelo prefixo a de amoldar-se. adir. porque acrescentei alguns que me faltavam. aclimar-se-ão neste trabalho ou neste meio se tiverem perseverança e cautela. capaz. designativo de esforço por parte de quem se amolda: ideia que se não inclui em modelar-se. mais extensa por acrescimento. viesse. dizemos que aumenta. ajuntar. adaptar-se a um clima novo.

no entanto. Mas quem diz: “Creio que ele virá” – funda naturalmente a sua crença ou a sua confiança na afirmação daquele que tem de vir. É exato.” Isto quer dizer que ajuntar marca (pelo prefixo a = ad) a atividade. aos autos. – Entre ajuntar e juntar parece que há sempre alguma diferença. portanto. Se nestes exemplos substituirmos o verbo crer pelo outro. “creio que ela não descerá jamais àquela miséria moral”. só admite a forma pronominal recíproca: poder-se-á ainda dizer – “ajuntar-nosemos”. Crer encerra ideia de certeza profunda. Basta notar que se diz: – “juntamos os nossos esforços” e não – “ajuntamos.”. ajuntar.. mas sem dúvida ninguém se animaria a dizer – “adição constitucional”.. agregam-se essas ou outras”. Exemplo: “Convença-se de que me juntarei ao sr. Deu-nos adido e adição. e isso por uma injunção do nosso espírito. unir”. não – “eu me ajuntarei ou ajuntar-me-ei”. aliás. que a uma desfiguração de sentido que se explicaria talvez por uma vantagem do menor esforço com que pronunciamos crer em vez de acreditar. de convicção segura e inabalável. e aquele de formação latina. 127 ACREDITAR. mas aquilo que outros nos afirmam”. Todos dizemos: “Creio que ele virá” – querendo dizer: “Acredito que ele virá”. como se vê dos nossos léxicos.. (estarei junto do sr. e. em certos casos.. e como perfazer a soma”.. “Creio em Deus”.. deixando como apensa a coisa aditada”: adicionar exprime “acrescentar como adição. menos à imprecisa propriedade do vocábulo. que diz precisamente “ter como verdade.” (porque ajuntar.. ao discurso lido: casos em que adicionar não seria pelo menos de muito escrupulosa propriedade. é de mais lídima propriedade a aplicação do verbo acreditar. Juntam-se coisas homogêneas. que o próprio verbo crer. “ajuntamos laranjas.. – Confundem-se mui- to estes dois verbos. em vez de – “aditamento constitucional”. ajuntamos dinheiro” e não – “juntamos. como parcela que vai aumentar. aqui.. – Aditar diz. – Adicionar. o esforço do sujeito que põe uma coisa junto de outra: o que não se dá em relação a juntar. referindo-se a uma peça complementar da Constituição. pois cada parte agregada conserva a sua individualidade. É certo que dizemos – “ato adicional”. ajuntar. – Adir (de addere = ad + dare) significa “pôr ao pé. ou uma ou mais porções a um corpo fazendo-o maior. peça que lhe fica como que apensa. no entanto. portanto. Enquanto que o verbo crer significa “considerar como verdade aquilo que está no coração ou na consciência”.. ou por uma tendência ou um modo de ser da nossa natureza moral. . sugere também alguma coisa de dúvida no considerar como certa a coisa em que se crê. Aditam-se razões às que já foram produzidas: adiciona-se alguma coisa a uma coisa dada. mas provavelmente devemos isso. nunca – “me ajuntarei. este de formação vernácula.88 Rocha Pombo agrega. e neste caso. não o que sentimos. e é só por engano talvez que lhe damos a significação perfeita de acreditar. are) e todos designam a ação de acrescentar. “creio firmemente na imortalidade da alma”. É preciso. que se equivalem perfeitamente. adaptar. crer. parecendo. dos quais temos aditar e adicionar. notar que dizemos: aditar alguma coisa às provas feitas. aditar e adir têm o mesmo radical (do.) nesta questão”. por uma capacidade própria do nosso entendimento. Por isso ajuntar é aumentar o todo. e agregar é aumentar o conjunto. bastariam alguns exemplos para deixar clara a distinção que é preciso não esquecer entre os dois. “ajuntar ao que estava feito. é evidente que não faremos com a mesma precisão e a mesma força as afirmações que aí se formulam. que enuncia apenas o “ato de se pôr ou de ficar uma coisa juntamente ou em cooperação com outra”.

– Acudir é “correr em socorro de alguém”. salvar. A quem madruga Deus ajuda. IX. Há metais acros. junto da pessoa que se deve socorrer. dá-se socorro (ou socorre-se) ao que não tem o suficiente. quebradiço. 128 ACRO. – Amparar supõe o desvalimento completo da pessoa que se ampara. no entanto. como se vê dos seguintes provérbios em que no uso ordinário se não pode substituir um pelo outro: Deus ajuda aos que trabalham. auxiliar. nos julgamos inteiramente perdidos. foi aquela (auxílio) admitida com certo ar de nobreza. (Lus. necessita cuidados assíduos para conservar-se. vem apenas completar o nosso esforço e a nossa capacidade de defesa. Depois que os poetas e escritores cultos foram alatinando a língua. e o protetor dá-lhe um auxílio poderoso para que ele se revigore. e esta (ajuda) passou para o domínio do vulgo. Aquele que nos grita: Acudi-me! – solicita ansiosamente a nossa assistência nalgum perigo em que se encontra. ou para que multiplique as próprias forças e se ponha ainda mais no caso de alcançar o que almeja. abandonados. guardem.” – Quebradiço é o que se quebra facilmente. que disse sentenciosamente: Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. em lendas fantásticas e contos da carochinha. cujo socorro se pede. defender.. não sucumbam. 80). – Frágil aplica-se ao que. Acudir dá ainda ideia de que a pessoa pela qual se grita deve fazer tudo pela nossa salvação. O vidro é quebradiço. E a inversa é também admissível: só porque alguém nos socorre num grande embaraço. Nada mais frágil que “a saúde”. espúrios. e precisa de ter mais. sendo duro e pouco dúctil. Manoel. IV. ou em Jesus. isto é – aumentar a força de alguém que já não se julga fraco. e amparo (ou ampara-se) ao que nada tem”. O protegido não é sujeito que precise de socorro ou de amparo. como ainda se vê em Camões. era ignorada ou não usada até princípios do reinado de D. que é latina (auxilium). frágil. ou mesmo num perigo. Nem sempre quem acode socorre efetivamente. ajudar. e o mesmo aconteceu com o verbo ajudar relativamente a auxiliar. da Acad. – Segundo dêmico Francisco Dias (Mem. “acro se diz do que. socorrer. Dá-se ajuda (ou ajuda-se) a uma pessoa que está embaraçada com trabalho que não pode fazer. a que se empregava era a portuguesa ajuda. – Bruns.. “segundo o aca- . mas acredita em visões. não se segue necessariamente que nos haja acudido. valer. os que precisam de amparo. ou aumenta a minha força... isto é. – Auxiliar diz propriamente “dar auxílio”. forças etc. dá-se auxílio (ou auxilia-se) ao que já tem meios.. Quem me auxilia apenas concorre para que eu vença. Mais vale quem Deus ajuda Do que quem muito madruga. amparar. – O mesmo se pode dizer de quem me ajuda. protejam para que não caiam. Escreve Roq. – Socorrer não implica a ideia da presença da pessoa. 37) a palavra auxílio. mas antes de auxílio. pois entende-se que nós. além de ser quebradiço ou deteriorável. ou para que o faça mais prontamente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 89 Muita gente não crê em Deus. que. 129 ACUDIR. proteger.. não pereçam. se quebra ao ser trabalhado. Só se amparam aos desvalidos. de que os sustentem. – Proteger envolve ideia da superioridade de quem guarda ou ajuda. acolhe e abriga. Quem nos socorre. a minha capacidade de triunfar. quando gritamos. isto é – que tenha vindo solícito ao lugar em que perigamos.

delatar. “Quem me valerá nesta contingência?” 130 ACUSAR. – será um homem irritado. que aviltam neste mister uma parte dos cidadãos. paga. – Segundo Roq. quer acudindo-lhe e dando-lhe socorro oportuno e eficaz. e defere secretamente o que ele crê ter visto. embaraço. – Delator vem do latim delactor: é um indivíduo que procura. Bern. Man. outras (e são as mais comuns) é ato de malevolência. ou por interesse. para que façam o que entenderem. quer ainda amparando-o vigorosamente ou defendendo-o”. já para assegurar-se da verdade da denúncia.. e pode fazê-lo cumprindo dever de cargo. deixando este encargo às partes interessadas. A acusação pode ser às vezes um ato bom.90 Rocha Pombo Quem nos defende é como quem se pusesse entre nós e o nosso inimigo e dos golpes deste nos guardasse. ou mesmo para evitar ataques previstos ou repelir agressões”. toma-se à má parte. incriminar. ou exercendo direito . intentando uma ação criminal de roubo. malsinar. aqui.. “Valha-nos o céu nesta amargura”. que trafica às escondidas da honra e vida de seus semelhantes. e por ofício. “O acusador – diz Alv. O denunciante pode ser levado somente do zelo do bem público.. in- culpar. Mais extensamente. o delator satisfaz sua maldade acusando os crimes ou delitos contra as leis. o acusador acusa aberta e publicamente. para fazerem a perdição da outra. Os delatores formam a classe mais vil e infame: são a arma dos governos fracos e corrompidos. salvar. desastre etc. acusador. – Acusar é denunciar alguém como criminoso. Pas. e que animam a calúnia com o interesse”. de assassínio. e muitas vezes o que deseja fazer que se creia: o seu ofício é o de trair. mas o delator é uma personagem odiada. “denunciar é manifestar aos juízes um delito oculto. a palavra acusador é odiosa. etc. ou suspeitas ao governo”. e é designado pela frase de vil delator. um traidor que finge viver com os outros em termos de boa amizade para vir no conhecimento de seus segredos. – Salvar “é pôr alguém livre ou a salvo de algum perigo. um homem vendido. e talvez a de algum vil interesse. Quando a acusação é justa. defender “é ficar ao lado de alguém para impedir que outrem se aproxime hostilmente. que dá interpretações criminosas às coisas mais inocentes. já para evitar ou remediar o mal que se denuncia. denunciar. o denunciante. um judas infame. descobre.. – Delatar acrescenta à ideia de denunciar a de malevolência. delator. o delator obra por maldade..) – isto é – que lhe acudisse. e nas demandas chama- -se autor ao que intenta ação contra o réu ou acusado. quer auxiliando-lhe os esforços. Contudo. denunciante. criminar. que se aproveita de um abraço para introduzir no bolso do que chama amigo papéis. malsim. culpar. – Acusar. amparar. que serão o seu corpo de delito. Mas quem acusa articula fatos com que pretende dar provas do crime ou da falta por que acusa. reclamando a devida punição”. acudir. o denunciante nutre seu zelo fazendo conhecer às autoridades as ações e opiniões condenadas em política. por preço. e não acusador. um homem corruto. “Vendo-se já no último perigo recorreu a Deus que lhe valesse” (P. arguir. – Malsinar é acusar como malsim. nunca pelo bem público: procede com disfarce e ocultando-se. isto é. um homem indignado. é “atribuir a alguém falta ou crime. quer protegendo-o. O malsim exerce o seu ofício em tudo que respeita aos contrabandos. fundada e nobre. sem apresentar as provas. Nos tempos modernos o uso tem quase fixado o valor de cada uma destas palavras.. – Valer aqui é muito próximo de socorrer. como fazem os malsins. 131 ACUSAR.

brocardo. segundo Roq. mas decerto não seria próprio designar nenhuma dessas frases por adágio. – Parêmia pode ser comparada a provérbio: é menos usada que este. tendo portanto um sentido translato que apenas corresponde à noção que se quer sugerir.” (IV. mas inculpar-me assim este gesto. pronunciá-lo por criminoso ou réu”. Diríamos: “Pode arguir-me de muita coisa. dada em poucas palavras. a máxima . pois é uma sentença moral mais profunda. – Todas estas palavras enunciam conceito. menos de não ter sabido defender a inocência”. sugestiva. e que significa provérbio. “lé com lé. “dizer ou declarar alguém autor de um crime. conceito. dando normas ou noções em que se representa a experiência dos tempos. a moral vigente. – Sentença é um provérbio mais solene. cla- ra. rifão. Distingue-se adágio de provérbio: primeiro – em dar o adágio noção simples e clara. e enunciando conceito menos vulgar. apodos e chufas que de adágio ou provérbio. breve e incisivo. ditados ou anexins. apotegma. – Adágio não se confunde com dito.” – Arguir é “acusar de falta. seco de forma. senhor. sem formular propriamente acusação”. e exprime “sentença sob uma certa forma de alegoria. no entanto. preceito. São mais vizinhos de ditérios. como o rifão. melhor do que criminar. significa “reduzir a crime. paremia. considerar como crime um certo ato”: e nesta acepção é bem distinto do outro. “Poderá arguir-me de tudo. graçolas.. O anexim. considerar alguém como culpado. – Inculpar é “ver como culpa um ato que talvez não o seja”. axioma.. não só rude. delito. ditado. frívola e sempre velada. e a terra para os homens. ou os grandes princípios de ciência ou de arte.. a frase. 132 ADÁGIO. – Criminar (criminari) é. “Gato ruivo do que usa disso cuida”. máxima. quase sempre mais longo. dizendo: “E daqui nasceu aquela paremia ou provérbio: que o céu era para Deus. segundo – em ser o adágio sempre anônimo. princípio. é levar muito longe e arriscar muito a sua argúcia de juiz. – Prolóquio é sentença menos grave e profunda. cré com cré – cá e lá más fadas há” – podem ser tidos como rifões. – Culpar é “atribuir culpa a alguém. provérbio. a sabedoria vulgar. exprobrar culpa como invectivando. em termos precisos. ou que foi consagrado pela razão humana em todos os tempos. prolóquio. ou de parábola concisa”. trocadilhos. Dizemos: “as sentenças. parêmia. repreender com acrimônia. rifão – quase todos exprimem conceito exclusivamente moral. Adágio. – Incriminar tem-se geralmente como sinônimo perfeito de criminar.. ou provérbio. prolóquio. e em ser o provérbio mais grave. tudo que se tornou clássico. ou os provérbios de Salomão”: e aí não caberia nenhum outro dos vocábulos do grupo. paremia é palavra grega (paroimia) pouco usada em nossa língua. ou sentença vulgar. Note-se. fazendo censuras mais com veemência do que com razões”.. muito menos por sentença. em frase rápida. como o ditado têm uma forma. provérbio. nem paremia ou máxima. e de sentido ainda mais profundo. ou o código não incrimina esta conduta.. pensamento. dar-lhe culpa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 91 ou faculdade própria. pode mesmo culpar-me de imprudente. máxima. 324). e como tal usou-a Vieira. aforismo. rifão ou anexim. mas quase sempre chula. anexim. mas apenas por indícios. mais brilhante de forma. anexim. – Culpar e inculpar estão em caso análogo. dito. e como que condensam. Segundo Roq.. dito. ditado. que incriminar. sentença. Neste exemplo: “Se a lei. e mais vulgar que provérbio: propriamente é “a sentença. brocardo. sentença. enquanto que provérbio pode ter autor conhecido. que juiz há de puni-la?” – não seria permitido o emprego de criminar.

I. e em regra tem quase o valor da máxima. égide. de ação ou de execução. broquel. escudo. ditado e anexim confundem-se: o dito quase sempre tem ares de pilhéria. e deixou As que Ele para si na cruz tomou. e armas de arremesso. no entanto. pois esta é sempre uma noção resumida por grande autoridade moral. – Apotegma é “juízo ou sentença. quer tratando-se de ciência. ou no uso que das mesmas se fazia. – Pensamento e conceito são palavras de significação mais vaga. quer de arte. mas que se diferençavam na matéria ou na forma. mas eloquente. como se vê daqueles versos de Camões: Vede-o no vosso escudo. aproxima-se de axioma. – Escudo vem do latim scutus (do grego skútos “couro”. a máxima é sempre moral: o ditado pode exprimir apenas um conselho. – Preceito pode aproximar-se dos precedentes: é também uma norma ou regra de conduta. e que anuncia o assunto que se vai desenvolver. que cobre a embraçadeira que está por dentro. todas estas palavras designam “armas defensivas. “regra de conduta. Por isso. ou qualquer coisa que interesse ou que seja útil”. o ditado é dos três o que mais se aproxima de adágio. e que serviam para cobrir o corpo. ou de dever. com seu brocal. – Segundo Roq. de ciência.. e daqui veio chamar-se também escudo às armas de uma família ou de uma nação. de arte. palavra comum à língua castelhana. um simples conceito vulgar.92 Rocha Pombo pela qual começa alguém um discurso ou um escrito. profunda atribuída a uma alta autoridade”. preceito ou noção expressa em breves termos”. ou mesmo por um período todo. porque os primeiros foram de couro) e significa a arma defensiva oblonga ou oval. (Lus. Pa- . a mais conhecida de todas e a mais forte. golpes de espada. precisa. – Aforismo tem menos de científico e de preciso do que axioma: designa também. dar uma noção. “dito notável ou palavra memorável de algum personagem ilustre”. muito usadas antes da invenção da pólvora. que é também “enunciado aceito por todos como sendo de si mesmo evidente”. pavês. – Princípio é mais do que preceito. Na qual vos deu por armas. que provavelmente vem do bouclier francês e do buccula latino. e nisto distingue-se dos outros. se impõe. E é exatamente por isto que se distingue máxima de ditado: este é anônimo e popular: a máxima é menos comum e tem autor quase sempre conhecido e até indicado ao ser ela proferida. dando um conselho. de religião. ou o ponto de vista que vai ser seguido pelo orador”. que presente Vos amostra a vitória já passada. nele pintavam os guerreiros suas letras e divisas. Este é o que se prescreve. os dardos. Além disso. no meio tem um embigo de metal ou diamante. uma verdade. sentença jurídica ou moral criada por alguma grande autoridade”. o que já foi tão suficientemente demonstrado que dispensa mais demonstração”. pensamento é menos preciso – é “uma proposição de forma simples. se dá como regra: princípio é “o que está consagrado pela razão vigente. 7). – Dito. significa escudo pequeno de madeira forrado de couro forte. Um prolóquio vale sempre por uma proposição. enfiava-se no braço esquerdo pelas braçadeiras. e que em poucas palavras dá um sábio conselho. ou parte dele contra os botes de lança. porque se fizeram logo de ferro e aço. – Brocardo é “máxima que se popularizou. e designam apenas um juízo enunciado com intenção de exprimir uma verdade. pois o preceito pode ser de moral. Conceito é a síntese de uma noção a que se chegou pelo estudo ou pela reflexão. Broquel. 133 ADARGA. ou. rodela. como diz Aul. Também os havia de metal.

– Quanto a estes verbos escreve Bruns. 134 ADIÇÃO. – Adição – diz as somas do gasto de cada um dos sete dias da semana.. de aix “cabra”). designa uma espécie de escudo pequeno e delgado. obtemos um número equivalente a todos.. ainda que impropriamente. e significa escudo oblongo de couro com duas embraçadeiras em que se enfiava o braço. proteção”.. antecipar. avantajar-se. Quem se adianta marcha resoluto para a frente.. mas nem por isso devem considerar-se como sinônimos perfeitos.. a segunda exprime que os meus negócios não se desenvolvem..: “Consideram-se estas palavras como sinônimos perfeitos: a quem se prontificou a fazer-nos um trabalho por certo preço. falando dos habitantes de Moçambique.... uma diferença subtil entre as duas expressões: adiantar refere-se ao ato. – Total é o número equivalente a várias somas parciais. – Égide é palavra latina. soma. vingar.. e com a hastea perigosa. entre mouros e africanos.. no entanto. “meus negócios não progridem” – há sempre uma diferença facilmente perceptível. total.. ADIANTAR-SE. Adicionando (ou reunindo) progredir... florescer.. diz ele: Por armas tem adargas e terçados . – Rodela. obtemos a soma do gasto desse dia. antecipar a mensalidade”. Distinguem-se ainda estes dois verbos nestes exemplos: “o mal. No sentido figurado quer dizer “defesa. portanto. não aumentam na proporção dos meus esforços. porém. œgis (do grego aigis. O uso também confunde soma com total. – Avantajar-se significa “levar vantagem a alguém. Com a adarga. – Progredir é. Há. – Adiantar-se e progredir podem confundir-se.. 87).. 135 ADIANTAR. cheia de serpentes.. escudo ou couraça de pele de cabra. tornou soma e adição sinônimos perfeitos. vai seguro.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 93 rece corresponder ao clypeus dos latinos. “fazêla efetiva antes da época ou do dia em que deve adiantá-la”... prosperar.. (Lus. e significa propriamente o escudo de Minerva ou Palas.. as mensalidades pagam-se adiantadas.. “Nos colégios. e que vem do árabe addarca ou addara. feito da pele da cabra Amalteia. e uma abertura onde se metia o dedo polegar para o segurar.. – Todos estes verbos dão ideia de “ir para diante no desenvolvimento próprio e natural”. adiantamos ou antecipamos alguma quantia à conta dele”.. – Soma é o número que se obtém ao praticar a adição. Em dois lugares faz Camões menção desta arma defensiva. Era arma antigamente usada em Espanha. 136 Bruns.. “os dias daquele enfermo se adiantam” (e não – progridem). em Portugal. palavra igualmente comum à língua castelhana. 47. mas entre estas duas frases: – “meus negócios não se adiantam”.. e em cujo centro estava a cabeça de Gorgona ou Medusa.. isto é. que era escudo menor dos peões. ajuntando um ou vários números a outro. em atividade vitoriosa: quem progride anda também para diante.. O uso. medrar. e que vem do italiano rotella. I. . – Pavês (do italiano pavese) era escudo grande e oblongo. o pai de um aluno pode. obtemos o total do gasto dessa semana”. a doença progride” (e não – adianta-se). que cobria todo o corpo do soldado. desenvolver-se com presteza. antecipar ao tempo. escudo de couro. Fazendo a adição das verbas despendidas num dia da semana.. A primeira diz evidentemente que meus negócios não se encaminham à solução que eu desejo.. – “é a operação pela qual.. – Adarga é palavra comum à língua castelhana.

partido. começou a estudar e a conhecer o ocultismo”. “Apesar de todos os contraventos. Partidista é quase o mesmo. nem “sectário de Jesus ou de S. faccioso. filho – disse o deputado ao colega sonhador – não encontrará adeptos”. – é “o aumento. habilitado a receber os princípios. “A causa da independência alcançou logo um grande número de adeptos”. Quando eu digo: “Aquele rapaz tem-se avantajado muito nos seus estudos” – quero exprimir que o rapaz de quem se trata tem feito muito mais do que outros. partidista. – Sectário diz propriamente “membro de uma seita. parcialidade.. ou o novo partido já conta bom número de iniciados”. grandes vidas. e sugere ideia de obstinação e fanatismo. crescer não obstante algum entrave. pois o iniciado considera-se apenas “admitido a iniciação”. ou o complemento terminativo não está claro.. ter bom êxito. que se convenceu e aderiu ou se ligou a uma seita. ser feliz”. – Partidário é “membro de um partido. partidário. estabelecimentos. “A tua reforma. como vingam os nossos planos. quando observa que adepto designa um modo de ser. Paulo”. “sectário de Lutero”.”. Além disso envolve também ideia de heterodoxia ou dissidência. – Iniciado (ao contrário do que pensam alguns) parece que diz menos que adepto. um verbo de predicação sempre relativa. Medram o menino que cresce. ou que se fez defensor de uma ideia”. a paixão com que se toma o partido. esforça-se muito. crescer na fortuna”. de uma escola filosófica. É. quer em volume.”. ou mesmo de um partido”. – Adepto é “o que foi catequizado. “O novo credo. faccionário. ou de uma ideia”. e iniciado designa mais um estado do que uma condição: conquanto isto não signifique de forma absoluta a impropriedade de iniciado como puro substantivo. Dizemos: “sectário do calvinismo”. – “A ideia fundamental do verbo medrar – diz Bruns. nunca: “sectário do Cristianismo”. Tem razão Bruns. força ou poder”. adepto esforçado de uma causa. “F. a entrar nos mistérios de um culto. a população que se multiplica”. sequaz. e por aquela estultícia vitoriosa de que se ufanam. os interesses que aumentam. distinguindo-se este do primeiro em exprimir melhor o empenho. como florescem povos.. “F. é de supor que fica subentendido. pois dizemos: “Os iniciados da religião bramânica”. iniciado. desenvolver-se brilhantemente”. parcial. 137 ADEPTO. Vinga a flor. ou do que o comum dos estudantes. de uma doutrina: diz mais neófito propriamente do que adepto. “Eles se nos avantajam pelo ar desenvolto.94 Rocha Pombo fazer mais ou melhor do que outrem”. como ainda florescem países. sectário (sectarista).. conseguir o seu fim. as nossas esperanças. isto é. ade- rente. “Aquele tipo não te avantaja em coisa alguma”. ganha muito. as searas que abundam. “Tu te avantajarás a Pedro se fores esperto.. gerações. que se deixou influenciar.”. a um partido. seita. mas nem por isso se pode dizer que ele prospere. – Florescer é “ir prosperamente em tudo. “As rendas se lhe aumentam sempre. mas os seus negócios não prosperam”.. cidades. mesmo nos casos em que a cláusula correlata não está expressa. prosperar com esplendor. deixando supor que o sectário é sempre alguém que se afastou da sua antiga religião ou do seu partido. como vai feliz na vida. – Vingar aqui (vincere) é próximo de medrar: significa “tomar vitalidade. quer em quantidade. O que prospera não só se desenvolve e aumenta. pois. assecla. o que é certo é que a empresa não deixa de prosperar”. Florescem letras e artes. de uma ciência. O partidário pode pertencer apenas a . prosperar. porquanto. trabalha em excesso. etc. as noções. está iniciado no ocultismo” – equivale a – “F. a causa ou a ideia. – Prosperar é “ir adiante. facção.

ornato. aderente sugere menos ideia de convicção ou de identidade de opiniões entre a pessoa que adere e a causa ou partido a que se faz adesão. o grupo dirigido por um chefe”. e parcialidade é o “bando. mais vistoso. na expressão – é comum a todos os verbos deste grupo. desordeiro. e por pouco se não diz sinônimo do nosso brasileirismo capanga. 138 ADEREÇAR. portanto. ornar. Além disso. aprimorar. de aliança. ideia de subserviência. de “adornar de coisas ligeiras. A facção distingue-se do partido em significar “grupo ou ajuntamento hostil e secreto contra outro grupo. mas decerto ninguém dirá que uma senhora se adereça de fitas. melhor do que assecla. Raros. o que vai como se fosse na comitiva ou no séquito de alguém”. enfeite. professar as ideias ou opiniões desse partido. conquanto não pareça muito próprio. atavio. da cegueira com que o assecla acompanha alguém ou alguma coisa. portanto. Além disso. Ninguém diria que. confunde-se com assecla: apenas sequaz envolve. “adornar de adereços”. ideia de parcialidade ou partidismo pessoal. isto é. ou mais correto no gosto. que deu a sua sanção. pois atavio é adorno mais falso que enfeite. insignificantes: e o segundo mais ainda que o primeiro. no entanto. perturbador. A facção só se faz partido quando assume o caráter e a força de coletividade legítima. designando este o sectário apaixonado de forte espírito de seita. – Adornar e . – Diferença análoga pode notar-se entre faccionário e faccioso13: o primeiro diz apenas “membro de facção”. adorno. enfeitar. a uma causa que até aí havia hostilizado ou combatido. vãs. ou deseja disfarçar algum defeito. – Aderente se diz daquele que aderiu. ornamento. ou se enfeita. – A ideia de tornar belo. decoração. – Assecla (como se vê da própria formação: ad + sequi) é “o que segue alguém. partidos. a que se enfeita quer parecer mais bela do que é. embelezar. ou contra instituições. entre eles poderiam confundir-se ou ser empregados indistintamente. – Sequaz. trabalhando francamente por uma causa. de adornos de oiro ou pedraria. o verbo enfeitar é o mais genérico e vulgar. aqui. de joias. por exemplo. afeito a maquinações”. gala. E como já vimos. decorar. e sim que se enfeita ou se atavia com as penas do pavão. separação. e mostra-se por isso mais fútil ainda que a pessoa que se enfeita. seita diz dissidência. ataviar. ou mesmo contra um homem”. enquanto que partido designa apenas “reunião ou conjunto de indivíduos que defendem as mesmas opiniões. mas o partidista exalta-se na defesa do seu partido. A liga ou aliança de algumas parcialidades pode formar um grande partido. no aspeto. o seu apoio a um partido. a pessoa que se adereça quer brilhar. embelecer. da causa que se servia. alindar. Uma senhora se adereça. Um só partido pode dividir-se em várias parcialidades. pela ideia. ou que se enfeita de joias. sedicioso. de liga. primor.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 um partido. a que se atavia exagera ou dispõe sem gosto os seus adornos ou enfeites. – Enfeitar e ataviar aproximam-se. (Aliás. desligamento da doutrina que se professava. engalanar. isto é. ou se atavia. “pertencente a facção”. aformosear. apaixona-se pela sua causa. é “o indivíduo que se liga a outro indivíduo”. que sugerem. do que ideia de incorporação. Sugere. esforça-se pela vitória. ou sustentam a mesma causa”. 13 Também entre sectário e sectarista. adereço. faccioso vale por “viciado de espírito de facção.) – Adereçar diz. or- namentar. algum partido ou seita. ou que se atavia de brilhantes. e emprega-se frequentemente em casos como o exemplo acima. – Parcial. a gralha da fábula se adorna. a uma ideia. até pela etimologia (sequi). adornar.

na pugna. infantis. Sendo. taful”. mas é claro que referindo-nos a um exercício que seja mais mecânico do que de raciocínio. ou na marcha. ou uma virtude. de mais imponência. ou pelo menos de rigorosa propriedade dizer que a cidade se embeleza). fazer-nos mais destro.” 139 ADESTRAR. ou de alguma operação.96 Rocha Pombo ornar diferençam-se tão bem como adorno e ornato. Ninguém seria capaz de dizer: “vou adestrar-me na filosofia. etc. Mas note-se que não dizemos: adestrar na música. ou no salto. pois esta forma significa não – “fazer belo simplesmente” (embelezar). linda criança” (e não – “formoso ramilhete”. deixa supor que os adornos de que se decora têm um fim especial. a alma. e no entanto. Lindo exprime “belo gentil. afinal... e que só se alindam coisas muito mimosas. aparato de festa. correto. nem “formosa criança”: mesmo porque – “formosa criança” já seria outra coisa). Também ornato deve confrontar-se com ornamento: este é uma decoração mais brilhante. Pode-se. se se aceita a definição dos lexicógrafos. – Embelezar e embelecer. nalgum ofício ou função. Aproxima-se por isso de ornato.. ou na matemática: salvo se nos referimos apenas à técnica de algum instrumento. – Exercitar é mais genérico. – Aprimorar é dar ao que é já belo. exercitar. E isso porque adestrar diz propriamente “fazer-se muito hábil.. Dizemos: “lindo ramilhete. é trabalho de acabamento. de um palácio. Aprimora-se a educação. porém. – Tanto se adestra um animal como um homem. Ornato aplica-se mais a coisas. de uma câmara só se faz excepcionalmente. nas manobras militares. rápido. e para algum ato ou função extraordinária e de grande solenidade. e no entanto. ou na poesia. portanto. mas – “tornar belo cada vez mais” (embelecer). e diz “tudo que aumenta a beleza”. ou políticas – em tudo. de algum processo. portanto. nas quatro operações aritméticas. A ornamentação de um templo. entre ornar e ornamentar. próprio do edifício ou da coisa de que se trata. o caráter. de lavor artístico”. por exemplo. etc. A mesma diferença há. mesmo o espírito. são sinônimos perfeitos. loução. uma expressão primorosa. instruir. elegante – um alto grau. num edifício. ágil” – portanto. ensinar.. Ainda outro: “Para a festa vamos embelezar toda a praça. numa função que não seja puramente espiritual. como se aprimora uma obra de arte. e adorno tanto se aplica a pessoas como a coisas. e excedem naturalmente ao simples ornato. ingênuo. etc. Dizemos que se aformoseia o estilo. ou mesmo em alguma aptidão especial – no desenho. adestrar a memória. e designa “o que. – Aformosear e alindar apresentam a mesma diferença que se reconhece entre formoso e lindo. uma excelência suprema. na datilografia. desembaraçar. na escrita. Esta. mas este sugere ideia de brilho. Pode-se também adestrar num certo sentido: na corrida.. mais sumptuosa e augusta. alegria ruidosa – tudo que se encerra em gala. mesmo numa produção literária. tornar-se perito. as nossas mãos. no tiro ao alvo.” (não se diria que vamos embelecer. etc. pelo exercício. aliás. primor “o alto grau de perfeição a que se eleva aquilo que se aprimora. à custa de esforço. gracioso. e mais talvez de decoração. na dialética.” (não seria próprio. ou mesmo os nossos braços. em que é possível. Aformosear e alindar estão em caso correspondente. – De ornamentar aproxima-se engalanar. e designa toda e qualquer ação de “aumentar as aptidões. ou na ciência do direito. a capacidade. bastará um exemplo para deixar bem clara a distinção que se sente entre estes dois verbos: “A cidade se embelece de dia em dia. a . num artefato. seriam perfeitamente lídimas estas outras formas: adestrar-se nas lides parlamentares. ou na economia política”.

malévolo quase sempre. que adiar é “transferir por dias”. Prorroga-se uma sessão do Congresso. isto é. e ensina-se um papagaio a falar. Nestes exemplos: “A língua se amplia adaptando de outras os termos novos de . repetindo muitas vezes. demora-se um processo. um despacho. no entanto.) Adiam-se negócios.. equivale a instruir. por meio do exercício”.. – A um papagaio ensina-se. – Prorrogar é “dilatar um prazo que se venceu”. no entanto. 140 ADIAR. Evidentemente não seria próprio dizer que se adiou uma comemoração. por exemplo. infundir-lhe doutrinas. noções ou princípios. – Todos estes verbos sugerem ideia de espaçamento. reformas. – Demorar confronta-se com retardar: ambos dizem – “fazer que se espere. – Protelar = “demorar. no entanto. transferir. profissão”. mas podendo ser também por mero capricho. – Contemporizar é “entreter. prorrogar. fazer parar. a função ou o processo que a isso se destine. – Remanchar = “demorar com certa manha”. formando-lhe. remanchar. etc. alongar. ordinariamente por desídia. – Instruir é “preparar alguém nalguma arte ou ciência. – Aprazar é “assinar um tempo certo (prazo) para alguma coisa”. protelar. para mais tarde”. Retarda-se uma solução. dilação. Notemos. Difere-se uma resolução. numa virtude. esperto. – Ampliar confunde-se com dilatar: aquele sugere. trabalhos.. etc. lépido. diferir. do que propriamente ideia da ação de quem instrui. prolongar. conquanto não tenha a força deste. (Aul. procrastinar. ou por muito tempo. – Transferir diz a mesma coisa. exprimo nada menos do que exprimiria se dissesse: “instruamos a mocidade”. “o governo procrastina a solução de um negócio de tal monta”. ou para impedir que da coisa que se protela alguém se aproveite se não for protelada. estirar. da função de transmitir o que deve ser aprendido. Instruise um batalhão. – Adiar é “deixar para outro dia”. – Diferir é “deixar para depois. – Procrastinar é “remeter continuamente para o dia seguinte o que se deve fazer”. ou a um cão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 97 força. e neste caso. num cargo. como construindo-lhe o espírito”. segundo os lexicógrafos. mas não se instrui um macaco ou um papagaio. retardar de propósito”. dilatar. Quando digo: “ensinemos a mocidade”. o vigor. não dar no tempo oportuno”. comunicar-lhe. isto é – afasta-se o termo desse prazo. diligente. que ensinar. mister. delongar. demo- rar. num trabalho. uma ideia de extensividade que se não encontra em dilatar. como se ensina alguma coisa a um cavalo. pois quem instrui opera sobre o espírito do que é instruído. Exercitamo-nos numa profissão.. uma entrevista. demorar para ir ganhando tempo”. com algum fim. – Dilatar é “ampliar um prazo que se fixara. entravar ou reter por um certo tempo”. Mas retardar quer dizer propriamente – “deixar para mais tarde”.. hábil nalgum ofício.. envolve mais ideia do processo. do trabalho. Observase. “Nós insistimos por que se faça a coisa com urgência”: e ele a contemporizar muito impassível”. subentendendo o complemento indireto da predicação. contemporizar. Pode-se usar também este verbo ensinar como só transitivo. espaçar. mesmo neste caso. ampliar. sem marcar prazo fixo.. Apraza-se uma negociação. retardar. aprazar. ou uma grande festa para o ano próximo. do vencimento de uma letra. e demorar exprime – “não mover. Dilata-se o tempo que se tinha para fazer alguma coisa. para enganar. um negócio. resoluções. “O tribunal anda procrastinando a sentença”. mais espaçoso”. Prorroga-se uma licença. – Desembaraçar pode aproximar-se do primeiro verbo deste grupo: diz precisamente “fazer expedito. a época de pagamento de um imposto. torná-lo mais largo. instrui-se a mocidade.

.. por desídia. Ninguém diria. e naturalmente só se diz de coisas que sejam longas. ou de compreensão. mas em cada uma delas há uma relação particular em que consiste sua diferença”. ou entre atos que se repetem. portanto. “Apesar vosso levarei a minha adiante”. – Estirar e espaçar significam. Malgrado seu é o mesmo que “a mal de seu grado”. ou que tenhais . e podia ainda alongar-se essa rua prolongando-a. isto é – “ainda que vos pese. ou um quadrado perfeito. Também não se compreende como se alongaria uma cabeça humana. mas ninguém dirá que uma serpente se amplia quando se distende. que se alonga uma esfera. – Segundo Roq. ainda. de mau grado. neste outro exemplo: “. – Apesar indica mais forte oposição. contemporizar. e assim enchendo tempo. – Alongar. não obs- tante. vinda das pessoas ou das coisas. que só tenham uma dimensão característica. que vencemos. mágoa com isso que se faz.. e delonga-se adiando-a indefinidamente. prolongar e delongar apresentam entre si as diferenças marcadas pelos respetivos prefixos. tornar maior um interstício. e de outro lado até uma outra rua. Do mesmo modo. e dificultando-a sempre. um prazo. as memórias gloriosas daqueles reis que foram dilatando a Fé. mas alonga-se dando-lhe mais extensão. o Império. uma rua. “todas estas locuções adverbiais exprimem uma oposição. quer dizer “de má vontade. Prolonga-se e também se alonga uma linha. e sim – “vou dilatar. ainda que. procrastinar. demorar: significa propriamente – “deixar para depois. a qual não é eficaz para impedir a ação.. difere-se quando. ou numa certa direção e até um dado limite. com desgosto meu”. de uma parte até à praça. 141 A DESPEITO. com desgosto ou desagrado. aqui. Uma rua que se prolongou até uma praça por isso mesmo alongou-se. e sem marcar a ideia de fazer aumentar em todas as dimensões. para outra ocasião”. salvo se se lhes quer mesmo mudar a forma. e nem o mesmo valor. – Significando a palavra grado “vontade. – aí não caberia decerto o verbo dilatar. sem dar ideia de limite. Prolongar é “estender para diante uma coisa longa”. apesar. “vou ampliar a minha oficina com mais uma secção de roupas”. tornar mais vasto. por mais que. em que não só há desgosto senão também sentimento.. bem que.98 Rocha Pombo que precisa”. se deixa para depois. a ideia de fazer maior a distância entre diversas coisas. ou de nossa mesma vontade. procrastina-se prometendo sempre dá-la “amanhã” e não dando nunca. “Submeto-me de malgrado” quer dizer “contra minha vontade. ou por alguma conveniência ou cálculo. Uma serpente contrai-se e dilata-se: e tanto se dilata engrossando. Mas: demora-se uma solução quando não se cuida de dá-la. malgrado. sem sugerir noção de proporções.. (Camões. Delongar confronta-se com retardar. e significa “contra sua vontade”. indica. é claro que malgrado. contemporiza-se quanto à semelhante solução falando em dá-la sem fazê-lo. Também não se diria: “vou ampliar no mundo a vossa fama”. isto é. 2) – não caberia o verbo ampliando. sem embargo.. Espaçar enuncia. “convém ampliar a todas as classes do curso primário aquela medida”. e contra a qual obramos”. Alongar é “fazer mais extenso ou comprido”. esta locução oposição ou resistência de pessoa estranha. retarda-se a dita solução deixando-a para mais tarde. ou resistência. pelo menos não teria a mesma propriedade. prolonga-se estendendo-a a começar de um dos extremos. como se reconhece em ampliar. consentimento”. como se dilata distendendo-se. portanto. mais aberto. conquanto. embora. fazer mais longo. uma moeda. mais ou menos forte. diferir. posto que. I. isto é. pois este verbo é que significa “estender. etc.

etc. e phemi “digo”) e vale o mesmo que dizer antes ou predizer. prognóstico.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 99 pesar” farei o que intento. em despeito do juramento. A despeito das leis. ou admitido que seja assim”. – Agoirar é o verbo latino auguro ou auguror.” – Por mais que exclui toda dúvida e indica resolução firme. predição. É mais forte que ainda que. vaticínio. – Sem embargo indica uma resistência menor de coisas ou circunstâncias. queremos predizer o futuro. nos quais não têm seu uso próprio as locuções não obstante. e exprime “por mais que assim pareça ou que seja de fato. aquele aprende mais porque é mais aplicado. isto é – “com pesar. que significava antigamente “predizer o futuro pelo canto. adivinhação...” – Vindo despeito de despectus “desprezo”. com mágoa beijo a mão. “Faz calor não obstante ter chovido”. que não cede a oposições. e por extensão. o gesto.. 142 ADIVINHAR. não obstante andar doente”.. seus sinônimos. hoje é “conjeturar por certos sinais ou pressentimentos sobre o futuro. hei de vencer”. presságio. ou sem embargo. “O homem virtuoso observa pontualmente os preceitos de sua religião. – é o gênero a que os outros pertencem como espécies”.. de onde veio divinatio. “Por mais que me hostilizem. – “O último destes vocábulos – escreve Roq. falando dos cinquenta sábios que se renderam à doutrina de S. – Predizer é o verbo latino predico. “Conquanto este seja mais inteligente. era entre os pagãos “predizer o futuro por uma espécie de inspiração que eles supunham divina”. – Profetizar é verbo grego. e às vezes acertar com o que há de acontecer”. Confirma-se mais nossa asserção por outro lugar do mesmo Vieira. profetizar. e neste sentido se usa hoje quando. “Não deixarei de protestar ainda que me matem”. “Apesar meu. vel pastu futura divino). “Amanhã hei de ir ao campo ainda que chova”. porque se emprega também nos casos em que se trata de uma oposição puramente condicional ou possível. e significa literalmente “dizer uma coisa antes que aconteça. é claro que a locução a despeito. o pasto das aves” (propriè est ex avium cantu. profecia. – Adivinhar. beijo a mão que desejara ver cortada”. – Ainda que tem mais extensão que as duas antecedentes. em latim divino. sem declarar por que modo se veio a sabê-la nem dar a conhecer o grau de autoridade que merece quem a prediz”. e a despeito do imperador”. do próprio dever. e mais fácil de vencer: exclui o embaraço ou impedimento que pode delas resultar.”. por certos incidentes insignificantes. – Conquanto enuncia oposição ainda menor do que sem embargo. – Não obstante exclui simplesmente uma oposição. sem embargo dos insensatos motejos dos ímpios”. – isto é – em desprezo das leis. pelo despeito com que pisa igualmente os palácios dos reis e as cabanas dos pastores”.. “conjeturar de qualquer modo”.. pressagiar. prophetizo (de pró “antes”. com a diferença que é termo bíblico e teológico. ou dificuldade absoluta. “Sem embargo das queixas dos povos o mau príncipe prossegue em suas opressões”. “Digam embora que eu fugi”. – Posto que = “dado mesmo. predizer. agoiro. diz: “A constância firme até à morte com que defenderam a mesma verdade apesar. “Saio de casa. prognosticar. agoirar. Bem se autoriza esta inteligência da palavra despeito com o seguinte mui elegante lugar de Vieira: “Tem-se acreditado a morte com o vulgo de muito igual. etc. Catarina. gestu. mesmo que”. vaticinar. ou em despeito. – Bem que = “ainda assim. onde. – Embora indica pouca atenção ao embaraço ou à contrariedade. a que chamamos agoiros. tem mais energia e aumenta de força por ajuntar à ideia de oposição ou resistência o desprezo com que se vence. Isto pertence aos outros. resistência. e tem a significação restrita de ..

segundo o poeta. astrólogo. precipitada. serve particularmente hoje esta palavra para indicar um enigma que se propõe a alguém para o decifrar. forma mui facilmente o seu prognóstico acerca da crise e do termo da doença. Heaut. – As predições que faziam os vates chamavam-se vaticínios. pelo qual se prediz alguma coisa futura. os astrônomos. no mesmo sentido em que o usaram Cícero e Terêncio: Is igitur qui ante sagit quam ablata res est dicitur prœsagire. – Os astrólogos faziam inumeráveis prognósticos acerca de acontecimentos futuros. etc. mágico. chamavam-se agoiros (angurium. quiromante. – O dom sobrenatural de conhecer as coisas futuras chama-se profecia. era predizer.. o presságio é uma conjetura legítima e razoável. bruxo. a que Scaligero dá por origem o grego phátes “falador”. O médico. Deste gênero são os sinais de que fala Virgílio no livro I das Geórgicas. e daquele estro ou furor que estimula o poeta quando estende as vistas sobre o futuro. 1. 31) Nescio quid profecto mihi animus prœsagit mali (Ter. em linguagem técnica. – “O adivinho (do latim ‘divinus. 7). tendo bem examinado o doente. João I e que o nosso Camões cita como um presságio daquele feliz reinado dizendo: Ser isto ordenação dos ceus divina Por sinais muito claros se mostrou Quando em Evora a voz de uma menina Ante tempo falando o nomeou. divino’) é “– diz Bourguig. id est avigerium. IV. e sagio “penetro. à phates). e assim se podem chamar ainda hoje aquelas conjeturas que os políticos for- mam sobre a sorte futura das nações. id est futura ante sentire (Cic. “predizer. e assim mesmo o anúncio que destas coisas faz o profeta. conheço”) e significa. e que. guiados por mais seguras regras. Extensivamente aplica-se depois a qualquer sucesso ou sinal indiferente de que a superstição se valia para ler no futuro. prognosticam os eclipses. – Vaticinar. da natureza dos objetos sobre que se faz o prognóstico”. vate. e feito o diagnóstico. De Divin. e gignosko “sei. profeta. o que sucedeu em Évora no tempo de El-Rei d. De tais sucessos não se deve tomar nem bom nem mau agoiro. que ainda o p. haríolo. ou que os homens têm como tal. os eclipses. raramente falham. como a entendiam os antigos.. e supersticiosa. e às vezes nascida de um pressentimento instintivo que não engana. por meio de discurso certo ou conjetural. mandin- gueiro. prœsagio (de prae “antes”. porque eram acompanhadas de certo canto poético. aquele . etc. I. II. ter pressentimento.100 Rocha Pombo anunciar as coisas futuras em virtude do espírito de profecia. – Tudo o que se prediz antes de acontecer é predição. 143 ADIVINHO. fundados nas analogias e probabilidades que lhes ministra a história.. – O agoiro é uma conjetura fútil. de vates. os prognósticos dos políticos e estadistas.. pressagiaram a morte de Cesar. das aves. 3). necromante. no voo. sinto”) e significa “pressentir. (Lus. Quando as predições se fundavam no canto. por uma espécie de tino interior de que se não sabe dar razão. é ilusória. vel avigarrium. – Pressagiar é verbo latino. ou profetizar cantando. e enfim. porque nenhuma conexão têm com o que há de acontecer. e somente é um sinal que indica ou anuncia coisa futura. como disse Camões: Que o coração presago nunca mente. fundados na suposta influência dos astros. Vieira tinha a simplicidade ou mania de apontar como causas de grandes desgraças e calamidades. avium garritus). – Todas estas predições provêm do homem: não assim o presságio. – Prognosticar é o verbo grego progignosko (de pró “antes”. feiticeiro. – Sendo certo que a adivinhação. “mentiroso” (fatuos primum vates vocatos esse apud omnes satis constat. o qual se não pode chamar uma predição. em latim vaticinor. –” propriamente falando.

. . bruxo é palavra de etimologia muito duvidosa. no entanto. mas ainda o poder sobrenatural de praticar ações maravilhosas. As ciganas são quiromantes. não somente o dom de conhecer coisas ocultas. ou para os debelar. e que lhe permite executar livremente toda sorte de prodígios. e muitas vezes também em descobrir e revelar o futuro. A faculdade de conhecer que possui o adivinho estende-se sobre todas as coisas. quer se lhe atribua a sapiência a um dom da Divindade. em causar dano aos homens ou aos animais. Mandinga é a feitiçaria grosseira dos negros. do inferno e emprega-o sobretudo em fazer mal. superiores ao poder humano. ou a bruxa é. ou mesmo à sua sagacidade natural”. o presente e o futuro. – Vate era o que fazia vaticínios. O do mágico (de magia. ciência dos magos) provém de conhecimento das ciências ocultas. muito sagaz. consideravam-se os adivinhos como homens inspirados do Céu. eram tidos. O bruxo. – Astrólogo era o sábio versado no segredo dos astros e conhecedor da sua suposta influência nos acontecimentos humanos. ao contrário. e a quem se atribuía o dom de predizer o futuro. o que profetizava cantando. Esta segunda acepção conserva-se no sentido figurado para designar aquele que anuncia. e mais ainda que tudo isso. semelhante dom. com efeito. a pessoa que tem pacto com o diabo para fazer malefícios.. Toma-se não raramente à má parte esta palavra. penetrando subtilmente nos pensamentos dos outros. pois. muito destro. e hoje reserva-se o vocábulo para designar o grande poeta. e reservava-se para os profetas exclusivamente a inspiração divina. como ainda hoje se lhe chama nas aldeias da Itália meridional). o feiticeiro e o necromante possuem. na maior parte das quais era indispensável o lume para brucciare (“queimar”) as plantas e ingredientes auxiliares das adivinhações em que o agente principal era o próprio diabo (il brucciato. para saber deles o futuro ou as coisas ocultas aos vivos e que os espíritos podem revelar”. praticada ainda hoje em alguns lugares do Brasil. – O feiticeiro (de feitiço “encantamento”) em francês sorcier (de sort “destino”) é aquele que tira sortes: recebe seu poder do demônio. Entre os pagãos... e compreende o passado. cuja visão genial alcança o futuro. operar metamorfoses. transportar-se para onde quiser. e phemi “digo”) era. conhecimento que lhe submete todas as forças da natureza. os acontecimentos que prevê: aquele que nos ameaçou de tais desgraças foi verdadeiro profeta. parecendo ser de importação italiana. Este parece termo introduzido pelos africanos. É este último sentido que o vocábulo conserva geralmente no figurado: designa então um homem muito hábil. etc. quer se lha atribua ao estudo das ciências ocultas.. e manteia “adivinhação”) é propriamente o que prediz o futuro das pessoas pela inspeção das linhas da mão. não emana da divindade. – Haríolo era o charlatão que dizia “a sina mediante uma espórtula”. – O mágico.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 101 que se julga dotado de um poder divino para descobrir e conhecer o que está oculto aos outros homens. – Segundo Bruns. – O profeta (do grego pró “antes”. com mais ou menos certeza ou probabilidade. ou prevendo facilmente as consequências dos acontecimentos. e no sentido figurado emprega-se sempre para designar um personagem que faz coisas agradáveis e maravilhosas. – O quiromante (do grego kheir “mão”. pois a Itália foi na Idade Média fecunda em homens dados a toda espécie de ciências ocultas. entre os judeus e os cristãos. – Mandingueiro = “que faz ou usa mandingas”. dispor dos espíritos e dos gênios. ou cuja arte se reduz a evocar os mortos. um homem que se julgava inspirado de Deus. – O necromante (do grego nekrós “morto” e manteia “adivinhação”) é “um mágico que evoca os mortos. como simples feiticeiros ou mágicos. isto é.

sem que medeie coisa igual entre uma e outra”. O adjetivo completa ideia do nome e o sentido da proposição: é necessário. – Vizinho é o que se acha “mais por perto de nós”. limítrofe. Se tiramos o adjetivo. ere “tocar”). necessária para modificar ou determinar a sua ideia. 145 ADJETIVO. menos distante”. pegado. Ninguém diria que. quer outro significa ‘vocábulo aposto. ou uma superfície da outra) que não fique espaço nenhum entre a coisa que está junta e aquela a que se junta”.. não dando apenas a mesma ideia de ligação perfeita que se inclui neste último. Aproximam-se de fronteiro. – Confim (ou confine) e confinante dizem propriamente – “que tem o mesmo fim. sem graça. nem confinantes. confinante. – Unido quer dizer “tão junto (um objeto. regiões. mais pitoresca. Mas. O adjetivo acaba a imagem do objeto: o epíteto dá-lhe colorido. propriedades rurais (todo território de extensão determinada) podem ser limítrofes. pois que zonas. É claro que a coisa imediata pode não estar unida à coisa precedente. confim. – epíteto é termo da eloquência e da poesia. Considerando. próximo. tratando-se de duas coisas. paragens não têm fim preciso ou limite certo). Limítrofe é o mais próximo de contíguo. a mesma linha divisória”. e se a extensão não é certa. o uso mais particular que se dá a cada um deles – adjetivo é termo da gramática e da lógica. unido. ou fronteiros. vizinho. – Imediata. Neste sentido genérico. junto. distritos. e aquele só se aplica em referência a países. a casa contígua à minha é desta limítrofe. chegado confrontam-se. conveniente para vestir. pegado. Paragens. – Junto é o que fica ao lado. contíguo. epíteto diz o mesmo que na latina diz adjetivo: quer um. vizinhos: Não se diria: paragens limítrofes. o próximo verão. ou confinantes. Luiz: “Na língua grega. fronteiro. – Chegado diz menos que pegado: significa “muito próximo”. O epíteto faz mais viva. epíteto. – Adjacente quer dizer – “que está nas imediações. chegado. ou contíguos. é “a que se segue à primeira. e pôr-lhe a ideia vivamente em destaque. ou em geral a territórios. a proposição muda de termos: se tiramos o epíteto a proposição fica sem ornato. imediato. ou unidos. O espírito justo emprega o adjetivo mais próprio: a imaginação brilhante emprega o epíteto mais expressivo. e quer se trate de espaço. S. Marca-se assim perfeitamente a diferença entre confim e confinante. – Imediato. dá vivacidade e energia ao discurso: é útil e conveniente.. – Sobre estes dois vocábulos lê-se em fr. unido. As primeiras duas artes consideram o adjetivo como exprimindo uma qualidade do substantivo. porém. – Próximo diz – “mais chegado. ou se os limites não são fixos e precisos. Países. regiões. mas este é mais extenso. – Pegado é quase o mesmo que unido. os termos próprios serão adjacentes. Nesta frase: . ou ajuntado ao substantivo para modificar-lhe a significação’. confins. contíguas são extensões (ou coisas) que se tocam (con=cum+ tago. ornar. mais animada a ideia. pois só podem ser confinantes ou limítrofes territórios que tenham fim certo e preciso (limite) e cujos limites se encontrem. províncias. zonas confins (não – confinantes. quer de tempo. sem energia. limítrofe. forma arcaica de tango. e fronteiras são extensões (ou coisas) que ficam ou que estão uma defronte à outra: não é necessário que estejam contíguas ou unidas. a próxima semana. pode-se dizer que os dois coincidem exatamente um com o outro. por exemplo.102 Rocha Pombo 144 ADJACENTE. contíguo. É mais ainda que contíguo. A casa ou a aldeia próxima. As outras duas consideram o epíteto como exprimindo uma qualidade do substantivo. mais do que próximo. que jaz perto”.

como se vê deste exemplo de Vieira: “D. etc. – Espanto diz – . – Conjurar é mais que protestar contra a obsessão e que ordenar ao demônio que saia do corpo de um atribulado: é fazê-lo sair. exorcizar (ou exorcismar). na surpresa que o assalta. susto e assombro confundem-se frequentemente. 148 ADMIRAÇÃO. Muitas vezes é empregado este vocábulo para exprimir a própria coisa que excita admiração. exorcismar) é “fazer as adjurações. proferiu aqueles horrores!. induzir energicamente. assombrado. etc. em plena Câmara. e completa o sujeito da proposição. – Empregam-se todos estes verbos em sentido figurado. que se faça alguma coisa”. surpresa. maldizendo”. Tirado o epíteto.. ficou admirado. de certa missão. fica o mesmo sentido. da pátria. ou está admirado de ver a justiça tão liberal quando a julgávamos tão somítica?” – Pasmo é a “admiração levada a uma intensidade tal que absorve todos os sentidos da pessoa que está pasmada”. arrebatamento. expulsá-lo com grande clamor. os esconjuros (exorcismos) próprios para expelir o demônio de um corpo”.. Mas adjunto se supõe sempre junto de uma outra pessoa (juiz. extasiado (extático). pasmado... designam pessoas (autoridades. é renegar abrenunciando. – Admiração é “o forte movimento de alma que em nós excita alguma coisa extraordinária. quer para substituí-las.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 103 ‘O homem justo é digno da imortalidade’ – o adjetivo ‘justo’ determina a ideia principal. repelindo. Pasmado. como se cria nos velhos tempos” – diz Bourguig. talvez melhor. quer para auxiliá-las. diz propriamente “tomado de admiração”. a fama da Universidade. adjunto do lente de geografia. transporte. e particularmente “ordenar ao demônio que saia do corpo de um possesso. arrebatado. adido. ou o meu assombro) quando o moço. e admiração de seus doutores.” – só uma distinção muito subtil é que poderia dar uma preferência formal por um dos três vocábulos. assustado. por exemplo: “Qual não foi o meu espanto (ou o meu susto. funcionários) que têm funções junto de outras autoridades.” – Admirado. êxtase. arroubado. assombro. Tirado esse adjetivo. enlevado. surpreendido (surpreso). 147 ADJURAR. enlevo. e quase pinta aos nossos olhos um hórrido objeto. – Espanto. Fernando. É certo que nesta frase. – Estes dois vocábulos Exorcizar (ou. Nesta outra: ‘A pálida morte pisa com igual despeito os palácios e as cabanas’ – o epíteto ‘pálida’ dá uma cor à ideia principal. o sujeito muda. o menino emudeceu”.. e a proposição é falsa. Dizemos: adjunto do promotor público. enquanto que adido se diz do funcionário. e que nós manifestamos principalmente pelo olhar”. espantado.). arroubo.. entusiasmado (entusiasta). transportado. aqui (com a função de predicativo). de alguma coisa sagrada.. etc. entusiasmo. “O sr. e com significação análoga à que lhes fica assinalada respetivamente. pasmo. Mas vejamos. etc. e adido de embaixada. 146 ADJUNTO. “Aquela cena estranha causa pasmo geral”. como dizem alguns autores: é “conjurar imprecando. maravilhado. admirado. em nome de Deus. ou que deixe de atormentar alguma alma.. conjurar. – Esconjurar não é apenas uma outra forma de conjurar. de um tribunal. esconjurar. maravilha. professor. mas a imagem descorada e amortecida”.. – susto. e na maioria dos casos sem muita razão. – Adjurar é “concitar com império. que fica junto de uma repartição. espanto. ordenar em nome do próprio Deus.

“ele é grande entusiasta do capitão”. em todo o delírio da sua fé”. ou às próprias condições da natureza. Dizemos: “pequeno susto. Entusiasmado é “o que está sentindo entusiasmo” (é um estado). e é tomado também este vocábulo como significando a própria coisa que nos surpreende. e no qual parece tomada de pasmo e maravilha”. – Susto é menos que espanto: é “espanto súbito. admiração profunda e solene”. abalo mais ou menos forte. “a grandeza dos Estados Unidos do Norte é o espanto de todo o mundo”. a assistência.. e muitas horas depois ainda a encontramos extática. pois este vocábulo já enuncia um estado de alma que é mais alarme do que espanto). “Ouvindo um lance daquela oratória grandiosa. “Ele está entusiasmado com a vitória”. ou aquela conquista surpreendente) põe-me na alma agitada mais maravilha que alegria”.. ficou por longo tempo em adoração diante da imagem”.. – Assombro é “grande espanto. é um como esquecimento da alma pela coisa que aprecia. “Naqueles arroubos da sua vida moral. um sobressalto. extática. Vemo-la extasiada se ela se mostra como entregue ao seu êxtase. entusiasta é “o que se devota com entusiasmo por alguém ou por alguma causa” (é uma qualidade). – Espantado. admira ou adora”. violenta impressão de surpresa e quase terror”.. extasiado da íntima alegria da bemaventurança. sacudida de paixão violenta”. pois o que o auditório sente é mais admiração que surpresa ou pasmo). se parece como absorta.” – Entusiasmo é “o estado de agitação e arrebatamento em que fica a alma. porque o que a população sente não é comoção de quase terror.. causado por alguma coisa inesperada”.. ou como tocada de centelha divina”.” – Arroubo (ou arroubamento) é o estado em que fica a alma “arrebatada de altas emoções. mas não seria muito próprio dizer (na acepção que lhes damos aqui): “pequeno assombro”. assustado e assombrado distinguem-se de igual maneira. – Enlevo é “um êxtase mais sereno. “Aquilo (aquela ação extraordinária.104 Rocha Pombo “admiração que é quase pasmo. ou aquele invento.. “O auditório está assombrado de ouvir aquela palavra tão nova.” (não – espantada. o pobre. – Arrebatamento diz – “admiração súbita e impetuosa”. que a fortuna não deixa durar muito. mais inconsciente e mais delicioso. tão brilhante e segura” (e não – assustados nem mesmo – espantado. e a nossa maravilha provém de sentirmos que tal prodígio excede às forças humanas. “Transportado de cólera. em pasmo. “Vieira foi o assombro do seu século”. grande susto”. – Êxtase (ou extasis) é “o estado de quase delíquio em que fica a pessoa que se arrebata.. É um estado semelhante àquele “engano da alma. – Surpresa é a “súbita impressão que nos causa alguma coisa que não esperávamos”. “O moço está espantado de me ver marchar” (não – assustado. gozando o seu arroubamento. daqueles transportes de alegria passou à demência. “A população está assustada com aquele boato que ontem correu. nem: “pequeno espanto”. pareceu-nos em completa transfiguração: enquanto ela (a noiva). arrebatada. e. Surpreendido é o que . ele vivia mais num instante do que outros num século”. “Ali ficou. encheu de um vasto e grave clamor todo o templo”. diante do altar extasiada. – Transporte é “arrebatamento da alma. “Senti um grande susto em toda a assistência”. “O noivo. – Maravilha (no sentido que lhe dá lugar neste grupo) é “sentimento de assombro tão vivo e intenso como se fosse produzido por alguma causa sobrenatural”. quase inconsciente nas profundezas do seu êxtase. mas apenas uma desconfiança. causado pela suspeita de algum perigo). como se estivesse incendida do próprio Deus. Fica-se maravilhado à vista de um prodígio. e sentindo-se como em deslumbramento de coisas divinas”. serena e extática.

e se nos referimos mais à condição que ao estado momentâneo em que ficou a pessoa que se surpreende. que procura entender as coisas do universo. portanto. – “encarar é olhar direito para fixar bem. – Observar e examinar confrontamse. ou o desplante. “Aquela criatura já considera gravemente na vida. até pela analogia da formação. espanto ou alegria”. perturbada”. E quer um. – Considerar (de con = cum e sidus “astro”) confunde-se muito com o precedente.. – Olhar e encarar poderiam confundir-se em grande número de casos. dentro do qual o áugure observava o voo das aves. quer outro destes verbos. autorizam-se com os clássicos. – Ver e olhar distinguem-se essencialmente. que entra na composição do verbo contemplar. como se a pessoa que contempla estivesse absorta. Tanto podemos olhar sem ver propriamente como podemos ver sem ter olhado. “Ele encarou de frente o inimigo” (e não – fitou). etc. Ver exprime o exercício da fa- culdade de “receber pelos olhos a impressão que nos causam as coisas exteriores”. mas é certo que o último acrescenta força e intensidade à ação do primeiro. da Sil. na floresta sagrada. sem embargo da restrição que fazem alguns autores quanto a ver. apreciar. devíamos dizer: “Ele fitou os olhos naquele ponto. ou cor-de-rosa”. Resta dizer que sugere também a intenção – o interesse. . “Vê-se com os próprios olhos. examinar. admitem adjuntos modificativos da respetiva ação. “Eu pasmava de olhar e ver o homem” (Garrett). A palavra latina templum. Mas a diferença entre os dois verbos consiste em ser a ação de considerar mais própria do espírito que indaga. em susto. dar de cara com. ou de relance. Examina-se um caso...). “Vivemos aqui. o espaço marcado no céu. Olhar é simplesmente “dirigir os olhos para algures. que vale mais por “perplexa. a coisa a examinar. para a abóbada celeste. vê-se vesgamente. Mas quem examina é de supor que tem perto. um problema. nem a capa lhe escapará nos ombros”. Em contemplar sente-se também a sugestão de ideia semelhante. ou vê-se preto. olhar. a contemplar as maravilhas de Deus”. – Apreciar é “ver com muito interesse. Considerar sugere a ideia de ter (quem considera) o espírito voltado para o alto. estudo minucioso e com muita atenção”. por que se os não tiver ambos abertos. “Como é que encara o sr. Como bem define Aul. com apreço”. – Examinar é “fazer inspeção ocular. dizemos de preferência surpresa. “Olhou e viu tudo cerrado” (R. encarar. entre outras coisas. a mercê de ver com ambos os olhos.” Mas tanto esta como a forma do exemplo acima. uma doutrina.. fitar. – com que se olha. ver. em grande pasmo para a coisa contemplada”. ou para os astros. olhar com atenção”. e quem observa só estuda ou considera a coisa a observar aplicando 14 Fitar significa “fixar (os olhos) com muita atenção”. – Fitar e encarar ainda se confundem mais facilmente. fitar os olhos em. uma paragem. e a de contemplar mais própria da alma que se enleva ou extasia.. ou a arrogância.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 105 está sentindo surpresa. – Admirar é “ver alguma coisa com grande atenção.. “Olha-se de esguelha. observar. M. no destino”. Quem contempla e quem considera entende-se. contemplar. consi- derar. e. ou com desprezo”. 149 ADMIRAR. uma obra de arte. – Contemplar é “admirar longamente. que está enlevado para o céu. ou para alguém ou alguma coisa”. mas bastam alguns exemplos para ver como se distinguem. etc. Vieira tem este exemplo: “Faça-me V. pois. a conduta deste moço?” (e não – fita). ou com maus olhos. ao alcance de todos os sentidos. significava. conquanto no uso vulgar muitas vezes se empregue um pelo outro. “Ele fitou14 aquele ponto com muita insistência” (e não – encarou).

apesar do que dizem alguns autores: o que é estupendo imobiliza-nos de assombro. atônito. 150 ADMIRÁVEL15. “Aquele discurso estupefativo deixava-nos imobilizados. impressionar vivamente. raro. ou porque não se encontra comumente”. abalado e suspenso ante aquela cena. magnífico. Não será o sermão admirável (isto é – ‘digno de admiração’). O astrônomo observa o céu (e não propriamente – examina). – Curioso é “o que desperta interesse. admirando. “cheio de estupefações”. ou que se impõe à nossa admiração”. estranho. – Estupendo é “o que nos causa espanto. Há na história lances estupendos e edificantes.. assombroso. Não se confundem também estupefaciente e estupefativo. Mas estupefaciente não é o mesmo que estupendo. Parece que o mundo ficou até hoje ali. monstruosas. – É admirável “aquilo que provoca admiração”. para estabelecer a respeito dessa pessoa um juízo seguro. tão nova e admiranda!.. como assombroso “o que 15 Roq. inverossímeis”. como no precedente. su- . extraordinário.” (aquele discurso cheio de coisas que nos deixam estupefatos. curioso. – Estranho é “o que. é fora das proporções usuais. dão no mesmo grupo.. esplêndido. distanciá-los. Vem ver como “está admirável a aurora!” (não – admiranda). desperta assombro”. – Excelente é “o que impressiona pela sua grandeza. – Singular é “o que impressiona por ser único em seu gênero. esquisito. também o seriam: estimável e estimativo. Mas incontestavelmente os sufixos vel e . ou porque excede ou está abaixo da medida comum”. pasmoso. excelente. Em estupefaciente e estupefativo encontra-se.. que sugere a ideia de bater. Uma cena de canibalismo é estupefaciente. exclamativas e admirações). – Espantoso é propriamente “o que causa espanto”. Observar a conduta de alguém é seguir-lhe os passos. pois este diz melhor que o primeiro “que gera estupefação”. e examinar a conduta de alguém é ponderarlhe os atos. como se a tivéssemos batida. – Todas estas palavras designam coisas que nos impressionam mais ou menos fortemente.).. viva atenção (curiosidade) por ser original. e não se pode dizer que seja estupenda. como em estado de estupor. isto é. que está causando admiração. (e não – estupefacientes).. soberbo. e maravilhoso “o que nos deixa maravilhados”. amável e amativo. estupefativo. etc. assombro tão grande que nos suspende. arrebatador. surpreendente. enquanto que admirável diz – “digno de ser admirado”.” (não com a mesma propriedade – admirável). Dão os lexicógrafos como tendo o mesmo valor o adjetivo admirando. estupendo. Se esses fossem sinônimos. porque sucede poucas vezes. e que por isso causa movimento de alma anormal”. a alma. mas será admirativo” (isto é – cheio de sentenças. – Extraordinário é “o que nos chama a atenção por estar fora da regra ordinária ou da ordem normal das coisas ou dos fenômenos. ou imprevisto”. estupefaciente. além de raro. pela simples definição. excitando a nossa emotividade. maravilhoso. – Surpreendente é “o que nos causa admiração ou espanto porque se nos apresenta de súbito e sem que o esperássemos”. afrontada de coisas anormais.106 Rocha Pombo apenas os olhos. pungir. o que é estupefaciente nos faz estupefato. grandioso.ndo marcam uma certa diferença entre os dois: admirando enuncia a ideia – “que está sendo admirado. como se a tivesse sempre debaixo dos olhos.. raro. e ainda melhor citando este exemplo de Vieira: “Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir. singular. a mesma raiz grega tup. como sinônimos. por assim dizer. – Raro é “o que se faz notar por não ser frequente. e Bruns. por ser extraordinário. admirável e admirativo: e eles próprios se encarregam de. espantoso.. distinto de todos os outros da mesma espécie”...

” “O pobre marido ainda lhe tolera todos os caprichos e extravagâncias. “sentir”) é. permitir. que vigiava sobre os costumes. “Pedro admitiu que o negócio fosse discutido lá mesmo no escritório”. avisar. – Soberbo é “o que se mostra augusto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 107 perioridade ou distinção”. – Advertir é “admoestar mais formalmente e com certa autoridade”. receber. e como que invetivando”. Os príncipes admitem à sua audiência os ministros estrangeiros16 e recebem em suas cortes os grandes senhores das outras”. cen- mitir indica um ato de urbanidade pelo qual se franqueia a porta da casa ao que de um modo decoroso a ela se apresenta. Um fidalgo admite à sua mesa e em sua sociedade um homem limpo a quem nunca visita. – Quem tolera alguma coisa é que a permite pelo silêncio. estigmatizar. fazer sentir uma inconveniência”. advertir. – Segundo Roq. 152 ADMITIR.” – Censurar é “repreender como por direito de função. – Quem admite alguma coisa deixa apenas que essa coisa seja ou se realize. pelo esplendor. produz pasmo. ou porque se lhe pediu – uma noção clara do modo como essa pessoa se . surar. entusiasmo impetuoso. Em Roma. – Magnífico é “o que. deixa que ela passe sem oposição. isto é. é “repreender acusando de vício.) que ela ignorava. – Admoestar (admonere. censor era o magistrado que exercia a censura. tolerar. repreender. consentir.. – Repreender é advertir. Mas quem avisa dá à pessoa avisada conhecimento de coisas (faltas. – Grandioso é “o que junta à grandeza serena e brilhante do que é excelso e majestoso a magnificência do sublime”. ameaçando de castigo. – Esplêndido significa “admirável pelo brilho e perfeição”. etc. no qual figura a raiz men ou man. imponente no seu modo de ser”: é mais que excelente: – é o que “sobreleva a coisas do mesmo gênero também excelentes”. consideração e correspondência. forte impulso de alma”. inspira um sentimento de admiração solene. pela pompa e majestade. de respeito religioso”. etc. circunstâncias. – Arrebatador é “o que produz admiração súbita. que sugere a ideia de “pensar”. – Arguir. as sociedades literárias e científicas recebem em seu grêmio os homens notáveis e doutos. A recepção é mais cerimoniosa: supõe certa igualdade. – Quem permite alguma coisa admite-a com autoridade.. “não só com autoridade. – “Antonio não permitirá que a escolta lhe penetre na oficina”. pela raridade. – Pasmoso é “o que. ou porque exceda ao que é normal. arguir. “em termos brandos e amistosos. chamar atenção para alguma falta. aqui. aconselhar. pela excelência. quem aconselha dá à pessoa que é aconselhada – ou porque espontaneamente se interesse por ela. “ad- ência ou por sentimento de dever. 151 ADMITIR. – Avisar e aconselhar confrontam-se. tacitamente.. concorrendo assim para que essa pessoa se dirija melhor em alguma conjuntura. mas com energia e mesmo com certa arrogância e aspereza. defeito ou falta.” 153 ADMOESTAR. que é uma como admiração quase passiva”. verberar. – Quem consente que alguma coisa se faça é porque se põe de harmonia com o sentir da pessoa que a quer fazer. “Ele há de afinal consentir que a filha case. sem castigo ou censura. e discutindo e mostrando a falta”. como se a aprovasse mais pelo desejo de condescender com outrem do que por impulso de consci16 Aliás. mas que recebe. As corporações. hoje não dizemos que o chefe de Estado admite o ministro ou embaixador.

– Mocidade vem-nos do castelhano mocedad (idade de mozo). Costuma-se dizer. Todos conhecemos jovens de quarenta anos. parecendo esta última expressão excluir a gravidade que o médico e o ministro devem ter. que alguém enfermou ou do coração. Verbera-se uma injustiça do tribunal. portanto – que F. ou com quem temos familiaridade. ou dever a cumprir) com a pessoa que é avisada. perfeitamente definido por Faria: “período da vida em que o organismo chega a desenvolver-se plenamente. “crescer”. está doente. repreender violentamente”. mancebo. e repreende-o se ele reincide na culpa. Mas adoece uma pessoa quando deixa de estar sã. idade subsequente à puerícia. censura-lhe a desídia. É de lamentar que o arguisse de males que não fez. a que evite a companhia de um colega desmoralizado. Não seria próprio dizer. do figado. juventude. reprovar com acrimônia. vigor. De um médico. “açoite”) é “arguir fortemente. juventude. ou o caluniador. Aconselha-se a um parente mais moço. porém. se esta o obriga a refrear os ardores da natureza. – Juventude é a quadra da vida em que se é jovem. ou de faltas que não cometeu. adolescente. portanto. Dizemos: – longa enfermidade: e não – enfermidade rápida. enfermar. principia com a puberdade. pois. de verber. Adverte o chefe da repartição a um empregado que não cumpre o seu dever. – Confundem-se beça. e que para avisar basta que a pessoa que avisa tenha motivos especiais de cuidado (interesse a zelar. mocidade. nem por isso está enfermo. quanto pode durar. ou parecer dignos da carreira que abraçam. ou de momento. e não – que adoeceu. e dura mais ou menos. ou posição social do indivíduo. ou de ouvidos. A latitude dada assim ao período da adolescência é corroborada pela Academia espanhola que a define: “la edad desde los catorce hasta los veinticinco años”. do coração. em que se tem força. – Adolescência – diz Bruns. Avisa-se a um amigo de que alguma coisa se trama contra ele. A mocidade será. Dizemos – doença do peito. – Estigmatizar (formação vernácula de stigma “ferrete”. jovem. – Verberar (verberare. para que não repita a falta. E depois do parto – que enfermou. segundo a constituição. enfermou momentaneamente. “marca”) é “verberar como indigna” (a coisa ou pessoa estigmatizada). portanto. 155 ADOLESCÊNCIA. Este vocábulo está. atendendo à sua etimologia. dos quatorze aos vinte e cinco anos”. Quem está sofrendo dor de dentes. moço. Principia quando a juventude. ter o conselheiro autoridade moral em relação ao aconselhado. assim como velhos de vinte e cinco. não – que é bom jovem. Segue-se que para aconselhar é preciso. púbere. por conseguinte. um ato iníquo do mau governo. temperamento. e enferma quando a moléstia é de tal natureza que a debilite. – vem-nos do latim adolescentia. Admoesta-se o filho ou o aluno. e com ela se confunde ao princípio. na linguagem comum. quando a juventude principia: não se sabe. Estigmatiza-se a calúnia. Não diríamos. Sabemos. a época da vida que prin- . de um ministro se diz que é bom moço. mancebia. e impetuosidade nas paixões. mas é suscetível de durar mais que ela. voz derivada do verbo adolescere. Também o que adoece naturalmente sente dor: o que enferma sente a fraqueza que provém do mal ou da doença. ou dor de ca- puberdade. de uma senhora que vai para o leito. ordinariamente estes dois verbos. e não – enfermidade. como se vê nos moços ambiciosos que procuram guindar-se pela política. no momento do parto – que adoeceu. ou do peito. e não – que enfermou. ou se supõe. mocidade. 154 ADOECER.108 Rocha Pombo deve conduzir em certo caso. isto é.

e venerando “o que se impõe à nossa veneração”. ou disposição que são próprios da juventude. tem no XC. – Puberdade é a idade em que o indivíduo se torna púbere. acatamento confunde-se com reverência e mesmo com adoração. gesto. – Acatável é a pessoa que merece o nosso acatamento. adorar é “amar com o mesmo extremo. – Reverência é a manifestação (por atitude. portanto. honrar.) de grande respeito por alguma coisa sagrada. ter debaixo de”) e significando. ou que a algum santo ou divindade acata – procura. mas em geral se usa por jovem. e depois a autoridade subalterna à autoridade superior que representava diretamente o soberano. formado de manus e capere “mão” e “reter. e tende a perdê-la de todo. No sentido figurado. Um homem de trinta anos já não é jovem. de respicere – re spicere – “olhar para trás”. abnegação. ou esta espécie de culto que rendemos às coisas em presença das quais nos sentimos humildes e de alma confusa e abalada.: “A voz jovem (do latim juvenis) explica a ideia absolutamente. “apto para procriar”. etc. aqui. – Respeito (respectus. a profunda estima. no entanto. significa rigorosamente o moço de poucos anos. adorar. “o grande apreço. pode-se. a condição de mancebo. e podem durar mais ou menos tempo. fervor. – Reverencia-se aquilo que merece o nosso culto. – Veneram-se os santos e as coisas santas. mas é pouco usado nesta acepção. em compostura de perfeita discrição e gravidade. A pessoa que a outra acata. a voz moço. – Veneração é respeito profundo. acata- mento. “não dar as costas”) é todo sinal de atenção com que vemos ou tratamos uma pessoa ou coisa. a explica comparativamente: porque a juventude é a idade do homem entre a adolescência e a idade varonil. as grandes virtudes. do latim mancipium (de manceps. No sentido próprio. . veneração. como algumas outras palavras deste grupo. em atitude de vivo apercebimento e vigilância.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 109 cipia com a puberdade. por meio de grandes demonstrações de respeito e submissão. do árabe mansubon17. reverenciar. – Fora da acepção que esta. como dos quatorze até os vinte e um anos. a consideração que se tem pelas pessoas a quem se devem tais sentimentos”. como a velhice. no sentido próprio. a nossa família. Por sua vez diz Roq. acatar. acatável. respeito. etc. – 17 Segundo outros. diante da pessoa que julga respeitável. dizer que “a mocidade é o espaço da vida compreendido entre a puberdade e a idade em que compete ao homem tomar estado. – Honra é. os grandes homens. isto é. só Deus é que se adora. venerável. e a mocidade é o tempo em que o homem conserva aquele vigor. Pode-se mesmo. a sabedoria. e acaba ao entrar na idade madura. segundo a rigorosa propriedade da palavra. considerar venerável como significando “o que é digno de ser venerado”. venerando. honra. parecer. que não é muito frequente nos clássicos”. – Mancebia significa propriamente a qualidade. palavra. – Venerável e venerando são definidos como sinônimos perfeitos. isto é. homenagem. venerar. – Adoração é ato de adorar. adorável. do espanhol mozo. porém ainda é moço. respeitar. e por extensão aquelas que pela sua grandeza moral assumem a nossos olhos um aspeto de santidade. sobre os trinta a trinta e cinco anos”. “o filho que ainda está sob a autoridade do pai”. conservar. renunciamento com que se ama a Deus”. reverência. Honramos os nossos pais. Adorável é “o que é digno de ser adorado”. 156 ADORAÇÃO. respeitável. era o juramento de fidelidade que o vassalo fazia ao senhor feudal. atribuindo à palavra moço a sua primitiva significação de solteiro. as grandes virtudes. – Homenagem. chamar a si o ente acatado ou insinuar-se-lhe no ânimo. – Mancebo. Quem respeita fica.

como diz Bruns. engrossador. aqui. pois louvaminhar não é senão lisonjear demais e continuamente. e o grau de perfeição com que é ela temperada. É mais termo criado pelo instinto de crítica do nosso povo para zurzir o vício de. adubo. que a tornem agradável”. obediência. – Adubar.. Quem engrossa. temperar. Também se emprega no sentido figurado: aduba-se a narrativa. alfândega. gabos. O bajulador humilha-se. nem por isso se tem na conta de indigno como quem bajula. alho. louvaminhar. 157 ADUANA. ou não ser sincero no louvar: não será baixo. homenagem é “o sinal de respeito. isto é. louvores afetados e fúteis. “a primeira destas palavras já quase desapareceu da língua: só a registramos aqui a título de curiosidade. portanto. e portanto que mais enojam do que louvam. tempera-se a frase. Aduana e alfândega são palavras de origem árabe. aqui. é que passa o lisonjeiro a ser adulador.110 Rocha Pombo 159 ADULAR. Um manjar que se condimentou com perícia é apetitoso e restaurador. cheiros. mas estende-se aos atos. E adular não se reduz a simples louvores ou ao intento de ser agradável só por palavras. e quando o não faz por uma requintada delicadeza será talvez com o pensamento de ganhar-lhe o coração. condimento. de coisas curiosas. lisonjear. a todo o esforço que faz o adulador por insinuar-se no ânimo do adulado. – Segundo Bruns. ‘armazém’) depositavam-se as mercadorias sujeitas a direitos. – Lisonjeiro (ou lisonjeador). aduaneiro.. No sentido que tem aqui. soez. Aduba-se um prato especial para F. daí vem o dizer-se ainda ‘tarifas aduaneiras’. vinagre. é termo de gíria. – O louvaminheiro não é tão sórdido como o bajulador. engrossar. nem sempre pelo menos. e para explicação do seu derivado aduaneiro. – Tempero é a quantidade dessas coisas que se juntam à comida. Só quando a lisonja é calculada. no entanto. – Bajular exprime ação ainda mais abjeta que a do verbo adular. abrir caminho adulando os chefes de quem dependem as posições. compreende-se que – ‘movimento aduaneiro’ se refira aos ingressos de direitos. juntando-lhe sal. – Condimento é a porção mais substancial dos adubos e que serve não só para tornar a comida de cheiro e de sabor mais delicado. é o que enuncia ação que nem sempre é vil. O lisonjeiro não é.). submissão e acatamento que se tributam a uma pessoa que consideramos como nosso superior”. adulador. é “juntar à comida que se prepara os adubos (como tomate. . fazer louvaminhas. – Temperar a comida é “dar-lhe o sabor próprio. o discurso. – “serve de capacho ou de sabujo”. – Engrossar. de todos os vocábulos do grupo. de fazer-se-lhe simpático. alfande- gário. e não se satisfaz “só com palavras. e – ‘movimento alfandegário’ à quantidade de mercancias que passam pela alfândega”. Condimenta-se o estilo. ‘escrever’) registravam-se as mercadorias sujeitas a direitos. Estabelecida esta diferença. bajular. empregado em linguagem popular para dizer o mesmo que lisonjear com certa intenção de insinuar-se no ânimo do lisonjeado. condimentar. lisonjeiro (ou lisonjeador). como para fazê-la mais nutritiva. na alfândega (de fundag ‘depósito’. repugnante. pimenta. excessiva. em política principalmente. É quase adular. nem mesmo se envilece como o que adula: será talvez mais próximo do lisonjeador. bajulador.. 158 ADUBAR. mas vai até os serviços mais asquerosos” que dele exija o bajulado. mas de etimologia diferente: na aduana (de dana. tempero. etc. louvaminheiro. pode ser exagerado. um sujeito indigno. Quem lisonjeia pode querer apenas tornar-se agradável ao lisonjeado. – Tanto condimentar como temperar se usam também no sentido figurado.

Este verbo contrafazer sugere. a de evolução natural. do esforço que outro fez – do que propriamente a ideia de falsificar. diminuindo o valor à coisa falsificada. Aunar é. falsificar é também convizinho de contrafazer. no entanto. unir. falsificar. – Imitar é menos ainda que contrafazer. aunar. coisas diferentes. Quem contrafaz. é preciso que nos unamos contra o inimigo comum”. tendo radical comum. Por isso. Imitar é. Carlos Magno pretendeu adunar à fé católica povos de mui diferentes crenças”. imi- 111 tar. como se imitam gêneros de comércio. mais a ideia de infringir direitos alheios. unificar.. enquanto que falsificar só se aplica propriamente a coisas materiais. dizendo. pois (quer se trate de coisas. “Os governos prudentes aunam os partidos. de força. etc. os membros da mes- . “são. converter num todo. reunir. “Coadunam-se os vários grupos políticos para conjurar a crise”. Adulterar distingue-se ainda de falsificar em poder empregar-se no sentido translato. Adunar é trazer com esforço. – Coadunar acrescenta à ação de adunar a ideia acessória de concurso. no entanto. e ad em adunar. porém. procedendo natural e brandamente. estragando. 161 ADUNAR. portanto – “adunar muitas coisas”. “um”. exprimem. por meio dos respetivos prefixos. segundo Bruns. Aunar e adunar. é inegável. e adulterar é alterar a pureza própria de uma coisa dando-lhe outro aspeto. portanto. batidas da catástrofe”. “Adunaram-se as hostes. Adulteram-se vinhos. Quem contrafaz pode imitar com tanta perfeição que se torne difícil distinguir a coisa legítima da coisa contrafeita. pode muito bem ser que não estrague o produto. congregar. pois ambos são formados do latim unus. aliar. de aproveitar alguém. Unir é “juntar (coisas semelhantes. O prefixo. a em aunar. ajuntar. aunar e coadunar. coisas diferentes que se pretende unificar. aumentando-lhe ou diminuindo-lhe o peso. “Vamos unir os nossos esforços.. portanto. incorporar. – Adunar. e apresentam. reunir. estabelece uma nuança diferente. – Unir. agregar. Imita-se a conduta de alguém. quer de atos). que opiniões ou ideias se falsificam. mais sensível diferença de ação que a notada entre os três precedentes. e como que impelindo. nem lhe tire o valor próprio: é possível até que a coisa contrafeita seja superior à coisa legítima. Não se poderia dizer. em seu favor. coligar. nuanças da mesma ideia fundamental. “fingir com tal perfeição que aquilo que se imitou não se distinga facilmente da imitação”. corrompendo. Mas falsificar é fazer isso. deixa pior a coisa falsificada que pretende fazer passar por legítima. Quem falsifica estraga sempre. pois a coisa imitada nem sequer incide sob a sanção dos códigos. ou mesmo coisas diferentes) de tal modo que pareçam uma só coisa”. Falsificase um produto de indústria introduzindo no mercado (e com o mesmo nome e com todas as aparências de que seja o mesmo) um outro produto que não tem as mesmas qualidades daquele. agrupar. o volume. que muito convém ter em conta: ad envolvendo ideia de impelimento. como se adulteram ideias. contrafazer. com perfeita lidimidade. ligar. unificar têm ainda o mesmo radical. Unem-se os esposos. e a. Apenas as imitações nunca têm ou só excepcionalmente chegam a ter o mesmo valor da coisa imitada. etc. – Adulterar e falsificar confundem-se facilmente: exprimem ambos “a ação de tirar a uma coisa as qualidades que lhe são próprias”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 160 ADULTERAR. opiniões. “Aquela desgraça adunou os dois chefes”. como se imita uma obra de arte.. o mesmo vocábulo. coadunar.

aquele significa “inclinado como se quisesse. e “o emissário foi encontrar os irmãos reunidos na casa do tio” – percebe-se bem claro como são distintos fundamentalmente os dois verbos. uma secção de circunferência (arco). Nestas frases: “a desgraça encontrou os irmãos unidos”. Reunir é mais congregar. alegando atenuantes ou justificativas em seu favor e procurando destruir a acusação. – Curvo indica a forma da figura que não é reta nem quebrada. incorporar do que unir”. O advogado do autor aduz provas mais positivas e cabais contra o réu. etc. “gancho”) diz propriamente “em forma de gancho. ou se fosse tomar a forma de arco”. “Aliaram-se o Brasil. Ligam-se partidos. ou de anzol”. alegar. “juntar argumentos. – Ligar. curvo. Reunir é “dar unidade a coisas que se achavam dispersas”. pois. ou em grupos diferentes”. a argumentos já formulados. – Agregar e congregar apresentam diferença análoga à que se nota entre adunar e coadunar. sugerir necessariamente a ideia de ficarem reunidas ou juntas. mais ou menos curvo”. pois. . Têm ambos o mesmo radical (grex. e congregar “reunir todo o rebanho. em relação a ligar. gregis. – Alegar é. – Agrupar é “reunir em um só grupo. se não da mesma natureza. como coadunar em relação a adunar: aplica-se mais propriamente quando são muitas as pessoas. portanto. que se ligam. – Ajuntar é “reunir com mais cuidado e trabalho”. – Arcado é um tanto diferente de arqueado. Este diz propriamente “em forma de arco”. etc. incorporar no rebanho”. os grupos. recurvado.” Arqueados são os supercílios de uma menina (e não arcados). isto é. mas que representa. Unificar é “fazer de várias coisas. o advogado do réu defende-o. Unificam-se dois ou mais Estados (reúnem-se sob o mesmo governo supremo. “Uniram-se os chefes contra o ditador” (e não – reuniram-se). Este verbo reserva-se para exprimir a ação de celebrar acordo de mais importância. – Aduzir (adducere é “jun- tar a razões já expostas.. (não ligaram-se). e mais particularmente entre nações. aliam-se formando um só).112 Rocha Pombo ma família. Aliar (ad+ligare) sugere ideia de esforço mais ponderado e formal que fizeram os que se aliaram. 163 ADUZIR. uma à outra. do mesmo partido. chamar ao aprisco todas as ovelhas”. aliar e coligar enunciam a mesma ideia de “fazer acordo moral” (sem. outras razões e argumentos que deem força aos primeiros”. em regra da mesma ordem. ajuntar. ar- queado. a República Argentina e o Uruguai”. etc. conservam o mesmo valor e a mesma distinção que têm no sentido natural. e também “tornar a unir coisas que se tinham desunido”. ou para defesa de uma mesma causa. uma companhia. “Reuniram-se os deputados para a eleição prévia” (e não – uniram-se). facções. as pessoas que se ligam ou aliam).. Dizemos: “O pobre velho já está ou já anda muito arcado (e não – arqueado). 162 ADUNCO. etc. “Reúnem-se as forças para a batalha” (não – unem-se). – Incorporar assemelha-se a reunir: é “juntar uma coisa a outra ou muitas coisas entre si. “rebanho”) e dizem. de fazer pacto mais solene. um só todo”. Incorpora-se um exército. de modo a fazer-lhe mais difícil a defesa. arcado. – Recurvado é “meio curvo. Numa acepção mais ampla. com pouca diferença ou irregularidade. indivíduos (não – aliam-se). Coligar está. propriamente: agregar “fazer vir ao aprisco.. Ligam-se indivíduos. curvo e terminado em ponta. se se põem de concerto quanto a uma certa questão. de modo que formem um só corpo”. – Adunco (ad + uncus.

não se pode dizer que seja um forasteiro. ou mesmo que nele vive sem certos direitos (os políticos) e sem certos deveres (o do serviço militar). ou do lugar onde chega. ou que nele se fixou. ou com os respetivos antônimos. que está de passagem”. entretanto. – Alienígena (alienus “alheio”. pois o adversário é com efeito aquele que se voltou contra nós outros. – Resta notar que todos estes vocábulos só se empregam em relação. quando queremos exprimir que o indivíduo estranho aí não tem intuito de fixar-se no país como os que nele se acham. Os povos de origem latina são adventícios na América. ou desde que tenham aqueles indivíduos perdido a sua própria): o mesmo não se dá em relação a forasteiro. contra o erro em que alguém está. demonstrações de defesa. contra aquilo que se afirma em oposição à justiça.. ádvena. – Todas estas palavras designam pessoas que não nasceram no. ou seguindo diferente opinião ou partido. quando fazemos alusão à nacionalidade do indivíduo. que nele está. – Ainda que o interesse e o amor-próprio sejam de ordinário as causas por que muitos se fizeram nossos adversários. etc. que não é do país. Dizemos: adventício. pois esta palavra designa melhor o indivíduo que é hóspede na terra onde se encontra. – Segundo Roq. mas apenas da cidade. “mudado”. que os referidos povos aqui são ádvenas. indivíduo ou raça que não é a própria do país em que está”. quando consideramos o que veio de fora em relação ao que estava no país. alienígena. o peregrino. diferente da dos filhos do país onde o estrangeiro está. ádvena aproxima-se mais talvez de estrangeiro que de adventício. em confronto (expresso ou tácito) com os que são nascidos (indígenas) no país onde está o alienígena. foras- teiro. pois este vocábulo deixa supor que o que chega há de sair logo. Estrangeiros podem ser até indivíduos que tenham nascido no país em que vivem (desde que os pais lhes conservem a nacionalidade de origem. e dizemos alienígena. Segue-se disto que forasteiro ainda é mais próximo de ádvena que estrangeiro. o que não é originário do país onde vive. concorrente. – Adventício e ádvena têm a mesma etimologia (do latim advenire = ad + venire) e significam “indivíduo vindo de fora. mas que nele vive longos anos. inimigo. e versus. porém. “A gente ádvena associou-se compungida à imensa consternação de toda a vila naquele instante”. e gignere “gerar”) emprega-se como antônimo de indígena (indu ou endo = in “no” (país) e gignere) e significa. pode não ser de fora do país. ou pugnando por interesses que nos prejudicam. de convicção contra o intento com que se nos persegue. Estrangeiro é propriamente “o que é estranho ao país. porque não era a raça latina que ocupava o continente quando este foi conhecido. “a palavra adversário compõese da preposição latina ad “junto”. Por isso. 164 ADVENTÍCIO. à verdade. estrangeiro. particípio de verto “voltado”. 165 ADVERSÁRIO. mesmo implícita. estrangeiro. êmulo. mas podendo ter-se fixado no país novo onde se encontra”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 113 circunstâncias. Essa gente ádvena aí diz “a gente que estava ali de pouso. O ádvena. ou não são originárias. todavia podem estes . chegada por dias”. forasteiro. Mas ádvena diz propriamente “indivíduo que chega. do país onde se acham. antagonista. competidor. de uma pessoa. à inocência” etc. Adventício diz igualmente “indivíduo ou raça vinda de outro país. no entanto. pois. rival. ádvena. com outros. quando nos referimos ao que chega em relação ao que vive na terra. Não se poderia dizer. – Forasteiro confunde-se frequentemente com estrangeiro.

e daqui vêm as palavras adversidade. Temos. pois antagonistes compõe-se da proposição anti. no luxo. aos animais e às plantas”. ou fazer dano: somos inimigos de certos manjares. rivalis. nos interesses e inclinações. honras. æmulus. até nos animais se dá certa rivalidade. no esplendor. pois. e sobretudo nos empregos. somo-lo. como na generosidade. e ainda generosos e delicados: não assim o inimigo. supõe graves injúrias recebidas. se é bem fundada. faz com que receiemos o inimigo ainda depois de reconciliados com ele. pois este apenas concorre conosco. mas sim nas doutrinas e partidos. as ações e todas as coisas que nos podem desagradar. ou indiferentes. ou que se propõe imitá-la e até excedê-la. quantos são os males que a inimizade produz. isto é. e também se rivaliza em ações virtuosas. sem se confundir com adversário. os de jogos e exercícios. e também por prejuízos e caprichos. v.114 Rocha Pombo ser amigos debaixo de outros respeitos. contrariar. há muitos rivais em amor. este procura sempre fazer mal. “propõe-se a fazer ou conseguir aquilo que nós também nos julgamos capazes de alcançar”. as supõem. e até proclama. sim. por bons motivos e com razão. o mérito dos competidores. os soberanos em sua grandeza e esplendor. Pompeu e Cesar foram rivais.. – Por analogia chamamos sorte adversa a que nos é contrária. muito de rival. em sua significação metafórica. pois abraça as pessoas. Êmulo denota competição honesta. a que ela não conduza. nem à contradição. valendo-se de meios honestos. adversamente. – Entre os antigos. – Competidor é “o que está contra nós na conquista de alguma coisa”. Esta palavra tem muita extensão em seus significados. e graças. mas posteriormente foi limitando-se a combates mais nobres e menos sangrentos. rivais e antagonistas. Estende-se a inimizade. ao menos rancorosa. generosa. Os êmulos correm a mesma carreira. Só os homens de mérito têm adversários e êmulos: e as almas grandes. “contra”. Não há propriamente rivalidade nas opiniões e ideias. Diferença-se. nem procedimento vil. inimigo. g. e as antigas adversar e adversia. ciência. e indica uma oposição mais forte que a precedente. no mérito. de certos prazeres. Tantos são os bens que da amizade resultam. e designa a pessoa que compete com outra em arte. Aquele pode favorecer-nos em tudo aquilo que não pertence à disputa. de certos costumes. e sucesso adverso o que nos causa dano e conduz ao infortúnio. e não admite ódio nem inveja. Os rivais têm interesses opostos que se combatem. É mais do que simples concorrente. repreensível sobretudo em seus excessos. tenaz. “eu combato”. no valor. os amantes em obséquios a uma dama. que para isso é ele inimigo. nas riquezas. “a todos os seres organizados e sensíveis. A inimizade é de ordinário uma paixão. e os partidos que não saem da linha da nobreza. Dois êmulos caminham. que todas as palavras anteriores. O êmulo reconhece. porque costuma ser traidor. em ações louváveis. Cícero e Hortênsio foram êmulos. Adversário não supõe ódio. pois. no talento. não há ação baixa. como os literários. generosidade. – Êmulo é também palavra latina. no heroísmo. longe de excluírem as ideias de nobreza e urbanidade. nobre. . os ingleses e os franceses em seus adiantamentos científicos e industriais. vivem em harmonia. e agonixomai. Dizemos. e até heroísmo: é uma rivalidade mais distinta e elevada. – Rival é palavra latina. que os Newtonianos são antagonistas dos Cartesianos em seus sistemas. galhardia. dois rivais acometem-se. O vulgo não conhece mais que inimigos. se nem sempre baixa. a palavra grega antagonistes (antagonista em latim e nas línguas que deste se derivam) significava um inimigo armado e em ato de batalha. umas vezes por nossa natural inclinação.

mas vulgarmente se toma por desgraça. porque só fazemos relação ao fato. Desfavorável não se diz propriamente das pessoas. Frequentemente os pais têm ideias opostas a respeito do futuro dos filhos. antes encontra adversidades. – às ideias. não por isto. fortuna adversa. sem consolo nem esperança de alívio. mal-afortunado. etc. infelicidade. oposto. O que perde no jogo. – “Relativamente – diz Bruns. “Caiu aquela nobre figura vencida pela adversidade” (isto é – pela constância da má sorte). caipora. desventura. As partes adversas procuram mutuamente suplantar-se. – “Desgraça”. vale por sofrimentos. mas não é desgraçado nem desditoso. desgraça. como é também desditoso. às tendências. em lugar de favorecer. do que. sem deixar-lhe alívio ou descanso. sorte adversa (ou adver- sa fortuna). e se acha reduzido à maior miséria e aflição. O parecer do relator foi desfavorável à pretensão. a privação do que constitui o homem feliz. e outras muitas grandes desgraças que afligem as nações. tristezas. de insucessos e coisas contrárias”. – Adversidade e sorte adversa (ou fortuna adversa) dizem quase a mesma coisa: exprimem o fato de ser uma criatura “perseguida de males. que não provêm do homem. com relação à triste situação em que se acha o desgraçado. consiste a sinonímia destes vocábulos em que: – Adverso se diz do que tende a prevalecer por meio da luta. O que perdeu. não só é desgraçado porque padece um verdadeiro mal. Aquele que não sai bem nas suas empresas. desventurado. infeliz. desfavo- 115 rável. a peste. e é mais usada esta palavra que desdita. contrário. contrário. sendo necessário para a realização do fato. – desfavorável. e . – oposto. a guerra. desdita. desditoso.. calamidade. e significa todo sucesso lamentável que cai imprevisto sobre alguém. porém. As partes contrárias não tratam precisamente de fazer vingar o seu intento: o que pretendem é impedir que o contrário triunfe. e só por pura ponderação se chamará desdita à sua desgraça. É desfavorável aquilo que. “explica o mal em si mesmo”. do que tende a fins diferentes. toda a sua fazenda. ao malsucedido.” 167 ADVERSIDADE.. “Afinal teve no pleito ou na cam- panha fortuna ou sorte adversa”. é desgraçado no jogo. infortúnio. chamase-lhe calamidade. no rio. os terremotos. se declara contra isso. senão das suas opiniões. – Desgraça é termo genérico. No plural. – Desventura é má sorte. desfortunado. que vem da castelhana desdicha. as inundações. diz Roq. cai em infortúnio. desgraçado. Mas a sorte adversa só assume o caráter de adversidade quando persegue o indivíduo continuadamente. tendendo a fins diferentes. caiporismo. pareceres e decisões. e não – aconteceu uma desdita. – Infortúnio vem a ser uma série ou cadeia de desgraças. desfortuna. desafortunado. para conseguir o seu intento. infortunado. aos fins. e então fazem-se adversas. – Desdita acrescenta à ideia do mal o efeito da desgraça. pode queixar-se de sua desventura.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 166 ADVERSO. tende a impedir o que outrem pretende. As partes opostas. – Infelicidade é o contrário de felicidade. senão por sua má sorte. sem que o incomode nem o aflija a perda. desaventurado. A república é adversa à monarquia. As minorias declaram-se contrárias às propostas da maioria. porque não deu motivo a elas por seu procedimento ou falta de prudência. mal-aventurado. tal como a fome. do que quer impedir o triunfo alheio. pela triste situação a que o reduziu sua desgraça. que é propriamente um infortúnio público e geral. Por isso dizemos: Aconteceu ontem uma desgraça no mar. procuram. as erupções vulcânicas. – Quando a desgraça é grande e se estende a infinito número de pessoas e a países inteiros. misérias. cada uma hostilizar a outra.

“Tive a desfortuna de lhe não merecer simpatia”. A ventura não parece tão cega como a fortuna. uma significação que nele desaparece. “É preciso consolar uma criatura infortunada (perseguida de infortúnios)”. o mal-aventurado errou nos esforços que fez. – É preciso comparar alguns dos vocábulos deste grupo que têm o mesmo radical. – É conveniente notar ainda o que distingue estes compostos de ventura dos compostos de fortuna. tanto que dizemos: “ele vai à ventura” (e não – à fortuna). – Entre infortunado e desfortunado há diferença análoga à que notamos entre infortúnio e desfortuna. Aquele. impedindo o êxito que se calculava”. – Notemos ainda que mal-afortunado é muito próximo do nosso caipora. que dá o segundo desses compostos. – Desventurado.116 Rocha Pombo às vezes quase o mundo inteiro. pois é muito desafortunado sempre que pede alguma coisa à política”. e aquele. o amigo que se perdeu num lance de honra. Como se viu. “Tem padecido os seus infortúnios com serenidade e resignação” (não – as suas desfortunas). – Caipora e caiporismo são vocábulos adotados dos nossos indígenas. enquanto que desafortunado é antônimo de afortunado: marca-se assim uma distinção muito clara entre mal-afortunado e desafortunado: este. “Um capitão tem a desfortuna de ver fugir e escapar-se o inimigo quando ia certo de esmagá-lo” (não – o infortúnio). malaventurado é antônimo de bem-aventurado. – Infortúnio e desfortuna. caipora. portanto. – Desventurados são os pais que têm uma velhice de desilusões e amarguras com os filhos. é “o sujeito que se julga assim perseguido da má sorte”. “Não acredito que ele consiga o que quer. a substituição de um adjetivo pelo outro mudaria o sentido da frase. ou desaventurado. falta que se atribui. é o sujeito “sem ventura”. ou bem-aventurança). deve a desfortuna. o infortunado mesmo. ou a trama de algum espírito mau”. a boa fortuna que sempre tivera. ou “a predestinação. significando: – o último. infortúnio é grande desgraça que se prolonga (e quase sempre se usa no plural): desfortuna diz apenas “fortuna contrária. Em qualquer dos dois exemplos. . Mas entre os dois e mal-aventurado já se nota alguma distinção. o menino que foi vítima de uma imprudência – são todos mal-aventurados. o rei magnânimo que foi deposto e banido. ou com mau sucesso em certas circunstâncias”. que se empenhou numa causa de alta grandeza moral e saiu batido de infortúnio. mal-afortunado – “com má fortuna. O desventurado lutou contra a sorte. O homem desafortunado é o que não teve no momento. “ele deixa tudo à fortuna” (e não – à ventura). o mal-afortunado. falta de boa fortuna. Os lexicógrafos estão de acordo em considerá-los sinônimos perfeitos. ou num certo caso. transviou-se no caminho. foi malsucedido no empenho. – Entre desventurado e desaventurado não é perceptível diferença alguma. “Se eu for mal-afortunado agora no meu intento. ou sem êxito no caso”. “o que não consegue chegar ao seu dia. – Mal-afortunado será um antônimo mais perfeito de bem-afortunado. ou que não se saiu tão bem como costuma sair-se. e este significa propriamente “que alcançou ou alcançará felicidade” (boa ventura. como já se disse. E isto pela razão de ter a palavra aventura. o sacerdote que se deixou imolar pela sua fé. voltarei logo de Paris”. ou mesmo o infortúnio. – Entre desfortunado e desafortunado há a diferença expressa pela partícula de intensidade a que figura no segundo antes da negativa des. significa “sem fortuna. a causas misteriosas e inevitáveis. o que é perseguido de desventuras”. “a falta de boa fortuna em tudo quanto se tenta na vida”. O desafortunado. – “Foi ele tão desfortunado (tão sem boa fortuna) que não conseguiu sequer uma vez bater no alvo”. e o primeiro. isto é.

patrocina a nossa causa: pode ter para isso motivos que não sejam os mais legítimos. ou nos livre de males. – Patrono. 169 ADVOGADO. (Nada disto impede sem dúvida que haja rábulas de 18 Hoje está-se introduzindo o neologismo direitista. e jurista é também aquele que conhece a história do direito. pa- droeiro. patrocinador. tagarela”. muito mais valor do que muitos bacharéis. gritador. patrocinador e padroeiro assemelham-se muito (têm o mesmo radical). e particularmente ao advogado que faz perante o júri a defesa de um réu. os costumes passados”. – Distinguem-se 117 perfeitamente estas duas palavras. – Rábula é. dos estrangeiros em geral. mais depreciativo do que causídico: aplicase ao advogado sem pergaminho. artimanhas do que com lisura. – Legista é o que conhece as leis a fundo e as interpreta. Passou depois a significar o chefe da casa (pater) em relação aos agregados e protegidos19. 170 ADVOGADO. patrono. o que defende causas de direito com autorização legal”. ou o senhor em relação aos seus libertos. o prazo de tempo que se levou advogando”. mediador.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 168 ADVOCACIA. – Patrono é pois o que não só defende os direitos do seu cliente como cuida solicitamente de salvaguardar-lhe os interesses. rábula. portanto. defensor. Advocacia é “a profissão do advogado”. aqui. “estar furioso. – É nosso advogado quem toma a nossa defesa perante algum superior nosso. intercessor. letrado.: – “Advogado é. fala e age por nós. o estudante de direito é jurista18. causídico. e também com isso pode estimular em nós instintos. patrono. advocatura é “o exercício. coragens e ousadias que não sejam as mais recomendáveis. – Letrado. O mesmo se pode dizer quanto a rábula (do latim rabere. – Causídico e rábula são termos depreciativos. protetor. a praticar males que talvez não praticássemos sem o seu pa19 Patrono deu o nosso vernáculo patrão – o dono da fábrica. conquanto nos léxicos se definam como significando a mesma coisa. Assim define S. ou perante alguma pessoa ou mesmo perante algum poder com cuja benignidade precisamos de contar para que nos absolva de culpas. designa principalmente o advogado que dá consultas. aplicado aos que conhecem direito ou seguem a carreira do direito. intermediário. medianeiro. que designam: causídico é aquele que trata de causas mais talvez com astúcias. e que se vale mais de chicana que de razões. O patrono defende-nos e protege-nos como se fosse nosso chefe ou nosso pai (patrão). – Patrono confunde-se com advogado e defensor. os direitos das gentes. Designava antigamente o que defendia os interesses da plebe. manobras. os antigos usos. – Jurista é termo mais relativo à teoria que à prática. jurisconsulto. raivoso. e disserta ou escreve sobre leis. – Segundo Bruns.” “A advocacia na campanha não dá o pão e tira o couro”. portanto. interventor. – Jurisconsulto é o legista profundo. jurista. termo que hoje se tornou popular. violento”). Saraiva este nome: “advogado que fala muito e sabe pouco. legista. “Durante a minha advocatura no sul fiz menos fortuna do que inimizades. ou do estabelecimento em relação aos seus subordinados. isto é.) – Defensor é termo genérico que se aplica a toda pessoa que defende a outra. o patrocinador nos toma à sua conta. e também que haja muitos bacharéis muito mais alicantineiros e chicanistas do que tantos rábulas. defensor. instigando-nos. tendências. que debela os casos intrincados. . advocatura.

indulgência. dá-se de superiores para inferiores. urbano. cortês. agradável. ternura. mostrando-se assim afáveis. esconder”) é “o que nos toma sob sua guarda. sua solicitude e valimento. benignidade.. amistoso. e não sendo mais por uma que por outra”. – Intercessor é a pessoa que se põe entre nós e aquele perante o qual precisamos de defesa. o patrocinador de criminosos acolhe. mais se parece com intermediário: este. delicadeza. Dizemos – “patrocinador de crimes ou de criminosos” (patrono de criminosos seria já coisa muito diferente: o patrono de criminosos toma. se mete entre duas ou mais pessoas ou facções. S. cortesia. “cobrir. – Mediador. “a afabilidade (do latim ad “a”. cortesão. muito claro. fineza. meigo. Não é. e não ao contrário”. urbanidade. ci- vilidade. melhor do que todos os outros do grupo. ou ao falar em qualquer parte com uma pessoa. benevolência. a maior parte das vezes. cortesania. uma qualidade inerente ao caráter da pessoa que se mostra amável: ou tem fins interesseiros. agrado. polido. porém. O agrado é o testemunho da alegria que sentimos ao receber em nossa casa. para restabelecer acordo ou ordem entre elas. A civilidade é a convenção estabelecida na sociedade para que os seus membros se avenham . Tanto o agrado como a afabilidade são geralmente provas de um caráter bem formado. – Defensor. complacente. protege criminosos. 171 AFABILIDADE. – Protetor (de protegere = pro + tegere. afável. – Padroeiro é propriamente “o que exerce o direito de padroado”. e por extensão é “o que nos ampara perante alguém de cuja munificência temos necessidade”. portanto. por assim dizer. Sebastião é o padroeiro da cidade (isto é – protege no céu a cidade do Rio de Janeiro). – Interventor é “aquele que. – Medianeiro diz muito mais do que mediador: é “o que interpõe a sua autoridade. prestígio e valimento em favor de alguém e perante um poder a cuja presença esse al- guém não pode ir diretamente para alcançar o que deseja”. a defesa de criminosos. indulgente. benévolo. e fari ou afari “falar”) dá-se de superior para inferior. afeição. polidez. Poderia confundir-se com mediador. ocultar. civil. bondoso. carinho. delicado. como já vimos no parágrafo precedente. A ação de proteger (de protetor) naturalmente marca. bom. é toda pessoa que defende a outra. em nome de um terceiro. Consiste na maneira cativante com que as pessoas de posição prendem a vontade dos que lhes falam. ao passo que o mediador tem sempre algum interesse ou empenho em conciliar aqueles entre os quais se põe. meiguice. benigno. ou faz simplesmente parte da bagagem das convenções sociais com que os homens pretendem enganar-se reciprocamente. mas este é o que se interpõe entre duas pessoas “para servir apenas de veículo. entre elas”: enquanto que intercessor sugere a ideia de que a pessoa pela qual se intercede precisa de defesa e proteção perante aquela junto da qual tem de agir o intercessor. benevolente. e vice-versa. A amabilidade consiste em empregar todos os meios possíveis para nos tornarmos agradáveis à pessoa a quem a testemunhamos. é apenas o que se põe ou fica entre duas pessoas fazendo sentir a uma o que a outra quer. complacência. anima. a superioridade de condições da pessoa que protege sobre as da pessoa protegida. e vice-versa. amabilidade. ou a triunfar numa certa conjuntura”. Tal que é amável com os estranhos é ríspido e intratável com os seus. amável.118 Rocha Pombo trocínio. de qualquer condição que ela seja. fino. terno. bondade. carinhoso. como nos habilita a vencer na vida. de acordo com as leis. induz os celerados a praticar crimes). – Segundo Bruns. obsequioso. afetuoso. e não só nos ampara.

– Polidez é a civilidade das pessoas de fino trato.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 119 mutuamente. supomos que seria imprópria a mudança dos dois vocábulos: “Ele se mostrou benevolente comigo. de intimidade da pessoa que faz. Mas benevolência é apenas “uma disposição de alma. – Delicadeza é a qualidade do homem muito polido. e isso tanto mais me cativa quanto é certo que ele não é benévolo com todo mundo”. áulico e até adulador” do que cortês. finura e delicadeza. – Polidez e urbanidade confundem-se no fundo. – Afeição é a “conformidade moral que leva uma pessoa a chegar-se muito a outra. afagando-nos. para com a pessoa que recebe o carinho. e sugere sempre. porém. um movimento propício de coração em favor de alguém”. Dizemos: “os reis benignos são amados do seu povo”. leva a sua mansuetude e tolerância a uma quase renúncia de si mesmo para ser-nos agradável. de simpatia. a virtude das grandes almas. A urbanidade é a civilidade de bom tom. tem-se não só para com as pessoas que conhecemos como também para com as desconhecidas. – Carinhosa é a pessoa que nos recebe. pois a polidez exige que não só nos tornemos agradáveis. O homem delicado é-o mais por temperamento. indício de bom ânimo. Contudo. mesmo em família. mostra-se de boa vontade com alguém no momento. Varia segundo os meios. é.. – Benevolência poderia confundir-se com benignidade. Basta conhecer certas regras e observar certas práticas para ser tido como homem civil. Nesta frase. a atraí-la enchendo-a de meiguices e provas de amizade”. os lugares e a condição das pessoas. tratando-se de pessoas. A civilidade exagerada – a que o vulgo chama política – é ridícula e presta-se ao escárnio. e saber amoldar-se às situações. entretanto. os tempos. “os homens benignos fazem-se queridos” (e não – os reis benévolos. Parece. no entanto. – Carinho não é uma qualidade.. ou pela benignidade. que isto quer significar que benévolo expressa melhor uma como qualidade pessoal. A benignidade é. não só com mostras de bondade. sincera. uma ideia da excelência da pessoa benigna em relação àquela a respeito da qual assim se mostra. como indica a palavra. – Complacência é também menos uma qualidade do que uma disposição moral: é a “boa vontade. que obram e se exprimem nobremente. necessário ter grande trato do mundo. Entre benévolo e benevolente não estabelecem os dicionários diferença alguma. senão que penhoremos as pessoas com quem tratamos. como se nos abrisse a alma. a diligência que se mostra em fazer o gosto de alguém. de modo a não se ofenderem nem se desagradarem. que se contenta de ter para com seus semelhantes sentimentos propícios”. isto é. por índole talvez do que por educação. O amigo afetuoso é o que nos trata com afeição. e benevolente (“que está sendo benévolo”) uma disposição atual de sentimentos. ou – os homens benevolentes). pois sem ela nos tornaríamos desagradáveis até aos nossos mais próximos. fazendo-se meiga. fino. pela amizade. pois. senão sinal de qualidades. – Cortesania é o requinte da polidez: é “a polidez da corte. Complacente é o amigo que se compraz conosco. – Complacente . sempre que estas pareçam merecer-no-la. portanto.” – Cortesão. a que se usa nos grandes centros urbanos. perdeu hoje esse sentido: é mais “palaciano. como com sentimentos ternos. a acolhê-la. revelando sempre por nós os seus afetos. que. para ser um homem polido. – Cortesia é a demonstração do respeito que nos devemos mutuamente. – Benigno é “o homem de natureza moral muito singela. ou pode ter benevolência com esta ou aquela outra pessoa. Uma pessoa é benévola. em estar de acordo com os desejos de alguém”. a civilidade bem entendida deve reinar em toda parte. suave no trato. com facilidade.

o que é cheio de deferências conosco”. – Entre bom e bondoso há muita diferença. a virtude de ser contrário a tudo quanto é mau. O mudo não fala porque ignora o som da palavra. porque deixa supor sempre a inocência. afônico. – Bondade é a qualidade de ser bom. “Na azáfama em que vive. de longas fadigas. – Azáfama significa mais “o apressuramento com que se cuida da tarefa. pois. pois que só os pais sabem ter com os filhos. – Lida é “trabalho afanoso. Poder-se-ia dizer que é um predicamento divino. – A criatura indulgente conosco é a que tem para os nossos defeitos mais perdão do que rigor. 173 AFÃ. e sugere ideia de afãs contínuos. A indulgência supõe sempre uma autoridade ou poder mais alto que o da pessoa com quem se é indulgente. pode ser completa (o que é raro) ou parcial. – Ternura é. Tanta lida para tão pouca vida. lucubração. laboração. afonia. um sujeito . mudez. a candura dos simples edificada de instintivo sentimento de renúncia e de simpatia. – São meigos os propensos ao amor. e a provas de afeto que nos comovem. – Fadiga. Ternos são os corações que ficam como que em êxtase de piedade. bondoso é apenas “o que tem bondades quase que aparentes. Um sujeito aforçurado gasta inutilmente as próprias forças. lida. labor (lavor). – O afásico titubeia. O afônico sente dificuldade ou mesmo impossibilidade na emissão da voz. no entanto.) – Afonia é a falta de voz: mal ou defeito “que provém da laringe”. luta. uma delicadeza de sentimentos levada a extremos de meiguice. ou então de que são capazes só as excelentes naturezas morais encontrando-se com as misérias da vida. pois a afasia provém de alguma “lesão na substância nervosa frontocerebral. faina. – Mudez é propriamente a incapacidade orgânica de articular a voz. quando se mostra conosco tolerante. (Bruns. e os esposos entre si. trabalho. ou de um trabalho urgente”. conforme já ficou em outra parte definido. e portanto fica ele incapaz de imitá-la. Este. – Faina é uma outra forma de afã: é “todo serviço feito sem muita ordem e com pressa. ou diante de um infeliz. para exprimir o movimento geral das grandes cidades. afadiga- é o nosso superior hierárquico. A faina de bordo. ou de todo não pode falar. que nos cansa. claudica. e nos vence as forças”. afásico. É mais usado no plural. azáfama. é “trabalho penoso. aqui. julgada tão excelsa que o próprio Jesus a atribuía só a Deus. e mesmo a faina das ruas. mas um fino cavalheiro é aquele que sabe requintar a sua delicadeza e fazer-se “muito delicado”. fadiga. sendo a esta que é devida a gaguez”. ou aquele de quem dependemos. azáfama incessante”. aforçuramento. e afadigamento é uma extensão de fadiga. mais misericórdia do que justiça. que só por extensão se pode atribuir a homens. A meiguice é a qualidade das crianças e das virgens. – Bom é aquele que tem essa virtude. labuta. e é próximo de aforçuramento. – Fineza poderia considerar-se como sinônimo quase perfeito de delicadeza. sereno e afável. ou da pessoa amada. envolve mais a ideia de pressa que de trabalho. mento. todo esforço difícil”. os que se mostram mais do que amáveis. aquele homem não tem tempo de atender-nos”. – O homem amistoso é o que nos trata como costumam tratar-nos os nossos legítimos amigos. pois a surdez lhe impede ouvi-la. pois que parecem deslumbrados mais de amar que de sentir o nosso amor. trabalho aturado e debaixo de barulho”. mudo. ou de amor na presença de uma criança que sofre. – Afã é “toda atividade penosa. a faina dos campos.120 Rocha Pombo 172 AFASIA. labutação. “Os meus afãs não me deixam sentir estes pequenos incômodos”.

ou da lâmpada. – Lucubração é todo trabalho que nos absorve dia e noite. pôr para aquém”. – Labor é trabalho longo e difícil. relativo a traves”). – Labor é sinônimo de trabalho. deslo- car. mas que também nos agrada e satisfaz”. “viga. e a que aplicamos toda a intensidade do nosso espírito. .” Resta acrescentar que lavor significa também “a perfeição da mão de obra. e ter “três vezes”) + tirar.. Quanto a labor confrontado com lavor. retira-se o chapéu de cima da mesa. Labutação é o mesmo que “labuta afadigada”. portanto. que nos fatiga. árvore grande”. depois generalizou-se. desviar. – Entre labuta e labutação (que com os dois precedentes têm origem comum) deve notar-se análoga diferença. confundindo a pronúncia dos dois vocábulos. – Labor é “todo esforço exercido com aptidão e gosto. chamando-a a nós. como se fora mesmo um combate. – Afastar (do latim abstare. – Labor e lavor são. de ab + stare “estar ou ficar longe”) significa propriamente “tirar uma coisa ou pessoa de junto da outra”. tem o sentido próprio de “afastar para trás. “Os trabalhos da vida” – é quase como se se dissesse – “as lutas da vida”.. ou pondo-a de lado. ainda quando os dicionários as confundam e as expliquem uma pela outra. lavor tem a mesma origem. descaminhar (desencaminhar). lida penosa. lavor. “As nossas laborações naquele transe nos inutilizaram por muitos dias”. No plural acrescenta a labor uma ideia de faina.. ou das nossas aptidões. de lida ou fadiga.: “Labor é palavra que tomamos diretamente do latim labor. feito por desenho. originou que lavor seja abusivamente empregado por trabalho ou faina. etc. não. portanto. pois se formou de lavrar (laborare). – Lavor dizemos do trabalho “de agulha. e segundo outros do latim trahere20 – retirar. por labor. – Luta é “trabalho doloroso. mas indiretamente. equivalente aqui a retro (re que marca “retração”. retirar.. do gótico tairan segundo alguns. trave. – Retirar (formado de re. lucubração. e por extensão significa – “tirar uma coisa do lugar em que estava. ou conseguir alguma coisa”.. voltando por onde tinha ido. que cansa o espírito ou o corpo. nas línguas neolatinas. retira-se o filho do colégio. afasta-se do espírito uma ideia sinistra. dizemos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 121 afadigado despende forças. Só a ignorância. Afastam-se de nós alguns amigos. do que lidava com madeiras (trabs. O próprio latim tem retrahere “tirar para traz”. ao esforço. trabalis “próprio das árvores. retira-se uma ofensa. que não devem ser tomadas indiferentemente. mas nem sempre sem fruto. cansa também. – 20 Parece que estes têm mais razão do que aqueles.” Retira-se um exército. separar. “retrocesso”. apartar. Labuta é esforço afanoso. palavras mui distintas. ou melhor. o modo como um trabalho foi acabado”. e no plural – “trabalho pesado e afanoso”. “As lutas da vida o venceram”. e que só não acabrunha as grandes naturezas morais”.. “Naquela contínua luta do seu viver foi morrendo”. Lucubrar (de lucubrare (de lux) “trabalhar à noite”) significa propriamente “fazer serão”: e. sugere a ideia das penas e fadigas que produz todo exercício aturado. – A palavra trabalho foi primitivamente aplicada à função do construtor. escreve Bruns. à luz do gás. isto é. – Laboração é uma forma extensa de labor: é a ação de exercer o labor (laborar). ocupação árdua de que se vive. e de qualquer ornato em relevo. à contensão mental com que é feita uma obra de arte ou de ciência”. ou mesmo de afadigamento”. chamar a si. afasta-se da parede o sofá. 174 AFASTAR. passando a significar “toda aplicação de aptidões no sentido de fazer algum objeto. No plural. arredar. lucubrações aplica-se mais particularmente “ao trabalho feito à noite.

propósito ou conveniência. separam-se os casados quando não podem viver juntos. Arreda a multidão à passagem do cortejo. Em sentido mais restrito. parece que separação indica principalmente a ação de separar. prende alguma coisa”. tranca-se. trancar. no juízo final hão de separar-se os bons dos maus. Deslocam-se figuras da política em todas as grandes crises. – Os dois outros do grupo. quando somos sedentários por gosto. e sossegados os prantos daquele último apartamento. e por. descaminha-se o menino da escola. se se emprega a tranca. é-lhe inerente a ideia de fim. “A pulso desloca o rochedo. diz ele: “Feita a separação dos maus e bons. “Aquele sucesso imprevisto vem descaminhar-nos da vereda em que íamos” (isto é. fechar. apego. Quando dentre muitas coisas se apartam algumas. o trigo do joio. Segundo Vieira. e é.” (III. Descaminha-se a gente. ferrolho. do caminho certo. 175 AFERRO. (Por mais que digam os lexicógrafos.. melhor ainda que desviar. desviamos do sentido uma lembrança funesta. – Fechar aqui exprime a ação geral de “cerrar. – Descaminhar. põem-se estas em lugar onde fiquem separadas das primeiras. Separa o lavrador a palha do grão. a fruta podre da sã.: “O apego é a constância que provém mais do hábito que da reflexão. temos aferro às ideias que defendemos com tenacidade”. arredam-se as cadeiras do meio da sala. retirá-la do ponto em que se acha”. ou algum fato suceder..) – Apartar é “pôr de parte”. – Deslocar é “mover alguma coisa do lugar próprio. falando do juízo final. fecho. ou nem sempre estarão necessariamente desligadas. Noutro sentido. Se alguém se aparta do seu partido é que toma posição contra este. – o que estava unido. Ferrolho é – diz Aul. ou quando se desquitam. designam formas ou modos particulares de fechar. o processo mediante o qual se cerra.. misturado: sempre com referência a mais de um objeto. extensão – perverter. prostituir”. aferrolha-se. neste caso. este verbo sugere ideia da atitude contrária em que fica a pessoa que se aparta em relação àquela de quem se apartou. Quando alguém se aparta de outra pessoa toma um lugar para longe dessa pessoa. pois. “Separa-se – diz Roq. – “é tirar uma coisa ou uma pessoa do ponto ou da linha em que alguma outra coisa ou pessoa vai passar. de completivo de predicação: é “tirar do bom caminho. – Desviar – diz Bruns.. vem fazer que tomemos outra rota). Só no sentido moral é que as coisas ou pessoas separadas nem sempre se julgam a distância umas das outras. exprime a ideia de “tirar ou de sair do caminho próprio. ou da direção que se seguia”. 163). e lá do alto deixa-o tombar sobre a cidade”. e apartamento os resultados morais da separação. – Diz muito bem Bruns. desviamos uma criança que vai ser pisada. portanto. liga. 176 AFERROLHAR.. como descaminhar. fecho é a “peça com que se fecha.122 Rocha Pombo Arredar é “desviar bruscamente. e nem carece. – Separar é “pôr duas ou mais coisas ou pessoas longe uma das outras”. “Com perícia admirável desloca o dente e saca-o num instante”. Desencaminhar tem significação diferente. tomando uma azinhaga”. unir com firmeza” (do latim fixare).”. ainda que se não aliste em outras fileiras.. um forte apego. dar espaço ou caminho”. Temos apego à casa. desviar indica a ação de tirar de uma direção para fazer tomar outra diferente. O aferro provém da convicção. no sentido próprio e originário. tranca. desencaminhar não se confunde com descaminhar. ligado. – “tranqueta de ferro . diferençando-se segundo a peça com que se fecha: se se emprega o ferrolho. Separar diz muito mais que apartar. Desviamos o corpo para evitar um golpe.

e às vezes cessa sem ela”. e ambicionamos encontrar-nos sempre e exclusivamente na sua presença. amizade. no seu Traité des facultés de l’âme. Num sentido mais geral. Afeição é a tendência. Se no amor não há os arrebatos da paixão.. ternura. por que está abraçada. Uma diferença essencial entre a afeição e a paixão é que a afeição se sente por aquilo que se possui. aferrolhar e trancar dizem “prender com segurança”. inclinação. pois esta é constante. um cofre. No afeto há moderação. paixão. sem causa. porém. senão que os tomamos por perfeições. impedindo assim que se abra a porta ou janela em que está pregada”. 177 AFETO (afeição). não assim o afeto ou a afeição. e a paixão sente-se geralmente por aquilo que se deseja possuir. a amargura sustém-nos. A afeição que temos às coisas nos induz a ter cuidados com elas. Fecha-se a boca. o . quando este se dirige à sua amante La Chaux: “Ignoro a razão de já a não amar.. podendo ser. – Afeto e afeição – diz Bruns. Aferrolha-se ou tranca-se igualmente uma porta. está-se humilhado e adora-se. Só o pensar que a ternura da pessoa amada pode ou poderia repartir-se com outrem faz-nos estremecer. propensão. vai embeber-se na ombreira ou noutra peça. no entanto. há nele algo mais da tibieza do afeto. Também se fecha a alma. deixando de falar. O austero Descartes simpatizava com os olhos vesgos: procurando a origem de tal gosto. uma gaveta. ou não se expandindo. não obstante. É por afeto ou por afeição que se sente prazer em encontrar a pessoa a quem se estima. de lhe ser útil. – Paixão é o desejo veemente de obter e possuir a pessoa ou a coisa que desperta em nós esse sentimento. de madeira. tudo o que sei é que principiei a amá-la sem saber por quê. Figuradamente. e é tal o seu fundo de benevolência que estende por sobre os vícios o véu das perfeições.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 123 (ou qualquer peça de ferro que se empregue em fechar) que. e acabamos por amá-los. no entanto. de tais méritos. e que se procura a ocasião de a ver. correndo horizontalmente pelos anéis.. um livro. Fecha-se uma porta. amor. e que cessei de a amar sem saber a causa”. – diferençam-se apenas em ser a afeição extensiva a pessoas e a coisas. Deliciamo-nos em ouvir falar dela. E assim como é ela que unicamente nos interessa. e não só os negamos. Muitas vezes a paixão desaparece com o logro da coisa desejada. dedicação. Tudo nela tem encanto à nossa vista. ou inclinação comedida que se tem para alguém ou para alguma coisa. De que provém? Nasce. Tranca é uma barra semelhante ao ferrolho. O amor.. uma carta. Também se diz – “aferrolhar a fortuna”. um portão. de gozar da sua companhia. significando que se a retém com usura ou somiticaria. a qual nos causa um como deslumbramento contínuo pelas qualidades e perfeições que a nossa imaginação lhe atribui. recordou-se que esse defeito existia numa menina a quem amara desde a infância. na paixão há arrebatamento. diz do amor: “O caráter distintivo do amor é o de preocupar exclusivamente o nosso pensamento com a existência de uma pessoa do outro sexo. por assim dizer. O amor recusa crer nos defeitos que vê na pessoa amada. É certo que o amor aumenta com os méritos do objeto amado: não vem. fechando-os fortemente. apego. Antes de Garnier já Diderot definira admiravelmente o amor pela boca de Gardeil. e o afeto só a pessoas. – O amor é um sentimento que se pode considerar intermé- dio entre o afeto e a paixão. sobrevive à infidelidade: sofre-se e ama-se. não dizendo o que se sente. quiséramos que só nós fôssemos o único que lhe interessasse. Não são os defeitos da alma apenas que recusamos ver no objeto que nos apraz: são também os do corpo. Adolphe Garnier.

Vemos assim que esta palavra é menos expressiva que qualquer das três precedentes. ou amizade. portanto. e o desejo de ser-lhe agradável e útil até a preço do próprio sacrifício. dissimular. etc. amor filial. mas o efeito de uma firme resolução. por exemplo. – Inclinação. não é o sentimento. intuitos. ou que duas pessoas têm entre si”. degenerará facilmente em paixão. a um animal. representar de). disfarçado. aparente. é a disposição e tendência natural do espírito para alguma coisa. e procura. – O apego é um sentimento que pode ter maior ou menor intensidade. se. encobre com artifícios (fingimentos) o que sente. Usa-se também este verbo como pronominal: o indivíduo que se afeta no dizer é o que procura apurar tanto a elocução que se torna ridículo. Não se pode dizer que há amizade sem que o tempo e as vicissitudes da vida a tenham cimentado e posto à prova. fantasia. não é um sentimento distinto do amor paternal: é a sua manifestação. – A ternura não é sentimento: é a manifestação de um sentimento. disfarce. a recordação originam o apego. um homem é dedicado ao seu partido. pode facilmente triunfar da inclinação. a uma pessoa. amor à ciência. ou para qualquer vício. afetar. assim como o animal tem apego ao homem. dissimulação. seja amizade. fala. da índole e do espírito do amigo. A ternura paternal. 178 AFETAÇÃO. é esse próprio amor. só quer dizer que as relações do trato não são desagradáveis entre aqueles que se dizem amigos – a amizade verdadeira tem. tais são: a necessidade de expansão e de confiança recíprocas. iludir os . que se revela em tudo o que ao filho diz respeito. afetado. que realmente não se têm”. a um partido. ou em amor. traja e se apresenta fora do natural. etc. contrafação. também o origina a inclinação quando é fomentada. – Afetação é “o modo contrafeito de mostrar sentimentos. ou de alguma ideia. simula- ção. contrafazer. astuto.124 Rocha Pombo amor é o sentimento pelo qual se ama ou se quer bem a alguma pessoa: amor paternal. o apreço do caráter. dissimulado. aparência. aparentar. simulado. – Fingido é aquele que faz por parecer o que não é: é mais hábil. Quem afeta alguma coisa inculca sentir o que de fato não sente. e pelo qual nos consideramos ligados. fantasiado. seja amor. fortalecendo-se. mas ao qual o coração fica alheio. O indivíduo afetado é o que anda. fingido. no sentido que geralmente se lhe atribui. Um criado é dedicado a seu amo. enquanto este exagera porque aspira passar por mais do que realmente é. não obstante. Se a razão não pode dominar. esta disposição. – Dedicação é o desprendimento de si próprio em favor de outrem. foge desse mal sem grande esforço. mas em si. fingir (fazer de. O abuso que se faz desta palavra não exclui que a amizade exista: se ela é vã na boca da quase totalidade dos humanos. fingimento. a um hábito. Num sentido mais restrito. a reflexão. por exemplo. José de Lacerda – é “o apego particular de uma a outra pessoa. não for combatida. contrafeito. como as há que têm inclinação para o mal. simular. pois. propriamente. nem o amor. pode tornar-se amor. no sentido lato da palavra. – A amizade – diz d. pois aquele que se sente levado por ela para o jogo. Há pessoas que têm inclinação para o bem.. O hábito. disfarçar. a inclinação é a disposição e tendência natural do espírito para amar alguém em razão do que nessa pessoa nos agrada. Se a inclinação. caracteres especiais pelos quais se pode determinar. aptidões. não é mais do que o embrião desses sentimentos. amor ao próximo. de um como voto feito. a dedicação leva às vezes ao sacrifício. o sujeito que se finge quer ser diferente daquilo que é. porém. a paixão. fantasiar. geralmente. que o afetado. Tem-se apego a um objeto.

afetuoso. – Fantasiar é “iludir pelo aspeto. – Os verbos fazer e representar em certas formas valem por fingir. por discrição. isto é. muitas vezes. assimilar e assemelhar. A dissimulação pode não ser um defeito: o disfarce nem sempre. Dizemos – “criaturas afetivas”. 179 AFETIVO. nestas frases: “O pobre homem está fazendo de Judas”.. – Aparentar é “mostrar aparências de que uma coisa é assim mesmo como se faz crer. portanto. e que nem sempre se poderá dizer o mesmo do dissimulado. ou que disfarça suas intenções. Usa-se o verbo fingir como transitivo e como pronominal. O sujeito que dissimula faz por parecer estranho ao que se passa em volta de si. afável”. ou apreendido nos objetos pela nossa alma. O dissimulado mostra-se alheio exatamente àquilo que de fato lhe interessa. por um falso exterior. – Ainda que os di- cionários deem como significando a mesma coisa e tendo o mesmo valor. etc. que se manifestam nos olhos. ele finge ou finge-se de tolo. “ele se faz de tolo” (o homem está fingindo ou representando de Judas. – Contrafação é. Pelo menos diferençam-se eles em poder afetivo aplicar-se tanto a pessoas como a fenômenos morais. “demonstrações afetuosas”. que aos olhos de outrem encubram a verdade que não se deseja.). portanto. ou que tenha aparências de outra pela qual se quer que essa coisa passe. benigno. a verdade. ou representa de tolo).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 125 outros.. isto é. reveste-se de artifícios (disfarces) que o desfigurem. “contrário ao que é natural que se esperasse dele”. como não obraria se fosse sincero.. ocultar o que pensa ou quer. se não se mostrasse contrafeito. nos gestos. no entanto. é fazer crer pela aparência simulada”. paixões. e às vezes em toda a pessoa do homem. nas atitudes. que tem relação com afeto”. portanto. e produzem nele efeitos proporcionados. dissimular. inculcando outra coisa que por ela se quer fazer passar”. “F. excita nela comoções. próprio de afeto. ou de que é tal como parece” (aparente). ou movimentos – de atração para aqueles que se lhe representam como bons. ou o mal. “qualidades afetuosas”. e afetuoso só a pessoas. “o bem. Luiz. ou procura. Um homem prudente pode. O sujeito que se disfarça. O que se fantasia impõe-se pelo efeito produzido sobre a imaginação dos outros.. o prazer. reconhecida. Quando . sentido. – Segundo S. qualidades afetivas”. Afetivo significa. e afetuoso = “cheio de afeto. mas – “demonstrações. quer ou pensa. – Disfarçar é tomar aspeto. como simular é próximo de fingir. O homem que disfarça procura sempre arredar do pensamento dos outros a noção exata do que lhe convém: o que dissimula cala mais o que sabe ou o que sente do que disfarça o que deseja. convém distinguir estes dois adjetivos. e “nada mais falso do que a fantasia de que se valem os espertos contra a ingenuidade dos tolos ou das crianças”. aqui. – Simular e fingir têm de comum a significação de “ocultar. ou aparências. Parece. ou a dor. no movimento do sangue. no que diz. Mas quem simula faz que uma coisa pareça em vez de outra. “o ato de fazer alguma coisa de modo contrário ao que é legítimo. ou – de aversão para aqueles que se lhe representam como maus: e estas comoções comunicam-se ao corpo. “Ela está fingindo que não nos vê”. ou – “criaturas afetuosas”. Disfarce é muito semelhante a dissimulação. ou ao que se devia esperar”. que o disfarçado tem intuito de enganar. 180 AFETOS. como. “de afeto. simulou um ataque pela retaguarda”. na cor do rosto. por exemplo. Quem se contrafaz obra. que uma coisa seja semelhante a outra (as palavras latinas simulare e similis deram-nos simular. não dizemos.

– Escrevendo Maria. “Eram caluniadores e apaixonados. e não se devem render a clamores dos que apaixonadamente insistem em perseguir a inocência”. devem com madura consideração examinar as causas dos acusados e a intenção dos acusadores. aquentar.. do latim calens.. coze-se o feijão ou a carne. Aquentar (radical quente. Luiz. “Nos Sermões de Fr. a seguinte passagem: . afetos e paixões são uma mesma coisa”. Fr.126 Rocha Pombo estas comoções. “Assim por conseguinte cada um dos afetuosos suspiros tiram alguma coisa da ferrugem do pecado”. aquentar pela segunda vez”. “Aqueles a quem Deus cometeu o juízo.. estabelecida a sinonímia e a diferença dos dois vocábulos – afetuoso e apaixonado – e também desenvolvido o pensamento de Fr.. e favorável: o parecer apaixonado não é imparcial. por afetuosa. de calere “estar quente”) designa a ação de “tornar quente”. Eufros. a compaixão. requentar. Apaixonado é o que obra como involuntariamente. “são afetos levados ao último grau e assenhoreando-se da vontade. L. José de Jesus aquecer. a um certo grau de calor. a nosso ver. Souza. José de Jesus Maria. digo que neste Sermonário se admira um livro que tem mais frutos que folhas. doces. o seu voto era imparcial – a amizade ao orador não o arrastava ao elogio dos seus sermões: eis aqui. no precedente parágrafo. O parecer afetuoso é cheio de carinhos. temperadas.. padecer a nota de apaixonada. é ferver mal e mal”. a vingança são paixões. – Ferver é “submeter um líquido a estado de ebulição por certo tempo”.” As paixões. lemos. para verificar-lhes a significação precisa. Br. suave. e que. apaixonado. – Aferventar é “submeter um líquido a um grau de calor em que ele comece a ferver. aquecer (do latim calescere. que violentas e impetuosas fazem muitas vezes emudecer a razão.” Daqui nos veio a ideia do presente artigo. pode o leitor consultar o artigo – Paixões. e arrebatado pela paixão. o reconhecimento são afetos. violentas. incoativo de calere) significa “fazer meio quente. a cólera. e apostados a rasgar cortesia”.. e os fez julgadores. no parecer que sobre o mérito deles deu Fr. O autor da passagem citada amava o escritor dos Sermões.. chamam-se simplesmente afetos. Ferve-se a água. até que pela fervura do líquido chegue essa coisa ao estado que convém”. – Há entre aquentar e aquecer uma diferença análoga à que se nota entre ferver e aferventar. “antes sem temor de que a minha aprovação possa. não assim as paixões. P. o amor filial. O afetuoso inclina-se para um objeto: o apaixonado é arrastado por ele. Brandão.. O amor sensual. 182 AFERVENTAR. afetos – que citamos acima.. de Barr. Afetuoso é o plenus amoris dos latinos. submeter alguma coisa sólida. 181 AFETUOSO. a ambição. impetuosas. e sua alma inclinava-se suave e gostosamente para as doutrinas expendidas neles. mas apesar disso. como diz Roq. “Ao coração apaixonado nada se deve crer”. . isto é. chamam-se mais propriamente paixões. no meio de um líquido. são brandas. – Cozer (do latim coquere) é “preparar ao fogo. dar a alguma coisa começo de quentura”. Antonio de Sant’Anna. cozer. aferventa-se a sopa ou o café. e arrastam o homem ao quebrantamento da lei e do dever. ferver. consideradas em si e nos seus efeitos. – Requentar é “tornar a fazer quente. depois de S. A amizade.. Os simples afetos são comoções brandas e suaves que se podem ajustar com a razão.. Quando fortes. começa Alves Passos observando que se sabe “o sentido em que estes dois vocábulos são sinônimos”. – Na linguagem da retórica.

propriamente. ou coesão. vizinhança: é a “relação de proximidade.: “Palavras científicas com que se exprimem as diferentes maneiras por que se manifesta essa força invisível que há na natureza. – Analogia é o ponto. – “Há” – diz fr. contiguidade. chamada atração. é o estado de duas coisas que se prendem uma a outra e que são mais ou menos difíceis de separar. Quando consideramos a atração solicitando os corpos terrestres. analogia. quando se trata de um corpo composto) dão os químicos mais particularmente o nome de afinidade à força que une as partes constitutivas do corpo. ou que seja comum aos dois. semelhança. – A coesão é a força que produz a coerência. A atração que se dá quando os corpos se tocam. adesão. a aproximarem-se uns dos outros debaixo de certas leis. a natureza das propriedades ou do modo de ser entre duas ou mais coisas ou fenômenos”. – A inerência é a relação que une a qualidade à substância. muito aproximada de outra pela espécie. atração. e no sentido lato. A que se exercita sobre as últimas moléculas dos corpos recebe o nome de afinidade. a respeito desse astro. é a relação de sangue ou de aliança doméstica entre pessoas. quase igual a outra. 184 AFINIDADE. o aspeto. atração química. ou analogia entre pessoas. conexão.. conforme. ou “o modo de ser semelhante entre duas ou mais coisas diferentes”. entre duas ou mais coisas. semelhança essencial”. 127 parentesco. Luiz – “uma força universal na natureza que solicita todas as moléculas da matéria e todos os agregados dela. – Conexão é. inerên- cia. – A adesão é a força que produz a aderência. de affinis = ad + finis) sugere ideia de junção. – “A aderência. pela forma. denominase adesão ou coesão. coesão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 AFINIDADE. ou também atração de composição”. Chamase esta força atração. – Quanto a atração. fenômenos ou coisas”. de propriedade ou conveniência entre duas coisas. gravidade. e solicitando-os uns para os outros. que os ponha num certo grau de conveniência. afinidade. a forma. a conexão ou conformidade existente entre as coisas sob um certo ponto de vista”. aqui. pelo modo de ser”. a semelhança de natureza. também se chama atração planetária.. e cada uma das suas partículas. de que se compõe o sistema do mundo. ou astros. – Parentesco. escreve também Roq. chama-se gravitação: tal é a dos planetas para o centro de suas órbitas – o qual. “algum lado ou aspeto pelo qual se liguem ou associem”. por isso. escrevem Bourg. chamamos-lhe mais ordinariamente gravidade: e o mesmo nome damos a essa força considerada nos corpos de que se compõe cada astro. “é o grau de afinidade. – Semelhança é “a qualidade de ser uma coisa parecida.. – Afinidade (affinitas. similaridade. gravitação. relação. – Similaridade diz propriamente “igualdade de natureza. e que só tende a mantê-los adunados. A mesma atração considerada nos grandes corpos. e Berg. – A coerência é o estado das partes unidas entre si para formar um todo. reservando o nome de coesão para designar a força que liga as partes que formam uma substância única ou homogênea (de um corpo simples)”. . a força que une entre si as partes constitutivas de um corpo. aderência. a aproximaremse do centro da Terra. e todos para um centro comum. coerência. gravitação. semelhança. “Isto não tem relação com aquilo” – quer dizer: não há entre isto e aquilo coisa alguma que os aproxime. e a relação que os corpos ou suas partes têm entre si. Quando o corpo é formado de substâncias de natureza diferente (isto é. toma o nome de gravitação”. é “a relação de proximidade. adesão. Quando ela exprime a tendência que têm os graves para seus respetivos centros de gravidade. S. – Relação.

pensa. assegurar. consan- guinidade. – sobrepor é “pôr alguma coisa sobre. ou que outro disse. o segundo. grudar. o mesmo que grudar e colar: é “aplicar. – Pegar (do latim picare. não dando mais energia ao modo de afirmar. ou superior. – Afinidade é “o parentesco resultante de uniões conjugais entre membros de famílias diferentes”. ou mesmo os cunhados. “o parentesco pelo lado masculino. os concunhados. Mas aquele que garante (na acepção que tem aqui este verbo) assegura a veracidade. atar. parentesco existente entre pessoas do mesmo casal”. ágnato. Consanguíneos são os irmãos. – Aplicar. ou garanto-lhe o que digo. e vice-versa. garanto-lhe que é exato o que ele disse”. isto é. – Fixar e afixar só se distinguem pelo que o prefixo ad acrescenta ao segundo. fez. soldar. seguro. – Cognatos são os filhos da mesma mãe e de pais diferentes. como se fosse colada. aqui.” Na jurisprudência antiga. convencer da certeza de que uma coisa é como se afirma”. argumentando. – Afirmar é “dizer formalmente aquilo de que se está convencido”. – Pregar é “prender por meio de prego”. – Colar é “afixar por meio de cola”. chumbar. de qualquer modo. aumentar o valor da afirmação que se fez. – Segurar é “fazer firme. – Garantir é empregado frequentemente por assegurar. colar. de pix “pez”) é. Afins são. garantir. – Agnação e cognação marcam parentescos também “opostos”: o primeiro. Confirmar é “afirmar uma segunda vez e dar testemunho solene do que se viu. aplicar. prender. ou por cima de outra”. “o parentesco pelo lado da mulher. por parte do varão”.” – Assegurar é “afirmar com segurança.128 Rocha Pombo 185 AFINIDADE. de- duzindo. que significa “parentesco pelo sangue. se não pertenciam pelo sangue à mesma família. Duas coisas fixam-se (e não – afixam-se). agnação. Só se afixa uma coisa a outra coisa. como trazendo em favor da afirmação testemunhos ou documentos valiosos”. mas num sentido geral é “prender fortemente”. 187 AFIXAR. “Asseguro-lhe. – Corroborar é “dar força ao que se disse. fazer aderir por meio de alguma substância glutinosa”. ratificar. etc. segurar. – Certificar é próximo de atestar: significa “dar por certo aquilo que se sabe. com serenidade de quem não receia desmentido”. é “fazer alguma coisa pegar a outra. cognato. É diverso da consanguinidade. 186 AFIRMAR. aderir a outra”. dizer. convictamente. dá fiança. cognação era “o laço de parentesco natural sem direitos civis”. quer cognatos. – Demonstrar é “pôr em clareza e evidência aquilo que se disse. sobrepor. confirmar. asseverar. estável. – Apor e sobrepor também se distinguem pelos respetivos prefixos: – apor é “juntar uma coisa a outra. certificar. – Comprovar é “fazer prova mais forte de alguma coisa que se afirmou”. dá certeza daquilo que disse ele próprio. – Chumbar e soldar. aqui. isto é. aqui.” – Grudar é “prender com grude”. ou fazer aderir. declarar definitivamente aquilo que se tinha dito”. ou pôr uma coisa em cima de outra”. por exemplo. e diferençam-se . fi- xar. segundo Aul. – Afixar é propriamente “fazer fixo”. – Ratificar é “repetir categoricamente o que se afirmou. quer agnatos.. uma coisa a outra. pegar. ligar uma coisa a outra. comprovar. – Atestar é propriamente “dar testemunho de que uma coisa é como se diz”. “Afirmei ontem que o rei fora deposto: confirmo hoje este despacho”. afim. cognação. demonstrar. corroborar. agnatos. só têm sentido figurado. do que se sabe”. pregar. ligar. os filhos do mesmo pai e de mães diferentes. apor. explicando. atestar. etc.

Angústia é uma opressão tão forte e dolorosa. em geral. Opressão é. dolorido. é “toda ânsia que se pareça com essa aflição de morrer”. ou a dúvida. – Agoniado está quem sente ou parece sentir essa aflição de hora da morte.). etc. A criatura magoada. de qualquer modo”. ansiedade. Elys. aflito. Quem está consternado mostra-se abatido de dor e de espanto. a saudade que sente. – Opressão e angústia podem confundir-se. pesadume (pesadumbre. reter. – Mágoa é quase como desgosto. – Aflição (de afligere (ad + fligere) “deitar por terra” é “grande incômodo moral. inquieto. como se a pessoa angustiada tivesse impedida a respiração.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 129 claramente pelos respetivos radicais. coisa que nos fere o coração”. e mostra-se um tanto ansiosa dessa preocupação. tris- teza. um sucesso que não se esperava”. – Amargura é dor mo- .”. etc. o desgosto. tormento. – Agonia (do grego agon “combate”) é propriamente a luta que o moribundo trava com a morte na hora extrema. etc. pesar. laço. pesadelo. mas o segundo é mais forte. triste. não só não sente prazer. se recebe. Desgostoso é. prender como por meio de solda”. e por extensão. Uma pessoa triste dá indício de que tem na alma preocupações que lhe toldam vida. – Atar = “prender por meio de atadura. A pessoa inquieta sente-se preocupada com alguma coisa que lhe desagrada. angústia que abate o espírito (diz Bruns. desgosto. opressão.. padecimento. o sentimento de tristeza (condolência) que nos causa uma notícia. etc. se vê. – Pesadume (ou pesadumbre. ou pelo mal que aconteceu. fita. pois indica apenas a falta de prazer. de fios. a sensação desagradável que se experimenta respirando mal. ou a desconfiança.”. que perturba a razão. – Tristeza é o “estado de compunção em que se fica. incomodado. muitas vezes por algum motivo que não é grande. ou mesmo pelo peso do chumbo”. amargurado. ou devido à moléstia que afete a função respiratória. doloroso. – Inquietação é menos que aflição: designa o “estado de espírito em que o medo. angústia. Também ficamos pesarosos (cheios de pesar) de não ter podido evitar um mal ou de não haver involuntariamente cumprido um dever. angustiado. penalizado. ou. profundamente penalizado e inconsolável. Aul. ligeira amargura”. – Prender = “Fazer sujeito. dorido. ou mesmo sem motivo real e preciso”. transe. consternado. agonia.. mágoa. desgostoso. ou pelo que receia venha a dar-se. atribulado. trabalhos. alguma coisa. tortura. segurar.). – Consternação é “a grande tristeza e desalento produzidos por alguma espantosa desgraça”. ou ar viciado. amargura. espanhol). laços. menos que pesaroso. agoniado. indicando ambos a ação de prender uma coisa a outra: – chumbar. pena. inquietação. incômodos. “unir. torturado. tirando-nos a calma e o sossego. ansioso (ansiado). suplício. consternação. atormentado. “prender como se ficasse seguro por chumbo. – Pesar é a “dor moral. sofrimento. ou por falta de ar. numa aflição e ansiedade de quem se sentisse estrangular. (Fil. e leva o aflito a obrar sem tino”. – Desgosto é o “mau grado que nos causa algum sucesso... porém mais fino e talvez mais sincero. ou que lhe alteram o humor normal. – soldar. supliciado. corda. – Ligar = juntar e prender com liga ou ligadura. tribulação. 188 AFLIÇÃO. mas designa um desgosto ou pesar menos fundo. cit. nos põe. magoado. “Nada viu que lhe aliviasse a saudade e pesadume”. de boa vontade com que se faz. mas está como revelando no semblante a tristeza. como definem os léxicos. dor. pesaroso. no entanto. do espanhol) = “tristeza lamentosa.

tanto morais como físicas. – Transe é como a crise. – Dor é “toda sensação que nos molesta. das amarguras: momento que se deseja “passe logo” (de transeo. sensibilizado”. ou então devida a alguma anormalidade de funções de qualquer dos órgãos. . preces. causada por alguma alteração traumática dos tecidos. partes do corpo doloridas. e talvez até com uma quase ufania de os padecer. ou provações comparáveis à tortura. “A menina está ansiosa pelo noivo”. dorido e doloroso confundem-se.. pois o penalizado mostra que avalia a dor do seu semelhante.. (Almas doloridas. Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos”. a cabeça. Em sentido lato. – Suplício (do latim supplicium. no entanto. de desejo inquieto e aflitivo em que fica a pessoa ansiosa. de algum bem que se perdeu. flagelo. tortura”. e vede se há dor igual à minha dor!”. quer pelo receio de alguma desgraça. causadas por sofrimento físico ou moral”. – Tormento é a “dor e a inquietação ansiosa. o seguinte: quem padece sofre os males com certa resignação. As dores do atormentado são dores que afligem e mortificam. ligeiras e vagas. as lidas e penas que se sofrem na vida. O atribulado sente-se como que perseguido de aflições. ou longas e intensas”. quer morais. os males. Os três adjetivos dolorido. como querem alguns autores. torcer. contrair”) significa “os tormentos a que se sujeitava o acusado quando não queria revelar alguma coisa que interessava à justiça”. (Doridos cantos. – Padecimento é empregado na mesma acepção. que nos causa a desgraça. transar”) era o tormento a que se submetia a vítima nos holocaustos. o sofrimento alheio”.. no qual figura a raiz grega plek.. Longe. – Tribulação é “trabalho aflitivo. e exprime “todo gênero de provações. súplicas.. torturado se sente aquele a quem se infligem duros constrangimentos. “Oh vós que passais pelo caminho – clamava o patriarca bíblico – atendei.. Hoje. pois. mas principalmente morais. por exemplo: “tenho as mãos. de sofreguidão. as dores. mas doloridos). Entre ansioso e ansiado convém não esquecer que há esta diferença: o primeiro emprega-se no sentido moral: o segundo. de dó. o momento mais duro dos trabalhos. ire).130 Rocha Pombo ral acerbíssima. – Ansiedade. orações doridas). magoado. e não seria fácil assinalar-lhes clara diferença. – Tortura (de torquere “dobrar. que aflige e angustia abalando e pungindo os mais nobres e santos afetos da pessoa amargurada. – Sofrimento é o mais genérico deste grupo.) – Dorido diz mais “triste. juntas doloridas. é o estado de quase opressão.. sugestiva de “enleiar.. quer pela impaciência com que espera o que deseja. (Não costumamos dizer. Dor moral é a “comoção amarga. É assim que na oração simbólica (o Credo) se diz que “. ou causada pela consciência de algum mal que se fez. ou por alguma pancada violenta. tormento como castigo. no físico. e por extensão empregamos esta palavra suplício para designar padecimentos que se podem comparar aos de um condenado à morte. “O doente está ansiado”. aqui. Quando muito. – Pena é “o sentimento de desgosto. (e não – sofreu. vozes doloridas. – Trabalhos toma-se aqui como significando “as contrariedades. ou o incumbido de pedir aos deuses nas preces públicas. ou os pés dolorosos. quer físicas. deve notarse. apenas o sofrimento físico – o padecimento é uma forma estoica de sofrer as coisas que nos amarguram. o sentimento de funda tristeza que nos vence a alma no meio dos contrastes da vida. – Dolorido emprega-se num e noutro sentido.). pode notar-se que doloroso quase que se emprega de preferência no sentido moral. É mais propriamente a manifestação da dor que a mesma dor.. de alguma esperança que se extinguiu”.. de significar. é o sofrimento do que vai ser justiçado.

concorrência. isto é.. e vale por grande ajuntamento desgovernado. – Agrupamento é reunião por grupos. Empregar este vocábulo para designar a gente já reunida no ponto a que já convergiu. ruas da Baixa é à saída das repartições. anárquico. – Ajuntamento designa a reunião de pessoas que pararam num ponto para um fim determinado”. com que a pessoa incomodada se sente inquieta. – Afluência – escreve ele – “considera as pessoas dirigindo-se para um ponto. por exemplo. significando “correr para um sítio). porém. assembleia. As outras três palavras que se seguem representam afluência de pessoas reunidas num ponto determinado sem ideia de estarem em movimento. triste e abatida”.. no inverno é enorme a concorrência aos teatros. “núcleo revolto. senão toda a que vai convergindo para o mesmo sítio por diversas vias. multidão. – Incômodo (ou incômodos) é “a sensação de fadiga. turbamulta. – Multidão é uma grande reunião de gente sem nenhuma ideia acessória. – Aglomeração (cujo radical glomus significa “novelo. e traz consigo a desordem. aglomeração. as pessoas ou os grupos seguindo-se uns aos outros sem interrupção. são as de corporações políticas. indica que a reunião pode não ser legítima. mas entre os dois vocábulos há uma diferença essencial: afluência considera o movimento como contínuo e regular. como em turbilhões”. rolo”) diz “ajuntamento feito como que em atropelo. há grande afluência ao local onde ela se efetua. afluência não se limita a designar a muita gente que se dirige a um ponto seguindo a mesma via. turba que se forma desordenadamente. é erro. – Aproxima-se de tropel e de turbamulta. de alarde hostil. – Concurso representa a mesma ideia que afluência. no entanto. enquanto que concurso indica o movimento simultâneo de muitas pessoas que convergem por diferentes vias a um ponto dado. Este é uma formação pleonástica de duas palavras do mesmo valor. como. formando conjunto que facilmente se destaca. chusma. – Turba é a multidão indisciplinada e turbulenta. quer se considerem em movimento. nos dias de parada. multidão. . – Concorrência diz-se das pessoas com relação a um ponto dado. turbilhão”. que obra em confusão. mas neste movimento nada revela a ideia de continuidade. – Segundo Bruns. ou indisposta. de que trata o referido autor: e o mesmo se diz dos demais. de cuidado ou de dor. Na linguagem corrente. O mesmo diz tropel. o grupo de pessoas que se juntaram para algum fim: é muito próximo de ajuntamento e de assembleia. reunião. de pesar. isto é. ou gruppo significa. “O vasto tropel de beduínos fazia estremecer a planura”. – Reunião é. e comumente de assanho. tropel. à turba e à turbamulta – a ideia necessária de movimento. ajuntamento. ou não ter funções ou fins legítimos. Assim. e é como se dissesse turba-multidão. entre outras coisas. quer paradas. Tem formação análoga à de aglomeração (o italiano gróppo. A hora em que há maior concorrência nas AFLUÊNCIA. mas este acrescenta à multidão. como em “gróppo di vento”). turba. de que nós trataremos. 189 concurso. seguindo todas a mesma direção: é o que se depreende da etimologia da palavra (em latim fluere. tumultuoso. “conjunto de muitas pessoas” é a ideia geral que encerram os seis primeiros vocábulos do grupo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 131 ou que se experimentam nalguma empresa”. aqui. agrupamento. que este último é particularmente empregado para designar uma reunião mais importante e solene. devendo notar-se. Cintra atrai no verão um grande concurso de gente. que ajuntamento é quase sempre tomado à má parte..

intemente. agudo. ardimento. violência. impetuosidade. “Todos os irmãos são vadios. violento. veemência. – Aguçado significa – “de gume ou de ponta muito fina ou adelgaçada. – Cortante diz apenas – “que corta”. ou faz uma ideia muito imperfeita do perigo. uma navalha afiada. 191 AFIADO. que se mostra impávido e sereno. ímpeto. ousado. – Cortante e talhante exprimem a qualidade. atrevimento. corajoso. exceto o João que é trabalhador”. precipitado. destemido. mas decerto que não diremos – uma foice afiada. determinação. decidido. talhante. heroicidade. temerário. – Incisivo – “próprio para cortar. a propriedade do instrumento que foi afiado. confiança. impávido. que intrepidez e que bravura: o capitão arrojado não mede bem as consequências da investida. ânimo. desafrontado. valor. afoiteza. do que não se inclui. valente. como coisa que corta”. denodo. audacioso. animoso. valoroso. erecto à vista dele. arriscado. – Confiado é aquele que mostra em si mesmo uma demasiada confiança. – Agudo diz – “muito vivo. imperturbável. a ponta de um punção. Na afoiteza. desafogado. não toma com calma as proporções do perigo: arremessa-se à luta com o desassombro e afoiteza de quem não sabe poupar a vida. – O desafrontado mostra que se não deixa impressionar ante um obstáculo ou perigo: antes fica altivo. exceto. que corta” – define Aul. arrojo. audaz. Nem a todo gênero de instrumentos se aplica. cor- tante. ardido. aguçado. imponderado. Nos dois exemplos seguintes nota-se essa particularidade: “Afora o mais novo. destemor. heroísmo. ou ignorância ou falta de prudência. valentia. impavidez. impetuoso. intrepidez. – É ainda de Bruns: Exceto e afora empregam-se indistintamente. temeridade. todos os irmãos são uns vadios”. determinado.132 Rocha Pombo 190 AFORA. ousadia. resoluto. veemente. precipitação. incisivo. atua com força e decisão. no entanto. arrebatado. tornando-se por isso muito cortante. amolado. resolução. – Temerário já é mais próximo de afoito. atrevido. pode ser o gume de uma faca. inconsideração. inconsiderado. imperturbabilidade. 192 AFOITO. e afora. – O homem afoito. ou que se lança a encontro do perigo. audácia. – . nos campos de batalha. decisão. impassibilidade. fino. – Arrojado é o que. O temerário leva a sua audácia e resolução até uma quase loucura. O verbo aguçar (do latim acutare) significa mesmo “fazer agudo”. bravura. – Desassombrado é semelhante a desafrontado: significa – “que não se assusta. arrebatamento. bravo. ou à vista de embaraços ou obstáculos opostos ao que intentamos. ou um espinho”. arrojado. intrêmulo. heroico. intré- pido. Em sentido translato – “que opera. “pedra de amolar”). e talhante sugere a ideia de separar de todo (talhar) a coisa que se corta”. mas investe o embaraço. sem preocupações que o levem a vacilar”. – Amolado se diz do instrumento que se aguçou a rebolo (mola “mó”. este adjetivo afiado. há sempre. – Um instrumento afiado tem o fio muito fino. um canivete. não obstante. penetrante. quer dizer – um ânimo seguro. impassível. Diremos – um bisturi. denodado. mas na temeridade (que é às vezes uma como exageração do heroísmo) sempre há mais alguma consciência do perigo do que na afoiteza. – Todas estas palavras designam qualidades ou estados de alma que se revelam ante os grandes perigos. confia- do. uma fé perfeita no próprio valor. Arrojo é mais que denodo. coragem. não só afronta. impertérrito. ou não o conhece. exceto se diz melhor do que se exclui.

propriamente”. que é corajoso e intrépido”. pois a ousadia não é mais do que uma coragem que se funda na confiança que o ousado logrou de sucessos anteriores. a constância. sem agitar-se. que mostra ousadia extrema. isto é. de decidere [= de + cœdo. que zomba dos perigos. no entanto. que teme tanto castigos do Céu.) – Determinado diz melhor a firmeza com que o resoluto executa o que resolveu. sendo a resolução um ato que resulta de reflexão. sendo o destemor uma das grandes qualidades do herói. – Ousado é menos que atrevido. leviana e confiante. denotando apenas a inconsideração mais leviandade que propriamente coragem. Nem se diz. salvar-se pela vitória. A valentia é qualidade de que se ufanam os campeões. sem temer. O homem fisicamente fraco e até enfermo pode bem ser corajoso. criaturas intementes. Impávido é “o que se não amedronta. quase temerário.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 133 Atrevido sugere a ideia de que o arrojado é inferior em forças àquele contra o qual investe. grandeza de alma no meio dos perigos. que despreza os tropeços”. impávido poderiam confundir-se. alentado e animoso. – Audacioso (formação vernácula de audácia) não diz senão – “que revela alguma audácia (ou uma audácia menos nobre e legítima).. – Audaz (conquanto oriundo da mesma raiz de que proveio ousado) envolve as ideias de intrépido. A determinação parece.. Não seria de estranhar que muito sujeito ousado viesse a mostrar-se covarde. e parece dar mais prova de irreverência que de destemor. Neste exemplo: “F.. – Inconsiderado significa o mesmo quase que afoito. igual. intemente. O sujeito animoso é o que se conserva como é. – Ânimo não tem a força de coragem: é mais “a posse de si mesmo. a índole. a firmeza com que se afrontam os perigos e se trata de os vencer. é tão desgraçado: vejo. sem comover-se. do que propriamente valor”. “coragem resoluta. Audácia é. que não se abala de pavor”. de alma forte que de força muscular. – Destemido. o temperamento normal que se não perde no meio dos embaraços. pois. por isso mesmo. O valoroso tem mais de coragem. pois. mas o primeiro se aplica de preferência ao indivíduo que é forte no físico. – Imponderado é convizinho dos dois precedentes. – Coragem (do baixo latim coragium “força do coração) designa propriamente a energia moral. com que alguém se arrisca a um perigo. valor moral. mas o sujeito intemente é o que não teme aquilo que é natural se tema. que vivem sempre felizes” – parece que fica muito clara a significação do vocábulo intemente (apenas – “não temente”). inquebrantável em situações difíceis. notando-se que imponderado e inconsiderado não envolvem necessariamente a ideia de coragem afoita que se encontra em arriscado. que se mostra calmo e tranquilo ante o que pode sobrevir. Impavidez é a “serenidade com que se encara. Quer isto dizer que atrevimento é a decisão pouco refletida. desafrontada. com um golpe de audácia. – Decidido é “que não vacila ante obstáculos ou perigos”. O general inconsiderado meterá o seu exército em risco de desastres. pode conservar espírito forte. arrojado. – Valente e valoroso andam de ordinário confundidos. e até ímpias. consequência da resolução que se tomou. robusto. ere] “cortar”) revela-se no ânimo seguro e pronto com que alguém se dirige em dada conjuntura. algum perigo”. e que para investi-lo tem de juntar ao arrojo a afoiteza. (Resoluto parece dizer alguma coisa mais calmo e ponderado que decidido. talvez mais petulância que audácia. A decisão (decisio. “valentia moral”. – Arriscado quer dizer – “que se expõe a perigos mais do que se permitiria a uma coragem regulada pela prudência”. sem probabilidades de vencer: o afoito ainda pode. O valor consiste mais na grande- . Destemido é “o que nada teme.

O denodo é a qualidade dos que. pois ímpeto quer dizer mesmo “decisão súbita e veemente” (e impetuosidade é a qualidade de ser impetuoso). pois heroísmo é tudo isto junto: grandeza de alma. e conserva a coragem e a calma nos combates”. rápido e violento”. excelência de intuitos. desafrontado. – Intrêmulo. mas a precipitação enuncia mais claro um ato fora de toda consciência. – imper- . – Heroico é o que se mostra digno de triunfar galhardamente pelo valor moral. assim. – Arrebatado é “o que se incende de sentimentos heroicos diante das desgraças. portanto. livre de receios”. O homem que salva de um incêndio uma criança. dá provas mais que de coragem comum. pois o sujeito afoito pode ainda ter ideia do perigo. A própria formação destas palavras está. que é animoso. ante só perigos. – Violento é muito distinto de precipitado. “que não se assusta diante do inimigo. e só figuradamente se aplicaria à grandeza moral dos que triunfam pela excelência de virtudes mais excelsas: dizemos. sem se aperceber do perigo. por esforço hercúleo. como já se disse. explicando-lhes a diferença. Um homem precipitado atira-se a um abismo sem o ver. o ataque. pois. dos escarmentos”. o violento só não dá ao que vai fazer uma atenção perfeita. de um ato de coragem. que não volta as costas ao inimigo. têm valor para arrostar o mal. – A bravura pode-se dizer que é a virtude dos homens de guerra. – Resoluto é quase o mesmo que decidido: apenas no resoluto se supõe uma reflexão mais funda do que no decidido. Precipitação é. Ninguém diria. Veemência é “a viva intensidade de uma apóstrofe. que se aventura. impassível são convizinhos muito íntimos. pela constância. – Impertérrito é antônimo de pertérrito. imperturbável. sem pensar nele. esplendor das ações (sendo heroicidade a “qualidade de ser herói”). alguma coisa mais que afoiteza. – Precipitado confunde-se com inconsiderado e imponderado. no esforço e altivez com que se afronta a desgraça ou o inimigo. – Veemente quer dizer “impetuoso e forte. no entanto. resolução é o “intento ou o propósito que se tomou depois de haver muito refletido na coisa que se trata de resolver”. nem mesmo ao que viesse a triunfar da fé. ou que se abalança a atos de audácia pouco refletidos (ardimentos)”. A intrepidez é a qualidade daqueles que. além de impávidos.134 Rocha Pombo za de ânimo. mas de uma bravura que vai até o delírio. de censura ou de exprobração”. – Impetuoso é o que cede a impulsos instantâneos da sua coragem e pratica atos heroicos que parecem mais inconsiderados do que atos voluntários de valor. senão – “uma súplica veemente”. sendo a violência “uma perpetração. Intrêmulo diz – “que não treme diante do perigo”. pois. – Intrépido é aquele que não vacila na investida. – Ardido é galicismo pouco usado (hardi) significando propriamente “atrevido. ou um inválido. ou que matasse uma criança. – Denodado significa “desprendido. que é um bravo o homem que num dado momento da vida se portou com a majestade de alma própria dos heróis. e apenas não pensar nas exatas proporções dele: o precipitado não cogita do perigo. para não trepidar ante a própria morte. de uma abnegação que excede a tudo que tem de augusto o heroís- mo: e é a isto que se deve chamar arrebatamento moral. dos perigos. se mostram isentos de preocupações que não sejam as de se mostrarem desembaraçados de tudo para alcançar o que almejam. e significa. ou um impulso mais devido ao temperamento que à decisão de quem obra”. coragem desassombrada. Não se teria por heroísmo a valentia de um sujeito que vencesse a um enfermo. do que propriamente no vigor de um físico sadio e robusto. de afronta. por exemplo: – “um pedido”. a desgraça.

– O agravo atropela nosso direito. De um homem que dança bem. A impassibilidade pode. ou estado de ânimo. ou uma declaração de sua insuficiência. – Quanto a injúria e ultraje. toma-o como desprezo ou insulto. mas a multidão dos contrários se lhe opõem. chegam dez indivíduos armados. sátira. na opinião. porque a ofensa nos choca diretamente com o amor-próprio. porque aquele. esta afronta-nos sempre. sustentou o seu feito sem voltar as costas. e dá-lhe duas bengaladas. eu posso estar agravado. ultraje. nem pretender elogios. insensível diante do que vê. em regra. a mulher. “que se não perturba. ou do que ouve”. afrontado. Tratar de feia a uma mulher formosa é um agravo que. ou um vício. ou a afronta. porém esta. esta. porque insulta seu amor-próprio e o humilha. que é vingar-se: este homem fica decerto agravado. sem ter nisto vaidade. apodo. ser uma virtude de estoico. e faz o que lhe cumpre como homem de brio. em outro §: injúria apresenta a ideia de agravo violento. Por isso. ou o mal que o assalta”. e não o alcança para castigá-lo. porém ofende aquele a quem se diz. o agravo pode vir de qualquer parte sem que afronte. ainda que ela mesma conheça que a não tem. insulto. pois que a afronta há de ser sustentada: circunstância que não é necessária para constituir o agravo. que se mostra indiferente. e o não conseguiu. injúria. avania. a ofensa junta ao agravo o desprezo ou o insulto. quando . não. O que tem direito a um acesso. porque em dizer aquela verdade não se dá a injustiça que exige o agravo para o ser. chacota. de atonia moral. como já notou d. não obstante que aquele nos causa um prejuízo efetivo. e dão-lhe pancadas. segundo as leis do maldito duelo. vexame. O mesmo confirmará outro exemplo: Está um homem com as costas voltadas. porém. chasco. ou nos humilha. Quixote: que a afronta vem da parte de quem a pode fazer. gracejo. porque lhe deram à traição. para a ofensa basta que haja insulto. zombaria. troça. nem olha como leves os insultos. irrisão. só nos incomoda com um prejuízo fundado. Se o que deu as pauladas ficara de pé firme fazendo rosto a seu inimigo. e faz e sustenta. mas não afrontado. porque nas mulheres pode mais. quando realmente o é. porque o agressor lhe fez rosto. 193 AFRONTA. a vaidade que a modéstia”. e este não perdoa com facilidade. ofensa. Não agrava o que diz de outrem que é torto. chega outro por detrás. não vê nisto mais que uma injustiça. a ofensa. e foge. mete o homem mão à espada. fica. afrontado. ou no capricho. ofendida uma mulher a quem se disputa a boa figura. ainda que não haja injustiça. escárnio. E assim. tratá-lo publicamente de ladrão é um ultraje. e não o deixam levar avante o que intenta. Desconfiar da probidade de um homem de bem é uma injúria. – ultraje apresenta a ideia de vilipêndio público em detrimento de alguém. que deprima. – “há esta diferença. não se altera ante o perigo. diz Roq. segue-o o homem. de que decerto se não dará por ofendido. mas não afronta. Para o agravo é preciso que haja injustiça. dissimula-se o agravo mais facilmente que a ofensa. “que nada sofre. crê-se agravado. ficaria o que levou as pauladas agravado e afrontado juntamente: agravado. Seja exemplo: Está um homem na rua descuidado. agravo. mofa. se a este agravo acresceu um desprezo do seu mérito. O que levou as pauladas recebeu agravo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 135 turbável –. – “Entre o agravo e a afronta” – diz Roq. – impassível. o homem. comumente. não se pode dizer que dança mal sem fazer-lhe um agravo. porém. privando-nos realmente do que nos pertence. Aquele prejudica-nos talvez sem nos afrontar. feito às qualidades pessoais de alguém. portanto. e a pé firme. crê-se ofendido. remoque.

um complemento que lhe determine a significação. portanto. – Bródio é quase o mesmo que patuscada. com esta diferença. – Comezaina é ágape menos nobre. e extorsões que os muçulmanos faziam aos cristãos”. e sugere o intento de insultar e expor à vergonha. o ataque. – Afrontar e arrostar. isto é. poucas haverá. às vezes mais brincando que ofendendo”. de entender de Lacerda e de Roquete. – Arrostar (vocábulo derivado do latim rostrum “esporão de navio”) é o mais expressivo deste grupo. Os exploradores do polo afrontam a morte por amor à ciência. janta. e. aqui.: “No sentido figurado destes verbos – escreve ele – o menos expressivo é encarar. expondo-o a ridículo. – Escárnio (do italiano schérno) é mais forte do que muitos deste grupo: ajunta à intenção de ofensa a ideia de nojo e repulsa. – Ao modo muito. Encara-se com terror a morte. por palavras engraçadas ou escarninhas”. comezaina. não devera passar de injúria. – Vexame é “tudo o que constrange. de ditos pouco delicados. rega-bofe. – Apodo (mais usado no plural) é “o remoque ligeiro. o gesto. Encarar necessita. pode ser mesmo oferecer-se até certo ponto a ela. acrescentando a este a ideia de desprezo. banquete. irritantes”. maliciosos. e que depois foi proibida pela Igreja porque quase sempre degenerava em orgia. – Patuscada é comezaina que desanda para a troça. – Zombaria é o dito.136 Rocha Pombo 194 AFRONTAR. apenas o bródio é menos charro. pândega. a atitude com que se falta ao devido respeito com alguém. conquanto animado. bródio. – Insulto dá ideia de ofensa feita de propósito. encarar. – Brequefeste (do inglês breakfast “almoço. arrostar. – Ágape. que melindra o pudor”. aqui. – Rega-bofe é grande folia de comes e bebes. escarnecer da vítima”. patuscada. preferimos o de Bruns. encara-se a sangue-frio o perigo. – Sátira. porém. – Gracejo é de todos os do grupo o menos forte. festiva”. Diz neste caso – “ofensa por meio de graçolas. e tanto que reclama um adjunto quase sempre para que se torne ofensivo: gracejo de mau gosto. Afrontar a morte não é combatê-la: é encará-la impávido. – Chacota é “zombaria por ditérios ou termos burlescos”. como é sabido. com ostentação. o insulto disfarçado. porém. é a palavra picante. gracejo pesado. que o não tenham por ultraje”. encerram a de denodo. e passou para a língua significando vexames. – Avanias são propriamente as “vexações. breque- feste. escândalo. que expõem a vítima a irrisão pública. – Mofa é também o sinal – palavras ou gestos – “com que se mostra desprezo por alguém. porém: que afrontar não implica a ideia de luta que existe em arrostar. por atos ou palavras. patuscada de vagabundos. onde há mais fartura de comidas que delícias. Arrostar peleja frente a frente. ficou (do grego ágape “amor. 195 ÁGAPE. era a refeição com ares de cerimônia cultual.. – Troça. – Irrisão é a “zombaria que consiste em rir.” – . torpeza”) significando hoje “grande e farta refeição alegre. – Remoque é “dito picante que disfarça uma censura ou repreensão”. com intuito de ofendê-lo”. – Pândega é “rega-bofe estrondoso. excluindo a ideia de medo. é termo popular significando “a zombaria aparatosa que se faz com alguém. jantar. A palavra com que se designou aquilo. – Chasco é muito semelhante a remoque. que os primitivos cristãos faziam em comum e às ocultas. violência.. intentando obrigar o inimigo a que recue”. insultos. alimento”) é “refeição abundante e alegre”. dirigido a algum defeito ou a alguma falta da pessoa a quem se ofende. é mais modesto.

no entanto. podendo ser. melhor que os dois precedentes. à rudeza. silvestre. não podem ser suportados por quem se habituou às delicadezas. diz Bruns. o que nasce e vive nos matos. no entanto. – Rústico (em latim rusticus. campesino. isto é. e. pode. Falando de sítios. que se julga como preso moralmente àquele a quem as deve”. – Agreste. como antônimo de urbs “cidade”) diz-se do que tem o caráter próprio da simplicidade aldeã ou camponesa. aplicado a pessoas ou ao que lhes é particular. tem a mesma origem deste. penhorado. ainda assim. rudez intelectual. que não agonizam no momento de morrer. sem cultura. estertorar. porém. inépcia. “Um lugar agreste só tem rochedos escalvados. gentilezas. rústico. grato. feito em família”. – E campesino. de rus “campo”. manifestações disso. ou sem a beleza da arte. 198 AGRESTE.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 137 Jantar é uma das duas refeições normais feitas diariamente. que não sofrem as ânsias da morte.. (do latim agrestis. Confunde-se frequentemente com agreste. nem trabalhado com arte o objeto rústico. – Silvestre é o que é próprio da selva. fundadas por mútua convenção social. – Agonizar é hoje usado só como intransitivo. plantas raquíticas. reconhecido por favores”. ao trato da boa sociedade. segundo o mesmo autor. – Em sentido desfavorável. – Reconhecido dá. – Grato é igualmente o que é sensível ao benefício. dizendo-se indiferentemente – flor agreste ou flor silvestre. terrenos ingratos.. etc. apreciáveis os seus sentimentos.. – Entre silvestre e selvático há diferença bem fácil de assinalar: flor sel- . mas. 197 AGRADECIDO. difere de agreste. reconhecido. do que carece da polidez das cidades. refere-se à grosseria. os costumes agrestes. rústico implica falta de tato. Por alguém que nos proteje ou socorre ficamos reconhecidos. – Penhorado = “obrigado. e nunca se toma em bom sentido. ser agradável. – Agradecido é o que não se esquece do benefício que recebeu. mas guardando intimamente a lembrança do bem que se lhe fez. São propriedades rústicas as que constam de terras de lavoura. refere-se a tudo que pertence ao campo cultivado. à baixeza. sem fazer. e janta é o “jantar mais simples. selvático. tanto falando de homens como de animais. – Cativo – tão reconhecido por serviços. do esforço e aflição de estertor em que se vê o moribundo.. isto é. a ideia de como o que recebeu benefícios quer dar provas da sua gratidão. Diz-se de pessoas e de coisas. do seu apreço por aquele que lhe fez bem. – Banquete é “jantar solene. de beleza natural. não conhece os usos da gente fina. obri- gado. para exprimir o ato de morrer. – Obrigado = “que se julga em obrigação moral com alguém que lhe fez alguma fineza”.” – Campestre. etc. selvagem. Não é polido. que implica a ideia de rudez moral. É assim que há pessoas que morrem sem agonia. portanto. epíteto menos frequente que campestre. sugerindo ideia da luta que o moribundo trava com a morte. O homem agreste é grosseiro a ponto de ser intratável. O homem rústico carece de urbanidade. cativo. devido mesmo à sua própria simplicidade. as maneiras agrestes. Por um obséquio fica-se agradecido. e dá provas disso. – Estertorar acrescenta a agonizar a ideia do trabalho. ou por algum motivo excepcional”. para indicar a flor que não é cultivada. 196 AGONIZAR. e geralmente só encerra a ideia de viver ou habitar no campo. e pode faltar às leis da conveniência. agreste exclui toda ideia de cultura. dado em honra de alguém. de ager “cam- po”). Por uma gentileza fica-se grato. campestre..

A agricultura é prática. Diríamos: crédito agrário. não só conhece a agricultura como arte. agrônomo. agricultor. Dizemos: medidas agrárias (e não – agrícolas). e não obstante.. mas poder-se-á dizer selvático. – Os substantivos agricultor e lavrador confundem-se frequentemente na linguagem comum. O agricultor é. colono. quando seguido de um complemento. no seu valor próprio. agrário. enquanto que a flor silvestre pode ser tão delicada como as que se cultivam. ou mediante jornal. e corresponde a agrícola. de artes. Há lavradores ricos. disforme. mas a flor sem beleza. sendo a ideia de propriedade e de riqueza inerente a este vocábulo. agronomia. de determinadas plantas. se o homem de quem se trata é rude. e com eles designa-se indistintamente o indivíduo. mas rústico se aplica ao que não está cultivado. conforme fosse o crédito fundado na propriedade rural em si. seja de conta alheia. – Agrí- cola e agrário não poderiam confundir-se: agrário (de ager “campo”) diz apenas “próprio do campo ou das terras utilizáveis. o proprietário das terras que explora. de letras. à propriedade territorial em si. No sentido rigoroso. por si próprio (ou de sua conta) e em ponto grande. relativo às terras ocupadas.. que explora terras e as cultiva. se dedica à agricultura. rural. grandes lavradores. Tratando-se de pessoas não se diz silvestre (e sim. lavrador. seja de conta própria. etc. estes vocábulos divergem entre si. este vocábulo. seja para simplesmente povoá-la”. – Entre rural e rústico (ambos oriundos de rus “campo”) há uma diferença análoga à que se acaba de ver entre os dois precedentes. cultivador. indica uma especialidade: há cultivadores de cereais.138 Rocha Pombo vática decerto que não é simplesmente a flor que não foi colhida nos jardins. – “é a arte de cultivar a terra. O agricultor. Colono só remotamente encerra a ideia de agricultura. O agrônomo é o indivíduo versado na teoria da agricultura: pode ser agricultor ou não. O cultivador vive de cultivar: é a única ideia que o vocábulo sugere. porém. e pequenos lavradores. brutal como os que vivem nos matos. – Agricultor e agrônomo também se confundem frequentemente. Ambos se empregam para designar o que não é da cidade. – Cultivador é um termo genérico que se pode dizer tanto do agricultor como do lavrador. a qual varia de processos à medida que a agronomia se aperfeiçoa. rústico. lei agrária (não – agrícola). grosseira como a selva bruta. a agronomia é a teoria dessa arte. pequenos agricultores. 200 AGRICULTURA. inculto. Numa ordem de ideias mais restrita. o que não está situado dentro da área urbana. agrícola (de ager e colere “cultivar”) já significa “relativo ao trabalho. ao campo onde se trabalha. pois. proprietário ou rendeiro. que ele considera como uma arte pela qual sente gosto. Agricultor é o proprietário que. não é indiferente empregar um em vez de outro. porque se refere à profissão do indivíduo. às propriedades territoriais”. nem lavrá-las: basta ser entendido em agricultura. ou crédito agrícola. Lavrador é o homem que lavra a terra. ou fundado na produção agrícola. . próprio da cultura dos campos”. seja para que a cultive. à vida dos que se dedicam à exploração das terras. rural se aplica à propriedade. 199 AGRÍCOLA. visto que para ser agrônomo não é necessário possuir terras. lavradores pobres. A cultura dos campos efetuada constitui a agricultura. porém. e não à arte que ele exerce. Não há. trabalho agrícola (não – agrário). senão que a exerce como ocupação. – Agricultura – escreve Bruns. a agronomia é teórica. O colono habita terra que não é sua própria. selvagem). e corresponde a agrário.

A agudeza vê os objetos mais subtis. sagacidade (sagaz).” – Banhar é “meter n’água alguma coisa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 AGUARDAR. – Sagacidade – diz Bruns. A vista aguda apanha diferenças. as qualidades das pessoas e das coisas. represas etc. banhar. – Banha-se o rosto. a dureza própria ou normal. Rega-se o canteiro. perspicácia (perspi- caz). as mãos. José de 139 Lacerda. ou por transbordamento. Irrigar. – A perspicácia da vista vê claro por entre. atilamento (atilado). astúcia (astuto e astucioso). inundar. a solidez. num vaso. do véu. – Segundo d.. – Molha-se o dedo na salmoura.. imergindo-os. Mesmo tratando-se de campos. que deve suceder ou vir.” – Irrigar e regar confundem-se. aguardar algum bem que se deseja e se julga que há de vir. segundo S. particularidades. a densidade. 202 AGUAR. emaranhado. ou noutro líquido”. regam-se as hortas. obscuro. 203 AGUDEZA (agudo). – Água-se uma flor. e não – que se regam. ou aguar tão bem como se a coisa banhada tivesse imergido n’água. banhar de água. no fundo dos objetos. argúcia (arguto e argucioso). ou se vem alguma coisa ou pessoa. as lavouras. Mas alagar sugere a ideia de que a porção de espaço alagada ficou por algum tempo debaixo d’água (como formando lago). Dizemos – regar ou irrigar as plantas. e inundar envolve ideia de extravasamento. molha-se os pés na sarjeta. e também fica-se com as faces banhadas de suor. É pela sagacidade que se apreciam. A palavra. do obstáculo. molha-se a cabeça apanhando chuva sem estar coberto. de invasão de água por excesso dela em outro ponto. ou pondo-os debaixo de uma corrente de água. subtileza (subtil). – Alagar e inundar também se confundem. que se dizia dos cães que tinham delicadeza de olfato para achar a caça pelo rasto. as ruas. A vista penetrante alcança o íntimo das coisas. ou que se presume sucederá ou virá. se o trabalho de umedecer as terras é feito por meio de canais. A penetração vê no interior. “exprimem diferentes qualidades da vista corporal. e por translação se aplicam ao entendimento ou à vista intelectual. dando atenção. molhar. “aguardar é estar à espera. – Os três primeiros substantivos do grupo. se o suor é tanto. minúcias que escapam à visão comum.” O homem perspicaz vê claramente através dos disfarces. penetração (penetrante). designa a qualidade especial de descobrir sem esforço o que é confuso. ressentindo-se da etimologia. e que se descobre o mérito que se oculta. olhando se sucede. dos fatos. por sua posição.. – Molhar é propriamente “umedecer ao ponto em que a coisa molhada perca o estado de secura. mais delicados. ou o pensamento .. no entanto. ou na grama orvalhada.. A ruptura do açude inundou o caminho. Espera-se o que é feliz ou agradável. o que se aguarda pode sê-lo ou não”. As grandes chuvas alagaram os campos. Esperar é ter esperança. esperar. A enxurrada inundou as ruas. se representam como tais. irrigar. juntar água a. – Aguar diz apenas – “derramar água sobre alguma coisa. mas não dizemos – regar as ruas (sim irrigar). para que não murche tão depressa.. e os que. e através da nuvem. mais finos. ou de lágrimas. – “vem do latim sagax. encher de água. tino (atinado). Luiz. ou se tão abundantes são as lágrimas que as faces fiquem tão molhadas como se tivessem saído d’água. rega-se a goles de água ou de vinho a garganta ressequida. alagar. finura (fino). dizemos – que se irrigam. regar. Irrigam-se as plantações. e estas durante muitos dias ficaram alagadas. os campos. no seu justo valor. os jardins. os campos. não é mais do que uma extensão de regar.

apoiar. para que daí não saia ou não se desvie”. segura. ideia de esforço. acima”. Finura é um termo genérico pelo qual se designa a habilidade de ver. Além disso. de sofismas. especar e estear confundem-se com apoiar. portanto. ou o vigamento de um edifício. a agudeza natural. suspender. sustendo-a. estear. sustentar. a escolha do falar. Se alguém impede que uma senhora dê uma queda não se diz que a apoia. Finura é frequentemente sinônimo de velhacaria e de diplomacia. ou tato muito subtil para apanhar o que nos interessa. na discussão.” – Tino é “a finura instintiva. ou a escora impede apenas que a coisa amparada se desloque de todo. e tenere “conservar.140 Rocha Pombo que se disfarça. de ferro. enquanto que a coisa que se esteia assenta. amparar. – Astúcia é a habilidade no emprego de ardis. Não se há de dizer.” – Atilamento é “a habilidade. 204 AGUENTAR. tão bem como amparar. especar. ou de pedra. e é mais expressivo que o primeiro. e estear é pôr em segurança. mas não sugere. ou de inclinar-se demais. repousa. A diferença consiste. – Argúcia será então a “subtileza no argumentar ou no discutir”. estável.. apurado. Argucioso é o que usa de argúcias. ponta. a facilidade de compreender. se apoia e fica firme sobre o esteio. escorar. pois em aguentar. suster. ou pelo menos de menor duração. haste. – Escorar. como define Aul. portanto. – Suster (de sustinere. não penda. Astuto = “sagaz no enredo. cavilha”) é uma peça com que se prende. empregando esteio. comumente uma trave mais ou menos grossa. e por extensão – “manter alguma coisa no estado ou na posição em que se acha. na distinção notada entre os respetivos radicais: o espeque (do inglês spike “espigão. com que se impede alguma coisa de virar de uma vez. – Suspender. em que assenta algum grande peso e fica firme. – Sustentar é uma ex- tensão de suster: dá ideia do maior esforço com que se apoia ou se mantém alguma coisa no lugar próprio. escora alguma coisa para que não vire. O espírito arguto agencia razões para envolver o adversário na disputa.. só se especa ou só se escora . se inclui ideia de ação momentânea. de susum “para cima. e também de menor emprego de força que em suster”. dissimulado e malicioso”. pois o espeque. – Apoiar é também “impedir a queda. Astucioso – “que usa de astúcias para enganar”. o cuidado meticuloso com que se faz alguma coisa sem nada esquecer do que lhe pertence. Escorar e especar distinguem-se ainda de estear por isto: o que se especa ou se escora não descansa propriamente sobre a escora ou o espeque. a oportunidade de obrar. que exprime a ação ou o efeito geral que os três primeiros particularizam: escorar é dar apoio por meio de escora. de madeira. nem estear um galho de árvore para que não se quebre. esteio é uma peça muito maior e mais forte. – Aguentar é propriamente. Escora é um espeque mais forte. especar um telhado. como observa Bruns. para sentir o que convém. artifícios para enganar. a perspicácia. fazer firme. – Subtileza é a qualidade de subtil. mas que a ampara. de madeira ou de metal. ou de cair. um como faro. o abaixamento de alguma coisa”. – Amparar é “impedir. o que é razoável”. segurar”) significa também “manter (alguma coisa) no lugar em que está”. segundo a formação do vocábulo (susum pendere) diz precisamente “deixar pendente em cima ou no ar”. Exemplo: “É uma criatura de tino admirável: e faz tudo com tanta habilidade e atilamento que maravilha os mesmos que a educaram”. – “conservar em equilíbrio sobre a corrente da água”. especar é fazer o mesmo com espeque. – Subtil = “agudo. que alguma coisa caia”. ou não caia de uma vez. penetrante”. Uma trave que serve de apoio a outra nem por isso se deve dizer que a ampara.

– Quanto aos três últimos vocábulos do grupo. diz Roq. instrutor. de equitação. guiá-lo pelo bom caminho (e até pelo mau caminho não deixaria de ser educar). por isso se diz: mestre de gramática. diz com muito mais precisão “o que se encarrega de preparar na alma da criança os fundamentos sobre que há de assentar a educação futura”. amo. lia ou explicava as doutrinas aprovadas pela escola ou universidade. preceptor. portanto. de tudo quanto lhe interessa. mestre é todo homem que dá lições. foi livrado (Lus. III. tendo recebido já o menino ou o moço que lhe veio do institutor.: “Todos estes ensinam em público uma ciência ou faculdade. que se especa ou se escora como um recurso de momento. e não o perde um instante de vista. toma conta de toda a sua conduta. Egas Moniz foi aio de d. e que se esteia para fixar. firme a coisa esteada. Mas o educador faz tudo isso. O mesmo não se dá em relação a estear. inabalável na posição que se quer. e tem um certo número de discípulos. pois o próprio termo educador pode não ter a extensão que se atribui ao institutor. e quase sempre ostentando seu saber oralmente. educador. pois o esteio (do inglês stay. que dá o verbo to stay “ficar. instrutor de ginástica. Institutor. tornando segura. pois sempre se subentende que a coisa a escorar ou a especar já não está em segurança. lente. – Preceptor dizemos do que está encarregado de instruir. contidas num . Instrutor militar. prepara num certo sentido o espírito do discípulo. com se oferecer a dura morte O fiel Egas amo. ao encarregado da educação de qualquer menino. – Instrutor é propriamente o que dá alguma instrução prática. Talvez que seja. portanto.. Também lhe chamavam naquele tempo amo. aio refere-se particularmente ao que educa fi- lho de príncipes ou de grandes senhores. institutor. O preceptor dá preceitos e conselhos continuamente a seu aluno. – Institutor é o que ensina meninos em estabelecimento público. orienta. O mestre dá lições a certas e determinadas horas. ensina em público uma ciência ou faculdade. Segue-se. ou estar no mesmo lugar”) sugere a ideia de permanecer em posição vertical. suportar. o mais expressivo da função de educar crianças. mas em cada um deles concorrem circunstâncias particulares que os distinguem entre si. 205 AIO. – Quem educa não dá só instrução: nutre. – Lente ou leitor é o que. ou ruína iminente. segundo o método escolástico. Afonso Henriques. para evitar uma queda. e pode-se dizer superficial e ligeira. etc. – Segundo Roq. expondo suas doutrinas como próprias.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 141 como provisoriamente. catedrático.: – Mestre dizemos do que ensina alguma ciência ou arte. institutor da infância (não educador). cujos pais o confiaram à sua direção. para que venha a ser na vida o homem que se deseja. O esteio apoia. de esgrima. para fazer que permaneça seguro. 35) Amo é hoje desusado neste sentido. entre todos os do grupo. aguenta em cima. para o formar moralmente e facilitar-lhe todos os conhecimentos possíveis: dirige-lhe a educação e a instrução em geral. de educar um menino. de música. como ainda se lê em Camões. de dança. Educar é dirigir o educando. – Aio é a palavra que antigamente se usava em lugar de preceptor. Sugere este vocábulo a ideia de criar. preceptor. falando do mesmo Egas Moniz: Mas. – Professor é o que professa. pedagogo (e pedagogista). que é moderna na língua. e resistir. mestre. e tanto que com perfeita propriedade se deve dizer: educador da mocidade (não institutor). como orador. professor. formar (instituir) o espírito do educando.

ou a uma corporação religiosa. gracioso. deve aquela usar-se particularmente quando se fala do masculino”. e é distinto e gracioso”. donairoso (donaire). garbosidade). professam em academias. delicado nas maneiras. e sendo esta privativa do sexo feminino. garrido (garridice). podendo até não ter a profissão de pedagogo. engraçado (graciosidade. É donairosa a pessoa que é mais engraçada que graciosa. pois há muitos homens sábios e instruídos que. cavalheiresco (cavalheirismo). A pessoa airosa pode não ser bela. pertence-lhe o nome de professor”. Vieira. além disso. falando de Fortunato de Chiaromonte. – Nobre. é “o dom subtil. neste grupo. nobre é o que.142 Rocha Pombo compêndio. vistoso. elegante. nobre (nobreza).. gentil (gentileza). tem nobre aspeto. do qual se não afastava. A elegância consiste no modo de ser discretamente belo. a de distinto. galanteria). grácil (gracilidade). à presunção com que o pedagogo alardeia a sua capacidade. belo (beleza). porém. se professa à moderna. – Gentil é “o que tem delicadeza. garboso (garbo. Graciosidade é a qualidade de ser gracioso. O professor pode não ser catedrático. é austero na moral. galhardo. mas é sempre condecorado com o título de mestre. 206 AIROSO (airosidade). ou a uma universidade. – Pedagogo e pedagogista. lindo (lindeza). e pedagogista é o versado em pedagogia. Tomam-se. – Engraçado é o que mostra alguma graça nas maneiras. que tenha uns ares que nos agradem. reuniões literárias etc. encanta. quase sempre a má parte. elegante (elegância). – Gracioso é aquele ou aquilo cujo aspeto tem graça. a palavra formosura. delicado. ornada com os retoques da modéstia. no porte.” (V. diz: “Esta foi a pensão que pagou Absalão à sua gentileza”. taful (tafulice. que consiste num modo de ser que atrai. (V. A nobreza confunde-se com a fidalguia. tem também o nome de lente. galhardo (galhardia). impressiona mais o coração que os olhos. cavalheiro. é mais varonil que a formosura. – Graça. diz: “Era de tão rara gentileza. distinto (distinção). galante (galantice. etc. mas esta é menos distinta e brilhante. limita-se a representar aquela ideia com relação . são sinônimos de professor.. porém. bizarro (bizarria). a quem chama galhardo e belo. formoso (formosura). principalmente o primeiro. acrescenta às qualidades de airoso. 116) – Consiste a beleza e a formosura na boa proporção e harmonia das partes que compõem um todo. no falar. bonito (boniteza). – Fidalgo é o que se mostra fino. enquanto que o donaire é apenas uma aparência airosa. fidalgo (fidalguia). loução (louçania). esbelto (esbelteza). E o padre Bernardes. gazil. falando de Absalão. Deve notar-se que pedagogo é o professor que ensina segundo a pedagogia. Disto nos deixaram exemplos dois mestres da língua. ateneus. O lente ou leitor pode pertencer. nem mesmo elegan- te: basta que tenha nos modos. 441). graça). suave. generoso. que têm hoje acepção muito diferente da antiga. pois aludem. e que. pois a graça é uma prenda mais espiritual. guapo (guapice). digno. – A graça é mais que o simples donaire. cavalheiroso. no andar uma certa graça (airosidade). – Elegante é “o que é bem modelado. Gentileza é “a galhardia e bom ar” – diz Roq. – “acompanhado de nobre presença. aqui. – Catedrático é o proprietário de uma cadeira (cátedra) de universidade (ou de uma escola superior) em que ensina a faculdade de que está encarregado. de ser aprimorado sem afetação. seduz”. sem pertencerem ao corpo universitário. garbo próprios de fidalgo”. O catedrático pertence sempre a uma universidade (ou a uma escola): se ensina à antiga. – Airoso se diz de quem apresenta um aspeto agradável. tafularia). portanto.

Tafularia é a facécia do taful. à expressão de um sentimento. São os olhos os juízes da formosura. – Cavalheiroso e cavalheiresco são definidos como significando a mesma coisa. e formosos para todos. tafulice e tafularia. além de elegante. interessante”. desembaraço. em cujo corpo se não encontra defeito. a beleza aplica-se também ao moral. sacudido. os modos.. entende-se particularmente das feições. o que tem aparências de saúde. franzino. aprumo e coragem. possante. e ornato dos trajos. cavalheiresco”. com asseios esquisitos. Luiz. “mas que não chega a ser formoso”. da tarefa. – Bonito é um diminutivo de bom. pode notar-se. – Garbo é “um quase orgulho de ostentar figura e galhardia”. alegre. como diz o prolóquio: “Quem o feio ama bonito lhe parece. Bizarria é tudo isto junto: elegância. “homem de distinção. Garbosidade é a qualidade de ser garboso. fino. dos quais não pode. concerto. etc. do asseio etc. ao que obra diretamente sobre o espírito. Galantice é a qualidade de ser galante. isto é. de boa disposição”. no entanto. graça. festivo”. põe a formosura no que está mais distante da beleza. engraçada. Gracilidade só deve aplicar-se ao que é pequeno. – Esbelto (ou esvelto) designa “o que é de formas corretas. a palavra beleza representa a ideia da perfeição possível. pois este adjetivo junta à qualidade de bonito um certo ar e graça que muito o aproximam de belo e formoso. porém. à ternura de um afeto: a tudo isso assenta propriamente beleza”. que tomou na linguagem vulgar um sentido especial. por ser mais expressivo. sendo esbelteza a qualidade de ser esbelto. de onde vem galante. Coisa galante quer dizer – bem ornada. as graças. dizemos de preferência. os modos como ele se apresenta. – Galhardo (do italiano gagliardo) diz – “robusto. que mofas não fariam as nossas damas de quem lhe louvasse a beleza do talhe? A formosura só se aplica ao físico. que o primeiro . com igual propriedade. segundo S. “refere-se ao gosto. quando queremos designar o que tem maneiras de alto bom-tom. isto é. e por isso acontece muitas vezes que o gosto.. dizer-se que são formosos. mimoso. É assim que não chamamos formoso a um poema. forte. da expressão do rosto. elegante e gracioso”. Garboso é o que. e também indica maior perfeição no objeto lindo. – Gazil e grácil são adaptações do mesmo vocábulo latino gracilis. o que é afeito ao trato de gente culta e fina. que se destaca do vulgo”. Se a Vênus de Médicis. vivo. Boniteza é “a qualidade do que é bonito” – diz o mesmo Roq. Neste sentido admira-se a beleza do Apolo do Belvedere. brioso. – Tratando-se do homem. –. e o Apolo Pitio.” Quando se diz das pessoas. Tafulice é a qualidade de taful. varonil.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 143 ao agradável. Gazil é corrupção de grácil. – Coisas análogas devem dizer-se em relação a taful. da ação”. se mostra altivo.” – Galante. talvez com ditos engraçados. Bonito é palavra familiar que indica coisa agradável à vista. são belíssimos para os inteligentes. bem proporcionado. Também se entende especialmente das boas proporções do rosto acompanhadas de graça e donaire. – Bizarro exprime “esbelto e gentil. a Vênus de Médicis. ao que obra sobre os sentidos. – Vistoso é apenas “o que parece bem à vista. com destreza e elegância (galhardia). que se sai garbosamente. faceiro. bravo. se pudesse vestir à francesa. e toma-se ordinariamente pelo oposto de feio. Grácil significa “delicado. Taful significa – “loução.. do embaraço. os ditos de que se serve o galante para agradar. que pretende agradar às damas. namorado.” Galanteria é a arte de ser galante. pessoa de distinção”. pois distinto significa apenas – “que não se confunde com o comum. do Hércules Farnésio. – “Lindeza é palavra mais culta que boniteza. lépido.. viciado por algum capricho ou costume. ataviada com gosto.

Na linguagem corrente. – Segundo Alves Passos: – “Rebelião é a desobediência. – Re- . segundo ostentava o antigo fidalgo”. É o cavalheirismo. correspondendo a gentileza com gentileza.. – Agilidade é “facilidade. Algo significava haveres. além de significar qualidade do que é ligeiro. 207 ÁGIL. por meio de atos tendentes a subvertê-la. sendo expediência a “qualidade de ser expedito”. to. revolta. portanto. Pretende-se que esta subtil distinção se sente nestas frases: “Recebeu-me muito afável e cavalheiroso”. hijodalgo). Bem se vê: a guapice só se encontra em moços. como usurário. rebelião. destreza. esquisito e engalanado”. etc. ligeireza. expedi- mais – “vivo. muito veloz” – do que propriamente ágil. – Guapo é “o que se mostra lépido.. enfeites. agiota se diz. lépido. motim. na verdadeira acepção da palavra. volubilidade” e principalmente “habilidade em escamotear”. insurreição. – Ligeiro diz levantamento. usurário. – Lesto é “o que. aqui. bizarro e gentil”. rapidez. ou da baixa de preço que estes sofrem. lesto. sedição. isto é. abalo. – Onzeneiro (ou onzenário) é o usurário que exige usura requintada e faz questão de lucros descomunais.144 Rocha Pombo designa propriamente – “que tem ou revela qualidades e maneiras que eram de rigor entre os antigos cavaleiros (nos tempos da Cavalaria)”. convulsão. alegre. papéis de crédito. ágil tanto pode ser o homem como o simples animal. pronunciamento. bravo. designa aquele que trafica em fundos públicos. sem discrepar das boas normas”. o que tem maneiras gentis e sentimentos cavalheirescos”. fino. destro. diz Bruns. é discreto e gracioso”. educação e qualidades nobres. ufano. conquanto haja talvez muitos velhos que se jactem de guapos. onzeneiro (ou onze- nário). sublevação. desembaraço natural no mover-se”. – Segundo Bruns. “é o movimento anormal do povo quando os espíritos sobressaltados planeiam ou tramam contra os dirigentes. leve. A garridice é. além de ágil. valendo-se da alta. Com todas estas partes servia-se a pátria e adquiria-se a fidalguia”. – Revolta (to turn agaisnt em inglês) exprime tanto como voltar contra. choque. “delicado no trato. pois a destreza é “uma agilidade acompanhada ou servida de astúcia e arte”. – Lépido. é “o que é no trato parecido com os antigos fidalgos. arruaça.) “é termo corruto de filho d’algo (do castelhano hidalgo. pronto e gracioso”. significa também “ligeiro. – Garrido exprime – “vivo. a resistência à autoridade opressora: exprime tanto como levantar contra. expediência. no falar. garbo) de parecer loução. – Loução diz – “de aspeto gentil. para designar “leviandade. festivo”. é a perturbação da ordem estabelecida. sécio. do prestamista que empresta dinheiro com usura abusiva”. – Agitação. cataclismo. no sentido que lhe damos aqui. uma qualidade que assenta nas crianças e nas meninas. “Teve comigo um gesto cavalheiresco”. – Destro só se aplica ao homem. a agitação é geralmente a precursora de qualquer das comoções designadas pelas outras palavras deste grupo”. – Expedito é o que se não embaraça no agir. e cavalheiresco enuncia – “próprio do cavaleiro.. ligeiro. como os próprios modos (trajo. bens. comoção. Fidalgo. alegre. – Fidalgo (é ainda de Roq. tanto o ato como a qualidade do que é cavalheiro (se bem que para exprimir a qualidade poderia usar-se de cavalheirice). “agiota. etc.. agilidade. toma-se também à má parte. 208 AGIOTA. tanto a qualidade de ser loução. para auferir ganhos. conflagração. Ligeireza. revolução. Louçania é. 209 AGITAÇÃO.

que se decidiu em favor do revoltoso. ou contra a autoridade constituída. está em revolta ou revoltado”. e é geralmente promovida pelo próprio governo quando lhe convém fazer alardes de força. e antes achar-se de ânimo firme e resoluto em combatê-la. e se esta não for sufocada. – Comoção é quase o mesmo que convulsão: apenas não sugere tão necessariamente a ideia de violência e transtorno que se envolve em convulsão. rápida e tremenda. ou pelo menos é aquele cujas consequências são de menor importância. semelhante ao tremor. ou tomar disposições que não soubera justificar de outro modo. A arruaça é o motim da mais ínfima ralé... – Choque diz “comoção instantânea. ou por uma vasta província. pronunciamiento) “é termo puramente espanhol com que se designam as frequentes insubordinações dos chefes militares de Espanha.” – Convulsão é. e a subverter toda a ordem política. tendo chegado a depor autoridades. tratando-se de política. a luta contra a autoridade. – Conflagração é “convulsão . É de ordinário uma fermentação momentânea de algum bando do povo. revolta. e quando um povo. Não diremos. e a revolta produz a revolução. uma revolução talvez menos formal e extensa. “o resultado imediato da agitação: degenera em revolta. mesmo sem certeza de que se consumem as mudanças operadas (e sim diremos – que está em revolução). A consequência da sublevação é a guerra civil. – O motim é o menor dos movimentos contra a ordem normal. ou do mesmo povo. em revolução. inspirada por alguns. virá a mudança da sua política – outra ordem de coisas – a revolução. é a revolução em suma. A rebelião não é algumas vezes senão uma simples desobediência. diz Roq. ou a guarnição de um presídio que se levanta contra o respetivo comandante (e sim – que está em revolta): como não diremos que está em revolta toda a população de um dos Estados da República. a revolta é o duelo. uma oposição ou resistência à autoridade. porém mais violenta. ou em insurreição. indignado contra seus opressores. O motim é um levantamento de pouca importância. – Sublevação é mais extenso que levantamento: designa “o fato de insurgir-se em massa uma população inteira”... – Rebelião designa a ação das pessoas. causada por descontentamento. generalizada por todo um país.. – O levantamento é. e que publicamente declara não reconhecer por legítima. por uma série de atentados. de oposição. e a revolução é a vitória. o estado das coisas... e revolução é a coroa de loiros para o vencedor. A rebelião é ato de arremessar a luva. – A sedição é um espírito geral de perturbação.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 145 volução é a mudança da ordem estabelecida. revolta é a guerra formal. e muitas vezes por pertinácia e falta de reflexão”. O motim tende mais a perturbar a ordem que a combater a autoridade. que está em revolução a força que guarda um posto. revolução é apenas uma revolta mais extensa. uma agitação tumultuosa e de curta duração. Assim.. Da rebelião passa-se à revolta. no entanto. a revolta tem sempre alguma coisa de violento e terrível. segundo for a sua importância. e a gravidade do que o origina. “é o estado em que se acha um povo depois que se levantou e se armou para combater a autoridade a que estava sujeito. – Abalo é “o movimento contra a ordem. Às vezes a simples rebelião de uma alta personagem motiva a revolta de um reino. segundo Bruns. Pronunciamento (ou melhor. – A insurreição. passageira”. – Na linguagem comum. e revolução indica o triunfo da revolta. por exemplo. de uma assembleia. um particular está em rebelião “quando se opõe aos decretos do poder público. que. se comunica rapidamente a todos os membros de um corpo. à crispação produzida por uma impressão forte”. Rebelião é a declaração de guerra. perturba a ordem estabelecida.

isto é. na acepção que tem aqui. encontrando-se com adversário. que em ventilar se sente já alguma coisa de intuito dialético: ventila-se um assunto estudando-lhe ligeiramente as proporções. vasta. – Quem agita uma questão. – Ventilar e aventar exprimem um pouco mais do que simplesmente agitar: quem ventila ou aventa um caso. nem por isso o discute propriamente: apenas o faz lembrado e o põe à vista de outros ou do público. Sisudo acrescenta a assisado a ideia de “discreto. pois este designa qualidade. disputar. prudência. nem a debate tampouco. 210 AGITAR. um princípio. “que sabe julgar direito. quase propor – do que propriamente de discutir. pondo-lhe os termos muito precisos. dando-o por ainda não liquidado. 211 AJUIZADO. tomando-lhe em suma os termos gerais. isto é. cuidar de alguma coisa para resolvê-la”. avisado. ou graceja e zomba do que argumenta ou discute”. cordato. ou agitando-a. – Debater é ventilar e discutir esforçadamente. ponderado. ou a respeito de alguma coisa. oferecendo opinião sobre ele. ou mesmo de estudar. sensato. tem sido muito ajuizado em toda esta questão” – decerto que não caberia com lídima propriedade o adjetivo sensato. uma ideia. e procura impô-la a outrem. e sujeitando-o a disputa ou a debate. lembrar. Entre aventar e ventilar não se notaria grande diferença fundamental. geral como se fosse um incêndio”. tratar. “é uma conflagração que transtorna toda a ordem política de um país”. tem a calma. além da sisudez. Pode dizer-se. clara e nítida. decerto que a não discute propriamente. Em regra. ventilar. Sensato confunde-se com ajuizado. fazê-la simples e líquida. uma questão. – Cataclismo. assisado. Quem discute sustenta sempre um modo de ver. grave. – Tratar é o mais genérico do grupo. só se debatem questões de grande importância. tino. Aventar tem mais de expor. à conduta da pessoa a quem se o aplica. – Discutir é “examinar todos os termos de uma questão. mas procura desembaraçá-la. e mostra interesse em que se trate de discuti-lo e resolvê-lo. – Prudente é a pessoa que. analisar todos os aspetos de um caso”. defende uma opinião. e procurando vencê-lo. um problema. mas este refere-se mais particularmente ao estado. exalta-se mais. isto é. bom senso. ou sugere a ideia da compostura que mantém essa pessoa num dado momento. aventar. a serenidade e moderação do que é sábio. sisudo. e o outro designa mais estado que qualidade. grave na compostura”. assisado e sisudo são vocábulos que coincidem no mesmo radical sensus. indicar. Quem trata de um assunto. Disputar é “uma forma de discutir e debater: o que disputa. uma opinião. – Sensato. circunspeto. chama sobre ele a atenção geral. que tem juízo. deba- ter. – Controverte-se um assunto. do “que tem uma compreensão exata das coisas. Nesta frase: “F. Assisado e sisudo também se confundem. de uma questão. judicioso. – Ajuizado diz propriamente – “que tem juízo”. Assisado quer dizer – “que tem siso”. prudente. no entanto. sá- bio.146 Rocha Pombo tão violenta. que tem uma justa medida das coisas”. muitas vezes até sem dela fazer mesmo a apologia. porém. Quem aventa uma hipótese. uma perfeita inteligência da . ou discutindo-a formalmente e debatendo-a. pondo-o em dúvida. nas quais têm muito interesse os que as debatem: tais como os casos políticos e os judiciários de alta monta. com vivo empenho. faz isso – ou apresentando-a apenas em seus termos gerais. e significa – “dar atenção. discreto. sério. controverter. discutir. quase que não faz mais do que apresentá-la à atenção de outros.

das suas condições. – Fila. “é a série de pessoas ou de coisas postas umas atrás das outras. aqui. pelo menos. – Circunspeto significa propriamente – “comedido. “O caso é muito sério”. na retidão de conduta. revelando ou afetando grande segurança de reflexão. nem – “ostenta porte sério). de equilíbrio moral”. voltadas de frente uma para outra. nos seguintes exemplos. . portanto. – Renque é “uma série de coisas ou de pessoas postas em linha”. “Ele foi sempre um homem sério” (isto é – “sempre foi probo e digno”). como até ordinariamente obedecem a critério de classificação. e sem pesar os atos”.. medindo. A gravidade é própria dos homens velhos. Ele falou grave (isto é – “pesadamente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 147 vida. modesto. – Discreto é “o que se mostra atento nas palavras. no seu grupo 493. é um homem em cuja probidade se pode ter plena confiança. A seriedade é. é uma ala. mais uma qualidade moral do que modo de ser exterior. altivo e severo. Conforme a definição de Bruns. cauteloso. linha. que se mostra sagaz. Dizemos: “Ele marchou com gravidade para a forca”. tendo a frente voltada para o mesmo lado”. que chega sempre à boa razão. Seriedade é uma virtude que consiste mais na lisura de consciência. é um homem sério afirma-se que F. “O caso é muito grave”: nas quais se sente como grave diz muito mais do que sério. acentuando muito as palavras”). – Cada uma das duas longas filas que. bem clara a distinção entre grave e sério. cordis. enquanto que na série as coisas. 212 ALA. na inteireza de caráter do que na simples compostura que se mostra ou afeta às vezes calculadamente. Quando se diz que F. “coração”) é o homem “prudente. fila. não saindo nunca da linha normal no modo de portar-se”. – Grave é “o que tem aspeto nobre. Aplicado a coisas ou fatos é que o vocábulo grave é mais forte que sério. que se satisfaz ou se concilia com o que é razoável”. que na acepção que tem aqui. “é a série de pessoas ou de coisas postas uma ao lado da outra com a frente voltada para o mesmo lado”. no cumprimento dos seus deveres. – Fileira é propriamente uma série de filas. renque. nem sempre assim. conquanto exprimam ambos a continuidade ou sequência de coisas ou pessoas numa certa direção.. quanto à seriedade. – Linha e série não se confundem. não só se sucedem numa certa ordem. que parecem sentir o peso dos anos. como nestas frases: “Trata-se de negócio sério”. – Ponderado é “o que nada faz sem refletir muito. dando provas de juízo e atilamento”. sabendo bem discernir as coisas. estão separadas por um espaço. – Não assim. – Cordato (de cor. reservado. série. fileira. – Judicioso exprime – “que julga com bom juízo. fechado e sereno. Ainda podemos deixar. de tudo que se lhe passa em torno”. porque se sabe que tem sido sempre correto. como se nunca estivesse desapercebido do seu posto. – Avisado é “o que procede com acerto. um tino seguro para precaver-se dos males e perigos”.. sincero e direito nos seus tratos. pois na linha as coisas podem estar sem regra de sucessividade. conveniente nas ações. não é a mesma seriedade de que trata Roq.. entre seriedade e gravidade: “Ele falou sério” (isto é – “disse o que sente”). enquanto que gravidade é mais modo de ser exterior do que propriamente virtude. sem apreciar maduramente as coisas. “Ela tem o porte grave das matronas” (e não – “marchou com seriedade”. segundo Bruns. que raciocina com acerto”. liso. apercebido do que convém. “Trata-se de negócio grave”. “Ele foi sempre um homem grave” (quer dizer – “de maneiras lentas que o fazem parecer severo”). aprumado no agir e no falar.

A bazófia é coisa semelhante ao que vulgarmente se chama prosa ou intimação. ou de magnanimidade. vitórias com que apenas tem sonhado. ufanar-se de haver ganho uma partida de bilhar. aqui. os feitos. – Sob este aspeto. Qualquer pode fazer ostentação de riqueza. por alguma honra. é “uma exaltação do amor-próprio que nos leva a ter um orgulho exagerado daquilo que se nos diz ou faz. ostentar. Ufana-se o artista da sua obra quando sente que ela lhe deu uma grande expressão da própria alma.. de valente. fanfarronice. com ênfase. – Bazofiar é “fazer ostentação ridícula ou escandalosa de grandeza. fortuna ou triunfo”. jactar-se. outro tanto se deve dizer de ufanar-se. ou que pode ser visto por todos. orgulhar-se ou orgulhecer-se. A vanglória é “uma ideia falsa ou exagerada que faz alguém de si próprio”. Mesmo desvanecer-nos da benevolência que se tem conosco. como entre si. jactar-se (jactância). Assim de alardear. ostentação) aquilo que se tem ou se supõe ter. Blasonar (de qualquer coisa que seja) é sempre. intimar (intimação). pelo menos. Fanfarrice é a qualidade de fanfarrão. Gautier – o capitão Fracasso. gabar-se. num caso em que dessa justiça lhe pendia o crédito? Só quem pode não ufanar-se nunca de coisa alguma. tanto se pode dizer daquilo que se possui. ou de ter dançado uma valsa com mestria e elegância. fanfúrria).148 Rocha Pombo 213 ALARDEAR (alarde). tanto de todos os do grupo. que alardeia méritos que não possui. ou que é material. etc. desvanecer-se (desvanecimento)... Conforme o complemento da sua predicação. é usado com um completivo: blasona-se de nobre. – Alardear e ostentar distinguem-se. as qualidades. bazofiar (bazófia). de força. ou que se nos atribui”. etc. por mais que signifiquem ambos “proclamar com aparato e desvanecimento (alarde. ufanar-se (ufania). ou de coisas fúteis e vãs é que é ridículo. como do que se não possui. Mas só desvanecer-se de ser belo. ou é invisível. – Fanfarrear é. e dá-lhe por isso uma importância que ela não tem. bazofiar. Quem se vangloria de alguma coisa presume demais do que essa coisa vale. A ufania é um como contentamento desvanecido. O desvanecimento. uma alegria orgulhosa que se sente por haver alcançado alguma vitória. é que este verbo desvanecer-se envolve ideia que o aproxima dos demais deste grupo. Só fanfarreia o boborio que berra e bufa de valente e corre de uma criança. porém. fanfarronada. blasonar. Quem é que se não ufana da justiça que se lhe fez. – Desvanecer-se é “sentir vaidade por algum mérito. mais de rigor do que o outro. posições que nunca ocupou. Pode-se fazer alarde de rico (alardear fortuna ou cabedais) e fazer alarde de honradez. – isso é outra coisa. o que melhor acentua a ideia de todos alardes. impróprio de um homem sério. entre todos os do grupo. Alardear. – Jactar-se é dizer publicamente. vangloriar-se (vanglória). vangloriar-se. ou da honra que se nos faz – é coisa que se diz sem descaída moral. fanfarrear (fanfarrice. ou que é material. de piedade. Só se ostenta o que realmente se mostra. que blasona de façanhas que nunca praticou. Ninguém ostentará méritos que nunca teve. ostentações charras e ridículas que só se admitem naquele tipo de Th. de prosápia. A jactância não é propriamente ostentação. – Blasonar é quase o mesmo que bazofiar: apenas blasonar. etc. Fanfarronada (ou fanfúrria) é “a prosa do . ou de honras. Desvanecer-se da amizade de um homem digno é perfeitamente legítimo.. fanfarrear. de tino. de valentia. – Vangloriar-se aproxima-se do precedente. mas decerto que ninguém se lembrará de fazer ostentação de gênio. os próprios méritos. nem alarde: é mais “um quase desvanecimento e alegria em que se fica de haver alcançado alguma coisa cujo valor se exagera”. ostentar (ostenta- ção). Agora.

designa certo canto ou cantilena cadenciosa que os marujos e outros operários entoam quando trabalham para se animarem mutuamente. – Gritaria designa multidão de gritos. – Orgulhar-se é mais que desvanecer-se. José de Lacerda – “conforme a origem árabe. a desordem. – Clamor é “como gritaria grave e aflita. celeuma. turba. de ameaça. uma bola de borracha que se enche de ar. 215 ALARIDO. dilata-se um orifício. Só se orgulha de alguma coisa quem sente uma importância exagerada que dessa coisa lhe vem. ou mais longo”. o sujeito que trata os outros com arrogância. – Sussurro é palavra onomatopaica desig- . Neste sentido.. – Turba. murmurinho. – Tumulto é “grande comoção e alarido. Por extensão. – Alvoroço é “manifestação estrondosa de alegria. borborinho. e também as vozes lastimosas dos que pranteiam. repercussão de desordem. os motins destacados de uma comoção ou revolta”. é “a confusão. berreiro. como o berro de alguns animais”. que fazem mais bramar que gemer”. etc. parece que é mais expressiva e até mais própria. em todas as dimensões. – Intimar exprime. – Berreiro é “grito ou gritaria monótona. contendem ou bulham. – Ampliar é “tornar maior alguma coisa em todas as suas partes. os atos do fanfarrão”. ampliar. com ares de quem sempre está mandando (intimação). abrir. em qualquer dimensão. de menores proporções. arruído. – Rumor é mais “eco de vozeria. pedindo. é “conjunto de vozes desordenadas formando ‘coro de arruídos’”. e só figuradamente é que se emprega por ampliar.. – Algazarra é adaptação do árabe: era “vozeria. – Celeuma. fazer crescer proporcionalmente”. algazarra. ou no trabalho. alvoroço. Fanfarronice é “o modo de ser fanfarrão. Intima. – Arruído é quase tumulto. de entusiasmo. – Bulha será um barulho insignificante. grito ou alarido”. aqui. ou vozes em confusão e descompassadas. conquanto menos usada. desordem estrondosa”. que os moiros levantavam em qualquer acometimento ou conflito de guerra. e até de dores violentas. segundo a origem grega. e compassarem com as vozes. as forças que empregam na manobra. mais arrelia. ou se amesquinham. – Bramido é “clamor de cólera. barulho. gritaria. etc. sig- nifica o clamor que se levanta ao travar-se a peleja. a ideia de “blasonar de poderoso. uma praça. mais extenso. as palavras. bulha. ou de ódio”. Dilatam-se as pupilas à medida que a luz ambiente diminui.). bramido. designa a vozeria dos que se travam de razões. de importante”. clamor. – Alargar diz propriamente “fazer mais largo”. tornar mais largo. os gestos. de fazer fanfarronadas. murmúrio. 214 ALARGAR. protestando. – Barulho é termo vulgar que corresponde a tumulto: é apenas um tumulto menos grave. quando se diz. vo- zeria. rumor. ameaçando”. uma rua: em geral. gritaria. tudo que tem comprimento e largura. ser o primeiro a falar nos próprios méritos”. – Vozeria diz propriamente “multidão confusa de vozes”. – Dilatar é também “fazer maior. dá-se o nome de celeuma à vozeria. rusga que barulho. Incorporamo-lo para designar a desordem e confusão de vozes no meio das quais nada se discerne. dilatam-se alguns corpos sob a ação do calor. por exemplo: “Vamos alargar o nosso campo de ação”. Amplia-se um jardim. dilatam-se as narinas para aspirar o perfume. a forma orgulhecer-se. tumulto. sussurro. de arruído que propriamente essas coisas”. – Gabar-se não é mais do que “elogiar-se a si mesmo. dilatar. na acepção com que figura neste grupo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 149 fanfarrão. Por extensão.” (Aul. Alarga-se um caminho. – Alarido – diz d.

Por isso se diz que temos o temor de Deus. emprega-se este vocábulo para designar a perturbação que causa a ameaça. o susto dura pouco. – Alarme – escreve Bruns. assusta-nos o que não podemos definir. o alarme. pavor. é “chamamento com desespero. ou de um mal que certos indícios nos levam a julgar não só possível mas até provável. clamor. chamamento. O rebate sempre encerra a ideia de defensa. sussurro de multidão falando a um tempo e mal contido”. O medo distingue-se do temor em ser este um produto da razão e até certo ponto da vontade. é o ato de dirigir-se alguém a outrem. a do susto não o é geralmente. O medo é mais ou menos prolongado.” – Apelo é “pedido de socorro. como um recurso de aflição. do inimigo. ou a de instigar à fuga. temor. – Chamada é propriamente “a voz ou sinal com que se avisa ou com que se chama atenção e se convoca.” – Chamamento designa a “ação de chamar com esforço. a de defensa. A causa do medo é determinada. e não temor. este para repentina e inconscientemente. espanto. a suspeita de algum perigo. e não medo de Deus. porém. – Murmurinho é como “vozeria abafada. – Rebate é o toque de sinos. – Alarme. reclamo. – Borborinho é também voz onomatopaica. rebate. quanto tempo nos separa ainda deles. Emprega-se esta palavra com muita propriedade quando nos referimos à previsão de acontecimentos muito desagradáveis.. o medo é um sobressalto violento e repentino que nos leva ao temor. e mais pelo extenso uso que se faz desta palavra. – Clamor. e que conservamos contra nossa vontade. enquanto que o susto nos deixa como suspenso: quando o susto assalta o homem. assombro. – Medo é termo genérico. ou de desejo ansioso em causa dependente de amparo. ou talvez desfiguração de murmurinho. 217 ALARME. – Reclamo é “apelo instante e formal. ignorando. é o toque de clarim ou de tambor com que se reúnem os soldados. – diz-se do grito ou gritos que se soltam para anunciar um perigo. de testemunho ou de juízo da pessoa para quem se apela”. e que nos induz a evitar aquilo que julgamos nos há de ser nocivo. – Susto é uma espécie de medo que nos deixa como suspenso durante os primeiros instantes. medo. e como termo de técnica militar. sobressalto. receio. terror. clamando. O temor é o estado do espírito que se perturba pela apreensão de um perigo. “a ideia comum aos sete primeiros vocábulos deste grupo é a do sentimento ou sensação penosa que nos assalta quando um perigo sobrevém”. – Murmúrio é “leve sussurro como de água corrente. é a confusão e gritaria que se manifesta num acampamento ou praça de guerra à aproximação. – Terror é um termo que mais se refere à causa do sentimento . enquanto que aquele é um sentimento irresistível e espontâneo que nos assalta sem querermos. assombramento. cuja ocorrência temos por certa e próxima. Causa medo aquilo que vemos. O susto diferençase ainda do medo em levar-nos este a fugir da coisa que nos amedronta. no sentido próprio da palavra. apelo. que temos medo dos cães danados. tendo a mesma significação. ou com indignação”.150 Rocha Pombo nando “rumor menos perceptível e mais confuso”. – Segundo Bruns. como se o objeto do reclamo fosse fundado sempre em direito”. ou de viração em arvoredo”. porém. 216 ALARME. Figuradamente. Particularmente. de tambores com que se convoca o povo (ou uma guarnição militar) para defender-se quando sobrevém um perigo. susto. do que pela propriedade de resumir a ideia dos outros seis do grupo. chamada. pânico. real ou suposta. aqui.

– Assombro é grande espanto. ou mal que se suspeita”. – Hospedaria é casa onde se recebem hóspedes de cama e mesa. Na cidade em cujos contornos a peste faz muitas vítimas. e assombramento. colhe-nos o susto. é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 151 que ao próprio sentimento. – Sobressalto é “a comoção que se sente sob a iminência de algum perigo. é o espanto que nos domina. principalmente no Alentejo e no Algarves. aqui. ou que vence todas as energias morais”. por isso se diz que os bandidos espalham o terror por onde andam. e na qual são principalmente admitidos aqueles que trazem cavalgaduras ou veículos. o temor de sermos assaltados dessa peste nos leva a evitar a comunicação com as pessoas provenientes das localidades empestadas. Essa peste espalha o terror por toda parte. albergue. ou – o terror. tem uma acepção especial para designar o estado de terror em que fica uma pessoa surpreendida de alguma coisa ou de algum fenômeno misterioso. quer devido à mera hospitalidade. frequente dizer-se indiferentemente – o pânico. e algum ou muito luxo. do cuidado e preocupação que nos causa o mal que nos sobressalta. estala- gem. – Pousada é termo castelhano que se diz por estalagem. O espanto pode deixar-nos paralisados como o susto. mas sobressalto sugere ideia da inquietação em que se fica. um grande terror que faz desvairar. – Albergaria – escreve Bruns. – Receio é menos que medo ou que temor: é mais – um estado de dúvida. “fazer tremer”) aplica-se aos perigos ou males que julgamos irresistíveis. Terror (do latim terrere. designando a casa. – “era o nome da dependência dos mosteiros destinada a hospedar os transeuntes. – Pânico é propriamente um adjetivo que qualifica o substantivo terror. e contra os quais é inútil qualquer luta. e até em só fornecer as refeições. – Espanto é uma forte impressão causada por alguma coisa que sobrevém inesperada e repentinamente. que imobiliza e como que maravilha. 218 ALBERGARIA. Significa também a própria coisa ou fenômeno misterioso que assombra. Certos estabelecimentos de caridade ainda hoje têm albergarias destinadas ao mesmo fim. ou o terror infundado que assalta a muitas pessoas. . reina o alarme. Propriamente só se diz neste último sentido. que nos impede de agir ou de fazer alguma coisa – do que propriamente temor. quer seja pagando. morando fora o pensionista. – Pensão tem aqui um sentido particular. O medo da peste leva-nos a fugir da cidade. ou o grande terror que se apodera de alguém à vista de um caso espantoso. – Albergue é propriamente a casa onde se hospeda aquele que está fora da sua terra. e aquela. onde se recebem hóspedes. hotel. e se qualquer incômodo sobrevém que pareça sintoma dessa peste. Confunde-se com susto. Difere da casa de cômodos em dar esta ordinariamente só a dormida. – Guarida é o local onde se encontra abrigo contra a intempérie ou contra a perseguição. pensão. A suposta existência de uma terrível peste espalha um pânico geral”. é denominada hotel. porém. uma obediência a escrúpulos de qualquer ordem. se a hospedaria reúne certas condições de comodidade. e se ela sobrevém inesperadamente. – Estalagem é casa onde se recebem passageiros que não pretendem grandes comodidades. – Pavor é “um medo incoercível. guarida. ou impelir-nos a uma fuga insensata como o medo. Foi o terror dos franceses que ocasionou a grande hecatombe da ponte de barcas do Porto. mediante um pagamento convencionado que também se chama pensão. para exprimir. pânico. particularmente os pobres que iam de viagem”. em regra casa de família. pousada. hospedaria. tanto a cama como a mesa.

porém. chegar diz-se do próprio fato. – Paço. – Alcançar é o termo de nossos rogos. “fortaleza”) corresponde com exatidão a alcáçar (do árabe): era “a antiga habitação do rei. castelo. tudo o que nos é honroso. de superiores. a ser branca. alvadio. – Tocar (da mesma origem de atingir) ex- . ou que a ela tínhamos direito. se este viveu mais anos do que ele”. Noutra ordem de ideias. o fim a que se dirigem os meios com relação a eles. – Conseguir é o termo de nossa solicitude. e tende. – Castelo (de castellum. palácio. As balas não chegavam à fortaleza. pois. pretendendo-as e solicitando-as com rogos e súplicas”. Logra uma grande fortuna o que cançar “denota esforço”. “tocar.. ou do grande senhor. – Quanto aos três primeiros. atenções. pois só impetramos graças de um superior. esbran- quiçado. (Bruns. impetrar.) – Atingir (que também colocam alguns no grupo CCXXI) diz “alcançar ligeiramente. obter. tem força para fazer chegar balas a grande distância. paço. que fizemos diligência por ela. – Palácio diz-se de qualquer edifício grandioso. de inferiores. dignidades. da força de efetuar. diminutivo de castrum. atingir. defendida de fortificações”. só se diz das residências das pessoas reais. alvacento. – Esbranquiçado significa “um tanto branco. – Alvadio diz-se da cor intermédia. – Obter é alcançar uma coisa que se pretende ou deseja. 221 ALCANÇAR. “era propriamente o palácio afortalezado onde os reis ou governadores faziam residência. Por não poder alcançar um ramo.. disposto para habitação ou para outro fim. útil. que este vocábulo tem significação menos genérica que o precedente (obter). conseguir. Qualquer superfície que parece ter tido originariamente outra cor. contração de palácio. é albescente. – Alvacento é a cor fixa que tira para branco. Consegue um bom emprego o que solicita com mérito. ou se pretende. lê-se em Bruns. Consegue-se o que com diligência e perseverança se busca. – sem relação aos meios empregados para isso. isto é.: “Albescente diz-se daquilo que se está tornando branco. – Gozar é ter. ou que nos é grata. Obtêm-se cargos. possuir alguma coisa que nos dá gosto ou prazer sem indicar que a buscamos. – “Lograr é propriamente o termo de nosso desejo – diz Roq. – Al- zar.152 Rocha Pombo 219 ALBESCENTE. – Impetrar é alcançar do superior a graça que se havia solicitado. sentir pelo tato”)”. chegar designa o fato. e dos governadores ou vice-reis das colônias”. meio branco”. e obtêm-se de iguais. chegar. alcançar supõe sempre graça. alcançar diz-se da possibilidade. agradável. ou tem protetor de valimento. não alcança. temos de subir a um banco para lhe chegar com a mão. Os náufragos alcançaram a praia depois de mil perigos. lograr. Alcança o perdão o que interpõe rogos humildes e pede misericórdia. e mais restrita a tem ainda impetrar. – Alcáçar (ou alcácer). das dos bispos. Um homem chega à idade avançada. segundo Bruns. como se chegasse apenas a tocar de leve a coisa alcançada (ad + tangere. 220 ALCÁCER (ou ALCÁÇAR). entre branco e cinzento”. Em poesia diz-se dos atuais paços dos monarcas. Vê-se. favores. porém. tocar. etc. go- pode viver sem demandas nem pretensões. 222 ALCANÇAR. enfim. Os homens sóbrios e de bom temperamento gozam ordinariamente de boa saúde. – Lograr e conseguir podem supor justiça. a de seu pai. mas quando lá chegaram tiveram quem os agasalhasse. da capacidade. A artilheria moderna alcança a grandes distâncias.

ou uma coisa acima da sua posição ordinária. turma. tirar para cima. ou mesmo de algum particular. malta. – Bando. escarpa. mais ou menos larga e profunda. despenhadeiro. além de inépcia ou desmazelo. – Alçar é levantar o que está caído. designa multidão. irregularidade. – Multidão quer dizer “grande número”. ou “um bando de estudantes na aula”. itaimbé. – Precipício é termo geral que indica “todo acidente perigoso onde se pode cair”. em montanha. improbidade e dolo. precipício. – Segundo Bruns. fazendo crescer para cima. multidão. troço. e tendo a base regada ou não de corrente”. troça. legião. Um bando de estudantes só se vê na rua. por isso. ou a caminho do colégio. 223 ALCANCE. talvez endireitando. Não seria. se este é da categoria das chamadas pessoas decentes”. – Despenhadeiro é a vertente ou precipício considerado. timo destes vocábulos – diz Roq. matilha. e ao perigo a que se expõem os que transitam próximo da sua beira. horda. ribança. sem mais ideia alguma acessória: multidão de pessoas. ou ao alto. – Grota é aberta. 224 ALCANTIL. riba. etc. – Escarpa é “rochedo alcan- turba. as mãos. ribanceira. – Itaimbé é palavra do tupi designando rochedo a prumo. nas contas que alguém é obrigado a prestar. – Elevar é “pôr em lugar alto. batiza-se atualmente sob o nome de irregularidade. fazer subir”. passa a ser desfalque. de alguma corporação. de livros. magote. a diferença entre a quantia que entrega e a que devia entregar. grota. alcateia de lobos. enxame. de lídima propriedade dizer que se viu – “um bando parado”. como um edifício. rancho. em ordem eminente. etc. acrescenta irregularidade e escreve: “Quando o desfalque é cometido nos dinheiros do Estado. que na linguagem vulgar só se aplica a aves. chusma. Figuradamente aplica-se a indivíduos da espécie humana aos quais se ligue alguma ideia que os ponha em relação com aqueles animais: alcateia de bandidos. – Fraga é mais aspereza de serra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 153 prime a mesma ideia. erguer. – Alcateia é um coletivo que se emprega para designar “multidão de animais ferozes”. 225 ALÇAR. – Bruns. etc. fraga. a fim de não ofender a honra do ladrão. – é o gênero em que entram os outros como espécies”. Se o alcance acusa. As fragas tornam a ascensão difícil. – Ribanceira considera a vertente como tendo pendor considerável. – Erguer é levantar pondo em pé. súcia. – tilado. como os olhos. caterva. despenhadeiro. de panteras. a base do alcantil mergulha no mar. não tanto como o do alcantil. quadrilha.” 226 ALCATEIA. Exprime ele a ideia de “pôr em alto. exaltar a dignidades. mas relativamente à profundidade a que está a base. aventurosa. de ladrões.: – “Alcantil é a vertente talhada a pique. – “O úl- Alcance é. encosta muito íngreme”. Quase que destes dois se pode dizer o que se diz de alcançar e chegar. matula. de assassinos. ou “na escola”. corja. a voz. não com relação ao pendor. ou quase a pique. a escarpa é quase sempre de acesso impossível sem ajuda de arte. desfalque. ou é banhada por alguma corrente impetuosa. e sugere ideia de vida errante. levantar. ou desde baixo. escarpa. pedra escarpada que propriamente escarpa. elevar. deste em não sugerir com a mesma força a ideia de atividade. grupo. no entanto. de . etc. e por onde quase sempre corre água. vista de frente. – Riba e ribança confundem-se com ribanceira: este é apenas uma extensão daqueles. bando. diferençando-se.

. de cores variegadas. ou malandros. de ago. de sapos. de gatunos. de peregrinos. corja. e deixando supor que é multidão fazendo parte de uma série de multidões. mas em pequeno número”. de intuito escuso. tapete. 227 ALCATIFA. e fora deste caso. Uma turba de sábios. de crianças. – Turba significa “multidão desordenada. toma-se sempre a má parte. Dizemos: quadrilha de salteadores. desregramento: horda de bárbaros. – Grupo é “conjunto de coisas ou pessoas reunidas. e também de divisão. – Rancho é o mesmo que bando: apenas não sugere. e que não porá logo aqui mais de doze legiões de Anjos?” Este coletivo legião. uma coisa fantástica. – Alfombra é o tapete de maiores ou menores dimensões. em atividade mais ou menos ordenada. ou a causa especial que põe em movimento a legião: “legião patriótica. de facínoras. pândega. legião negra”. Quando Jesus perguntou pelo nome do espírito mau que atormentava o possesso: – “O meu nome é legião” – respondeu o espírito. – Alcatifa é o tecido rico. matula de desordeiros. Neste sentido continuou a usar-se para exprimir o motivo que impele. tapeçaria. ou mesmo de velhos – seria. e parece que encerra ideia de atividade. corja de vadios. mas sugere ideia de festa. de malfeitores. no entanto: quadrilha de colegiais. mas sugerindo ideia de vagabundagem. – Turma era “uma divisão tática na milícia romana”: diz. em tumulto”. pois neste coletivo figura o radical agmen = agimen. que cobre todo o pavimento de uma habitação. – Matilha é também coletivo de cláusula restrita: matilha de cães. E também. disse a este: – “Cuidas que não posso rogar a meu Pai. legião acadêmica”. etc. – Malta designa também multidão. e no sentido figurado empregase para designar multidão laboriosa. companhia. – Horda sugere ideia de selvageria. mas agradáveis. de salteadores. orgia. – Chusma significa “multidão em alvoroço”. espesso. – Troço significa “multidão ou porção. pelo menos. coisa semelhante a batalhão. agir”. perversidade. portanto. ou de realizar algum intento. ou “legião da morte. portanto. ou de aves. ideia de aventura. de missionários (não – um bando). feito de uma só peça. de guerrilheiros por exemplo. que cobre o pavimento ou parte dele. isto é. Dizemos: um rancho de fiéis. de bandidos. de parcelamento: um magote parece que deixa supor sempre outro ou outros magotes. a mais exata. de estrelas. de gente sem ordem”. caterva estão nas mesmas condições do precedente: juntam à noção de muitos indivíduos reunidos a ideia de indisciplina. alfombra. alfombra. – Magote é semelhante a grupo e a turma: significa “porção de pessoas. – é alcatifa que tem significação mais nobre. – Quadrilha está nas mesmas condições de turma: designa “um certo número de indivíduos aprestados para a guerra”. sugere sempre ideia de que se trata de defender uma causa. destempero. confortável. e até de fereza (sobretudo os três últimos): súcia de malandros. e sugere também a ideia de que essas pessoas ou essas coisas fazem parte de multidão maior. designa multidão certa.ere. e está fixo nele. ao ser preso. E até sem cláusula é usado para designar “multidão de cães de caça”. Súcia. como este. bom ou mau. podendo estar ou não fixo . matula. nunca se diria. – Legião era entre os romanos um corpo de tropas. ou mesmo de coisas”.. – Troça também diz “multidão”. “obrar. – “Dos três primeiros vocábulos – diz Bruns. de lobos. nem um enxame de vagabundos ou de vadios. de depravamento e banditismo. caterva de lobos. tapete. – Enxame aplica-se mais particularmente tratando-se de abelhas.154 Rocha Pombo ideias. a mais extensa”. banditismo. quando reprimiu a ira de Pedro. Não se diria: um enxame de lobos.

de sala. e em termos forenses. – Prenome é propriamente o nome que precede ao nome de família e que é. mas não é muito usado em português com esta significação. e quase sempre alusivo a algum defeito da pessoa. – Apodo é quase o mesmo que alcunha. eram sinônimas em significarem o referir a seu favor algum dito. portuguesa. (Bruns. nobres. antonomásia. “Os panos de Arrás são tapeçarias de muito valor artístico”. tem a significação especial de pano de armação. citar. prenome.. sobrenome. com que se designa um conjunto de tapetes. e o menos usado dos deste grupo: designa a casa de prostituição considerando-a sob o ponto de vista das orgias que nela se fazem”. que tanto designa o estofo da alfombra ou da alcatifa como esses próprios objetos. pega. “a primeira. 228 ALCOICE. notáveis. aves.. a suas vilas e cidades. “alegar é agnome. – Lupanar (do latim lupa “meretriz”) é a casa onde residem meretrizes. não se dá tal sinonímia. de corredor. bordel. que serve para cobrir as paredes. cada um deles tem.. lupanar. palavra árabe (alconia). e que se junta ao nome de alguém para torná-lo mais preciso. Em João da Costa. – Segundo Roq. sardinha. Os reis davam. – Prostíbulo (do latim prostibula “meretriz das ruas”) é o lupanar considerado como sentina onde as infelizes se degradam. nome. – Segundo Roq. e a segunda. assim como os nomes de animais. – Cognome é o designativo de alguma qualidade notável ou característica. etc. e João da Costa é o nome do indivíduo. ou autoridade que prova o intento proposto. portanto. – Estes quatro vocábulos empregam-se indistintamente para designar as casas públicas de prostituição. mas apenas alusivo do indivíduo a quem se aplica: vale mais por um epíteto que designa o indivíduo sem nomeá-lo. onde impura a depravação moral. no entanto. etc. – Tapeçaria. e já há muito. 230 ALEGAR. por exemplo. prostíbulo. porém.. exemplo. Hoje. – Sobrenome é o nome que se interpõe entre o nome de batismo e o de família. Costa é o apelido. exclusivo do indivíduo. sentina. Há tapetes de escada. – Alcoice é a casa onde se dão cômodos às parelhas que procuram ter comércio. apelido. coelho. – Nome é a palavra com que se designa ou distingue uma pessoa ou coisa. – Bordel é termo francês introduzido na língua. foram apelidos nobres da descendência das famílias. de mesa. sobrenome das pessoas segundo a diferença das famílias. e que acaba com ela. sendo que o apelido se transmite e distingue as famílias”. alcunhas de leais. a sua significação particular. – Tapete é termo genérico. do que propriamente por um nome. A maior parte das casas que nas cidades se intitulam hotéis para pernoitar são alcoices. Emprega-se esta palavra de preferência às outras quando se alude à moralidade dos que frequentam essas casas: frequentador de lupanares. é trazer o advogado leis e razões em defensa do direito de sua causa”. como perdigão. – Agnome é o epíteto que se adiciona ao cognome para fazer que ressalte alguma virtude ou qualidade própria do indivíduo. porque alcunha só significa apelido injurioso. – Antonomásia confunde-se com cognome e com alcunha. peixes. alcatifas etc. – Citar é referir textos e autoridades . por honra e mercê. cognome. onde o vício ostenta as suas torpezas”. muito usada no tempos gloriosos de nossas guerras. apodo.) – Sentina é o “prostíbulo imundo.. 229 ALCUNHA. etc. João é o prenome. mas diferença-se destes em não ser próprio e expresso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 155 no chão. além de ser um termo coletivo.

como diz o nosso poeta. etc. e pertence à imaginação. quiçá louca em seus transportes. ledo. não é a felicidade. contente. alegamos. e até imoderada. Luiz. exultação. em memória de faustos acontecimentos. de alegria. que é afeto interior. ledice. ou pelo gosto que se logra. segundo a força do verbo exultar.. satisfação. quase ufano da vida”. temperamento irrequieto. Diríamos que o contentamento é filosófico. mas a jovialidade só assenta nos moços. exprime cada um deles seu diferente grau ou circunstâncias”. pois. alegou o advogado leis e razões tão importantes que por suas alegações conseguiu que ficasse de nenhum efeito a citação. – Alacridade é a . muitos há que sem mostrarem alegria gozam de felicidade. celebra-se com festas e regozijos. alegam-se fatos e razões. – Ledice. poética. ou gozo repetido ou prolongado. mas não lhe achamos autoridade suficiente para a estimar como tal. jovial. a alegria é desigual. conduz à felicidade. é corrupção da palavra latina lœtitia. citado perante o juiz. muitas vezes prescinde da consciência. ou o que eles dizem. e muito mais pelo regalo com que o tratava. a alegria. etc. já ele estava mui contente pelo acolhimento que lhe fazia o Gama. as pessoas. que interessa a toda uma nação. não cabendo no coração. – Jovialidade significa “disposição natural para a alegria ruidosa mais inocente. Um fausto sucesso. Para dar autoridade ao que dizemos. e peso ao nosso dito. de S. como está dizendo a palavra.156 Rocha Pombo em prova do que se diz. pois representando todos um estado agradável no espírito do homem. Quando o contentamento se manifesta exteriormente nas ações ou nas palavras. e produz contentamento no ânimo dos que foram causa dele.. não assim o contentamento. Está exultante a criatura que parece ufana da sua felicidade ou da satisfação que tem. jubiloso. dizendo que é menos viva. tranquila e serena que a alegria. citamos. vozes. alacridade. ou ledica como diziam os antigos. e mostra-se por sons. 231 ALEGRIA. alegra ao público. satisfeito. a palavra ledo é desusada. buliçosa. sem parecer alegre. álacre. Ao contrário. que “o contentamento é uma situação agradável do ânimo.. é alegria. danças. formada da partícula reduplicativa re e gozo. porque é demonstração exterior. júbilo. gritos de aclamação. e eles a usavam em lugar de alegria: em Camões ainda é frequente o adjetivo ledo em lugar de alegre. jovialidade. – Fixada a diferença entre alegria e contentamento. e pertence principalmente ao juízo e à reflexão. aquele supõe igualdade e sossego de ânimo. – Exultação é o último grau da alegria. Há velhos joviais. e só em poesia terá cabimento. regozi- jo. para sustentá-lo. rompe em saltos. O homem alegre nem sempre é feliz. nem a acompanha. mais suave. é alegria. fazer saber o chamamento do juiz. – O júbilo é mais animado que a alegria. Pode. celebradas com festas. e defender-nos. – Diz Roq. uma pessoa estar contente. ou pela satisfação de que se goza. Para defender o réu. e sempre a acompanha. bailes. Antes que o ardente licor. ou pelo bem que se possui. que é saltar de gozo. Seria para desejar que o uso lhe desse a significação modificada que lhe atribui D. ou é surda a seus gritos. e quase sempre se aplica às demonstrações públicas de gosto e alegria. não será difícil fixá-la entre outros dos vocábulos deste grupo. Pode fingir-se a alegria. e em estilo forense é noticiar. porém. causada. contentamento.. Citam-se os autores. Fr. – Regozijo. Hoje. alegre. nem a ela conduz. que. festivo. porque na embriaguez do espírito se deixa arrastar da força do prazer. A pessoa jubilosa mostra-se alvoroçada de alegria. tranquilidade de consciência. fizesse seu efeito no moiro de Moçambique. que dá alegria. exultante.

falsário). É antônimo de atrás. aos nossos sentimentos”. e confundese. ferindo ou prejudicando aquele a quem devia lealdade.. vigoroso. – Traição é. discreta e segura”. infidelidade (infiel). 232 ALEIVE. e caluniador. Mas o traidor é sempre infiel. robustez. pois que traiu abertamente. adiante. alento. – Aleive é a própria calúnia que se disfarça. aquele que exteriormente revela ter uma respiração fácil e poderosa (alento) que lhe permite fazer grandes esforços. e pode não ser pérfido.. segundo Bruns.. depois. nas maneiras dissimuladas com que procura alguém enganar a outrem para lograr do enganado alguma coisa. aleivosia é a qualidade de ser aleivoso. etc. e é antônimo de antes. pois a perfídia consiste em “faltar à fé parecendo fiel”. aleivosia (aleivoso). à vivacidade que indicam aptidões para praticar atos que necessitam de esforço. – Calúnia é “a falsa imputação que se faz a alguém de atos que lhe prejudiquem a honra”. que nos promete o que não tem tenção de cumprir. – A falsidade consiste no modo traiçoeiro. robusto. após. que é nosso igual ou superior. (traiçoeiro. valentia. ao movimento. e não se poderia dizer que foi pérfido. a deveres ou compromissos que temos contraído. vigor. posterior a alguma coisa”. esforço. calúnia (ca- lunioso. à traição. falsidade (falso. Calabar foi traidor.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 157 “alegria aberta e serena. fortaleza (fortidão). deve notar-se que o segundo tem uma significação especial e precisa que seria bastante para excluí-lo deste grupo se não fosse a ideia fundamental comum que o põe em relação com os demais. o “ato de faltar à fé que se devia”. e sugere ideia de “posto à frente de alguma coisa”. Emprega-se frequentemente aleivosia por aleive. designa situação do que se encontra “depois de alguma outra coisa e em relação ao lugar que ocupamos nós: é antônimo de aquém. – Satisfação é “o estado de alma em que ficamos quando alguma coisa vem corresponder aos nossos desejos. “é aquele cuja arca do peito apresenta uma ampla superfície”. com perfídia e infidelidade. isto é. dos bons princípios morais. caluniador). Quem é vigoroso é capaz de empregar grandes forças. além da distinção sob o ponto de vista das funções gramaticais. O homem desleal é o que sai das normas. praticada com má-fé. Falso é o que nos diz aquilo que não sente. potente. – Calunioso é aquilo que envolve calúnia. deslealdade (desleal). – Vigoroso refere-se à manifestação de força. – Alentado. 233 ALÉM. traição. aqui. imediatamente depois”. e particularmente com falso. pujança. Entre os dois vocábulos traiçoeiro e traidor há diferença análoga à que notamos entre calunioso e caluniador. 234 ALENTADO. perfídia (pérfido). – A deslealdade consiste em faltar com alguém. é o que iludiu ou procurou iludir a boa-fé dos outros”. possante. Um homem alentado pode suportar grandes fadigas. ou para trás. pujante. passou para os inimigos sem astúcias com os seus próprios. que dissimula com ares de inocência o golpe que vai descarregar. e essa capacidade . pois falsário é “o que faltou ao que prometeu solenemente. – Depois quer dizer – “em seguida. – Além. propriamente. esforçado. – Após é de todos os do grupo o mais preciso: diz – “logo depois. portanto. reforçado. possança. forte. o que perpetra calúnia. – Adiante é também aplicado para designar ordem de situação. Entre falso e falsá- rio. também relativamente a nós. mas é um pouco mais preciso que além. potência. valente. força. traidor). reforço.

– Valente é aquele que não teme o perigo e é capaz de enfrentá-lo. – é palavra italiana e castelhana. o seu jogo enérgico mostram o vigor latente. na tradução dos Mártires. vem de cladis “matança na guerra” (quasi cladius. porque Cícero diz na oração pro Marcello: Gladium vaginâ vacuum in urbe non vidimus – “não vimos na cidade espada desembainhada”. só se aplica à força exercida pelo homem. é a qualidade de ser forte”. “O leão tem mais força que o burro”.158 Rocha Pombo manifesta-se exteriormente.. mas deve ter-se como provado que se metia em bainha. que potente adita à noção de “poderoso. dos braços. E zombando de seu genro Lentulo. onde diz: Detrás dos Vexillarios vão Hastatos. sem nenhuma ideia acessória. Este vocábulo. 235 ALFANJE. trazia uma grande espada à cinta. portanto. assim como as há muito corpulentas que não são robustas. – Espada – diz Roq. ou álcool de fortidão maravilhosa”. e também um castigo de . – Forte é um termo genérico que exprime o poder de obrar ou de resistir. “Matéria explosiva. montante. chanfalho. “É à valentia dos soldados. revela força e saúde. e que possante sugere ideia de “opulência de força” e “majestade de aspeto. “Quando operou aquela possante máquina de guerra. movimentos pausados: nisto se distingue sobremaneira daquele que é vigoroso. cimitarra. que pujante se diz daquele que é capaz de vencer em pugna. Afinal essas distinções não são essenciais. mesmo quando não as emprega: o movimento dos membros. como em latim. preferimos dizer força. Exemplos: “A fé aumenta a fortaleza das almas”. etc. Com gladios na segunda forma. etc. do grego spathe. sabre. que se deveu a vitória”.. É reforçado o homem que tem mais desenvolvidos os órgãos de ação física próprios para uma certa função ou esforço: reforçado do peito. eficaz”. que significa “espátula”. que se impõe pelo enorme poder dos músculos” (possança). É preciso notar. pois dizemos também: a força da dinamite. – Fortaleza é “a energia moral. aumento de vigor”. gládio. 6. tanto pelo menos quanto à bravura do general. tórax amplo. – Gládio é a palavra latina gladius.”. Não se sabe ao certo qual era a forma desta arma ofensiva entre os romanos. e que era longa. O homem robusto tem membros atléticos. – Robusto (do latim robur “força”) diz-se da pessoa que no vigor muscular. a fortidão do seu gênio. disse: Quis generum meum ad gladium alligavit? – “Quem foi que atou meu genro àquela espada?” O primeiro talvez que usou esta palavra em sentido reto. que vem do latim bárbaro spatha. espada. – Esforço é a ação moral ou física de que alguém é capaz.. O indivíduo esforçado é o que tem qualidades para vencer pelo trabalho. ou do antigo castelo. E se se trata da propriedade correspondente nos inorgânicos.. – Possante quer dizer – “que tem grande força.. contudo. na forma opulenta dos membros.” – Força é “capacidade de ação ou de resistência física”. Quando essa capacidade é atribuída aos animais. das pernas. “A potência daquele espírito. pois o vigor manifesta-se na energia dos movimentos. que sendo de pequena estatura. e espada de folha larga na ponta. terça- do. usada em sentido figurado por escritores de boa nota para designar o poder supremo. Confunde-se com pujante e potente. – Reforço é “acréscimo de força. a ideia de ativo. dizemos fortidão. segundo Varrão. que. durindana. “A alma potente do justo a nada cede”. a fortaleza daqueles muros. e designa a arma que se julga corresponder ao gladius dos latinos. quod ad cladem sit inventus). 1. Há pessoas magras que são fortes. energético. Foi. daquelas grandes virtudes ou daquelas construções maravilhosas”. no entanto. que se punha à cinta.” “O gladiador estava ainda em toda a sua pujança”. foi Filinto Elysio.

É hoje usada na gendarmeria”. curta e curva. Chama-se fim ao termo material de uma coisa. falando da peste: “O gladio que feriu o povo”. e assim nos servimos desta palavra. de uma conversação. – “grande espada antiga.. de uma arenga. de Souza e por Vieira”. Depois de enumerar os formosos dotes de Helena. larga.” (II. Os seguintes lugares de Vieira talvez possam servir de modelo neste caso. – Terçado do castelhano terciado. ou pelo menos mais curta que o terçado. pois Camões. ou das areias da praia. que significa. e assim dizemos: “Depois de havermos gasto tanto. que depois de não poucos esforços de seu Mestre foram elevados a tão alta dignidade. que se brandia com ambas as mãos para acutilar por alto. enfim. Segundo a preposição que se lhe ajunta. De Re Milit. que tem só um gume. por fim. é espada curta e larga. de S. Fr. e cada ano cortada . – Quer o autor dos Sinônimos da língua portuguesa (D. senão usando de um circunlóquio extenso e escusado. decisiva ou positiva sua significação. deixam alguma coisa que esperar: a terceira. falando dos habitantes de Moçambique. como os franceses da sua flamberge. Alfim denota que. (Lus. et alios minores. diz: “Flor enfim da terra. que “alfim é expressão castelhana mas admitida em nossa língua. e usada por Fr. mas é mister distingui-las. pelo que nos atreveríamos a dizer que é a conclusão das conclusões. para zombarmos da valentia dos fanfarrões que se gabam de façanhas inauditas. e também ao conseguimento do objeto que nos propusemos. ou de uma enumeração: “Enfim acabou de falar. ou que desejávamos. L. quos semispathas nominant – em que não poderíamos deixar de empregar os dois vocábulos gladio e espada.. de aço fino. ao cabo de tantas fadigas. e os espanhóis da sua tizona.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 159 Deus. 236 ALFIM. 24). As duas primeiras não resolvem absolutamente.. diz: “Como homens alfim levantados do pó da terra. pelo que também se lhe dava o nome de espada de ambalas mãos. – Alfanje é espada mouresca e turca. definitiva. É palavra muito usada nos clássicos. e poética. F. finalmente. – Diz Roq. é mais ou menos extensa.. irrevogavelmente. ou o fim dos fins.. afinal. ainda mais burlesco do que durin- dana: é “grande espada. pelo comum desejada. velha. – Durindana é termo cômico e burlesco. não. de que usam os valentes e denodados cavaleiros em suas lides. Confundem-na muitos com enfim e com finalmente. resta que se adote e se observe: do que duvidamos em tempos em que se vêm postergadas outras mais importantes observações acerca de nossa tão maltratada língua. Falando ele dos apóstolos. do Couto)” – Chanfalho é termo vulgar. II. e nomeadamente se houvéramos de traduzir aquele lugar de Vegecio. logramos nosso intento. depois de se haverem vencido todos os obstáculos. tivemos alfim a ventura de sair bem em nossa empresa”. de um discurso. e de três dedos de largo”. – Mais positivo e terminante que as duas expressões anteriores é o advérbio finalmente. de figura curva. enferrujada. pesada e terrível. que designa a conclusão. disse: Por armas têm adargas e terçados. – Enfim é um modo translatício. gladios majores. I. – Cimitarra é “espada pérsica. como disse Camões. Mui sensato é este parecer. terminou seu discurso”. e por ele se designa uma espada grande. quos spathas vocant.. por última conclusão.. Miguel de Asnide era tão agigantado que trazia na cinta um montante por espada ordinária (D. Luiz) que se use esta palavra em sentido reto quando aludirmos aos usos bélicos dos romanos. 47). – Montante – define Aul. 15: Habent. – Sabre é “espada pequena. que não corta”..

dos que martirizam moral e fisicamente”. lá. alhures = “noutra parte”. além. cobiçar o que é de outrem é cobiçar o que pertence a determinado indivíduo. levou-nos por fim ao parque. é menos vago. são muito expressivos.. Não obstante. (XII. E começando aquele famoso exórdio do sermão sobre o dia de juízo. 146). “Carlos I de Inglaterra foi executado por um algoz mascarado que se prontificou a substituir o carrasco que havia desaparecido”.. isto é. “algoz diz-se melhor de quem martiriza moralmente. senão já quase desconhecido. posto que se refira igualmente a pessoas ou coisas indeterminadas. estranho. No sentido figurado.. isto é.). dizemos afinal. 239 ALHEIO. de outrem não só indica que o objeto não é nosso. é simplesmente o que executa a sentença. e que passou. – Algoz é termo culto. senão que ignoramos se tem dono”. carnífice. – Carrasco e verdugo designam o indivíduo que tem o ofício de executor. – Alguns “refere-se limitadamente a pessoas ou coisas indeterminadas. Cobiçar o alheio é cobiçar o que não é nosso. alheio e de outrem – escreve Bruns. sem determinar o lugar. acolá. próprio da poesia e do estilo elevado. algures. para designar o indivíduo que imita contra alguém as funções do sacrifício. de outrem. que o flagele e martirize como se quisesse tirar-lhe a vida). – Executor substitui a quase todos os outros do grupo. diz Bruns. ou que é capaz de fazer morticínios”. nem é preciso indicar. verdugo é palavra castelhana que se introduziu na língua portuguesa. – Ali diz propria- mente – “naquele lugar”. são: “denominações comuns ao executor da alta justiça nos países onde vigora a pena de morte”. não exclui nenhum. e aplica-se hoje com sentido análogo. “Afinal chegou o nosso dia”. suficiente não obstante para que em muitos casos as duas expressões não possam empregar-se indistintamente. por isso mesmo. algoz é esse indivíduo. etc. e o primeiro não só pouco usado. – “Entre com o arado do tempo”. (III. “em conclusão”. verdugo. diz: “Abrasado finalmente o mundo”. ou que lhe não ocorrem.. (Roq. ou da tortura como cerimônia de culto. carrasco e verdugo. carrasco é termo popular. carrasco.” 237 ALGOZ. certos. o estranho não só não é nosso. Entre alheio e estranho também se nota a seguinte diferença: o alheio não é nosso. subentendendo-se que é quase sempre a de morte. – Quanto aos três primeiros. da execução religiosa. – há uma muito leve diferença. algures = “em algum sítio”. – Alhures (pronuncie-se alures) exclui o lugar em que estamos. mas afirma que outrem é seu dono. O segundo. ou outro qualquer (que faça de algoz contra alguém. – algures. – Carnífice diz – “homem sanguinário. tanto à vista como no sítio de que se acaba de tratar. es- tes dois advérbios “são atualmente pouco usados na linguagem culta. – Resta-nos dizer que o primeiro do grupo é hoje muito pouco usado: em vez de alfim. e dá a entender que são conhecidas e que se poderiam nomear se necessário fosse”. executor. que aquele que fala não conhece bem. – . aí.160 Rocha Pombo 238 ALGUNS. 240 ALHURES. – Alheio indica apenas que o objeto não é nosso. – A locução por fim equivale a “finalmente”. e por certo merecedores de serem revividos”. sacrificador. que faz. – Sacrificador era o encarregado de sacrificar as vítimas entre quase todos os povos antigos.. 5). a ser sacrílega. 241 ALI. – Segundo Bruns. “Depois de nos mostrar toda a casa.

(Bruns. – Liga é uma semelhante união. Duas pessoas de gostos diametralmente opostos formam uma união desgraçada. pedestal.” (D.. que obrigam as nações que se aliaram”. A coalizão visa a matrimônio. e tem lugar mediante convenções particulares. – União é a palavra que mais se relaciona com as conveniências pessoais dos cônjuges. – Bodas. – Noivado é “expressão vulgar com que se designa a cerimônia religiosa do matrimônio católico. e também as bodas que a este se seguem”. É termo genérico do direito das gentes. “a palavra aliança refere-se ao que da união é aparente e se relaciona com as convenções sociais. José de Lacerda). porém menos duradoira. – Alicerce (ou alicerces) é a “parte sólida. encravada no solo firme. exprime o contrato. com que se soleniza esta festa de família. ou mesmo não visível”. 243 ALIANÇA. mas que não é o que eu ocupo. nem produz resultados iguais. pelo qual dá um ao outro poder sobre seu corpo.). consórcio. na parte oposta àquela em que estou. coalizão. liga. bodas. noivado. fundamento. – “é uma espécie de liga momentânea. união. base. nuptiœ. Há homens que contraem alianças que não estão em relação com a nobreza da sua prosápia. e refere-se propriamente às solenidades legais. do castelhano boda. e as condições. – Além significa – “mais para diante. um fim. ao rito e aparato com que costuma celebrar-se o matrimônio. A palavra aliança toma-se indiferentemente. A aliança entre soberanos (ou entre Estados) forma-se por via de tratados. – Núpcias é palavra latina. etc.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 161 Lá significa – “naquele outro lugar”. – Aí quer dizer – “nesse lugar”. conseguido este. embasa- mento. pelo contrário a palavra liga toma-se quase sempre em mau sentido. o banquete nupcial. corporações. etc. porém liga. supõe maior formalidade. – Matrimônio. sem relação necessária às leis religiosas ou civis de cada nação. com que é estabelecida. e dela difere em que a liga se celebra geralmente entre Estados. e sobre a qual assentam os muros de uma constru- . – Neste grupo. para realizar-se. núpcias. casamento. – Acolá diz – “ali. refere-se às pessoas. têm interesses ou sustentam princípios diametralmente contrários. isto é – no lugar em que se encontra a pessoa a quem nos dirigimos. segundo Roq. Assim dizemos que a diferença de religião. isto é – no lugar que não é o em que me encontro eu presentemente e que está distante de mim. confederação. ou entre partidos que. não impediram a aliança de duas famílias. a desproporção das fortunas. entre reis. e não requer as formalidades com que se estipulam as alianças. – Casamento é o vocábulo que exprime a associação do homem e da mulher. Aliança diz-se com respeito às pessoas e às coisas. peanha. naquele lugar que está à vista. comumente. – “Aliança é a união de vontades e forças para fins determinados. cada Estado. enquanto que a coalizão se faz entre Estados. convertem-se em regras de direito público. ou entre partidos que não têm interesses opostos. entre homem e mulher.. – Coalizão – diz Bruns. maciça de alvenaria. 244 ALICERCE. – Confederação é “uma união. do outro lado de um lugar ou um acidente à vista. em circunstâncias normais.. podendo ser boa ou má. nem o que está ocupando a pessoa com quem falo”. ou cada partido volta ao seu anterior antagonismo. significa o festim doméstico. sem nenhuma outra ideia acessória”. 242 ALIANÇA. que. ou à anterior indiferença”. que se refere precisamente ao contrato. povos.

seduzir. engodar. o aparelho de solidez e segurança sobre que repousa um edifício: é o vocábulo embasamento. permutar. sobre que assenta uma construção”. consta de base. tra- ficar. poderia confundir-se com alicerce se este não sugerisse a ideia. o embasamento sobre os alicerces. – Engodar é “atrair com presentes e mimos. enganando com artifícios. sensível diferença: embasamento não é mais do que tudo aquilo que acima do solo serve de suporte ao edifício: assenta. que o caracteriza. cuja base assenta nos fundamentos do templo” (Volt. Entre este e fundamento há. como estes assentam sobre os fundamentos. ou uma coluna: sua base é seu pedestal. e varia segundo as ordens de arquitetura”. tinha uma base (Roll. corromper. muito mais o corrompido. é que “fundamento encerra a ideia de solidez. 245 ALICIAR. – Subornar é “induzir de qualquer modo. – Sobre fundamento e base escreve Laf. O fundamento é aquilo sobre que assenta a base. – Peitar é “por meio de paga. soco e cornija. no entanto. melhor no plural) é “toda a área de solo. cambiar. assenta-se uma base. a máquina de guerra dos antigos. Uma montanha é abalada até nos seus fundamentos. sobre que se põe estátua ou busto. às vezes movediça. “O mago encerrou-me numa estátua colossal. significando “a parte inferior sobre a qual repousam os corpos”. Há uma palavra que parece mais técnica para designar o assento geral. J. – Seduzir é “desviar do reto caminho. trocar. como um rochedo.162 Rocha Pombo ção”.. – “Peanha é palavra portuguesa formada de pé e anha. escambiar. pois. – Pedestal (do francês piédestal. lançam-se fundamentos.. e sua base tem tanto de circunferência. e do teutônico stall. “pé”.: “Fundamento usa-se mais no plural. e tratando de um edifício. fazendo-lhe promessas. “por todos os meios ilícitos e desonestos. de pied.). a base está acima da terra e se vê: cavam-se. é coberta de habitações ou de verdura. iludindo a boa-fé. apoio”. que sustém as colunas. aqui. etc. na maioria dos casos. subornar. chamada em francês tortue e que era móvel.). Mas o que é decisivo na escolha entre estas duas pa- lavras. falando-lhe às ambições”. mas não um fundamento ou fundamentos. é termo de arquitetura. 246 ALIENAR. O ato de corromper envilece tanto o corrompido como o que corrompe. de apoio firme. com ofertas e pagas.. – Corromper é. corrompendo com habilidades e finuras”. O fundamento está oculto na terra. e tratando-se de edifícios. – Fundamento (aqui. boas palavras e artes”. compreendendo a estrutura subterrânea. pelo menos nem sempre. – Base é termo geral. – Alienar exprime a ideia geral que os outros verbos deste grupo especializam: a ideia de desfazer-se . a qual não se inclui. “pôr alguém a nosso favor e levá-lo a fazer o que é do nosso interesse”. se não estabelecerdes essa base mesma sobre fundamentos inabaláveis”. e designa a peça de pedra ou de madeira. de uso tão frequente no sentido figurado. – Aliciar é “trazer alguém para o nosso partido. ou como seu pedestal”. apoderar-se da vontade e da ação de alguém para fins criminosos ou indignos”. pei- tar. “base.). no entanto... a que falte alguém com o seu dever”. que alguns querem seja corrução de lignea. seus fundamentos são como suas raízes. (J. vender. “Não basta que a virtude seja a base de vossa conduta. na palavra base”. e indica um corpo sólido. as estátuas monumentais. “de pau”. ordinariamente de mármore. Base emprega-se ordinariamente no singular e falando de um objeto pouco extenso. enquanto que base designa apenas “os pontos por onde começa o edifício a erguer-se do solo”.

Tanto assim que se diz: alistou-se eleitor.” 249 ALISTAR. ou que se a permutou. monda. que diz apenas – “pôr em rol”. só por isso. – Alimentar. nas condições em que se encontra. relacionam-se fatos. No sentido figurado. e cambiar é mais propriamente “trocar moeda de um por moeda de outro país”. e com explicações que facilitem a respeito das coisas catalogadas o que se deseja saber de cada uma. etc. o primeiro verbo sugere melhor a ideia de mutualidade entre os que fazem a transação. mantém-se a promessa.. principalmente na vinha. 248 ALIMPA. permutar significa – “trocar de posto. não se pode dizer. – Nutrir explica esta mesma necessidade satisfeita em proveito do indivíduo pelos bons resultados da digestão. a atitude. se damos uma coisa por outra. diz o mesmo que relacionar. tráfico. no seu lugar. a água as plantas. – Monda se diz do ato de arrancar à mão. O literato alimenta-se lendo Horácio. os que ficam. mas mediante dinheiro (vender). As pessoas caritativas sustentam muitas famílias necessitadas. Os poderosos do sé- inventariar. – é o ato de cortar os ramos desnecessários ou nocivos à existência da árvore. a comida diária. catalogar. “troca”) distinguem-se assim: escambar. papéis. ou que há permuta entre os dois países. não propriamente permuta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 163 alguém de alguma coisa. dizemos que foi trocada. e que se estabelecessem assim entre os dois mútuas relações de comércio. diz Roq. e nutre-se com as verdades da filosofia. de lugar”. no entanto. 247 ALIMENTAR. da ferrugem e outros parasitas que os cobrem. – A alimpa – diz Bruns. alistou-se no partido (e não – relacionou-se. sem mais ideia alguma acessória. Mantém-se a família. – Cambiar e escambiar (do mesmo tema cambio. – Alistar distingue-se dos outros deste grupo em sugerir a ideia de inscrever com certa solenidade a pessoa que se alista. que é pouco usado. as más ervas que crescem entre os cereais. ou com sacho. relacionar.” – Inventariar. Haverá troca. Quando os mercadores de um país vão a outro (ou vão entre bárbaros. por exemplo) levar artigos de comércio. é arrolar e descrever minuciosamente os bens de um espólio ou de uma execução. a opinião. Catalogam-se livros. e os trocam por outros desse país. manter. mas sugerindo ideia da indagação e pesquisa que faz o que inventaria.. nutrir. . Alimenta-se o pobre com umas sopas. dizemos que a lenha alimenta o fogo. Há. culo sustentaram com sua influência e conselhos muitos erros e heresias”. – Manter diz propriamente – “conservar alguma coisa como está. que os dois países permutam. e. alguma diferença entre permutar e trocar. – Relacionar é “dar em relação com as informações precisas”: ideia que se não encerra em arrolar. arrolam-se os instrumentos e armas indispensáveis para a viagem. nem – arrolou-se). dar o sustento. Para haver permuta seria preciso que do país onde se vendeu ou trocou fossem também mercadores ao outro país. etc. – Poda é “o ato de cortar a rama supérflua que de ano para ano fica nos vegetais. em geral. Nutre-se o rico de bons manjares. passá-la a outrem. poda. Relacionam-se os objetos que vão para o depósito. – Sustentar significa prover do necessário para a vida. de cedê-la. Se a cessão é feita mediante dinheiro. Fora do comércio. Arrola-se a roupa. arrolar. indica a operação de trocar. na acepção jurídica.. que “se refere à ideia da necessidade que de comer têm os seres viventes. – Catalogar é “arrolar em certa ordem. de emprego. dizemos que se vendeu. limpando ao mesmo tempo. sustentar.

e serve para guardar ou conduzir pão. etc. que se conduz sobre cangalhas em viagem”. saco. sem arco ou asas. e diferentes objetos”. Coruja. aparelhos de profissão. Coruja que o dr. que o próprio cavaleiro leva consigo à garupa. madeira. cabaz. pois são sempre duas as bruacas. com divisões e escaninhos. Pereira Coruja: “espécie de saco de coiro. é “mala de algodão ou linho com abertura no meio: serve para conduzir roupa ou mantimentos em viagem. seguro por meio de correias”. de cascas de embira. Vieir. Dom. – Cesto é uma cesta mais grosseira. Diz o prof. seirão. alforje. fechado ou não com cadeado ou chave. etc. Diferem. bolsa. e que serve para conter ou transportar roupa. – cesto de bananas. etc. geralmente com asas. Seirão = “seira grande. esparto. descoberto (ou mesmo com tampa móvel). “um saco fechado em ambas as extremidades. e ordinariamente de forma retangular. feito de varas entrançadas. carcás. de modo a formar como dois sacos ou compartimentos. que a primeira e a terceira palavras deste grupo – aljava e carcás – são sinônimos perfeitos e com qualquer delas se designa o estojo onde se metem as setas e que se traz pendente do ombro. – Picoá. – Açafate (ou çafate) = “pequeno cesto tecido de vimes delgados e descascados. – Cabaz = “cesto fundo. em uma nota. Assim o define o prof. de junco ou de esparto. (D. – Bolsa é “um saco de qualquer estofo. jacá.” – Mala é “saco de coiro. Também se costuma chamar sapicoá”. e este poderia comparar-se a bolsa ou estojo se não fosse a particularidade de ser a guaiaca presa sempre à cintura. cesta. rendas e também flores. servindo para guardar objetos de costura. – Diz Bruns. etc. de alforjes apenas em serem de coiro. – Estojo é “uma caixa. ou mesmo de cabedal.” – Seira = cesto de palha. segundo definição de Aul. Usa-se para trazer ao ombro. Estojo de desenho.) – Balaio é “cesto grande. – Alforje (usado comumente no plural) é. picoá. e com a abertura no centro. a fim de resguardar ou de os transportar)”. que se põe sobre as bestas de carga”. alcofa. – Saco é “peça de pano ou de coiro. de palha. com bolsa para guardar dinheiro e mais misteres de um viajor”. etc. que serve para conter frutas. dobrada. usado entre os tropeiros e homens do campo. de coiro ou de pano. peçuelo. estojo de costura. de três ou quatro dedos de altura. cesta de roupa suja (e não – cesto). segundo Aul. segundo o prof. V. Usa-se mais no plural.). balaio. ou sobre as cavalgaduras. – Cesta é “vaso grande. José Antonio do Valle. – Peçuelo (ou melhor. largo e leve. e em que se leva fato de jornada. de junco. ou folhas de palma.. – Alcofa é. quase . etc. mala. guaiaca.164 Rocha Pombo 250 ALJAVA. no seu romance Divina Pastora. pois. Diferem apenas. oleado ou pano. acrescenta que é ordinariamente redondo. quanto à origem: aljava nos vem do árabe. – Bruaca (ou broaca) é termo nosso. carcás. e outros quaisquer objetos”. cesto flexível de vime. de madeira. como se vê. e mais ou menos semelhante a uma bolsa para dinheiro”. em forma de alforje. mochila. – Mochila é “uma espécie de saco de sola para trazer roupa e outros artigos de uso que os soldados de infanteria e de caçadores em marcha põem às costas. um nome indígena mais equivalente a alforje. assim define esta palavra: “Cinta de coiro lavrado. cesta. É. peçuelos) é uma bruaca menor. açafate. No Bra- sil dizemos – cesta de costura. lona. bruaca.. frutas.” (Aul. para que se equilibrem sobre o animal. bordados. cesto de feijão (e não – cesta). es- tojo. farinha. pois. papéis. – Guaiaca é outro. de taquara partida. seira. fechada por todos os lados menos por um (a boca) destinada a conter provisoriamente diversos objetos miúdos. do grego. para guardar coisas de uso. grande. a fim de igualar o peso dos dois lados”. acrescenta o mesmo autor.

aos sentimentos. glacial é científico. qualifica-se de álgido ao que vive no que é glacial: as plantas e os animais álgidos vivem nas regiões glaciais”. profundo. (Bruns. derivam a palavra alma do verbo latino alo. Álgido se diz do que comunica a sensação do gelo. Dizemos: clima frio. are. glacial. coração. em denotar inteligência. No sentido figurado. Diz-se que um homem tem a alma grande. ao pensamento. vem de anima.” – Gélido é termo poético. representa esta palavra. do que está frequentemente gelado. ou “que não é quente”. Noutra acepção. “privado de calor”. Frígido (do mesmo latim que deu frio. falando do demônio: “É espírito: vê as almas”. poético e da linguagem vulgar. Seja qual for sua etimologia. e talvez com mais razão. exprime qualidade ou modo de ser. Alma desperta ideia de substância simples. o princípio. nutrir”. zona frígida (zona fria. e clima frígido significariam outra coisa). almas do outro mundo. mas nenhum se lembrou ainda de dizer que o espírito era matéria.. à inteligência. querendo encarecer o valor da alma sobre o corpo. ainda depois de separadas deles. faculdades intelectuais ativas que àquele só são acessórias. os anjos. empregado mais no sentido moral. glacial. 251 ÁLGIDO. a que os franceses chamam revenants. gelado. primeiro em encerrar a ideia de princípio subtil. e vale o mesmo que sopro ou hálito. que anima ou animou o corpo.. devendo notar-se que. Além disso distinguem-se estes adjetivos por sua diferente significação. briosa. Deus. espírito. diz: “Tudo isto que vemos (no . “sopro”. a gélida indiferença (não – gelada). invisível que não é essencial ao outro vocábulo. – Regelado é redobramento do precedente e diz – “muito frio. Daí vem chamar-se psicologia à parte da filosofia que trata da alma. segundo. outros. senão em alguns... sopro. frigidus) diz também “frio. – Se- gundo Roq. do movimento de todos os seres viventes”. Falando do homem.) – Frio significa propriamente “sem calor”. – “Álgido é termo científico e poético. de spiro. isto é. alere. – Gelado quer dizer propriamente – “reduzido à temperatura do gelo”. É provavelmente esta última definição que caracteriza a diferença entre os dois. água gelada (e não – gélida). e assim dizemos: as almas do Purgatório. inteligente e livre. Dizemos: o gélido cadáver (e não – gelado). alma refere-se aos atos. para condução de coisas miúdas”. melhor do que este (que designa apenas estado quase sempre). a causa oculta da vida. 252 ALMA. e significando o mesmo que gelado.. “que quer dizer respiração”. Vieira disse. chamam-se almas. em sua significação mais lata. “vivificar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 165 sempre com asas. as substâncias espirituais que animaram os corpos humanos. feito de esparto ou de taquara”. “ar. sem relação nenhuma com o corpo. alma e espírito nem sempre são sinônimos perfeitos. Os gregos designavam a alma pela palavra psyche. “respirar”. “alma. vasto. nem em todos os casos se podem empregar indiferentemente. e que tem o espírito penetrante.. ânimo. no entender de alguns etimologistas.. – Jacá = “cesto grande e grosseiro. gélido. onde há muito frio”. Espírito difere de alma. Os filósofos materialistas têm querido negar à alma humana a qualidade de espiritual. aos afetos. re- gelado. – Espírito é a palavra latina spiritus. e davam-lhe a mesma extensão que nós damos à palavra alma. eu. os demônios são espíritos. ar que se respira. nobre. termo latino que vem do grego anemos. espírito. do sentimento. tal é aquele de Vieira em que. sendo que espírito só indica substância imaterial. frio. alento”. mas não são almas. frígido. ou mais frio do que o gelo.

– Vademeco (latim vade mecum) = “folheto com indicações ligeiras. Também dizemos: espírito baixo ou altivo. soberbo. como esta. – Diz Bruns. guia dos lavradores. – Repertório é uma espécie de almanaque acomodado às necessidades da gente do campo. aqui. e à burocracia em geral”. ou do rumo que se há de seguir nalguma viagem. Segundo os afetos que o ânimo experimenta. para uso do clero. alma esforçada ou abatida. número áureo. elevado. prontuário. que se compõe de folhas sobrepostas que se vão retirando uma a uma cada dia. dispostos por meses. e que passou desta para todas as línguas europeias. 253 ALMANAQUE. designa também o santo ou a festa própria de cada dia do ano. epacta. esforçado: o que com propriedade (em muitos casos) não se poderia dizer de alma. quando se considera a alma como ser pensante. anuário.166 Rocha Pombo homem) com os próprios olhos é aquele espírito sublime. é folheto ou pequeno livro em que se encontram todas as indicações indispensáveis aos que se ocupam de algum serviço: guia dos viajantes. pode ele ser baixo. ciência ou arte”. há o calendário parietal. (Usa-se neste caso mais propriamente de itinerário. indicador. Além do calendário folheto. “órgão dos afetos”. manual. “que de todos estes vocábulos. ou altivo. – Prontuário é o “manual onde se acha prontamente o que se quer sobre algum ofício ou profissão”. guia. no sentido restrito que tem neste grupo. – Em linguagem filosófica. as fases da lua e as variações dos dias. – Folhinha é o calendário adequado ao uso do povo. vil. dos caminhos de ferro. Como notamos entre parênteses. vontade. “livro pequeno. 71). roteiro. re- pertório. – A palavra anuário. grande. é provido de vária leitura e indicações interessantes. humilde. designa um folheto ou livro (e às vezes livro bem alentado) em que. ou quando nela se vê apenas a faculdade intelectual. quase sempre valor. – Indicador será um guia mais particular: indicador das ruas. ardente. Na sua significação primitiva vale o mesmo que alma. e ainda menos de espírito”. e. – Almanaque. porém o uso tem preferido este vocábulo para designar a faculdade sensitiva e seus atos: representa. há também folhinhas eclesiásticas. é o conjunto das faculdades que formam a individualidade psicológica. indicação romana. – Ânimo é a mesma palavra latina animus. – Guia. chamamo-la espírito. nobre. se indicam os eclipses. ciclo solar. é uma espécie de almanaque cuja utilidade é particular às casas de comércio. folhinha. às repartições oficiais. ou intenção. e nisto se distingue de alma e espírito (se bem que nem sempre essencialmente). espírito. – Coração só pode ser tido como sinônimo de alma e de espírito: de alma. grego. etc. ou de mero passatempo. quando exprime. moderna na nossa língua com esta acepção. letra dominical. da coragem etc. que contém em resumo aquilo que é indispensável em algum ofício. fórmulas ou noções de uso frequente em algum ofício ou profissão”. quando é tomado como sede da fortaleza moral. de espírito. além do calendário do ano. o princípio das estações. imenso – a alma (II. do mesmo modo que anima. vademeco. palavra árabe introduzida na língua espanhola. . é o indicador dos pontos por onde se tem de passar. – Roteiro. vil ou soberba. esforço. abatido. de anemos. nem sempre é de rigor a distinção que faz Roq.) – Manual é vademeco mais extenso. eu é a alma. calendário. entrada e saída do sol em cada um dos signos do Zodíaco. segundo a índole das pessoas a que é destinado. – O calendário indica a ordem e série de todos os dias do ano. Particularmente. pois. só folhinha e repertório são genuinamente portugueses.

segundo a contextura. Não seria. o leite é muito nutriente (e não – nutritivo). elogio. – Pretende-se um cargo de importância ou chegar a almirante quando se é simples marinheiro. Os sábios e valorosos generais a acalmaram muitas vezes. no entanto. de todas as deste grupo. Nutriente (do latim nutriens) quer dizer “que nutre”. A arenga dirige-se. Ambiciona-se uma grande fortuna. – Deseja-se recobrar a saúde.. pois. por isso. é a mais extensa.. criador. as quais devem atribuir-se antes ao artifício retórico dos historiadores e poetas que à eloquência dos seus heróis. vencer um embaraço. ou propriedades nutritivas de um produto vegetal (e não – nutrientes). – Cobiçar é “desejar o que não nos pertence. por isso que se razoa e se empregam razões para conseguir o fim que se deseja”. – Apetecer é “desejar alguma coisa como por necessidade de ceder a exigências da própria natureza”. desejar. Tudo o que se diz de viva voz a um auditório mais ou menos numeroso. ou de o excitar a alguma ação ou empresa. conferência. poder. etc. pretender. como tendo por fim persuadir e mover. a pessoas eminentes. ou possuir alguma coisa que nos agrada. e com serenidade e confiança nos votos com que se espera pela coisa almejada”. e têm entre si algumas diferenças. – A palavra arrazoamento. o cavalo do Pedro. – Cobiça-se a bengala. de nutrir. prédica. que nutre. – Arenga é uma espécie de arrazoamento oratório. – Almo (do latim alimus. animado e vivo. que. que faz crescer”. que alimenta. para excitá-lo à rebelião. em notáveis circunstâncias. – Almeja-se voltar à casa dos pais. que andam quase sempre os dois aplicados indistintamente. É certo. criador. Em contrário sentido fazem os grandes conspiradores arengas ao povo. proclamação. nutriente. – “é o gênero a que pertencem como espécies todas as composições oratórias. Arengas são as que os antigos generais faziam a suas tropas em vésperas de combate. – Desejar é “ter vontade de conseguir ou de gozar alguma coisa: é querer com mais gosto”. panegírico. apetece riquezas. preleção. imoderadamente”. ou um alto posto na política. como as que Salustio põe na boca de Catilina para animar e enfurecer a seus cúmplices. e que excedem muito a nossa capacidade”. tomam diferentes nomes. ou o que está acima dos nossos méritos”. 256 ALOCUÇÃO. sermão. 255 ALMO. arenga. – Aspira-se um bom lugar na administração.ere) diz “fecundo. é um arrazoamento. querer do fundo da alma. arrazoamento. nutritivo. próprio dizer que F. aspirar. oração. ao coração. ambicionar. as sublevações de seus exércitos com eloquentes e veementes arengas. – Apetece-se quanta fruta se vê nas mercearias. prática. São arengas também os estudados e cerimo- . – Ambicionar é “desejar demais. 167 apetecer. com o fim de o convencer e persuadir. – Aspirar é “desejar com esforço e veemência”. Arenga-se também a corporações respeitáveis. – Almejar é “desejar ardentemente. e mui comumente para animar os soldados a empreender com denodo a batalha ou qualquer ação perigosa. – Criador é aquilo que é capaz de gerar. Como diz Roq. de produzir forças. ou fazer as pazes com o amigo. – Entre nutriente e nutritivo há esta diferença: nutritivo (de formação vernácula) significa “de nutrição: que tem a propriedade de ser nutriente”. os fins e as circunstâncias. honras. que se dirige a um grande concurso para comovê-lo. de alo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 254 ALMEJAR. fala. homilia. – Pretender é “desejar coisas muito altas e de grande monta. em perigosas e decisivas circunstâncias. cobiçar. dis- curso. Dizemos: as qualidades.

o louvor de alguma grande vida”. animados e engrandecidos por quantos meios subministra a arte da eloquência. tiraram os latinos o verbo orare. ou fala dirigida a alguém sem aparato oratório. pedir. de Demóstenes. para importantes sucessos ou negócios públicos. favoreça. a formação e aprovação de leis.. tais são as que Jacinto Freire põe na boca de Coge Cofar e de d. mental.. agora lhe chamamos discursos no sentido oratório.168 Rocha Pombo niosos discursos que.”: e do segundo: “Acabada a prática. – Sermão é “uma prática religiosa. Dizemos oração dominical. – Homilia é “um sermão menos formal e solene. de explanar”. De modo que àquilo que os antigos chamavam oratio. ou nos perdoe as faltas que havemos cometido. ou sacropolítica. Às vezes corresponde às arengas dos antigos generais. enquanto que “prédica sugere mais a ideia de anunciar. em grandes momentos. como devida homenagem que se lhes rende e jura. no entanto. jaculatória. os governadores e demais autoridades.. Diz-se ordinariamente do que o Papa dirige aos cardeais em consistório. uma prática destinada a esclarecer algum ponto de doutrina ou alguma passagem das Escrituras”. – Do substantivo os. e só se dá de superior para inferior. João de Castro. uma diferença muito subtil entre estes dois vocábulos: “prática sugere intenção de instruir.oris. falando do primeiro: “Fez aos turcos uma breve prática. aos que fazem os oradores modernos se lhes dá geralmente o nome de discursos. rogar”. de Cícero. – Prática é exortação menos solene e menos veemente que arenga. para persuadir. dizer muito alto”. etc. tais são os de Pitt.” – Fala é termo vulgar que vale o mesmo que prática no sentido em que aqui a tomamos. e que nós traduzimos pela palavra oração. do alto do púlpito”. vocal. – Alocução é discurso breve. Esta palavra é mais bem recebida entre o vulgo do que arenga. de Fox. dirigida a um povo ou a um exército por um príncipe. Usa-se mais comum e geralmente em sentido religioso. por ocasião de algum notável acontecimento que interessa a Igreja. a que nos ampare. que em seu sentido reto é um arrazoamento ou alocução disposta com inteligência e arte. que significa “falar. as da Igreja segundo o ritual. “oração”. – Conferência tem aqui a significação particular que lhe damos . lhe dirigem as câmaras. se bem que não exclua a noção de instruir. diz-se com muita frequência que o coronel fez uma fala a seus soldados.. o general à sua tropa. – Proclamação é “uma fala ou arenga mais solene. socorra. perante o povo.. como as orações que fazemos a Deus e aos Santos. pensamentos. fúnebre. mover e interessar a uma pessoa. um conquistador numa cidade. Há. suplicar. Po- rém. como a paz ou a guerra. práticas impertinentes. ou a um ser superior. e chamamos ainda hoje. etc. onde diz. como as de Isócrates.. – Preleção é o mesmo que “discurso didático. raciocínios coordenados entre si. de Mirabeau. e feita com certa solenidade. a estes arrazoamentos públicos orações. ou prática em que se explica uma lição”. – Prédica é o mesmo que prática religiosa. a defensa. entendendo por ele uma composição literária feita por qualquer de nossos oradores acerca de algum importante assunto. para chegar aos fins que nisso propôs: o que verifica por uma dedução de ideias. e daqui oratio. ou melhor. o superior a seus súbditos. ao entrar um príncipe. Chamaram os latinos orações aos discursos que compunham com o maior esmero. e sempre destinada a nutrir esperança ou coragem na alma daqueles a quem se dirige”. sobre questões de alta monta. que ele quase sempre toma no mau sentido de razões longas ou ininteligíveis. – Panegírico é a “oração em que se faz a apologia. de Eschines. ou por um general. escrita. um general. assim chamavam. “boca”. de causas particulares em que ele devia decidir. proclamar.

e sobretudo com soberba e empáfia. Empáfia tem ainda alguma coisa de ostentação e fanfarrice. da nossa família. O sujeito altivo é aquele que está no mundo como quem está no que é seu. chama-se galeria”. que mostra o sobranceiro. um orgulho afetado e estulto. Denominamos alpendre o adro coberto que há diante da porta de algumas ermidas e conventos. como templo. etc. elogio fúnebre. Orgulho difere de soberba em ser um sentimento que não é incompatível com a discrição. que vive entre os homens como entre iguais. do nosso valor. e à alpendrada. inda que impropriamente. Quem dissesse que é soberbo. de alguma honra excepcional.: “é um pórtico sustido em pilares diante da porta de algum edifício”. arrogância e altaneria – do que propriamente orgulho.” – Vestíbulo é “o espaço que vai da rua até à porta que dá no interior. altivez. Dizemos. forte. e raramente deixará de revelar pequenez de espírito. elogio histórico (e decerto ninguém diria panegírico histórico ou fúnebre. pelos ares insolentes. soberba. de ter preeminência sobre outros. átrio. rico. Sendo o orgulho o alto conceito que temos de nós próprios. fazer-se legítimo: a soberba. pois que panegírico diz propriamente “discurso festivo e laudatório”. um ridículo entono. diz Roq. – A empáfia é a soberba arrogante. sobranceria. impostura. em regra sem grande extensão. dá-se o nome de anteportaria. portanto. telheiro.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 169 hoje comumente: designa a “composição literária ou científica. 258 ALTANERIA.. Ninguém se vexaria de dizer que tem orgulho de algum bem magnífico. lida perante um auditório”. de estar acima de outros. fatuidade. mais legítimo como testemunho. Hoje alpendre diz-se quase exclusivamente daquela parte de um pátio que está coberta por telhado. cuja abóbada é quase sempre sustentada de colunas e que serve de entrada”. ou em geral. é a altaneria exagerada até a presunção. mas distingue-se deste em ser mais justo. pelo desprezo com que encara o resto dos homens. vestíbulo. empáfia. ou não”: diz-se mais particularmente do que se vê à entrada dos templos de alta construção.. – Nas suas manifestações. – Sobranceria. e que compreende certo espaço coberto. em casas nobres. ou de não ter vícios torpes. adro. 21 Alpendre. o telheiro está contra o edifício ou isolado. – Altivez é antônimo de humildade. Ao alpendre. ou mesmo ser indício de virtudes excelentes: a soberba é sempre fútil. alpendrada o alpendre sobre que abrem as janelas de alguns chalets. que se mostra pelos gestos. pórtico. orgulho. que também nos dá átrio) é “o espaço que fica à frente do pórtico. – Pórtico é “portal de grande edifício. O orgulho pode ser nobre. como o entende Roquete21. e consiste em parecer que se é altivo. valente. é possível que se torne para o orgulhoso em forte estímulo na sociedade e na vida. nos grandes edifícios”. – Segundo Bruns. a nobreza de alma e outras grandes qualidades morais. – Adro (do latim atrium. – Elogio é quase panegírico. e pode ser aberto. pode dizerse. A soberba não é só a manifestação do orgulho: é mais um falso orgulho. alpendrada.: “alpendre e alpendrada (ou alpendrado) têm por fundo o próprio edifício. não se tendo como inferior a . O orgulho pode ainda justificarse. a magnanimidade. – Aplica-se o vocábulo átrio ao “pátio que nos grandes edifícios leva da entrada até à escadaria. – Altaneria é uma afetação de altivez. palácio. nunca. a altaneria e a sobranceria podem facilmente confundir-se com orgulho. ou quem se mostrasse soberbo de alguma coisa – estaria julgado só por isso.) 257 ALPENDRE.

ou fazer-se freira: é uma disjuntiva. renovar. ambas possíveis. consideramos a elevação da torre ou da montanha sobre o nível do mar. quando tombam das suas alturas. corrigir. – Remodelar é “refazer alguma coisa sobre novos moldes ou modelos”. – Alterar enuncia a ação geral que os outros verbos deste grupo particularizam: é dar – às partes. a coisa que se renova toma um novo aspeto. à estrutura. – Reconstituir é “dar a alguma . mas distingue-se de todos. ou de uma montanha.. Deixa de ser altivez todo movimento de alma que não se funda numa perfeita consciência do direito. Impostor é o sujeito cheio de si. – Pode-se dizer – alti- tude de uma montanha. altura. Não é altivo o indivíduo que afronta um velho. emendar.170 Rocha Pombo ninguém. das quais uma há de ficar precisamente prejudicada.) 260 ALTITUDE. sofrem mais que nós outros. retificar. e principalmente do último. em caso algum teria sentido físico. com muita empáfia. renovar. se é que alguma soberba exista que não seja tal. re- ternativa é a opção entre duas coisas ou ações. a fazer alarde de si mesmo. do honesto. – Se se muda de forma. (Bruns. – Fatuidade é a soberba do imbecil. variar. transformar. No primeiro caso. Alteza. é uma afetação de grandeza. ou se se fazem alterações num certo sentido – dizemos que isso é modificar. 261 ALTEZA. manifestação de legítimo orgulho. – Altura. substituir. modificar. conforme indica o prefixo re. ao peso. remodelar. porém. Nesta frase: “Os reis. 259 ALTERNATIVA. A altivez é. Posso ir ao Porto por mar ou por terra: é uma alternativa. altura de uma torre. A coisa que se transformou. à forma. os que não temos de onde cair” – a palavra alturas está aplicada também a elevação moral. à cor de um corpo ou de um todo e também às suas condições ou ao seu modo de ser ou de funcionar – uma nova disposição. é a elevação de um corpo. dilema. de uma torre. altura. – Disjuntiva é a opção entre duas coisas opostas. diferença-se deste modo: a coisa que se reforma conserva ainda os seus fundamentos: mudará apenas o que nela não pode ou não convém ficar. – Se a alteração é total ou completa. Ou casar. e sem que se contradigam. ostentoso. – Reformar é quase mudar. – Reconstruir. como já se viu no § precedente. chamamos a essa operação variar. de superioridade. reconstruir. sofreu alterações maiores do que se tivesse sido apenas reformada. do sagrado... – Dilema é a alternativa ou disjuntiva em que não há opção satisfatória”. De resto.. mas é usado este verbo para designar o ato de “dar organização diferente mesmo àquilo que já existia ou que ainda existe”. na maioria dos casos. – Reorganizar seria propriamente “dar organização nova àquilo que havia deixado de existir”. reorganizar. 262 ALTERAR. refazer. – Transformar também se confunde com reformar aqui. no entanto. calculamos a dimensão da montanha ou da torre desde a base até o cimo. não é uma distin- formar. ou que se mostra arrogante com uma criança. disjuntiva. – Alteza só se emprega tratando-se de elevação moral ou social. usamos do verbo mudar. é “construir outra vez ou de novo”. – “Al- ção absoluta. mudar. de orgulho – que se confunde com bazófia. reconstituir. mais do que soberba talvez. que significa alguma coisa como substituir. – Se se vai alterando pouco a pouco. no segundo caso. contada da sua parte inferior até à parte superior: só se aplica a coisas físicas. – Impostura.

cego. – Refazer é um pouco menos que reconstituir em certos casos. e que foi editada pela Real Academia da língua. por simpatia. Um doente de anemia vai reconstituir-se na ilha da Madeira. – Louco é propriamente “o que perdeu a razão”. louco. Mas aqui mesmo pode notar-se alguma diferença entre estes dois verbos. – Sobre os três primeiros verbos deste grupo. alucinado. aturdido. Mente é. ou curvo.” (Roq. dar quebranto”. – Retificar. a que se ofusca. como. Mas. e também o que não está ainda bem puro. alucinam. ou a um ou outro deles é capaz de corresponder) éperdu e égaré: tanto diz – “agitado. – Deslumbrar é “turvar a vista por meio de luz muito forte”. insano. – Cegar é “perturbar a vista de qualquer modo. As narrações complicadas. ou por antipatia com as pessoas interessadas – ofusca-se. doido. desvairado. as ilusões do amor-próprio. por exemplo. fazer que desvaire por falta de uma visão perfeita das coisas”. Quem pode ler. espantado como doido. sem confundir-se. alucinado” (égaré). José Joaquim de Mora. cegar. completa como a de reconstituir. deslumbrar. confundem. confundir o entendimento ou a razão. mas devendo notar-se que este é mais extenso e de significação menos precisa. e no sentido figurado quer dizer – “enganar por meio de prestígios. do latim fascinare. perturbado por uma emoção violenta” (éperdu) como – “fora de si. tudo o que é indefinido. Aquele que funda as suas esperanças de acenso no sorriso ou no aperto de mãos do ministro – alucina-se. Nesta palavra demente figura a raiz grega man ou men. na frase: “Preciso de refazer (ou de reconstituir) as minhas forças”. e no sentido figurado equivale a “perdido. 263 ALUCINAR. delirante. confundir. de entender. estonteado. A ação de refazer não é tão essencial. uma disposição íntima. pois. ofuscá-la por alguma coisa brilhante. a razão. renovando-lhe apenas os elementos”. – Fascinar. fascinar. emenda-se o que está errado. essencial que pode ser ou não diferente da antiga. encantar. e no sentido figurado é “alucinar. desvairado como se tivesse subitamente enlouquecido”. – Alucinado é o que subitamente desvaira e se arrebata como louco por efeito de alucinação. – Cego só tem aqui sentido figurado e diz – “que perdeu ou tem perdida a visão da alma ou do entendimento. fica muito próximo de perdido. corrige-se o que não está bem direito. Um sujeito que trabalhou o dia inteiro deve refazer-se das fadigas para a nova tarefa. insensato. ofusca. atordoado. ofuscar. – Demente é “o que está privado das faculdades de raciocinar. as obras dos filósofos alemães? A imaginação é a faculdade que se alucina. Pode dizer-se que perdido encerra o valor dos dois vocábulos franceses (ou a eles. Aquele que sustenta uma causa injusta. significa propriamente “enfeitiçar. que sugere a ideia de “pensar”. falsas aparências. os raciocínios excessivamente subtis. as promessas enganadoras.) 264 ALUCINADO. lê-se em Bruns. e noutros poderia confundir-se muito com este. retifica-se o que está torto. o entendimento. profunda. magnífica”. Aqui. “sentir”. o artigo correspondente a estes vocábulos: “As esperanças quiméricas. as questões espinhosas. corrigir e emendar confundem-se: todos enunciam a ação de pôr uma coisa nas condições em que se quer que fique. “o . de que é autor d.: “Traduzimos da Coleção de sinônimos da língua espanhola. as impressões veementes. como o cego tem perdido a vista”. perdido. e que fica em estado como de estupidez ou imbecilidade”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 171 coisa uma nova estrutura. etc. ou bem expurgado de erros. a que se confunde”. de- mente. As razões sofísticas.

sem tino”. e assim privado de senso normal. 265 ALUDIR. da inteligência”. portanto –. e por isso não pensa normalmente”. portanto – “a coisa referida”. pois. sentindo-se apenas em estado que não é de perfeita lucidez”. diremos corretamente: “circunstância a que se alude”. muito próximo de referir. dizer onde se encontra. – Mencionar é indicar claramente. – Doido é quase o mesmo que louco: se se pode notar alguma diferença entre os dois vocábulos. – Aturdido = “subitamente perturbado. é. ou – “o caso assistido”22. incapaz de fazer juízo”. consignar positivamente”. a faculdade. – Entre aludir e referir há uma diferença notável. há entre referir e aludir uma diferença que é frequentemente esquecida. Dizemos. . Refere-se uma coisa. não pode dar particípio passivo. mas ainda de função gramatical. – Desvairado é “o que ficou em súbita exaltação que o põe agitado. sem a declarar pelo nome.. marcá-la ou mostrá-la”. referir. “privado do espírito. não sendo transitivo. Sente-se que referir seria indicar expressa e claramente fatos. “O enfermo foi assistido” – está direito (porque se quis dizer que o enfermo foi socorrido). – Insensato é “o que não tem senso comum. – Expor é “fazer uma relação minuciosa do que se quer tornar conhecido de outrem. alude-se a uma coisa. Declinar é. Referir quer dizer – “indicar de modo claro e preciso a coisa sobre que se quer chamar a atenção de alguém”. mas – “a cerimônia foi assistida” é construção viciosa (porque. expressas pela voz. ou com intuito de queixa.. ou ainda por desejo de instruir alguém sobre a coisa que se expõe”. mas nem sequer um fato teve a coragem de referir. Em vez de “circunstância aludida”. não só de significação. sem tento no que faz”. enun- ciar. ou a que indivíduos se endereça o ataque: e neste caso se diz que ele aludiu a esses tipos. e confunde-se ainda com articular. às suas tropelias e infâmias. isto é –. expor. mas à cerimônia. – Estonteado = “perturbado como quem acorda repentinamente. Dizer – “a coisa aludida” seria o mesmo que dizer – “a coisa. que é “referir por palavras adequadas e precisas que esclareçam o articulado”. declinar. Aludir é “referir indiretamente. Quando alguém nos diz intencionalmente que – “certos tipos execrandos escandalizam a moral pública” – subentende-se que nós sabemos a que tipos se dirige a apóstrofe. aflito. – Enunciar é apenas “declarar por palavras. 22 Note-se que assistir tem diferentes acepções. e caracterizada pelos desvarios. e não podemos dizer – “a coisa aludida”. e que declinar seria dar os próprios nomes dos criminosos. Neste exemplo vê-se melhor a distinção: “O homem aludiu aos bandidos. Sob o ponto de vista gramatical.”) Não se assiste a cerimônia. – Insano diz propriamente – “o que está enfermo da razão”: a insânia sugere também a ideia de loucura instantânea. por figura. – Delirante é “o que está como perturbado momentaneamente das faculdades intelectuais. ou o conjunto das faculdades superiores do homem”: demente exprime. sugerindo apenas. de surpresa ou de susto”. ou por dever de ofício. assistir é verbo intransitivo e significa “estar presente a. segundo os lexicógrafos. ou o ato procedido”. neste caso. pois que o verbo aludir. a que consiste em ser talvez a doidice uma forma de loucura mais completa e permanente. – Indicar é “apontar precisamente alguma coisa. formular por termos próprios”.172 Rocha Pombo espírito. mencionar. indicar. nem declinou os nomes dos quadrilheiros”. Atordoado = “menos que aturdido. uma ideia da coisa. pelo próprio nome. mais por inadvertência talvez do que por ignorância. os gestos ridículos e estabanamentos do doido.

que pertence. educando. quer de arte ou de moral.. palavras alusivas à má conduta de alguém. Aluga-se um trem: alugam-se móveis (não – arrendam-se). arrenda-se por tempo mais longo e às vezes sem prazo certo. – Alquilar.. Os termos referentes àquele fato são ásperos.. Tanto podem locar os proprietários como os que estão no usufruto da coisa locada. – Respetivo diz – “que compete. locar. ou por meses. um empresário arrenda o teatro que quer explorar. – Discípulo é o menino que é entregue aos cuidados e esforços de um mestre ou professor. nas cidades arrendam-se ou alugam-se casas por semestre. respetivo. Procuramos naquele livro das Escrituras tudo que é concernente ao adultério. há entre os dois primeiros adjetivos deste grupo: dizemos que uma coisa é referente a outra quando a ela se refere. F. ou a cada um em particular ou em separado”. – como aluguel e renda. “Os meus discípulos são os melhores alunos do ginásio tal”. relativo.. concernen- 173 te. e discípulo só se diz com relação ao mestre. sublo- anos. – Relativo exprime – “que tem relação com. arrendar. “Entre os alunos do colégio tal. Apresentaram-se os diversos clubes tendo envolto em crepe os respetivos estandartes. nestes: “Respeito muito os discípulos de Loyola ou de Comte” (não educandos por certo). – Concernente exprime. quer de ciência. meninos cuja educação me está confiada). ou da aula de música. Em outros muitos casos.. ordinariamente de uma vez. 267 ALUGAR. a ideia contida em referente e relativo: diz – “que é próprio. por exemplo. quer como interno. só se diz atualmente falando de cavalgaduras e carruagens. isto é. – Exemplos: Discurso alusivo a uma questão. Aluno. Dizemos também que é discípulo de F. referente. no entanto. como. Tanto posso dizer: os meus educandos (os meus discípulos. – Alugar e arrendar diferençam-se entre si – diz Bruns. e por alguns menino que frequenta alguma escola. o uso vai mesmo postergando este vocábulo... por dias. – Educando é sinônimo bem próximo dos dois precedentes: e em muitos casos poderia substituir a um ou outro. por curto tempo. Nas praias de banhos alugam-se casas aos banhistas. e substituindo-o por alugar. quando a indica direta e claramente. – Locar = “alugar. a um ato. que se nota entre os verbos aludir e referir. – Aluno é o car. e por preço que constitui renda ou rendimento para o proprietário. de modo ainda mais preciso. e também se arrendam mediante contrato. que se prende à coisa a que se refere”. e parece que todo o trabalho do ministro consistiu em dar toda amplitude à parte relativa a desfalques. é uma designação que se refere ao estabelecimento onde o menino aprende. quer como externo. que o instrui e guia. Uma companhia de cômicos aluga o teatro da povoação por onde passa. qualquer pessoa que recebeu lições de F. que se atribui à coisa a que se refere”. termo que já foi genérico. “Os alunos da minha turma foram aprovados” (decerto que não ficaria bem aqui dizer – educandos). portanto. discípulo. e pelo preço que se combina pagar. que respeita ao próprio a que se refere. não seria possível a substituição.. e dizemos que é alusiva quando apenas sugere ideia dessa coisa. sem a nomear. etc. – Sublocar = “alugar a outrem uma coisa que se tem tomado a alguém por aluguel”. não tem nenhum discípulo”. 268 ALUNO.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 266 ALUSIVO. aos defeitos da criança. . que diz respeito a. dar de aluguel mediante contrato”. como: os educandos do instituto. isto é: aluga-se para um fim determinado. ou do internato tal (os meninos que estão sendo educados nesse internato). alquilar. – A mesma diferença.

purpurina. alvorada. a que se destina o nosso trabalho”.) – Alvor (ou albor. e alvorada – dir-se-ia – é uma extensão de alvor. cerne. centro. Intento é propósito mais firme e seguro. espalha-se nas regiões etéreas. Aquela dor chegou às profundezas do meu coração. – Interior designa sim- . dilú- culo. a determinação em que estamos de fazer alguma coisa”. – Crepúsculo (de crepusculum. incerto. 271 ÂMAGO. – Fito é “o alvo sobre o qual temos toda a nossa atenção e esforço”. até que o astro do dia mostre seu afogueado limbo: eis a aurora.. de creperus “duvidoso. que é apenas o estado de espírito em que estamos. fito. é – como disse Vieira – o riso do céu. 270 ALVO. é o íntimo das coisas. escopo. Ter em mira quer dizer “desejar. além de profundeza. No grego skopós. – Profundeza e recesso. Pode ser físico ou moral. – Âmago é propriamente a medula. profundeza. mas dos recessos desta alma não sairão jamais os meus gemidos. e no sentido figurado. e mais benigna que o sol. contingente”) (Sar. rósea. é a alva. miolo. – Mira é mais propriamente “o ato de fitar o alvo”. examinar: é portanto escopo “aquilo que se visa. e que no momento prende a nossa atenção”. a alegria dos campos. crepúsculo. – Propósito é “resolução tomada. distinguem-se assim: recesso. – Escopo é muito próximo de alvo e de fim. íntimo. pode dividir-se pelo pensamento em dois tempos que formam o que vulgarmente chamamos madrugada. âmago da vida. que se tem por fim atingir”. recesso. in- acertar”.” – Objeto é “tudo que está fora de nós. pretender.) é a meia-luz indecisa que precede ao nascer. intenção. e parece dar mais ideia de festa do que exprimir propriamente fase do alvorecer. Dizemos: âmago da alma. aqui. Esta luz suave. – Dilúculo é termo poético designando o romper do dia. a harmonia das aves. – Imo é também o mais profundo das coisas. fim. – Intenção e intento significam “o desígnio que nos leva a agir. entremeia-se o oiro vivo dos apolíneos raios. ter os olhos sobre. ou a disposição de alma em que nos deixa aquilo que temos desejo ou vontade de fazer. a vida e alento do mundo”. figura a raiz skeh. o mais profundo nos seres. e em ondas de progressiva luz derrama-se no firmamento. a respiração das flores. e com ela se patenteia de novo a formosura do universo. que não cansa nossos olhos. – “A luz que aparece no horizonte. objeto. (Roq. e que continua alguns minutos depois do pôr do sol. A aurora. quer morais quer físicos. de recato. – Fim é “o ponto a que se quer chegar. coração. a parte que fica no centro dos vegetais. mais brilhante que a alva. o propósito que temos formado. sugere ideia de mistério. a que levamos o nosso intento. alvor (ou albor). que significa “ponto ou fim que se colima”. o crepúsculo da manhã. de intenção de ocultar. madrugada. propósito. firme determinação”. e também de mira. afugenta as trevas da noite. ainda não tinta de vivas cores.174 Rocha Pombo 269 ALVA. seio. que é estranho ao eu. imo. Matiza-se insensivelmente no horizonte a alvura com a cor cerúlea. mira. decisivo do que intenção. aurora. meio.. in- tento. medula. antes lhes dá motivo para se recrearem vendo alvorecer o dia. que sugere ideia de observar. mas só se emprega no sentido moral. – Alvo é “o ponto que se quer atingir ou onde se quer terior. Começa o horizonte a fazer-se alvo com a aproximação do sol: eleva-se pouco a pouco esta alvura. e vai crescendo e matizando-se de luminosas cores até que o sol o doire com seus brilhantes raios. resoluto. como é muito usado também) é o primeiro sinal da alva.

do edifício. Meio. ou. central de alguma coisa. afastado dos olhos como um mistério”. abateu com as chuvas o rochedo. em certos casos poderiam ser usados indistintamente. Sossega o . esta palavra miolo como designando toda a parte do pão contida dentro da côdea. pelos estragos que causa. suavizar. atenuar. o ponto que fica a igual distância de todos os pontos da circunferência. – Diminuir é o mais genérico do grupo: diz “reduzir a força. áspero. teso. Enfraquece o exército pelas deserções. a discórdia. no entanto. Feriram a França no coração. e além disso meio é mais extenso e genérico. quer abstratas quer concretas. fazer baixar. Amaina o temporal. Centro é termo de geometria para designar. abrandar ao que é duro. os laços que prendem alguma coisa. Afrouxam-se os grilhões. enfraquecer ao que é ou está forte. Uma pessoa mete-se no meio da turba (e não no centro). Em nenhuma dessas frases seria próprio substituir nenhum dos dois vocábulos. o que fica por dentro da casca”. sossegar ao que está inquieto. acalmar aplica-se ao que está em alto grau de intensidade. aba- ter. o sentimento característico das coisas. meio da floresta. carinho. Naquela terra está o coração da pátria. interior do país. – Afrouxar aplica-se ao que está apertado. senão ponto afastado da circunferência dela. sossegar. enfraquece a mocidade vencida pelo vício. – Cerne é “a parte mais dura de muitos vegetais. – Me- dula é “o âmago. mas convém nunca esquecer que há entre eles uma diferença tal que se não poderiam substituir em grande número de casos com propriedade. diminuir. ou. altivo. conforto. as cordas de um instrumento. – Em muitos casos poderia também confundir-se meio com seio. a parte central. – Miolo (corrução de medula) é “frequentemente empregada pela própria latina: pode definir-se. recôndito. – Estes verbos têm de comum a ideia de “diminuir de intensidade”. etc. – o coração da África indicando o meio dela. Poderíamos dizer mesmo: meio da mesa. acalmar. Abrandam-se dores. o ponto que é equidistante de todas as partes da periferia. tão rigorosa distinção. Abatem as desgraças aquele orgulho. porque os há que não chegam a ter cerne”. ou pelo menos esta não é forma tão precisa como aquela. centro da arena – desde que sejam circulares. Interior do coração. da floresta. Também dizemos – o coração da noite – para exprimir a plenitude dela. da cidade. não se reconhece. selvagerias. Dizemos: centro da mesa. a cólera divina. O centro da terra – é uma coisa: o meio da terra – é outra. – Coração só figuradamente é que entra neste grupo. para exprimir o núcleo. a parte onde está a força. num círculo. – Íntimo quer dizer “profundo. – Na linguagem vulgar. abater ao que está elevado. O diâmetro passa pelo centro da circunferência (não – pelo meio). pelo furor. pelo estrondo. ao que parece irritado. mas neste caso não lhe indicaríamos precisamente o centro. tranquilizar. 272 AMAINAR. Até que enfim restituiu-me a sorte ao seio de minha família. furente. enfraquecer. nem sempre. a vida. aplica-se a tudo que não é lado. no entanto. – Centro e meio. no entanto.”. extremidade. serenar. afrouxar. – Amainar emprega-se quando a coisa se caracteriza pela agitação. castigos. ainda que fosse redonda. numa esfera. em delírio. a substância mole que se encontra no centro das árvores. beira etc. Mas este último sugere ideia de conchego. Estou afinal no meio dos meus amigos (como poderia estar no meio de bandidos). abrandar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 175 plesmente a parte interna. cóleras. descer. por analogia. ou tratandose de certas frutas. Dizemos: meio do caminho. Em grande número de outros casos não seria possível usar um pelo outro. dos ossos” etc. crescido.

Por isso. Podem-se domar animais bravios. é “fazer sereno”. diminui o furor. a dor. Salomão tinha concubinas. sendo. Uma outra diferença importante entre os dois termos.176 Rocha Pombo enfermo. podendo a amante viver ou não na casa do homem solteiro. menos violento. Muito frequente é também que a amante de um homem seja casada ou viva com outro homem. Amante. este tem amantes. é que a palavra amante não encerra a ideia de coabitação. – Barregã (do castelhano barragana) é termo insultuoso e depreciativo. – Comborça. sem ofender demais (a não ser a ouvidos muito delicados) ser admitido em qualquer linguagem. o rigor. agitado e aflito. se não enaltece a mulher. o revoltado. como é comum para os designar a ambos com relação de reciprocidade. podem-se reduzir a viver na mesma habitação com o homem. da qual a concubina era frequentemente uma como escrava. menos forte. Napoleão III teve muitas amantes. o comprimento. de sentimentos e de convívio. uma distinção social muito importante que con- vém considerar entre eles. ou ao falar de mulheres ou da antiguidade ou da Idade Média. segundo define Aul. no entanto. ou de cônego: – Amásia é termo vulgar. é qualificativo humilhante da concubina de homem casado. isto é. – Serenar. isto é. Podem-se amansar os animais ferozes. barregã. Acalma-se a turba que bramava. o desordeiro. diminui a tristeza. assim dizemos – barregã de frade. amiga. diminuindo a agitação. concubina. por assim dizer. . a intensidade. assim como amiga – termo mais escolhido – qualifica a mulher que vive das liberalidades do seu amante”. e menos ainda que os domesticamos. menos impaciente. e o único que pode. e como que a ser seus servos ou seus companheiros. a torna pelo menos igual ao homem. e admitido até pela esposa legítima.. – Tranquilizar = “fazer mais tranquilo. ao passo que no Ocidente. ou que pelo seu caráter não devera ter amorios. como diz o próprio radical. tanto no sentido moral como no físico.” – Atenuar = “fazer menos forte”. podem-se tornar submissos e obedientes. ou cônego. uma esposa ilegítima que vive na dependência e na sujeição: tendo estas ideias vindo até nós pela consideração dos usos e costumes dos países e das épocas em que o concubinato era legalmente tolerado. Concubina (do latim cum “com” e cubare “estar deitado”) encerra a ideia de coabitação. Há. comborça. – Sobre os primeiros cinco vocábulos deste grupo escreve Bruns. que melhor que outro qualquer designa a mulher que só pelo interesse é concubina de algum homem asqueroso. diminui-se o prazo. – Amante é o termo que se considera mais decente na nossa época. o peso. 273 AMANSAR. a extensão. mas não sendo frequente encontrá-la na casa do homem casado. A concubina é. a força. que. as aflições. menos ríspido. onde a mulher é geralmente considerada como igual ao homem. – Suavizar = “tornar mais suave”. estes têm concubinas. 274 AMANTE. – Segun- do Lacerda – “podem-se domesticar os animais bravios. – Manceba está hoje sendo inteiramente desusado como sinônimo perfeito de amásia. onde a mulher é considerada como inferior ao homem. domesticar. é vocábulo que. amásia. pelo contrário. Diminuem as águas da enxurrada. mas sem ficarem contudo tão obedientes que se possa dizer que os “amansamos”.: – “Concubina é vocábulo que hoje apenas se emprega na linguagem da Igreja. ou do viúvo. além da suplantação de um dos termos pelo outro. nos países do Oriente. manceba. o volume. isto é. etc. domar. diminuem as forças. o pranto. melhor que – amante de frade.

. “deformar. enovelado demais.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 275 AMARROTAR. ganância. quebrantada). Aliás. achatando-a. – Amassar é. levantar o pelo” (frisa). – Machucar (ou amachucar) é amolgar.. na ânsia e sofreguidão de acumular. e quando muito deve notar-se entre eles esta diferença: enrugar enuncia ação lenta e mais completa que a de arrugar. arrugar. Amarfanha-se o papel. embrulhar. ondulado. – Avidez (conquanto da mesma origem latina avere) não se confunde com avareza. “dar a aparência ou o feitio de ratina (aos panos)”. – Amarrotar é. aqui. – Enrugar. encaracolar. vincos. encarquilhar. cobiça refere-se apenas à riqueza. – Avareza é vício de alma que torna sórdido o avarento. tirar a forma própria de alguma coisa. esmagar alguma coisa debaixo de outra. sentiu o coração a crispar-lhe de angústia (e não – “encrespar”). arrepiar. encaracolar em forma de riço”. isto é. amarfanha-se uma roupa tirando-lhe o aspeto de lisura que lhe é próprio. toda ansiedade com que se quer alguma coisa ou se executa alguma função. avidez. cerrado como carapinha. ma- 177 chucar (ou amachucar). ou de encontro a outra. levantá-los e deitá-los para trás.. dignidades. “não liso e correntio. reduzindo-a a massa informe. – O mesmo radical deu-nos crispar. – Encaracolar é “dar a forma de caracol. – Ratinar é. anelado”. significa “fazer felpudo. – Marlota. avareza. na paixão pelo dinheiro. enrolar e comprimir como se faz com embrulhos”. cobiça. ouriçar”. pregas” (carquilhas). – Dos dois primeiros vocábulos.. amassar. 276 AMBIÇÃO. – Encarquilhar é “encolher formando rugas. áspero. franziu a testa afrontando-nos”. começando por ser um termo genérico para indicar todo desejo imoderado. Diremos: a alma lhe crispou de dor. neste grupo. só ambição – diz Bruns. e por analogia. Velhice encarquilhada (cheia de rugas e mofina. eriçar. Há ambiciosos que. cupi- dez. entre o qual e encrespar pode notar-se a distinção que consiste em ser o verbo crispar aplicável a fenômenos morais melhor do que o outro. contrafazer. pô-los em sentido contrário ao em que estava ou que é o normal”. Entre riçar e eriçar (ou erriçar) nota-se esta diferença: eriçar quer dizer “riçar momentaneamente. encrespar. – O mesmo quase diz riçar. – Frisar. “agitado de cólera. esta distinção não é essencial. erriçar). amassar. ao dinheiro. encarapinhar. honras. gana. “frisar. riçar (eriçar. tornar felpudo”. gastam a mãos largas para obterem o que ambicionam”. “Os cabelos se lhe erriçam de horror” (não – riçam). e que consiste no amor desordenado aos bens materiais. sendo a de franzir momentânea. franzir. – Arrepiar (de arre “para trás” e pio = pilus + ar) significa “ouriçar (os cabelos). encrespar. quando se a embrulha e amassa entre os dedos. ratinar. emaranhado. – Cupidez é bem fácil de confundir . amarfanhar. “Enruga a pele o tempo”. a seda. fazer hirto como a marrafa” (cabelos do topete lançados para a testa). que é “fazer em riço. cobiça designa um sentimento vil. – Embrulhar é “apertar. longe de serem cobiçosos. arrepiar.) – Encarapinhar é “fazer muito crespo. “de um dia para outro uma grande dor lhe arruga as faces”. marlotar. enrolar em espiral” (Aul. – Encrespar é “fazer crespo”. pois. reduzir ao aspeto rude da marlota”. – Amarfanhar é “encrespar. crispar. Ambição significa principalmente o desejo de alcançar poder. e franzir poderiam facilmente confundir-se. rugoso. justo ao corpo muito deselegante e só usado pelos pobres”. que é o radical de amarrotar (e que deu também o verbo português marlotar). arrugar. segundo Aul. é palavra árabe (mallôta) que designa “capote curto com capuz. frisar. enrugar. pode ser tomado a boa parte. quebrar as linhas.

equívoco. Comete-se esta falta quando se constrói uma frase de modo que possa admitir duas diferentes interpretações. como ele mesmo confessa num sermão da Ressurreição (VI. confusão. composto da preposição amphi. intensidade na ação. não se emendava de cair nele. “é palavra latina (ambiguitas. posto que tenham um significado mui diverso. – Anfibologia vem do grego amphibólia. ou este àquele. Chamam-se equívocas as palavras que se podem entender em dois ou mais sentidos. sendo às vezes impossível consegui-lo. equívoco”. pagou largo tributo a este depravado uso. equívoco. “Este equívoco do padre Vieira precisa explicação. os poetas invertem muitas vezes esta ordem. pela força do uso. dúbio. – Ambiguidade. mas de ordinário aplicase cupidez mais particularmente para designar desejo imoderado em questões de amor. desprezar “não prezar” etc. – Gana é termo do espanhol que significa “apetite desregrado. incerteza. e às vezes tão disfarçado que só o entendem os que penetram a alusão. em roda. que também é formado de amphi e bollo. que é o que parece querer-se dar a entender. Sabem todos que a partícula des é um prefixo que corresponde ao latino dis. ainda que regularmente se ponha o sujeito antes do verbo. ou fingido. e vox. esse lhe descobriu a cara. 470). Refere-se antes ao giro da frase ou colocação das palavras que aos termos equívocos dela.. g. ou para mostrar agudeza de engenho. duvidoso. aequivocos (de aequus. – Ganância tem.178 Rocha Pombo com o precedente. “rodear. O mau gosto dos nossos seiscentistas introduziu o uso dos equívocos como um ornato oratório. ou porque elas mesmas têm várias significações distintas. – Equívoco é palavra latina. E assim se diz – uma palavra ambígua e – uma frase anfibológica. Ou vem então de amphibolos. e outro. “desmanchar o que está feito”. sem escrúpulos e sem medida”. Aí nenhuma das palavras é ambígua nem equívoca. até raiva incontinente”. con- fuso. incerteza na linguagem e nas ideias. e figuradamente “ambíguo. anfibologia. que só compreende a pessoa que fala. pois. etc. a ambiguidade dúvida. andar à roda. e apesar de o ter como um defeito. desviado ou apartado. que admite diferentes interpretações. e significa em geral multiplicidade de significações. ou “que fere de dois lados”. e daquela frase pode-se entender que Heitor provoca a Aquiles. mas é anfibológico o sentido. ou maior . de dois lados”. que em manhã tão alegre e tão festiva até os Evangelistas o usaram”.. vontade irreprimível. e significa “ferido”. artificial. vário. e se antepõe a muitos vocábulos para exprimir “separação. incerto. ou porque se confundem com outras da língua que se pronunciam e escrevem do mesmo modo. que se acha só nos termos. Mas o que nem todos sabem é que esta mesma partícula em alguns poucos vocábulos tem um valor mui diferente. “voz”). ambiguidade. a significação de “desespero pelo ganho. privativo ou disjuntivo. jogando de vocábulos para divertir o auditório ou os leitores. voracidade. impreciso. de modo que custa descobrir ou adivinhar o pensamento do autor. tão bom orador como era. segundo Roq. discurso”. “igual”. porque. e ao qual se ajuntou depois logos “palavra. dizendo: “Quem tirou o véu ao amor. dúvida. desfazer. pois indica “prolongação de ato. Vieira. ao contrário da ambiguidade. duvidar”) e consiste em apresentar a frase um sentido geral. que significa “ao pé. e bollo. v. 277 AMBÍGUO. porque o mostrou desvelado. Não me estranheis o equívoco. anfibológico. confusão. “lançar”. ação feita em contrário ou em sentido oposto a outra. É. mas regularmente tem dois sentidos – um natural e imediato. de ambigo. Deste gênero é a seguinte: “Heitor Aquiles chama a desafio”. fome.

volúvel. e no figurado “não cuidar” – mas sim “velar muito. g. porque delata engano. caprichoso. – Dúbio é o que é incerto. melhor do que dúbio. a forma que não for exata. É mais próximo de dúbio que de duvidoso. que é composto de des e velar. mas de repente. ou limitada. que não significam “deixar de cantar” – o que seria “ficar calado” – mas sim “cantar muito e em harmonia ou concerto de instrumentos”. – Incerto é propriamente aquilo que não é determinado. ou atitude dúbia é apenas “a que dá lugar a mais de uma interpretação. ou para a resolução que se tem de tomar. v. A isto chamam com razão os franceses jouer sur les mots. precedido da partícula des. a duvidosa. como em francês o verbo dévoiler. recinto. é a linguagem anfibológica destinada a induzir em erro. e deve ser evitado pelo literato. maldefinido. Ora. sendo confusão quando a obscuridade é tal que nada nos deixe entender precisamente. significaria “privar de véu. é neste sentido que o padre Vieira tinha usado este verbo e o seu substantivo desvelo. ou é a forma a que se pode atribuir mais de um sentido”. área. que muda facilmente. que pode variar ou que varia constantemente. a ideia de esperteza calculada. desvelado. – Linguagem duvidosa é aquela que não exprime pensamento certo. pelo contexto da sentença. se bem que em muitos casos se confunda com ambos. referindo-se ao verbo velar (velare) que significa “cobrir com véu”. que é indeciso. significaria “sem véu”. andar muito. 278 ÂMBITO. A ambiguidade é parto de limitado talento. descobrir”. – Área é a extensão de uma certa superfície. e dubiedade é o estado de hesitação e perplexidade em que ficamos quando não temos um fundamento seguro para o modo como se há de agir. que se designa precisamente. – Âmbito sugere ideia de superfície. ou dando da mesma uma ideia. ou aquela que se não pode interpretar com segurança. e também o mesmo concerto. ou espaço de extensão determinada. e não significa “deixar de velar” – o que seria “dormir”. e nós. vago. a incerta fortuna. pois este nunca deve jogar de vocábulos senão em obras jocosas”. pois a dúvida é o estado de vacilação em que a frase nos deixa o espírito à vista dos termos em que está concebida. descantar.. – Vário diz inconstante. mas com a de “privado de véu”.. ou dos que se querem esconder na obscuridade. – Confusa será a construção que “possa dar ensejo a enganos. o vário modo de entender as coisas da fé. Desconfia-se da forma duvidosa: procura-se fixar a linguagem dúbia. – Imprecisa será a linguagem que não for “clara. ou a coisa de que se trata. desvelar. Entre dúbio e duvidoso pode notar-se uma diferença muito subtil que consiste em sugerir duvidoso. A esta espécie pertence o verbo desvelar. ou de fim ilícito com que se fez ou deixou duvidosa a forma.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 179 perfeição”. Dizemos: a dúbia. como sucede com os charlatães e impostores. com o mesmo Vieira. que não for desembaraçada de termos ambíguos. fazendo a partícula des privativa. e escorreita de relações maldistintas”. Linguagem dúbia. . O equívoco é “indigno de um homem franco e honrado. e descante. Linguagem duvidosa é “a que se usa de propósito para enganar. solícito”. – Recinto é mais próximo de âmbito. emprega a palavra desvelado. A anfibologia provém da ignorância das regras gramaticais ou da intenção dobre de quem fala. ou que pode deixar margem a alternativas de interpretação. a ocultar o verdadeiro sentido”. o qual. lhe chamamos jogar de vocábulos. ter muito cuidado. A vária sorte. fixa. perfeitamente determinada”. não com a significação do verbo desvelar-se. porque véu é contração de velo (de velum latino) – o que forma equívoco com a significação geralmente aceita de desvelado.

Esta noção se ilustra pelo seguinte trecho de Vieira: “O querer e o poder fazer bem são duas coisas totalmente diferentes.. um e outro. despreocupado. – Intimidar diz propriamente “causar temor”. errante. – Errante. e um e outro a cada um distintamente. nômade. aqui. que neste é necessária.” 280 AMBULANTE. professor ambulante. fundada nas primeiras décadas do século XVI na Itália. teati- no. sem rumo fixo. de vadiagem: antes aproxima-se mais de passeante. outrora Teate. e sem mais objeto que o de não estar parado: de todos é conhecida a lenda do Judeu errante. 279 AMBOS.. aplica-se a quem anda de terra em terra. vagante. que não tem domicílio certo. dentista. mas sem a ideia. peregrino. ou o âmbito da praça. os dois. Temos ainda este exemplo: Aqueles dois moços. tunante. intimidar. que não se submete a autoridades. apenas análoga à própria (de romeiro): designa “o que viaja por terras estranhas. como já se disse. como se não tivessem destino e se se não deixassem dirigir de nenhuma autoridade. trocista e malandro”. longe do próprio país”. vaganau. – Perdido. vagabundo. o que leva vida solta e alegre”. e que tomou esse nome da circunstância de ser o seu fundador (Caraffa). neste último caso. desorientado” (equivalente ao égaré do francês). ate- morizar. e aquele. 281 AMEAÇAR. ao conjunto. e que nem sempre existem unidas no mesmo sujeito. amedrontar. da explanada”. – Peregrino também apresenta aqui uma significação especial. só por distração”. ou habitação fixa. assustar. – Ambos também se diferença de dois (ou os dois) em referir-se este ao número. vagabundo.180 Rocha Pombo pois designa “o espaço compreendido entre dados limites. sem compreender a ideia de mister. – Nômade (ou nômada) se aplica para designar o homem primitivo que não tinha morada. porém: “a voz ressoou por toda a área da sala”. do circo. de superior para inferior). quer dizer “que errou o caminho. Há entre os dois a diferença que consiste em sugerir o verbo intimidar a ideia de que a pessoa que intimida conta com a fraqueza de ânimo da . airado.” – Tunante é “o vadio de baixa classe. à ventura.: – “Ambos e um e outro distinguem-se em referir-se o primeiro ao conjunto dos dois. – Ameaçar é “dizer ou protestar que se fará algum mal. – Vadio “é o que vaga por ociosidade. – Segundo Bruns. É assim que se diz indiferentemente: a área. não se dirá. – Airado será “o vadio elegante. passeante. que não se ocupa de nada. perdido. e o mesmo significa atemorizar. – Escreve sobre estas formas o provecto Bruns. ambulante diz-se de quem exerce um mister de terra em terra: músico ambulante. vadio. – Teatino propriamente era o monge pertencente a uma Ordem religiosa. ou ambos aqueles moços foram heróis na campanha. Esses monges de Teate viviam a pregar de terra em terra. Daí a significação com que ficou esta palavra teatino na linguagem comum: designa o (homem ou animal) que anda vagando. – Vaganau = “que vive a vagar. mas: “ressoou a voz por todo o âmbito da sala” ou “por todo o recinto”. vadiagem”. – Vagante é o mesmo que vagabundo. mas ambas se requerem essencialmente para o exercício da nobre virtude da beneficência”. ou que não tem dono conhecido. – Vagabundo acrescenta à ideia de errante a de ociosidade. ou que se imporá algum castigo (se se trata. sem eira nem beira”. arcebispo de Chieti. que significa – “andar vagaroso. e um e outro deixaram no país legítimo renome..

delicioso. nem um idiota. “tolhê-lo. – Aprazível é aquilo “(tanto no mundo das coisas como na esfera moral) que nos encanta a vista. A delícia consola os sentidos e o espírito. e nada mais aprazível no mundo do que ser útil ao nosso semelhante. para que aquilo que causa prazer seja ameno. enquanto que sem desar para ele. valor ou qualidades do que lhe dá origem. Também não se atemoriza a uma criança. – Delicioso é mais do que aprazível. as demonstrações do reconhecimento. encarece o mérito. nem a criatura alguma incapaz de sentir o verdadeiro temor. – Sobre delicioso. isto é – que propriamente deve aplicar-se só em relação às sensações. um medo sagrado. entender assim: que é deleitável o que 23 Já o poeta dissera. o que é grato é relativo aos sentimentos. Não seria próprio. que é agradável é ameno.: “O que é deleitável causa-nos deleite. as recompensas ao mérito. Só no uso comum é que se pode entender de delicioso como entende Lacerda. o grato sensibiliza”. agradável. segundo o qual – “delícia. – Amedrontar é que convizinha muito de perto com intimidar: quer dizer “impressionar algum ânimo fraco”. obteremos a verdadeira diferença que há entre os dois adjetivos”. aprazível. portanto. Entre agradável e grato nota-se esta distinção: o que é agradável dá prazer aos sentidos. Portanto. a do artista que nobilita a sua arte. etc. amedronta-se o ladrão (que vai penetrar na casa) disparando para o ar o revólver. Entre delicioso e deleitável – não é possível ver as diferenças que notaram Roquete e Lacerda entre delícia e deleite. se atendermos a que a desinência oso designa “abundância”. O agradável apraz. – O que é ameno – diz Bruns. grato. é delicioso o que nos arrebata. aqui. suave. isto é. deleitável. E tanto é assim que dizemos: delícias do Paraíso (não – deleites).. É deleitável o que nos dá prazer.) Pode-se. Entendem esses autores (seguidos por muitos outros) que deleite indica o maior grau de delícia. ou a função mais aprazível é a do juiz que salva a inocência. Deleite é o gozo dos sentidos”. mas também. e o mais recente de todos eles chega a preferir a forma deleitoso a deleitável. gratas são as provas de amizade. deleite carnal (não – delícia carnal). Tudo o que causa prazer é agradável. “qualidade”. deleitoso. a boa música. deleitável. deleitoso escreve o mesmo seguro Bruns. nem tudo. bem se poderia admitir que um herói se atemorizasse do castigo divino. dizer que um herói se intimida. ou que nos excita na alma um sereno prazer – e cândida alegria. – Assustar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 181 pessoa que é intimidada: o que não se dá com atemorizar. que é um escrúpulo ou um forte movimento de consciência. Neste ponto ainda preferimos Bruns. é “produzir medo súbito e quase pavor com que se ameaça alguém”. porém. Agradáveis são as belas paisagens. 282 AMENO. ou induzi-lo a ceder a motivos imaginários”. . atendendo aos fundamentos que ele oferece. – é agradável. e sobretudo. Ora. é necessário que o gozo seja puro. Querem os dicionaristas que deleitável e deleitoso designem a mesma ideia.” É aprazível um panorama. Deve notar-se uma certa diferença entre estes dois verbos: intimida-se a um menino ameaçando-o de cortar-lhe a mão se tocar no doce. inocentemente deleitável. os perfumes. A trovoada amedronta até espíritos fortes (e ninguém diria – aqui intimida). falando da saudade: – o delicioso pungir de acerbo espinho. e avel. delicioso diz muito mais que deleitável. Muito longe disso – é no sentido moral que delicioso exprime o mais alto grau do prazer23. não só exprime o prazer sentido. o que é delicioso causa abundância de delícias. (E não completa infelizmente o autor a exposição do seu modo de ver. mas. no entanto.

– Prova. de formar conjunto. Usa-se também no sentido translato para exprimir o efeito de causar impressão forte (fazer mossa). 285 AMOSTRA. – Esmagar é “espremer. ajuntar. portanto – é “unir outra vez o que já fora unido”: e aí está no que consiste a diferença entre os dois.. Usa-se também no sentido figurado para designar o ato ou o efeito de causar funda impressão no ânimo de alguém. tirar a forma de. ou campo. arrumar. achatar. quebrar as arestas a. de associar coisas em quantidade. formar de algumas ou muitas coisas um só volume”. e com que se dá uma ideia..” – Amassar diz propriamente “deformar reduzindo à massa. e é deleitoso o que está cheio de deleites. que lhe abolou o elmo. ou ajuntar em maço. o livro. Aí deve usar-se o verbo amontoar. – Amolgar significa “tirar a um objeto ou a alguma porção desse objeto a forma própria deprimindo. ou – os peixes que se estão pescando: porque em todos estes casos não se subentende medida a encher.. dobrando.: “Com tamanha pancada. e arrumamos os maços no armário ou na estante”. e não diremos: “aquele homem reunirá. – Embotar é “fazer boto. achatar. – Amontoar é “reunir aos montes. juntar sem ordem”. “Emaçamos os papéis. sinal. acumular. tirar a acuidade ou agudeza”.. da Ac... ou mesmo uma noção perfeita dessa coisa”..) – Arrumar é “propriamente pôr em rumas. neste grupo. amassando. prova.. unido ao outro. mas ninguém diria: ajuntei meus irmãos para combinarmos a resolução mais acertada”. – Abolar é reduzir a bolo. tanto no sentido figurado como no natural. deu mostra ou mostras de indiferença (e não – amostras). ou uns a outros”. emaçar. a carteira. comprimir violentamente. rombo. ajuntar. nem – acumular as frutas que se estão colhendo. – Todos estes verbos enunciam a ideia de reunir. acumular as pedras que vêm da montanha. É o mais genérico do grupo. amossar. isto é. – Amostra é “o resumo.. Dizemos – amostra do pano (e não – mostra). embotar. acumular fortuna ou riquezas. o fragmento de uma coisa. (e sim – reuni meus irmãos. já excede à medida normal. esmagar. – Ajuntar e reunir são muito difíceis de distinguir-se: ajuntar é “pôr um ao lado. com toda aquela atividade e economia. ou paragem (e não – deleitável). mas não dizemos – acumular o trigo no campo. indício.” Pode-se dizer indiferentemente: “reunir ou ajuntar as forças debandadas ou dispersas”. Dizemos: uma prosa deleitável. segundo Lacerda. triturar”. formar montão. Aul. deformar. ou reunir. 284 AMONTOAR.. É por isso que dizemos: “aquele homem.. seja como for”. “o que dá . ou esmagando”. e não – deleitosa). abolar.182 Rocha Pombo produz deleite. É usado igualmente no sentido moral.” Amassou o chapéu. – Sinal é. reunir. é “de uma certa coisa uma parte ou porção com que experimentamos a qualidade dessa coisa”. demonstração. registra este exemplo do Dic. – Acumular é sinônimo quase perfeito de amontoar: apenas acrescenta à significação deste uma ideia de continuidade e de reflexão: o que se acumula já sobra. 283 AMOLGAR. Dizemos: o deleitoso vale. – Emaçar é “reunir. arranjar um sobre outro”. Por isso dizemos – acumular empregos ou cargos. mostra. – Deformar é “tirar a forma própria. amassar.. depressa ajuntará dinheiro ou fortuna”. o pedaço. – Amossar é produzir mossa (marca de pressão violenta sobre corpo compressível). Entre amostra e mostra parece que não há mais diferença que a de ser o segundo mais aplicável no sentido moral. reunir é “tornar a unir”.

– Anacoreta. frade. de vastidão. etc. chama-se-lhe tartufo. pois. cuida de uma ermida ou capela. Amplidão significa extensão sem ideia de quantidade precisa ou determinável. O . denuncia. “vida”) é o monge que não procura precisamente a solidão. 287 ANACORETA. o mesmo não se dá com imensidão. – Solitário é termo genérico: diz-se indistintamente de quantos vivem em sítios apartados. É dos mais extensos entre os do grupo. em lugar isolado. do espaço.. aqui. amplitude fora do comum. Dizemos: a amplitude de um campo. – É asceta qualquer pessoa que despreza o bulício do mundo e se entrega inteiramente a exercícios espirituais (sendo o ascetismo independente de qualquer ordem religiosa). O monge é como o desenganado que foge ao mundo e aos homens. eremita. mas. enquanto que imensidade sugere ideia de ilimitado. para com eles viver em comum. a não ser por figura muito forçada). e talvez exprime ou representa. Na maioria dos casos. denota. quando esta palavra se refere aos católicos romanos. salvo se a esta déssemos um completivo. de um certo espaço mesmo. grandeza. para viver na contemplação e no estudo. – Indício é o que indica. – Amplidão e amplitude são duas formas vernáculas da mesma palavra latina amplitudo. é muito semelhante a amplitude e a grandeza: designa as proporções de uma superfície. e gozar a seu modo de um isolamento que não é absoluto. amplidão infinita (e nunca amplitude infinita. solitário. vastidão. O vasto âmbito da sala. de infinito. etc. Dizemos: aqui estamos a enfrentar com a imensidade (e não – com a imensidão. manifestação mais decisiva”. Imensidade é mais do que sinônimo perfeito. Em todas as religiões há ascetas. longe do convívio do mundo. Esta é mais próxima de grandeza. pois é equivalente de infinito. cenobita. quando o asceta o é só na aparência e nas exterioridades. amplitude significa extensão maior ou menor. As palavras são sinais das ideias. asceta. âmbito. dizendo – imensidão do céu. Dizemos ainda: tratar do assunto em toda a sua amplitude (e não – amplidão). – Extensão. fora da acepção própria que tem na tecnologia científica. de quantidade extraordinária. e bios. fanático. amplitude. – Âmbito é o espaço compreendido dentro de certos limites. imensidão. Figuradamente se diz de qualquer pessoa que vive retirada do trato social. leva ao conhecimento de algum objeto. – Eremita (ermitã ou ermitão) é o religioso que. mas sim a companhia de alguns homens da sua feição. – Entre imensidade e imensidão mal se poderia marcar uma diferença muito subtil. 286 AMPLIDÃO. de privações voluntárias. um sinal mais claro. Este vocábulo toma-se sempre à boa parte. devendo logo notar-se que ambos têm aqui sentido figurado. imensidão sugere ideia de grande número. ou melhor o sentido que por extensão se lhes dá comumente. de vida retraída. que é mais – grande extensão. hipócrita. aquela é mais vizinha de imensidade. segundo Bruns. aponta. é-lhe inerente a ideia de mortificação do corpo. O cenobita (do grego koinos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 notícia de outra coisa com que tem relação. imensidade. monge. As nuvens grossas são indícios de chuva”. a amplidão do espaço. “comum”. da praça. é “uma prova mais completa. – Grandeza é propriamente a qualidade de ser grande. – Vastidão é a qualidade do que é vasto. das estrelas). e aí vivem entregues à meditação religiosa. – Há mais austeridade na ideia sugerida pela palavra monge que na do vocábulo cenobita. religioso. de uma linha. de infinito. “aplica-se aos que se retiram do vaivém do mundo para sítio isolado. – Demonstração. extensão.

– Compêndio é a exposição abreviada dos princípios de uma ANÁLISE. resumo. – Sumário é uma exposição das principais matérias contidas no texto. – Desconcerto é ausência de acordo moral – e a desordem que revela esse desacordo. quer que tudo e que todos se amoldem às suas imposições. Num sentido menos vulgar. no entanto. se têm como sinônimos perfeitos. porém. Em sentido lato. drama. porém. . – Resunta. ou tão somente o fim de expor o objeto. suma. de modo que. Noutro sentido. quer por simples resolução. ao lê-lo. desregramento. porém. como termo escolástico. destempero na administração da coisa pública. – Extrato é a cópia literal de um ou vários trechos de uma obra. Nesta acepção. balbúrdia.). Entre monge e frade há a mesma diferença que entre mosteiro e convento: o monge é do mosteiro. se recorde o texto da obra principal. é a repetição abreviada dos argumentos. pois o fanático julga-se superior ao resto da humanidade. é desregramento de autoridade. – “Na série de ideias em que os primeiros sete vocábulos deste grupo são sinônimos. ou os artigos de uma revista”. desordem. – Suma é “o resumo que nos dá em substância a matéria de um trabalho”. reduz a sua doutrina. Noutro sentido. desgoverno. pois pretende a bem-aventurança para si. recapitulando a matéria de que no entrecho se tratou desenvolvidamente”. no uso comum. sem pretensões a substituir outro. sumário. seja qual for a sua crença. são precisamente distintas. se diz da obra literária que extrai abreviadamente a doutrina de outra. infração dos princípios morais. Mas religioso é palavra de mais lata extensão. compêndio. o termo mais apropriado é epítome. dizse. propriamente só os que exercem o governo é que podem praticar desgovernos. porque se aplica a todos quantos se dedicam à vida religiosa. mau governo. dos costumes próprios de uma sociedade. cizânia. – Resumo é o livro que. pode ter por objeto a crítica. feita pelo que defende alguma tese. súmula. é o mesmo que resumo. discórdia. consubstanciando-a e resumindo-a. – Desgoverno. resunta. observa os preceitos que ela lhe impõe.184 Rocha Pombo asceta. um sumário em que se indiquem apenas os capítulos de um livro. confusão. Em acepção mais alta. des- extrato. o frade é do convento. e fecha os olhos às desgraças da terra que não remedeia para não se distrair da contemplação em que vive. muito longe de ser “falta de governo”. argumento. pensa ser inspirado pela divindade. – Fanático diz-se de quem é ultrarreligioso. como termo filosófico – anarquia será o vocábulo com que se há de designar “o regime social independente de autoridade política. epítome. – Argumento é o mesmo que sumário. – Epílogo é o “resumo que se faz no fim de um trabalho literário (discurso. 289 ANARQUIA. ou a direção da sociedade humana só pelas leis morais”. religioso é sinônimo ainda mais próximo de monge e frade. anarquia é “ausência de governo. no entanto. – Desordem é “falta de ordem normal”. poema. – Anarquia e desordem são palavras que. pró ou contra. epílogo. 288 arte ou ciência. o legítimo asceta é geralmente egoísta. de poder público”. – Desregramento é “desvio das normas. – Súmula é “uma pequena suma. análise diz-se de trabalho literário ou científico em que é examinado outro de igual natureza. concerto. mais frequentemente do sumário que precede a cada uma das divisões de um poema”. Esta palavra toma-se a má parte. caos. quer ligando-se a ela por votos. Em política. – Religioso diz-se daquele que. o plano e a sequência das ideias explanadas na obra de que se trata. etc.

Luiz. Mas entre anátema e excomunhão nota Bruns. – Velho exprime simplesmente “o homem que tem chegado à idade da velhice”. a arte de dissecar. – Cizânia é mais – “falta de harmonia. por alguém que se sente abalado de grandes amarguras. – Confundem-se or- dinariamente estes dois vocábulos. – Balbúrdia é grande desordem. da organização de seres animados: é o extremo da confusão. para examinar-lhe a estrutura. de funda consternação. o transtorno geral em que ninguém mais se entende. – Caos é o estado que se compara ao da matéria amorfa. – Ana- tomia é.. O profeta que amaldiçoou os meninos perdidos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 185 de uma instituição. A excomunhão é a sentença ou decisão da autoridade eclesiástica pela qual se exclui do grêmio da Igreja aquele que. ou todo um organismo. – Maldição exprime ideia mais genérica do que anátema. separar em partes um órgão. às injúrias e ao desprezo contra aquele que a Igreja anatematizou. – Anatematizar e excomungar exprimem de comum a ação de excluir. sem desvarios e estrondos. maldição. como a excomunhão. pois este é a maldição formal imposta pela Igreja. criando transtornos. Há ânsia quando se receia que um mal suceda”. excomunhão. e num sentido mais alto e abstruso.. dos poderes eclesiásticos. Nestes termos a eles se refere Bruns.. – Confusão é “a desordem que chegou ao seu mais alto grau. é o “exame minucioso. tornando-se difícil restabelecer-se a paz. Não se compreende discórdia sem agitação... – Autópsia significa propriamente “vista de si mesmo”. devido à irrupção de paixões. o estudo de todas as partes de um órgão ou de todo um cadáver. de concerto moral. Como termo de Medicina. mas aquele é fulminado contra os que da Igreja se emanciparam: o seu fim imediato é o de incitar ao ódio e à perseguição. veementes furores”. bom ou mau. O monge partiu amaldiçoando a cidade. anátema. “Um prisioneiro espera com ansiedade o dia em que se há de ver livre”. Há ansiedade quando o espírito está inquieto esperando que um sucesso feliz acabe de realizar-se. – Ancião ajunta à ideia de velho a de autoridade: é o velho respeitável e digno de veneração pela sua sabedoria e probidade”. velho. de sagrados ressentimentos.: “Ansiedade difere de ânsia como incerteza difere de receio.. para o qual parece que não há mais corretivo.. enquanto que maldição é um como anátema lançado por alguma alta autoridade moral. amaldiçoar.. se realizará ou não. de uma família”. – Discórdia é “desconcerto profundo e violento. “Deve ser horrível a ânsia com que o réu espera a sentença do júri”. excomungar. expulsar. hostilidades. dissecção. de qualquer grêmio). feito diretamente pelo médico”. – Destes dois vocábulos diz S.. Aquele filho que os pais amaldiçoaram. 290 ANATEMATIZAR. “Vive em ânsias (ou na ansiedade) aquele que receia a cada momento . pertencendo a ela. E dá estes entre outros exemplos. de boa paz” do que propriamente discórdia: e distingue-se desta ainda em sugerir a ideia de que foi um terceiro que a lançou ou acendeu. a seguinte diferença: “o anátema dimana. “visão da alma”. 292 ANCIÃO. lhe não é obediente”. 293 ANSIEDADE. ou “visão interior”. neste grupo.. 291 ANATOMIA. autópsia. ou quando labuta na incerteza de se qualquer sucesso. antes da criação da vida.. banir do grêmio da Igreja (e no sentido geral. e a dissecção consiste em dividir. ânsia. como se tudo estivesse em turbilhões.

A primeira distinguese. Devemos acrescentar. ou mesmo à mediania a que tivesse descido um homem rico. vestida com certo apuro. mais talvez sofrimento físico do que moral. mas – a ansiedade de quem espera. correndo às vezes toda a extensão do globo. – Ir é andar.. – Chamase epidemia. em certos tempos ou estações do ano”. que sugerem. fazer caminho. – Caminhar é fazer caminho. e demós. ou as ânsias da morte. anexação. anexo. – Seguir é propriamente “continuar a viagem começada. aperto do coração. incorporado. Não dizemos – a ânsia.186 Rocha Pombo que lhe descubram o desfalque. – São palavras que quase sempre se empregam indiferentemente para designar as roupas velhas. fica fazendo parte desta conquanto . – Andar é mover-se dando passos para diante. como não dizemos – a ansiedade.” – diríamos referindo-nos à pobreza. trapos. incorporação. que é realmente muito subtil. a peste de Levante.” – Parece que não se distingue bem a diferença. 295 ANDAR. ou de certos climas. “povo”) as que provêm da infecção do ar. epidemia. por várias regiões. incerteza dolorosa – do que ânsia. no entanto. mas – a ânsia. o cólera-morbo. “em. – Estas palavras têm de comum a ideia. que usasse andrajos.. a esta lista a palavra peste. – Segundo Roq. no entanto. Por excesso de modéstia. ou mover-se corporar. – Andaço é palavra vulgar que indica epidemia menor. – Passar é “dirigir-se para algum ponto atravessando um caminho ou uma certa zona. transitar. poderia uma pessoa elegante. aos seus trapos: não seria próprio. das outras pela ideia que sugere de grande miséria dolorosa e como que sagrada. etc.. – Endemia é “mal próprio de um país. sem relação a pontos determinados. doença que grassa pela terra.. sujas ou rotas de que se cobrem os mendigos. anexado. comunicando-se de umas a outras”. 297 ANEXAR.. de associação de uma a outra coisa. ou enfermidades epidêmicas (do grego epi. Tais são certos catarros. A coisa anexa. – Transitar exprime a ideia geral de “passar além. peste. a lepra. – Marchar é “andar ou caminhar compassadamente: dizse especialmente da tropa de guerra quando vai com ordem de marcha”. – Molambos é brasileirismo significando – trapos. sobre”. por meio do ar. Tais são a sarna. de um lugar para outro. ou enfim. e nunca decerto se empregaria no caso o vocábulo andrajos. ou pelas roupas. in- passar.. farrapos. marchando ou caminhando para diante”. que é angústia. endemia. de qualquer modo que se faça este trânsito: e tem relação a um ponto determinado a que a pessoa ou coisa se dirige. ou que foi anexada a outra. “que se diz das graves epidemias que semeiam a morte em províncias e nações. entretanto. seguir. que pode levar consigo certos miasmas morbíficos. caminhar. 296 ANDRAJOS. o contágio (de cum e tago. roupas muito rotas e sujas. “Aqueles farrapos da antiga opulência. ou então por orgulho gracioso. móveis. os males venéreos. ir de viagem de um lugar para outro. etc. marchar. por tango “tocar”) é uma enfermidade que se comunica pelo contato. que ansiedade sugere mais ideia de impaciência aflitiva. Acrescenta Bruns. qualquer corpo infestado. ir. distrito ou paragem”. etc. antiq. referir-se. a febre amarela. 294 ANDAÇO. molam- bos. viajar”. ou fazer alusão aos seus farrapos. contágio. e devido a causas puramente locais”. ou seja imediato. estendendose a províncias e reinos inteiros.

– Sobre os ainda que per se constitua um todo à parte”. – Angaria- -se “fazendo acordo. seduzindo com muitas promessas e vantagens”. – Anexo diz-se. mingau. uma ideia comum fundamental diferenciada por ideias acessórias): o que está anexo forma. – Alicia-se “enganando. e passa a formar com esse exército um só todo. dependente. um todo em que nenhuma das partes fica dependente nem nenhuma dominante. recrutar. entre os brasil nem sempre se nota diferença essencial e precisa. pirão. e há quem alicie inocências para a miséria dos bordéis. um Estado. dependente. escreve Bruns. do que forma parte de um todo. ficam dependentes da mesma diocese. dois primeiros. – Incorporar designa uma ação ou efeito mais completo que o da simples anexação. Dependente diz-se do que. tratando com boas maneiras a pessoa ou pessoas que se quer atrair ao nosso partido ou ao nosso serviço”. papa. apenas adstrito à soberania do país a que foi anexado. destacando-se do México. – Escaldado é o mesmo que pirão. unido. mexido. daquilo que recebe domínio alheio ou lhe pertence. recrutam-se os conscritos refratários. Isto se entende principalmente em matéria política. Alicia-se gente para a revolta. melhor ainda que anexo. Uma repartição que se anexou a outra fica apenas sob a mesma direção sob que esta se acha. Uma força militar que se incorpora num exército perde inteiramente a sua forma ou condição antiga. tudo muito misturado e revolvido. O Texas foi anexado à União norte-americana. 300 ANGU. formando corpo à parte. – Mexido e revirado são massas de farinha com peixe ou carne. angu ou mingau. perdendo o seu caráter individual. o pensamento constante da política alemã tem consistido em fazer tudo por incorporar definitivamente aquelas províncias ao império”. Recrutam-se praças para um batalhão. por exemplo. ficou sob o pacto federal daquela outra república sem perder o predicamento de Estado. desencaminhando. Neste exemplo marca-se bem a distinção entre os dois verbos: “A Alsácia-Lorena foi anexada à Alemanha em 1871. nenhuma delas fica imperando sobre a outra: eram duas. Essas freguesias. escaldado. – Recruta-se com autoridade. Quando duas freguesias se anexam. sendo apenas mais . 298 ANEXO. Um Estado que se incorpora a outro passa a fazer com este como um só corpo. Quando muito.: “Estes dois adjetivos exprimem ideias diferentes (isto é. porém. quase sempre à força. e desde essa época. formam uma. admite-se que o angu é mais condimentado. ou um país qualquer que se anexa a outro continua a ser o que era anteriormente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 187 conserve o seu modo de ser ou o seu caráter individual. 299 ANGARIAR. angariamos amizades que nos sejam úteis na desgraça. revirado. Entre diversas províncias unidas não há nenhuma a que se atribua hegemonia ou preeminência. pois. – A maior parte destas palavras são quaiseirismos comuns. com aquilo a que foi anexado. sob o comando do mesmo chefe. aplicam-se indiferentemente à farinha de mandioca escaldada em água. isto é. recebe domínio alheio. Mesmo quando se diz que se recrutam partidários para uma causa. sendo o pirão apenas a farinha fervida ou aferventada em água ou em caldo de peixe. – Unido. dá-se ideia do esforço e trabalho com que se angariam esses partidários. – Angu e pirão. Angariamos adeptos para a nossa causa. operários para as nossas oficinas. designa o que se associou a outro sem perder coisa alguma das suas condições próprias. aliciar.

alimentam-se grandes aspirações que raramente se realizam. e só excepcionalmente é que ele se mostra calmo). as leis conhecidas. açúcar. – Desejo é vontade mais viva. – Anormal é “o que infringe a regra dominante. o menos expressivo e forte. anormal. de milho. disformidade. Para minha alma enoiteceu no dia em que vi morta minha filha. vonta- de. – Enoitecer é o fenômeno anormal que se pode observar a qualquer hora do dia quando o tempo se escurece por uma causa qualquer. as normas aceitas. – Papa significa “massa em geral”. Tanto dizemos – escaldado de farinha (esta fervida em caldo de carne ou de peixe) como – escaldado de ovos. – Tem-se vontade de sair cedo de casa (sem fazer disso grande questão). Quando chegávamos à fazenda. – “Anoitecer é o fenômeno que observamos cada dia entre o pôr do sol e o cerrar da noite. é vontade. 301 ANELO. ou um sintoma aberrante em certo morbo”. desordenado. anomalia. isto é. 302 enoitecer. – Aspiração é desejo mais grave. pois este não se adstringe a regra nenhuma. não está no seu temperamento. – Desordenado é “o que sai da ordem vigente. excentricidade. qualquer substância pouco consistente. numa certa regra que rege o maior número das coisas ou fenômenos de que se trata”. – Irregular distingue-se de anormal em sugerir mais claro a ideia de infração culposa: ideia que não é essencial no outro. – Irregularidade é a qualidade do que é contrário à boa ordem. de trigo. – Mingau é um angu especial. É anomalia de linguagem toda forma admitida pelo uso. ou de arroz. anseio. ou que se não acha no estado ordinário”. fica fora das leis. A estação tem sido muito anormal (fora do que comumente se observa). e particularmente designa comida grosseira.188 Rocha Pombo 303 ANÔMALO. – Anormalidade é ato anormal. É anômalo “um mal desconhecido. Aquela calma em F. – De todos os vocábulos deste grupo. tem-se desejo de possuir algum bem que nos agrada ou nos encanta. monstruoso. que se tem como fazendo votos e procurando vê-los realizados na vida. O eclipse enoiteceu a face da Terra (não anoiteceu)”. ou de coisas excelentes. etc. que não se põe de acordo com a ordem conhecida e aceita”. Difere muito de anormal. mas que se afasta da gramática pela construção viciosa ou absurda. leite. mesmo que seja isso apenas aparentemente. desejo. É uma anomalia moral um sujeito malvado professando uma religião de paz. anor- extenso do que estes. que não se opera segundo as condições normais. malidade. como anseio é anelo mais ardente e fervoroso. malpreparada. irregularidade. – Distingue Bruns. ANOITECER. excepcional. muito bem estes dois verbos. da ordem estabelecida. excepcionalidade. é anormal (isto é. enquanto que a excepcionalidade consiste apenas em “não entrar a coisa excepcional na regra instituída. tem-se anseio (ou anseios) por alguma coisa que nos apaixona. vulgarmente. – Excepcional é o que não se conforma com a regra geral. deformidade. do que infringe a regra instituída. deforme. de frutas. anoitecia. sente-se anelo (ou anelos) do Céu. disforme. etc. aspiração. monstruosidade. irregular. muito altas ou muito difíceis.) com ovos. pois apenas significa a disposição favorável de agir em qualquer circunstância. feito de farinha (de mandioca. qualidade do anormal. da regra comum. – Anelo é desejo mais intenso e solícito. de sagu. excêntrico. As anormalidades . As irregularidades de uma vida licenciosa nem sempre se poderá dizer que sejam anormais. – É anômalo o que se afasta do usual. etc.

mas rigorosamente falando. da direção. – Disforme e deforme poderiam confundir-se se se disfarçasse o valor preciso dos respetivos prefixos. – Mais extensas que as anotações são as explicações. idoso. ou para completá-lo. – Idoso equivale a “anoso. explicar. apostilar. deforme significa “defetivo. etc. ou cuja vida ou duração é tão extensa como um século”. as quais. Também se chamam notas os reparos e tachas que se põem a alguns escritos. anotações. bem-feita. de original. que excede. – Segundo Roq. por sua parte. do centro que lhe é próprio. que se costuma pôr à margem do texto para explicá-lo. nem sempre serão contrárias à moral. de tendências. estragado pelo tempo”. à justiça. “as anotações e as notas se empregam para aclarar e ilustrar (anotar) alguns lugares de uma obra. comentar. cotas. – Cota é “a citação de autor posta à margem.) – As apostilas são notas ou glosas (ou observações elucidativas) quase sempre pouco extensas. – Explanar é “explicar.). comento. pois não se limitam. fixando seu verdadeiro sentido. conhecido só de alguns eruditos. etc. Mais extensão admitem as anotações. a referência à matéria deles. secular. senão que se estendem a facilitar a inteligência das coisas ao vulgo dos leitores”. sempre nos deixa em dúvida. (Quem explica não faz menos do que “desdobrar aquilo que é complicado”. que vêm a ser como breves comentários das obras. supõe ambiguidade. glosas. tornando simples e fácil de entender um . etc. e envolve ideia de vício. Mas disforme quer dizer “fora da forma usual. sem a forma própria do gênero. por engenhosa que seja a interpretação. de anomalia na conformação (deformidade)”. ou um sentido oculto ou obscuro que se aclara com autoridades e raciocínios. 304 ANOSO. O anoso carvalho. assim a interpretação. apostilas. Também se chama assim a nota marginal posta em autos.”. afastando-se do que se nota em todos ou no comum dos indivíduos. de irregularidade repugnante à moral. como aquelas. A anotação. a aclarar o sentido da frase ou palavra. em linguagem exata. que lhe é essencial. e procura achar o verdadeiro sentido do texto que se interpreta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 189 de gosto. são extensas e eruditas explicações de um texto”. 305 ANOTAR. – Velho é “aquilo que está gasto. – Anoso dizemos melhor tratando de coisas ou de fenômenos. anosa existência (carvalho. as notas são curtas. explanar. à justiça. – Secular é propriamente “o que conta séculos de existência. ob- servações. e aplica-se de preferência ao homem”.. comentário. e a interpretação limita-se a apresentar razões pró e contra. notas. numa criatura nem sempre serão irregulares (isto é. – Excêntrico é propriamente o que sai do núcleo. de afeições. coisas ou fenômenos do mesmo gênero”. interpretar. (Comento vale mais por nota e fica em relação a comentário como nota em relação a anotações. É assim que a anotação instrui. um fenômeno. e só figuradamente é que se emprega excentricidade para significar “o que tem um indivíduo. à inteligência comum.) – Assim como o fim das anotações é explicar com clareza e exatidão as frases e palavras. – Deforme confundir-se-ia com monstruoso se este não sugerisse a ideia. interpretação. e só dizem o que é precisamente necessário para aclarar e ilustrar a obra. existência que conta grande número de anos). explicação. que exagera a forma própria comum”. explanação. porque cada leitor se julga com direito de ser intérprete.. – Antigo é “o que é tão velho ou tem tanta idade que já se acha fora de uso”. velho. antigo. uma coisa. derrama sobre o texto uma luz que a todos alumia.

no sentido figurado. escurecer. fechar. – Obcecar (no sentido figurado) confunde-se com obscurecer. lúgubre”. mesmo no sentido figurado: significa “fazer sombrio. um princípio. Quem se incumbe da explanação de um texto. – Dizemos também – terras ou mares austrais – para designar os que ficam no hemisfério do sul. a dor como que lhe nublou um tanto a razão naquele instante. toldar. severo. – Austral designa todo o hemisfério oposto ao boreal. deixar em meia-luz”. A saudade ensombra-lhe o semblante. como se vê deste exemplo: “Esta miséria jamais nos há de obcecar. quer-se dizer que F. que se isolou moralmente da nossa intimidade. fechou a alma. à ideia de ante24 Poder-se-ia juntar a este grupo os verbos eclipsar e enoitar. se pôs em guarda conosco. e neste caso não seria aplicável meridionais. exprimindo “a ação ou o efeito de fazer ou de fazer-se escuro.. carregar. portanto. de uma questão – há de explicar-lhe os termos e esclarecê-los de modo que se torne mais facilmente inteligível. Enoitar diz propriamente “pôr ou deixar em noite”. – Tanto no sentido natural como no figurado exprimem de comum estes verbos a ideia de eclipsar. devendo notar-se que a predicação de obcecar é mais completa e direta. dizer – hemisfério austral – em vez de hemisfério meridional.. 307 ANTÁRTICO. obscure- cer. . uma frase”. pelo menos não tanto quanto as divícias lhe obscurecem o senso moral para a justiça”. A paixão política obscurece os espíritos mais luminosos. ou a cor mais viva. enquanto que carregar diz muito mais. Em nenhum destes casos seria de tão lídima propriedade o verbo anuviar. cobrir de sombras. Eclipsar significa “escurecer pela interposição de corpo opaco entre a luz e o órgão visual”. No sentido fig. – Entenebrecer é mais forte que escurecer. não se possa substituir um pelo outro. – Meridional quer dizer – “que fica ao sul de um outro ponto designado”. meridional. – Antecedente é. segundo Bruns. melhor do que aquele. 308 ANTECEDENTE. – Obscurecer sugere ideia mais sensível de atividade subjetiva: significa “privar de luz. tem valor análogo. sendo a treva (tenebra) a ausência completa da luz24. entenebrecer. – Escurecer é o mais genérico e vago do grupo. – Carregar tem uma acepção especial. – An- tártico significa “que está abaixo do círculo polar do sul”.190 Rocha Pombo texto. – Anuviar é “toldar de nuvens. ensombrar como se entre a coisa anuviada e a nossa vista passasse ou se interpusesse uma nuvem”. fazer menos claro e límpido”. Dizemos: o tempo está meio nublado. Muito raro será o caso em que. – Nublar é quase o mesmo que anuviar: apenas este sugere. pois que significa “fechar ou fechar-se como hostilmente”. – Toldar é semelhante a nublar. que envolve ideia de toldação e ensombramento.” Escurece o tempo. como se escurece a inteligência mais lúcida. sendo apenas de menos intensidade que o outro. grave. ensombrou-se aquela alma à vista de tal cena. anterior. a ideia de turbação e escureza. Quando se diz que F. – Fechar equivale ao precedente. ensombrar. fazendo o radical tolda em toldar função análoga à de nuvem em nublar. 306 ANUVIAR. escuro. prévio. torvo. precedente. austral. “termo especulativo que. Terras. É mais próprio. mares antárticos. nublar. obcecar. de um problema. aquele sacrilégio ficou para sempre a ensombrar-lhe as magnificências do sólio sagrado. de fazer sombrio. de uma forma um tanto vaga ou abstrusa. Ele carregou o semblante ao ver aquela miséria. – Ensombrar é “fazer sombrio..

como precedente. são nossos ascendentes. fez-se novo contrato baseado em condições prévias”. reúne frequentemente a de causa. de figuras que os precederam na dignidade. de influência.. mas também necessário. antigos. mas não deverá dizer: os meus predecessores”. ascen- ciso admitir uma certa distinção entre estas duas palavras como substantivos. mas de modo indeterminado. mas é preciso notar que. pais. o nosso avô. – Precedente indica prioridade ou anterioridade. tiveram seus antecessores nos cargos. e predecessor é o que o ocupou antes do antecessor”. o II ou o I. O serventuário de um ofício. etc. – Pais. Dizemos também: os precedentes de um criminoso. Neste vocábulo o que predomina é a ideia de que. 310 ANTECESSOR. os funcionários da administração.. As consequências provêm das causas antecedentes. precedentes. ou daquilo em que lhes havemos sucedido”. considerando-os como tendo fruído do que nos legaram. o gerente de uma empresa. contam com desvanecimento grande número de predecessores. 309 ANTECEDENTES. – Antepassado não se poderia dizer do pai nem do avô: só do bisavô para além se podem começar a contar os antepassados. o que é prévio é. segundo Lacerda. isto é. Esta palavra encerra algo de nobre e de elevado. não se intercala nenhum outro fato ou nenhuma outra coisa. avoengos. – Observa Bruns. isto é. mas só a primeira dessas denominações quadra bem na boca de todas as classes. referindo-nos a todos os sucessos que são como determinantes desse acontecimento. da justiça. como avós. antepassados ou antecessores. entre o fato atual ou a coisa presente e o fato ou a coisa precedente. – Antecedentes de um fato são todos os fatos de que esse fato decorre como uma consequência ou corolário. com muita razão: “Predecessor indica sujeito ou classe elevada. aqui não designam parentesco de sangue . Dizemos: os antecedentes históricos de um certo acontecimento. – Precedentes são os fatos que precedem imediatamente o fato de que se trata. – Ascendente dizemos de qualquer dos parentes de que provimos: o nosso pai. outros que antes deles ocuparam os mesmos cargos. às dignidades. o nosso bisavô. – Anterior. designa prioridade no espaço ou no tempo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 191 rioridade. avós. predecessor.. tem ascendentes. – Antecessores dizemos dos ascendentes. Acrescenta Roq. antepassados. o plebeu como o nobre. etc. sem nenhuma ideia de causa nem de influência. que nos impede empregá-la em circunstâncias triviais. o dono de uma casa de comércio. dirá: o meu antecessor. fazendo alusão à conduta que parece explicar de perto o delito de que se acusa esse criminoso. – Confun- dem-se comumente estes dois vocábulos. O capítulo precedente ao capítulo IV é o capítulo III. – Anterior e prévio devem distinguir-se. pois não especifica se outros fatos ou outras coisas se intercalam ou não entre o fato ou a coisa atual e o fato ou a coisa anterior. O que é anterior está antes ou precede. enquanto que antecessor corresponde à ordem material de sucederem-se as pessoas umas às outras. não só anterior. etc. em geral. O pobre como o rico. maiores. Notando-se defeitos no contrato anterior. Os reis. 311 ANTECESSORES. dentes. os grandes. os duques. aos privilégios. O capítulo de que se fala como anterior ao capítulo IV pode ser o III. e corresponde mais ao cerimonial. que ascendentes é “o termo mais genérico e o menos pretensioso entre os primeiros três deste grupo. – É pre- “antecessor é o que ocupou algum lugar em relação ao que nele lhe sucedeu imediatamente.

segundo Alv. muros para impedir a entrada de contrabandos e para que se recebam nas portas os direitos de octroi. construído segundo as regras da nova arquitetura militar. Hoje fazem-se muros só para cercar uma quinta. – Avós designa antepassados mais remotos. e o antemural. muro. – Antecipadamente diz “antes do prazo estipulado”. e do recinto da cidade. referindo-nos até a Adão e Eva. IV. aversão. Passos. seus efeitos são prodigiosos. 314 ANTIPATIA. F. (VI. asca. – Adiantadamente exprime “com antecedência. – Sobre ou direto: referem-se em geral às gerações que nos precederam. oh nobre Coriolano. repugnância. F. ou mesmo os antepassados. edificam-se muralhas só para fortificar e defender praças. compondo uma que poderíamos dizer literalmente contrapaixão (ou contrassentimento) formou-se a palavra latina antipatia (que se trasladou para as línguas derivadas) e que significa uma oposição ou inimizade natural ou irresistível dos seres uns contra outros. Catilina. e por vezes fabulosos. se bem que isto não seja essencial à palavra. rancor. e vós outros dos antigos. asco. muralhas para resistir aos inimigos que a quisessem atacar”. “paixão”. pagou adiantadamente três meses do aluguel da casa (pagou antes que começasse a correr o aluguel. – Muralha é o muro de praça fortificada. consistia em muro e antemural: o muro que cingia e defendia a cidade. – “Das duas palavras gregas anti. segundo a arquitetura militar antiga. e o antemural que cingia e defendia o muro”. as que hoje se chamam fortificações ou obras exteriores. Sertorio. como aos de todas as raças e que viveram antes de nós. frequentemente exagerados. 104 e 372). adiantadamente. não só da nossa nação. mas parece não ser tão invencível .) e só por extensão é que se aplica este termo para designar os ascendentes em geral. que a defendem no largo. – Pais indica os mais próximos do nosso tempo.: “Na frase da milícia antiga – diz Vieira – o muro significava a fortificação mais estreita. morreu prematuramente (isto é. Paris tem muros e muralhas.. É mais forte que a antipatia. aos homens. com profano Coração. 312 ANTECIPADAMENTE. A fortificação das cidades mais inexpugnáveis. ódio. F. e é assim que o emprega Camões na seguinte passagem do c. dos Lusíadas: Oh tu. zanga. a fim de cingir e defender uma praça ou cidade fortificada. – Avoengos designa mais propriamente “a série dos avós ou progenitores de quem descendemos em linha reta” (Aul. estes três vocábulos escreve Roq.” – Maiores é “o termo genérico em que se compreendem todos os que viveram antes de nós. vos fizestes inimigos. “reserva-se este nome para os homens célebres da antiguidade. – Aversão é sentimento que tem igualmente alguma coisa de desconhecido em suas causas. muitas vezes morais. parentes ou não”. etc. – Prematuramente significa “antes da ocasião própria em que alguma coisa se deve fazer ou deve dar-se”. ou que chegasse a época do pagamento). muralha. quizila. e é assim que muito se há delirado sobre ela. gana. pois dizemos – nossos pais. antes de chegar à idade em que é mais comum que se morra). Que contra vossas patrias.192 Rocha Pombo 313 ANTEMURAL. e. A causa de tal oposição é desconhecida inteiramente. preveniu-nos antecipadamente que não viria hoje. e pathos. prematuramente. conforme havíamos combinado (preveniu antes do dia ou da hora em que devia vir). – Antigos parece encerrar ideia de mais afastamento ainda que avós. antes do tempo devido”. horror. “contra”.

– “O domí- nio” – escreve Bruns. e chega a inveterar-se na alma como um veneno mortal. e ainda de capricho. O uso pode fazer ainda reviver. É mais “tédio. obsoleto. e que muitas vezes acontece que uma e outra (aversão e repugnância) chegam a converter-se em afeto. já excluído pelo uso”. arcaico. – Obsoleto acrescenta à significação das duas outras uma ideia de – “excluído ou proscrito”. portanto. de ligeiros motivos. – Asco é “aversão. o ódio. pois têm muito de caprichosos estes sentimentos que devemos chamar acidentais. aborrecimento. expressivas e com boa analogia. talvez com desejo de vingança”. De qualquer modo que se manifeste. e até em amor. Camões e Bernardes não se parecem com Gil Vicente e Sá de Miranda. e significa a antipatia que os pretos têm a certos comeres ou ações. que de ordinário foram substituídas por outras mais bem derivadas e mais sonoras”. a repugnância. e que esta o é também menos que a antipatia. que a repugnância é menos invencível que a aversão. produzido sempre por alguma causa muito grave”. Aproxima-se. e até de “quase ridículo”. são cruéis e terríveis seus efeitos. enquanto que arcaico significa apenas “que o vocábulo é muito antigo. no entanto. é palavra vulgar que indica “aversão. arrelia do que aversão propriamente. Barros e Fernão Mendes Pinto não escreveram como Fernão Lopes e Castanheda. muitas vezes sem ódio”. segundo a sentença de Horácio. A aversão e a antipatia exercem-se indistintamente nas pessoas e nas coisas. e talvez com mais razão. má vontade que se tem a alguém. – A repugnância é ainda mais forte que a aversão. e clássico para seus respetivos tempos”. às vezes gratuitamente”. mas genuínas da língua. que a forma não está em moda por ser muito velha”. de gana (em sentido figurado) que é “um forte desejo de mal. porém o que busca desenterrar velharias. Roq. Luiz de Souza e Vieira diferem muito de Seita e Paiva. encarniçamento e quase furor impulsivo contra alguém. O escritor que se serve de palavras e locuções antiquadas (ou desusadas). muitas expressões desusadas ou antiquadas. nas ações. parece com o tempo ganhar forças. posto que todos escrevessem em bom português. segundo o mesmo Roq. – Horror é “grande aversão e repugnância. Mas isto mesmo poderíamos dizer.. desusado. – Zanga é “a quase aversão que se tem a pessoa ou coisa que se julga de mau agoiro”. Sem nada mendigarem aos estranhos. – Estas palavras “indicam coisa antiga que decaiu do uso”. e prefere os arcaísmos de nossos avós às boas expressões que o uso depois introduziu – este não se livrará da pecha de rançoso. merece louvor. repugnância que se tem a coisa torpe ou imunda”. Cada século tem seu cunho particular. – Quizila (ou quizília) é palavra da língua bunda. em lugar da qual se usa em linguagem comum”. de antipatia: quantas vezes se tem antipatia por uma pessoa só porque não a conhecemos de perto? – O ódio nasce quase sempre de poderosas e fundadas causas. – “em que o antiquário e o arqueólogo exercitam a sua atividade . mas as obsoletas parecem condenadas a perpétuo esquecimento. para fugir à invasão do neologismo. As palavras e frases antiquadas ou desusadas “podem ainda usar-se em poesia e em estilo jocoso. – Entre desusado e arcaico deve notar-se a seguinte diferença: desusado diz propriamente “fora do uso. algumas vezes. – Rancor é “ódio profundo e oculto. – Asca.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 193 nem tão profunda. 316 ANTIQUÁRIO. Diz. mais naquelas que nestas. e cada escritor o estilo que lhe é próprio. não as obsoletas. arqueólogo. por graves injúrias recebidas. 315 ANTIQUADO. de mera vontade.

oposição.. em literatura. – Oposição é aqui “o maior ou menor afastamento em que uma coisa fica da outra”. – “a primeira destas palavras é o grego antron. É por antífrase que os gregos designavam as Fúrias pelo nome de Eumênides (deusas benignas. as explica. o sentido real que está no pensamento do satírico. muito mais restrita que contraste. entre as duas palavras diferença considerável. “é uma palavra ou uma locução que deve ser entendida num sentido contrário ao que exprime essa palavra ou essa locução. contrariedade. essa proposição marca que Quinault é um medíocre poeta”.. – Segundo Roq. contradição. ‘frente a frente’ e stare. e em geral sempre que se nota uma impressiva contrariedade entre duas coisas. antino- mia. o qual entrou no português como palavra culta e poética. e dizemos só da flagrante oposição que existe entre duas palavras ou duas ideias aproximadas: dizer que um homem é de uma ‘orgulhosa’ ‘simplicidade’ é fazer uma antítese. porém. e defendida pelos lados como um recinto. de que nos deixou exemplo Bernardes na Floresta: “Estando em cima.194 Rocha Pombo é o mesmo”. cova. e segundo a sua origem significa – cova profunda e escura. de horror. Bourg e Berg. contraste entre as ideias ou as afirmações de alguém e as nossas”. Esta palavra não é poética. ‘conservar-se’) é a oposição que existe entre coisas contrárias. – A antífrase. toca. escura e medonha. antífrase. – Antilogia “é a contradição ou desconchavo entre as ideias sustentadas pelo mesmo autor. e que a aproximação faz ressaltar melhor”. Com estudo e paciência. e não somente às partes de um mesmo período. antítese “pertence exclusivamente à linguagem literária. Esta palavra emprega-se nas artes.. caverna. e Berg. caverna. – Contradição é “desconcerto entre o que se disse e o que se está dizendo. e Berg. portanto. É por antífrase que eles designavam o mar Negro sob o nome de Ponto Euxino (mar hospitaleiro). Se não houvesse aí antífrase. pela antífrase. buraco. a caracteres. ou benévolas). etc. diz-se particularmente da fauce lôbrega de um vulcão. mas admitido. distinguem a antífrase da contraverdade. 317 ANTÍTESE. que se aplica a situações. Esta palavra é. qualidades ou modos de ser diferentes. falando de um celerado. que se dedica ao seu estudo. ou entre os capítulos de um mesmo livro”. essa afirmativa marcaria que Quinault é um poeta de primeira ordem. – Contrariedade é “a relação que se nota entre duas coisas ou duas ideias opostas”. subterrâneo. (II. – Segundo Bourg. e significa uma grande escavação aberta a modo de abóbada. – Furna é cova profunda. mas sem fundamentar claramente a distinção. cuja disforme boca mostra ter uma légua de âmbito. contemplando a horrenda furna e estômago do monte (Etna). um antiquário pode tornar-se arqueólogo”. contraste. que deu o latim antrum. – Arqueólogo é “o que é muito versado em tudo quanto respeita a antiguidades. lapa. 227)”. há.. – Antiquário é o que tem gosto pelas coisas antigas. – A segunda do grupo é latina. e diferença-se de todas as do grupo em acrescentar-lhes à significação comum a ideia de medo. 318 ANTRO. que as conhece. furna. antilogia. ainda segundo Bourg. – Antinomia é “a oposição que se nota entre duas leis ou princípios”. É também por antífrase que. que às . – O contraste (do latim contra. em filosofia. gruta. Quando Boileau diz: “Asseguro: Quinault é um Virgílio” – a proposição: “Quinault é um Virgílio” “deve ser entendida em um sentido contrário ao que lhe é natural e próprio. que as coleciona (e que até com elas negocia). dizemos: este santo homem”.

Não há pompa sem grandeza exuberante. pois – os preparativos de uma função. A significação da palavra aparelho é muito mais extensa que a das anteriores. assim como à reunião deles se chama aprestos ou aparelhos. as cavernas. as feras. disposições para todo exercício. Dizemos. – “quando se reúnem. não só das proporções dela. – Pompa é o aparato ostentoso. e também. portanto. do festim. majestade. de asilo aos homens e de guarida aos ladrões. ou de um banquete. – Os antros servem de covil às feras. sumptuosidade. os antros. pompa. e as lapas dão abrigo aos pastores. que repete. a pompa que maravilham.. sem opulência de formas.. como do brilho. apresto. pois não só as compreende todas. é a qualidade daquilo em que se faz ostentação de riqueza: sumptuosidade do templo. Às disposições para qualquer faustosa cerimônia ou festividade se lhes dá o nome de aparatos. trabalho ou obra. fausto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 195 outras não é inerente. grandeza. é o esplendor exagerado de um ato solene. Chamam-se... as cavernas. grego krupta) e significa concavidade da terra entre penhascos. mas abrange os instrumentos. desde o exercício e arte da pintura até o mais baixo ofício mecânico. de produzir sensação. “as ninfas e os deuses campestres habitam as grutas. – Segundo Roq. preparativo. alardo. 319 APARATO. Diz mais que sumptuosidade. do palácio. no sentido em que se . aparelhos aos arreios necessários para montar. sem majestade de encenação. dizemos que se fazem preparativos. materiais. a grandiosa disposição com que se celebra algum ato extraordinário. o lugar onde alguém se esconde. – Buraco “será uma cova. mag- nificência. e os zagais acolhem-se às lapas”. etc. – Cova é “abertura feita na terra. os preparativos de uma guerra. ou mesmo uma caverna menos profunda e de menores proporções”. como indica a própria origem latina. – Aparato é o movimento pomposo. como diz Luiz de Souza. – Lapa é palavra portuguesa.. da grandiosidade excepcional que ela vai ter ou que apresenta. brilho e formosura. ostentação. pois que a significação desta palavra se estende a tudo o que se executa com pompa e ostentação. às vezes suscetível de ornato rústico. luxo. porque acrescenta à noção de grandeza a ideia de excelência. estende-se desde a ciência e manobras náuticas. das cores que um artista empregou no seu quadro. Quando se diz: “o aparato daquela cena” – quer-se dar ideia. operações. de fazer sucesso. e dizia-se antigamente aparelhos para dizer missa. – Grandeza (segundo Lacerda. – Toca = “buraco onde vivem ou se refugiam caças”. aparelho. e que sugere ideia de deslumbrar. ou para carregar cavalgaduras. na Vida do Arcebispo: “E viu juntamente que ao pé do penedo se abria uma lapa que podia ser bastante abrigo para o tempo”. e por analogia. as grutas são habitadas pelos anacoretas. quase pelas mesmas palavras. os facínoras. figuradamente – sumptuosidade do estilo. esplendor. – Subterrâneo designa “em geral todo espaço que se encontra no subsolo”. com alguma vergonha. e coberta por um penedo ou chapa de pedra: isto mesmo significa a palavra lapa. que “engrandecem” (aos que a contemplam). mais ou menos ampla e profunda”. de um assédio. – Gruta é palavra castelhana e portuguesa (talvez do latim crypta. Em estilo poético. desde o mais elevado até o mais ínfimo. dispõem e arranjam diversos materiais ou coisas para a execução de qualquer obra.. o que escrevera Roquete). e quer dizer uma caverna na encosta de monte. o modo solene. – Magnificência é o esplendor. vinda talvez do grego lápathos. – Sumptuosidade.” 320 APARATO.

– O ar (ou os ares) com que uma pessoa se nos apresenta é o conjunto de tudo quanto da parte dessa pessoa nos impressiona à primeira vista: o semblante. o aparecimento (ou apa- bos. ou pelo menos não perfeitamente lídimo. a voz. e a ideia que nos resulta dela. semblante. 321 APARECIMENTO. e figuradamente. o exagero calculado com que se exibe alguma coisa. – Visos quer dizer – aparência não clara. Há criaturas que fazem alardo de fortuna. luxo de sapiência. – Ostentação é o brilho e aparato. neste caso) da febre amarela. – Estes dois ver- muito bem Bruns. como de talentos e virtudes. excelência. aqui. do espírito. correr a pedradas. lustre. dava-se a morte pelo apedrejamento. os modos. Como hoje se lincha. diz Lacerda. e lapidar é matar a pedradas. lapidar. e então se lhe chama exterioridade”. considerado esse ato como coisa inesperada.. enuncia-se apenas a ideia de que sobre essa pessoa se atiraram . de beleza. “é manifestação de uma coisa presente.. aspeto. Dizemos: o aparecimento do cadáver que se andava procurando. ostentação (de grandeza e poder). de alguma coisa ou ação. de uma civilização etc. de poderio. dizer: “. e em sentido translato – seriedade. que à primeira vista parecem sinônimos perfeitos. – Semblante é o modo de ser da fisionomia humana: é. exteriori- dade. estas duas palavras: – “Aparecimento é o ato de aparecer. ou do desejo de agradar ou de fazer figura. – Fausto é luxo custoso. da corte. ou não definida: “o que ela diz tem visos de verdade” (tem aparências vagas. O esplendor da natureza. deste modo: apedrejar é simplesmente jogar pedras a alguém ou a alguma coisa. é o aspeto. de manifestar-se. – Luxo é toda manifestação exagerada do desejo de conforto. etc. grandeza. etc. – Aspeto é a exterioridade que nos impressiona ao primeiro relance de olhos. senão a aparição do anjo Gabriel. é brilho. seriedade. com ‘certa’ sumptuosidade”. imprecisas de verdade): – Mostra. É de notar que se diria: “Ele vive com certo fausto” (isto é – com alguma pompa de quem deseja ser tido como rico). Tanto se faz ostentação de riqueza ou de força muscular. exterior. etc. mostra. maneiras. 323 APEDREJAR. antigamente se lapidava. 322 APARÊNCIA. aparição diz-se da coisa que aparece. – Grandeza indica luxo. tamanho de alguma coisa. mas não se diz: o aparecimento.196 Rocha Pombo toma aqui o vocábulo. e majestade ao ideal das mesmas coisas”. dignidade. – Majestade indica magnificência. – Esplendor. a aparição do cometa de Halley”. – Alardo (ou alarde) é ostentação mais estrondosa. poder. dando ideia da ufania de quem alardeia. no viver. Luxo no trajar. Grandeza refere-se “à parte material das coisas. o que quer que seja de acento espiritual que distingue uma fronte humana. poderio. de um panorama. pelo que é às vezes enganosa. por assim dizer. os gestos. e o objeto aparecido como extraordinário. Quando se diz que alguém foi apedrejado. – Segundo Roq. da qual nos deixa ver apenas uma parte”. distinguem-se. porte ou conduta que ela mostra exteriormente. mas. gravidade de alguma pessoa. impróprio seria. soberania. Exterior é o que cada corpo mostra pela parte de fora: aplicado às pessoas. – “a aparência é o efeito que produz a vista de uma coisa. visos. – Majestade indica decoro. – Distingue rição. significa extensão. e do próprio ato de aparecer. nos modos. de erudição. quase sumptuosidade. o esplendor da mocidade. de poder. ar (ares). no entanto. aparição. isto é.

só (ou somente) enuncia quantidade sem relação determinada: F. de agir contra uma decisão ou um julgamento que se considera injusto.. por isso. ninguém diria com propriedade: – “ápice mais alto de um edifício ou de um monte”. Quando dizemos que Estevão foi lapidado em Jerusalém. está como cingida de um e outro lado. – Apenas. falou só desse ponto sem desviar-se para nenhum outro ponto). o direito de reclamar. cimo. e diz que esta expressão é imprópria.. Falando de superfícies. – Definindo. no entanto. são diferentes dela no fundo. quando as decisões são apeláveis. Podemos. agravo. para explanar a doutrina. tope. que o agravo é o recurso de que se vale a parte perante a própria autoridade que deu a decisão. não devendo. O suplemento completa o texto com artigos que lhe faltam. gradação. dizer-se: . cumeada). 326 APÊNDICE. 328 ÁPICE.” – Apelação é “o recurso interposto da primeira instância para a segunda. diz Teixeira de Freitas: – “Agravo é um dos recursos frequentes da nossa ordem judiciária. e por isso está o pé apertado. – “são partes que se acrescentam a uma obra para completá-la. A um código junta-se o apêndice que encerra as alterações que se fizeram a alguns dos seus artigos. a que fica superior a todas as outras. apogeu. que frequentemente se ouve: calçado ou vestido apertado para indicar que o pé ou o corpo não se encontram neles à vontade. não é rico: tem só (ou somente) quinhentas libras de rendimento. como a faculdade. que contém os vocábulos que no dicionário não estão incluídos”. caracteres diferentes. 325 APENAS. sumidade. – Com toda razão observa Bruns. sendo demasiado estreita. Esta rua é estreita. 324 APELAÇÃO. ou contrário à lei”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 197 pedras. suplemento. expor novas aplicações. o calçado é estreito. A um dicionário junta-se o suplemento. 327 APERTADO. por isso. afirmamos que Estevão foi morto a pedradas. zênite. no seu vocabulário jurídico. ou restringir-lhe o alcance. fastígio. exclusivamente. Falou exclusivamente do ponto que se controvertia (isto é. – Exclusivamente exprime exceção mais completa ainda.. estreita dir-se-á da que é pouco larga ou pouco ampla. ou só. no entanto. sugere ideia de insuficiência ou insignificância para determinado fim: Não o compro porque tenho apenas cinco mil-réis. Não admite. dizer: o mais alto cume da cordilheira ou da montanha. alto. auge. têm. – “Tanto o Bruns. os dois primeiros termos deste grupo. melhor do que somente.” Parece. anda o corpo apertado. e que. O apêndice liga-se intimamente com o texto. dar maior extensão à matéria. culminância. pois cume significa toda a porção superior das grandes elevações. estreito. e apertada da que. píncaro. se bem sejam da mesma natureza da obra. – Recurso é termo genérico exprimindo “não só o ato de recorrer. recurso. pináculo. – Ápice é a parte mais elevada de um corpo. ou com alguma parte dele. apêndice como o suplemento” – escreve pino. cume (cumeeira. Falta-me apenas o quinto volume para completar a obra. e por ser estreito o vestido. pois exclui todas as outras coisas do número daquelas que se salva ou a que se refere o enunciado. – Segundo Bruns. só (ou somente). portanto. e está apertada entre altas paredes. e que a apelação é recurso para juízo de instância superior à do juiz contra cuja sentença se recorre.

como: o tope do mastro. Entre cume e cimo deve admitir-se. nem mesmo – o cume da torre. Tanto é de lídima propriedade dizer: alto do monte. como o cimo do edifício. ou da ladeira. – Apócrifo é palavra grega (apókruphos) que significa coisa secreta. Pode comparar-se a culminância. – Alto é igualmente qualquer das porções elevadas de um corpo. por analogia com a significação desta palavra como termo de arquitetura. alto da porta. e é aplicável no sentido translato. o mais alto de todos. etc. em vez de todos os pontos elevados. de volume e de extensão. cume. – “é palavra latina (suppositus) e significa o que se põe falsamente em lugar do verdadeiro. – Fastígio. também por analogia (com o fenômeno astronômico a que se dá esse nome). tratando-se de uma montanha. mais à vista e mais brilhante de algum edifício.. é a parte mais elevada. o cimo da planta. tope. e indica “o alto grau de intensidade a que é capaz de chegar um sentimento ou a que um fato pode atingir”.. de algum corpo em geral. Culminância sugere ideia de imensa altura do pináculo. Tanto dizemos: o tope do monte. cujo autor não é conhecido. correlativo de nadir: em linguagem comum designa também “a culminância a que alguma pessoa atinge na esfera em que exerce o seu esforço. ou da colina.. Tanto podemos dizer: o cimo do monte. cumeada. – Cimo (do latim cyma) é propriamente a parte que de um corpo se destaca ou se faz saliente. e que a Igreja Católica não incluiu no cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas. – Zênite é termo técnico de astronomia.. alto do palácio. como: alto da árvore. A cumiada dos Pireneus. ou da escada. ou da fama. da colina. sem dar ideia necessária de grandeza ou de altura extraordinária. – Pino é um correlativo de base: designa o ponto culminante de alguma coisa. mas esta palavra é de aplicação mais restrita. como exprime culminância. a contemplar o fastígio maravilhoso do templo. – Cumiada (ou cumeada) é também “a parte mais alta. Ainda que a au- . “No auge da fortuna. Não seria próprio dizer: – o cume da ladeira. nem – o cume do telhado. “Ficamos até em pasmo. suposto.” 329 APÓCRIFO. ou de grandes construções.” – Apogeu. fabuloso. o cimo do chapéu.198 Rocha Pombo o cume da ladeira ou da lomba.”. Sumidade acrescenta à noção de cimo. pela analogia da posição desse ponto com a do sol quando se acha no zênite. sem mais ideia alguma acessória. o ponto acima do qual não é possível ir. – Cume (do latim culmen) é a parte que se eleva também acima das outras. – Cumieira (ou cumeeira) é “a parte mais alta. Rigorosamente falando.” – Auge só se aplica a fenômenos morais. “Ele ascendeu então ao fastígio da glória. a cumeada dos Andes. Em linguagem eclesiástica. falso.” – Tope (ou topo) é a parte superior de qualquer coisa. e de pouca ou nenhuma fé. particularmente se diz do livro ou da obra que falsamente se atribui a quem não é seu autor. Mas pináculo envolve ideia de terminação da coisa elevada em ponta aguda. alto da testa. – Pináculo é mais expressivo do que pino. é também a série dos cumes de uma serra ou cordilheira”. de autor incerto. uma certa diferença. – Suposto – diz Roq. dá-se este nome a todo livro duvidoso. alto das ruínas. fictício. portanto. não conhecida antes.” “A linha desdobra-se pelo fastígio da cordilheira”. é “o auge supremo. ou do muro. a sumidade e a outros do grupo. o cimo da escarpa. da escada. quase sempre melhor aplicada quando se trata de um edifício”. a ideia de grandeza. Em qualquer destes casos preferiríamos empregar cimo. O mesmo se poderia dizer de píncaro se este designasse. pretenso. alto. “Ele estava no auge da raiva. só devemos empregar cume tratando de montanhas.

pois por erro tem-se atribuído a autores clássicos obras que não escreveram. significa defensa. porque essas correm nos tribunais. reformar. mas que se tornam estranhas pela enormidade. pode. e perturbadores da ordem pública. conservando uma parte dos vencimentos. “segundo o valor da palavra grega.) – Defesa é todo esforço feito para demonstrar a não culpabilidade de algum acusado. ele conter doutrina boa e verdadeira. Este é o verdadeiro caso da apologia. porém. A justificação consiste só nas provas que se deduzem do exame das testemunhas. – Reformar é dispensar do serviço o militar que se fez inválido.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 199 toridade do livro suposto se repute suspeita. – Expri- panegírico. direito a todos os honorários do cargo. Decerto que ninguém diria: “a promessa de que F. defesa. sistemático. os lentes. uma nação ou pessoa. etc. e é qualquer discurso ou escrito no qual se defende um sistema. etc. dos documentos autênticos. e serve para manifestar a inocência do acusado”. foi-lhes forçoso apresentar aos imperadores. – Jubilam-se os professores. a suposto. . É mais ato ou dever de ofício. isto é – fabulosas). mas as acusações vagas. justificação. e assegurando-lhe o soldo da patente. não permite a Igreja que se tirem argumentos para provar as verdades teológicas”. ao senado e aos magistrados. do que de esforço puramente moral: e nisto distinguese de apologia. como se dá em relação a fictício. – Apologia. – Fictícia é a coisa criada pela imaginação e que só nesta existe. concedendo-se-lhes. – Pretensa é a coisa que se quer fazer passar por ser a verdadeira. uma opinião. não as acusações jurídicas. – Falso é propriamente o contrário à verdade ou como tal admitido. ou do exercício do cargo. empregaria certamente de preferência – fictícia. Fabuloso nem sempre exclui a ideia de verdadeiro. contudo. Conhecemos orações fúnebres que são verdadeiros panegíricos. espalhadas entre o público e que vão tomando corpo com grave dano das pessoas acusadas até que acabam em perseguição formal pela justiça. elogio. (Roq. – Elogio é “o discurso. 330 APOLOGIA. e contra elas advogam os letrados perante os juízes. ou porque fez jus a tal vantagem. Aquele homem nos disse coisas fabulosas do que se passa no sertão (coisas que se têm ou podem ter como verdadeiras. 331 APOSENTAR. – Aposentar diz propriamente – “dispensar do serviço. – Fabuloso distingue-se de fictício em sugerir ideia de prodígio. ou mesmo todos os vencimentos”. na tribuna do júri. dos livros apócrifos. ou o escrito em que se demonstra ou procura demonstrar como a pessoa elogiada é digna dos louvores que se lhe fazem”. como se estivessem nas respetivas funções. faz a defesa de um réu (não a apologia). suposta ou falsa. um partido. Fazem-se as apologias para desvanecer as acusações com que se agravam as classes mencionadas. para rechaçar as falsidades com que os pagãos procuravam fazê-los odiosos como inimigos dos deuses e de todas as potestades. jubilar. – O panegírico é um elogio mais incondicional. de modo a que fique livre de penúria o aposentado. Um advogado. cristã. e sempre com intuito de só fazer que ressaltem as altas virtudes. apologias em defesa da religião mem de comum estes verbos a ideia de cessar alguém de exercer as funções do seu cargo. da pessoa de quem se trata. prestando serviços durante um certo prazo. como um prêmio. Nas associações científicas e literárias é uso fazer-se o elogio dos sócios falecidos (não panegírico). ou porque se ache ou seja julgado inválido para continuar a servir. quer tirar proveito é fabulosa”. Deste modo perseguidos e caluniados os primeiros Cristãos.

– Apossar-se alguém de alguma coisa – escreve Roq. Só se apropria de alguma coisa. Napoleão apossou-se primeiramente do comando geral. apóstolo e missionário têm. propagandista de pílulas. – é “simplesmente meter-se de posse dela. – Invadir é acometer e entrar por força em alguma parte. João Batista foi “o precursor de Jesus Cristo”. Se se deve admitir entre eles alguma distinção. ideias excelentes. emissário. e não deve ser empregado senão em casos que recordem a grandeza moral dos antigos missionários. Aplica-se particularmente esta palavra para designar o sacerdote ou o clérigo que se incumbe de ir a terras de pagãos ensinar o Evangelho e instruir nas coisas cristãs. o direito de ser o dono dessa coisa. evangelizador. – Missionário é o que toma a si a propaganda de alguma causa sagrada. em obediência a algum voto. de uma escola literária. e conquistou parte dela. porém. como se diz: propagandista do casamento. enviado. Tanto se diz: propagandista da república. – Usurpar é tirar a outrem o que é seu. conquistar. mas suas conquistas e invasões ficaram sem efeito quando os aliados o desapossaram de sua autoridade usurpada”. usando de prepotência. a perfídia. – Anunciador significa apenas “aquele que anuncia”. Entre apossar-se e apropriar-se há uma diferença de ordem jurídica. não tardou a invadir a Europa quase toda. doutrinas de redenção. etc. – Conquistar é ganhar à força de armas um estado. – Apóstolo (do grego apostolos. é só esta. e também arrogar-se uma autoridade. lugar à parte no grupo. de encerrar a palavra missionário a ideia de que aquele que missiona toma uma tarefa como sacrifício. núncio. grita em favor da coisa apregoada. damos o nome de apóstolo àquele que exerce na terra funções. O que se apossa chama a coisa a si. Por extensão. etc. uma cidade. As refregas precur- . – Precursor diz propriamente – “o que vai adiante de alguém anunciando-lhe a chegada”. por ele enviados a pregar a boa-nova a todas as nações. in- vadir. Quem seria capaz de dizer: evangelizar o erro.200 Rocha Pombo 332 APOSSAR-SE. a ignorância? Evangelizador. Aplica-se também a coisas e a fenômenos. “enviado. naturalmente fazendo-lhe a apologia. etc. do socialismo. uma dignidade. que lhe não cabe. usurpar. causas augustas. Não seria próprio dizer. Não se evangelizam senão grandes verdades. fazer-se senhor dela.. Nem sempre se apropria de alguma coisa aquele que dessa coisa se apossa. que resulta: de sugerir o vocábulo apóstolo o intento de fazer prosélitos. mensageiro de algum príncipe”) designa propriamente cada um dos doze discípulos de Jesus. de um sistema filosófico. de chamar ao grêmio do Cristianismo. depois usurpou o império. da desordem. etc. tomá-la para si. mensageiro. como de felicidades. retém-na em seu poder ou sob seu domínio. propagandista. pregoeiro. Tanto pode ser anunciador de desgraças. muito subtil. anunciador. e não cessa de chamar a atenção de todos para ela. por exemplo: missionário da revolta. ou desempenha missão equivalente à daqueles discípulos. apropriar-se. O pregoeiro faz mais que o simples anunciador: fala muito alto. portanto. – Propagandista é termo comum e geral que designa “todo e qualquer indivíduo que se encarrega de inculcar ao maior número alguma coisa. 333 APÓSTOLO. No mesmo caso está evangelizador. precursor. de exprimir evangelizador a ideia de que aquele que evangeliza não faz menos do que proclamar alguma coisa de que ele próprio está ufano e espantado.. missionário. aquele que se arroga a propriedade. Por isso mesmo tem o vocábulo um valor peculiar. S.

– Consideração é a “atenção respeitosa que se tem por alguma pessoa que. e que “apresar é tomar como presa. comparecer. ou de mover-se livremente”. 334 APOTEOSE. e cujo sucesso se lhe confia. mas daquele que a enviou. alguma coisa. pelos seus atributos morais. ou subtraídos aos direitos a que estão sujeitos. F. Não teve o rei em conta o meu serviço. diz simplesmente – “posto a caminho”) não faz mais do que cumprir estrictamente a ordem que leva. – Apreender é “prender. embargando que siga ou que continue a estar onde estava. e captura os contrabandistas”. culto religioso. 336 APRESAR.. Esta ideia não se encerra necessariamente em núncio. o préstimo de alguém ou de alguma coisa”. Os romanos usavam assim a respeito dos imperadores. seriam sinônimos perfeitos se mensageiro não encerrasse a ideia muito clara de que a mensagem não é própria de mensageiro. – Arrestar é termo jurídico e significa “apreender.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 soras do arrasamento. ou ter valor só para nós. deter. arrestar. apanhar. à audiência. mas o emissário supõe-se que leva incumbência mais alta. ou alguma coisa de locomover-se. 335 APREÇO. é “o ato ou disposição de pôr em cálculo. conta. O enviado (esta palavra. 337 APRESENTAR-SE. . logo que estes morriam. rendendo a esta. que “capturar é prender. pelo seu valimento. ou pelo direito da força”.. aqui. aparecer. ou algum animal. Prende-se o cão à corrente. arrestar a alguém pela força do direito.. Prende-se o celerado em flagrante de homicídio. e mediante ordem ou mandado de autoridade pública”.. segurar. prender. – Prender enuncia a ideia geral de “impedir alguém. estima. apresentou-se pronto para o serviço (e não – compareceu). compareceu à sessão. A polícia captura os criminosos. gêneros embarcados. – Diz Bruns. – Emissário e enviado só se poderiam diferençar pela nobreza do vocábulo emissário. navios.. Apreço é a “consideração particular que se tem pelo mérito. – Conta. aqui. em consideração das suas preeminentes virtudes.. em nome do qual ele vem. ou em geral. a guarda fiscal apresa as mercadorias que os contrabandistas querem subtrair aos direitos.. Aquele ar sereno precursor da saúde moral. Um gesto precursor de tormenta. apreender. consideração. Prende-se o monóculo na órbita ocular. Ambos significam – “o que é mandado”. – capturar. o – Apresentar-se é “fazer-se presente em alguma parte ou perante alguém”. – Estima é a “consideração em que se têm as qualidades de uma pessoa”.. – E comparecer ainda sugere melhor a ideia da obrigatoriedade do ato de apresentar-se. tanto nos merece”. deificação – Sobre estas duas valor. – Deter é “prender e conservar preso”. Prende-se a ave no viveiro. Dizemos: F. ou atando-lhe as asas. aqui. pelos talentos. Deificação é um ato pelo qual se supõe a divindade onde não está senão a criatura. A alta conta em que é preciso ter aquela propriedade. ou quase religioso”. pela sua posição.. (e não apresentou-se). A pessoa ou coisa estimada pode mesmo não ter valor. Supõe-se que aquele que se apresenta o faz por algum dever com a pessoa perante a qual comparece. etc. – Segurar é “prender e conservar em segurança”. palavras escreve Lacerda: “Apoteose era a cerimônia mediante a qual era alguém posto no número dos deuses. de admitir a cômputo. – Núncio e mensageiro. pelo valor de alguém”. chamar a si de direito alguma coisa”.

inspira o desejo que solicita a aquisição de um objeto. dizer no sentido figurado – o aprisco da Igreja.” – Vocação. – Segundo Bruns. que encerra aprisco). desenvolve-se. 338 APRISCO. jeito. proteção. – Aprisco dá ideia do abrigo em que ficam as ovelhas. vocação. às letras ou às ciências. A propensão. tem aptidão para o negócio.). para a tarefa. idoneidade. capacidade. ou da casa paterna (e não redil. como curral de bois.). a esgrima. (Dizemos. pois a aptidão pode ficar inativa. e não a combatemos senão com grande pesar e com poderosos recursos. por isso aptidão não se aplica senão relativamente às artes liberais. para o trabalho. uma disposição natural do espírito para alguma arte ou mister”. segurança. e por isso pode dizer-se que o talento é a aptidão no terreno da prática. – Os dois primeiros são termos literários. curral. como disposição diz menos que aptidão. denota um poderoso atrativo. entre eles uma diferença muito notável. Profundar é cavar muito fundo. fazer profundo. – Mangueira é brasileirismo comum. propen- são. profundar. feito de tela de arame.. porém.. 340 APTIDÃO. que F. como o talento. pois este não sugere a mesma ideia de amparo. etc. Ter talento para a pintura é mais do que ter aptidão para a pintura. Aparece um grande sinal no céu. inclinação. mais ou menos grande ou violenta. diz um hábil sinonimista. As disposições carecem de ser cultivadas. diferem. a aptidão opera. podendo ser ou não coberto”. – Disposição também se diz da faculdade de ser próprio para uma dada coisa. ou de um vivo prazer. talento. e assim diremos que certa pessoa tem. arrebata a alma seduzida pela promessa do repouso. Tanto se diz – curral de porcos. Aprofundar é tornar ainda mais fundo o que se profundou. “estes dois verbos empregam-se geralmente sem outra distinção que não seja a da exigência da eufonia. redil. entregamonos a ela sem reservas. Apareceu a peste em Bombaim. aqui. como a dança. e o talento só se revela no exercício. significa “uma tendência própria. seguimo-la. mangueira. gosto. A inclinação. Usa-se. – Curral é “um cercado. – Redil é “um curral para rebanho miúdo. há. a ginástica.202 Rocha Pombo – Aparecer dá ideia geral do fato de “se deixar ver” alguém ou alguma coisa. a capacidade. da felicidade. exercita-se por si mesma. só pode manifestar-se na prática. de ter certa vocação para ela. de madeira ou de muro. presume exercício e prática. como aptidão. A propensão. – Aptidão (Bensabat) “é a capacidade natural para fazer uma certa coisa. por isso. ou contrariamo-la: e eis o motivo por que se toma esta palavra como sinônima de amor ou afeição. aliás. mas disposição para a dança e para a ginástica. aplicação de inteligência. Esta capacidade refere-se mais ao que requer estudo. pode-se empregar essa palavra falando de estudos ligeiros ou recreativos. mais ou menos agradável ou lisonjeira. além de designar dom natural (diz Bruns. – Talento. e a inclinação uma espécie de gosto. etc. que significa “um vasto curral de bois”. disposição. ou uma disposição favorável. 339 APROFUNDAR. enquanto que aptidão não se emprega bem senão falando de estudos sérios. porém. habilidade. as duas palavras quanto à sua aplicação: talento dizendo-se particularmente com relação aos estudos pu- . No sentido figurado subsiste a mesma gradação”. não aptidão. mas essa faculdade é menor que aptidão. – Capacidade é o conjunto de qualidades e conhecimentos necessários para levar a bem-determinada ordem de coisas. Além disso. ou de cabras. na cultura. onde se recolhe o rebanho”.

etc. Assim é que ninguém dirá – um poeta. – Jeito é muito próximo de disposição: é “o desembaraço. ou pelo menos a facilidade. – Idoneidade. No estilo familiar entende-se – aqui por ‘nesta casa’. – Gosto é mais do que jeito: designa este “como senso íntimo que nos faz preferir uma coisa a outra”. e sem referência alguma a outro lugar. “exército”. 341 AQUI. não só fato. a habilidade. de talento. não obstante.: Ardil. passou a noite ‘nesta casa’. mas sim. à força de boa vontade e de estudo. Um recruta pode ter aptidão para aprender o exercício. um tenente tem bastante capacidade para comandar a companhia. e a que nos referimos como se vê no ditado vulgar – Cá e lá más fadas há”. a discreta perícia com que nos sentimos para alguma coisa”. palavra não muito usada. Vivo aqui. se o capitão vier a faltar. os ardis de guerra . a expediência. obrando de modo que o lesado não conheça as intenções. jantou aqui ontem. sem excluir determinadamente outro lugar. e agó. logro. no sentido reto. e sempre com bom resultado”. pois quando alguém diz – F. de capacidade. mas creio que nunca terá gosto para a cultura antiga. que estes dois ad- A diferença entre os dois consiste em que aqui designa o lugar de um modo absoluto. arteirice. esta noite durmo cá – exclui determinadamente o lugar onde costumo jantar ou dormir. e capacidade relativamente às coisas práticas da vida. ou um escultor de capacidade. ou relação alguma respetivamente a outro. e procede com disfarce”. astú- vérbios“ valem o mesmo que ‘este lugar’. A habilidade não só revela a ideia de se possuir o conjunto de qualidades e de conhecimentos necessários para levar a bom resultado uma determinada ordem de coisas. empresas. direção de assuntos. não tinha nenhuma aptidão para a magistratura. etc. v. Quando cá se contrapõe a lá indica a terra ou o lugar em que estamos comparando com outro de que já falamos. astúcia designa só o que sugere fatos característicos dos outros vocábulos do grupo. Pedro parece ter jeito para as letras. emboscada. acrescenta por si só a exclusão de outro lugar determinado (lá) que direta ou indiretamente se contrapõe àquele em que nos achamos. cia. F. diz Bruns. – Dos cinco primeiros do grupo. armadilha. adquiriu nela bastante idoneidade. só e absolutamente. senão que sugere a ideia de que por várias vezes já se praticaram tais coisas. – O ardil é o meio que se emprega para obter o fim desejado. cá. o lugar onde vivo e onde janto. – Escreve Roq. estratagema.. ou ‘neste lugar’ onde se acha a pessoa que fala. e também não é comum dizer-se – um banqueiro. ou – passou ontem aqui a noite – é como se dissesse – jantou. “O ardiloso” – diz d. g. cilada.: Aqui vivo. mas sim. 342 ARDIL. Cá tem maior extensão. – Estratagema (do francês stratagème. vocábulo formado do grego stratos. arteirice. negócios.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 203 ramente científicos. aqui estou. e conseguintemente este vocábulo encerra a ideia de faculdades adquiridas. ou um general que carece de talento. é independente da ideia de aptidão. mas nem todos os chefes de corpo têm a idoneidade precisa para comandar uma divisão. a idoneidade adquire-se pela prática. José de Lacerda – “oculta os meios de que se serve. Mas – janto hoje cá. literários ou artísticos. senão quando já não possa opor-lhes obstáculo. e sem sugerir a menor ideia de dúvida. mas também o que o sugere. preferência. “conduzo”) designa. estratagema e logro designam fatos. Convém ter presente que tanto a capacidade como o talento não podem existir onde não há aptidão. pois além de designar o lugar onde se está. – Habilidade é vocábulo mais significativo que capacidade e idoneidade. janto aqui – supõe.

é muito difícil. – Logro é o ardil caviloso. aproveitando os descuidos e as ocasiões. sem que ela no-lo possa negar. Pode não ser mesmo difícil a missão. intrincado. procurando-se enganar a vítima. quem pretende insinuar-se no espírito alheio necessita ter arteirice”. designa a arte ou manha de quem tem inventiva para fraudes. – Difícil diz-se do grosso do trabalho ou da empresa. custoso. – “O que é árduo (escreve Bruns. rude. coragem. etc. até pela sua formação. – Ímprobo é “o trabalho excessivo. A emboscada sugere a ideia de que o autor se esconde ou se disfarça para o assalto. tato. Mas esta palavra. superfície. e o astucioso. penoso. a cilada é feita com astúcia. talento. resolução. da sua essência. sem mais noção alguma acessória. pareceria só aplicável à face su- . é “a parte exterior do corpo”. mas diferençando-se desta em que o arteiro planeia com arte. – Astúcia é um dom natural. É difícil resolver certos problemas. missão dolorosa. dificultoso. misto de finura e de falta de escrúpulos. da terra. – Custoso é “aquilo que se não faz com facilidade”. 343 ÁRDUO. enquanto que árduo pode frequentemente encerrar essa ideia: árdua empresa é a de pretender corrigir defeitos morais”. pormenores. “A raposa tem astúcia. podendo dar ensejo a coisas desagradáveis a quem executa. O estratagema difere do ardil em contar este com a impossibilidade de defesa.). – Fatigante não é o mesmo que trabalhoso. dificultoso convém às particularidades. ou que é cheio de trabalhos. com habilidade. Noutra acepção. – Penosa é “a tarefa que. – Espinhoso = “que é de difícil execução porque exige grande habilidade e fortuna”. Extensivamente. conforme a definição dos lexicógrafos em geral. – Trabalhoso é o que custa muito trabalho. – Arteirice. mas há de ser muito penosa. – Intrincado é o que parece difícil. como – superfície de um poliedro. ou para conseguir os seus fins empregando vias tortuosas mas habilmente combinadas. e quase sempre mais à alma que ao nosso valor físico. mais porque está embaraçado e difícil de entender que pelo trabalho que poderia dar. força. O que é difícil necessita pulso. malícia e ruindade. mas não incluem a ideia de impossibilidade. – Cilada e emboscada designam “a surpresa que se prepara contra alguém para vencê-lo à traição”. fatigante”. A arteirice maquina. – Superfície. – Note-se também que difícil e dificultoso ponderam a dificuldade. e o estratagema em levar o lesado a não poder negar-nos o que pretendemos. com perseverança. pois este sugere ideia do grande esforço que exige a coisa trabalhosa. Tarefa. como fato. Fatigante é aquilo que só se faz com muita fadiga. fatigante. Tanto dizemos – superfície do mar. além de difícil ou mesmo árdua. trabalhoso. é a realização de um engano habilmente preparado. que leva o lesado a ser o próprio a oferecer o que pretendemos. é dificultoso reunir uma coleção completa de selos. 344 ÁREA. ímprobo. espinhoso. a astúcia obra simplesmente. julgando que obra em seu proveito. – Armadilha é “a cilada que se arranja contra alguém para que se deixe cair como no laço a veação”. é árduo escrever para o teatro. perseverança. doloroso.204 Rocha Pombo para surpreender ou vencer o inimigo. quase idêntico à arteirice. não se desempenha senão à custa de esforço doloroso”. diz-se dos meios extraordinários que se combinam com arte e manha para surpreender de improviso a pessoa que visamos. difícil. e obter dela o que queremos. o que é dificultoso supera-se com paciência. – Doloroso = “que se faz com esforço que mais punge e amarga que fatiga”. obstáculos.

e até ser um defeito remediável pela rega artificial. cansado. – Improlífico = “incapaz de procriar”. ou porque lhe faltem outras qualidades de terra fecunda. – Sáfaro é também “exausto (terreno). e até homem estéril (e ainda esforço. ou onde só nascem plantas inúteis ou daninhas”. – Estéril é termo de mais extensividade do que árido. infrutuoso.). No sentido translato. infecundidade. para ter efeito. Infrutuoso é “o que não é tão abundante em frutos como se esperava”. – Terra ou terreno seco é aquele a que falta umidade suficiente para que se torne produtivo. – Infecundo é “o que não tem qualidades de natureza próprias para produzir amplamente”. a ideia de aridez absoluta. quanto. Supõe-se. maninhez. – Ingrato. – Área é “superfície limitada de qualquer modo. não produz com a abundância que se esperava. improdutivo por falta de cultura”. no agente que a explora.. Tanto dizemos – superfície horizontal. improlífico. tanto na coisa explorada. estéril. Trabalhei quanto pude. – Infrutífero é propriamente “o que não produz os frutos que devia produzir”. ou a circunstâncias estranhas. E tanto parece assim que ninguém se arriscaria a dizer – superfície do céu – por exemplo. Área de um polígono. improdutividade. Os meus esforços não foram tão infrutuosos como eu receava (aqui não seria tão próprio usar infrutíferos). nem árido. ou porque seja seco. Não obstante. aridez. Deve notar-se. infecundo. mas sugere mais claro a ideia do esforço que se fez 25 E isso por mais que se nos objete neste caso que o super que figura no termo enuncia uma ideia de relação entre a face e o centro do corpo. etc. trabalho.. cabra estéril. e nada tendo com a posição em que se encontre a face. só se aplica aos animais. ou improdutivo por falta de cultura – bravio. sequidade. portanto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 205 perior dos corpos. portanto. para que produzisse. – Maninho (do latim malignus) quer dizer. A infecundidade daquela fazenda é devida à má administração. pelo menos. de uma sala. mas tudo que fiz foi completamente improdutivo (não sem dúvida – estéril.” etc. esterilidade sugere. esterilidade. Não tem. como – superfície vertical. inclinada. – Improdutivo também enuncia ideia geral de estéril. E por quê? Simplesmente porque a palavra superfície sugere que o corpo ao qual se aplica tem outra face que não é superior.). de um campo. “além de infecundo. de incapacidade para produzir. “poder-se-ia confundir com infecundo se . como do trabalho que não compensa o esforço feito. além da noção que exprime. pois esterilidade exprime a ideia geral de incapacidade para produzir. ou à imperícia de quem trabalha ou de quem cuida da planta.. ou à falta de custeio próprio (não – esterilidade). No sentido natural. ingrato. maninho. o uso autoriza o emprego deste vocábulo mesmo nos casos em que não se trata de face superior. A sequidade pode. ou terreno estéril. tanto zona estéril. tanto se diz do terreno. ou não as exerce se as tem. contra a qual não há ação corretiva possível. infecundidade. para gerar. infrutífero. pelo menos. Dizemos. A maninhez supõe-se que é mais devida a abandono do que às qualidades da terra. sacrifício estéril). como a de uma tarefa ou um trabalho supõe-se que é devida mais. visos de perfeitamente lógica uma expressão como esta. – Terreno árido é o que nada produz. 345 ÁRIDO. infrutuosidade. ser um acidente. A infrutuosidade de uma planta.. improdutivo. A infecundidade diferença-se da esterilidade pelo seguinte: dá o primeiro uma ideia muito nítida de que a coisa infecunda não tem qualidades criadoras. É um pouco menos que ímprobo. em todo caso. que a improdutividade está. seco. como planta estéril. Dizemos – a esterilidade das regiões polares (não. que a aridez é mais propriamente devida à natureza do terreno. sáfaro. por exemplo: a superfície inferior da caixa25.

ou em terra. tais eram as que os fenícios e cartagineses enviavam à Espanha na infância da navegação. em rigor. ou frota armada. senão o de esquadrilha. suspensão de armas é locução vulgar. 346 ARMADA. suspensão de armas. bem provida de armas. melhor do que este. – Armada é o conjunto total dos vasos de guerra de uma nação. e pela duração que é inerente ao sentido do vocábulo. Camões. umas vezes chama frota. olor. dar tempo a discutir uma proposta. porque só constava de três embarcações. Sancho I a tomar Silves. sim. geralmente a anos. ou de hostilizar o inimigo. III. frota.: “Fragrância per- . nenhum destes nomes lhe é próprio. como diz o nosso poeta: Tu26 a quem obedece o mar profundo. porém. mas talvez esquadra mui numerosa. e D. ou entre duas nações que estão em guerra. Toma-se às vezes por esquadra. “armistício é termo diplomático e técnico. A de Pedro Álvares Cabral. no mar. a noção de incapacidade própria e talvez ingênita para a procriação”. O armistício tem ordinariamente por fim recolher os feridos. outras. 348 AROMA (aromas). armada. e ainda a circunstância de deixar entender que os exércitos beligerantes se recolhem a quartel”. o que bem distingue armistício de tréguas é o fato de serem sempre estas de muito maior duração que aquele. Pode-se dizer que as tréguas são um tratado de paz que. porque constava de treze navios”. Da germânica armada. Em todo caso. e em tempos modernos. e não terem o objeto determinado que tem o armistício. esquadrilha. esquadra. III. enterrar os mortos. nem ainda o de esquadra. planear a paz. De armas fortes e gente apercebida A recobrar Judéa já perdida. “As tiranias sacrílegas não voltam: os monstros são improlíficos (e não – infecundos) para a história”. – Segundo Bruns. mas o armistício é absolutamente a mesma coisa que a suspensão de armas – frase que designa a interrupção momentânea da luta. se limita a um espaço determinado de tempo.206 Rocha Pombo não marcasse. Obedeceste à força portuguesa. cheiro (cheiros). 57) E ainda: Foi das valentes gentes ajudada. 347 ARMISTÍCIO. – Frota (escreve Roq. perfume. enquanto durou a guerra com os holandeses. hálito. odor. as comboiadas por nau ou naus de guerra. – No seu grupo 457. que venceu os turcos nas águas de Lepanto. (Lus. (Lus. diz Roq. As tréguas são geralmente motivadas pela nenhuma eficácia das operações entre os beligerantes. tal foi a de d. pela sua comum falta de recursos. tré- guas. – Tréguas distingue-se de armistício pela sua generalidade. tais foram as que ajudaram D. à que comandava Vasco da Gama. etc. como as que vinham todos os anos do Brasil para Portugal. ou pelo desejo de se combinar a paz. podia chamar-se armada. Afonso Henriques a tomar Lisboa. em vez de ser definitivo.. fragrância. – Esquadra é uma reunião de navios de guerra com o objeto de proteger o comércio. que passava. 86) 26 Lisboa. Ajudada também da forte armada Que das boreais partes foi mandada. combinada entre dois exércitos em campanha. João de Áustria.) “é a reunião de navios mercantes dados à vela com o objeto de exportar e importar mercadorias de um para outro porto marítimo mais ou menos distante.

extrai-se (como se tira. extrair. como resistência do que é arrancado.. lenhos (raízes). – Hálito só figuradamente é que entra neste grupo. e aroma exprime ideia de mais larga duração”. do cravo. ou odor acre de carniça. nem da coisa sacada. um lírio. extrai-se de um livro o que ele tem de substancial.. remorso. “Arrebatou-lhe o livro sem que ela tivesse tempo de gritar sequer por socorro”. um cravo. sacar. em seu sentido próprio27. Odor de floresta virgem. de azinhavre. esta última. o remordimento. mesmo de força por parte de quem saca. tirar do lugar em que estava”. Extrai-se oiro da mina. acompanhado do desejo veemente de emenda e reparação. além disto. – Pesar é a recordação molesta e penosa causada pela falta que se cometeu. Fragrância explica a ideia de um cheiro grato. – Aroma é palavra grega. e ao fumo ou vapor odorífero que elas despedem”. 350 ARREPENDIMENTO.” – Olor é “o cheiro particular de cada flor. “arrancara da casa a pobre criatura que nem mais se movia. que se exalam em fumo cheiroso. o verbo tirar. de pomares. ou perpetramos algum grave delito. Tem fragrância uma rosa. mas sem a ideia de resistência por parte da coisa ou pessoa de que se saca. não só por parte de quem arranca. bálsamos. cheiros. 349 ARRANCAR. diz-se comumente das substâncias que produzem bom e agradável cheiro. a angústia que nos atormenta a consciência quando delinquimos. a pena pungente de haver cometido erro ou culpa. – Indica a palavra remorso. como é a vida das flores. no plural.” – Arrebatar acrescenta à noção de arrancar a ideia de violência e rapidez. atrição. se saca. ou da parte de onde se arranca. encerra ideia de esforço. e por meio da arte algumas vezes se faz durável. significando “suave emanação de algumas substâncias”. que se aplica a – toda droga cheirosa.. – E no grupo 215: “Apesar de que o cheiro pode ser bom ou mau. contrição.. uma causa permanente de fragrância. – Contrição é palavra religiosa. no entanto. o perfume das plantas”. “O olor da rosa lhe é gratíssimo. ideia. É aromática a árvore da canela. aroma. – Segundo Lacerda.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 207 tence exclusivamente às flores. – Perfumes. tirar. um jasmim. do alcanfor. – Diz muito bem Bruns. agradável ou desagradável. porém de pouco tempo. em português aplica-se particularmente às matérias odoríferas. Melhor do que tirar. Esta supõe um efeito passageiro em seu estado natural. 27 E. O aroma supõe. pesar. que não sugere. ou se arranca) um dente. uma açucena. O aroma é próprio das drogas e das árvores que o produzem. de jardim. arrebatar. sem restrição da qualidade do cheiro”. arrependimento “é o sentido pesar. mas arrancar indica força. e porque o devemos amar .. e também distingue-se de perfume por “sugerir sempre ideia da substância de que mana. penitência. – Extrair diz propriamente “tirar para fora. “Os hálitos que vêm da recendente alfombra. da pimenta. compunção. unguentos de grande fragrância. que arrancar e tirar exprimem um ato de força. posto que em francês parfums corresponda a aromas. óleos. ou sejam – resinas.” – Odor pode aproximar-se de fragrância e de cheiro. e significa a dor profunda e sincera de ter ofendido a Deus por ser quem é... o uso autoriza o emprego desta palavra tratando-se de qualquer substância que dá perfume. Daí se refere a impropriedade de frases como estas (que aliás se encontram até em autores de nota): “arrancou da espada”. – Sacar enuncia a mesma ação de arrancar. no sentido translato. pelo menos nem sempre. de lenteiro.

e exprime a ideia de que o atrito se impressiona mais com o castigo do que com a dor da consciência. que corre impetuosa e desordenada”. se ressente a língua portuguesa. regato. Como é que há de o francês enunciar a noção de riacho. mesmo porque todas as línguas conhecidas. ao Danúbio como ao Alfeu. – Depois de rio. regras e preceitos que a constituem – métodos. Aqui. com o desejo de sofrer penas que lhe resgatem a culpa cometida”. (e é mais por isso que também damos aqui este grupo): “Coisa feita com arte. – A compunção (define Bruns. embora mais estreito. e diz menos que ribeiro. artifício. perseguem o malvado impenitente até à sepultura”. artístico. e por extensão é toda porção insignificante de água corrente. riacho. 351 ARROIO. Temos. algumas considerações a propósito da escassez de vocábulos de que. ou as formas com que se designam as pequenas correntes de água. pois frequentemente nessa língua se emprega fleuve e rivière. ela subsiste pelo simples fato de haver métodos. não conseguiu fixar o valor próprio que o termo deve ter no português. mas que. O uso. temos rios que nem são ribeirões. O artifício é a arte manifestada no trabalho que analisamos. padecem do mesmo mal. rio. dor que não provém do receio do castigo. – Regato é “o mais diminuto dos cursos de água perene”. por menos que o latim rivus no-lo autorizasse. por exemplo.. como ao Sca- mandro. pois é a dor profunda (e amargurada) de ter ofendido a Deus. – Regueiro (ou regueira) é propriamente o sulco por onde se escoa a água do rego. ribeira. o designativo imediato pelo que exprime quanto às proporções da corrente de água é ribeira. no entanto. apenas menos amplo. o tempo diminui o pesar.. que o francês seja no caso mais rico. no mesmo caso. – So- bre arte e artifício escreve Bruns. – Torrente é “volume de água que se despenha. enquanto que são numerosos os diminutivos dessa palavra. 352 ARTE. para designação de rio.208 Rocha Pombo de todo o coração sobre todas as coisas. ribeirão. A contrição alcança-nos o perdão de Deus.” – Penitência é ao mesmo tempo “a compunção. artificial. Não nos parece. e que quase sempre seca no estio”. – Riacho é diminutivo de rio. os remorsos. – Córrego é “regueiro mais rápido.) “é uma contrição levada ao mais alto grau. navegável ou não”. Vejamos até que ponto há justeza nestes dois modos de exprimir-se. – Ribeiro é “pequena corrente de água que brota de nascente. – Atrição é quase o mesmo que contrição: é também termo de teologia. regueiro. o arrependimento do contrito. pode-se dizer talvez. mas o que é inegável é que a arte existe por si própria. portanto. – Faz Bruns. ou regato sem dizer petit ruisseau? – Rio é a corrente de água mais ou menos considerável que vai ter ao mar. no Distrito Federal. profundo e vasto do que são de ordinário os rios. Tanto aplicamos o vocábulo rio ao Amazonas. regras e preceitos que o artista há de observar para produzir. porém. que socorrer-nos da adjetivação quando é preciso marcar a grandeza dos rios. ribeiro. torrente. a reparação aquieta o arrependimento. – Ribeirão é propriamente “ribeiro grande”. porém. senão do verdadeiro amor divino. a não . que significa “abundante curso de água. ou a outro rio. coisa feita com artifício – são expressões vulgares que exprimem que o objeto de que se trata está feito com primor. – Arroio será de menores proporções que riacho. córrego. apertado entre margens altas”. e é raro encontrar ruisseau também sem atributivo. independentemente de qualquer manifestação. Consolemo-nos da penúria.

concordando com o substantivo feminino subentendido téchne ‘arte’. sem excluir nem exigir um trabalho material”. téchne. zographikós. que é um artífice. não impedem que a arte seja. mas não revelou talento. a lógica. a que os gregos chamavam cheironaxia. A gramática. a estatuária. logikós. etc. ermoglyphikós. os quais não se chamam artistas (pelo menos nem sempre. – Artes mecânicas. de carpinteiro. – Profissão é aquele modo de vida que cada um exerce publicamente. como a pintura. e eram cultivadas por homens livres. venha por síncope da grega areté. mister. Tanto que dizemos: – uma coisa foi feita com arte. pois abrangia toda disciplina em que se davam regras e preceitos. são adjetivos substantivados. todavia ela equivale a esta outra. escreve Bruns. pois se não houvesse a arte de a fazer ela não existiria”. a eloquência. em oposição às que só exerciam os escravos. – Sobre estes dois vocábu- los. poietikós. e pode ser mecânica ou de outro gênero. profissão – “Posto que a palavra latina ars. pois representam a variação feminina de grammatikós. o homem de uma ordem. 353 ARTE. – Artes liberais chamavam os antigos as que ornavam o espírito. um trabalho de engenho. Dizemos também (e aqui se marca muito claramente a distinção que é preciso notar entre os dois vocábulos): – neste trabalho. os boticários. (Roq. o jornaleiro. ou de certa classe: tais são os médicos. os advogados.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 209 serem empregados. Há.. dizer – que ela está feita com arte – é como um pleonasmo.) nem são homens de ofício propriamente. – A isso convém acrescentar: sob um ponto de vista mais elevado. ‘virtude’. entre artificial e natural uma antonímia que se não nota entre natural e artístico. a música. a arte. etc. que entre os gregos tinha mui lata significação. – Belas-artes são as que nos suscitam ao mesmo tempo sensações. a arquitetura. é o mesmo que ofício mecânico ou fabril. do latim ministerium. ofício. antigamente só exercidas por escravos. tais como a poesia. cuja execução depende principalmente do espírito do artista. de que nós fizemos arte. que a obra é artificial. além disso. mas não há arte: – querendo-se exprimir que o autor da obra empregou na execução dela alguma habilidade. assim como a pintura. a retórica. a estatuária. etc.: “Arte diz-se de qualquer conjunto de regras que têm por fim guiar na prática. tal é o de ferreiro. – Mister. e Berg. são as que dependem do trabalho das mãos. a dialética. o ofício faz o operário. etc. o artifício é a habilidade com que a obra foi executada. A arte faz o artífice. etc. a escultura. mecânico ou de mãos. a pintura. sentimentos e ideias agradáveis. a profissão. de tal modo que todas estas palavras.. o artista. um trabalho ou ocupação qualquer.. a profissão. mas não é um artista. ou banaysos téchne. O ofício requer um trabalho material. os cirurgiões. a poética. palavra mais usada antigamente do que hoje (mester). O artifício é que não pode existir sem manifestação: não há artifício onde nada há que o revele. que hoje temos como substantivos. o homem hábil. ciência. a arquitetura. ou nesta obra há algum artifício. rhetorikós.. Ciência diz-se de um conjunto de conhecimentos que dependem intrinsecamente de certos .. mas hoje se entendem principalmente aquelas em que predomina o espírito. – como dizemos: – uma coisa foi feita sem arte. que se propõem imitar a natureza na sua maior perfeição. eram artes. guiado por Bourg. dialektikós. a arte consiste no talento com que é feita uma obra. mas não se pode dizer que seja artística. tais são todos os ofícios fabris.) 354 ARTE. architektonikós. Conseguintemente dizemos – que uma coisa está feita com artifício – para exprimir que nela há primor de execução.

profissional. não inculcarlhes o valor prático. Há entre os dois termos. O proletário é. artífice. que grava no espírito de modo tal que a dúvida não pode subsistir ante a evidência das suas verdades. ou – operariado profissional. conhecimentos que. do conjunto de conhecimentos que formam um sistema. A gramática.. Ela funda as suas regras em princípios evidentes. dá-se. por exemplo. e efetivamente as regras da agrimensura fundam-se nos princípios da geometria. proletariado dos titulares. mestre. Esses princípios podem guiar na prática. do princípio de que é a arte que aplica. pois.210 Rocha Pombo princípios gerais. no entanto. O operário entende-se que tem aptidões especiais para o trabalho de que se ocupa. enquanto que . Mas ninguém se lembrou ainda de dizer – operariado intelectual. como um título ou tratamento. – Ár- operário. pois este o que pretende é demonstrar a verdade dos seus princípios. 355 ARTESÃO (ou artesano). norte. Mas a palavra mestre. porém. sendo o conjunto de vários conhecimentos. o operário que reivindica. – Operário e obreiro. os volumes. o trabalhador supõe-se que entende de todo e qualquer serviço para o qual não se exija um préstimo especial. portanto. é ciência”. “o que tem por ofício alguma arte mecânica”. por exemplo: os obreiros da fé. as superfícies. como qualquer outro profissional que se julga oprimido e angustiado na vida. o homem do trabalho que protesta e reclama. aplicadas. artista. e isso é quanto basta para se dar por exato o resultado da aplicação das regras demonstradas. pois só se diz do que está para além do círculo polar do norte. 356 ÁRTICO. mas essa utilidade nada importa para a ciência do geômetra. os obreiros da civilização. uma distinção que se não deve esquecer. confundem-se aplicados aos que vivem de algum trabalho manual. comumente. obreiro. – Proletário sugere ideia da condição social a que se sente reduzido ainda o operário. trabalhador. – Artista é “o que exerce uma arte liberal”. – A geometria é a ciência que se ocupa de medir as linhas. que demonstra. Dizemos. pode ter uma significação mais alta e mais extensiva. – Proletário é tanto o operário. – Oficial e mestre também se confundem. essa demonstração foi feita alhures. – Artífice é “o oficial mecânico que fez uma certa obra”. – Obreiro. A agrimensura é a arte de medir os campos... e a ciência que instrui. resulta que entre estes dois vocábulos existe a seguinte sinonímia: Arte dir-se-á do conjunto de regras que. da grande causa (e não operários). oficial. A filologia. formas portuguesas oriundas do mesmo original (do latim opera). qualquer que seja a forma que apresente. boreal. encerra ela as regras necessárias para proceder-se à exata avaliação de qualquer terreno. – Artesão é tico é adjetivo menos extensivo que setentrional. Mas essas regras são consideradas apenas quanto à sua utilidade no trabalho de determinar a área do campo.. A arte do agrimensor não tem por missão demonstrar a evidência das regras que a formam. – Profissional é todo aquele que exerce uma profissão. conduzem a um resultado previsto: ciência. é arte. tendo por fim subministrar umas tantas regras para a correta expressão do pensamento. – Operário confunde-se hoje ordinariamente com proletário. ao oficial que se tem por senhor do seu ofício. proletário. tendem principalmente a dotar a inteligência com a verdade. atribuindo os seus males à má organização da sociedade. Partindo. não como expressão da verdade. mesmo que possam guiar na prática. – Entre operário e trabalhador nota-se uma certa diferença. Tanto que dizemos já – proletariado intelectual. setentrional.

. “Vou desfazer os artifícios de que usou contra mim”. puro”. de enganar. 357 ARTICULAR. – Proferir é pronunciar em voz alta e com certa solenidade. . por mais clara que lhes seja a comunidade de estrutura. – F. Mas artifício aproxima-se mais de artefacto quando se aplica também a coisas que se fizeram com certa arte. por exemplo. mas talvez com in- confundir estes dois vocábulos. 359 ARTIFICIAL. só se aplica tratando-se de coisas não propriamente materiais ou concretas. fictício e fingido são formas oriundas do mesmo original (fingo. pronunciar. portanto. conforme já se viu. o que é inventado. o hemisfério onde se conta a latitude.. proferiu na Câmara um belo discurso. – Articular é “dizer a palavra destacando-lhe bem as sílabas”. nada se concebe. pois. articulou com receio algumas palavras. factício. ou devido a circunstâncias de momento”. 360 ARTIFÍCIO.. – Ficto quer dizer “fingido.. Aí mesmo. ere). o processo. fin- mos que significa “feito pela arte ou pela indústria do homem”. ao palácio de uma embaixada. melhor ainda do que este. proferir. – Boreal se aplica a tudo que fica para o norte do equador. Resta observar que artifício se emprega ainda no sentido translato: o que não se dá com o outro. – Falar é “comunicar-se com alguém por meio de palavra viva”. falso. Se ele me falar sobre isto. artificioso.” – Simulado exprime o mesmo que fingido. – Fictício é “o que só existe na imaginação. e dá. – Factício significa também “feito ou criado pelo homem. artefacto. – Fingido é “o que imita calculadamente a coisa verdadeira pela qual quer passar. simulado. – Artifício. para fazer alguma coisa (e. mas em regra com o intuito de iludir. isto é. pois só aplicamos o nome de artifícios a certa ordem de artefactos. Dizemos.. para conseguir um artefacto). Latitude norte (ou setentrional). em vez de setentrional. – Norte emprega-se para designar. legítimo. Zona ártica (oposta à antártica). em que não tenha entrado algum artifício – e que não seja. ou o conjunto de meios que se emprega para alcançar um resultado. é o meio. no entanto. Disse-me ela que virá hoje à tarde. é evidente a distinção que se nota entre os dois vocábulos. Ele pronunciou aquela palavra com certa intencionalidade. A tudo que é artificial nem sempre caberá o epíteto artificioso. fingido. aceito como tal”. – Pronunciar é “enunciar a palavra com clareza e precisão”. ou de pesca. – Dizer é “expressar por meio de palavras”. – Artificioso é também o que se fez com artifício. – Ficto. verdadeiro. Chama-se a um navio de guerra. Do mesmo modo que dizemos – artefactos de cerâmica. àqueles que sugerem a ideia de que foram feitos “para enganar”. como artificioso. – Artificial já vi- falar. – Artefacto é qualquer produto de trabalho mecânico. Hemisfério boreal (o que fica para cima do equador). ou de marcenaria – também dizemos – artifícios de caça. fictício. ficto. “território ficto” da respetiva nação (querendo significar que se consideram a embaixada e o navio de guerra como se fossem prolongamentos do território nacional). – Artificial é “todo trabalho feito com arte”: opõe-se a natural. América setentrional (a que fica a norte da meridional). F. artificial.. ideia do intento de “fazer acreditar que a coisa fingida é a coisa real”. – Não se poderiam gido. Este. porém. suposto. – Falso é “o que não é exato. no entanto. dizer. tento de que passe por natural e verdadeiro”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 211 setentrional quer apenas dizer – “que está para o lado do norte”. 358 ARTIFICIAL.

. – Assassinar é “matar a homem que se não pode defender. o homicídio voluntário. . – é uma prova o podermos dizer: “as brasas estão quase apagadas”. assassinatos em vez de assassínios? Bourg. ou abusando da sua força. seria preciso notar que a desinência .” Parece que não poderemos traduzir este vocábulo francês meurtre só por morte.. em direito seria preciso marcar talvez uma certa diferença entre os dois.) 361 ÁSCUA. est un meurtre. e matar com perfídia e violência. matar. morticínio. – Degolar é “matar cortando o pescoço”. trucidar. adaptado do alemão matsken “degolar”) é “matar em massa gente sem defesa” (Besch. – De que entre estas duas palavras não existe sinonímia perfeita – diz Bruns. homicide. Na guerra. ou à traição. se nomme assassinat”. degolar. a morte. para exprimir “brilho ou fulgor”. será homicídio. meurtre. brasa. isto é. no sentido que esta palavra tem aqui.. capitulado nos códigos. assassínios em massa. portanto. – Matar enuncia a ideia geral de “tirar a vida a um ser vivo”. com a mesma propriedade. Só é crime. degolar equivale quase. homicídio. pois se o fosse. ou de que grosseiro artifício se valeu para obter aquilo.io de assassínio marca simplesmente forma substantival. assassinato. e abusando o matador da sua força.. Entre assassínio e assassinato não fazem os léxicos distinção alguma. 363 ASSASSINO. Conclui-se ao menos de tudo que assassínio designa o ato em si mesmo.. mata o seu semelhante. morte. Nem será morte se o que o fez não usou de violência. – Assassino é o que.). cometeu assassínio? Sob um ponto de vista filológico. seria pleonasmo o dizer-se – “brasa viva”. com injustiça e crueldade”. não é assassinato. no entanto. São os mesmos autores indicados que definem: “Le meurtre. e que assassinato designa o próprio crime. que F. O homicídio.” – seria possível empregar. ou das vantagens que tem sobre a vítima”. o meurtre. commis avec préméditation ou guet-apens.. à traição. tirar o vigor”. e Berg. “ferro em brasa”: expressões que parecem autorizar-nos a empregar o termo brasa para exprimir calor. no seu artigo sobre assassinat. Nem sempre. dizem que “o homicídio é o fato de dar a morte a outrem. ou melhor. portanto. o “ato de matar”. é o termo próprio para exprimir – trucidar. em toda aquela região desolada. – Áscua implica. Diremos. e não – “as áscuas estão quase apagadas”. a morte de criatura humana feita com a responsabilidade do que matou. commis volontairement. como vemos algures. expressão que é muito trivial. Num país onde fosse permitido assassinar. cometido voluntariamente. massacrar. assassínio. matança. 362 ASSASSINAR. isto é. e áscua. Neste exemplo: “Os bandidos foram cometendo. Só figuradamente se emprega este verbo para significar – “exaurir. O homicídio involuntário é uma desgraça e não um crime”.. massacrar. a ação de matar com premeditação e abuso de força. praticou morte envenenando alguém? E não seria o caso de dizermos então que F. Dizem-nos agora os citados autores: “L’homicide. infração de lei..” (Em nenhum destes casos caberia artefacto. Logo. homicida. enquanto a terminação . decerto que é morte. mata- dor. voluntária ou involuntariamente. a ideia de ser completa a incandescência: ideia que não é inerente à palavra brasa. E.212 Rocha Pombo “É fácil de ver de que rude.. Também se diz – “brilhar como uma áscua de oiro”. fazer cessar. cometido sem premeditação.ato em assassinato sugere a ideia de crime ou delito. por exemplo. – Massacrar (do francês massacrer. no entanto. – Trucidar é “matar com excessos de barbaridade.

cercando-a por vários. com suficiente. Não se diz que um bom empregado é frequente. Bastaria notar que se diz: “fechar o sítio”.. desde que se lhes encontra mais constante e mais repetido que o que é frequente. O que é assíduo indica mais empenho. pois não só dá ideia da duração que podem ter as operações de guerra. sítio. – Sítio. E. suficiente. não dá o cerco ideia alguma da coisa cercada: pode ser uma grande cidade. são frequentes as que se fazem muitas vezes. 364 ASSAZ. ou à vista mesmo de uma praça. Além disso. e incapazes de defender-se”. porém. Não se entende a mesma coisa ao dizer: “Tenho o suficiente para a viagem” – revelando. porém. Podemos dizer – matança de bois ou de ratos. sem sugerir. dir-se-á do livro que não tem pretensões. portanto. quando menos em grande número de casos. – Morte é o que praticou o matador. um forte. – Matança é “morte de muita gente. não é simplesmente assédio: é mais próximo de cerco. no propósito de rendê-la”. ou de grande número de animais”. ideia necessária de cerco propriamente. Besch. ou mesmo por todos os lados. um bosque. ameaçando-a. esta maneira de se exprimir. O cerco pode ser de curta duração. pode frequentemente confundir-se com bastante. sendo puramente adverbial. São assíduas as visitas que se repetem com insistência e com certa regularidade. assédio e sítio não se diferençariam senão pela forma. ou de inocentes. Assédio (de ad + sedes. O assédio poderia consistir apenas em manobras a certa distância. “Livro assaz despretensioso”. ou de assideo = ad + sedeo) é a operação de acampar um exército hostilmente junto ou diante de uma cidade. – É matador “aquele que mata. um posto militar.). – Morticínio é “matança de criaturas humanas em grande número. – “Estes três vocábulos” – diz Bruns. bastante é mais que suficiente. Não devemos dizer. cerco. . frequente. nem “apertar o assédio”. não seria possível. “apertar o sítio”. bastante. seja irracional”. uma aldeia. seja homem. – Bastante indica maior quantidade que suficiente. e – matança de mulheres. – Quando se diz: “Tenho o bastante para fazer esta viagem” – entende-se que não há necessidade de esquivar-se a gastos supérfluos. que não se tem dinheiro de sobra. e não – “fechar o assédio”. menos vezes. – Sítio sugere ideia da importância da praça sitiada. mas assíduo (Bruns. no entanto.) aplica-se mais propriamente a operações militares destinadas a trancar um porto. – “assim dispostos apresentam a sua gradação descendente”: assaz é mais que bastante. 366 ASSÍDUO. “F. impedindo que nele entre ou dele saia embarcação alguma. ou mesmo uma casa. – Cerco é termo genérico e designa aqui a operação de “instalar forças militares em torno de uma praça.. pondo-a em perigo crescente.” diz claramente que o indivíduo do que se trata não é crédulo. ou de uma fortaleza. morticínio de bois. e tendo muito de comum as duas preposições ad e ob. como ainda a ideia do aperto em que se põe a praça sitiada. onde se tenha metido o inimigo. bloqueio. mais vivo intento que o que é frequente. no entanto. Este vocábulo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 213 o assassínio não figuraria nas leis penais: não seria propriamente assassinato. – O que é assíduo é só pela respetiva estrutura. – Sítio (de obsidium formado de obsideo = ob + sedeo) deveria ter o mesmo valor de assédio. sem mais ideia alguma acessória. e o sítio supõe-se que será longo. – A julgar no fundo o mesmo radical. confundir os dois vocábulos. – Bloqueio (do alemão blockhaus “pequeno forte de madeira”. é assaz incrédulo para. 365 ASSÉDIO.

uma declaração. con- ainda que não faça propriamente parte dela. – Subscre- ver é simplesmente “pôr o nome por baixo de algum escrito”. Assina-se uma carta. rima. ou igualdade de sons”. um contrato. 370 ASTROLOGIA. e designa a verdadeira ciência dos astros. busca e acha aplauso entre o néscio vulgo. como. do curso e movimento dos astros. porém. – Assonância significa “semelhança de sons. mas tudo quanto a ela é acessório. – Duas palavras gregas de origem – diz Roq.214 Rocha Pombo 367 ASSINAR. registro. rimado. ou numa reunião em que se tomaram deliberações”. – Consonância diz propriamente “sons que se correspondem. objeto. matéria. menos precisa. termo. Dizem-se consoantes os versos de rima com pouca propriedade chamada literal. consonância. diz-nos o que sabe. senão de ritmo. e não só essa coisa. por exemplo. assento. o objeto é o alcance que pode ter o assunto (Bruns. e logo “discurso”. – formadas. – Assinar designa o ato de “pôr a própria pessoa o seu nome por baixo de algum escrito. como. ou em credo e enredo. a primeira de astér “astro”.). O astrólogo conta o que imagina. para que se saiba que é ela quem escreve”. isto é. – Firmar é “assinar documento para que se torne autêntico”. uma felicitação coletiva. – Matéria é palavra de maior extensão que assunto.. aquilo de que nos ocupamos atualmente. medo e preto. Parecem significar ambas a ciência dos astros e das leis que lhes regem os movimentos. A matéria de que o historiador se ocupa é a história.. por exemplo: fala e casa. do aspeto. ou julga sem fundamento científico. valendo-se o astrólogo. A matéria abrange todo o gênero a que pertence a coisa de que se trata. O uso. 368 ASSONÂNCIA. pôs entre elas uma notável diferença. – Rima é a “perfeita igualdade de som e de acento no fim de dois ou mais versos”. feita das mesmas letras mas de sons ou acentos nem sempre iguais. de resolução coletiva que foi tornada. e chamava-se comumente astrologia judiciária. – Assunto é o ponto particular e determinado de que se trata no discurso ou no livro.. E como nem todos os versos carecem de rima. e a segunda. etc. e por isso mesmo mais vaga. Mesmo um outro pode subscrever por nós. O assunto de história tratado por Arriaga é a revolução de 1820. Subscreve-se uma lista. versos que terminassem em besta e lesta. ou para que se tenha mais tarde testemunho autêntico da verdade . posição. isto é – que terminam por palavras “cujas desinências têm da sílaba predominante para o fim as mesmas vogais. um artigo de imprensa. de astér e nómos “lei. Entende-se por astrologia a suposta arte de predizer futuros acontecimentos. astronomia. auto. O assunto é o ponto em si. em poética dizem-se assoantes os versos que em vez de rima têm apenas assonância. o astrônomo funda-se em cálculos que não falham. que consiste no estudo e conhecimento do céu e dos fenômenos celestes. – Auto é “o registro solene de cerimônia que se celebrou. para isto. regra”. – Astronomia é termo mais moderno. – Assunto e objeto também se distinguem. firmar. só se chamam rimados os que a têm. e por isso merece a estima dos sábios. harmonia imperfeita”. assoante. “a narração por escrito do que se passa em uma assembleia. Firma-se uma letra. – Ata é soante. influxo dos astros. mas diferentes consoantes”. 369 ASSUNTO. 371 ATA. subscrever. para produzir efeitos jurídicos.

é antiquado: equivale a auto. desde que impiedade encerra a ideia de ufania contra Deus e os homens. – Descrente é “o que não crê com firmeza. – Esquife diferença-se de tumba em não ter tampa. 372 ATAÚDE. como esta. – Irreligioso diz apenas “que não tem religião alguma”.) – Assento. – Sacrílego é o que atenta contra coisa sagrada. o cético. escrita e autenticada pelo respetivo escrivão e testemunhas”. ou a súmula de um sucesso. no entanto. incrédulo (incréu). – Registro é o “ato de se lançar em livro próprio a cópia ou o extrato de um documento. pagão. toma-se por termo uma confissão ou um testamento”. – Féretro é termo genérico que pode substituir qualquer dos outros deste grupo. como – “féretro humilde”. e no sentido restrito em que é tomado neste grupo. profano. em confiar”. “féretro pobre”. infiel. – Ímpio é – diz Lacerda – “o que não tem piedade. reduz-se a auto uma deliberação. herege (herético). féretro. – Segundo Bruns. ímpio. Entre cético e incrédulo é preciso notar a seguinte distinção: o incrédulo não crê porque não cogita de saber a verdade. – Tumba. – Infiel é palavra de significação muito restrita. na acepção que tem aqui. esquife. (Aul. ou superioridade de espírito. que se desiludiu de crer”. amor. – ataúde e caixão são sinônimos perfeitos. na acepção em que aqui consideramos este vocábulo. O ímpio é quase um celerado. judiciária ou administrativa. ou de um papel importante. cético. tumba. não só é termo mais escolhido. O primeiro. veneração.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 215 sobre o que se fez ou resolveu”. que detesta Deus e a humanidade. será verdadeira a inversa. faz-se assento de um acordo ou de um compromisso. – Termo é convizinho de assento: é o “auto conciso de um ajuste. e theos “deus”) é o homem que não crê na existência de Deus. designa “o que não crê nas verdades que a religião ensina ou que a Igreja manda crer”. e por isso despreza o culto público e o objeto desse mesmo culto”.). – Incrédulo é vocábulo de significação mais extensa: designa “o que não crê facilmente”. heterodoxo. ou prova escrita de contrato do que propriamente – registro autêntico de resolução que se tomou”. – Ateu (do grego a privativo. gentio (gentil). des- crido. Significa mais – “contrato escrito. sacrílego. irreligioso. leigo.. porém. Tanto dizemos – “féretro sumptuoso”. porque a procurou inutilmente. O incrédulo zomba da religião. designa a maca em que o cadáver é transportado até a beira da sepultura.. – Cético é o que não crê senão quando sente a verdade em plena evidência. O cético argumenta contra as grandes verdades da religião. idólatra. caixão. Mais restritamente – “é a narração circunstanciada de qualquer ato. apenas. 373 ATEU. para que fique lembrança dele” (Aul. e. por extensão. é sacrílego: nem sempre. e que se rebela contra Deus. que afeta uma falsa independência moral. descrente. em regra. contra tudo que merece grande respeito. de uma sessão do Congresso. que não sente pelo semelhante senão ódio e desprezo. pois descrido significa – “que não crê decisivamente. sem a solenidade deste. ou de um clube. e muitas vezes mostra-se amargurado de não aceitá-las porque lhe parecem contrárias à razão humana. e da qual é tirado para se enterrar. – Incréu é forma contrata de incrédulo. O ímpio. e quase sempre é um leviano e fútil. – Descrido enuncia de modo mais completo a noção de descrente: é como se se dissesse – um descrente definitivo. mas ainda é certo que se não aplica geralmente a caixão pobre e desguarnecido. que duvida ou vacila em crer. ou diligência. con- . ordena-se o registro de um fato.

Senhor. III. como foi ordenado no ano 310. e de outras falsas divindades.: “Assim como os gregos e os romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não fossem eles próprios. Pelo que. como também foram bárbaros para os romanos todos os povos que se encontravam fora de Roma. Pretendem alguns sábios que os gentios foram assim chamados porque não têm outra lei mais que a natural e as que a si mesmos se impõem. paganus era oposto a miles. continuaram a adorar os falsos deuses. como lhes chamou d. por oposição aos judeus e aos Cristãos. e obedeceram à sua vocação. gentes. por- que. mas não eram pagãos. – que tem opinião diferente dos demais sectários (heteros “outro” + doxa “opinião”). A Igreja nascente não falava senão de gentios. ou um culto de falsos deuses. como diz S. ou porque preferiram deixar o serviço a receber o batismo.. propriamente falando. ainda se conservou a idolatria nas aldeias (pagi). os pagãos são gentios. onde exerciam sua religião. Cita Ainsworth a favor desta opinião a passagem seguinte: Miles. isto é. adoradores de um só Deus. que têm uma lei positiva e uma religião revelada que são obrigados a seguir. Os gentios foram chamados à fé. de Xaca. mas nem todos os gentios são pagãos. os sectários de Mafoma. “o soldado. É antôni- . segundo observa Fleury. porque os imperadores cristãos obrigaram por seus editos aos adoradores de falsos deuses a retirar-se para as aldeias ou lugares de pouca conta. etc. o nome de pagãos foi dado aos infiéis que. E acrescenta: Hinc et fortasse christiani gentes dixere paganos. chamaram-se pagãos (pagani) os povos que ficaram infiéis. Ut portet nomen meum coram gentibus (IX. tivesse feito testamento”. e a de pagãos distingue aqueles que observam cegamente. Afonso Henriques. de uma doutrina – que não se submete à autoridade que a regula. Confúcio e Sócrates. se quando era ainda paisano. E não a mim que creio o que podeis. ou fosse. são pagãos. ou porque. uma religião mitológica. Depois do estabelecimento do Cristianismo. Os adoradores de Júpiter. que refutavam a pluralidade dos deuses. Paulo foi o apóstolo das gentes. porque não queriam militar debaixo das bandeiras de Cristo”. como se lê nos Atos dos Apóstolos. depois de convertidas ao Cristianismo as vilas e cidades. aos infiéis. de uma religião. quod Christi vexillis non militarent = “daqui veio talvez chamarem os Cristãos pagãos aos gentios. dos gentios. – Heterodoxo se diz do membro de uma igreja. e este mesmo nome deram depois aos Cristãos”. (Lus. gentios. na visão do campo de Ourique Aos infiéis. ou. 45) – Idólatra designa propriamente “o que adora ídolos”. e com fanatismo. nações. de Brama. S. eram gentios. contanto que observassem a lei natural e se abstivessem de sangue. Jerônimo. de Fo. É termo que se pode aplicar a todos os que desconhecem a religião cristã e celebram cultos bárbaros. ou gentios todos os povos que não eram da sua religião. e aos quais se concedia a permissão de habitar a Terra Santa. A palavra gentios não designa senão as pessoas que não creem na religião revelada. como crê Barônio. porque os infiéis se recusaram a alistar-se na milícia de Jesus Cristo. assim também os judeus chamavam goim. Observa Fleury que entre estes gentios incircuncisos alguns havia que adoravam o verdadeiro Deus. Sobre esta e a palavra pagão escreve Roq. – Gentio era “toda a gente que ficava fora da nossa grei”.216 Rocha Pombo siderada neste grupo: é o qualificativo com que na Idade Média os Cristãos designavam os maometanos. fecerit testamentum. entre os latinos. como entre nós o é paisano a soldado ou militar. os pagãos persistiram em sua idolatria. Seja como for. 15). ou infiéis. são. si dum paganus erat. etc. que se chamavam pagus. retirados das cidades.

e que consiste em que a reflexão deduz consequências. – Na primeira. Se a reflexão. ou de executar alguma tarefa”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 217 mo de ortodoxo. cogitação. Como exemplos da segunda. tentativa. violação. que não cessa de agir enquanto não consegue o seu fim”. aplicação. culpa. – Desvelo é o “cuidado e vigilância contínua de quem se empenha com afinco em realizar alguma coisa. para os crentes. uma atenção que se não deixa iludir. intensa aplicação”. apercepção. Antes de empreender um negócio importante. não meditar. – Atenção é o ato pelo qual o nosso espírito fixa o seu poder sobre algum objeto externo. Na segunda acepção. A paixão do Redentor é um assunto de meditação. a honra. – Solicitude é a “atenção. – Contensão significa “profundo esforço espiritual. pe- cado. necessitamos refletir. as nossas faculdades se fixam sobre objetos internos. em vez de num objeto externo. Muitas vezes comete-se delito sem infringir as leis . de extremo cuidado e grave aplicação com que se estuda e trata de resolver alguma alta questão. seja por ser o ato praticado contra quem ou contra aquilo que é geralmente respeitado. Como exemplo da primeira acepção. – Dedicação é quase solicitude e desvelo: é “a boa vontade e empenho com que se cuida de cumprir um dever.. exprime-se que o ato criminoso foi planeado e começado a perpetrar. porém. José. dedicação. falta. – atentado tem duas acepções muito distintas. não se lhe pode atribuir a gravidade do crime. – Segundo Bruns. – Herege (ou herético) é o que levou a heterodoxia ao extremo de discutir com certa paixão e sustentar graves erros em ponto de fé. cuidado. que não pertence ao clero. 374 ATENÇÃO. reflexão. – Cuidado é a “atenção zelosa. – Crime é o ato pelo qual a vida. em muitos casos. Não obstante. contensão. – Cogitação enuncia “o ato ou a operação de pensar sobre alguma coisa”. seja porque revelem instintos depravados no criminoso. grande. esse ato chamase reflexão. solicitude. apontaremos – o atentado que alguns nobres. transgressão. desvelo. não de reflexão. infração. não chegando. quebrantamento. a consumar-se por circunstâncias independentes da vontade do autor. – Ponderação sugere ideia de atenção mais profunda. – os frequentes atentados dos governos contra as liberdades públicas. chama-se aplicação. Há crimes graves. – Leigo e profano distinguem apenas o que nada tem com a religião. enquanto que a meditação se exerce sobre fatos cujas consequências se conhecem antecipadamente. – Meditação. quebra. porém. o cuidado. vigilância. a propriedade. citaremos – o atentado contra Carnot. ponde- ração. é “uma espécie de reflexão prolongada e persistente”. – Apercepção é a “capacidade própria da inteligência para conceber ideia das coisas reais”. instigados pelos Jesuítas. 375 ATENTADO. uma atividade que está sempre alerta (vígil “que vela”). como bem define Bruns. praticaram nas terras da Boa-Hora para assassinarem el-rei D. junta à noção de leigo a de ímpio e sacrílego. há entre os dois vocábulos uma diferença notável. ou de efetuar negócio de grande importância. ou que não diz respeito a crença nenhuma. os direitos ou os interesses alheios são atacados ou aniquilados. – Delito é uma infração à lei. e crimes leves. crime. ou a atenção é demorada e persistente. delito. Se. – Vigilância é um cuidado contínuo. meditação. – Profano. a diligência levados quase a um verdadeira inquietação por aquilo que nos interessa ou de que devemos dar contas”. indica-se com esta palavra um desses crimes que causam indignação. indefectível com que se faz alguma coisa”.

mas quem comete violação tem sempre culpa. que opera os efeitos que lhe são naturais. portanto. verbo latino oriundo de vis “força”) sem cometer violência. O negociante que não pagou os impostos devidos cometeu infração das leis fiscais. Tudo que exerce a ação que lhe é própria. – Falta = “omissão menos grave do que culpa”. e que exprime um sentimento. aquele que pela sua gravidade como que mata as almas. também. diligente. Devemos. pois esta resulta da consciência com que a infração foi cometida. isto é. mesmo que não mate ninguém. zeloso. não uma tentativa. – Ati- tude. Particularmente aplicado a . moirejante. e nunca – violação involuntária. – Violação distingue-se dos dois precedentes em encerrar a ideia da força. – Gesto é um movimento do corpo todo. infringem-se as leis morais sem cometer delito. aludir à apreciação alheia. da lei. do propósito com que a lei é infringida.218 Rocha Pombo morais. nos revela as disposições. ansioso. – dizemos da direção que se dá aos membros. ou se as circunstâncias da tentativa são excep- cionalmente notáveis. e nisso difere também da atitude. mata ou tenta ferir ou matar o seu semelhante. parecendo que o segundo é muito mais forte. que pode ser facilmente perdoado. – Infração é o ato de “infringir. Assim dizemos – atitude serena ou ameaçadora. e frequentemente. é ativo. O gesto é rápido. postura. – Tentativa é propriamente um atentado. quem fere. Quem erra um golpe ou um tiro de bala contra uma pessoa comete uma tentativa de morte. – Posição – referindo-nos somente ao que desta palavra é relativo às pessoas. e aquele. a postura das mãos. à cabeça. – Postura difere de atitude em revelar este o sentimento próprio. de quebrar a lei. uma paixão. 377 ATIVO. evitar frases como estas: a postura da cabeça. como comete infração das leis penais quem furta uma carteira. O crime quase sempre imprime baldão em quem o comete. 376 ATITUDE. – Atividade é antônimo de inércia. mais ou menos grave. Quem comete uma infração pode não ter culpa. apressurado. ou suplicante. – Transgressão é propriamente “o ato de fazer alguma coisa passando por cima das leis”. Dizemos – infração involuntária. não. A autoridade que dá uma ordem absurda comete transgressão. ou o preceito moral”. solíci- to. na pessoa.: frases nas quais posição ou gesto seriam o termo adequado. ao busto. desvelado. e por extensão. A postura de uma pessoa é decente conforme os olhos que a veem. afadigado. e o pecado venial – o que não importa em perda da graça. – Culpa = “ato ou omissão menos grave do que crime”. postura. etc. e geralmente aplica-se este termo só a casos de pouca importância. atitude benigna. experto. é “o que. O celerado que lança uma bomba explosiva sobre uma multidão. solerte. – Quebra. ou só da cabeça ou dos membros. posição. afanoso. das leis morais. mas que não chegou a consumar-se por alguma circunstância alheia à vontade do autor. Se a pessoa alvejada tem uma alta representação social. os sentimentos. cuidadoso. ou a prática de um crime ou de um delito que se começou. passa esta a ser um atentado. que na atualidade a dominam”. gesto. ou indiferente. É preciso não esquecer que atitude e postura se dizem do conjunto do corpo. Não é possível violar (de violo. Um braço estendido horizontalmente não pode permanecer muito tempo nessa posição. Há o pecado mortal. comete um atentado. Quem deseja mal ao próximo comete pecado. não de cada uma das suas partes. – Pecado é infração da lei religiosa. pressuroso. neste grupo. quebrantamento = “ato de infringir lei ou preceito”. o delito.

– Diligente será o homem que. E neste sentido depreciativo aproxima-se mais de ladino.” – Desvelado é mais que cuidadoso: é “aquele que não descansa antes de haver cumprido a sua tarefa”. “prudente com astúcia”. – Ansioso é o que se não satisfaz com ser apenas solícito e desvelado. diz Alv.. solícito. e que os seus esforços são regulados cuidadosamente pelo esmero com que procura dar conta da sua tarefa. – Pressuroso = ativo. mas chega a inquietar-se. Na acepção figurada que lhe dá lugar neste grupo dir-se-ia. ou das causas. Por isso o homem ativo nem sempre conseguirá fazer o que deseja. esse medicamento ativo é um remédio eficaz. Nem sempre o homem ativo pode ser tido como diligente. Está ansioso aquele que procura chegar ao termo de uma coisa. violento. afadigado como um moiro”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 219 faculdades do homem. é cuidadoso. Pas. que é pronto nos misteres de que se ocupa.. a afligir-se por ver cumprida a sua tarefa. perdendo-se ou dispersando-se inutilmente. que de ativo e diligente. esforçado na sua lida”. porém. – Solícito diz “cuidadoso e diligente. mas de um estado anormal em que ela se encontra. que é expedito em adiantar os seus negócios.. que exerce. – Enérgico diz propriamente “que opera com grande atividade. – Solerte é. mas um discurso eficaz previne-a e combate-a. ou “enquanto”. em defender os interesses que lhe estão confiados”. – Moirejante = “esforçado. eficaz. impaciente de cumprir o seu dever ou de executar algum serviço. – Experto é tomado frequentemente a má parte. tem uma pronta e clara inteligência das coisas. – Zeloso é o que. convizinho desses dois: experto é o “homem que. e se a sua ação sobre ela é de natureza que afugenta a doença. Nem sempre a esperteza é uma virtude de que nos possamos desvanecer: antes pelo contrário. e obra com energia em toda a economia animal. – Apressurado = “que tem pressa em fazer. e a viveza com que se empregam os meios para obter um fim. A natureza poderosa dos meios. segundo Lac. perícia. – Cuidadoso se diz daquele “que desempenha com cuidado o seu cargo.. vivo interesse nos encargos que lhe são confiados. dizemos que é ativo aquele que se move na vida com desembaraço. afanoso. e o caráter do que é ativo. “mostra escrúpulo em cuidar da sua tarefa. Solerte diplomata. pois este se supõe sempre que exerce a sua atividade com muito bom senso. Um discurso ativo surpreende e não deixa tempo para a dúvida. astuto. – Quanto aos dois primeiros.. que é de vivo engenho e de fácil penetração”. Caixeiro solerte. em suma. a sua força e virtude constituem a eficácia. enérgico. pois a atividade pode não ser ponderada e sair da justa medida. convencendo e persuadindo”. – Afadigado = “ansioso no trabalho. constituem a atividade. com atividade as suas aptidões. Um medicamento ativo produz prontamente o seu efeito. sagaz. ou com que obram as causas. que “ansioso não se diz de uma qualidade da pessoa. mostra zelo.: “A diligência. forte. além de ativo. que se exerce com muita força”. ou quem se impacienta por ver que ela tarda a chegar”. vigilante. ou trata bem da sua tarefa ou de um negócio que lhe compete. se por sua virtude combate com segurança os efeitos do mal. O mesmo não se deve entender quanto ao diligente. e o caráter do que é eficaz. empenhado com grande esforço. impaciente por acabar. – Afanoso = “ativo. Observa com razão Bruns. esmerado. além de ativo e diligente. além de ser ativo. 378 ATIVO. – Violento é o que se exerce . assíduo em dar conta de seu mister ou de algum encargo”. cansado mais do que talvez exigiria a tarefa”. portanto.. como define Aul. quase precipitado”. “não consegue o que pretende”.

é ator enquanto está no palco. propriedade. diferençam-se na linguagem vulgar: 1. pertencendo exclusivamente à pessoa ou coisa. presentemente. mas porque o uso assim o tem estabelecido: Rafael foi artista. 381 ATRIBUTO. Fortes razões.º) em considerar-se o atributo como existente. – Predicado é o que se exige na pessoa ou coisa para ser tida como válida ou verdadeira. ou por mero passatempo. cômico. atual. 2. imputar.) 382 ATUALMENTE. se o é como representante das personagens que entram na comédia. Cômico ou comediante é aquele que tem a profissão de ser ator no teatro: cômico. se age prontamente. predicado. presente. que facilitaram a conquista. e que é violento se abate o organismo e pode até pôr em risco o doente. – Propriedade é aquilo que. As excelentes qualidades de uma pessoa”. Atual significa verbos escreveu Lacerda. e artista se intitula o meu sapateiro. acidental. claros. próprio. Papel de boa qualidade. qua- bre estes quatro vocábulos escreve Bruns. e o predicado. com força mais que normal”. diante de nós. – Sobre estes dois lidade.: “Quem representa no teatro uma personagem qualquer. essencial. estando na essência da pessoa ou da coisa. hoje. que parece muito estreita a sinonímia que existe entre os dois primeiros advérbios deste grupo. – Qualidade é o que faz com que uma coisa seja tal como se diz. imputa-se . alguma instituição.” 380 ATRIBUIR. ação. 379 ATOR. não porque a língua o autorize.º) em o atributo constituir estado. cessa de o ser logo que se retira para entre bastidores. e o predicado como exigido. e de modo áspero e sem atenção a conveniências que normalmente se guardariam. se é considerado como pago para fazer rir o público. lhe pertence tão indiscutivelmente que a pessoa ou coisa deixaria de ser o que é se lhe faltasse tal atributo. – Atributo “se diz daquilo que. e deveria imputar-se isso aos maus governos. Atribuir toma-se indiferentemente em boa ou má parte. dando-o como autor dela. artista. O que é ou está presente acha-se aqui mesmo. modo de ser. comediante. no entanto. constituindo uma das suas virtudes. – So- um fato à pessoa que julgamos ser causa mais ou menos remota. provas. impetuosa. a torna distinta e inconfundível. (Bruns. Predicado e atributo. repetindo Roquete: “Exprimem ambos a ação de referir a alguém uma coisa. argumentos. e – imputar é atribuir-lha aplicando-lhe logo o mérito ou o demérito da ação. faça-o por profissão. – Nota Laf. Um discurso enérgico é feito em termos fortes. “A diferença” – diz ele – “deve ser a mesma que se nota entre presente e atual. imputar toma-se quase sempre em mau sentido”. rápida. que em lógica são sinônimos perfeitos.. Remédio forte. A tolerância é um dos predicados do espírito livre.. agora. A eternidade é um dos atributos de Deus. contingente. Dizemos que um remédio é enérgico se ele é mais do que ativo. por simples asserção. comediante. A propriedade do ímã é atrair o ferro. alguma coisa. um discurso violento ataca sempre alguém. incisivos.220 Rocha Pombo com atividade anormal e brusca. direta ou indireta dele. Atribui-se a ruína dos impérios aos conquistadores. em que – atribuir é dar alguém por autor de alguma coisa vagamente. em presença (prœ). – Forte = “que atua com muita força. diferençam-se. Artista é um termo muito extensivo. que opera com energia demasiada. Atribui-se uma obra ao que se crê ser autor dela.

e marca alguma coisa em oposição com o que é ideal. Quem diz hoje refere-se a fato em oposição a fato ocorrido ontem. Mas disse d’Alembert com perfeita justeza: “Os acadêmicos. segundo a linguagem da antiga metafísica.). porque estes .). maintenant il est pauvre”. “Opõese o presente aos séculos passados” (Volt.). – mas à fase da vida em que nos achamos. Dizemos: “Felizmente hoje não me deixo afrontar daquelas abusões. Seja como for. – Hoje. possível ou futuro. influir. de sorte que o que é atual não está nem em potência. nem limitando o que afirmamos ao próprio dia atual – hoje. “Opõe-se o estado presente de uma pessoa a suas calamidades passadas” (Vauv. de um povo. “o rei que reina atualmente” – empregar-se-á de preferência quando se quiser sugerir alguma relação com os reis que hão de vir depois dele. em oposição a outra fase passada. estes três verbos. sob diversos aspetos – costumes. nem em ideia. portanto. e não é difícil apanhar a natureza e extensão dessa relação em todos os do grupo. operar (obrar). ou há poucos dias. presentemente de maneira absoluta.. Quem diz presentemente não faz decerto referência em oposição a fato que tivesse sucedido ontem. nem atuar. Só mesmo dando-lhe muita latitude é que admitimos. no entanto. dizemos que atua. O francês. que hoje marque também ideia muito semelhante a presentemente. agir. Quando produz sobre alguma coisa o efeito que lhe é próprio. – Quando uma coisa (ou mesmo uma pessoa) exerce ativamente a sua força (física ou moral) sobre outra.. ou em referência aos reis seus predecessores. como os dois advérbios precedentes. Ilustra o autor essas definições com profusão de exemplos extraídos de clássicos. dizemos que influi. o tempo em que se está vivendo. que é a forma vernácula do mesmo verbo latino operare). modas. portanto. às épocas precedentes. nem por vir em geral”. nesta ou a esta hora” associa a noção mais vaga de “nos ou os dias que correm.. 383 ATUAR. como a época atual. “Nossa natureza está presentemente corrompida” (Mol. etc. Um sucesso pode influir sobre coisas futuras (não operar. – Presente refere-se sem dúvida tanto ao futuro como ao passado. parece. exatamente como em português.). dá com precisão admirável o nosso agora. espírito. tanto atuais como futuros”. mas a fato passado há muito tempo. atualmente é relativo. ou da humanidade.” É preciso notar que hoje. atual caracteriza-se unicamente por sugerir uma ideia de realidade em oposição ao que poderá ou poderia ser. e nem por isso fica livre da extensão que é admissível. “Ele foi rico em outros tempos. “Il était riche autrefois. e querendo marcar uma certa relação com o passado. e agora em vez de hoje. Em suma: hoje é tanto o dia atual propriamente. no ou o tempo que não é o passado de que se falava”. ser ainda mais próprio para o passado. “emprega-se sobretudo para opor uma certa época da vida de um homem. E quando exerce influxo (ou influência) sobre alguma coisa. hipotético. “O rei que reina presentemente” – dir-se-á de maneira absoluta.” – referindo-nos não a abusões que tivéssemos precisamente ontem. nem em expectativa. – Agora (do latim hac hora) é também advérbio que à noção precisa de “neste ou a este momento. Não se confundem. marca relação com outro tempo. “Nós nos preparamos atualmente para reinar um dia com os santos no céu” (Bourd. Emprega-se. no entanto. dizemos que opera (ou obra. segundo o mesmo Laf. com o seu maintenant (main + tenant). agora está pobre.” É evidente que tanto numa como noutra língua esses advérbios estão postos – maintenant em lugar de aujourd’hui.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 221 ‘que está em ato (actu) e não em potência (potentiâ)’.

esplêndido. Aguentam-se grosserias de um biltre. – Segundo Roq. O soberano olhar da princesa. to- lerar.222 Rocha Pombo enunciam ação que depende de atividade e quase de esforço consciente). ou que se vê na pobreza. – Soberano é o que está no mais alto grau de poder. – Augusto é o que é tão grande. ostentoso. A luz forte perturba a vista (não – conturba). pontifical. ou: “é possível que tenha de operar ainda alguma transformação política imprevista”. contur- distinguem pela causa que produz a perturbação. suportar. atordoar. – Perturbar é interverter. mas sugere mais particularmente a ideia de perturbação do senso interior. e só se no. imponente. O rei prudente tolera alguns abusos contra sua autoridade para evitar maiores males”. – Aguentar é vocábulo de uso comum (com a significação que tem neste grupo) e enuncia a ideia de sofrer com esforço. grandioso. glorioso. perturbar. sumptuoso e magnífico ao ponto de sugerir a ideia de coisa sagrada e divina. Porte. ou mudar a ordem. por não dar escândalo.: – Sofrer “exprime a ideia geral e absoluta de levar o mal que nos acontece. uma bebida alcoólica. – Aturdir e atordoar têm de comum a ideia de perturbar os sentidos. – Atordoar aplica-se mais particularmente à ação de perturbar por efeito físico: um cheiro muito forte. – Também agir. – Conturbar exprime a mesma noção geral de pôr em desordem e confusão. e em cuja presença se sente um como religioso temor. o gesto soberano de desdém. Aturdir significa “perturbar o senso confundindo-o”. uma queda. solene. solene. – Grandioso = “aquilo cuja pompa e mag- . porém é sofrer em silêncio. A alma se lhe conturba ao saber daquela desgraça. a majestosa cerimônia da sagração do bispo. a figura augusta do patriarca. aguentar. Préstito imponente. sobera- bar. pela sua grandeza. 385 ATURDIR. conquanto pouco tolerado pelos vernaculistas escrupulosos. pode ser incluído neste grupo. enfermidades. sofrer. magnífico. a situação ou estado normal de alguma coisa. O que tem dores padece. gesto. com a mesma significação de obrar. – Solene = “que tem caráter de formal e brilhante autenticidade”. ou majestade. Aguenta-se a estupidez de um funcionário imbecil. 386 AUGUSTO. ou injuriado. sofre. Uma tormenta. andar. poder. se bem que mais genérica. – Suportar é sofrer com paciência e conformidade.. – Padecer exprime particularmente o sofrimento físico do indivíduo. padecer. ou contrafazendo-se. uma pancada na cabeça – atordoam. postura imponente. contrariando-se muito. “Aquele discurso atuou fortemente no espírito da Câmara. – Majestoso é o que esplende pela sua aparência grandiosa e sublime. – Pontifical = “que tem aparência de pompa religiosa. que é augusto e venerando como as coisas sagradas”. majestoso. O que tem desgostos domésticos. e portanto acima de todos os do seu gênero. se impõe ao respeito ou à admiração de todos. um grande rumor ou vozeria – aturdem-nos. semblante majestoso. – Tolerar é também sofrer por efeito de prudência ou de boa educação. alterar as condições. O ar majestoso da rainha. ou de uma autoridade ignorante. ou da sua classe. ou que nos fazem.. – Aturar é sofrer com repugnância e de mau grado. – Imponente é o que. A augusta fronte do pontífice. O filho submisso atura a rabugice do velho pai. pomposo. O homem caritativo suporta com bom semblante os defeitos e fraquezas do próximo. 384 ATURAR. e é possível que se destine a operar uma verdadeira revolução no seio do ministério”.

que tem o brilho ostentoso da riqueza”. portanto. orgulho e ufania”. – Viração “é vento fresco. Se o incremento ou desenvolvimento for devido à afluência do que vem do exterior. ou por uma impressão muito vaga. aragem. engrossar. ao desenvolvimento. fa- vônio. – Observa Bruns. que vem a certa hora. a biblioteca. intumescer. nem ao volume. o rio. isto é. e o de crescer é minguar. zéfiro. – Intumescer = “inchar demais. – Magnífico sugere ideia do que chegou ao máximo esplendor e grandeza. impulso próprio”. usaremos de crescer. propício. – No entender de Bruns. amplificar-se. e crescer. excelente e augusto”. exagerar. fazer-se mais extenso. fazer mais compacto. ou por efeito de gás que se dilata. ou a minha felicidade (e sim aumenta-se). os meus males avultam com os meus receios. ampliar-se. inchar. – Avultar pode dizer-se que é muito mais extenso e compreensivo que avolumar-se. e isso porque aumentar considera concurso alheio. – Engrossar = “fazer-se mais grosso”. que nos cause mais pela quentura ou pela frieza do que pela força. no entanto. – Exagerar = “dar proporções fora do normal”. 388 AURA. ou de matéria que se acumula”. – Empolamar (outra forma de empolar) = “fazer empolado demais”. brando vento aprazível. se for devido a forças interiores. etc. proteção. avolumar-se como empola”. além de esplêndido e aparatoso. ou que não é contínuo por muito tempo”. e pode ser empregado tan- to no sentido abstrato como no concreto. encorpar. – Esplêndido = “sereno e brilhante. viração. – Há casos. ainda mostra ostentação. – Inchar = crescer com esforço. – Aragem é um brando movimento do ar. Cresce a planta. Não se diz: avoluma-se a minha dor. “cada um dos vocábulos deste grupo sugere a ideia . o menino. empolar. que se sente apenas pela agitação das folhas. avul- tar. engrandecer. salva- guarda. avulta aquela grande figura no meio da turba. crescer. – Brisa é também muito próximo dos precedentes: é “vento suave e fresco”. – Pomposo = “que tem mais que o aparato de solenidades usuais. propício como o favônio”. ou maior do que era”. crescer como um tumor”.. – Avolumar-se é muito próximo de aumentar. em que não se atende nem à quantidade.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 223 nificência excedem à grandeza comum”. mas sim ao incremento. brisa. fazer-se mais largo ou extenso”. mais sólido e de maior vulto”. e entre os dois deve notar-se a diferença que consiste unicamente em aplicar-se o primeiro só a coisas concretas. 387 AUMENTAR. – Aura é “brisa fagueira. – Amplificar-se ajunta à significação de ampliar-se a ideia do esforço com que se faz maior o que já era grande. ou a minha febre. quase imperceptível. – Encorpar = “tomar maior corpo. crescer é relativo ao volume. dilatar-se. patrocínio. – Ostentoso = “que. e que. consideraremos o modo como esse incremento ou desenvolvimento se opera para empregar um dos verbos aumentar ou crescer. – Glorioso = “que ascendeu à elevação do que se fez ilustre e excelente. então. – Empolar = “crescer. – Dilatar-se = “ampliar-se. – Zéfiro é “brisa matutina. o verbo adequado será aumentar. ou mais largo”. aumentar é relativo à quantidade. empolamar. avolumar-se. 389 AUSPÍCIOS. Aumenta a fortuna. – Ampliar-se = “tornar-se de proporções maiores. que “o antônimo de aumentar é diminuir. a que sopra alegrando os prados”. Avulta o prestígio do general. fazer-se túmido. digno de honras sobre-humanas. – Engrandecer = “fazer-se grande.

deixa prever que alcançará o êxito que aspira”. acontece que homens que não fazem profissão de virtude. não obstante. refere-se antes à nossa conduta conosco mesmo que com os demais. rígido. têm costumes mui rígidos e austeros. se arriscavam confiados apenas na proteção que os deuses lhes haviam de confiar. cobre. severo. ou por alguns conselhos ou recomendações. do superior para o inferior: ideia que não é inerente à proteção. rigoroso. o que a proteção pode fazer é impedir que se chegue à situação de necessitar de ajuda. socorro ou amparo.224 Rocha Pombo de uma influência eficaz para o logro do que outrem deseja”. contemplar”) é o termo que designa menor influência benéfica. – Salvaguarda não é vocábulo muito usado. auxílio. pelas suas qualidades e dotes próprios. – Esperançoso é “o que inspira esperanças de grande sucesso. o que. ríspi- do. um natalício. inflexível. duro. de salvar. etc. etc. de avis e spicere “ver. que pugna em favor daquele que é protegido ou melhor patrocinado. o mesmo não se dá quanto a auspicioso. – Segundo Roq. por si mesmo. – Patrocínio denota proteção eficaz. Os fracos procuram a proteção dos poderosos. Em proteção (do latim pro “adiante”. Pode ser esperançoso um estudante. os presságios tirados do voo ou do canto das aves – antes de se aventurarem em alguma empresa. é o mais expressivo de todos os deste grupo. pois. assim como os romanos costumavam consultar os auspícios – isto é. – “a austeridade consiste em sujeitarmo-nos a regras rígidas da maneira de viver. prometedor. assim também. 390 AUSPICIOSO. – Auspícios (do latim auspex. autoriza a esperar-se que venha a dar o que promete. Há. esperançoso. A austeridade. por analogia. Assim se diz que “uma empresa principiou sob bons auspícios”. observando-as estrictamente e sem delas nos separarmos. 391 AUSTERO. e que até são malvados. Pode ser auspiciosa uma estreia. Este termo sugere sempre a ideia de autoridade revestida do poder de defender. mas vaga e um tanto ou quanto incerta. inalterável. porém. que se manifesta pela benevolência. ativa. neste vocábulo uma grande vaguidade de significação. sem embargo . Auspícios podem ser bons ou maus. que se pode prever terá esplêndido sucesso”. um casamento. mas nem sempre ajuda. à vista do que apresenta. pois a proteção defende. porém. auspicioso significa sempre – “que começa sob a influência de bons augúrios. – Prometedor é o que. sem embargo. entendendo-se que o patrocínio provém sempre do forte para o fraco. Ainda que geralmente se tome a austeridade em sentido de aspereza e rigorosa virtude. inabalável. – Se auspícios tem a significação um tanto vaga. e o que designa maior eficácia: literalmente “guarda que salva”. inexorável. como depende muitas vezes do temperamento e do gênero de vida que muitos são obrigados a levar. e tegere “cobrir”) predomina a ideia dos meios que se adotam para pôr o protegido ao abrigo de algum mal. esse favor. É prometedor o menino que fez alguma coisa extraordinária para a sua idade. “As leis são a salvaguarda dos cidadãos”. nem ampara. como se vê no grupo precedente. por um apoio indeterminado. como também de mortificação e penitência. um poeta. quando eram favoráveis os auspícios. este vocábulo designa a influência favorável. quando desde princípio tem o favor do público. que põe ao abrigo de grandes perigos. pode ser-lhe retirado por várias circunstâncias: e eis aí a versatilidade e inconstância dos auspícios. portanto. ou auxilia ou socorre. na qual. sem contudo ir até auxílio imediato ou intervenção ativa.

um gênio austero e rígido também costuma sê-lo com todos. e nada lhe contenta o excessivo rigor. – Autênti- co designa “o caráter de legitimidade que toma o ato ou a coisa que se fez com todos os requisitos que lhe são próprios. independência. e por isso não são raros os casos em que a rispidez não exclui a magnanimidade e outras virtudes de coração. pois encerra muito claro a ideia de que a coisa ou pessoa inabalável não cede a esforço. contrato. no entanto. Dizemos que um Estado. que não muda da resolução tomada”. – Formal é “o que se fez na devida forma.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 225 disto. bem que os homens severos costumem ser pontuais e exatos no cumprimento de suas obrigações. soberania. A austeridade chega a converter-se em hábito. admitir-se algum coração duro que não seja propriamente cruel. todos se viram pelos excessos a que de ordinário arrasta”. – Duro dizemos. e faz como aborrecível a virtude. – A severidade exerce-se de ordinário antes com os demais que conosco. “que não se dobra. sem serem severos com os outros. ou limitadas por alguma autoridade superior. O severo não manifesta condescendência alguma. O homem severo não se aparta nunca de seus princípios. e se a aplicarmos às ações. – Inalterável é “o que se não move exteriormente. – Inexorável é “o que não cede nem a súplicas e lágrimas”. se administra pelas suas leis próprias. Diz La Bruyère que um filósofo austero. ou melhor. solene. indicará extremada rigidez. – Inabalável é mais forte que inalterável. a severidade com os outros pode ser obra de virtude ou de vício. e a severidade o é pelo caráter e os princípios. e como tal capaz de produzir todos os efeitos jurídicos”. ou uma província. do que é mais que rígido: dureza de alma é quase crueldade. em outros sucede o contrário. genuíno”. 392 AUTÊNTICO. de propósito. Muitos homens. – Solene é “o que. A rispidez quase que depende mais do temperamento e da educação que propriamente das qualidades fundamentais da criatura. – Inabalável é “o que não muda de opinião. indicará ela certo caráter virtuoso. nem de temer o severo. e vem a parecer mais áspero e grosseiro que severo. relação autêntica. além de formal e autêntico. declaração formal. pois não se concebe um Estado independente sem que seja por isso mes- . A austeridade consigo mesmo não é incômoda a ninguém. positivo. – O homem rigoroso tudo exagera. – Independência pode-se dizer que se confunde com soberania. que parece o mesmo sempre”. Dizemos: carta. segundo a própria formação do vocábulo. e por essa razão sempre é temida. Se aplicarmos esta palavra aos princípios ou causas. se fez com grande aparato e plena publicidade”. – Infle- xível exprime. formal. e de gênio áspero. – Tomamos aqui estas palavras na acepção política. Não podemos deixar de ter certa admiração pelo homem austero. pouco conforme às vezes com a equidade. e mais ainda com os que dele dependem. 393 AUTONOMIA. são austeros consigo mesmos. ou um documento formal pode não ser autêntico. contra o rigor. Não inclui necessariamente a ideia de autenticidade: um ato. porém. mostrando-se firme e seguro no seu modo de ver ou de obrar”. – Ríspido aplica-se ao que se excede nas manifestações da severidade. pois só se torna autêntico o ato formal depois de legalizado juridicamente. ao mesmo tempo que o rigoroso os leva a um extremo que é mais prejudicial do que útil. subentendendo-se que essas leis ficam sempre dentro de alguma lei geral. espanta a todos. ou mesmo um distrito ou um município goza de autonomia quando ele se governa. e que por isso é claro. juramento solene. podendo. em sentido moral.

do conjunto dos Estados. hoje o nome de publicista a todo aquele que. como no sentido físico. Os Estados do Brasil são autônomos. só é empregado como adjetivo. – A soberania política consiste na qualidade de poder um Estado existir por si mesmo. e mau escritor porque escreve incorretamente o que pensou com profundidade. Entre avarento e avaro. Dizemos: a sorte avara (e não – avarenta). um serviço. que é a entidade representativa de todo o país. calcular o valor venal de alguma coisa. Os nossos clássicos davam a esta palavra a significação geral de poder. A avareza é um vício que mata a alma. escreve para o público. 397 AVARENTO (avaro). sem reconhecer acima de si nenhuma outra autoridade. aliás. Mas ávido distingue-se de um e outro. é “a resultante dos elementos materiais em que funda o poderoso o seu poder”. “Pobre está já (Roma) tão decaída da antiga potestade”. A significação da palavra publicista é restrita. Avalia-se uma propriedade. porém. – Avaliar é “calcular o valor de uma coisa”. agarrado. aqui. e que nos conste. humana. 395 AUTORIDADE. não há caso algum na língua em que ele se nos apresente como substantivo. não só pela ex- . quer a lei seja divina. o avarento é um enfermo de consciência (não – o avaro). Deve dizer-se mesmo que a distinção entre os dois verbos se regula pela que existe entre os respetivos radicais: apreçar é estipular preço. isto é. cainho. quer natural. a soberania. a diferença que consiste em não ser inerente ao segundo a ideia de cálculo. e que o inverso se dá em relação a avaro. porque pensa e discorre bem. como se avalia um esforço mental. cobiçoso. mesquinho. 396 AVALIAR. e tanto se aplica no sentido moral ou abstrato. – Entre apreçar e apreciar há. e em relação a avarento está no mesmo caso de avaro. publicista. potestade. porque esta palavra se refere somente a este gênero de produção. portanto. de algum trabalho ou produção”. ávido. só se diz escritor fazendo-se referência ao estilo. – Apreçar é “dar o preço. – Damos. Potestade supõe o poder que a sustenta. Chama-se autor o que dá à luz qualquer escrito.226 Rocha Pombo mo soberano. é preciso notar uma diferença essencial. – Segundo Lacerda. apreçar (apreçar e apreciar). e vive ansioso por entesourar tudo o que adquire. Isto quer dizer (por mais que digam. tacanho. com autoridade. ainda que se prive a si mesmo dos bens mais comuns da vida”. sovina. Também se chama escritor qualquer autor literário. – Avarento é “o homem que tem a paixão da riqueza. fona. 394 AUTOR. gastando o menos que é possível. que os léxicos dão como sendo a mesma coisa. é exercida pela União. um sofrimento. pois isso é comum a toda aquela categoria gramatical. porque se refere exclusivamente ao que escreve sobre direito público”. examinar com interesse e cuidado. ainda quanto a isto. ou de opinião”. apreciar é ver com apreço. salvo figuradamente. e muito excepcionalmente como adjetivo. já se vê. o contrário os lexicógrafos) que avarento pode ser empregado como substantivo (significando – “homem avaro”). escritor. – Força. aqui. e converte a criatura humana em simples animal. – “Estes três vocábulos aplicam-se aos homens de letras que publicam obras de sua composição. interesseiro. de modo que o mesmo homem pode ser bom autor. olhar. poder. – Ávido é também adjetivo. somítico. – Poder é a autoridade que se acompanha da força necessária para fazer-se obedecer. “autoridade é a superioridade legal. força.

constatar. – Interesseiro é. como o animal agarra a sua presa”. o avestruz. As avarias são suscetíveis de reparação. apertado no despender. Como diz Roq. estrago ou avaria”. – Ave é “o nome ge- nérico que se aplica a todo animal ovíparo provido de asas”. dano. danos puramente materiais. a águia é ave. “o que cede muito aos seus lucros. em regra. é “o que exagera a sua pobreza. o tucano são pássaros. o que. nem mesmo a de mesquinhez. guarda o seu dinheiro. o seu bocado como o cão o seu osso”. a galinha. dizemos dos danos causados principalmente pelas grandes chuvas e inundações. provar que uma coisa é certa. o cobiçoso deseja muito adquirir. – Estrago é o dano que prejudica parte do que se possui. a andorinha.” – Lesão é termo bem mais extensivo do que dano: designa “toda sorte de prejuízos que de qualquer modo se cause a pessoas ou coisas”. – Agarrado aproxima-se de cainho: é “o que prende quanto tem. – Sovina é “a pessoa mesquinha. – Mesquinho. Este quer “para guardar”. medindo tudo com muita escassez. que prefere sofrer vexames a gastar o seu vintém”. como dissemos. pássaro. como está dizendo claramente a palavra. – Segundo Lacerda: averiguar é procurar. o sabiá. que danifica a qualidade. – “pode o cobiçoso ser liberal. – Perda é o dano total. de voo curto”. verificar. O pardal. – Fona é “a criatura miúda” que faz questão das coisas mais insignificantes. – Avaria. – Prejuízo é “desfalque resultante de perda. – Tacanho aproxima-se de mesquinho: é “o estreito. aqui. – Cobiçoso não diz propriamente o mesmo que avarento. o morcego são voláteis. os estragos podem sê-lo. e só particularmente é que significa – “ansioso de riquezas”. e perda de colheitas. e considerados como reparáveis por meio de gastos pecuniários.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 227 tensividade. Também significa. ou não. magnífico. fazendo-se em tudo mais indigente do que é. e quase sempre o que vê em poder de outros. diligenciar. 398 AVARIA. o que não se dá em relação a avarento. mas cobiçoso não inclui necessariamente a ideia de avareza. e até procurando lograr os outros se for possível sem parecer propriamente gatuno”. a todo animal que voa mesmo sem ser ave. verdadeira. prejuízo. a águia. achar a verdade. Ávido é “o que deseja ardentemente alguma coisa pela qual anseia. e até pródigo”. e que procura alcançar com solicitude e esforço”. no entanto. – Volátil aplica-se a todas as aves. volátil. o pardal é pássaro. entre os nossos clássicos. 400 AVERIGUAR. – Somítico deve comparar-se muito de perto com tacanho e mesquinho. – Cainho (fig. ou pelo menos considerável do que se possui. além da acepção especial em que mais particularmente se empre- . 399 AVE. – Verificar é “empregar os meios convenientes para cada um a si mesmo convencer-se de que alguma coisa sucedeu como se conta. perda.) é “o que esconde. que vive a apanhar os restos. lesão. ga para designar estrago de mercadorias a bordo de navios. Um temporal causa avarias nos muros da quinta. como pela significação própria. estragos nas árvores. ou melhor. estrago. as coisas inúteis”. – Dano é “o mal que provém de nos haverem diminuído o valor de alguma coisa que nos pertence. poupando em excesso”. – Pássaro é “a ave pequena. no entanto. reconhecer. a estes uma certa ideia de torpeza: o somítico é mesquinho com os outros para só gastar com aquilo que lhe dá prazer. o morcego não é pássaro nem ave (porque não é ovíparo). que diminui a quantidade. nada faz que lhe não redunde em proveitos pessoais”. acrescenta. O condor. e. o pato são aves.

verso. – Devisar é “perceber pela vista. “dê-nos qualquer ideia que nos avivente ao menos a memória” – não admitiriam. Aquela desgraça vem avivar-me a dor antiga (e não – aviventar-me. reverso. conveniente. ou de livro. oposta à da frente. discernir. inverso. – Avistar é “alcançar com a vista alguma coisa”. no entanto. 404 AZADO. as medalhas têm anverso e reverso”. Há. verificar é “ver clara. bispar. ou “mais vivo” em absoluto. – Discernir é “ver claramente. ou avistar mal e mal. 402 AVISTAR. perdendo-se entre as lombas da campanha. – Inverso significa “de modo contrário ao que é natural. ou na própria coisa vista. ou a parte oposta ao reverso. – Entre estes dois vocá- guir. mais atividade. – Azado e oportuno poderiam. – Distinguir.228 Rocha Pombo e que é exata etc. e dar disso testemunho”. de cima para baixo. muito usado com a significação de “enxergar ou avistar com dificuldade e rapidamente”. próprio.” – Em suma: averiguar é “reconhecer a verdade”. ou mais particularmente de uma folha de papel. que significa “tornar vivo”. As frases: “avivente um bocadinho o fogo da lareira”. ver. regulada esta pelo lado em que a folha se liga a outras”. distinguir”. ser empregados indistintamente.” – Lobrigar é “ver indistintamente.” – Aviventar é “dar um pouco de vida. sem a ideia de que a vida seja completa”. lobrigar. como se se houvesse eliminado algum obstáculo entre a nossa visão e a coisa descoberta”. mais intensidade etc. através de algum obstáculo”. direção. 403 AVIVAR. – Descobrir é aqui “ver ao longe. entre eles a seguinte diferença: azado dizemos do que. o verbo avivar. etc. – Verso é “a parte de uma superfície. – Avivar é “dar mais vida. porque o que se quis exprimir é que a nova desgraça tornou a antiga dor tão viva como tinha sido). ou posto em ordem. descobrir. – Constatar (que muitos se dão o luxo de condenar como galicismo escusado) é “estabelecer. O pano tem avesso. “Logo que saímos da floresta. de diante para trás. e iremos ter ainda hoje à fazenda”. aviventar. oportuno. adequado. anverso. devisar. deixar clara a verdade”. ou sentido que não é o próprio”. descobrir. voltado da direita para a esquerda. se nos apresenta como favorável. depois de exame. Referindo-nos a um caderno ou a um livro sem numeração por páginas e sim só por folhas. – Enxergar é “avistar mal. “Enxergamos muito confusamente a caravana. os vários aspetos”. – Ver designa a bulos há a diferença marcada pela partícula verbal incoativa entar que figura no segundo. O reverso é a parte oposta ao lado principal. – “é o lado pelo qual uma coisa não deve ser vista. enxergar. – Reconhecer é “chegar ao resultado de ver que uma coisa é realmente como se dizia. a verdade sobre alguma coisa. “aviventemos alguma coisa a nossa marcha. – Bispar é vocábulo popular. é “enxergar ou mesmo lobrigar com esforços”. e oportuno dizemos do que vem a . à primeira vista. sem quebra de rigorosa lidimidade lógica.” 401 AVESSO. mal devisar alguma coisa estando-se no escuro”. Anverso é o lado principal. distin- ação de “receber pela vista uma impressão direta do mundo exterior”. aqui. separando ou discriminando a coisa vista de outras coisas. propício. sem que o esperemos. dizemos: “à folha ou à página tal verso” (isto é – “à página oposta à página numerada”). mais rapidez. avistamos muito ao fundo do campo a casa da fazenda”. a face. – “O avesso” – diz Bruns.

muito alegre e festivo. e seu verbo danser. tem três que determinam as ideias acessórias destes saltos e movimentos. ‘saltar. e prometendo sucesso”. Diz Bruns. e que se assemelha à dança das bacantes. e dizia a todos: ‘Eu assento que nada fica mal à Majestade. 405 AZIAGO. e. – Sobre baile. vantajoso ao fim que se deseja”. dançou em público com seus cortesãos. – Funesto. talvez semelhante ao que chamam hoje contradança. daquilo “que anuncia desgraças”. ou do cálculo que fizemos. (e não – o “momento azado”). II)”. A língua francesa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 229 encontro dos nossos desejos. jongo. 406 BAILE. dança e folia escreve Roq. ainda hoje. ter o corpo em elegante postura. favorável. e fazer as cortesias e mesuras que a boa educação prescreve. Port. e faz movimentos de corpo mais ou menos compassados. aqui. – Propício é “o que se apresenta oportuno. – Adequado exprime – “que se ajusta ao que pretendemos. executando concertadamente todos os movimentos. A dança é uma arte semelhante à que entre os gregos se chamava orchestike. bailam os homens por alegria e diversão. com mais ou menos ligeireza. a nossa. – Aziago se diz. E. samba. No dia em que armou cavaleiro a D. e designa particularmente o movimento regular do corpo e seus membros ao compasso e tom de música. A folia indicava noutro tempo (que hoje é palavra antiquada) certo modo particular de bailar. no sentido em que esta palavra se pode confundir com dança. por isso. é lúgubre e sinistro”. – Baile é nome genérico e vulgar. é uma dança rápida ao som de pandeiro ou adufe. como se viesse a propósito. entre várias pessoas.. designa o conjunto ou série de movimentos com que se executa uma dança. significa – “que se adota. dar saltos’. faziam-se antigamente folias por ocasiões de alegria pública. de ballizô. bailam os próprios selvagens à sombra de frondosas árvores. sugere “a ideia de sinistro. que não só dá regras para mover o corpo e os membros a compasso. além de aziago. na verdade.. e ao som de rústicos instrumentos. e assim como os animais retouçam de contentes e alegres. ou que convém ao fim que se colima”. agoi- rento. ‘saltar’. – Infausto diz menos que aziago. como acreditava o espírito supersticioso dos antigos. ora mais graves. – Nefasto significa “cheio de desgraças e calamidades”. Pedro I sabemos que tinha gosto particular de bailar a folia. pois El-Rei D. a dança é própria de gente nobre e cavalheira. isto . O bailar é uma espécie de instinto nas criaturas racionais. – Conveniente diz também – “que é favorável. folia. “Chegou o momento oportuno de jogar a partida”. Bailam os moços e moças do povo em suas festas e reuniões. – Agoirento é “o que. pois exprime apenas – “não propício. – Dança é palavra mais nobre. bailado. mas é certo que ao que nós chamamos bailar chamavam os latinos saltare. João Afonso Teles. ao som de flautas. em que os próprios reis não duvidavam tomar parte.: “Não defendemos a etimologia do verbo bailar. – Próprio. tem só um termo para significar estes movimentos – é o substantivo danse. funesto. além da de aziago. como a palavra de origem francesa (folie ‘loucura’) o está dizendo. senão para a maneira de pisar. não feliz”. cantando.. “O momento parece azado para uma tentativa” (e não – oportuno) – desde que veio inesperadamente. quando se trata de honrar a virtude’ (Anecd. ora mais rápidos. que “baile. em que era muito eminente. – Folia. dançam os cavalheiros e senhoras nobres em suas salas. porém. fan- dango. fatal”. infausto. mais pobre que a nossa. dança. folgança. e só exprime a ação física de bai- lar. ou fosse feito para tal fim”. nefasto. quem baila dá saltos.

Vacilamos entre coisas que nos repugnam e que nos impõem (não – hesitamos). balbuciamos. projetil. e os movimentos com que essas danças se executam constituem o baile. Pode ser isto um efeito acidental da comoção ou da emoção. há mestres de dança. logo mais uma outra. – Bala é “o projetil de forma cônica ou esférica que pode ser lançado por armas de fogo. Note-se que estes três verbos entram aqui no seu sentido figurado. que pode ser arremessado com força”. – Noutro sentido. ou em tomar a tarefa que se lhe propõe”. Hesitamos em preferir um de dois ou três bons empregos que se nos oferecem (não – vacilamos). baile é propriamente a festa. mas não há corpo de dança. tartamudear. – Jongo é “dança ou bailado em público e ao ar livre”. No sul do Brasil. mas aplica-se comumente esta palavra a toda festa livre e reles. – Projetil é “qualquer corpo. Nos teatros há bailarinas que executam os bailados. e dizemos que dança bem quando se atende ao modo como executa as diferentes danças em que toma parte. As danças ou bailados executavam-se ao som de grandes tambores. tar. Hoje está quase inteiramente extinto no Brasil”. uma polca. o bailado. – Samba é também bailado popular. misturá-las. comparando-as. – Distingue-se este dos dois últimos verbos do grupo em dar. oscilante”. 409 BALBUCIAR. fandangos etc.230 Rocha Pombo 408 BALANCEAR (balançar. como as . ou um conhecimento exato do que se deve fazer”. Assim. – Gaguejar (ser gago. espingardas ou canhões”. gaguejar. 407 BALA.. mas indica particularmente baile popular. mais ou menos ruidosa. hesi- é. apesar do nosso desejo e até do nosso esforço. ou danças mímicas. – Balancear “é pôr ou ficar como suspenso. De uma pessoa se diz que baila bem quando se atende à maneira como faz cada um dos movimentos que entram na dança. duvidar. – Bal- de qualquer forma. uma mazurca. na dançarina considera-se a dança. depois outra. O mesmo se deve dizer de embalançar. embalançar). como medindo os motivos de escolha e decisão. Quem vacila quer agora uma coisa. “F. a ideia de que a pessoa que hesita tem desejo de não hesitar. – Tartamudear é precipitar as palavras de modo confuso. duvida tomar. ou ter gagueira) é falar com dificuldade. feitas mais de barulho que de bailados. – Folgança ou folguedo é termo popular que designa toda espécie de diversão com que se descansa do trabalho. confundi-las num ruído surdo que não as deixa claramente entendidas. e que consiste em danças. cortando as palavras e repetindo várias vezes a mesma sílaba antes de pronunciar a seguinte. tangidos à mão. ou um defeito natural que provém dos órgãos da voz. não sentimos razões suficientemente fortes que nos levem a tomar uma resolução”. muito clara. da Espanha passou para toda a América colonial. buciar é “não pronunciar claramente certas articulações. quer dizer: na bailarina considera-se o baile. usado pelos africanos. como acabamos de dizer. indeciso. os movimentos do corpo. É defeito comum à infância e à extrema velhice. – Balançar é outra forma de balancear. antes da abolição. nos teatros há corpo de baile. – Hesitar enuncia o estado de espírito “em que. é a dança mímica espetaculosa”. – Fandango é “festa de danças ruidosas. ou solene. é o mesmo que fandango. – Bailado. Mas tanto este como balançar sugerem melhor a ideia de ficar em dúvida entre duas ou mais coisas. uma valsa são danças. – Duvidar é “hesitar por não ter certeza. É a gagueira um defeito dos órgãos vocais. bailados são as próprias danças. Colhidos de improviso. vacilar. mas não há mestres de baile (senão noutro sentido). e dançarinas que executam jotas.

A bancarrota fraudulenta é corriqueiro. expressão ou linguagem que não se salienta de nenhum modo. à falência. ou não sobressai acima da ordem habitual das coisas. porém. ou quando menos “de muitos”. se goza de um crédito suficiente. 2. seja declarado em falência se. – banal se diz do termo ou expressão que é usado por todas as classes sociais. – Sobre estes três termos de jurisprudência escreve Teixeira de Freitas: – “Bancarrota denota geralmente entre nós o estado de falência ou quebra de qualquer comerciante. – Segundo Bruns. ou que nelas estão parados à espera que alguém os ocupe. ou não merece apreço. o art. punível quando não é acompanhada de fraude.... de trivium “encruzilhada”) dizemos do termo ou expressão própria dos que andam pelas encruzilhadas ou pelas esquinas. falência. mas particularmente mais pelas baixas que pelas altas.. resumem assim: “A quebra é o estado de um devedor. Daí se vê que há entre falência e quebra diferenças essenciais: 1. trivial. – Corriqueiro se diz do que corre na boca de todos.’: logo. aplica os epítetos casual. e. é muito usual. – Familiar se diz “da linguagem ou dos termos usados em família”. Isto ainda mais se confirma pela redação do art. comerciante ou não. e for obrigado a cessar pagamentos. 3. portanto. O que é vulgar carece de uma certa nobreza que não é comum entre o vulgo.. a falência passa a ser uma bancarrota. que é comum. ter mais dívidas que bens) e. do Com. . – Bourg. ou quebra. pode continuar seus pagamentos e escapar assim. não puder solver compromissos. é o estado dos comercintes falidos ou quebrados – isto é. e Berg. sem ficarem mal na boca de ninguém. a bancarrota pode não ser fraudulenta. gaguejamos. familiar. por falta de recursos presentes. na ordem de ideias em que consideramos a sinonímia destes vocábulos. e impróprio de pessoas decentes. entretanto. à declaração de falência. conseguintemente. 798 do Cod.º) a falência é um estado exclusivamente próprio aos negociantes. As pessoas nervosas tartamudeiam quando vivamente emocionadas”. ainda que não seja fraudulenta.. pode dar-se que um comerciante cujo ativo exceda de muito ao passivo. isto é. A falência é o estado de um comerciante que cessou seus pagamentos. E demais.”. vulgar. – Ordinário se diz do que não se destaca do comum. – Comum significa propriamente “de todos”. o vulgo não se compõe só do que é ínfimo. e também “que não é raro”.) 410 BANAL. nem de falta grave. culposa. sem que haja todavia fraude da parte do falido: é um delito da competência dos tribunais correcionais. e como o que não é raro tem pouco valor. Por imperfeição natural. A falência não é.°) um comerciante pode estar em estado de quebra (isto é.º) ao contrário. Acompanhada de fraude ou de falta grave.. porém. não ficam contudo bem em todas as ocasiões. comum. e não à bancarrota. fraudulenta. dizendo – ‘a bancarrota que foi qualificada de fraudulenta. sem certa nobreza. ordinário. dir-se-á ordinário do termo. O que é trivial é baixo. grosseiro. – Quebra entende-se de comerciante. e significa o mesmo que falência ou falimento. (Bruns. – Vulgar se diz do que é próprio do vulgo. – Falência. vulgar. que cessam seus pagamentos. resulta daí que vulgar se diz dos termos e expressões que. “que é frequente”. Este vocábulo pode considerar-se só neste sentido. 411 BANCARROTA. daí resulta que comum se diz do termo ou expressão que não é elevada. cujo passivo é superior ao ativo. 263 do Cod. de si mesma. A bancarrota simples é a falência que é acompanhada de falta grave. – Trivial (do latim trivialis. Pen. quebra. Como.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 231 crianças. aplicá-lo àqueles termos que têm algo de indecente ou de baixo.

Pode-se distinguir estes dois últimos vocábulos pela particularidade que apresenta celerado de sugerir a ideia de bandido ou malfeitor impulsivo. 412 BANDA. pavilhão. de que sceleratus é particípio). ou do batalhão naval. expa- nia. – Salteador é o ladrão que ataca os viajantes nos caminhos. Quando o salteador opera com outros. “cheio de crimes”. degredar. desfraldada à frente dos exércitos. como sinal ou como distintivo. triar. – Banir é o mais forte de todos. não podendo o banido voltar jamais ao território de que foi expulso. insíg- – “malfeitor é. e não é raro que seja também assassino. – Filarmônica é a banda de música particular. exilar. simbolizando uma nação. ou que assalta de noite as habitações isoladas. ou que é capaz de praticar. – Estandarte é a bandeira de forma e cor fixas. e entre todos obedecem a um chefe. grandes crimes” (scelus. ou orquestra do batalhão. é bandoleiro. ou de privar da pátria ou do país onde se vive ou mesmo se está de passagem ou de pouco. música. ou que seja próprio para representar alguma instituição. mas sem se lhe determinar o ponto para onde deve retirarse. celerado. No Alentejo dizem que os ciganos e os malteses são malfeitores. salteador. – Vexilo é termo antiquado correspondente a estandarte: era a bandeira militar. sendo a pena de banimento muito mais grave que a de deportação ou mesmo desterro. aqui. que deu scelero. “crime”. – Celerado “é o bandido monstruoso que praticou. bando- leiro. 414 BANDIDO. – Facínora (e facinoroso) é também o sujeito perverso. fanfarra. or- questra. malfeitor. Fanfarra é o mesmo que charanga. O salteador vive do roubo. vesânico. – Música é. “pelo menos na mente de quem ordena o ato”. deportar. O banido é expulso. charanga. facínora. ou a bordo de navios. ou em teatros. – Insígnia é qualquer emblema que distinga. proscrever. dos direitos de pátria. Não se poderia dizer – orquestra militar. esta palavra encerra a ideia de pena infamante. como não seria a ninguém permitido arriscar esta monstruosidade: a banda do teatro lírico. doido. – Charanga é a banda formada só com instrumentos metálicos. – Segundo Bruns. pois o banimento importa a perda. para sempre. filarmônica. Segundo alguns autores. – Exilar exprime simplesmente o ato de . Os vocábulos bandido e malfeitor são frequentemente empregados como qualificativos das pessoas de má índole”. a banda do regimento.232 Rocha Pombo a falência acompanhada de fraude: é crime. – Orquestra é o conjunto de professores que executam altas peças de música em concerto. ou feita e mantida por alguma associação. – Bandido é o malfeitor perseguido pela justiça. 413 BANDEIRA. “o termo genérico aplicável a todo grupo de músicos que executam alguma composição musical”. ou mesmo a algum estabelecimento público: a banda da polícia. a palavra menos enérgica. do grupo. desterrar. – Pavilhão pode-se dizer que é o nome que toma o estandarte nas tendas de campanha. assim como pode ser ladrão e assassino. nem mesmo – orquestra popular. – Banda é uma corporação de músicos pertencente a algum batalhão. – Todos estes verbos têm de comum a ideia de expulsar da terra. estandarte. – Bandeira é qualquer pedaço de pano preso a uma haste e arvorado de modo a que se o aviste de longe. 415 BANIR. vexilo. o malfeitor pode viver do roubo sem nunca assassinar. e como tal da competência dos tribunais ou câmaras criminais”.

(Fereza é o ato mesmo de ferocidade. – “em geral erros de linguagem. Não se liga a este vocábulo nenhuma ideia de pena infamante.) – Ferocidade. 48). é o prazer que mostram certas naturezas experimentar à vista de espetáculos que tanto têm de bárbaros como de cruéis. – Degredar é enviar para o degredo. que. – Proscrever é. que temos uma linguagem culta e polida desde Camões. por orgulho. e neste caso quase sempre indica atitude infensa. ou protesto implícito contra a política existente ou contra as ideias dominantes na terra de onde se retirou o êxul. o mais próximo de banir: era antigamente (em Roma e na Grécia) o ato de expulsar da pátria e proibir que o proscrito a ela regressasse sob pena de morte. por esse ato. – “Significam estas duas palavras” – diz Roq. – Segundo Lacerda – barbaridade é a disposição do homem rude. não só se lhes confiscavam os bens. ou por dureza de alma. por egoísmo. Por isso que os gregos e romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não eram eles. Cometem-se estes de muitos modos na língua”. – De Soles. desumanidade. 417 BARBARISMO. 416 BARBARIDADE.) – Desumanidade é a ausência de sentimentos humanos. posto que nele predomine a ideia de prepotência por parte de quem decreta a pena. ou só explicável no selvagem. de todo o grupo.) – Crueldade é a inclinação à prática de atos sanguinários. ação. quando ainda os franceses tinham a sua semibárbara de Ronsard.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 233 enviar para fora da pátria. (Será. ou da terra em que se tem domicílio. vemos sofrer o nosso semelhante sem socorrê-lo. a deportação é semelhante ao banimento (?). ou da língua deles eram tiradas. mas até se fixava um prêmio para aquele que tirasse a vida ao proscrito se encontrado na pátria. é a manifestação de um certo prazer à vista de sucessos fortuitos ou provocados que trazem consigo derramamento de sangue. deram com muita razão o nome de barbarismo às palavras e expressões que. próprio de bárbaro. ou para longe do país onde se acha o deportado28. seja só como pena infamante (degradação). sem outra ideia acessória além da de inculcar que a ausência será longa. ou limitando-lhe a menor distância em que pode ficar do seu domicílio. esqueceu a pureza da língua grega. com referência ao homem. o modo. pois. crueldade (crueza). e portanto figuradamente. vem a palavra solecismo. (Crueza é a própria ação cruel. sem polícia. portanto. fixando a residência em que o desterrado deve cumprir a pena. chamar barbarismos galicanos ao que mui francesmente se chamou galicismos. e. corrompida. própria do vulgo que tudo adultera. colônia ateniense na Silícia. o solecismo é um defeito da construção da oração e que pode provir de ignorância ou de descuido. com o andar dos tempos. Mais comumente proscreviam-se aqueles que procuravam escapar à ação da justiça. e não a da gravidade da culpa da vítima. Poderíamos. . ou mesmo sentimento 28 Segundo Teixeira de Freitas (Vocabulário jurídico. se pareciam com as dos bárbaros. é a indiferença com que. com a diferença que o barbarismo é uma locução viciosa. falto de humanidade. Muitas vezes até o exílio é voluntário. solecismo. Este vocábulo designa o ato de sair da pátria. ferocidade (fereza). o trato que denuncia a índole sanguinária. – Expatriar não é pena que se imponha. seja como infamante e aflitiva. nós outros. mas ordinariamente infringindo as leis da sintaxe. por sua viciosa pronúncia. e também a ferocidade própria da fera. – Deportar é desterrar perpetuamente para uma colônia distante. – Desterrar diz propriamente “fazer sair da terra onde se habita”.

nas artes. – A caravela era menor que a fragata. nem respeita lei alguma. larga e aberta como a alvarenga”. de galé) – “antigo navio . ou mar)”. catraia. etc. tartana. alvarenga. iate. O escaler distingue-se do outro em ser movido ou poder mover-se tanto a remos como a vela. sendo o batel movido só a esforço do remeiro. de um só mastro. bote. como o iate. e hoje os chineses. empregada. no serviço de transporte de cargas dentro da baía”.. – Batel e escaler são pequenas embarcações que conduzem para bordo dos navios não atracados ao cais. – Catraia é bote pequeno. e transporte de passageiros de terra para os vapores. Talvez por isso é que se diz – “batel da vida” (e nunca – escaler. fragata. nas letras. para os quais é termo genérico. era inferior à nau. A jangada é uma embarcação. todos os vocábulos que se seguem apresentam de comum a ideia de “próprios para transporte por água (rio. nem gozam dos benefícios da civilização. elegante e luxuoso. gôndola. galeão. de vela e remos. movido a remos. batelão. de vela e remos. como força agressiva. menos porém que embarcação. igara. sem exceção. escuna. Servem ambas para o trasbordo de cargas. selvagem. caravela. – Navio é a embarcação destinada a navegar no mar alto. manchua.. mas não é um barco. brigue. e servia tanto para a guerra como para o tráfego marítimo. – Galé é embarcação de baixo bordo. serve mais para recreio. galeota. – Tartana era um xaveco menor. sobre estes dois vocábulos. estreita e comprida. – A fragata. embarcação. – Lancha é “embarcação pequena e sem tilha (coberta) que anda tanto à vela como a remos”. – Galera = “antiga embarcação. com dois ou três mastros”. de Fig. e vice-versa. mas só se diz dos barcos cobertos. e.234 Rocha Pombo 418 BÁRBARO. nau. os autores que o precederam: “Os antigos egípcios. – Nau era o maior navio outrora empregado principalmente na guerra. por considerarem todos. barco. – Manchua – “pequeno barco usado nas costas da Ásia”. usada outrora.) fazendo alusão ao esforço e trabalho com que é levado. na polícia. – Barca = “embarcação larga e pouco funda” (C. e que serve também para o serviço de carga e descarga de navios. – Resume Lacerda assim. xaveco. – Barcaça é barca maior. galé. que não cultivam as artes. galera. nem convenções sociais. usada principalmente para recreio”. chata. – Galeão (aum. sim”.). navio. barca. bergantim. depois os gregos. – Gôndola – “pequena embarcação (como a galeota) movida a remos. – Barco é “termo genérico. e pode até prestar-se para longas viagens. como o batelão e a alvarenga. 419 BARCO. à imitação destes os romanos. enquanto que embarcação designa qualquer corpo flutuante que pode conter pessoas ou coisas. pois é restrito à ideia de construção. deram o nome de bárbaros a todos os estrangeiros. – Chata é “barcaça larga e de pouco fundo. piroga. mas carece de aperfeiçoamento em tudo quanto constitui o que se chama um povo civilizado”. canoa. pequeno escaler. é maior. – Embarcação não se diz hoje dos navios de guerra. – Como os precedentes. junco. inferiores nas ciências. rebocadas dos navios para os trapiches ou vice-versa. lancha. A nação bárbara conhece e respeita em geral essas leis. – Selvagens são os habitantes das selvas. – Batelão (aumentativo de batel) é “barca rasa e grande. batel. – Bote é batel de rio. O iate. – Galeota (diminutivo de galé) é pequeno barco. barcaça. no entanto. – Xaveco – espécie de fragata usada outrora pelos mouros no corso do Mediterrâneo. Uma nação selvagem não conhece.

rapsoda. de mãe religiosa. antigamente bastard. fino e leve. v. ou pelo descuido. uma obra. por exemplo. mas há entre eles diferenças mui notáveis”. quando dizemos que uma produção. e também o que não tem pai certo. – Trovador é a designação equivalente a troubadour. e stard “nascido”. ou de bas “vil. natural. ou pela imoralidade que acompanha o ato em que são gerados. e também movida a remos”. de dois mastros. o nome que se dava aos poetas e cantores populares. Luiz – “exprimem a qualidade do filho que é ilegítimo. – Brigue – “bergantim maior”. Bastardo significa. ou da união dos sexos.) – Bergantim – “pequena fragata. que compete a qualquer filho ilegítimo. O filho bastardo pode ser natural. de pai eclesiástico. feita quase sempre de um só tronco de árvore escavado”. que no norte da França.. e art “raça. quando não em verso (Bruns. ou que não é havido de matrimônio celebrado com as solenidades da lei. que andava pelo sul da França cantando sonetos e trovas. porque não só denota bastardia. do francês bátard. (C. que vale o mesmo que – “baixamentenacido”. etc. de castelo em castelo. 421 BASTARDO. ou que não temos como tal o que vulgarmente se lhe atribui. nau de guerra”. peça bastarda a que não tem as medidas próprias da sua espécie. em algumas línguas. – bastardo. baixo”. de matrimônio clandestino. – Segundo Roq. etc. e quer dizer – “exces29 Segundo Roq. poeta ambulante da língua d’oc. entre os celtas. – Vate era o profeta que fazia os seus vaticínios em estilo elevado. Desta última acepção da palavra espúrio nasceu o sentido figurado. que eles têm na educação da prole. usado pelos chineses”. de Fig. trovador. – Piroga e igara – “canoas de índios”. se dedicavam à poesia épica.. – de casado e solteira ou vice-versa. – “Todos estes vocábulos” – escreve S. senão que dá a entender que o pai é incógnito porque a mãe se facilitava a vários quando o concebeu. E chamamos espúrio o que nasce de pessoas entre as quais há esse impedimento. temperado do agudo e grave da legítima. 420 BARDO. ou espúrio: são duas espécies de bastardia. e parece referir-se. – Bastardo é denominação genérica. trombeta bastarda a que dá um som misto. de barreguice. – Redundância é o termo genérico de que os outros do grupo especializam a significação. espúrio. que daí se presume provir aos filhos.). um livro é espúrio. vate. ou pela ordinária desigualdade da condição dos pais. e é ainda correspondente aos trouvères. isto é – que lhe não conhecemos o autor. tautologia. letra bastarda a que é degenerada da romana. vem do alemão boest “degenerado”. em geral o que nasce de pessoas entre as quais não há impedimento algum legal que lhes vede o contraírem matrimônio. quanto à degeneração. ilegíti- mo. – Bardo era. por ser uma alteração dela. não tanto à ilegitimidade do matrimônio. . redundância. 422 BATOLOGIA. gr. e de uso nas enseadas e nos rios. poetas da língua d’oïl. do XI ao XV século. que lhe damos na Arte Crítica. – Escuna – “brigue tendo vergas no mastro da proa e sem mastaréu de joanete”. espécie”. – espúrio é termo desonroso. – Junco – “pequena canoa ou batel. coisa degenerada29. e nós mesmos chamamos. perissologia. – Canoa – “pequena embarcação. também ordinário. Chamamos natural o que nasce de concubinato.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 235 de alto bordo. e aos quais se devem os primeiros romances de cavalaria.

daqui se chamaram battos a todos os que repetiam sem necessidade uma mesma palavra. . chamado Batto. não a larga até haver apurado quanto sua rica imaginação lhe podia sugerir para ilustrá-la. . Sub illis Montibus. . . e é demasiado grosseiro para que nele caiam ainda escritores medíocres. e estavam ao pé daqueles montes’. entre o muito que sempre ocorre quando se escreve sobre matérias bem-estudadas. em colhendo entre mãos uma ideia. outros a atribuem a um mau poeta do mesmo nome. Mercúrio o transformou. rogou a este que não o descobrisse. é justamente o que Boileau chama com graça – ‘estéril abundância’. falou deste Ovídio naquela passagem do liv. e como os que o são repetem duas. três ou mais vezes as sílabas iniciais das palavras até que rompem a falar. . diz Ovídio.236 Rocha Pombo so de palavras para ornar o estilo. e não havendo ninguém visto fazer o roubo senão um pastor velho chamado Batto. palavra grega battología (de báthos e logos) sobre cuja origem não estão de acordo os autores. porque Sêneca era um dos seus autores favoritos. . e também exageração. porque. O velho prometeu-lhe que sim. ausentou-se. porque gosta de variar um mesmo pensamento. oferecendo-lhe em prêmio uma novilha. O primeiro defeito (batologia) opõe-se à elegância. e tinha o costume de repetir cada coisa duas e mais vezes. e ainda outros a atribuem a um pastor que fazia o mesmo que o mau poeta. . e variá-la de cem maneiras diferentes. não obstante. O segundo (tautologia) e o terceiro (perissologia) opõem-se à concisão. – Esta afetação. são entre si distintos. no qual refere como Mercúrio furtou a Apolo o gado que andava guardando. e não são fáceis de evitar como o precedente. sem embargo. . Consiste principalmente este defeito em amplificar demasiadamente um pensamento. duvidando Mercúrio que ele cumprisse a palavra. A verdade é que a palavra grega Báthos significa ‘tartamudo’ ou ‘gago’. e perguntou-lhe se tinha visto para que parte fora o gado que pouco antes andava apascentando. e. voltou. verbosidade aparatosa. – Das três outras diz Roq. . e para tentar sua cobiça ofereceu-lhe uma vaca e um touro se lhe dissesse a verdade. ou para fazer mais explícito o enunciado”. Dizem uns que se deve ao nome do fundador de Cirene. como a origem e composição de cada uma delas o dá a conhecer. mudou de forma. . . . na pedra chamada in- dex. As frases de Ovídio são bastante concisas. – “que indicam três defeitos do estilo que. porém. indignado. . redundante. e seu estilo é. inquit. variando-o de muitos modos diferentes. E com efeito. . Sêneca afeta mais concisão na frase. erant. dado serem todos contra a elegância e concisão da frase. o qual supõem que era gago. amplificá-la. A toda inútil repetição de palavras chama-se batologia. é . . é a repetição inútil da mesma ideia ou pensamento por termos diferentes. Vieira também cai algumas vezes neste defeito: o que não admira. é nímio e prolixo muitas vezes. . Pelo que. – Perissologia (de perissos ‘que é demais’ + logós). . . . O velho então respondeu-lhe: ‘Agora há pouco ao pé daqueles montes estavam. – O que não sabe omitir. II das Metamorfoses. . et erant sub [montibus illis. do grego tautologia (de tautó ‘o mesmo’ + logós). o que não é absolutamente necessário naquela passagem. redundância nímia. . . – Tautologia. isto é – ‘descobridora’ ou ‘denunciadora’. encarecimento. é superfluidade de palavras. de mostrar que se sabe dizer uma mesma coisa de muitas e diferentes maneiras. que repetia um pensamento com as mesmas expressões que havia empregado a primeira vez.

– Dizemos bélico daquilo “que concerne à guerra. ingênuo. guerreiro. e guerreiro o que é prático. hipócrita. – Guerreiro é o que é afeito à guerra. ou um indivíduo ser belicoso. – Carola é o que faz consistir toda a sua religiosidade nas superfetações do culto. de uma religião malcompreendida. e explora os incautos. dominados de instinto militar). hábil em coisas de guerra. que se insinua habilmente na simpatia alheia. Ajudam os beiços a fala e a mastigação: só os lábios osculam e beijam”. são os lábios.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 237 um declamador. – Belicoso é termo abstrato. na sua boa-fé e simpleza. – Beato. como reveste todos os seus atos e discursos de melíflua unção: aconselha a virtude. pois este. 424 BEIÇO. militar. intuitos belicosos. material bélico. mais por tolice que por cálculo. É termo concreto. Supõe-se sempre no beato um espírito fraco. beato “aproxima-se muito de hipócrita. Em suma: é militar mais próximo de bélico. mar- membranas carnosas e sem osso que for- cial. No sentido que tem aqui. aplica-se à pessoa que parece mais obsedada. Pode um povo. podemos estabelecer que militar qualifica o que é teórico. que faz dessa pessoa mais um monomaníaco do que um religioso. esta palavra designa a pessoa que é muito solícita nas suas devoções e práticas religiosas. etc. tanto no homem como nos animais. . – que às práticas afetadas de piedade alia a mais refinada velhacaria. e também um grande guerreiro pode acontecer que não tenha instintos belicosos. e engana e arruína sem fé nem consciência. Elementos bélicos. e cobrem os dentes quando se fecham. – Tartufo é o nome do protagonista de uma comédia de Molière. A parte mais macia e delicada dos beiços. Porte marcial. do que convicta e segura de uma crença racional e verdadeira. Quando belicoso se diz do homem. mas a moral: os povos bárbaros são belicosos (isto é – dados à guerra. A primeira é palavra vulgar. Comparando militar com guerreiro. inspira o temor de Deus. e não ser guerreiro. – Segundo Roq. à profissão do soldado. e como tal só deve aplicar-se ao que é material. neste grupo.). incendimento marcial. – Militar (do latim miles ‘soldado’) dizemos de tudo o que é relativo à carreira das armas. belicoso. virtudes que não tem. – Marcial (de Mars. que são as bordas em que muitas vezes brilha a cor do rubim. inculca o bem. – Tartufo é aquele – diz Bruns. chamam-se beiços. isto é – nas festas de igreja. que não só afeta ser virtuoso. só qualifica o abstrato. carola. mas de hipócrita que afeta grande devoção. como dissemos. ou que a ela é relativo. e como tal só pode qualificar o que é moral: furor belicoso. – Hipócrita é o que finge sentimentos. Neste sentido. Marte) significa propriamente o que é relativo a Marte. que lhe é próprio ou que serve para ela. não lhe qualifica a entidade física.. a segunda é científica e poética. nas procissões. lábio. enquanto que marcial se diz tanto do que é abstrato como do que é concreto. as “duas mam a parte exterior da boca. Propriamente. induz a observância das práticas religiosas. tem uma acepção que só o uso autoriza. e incorre na censura do citado Boileau. É vocábulo mais extenso que belicoso. não um escritor judicioso. e marcial mais de belicoso”. o deus da guerra. e quando abrem o sorriso deixam ver alvos dentes. aprestos bélicos. mais por simplicidade de espírito que por interesse” (Bruns. que com tanta razão dizia: Quem não sabe calar. tartufo. caráter belicoso. 425 BÉLICO. atitude belicosa.” 423 BEATO. nem escrever [sabe. e incorporou-se na língua para designar o refinado hipócrita em matéria de religião.

amor ao próximo. – Filantropia é a mesma caridade. Acrescentei de alguns volumes a minha pequena biblioteca (e não – livraria). humanidade. 427 BENEFÍCIO. – Humanidade é apenas o conjunto de qualidades que levam a criatura a ter sentimentos simpáticos. favor. Por outro lado. como ninguém se animaria a perpetrar: “Vim da livraria pública. Vamos recorrer da vigararia para o bispado. 429 BISPADO. como que obedecendo aos impulsos da própria natureza moral. o amor ao próximo é uma locução que vale muito pouco porque não fixa sentimento nenhum. – – Segundo Bruns. F. caridade. nem sempre aquele que mais esmolas dá será o mais caritativo. considerada como pessoa jurídica e na sua capacidade de possuir bens temporais. livraria. por isso mesmo.. talvez sem sugestão de ideia religiosa: é mais. – Amor ao próximo (ou do próximo) é também uma virtude evangélica: é a que mais se aproxima de caridade. Mudou-se a biblioteca nacional para a Avenida (não – livraria). “o conjunto de livros destinados à leitura”. – a ideia comum aos termos deste grupo é que os atos por eles expressos se aplicam em favor de alguém. – Graça é um benefício ou distinção que se concede sem merecimento particular de quem o recebe e sim só por afeto. a divisão eclesiástica que fica sob a administração de um bispo. diocese. – Mercê é prêmio. Ninguém diria: – “Vou à biblioteca do Sr. – Caridade é propriamente “o amor do nosso próximo. uma virtude social. – Favor – diz muito bem Roq. quem o faz sobre quem o recebe. – Todos estes vocábulos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia de abnegação que leva um homem a interessar-se pelo seu semelhante. altruísmo.238 Rocha Pombo 426 BENEFICÊNCIA. 428 BIBLIOTECA. – Não é possível confundir estes dois vocábulos. e de superioridade de fortuna. filantropia. mercê. é o nome positivista do amor ao próximo. episcopado. ou o prazo durante o qual exerce o bispo a sua função. devendo notar-se que. . uma qualidade da alma do que virtude social. – Beneficência é “a virtude de fazer o bem espontaneamente. Podese dizer que é mais uma virtude interior. por isso mesmo que é mais do que a própria caridade exterior ou praticante. – Diocese é o território dentro do qual exerce um bispo a sua autoridade e jurisdição. – O bispado de Mariana. e sem ideia alguma de dever”. – Obséquio é simplesmente “ato de delicadeza com que se procura agradar ao obsequiado”. – Benefício é um dom gratuito que inculca ideia de ação sagrada. no entanto. galardão que se dá em agradecimento ou recompensa de bons serviços. consideração ou piedade de quem a outorga. – Mitra é o mesmo bispado ou dignidade de bispo. tanto com os outros homens todos como com os próprios animais. posição ou valimento por parte de Bispado é a jurisdição do bispo. obséquio. e também a autoridade deste. portanto. mitra. como sendo nosso irmão”. – é termo genérico que significa todo ato de benevolência afetuosa que distingue e prefere a pessoa favorecida. Emprega-se também para designar o conjunto dos bispos de uma província eclesiástica ou de uma nação. dádiva. – Episcopado é a função. ou da livraria municipal”. – Altruísmo está quase nas mesmas condições: é o “amor dos outros”.. graça. – Livraria é multidão de livros destinados à venda. Alves”. – Biblioteca é. Um homem que não dá esmolas pode ter em alto grau a virtude da caridade.

430 BOIAR. ou esfera terráquea. A primeira chama-se globo terrestre. – Boiam as urtigas marinhas. bala. com a diferença que esfera é termo de geometria. 432 BOLHA. não vulgar. quando muito poderá ter uma parte fora da água. – A mitra vai reclamar contra a extorsão que contra ela cometeu a municipalidade. e de seu uso nos deixou Camões bom exemplo na estância LXVII. mas cada uma delas exprime uma espécie de redondeza. esfera. globo. – Flutuar é “ficar em cima da água ou de qualquer outro líquido”. pois o corpo que sobrenada quase que fica todo fora da água. vesícula. e significa um corpo sólido perfeitamente redondo: no que concorda com globo. ou terráqueo. manda os dilijentes Ministros amostrar as armaduras.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 239 O bispado só pode condenar. – “Todas estas palavras designam um corpo esférico. e peitos reluzentes. Mitra muito rica. – A bola é redonda por todos os lados. ou então de pello. vem provavelmente de pela. “lançar”. globus. – A imensa diocese de Mato Grosso. que alguns querem venha do inglês ball (que se pronuncia bol) e designa especialmente os corpos esféricos maciços com que se joga. arcabuzes.. Nadam os animais. sobrenadar. – Esfera é também voz grega. ou os signos ou constelações celestes e a que estão adaptados círculos astronômicos que representam o curso do sol na eclítica. empola. de cujo centro todas as linhas que se tiram até à superfície são iguais. e tomar alguma direção. Dividiu-se em três a diocese do Amazonas. – São tomados aqui todos estes vocábulos como significando particularmente as pequenas elevações que se formam na pele.. mas elevada e científica. e laminas seguras. e designa um corpo esférico. e para mais clareza. Malhas finas. palavra muito usada dos nossos antigos antes que tomássemos dos franceses a que hoje se usa. nadar.. flutua a jangada. Por este nome é conhecida entre os doutos a terra que habitamos. – Pelouro. é mais poética do que bala. – Nadar é. e daí a locução – “sair nos pelouros”. e designa toda sorte de projetil que saia das bombardas. espingardas de aço puras. ou impor penas no espiritual. – O meu episcopado tem sido tormentoso. Pelouros. O corpo que boia pode nem ser visto à tona ou à superfície da água. Por ser palavra hoje pouco vulgar. chamavam-se pelouros a umas bolas de cera dentro das quais se metiam os papelinhos contendo os nomes das pessoas de que se fazia escolha para juiz ordinário etc. a segunda. Mitra rendosa. Escudos de pinturas diferentes.. O episcopado brasileiro. etc. – Globo é palavra trasladada do latim. 431 BOLA. flutuar. Na nossa antiga forma de eleições. esfera celeste. de geografia e de astronomia. do canto I dos Lusíadas: Isto dizendo. e tem mais lata significação que globo. Flutua a cortiça. e de bom soído. – Bolha . ou esférica (oca ou sólida). – Sobrenadar é mais que flutuar. em cuja superfície se figuram os diversos acidentes da superfície da terra. “ser nomeado ou eleito”. ajunta-se-lhe o qualificativo – terrestre. e não se podem usar indistintamente umas por outras”. por esforço. bala. não ir ao fundo. isto é –. redondo por todas as partes. com a terminação exagerativa ouro. É palavra vulgar. – Se- gundo Roq. Teve ele sessenta anos de episcopado. O episcopado americano. – Boiar é “não ir para o fundo da água”. ou “sobrenada se tem altura”. Designa particularmente toda máquina redonda e móvel. borbulha. pelouro. Vêm arnezes.

ribanceira. Dizemos – “pernoitar à beira do rio ou do mar”. e como que lhe serve de barreira”. genérico dos demais deste grupo. – Bengala é o bastão de cana. de qualquer madeira. e por isso aprazível à vista. – Praia é toda a extensão de terra plana que as águas do mar cobrem e banham com suas enchentes. o cajado pelo pastor. bastão. mas cada uma delas a seu modo. supõe-se ser de areia. da praia. referindo-se a borda. 434 BORDA. –. – Pau é o bordão considerado mais como arma que como amparo. Uma pancada pode produzir empola. – Margem é toda a extensão de terra chã. e quando é de rios. o pau pelo camponês. cajado. jacto cheio. – Segundo Bruns. inverno e descoberta no verão. – Cachão é “a bolha ou borbotão que forma um líquido ao correr com força”. – A empola ocupa maior superfície que a bolha e pode estar ou não cheia de aquosidade. ribeira. ribança. ou certa extensão de ribas”. ou costa. – Jacto é “uma porção de líquido ou fluido arremessada com ímpeto”. praia e costa – “indicam coisas que têm relação imediata com as águas do mar ou dos rios. segurando-o por baixo da extremidade superior. ribeira. – Ribança é “continuidade. quase que não tem largura. – Golfada é o “jacto que sai por um canal ou aberta”. e é o símbolo de certas autoridades”. O cáustico forma bolhas. costa. pau. beira. mui fresca e produtiva. e é frequentemente chamado também varapau. mais ou menos elevada. da ribeira. O bordão é usado pelo viandante. contendo ou não serosidade. jacto. margem. cachão. de ordinário coberta de água no cacete. riba. devido aos nateiros. e tanto se aplica relativamente a rios como relativamente ao mar. coberta de verdura. – Borbulha é uma saliência ainda menor que a bolha. e é por assim dizer a orla da margem. de junco. quando é do mar. tor- rente. gorgolhão. ou borbotão que sai com ímpeto e ruído”. golfada. – Ribeira. – Costa é a porção de terra ao longo do mar. – Ribeira é a margem mais ou menos em declive. 435 BORDÃO. e quase sempre de areia. distinguindo-se deste apenas em sugerir a ideia de maior porção da margem que a beira pode compreender. é de terra vegetal. . e de uso geral nas cidades modernas.240 Rocha Pombo é a pequena saliência que encerra matéria serosa. jorro.. – Vesícula é termo científico. – Cajado é o bordão que tem a parte superior em forma de arco. – Gorgolhão (ou gorgolão) é “golfada.. – Ribanceira é “como ribança mais áspera”. – Borbotão (ordinariamente usado no plural) é “o fluxo desordenado ou jacto impetuoso que faz a água ou qualquer líquido ao sair de um lugar para outro”. mas ninguém diria sem absurdo ou pelo menos impropriedade clamante: “pernoitar à borda do rio”. – Sendo borda a extremidade prolongada de qualquer superfície. “bordão é o pau grosso a que alguém se arrima. 433 BORBOTÃO. margem. – “Todas estas palavras” – diz Roq. varapau. o varapau pelo desordeiro. – Bastão é uma grossa bengala de castão. – Riba designa “margem de rio onde a terra é levantada”. – Jorro é “uma porção de borbotões impelidos com força”. ao longo dos rios. praia. – Torrente é “uma quantidade de água que se despenha em cachões e impetuosamente”. Estes dois termos dizem-se mais ordinariamente dos rios que do mar. – Beira é quase sinônimo perfeito de borda. – Cacete (do francês casse-tête) é o bastão grosseiro de que usam os garotos e valentões de praça ou de estrada. bengala.

Só quem foi colhido por uma borrasca nos Pireneus é que se pode fazer uma ideia da fúria dos elementos na terra. porque é súbita. – Mata é “a selva rude. como os que. mata. capoeira. opulenta. menos violento e talvez mais imprevisto. capão. é também brasileirismo. Pind. gibosidade. e que se encontra agora mais distante da casa. não obstante. emaranhado”. Bossa. restinga. também se emprega para designar a chuva de neve que cai nas altas montanhas quando é impelida por um forte e frio vento do norte. – Sertão é “a grande floresta desolada e sem habitantes”. – “pertence melhor à linguagem marítima que à terrestre. Por extensão designa o defeito físico das costas ou do peito daquele que é algo corcunda.. – Selva é “o bosque espesso. vendaval. – Capão. aguaceiro. temporal. – “O vocábulo borrasca” – diz Bruns. corcunda e marreca.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 436 BORRASCA. – Restinga é o capão que fica no meio do campo ou junto a algum rio. tapera. – Capoeira é “mata que já foi capão. suprimindo-lhe a sílaba inicial. diz Bruns. – Tormenta muito se aproxima de tempestade. como bosque. sertão. segundo Lacerda. corcunda. como as três últimas. 437 BOSQUE. ideia que é igualmente expressa por marreca. é a protuberância natural que têm no dorso certos animais. é apenas menos extensa que a floresta”. luco. entre os gregos. – Procela. – Arvoredo é também. – Bosque é o “nome que se dá a uma porção de árvores reunidas”. – Corcunda e marreca designam tanto o defeito como a própria pessoa que o tem: a corcunda é uma corcova considerável. a giba pouco aparente é mesmo. ou da sorte. . giba. É termo nosso que os primeiros povoadores da terra fizeram da palavra desertão (grande deserto). chamada bossa. acompanhada o mais das vezes de chuva. – Tempestade é o mau tempo em que há violenta agitação do ar. corcova. em estilo poético. de ter giba) é o defeito. e onde se abriga a criação miúda”. selva.)”. tormenta. só de pessoas. tempestade refere-se mais à agitação do mar. floresta. multidão de árvores. – Bossa aqui. se consagravam a divindades bucólicas”. – Vendaval é “o temporal mais forte e tempestuoso”. giba e corcova dizem-se de pessoas e de animais. As montanhas são as gibosidades da terra. – Luco é termo poético significando “o bosque cheio de flores. e muito usada em significação translata. Usa-se muito igualmente no sentido figurado. marreca. Os vendavais da vida. procela. – Refrega é “rajada de vento que não chega a ser tormenta. cientificamente. tempestade. saraiva e trovoada. Parece provir da semelhança que apresenta com a restinga no meio do mar. – Aguaceiro é “uma carga de água súbita e violenta”. refre- 241 ga. – Corcova é a giba considerada como aleijão. É palavra indígena que incorporamos à língua (formada de taba “habitação” + oera “que foi”). cuidado com esmero. é “a tormenta furiosa do mar. o vulto que faz a giba. significando “bosque nas vizinhanças quase sempre de habitação”. Na linguagem dos marítimos. distinguindo-se desta em sugerir a ideia de ser o fenômeno mais rápido. mesmo que seja muito forte”. ou da má fortuna. formada quase sempre de grandes árvores. 438 BOSSA. – Giba (em latim gibba) é o nome científico de qualquer protuberância que existe no que devera ser plano. arvoredo. Aquiles. procela horrenda do cruel Mavorte (Diniz. – Tapera é o capão ou bosque pouco espesso onde ainda se encontram vestígios de habitação antiga. mas sem a ideia de ser basto ou espesso. – Gibosidade (além de designar a qualidade de giboso.. e borrasca à impetuosidade e fúria dos ventos”.. – Temporal é “borrasca que se prolonga por dias”.

como dissemos. O primeiro sinal de vida que dá o olho constitui o botão. – “Olho é a parte que na ramagem das árvores e arbustos indica o lugar onde se hão de formar os botões e as gemas na época do desabrolhar dos vegetais. lacônico. e em excluir quanto seja alheio ao assunto. – Sucinto. na estação. O que é conciso exprime brevemente o pensamento. tendo o cano mais ou menos alto. – Bo- botim de senhora ou de criança. cobre o pé e a perna até um pouco acima do joelho ordinariamente. sucin- tim e botina (ou botinha) são diminutivos de bota. lacônico e sucinto só se dizem do que é relativo ao estilo. 441 BOTIM. ao que é característico próprio do assunto.) – Broto é o mesmo rebento ao apontar. – Conciso. – Lacônico também dizemos do que é enunciado no menor número possível de palavras. para que não se torne difícil o ato de calçar. forma a gema. rebento. – Calçado é o nome genérico de todos os deste grupo. – Bota é o calçado de cano alto. botina. Falando-se do tempo. A qualidade de conciso consiste em enunciar o pensamento em poucas palavras. calçado. o uso baniu esta última: nos grandes centros urbanos ninguém mais diz botica. com a significação que todos conhecem: loja reservada onde se vendem bebidas. quase sempre guarnecido de elásticos. na sua curta vida sofre o homem bastante. no entanto. dizemos indiferentemente breve ou curto: é breve a vida do homem. Botim é a bota de cano baixo. desprezando tudo quanto seja circunstância acessória ou pormenores. o que é lacônico pode correr o risco de ser afetado.. consistindo a precisão no emprego dos termos mais adequados. broto. não breve: uma obra que nos empolga sempre nos parece curta. veneno” etc. entre os dois alguma diferença. tomando consistência. na cidade.. havendo. qualifica aquele escrito ou fala em que o escritor ou orador se atém exclusivamente ao essencial. conciso. 440 BOTICA. 442 BREVE. . sapato. – Mas. to. farmácia. gema. designa também a gema quando está prestes a dar a folha ou a flor”. é curto. O que não tem tanto comprimento como devia ter ou se supunha que tivesse. e que. portanto. – Preciso é antônimo de difuso. – Só o uso autoriza-nos designar pelo vocábulo farmácia a loja ou estabelecimento onde se vendem drogas e remédios. – Sapato é o calçado de couro grosso quase sempre. tanto da raiz como dos galhos da planta. bota. – Gomo é corrução deste último vocábulo.30 e sim farmácia. ou então aberto na frente. preciso. – Breve é o que se faz em pouco tempo: discurso breve (breve demora no campo. pois o vocábulo farmácia (do grego phár makon “remédio. (Bruns. que do estilo. o que é lacônico emprega só as palavras absolutamente indispensáveis. ou renovo. O que é conciso pode ser perfeito (e é enérgico e simples).) designa propriamente “a arte de preparar medicamentos”. rebento. este. gomo. sem ampliações nem ornatos. A loja onde se vendem remédios e drogas chama-se botica (do grego apotheke “lugar oculto ou reservado”). reno- vo. O que não é conciso é prolixo. e não breve. mas muito usual entre a nossa gente do campo. pois a quantidade que este adjetivo enuncia não exclui a riqueza nem o adorno. curto. Botina (ou botinha) é o 30 De botica temos o diminutivo botequim.242 Rocha Pombo 439 BOTÃO. e que só cobre o pé. olho. só se diz com propriedade das novas hastes que saem da raiz da planta. porém. que melhor se diz do discurso ou da obra. – Rebento.). Todos os estilos podem ser precisos. – Segundo Bruns.

presente. – Flamear (ou flamejar) é “emitir brilho como de chama.) – Resplender é “luzir amplamente. dom. e nunca “brilhante lapidado”. sem ideia de gradação de intensidade. que neste figura. como trepidando. – Luzir é simplesmente “emitir luz”. fuzilar. refletir esplendor. mimo. clara como a do sol”. mas sem intensidade que chegue a deslumbrar”. coriscar (coruscar). – Cintilar é “brilhar com rápidas intermitências. e refulgir é “emitir ou refletir luz quase com a mesma intensidade da que brilha”. o mais expressivo. luzir. mimo. relampaguear e relampadejar) enunciam a ideia de luzir instantaneamente. “Aquela doce e gloriosa luz vem resplandecendo dalém dos montes”. – Todos estes verbos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia fundamental de emissão de luz. – Brilhar é “emitir de si próprio. no entanto. donativo. “o mineral no estado nativo. vaga”. ou pequeno raio ou faísca elétrica”. 444 BRILHAR. não lapidado”. esplender. fulgir.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 443 BRILHANTE. – Fulgurar é “brilhar de luz muito forte e instantânea”. É. resplender. ou refletir. isto é. a partícula incoativa ecer. relampaguear. rutilar. ou “brilhante em bruto”. o verbo esplendendo. espargir luz. pois. – Brilhante é o nome que toma o diamante depois de lapidado. ou que está em combustão ou em estado candente. – Fuzilar é “despedir lumes. designa o objeto esquisito. portanto. – Resplendecer é o mesmo verbo mais fiel à forma latina (resplendescere). faiscar à maneira de raios”. reluzir. resplandecer (resplendecer). oferta. – Resplandecer é “reluzir. luz muito forte. – Este último vocábulo. fino. relampear (relampejar. tremeluzir. – Transluzir é “emitir luz através de alguma coisa”. como ninguém se lembraria de perpetrar: “um adereço de diamante”. – Irradiar é “lançar. A forma coruscar é mais fiel ao latim coruscare. relumbrar. – Esplender dizem muitos autores que é o mesmo que resplandecer. intensa. brilhar solenemente. dádiva. marca uma diferença bem sensível entre os dois verbos. luzir. chispar. pelo menos tão próprio. – Diamante é. Resplandece o sol quando vem nascendo. flamear (flamejar). luz muito viva e radiosa”. – Conquanto de- 243 signem a mesma pedra preciosa. refletir fulgurações. “um anel de diamante”. – Relampejar e os três verbos que se seguem (relampejar. esplende majestoso na amplidão do céu. fulgurar. – Tremeluzir é “dar luz indecisa. e sem diferença alguma sensível entre nenhum deles. – Faiscar é propriamente “despedir faíscas”. – Rebrilhar é “brilhar de novo. relampadejar). rebrilhar. faiscar. . – Refulgurar é fulgurar outra vez. – Coriscar é “luzir como corisco. cintilar. translu- zir. como relâmpago. “diamante lapidado”. ou “extrair brilhantes”. de todo o grupo. tem fulgir na sua estrutura a raiz grega fleg (phleg) que sugere ideia de “queimar”. dar claridade como corpo inflamado”. Estes dois verbos parecem envolver a ideia de que a luz que fulgura ou refulgura mais deslumbra e cega do que ilumina propriamente. Ninguém dirá: “mina de brilhantes”. – Rutilar é “luzir com luz viva e fugaz”. refulgurar. como despedindo jactos de luz”. “diamante em bruto”. refulgir. – Fulgir31 é “luzir vivamente”. como chispar é “desprender chispas”. 31 Como fulgurar. 445 BRINDE. diamante. – Reluzir diz melhor – “refletir luz”. E. cintilar vagamente. Dizemos. com luz mais viva”. – fragmentos em ignição que saem de um corpo ferido por outro. – Relumbrar é luzir como chama ou como lume. esplender com majestade. encantador. irradiar. vacilante. não seria possível confundir as duas palavras nem empregá-las indiferentemente. ou raios luminosos”. (Aqui não seria.

chistoso. névoa. – Bulcão é “nuvem muito densa e negra. mas emprega-se. – Dom é uma prova de munificência. e só pode consistir em algo de delicado”. ampla. – Nimbo é “a nuvem grossa. cerração. que é bobo de praça”. impedindo que se veja claro a pouca distância”. Caricato equivaleria. procurar não inclui nem exclui essa ideia. bulcão. 447 BURLESCO. nevoeiro. muito fechado.. o que desperta riso. truanesco. por gracejo. chiste e graça que se não confundem com a zombaria. Procura-se (mas não se busca) uma palavra no dicionário. como substantivo. – Neblina é “nevoeiro menos denso e muito chegado à terra”. nimbo. esquisito. em suspensão na atmosfera”.: “Pretendem alguns que em buscar há mais diligência ou empenho que em procurar: não nos parece que tenha fundamento essa distinção. ao nosso carregado ou exagerado. – Grotesco sugere ideia de “caprichoso. – A oferta considera-se como feita de inferior a superior”. – Bufo (transplantação do italiano) indica também o que é burlesco. – Faceto quer dizer – “engraçado. principalmente nas manhãs de inverno”. faceto. 446 BRUMA. nuvem. – Bufão é o mesmo que bufo. ridículo. literal ou gráfica. Busca-se ou procura-se por toda parte aquilo de que se necessita. o mesmo que gênero burlesco. extravagante. Gênero bufo. – Burlesco diz propriamente “por diz muito judiciosamente Bruns.. ou de homens e coisas. – Cômico é “o que é próprio da comédia. portanto. – Caligem é “nevoeiro muito denso e escuro. – Dádiva é uma prova de generosidade. bufão. Para exprimir caricatura tem o francês a palavra charge (= representação exagerada. faceta. bufo. feito para causar alegria e riso. que não guarda a devida compostura”. – Nevoeiro é “grande névoa. que é demasiado até o ridículo. – Névoa é “vapor aquoso que pela sua densidade não sobe muito nem se desfaz em chuva. esquisito ao ponto de cair no ridículo”. que é quase sempre seguida de tempestade”. pairando ordinariamente na encosta ou no cume dos montes”. com mais propriedade do que este. – Nuvem é “acumulação de vapores. escura e que quase sempre se desfaz em chuva”. negrume. grotesca de fatos. cerração profunda”. 448 BUSCAR. que escurece o ar e ameaça de tormenta”. e esta palavra (que tomamos do italiano) designa a representação caprichosa. – Bruma é “cerração espessa. burla. grotesco. Ópera-bufa. O que nos parece . mais ou menos densos. – “O brinde” – diz Bruns. – Caricato é o que tem a aparência de caricatura. – Cerração é “forte nevoeiro que cobre os campos ou o mar. como de burla. por exemplo. nevoeiro principalmente no mar. recebe o nome de donativo. – Ridículo é termo genérico aplicável a “tudo que provoca o riso ou que merece escárnio”. – Extravagante é “o que saiu do normal. dito para que outros riam”. ou bulcão ou caligem. – “é um obséquio. e este vocábulo não inculca que o objeto que constitui o presente reúna qualidades determinadas. densa e baixa”.244 Rocha Pombo que por gentileza se oferece a alguém. excêntrico. hilaridade”. – Negror e negrume só por figura é que se tomam por “bruma muito espessa. neblina. o burlesco. Buscar inclui sempre a ideia de movimento por parte de quem busca. negror. seria o mesmo que ópera-cômica. Quando a dádiva tem um fim benéfico. ou o motejo. mas de esquisitice. caligem. cômico. – O presente é uma prova de amizade. por brincadeira. – Truanesco é “o que faz coisas ou diz tolices de truão. uma prova de boa vontade. de alguma coisa). – Destes dois verbos caricato. procurar.

no entanto. caindo sobre a testa ou para os lados. – Forca é. Ambos designam o instrumento de suplício nos países onde subsiste a pena de morte. uma porção de cabelo enovelado ou em trança”. – Madeixa é “um negalho. ou sobre os ombros. e tanto se diz do homem como de certos animais. – Guedelha é “uma pequena porção. – pa. caindo pelas faces. “diz-se de todo o cabelo. – Coma é “cabeleira farta. – Cabeleira. A cachoeira pode ser formada por um salto vertical (e então chama-se mesmo salto) ou por um plano muito inclinado”. – Cascata é a queda. um necessitado busca ou procura um emprego”. – Rápido é “a parte de um rio onde a água muda um tanto de nível sem formar queda”. 452 CADAFALSO. cascata. promontório. – Pontal é “uma ponta de terra para o mar”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 245 acertado estabelecer é que quem procura sabe que existe o que anda procurando. – Catadupa e catarata dizem-se da queda de um grande volume de águas e de grande altura. e aplica-se particularmente a uma praia que avança para o mar. designa catadupa. . e designa “o conjunto dos pelos que vestem a cabeça do homem”. – Salto. composta e ordenada. – Corredeira é brasileirismo equivalente a cachoeira. grenha. em desordem. gue- “um diminutivo de cabo. 451 CACHOEIRA. revolto. Um inquilino procura casa para onde mudar-se. – Melena significa certa porção de cabelo. desnudada e cheia de montículos de areia”. coma. mas o patíbulo sugere ideia do castigo merecido pelo paciente. a ideia de que o fluxo das águas é menos vivo que na cachoeira. imponente”. patíbulo. e igualmente se diz dos cabelos postiços compostos de modo que cubram os naturais ou a calva”. é preciso admitir uma certa diferença. de todos. 449 CABELEIRA. 450 CABO. – Cabelo é do grupo o termo genérico.. sem notáveis acidentes. quando o volume delas não é muito considerável. sugerindo. que uma pessoa tem na cabeça. melena. ou sem elevação que se destaque muito do continente”. madeixa. pontal. cabedelo. marrafa. forca. é “o ponto onde um rio. como diz o latim promontorium (mons in mare prominens). ou um cabo de pequenas proporções. uma madeixa de cabelo da cabeça ou da barba”. – Cabedelo é – Entre cadafalso e patíbulo. por mais que o uso geral não dê por semelhante distinção. não penteado. – Marrafa é uma porção de cabelo riçado. catadu- delha. usado principalmente em França e durante a Revolução. ao patíbulo sobem os monstros. Lesurques morreu no cadafalso. o instrumento mais ignominioso: é “o aparelho onde se estrangulam os condenados à pena última”. aqui. mudando bruscamente de nível. catarata. – Guilhotina é “o aparelho moderno. rápido. – Grenha designa cabelo embaraçado. forma cachões. cabelo. segundo Bruns. Também se diz de cada uma das duas porções em que se divide a cabeleira ao penteá-la. que se julga serem sinônimos perfeitos. enquanto que aquele que busca ignora se há o que anda buscando. corredeira. principalmente quando é em profusão. ideia que se não encerra em cadafalso. se bem que encerre a ideia de menor volume de águas. para decapitar de modo instantâneo os condenados”. salto. e vale por um pequeno cabo. – Cachoeira. – Promontório é o cabo que termina em rocha escarpada ou em monte. guilhotina. Cabo é “a grande porção de terra que se mete pelo mar. ou descida de águas por entre rochedos. segundo Lacerda. longa.

ou não revela o que sabe ou o que sente”. que está de todo gasto. e que chega ao seu fim”. e senilidade. calado. pois à ideia de falar pouco reúne a de muito cuidado em não dizer o que é inconveniente. evitando o convívio e tudo vendo com maus olhos. ou por algum motivo. suputar. – Calado é “o que está sem falar. gesto. prudente”. se mostra esquivo. – Tratando dos seis primeiros vocábulos deste grupo. o que está calado também cômputo. sombrio. quieto. – Quieto é propriamente o que não se agita. e mesmo que silencioso. esmar. carregado. reservado. – Velho é o homem avançado em idade e sem mais o vigor de moço. ensina-se a ler. palavra etc. ou fazer operações . – Sombrio é quase o mesmo que taciturno: apenas sugere melhor a ideia de tristeza que em taciturno como que desaparece ou se disfarça sob o ar de esquivança ou mesmo de repugnância que este encerra. desordenado. aqui. mudo. taciturno. Decrepitude (ou decrepidez) é a qualidade de decrépito. sombrio. computar. não articula palavra alguma por um motivo qualquer. caduquice é “manifestação de caducidade. que contém o mesmo radical latino que o primeiro (senex “velho. mas este ensino. ao alquebramento das forças. ou por defeito orgânico (e então é mudo). conta. ou por moléstia. ancião”). de caduco”. mais de rotina que de ciência. calmo. O que está mudo não pronuncia palavra alguma. por assim dizer. Deve notar-se entre os dois vocábulos a seguinte diferença: senectude refere-se mais particularmente ao físico. além de calado. diz o mesmo que “sereno. de ar severo. e senilidade à diminuição da energia moral e física ao mesmo tempo. – Invalidez é a qualidade ou condição de inválido. de ser discreto. Há entre calado e mudo. designa o que tem perdido as forças do espírito. no entanto. ou por deformação orgânica. – Taciturno é aquele que.. de guardar em segredo o que não deve ser divulgado. – Silencioso é termo genérico e muito extenso. nas escolas de primeiras letras. – Inválido é o que. – Calcular é executar operações aritméticas. uma diferença que se não deve esquecer. diz Roq. por isso é que este vocábulo sugere ideia de estar em silêncio. o romance da sábia língua do cálculo. Entre caducidade e caduquice há muita distinção: caducidade é “a idade ou a qualidade de caduco”. se tornou incapaz das funções que lhe eram próprias. 454 CALADO. – Quieto.: – “A palavra contar é a mais genérica de todas estas. aplicável tanto a pessoas como a coisas: o que é ou está silencioso exclui a ideia de rumor. estimar. contar. avaliar. de sorte que um sujeito que esteja calado ou mesmo que seja mudo pode não estar silencioso. silencioso. inválido (invalidez). nem se move demais. guarda silêncio. senectude. orçar. discreto. pois.246 Rocha Pombo 453 CADUCO (caducidade e caduquice). – Senectude é a idade avançada. mas o que é calado nem por isso se entende que esteja ou seja mudo: basta que fale pouco e com muita prudência. consiste em fazer numerações e algumas operações aritméticas para conhecer uma quantidade: é. também designa a qualidade do que chegou à extrema velhice. 455 CALCULAR. que não está mais na lucidez da sua razão e que caiu em quase idiotia. escrever e contar. quase sinistro. é obra. aplicado às pessoas. – Decrépito designa “o que não tem mais forças para viver. reserva e cautela. cálculo. – Caduco. – Velhice é o estado de exaustão a que chega o velho. – Reservado é um tanto mais expressivo que o termo calado. velho (velhice). desfeito. senilidade. de- crépito (decrepitude). ou pela idade.

e este deve ter suas contas claras e em dia. em suputar uma ideia de cômputo falível”. picada. em vez da qual usa de contar. de uma receita provável por ser baseada em dados que não devem variar muito”. pois é uma operação determinada e limitada a cálculo. Por influência do francês. três. para conhecer o total ou o resultado que se procura. O computar é próprio dos doutos.. e com muito mais razão está longe de poder calcular por divisões. a uma prova. – Computar é reunir. – Estrada é “caminho largo. – Caminho não sugere mais que a ideia de “espaço ou trilho livre entre dois pontos”. dois. algébricos. e o astrônomo computa sobre tábuas de sua ciência para fixar o tempo e o instante mesmo da repetição de um fenômeno. cálculo diferencial. combinar. 456 CAMINHO. aberto por entre obstácu- . Todo homem deve saber contar. mas não rigorosa. – Contar entra em mui variadas locuções. senda. trilha. e até certo ponto tem necessidade de saber calcular. vereda. – Suputar (que é desusado) é. via. A palavra computar não é conhecida do vulgo. etc. – Todas estas palavras têm de comum a propriedade de designar “espaço aberto conduzindo de um lugar a outro”. atalho. fazer o cálculo de um gasto. em lugar de combinar. Assim é que o cronologista computa os tempos. etc. – Dizemos – cálculos astronômicos. É assim que tanto dizemos – via terrestre. relativo a assuntos de interesse material. – Calcular usase no sentido figurado. O comerciante tem seu livro de contas em que assenta tudo quanto se refere a seu débito e a seu crédito. – O cômputo compreende-se no cálculo e na conta. Há. o geômetra. O astrônomo calcula a volta dos cometas. – Via só dá ideia do meio de comunicação entre um e outro ponto. sem calcular. Há estradas de rodagem. Para estabelecer o orçamento de um ano econômico suputam-se (hoje só se usa – orçam-se) as receitas e os gastos prováveis. carreiro. calcular a esmo. isto é. “computar com dados cuja exatidão se julga a mais perfeita possível. – Avaliar é “estabelecer o valor de uma coisa. etc. Contamos quando numeramos. – O contar olha-se como negócio que poderemos chamar econômico. infinitesimal. etc. nem mesmo caminho). como – via marítima.. – Estimar é determinar o valor de uma coisa. de comércio. o infinito. sem base segura: é pouco menos vago apenas do que esmar (não sendo este mais que uma contração daquele. construído com mais ou menos arte. vici- na. adicionar os números dados. quando queremos saber o número de certas coisas. – Esmar é “orçar ligeiramente. Um menino conta primeiramente pelos dedos – um.. – Trilha (ou trilho) é caminho estreito. começando por um. com mais fundamento do que quando se estima”. pois. e de modo que se preste ao tráfego de veículos”. estradas de ferro. azinhaga. etc. quase sem refletir”). pois esmar é “estimar a olho. raia. – Orçar é “calcular aproximadamente. como se pode ver nos dicionários”.. ou fluvial (e não – estrada. isto é. dois. ou fazer um cálculo. já se diz também – caminho de ferro. etc. de uma despesa. – O cálculo é uma verdadeira ciência formada de muitos métodos mui sábios. sem os fundamentos com que se orça”. etc. partindo de termos conhecidos para chegar a um desconhecido. raciocinar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 247 particulares da ciência dos números. estrada. dois e três fazem cinco. e rigorosamente falando não computa enquanto não pode dizer – um e dois fazem três. multiplicações e diminuições. O amo toma contas a seu feitor. segundo Bruns. e como que ressentindo-se disso no significado. a uma demonstração. e apenas se aplica no sentido próprio. de administração. integral. para chegar a um conhecimento.

. canseira. a locução – caminho vicinal – para indicar os “pequenos caminhos. Nesta acepção. à vontade. fazer esforços para apoderar-se de”. – Vereda é “trilha tão maldistinta que apenas parece marcar o rumo seguido”. falaz. solene. – Arguto diz-se do que é subtil e engenhoso. – Sofístico só se diz dos argumentos. azinhaga por onde se evitam as longas curvas do caminho geral”. cortando-se apenas as árvores. No capcioso há engano. velhaco. desânimo e prostração em que põem a fadiga e o cansaço”...) enuncia a ideia de meios hábeis. fadiga. é um “hino religioso. – Segundo Bruns.. Aplica-se particularmente este vocábulo ao discurso ou argumento com que se enreda alguém de modo tal que toda escapatória se lhe torna impossível. religioso. a passagem rápida para transpor um embaraço. – Lassidão é a “completa exaustão. trilha é vocábulo mais próprio e mais usado do que trilho. que levam de um caminho geral ou de uma estrada. – Cansaço é “a depressão de ânimo e de forças físicas que se seguem a esforço longo ou violento”. e mais frequentemente se toma à boa que à má parte. numa certa direção”. ou insidioso não é fácil de descobrir. no que é arguto há muitas vezes algo de capcioso. Ficou a morrer de cansaço quando deixou a forja. arguto. o esgotamento. Talvez só se explique isso pela beleza fônica do vocábulo. – Azinhaga é também “caminho estreito”. – Canto é “toda composição poética que pode ser cantada”. e só daqueles com que se pretende enganar o entendimento sem nenhum outro fim imediato. – Atalho é “caminho estreito.. traiçoeiro.248 Rocha Pombo 458 CÂNTICO. – O hino é “um cântico que pode ser patriótico. hino. – capcioso (do latim captare “tratar de apanhar. sofístico. o desgosto em que se fica. panegírico”. 459 CAPCIOSO. – Raia é. em vez dele. trilha. insidioso. 457 CANSAÇO. dos modos. mas sugere a ideia de “complicado e escuso”. – Picada é “trilha mal aberta em floresta. ardiloso. aqui. São só para nós as canseiras da vida. não obstante. Não se compreende como é tão usada esta palavra na frase – a senda. canção. argucioso. e mesmo heroico”. devidos à faina muito agitada e aflitiva”. e até – “a larga” senda do progresso. Diz-se das palavras. falacioso. (não – os cansaços). – Vicina é termo pouco usado. – Canção é termo muito mais próprio do que canto para significar “a poesia que é própria para ser cantada”. do tom. canto. aberto pelo tráfego de carros”. o sofístico descobre-se facilmente. – Carreiro é “caminho estreito. astuto.. se se atende à respetiva origem (do latim semita de semis + iter) deve significar “meio caminho”.. ob-reptício. Empregam-se meios capciosos para levar alguma pessoa a confessar aquilo mesmo que nega obstinadamente.. subtil. o que é insidioso. O que é capcioso dirige-se ao entendimento. – Senda. (não – de canseira). uma promessa insidiosa conduz a imprudências.. – Fadiga é o “cansaço que resulta de longos trabalhos. – Insidioso (do latim insidiœ “ciladas”) revela ideia de laço preparado para nele fazer cair alguém. – O cântico lo. sub-reptício. – Argucioso é “o que usa de . empregando-se. pois este designa melhor o sulco. O que é capcioso.. etc. Designa particularmente o poema lírico sobre tema popular. caviloso. “uma curta trilha destinada a jogos de corrida”. ou caminho muito estreito por onde mal pode passar-se. para os lugares vizinhos”. a indisposição. lassidão. destinados a apanhar a alguém como se apanha um animal a que se armam laços disfarçados. astucioso. – Canseira é “o abatimento geral que impede de agir.. etc. Um argumento capcioso leva ao erro. no insidioso há má intenção.

Ambos significam o ato de entregar-se ou de se considerar vencida uma praça de guerra. cada uma delas ajunta à ideia fundamental alguma acessória que a modifica. de falsidades”. – Astuto só se pode referir às pessoas. E junto do penedo outro penedo. tos estes dois sinônimos. rendição. cume ou cimo. eu sinto? [A frente Qual soberana. isto é. – “designa-se a parte mais nobre do homem. 460 CAPITULAÇÃO. – Cara é da palavra grega kára. 56: Estando c’um penedo fronte a fronte. 51: Que não no largo mar. – Velhaco é “o que usa de fraude para enganar. – Ob-reptício = “que se obteve por meio de ardil. Dizemos – gestos falazes ou falaciosos. só à linguagem. como a serpe na relva”. de argumentos capciosos. frente. ou ocultando a verdade ou qualquer circunstância que conhecida seria motivo para que se não nos concedesse”. capítulo é “a assembleia em que o cabido toma as deliberações para que tem autoridade”. tanto às pessoas como aos discursos. etc. mas entre nós só significa a parte anterior da cabeça do homem. passando a guarnição da praça rendida a ser prisioneira do vencedor”. sagacidade consegue o que deseja”. – Caviloso é “aquilo em que há sofisma ou má-fé. e sim – tipo falacioso. – Falacioso é “o que usa de falácia. e às vezes incivil e grosseira. e que importa conhecer para não as confundir”. Mas. quer dizer – de enredos. além de astuto. enganando. não. – “Por estas palavras” – diz Roq. ou fronte (que vêm ambas de frons). semblan- te. face.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 249 argúcias. fronte. com leda fronte. de subtilezas e disfarces”. Que eu pelo rosto angélico apertava. astucioso. – Subtil é “o que induz a erro sem que a vítima se aperceba. preside e manda. 462 CARA. Aplica-se. mas não seria próprio dizer – tipo falaz. mentindo. gestos. portanto. V. parte que ao corpo. A rendição supõe que a entrega é feita “sem ajuste prévio nem condições. Também só se deve referir ao discurso. e de alguns animais brutos. cabido. que eu palpo. rosto. – Astucioso é “o que. de caput “cabeça”) distinguem-se assim estes dois vocábulos: cabido é “a corporação de cônegos de uma sé”. – Astuto é “o que com arte. I. de surpresa ou dolo”. – Conquanto prove- nham do mesmo original latino (capitulum. e pode aplicar-se tanto à linguagem como à própria pessoa. a capitulação é . nos Lusíadas. sabe usar de disfarce para encobrir o seu intento enganoso. como quem prepara emboscadas”. é o que emprega astúcias contra outrem”. em lugar dela usam os poetas a palavra frente. Mas no lago entraremos de Aqueronte. para fugir a um compromisso”. E no c. José Agostinho de Macedo diz na Meditação: Mas que pasmosa arquitetura é esta Deste corpo. ou ato de capitulação. Não é admitida em estilo elevado. mas mudo e [quedo. qual soberana. – Sub-reptício = “que se conseguiu iludindo. É expressão vulgar. ou karé. que mente. – Ardiloso é “o que emprega meios enganosos e traiçoeiros. é o que se insinua habilmente no ânimo de outrem. lhe preside e manda! E Camões. Não fiquei homem. – Falaz é também “enganador. que inventa e dissimula para fazer cair em erro”. – Traiçoeiro é “o que age com perfídia. finura.” 461 CAPÍTULO. fraude ou mentira para enganar”. armando traição”. vulto. e significava cabeça. – São bem distin- “a entrega da praça feita e regulada por uma convenção prévia.

41) – Semblante (talvez do francês semblant) é o rosto considerado como expressão dos afetos ou paixões. humor. índole. sombrio. com a sociabilidade ou a falta de sociabilidade: tais são as disposições para ser alegre. marcando. para a franqueza: uma disposição. no entanto. e não – de humor austero. ramento. por ser a parte saliente do corpo. O mais comum. os nossos antigos chamavam. pode entender-se que essa disposição é permanente. está de bom humor. – Da palavra latina facies vem o nosso vocábulo face. sombrio. “O semblante (o vulto) muitas vezes indica os sentimentos da alma”. Dizemos – um caráter leal (não – um humor leal). Dizemos – F. Um caráter leal é a disposição permanente para a lealdade. de tendências. é de um caráter austero. ou com o seu contrário. pois humor. e talvez “rosto formoso”. ao esporão da proa das embarcações. uma perfeita equivalência entre caráter alegre. em que o nariz forma uma espécie de bico. dócil. especialmente as disposições do espírito que têm relação com a moralidade são elementos essenciais do caráter. feitio. ou quase permanente. ou para ser triste. ou com a mesma propriedade um caráter ou – um humor. esquisito. Toda disposição de espírito própria para estabelecer uma séria distinção entre um homem e um outro homem é um elemento do caráter. entende-se sempre como sendo uma disposição permanente do espírito. as disposições que formam o humor podem ser e são quase sempre momentâneas. porém. 33 E aqui está a verdadeira distinção entre caráter e humor: no caráter há fixidez de disposições. que no rosto se mostra. não somente uma simples disposição do espírito. que. significando rigorosamente a maçã do rosto. usam-na os poetas para indicar o mesmo rosto. – À palavra latina vultus muitas vezes corresponde a nossa semblante. II. F. como se vê deste lugar de Cícero. instinto. tempe- – Chamavam os latinos rostrum ao bico das aves. e muitas vezes equivale à representação exterior. compleição. III. – Segundo Bourg. é significar esta palavra vulto o relevo do corpo humano. que tem preso Em pedra não. como se infere destes versos de Camões: Quem32 de uma peregrina formosura. mas em desejo aceso? (Lus. e não – está de bom caráter. do que na alma se passa. e ao que com ele se parecia. 35). Por suavidade de pronúncia se diz rosto.. significa por extensão toda ela. gênio. Pode dizer-se igualmente. e como é no rosto que mais avultam as feições humanas. natural. pois só se diz dos racionais. para a probidade. e humor alegre. e da seguinte: E com o seu apertando o rosto amado. O humor resulta de um certo número de disposições do espírito que têm relação com a melancolia. II. complacente. . ou pouco mais ou menos permanente. – Caráter. mas uma disposição tal que possa estabelecer uma notável distinção entre um homem e um outro homem. – “o caráter e o humor resultam de disposições do espírito que são particulares a uma pessoa.. sombrio. e Berg. ânimo. usa-se.250 Rocha Pombo 463 CARÁTER. idiossincrasia. Não há. etc. e ainda hoje os castelhanos chamam rostro à cara dos racionais. muito a propósito. constituição. rabugento. Que os soluços e lágrimas aumenta. marcando simplesmente uma certa disposição do espírito. 142) 32 Subentende-se: pode livrar-se. De um vulto de Medusa propriamente. É expressão mais elevada que a palavra cara. Vultus animi sensus plerumque idicant (De Orat. e é poética. Que o coração converte. ou que é passageira33.. alegre. (Lus. ou a parte da cara desde os olhos até à barba. sobretudo visto de perfil. quando a consideramos voltada para nós. como se vê da precedente citação de Camões. feição.

tem bom gênio (e nem por isso terá sempre boa índole). – Ânimo é. uma saúde robusta. O homem que não se irrita facilmente. aqui. – Há naturais (ou naturezas morais) benfazejos. a despeito do que diz Bruns. mais ou menos viva de cada um. escreve o mesmo autor: “Complexão (do latim complexio. – Segundo Lafaye –. no entanto. – Idiossincrasia é termo erudito e moderno. pois.. feição parece enunciar melhor a ideia de modos exteriores. e – uma compleição delicada”. A constituição representa (é ainda de Laf. – Feição é.. a inclinação de cada um”. no exercício de alguma função ou na prática de certos atos. bons ou maus. temperamento dá. enquanto que compleição e temperamento designam o estado de saúde interior. Quando se é de um natural brando. formado pela índole e o gênio. Também significa o tino. sólida e capaz de resistir às fadigas. a índole. nem sujeito a fortes movimentos de paixões. – Temperamento (de temperare ‘misturar. que os movimentos da sensibilidade. não tem sentido. isto é.. de cum + 34 Pode mesmo ter mau gênio e ter boa índole. e não sob o ponto de vista do bem ou do mal. considerados no seu grau de força ou de vivacidade. e que é eminentemente própria para distinguir um de outro homem. tem boa índole (e não se dirá – tem bom gênio)34. Estas duas palavras fazem conceber uma proporção entre os elementos do corpo. Dir-se-á. que se refere à moralidade. como por inspiração. bruscos (e não – compleições.) e temperamento não significam mais que o humor. o gênio e o temperamento forma o caráter de cada indivíduo... gênio e temperamento há tanta semelhança que poderiam facilmente confundir-se os três vocábulos”. é o modo de ser do espírito. não se cometem crueldades. Comparando compleição e temperamento. sobretudo entre as partes líquidas.. a natureza de cada indivíduo. viciosos. e – uma compleição biliosa.. ao bem. sugere melhor a compleição. a conformação dos membros. à virtude. Mas o homem – diz Roq. e os animais principalmente. nem temperamentos). é o impulso natural a que obedece o homem. plexus ‘dobrado com. O humor não resulta de disposições que tenham relação com a moralidade. melhor. as disposições naturais para o bem ou para o mal – ou melhor. A união da índole. no modo de encarar as pessoas e as coisas. natural exprime as qualidades do caráter. não se é arrebatado. os humores. a índole de cada um. a natureza moral. a ideia de uma certa força ou violência atribuída aos elementos. por isso. importado diretamente do gre- . e não se enoja arrebatadamente. – Índole é “o modo de ser. de costumes e hábitos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 251 portanto. e essa ideia torna-se como que característica da própria mistura ou amálgama. a perspicácia com que se faz alguma coisa espontaneamente. sem refletir nem cogitar do que se vai fazer. o estado de espírito em que se está em certa situação. – que é naturalmente inclinado à verdade. as suas emoções. – Temperamento é a sensibilidade.) antes o bom estado exterior e visível do corpo. – Gênio é a disposição natural com que cada um revela a sua vontade. como feitio. quando se é brando por temperamento ou compleição. um – temperamento forte. – Feição e feitio bem que se podem confundir. – Instinto é o modo de ser ou de agir quase inconsciente. e segundo o qual julgamos as coisas. de preferência – um temperamento ardente. Poderia aproximar-se muito de humor. – Feitio. complicado’) exprime uma certa união de todos os sistemas e aparelhos orgânicos. humor leal. – Entre índole. que sabe moderar os transportes de ira. revelada na maneira de ser. adoçar’) anuncia um amálgama de coisas violentas que têm necessidade de corrigir-se e que se corrigem uma pela outra. Mas. – Complexão (ou melhor – compleição que é mais vernáculo.

O argumento que pia. não se pode carecer de cem contos. Como não se carece de meia dúzia de chapéus para não andar descoberto (sim – de um chapéu). Quem necessita de alguma coisa dá ideia de que essa coisa lhe é necessária. 466 CARESTIA. Em bom português não se poderia dizer que – “um homem carece de honra ou de vergonha”. carece de cem contos para realizar um negócio que planeou”. 35 O verbo precisar também pode ter significação diferente quando rege algum outro. como entendem Roq. em que figura a raiz grega ker. significam evidentemente “ter falta do que é indispensável”. Em regra. Por isso. formam o esqueleto. uma grande diferença entre careza e carestia: esta sugere ideia de carência. – Arcaboiço (de que não cogita o autor citado) é a “armação de ossos que formam. penúria. por último. de ser. sede. e carcaça é termo que só em linguagem familiar se pode dizer por esqueleto. mais de carecer do que precisar. – Esqueleto é palavra científica. Quando se diz que. precisar. nem – que necessita de cem contos. esqueleto. que estes verbos precisar35 e necessitar. Necessitar aproxima-se. É conveniente notar ainda que não carece daquilo que nunca se teve. 465 CARECER. sem dúvida. pobreza. Neste caso empregaríamos. de preço mais alto que o comum. “Ele sacrifica-se a trabalhar dia e noite porque precisa ou porque necessita”. A carcaça é a porção de ossos que formam o tronco do homem ou o bojo dos animais. no entanto. de escassez que obriga à privação muita gente. inó- (do latim carescere. nem de um banquete para matar a fome (sim – de um pouco de pão). Quem precisa de alguma coisa. por assim dizer. – Entre precisar e necessitar poderia ser mais difícil estabelecer diferença do que entre estes e aquele primeiro verbo. o verbo precisar. significando “disposição particular do temperamento e constituição. Observemos. expressa que lhe conviria muito alcançar ou possuir essa coisa. a base ou o fundamento do organismo humano”.. – Carecer carece de lógica é que não é senão absurdo. – Segundo Bruns.) 464 CARCAÇA. como intransitivos. ou do animal. e conforme se emprega ou não entre os dois a preposição de. – Carestia é “o preço elevado das coisas determinado pela falta ou pela grande escassez dessas coisas”. necessidade. ou precisão de falar-lhe). O sujeito que carece de emprego. mas falta que se sente e que passa. “Preciso de falar-lhe” (isto é – tenho necessidade. encurtar”) significa propriamente “ter falta daquilo que se deseja ou de que se precisa”. nem protetor. e até mesmo de quase penúria: ideia que se não inclui na palavra careza.252 Rocha Pombo go. e Lac. escassez. arcaboiço.. ou carere. em virtude da qual cada indivíduo sente de modo diverso os efeitos da mesma causa”. ou conveniência em falar-lhe). carência. sugerindo ideia de “cortar. ou de proteção. miséria. isto é. – Carência é “a falta de alguma coisa. fome. um artigo. “Preciso falar-lhe” (isto é – tenho obrigação de. careza. Também não se diria que “F.). Há. dizemos que – um negociante precisa de cem contos para ampliar as operações da sua casa (e não – que carece. não tem nenhum emprego. – Careza é a qualidade de caro. indigência. (Aul.. – os ossos do corpo completo do homem. Ninguém carece daquilo que lhe não seria de proveito. Para isso seria necessário admitir que esse homem sabe que não tem vergonha e quer ou deseja tê-la. necessitar. . Quem carece de alguma coisa é que não tem essa coisa que lhe seria útil.. para coisa alguma. portanto. a ser necessidade quase”. portanto.

– Necessidade. – Pobreza é “a qualidade de ser pobre. mas esquecendo-se que nem todo cargo é ofício. isto é. etc. e tanto se pode (como. insuficiente para o fim a que é destinada”. a coisa escassa. em nome de outrem. ministério. – Miséria é “o estado de penúria. Um sujeito rico pode achar-se em verdadeira miséria de vida se é um perdido. por mais distintas que sejam estas duas palavras. carência absoluta de alguma coisa”. lugar.) e que significa “falta. Dizemos: “cumpro os meus encargos”. – Emprego encerra a ideia de estar o empregado sujeito a um trabalho permanente e obrigatório. enquanto que os ofícios constituem. de indigência que comove. Mais restritamente é “a falta do necessário”. porque os que os desempenham só o fazem ou devem fazer por um certo tempo. senão cargos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 253 por exemplo. “temos carência de notícias a respeito de alguém ou de algum sucesso”. como à falta de talento. mas os cargos de prefeito ou de intendente municipal. – Penúria [latim penuria. pede socorro”. Confundem-se às vezes estas palavras. Há cargos da magistratura. todo ofício vem a ser cargo. pode ser bem físico ou moral”. Tem-se fome ou sede de justiça (isto é – clama-se por uma justiça sem a qual teremos de perecer). pois. portanto. é pobreza horrível e desventurada. A ideia própria de ministério é a de que a pessoa que o exerce desempenha um certo cargo por outra pessoa. Entre cargo e encargo não é muito raro notar uma certa confusão. É. Encargo não é mais que a obrigação que decorre de um cargo ou de um compromisso que se tomou.. o emprego muito diferente do cargo. que inspira piedade. papel. de ser. – Inópia é a palavra inopia que importamos do latim (de inops = in neg. “meios. não se pode dizer que sejam propriamente ofícios. sem que tenham mais título que sua eleição ou nomeação. Há empregos vagos na repartição tal (não – cargos). uma qualidade permanente. 467 CARGO (encargo). Certos cargos no governo e na administração do Estado são verdadeiros ofícios que de direito se exercem. força”. de fazer ou cumprir um certo dever aquele que toma o cargo ou o ofício. da diplomacia. aflitiva de algum bem. a cargo pela necessidade. do grego peina “fome. com efeito. etc. ou da autoridade que a nomeia.. necessidade violenta” (Chass. isto é – de achar-se alguém em tal penúria que precisa de recorrer à caridade de seus semelhantes”. parco. – Segundo Roq. colocação. que dependem de nomeação ou de eleição. Um homem que luta heroicamente para viver pode estar até em penúria sem ser indigente. imposta pelo destino”. muitos outros entre os vocábulos deste grupo) empregar no sentido moral como no físico”. de moralidade. função. às vezes até adquirida por herança. – Indigência é “a qualidade ou estado de indigente. aliás. pode definir-se como significando “contingência fatal. em abastança”.)] é “pobreza extrema e dolorosa. pois. “os meus encargos estão satisfeitos”. Dizemos inópia tanto em referência à falta de dinheiro. e ali a fome já espreita as vidas. é que não temos as notícias que esperávamos. falta absoluta. por assim dizer. em toda a sua extensão. e sugere a ideia de que “o necessitado solicita auxílio. ou como direito anexo a uma dignidade. clamante do indispensável”. – Sede e fome entram aqui numa acepção muito particular: exprimem “necessidade ansiosa. mesquinho. que sugere. do alto funcionalismo (não – empregos). recursos. – a ideia própria da palavra ofício é a de obrigar (ao que exerce o ofício) a fazer uma certa coisa útil à sociedade. + ops. – Escassez é “a qualidade de escasso. Lavra a miséria num país. corresponde. “tomo o encargo de avisá-lo a tempo. isto é – de ser curto. ofício.” (e em nenhum . emprego. de não possuir meios de viver folgado.

– O bilhete difere da carta: em se ocupar só de um assunto. o gosto. o hábito constante. Estes dois adje- tivos designam em geral os animais que se sustentam de carne. e o uso geral o admita. caritativo. mais ordinariamente – emprego por pouco tempo ou de pequena monta”. Familiarmente dá-se hoje o nome de epístola a uma carta muito longa e em estilo pretensioso. – Função (ou. Significa. capaz de sentimentos de caridade”.. – Colocação é quase o mesmo que emprego: ajunta apenas à significação deste a ideia de que o emprego é permanente e quase sempre de certa importância. missiva. e sem razão. o homem. O tigre.. com a significação de cruel e sanguinário. – Caritativo é propriamente “o de natureza moral dada a atos de caridade. o costume. carnívoro é o que come carne. a função própria que se toma num dado momento. Ato caridoso. e não pode viver de outra coisa. de um ministério. 130) 470 CARTA. por mais que muita autoridade de nota o queira. em conter poucas palavras e excluir as formas cerimoniosas que encabeçam e concluem as cartas ordinárias. e pode nutrir-se de frutos da terra. – Diz Bruns. o cão. – Epístolas dizemos das cartas dos antigos. a obrigação que se aceita num certo caso. 469 CARNICEIRO. Criatura caritativa. – Caridoso diz apenas – “de caridade. mas não é reduzido a este só alimento. Paulo. o segundo anuncia simplesmente o fato.. se nutre de carne. – Missiva é a carta considerada com relação à pessoa que a manda. o gato são carnívoros. é muito caritativo”. III. – Papel figura neste grupo com o sentido translato que se lhe dá em frases como estas: “fiz do melhor modo que pude o meu papel”. o instinto. mas as respetivas terminações marcam entre eles uma diferença bem sensível. “F. O primeiro indica o apetite natural. portanto. as epístolas de S. – Segundo “caridoso indica maior e mais frequente caridade que caritativo”. Carnívoro é termo mais próprio de ciências naturais. em forma literária e em tom solene. ou de assunto ligeiro. está no seu papel”. carniceiro é termo vulgar da língua. às vezes. e não – caridosa. estes dois adjetivos. 468 CARIDOSO. Os naturalistas. mas essa distinção não basta. por uma necessidade de natureza. a nosso ver. de pequena importância. emprego ou ofício”. bilhete. . – carta é o termo usual com que se designam os escritos que se dirigem a alguém dando-lhe notícias. e é antônimo de frugívoro. e que isso é “devido à índole da terminação oso”. como fez Camões naquela apóstrofe aos assassinos de Inez de Castro: Contra uma dama. dizem que o nome de carniceiro pertence àquele que. – Carniceiro é o animal que Bruns. quando comparam estas duas espécies de animais. cheio de caridade”. ó peitos carniceiros. que se ceva de carniça. o lobo são animais carniceiros. Deveres caridosos (e não – deveres caritativos). próprio de caridade. e carnívoro pertence ao que come carne. ou tratando de assuntos que lhe interessam mais ou menos diretamente. que se confundem. tratando de graves assuntos. dos serviços próprios de um cargo. indício de caridade. carnívoro. o leão. e cavaleiros? (Lus. Parece. por exemplo. nem – sentimentos caritativos). que se ceva de carne crua. por isso mais usado é. É possível. sentimentos caridosos (e não – ato caritativo. “F. como. epístola. Feros vos amostrais. principalmente quando o conteúdo delas interessava a muitos. funções) é “o conjunto das obrigações. como quase sempre é usada. é termo pouco usado.254 Rocha Pombo destes casos – cargo ou cargos). – Lugar é “qualquer emprego.

chalé. de proteção. ou de ramos de árvores para habitação de pastores”. – Barraca é “tenda ligeira. Dizemos que o selvagem procura a sua choça (e não. – Mansarda afasta-se um pouco do francês de que a tomamos (mansarde é propriamente água-furtada ou trapeira. coberta de tela de lona ordinariamente”. a casa dos coelhos. ou biombo – tudo será habitação. – Lar é a “habitação considerada como abrigo tranquilo e seguro da família”. onde se abrigam à noite os camponeses. – Casa é “o edifício de certas proporções destinado à habitação do homem”. – Fogos é o nome que se dá. – Teto (latim tectum. onde mora gente muito pobre”. mais a significação de “habitação . asfalto ou ardósia. e forma grande saliência sobre as paredes”. 255 tugúrio. – Tenda é “armação coberta para abrigo provisório ou de passagem em caminho ou em campanha”. solar. ordinariamente revestida de madeira. – Palheiro é propriamente o lugar onde se guarda palha: designa. “abrigo ou habitação muito rústica e grosseira”. isto é – o último andar de uma casa tendo a janela ou janelas já abertas no telhado): tem. cabana. hoje muito em voga. e sugere melhor a ideia de conchego. também de tegere) é quase o mesmo que tugúrio: apenas teto não se aplica a um abrigo de animais. cujo teto de pouca inclinação é coberto de feltro. – Habitação é. (Aul. vivenda. biombo. – Choça é “habitação ainda mais rústica e grosseira que a choupana”. neste grupo. Este nome dá-se também. etc. o mais genérico. designando. – Tugúrio (latim tugurium. toda parte onde se abrigam alguns animais: a casa do escaravelho. lar. palacete. prédio. teto. aqui. mansarda. – Palácio é “o edifício de proporções acima do normal. – “casa rústica de madeira. palheiro. de convívio amoroso: “teto paterno”. portanto. de uma cidade. é “o colmo tomado pela cabana que é dele coberta”. em linguagem vulgar. – Morada é “à habitação onde se mora. – Arribana é “palheiro que serve mais para guarda de animais e trem de viagem propriamente que para habitação.). passou a designar também a própria casa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 471 CASA. a morada humilde e desolada. casebre. às casas habitadas de um distrito. ou de uma povoação: “a aldeia vizinha não chega a ter cem fogos”. é “o lugar. pardieiro. – Casebre é “pequena casa velha e arruinada. no estilo suíço. por modéstia ou por falsa humildade. a sua choupana). aqui. ou onde se fica por algum tempo. Por isso. – Choupana é – diz Aul. palhoça. nas estatísticas. onde alguém como que se refugia afastando-se do mundo”. habitação. “prédio rico e elegante”. castelo. fogo. pelo menos com a mesma propriedade –. no português usual. e por extensão. colmo. tenda. cômodo. ou habitualmente ou por algum tempo”. prestando-se quando muito para pernoite ao abrigo de intempéries”. Palacete é diminutivo de palácio. ou palácio. que é o que significa propriamente esta palavra habitação. à própria habitação magnífica. palácio. portanto. canto. choça. grandioso e magnífico”. barraca. arribana. significando “casa de escada exterior. vivenda detestável. onde alguém se aloja provisoriamente”. – Vivenda é a “habitação onde se vive”. – Canto. – Colmo. choupana. o sítio. que se habita: casa. “era-lhe o céu um teto misericordioso”. De “ato de habitar”. junto ou no meio das roças ou lavouras”. designa. – Cabana (do italiano capánna) é “casinha coberta de colmo ou de palha. – Palhoça é “pequena casa coberta de palha”. – Chalé é palavra da língua francesa. de todos os vocábulos deste grupo. morada. de tegere “cobrir”) é “o abrigo onde qualquer vivente se recolhe. e sugere a ideia da maior ou menor comodidade com que a gente aí se abriga e vive. usa-se quase sempre com um adjetivo: bela vivenda. ou choupana.

distinguem-se mais em que: a hipótese é uma suposição puramente ideal. têm com ele alguma relação imediata: os crimes perdem muito da sua gravidade quando neles ocorrem circunstâncias atenuantes. que não tem outro fundamento que a má vontade da pessoa que supõe. situação. Um sinonimista francês. é “uma parte de prédio que se aluga por baixo preço e por pouco tempo ordinariamente”.” – Situação é. de gabinete”. – De suposição e hipótese escreve Roq. a suposição é mais familiar. estes pardieiros intermináveis” (Garrett). só tem por base a verossimilhança. – Bruns. Hoje é “habitação nobre. compara a conjuntura com a circunstância dizendo: A conjuntura e a circunstância estão para o fato como dois círculos concêntricos estão para um ponto dado: a circunstância é o círculo circunscrito na conjuntura. fora das cidades. tendo passado por herança de pais a filhos desde alguns séculos”. termo vulgar. nem com ele se relacionam imediatamente. e onde residiam os grandes senhores feudais. hipótese. – Castelo era antiga habitação fortificada. a propriedade que consta da casa e do terreno onde está construída”.256 Rocha Pombo humilde. termo científico. sucesso. a suposição é gratuita. incômoda e difícil. fiador”) é propriamente “bem de raiz. aqui. separadas do fato. pode ser favorável ou desfavorável. porque esta só de longe se relaciona com o ponto de que aquela está próxima. entra na conversação ordinária. gratuita ou falsa. suposição. contudo. Também se diz de um fato que apresenta tal ou tal caráter. – Pardieiro é – diz Aul. de Leibnitz chamam-se hipóteses e não suposições. do prœs “garante. aqui. e outro. suposição. à inteligência. Costuma-se dizer: “vou para o meu biombo” para significar que se vai para casa. A hipótese é mais certa. – Cômodo. Os sistemas de Descartes. num dado momento. a situação da França em 93. – A hipótese toma-se muitas vezes por um conjunto de proposições unidas e ordenadas. 472 CASO. ou das coisas que. Particularmente se diz de todas as hipóteses que se podem considerar nas ciências abstratas. aqui. menos precária. onde há pobreza”. se se der o caso de não ter ele filhos. Roubaud. etc. a situação atual do país. propriedade real”. funda-se numa verdade filosófica. – Conjuntura é o vocábulo com que se indica o conjunto de circunstâncias que nem estão no fato. etc. e muitas vezes se toma em mau sentido. têm com ele alguma relação. luxuosa. e a suposição toma-se por uma proposição ou verdadeira ou aprovada. A conjuntura. à explicação das coisas. – Circunstância (do latim circumstantia. como alegação. e que serve de dormitório. “o conjunto de circunstâncias que determinam o estado ou a condição de uma coisa. designa “a casa que é nossa própria. de Newton. conjuntura.. – “edifício velho e em ruínas”: “Já me cansam estas perpétuas ruínas. onde se vive com opulência”. distingue assim as três primeiras palavras deste grupo: “Caso se diz do que se considera possível: em caso de desgraça. – Biombo é “um pequeno recinto separado de uma sala por meio de tabique móvel. pessoa.” . circunstância. de modo que formam um corpo ou sistema. mas que. de circumstare ‘estar à roda de’) diz-se das particularidades de um fato. A hipótese refere-se às ciências: à instrução. – Solar é “a propriedade (terras e casa) considerada como representando uma tradição de família. penhor. assim como a circunstância. sempre que este fato se possa relacionar com princípio geral: aos casos particulares não têm os magistrados senão leis gerais para aplicar.: “Além da primeira diferença que há entre estas palavras (e que consiste em ser um. mas.” A situação em que me encontro agora. – Prédio (latim prœdium.

sabe coartá-lo dentro dos mais estritos limites. venham a sair moralmente imaculadas. que não ficou alterado na sua pureza”. como do espírito que se estende a todos os tempos e momentos da vida. S. A pessoa pudica teme. – Pudicícia é a castidade acompanhada de pudor. puro. nem sabe pensar no mal. cândida. continência. – Pureza não é propriamente uma virtude particular. que é são e puro de espírito. castidade. mas sim erro. de alma fiel. punir. descuido. Parece. e o lustre da virgindade: Ela supõe uma alma inocente.). Em poesia não é muito raro empregarse imáculo por imaculado. – Intemerato e imaculado podem dizer-se sinônimos perfeitos. mesmo de uma brutal violência. – Punição é “o ato de punir”. É uma flor delicadíssima. virgindade. – Castigo é “tanto o ato de castigar. um só pensamento voluntário faz perder o merecimento desta angélica virtude. será essencial em imaculado: a ideia de – não violado. que não passe a segundas núpcias. conti- 257 nente. que intemerato sugere uma ideia que nem. um modo de ser. – Punir implica a ideia de imposição de pena. – Ilibado (latim illibatus = in + libatus) quer dizer – “intacto. mas como um estado de alma. de algum modo. ou grande falta que deve ser punida”. inalterada”. mas castigar indica principalmente a ideia de corrigir. . que qualquer sopro impuro a embaça e murcha: um só instante de fraqueza. impoluto. mas também os erros. pudico. intacta. que regula. omissão. – Impoluto é “o que não foi poluído. incorrupto. isto é – do que não tem malícia. O celibato cristão demanda continência perpétua. castigar a frase”. inocência. pena. pureza. Mesmo referindo-nos à própria Virgem. – “É a castidade” – diz fr. – Pena (latim pœna. mas da outra não supõe necessariamente culpa. Castigar supõe autoridade de uma parte. Por isso mesmo é que não se pode considerar a inocência como propriamente uma virtude.). e aí estará talvez o que torna a virtude da castidade diferente de muitas das que figuram neste grupo. os apetites e prazeres sensuais. dizemos indistintamente – imaculada ou intemerata. do grego poiné “vingança. ilibado. – Inocência tem aqui a acepção de candura: é a qualidade do inocente. e nem ainda conhece o que pode alterar a perfeita integridade da alma e do corpo”. – Virgindade exprime uma continência universal. ainda quando permitidos. Pode haver criaturas que. nem mesmo sabe que é inocente. 474 CASTIGAR. Neste sentido dizemos até – “castigar o estilo. é a excelência. inocente. (A pessoa casta nem pensa em semelhantes prazeres. pudicícia. nem sentiu. e culpa da outra. e quando cede ao dever. as faltas. virgem. aperfeiçoar por meio da repreensão. A viuvez. – Punir supõe autoridade de uma parte. que está na sua plena integridade”. Punem-se crimes. como o próprio sofrimento com que se castiga”. pelo menos em todos os casos. Luiz – “uma virtude. punição. ações voluntárias. Esta virtude é mais ordinária no sexo feminino. intemerato. absoluta. e sujeita à autoridade sagrada da lei. tanto do corpo. que nem experimentou. o próprio prazer honesto. castigo. ou delito. – Continência exprime a abstinência atual dos prazeres da carne. ou de honesta vergonha. no entanto. não só as ações voluntárias quando contrárias à lei. (Lac. a perseverança. expiação”) sugere ideia do “sofrimento que se impõe como punição do crime. etc. a honra. deve ser continente. e perfeita. virgem. – Incorrupto é “o que não foi corrompido. e até os defeitos. pois o inocente não conhece o mal. quando contrárias à lei: e castigam-se. delitos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 473 CASTO. censura. e cora de os ver ainda levemente transgredidos. imaculado (imáculo).

Do mesmo modo difere prisão de cativeiro. Nomenclatura geográfica. O catálogo de uma livraria ou de uma biblioteca compreende o título das obras que a formam. – Causa é o que produz uma ação. É condição essencial do catálogo: 1. rol. e não escravo. De tudo isto é privado o escravo. – Segundo Bruns. certas indicações numéricas. relação. a nômina inscreve. só se lhe pode dar o nome de lista ou relação. 476 CATIVO. – Prisioneiro aproxima-se de cativo: é “o que fica em poder do seu vencedor”. é o fato em virtude .258 Rocha Pombo 475 CATÁLOGO. ou não tanto a esmo como numa simples lista. por exemplo – rol dos convidados. Sempre que a enumeração careça dessas condições. O cativeiro não humilha. escravidão. principalmente tratandose de ciências. minuciosa”) dizemos das relações ou enumerações de muitas coisas da mesma espécie. nomeia por ordem. – Servo é “o que está sujeito a outrem”. o nome dos respetivos autores. ou obedeça a uma certa ordem. 2. prisioneiro. Hoje. supondo-se que estes esperam sempre o seu resgate. auferir lucros do serviço que presta a seu amo. – Relação é quase o mesmo que lista: apenas deixa supor que as coisas ou pessoas relacionadas estão inscritas numa certa ordem. Fazemos ou organizamos o catálogo de uma biblioteca. passar por herança ou legado”. pode ser vendido. móvel. etc. Recapitulando. o que se deixou prender na guerra. – Cativo é propriamente “o que foi capturado. O judeu em Babilônia foi cativo. de expressões que formam grupo separado. ao lado do nome das coisas ou pessoas arroladas. a lista apenas inscreve. – Escravo é “o que passou a ser propriedade de outrem. mas prisioneiros.º) que a enumeração seja metódica. cativeiro. a nomenclatura inscreve denominando. Fazemos a lista dos livros que desejamos comprar. portanto. pode possuir bens. O servo é considerado como pessoa. 477 CAUSA. escravo. e a enumeração inscreve ou expõe sucessivamente para que cada unidade contribua para o conjunto. A escravidão não só humilha. pelo menos nem sempre. – Catálogo (do grego katalogos “exposição desenvolvida. enumeração. como despoja a criatura de quase todas as suas qualidades humanas. a sua condição pessoal. nomenclatura. ou da botânica. – Rol é a lista que contém. perdeu a sua liberdade. pretexto. etc. A servidão é muito diferente da escravidão. lista. nômina. o rol inscreve e conta.°) que cada objeto catalogado se faça acompanhar de algum esclarecimento que melhor o caracterize e distinga dos outros. mas diferentes entre si. por exemplo. e que. denomina-se nômina. – Todas estas palavras designam aquilo que se tem como determinante das nossas ações. razão. de usar da sua liberdade”. mesmo aquelas que parecem mais semelhantes. servidão. etc. Fazer uma nômina dos empregados por ordem de antiguidade. – Enumeração é a lista que se faz com o fim de atender ao total que apresenta. pois o primeiro designa apenas o fato de “achar-se alguém privado por algum tempo de agir livremente. mas – lista dos convidados. Quando a nomenclatura inscreve ou classifica nomes de pessoas. ou ao conjunto das coisas enumeradas. vemos que: o catálogo inscreve e circunstancia. prisão. ficando sob a dependência de outrem”. na guerra não se fazem cativos. – Nomenclatura é uma lista de nomes. em certos casos. Não diremos. mas não poderiam ser aplicadas indistintamente. motivo. O cativo pode conservar ainda a sua dignidade. servo. atendendo a que nessa lista a única indicação numérica é a dos números de ordem. nem mesmo servo.

escarninho. lancinante. cruel”. elogio. mordaz. Um espírito cáustico emprega a ironia. o que corta. ou de conduzir-nos deste ou daquele modo em dadas circunstâncias. chufas. – Acre. – Entre cáustico e causticante parece haver apenas a distinção marcada pela ideia de atualidade. – Pungitivo é “o que tem qualidades para pungir. mas que só pungem a certas almas. Gritos lancinantes = os que entram na alma de quem os ouve como lancetas. impelindo a nossa vontade de praticar uma ação. Parece também que este tem mais força que o primeiro. – Entre mordaz e mordente há diferença bem sensível: mordente significa mais “espicaçante.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 259 do qual se dá um outro fato. designa “o que é rude e violento. ou o que diz ironia. terebrante. picar. invetiva. as suas armas são um gracejo vivo e picante. no sentido figurado. não poupa ninguém. – Lancinante é “o que penetra causando grande dor. devida ao sufixo de atividade ante. ditos e expressões picantes. próprio de fera”: e no sentido figurado – “o que é rude. como ao paladar a pimenta”. atraindo por isso o ódio ou o desprezo de todos. e pica. – Móvel é “um motivo mais ponderoso. Talvez porque se julgue esta palavra como originada do verbo ferir. Um espírito satírico ataca. causticante. atitude. áspero e desabrido”. – Pungente é um tanto mais forte e subtil que mordente: o que punge “penetra como espinho”. Diremos com mais propriedade – estilo cáustico (em vez de – causticante). irônico. rasga como estilete”. pungente. – Cáustico (segundo resume Bens. – Ferino é “o que é selvagem. que opera tanto sobre o espírito como sobre o coração”. A causa da intervenção da força pública foi o tumulto que ali se levantou. mordaz (morden- te). pune e instrui”. um caráter mais ou menos maligno. feroz. irrita. – Irônico é o que contém. pungitivo. que se inclui em causticante. que nos leva a fazer alguma coisa ou a agir de certo modo em dadas circunstâncias. que condena. provocador” do que só mordaz. – Pretexto é “uma razão falsa ou fictícia que se dá para não dar a verdadeira”. É usado mais frequentemente no superlativo: acérrima ironia. – Motivo é simplesmente o que opera em nós excitando-nos. penetrar afligindo”. Dizer – “santo” a um bandido seria dizer-lhe uma palavra pungente. deixou de vir devido ao mau tempo (o mau tempo foi causa da ausência). Dizemos tanto – termos irônicos. satírico. ferino. até carinhos irônicos. satírico. o móvel que se dá como causa da ação”. isto é – que usa de uma palavra ou frase (ou mesmo gesto. brutal. motejos para fazer sobressair o ridículo e os defeitos dos outros.) “denota certa malignidade irritante. os vícios e os defeitos mais censuráveis. – Razão é “o motivo que se invoca para justificar algum ato. etc. picante. como já vimos em outro grupo (o XCVIII) é “o que tem sabor picante e corrosivo”. Dizer – “bandido” a um santo será usar de uma palavra pungitiva. discurso.. como – olhar irônico. acre. de flagrância. e. Um espírito mordaz ataca tudo e todos. pungente. Po- deria ainda alguém dizer – sátira mordente (e talvez não – sátira mordaz). sarcástico. é frequente vê-la empregada como signifi- . ofende a boa reputação. isto é – capaz de pungir (mas não – pungente). à consideração. saudação. postura) para exprimir exatamente o contrário do que diz ou afeta. 478 CÁUSTICO. ao intento. um gênio acerbo. Aquela palavra ou aquela frase saiu causticante como ferro em brasa (e não – cáustica). etc. – Picante é “o que é acre. Há palavras. frases pungitivas. – Motivo e móvel são os nomes que damos ao fato. e algumas vezes a indignação e a veemência: é um moralista ou um juiz de mau humor. abocanha a honra. – palavra causticante (em vez de – cáustica). sobretudo. cruciante. F. picante.

às cegas. – Comemorar é “celebrar festa solene que recorde algum sucesso. – Cruciante vale por “aflitivo como o sacrifício da cruz. celígeno. o semblante celestial de uma menina (e não – celeste). – Celeste significa – “próprio do céu (e também de Deus) que está ou que aparece no céu. – Celígeno quer dizer – “nascido no céu. rememorar. vindo do céu. e não – corpo celestial)]. de indicar o modo de render homenagem a qualquer pessoa ou acontecimento. marcada pela partícula de extensividade que figura no segundo. época extraordinária na vida de uma nação ou uma família”. – Entre divino e divinal há uma distinção análoga. que vem do céu”. o único que claramente encerra a ideia de festa. S. – “é fazê-la sem razão suficiente. pois este pode valer ainda como um restritivo de firmamento. doloroso em excesso. para o fazer ou deixar de fazer. em certos casos. entretanto.. coisa às cegas” – escreve muito bem Lac. de ofender mostrando repugnância”. 481 CELESTE. celestial. celestial. de alegria. significando: o primeiro.) até o mais fundo da vida”. que é como nojo pela pessoa ou coisa escarnecida”. – Festejar (do latim festus “alegre”) é. deífico. divinal. persuade. cruel e pungente em extremo”. . festejar. solenizar. amargamente”. Ninguém diria – misericórdia divinal – em referência à misericórdia de Deus (e sim – misericórdia divina). divino e divinal. – “Fazer alguma celebra-se um aniversário com grandes festejos. divino. como dos grandiosos. – Célico e celígeno são termos usados na poesia. – Celebrar e solenizar dizem-se tanto dos acontecimentos alegres como dos tristes. – Celebrar encerra duas ideias principais: a de ser grande o número de pessoas que concorrem e a do aparato da festa ou da cerimônia celebrada.260 Rocha Pombo cando – “o que fere sem piedade. É com hinos de louvor e de alegria que a Igreja católica festeja um santo. – Solenizar é celebrar com pompa extraordinária. Pedro e S. 480 CELEBRAR. Fazer alguma coisa cegamente é fazê-la porque se põe confiança na pessoa que manda. no sentido em que aqui o tomamos. designa. – Rememorar é “repetir uma comemoração. celebram-se exéquias. Como ninguém diria – a ternura divina daquela mãe (mas – a ternura divinal). do céu” [nem sempre – celeste. – Entre celeste e celestial há uma diferença. Na maioria dos casos. – Sarcástico é “o que envolve mais do que ironia pungentíssima: é o que revela desprezo. comemo- rar.). que tem origem no céu”. (Bruns. quer seja atual. conforme se vê em – corpo celeste (referindo-nos a um astro. intuito de humilhar. e a fim de bem gravar no espírito a lembrança do acontecimento que se soleniza. recordar outra vez uma data ou acontecimento”. acontecimento. célico. ou aconselha que se faça”. 479 CEGAMENTE. que em certos casos é fundamental. equivalente a – “o que envolve ou manifesta escárnio. quer passado. “o que é como se fosse celeste”. Antônio. – Consideram-se aqui estes vocábulos na acepção que lhes é comum. – Deífico é também termo poético. O padre celebra a missa. João. – Celestial.. Aproxima-se-lhe muito escarninho. Dizemos: cólera celeste (cólera divina) e não – cólera celestial. dos três primeiros verbos deste grupo. empregam-se indistintamente celeste e celestial. tendo a mesma significação. é “o que punge como acúleo (como verruma. é com danças e divertimentos que o povo festeja S. significando mais – divinizante – que propriamente – divino. – Terebrante.

e taphos “sepulcro”). que em sentido reto significava “montículo”. É um mausoléu menos sumptuoso. – Mausoléu (do latim mausoleum) foi primitivamente nome próprio. porém. o lugar onde se sepultam os mortos. pois. – Jazigo é “o pequeno edifício.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 482 CELIBATÁRIO. – Sarcófago. ordinariamente em forma de templo. (Eleg. Da palavra latina tumulus (a tumore terrœ). onde se depositam cadáveres. – Carneiro é o lugar subterrâneo. fizemos nós túmulo. quase o mesmo que cova: apenas a cova é uma sepultura ainda mais tosca e mais ligeira. de não sujeição aos laços da união conjugal (Bruns. Dizemos.: “Designam estes vocábulos o monumento elevado à memória de algum defunto ilustre. O próprio animal pode ter sepultura (não – sepulcro). – Das quatro primeiras palavras deste grupo escreve Roq. Mais tarde. passou depois a ser nome apelativo. túmulo. que designava o magnífico e sumptuoso monumento sepulcral que a rainha Artemísia mandou erigir a seu marido Mausolo. que designava uma espécie de pedra calcária que consumia as carnes. cova. e a que os nossos antigos chamavam moimento. a não ser no último exemplo deste artigo. designando os sepulcros grandiosos dos reis. onde se depositam os cadáveres ou os ossos dos membros de uma família”. igualmente do grego sarkophágos [de sarx (genit sarkós). – Hipogeu só será usado hoje em linguagem poética: designa. e não – solteiros. solteiro. – Concordam es- 261 tes vocábulos em designar a pessoa que não casou. Nenhuma das duas têm saliência. campa. como diz a etimologia. estendeu-se a todo sepulcro magnífico e sumptuoso. e solteiro – às vezes até solteirão – quando queremos pôr em relevo o seu estado de independência. indica essa ideia sem nenhuma outra acessória. recipit (4. – Monumento (ou moimento. – Solteiro. como se vê em Ferreira: “Mausoléus aos mortos não dão vida”. supõe alguma coisa mais que simples sepultura. 11). monumento. mauso- léu. e phagein “comer”] é adjetivo substantivado concordando com lithos “pedra”. “carne”. 6). só com a significação figurada de sepulcro. enquanto que celibatário encerra frequentemente a ideia de não poder ou não querer contrair matrimônio. O carneiro pode ser levantado do solo. . como se vê da seguinte passagem de Floro: In mausoleum se (Cleópatra). e por extensão – o sepulcro feito desta pedra. que entre os latinos também tinha. ou qualquer construção acima do solo. esconder”: designam. sepulcra regum sic vocant. tem no português a mesma significação de monumento sepulcral. e numa necrópole. sepulcro. que é forma antiquada) é “toda construção grandiosa levantada à memória de um morto. e em geral – sepulcro em que o cadáver se consumiu. erigido à memória de defunto enterrado em outro lugar. portanto. carneiro. É este o nome que mais comumente se dá aos depósitos de cadáveres que não são propriamente simples sepulturas. Sepulcro é mais nobre. jazigo. hipogeu. 483 CENOTÁFIO. e na maior parte dos casos podem ser empregados indistintamente. Dos sacerdotes católicos dizemos que são celibatários. sepultura. – Cenotáfio. mas cada um deles recorda particular circunstância pela qual se diferençam”. De um ancião se diz que é celibatário quando se quer designar o seu estado social. mas – sepulcro levantado da terra. que é apenas o espaço que se abre na terra para guardar o cadáver. sarcófago.). da palavra grega kenotaphion (de kenos “vazio”. – Sepultura é. contenha-lhe ou não os restos”. e não – sepulcro raso. catacumbas. por exemplo – sepultura rasa. – Sepulcro e sepultura (do mesmo latim sepelire) sugerem a ideia de “ocultar. guarnecido de muros.

admoestação. distinguir’) e significava a arte de julgar as obras de engenho. Este nome. cujos mui importantes cargos eram guardar o padrão ou registro do povo. castigando aos que os pervertiam com seu desordenado procedimento. subterrâneo. como era o dos antigos na política. Distinguem-se também em que o objeto da crítica não é precisamente o de censurar. representa o ridículo. à razão. para que se despreze. Muitas obras há que pela solidez dos princípios. no uso comum. porque é o juízo fundado que se faz das obras. pondo de parte o que pode merecer elogio. e notar-lhes os defeitos. como vimos. observação. pois muitas pessoas pouco instruídas e muito audazes atrevem-se a censurar sem serem capazes de fazer a devida crítica. propriamente. arguição. são irrepreensíveis aos olhos da censura. confusão e obscuridade do estilo. podem talvez ter por objeto a correção e o desengano. repartir as quotas dos impostos. raramente imparcial. residência. pois não se pode julgar de uma obra sem notar defeitos maiores ou menores. a censura supõe a crítica. remoque. objurgatória (objurgação). advertência. em especial. veio a ficar reduzido à censura dos costumes públicos. sendo que a censura leva consigo a repreensão. no entanto. adotando os meios de reformá-los. como coisa a mais conducente para a boa moral pública. família e bens. magistrados da primeira plana. recriminação. – Das três primeiras do grupo.262 Rocha Pombo como insinua a própria etimologia. ponderação. sem se importar com o estilo. nem com o desempenho das regras de bem escrever. Tem muita relação com a censura. e pela utilidade das verdades que defendem ou anunciam. reproche. julgamento e correção dos livros. – Catacumbas eram as vastas construções subterrâneas destinadas a guardar cadáveres. exprobração. e. dos costumes públicos. faz ver o erro como tal. senão o de examiná-las. porque a crítica. nem sempre. com o que o cargo de censor vem a ser o de uma espécie de magistrado na república literária. mas sempre com fundamento e equidade. repreensão. diz Roq. ante os censores ou censitores. como a sátira. e esta é uma das circunstâncias que a diferençam daquela – a censu- ra – cuja significação. que era entre os romanos a declaração autêntica que os cidadãos faziam de seus nomes. porém os meios de que se valem são muito diferentes. segundo as regras da arte e do bom gosto. e. mas que pela má disposição das matérias. reprimenda. aprovando-os ou desaprovando-os. crítica. em que. – Crítica é palavra grega kritiké (de krino ‘julgar. sobretudo. Não há coisa mais difícil que fazer uma boa crítica. impureza da linguagem. a correção e o castigo do que aparece contrário à lei. são defeituosíssimas aos olhos da crítica. . cuidar da polícia.: “Censura vem da palavra latina census ‘censo’. dá-se ainda hoje o nome de catacumba ao grande túmulo comum. aos bons costumes. assim como pode acontecer que a crítica literária nada tenha a dizer onde a censura moral muito tenha que repreender e condenar. “a lápide que cobre o sepulcro ou mesmo a sepultura rasa”: toma-se frequentemente pela própria sepultura. é mais extensa. comentário. Assim que a crítica. Por extensão. rara vez imparcial. ao exame. e sempre violenta. – A sátira é um juízo. dar a conhecer suas belezas. A crítica supõe a censura. cova. se ridiculizam os defeitos. Não há coisa mais fácil que agradar ao público com uma sátira. a sátira. Aprova a censura o que muitas vezes condena a crítica. para que se emende ou evite. que são inseparáveis de tudo que é humano. à verdade. julgá-las literariamente. mais moderada. repreender e corrigir as obras. – Campa é. sátira. 484 CENSURA.

Uma crítica necessita ser mui bem fundada para corrigir. As cerimônias são o modo por que o rito se executa. por isso se diz – o rito romano. – Ponderação será “uma advertência ou observação mais disfarçada. pois. senão compiladas por escrito para sua execução. de criticar malevolamente”. para os diferentes atos de um culto. como cometeu tal erro ou falta”. – Reprimenda = “admoestação formal e severa. – Se- gundo Roq. ou melhor – a ação de objurgar. ou com tanta evidência. que F. estão prescritas por quem tinha autoridade para estabelecer o rito. a maneira de executá-lo são as cerimônias”. – “o rito é a reunião de todas as cerimônias de um culto religioso. – Remoque é “dito ou frase picante que mal dissimula a intenção de repreender. Signi- fica – “ato de lançar em rosto a alguém a falta cometida. mais como invetivando-o do que simplesmente fazendo-lhe acusações e censuras”. mostrando-lhe. ou para estabelecer uma opinião. – Entre liturgia e rito há diferenças essenciais. ou faltas. ou para a falta em que se caiu mais por descuido que por desídia”. ou defeitos e vícios. o conjunto de cerimônias que. do que propriamente advertindo”. por exemplo: “Vamos celebrar o ato com todo o rigor do ritual” – não seria admissível a palavra rito.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 263 Aquela instrui mais que recreia. O ritual romano. esta recreia mais que instrui. e mais reflexionando. prescreve as cerimônias com que se devem celebrar os ofícios divinos. de superior a inferior”. e não – católico da liturgia grega. para que o admoestado não reincida nela”. ou em termos menos positivos. com razões e argumentos. essa diferença: o que . rito. Rito exprime mais que cerimônia. ou pelo patriarca de alguma seita. – Comentário é “o exame ou mesmo a crítica. É evidente que aplicamos rito quando queremos assinalar diferenças de liturgia ou de cerimônias entre cultos da mesma religião. – Admoestação é “o ato de fazer sentir o erro ou falta cometida. E. – Observação é “o ato de advertir fazendo considerações sobre a falta cometida ou sobre o dever que se deixou de cumprir”. ou em termos mais ou menos ásperos”. com o intuito de envergonhá-lo”. no entanto. – Repreensão “é o ato de condenar o erro ou a falta cometida: o que é sempre feito com certa acrimônia. entre nós. – Ritual e rito confundem-se aqui. sobre a conduta de alguém”. a acusação mais grave e violenta com que se rebate a outra censura ou acusação”. 485 CERIMÔNIA. – Advertência é “o ato de chamar atenção para o mal que se fez. – Objurgatória é “a repreensão áspera. Dizemos. Quando se diz – ritual romano – já não se marca tão bem. por exemplo. – Ritual é. – Exprobração enuncia a ideia de “lançar em rosto as culpas. – Arguição é “o ato de acusar alguém de falta ou erro. – Reproche é palavra francesa de que muito se abusa. não precisamente postas em prática. – Recriminação é “a censura mais forte. Daqui vem que a eficácia da sátira é maior e sem efeitos mais perigosos. liturgia é também “o modo como se regula a execução das cerimônias de um culto público”. ou de acusar desabridamente”. a censura ou acusação desabrida que se lança à face de alguém. Uma sátira ligeira pode fazer esquecer o mérito mais sólido”. é católico do rito grego. o rito grego. – Objurgação é “o ato. sobre a coisa a respeito da qual se pondera. ritual. ou vícios de alguém”. Não dizemos – o rito romano – senão quando queremos diferençar as cerimônias do culto católico romano das de outro culto também católico mas não romano. ilustrada de exemplos e largas considerações. A admoestação é sempre feita em termos brandos. liturgia. e autorizadas pelo Sumo Pontífice. Mas nesta frase.

Só de reclamo é que se não poderia fazer. é “o nome que se dá ao pássaro que se deixa na gaiola de alçapão para chamar os outros”. ou queimam. tomadas essas palavras em sentido restrito. chispa e centelha designam todas “pequenas porções de fogo ou de matéria inflamada que se desprendem de fogo maior”. o que causa calor. 487 CHAMARIZ. ou – o fogo dos olhos. num sentido mais extenso. porque a palavra chama se tornou vulgar. – Lume exprime propriamente o que dá luz e claridade. o chamariz tanto atrai o público a alguma parte. enquanto que planície é “toda extensão de terras chãs e baixas. particularmente. uma récula de garotos. mas. um cardume de peixes etc. o reclamo é o que desperta a atenção para o chamariz”. seduzir. mas não se pode dizer – o fogo da razão. esplanada. in- dá ideia da rapidez com que a partícula ardente se desprende. planura. “a parte mais luminosa do fogo. Dizemos – liturgia católica (e não – rito católico – salvo se quisermos distinguir entre rito católico e rito protestante). pois que. cêndio. deve notar-se com cuidado a diferença que há entre uma e outra. ou cintilam e dão luz. – Chapada é “extensão de terras mais ou menos planas no alto de montanhas. mas é porque nos olhos há estas duas propriedades. no sentido translato. – Atrativo é termo genérico. ou para algures. – Isca é “tudo que se prende ao anzol para atrair e enganar o peixe”. lume.: – “O chamariz é o que atrai o público a alguma parte. mais que o uso indicado. chispa.264 Rocha Pombo parece que aproxima este termo ritual mais de liturgia que mesmo de rito. – Planalto é “grande planura elevada. – Faísca. fagulha. – Chama é. ou vasta planície . Todavia. entende-se. reclamo. De engodo quase que se pode dizer outro tanto. planalto. e fogo. – Labareda designa grande chama. que chama atenção. o resultado do fogo: é o fogo aplicado à matéria combustível (e a esta circunscrito – como diz muito bem Bruns. porém é palavra preferível para o estilo culto. 486 CHAMA. isto é – não no alto nem na encosta de montanhas”. fogueira. – Incêndio é “grande fogo ou fogueira que se alastra e devora”. e num sentido geral. mas não se dirá – o lume da mocidade. em ala. e figuradamente. – Chispa planície. Dizemos – o lume da razão. uma porção de crianças. por assim dizer. como o fogo. que se eleva e ondeia em línguas de fogo. Isso. É certo que se diz – o lume. centelha. pelo menos nem sempre. queima e abrasa. atrativo. isca. um bando de aves. e que se levanta em forma piramidal acima do corpo que arde. – Fogueira é. negaça. e comunicam o calor e ardor da paixão. – Planura é quase o mesmo que planície: apenas sugere ideia de beleza de panoramas. – Negaça. é essa matéria acesa. é “o que serve para provocar. flama. No uso vulgar confundem-se estas palavras. – Flama tem a mesma significação (é a forma erudita do latim flamma. é mais correto dizer – o fogo. é “tudo que serve para engodar alguém”. como o lume. como pode atrair. e centelha dá ideia da luz produzida pela fagulha (e é como se se dissesse – partícula de chama). de que chama é a forma popular). pois.). Dizemos – o fogo da mocidade. ou a certa altura delas”. labareda. e grande labareda ou brasido”. fogo. faísca. o engodo é a astúcia que o engana. – Dos três primeiros vocábulos deste grupo diz Bruns. enganar”. do que – o lume dos olhos. para um ponto. que faz convergir”. designando “tudo que atrai. segundo Lacerda. 488 CHAPADA. fagulha. engodo. de situação aprazível.

pelos contos ou façanhas imaginárias que inventa e que inculca. Há rios que enchem e vazam em época certa. – Engraçado é simplesmente “o que tem graça. inundação pode dizer-se também do mar. como – palavras chistosas. espirituoso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 265 muito alta. e inundam os campos e prados vizinhos. Hoje usa-se muito. Dizemos tanto – criatura faceta. dilúvio. Às grandes cheias do Tejo deveria chamar-se inundações. porque muito se parecem com as do Nilo. que se eleva gradualmente”. folgazão. Tanto se diz – pessoa chistosa. Quando os rios saem da madre. do que mesmo nas palavras. e diverte os outros. etc. pois graciosas só podem ser as pessoas de apurada cheia e inundação diz Roq. este é gentil fazendo graças. gracioso. de depósitos de água. faceto. O moço engraçado pode fazer-se ridículo: o gracioso. fase em que alguma coisa se avoluma: daí a acepção particular de – cheia. moço engraçado. como estilo faceto. e não se pode dizer – cheia de bárbaros”. Distingue-se ainda cheia de inundação em que aquela só se diz de rios ou ribeiras. pilhérico. – Esplanada é “uma arca muito plana em volta ou à frente de algum edifício”. – Gracioso é “o que mostra mais graça nos modos. não. dito engraçado. É também o contrário de vazante. – Folgazão é o que se diverte. no sentido translato: dilúvio de gente. subtil e galante. aquele é o que mostra certa graça. É muito comum. – Pilhérico é “o que faz rir pelas pilhérias. Nesta frase. e esta. o que sabe dar uma nota fina e original sobre as coisas. inundação. por exemplo: “Não se faça engraçado”. nos gestos. espírito folgazão. os homens”. por isso. Todos estes vocábulos se aplicam tanto às pessoas como às coisas. – Enchente diz no sentido próprio – abundância. . ou nos ditos”. trocista. não conhecem limites. do francês plateau.: “Posto que no uso comum da língua se confundam estes dois vocábulos. estendem suas águas pelas veigas. na gentileza da figura. conto faceto. o emprego de enchente por cheia. e então quando a respeito desses se diz – enchente – não se quer dizer – cheia. modos chistosos. e esta. Cheia tem só a significação reta. nem sempre a enchente é cheia. e designam duas coisas que se não devem confundir. como inundação. são eles contudo distintos quanto à etimologia. engraçado. antes de tudo. que parece alagar todo um continente”. Diz-se – inundação de bárbaros. ou – “não faça de engraçado” – não caberia certamente o vocábulo gracioso. que quer parecer espirituoso. O engraçado pode não ter graça nenhuma. e por extensão – toda superfície de terreno plano que não chega a ser planura. e até gestos. e. enchente. o que provoca riso por meio de gracejos”. Usa-se. no entanto. e também: gênio. ou o que emprega chiste ou graça leve. com mais ou menos espírito”. dilúvio de alegrias. frase pilhérica. – De 490 CHISTOSO. – Dilúvio é “grande inundação. diz-se que há inundação. 489 CHEIA. – Faceto é “o que encerra. pois. mais brincando ruidosamente que falando. e sem necessidade. isto é. em que pode ser tomada. – Chistoso dizemos do “que nos distrai e faz rir com ditos picantes mas sem malignidade”. a figurada de – multidão excessiva. chama-se a isto com propriedade cheia. os fatos. além da natural. moço pilhérico. dilúvio de misérias. – Espirituoso é “o que tem espírito quando conversa (ou quando escreve). crescimento. isto é. pois ordinariamente é o imbecil que procura ser engraçado: o mesmo não se pode dizer – é até justo que o contrário se diga do gracioso. – Entre engraçado e gracioso há grande diferença: este último é o que tem graça fina e delicada de si mesmo. Moço folgazão. Quando as águas alteiam nos rios. e transbordam nalguns sítios que alagam. também.

isto é. pernóstico. Também se diz – gênio trocista.: “Ainda que estes verbos sejam sinônimos perfeitos36. significando indivíduo que simplesmente fala muito. por ser amigo de dizer novidades. é – como se diz em linguagem popular – o que “dá de língua” a propósito de tudo. garabulho. pelo ar simpático. e agitando-se. mas sim – “o indivíduo que fala da vida alheia”. estardalhaço como um chocalho. mas há de sugerir sempre a ideia de que pelo menos é pouco substancioso o que diz o parlante. que é mais falador que linguareiro. parlador. confusão. e indispõe porque irrita.. – Gárrulo é “o que fala como se falasse sem pensar. ares trocistas. Mas o linguareiro não tem malícia propriamente: fala por ser leviano. . gárrulo. brincadeiras com os outros. graçolas. – Chocalheiro é “o que fala muito e indiscretamente. com muitos gestos e acionados. Não assim o linguarudo. emprega-se a forma falante que não encerra de modo algum a ideia de falar por maldade. chalaças grosseiras e próprias de gente baixa. e finamente galantes. Deve dizer-se – incubadora artificial. Falando das doenças que se desenvolvem pouco a pouco antes de se declararem abertamente. O chocalheiro é leviano e indispõe porque importuna: o chocarreiro é petulante. – Parlador já não é também o indivíduo que só fala muito. que significa “embrulhada. graçolas. que fala muito. que é mais parlapatão do que linguareiro e do que linguarudo. que é termo bem diferente. falador. designando tanto um como o outro uma mesma operação. O linguarudo fala mais ainda porque tem o vício de intrigar e maldizer que pelo desejo de falar. 491 CHOCALHEIRO (chocarreiro). incubar. Naquela acepção. isto é. 492 CHOCAR. – Com o linguarudo pode confundir-se falador. e torna-se importuno falando a torto e a direito”. nem o indivíduo que fala da vida alheia: designa mais propriamente o sujeito que mais fanfarreia do que fala. que divulga quanta coisa lhe disseram. parlante. que nos agradam até pelos gestos. sem atender à causa.” 36 Ou melhor – quase perfeitos. – Parlante dirá um pouco menos que parlador. pois só se diz chocarreiro daquele que diz chocarrices. – O linguareiro é o que diz tudo que sabe. pois este vocábulo não se emprega hoje para designar simplesmente o indivíduo que fala muito. mas também à causa dessa transformação. e formado de prognóstico). fazendo barulho. e mesmo pela discrição dos gracejos. como às vezes se ouve. muito amáveis.266 Rocha Pombo educação. como se vê do próprio artigo transcrito. falante. É termo popular (o mesmo que pronóstico.. Confunde-se mui comumente chocalheiro com chocarreiro. – Sobre estes dois verbos escreve Bruns. – Pernóstico é “o sujeito pretensioso no falar. como fazem os passarinhos e as crianças”. linguarei- ro (linguarudo). e sempre sobre coisas fúteis. não guarda reserva em coisa alguma. – Incubar refere-se apenas à operação ou transformação. ou falar maldizendo. devemos empregar exclusivamente o verbo incubar. desordem”. Garabulho (ou garabulha) é palavra importada do italiano garbuglio. e empregamo-la para designar “o sujeito que fala muito embrulhando tudo”. deve notar-se que chocar é não só relativo à transformação que se vai operando no ovo. para rir à custa destes”. não – chocadeira artificial. – Trocista é “o sujeito que faz pilhérias. e que é o calor que ao ovo comunica a ave que sobre ele se mantém. presumindo de tudo entender e falar muito bem”. movendo-se.. por ter o vício de não guardar nenhum segredo..

Choram também as videiras e os ramos quando se cortam. como as que por alguma circunstância se destilam das glândulas lacrimais. lamentar. desfazem-se em espuma. pois que melindrar supõe. ou um deles recuando ao encontrar-se com o outro. – São os dois primeiros vocábulos deste grupo os substantivos com que se designa o encontro mais ou menos violento de dois corpos que se embatem. O embate é violento. mas não de terríveis efeitos. fazem contravapor os respetivos maquinistas. quer dizer o que esse alguém possui de mais delicado e sensível na sua natureza moral”. que lhe é característica. ge- contraste. luta propriamente do que simples encontro. O fumo. O navio que embate (ou bate) contra um rochedo abre-se e afunda: o mal não seria tão grande se tivesse havido somente choque. – “Ao derramar. – Lamentar é queixar-se com pranto e mostras de dor. – O verbo 267 chocar sugere a ideia. ofender. do latim fleo.) – Conflito é mais embate. 494 CHOQUE. – Ofender é aqui tomado na acepção especial de “fazer a alguém coisa que o moleste. que o vento impele. prantear. ou mesmo recuando ambos depois de se encontrarem. os ácidos. soluçar. por exemplo. nem mesmo de encontro. Pode haver encontro sem haver choque. Na palavra embate predomina a ideia de violência e de impetuosidade. As ondas alterosas. É termo genérico. ou em geral – coisa de que essa pessoa se ressinta”. Ideias em conflito. carpir. mas ideias que se embatem. têm um embate terrível. Chora-se de alegria não menos que de tristeza. que o magoe. que é excessiva a suscetibilidade de quem se julga melindrado. melindrar. se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 493 CHOCAR. vêm embater contra a costa. – do castelhano llorar. ou mesmo um ato que se ponha em contraste com os sentimentos da pessoa a quem nos dirigimos. caminhando uma para outra. pois não só indica as lágrimas que provêm de dor e aflição. elevam-se a grande altura. pois esta palavra dá ideia do abalo que o encontro produz. Aquele que melindra nem sempre ofende propriamente. na palavra choque apenas a de encontro (que não é senão o fato ou o ato de chegar uma coisa diante de outra)37. encontro. De duas pessoas que caminhem apressadamente e que esbarrem uma com a outra ao dobrar de uma esquina. – Quando às lágrimas se juntam vozes queixosas. e 37 Por isso mesmo é que é preciso admitir que choque não é simplesmente encontro. conflito. – Contraste é a oposição que existe entre duas coisas: não inclui ideia de choque. que o prejudique moralmente. do abalo que pode causar uma frase nossa. embate. pranteia-se. ou mesmo do que choque. dizemos que tiveram choque. e também exprime canto lúgubre em que se chora alguma grande calamidade. o choque pode ser ou não violento. mer. O pranto é mais forte e intenso que o choro. com lamentos – e talvez soluços. na maioria dos casos. como se diz no artigo. porque neste derramam-se lágrimas com lamentos e soluços. – Melindrar é “ofender os melindres de alguém. não se entende que sejam ideias apenas contrárias ou opostas. dá-se entre as máquinas um choque mais ou menos violento. etc. um levando o outro de impelida. ao avistar-se. Duas locomotivas lançadas a todo vapor em uma mesma via. 495 CHORAR. lagrimar. Jeremias lamentou poeticamente . da “impressão rude que produz uma ofensa. nem de luta. (Segundo Bruns. senão de simples oposição. se caminhavam devagar não terão mais que encontro. fazem chorar os olhos. ou diante da qual falamos ou agimos”. ou verter lágrimas chama-se chorar” – diz Roq.

cas- telo. É condição da cidadela. exprimir aflição. – Soluçar é “prantear e gemer com aflição. como a que é mediana. podendo forte designar indiferentemente a que é grande. (Lus. 496 CIDADELA. João I. nem – chora. 118) – Gemer é “dar sinal de grande dor. 135) Choraram-te. por extensão. Havia antigamente mulheres a quem se pagava para carpir-se sobre defuntos. – Fortaleza é a construção que se eleva em qualquer ponto para defender uma cidade ou um passo. e carpir-se. – cidadela é a fortaleza que domina a cidade dentro da qual ela está edificada. – Lagrimar é “verter lágrimas”. e que em lugar das outras muitas vezes se emprega. usavam do verbo carpir. fazendo mostras de dor e aflição. (Ibid. X. Julgam muitos que não passe este verbo de simples variante de la- grimejar (ou lacrimejar). Mais te choram as almas que vestindo Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. mas. veio a significar quase o mesmo que lamentar. Che frutti infamia al traditor. pois há como que aflição monstruosa no embate das ondas contra a praia. e desfigurar as faces. por meio de voz inarticulada e lamentosa”. os seus habitantes podem continuar a defender-se na cidadela. este vocábulo especialmente às ações que demonstram dor e mágoa. e a que se chamava carpideiras. traduzir este lagrimare pelo nosso chorar não seria menos do que diminuir deploravelmente aquela grande figura. o qual. e para exprimir esta ação de profunda dor. não só o estar dentro do recinto da povoação. O forte pequeno é um fortim. – Segundo Bruns. pois. den seme. é de uma força e intensidade que o tornam indispensável na língua. Thomé. na ocasião de luto. 84) As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram. Chorou-te toda a terra que pisaste. E por memoria eterna. e a esta espécie de poema elegíaco se deu com razão o nome de lamentações. (Inf. como se a alma abalada clamasse em desespero para fora”. mas também oferecer grandes meios de defesa. III. fortaleza.268 Rocha Pombo as desgraças da ingrata Jerusalém. – Costumavam os antigos arrancar. Do uso de carpir-se sobre os defuntos se faz menção na Crônica de d. é o verbo chorar. E dos rios as aguas saudosas. (Ib. 3) Ora. III. Os grandes prantos são sempre acompanhados de gemidos. Refere-se. De todas estas palavras. ch’io [rodo. de que o nosso poeta fez mui frequente uso. Na fortaleza há sempre guarnição fixa. – Forte e fortaleza confundem-se muito frequentemente. Parlare e lagrimar’ vedrai insieme. mas fortaleza nunca se deve dizer de uma fortificação pequena. Por isso dizemos figuradamente que – o mar soluça e não – pranteia. cidade fortificada. em fonte pura As lagrimas choradas transformaram. o Gange e o Indo. ou pelo menos desgrenhar os cabelos. – Castelo designa a . Se o inimigo se apoderar da cidade. para significar “verter lágrimas como por efeito de imensa dor. praça. na acepção em que é preciso tomá-lo neste grupo. como estão dizendo os seguintes lugares: Os altos promontorios o choraram. É com este sentido que empregou Dante o seu lagrimare num daqueles versos que pôs na boca de Ugolino: Ma se le mie parole esser. XXXIII. gemendo e pranteando”. forte (fortim). Os semeados campos alagaram Com lagrimas correndo piedosas. a mais poética. e acompanhar os enterros.

contém população mais ou menos numerosa. a que também se chama praça. Dizemos: – a ambulante. sendo o primeiro o nome vulgar do algarismo que em matemática se denomina zero. – Boêmio é propriamente o nome que os franceses dão ao cigano. da África e da América. que só sugere os vícios característicos daquela gente vagabunda. – Praça é a povoação fortificada em que há guarnição permanente. O exemplo é este: dizemos – tantos graus abaixo de zero. valdevino. – Ambulante não encerra ideia alguma depreciativa: é apenas “o indivíduo que anda de lugar em lugar. zero. melhor do que cifra. mas tem hoje nas rodas cultas um sentido muito particular. ou com outros fins de mais ou menos importância. a vender bugigangas.). noves fora – zero”. e sim – “noves fora – nada”. especulando de todos os modos”. como os ciganos ou boêmios. principalmente na época que precedeu à invenção da pólvora. ou zingano) é “o indivíduo que vive errante. As fortalezas diferençam-se das cidades fortificadas.. vagabundo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 269 residência ou o recinto fortificado e geralmente construído em ponto elevado. de qualquer grau. – Cigano (de zíngaro. – Nada aqui. é preciso admitir alguma diferença entre a