Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva

E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Academ i a Bras i l ei r a de Letra s

Dicionário de Sinônimos da L í n g ua Po rt u g u e s a

Ac a d e m i a B r a s i l e i r a d e L et r a s

Rocha Pombo

Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva
E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa
2.a Edição

Rio de Janeiro 2011

C O L E Ç Ã O A N T Ô N I O D E M O R A I S S I LV A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS Diretoria de 2011 Presidente: Marcos Vinicios Vilaça Secretária-Geral: Ana Maria Machado Primeiro-Secretário: Domício Proença Filho Segundo-Secretário: Murilo Melo Filho Tesoureiro: Geraldo Holanda Cavalcanti C O M I S S Ã O D E L E X I C O G R A F I A DA A B L Eduardo Portella Evanildo Bechara Alfredo Bosi Preparação Ana Laura Mello Berner Revisão Vania Maria da Cunha Martins Santos Denise Teixeira Viana Paulo Teixeira Pinto Filho João Luiz Lisboa Pacheco Sandra Pássaro Produção editorial Monique Mendes Editoração eletrônica Estúdio Castellani Projeto gráfico Victor Burton

Catalogação na fonte: Biblioteca da Academia Brasileira de Letras P784 Pombo, Rocha, 1857-1933. Dicionário de sinônimos da língua portuguesa / Rocha Pombo ; [apresentação, Evanildo Bechara]. – 2. ed. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2011. 526 p. ; 23 cm. – (Coleção Antônio de Morais Silva ; v. 10) ISBN 978-85-7440-184-3 1. Língua portuguesa. I. Bechara, Evanildo, 1928-. II. Título. III. Série. CDD 469

Apresentação
E va ni l d o Becha r a

A

trajetória cultural de Rocha Pombo é o fiel espelho de um permanente bravo lutador que, vencendo as precariedades do torrão natal, galga honroso lugar no quadro dos intelectuais brasileiros. De nome completo José Francisco da Rocha Pombo, nasceu o autor deste Dicionário de Sinônimos em Morretes, na província do Paraná, em 4 de dezembro de 1857, com evidentes dotes literários, que cedo se manifestaram; mas foi para a carreira política que encaminhou seus primeiros passos, alcançando, aos vintes anos, lugar de destaque na Assembleia Provincial. Entretanto, se viu impotente para inverter suas posições diante das poderosas tramas parlamentares de uma política quase sempre afastada do interesse público. Salvou-o a alegria de ver publicado nesse mesmo ano seu primeiro estudo sobre instrução pública, na revista fluminense A escola, com transcrição na Revista del Plata, de Buenos Aires. Encontrara na atividade cultural o campo em que se iria destacar, mas um campo que pouco lhe dava para garantir com dignidade seu sustento e da sua família. Os obstáculos não o tiraram da trilha iniciada; em Curitiba, viu em 1888 publicado seu romance A honra do barão; em 1882, Dadá, a boa filha e, em 1888, Petrucelo. Também não lhe faltava o estro para o poemeto Guaíra, saído em 1886. Desiludido com os parcos recursos que seu torrão natal lhe oferecia, deixou Curitiba em 1897, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde poderia ter mais recompensada sua maturidade intelectual. Realmente na Capital, apesar de não diminuídas suas horas de trabalho intenso, encontrou ambiente mais propício às produções que vieram inúmeras. Os livros didáticos na área da História representam sua maior atividade, como Nossa Pátria, para crianças, que chegou a alcançar mais de sessenta edições. Sua História do Brasil, em dez volumes, acabada em 1917, consumiu-lhe doze anos de trabalho. As muitas horas de trabalho não lhe permitiam, para a confecção de seus estudos, a pesquisa atenta, a consulta aos arquivos para a composição das obras históricas. Mas o zelo e a honestidade profissional o faziam abastecer-se nas fontes mais autorizadas, e delas extrair o material que aproveitava. Um trabalhador operoso na mesma área de historiografia, Ro-

VIII

Rocha Pombo

dolfo Garcia, que, em 1935, sucedeu a Rocha Pombo na Cadeira 39 da ABL, assim a ele se referiu, no discurso de posse: “Rocha Pombo fez o que foi possível fazer (...). Entretanto, não há como desconhecer o extraordinário mérito da obra de Rocha Pombo, sua utilidade provada, os serviços prestados aos estudantes, que o estimam sobre todas as congêneres.” Seus pendores literários desde cedo aflorados nas tentativas de ficção acima lembrados, iriam estimulá-lo a compor uma obra sobre língua portuguesa. Autor de compêndios didáticos, cedo deve ter chegado à conclusão de que à bibliografia escolar, bem como ao escritor novel, faltava um bom, desenvolvido e atualizado dicionário de sinônimos, uma vez que, à época, o mercado só contava com produções portuguesas mais antigas, todas datadas do século XIX. Armou-se dessas fontes, algumas vezes transcrevendo-as literalmente, e das mais importantes francesas e espanholas no assunto, e partiu para elaboração deste seu, preocupando-se com mais extensão dos verbetes, e mostrando, quase sempre com muita propriedade, as diferentes franjas semânticas das palavras que integram a série sinonímica, evidenciando que não são, por isso, intercambiáveis. Saído em 1914 pela prestimosa Francisco Alves, vem agora esta 2.a edição editada pela sua Academia, para a qual fora eleito em março de 1933, embora nela não tivesse tomado posse por motivo de seu repentino falecimento, em junho do mesmo ano. Passado quase um século do aparecimento deste Dicionário de Sinônimos, de Rocha Pombo, pode ainda embrear-se com os melhores saídos em nossos dias.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa

ADVERTÊNCIA

Autorizo os Srs. Francisco Alves & Cia., cedendo à condição que me impuseram, a adotar na impressão deste trabalho a grafia que lhes convier. Rio, 1914
ROCHA POMBO

as preposições a e para. e – “vou para Lisboa”. não exclui. 2 A. e “convidou-me para jantar”. propriamente a ideia de regresso. “pescamos à linha”. Ninguém dirá que têm o mesmo valor estas expressões: – “Vou a Lisboa”. no entender de Roq. No primeiro caso. para que sejamos cidadãos dignos. “encaminhar-se”. João VI. – Restringiremos. Essa diferença fica bem clara nestas frases: “dei um livro a meu filho”. no tempo das caçadas ia para Salvaterra ou Vila Viçosa: e quando os franceses vieram a Portugal.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 1 A. A e para. o fim (ou o desejo) com que se executa a ação”. o que. de. e às vezes para sempre”. pois. com os verbos “ir”. ou “apto para dirigir”. foi para o Brazil”. “pronto a ouvi-lo”. “bateram-se à espada”. “Ir para algures”. a fim de que nos tornemos capazes de servir a pátria”. estava eu à vista da mesa servida. e emprega-se “quando se supõe somente possibilidade ou probabilidade de lograr o que se intenta”. “Foi para Viena como secretário de embaixada”. nem sempre. Com 3 toda razão diz Aulete que a preposição a é de todas a mais vaga. ou o propósito de ir ou vir e voltar logo. “fugiram a toda pressa”. ou “vir a alguma parte” “indica a ideia de pouca demora”. e convidou-me a jantar. “vem a galope”. e alguns outros que designam movimento. as nossas notas às duas acepções em que parece melhor fixado o valor da preposição a comparativamente com os seus sinônimos. “matamos a tiro”. vinha com frequência a Lisboa. Entende Lacerda que “ainda os mais corretos escritores usam indistintamente das preposições a e para” quando querem exprimir relação de locativo.. marcam ainda relação de dativo. no verão ia para o Alfeite. São raras as relações lógicas que se não possam marcar pela preposição a: “andamos a cavalo”.. e convidou-me para jantar com ele domingo. Dizem muitos indiferentemente: “apto a dirigir”.. ou “o objeto imediato da ação”. para. encontrou-me ele pela manhã. “comemos a enjoar”. pelo menos entre aqueles que se mostram mais fiéis ao espírito da língua. – Estas preposições ex- primem relação de fim para que. “trouxe uma flor para a menina”. ou o anfitrião ia para a mesa. portanto. assinalam: para. – As duas preposições empregam-se. “Ir a”. no entanto. – Como preposições de fim para que. por. etc. segundo observa Lafaye. – Confundem-se muito frequentemente. como a prep. “vir”. quando residia em Queluz. Exemplos: “Ele se esforça por instruir-nos. ia muitas vezes a Mafra. “levar”. segundo Bruns. ou “pronto para ouvi-lo”. “dirigir-se”. “lançou à terra”. quase inteiramente despojada do seu valor de origem. para (exprimindo relação locativa). a fim. em vez de “para formar”. nesta acepção. como acrescenta Roquete. ou longa estada. E ainda este de Vieira: “Porque o pai fez uma viagem para as conquistas. e a tal ponto que. a fim marca intuito menos imediato e mais preciso. e nunca mais houve novas dele. tomaste por devoção vir os sábados à Penha de França”. Há entre “convidar para” e . A distinção entre as duas formas revela-se muito clara nestas frases: “convidou-me a jantar”. “virei ao Rio em junho”. e há entre elas uma diferença análoga à que se lhes nota nos casos em que marcam relação de locativo. está ela hoje. “dá a entender intenção de grande” (ou pelo menos de alguma) “demora. e – “virei para o Rio em junho”. Não nos parece que seja assim. O próprio Roquete escreve: “serve (ou servem) a formar”. Este exemplo de Roquete expõe nitidamente a diferença entre as duas preposições: “ElRei d. no segundo caso. além disso.. “ação. por “explica mais diretamente a intenção. “trazer”. imediata”. “morre à míngua”.

– Lado. circunvizinhanças. “a rampa do Pão de Açúcar”. 4 ABAS. subúrbios. que lhe ficam imediatamente em volta. e mais afastadas que as circunvizinhanças. arredores. de “vertidura de águas pluviais”. orla é mais o recorte da aba. adjacências. orla. contiguidades. bairros. contornos. ou lados designam apenas as partes opostas da montanha (ou de qualquer corpo) sem ideia alguma acessória. “O meu rebenque – diz o major – não serve para nada. – Flanco e ilharga designam também os lados do monte. arrabaldes. ou de superfície dobrada. e distinguem-se principalmente pela ideia. – Rampa e ladeira exprimem igualmente plano inclinado. – Todas estas palavras designam “refegos. – Todas estas palavras designam situações em torno de um ponto. ou de uma povoação. – Distritos são secções maiores que compreendem vários bairros. e por sugerir alguma coisa de fecundidade. pois pode ser tão íngreme que se torne de difícil ou mesmo impossível ascensão. ilharga. como as fraldas de uma camisa. distritos. rampa. ou da parte onde a montanha começa a destacar-se do plano sobre que assenta. e sugerem ideia de altitude. Base é toda a porção do plano horizontal que o monte abrange. flanco. Bairros são secções de uma cidade. enquanto que a rampa nem sempre é acessível. ou de um município. imediações. e o primeiro termo ainda se distingue do segundo por ser mais expressivo e mais belo. e neste caso. assim como comarcas são divisões mais extensas que distritos. do alto do monte para baixo. etc. confins. em certos casos.) exprime que o objeto de que se trata não tem serventia alguma. ou de um lugar. Esta última locução (que é mais geral – diz Laf. de um chapéu. ladeira. – Arrabaldes designa a . Dizemos: “a ladeira da Glória”. mais fácil de subir. – Declive (ou declívio) é a inclinação da encosta. de maior ou menor afastamento desse ponto. à ideia de extremidade e inclinação. que marcam. sopé. lados.. “valer”: “não serve de nada”. – Imediações são partes da cidade. vertente.4 Rocha Pombo “convidar a” a mesma diferença que explica Lafaye entre “prier à diner” e “prier de diner”. mas suge- nias. vizinhanças e circunvizinhanças são os lugares que se seguem às imediações. a primeira nega que ele sirva no momento. diferençando-se a segunda da primeira pela noção acessória de contorno (e ambas dando ideia de convivência). redondeza. base. e vertente adita à significação de encosta a ideia de origem de rio. com alguns verbos como “servir”. e aclive é também essa inclinação. comarcas. ser considerada como sinônimo da preposição para: é de. – Aba é a parte mais baixa e prolongada de um cone. falda (ou fralda) é também (na acepção em que a tomamos aqui) a parte inferior do monte: difere de aba porque acrescenta. aclive. declive. lado. parte pendente de alguma coisa”. en- rindo uma ideia de amplitude. o sentido de forma irregular. meu amigo. – Há ainda em português outra preposição que deve. para um fim que se tinha em vista presentemente. – Sopé e orla designam a parte do monte que assenta no plano horizontal ocupado por ele: sopé é a porção do dito plano onde a montanha começa.. o seu alvitre de nada me serve. proximidades são pontos das cercanias. de um monte. cerca- costa. com esta diferença: a ladeira (lado suave de colina ou monte) é menos áspera. 3 ABA. mas considerada de baixo para cima. proximidades. – Encosta é toda a parte inclinada de um monte. “não serve para nada”. falda. pois que não resolve o embaraço em que me vejo”. cercanias são as paragens em torno de um lugar. inclinação.

5 ABAFAR..). “em todo o contorno da vila não se encontrou um morador pobre”. – “Debelaram afinal as nossas forças aquele que foi o mais grave levante dos últimos tempos”. a império. subjugar pela força bruta. “o Méier. “nas vastas comarcas daquela província há distritos riquíssimos em minerais”. “quando anoiteceu estávamos já nas proximidades da fazenda”. – Redondeza ou redondezas. sendo o segundo termo mais vago. nem luta material. – Sufoca-se uma rebelião no seu começo. “a Tijuca é um dos mais belos arrabaldes do Rio”. subjugar. (Fil. tome forças. “acudiram-lhes alguns dos nossos. não se pode conter as lágrimas diante de um infortúnio. debelar. sufocar é impedir de viver privando da respiração. sobrelevar é “pôr-se acima de”. sobrelevar. de um transe. tudo que fica dentro dos limites do círculo visual de que se supõe centro à cidade. como estrangulando (do latim jugulare “degolar”. sobrepujar é superar depois de esforço e luta. sujeitar é reduzir à obediência. Cruz há algumas fazendas”. impedir que se manifeste. Elys. “cortar a cabeça”). pôr sob a autoridade. é preciso que se contenha o instinto das multidões. – Por subúrbios entende-se toda parte habitada que fica sob a jurisdição da cidade. (Herc. ou um ponto dado. arredores são arrabaldes mais distantes. de um embaraço. – Abafa-se uma conspiração antes que venha para a rua: abafa-se o pranto para que ninguém o veja. sofrear é conter com prudência e cuidado. – Contém-se um ímpeto de cólera. sujeitar. domar é submeter. contiguidades e adjacências. sobrepujar. subjugar é submeter a jugo. – Reprimem-se movimentos subversivos da ordem pública. – Diremos com propriedade: “o bairro de Botafogo”. ou tendo poucas habitações. vencer. – Contornos designa a totalidade dos arredores (de uma cidade ou de um lugar). superar é vencer e ficar superior a alguém ou alguma coisa. jugular. e confins são os limites em relação aos de outro. debelar é reprimir à custa de guerra. como senhor. reprimir. até com força e violência. sofrear. o mais aprazível dos nossos subúrbios”.). jugular é reprimir. superar. as porções habitadas que se seguem às abas. e mesmo tratando-se de homens. ou para além do circuito urbano. conter. dá ideia da inferioridade moral do que é domado. ou o poder de”. “morar em Pedrouços é morar nas abas de Lisboa” (Bruns. reprime-se a custo uma explosão de raiva ou de furor. refrear é conter com esforço e trabalho. “não gosta de ponto algum das circunvizinhanças do Castelo”. dominar é submeter com império. que vingue. que reprimiram os inimigos”. humilhando o vencido. “mudou-se mais para as imediações do centro urbano”. domar. suplantar (etimologicamente “meter debaixo dos pés”) é vencer com orgulho.. “tem casa nas vizinhanças da praça ou do bairro”. que opere. sem grande esforço. é “matar por asfixia”. e chegou até os confins do país inimigo”. conter é moderar. . reprimir é conter com mais energia e decisão. submeter. “nos arredores de S.). refrear.. ou vencer em luta.. “a epidemia alastrou-se pela redondeza do nosso acampamento. contidos. e quase sempre não povoados. porém. suplantar. sufocar. dentro do seu perímetro”. que se mova. – Abas são “os pontos extremos de uma povoação. que cresça. “nas cercanias de Olinda lutou-se toda a tarde”. submeter é “reduzir à dependência. vencer com escarmento. não deixar que apareça ou que se desenvolva. vencer é sair vitorioso de um combate. “aqueles jardins e pomares já eram adjacências e quase contiguidades de Jerusalém”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 5 porção de uma vila ou cidade que lhe fica fora dos muros. dominar. – Abafar é impedir que respire. “O homem que vê o que eu vi e abafa no peito o grito da indignação”.

mas os espertos atabafaram tudo antes que nós chegássemos”. “. – Tapar – diz Bruns. abafam-se as chamas para que se não propaguem. por fraqueza que se explica.6 Rocha Pom bo “os Jesuítas tiveram aqui a grande missão de andar debelando paixões e barbarias”. a formação da culpa”. ou não fazer conhecida uma coisa que nos interessa a nós ou a alguém. mas evitando-lhe a ação. e não só fugindo. – Ocultar é “não dar testemunho do que se viu. – “O senhor não conseguirá suplantar-nos com todo o seu poder”. tapar. que andava a superar as misérias daquele meio. acobertar. – “É preciso cobrir bem o menino. – “Subjugamos as tribos menos dispostas ao trato dos estrangeiros”. abafar significa “tolher a respiração. “Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio” (Herc). ocultar. ou impedir que pela evaporação esfrie um corpo. – “O homem que não refreia os seus apetites é incapaz de refrear os seus ódios”. como neste exemplo: “Chegou a abrir-se a sessão. – O pai sujeita os filhos. segundo Bruns. encobrir. com cuidado”. tapar o doente. pois – que eu saiba – não tem cura quando sobrevém na sua idade”. o tutor os tutelados.. – “Com aquele golpe certeiro conseguiu jugular a sedição”. “Encobrem algumas mais. – Domam-se as feras. – Abafar aqui significa “não deixar seguir os trâmites usuais”.. abafa-se a conder. meu amigo. Dizemos tapar o menino no berço. com a sua habilidade e energia dominou a revolta”. ou que se torne pública a culpa de alguém”. nem o gênio é capaz de suplantar a altivez de uma consciência”. as culpas dos filhos”. – “Aquele homem dominou os outros tão completamente que ninguém mais pôde protestar”. co- comida para que não esfrie. 6 ABAFAR. ou em redor”. e evitar que se descubra”. mas defendendo-se. – “é um termo genérico. acoitar. ou ainda “furtar alguma coisa à vista de outrem. – “Resguarde-se do mal.... meu filho.. “abafemos o triste incidente para que ninguém mais o explore”. ou que se agite. – Neste grupo. – Atabafar.. “à vista do vendaval iminente fomos abrigar-nos na enseada dos Reis”. “cumpre que cada um de nós vença por sua parte os embaraços que sobrevierem”. “Ninguém se deve expor às friagens de junho se não bem agasalhado”. – Agasalhar é ainda “defender-se contra o tempo. – Resguardar é também amparar “contra o tempo ou contra alguma coisa. diante.. fugindo ou fazendo dele fugir para um abrigo”.” Oculta-se uma verdade para não comprometer inutilmente a honra . subtrair. por meio de roupas ou cobertas”. – Encobrir é “evitar que se veja ou se conheça algum intento. abrigar. “Conviria que cobrisse a cabeça com a manta”... sonegar. – “A autoridade venceu naquele conflito desigual”. receptar. confinando ambiente respirável de modo a provocar suor ou calor artificial. – “Ele. – Cobrir é “ocultar ou resguardar pondo alguma coisa em cima. tapar a cara com as mãos.. os bárbaros. “. resguardar. para atravessar a praça”. agasalhar.. e hoje é incontestavelmente a figura que sobreleva todas as outras ali”. – “Agasalhe-se bem. atabafar. de significação vaga quando se emprega fora do sentido reto de cobrir. é “abafar com precipitação e energia”. – Abafa-se o doente para facilitar-lhe a transpiração. – “Em poucos dias o general submeteu toda a província”. es- brir. Como diz Bruns. como em: “abafou o processo. reter. “encobre-se a falta alheia tornando-nos até certo ponto cúmplice do delinquente”. os sicários. – “Abrigaram-se em nossa casa contra a tormenta”.” 7 ABAFAR. – Abrigar quer dizer “amparar contra o mau tempo. expanda ou desordene alguma coisa”.. sobrepujou afinal todas as traições.

” “O porão onde mora é uma horrível abafeira”. atoleiro. – Esconder é ocultar com mais cuidado e interesse. Sonegam-se bens a inventário. esconder o furto ou roubo que outrem fez”. – Paul é “alagoa formada por enchente”. e que é vestido de vegetação rasteira. 8 ABAFEIRA. “terra encharcada devido a aluviões”. “O desgraçado escondeu tão mal o furto. onde se chafurdam animais.. com a diferença de que atascadeiro é mais profundo. “Para libertá-los do infortúnio e subtraí-los à vingança”. lameiro. – Lamaçal é pântano mais extenso. portanto. – Subtrair significa “tirar com astúcia ou fraude. inculto. mercadorias sobre que se tinha de pagar imposto. distinguindo-se deste em ser terreno baixo que apenas os enxurros banham acidentalmente. ou em depressões de terreno”. e se estagna e abafa.. embora menos que no lamaçal. “A nuvem encobre o sol”. lameirão. Encobre-se. – Banhado é “quase charco. não “acoberta o sol”. coberto de vegetação”. terra onde há lama... Diremos: ele se ocultou em casa (deixou de sair.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 7 de alguém. sem vegetação espontânea”. – Reter é “conservar indevidamente em seu poder o que lhe não pertence”. – Lodaçal é alagoa de lodo. furtar alguma coisa ou alguém ardilosamente às vistas. – Charco é “terreno alagadiço. lagoeiro. de aparecer. pantanal. onde a água se acumula. (Mont’Alv. “O advogado subtraiu uma folha dos autos”. é “terreno balofo. lameiral. etc. banhado. sendo este verbo apenas de sentido mais vago e geral. que parecia nem ter intenção de ocultá-lo”.. lodeiro. enxurdeiro. ou “grande lameiro” . segundo Bruns. No Brasil é “terreno úmido. guardar. ou a si próprio.” É termo brasileiro. mas em caso algum se esconderá para que não suponham que se quer subtrair à ação da justiça”. pântano. – Pantanal é aumentativo de pântano. pantanoso. – Tremedal é lamaçal vasto e profundo. homizio”: é. asilo. charco. – Acoitar é “dar coito. – Pântano é “lugar coberto de camada de lama pouco profunda”. e quase que só se emprega em sentido figurado.mas eu não sou homem que oculte a baixeza da minha esfera” (Garrett). (Aul. É quase encobrir. e designa “porção de águas de chuva (ou de despejo) que fica temporariamente depositada em sítios baixos. permanece. “. mas não tanto e tão extenso como no lodaçal.. atascadeiro.. Só se acoita a um criminoso ou indivíduo que tal se julga. disfarçando-se para não ser visto ou descoberto”. chafurda. “ocultar contra a lei”. – Lagoeiro é termo popular. – Lameiral está nas mesmas condições: e indica série de lameiros. lenteiro. “aquele moço fugiu para subtrair-se ao serviço militar”.. paul. segundo Bruns. ou aquela cidade é o atascadeiro dos moços”. – Brejo. à ação ou poder de alguém”. é “o estado do lugar não arejado. “O caboclo mete a cabeça no brejo e desaparece”.). “os facínoras subtraíram-se às diligências da polícia”. lamaçal. terreno flácido e lodoso. tremedal. lameiro extenso. “Aquela casa.. – Acobertar é “proteger um culpado. – Lodeiro (ou lodeira) é lugar “onde há muito lodo”. – Lameirão (ou lamarão) é palavra de uso vulgar: aumentativo de lameiro. lodaçal. – Enxurdeiro (ou enxurdeira) é lodaçal revolvido. – Lameiro (ou lameira) é “terra baixa e pantanosa”. de vasa. – Sonegar é termo forense e indica propriamente “esconder e negar sob juramento”. mas não se acoberta um defeito físico: acoberta-se por piedade um foragido.). chafurdei- ro. de água lodacenta. de chavascal”. como os chiqueiros. – Receptar é “receber. – Atascadeiro ou (atasqueiro) diz o mesmo que atoleiro. É usado quase exclusivamente nesta acepção. – Abafeira. – Todos estes vocábulos sugerem ideia de água suja e estagnada.. mas sem a intenção de encobrir-lhe o crime. brejo...

que à primeira vista só parecem diferir na preposição que prefixa o primeiro. aviltar. “Tenta- . ou lentar) é terreno úmido. mas não se arria a bandeira senão quando se a retira da haste. precisamente quando a advertência exige brevidade? Não é: – “Baixa os olhos!” que dizemos a quem queremos humilhar? Não é: – “Abaixa a mão!” que diz aquele que se vê ameaçado por alguém? E não obstante também se diz: – “Abaixa os olhos. É indigno de um homem abater a inocência. molhado. como arriar principalmente. Que diremos a quem. – Chafurda. que se examinem algumas formas para se ver que não é assim. vai passar por uma porta mais baixa que a parte superior do objeto? Como diremos que. 10 ABAIXAR. portanto. abater.. Excluindo a ideia acessória de alívio. Quem chega desce a carga. Basta. Tratemos de substituir baixar por abaixar e vice-versa. “ele baixou até o crime”. no primeiro caso: – “Abaixa a cabeça!”? E não diremos no segundo: – “Baixei a cabeça. – Arriar é que é.”? Se não há sinonímia entre os dois verbos. apenas a saudamos com um aceno de cabeça? Não gritaremos. Não se desce sem haver subido. desabonar. e significa. – Descer é correlativo de “subir”. e verás a teus pés o que andas procurando”. envilecer. “Como é que ele se rebaixa até aquele papel ignominioso?” “O chefe o tem rebaixado ao ponto de convertê-lo em besta miserável”. ou “abaixa”. deprimir. neste sentido. com esta diferença: pode exprimir também (arriar) a ideia de alívio. baixar. depreciar. deslustrar. preposição que mais parece um a eufônico do que partícula significativa. de mais longa enunciação que baixar. macular. só quem cansa a arria. levando um objeto frágil à cabeça. Raciocinemos (no entanto) um momento. Abate-se o orgulho de alguém. degradar. – Rebaixar é “abater infamando”. manchar. por que diremos abaixar. e figuradamente – casas imundas. rebaixar. “Os vícios nos abaixam.. nesses exemplos: não é tangível a impropriedade das frases? – “Dizemos ainda: baixou o câmbio”. ou chafurdeira (esta forma é extensão daquela) são lamaçais onde chafurdam porcos. – Abaixar e baixar parecem ser a mesma palavra e com perfeita identidade de significação. é ainda conexo de arriar. de humilhação. – Lenteiro (como diz a forma de que se derivou – lento. É também baixar: “não desce. abaixa-se a cortina por causa do sol. se é indiferente empregar um ou outro. fazer que uma coisa desça do lugar em que está até um certo outro lugar. desdoirar. no entanto.8 Rocha Pom bo (C. “baixa da própria dignidade”: e não “abaixou”. – Abaixar é. – Abater é “abaixar humilhando”. ao encontrar a F. – Abaixar significa “descer do conceito em que se era tido”. na rua. isto é. descer. humilhar. é rebaixar afrontando. descer. ou ação dirigida a diminuir os créditos de alguém. – Aviltar é “fazer vil.). – Todos estes verbos exprimem intuito. arriar.” “Ele abateu a espada diante do general”. A propósito escreve Bruns. abater. abater. Arria-se a carga se é pesada. difamar. pegajoso. a virtude nos levanta” (Leitão de Andrade). abjeto.: “Não se taxe de nimiedade o estabelecer sinonímia entre estes dois vocábulos. 9 ABAIXAR. Dizemos: “abaixaram comovidos o pavilhão sagrado”: e não “baixaram”. equivalente quase perfeito de abaixar. desacreditar. ou não baixa a dar satisfações a ninguém”. e chafurdeiro. Abaixa-se a bandeira a meio pau (desce-se do alto para o meio da haste). infamar. – Abater acrescenta à ação de abaixar a ideia de força ou violência. e além disso dá mais completa a ideia de abaixar. Fig. desprezível”. “Os inimigos abateram as armas. o verdadeiro sinônimo de arriar. desonrar. envergonhar.

(Cast. quem goza de alta posição. no seu ódio sacrílego de brutos. Agostinho. “Este crime envergonha a toda a geração”. ou tentar destruir a fama dizendo da vítima e espalhando coisas que podem ser até aleivosas”. a fama de alguém com estigma infamante”. quem desacredita arruína o crédito. a boa reputação da vítima. “Estas leves travessuras não depreciam um moço”. É preciso distinguir infamar de difamar. no sentido com que entra neste grupo. ou tem glória. no entanto. e apresentam de comum a ideia de obrigar a descer da posição ou do conceito em que alguém estava. Depreciar significa “diminuir o preço. é.” (Boss. só eles vivem praticando atos que infamam”. “Esta torpeza mancha toda uma vida”. castigar envergonhando”. como desacreditar é “destruir o crédito”. desmerecer na estima. aventurar- . “Não se compreende como aquele moço chegou a praticar atos que degradam”. enfraquece. mas não o destrói. o direito de parecer digno). apresentam diferença equivalente à que. como infamar é “privar da fama”. Bastanos o que diz Bruns. – Degradar é “fazer baixar de grau. ou rebaixa. macula) e significam “marear um nome. assinalar diferença. Uma pessoa depreciada ou deprimida não está mais na estima em que esteve”. deslustrá-lo infligindo-lhe alguma pecha infamante”. “Ele se desacredita pelos próprios atos”. só se deslustra quem é ilustre. marcam os respetivos radicais.. não a classe ou a dignidade (como acontece com o verbo degradar) mas o valor. como diz Laf. “O intento daquele monstro é ainda infamar a memória do tio”. Crisóstomo para deprimir S. E cita como exemplo: “Este escritor afeta elevar S. e infamar é “ofender a honra. – Entre desabonar e desacreditar convém. descer de posto. Propriamente falando. Significam ambos “privar da fama”. e desabonar é “diminuir o crédito e o bom nome”. difamar. – Envilecer é também fazer vil. o crédito de alguém. na acepção natural. muito mais expressivo e mais forte. Pode-se definir precisamente: infamar “marcar de infâmia”.). empanar o luzimento”.) “Quem é aquele pobre-diabo de rodapés para desdoirar Camões?” – De deslustrar e desdoirar aproxima-se desluzir. “Com aqueles destemperos só envergonham a família”. mas este significa mais – “perder ou tirar o brilho. “General. – Deslustrar e desdoirar. (Camil). Exemplos: “A conduta daquele homem desonra a toda a família”. e. no entanto.). Exemplo: “Tentam. “naquele alcouce os mais nobres se aviltam”. mas só as más ações desacreditam” (Bruns. Macular é talvez mais fino e mais nobre: manchar é. o mérito. como só se desdoira quem brilha no mundo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 9 ram aviltar-nos perante a nação”.. afoitar-se. – Desonrar é “tirar a honra”. arriscar-se. no sentido figurado. – Deprimir e depreciar. 11 ABALANÇAR-SE. de intuito afrontoso. “Uma fraqueza desabona. pois. ou o apreço.. não humilhe os vencidos”. tornar abjeto “por abaixamento”. – Envergonhar é “molestar alguém confundindo-lhe o pudor”. difamar “tirar a fama”. arrojar-se. difamar-nos. por mais subtil que esta seja. o valor”. “A mínima suspeita macula aquela inocência”. – Macular e manchar são formas do mesmo termo latino (macular. no entanto. de hierarquia”. “marcam uma ação que ataca. é privar da fama. do mesmo modo. mas não dá ideia de força. “Meu pai não sente vergonha de deslustrar seu sangue”. o sinônimo mais próximo de rebaixar: significa “fazer decair do conceito.: “Tem muito maior alcance a ação de desacreditar que a de desabonar”: quem desabona diminui o apreço. “Desluzia as gerações dos inimigos com a injustiça da sua malquerença”. “Glória alguma do mundo poderá induzi-lo a humilhar os pequenos”. – Humilhar é “oprimir. atrever-se. Deprimir – acrescenta – inclui “intenção de destruir no conceito com grande desejo de prejudicar”. atirar-se. Diríamos: as más ações envilecem (quer dizer: fazem que se perca a estima. ofender o pundonor.

é “sujeitar-se a que lhe aconteça bem ou mal”. “Por que desapareceu o senhor de nossa casa?” – Sumir-se é mais que desaparecer porque dá ideia de “deixar de ser visto sem . dali seguindo para ponto ignorado”. Diremos: “Ele saiu da cidade há uma hora: e no outro dia partiu para S. – Abalar (sent. pernoitamos em Campo Grande. mas perdeu o tempo”. “Partimos daqui no dia tal. a um perigo eventual”. e discutir justiça?” – “Afinal animou-se a pobre viúva a ir a palácio. como diz Bruns. ousar é. retirar-se. ausentar-se. esgueirar- -se. de modo a não ser visto”. atirar-se com ímpeto”. atrever-se é “afoitar-se com audácia”. – Abalançar-se quer dizer “não hesitar. como sair. Paulo”. atirar-se é “lançar-se sem ímpeto. “O exército fugiu perseguido pela cavalaria inimiga” (Aul.. É sim quase perfeito de sair. sem os receios ou escrúpulos usuais”. – Fugir aproxima-se de esgueirar-se com esta diferença: esgueirar-se é “desaparecer com astúcia. sem ideia alguma acessória quanto ao intuito de quem desaparece. – Seguir aproxima-se. – “Pois há quem ouse ir a comícios neste país arriscando a própria vida?”. etc. como se se sumisse no espaço. – Esgueirar-se é “azular com a ideia de esconder-se”. arrojar-se é “precipitar-se. “F. risco. é “empreender um lance de resultado incerto”. desapareceu da rua do Ouvidor”. “Depois da meia-noite desapareceram as crianças”. e ainda se arriscou a andar pelos lugares mais públicos”. animar-se. sair. se abalançou a publicar o artigo?” – “O homem afoitou-se a atravessar o escuro. fig. de partir e de sair. “Espavorido. é “retirar-se sorrateiramente”. sumir-se. arriscar-se é “expor-se a um risco. Paulo. – “Ele se aventura a ir a Minas: se for feliz. mas distingue-se claramente de um e outro porque acrescenta à ideia de “pôr-se em movimento” a de “continuação de marcha iniciada”. desaparecer.). saindo de casa às 3 da tarde. “Ousa o bandido falar em lei. – “O bombeiro arrojou-se ao furor do incêndio. – “O gatuno pressentiu-nos e esgueirou-se”. depois de haver meditado”. “O exército abalou dali ao ter certeza de que o inimigo estava a chegar”. partir. mas decisivamente”. animar-se quer dizer “ter alma. Abala o garoto quando vê o policial. e significa – abalar. diferindo deste porque não dá. Ninguém segue seu caminho sem haver começado a andar. 12 ABALAR. – “O sr. e fugir é “deixar um ponto às pressas”.. o companheiro foge” (Garrett). fugir. tentação”. “F. – “Como é que um soldado se atreve a chegar tão perto da trincheira inimiga?” – “O pescador atirou-se ao mar. portanto. “desviar-se precipitadamente de alguém ou de alguma coisa para evitar incômodo.” – Azular é brasileirismo bem moderno. coragem. e trouxe nos braços o menino desfalecido”. voltará por S. “o mais genérico de todos estes sinônimos. Também do grupo abala o estudante assim que ouve falar em bomba. afoitar-se é “não hesitar sem refletir muito no perigo. aventurar-se é “expor-se a boa ou má sorte”. e salvou a criança”. seguir..) significa “sair precipitadamente e às ocultas. e tanto pode ter sentido favorável como desfavorável”: significa “atrever-se confiante e seguro. força. azulou dali quando nos viu de longe”. para alguma coisa. a ir à cidade convulsionada. – Apliquemos todos esses verbos. embora sem a intenção de esconder-se. – Desaparecer é deixar de ser visto. boa ou má”.10 Rocha Pombo -se. Não poderíamos trocar aí nenhum dos verbos. – Partir quer dizer – “começar marcha ou viagem. só confiando na ventura. tomar uma resolução súbita”. pôr-se a caminho”. perigo. e só com o fim de não continuar presente num lugar”. desaparecer. e no outro dia seguimos para Mendes. mais a ideia de deixar um certo lugar” que de “ir para outro”. azular. ousar.

mas a de “haver deixado um lugar”. – Demover diz muito mais. assim como retirar-se marca. Mas ausentar-se não dá (como retirar-se. se destaca do comum e se põe em relevo. ou do que se intentava”. não propriamente. mas ao fato de haver deixado a cadeira. Diremos que um amigo (que continuamos aliás a encontrar na rua) desapareceu de nossa casa. “Tais coisas lhe disse o velho que o dissuadiu de casar” (tirou-lhe isto do espírito). 14 ABALIZADO. “No meio do tumulto. na consciência”. a ideia de “não estar mais presente”. de frequentá-la”. nobre. exímio. – Distinto é aquele que. mas de um moço distinto. Dizemos: “O homem. “F. o que se distinguiu por alguma grande ação. – Abalizado – dizemos de um profissional ou de um artista que se fez completo na sua profissão ou na sua arte. isto é. por algum mérito ou aptidão. assinalado. Em suma: quem desaparece nem sempre tem tenção de sumir-se: agora o que não é possível é que alguém se suma sem haver desaparecido. “As suas palavras poderiam abalar-me alguma coisa. “fazer que uma pessoa fique em dúvida a respeito de alguma coisa”. não consegue abalar-me neste modo de ver”. Do mesmo modo não confundiremos os dois termos para empregá-los indistintamente nesta frase: “O pobre viúvo sumiu-se do mundo” (isto é. eminente. ínclito. pois enuncia “a ideia de mudar do que se era. – Ilustre é um desses vocábulos que parecem gastos pelo uso. é mestre abalizado no seu ofício”. consumado. “tirar do estado de firmeza”. “Não arrefeceu nunca em Vieira aquele assinalado heroísmo da sua imensa fé”. “Não se trata de um tipo qualquer. “demover operando no espírito. e aproxima-se em certos casos de desaparecer. célebre. na acepção figurada. – Abalar. “O juiz ausentou-se durante as férias”. de fim ou de necessidade com que alguém se retira: apenas marca a noção de “não estar mais presente onde se estava”.). É. . é um escritor abalizado”. e de retirar-se principalmente. “Fazem esforços por abalar na alma do povo as crenças de que ele vive”.” – Notável diz mais que distinto: designa o que se pôs. notável. demover. mas em tal evidência que se fez digno de ser notado. “F. “O homem retirou-se da festa mais cedo do que se esperava”. egrégio. e não. – Ausentar-se é “deixar de estar presente em alguma parte”. te análogo ao que tem no sentido físico. conspícuo. mas não creio que cheguem a demover-me do meu propósito. “que se sumiu de nossa casa”. era um jornalista distinto. ou de intento.Dicionário de Sinônim os da Língua Portuguesa 11 que se saiba o paradeiro ou o destino de quem se sumiu. Dizemos: “Ele me demoveu (e não – abalou) do intento de vingança”. pois jamais me dissuadirão de que a Justiça está comigo”. insigne. com toda a sua eloquência. – Dissuadir é “tirar do espírito”. este verbo empregado aqui. afamado. desapareceu para sempre). com valor perfeitamen- ilustre. “deixou de ser visto nela. portanto. “Demovemos uma criança de ficar no meio do barulho”. famoso. famigerado. “F. – Assinalado é o que se destacou por alguma prova brilhante no seu ofício. grande. 13 ABALAR. Quem se deixa abalar nas suas convicções nem por isso as renuncia. mas que fosse um escritor notável ninguém sabia”. o presidente suspende a sessão e retira-se”. preclaro. Não diríamos neste caso – ausenta-se – pois que o nosso pensamento não é aludir ao fato de não ter mais o homem ficado presente. significa “mover um pouco”. “As armas e os varões assinalados” (Cam. de sair. não apenas em simples destaque. aqui. e tido como exemplo. apenas não fica muito firme nelas. digno. às vezes) ideia de plano. dissuadir. distinto.

função. brilhante”. eminente. ou na sua condição própria”. ou onde aparece”. ou mesmo – grande. diz menos que ilustre. missão. “Os afamados charutos da Bahia”.. é grande. Afamado é quem ou o que tem fama. ou qualidades que dão lustre”. “A preclara majestade de d. como nota Lafaye. “O nobre ancião falou solene”. é digna de respeito”. ou melhor – célebre. e no meio em que vive. ou mesmo nas vicissitudes da vida”. “F. Diríamos: “Job foi um varão insigne pela virtude da resignação” (e não – “um varão assinalado)”. belo. “tocam-se de perto.. Aplicado a qualidades. ou alguma grande qualidade ou aptidão.. e hoje é termo de que só se usa na oratória parlamentar. Mas preclaro diz mais e é mais nobre: exprime – “excelente. e insigne exprime “qualidade inerente à pessoa ou coisa insigne”. conforme o caso. observaremos que: famoso é vocábulo menos nobre. – Famigerado quase sempre se toma em sentido pejorativo: designa indivíduo cuja fama. mas decerto que não diríamos dele – o famoso Charcot. “famigerado desordeiro”. e que por isso mesmo é merecedor de alguma coisa mais que o comum... mas “grandeza que tem alguma coisa de solenidade e de esplendor na história. Nem todos os ilustres são preclaros. apesar do que diz Bruns. ou a coisas.. destacado por ações. é um médico afamado” (isto é – que tem bom nome ou boa fama de profissional na cidade onde clinica).12 Rocha Pombo No seu sentido próprio. Diremos: “famigerado bandido”... já lhe não caberia bem o epíteto). Não seria muito próprio.. “Que nobre alma a daquela dama tão obscura e tão desventurada. Charcot é célebre. ou “está tendo fama no seu tempo. (porque. só porque se trata de homens ilustres. Diríamos: “O preclaro Tácito”. e deve aplicar-se a um fato ou a uma vida “que fez grande ruído no mundo”. por exemplo: “preclaro representante da nação”... ou a coisas subsistentes. e no seu lugar.. mais do que rei no seu império do mundo”. – Preclaro e insigne aproximam-se de ilustre. – Digno é um epíteto mais modesto do que todos os precedentes: digno se diz daquele que “se porta discretamente no seu cargo. porque conserve uns laivos da antiga acepção. boa ou má (em regra – má) “se espalha num dado círculo e com aparato”. mas a raríssimos grandes poetas ou grandes artistas chamaríamos com propriedade famosos. e segundo observa Bruns. mas os preclaros são ao mesmo tempo ilustres. Mas rarissimamente poderíamos dizer sem flagrante absurdo. – Insigne é quem. podendo até ser a de um bandido. afastando-nos um pouco do autor. ou “preclaro ministro”. ou feitos. o grande Infante. É ainda preciso notar que tanto se aplica a pessoas como a coisas. Há capitães ao mesmo tempo célebres e famosos como Alexandre. de aldeia”.” Difere de assinalado em que este “chama atenção mais para os feitos do indivíduo que se assinalou”. tratando-se de um conspirador de alta raça. é de assinalado que mais se aproxima: ilustre quer dizer – “conhecido e brilhante por si mesmo. “O preclaro varão que ilustrou o seu tempo”. “famigerado conspirador.. mas melhor a coisas. Só por menoscabo diríamos: “famigerado cultor das musas”. “Entre os políticos ilustres de Itália... “Este .. pela sua grandeza moral. Henrique. significa “digno e excelente”.. com razão.. nenhum excede a Cavour pela função histórica”. ou o que “se assinala por algum grande mérito. “Aquela criatura. é um digno funcionário”. só se pode aplicar a pessoas vivas. “Nada tenho a dizer ao nobre senador”. “F. célebre enuncia não fama ruidosa. “As afamadas laranjas da Argélia”. – Nobre. – Famoso e célebre. chamar – famoso a um médico que se fizesse conhecido e ilustre fora do seu meio: diríamos antes – notável. mas. ou então em frases enfáticas.” “A nobre altivez daquela criança salvou-nos a todos”. ofício. – Afamado diz muito menos que famoso.

mesmo referindo-nos aos mais abalizados no seu ofício: “F. convulsão. – Agitação será mais “uma comoção continuada por algum tempo”. tratando de coisas – a que “se eleva acima de outra coisa e se põe muito alto”. o que é “muito falado. e. – Tremor de terra é. de grande massa”. – Todos estes vocábulos significam fenômenos sísmicos. ou um serviço assinalado é não como entendem Bourg. pois que estes não são mais que abalos menos amplos conquanto mais intensos e mais sensíveis”. é um conspícuo marceneiro”. Mas diríamos: escritor.. a uma profunda e acabada perícia na sua ciência ou na sua arte”. no dia seguinte . – “é o que chega ao último grau da glória”. tremor de terra. Berg. – Terremoto é “forte tremor de terra tendo consequências na crosta terrestre”. mas um simples abalo. Qualquer dos dois termos só pode ser. “uma série de abalos. ou de que se tem sinais evidentes. ou melhor. excepcional. e tanto um como outro exprimem mais do que exímio quando se quer marcar precisamente elevação pela capacidade e pelo mérito. sim – é “um favor grande. menos extenso e menos sensível que o tremor de terra. como há ínclitos poetas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 13 homem. magistrado. “F. sem ser insigne. é figura conspícua da nossa política. Egrégio é “honrado e ilustre. um favor ou serviço que se manifesta. – Grande é um genérico que se não confunde entre os do grupo. Dizemos: “o grande Infante”. Entre todos os vocábulos deste grupo. Tanto podemos dizer – “um artista”. – Exímio exprime a “qualidade de superexcelência”. tre- pidação. “F. estremecimento. – Eminente e conspícuo diz mais do que ilustre: eminente é o que “excede à estatura moral. digno de respeito pela compostura e gravidade na sua conduta. é verdadeiramente o egrégio e venerável patriarca daquela família”. ou na sua profissão (principalmente na sua arte) “excede. Consumado significa – “subido à perfeição. – Consumado aproxima-se de abalizado. 15 ABALO. e de consequências gravíssimas para a região convulsionada. e por isso mesmo pouco intenso e pouco sensível. de estremecimentos. – Abalo é “movimento amplo. agitação. ou o fato. mas um favor que no momento assumiu proporções que não teria em ocasião normal”: um favor insigne. Há exímios poetas. comoção. ou acontecimento extraordinário. ou no desempenho de algum alto cargo”. e por isso “posto no pináculo entre os da mesma classe”. muito raros outros caberiam nos dois exemplos.. sobreleva aos mais hábeis”. conspícuo é o que se faz “tão ilustre e eminente que dá nas vistas de todo mundo”. “Ínclito”. notável de si mesmo”. segundo Roq. “o grande Vieira”. como há jogadores exímios. e se diz daquele que na sua arte. que tem nome ruidoso e brilhante”. Dizemos: “O egrégio tribunal”. ou o feito de proporções fora do comum “– que se incorporaram definitivamente na história humana”. – Parece que se vê melhor nestes exemplos: “Temia-se um terremoto. Há ínclitos generais. – Comoção é “estrondo ou abalo no interior da terra. “egrégio pastor de almas”. Não poderíamos dizer. como diz Bruns. apenas sensível na superfície”. terremoto. como – “um filósofo consumado”. é um artesão eminente”. ou “F. ou das nossas letras”. e nem chegou a ser um verdadeiro tremor de terra. tornou-se naquele momento figura assinalada pelo heroísmo com que fez frente ao inimigo”. ou às proporções de grandeza dos seus pares”. Só é grande o homem “excepcionalmente notável que foi consagrado pelo culto das gerações”. artista eminente. tratando-se de pessoas. – Convulsão aplicar-se-ia para designar um terremoto violento de grandes proporções. aplicado a pessoas ilustres. Um favor. – Trepidação é leve abalo.

– Abalroar. desamparar. “Ele não tinha motivos para agredir-nos tão insolitamente”. “A primeira vez sentiu-se uma rápida comoção ao sopé da montanha. da Acad. mas decerto não é em tal acepção que abalroamento é sinônimo de investida. aferrar. quando esta se acha em iminente risco de perecer. é mais genérico do que abalroar. impetuosamente”. “Acometeu-nos o inimigo sem que o esperássemos tão cedo”. desajudar. da Acad. bordo com bordo”.” “O que se deu ali não foi um simples terremoto. desprezar.. “A vaca danada arremete contra todos”. “Os inimigos abalroaram uma nau de El-Rei”. de todos os do grupo. – Agredir é propriamente “provocar. Abalroar.). Quanto a abandonar. Não há dúvida. “O bandido nos atacará em caminho se facilitarmos”. “O inimigo nos atacou de frente”. desdenhar. “decreto”). “desterrar”)1 que nos revela a existência de um substantivo mais antigo – bandon – de que nos vem bando (“pregão”. atracar. – Acometer é quase assaltar: é “investir subitamente e com decisão”. – Arremeter é “atacar com fúria.14 Rocha Pombo houve algumas trepidações do solo junto do monte. o abandono se refere ao mal iminente a que se deixa exposto o abandonado. “Assaltaram os brutos a fortaleza à noite”. ligeiros estremecimentos: e depois tudo voltou à serenidade normal. ou de sacrificar 1 O italiano conserva o verbo bandire. logo à noite repetiram-se uns estremecimentos. como se disse. investir. “Os bárbaros abandonaram os míseros náufragos ali na ilha deserta”. (Dic. O rico que não socorre a sua família pobre a desampara. desfavorecer. no outro dia. – Atacar é. tomar ofensiva contra alguém”. . “com precipitação”. mas uma formidável convulsão que alterou toda a topografia da ilha”. agredir. “O inimigo investe. pôr de lado e esquecido”. Abandonar tem com efeito alguma coisa de “exilar. que o abalroamento de dois navios é devido ao acaso. consistindo a diferença apenas “nos meios de que se valem os tripulantes de um navio para aprisionar um navio inimigo”: abalroar. que: “o desamparo se refere ao bem necessário de que se priva o desamparado. fugimos. pois. é “deixá-la entregue aos seus próprios recursos. atacar.) – Investir é “arremeter hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. o verbo de significação mais genérica: “é ir hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. “Vamos atacar o forte”.. Abandonar é. acometer. (Dic.. – Abordar é “aproximar-se uma de outra embarcação.” 16 ABALROAR. para melhor combater. neste grupo. 17 ABANDONAR.. – Atracar. como aferrar. “Com muita gente armada a investiram e abordaram (a caravela) por duas partes”. e como nos convencêssemos de que semelhante agitação subterrânea é prenúncio de catástrofes. e decisivamente”. abordar. desvaler. etimologicamente. mas os três verbos sugerem o mesmo ato. de emboscada. dessocorrer. – Assaltar é “investir à traição. Diz Bruns. se o faz. é – como define Aul. é “atracar com balroas” (instrumento próprio para abordagem em combate). – “atracar com balroas. Diz Roq. e com intuito hostil”. aferrar é “atracar com ferros (quaisquer que sejam)”. desapoiar. assaltar.: “O antigo português tinha o verbo bandir (“banir”. porém. desproteger. Bandon era ordem de bandir. arremeter. desarrimar. “Não se ataca impunemente a honra alheia”. “não querer saber da pessoa ou da coisa que se abandona”. mas não consegue abalroar a nossa embarcação”. escreve Bruns. Também se diz: “Assaltou-nos em caminho a tormenta”. os quais se reputam deficientes ou nulos”. e atracar é “prender de qualquer modo”.

pelos próprios respetivos radicais. – “A amizade – diz ele – exige a naturalidade. no trajo. substituir um pelo outro. ingenuidade. Só nos desfavorece aquele de cujos favores dependíamos. “Aquele homem.. depois de o haver definido como sinônimo de naturalidade. – Desafetação já se não aplicaria com a mesma propriedade a uma criança. desafetação.. “Aquele ricaço desdenha a nossa pobreza porque nós lhe desdenhamos a arrogância”. de dizer. desalinho. pois em todos figura o prefixo negativo ou privativo des. na perdição ou na desgraça. pois que só se dessocorre aquele que está em perigo ou em situação difícil. desmazelo. desapercebimento. mesmo desprezado pelos amigos. a santa continuou muda”. 18 ABANDONO. neste grupo. moleza. desarrimar (“privar de arrimo”). mas o amor. – Desprezar é “não dar a alguém ou alguma coisa o apreço ou importância que se lhe dava”. É estranha a aplicação do termo feita por Bruns. não foi dessocorrido de algumas almas piedosas”. acídia. como desamparar é “negar amparo”. ócio. auxílio”. “Falamos à rapariga. e ela respondeu com uma graça e naturalidade de criança”. mas os filhos fizeram mais: desarrimaram-no na velhice dolorosa: e afinal. distração. É simples de ver que eu me não sinto desamparado só porque um sujeito me desprotege. e só se desarrima a quem precisa de nós. Pode-se desapoiar sem desproteger. simpleza. aquele a quem se abandona. a paixão veemente só é real quando há abandono”. ou se desprotege. inação. e o definido por Bruns. desvaler sem desdenhar. pouco apreço. a distinção será fácil desde que se tenha em vista o respetivo radical. segnícia. incúria. abnegação. entendemos: desvaler (“não acudir”). desídia. e tão distintamente que em muitos casos não seria possível. “Nesta causa pode um parente desapoiar-nos sem que nos prejudique. naturalidade. a abandona”. “Desdenhando o poder dos homens. nas maneiras. é: “negligência amável no falar. desleixo. etc. e só se abandona a quem. como dessocorrer é “deixar de oferecer o socorro que se nos pede”. etc. ou pelos outros indistintamente. como só se desampara aquele a quem devíamos valer. – Desproteger é “recusar a proteção que antes se dava a alguém”..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 15 sua honra. abandono.”. Nem sempre se despreza. apesar de certos caprichos fúteis de um mal-entendido purismo. Como estes. – Abandono é um galicismo (neste grupo) que pode perfeitamente ser incorporado na língua. preguiça. lhaneza.” “Aquela candura da jovem princesa ressalta de todo o abandono em que se deixa ver lá no parque”. mas aqueles que estavam conosco e se afastaram não fazem menos que desajudar-nos”. abstração. Todos estes sinônimos têm a significação geral “de indiferença. desfavorecer (“negar favor”). – Quanto aos outros do grupo. Mas aqui. abdicação. morreu em amarguras. desprezo ou pouco interesse revelado por alguém”: diferençada. “Os homens o desvaleram sempre naquelas angústias. conquanto não seja o aplicado. e antes “fazer o contrário”). negligência. desafetação já “sugere ideia de esforço ou de propósito no . pois. Desarrimar não é propriamente dessocorrer. languidez. O abandono dessa frase é sinônimo de renunciamento. desapoiar (“deixar de apoiar”). desajudar (“negar ajuda. singeleza. Aqui há seguramente lapso: o abandono dessa frase não é o que o autor definiu como sendo o abandon francês. de se vestir sem artifícios que deem na vista”. sem sacrificar alguma coisa da clareza e propriedade da expressão.. – Desdenhar é “ter em pouca conta”. descuido.. acinte ou altivez”. se desampara ou se desdenha.. indolência. tinha direito a ser por nós socorrido. é “tratar com desdém. abandonado de todo o mundo. – Naturalidade é “maneira de se mostrar.. inércia..

ou no desempenho de uma tarefa”: mais censurável sem dúvida que desalinho. mas “descuido culposo de quem deixa de parecer como deve. e ordinariamente revela falha moral. Pode ser oriunda de mal físico. apatia. mais conforme à etimologia) é uma inércia mais de espírito ainda do que desídia (talvez originariamente uma e outra do mesmo radical grego). “Ninguém há de ter o direito de acusar-me de incúria na minha profissão”. Desafetação pode simular-se. ou de trajar”. ou de frase.16 Rocha Pombo sentido de parecer desafetado ou natural”. ou de cumprir um dever do seu ofício”. – Desalinho é “maneira ainda mais descuidosa que a negligência: é quase incorreção de costumes. Neste grupo não é bem assim. indiferença por tudo que a outros merece cuidados ou atenção”. – Simpleza sugere ideia de inconsciência. no falar. e tendo também alguma coisa de moleza”. naturalidade. lhano (do latim planus = liso. o pessimista ou o misantropo. acidentes de ânimo. postura desafetada. Diz Roq. – Inércia é “imobilidade. Negligência sempre é menos do que incúria. falta de energia.. conquanto diga Roq. ou surpreendeu-me nesta negligência em que se está em casa”.. com toda gravidade.. não. que parece ter sido vulgar outrora. Incúria é igualmente (conforme está indicando a própria etimologia) descuido. estado de torpor”. “Por negligência foi censurada a menina que não deu conta das lições. o contrário. que cessa logo que desaparece a causa acidental que constrange o inativo”. nem disfarça o que faz. ou dos temas a tempo: por incúria teve castigo”. está passando a ser quase um vício elegante. no gesto. – Indolência diz etimologicamente – “falta de sensibilidade. – Desídia é quase incúria. É ela “um relaxamento de ânimo. no vestir. distinguindo-se desta em significar mais uma “inércia moral que afasta do trabalho. parelho. – Moleza é “preguiça sensual”.” – Negligência2 diz também maneira descuidosa. mas deve tirar a vontade de agir e de viver: a indolência chega a ser às vezes uma virtude para o cético. uma falta de ação para certas ocupações”. trajo sem capricho. – Ingenuidade é a “singeleza de quem não oculta o que sente. – Descuido é (como se vê da formação do vocábulo) “falta de cuidado no trato.” – Lhaneza é a qualidade do que é 2 Usa-se muito hoje do francês negligé em vez de negligência.. a preguiça um vício”. “Nada alterava jamais a lhaneza daquele caráter”. ou que torna avesso ao cumprimento do dever. Diz Lafaye que “a indolência é um defeito. e quase inconveniência que se não perdoa em gente de educação”. sem desigualdades de relevo). – Inação é um “estado de inércia passageiro. é muito mais grave que simples desalinho. O descuido na elocução.. “Calino é o tipo do ingênuo: diz. e antes um humor sempre igual. as coisas mais sabidas do mundo. – Acídia (ou acédia. como as crianças”. “Ele ficou em pasmo ante a simpleza daquele bárbaro ali impassível a tudo que se passa”. A preguiça pode não ser um vício. na postura. enquanto que incúria é o próprio fato de não fazer o que devia”. Se é mesmo vício a preguiça. – Singeleza é a qualidade do que não tem “refolhos e malícias”. “Este tipo vem aqui fingir desafetações de Tartufo. – Languidez é um quase “desfalecimento semelhante à depressão mórbida. “Pilhou-me a visita.. “Passam a ser censuráveis aqueles modos: aquilo já é desalinho. – Indolência e preguiça. “A singeleza daquele viver é mais edificante do que todas as opulências dos grandes”. pouca atenção com que alguém cumpre sua tarefa ou desempenha um dever. de quase ignorância e parvoíce: é a “singeleza ou a ingenuidade do inculto e rude”. . “O descuido de quem se apresenta maltrajado em um salão de cerimônia é imperdoável”.

olhando sem ver. pois. menoscabar. e ter os seus sentidos materiais como que suspensos ou apagados. a consideração”. Tem ainda. “ter em menor apreço do que o devido”. como intr. mas “fazer baixar de preço”. baratear. Dizemos. não esteve conosco?” Menoscabar não é somente menosprezar. mas também “abater o valor. “Os meus instantes de ócio são poucos. mas “prezar menos do que seria justo”. a malbaratar na vida os melhores dons que lhes tocaram”. – Menosprezar. parecendo que desmazelo é mais grave e mais culposo “porque exprime. Abstração é o “desapercebimento de uma pessoa completamente alheada do meio em que se acha. – Abaratar (ou baratar) significa “diminuir o custo. que a define assim: “O sétimo e último vício capital se chama acídia.. ou porque se descanse dele. – Ócio é antínomo de trabalho. a significação de “baixar de preço”. a aversão ao movimento. A mesma diferença no sentido figurado. menosprezar. em que alguém fica sem dar atenção a nada. “Não é por menoscabá-lo que . que é mais “ausência de sentimento muito nítido do dever” – Desapercebimento. e figuradamente é. desapreciar. abstração. a importância. Desapercebimento é “um como estado de inconsciência aparente. – Baratear é “oferecer por menor preço”. pois. por um motivo interior. “Ele não há de consentir assim que lhe abaratem a honra de juiz”. desencarecer. Mas este difere de baratear porque significa. a inércia e moleza do bárbaro”. “ter em menor conta do que a antiga em que se tinha alguma coisa. “Os tais conluiaram-se no intento de embaratecer os bons ofícios do competidor”. mas de quem parece “não pensar em coisa alguma. “Não pensem que ele vai agora baratear as aptidões”. Bartolomeu dos Mártires. – Deleixo (ou Desleixo) e desmazelo significam “relaxamento no cumprir o dever. – Segnícia é mais do que indolência. porque junta a tudo isso alguma coisa de miséria moral mais lastimável: segnícia deve ser o “torpor estúpido. é dar “por menos do justo valor. no entanto. uma como tensão mental que a separa – dir-se-ia – das outras pessoas”. porque a minha vida é muito atribulada de serviço”. mais lazer do que inação. embaratecer. do que preguiça. abrir mão de uma coisa facilmente. desestimar distinguem-se ligeiramente. naquela causa. Usamos também de embaratecer. não tendo na conta devida”. não só “baixar de preço”. mostrando por ela pouca estima ou nenhum interesse”. mal- baratar. não apenas falta de correção. etc. fazer baixar o preço de alguma coisa”. tocando sem sentir. do que desídia. ou porque se seja forçado a ficar inativo. Menosprezar não é propriamente “desprezar”. especialmente para as coisas do culto divino e comunicação com Deus”. falta de correção. tendo ouvidos e não ouvindo. diminuir o crédito. que é uma tibieza e fastio espiritual que a alma tem para o exercício das obras virtuosas. mas uma desídia quase ostentosa. depreciar. um defeito mais punível que desleixo. de Fr. porque se tenha trabalhado é que se fica em ócio: é este.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 17 e usar-se em vez de preguiça. pelo menos no Brasil: “O café já barateou”. que se não sabe por que é que falha nos léxicos. distração sugerem ideia de estado bem semelhante a umas aparências de abandono. – Malbaratar é “desperdiçar coisa estimável”. mais. desestimar. do que desleixo. “Havemos então de menosprezá-lo só porque. ou as qualidades. como se vê do Leal Conselheiro e do Catecismo. ou sem notar em torno de si coisas que lhe não deviam passar despercebidas”. 19 ABARATAR. é “vender com prejuízo. “Míseras criaturas é o que elas são. tornar barato. Distração é também desapercebimento. o valimento de alguém”. menoscabar.

ou melhor – “a alma de algum conhecido. e tanto menos quanto estima é um sentimento mais profundo que apreço.. larva. socorrer. e como em penitência. espetro. “Quando encontrou no vestíbulo a larva de Aquiles. “personificação”. atribuída à imaginação dos alucinados. “alma dolorosa”. “Não se desestima a um amigo só porque caiu em pobreza”. O mais vago de todos é o primeiro dos três: visão é “toda imagem que se julga ver. emudeceu”. ou à falsa visão de certos doentes.. visão. com a significação que tem neste grupo. “espíritos que andavam vagando pela Terra. e é de crer que junte à ideia de visão a de penitência. quer durante o sono”. além de terror. mas quase sempre “para atormentar os vivos”. “coisa impalpável. de ser tão caro ou encarecido como era. Larva será espetro menos nítido. por alucinação. e talvez porque sugira melhor esta última noção é que se distingue de todos os do grupo. Desestimar é “não ter em estima. manes e lêmures. mesmo instantâneo. como a sombra” (fenômeno . Também se aproxima de “símbolo”. Aparição distingue-se de visão em “acrescentar à ideia de imagem sobrenatural a ideia de miraculoso. Lêmures e manes eram. formas de aves ou de animais fantásticos”. – Duende designa alguma coisa semelhante ao que se chama vulgarmente “alma do outro mundo”.” Sombra pode-se dizer que. duende. “Ninguém decerto vai desencarecer-lhe os grandes serviços prestados à pátria naquele momento”. sombra. “Só desestima o dinheiro quem lhe não sabe o valor”... heroica – dir-se-ia – e terrível do diabo”. manes. é vocábulo de alta nobreza histórica. não ter por alguém ou alguma coisa a mesma estima que se tinha”. que se deixa ver sem perfeito relevo. havendo apenas entre os dois a mesma diferença que há entre os respetivos radicais – estima e apreço. de coisas falsas ou imaginárias e medonhas). e que. – Abantesma é forma popular de fantasma. – Visão. mas ainda conservando alguma coisa da forma humana”. Espetro será o fantasma. Em qualquer dos casos desaprecia diria sem dúvida alguma coisa menos. fantasma. julga alguém ver. “Encontrou no caminho um fantasma que o obrigou a voltar”. que. “Imundos abantesmas vagavam naquela região mais do pecado que da morte”. ou não corpórea. Este vocábulo (fantasma) significa imagem fantástica ou incorpórea. entre os romanos. ou de ter na mesma conta exagerada em que se tinha (e tanto no sentido próprio como no figurado). ou perseguindo os vivos”. subtil. ou do remorso”. às vezes. – Avejão (fig. Abantesma é propriamente “fantasma sem forma definida. significando “forma vaga subsistente de alguém que foi vivo”. inspira repugnância”. de inesperado e súbito. imaterial. 20 ABANTESMA.) é o que se poderia chamar também – “alma penada” – mas que toma “aspetos estranhos. mas todos. sombra são vocábulos de significação mais genérica e vaga.18 Rocha Pombo dele digo estas coisas”.. Manes designava particularmente “as almas dos avós ou dos parentes falecidos”.. trasgo. “representação”. – Espetro e larva designam também fantasmas. ou aquela consciência vive atormentada de fantasmas” (isto é. como em: “O fantasma da dor. É este verbo um sinônimo quase perfeito de desapreciar.. lêmures. saíam do inferno à noite para. deixar de estimar. avejão.. e há entre eles uma certa distinção análoga à que se nota entre fantasma e abantesma. quer em vigília. – Desencarecer é deixar de encarecer. significando assim – “alma penada”. aparição. – Trasgo é qualquer coisa como “figura ostentosa. tendo figura humana mais ou menos acentuada. dando sempre a ideia comum de coisa sobrenatural. “Aquela casa. e causando terror. aparição.

(Aul. birrento. tenaz. pertinaz. perseverante. de modo a fazer subir pela carestia o preço das coisas. aos desejos de outrem. obstinado. a ataques”. No Brasil é muito comum dizer-se indiferentemente: “Abarcar ou abranger o mundo com as pernas”. mas distinguindo-se o primeiro do segundo em significar “uma tendência ou qualidade própria. “não cedem à vontade. antes que cheguem à praça ou ao mercado público”. compreender. opiniático. aferrado. no entanto. 22 ABARCAR.. etc. mesmo entre muita gente de cultura. mas por efeito de uma determinação ativa e refletida”. – Abarroado quer dizer “teimoso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 19 físico). exprime alguma coisa de “alcançar”. Entre os antigos. em razões em suma. Abranger. ABARCAR. Compreender é sinônimo que se pode ter como quase perfeito de abranger. embirrante. que mais talvez o uso comum do que a precisão ou a propriedade fixa em alguns o emprego de um de preferência a outro. relutante. monopolizar. emperrado. enquanto que obstinado é o “que resiste. entre os dois bem marcada diferença. em modo de ser. firme. – Abarcar significa “apoderar-se da mercadoria como quem a prendesse nos braços”. ou reunindo-as por meio de sambarca”. alguma companhia. e mesmo de abarcar”. ou na índole do opiniático. caprichoso. encaprichado. devasso abarroado”. o direito “exclusivo ou privilégio de vender ou comprar”. por sua parte.). 21 açambarcar. obstinado com insolência e por motivos torpes”. sombra era o mesmo que “alma”. Isto quer dizer que com efeito o opiniático e o obstinado. nestas por exemplo: “O homem está obstinado em não aceitar o cargo”.) – Açambarcar exprime a mesma ação de prender ou arrecadar mercadorias: mas “de modo mais amplo. ou mesmo alguma nação a propriedade de um certo gênero de negócios. abranger. “O poder de Roma abrangia multidão de povos” (Bruns. – Todos estes verbos exprimem de comum a ideia de abuso contra a liberdade de comprar e vender. insistente. e faz o que . Deve notar-se. essencial. Há. em abranger. como diz Lafaye. atravessar. insistente. a embaraços. ou que não cede.” 23 ABARROADO. etc. contumaz. no entanto. e é sem dúvida com esta significação que entra aqui o verbo monopolizar: é “tomar alguém. e sei que por coisa alguma se dissuadirá daquele intento”. “Abarcava todo o peixe que vinha à Ribeira”. Há o monopólio não fundado em lei. “Sedutor. porfiado. – Cabeçudo é o que se deixa guiar só pela sua cabeça. não: “Cesar abarcou todas as dignidades da república”. enfeixando-as. fundada em opinião. persistente. por exemplo: “Nesta relação não se compreendem (e não se abrangem) os casos a que se refere o ministro”. afincado. que parecem estar na mesma natureza. “Ele é opiniático. e nunca propriamente: “O incêndio compreendeu. ou da exploração de certas indústrias”. – Atravessar é “comprar as mercadorias em caminho. – pelo outro. e ainda hoje. Diremos: “O incêndio abrangeu todo o quarteirão”. ca- Abarcar e abranger significam “encerrar ou conter em si muitas coisas: em abarcar há ideia de esforço. – Monopolizar enuncia a forma legal de “exercer exclusivamente o comércio ou qualquer encargo ou função”. tanto assim que em certas formas não poderiam ser trocados. teimoso. Teríamos de dizer. o que se escusa de agir. constante. libertino. muito raros hão de ser os casos em que um se não possa substituir beçudo. – Obstinado e opiniático poderiam tomar-se em certos casos como sinônimos perfeitos.

– Emperrado. na vontade”.. porfiado no trabalho. no seu desejo”. o que nem sempre acontece com caprichoso. e difere de encaprichado por isto: porque encaprichado significa que se tomou “por acinte ou por vingança uma atitude caprichosa”. etc. Perseverante é o “que se conserva firme e constante num sentimento.. e perseverante como quem sabe o que vale a fortuna”. Afincado equivale a “fixo e seguro como uma haste que se fixasse ao solo”. e fica imóvel. ou ao que de nós se espera”. relutante contra as seduções do vício. na atitude. pois enuncia a ideia de que o porfiado é “capaz de ir ao extremo. além de significar “pertinácia em querer.20 Rocha Pombo entende sem ouvir conselhos. Dizemos: “Ele está encaprichado no propósito de molestar-nos”. com obstinação e enfado”. e não: “A encaprichada menina”. nas ideias. portanto: “Contumaz no erro”. como o animal que empaca (podendo dar-se-lhe empacado como sinônimo quase perfeito). apatacado. rico.). persistente. ou não obedece à ordem legítima. e não: caprichoso: “A caprichosa menina não atende a coisa alguma”. “mais pelo prazer de contrariar do que por sincera convicção”. mas “por opinião ou capricho”.. embirrante. endi- nheirado.. seguro conscienciosamente”. – Afincado. nem cede. “que se não abala. milionário. – Tenaz exprime “firme e vigoroso em pensar. – Contumaz quer dizer “obstinado. quer. capitalista. obrar ou pedir”. banqueiro. porfiado. “Este homem extraordinário é constante na virtude. remediado. 24 ABASTADO. birrento. aferrado. – Pertinaz já inclui alguma coisa de teimosia. sem explicar-se. resoluto. poderiam aproximar-se de caprichoso e cabeçudo. em querer. etc. ou bens que excedem às próprias necessidades”. e reincide no seu modo de ver ou de conduzir-se sem se importar com o que é seguido por todos”. etc. persistente na ideia de vencer. de travar luta na resistência”. Persistente é o que “sabe. antipatia ou aversão”. – Constante. – Rico é aquele “que possui muitas riquezas. e por extensão é aquele que “segue sua opinião. – Endinheirado. ou à citação feita por um juiz”. pelo menos se repetem esforços e tentativas. Constante é “ser sempre igual ao que se foi ou se prometeu ser. Porfiado é ser “constante mostrando um certo brio e valor”. Embirrante é o que “insiste” nalguma coisa “por birra.. – Aproxima-se deste o vocábulo insistente: o qual. mas o pertinaz é um teimoso. que não atende. nem fraqueja”. capricho. opulento. mesmo porque encaprichado reclama sempre um completivo. e diz – “sujeito muito rico e com ares de ufano das suas riquezas”. ricaço. “Testemunha contumaz”. aferrado diz – “fixo como alguma coisa que se prendesse a ferro a uma outra coisa”. seu intento. advertências ou mesmo ordens de ninguém. dá ideia de que. – Abastado é quem está “fartamente provido de bens para viver em abastança”. ostentando a sua riqueza”. firme significam todos “fixo no lugar. em agir”. – Teimoso é “o que persiste em pensar ou agir como se o fizesse quase por acinte”. revel. Diremos. numa resolução” (Aul. se não se teima propriamente. ou no seu intento. relutante. remediado marcam . perseverante acrescentam à qualidade do que é firme a “ideia de esforço no propósito de conservar-se firme numa resolução. não por acinte. – Ricaço é aumentativo de rico. – Caprichoso é aquele que se mostra seguro e inabalável. num intento ou numa tarefa”. – Opulento é sujeito muito rico que “vive vida brilhante e sumptuosa. firme significa “obstinado. Emperrado significa o que se firma na sua opinião. Birrento é “emperrado ou teimoso por birra. apatacado. argentário. Relutante é “mais que porfiado. ou tem força para continuar firme no seu posto.

convindo. – Adulterar é “fazer mudar alguma coisa falseando-a. menos que perverter. – Degenerar é “perder mais ou menos o tipo. – Argentário. ou uma condição de fortuna que fica entre a do rico e a do pobre”. deixar imperfeito. ou melhor. ou de mais ou menos paixão com que se cuida do dinheiro. que se note: em afear não há tão viva a ideia de “mudar tornando defeituoso”. ou o modo de ser de uma coisa ou pessoa. – Corromper é “pôr fora do estado de pureza própria”.) transtornando. quase perfeito de afear. – Já se usam também como gradações da ideia expressa por este último vocábulo: bilionário. depravar. No Brasil usa-se também o verbo enfear (ou enfeiar) com o sentido de “exagerar. correto. – Desfear é uma dessas anomalias morfológicas da língua que o uso impõe. – Deteriorar é “alterar danificando. banqueiro. viciar. ou de transformar piorando”. arquimilionário. perverter. – Desfigurar é. O endinheirado é aquele que ajuntou algum dinheiro e saiu da pobreza. o valor próprio de alguma coisa”. o modo de ser normal”. deforma-se uma fi- . Capitalista é o que “vive dos rendimentos de seus capitais”. corromper. deteriorar. etc. vivendo só pelo dinheiro”. desfear.). “A idade a desfeou horrivelmente” (e não – afeou). o brilho. deformar. pois: “O andar afea-lhe um pouco a elegância” (e não – desfea-lhe). preocupado só de lucros. legítimo”. ou de fazer que uma coisa não seja ou não se faça tão bem como devia fazer-se”. desfigura-se um texto tirando-lhe as belezas próprias da língua. aqui. e significa “alterar alguma coisa fazendo-a feia”. capitalista. tuoso”. É sinônimo perfeito. – Perverter é “mudar para mal” (Aul. – Deturpar é “desfigurar deprimindo. a natureza. pondo-a fora do seu estado próprio. “tirar a virtude. Diremos. – Estragar enuncia a ideia geral de “destruir. milionário exprimem a ideia de “possuidor de grandes riquezas em dinheiro. Remediado é o que tem com que viver sem apuros. fazer feio com o propósito de impressionar. bonita”. um indivíduo ou uma raça. o mérito. Desfea-se (ou desfeia-se) – isto é – “torna-se feio” o que “era bonito. defeiABASTARDAR. – Abastardar significa “fazer ilegítimo. – Dizemos: Abastarda-se uma geração. etc. e acrescentam à noção geral de rico a ideia de apego ou amor ao dinheiro. – Desvirtuar significa. em geral. as qualidades da sua geração” (Aul. perverter com escândalo”. estragar desvirtuando. próprio. 25 degenerar. degenera uma família. – Depravar é “perder as qualidades que tinha. demover. Banqueiro é o que “faz negócios de banco” (Aul. impuro”. ofendendo o pudor”. pois reduz a simples patacas as posses do sujeito. o “aspeto. portanto. Argentário é o mais genérico e diz “homem dado a grandes negócios. as feições de alguém ou de alguma coisa” (Aul). segundo a própria etimologia. profanando. desnaturar.”: “Ele enfeia o caso para que nós não vamos”. – Deformar é “mudar a forma primitiva. – Viciar é. “tirar a figura”. deprimindo-a com perfídia”. desfigurar. desvirtuar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 21 uma certa “mediania. – Estes verbos exprimem de comum a ideia de mudar a forma. que “vive de negociar. miliardário. Milionário é o “ricaço que possui milhões”. se bem que enuncie igualmente a ideia de “estragar. alterar a forma própria. ou especular sobre empréstimos e outras transações de praça”. é “estragar o que era puro”. estragar.). ou ainda uma ideia do valor preciso ou das proporções da fortuna possuída. Desnaturar é “alterar a natureza. Afea-se (ou afeia-se) uma coisa “tornando-a menos correta. Apatacado diz menos ainda. deturpar. adulterar. fazendo pior ou imprestável”. afear. ideia que se sente em desfear. isto é.

deteriora-se o caráter fraco em luta com a miséria. mu- nir. e dali em diante foi ela sendo abastecida pelos lavradores dos arredores”. Municionar é “abastar de munições de toda ordem. “A caravana.” – Municiar e municionar são formações vernáculas – de municio. ou em cumprimento de um dever ou de um contrato”. nem para prazo certo”. no entanto. uma nação pelos erros. e fornecer é uma forma extensiva de fornir. de pão ou de carne uma praça onde havia necessidade de algum desses artigos”. o primeiro. – Munir significa propriamente “prover de armas e ou- tras coisas que tornem forte. – Abastar significa propriamente “prover do bastante. dar. e – de munição. e por uma determinação própria. para que se pervertam almas basta às vezes um instante. “Ele nos ministrou todas as coisas de que precisávamos”. ministrar. ou que habilitem a defender-se”. do indispensável”. aprovisionar. “Só os colonos vizinhos abastecem (e não – abastam) o nosso mercado”. – Ministrar e subministrar são muitas vezes empregados indiferentemente. no entanto. “As colheitas excepcionais daquele ano abastaram (e não – abasteceram) toda a província”. e abastecer é “abastar gradualmente. o segundo. o tempo devastador estraga formosura. significa “fornecer. pois estavam quase todos completamente desprovidos de tudo”. deprava-se um indivíduo. Poder-se-ia ainda dizer sem . desvirtuam as nossas intenções quando as interpretam de má-fé. conferir. “Aprovisiona-se de água. é que nos forniu de pão: agora o que preciso é ver quem no-lo forneça regularmente”. como função própria ou dever de ofício”. Fornir é “prover do necessário. ou corrompe-se o menino nas más companhias. – “Quando chegamos àquela zona assolada pela seca foi necessário municionar muitos dos nossos postos. “Munam-se todos de roupas de lã para o inverno”. “A secretaria ministrará todas as informações necessárias ao juiz”. municionar. subministrar. ou pelo menos de intuito que se procura dissimular ou encobrir”. – Entre fornir e fornecer nota-se a mesma relação que entre abastar e abastecer. “Muniram-se de documentos contra a calúnia”. Subministrar é – diz Bruns. prover pouco a pouco e com regularidade”. abastecer. ou em obediência a uma ordem. “Munem-se as praças de guerra esperando o inimigo”. Diremos também: “O menino está bem fornido (e não – fornecido) de carnes e com boas cores”. – Prover é o mais compreensivo dos do grupo.22 Rocha Pombo gura fazendo-a monstruosa. deturpa-se a memória de alguém. “Vai bem municiada a escolta”. ao passar. – Aprovisionar é “abastar de provisões. oferecer. apresentar. prover. para uma diligência”. Municiar é “prover de munições para um certo tempo. 26 ABASTAR. significa “fornecer. – “fazer com que alguma coisa chegue ao poder de alguém que necessita dela para se sustentar”: “Os americanos subministravam armas aos insurretos cubanos”. quaisquer que sejam estas”. e. pelos desregramentos. como por necessidade de acautelar o futuro ou prevenir algum mal”. com certa cerimônia. ou “ficam bem municiadas as duas praças guardando aquele posto”. as melhores índoles viciam-se fora do lar. Ministrar. e nem sempre com fim especial e imediato. e de predicação mais imprecisa e vaga. corrompe-se o pão exposto à umidade. fornir. “Nós sempre nos fornecemos (e não – fornimos) de tudo aqui mesmo no bairro”. pelos crimes”. adulteram as nossas palavras quando as transmitem infielmente de propósito. Notemos ainda que subministrar sugere ideia de “ação clandestina. “E até de paciência vou munir-me para sofrer aquele biltre. municiar. munir. fornecer. desnatura-se o homem no vício ou no crime. “O grande comboio abastou então a praça.

cio abalando a redondeza”. – Entendemos que derribar. “fazer que uma coisa deixe de ser .Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 23 deslize da pura vernaculidade: “Aprovisionar de pólvora a praça”. de municionar) é tudo que se aplica diretamente à defesa da praça. ruir.. cair. e aproxima-se de destruir. desprender-se e sair do lugar em que estava”. cair “a aba ou a beira”.. desfazer. ou “Deixei tombar o lápis”. porém. derrocar. “Despenha-se a avalanche inundando toda a várzea”. dos do grupo. o verbo abater e a forma perifrástica pôr ou deitar abaixo: “Diferençam-se em que abate-se uma coisa para que deixe de existir. como para tornar a levantar. tanto para esse fim. 27 ABATER.. pelo menos tanto como abater. pois só é suscetível de demolir-se o que foi construído. se se dissesse: “Municionar de água ou de pão a praça”. “Ruiu todo o edifí- destruir. como a muralha. pois municionar tem predicação mais restrita. “A parede aluiu com as chuvas”. etc. como no exemplo. desmantelar. “desmoronam-se esperanças ou ilusões”. cair com ímpeto em lugar profundo”. e sugere a ideia de que é “volumosa a coisa que tomba”. o lugar em que estava para vir a lugar mais baixo.. abater com estrondo”. aniquilar. – Destruir é. Tanto se derriba a árvore.. “Tombam árvores”.. “Abateu a terra em torno”. como o castelo. – Despenhar-se é vir abaixo desprendendo-se de grande altura (segundo a etimologia – “cair do alto de rochedo”). desabou a barranca”. Podemos dizer sem grave ofensa à índole da língua: “A artilheria inimiga destruiu a colina” (isto é – “desarranjou-lhe a estrutura”). como grossos muros. no sentido figurado. tombar. aluir. despenhar-se. caiu um raio sobre a torre.” 28 ABATER. “Daquela medonha altura precipitou-se o monstro no abismo e desapareceu”. etc. o verbo de sentido mais geral: enuncia a ideia de deixar uma coisa. renovando ou transformando: manda-se abater a árvore que intercepta a vista. portanto. arrasar. “Desabou a fachada de um edifício.. – Abater é baixar ou cair “a prumo – diz Bruns. e até. – Precipitar-se é “lançar-se com violência de cima para baixo. Mas esta ideia é melhor expressa ainda pelo primeiro.. abate-se a fortaleza que não convém deixar de pé. desmanchar. – Compara assim. etc. – Demolir é “desfazer pouco a pouco uma vasta construção. cai o balão que já estava no ar. demolir. Derribar é “fazer cair. e munição (rad. caiu o chapéu de cima da mesa. arruinar. – Aluir é abalar-se. Provisão (rad. mas deve aplicar-se “só a coisas de grande volume. deitar abaixo. e deita-se abaixo aquela que se quer substituir. estragar. – Ruir é “cair. “Desmoronam-se castelos”. – Desabar significa propriamente “abater em torno com fracasso”. “Ouviu-se a descarga e o mísero tombou. e mais ou menos rapidamente.. precipitar-se. Não se diria com propriedade: “Tombou-lhe dentre os dedos o charuto”. e deita-se abaixo. caiu chuva. derruir. deita-se abaixo a muralha que se quer reconstruir. ou a de que é “extraordinária e sensacional a queda”. Não se daria o mesmo. desabar. que também significa propriamente “desfazer o que foi construído”.) e caindo pouco a pouco. desmoronar. Mas diremos: “Tombam rochedos”. – rápida e inesperadamente”: “Abateu o telhado”.. derribar. – Tombar é “cair com fracasso. de aprovisionar) é tudo quanto convém. tirar de cima para baixo”. se aproxima de deitar abaixo. nem tanto. montanhas”. porém: “A artilheria demoliu”. lançar-se para um lado estendendo-se”. – Cair é. aos que guarnecem a praça. demolir. Bruns. “Ouvia-se cá de baixo o ruir dos cedros lá no Líbano”. como dissemos.” – Desmoronar é “ir desfazendo-se” (Bruns. vastas construções. “Cai a casa.

descontar. e deminuir (ou diminuir) é “fazer menor uma quantidade tirando dela uma outra quantidade”. – Derrocar (ou derocar) é “derribar com estrondo. uma fortuna. . de Souza). em geral. desmaio. esvaimento. acabrunhamento. “Arruinaram depressa todo um quarteirão da cidade”. destruir com fracasso”. esvaecimento. definhamento. ou mesmo destruir assolando”. neste grupo. mas sem ideia necessária de destruir. significa “deduzir de uma certa importância uma outra que se combinou não fosse paga”: Abateu 20 0/0 nas compras que fiz”. desfalecimento. “Derruíram em poucas horas as muralhas do forte”. uma floresta. “É preciso abater do ordenado do mês o que corresponde aos dias da licença”. L. – Estragar é “desfazer. – Aniquilar é “destruir reduzindo a nada”. – Desmanchar é também desfazer. construções)”. portanto. “Tito arrasou Jerusalém”. “Os títulos. – Arrasar é “destruir completamente uma coisa (um edifício. privando-o de unidade de comando e de ação. “Que da soma maior do dote se descontaria todo o oiro. “mudar o estado de uma coisa de modo que não seja mais o que era”. conservando-lhes as peças para armá-las de novo. “desguarnecer um objeto daquilo que o protege ou que lhe é essencial. Derruir (ou deruir) é “pôr abaixo abalando. – Desmantelar é. Minuir é. como se desfaz um nó. instituições. um monte) até que fique rasa com o chão”. como bem define Aul.24 Rocha Pombo o que era desarranjando-lhe a estrutura”. portanto. o mesmo que deminuir. um enredo. uma cidade. quer se trate de quantias. como se desmancha um muro. ou mesmo – se destrói). consistindo apenas a diferença entre os dois em “poder subtrair aplicar-se somente a números”. “Carregando impetuosos. montanhas. minuir. deminuir. É. deduzir. – Arruinar é “estragar e reduzir a ruínas”. desmantela-se uma corporação que se desagrega e fica sem ter quem a dirija e represente. ou os muros ou paredes de um edifício”. etc. Não há dúvida que se desmancha uma intriga. Tanto se desfaz um muro. Desmantela-se uma fortaleza arruinando-lhe as muralhas. – Desfazer é. “Já deduziu da nota as parcelas que estavam marcadas”? – Subtrair é. quer de quantidades em geral”. acobardamento. e por extensão: “abater de uma quantia uma outra que já foi paga ou que não deve ser paga”. “O bombardeio estragou enormemente a cidade”.. etc. subtrair. uma cerca (isto é – se desfaz. depressão. quase o mesmo que “minguar ou fazer minguar”. “Vai o tempo inexorável minuindo aquela robustez”. de tirar uma coisa da outra. Deduzir dá “ideia genérica de abater. prata e joias que a infanta consigo levasse” (Fr. demolir grandes moles (rochedos. – Descontar é propriamente “deduzir de uma conta”. “Deduzam da nossa dívida a importância dos serviços que temos prestado”. dividindo-o. esmorecimento. “Descontam-se letras e outros papéis de crédito”. e até uma casa. como – figuradamente – se derrocam grandezas. aniquilaram num momento o inimigo”. aqui. – Minuir é “fazer menor”. – Abater. 29 ABATER. mas podemos também desmanchar um aparelho. demolir as fortificações de uma praça. ou “deixar de meter em conta”. verbo de sentido muito geral. Derrocam-se muralhas. desmantela-se um exército desfazendo-lhe a parte mais forte. languidez. e em sentido mais restrito é estragar. “Com tais erros aniquila-se a obra de muitas gerações”. 30 ABATIMENTO. “Do total a que chegou suponho que é preciso deminuir alguma coisa”. como se desfaz um exército. ou as cédulas do tesouro a recolher já sofrem desconto” (e não abatimento).

desilusões. “Daqueles sessenta anos de esvaimento. opressão. “É o desânimo que nos arreda de encetarmos a empresa: é o desalento que nos induz a não continuar o que não nos deu os resultados que esperávamos obter”. ou vencer um mal ou um sofrimento”. coragem. – Esvaecimento será um desmaio “muito subtil. . desânimo. “Não foi propriamente desmaio o que ela teve. doenças ou miséria”. por trabalhos. fortaleza moral. – Desmaio será um “desfalecimento súbito”. – Acobardamento é a “depressão de ânimo. superar algum contratempo. principalmente morais) produzida por trabalhos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 25 debilitação. vanescere) é o desfalecimento produzido por exaustão (e tanto no sentido moral como no físico). mas decerto que se não dirá: – “desmaiou subitamente”. o remorso. por falta de coragem para arrostar um embaraço. – Depressão é o “abaixamento de forças produzindo abatimento do corpo e do espírito”. – Esvaimento (do mesmo rad. pois a ideia de subitaneidade já está contida em desmaiar. etc. – Desânimo e desesperação. porém. o desalento. desalento. mas é mais lento e extenso. Desanima aquele que “deixa de sentir a indispensável coragem para vencer um embaraço. mas não chegou a feri-la de desalento para as coisas de arte”. que não esteja sujeita a profundas debilitações em certas crises. o que se imobiliza ou não tem regra na vida. delíquio. – Acabrunhamento é o “estado de fadiga. “A doença alquebrou-a. debilitação e enfraquecimento “exprimem também diminuição de forças (tanto tratando-se do corpo como do espírito)”. Análogas aplicações no sentido moral: a saudade.) do espírito: desanimar e desesperar marcam fenômenos da vida subjetiva. – Alquebramento é “diminuição. em que se fica sem ação. sim – só se dizem (como no entender de Bruns. – Desalento é a falta de forças (físicas ou morais. de energia”. prostração. – Languidez é o “estado de fraqueza. tristeza. tédio e abandono em que fica um doente”. podem produzir definhamento em almas extremamente sensíveis.”. ou por doença ou desgosto. quebra de forças ou de ânimo”: “Os meus alquebramentos não vão até o extremo de desalentar-me para a vida”. Desespera aquele que “perde de todo a coragem e a esperança”. – Abatimento é o “estado em que fica uma pessoa por efeito de grande dor ou choque (se é moral) ou de doença grave ou prolongado sofrimento físico”. desalento. desesperação (desesperança e desespero). refere-se melhor à perda da esperança. alquebramento. Desesperação é “o auge do desalento” – diz ainda Bruns. Pode-se esmorecer subitamente. um quase esmorecimento muito rápido. debilita-se. mas um simples esvaecimento”.. o amor. entregue inteiramente à dor. instantâneo”. – Segundo Bruns. – Definhamento. – Esmorecimento é quase desmaio. uma consequência necessária da crápula é o “enfraquecimento do espírito”.. enfraquecimento. ou sofrer alguma coisa”. de coragem. desânimo e desesperação dizem-se só do espírito”. levanta-se Portugal como por um prodígio”. – Desfalecimento é a “perda de forças e de coragem”. O desânimo pode ser originado pela pusilanimidade: o desalento funda-se na experiência. ao cansaço ou à fraqueza”. “Só a morte porá termo a todo aquele acabrunhamento”.. perda de lucidez “em consequência de desfalecimento”.. etc. que “podem confundir-se: ambos significam falta de ânimo. “não há esperança.. definha. – Prostração diz mais que os três precedentes: é o “extremo abatimento. o que não se nutre convenientemente enfraquece. produzido por dores físicas ou morais. – “Abatimento e prostração dizem-se do corpo e do espírito. Quanto a desânimo e desalento diz Bruns. O organismo que se extenua por trabalho. e o desânimo à perda da coragem. produzida por medo. desânimo.

ou encargo ou tarefa pesada. desesperança e desespero. resignar. “Renunciam-se (e não – abdicam-se) riquezas”.) “desistir de alguma coisa em favor”. de permitir. “Como não lhe atenderam aos reclamos. é “abdicar em sentido amplo e geral”. “Desobrigou-se facilmente da grande missão”. demitiu-se ele próprio daquelas funções”. quem larga como que “deixa fugir ou escapar a coisa largada”. renunciar. – Desobrigar-se é “isentar-se da responsabilidade. ou “não querer coisa a que se tem direito. no entanto. desistir da obrigação que se tomara. largou o ofício de órfãs” (deixou-o livre. 31 ABDICAR. ou algum cargo”. – Desistir de. ou vago). “Como é que se recusa entrada a um moço daquela ordem?” “Ele recusou tão bom emprego”. “O pobre está desobrigado de dar esmolas”. rejeitar. desobrigar-se. largar. Recusar diz menos que rejeitar: é “deixar de receber. esquecendo-a. o que se exonera”. mesmo de loiros”. Desesperança é apenas a falta. – Exonerar-se é também demitir-se. quem abandona “como que foge ou se afasta da coisa abandonada”. devendo notar-se que é sempre voluntariamente que se resigna. ceder. Rejeita-se uma proposta desonesta. como se rejeita uma coroa. ou a função em que se estava”. a angústia em que fica quem perdeu a esperança.. exone- rar-se. – Ceder é (como diz Aul. em favor ou proveito de alguém. “tirar de si por vontade ou a contragosto”. mas certamente não se pode abandonar e largar. “Ele se desobrigaria do pacto se nós o maltratássemos”. ou não se pode dizer que se larga depois de haver abandonado. “Vou desobrigar- -me contigo da promessa que fiz”. Desiste-se de um emprego. – O mesmo deve acontecer a quem recusa. alguma dignidade ou alto cargo”. ou de um cargo que não mais lhe convinha ocupar. desiste-se de um pleito. – Rejeitar é propriamente “lançar de si com veemência ou ímpeto”. quem renuncia (como quem resigna) despoja-se do cargo ou da coisa renunciada.. Desesperação é a aflição. – Largar e abandonar significam “deixar. abandonar. “O príncipe abandonou a sua causa”. – Demitir-se é “deixar de permanecer no cargo. no posto”. uma ignomínia. “F.. ou de um intento. recusar. livrar-se ou exonerar-se de um dever”. ou sem nada mais ter que ver com a sorte dela..” – Renunciar é “depor voluntariamente”. “Não há fortes que não tenham seus delíquios na vida”. . e. ou em proveito de alguém.. “despojar-se de alguma honra ou algum proveito antes de tempo”..26 Rocha Pombo É preciso distinguir as três formas – desesperação. pôr de lado alguma coisa. a privação de toda esperança. “A desesperança de quem viveu sem pensar no destino pode chegar à desesperação de morte horrível. – Abdicar é “renunciar. Mas. atormentada de todos os desesperos do precito”. o desvario de quem se desengana de alguma coisa. Quem se demite põe-se fora do lugar em que estava: quem se exonera liberta-se de um trabalho.”. igualmente como aquele que abdica. “Abdica o rei o seu trono em favor de outrem. desistir. “Esaú cedeu a Jacob o seu direito de primogenitura”. ou em cuja posse se estava legitimamente”. Quem rejeita não está de posse ainda da coisa rejeitada. pois quem abdica ainda usa do seu direito de passar a outrem a dignidade abdicada. Pode-se largar e abandonar. é “abrir mão de. Desespero significa mais a raiva. “deixar o que se tinha começado. “Renunciai instintos ignóbeis” (Mont’Alverne). de aceitar”. – Resignar é íntimo convizinho de renunciar e de abdicar. que aquele que renuncia pode ser a isso forçado. – Delíquio aproxima-se de desmaio e de esvaimento: é o estado em que fica uma pessoa que desfalece “como se se dissolvesse”. mas quem resigna entende-se que mais propriamente renuncia do que abdica. mas sugere a ideia de que se “alivia de peso. demitir-se.

“O bojo de um navio. Benzimento é também ato de benzer. sensível. – em forma convexa: “O bojo de um frasco. têm entre si alguma diferença. abençoado. “sugere ideia de fecundidade. bendizer. “alargamento ou saliência” – diz Aul. com esta diferença: louvar se diz em relação a Deus. que bendito. de um tronco de árvore. significa “lançar benções acompanhando-as de preces e ritos apropriados à coisa que se benze. louvar. O primeiro. Distinguem-se de abdômen e de ventre por significarem mais particularmente o estômago. “Os pais abençoam os filhos para que sejam felizes”. e nunca – “encheu o abdômen”.. significa “deitar a benção. pois. Dizemos – a benção do pão. o instante em que nos vem alguma felicidade. bendizer pode referir-se também a coisas. – Também se sente a distinção nos derivados benção e benzimento (ou benzedura). em vez da de volume. a pança ou o pandulho”: não com a mesma propriedade – “encheu o ventre”.. de atividade funcional”. e mesmo como significando “ato de benzer. O segundo. benzer. de uma parede. Esta diferença – diz Roq.” – Barriga.) “é o nome científico da cavidade que encerra os intestinos do homem. Bendizer e abençoar confundem-se muitas vezes na significação extensiva de “desejar. O que se diz de bendizer aplica-se a louvar.. água benta. benção. grandeza de volume de forma arredondada”. como dizemos – a benção dos pais. pandulho. – Do verbo latino benedicere formaram-se – diz Roq. O terceiro. e bento no sentido legal e de consagração. Benção é tanto o ato de abençoar como de benzer. barriga. Todas as nações foram abençoadas em Jesus Cristo. não já de abençoar. mas acrescentando-lhe ideia de “íntimo. já não . a parte para onde vai o alimento quando é ingerido. pedir bens e prosperidades para alguém”. uma família. bendizer. significa propriamente “dizer bem. posto que concordem na ideia principal. se pode dizer no sentido moral e de louvores. Nossa Senhora é bendita entre todas as mulheres. – (entre bendizer. Benzer não é hoje usado senão para indicar as benções eclesiásticas ou supersticiosas. benzimento. nem sempre são abençoadas do Céu nos campos de batalha”. – três verbos portugueses (bendizer. etc. pandulho. “Os sacerdotes benzem tudo que é consagrado ao culto divino”. etc. ou benções”. uma nação. mas. pança são plebeísmos a que se dá sentido semelhante ao de abdômen. bojo. isto é – “sugerem ideia de ventre volumoso”. de um barril.”. extensivamente diz-se do vulto que essa cavidade apresenta exteriormente”. benzer. bendito. – Abdômen (diz Bruns. etc. – Vê-se. a santos e a homens. Pão bento. porque louvar é mais “fazer elogios” do que “dizer bem e dar graças”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 32 ABDÔMEN. bento. abençoar (ou abendiçoar). e também “abençoam a assistência ao fim da missa”. – Bendito ou abençoado se diz para designar a proteção particular de Deus sobre uma pessoa.. e não – louvamos. exalçar”. significando “amplitude. abençoar) que. e às vezes abençoado. – Ventre é também abdômen. “O justo bendiz (ou louva) ao Senhor tanto na prosperidade como na desgraça”. 27 pança. louvar. “As bandeiras militares. profundo. entranha. 33 ABENÇOAR. Daí bojo com aplicação ao volume desabalado do abdômen. benzer. – Bojo é termo genérico. dada pelo sacerdote com as cerimônias do costume. bentas com grande pompa na Igreja. ventre. Bendizemos a hora. – Entranha (ou entranhas) diz também ventre. benzer e abençoar) torna-se mais sensível nos particípios destes verbos. – Bento designa a benção da Igreja. da vela de uma embarcação”. Dizemos vulgarmente: “encheu a barriga.

vão. rigorosamente falando.. Diremos: “Por uma fresta da porta mal fechada vi-a passar” (e não: por uma fenda). fenda. “Eu. o óleo. por . resquício. racha. além de grande força onomatopeica. a água. saber de tudo que se faz. abertura e resquício. e não dá ideia de proporções: tanto é buraco um rombo enorme feito através de uma montanha como é buraco o furo feito por uma bala através de uma parede. no entanto. metediço. Nem sempre. tomando atitude em questões que lhe não pertencem”. – Abelhudo é aquele que vive (como a abelha num jardim) “metendo-se em toda parte.): o que. buraco.” Rombo. fresta. é uma racha aberta de propósito com instrumento cortante. mas o que “se mete com certa audácia naquilo que lhe não compete”. a gestos ou figurações de supersticiosos”. ou no costado do navio”. Benzimento ou benzedura ficou tendo aplicação quase exclusiva a “coisas de cabala. principalmente rombo. “frinchas da madeira”. discutindo negócios alheios. introduzido. Poder-se-ia dizer igualmente sem grande impropriedade: “. cumprindo observar. furo. – Quanto a greta.. “As fendas que o sol fez no muro” (e não as frestas). escreve Roq. fizeram enormes furos.). O sacerdote benze o fogo. greta. – Buraco é “abertura. é uma rotura natural. é “o espaço que fica entre duas partes de um corpo que se separam”.” 35 ABELHUDO. pois esta enuncia apenas o “claro de greta grande. nem sempre se dá em relação a aberta. a abertura que há entre o quício e a porta. mas com a cabeça coberta. frincha. ou da montanha. intrujão. passa a ser orifício. rotura. – Interstício é propriamente “o que fica entre duas coisas”.. mas para ouvir o que se diz.: “A diferença que existe entre a significação destas três palavras é bem fácil de notar. que mirava tudo. é. mas a benzimento do fogo preferimos dizer – a benção do fogo. aberta. – Rotura é a “aberta deixada por um rompimento”. oferecido. entremetido. “por um vão da floresta. própria de dilatação ou contração dos corpos sólidos. A greta e o resquício são naturais. claro” e vagamente: “Frinchas da renda”. e por extensão qualquer fenda por onde penetra a custo a luz. – Vão é “todo o vazio ou espaço aberto num corpo”. no entanto.28 Rocha Pombo se pode mais aplicar a cerimônias de culto. A segunda. “As bombardas fizeram rombos enormes na muralha. nem mesmo nos casos em que se aplica o verbo benzer. 34 ABERTURA. fisga são muito semelhantes pela ideia comum. ou estreita: devendo notar-se: que fresta é das três a que exprime abertura menos estreita. ou dos efeitos do calórico. Este dá ideia ainda de rotura de grandes proporções. – Frincha “dá ideia de fenda. Fisga é quase o mesmo que fresta: apenas fisga dá ideia de abertura feita por um corte ou rasgão. que sugerem. fisga. – Entremetido é. de abertura longa e fina. interstício. – Fresta. ingerido. orifício. – Aberta é o mesmo que abertura. a abertura é artificial”. falha.). taralhão. – Furo e rombo designam “buraco. “Pelo vão de uma janela”. abertura. fenda. in- trometido. que abertura sugere ideia de que a racha foi “feita de propósito” (como nota Roq. pelo menos. rombo. intruso. rotura feita com mais ou menos violência. não propriamente abelhudo. dá mais ideia de violência e de grandeza. resquício. greta. – Se o buraco é muito fino. ordinariamente circular”. A primeira. – Racha é a “abertura por efeito de rotura” (Aul. e fenda é exatamente o contrário – enuncia apenas a ideia de que se não acham unidas ou apertadas as duas partes de um corpo que se disgregam. o espaço livre entre duas ou mais partes de uma coisa”. A terceira. por uma fisga de roupa” (Herc..

desfruta. Creio que por elipse se tirou da outra frase muito comum: “meter-se a taralhão”. é o que é amplo – largo e comprido – extenso. “Vasta campanha. – Intrujão é ao mesmo tempo metediço e abelhudo. aplicar (como acontece em relação a amplo) em certos sentidos morais: não diríamos. por exemplo: larga jurisdição. amplo. e em certos casos sugere ideia de amplitude: “Horizontes abertos”. e de significação mais vaga. – Introduzido é mais que oferecido.) “Com grandes poderes e ampla jurisdição” (Dic. larga liberdade. ou fim oculto em meter-se onde não foi convidado a ir. a propósito de taralhão. Distingue-se de oferecido porque dá mais ideia de atrevimento e desaso. naturais ou afetados que o fazem ridículo. “Taralhão é o que se entremete onde o não chamam” (Bento Antonio). – Largo é o que “só tem grande a largura”: muito menos. Diz – “o que está desimpedido. ao passo que taralhão parece o mais inofensivo. desenvolvido. largo direito. que abrange todas as dimensões. ou pelo menos tendo algum interesse. (Aul. portanto. – Intruso é o que “se põe nalgum lugar alheio. A propósito de taralhão. 36 ABERTO.” – Amplo ajunta à noção de dilatado a ideia de “vasto contorno. engana. e com mais atrevimento que desaso”. familiaridade ou importância. ainda nela há muito espaço desocupado. – Intrometido é o mesmo que entremetido. – Espaçoso é “o que compreende relativamente grande porção de espaço”. lhe chamam taralhice. com muita propriedade. e o epíteto se aplica a pessoas afetadas. velhaco. diz que amplo. e em sentido lato dá ideia de “tão desmedido e aberto como se fora feito por arrasamento e assolação”. portanto. “Casa espaçosa”. O metediço irrita. o oferecido aborrece. o entremetido é abelhudo: só a inversa é que é menos exata. o de amplo é exíguo (ou constrito). intrusas e ridículas. – Aberto é talvez o mais genérico do grupo. porque chamam de taralhão à pessoa gorda. ou jocosos ou sérios. – Metediço é como se se dissesse oferecido: é o que “vai ou se mete em toda parte mesmo sem ser chamado”. suponho que o sentido passou de um ditado ao outro. se entremete onde não é chamado. – Vasto é mais do que amplo e espaçoso. dilatado. “O entremetido parece sempre demasiado gordo”. de grande circunferência”. – Ingerido (que se confunde bem com inserido ou enxerido) é o que “intervém em questões ou negócios pretendendo resolver ou adiantar o que é de competência alheia”. espaçoso. contendo muita mobília. escreve João Ribeiro na última série das suas Frases feitas: “Atribui-se o ditado “Nunca o vi mais gordo” ao imprudente que. E uma vez que taralhão e gordo se equivalem. Bluteau já havia. com ridiculez. Diz Bruns. conversar ou obrar. é vasta quando as suas dimensões são extraordinárias”. afetando graça. e mais ainda: é o “tipo manhoso e importuno que persegue com lábias. e “em frase chula quer dizer – aquele que tem um modo de tratar com termos. De toda a família é o mais forte. enquanto que oferecido diz também alguma coisa de dissimulado. e a este trato ou modo de falar. e os taralhões são pardais que engordam muito. vasto. que “uma sala é espaçosa quando. livre de obstáculos. Repulsa-se o metediço. “campina dilatada e aberta. explora.). desconfia-se do oferecido. notado que o termo se toma metaforicamente por gordo. lato. é ampla quando nela folga tudo o que contém. e portanto contra o direito”. extenso. e até que metediço: é o que “entra onde não deve entrar. estirado. da Acad. largo. . explanado. “O assunto é muito amplo para ser tratado em meia hora”. O antônimo de largo é estreito. Largo não se poderia também. valendo-se de astúcias e perfídias”. Assim.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 29 isso.

ou diz menos do que largo”. – Explanado. – À vontade quer dizer “como quiser ou desejar”. estas duas frases: “Falou largamente contra o governo”. à regalona.. enquanto que à larga sugere ideia de “incontinência. com olhos extensos. – Lato é quase o mesmo que amplo. 38 ABERRAÇÃO. pois esta forma equivale apenas a “de modo amplo”. desvairo. ou “com fartura”: acrescenta a isso a ideia de “com alegria e voluptuosidade de sibarita”. Trata-se à regalona quem se trata como grão-senhor.. no entanto.. diz mais. “sem obedecer a escrúpulos”. à saciedade. sem preocupações”.” – Desenvolvido refere-se a uma grandeza que tomou proporções notáveis: “O menino está desenvolvido”. 37 A BEL-PRAZER. – Extenso diz menos que amplo. desatino. que é o mesmo que “até ficar satisfeito”. Ninguém confundirá. “Não pudemos aguentar toda aquela estirada arenga”. disparate. deixa-se a criança brincar à vontade. aberto”. “até mais não desejar ou não querer”. destampatório.. vive-se à larga quando se gasta desregradamente. erro. vive-se à farta se se não tem necessidade de calcular muito as despesas. Camões disse: “Esperando com olhos longos o marido ausente”. à grande”. – Desafogadamente enuncia a ideia de “sem nenhum embaraço ou premura.. – Folgadamente corresponde a “com largueza” (Aul. – Estirado quer dizer “estendido. dilatado. “Dilatada campina.30 Rocha Pombo vasto país. “Chegamos ali. nem com tanta propriedade. além da ideia de amplitude propriamente. longo exprime ainda mais particularmente a ideia de comprimento. ou pelo menos nem sempre – campo longo. na acepção lata. – “Estamos em nossa casa a bel-prazer. amplo. despautério. – A bel-prazer significa “segundo a própria satisfação”. ou (como em semântica) de sentido ilimitado”.. no sentido próprio. a gosto.). – À farta equivale a “com fartura”. largamente. vasto mar”. mais desenvolvido que o normal”. desconchavo. regaladamente. extenso. livremente. ou se se tem com fartura o que é necessário. “sem regular cuidados”. dilatados domínios. e à saciedade se goza um prazer se não se deseja mais. à vontade. estirado.. extenso. igual. desafogadamente. vasto. “Desenvolvido demais foi o discurso”. sugere. e na acepção usual referem-se mais ao comprimento do que à largura. – À regalona diz ainda mais que regaladamente: significa “de maneira ostentosa. de extensão. diz “extenso. desrazão. Não diria decerto: “. absurdo. vive-se desafogadamente quando se vive sem ânsias ou preocupações. a “de largura. plano. con- ga. folgadamente. ou como senhora rica “que cuida mais da mesa que da fama”. É de mais força que largamente. “Falou à larga contra o governo”. error... – Mas. – Dilatado diz juntamente o que “é longo. “sem apertos ou empecilhos”. desregramento”. claudica- . portanto. despropósito. fica-se a gosto onde não há cerimônia. “conforme é do nosso agrado”. dilatados tempos”.. e aproxima-se de à saciedade. “Este vocábulo. príncipes”. desconcerto. Diríamos indiferentemente longo ou extenso caminho. falta.. A gosto exprime “sem constranger-se”.. Estamos folgadamente onde nada nos aperta ou oprime. destempero. a uma parte do continente explanada como imensa campanha a perder de vista”. “Percorremos as formosas e latas veredas daquela região”. Passamos regaladamente “quando passamos como. – Regaladamente diz mais do que “em abundância”. à lar- liberdade”. extravagância. “sem medir gastos”. à farta. À larga diz “em plena trassenso. aberto”. fazendo-se mais convizinho de longo. “Estão bem desenvolvidos os serviços da construção”.

. ou do que se dizia. Revendo um tema. desacerto. verbo de predicação muito mais vaga. determinado. Decerto que tratando de Lutero não diria o padre católico: “os absurdos”. por extensão. – Despropósito é “dito ou ação fora de propósito. lapso. ou cometeste aberrações”. em certos casos. – Destempero é extravagância “mais estrondosa e deplorável”. de aprumo. “uma extensão de erro”. não diria o professor ao aluno: “Disseste. são erros de certa ordem. além de forma erudita. “as aberrações do demônio”.). “F. deslize. e só se deve aplicar a deformidades e a erros extraordinários. queda. desvio. “Este homem tem perpetrado tais absurdos. uma acepção que o aproxima de absurdo. é destempero que chega a parecer excesso de doido.. que não se ajusta à ordem de ideias ou de fatos que se seguia”. ou em desacordo com aquilo de que se trata”. Mas entre absurdo e aberração deve notar-se pelo menos esta diferença facilmente perceptível: absurdo é termo genérico e que. confusão produzida por desvio do normal”. – Erro é “tudo o que não se concilia com a razão.. descaminho. – Desatino é “falta de tino. comete às vezes umas tantas extravagâncias. – Aberração3 significa propriamente o “ato de sair do caminho direito (aberrar). flagrante. é como se disséssemos. poderia confundir-se com abuso: designa simples infração de raciocínio. – Extravagância é “tudo o que se desvia das normas usuais do bom senso e da boa razão” (Aul. é mais forte. é o que não está “no mesmo tom. porque absurdo é o fato “em si mesmo. – Desrazão significa propriamente “contra a razão”. e mais: “erros de entendimento ou de juízo que de . uns percebidos quando colidem com o entendimento (desrazões). como se apenas o bom senso. aplicado a fatos de psicologia.. ou do que se tinha assentado”. engano. e por isso aproxima-se muito de falta. ou melhor com a consciência vigente. descuido.. descaída.. Aberração. perder-se no caminho”. quer dizer “o erro que comete quem se desvia das leis do espírito. portanto. e não: “os absurdos”. despropósito que não vale a pena de combater ou destruir”. persistência ou “reincidência numa série de erros”. mas nunca chegou a tais destemperos”. – Contrassenso é o mesmo que “contrário ao senso comum. de equilíbrio mental”. Toma. aquilo que está “em colisão com a consciência”. principalmente no plural. – Disparate é desatino que tem “mais de graça que propriamente de doidice”. LXXIX – que aberração era um termo de astronomia somente antes do começo do século XIX. transviamento da linha em que se ia. ou mesmo os sentidos materiais bastassem para senti-los (contrassensos). – Desconcerto é “disparate sem espírito. devendo considerar-se que parece inseparável da ideia de culpa. ao modo de ver de todo mundo”. além de mais preciso. outros percebidos ainda mais prontamente. e diz “absurdo. Dizemos também: “as aberrações do espírito humano”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 31 ção. equívoco. mas: “Disseste absurdos”. ao passo que aberração enuncia a ideia geral de aberrar... “Simples faltas que nem se podem ter por erros. etc.” – Error é. – Desconchavo é também o que “desgarra das normas. – Intr. O que é absurdo ao sentir ou ver de uns pode deixar de o ser ao de outros. concreto”. cinca. – Despautério é forma popular de disparate. “contrário ao que é razoável”. conquanto seja este menos forte nesta acepção. mas. Desrazão e contrassenso são casos particu3 Diz Laf. patada. lares de absurdo. – Destampatório é “extravagância ou despropósito descomunal”. pois este vocábulo enuncia “o que é contrário ao senso comum”.. – Desvairo (ou desvaire) será o desatino “leve e sem a graça do disparate”. ou cometido estas aberrações”. ou dos princípios da lógica.

acamelado. viram todos como erros que logo tomaram o caráter de verdadeiros crimes”. parvoeirão. como poderia parecer. simplório. abobalhado. que podiam passar como apenas claudicações censuráveis. apenas uma extensa e atenuada do seu radical. tabaréu. ou da direção em que se ia ou que tinha de ser seguida. não devendo entender-se que este (o derivado) seja sempre. chocarreiro. bobório. atoleimado. parvo. já ele não sabia explicar tão frequentes equívocos. – Descuido é o “engano cometido por falta de atenção”. rombo. ou que tem ares de besta”. apapalvado. charro. boca-aberta. no entanto. burro. burrego. maninelo. mais por ilusão do que em consciência. matuto. amatungado. ignorante. pacóvio. patau. pataroco. boto. aplicável a cada um desses e o respetivo derivado. patocho. estulto. abasbanado. asno. boçal. – Desacerto é “erro ou falta cometida por irreflexão ou inadvertência”. alvar. (Aul. queda. aplicar-se a erros de entendimento. palúrdio. do reto caminho”. camelório. de graça para agradar. imbecil. amatutado. – Descaída. ou “falta cometida por imperícia”. apalonçado. papa-moscas. e inclui ideia de asneira agressiva”. abobado. jogral. palhaço. estupidarrão. de espírito para agir”. patego. estúpido. toleirão. – Lapso é quase equívoco: é engano devido mais à falta de memória que a desmazelo ou ignorância. aparvoado. estólido. aburregado. e sempre sem as proporções e a gravidade que tem o erro propriamente”. ou de perder o caminho certo ou direito”. caipira. bolônio. aumentando àqueles a ideia “de ingenuidade ou inconsciência”. pascácio. conduta”. de expediente na vida. Deslize é “ligeiro desvio da linha. pato. que descaminho é o “fato de tomar caminho errado. apalhaçado. e no sentido figurado designa o “ato de cometer erros por defeito de espírito. bufão. obtuso. erro brutal. descaída é mais “deslize ou lapso que propriamente queda”. lorpa. pasmado. ou por falta de noção exata do dever”. – Engano será o “erro ou a falta cometida sem culpa. parvajola. “Os seus deslizes nem são descaídas quanto mais quedas”. de vivacidade. deslize equivalem quase a claudicações: queda sugere de mais a ideia de culpa ou de pecado. pateta. bestiaga. ignaro. assentam mais propriamente a faltas de senso prático. sandeu. basbaque. enfatuado. ajogralado. parvoinho. bronco. e que se refere à diferença notável marcada pela derivação. Quer isto dizer que mesmo um indivíduo muito inteligente . fátuo. Claudicação é propriamente o “ato de coxear”. asinino. aburrado. em certos casos. beócio. néscio. alorpado. apalermado. simples. embotado. – Todos estes vocábulos exprimem de comum a ideia de “falta de inteligência. não tiveram mais desculpa os muitos enganos. aparvalhado. lerdaço. Quanto a alguns do grupo há uma observação a fazer. Exemplo: “Repetem-se os lapsos.32 Rocha Pombo 39 ABESTALHADO. basbana. apatetado. significa “que se mostra besta. jumento.Vejamos: Besta é tropo conhecido que designa o indivíduo em que aparentemente se denuncia uma indigência de entendimento e uma índole obstinada semelhantes ao que parece ter o quadrúpede desse nome: abestalhado. bobo. palonço. depois. besta. mentecapto. papalvo. truão. tapado. abasbacado. camelo. idiota. aboçalado. em regra. patarata. porém.” Podem.) – Desvio e descaminho quase que se equivalem. doidivanas. estes. e desvio é o “ato de mudar de rumo. lerdo. notando-se. ignorantão. ingênuo. e por fim. palerma. acaipirado. – Patada é plebeísmo que significa “despropósito grosseiro. mas. maturrão. rude. – Cinca (ou cincada) é “erro de ofício”. quadrúpede. apataratado. – Equívoco é menos que descuido: é o engano “cometido contra a vontade ou intenção de quem o comete”. asneirão. tolo.

com idêntica significação. abrutalhado”. Além de abobado e abobalhado. formas que pouco alteram a significa- ção que tem aqui. que é forma erudita. diz C. e revelando isso por inépcias. equivale a “bobo insolente. – Patarata é “pessoa tola. temos ainda bobório. estouvado. – Patocho. Temos ainda alorpado = “feito. como outros muitos do grupo. Temos ainda: parvoeirão (aum. – Bobo. – Basbaque é convizi- . que é a mais usada. demasiado ingênuo. ou parecendo lorpa”. O mesmo deve entender-se quanto aos outros do grupo que dão derivados. – Besta. Dá apapalvado = “com jeito de papalvo”. modos e gestos de quase idiota. – Lorpa é o indivíduo “inepto. – Papalvo quer dizer “simplório.. meio parvo”) e aparvalhado (“semelhante a parvo. Dá apalermado = “com ares de palerma”. maluco pretensioso”. – Parvo quer dizer “pequeno de espírito. estúpido. que significa “estúpido e sem préstimo ou valor algum”. – Pataroco é outro provincianismo algarvio. – Estólido. disparates gaguejados a custo. incapaz de esforço físico ou mental”. Notemos ainda que entre abobado e abobalhado é preciso fazer uma ligeira distinção: o primeiro quer dizer que parece bobo. impostora. dando ideia do “indivíduo lorpa. “tipo mais boçal e desfrutável que o bobo”. abobalhado = “que se faz de bobo”. ou “que se assemelha a patarata”. “meio pato”. que é provincianismo algarvio. e parvajola = “que. de Fig. e o segundo. (Aul. – Palhaço significa mais – “bobo. e por analogia significa o “indivíduo pobre de espírito que procura divertir os outros. lasso. – Apalhaçado = “que se faz palhaço”. explorar facilmente”. graçolas charras.). patocho. como se sabe. – Lerdo equivale a “pesado. do que propriamente com discursos ou ditos graciosos”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 33 pode ser abestalhado (isto é – ter modos e ares de besta). – Camelo (fig. por fazer-se engraçado. rude. – Tolo e estólido são formações do mesmo latino stolidus: a forma popular. a de grande inépcia”. fútil”. era. conquanto. Dá apataratado = “que se faz patarata”. Acamelado = “com ares de camelo”. muito usado pelo menos em grande parte do sul do Brasil. uma forma diminutiva ainda mais acentuada de pato. lerdo no pensar e no agir”. – Palerma é o indivíduo “quase idiota e que parece ter tanta incapacidade para pensar como para mover-se”. mímica espalhafatosa. histrião por ofício do que propriamente idiota ou besta”. o jogral de corte. – Pateta designa indivíduo “desorientado e abobado”. preguiçoso. que se deixa iludir. além da ideia de parvoíce. fácil de enganar”. – Patego é como se dissesse “pequeno pato”. dá bestiaga. diz melhor “o que não tem o discernimento. patego. ignorante que se mete a sabichão. parecendo. palerma. – Camelório diz “quase camelo”. que tem ares de bobo. ou melhor. aliás. o que é “leviano com petulância”.) é o “indivíduo pesado. e que significa o mesmo que patego. pretensiosa. a medida do bom senso comum”. – Bobório quer dizer “bobo a afetar compostura de gente sensata”. estúpido” – Lerdaço é aumentativo de lerdo. por figura. Do mesmo radical temos ainda: patau. ou palavras deturpadas e sem nexo. pataroco. curto de compreensão como criança. com jeito de parvo”). – Patau (que também poderia ser uma adaptação do francês pataud) sugere.) = “grande parvo”. mandrião. Parece dar-se o contrário com aparvoado (“feito parvo. – Palúrdio quer dizer “idiota. não figure nos léxicos. afetada. se ostenta parvo. enganar. além de abestalhado. Dá atoleimado – “que se faz de tolo”. Dá apatetado = “com ares de pateta”. – Parvoinho é simples diminutivo de parvo. a própria palavra pato. na Idade Média. mais com esgares. parvoinho” (pois parvajola é também forma diminutiva). “que se faz de camelo”. nem a compostura.

– Maninelo é o “bobo que se mete ridiculamente a gostar muito de mulheres” (corresponde ao nosso brasileirismo coió). bruto de senso. tipo desavisado”. que tapado é aquele que parece ter o espírito “como que fechado para o mundo exterior”. – Tabaréu tem significação muito parecida com a do nosso caipira.. no entanto. – Beócio. rombo é o que “não tem capacidade de raciocínio”. que salta e canta por dinheiro”. – Rude significa mais “áspero. que “se atrapalha com a tarefa por falta de aptidão”. – Aboçalado = “que tem aparências de boçal”. – Estúpido diz propriamente “rude. desconfiado e escuso. segundo a origem do vocábulo (designa habitante da Beócia. – Mentecapto é o que “não tem siso”. no entanto. “maroto estúpido. bobo que faz o seu papel com certo aparato”. de boa-fé excessiva. farsista. Bronco e rombo equivalem-se na significação de “estúpido. rude equivale a “de difícil compreensão por desmazelo. – Abasbacado (ou embasbacado) = “que é ou se mostra como basbaque”. sem disfarce. meio bobo. grosseiro. – Palonço equivale a “tipo sem vida. – Bolônio é “indivíduo rústico e simples que se deixa enganar por todos” (Bruns. – Jogral é o “bobo de praça”. que é imbecil. – Doidivanas é o “indivíduo sem tino. por um prejuízo dos atenienses tido como estúpido ou pouco inteligente). – Estupidarrão e toleirão são aumentativos de estúpido e tolo. – Simples. burro abobado. – Papa-moscas está dizendo tudo por si mesmo: “tão inerte. rombo e rude têm uma sinonímia quase perfeita. que “faz figura ridícula por inépcia”: caipira é o “homem do mato. é aplicável ao indivíduo “inepto. crédulo demais”. parvo. – Apalonçado = à semelhança de palonço”. tosco do que propriamente bronco”. obtuso. – Tapado. é o sujeito que “não sabe ainda bem o seu ofício”. atabalhoado. O tabaréu. rude. no entanto. – Pascácio assemelha-se bem a “bobo. obra. desapercebido. – Bufão é o “truão espalhafatoso. ignorante. inepto”. imbecil”. É o mesmo que boca-aberta. – Basbana. de Fig. – Néscio quer dizer “que nada sabe. sem malícia e sem espírito”.” Temos ainda: acaipirado = “com ares ou modos de caipira”. – Pacóvio é simplório da mesma família: “idiota e lorpa”. desafrontado e chalaceiro”. – Simplório quer dizer – “despreocupado. falto de inteligência”: bronco é o que “não entende por defeito de faculdade aperceptiva”. – Abasbanado = “parecendo basbana”. sandio) equivale a “tapado. rombo e tolhido. amatutado = “com ares de matuto”.). ou que inspira asco ou aversão”. que fica parado e em pasmo diante de coisas que não entende”. que fala. sem prática da cidade. – Fátuo é o “ignorante tolo e presumido”. O idiota é desequili- . tonto. fora do papel que lhe cabe. estraga-albardas”. tão massa-bruta que as moscas lhe entram na boca”. é muito empregado com esta significação. segundo C. pasmado e imbecil”. quase papalvo. – Enfatuado (ou infatuado) é “o que se torna fátuo”. é provincianismo algarvio. estouvado. como pateta”. quase impertinente”. – Estulto quer dizer “tolo. Ajogralado = dado a jogral. significa o mesmo que “ingênuo. convindo notar-se. que diz mais chalaças do que salta”. abobado”. extravagante. curto de espírito. – Chocarreiro é o “bufão insolente. e.34 Rocha Pombo nho de palerma: é o “ingênuo que pasma de tudo. – Idiota e imbecil equivalem-se. de espírito entorpecido. – Truão é o “bobo vagabundo. idiota. ou de inteligência pesada. Ainda assim. – Boçal exprime “estúpido e bobo que repugna. por falta de estímulo”. – Obtuso é o bronco “que se esforça” e “quebra a cabeça” inutilmente porque é “incapaz de compreender”. – Sandeu (do esp. vaga como doido. na acepção em que é aqui tomado. significando “estólido. o mesmo matuto. bronco. imbecil como basbaque”.

– Charro é “gordo. o pasmado tem o curto senso fixo num objeto. se bem que pareçam dizer. aconchegar-se. avizinhar-se. por analogia. “falto de cultura. celeridade. isto é. apropinquar- -se. e por isso mesmo incorrendo frequentemente em enganos e caindo em ridículo”.. matungo. pelo menos da cultura comum”. ingênuo aproximam-se. “chegar junto.. – Pasmado. Ingênuo é menos que alvar: significa “sem malícia como criança. abrutalhado”. acercar-se. – E vem agora. Ignaro é “uma expressão pejorativa de ignorante. bruto. completando esta fa- mília. – Abeirar-se diz propriamente “aproximar-se da beira”. que sempre se toma em mau sentido. além de inculto. e diz “quase imbecil..” – Chegar-se e achegar-se. a palavra ignorante num sentido mais restrito. jumento. ou o mais possível. Sobre estes dois sinônimos escreve Roq. alvar. Dir-se-ia: “Aproximei-me pouco a pouco. aproximar-se. maturrão. rentear. Qual é aquele que tudo sabe? Pois só aquele que tudo soubesse de alguma coisa ignorante. asneirão. burrego. ou ao lado de alguém”. conchegar-se. “semelhante a asno” ou “que faz de asno”. não ouve. achegar-se. asinino. o basbaque “não vê nem sente”. e diz-se com propriedade da plebe e povo rude. decisão”. toda a zoologia transfigurada: quadrúpede. sentido desfigurado do próprio. defeito de aptidão comparáveis à bruteza do asno ou do quadrúpede em geral. nem sente mais nada”.. ou que ignora as coisas mais geralmente sabidas. para designar a pessoa que não sabe o que devia saber. principalmente jumento – “o burro de carga. que equivale a “pequeno burro”. e asinino. que é “termo familiar que se aplica a um néscio que pretende impor-se como sábio”. no sentido figurado. – Ignaro exprime – “inculto. temos: aburrado (ou emburrado) = que se obstina como burro”. Asneirão e asinino são meras gradações de asno: significando asneirão “grande asno”.”. e designa o estado da mais crassa e vergonhosa ignorância: aplicada às pessoas é injuriosa. como “abeirou-se do amigo”. Jumento (assim como burro) é o mesmo que asno. “não tem senso nem discernimento para distinguir coisas diferentes”. – Ignorante diz apenas “que não tem instrução”. parecendo que este último sugere “ideia de pressa. e neste grupo. Toma-se. Tanto a idiotia como a imbecilidade podem ter como causa algum defeito orgânico do cérebro. e “não vê. à primeira vista. amatungado. sem nenhuma cultura intelectual”. acostar-se. sem agudeza de senso”. abordar. Mas já uma dife- . inópia intelectual. inconsciente como o próprio instinto”. candura e boa-fé que tocam a parvoíce”. e diz Bruns. mas é tão fraco de espírito”. alapuzado”. – Aproximar-se equivale a apropinquar-se. 40 ABEIRAR-SE. – Ignorantão é aumentativo de ignorante. – Matungo (brasileirismo do sul) no sentido que aqui tem. encostar-se. segundo a etimologia.: “Todo homem é mais ou menos ignorante”. de sinceridade. ou incapaz de esforço em coisas de espírito. Pasmado equivale a “falto de vivacidade. parecem a mesma coisa. grosseiro. É quase o mesmo que basbaque e palerma: apenas o palerma “parece não ver”. Tanto se diz: “abeirou-se do precipício”. Alvar tem hoje.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 35 brado. ou que não tem a ciência necessária à profissão que exerce. e imbecil é “quase idiota. e. burro. e não: “Apropinquei-me. São todos termos chulos empregados para significar. é menos atabalhoado. – Quadrúpede designa “sujeito. chegar-se.. asno. contudo. De burro. significando ambos “chegar perto”. burro. o asno que é afeito ao jugo”. e amatungado = “feito matungo”. Maturrão será um aumentativo de matungo. aplica-se ao sujeito esbodegado. e burrego.. lerdo e inepto.

Dizemos: “Eles se aconchegaram” querendo exprimir que duas ou mais pessoas.. com a mesma solicitude se juntaram. esquentar-se. assanhar-se. exasperar-se. ao fim de alguma coisa.” 41 ABESPINHAR-SE. e significa “pôr-se em volta. e também: “Renteamos com o acampamento. No primeiro exemplo. – Zangar-se é quase o mesmo que “dar o cavaco”. agravar-se. excitar-se. molestar-se. perder a razão momentaneamente. – Conchegar-se e aconchegar-se significam “aproximar-se reciprocamente (uma coisa ou pessoa da outra) de modo a ficarem unidas. ou frenesiar-se (também no Brasil – enfrenisar-se) é “zangar-se. incitar-se. e não: “Encostamo-nos”. Acostar-se é “juntar-se a alguma coisa pelas costas. e tornar-se violento e impetuoso como os loucos”. – Irar-se é: “perder a calma. “Renteamos o despenhadeiro”. Notemos que o prefixo a de aconchegar-se lhe aumenta uma ideia de ação imediata. – Enfrenesiar-se. zangar-se. exacerbar-se.. pois este verbo não marca tão bem atividade e gradação como o outro. arrenegar-se. encolerizar-se. anojar-se. pois até à força podiam conchegar-se. conquanto digam alguns lexicógrafos que se equivalem. impacientar-se. aborrecer-se. Não se confundem estas frases: “Ele chegou-se a nós” e “Ele achegou-se de nós”. Dizemos: “Acostei-me à parede” (isto é – “pus-me rente à parede”) – o que é muito diferente de: “Encostei-me à parede” (isto é – “descansei o corpo apoiando-me na parede”). desgostar-se. – Acostar-se e encostar-se enunciam ações diferentes. tanto para agasalhar-se ou confortar-se como para resistir a algum mal”. apaixonar-se. aproximar-se bem”. exasperar-se provocado por alguém ou por alguma coisa”. ou com ele”. “irritar-se como as vespas”. em contacto. ele apenas se pôs mais perto de nós. ou “abordamo-nos na rua”. “Abordamos o abismo”. ele se aproxima de nós como para amparar-se. tão próprio como: “Aconcheguem-se mais”. para pedir-nos socorro ou proteção. e não: “conchegar-nos”. – Avizinhar-se diz propriamente “fazer-se vizinho. magoar-se. enfadar-se. raivar). ou pelas costelas. No segundo caso. atual. vimos no céu. de propósito. – Abespinhar-se diz. “Quando a caravana se avizinhava de Jerusalém. irritar-se. e mais lidimamente com esta. ou em círculo. pelo menos. segundo a própria etimologia. – Rentear = “passar muito junto. ou uniram: tanto não diz: “conchegaram-se”. É preciso dizer: “Acostamo-nos à floresta ou à serra” (isto é – fomos até ficar muito junto à floresta ou à serra). – Irritar-se é “perder a calma.36 Rocha Pombo rença de sintaxe os distingue: chegar-se emprega-se só com a preposição a. flagrante. ou da árvore”. – Enfurecer-se é “irritar-se até o furor. – Acercar-se é formado de a + cerca (ou cerco) + ar. “abordei-o”. ou raivecer (ou ainda enraivar-se) equivale a “encher-se de raiva”. exaltar-se. embravecer (embravecer-se. aborrecer-se como por impulsão súbita”. “Queremos ou desejamos aconchegar-nos o mais possível”. “Acercamo-nos dele”. encostar-se é “apoiar as costas a alguma coisa”. amuar-se por qualquer coisa. estimular-se. rente”. tomar-se . enraivar-se. – Enraivecer-se. irar-se.. melindrar-se. enfrenisar-se. enfadar-se. pelo lado”. indignar-se. enfurecer-se.. enquanto que achegar-se pode ser empregado tanto com essa como com a preposição de. enfurecer-se instantaneamente” (pois a ira dura menos ainda que o furor). em torno de alguém ou alguma coisa”. e mais por vício de educação que por temperamento”. – Abordar é propriamente “chegar à borda. aproximar-se de súbito”. “acercaram-se do forte. “zangar-se a todo instante e por qualquer coisa”. “Concheguem-se mais” não é. enquizilar-se (ou quizilar-se). agastar-se. embravear). enraivecer-se (raivecer-se..

principalmente como pronominal: é “mostrar aversão ou repugnância. O próprio Deus pode encolerizar-se (e também irar-se. mostrando-se agitado e hostil. 42 ABICAR. quem se excita é como quem “se irrita despertando da sua calma habitual”. Incitar- -se é mais vizinho de estimular-se: quem se incita mostra “vigor anormal. parecer exausto de paciência”. portanto. devendo empregar-se. Quem se estimula contra nós é porque foi provocado ou importunado. violento”. surgir. – Abicar significa propriamente (assim como embicar4) “dar com o bico (a proa) em terra”. – Desgostar-se é propriamente “não ter mais o gosto que se tinha. – Magoar-se é “sentir-se melindrado por alguma ofensa”. segundo a própria etimologia. – Varar também só é aplicável a pequenas embarcações.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 37 de rancor violento e brutal. “ancorar” depois de “haver fundeado”. distinguindo-se deste em sugerir a ideia de “desgostar-se como por fadiga”. – Enfadar-se é menos que aborrecer-se: é “quase amuar-se”. – Encolerizar-se é “ir ao extremo da ira. atracar. quase assanho. e à tarde ancoramos a nossa nau mais junto à terra”. chegar. em fúria ou alvoroço hostil”. arribar. – Aportar diz precisamente “tomar porto. – Enquizilarse (ou quizilar-se) é mostrar-se menos que zangado: mais “indisposto por impaciência e antipatia ou quase aversão”.” ou “deixar de sentir o prazer que se sentia”. ou seja mau”. – Anojar-se é “sentir-se incomodado. – Indignar-se significa “encher-se de ira por algum motivo muito nobre. triste e desgostoso”. ou “ressentir-se de alguma coisa desagradável”. – Agravar-se é “fazer-se grave por desconfiança ou aborrecimento. portanto. inquieto. Pode-se dizer. – Agastar-se é “enfadar-se ligeiramente. – Esquentar-se é “exaltar-se um pouco. seja bom. ancorar. varar. apor- tar. e por ter sido instigado”. feroz como bruto irritado”. conduzir 4 Convindo não confundir com embicar = “encaminhar pela bica”. ficar insofrido. rude. ou. fazer-se rude e quase furioso”. fundear. – Molestar-se é “mostrar-se ofendido por incômodo ou por importunação”. e pode bem ser que não revele a sua irritação por mais do que animar-se de disposições infensas. só tratando-se de pequenas embarcações. ansioso”. . aborrecido. ou embravecer-se (ou embravear) é “tornar-se bravio. do que aborrecido. mostrar-se sentido por ofensa”. ou de grandes pecados. ou em presença de alguma coisa que se tem por indigna”. e sugere a ideia de que foi ofendido ou provocado aquele que se encoleriza”. por excesso de pundonor. – Ancorar equivale a fundear lançando âncora” (Aul. – Exasperar-se é “irritar-se em extremo. – Exacerbar-se. tirar para a praia”. e quer dizer “pôr em seco. – Impacientar-se é propriamente “perder a paciência. diz “fazer-se áspero. – Aborrecer-se diz propriamente “sentir horror”. – Assanhar-se é “ficar agitado. – Melindrar-se quer dizer “desgostar-se por motivos muito delicados. incitar-se e estimular-se equivalem-se com pequena diferença. – Exaltar-se é mais do que esquentar-se: é “fazer-se mais enérgico e veemente do que convém. – Fundear significa “dar ou tomar fundo”. ou por afetação de melindre”. como neste exemplo: “Fundeou toda a frota na vasta baía. – Excitar-se. enquanto que amuar-se significa mais “desgostar-se por suscetibilidade”. ou irritar-se) à vista de sacrilégios. mas perdeu alguma coisa na acepção comum. – Arrenegar-se equivale a “zangar-se maldizendo e blasfemando”. – Embravecer. ou do que é normal”. sair da serenidade habitual”. – Apaixonar-se é “sair do estado normal por exaltação de algum sentimento. ou mesmo simples desprazer”.). abordar.

abominando. particularmente. abominável. – Báratro era o precipício onde se fazia cair o criminoso de certos crimes em Atenas: daí a significação de “profundeza como a do inferno”. ou da passagem quando se as quer evitar”. pois. como este. – Pego é a parte mais profunda do mar. vil. – Atracar equivale quase a abordar: é “chegar e prender-se à terra ou a outra embarcação”. são mais para temer os perigos. “procurar abrigo ou refúgio”. correspondente de abyssus) significa propriamente aquilo “que não tem fundo” e onde desaparece para sempre o que chegou a cair. e caput “cabeça”) é um espaço vazio – diz Bourguig. – Voragem (do latim vorago) “é o nome” – diz Bruns. traga- doiro. no entanto. – Arribar significa “ser forçado a tomar porto”. – Abismo (do baixo-latim abysmus. – Surgir é “aparecer. – Abjeto é o mais compreensivo de todos os do grupo. rodomoinho. execrável.) parecendo aduzir à “noção de chegar a ideia de surpresa”. pois o remoinho pode também levar para os ares. – Abordar significa propriamente “encostar ao bordo”. de um rio. baixo. repugnante. e a coisa detestável é a que não pode . É “por isso que. não chega – arriba. – “Precipício (do latim prœ “para diante”. traga o que nela cai. A ideia principal que sugere esta palavra é a do perigo da queda. indigno. significando quase o mesmo que detestável. A embarcação que sai. precipício. como se dissesse: “apresentar-se. abominoso. aborrecível (aborrível). é mais forte e sugere a ideia da violência inevitável com que a voragem engole. escarpado. mas volta ao porto sem ter seguido a seu destino. – profundo. no qual se está exposto a cair. portanto. odioso. voragem. A forma culta é abysso (latim clássico abyssus. repelente. e que arrastam fatalmente para a profundeza. e. – “desses terríveis remoinhos formados pela 5 Abismo é do baixo-latim abysmus. a ser precipitado. execrando. tragando-as. É. ou sem ser esperado”. onde alguém é lançado como castigo. 43 ABISMO5. e por extensão “chegar à terra ou ao porto. detestável. entre sorvedouro e tragadoiro a mesma diferença que se nota entre sorver e tragar. ação de correntes opostas. no sentido figurado. no entanto. só a ideia de “absorção para o fundo”. – Rodomoinho (ou remoinho) é quase o mesmo que sorvedoiro: não dá. – Sorvedouro e tragadoiro confundem-se: este último. entrar no porto”. se emprega esta palavra para designar os grandes perigos de que muito dificilmente se pode sair e que só se descobrem quando já é dificílimo evitá-los”. Há. portanto. do grego abussos = a + bussos “sem fundo”). por isso. báratro. as embarcações que a imperícia ou a fatalidade leva até onde alcança a influência do torvelinho. – Despenhadeiro diz propriamente “rochedo elevado e abruto” de onde há grande perigo em lançar-se alguém. a ideia de tragar que predomina nesta palavra. sorvedouro. dar com o bordo junto à terra”. e da dificuldade da marcha quando se as circula. sendo de notar que a coisa abjeta é a que repelimos como indigna de nós.38 Rocha Pombo ao porto. desprezível. despenhadeiro. chegar por via marítima” (Aul. por causa do escarpamento das beiras. tratando-se de navios: “entrar no porto ao cabo de uma viagem”. ignóbil. entrar de repente. onde. pego. subvertendo-as. emprega-se no figurado para designar o que atrai irresistivelmente para a ruína ou a morte inevitável”. e quer dizer “alcançar o ponto demandado”. “entrar num porto que não é o que se demandava”. – Chegar é o mais genérico de todos os do grupo. 44 ABJETO. de um lago.

. feroz e estúpida.: Abjurar (do latim abjurare “negar com juramento”) é renunciar solenemente à religião que se tem seguido e que se reputa falsa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 39 ter a nossa sanção moral. Em caso algum. convertendo o homem numa besta malévola. é baixo. – Indigno aproxima-se de ignóbil. porém. feroz e brutal na sua execução. “A vida fora de Paris é detestável” (não abjeta). – Execrando é “o que merece maldição de todo mundo”. renunciar. – Execrável é o que “atenta contra lei sagrada”. são “palavras que apresentam a ideia de desprezo. que se fez para ser negado. – Repugnante é vizinho de repelente: é “o que se repulsa como coisa nojenta”. o que “se condena. Todo vício é baixo e desprezível. – Vil e baixo também se aproximam muito. Chamase vil o “exercício que se tem por desprezível em razão de ser sujo. que. ao passo que os protestantes qualificam esse ato com o verbo apostatar. a coisa abjeta deixaria de ser detestável. baixo de condição. a avareza. desprofessar. Segundo Roq. 45 ABJURAR. ou a coisa da qual não queremos saber. como algumas ocupações mecânicas.. e aplica-se ao que é baixo e desprezível. que não encerra ideia depreciativa. porém. – Abominável é “o que é digno de condenação como coisa ímpia e nefanda”. pode ser detestável. repelido por todas as consciências como sacrilégio”. se afasta com horror”. que não exigem mais que um trabalho material e nenhum talento. renegar. Os católicos dizem que Henrique IV de França abjurou o protestantismo. e é dos mais vagos do grupo. que empregam o verbo apos- . que causa aversão”. abjurou os erros do catolicismo. nem instrução. como costuma suceder na embriaguez. – Aborrecível. trair. Abominoso é o que “contém. e não é recebida por nós. segundo os protestantes. O descarado adulador. sem ser abjeta. Convém ainda advertir que abjeto ajunta à noção de detestável a ideia de baixeza. o que está cheio de abominação”. – Repelente oferece alguma coisa de comum com detestável e abjeto. apostatar e renegar escreve Bruns. que o verbo abjurar. Chamamos ofícios baixos aqueles que só exerce a gente miserável e abandonada. se detesta. – Sobre abjurar. e que por isso são tidos em nenhuma conta. o mais vil dos homens é o que vende sua honra e sua consciência para adquirir dignidades e riquezas. podendo-se entender que reúne o valor destes dois: é repelente o que “se detesta ou repele com asco”. e entregue de ordinário a gentes tidas por infames em seu proceder”. apos- tatar. É mais forte que execrável. v. posto que sob diferentes aspetos. – Ignóbil diz propriamente – “sem nobreza. Baixo é o que por cobardia sofre injúrias de outrem. segundo a própria formação – “digno de desprezo”. ou uma coisa. que nem ânimo tem para saber calar.. Note-se. Entre nós temos o exemplo do padre Guilherme Dias. é um poeta detestável” (não abjeto). converter-se. que “afronta o nosso sentimento religioso”. grosseiro e vil”. – Odioso quer dizer – “que merece ódio”. vil o que perde a estima dos outros e ainda a sua própria. “F. “Note-se também que os católicos.. – Desprezível significa precisamente. significa propriamente – “que inspira horror. Abominando quer dizer – “que se há de abominar. como. e muito vil o que as sofre contente. Um indivíduo. g. Baixo é o homem que abate a sua dignidade. São particularmente vis os vícios que desonram e infamam. ou aborrível. não é por todos aplicado ao mesmo ato: o que é abjurar para uns é apostatar para outros. porém chamamos particularmente baixos aqueles que supõem falta de vigor e de energia. por seu interesse e com o fim de fazer fortuna por meios indecorosos. portanto. enquanto os católicos dizem que ele apostatou do catolicismo. abrenunciar.

o demônio. na fé. De um sujeito que tivesse deixado a sua religião. de- sambição. Quem apostata deixa. um indiferente em matéria religiosa. ou do seu partido e vai para outro. um erro sacrílego em que se vivia. e dele se diz com toda propriedade que apostatou. a opinião. sim. 47 ABNEGAÇÃO. de “dar testemunho. ou sem intenções hostis a respeito da coisa renunciada. devendo subentender-se que aquele que renuncia abandona apenas a velha crença. lançando-a fora do espírito. Desinteresse diz-se do que é material: é desinteresse vender por baixo preço (com pequeno lucro).: “Abnegação diz mais que desinteresse. ou escola filosófica) e fosse combater a antiga – esse. desapego. ceder um ganho lícito. pois mesmo aquele que trai o seu Deus.).: “Converter-se marca simplesmente uma mudança que se operou nas crenças. que sai do seu grêmio. o seu culto.. e que leva a passar de uma religião reconhecida falsa para uma religião considerada verdadeira”.” Quem abjura afasta da consciência a coisa abjurada. – Abrenunciar é mais forte que renunciar. mas aquele que apostata é como o trânsfuga. – Trair neste grupo aproxima-se muito de renegar: é “negar ou protestar com perfídia. abandona. lhe dão. ou um ateu – não se poderia dizer que apostatou: sim que renunciou. sem mágoa. e não a que se deixa. “deixar de crer. quando se emprega este termo. Além disso. A ablação consiste em extrair de qualquer parte do corpo uma parte mórbida: faz-se a ablação de um quisto”. “deixar de professar”. abrenunciar significa “negar. e até de consciência. desprendimento. Quantos traidores ficam preferindo de coração. renunciar a uma herança em favor de um parente pobre: é abnegação ceder o que nos é indispensável.40 Rocha Pombo tatar. diz Bourguig. isto é. abrenuncia-se o espírito do mal. isto é. e ficasse sem nenhuma crença. – Renunciar é aqui convizinho de apostatar. Este diz apenas. faltando à fé jurada com os da grei”. como vimos. desamor. – “Em linguagem cirúrgica” – diz Bruns. – Desprofessar é neologismo aproveitável e perfeitamente legítimo: diz. etc. Abjurar diz propriamente “jurar contra alguma coisa. interceder em favor de um inimigo. o sentido de ser o interesse. Abrenuncia-se a vida ímpia em que se andava. altruísmo. de aceitar. é um apóstata. deixando apenas de continuar a fazer confissão pública da sua crença. nem sempre a renegará necessariamente. princípio. de que apostatou por uma outra coisa. arriscar a saúde velando duran- . por conveniência própria. a abnegação não tem limites. a sua causa. – “consiste a amputação em cortar um membro superior ou inferior: amputam-se os braços ou as pernas. de ter na conta em que se tinha”. Henrique IV converteu-se ao catolicismo. a sua seita. – Renegar é ao mesmo tempo abjurar e apostatar “passando a ter ódio à coisa renegada”. – Sobre converter-se (que se aproxima de abjurar). O desinteresse cessa onde principia o interesse próprio. tem-se em vista a religião que se abraça. a coisa traída. causa. etc. escola. põe longe de si a coisa (o princípio. o principal móbil que leva à mudança de religião. Um sujeito que se passasse para uma religião nova (ou para outro partido. 46 ABLAÇÃO. desinteresse. sem ódio. – Quanto a abnegação e desinteresse escreve Bruns. de reconhecer formalmente. segundo a própria formação. detestar afastando com horror”. Pode-se renegar sem trair: e a inversa também é admissível. de exercer em público. a crença. O sujeito que desprofessa o seu culto pode passar a crer só consigo mesmo o que já cria. e não a convicção. não assim os membros das outras religiões”. amputação. podendo ainda continuar a tê-la em respeito.

E em sentido translato também se usa: “Aqui (no Purgatório) – disse-me o patriarca – lavam-se almas”. Purificar é tornar puro. substâncias estranhas”. . o pouco caso com que se vê passar uma felicidade a que se tinha direito”. Sobre estes três verbos escreve Bruns. purgar. e sugere ainda a “ideia geral de desmisturar. – Desapego e desprendimento dizem quase a mesma coisa. etc. aptidões. 49 ABOLIR.” Tanto se limpa com água. Desapego não é. Também é usado figuradamente. lavar. Purgar é tornar puro fazendo expelir o que há de impuro no que se purga. “Lavam-se as mãos”. ab-rogar. muito judiciosamente: “Nestes entra o radical puro. – Desambição e desamor não fazem mais do que marcar a perfeita antonímia em que ficam com os respetivos radicais. além dessa ideia. – Acrisolar é “purificar como se apura em cadinho ou crisol”. verificar o que há de essencial nalguma coisa: e nesta última acepção não se confunde com purificar. “Naquele horrível sacrifício a mísera se desmaculou do nefando pecado”. “A chuva lava o ar”. de uma discussão. mas – “de um negócio. mundificar (também mundar). 48 ABLUIR. segundo a própria formação. pois. – Limpar é o mais genérico do grupo. apurar. cassar. proscrever. A fermentação purga o mosto. revogar. limpar. deduzir. desmacular. tratando-se de qualidades morais. ou com preparações. – Purificar (como purgar e expurgar) exprime a ideia geral de “fazer puro eliminando impurezas”. acrisolar. “Tais amarguras dir-se-ia que te abluem a alma”. derrogar. etc. como com óleos. anular. acendrar. – Apurar diz também “fazer puro separando fezes. e diz. parece mais forte. – Abluir diz aqui propriamente a ação de “fazer puro como as coisas sagradas”. limpo). nota-se no vocábulo ainda outra: a de uma causa que penetra no objeto impuro para o modificar e devolver-lhe a pureza primitiva. ou com cinza. expurgar. a coragem estouvada com que se afronta um mal. Desapego. a decisão com que se renuncia a grandes bens. Limpe-se ele primeiro (ou lave-se) das acusações que lhe fazem”. o coração. ou a coisas a que nos tínhamos afeiçoado”. no entanto. – Desmacular é neologismo perfeitamente admissível. extinguir.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 41 te noites consecutivas o amigo doente”. mediante qualquer processo. Expurgar é tornar completamente puro o que ainda não se havia purgado ou purificado de todo. Quase que só se usa hoje em sentido figurado. é “fazer livre de impurezas. – Acendrar é “limpar e fazer brilhante como os metais polidos”. E mesmo: “De uma certa quantidade de calda apura-se (não – purificase) tantos quilos de açúcar”. segundo a própria etimologia. diz “fazer limpo. e figuradamente “tornar puro aquilo que se manchara.” tirar a mancha ou as manchas”. ou aplicando-se a coisas morais: “Limpamo-nos de culpa e pena”. – Mundificar. Não se implantam liberdades onde não se expurgam erros”. Purifica-se o espírito. suprimir. mas. purificar. Os ventos rijos purificam o ar. – Altruísmo é o nome moderno da velha virtude cristã do amor do próximo. tornar puro”. como se purifica o sangue. senão a “facilidade. o ar. pelo menos quando é certo que a pessoa que se apega mostra mais vontade e esforço em apegar-se do que mostraria em prender-se ou deixar-se prender. infirmar. a água. Quase que só se usa no sentido figurado. desfeito. de um esforço alguma coisa se apura. – Lavar é “limpar com água”. invalidar. e não – purifica”. antiquar. – Desprendimento é a “indiferença com que se vê um perigo. ou de coisas estranhas. – Abolir significa “declarar não existente. ou mundar (de mundus = puro. Tanto se apura como se purifica o açúcar.

É antônimo de confirmar.. senão cassado. – Suprimir é mais genérico e menos técnico que derrogar.42 Rocha Pombo apagado”.. – Proscrever é “declarar excluído. 50 ABONO. garantia. tantos já foi derrogado por lei ulterior”... hi- poteca. caução. Do mesmo. quando muito. o vigor de uma lei. – Abono é o próprio ato de assumir alguém por um outro uma certa responsabilidade moral.. costumes. ou a lei tal aboliu tal repartição”. alguma coisa contra o direito. com esta diferença: é só uma nova disposição que derroga a outra. porém. de um princípio jurídico ou filosófico”. como de instituições. a ação de declarar “não vigente”. mas que não havia tido aplicação ainda. e com certa razão. e sim: “.. De um decreto que ontem ou há poucos dias se publicou e hoje se deixa sem efeito. impostos. e. e sim: “. é quase o mesmo que anular. fiança. costumes. e desta mesma o art. mais amanhã havia de extinguir-se a monarquia”.. enquanto que derrogar exprime com mais propriedade “deixar sem toda a força. e tanto se emprega tratando de leis. Ninguém diria. Neste caso empregaríamos o verbo suprimiu. Aplica-se em regra nos casos em que a lei. fatos de linguagem. – Revogar é quase sinônimo perfeito de derrogar: significa. cortar alguma ou algumas partes delas.” – Ab-rogar e derrogar confundem-se de ordinário. Por isso ab-rogar se diz em referência a uma lei ou a um decreto que a autoridade competente deixou sem efeito e substituiu por outro: derrogar deve aplicar-se menos a toda uma lei do que a uma ou algumas disposições dela. ou a resolução que se tomara. parece apenas mais ativo e mais forte do que o prefixo de. ou a anular. sinal. é “prescrever por falta de aplicação”. de uma sentença. Na fórmula legislativa: “Revogam-se as disposições em contrário” não seria permitido empregar o verbo derrogam-se. ou não tinha começado a produzir efeito”. instituições. o decreto ou a sentença anulada.. mas decerto que não diríamos: “A lei tal aboliu um cargo no ministério tal”. modo. pôr de lado parte de alguma coisa”. costumes. penhor. e tanto se emprega tratando-se de leis. como de pessoas. etc. “F. pois que a diferença que se quer ver entre eles é quase convencional. melhor do que este. cancelado por ato público”. De uma lei não se diz cassada. Dizemos: “A lei de 13 de maio aboliu a escravidão”. – Cassar é propriamente “declarar sem efeito o decreto que se tinha publicado. etc. portanto. Emprega-se tratando-se de leis. . – abonação é a ação de abonar. mas em certos casos não se poderia empregar um pelo outro. “A nova lei ab-rogou a lei tal. – Invalidar significa “tirar o valor”. extinguiu. – Extinguir significa também abolir. ou estava inquinada de algum vício. isto é – não se faz indispensável que em lugar da disposição suprimida fique vigorando disposição nova. tratando-se de leis – “excluir. ou uma infração essencial invalida um contrato. etc. abonação. portanto. isto é. mas só o juiz competente pode anulá-lo”. com esta diferença: supõe-se sempre um ato de autoridade que anule: o que não se dá quando se trata de invalidar. – Anular diz propriamente “tornar nulo”. coisas. atenuar ou diminuir a força de uma lei cortando-lhe uma parte”. ao passo que para suprimir basta o ato supressório. pediu-lhe abono.. tinha algum senão. segurança. de dar segurança pelo caráter ou pelas aptidões de uma pessoa. isto é. usos. ou “sem valor”. por exemplo: “O decreto. – Infirmar é “tirar a força. – Antiquar é “deixar cair em desuso”. arras. mas ab-rogada. havia de abolir-se. e. não seria perfeitamente lídimo dizer: “Mais hoje. não se dirá ab-rogado. O prefixo ab.”. mas significa também “eliminar. Uma circunstância ignorada ou imprevista. “como se não existisse”.

na escala antropológica. falhar. 51 ABORÍGENE. em linguagem jurídica se dá à caução diferentes nomes. Só. – Penhor é o móvel que se obriga ou empenha ao credor para segurança de uma dívida. no que..: “A primeira palavra é o gênero a que pertencem as outras como espécies. – Arras. – Sinal é o dinheiro ou a coisa que o comprador ou um dos contratantes adianta como garantia do ajuste que há de fazer. ou “que é próprio do lugar do nascimento (Aul. Mas a diferença entre eles marca-se bem neste exemplo: “O filho de europeu nascido no Brasil é indígena. se não se cumprem as condições do contrato. pode ser direta ou indireta. e confunde-se com abonação. portanto. que subiu. e até estes dois com o terceiro do grupo. íncola. juratória. e significa “filho do país. mas quanto ao autóctone da península nada sabemos. hipotecária. origi- nário. em linguagem científica. Fiança é a obrigação em que alguma pessoa se constitui voluntariamente de pagar por outra quando este o não faça. chama-se indireta. – Nativo = oriundo.). ou nascido na própria terra onde vive”. dada pelo próprio interessado que se obriga. que indígena é o mesmo que natural. – Aborígene é o povo que se considera como o primitivo num país. segundo Bruns. ou na própria raça”. – A garantia. etc. isto é. antes de terminar o prazo em que a garantia cessa. ou de cumprir seu dever no caso em que ele o não cumpra. hipoteca e fiança. Apenas natural acrescenta à noção a ideia de incultura. segundo as disposições da lei. – Íncola é o que “habita um país que não é o do seu nascimento”. judicial ou legal. natural. malograr-se. frustrar-se. nativo. Se a garantia é feita por outra pessoa que não o próprio comprador. “O ibero é o aborígene da Espanha. diz o mesmo quase que sinal. e quanto ao autóctone desta parte da América nada sabemos até agora de positivo”.: “Abortar é não chegar a realizar-se por causa de um defeito intrínseco ou por uma força estranha o . o objeto não corresponder às condições devidas: é a garantia direta”. Quer-se dizer. ou por um terceiro que responde pelo cumprimento da obrigação. até a espécie humana – no próprio país onde se encontra. fideijussória. indígena. – Segurança é propriamente “garantia moral”. A pessoa que a tal se obriga chama-se “fiador”. por isso. e que dá direito ao credor de pagar-se por eles. fracassar. gorar. que se formou. e significa qualquer meio de assegurar a outrem que havemos de cumprir nossos deveres ou os ajustes que com ele fizemos. parecendo que a diferença consiste apenas em ser o primeiro “escrito e formal”. ou não se sabe se seria possível afirmar a autoctonia daquele que é o mais antigo habitador da península”. escreve Roq. segundo as diferentes relações em que se a considera: pignoratícia. Pode ela ser consensual. portanto. se chama centro de criação é que se encontraria o legítimo autóctone. mas decerto que não é aborígene senão o selvagem que aqui encontramos. próprio do país”. – Quanto a caução.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 43 mas compreende-se que em casos tais não vale só a abonação de um parente”. Hipoteca é a obrigação de bens de raiz por alguma dívida. – Quanto aos quatro primeiros do grupo escreve Bruns. “O preço de um objeto vendido sob garantia é devolvido ao comprador se. – Originário = que “tem origem no próprio país. autóctone. – Aborígene e autóctone confundem-se de ordinário. 52 ABORTAR. penhor. ou que foi o habitante mais antigo que nele se encontrou (de modo que pode ser até adventício no país onde foi encontrado): enquanto que autóctone deve ser o povo ou o indivíduo que apareceu.

delicioso. temperar. – Baía é “grande porção de mar que penetra na costa. – Enseada é “grande porção de água aberta. de movimento. – Enternecer é tornar mais do que brando: é “fazer tenro. aprazível. tirar o que há de áspero. e que sendo pouco profundo só dá curso a pequenas embarcações.). Frustrar-se é não obter o resultado que até certo ponto se tinha o direito de esperar: um filho inteligente frustra as esperanças do pai quando abandona o estudo pelo vício.” – Atenuar é “fazer mais delicado. diminuir as proporções”. o lugar de bastante fundo que de qualquer modo está defendido do ímpeto das águas e dos ventos”. moderar o ímpeto. e “cuja abertura é ordinariamente bastante larga” (Aul. baía. isto é. – Angra é “um braço de mar. duro. enterne- lagamar. – Calheta é um braço de mar ou de rio “apertado entre duas pontas de cer. – Abrandar. sensível. é “fazer brando”. falham cálculos. reduzir a menos. esteiro.. Suaviza-se a voz. os sofrimentos morais. ampla e pacífica. ou quando uma notícia nos obriga a retroceder depois de a ter principiado. reduzir força. 54 ABRANDAR. dócil. falham esperanças. comovido”. – Fracassar é “falhar imprevistamente. suavizar. Falham planos. – Golfo é porção considerável de mar que entra muito pela terra. há de gorar se o público se não capacitar da sua utilidade. – Moderar é “diminuir movimento. calheta. – Serenar é “fazer sereno. abrigada (abrigo). – Recôncavo é “pequena enseada e metida mais para os fundos de uma baía ou de um golfo”. onde as águas como que se espalham penetrando nas terras”. – Abrigada (ou abrigo) é “qualquer porção de mar manso (resguardado de certos ventos) onde os navios se podem refugiar contra tormentas”. Malograr-se é não vingar. de intensidade conveniente”. – Lagamar é “recôncavo mais vasto. abonançar. mas que não penetra demais na costa”. “fresco. Gorar é não ter bom resultado aquilo em que fundávamos boas esperanças: uma empresa. intenso nalguma coisa”. recôncavo. – Suavizar é “fazer mais suave. como fracassam grandes negócios planeados. isto é. adormentar. não suceder como se esperava” (Aul. a ação. – Amenizar é fazer ameno. 53 ABRA. suave. isto é – o igarapé mais estreito ou menos franco à passagem de canoas). e aquela de que o governo chega a ter conhecimento. a sensibilidade – como que adormecer. aplacar pouco . uma abra alongada pelo interior da terra”.. – Falhar é “não produzir o efeito desejado. é. – Temperar é “pôr em grau de força. por muito útil que seja. acalmar. meio doce”).)... adormecer.. enseada. forte. O pai dirá que as suas esperanças se frustraram”. que aliás é mais preciso e mais forte. Também se chama furo ao pequeno canal que une duas porções de água maiores. conter em certos limites”. moderar. angra.). segundo Bruns. entrando por boca estreita e alargando-se no interior”. – Adoçar diz propriamente “fazer doce” (como adocicar equivale a “tornar mais doce. golfo. amenizar. não ter bom êxito devido a causas alheias: malogra-se uma viagem quando um acontecimento nos impede de partir. – Abra. “diminuir a intensidade do que é demasiadamente ativo” (Bruns. “tanto na costa.44 Rocha Pombo impedir: aborta a conspiração malplaneada. serenar. – Esteiro é um estreito braço de mar ou de rio que penetra nas terras. apaziguar. mitigar. atenuar. como num rio. a dor. Fracassam conspirações. (É o que se chama no interior do Brasil igarapé. frustrar-se de todo e produzindo sensação”. adoçar. terra”. – Adormentar é diminuir ou “suspender momentaneamente o movimento. como as campinas florescidas. segundo o próprio radical.

Não se diria com propriedade. Quando penetra o fogo num corpo combustível. esbrasear = “tornar quase como brasa. a ideia de ser a calma completa nem duradoura. in- loroso. em moderar há significação reguladora. o verbo não encerra. – Cálido e quente aproximam-se bastante. estabelece uma gradação ascendente no valor destes três adjetivos e dispostos nesta ordem: caloroso. etc. dizemos que arde. com o valor de cálido quando se diz: “clima quente”. etc. a sua significação é a mesma nos dois sentidos: serenar. ao mar. “é fazer diminuir a cólera. quando se desenvolve a chama. quente. “que dias quentes”. tem cabida ao falar das calamidades. o que de si mesmo é quente. 55 ABRASADOR (ou abrasante). – Cáustico e queimante dizem quase a mesma coisa: apenas o primeiro aplica-se para significar coisa ou droga que “destrói o tecido orgânico como se fosse fogo”. Também se diz: “sol carbonizante”. na acepção que tem aqui. a moderação sendo constante: o que não se dá com acalmar. – Acalmar. a emoção. incendiar-se. 56 ABRASAR-SE6. determinada por ação estranha. pode aumentar ou diminuir”. Nem deve este adjetivo ser usado. queimar-se. como “sol abrasador”. – Candente se diz daquilo “que de tão quente parece ou branco ou vermelho”. considerados como tempestades da vida. Efetivamente. a violência. . fazer cessar a tormenta” (Bruns. Bruns. ao vento. Dizer que a idade acalma as paixões não significa tanto como “a idade modera as paixões”. Emprega-se. com o verbo estar. ou cuja temperatura. abrasador. candente. comburente. – Carbonizante significa propriamente “que reduz a carvão”. no entanto.” “Não há nada capaz de mitigar-lhe aquela saudade”. que tem referindo-se ao tempo. segundo Bruns. escreve Roq. pois. porém. ardente.. queimante. – Caloroso define-se pelo próprio radical.. – Abonançar – “fora do sentido reto. abrasar-se e queimar-se. etc. ou que abrasa”. e se manifesta à simples vista. consolar”. inflama-se. vermelho e crepitante como brasa”. queimoso. cálido. devendo notar-se o flamar-se. – Ardente. “tão quente que parece queimar como o fogo”. a agitação. e ajunta à noção de abrandar a ideia de “agradar. incinerar-se. ardente. inflamar-se. antes. abrasear = “fazer da cor da brasa ou pôr em estado como de brasa”. quando levanta 6 Há uma certa diferença entre abrasar. pelo contrário. incendiar-se. Abrasar significa “reduzir a brasas” (sentido natural).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 45 a pouco”. cáustico. a rudeza. dos infortúnios. Quente é o que “pode ter mais ou menos calor. carbonizante.). isto é. ca- seguinte: cálido é o que tem naturalmente um alto grau de calor. a violência.: “Explicam estas palavras os diferentes graus pelos quais pode passar um corpo combustível desde o instante em que se lhe ateou fogo até que foi inteiramente consumido. – Abrasador (ou abrasante) significa propriamente “que reduz a brasas”: no sentido figurado diz. “Como esta música ou esta voz lhe mitiga tantas dores. desencadeou-se depois com mais fúria”. e apenas menos forte que queimante. por exemplo: “a sopa está cálida”. – Queimoso é o mesmo. pôr de acordo”. abrasear e esbrasear. – Comburente quer dizer “que produz combustão. podem recrudescer: “o vendaval que acalmara (que ficara menos forte) ao amanhecer. – Sobre arder. portanto. “que atua como o próprio fogo”. conflagrar-se. que faz arder. deixa supor que a agitação. e o segundo exprime propriamente “que queima”. está no mesmo caso de abrasante: vale por um superlativo de quente.. harmonizar.. Apaziguar diz propriamente “restabelecer a paz. arder. – Mitigar é moderar o rigor.

reduzir. Usa-se frequentemente no sentido translato. Abrevia-se um prazo. – Sobre asilo e refúgio. a aflição etc.46 Rocha Pombo labareda e se propaga com rapidez e fracasso.] O asilo é. colher o que é demais. amparo. – Conflagrar é “pôr inteiramente em chamas. como se reduzem aspirações. – Reduzir significa neste grupo “fazer mais simples. valhacoito. asilo. Os descendentes de Hércules fundaram em Atenas outro asilo como o de Cadmo. ímpetos. Reduzem-se dificuldades de um negócio ou de uma campanha. se comunica aos corpos vizinhos. et gelida monstrat sub rupe [lupercal. apesar de compacto.. e antes disso. como pelo incêndio. caminho. O incêndio supõe um grande fogo que. arder de inflamar em que o primeiro designa a ação ordinária pela qual o fogo se apodera dum corpo e o vai consumindo. .. escreve Alv. “Asilo é derivado do a privativo. Tanto pelo fogo ordinário. “Restrinja os seus gastos. incendeia-se. e do verbo grego sylan. uma haste. despedindo chamas. que por isso se chamam inflamáveis. e tomando ala faz rápidos progressos. e ainda depois. restringir. uma proteção. roubar. aspirações. – Abreviar é “diminuir o tempo em que alguma coisa se há de fazer. – Restringir é “tornar mais curto ou limitado como que apertando os extremos”. de onde ninguém pode tirar os que se acolhem nele”. Etimologicamente. Pode abrasar-se um corpo sem formar labaredas: – tal é o ferro na frágua. quando o corpo que deu alimento ao fogo. e segundo o seu verdadeiro sentido. Diminui-se tanto prazo. caminho. aplicando-se tanto no sentido moral como no físico. está todo repassado dele e feito brasa. guarida. homizio. – Encurtar é “diminuir distância. fazer menor o que se supõe grande no comprimento”. coito. encurta-se um Ilinc lucum ingentem. o refúgio é um recurso contra a indigência.. encurtar. 57 ABREVIAR. destruir completamente pelo fogo”. fazer menos demorado. esforços. houve asilos só para certos criminosos. é o mais genérico do grupo. resguardo. – Diminuir. extensão. pois. tirar”. “Vamos restringir todo o nosso esforço a nada arriscar em vão”. acolhimento. se queimam os corpos quando. portanto. que significa “levar. Rômulo fundou também um asilo no bosque entre o Palatino e o Capitólio. asilo quer dizer: “lugar de refúgio. uma corda. aqui. do qual faz menção Virgílio nos seguintes versos: diminuir. quem Romulus [acer asylum] Retulit. dificuldades de vida. reduzir um prazo. – Os quatro primeiros termos tomam-se no sentido figurado. acolhida.. é apressar. resumir”. e tudo irá melhor”. e o segundo designa a força com que a superfície deste corpo arroja de si o fogo que a penetra. como trabalho mental. e até saudades. e quando a força do fogo ou do incêndio devorou a matéria combustível e a reduziu a cinzas. Diferença-se. restam somente os resíduos incombustíveis. – Incinerar diz propriamente “queimar até reduzir a cinzas”. 58 ABRIGO. abrasa-se. esconderijo. depois de consumido o que dava alimento ao fogo. refúgio. queimou-se. e por isso figura em outro grupo. Pas. diminuir em todas as dimensões. e diz propriamente “fazer menor”. encaminhar com mais presteza uma solução”. e aplica-se particularmente às matérias líquidas e resinosas. uma defesa contra a força e perseguição. pouco mais ou menos com as mesmas diferenças”. Cadmo fez edificar um asilo para todo gênero de delinquentes. a decisão de um caso ou de um negócio.

“o próprio ato de receber como quem protege e acarinha”. – Valhacoito é o “lugar seguro onde alguém se refugia e abriga contra o que teme ou procura evitar”.. ou na folha da porta.” em vez de: “. como asilo. ou de fora para dentro”.... mas de modo a poder-se ver e falar para fora. sempre escuro... Por uma janela soaberta mal se revezaria uma voz ou se distinguiria um vulto. do latim cautum) era a propriedade ou lugar “onde não podiam entrar as justiças de El-Rei”. O couto é. onde alguém procura abrigo fugindo às vistas de pessoas a quem tenha de dar contas de alguma coisa”. – Acolhida e acolhimento confundem-se muito. teve bom acolhimento”. o “lugar seguro onde alguém se oculta fugindo a perigo.. Até em mestres se encontra confusão. da morte”. – Entreabrir é “abrir pouco e com cuidado. – Coito (ou melhor.. E também: “Por mais pobre e humilde que fosse.. (Vieira) – Abrigo é quase o mesmo que asilo. de garantia por lei ou costume. foi afinal ter na casinha do pobre fácil resguardo contra a tormenta”. distinguindo-se apenas em não dar. – Homizio é “valhacoito procurado por criminoso perseguido da justiça”. e onde. soabrir.. a ideia de segurança.. acolhida”.) – Esconderijo é “lugar. pois. a coitadinha dispensou o acolhimento que lhe quiseram fazer naquela casa”. tem o melhor ou o mais cordial acolhimento o parente que não víamos de muito e que chega de surpresa”. Acolhida é.. e sagrado. couto. soabrir. abrir. – Descerrar é apenas “desunir o que estava unido ou cerrado”. “Recolhida naquele soberano asilo. Chega-se a dizer: “A delegação de tal país teve boa acolhida na corte do imperador. por uma por- . a igreja é um asilo para o criminoso.. deu-se toda a Deus”. e busca num porto amigo um asilo fugindo à força superior que a persegue. ou na casa de alguém”. proteção momentânea contra algum mal ou perigo iminente”. – Resguardo é “defesa. e acolhimento é “o modo como se recebe. “Os bandidos têm o seu valhacoito lá no fundo da floresta”. se o afastamento que se operou no pano da cortina. entreabrir. – Dispostos em outra ordem (descerrar. e hoje quase todos parece que preferem empregar acolhida. “Perdido no campo. Emprega-se em sentido figurado para designar “abrigo ligeiro. descerrar. como se vê neste exemplo: “A religião oferecia-lhe seguro acolhimento das lutas mundanas”. em vez de: “. – Amparo significa o ato de acolher e sustentar ou apoiar. pois.. ficavam fora e livres dela. Aul. “A eles (montes) se acolhem (os homens) como a castelos e lugares. proteger de qualquer modo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 47 O hospital é um refúgio para os pobres doentes. em vez de: “. 59 ABRIR. (Cardoso) “Por isso Tertuliano chamou judiciosamente à sepultura asilo.). Descerra-se uma porta. – Guarida é propriamente a cova ou covil onde as feras se recolhem contra a chuva ou a tormenta. da Ac. (Dic. oferecia-lhe segura acolhida”. entreabrir. es- cancarar. mesmo nos casos em que só caberia acolhimento. fácil esconderijo. “Tem boa acolhida em nossa casa um amigo que nos procura para pedir-nos um obséquio. escancarar) marcam estes vocábulos uma perfeita gradação de sorites. as pessoas que se recolhiam. ou uma cortina. – cit. em que têm amparo e defensão certa”. hospeda e agasalha”. Busca a nau um refúgio em qualquer porto fugindo à tempestade que receia. deixa passagem apenas a um raio de sol ou a uma réstia de luz. onde alguém se furta a olhares de estranhos”. “Debaixo da árvore encontrou resguardo contra o sol”.. “A casa de um antigo discípulo lhe serviu de abrigo no último período da vida” (Aul. – Soabrir é “abrir muito pouco e instantaneamente”. portanto. “O assassino buscou ou teve homizio seguro no sertão. ou a perseguição”..

o mais possível. desunem-se. “de lés a lés”. Tanto que não se diria. sirtes. Dizem os etimologistas que cachopos é corrupção de scopuli “rocha”. escancara-se a gargalhar. separam-se os bons dos maus. já não se emprega o verbo abrir. em geral. e na acepção lata é “separar definitivamente”. soltar. porque em tal caso já não se trata só de “separar as margens”. amigos que se separam para sempre.. a ideia de soltar. – Desatar é “deixar livre uma coisa que estava presa por nó”. aqui. por exemplo. cada qual para o seu lado. duas ou mais coisas ou pessoas. entreabrem-se os lábios a sorrir. uma gaveta. – Divorciar é.48 Rocha Pombo ta entreaberta um homem não passaria. pois o verbo desunir só se deve aplicar quando se trata de coisas que tinham sido enlaçadas.. distanciar. “desunir. ou um lado do caminho do outro lado. – Afastar é “pôr uma longe da outra as coisas que se desuniram ou separaram”. 61 ABROLHOS. separa-se uma coisa da outra. Divorciam-se colegas. separar uma da outra margem.. quase sempre junto das costas. “separar o que estava ligado”. – Desunir é antônimo de unir.. abre-se uma porta para que alguém entre. parcéis. tratando-se particularmente do vínculo conjugal. é “afastar uma coisa da outra”. coisas que haviam sido incorporadas ou ajuntadas. “desunimo-nos ao chegar à vila”. desunem-se mesmo povos que eram amigos. segundo a lei”. banco. mesmo que nunca tivessem sido unidas. e é só neste sentido que se diz – “abrir caminho”. “Fazem tudo por divorciar-me do meu partido”. desunem-se famílias que viviam em perfeita união. desunir. alguma outra coisa”.. restingas. baixos. portanto. divorciar. separar. Abre-se uma janela para falar com alguém. – Todas estas palavras designam acidentes ou situações no mar (ou nos rios). – Escancarar é abrir completamente. associadas. eliminando os embaraços que se acharem entre uma e outra. portanto. desligar. desatar. Abre-se uma caixa. um pacote de biscoitos. e de modo mais preciso. separar “o que estava unido. alfaques. desmembrar. apartar. – Separar diz propriamente “pôr. separar por sentença. Abrolhos é voz usada em sentido transla- . recifes. por exemplo: “desunir os bons dos maus”. (Aul. por essa abertura desimpedida. – Distanciar é “afastar muito as pessoas ou coisas que se separaram”. fare- lhões. ligado. que “os autores as têm confundido. desprender. afastar.” Separa-se o trigo do joio. ou as partes de uma coisa umas das outras. cachopos. baixios. mas veria distintamente quem estivesse dentro da casa. destruindo portanto a unidade ou o todo desmembrado. separa-se a Igreja do Estado: em regra. – Apartar é “impedir que continuem. soabrem-se os lábios num ríctus imperceptível. e que impedem ou dificultam a navegação. ligadas intimamente. – Quanto às quatro primeiras do grupo. ou no seu lugar. escolhos. sendo elas distintas e indicando coisas diferentes. duas ou mais coisas. apertado”. Em referência a caminhos de ferro. diz Roq. – Abrir. – Desmembrar é desunir ou “separar por membros”. – Desligar é antônimo de ligar e diz. – Soltar enuncia a ideia geral de “libertar coisas que estavam juntas ou presas umas a outras”. – Desprender ainda exprime com mais força. Desune-se um casal (separando um do outro esposo). 60 ABRIR. “Nunca se divorciou da religião de seus pais”. Cachopos são penhascos que saem fora d’água. e significa. unidas”. Mesmo quando se abre um caminho não se faz outra coisa senão. Abrir é “remover alguma coisa da abertura que está ocupando (fechando) de modo que deixe passar.) Abre-se a boca falando. e onde rebentam as ondas.

quase empinado”. ainda empregado como adjetivo. onde se corre. ou menos a pique do que alcantilado. São menores que os cachopos. outros formando ilhetas: e por sua grandeza. por espaço de muitas milhas. – Absconso . ou pelo menos não seja fácil encontrar”. “a encosta nua de um monte que fica vertical. 63 ABSCONSO. – Recifes (ou recife. Mas absconso e abscôndito já não seriam aplicáveis propriamente senão em sentido moral ou abstrato. mas com a circunstância de serem desiguais e muito fundos. escreve Lac. mas o parcel tem pouca altura. e por isso perigosíssimos”. ocul- to. uns contíguos à terra. um monte. mesmo muito íngreme. alcantilado. recôndito. Deve aplicar-se particularmente a coisas materiais. secreto. Farelhões são “escolhos pontiagudos. que são baixos iguais. – mesmo porque escondido. íngreme.. Alcantilada é. se é tal o declive que torne penosa a decida ou a ascensão. até a penúltima. por isso que se espraia largamente (chamando-se também por isso esparcelados). – Ladeirento = “disposto como em ladeiras. de modo que não seja possível. escondido. risco por causa da pouca altura de água. encoberto. não se pode navegar sem risco. aprumado. e pelo perigo que perto deles correm os navios. Mesmo de uma ladeira pode dizer-se escarpada.. – Escarpado diz “íngreme e difícil de subir”. ou de areia. abscôndito.: “Baixos é palavra genérica. às vezes. retruso. O alfaque é breve e fundo. “as grandes verdades escondidas ao vulgo”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 49 to para indicar aqueles cachopos que formam pontas como a planta chamada abrolhos ou estrepes. e tanto pode aplicar-se a um cume de monte como a uma encosta que seja tão íngreme que pareça levar como verticalmente ao pino do monte. e têm a circunstância de prolongar-se. onde não há fundo para navios de grande calado”. Este diz precisamente “posto fora das vistas. como parece. e designa o fundo do mar onde há pouca altura. escarpado. clandestino.. de rocha ou de coral. sem dúvida. e de impossível ou muito difícil acesso. – Quanto às palavras que se seguem. inclinado. mas pode navegar-se. formas eruditas de escondido. – Empinado é o menos preciso destes cinco vocábulos.. Uma ladeira. pode-se subir”. e também arrecifes) designa “rochedo ou série de rochedos pouco destacados da água e perto da costa embaraçando a navegação”. no que se distinguem dos parcéis. Escolhos são aqueles penhascos que estão debaixo d’água e não se descobrem bem: donde resulta serem mais perigosos que os cachopos. empi- nado. andam assinalados nas cartas marítimas”. – Absconso e abscôndito não são apenas. conserva alguma coisa da sua função de particípio. são baixios ou bancos de areia ou de pedra. – Banco é “cômoro ou elevação mais ou menos extensa de areia. – Restingas são baixos de penhascos. Baixios (prolongamento de baixos) são bancos de areia em que. ladeirento. – Alfaques. cobertos de água. por exemplo. por falta de altura de água. ou contíguos à costa. conforme a origem arábica. e por isso ali tocam os navios. – Abrupto difere de alcantilado e de íngreme em ajuntar à noção de “flanco a pique a ideia de áspero. – Sirtes são baixos de areia movediça por entre penhascos. “a escondida intenção de levar-me à forca”. ou quase a prumo. empinados acima d’água. – Aprumado = “talhado a prumo”. e por onde não se poderia subir ou descer sem grande esforço ou sem artifício”. pois não seria próprio dizer: “os escondidos desígnios de Deus”. para onde a corrente arrasta as embarcações. 62 ABRUPTO... escabroso”. – Íngreme é “menos inclinado.

militarismo. e em certos casos figuradamente. em Marrocos. tudo. – Retruso diz “posto para o fundo. não obstante ser permitida. os acordos secretos. nada disso. Quanto a estes dois vocábulos. autocracia.. as intenções ocultas do mouro. Secreta é uma junta quando secretamente se celebra. Chamamos casamento secreto ao que.. os ocultos desígnios da Providência. só porque governa como senhor absoluto. ou “a coisa que não podemos ver. além de oculto.50 Rocha Pombo ajunta à significação de escondido. e podendo aplicar-se tanto em sentido moral como físico. “Lá esteve tímido e retruso. por exemplo. por qualquer motivo que nos é pessoal. é o caso omisso que o monarca faz das leis que deve respeitar: quando o absolutismo oprime.: “Uma coisa é secreta quando ninguém ou poucos a sabem ou conhecem. a ideia de concentrado e profundo.) “é a forma de governo monárquico em que o poder é exercido pelo soberano. e ainda às vezes negamos. o sol. num canto da sala. as operações. – Recôndito e retruso aproximam-se. retraído às vistas. haveres e liberdade de todos os súbditos. – Secreto se diz do que fica mais que oculto. porém. retirado muito para a profundeza”. “O trabalho secreto dos conspiradores. Os avisos. Disto resulta que nem tudo o que é secreto é clandestino. e é clandestina quando se verifica clandestinamente contra o expresso mandado da lei. caudilhismo. oculto. diz ainda abstruso. Com o absolutismo podem conciliar-se intenções retas e benéficas. “Ficaremos para sempre no sertão. – Encoberto é o que ficou oculto. o horizonte está encoberto. de onde pôde dar o bote certeiro”. . “O tempo. converte-se em despotismo. – Tirania é palavra que tem hoje significação diferente da que teve em tempos idos. e é clandestina quando se faz às escondidas. ou procurando violá-la sem que ninguém o conheça. o secreto processo. até que passasse o perigo”. “O mísero ali ficou. as quais velam pela vida. devido à interposição de algum corpo opaco entre essa coisa e a nossa vista”. – Recôndito exprime “escondido muito longe. retruso e hostil. o céu. “Absconsos intentos da majestade em furor”. Deve aplicar-se a coisas materiais. se estende ao despotismo.. tirania. ditadura. nem confessamos. chamadas leis do Estado. ou a secreta vida das abelhas. e chama-se clandestino quando o celebramos às escondidas sem observar as regras que prescrevem as leis canônicas. “Nestes últimos tempos” – escreve Roq. que é clandestino vem a ser secreto: este é lícito. – Oculto é simplesmente “furtado às vistas” de qualquer modo. porque fica “como em segredo e reservado a alguns”. – O absolutismo (diz Bruns.. É agora tomada como enunciando a ideia de um excesso de poder político degenerando em dureza de mais rigor que o despotismo. como. dados ou feitos por um ministro”. as maravilhas secretas da natureza. quer dizer. persegue e atormenta. não”. – Clandestino é “o que é secreto e contrário à lei”. depois esgueirou-se para um ponto recôndito do parque. porém. Também se dá o nome de despotismo à forma de governo em que o monarca não tem de obedecer a nenhuma lei. recônditos e humildes nesta miséria”. assim como abscôndito. despotismo. esse poder é limitado por leis. faltando à lei. não declaramos. misterioso. O despotismo é o abuso do absolutismo. “O sol ficou oculto pela árvore ou pela nuvem. deixaram-nos sempre cuidadosamente encoberto aquele intento”. humilhado. repulsado à força”. O absolutismo é chamado autocracia ao falar-se da Rússia”. aquele. “O abscôndito espírito de Deus era sentido ali no oceano”. virtudes eminentes. 64 ABSOLUTISMO. escreve Roq. – “tem-se dado tanto o nome de tirano como o de déspota ao rei absoluto. os cabedais ocultos no seio da terra”.

– Caudilhismo é adaptação do antigo espanhol (de capdillo “capitão”) para significar o regímen político caracterizado pelo predomínio de chefes de bando em certos países da América. Quando se diz que uma pessoa. – Irredutível apro- . – Ditadura é um regímen excepcional que se caracteriza pela concentração de todos os poderes políticos do Estado nas mãos de um chefe. acima de contingências. que não deixa lugar a dúvidas”. basta ter presente que tirano é aquele que oprime a outro. – Em sentido amplo.: “Quem é absoluto quer ser obedecido. quer. exige. ponto secundário: o que ele quer é a execução efetiva e completa do que decidiu. imperativo. irredutível. intento. ou uma corporação. quer-se dizer que ordena mais com arrogância do que com autoridade. que o não contradigam. parecer. definitivo. pode não o ser tanto no que toca à execução efetiva das suas ordens”. seja legal ou de força. categó- rico. se aprovam ou não a sua conduta é. Dizemos: “forma imperativa da lei. que ordena. com exatidão a diferença que existe entre as duas palavras. – Arrogante é o que se impõe “com soberba e altivez. etc. senão o dominador”. Tirano por conseguinte é o opressor. como quem se presume forte e ufano da sua força”. Entre imperioso e imperativo só existe a diferença marcada pelos respetivos sufixos. Imperioso equivale a “que se impõe. nem lhe façam observações. sobretudo. não na forma de governo. “Opinião. determina ou dispõe imperativamente. porque tão tirano e despótico pode ser o governo de um como o de muitos cônsules. – Decisivo equivale a “que põe termo a toda dúvida. É mais do que imperioso. quando se diz que dispõe ou determina imperiosamente. e que lhe deem provas de deferência e submissão. ou tomara uma atitude imperativa” e: “fez um gesto. dúvida ou contestação. senão nos atos dos que governam. aquele em quem se reconhece um direito indisputável de mando. absoluto significa “fora de contraste. ou acidentes ou mudanças imprevistas. pretende que ante ele se observe uma postura respeitosa. para o homem absoluto. que exige com império”. não somente o opressor. 65 ABSOLUTO. extremamente exigente neste ponto. que é definitivo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 51 o que é um grave erro. obriga aos demais a fazer o que não devem contra toda a razão e justiça. pois ajunta à significação deste vocábulo uma ideia de excesso de orgulho com que se manda. déspota. imperioso. senão na aplicação delas. e déspota. não sujeito a contrariedade. sentido imperativo de uma frase” (e não: imperioso). ou que não muda de resolução”. declaração definitiva”. e que. tirano e déspota. ou tomara uma atitude imperiosa”. inapelável. terminante. positivo. ou que se funda na supremacia da força armada. permanece inabalável nos seus propósitos. livre de embaraços de qualquer natureza”. cabal. claro”. Quem é imperioso quer. – Categórico diz o mesmo que “precisamente definido. Sentimos bem nitidamente a distinção destas frases: “fez um gesto. exprime-se que essa corporação ou pessoa tem competência e autoridade para dispor ou determinar. escreve Bruns. ou de tal artigo de uma lei. ainda quando seja seu igual na sociedade. clama. Para compreender. – Sobre absoluto e imperioso. pois. – Militarismo é o sistema em que o poder político é exercido por chefes militares. e quaisquer que sejam as observações que lhe façam. tomados num sentido restrito. ordena de modo que não deixa lugar a dúvidas ou observações”. peremptório. arrogante. – Definitivo = “que explica. valendo-se do dito direito. incondicional. atitude. resolve. que não admite réplica. decisivo. A tirania e o despotismo não estão nas instituições.

e significa “esquecer. ou não tivesse sido perpetrado. descriminar.: “Absolver é desligar o culpado dos laços que o prendiam. remitimos a dívida. destemperado. e suspende a execução da justiça”. – discordante é “o que se não põe ou não está fiel ao acorde. e tanto que. – Indultar e agraciar dizem aqui mais particularmente “conceder perdão de crime de alta gravidade”. – Desentoado é o que está “fora do tom próprio. e dá prova mais de misericórdia que de justiça. que se afasta de outro som. do que havia direito a exigir. pecados. ou a falta cometida”. discordante. Perdoar é esquecer uma ofensa. escreve Bruns. é convizinho. – destoante é o que não condiz com o “tom próprio. completo”. Este verbo dá também a supor que a pessoa a quem se faz a remissão tem certas condições que a tornam credora desse benefício. ou do som conveniente”. 67 ÁBSONO. desarmônico. – Peremptório = “que completa e decide. “imperativo”. terminante. que não está . Remitem-se culpas. destoante. dívidas. escusar. o mais próximo de ábsono: exprime não só destoante. destemperado. direta do grego. renunciando a qualquer desforra. diz Alv. discrepante. – Incondicional é “o que se não sujeita a condições. Quem indulta ou agracia exerce função soberana. remitir dá uma ideia de resgatar. desafinado. decisão. Despacho. – Malsoante diz propriamente “que soa mal”. ou em parte. – Inapelável = “de que não há recurso. não se submete a continências. ou com a regra estabelecida ou vigente”. – Escusar e tolerar sugerem a ideia de “deixar que passe a falta sem puni-la”. discordante. portanto. Absolvemos o acusado. mas sugere ainda a “ideia de muito afastamento do som que convém ou da harmonia dominante”. – Ábsono diz propriamente “que discrepa. juiz. – Anistiar é adaptação moderna. toado. – Descriminar equivale precisamente a “absolver de crime”. discrepante. anistiar. deixar como se não existisse. desafinado.: “A remissão é concedida por quem cede dos direitos que lhe competiam acerca de alguma coisa. discordante. acima de eventualidades”. com outros do grupo: dissonante. ou que era preciso seguir”. tolerar. dissonante. só o soberano ou o órgão legítimo da soberania nas repúblicas é que anistiam. perdoamos a pena. – Desculpar diz propriamente “relevar a culpa. quer. desarmonioso.. 66 ABSOLVER. compete ao príncipe e ao magistrado. “que não admite outra solução”. do grupo. fica fora de hipóteses. – Quanto aos três primeiros destes vocábulos. – Desarmônico é o mais geral: exprime “que não faz harmonia ou acorde.52 Rocha Pombo xima-se aqui de decisivo: diferençando-se deste em sugerir também a noção do grau de força ou de capacidade com que a coisa ou pessoa irredutível não altera o seu modo de ser ou de agir. Pas. Tanto quem escusa como quem tolera supõe-se que tem alguma superioridade sobre aquele a quem aproveita a escusa ou a tolerância. tribunal inapelável. – Terminante diz propriamente “que põe fim”. ou não faz acorde com outro som”. perdoar. remitir. etc. desen- indultar. de acordo com Roq. ou a qualquer castigo. o crime político”. agraciar. pensa. convindo notar o seguinte: dissonante diz apenas “que não está de acordo com o som que se quer. destoante. Remitir é desistir em todo. Confunde-se. malsoante. – discrepante é. portanto. acerca de remissão. não cede do que resolve. acabado.” Entre remitir e anistiar há esta diferença. ou de redimir. de desarmônico. desculpar. não sujeito mais a dúvida ou a nova resolução” – Cabal = “pleno. ou que não se associa a outro som para formar harmonia”. de que se não pode apelar”.

consome-se uma certa matéria”. de adjunto completivo: enuncia “que não faz acorde. –” Devorar é “tragar. latino. Laf. ou a voz desafinada não faz harmonia perfeita. deglutir marca. consumar.). engolir. fazer que desapareça”. e rigorosamente. destacando porções”. tomaram-se outrora indiferentemente um pelo outro. – Consumir acrescenta à noção de absorver a ideia de “extinguir lentamente. a voz. e o segundo a de destruir. – Tragar é “beber aos tragos e tomando bem o sabor. A abelha chupa o mel.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 53 igual ao som dominante”.: “Comer vem de comedo. o ar. ou o instrumento destemperado desordena de todo a harmonia. enuncia a ação de “mastigar e engolir”. Sobre consumir e consumar diz Bourguig: “Consumar e consumir. É. A esponja chupa a água. rapidamente”. etc. julga os dois verbos como quase perfeitos equivalentes. engolir sofregamente. aspirar. A consumpção não serve para nada. Distingue-se deste por incluir. tragar e comer escreve Roq. que significa igualmente chupar. Diremos que “o oceano engole (e não – deglute) a embarcação”. distingui-los precisamente. mas outros o derivam (como Aul. mal engole caldos”. comer. além disso. sugar. mas não marca a ideia de desligar de todo as partes que vão sendo sorvidas. – Destemperado é o que desafina de todo. – Engolir exprime simplesmente a ação de “levar ao estômago”. “A ação de consumar – diz ele – não destrói em vão como a de consumir. a ideia de esforço. não afina pela desordem que aí reina). O instrumento. chupar. por tragar ou aspirar. e até muitas vezes não faz senão causar prejuízo.) do latim sugere. – Desarmonioso é o mais geral e absoluto do grupo: não precisa. 68 ABSORVER. consumir com avidez. com a significação que têm aqui. pelo nariz ou pela boca. – Sugar é equivalente de chupar. pois não se supõe que a esponja faça esforço em chupar a água. – Chupar = “sorver. – Absorver designa a ação de “consumir pouco a pouco. Assim consuma-se um ato. porque em absorver há. Nos tempos coloniais dizia-se no Brasil “beber fumo”. o que nem sempre se dá em relação a chupar. e significa mastigar e engolir . deglutir.). sem mastigar”. ou de “deixar que vá ao estômago. sorver. muito mais próprio dizer-se: “O doente não tem mais forças nem para deglutir alimento sólido. O morcego chupa o sangue aos outros animais. beber. No meio de um tumulto a palavra ponderada é desarmônica (isto é. ainda que o primeiro designe antes a ação de completar. ou ao fundo”. ‘No mar quase toda consumação se faz em proveito da reprodução’ (Buff. – Aspirar é “atrair aos pulmões. de perfazer. – Desafinado exprime “que não está no tom próprio.” Só se aspira matéria gasosa. atrair líquido quase sempre com esforço”. E tanto que dizemos: “o mar sorveu o frágil batel” (não – absorveu. a ideia do esforço com que se engole. – Comer é quase o mesmo que consumir. que não se afina convenientemente”. em regra. consumir. – Sobre devorar. Um som. – Chuchar parece a alguns uma simples forma popular de chupar. tragar. de gastar (user). por outro lado. – Beber é “engolir líquidos”. não sendo fácil. chu- char. ou uma voz pode ser desarmônica sem ser propriamente desarmoniosa. que não tem harmonia. cujo sentido próprio é acabar. A consumação serve para a reprodução. o fumo. – Sorver diz também “beber aos sorvos” (Aul. ou que está completamente fora do tom: é mais que desafinado. que é desordenado em si mesmo e fora de toda conveniência”. devorar. ideia de esforço para consumir separando por partes a coisa a absorver). – Entre engolir e deglutir pode notar-se diferença análoga. enunciada pelo prefixo ab.

distração. meditabundo diz mais “pensativo e triste”. c.” Assombrado é “muito admirado”.: “Admirado. de medo. Lus. ou da contemplação de suas qualidades. meditar em graves coisas”.. extático. delíquio ou inanição. significa comer ou tragar com voracidade ou sofreguidão”. preocupado. Lus. pensativo. – Extasiado “o mesmo que absorto e em pasmo”. (Cam. abstraído (abstrato). admirado. que vive ou está “como se tivesse a alma toda voltada para fora do mundo sensível. E casar-se com ela. assombrado. de devoro. pois nos representa como “caídos em abismo de que não se sai”. ouvintes embebidos etc. amante enlevado num falso parecer. maravilhado. mas no sentido em que aqui se toma quer dizer – profundamente atento. (Souza. meditabundo. e do. – Contemplativo é “absorto em coisas místicas”. arrebatado. c. de suspeitas”. ficamos admirados ao ver o que não esperávamos.) “Saiam como fora de si. – Impressionado diz propriamente “sob a tortura de impressão de dor. tragar vem de trogo. Da boca do facundo capitão Pendendo estavam todos embebidos.: “Arrebatado usa-se não poucas vezes para se exprimir um deleite mental ou corpóreo. e numa concentração de todo o espírito num assunto”. d’enlevado. e arrebatados em Deus”. embebido. embebido e arrebatado escreve Alv. e no entanto diferençam-se assim: meditativo quer dizer – “dado. tão intenso que chega como a alienar-nos. metido nos poros: a esponja embebe-se do líquido. de desconfiança. insensível a tudo que está em torno”. se só os olhos pudessem julgar. extasia- “tinha embebido em si a doutrina do Apóstolo” (Feo). apreensivo. 69 ABSORTO. e devorar. . propenso a refletir. – Pensativo está ou fica por momentos quem “pensa ou parece pensar só nalguma coisa”...) – Enlevado exprime a nímia confiança que se põe num parecer. arroubado. contemplativo. diriam exatamente o mesmo que extático e extasiado.. V) Homem arrebatado em Deus.) – Estático e estatelado. Estático exprime “parado. ao pé da letra. – Sobre admirado.”. o mais usual destes termos.. – Absorto exprime: como que “fora da consciência. III) – Embebido significa. “Eis que no meio da Missa fica subitamente arrebatado”. de pressentimentos. Estatelado acrescenta a estático uma ideia de esvaimento. impressionado. imóvel como estátua. nas qualidades ou promessas de qualquer pessoa. dando porém a entender que a causa desse estado é algo que impõe medo. enlevado. abismado. – Sobre enlevado. abstração. distraído. respeito etc. estatelado. arrebatado “de grande admiração e como em esquecimento de si próprio”. etc. que está “solitário. – Preocupado ajunta à noção de impressionado a ideia de “pungido de cuidados”.54 Rocha Pombo alimentos para sustentar-se. silencioso e melancólico”. latino. meditativo. – Abismado diz mais que assombrado. estático. é o de menor significação. – Apreensivo significa “tomado de cismas. a ponto de ficar como maravilhado da vista dessa pessoa. grego (τρώγω) e significa engolir sem mastigar. (Aul. Pas. – Arroubado significa “arrebatado de altas emoções ou de sublimes pensamentos”. – Meditativo e meditabundo parece que têm a mesma significação. – Extático diz “absorto. que ama o afastamento.. (Feo. – Maravilhado diz mais que os três precedentes: ajunta-lhes a ideia de “grande surpresa e admiração que nos abalam e deixam em pasmo”. enlevado em êxtase”. assombrado e abismado escreve Bruns. (Cam. Num falso parecer mal entendido.

olhamos a abstração como uma coisa habitual. Falamos em abstrato quando o fazemos com separação de qualquer coisa. pois. Uma palavra casual nos leva insensivelmente de um objeto exterior a outro interior abstraindo-nos inteiramente daquele. corresponde à linguagem metafísica.: “A palavra abstração vem da latina abstrahere. achando-nos no mais profundo desta abstração. por assim dizê-lo. há verdadeira e notável distinção entre as duas palavras. atraído para longe de”. uma como alheação do homem concentrado naquele objeto interior que o tira como de si mesmo. de diversos lados ou para diversos lados”. merece o nome de abstraído. distraindo-se de suas obrigações. abstractus “tirado. ocupando-se ele tão fortemente com estas ideias interiores que só atende às coisas que elas representam. segundo a expressão de Bossuet.: “Abstraído. A palavra abstrato usa-se quando a aplicamos às coisas. o espírito do distraído é instável.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 55 pela visão interior vendo o que os olhos não têm a faculdade de ver”. porém. separando-nos da abstração. Alv. – Abstração é. chamam tanto a atenção dos que as estudam que. o pensamento do indivíduo. em vícios. abstraído e abstrato. Diz-se de um homem que está distraído no jogo em amores. ele está à mercê de todas as impressões. Uma imaginação abstraída só à sua própria ideia atende como se não houvesse outras. A causa das abstrações é antes interior. Enfim. – Sobre distraído. diremos que nos distraiu. como uma ocupação contínua. a da distração é exterior”. e comumente de distraído por abstraído. nos fere repentinamente os sentidos qualquer objeto exterior. – Sobre abstraído e distraído lê-se em Laf. Em nosso entender. e abstraído quando a referimos às pessoas. A distração é momentânea e como passageira. a que procuramos voltar bem depressa”. a metafísica. incapaz de aplicar-se ao que quer que seja. e é um novo objeto exterior que faz o . por concentrar-se. pois a abstração se exerce de fora para dentro. dissipado. e na consideração de suas abstrações. como o resultado de um caráter particular. distrai-nos. por assim dizer. em conversação consigo mesmo. O espírito do abstraído está longe do que vós lhe dizeis. como a matemática. ocupando-se. abstrair-se nisto. mas com esta diferença: que são as ideias próprias. e de repente entra uma pessoa. daquilo de que se trata. e assim dizemos: Este homem está sempre abstraído em seus estudos ou meditações. que significa – separar ou arrancar uma coisa do lugar em que está ou supomos estar. escreve magistralmente: “Encerra-se nestas duas palavras a ideia comum de falta de atenção. para podê-las considerar cada uma em particular sem dependência nem relação com as demais. e designa a operação do entendimento por meio da qual desunimos coisas que na realidade são inseparáveis. No cabedal das línguas cultas ocupam um lugar muito importante as palavras que representam ideias abstratas. e não que nos abstraiu. Pas. Se estamos engolfados em nosso estudo solitário. Querem alguns que distração seja diversão do pensamento de todo objeto exterior para atender aos interiores. distraído. de dentro para fora. e a distração. e sendo estas o objeto das ciências mais elevadas. ao contrário. ou se faz um ruído forte. são indiferentes e como insensíveis aos objetos exteriores. abstraídos nelas. de cuja definição resultará que haja pouca diferença entre as duas palavras. mas quando. fixando-nos nela com exclusão de todas as outras. evaporado. e. que o fazem abstraído. ele deixa vagar seus pensamentos. e a filosofia. distractus “atraído de um lado e de outro. e dizemos abstrair-se quando nos alheamos dos objetos sensíveis para nos entregarmos aos intelectuais. servindo-se de uma por outra. abstração e distração vejamos Roq. O homem que se aparta do trato e comunicação das gentes.

mas a distinção entre os dois consiste em que alvo ajunta à noção de branco a ideia de puro. quando. Uma pessoa abstraída tem o espírito muitas vezes a grandes distâncias: ora está em Lisboa em frente da estátua equestre. como dizemos: “Linguagem tersa. polido se diz de tudo a que se deu polimento. – Brilhante exprime “muito polido e luzente: que tem grande brilho”. estando a ouvir um discurso que se nos dirige. atendemos a festins etc. branco. e assim se entende ser voluntária. privar-se. e os distraídos meditam pouco. nos privamos das coisas que conhecemos. ouvimos do lado uma coisa interessante. mudamos a atenção para outro diverso. Refulgente é um reforço de fulgente. ção. admirando as belezas da Ajuda. brilhante. polido e lustroso”. “Os abstraídos meditam muito e falam pouco. – Cândido. 70 ABSTER-SE. límpido. ou as antiguidades de S. de cândido. É difícil que não fiquemos distraídos quando. terso. nitidez e brilho. abstraído. ainda melhor que alvo. ouvindo tal orador no palácio das Cortes. fulgente. nítido. limpo. porém o homem de razão abstém-se dele quando sabe que lhe é nocivo. estando a contemplar um objeto. luzidio. e atrai a sua atenção. privar-se supõe apego à coisa. As abstrações são mais próprias dos homens dados a meditações. (Bern. luzente. Fácil nos é abster-nos do que não conhecemos nem amamos. nitente.: Abster-se exprime a ação sem referi-la ao sentimento que pode acompanhá-la. com dificuldade. escutamos outro diferente. alvo. reluzente. brunido se aplica mais propriamente ao brilho que se dá aos metais. recolhidos conosco. 71 ABSTERSO. sem ser pelo brunidor. e falam muito. estilo absterso e brilhante”. abstinência. (Cardoso) Ficamos distraídos quando. escutando um discurso enfadonho. Vicente de Fora. quando estamos numa parte e o pensamento noutra. lustroso.) As distrações pertencem mais aos espíritos levianos e às crianças que se distraem com lindos nadas. fúlgido. Ficamos abstraídos quando não pensamos em nenhum objeto presente. – Vemos que abstinência supõe que podemos gozar de uma coisa. lúcido. mas. caso raro é que se prive de vinho. Podendo o bêbado beber. – Escreve Roq. imaculado. Pedro. brunido. Tanto se aplica em sentido natural como em translato. e perdem o fruto das conversações”. Aul. que nos agradam. – Alvo e branco se confundem. nem desejamos. porém. – Polido e brunido aproximam-se. acrescenta à ideia de alvura a de pureza e imaculidade. que a desvia do objeto a que ele a tinha aplicado. Elys. ou que nos é indiferente. – Absterso é como um redobramento de terso. e pena de não poder gozar dela. quando. “A força da oração o abstraiu deste desterro”. Dizemos: “O aço já terso da ferrugem” (Fil.56 Rocha Pombo homem distraído. a abstinência é também privação. dados a nossas ocupações. a estudos profundos. e este significa “livre de manchas. cit. quando. priva- que gozamos ou queremos gozar. “Devem guardar o coração desempenhado. nos entretemos com o nosso próprio cogitar. mas que por certas razões dela nos abstemos. – Fúlgido é o “que fulge de si mesmo”. mas para o que prefere os prazeres à saúde. delicado. refulgente. Para o que prefere sua saúde aos prazeres. a abstinência não é na realidade privação. luzido. ora está em Roma no meio da praça de S.). pois temos desgosto e ainda pena de nos vermos privados daquilo que muito desejamos lograr. silencioso e solitário para o comércio divino”. polido. fulgente é o “que está fulgindo ou sendo brilhante no momento”. A privação é de ordinário forçada. e tanto na acepção moral como na física. Cândidas al- . isto é.

alguma diferença marcada pelos respetivos sufixos. reduzido. portanto: “lustrosa estrela”. – Lustroso confunde-se com brilhante. um ponto luzidio no escuro da floresta. reluzente. designa “uma qualidade mais forte e que parece depender de mais esforço e energia moral”. Luzido acrescenta à noção de polido. olhos reluzentes de cólera. a ideia de esbelto. – Luzido. ou instantânea e fugaz. cuja relação não é possível descobrir nem seguir. moderado. terso. que despede luz um tanto indecisa. e no uso dos bens da vida”. riqueza. a lúcida visão do gênio. 72 ABSTINENTE. lustroso. diáfano. discriminado. (Aul. – Frugal é propriamente o que se nutre “só de frutas”. abstêmio. é “o que só toma o alimento indispensável. 73 ABSTRATO. comedido. luzidio diz propriamente – “que é semelhante ao que brilha”. – Abstido é quase o mesmo que abstinente. mas nem tudo que é abstrato é abstruso. no entanto. e muito menos a totalidade que deles resulta. lúcido é o mais forte da secção: diz – “claro. a ideia de brilhante. – Abstêmio é o que se abstém de excessos na mesa. temperado. 74 ABUNDÂNCIA. nitente diz. frugal. além de limpo – “correto. continente. – Abundância (do latim abundan- . propriamente uma qualidade (como se dá com abstinente) mas um estado. pomposo. portanto. Uma coisa abstrusa é difícil de compreender.. Um tratado sobre o entendimento humano precisamente deve ser abstrato. É preciso notar-lhes. – Limpo diz – “livre de impurezas”: é o mais genérico do grupo. lúcido confundem-se muito. – Abstinente é aquele que se abstém de alguma coisa por necessidade de consciência ou por sentimento de dever. parco. – Límpido acrescenta à ideia de terso e puro a de lustroso. se abstém de alguma coisa: não designa. sóbrio. luzente. apesar do esforço extraordinário que nossa inteligência faça para consegui-lo. – Continente designa “o que tem a virtude de sofrear os impulsos. abstruso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 57 mas de crianças.) – Parco diz mais que sóbrio: é aplicável ao que é “pouco abundante. “no momento”. opu- lência. O primeiro. temperante. medir as suas palavras e ações de um modo conveniente”. reluzente é forma redobrada de luzente. brilhante como a própria luz”. – Nítido ajunta à noção de limpo. “Nitentes florações nos trouxe a primavera”. e por extensão “o que se satisfaz com pequena quantidade de alimento”. – Moderado e comedido muito se aproximam. quase tacanho e avaro”. Cândido livro. vistoso”. diáfano. principalmente quanto a bebidas que embriagam. fartura. no entanto. não só este é mais intenso e complexo. mas. – Segundo Roq. Não seria próprio dizer. – Sóbrio coisa abstrata é difícil de entender porque dista muito das ideias sensíveis e comuns. porque depende de um encadeamento de raciocínios. cheio de luz. Num sentido mais restrito embora. luzidio. uma abstido. está temperante no mesmo caso: significa “moderado nos apetites. Exemplos: “Nítidas frontes fulgem do meio da turba”. convindo notar-se que abstido deve aplicar-se ao que. particularmente no comer e no beber”. como lustroso restringe ao que se lustrou ou poliu a qualidade que enuncia. e abstrusa dizemos que é a ciência da geometria transcendental. abóbada ou esfera luzente. Dizemos com propriedade: luzidos batalhões. pequeno. curto. airoso. e em sentido geral. luzente quer dizer – “que espalha luz em torno”. as inclinações da própria natureza”. – Comedido significa “que sabe regular. o que se mostra moderado em todas as funções. brilhante. Tudo que é abstruso é abstrato.

ou de que alguém se persuade por ingenuidade. e que é. a convicção assentada. as quais. um gênero de petas. conforme define Aul. e que portanto nos impede de julgá-la de consciência”. Confunde-se com preconceito.. à cega confiança em coisas ineficazes”. do dinheiro. crença popular sem fundamento. e a prevenção tem seu principal assento na vontade. crendice.. absorve-o.58 Rocha Pombo tia. – Acerca de preocupação e prevenção diz Roq. Quem vive na fartura tem mais do que lhe é necessário. que não pode ouvir nem conceber outras contrárias. e cativa o pensamento. portanto. preconceito. da verdade. – Quem vive na abundância não precisa de mais nada para viver. 75 ABUSÃO. induz em erro. fanatismo. su- perstição. mas este supõe que o nosso espírito “foi induzido a deixar-se dominar” da falsa noção que nos impede de julgar livremente. com a diferença que a preocupação reside particularmente no entendimento. ou caso fictício com que se engana. A prevenção é uma disposição antecipada da alma que a faz inclinar-se a julgar mais ou menos favorável ou desfavoravelmente de um objeto. e a faz injusta. e que impede o ânimo de adquirir os conhecimentos necessários para julgar das coisas retamente. de ab + undo.. A preocupação nasce de alguma impressão viva e profunda que enche de seu objeto a capacidade do ânimo. peta. – Riqueza é. de superstare) é uma depravação do senso religioso. patranha. superstição (superstitio. As preocupações não são boas . – Prejuízo diz propriamente “juízo antecipado. – Abusão é “falsa história. – “é sentimento de veneração religiosa fundado no temor ou na ignorância. Podemos admitir ainda o preconceito da honra: não o prejuízo. Aproxima-se-lhe peta. are) diz propriamente “em quantidade tão grande que satisfaz plenamente ao que se deseja”. de perfeito acordo com Aul. Propriamente. f. Dizemos: a superstição da honra. A preocupação é o estado do ânimo de tal modo cheio e possuído de certas ideias. e pode estender-se mesmo a coisas que não sejam religiosas. de um objeto. de que não saímos como por um capricho do nosso amor próprio. não permitem à nossa alma o conservar seu equilíbrio e sua indiferença. Quem viveu sempre na riqueza “não sabe o que é ser pobre”. ou por índole supersticiosa”. – Todas estas palavras indicam ou sugerem defeito de consciência. f. Quem vive na opulência goza com ufania da sua riqueza. opinião que se tem de uma coisa antes de examiná-la diretamente. A prevenção nasce de certas relações ou informações que nos deram. ou sem conhecê-la. convindo não esquecer que patranha parece significar que as mentiras ou as tolices se referem a assuntos de religião. – Opulência é a “riqueza com aparato e ostentação”. – Patranha diz – “grande tolice. como diz Roq. prevenção. – Crendice é. e absurda e ridícula. um respeito cego a coisas vãs. preocupação. O prejuízo parece mais um temor supersticioso.. A preocupação tira a liberdade do ânimo. prejuízo. impedindo de julgar sãmente. e o faz cego. etc. – Superstição – diz Bruns. o preconceito parece mais a “suposta certeza”. – Fartura diz mais que abundância: significa “em quantidade tal que já excede ao que é suficiente”. do destino. de abundare. A prevenção tira a imparcialidade do juízo. ou conto mentiroso com pretensões a coisa séria e verdadeira. um excesso de credulidade que turva a consciência ou faz calar a razão. “a superabundância de bens da fortuna e de coisas preciosas”. e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos ou supostos deveres.: “Estes dois termos exprimem uma disposição interior oposta ao conhecimento da consciência. interessando-nos a respeito desse objeto. e que só aceitam os néscios”.

acaba de sair. mas a operação com que se conclui”. – é um termo geral. – Finalizar. e. e fechar. “Acabamos a nossa tarefa” (e não – findamos). senão também com uma espécie de alegria e consolação. – Rematar. porque não se trata diretamente de uma coisa finalizada e completa por meio da conclusão. porque podem prevenir-nos contra o engano”. ultimar. “acabar representa a ação de chegar ao termo ou fim de uma operação. concluído. Quem diz ultimar indica a ação de “chegar ao termo de uma coisa deixando supor que se havia começado e que se vai ou pode dar princípio a outra. intermitir. Finalizar enuncia ação. por muito tempo. rematar. e parecia terminar ou concluir já mais calmo. como se o que as faz houvera recebido alguma missão de Deus”. devendo notar-se.. injustas e cruéis. portanto. é pouco perceptível sua diferença. Cessa-se por um instante. do termo e fim a que chega. e faz cometer ações ridículas. para distingui-la. – Segundo Roq. portanto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 59 para coisa nenhuma: devem combater-se como inimigas da verdade. fechar. ultimar. “Finalizamos o trabalho com muita fortuna” (e não – findamos). – Descontinuar é suspender o trabalho. rematou a tremenda objurgatória com uma invetiva ultrajante”. concluir representa a ação no deixar a coisa completa. seriam sinônimos perfeitos se não fosse a nuança assinalada na predicação daquele primeiro verbo: o que se fecha fica “resolvido definitivamente. interromper. Dizemos rematar quando queremos exprimir que se “pôs fim ou conclusão a uma coisa com um sinal próprio ou de um modo completo”. cessar. de entrar. como que estabelecendo uma certa relação de ordem ou de seguimento entre a coisa que se ultima. de chegar. – Terminar é “ir ao termo. Ontem se concluiu o negócio. não somente sem vergonha e sem consciência. que a toda suspensão de trabalho ou ação pode aplicar-se. terminar. – Fanatismo. Segue-se que em todos os casos em que se aplica findar pode aplicar-se acabar. Há prevenções justas e razoáveis: é mister examiná-las. formal. suspender. Hoje se acaba minha fadiga. ao meio-dia acabou de correr. para sempre. porém. esforço “para chegar ao fim”. e até pode ser que solene”. quando a um aparte do ministro. e às vezes alguma outra coisa que se lhe pode seguir”. descontinuar. e é nesta última acepção. findar. Em nenhum destes exemplos se pode usar sem impropriedade do verbo concluir. ainda que não seja por muito tempo. – Entre findar e finalizar dáse uma diferença análoga.. – Acabar e findar têm muito íntima conexão. Como as ações destes dois verbos são em geral inseparáveis. bem marcado. sem indicar diferença alguma. segundo o mesmo Roq. “Findou o sofrimento da triste criatura” (e não – finalizou). senão puramente de uma ação que cessa. ultimado”: o que se remata “tem termo preciso. finalizar. concluir. parar. mas a inversa não seria exata. que se distingue de findar. levar ao fim (ao cabo). etc. que findar enuncia simples fato em muitos casos em que acabar enuncia ação. – “Cessar – diz ainda Roq. é romper a continuação ou seguida do fato com o que fica por fazer”. não acaba de chegar. no entanto. basta buscá-la num exemplo. terminar. além de “ter fim” – chegar. fechar podem confundir-se. que nasce das opiniões supersticiosas. “é um zelo cego e apaixonado. Findar é “ter fim”. . rematar. Um exemplo: “Quando ouvimos aquela apóstrofe vibrante supusemos que o orador ia ultimar as graves acusações. o princípio que teve essa coisa. não a coisa concluída. no qual o que se acaba seja precisamente a ação de outro verbo: Amanhã acabarei de escrever. acabar é. neste caso. mas ele continuou no mesmo tom veemente. 76 ACABAR.

arruinado. fatigado. – Expirar é “render o último alento. amofinado. alterado. exausto. ralado. – Interromper e suspender. combalido. expirar. Fenecem as serras nas planícies. – Falecer é fazer falta acabando. – Todos estes verbos significam “chegar ao fim”. debilitado. exaurido. ou de se fazer sentir por intervalos”. “Para o relógio quando se lhe acaba a corda”. exinanido. – Fenecer é chegar ao fim do prazo ou extensão própria da coisa que fenece. mortificado. quer se trate de duração ou de espaço. dar o último suspiro. de atuar. cessar de todo. falece. chegar ao limite”. Muitas vezes se acaba a vida antes que tenhamos acabado a mocidade. gasto. e às vezes por desastre ou infortúnio. à míngua. e não perece. extinguir-se. extenuado. demudado. ou deixar de exercer por algum tempo função própria ou alheia”. esgotado. fenecer. Morre tudo quanto é vivente. acabrunhado. acabar de ser”. falecer.60 Rocha Pombo levar ao termo. velho. morrer. nos naufrágios?! Todos os seres animados finam-se quando. ou há de perecer tudo quanto existe. nos cárceres. nos incêndios. – Morrer é acabar de viver. e às vezes no mar. uma cidade. Quantos têm perecido de fome. aliás. Morre o vivente. curvado. – Extinguir-se significa “fenecer. mudado. prostrado. de inimigos ou de rivais. aniquilado.. perder a vida. que a serra vai morrendo. fina-se o homem. do mesmo modo que diziam os latinos vita functus est. – Finar-se exprime propriamente o acabamento progressivo do ser vivente. e por sua desventura também muitas vezes perece. 7 Figuradamente dizemos. abati- do. nem se fina. avelhentado. nem falece (nem fenece). e por uma espécie de eufemismo. e não morre. quebrantado. definhado. Falece o homem quando passa da presente a melhor vida. enunciam ação de “cessar. 77 ACABAR. “Intermite-se a aplicação de um medicamento quando sobrevêm acessos do mal que se combate”. acabar de existir no mesmo instante”. inanido. nem falece. e sugere a ideia do desaparecimento da coisa que se extingue. ou morrer de todo. acaba. Descontinua-se quando “se deixa de prosseguir aquilo que é contínuo ou sucessivo”. enfraquecido. mas não se dirá que faleceu aquele que morreu na guerra ou às mãos do algoz”. como descontinuar. Perece um edifício. nem morre7. consumido. tratando-se de movimento ou de função”. – Perecer é chegar ao fim da existência. Depressa se acaba o dinheiro a quem gasta perdulariamente. desfeito. macerado. que um homem faleceu quando acabou seus dias naturalmente. cessar de agir. cansado. – Intermitir é “suspender ou interromper de momento a momento. – “Acabar – escreve Roq. Perece. também as plantas morrem. e de um modo mui genérico. para indicar que vai baixando pouco a pouco até acabar. finar-se. desfigurado. acabar. acurvado. etc. e porque as plantas têm uma espécie de vida. nos suplícios. idoso. perecer. – significa chegar ao cabo ou fim de uma operação sem indicar a conclusão. Acaba ou fenece a serra. ter fim. mas o irracional não falece. – Fenece a vida do homem muitas vezes quando ele menos o espera. quebrado. – Parar significa “cessar. alquebrado. Morre. mas morre muitas vezes às mãos de assassinos. nem se fina. de sede. 78 ACABADO. suspende-se alguma coisa quando “se a interrompe por algum tempo e a deixa pendente”. Diz-se mui urbanamente. extenuadas as forças. . descomposto. envelhecido. nos terremotos. pagam o tributo à lei da morte. O homem não morre só quando o prazo dos seus dias está cheio. interrompe-se alguma coisa quando “se lhe corta ou suspende bruscamente a ação ou o modo de ser”.

desfeito. – Consumido indica melhor o que se sente “ferido profundamente na alma. de doença. – Mortificado = “ferido de angústias. demudado. – Combalido exprime “abalado. está hoje abatida. como diz Bruns. – Como desfigurado – descomposto. velho é o que. atormentado pelo sofrimento. por fadiga. mortificado pelos padecimentos”. de desgraça. – Envelhecido e avelhentado: o primeiro se aplica à pessoa que parece ter mais idade do que realmente tem. medo. . muito enfraquecido pelas privações”. “que não é precisamente ao exercício das virtudes que se deve o estar gasto”. que enuncia apenas a ideia de “não nutrido. – Definhado = “consumido. avelhentado é o que tem ares de velho. afligido. – Amofinado = “ressentido de moléstia. – Cansado e fati- gado exprimem a mesma noção de “quebrado de forças”. – Extenuado = muito exausto. – Desfigurado está aquele que mostra na fronte “sinais de depressão física produzida por alguma doença. – Quebrado se diz daquele que está enfraquecido. – Gasto confundir-se-ia com os precedentes. Agora está combalido: o tempo não poupa nem a glória. e por isso falto de forças”. – Exinanido = “aniquilado. – Abatido significa “desfigurado e enfraquecido. o já não ter o vigor. de susto. Diz também “o que a moléstia afligiu. É mais forte que inanido. que parece tombar”. Entre exaurido e exausto pode notar-se esta diferença: exaurido dá melhor a ideia da causa que exauriu. etc.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 61 transtornado. mas há homens idosos que não se pode dizer precisamente velhos. com pequenas diferenças de nuanças. falto de forças (físicas ou morais). mofino. os trabalhos ou as doenças parecem ter feito mais estragos de que se devia esperar. doença ou idade”. exaurido e exausto seriam quase sinônimos perfeitos se os dois últimos não sugerissem ideia do esforço que produziu o esgotamento. – Quebrantado convém mais àquele que se deixou abater por motivos que muitas vezes são imaginários. – Ralado = “vexado. que vai murchando e morrendo de desconsolações”. “Aquela figura. – Arruinado = tão alterado na saúde ou nas forças que parece perdido. – Debilitado = “um tanto enfraquecido”. alterado. transtornado. e sugere alguma coisa de resignação. desmanchado indicam todos.. que parece estar morrendo”. ou o que os trabalhos amofinaram”. de trabalhos”. curvada pelo infortúnio”. Todo velho deve ser idoso. – Esgotado. mais que os anos. – Confunde-se com aniquilado: notando-se que este ajunta a quebrantado a ideia de humilhação. macerado. – Acabado dizemos daquele em cuja fisionomia o tempo. o que se deixa abater e como emurchecer de dor moral”. de todo o conspecto da pessoa abalada de sofrimento. – Acabrunhado ajunta à noção de abatido moralmente a ideia de profundo desânimo e tristeza. – Prostrado = “violentamente abatido. muito esgotado de forças. se sente enfraquecido e enfermo. – Velho e idoso distinguem-se assim: idoso é o que chegou à idade avançada. de remorsos”. também devido quase sempre a causas momentâneas. desmanchado. Aplica-se mais propriamente à situação da vida que à própria vida. – Curvado (e acurvado) enuncia ideia da postura daquele que a idade ou o sofrimento fez pender. mais exausto de forças do que devia estar. isto é. abateu e como que curvou. o estado do semblante. e enuncia de maneira mais completa e mais forte a noção de esgotado. que parece velho sem o ser. ainda ontem tão altiva. de sofrimentos. se deles não se distinguisse em sugerir. sem forças e sem ânimo”. mudado. esmagado de dores. – Alquebrado se aplica ao velho que a doença. devido à idade avançada. a louçania que só a idade não extingue. ou mesmo por algum sofrimento moral”. mas o segundo dá ideia mais clara de extenuamento. – Enfraquecido = “falto de forças”. sugerindo ideia de mal passageiro. – Macerado quer dizer “desfeito.

– Humi- . entristecer. perfeito. – Acabrunhar significa “abater o ânimo pelo castigo ou pelo sofrimento. aqui. de pontualidade. a que o autor. de exatidão que não há em completo. essa ideia de execução. a do aborrecimento. – Magistral é “o que foi feito com mestria ou consumada perícia”. e um esposo é completo. e sugerir. magistral. – Perfeito significa propriamente “feito de modo completo”. plenas informações. que satisfaz completamente”. – Pleno diz propriamente “cheio. apoquentar. é sinônimo perfeito de completo. aquilo. angustiar. agoniar. soluções cabais (completas e decisivas).. uma dançarina perfeita (e não – completo médico. inquietar.. como. Razões. completo. Além disso. O mesmo não se poderia dizer de acabado. do mau humor em que se sente o apoquentado. ou pelo menos as qualidades mais excelentes que caracterizam um tipo”. pois um é encarado sob ponto de vista mais restrito que o outro”. algumas linhas antes. dançarina completa).” É preciso. ou o artista (se se trata de uma obra de arte) pode ainda acrescentar alguma coisa. o serviço no qual se reconhecem as perfeições do autor ou do mestre que o executou. definitivo”. da rudeza com que se molesta e aflige. pode não brilhar (ou não ser “beleza”) senão sob um certo ponto de vista. vexar. além de completo. afligir. diz o próprio Lafaye quando escreve que o que pode ser melhor não é perfeito. – Amofinar e apoquentar são muito próximos: ambos exprimem a ação de diminuir a coragem com pequenas coisas. aborrecer. Pleno direito. ou com que se faz alguém sofrer”. acrescentar que cabal. e exprime virtudes ou méritos em conjunto. – Afligir diz propriamente “abalar a alma violentamente. e apoquentar. portanto. – Oprimir dá ideia “do gravame. amargurar. e que só se aplica a fatos morais ou a coisas de espírito. completo. é o trabalho. notando-se apenas que “em cabal há uma ideia de justeza. sentenças. no entanto. contristar. ferir de grande mal. opri- mir. e dá ideia do desespero em que fica o que se aflige. sessão plena. às coisas que se lhe referem. – Completo aplica-se apenas ao homem. “Um amigo 8 É tal a dificuldade que apresenta a falta de precisão absoluta do valor lógico de certas palavras que em muitos casos é forçoso admitir formas como esta – mais perfeitas – apesar do que. molestar. não é acabado”. e significa “que reúne todas as qualidades. a produção. perfeito é mais extenso: aplica-se tanto ao homem como às coisas. inteiro. Distingue-se dos demais do grupo em conservar a atividade predicativa do verbo. humilhar. um certo mérito. Delaf. da impaciência. “O que pode ser melhor – diz Laf. atormentar. diz também “alguma coisa de terminante. M. importunar. – Cabal. inquietar muito. no entender de Bruns. consternar. pleno. pelo peso de algum desgosto ou de alguma desgraça”. por exemplo. – não é perfeito. Uma beleza perfeita – diz o citado autor – tem a qualidade “beleza” em alto grau. ou a perfeição sob um ponto de vista particular.62 Rocha Pombo 79 ACABADO. Dizemos: um perfeito médico. sendo que amofinar sugere a ideia da tristeza em que fica o que se amofina. 80 ACABRUNHAR. é antes perfeito. desgostar.me Mazarin era uma das mais8 perfeitas belezas da corte: só lhe faltava espírito para ser completa. sob o da figura: uma beleza completa reúne muitas perfeições. magoar. mortificar. incomodar. cabal. enquanto que perfeito é mais próprio para designar uma certa qualidade. amofinar. É mais genérico do que perfeito. muitas qualidades eminentes. – Acabado. explicações. se diz em referência a uma “coisa que se fez de modo tão perfeito que nada se deixou a desejar”. e aplica-se àquilo que foi elevado ao mais alto grau de perfeição.

ferir de grande angústia. – Atormentar é “afligir de tormentos. que realmente era de contristar os ânimos mais fortes. “Ela entristeceu (ficou triste ou mostrou-se triste) diante daquela cena. instituto. – Entristecer é propriamente “encher de tristeza”. – Também é convizinho destes importunar. ou um aborrecimento que não é duradoiro”. ou alguma grande desgraça. – Consternar é “produzir um sentimento tal de pesar. Discordamos de Bruns. – Amargurar é “causar dor acerba e profunda. mesmo que não sejam todas as que se podem professar. sendo-lhe. que se lamenta como castigo do céu. 81 ACADEMIA. aborrecer é “pôr de mau humor. à vista de alguma fatalidade. equiparados até certo ponto”. que determina a classe do mesmo e a denominação que lhe compete. Uma autoridade injusta ou estúpida pode afligir-nos. enfastiar. colégio. universi- dade. e equivale a “oprimir envergonhando”. quando estranha que se não possa dizer “a universidade de medicina de Lisboa. vexar-nos mesmo: nem por isso nos humilhará. pois este já enuncia que a coisa que nos contrista “produz em nossa alma uma pena mais funda”. liceu. ou um pressentimento inquieta. Uma academia. no entanto. deixando o atormentado como em conturbação. em aflição horrível”. que significa “afligir ligeiramente. uma ligeira dor incômoda. um aperto em que nos põem. luto e tristeza que faz supor a alma como prostrada de dor imensa. ou numa cidade. em ânsias de dor”. uma inadvertência. por universidade designamos o estabelecimento onde se professam muitas faculdades. Um garoto decerto que nos vexa (ou nos molesta) em público se nos expõe a algum ridículo. – Molestar e aborrecer aproximam-se do precedente. de rebaixar. nem a categoria do ensino que se dá no estabelecimento. – Magoar enuncia a ação de “produzir ligeira dor. – Desgostar é “contrariar o gosto de alguém. já que estes estabelecimentos em nada dependem da universidade de Coimbra. – Todas estas palavras designam estabelecimentos onde se ensina ou se estuda. pondo a alma em estado de confrac- ção tal que ela só sente forças para repugnar a vida”. oprimir-nos. porém. uma falta que se cometeu desapercebidamente. e de assombro. É menos intenso que contristar. – Universidade devia ser o conjunto de todos os cursos que se podem fazer num país. Temos academia ou escola de . a escândalo. de diminuir os créditos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 63 lhar acrescenta à ação de oprimir a ideia de afrontar. ou os mais duros corações”. podendo ser que o vexado nem por isso se sinta ferido propriamente na sua honra. ou mesmo uma só arte ou uma só ciência. – Angustiar é “pôr em grande aperto de alma. a universidade de medicina do Porto. e diferençam-se assim: molestar sugere a ideia do incômodo que se causa à pessoa molestada. os de predicação menos forte: uma suspeita. – Mortificar é “afligir até deixar exausto de forças ou de ânimo como se estivesse a morrer”. um mal-estar. Distingue-se de vexar por isso mesmo: porque sugere o intento. ou uma escola toma a si apenas uma certa ordem de ciências ou artes. “tira a calma e serenidade” (diz muito menos que aflige). – Inquietar e incomodar são. ou ainda num vasto instituto de educação. causar desgosto a alguém”. Não é propriamente a independência de que aí se fala. de todo o grupo. mas não nos humilha. É nisto antes de tudo que consiste a diferença entre universidade e os demais termos do grupo. escola. causar displicência”. isto é. ginásio. por parte de quem humilha. hoje. – Agoniar é “impor ou fazer sofrer suplício ou aflição como de agonia”. fazer perder a paciência”. de abusar dos brios do humilhado: enquanto que vexar exprime a ação de expor a afronta.

por exemplo. ou “de aprendizes marinheiros”. e só por figura é que podemos aplicá-la para exprimir a totalidade das nações do nosso mundo. É preciso notar ainda que tanto academia como escola podem designar estabelecimento onde se ensinem diversas ciências ou artes. – Colégio e instituto são os mais genéricos do grupo. direito. etc. de engenharia. Se se disser só – escola. ou – “universo solar”. o nome de ginásios a colégios onde se ensinam matérias do curso preparatório. e se quiséssemos dar-lhe os mesmos restritivos que são indispensáveis tratando-se de escola ou de academia. Instituto é ainda mais genérico e extensivo do que colégio: pode aplicar-se a toda categoria de estabelecimentos onde se estude ou onde se ensine. Quando empregamos esta palavra para designar um instituto onde se professam apenas algumas faculdades. porém. o nosso interlocutor não terá noção exata. mais particularmente aplica-se a internato. ou “de altas ciências”. Dá-se hoje. matemática e teologia. ensina diversas especialidades ou classes de ciências. – Academia e escola são usados.. pela simples razão de que esta ordem de institutos. compreende todas as academias de artes e ciências de Paris. ou “academia de agricultura”. quando reduzimos o universo ao nosso mundo. quer tratando-se artes liberais.64 Rocha Pombo medicina. Não se sabe como usar de nenhum desses dois vocábulos sem um restritivo que lhes designe a especialidade de conhecimentos que ministram. ou mesmo academia ou escola de música. precisa do estabelecimento a que nos referimos. que academia é mais nobre. etc. como a cursos práticos de artes e ofícios. mas este se aplica tanto a escola de instrução secundária. Mas esta forma não faria mais do que pôr em destaque e tornar flagrante um absurdo que passa disfarçado e que é tolerável enquanto não se tenta restringir expressamente o termo universidade. em grande número de casos. Dizemos “academia ou escola de belas-artes. mas não diremos “academia de artes e ofícios”. escola de cirurgia. Colégio é estabelecimento onde se reúnem pessoas (meninos ou adultos) para estudar. de direito. desde – “intituto primário” – até – “instituto de altos estudos”. Escola é mais prática e mais popular. teríamos de juntar-lhe todos os que fossem necessários para designar as diversas ciências professadas. Ginásio designa estabelecimento (internato ou externato) onde se faz educação tanto moral como física de meninos ou moços. ou melhor as artes ou ciências de toda uma categoria. Deve notar-se.. ou onde se ministre ensino superior.. – ou só – academia – há de subentender-se que se sabe já de que academia ou escola se está tratando: ou então. ou – “universo da estrela d’alva”. escola ou academia de belas-artes. pois a ideia dominante que o termo sugere é a da “reunião das pessoas que foram escolhidas e que ficam no estabelecimento em perfeita igualdade de condições”. quer tratando-se de ciências. no entanto. por exemplo – universidade de medicina. ou onde se dá um cuidado mais especial aos exercícios físicos. O Instituto de França. Mas o que certamente se não nos permitiria é que tentássemos dizer sem dislate clamante. por ex. por exemplo – “universo mundial”. e isto porque a palavra “universo” abrange todos sistemas de mundos. Liceu está no mesmo caso.. e pode abranger todo gênero de estudos. – Ginásio e liceu são os menos latos do grupo. . de direito. indistintamente. academia de pintura. ou “academia de instrução primária”. não pecamos mais contra a precisão lógica do vocábulo do que. O mesmo não se dá em relação à universidade. e dizer. e só se aplica a estabelecimento onde se façam altos estudos. de medicina. em vez de uma. de letras.

pundonoroso. Só se acaridam. demonstrações de muita benevolência e afeto. pudicícia. como. Daí o fato de ser acarinhar menos expressivo de ternura do que acariciar. Acarinha-se a um amigo. mimosas e têm o nosso amor comovido. ou a todas as criaturas desvalidas. agradar.. acariciam-se as crianças. entrando. deixar satisfeito. enchendo-as de afagos e mimos. de atos de amizade. gestos e atos. Afagar é fazer. arraial. – Acariciar é “tratar com carícia”. pudor e pundonor.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 82 ACALENTAR. palavra tomada ao espanhol. isto é. pois ambos indicam que se deseja fazer contente. isto é. “Jesus acarinhava a todo o mundo. e por todos que precisam da nossa assistência e socorro.. ou que se acham em situação em que tenham o direito de contar com a nossa bondade de coração.. – Bivaque (do frandês bivac) é o estado de um exército acampado ao ar livre. acariciar. bem impressionado. num salão sumptuoso. Entre acanhado e tímido é preciso notar diferenças que à primeira vista se não percebem distintamente. portanto. àqueles que são menos felizes do que nós. pudico. vergonhoso. – Amimar é tratar com mimos. e até vícios”. “acampamento é termo genérico. – Consolar é. pudor. desejos. com “manifestações delicadas de afeto e desvelo. acaridar. 83 ACAMPAMENTO. pudibundo. 65 afagar. – Acalentar designa particularmente a “ação de aquecer a criança nos braços para que sossegue e adormeça”. apoucado. por palavras. por ex. mas particularmente designa o recinto ou área onde um exército em campanha ergue as suas tendas e se instala com certa comodidade e segurança. é quase afagar. se fosse criança a pessoa que se amima”. beijando-as. por extensão. no entanto. Este último verbo. grata conosco a pessoa a quem se agrada ou se afaga. bivaque. sendo carícia sinal mais delicado ainda de amor do que meiguice. vergonha.. mas as crianças ele acariciou sempre com um estremecimento que dizia bem até onde era capaz de ir. 84 ACANHADO. – Ameigar diz propriamente “tratar com meiguices. hoje é termo poético. mo- desto. ou dirigindo-se a personagem ilustre. Acarinham-se a todos os meninos. tímido. no enlevo de amar. e por extensão e figuradamente pode aplicar-se nos casos em que se trata de coisas morais ou abstratas. antes de tudo porque são tenras. a sua ternura divina”. – Agradar. acarinhar. como: “acalentar sonhos. procurar diminuir a pena. dispor bem. modéstia. – Acanhado se diz do que tem “tão pouco desembaraço e vivacidade e que se mostra tão tolhido que parece diminuir-se aos nossos olhos”. sem tendas nem comodidades. timidez. tratando-as com afeto paternal. mesmo do que carinho. apoucamento. aqui. meigo o que é tratado”. doce. – Acaridar diz propriamente “tratar com caridade”. só se acariciam aquelas criaturas que merecem os nossos afagos e blandícias. amimar. A pessoa tímida é natural que se mostre acanhada. a uma pessoa que se estima. – Se- gundo Bruns. “por meio de carinhos. de modo a fazer suave. e tanto quanto afago o é em relação a agrado. também por atos e palavras. reales. – Arraial. é mais expressivo e intenso. diz-se do terreno onde esse exército passa a noite ao sereno”. com muita brandura. agradar é apenas. consolar. acanhamento. designava o acampamento em cujo centro se elevava a tenda do rei. minorar o sofrimento. mostrando o amor que as almas bem formadas têm pelos que sofrem. ameigar. de palavras de conforto. ou tornar esquecido ou menos intenso o pesar que aflige alguém”. É natural também que a pessoa . esperanças.

A ação é o exercício de uma potência. e consiste num sentimento natural de justa medida em tudo – no agir. Apoucado. no trato com toda classe de homens. de irresolução e perplexidade. portanto. não seria própria esta forma: acanhado e tímido. está em ação e produz o ato”. já não dá só ideia de simples tolhimento de alma: significa a vacilação. aos olhos de outrem. consumado e reconhecido”. uma condição de índole. Timidez é. – Segundo Lac. – Fato designa “ato de certa importância. tacanho. portanto. de parecer. por uma delicadeza da consciência moral. de pudor. é a virtude de ter pudor”. no modo como se comporta. o enleio no movimento e na expressão. Modesto diz. diz “escasso. de retraimento. Ambos sugerem ideia de fina sensibilidade em questões de moral.66 Rocha Pombo acanhada pareça tímida. “o que tem pundonor”. ato. mesquinho. o pejo que. neste grupo. imprestável. o enleio da pessoa pudica”. – Pudico e pudibundo também se confundem. Pundoroso é. a pequenez de alma e de espírito que diminuem um indivíduo e o tornam inútil. quando emprega a sua energia. mas devem distinguir-se assim: pudico diz o “que tem pudor”. mesmo porque é de supor que uma criança é inconsciente em questões de bons costumes. ação é “um vocábulo abstrato. mofino. nem mesmo se deve admitir apoucamento como degeneração ou vício da modéstia: segundo a própria formação. comedido. e que se manifesta ou pela desconfiança que alguém nos inspira. sem ambições exageradas. – Apoucado e apoucamento não se podem confundir com os dois precedentes. à vista do que. timidez diz algo de tibieza de ânimo. no sentido que tem aqui. pudicícia é a “qualidade de ser pudico. – Vergonhoso. esmero com que se defende a honra”. assim. benigno e afável. cuidado.. nem ímpetos – em suma sábio. de boa fama. discreto. A potência. moderado. sem o modo de ser normal. – Pudor e pudicícia usam-se frequentemente um pelo outro. e significa “nímia susceptibilidade em questões de brio e amor-próprio. trôpego. trôpego. Acanhamento sugere alguma coisa de rude. pudibundo se emprega para designar “o gesto. não sendo a inversa perfeitamente verdadeira. mas o acanhado revela quase sempre timidez. acanhamento diz o gesto tacanho. o escrúpulo. De sorte que se pode entender acanhamento como sinal de timidez. os modos e ares indecisos que revelam a timidez. que expressa a modéstia. na acepção moral desta palavra. ato é um vocábulo concreto. pelos modos como se apresenta. a postura contrafeita. uma qualidade subjetiva. diz mais do que tímido. o recato. sem o valor que se devia esperar”. de um modo incorreto. no falar. ato é o resultado da ação dessa mesma potência. Uma criança é natural que seja tímida. razoável. . indulgente. nos impede de comprometer o nosso decoro. ou pelo receio de que sejamos malsucedidos. Uma criança tímida. mas pudor é o próprio sentimento que induz a escrúpulos delicados contra tudo que se oponha à honestidade e à decência. O tímido pode não ser acanhado. – Pundonor parece termo que os espanhóis adaptaram da dicção francesa point d’honneur. sem exal- tamentos. nem por isso há de ser vergonhosa. apoucamento exprime a falta de ânimo. e pode ser tímida sem ser propriamente acanhada. portanto. 85 AÇÃO. ou ainda pela dúvida em que nos sentimos a nosso próprio respeito. – Modéstia não parece que seja bem como definem os lexicógrafos – uma completa ausência de vaidade: é antes uma virtude dos sábios. fato. pois a vergonha. o modo que revela pudor. – Pudor e pundonor são palavras de significação muito distinta e que só por erro ou inadvertência são confundidas às vezes.

como este. uma luta caracterizada pela elevação dos motivos. se apressam a investir um contra o outro”. Dizemos – “as lutas políticas” –. luta convencionada. pequenina. recontro. Ação aqui é “o exercício da atividade hostil entre duas ou mais forças em conflito”. o choque. – Combate – diz Bruns. de troços de exércitos inimigos que travam luta entre si. só defendendo a sua causa. no entanto. entre outras coisas. violenta”. – Pleito é quase o mesmo que litígio: pode. conflito. que significa.. questão judiciária”. é peleja formal e de resultados decisivos quase sempre. a oposição ativa em que se põem duas ou mais pessoas ou coisas”. – Desafio é “o ato de provocar outra pessoa para duelo”. e só por extensão se aplica no sentido de luta. regulada e solene. é a fase. combate. contenda é “a fase a que pode chegar a pendência tornando-se mais viva. Lide será. Além dessa acepção. contenda. e esperando pela sentença (placitum) ou pelo desenlace favorável. diferençando-se em que a rixa pode ficar só na disputa de palavras ou degenerar em briga. intensa. luta. mas não pelejam. Em – “lutas da imprensa” há a sugestão de que os trabalhos do jornalista amargaram no embate das intrigas e das perfídias. não esquecer que lide (ou lida) vem de lis. “marchar contra. ou medindo forças e destrezas com capricho. – Conflito é “o encontro hostil. sem armas”. Mas a contenda parece uma gradação da pendência. campanha. – No latim prœlium figura como radical o verbo eo. portanto. pugna. ou “o estado de conflito em que se põem duas ou mais pessoas. mas sugere melhor a ideia da correção dos que pleiteiam. batalha. combatem-se. e sem graves consequências”. – Ação é o mais genérico do grupo: seriam raríssimos os casos em que não pudesse substituir a qualquer dos outros. “as lutas da imprensa ou do jornalismo” – diz outra. aqui. – Litígio. exprime “nobre questão em que alguém se empenha confiante na justiça”. litígio. pleito. ire. Pode dar-se entre .Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 86 AÇÃO. processo.. atacar”. – Briga e rixa são termos vulgares que significam “disputa escandalosa. 67 lide. lutam. peleja. – Contenda e pendência aproximam-se bastante: ambos sugerem mais ideia de controvérsia e discussão que de luta material: se bem que se não lhes recuse esta última acepção. com que se empenham devotamentos pelas grandes ideias de que se presume que trata sempre um jornalista cônscio da sua missão. – Peleja designa a luta encarniçada e corpo a corpo.. mais apaixonada. “As lides do jornalismo” – diz uma coisa. Pleito. mas sem leviandades”. ou mesmo duas ou mais nações que não puderam chegar a acordo em relação a algum reclamo ou intento”. briga. desafio. discutindo sem má-fé.. guerra. mas é muito mais próprio dizer – “as lides acadêmicas”. pendência. em – “lides da impren- sa” sugere-se o afã nobilíssimo com que se trata das altas questões. prélio. por motivos fúteis. aplica-se o termo combate para designar qualquer luta em que a vida está exposta: o combate dos Horácios e Coriáceos terminou em combate entre dois homens”. litis “pleito. significar também questão judicial propriamente. Esta é o “litígio ou a questão em que se empenham duas ou mais partes trocando razões e argumentos. – Lide e luta tomamse ordinariamente quase como sinônimos perfeitos. – “é o encontro de ordinário imprevisto. Dois inimigos separados por um rio ou por outro qualquer acidente. duelo. por questões de pundonor”. ou pelo menos de grande importância. aliás. e pode assim apanhar-se no português prélio a significação de “luta em que os lutadores se adiantem. convém. refrega. – Pugna significa propriamente “luta a punho. – Batalha é combate de vastas proporções. rixa. – Duelo é “a luta entre duas (ou mesmo mais) pessoas.

sina. bunal”. persegue-nos ou abandona-nos. ventura. Fora da acepção jurídica. demanda. – “A sorte é ao mesmo tempo efeito e causa.. e deixando também indecisa a luta”. que nos deixam estupefatos de prazer ou de dor. pretensões. porque o que nós chamamos processo é em francês procédure. por isso. sorte. querela se emprega para designar questões e dissídios de pequena monta. – Escreve Roq. os autos judiciais e termos que se fazem por escrito em qualquer litígio se chamam processo. entre interesses. “O acaso – diz ele – o mais fantástico de todos os seres desta série. e avoir un procès quer dizer em português – ter uma demanda. e delas provêm fatos. É forma geral e extensa que pode abranger quase todos os casos em que figurem as outras do grupo. fatalidade. tendo por isso muita analogia com a fatalidade. entre poderes públicos. Ao ato de pedir ou requerer em direito se chama demandar. isto é. Quantas descobertas são filhas do acaso? – A fortuna. Note-se. estrela. não se lhe referem fatos sucessivos: revela-se de quando em quando. fadário. favorece-nos ou esmaga-nos. ou de certa fase de uma guerra”. – Querela é equivalente quase a ação.” Temos. obra arbitrariamente. Luiz. querela. que no uso ordinário a palavra demanda não significa só o ato de intentar o litígio. sendo este apenas mais lato: é “a denúncia ou queixa que se dá contra alguém para reparação de agravo ou ofensa”. casual. indeciso entre inimigos”. e que este se trata e se desenvolve no processo. – Campanha exprime “todas as batalhas. dita. reaparece. o que se pode colher de Roq. ou a condição a que a fortuna ou o acaso trouxeram uma pessoa. e ao acaso só se imputam fatos isolados. processo. 87 AÇÃO. furioso como tormenta. e todas as vicissitudes de uma guerra. combates. questão.. oculta-se. – Acerca de muitos destes vocábulos. Os feitos que correm em juízo. felizes ou desgraçados. consubstancia Bruns. caprichosa. fado. É o acaso que nos leva ao lugar onde encontramos a felicidade ou a desventura. efeito quando designa o estado. pois esta parece obrar de um modo constante. e distribui os bens ou os males segundo o seu desígnio.. volúvel. entre seres inanimados. As suas manifestações não são constantes. entre animais. o uso do direito de pleitear perante um tri- . e de outros. 88 ACASO. Pleito é palavra castelhana.68 Rocha Pombo nações. entre indivíduos. S. mas ainda a ação proposta e disputada contenciosamente em juízo – o que vale o mesmo que litígio judicial ou pleito. É nisto que não se assemelha à fortuna. e neste caso diz o mesmo que litígio judicial”. litígio. de que os antigos fizeram uma divindade cega. prepara combinações de circunstâncias tão impossíveis de prever como de impedir. boa fortuna ou má fortuna. desejos. porém. À controvérsia judicial que se suscita quando o demandado não consente no que o demandante requer se chama com razão litígio. pleito. Os que neste caso usam a palavra processo cometem um galicismo. de fr. produzindo debandada. preside a todos os atos da vida. – Questão designa “toda espécie de dúvida em que ficam duas ou mais pessoas e que deve ser dirimida em juízo. – Refrega é “recontro violento. fortuna. segundo nos é ela favorável ou contrária. destino. – Ação é termo genérico ainda neste sentido: é o “próprio ato de requerer ou demandar em juízo. devendo notar-se que o primeiro termo só se aplica para designar a guerra terrestre. – Recontro é “combate ligeiro.: “Com muita razão diz um autor que a demanda dá origem e princípio ao litígio. ou perante uma autoridade superior”.

Refere-se à suposta influência dos astros no destino dos homens. mesmo de boas letras. quando. fortuna às elevadas (ou de mais vulto): a sorte de Creso ao lado de Ciro era mais invejável que a sua fortuna. ventura. não haveria talvez muita gente. ninguém pode resistir às leis do destino. é outra palavra do mesmo gênero. Refere-se mais particularmente a certas vicissitudes da vida mundana. e procurando por isso consolar-se dos erros ou deslizes. porventura. que se conservou na língua (com a significação que tem aqui). Eis por que denominamos destino à combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que se efetuam em virtude de leis inflexíveis. Podemos. e decerto que neste caso não empregaríamos sina. – Sina marca melhor do que quase todos os do grupo o caráter de fatalidade das coisas que têm de suceder na vida de cada um. geralmente. às extravagâncias de que alguém se lamenta. mas quando fazemos alusão às amarguras que quase todos tiveram de sofrer. mas sem coragem para corrigir-se. – São re- almente muito fáceis de confundir-se. quando fazemos referência às ações ou obras que lhes deram lustre. Sina e destino seriam sinônimos perfeitos se o primeiro não se limitasse de ordinário às coisas funestas da vida. qualquer das três formas. acompanha-nos. e por mais que façamos. a palavra sorte aplica-se melhor às condições modestas. Dizemos. José de Lacerda. no entanto. aniquila-se a nossa vontade: somos obrigados a obedecer ao destino. que lhe deram origem. como bem o prova a acepção que esta palavra tem nos contos de encantamentos em que se vêm príncipes. considerando-a um misto de acaso ou de fortuna. é claro. A fatalidade não obra arbitrária e caprichosamente: obedece como a um impulso omnipotente. – O fado é o estado que resulta das imposições do destino.. dizer – “a sina dos grandes homens”. 89 ACASO. transformados em rãs ou outras alimárias. porém. ou que tem boa ou má estrela. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” Em qualquer desses casos. – Ventura e dita são também seres fantásticos sem vontade certa nem determinada. O estava escrito dos maometanos é a fatalidade. Nas três frases seguintes vejamos. – Fadário é – diz Aul. não nos deixa. Os seus decretos eram irrevogáveis e tinham o caráter da fatalidade. não exprimiría- . em vez de acaso. se poderiam ser trocadas. e que nos trazem fatal e inelutavelmente ao ponto em que só nos resta obedecer: ante o destino desaparece a nossa força. que hesitasse em empregar indistintamente. da fortuna e da sorte. a predestinação de S. sempre tomam-se a boa parte. uma divindade cega a quem os deuses e os homens estavam submetidos: tinha nas mãos a sorte dos mortais. – “o alto destino de Napoleão”. e no entanto. – “destino extraordinário e irresistível que se atribui a um poder sobrenatural”. até que um certo acontecimento os venha libertar. atribuindo-os ao seu fadário. – A fatalidade (do latim fatum “o que está dito ou decretado”) distingue-se do acaso. e dita. ou sem preferências. entre os antigos. no cristianismo. Por outro lado. se na primeira frase. lhe atribuímos um fato isolado. a uma disposição superior e impenetrável. conservando-se-lhes uma perfeita propriedade: “Teria o nosso amigo visto acaso alguma coisa estranha lá no parque?” “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” “Terias. apesar de terem passado as quimeras da astrologia. como diz D. por ex. persegue-nos. em ser agente e não sujeito. sujeitos ao seu fado. oh rapaz. – O destino era. Paulo. ou uma série de fatos favoráveis ou desfavoráveis. e ainda hoje se diz que “tal indivíduo nasceu em boa ou má estrela”. não. puséssemos por acaso.. – Estrela. por acaso. O nosso fado é intangível. como é fatalidade.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 69 causa.

e quase nego. então. Caim retrucou ao anjo que lhe perguntava por Abel: “Sou eu acaso o guarda de meu irmão?” Este acaso. a tudo aquilo a que . que se dá às coisas santas. reverência ou veneração. com respeitoso temor. Quando pergunto se ele “viu por acaso”.70 Rocha Pombo mos com a mesma precisão o pensamento de quem perguntava. respeito. ou consideração. – Reverência é respeito com temor filial. Luiz. só muito raramente poderá a locução por acaso ser substituída por qualquer dos dois outros advérbios. a mesma ideia de estranheza e negação. e não sugere. “sem que te apercebesses”. a ideia do interesse com que se espera por uma resposta satisfatória quando se faz a pergunta. as suas infelicidades. devendo notar-se que. Quando pergunto se o nosso amigo “viu acaso”. respeitamo-nos a nós mesmos. etc. em vez de indiferença. há de ser a mesma que se acaba de assinalar. as coisas religiosas e sagradas. os magistrados. limpando a pena”: aí não caberia. – Deferência é o respeito que se tem aos sentimentos. à virtude. para dizer o que desejamos. Deferimos (rendemos deferência) à idade. isto é. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” – enuncia o meu intento de saber uma coisa que desejo e pela qual estou ansioso. acatamento. veneração. “És tu acaso meu filho?” “Veio ele acaso ter conosco?” “Tinha eu acaso notícia da tua chegada?” Em nenhum destes exemplos. – Fora dos casos interrogativos. rebate. e se eu empregasse o advérbio acaso. reverência. que se tem ou se dá a alguém ou a alguma coisa. distinguindose esta forma daquela em sugerir. espécie de culto. os pastores. reverenciar. por alguma superioridade que julgamos haver nessa pessoa. oh rapaz. – Segue-se. “acatamento é todo ato externo com que mostramos o nosso respeito. acaso nem porventura. “Passaste acaso?” – equivaleria a – “Dar-se-á que tenhas passado?” ou – “Será possível que tenha passado?” E – “Passaste por acaso?” – diria: – “Por uma casualidade (isto é. o soberano. os pais. “Chegamos por acaso à livraria. Se eu empregasse a locução por acaso. repulsa. os santos. os nossos deveres. – Segundo fr. que ele tenha visto. não mostraria o mesmo interesse. ou às que reputamos como tais. ao saber. preferindo-os aos nossos próprios. dizendo: “Terias visto ou encontrado acaso alguém à minha espera?” – é como se fizesse a pergunta insinuando a negativa. fomos dar conosco por acaso junto ao morro. pelo menos. Reverenciamos os mestres. – Respeito é a atenção. mais ou menos. venerar. desejos e gostos de qualquer pessoa. Veneramos a Deus. ou aos objetos que julgamos mais dignos de respeito e honra. como acaso. feri o dedo por acaso. respeito religioso. 90 ACATAR. portanto: – que acaso sugere contrariedade intencional e dá à pergunta a função de negar: – que por acaso é mais convizinho de porventura. os nossos justos interesses.. reverenciamos tudo aquilo. deferir. se há necessidade de distinção. decerto que exprimo dúvida também. os seus direitos. respeitar.. como no exemplo acima. deferência. ou estranho que isso se tenha dado. Respeitamos os outros homens. ao mérito. S. em cuja presença estamos como o filho costuma estar diante de seu pai. seria indiferente usar acaso e por acaso. todas as pessoas a quem devemos esses sentimentos. ponho em dúvida. em nenhuma dessas frases. ou “sem que tivesses tensão”) passaste?” – A terceira frase: “Terias. – Veneração é respeito profundo e submisso. mas aqui a minha dúvida é mais condescendente. Acatamos. nega intencionalmente o que se pergunta. – Na segunda frase que formulamos acima: “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” – também não poderíamos substituir a locução por acaso por simplesmente acaso.

“F. admissível a forma: “está cauto”. – Não há dificuldade em distinguir prevenção de sobreaviso. a vigilância do espírito contra o que pode sobrevir”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 71 tributamos algum gênero de culto. “vir antes”. pre- venido. Quem se previne põe-se de ânimo desconfiado contra alguém ou alguma coisa. mas previno-me contra o frio.” 91 ACAUTELADO. prudência. e precaução é o ato de precaver-me. o modo de ser precavido. é o estado ou a atitude de suspeita em que se fica em relação ao que se deve temer”. – Prevenir (do latim prœvenio. A prevenção. e entre os respetivos conexos. que lhe é própria) daqueles abismos”. e acautelo-me deste ou contra este agasalhando-me. em boa guarda”. portanto. portanto. ou segurança... ou em certas circunstâncias: e então “está acautelado”. precavido. e é prevenido. ire “chegar antes. avisado. cauto. é “uma medida de prudência posta em prática antecipadamente. previdência. de meticulosa cautela”. e quem se acautela cuida de resguardar-se contra coisas certas de que está prevenido. mas é necessário não perder de vista o radical de cada um desses verbos: – venio. prevenir com cautela. “guardar-se”: à vista do que. – Acautelar diz. – Precaver em certos casos poderia confundir-se facilmente com prevenir. prever. chegar”: prevenir diz. a honra. Decerto que eu não me posso precaver contra a noite. pois ele não cogita de um determinado mal. ficou acauteladamente em casa”. e acautelar-me é dispor os meios de evitar alguma coisa que receio. Acautelam-se os interesses. cautela. Precaver-me é. precaver. guardar-me. etc. precatar.. Entre cauto e acautelado fica sem dúvida cauteloso. “adiantarse” à coisa contra a qual se previne. a atenção. e seguiu logo cautelosamente pelo jardim”. – caveo. os bens. pois.. prevenir-me é pôr-me de sobreaviso. aviso. Designa qualidade própria: não seria. acautelar. quem previne males previstos faz o que supõe que os evita antes que eles ocorram: daí a diferença entre acautelar e prevenir. como os pais. passar adiante. Entrou. Acautelado é o que toma cautela no momento. sendo este “a disposição de ânimo em que fica quem se previne”. pois. prudente. – Cautela é. acautelam-se os cautos contra males iminentes. cauteloso. – Cauto sugere ideia da firmeza e segurança do que sabe guardar-se contra os perigos. resguardos contra o mal que teme. consequentemente. a pátria. apercebido contra alguma coisa . ou está prevenido quem se põe ou se acha nesse estado. a fortuna. ficar ou pôr de sobreaviso a respeito de alguma coisa que se receia”. pôr a bom recato. Não diremos que o homem que segura a sua casa se acautele contra sinistros. prevenir. Basta sentir a diferença que há entre estas formas: “Ela sempre se livrará cautamente (com a cautela. como já ficou exposto. portanto. quem se acautela toma providências. e contra essa possibilidade é que se apercebe precavendo-se. sobreaviso. guarda-se.. “defender. nem se apercebe de que esteja para sobrevir sinistro. ire significa “vir”. – Precatar é “estar atento. prevenção. mas sou prevenido e acautelado. avisar. os homens de virtudes. “o apercebimento. defende-se por assim dizer de eventualidades.. tomar a dianteira”) enuncia a ação de “adiantar-se a tomar expediente acerca do que pode acontecer. Quem acautela os negócios de outrem cerca-os de garantias. precatado. precaução. precaver se aproxima ainda mais de acautelar que de prevenir. Mas entre acautelar e precaver há a diferença que provém de que aquele que trata de precaver-se toma cuidado. previdente. ere “tomar cuidado”. defender-me antecipadamente do mal possível. disposições. Não será por isso que eu seja precavido. que significa “prevenido de muito cuidado. mas julga apenas que isso é possível.

assentir. e também aprovar. uma graça. e sendo avisar a ação de despertar ou ter desperto o ânimo ou produzir esse estado. de vistas. deixa. de ideias. de modo de ver. e prudente será aquele que possua essa virtude. – Sentido é “o valor da palavra conforme a aplicação que tem na frase. apreendê-la com a mão (ou pô-la sob seu domínio). a qualidade de quem sabe prever. o chapéu. – Acep- quer que seja o motivo do consentimento”. precatado designa aquele que se não deixará pilhar desprevenido em caso em que da atenção dependa o sucesso. ou o que vem a nós. que faz o ânimo calmo. o que ela diz por si mesma. refletido e seguro no agir. nem supõe ação estranha. – Avisado é aquele que está fortalecido do aviso que convém. ou admitir por mero desejo de ser agradável ou de não contrariar”. “é declarar que se aceita o que outros decidiram. ou dê. etc. nem ideia de movimento que no-la traga. as armas para brigar. de não discordar. aderir. aquiescer. – Receber é tomar o que se nos dá.”.. ou se nos oferece. consentir. – Anuir é propriamente “fazer sinal. con- descender. tomamos amor. do mesmo voto. asco. Tomamos o vestido. . sendo o aviso esse estado de atividade consciencial em que se acha o avisado. aceitamos as condições de um contrato. tempo. – Conformar-se é “estar. uma injúria. que nos mande. porém. uma visita. e sem o qual não seria possível sair-se bem. – Previdência é. e assim. segundo Bruns. anuir. – Condescender é “consentir por tolerância”. Aceitamos um obséquio. recebemos um hóspede. – Muito judicio- ção dizemos dos “vários sentidos em que uma palavra pode ser empregada”. L. ou ofereça essa coisa. – Previdente é o que sabe prever. dar consentimento. “Tomar alguém uma certa coisa – diz ele – é havê-la para si. uma ferida na guerra. etc. tomamos ocasião. autorizar o que se nos oferece ou propõe. e prever diz “ver antecipadamente o que se pode dar em relação a alguma coisa que se deve evitar”. chamá-la a si. – Prudência é mais que aviso: designa a virtude de uma sábia ponderação. e prevenir-se contra surpresas. ou pôr-se em perfeita identidade de sentimentos. ou exprimir de qualquer modo. uma notícia. – Aderir é “dar aprovação afinal àquilo que se tinha recusado ou combatido”. a proposta que se nos faz. recebemos o foro que se nos paga. um favor. – Significação é “o valor semântico da palavra. – Aceder. – Aceitar é receber com agrado e boa sombra. que se está de acordo e se consente”. o dinheiro que se nos deve. uma certa gradação entre estes verbos. receber. sob uma outra ordem. – Consentir sugere ideia de “permitir. ou se nos manda. tomar. a espada. regulado pela disposição das palavras”. ensejo.72 Rocha Pombo certa que é para temer”. sentido. a ideia que exprime”. Recebemos um presente. 92 ACEPÇÃO. do conselho mais sábio para o caso. 94 ACEITAR. entrever que se tinham outras tenções. concordar. uma oferta. ódio. pois. é o ato de prever tanto quanto é possível. – Concordar é “chegar a acordo depois de dissensão. ou o valor da frase ou do discurso. qual- samente estabelece S. que se sente do mesmo modo”. tomamos o livro para ler. 93 ACEDER. – Assentir é “mostrar que se é da mesma opinião. assentir. significação. conformar-se. a obrigação que se nos impõe. etc. a pena para escrever. Aquiescer é consentir voluntariamente e sem esforço”. e que se cooperará para o intuito geral.”. Não envolve.

– Toada é o tom de uma voz. antecipando. amargoso. mas “a qualidade do som.. pelo qual se afinam outros. tom é a “maior ou menor intensidade de força com que se exprime”. tom. precipitar. – Apressar denota ação viva. partícula que marca ideia de “alguma coisa de agudo. – Apressurar é dar-se pressa desordenadamente. referindo-se pronúncia ao modo de serem ditas as palavras. uma solução esperada etc. áspero. agro. o voo. soni- ACENTO. como ao ouvido. sugerindo a ideia de remoques ou palavras mordazes. e só é sinônimo de amargo pela acerbidade. Matéria azeda é a que se alterou do normal pela fermentação: figuradamente azedo significa. “Tomar as palavras pela toada é (diz Aul. desejo ardente de alcançar o termo. que caminhe. e o acento dos minhotos. – Ácido é tudo que impressiona desagradavelmente. – Acento é o “modo como se exprime uma emoção”. a espécie de sonoridade de um instrumento ou de uma voz”. – Precipitar quer dizer aqui “apressar. de acre” (Chass. Uma coisa pode ser acerba tanto ao gosto como ao olfato.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 ACELERAR. é “fazer mais ativo”. suprir a qualquer dos outros que nele figuram. Dizem muitos: – “palavras ácidas. – Acerbo é “tudo que punge algum dos nossos sentidos”. diapasão. apressurar. – Sonido (e soído) significa um “som particular. É o mais genérico do grupo. azedo. 98 ACERBO. toada. o espinho. Aligeiram-se os soldados pelo exercício. acérrimo. como está dizendo o próprio radical. do (soído). como a flecha. amargas decepções (como dizemos – “momento amargoso” etc. travoso. som. ou afastar-nos do princípio: é inerente a este verbo a ideia do pouco cuidado que resulta da própria pressa. neste sentido. timbre. pronúncia. acre. estranho”. portan- . amargo.. azedo. – Azedo (de acidulus. Aligeira-se o passo. picantes como a coisa ácida: notando-se que não é usada pela maioria dos autores.” 96 ACENTO.) tomá-las pelo som e não pela significação. diminutivo de acidus) diz propriamente “meio ácido. – Acelerar – diz Bruns. (Amargoso significa “um tanto amargo”). mais ligeiro”. ácidos remoques. 39). conquanto menos pungente ao paladar. agro são proliferações de ak.: “Dizemos a pronúncia do Minho. ativar. acre. o tom que serve de norma. é todavia mais ingrata. ou pela mesma toada é discutir ou falar segundo os modos ou pela mesma forma por que outrem fizera. – Sobre estas duas palavras escreve Bruns.) – para significar quanto essas decepções e esses dias nos deixaram na alma uma impressão comparável à que na boca produz o gosto do fel. como o sabor lancinante do limão. o diapasão de uma cantiga. discutir na mesma. é interpretá-las à letra sem atender ao espírito delas”. do grego. ácido.. acrimonioso. um negócio. no maior número dos casos. “apressar com precipitação”. e poderia. – A maior parte destes adjetivos têm a mesma raiz: acerbo. travento. – Som é “todo ruído que os corpos produzem quando em movimento ou em vibração”. – Diapasão é o som próprio de um instrumento. e falar. acrimonioso. como o olhar ou como a censura. movimento apressado para chegar ao fim. – Timbre não é propriamente o tom. estas duas palavras confundem-se geralmente”. ácido. um tanto ácido”. Não obstante. tanto se diz acerbo o som como a ironia. apressar. – “denota impaciência (sofreguidão). etc. – Aligeirar é propriamente “fazer que se mova. Dizemos – dias amargos.. etc. ali97 73 geirar. é dar mais rapidez ao movimento ou ao ato. etc. acérrimo. e acento a uma particularidade da voz de quem as diz. – Ativar. pois a coisa amarga. senão no natural.

ou pelo menos dá ideia da autoridade da pessoa que escreve. – Em relação a.. ou com respeito a. mas reprimenda áspera deixaria supor que não fora feita em termos delicados. só se usa com esta classe de verbos.. áspero e desabrido”. mas a alguma outra coisa que com essa tenha pontos de relação. revelando violência reprimida. Divergem.. mas convém não esquecer que áspero sugere ideia de rude. etc. necessária.. meditar.. é um tanto acre.” – Áspero é “tudo o que impressiona desagradavelmente. exprime muito mais vagamente a ideia de outras locuções deste grupo.): e... – Quanto a é outra locução que marca também conexão direta entre o objeto e o que se vai enunciar. A coisa acrimoniosa contém alguma acrimônia. como pensar. (com relação a. – “Acerca de. (Bruns. (com res- peito a. a respeito de. e a respeito de. fixando-a na do objeto em que a ação recai ou se executa. Além disso. e em relação a.). rigorosa entre o caso e o que se vai dizer. diz “que mostra azedume....... – Em .... em alusão a.. “o que se irrita.. escrever..). Dizemos: agras penas. esta preposição sobre marca. A propósito de uma história podemos contar outra história muito diferente e que apenas nos tenha sido sugerida pela primeira.. o que sai do seu estado de calma”. a propósito de. escreve ou faz alguma coisa.. ou relativamente a. como dizemos agras escarpas. referir.. É fácil de sentir a diferença que é palpável entre estas duas formas: “O ministro ouviu o diretor acerca do negócio” (ou a respeito do.. em referência a.. é que se prende o que se vai dizer. e a respeito de. e aplicado a uma pessoa. – Acre é o “que tem sabor picante e corrosivo” (Aul. em relação a.. Uma palavra áspera pode não ser acerba. – Sobre. colocação: como as disposições do testador com respeito a seus filhos...74 Rocha Pombo to.. a conduta de Cícero com respeito a Otavio. Dizemos: – “discussão azeda. como acerca de e a respeito de. acérrimos furores.. e parece áspero. ou em relação ao negócio): “O diretor ouviu o ministro sobre o negócio”. ou exercício da palavra..... palavras azedas. estabelece uma relação precisa e direta entre o que vamos dizer. Falar. deliberar. modificam a ideia representada pelo verbo.. semelhança ou analogia. a propósito de alguma coisa não é propriamente referir o que esteja ligado a essa coisa. inculto..... – A propósito de. Confunde-se muito com acerbo. sobre.. fazer. em que acerca de. mas ainda sem estabelecer dependência direta. e com respeito a.. designa “o que é rude e violento.. recriminações acérrimas.. diz ou faz. Estilo acerbo pode não ser áspero. 99 ACERCA DE.. etc. porém.. Tanto pode ser aplicado no sentido moral como no físico. Usa-se mais frequentemente no superlativo: acérrima invetiva. – Acrimonioso não se deve confundir com acre. etc. no sentido figurado. falar. ou com respeito a tal ou tal assunto... se empregam com os que designam operação. mal humorado. se exacerba.... ou negócio. a colocação de tal ponto geográfico com respeito a tal outro”. azedos momentos”. em grande número de casos em que não seria perceptível uma diferença essencial mas muito subtil.. Até uma menina é capaz de fazer uma acerba reprimenda. caso..). – Agro só se diferencia de acre em ser mais extensivo... Equivale a sobre. quanto a.. ou falar sobre o que lhe diga diretamente respeito. que molesta algum dos nossos sentidos”. e o objeto sobre que se diz. Quem fala em relação a alguma coisa diz sem dúvida coisas que estão com aquela em relação mais direta do que quando fala a propósito da dita coisa.. etc. Usam-se indiferentemente com verbos que designam operação intelectual.) já enuncia mais precisamente que ao assunto. disputar acerca de. ou a respeito de. negócio azedo. relativamente a. conduta. (ou com relação a..

. etc. – Quem acerta dá por uma coisa casualmente. – Monte diz também “grande porção de coisas”. 100 ACERTAR. Quem arruma coloca em rumas as coisas que se devem arrumar. de armas. 101 ACERVO. equivalente a amontoamento. atinar mesmo com as coisas de que absolutamente nada se sabia. ideia de confusão. e quase sempre à má parte. “não é parte essencial ou fundamental”. – Ruma é “porção de coisas uniformes. que se esteiam mutuamente. e aludir é “indicar por sugestão. Falar em alusão é falar quase a propósito. de um dom excepcional que só se explicaria por faculdades que o fizessem superior aos homens comuns. sobrepondo. contingente. mas que se põe de reserva para momentos em que venha a servir”.. pois que referir é “indicar positivamente. de segunda ordem. sem que faça falta no todo de que se elimina. – Acessório se diz de tudo que numa coisa (num corpo. sem dizer de modo expresso qual a coisa a que se alude”. sobressalente. ou indispensável e próprio. pode falar em alusão a certos fatos ou a certos homens sem os referir. 102 secundário. etc. – Sobressalente = “que sobra. é falar considerando uma coisa que não foi citada. é cada uma das pilhas de coisas iguais e sobrepostas umas às outras. distinguem-se tão bem como os dois verbos que ordinariamente se confunde. subsecivo. “Que monte de absurdos!”. pelo próprio nome”. grandeza descomunal. e tanto se emprega no sentido próprio como no figurado: – neste último igualmente à má parte. – Acervo diz “grande porção de coisas”. ACESSÓRIO. de modo que ocupem o menor espaço possível”. – Subsecivo é o que pode ou deve ser eliminado. ou num banquete político. portanto. Um sujeito. – Pilha é “porção de coisas numa certa ordem”: pilha de tábuas. por ser aí demais. de pedras. nem era necessário que se o fizesse. montão. rima. que excede ao necessário. atinar.. precisa. de frutas. fora da acepção jurídica. pode permanecer apenas por algum tempo. porque todos os que ouvem sabem já qual é a coisa a que se alude. – Quem atina acerta com alguma coisa pondo em ação umas tantas qualidades de espírito (argúcia. Não seria de bom gosto dizer: acervo de verdades. etc. – Contingente é “o que não é necessário. Adivinhar é. por exemplo. segundo Bruns. ruma. ou mudar logo”. melhor ainda do que este. adivinhar.). e usa-se tanto no sentido natural como no figurado9. nem de acaso. – Secundário é “o que é de menor importância. acertar. – Cúmulo dá ideia de grande quantidade de coisas formando monte. tino) que nem todos têm. portanto. e para cujo conhecimento o adivinho não se serve nem de esforço.. ou então ao cabo de algum esforço. falar acerca ou a respeito de coisa determinada clara.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 75 referência a. e sem razão. – Rima. 9 Usamos também acúmulo por acumulação. referir vagamente. pois. podendo por isso ajustar-se umas às outras. monte. “Que acervo de asneiras disse o homem em tão curtos instantes”. mas de uma vidência maravilhosa. tenacidade. numa festa. e só se usa. de gelo”. . pilha. de areia. excesso de coisas que se vão reunindo. – Aquele que adivinha vale-se de um tino misterioso. e sugere. cúmulo. desordem. num pensamento. de valor que não é principal. e que. no sentido figurado. e em alusão a.. – Montão é aumentativo de monte. Falar em referência é. “um monte de laranjas. em relação a outra coisa”.. expressamente. numa questão. de sacos. acumulando..

: “Encontrar corresponde ao verbo latino invenire: na sua mais lata significação representa a ação de dar com uma coisa que se buscava. as nascentes que a terra encerra em seu seio. Ninguém dirá que achou a procissão.. in- ventar. mas podendo ser também fruto de esforço”. tendo-a perdido. mas a mesma espécie de homem.. ou não conhecida. é achar o que era ignorado. De um homem que. pois o p. e que invento se restringe às artes. Só não se diz. proveitoso. – Descoberta e descobrimento designam o ato de “dar com alguma coisa oculta. uma boa fortuna. mas só Deus poderia dizer: “Eu te deparei um amigo”. Colombo e Cook descobriram novos mundos.. descobrimento. feliz. que é composto da preposição de e do verbo latino parare “preparar”. deparar. anda esta palavra em regra associada à ideia de bom.. Ao passar 10 Se bem que se não siga sempre muito à risca esta distinção. – Achado é “aquilo com que se deu. Descoberta aplica-se mais particularmente ao que se descobre no domínio das artes e das ciências. não deixaria de ter bom patrono entre os clássicos. assim como. etc. imaginação. (3. ou que por casualidade se oferece. viu no chão uma peça de oiro. o estafeta. invento. etc. indo pela rua. etc. pela praça encontrei uma procissão. É por isso que não se usa comumente nas primeiras pessoas: Dizemos que Deus nos depara um amigo. acha ou . que nos subministra. descobrir. como diz Roq. etc. – Descobrir é pôr patente o que estava coberto. – Inventar corresponde ao latim invenire na sua significação restrita de “discorrer. um enterro. exprime a ação de um agente. mas fora de nosso alcance atual. dizendo. nos apresenta uma pessoa ou coisa de que havíamos. dizemos igualmente que achou. Alguns o quiseram fazer sinônimo de encontrar. acham-se os animais e as plantas que povoam sua superfície. etc. descoberta. entre invenção e invento.. achar de novo”. o que se acha estava visível ou aparente. que se encontrou. dizemos que achou. me deparou”. oculto ou secreto. O que se descobre não estava visível ou aparente. a não querer dar a entender que a andava buscando. estabelecer. invenção.: o descobrimento da América. a mesma diferença que se dá entre ação e ato”. pois o modo correto de falar é: “A passagem que o acaso. e. aos fatos de extraordinárias proporções realizados pelos navegadores e viajantes modernos. e exprime a ação daquele que pelo seu engenho. trabalho. Muitos autores dos nossos dias dizem indiferentemente descobrimento ou descoberta da América. e naquelas regiões até então ignoradas acharam um novo reino vegetal e animal. – Sobre invento e invenção escreve o mesmo autor que “exprimem o que se inventou. que nos é útil.. a obra do inventor. Ex. e não coberta ou oculta. mas não a descobrimos. 15). ou de nossa vista. – Acerca deste grupo escreve Roq. Descobrimento aplica-se às descobertas de grande alcance. quase sempre por acaso. – Deparar. com a diferença que invenção é muito mais extensiva. por exemplo: “A passagem com que deparei”: o que é erro. a minha diligência. Esta distinção.. 104 ACHAR. a descoberta da pólvora10.76 Rocha Pombo 103 ACHADO. tanto moral como fisicamente. diferente de nós. o produto da faculdade inventiva (ou criadora). e andando à procura dela e encontrando-a. Descobrem-se as minas. Uma coisa simplesmente perdida achamo-la quando chegamos aonde ela está e a descobrimos com a vista. nem se há de dizer nunca: descobrimento da pólvora. Lucena diz: “Mais encontraram acaso as ilhas do que as acharam por arte”. porque ela estava manifesta. com a voz neutra. A duas léguas de Lisboa encontrei o correio. a apanhou e guardou. além disso. encontrar. de revelar o que não era sabido”. mui razoável por certo. Pode-se. etc.

aleatório. isto é. mas favorável”. Volta inventou a pilha que dele tomou o nome de voltaica”. que atua ou que se produz sem ser normalmente. debilidade da natureza no sentido em que disse Cícero: Infermitas puerorum et ferocitas juvenum” (Senect. – Achaque.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 77 descobre coisas novas. L. Harvée achou ou descobriu a circulação do sangue. – Doença. em sentido desfavorável. Inopinado supõe que não se havia pensado. Um engenho fecundo acha muitas coisas. ou trabalho penoso de corpo ou de espírito. ocasional. – Eventual distingue-se de todos os do grupo em enunciar apenas a ideia de coisa que ocorre. e significa em geral o sofrimento que traz a alteração da saúde. – Fortuito vem de fortuna: é o sucesso extraordinário. fortuito. – Enfermidade significa. achaque.. É o que acontece sem ser esperado. nem nos viera à imaginação o que sucede”. ines- perado. 4. Pas. – Acerca de acidental e de fortuito. significa enfermidade ou moléstia habitual. incômodo (incômodos)... a segunda também se generalizou a todo incômodo. portanto. – Imprevisto supõe ignorância da possibilidade da coisa. escreve Alv. como o definiu Cícero: Molestia est œgritudo permanens (Tusc. – Inesperado. coisa que pode ou não acontecer. (Tusc. mas o engenho penetrante inventa coisas novas. – Quanto às quatro primeiras palavras deste grupo é ainda de Roq. no mesmo sentido em que dizia Cícero: Qui in morbo sunt. Fr. e significa “que depende de certas condições ou circunstâncias. “fraqueza. ou que não é permanente. A mecânica inventa as ferramentas e as máquinas. “supõe conhecimento da possibilidade de uma coisa. Herschel descobriu um novo planeta. podendo substituir em quase todos os casos a todos os outros do grupo. incerto. que não se espera numa ocasião ou circunstância determinada”. 106 ACIDENTAL. A primeira fez-se extensiva a todo defeito físico ou moral. doen- ça. casual. de S. o que se segue: “Todas estas palavras enunciam um desarranjo ou desordem no estado normal da saúde do homem. caso acidental. – Incômodo é “mal passageiro”. enfermidade. que vem e . moléstia do corpo acompanhada de dores. “Porque parecendo. segundo a origem árabe ax xaqui. – Mal é termo genérico para designar tudo que causa dano ao homem.. quer dizer estado doloroso do corpo. sani non sunt. “Acidental vem de acidente”. contingente. se bem que no plural se aproxime de moléstia. mas cada uma delas indica modificações particulares que distinguem os diferentes gêneros de sofrimento”. Parece corresponder ao morbus dos latinos. tantas vezes sucedeu que veio a ser havido por mistério”. moléstia. segundo Roq. primeiro. 8). ou novos usos. a terceira é preferível para indicar a falta de saúde que provém de fraqueza do corpo. etc. – Moléstia toma-se quase sempre na significação da palavra latina. que quer dizer doença permanente.. segundo sua origem (do verbo latino doleo). aqui tem decerto um sentido mais restrito. segundo a força da palavra latina. inopinado. abandono de forças. a física acha as causas e os efeitos. enfermidade. imprevisto. novas combinações de objetos já conhecidos. eventual. mas não habitual. Copérnico inventou um novo sistema do mundo. mal. enfadamento. Dizemos com razão – doente o que não está são. 105 ACHAQUE. 3. – Indisposição é “estado em que a pessoa fica ligeiramente fora do normal”. sem que se ligue a causas que possam ser previstas: e. indisposição. a última exprime bem a falta de saúde acompanhada de do- res ou incômodos físicos. 4). – Contingente sugere ideia de coincidência. falta de forças. 10).

se declarasse autêntico. e contra a qual nada se pode fazer.. glorificar. toda desgraça irremediável. abrangendo a significação de todos os outros: é todo acontecimento funesto. como se se desse testemunho. vitoriar. etc.. (Bruns. – Ocasional significa propriamente “de ocasião”. livremente. destruição das searas pelas intempéries. se diz de qualquer grande desgraça. – Postos nesta ordem – aplaudir. segundo a sua etimologia. que se dá como de momento. numa sociedade. cumprindo um dever. calamidade. entusiasmo. “que aparece como circunstância que se não prevê”. – Segundo Bruns. transforma completamente o estado precedente noutro estado muito pior. constituindo um conjunto que tem importância excepcional”. “suceder”) diz-se de qualquer desgraça que sobrevém inesperadamente. que aniquila e destrói tudo. mas sempre sugerindo a ideia de transtorno violento e profundo. – Aleatório “é termo jurídico: aplica-se a disposições que se tomam para o caso em que se dê uma circunstância possível. segundo as superstições astrológicas. e como se se tornasse publicamente reconhecido o que se proclama. mas não provável”. num Estado. calamidade. proclamar. – Incerto é “tudo aquilo a respeito do que se está em dúvida. é o reverso da medalha. – Revés é a desgraça que faz mudar completamente uma situação. isto é. formado do prefixo negativo des e de astre. muda. trazendo consigo a carestia e a penúria.. do destino. pública ou privada. alegria. uma grande desgraça causada.78 Rocha Pombo passa”. que é o único que hoje tem. delírio. Esta revolução completa pode dar-se num povo. – Proclamar é “dar sanção.). ou não se tem certeza”. O sentido desta palavra é sempre coletivo. glorificar – estes verbos marcam a gradação. no sentido figurado. como se se fizesse escolha solene da pessoa aclamada. a força crescente dos sentimentos com que se manifesta aprovação. mas a uma série desses fatos que sobrevêm uns aos outros. que revolve. porém. acidente (do latim accidere.. Em regra. – Catástrofe é acontecimento extraordinário. – Casual se diz de todo fenômeno cuja causa é desconhecida. se assim nos podemos exprimir. desgraça. (Há muita diferença entre proclamar e aclamar. pela influência nociva dos astros. movimentos de delírio”. revés. e por extensão. aceitar solenemente”. agitação. aclamar. e considerando-a até certo ponto como contrária às leis ordinárias. e que por isso se acredita que é devido ao acaso. vocábulo que significou primitivamente os estragos que a saraiva produz nos campos) significa. – Aclamar é “aprovar. e até somente numa família. catástrofe. – Aplaudir é “dar sinais ostensivos. pois nesse caso não se atende a um fato adverso somente. que sobrevém como castigo. 107 ACIDENTE. expressos.) – Vitoriar é “aclamar estrepitosamente. desastre. sem que nada a fizesse prever. povoações e províncias. – Glorificar é “fazer a consagração . 108 ACLAMAR. de que se aprova e sanciona”. ou mesmo num indivíduo. – Desastre (vocábulo francês. Como a destruição das searas é uma desgraça que afeta sobremodo a muitas famílias. desgraça da qual é impossível sair. isto é. proclama-se. vitoriar.. proclamar. com vivacidade. “astro”) significa propriamente um grande infortúnio. declarar com desvanecimento e no meio de extraordinário aparato”.. incendimento sagrado por alguém ou alguma coisa. considerável. mas para pior. – Calamidade (do latim calamitas. mesmo quando se fala de uma calamidade privada. aclama-se espontaneamente. aplaudir. – Desgraça é o mais genérico do grupo..

ou nos alumia o espírito. e distingue-se de ilustrar em grande número de casos. Dizemos: “Deus que o ilumine” (isto é – que lhe torne luminoso o espírito. – Todos estes verbos enunciam ação de diminuir ou abater o ânimo de. no entanto. seja superior a forças humanas ou fique fora do nosso alcance..”) Ilustra-se uma obra. que de um menino (de uma mulher. De sorte que só se entende que alguém se acobarda quando deixa de ter o ânimo que é próprio do homem. É convizinho de ilustrar. atemorizar. – Explanar = “explicar tornando simples. talentos que excedem ao que é grandeza comum entre os homens”. mas que me apavora. Mas. assustar. e não – alumia-se. esparzir claridade”. que uma tormenta. desembrulhando aquilo que se não entendia. por exemplo. Muito bem nota Roq. ou a evitar etc. Uma questão pode ter sido ilustrada por um mestre. – Aclarar é “tornar claro. aterrorizar.. mas nem sempre nos ilumina. – Ilustrar significa “lançar luz.) não se pode dizer que seja cobarde. esclarecer. a vencer. a solidão. explanar. etc.. O grande homem ilustra (dá brilho) o seu tempo”. de um enfermo. ou de um decrépito. feitos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 79 de virtudes. aterrar... apavorar. um debate.. iluminar.. alumiar. – Elucidar é “fazer perfeitamente claro. ilustrar..” “A palavra de Jesus alumia os cegos” (não – “ilustra. alumiar e iluminar.” Pelo menos esta forma seria de lidimidade muito duvidosa.” – Iluminar é de predicação mais viva e de ação mais direta que alumiar e ilustrar. ou para atacar um inimigo que o afronta. e não – “alumia. Também não será próprio o verbo acobardar tratando-se de casos em que a coisa a resistir. estendendo. ou um vulcão. – Esclarecer é “aclarar completando. fazendo fácil”. e não – “ilustra.. 109 ACLARAR.. .. num sentido muito alto. fazer que se veja claro”. explicar. 110 intimidar. da ACOBARDAR. como a própria luz”. etc.. A lição do mestre abalizado nos ilustra. A glorificação deve ser um ato ou uma cerimônia tal que se compare à solenidade de culto: só a merecem os verdadeiros gênios e os santos.” O sol alumia a todos”. amedrontar. ou o relâmpago.. e: “Deus que lhe alumie o caminho escabroso que vai seguir” (isto é – que lhe torne claro o caminho). explicando o que parecia obscuro ou estava confuso”. sem que só por isso haja necessariamente ficado de todo elucidada. mais por defeito da coisa que se explica do que da pessoa a quem é explicada. distinguindo-se destes.. tratando de cobardia. quanto ao primeiro exemplo. e sim medroso. A noite. um assunto. que me atemoriza ou me quebranta. “pois que diante destes os homens ficam como se estivessem diante de divindades”. projetar brilho sobre”. também poderíamos dizer assim: “Deus que lhe ilumine o caminho da vida”. mas amedrontam uma criança.. – Acobardar é “reduzir alguém a uma incapacidade absoluta de reagir”. – Alumiar diz propriamente “dar luz. elucidar. e isto quer no sentido próprio.. Quem se acobarda perde a coragem para repelir um ataque. a atacar. decerto que ninguém teria a lembrança de arriscar: “Deus que o alumie. em sugerir ideia do modo completo como a coisa elucidada ficou esclarecida. e pode-se dizer que a nuança entre uns e outros é marcada pelos respetivos radicais. espavorir. Não se poderia dizer. quer no figurado.. uma invetiva não acobardam. E como um caminho só se faz claro a olhos que saibam ver. o senso interior). – Explicar é esclarecer como desdobrando. me acobarda.. inteligível. significa “dar à inteligência uma nova e intensa claridade a que não escapem as coisas mais abstrusas”. pois iluminar. quebrantar.

nos espavore”. um assassino acossado de remorso ou perseguido da justiça. mu- . Mas a diferença entre estes dois verbos é bem sensível quando se compara medo e temor. o heroísmo um tanto menos espetaculoso. Daí vem que as ações são boas.. – Amedrontar é “causar medo”. etc. Exemplos: “Bastou uma palavra mais alto e mais áspera para que o outro se intimidasse ali. – Espavorir é “fazer abalado de pavor. a iminência de uma grande desgraça nos aterroriza. que leva alguém a perder o ânimo. como virtude contra o escândalo. O fato tem uma relação direta com a coisa executada. a parte que nela tem a pessoa. sinalando a palavra diretamente a intenção do que as executa.) “Por estar na rua. representando-nos o efeito. o menino na presença dos examinadores. falsos ou duvidosos. – Quebrantar é “fazer que se perca o ânimo. etc. mas aquele que se intimida – ou é de uma prudência tão meticulosa que se avizinha de cobardia. de coisa sagrada. 111 AÇÕES. – Intimidar é “fazer tímido”. e sem razão. submisso. mas seguramente mais humano. “O sofrimento moral quebranta mais que os males físicos”. da sua tarefa. – Feito é o mesmo que fato.. portanto. deixar agitado de susto: e sugere a ideia da fuga que revela o espanto. fatos. proezas. é causar susto. façanhas. grave. O segundo significa também “encher de terror”. – Apavorar diz propriamente “encher de pavor. – Quanto aos três primeiros escreve Roq. por exemplo: “A noite. que em atemorizar se inclui a ideia do motivo real. que se inclui em aterrar. tão discutível e brutal. abater inteiramente o ânimo aterrado”. ou é de uma tão delicada modéstia que passa a ter sem dúvida outro nome. atemoriza-se o réu diante do tribunal. o que fica executado por meio da ação. “Na miséria ou na doença os mais fortes se quebrantam”. de salvar o seu decoro intimidando-se. o perdulário lembrando-lhe o futuro. o produto. (O outro aqui não é decerto um herói. lá fora. etc. e os fatos são certos. nem intimida. o mísero escravo intimidou-se”. atemorizamos o mau estudante com a presença do pai.. Pode-se intimidar a todo o mundo talvez. ou – “O castigo do céu atemoriza os crentes”. ou: “Bastou a presença do mestre para intimidar o menino”. “Só ao ver ao longe o filho do senhor. O primeiro exprime “inspirar um medo. e tem alguma coisa de análogo a aterrar por sugerir. (Ninguém diria amedronta. um súbito terror de imobilizar. calando-se”. mas é possível que explicasse suficientemente a sua quebra de ânimo como excesso de pudor. causar grande medo”. mas não sugere a ideia de mistério. quase sempre. – Aterrar e aterrorizar confundem-se muito. Não se poderia dizer.. um grande espanto. “A ação tem uma relação imediata com a pessoa que a executa. Até os animais podemos assustar. já que é tarde para defendê-lo a pulso ou à força de armas). É dos mais extensivos do grupo. “O crente atemoriza-se do castigo divino”. como sobrenatural. Uma visão diremos que nos aterra. feitos. Sente-se. más ou indiferentes. amofinar”. e menos acobarda. que se deixe abater. a presença daquele biltre intimidou o velho soldado (O velho soldado nem por isso perderia direito a continuar sendo o mais legítimo dos heróis: poderia mesmo juntar talvez agora ao antigo.) – Assustar é “produzir impressão súbita de espanto ou medo”. o movimento. mas – “nos apavora”. com relação direta à essência ou qualidade do fato em si mesmo. de impressão violenta. ou então é mesmo de natureza ou de condição tímido por ser fraco.80 Rocha Pombo sua função. (Ver o grupo. um espírito supersticioso. como atemorizar é “causar temor”. igualmente a ideia do que tem de misterioso. representando-nos a vontade.) Amedrontamos uma criança. sagrado. o pavor que sentimos.

afligir. não se dirá que se refugiou. abrigar. homiziar. chicotar (ou chicotear). asilar-se. ou contra mal de que é perseguido”: “O hoteleiro abrigou da (ou contra a) chuva aquelas crianças”. a valor excepcionais. zurzir. – Homiziar é sempre um delito. 113 AÇOITAR. ato. – Zurzir é “espicaçar. – Esconder é “furtar alguém ou alguma coisa à ação. refugiar-se. pungir. De um criminoso julgado. um anarquista. – Azorragar é “bater com azorrague”. e diferençam-se quase que só pelo gênero do instrumento com que se molesta. e como castigo”. vergastar (verdascar). ocultar. que se asila em nossa casa. Vem acoitar-se em nossa casa o indivíduo que se julga culpado de algum crime. e sugere a ideia de “fortes golpes que molestam e afrontam a vítima”. mas só homiziamos o criminoso que tenta escapar à ação da lei penal. “Abrigamos em nossa casa bons e maus”. ocultar-se. – Refugiar-se diz propriamente “fugir e valer-se de algum lugar seguro para escapar a algum perigo”. a esforço. Esconde-se aquele que se esquiva à ação dos que o procuram. corresponde muitas vezes a obra. – Chicotar (ou chicotear) é “pungir a chicote”. refugia-se na Inglaterra ou na Suíça. magoar açoitando ou vergastando”. devido à grande coragem.. – Vergastar (ou verdascar) é “bater com vergasta (ou verdasca) isto é – com vara muito fina e rija. proeza (em francês prouesse “action de preux”) “diz-se propriamente das façanhas da antiga cavalaria. – Acoitamos uma pessoa que sabemos comprometida com autoridade pública. “fazer”. esconder-se. Quem se oculta deixa apenas de aparecer. mas que se foi homiziar no estrangeiro. como um assassino que foge da polícia. – Surrar é o mais compreensivo do grupo: exprime a ideia geral de “molestar de qualquer modo. acossado do clamor geral.) é feito heroico. fustigar. pois ocultamos uma coisa evitando apenas que outros a vejam. nem o segundo pode dizer-se. nem sempre. comprometido em algum atentado ou algum movimento subversivo. “obrar” etc. sagrado (asilo) em que alguém se julga a salvo de qualquer perseguição. homiziar-se. chibatar (ou chibatear). – Todos estes verbos enunciam ação de molestar fisicamente. que se considera com direito a essa coisa ou essa pessoa”. . isto é – “acolher e amparar alguém contra risco iminente. ou com alguém a que essa pessoa esteja sujeita. como aos homens que se deseja humilhar. 112 ACOITAR. acoitar-se. refugia-se na floresta. mas principalmente batendo. – Façanha (do latim facinus. flagelar. – Ocultar é menos do que esconder. acoitar nem sempre. – Segundo Laf. ao esforço de outrem. De um revolucionário vencido que conseguiu fugir não se pode dizer que foi homiziar-se no estrangeiro (e sim – refugiar-se). sim. pois o chicote ou rebenque não só molesta. das que são contadas nos antigos romances”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 81 dada por eufonia a pronúncia dura de a na doce de ei. quem se esconde procura escapar tanto às vistas como à investigação de outrem. mas ultraja também. asilar. mas o seu uso mais frequente é representar as ações nobres. – Açoitar é “bater com açoite ou látego. Um bandido. Usam-se todos também no sentido moral. Nem por isso asilamos a primeira. abrigar-se. Um político. – Asilar expressa a ideia de lugar seguro. surrar. es- conder. cortante”. a virtudes. azorragar. ilustres de homens famosos e dignos de memória”. – Homiziamos em nossa casa alguém “que sabemos condenado por algum crime”: e exatamente nisto é que este verbo se distingue de acoitar: este é mais extensivo: tanto podemos acoitar um menino que fugiu da casa dos pais. de facere. – Abrigar é “dar abrigo”. e tanto se faz às bestas lerdas.

por meio de razões insistentes e bons argumentos. como a despiedade de um mau poeta.). – O sentido translato é análogo ao natural em todos estes verbos. é mais restrito que escoltar. pois nunca se comboia senão para proteger. tomar o mesmo rumo de alguém.. até que o fustigado perca a paciência e saia do estado normal de atividade ou de calma”. ou mesmo na conveniência da pessoa a quem se sugere. ou por circunlóquios. etc. e sugere noção da superioridade de quem chibata com respeito ao chibatado. na vida... em regra.. – Acomodar “é – diz Bruns. a isso o aconselhamos. sofra as alterações que o caso exige: acomodar um drama estrangeiro ao teatro português”. a que faça alguma coisa que não faria de moto-próprio”. bater com vergasta e repetidamente. em vez de dar um conselho”. mas – “segue no encalço” (ou vai. insinuar. quando dizemos explicitamente a Pedro que levante cedo. zurzindo para exemplar e corrigir”. persuadir. adequar. – Fustigar é quase como zurzir: designa a ação “de picar. alguma coisa que está no nosso interesse. e muito subtilmente. – Apropriar aqui é “dar a uma coisa condições que a tornem própria para o fim que se deseja”. a conveniência de ocultar-se às vistas da polícia. Não se poderia dizer. sempre se entende que é grupo. (não – acompanha-se). ou a verdasca”. 114 ACOMODAR. – Flagelar tem hoje uma acepção especial.). ou o fato de cair. sugerir. adaptar. numa situação difícil. – é sempre mais de uma. Porque seguir é que diz inspirar. “acompanha no encalço”. navios. benévola ou perversamente. seguir. etc.. – Ajustar é “modificar uma coisa de maneira que com outra se combine”. – Chibatar (ou chibatear) é “aplicar a chibata. significando a ação de impor pena como suplício e castigo. – Quanto a comboiar é preciso que se note que. é também “encaminhar numa certa direção (num negócio. Acompanha-se uma irmã à igreja (não – segue-se)”. Ninguém diria que sugeriu a Pedro que levantasse muito cedo: salvo se quisesse mesmo fazer uma simples sugestão. guiar. e dá ideia de que nunca é uma só pessoa que escolta. sem perder o seu caráter. boiadas. quer para o servir. ou a um caso determinado”. levar até o íntimo do espírito ou do . Uma nação pode ser flagelada por uma inundação ou por um mau governo. 116 ACONSELHAR. – Adequar é “fazer uma coisa proporcionada a um certo fim. apropriar. – Sugerir é “fazer entrar no espírito de alguém. boiar. – Aconselhar é “induzir alguém. – Acompanha-se uma pessoa quando se vai a seu lado e subentende-se que tomando parte nas vicissitudes que essa pessoa tiver no seu caminho. ajustar. Além disso. e quer para observá-lo. multidão (comboio). Um galé só sai da sua prisão escoltado. Segue-se-lhe a pista a alguém. É claro que. Tanto pode flagelar-nos um inimigo como um infortúnio. 115 ACOMPANHAR. a coisa a comboiar – carros. – Insinuar está quase no mesmo caso de sugerir: é “introduzir. como calamidade.82 Rocha Pombo macerando. portanto. ou por meios indiretos e vagos. conveniente a um determinado uso.. As forças escoltaram os prisioneiros até Pernambuco. – Adaptar é “fazer alguma coisa apta especialmente para uma calculada serventia”. tropas de carga. – Escoltar é “acompanhar para proteger ou para vigiar”. escoltar. mas indo-lhe na retaguarda e sem perdê-lo de vista. sugerimos a Pedro o que está no seu interesse.” Pode aconselhar-se bem ou mal. com- “ir atrás. de boa ou de má-fé. isto é. quando lhe fazemos sentir por meias palavras. – transformar uma coisa de modo que.

Dizendo – “aconteceu uma desgraça” – referimo-nos à desgraça em si. tratado. porém.” Ocorrer é o mesmo que suceder ou acontecer. acordo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 83 coração de alguém uma ideia. convênio. suceder. – Inspirar. Os que convêm fazem convênio: celebrar . Convenção é sempre mais solene e ato de mais importância do que convênio. etc. Dizem que se deram naquele momento sucessos imprevistos. – isto é – significa a união de sentimentos e extensivamente de ideias. contrato. Decerto que se não poderia dizer: “Passou-se uma catástrofe. concordata.. como guia o mestre os seus discípulos. a que chega quem faz acordo. e. cordis. um desejo etc. 117 ACONTECER. O que se faz entre as pessoas que convêm chama-se convênio. ajuste. Geralmente. aceite o que lhe propomos ou dizemos”. entrar em acordo. combinação. ajustar. mas de razão.. não obstante. significando o mesmo que acontecer. aplicável a qualquer fato. para que a pessoa guiada não se afaste do reto caminho. dar-se. ocorrer. etc.: “Acontecer é termo genérico. Deram-se acontecimentos extraordinários em Lisboa. aconteceu um desastre. – Convir é encontrar-se com outra pessoa numa certa igualdade de intuitos. Dão-se às vezes desgraças que surpreendem os mais fortes ânimos. tratar. ac (c por d) + cordo diz propriamente “ao coração”. aqui. assento. pacto. – Também se pode guiar mal ou bem. e é de predicação mais precisa. convir. portanto. sem outra ideia acessória. intento. pactuar.. três primeiros. diz Bruns. assentar. marcha. com mais energia. que chegou a fazê-lo. “para o coração”. – Persuadir é “insistir em que alguém creia. As ocorrências que se dão diariamente já não impressionam. de opiniões. concordar. é assistir com bons conselhos. significa “sugerir mais diretamente. Por isso é que se diz muito acertadamente que onde nunca houve desacordo não seria próprio dizer que veio a dar-se acordo. primeiro relutara ou não se tinha mostrado a ele propícia.” – Suceder é o mesmo que acontecer. Não é convicção que leva uma pessoa a persuadir-se: é antes a autoridade de quem persuade. como termo genérico. pois. importante ou não. concertar. emprega-se. se incenda. combinar. – Guiar é dirigir alguém nalgum serviço. quando se quer dar a entender que do que sucede ou acontece se origina alguma consequência. se recorde. – Convenção é “o acordo. 118 ACORDAR. previsto ou imprevisto. passar-se-ia um desastre se não fora a nossa prudência”. contratar.. mas encerra ideia de causa anterior. não há dúvida que em tais casos seja bem empregado: aconteceu o que tínhamos previsto. convenção.: convindo não esquecer que insinuar envolve ideia de má vontade ou de intuito ilegítimo de quem insinua”. Guiamos os nossos filhos.. Nesta palavra acordo (accordo) figura a raiz cor. etc. aqui. – Passar-se está quase no mesmo caso: não é. concerto. – Acordo supõe que a pessoa. – Dar-se é. ou suceder. tão extensivo. – Acordar é. ou ocorrer. acontecer não relaciona o fato com outro anterior nem o atribui a determinada causa. se anime. uma suspeita. de direito ou de interesses a que se submetem afinal partes que não puderam dirimir de outro modo a contenda ou a questão debatida”. convencio- passar-se. porém. que deu cors. – Quanto aos três primeiros. dizendo “sucedeu uma desgraça” – apresentamos o fato como consequência de tal ou tal existência: “na perfuração dos túneis sucedem desgraças amiúde. não de vontades ou de impulsos propriamente. operar sobre o espírito ou o coração de alguém para que se oriente.. um verbo que em todos os casos poderia substituir a qualquer dos nar. “coração”.

depois de debate. pactuar com os inimigos da pátria”. – Assento diz propriamente “o registro solene de um convênio. É precisamente em virtude do caráter de imutabilidade que o pacto reveste. como se vê naquele verso de Camões (Canç. pois. pois. fora da acepção que tem neste grupo. a forma autêntica. para que dele resultem direitos e obrigações legais ou morais”. o ato de ajustar.) – Ajustar é “convir em alguma coisa. expedito para exercer suas faculda- . de modo que fique sólido e perfeito”. mas convenção: só poderes soberanos têm capacidade para celebrar.: – “Acordar e despertar são verbos ativos e neutros. 15): Ah! quem de sonho tal nunca acordara – Despertar é pôr ou pôr-se um homem esperto. – “O pacto é uma convenção formal em que cada pactário declara renunciar ao direito de romper o pactuado. mas dizemos também. da sentença que foi proferida”: assentar é. – Contrato é “aquilo que se tratou reduzido a escrito. – Segundo Roq. e designa “ajuste entre credores e devedor”. – Combinar (do latim combinare – cum + bini “com” + “par”) diz precisamente “pôr uma coisa ao lado da outra. que tratar tem uma significação muito menos precisa. portanto. tanto convenções como tratados. compará-las”: combinar é. nos termos ou nas condições da lei. Dois exércitos não celebram tratado. e representam a ação pela qual um homem sai. por acordo comum”. ainda quando não tenha sanção legal – não a podendo mesmo ter quando. “dispor. celebrar contrato. despertar. – Concertar é. É certo. ou o tiram. mas já envolve compromisso moral mais solene do que aquilo que simplesmente se combinou. se bem que o mesmo se pode quase dizer de tratado. – Combinação é o ato de combinar ou aquilo mesmo que se combinou. ou nas condições de um arranjo ou negócio depois de haverem as partes discutido”. confrontá-las. e também a cessação do sonho. “entrar em concerto. decidir. – Concordar é convizinho de concertar: é “vir a acordo como os que se conciliam. ou dos costumes. – Contratar é. do estado de adormecimento em que jazia. 119 ACORDAR. O que se combina fica assentado apenas mentalmente: não tem força de acordo ou de pacto feito. portanto. e tem mais propriamente sentido jurídico. Trata-se tanto de altos interesses de nações como das coisas mais insignificantes do mundo. – Concerto é um pouco mais que simples combinação: é “a harmonia perfeita a que se chega acerca de alguma coisa depois de haver ponderado todos os prós e contras”: pode não chegar a ser um contrato. referindo-nos a negócios de pequena monta: “o tratado é devido”. deixando sentir que se havia antes discordado”. – Concordata é termo jurídico que tem principalmente duas acepções: exprime “acordo ou convenção solene feita entre o sumo pontífice e um soberano”. – Acordar exprime propriamente a cessação do sono. como frequentemente sucede. que este termo se presta a ser tomado a má parte. ordenar os termos de um acordo ou de um convênio”.84 Rocha Pombo convenção é convencionar. no entanto. juntá-las. é um compromisso que fica obrigatório para cada um dos que nele tomam parte. como quando se diz: fazer um pacto com o diabo. Mas tratado é uma convenção de alta categoria: só pode ser celebrado entre nações. o pacto se faz sobre coisas cuja sanção é superior ao alcance das leis humanas. o recobro dos sentidos. pois. “reduzir a escrito (ou dar-lhe toda autenticidade) um acordo a que se chegou. (Bruns. ou junto uma da outra. – Tratado e contrato correspondem a convenção e convênio ou guardam respetivamente entre si a mesma analogia. ou ainda mais restrito – comercial. Ajuste é. da resolução que se tomou.

– A mesma diferença existe na acepção figurada. aqui. – Acoroçoa-se alguém na sua tarefa. distinguindo-se em sugerir. VI. . induzir. É próximo de encadear. sendo que despertar anuncia sono profundo. – Incitar é um pouco mais: é “induzir com grande esforço e vivo empenho”. no sentido próprio. Colombo voltou da América encorrentado (não acorrentado). ou por exemplos ou por medo. ou uma doença. – Encorrear (ou acorrear) é “prender por meio de correias. para sair do qual é necessário mais esforço nosso quando acordamos. – Acorrentar (ou encorrentar)11. Animam-se os enfermos contando-se-lhes casos de cura prodigiosos. – Agrilhoar diz mais ainda que acorrentar. no figurado é “coagir. mas não chegam a estar assaz espertos para praticarem resolutamente a virtude!” 120 ACOROÇOAR. ou cordas. Uma só pessoa seria impróprio dizer que aflui. ou de quem nos quer tornar espertos. cheio de correntes”. Quem in- agrilhoar. Entre os dois primeiros e o outro. a ideia da força. encadear. isto é – dar vigor às forças do espírito para uma resolução. melhor do que este. Para o segundo os outros despertavam. por meio de palavras persuasivas. para um trabalho. – Prender é o mais genérico do grupo: diz “ligar uma coisa a outra. isto é – por meio de cabos. mais ou menos intimamente. incitar na tarefa. – Induzir. isto é. já se nota uma diferença fundamental: tratando-se de pessoas (ou quaisquer animais) só se emprega afluir quando se faz referência a muitos indivíduos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 85 des. acoroçoar (a + coração + ar) diz “avigorar o coração”: quer dizer – confortar alguém no que empreende. do sofrimento do agrilhoado. Parece que a ação de acordar precede à de despertar. Quantos homens acordam do sono da culpa. do peso dos grilhões. a fazer alguma coisa”. enlaçar de modo a tolher os movimentos ao que se encorreia”. dureza. Com o exemplo do capitão animam-se os soldados a investir o baluarte. – Animar é “infundir alma”. de modo que a coisa amarrada fique segura. insuflar coragem. duz um menino a faltar às aulas não é talvez menos perverso do que aquele que o incita a praticar o mal. – Alentar significa propriamente “dar alento. correntes. – Amarrar diz propriamente “prender com amarra”. incitando-o com palavras e afagos a que tenha coragem e se esforce por vencer. encorrear (ou acorrear). Segundo a própria etimologia. 121 ACORRENTAR (ou encorrentar). afluir. prender. prepotência com que se prende. 122 ACORRER. marchar. A palavra do santo velho alentava os moços. 38): Os do quarto da prima se deitavam. é “levar alguém. e não se possa afastar do posto em que se a fixou. porque em afluir se inclui a ideia 11 Poder-se-ia notar entre estes dois verbos alguma diferença. que acordar supõe um sono ordinário e que acaba regularmente. sustentar no esforço. Não há ninguém que anime aqueles míseros no eito. sem envolver ideia do modo como se a prende”. A esperança nos alenta nesta luta. e que se interrompe a horas desacostumadas. animar. ir ou vir para alguma parte. conter dentro de certos limites”. acudir. é “prender por meio de corrente”. para sofrer um mal. – Estes três verbos enunciam a ação de correr. pois encerra ideia da tirania com que se agrilhoa. incitar. como se vê ainda de outros versos de Camões (Lus. alentar. ou seu intento. amarrar. pois encorrentar diz mais propriamente “carregado de ferros.

acomodar-se. natural) “mover-se lentamente (como os líquidos) numa certa direção. que do exterior. ou por termos repetido muitas vezes”: devemos os nossos hábitos mais a nós próprios do que a outros. do caráter em suma. e afazer-se a condição. portanto. adaptar-se. tanto social como físico. Não está em mim acostumar-me numa cidade. – Todos os verbos deste grupo enunciam ação de mudar de vida. conseguintemente.. em Paris. amoldar-se. mas quem ouve um grito de socorro não acorre apenas: acode. Entre acorrer e acudir é preciso também notar que é fácil marcar uma certa nuança. à procura de um ponto”. afeiçoar-se. tanto maus quanto bons. Entre acostumar-se e habituar-se há. mas nunca se habituará à vida dos boulevards. Ele se dá tão bem na roça como na corte. 124 habituar-se. dar-se. aclimar-se (aclimatar-se). tar-se. e a diferença entre os dois consiste em que aquele é de predicação menos intensa e mais vaga. poder-se-ia dizer que ninguém acorre a um certo ponto. pois entre o perseguidor e o perseguido a distância pode ser considerável”. Acostuma-se alguém com alguma coisa. o acossador tem à vista o acossado. – Dar-se exprime. aqui. Tal ideia não existe em perseguir. e com a mesma sem-razão com que se confunde costume com hábito. na mesma terra onde nasceu e se criou e onde vive). hábito. do indivíduo subjetivo. – Confunde-se acostumar-se. nem de acorrer por afluir: por exemplo: em – “as famílias da redondeza afluíram à cidade no dia da festa” – não poderíamos (sem alterar o valor lógico da frase) pôr nenhum dos dois primeiros verbos no lugar de afluíram.” Outra diferença: como há casos em que afluir não substituiria nenhum dos dois. ou sem grande interesse de momento ou urgente.86 Rocha Pombo de multidão. Costume. perseguir. a mesma diferença. pois inclui mais ideia de modo de ser do espírito. Quando muito. pelo menos. ou a um gênero de vida que nunca tive. – Costume é “tudo que forma o modo de ser próprio de alguém ou de um povo: o convívio é que o faz. meio ou vida nova. a obediência. sem motivo instante. mas depende de mim habituar-me a um certo serviço. há-os também nos quais não seria permitido usar de acudir. acostumou-se. não se acostuma no campo. por nos termos exercitado com esforço. ou a perigo que viu. ou nalgum lugar. Isto quer dizer que afluir significa (como na acepção própria.. e que em acorrer e acudir está implícita a ideia de pressa: não se acorre nem se acode devagar. afinal. de condição. modelar-se. pois. Paulo (isto é. Esta ideia não há em acorrer e acudir: tanto podemos dizer “ele acorreu ou acudiu ao ver o desabamento”. a vivo interesse. lhe não é mais estranho como a princípio. ajusACOSTUMAR-SE. – Hábito é “tudo que fazemos já quase maquinalmente. Por isso mesmo não se explicaria. por exemplo. menos a nós próprios do que à ação do meio em que vivemos. porque “corre a socorrer”. que um paulista nos viesse dizer que se acostuma em S. M. ou cede a medo. identificar-se. F.” Devemos. se habituou a ir todos os dias à igreja. com habituar-se. ou a alguma coisa que procura solícito impedir ou evitar. 123 ACOSSAR. Resta observar que costume se poderia definir como significando hábito moral. como: “eles acorreram ou acudiram. afazer-se. – Acossar – diz Bruns. ou a provocação: o que. Ela nun- . ou para determinado lugar. os nossos costumes. de cópia ou abundância. Quem acode atende a grito de socorro. A. quase o mesmo que acostumar-se. – “é perseguir hostilizando. ou do modo de parecer peculiar a cada pessoa. quando sente que o meio. de meio. nem sempre se dá quanto a acorrer.

– Afeiçoar-se é “semelhante ao precedente: designa a ação de dar-se perfeitamente com alguma coisa (ou com alguém) amoldando-se a ela”. a acostumar-se aqui. pois ninguém se afaz a alguma coisa sem esforço. isto é. com alguma coisa. O que se junta ou ajunta forma parte integrante do todo. – Amoldar-se é propriamente “tomar alguém ou alguma coisa por molde ou modelo”. adir. etc.” – Ajustar-se quer dizer “pôr-se alguém. por acréscimo ou adição gradual de novas moléculas ou porções de massa. Ajuntar é pôr umas coisas junto a outras. afinal. dizemos que aumenta. e modelar-se diz o mesmo. adi- cionar. ou para algum serviço ou função”. O aumento é sempre efeito da adição ou aditamento. sem constrangimento. a alegria. dar-se bem. dizemos que acresce. ajuntar. “ficar maior. acrescer. identificou-se ele completamente com a sorte daqueles homens. aclimar-se-ão neste trabalho ou neste meio se tiverem perseverança e cautela. adaptar-se a um clima novo. aditar. – “é o meio. adaptam-se rapazes à vida militar. aumentar. 125 ACRESCENTAR. a felicidade. O sentido translato é análogo. Um ricaço aumenta suas rendas acrescentando novas propriedades às que já tinha”. – Segundo Bruns. Não assim o que se 12 Aliás. Decerto nada impediria que uma pessoa. viesse. designativo de esforço por parte de quem se amolda: ideia que se não inclui em modelar-se. E não se diria: Acrescentei o número de livros porque o aumentei. em relação a outrem ou alguma coisa. que se não dá com a vida do Rio. porque acrescentei alguns que me faltavam. – Afazer-se aproxima-se mais de habituar-se. – Identificar-se é “acomodar-se tão bem com alguma coisa como se se fizesse igual a ela”. No verbo adicionar há implícita a ideia de que. de intensidade. acomodo-me à compostura. . A dor. aumenta-se. ou que não é propriamente o nosso”. ou à índole das pessoas prudentes. – Adaptar-se enuncia a “ação de se fazer alguém próprio. de extensão.. ninguém diria que acresce: e sim que aumenta. nesta acepção. – Exemplos: afazemo-nos a uma tarefa nova. – Acomodar-se diz propriamente “ficar a gosto nalgum lugar ou com alguma coisa. por exemplo. – “O segundo” – diz Roq. acrescentando. como a soma para a adição. amoldo-me a todas as contingências: só não posso modelar-me pelo sentir dos ímpios. – Acrescentar é uma extensão de acrescer. adaptado da forma francesa. juntar. pouco a pouco.” Quando uma coisa cresce de volume. mais ampla. qualquer que seja o processo de crescimento. – Aclimatar-se é o mesmo verbo. acrescenta-se. capaz. pois. Aumentei o número dos livros da minha biblioteca. apto para uma certa coisa. Quando uma coisa aumenta “crescendo. e este é o meio por que o aumento se verifica. em regra. 126 ACRESCENTAR. isto seria melhor juntar.” – Acrescer é. pois que se torna mais intensa. de amplitude. unir. ela procura ajustar-se ao modo de ser do esposo. – Acrescentar é tornar mais longo ou mais complexo: acrescentar um parágrafo à carta. – Aclimar-se é “afazer-se. a coisa adicionada é menor do que a coisa a que se adiciona: esta fica para aquela como o todo para a parte. Para aumentar. o primeiro é o resultado. de força. a raiva. mais extensa por acrescimento. afeiçoei-me sempre às condições da minha vida. notando-se apenas entre os dois a diferença marcada pelo prefixo a de amoldar-se. ficarem medida igual”. “adicionar é reunir um todo (ou uma parte) a outro todo12 da mesma espécie: adicionar um ato à Constituição do Estado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 87 ca se pôde dar com os caprichos do noivo. agregar. como ficam duas superfícies planas que se juntam..

ou uma ou mais porções a um corpo fazendo-o maior.. e isso por uma injunção do nosso espírito. – Entre ajuntar e juntar parece que há sempre alguma diferença. “ajuntar ao que estava feito. por uma capacidade própria do nosso entendimento. mas sem dúvida ninguém se animaria a dizer – “adição constitucional”. aliás. no entanto. e agregar é aumentar o conjunto... Basta notar que se diz: – “juntamos os nossos esforços” e não – “ajuntamos. . unir”. de convicção segura e inabalável.88 Rocha Pombo agrega. peça que lhe fica como que apensa. (estarei junto do sr.. não o que sentimos. ao discurso lido: casos em que adicionar não seria pelo menos de muito escrupulosa propriedade. e é só por engano talvez que lhe damos a significação perfeita de acreditar. ajuntar. Mas quem diz: “Creio que ele virá” – funda naturalmente a sua crença ou a sua confiança na afirmação daquele que tem de vir. referindo-se a uma peça complementar da Constituição. e neste caso. crer.. Aditam-se razões às que já foram produzidas: adiciona-se alguma coisa a uma coisa dada. é evidente que não faremos com a mesma precisão e a mesma força as afirmações que aí se formulam. Se nestes exemplos substituirmos o verbo crer pelo outro.) nesta questão”. aqui.. “ajuntamos laranjas. ou por uma tendência ou um modo de ser da nossa natureza moral.” (porque ajuntar. notar que dizemos: aditar alguma coisa às provas feitas. Por isso ajuntar é aumentar o todo. adaptar. em certos casos.. que enuncia apenas o “ato de se pôr ou de ficar uma coisa juntamente ou em cooperação com outra”. que a uma desfiguração de sentido que se explicaria talvez por uma vantagem do menor esforço com que pronunciamos crer em vez de acreditar. em vez de – “aditamento constitucional”. “creio firmemente na imortalidade da alma”. – Confundem-se mui- to estes dois verbos.” Isto quer dizer que ajuntar marca (pelo prefixo a = ad) a atividade. ajuntamos dinheiro” e não – “juntamos. este de formação vernácula. portanto. – Aditar diz. não – “eu me ajuntarei ou ajuntar-me-ei”. Enquanto que o verbo crer significa “considerar como verdade aquilo que está no coração ou na consciência”.. É exato. no entanto. nunca – “me ajuntarei. sugere também alguma coisa de dúvida no considerar como certa a coisa em que se crê. que diz precisamente “ter como verdade. mas aquilo que outros nos afirmam”. portanto. “creio que ela não descerá jamais àquela miséria moral”. Exemplo: “Convença-se de que me juntarei ao sr. e como perfazer a soma”. É certo que dizemos – “ato adicional”. como se vê dos nossos léxicos. “Creio em Deus”. pois cada parte agregada conserva a sua individualidade. Todos dizemos: “Creio que ele virá” – querendo dizer: “Acredito que ele virá”. agregam-se essas ou outras”. bastariam alguns exemplos para deixar clara a distinção que é preciso não esquecer entre os dois. deixando como apensa a coisa aditada”: adicionar exprime “acrescentar como adição. como parcela que vai aumentar. o esforço do sujeito que põe uma coisa junto de outra: o que não se dá em relação a juntar. are) e todos designam a ação de acrescentar. só admite a forma pronominal recíproca: poder-se-á ainda dizer – “ajuntar-nosemos”. parecendo. menos à imprecisa propriedade do vocábulo.. é de mais lídima propriedade a aplicação do verbo acreditar. e aquele de formação latina. mas provavelmente devemos isso. Deu-nos adido e adição. aditar e adir têm o mesmo radical (do. aos autos. – Adicionar. que se equivalem perfeitamente. Juntam-se coisas homogêneas. que o próprio verbo crer. – Adir (de addere = ad + dare) significa “pôr ao pé. ajuntar.. É preciso. Crer encerra ideia de certeza profunda. dos quais temos aditar e adicionar. 127 ACREDITAR. e.”.

e esta (ajuda) passou para o domínio do vulgo. não se segue necessariamente que nos haja acudido. proteger. Manoel. Quem nos socorre. a que se empregava era a portuguesa ajuda. dá-se socorro (ou socorre-se) ao que não tem o suficiente. abandonados. em lendas fantásticas e contos da carochinha. protejam para que não caiam. – Amparar supõe o desvalimento completo da pessoa que se ampara. no entanto.. necessita cuidados assíduos para conservar-se. e precisa de ter mais. – Socorrer não implica a ideia da presença da pessoa. E a inversa é também admissível: só porque alguém nos socorre num grande embaraço. – O mesmo se pode dizer de quem me ajuda. isto é.” – Quebradiço é o que se quebra facilmente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 89 Muita gente não crê em Deus. O vidro é quebradiço. Acudir dá ainda ideia de que a pessoa pela qual se grita deve fazer tudo pela nossa salvação. frágil. Aquele que nos grita: Acudi-me! – solicita ansiosamente a nossa assistência nalgum perigo em que se encontra. – Proteger envolve ideia da superioridade de quem guarda ou ajuda.. ou aumenta a minha força. 80).. como se vê dos seguintes provérbios em que no uso ordinário se não pode substituir um pelo outro: Deus ajuda aos que trabalham. Mais vale quem Deus ajuda Do que quem muito madruga. mas antes de auxílio. valer. se quebra ao ser trabalhado. – Auxiliar diz propriamente “dar auxílio”. e o mesmo aconteceu com o verbo ajudar relativamente a auxiliar. “segundo o aca- . dá-se auxílio (ou auxilia-se) ao que já tem meios. guardem. Nada mais frágil que “a saúde”. 129 ACUDIR. e amparo (ou ampara-se) ao que nada tem”. como ainda se vê em Camões. era ignorada ou não usada até princípios do reinado de D. foi aquela (auxílio) admitida com certo ar de nobreza. pois entende-se que nós. (Lus. IV. ajudar. salvar. socorrer.. acolhe e abriga. 37) a palavra auxílio. auxiliar. espúrios. Só se amparam aos desvalidos. nos julgamos inteiramente perdidos. – Bruns. O protegido não é sujeito que precise de socorro ou de amparo. que é latina (auxilium). ou para que o faça mais prontamente. Quem me auxilia apenas concorre para que eu vença. não pereçam. que. – Segundo dêmico Francisco Dias (Mem. não sucumbam. Há metais acros. defender.. isto é – que tenha vindo solícito ao lugar em que perigamos. A quem madruga Deus ajuda. junto da pessoa que se deve socorrer. “acro se diz do que. e o protetor dá-lhe um auxílio poderoso para que ele se revigore. além de ser quebradiço ou deteriorável. que disse sentenciosamente: Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. Dá-se ajuda (ou ajuda-se) a uma pessoa que está embaraçada com trabalho que não pode fazer. os que precisam de amparo. da Acad. ou mesmo num perigo. cujo socorro se pede.. mas acredita em visões. Nem sempre quem acode socorre efetivamente. isto é – aumentar a força de alguém que já não se julga fraco. IX. a minha capacidade de triunfar. – Acudir é “correr em socorro de alguém”. 128 ACRO. vem apenas completar o nosso esforço e a nossa capacidade de defesa. Escreve Roq. quando gritamos. Depois que os poetas e escritores cultos foram alatinando a língua. de que os sustentem. – Frágil aplica-se ao que. forças etc. quebradiço. ou em Jesus. amparar. sendo duro e pouco dúctil. ou para que multiplique as próprias forças e se ponha ainda mais no caso de alcançar o que almeja.

quer auxiliando-lhe os esforços. – será um homem irritado. Quando a acusação é justa. amparar.. – Delator vem do latim delactor: é um indivíduo que procura. malsim. de assassínio. deixando este encargo às partes interessadas. ou por interesse. desastre etc. que se aproveita de um abraço para introduzir no bolso do que chama amigo papéis. Mais extensamente. O malsim exerce o seu ofício em tudo que respeita aos contrabandos. nunca pelo bem público: procede com disfarce e ocultando-se.. o denunciante nutre seu zelo fazendo conhecer às autoridades as ações e opiniões condenadas em política. “Valha-nos o céu nesta amargura”. Mas quem acusa articula fatos com que pretende dar provas do crime ou da falta por que acusa. o delator obra por maldade. O denunciante pode ser levado somente do zelo do bem público. um traidor que finge viver com os outros em termos de boa amizade para vir no conhecimento de seus segredos. toma-se à má parte. e pode fazê-lo cumprindo dever de cargo. que dá interpretações criminosas às coisas mais inocentes. “Quem me valerá nesta contingência?” 130 ACUSAR. e talvez a de algum vil interesse. o acusador acusa aberta e publicamente. Contudo. um homem corruto. A acusação pode ser às vezes um ato bom. para fazerem a perdição da outra. quer acudindo-lhe e dando-lhe socorro oportuno e eficaz. um homem vendido. “O acusador – diz Alv. reclamando a devida punição”. salvar. ou exercendo direito . incriminar. para que façam o que entenderem. embaraço. o denunciante. é “atribuir a alguém falta ou crime.. denunciar. e que animam a calúnia com o interesse”. “denunciar é manifestar aos juízes um delito oculto. o delator satisfaz sua maldade acusando os crimes ou delitos contra as leis. e defere secretamente o que ele crê ter visto. delator. “Vendo-se já no último perigo recorreu a Deus que lhe valesse” (P. e não acusador. criminar. mas o delator é uma personagem odiada. intentando uma ação criminal de roubo. – Salvar “é pôr alguém livre ou a salvo de algum perigo. sem apresentar as provas.. já para assegurar-se da verdade da denúncia. a palavra acusador é odiosa. isto é. paga. ou mesmo para evitar ataques previstos ou repelir agressões”. Nos tempos modernos o uso tem quase fixado o valor de cada uma destas palavras. como fazem os malsins. – Valer aqui é muito próximo de socorrer. fundada e nobre. malsinar. arguir. – Malsinar é acusar como malsim. – Acusar é denunciar alguém como criminoso. descobre. 131 ACUSAR.90 Rocha Pombo Quem nos defende é como quem se pusesse entre nós e o nosso inimigo e dos golpes deste nos guardasse. Bern. denunciante. quer ainda amparando-o vigorosamente ou defendendo-o”. que aviltam neste mister uma parte dos cidadãos. culpar.. e nas demandas chama- -se autor ao que intenta ação contra o réu ou acusado. um judas infame. aqui.. já para evitar ou remediar o mal que se denuncia. – Acusar. que trafica às escondidas da honra e vida de seus semelhantes. e por ofício. outras (e são as mais comuns) é ato de malevolência. um homem indignado. Man. que serão o seu corpo de delito. quer protegendo-o. delatar. ou suspeitas ao governo”. por preço. e é designado pela frase de vil delator.) – isto é – que lhe acudisse. defender “é ficar ao lado de alguém para impedir que outrem se aproxime hostilmente. – Segundo Roq. Pas. e muitas vezes o que deseja fazer que se creia: o seu ofício é o de trair. Os delatores formam a classe mais vil e infame: são a arma dos governos fracos e corrompidos. acudir. etc. – Delatar acrescenta à ideia de denunciar a de malevolência. in- culpar. acusador.

pode mesmo culpar-me de imprudente. significa “reduzir a crime. 324). axioma. no entanto. pensamento. “Poderá arguir-me de tudo. ou que foi consagrado pela razão humana em todos os tempos. brocardo. e mais vulgar que provérbio: propriamente é “a sentença. tudo que se tornou clássico. pois é uma sentença moral mais profunda. máxima. frívola e sempre velada. brocardo. ou sentença vulgar. e em ser o provérbio mais grave. em frase rápida. princípio. é levar muito longe e arriscar muito a sua argúcia de juiz. mas inculpar-me assim este gesto. segundo – em ser o adágio sempre anônimo. “dizer ou declarar alguém autor de um crime. Adágio. preceito. e de sentido ainda mais profundo. muito menos por sentença. Note-se. que incriminar. ou provérbio. cla- ra. exprobrar culpa como invectivando. – Todas estas palavras enunciam conceito. – Criminar (criminari) é. 132 ADÁGIO. Segundo Roq. a máxima . nem paremia ou máxima. paremia. apodos e chufas que de adágio ou provérbio. delito.. e enunciando conceito menos vulgar. anexim. como o rifão. O anexim. breve e incisivo. prolóquio. mais brilhante de forma. considerar alguém como culpado. e que significa provérbio. ditado. graçolas. a sabedoria vulgar. e a terra para os homens. cré com cré – cá e lá más fadas há” – podem ser tidos como rifões.. em termos precisos.. Diríamos: “Pode arguir-me de muita coisa. seco de forma. melhor do que criminar. dizendo: “E daqui nasceu aquela paremia ou provérbio: que o céu era para Deus. dar-lhe culpa. ditados ou anexins. sugestiva. dito. aforismo. Neste exemplo: “Se a lei. como o ditado têm uma forma. rifão ou anexim. tendo portanto um sentido translato que apenas corresponde à noção que se quer sugerir. ou de parábola concisa”. não só rude. e como tal usou-a Vieira. Distingue-se adágio de provérbio: primeiro – em dar o adágio noção simples e clara. “Gato ruivo do que usa disso cuida”. e exprime “sentença sob uma certa forma de alegoria. a moral vigente. – Incriminar tem-se geralmente como sinônimo perfeito de criminar.” – Arguir é “acusar de falta. anexim. ou os provérbios de Salomão”: e aí não caberia nenhum outro dos vocábulos do grupo. ou os grandes princípios de ciência ou de arte. – Culpar é “atribuir culpa a alguém. mas decerto não seria próprio designar nenhuma dessas frases por adágio. dada em poucas palavras. parêmia.. a frase. – Parêmia pode ser comparada a provérbio: é menos usada que este. senhor. segundo Roq. rifão – quase todos exprimem conceito exclusivamente moral. menos de não ter sabido defender a inocência”.. rifão. quase sempre mais longo. mas quase sempre chula. – Prolóquio é sentença menos grave e profunda. sentença. dito. dando normas ou noções em que se representa a experiência dos tempos. São mais vizinhos de ditérios. prolóquio. mas apenas por indícios. que juiz há de puni-la?” – não seria permitido o emprego de criminar.” (IV. Dizemos: “as sentenças. sem formular propriamente acusação”. – Sentença é um provérbio mais solene. provérbio. trocadilhos. repreender com acrimônia. – Adágio não se confunde com dito.. e como que condensam. paremia é palavra grega (paroimia) pouco usada em nossa língua. fazendo censuras mais com veemência do que com razões”. ou o código não incrimina esta conduta. sentença.. apotegma. enquanto que provérbio pode ter autor conhecido. pronunciá-lo por criminoso ou réu”. “lé com lé. – Culpar e inculpar estão em caso análogo. ditado. máxima. – Inculpar é “ver como culpa um ato que talvez não o seja”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 91 ou faculdade própria. conceito. considerar como crime um certo ato”: e nesta acepção é bem distinto do outro. provérbio.

– Princípio é mais do que preceito. de ação ou de execução. a mais conhecida de todas e a mais forte. se impõe. – Dito. significa escudo pequeno de madeira forrado de couro forte. mas eloquente. Este é o que se prescreve. golpes de espada. que provavelmente vem do bouclier francês e do buccula latino. Na qual vos deu por armas. no entanto. pois o preceito pode ser de moral. e designam apenas um juízo enunciado com intenção de exprimir uma verdade. ou o ponto de vista que vai ser seguido pelo orador”. precisa. – Pensamento e conceito são palavras de significação mais vaga. – Escudo vem do latim scutus (do grego skútos “couro”. Conceito é a síntese de uma noção a que se chegou pelo estudo ou pela reflexão. “dito notável ou palavra memorável de algum personagem ilustre”. com seu brocal. aproxima-se de axioma. 133 ADARGA. 7). (Lus. o ditado é dos três o que mais se aproxima de adágio. os dardos. sentença jurídica ou moral criada por alguma grande autoridade”. muito usadas antes da invenção da pólvora. pois esta é sempre uma noção resumida por grande autoridade moral. e que anuncia o assunto que se vai desenvolver. um simples conceito vulgar. ditado e anexim confundem-se: o dito quase sempre tem ares de pilhéria. quer de arte. – Apotegma é “juízo ou sentença. ou parte dele contra os botes de lança. profunda atribuída a uma alta autoridade”. E é exatamente por isto que se distingue máxima de ditado: este é anônimo e popular: a máxima é menos comum e tem autor quase sempre conhecido e até indicado ao ser ela proferida. ou. e nisto distingue-se dos outros. palavra comum à língua castelhana. quer tratando-se de ciência. broquel. – Segundo Roq. que cobre a embraçadeira que está por dentro. I. Por isso. Além disso. – Preceito pode aproximar-se dos precedentes: é também uma norma ou regra de conduta.92 Rocha Pombo pela qual começa alguém um discurso ou um escrito. ou de dever. pensamento é menos preciso – é “uma proposição de forma simples. e armas de arremesso. mas que se diferençavam na matéria ou na forma. de arte. de ciência. Pa- . uma verdade. se dá como regra: princípio é “o que está consagrado pela razão vigente. e que em poucas palavras dá um sábio conselho. porque se fizeram logo de ferro e aço. “regra de conduta. a máxima é sempre moral: o ditado pode exprimir apenas um conselho. todas estas palavras designam “armas defensivas. ou mesmo por um período todo. – Brocardo é “máxima que se popularizou. como se vê daqueles versos de Camões: Vede-o no vosso escudo. ou no uso que das mesmas se fazia. e daqui veio chamar-se também escudo às armas de uma família ou de uma nação.. e em regra tem quase o valor da máxima. como diz Aul. de religião. porque os primeiros foram de couro) e significa a arma defensiva oblonga ou oval. égide. ou qualquer coisa que interesse ou que seja útil”. no meio tem um embigo de metal ou diamante. Um prolóquio vale sempre por uma proposição. Também os havia de metal. que presente Vos amostra a vitória já passada. o que já foi tão suficientemente demonstrado que dispensa mais demonstração”. nele pintavam os guerreiros suas letras e divisas. rodela. escudo. que é também “enunciado aceito por todos como sendo de si mesmo evidente”. e que serviam para cobrir o corpo. Broquel. pavês. e deixou As que Ele para si na cruz tomou. – Aforismo tem menos de científico e de preciso do que axioma: designa também. dando um conselho. dar uma noção. enfiava-se no braço esquerdo pelas braçadeiras. preceito ou noção expressa em breves termos”.

tornou soma e adição sinônimos perfeitos. ainda que impropriamente. – Rodela. “meus negócios não progridem” – há sempre uma diferença facilmente perceptível... avantajar-se... palavra igualmente comum à língua castelhana. e significa propriamente o escudo de Minerva ou Palas. – Quanto a estes verbos escreve Bruns. que cobria todo o corpo do soldado. mas entre estas duas frases: – “meus negócios não se adiantam”. mas nem por isso devem considerar-se como sinônimos perfeitos. medrar.. e em cujo centro estava a cabeça de Gorgona ou Medusa. prosperar. Era arma antigamente usada em Espanha. feito da pele da cabra Amalteia. obtemos a soma do gasto desse dia. – Adarga é palavra comum à língua castelhana.. soma. que era escudo menor dos peões. obtemos o total do gasto dessa semana”. – Todos estes verbos dão ideia de “ir para diante no desenvolvimento próprio e natural”.. a segunda exprime que os meus negócios não se desenvolvem. A primeira diz evidentemente que meus negócios não se encaminham à solução que eu desejo.. Distinguem-se ainda estes dois verbos nestes exemplos: “o mal. 47. o pai de um aluno pode. total.. e que vem do italiano rotella. desenvolver-se com presteza. “Nos colégios. 136 Bruns. antecipar a mensalidade”. e significa escudo oblongo de couro com duas embraçadeiras em que se enfiava o braço. – Adiantar-se e progredir podem confundir-se. a doença progride” (e não – adianta-se). cheia de serpentes. antecipar. escudo ou couraça de pele de cabra. em atividade vitoriosa: quem progride anda também para diante.. Com a adarga. designa uma espécie de escudo pequeno e delgado.. ajuntando um ou vários números a outro.. O uso também confunde soma com total. . “fazêla efetiva antes da época ou do dia em que deve adiantá-la”.. Há. adiantamos ou antecipamos alguma quantia à conta dele”. entre mouros e africanos. I.. 134 ADIÇÃO. – Adição – diz as somas do gasto de cada um dos sete dias da semana. O uso. vai seguro.... as mensalidades pagam-se adiantadas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 93 rece corresponder ao clypeus dos latinos. portanto. ADIANTAR-SE. – Pavês (do italiano pavese) era escudo grande e oblongo. e uma abertura onde se metia o dedo polegar para o segurar. e que vem do árabe addarca ou addara... diz ele: Por armas tem adargas e terçados . – “é a operação pela qual. em Portugal. isto é. No sentido figurado quer dizer “defesa.... – Égide é palavra latina. – Avantajar-se significa “levar vantagem a alguém. falando dos habitantes de Moçambique. 87). porém. uma diferença subtil entre as duas expressões: adiantar refere-se ao ato. 135 ADIANTAR.. – Total é o número equivalente a várias somas parciais. Fazendo a adição das verbas despendidas num dia da semana. no entanto. proteção”. não aumentam na proporção dos meus esforços. – Soma é o número que se obtém ao praticar a adição. Em dois lugares faz Camões menção desta arma defensiva.. obtemos um número equivalente a todos.: “Consideram-se estas palavras como sinônimos perfeitos: a quem se prontificou a fazer-nos um trabalho por certo preço. florescer. (Lus. Quem se adianta marcha resoluto para a frente. e com a hastea perigosa..... œgis (do grego aigis. vingar. “os dias daquele enfermo se adiantam” (e não – progridem)..... Adicionando (ou reunindo) progredir. – Progredir é. escudo de couro. de aix “cabra”). antecipar ao tempo.

estabelecimentos. assecla. força ou poder”.”. crescer na fortuna”. a entrar nos mistérios de um culto. está iniciado no ocultismo” – equivale a – “F. trabalha em excesso.. de uma doutrina: diz mais neófito propriamente do que adepto. ser feliz”.”. “F. filho – disse o deputado ao colega sonhador – não encontrará adeptos”.. ter bom êxito. deixando supor que o sectário é sempre alguém que se afastou da sua antiga religião ou do seu partido. pois dizemos: “Os iniciados da religião bramânica”. – Iniciado (ao contrário do que pensam alguns) parece que diz menos que adepto. grandes vidas. “F. Tem razão Bruns. Florescem letras e artes. ganha muito. a um partido. partidista.. o que é certo é que a empresa não deixa de prosperar”. pois. seita. que se convenceu e aderiu ou se ligou a uma seita. – Partidário é “membro de um partido. Dizemos: “sectário do calvinismo”. é de supor que fica subentendido. pois o iniciado considera-se apenas “admitido a iniciação”.94 Rocha Pombo fazer mais ou melhor do que outrem”. sequaz. faccioso.. parcialidade. iniciado. ou o novo partido já conta bom número de iniciados”. mas os seus negócios não prosperam”. Além disso envolve também ideia de heterodoxia ou dissidência. a paixão com que se toma o partido. como vingam os nossos planos. que se deixou influenciar. prosperar com esplendor. ou do que o comum dos estudantes. começou a estudar e a conhecer o ocultismo”. de uma ciência. O que prospera não só se desenvolve e aumenta. conseguir o seu fim. isto é. habilitado a receber os princípios. como vai feliz na vida. nunca: “sectário do Cristianismo”. faccionário. partido. Quando eu digo: “Aquele rapaz tem-se avantajado muito nos seus estudos” – quero exprimir que o rapaz de quem se trata tem feito muito mais do que outros. quer em quantidade. como ainda florescem países. “Eles se nos avantajam pelo ar desenvolto. – Prosperar é “ir adiante. desenvolver-se brilhantemente”. ou mesmo de um partido”. “sectário de Lutero”. e por aquela estultícia vitoriosa de que se ufanam. a causa ou a ideia. e iniciado designa mais um estado do que uma condição: conquanto isto não signifique de forma absoluta a impropriedade de iniciado como puro substantivo. quando observa que adepto designa um modo de ser. “A tua reforma. prosperar. crescer não obstante algum entrave. “As rendas se lhe aumentam sempre. “Tu te avantajarás a Pedro se fores esperto. “A causa da independência alcançou logo um grande número de adeptos”. gerações. – Florescer é “ir prosperamente em tudo. nem “sectário de Jesus ou de S. ade- rente. “O novo credo. as searas que abundam. etc. Vinga a flor. “Aquele tipo não te avantaja em coisa alguma”. cidades. parcial. Paulo”. mesmo nos casos em que a cláusula correlata não está expressa.. – Sectário diz propriamente “membro de uma seita. as nossas esperanças. a população que se multiplica”. mas nem por isso se pode dizer que ele prospere. facção. – “A ideia fundamental do verbo medrar – diz Bruns. É. distinguindo-se este do primeiro em exprimir melhor o empenho. O partidário pode pertencer apenas a . Medram o menino que cresce. – Vingar aqui (vincere) é próximo de medrar: significa “tomar vitalidade. adepto esforçado de uma causa. ou o complemento terminativo não está claro. as noções. os interesses que aumentam. porquanto. sectário (sectarista). de uma escola filosófica. como florescem povos. 137 ADEPTO. esforça-se muito.”. “Apesar de todos os contraventos. quer em volume. – é “o aumento. – Adepto é “o que foi catequizado. Partidista é quase o mesmo. um verbo de predicação sempre relativa. e sugere ideia de obstinação e fanatismo. ou de uma ideia”.. partidário. ou que se fez defensor de uma ideia”.

ou deseja disfarçar algum defeito. Além disso. partidos. ou se atavia. mas decerto ninguém dirá que uma senhora se adereça de fitas. ou mesmo contra um homem”. que sugerem. enquanto que partido designa apenas “reunião ou conjunto de indivíduos que defendem as mesmas opiniões. aderente sugere menos ideia de convicção ou de identidade de opiniões entre a pessoa que adere e a causa ou partido a que se faz adesão. ataviar. portanto. ornar. insignificantes: e o segundo mais ainda que o primeiro. E como já vimos. aqui. designando este o sectário apaixonado de forte espírito de seita. “adornar de adereços”. adorno. aprimorar. or- namentar. primor. – A ideia de tornar belo. de joias. – Aderente se diz daquele que aderiu. confunde-se com assecla: apenas sequaz envolve. e por pouco se não diz sinônimo do nosso brasileirismo capanga. perturbador. aformosear. o seu apoio a um partido. e emprega-se frequentemente em casos como o exemplo acima. seita diz dissidência. e parcialidade é o “bando. ou que se atavia de brilhantes. enfeite. por exemplo. Sugere. ou contra instituições. vãs. adereço. embelezar. gala. de aliança. pois atavio é adorno mais falso que enfeite. ornamento. melhor do que assecla. – Sequaz. entre eles poderiam confundir-se ou ser empregados indistintamente. a uma ideia. adornar. de adornos de oiro ou pedraria. o que vai como se fosse na comitiva ou no séquito de alguém”. Uma senhora se adereça. alindar. embelecer. a que se atavia exagera ou dispõe sem gosto os seus adornos ou enfeites. decorar. 138 ADEREÇAR. engalanar. a pessoa que se adereça quer brilhar. sedicioso. esforça-se pela vitória. que deu a sua sanção. (Aliás. decoração. mas o partidista exalta-se na defesa do seu partido. Ninguém diria que. faccioso vale por “viciado de espírito de facção. da causa que se servia. desligamento da doutrina que se professava. – Parcial. separação. Raros. – Enfeitar e ataviar aproximam-se. ou sustentam a mesma causa”. “pertencente a facção”. isto é. portanto. Além disso. isto é. atavio. ideia de subserviência. ou se enfeita. apaixona-se pela sua causa. – Assecla (como se vê da própria formação: ad + sequi) é “o que segue alguém. e mostra-se por isso mais fútil ainda que a pessoa que se enfeita. Um só partido pode dividir-se em várias parcialidades. algum partido ou seita. ornato. A facção distingue-se do partido em significar “grupo ou ajuntamento hostil e secreto contra outro grupo. ou que se enfeita de joias. ideia de parcialidade ou partidismo pessoal. 13 Também entre sectário e sectarista. o grupo dirigido por um chefe”. ou mais correto no gosto. a uma causa que até aí havia hostilizado ou combatido. e sim que se enfeita ou se atavia com as penas do pavão. trabalhando francamente por uma causa. mais vistoso. no aspeto. A liga ou aliança de algumas parcialidades pode formar um grande partido. é “o indivíduo que se liga a outro indivíduo”. – Diferença análoga pode notar-se entre faccionário e faccioso13: o primeiro diz apenas “membro de facção”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 um partido. do que ideia de incorporação.) – Adereçar diz. até pela etimologia (sequi). de “adornar de coisas ligeiras. afeito a maquinações”. desordeiro. no entanto. a que se enfeita quer parecer mais bela do que é. conquanto não pareça muito próprio. o verbo enfeitar é o mais genérico e vulgar. a gralha da fábula se adorna. A facção só se faz partido quando assume o caráter e a força de coletividade legítima. da cegueira com que o assecla acompanha alguém ou alguma coisa. pela ideia. de liga. na expressão – é comum a todos os verbos deste grupo. professar as ideias ou opiniões desse partido. – Adornar e . enfeitar.

uma excelência suprema. Esta. loução. por exemplo. ou no salto. mas este sugere ideia de brilho. pois esta forma significa não – “fazer belo simplesmente” (embelezar). é trabalho de acabamento. e excedem naturalmente ao simples ornato. se se aceita a definição dos lexicógrafos. na pugna. à custa de esforço. entre ornar e ornamentar. rápido. deixa supor que os adornos de que se decora têm um fim especial. e no entanto. ou na ciência do direito. Ninguém seria capaz de dizer: “vou adestrar-me na filosofia. – Exercitar é mais genérico. mas é claro que referindo-nos a um exercício que seja mais mecânico do que de raciocínio. infantis. Ainda outro: “Para a festa vamos embelezar toda a praça. num edifício.. o caráter. aparato de festa. – Aprimorar é dar ao que é já belo. A ornamentação de um templo. fazer-nos mais destro. Ornato aplica-se mais a coisas. ou na marcha.96 Rocha Pombo ornar diferençam-se tão bem como adorno e ornato. Também ornato deve confrontar-se com ornamento: este é uma decoração mais brilhante. mais sumptuosa e augusta. Lindo exprime “belo gentil. adestrar a memória. e adorno tanto se aplica a pessoas como a coisas. pelo exercício. – De ornamentar aproxima-se engalanar. e para algum ato ou função extraordinária e de grande solenidade. as nossas mãos. Pode-se também adestrar num certo sentido: na corrida. Mas note-se que não dizemos: adestrar na música. ou uma virtude. alegria ruidosa – tudo que se encerra em gala. mesmo numa produção literária. ou na economia política”. ou políticas – em tudo. portanto. A mesma diferença há. ou mesmo os nossos braços. na dialética. ou pelo menos de rigorosa propriedade dizer que a cidade se embeleza). ou na matemática: salvo se nos referimos apenas à técnica de algum instrumento. – Tanto se adestra um animal como um homem. ou mesmo em alguma aptidão especial – no desenho. a capacidade. etc. são sinônimos perfeitos. desembaraçar. no tiro ao alvo.” (não seria próprio. afinal. nem “formosa criança”: mesmo porque – “formosa criança” já seria outra coisa). gracioso. etc. de mais imponência.” (não se diria que vamos embelecer. a . e mais talvez de decoração. mas – “tornar belo cada vez mais” (embelecer). ágil” – portanto. correto. ou de alguma operação. exercitar.. ingênuo.. na escrita. taful”. próprio do edifício ou da coisa de que se trata. na datilografia. nas manobras militares. de algum processo.” 139 ADESTRAR. Sendo. Aproxima-se por isso de ornato. bastará um exemplo para deixar bem clara a distinção que se sente entre estes dois verbos: “A cidade se embelece de dia em dia. porém. seriam perfeitamente lídimas estas outras formas: adestrar-se nas lides parlamentares. como se aprimora uma obra de arte. tornar-se perito. e designa toda e qualquer ação de “aumentar as aptidões. e que só se alindam coisas muito mimosas.. elegante – um alto grau. mesmo o espírito. e designa “o que. de um palácio. etc. ensinar. etc. e diz “tudo que aumenta a beleza”. de lavor artístico”. E isso porque adestrar diz propriamente “fazer-se muito hábil. nas quatro operações aritméticas. ou na poesia. num artefato. de uma câmara só se faz excepcionalmente. Dizemos: “lindo ramilhete. Aformosear e alindar estão em caso correspondente. Pode-se. instruir. e no entanto. numa função que não seja puramente espiritual. – Embelezar e embelecer. uma expressão primorosa. Aprimora-se a educação. Dizemos que se aformoseia o estilo. linda criança” (e não – “formoso ramilhete”.. a alma. nalgum ofício ou função. em que é possível. – Aformosear e alindar apresentam a mesma diferença que se reconhece entre formoso e lindo. primor “o alto grau de perfeição a que se eleva aquilo que se aprimora. aliás. portanto..

Pode-se usar também este verbo ensinar como só transitivo. Apraza-se uma negociação. com algum fim. no entanto.. como construindo-lhe o espírito”. e demorar exprime – “não mover. mesmo neste caso. para enganar. e neste caso. procrastinar. que ensinar. isto é. fazer parar. Mas retardar quer dizer propriamente – “deixar para mais tarde”. transferir. Exercitamo-nos numa profissão. etc..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 97 força. do vencimento de uma letra. equivale a instruir. Prorroga-se uma sessão do Congresso. subentendendo o complemento indireto da predicação. espaçar. 140 ADIAR. conquanto não tenha a força deste. o vigor.. ou uma grande festa para o ano próximo. dilatar. Instruise um batalhão. lépido. do que propriamente ideia da ação de quem instrui. etc.. instrui-se a mocidade. estirar.. (Aul. dilação. diligente. Nestes exemplos: “A língua se amplia adaptando de outras os termos novos de . que adiar é “transferir por dias”. comunicar-lhe. para mais tarde”. alongar. ordinariamente por desídia. no entanto. um despacho. entravar ou reter por um certo tempo”. num trabalho. profissão”. – Adiar é “deixar para outro dia”. e ensina-se um papagaio a falar. remanchar. Evidentemente não seria próprio dizer que se adiou uma comemoração. uma ideia de extensividade que se não encontra em dilatar. demorar para ir ganhando tempo”. retardar. infundir-lhe doutrinas. formando-lhe. reformas. – Dilatar é “ampliar um prazo que se fixara. da função de transmitir o que deve ser aprendido. – Procrastinar é “remeter continuamente para o dia seguinte o que se deve fazer”. – Desembaraçar pode aproximar-se do primeiro verbo deste grupo: diz precisamente “fazer expedito. hábil nalgum ofício. trabalhos. retardar de propósito”. malévolo quase sempre. – Protelar = “demorar. Quando digo: “ensinemos a mocidade”. demo- rar. isto é – afasta-se o termo desse prazo. exprimo nada menos do que exprimiria se dissesse: “instruamos a mocidade”. por meio do exercício”. repetindo muitas vezes. não dar no tempo oportuno”. resoluções. segundo os lexicógrafos. contemporizar. uma entrevista. – Remanchar = “demorar com certa manha”. – Aprazar é “assinar um tempo certo (prazo) para alguma coisa”. Dilata-se o tempo que se tinha para fazer alguma coisa. demora-se um processo.. ou para impedir que da coisa que se protela alguém se aproveite se não for protelada. torná-lo mais largo. Retarda-se uma solução. mister. do trabalho. “O tribunal anda procrastinando a sentença”. Notemos. numa virtude. ou por muito tempo. ampliar. a função ou o processo que a isso se destine. – Contemporizar é “entreter. num cargo. mas não se instrui um macaco ou um papagaio. – Ampliar confunde-se com dilatar: aquele sugere. esperto. ou a um cão. mas podendo ser também por mero capricho. sem marcar prazo fixo. a época de pagamento de um imposto. – Prorrogar é “dilatar um prazo que se venceu”. Prorroga-se uma licença. por exemplo. “Nós insistimos por que se faça a coisa com urgência”: e ele a contemporizar muito impassível”. no entanto. – Transferir diz a mesma coisa. “o governo procrastina a solução de um negócio de tal monta”. um negócio. – Diferir é “deixar para depois. – Instruir é “preparar alguém nalguma arte ou ciência. diferir. Difere-se uma resolução. pois quem instrui opera sobre o espírito do que é instruído. – A um papagaio ensina-se. delongar. – Demorar confronta-se com retardar: ambos dizem – “fazer que se espere. – Todos estes verbos sugerem ideia de espaçamento. mais espaçoso”. como se ensina alguma coisa a um cavalo. protelar.. aprazar. prorrogar.) Adiam-se negócios. prolongar. noções ou princípios. envolve mais ideia do processo. Observase.

o Império. em que não só há desgosto senão também sentimento.. contemporizar. procrastinar. (Camões. pois este verbo é que significa “estender. Prolonga-se e também se alonga uma linha. prolongar e delongar apresentam entre si as diferenças marcadas pelos respetivos prefixos. se deixa para depois.98 Rocha Pombo que precisa”. e assim enchendo tempo. isto é. Ninguém diria. etc.. Delongar confronta-se com retardar. Uma rua que se prolongou até uma praça por isso mesmo alongou-se. e podia ainda alongar-se essa rua prolongando-a. e sem marcar a ideia de fazer aumentar em todas as dimensões. esta locução oposição ou resistência de pessoa estranha. tornar maior um interstício. retarda-se a dita solução deixando-a para mais tarde. “Apesar vosso levarei a minha adiante”. e significa “contra sua vontade”. Prolongar é “estender para diante uma coisa longa”. ou resistência. ou de compreensão. ainda que. como se dilata distendendo-se. diferir. por desídia. as memórias gloriosas daqueles reis que foram dilatando a Fé. indica. I. isto é – “ainda que vos pese. mágoa com isso que se faz. 2) – não caberia o verbo ampliando. prolonga-se estendendo-a a começar de um dos extremos. de mau grado. Também não se diria: “vou ampliar no mundo a vossa fama”. demorar: significa propriamente – “deixar para depois. ou entre atos que se repetem. – Alongar. tornar mais vasto. com desgosto ou desagrado. fazer mais longo. “vou ampliar a minha oficina com mais uma secção de roupas”. que vencemos. portanto. posto que. uma moeda. Do mesmo modo. uma rua.. mais aberto. sem sugerir noção de proporções. – Apesar indica mais forte oposição.. um prazo. bem que. “convém ampliar a todas as classes do curso primário aquela medida”. por mais que. Espaçar enuncia. para outra ocasião”. e nem o mesmo valor.. – Estirar e espaçar significam. e naturalmente só se diz de coisas que sejam longas. Malgrado seu é o mesmo que “a mal de seu grado”. sem embargo. como se reconhece em ampliar. – aí não caberia decerto o verbo dilatar. difere-se quando. que só tenham uma dimensão característica. apesar. consentimento”. e dificultando-a sempre. pelo menos não teria a mesma propriedade. embora. “Submeto-me de malgrado” quer dizer “contra minha vontade. Mas: demora-se uma solução quando não se cuida de dá-la. não obs- tante. malgrado. que se alonga uma esfera. “todas estas locuções adverbiais exprimem uma oposição.. – Segundo Roq. isto é. Também não se compreende como se alongaria uma cabeça humana. de uma parte até à praça. quer dizer “de má vontade. Alongar é “fazer mais extenso ou comprido”. com desgosto meu”. mas alonga-se dando-lhe mais extensão. conquanto. neste outro exemplo: “. e de outro lado até uma outra rua. é claro que malgrado. salvo se se lhes quer mesmo mudar a forma. ou um quadrado perfeito. Uma serpente contrai-se e dilata-se: e tanto se dilata engrossando. a ideia de fazer maior a distância entre diversas coisas. ou que tenhais . mais ou menos forte. sem dar ideia de limite.. e delonga-se adiando-a indefinidamente. ou numa certa direção e até um dado limite. – Significando a palavra grado “vontade. aqui. mas em cada uma delas há uma relação particular em que consiste sua diferença”. ou de nossa mesma vontade. portanto. procrastina-se prometendo sempre dá-la “amanhã” e não dando nunca. mas ninguém dirá que uma serpente se amplia quando se distende. vinda das pessoas ou das coisas. e sim – “vou dilatar. 141 A DESPEITO. ou por alguma conveniência ou cálculo. a qual não é eficaz para impedir a ação. e contra a qual obramos”. contemporiza-se quanto à semelhante solução falando em dá-la sem fazê-lo. ainda.

tem mais energia e aumenta de força por ajuntar à ideia de oposição ou resistência o desprezo com que se vence. etc. Catarina.. seus sinônimos. sem embargo dos insensatos motejos dos ímpios”. e neste sentido se usa hoje quando. vel pastu futura divino). que significava antigamente “predizer o futuro pelo canto. que não cede a oposições. ou em despeito. e phemi “digo”) e vale o mesmo que dizer antes ou predizer. “Saio de casa. É mais forte que ainda que. com a diferença que é termo bíblico e teológico. – Sem embargo indica uma resistência menor de coisas ou circunstâncias. e exprime “por mais que assim pareça ou que seja de fato. “Conquanto este seja mais inteligente. “Faz calor não obstante ter chovido”. mesmo que”. o gesto. “O homem virtuoso observa pontualmente os preceitos de sua religião. prognóstico. agoiro. A despeito das leis. hei de vencer”. ou admitido que seja assim”. – Predizer é o verbo latino predico. ou sem embargo. “Não deixarei de protestar ainda que me matem”. hoje é “conjeturar por certos sinais ou pressentimentos sobre o futuro. ou dificuldade absoluta. “conjeturar de qualquer modo”. em latim divino. resistência. “Apesar meu. falando dos cinquenta sábios que se renderam à doutrina de S. – Agoirar é o verbo latino auguro ou auguror. e por extensão. predição. – Embora indica pouca atenção ao embaraço ou à contrariedade.”. beijo a mão que desejara ver cortada”. “Sem embargo das queixas dos povos o mau príncipe prossegue em suas opressões”.” – Vindo despeito de despectus “desprezo”. pelo despeito com que pisa igualmente os palácios dos reis e as cabanas dos pastores”. – isto é – em desprezo das leis.. aquele aprende mais porque é mais aplicado. vaticínio. era entre os pagãos “predizer o futuro por uma espécie de inspiração que eles supunham divina”. porque se emprega também nos casos em que se trata de uma oposição puramente condicional ou possível. presságio. “Amanhã hei de ir ao campo ainda que chova”.. em despeito do juramento.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 99 pesar” farei o que intento. vaticinar. sem declarar por que modo se veio a sabê-la nem dar a conhecer o grau de autoridade que merece quem a prediz”. Bem se autoriza esta inteligência da palavra despeito com o seguinte mui elegante lugar de Vieira: “Tem-se acreditado a morte com o vulgo de muito igual. e significa literalmente “dizer uma coisa antes que aconteça. gestu.. – Posto que = “dado mesmo. adivinhação.. e mais fácil de vencer: exclui o embaraço ou impedimento que pode delas resultar. profetizar. – Adivinhar. – é o gênero a que os outros pertencem como espécies”. “Por mais que me hostilizem. Isto pertence aos outros..” – Por mais que exclui toda dúvida e indica resolução firme. o pasto das aves” (propriè est ex avium cantu. – Não obstante exclui simplesmente uma oposição. prognosticar. prophetizo (de pró “antes”. pressagiar. do próprio dever. de onde veio divinatio. isto é – “com pesar. diz: “A constância firme até à morte com que defenderam a mesma verdade apesar. – “O último destes vocábulos – escreve Roq. queremos predizer o futuro. com mágoa beijo a mão.. e a despeito do imperador”. e tem a significação restrita de . agoirar. profecia. – Bem que = “ainda assim. 142 ADIVINHAR. onde. – Ainda que tem mais extensão que as duas antecedentes. – Conquanto enuncia oposição ainda menor do que sem embargo. Confirma-se mais nossa asserção por outro lugar do mesmo Vieira. não obstante andar doente”.. a que chamamos agoiros. e às vezes acertar com o que há de acontecer”. por certos incidentes insignificantes. predizer. nos quais não têm seu uso próprio as locuções não obstante. “Digam embora que eu fugi”. etc. – Profetizar é verbo grego. é claro que a locução a despeito.

100 Rocha Pombo anunciar as coisas futuras em virtude do espírito de profecia. o que sucedeu em Évora no tempo de El-Rei d. vate. ter pressentimento. – Vaticinar. profeta. a que Scaligero dá por origem o grego phátes “falador”. – As predições que faziam os vates chamavam-se vaticínios. como a entendiam os antigos. 3). tendo bem examinado o doente. serve particularmente hoje esta palavra para indicar um enigma que se propõe a alguém para o decifrar. 31) Nescio quid profecto mihi animus prœsagit mali (Ter. ou que os homens têm como tal. era predizer. id est avigerium. em linguagem técnica. e gignosko “sei. mágico. raramente falham. quiromante. – Sendo certo que a adivinhação. vel avigarrium. (Lus. porque eram acompanhadas de certo canto poético. precipitada. Heaut. – Os astrólogos faziam inumeráveis prognósticos acerca de acontecimentos futuros. II. e que. De tais sucessos não se deve tomar nem bom nem mau agoiro. e somente é um sinal que indica ou anuncia coisa futura. Vieira tinha a simplicidade ou mania de apontar como causas de grandes desgraças e calamidades. pressagiaram a morte de Cesar. aquele . prœsagio (de prae “antes”. por uma espécie de tino interior de que se não sabe dar razão. e feito o diagnóstico. e daquele estro ou furor que estimula o poeta quando estende as vistas sobre o futuro. id est futura ante sentire (Cic. conheço”) e significa. IV. o presságio é uma conjetura legítima e razoável. das aves. etc. mandin- gueiro. no mesmo sentido em que o usaram Cícero e Terêncio: Is igitur qui ante sagit quam ablata res est dicitur prœsagire. etc. – O dom sobrenatural de conhecer as coisas futuras chama-se profecia. – O agoiro é uma conjetura fútil. é ilusória. de vates. pelo qual se prediz alguma coisa futura. e assim mesmo o anúncio que destas coisas faz o profeta. os prognósticos dos políticos e estadistas. – Prognosticar é o verbo grego progignosko (de pró “antes”. astrólogo. Deste gênero são os sinais de que fala Virgílio no livro I das Geórgicas. João I e que o nosso Camões cita como um presságio daquele feliz reinado dizendo: Ser isto ordenação dos ceus divina Por sinais muito claros se mostrou Quando em Evora a voz de uma menina Ante tempo falando o nomeou. porque nenhuma conexão têm com o que há de acontecer. necromante. “predizer. segundo o poeta. – Pressagiar é verbo latino.. – Todas estas predições provêm do homem: não assim o presságio. divino’) é “– diz Bourguig. no voo. fundados na suposta influência dos astros. como disse Camões: Que o coração presago nunca mente. à phates). 1.. 143 ADIVINHO.. Extensivamente aplica-se depois a qualquer sucesso ou sinal indiferente de que a superstição se valia para ler no futuro. ou profetizar cantando. e supersticiosa. 7). fundados nas analogias e probabilidades que lhes ministra a história. chamavam-se agoiros (angurium. e assim se podem chamar ainda hoje aquelas conjeturas que os políticos for- mam sobre a sorte futura das nações. sinto”) e significa “pressentir. que ainda o p. De Divin. –” propriamente falando. haríolo. e às vezes nascida de um pressentimento instintivo que não engana. da natureza dos objetos sobre que se faz o prognóstico”. prognosticam os eclipses. e enfim. O médico. em latim vaticinor. os eclipses. avium garritus). Quando as predições se fundavam no canto. e sagio “penetro. – “O adivinho (do latim ‘divinus. forma mui facilmente o seu prognóstico acerca da crise e do termo da doença. o qual se não pode chamar uma predição. feiticeiro. “mentiroso” (fatuos primum vates vocatos esse apud omnes satis constat. os astrônomos.. guiados por mais seguras regras. – Tudo o que se prediz antes de acontecer é predição. I. bruxo. por meio de discurso certo ou conjetural.

no entanto.. consideravam-se os adivinhos como homens inspirados do Céu. e compreende o passado. em causar dano aos homens ou aos animais. – O feiticeiro (de feitiço “encantamento”) em francês sorcier (de sort “destino”) é aquele que tira sortes: recebe seu poder do demônio. eram tidos. como ainda hoje se lhe chama nas aldeias da Itália meridional). transportar-se para onde quiser. o feiticeiro e o necromante possuem. – Mandingueiro = “que faz ou usa mandingas”. pois a Itália foi na Idade Média fecunda em homens dados a toda espécie de ciências ocultas.. – O mágico. parecendo ser de importação italiana. O bruxo. conhecimento que lhe submete todas as forças da natureza. e mais ainda que tudo isso. – Vate era o que fazia vaticínios. O do mágico (de magia.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 101 que se julga dotado de um poder divino para descobrir e conhecer o que está oculto aos outros homens. – O necromante (do grego nekrós “morto” e manteia “adivinhação”) é “um mágico que evoca os mortos. Esta segunda acepção conserva-se no sentido figurado para designar aquele que anuncia. o presente e o futuro. pois. e a quem se atribuía o dom de predizer o futuro. e hoje reserva-se o vocábulo para designar o grande poeta. ou prevendo facilmente as consequências dos acontecimentos. e phemi “digo”) era. operar metamorfoses. não emana da divindade. – O profeta (do grego pró “antes”.. com mais ou menos certeza ou probabilidade. – O quiromante (do grego kheir “mão”. quer se lha atribua ao estudo das ciências ocultas. Toma-se não raramente à má parte esta palavra. para saber deles o futuro ou as coisas ocultas aos vivos e que os espíritos podem revelar”. entre os judeus e os cristãos. ou a bruxa é. semelhante dom. um homem que se julgava inspirado de Deus.. bruxo é palavra de etimologia muito duvidosa. e no sentido figurado emprega-se sempre para designar um personagem que faz coisas agradáveis e maravilhosas. superiores ao poder humano. – Segundo Bruns. praticada ainda hoje em alguns lugares do Brasil. Entre os pagãos. os acontecimentos que prevê: aquele que nos ameaçou de tais desgraças foi verdadeiro profeta. A faculdade de conhecer que possui o adivinho estende-se sobre todas as coisas. penetrando subtilmente nos pensamentos dos outros. etc. ao contrário. e muitas vezes também em descobrir e revelar o futuro. como simples feiticeiros ou mágicos. ou mesmo à sua sagacidade natural”. – Haríolo era o charlatão que dizia “a sina mediante uma espórtula”. quer se lhe atribua a sapiência a um dom da Divindade. Este parece termo introduzido pelos africanos. Mandinga é a feitiçaria grosseira dos negros. cuja visão genial alcança o futuro. com efeito.. não somente o dom de conhecer coisas ocultas. As ciganas são quiromantes. ciência dos magos) provém de conhecimento das ciências ocultas. É este último sentido que o vocábulo conserva geralmente no figurado: designa então um homem muito hábil. dispor dos espíritos e dos gênios. a pessoa que tem pacto com o diabo para fazer malefícios. muito sagaz. e manteia “adivinhação”) é propriamente o que prediz o futuro das pessoas pela inspeção das linhas da mão. mas ainda o poder sobrenatural de praticar ações maravilhosas. ou cuja arte se reduz a evocar os mortos. e que lhe permite executar livremente toda sorte de prodígios. na maior parte das quais era indispensável o lume para brucciare (“queimar”) as plantas e ingredientes auxiliares das adivinhações em que o agente principal era o próprio diabo (il brucciato. o que profetizava cantando. muito destro. isto é. ou para os debelar. . e reservava-se para os profetas exclusivamente a inspiração divina. – Astrólogo era o sábio versado no segredo dos astros e conhecedor da sua suposta influência nos acontecimentos humanos. do inferno e emprega-o sobretudo em fazer mal.

confinante. – Adjacente quer dizer – “que está nas imediações. – Sobre estes dois vocábulos lê-se em fr. contíguo. contíguas são extensões (ou coisas) que se tocam (con=cum+ tago. chegado confrontam-se. confins. – Imediato. zonas confins (não – confinantes. conveniente para vestir. Marca-se assim perfeitamente a diferença entre confim e confinante. e fronteiras são extensões (ou coisas) que ficam ou que estão uma defronte à outra: não é necessário que estejam contíguas ou unidas. Países. mais do que próximo. a mesma linha divisória”. ou se os limites não são fixos e precisos. 145 ADJETIVO. As outras duas consideram o epíteto como exprimindo uma qualidade do substantivo. É mais ainda que contíguo. Mas. que jaz perto”. ou em geral a territórios. pegado. próximo.. mas este é mais extenso. – Chegado diz menos que pegado: significa “muito próximo”. limítrofe. Luiz: “Na língua grega. a próxima semana. sem energia. pois que zonas. forma arcaica de tango. – Pegado é quase o mesmo que unido. sem graça. S. e pôr-lhe a ideia vivamente em destaque. O adjetivo completa ideia do nome e o sentido da proposição: é necessário. os termos próprios serão adjacentes. É claro que a coisa imediata pode não estar unida à coisa precedente. províncias. As primeiras duas artes consideram o adjetivo como exprimindo uma qualidade do substantivo. é “a que se segue à primeira. vizinho. quer outro significa ‘vocábulo aposto. pegado. Considerando. propriedades rurais (todo território de extensão determinada) podem ser limítrofes. unido. O adjetivo acaba a imagem do objeto: o epíteto dá-lhe colorido. contíguo. distritos. quer de tempo. ou contíguos. epíteto diz o mesmo que na latina diz adjetivo: quer um. porém. vizinhos: Não se diria: paragens limítrofes. ou fronteiros. por exemplo. ou confinantes. o próximo verão. A casa ou a aldeia próxima. e aquele só se aplica em referência a países. dá vivacidade e energia ao discurso: é útil e conveniente. regiões. mais animada a ideia. confim. nem confinantes. Nesta frase: .. – Vizinho é o que se acha “mais por perto de nós”. ou uma superfície da outra) que não fique espaço nenhum entre a coisa que está junta e aquela a que se junta”. imediato. fronteiro.102 Rocha Pombo 144 ADJACENTE. tratando-se de duas coisas. Limítrofe é o mais próximo de contíguo. – Confim (ou confine) e confinante dizem propriamente – “que tem o mesmo fim. Se tiramos o adjetivo. necessária para modificar ou determinar a sua ideia. chegado. Paragens. – Próximo diz – “mais chegado. unido. – Unido quer dizer “tão junto (um objeto. a casa contígua à minha é desta limítrofe. Neste sentido genérico. mais pitoresca. pode-se dizer que os dois coincidem exatamente um com o outro. ou ajuntado ao substantivo para modificar-lhe a significação’. não dando apenas a mesma ideia de ligação perfeita que se inclui neste último. epíteto. Ninguém diria que. e se a extensão não é certa. O espírito justo emprega o adjetivo mais próprio: a imaginação brilhante emprega o epíteto mais expressivo. O epíteto faz mais viva. Aproximam-se de fronteiro. e quer se trate de espaço. – epíteto é termo da eloquência e da poesia. ere “tocar”). o uso mais particular que se dá a cada um deles – adjetivo é termo da gramática e da lógica. – Imediata. junto. – Junto é o que fica ao lado. regiões. ornar. paragens não têm fim preciso ou limite certo). sem que medeie coisa igual entre uma e outra”. ou unidos. a proposição muda de termos: se tiramos o epíteto a proposição fica sem ornato. limítrofe. pois só podem ser confinantes ou limítrofes territórios que tenham fim certo e preciso (limite) e cujos limites se encontrem. menos distante”.

etc.... etc. de alguma coisa sagrada. adido. Pasmado. a fama da Universidade. “O sr. talvez melhor. enquanto que adido se diz do funcionário. mas a imagem descorada e amortecida”. – Conjurar é mais que protestar contra a obsessão e que ordenar ao demônio que saia do corpo de um atribulado: é fazê-lo sair. da pátria. entusiasmo. maldizendo”. fica o mesmo sentido. etc. ou que deixe de atormentar alguma alma. conjurar. exorcismar) é “fazer as adjurações. maravilhado. etc. 148 ADMIRAÇÃO.).. “Aquela cena estranha causa pasmo geral”. assombro. por exemplo: “Qual não foi o meu espanto (ou o meu susto.. – Esconjurar não é apenas uma outra forma de conjurar. extasiado (extático). como se vê deste exemplo de Vieira: “D. espantado. arrebatamento. em nome de Deus. designam pessoas (autoridades. Tirado esse adjetivo. assustado. Tirado o epíteto. arrebatado. Dizemos: adjunto do promotor público. quer para auxiliá-las. repelindo. – Espanto diz – . e adido de embaixada. de certa missão. induzir energicamente. pasmo. arroubado. É certo que nesta frase. 147 ADJURAR. Mas adjunto se supõe sempre junto de uma outra pessoa (juiz.. que fica junto de uma repartição.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 103 ‘O homem justo é digno da imortalidade’ – o adjetivo ‘justo’ determina a ideia principal. e admiração de seus doutores. – Adjurar é “concitar com império.” – só uma distinção muito subtil é que poderia dar uma preferência formal por um dos três vocábulos. ordenar em nome do próprio Deus. ficou admirado. – Empregam-se todos estes verbos em sentido figurado. susto e assombro confundem-se frequentemente. – susto. e que nós manifestamos principalmente pelo olhar”. transporte. maravilha. professor. Fernando. 146 ADJUNTO. – Espanto. como dizem alguns autores: é “conjurar imprecando. Nesta outra: ‘A pálida morte pisa com igual despeito os palácios e as cabanas’ – o epíteto ‘pálida’ dá uma cor à ideia principal. Mas vejamos. ou está admirado de ver a justiça tão liberal quando a julgávamos tão somítica?” – Pasmo é a “admiração levada a uma intensidade tal que absorve todos os sentidos da pessoa que está pasmada”. na surpresa que o assalta. ou o meu assombro) quando o moço. Muitas vezes é empregado este vocábulo para exprimir a própria coisa que excita admiração.” – Admirado. êxtase. e a proposição é falsa. e com significação análoga à que lhes fica assinalada respetivamente. o menino emudeceu”. diz propriamente “tomado de admiração”. quer para substituí-las. enlevo. e particularmente “ordenar ao demônio que saia do corpo de um possesso. surpreendido (surpreso). aqui (com a função de predicativo). enlevado. admirado... expulsá-lo com grande clamor. que se faça alguma coisa”. surpresa. funcionários) que têm funções junto de outras autoridades. de um tribunal. é renegar abrenunciando. o sujeito muda. entusiasmado (entusiasta). pasmado. e quase pinta aos nossos olhos um hórrido objeto. e completa o sujeito da proposição. espanto. – Admiração é “o forte movimento de alma que em nós excita alguma coisa extraordinária. esconjurar.. em plena Câmara. proferiu aqueles horrores!. e na maioria dos casos sem muita razão. transportado. assombrado. os esconjuros (exorcismos) próprios para expelir o demônio de um corpo”. como se cria nos velhos tempos” – diz Bourguig. adjunto do lente de geografia. arroubo. exorcizar (ou exorcismar). – Estes dois vocábulos Exorcizar (ou.

ou aquela conquista surpreendente) põe-me na alma agitada mais maravilha que alegria”. diante do altar extasiada. encheu de um vasto e grave clamor todo o templo”. é um como esquecimento da alma pela coisa que aprecia. causado pela suspeita de algum perigo). e muitas horas depois ainda a encontramos extática.. – Maravilha (no sentido que lhe dá lugar neste grupo) é “sentimento de assombro tão vivo e intenso como se fosse produzido por alguma causa sobrenatural”. Dizemos: “pequeno susto. como se estivesse incendida do próprio Deus. – Enlevo é “um êxtase mais sereno. “O auditório está assombrado de ouvir aquela palavra tão nova. e no qual parece tomada de pasmo e maravilha”. pois o que o auditório sente é mais admiração que surpresa ou pasmo). se parece como absorta. Surpreendido é o que . mas não seria muito próprio dizer (na acepção que lhes damos aqui): “pequeno assombro”. e a nossa maravilha provém de sentirmos que tal prodígio excede às forças humanas.. É um estado semelhante àquele “engano da alma. nem: “pequeno espanto”. admira ou adora”. ou como tocada de centelha divina”. violenta impressão de surpresa e quase terror”. pareceu-nos em completa transfiguração: enquanto ela (a noiva).. extática. um sobressalto. “O noivo. “Senti um grande susto em toda a assistência”. “Aquilo (aquela ação extraordinária. “Ele está entusiasmado com a vitória”. – Espantado. e.” (não – espantada. Entusiasmado é “o que está sentindo entusiasmo” (é um estado). – Assombro é “grande espanto. admiração profunda e solene”. a assistência.. “Transportado de cólera. mas apenas uma desconfiança. em todo o delírio da sua fé”. – Arrebatamento diz – “admiração súbita e impetuosa”. “O moço está espantado de me ver marchar” (não – assustado. sacudida de paixão violenta”. entusiasta é “o que se devota com entusiasmo por alguém ou por alguma causa” (é uma qualidade). – Transporte é “arrebatamento da alma. – Êxtase (ou extasis) é “o estado de quase delíquio em que fica a pessoa que se arrebata. “Vieira foi o assombro do seu século”. arrebatada. daqueles transportes de alegria passou à demência. e é tomado também este vocábulo como significando a própria coisa que nos surpreende. – Surpresa é a “súbita impressão que nos causa alguma coisa que não esperávamos”. ou às próprias condições da natureza. em pasmo. grande susto”. “a grandeza dos Estados Unidos do Norte é o espanto de todo o mundo”. abalo mais ou menos forte. “Ali ficou.. assustado e assombrado distinguem-se de igual maneira.. “Naqueles arroubos da sua vida moral.. tão brilhante e segura” (e não – assustados nem mesmo – espantado.104 Rocha Pombo “admiração que é quase pasmo. extasiado da íntima alegria da bemaventurança. pois este vocábulo já enuncia um estado de alma que é mais alarme do que espanto). serena e extática. – Susto é menos que espanto: é “espanto súbito. “A população está assustada com aquele boato que ontem correu. mais inconsciente e mais delicioso. causado por alguma coisa inesperada”. ficou por longo tempo em adoração diante da imagem”. Fica-se maravilhado à vista de um prodígio. ou aquele invento.. “Ouvindo um lance daquela oratória grandiosa. quase inconsciente nas profundezas do seu êxtase. gozando o seu arroubamento.” – Entusiasmo é “o estado de agitação e arrebatamento em que fica a alma. que a fortuna não deixa durar muito. ele vivia mais num instante do que outros num século”. e sentindo-se como em deslumbramento de coisas divinas”. Vemo-la extasiada se ela se mostra como entregue ao seu êxtase. porque o que a população sente não é comoção de quase terror. o pobre. “ele é grande entusiasta do capitão”.” – Arroubo (ou arroubamento) é o estado em que fica a alma “arrebatada de altas emoções.

dar de cara com. ou para alguém ou alguma coisa”. no destino”. olhar com atenção”. contemplar. ou a arrogância. ou de relance.. – “encarar é olhar direito para fixar bem. Examina-se um caso. em susto. mas bastam alguns exemplos para ver como se distinguem. apreciar. nem a capa lhe escapará nos ombros”. a mercê de ver com ambos os olhos. ou cor-de-rosa”. Considerar sugere a ideia de ter (quem considera) o espírito voltado para o alto. consi- derar. Mas a diferença entre os dois verbos consiste em ser a ação de considerar mais própria do espírito que indaga. estudo minucioso e com muita atenção”. e. ou o desplante. vê-se vesgamente. “Vivemos aqui. Olhar é simplesmente “dirigir os olhos para algures. conquanto no uso vulgar muitas vezes se empregue um pelo outro. – Considerar (de con = cum e sidus “astro”) confunde-se muito com o precedente.” Mas tanto esta como a forma do exemplo acima. a conduta deste moço?” (e não – fita). por que se os não tiver ambos abertos. ou para os astros. – Observar e examinar confrontamse. que está enlevado para o céu.. ou com maus olhos. espanto ou alegria”. na floresta sagrada. etc. observar. com apreço”. olhar. autorizam-se com os clássicos. E quer um. ou com desprezo”. – Apreciar é “ver com muito interesse.. “Aquela criatura já considera gravemente na vida. uma obra de arte. a contemplar as maravilhas de Deus”. mas é certo que o último acrescenta força e intensidade à ação do primeiro. admitem adjuntos modificativos da respetiva ação. “Olha-se de esguelha. – com que se olha. “Olhou e viu tudo cerrado” (R. que vale mais por “perplexa. pois.. devíamos dizer: “Ele fitou os olhos naquele ponto. dizemos de preferência surpresa. significava. e a de contemplar mais própria da alma que se enleva ou extasia. “Vê-se com os próprios olhos. quer outro destes verbos.. ao alcance de todos os sentidos. Ver exprime o exercício da fa- culdade de “receber pelos olhos a impressão que nos causam as coisas exteriores”. Em contemplar sente-se também a sugestão de ideia semelhante. em grande pasmo para a coisa contemplada”. portanto. perturbada”. sem embargo da restrição que fazem alguns autores quanto a ver. Resta dizer que sugere também a intenção – o interesse. que procura entender as coisas do universo. a coisa a examinar. – Fitar e encarar ainda se confundem mais facilmente. – Olhar e encarar poderiam confundir-se em grande número de casos. etc. como se a pessoa que contempla estivesse absorta. uma paragem. examinar. – Contemplar é “admirar longamente. “Eu pasmava de olhar e ver o homem” (Garrett). até pela analogia da formação. encarar. e se nos referimos mais à condição que ao estado momentâneo em que ficou a pessoa que se surpreende. “Ele encarou de frente o inimigo” (e não – fitou). Vieira tem este exemplo: “Faça-me V. – Ver e olhar distinguem-se essencialmente. A palavra latina templum. 149 ADMIRAR. ver. . que entra na composição do verbo contemplar. para a abóbada celeste. Quem contempla e quem considera entende-se. – Admirar é “ver alguma coisa com grande atenção. dentro do qual o áugure observava o voo das aves.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 105 está sentindo surpresa. ou vê-se preto. Tanto podemos olhar sem ver propriamente como podemos ver sem ter olhado. Mas quem examina é de supor que tem perto. M.). fitar os olhos em. entre outras coisas. uma doutrina. fitar. e quem observa só estuda ou considera a coisa a observar aplicando 14 Fitar significa “fixar (os olhos) com muita atenção”. um problema. “Ele fitou14 aquele ponto com muita insistência” (e não – encarou). Como bem define Aul. o espaço marcado no céu. – Examinar é “fazer inspeção ocular. “Como é que encara o sr.. da Sil.

extraordinário.. ou porque excede ou está abaixo da medida comum”. – Singular é “o que impressiona por ser único em seu gênero. Vem ver como “está admirável a aurora!” (não – admiranda). – Todas estas palavras designam coisas que nos impressionam mais ou menos fortemente. assombro tão grande que nos suspende. também o seriam: estimável e estimativo. como se a tivéssemos batida. Mas estupefaciente não é o mesmo que estupendo. – Excelente é “o que impressiona pela sua grandeza. atônito. pasmoso. Uma cena de canibalismo é estupefaciente. Parece que o mundo ficou até hoje ali.” (não com a mesma propriedade – admirável). pungir. a mesma raiz grega tup. inverossímeis”. singular. isto é. abalado e suspenso ante aquela cena. esplêndido. tão nova e admiranda!. que sugere a ideia de bater. etc. soberbo. afrontada de coisas anormais. além de raro. ou porque não se encontra comumente”. dão no mesmo grupo. Mas incontestavelmente os sufixos vel e .ndo marcam uma certa diferença entre os dois: admirando enuncia a ideia – “que está sendo admirado. distinto de todos os outros da mesma espécie”. mas será admirativo” (isto é – cheio de sentenças. e maravilhoso “o que nos deixa maravilhados”.. é fora das proporções usuais. como assombroso “o que 15 Roq. pois este diz melhor que o primeiro “que gera estupefação”. – Raro é “o que se faz notar por não ser frequente. O astrônomo observa o céu (e não propriamente – examina). por assim dizer. distanciá-los. impressionar vivamente. excitando a nossa emotividade. e Bruns. como no precedente. estranho. “cheio de estupefações”. espantoso. e que por isso causa movimento de alma anormal”.. para estabelecer a respeito dessa pessoa um juízo seguro. por ser extraordinário. como sinônimos.. porque sucede poucas vezes.. e examinar a conduta de alguém é ponderarlhe os atos. ou imprevisto”. Há na história lances estupendos e edificantes. magnífico. viva atenção (curiosidade) por ser original. enquanto que admirável diz – “digno de ser admirado”. – Extraordinário é “o que nos chama a atenção por estar fora da regra ordinária ou da ordem normal das coisas ou dos fenômenos.. su- . e não se pode dizer que seja estupenda. pela simples definição. monstruosas. estupefativo. amável e amativo. – Estupendo é “o que nos causa espanto. raro. Em estupefaciente e estupefativo encontra-se.. – Espantoso é propriamente “o que causa espanto”.. estupendo. a alma. – Surpreendente é “o que nos causa admiração ou espanto porque se nos apresenta de súbito e sem que o esperássemos”. raro. assombroso. arrebatador. grandioso. Se esses fossem sinônimos. como se a tivesse sempre debaixo dos olhos. desperta assombro”. – Curioso é “o que desperta interesse. maravilhoso. Dão os lexicógrafos como tendo o mesmo valor o adjetivo admirando. – É admirável “aquilo que provoca admiração”.” (aquele discurso cheio de coisas que nos deixam estupefatos.106 Rocha Pombo apenas os olhos. 150 ADMIRÁVEL15. surpreendente. esquisito. apesar do que dizem alguns autores: o que é estupendo imobiliza-nos de assombro..). como em estado de estupor. curioso. exclamativas e admirações). Não se confundem também estupefaciente e estupefativo. excelente. e ainda melhor citando este exemplo de Vieira: “Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir. – Estranho é “o que. que está causando admiração. Observar a conduta de alguém é seguir-lhe os passos. admirável e admirativo: e eles próprios se encarregam de. admirando.. (e não – estupefacientes). Não será o sermão admirável (isto é – ‘digno de admiração’). estupefaciente. ou que se impõe à nossa admiração”. “Aquele discurso estupefativo deixava-nos imobilizados. o que é estupefaciente nos faz estupefato.

mas que recebe. “em termos brandos e amistosos. inspira um sentimento de admiração solene. receber. deixa que ela passe sem oposição. – Arguir. que vigiava sobre os costumes. aqui. – Arrebatador é “o que produz admiração súbita. – Quem consente que alguma coisa se faça é porque se põe de harmonia com o sentir da pessoa que a quer fazer. – Pasmoso é “o que. fazer sentir uma inconveniência”. que sugere a ideia de “pensar”. – Magnífico é “o que. mas com energia e mesmo com certa arrogância e aspereza. – Segundo Roq. sem castigo ou censura. tacitamente. é “repreender acusando de vício. aconselhar. produz pasmo. estigmatizar. imponente no seu modo de ser”: é mais que excelente: – é o que “sobreleva a coisas do mesmo gênero também excelentes”. Mas quem avisa dá à pessoa avisada conhecimento de coisas (faltas. ou porque exceda ao que é normal. etc. forte impulso de alma”. – Esplêndido significa “admirável pelo brilho e perfeição”. surar. consideração e correspondência. arguir. hoje não dizemos que o chefe de Estado admite o ministro ou embaixador. isto é. Em Roma. As corporações. “ad- ência ou por sentimento de dever. Um fidalgo admite à sua mesa e em sua sociedade um homem limpo a quem nunca visita. tolerar.) que ela ignorava. – Advertir é “admoestar mais formalmente e com certa autoridade”. “Ele há de afinal consentir que a filha case.” 153 ADMOESTAR. chamar atenção para alguma falta. de respeito religioso”. circunstâncias. 151 ADMITIR. pelo esplendor. – Repreender é advertir. – Grandioso é “o que junta à grandeza serena e brilhante do que é excelso e majestoso a magnificência do sublime”. como se a aprovasse mais pelo desejo de condescender com outrem do que por impulso de consci16 Aliás. “Pedro admitiu que o negócio fosse discutido lá mesmo no escritório”. etc. ou porque se lhe pediu – uma noção clara do modo como essa pessoa se . “não só com autoridade. e como que invetivando”. que é uma como admiração quase passiva”. Os príncipes admitem à sua audiência os ministros estrangeiros16 e recebem em suas cortes os grandes senhores das outras”. permitir.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 107 perioridade ou distinção”.. – Quem admite alguma coisa deixa apenas que essa coisa seja ou se realize. censor era o magistrado que exercia a censura. pela pompa e majestade. A recepção é mais cerimoniosa: supõe certa igualdade. verberar. ameaçando de castigo. pela raridade. quem aconselha dá à pessoa que é aconselhada – ou porque espontaneamente se interesse por ela.” – Censurar é “repreender como por direito de função. advertir. avisar. no qual figura a raiz men ou man. – Soberbo é “o que se mostra augusto. – Quem permite alguma coisa admite-a com autoridade. 152 ADMITIR.. defeito ou falta. – Avisar e aconselhar confrontam-se. entusiasmo impetuoso. – “Antonio não permitirá que a escolta lhe penetre na oficina”. “sentir”) é. pela excelência. cen- mitir indica um ato de urbanidade pelo qual se franqueia a porta da casa ao que de um modo decoroso a ela se apresenta. consentir. e discutindo e mostrando a falta”. concorrendo assim para que essa pessoa se dirija melhor em alguma conjuntura. – Admoestar (admonere. as sociedades literárias e científicas recebem em seu grêmio os homens notáveis e doutos. repreender.” “O pobre marido ainda lhe tolera todos os caprichos e extravagâncias.. – Quem tolera alguma coisa é que a permite pelo silêncio.

108 Rocha Pombo deve conduzir em certo caso. ordinariamente estes dois verbos. principia com a puberdade. “crescer”. De um médico. e enferma quando a moléstia é de tal natureza que a debilite. mancebia. – Verberar (verberare. Admoesta-se o filho ou o aluno. quanto pode durar. Todos conhecemos jovens de quarenta anos. e dura mais ou menos. Segue-se que para aconselhar é preciso. reprovar com acrimônia. está doente. Dizemos: – longa enfermidade: e não – enfermidade rápida. – Mocidade vem-nos do castelhano mocedad (idade de mozo). voz derivada do verbo adolescere. Avisa-se a um amigo de que alguma coisa se trama contra ele. que alguém enfermou ou do coração. como se vê nos moços ambiciosos que procuram guindar-se pela política. dos quatorze aos vinte e cinco anos”. a que evite a companhia de um colega desmoralizado. Costuma-se dizer. adolescente. ou dever a cumprir) com a pessoa que é avisada. ou com quem temos familiaridade. a época da vida que prin- . nem por isso está enfermo. ter o conselheiro autoridade moral em relação ao aconselhado. 155 ADOLESCÊNCIA. ou se supõe. de uma senhora que vai para o leito. enfermou momentaneamente. A latitude dada assim ao período da adolescência é corroborada pela Academia espanhola que a define: “la edad desde los catorce hasta los veinticinco años”. ou do peito. enfermar. ou de momento. e repreende-o se ele reincide na culpa. É de lamentar que o arguisse de males que não fez. ou posição social do indivíduo. Principia quando a juventude. mancebo. moço. pois. idade subsequente à puerícia. assim como velhos de vinte e cinco. vigor. Mas adoece uma pessoa quando deixa de estar sã. por conseguinte. no momento do parto – que adoeceu. Não diríamos. – Estigmatizar (formação vernácula de stigma “ferrete”. repreender violentamente”. – Adolescência – diz Bruns. E depois do parto – que enfermou. um ato iníquo do mau governo. isto é. ou dor de ca- puberdade. portanto. jovem. 154 ADOECER. ou de ouvidos. Aconselha-se a um parente mais moço. temperamento. Quem está sofrendo dor de dentes. do coração. púbere. de um ministro se diz que é bom moço. juventude. ou o caluniador. do figado. e com ela se confunde ao princípio. portanto – que F. Não seria próprio dizer. Sabemos. – Confundem-se beça. Este vocábulo está. ou de faltas que não cometeu. – Juventude é a quadra da vida em que se é jovem. e que para avisar basta que a pessoa que avisa tenha motivos especiais de cuidado (interesse a zelar. Também o que adoece naturalmente sente dor: o que enferma sente a fraqueza que provém do mal ou da doença. mocidade. porém. para que não repita a falta. se esta o obriga a refrear os ardores da natureza. censura-lhe a desídia. – vem-nos do latim adolescentia. de verber. na linguagem comum. e impetuosidade nas paixões. atendendo à sua etimologia. e não – enfermidade. Adverte o chefe da repartição a um empregado que não cumpre o seu dever. parecendo esta última expressão excluir a gravidade que o médico e o ministro devem ter. “marca”) é “verberar como indigna” (a coisa ou pessoa estigmatizada). “açoite”) é “arguir fortemente. Estigmatiza-se a calúnia. mas é suscetível de durar mais que ela. A mocidade será. perfeitamente definido por Faria: “período da vida em que o organismo chega a desenvolver-se plenamente. segundo a constituição. mocidade. ou parecer dignos da carreira que abraçam. Dizemos – doença do peito. quando a juventude principia: não se sabe. portanto. não – que é bom jovem. juventude. e não – que enfermou. em que se tem força. Verbera-se uma injustiça do tribunal. e não – que adoeceu.

No sentido figurado. em atitude de vivo apercebimento e vigilância. – Adoração é ato de adorar. – Reverência é a manifestação (por atitude. honrar. venerável. venerando. porém ainda é moço. – Puberdade é a idade em que o indivíduo se torna púbere. ou disposição que são próprios da juventude. palavra. homenagem. os grandes homens. como dos quatorze até os vinte e um anos. a condição de mancebo. reverenciar. – Respeito (respectus. – Fora da acepção que esta. como a velhice. etc. pode-se. Um homem de trinta anos já não é jovem. – Reverencia-se aquilo que merece o nosso culto. adorável. veneração. só Deus é que se adora. . e venerando “o que se impõe à nossa veneração”. por meio de grandes demonstrações de respeito e submissão. respeitar. considerar venerável como significando “o que é digno de ser venerado”. respeitável.) de grande respeito por alguma coisa sagrada. e podem durar mais ou menos tempo. Pode-se mesmo. Honramos os nossos pais. aqui.: “A voz jovem (do latim juvenis) explica a ideia absolutamente. A pessoa que a outra acata. Por sua vez diz Roq. que não é muito frequente nos clássicos”. no sentido próprio. – Veneram-se os santos e as coisas santas. “apto para procriar”. dizer que “a mocidade é o espaço da vida compreendido entre a puberdade e a idade em que compete ao homem tomar estado. “não dar as costas”) é todo sinal de atenção com que vemos ou tratamos uma pessoa ou coisa. 156 ADORAÇÃO. a nossa família. – Homenagem. – Acatável é a pessoa que merece o nosso acatamento. ou esta espécie de culto que rendemos às coisas em presença das quais nos sentimos humildes e de alma confusa e abalada. de respicere – re spicere – “olhar para trás”. acatamento confunde-se com reverência e mesmo com adoração. respeito. ter debaixo de”) e significando. adorar. Adorável é “o que é digno de ser adorado”. acatar. e acaba ao entrar na idade madura. a profunda estima. do espanhol mozo. a voz moço.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 109 cipia com a puberdade. como algumas outras palavras deste grupo. gesto. “o filho que ainda está sob a autoridade do pai”. fervor. conservar. – Venerável e venerando são definidos como sinônimos perfeitos. as grandes virtudes. do latim mancipium (de manceps. tem no XC. isto é. formado de manus e capere “mão” e “reter. segundo a rigorosa propriedade da palavra. sobre os trinta a trinta e cinco anos”. portanto. parecer. e a mocidade é o tempo em que o homem conserva aquele vigor. Quem respeita fica. – Veneração é respeito profundo. as grandes virtudes. honra. diante da pessoa que julga respeitável. a consideração que se tem pelas pessoas a quem se devem tais sentimentos”. em compostura de perfeita discrição e gravidade. adorar é “amar com o mesmo extremo. e tende a perdê-la de todo. e por extensão aquelas que pela sua grandeza moral assumem a nossos olhos um aspeto de santidade. – Honra é. do árabe mansubon17. a explica comparativamente: porque a juventude é a idade do homem entre a adolescência e a idade varonil. isto é. etc. venerar. chamar a si o ente acatado ou insinuar-se-lhe no ânimo. acata- mento. – Mancebo. mas é pouco usado nesta acepção. no entanto. – Mancebia significa propriamente a qualidade. era o juramento de fidelidade que o vassalo fazia ao senhor feudal. atribuindo à palavra moço a sua primitiva significação de solteiro. abnegação. “o grande apreço. mas em geral se usa por jovem. renunciamento com que se ama a Deus”. ou que a algum santo ou divindade acata – procura. – 17 Segundo outros. e depois a autoridade subalterna à autoridade superior que representava diretamente o soberano. No sentido próprio. acatável. reverência. significa rigorosamente o moço de poucos anos. a sabedoria.

e quando o não faz por uma requintada delicadeza será talvez com o pensamento de ganhar-lhe o coração. alfândega.). “a primeira destas palavras já quase desapareceu da língua: só a registramos aqui a título de curiosidade. mas estende-se aos atos. repugnante. pois louvaminhar não é senão lisonjear demais e continuamente. 157 ADUANA. e o grau de perfeição com que é ela temperada. e portanto que mais enojam do que louvam. portanto. tempera-se a frase. e não se satisfaz “só com palavras. daí vem o dizer-se ainda ‘tarifas aduaneiras’. excessiva. mas vai até os serviços mais asquerosos” que dele exija o bajulado. um sujeito indigno. a todo o esforço que faz o adulador por insinuar-se no ânimo do adulado. É quase adular. isto é. aqui. na alfândega (de fundag ‘depósito’. de coisas curiosas. – Adubar. empregado em linguagem popular para dizer o mesmo que lisonjear com certa intenção de insinuar-se no ânimo do lisonjeado. que a tornem agradável”.. E adular não se reduz a simples louvores ou ao intento de ser agradável só por palavras. – Segundo Bruns. no entanto. temperar. bajulador. de fazer-se-lhe simpático. mas de etimologia diferente: na aduana (de dana. É mais termo criado pelo instinto de crítica do nosso povo para zurzir o vício de. Um manjar que se condimentou com perícia é apetitoso e restaurador. lisonjear. Estabelecida esta diferença. homenagem é “o sinal de respeito. Também se emprega no sentido figurado: aduba-se a narrativa. engrossador. em política principalmente. é “juntar à comida que se prepara os adubos (como tomate. nem por isso se tem na conta de indigno como quem bajula. pimenta. é o que enuncia ação que nem sempre é vil. – Condimento é a porção mais substancial dos adubos e que serve não só para tornar a comida de cheiro e de sabor mais delicado. e – ‘movimento alfandegário’ à quantidade de mercancias que passam pela alfândega”. – Tanto condimentar como temperar se usam também no sentido figurado. – Lisonjeiro (ou lisonjeador). condimentar.. vinagre. e para explicação do seu derivado aduaneiro. tempero. .. juntando-lhe sal. como diz Bruns. o discurso. Aduana e alfândega são palavras de origem árabe. louvaminheiro. – O louvaminheiro não é tão sórdido como o bajulador. ‘armazém’) depositavam-se as mercadorias sujeitas a direitos. aduaneiro. adulador. No sentido que tem aqui. Quem lisonjeia pode querer apenas tornar-se agradável ao lisonjeado. fazer louvaminhas. Só quando a lisonja é calculada. condimento. – Bajular exprime ação ainda mais abjeta que a do verbo adular. alho. cheiros. bajular. soez. 158 ADUBAR. de todos os vocábulos do grupo. ou não ser sincero no louvar: não será baixo. submissão e acatamento que se tributam a uma pessoa que consideramos como nosso superior”. como para fazê-la mais nutritiva. Quem engrossa. aqui. lisonjeiro (ou lisonjeador). obediência. pode ser exagerado. O lisonjeiro não é.110 Rocha Pombo 159 ADULAR. nem mesmo se envilece como o que adula: será talvez mais próximo do lisonjeador. é que passa o lisonjeiro a ser adulador. etc. nem sempre pelo menos. adubo. alfande- gário. louvores afetados e fúteis. Condimenta-se o estilo. – Temperar a comida é “dar-lhe o sabor próprio. gabos. engrossar. louvaminhar. abrir caminho adulando os chefes de quem dependem as posições. – Tempero é a quantidade dessas coisas que se juntam à comida. – Engrossar. é termo de gíria. ‘escrever’) registravam-se as mercadorias sujeitas a direitos. O bajulador humilha-se. – “serve de capacho ou de sabujo”. Aduba-se um prato especial para F. compreende-se que – ‘movimento aduaneiro’ se refira aos ingressos de direitos.

segundo Bruns. dizendo.. nuanças da mesma ideia fundamental. – Adulterar e falsificar confundem-se facilmente: exprimem ambos “a ação de tirar a uma coisa as qualidades que lhe são próprias”. agregar. quer de atos). e a. mais sensível diferença de ação que a notada entre os três precedentes. aumentando-lhe ou diminuindo-lhe o peso. falsificar. no entanto. “Vamos unir os nossos esforços. “Os governos prudentes aunam os partidos. ligar. coisas diferentes que se pretende unificar. e adulterar é alterar a pureza própria de uma coisa dando-lhe outro aspeto. nem lhe tire o valor próprio: é possível até que a coisa contrafeita seja superior à coisa legítima. a de evolução natural. a em aunar. “fingir com tal perfeição que aquilo que se imitou não se distinga facilmente da imitação”. Apenas as imitações nunca têm ou só excepcionalmente chegam a ter o mesmo valor da coisa imitada. estragando. pois a coisa imitada nem sequer incide sob a sanção dos códigos. Imitar é. Quem falsifica estraga sempre. estabelece uma nuança diferente. imi- 111 tar. Não se poderia dizer. etc. ajuntar. unir. Adulteram-se vinhos. Aunar e adunar. Este verbo contrafazer sugere. e como que impelindo. portanto. Mas falsificar é fazer isso. o mesmo vocábulo. exprimem. Quem contrafaz. e ad em adunar. é inegável. pode muito bem ser que não estrague o produto. “Coadunam-se os vários grupos políticos para conjurar a crise”. o volume. deixa pior a coisa falsificada que pretende fazer passar por legítima. “são. por meio dos respetivos prefixos. “Aquela desgraça adunou os dois chefes”. mais a ideia de infringir direitos alheios. ou mesmo coisas diferentes) de tal modo que pareçam uma só coisa”. – Coadunar acrescenta à ação de adunar a ideia acessória de concurso. pois ambos são formados do latim unus. no entanto. unificar. reunir. aunar e coadunar. Quem contrafaz pode imitar com tanta perfeição que se torne difícil distinguir a coisa legítima da coisa contrafeita. os membros da mes- . – Adunar. opiniões. pois (quer se trate de coisas. de força. portanto. congregar. porém. – Unir.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 160 ADULTERAR. procedendo natural e brandamente. como se imitam gêneros de comércio. coadunar. contrafazer. Falsificase um produto de indústria introduzindo no mercado (e com o mesmo nome e com todas as aparências de que seja o mesmo) um outro produto que não tem as mesmas qualidades daquele. Carlos Magno pretendeu adunar à fé católica povos de mui diferentes crenças”. batidas da catástrofe”. etc. Imita-se a conduta de alguém. com perfeita lidimidade. tendo radical comum. incorporar. reunir. coligar. enquanto que falsificar só se aplica propriamente a coisas materiais. Unem-se os esposos. é preciso que nos unamos contra o inimigo comum”. Por isso. agrupar... como se imita uma obra de arte. coisas diferentes. O prefixo. converter num todo. diminuindo o valor à coisa falsificada. do esforço que outro fez – do que propriamente a ideia de falsificar. portanto – “adunar muitas coisas”. corrompendo. que opiniões ou ideias se falsificam. “um”. aliar. falsificar é também convizinho de contrafazer. aunar. Adulterar distingue-se ainda de falsificar em poder empregar-se no sentido translato. Adunar é trazer com esforço. de aproveitar alguém. e apresentam. que muito convém ter em conta: ad envolvendo ideia de impelimento. 161 ADUNAR. unificar têm ainda o mesmo radical. Aunar é. em seu favor. – Imitar é menos ainda que contrafazer. “Adunaram-se as hostes. Unir é “juntar (coisas semelhantes. como se adulteram ideias.

162 ADUNCO. de modo que formem um só corpo”.. se não da mesma natureza. isto é. e mais particularmente entre nações. “Reuniram-se os deputados para a eleição prévia” (e não – uniram-se). Este verbo reserva-se para exprimir a ação de celebrar acordo de mais importância. de modo a fazer-lhe mais difícil a defesa. 163 ADUZIR. “Uniram-se os chefes contra o ditador” (e não – reuniram-se). Este diz propriamente “em forma de arco”. de fazer pacto mais solene. recurvado. Unificam-se dois ou mais Estados (reúnem-se sob o mesmo governo supremo. ou de anzol”. . as pessoas que se ligam ou aliam). indivíduos (não – aliam-se). uma companhia. um só todo”. – Alegar é. – Curvo indica a forma da figura que não é reta nem quebrada. facções. e “o emissário foi encontrar os irmãos reunidos na casa do tio” – percebe-se bem claro como são distintos fundamentalmente os dois verbos. ar- queado. e também “tornar a unir coisas que se tinham desunido”. aliam-se formando um só). outras razões e argumentos que deem força aos primeiros”. Reunir é mais congregar. em relação a ligar. ou em grupos diferentes”. “juntar argumentos. portanto. conservam o mesmo valor e a mesma distinção que têm no sentido natural. curvo. ou para defesa de uma mesma causa. alegar. incorporar do que unir”. e congregar “reunir todo o rebanho. – Agregar e congregar apresentam diferença análoga à que se nota entre adunar e coadunar. uma secção de circunferência (arco). com pouca diferença ou irregularidade. Incorpora-se um exército. chamar ao aprisco todas as ovelhas”. aliar e coligar enunciam a mesma ideia de “fazer acordo moral” (sem. incorporar no rebanho”. a República Argentina e o Uruguai”. “rebanho”) e dizem. ou se fosse tomar a forma de arco”. “Reúnem-se as forças para a batalha” (não – unem-se).. – Ligar. Reunir é “dar unidade a coisas que se achavam dispersas”. – Incorporar assemelha-se a reunir: é “juntar uma coisa a outra ou muitas coisas entre si. em regra da mesma ordem. propriamente: agregar “fazer vir ao aprisco. como coadunar em relação a adunar: aplica-se mais propriamente quando são muitas as pessoas. etc. do mesmo partido. ajuntar.. pois. – Arcado é um tanto diferente de arqueado. – Recurvado é “meio curvo. curvo e terminado em ponta. mas que representa. mais ou menos curvo”. Aliar (ad+ligare) sugere ideia de esforço mais ponderado e formal que fizeram os que se aliaram. arcado. Têm ambos o mesmo radical (grex. etc. que se ligam. Ligam-se indivíduos. gregis. uma à outra. – Aduzir (adducere é “jun- tar a razões já expostas. (não ligaram-se). Nestas frases: “a desgraça encontrou os irmãos unidos”. o advogado do réu defende-o. aquele significa “inclinado como se quisesse. etc.” Arqueados são os supercílios de uma menina (e não arcados). se se põem de concerto quanto a uma certa questão. a argumentos já formulados. sugerir necessariamente a ideia de ficarem reunidas ou juntas. Dizemos: “O pobre velho já está ou já anda muito arcado (e não – arqueado).112 Rocha Pombo ma família. etc. Unificar é “fazer de várias coisas. – Adunco (ad + uncus. “gancho”) diz propriamente “em forma de gancho. – Agrupar é “reunir em um só grupo. O advogado do autor aduz provas mais positivas e cabais contra o réu. Numa acepção mais ampla. os grupos. Coligar está. Ligam-se partidos. pois. alegando atenuantes ou justificativas em seu favor e procurando destruir a acusação. “Aliaram-se o Brasil. – Ajuntar é “reunir com mais cuidado e trabalho”.

pois este vocábulo deixa supor que o que chega há de sair logo. ou seguindo diferente opinião ou partido. – Alienígena (alienus “alheio”. quando consideramos o que veio de fora em relação ao que estava no país. êmulo. em confronto (expresso ou tácito) com os que são nascidos (indígenas) no país onde está o alienígena. e dizemos alienígena. mas apenas da cidade. – Todas estas palavras designam pessoas que não nasceram no. porque não era a raça latina que ocupava o continente quando este foi conhecido.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 113 circunstâncias. ou pugnando por interesses que nos prejudicam. pois. pode não ser de fora do país. – Adventício e ádvena têm a mesma etimologia (do latim advenire = ad + venire) e significam “indivíduo vindo de fora. “A gente ádvena associou-se compungida à imensa consternação de toda a vila naquele instante”. contra aquilo que se afirma em oposição à justiça. pois esta palavra designa melhor o indivíduo que é hóspede na terra onde se encontra. demonstrações de defesa. estrangeiro. “a palavra adversário compõese da preposição latina ad “junto”. que está de passagem”. pois o adversário é com efeito aquele que se voltou contra nós outros. rival. ádvena aproxima-se mais talvez de estrangeiro que de adventício. de convicção contra o intento com que se nos persegue. etc. – Forasteiro confunde-se frequentemente com estrangeiro. Segue-se disto que forasteiro ainda é mais próximo de ádvena que estrangeiro. o que não é originário do país onde vive. particípio de verto “voltado”. foras- teiro. ádvena. – Ainda que o interesse e o amor-próprio sejam de ordinário as causas por que muitos se fizeram nossos adversários. contra o erro em que alguém está. “mudado”. – Resta notar que todos estes vocábulos só se empregam em relação. todavia podem estes . alienígena. chegada por dias”. à verdade. mas podendo ter-se fixado no país novo onde se encontra”. Essa gente ádvena aí diz “a gente que estava ali de pouso. Por isso. ou do lugar onde chega. Estrangeiros podem ser até indivíduos que tenham nascido no país em que vivem (desde que os pais lhes conservem a nacionalidade de origem. e versus. – Segundo Roq. à inocência” etc. entretanto. forasteiro. Não se poderia dizer. quando queremos exprimir que o indivíduo estranho aí não tem intuito de fixar-se no país como os que nele se acham. mas que nele vive longos anos. antagonista. o peregrino. ou que nele se fixou. no entanto. Os povos de origem latina são adventícios na América. do país onde se acham. não se pode dizer que seja um forasteiro. competidor. concorrente. Estrangeiro é propriamente “o que é estranho ao país. quando fazemos alusão à nacionalidade do indivíduo. ou mesmo que nele vive sem certos direitos (os políticos) e sem certos deveres (o do serviço militar). estrangeiro. 165 ADVERSÁRIO. porém. 164 ADVENTÍCIO. com outros. inimigo.. ou com os respetivos antônimos. que nele está. O ádvena. e gignere “gerar”) emprega-se como antônimo de indígena (indu ou endo = in “no” (país) e gignere) e significa. mesmo implícita. Dizemos: adventício. diferente da dos filhos do país onde o estrangeiro está. que não é do país. ou desde que tenham aqueles indivíduos perdido a sua própria): o mesmo não se dá em relação a forasteiro. indivíduo ou raça que não é a própria do país em que está”. Adventício diz igualmente “indivíduo ou raça vinda de outro país. Mas ádvena diz propriamente “indivíduo que chega. ou não são originárias. que os referidos povos aqui são ádvenas. de uma pessoa. ádvena. quando nos referimos ao que chega em relação ao que vive na terra.

como na generosidade. e até proclama. isto é. e daqui vêm as palavras adversidade. Não há propriamente rivalidade nas opiniões e ideias. pois antagonistes compõe-se da proposição anti. mas posteriormente foi limitando-se a combates mais nobres e menos sangrentos. Dois êmulos caminham. Tantos são os bens que da amizade resultam. umas vezes por nossa natural inclinação. – Por analogia chamamos sorte adversa a que nos é contrária. no heroísmo. nas riquezas. as ações e todas as coisas que nos podem desagradar. que todas as palavras anteriores. Estende-se a inimizade. porque costuma ser traidor. honras. ciência. “propõe-se a fazer ou conseguir aquilo que nós também nos julgamos capazes de alcançar”. em ações louváveis. Temos. no luxo. este procura sempre fazer mal. Pompeu e Cesar foram rivais. “contra”. pois este apenas concorre conosco. quantos são os males que a inimizade produz. e ainda generosos e delicados: não assim o inimigo. que para isso é ele inimigo. – Rival é palavra latina. no mérito. supõe graves injúrias recebidas. g. Diferença-se. pois abraça as pessoas. “a todos os seres organizados e sensíveis. muito de rival. o mérito dos competidores.. e graças. v. æmulus. as supõem. inimigo. pois. O vulgo não conhece mais que inimigos. a que ela não conduza.114 Rocha Pombo ser amigos debaixo de outros respeitos. nem à contradição. se é bem fundada. os de jogos e exercícios. Esta palavra tem muita extensão em seus significados. ou que se propõe imitá-la e até excedê-la. nem procedimento vil. tenaz. de certos costumes. vivem em harmonia. no valor. Êmulo denota competição honesta. se nem sempre baixa. A inimizade é de ordinário uma paixão. até nos animais se dá certa rivalidade. e designa a pessoa que compete com outra em arte. É mais do que simples concorrente. os soberanos em sua grandeza e esplendor. e os partidos que não saem da linha da nobreza. Cícero e Hortênsio foram êmulos. repreensível sobretudo em seus excessos. ao menos rancorosa. Os rivais têm interesses opostos que se combatem. e até heroísmo: é uma rivalidade mais distinta e elevada. adversamente. há muitos rivais em amor. Os êmulos correm a mesma carreira. faz com que receiemos o inimigo ainda depois de reconciliados com ele. nobre. e sucesso adverso o que nos causa dano e conduz ao infortúnio. não há ação baixa. nos interesses e inclinações. e também se rivaliza em ações virtuosas. os amantes em obséquios a uma dama. – Competidor é “o que está contra nós na conquista de alguma coisa”. que os Newtonianos são antagonistas dos Cartesianos em seus sistemas. e agonixomai. rivais e antagonistas. em sua significação metafórica. somo-lo. os ingleses e os franceses em seus adiantamentos científicos e industriais. aos animais e às plantas”. no esplendor. rivalis. mas sim nas doutrinas e partidos. como os literários. ou fazer dano: somos inimigos de certos manjares. “eu combato”. valendo-se de meios honestos. ou indiferentes. de certos prazeres. Dizemos. dois rivais acometem-se. contrariar. Adversário não supõe ódio. por bons motivos e com razão. no talento. . generosidade. longe de excluírem as ideias de nobreza e urbanidade. e não admite ódio nem inveja. a palavra grega antagonistes (antagonista em latim e nas línguas que deste se derivam) significava um inimigo armado e em ato de batalha. – Entre os antigos. pois. galhardia. e as antigas adversar e adversia. e também por prejuízos e caprichos. Só os homens de mérito têm adversários e êmulos: e as almas grandes. generosa. sim. e sobretudo nos empregos. sem se confundir com adversário. e indica uma oposição mais forte que a precedente. Aquele pode favorecer-nos em tudo aquilo que não pertence à disputa. O êmulo reconhece. – Êmulo é também palavra latina.

O que perde no jogo. misérias. – desfavorável. – “Desgraça”. pareceres e decisões. calamidade. Desfavorável não se diz propriamente das pessoas. ao malsucedido. chamase-lhe calamidade. – oposto. porque só fazemos relação ao fato. porém. mas vulgarmente se toma por desgraça. – Adversidade e sorte adversa (ou fortuna adversa) dizem quase a mesma coisa: exprimem o fato de ser uma criatura “perseguida de males. fortuna adversa. porque não deu motivo a elas por seu procedimento ou falta de prudência. desafortunado. mal-afortunado. pode queixar-se de sua desventura. – Infelicidade é o contrário de felicidade. mas não é desgraçado nem desditoso. e é mais usada esta palavra que desdita. a privação do que constitui o homem feliz. infelicidade. tende a impedir o que outrem pretende. sendo necessário para a realização do fato. As partes contrárias não tratam precisamente de fazer vingar o seu intento: o que pretendem é impedir que o contrário triunfe. e significa todo sucesso lamentável que cai imprevisto sobre alguém. a peste. tendendo a fins diferentes. infortunado. oposto. diz Roq. desdita. contrário. “Caiu aquela nobre figura vencida pela adversidade” (isto é – pela constância da má sorte). caiporismo. cada uma hostilizar a outra. sem deixar-lhe alívio ou descanso. as inundações. a guerra. infortúnio. “explica o mal em si mesmo”. desventura. e só por pura ponderação se chamará desdita à sua desgraça. às tendências. procuram. As partes opostas. consiste a sinonímia destes vocábulos em que: – Adverso se diz do que tende a prevalecer por meio da luta. como é também desditoso. A república é adversa à monarquia. desfavo- 115 rável. do que quer impedir o triunfo alheio. do que tende a fins diferentes. desfortuna. desgraça. caipora. para conseguir o seu intento.. vale por sofrimentos. pela triste situação a que o reduziu sua desgraça. O que perdeu. não só é desgraçado porque padece um verdadeiro mal. os terremotos. senão das suas opiniões. sorte adversa (ou adver- sa fortuna). etc. cai em infortúnio. as erupções vulcânicas. toda a sua fazenda. e então fazem-se adversas. É desfavorável aquilo que. que não provêm do homem.. mal-aventurado. Aquele que não sai bem nas suas empresas. – Infortúnio vem a ser uma série ou cadeia de desgraças. com relação à triste situação em que se acha o desgraçado. não por isto. As minorias declaram-se contrárias às propostas da maioria. desventurado. – Desgraça é termo genérico. “Afinal teve no pleito ou na cam- panha fortuna ou sorte adversa”. desditoso. aos fins. é desgraçado no jogo.” 167 ADVERSIDADE. que é propriamente um infortúnio público e geral. e outras muitas grandes desgraças que afligem as nações. – Desdita acrescenta à ideia do mal o efeito da desgraça. tristezas. e não – aconteceu uma desdita. O parecer do relator foi desfavorável à pretensão. As partes adversas procuram mutuamente suplantar-se. – às ideias. antes encontra adversidades. em lugar de favorecer. sem consolo nem esperança de alívio. senão por sua má sorte. – Desventura é má sorte. que vem da castelhana desdicha. sem que o incomode nem o aflija a perda. desgraçado. e . no rio. Frequentemente os pais têm ideias opostas a respeito do futuro dos filhos. Mas a sorte adversa só assume o caráter de adversidade quando persegue o indivíduo continuadamente. No plural. infeliz. – Quando a desgraça é grande e se estende a infinito número de pessoas e a países inteiros. e se acha reduzido à maior miséria e aflição. do que. de insucessos e coisas contrárias”. – “Relativamente – diz Bruns. desfortunado. Por isso dizemos: Aconteceu ontem uma desgraça no mar. desaventurado. se declara contra isso. tal como a fome. contrário.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 166 ADVERSO.

é “o sujeito que se julga assim perseguido da má sorte”. “Se eu for mal-afortunado agora no meu intento. “a falta de boa fortuna em tudo quanto se tenta na vida”.116 Rocha Pombo às vezes quase o mundo inteiro. é o sujeito “sem ventura”. malaventurado é antônimo de bem-aventurado. transviou-se no caminho. O desventurado lutou contra a sorte. pois é muito desafortunado sempre que pede alguma coisa à política”. o sacerdote que se deixou imolar pela sua fé. O homem desafortunado é o que não teve no momento. – Entre infortunado e desfortunado há diferença análoga à que notamos entre infortúnio e desfortuna. significa “sem fortuna. – Entre desventurado e desaventurado não é perceptível diferença alguma. ou “a predestinação. o infortunado mesmo. ou com mau sucesso em certas circunstâncias”. . falta de boa fortuna. ou que não se saiu tão bem como costuma sair-se. – Mal-afortunado será um antônimo mais perfeito de bem-afortunado. que dá o segundo desses compostos. falta que se atribui. o mal-afortunado. – Desventurados são os pais que têm uma velhice de desilusões e amarguras com os filhos. o que é perseguido de desventuras”. Em qualquer dos dois exemplos. ou bem-aventurança). o rei magnânimo que foi deposto e banido. tanto que dizemos: “ele vai à ventura” (e não – à fortuna). “Tive a desfortuna de lhe não merecer simpatia”. uma significação que nele desaparece. ou mesmo o infortúnio. e este significa propriamente “que alcançou ou alcançará felicidade” (boa ventura. – Desventurado. ou desaventurado. infortúnio é grande desgraça que se prolonga (e quase sempre se usa no plural): desfortuna diz apenas “fortuna contrária. “ele deixa tudo à fortuna” (e não – à ventura). Mas entre os dois e mal-aventurado já se nota alguma distinção. a causas misteriosas e inevitáveis. Aquele. “Não acredito que ele consiga o que quer. ou num certo caso. o menino que foi vítima de uma imprudência – são todos mal-aventurados. caipora. ou a trama de algum espírito mau”. a boa fortuna que sempre tivera. ou sem êxito no caso”. a substituição de um adjetivo pelo outro mudaria o sentido da frase. o amigo que se perdeu num lance de honra. – Notemos ainda que mal-afortunado é muito próximo do nosso caipora. E isto pela razão de ter a palavra aventura. – “Foi ele tão desfortunado (tão sem boa fortuna) que não conseguiu sequer uma vez bater no alvo”. “Tem padecido os seus infortúnios com serenidade e resignação” (não – as suas desfortunas). isto é. que se empenhou numa causa de alta grandeza moral e saiu batido de infortúnio. Os lexicógrafos estão de acordo em considerá-los sinônimos perfeitos. portanto. “É preciso consolar uma criatura infortunada (perseguida de infortúnios)”. e aquele. “o que não consegue chegar ao seu dia. deve a desfortuna. Como se viu. enquanto que desafortunado é antônimo de afortunado: marca-se assim uma distinção muito clara entre mal-afortunado e desafortunado: este. voltarei logo de Paris”. – Caipora e caiporismo são vocábulos adotados dos nossos indígenas. – É conveniente notar ainda o que distingue estes compostos de ventura dos compostos de fortuna. impedindo o êxito que se calculava”. O desafortunado. A ventura não parece tão cega como a fortuna. significando: – o último. – Infortúnio e desfortuna. “Um capitão tem a desfortuna de ver fugir e escapar-se o inimigo quando ia certo de esmagá-lo” (não – o infortúnio). e o primeiro. – Entre desfortunado e desafortunado há a diferença expressa pela partícula de intensidade a que figura no segundo antes da negativa des. foi malsucedido no empenho. – É preciso comparar alguns dos vocábulos deste grupo que têm o mesmo radical. o mal-aventurado errou nos esforços que fez. como já se disse. mal-afortunado – “com má fortuna.

o estudante de direito é jurista18. e particularmente ao advogado que faz perante o júri a defesa de um réu. patrono. – Rábula é. e também que haja muitos bacharéis muito mais alicantineiros e chicanistas do que tantos rábulas. termo que hoje se tornou popular. – Letrado. – Distinguem-se 117 perfeitamente estas duas palavras. ou o senhor em relação aos seus libertos. – Patrono confunde-se com advogado e defensor. patrocinador e padroeiro assemelham-se muito (têm o mesmo radical). e jurista é também aquele que conhece a história do direito. Passou depois a significar o chefe da casa (pater) em relação aos agregados e protegidos19. o prazo de tempo que se levou advogando”. O mesmo se pode dizer quanto a rábula (do latim rabere. – Patrono. intercessor. Assim define S. muito mais valor do que muitos bacharéis. interventor. e disserta ou escreve sobre leis. jurisconsulto. gritador. ou do estabelecimento em relação aos seus subordinados. pa- droeiro. protetor. coragens e ousadias que não sejam as mais recomendáveis. – Causídico e rábula são termos depreciativos. isto é. . advocatura é “o exercício.) – Defensor é termo genérico que se aplica a toda pessoa que defende a outra. – Patrono é pois o que não só defende os direitos do seu cliente como cuida solicitamente de salvaguardar-lhe os interesses. Advocacia é “a profissão do advogado”. patrocina a nossa causa: pode ter para isso motivos que não sejam os mais legítimos. – Legista é o que conhece as leis a fundo e as interpreta. Designava antigamente o que defendia os interesses da plebe. 169 ADVOGADO. advocatura. raivoso. o patrocinador nos toma à sua conta. patrono. os costumes passados”. medianeiro. – Jurisconsulto é o legista profundo. legista. o que defende causas de direito com autorização legal”. letrado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 168 ADVOCACIA. a praticar males que talvez não praticássemos sem o seu pa19 Patrono deu o nosso vernáculo patrão – o dono da fábrica. causídico. aplicado aos que conhecem direito ou seguem a carreira do direito. e também com isso pode estimular em nós instintos. “estar furioso.: – “Advogado é. violento”). mais depreciativo do que causídico: aplicase ao advogado sem pergaminho. conquanto nos léxicos se definam como significando a mesma coisa. defensor. dos estrangeiros em geral. designa principalmente o advogado que dá consultas. – Jurista é termo mais relativo à teoria que à prática. patrocinador. mediador.” “A advocacia na campanha não dá o pão e tira o couro”. tagarela”. tendências. ou perante alguma pessoa ou mesmo perante algum poder com cuja benignidade precisamos de contar para que nos absolva de culpas. manobras. ou nos livre de males. rábula. – É nosso advogado quem toma a nossa defesa perante algum superior nosso. os antigos usos. portanto. portanto. fala e age por nós. aqui. O patrono defende-nos e protege-nos como se fosse nosso chefe ou nosso pai (patrão). instigando-nos. artimanhas do que com lisura. e que se vale mais de chicana que de razões. Saraiva este nome: “advogado que fala muito e sabe pouco. os direitos das gentes. defensor. – Segundo Bruns. (Nada disto impede sem dúvida que haja rábulas de 18 Hoje está-se introduzindo o neologismo direitista. que designam: causídico é aquele que trata de causas mais talvez com astúcias. intermediário. jurista. que debela os casos intrincados. “Durante a minha advocatura no sul fiz menos fortuna do que inimizades. 170 ADVOGADO.

complacente. afeição. Dizemos – “patrocinador de crimes ou de criminosos” (patrono de criminosos seria já coisa muito diferente: o patrono de criminosos toma. anima. cortês. e não ao contrário”. é apenas o que se põe ou fica entre duas pessoas fazendo sentir a uma o que a outra quer. a maior parte das vezes. urbanidade. Sebastião é o padroeiro da cidade (isto é – protege no céu a cidade do Rio de Janeiro). “a afabilidade (do latim ad “a”. S. O agrado é o testemunho da alegria que sentimos ao receber em nossa casa. meigo. indulgência. benevolência. ou a triunfar numa certa conjuntura”. bom. ou ao falar em qualquer parte com uma pessoa. porém. carinho. a superioridade de condições da pessoa que protege sobre as da pessoa protegida. polidez. ocultar. civil. esconder”) é “o que nos toma sob sua guarda. benevolente. – Protetor (de protegere = pro + tegere. melhor do que todos os outros do grupo. prestígio e valimento em favor de alguém e perante um poder a cuja presença esse al- guém não pode ir diretamente para alcançar o que deseja”. agradável. portanto. afável. ternura. amabilidade. urbano. – Segundo Bruns. meiguice. indulgente. terno. Poderia confundir-se com mediador. A ação de proteger (de protetor) naturalmente marca. cortesão. a defesa de criminosos. ao passo que o mediador tem sempre algum interesse ou empenho em conciliar aqueles entre os quais se põe. para restabelecer acordo ou ordem entre elas. 171 AFABILIDADE. – Defensor. benévolo. uma qualidade inerente ao caráter da pessoa que se mostra amável: ou tem fins interesseiros. – Medianeiro diz muito mais do que mediador: é “o que interpõe a sua autoridade. Consiste na maneira cativante com que as pessoas de posição prendem a vontade dos que lhes falam. – Padroeiro é propriamente “o que exerce o direito de padroado”. A amabilidade consiste em empregar todos os meios possíveis para nos tornarmos agradáveis à pessoa a quem a testemunhamos.118 Rocha Pombo trocínio. e não sendo mais por uma que por outra”. como nos habilita a vencer na vida. de qualquer condição que ela seja. sua solicitude e valimento. induz os celerados a praticar crimes). dá-se de superiores para inferiores. obsequioso. polido. – Mediador. “cobrir. – Interventor é “aquele que. benigno. complacência. mais se parece com intermediário: este. benignidade. Não é. muito claro. como já vimos no parágrafo precedente. e por extensão é “o que nos ampara perante alguém de cuja munificência temos necessidade”. delicadeza. afetuoso. de acordo com as leis. delicado. o patrocinador de criminosos acolhe. por assim dizer. em nome de um terceiro. amável. carinhoso. protege criminosos. mas este é o que se interpõe entre duas pessoas “para servir apenas de veículo. e vice-versa. e não só nos ampara. bondade. cortesia. ci- vilidade. é toda pessoa que defende a outra. ou faz simplesmente parte da bagagem das convenções sociais com que os homens pretendem enganar-se reciprocamente. bondoso. mostrando-se assim afáveis. se mete entre duas ou mais pessoas ou facções.. fineza. fino. amistoso. Tal que é amável com os estranhos é ríspido e intratável com os seus. – Intercessor é a pessoa que se põe entre nós e aquele perante o qual precisamos de defesa. e vice-versa. e fari ou afari “falar”) dá-se de superior para inferior. agrado. A civilidade é a convenção estabelecida na sociedade para que os seus membros se avenham . Tanto o agrado como a afabilidade são geralmente provas de um caráter bem formado. entre elas”: enquanto que intercessor sugere a ideia de que a pessoa pela qual se intercede precisa de defesa e proteção perante aquela junto da qual tem de agir o intercessor. cortesania.

como com sentimentos ternos. A benignidade é. isto é. e benevolente (“que está sendo benévolo”) uma disposição atual de sentimentos. de simpatia. pois sem ela nos tornaríamos desagradáveis até aos nossos mais próximos. que se contenta de ter para com seus semelhantes sentimentos propícios”. O amigo afetuoso é o que nos trata com afeição. os tempos. – Delicadeza é a qualidade do homem muito polido. indício de bom ânimo. e isso tanto mais me cativa quanto é certo que ele não é benévolo com todo mundo”. Basta conhecer certas regras e observar certas práticas para ser tido como homem civil. que. – Carinho não é uma qualidade. sempre que estas pareçam merecer-no-la. de modo a não se ofenderem nem se desagradarem. a atraí-la enchendo-a de meiguices e provas de amizade”. Dizemos: “os reis benignos são amados do seu povo”..” – Cortesão. ou pode ter benevolência com esta ou aquela outra pessoa. tem-se não só para com as pessoas que conhecemos como também para com as desconhecidas. portanto. ou – os homens benevolentes). – Carinhosa é a pessoa que nos recebe. ou pela benignidade. como indica a palavra. – Polidez é a civilidade das pessoas de fino trato. a civilidade bem entendida deve reinar em toda parte. finura e delicadeza. os lugares e a condição das pessoas. tratando-se de pessoas. áulico e até adulador” do que cortês. leva a sua mansuetude e tolerância a uma quase renúncia de si mesmo para ser-nos agradável. a diligência que se mostra em fazer o gosto de alguém. supomos que seria imprópria a mudança dos dois vocábulos: “Ele se mostrou benevolente comigo. sincera. – Benigno é “o homem de natureza moral muito singela. Complacente é o amigo que se compraz conosco. com facilidade. “os homens benignos fazem-se queridos” (e não – os reis benévolos. que isto quer significar que benévolo expressa melhor uma como qualidade pessoal. fazendo-se meiga. Contudo. entretanto. – Complacência é também menos uma qualidade do que uma disposição moral: é a “boa vontade. revelando sempre por nós os seus afetos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 119 mutuamente. pois. como se nos abrisse a alma. no entanto. mesmo em família. por índole talvez do que por educação. – Polidez e urbanidade confundem-se no fundo. a virtude das grandes almas. pois a polidez exige que não só nos tornemos agradáveis. para com a pessoa que recebe o carinho. uma ideia da excelência da pessoa benigna em relação àquela a respeito da qual assim se mostra. e saber amoldar-se às situações. senão que penhoremos as pessoas com quem tratamos. que obram e se exprimem nobremente. perdeu hoje esse sentido: é mais “palaciano. suave no trato. A civilidade exagerada – a que o vulgo chama política – é ridícula e presta-se ao escárnio. Varia segundo os meios. Mas benevolência é apenas “uma disposição de alma. de intimidade da pessoa que faz. O homem delicado é-o mais por temperamento. – Complacente . é. afagando-nos. – Cortesia é a demonstração do respeito que nos devemos mutuamente. A urbanidade é a civilidade de bom tom. Entre benévolo e benevolente não estabelecem os dicionários diferença alguma. senão sinal de qualidades. e sugere sempre. porém. em estar de acordo com os desejos de alguém”. a acolhê-la. a que se usa nos grandes centros urbanos. – Afeição é a “conformidade moral que leva uma pessoa a chegar-se muito a outra. necessário ter grande trato do mundo. Nesta frase. fino. para ser um homem polido. – Cortesania é o requinte da polidez: é “a polidez da corte. pela amizade.. Uma pessoa é benévola. mostra-se de boa vontade com alguém no momento. não só com mostras de bondade. um movimento propício de coração em favor de alguém”. – Benevolência poderia confundir-se com benignidade. Parece.

ou aquele de quem dependemos. Este. todo esforço difícil”. Ternos são os corações que ficam como que em êxtase de piedade. a virtude de ser contrário a tudo quanto é mau. laboração. mais misericórdia do que justiça. – Azáfama significa mais “o apressuramento com que se cuida da tarefa.) – Afonia é a falta de voz: mal ou defeito “que provém da laringe”. A meiguice é a qualidade das crianças e das virgens. afásico. – Bondade é a qualidade de ser bom. o que é cheio de deferências conosco”. pois a surdez lhe impede ouvi-la. quando se mostra conosco tolerante. – Bom é aquele que tem essa virtude. afonia. uma delicadeza de sentimentos levada a extremos de meiguice. – O afásico titubeia. ou então de que são capazes só as excelentes naturezas morais encontrando-se com as misérias da vida. a faina dos campos. mudo. de longas fadigas. labuta. um sujeito . A faina de bordo. 173 AFÃ. Poder-se-ia dizer que é um predicamento divino. julgada tão excelsa que o próprio Jesus a atribuía só a Deus. e sugere ideia de afãs contínuos. claudica. “Os meus afãs não me deixam sentir estes pequenos incômodos”. afadiga- é o nosso superior hierárquico. que só por extensão se pode atribuir a homens. mas um fino cavalheiro é aquele que sabe requintar a sua delicadeza e fazer-se “muito delicado”. labutação. e afadigamento é uma extensão de fadiga. e mesmo a faina das ruas. e a provas de afeto que nos comovem. e portanto fica ele incapaz de imitá-la. mento. azáfama. sereno e afável. os que se mostram mais do que amáveis. ou diante de um infeliz. aqui. e nos vence as forças”. – Entre bom e bondoso há muita diferença. O mudo não fala porque ignora o som da palavra. labor (lavor). pois que só os pais sabem ter com os filhos. para exprimir o movimento geral das grandes cidades. pois que parecem deslumbrados mais de amar que de sentir o nosso amor. e é próximo de aforçuramento. aquele homem não tem tempo de atender-nos”. É mais usado no plural. ou de todo não pode falar. ou de amor na presença de uma criança que sofre. porque deixa supor sempre a inocência. “Na azáfama em que vive. O afônico sente dificuldade ou mesmo impossibilidade na emissão da voz. que nos cansa. pode ser completa (o que é raro) ou parcial. Um sujeito aforçurado gasta inutilmente as próprias forças. lida. luta. no entanto. mudez. sendo a esta que é devida a gaguez”. – Lida é “trabalho afanoso. trabalho aturado e debaixo de barulho”. – Afã é “toda atividade penosa. a candura dos simples edificada de instintivo sentimento de renúncia e de simpatia. lucubração. – A criatura indulgente conosco é a que tem para os nossos defeitos mais perdão do que rigor. (Bruns. trabalho. bondoso é apenas “o que tem bondades quase que aparentes. Tanta lida para tão pouca vida. ou da pessoa amada. envolve mais a ideia de pressa que de trabalho. A indulgência supõe sempre uma autoridade ou poder mais alto que o da pessoa com quem se é indulgente. – Ternura é. afônico. é “trabalho penoso. – Fineza poderia considerar-se como sinônimo quase perfeito de delicadeza. pois. conforme já ficou em outra parte definido. pois a afasia provém de alguma “lesão na substância nervosa frontocerebral. fadiga. faina. aforçuramento. – O homem amistoso é o que nos trata como costumam tratar-nos os nossos legítimos amigos. – Mudez é propriamente a incapacidade orgânica de articular a voz. azáfama incessante”. – Faina é uma outra forma de afã: é “todo serviço feito sem muita ordem e com pressa. – Fadiga. – São meigos os propensos ao amor.120 Rocha Pombo 172 AFASIA. ou de um trabalho urgente”. e os esposos entre si.

desviar. lucubração. equivalente aqui a retro (re que marca “retração”. – Entre labuta e labutação (que com os dois precedentes têm origem comum) deve notar-se análoga diferença. lavor tem a mesma origem. e a que aplicamos toda a intensidade do nosso espírito. Labuta é esforço afanoso. – Afastar (do latim abstare. – Luta é “trabalho doloroso. cansa também. que não devem ser tomadas indiferentemente. O próprio latim tem retrahere “tirar para traz”.” Resta acrescentar que lavor significa também “a perfeição da mão de obra. pois se formou de lavrar (laborare). e ter “três vezes”) + tirar. e de qualquer ornato em relevo. “Os trabalhos da vida” – é quase como se se dissesse – “as lutas da vida”.. por labor. lucubrações aplica-se mais particularmente “ao trabalho feito à noite. Só a ignorância. deslo- car. ou melhor. trave. mas indiretamente. ocupação árdua de que se vive. portanto. “retrocesso”. – Lucubração é todo trabalho que nos absorve dia e noite. escreve Bruns. feito por desenho. ou mesmo de afadigamento”. chamar a si. arredar. retirar. do gótico tairan segundo alguns. “Naquela contínua luta do seu viver foi morrendo”. afasta-se do espírito uma ideia sinistra. nas línguas neolatinas. o modo como um trabalho foi acabado”. afasta-se da parede o sofá. Quanto a labor confrontado com lavor. e que só não acabrunha as grandes naturezas morais”. “As lutas da vida o venceram”. portanto. ou pondo-a de lado. lida penosa. como se fora mesmo um combate. descaminhar (desencaminhar). de lida ou fadiga. relativo a traves”).” Retira-se um exército. de ab + stare “estar ou ficar longe”) significa propriamente “tirar uma coisa ou pessoa de junto da outra”. árvore grande”. e segundo outros do latim trahere20 – retirar. etc. dizemos. chamando-a a nós. separar. palavras mui distintas. – Labor é trabalho longo e difícil. “viga. – A palavra trabalho foi primitivamente aplicada à função do construtor. depois generalizou-se. No plural. que nos fatiga. lavor. No plural acrescenta a labor uma ideia de faina. não. confundindo a pronúncia dos dois vocábulos.... – Labor é sinônimo de trabalho. originou que lavor seja abusivamente empregado por trabalho ou faina.: “Labor é palavra que tomamos diretamente do latim labor. Afastam-se de nós alguns amigos. Lucubrar (de lucubrare (de lux) “trabalhar à noite”) significa propriamente “fazer serão”: e. ou da lâmpada.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 121 afadigado despende forças. retira-se o filho do colégio. 174 AFASTAR. – 20 Parece que estes têm mais razão do que aqueles. trabalis “próprio das árvores. – Laboração é uma forma extensa de labor: é a ação de exercer o labor (laborar). – Labor é “todo esforço exercido com aptidão e gosto. pôr para aquém”. – Retirar (formado de re. que cansa o espírito ou o corpo. do que lidava com madeiras (trabs. – Lavor dizemos do trabalho “de agulha. mas nem sempre sem fruto. retira-se o chapéu de cima da mesa. ainda quando os dicionários as confundam e as expliquem uma pela outra.. e por extensão significa – “tirar uma coisa do lugar em que estava. . ao esforço. Labutação é o mesmo que “labuta afadigada”. apartar. mas que também nos agrada e satisfaz”. ou das nossas aptidões. à contensão mental com que é feita uma obra de arte ou de ciência”. sugere a ideia das penas e fadigas que produz todo exercício aturado. e no plural – “trabalho pesado e afanoso”. à luz do gás. retira-se uma ofensa. ou conseguir alguma coisa”. “As nossas laborações naquele transe nos inutilizaram por muitos dias”.. isto é. voltando por onde tinha ido. passando a significar “toda aplicação de aptidões no sentido de fazer algum objeto. tem o sentido próprio de “afastar para trás. – Labor e lavor são.

no sentido próprio e originário. misturado: sempre com referência a mais de um objeto. – “tranqueta de ferro . ferrolho. retirá-la do ponto em que se acha”. – o que estava unido. trancar. pois. propósito ou conveniência. O aferro provém da convicção. diz ele: “Feita a separação dos maus e bons. (Por mais que digam os lexicógrafos... e é. põem-se estas em lugar onde fiquem separadas das primeiras. Ferrolho é – diz Aul.. e apartamento os resultados morais da separação. – Desviar – diz Bruns. falando do juízo final. 176 AFERROLHAR. desviamos do sentido uma lembrança funesta. ou nem sempre estarão necessariamente desligadas.) – Apartar é “pôr de parte”. Se alguém se aparta do seu partido é que toma posição contra este. – Os dois outros do grupo. prende alguma coisa”. extensão – perverter. – Separar é “pôr duas ou mais coisas ou pessoas longe uma das outras”.” (III. ou quando se desquitam. exprime a ideia de “tirar ou de sair do caminho próprio.: “O apego é a constância que provém mais do hábito que da reflexão. fechar. um forte apego.. o processo mediante o qual se cerra. – Descaminhar. a fruta podre da sã. unir com firmeza” (do latim fixare). “Aquele sucesso imprevisto vem descaminhar-nos da vereda em que íamos” (isto é.122 Rocha Pombo Arredar é “desviar bruscamente. Em sentido mais restrito. – Deslocar é “mover alguma coisa do lugar próprio. – Diz muito bem Bruns. do caminho certo. arredam-se as cadeiras do meio da sala. Descaminha-se a gente. aferrolha-se. como descaminhar. o trigo do joio. “Com perícia admirável desloca o dente e saca-o num instante”. Desencaminhar tem significação diferente. Só no sentido moral é que as coisas ou pessoas separadas nem sempre se julgam a distância umas das outras. Quando dentre muitas coisas se apartam algumas. quando somos sedentários por gosto. “Separa-se – diz Roq. – “é tirar uma coisa ou uma pessoa do ponto ou da linha em que alguma outra coisa ou pessoa vai passar. é-lhe inerente a ideia de fim. tranca. designam formas ou modos particulares de fechar. fecho.. fecho é a “peça com que se fecha. melhor ainda que desviar. diferençando-se segundo a peça com que se fecha: se se emprega o ferrolho. “A pulso desloca o rochedo. se se emprega a tranca. desviamos uma criança que vai ser pisada.. descaminha-se o menino da escola. prostituir”. 175 AFERRO. temos aferro às ideias que defendemos com tenacidade”. 163). desviar indica a ação de tirar de uma direção para fazer tomar outra diferente. portanto. tranca-se. desencaminhar não se confunde com descaminhar. – Fechar aqui exprime a ação geral de “cerrar. Deslocam-se figuras da política em todas as grandes crises. de completivo de predicação: é “tirar do bom caminho. parece que separação indica principalmente a ação de separar.”. e lá do alto deixa-o tombar sobre a cidade”. ainda que se não aliste em outras fileiras. Segundo Vieira. apego. no juízo final hão de separar-se os bons dos maus. Separar diz muito mais que apartar. ligado. e nem carece. este verbo sugere ideia da atitude contrária em que fica a pessoa que se aparta em relação àquela de quem se apartou. Desviamos o corpo para evitar um golpe. tomando uma azinhaga”. e sossegados os prantos daquele último apartamento. Separa o lavrador a palha do grão. liga. ou algum fato suceder. e por. Temos apego à casa. neste caso. separam-se os casados quando não podem viver juntos. vem fazer que tomemos outra rota). Arreda a multidão à passagem do cortejo. Noutro sentido. Quando alguém se aparta de outra pessoa toma um lugar para longe dessa pessoa. dar espaço ou caminho”. ou da direção que se seguia”.

e que se procura a ocasião de a ver. amizade. há nele algo mais da tibieza do afeto. um livro. No afeto há moderação. e que cessei de a amar sem saber a causa”. O austero Descartes simpatizava com os olhos vesgos: procurando a origem de tal gosto. de gozar da sua companhia. O amor. não obstante. de tais méritos. E assim como é ela que unicamente nos interessa. O amor recusa crer nos defeitos que vê na pessoa amada. Só o pensar que a ternura da pessoa amada pode ou poderia repartir-se com outrem faz-nos estremecer. ou não se expandindo. uma carta. Muitas vezes a paixão desaparece com o logro da coisa desejada. e acabamos por amá-los. inclinação. podendo ser. amor.. Também se fecha a alma. recordou-se que esse defeito existia numa menina a quem amara desde a infância. Fecha-se a boca. Não são os defeitos da alma apenas que recusamos ver no objeto que nos apraz: são também os do corpo. diz do amor: “O caráter distintivo do amor é o de preocupar exclusivamente o nosso pensamento com a existência de uma pessoa do outro sexo. e a paixão sente-se geralmente por aquilo que se deseja possuir. o . quando este se dirige à sua amante La Chaux: “Ignoro a razão de já a não amar. Afeição é a tendência. – Afeto e afeição – diz Bruns. Figuradamente. impedindo assim que se abra a porta ou janela em que está pregada”. Deliciamo-nos em ouvir falar dela.. Aferrolha-se ou tranca-se igualmente uma porta. de lhe ser útil. É por afeto ou por afeição que se sente prazer em encontrar a pessoa a quem se estima. quiséramos que só nós fôssemos o único que lhe interessasse. de madeira. Tudo nela tem encanto à nossa vista. Também se diz – “aferrolhar a fortuna”. na paixão há arrebatamento. pois esta é constante. não assim o afeto ou a afeição. significando que se a retém com usura ou somiticaria. É certo que o amor aumenta com os méritos do objeto amado: não vem. sobrevive à infidelidade: sofre-se e ama-se. – O amor é um sentimento que se pode considerar intermé- dio entre o afeto e a paixão. senão que os tomamos por perfeições. vai embeber-se na ombreira ou noutra peça. e é tal o seu fundo de benevolência que estende por sobre os vícios o véu das perfeições. propensão. Num sentido mais geral. correndo horizontalmente pelos anéis. por que está abraçada. uma gaveta. e não só os negamos. aferrolhar e trancar dizem “prender com segurança”. dedicação. Antes de Garnier já Diderot definira admiravelmente o amor pela boca de Gardeil. e ambicionamos encontrar-nos sempre e exclusivamente na sua presença.. De que provém? Nasce. um cofre. ou inclinação comedida que se tem para alguém ou para alguma coisa. no entanto. a amargura sustém-nos. – Paixão é o desejo veemente de obter e possuir a pessoa ou a coisa que desperta em nós esse sentimento. porém. um portão. paixão. fechando-os fortemente. está-se humilhado e adora-se. e às vezes cessa sem ela”.. deixando de falar. A afeição que temos às coisas nos induz a ter cuidados com elas. a qual nos causa um como deslumbramento contínuo pelas qualidades e perfeições que a nossa imaginação lhe atribui. Tranca é uma barra semelhante ao ferrolho. sem causa. por assim dizer. e o afeto só a pessoas. ternura. no seu Traité des facultés de l’âme. Adolphe Garnier. tudo o que sei é que principiei a amá-la sem saber por quê. Uma diferença essencial entre a afeição e a paixão é que a afeição se sente por aquilo que se possui. não dizendo o que se sente. Se no amor não há os arrebatos da paixão. no entanto. apego. Fecha-se uma porta. 177 AFETO (afeição).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 123 (ou qualquer peça de ferro que se empregue em fechar) que. – diferençam-se apenas em ser a afeição extensiva a pessoas e a coisas.

– Afetação é “o modo contrafeito de mostrar sentimentos. etc. mas ao qual o coração fica alheio. que realmente não se têm”. – A ternura não é sentimento: é a manifestação de um sentimento. é esse próprio amor. Quem afeta alguma coisa inculca sentir o que de fato não sente. astuto. ou que duas pessoas têm entre si”. fingir (fazer de. Usa-se também este verbo como pronominal: o indivíduo que se afeta no dizer é o que procura apurar tanto a elocução que se torna ridículo. é a disposição e tendência natural do espírito para alguma coisa. fantasia. Num sentido mais restrito. O hábito. A ternura paternal. esta disposição. – Inclinação. etc. Há pessoas que têm inclinação para o bem. – Fingido é aquele que faz por parecer o que não é: é mais hábil. simular. e procura. nem o amor. o apreço do caráter. fingimento. contrafeito. O abuso que se faz desta palavra não exclui que a amizade exista: se ela é vã na boca da quase totalidade dos humanos. Se a inclinação. Vemos assim que esta palavra é menos expressiva que qualquer das três precedentes. seja amor. Tem-se apego a um objeto. aparentar. ou em amor. não é o sentimento. caracteres especiais pelos quais se pode determinar. fala. pode facilmente triunfar da inclinação. – O apego é um sentimento que pode ter maior ou menor intensidade. Um criado é dedicado a seu amo. porém. intuitos. não obstante. a recordação originam o apego. a paixão. disfarçado. que o afetado.124 Rocha Pombo amor é o sentimento pelo qual se ama ou se quer bem a alguma pessoa: amor paternal. a uma pessoa. tais são: a necessidade de expansão e de confiança recíprocas. geralmente. por exemplo. a um hábito. e pelo qual nos consideramos ligados. um homem é dedicado ao seu partido. Não se pode dizer que há amizade sem que o tempo e as vicissitudes da vida a tenham cimentado e posto à prova. amor filial. disfarce. fortalecendo-se. simula- ção. só quer dizer que as relações do trato não são desagradáveis entre aqueles que se dizem amigos – a amizade verdadeira tem. encobre com artifícios (fingimentos) o que sente. a inclinação é a disposição e tendência natural do espírito para amar alguém em razão do que nessa pessoa nos agrada. no sentido que geralmente se lhe atribui. afetar. aptidões. não é um sentimento distinto do amor paternal: é a sua manifestação. no sentido lato da palavra. pode tornar-se amor. também o origina a inclinação quando é fomentada. o sujeito que se finge quer ser diferente daquilo que é. a um partido. assim como o animal tem apego ao homem. iludir os . degenerará facilmente em paixão. enquanto este exagera porque aspira passar por mais do que realmente é. O indivíduo afetado é o que anda. de um como voto feito. amor ao próximo. como as há que têm inclinação para o mal. se. simulado. mas em si.. a um animal. – A amizade – diz d. ou para qualquer vício. 178 AFETAÇÃO. portanto. dissimulado. dissimular. mas o efeito de uma firme resolução. aparência. a reflexão. ou amizade. amor à ciência. seja amizade. ou de alguma ideia. não é mais do que o embrião desses sentimentos. Se a razão não pode dominar. que se revela em tudo o que ao filho diz respeito. fingido. e o desejo de ser-lhe agradável e útil até a preço do próprio sacrifício. dissimulação. representar de). a dedicação leva às vezes ao sacrifício. da índole e do espírito do amigo. disfarçar. pois. não for combatida. fantasiado. José de Lacerda – é “o apego particular de uma a outra pessoa. aparente. contrafazer. por exemplo. traja e se apresenta fora do natural. pois aquele que se sente levado por ela para o jogo. contrafação. foge desse mal sem grande esforço. propriamente. afetado. – Dedicação é o desprendimento de si próprio em favor de outrem. fantasiar.

“F. O sujeito que se disfarça. “ele se faz de tolo” (o homem está fingindo ou representando de Judas. O sujeito que dissimula faz por parecer estranho ao que se passa em volta de si. no movimento do sangue. 179 AFETIVO. – Simular e fingir têm de comum a significação de “ocultar. sentido. qualidades afetivas”. muitas vezes. não dizemos. dissimular.. O homem que disfarça procura sempre arredar do pensamento dos outros a noção exata do que lhe convém: o que dissimula cala mais o que sabe ou o que sente do que disfarça o que deseja. “o bem. que tem relação com afeto”. ou aparências. isto é. portanto. convém distinguir estes dois adjetivos. “contrário ao que é natural que se esperasse dele”. e afetuoso só a pessoas. que uma coisa seja semelhante a outra (as palavras latinas simulare e similis deram-nos simular. Afetivo significa. reveste-se de artifícios (disfarces) que o desfigurem. mas – “demonstrações. ou – de aversão para aqueles que se lhe representam como maus: e estas comoções comunicam-se ao corpo. Usa-se o verbo fingir como transitivo e como pronominal. como simular é próximo de fingir. no entanto. – Segundo S. ocultar o que pensa ou quer. Luiz.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 125 outros. ele finge ou finge-se de tolo. por exemplo. reconhecida. – Fantasiar é “iludir pelo aspeto. é fazer crer pela aparência simulada”. – Disfarçar é tomar aspeto. como. “o ato de fazer alguma coisa de modo contrário ao que é legítimo. e produzem nele efeitos proporcionados. que se manifestam nos olhos. inculcando outra coisa que por ela se quer fazer passar”. próprio de afeto. 180 AFETOS. portanto. e “nada mais falso do que a fantasia de que se valem os espertos contra a ingenuidade dos tolos ou das crianças”. Quando . Parece. ou apreendido nos objetos pela nossa alma. ou que disfarça suas intenções. “de afeto. o prazer. afável”. Dizemos – “criaturas afetivas”. A dissimulação pode não ser um defeito: o disfarce nem sempre. Disfarce é muito semelhante a dissimulação. ou procura. Mas quem simula faz que uma coisa pareça em vez de outra.. ou o mal. “demonstrações afetuosas”. e às vezes em toda a pessoa do homem. paixões. aqui. na cor do rosto. portanto. – Os verbos fazer e representar em certas formas valem por fingir.). afetuoso. ou – “criaturas afetuosas”. simulou um ataque pela retaguarda”. por discrição. assimilar e assemelhar. “qualidades afetuosas”. e afetuoso = “cheio de afeto. – Contrafação é. isto é. nos gestos. Pelo menos diferençam-se eles em poder afetivo aplicar-se tanto a pessoas como a fenômenos morais. como não obraria se fosse sincero. Quem se contrafaz obra. por um falso exterior. que o disfarçado tem intuito de enganar. – Aparentar é “mostrar aparências de que uma coisa é assim mesmo como se faz crer. – Ainda que os di- cionários deem como significando a mesma coisa e tendo o mesmo valor. O que se fantasia impõe-se pelo efeito produzido sobre a imaginação dos outros. O dissimulado mostra-se alheio exatamente àquilo que de fato lhe interessa. ou que tenha aparências de outra pela qual se quer que essa coisa passe.. quer ou pensa. nas atitudes. no que diz. “Ela está fingindo que não nos vê”. excita nela comoções. ou de que é tal como parece” (aparente). e que nem sempre se poderá dizer o mesmo do dissimulado. benigno. se não se mostrasse contrafeito. Um homem prudente pode. etc. a verdade. que aos olhos de outrem encubram a verdade que não se deseja. ou ao que se devia esperar”.. ou a dor. nestas frases: “O pobre homem está fazendo de Judas”. ou representa de tolo). ou movimentos – de atração para aqueles que se lhe representam como bons.

– Na linguagem da retórica. afetos – que citamos acima. “são afetos levados ao último grau e assenhoreando-se da vontade. como diz Roq. – Requentar é “tornar a fazer quente. pode o leitor consultar o artigo – Paixões.126 Rocha Pombo estas comoções. Souza.. são brandas. “Assim por conseguinte cada um dos afetuosos suspiros tiram alguma coisa da ferrugem do pecado”. Eufros. a vingança são paixões. e arrastam o homem ao quebrantamento da lei e do dever. Quando fortes. e favorável: o parecer apaixonado não é imparcial. – Cozer (do latim coquere) é “preparar ao fogo. consideradas em si e nos seus efeitos. José de Jesus Maria. incoativo de calere) significa “fazer meio quente. – Há entre aquentar e aquecer uma diferença análoga à que se nota entre ferver e aferventar. cozer. e apostados a rasgar cortesia”. e arrebatado pela paixão. no parecer que sobre o mérito deles deu Fr.. – Escrevendo Maria. A amizade. . Fr... de Barr. Aquentar (radical quente. aquecer (do latim calescere.. do latim calens. Apaixonado é o que obra como involuntariamente. O amor sensual.. O autor da passagem citada amava o escritor dos Sermões. afetos e paixões são uma mesma coisa”. José de Jesus aquecer. Afetuoso é o plenus amoris dos latinos. P. é ferver mal e mal”. aquentar. “antes sem temor de que a minha aprovação possa. submeter alguma coisa sólida. devem com madura consideração examinar as causas dos acusados e a intenção dos acusadores. Antonio de Sant’Anna. a um certo grau de calor. no precedente parágrafo. “Aqueles a quem Deus cometeu o juízo. Brandão. a ambição. começa Alves Passos observando que se sabe “o sentido em que estes dois vocábulos são sinônimos”. até que pela fervura do líquido chegue essa coisa ao estado que convém”. e os fez julgadores. aquentar pela segunda vez”.. o amor filial. lemos. não assim as paixões. dar a alguma coisa começo de quentura”.. no meio de um líquido. O afetuoso inclina-se para um objeto: o apaixonado é arrastado por ele.. aferventa-se a sopa ou o café. apaixonado. suave. padecer a nota de apaixonada. doces. e sua alma inclinava-se suave e gostosamente para as doutrinas expendidas neles. isto é. impetuosas. e não se devem render a clamores dos que apaixonadamente insistem em perseguir a inocência”. mas apesar disso. digo que neste Sermonário se admira um livro que tem mais frutos que folhas. temperadas. ferver. o reconhecimento são afetos. violentas. Br. a cólera. – Aferventar é “submeter um líquido a um grau de calor em que ele comece a ferver. depois de S. estabelecida a sinonímia e a diferença dos dois vocábulos – afetuoso e apaixonado – e também desenvolvido o pensamento de Fr. L. Luiz. a nosso ver. chamam-se mais propriamente paixões.” As paixões. a compaixão. Ferve-se a água. – Ferver é “submeter um líquido a estado de ebulição por certo tempo”. chamam-se simplesmente afetos.. para verificar-lhes a significação precisa. requentar. e que.. Os simples afetos são comoções brandas e suaves que se podem ajustar com a razão. coze-se o feijão ou a carne. “Ao coração apaixonado nada se deve crer”. que violentas e impetuosas fazem muitas vezes emudecer a razão. “Nos Sermões de Fr. o seu voto era imparcial – a amizade ao orador não o arrastava ao elogio dos seus sermões: eis aqui. a seguinte passagem: . 182 AFERVENTAR. “Eram caluniadores e apaixonados.” Daqui nos veio a ideia do presente artigo. 181 AFETUOSO. O parecer afetuoso é cheio de carinhos. por afetuosa. de calere “estar quente”) designa a ação de “tornar quente”.

a conexão ou conformidade existente entre as coisas sob um certo ponto de vista”. semelhança. a força que une entre si as partes constitutivas de um corpo. muito aproximada de outra pela espécie. – A inerência é a relação que une a qualidade à substância. o aspeto. Luiz – “uma força universal na natureza que solicita todas as moléculas da matéria e todos os agregados dela. a aproximaremse do centro da Terra. coerência. conforme. e Berg. escrevem Bourg. semelhança essencial”. 184 AFINIDADE. “é o grau de afinidade. gravidade. S. “Isto não tem relação com aquilo” – quer dizer: não há entre isto e aquilo coisa alguma que os aproxime. “algum lado ou aspeto pelo qual se liguem ou associem”. atração. e que só tende a mantê-los adunados. – Afinidade (affinitas. denominase adesão ou coesão. e no sentido lato. e cada uma das suas partículas. ou astros. – Similaridade diz propriamente “igualdade de natureza. entre duas ou mais coisas. – Quanto a atração. ou também atração de composição”. propriamente. – A coesão é a força que produz a coerência. – Semelhança é “a qualidade de ser uma coisa parecida. a natureza das propriedades ou do modo de ser entre duas ou mais coisas ou fenômenos”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 AFINIDADE. quando se trata de um corpo composto) dão os químicos mais particularmente o nome de afinidade à força que une as partes constitutivas do corpo. semelhança. A mesma atração considerada nos grandes corpos. analogia. – “Há” – diz fr. gravitação. é a relação de sangue ou de aliança doméstica entre pessoas. quase igual a outra.. – Parentesco. adesão. A que se exercita sobre as últimas moléculas dos corpos recebe o nome de afinidade. pela forma. de propriedade ou conveniência entre duas coisas. afinidade. e solicitando-os uns para os outros.. vizinhança: é a “relação de proximidade. aderência. – Analogia é o ponto. contiguidade. – A adesão é a força que produz a aderência. a semelhança de natureza. a respeito desse astro. reservando o nome de coesão para designar a força que liga as partes que formam uma substância única ou homogênea (de um corpo simples)”. ou analogia entre pessoas. ou “o modo de ser semelhante entre duas ou mais coisas diferentes”. ou coesão.. – “A aderência. chamamos-lhe mais ordinariamente gravidade: e o mesmo nome damos a essa força considerada nos corpos de que se compõe cada astro. a aproximarem-se uns dos outros debaixo de certas leis. chama-se gravitação: tal é a dos planetas para o centro de suas órbitas – o qual.: “Palavras científicas com que se exprimem as diferentes maneiras por que se manifesta essa força invisível que há na natureza. 127 parentesco. Quando o corpo é formado de substâncias de natureza diferente (isto é. toma o nome de gravitação”. relação. a forma. é “a relação de proximidade. e todos para um centro comum. coesão. Quando ela exprime a tendência que têm os graves para seus respetivos centros de gravidade. atração química. – Conexão é. – A coerência é o estado das partes unidas entre si para formar um todo. aqui. escreve também Roq. A atração que se dá quando os corpos se tocam. é o estado de duas coisas que se prendem uma a outra e que são mais ou menos difíceis de separar. de affinis = ad + finis) sugere ideia de junção. que os ponha num certo grau de conveniência. inerên- cia. por isso. gravitação. fenômenos ou coisas”. ou que seja comum aos dois. chamada atração. Chamase esta força atração. e a relação que os corpos ou suas partes têm entre si. conexão. pelo modo de ser”. de que se compõe o sistema do mundo. . também se chama atração planetária. Quando consideramos a atração solicitando os corpos terrestres. – Relação. adesão. similaridade.

agnatos. fi- xar. – sobrepor é “pôr alguma coisa sobre. Duas coisas fixam-se (e não – afixam-se). afim. apor. cognato. colar. corroborar. como trazendo em favor da afirmação testemunhos ou documentos valiosos”. ratificar. pensa. dá certeza daquilo que disse ele próprio. “Afirmei ontem que o rei fora deposto: confirmo hoje este despacho”. – Afinidade é “o parentesco resultante de uniões conjugais entre membros de famílias diferentes”. por parte do varão”. quer cognatos. ligar. ou por cima de outra”. pegar. dá fiança. soldar. aqui. Só se afixa uma coisa a outra coisa. dizer. segundo Aul. o mesmo que grudar e colar: é “aplicar. de- duzindo. de qualquer modo. Consanguíneos são os irmãos. não dando mais energia ao modo de afirmar. etc. isto é. uma coisa a outra. isto é. de pix “pez”) é. “o parentesco pelo lado da mulher. prender. 187 AFIXAR. que significa “parentesco pelo sangue. ou fazer aderir. convictamente. aqui. o segundo. atar. sobrepor. do que se sabe”. os filhos do mesmo pai e de mães diferentes. quer agnatos. argumentando. Afins são. aderir a outra”.” – Assegurar é “afirmar com segurança. os concunhados.” Na jurisprudência antiga. – Certificar é próximo de atestar: significa “dar por certo aquilo que se sabe. por exemplo. – Ratificar é “repetir categoricamente o que se afirmou. e vice-versa. – Agnação e cognação marcam parentescos também “opostos”: o primeiro. pregar. “Asseguro-lhe. confirmar. – Cognatos são os filhos da mesma mãe e de pais diferentes. é “fazer alguma coisa pegar a outra. garantir. “o parentesco pelo lado masculino. Confirmar é “afirmar uma segunda vez e dar testemunho solene do que se viu. – Garantir é empregado frequentemente por assegurar. – Segurar é “fazer firme. É diverso da consanguinidade. – Comprovar é “fazer prova mais forte de alguma coisa que se afirmou”. garanto-lhe que é exato o que ele disse”. parentesco existente entre pessoas do mesmo casal”. declarar definitivamente aquilo que se tinha dito”. – Pregar é “prender por meio de prego”. – Corroborar é “dar força ao que se disse. – Afixar é propriamente “fazer fixo”. se não pertenciam pelo sangue à mesma família. fazer aderir por meio de alguma substância glutinosa”. – Chumbar e soldar. – Atestar é propriamente “dar testemunho de que uma coisa é como se diz”. – Apor e sobrepor também se distinguem pelos respetivos prefixos: – apor é “juntar uma coisa a outra. Mas aquele que garante (na acepção que tem aqui este verbo) assegura a veracidade. e diferençam-se . ou mesmo os cunhados. grudar. – Aplicar. estável. comprovar. com serenidade de quem não receia desmentido”. cognação. fez. demonstrar. etc. ligar uma coisa a outra. – Fixar e afixar só se distinguem pelo que o prefixo ad acrescenta ao segundo. – Afirmar é “dizer formalmente aquilo de que se está convencido”. ou que outro disse. aplicar. como se fosse colada.” – Grudar é “prender com grude”. segurar. só têm sentido figurado. certificar.128 Rocha Pombo 185 AFINIDADE. ou pôr uma coisa em cima de outra”. consan- guinidade. 186 AFIRMAR. asseverar. explicando. aqui. agnação. – Colar é “afixar por meio de cola”. mas num sentido geral é “prender fortemente”. ou garanto-lhe o que digo. chumbar. convencer da certeza de que uma coisa é como se afirma”.. cognação era “o laço de parentesco natural sem direitos civis”. atestar. ágnato. seguro. aumentar o valor da afirmação que se fez. – Demonstrar é “pôr em clareza e evidência aquilo que se disse. – Pegar (do latim picare. assegurar. ou superior.

ou mesmo sem motivo real e preciso”. – Amargura é dor mo- . – soldar. laços. segurar. inquieto. Desgostoso é. etc. laço. desgosto. ligeira amargura”. o sentimento de tristeza (condolência) que nos causa uma notícia. ansioso (ansiado).”. tirando-nos a calma e o sossego. tormento. prender como por meio de solda”. amargura. torturado. ou a dúvida. a saudade que sente. como se a pessoa angustiada tivesse impedida a respiração. porém mais fino e talvez mais sincero.. “unir. de boa vontade com que se faz. corda. se vê. ou. no entanto.). Opressão é. – Desgosto é o “mau grado que nos causa algum sucesso. etc. atormentado. suplício. pesadelo. nos põe. transe. sofrimento. de fios. Aul. de qualquer modo”. desgostoso. se recebe. ou devido à moléstia que afete a função respiratória. ou que lhe alteram o humor normal. atribulado. – Atar = “prender por meio de atadura. não só não sente prazer. – Pesadume (ou pesadumbre. inquietação. – Aflição (de afligere (ad + fligere) “deitar por terra” é “grande incômodo moral. – Opressão e angústia podem confundir-se. “Nada viu que lhe aliviasse a saudade e pesadume”. ou a desconfiança. consternado. agoniado. opressão. – Mágoa é quase como desgosto. (Fil. numa aflição e ansiedade de quem se sentisse estrangular. mas está como revelando no semblante a tristeza. ansiedade. mas o segundo é mais forte. ou pelo que receia venha a dar-se. muitas vezes por algum motivo que não é grande. que perturba a razão. espanhol). – Agonia (do grego agon “combate”) é propriamente a luta que o moribundo trava com a morte na hora extrema. tortura. angústia que abate o espírito (diz Bruns. incômodos. penalizado. menos que pesaroso. – Prender = “Fazer sujeito. e por extensão. dorido. pois indica apenas a falta de prazer. Uma pessoa triste dá indício de que tem na alma preocupações que lhe toldam vida. a sensação desagradável que se experimenta respirando mal. e leva o aflito a obrar sem tino”. Também ficamos pesarosos (cheios de pesar) de não ter podido evitar um mal ou de não haver involuntariamente cumprido um dever. mas designa um desgosto ou pesar menos fundo. dor. do espanhol) = “tristeza lamentosa. trabalhos. Elys. consternação. é “toda ânsia que se pareça com essa aflição de morrer”. triste.”. – Inquietação é menos que aflição: designa o “estado de espírito em que o medo. Angústia é uma opressão tão forte e dolorosa. – Agoniado está quem sente ou parece sentir essa aflição de hora da morte. e mostra-se um tanto ansiosa dessa preocupação. indicando ambos a ação de prender uma coisa a outra: – chumbar. pesadume (pesadumbre. – Pesar é a “dor moral. 188 AFLIÇÃO. angustiado.. reter. “prender como se ficasse seguro por chumbo. magoado. Quem está consternado mostra-se abatido de dor e de espanto. tribulação. supliciado. como definem os léxicos. o desgosto. agonia.. coisa que nos fere o coração”. – Tristeza é o “estado de compunção em que se fica. amargurado. A criatura magoada.). padecimento. alguma coisa. pesaroso. em geral. – Consternação é “a grande tristeza e desalento produzidos por alguma espantosa desgraça”. pena. profundamente penalizado e inconsolável. ou mesmo pelo peso do chumbo”. doloroso. etc. mágoa. aflito. tris- teza. ou pelo mal que aconteceu.. pesar. – Ligar = juntar e prender com liga ou ligadura. cit. ou ar viciado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 129 claramente pelos respetivos radicais. incomodado. fita. etc. dolorido. ou por falta de ar. angústia. um sucesso que não se esperava”. A pessoa inquieta sente-se preocupada com alguma coisa que lhe desagrada.

ou os pés dolorosos. – Tribulação é “trabalho aflitivo.. contrair”) significa “os tormentos a que se sujeitava o acusado quando não queria revelar alguma coisa que interessava à justiça”. mas doloridos). quer físicas.. pois.. que nos causa a desgraça. ou o incumbido de pedir aos deuses nas preces públicas. torcer. magoado. é o sofrimento do que vai ser justiçado. quer morais. – Pena é “o sentimento de desgosto. causadas por sofrimento físico ou moral”. – Tormento é a “dor e a inquietação ansiosa. e exprime “todo gênero de provações. (Almas doloridas. ligeiras e vagas. de alguma esperança que se extinguiu”.. – Sofrimento é o mais genérico deste grupo. Dor moral é a “comoção amarga. – Suplício (do latim supplicium.. juntas doloridas. as dores.. “O doente está ansiado”. como querem alguns autores. Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos”. (e não – sofreu. e não seria fácil assinalar-lhes clara diferença.130 Rocha Pombo ral acerbíssima. flagelo. no entanto. tanto morais como físicas. ou causada pela consciência de algum mal que se fez. súplicas. vozes doloridas. de dó. ire). causada por alguma alteração traumática dos tecidos. deve notarse.. Os três adjetivos dolorido. “Oh vós que passais pelo caminho – clamava o patriarca bíblico – atendei. a cabeça.) – Dorido diz mais “triste. Entre ansioso e ansiado convém não esquecer que há esta diferença: o primeiro emprega-se no sentido moral: o segundo. É mais propriamente a manifestação da dor que a mesma dor. ou provações comparáveis à tortura.). partes do corpo doloridas. aqui. as lidas e penas que se sofrem na vida. Hoje. dorido e doloroso confundem-se. Em sentido lato. É assim que na oração simbólica (o Credo) se diz que “. que aflige e angustia abalando e pungindo os mais nobres e santos afetos da pessoa amargurada. O atribulado sente-se como que perseguido de aflições. Longe. torturado se sente aquele a quem se infligem duros constrangimentos. ou então devida a alguma anormalidade de funções de qualquer dos órgãos. e talvez até com uma quase ufania de os padecer. – Dor é “toda sensação que nos molesta. os males. o seguinte: quem padece sofre os males com certa resignação. (Não costumamos dizer. preces. de significar. tormento como castigo. As dores do atormentado são dores que afligem e mortificam.. Quando muito. “A menina está ansiosa pelo noivo”. orações doridas). – Transe é como a crise. quer pela impaciência com que espera o que deseja. sensibilizado”.. o momento mais duro dos trabalhos. das amarguras: momento que se deseja “passe logo” (de transeo. de algum bem que se perdeu. apenas o sofrimento físico – o padecimento é uma forma estoica de sofrer as coisas que nos amarguram. no físico. quer pelo receio de alguma desgraça. e por extensão empregamos esta palavra suplício para designar padecimentos que se podem comparar aos de um condenado à morte. – Tortura (de torquere “dobrar. – Dolorido emprega-se num e noutro sentido. transar”) era o tormento a que se submetia a vítima nos holocaustos. – Ansiedade.. o sentimento de funda tristeza que nos vence a alma no meio dos contrastes da vida. ou por alguma pancada violenta. – Trabalhos toma-se aqui como significando “as contrariedades. pois o penalizado mostra que avalia a dor do seu semelhante. por exemplo: “tenho as mãos. sugestiva de “enleiar. e vede se há dor igual à minha dor!”. mas principalmente morais. (Doridos cantos. de desejo inquieto e aflitivo em que fica a pessoa ansiosa. é o estado de quase opressão. . o sofrimento alheio”. ou longas e intensas”. – Padecimento é empregado na mesma acepção. tortura”. no qual figura a raiz grega plek. de sofreguidão. pode notar-se que doloroso quase que se emprega de preferência no sentido moral.

– Incômodo (ou incômodos) é “a sensação de fadiga. turbilhão”. como. ou gruppo significa. ou indisposta. que obra em confusão. porém. no inverno é enorme a concorrência aos teatros. há grande afluência ao local onde ela se efetua. e vale por grande ajuntamento desgovernado. aqui. rolo”) diz “ajuntamento feito como que em atropelo. – Agrupamento é reunião por grupos. Cintra atrai no verão um grande concurso de gente.. tumultuoso. – Aglomeração (cujo radical glomus significa “novelo. mas neste movimento nada revela a ideia de continuidade. com que a pessoa incomodada se sente inquieta. – Segundo Bruns. são as de corporações políticas. – Afluência – escreve ele – “considera as pessoas dirigindo-se para um ponto. formando conjunto que facilmente se destaca. de que trata o referido autor: e o mesmo se diz dos demais. Assim. . por exemplo. as pessoas ou os grupos seguindo-se uns aos outros sem interrupção. – Concurso representa a mesma ideia que afluência. de cuidado ou de dor.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 131 ou que se experimentam nalguma empresa”. tropel. quer paradas. A hora em que há maior concorrência nas AFLUÊNCIA. Este é uma formação pleonástica de duas palavras do mesmo valor. – Reunião é. turbamulta. significando “correr para um sítio). turba. concorrência. mas entre os dois vocábulos há uma diferença essencial: afluência considera o movimento como contínuo e regular. triste e abatida”. senão toda a que vai convergindo para o mesmo sítio por diversas vias. o grupo de pessoas que se juntaram para algum fim: é muito próximo de ajuntamento e de assembleia. quer se considerem em movimento.. anárquico. “conjunto de muitas pessoas” é a ideia geral que encerram os seis primeiros vocábulos do grupo. – Aproxima-se de tropel e de turbamulta. é erro. nos dias de parada. de alarde hostil. à turba e à turbamulta – a ideia necessária de movimento. isto é. isto é. enquanto que concurso indica o movimento simultâneo de muitas pessoas que convergem por diferentes vias a um ponto dado. e traz consigo a desordem. “O vasto tropel de beduínos fazia estremecer a planura”. de que nós trataremos. agrupamento. multidão. Tem formação análoga à de aglomeração (o italiano gróppo. como em turbilhões”. – Concorrência diz-se das pessoas com relação a um ponto dado. e é como se dissesse turba-multidão. mas este acrescenta à multidão. “núcleo revolto. ruas da Baixa é à saída das repartições.. chusma. que ajuntamento é quase sempre tomado à má parte. que este último é particularmente empregado para designar uma reunião mais importante e solene. – Ajuntamento designa a reunião de pessoas que pararam num ponto para um fim determinado”. multidão. como em “gróppo di vento”). reunião. – Multidão é uma grande reunião de gente sem nenhuma ideia acessória. aglomeração. devendo notar-se. – Turba é a multidão indisciplinada e turbulenta. Empregar este vocábulo para designar a gente já reunida no ponto a que já convergiu. ajuntamento. seguindo todas a mesma direção: é o que se depreende da etimologia da palavra (em latim fluere. e comumente de assanho. As outras três palavras que se seguem representam afluência de pessoas reunidas num ponto determinado sem ideia de estarem em movimento. 189 concurso. O mesmo diz tropel. indica que a reunião pode não ser legítima. no entanto. afluência não se limita a designar a muita gente que se dirige a um ponto seguindo a mesma via. ou não ter funções ou fins legítimos. de pesar. assembleia. Na linguagem corrente. entre outras coisas. turba que se forma desordenadamente.

arrojo. – Cortante e talhante exprimem a qualidade. audácia. ou que se lança a encontro do perigo. precipitado. – Desassombrado é semelhante a desafrontado: significa – “que não se assusta. – O homem afoito. bravo. destemido. impassível. ardimento. Nos dois exemplos seguintes nota-se essa particularidade: “Afora o mais novo. – Temerário já é mais próximo de afoito. audacioso. imperturbabilidade. no entanto. tornando-se por isso muito cortante. destemor. exceto. – Um instrumento afiado tem o fio muito fino. precipitação. heroísmo. intré- pido. arriscado. – Cortante diz apenas – “que corta”. nos campos de batalha. arrojado. desafogado. bravura. cor- tante. valoroso. violento. impetuosidade. denodado. heroico. resoluto. ou ignorância ou falta de prudência. fino. Arrojo é mais que denodo. audaz. exceto se diz melhor do que se exclui. animoso. este adjetivo afiado. 191 AFIADO.132 Rocha Pombo 190 AFORA. a ponta de um punção. exceto o João que é trabalhador”. um canivete. – Todas estas palavras designam qualidades ou estados de alma que se revelam ante os grandes perigos. pode ser o gume de uma faca. decidido. corajoso. imperturbável. decisão. aguçado. arrebatamento. inconsiderado. e afora. Na afoiteza. atua com força e decisão. veemência. mas investe o embaraço. arrebatado. – Amolado se diz do instrumento que se aguçou a rebolo (mola “mó”. todos os irmãos são uns vadios”. afoiteza. mas decerto que não diremos – uma foice afiada. penetrante. ousadia. impavidez. impertérrito. temeridade. não só afronta. que corta” – define Aul. uma fé perfeita no próprio valor. como coisa que corta”. há sempre. denodo. – O desafrontado mostra que se não deixa impressionar ante um obstáculo ou perigo: antes fica altivo. valor. 192 AFOITO. valente. Diremos – um bisturi. heroicidade. confiança. violência. a propriedade do instrumento que foi afiado. imponderado. intrêmulo. valentia. incisivo. amolado. atrevimento. ânimo. ou um espinho”. ou à vista de embaraços ou obstáculos opostos ao que intentamos. – Confiado é aquele que mostra em si mesmo uma demasiada confiança. intemente. impetuoso. intrepidez. resolução. atrevido. “pedra de amolar”). agudo. coragem. quer dizer – um ânimo seguro. Nem a todo gênero de instrumentos se aplica. confia- do. Em sentido translato – “que opera. impassibilidade. ou faz uma ideia muito imperfeita do perigo. – Agudo diz – “muito vivo. ímpeto. – Aguçado significa – “de gume ou de ponta muito fina ou adelgaçada. e talhante sugere a ideia de separar de todo (talhar) a coisa que se corta”. determinação. ou não o conhece. erecto à vista dele. O verbo aguçar (do latim acutare) significa mesmo “fazer agudo”. ardido. sem preocupações que o levem a vacilar”. – É ainda de Bruns: Exceto e afora empregam-se indistintamente. temerário. impávido. que se mostra impávido e sereno. “Todos os irmãos são vadios. talhante. uma navalha afiada. desafrontado. – Incisivo – “próprio para cortar. não obstante. – Arrojado é o que. – . mas na temeridade (que é às vezes uma como exageração do heroísmo) sempre há mais alguma consciência do perigo do que na afoiteza. veemente. do que não se inclui. determinado. não toma com calma as proporções do perigo: arremessa-se à luta com o desassombro e afoiteza de quem não sabe poupar a vida. que intrepidez e que bravura: o capitão arrojado não mede bem as consequências da investida. inconsideração. ousado. O temerário leva a sua audácia e resolução até uma quase loucura.

Impávido é “o que se não amedronta. Não seria de estranhar que muito sujeito ousado viesse a mostrar-se covarde. Impavidez é a “serenidade com que se encara. O sujeito animoso é o que se conserva como é. ere] “cortar”) revela-se no ânimo seguro e pronto com que alguém se dirige em dada conjuntura. sendo a resolução um ato que resulta de reflexão. talvez mais petulância que audácia. – Audacioso (formação vernácula de audácia) não diz senão – “que revela alguma audácia (ou uma audácia menos nobre e legítima). A decisão (decisio.. desafrontada. – Arriscado quer dizer – “que se expõe a perigos mais do que se permitiria a uma coragem regulada pela prudência”.. que despreza os tropeços”. que zomba dos perigos. grandeza de alma no meio dos perigos. algum perigo”. – Audaz (conquanto oriundo da mesma raiz de que proveio ousado) envolve as ideias de intrépido. criaturas intementes. salvar-se pela vitória. A determinação parece. arrojado. e até ímpias. denotando apenas a inconsideração mais leviandade que propriamente coragem. Nem se diz. – Decidido é “que não vacila ante obstáculos ou perigos”. O homem fisicamente fraco e até enfermo pode bem ser corajoso. – Destemido. a constância. pois. pois a ousadia não é mais do que uma coragem que se funda na confiança que o ousado logrou de sucessos anteriores. a índole. “coragem resoluta. é tão desgraçado: vejo. sem agitar-se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 133 Atrevido sugere a ideia de que o arrojado é inferior em forças àquele contra o qual investe. O valor consiste mais na grande- . sem temer. Quer isto dizer que atrevimento é a decisão pouco refletida. pode conservar espírito forte. – Inconsiderado significa o mesmo quase que afoito. por isso mesmo. O general inconsiderado meterá o seu exército em risco de desastres. que teme tanto castigos do Céu. impávido poderiam confundir-se. alentado e animoso. a firmeza com que se afrontam os perigos e se trata de os vencer. – Ânimo não tem a força de coragem: é mais “a posse de si mesmo. Audácia é. o temperamento normal que se não perde no meio dos embaraços. mas o primeiro se aplica de preferência ao indivíduo que é forte no físico. que não se abala de pavor”. – Coragem (do baixo latim coragium “força do coração) designa propriamente a energia moral. do que propriamente valor”. A valentia é qualidade de que se ufanam os campeões. intemente. e parece dar mais prova de irreverência que de destemor. – Imponderado é convizinho dos dois precedentes. sendo o destemor uma das grandes qualidades do herói. robusto. propriamente”. isto é. de alma forte que de força muscular. “valentia moral”.) – Determinado diz melhor a firmeza com que o resoluto executa o que resolveu. – Valente e valoroso andam de ordinário confundidos. O valoroso tem mais de coragem. que vivem sempre felizes” – parece que fica muito clara a significação do vocábulo intemente (apenas – “não temente”). no entanto. Destemido é “o que nada teme. consequência da resolução que se tomou. inquebrantável em situações difíceis. e que para investi-lo tem de juntar ao arrojo a afoiteza. com que alguém se arrisca a um perigo. – Ousado é menos que atrevido. sem comover-se. notando-se que imponderado e inconsiderado não envolvem necessariamente a ideia de coragem afoita que se encontra em arriscado. sem probabilidades de vencer: o afoito ainda pode. leviana e confiante. com um golpe de audácia. quase temerário. (Resoluto parece dizer alguma coisa mais calmo e ponderado que decidido. mas o sujeito intemente é o que não teme aquilo que é natural se tema. que mostra ousadia extrema. Neste exemplo: “F. que é corajoso e intrépido”. valor moral.. que se mostra calmo e tranquilo ante o que pode sobrevir. de decidere [= de + cœdo. pois. igual.

– Ardido é galicismo pouco usado (hardi) significando propriamente “atrevido. resolução é o “intento ou o propósito que se tomou depois de haver muito refletido na coisa que se trata de resolver”. de censura ou de exprobração”. pois ímpeto quer dizer mesmo “decisão súbita e veemente” (e impetuosidade é a qualidade de ser impetuoso). do que propriamente no vigor de um físico sadio e robusto. Ninguém diria. – Intrépido é aquele que não vacila na investida. de uma abnegação que excede a tudo que tem de augusto o heroís- mo: e é a isto que se deve chamar arrebatamento moral. assim. alguma coisa mais que afoiteza. “que não se assusta diante do inimigo. que se aventura. têm valor para arrostar o mal. ou que se abalança a atos de audácia pouco refletidos (ardimentos)”. ante só perigos. pois. coragem desassombrada. o violento só não dá ao que vai fazer uma atenção perfeita. além de impávidos. Veemência é “a viva intensidade de uma apóstrofe. mas de uma bravura que vai até o delírio. sem se aperceber do perigo. Não se teria por heroísmo a valentia de um sujeito que vencesse a um enfermo. – Precipitado confunde-se com inconsiderado e imponderado. por exemplo: – “um pedido”. desafrontado. O denodo é a qualidade dos que. livre de receios”. e significa. – Heroico é o que se mostra digno de triunfar galhardamente pelo valor moral. dos escarmentos”. – Veemente quer dizer “impetuoso e forte. e apenas não pensar nas exatas proporções dele: o precipitado não cogita do perigo. – Violento é muito distinto de precipitado. dá provas mais que de coragem comum. explicando-lhes a diferença. ou que matasse uma criança. o ataque. e só figuradamente se aplicaria à grandeza moral dos que triunfam pela excelência de virtudes mais excelsas: dizemos. O homem que salva de um incêndio uma criança. de afronta. esplendor das ações (sendo heroicidade a “qualidade de ser herói”). ou um impulso mais devido ao temperamento que à decisão de quem obra”. ou um inválido. a desgraça. A intrepidez é a qualidade daqueles que. sem pensar nele. pela constância. Precipitação é. que é animoso. por esforço hercúleo. Um homem precipitado atira-se a um abismo sem o ver. excelência de intuitos. se mostram isentos de preocupações que não sejam as de se mostrarem desembaraçados de tudo para alcançar o que almejam. – Resoluto é quase o mesmo que decidido: apenas no resoluto se supõe uma reflexão mais funda do que no decidido. mas a precipitação enuncia mais claro um ato fora de toda consciência. e conserva a coragem e a calma nos combates”. – Intrêmulo. pois. rápido e violento”. nem mesmo ao que viesse a triunfar da fé. portanto. – Denodado significa “desprendido. – Impertérrito é antônimo de pertérrito. de um ato de coragem. para não trepidar ante a própria morte. pois heroísmo é tudo isto junto: grandeza de alma. dos perigos. que não volta as costas ao inimigo. – imper- . – Arrebatado é “o que se incende de sentimentos heroicos diante das desgraças. impassível são convizinhos muito íntimos. – A bravura pode-se dizer que é a virtude dos homens de guerra. no entanto. sendo a violência “uma perpetração. imperturbável. pois o sujeito afoito pode ainda ter ideia do perigo. A própria formação destas palavras está. Intrêmulo diz – “que não treme diante do perigo”. – Impetuoso é o que cede a impulsos instantâneos da sua coragem e pratica atos heroicos que parecem mais inconsiderados do que atos voluntários de valor.134 Rocha Pombo za de ânimo. que é um bravo o homem que num dado momento da vida se portou com a majestade de alma própria dos heróis. como já se disse. no esforço e altivez com que se afronta a desgraça ou o inimigo. senão – “uma súplica veemente”.

Quixote: que a afronta vem da parte de quem a pode fazer. a ofensa junta ao agravo o desprezo ou o insulto. “que nada sofre. porque aquele. sem ter nisto vaidade. ofendida uma mulher a quem se disputa a boa figura. não obstante que aquele nos causa um prejuízo efetivo. afrontado. feito às qualidades pessoais de alguém. porque o agressor lhe fez rosto. segue-o o homem. não se pode dizer que dança mal sem fazer-lhe um agravo. zombaria. – ultraje apresenta a ideia de vilipêndio público em detrimento de alguém. a vaidade que a modéstia”. “que se não perturba. segundo as leis do maldito duelo. escárnio. como já notou d. porque nas mulheres pode mais. esta. tratá-lo publicamente de ladrão é um ultraje. de que decerto se não dará por ofendido. quando . Não agrava o que diz de outrem que é torto. em outro §: injúria apresenta a ideia de agravo violento. para a ofensa basta que haja insulto. mas a multidão dos contrários se lhe opõem. ainda que ela mesma conheça que a não tem. de atonia moral. De um homem que dança bem. injúria. Por isso. ofensa. e faz o que lhe cumpre como homem de brio. remoque. diz Roq. gracejo. – “há esta diferença. toma-o como desprezo ou insulto. porém. que deprima. mete o homem mão à espada. porém ofende aquele a quem se diz.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 135 turbável –. porque a ofensa nos choca diretamente com o amor-próprio. Seja exemplo: Está um homem na rua descuidado. – impassível. que se mostra indiferente. na opinião. Se o que deu as pauladas ficara de pé firme fazendo rosto a seu inimigo. ou o mal que o assalta”. e dão-lhe pancadas. vexame. só nos incomoda com um prejuízo fundado. porque insulta seu amor-próprio e o humilha. – Quanto a injúria e ultraje. – O agravo atropela nosso direito. crê-se agravado. não. mas não afronta. chegam dez indivíduos armados. não se altera ante o perigo. e o não conseguiu. portanto. Para o agravo é preciso que haja injustiça. e não o alcança para castigá-lo. se a este agravo acresceu um desprezo do seu mérito. A impassibilidade pode. chasco. irrisão. mas não afrontado. O que tem direito a um acesso. avania. fica. e foge. Tratar de feia a uma mulher formosa é um agravo que. sustentou o seu feito sem voltar as costas. sátira. porém. o agravo pode vir de qualquer parte sem que afronte. porque em dizer aquela verdade não se dá a injustiça que exige o agravo para o ser. crê-se ofendido. ou nos humilha. Desconfiar da probidade de um homem de bem é uma injúria. – “Entre o agravo e a afronta” – diz Roq. 193 AFRONTA. e a pé firme. ou um vício. eu posso estar agravado. ou uma declaração de sua insuficiência. e este não perdoa com facilidade. Aquele prejudica-nos talvez sem nos afrontar. afrontado. ou a afronta. o homem. chega outro por detrás. a ofensa. porque lhe deram à traição. O que levou as pauladas recebeu agravo. nem olha como leves os insultos. quando realmente o é. troça. esta afronta-nos sempre. E assim. agravo. privando-nos realmente do que nos pertence. ainda que não haja injustiça. ultraje. ou do que ouve”. ou estado de ânimo. ser uma virtude de estoico. em regra. O mesmo confirmará outro exemplo: Está um homem com as costas voltadas. e faz e sustenta. que é vingar-se: este homem fica decerto agravado. a mulher. não vê nisto mais que uma injustiça. nem pretender elogios. e dá-lhe duas bengaladas. pois que a afronta há de ser sustentada: circunstância que não é necessária para constituir o agravo. insulto. ficaria o que levou as pauladas agravado e afrontado juntamente: agravado. chacota. apodo. ou no capricho. e não o deixam levar avante o que intenta. dissimula-se o agravo mais facilmente que a ofensa. mofa. porém esta. insensível diante do que vê. comumente.

por atos ou palavras. como é sabido. apenas o bródio é menos charro. torpeza”) significando hoje “grande e farta refeição alegre. maliciosos. – Escárnio (do italiano schérno) é mais forte do que muitos deste grupo: ajunta à intenção de ofensa a ideia de nojo e repulsa. porém. jantar. que o não tenham por ultraje”.: “No sentido figurado destes verbos – escreve ele – o menos expressivo é encarar. – Chasco é muito semelhante a remoque. – Apodo (mais usado no plural) é “o remoque ligeiro. dirigido a algum defeito ou a alguma falta da pessoa a quem se ofende. Arrostar peleja frente a frente. poucas haverá. – Ao modo muito. é termo popular significando “a zombaria aparatosa que se faz com alguém. onde há mais fartura de comidas que delícias. e tanto que reclama um adjunto quase sempre para que se torne ofensivo: gracejo de mau gosto. – Pândega é “rega-bofe estrondoso. a atitude com que se falta ao devido respeito com alguém. violência. que expõem a vítima a irrisão pública. o insulto disfarçado. pândega. – Zombaria é o dito. – Sátira. ficou (do grego ágape “amor. – Irrisão é a “zombaria que consiste em rir.. banquete. aqui. gracejo pesado. – Troça.” – . Diz neste caso – “ofensa por meio de graçolas. é a palavra picante.136 Rocha Pombo 194 AFRONTAR. encarar. que melindra o pudor”. porém. às vezes mais brincando que ofendendo”. – Insulto dá ideia de ofensa feita de propósito. bródio. patuscada de vagabundos. – Mofa é também o sinal – palavras ou gestos – “com que se mostra desprezo por alguém. com esta diferença. excluindo a ideia de medo. preferimos o de Bruns. conquanto animado. o ataque. expondo-o a ridículo. Encarar necessita. – Gracejo é de todos os do grupo o menos forte. um complemento que lhe determine a significação. aqui. e extorsões que os muçulmanos faziam aos cristãos”. 195 ÁGAPE. escarnecer da vítima”. o gesto. janta. – Ágape. pode ser mesmo oferecer-se até certo ponto a ela. alimento”) é “refeição abundante e alegre”. Afrontar a morte não é combatê-la: é encará-la impávido. com ostentação. – Arrostar (vocábulo derivado do latim rostrum “esporão de navio”) é o mais expressivo deste grupo. escândalo. breque- feste. – Patuscada é comezaina que desanda para a troça. porém: que afrontar não implica a ideia de luta que existe em arrostar.. de entender de Lacerda e de Roquete. encara-se a sangue-frio o perigo. isto é. de ditos pouco delicados. não devera passar de injúria. patuscada. e sugere o intento de insultar e expor à vergonha. – Brequefeste (do inglês breakfast “almoço. e que depois foi proibida pela Igreja porque quase sempre degenerava em orgia. era a refeição com ares de cerimônia cultual. – Vexame é “tudo o que constrange. que os primitivos cristãos faziam em comum e às ocultas. comezaina. por palavras engraçadas ou escarninhas”. – Comezaina é ágape menos nobre. – Afrontar e arrostar. A palavra com que se designou aquilo. – Rega-bofe é grande folia de comes e bebes. – Chacota é “zombaria por ditérios ou termos burlescos”. Encara-se com terror a morte. – Remoque é “dito picante que disfarça uma censura ou repreensão”. encerram a de denodo. é mais modesto. insultos. – Bródio é quase o mesmo que patuscada. com intuito de ofendê-lo”. e. – Avanias são propriamente as “vexações. e passou para a língua significando vexames. acrescentando a este a ideia de desprezo. portanto. irritantes”. intentando obrigar o inimigo a que recue”. arrostar. festiva”. rega-bofe. Os exploradores do polo afrontam a morte por amor à ciência.

. de ager “cam- po”). que implica a ideia de rudez moral. agreste exclui toda ideia de cultura. melhor que os dois precedentes. mas. Falando de sítios. – Agonizar é hoje usado só como intransitivo. que não sofrem as ânsias da morte. – Rústico (em latim rusticus. reconhecido por favores”. etc. difere de agreste.. rudez intelectual. O homem rústico carece de urbanidade. do esforço e aflição de estertor em que se vê o moribundo. É assim que há pessoas que morrem sem agonia. inépcia. pode. manifestações disso. feito em família”. devido mesmo à sua própria simplicidade. reconhecido. selvagem. – Em sentido desfavorável. dizendo-se indiferentemente – flor agreste ou flor silvestre. sem cultura. no entanto. aplicado a pessoas ou ao que lhes é particular. do que carece da polidez das cidades. campesino.. e janta é o “jantar mais simples. nem trabalhado com arte o objeto rústico. Não é polido. – Obrigado = “que se julga em obrigação moral com alguém que lhe fez alguma fineza”. do seu apreço por aquele que lhe fez bem. – Banquete é “jantar solene. para exprimir o ato de morrer. ou sem a beleza da arte. etc. para indicar a flor que não é cultivada.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 137 Jantar é uma das duas refeições normais feitas diariamente. de rus “campo”. Por um obséquio fica-se agradecido. e. isto é. segundo o mesmo autor. 198 AGRESTE. grato. – Reconhecido dá. campestre. 196 AGONIZAR. sugerindo ideia da luta que o moribundo trava com a morte. isto é. que se julga como preso moralmente àquele a quem as deve”. “Um lugar agreste só tem rochedos escalvados. à rudeza. a ideia de como o que recebeu benefícios quer dar provas da sua gratidão. portanto. as maneiras agrestes. não conhece os usos da gente fina. no entanto. – Agreste. sem fazer. de beleza natural. – Estertorar acrescenta a agonizar a ideia do trabalho. ao trato da boa sociedade. selvático. à baixeza.. mas guardando intimamente a lembrança do bem que se lhe fez. plantas raquíticas. epíteto menos frequente que campestre. como antônimo de urbs “cidade”) diz-se do que tem o caráter próprio da simplicidade aldeã ou camponesa. porém. – E campesino. – Silvestre é o que é próprio da selva. Diz-se de pessoas e de coisas. O homem agreste é grosseiro a ponto de ser intratável. refere-se a tudo que pertence ao campo cultivado. – Grato é igualmente o que é sensível ao benefício. rústico. apreciáveis os seus sentimentos. e dá provas disso. terrenos ingratos. e geralmente só encerra a ideia de viver ou habitar no campo. estertorar. fundadas por mútua convenção social. refere-se à grosseria. tanto falando de homens como de animais. silvestre. o que nasce e vive nos matos. – Cativo – tão reconhecido por serviços. gentilezas. – Entre silvestre e selvático há diferença bem fácil de assinalar: flor sel- . que não agonizam no momento de morrer. não podem ser suportados por quem se habituou às delicadezas. ser agradável. e nunca se toma em bom sentido. os costumes agrestes. 197 AGRADECIDO. Por alguém que nos proteje ou socorre ficamos reconhecidos. São propriedades rústicas as que constam de terras de lavoura.. – Agradecido é o que não se esquece do benefício que recebeu. podendo ser. obri- gado. ainda assim. ou por algum motivo excepcional”. tem a mesma origem deste. cativo. e pode faltar às leis da conveniência. penhorado. diz Bruns. Por uma gentileza fica-se grato. Confunde-se frequentemente com agreste.” – Campestre. rústico implica falta de tato. (do latim agrestis. – Penhorado = “obrigado. dado em honra de alguém.

mas a flor sem beleza. rural se aplica à propriedade. sendo a ideia de propriedade e de riqueza inerente a este vocábulo. o proprietário das terras que explora. Diríamos: crédito agrário. ou crédito agrícola. e não obstante. lavradores pobres. Há lavradores ricos. grosseira como a selva bruta. indica uma especialidade: há cultivadores de cereais. ou fundado na produção agrícola. porém. colono. rural. e com eles designa-se indistintamente o indivíduo. – Cultivador é um termo genérico que se pode dizer tanto do agricultor como do lavrador. que explora terras e as cultiva. – Entre rural e rústico (ambos oriundos de rus “campo”) há uma diferença análoga à que se acaba de ver entre os dois precedentes. próprio da cultura dos campos”. Numa ordem de ideias mais restrita. pequenos agricultores. senão que a exerce como ocupação. trabalho agrícola (não – agrário). O agricultor é. se o homem de quem se trata é rude. – Os substantivos agricultor e lavrador confundem-se frequentemente na linguagem comum. brutal como os que vivem nos matos. 200 AGRICULTURA. às propriedades territoriais”. O agrônomo é o indivíduo versado na teoria da agricultura: pode ser agricultor ou não. selvagem). que ele considera como uma arte pela qual sente gosto. mas rústico se aplica ao que não está cultivado. agrônomo. porque se refere à profissão do indivíduo. por si próprio (ou de sua conta) e em ponto grande. a agronomia é a teoria dessa arte. enquanto que a flor silvestre pode ser tão delicada como as que se cultivam. – Agricultura – escreve Bruns. lavrador. 199 AGRÍCOLA. conforme fosse o crédito fundado na propriedade rural em si. o que não está situado dentro da área urbana. Tratando-se de pessoas não se diz silvestre (e sim. à vida dos que se dedicam à exploração das terras. agrário. O colono habita terra que não é sua própria. agricultor. e pequenos lavradores. cultivador. à propriedade territorial em si. agronomia. mas poder-se-á dizer selvático. seja de conta própria.138 Rocha Pombo vática decerto que não é simplesmente a flor que não foi colhida nos jardins. relativo às terras ocupadas. Não há. disforme. seja de conta alheia. porém. A cultura dos campos efetuada constitui a agricultura. e corresponde a agrícola. O cultivador vive de cultivar: é a única ideia que o vocábulo sugere. quando seguido de um complemento. Dizemos: medidas agrárias (e não – agrícolas). rústico. lei agrária (não – agrícola).. nem lavrá-las: basta ser entendido em agricultura. grandes lavradores. não só conhece a agricultura como arte. Lavrador é o homem que lavra a terra. No sentido rigoroso. a qual varia de processos à medida que a agronomia se aperfeiçoa. e corresponde a agrário. Agricultor é o proprietário que. de artes. de determinadas plantas. proprietário ou rendeiro. no seu valor próprio. pois. etc.. O agricultor. ou mediante jornal. este vocábulo. Ambos se empregam para designar o que não é da cidade. Colono só remotamente encerra a ideia de agricultura. seja para que a cultive. não é indiferente empregar um em vez de outro. – “é a arte de cultivar a terra. agrícola (de ager e colere “cultivar”) já significa “relativo ao trabalho. de letras. inculto. a agronomia é teórica. visto que para ser agrônomo não é necessário possuir terras. A agricultura é prática. . e não à arte que ele exerce. seja para simplesmente povoá-la”. – Agrí- cola e agrário não poderiam confundir-se: agrário (de ager “campo”) diz apenas “próprio do campo ou das terras utilizáveis. estes vocábulos divergem entre si. se dedica à agricultura. – Agricultor e agrônomo também se confundem frequentemente. ao campo onde se trabalha.

a densidade. – Molhar é propriamente “umedecer ao ponto em que a coisa molhada perca o estado de secura. se o trabalho de umedecer as terras é feito por meio de canais. e também fica-se com as faces banhadas de suor. tino (atinado). que deve suceder ou vir. imergindo-os. dizemos – que se irrigam. o que se aguarda pode sê-lo ou não”. do obstáculo. As grandes chuvas alagaram os campos. particularidades. as lavouras. molhar. finura (fino). de invasão de água por excesso dela em outro ponto. ou que se presume sucederá ou virá. ou por transbordamento. – Aguar diz apenas – “derramar água sobre alguma coisa. esperar. A ruptura do açude inundou o caminho. astúcia (astuto e astucioso). ou o pensamento . ressentindo-se da etimologia. se o suor é tanto. no fundo dos objetos. regam-se as hortas. A enxurrada inundou as ruas. – Alagar e inundar também se confundem.. segundo S. – “vem do latim sagax. ou se vem alguma coisa ou pessoa. A vista penetrante alcança o íntimo das coisas. Luiz. rega-se a goles de água ou de vinho a garganta ressequida.” – Irrigar e regar confundem-se. ou noutro líquido”. irrigar. “aguardar é estar à espera. A agudeza vê os objetos mais subtis. Esperar é ter esperança. subtileza (subtil). as qualidades das pessoas e das coisas. A vista aguda apanha diferenças. ou na grama orvalhada. 202 AGUAR. para que não murche tão depressa. minúcias que escapam à visão comum. e que se descobre o mérito que se oculta. Irrigam-se as plantações. molha-se a cabeça apanhando chuva sem estar coberto. José de 139 Lacerda. É pela sagacidade que se apreciam. banhar de água. – Banha-se o rosto. os jardins. ou pondo-os debaixo de uma corrente de água. as ruas. e os que. os campos. dando atenção.” – Banhar é “meter n’água alguma coisa. 203 AGUDEZA (agudo). ou de lágrimas.. ou aguar tão bem como se a coisa banhada tivesse imergido n’água. perspicácia (perspi- caz). mais delicados. dos fatos. molha-se os pés na sarjeta.” O homem perspicaz vê claramente através dos disfarces. aguardar algum bem que se deseja e se julga que há de vir. e estas durante muitos dias ficaram alagadas. Mesmo tratando-se de campos. Mas alagar sugere a ideia de que a porção de espaço alagada ficou por algum tempo debaixo d’água (como formando lago). no seu justo valor. e não – que se regam. os campos. – A perspicácia da vista vê claro por entre. do véu. sagacidade (sagaz). juntar água a. banhar. penetração (penetrante). as mãos. Rega-se o canteiro. mas não dizemos – regar as ruas (sim irrigar). e inundar envolve ideia de extravasamento.. atilamento (atilado). que se dizia dos cães que tinham delicadeza de olfato para achar a caça pelo rasto. – Água-se uma flor. A palavra. num vaso. – Molha-se o dedo na salmoura. obscuro.. argúcia (arguto e argucioso). a solidez. e através da nuvem. e por translação se aplicam ao entendimento ou à vista intelectual. Dizemos – regar ou irrigar as plantas. – Sagacidade – diz Bruns. inundar. emaranhado.. – Segundo d. “exprimem diferentes qualidades da vista corporal. a dureza própria ou normal. mais finos. não é mais do que uma extensão de regar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 AGUARDAR. por sua posição. olhando se sucede. Espera-se o que é feliz ou agradável. regar. no entanto. – Os três primeiros substantivos do grupo. ou se tão abundantes são as lágrimas que as faces fiquem tão molhadas como se tivessem saído d’água. A penetração vê no interior.. encher de água. alagar. Irrigar. se representam como tais. designa a qualidade especial de descobrir sem esforço o que é confuso. represas etc.

como observa Bruns. ideia de esforço. – Suster (de sustinere. Uma trave que serve de apoio a outra nem por isso se deve dizer que a ampara. Finura é um termo genérico pelo qual se designa a habilidade de ver. a escolha do falar. não penda. para que daí não saia ou não se desvie”. nem estear um galho de árvore para que não se quebre.140 Rocha Pombo que se disfarça. ponta. Além disso. suster. segundo a formação do vocábulo (susum pendere) diz precisamente “deixar pendente em cima ou no ar”. escora alguma coisa para que não vire. haste. de madeira ou de metal. estear. estável. – Astúcia é a habilidade no emprego de ardis. se inclui ideia de ação momentânea. ou a escora impede apenas que a coisa amparada se desloque de todo. ou de pedra. ou o vigamento de um edifício. – Aguentar é propriamente. Astucioso – “que usa de astúcias para enganar”. apoiar. enquanto que a coisa que se esteia assenta. em que assenta algum grande peso e fica firme. na distinção notada entre os respetivos radicais: o espeque (do inglês spike “espigão. cavilha”) é uma peça com que se prende. – Argúcia será então a “subtileza no argumentar ou no discutir”. Se alguém impede que uma senhora dê uma queda não se diz que a apoia.. especar um telhado. Não se há de dizer. e estear é pôr em segurança. pois em aguentar. ou de cair. dissimulado e malicioso”. – Amparar é “impedir. 204 AGUENTAR. especar é fazer o mesmo com espeque. a oportunidade de obrar. o abaixamento de alguma coisa”. tão bem como amparar. sustentar. ou tato muito subtil para apanhar o que nos interessa. portanto. esteio é uma peça muito maior e mais forte. Escora é um espeque mais forte. – Apoiar é também “impedir a queda. que exprime a ação ou o efeito geral que os três primeiros particularizam: escorar é dar apoio por meio de escora. segura. escorar. – Subtil = “agudo. com que se impede alguma coisa de virar de uma vez. acima”. – Escorar. a perspicácia. se apoia e fica firme sobre o esteio. Finura é frequentemente sinônimo de velhacaria e de diplomacia. para sentir o que convém. fazer firme. ou não caia de uma vez. Astuto = “sagaz no enredo. a facilidade de compreender. suspender. mas que a ampara. – “conservar em equilíbrio sobre a corrente da água”. – Subtileza é a qualidade de subtil. apurado. especar.” – Atilamento é “a habilidade. – Sustentar é uma ex- tensão de suster: dá ideia do maior esforço com que se apoia ou se mantém alguma coisa no lugar próprio. de sofismas. empregando esteio. sustendo-a. ou pelo menos de menor duração. portanto. o que é razoável”. Exemplo: “É uma criatura de tino admirável: e faz tudo com tanta habilidade e atilamento que maravilha os mesmos que a educaram”. de madeira. segurar”) significa também “manter (alguma coisa) no lugar em que está”.. um como faro. de ferro. e também de menor emprego de força que em suster”. A diferença consiste. O espírito arguto agencia razões para envolver o adversário na disputa. penetrante”. a agudeza natural. Argucioso é o que usa de argúcias. amparar. e por extensão – “manter alguma coisa no estado ou na posição em que se acha. como define Aul. comumente uma trave mais ou menos grossa. que alguma coisa caia”. especar e estear confundem-se com apoiar. o cuidado meticuloso com que se faz alguma coisa sem nada esquecer do que lhe pertence. artifícios para enganar.” – Tino é “a finura instintiva. de susum “para cima. na discussão. e é mais expressivo que o primeiro. só se especa ou só se escora . e tenere “conservar. ou de inclinar-se demais. – Suspender. mas não sugere. Escorar e especar distinguem-se ainda de estear por isto: o que se especa ou se escora não descansa propriamente sobre a escora ou o espeque. repousa. pois o espeque.

Também lhe chamavam naquele tempo amo. que é moderna na língua. mas em cada um deles concorrem circunstâncias particulares que os distinguem entre si. pois o esteio (do inglês stay. prepara num certo sentido o espírito do discípulo. expondo suas doutrinas como próprias.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 141 como provisoriamente. firme a coisa esteada. e pode-se dizer superficial e ligeira. instrutor. etc. educador. suportar. – Instrutor é propriamente o que dá alguma instrução prática. instrutor de ginástica. – Quem educa não dá só instrução: nutre. e que se esteia para fixar. que dá o verbo to stay “ficar. de música. mestre. lente. catedrático. segundo o método escolástico. portanto. contidas num . e tanto que com perfeita propriedade se deve dizer: educador da mocidade (não institutor). para que venha a ser na vida o homem que se deseja. cujos pais o confiaram à sua direção. de educar um menino. 205 AIO. amo.. Mas o educador faz tudo isso. como ainda se lê em Camões. O esteio apoia. ao encarregado da educação de qualquer menino. O mestre dá lições a certas e determinadas horas. de equitação. Instrutor militar. falando do mesmo Egas Moniz: Mas. aguenta em cima. tendo recebido já o menino ou o moço que lhe veio do institutor. pois o próprio termo educador pode não ter a extensão que se atribui ao institutor. Sugere este vocábulo a ideia de criar. Talvez que seja. o mais expressivo da função de educar crianças. lia ou explicava as doutrinas aprovadas pela escola ou universidade. de tudo quanto lhe interessa. diz com muito mais precisão “o que se encarrega de preparar na alma da criança os fundamentos sobre que há de assentar a educação futura”. pedagogo (e pedagogista). – Segundo Roq. institutor da infância (não educador). institutor. formar (instituir) o espírito do educando. guiá-lo pelo bom caminho (e até pelo mau caminho não deixaria de ser educar). O preceptor dá preceitos e conselhos continuamente a seu aluno. mestre é todo homem que dá lições. como orador. para evitar uma queda. de dança. Afonso Henriques. Institutor. Segue-se. professor. ou ruína iminente. com se oferecer a dura morte O fiel Egas amo. diz Roq. tornando segura. – Aio é a palavra que antigamente se usava em lugar de preceptor. para o formar moralmente e facilitar-lhe todos os conhecimentos possíveis: dirige-lhe a educação e a instrução em geral. preceptor. e resistir. entre todos os do grupo. – Lente ou leitor é o que. – Preceptor dizemos do que está encarregado de instruir. por isso se diz: mestre de gramática. ou estar no mesmo lugar”) sugere a ideia de permanecer em posição vertical. e quase sempre ostentando seu saber oralmente. inabalável na posição que se quer. – Professor é o que professa. que se especa ou se escora como um recurso de momento. portanto. Educar é dirigir o educando. preceptor. pois sempre se subentende que a coisa a escorar ou a especar já não está em segurança. O mesmo não se dá em relação a estear. III.: “Todos estes ensinam em público uma ciência ou faculdade. – Quanto aos três últimos vocábulos do grupo. 35) Amo é hoje desusado neste sentido. – Institutor é o que ensina meninos em estabelecimento público. Egas Moniz foi aio de d. aio refere-se particularmente ao que educa fi- lho de príncipes ou de grandes senhores. e tem um certo número de discípulos. e não o perde um instante de vista. ensina em público uma ciência ou faculdade. de esgrima. toma conta de toda a sua conduta. foi livrado (Lus.: – Mestre dizemos do que ensina alguma ciência ou arte. orienta. para fazer que permaneça seguro.

pois aludem. e que. A elegância consiste no modo de ser discretamente belo. 441). gazil. – Catedrático é o proprietário de uma cadeira (cátedra) de universidade (ou de uma escola superior) em que ensina a faculdade de que está encarregado. – Nobre. professam em academias. tem também o nome de lente. – Pedagogo e pedagogista. galante (galantice. quase sempre a má parte. vistoso. de ser aprimorado sem afetação. diz: “Era de tão rara gentileza.142 Rocha Pombo compêndio. à presunção com que o pedagogo alardeia a sua capacidade. ou a uma universidade. – Fidalgo é o que se mostra fino. mas esta é menos distinta e brilhante. – Engraçado é o que mostra alguma graça nas maneiras. e sendo esta privativa do sexo feminino. – Gentil é “o que tem delicadeza. ateneus. galanteria). enquanto que o donaire é apenas uma aparência airosa. Vieira. É donairosa a pessoa que é mais engraçada que graciosa. A nobreza confunde-se com a fidalguia. limita-se a representar aquela ideia com relação . são sinônimos de professor. cavalheiro. galhardo. neste grupo. Disto nos deixaram exemplos dois mestres da língua. gentil (gentileza). cavalheiroso. – A graça é mais que o simples donaire. bizarro (bizarria). principalmente o primeiro. é “o dom subtil. diz: “Esta foi a pensão que pagou Absalão à sua gentileza”. deve aquela usar-se particularmente quando se fala do masculino”. seduz”. Tomam-se. delicado nas maneiras. 116) – Consiste a beleza e a formosura na boa proporção e harmonia das partes que compõem um todo.” (V. do qual se não afastava. que consiste num modo de ser que atrai. reuniões literárias etc. no andar uma certa graça (airosidade). – Elegante é “o que é bem modelado. esbelto (esbelteza). – Airoso se diz de quem apresenta um aspeto agradável. se professa à moderna. pertence-lhe o nome de professor”. E o padre Bernardes. e é distinto e gracioso”. pois há muitos homens sábios e instruídos que. é mais varonil que a formosura. garboso (garbo. tem nobre aspeto. belo (beleza). engraçado (graciosidade. lindo (lindeza). distinto (distinção). a palavra formosura. a quem chama galhardo e belo.. – Gracioso é aquele ou aquilo cujo aspeto tem graça. Graciosidade é a qualidade de ser gracioso. taful (tafulice. ornada com os retoques da modéstia. aqui. e pedagogista é o versado em pedagogia. Deve notar-se que pedagogo é o professor que ensina segundo a pedagogia. – “acompanhado de nobre presença. formoso (formosura). suave. graça). O professor pode não ser catedrático. grácil (gracilidade). mas é sempre condecorado com o título de mestre. (V. etc. porém. digno. no falar. bonito (boniteza). garbosidade). falando de Absalão. donairoso (donaire). galhardo (galhardia). Gentileza é “a galhardia e bom ar” – diz Roq. – Graça. garrido (garridice). elegante (elegância). podendo até não ter a profissão de pedagogo. nobre (nobreza). elegante. gracioso. é austero na moral. falando de Fortunato de Chiaromonte. que têm hoje acepção muito diferente da antiga. nem mesmo elegan- te: basta que tenha nos modos. encanta. cavalheiresco (cavalheirismo). generoso. sem pertencerem ao corpo universitário. impressiona mais o coração que os olhos. pois a graça é uma prenda mais espiritual. porém. garbo próprios de fidalgo”. nobre é o que. 206 AIROSO (airosidade). além disso. tafularia). O catedrático pertence sempre a uma universidade (ou a uma escola): se ensina à antiga. O lente ou leitor pode pertencer.. acrescenta às qualidades de airoso. que tenha uns ares que nos agradem. no porte. a de distinto. ou a uma corporação religiosa. loução (louçania). portanto. A pessoa airosa pode não ser bela. guapo (guapice). fidalgo (fidalguia). delicado.

Se a Vênus de Médicis.” – Galante. forte. do asseio etc. talvez com ditos engraçados. e toma-se ordinariamente pelo oposto de feio. Garboso é o que. bravo. da expressão do rosto. o que é afeito ao trato de gente culta e fina. ao que obra sobre os sentidos. põe a formosura no que está mais distante da beleza. que o primeiro . Galantice é a qualidade de ser galante.. de onde vem galante. ataviada com gosto. – Tratando-se do homem. tafulice e tafularia. – Esbelto (ou esvelto) designa “o que é de formas corretas. elegante e gracioso”. interessante”. Neste sentido admira-se a beleza do Apolo do Belvedere. de boa disposição”. – Coisas análogas devem dizer-se em relação a taful. sendo esbelteza a qualidade de ser esbelto. e ornato dos trajos. – Cavalheiroso e cavalheiresco são definidos como significando a mesma coisa. fino. que se sai garbosamente. por ser mais expressivo. – Vistoso é apenas “o que parece bem à vista. com asseios esquisitos. Gazil é corrupção de grácil.. com destreza e elegância (galhardia). mimoso. concerto. se mostra altivo. que tomou na linguagem vulgar um sentido especial. Garbosidade é a qualidade de ser garboso. namorado. São os olhos os juízes da formosura. que mofas não fariam as nossas damas de quem lhe louvasse a beleza do talhe? A formosura só se aplica ao físico. festivo”. Grácil significa “delicado. o que tem aparências de saúde. isto é. dizemos de preferência. segundo S. Boniteza é “a qualidade do que é bonito” – diz o mesmo Roq. pode notar-se. lépido. no entanto. faceiro. se pudesse vestir à francesa. além de elegante. os ditos de que se serve o galante para agradar. bem proporcionado. que se destaca do vulgo”. pessoa de distinção”. –. Bizarria é tudo isto junto: elegância. Luiz. a beleza aplica-se também ao moral. os modos. – Garbo é “um quase orgulho de ostentar figura e galhardia”. que pretende agradar às damas. – “Lindeza é palavra mais culta que boniteza. e o Apolo Pitio. a Vênus de Médicis. da ação”. com igual propriedade. e também indica maior perfeição no objeto lindo. etc. Bonito é palavra familiar que indica coisa agradável à vista. varonil. brioso. dizer-se que são formosos. como diz o prolóquio: “Quem o feio ama bonito lhe parece. os modos como ele se apresenta. Taful significa – “loução. ao que obra diretamente sobre o espírito. alegre. aprumo e coragem. pois este adjetivo junta à qualidade de bonito um certo ar e graça que muito o aproximam de belo e formoso. dos quais não pode. do Hércules Farnésio. engraçada. possante. “refere-se ao gosto. a palavra beleza representa a ideia da perfeição possível. “mas que não chega a ser formoso”. – Bonito é um diminutivo de bom. Coisa galante quer dizer – bem ornada. em cujo corpo se não encontra defeito. quando queremos designar o que tem maneiras de alto bom-tom. cavalheiresco”. Gracilidade só deve aplicar-se ao que é pequeno. “homem de distinção. da tarefa.. são belíssimos para os inteligentes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 143 ao agradável. Tafularia é a facécia do taful. – Gazil e grácil são adaptações do mesmo vocábulo latino gracilis.” Galanteria é a arte de ser galante. entende-se particularmente das feições. e por isso acontece muitas vezes que o gosto. – Bizarro exprime “esbelto e gentil. desembaraço.” Quando se diz das pessoas. à ternura de um afeto: a tudo isso assenta propriamente beleza”. – Galhardo (do italiano gagliardo) diz – “robusto. sacudido. as graças. franzino. pois distinto significa apenas – “que não se confunde com o comum. Também se entende especialmente das boas proporções do rosto acompanhadas de graça e donaire. isto é. viciado por algum capricho ou costume. à expressão de um sentimento. É assim que não chamamos formoso a um poema. vivo. e formosos para todos.. do embaraço. Tafulice é a qualidade de taful. graça. porém.

) “é termo corruto de filho d’algo (do castelhano hidalgo. o que tem maneiras gentis e sentimentos cavalheirescos”. volubilidade” e principalmente “habilidade em escamotear”. sublevação. ligeireza.. lesto. isto é. conflagração. convulsão. desembaraço natural no mover-se”. diz Bruns. enfeites. sécio. aqui. “delicado no trato. – Destro só se aplica ao homem. 207 ÁGIL. a agitação é geralmente a precursora de qualquer das comoções designadas pelas outras palavras deste grupo”. – Ligeiro diz levantamento. – Fidalgo (é ainda de Roq. valendo-se da alta. – Onzeneiro (ou onzenário) é o usurário que exige usura requintada e faz questão de lucros descomunais. agiota se diz. expediência. ufano. por meio de atos tendentes a subvertê-la. ágil tanto pode ser o homem como o simples animal. – Garrido exprime – “vivo. papéis de crédito. 208 AGIOTA. tanto o ato como a qualidade do que é cavalheiro (se bem que para exprimir a qualidade poderia usar-se de cavalheirice). Algo significava haveres. – Lesto é “o que. etc.. sem discrepar das boas normas”. 209 AGITAÇÃO. bizarro e gentil”. leve. é a perturbação da ordem estabelecida. bens. revolta. rapidez. é discreto e gracioso”. Louçania é. para auferir ganhos. Pretende-se que esta subtil distinção se sente nestas frases: “Recebeu-me muito afável e cavalheiroso”. do prestamista que empresta dinheiro com usura abusiva”. no sentido que lhe damos aqui. to. – Loução diz – “de aspeto gentil. ligeiro. agilidade. para designar “leviandade. – Guapo é “o que se mostra lépido. além de ágil. ou da baixa de preço que estes sofrem.144 Rocha Pombo designa propriamente – “que tem ou revela qualidades e maneiras que eram de rigor entre os antigos cavaleiros (nos tempos da Cavalaria)”. festivo”. – Agitação. cataclismo. “é o movimento anormal do povo quando os espíritos sobressaltados planeiam ou tramam contra os dirigentes. pronunciamento. sedição.. destreza. – Revolta (to turn agaisnt em inglês) exprime tanto como voltar contra.. designa aquele que trafica em fundos públicos. – Re- . portanto. É o cavalheirismo. pronto e gracioso”. no falar. correspondendo a gentileza com gentileza. lépido. Ligeireza. Com todas estas partes servia-se a pátria e adquiria-se a fidalguia”. alegre. garbo) de parecer loução. fino. onzeneiro (ou onze- nário). como os próprios modos (trajo. etc. choque. comoção. bravo. – Segundo Bruns. revolução. – Lépido. toma-se também à má parte. na verdadeira acepção da palavra. hijodalgo). “Teve comigo um gesto cavalheiresco”. educação e qualidades nobres. motim. a resistência à autoridade opressora: exprime tanto como levantar contra. A garridice é. muito veloz” – do que propriamente ágil. “agiota. além de significar qualidade do que é ligeiro. insurreição. conquanto haja talvez muitos velhos que se jactem de guapos. abalo. tanto a qualidade de ser loução. usurário. rebelião. Bem se vê: a guapice só se encontra em moços. uma qualidade que assenta nas crianças e nas meninas. – Agilidade é “facilidade. expedi- mais – “vivo. destro. sendo expediência a “qualidade de ser expedito”. Na linguagem corrente. segundo ostentava o antigo fidalgo”. e cavalheiresco enuncia – “próprio do cavaleiro. significa também “ligeiro. – Expedito é o que se não embaraça no agir. arruaça. é “o que é no trato parecido com os antigos fidalgos. pois a destreza é “uma agilidade acompanhada ou servida de astúcia e arte”. Fidalgo. – Segundo Alves Passos: – “Rebelião é a desobediência. esquisito e engalanado”. como usurário. alegre.

à crispação produzida por uma impressão forte”. ou por uma vasta província. de uma assembleia. – Abalo é “o movimento contra a ordem. um particular está em rebelião “quando se opõe aos decretos do poder público. a revolta é o duelo. rápida e tremenda. e a gravidade do que o origina. “é o estado em que se acha um povo depois que se levantou e se armou para combater a autoridade a que estava sujeito. e muitas vezes por pertinácia e falta de reflexão”. e a subverter toda a ordem política. revolta é a guerra formal. – O motim é o menor dos movimentos contra a ordem normal. a revolta tem sempre alguma coisa de violento e terrível. “o resultado imediato da agitação: degenera em revolta. e revolução é a coroa de loiros para o vencedor. e é geralmente promovida pelo próprio governo quando lhe convém fazer alardes de força. segundo Bruns.. indignado contra seus opressores. se comunica rapidamente a todos os membros de um corpo. O motim tende mais a perturbar a ordem que a combater a autoridade. – Conflagração é “convulsão . passageira”. uma oposição ou resistência à autoridade. inspirada por alguns. perturba a ordem estabelecida. segundo for a sua importância. e a revolta produz a revolução. uma agitação tumultuosa e de curta duração. o estado das coisas.. e antes achar-se de ânimo firme e resoluto em combatê-la.. A rebelião é ato de arremessar a luva. Rebelião é a declaração de guerra. ou do mesmo povo. no entanto. que se decidiu em favor do revoltoso. diz Roq.. A arruaça é o motim da mais ínfima ralé. ou a guarnição de um presídio que se levanta contra o respetivo comandante (e sim – que está em revolta): como não diremos que está em revolta toda a população de um dos Estados da República. está em revolta ou revoltado”.. A rebelião não é algumas vezes senão uma simples desobediência.. porém mais violenta. – A insurreição. que está em revolução a força que guarda um posto. – Choque diz “comoção instantânea. – Rebelião designa a ação das pessoas. e a revolução é a vitória. Às vezes a simples rebelião de uma alta personagem motiva a revolta de um reino. por exemplo. O motim é um levantamento de pouca importância. revolta. revolução é apenas uma revolta mais extensa. a luta contra a autoridade. É de ordinário uma fermentação momentânea de algum bando do povo. em revolução. – Sublevação é mais extenso que levantamento: designa “o fato de insurgir-se em massa uma população inteira”. virá a mudança da sua política – outra ordem de coisas – a revolução. ou pelo menos é aquele cujas consequências são de menor importância. Não diremos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 145 volução é a mudança da ordem estabelecida.. de oposição. Assim. tratando-se de política.. e quando um povo.” – Convulsão é. generalizada por todo um país. Pronunciamento (ou melhor. – O levantamento é. e se esta não for sufocada. por uma série de atentados. que. mesmo sem certeza de que se consumem as mudanças operadas (e sim diremos – que está em revolução). semelhante ao tremor. causada por descontentamento. e que publicamente declara não reconhecer por legítima. ou contra a autoridade constituída. Da rebelião passa-se à revolta. – Comoção é quase o mesmo que convulsão: apenas não sugere tão necessariamente a ideia de violência e transtorno que se envolve em convulsão. é a revolução em suma. – A sedição é um espírito geral de perturbação. e revolução indica o triunfo da revolta. A consequência da sublevação é a guerra civil. – Na linguagem comum. tendo chegado a depor autoridades. ou em insurreição. ou tomar disposições que não soubera justificar de outro modo. uma revolução talvez menos formal e extensa. pronunciamiento) “é termo puramente espanhol com que se designam as frequentes insubordinações dos chefes militares de Espanha.

Quem discute sustenta sempre um modo de ver. muitas vezes até sem dela fazer mesmo a apologia. deba- ter. ou graceja e zomba do que argumenta ou discute”. sisudo. judicioso. tomando-lhe em suma os termos gerais. exalta-se mais. um princípio. um problema. que tem uma justa medida das coisas”. controverter. Em regra. – Controverte-se um assunto. ou discutindo-a formalmente e debatendo-a. bom senso. uma questão. disputar. assisado. e sujeitando-o a disputa ou a debate. mas este refere-se mais particularmente ao estado. isto é. ou sugere a ideia da compostura que mantém essa pessoa num dado momento. sá- bio. encontrando-se com adversário. prudência. grave na compostura”. Quem aventa uma hipótese. decerto que a não discute propriamente. isto é. defende uma opinião. e procura impô-la a outrem. ventilar. – Prudente é a pessoa que.146 Rocha Pombo tão violenta. 211 AJUIZADO. uma perfeita inteligência da . dando-o por ainda não liquidado. aventar. sensato. discreto. circunspeto. pondo-lhe os termos muito precisos. e significa – “dar atenção. Pode dizer-se. que tem juízo. a serenidade e moderação do que é sábio. ou a respeito de alguma coisa. tem sido muito ajuizado em toda esta questão” – decerto que não caberia com lídima propriedade o adjetivo sensato. e procurando vencê-lo. pondo-o em dúvida. só se debatem questões de grande importância. à conduta da pessoa a quem se o aplica. na acepção que tem aqui. prudente. chama sobre ele a atenção geral. Disputar é “uma forma de discutir e debater: o que disputa. pois este designa qualidade. – Debater é ventilar e discutir esforçadamente. – Sensato. tino. avisado. Nesta frase: “F. nas quais têm muito interesse os que as debatem: tais como os casos políticos e os judiciários de alta monta. e mostra interesse em que se trate de discuti-lo e resolvê-lo. ou agitando-a. quase que não faz mais do que apresentá-la à atenção de outros. nem a debate tampouco. “que sabe julgar direito. – Ventilar e aventar exprimem um pouco mais do que simplesmente agitar: quem ventila ou aventa um caso. do “que tem uma compreensão exata das coisas. com vivo empenho. ponderado. – Tratar é o mais genérico do grupo. 210 AGITAR. Sisudo acrescenta a assisado a ideia de “discreto. discutir. lembrar. oferecendo opinião sobre ele. Assisado quer dizer – “que tem siso”. Assisado e sisudo também se confundem. Quem trata de um assunto. mas procura desembaraçá-la. – Cataclismo. – Ajuizado diz propriamente – “que tem juízo”. uma opinião. assisado e sisudo são vocábulos que coincidem no mesmo radical sensus. vasta. que em ventilar se sente já alguma coisa de intuito dialético: ventila-se um assunto estudando-lhe ligeiramente as proporções. indicar. “é uma conflagração que transtorna toda a ordem política de um país”. – Quem agita uma questão. grave. sério. Aventar tem mais de expor. e o outro designa mais estado que qualidade. Sensato confunde-se com ajuizado. porém. faz isso – ou apresentando-a apenas em seus termos gerais. nem por isso o discute propriamente: apenas o faz lembrado e o põe à vista de outros ou do público. ou mesmo de estudar. uma ideia. clara e nítida. cordato. analisar todos os aspetos de um caso”. Entre aventar e ventilar não se notaria grande diferença fundamental. isto é. no entanto. cuidar de alguma coisa para resolvê-la”. fazê-la simples e líquida. além da sisudez. tratar. geral como se fosse um incêndio”. de uma questão. quase propor – do que propriamente de discutir. – Discutir é “examinar todos os termos de uma questão. tem a calma.

– Grave é “o que tem aspeto nobre.. na inteireza de caráter do que na simples compostura que se mostra ou afeta às vezes calculadamente. é um homem sério afirma-se que F. – Fileira é propriamente uma série de filas. conveniente nas ações. Quando se diz que F. linha. que raciocina com acerto”. portanto. “O caso é muito sério”. como até ordinariamente obedecem a critério de classificação. liso. Ainda podemos deixar. cauteloso. “Trata-se de negócio grave”. “é a série de pessoas ou de coisas postas umas atrás das outras. – Discreto é “o que se mostra atento nas palavras. modesto. tendo a frente voltada para o mesmo lado”. Aplicado a coisas ou fatos é que o vocábulo grave é mais forte que sério. nem – “ostenta porte sério). e sem pesar os atos”. porque se sabe que tem sido sempre correto. segundo Bruns. “Ela tem o porte grave das matronas” (e não – “marchou com seriedade”. que chega sempre à boa razão. medindo. “Ele foi sempre um homem sério” (isto é – “sempre foi probo e digno”). não é a mesma seriedade de que trata Roq. nos seguintes exemplos. – Cada uma das duas longas filas que. que se mostra sagaz. – Renque é “uma série de coisas ou de pessoas postas em linha”. dando provas de juízo e atilamento”. renque. que parecem sentir o peso dos anos. é uma ala. entre seriedade e gravidade: “Ele falou sério” (isto é – “disse o que sente”). sabendo bem discernir as coisas. apercebido do que convém.. que se satisfaz ou se concilia com o que é razoável”. no cumprimento dos seus deveres. 212 ALA. reservado. nem sempre assim.. “é a série de pessoas ou de coisas postas uma ao lado da outra com a frente voltada para o mesmo lado”. aqui. sincero e direito nos seus tratos. pelo menos. – Ponderado é “o que nada faz sem refletir muito. acentuando muito as palavras”). de tudo que se lhe passa em torno”. não só se sucedem numa certa ordem. – Não assim.. é um homem em cuja probidade se pode ter plena confiança. bem clara a distinção entre grave e sério. pois na linha as coisas podem estar sem regra de sucessividade. voltadas de frente uma para outra. série. Seriedade é uma virtude que consiste mais na lisura de consciência. fechado e sereno. cordis. altivo e severo. “Ele foi sempre um homem grave” (quer dizer – “de maneiras lentas que o fazem parecer severo”). – Judicioso exprime – “que julga com bom juízo. no seu grupo 493. – Linha e série não se confundem. conquanto exprimam ambos a continuidade ou sequência de coisas ou pessoas numa certa direção. enquanto que gravidade é mais modo de ser exterior do que propriamente virtude. mais uma qualidade moral do que modo de ser exterior. Dizemos: “Ele marchou com gravidade para a forca”. aprumado no agir e no falar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 147 vida. revelando ou afetando grande segurança de reflexão. que na acepção que tem aqui. Conforme a definição de Bruns. – Cordato (de cor. quanto à seriedade. – Fila. fila. fileira. não saindo nunca da linha normal no modo de portar-se”. como se nunca estivesse desapercebido do seu posto. de equilíbrio moral”. estão separadas por um espaço. . Ele falou grave (isto é – “pesadamente. como nestas frases: “Trata-se de negócio sério”. A seriedade é. um tino seguro para precaver-se dos males e perigos”. sem apreciar maduramente as coisas. – Circunspeto significa propriamente – “comedido. “coração”) é o homem “prudente. – Avisado é “o que procede com acerto. A gravidade é própria dos homens velhos. “O caso é muito grave”: nas quais se sente como grave diz muito mais do que sério. das suas condições. na retidão de conduta. enquanto que na série as coisas.

porém.. – Alardear e ostentar distinguem-se. orgulhar-se ou orgulhecer-se. que blasona de façanhas que nunca praticou. ou que é material. ufanar-se (ufania). Alardear. pelo menos. fanfarrear (fanfarrice. Ninguém ostentará méritos que nunca teve. as qualidades. ostentar (ostenta- ção). Gautier – o capitão Fracasso. O desvanecimento. Quem é que se não ufana da justiça que se lhe fez. ou que se nos atribui”. de valentia. Desvanecer-se da amizade de um homem digno é perfeitamente legítimo. ou de coisas fúteis e vãs é que é ridículo. o que melhor acentua a ideia de todos alardes.. A ufania é um como contentamento desvanecido. com ênfase. Quem se vangloria de alguma coisa presume demais do que essa coisa vale. ostentação) aquilo que se tem ou se supõe ter. ostentações charras e ridículas que só se admitem naquele tipo de Th. posições que nunca ocupou. tanto de todos os do grupo. Agora. vitórias com que apenas tem sonhado. bazofiar (bazófia). de valente. – Sob este aspeto. ufanar-se de haver ganho uma partida de bilhar. de força. A jactância não é propriamente ostentação. é que este verbo desvanecer-se envolve ideia que o aproxima dos demais deste grupo. gabar-se. e dá-lhe por isso uma importância que ela não tem. fanfarrear. por alguma honra. Assim de alardear. fanfarronada. bazofiar. – Fanfarrear é. nem alarde: é mais “um quase desvanecimento e alegria em que se fica de haver alcançado alguma coisa cujo valor se exagera”. como do que se não possui.148 Rocha Pombo 213 ALARDEAR (alarde). ou da honra que se nos faz – é coisa que se diz sem descaída moral. por mais que signifiquem ambos “proclamar com aparato e desvanecimento (alarde. vangloriar-se (vanglória). – Desvanecer-se é “sentir vaidade por algum mérito. Fanfarrice é a qualidade de fanfarrão. tanto se pode dizer daquilo que se possui. Fanfarronada (ou fanfúrria) é “a prosa do . é usado com um completivo: blasona-se de nobre. etc. fortuna ou triunfo”. ou de honras. Conforme o complemento da sua predicação. ostentar. de piedade. etc. os feitos. que alardeia méritos que não possui. etc. A bazófia é coisa semelhante ao que vulgarmente se chama prosa ou intimação. ou de ter dançado uma valsa com mestria e elegância. intimar (intimação). ou que é material. ou é invisível. – Bazofiar é “fazer ostentação ridícula ou escandalosa de grandeza. num caso em que dessa justiça lhe pendia o crédito? Só quem pode não ufanar-se nunca de coisa alguma. aqui. – Jactar-se é dizer publicamente. jactar-se (jactância). entre todos os do grupo. Ufana-se o artista da sua obra quando sente que ela lhe deu uma grande expressão da própria alma. uma alegria orgulhosa que se sente por haver alcançado alguma vitória. fanfúrria). mas decerto que ninguém se lembrará de fazer ostentação de gênio. Só fanfarreia o boborio que berra e bufa de valente e corre de uma criança. vangloriar-se. – isso é outra coisa. como entre si. Qualquer pode fazer ostentação de riqueza. – Vangloriar-se aproxima-se do precedente. os próprios méritos. de prosápia.. é “uma exaltação do amor-próprio que nos leva a ter um orgulho exagerado daquilo que se nos diz ou faz. mais de rigor do que o outro. desvanecer-se (desvanecimento). de tino. Mas só desvanecer-se de ser belo.. fanfarronice. blasonar. Mesmo desvanecer-nos da benevolência que se tem conosco. Só se ostenta o que realmente se mostra. ou de magnanimidade. jactar-se. A vanglória é “uma ideia falsa ou exagerada que faz alguém de si próprio”. Pode-se fazer alarde de rico (alardear fortuna ou cabedais) e fazer alarde de honradez. – Blasonar é quase o mesmo que bazofiar: apenas blasonar. ou que pode ser visto por todos. impróprio de um homem sério. outro tanto se deve dizer de ufanar-se. Blasonar (de qualquer coisa que seja) é sempre.

– Tumulto é “grande comoção e alarido. Neste sentido. tudo que tem comprimento e largura. tumulto. as palavras. turba. Amplia-se um jardim. é “conjunto de vozes desordenadas formando ‘coro de arruídos’”. bramido. 214 ALARGAR. parece que é mais expressiva e até mais própria.. quando se diz. por exemplo: “Vamos alargar o nosso campo de ação”. ou mais longo”. Alarga-se um caminho. murmúrio. Por extensão. grito ou alarido”. ameaçando”. uma bola de borracha que se enche de ar. mais arrelia. José de Lacerda – “conforme a origem árabe. fazer crescer proporcionalmente”. – Berreiro é “grito ou gritaria monótona. dilatar. rusga que barulho. de arruído que propriamente essas coisas”. arruído. – Alarido – diz d. a forma orgulhecer-se. ou se amesquinham. sussurro. bulha. dilatam-se alguns corpos sob a ação do calor. Intima. ser o primeiro a falar nos próprios méritos”. desordem estrondosa”. – Clamor é “como gritaria grave e aflita. – Bramido é “clamor de cólera. de ameaça. que fazem mais bramar que gemer”. e só figuradamente é que se emprega por ampliar. contendem ou bulham. o sujeito que trata os outros com arrogância.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 149 fanfarrão. – Ampliar é “tornar maior alguma coisa em todas as suas partes. ampliar. – Gabar-se não é mais do que “elogiar-se a si mesmo. – Sussurro é palavra onomatopaica desig- . – Bulha será um barulho insignificante. com ares de quem sempre está mandando (intimação). como o berro de alguns animais”.. os atos do fanfarrão”. rumor. – Gritaria designa multidão de gritos. de menores proporções. uma rua: em geral. em todas as dimensões. uma praça. – Algazarra é adaptação do árabe: era “vozeria. dilatam-se as narinas para aspirar o perfume. os gestos. e compassarem com as vozes. a desordem. celeuma. gritaria. berreiro. os motins destacados de uma comoção ou revolta”. mais extenso. – Dilatar é também “fazer maior. sig- nifica o clamor que se levanta ao travar-se a peleja. e também as vozes lastimosas dos que pranteiam. as forças que empregam na manobra. – Barulho é termo vulgar que corresponde a tumulto: é apenas um tumulto menos grave. conquanto menos usada. murmurinho. é “a confusão. que os moiros levantavam em qualquer acometimento ou conflito de guerra. alvoroço. na acepção com que figura neste grupo. pedindo. e até de dores violentas. etc. – Vozeria diz propriamente “multidão confusa de vozes”. em qualquer dimensão. Incorporamo-lo para designar a desordem e confusão de vozes no meio das quais nada se discerne. designa certo canto ou cantilena cadenciosa que os marujos e outros operários entoam quando trabalham para se animarem mutuamente. de importante”. etc. abrir. dilata-se um orifício. ou no trabalho. algazarra. designa a vozeria dos que se travam de razões. 215 ALARIDO. tornar mais largo. Por extensão. Dilatam-se as pupilas à medida que a luz ambiente diminui. clamor. segundo a origem grega. protestando. vo- zeria. Fanfarronice é “o modo de ser fanfarrão.” (Aul. – Orgulhar-se é mais que desvanecer-se.). aqui. ou de ódio”. de fazer fanfarronadas. borborinho. barulho. – Turba. gritaria. – Arruído é quase tumulto. dá-se o nome de celeuma à vozeria. – Celeuma. de entusiasmo. repercussão de desordem. Só se orgulha de alguma coisa quem sente uma importância exagerada que dessa coisa lhe vem. – Rumor é mais “eco de vozeria. – Alvoroço é “manifestação estrondosa de alegria. – Alargar diz propriamente “fazer mais largo”. ou vozes em confusão e descompassadas. – Intimar exprime. a ideia de “blasonar de poderoso.

assombro. aqui. enquanto que aquele é um sentimento irresistível e espontâneo que nos assalta sem querermos. ignorando. assusta-nos o que não podemos definir. ou de viração em arvoredo”. real ou suposta. porém. Por isso se diz que temos o temor de Deus. é o ato de dirigir-se alguém a outrem. reclamo. temor. Particularmente. este para repentina e inconscientemente. espanto. e que nos induz a evitar aquilo que julgamos nos há de ser nocivo. O susto diferençase ainda do medo em levar-nos este a fugir da coisa que nos amedronta. ou com indignação”. ou talvez desfiguração de murmurinho. Figuradamente. e como termo de técnica militar. ou de desejo ansioso em causa dependente de amparo. O rebate sempre encerra a ideia de defensa. a do susto não o é geralmente. – Terror é um termo que mais se refere à causa do sentimento .. a de defensa. – Rebate é o toque de sinos. ou de um mal que certos indícios nos levam a julgar não só possível mas até provável. – Susto é uma espécie de medo que nos deixa como suspenso durante os primeiros instantes. receio. o alarme. emprega-se este vocábulo para designar a perturbação que causa a ameaça. enquanto que o susto nos deixa como suspenso: quando o susto assalta o homem. de testemunho ou de juízo da pessoa para quem se apela”. A causa do medo é determinada. – diz-se do grito ou gritos que se soltam para anunciar um perigo. apelo. 217 ALARME. Emprega-se esta palavra com muita propriedade quando nos referimos à previsão de acontecimentos muito desagradáveis. porém. rebate. clamor. medo. quanto tempo nos separa ainda deles. e não temor. – Clamor. “a ideia comum aos sete primeiros vocábulos deste grupo é a do sentimento ou sensação penosa que nos assalta quando um perigo sobrevém”. – Medo é termo genérico. assombramento. a suspeita de algum perigo. – Borborinho é também voz onomatopaica. e mais pelo extenso uso que se faz desta palavra. – Murmúrio é “leve sussurro como de água corrente.” – Apelo é “pedido de socorro. – Reclamo é “apelo instante e formal.150 Rocha Pombo nando “rumor menos perceptível e mais confuso”. – Segundo Bruns. e não medo de Deus. é o toque de clarim ou de tambor com que se reúnem os soldados. o medo é um sobressalto violento e repentino que nos leva ao temor. como se o objeto do reclamo fosse fundado sempre em direito”. 216 ALARME. do que pela propriedade de resumir a ideia dos outros seis do grupo. O medo distingue-se do temor em ser este um produto da razão e até certo ponto da vontade. sobressalto. ou a de instigar à fuga. O temor é o estado do espírito que se perturba pela apreensão de um perigo. terror. – Murmurinho é como “vozeria abafada. pânico. tendo a mesma significação. como um recurso de aflição. do inimigo. Causa medo aquilo que vemos. – Alarme. – Chamada é propriamente “a voz ou sinal com que se avisa ou com que se chama atenção e se convoca. no sentido próprio da palavra. chamamento. O medo é mais ou menos prolongado. chamada. pavor. é “chamamento com desespero. clamando. e que conservamos contra nossa vontade. cuja ocorrência temos por certa e próxima. o susto dura pouco. susto. – Alarme – escreve Bruns. que temos medo dos cães danados. de tambores com que se convoca o povo (ou uma guarnição militar) para defender-se quando sobrevém um perigo. sussurro de multidão falando a um tempo e mal contido”.” – Chamamento designa a “ação de chamar com esforço. é a confusão e gritaria que se manifesta num acampamento ou praça de guerra à aproximação.

e se ela sobrevém inesperadamente. porém. – Sobressalto é “a comoção que se sente sob a iminência de algum perigo. colhe-nos o susto. – Receio é menos que medo ou que temor: é mais – um estado de dúvida. – Assombro é grande espanto. frequente dizer-se indiferentemente – o pânico. Significa também a própria coisa ou fenômeno misterioso que assombra. albergue. e na qual são principalmente admitidos aqueles que trazem cavalgaduras ou veículos. Confunde-se com susto. – Pavor é “um medo incoercível. Certos estabelecimentos de caridade ainda hoje têm albergarias destinadas ao mesmo fim. tem uma acepção especial para designar o estado de terror em que fica uma pessoa surpreendida de alguma coisa ou de algum fenômeno misterioso. 218 ALBERGARIA. tanto a cama como a mesa. . morando fora o pensionista. se a hospedaria reúne certas condições de comodidade. Essa peste espalha o terror por toda parte. do cuidado e preocupação que nos causa o mal que nos sobressalta. hotel. Foi o terror dos franceses que ocasionou a grande hecatombe da ponte de barcas do Porto. que imobiliza e como que maravilha. – Pensão tem aqui um sentido particular. um grande terror que faz desvairar. ou o grande terror que se apodera de alguém à vista de um caso espantoso. A suposta existência de uma terrível peste espalha um pânico geral”. quer devido à mera hospitalidade. ou que vence todas as energias morais”. aqui. é denominada hotel. o temor de sermos assaltados dessa peste nos leva a evitar a comunicação com as pessoas provenientes das localidades empestadas. particularmente os pobres que iam de viagem”. hospedaria. – Pânico é propriamente um adjetivo que qualifica o substantivo terror. – Estalagem é casa onde se recebem passageiros que não pretendem grandes comodidades. é o espanto que nos domina. – Pousada é termo castelhano que se diz por estalagem. onde se recebem hóspedes. estala- gem. por isso se diz que os bandidos espalham o terror por onde andam. guarida. O medo da peste leva-nos a fugir da cidade. quer seja pagando. é. ou o terror infundado que assalta a muitas pessoas. ou mal que se suspeita”. – Albergaria – escreve Bruns. pensão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 151 que ao próprio sentimento. principalmente no Alentejo e no Algarves. reina o alarme. Difere da casa de cômodos em dar esta ordinariamente só a dormida. – Hospedaria é casa onde se recebem hóspedes de cama e mesa. pânico. mas sobressalto sugere ideia da inquietação em que se fica. – Albergue é propriamente a casa onde se hospeda aquele que está fora da sua terra. – “era o nome da dependência dos mosteiros destinada a hospedar os transeuntes. Na cidade em cujos contornos a peste faz muitas vítimas. e contra os quais é inútil qualquer luta. uma obediência a escrúpulos de qualquer ordem. e aquela. Terror (do latim terrere. “fazer tremer”) aplica-se aos perigos ou males que julgamos irresistíveis. que nos impede de agir ou de fazer alguma coisa – do que propriamente temor. ou – o terror. mediante um pagamento convencionado que também se chama pensão. para exprimir. Propriamente só se diz neste último sentido. – Guarida é o local onde se encontra abrigo contra a intempérie ou contra a perseguição. em regra casa de família. – Espanto é uma forte impressão causada por alguma coisa que sobrevém inesperada e repentinamente. e até em só fornecer as refeições. e se qualquer incômodo sobrevém que pareça sintoma dessa peste. pousada. ou impelir-nos a uma fuga insensata como o medo. e algum ou muito luxo. e assombramento. O espanto pode deixar-nos paralisados como o susto. designando a casa.

esbran- quiçado. Consegue-se o que com diligência e perseverança se busca. alcançar supõe sempre graça. – Palácio diz-se de qualquer edifício grandioso. – sem relação aos meios empregados para isso. possuir alguma coisa que nos dá gosto ou prazer sem indicar que a buscamos. agradável. pois. chegar. Por não poder alcançar um ramo. mas quando lá chegaram tiveram quem os agasalhasse. da força de efetuar. – Castelo (de castellum. de superiores. Em poesia diz-se dos atuais paços dos monarcas. – Alvadio diz-se da cor intermédia. dignidades. tudo o que nos é honroso. – Esbranquiçado significa “um tanto branco. 220 ALCÁCER (ou ALCÁÇAR). palácio. meio branco”. obter. Um homem chega à idade avançada. temos de subir a um banco para lhe chegar com a mão. Qualquer superfície que parece ter tido originariamente outra cor. (Bruns.. e tende. entre branco e cinzento”. disposto para habitação ou para outro fim. Obtêm-se cargos. – Alcáçar (ou alcácer). lê-se em Bruns. – Quanto aos três primeiros. ou se pretende. A artilheria moderna alcança a grandes distâncias. enfim. Logra uma grande fortuna o que cançar “denota esforço”. tocar. porém.152 Rocha Pombo 219 ALBESCENTE. – Impetrar é alcançar do superior a graça que se havia solicitado. alcançar diz-se da possibilidade. defendida de fortificações”. castelo. segundo Bruns. Os náufragos alcançaram a praia depois de mil perigos. sentir pelo tato”)”. não alcança. etc. paço. das dos bispos. atenções. – Lograr e conseguir podem supor justiça. – Al- zar. – Gozar é ter. que fizemos diligência por ela. da capacidade. impetrar. Os homens sóbrios e de bom temperamento gozam ordinariamente de boa saúde. – Paço. Alcança o perdão o que interpõe rogos humildes e pede misericórdia. go- pode viver sem demandas nem pretensões. é albescente. favores. que este vocábulo tem significação menos genérica que o precedente (obter). – Alcançar é o termo de nossos rogos. chegar designa o fato. chegar diz-se do próprio fato. ou tem protetor de valimento. alvadio. – “Lograr é propriamente o termo de nosso desejo – diz Roq.. ou do grande senhor. 221 ALCANÇAR. pretendendo-as e solicitando-as com rogos e súplicas”. e dos governadores ou vice-reis das colônias”. conseguir. e obtêm-se de iguais. diminutivo de castrum. a ser branca. como se chegasse apenas a tocar de leve a coisa alcançada (ad + tangere. ou que a ela tínhamos direito. ou que nos é grata. isto é. contração de palácio. – Alvacento é a cor fixa que tira para branco. “fortaleza”) corresponde com exatidão a alcáçar (do árabe): era “a antiga habitação do rei. se este viveu mais anos do que ele”.: “Albescente diz-se daquilo que se está tornando branco. As balas não chegavam à fortaleza. e mais restrita a tem ainda impetrar. a de seu pai. lograr. – Obter é alcançar uma coisa que se pretende ou deseja. só se diz das residências das pessoas reais. 222 ALCANÇAR. – Conseguir é o termo de nossa solicitude. Vê-se. alvacento.) – Atingir (que também colocam alguns no grupo CCXXI) diz “alcançar ligeiramente. tem força para fazer chegar balas a grande distância. “tocar. atingir. o fim a que se dirigem os meios com relação a eles. pois só impetramos graças de um superior. Noutra ordem de ideias. Consegue um bom emprego o que solicita com mérito. “era propriamente o palácio afortalezado onde os reis ou governadores faziam residência. de inferiores. útil. porém. – Tocar (da mesma origem de atingir) ex- .

de assassinos. ou é banhada por alguma corrente impetuosa. – “O úl- Alcance é. passa a ser desfalque. despenhadeiro. matula. não com relação ao pendor. – tilado. a escarpa é quase sempre de acesso impossível sem ajuda de arte. levantar. – Precipício é termo geral que indica “todo acidente perigoso onde se pode cair”. ou ao alto. como os olhos. de . Um bando de estudantes só se vê na rua. legião. ou a caminho do colégio. desfalque. quadrilha. grupo. – Segundo Bruns. acrescenta irregularidade e escreve: “Quando o desfalque é cometido nos dinheiros do Estado. por isso. ou desde baixo. e ao perigo a que se expõem os que transitam próximo da sua beira. irregularidade. – Escarpa é “rochedo alcan- turba. – Alçar é levantar o que está caído.” 226 ALCATEIA. ou uma coisa acima da sua posição ordinária. em montanha. itaimbé. fazendo crescer para cima. matilha. – Bruns. 224 ALCANTIL. timo destes vocábulos – diz Roq. de alguma corporação. e por onde quase sempre corre água. se este é da categoria das chamadas pessoas decentes”. troço. precipício. batiza-se atualmente sob o nome de irregularidade. rancho. ribança. enxame. Se o alcance acusa. ou quase a pique. troça. encosta muito íngreme”. 223 ALCANCE. – é o gênero em que entram os outros como espécies”. escarpa. pedra escarpada que propriamente escarpa. as mãos. – Despenhadeiro é a vertente ou precipício considerado. Exprime ele a ideia de “pôr em alto. grota. não tanto como o do alcantil.: – “Alcantil é a vertente talhada a pique. exaltar a dignidades. horda. ou mesmo de algum particular. mais ou menos larga e profunda. erguer. como um edifício. de panteras. despenhadeiro. talvez endireitando. alcateia de lobos. etc. 225 ALÇAR. As fragas tornam a ascensão difícil. bando. tirar para cima. designa multidão. magote. – Riba e ribança confundem-se com ribanceira: este é apenas uma extensão daqueles. – Grota é aberta. fazer subir”. escarpa. caterva. riba. a fim de não ofender a honra do ladrão. súcia. de lídima propriedade dizer que se viu – “um bando parado”. malta. – Elevar é “pôr em lugar alto. fraga. de ladrões. multidão. a voz. elevar. nas contas que alguém é obrigado a prestar. no entanto. – Multidão quer dizer “grande número”. em ordem eminente. – Fraga é mais aspereza de serra. além de inépcia ou desmazelo. – Bando.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 153 prime a mesma ideia. etc. deste em não sugerir com a mesma força a ideia de atividade. a diferença entre a quantia que entrega e a que devia entregar. diferençando-se. turma. sem mais ideia alguma acessória: multidão de pessoas. – Ribanceira considera a vertente como tendo pendor considerável. Não seria. e sugere ideia de vida errante. Figuradamente aplica-se a indivíduos da espécie humana aos quais se ligue alguma ideia que os ponha em relação com aqueles animais: alcateia de bandidos. ou “na escola”. e tendo a base regada ou não de corrente”. improbidade e dolo. – Erguer é levantar pondo em pé. ou “um bando de estudantes na aula”. – Itaimbé é palavra do tupi designando rochedo a prumo. corja. mas relativamente à profundidade a que está a base. aventurosa. ribanceira. etc. vista de frente. de livros. Quase que destes dois se pode dizer o que se diz de alcançar e chegar. – Alcateia é um coletivo que se emprega para designar “multidão de animais ferozes”. que na linguagem vulgar só se aplica a aves. chusma. etc. a base do alcantil mergulha no mar.

e está fixo nele. – Alcatifa é o tecido rico. E também. – Troça também diz “multidão”. corja de vadios. – Troço significa “multidão ou porção. espesso. – Grupo é “conjunto de coisas ou pessoas reunidas. – Horda sugere ideia de selvageria. de parcelamento: um magote parece que deixa supor sempre outro ou outros magotes. nunca se diria. bom ou mau. ou mesmo de coisas”. e fora deste caso. de lobos. de bandidos. ou a causa especial que põe em movimento a legião: “legião patriótica. mas em pequeno número”. – Chusma significa “multidão em alvoroço”. caterva de lobos. de malfeitores. – Magote é semelhante a grupo e a turma: significa “porção de pessoas. – é alcatifa que tem significação mais nobre. podendo estar ou não fixo . disse a este: – “Cuidas que não posso rogar a meu Pai. Súcia. uma coisa fantástica. e deixando supor que é multidão fazendo parte de uma série de multidões. – Enxame aplica-se mais particularmente tratando-se de abelhas. alfombra. destempero. – Legião era entre os romanos um corpo de tropas. – Quadrilha está nas mesmas condições de turma: designa “um certo número de indivíduos aprestados para a guerra”. de guerrilheiros por exemplo. ou de aves. etc. banditismo. coisa semelhante a batalhão. feito de uma só peça.ere. ao ser preso. designa multidão certa... – Turma era “uma divisão tática na milícia romana”: diz. – Malta designa também multidão. de intuito escuso. – Turba significa “multidão desordenada. tapeçaria. de depravamento e banditismo. e também de divisão. nem um enxame de vagabundos ou de vadios. – “Dos três primeiros vocábulos – diz Bruns. a mais exata. portanto. “obrar. legião acadêmica”. Não se diria: um enxame de lobos. matula. alfombra. Dizemos: quadrilha de salteadores. orgia. companhia. e até de fereza (sobretudo os três últimos): súcia de malandros. isto é. quando reprimiu a ira de Pedro. tapete. e parece que encerra ideia de atividade. – Matilha é também coletivo de cláusula restrita: matilha de cães. ou mesmo de velhos – seria. ou “legião da morte. pois neste coletivo figura o radical agmen = agimen. em tumulto”. – Rancho é o mesmo que bando: apenas não sugere. caterva estão nas mesmas condições do precedente: juntam à noção de muitos indivíduos reunidos a ideia de indisciplina. pândega. confortável.154 Rocha Pombo ideias. E até sem cláusula é usado para designar “multidão de cães de caça”. e que não porá logo aqui mais de doze legiões de Anjos?” Este coletivo legião. de crianças. mas sugerindo ideia de vagabundagem. a mais extensa”. de sapos. Neste sentido continuou a usar-se para exprimir o motivo que impele. de peregrinos. ou de realizar algum intento. de estrelas. Uma turba de sábios. Quando Jesus perguntou pelo nome do espírito mau que atormentava o possesso: – “O meu nome é legião” – respondeu o espírito. – Alfombra é o tapete de maiores ou menores dimensões. desregramento: horda de bárbaros. ou malandros. sugere sempre ideia de que se trata de defender uma causa. Dizemos: um rancho de fiéis. tapete. no entanto: quadrilha de colegiais. corja. legião negra”. e sugere também a ideia de que essas pessoas ou essas coisas fazem parte de multidão maior. que cobre todo o pavimento de uma habitação. de missionários (não – um bando). ideia de aventura. agir”. matula de desordeiros. de cores variegadas. de salteadores. em atividade mais ou menos ordenada. de facínoras. pelo menos. como este. de gente sem ordem”. portanto. de ago. que cobre o pavimento ou parte dele. de gatunos. mas agradáveis. mas sugere ideia de festa. e no sentido figurado empregase para designar multidão laboriosa. perversidade. toma-se sempre a má parte. 227 ALCATIFA.

229 ALCUNHA. portuguesa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 155 no chão. prenome. antonomásia. que serve para cobrir as paredes. etc. – Prenome é propriamente o nome que precede ao nome de família e que é. e João da Costa é o nome do indivíduo. – Apodo é quase o mesmo que alcunha. sentina. notáveis. – Segundo Roq. sobrenome das pessoas segundo a diferença das famílias. a sua significação particular. e quase sempre alusivo a algum defeito da pessoa. etc. por exemplo.. sendo que o apelido se transmite e distingue as famílias”. com que se designa um conjunto de tapetes. – Agnome é o epíteto que se adiciona ao cognome para fazer que ressalte alguma virtude ou qualidade própria do indivíduo. onde o vício ostenta as suas torpezas”.. como perdigão. nobres. a suas vilas e cidades. palavra árabe (alconia). – Segundo Roq. apodo. portanto. que tanto designa o estofo da alfombra ou da alcatifa como esses próprios objetos. Hoje. foram apelidos nobres da descendência das famílias. – Estes quatro vocábulos empregam-se indistintamente para designar as casas públicas de prostituição.. sobrenome. – Citar é referir textos e autoridades . e a segunda. peixes. coelho. “Os panos de Arrás são tapeçarias de muito valor artístico”. – Sobrenome é o nome que se interpõe entre o nome de batismo e o de família. do que propriamente por um nome. A maior parte das casas que nas cidades se intitulam hotéis para pernoitar são alcoices. ou autoridade que prova o intento proposto. bordel. Há tapetes de escada. etc. além de ser um termo coletivo. (Bruns. assim como os nomes de animais. 230 ALEGAR. – Bordel é termo francês introduzido na língua. Emprega-se esta palavra de preferência às outras quando se alude à moralidade dos que frequentam essas casas: frequentador de lupanares. “a primeira. exclusivo do indivíduo. mas diferença-se destes em não ser próprio e expresso. mas não é muito usado em português com esta significação. e em termos forenses. e que acaba com ela. – Alcoice é a casa onde se dão cômodos às parelhas que procuram ter comércio. e que se junta ao nome de alguém para torná-lo mais preciso. sardinha. é trazer o advogado leis e razões em defensa do direito de sua causa”. porém. de sala.) – Sentina é o “prostíbulo imundo. – Tapete é termo genérico. mas apenas alusivo do indivíduo a quem se aplica: vale mais por um epíteto que designa o indivíduo sem nomeá-lo. de corredor. alcunhas de leais. Em João da Costa. Os reis davam. no entanto. cognome. apelido. – Lupanar (do latim lupa “meretriz”) é a casa onde residem meretrizes. de mesa. Costa é o apelido. aves. – Cognome é o designativo de alguma qualidade notável ou característica. “alegar é agnome. e já há muito.. João é o prenome. – Tapeçaria.. – Nome é a palavra com que se designa ou distingue uma pessoa ou coisa. eram sinônimas em significarem o referir a seu favor algum dito. cada um deles tem. e o menos usado dos deste grupo: designa a casa de prostituição considerando-a sob o ponto de vista das orgias que nela se fazem”. porque alcunha só significa apelido injurioso. citar. por honra e mercê. nome. alcatifas etc. lupanar. muito usada no tempos gloriosos de nossas guerras. pega. onde impura a depravação moral. exemplo. – Prostíbulo (do latim prostibula “meretriz das ruas”) é o lupanar considerado como sentina onde as infelizes se degradam. não se dá tal sinonímia. – Antonomásia confunde-se com cognome e com alcunha. prostíbulo. tem a significação especial de pano de armação. 228 ALCOICE.

que é saltar de gozo. Está exultante a criatura que parece ufana da sua felicidade ou da satisfação que tem. celebra-se com festas e regozijos. ou o que eles dizem. jovialidade. – O júbilo é mais animado que a alegria. etc. e pertence à imaginação. que interessa a toda uma nação. que é afeto interior. Luiz.. muitas vezes prescinde da consciência. Um fausto sucesso. exprime cada um deles seu diferente grau ou circunstâncias”. Diríamos que o contentamento é filosófico. celebradas com festas. e eles a usavam em lugar de alegria: em Camões ainda é frequente o adjetivo ledo em lugar de alegre. como está dizendo a palavra. e muito mais pelo regalo com que o tratava. satisfação. 231 ALEGRIA. – Ledice. e em estilo forense é noticiar. ou pela satisfação de que se goza. Fr. Antes que o ardente licor. gritos de aclamação. bailes. – Diz Roq. já ele estava mui contente pelo acolhimento que lhe fazia o Gama. A pessoa jubilosa mostra-se alvoroçada de alegria. contente. festivo. é alegria. não cabendo no coração. ou ledica como diziam os antigos. conduz à felicidade.. regozi- jo. ou pelo gosto que se logra. – Jovialidade significa “disposição natural para a alegria ruidosa mais inocente. a alegria. formada da partícula reduplicativa re e gozo. Quando o contentamento se manifesta exteriormente nas ações ou nas palavras. Pode fingir-se a alegria. não assim o contentamento. pois representando todos um estado agradável no espírito do homem. de S. a alegria é desigual. Ao contrário. Para defender o réu. Há velhos joviais. Hoje. e só em poesia terá cabimento. e sempre a acompanha. não será difícil fixá-la entre outros dos vocábulos deste grupo. exultante.. citamos. citado perante o juiz. Pode. ledo. vozes. causada. segundo a força do verbo exultar. tranquilidade de consciência. e até imoderada. – Fixada a diferença entre alegria e contentamento. mas a jovialidade só assenta nos moços. que dá alegria. não é a felicidade. porém. como diz o nosso poeta. ou é surda a seus gritos. O homem alegre nem sempre é feliz. mais suave. satisfeito. Citam-se os autores. alacridade. álacre. alegra ao público. e quase sempre se aplica às demonstrações públicas de gosto e alegria. exultação. rompe em saltos. é alegria. e mostra-se por sons. fizesse seu efeito no moiro de Moçambique. – Regozijo. temperamento irrequieto. nem a acompanha. júbilo. Para dar autoridade ao que dizemos. sem parecer alegre. ou pelo bem que se possui. aquele supõe igualdade e sossego de ânimo. e pertence principalmente ao juízo e à reflexão. mas não lhe achamos autoridade suficiente para a estimar como tal. tranquila e serena que a alegria. de alegria. dizendo que é menos viva. fazer saber o chamamento do juiz. é corrupção da palavra latina lœtitia. quiçá louca em seus transportes. que. Seria para desejar que o uso lhe desse a significação modificada que lhe atribui D. – Exultação é o último grau da alegria. as pessoas. contentamento. e peso ao nosso dito. muitos há que sem mostrarem alegria gozam de felicidade. a palavra ledo é desusada. porque é demonstração exterior. buliçosa. quase ufano da vida”. ledice. pois. para sustentá-lo. alegre. alegamos. uma pessoa estar contente. alegou o advogado leis e razões tão importantes que por suas alegações conseguiu que ficasse de nenhum efeito a citação. – Alacridade é a . e produz contentamento no ânimo dos que foram causa dele. e defender-nos. nem a ela conduz.156 Rocha Pombo em prova do que se diz. em memória de faustos acontecimentos. etc. ou gozo repetido ou prolongado. alegam-se fatos e razões. jubiloso. danças. que “o contentamento é uma situação agradável do ânimo. jovial. porque na embriaguez do espírito se deixa arrastar da força do prazer. poética..

discreta e segura”. e não se poderia dizer que foi pérfido. propriamente. aleivosia (aleivoso). – Adiante é também aplicado para designar ordem de situação. que dissimula com ares de inocência o golpe que vai descarregar. o que perpetra calúnia. ferindo ou prejudicando aquele a quem devia lealdade. traição. dos bons princípios morais. – Calunioso é aquilo que envolve calúnia. posterior a alguma coisa”. à traição. – Alentado. Entre falso e falsá- rio. e é antônimo de antes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 157 “alegria aberta e serena. e confundese. Mas o traidor é sempre infiel. possança. esforçado. – Satisfação é “o estado de alma em que ficamos quando alguma coisa vem corresponder aos nossos desejos. falsidade (falso. aquele que exteriormente revela ter uma respiração fácil e poderosa (alento) que lhe permite fazer grandes esforços. forte. potência. – A falsidade consiste no modo traiçoeiro. isto é. depois. e caluniador.. – Além. caluniador). que é nosso igual ou superior. robusto. deve notar-se que o segundo tem uma significação especial e precisa que seria bastante para excluí-lo deste grupo se não fosse a ideia fundamental comum que o põe em relação com os demais. que nos promete o que não tem tenção de cumprir. Entre os dois vocábulos traiçoeiro e traidor há diferença análoga à que notamos entre calunioso e caluniador. – Calúnia é “a falsa imputação que se faz a alguém de atos que lhe prejudiquem a honra”. falsário). segundo Bruns. etc. é o que iludiu ou procurou iludir a boa-fé dos outros”. 234 ALENTADO. vigor. portanto. – Aleive é a própria calúnia que se disfarça. e essa capacidade . robustez. É antônimo de atrás. – Vigoroso refere-se à manifestação de força. – Traição é. perfídia (pérfido). além da distinção sob o ponto de vista das funções gramaticais. designa situação do que se encontra “depois de alguma outra coisa e em relação ao lugar que ocupamos nós: é antônimo de aquém. vigoroso. aqui. após.. o “ato de faltar à fé que se devia”.. também relativamente a nós. valente. pujante. Um homem alentado pode suportar grandes fadigas. – A deslealdade consiste em faltar com alguém. ao movimento. Emprega-se frequentemente aleivosia por aleive. valentia. adiante. alento. (traiçoeiro. e particularmente com falso. pois falsário é “o que faltou ao que prometeu solenemente. praticada com má-fé. – Depois quer dizer – “em seguida. deslealdade (desleal). e pode não ser pérfido. Calabar foi traidor. reforço. Falso é o que nos diz aquilo que não sente. reforçado. “é aquele cuja arca do peito apresenta uma ampla superfície”. potente. pois a perfídia consiste em “faltar à fé parecendo fiel”. Quem é vigoroso é capaz de empregar grandes forças. – Após é de todos os do grupo o mais preciso: diz – “logo depois. 232 ALEIVE. passou para os inimigos sem astúcias com os seus próprios. traidor). 233 ALÉM. aos nossos sentimentos”. aleivosia é a qualidade de ser aleivoso. infidelidade (infiel). nas maneiras dissimuladas com que procura alguém enganar a outrem para lograr do enganado alguma coisa. e sugere ideia de “posto à frente de alguma coisa”. imediatamente depois”. pois que traiu abertamente. calúnia (ca- lunioso. fortaleza (fortidão). mas é um pouco mais preciso que além. com perfídia e infidelidade. pujança. a deveres ou compromissos que temos contraído. força. esforço. possante. O homem desleal é o que sai das normas. ou para trás. à vivacidade que indicam aptidões para praticar atos que necessitam de esforço.

ou do antigo castelo. Este vocábulo. montante. quod ad cladem sit inventus). – Esforço é a ação moral ou física de que alguém é capaz. no entanto. Há pessoas magras que são fortes. e também um castigo de . Afinal essas distinções não são essenciais. e que possante sugere ideia de “opulência de força” e “majestade de aspeto. que. a fortidão do seu gênio. – Gládio é a palavra latina gladius. E se se trata da propriedade correspondente nos inorgânicos. terça- do. Confunde-se com pujante e potente. que pujante se diz daquele que é capaz de vencer em pugna. o seu jogo enérgico mostram o vigor latente. Foi. – é palavra italiana e castelhana. “É à valentia dos soldados. na tradução dos Mártires. etc. Exemplos: “A fé aumenta a fortaleza das almas”. pois o vigor manifesta-se na energia dos movimentos. – Possante quer dizer – “que tem grande força. dos braços. – Valente é aquele que não teme o perigo e é capaz de enfrentá-lo. aumento de vigor”. eficaz”. que potente adita à noção de “poderoso.. preferimos dizer força.158 Rocha Pombo manifesta-se exteriormente. usada em sentido figurado por escritores de boa nota para designar o poder supremo. E zombando de seu genro Lentulo. O homem robusto tem membros atléticos.” – Força é “capacidade de ação ou de resistência física”. “A potência daquele espírito. – Espada – diz Roq. energético. vem de cladis “matança na guerra” (quasi cladius. – Fortaleza é “a energia moral. que vem do latim bárbaro spatha. ou álcool de fortidão maravilhosa”. sabre. contudo. É preciso notar. cimitarra. – Forte é um termo genérico que exprime o poder de obrar ou de resistir. das pernas. O indivíduo esforçado é o que tem qualidades para vencer pelo trabalho. que significa “espátula”. durindana. só se aplica à força exercida pelo homem.” “O gladiador estava ainda em toda a sua pujança”. mas deve ter-se como provado que se metia em bainha.”. disse: Quis generum meum ad gladium alligavit? – “Quem foi que atou meu genro àquela espada?” O primeiro talvez que usou esta palavra em sentido reto. a ideia de ativo. “Matéria explosiva. portanto. “A alma potente do justo a nada cede”.. – Robusto (do latim robur “força”) diz-se da pessoa que no vigor muscular. espada. e designa a arma que se julga corresponder ao gladius dos latinos. assim como as há muito corpulentas que não são robustas. que se impõe pelo enorme poder dos músculos” (possança). 1. etc. foi Filinto Elysio.. Quando essa capacidade é atribuída aos animais. a fortaleza daqueles muros. tórax amplo. daquelas grandes virtudes ou daquelas construções maravilhosas”. gládio. movimentos pausados: nisto se distingue sobremaneira daquele que é vigoroso. que se deveu a vitória”. e que era longa. Não se sabe ao certo qual era a forma desta arma ofensiva entre os romanos. como em latim.. que se punha à cinta. Com gladios na segunda forma. na forma opulenta dos membros. É reforçado o homem que tem mais desenvolvidos os órgãos de ação física próprios para uma certa função ou esforço: reforçado do peito. – Reforço é “acréscimo de força.. “Quando operou aquela possante máquina de guerra. porque Cícero diz na oração pro Marcello: Gladium vaginâ vacuum in urbe non vidimus – “não vimos na cidade espada desembainhada”. pois dizemos também: a força da dinamite. trazia uma grande espada à cinta. 235 ALFANJE. onde diz: Detrás dos Vexillarios vão Hastatos. e espada de folha larga na ponta. tanto pelo menos quanto à bravura do general. é a qualidade de ser forte”. chanfalho. mesmo quando não as emprega: o movimento dos membros. que sendo de pequena estatura. sem nenhuma ideia acessória. revela força e saúde. 6. “O leão tem mais força que o burro”. do grego spathe. segundo Varrão. dizemos fortidão.

– Enfim é um modo translatício. que designa a conclusão. diz: “Como homens alfim levantados do pó da terra. falando da peste: “O gladio que feriu o povo”. – Alfanje é espada mouresca e turca. por última conclusão. que “alfim é expressão castelhana mas admitida em nossa língua. É palavra muito usada nos clássicos.. e de três dedos de largo”. Segundo a preposição que se lhe ajunta. de um discurso. e por ele se designa uma espada grande. curta e curva. definitiva. L. Confundem-na muitos com enfim e com finalmente. enfim. – Montante – define Aul. ou que desejávamos. I. 47). As duas primeiras não resolvem absolutamente. pelo que também se lhe dava o nome de espada de ambalas mãos. de Souza e por Vieira”. pelo comum desejada. decisiva ou positiva sua significação. que depois de não poucos esforços de seu Mestre foram elevados a tão alta dignidade. diz: “Flor enfim da terra. para zombarmos da valentia dos fanfarrões que se gabam de façanhas inauditas. e os espanhóis da sua tizona. do Couto)” – Chanfalho é termo vulgar. de que usam os valentes e denodados cavaleiros em suas lides. 24). disse: Por armas têm adargas e terçados. deixam alguma coisa que esperar: a terceira.. 236 ALFIM.” (II. ou das areias da praia. e também ao conseguimento do objeto que nos propusemos. tivemos alfim a ventura de sair bem em nossa empresa”. Mui sensato é este parecer. Fr. é espada curta e larga. de uma conversação. de figura curva. II. e nomeadamente se houvéramos de traduzir aquele lugar de Vegecio. É hoje usada na gendarmeria”. afinal. Os seguintes lugares de Vieira talvez possam servir de modelo neste caso. ou o fim dos fins. (Lus. e cada ano cortada . como os franceses da sua flamberge. finalmente. e assim dizemos: “Depois de havermos gasto tanto. – “grande espada antiga. resta que se adote e se observe: do que duvidamos em tempos em que se vêm postergadas outras mais importantes observações acerca de nossa tão maltratada língua. Chama-se fim ao termo material de uma coisa. pois Camões. como disse Camões. depois de se haverem vencido todos os obstáculos.. que se brandia com ambas as mãos para acutilar por alto. De Re Milit. pesada e terrível. – Terçado do castelhano terciado. e usada por Fr. que não corta”. irrevogavelmente. Luiz) que se use esta palavra em sentido reto quando aludirmos aos usos bélicos dos romanos. – Mais positivo e terminante que as duas expressões anteriores é o advérbio finalmente.. de S. velha. ainda mais burlesco do que durin- dana: é “grande espada. – Sabre é “espada pequena.. 15: Habent. pelo que nos atreveríamos a dizer que é a conclusão das conclusões. et alios minores. que significa. não.. – Diz Roq.. falando dos habitantes de Moçambique. de uma arenga. quos semispathas nominant – em que não poderíamos deixar de empregar os dois vocábulos gladio e espada. e poética. – Cimitarra é “espada pérsica. logramos nosso intento.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 159 Deus. enferrujada. ou de uma enumeração: “Enfim acabou de falar. ou pelo menos mais curta que o terçado. terminou seu discurso”. por fim. – Quer o autor dos Sinônimos da língua portuguesa (D. ao cabo de tantas fadigas. quos spathas vocant. gladios majores. larga. – Durindana é termo cômico e burlesco. que tem só um gume. é mais ou menos extensa. F. e assim nos servimos desta palavra. de aço fino. mas é mister distingui-las. senão usando de um circunlóquio extenso e escusado. Miguel de Asnide era tão agigantado que trazia na cinta um montante por espada ordinária (D. Alfim denota que.. Falando ele dos apóstolos. Depois de enumerar os formosos dotes de Helena.

executor. de outrem. (Roq. alheio e de outrem – escreve Bruns. alhures = “noutra parte”.. cobiçar o que é de outrem é cobiçar o que pertence a determinado indivíduo. – Segundo Bruns. 241 ALI. “em conclusão”. dizemos afinal. além. sem determinar o lugar.” 237 ALGOZ. – . sacrificador. – Alheio indica apenas que o objeto não é nosso. estranho. que aquele que fala não conhece bem. são: “denominações comuns ao executor da alta justiça nos países onde vigora a pena de morte”. isto é. – Carnífice diz – “homem sanguinário. (XII. e o primeiro não só pouco usado. o estranho não só não é nosso. nem é preciso indicar. certos..160 Rocha Pombo 238 ALGUNS. lá. “Afinal chegou o nosso dia”. suficiente não obstante para que em muitos casos as duas expressões não possam empregar-se indistintamente. – Quanto aos três primeiros. – há uma muito leve diferença. O segundo. ou outro qualquer (que faça de algoz contra alguém. Não obstante. “Carlos I de Inglaterra foi executado por um algoz mascarado que se prontificou a substituir o carrasco que havia desaparecido”. é menos vago. – Alguns “refere-se limitadamente a pessoas ou coisas indeterminadas. que o flagele e martirize como se quisesse tirar-lhe a vida). es- tes dois advérbios “são atualmente pouco usados na linguagem culta. por isso mesmo. 239 ALHEIO. dos que martirizam moral e fisicamente”. ou que lhe não ocorrem. carrasco e verdugo. etc. 240 ALHURES. Entre alheio e estranho também se nota a seguinte diferença: o alheio não é nosso. acolá. são muito expressivos. subentendendo-se que é quase sempre a de morte. – Ali diz propria- mente – “naquele lugar”. – Sacrificador era o encarregado de sacrificar as vítimas entre quase todos os povos antigos. carrasco. e dá a entender que são conhecidas e que se poderiam nomear se necessário fosse”. da execução religiosa. algoz é esse indivíduo. algures = “em algum sítio”. E começando aquele famoso exórdio do sermão sobre o dia de juízo. – algures. não exclui nenhum. de outrem não só indica que o objeto não é nosso. é simplesmente o que executa a sentença. verdugo. senão que ignoramos se tem dono”. 5). Cobiçar o alheio é cobiçar o que não é nosso. – Resta-nos dizer que o primeiro do grupo é hoje muito pouco usado: em vez de alfim.). verdugo é palavra castelhana que se introduziu na língua portuguesa. 146). senão já quase desconhecido.. para designar o indivíduo que imita contra alguém as funções do sacrifício. carnífice. a ser sacrílega. aí. que faz. diz: “Abrasado finalmente o mundo”.. diz Bruns. mas afirma que outrem é seu dono. levou-nos por fim ao parque. – A locução por fim equivale a “finalmente”. posto que se refira igualmente a pessoas ou coisas indeterminadas. e por certo merecedores de serem revividos”. tanto à vista como no sítio de que se acaba de tratar. e que passou. carrasco é termo popular.. “Depois de nos mostrar toda a casa. isto é. No sentido figurado. algures. ou da tortura como cerimônia de culto. e aplica-se hoje com sentido análogo. “algoz diz-se melhor de quem martiriza moralmente. (III. – “Entre com o arado do tempo”. – Alhures (pronuncie-se alures) exclui o lugar em que estamos. próprio da poesia e do estilo elevado. – Executor substitui a quase todos os outros do grupo. ou que é capaz de fazer morticínios”. – Carrasco e verdugo designam o indivíduo que tem o ofício de executor. – Algoz é termo culto.

exprime o contrato. coalizão. A coalizão visa a matrimônio. Duas pessoas de gostos diametralmente opostos formam uma união desgraçada. A aliança entre soberanos (ou entre Estados) forma-se por via de tratados. não impediram a aliança de duas famílias. naquele lugar que está à vista. casamento. têm interesses ou sustentam princípios diametralmente contrários. e tem lugar mediante convenções particulares. etc. e sobre a qual assentam os muros de uma constru- . fundamento.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 161 Lá significa – “naquele outro lugar”. – Núpcias é palavra latina. isto é – no lugar em que se encontra a pessoa a quem nos dirigimos. – Casamento é o vocábulo que exprime a associação do homem e da mulher. nem o que está ocupando a pessoa com quem falo”. para realizar-se. – Neste grupo. ou cada partido volta ao seu anterior antagonismo. a desproporção das fortunas.). liga. nem produz resultados iguais. que obrigam as nações que se aliaram”. povos. – União é a palavra que mais se relaciona com as conveniências pessoais dos cônjuges. supõe maior formalidade. sem nenhuma outra ideia acessória”. ou à anterior indiferença”. base. pelo contrário a palavra liga toma-se quase sempre em mau sentido. ou entre partidos que. entre homem e mulher. – Bodas. etc. “a palavra aliança refere-se ao que da união é aparente e se relaciona com as convenções sociais. conseguido este.. do castelhano boda. mas que não é o que eu ocupo. consórcio. 244 ALICERCE. do outro lado de um lugar ou um acidente à vista. embasa- mento. corporações. cada Estado. podendo ser boa ou má. e refere-se propriamente às solenidades legais. – “é uma espécie de liga momentânea. com que se soleniza esta festa de família. e as condições. – Noivado é “expressão vulgar com que se designa a cerimônia religiosa do matrimônio católico. Aliança diz-se com respeito às pessoas e às coisas. sem relação necessária às leis religiosas ou civis de cada nação. um fim. – Aí quer dizer – “nesse lugar”. pedestal. e dela difere em que a liga se celebra geralmente entre Estados.. – Além significa – “mais para diante. bodas. – Liga é uma semelhante união. nuptiœ. e também as bodas que a este se seguem”. convertem-se em regras de direito público. segundo Roq. encravada no solo firme. – Alicerce (ou alicerces) é a “parte sólida. ao rito e aparato com que costuma celebrar-se o matrimônio. com que é estabelecida. – Coalizão – diz Bruns. 242 ALIANÇA. 243 ALIANÇA. porém menos duradoira. – Acolá diz – “ali. comumente. maciça de alvenaria. que. ou entre partidos que não têm interesses opostos. em circunstâncias normais. José de Lacerda). – “Aliança é a união de vontades e forças para fins determinados. que se refere precisamente ao contrato. significa o festim doméstico.” (D. peanha. isto é – no lugar que não é o em que me encontro eu presentemente e que está distante de mim. e não requer as formalidades com que se estipulam as alianças. Há homens que contraem alianças que não estão em relação com a nobreza da sua prosápia. enquanto que a coalizão se faz entre Estados. entre reis. Assim dizemos que a diferença de religião. o banquete nupcial. A palavra aliança toma-se indiferentemente. núpcias. pelo qual dá um ao outro poder sobre seu corpo. – Matrimônio. refere-se às pessoas. união. – Confederação é “uma união.. ou mesmo não visível”. É termo genérico do direito das gentes. porém liga. (Bruns. noivado. confederação. na parte oposta àquela em que estou.

ou uma coluna: sua base é seu pedestal. soco e cornija. cambiar. O fundamento é aquilo sobre que assenta a base. apoderar-se da vontade e da ação de alguém para fins criminosos ou indignos”. sensível diferença: embasamento não é mais do que tudo aquilo que acima do solo serve de suporte ao edifício: assenta. 246 ALIENAR. “pôr alguém a nosso favor e levá-lo a fazer o que é do nosso interesse”. permutar. Base emprega-se ordinariamente no singular e falando de um objeto pouco extenso. subornar. é termo de arquitetura.. tra- ficar. na maioria dos casos. as estátuas monumentais. a que falte alguém com o seu dever”. – “Peanha é palavra portuguesa formada de pé e anha. sobre que assenta uma construção”. fazendo-lhe promessas. e sua base tem tanto de circunferência. – Seduzir é “desviar do reto caminho. e varia segundo as ordens de arquitetura”. O ato de corromper envilece tanto o corrompido como o que corrompe. – Subornar é “induzir de qualquer modo. seus fundamentos são como suas raízes. Uma montanha é abalada até nos seus fundamentos. como estes assentam sobre os fundamentos. ordinariamente de mármore. chamada em francês tortue e que era móvel. e indica um corpo sólido. – Pedestal (do francês piédestal. de uso tão frequente no sentido figurado. corromper.. consta de base.: “Fundamento usa-se mais no plural. – Aliciar é “trazer alguém para o nosso partido. J. – Alienar exprime a ideia geral que os outros verbos deste grupo especializam: a ideia de desfazer-se . na palavra base”. – Peitar é “por meio de paga. a máquina de guerra dos antigos. compreendendo a estrutura subterrânea. o aparelho de solidez e segurança sobre que repousa um edifício: é o vocábulo embasamento. – Corromper é. “Não basta que a virtude seja a base de vossa conduta. lançam-se fundamentos. mas não um fundamento ou fundamentos. poderia confundir-se com alicerce se este não sugerisse a ideia. e designa a peça de pedra ou de madeira. Entre este e fundamento há.162 Rocha Pombo ção”. no entanto. é que “fundamento encerra a ideia de solidez. “de pau”.. etc. no entanto. engodar. O fundamento está oculto na terra. cuja base assenta nos fundamentos do templo” (Volt. que sustém as colunas. pois.). a qual não se inclui. a base está acima da terra e se vê: cavam-se. pelo menos nem sempre. – Fundamento (aqui. melhor no plural) é “toda a área de solo. pei- tar. vender. se não estabelecerdes essa base mesma sobre fundamentos inabaláveis”. – Sobre fundamento e base escreve Laf.). e tratando-se de edifícios. às vezes movediça. falando-lhe às ambições”. de apoio firme. e tratando de um edifício. assenta-se uma base.. trocar. – Engodar é “atrair com presentes e mimos. o embasamento sobre os alicerces. Há uma palavra que parece mais técnica para designar o assento geral. escambiar. Mas o que é decisivo na escolha entre estas duas pa- lavras. “base. com ofertas e pagas. e do teutônico stall. boas palavras e artes”. – Base é termo geral. como um rochedo. significando “a parte inferior sobre a qual repousam os corpos”.). enquanto que base designa apenas “os pontos por onde começa o edifício a erguer-se do solo”. que o caracteriza. muito mais o corrompido. 245 ALICIAR. que alguns querem seja corrução de lignea. “pé”. “O mago encerrou-me numa estátua colossal. aqui. de pied. enganando com artifícios. (J. iludindo a boa-fé.. tinha uma base (Roll. sobre que se põe estátua ou busto. apoio”. seduzir. é coberta de habitações ou de verdura. corrompendo com habilidades e finuras”. “por todos os meios ilícitos e desonestos. ou como seu pedestal”.

Catalogam-se livros. Haverá troca. dizemos que a lenha alimenta o fogo. Quando os mercadores de um país vão a outro (ou vão entre bárbaros. arrolam-se os instrumentos e armas indispensáveis para a viagem. da ferrugem e outros parasitas que os cobrem. ou com sacho. Há. passá-la a outrem. Mantém-se a família. poda. – A alimpa – diz Bruns. Relacionam-se os objetos que vão para o depósito. Fora do comércio. 248 ALIMPA. não propriamente permuta. nas condições em que se encontra. e com explicações que facilitem a respeito das coisas catalogadas o que se deseja saber de cada uma. Tanto assim que se diz: alistou-se eleitor. Os poderosos do sé- inventariar. os que ficam. e nutre-se com as verdades da filosofia. – Poda é “o ato de cortar a rama supérflua que de ano para ano fica nos vegetais. a água as plantas. e os trocam por outros desse país. ou que há permuta entre os dois países. em geral. arrolar. nutrir. – Nutrir explica esta mesma necessidade satisfeita em proveito do indivíduo pelos bons resultados da digestão. só por isso. manter. no entanto. mas mediante dinheiro (vender).” 249 ALISTAR. Nutre-se o rico de bons manjares. .” – Inventariar. – Catalogar é “arrolar em certa ordem. e. Arrola-se a roupa. dar o sustento. principalmente na vinha. a comida diária. e que se estabelecessem assim entre os dois mútuas relações de comércio. alistou-se no partido (e não – relacionou-se. “troca”) distinguem-se assim: escambar.. – é o ato de cortar os ramos desnecessários ou nocivos à existência da árvore.. O literato alimenta-se lendo Horácio. – Sustentar significa prover do necessário para a vida. No sentido figurado. Para haver permuta seria preciso que do país onde se vendeu ou trocou fossem também mercadores ao outro país. relacionam-se fatos. que os dois países permutam. que diz apenas – “pôr em rol”. as más ervas que crescem entre os cereais. de cedê-la. diz Roq. na acepção jurídica. permutar significa – “trocar de posto. e cambiar é mais propriamente “trocar moeda de um por moeda de outro país”. – Alistar distingue-se dos outros deste grupo em sugerir a ideia de inscrever com certa solenidade a pessoa que se alista. por exemplo) levar artigos de comércio. tráfico. Alimenta-se o pobre com umas sopas. sustentar. sem mais ideia alguma acessória. papéis. dizemos que foi trocada. o primeiro verbo sugere melhor a ideia de mutualidade entre os que fazem a transação. catalogar. relacionar. – Cambiar e escambiar (do mesmo tema cambio. de lugar”. nem – arrolou-se). a opinião. limpando ao mesmo tempo. diz o mesmo que relacionar.. mas sugerindo ideia da indagação e pesquisa que faz o que inventaria. é arrolar e descrever minuciosamente os bens de um espólio ou de uma execução. Se a cessão é feita mediante dinheiro. que “se refere à ideia da necessidade que de comer têm os seres viventes. 247 ALIMENTAR. de emprego. alguma diferença entre permutar e trocar. mantém-se a promessa. culo sustentaram com sua influência e conselhos muitos erros e heresias”. a atitude. monda. – Relacionar é “dar em relação com as informações precisas”: ideia que se não encerra em arrolar. As pessoas caritativas sustentam muitas famílias necessitadas. que é pouco usado. – Alimentar. se damos uma coisa por outra. – Manter diz propriamente – “conservar alguma coisa como está. – Monda se diz do ato de arrancar à mão. no seu lugar. etc. indica a operação de trocar. não se pode dizer. ou que se a permutou. dizemos que se vendeu.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 163 alguém de alguma coisa. etc.

ou folhas de palma. peçuelo. com divisões e escaninhos. e mais ou menos semelhante a uma bolsa para dinheiro”. etc. etc. balaio. aparelhos de profissão. ou mesmo de cabedal. bruaca. que se conduz sobre cangalhas em viagem”. carcás. em uma nota. seira. etc. – Alcofa é.” (Aul. e com a abertura no centro. seirão. alcofa. – Cesta é “vaso grande. rendas e também flores. – Peçuelo (ou melhor. um nome indígena mais equivalente a alforje. – cesto de bananas.. dobrada. e diferentes objetos”. Dom. servindo para guardar objetos de costura.. com bolsa para guardar dinheiro e mais misteres de um viajor”. segundo Aul. fechado ou não com cadeado ou chave. – Guaiaca é outro. esparto. para guardar coisas de uso. bordados. V. frutas. que serve para conter frutas. saco. Assim o define o prof. ou sobre as cavalgaduras. grande. pois são sempre duas as bruacas. para que se equilibrem sobre o animal. cesta. a fim de resguardar ou de os transportar)”. de palha. peçuelos) é uma bruaca menor. que se põe sobre as bestas de carga”. acrescenta o mesmo autor. carcás. açafate.) – Balaio é “cesto grande. de alforjes apenas em serem de coiro. – Mochila é “uma espécie de saco de sola para trazer roupa e outros artigos de uso que os soldados de infanteria e de caçadores em marcha põem às costas. Usa-se para trazer ao ombro. de modo a formar como dois sacos ou compartimentos. – Saco é “peça de pano ou de coiro. e ordinariamente de forma retangular. do grego.” – Seira = cesto de palha. de madeira. bolsa.” – Mala é “saco de coiro. – Estojo é “uma caixa. mochila. – Bruaca (ou broaca) é termo nosso. es- tojo. no seu romance Divina Pastora. e em que se leva fato de jornada. guaiaca. Vieir. e outros quaisquer objetos”. cesto flexível de vime. oleado ou pano. segundo o prof. de três ou quatro dedos de altura.164 Rocha Pombo 250 ALJAVA. estojo de costura. – Cabaz = “cesto fundo. etc. quase . descoberto (ou mesmo com tampa móvel). seguro por meio de correias”. segundo definição de Aul. que o próprio cavaleiro leva consigo à garupa. que a primeira e a terceira palavras deste grupo – aljava e carcás – são sinônimos perfeitos e com qualquer delas se designa o estojo onde se metem as setas e que se traz pendente do ombro. a fim de igualar o peso dos dois lados”. e este poderia comparar-se a bolsa ou estojo se não fosse a particularidade de ser a guaiaca presa sempre à cintura. cesta. e que serve para conter ou transportar roupa. sem arco ou asas. Diz o prof. “um saco fechado em ambas as extremidades. feito de varas entrançadas. – Diz Bruns. É. assim define esta palavra: “Cinta de coiro lavrado.). mala. fechada por todos os lados menos por um (a boca) destinada a conter provisoriamente diversos objetos miúdos. No Bra- sil dizemos – cesta de costura. José Antonio do Valle. Coruja que o dr. e serve para guardar ou conduzir pão. Coruja. picoá. acrescenta que é ordinariamente redondo. Estojo de desenho. Pereira Coruja: “espécie de saco de coiro. geralmente com asas. etc. largo e leve. cesta de roupa suja (e não – cesto). – Cesto é uma cesta mais grosseira. lona. como se vê. de junco. cesto de feijão (e não – cesta). pois. – Bolsa é “um saco de qualquer estofo. usado entre os tropeiros e homens do campo. quanto à origem: aljava nos vem do árabe. Seirão = “seira grande. madeira. de junco ou de esparto. de coiro ou de pano. Também se costuma chamar sapicoá”. etc. farinha. Diferem apenas. de cascas de embira. papéis. Diferem. em forma de alforje. pois. – Alforje (usado comumente no plural) é. – Picoá. cabaz. – Açafate (ou çafate) = “pequeno cesto tecido de vimes delgados e descascados. Usa-se mais no plural. jacá. é “mala de algodão ou linho com abertura no meio: serve para conduzir roupa ou mantimentos em viagem. alforje. (D. de taquara partida.

do movimento de todos os seres viventes”. à inteligência. Espírito difere de alma. primeiro em encerrar a ideia de princípio subtil. segundo. (Bruns. Deus. do que está frequentemente gelado. inteligente e livre. qualifica-se de álgido ao que vive no que é glacial: as plantas e os animais álgidos vivem nas regiões glaciais”. ainda depois de separadas deles. devendo notar-se que. “alma.. diz: “Tudo isto que vemos (no . Além disso distinguem-se estes adjetivos por sua diferente significação. empregado mais no sentido moral. nobre.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 165 sempre com asas. ou “que não é quente”. os demônios são espíritos. Dizemos: o gélido cadáver (e não – gelado). coração. tal é aquele de Vieira em que. a gélida indiferença (não – gelada). alento”. sem relação nenhuma com o corpo. a que os franceses chamam revenants. alere. eu. outros. briosa. gelado. onde há muito frio”. “ar. o princípio. falando do demônio: “É espírito: vê as almas”. aos sentimentos.) – Frio significa propriamente “sem calor”.” – Gélido é termo poético. mas nenhum se lembrou ainda de dizer que o espírito era matéria. Vieira disse. e davam-lhe a mesma extensão que nós damos à palavra alma. vem de anima. faculdades intelectuais ativas que àquele só são acessórias. “sopro”. alma refere-se aos atos. feito de esparto ou de taquara”. Noutra acepção. sendo que espírito só indica substância imaterial. – Gelado quer dizer propriamente – “reduzido à temperatura do gelo”. zona frígida (zona fria. Daí vem chamar-se psicologia à parte da filosofia que trata da alma. Álgido se diz do que comunica a sensação do gelo. gélido. are. ânimo. glacial é científico. “privado de calor”. derivam a palavra alma do verbo latino alo. ao pensamento. e vale o mesmo que sopro ou hálito.. Diz-se que um homem tem a alma grande. e que tem o espírito penetrante. em denotar inteligência. invisível que não é essencial ao outro vocábulo. “que quer dizer respiração”. espírito. vasto. É provavelmente esta última definição que caracteriza a diferença entre os dois.. frígido.. água gelada (e não – gélida). Falando do homem.. no entender de alguns etimologistas. Dizemos: clima frio. termo latino que vem do grego anemos. de spiro. exprime qualidade ou modo de ser. alma e espírito nem sempre são sinônimos perfeitos. querendo encarecer o valor da alma sobre o corpo. poético e da linguagem vulgar. – Espírito é a palavra latina spiritus. ar que se respira. a causa oculta da vida. aos afetos. 251 ÁLGIDO. profundo. Seja qual for sua etimologia.. – Jacá = “cesto grande e grosseiro. chamam-se almas. Os gregos designavam a alma pela palavra psyche. – Regelado é redobramento do precedente e diz – “muito frio. Frígido (do mesmo latim que deu frio. em sua significação mais lata. nutrir”. do sentimento. “respirar”. frio. isto é. nem em todos os casos se podem empregar indiferentemente.. e significando o mesmo que gelado. “vivificar. que anima ou animou o corpo. – “Álgido é termo científico e poético. 252 ALMA. re- gelado. para condução de coisas miúdas”. os anjos. glacial. e talvez com mais razão. e clima frígido significariam outra coisa). senão em alguns. – Se- gundo Roq. ou mais frio do que o gelo. melhor do que este (que designa apenas estado quase sempre). frigidus) diz também “frio. espírito. representa esta palavra. sopro. No sentido figurado. e assim dizemos: as almas do Purgatório. as substâncias espirituais que animaram os corpos humanos. mas não são almas. glacial. Os filósofos materialistas têm querido negar à alma humana a qualidade de espiritual. Alma desperta ideia de substância simples. almas do outro mundo.

e nisto se distingue de alma e espírito (se bem que nem sempre essencialmente). quando se considera a alma como ser pensante. e que passou desta para todas as línguas europeias. vontade. espírito. que contém em resumo aquilo que é indispensável em algum ofício. “livro pequeno. guia. manual. imenso – a alma (II. as fases da lua e as variações dos dias. Segundo os afetos que o ânimo experimenta. palavra árabe introduzida na língua espanhola. pode ele ser baixo. nobre. etc. – Prontuário é o “manual onde se acha prontamente o que se quer sobre algum ofício ou profissão”.) – Manual é vademeco mais extenso. – Em linguagem filosófica. re- pertório. – Indicador será um guia mais particular: indicador das ruas. chamamo-la espírito. dos caminhos de ferro. Como notamos entre parênteses. de espírito. vil ou soberba. vil. às repartições oficiais. indicação romana. entrada e saída do sol em cada um dos signos do Zodíaco. nem sempre é de rigor a distinção que faz Roq. e. Também dizemos: espírito baixo ou altivo. grande. 253 ALMANAQUE. que se compõe de folhas sobrepostas que se vão retirando uma a uma cada dia. “que de todos estes vocábulos. “órgão dos afetos”. há o calendário parietal. é folheto ou pequeno livro em que se encontram todas as indicações indispensáveis aos que se ocupam de algum serviço: guia dos viajantes. alma esforçada ou abatida. soberbo. abatido. além do calendário do ano. quando exprime. elevado. 71). Na sua significação primitiva vale o mesmo que alma. se indicam os eclipses. ou altivo. número áureo. é provido de vária leitura e indicações interessantes. para uso do clero. como esta. – A palavra anuário. – Folhinha é o calendário adequado ao uso do povo. prontuário. roteiro. calendário. esforçado: o que com propriedade (em muitos casos) não se poderia dizer de alma. porém o uso tem preferido este vocábulo para designar a faculdade sensitiva e seus atos: representa. esforço. quase sempre valor. ciência ou arte”. ou de mero passatempo. Além do calendário folheto. só folhinha e repertório são genuinamente portugueses.166 Rocha Pombo homem) com os próprios olhos é aquele espírito sublime. de anemos. e ainda menos de espírito”. folhinha. grego. – O calendário indica a ordem e série de todos os dias do ano. ciclo solar. dispostos por meses. epacta. quando é tomado como sede da fortaleza moral. ou quando nela se vê apenas a faculdade intelectual. há também folhinhas eclesiásticas. o princípio das estações. ou do rumo que se há de seguir nalguma viagem. eu é a alma. segundo a índole das pessoas a que é destinado. – Roteiro. moderna na nossa língua com esta acepção. é o indicador dos pontos por onde se tem de passar. da coragem etc. guia dos lavradores. letra dominical. – Guia. Particularmente. – Ânimo é a mesma palavra latina animus. fórmulas ou noções de uso frequente em algum ofício ou profissão”. indicador. ardente. e à burocracia em geral”. ou intenção. – Diz Bruns. (Usa-se neste caso mais propriamente de itinerário. do mesmo modo que anima. designa um folheto ou livro (e às vezes livro bem alentado) em que. é o conjunto das faculdades que formam a individualidade psicológica. é uma espécie de almanaque cuja utilidade é particular às casas de comércio. humilde. vademeco. – Coração só pode ser tido como sinônimo de alma e de espírito: de alma. – Vademeco (latim vade mecum) = “folheto com indicações ligeiras. . designa também o santo ou a festa própria de cada dia do ano. aqui. no sentido restrito que tem neste grupo. – Almanaque. anuário. – Repertório é uma espécie de almanaque acomodado às necessidades da gente do campo. pois.

criador. em notáveis circunstâncias. Arengas são as que os antigos generais faziam a suas tropas em vésperas de combate. querer do fundo da alma. proclamação. arenga. – Criador é aquilo que é capaz de gerar. as sublevações de seus exércitos com eloquentes e veementes arengas.ere) diz “fecundo. – Apetece-se quanta fruta se vê nas mercearias. prática. – Almeja-se voltar à casa dos pais. – Aspira-se um bom lugar na administração. – Almejar é “desejar ardentemente. ou o que está acima dos nossos méritos”. – Cobiçar é “desejar o que não nos pertence. de produzir forças. oração. Ambiciona-se uma grande fortuna. e que excedem muito a nossa capacidade”. 255 ALMO. nutritivo. em perigosas e decisivas circunstâncias. e com serenidade e confiança nos votos com que se espera pela coisa almejada”. por isso que se razoa e se empregam razões para conseguir o fim que se deseja”. próprio dizer que F. de todas as deste grupo. Tudo o que se diz de viva voz a um auditório mais ou menos numeroso. Nutriente (do latim nutriens) quer dizer “que nutre”. Os sábios e valorosos generais a acalmaram muitas vezes. – A palavra arrazoamento. para excitá-lo à rebelião. – Entre nutriente e nutritivo há esta diferença: nutritivo (de formação vernácula) significa “de nutrição: que tem a propriedade de ser nutriente”. – Pretende-se um cargo de importância ou chegar a almirante quando se é simples marinheiro. segundo a contextura. animado e vivo. elogio. – Almo (do latim alimus. É certo. homilia. como as que Salustio põe na boca de Catilina para animar e enfurecer a seus cúmplices. ou de o excitar a alguma ação ou empresa. ou propriedades nutritivas de um produto vegetal (e não – nutrientes). o cavalo do Pedro. – Deseja-se recobrar a saúde. pois. apetece riquezas. que. que alimenta. nutriente. as quais devem atribuir-se antes ao artifício retórico dos historiadores e poetas que à eloquência dos seus heróis. vencer um embaraço. – Ambicionar é “desejar demais. cobiçar. Dizemos: as qualidades. ou fazer as pazes com o amigo. – Desejar é “ter vontade de conseguir ou de gozar alguma coisa: é querer com mais gosto”. a pessoas eminentes. Não seria. por isso. A arenga dirige-se. preleção. 256 ALOCUÇÃO. os fins e as circunstâncias. ou possuir alguma coisa que nos agrada. arrazoamento. que faz crescer”. que se dirige a um grande concurso para comovê-lo. com o fim de o convencer e persuadir. – Apetecer é “desejar alguma coisa como por necessidade de ceder a exigências da própria natureza”. prédica. é um arrazoamento. honras. etc. pretender. no entanto.. poder. panegírico.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 254 ALMEJAR. – Cobiça-se a bengala. – Aspirar é “desejar com esforço e veemência”. que nutre. – Pretender é “desejar coisas muito altas e de grande monta. de nutrir. e mui comumente para animar os soldados a empreender com denodo a batalha ou qualquer ação perigosa. e têm entre si algumas diferenças. é a mais extensa. – Arenga é uma espécie de arrazoamento oratório. ao coração. conferência. fala. ambicionar. São arengas também os estudados e cerimo- . como tendo por fim persuadir e mover. tomam diferentes nomes. aspirar. de alo. desejar. imoderadamente”. dis- curso. criador. 167 apetecer. que andam quase sempre os dois aplicados indistintamente. Como diz Roq. ou um alto posto na política. Arenga-se também a corporações respeitáveis. – “é o gênero a que pertencem como espécies todas as composições oratórias. Em contrário sentido fazem os grandes conspiradores arengas ao povo. o leite é muito nutriente (e não – nutritivo).. sermão.

lhe dirigem as câmaras. entendendo por ele uma composição literária feita por qualquer de nossos oradores acerca de algum importante assunto. para persuadir. – Do substantivo os. “oração”. ou a um ser superior. – Preleção é o mesmo que “discurso didático.” – Fala é termo vulgar que vale o mesmo que prática no sentido em que aqui a tomamos. os governadores e demais autoridades. dizer muito alto”. Chamaram os latinos orações aos discursos que compunham com o maior esmero.. ou prática em que se explica uma lição”.. socorra. dirigida a um povo ou a um exército por um príncipe. um general. no entanto. Dizemos oração dominical. favoreça. a estes arrazoamentos públicos orações. perante o povo. fúnebre. o louvor de alguma grande vida”. ou sacropolítica. de causas particulares em que ele devia decidir. uma prática destinada a esclarecer algum ponto de doutrina ou alguma passagem das Escrituras”. Usa-se mais comum e geralmente em sentido religioso.. etc. aos que fazem os oradores modernos se lhes dá geralmente o nome de discursos. – Conferência tem aqui a significação particular que lhe damos . para importantes sucessos ou negócios públicos. mover e interessar a uma pessoa. um conquistador numa cidade. práticas impertinentes. como as de Isócrates. ou melhor. como devida homenagem que se lhes rende e jura. que em seu sentido reto é um arrazoamento ou alocução disposta com inteligência e arte. Esta palavra é mais bem recebida entre o vulgo do que arenga. – Proclamação é “uma fala ou arenga mais solene. ou fala dirigida a alguém sem aparato oratório. Diz-se ordinariamente do que o Papa dirige aos cardeais em consistório.”: e do segundo: “Acabada a prática. tais são as que Jacinto Freire põe na boca de Coge Cofar e de d. onde diz.. de Demóstenes. a defensa. tais são os de Pitt. e sempre destinada a nutrir esperança ou coragem na alma daqueles a quem se dirige”. do alto do púlpito”. raciocínios coordenados entre si. – Panegírico é a “oração em que se faz a apologia. e chamamos ainda hoje. mental. jaculatória. ou nos perdoe as faltas que havemos cometido. enquanto que “prédica sugere mais a ideia de anunciar. de Cícero. ao entrar um príncipe. e que nós traduzimos pela palavra oração. por ocasião de algum notável acontecimento que interessa a Igreja. se bem que não exclua a noção de instruir. pensamentos. “boca”. a que nos ampare. o superior a seus súbditos. vocal. agora lhe chamamos discursos no sentido oratório. de explanar”. as da Igreja segundo o ritual. ou por um general. como a paz ou a guerra. suplicar. tiraram os latinos o verbo orare. em grandes momentos. a formação e aprovação de leis. Às vezes corresponde às arengas dos antigos generais. o general à sua tropa. que ele quase sempre toma no mau sentido de razões longas ou ininteligíveis. sobre questões de alta monta. como as orações que fazemos a Deus e aos Santos.. falando do primeiro: “Fez aos turcos uma breve prática. uma diferença muito subtil entre estes dois vocábulos: “prática sugere intenção de instruir.168 Rocha Pombo niosos discursos que. para chegar aos fins que nisso propôs: o que verifica por uma dedução de ideias. de Eschines.oris. Há. escrita. e feita com certa solenidade.. – Alocução é discurso breve. de Fox. assim chamavam. De modo que àquilo que os antigos chamavam oratio. etc. rogar”. – Homilia é “um sermão menos formal e solene. – Prática é exortação menos solene e menos veemente que arenga. de Mirabeau. pedir. e só se dá de superior para inferior. Po- rém. animados e engrandecidos por quantos meios subministra a arte da eloquência. João de Castro. proclamar. – Sermão é “uma prática religiosa. – Prédica é o mesmo que prática religiosa. diz-se com muita frequência que o coronel fez uma fala a seus soldados. e daqui oratio. que significa “falar.

mas distingue-se deste em ser mais justo. soberba. ou não”: diz-se mais particularmente do que se vê à entrada dos templos de alta construção. vestíbulo. pode dizerse. altivez. forte. o telheiro está contra o edifício ou isolado. adro. arrogância e altaneria – do que propriamente orgulho. átrio. 21 Alpendre. telheiro. não se tendo como inferior a . e sobretudo com soberba e empáfia. O orgulho pode ser nobre. pelos ares insolentes. – Altivez é antônimo de humildade. é possível que se torne para o orgulhoso em forte estímulo na sociedade e na vida. em regra sem grande extensão. dá-se o nome de anteportaria. e que compreende certo espaço coberto. mais legítimo como testemunho. diz Roq. elogio histórico (e decerto ninguém diria panegírico histórico ou fúnebre. A soberba não é só a manifestação do orgulho: é mais um falso orgulho. ou de não ter vícios torpes. como o entende Roquete21. e à alpendrada. de alguma honra excepcional.. Orgulho difere de soberba em ser um sentimento que não é incompatível com a discrição. e pode ser aberto. – Segundo Bruns. – Aplica-se o vocábulo átrio ao “pátio que nos grandes edifícios leva da entrada até à escadaria. – Pórtico é “portal de grande edifício. que mostra o sobranceiro. Sendo o orgulho o alto conceito que temos de nós próprios. ou quem se mostrasse soberbo de alguma coisa – estaria julgado só por isso. impostura. – Adro (do latim atrium. palácio. e raramente deixará de revelar pequenez de espírito. a magnanimidade.. etc. Ninguém se vexaria de dizer que tem orgulho de algum bem magnífico. – Nas suas manifestações. 258 ALTANERIA. empáfia.: “é um pórtico sustido em pilares diante da porta de algum edifício”. sobranceria. ou em geral. a altaneria e a sobranceria podem facilmente confundir-se com orgulho.: “alpendre e alpendrada (ou alpendrado) têm por fundo o próprio edifício. alpendrada. Empáfia tem ainda alguma coisa de ostentação e fanfarrice. ou mesmo ser indício de virtudes excelentes: a soberba é sempre fútil.) 257 ALPENDRE. portanto. Ao alpendre. – Elogio é quase panegírico. rico. chama-se galeria”.” – Vestíbulo é “o espaço que vai da rua até à porta que dá no interior. – A empáfia é a soberba arrogante. um ridículo entono. cuja abóbada é quase sempre sustentada de colunas e que serve de entrada”. Quem dissesse que é soberbo. fatuidade. de ter preeminência sobre outros. valente. Dizemos. que também nos dá átrio) é “o espaço que fica à frente do pórtico. pelo desprezo com que encara o resto dos homens. em casas nobres. fazer-se legítimo: a soberba. lida perante um auditório”. de estar acima de outros. Denominamos alpendre o adro coberto que há diante da porta de algumas ermidas e conventos. elogio fúnebre. que se mostra pelos gestos. do nosso valor. O sujeito altivo é aquele que está no mundo como quem está no que é seu. alpendrada o alpendre sobre que abrem as janelas de alguns chalets. – Altaneria é uma afetação de altivez. O orgulho pode ainda justificarse. pórtico. um orgulho afetado e estulto. a nobreza de alma e outras grandes qualidades morais. nos grandes edifícios”. da nossa família. inda que impropriamente. e consiste em parecer que se é altivo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 169 hoje comumente: designa a “composição literária ou científica. orgulho. que vive entre os homens como entre iguais. como templo. pois que panegírico diz propriamente “discurso festivo e laudatório”. Hoje alpendre diz-se quase exclusivamente daquela parte de um pátio que está coberta por telhado. é a altaneria exagerada até a presunção. nunca. – Sobranceria.

do sagrado. sofreu alterações maiores do que se tivesse sido apenas reformada. A altivez é. – Reorganizar seria propriamente “dar organização nova àquilo que havia deixado de existir”. reconstruir. De resto. ostentoso. se é que alguma soberba exista que não seja tal. chamamos a essa operação variar. e principalmente do último. – “Al- ção absoluta. – Reconstituir é “dar a alguma . na maioria dos casos. – Reformar é quase mudar. retificar. à cor de um corpo ou de um todo e também às suas condições ou ao seu modo de ser ou de funcionar – uma nova disposição. Nesta frase: “Os reis. reconstituir. ambas possíveis. Ou casar. reorganizar. diferença-se deste modo: a coisa que se reforma conserva ainda os seus fundamentos: mudará apenas o que nela não pode ou não convém ficar. remodelar. à forma. renovar. altura. – Altura. – Impostura. – Disjuntiva é a opção entre duas coisas opostas. mas é usado este verbo para designar o ato de “dar organização diferente mesmo àquilo que já existia ou que ainda existe”. quando tombam das suas alturas. do honesto. – Se a alteração é total ou completa. – Alterar enuncia a ação geral que os outros verbos deste grupo particularizam: é dar – às partes. ou que se mostra arrogante com uma criança. 262 ALTERAR. os que não temos de onde cair” – a palavra alturas está aplicada também a elevação moral.. ou fazer-se freira: é uma disjuntiva. como já se viu no § precedente. A coisa que se transformou. Não é altivo o indivíduo que afronta um velho. No primeiro caso. modificar. Posso ir ao Porto por mar ou por terra: é uma alternativa. porém. conforme indica o prefixo re. – Alteza só se emprega tratando-se de elevação moral ou social.. à estrutura.. ou de uma montanha. dilema.) 260 ALTITUDE. – Se se muda de forma. no segundo caso. em caso algum teria sentido físico. consideramos a elevação da torre ou da montanha sobre o nível do mar. é a elevação de um corpo. manifestação de legítimo orgulho. corrigir. mas distingue-se de todos. é uma afetação de grandeza. – Fatuidade é a soberba do imbecil. altura. contada da sua parte inferior até à parte superior: só se aplica a coisas físicas. – Reconstruir. – Remodelar é “refazer alguma coisa sobre novos moldes ou modelos”. mudar. das quais uma há de ficar precisamente prejudicada. calculamos a dimensão da montanha ou da torre desde a base até o cimo.170 Rocha Pombo ninguém. de superioridade.. refazer. re- ternativa é a opção entre duas coisas ou ações. disjuntiva. – Se se vai alterando pouco a pouco. a fazer alarde de si mesmo. sofrem mais que nós outros. a coisa que se renova toma um novo aspeto. Deixa de ser altivez todo movimento de alma que não se funda numa perfeita consciência do direito. transformar. 261 ALTEZA. substituir. altura de uma torre. 259 ALTERNATIVA. – Transformar também se confunde com reformar aqui. é “construir outra vez ou de novo”. que significa alguma coisa como substituir. de orgulho – que se confunde com bazófia. não é uma distin- formar. ao peso. Alteza. mais do que soberba talvez. – Pode-se dizer – alti- tude de uma montanha. usamos do verbo mudar. de uma torre. (Bruns. renovar. no entanto. – Dilema é a alternativa ou disjuntiva em que não há opção satisfatória”. Impostor é o sujeito cheio de si. com muita empáfia. emendar. e sem que se contradigam. variar. ou se se fazem alterações num certo sentido – dizemos que isso é modificar.

alucinado” (égaré). magnífica”. José Joaquim de Mora. como o cego tem perdido a vista”. que sugere a ideia de “pensar”. Nesta palavra demente figura a raiz grega man ou men. As narrações complicadas. ou bem expurgado de erros. por exemplo. confundem. tudo o que é indefinido. completa como a de reconstituir.) 264 ALUCINADO. o artigo correspondente a estes vocábulos: “As esperanças quiméricas. Pode dizer-se que perdido encerra o valor dos dois vocábulos franceses (ou a eles. – Sobre os três primeiros verbos deste grupo. Mas. confundir o entendimento ou a razão. e que fica em estado como de estupidez ou imbecilidade”. pois. “o . – Alucinado é o que subitamente desvaira e se arrebata como louco por efeito de alucinação. ofuscar. de- mente. os raciocínios excessivamente subtis. desvairado. etc. falsas aparências.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 171 coisa uma nova estrutura. – Retificar. a que se confunde”. e noutros poderia confundir-se muito com este. na frase: “Preciso de refazer (ou de reconstituir) as minhas forças”. Um doente de anemia vai reconstituir-se na ilha da Madeira. renovando-lhe apenas os elementos”. de que é autor d. alucinado. a que se ofusca. mas devendo notar-se que este é mais extenso e de significação menos precisa. as promessas enganadoras. do latim fascinare. Mente é. ou por antipatia com as pessoas interessadas – ofusca-se. “sentir”. as obras dos filósofos alemães? A imaginação é a faculdade que se alucina. 263 ALUCINAR. deslumbrar. profunda. alucinam. por simpatia. cegar. fazer que desvaire por falta de uma visão perfeita das coisas”. cego. ou curvo. insano. as questões espinhosas. e também o que não está ainda bem puro. dar quebranto”. estonteado. as impressões veementes. espantado como doido. retifica-se o que está torto. fascinar. e no sentido figurado é “alucinar. – Cegar é “perturbar a vista de qualquer modo. Aquele que funda as suas esperanças de acenso no sorriso ou no aperto de mãos do ministro – alucina-se. – Louco é propriamente “o que perdeu a razão”. As razões sofísticas. ou a um ou outro deles é capaz de corresponder) éperdu e égaré: tanto diz – “agitado. – Deslumbrar é “turvar a vista por meio de luz muito forte”. ofuscá-la por alguma coisa brilhante. atordoado. – Fascinar. Aquele que sustenta uma causa injusta. – Demente é “o que está privado das faculdades de raciocinar. emenda-se o que está errado. o entendimento. corrige-se o que não está bem direito. fica muito próximo de perdido. uma disposição íntima. significa propriamente “enfeitiçar. Mas aqui mesmo pode notar-se alguma diferença entre estes dois verbos. perturbado por uma emoção violenta” (éperdu) como – “fora de si. sem confundir-se. Quem pode ler. corrigir e emendar confundem-se: todos enunciam a ação de pôr uma coisa nas condições em que se quer que fique. a razão. doido. perdido. louco. de entender. e no sentido figurado quer dizer – “enganar por meio de prestígios. como. confundir.” (Roq. encantar. insensato. e no sentido figurado equivale a “perdido.: “Traduzimos da Coleção de sinônimos da língua espanhola. – Refazer é um pouco menos que reconstituir em certos casos. as ilusões do amor-próprio. Aqui. A ação de refazer não é tão essencial. ofusca. essencial que pode ser ou não diferente da antiga. desvairado como se tivesse subitamente enlouquecido”. Um sujeito que trabalhou o dia inteiro deve refazer-se das fadigas para a nova tarefa. lê-se em Bruns. aturdido. delirante. e que foi editada pela Real Academia da língua. – Cego só tem aqui sentido figurado e diz – “que perdeu ou tem perdida a visão da alma ou do entendimento.

há entre referir e aludir uma diferença que é frequentemente esquecida. ou por dever de ofício. e que declinar seria dar os próprios nomes dos criminosos. – Insensato é “o que não tem senso comum. Sente-se que referir seria indicar expressa e claramente fatos. Refere-se uma coisa.”) Não se assiste a cerimônia. Declinar é. Dizemos. por figura. ou o conjunto das faculdades superiores do homem”: demente exprime. de surpresa ou de susto”. sugerindo apenas. Atordoado = “menos que aturdido. pelo próprio nome. neste caso. – Estonteado = “perturbado como quem acorda repentinamente. “privado do espírito. sem a declarar pelo nome. pois que o verbo aludir. – Indicar é “apontar precisamente alguma coisa. às suas tropelias e infâmias. 22 Note-se que assistir tem diferentes acepções. incapaz de fazer juízo”. portanto – “a coisa referida”. a que consiste em ser talvez a doidice uma forma de loucura mais completa e permanente. expressas pela voz. – Doido é quase o mesmo que louco: se se pode notar alguma diferença entre os dois vocábulos. Referir quer dizer – “indicar de modo claro e preciso a coisa sobre que se quer chamar a atenção de alguém”. não pode dar particípio passivo. Sob o ponto de vista gramatical. ou a que indivíduos se endereça o ataque: e neste caso se diz que ele aludiu a esses tipos. enun- ciar. pois. nem declinou os nomes dos quadrilheiros”. assistir é verbo intransitivo e significa “estar presente a. “O enfermo foi assistido” – está direito (porque se quis dizer que o enfermo foi socorrido). sem tino”. alude-se a uma coisa. consignar positivamente”. e por isso não pensa normalmente”.172 Rocha Pombo espírito. Quando alguém nos diz intencionalmente que – “certos tipos execrandos escandalizam a moral pública” – subentende-se que nós sabemos a que tipos se dirige a apóstrofe. – Entre aludir e referir há uma diferença notável. da inteligência”. – Expor é “fazer uma relação minuciosa do que se quer tornar conhecido de outrem. – Desvairado é “o que ficou em súbita exaltação que o põe agitado. uma ideia da coisa. e confunde-se ainda com articular. – Aturdido = “subitamente perturbado. mais por inadvertência talvez do que por ignorância. não sendo transitivo. mencionar. ou – “o caso assistido”22. – Enunciar é apenas “declarar por palavras. sem tento no que faz”. – Delirante é “o que está como perturbado momentaneamente das faculdades intelectuais. mas – “a cerimônia foi assistida” é construção viciosa (porque. e não podemos dizer – “a coisa aludida”. – Mencionar é indicar claramente. declinar. sentindo-se apenas em estado que não é de perfeita lucidez”. muito próximo de referir. que é “referir por palavras adequadas e precisas que esclareçam o articulado”. mas ainda de função gramatical. Dizer – “a coisa aludida” seria o mesmo que dizer – “a coisa. ou ainda por desejo de instruir alguém sobre a coisa que se expõe”. portanto –. mas nem sequer um fato teve a coragem de referir. a faculdade. e caracterizada pelos desvarios. ou o ato procedido”. aflito. . Em vez de “circunstância aludida”. ou com intuito de queixa. indicar. isto é –. é. Neste exemplo vê-se melhor a distinção: “O homem aludiu aos bandidos. não só de significação. segundo os lexicógrafos.. mas à cerimônia. – Insano diz propriamente – “o que está enfermo da razão”: a insânia sugere também a ideia de loucura instantânea. formular por termos próprios”. os gestos ridículos e estabanamentos do doido. dizer onde se encontra. diremos corretamente: “circunstância a que se alude”. marcá-la ou mostrá-la”. e assim privado de senso normal. referir.. expor. Aludir é “referir indiretamente. 265 ALUDIR.

ou do internato tal (os meninos que estão sendo educados nesse internato). no entanto. – Locar = “alugar. há entre os dois primeiros adjetivos deste grupo: dizemos que uma coisa é referente a outra quando a ela se refere. F. etc. respetivo. – Respetivo diz – “que compete. quer de arte ou de moral. – Alquilar. educando.. e parece que todo o trabalho do ministro consistiu em dar toda amplitude à parte relativa a desfalques. – Exemplos: Discurso alusivo a uma questão. alquilar. Uma companhia de cômicos aluga o teatro da povoação por onde passa. ordinariamente de uma vez. de modo ainda mais preciso. que pertence. e por preço que constitui renda ou rendimento para o proprietário. como. só se diz atualmente falando de cavalgaduras e carruagens. que o instrui e guia. é uma designação que se refere ao estabelecimento onde o menino aprende. quer como interno. – Concernente exprime. isto é.. Apresentaram-se os diversos clubes tendo envolto em crepe os respetivos estandartes. que se atribui à coisa a que se refere”.. como: os educandos do instituto. e também se arrendam mediante contrato. discípulo. Aluga-se um trem: alugam-se móveis (não – arrendam-se). 268 ALUNO. portanto. qualquer pessoa que recebeu lições de F.. sublo- anos. e dizemos que é alusiva quando apenas sugere ideia dessa coisa. “Os alunos da minha turma foram aprovados” (decerto que não ficaria bem aqui dizer – educandos). referente. nestes: “Respeito muito os discípulos de Loyola ou de Comte” (não educandos por certo). Tanto podem locar os proprietários como os que estão no usufruto da coisa locada. quando a indica direta e claramente. nas cidades arrendam-se ou alugam-se casas por semestre. . e pelo preço que se combina pagar. ou por meses. concernen- 173 te. palavras alusivas à má conduta de alguém. não tem nenhum discípulo”. ou a cada um em particular ou em separado”. que se nota entre os verbos aludir e referir. 267 ALUGAR. Procuramos naquele livro das Escrituras tudo que é concernente ao adultério. que respeita ao próprio a que se refere. Nas praias de banhos alugam-se casas aos banhistas. Os termos referentes àquele fato são ásperos. termo que já foi genérico. – como aluguel e renda. sem a nomear. isto é: aluga-se para um fim determinado. – Educando é sinônimo bem próximo dos dois precedentes: e em muitos casos poderia substituir a um ou outro. arrendar. a um ato. e discípulo só se diz com relação ao mestre. meninos cuja educação me está confiada). Tanto posso dizer: os meus educandos (os meus discípulos. – Aluno é o car. – A mesma diferença. “Os meus discípulos são os melhores alunos do ginásio tal”. – Sublocar = “alugar a outrem uma coisa que se tem tomado a alguém por aluguel”. por dias. Dizemos também que é discípulo de F. e por alguns menino que frequenta alguma escola.. relativo. a ideia contida em referente e relativo: diz – “que é próprio. locar. que se prende à coisa a que se refere”. – Alugar e arrendar diferençam-se entre si – diz Bruns. não seria possível a substituição. – Relativo exprime – “que tem relação com. que diz respeito a. dar de aluguel mediante contrato”. quer de ciência. por exemplo. por curto tempo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 266 ALUSIVO. “Entre os alunos do colégio tal. quer como externo. e substituindo-o por alugar. ou da aula de música. arrenda-se por tempo mais longo e às vezes sem prazo certo.. um empresário arrenda o teatro que quer explorar.. Em outros muitos casos. Aluno. aos defeitos da criança. o uso vai mesmo postergando este vocábulo.. – Discípulo é o menino que é entregue aos cuidados e esforços de um mestre ou professor.

propósito. – Alvo é “o ponto que se quer atingir ou onde se quer terior. 271 ÂMAGO. o propósito que temos formado. íntimo. que significa “ponto ou fim que se colima”. âmago da vida. que não cansa nossos olhos. – Imo é também o mais profundo das coisas. decisivo do que intenção. – “A luz que aparece no horizonte. madrugada. e alvorada – dir-se-ia – é uma extensão de alvor. dilú- culo. e com ela se patenteia de novo a formosura do universo. alvorada. – Fim é “o ponto a que se quer chegar. pode dividir-se pelo pensamento em dois tempos que formam o que vulgarmente chamamos madrugada. a determinação em que estamos de fazer alguma coisa”. de creperus “duvidoso. Começa o horizonte a fazer-se alvo com a aproximação do sol: eleva-se pouco a pouco esta alvura. é o íntimo das coisas. objeto. o crepúsculo da manhã. A aurora. além de profundeza. de intenção de ocultar. antes lhes dá motivo para se recrearem vendo alvorecer o dia. de recato. seio. Matiza-se insensivelmente no horizonte a alvura com a cor cerúlea. Intento é propósito mais firme e seguro. sugere ideia de mistério. distinguem-se assim: recesso. espalha-se nas regiões etéreas. e vai crescendo e matizando-se de luminosas cores até que o sol o doire com seus brilhantes raios. firme determinação”. entremeia-se o oiro vivo dos apolíneos raios. imo. a respiração das flores. crepúsculo. – Crepúsculo (de crepusculum. pretender. que se tem por fim atingir”. é – como disse Vieira – o riso do céu. afugenta as trevas da noite. e parece dar mais ideia de festa do que exprimir propriamente fase do alvorecer. e mais benigna que o sol. que sugere ideia de observar. – Mira é mais propriamente “o ato de fitar o alvo”.. – Escopo é muito próximo de alvo e de fim. mais brilhante que a alva. incerto. miolo. quer morais quer físicos. Esta luz suave. medula. intenção. resoluto. até que o astro do dia mostre seu afogueado limbo: eis a aurora. fim. in- acertar”. 270 ALVO. – Fito é “o alvo sobre o qual temos toda a nossa atenção e esforço”. ter os olhos sobre. Aquela dor chegou às profundezas do meu coração. – Propósito é “resolução tomada.. fito. profundeza. – Interior designa sim- . mira. Pode ser físico ou moral. a que se destina o nosso trabalho”. e no sentido figurado.) – Alvor (ou albor. mas dos recessos desta alma não sairão jamais os meus gemidos. contingente”) (Sar. a parte que fica no centro dos vegetais. rósea. a alegria dos campos. como é muito usado também) é o primeiro sinal da alva. cerne. recesso. que é apenas o estado de espírito em que estamos. examinar: é portanto escopo “aquilo que se visa. coração. é a alva. que é estranho ao eu. ainda não tinta de vivas cores. e em ondas de progressiva luz derrama-se no firmamento. e também de mira. (Roq. e que continua alguns minutos depois do pôr do sol.) é a meia-luz indecisa que precede ao nascer. a que levamos o nosso intento. aqui. – Profundeza e recesso. e que no momento prende a nossa atenção”. alvor (ou albor). purpurina.” – Objeto é “tudo que está fora de nós. aurora. meio. in- tento. escopo. – Dilúculo é termo poético designando o romper do dia. No grego skopós. mas só se emprega no sentido moral. o mais profundo nos seres. ou a disposição de alma em que nos deixa aquilo que temos desejo ou vontade de fazer. centro. Dizemos: âmago da alma.174 Rocha Pombo 269 ALVA. – Âmago é propriamente a medula. a vida e alento do mundo”. a harmonia das aves. – Intenção e intento significam “o desígnio que nos leva a agir. Ter em mira quer dizer “desejar. figura a raiz skeh.

a discórdia. tão rigorosa distinção.”. a parte central. diminuir. Poderíamos dizer mesmo: meio da mesa. afrouxar. – Centro e meio. abrandar ao que é duro. o sentimento característico das coisas. no entanto. Feriram a França no coração. Interior do coração. – Estes verbos têm de comum a ideia de “diminuir de intensidade”. Enfraquece o exército pelas deserções. abateu com as chuvas o rochedo. – Coração só figuradamente é que entra neste grupo. Dizemos: meio do caminho. O centro da terra – é uma coisa: o meio da terra – é outra. selvagerias.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 175 plesmente a parte interna. furente. a substância mole que se encontra no centro das árvores. tranquilizar. Uma pessoa mete-se no meio da turba (e não no centro). recôndito. ou tratandose de certas frutas. Em grande número de outros casos não seria possível usar um pelo outro. da cidade. suavizar. abater ao que está elevado. afastado dos olhos como um mistério”. extremidade. 272 AMAINAR. – Cerne é “a parte mais dura de muitos vegetais. Amaina o temporal. e além disso meio é mais extenso e genérico. o ponto que é equidistante de todas as partes da periferia. enfraquece a mocidade vencida pelo vício. – Íntimo quer dizer “profundo. pelos estragos que causa. pelo estrondo. aba- ter. ainda que fosse redonda. Até que enfim restituiu-me a sorte ao seio de minha família. Abatem as desgraças aquele orgulho. conforto. Dizemos: centro da mesa. O diâmetro passa pelo centro da circunferência (não – pelo meio). Meio. ou. enfraquecer. mas neste caso não lhe indicaríamos precisamente o centro. – Afrouxar aplica-se ao que está apertado. meio da floresta. dos ossos” etc. do edifício. serenar. pelo furor. acalmar aplica-se ao que está em alto grau de intensidade. abrandar. por analogia. aplica-se a tudo que não é lado. o que fica por dentro da casca”. em delírio. castigos. num círculo. a cólera divina. nem sempre. atenuar. senão ponto afastado da circunferência dela. Centro é termo de geometria para designar. altivo. acalmar. Afrouxam-se os grilhões. Mas este último sugere ideia de conchego. beira etc. Abrandam-se dores. ao que parece irritado. porque os há que não chegam a ter cerne”. interior do país. áspero. mas convém nunca esquecer que há entre eles uma diferença tal que se não poderiam substituir em grande número de casos com propriedade. da floresta. quer abstratas quer concretas. as cordas de um instrumento. – Me- dula é “o âmago. fazer baixar. Estou afinal no meio dos meus amigos (como poderia estar no meio de bandidos). numa esfera. – o coração da África indicando o meio dela. crescido. no entanto. – Diminuir é o mais genérico do grupo: diz “reduzir a força. esta palavra miolo como designando toda a parte do pão contida dentro da côdea. o ponto que fica a igual distância de todos os pontos da circunferência. etc. não se reconhece. ou. sossegar. – Miolo (corrução de medula) é “frequentemente empregada pela própria latina: pode definir-se. a parte onde está a força. sossegar ao que está inquieto. descer. para exprimir o núcleo. Também dizemos – o coração da noite – para exprimir a plenitude dela. – Em muitos casos poderia também confundir-se meio com seio. os laços que prendem alguma coisa. ou pelo menos esta não é forma tão precisa como aquela. no entanto. Em nenhuma dessas frases seria próprio substituir nenhum dos dois vocábulos. enfraquecer ao que é ou está forte. – Na linguagem vulgar. Sossega o . em certos casos poderiam ser usados indistintamente. cóleras. centro da arena – desde que sejam circulares. central de alguma coisa. teso. Naquela terra está o coração da pátria. a vida. carinho. – Amainar emprega-se quando a coisa se caracteriza pela agitação.

podendo a amante viver ou não na casa do homem solteiro. Podem-se domar animais bravios. no entanto. a força. domar. diminui o furor. ou cônego. o rigor. a intensidade.: – “Concubina é vocábulo que hoje apenas se emprega na linguagem da Igreja. diminui-se o prazo. comborça. manceba. – Amante é o termo que se considera mais decente na nossa época. de sentimentos e de convívio. podem-se tornar submissos e obedientes. amiga. menos impaciente. diminuindo a agitação. Acalma-se a turba que bramava. Podem-se amansar os animais ferozes. e menos ainda que os domesticamos. onde a mulher é geralmente considerada como igual ao homem. – Tranquilizar = “fazer mais tranquilo. podem-se reduzir a viver na mesma habitação com o homem. A concubina é. como diz o próprio radical. melhor que – amante de frade. Há.” – Atenuar = “fazer menos forte”. ou que pelo seu caráter não devera ter amorios. onde a mulher é considerada como inferior ao homem. 273 AMANSAR. segundo define Aul. uma distinção social muito importante que con- vém considerar entre eles. isto é. como é comum para os designar a ambos com relação de reciprocidade. tanto no sentido moral como no físico. Concubina (do latim cum “com” e cubare “estar deitado”) encerra a ideia de coabitação. mas sem ficarem contudo tão obedientes que se possa dizer que os “amansamos”. – Suavizar = “tornar mais suave”. as aflições. Napoleão III teve muitas amantes. o peso. a torna pelo menos igual ao homem. assim como amiga – termo mais escolhido – qualifica a mulher que vive das liberalidades do seu amante”. que. este tem amantes. agitado e aflito. isto é. o pranto. e como que a ser seus servos ou seus companheiros. ou de cônego: – Amásia é termo vulgar. 274 AMANTE. – Barregã (do castelhano barragana) é termo insultuoso e depreciativo. Diminuem as águas da enxurrada. pelo contrário. – Serenar. por assim dizer. etc. Muito frequente é também que a amante de um homem seja casada ou viva com outro homem. e o único que pode. estes têm concubinas. o volume. barregã. se não enaltece a mulher. o desordeiro. o comprimento. uma esposa ilegítima que vive na dependência e na sujeição: tendo estas ideias vindo até nós pela consideração dos usos e costumes dos países e das épocas em que o concubinato era legalmente tolerado. amásia. da qual a concubina era frequentemente uma como escrava. domesticar. isto é. o revoltado. sem ofender demais (a não ser a ouvidos muito delicados) ser admitido em qualquer linguagem. e admitido até pela esposa legítima. – Sobre os primeiros cinco vocábulos deste grupo escreve Bruns. Amante. assim dizemos – barregã de frade. – Manceba está hoje sendo inteiramente desusado como sinônimo perfeito de amásia. a extensão. menos ríspido. – Comborça. a dor. ao passo que no Ocidente. . Por isso. ou ao falar de mulheres ou da antiguidade ou da Idade Média. é “fazer sereno”. sendo. mas não sendo frequente encontrá-la na casa do homem casado. ou do viúvo.. é que a palavra amante não encerra a ideia de coabitação. – Segun- do Lacerda – “podem-se domesticar os animais bravios. além da suplantação de um dos termos pelo outro. diminuem as forças. diminui a tristeza.176 Rocha Pombo enfermo. concubina. menos violento. que melhor que outro qualquer designa a mulher que só pelo interesse é concubina de algum homem asqueroso. é vocábulo que. Uma outra diferença importante entre os dois termos. Salomão tinha concubinas. é qualificativo humilhante da concubina de homem casado. nos países do Oriente. menos forte.

só ambição – diz Bruns. ouriçar”. – Cupidez é bem fácil de confundir . riçar (eriçar. longe de serem cobiçosos. Entre riçar e eriçar (ou erriçar) nota-se esta diferença: eriçar quer dizer “riçar momentaneamente. – Ratinar é. – Encrespar é “fazer crespo”. quebrantada). e franzir poderiam facilmente confundir-se. enrolar e comprimir como se faz com embrulhos”. – Marlota. “dar a aparência ou o feitio de ratina (aos panos)”. – Machucar (ou amachucar) é amolgar. “de um dia para outro uma grande dor lhe arruga as faces”. amassar. erriçar). – Avareza é vício de alma que torna sórdido o avarento. ou de encontro a outra. enovelado demais. “frisar. honras. sentiu o coração a crispar-lhe de angústia (e não – “encrespar”). embrulhar. Velhice encarquilhada (cheia de rugas e mofina. arrepiar. tirar a forma própria de alguma coisa. marlotar. “Enruga a pele o tempo”. entre o qual e encrespar pode notar-se a distinção que consiste em ser o verbo crispar aplicável a fenômenos morais melhor do que o outro. enrugar. toda ansiedade com que se quer alguma coisa ou se executa alguma função. cerrado como carapinha. 276 AMBIÇÃO. rugoso. – Frisar. na paixão pelo dinheiro. que é o radical de amarrotar (e que deu também o verbo português marlotar). é palavra árabe (mallôta) que designa “capote curto com capuz.. Aliás. encrespar.) – Encarapinhar é “fazer muito crespo. – Amarfanhar é “encrespar. gastam a mãos largas para obterem o que ambicionam”. ratinar. segundo Aul. significa “fazer felpudo. enrolar em espiral” (Aul. áspero. encarquilhar. – Embrulhar é “apertar. e quando muito deve notar-se entre eles esta diferença: enrugar enuncia ação lenta e mais completa que a de arrugar. “agitado de cólera. – Amarrotar é. achatando-a. amassar. vincos. crispar. emaranhado. ao dinheiro. cobiça. na ânsia e sofreguidão de acumular. pô-los em sentido contrário ao em que estava ou que é o normal”. pregas” (carquilhas). avareza. encrespar. encaracolar. levantá-los e deitá-los para trás. encaracolar em forma de riço”. – Encarquilhar é “encolher formando rugas. – Dos dois primeiros vocábulos. – Amassar é. começando por ser um termo genérico para indicar todo desejo imoderado. arrugar. Há ambiciosos que. Diremos: a alma lhe crispou de dor.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 275 AMARROTAR. pode ser tomado a boa parte. – Avidez (conquanto da mesma origem latina avere) não se confunde com avareza. encarapinhar. “deformar. cobiça designa um sentimento vil. reduzir ao aspeto rude da marlota”.. amarfanhar. quando se a embrulha e amassa entre os dedos. contrafazer. levantar o pelo” (frisa). Ambição significa principalmente o desejo de alcançar poder. Amarfanha-se o papel. – Encaracolar é “dar a forma de caracol. cobiça refere-se apenas à riqueza. frisar. tornar felpudo”. eriçar.. ondulado. fazer hirto como a marrafa” (cabelos do topete lançados para a testa). franziu a testa afrontando-nos”. a seda. esta distinção não é essencial. – Enrugar. – O mesmo radical deu-nos crispar. amarfanha-se uma roupa tirando-lhe o aspeto de lisura que lhe é próprio. arrugar. isto é. anelado”. “não liso e correntio. aqui. quebrar as linhas. neste grupo. e por analogia. que é “fazer em riço. justo ao corpo muito deselegante e só usado pelos pobres”. cupi- dez. – O mesmo quase diz riçar. franzir. arrepiar. e que consiste no amor desordenado aos bens materiais. sendo a de franzir momentânea. esmagar alguma coisa debaixo de outra. pois.. “Os cabelos se lhe erriçam de horror” (não – riçam). ganância. avidez. ma- 177 chucar (ou amachucar). reduzindo-a a massa informe. – Arrepiar (de arre “para trás” e pio = pilus + ar) significa “ouriçar (os cabelos). gana. dignidades.

pois. desfazer. etc. Chamam-se equívocas as palavras que se podem entender em dois ou mais sentidos. que também é formado de amphi e bollo. como ele mesmo confessa num sermão da Ressurreição (VI. duvidoso. equívoco”. vário. Deste gênero é a seguinte: “Heitor Aquiles chama a desafio”. Não me estranheis o equívoco. dizendo: “Quem tirou o véu ao amor. E assim se diz – uma palavra ambígua e – uma frase anfibológica. ambiguidade. equívoco. Ou vem então de amphibolos. mas é anfibológico o sentido. ou porque se confundem com outras da língua que se pronunciam e escrevem do mesmo modo. Vieira. até raiva incontinente”. O mau gosto dos nossos seiscentistas introduziu o uso dos equívocos como um ornato oratório. segundo Roq. “é palavra latina (ambiguitas. “lançar”. pois indica “prolongação de ato. Comete-se esta falta quando se constrói uma frase de modo que possa admitir duas diferentes interpretações. e outro. – Ambiguidade. confusão. de modo que custa descobrir ou adivinhar o pensamento do autor. de ambigo. Mas o que nem todos sabem é que esta mesma partícula em alguns poucos vocábulos tem um valor mui diferente. “Este equívoco do padre Vieira precisa explicação. – Anfibologia vem do grego amphibólia. incerto. que admite diferentes interpretações. desprezar “não prezar” etc. e significa em geral multiplicidade de significações. dúbio. andar à roda. 277 AMBÍGUO. e vox. É. ou maior . a significação de “desespero pelo ganho. em roda.. sem escrúpulos e sem medida”. sendo às vezes impossível consegui-lo. ou para mostrar agudeza de engenho. ou porque elas mesmas têm várias significações distintas. “igual”. ou fingido. porque o mostrou desvelado. artificial. que significa “ao pé. Sabem todos que a partícula des é um prefixo que corresponde ao latino dis. – Ganância tem. anfibológico. intensidade na ação. jogando de vocábulos para divertir o auditório ou os leitores. con- fuso. tão bom orador como era. incerteza na linguagem e nas ideias. – Equívoco é palavra latina. v. “desmanchar o que está feito”. discurso”. que se acha só nos termos. voracidade. Refere-se antes ao giro da frase ou colocação das palavras que aos termos equívocos dela.. e bollo. ou este àquele. que só compreende a pessoa que fala. esse lhe descobriu a cara. ou “que fere de dois lados”. e apesar de o ter como um defeito. os poetas invertem muitas vezes esta ordem. ao contrário da ambiguidade. e figuradamente “ambíguo. de dois lados”. – Gana é termo do espanhol que significa “apetite desregrado.178 Rocha Pombo com o precedente. e às vezes tão disfarçado que só o entendem os que penetram a alusão. e daquela frase pode-se entender que Heitor provoca a Aquiles. que é o que parece querer-se dar a entender. 470). Aí nenhuma das palavras é ambígua nem equívoca. confusão. posto que tenham um significado mui diverso. desviado ou apartado. pagou largo tributo a este depravado uso. dúvida. não se emendava de cair nele. fome. equívoco. e ao qual se ajuntou depois logos “palavra. g. mas regularmente tem dois sentidos – um natural e imediato. privativo ou disjuntivo. “voz”). vontade irreprimível. anfibologia. a ambiguidade dúvida. mas de ordinário aplicase cupidez mais particularmente para designar desejo imoderado em questões de amor. que em manhã tão alegre e tão festiva até os Evangelistas o usaram”. “rodear. e se antepõe a muitos vocábulos para exprimir “separação. ainda que regularmente se ponha o sujeito antes do verbo. duvidar”) e consiste em apresentar a frase um sentido geral. e significa “ferido”. incerteza. impreciso. ação feita em contrário ou em sentido oposto a outra. composto da preposição amphi. pela força do uso. aequivocos (de aequus. porque.

emprega a palavra desvelado. 278 ÂMBITO. melhor do que dúbio. que se designa precisamente. – Área é a extensão de uma certa superfície. A ambiguidade é parto de limitado talento. Ora. área. precedido da partícula des. como sucede com os charlatães e impostores. e descante. o qual. andar muito. ou atitude dúbia é apenas “a que dá lugar a mais de uma interpretação. e nós. Desconfia-se da forma duvidosa: procura-se fixar a linguagem dúbia. A anfibologia provém da ignorância das regras gramaticais ou da intenção dobre de quem fala. ou que pode deixar margem a alternativas de interpretação. volúvel. ou dos que se querem esconder na obscuridade. significaria “sem véu”. como em francês o verbo dévoiler. Entre dúbio e duvidoso pode notar-se uma diferença muito subtil que consiste em sugerir duvidoso. – Âmbito sugere ideia de superfície.. e escorreita de relações maldistintas”. ou aquela que se não pode interpretar com segurança. É mais próximo de dúbio que de duvidoso. recinto. descantar. que pode variar ou que varia constantemente. Linguagem dúbia. ou é a forma a que se pode atribuir mais de um sentido”. – Dúbio é o que é incerto. ou de fim ilícito com que se fez ou deixou duvidosa a forma. se bem que em muitos casos se confunda com ambos. é a linguagem anfibológica destinada a induzir em erro. fixa. que é composto de des e velar. ter muito cuidado. maldefinido. v. pelo contexto da sentença. mas de repente. que é indeciso. caprichoso. perfeitamente determinada”. ou para a resolução que se tem de tomar. – Imprecisa será a linguagem que não for “clara. . Linguagem duvidosa é “a que se usa de propósito para enganar. porque delata engano. que não for desembaraçada de termos ambíguos. mas com a de “privado de véu”. e também o mesmo concerto. solícito”. a incerta fortuna. pois este nunca deve jogar de vocábulos senão em obras jocosas”. lhe chamamos jogar de vocábulos. – Vário diz inconstante. desvelar. desvelado. e não significa “deixar de velar” – o que seria “dormir”. ou limitada. A esta espécie pertence o verbo desvelar. referindo-se ao verbo velar (velare) que significa “cobrir com véu”. O equívoco é “indigno de um homem franco e honrado. e deve ser evitado pelo literato. a ocultar o verdadeiro sentido”. ou espaço de extensão determinada.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 179 perfeição”. sendo confusão quando a obscuridade é tal que nada nos deixe entender precisamente. a duvidosa. vago. não com a significação do verbo desvelar-se. ou dando da mesma uma ideia. porque véu é contração de velo (de velum latino) – o que forma equívoco com a significação geralmente aceita de desvelado. – Linguagem duvidosa é aquela que não exprime pensamento certo. a forma que não for exata. com o mesmo Vieira. g. que muda facilmente. – Recinto é mais próximo de âmbito. é neste sentido que o padre Vieira tinha usado este verbo e o seu substantivo desvelo. que não significam “deixar de cantar” – o que seria “ficar calado” – mas sim “cantar muito e em harmonia ou concerto de instrumentos”. significaria “privar de véu. fazendo a partícula des privativa. descobrir”. Dizemos: a dúbia.. – Incerto é propriamente aquilo que não é determinado. o vário modo de entender as coisas da fé. e dubiedade é o estado de hesitação e perplexidade em que ficamos quando não temos um fundamento seguro para o modo como se há de agir. – Confusa será a construção que “possa dar ensejo a enganos. A vária sorte. A isto chamam com razão os franceses jouer sur les mots. ou a coisa de que se trata. e no figurado “não cuidar” – mas sim “velar muito. a ideia de esperteza calculada. pois a dúvida é o estado de vacilação em que a frase nos deixa o espírito à vista dos termos em que está concebida.

ou que não tem dono conhecido. sem eira nem beira”. e um e outro a cada um distintamente. errante. que significa – “andar vagaroso. – Teatino propriamente era o monge pertencente a uma Ordem religiosa. da explanada”. um e outro. longe do próprio país”. porém: “a voz ressoou por toda a área da sala”. ou ambos aqueles moços foram heróis na campanha. ou que se imporá algum castigo (se se trata. – Vaganau = “que vive a vagar. Esses monges de Teate viviam a pregar de terra em terra. perdido. mas ambas se requerem essencialmente para o exercício da nobre virtude da beneficência”. que não se ocupa de nada.” – Tunante é “o vadio de baixa classe. – Vagabundo acrescenta à ideia de errante a de ociosidade. e sem mais objeto que o de não estar parado: de todos é conhecida a lenda do Judeu errante. de superior para inferior). sem compreender a ideia de mister. como se não tivessem destino e se se não deixassem dirigir de nenhuma autoridade. – Ameaçar é “dizer ou protestar que se fará algum mal. e o mesmo significa atemorizar. mas: “ressoou a voz por todo o âmbito da sala” ou “por todo o recinto”. trocista e malandro”. fundada nas primeiras décadas do século XVI na Itália. que neste é necessária. Esta noção se ilustra pelo seguinte trecho de Vieira: “O querer e o poder fazer bem são duas coisas totalmente diferentes. 279 AMBOS. ate- morizar. desorientado” (equivalente ao égaré do francês). apenas análoga à própria (de romeiro): designa “o que viaja por terras estranhas. amedrontar. mas sem a ideia. vagabundo. – Perdido. – Intimidar diz propriamente “causar temor”. Daí a significação com que ficou esta palavra teatino na linguagem comum: designa o (homem ou animal) que anda vagando.180 Rocha Pombo pois designa “o espaço compreendido entre dados limites. – Ambos também se diferença de dois (ou os dois) em referir-se este ao número. 281 AMEAÇAR. despreocupado. ao conjunto. – Nômade (ou nômada) se aplica para designar o homem primitivo que não tinha morada. aplica-se a quem anda de terra em terra. arcebispo de Chieti. – Segundo Bruns. e aquele. sem rumo fixo. neste último caso. nômade. como já se disse.: – “Ambos e um e outro distinguem-se em referir-se o primeiro ao conjunto dos dois. do circo. vagante. ou habitação fixa. professor ambulante. vagabundo. tunante. vadio. – Errante. dentista. peregrino. aqui. É assim que se diz indiferentemente: a área. ou o âmbito da praça.. não se dirá. e um e outro deixaram no país legítimo renome. e que nem sempre existem unidas no mesmo sujeito. airado. e que tomou esse nome da circunstância de ser o seu fundador (Caraffa). Temos ainda este exemplo: Aqueles dois moços. vaganau. que não se submete a autoridades. intimidar. o que leva vida solta e alegre”. quer dizer “que errou o caminho. – Peregrino também apresenta aqui uma significação especial. passeante.. – Vadio “é o que vaga por ociosidade. outrora Teate.. – Airado será “o vadio elegante. à ventura.” 280 AMBULANTE. os dois. vadiagem”. ambulante diz-se de quem exerce um mister de terra em terra: músico ambulante. assustar. Há entre os dois a diferença que consiste em sugerir o verbo intimidar a ideia de que a pessoa que intimida conta com a fraqueza de ânimo da . de vadiagem: antes aproxima-se mais de passeante. que não tem domicílio certo. – Vagante é o mesmo que vagabundo. – Escreve sobre estas formas o provecto Bruns. teati- no. só por distração”.

) Pode-se. agradável. Entre agradável e grato nota-se esta distinção: o que é agradável dá prazer aos sentidos. Entre delicioso e deleitável – não é possível ver as diferenças que notaram Roquete e Lacerda entre delícia e deleite. a boa música. deleitoso. entender assim: que é deleitável o que 23 Já o poeta dissera. o que é delicioso causa abundância de delícias. Agradáveis são as belas paisagens. ou induzi-lo a ceder a motivos imaginários”. aqui. Neste ponto ainda preferimos Bruns. Deleite é o gozo dos sentidos”. É deleitável o que nos dá prazer. suave. Tudo o que causa prazer é agradável. ou a função mais aprazível é a do juiz que salva a inocência. – Delicioso é mais do que aprazível. Deve notar-se uma certa diferença entre estes dois verbos: intimida-se a um menino ameaçando-o de cortar-lhe a mão se tocar no doce.” É aprazível um panorama. delicioso diz muito mais que deleitável. se atendermos a que a desinência oso designa “abundância”. valor ou qualidades do que lhe dá origem. – Sobre delicioso. “qualidade”. – é agradável. isto é. Portanto. – O que é ameno – diz Bruns. – Aprazível é aquilo “(tanto no mundo das coisas como na esfera moral) que nos encanta a vista. segundo o qual – “delícia. etc. aprazível. Entendem esses autores (seguidos por muitos outros) que deleite indica o maior grau de delícia. não só exprime o prazer sentido. é delicioso o que nos arrebata. bem se poderia admitir que um herói se atemorizasse do castigo divino. a do artista que nobilita a sua arte. – Assustar. o grato sensibiliza”. mas. e avel. mas também. os perfumes. no entanto. e sobretudo. 282 AMENO. que é agradável é ameno. Muito longe disso – é no sentido moral que delicioso exprime o mais alto grau do prazer23. Querem os dicionaristas que deleitável e deleitoso designem a mesma ideia. para que aquilo que causa prazer seja ameno. e nada mais aprazível no mundo do que ser útil ao nosso semelhante. A trovoada amedronta até espíritos fortes (e ninguém diria – aqui intimida). Não seria próprio.. A delícia consola os sentidos e o espírito. falando da saudade: – o delicioso pungir de acerbo espinho. delicioso. nem a criatura alguma incapaz de sentir o verdadeiro temor. nem um idiota. um medo sagrado. ou que nos excita na alma um sereno prazer – e cândida alegria. gratas são as provas de amizade. porém. deleite carnal (não – delícia carnal). isto é – que propriamente deve aplicar-se só em relação às sensações. inocentemente deleitável. dizer que um herói se intimida. Ora. Também não se atemoriza a uma criança. encarece o mérito. O agradável apraz. e o mais recente de todos eles chega a preferir a forma deleitoso a deleitável. – Amedrontar é que convizinha muito de perto com intimidar: quer dizer “impressionar algum ânimo fraco”. . enquanto que sem desar para ele. portanto. (E não completa infelizmente o autor a exposição do seu modo de ver. obteremos a verdadeira diferença que há entre os dois adjetivos”. é “produzir medo súbito e quase pavor com que se ameaça alguém”. deleitoso escreve o mesmo seguro Bruns. as recompensas ao mérito. E tanto é assim que dizemos: delícias do Paraíso (não – deleites). amedronta-se o ladrão (que vai penetrar na casa) disparando para o ar o revólver. atendendo aos fundamentos que ele oferece. Só no uso comum é que se pode entender de delicioso como entende Lacerda. as demonstrações do reconhecimento. grato. que é um escrúpulo ou um forte movimento de consciência.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 181 pessoa que é intimidada: o que não se dá com atemorizar. deleitável. “tolhê-lo. o que é grato é relativo aos sentimentos.: “O que é deleitável causa-nos deleite. é necessário que o gozo seja puro. deleitável. nem tudo.

tirar a acuidade ou agudeza”. Por isso dizemos – acumular empregos ou cargos... 283 AMOLGAR. acumular as pedras que vêm da montanha. ou uns a outros”. deu mostra ou mostras de indiferença (e não – amostras). indício.” Amassou o chapéu. já excede à medida normal. dobrando. amassando. esmagar. a carteira. o livro. juntar sem ordem”. Entre amostra e mostra parece que não há mais diferença que a de ser o segundo mais aplicável no sentido moral. ou – os peixes que se estão pescando: porque em todos estes casos não se subentende medida a encher. – Todos estes verbos enunciam a ideia de reunir. – Amolgar significa “tirar a um objeto ou a alguma porção desse objeto a forma própria deprimindo. Usa-se também no sentido figurado para designar o ato ou o efeito de causar funda impressão no ânimo de alguém. depressa ajuntará dinheiro ou fortuna”. seja como for”. É usado igualmente no sentido moral. – Amossar é produzir mossa (marca de pressão violenta sobre corpo compressível). o pedaço. comprimir violentamente. reunir é “tornar a unir”. ou esmagando”. isto é. ou campo. sinal. Aul.. com toda aquela atividade e economia.. – Amontoar é “reunir aos montes. nem – acumular as frutas que se estão colhendo. amossar. É o mais genérico do grupo. que lhe abolou o elmo.. achatar. mostra. é “de uma certa coisa uma parte ou porção com que experimentamos a qualidade dessa coisa”.” Pode-se dizer indiferentemente: “reunir ou ajuntar as forças debandadas ou dispersas”. Dizemos: o deleitoso vale. achatar. – Deformar é “tirar a forma própria. segundo Lacerda. formar montão. acumular fortuna ou riquezas. É por isso que dizemos: “aquele homem. “o que dá . prova. formar de algumas ou muitas coisas um só volume”. – Amostra é “o resumo. ajuntar. quebrar as arestas a. – Ajuntar e reunir são muito difíceis de distinguir-se: ajuntar é “pôr um ao lado. ou reunir. deformar. “Emaçamos os papéis. emaçar. – Abolar é reduzir a bolo..) – Arrumar é “propriamente pôr em rumas.. o fragmento de uma coisa. – Sinal é. 284 AMONTOAR. Aí deve usar-se o verbo amontoar. Usa-se também no sentido translato para exprimir o efeito de causar impressão forte (fazer mossa). de associar coisas em quantidade. (e sim – reuni meus irmãos. abolar. ajuntar. e não – deleitosa).: “Com tamanha pancada.. tanto no sentido figurado como no natural. Dizemos: uma prosa deleitável.182 Rocha Pombo produz deleite. – Esmagar é “espremer. amassar. arranjar um sobre outro”. mas não dizemos – acumular o trigo no campo. reunir. tirar a forma de. e arrumamos os maços no armário ou na estante”. Dizemos – amostra do pano (e não – mostra). arrumar. – Prova. ou mesmo uma noção perfeita dessa coisa”.. e com que se dá uma ideia. e não diremos: “aquele homem reunirá. – Acumular é sinônimo quase perfeito de amontoar: apenas acrescenta à significação deste uma ideia de continuidade e de reflexão: o que se acumula já sobra. ou paragem (e não – deleitável).. portanto – é “unir outra vez o que já fora unido”: e aí está no que consiste a diferença entre os dois. unido ao outro.. rombo. e é deleitoso o que está cheio de deleites. – Embotar é “fazer boto. 285 AMOSTRA. mas ninguém diria: ajuntei meus irmãos para combinarmos a resolução mais acertada”. triturar”.. da Ac.” – Amassar diz propriamente “deformar reduzindo à massa. neste grupo. demonstração. ou ajuntar em maço. registra este exemplo do Dic. de formar conjunto. embotar. – Emaçar é “reunir. acumular.

amplitude. O . amplitude significa extensão maior ou menor. longe do convívio do mundo. Amplidão significa extensão sem ideia de quantidade precisa ou determinável. chama-se-lhe tartufo. denuncia. de infinito. 287 ANACORETA. do espaço. “vida”) é o monge que não procura precisamente a solidão. e aí vivem entregues à meditação religiosa. quando esta palavra se refere aos católicos romanos. que é mais – grande extensão. As palavras são sinais das ideias. cenobita. e talvez exprime ou representa. As nuvens grossas são indícios de chuva”. é “uma prova mais completa. aquela é mais vizinha de imensidade. É dos mais extensos entre os do grupo. Em todas as religiões há ascetas. leva ao conhecimento de algum objeto. de um certo espaço mesmo. pois é equivalente de infinito. em lugar isolado. – Anacoreta. manifestação mais decisiva”. – Eremita (ermitã ou ermitão) é o religioso que. “comum”. de infinito. monge. solitário. frade. de privações voluntárias. – Grandeza é propriamente a qualidade de ser grande. religioso. Dizemos ainda: tratar do assunto em toda a sua amplitude (e não – amplidão). um sinal mais claro. devendo logo notar-se que ambos têm aqui sentido figurado. para viver na contemplação e no estudo. Na maioria dos casos. dizendo – imensidão do céu. – Demonstração. e bios. 286 AMPLIDÃO. aqui. amplitude fora do comum. Este vocábulo toma-se sempre à boa parte. a amplidão do espaço. mas. O cenobita (do grego koinos. extensão. salvo se a esta déssemos um completivo. – Vastidão é a qualidade do que é vasto. – É asceta qualquer pessoa que despreza o bulício do mundo e se entrega inteiramente a exercícios espirituais (sendo o ascetismo independente de qualquer ordem religiosa). e gozar a seu modo de um isolamento que não é absoluto. – Solitário é termo genérico: diz-se indistintamente de quantos vivem em sítios apartados. – Indício é o que indica. aponta. é muito semelhante a amplitude e a grandeza: designa as proporções de uma superfície. O monge é como o desenganado que foge ao mundo e aos homens.. grandeza. Dizemos: aqui estamos a enfrentar com a imensidade (e não – com a imensidão. enquanto que imensidade sugere ideia de ilimitado. – Amplidão e amplitude são duas formas vernáculas da mesma palavra latina amplitudo. das estrelas). é-lhe inerente a ideia de mortificação do corpo. Figuradamente se diz de qualquer pessoa que vive retirada do trato social. eremita. da praça. cuida de uma ermida ou capela. fanático. de vastidão. de vida retraída. asceta. a não ser por figura muito forçada). de uma linha. – Extensão. quando o asceta o é só na aparência e nas exterioridades. fora da acepção própria que tem na tecnologia científica. O vasto âmbito da sala. imensidade. etc. – Entre imensidade e imensidão mal se poderia marcar uma diferença muito subtil. hipócrita. o mesmo não se dá com imensidão. vastidão. amplidão infinita (e nunca amplitude infinita. imensidão sugere ideia de grande número. imensidão. – Há mais austeridade na ideia sugerida pela palavra monge que na do vocábulo cenobita. pois. denota. ou melhor o sentido que por extensão se lhes dá comumente. “aplica-se aos que se retiram do vaivém do mundo para sítio isolado. – Âmbito é o espaço compreendido dentro de certos limites.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 notícia de outra coisa com que tem relação. Dizemos: a amplitude de um campo. Imensidade é mais do que sinônimo perfeito. mas sim a companhia de alguns homens da sua feição. etc. para com eles viver em comum. Esta é mais próxima de grandeza. segundo Bruns. âmbito. de quantidade extraordinária.

é a repetição abreviada dos argumentos. se recorde o texto da obra principal. desgoverno. ou tão somente o fim de expor o objeto. – Sumário é uma exposição das principais matérias contidas no texto. Em sentido lato. Noutro sentido. – Desconcerto é ausência de acordo moral – e a desordem que revela esse desacordo. – Compêndio é a exposição abreviada dos princípios de uma ANÁLISE. dizse. como termo filosófico – anarquia será o vocábulo com que se há de designar “o regime social independente de autoridade política. porque se aplica a todos quantos se dedicam à vida religiosa. como termo escolástico. Num sentido menos vulgar. ou a direção da sociedade humana só pelas leis morais”. – Desgoverno. mais frequentemente do sumário que precede a cada uma das divisões de um poema”. – Extrato é a cópia literal de um ou vários trechos de uma obra. – Resunta. no entanto. resunta. mau governo. observa os preceitos que ela lhe impõe. pensa ser inspirado pela divindade. é o mesmo que resumo. no uso comum. – Argumento é o mesmo que sumário. balbúrdia. pró ou contra. Em acepção mais alta. – Súmula é “uma pequena suma. cizânia. Noutro sentido. concerto. e fecha os olhos às desgraças da terra que não remedeia para não se distrair da contemplação em que vive. resumo. muito longe de ser “falta de governo”. porém. religioso é sinônimo ainda mais próximo de monge e frade. dos costumes próprios de uma sociedade. – Religioso diz-se daquele que. – Epílogo é o “resumo que se faz no fim de um trabalho literário (discurso. se têm como sinônimos perfeitos. o legítimo asceta é geralmente egoísta. ou os artigos de uma revista”. destempero na administração da coisa pública. quer por simples resolução. Nesta acepção. feita pelo que defende alguma tese. des- extrato. . desordem. recapitulando a matéria de que no entrecho se tratou desenvolvidamente”. 288 arte ou ciência. – Desordem é “falta de ordem normal”. – “Na série de ideias em que os primeiros sete vocábulos deste grupo são sinônimos. pois o fanático julga-se superior ao resto da humanidade. de poder público”. – Suma é “o resumo que nos dá em substância a matéria de um trabalho”. no entanto. infração dos princípios morais. Mas religioso é palavra de mais lata extensão. o plano e a sequência das ideias explanadas na obra de que se trata. desregramento. é desregramento de autoridade. reduz a sua doutrina. sumário. poema. propriamente só os que exercem o governo é que podem praticar desgovernos. súmula. pois pretende a bem-aventurança para si. – Anarquia e desordem são palavras que. ao lê-lo. etc. o frade é do convento. caos. epílogo. anarquia é “ausência de governo. Em política. confusão. análise diz-se de trabalho literário ou científico em que é examinado outro de igual natureza. suma. seja qual for a sua crença. compêndio. consubstanciando-a e resumindo-a. quer ligando-se a ela por votos. – Desregramento é “desvio das normas. de modo que. 289 ANARQUIA.). – Fanático diz-se de quem é ultrarreligioso. epítome. o termo mais apropriado é epítome. drama. sem pretensões a substituir outro. discórdia. Entre monge e frade há a mesma diferença que entre mosteiro e convento: o monge é do mosteiro. pode ter por objeto a crítica. se diz da obra literária que extrai abreviadamente a doutrina de outra. um sumário em que se indiquem apenas os capítulos de um livro. quer que tudo e que todos se amoldem às suas imposições.184 Rocha Pombo asceta. porém. porém. Esta palavra toma-se a má parte. argumento. são precisamente distintas. – Resumo é o livro que.

. criando transtornos. separar em partes um órgão. mas aquele é fulminado contra os que da Igreja se emanciparam: o seu fim imediato é o de incitar ao ódio e à perseguição. veementes furores”. de qualquer grêmio). – Cizânia é mais – “falta de harmonia. Luiz.. como se tudo estivesse em turbilhões.. para examinar-lhe a estrutura. ou quando labuta na incerteza de se qualquer sucesso. amaldiçoar. 290 ANATEMATIZAR. de uma família”. – Anatematizar e excomungar exprimem de comum a ação de excluir. banir do grêmio da Igreja (e no sentido geral. sem desvarios e estrondos. por alguém que se sente abalado de grandes amarguras.. – Velho exprime simplesmente “o homem que tem chegado à idade da velhice”. ânsia. autópsia. – Ancião ajunta à ideia de velho a de autoridade: é o velho respeitável e digno de veneração pela sua sabedoria e probidade”. feito diretamente pelo médico”. antes da criação da vida. às injúrias e ao desprezo contra aquele que a Igreja anatematizou. tornando-se difícil restabelecer-se a paz. “Deve ser horrível a ânsia com que o réu espera a sentença do júri”. “visão da alma”. a seguinte diferença: “o anátema dimana. de boa paz” do que propriamente discórdia: e distingue-se desta ainda em sugerir a ideia de que foi um terceiro que a lançou ou acendeu. para o qual parece que não há mais corretivo. 292 ANCIÃO. E dá estes entre outros exemplos.. “Um prisioneiro espera com ansiedade o dia em que se há de ver livre”.. O monge partiu amaldiçoando a cidade. lhe não é obediente”. – Confundem-se or- dinariamente estes dois vocábulos. pertencendo a ela. – Confusão é “a desordem que chegou ao seu mais alto grau.. – Destes dois vocábulos diz S. neste grupo.. o transtorno geral em que ninguém mais se entende. velho. – Caos é o estado que se compara ao da matéria amorfa.: “Ansiedade difere de ânsia como incerteza difere de receio. A excomunhão é a sentença ou decisão da autoridade eclesiástica pela qual se exclui do grêmio da Igreja aquele que. Há ânsia quando se receia que um mal suceda”.. dos poderes eclesiásticos. 291 ANATOMIA. – Maldição exprime ideia mais genérica do que anátema. expulsar. se realizará ou não. e a dissecção consiste em dividir. 293 ANSIEDADE. ou “visão interior”. maldição. como a excomunhão. o estudo de todas as partes de um órgão ou de todo um cadáver. de concerto moral. – Discórdia é “desconcerto profundo e violento. excomunhão. hostilidades. enquanto que maldição é um como anátema lançado por alguma alta autoridade moral. excomungar. de funda consternação. Como termo de Medicina. Não se compreende discórdia sem agitação. – Balbúrdia é grande desordem. e num sentido mais alto e abstruso. anátema. a arte de dissecar. Aquele filho que os pais amaldiçoaram.. bom ou mau. – Autópsia significa propriamente “vista de si mesmo”. Nestes termos a eles se refere Bruns.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 185 de uma instituição.. devido à irrupção de paixões. Há ansiedade quando o espírito está inquieto esperando que um sucesso feliz acabe de realizar-se. Mas entre anátema e excomunhão nota Bruns. – Ana- tomia é. é o “exame minucioso. de sagrados ressentimentos. ou todo um organismo. pois este é a maldição formal imposta pela Igreja. dissecção. “Vive em ânsias (ou na ansiedade) aquele que receia a cada momento . da organização de seres animados: é o extremo da confusão. O profeta que amaldiçoou os meninos perdidos.

mais talvez sofrimento físico do que moral. endemia. anexado. no entanto. marchar. anexação. Devemos acrescentar. 294 ANDAÇO. “em. de qualquer modo que se faça este trânsito: e tem relação a um ponto determinado a que a pessoa ou coisa se dirige. epidemia. como não dizemos – a ansiedade. transitar. por várias regiões. doença que grassa pela terra.186 Rocha Pombo que lhe descubram o desfalque. aos seus trapos: não seria próprio. farrapos. que ansiedade sugere mais ideia de impaciência aflitiva. sem relação a pontos determinados. em certos tempos ou estações do ano”. incorporado. – Ir é andar. “povo”) as que provêm da infecção do ar. – Segundo Roq. distrito ou paragem”. ou pelas roupas. viajar”. seguir. e devido a causas puramente locais”. o cólera-morbo. e nunca decerto se empregaria no caso o vocábulo andrajos. que é realmente muito subtil. os males venéreos. das outras pela ideia que sugere de grande miséria dolorosa e como que sagrada. Não dizemos – a ânsia. ou de certos climas.” – diríamos referindo-nos à pobreza. 297 ANEXAR. ou as ânsias da morte. que pode levar consigo certos miasmas morbíficos. – Andar é mover-se dando passos para diante. – São palavras que quase sempre se empregam indiferentemente para designar as roupas velhas. Por excesso de modéstia.. – Seguir é propriamente “continuar a viagem começada. peste. – Estas palavras têm de comum a ideia. “Aqueles farrapos da antiga opulência. ou que foi anexada a outra. 296 ANDRAJOS. roupas muito rotas e sujas. de associação de uma a outra coisa. mas – a ânsia. ir. caminhar. – Transitar exprime a ideia geral de “passar além.. aperto do coração. ou seja imediato. – Caminhar é fazer caminho.. ir de viagem de um lugar para outro. – Chamase epidemia. marchando ou caminhando para diante”. ou fazer alusão aos seus farrapos. a esta lista a palavra peste.. Acrescenta Bruns. fazer caminho. A primeira distinguese.. 295 ANDAR. por tango “tocar”) é uma enfermidade que se comunica pelo contato. – Marchar é “andar ou caminhar compassadamente: dizse especialmente da tropa de guerra quando vai com ordem de marcha”. entretanto. incerteza dolorosa – do que ânsia. correndo às vezes toda a extensão do globo. comunicando-se de umas a outras”. – Passar é “dirigir-se para algum ponto atravessando um caminho ou uma certa zona. Tais são a sarna. de um lugar para outro. por meio do ar. fica fazendo parte desta conquanto . – Andaço é palavra vulgar que indica epidemia menor. referir-se. ou enfim. sujas ou rotas de que se cobrem os mendigos. estendendose a províncias e reinos inteiros. contágio. etc. móveis. a febre amarela.” – Parece que não se distingue bem a diferença. anexo. e demós. etc. vestida com certo apuro.. ou então por orgulho gracioso. ou mesmo à mediania a que tivesse descido um homem rico. poderia uma pessoa elegante. sobre”. in- passar. A coisa anexa. antiq. Tais são certos catarros. incorporação. molam- bos. ou mover-se corporar. – Molambos é brasileirismo significando – trapos. ou enfermidades epidêmicas (do grego epi. qualquer corpo infestado. a peste de Levante. a lepra. que usasse andrajos. – Endemia é “mal próprio de um país. mas – a ansiedade de quem espera. “que se diz das graves epidemias que semeiam a morte em províncias e nações. que sugerem. que é angústia. etc. o contágio (de cum e tago. trapos. no entanto.

um Estado. destacando-se do México. – Anexo diz-se. unido. formam uma. – A maior parte destas palavras são quaiseirismos comuns. Uma força militar que se incorpora num exército perde inteiramente a sua forma ou condição antiga. escaldado. Um Estado que se incorpora a outro passa a fazer com este como um só corpo. desencaminhando. Mesmo quando se diz que se recrutam partidários para uma causa. ou um país qualquer que se anexa a outro continua a ser o que era anteriormente. nenhuma delas fica imperando sobre a outra: eram duas. sob o comando do mesmo chefe. angariamos amizades que nos sejam úteis na desgraça. dá-se ideia do esforço e trabalho com que se angariam esses partidários. aplicam-se indiferentemente à farinha de mandioca escaldada em água. – Incorporar designa uma ação ou efeito mais completo que o da simples anexação. com aquilo a que foi anexado. sendo o pirão apenas a farinha fervida ou aferventada em água ou em caldo de peixe. ficou sob o pacto federal daquela outra república sem perder o predicamento de Estado. por exemplo. dependente. Neste exemplo marca-se bem a distinção entre os dois verbos: “A Alsácia-Lorena foi anexada à Alemanha em 1871. – Mexido e revirado são massas de farinha com peixe ou carne. Essas freguesias. recrutar. – Angaria- -se “fazendo acordo. designa o que se associou a outro sem perder coisa alguma das suas condições próprias. dependente. entre os brasil nem sempre se nota diferença essencial e precisa. admite-se que o angu é mais condimentado. uma ideia comum fundamental diferenciada por ideias acessórias): o que está anexo forma. um todo em que nenhuma das partes fica dependente nem nenhuma dominante. o pensamento constante da política alemã tem consistido em fazer tudo por incorporar definitivamente aquelas províncias ao império”. – Alicia-se “enganando. – Angu e pirão. mingau. pirão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 187 conserve o seu modo de ser ou o seu caráter individual. – Recruta-se com autoridade. pois. porém. Entre diversas províncias unidas não há nenhuma a que se atribua hegemonia ou preeminência. dois primeiros. seduzindo com muitas promessas e vantagens”. Quando muito. angu ou mingau. Uma repartição que se anexou a outra fica apenas sob a mesma direção sob que esta se acha. escreve Bruns. 299 ANGARIAR. Quando duas freguesias se anexam. ficam dependentes da mesma diocese. revirado. papa. 298 ANEXO. sendo apenas mais . Recrutam-se praças para um batalhão. e desde essa época. mexido. isto é. Angariamos adeptos para a nossa causa. 300 ANGU. e passa a formar com esse exército um só todo. perdendo o seu caráter individual.: “Estes dois adjetivos exprimem ideias diferentes (isto é. – Sobre os ainda que per se constitua um todo à parte”. aliciar. O Texas foi anexado à União norte-americana. Isto se entende principalmente em matéria política. melhor ainda que anexo. quase sempre à força. daquilo que recebe domínio alheio ou lhe pertence. recebe domínio alheio. tratando com boas maneiras a pessoa ou pessoas que se quer atrair ao nosso partido ou ao nosso serviço”. – Escaldado é o mesmo que pirão. recrutam-se os conscritos refratários. apenas adstrito à soberania do país a que foi anexado. tudo muito misturado e revolvido. formando corpo à parte. do que forma parte de um todo. e há quem alicie inocências para a miséria dos bordéis. operários para as nossas oficinas. Alicia-se gente para a revolta. Dependente diz-se do que. – Unido.

– Excepcional é o que não se conforma com a regra geral. excêntrico. – Desordenado é “o que sai da ordem vigente. que não se opera segundo as condições normais. ANOITECER. as leis conhecidas. é vontade. enquanto que a excepcionalidade consiste apenas em “não entrar a coisa excepcional na regra instituída. aspiração. tem-se anseio (ou anseios) por alguma coisa que nos apaixona. – Irregular distingue-se de anormal em sugerir mais claro a ideia de infração culposa: ideia que não é essencial no outro. do que infringe a regra instituída. – Anormal é “o que infringe a regra dominante. excepcional. de sagu. muito altas ou muito difíceis. monstruosidade. Difere muito de anormal. – Aspiração é desejo mais grave. etc. e particularmente designa comida grosseira. – Anormalidade é ato anormal. ou de arroz. anseio. de milho. ou de coisas excelentes. 302 enoitecer. as normas aceitas. feito de farinha (de mandioca. – Distingue Bruns. etc. numa certa regra que rege o maior número das coisas ou fenômenos de que se trata”. etc. mas que se afasta da gramática pela construção viciosa ou absurda. desejo. que não se põe de acordo com a ordem conhecida e aceita”. desordenado. como anseio é anelo mais ardente e fervoroso. É anômalo “um mal desconhecido. – Anelo é desejo mais intenso e solícito. mesmo que seja isso apenas aparentemente. – Papa significa “massa em geral”. – Mingau é um angu especial. disformidade. o menos expressivo e forte. A estação tem sido muito anormal (fora do que comumente se observa). da regra comum. É uma anomalia moral um sujeito malvado professando uma religião de paz. deforme. muito bem estes dois verbos. da ordem estabelecida. açúcar. disforme. As anormalidades . alimentam-se grandes aspirações que raramente se realizam. irregular. pois este não se adstringe a regra nenhuma. qualidade do anormal. ou que se não acha no estado ordinário”. excentricidade. de trigo. Para minha alma enoiteceu no dia em que vi morta minha filha. – De todos os vocábulos deste grupo. e só excepcionalmente é que ele se mostra calmo). anor- extenso do que estes.) com ovos. ou um sintoma aberrante em certo morbo”. É anomalia de linguagem toda forma admitida pelo uso. leite. Aquela calma em F. – Irregularidade é a qualidade do que é contrário à boa ordem. anomalia. O eclipse enoiteceu a face da Terra (não anoiteceu)”. – “Anoitecer é o fenômeno que observamos cada dia entre o pôr do sol e o cerrar da noite. de frutas. Tanto dizemos – escaldado de farinha (esta fervida em caldo de carne ou de peixe) como – escaldado de ovos. – Desejo é vontade mais viva. deformidade. pois apenas significa a disposição favorável de agir em qualquer circunstância. Quando chegávamos à fazenda. monstruoso. sente-se anelo (ou anelos) do Céu. 301 ANELO. malpreparada. isto é. – Tem-se vontade de sair cedo de casa (sem fazer disso grande questão).188 Rocha Pombo 303 ANÔMALO. excepcionalidade. anormal. fica fora das leis. malidade. – É anômalo o que se afasta do usual. qualquer substância pouco consistente. anoitecia. não está no seu temperamento. – Enoitecer é o fenômeno anormal que se pode observar a qualquer hora do dia quando o tempo se escurece por uma causa qualquer. vulgarmente. que se tem como fazendo votos e procurando vê-los realizados na vida. As irregularidades de uma vida licenciosa nem sempre se poderá dizer que sejam anormais. é anormal (isto é. tem-se desejo de possuir algum bem que nos agrada ou nos encanta. vonta- de. irregularidade.

numa criatura nem sempre serão irregulares (isto é. que se costuma pôr à margem do texto para explicá-lo. e só figuradamente é que se emprega excentricidade para significar “o que tem um indivíduo.. do centro que lhe é próprio. e procura achar o verdadeiro sentido do texto que se interpreta. 305 ANOTAR. e aplica-se de preferência ao homem”.”. à justiça. – Excêntrico é propriamente o que sai do núcleo. etc. Mais extensão admitem as anotações. antigo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 189 de gosto. um fenômeno. explicação. por engenhosa que seja a interpretação. supõe ambiguidade. apostilar. É assim que a anotação instrui. (Comento vale mais por nota e fica em relação a comentário como nota em relação a anotações. velho. como aquelas. de original. “as anotações e as notas se empregam para aclarar e ilustrar (anotar) alguns lugares de uma obra. etc. mas rigorosamente falando. por sua parte. – Mais extensas que as anotações são as explicações. explicar. – Anoso dizemos melhor tratando de coisas ou de fenômenos. idoso. pois não se limitam. comentar. conhecido só de alguns eruditos. existência que conta grande número de anos). ou cuja vida ou duração é tão extensa como um século”. explanação. de afeições. Também se chama assim a nota marginal posta em autos. – Cota é “a citação de autor posta à margem. que lhe é essencial. sem a forma própria do gênero. anosa existência (carvalho. O anoso carvalho. as quais. comento. que exagera a forma própria comum”. – Disforme e deforme poderiam confundir-se se se disfarçasse o valor preciso dos respetivos prefixos. secular. fixando seu verdadeiro sentido. – Explanar é “explicar. Mas disforme quer dizer “fora da forma usual. a aclarar o sentido da frase ou palavra.). notas. de anomalia na conformação (deformidade)”. apostilas. assim a interpretação. são extensas e eruditas explicações de um texto”. ou para completá-lo.) – As apostilas são notas ou glosas (ou observações elucidativas) quase sempre pouco extensas. – Idoso equivale a “anoso. interpretação. afastando-se do que se nota em todos ou no comum dos indivíduos. Também se chamam notas os reparos e tachas que se põem a alguns escritos. etc.) – Assim como o fim das anotações é explicar com clareza e exatidão as frases e palavras. explanar. derrama sobre o texto uma luz que a todos alumia. – Velho é “aquilo que está gasto. em linguagem exata. à inteligência comum. tornando simples e fácil de entender um . – Secular é propriamente “o que conta séculos de existência. as notas são curtas. ou um sentido oculto ou obscuro que se aclara com autoridades e raciocínios. estragado pelo tempo”. uma coisa. – Antigo é “o que é tão velho ou tem tanta idade que já se acha fora de uso”. sempre nos deixa em dúvida. que vêm a ser como breves comentários das obras.. cotas. e a interpretação limita-se a apresentar razões pró e contra. e só dizem o que é precisamente necessário para aclarar e ilustrar a obra. e envolve ideia de vício. da direção. de irregularidade repugnante à moral. ob- servações. nem sempre serão contrárias à moral. de tendências. anotações. coisas ou fenômenos do mesmo gênero”. glosas. porque cada leitor se julga com direito de ser intérprete. senão que se estendem a facilitar a inteligência das coisas ao vulgo dos leitores”. à justiça. interpretar. deforme significa “defetivo. bem-feita. que excede. A anotação. 304 ANOSO. a referência à matéria deles. (Quem explica não faz menos do que “desdobrar aquilo que é complicado”. comentário. – Deforme confundir-se-ia com monstruoso se este não sugerisse a ideia. – Segundo Roq.

de uma questão – há de explicar-lhe os termos e esclarecê-los de modo que se torne mais facilmente inteligível. – Escurecer é o mais genérico e vago do grupo.190 Rocha Pombo texto. lúgubre”. – Meridional quer dizer – “que fica ao sul de um outro ponto designado”. pois que significa “fechar ou fechar-se como hostilmente”. severo. de um problema. toldar. melhor do que aquele. A saudade ensombra-lhe o semblante. obcecar. e neste caso não seria aplicável meridionais. nublar. de uma forma um tanto vaga ou abstrusa. que se isolou moralmente da nossa intimidade. escurecer. enquanto que carregar diz muito mais. fazer menos claro e límpido”.. meridional. A paixão política obscurece os espíritos mais luminosos. – Anuviar é “toldar de nuvens. obscure- cer. – Toldar é semelhante a nublar. mares antárticos. – An- tártico significa “que está abaixo do círculo polar do sul”. – Austral designa todo o hemisfério oposto ao boreal. fechou a alma. ou a cor mais viva. – Obscurecer sugere ideia mais sensível de atividade subjetiva: significa “privar de luz. – Obcecar (no sentido figurado) confunde-se com obscurecer. austral. Ele carregou o semblante ao ver aquela miséria. exprimindo “a ação ou o efeito de fazer ou de fazer-se escuro. a ideia de turbação e escureza. – Dizemos também – terras ou mares austrais – para designar os que ficam no hemisfério do sul. prévio. “termo especulativo que. – Ensombrar é “fazer sombrio. portanto. É mais próprio. a dor como que lhe nublou um tanto a razão naquele instante. Quem se incumbe da explanação de um texto. ensombrar. sendo a treva (tenebra) a ausência completa da luz24. carregar. aquele sacrilégio ficou para sempre a ensombrar-lhe as magnificências do sólio sagrado. no sentido figurado. . deixar em meia-luz”. Quando se diz que F. como se vê deste exemplo: “Esta miséria jamais nos há de obcecar. escuro.. torvo.” Escurece o tempo. – Fechar equivale ao precedente. Enoitar diz propriamente “pôr ou deixar em noite”. Em nenhum destes casos seria de tão lídima propriedade o verbo anuviar. segundo Bruns. 308 ANTECEDENTE. Eclipsar significa “escurecer pela interposição de corpo opaco entre a luz e o órgão visual”. fechar. – Antecedente é. Muito raro será o caso em que. 306 ANUVIAR. quer-se dizer que F. – Carregar tem uma acepção especial. fazendo o radical tolda em toldar função análoga à de nuvem em nublar. – Tanto no sentido natural como no figurado exprimem de comum estes verbos a ideia de eclipsar. entenebrecer. sendo apenas de menos intensidade que o outro. precedente. dizer – hemisfério austral – em vez de hemisfério meridional. de fazer sombrio. se pôs em guarda conosco. – Entenebrecer é mais forte que escurecer. um princípio. uma frase”. devendo notar-se que a predicação de obcecar é mais completa e direta. Dizemos: o tempo está meio nublado. – Nublar é quase o mesmo que anuviar: apenas este sugere. ensombrar como se entre a coisa anuviada e a nossa vista passasse ou se interpusesse uma nuvem”. 307 ANTÁRTICO. cobrir de sombras. não se possa substituir um pelo outro. como se escurece a inteligência mais lúcida. que envolve ideia de toldação e ensombramento. Terras. ensombrou-se aquela alma à vista de tal cena. mesmo no sentido figurado: significa “fazer sombrio. grave. à ideia de ante24 Poder-se-ia juntar a este grupo os verbos eclipsar e enoitar.. tem valor análogo. No sentido fig. anterior. pelo menos não tanto quanto as divícias lhe obscurecem o senso moral para a justiça”.

O capítulo precedente ao capítulo IV é o capítulo III. contam com desvanecimento grande número de predecessores.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 191 rioridade. predecessor. mas de modo indeterminado. de influência. O que é anterior está antes ou precede. O serventuário de um ofício.. como precedente. isto é. e corresponde mais ao cerimonial. com muita razão: “Predecessor indica sujeito ou classe elevada. pais. – Ascendente dizemos de qualquer dos parentes de que provimos: o nosso pai. Os reis. mas não deverá dizer: os meus predecessores”. às dignidades.. – Pais. em geral. Neste vocábulo o que predomina é a ideia de que. Esta palavra encerra algo de nobre e de elevado. dentes. não se intercala nenhum outro fato ou nenhuma outra coisa. e predecessor é o que o ocupou antes do antecessor”.. antepassados ou antecessores. designa prioridade no espaço ou no tempo. 310 ANTECESSOR. – Precedentes são os fatos que precedem imediatamente o fato de que se trata. como avós. – É pre- “antecessor é o que ocupou algum lugar em relação ao que nele lhe sucedeu imediatamente. mas também necessário. o II ou o I. tiveram seus antecessores nos cargos. enquanto que antecessor corresponde à ordem material de sucederem-se as pessoas umas às outras. mas é preciso notar que. os duques. não só anterior. etc. fazendo alusão à conduta que parece explicar de perto o delito de que se acusa esse criminoso. os funcionários da administração. Notando-se defeitos no contrato anterior. tem ascendentes. isto é. antepassados. Dizemos também: os precedentes de um criminoso. aos privilégios. que ascendentes é “o termo mais genérico e o menos pretensioso entre os primeiros três deste grupo. Dizemos: os antecedentes históricos de um certo acontecimento. O pobre como o rico. mas só a primeira dessas denominações quadra bem na boca de todas as classes. dirá: o meu antecessor. etc. avós. de figuras que os precederam na dignidade. o gerente de uma empresa. são nossos ascendentes. – Anterior e prévio devem distinguir-se. – Antecedentes de um fato são todos os fatos de que esse fato decorre como uma consequência ou corolário. – Anterior. reúne frequentemente a de causa. entre o fato atual ou a coisa presente e o fato ou a coisa precedente. precedentes. avoengos. o nosso avô. Acrescenta Roq. – Observa Bruns. que nos impede empregá-la em circunstâncias triviais. etc. – Antepassado não se poderia dizer do pai nem do avô: só do bisavô para além se podem começar a contar os antepassados. sem nenhuma ideia de causa nem de influência. pois não especifica se outros fatos ou outras coisas se intercalam ou não entre o fato ou a coisa atual e o fato ou a coisa anterior. aqui não designam parentesco de sangue . os grandes. referindo-nos a todos os sucessos que são como determinantes desse acontecimento. As consequências provêm das causas antecedentes. antigos. 309 ANTECEDENTES. considerando-os como tendo fruído do que nos legaram. – Precedente indica prioridade ou anterioridade. – Antecessores dizemos dos ascendentes. O capítulo de que se fala como anterior ao capítulo IV pode ser o III. ou daquilo em que lhes havemos sucedido”. o nosso bisavô. maiores. segundo Lacerda. 311 ANTECESSORES. outros que antes deles ocuparam os mesmos cargos. o que é prévio é. da justiça. o plebeu como o nobre. ascen- ciso admitir uma certa distinção entre estas duas palavras como substantivos. fez-se novo contrato baseado em condições prévias”. – Confun- dem-se comumente estes dois vocábulos. o dono de uma casa de comércio.

muros para impedir a entrada de contrabandos e para que se recebam nas portas os direitos de octroi. ou mesmo os antepassados. e é assim que muito se há delirado sobre ela. F. gana. aversão. muitas vezes morais. antes do tempo devido”. dos Lusíadas: Oh tu. asco. Hoje fazem-se muros só para cercar uma quinta. prematuramente. frequentemente exagerados. repugnância. “contra”. – Prematuramente significa “antes da ocasião própria em que alguma coisa se deve fazer ou deve dar-se”. oh nobre Coriolano. asca. antes de chegar à idade em que é mais comum que se morra). – “Das duas palavras gregas anti. que a defendem no largo. A fortificação das cidades mais inexpugnáveis. – Adiantadamente exprime “com antecedência. – Antigos parece encerrar ideia de mais afastamento ainda que avós.. estes três vocábulos escreve Roq. e. muralha. 104 e 372). “paixão”. 312 ANTECIPADAMENTE. compondo uma que poderíamos dizer literalmente contrapaixão (ou contrassentimento) formou-se a palavra latina antipatia (que se trasladou para as línguas derivadas) e que significa uma oposição ou inimizade natural ou irresistível dos seres uns contra outros. – Antecipadamente diz “antes do prazo estipulado”. vos fizestes inimigos. pagou adiantadamente três meses do aluguel da casa (pagou antes que começasse a correr o aluguel. quizila. – Avoengos designa mais propriamente “a série dos avós ou progenitores de quem descendemos em linha reta” (Aul. não só da nossa nação. referindo-nos até a Adão e Eva. – Muralha é o muro de praça fortificada. – Sobre ou direto: referem-se em geral às gerações que nos precederam. com profano Coração. a fim de cingir e defender uma praça ou cidade fortificada. Sertorio. – Avós designa antepassados mais remotos. se bem que isto não seja essencial à palavra. as que hoje se chamam fortificações ou obras exteriores. segundo Alv. preveniu-nos antecipadamente que não viria hoje. (VI.) e só por extensão é que se aplica este termo para designar os ascendentes em geral. e vós outros dos antigos. e é assim que o emprega Camões na seguinte passagem do c. e pathos. construído segundo as regras da nova arquitetura militar. – Aversão é sentimento que tem igualmente alguma coisa de desconhecido em suas causas. – Pais indica os mais próximos do nosso tempo. Que contra vossas patrias. F. A causa de tal oposição é desconhecida inteiramente. 314 ANTIPATIA.: “Na frase da milícia antiga – diz Vieira – o muro significava a fortificação mais estreita.192 Rocha Pombo 313 ANTEMURAL. conforme havíamos combinado (preveniu antes do dia ou da hora em que devia vir). adiantadamente. Passos. horror. muro. como aos de todas as raças e que viveram antes de nós. morreu prematuramente (isto é. etc. “reserva-se este nome para os homens célebres da antiguidade. consistia em muro e antemural: o muro que cingia e defendia a cidade. muralhas para resistir aos inimigos que a quisessem atacar”. Paris tem muros e muralhas. aos homens. Catilina. e o antemural que cingia e defendia o muro”. rancor. ou que chegasse a época do pagamento). e do recinto da cidade. mas parece não ser tão invencível . parentes ou não”. seus efeitos são prodigiosos. É mais forte que a antipatia. pois dizemos – nossos pais. IV. e o antemural. ódio. F. zanga.” – Maiores é “o termo genérico em que se compreendem todos os que viveram antes de nós. edificam-se muralhas só para fortificar e defender praças. e por vezes fabulosos. segundo a arquitetura militar antiga.

Camões e Bernardes não se parecem com Gil Vicente e Sá de Miranda. algumas vezes. obsoleto. É mais “tédio. Diz. – Asco é “aversão. má vontade que se tem a alguém. em lugar da qual se usa em linguagem comum”. de gana (em sentido figurado) que é “um forte desejo de mal. muitas expressões desusadas ou antiquadas. são cruéis e terríveis seus efeitos. talvez com desejo de vingança”. é palavra vulgar que indica “aversão. – Rancor é “ódio profundo e oculto. e que muitas vezes acontece que uma e outra (aversão e repugnância) chegam a converter-se em afeto. Barros e Fernão Mendes Pinto não escreveram como Fernão Lopes e Castanheda. por graves injúrias recebidas. que de ordinário foram substituídas por outras mais bem derivadas e mais sonoras”. expressivas e com boa analogia. 316 ANTIQUÁRIO. e chega a inveterar-se na alma como um veneno mortal. aborrecimento. de mera vontade. produzido sempre por alguma causa muito grave”. Cada século tem seu cunho particular. segundo o mesmo Roq. – Quizila (ou quizília) é palavra da língua bunda. mas as obsoletas parecem condenadas a perpétuo esquecimento. portanto. e prefere os arcaísmos de nossos avós às boas expressões que o uso depois introduziu – este não se livrará da pecha de rançoso. arcaico. muitas vezes sem ódio”. A aversão e a antipatia exercem-se indistintamente nas pessoas e nas coisas. não as obsoletas. O escritor que se serve de palavras e locuções antiquadas (ou desusadas). posto que todos escrevessem em bom português. para fugir à invasão do neologismo. que a forma não está em moda por ser muito velha”. e até de “quase ridículo”. – Zanga é “a quase aversão que se tem a pessoa ou coisa que se julga de mau agoiro”. e que esta o é também menos que a antipatia. Mas isto mesmo poderíamos dizer. enquanto que arcaico significa apenas “que o vocábulo é muito antigo. e até em amor. As palavras e frases antiquadas ou desusadas “podem ainda usar-se em poesia e em estilo jocoso. no entanto. nas ações. já excluído pelo uso”. Luiz de Souza e Vieira diferem muito de Seita e Paiva. – Estas palavras “indicam coisa antiga que decaiu do uso”. mas genuínas da língua. repugnância que se tem a coisa torpe ou imunda”. a repugnância. pois têm muito de caprichosos estes sentimentos que devemos chamar acidentais.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 193 nem tão profunda. – Asca. e talvez com mais razão. – “O domí- nio” – escreve Bruns. Sem nada mendigarem aos estranhos. merece louvor. – A repugnância é ainda mais forte que a aversão. mais naquelas que nestas. e ainda de capricho. parece com o tempo ganhar forças. às vezes gratuitamente”. segundo a sentença de Horácio. arrelia do que aversão propriamente. Roq. porém o que busca desenterrar velharias. arqueólogo. encarniçamento e quase furor impulsivo contra alguém. – Horror é “grande aversão e repugnância. Aproxima-se. 315 ANTIQUADO. – Entre desusado e arcaico deve notar-se a seguinte diferença: desusado diz propriamente “fora do uso. o ódio. de ligeiros motivos. – “em que o antiquário e o arqueólogo exercitam a sua atividade . de antipatia: quantas vezes se tem antipatia por uma pessoa só porque não a conhecemos de perto? – O ódio nasce quase sempre de poderosas e fundadas causas. e cada escritor o estilo que lhe é próprio. e significa a antipatia que os pretos têm a certos comeres ou ações. que a repugnância é menos invencível que a aversão. – Obsoleto acrescenta à significação das duas outras uma ideia de – “excluído ou proscrito”. e clássico para seus respetivos tempos”. desusado. O uso pode fazer ainda reviver. De qualquer modo que se manifeste..

– Segundo Roq.. e Berg. cuja disforme boca mostra ter uma légua de âmbito.. 318 ANTRO. buraco. antino- mia. antífrase. que deu o latim antrum. e Berg. cova. porém. que às . um antiquário pode tornar-se arqueólogo”. Com estudo e paciência. contradição. lapa. a caracteres. oposição. ‘conservar-se’) é a oposição que existe entre coisas contrárias. – Contrariedade é “a relação que se nota entre duas coisas ou duas ideias opostas”. de que nos deixou exemplo Bernardes na Floresta: “Estando em cima. falando de um celerado. essa afirmativa marcaria que Quinault é um poeta de primeira ordem. e diferença-se de todas as do grupo em acrescentar-lhes à significação comum a ideia de medo. e segundo a sua origem significa – cova profunda e escura. – Furna é cova profunda. Esta palavra não é poética. escura e medonha. e em geral sempre que se nota uma impressiva contrariedade entre duas coisas. etc. que as conhece. antítese “pertence exclusivamente à linguagem literária. e dizemos só da flagrante oposição que existe entre duas palavras ou duas ideias aproximadas: dizer que um homem é de uma ‘orgulhosa’ ‘simplicidade’ é fazer uma antítese. em literatura. há. toca. qualidades ou modos de ser diferentes. Se não houvesse aí antífrase. em filosofia. entre as duas palavras diferença considerável. – Arqueólogo é “o que é muito versado em tudo quanto respeita a antiguidades. pela antífrase. que se aplica a situações. contraste. e não somente às partes de um mesmo período.194 Rocha Pombo é o mesmo”. contrariedade. Esta palavra é. – Oposição é aqui “o maior ou menor afastamento em que uma coisa fica da outra”. portanto. – Antinomia é “a oposição que se nota entre duas leis ou princípios”. e que a aproximação faz ressaltar melhor”. – A segunda do grupo é latina. “é uma palavra ou uma locução que deve ser entendida num sentido contrário ao que exprime essa palavra ou essa locução. É por antífrase que os gregos designavam as Fúrias pelo nome de Eumênides (deusas benignas. contemplando a horrenda furna e estômago do monte (Etna). É também por antífrase que. – A antífrase. – Contradição é “desconcerto entre o que se disse e o que se está dizendo. 317 ANTÍTESE. Bourg e Berg. mas sem fundamentar claramente a distinção. – Antiquário é o que tem gosto pelas coisas antigas. as explica. Esta palavra emprega-se nas artes. – “a primeira destas palavras é o grego antron. ainda segundo Bourg. gruta. – O contraste (do latim contra. 227)”. caverna. subterrâneo.. dizemos: este santo homem”. diz-se particularmente da fauce lôbrega de um vulcão. ou entre os capítulos de um mesmo livro”. (II. o qual entrou no português como palavra culta e poética. – Segundo Bourg. que se dedica ao seu estudo. antilogia. e significa uma grande escavação aberta a modo de abóbada. caverna. furna. essa proposição marca que Quinault é um medíocre poeta”.. contraste entre as ideias ou as afirmações de alguém e as nossas”. ‘frente a frente’ e stare. ou benévolas). – Antilogia “é a contradição ou desconchavo entre as ideias sustentadas pelo mesmo autor. e defendida pelos lados como um recinto. mas admitido. de horror. que as coleciona (e que até com elas negocia). É por antífrase que eles designavam o mar Negro sob o nome de Ponto Euxino (mar hospitaleiro). o sentido real que está no pensamento do satírico. Quando Boileau diz: “Asseguro: Quinault é um Virgílio” – a proposição: “Quinault é um Virgílio” “deve ser entendida em um sentido contrário ao que lhe é natural e próprio. distinguem a antífrase da contraverdade. muito mais restrita que contraste.

de asilo aos homens e de guarida aos ladrões. da grandiosidade excepcional que ela vai ter ou que apresenta. de fazer sucesso. preparativo. e os zagais acolhem-se às lapas”. portanto. o modo solene. vinda talvez do grego lápathos. – Aparato é o movimento pomposo. dispõem e arranjam diversos materiais ou coisas para a execução de qualquer obra. 319 APARATO. Quando se diz: “o aparato daquela cena” – quer-se dar ideia. assim como à reunião deles se chama aprestos ou aparelhos. os antros.” 320 APARATO. – Lapa é palavra portuguesa. das cores que um artista empregou no seu quadro. e as lapas dão abrigo aos pastores. pois – os preparativos de uma função. desde o exercício e arte da pintura até o mais baixo ofício mecânico. de produzir sensação. Às disposições para qualquer faustosa cerimônia ou festividade se lhes dá o nome de aparatos. e que sugere ideia de deslumbrar. – Sumptuosidade. grego krupta) e significa concavidade da terra entre penhascos. às vezes suscetível de ornato rústico. estende-se desde a ciência e manobras náuticas. os preparativos de uma guerra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 195 outras não é inerente. e coberta por um penedo ou chapa de pedra: isto mesmo significa a palavra lapa. do festim. ou de um banquete. e quer dizer uma caverna na encosta de monte.. as grutas são habitadas pelos anacoretas. disposições para todo exercício. o que escrevera Roquete). apresto. no sentido em que se . ostentação. “as ninfas e os deuses campestres habitam as grutas. fausto. porque acrescenta à noção de grandeza a ideia de excelência. mas abrange os instrumentos. majestade. alardo. aparelhos aos arreios necessários para montar. sem opulência de formas. – Gruta é palavra castelhana e portuguesa (talvez do latim crypta. é o esplendor exagerado de um ato solene. e também.. com alguma vergonha. Dizemos. aparelho. – Pompa é o aparato ostentoso. trabalho ou obra. ou mesmo uma caverna menos profunda e de menores proporções”. não só das proporções dela. mag- nificência.. Chamam-se. e por analogia. – Toca = “buraco onde vivem ou se refugiam caças”. mais ou menos ampla e profunda”. operações. as cavernas. sumptuosidade. pompa. – Os antros servem de covil às feras. os facínoras. as cavernas. Em estilo poético. grandeza. na Vida do Arcebispo: “E viu juntamente que ao pé do penedo se abria uma lapa que podia ser bastante abrigo para o tempo”. ou para carregar cavalgaduras. desde o mais elevado até o mais ínfimo. de um assédio. brilho e formosura. – Buraco “será uma cova. como indica a própria origem latina. – Segundo Roq. a grandiosa disposição com que se celebra algum ato extraordinário. figuradamente – sumptuosidade do estilo. quase pelas mesmas palavras.. – Grandeza (segundo Lacerda. pois não só as compreende todas. – Subterrâneo designa “em geral todo espaço que se encontra no subsolo”. do palácio. etc. como do brilho. pois que a significação desta palavra se estende a tudo o que se executa com pompa e ostentação. sem majestade de encenação. – Magnificência é o esplendor. e dizia-se antigamente aparelhos para dizer missa. que repete. – “quando se reúnem. o lugar onde alguém se esconde.. a pompa que maravilham. é a qualidade daquilo em que se faz ostentação de riqueza: sumptuosidade do templo. as feras. A significação da palavra aparelho é muito mais extensa que a das anteriores. Não há pompa sem grandeza exuberante. que “engrandecem” (aos que a contemplam). Diz mais que sumptuosidade. – Cova é “abertura feita na terra. luxo. esplendor.. dizemos que se fazem preparativos. materiais. como diz Luiz de Souza.

dignidade. os gestos. significa extensão. os modos. Grandeza refere-se “à parte material das coisas. é brilho. É de notar que se diria: “Ele vive com certo fausto” (isto é – com alguma pompa de quem deseja ser tido como rico). o que quer que seja de acento espiritual que distingue uma fronte humana. – Ostentação é o brilho e aparato. luxo de sapiência. “é manifestação de uma coisa presente. de poderio. 321 APARECIMENTO. o aparecimento (ou apa- bos. – Grandeza indica luxo. – Alardo (ou alarde) é ostentação mais estrondosa. distinguem-se. senão a aparição do anjo Gabriel. do espírito. e o objeto aparecido como extraordinário. deste modo: apedrejar é simplesmente jogar pedras a alguém ou a alguma coisa. de erudição. – Estes dois ver- muito bem Bruns. poderio. ou pelo menos não perfeitamente lídimo. e majestade ao ideal das mesmas coisas”. excelência. seriedade. – Luxo é toda manifestação exagerada do desejo de conforto. por assim dizer. ostentação (de grandeza e poder).. lustre. – Aspeto é a exterioridade que nos impressiona ao primeiro relance de olhos. tamanho de alguma coisa. porte ou conduta que ela mostra exteriormente. de um panorama. dando ideia da ufania de quem alardeia. Tanto se faz ostentação de riqueza ou de força muscular.196 Rocha Pombo toma aqui o vocábulo.. O esplendor da natureza. poder. etc. enuncia-se apenas a ideia de que sobre essa pessoa se atiraram . – Esplendor. – Segundo Roq. é o aspeto. Dizemos: o aparecimento do cadáver que se andava procurando. da corte. Quando se diz que alguém foi apedrejado. e figuradamente. Como hoje se lincha. mas. maneiras. correr a pedradas. dizer: “. aspeto. etc. mas não se diz: o aparecimento. isto é. de poder. antigamente se lapidava. etc. 323 APEDREJAR. ou do desejo de agradar ou de fazer figura. e então se lhe chama exterioridade”. no viver. estas duas palavras: – “Aparecimento é o ato de aparecer. o exagero calculado com que se exibe alguma coisa. e em sentido translato – seriedade. grandeza. aparição diz-se da coisa que aparece. imprecisas de verdade): – Mostra. com ‘certa’ sumptuosidade”. nos modos. diz Lacerda. – “a aparência é o efeito que produz a vista de uma coisa. aqui. a aparição do cometa de Halley”. considerado esse ato como coisa inesperada. quase sumptuosidade. 322 APARÊNCIA. – Majestade indica decoro. impróprio seria. exterior. e lapidar é matar a pedradas. semblante. no entanto. e do próprio ato de aparecer. lapidar. Luxo no trajar. Exterior é o que cada corpo mostra pela parte de fora: aplicado às pessoas. – Distingue rição. neste caso) da febre amarela. que à primeira vista parecem sinônimos perfeitos. – Visos quer dizer – aparência não clara. de beleza. o esplendor da mocidade. gravidade de alguma pessoa. – Semblante é o modo de ser da fisionomia humana: é. a voz. ou não definida: “o que ela diz tem visos de verdade” (tem aparências vagas. da qual nos deixa ver apenas uma parte”. como de talentos e virtudes. de manifestar-se. – Fausto é luxo custoso. de alguma coisa ou ação. e a ideia que nos resulta dela. aparição. ar (ares). Há criaturas que fazem alardo de fortuna. de uma civilização etc. soberania. visos. – O ar (ou os ares) com que uma pessoa se nos apresenta é o conjunto de tudo quanto da parte dessa pessoa nos impressiona à primeira vista: o semblante. dava-se a morte pelo apedrejamento. pelo que é às vezes enganosa. – Majestade indica magnificência. exteriori- dade. mostra.

– Segundo Bruns. – Apenas. têm. cume (cumeeira. melhor do que somente. 328 ÁPICE. tope. cimo. agravo. Falou exclusivamente do ponto que se controvertia (isto é. exclusivamente. só (ou somente) enuncia quantidade sem relação determinada: F. Não admite. se bem sejam da mesma natureza da obra. sendo demasiado estreita. portanto. o calçado é estreito. ou contrário à lei”. O suplemento completa o texto com artigos que lhe faltam. falou só desse ponto sem desviar-se para nenhum outro ponto). ou com alguma parte dele. ou restringir-lhe o alcance. e que a apelação é recurso para juízo de instância superior à do juiz contra cuja sentença se recorre. gradação.. e por isso está o pé apertado. – “Tanto o Bruns. por isso. zênite. estreita dir-se-á da que é pouco larga ou pouco ampla. afirmamos que Estevão foi morto a pedradas. caracteres diferentes. apêndice como o suplemento” – escreve pino.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 197 pedras. que contém os vocábulos que no dicionário não estão incluídos”. sumidade. – “são partes que se acrescentam a uma obra para completá-la. como a faculdade. diz Teixeira de Freitas: – “Agravo é um dos recursos frequentes da nossa ordem judiciária. 325 APENAS. e que. O apêndice liga-se intimamente com o texto. – Exclusivamente exprime exceção mais completa ainda.. A um dicionário junta-se o suplemento. apogeu. e diz que esta expressão é imprópria. quando as decisões são apeláveis. A um código junta-se o apêndice que encerra as alterações que se fizeram a alguns dos seus artigos. alto. – Com toda razão observa Bruns. que frequentemente se ouve: calçado ou vestido apertado para indicar que o pé ou o corpo não se encontram neles à vontade. 326 APÊNDICE. Falando de superfícies. Quando dizemos que Estevão foi lapidado em Jerusalém. de agir contra uma decisão ou um julgamento que se considera injusto. estreito. píncaro. 327 APERTADO. não devendo. e por ser estreito o vestido. no entanto. – Ápice é a parte mais elevada de um corpo. Esta rua é estreita. fastígio. e apertada da que. Falta-me apenas o quinto volume para completar a obra. dizer-se: . no seu vocabulário jurídico. a que fica superior a todas as outras. pináculo.” – Apelação é “o recurso interposto da primeira instância para a segunda. ninguém diria com propriedade: – “ápice mais alto de um edifício ou de um monte”. suplemento. – Recurso é termo genérico exprimindo “não só o ato de recorrer. expor novas aplicações. e está apertada entre altas paredes. o direito de reclamar. sugere ideia de insuficiência ou insignificância para determinado fim: Não o compro porque tenho apenas cinco mil-réis. só (ou somente).” Parece. no entanto. são diferentes dela no fundo. que o agravo é o recurso de que se vale a parte perante a própria autoridade que deu a decisão. anda o corpo apertado. pois cume significa toda a porção superior das grandes elevações. pois exclui todas as outras coisas do número daquelas que se salva ou a que se refere o enunciado. os dois primeiros termos deste grupo. culminância. por isso. – Definindo. recurso. não é rico: tem só (ou somente) quinhentas libras de rendimento. Podemos. dar maior extensão à matéria. está como cingida de um e outro lado. cumeada). para explanar a doutrina. auge.. dizer: o mais alto cume da cordilheira ou da montanha. 324 APELAÇÃO. ou só.

é “o auge supremo. A cumiada dos Pireneus. ou do muro. ou da ladeira. Rigorosamente falando. Ainda que a au- . – Pináculo é mais expressivo do que pino. o cimo da planta. pela analogia da posição desse ponto com a do sol quando se acha no zênite. “No auge da fortuna. quase sempre melhor aplicada quando se trata de um edifício”. alto da testa. ou da escada. é a parte mais elevada. “Ele estava no auge da raiva. sem dar ideia necessária de grandeza ou de altura extraordinária. por analogia com a significação desta palavra como termo de arquitetura. e é aplicável no sentido translato. Em linguagem eclesiástica.. Entre cume e cimo deve admitir-se. etc. cume. – Fastígio. ou de grandes construções. – Cume (do latim culmen) é a parte que se eleva também acima das outras. O mesmo se poderia dizer de píncaro se este designasse. mas esta palavra é de aplicação mais restrita. “Ele ascendeu então ao fastígio da glória. e que a Igreja Católica não incluiu no cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas. da colina. a ideia de grandeza. o ponto acima do qual não é possível ir. – Zênite é termo técnico de astronomia. o mais alto de todos. suposto. falso. de algum corpo em geral. dá-se este nome a todo livro duvidoso. como: o tope do mastro. – Cumiada (ou cumeada) é também “a parte mais alta. o cimo da escarpa. nem mesmo – o cume da torre. – Alto é igualmente qualquer das porções elevadas de um corpo.” 329 APÓCRIFO. Sumidade acrescenta à noção de cimo. – Apócrifo é palavra grega (apókruphos) que significa coisa secreta. Tanto podemos dizer: o cimo do monte. alto das ruínas. não conhecida antes. alto. correlativo de nadir: em linguagem comum designa também “a culminância a que alguma pessoa atinge na esfera em que exerce o seu esforço. a cumeada dos Andes. – Cimo (do latim cyma) é propriamente a parte que de um corpo se destaca ou se faz saliente.” – Auge só se aplica a fenômenos morais. Em qualquer destes casos preferiríamos empregar cimo. uma certa diferença. alto do palácio. e de pouca ou nenhuma fé. Não seria próprio dizer: – o cume da ladeira. de volume e de extensão. da escada. Mas pináculo envolve ideia de terminação da coisa elevada em ponta aguda. fabuloso. Pode comparar-se a culminância. a sumidade e a outros do grupo. portanto. de autor incerto. é também a série dos cumes de uma serra ou cordilheira”. e indica “o alto grau de intensidade a que é capaz de chegar um sentimento ou a que um fato pode atingir”. tratando-se de uma montanha. – Suposto – diz Roq. como: alto da árvore.”. só devemos empregar cume tratando de montanhas. Culminância sugere ideia de imensa altura do pináculo.198 Rocha Pombo o cume da ladeira ou da lomba. a contemplar o fastígio maravilhoso do templo.. cujo autor não é conhecido.” – Apogeu. Tanto é de lídima propriedade dizer: alto do monte. Tanto dizemos: o tope do monte. em vez de todos os pontos elevados. pretenso. cumeada. ou da fama.. nem – o cume do telhado. como o cimo do edifício. também por analogia (com o fenômeno astronômico a que se dá esse nome). tope. – Pino é um correlativo de base: designa o ponto culminante de alguma coisa. fictício. – Cumieira (ou cumeeira) é “a parte mais alta. “Ficamos até em pasmo. mais à vista e mais brilhante de algum edifício. sem mais ideia alguma acessória. como exprime culminância.. – “é palavra latina (suppositus) e significa o que se põe falsamente em lugar do verdadeiro. alto da porta. particularmente se diz do livro ou da obra que falsamente se atribui a quem não é seu autor.” – Tope (ou topo) é a parte superior de qualquer coisa. o cimo do chapéu. ou da colina.” “A linha desdobra-se pelo fastígio da cordilheira”.

– Pretensa é a coisa que se quer fazer passar por ser a verdadeira. elogio. 330 APOLOGIA. etc. significa defensa. direito a todos os honorários do cargo. um partido. e serve para manifestar a inocência do acusado”. Decerto que ninguém diria: “a promessa de que F. quer tirar proveito é fabulosa”. como um prêmio. ou porque se ache ou seja julgado inválido para continuar a servir.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 199 toridade do livro suposto se repute suspeita. – Fabuloso distingue-se de fictício em sugerir ideia de prodígio. ele conter doutrina boa e verdadeira. e assegurando-lhe o soldo da patente. . justificação. ou do exercício do cargo. porém. porque essas correm nos tribunais. e sempre com intuito de só fazer que ressaltem as altas virtudes. de modo a que fique livre de penúria o aposentado. suposta ou falsa. a suposto. cristã. pois por erro tem-se atribuído a autores clássicos obras que não escreveram. Fabuloso nem sempre exclui a ideia de verdadeiro. – Reformar é dispensar do serviço o militar que se fez inválido. – Expri- panegírico. prestando serviços durante um certo prazo. É mais ato ou dever de ofício. mas que se tornam estranhas pela enormidade. Nas associações científicas e literárias é uso fazer-se o elogio dos sócios falecidos (não panegírico). apologias em defesa da religião mem de comum estes verbos a ideia de cessar alguém de exercer as funções do seu cargo. dos livros apócrifos. concedendo-se-lhes. Aquele homem nos disse coisas fabulosas do que se passa no sertão (coisas que se têm ou podem ter como verdadeiras. e contra elas advogam os letrados perante os juízes. ou porque fez jus a tal vantagem. “segundo o valor da palavra grega. – O panegírico é um elogio mais incondicional. isto é – fabulosas). não permite a Igreja que se tirem argumentos para provar as verdades teológicas”. não as acusações jurídicas. A justificação consiste só nas provas que se deduzem do exame das testemunhas. sistemático. uma nação ou pessoa. (Roq. jubilar. Fazem-se as apologias para desvanecer as acusações com que se agravam as classes mencionadas. – Falso é propriamente o contrário à verdade ou como tal admitido. ao senado e aos magistrados. conservando uma parte dos vencimentos. Conhecemos orações fúnebres que são verdadeiros panegíricos. defesa. na tribuna do júri. para rechaçar as falsidades com que os pagãos procuravam fazê-los odiosos como inimigos dos deuses e de todas as potestades. Deste modo perseguidos e caluniados os primeiros Cristãos. – Apologia. dos documentos autênticos. como se estivessem nas respetivas funções. reformar. 331 APOSENTAR. contudo. da pessoa de quem se trata. os lentes.) – Defesa é todo esforço feito para demonstrar a não culpabilidade de algum acusado. – Elogio é “o discurso. etc. espalhadas entre o público e que vão tomando corpo com grave dano das pessoas acusadas até que acabam em perseguição formal pela justiça. – Aposentar diz propriamente – “dispensar do serviço. faz a defesa de um réu (não a apologia). – Fictícia é a coisa criada pela imaginação e que só nesta existe. foi-lhes forçoso apresentar aos imperadores. empregaria certamente de preferência – fictícia. como se dá em relação a fictício. do que de esforço puramente moral: e nisto distinguese de apologia. Um advogado. Este é o verdadeiro caso da apologia. e perturbadores da ordem pública. mas as acusações vagas. pode. e é qualquer discurso ou escrito no qual se defende um sistema. uma opinião. – Jubilam-se os professores. ou o escrito em que se demonstra ou procura demonstrar como a pessoa elogiada é digna dos louvores que se lhe fazem”. ou mesmo todos os vencimentos”.

damos o nome de apóstolo àquele que exerce na terra funções. etc.. lugar à parte no grupo. apropriar-se. ideias excelentes. é só esta. – Usurpar é tirar a outrem o que é seu. de encerrar a palavra missionário a ideia de que aquele que missiona toma uma tarefa como sacrifício. tomá-la para si. portanto. e não cessa de chamar a atenção de todos para ela. por exemplo: missionário da revolta.200 Rocha Pombo 332 APOSSAR-SE. etc. como de felicidades. O que se apossa chama a coisa a si. uma dignidade. naturalmente fazendo-lhe a apologia. porém. propagandista de pílulas. retém-na em seu poder ou sob seu domínio. etc. enviado. doutrinas de redenção. fazer-se senhor dela. – é “simplesmente meter-se de posse dela. usando de prepotência. a perfídia. S. precursor. Por isso mesmo tem o vocábulo um valor peculiar. de exprimir evangelizador a ideia de que aquele que evangeliza não faz menos do que proclamar alguma coisa de que ele próprio está ufano e espantado. a ignorância? Evangelizador. causas augustas. João Batista foi “o precursor de Jesus Cristo”. – Missionário é o que toma a si a propaganda de alguma causa sagrada. da desordem. do socialismo. que resulta: de sugerir o vocábulo apóstolo o intento de fazer prosélitos. Por extensão. – Apossar-se alguém de alguma coisa – escreve Roq. Não seria próprio dizer. Tanto se diz: propagandista da república. Tanto pode ser anunciador de desgraças. depois usurpou o império. aquele que se arroga a propriedade. propagandista. – Precursor diz propriamente – “o que vai adiante de alguém anunciando-lhe a chegada”. como se diz: propagandista do casamento.. mas suas conquistas e invasões ficaram sem efeito quando os aliados o desapossaram de sua autoridade usurpada”. e conquistou parte dela. – Propagandista é termo comum e geral que designa “todo e qualquer indivíduo que se encarrega de inculcar ao maior número alguma coisa. Só se apropria de alguma coisa. muito subtil. usurpar. que lhe não cabe. No mesmo caso está evangelizador. etc. emissário. Aplica-se particularmente esta palavra para designar o sacerdote ou o clérigo que se incumbe de ir a terras de pagãos ensinar o Evangelho e instruir nas coisas cristãs. Napoleão apossou-se primeiramente do comando geral. – Apóstolo (do grego apostolos. de uma escola literária. Se se deve admitir entre eles alguma distinção. anunciador. Aplica-se também a coisas e a fenômenos. in- vadir. uma cidade. conquistar. e também arrogar-se uma autoridade. O pregoeiro faz mais que o simples anunciador: fala muito alto. Não se evangelizam senão grandes verdades. mensageiro. evangelizador. e não deve ser empregado senão em casos que recordem a grandeza moral dos antigos missionários. mensageiro de algum príncipe”) designa propriamente cada um dos doze discípulos de Jesus. – Anunciador significa apenas “aquele que anuncia”. ou desempenha missão equivalente à daqueles discípulos. Quem seria capaz de dizer: evangelizar o erro. em obediência a algum voto. por ele enviados a pregar a boa-nova a todas as nações. – Conquistar é ganhar à força de armas um estado. de um sistema filosófico. As refregas precur- . o direito de ser o dono dessa coisa. missionário. não tardou a invadir a Europa quase toda. Nem sempre se apropria de alguma coisa aquele que dessa coisa se apossa. “enviado. pregoeiro. – Invadir é acometer e entrar por força em alguma parte. 333 APÓSTOLO. Entre apossar-se e apropriar-se há uma diferença de ordem jurídica. apóstolo e missionário têm. de chamar ao grêmio do Cristianismo. núncio. grita em favor da coisa apregoada.

Prende-se o cão à corrente. (e não apresentou-se). aqui. gêneros embarcados. tanto nos merece”. – Deter é “prender e conservar preso”. ou subtraídos aos direitos a que estão sujeitos. ou algum animal. rendendo a esta. – Prender enuncia a ideia geral de “impedir alguém. e que “apresar é tomar como presa. – Emissário e enviado só se poderiam diferençar pela nobreza do vocábulo emissário. A pessoa ou coisa estimada pode mesmo não ter valor. ou de mover-se livremente”. consideração. ou ter valor só para nós. que “capturar é prender.. – capturar. ou pelo direito da força”. mas o emissário supõe-se que leva incumbência mais alta. – Consideração é a “atenção respeitosa que se tem por alguma pessoa que.. compareceu à sessão. culto religioso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 soras do arrasamento. diz simplesmente – “posto a caminho”) não faz mais do que cumprir estrictamente a ordem que leva. A polícia captura os criminosos. aparecer.. Dizemos: F. Supõe-se que aquele que se apresenta o faz por algum dever com a pessoa perante a qual comparece. navios. etc. alguma coisa. – Conta. logo que estes morriam. apreender. e captura os contrabandistas”. Não teve o rei em conta o meu serviço. – Arrestar é termo jurídico e significa “apreender. Esta ideia não se encerra necessariamente em núncio. palavras escreve Lacerda: “Apoteose era a cerimônia mediante a qual era alguém posto no número dos deuses. arrestar a alguém pela força do direito. pelos talentos. deificação – Sobre estas duas valor. é “o ato ou disposição de pôr em cálculo. F. segurar. apresentou-se pronto para o serviço (e não – compareceu). o préstimo de alguém ou de alguma coisa”.. Um gesto precursor de tormenta. mas daquele que a enviou. à audiência. – Segurar é “prender e conservar em segurança”. – Estima é a “consideração em que se têm as qualidades de uma pessoa”.. – Apreender é “prender. – E comparecer ainda sugere melhor a ideia da obrigatoriedade do ato de apresentar-se. comparecer. – Núncio e mensageiro. a guarda fiscal apresa as mercadorias que os contrabandistas querem subtrair aos direitos. conta. o – Apresentar-se é “fazer-se presente em alguma parte ou perante alguém”. e mediante ordem ou mandado de autoridade pública”. deter. A alta conta em que é preciso ter aquela propriedade. ou em geral. Aquele ar sereno precursor da saúde moral. ou atando-lhe as asas.. prender. estima. Deificação é um ato pelo qual se supõe a divindade onde não está senão a criatura. em nome do qual ele vem. 336 APRESAR.. pelos seus atributos morais. aqui. Prende-se o celerado em flagrante de homicídio. arrestar. em consideração das suas preeminentes virtudes. O enviado (esta palavra. ou quase religioso”. – Diz Bruns. pela sua posição. chamar a si de direito alguma coisa”. 337 APRESENTAR-SE. apanhar. e cujo sucesso se lhe confia. Prende-se o monóculo na órbita ocular. de admitir a cômputo. ou alguma coisa de locomover-se.. embargando que siga ou que continue a estar onde estava. Apreço é a “consideração particular que se tem pelo mérito. aqui.. seriam sinônimos perfeitos se mensageiro não encerrasse a ideia muito clara de que a mensagem não é própria de mensageiro. Os romanos usavam assim a respeito dos imperadores. . pelo valor de alguém”. pelo seu valimento. Prende-se a ave no viveiro. 335 APREÇO. 334 APOTEOSE. Ambos significam – “o que é mandado”.

A inclinação.). – Segundo Bruns. a aptidão opera. e por isso pode dizer-se que o talento é a aptidão no terreno da prática. aqui. e não a combatemos senão com grande pesar e com poderosos recursos. – Capacidade é o conjunto de qualidades e conhecimentos necessários para levar a bem-determinada ordem de coisas. que encerra aprisco). proteção. fazer profundo. – Aprisco dá ideia do abrigo em que ficam as ovelhas. – Disposição também se diz da faculdade de ser próprio para uma dada coisa. presume exercício e prática. a ginástica. diz um hábil sinonimista. aliás. (Dizemos. ou da casa paterna (e não redil. vocação. como curral de bois. 340 APTIDÃO. – Redil é “um curral para rebanho miúdo. Profundar é cavar muito fundo. Esta capacidade refere-se mais ao que requer estudo. as duas palavras quanto à sua aplicação: talento dizendo-se particularmente com relação aos estudos pu- . curral. às letras ou às ciências. seguimo-la. para a tarefa. como disposição diz menos que aptidão. profundar. mas essa faculdade é menor que aptidão. propen- são. diferem. habilidade. não aptidão.” – Vocação. inclinação. – Mangueira é brasileirismo comum. – Curral é “um cercado. entregamonos a ela sem reservas. ou contrariamo-la: e eis o motivo por que se toma esta palavra como sinônima de amor ou afeição. capacidade. inspira o desejo que solicita a aquisição de um objeto. e o talento só se revela no exercício. – Aptidão (Bensabat) “é a capacidade natural para fazer uma certa coisa.202 Rocha Pombo – Aparecer dá ideia geral do fato de “se deixar ver” alguém ou alguma coisa. só pode manifestar-se na prática. As disposições carecem de ser cultivadas. Aparece um grande sinal no céu. arrebata a alma seduzida pela promessa do repouso. para o trabalho. Tanto se diz – curral de porcos. como a dança. mangueira. Ter talento para a pintura é mais do que ter aptidão para a pintura. pois este não sugere a mesma ideia de amparo. significa “uma tendência própria. tem aptidão para o negócio. que significa “um vasto curral de bois”. enquanto que aptidão não se emprega bem senão falando de estudos sérios. gosto. 339 APROFUNDAR. de madeira ou de muro. e a inclinação uma espécie de gosto. jeito. idoneidade.. dizer no sentido figurado – o aprisco da Igreja. ou uma disposição favorável. A propensão. Apareceu a peste em Bombaim. mais ou menos grande ou violenta. pode-se empregar essa palavra falando de estudos ligeiros ou recreativos. exercita-se por si mesma. No sentido figurado subsiste a mesma gradação”.. denota um poderoso atrativo. ou de um vivo prazer. talento. pois a aptidão pode ficar inativa. como aptidão. que F. etc. da felicidade. ou de cabras. – Os dois primeiros são termos literários. A propensão. segurança. desenvolve-se.). mas disposição para a dança e para a ginástica. redil. porém. e assim diremos que certa pessoa tem. mais ou menos agradável ou lisonjeira. Usa-se. como o talento. podendo ser ou não coberto”. 338 APRISCO. Aprofundar é tornar ainda mais fundo o que se profundou. “estes dois verbos empregam-se geralmente sem outra distinção que não seja a da exigência da eufonia. – Talento. etc. por isso. onde se recolhe o rebanho”. de ter certa vocação para ela. a capacidade. há. por isso aptidão não se aplica senão relativamente às artes liberais. na cultura. entre eles uma diferença muito notável. além de designar dom natural (diz Bruns. feito de tela de arame. a esgrima. disposição. uma disposição natural do espírito para alguma arte ou mister”. aplicação de inteligência. porém. Além disso.

– O ardil é o meio que se emprega para obter o fim desejado. e sempre com bom resultado”. ou um general que carece de talento. “exército”. e também não é comum dizer-se – um banqueiro. etc. mas também o que o sugere.: Ardil. ou ‘neste lugar’ onde se acha a pessoa que fala. emboscada. astúcia designa só o que sugere fatos característicos dos outros vocábulos do grupo. – Estratagema (do francês stratagème. empresas. No estilo familiar entende-se – aqui por ‘nesta casa’. acrescenta por si só a exclusão de outro lugar determinado (lá) que direta ou indiretamente se contrapõe àquele em que nos achamos. ou relação alguma respetivamente a outro. v. – Jeito é muito próximo de disposição: é “o desembaraço. de talento. de capacidade. Cá tem maior extensão. astú- vérbios“ valem o mesmo que ‘este lugar’. 342 ARDIL. a discreta perícia com que nos sentimos para alguma coisa”. Um recruta pode ter aptidão para aprender o exercício. e capacidade relativamente às coisas práticas da vida. – Dos cinco primeiros do grupo. senão que sugere a ideia de que por várias vezes já se praticaram tais coisas. só e absolutamente. Convém ter presente que tanto a capacidade como o talento não podem existir onde não há aptidão. passou a noite ‘nesta casa’. vocábulo formado do grego stratos. ou pelo menos a facilidade. cilada. sem excluir determinadamente outro lugar. não obstante. Vivo aqui. e a que nos referimos como se vê no ditado vulgar – Cá e lá más fadas há”. que estes dois ad- A diferença entre os dois consiste em que aqui designa o lugar de um modo absoluto. mas creio que nunca terá gosto para a cultura antiga. negócios. – Escreve Roq. literários ou artísticos.: Aqui vivo. pois além de designar o lugar onde se está. a expediência. esta noite durmo cá – exclui determinadamente o lugar onde costumo jantar ou dormir. – Idoneidade. a idoneidade adquire-se pela prática. e procede com disfarce”. é independente da ideia de aptidão. a habilidade. Pedro parece ter jeito para as letras. no sentido reto. Assim é que ninguém dirá – um poeta. – Gosto é mais do que jeito: designa este “como senso íntimo que nos faz preferir uma coisa a outra”. preferência. senão quando já não possa opor-lhes obstáculo. José de Lacerda – “oculta os meios de que se serve. direção de assuntos. diz Bruns. logro. cia. e conseguintemente este vocábulo encerra a ideia de faculdades adquiridas. mas sim. aqui estou. os ardis de guerra . estratagema e logro designam fatos. um tenente tem bastante capacidade para comandar a companhia. arteirice. estratagema. arteirice. Mas – janto hoje cá.. cá. Quando cá se contrapõe a lá indica a terra ou o lugar em que estamos comparando com outro de que já falamos. janto aqui – supõe. obrando de modo que o lesado não conheça as intenções. etc. e agó. A habilidade não só revela a ideia de se possuir o conjunto de qualidades e de conhecimentos necessários para levar a bom resultado uma determinada ordem de coisas. jantou aqui ontem. F. – Habilidade é vocábulo mais significativo que capacidade e idoneidade. mas nem todos os chefes de corpo têm a idoneidade precisa para comandar uma divisão. e sem referência alguma a outro lugar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 203 ramente científicos. g. palavra não muito usada. o lugar onde vivo e onde janto. se o capitão vier a faltar. e sem sugerir a menor ideia de dúvida. à força de boa vontade e de estudo. ou – passou ontem aqui a noite – é como se dissesse – jantou. armadilha. 341 AQUI. adquiriu nela bastante idoneidade. “O ardiloso” – diz d. não só fato. não tinha nenhuma aptidão para a magistratura. mas sim. ou um escultor de capacidade. pois quando alguém diz – F. “conduzo”) designa.

não se desempenha senão à custa de esforço doloroso”. A arteirice maquina.). – Cilada e emboscada designam “a surpresa que se prepara contra alguém para vencê-lo à traição”. pareceria só aplicável à face su- . é a realização de um engano habilmente preparado. – Doloroso = “que se faz com esforço que mais punge e amarga que fatiga”. dificultoso. ou para conseguir os seus fins empregando vias tortuosas mas habilmente combinadas. É difícil resolver certos problemas. – Fatigante não é o mesmo que trabalhoso. dificultoso convém às particularidades. – Armadilha é “a cilada que se arranja contra alguém para que se deixe cair como no laço a veação”. intrincado. com habilidade. é árduo escrever para o teatro. – Logro é o ardil caviloso. – Trabalhoso é o que custa muito trabalho. ímprobo. e o astucioso. rude. sem que ela no-lo possa negar. coragem. Tarefa. – Intrincado é o que parece difícil. podendo dar ensejo a coisas desagradáveis a quem executa. – Penosa é “a tarefa que.204 Rocha Pombo para surpreender ou vencer o inimigo. Pode não ser mesmo difícil a missão. talento. 343 ÁRDUO. 344 ÁREA. Mas esta palavra. penoso. Extensivamente. como – superfície de um poliedro. e quase sempre mais à alma que ao nosso valor físico. quem pretende insinuar-se no espírito alheio necessita ter arteirice”. missão dolorosa. fatigante”. mas diferençando-se desta em que o arteiro planeia com arte. da sua essência. A emboscada sugere a ideia de que o autor se esconde ou se disfarça para o assalto. superfície. perseverança. O que é difícil necessita pulso. custoso. – Superfície. – Note-se também que difícil e dificultoso ponderam a dificuldade. O estratagema difere do ardil em contar este com a impossibilidade de defesa. como fato. sem mais noção alguma acessória. – “O que é árduo (escreve Bruns. conforme a definição dos lexicógrafos em geral. mais porque está embaraçado e difícil de entender que pelo trabalho que poderia dar. Noutra acepção. a astúcia obra simplesmente. e obter dela o que queremos. força. diz-se dos meios extraordinários que se combinam com arte e manha para surpreender de improviso a pessoa que visamos. enquanto que árduo pode frequentemente encerrar essa ideia: árdua empresa é a de pretender corrigir defeitos morais”. é “a parte exterior do corpo”. – Astúcia é um dom natural. é muito difícil. difícil. fatigante. que leva o lesado a ser o próprio a oferecer o que pretendemos. pormenores. é dificultoso reunir uma coleção completa de selos. da terra. mas não incluem a ideia de impossibilidade. ou que é cheio de trabalhos. resolução. o que é dificultoso supera-se com paciência. malícia e ruindade. e o estratagema em levar o lesado a não poder negar-nos o que pretendemos. quase idêntico à arteirice. Tanto dizemos – superfície do mar. – Arteirice. designa a arte ou manha de quem tem inventiva para fraudes. Fatigante é aquilo que só se faz com muita fadiga. a cilada é feita com astúcia. misto de finura e de falta de escrúpulos. com perseverança. “A raposa tem astúcia. julgando que obra em seu proveito. – Difícil diz-se do grosso do trabalho ou da empresa. doloroso. espinhoso. além de difícil ou mesmo árdua. etc. – Ímprobo é “o trabalho excessivo. obstáculos. pois este sugere ideia do grande esforço que exige a coisa trabalhosa. – Espinhoso = “que é de difícil execução porque exige grande habilidade e fortuna”. – Custoso é “aquilo que se não faz com facilidade”. trabalhoso. até pela sua formação. aproveitando os descuidos e as ocasiões. procurando-se enganar a vítima. tato. mas há de ser muito penosa.

no agente que a explora. E por quê? Simplesmente porque a palavra superfície sugere que o corpo ao qual se aplica tem outra face que não é superior. cabra estéril. cansado. ou a circunstâncias estranhas. – Maninho (do latim malignus) quer dizer. para gerar. ingrato. ou à imperícia de quem trabalha ou de quem cuida da planta. A sequidade pode. quanto. Infrutuoso é “o que não é tão abundante em frutos como se esperava”. infrutuosidade. estéril. esterilidade sugere. Deve notar-se. maninho. infecundidade. que a aridez é mais propriamente devida à natureza do terreno. ou improdutivo por falta de cultura – bravio. ou terreno estéril. ou onde só nascem plantas inúteis ou daninhas”. como do trabalho que não compensa o esforço feito. que a improdutividade está.). – Improlífico = “incapaz de procriar”. infecundo. “além de infecundo. Supõe-se.). por exemplo: a superfície inferior da caixa25. pois esterilidade exprime a ideia geral de incapacidade para produzir. – Área é “superfície limitada de qualquer modo.. maninhez. e nada tendo com a posição em que se encontre a face.. não produz com a abundância que se esperava. Tanto dizemos – superfície horizontal. visos de perfeitamente lógica uma expressão como esta. o uso autoriza o emprego deste vocábulo mesmo nos casos em que não se trata de face superior. a ideia de aridez absoluta. ou não as exerce se as tem. Os meus esforços não foram tão infrutuosos como eu receava (aqui não seria tão próprio usar infrutíferos). como – superfície vertical. – Infecundo é “o que não tem qualidades de natureza próprias para produzir amplamente”. esterilidade. e até homem estéril (e ainda esforço. ou porque lhe faltem outras qualidades de terra fecunda. No sentido translato. improdutivo por falta de cultura”. 345 ÁRIDO. infrutuoso. sacrifício estéril). – Terreno árido é o que nada produz. É um pouco menos que ímprobo. aridez. como planta estéril.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 205 perior dos corpos. como a de uma tarefa ou um trabalho supõe-se que é devida mais. improdutivo. E tanto parece assim que ninguém se arriscaria a dizer – superfície do céu – por exemplo. só se aplica aos animais. A infecundidade diferença-se da esterilidade pelo seguinte: dá o primeiro uma ideia muito nítida de que a coisa infecunda não tem qualidades criadoras. Dizemos. Trabalhei quanto pude.. – Improdutivo também enuncia ideia geral de estéril. portanto. mas tudo que fiz foi completamente improdutivo (não sem dúvida – estéril. A infecundidade daquela fazenda é devida à má administração. – Sáfaro é também “exausto (terreno). de incapacidade para produzir. e até ser um defeito remediável pela rega artificial. de uma sala. nem árido. infecundidade. para que produzisse. – Estéril é termo de mais extensividade do que árido. “poder-se-ia confundir com infecundo se . tanto na coisa explorada.. improdutividade. ser um acidente. inclinada. – Terra ou terreno seco é aquele a que falta umidade suficiente para que se torne produtivo. Dizemos – a esterilidade das regiões polares (não. em todo caso. sequidade. – Ingrato. – Infrutífero é propriamente “o que não produz os frutos que devia produzir”. pelo menos. pelo menos. Área de um polígono. A infrutuosidade de uma planta. Não tem. trabalho. de um campo. tanto se diz do terreno. Não obstante. portanto. seco. mas sugere mais claro a ideia do esforço que se fez 25 E isso por mais que se nos objete neste caso que o super que figura no termo enuncia uma ideia de relação entre a face e o centro do corpo. ou porque seja seco. tanto zona estéril. para ter efeito. sáfaro. ou à falta de custeio próprio (não – esterilidade). contra a qual não há ação corretiva possível.” etc. infrutífero. A maninhez supõe-se que é mais devida a abandono do que às qualidades da terra. improlífico. além da noção que exprime. etc. No sentido natural.

tal foi a de d. enquanto durou a guerra com os holandeses. em vez de ser definitivo. III. porque só constava de três embarcações. tais eram as que os fenícios e cartagineses enviavam à Espanha na infância da navegação. Camões. (Lus. As tréguas são geralmente motivadas pela nenhuma eficácia das operações entre os beligerantes. esquadra. 347 ARMISTÍCIO. hálito. e D. Ajudada também da forte armada Que das boreais partes foi mandada. porque constava de treze navios”. porém. o que bem distingue armistício de tréguas é o fato de serem sempre estas de muito maior duração que aquele. podia chamar-se armada. ou pelo desejo de se combinar a paz. “armistício é termo diplomático e técnico. etc. esquadrilha. ou em terra. que venceu os turcos nas águas de Lepanto. em rigor. senão o de esquadrilha. mas o armistício é absolutamente a mesma coisa que a suspensão de armas – frase que designa a interrupção momentânea da luta. que passava. – Segundo Bruns. Obedeceste à força portuguesa. à que comandava Vasco da Gama. Sancho I a tomar Silves. 346 ARMADA. e não terem o objeto determinado que tem o armistício. suspensão de armas. Pode-se dizer que as tréguas são um tratado de paz que. – Esquadra é uma reunião de navios de guerra com o objeto de proteger o comércio. bem provida de armas.. a noção de incapacidade própria e talvez ingênita para a procriação”. e pela duração que é inerente ao sentido do vocábulo. como as que vinham todos os anos do Brasil para Portugal. – Frota (escreve Roq. pela sua comum falta de recursos. se limita a um espaço determinado de tempo. João de Áustria. dar tempo a discutir uma proposta.206 Rocha Pombo não marcasse. melhor do que este. (Lus. ou frota armada. planear a paz. diz Roq. 348 AROMA (aromas). tais foram as que ajudaram D. umas vezes chama frota. 57) E ainda: Foi das valentes gentes ajudada. e em tempos modernos. Toma-se às vezes por esquadra. outras. suspensão de armas é locução vulgar. armada. ou entre duas nações que estão em guerra. nenhum destes nomes lhe é próprio. cheiro (cheiros). 86) 26 Lisboa. perfume. no mar. enterrar os mortos. De armas fortes e gente apercebida A recobrar Judéa já perdida. mas talvez esquadra mui numerosa. Em todo caso. como diz o nosso poeta: Tu26 a quem obedece o mar profundo. Da germânica armada. frota. – Armada é o conjunto total dos vasos de guerra de uma nação. tré- guas.) “é a reunião de navios mercantes dados à vela com o objeto de exportar e importar mercadorias de um para outro porto marítimo mais ou menos distante.: “Fragrância per- . nem ainda o de esquadra. e ainda a circunstância de deixar entender que os exércitos beligerantes se recolhem a quartel”. geralmente a anos. ou de hostilizar o inimigo. olor. – No seu grupo 457. A de Pedro Álvares Cabral. combinada entre dois exércitos em campanha. O armistício tem ordinariamente por fim recolher os feridos. as comboiadas por nau ou naus de guerra. fragrância. Afonso Henriques a tomar Lisboa. “As tiranias sacrílegas não voltam: os monstros são improlíficos (e não – infecundos) para a história”. odor. – Tréguas distingue-se de armistício pela sua generalidade. III. sim.

– Aroma é palavra grega.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 207 tence exclusivamente às flores. nem da coisa sacada.” – Olor é “o cheiro particular de cada flor. e significa a dor profunda e sincera de ter ofendido a Deus por ser quem é. no plural. a angústia que nos atormenta a consciência quando delinquimos. aroma. em seu sentido próprio27. Daí se refere a impropriedade de frases como estas (que aliás se encontram até em autores de nota): “arrancou da espada”. Esta supõe um efeito passageiro em seu estado natural. compunção. de lenteiro. unguentos de grande fragrância. Extrai-se oiro da mina. óleos. “Os hálitos que vêm da recendente alfombra.. pesar. o verbo tirar. um jasmim. de azinhavre. posto que em francês parfums corresponda a aromas. o perfume das plantas”. – Extrair diz propriamente “tirar para fora. da pimenta. 27 E.. cheiros. “Arrebatou-lhe o livro sem que ela tivesse tempo de gritar sequer por socorro”. que não sugere. no entanto. agradável ou desagradável. que se exalam em fumo cheiroso. arrependimento “é o sentido pesar. – Segundo Lacerda. – Sacar enuncia a mesma ação de arrancar.. – Contrição é palavra religiosa. ou odor acre de carniça. mas arrancar indica força. – Diz muito bem Bruns. Fragrância explica a ideia de um cheiro grato. acompanhado do desejo veemente de emenda e reparação. tirar do lugar em que estava”. como resistência do que é arrancado. extrai-se de um livro o que ele tem de substancial. tirar.” – Odor pode aproximar-se de fragrância e de cheiro. sacar. mesmo de força por parte de quem saca. que arrancar e tirar exprimem um ato de força. lenhos (raízes). penitência. “arrancara da casa a pobre criatura que nem mais se movia. de jardim. do cravo. porém de pouco tempo. – Indica a palavra remorso. um lírio. ideia. extrai-se (como se tira. bálsamos. e aroma exprime ideia de mais larga duração”. ou se arranca) um dente. Melhor do que tirar. É aromática a árvore da canela. Tem fragrância uma rosa. se saca. significando “suave emanação de algumas substâncias”. não só por parte de quem arranca. remorso. ou perpetramos algum grave delito. 349 ARRANCAR. O aroma supõe. o uso autoriza o emprego desta palavra tratando-se de qualquer substância que dá perfume. esta última. o remordimento. extrair.. e porque o devemos amar . do alcanfor. em português aplica-se particularmente às matérias odoríferas. a pena pungente de haver cometido erro ou culpa.. um cravo. atrição.. contrição. e por meio da arte algumas vezes se faz durável. pelo menos nem sempre. como é a vida das flores. 350 ARREPENDIMENTO. que se aplica a – toda droga cheirosa. uma açucena. arrebatar. e ao fumo ou vapor odorífero que elas despedem”. O aroma é próprio das drogas e das árvores que o produzem. de pomares. “O olor da rosa lhe é gratíssimo. sem restrição da qualidade do cheiro”. – E no grupo 215: “Apesar de que o cheiro pode ser bom ou mau. uma causa permanente de fragrância. – Perfumes. ou sejam – resinas. e também distingue-se de perfume por “sugerir sempre ideia da substância de que mana. no sentido translato.” – Arrebatar acrescenta à noção de arrancar a ideia de violência e rapidez. – Hálito só figuradamente é que entra neste grupo. Odor de floresta virgem. além disto.. ou da parte de onde se arranca. diz-se comumente das substâncias que produzem bom e agradável cheiro. – Pesar é a recordação molesta e penosa causada pela falta que se cometeu. encerra ideia de esforço. mas sem a ideia de resistência por parte da coisa ou pessoa de que se saca.

o tempo diminui o pesar. – Ribeiro é “pequena corrente de água que brota de nascente. no mesmo caso. profundo e vasto do que são de ordinário os rios. regras e preceitos que a constituem – métodos. que significa “abundante curso de água.208 Rocha Pombo de todo o coração sobre todas as coisas. enquanto que são numerosos os diminutivos dessa palavra. porém. Aqui.) “é uma contrição levada ao mais alto grau. (e é mais por isso que também damos aqui este grupo): “Coisa feita com arte. e que quase sempre seca no estio”. pois frequentemente nessa língua se emprega fleuve e rivière. e por extensão é toda porção insignificante de água corrente. – Arroio será de menores proporções que riacho. portanto. no Distrito Federal. que o francês seja no caso mais rico. ela subsiste pelo simples fato de haver métodos. a não . e diz menos que ribeiro. ribeira. – Atrição é quase o mesmo que contrição: é também termo de teologia. senão do verdadeiro amor divino. para designação de rio. – Regueiro (ou regueira) é propriamente o sulco por onde se escoa a água do rego. – Depois de rio. o arrependimento do contrito. apertado entre margens altas”. e exprime a ideia de que o atrito se impressiona mais com o castigo do que com a dor da consciência. torrente. coisa feita com artifício – são expressões vulgares que exprimem que o objeto de que se trata está feito com primor. algumas considerações a propósito da escassez de vocábulos de que. dor que não provém do receio do castigo. regras e preceitos que o artista há de observar para produzir. e é raro encontrar ruisseau também sem atributivo. como ao Sca- mandro. riacho. – Riacho é diminutivo de rio. ou a outro rio. Temos. A contrição alcança-nos o perdão de Deus. Não nos parece. – Ribeirão é propriamente “ribeiro grande”. artístico. Vejamos até que ponto há justeza nestes dois modos de exprimir-se. temos rios que nem são ribeirões. O uso. por exemplo. pois é a dor profunda (e amargurada) de ter ofendido a Deus. mesmo porque todas as línguas conhecidas. ou as formas com que se designam as pequenas correntes de água. os remorsos. regato. O artifício é a arte manifestada no trabalho que analisamos. não conseguiu fixar o valor próprio que o termo deve ter no português. 352 ARTE. rio. padecem do mesmo mal. – A compunção (define Bruns. a reparação aquieta o arrependimento. mas que. com o desejo de sofrer penas que lhe resgatem a culpa cometida”. pode-se dizer talvez. que corre impetuosa e desordenada”. Tanto aplicamos o vocábulo rio ao Amazonas. o designativo imediato pelo que exprime quanto às proporções da corrente de água é ribeira. – Faz Bruns. apenas menos amplo. ou regato sem dizer petit ruisseau? – Rio é a corrente de água mais ou menos considerável que vai ter ao mar. – Regato é “o mais diminuto dos cursos de água perene”. Consolemo-nos da penúria. 351 ARROIO. mas o que é inegável é que a arte existe por si própria. – So- bre arte e artifício escreve Bruns. ao Danúbio como ao Alfeu. porém. – Córrego é “regueiro mais rápido. artificial. ribeirão. por menos que o latim rivus no-lo autorizasse. que socorrer-nos da adjetivação quando é preciso marcar a grandeza dos rios. ribeiro. no entanto. regueiro. – Torrente é “volume de água que se despenha.. independentemente de qualquer manifestação.. navegável ou não”. córrego. embora mais estreito. perseguem o malvado impenitente até à sepultura”. se ressente a língua portuguesa.” – Penitência é ao mesmo tempo “a compunção. Como é que há de o francês enunciar a noção de riacho. artifício.

ofício. – Belas-artes são as que nos suscitam ao mesmo tempo sensações. logikós. rhetorikós. etc. A gramática. a profissão. ou banaysos téchne. zographikós. a arte. não impedem que a arte seja. a retórica. Ciência diz-se de um conjunto de conhecimentos que dependem intrinsecamente de certos . de carpinteiro. que a obra é artificial. de tal modo que todas estas palavras. téchne. – Sobre estes dois vocábu- los. sentimentos e ideias agradáveis. a arte consiste no talento com que é feita uma obra. 353 ARTE. a estatuária. O artifício é que não pode existir sem manifestação: não há artifício onde nada há que o revele. ‘virtude’.) nem são homens de ofício propriamente. a que os gregos chamavam cheironaxia. antigamente só exercidas por escravos.. a eloquência. ou nesta obra há algum artifício. de que nós fizemos arte. concordando com o substantivo feminino subentendido téchne ‘arte’. os advogados. a arquitetura. os cirurgiões. e eram cultivadas por homens livres. profissão – “Posto que a palavra latina ars. sem excluir nem exigir um trabalho material”. – Artes mecânicas. um trabalho ou ocupação qualquer. o jornaleiro. etc. entre artificial e natural uma antonímia que se não nota entre natural e artístico. mister. que entre os gregos tinha mui lata significação. a pintura. etc. assim como a pintura. poietikós. – Profissão é aquele modo de vida que cada um exerce publicamente. – Mister. ou de certa classe: tais são os médicos. um trabalho de engenho. o homem de uma ordem. o homem hábil. que se propõem imitar a natureza na sua maior perfeição. tais são todos os ofícios fabris. como a pintura. venha por síncope da grega areté. etc. são adjetivos substantivados. – como dizemos: – uma coisa foi feita sem arte. etc. mas não há arte: – querendo-se exprimir que o autor da obra empregou na execução dela alguma habilidade. o artista. (Roq. e pode ser mecânica ou de outro gênero.. ciência. mecânico ou de mãos. cuja execução depende principalmente do espírito do artista.) 354 ARTE. O ofício requer um trabalho material. guiado por Bourg.. A arte faz o artífice. pois abrangia toda disciplina em que se davam regras e preceitos. a poética. a lógica. Tanto que dizemos: – uma coisa foi feita com arte. dizer – que ela está feita com arte – é como um pleonasmo. – Artes liberais chamavam os antigos as que ornavam o espírito. eram artes. mas não se pode dizer que seja artística. todavia ela equivale a esta outra. tal é o de ferreiro. escreve Bruns. mas não revelou talento. a dialética.: “Arte diz-se de qualquer conjunto de regras que têm por fim guiar na prática. o ofício faz o operário. ermoglyphikós. é o mesmo que ofício mecânico ou fabril. que é um artífice. e Berg. o artifício é a habilidade com que a obra foi executada. a música.. além disso. os boticários. em oposição às que só exerciam os escravos. a escultura. Há. dialektikós. a profissão. tais como a poesia. pois representam a variação feminina de grammatikós. a arquitetura. os quais não se chamam artistas (pelo menos nem sempre. são as que dependem do trabalho das mãos. palavra mais usada antigamente do que hoje (mester).. a estatuária. architektonikós. – A isso convém acrescentar: sob um ponto de vista mais elevado. Conseguintemente dizemos – que uma coisa está feita com artifício – para exprimir que nela há primor de execução. mas hoje se entendem principalmente aquelas em que predomina o espírito. pois se não houvesse a arte de a fazer ela não existiria”. do latim ministerium. Dizemos também (e aqui se marca muito claramente a distinção que é preciso notar entre os dois vocábulos): – neste trabalho. mas não é um artista.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 209 serem empregados. que hoje temos como substantivos.

A filologia. é arte. mesmo que possam guiar na prática. sendo o conjunto de vários conhecimentos. qualquer que seja a forma que apresente. uma distinção que se não deve esquecer. norte. tendem principalmente a dotar a inteligência com a verdade. – Artífice é “o oficial mecânico que fez uma certa obra”. mas essa utilidade nada importa para a ciência do geômetra. que demonstra. – Operário e obreiro.. obreiro. dá-se. os volumes. o trabalhador supõe-se que entende de todo e qualquer serviço para o qual não se exija um préstimo especial.210 Rocha Pombo princípios gerais. oficial. Mas ninguém se lembrou ainda de dizer – operariado intelectual. as superfícies. Mas essas regras são consideradas apenas quanto à sua utilidade no trabalho de determinar a área do campo. do princípio de que é a arte que aplica. – Operário confunde-se hoje ordinariamente com proletário. Ela funda as suas regras em princípios evidentes. formas portuguesas oriundas do mesmo original (do latim opera).. A agrimensura é a arte de medir os campos. O proletário é. artífice. e a ciência que instrui. Esses princípios podem guiar na prática. no entanto. O operário entende-se que tem aptidões especiais para o trabalho de que se ocupa. Mas a palavra mestre. 355 ARTESÃO (ou artesano). o homem do trabalho que protesta e reclama. proletariado dos titulares. – Artista é “o que exerce uma arte liberal”. porém. por exemplo. A gramática. não como expressão da verdade. portanto. pois este o que pretende é demonstrar a verdade dos seus princípios. – Proletário é tanto o operário. que grava no espírito de modo tal que a dúvida não pode subsistir ante a evidência das suas verdades. enquanto que . ou – operariado profissional. 356 ÁRTICO. – Proletário sugere ideia da condição social a que se sente reduzido ainda o operário. Dizemos. – Obreiro. como qualquer outro profissional que se julga oprimido e angustiado na vida. conduzem a um resultado previsto: ciência. pois só se diz do que está para além do círculo polar do norte. da grande causa (e não operários). encerra ela as regras necessárias para proceder-se à exata avaliação de qualquer terreno. proletário. trabalhador. – Ár- operário. – Artesão é tico é adjetivo menos extensivo que setentrional. – Oficial e mestre também se confundem. o operário que reivindica. resulta que entre estes dois vocábulos existe a seguinte sinonímia: Arte dir-se-á do conjunto de regras que. aplicadas. A arte do agrimensor não tem por missão demonstrar a evidência das regras que a formam. comumente. Há entre os dois termos. do conjunto de conhecimentos que formam um sistema. artista. – Profissional é todo aquele que exerce uma profissão. como um título ou tratamento. boreal. – A geometria é a ciência que se ocupa de medir as linhas. os obreiros da civilização. e isso é quanto basta para se dar por exato o resultado da aplicação das regras demonstradas. essa demonstração foi feita alhures. atribuindo os seus males à má organização da sociedade. e efetivamente as regras da agrimensura fundam-se nos princípios da geometria. não inculcarlhes o valor prático. por exemplo: os obreiros da fé. ao oficial que se tem por senhor do seu ofício. Tanto que dizemos já – proletariado intelectual. – Entre operário e trabalhador nota-se uma certa diferença. pode ter uma significação mais alta e mais extensiva. setentrional. “o que tem por ofício alguma arte mecânica”. confundem-se aplicados aos que vivem de algum trabalho manual. pois. é ciência”. tendo por fim subministrar umas tantas regras para a correta expressão do pensamento.. profissional. Partindo. conhecimentos que.. mestre.

ou o conjunto de meios que se emprega para alcançar um resultado. 357 ARTICULAR. – Artefacto é qualquer produto de trabalho mecânico. F. legítimo. melhor ainda do que este. em que não tenha entrado algum artifício – e que não seja. falso. “território ficto” da respetiva nação (querendo significar que se consideram a embaixada e o navio de guerra como se fossem prolongamentos do território nacional). conforme já se viu. – Proferir é pronunciar em voz alta e com certa solenidade. dizer. Hemisfério boreal (o que fica para cima do equador). ao palácio de uma embaixada. por mais clara que lhes seja a comunidade de estrutura. é evidente a distinção que se nota entre os dois vocábulos. Aí mesmo. artificial. isto é. Chama-se a um navio de guerra. Disse-me ela que virá hoje à tarde. aceito como tal”. puro”. – Fingido é “o que imita calculadamente a coisa verdadeira pela qual quer passar. 360 ARTIFÍCIO. – F. ere). no entanto. proferir. articulou com receio algumas palavras.. América setentrional (a que fica a norte da meridional). – Boreal se aplica a tudo que fica para o norte do equador..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 211 setentrional quer apenas dizer – “que está para o lado do norte”. – Artificial já vi- falar. “Vou desfazer os artifícios de que usou contra mim”.” – Simulado exprime o mesmo que fingido. Do mesmo modo que dizemos – artefactos de cerâmica. fictício. de enganar.. fingido. – Norte emprega-se para designar. Se ele me falar sobre isto. portanto. – Falar é “comunicar-se com alguém por meio de palavra viva”. – Fictício é “o que só existe na imaginação. – Pronunciar é “enunciar a palavra com clareza e precisão”. – Ficto quer dizer “fingido. pronunciar. proferiu na Câmara um belo discurso. ou de pesca.. – Falso é “o que não é exato. – Factício significa também “feito ou criado pelo homem. simulado. Mas artifício aproxima-se mais de artefacto quando se aplica também a coisas que se fizeram com certa arte. Este. porém. como artificioso. mas talvez com in- confundir estes dois vocábulos. o que é inventado. só se aplica tratando-se de coisas não propriamente materiais ou concretas. . Dizemos. – Artifício. o processo. mas em regra com o intuito de iludir. por exemplo. ideia do intento de “fazer acreditar que a coisa fingida é a coisa real”. – Dizer é “expressar por meio de palavras”. 358 ARTIFICIAL. – Ficto. artificioso. – Não se poderiam gido. suposto. ficto. nada se concebe.. no entanto. – Artificioso é também o que se fez com artifício. – Artificial é “todo trabalho feito com arte”: opõe-se a natural. 359 ARTIFICIAL. factício. tento de que passe por natural e verdadeiro”. Resta observar que artifício se emprega ainda no sentido translato: o que não se dá com o outro. pois só aplicamos o nome de artifícios a certa ordem de artefactos. é o meio. para conseguir um artefacto). fin- mos que significa “feito pela arte ou pela indústria do homem”. pois. Zona ártica (oposta à antártica).. – Articular é “dizer a palavra destacando-lhe bem as sílabas”. àqueles que sugerem a ideia de que foram feitos “para enganar”. verdadeiro. ou devido a circunstâncias de momento”. ou de marcenaria – também dizemos – artifícios de caça. fictício e fingido são formas oriundas do mesmo original (fingo. artefacto. em vez de setentrional. e dá. o hemisfério onde se conta a latitude. A tudo que é artificial nem sempre caberá o epíteto artificioso. Ele pronunciou aquela palavra com certa intencionalidade. para fazer alguma coisa (e. Latitude norte (ou setentrional).

portanto. “ferro em brasa”: expressões que parecem autorizar-nos a empregar o termo brasa para exprimir calor. homicida. como vemos algures. assassínio. mata- dor. cometido voluntariamente. será homicídio. para exprimir “brilho ou fulgor”. – Massacrar (do francês massacrer. commis avec préméditation ou guet-apens. massacrar. O homicídio involuntário é uma desgraça e não um crime”. degolar equivale quase. matar. ou abusando da sua força. a ideia de ser completa a incandescência: ideia que não é inerente à palavra brasa. fazer cessar. por exemplo. voluntária ou involuntariamente.. a ação de matar com premeditação e abuso de força.” (Em nenhum destes casos caberia artefacto. morticínio. Também se diz – “brilhar como uma áscua de oiro”. O homicídio.... dizem que “o homicídio é o fato de dar a morte a outrem. adaptado do alemão matsken “degolar”) é “matar em massa gente sem defesa” (Besch. expressão que é muito trivial. 363 ASSASSINO. e abusando o matador da sua força.). no seu artigo sobre assassinat. no entanto.. – Assassino é o que. meurtre.io de assassínio marca simplesmente forma substantival. o homicídio voluntário. cometido sem premeditação. pois se o fosse. a morte.. homicide. Num país onde fosse permitido assassinar. seria preciso notar que a desinência . no entanto. Diremos. São os mesmos autores indicados que definem: “Le meurtre. decerto que é morte. com injustiça e crueldade”... assassínios em massa. e áscua. a morte de criatura humana feita com a responsabilidade do que matou. – é uma prova o podermos dizer: “as brasas estão quase apagadas”. não é assassinato. trucidar. homicídio. Entre assassínio e assassinato não fazem os léxicos distinção alguma. em direito seria preciso marcar talvez uma certa diferença entre os dois. praticou morte envenenando alguém? E não seria o caso de dizermos então que F. 362 ASSASSINAR.ato em assassinato sugere a ideia de crime ou delito. portanto. cometeu assassínio? Sob um ponto de vista filológico. e matar com perfídia e violência. é o termo próprio para exprimir – trucidar. no sentido que esta palavra tem aqui. est un meurtre. e que assassinato designa o próprio crime. – Assassinar é “matar a homem que se não pode defender. ou das vantagens que tem sobre a vítima”. Logo. brasa. capitulado nos códigos. tirar o vigor”. – Matar enuncia a ideia geral de “tirar a vida a um ser vivo”. Neste exemplo: “Os bandidos foram cometendo. . commis volontairement. infração de lei.) 361 ÁSCUA.212 Rocha Pombo “É fácil de ver de que rude. – Áscua implica. em toda aquela região desolada.” – seria possível empregar. – Trucidar é “matar com excessos de barbaridade. – De que entre estas duas palavras não existe sinonímia perfeita – diz Bruns. isto é. Conclui-se ao menos de tudo que assassínio designa o ato em si mesmo. assassinato. mata o seu semelhante. degolar. o meurtre. assassinatos em vez de assassínios? Bourg. o “ato de matar”. que F. e Berg. Só figuradamente se emprega este verbo para significar – “exaurir. Na guerra. ou de que grosseiro artifício se valeu para obter aquilo. e não – “as áscuas estão quase apagadas”. com a mesma propriedade.” Parece que não poderemos traduzir este vocábulo francês meurtre só por morte. seria pleonasmo o dizer-se – “brasa viva”. massacrar. morte. Nem sempre. à traição. E. isto é. se nomme assassinat”. – Degolar é “matar cortando o pescoço”. Nem será morte se o que o fez não usou de violência.. ou melhor. Só é crime. matança. Dizem-nos agora os citados autores: “L’homicide. ou à traição. enquanto a terminação .

– Sítio. ameaçando-a. 364 ASSAZ. não dá o cerco ideia alguma da coisa cercada: pode ser uma grande cidade. O que é assíduo indica mais empenho. pondo-a em perigo crescente. bastante. e – matança de mulheres. ou de assideo = ad + sedeo) é a operação de acampar um exército hostilmente junto ou diante de uma cidade. bastante é mais que suficiente. quando menos em grande número de casos. no entanto. Não se entende a mesma coisa ao dizer: “Tenho o suficiente para a viagem” – revelando. – Sítio sugere ideia da importância da praça sitiada. – Matança é “morte de muita gente. são frequentes as que se fazem muitas vezes. São assíduas as visitas que se repetem com insistência e com certa regularidade. sem sugerir. e tendo muito de comum as duas preposições ad e ob. não é simplesmente assédio: é mais próximo de cerco. Não se diz que um bom empregado é frequente. no entanto. “Livro assaz despretensioso”. bloqueio. – Morticínio é “matança de criaturas humanas em grande número. Bastaria notar que se diz: “fechar o sítio”. . – “Estes três vocábulos” – diz Bruns. Besch. O cerco pode ser de curta duração. uma aldeia.” diz claramente que o indivíduo do que se trata não é crédulo. e o sítio supõe-se que será longo. sítio. Este vocábulo. seja irracional”. ou de inocentes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 213 o assassínio não figuraria nas leis penais: não seria propriamente assassinato. morticínio de bois. ideia necessária de cerco propriamente. e incapazes de defender-se”. Além disso. confundir os dois vocábulos. mais vivo intento que o que é frequente. porém. – “assim dispostos apresentam a sua gradação descendente”: assaz é mais que bastante. não seria possível. Podemos dizer – matança de bois ou de ratos. frequente. sendo puramente adverbial. suficiente. mas assíduo (Bruns. sem mais ideia alguma acessória. – Bloqueio (do alemão blockhaus “pequeno forte de madeira”. desde que se lhes encontra mais constante e mais repetido que o que é frequente. O assédio poderia consistir apenas em manobras a certa distância. Não devemos dizer. com suficiente. – O que é assíduo é só pela respetiva estrutura. porém. nem “apertar o assédio”. pode frequentemente confundir-se com bastante.. dir-se-á do livro que não tem pretensões. E. – Cerco é termo genérico e designa aqui a operação de “instalar forças militares em torno de uma praça. no propósito de rendê-la”. – Morte é o que praticou o matador. ou mesmo por todos os lados. “F. 365 ASSÉDIO. ou de uma fortaleza. é assaz incrédulo para. “apertar o sítio”. que não se tem dinheiro de sobra. ou de grande número de animais”. Assédio (de ad + sedes.). menos vezes. e não – “fechar o assédio”. assédio e sítio não se diferençariam senão pela forma.) aplica-se mais propriamente a operações militares destinadas a trancar um porto. – A julgar no fundo o mesmo radical. pois não só dá ideia da duração que podem ter as operações de guerra. um bosque. – É matador “aquele que mata.. cerco. 366 ASSÍDUO. seja homem. – Quando se diz: “Tenho o bastante para fazer esta viagem” – entende-se que não há necessidade de esquivar-se a gastos supérfluos. ou mesmo uma casa. um posto militar. impedindo que nele entre ou dele saia embarcação alguma. um forte. – Sítio (de obsidium formado de obsideo = ob + sedeo) deveria ter o mesmo valor de assédio. esta maneira de se exprimir. – Bastante indica maior quantidade que suficiente. cercando-a por vários. portanto. onde se tenha metido o inimigo. ou à vista mesmo de uma praça. como ainda a ideia do aperto em que se põe a praça sitiada.

firmar. senão de ritmo. objeto. – Rima é a “perfeita igualdade de som e de acento no fim de dois ou mais versos”. ou em credo e enredo. Entende-se por astrologia a suposta arte de predizer futuros acontecimentos. diz-nos o que sabe. aquilo de que nos ocupamos atualmente. – Assunto é o ponto particular e determinado de que se trata no discurso ou no livro. e designa a verdadeira ciência dos astros. de resolução coletiva que foi tornada. para isto. e não só essa coisa. de astér e nómos “lei. do curso e movimento dos astros. Assina-se uma carta. etc. Firma-se uma letra. por exemplo. – formadas. só se chamam rimados os que a têm. consonância. mas diferentes consoantes”. rimado. – Astronomia é termo mais moderno. – Consonância diz propriamente “sons que se correspondem. medo e preto. astronomia. isto é – que terminam por palavras “cujas desinências têm da sílaba predominante para o fim as mesmas vogais. e por isso mesmo mais vaga. e chamava-se comumente astrologia judiciária. o objeto é o alcance que pode ter o assunto (Bruns. – Firmar é “assinar documento para que se torne autêntico”. ou numa reunião em que se tomaram deliberações”.. O assunto é o ponto em si. como. 369 ASSUNTO. busca e acha aplauso entre o néscio vulgo.214 Rocha Pombo 367 ASSINAR. 371 ATA. assento. 368 ASSONÂNCIA. posição. E como nem todos os versos carecem de rima. valendo-se o astrólogo. para que se saiba que é ela quem escreve”.. pôs entre elas uma notável diferença. a primeira de astér “astro”. Mesmo um outro pode subscrever por nós. um contrato. um artigo de imprensa. O assunto de história tratado por Arriaga é a revolução de 1820. – Assunto e objeto também se distinguem. 370 ASTROLOGIA. isto é. que consiste no estudo e conhecimento do céu e dos fenômenos celestes. – Assinar designa o ato de “pôr a própria pessoa o seu nome por baixo de algum escrito. con- ainda que não faça propriamente parte dela. rima. A matéria de que o historiador se ocupa é a história. subscrever. – Assonância significa “semelhança de sons.. ou julga sem fundamento científico. registro. O uso. assoante. ou igualdade de sons”. e por isso merece a estima dos sábios. harmonia imperfeita”. mas tudo quanto a ela é acessório. para produzir efeitos jurídicos. porém. como. “a narração por escrito do que se passa em uma assembleia. – Ata é soante. – Subscre- ver é simplesmente “pôr o nome por baixo de algum escrito”. ou para que se tenha mais tarde testemunho autêntico da verdade . – Matéria é palavra de maior extensão que assunto. influxo dos astros. – Auto é “o registro solene de cerimônia que se celebrou. O astrólogo conta o que imagina. o astrônomo funda-se em cálculos que não falham. versos que terminassem em besta e lesta. uma declaração.). e a segunda. do aspeto. uma felicitação coletiva. termo. feita das mesmas letras mas de sons ou acentos nem sempre iguais. menos precisa. auto. Dizem-se consoantes os versos de rima com pouca propriedade chamada literal. – Duas palavras gregas de origem – diz Roq. em poética dizem-se assoantes os versos que em vez de rima têm apenas assonância. regra”. por exemplo: fala e casa. Parecem significar ambas a ciência dos astros e das leis que lhes regem os movimentos. e logo “discurso”. Subscreve-se uma lista. matéria. A matéria abrange todo o gênero a que pertence a coisa de que se trata.

escrita e autenticada pelo respetivo escrivão e testemunhas”.) – Assento.). em regra. judiciária ou administrativa. – Descrente é “o que não crê com firmeza. sacrílego. não só é termo mais escolhido. – ataúde e caixão são sinônimos perfeitos. como – “féretro humilde”. O cético argumenta contra as grandes verdades da religião. gentio (gentil). em confiar”. esquife. Mais restritamente – “é a narração circunstanciada de qualquer ato. apenas. – Irreligioso diz apenas “que não tem religião alguma”. para que fique lembrança dele” (Aul. na acepção que tem aqui. ou prova escrita de contrato do que propriamente – registro autêntico de resolução que se tomou”. – Segundo Bruns. leigo. Entre cético e incrédulo é preciso notar a seguinte distinção: o incrédulo não crê porque não cogita de saber a verdade. que se desiludiu de crer”. – Cético é o que não crê senão quando sente a verdade em plena evidência. (Aul. infiel. ímpio. “féretro pobre”. ou superioridade de espírito. ou a súmula de um sucesso. tumba. pagão. O primeiro. Significa mais – “contrato escrito. ordena-se o registro de um fato. ou diligência. profano. sem a solenidade deste. é sacrílego: nem sempre. contra tudo que merece grande respeito. 373 ATEU. incrédulo (incréu). porém. reduz-se a auto uma deliberação. desde que impiedade encerra a ideia de ufania contra Deus e os homens. pois descrido significa – “que não crê decisivamente. descrente. O incrédulo zomba da religião. irreligioso. – Incrédulo é vocábulo de significação mais extensa: designa “o que não crê facilmente”. ou de um papel importante. que afeta uma falsa independência moral. amor. toma-se por termo uma confissão ou um testamento”. designa a maca em que o cadáver é transportado até a beira da sepultura. o cético. – Ateu (do grego a privativo. O ímpio é quase um celerado. Tanto dizemos – “féretro sumptuoso”. – Ímpio é – diz Lacerda – “o que não tem piedade. que não sente pelo semelhante senão ódio e desprezo.. féretro. 372 ATAÚDE. – Féretro é termo genérico que pode substituir qualquer dos outros deste grupo. heterodoxo. e quase sempre é um leviano e fútil. – Incréu é forma contrata de incrédulo. e. – Esquife diferença-se de tumba em não ter tampa. como esta. – Descrido enuncia de modo mais completo a noção de descrente: é como se se dissesse – um descrente definitivo. no entanto. é antiquado: equivale a auto. por extensão. que duvida ou vacila em crer. mas ainda é certo que se não aplica geralmente a caixão pobre e desguarnecido. idólatra. caixão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 215 sobre o que se fez ou resolveu”. O ímpio. porque a procurou inutilmente. veneração. – Termo é convizinho de assento: é o “auto conciso de um ajuste. designa “o que não crê nas verdades que a religião ensina ou que a Igreja manda crer”. que detesta Deus e a humanidade. – Tumba. e theos “deus”) é o homem que não crê na existência de Deus. e da qual é tirado para se enterrar. cético. ou de um clube. na acepção em que aqui consideramos este vocábulo. – Registro é o “ato de se lançar em livro próprio a cópia ou o extrato de um documento. e no sentido restrito em que é tomado neste grupo. – Sacrílego é o que atenta contra coisa sagrada. faz-se assento de um acordo ou de um compromisso. herege (herético). con- . – Infiel é palavra de significação muito restrita. des- crido. e por isso despreza o culto público e o objeto desse mesmo culto”.. será verdadeira a inversa. de uma sessão do Congresso. e muitas vezes mostra-se amargurado de não aceitá-las porque lhe parecem contrárias à razão humana. e que se rebela contra Deus.

A Igreja nascente não falava senão de gentios. o nome de pagãos foi dado aos infiéis que. como foi ordenado no ano 310. porque não queriam militar debaixo das bandeiras de Cristo”. 15). de uma religião. – Heterodoxo se diz do membro de uma igreja. ou porque preferiram deixar o serviço a receber o batismo. e a de pagãos distingue aqueles que observam cegamente. que se chamavam pagus. Pretendem alguns sábios que os gentios foram assim chamados porque não têm outra lei mais que a natural e as que a si mesmos se impõem. entre os latinos. É termo que se pode aplicar a todos os que desconhecem a religião cristã e celebram cultos bárbaros. A palavra gentios não designa senão as pessoas que não creem na religião revelada. retirados das cidades. como entre nós o é paisano a soldado ou militar. Sobre esta e a palavra pagão escreve Roq. Depois do estabelecimento do Cristianismo.: “Assim como os gregos e os romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não fossem eles próprios. de Brama. – Gentio era “toda a gente que ficava fora da nossa grei”. III. Ut portet nomen meum coram gentibus (IX. de Xaca. que refutavam a pluralidade dos deuses.. onde exerciam sua religião. fecerit testamentum. Os gentios foram chamados à fé. 45) – Idólatra designa propriamente “o que adora ídolos”. Jerônimo. E não a mim que creio o que podeis. são pagãos. se quando era ainda paisano.216 Rocha Pombo siderada neste grupo: é o qualificativo com que na Idade Média os Cristãos designavam os maometanos. eram gentios. ainda se conservou a idolatria nas aldeias (pagi). ou porque. uma religião mitológica. que têm uma lei positiva e uma religião revelada que são obrigados a seguir. e obedeceram à sua vocação. gentios. por- que. segundo observa Fleury. quod Christi vexillis non militarent = “daqui veio talvez chamarem os Cristãos pagãos aos gentios. gentes. “o soldado. Seja como for. Afonso Henriques. E acrescenta: Hinc et fortasse christiani gentes dixere paganos. como diz S. Cita Ainsworth a favor desta opinião a passagem seguinte: Miles. mas não eram pagãos. si dum paganus erat. porque os imperadores cristãos obrigaram por seus editos aos adoradores de falsos deuses a retirar-se para as aldeias ou lugares de pouca conta. mas nem todos os gentios são pagãos. Pelo que. Observa Fleury que entre estes gentios incircuncisos alguns havia que adoravam o verdadeiro Deus. como lhes chamou d. os pagãos são gentios. na visão do campo de Ourique Aos infiéis. paganus era oposto a miles. assim também os judeus chamavam goim. dos gentios. etc. S. por oposição aos judeus e aos Cristãos. porque os infiéis se recusaram a alistar-se na milícia de Jesus Cristo. – que tem opinião diferente dos demais sectários (heteros “outro” + doxa “opinião”). Paulo foi o apóstolo das gentes. de Fo. É antôni- . ou fosse. nações. isto é. depois de convertidas ao Cristianismo as vilas e cidades. ou gentios todos os povos que não eram da sua religião. os sectários de Mafoma. são. aos infiéis. como também foram bárbaros para os romanos todos os povos que se encontravam fora de Roma. adoradores de um só Deus. chamaram-se pagãos (pagani) os povos que ficaram infiéis. e com fanatismo. continuaram a adorar os falsos deuses. contanto que observassem a lei natural e se abstivessem de sangue. ou um culto de falsos deuses. e aos quais se concedia a permissão de habitar a Terra Santa. como crê Barônio. como se lê nos Atos dos Apóstolos. os pagãos persistiram em sua idolatria. etc. (Lus. ou. Senhor. e de outras falsas divindades. e este mesmo nome deram depois aos Cristãos”. ou infiéis. de uma doutrina – que não se submete à autoridade que a regula. Os adoradores de Júpiter. propriamente falando. Confúcio e Sócrates. tivesse feito testamento”.

– Segundo Bruns. Não obstante. – Na primeira. José. Como exemplo da primeira acepção. tentativa. necessitamos refletir. que não pertence ao clero. a consumar-se por circunstâncias independentes da vontade do autor. desvelo. indica-se com esta palavra um desses crimes que causam indignação. porém. apontaremos – o atentado que alguns nobres. de extremo cuidado e grave aplicação com que se estuda e trata de resolver alguma alta questão. falta. ou a atenção é demorada e persistente. contensão. – Profano. crime. e crimes leves. como bem define Bruns. em vez de num objeto externo. Antes de empreender um negócio importante. – Solicitude é a “atenção. solicitude. – Atenção é o ato pelo qual o nosso espírito fixa o seu poder sobre algum objeto externo. – Vigilância é um cuidado contínuo. pe- cado. junta à noção de leigo a de ímpio e sacrílego. não se lhe pode atribuir a gravidade do crime. 374 ATENÇÃO. é “uma espécie de reflexão prolongada e persistente”. a honra. não chegando. – Delito é uma infração à lei. cogitação. Na segunda acepção. cuidado. e que consiste em que a reflexão deduz consequências. grande. ou de executar alguma tarefa”. exprime-se que o ato criminoso foi planeado e começado a perpetrar. seja porque revelem instintos depravados no criminoso. Há crimes graves. em muitos casos. intensa aplicação”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 217 mo de ortodoxo. – atentado tem duas acepções muito distintas. ponde- ração. dedicação. instigados pelos Jesuítas. uma atenção que se não deixa iludir. uma atividade que está sempre alerta (vígil “que vela”). praticaram nas terras da Boa-Hora para assassinarem el-rei D. aplicação. esse ato chamase reflexão. a propriedade. Se. – Dedicação é quase solicitude e desvelo: é “a boa vontade e empenho com que se cuida de cumprir um dever. quebrantamento. para os crentes. – Crime é o ato pelo qual a vida. os direitos ou os interesses alheios são atacados ou aniquilados. que não cessa de agir enquanto não consegue o seu fim”. chama-se aplicação. a diligência levados quase a um verdadeira inquietação por aquilo que nos interessa ou de que devemos dar contas”. citaremos – o atentado contra Carnot. 375 ATENTADO. indefectível com que se faz alguma coisa”. não de reflexão. meditação. quebra. infração. as nossas faculdades se fixam sobre objetos internos. porém. – Cuidado é a “atenção zelosa. ou que não diz respeito a crença nenhuma. enquanto que a meditação se exerce sobre fatos cujas consequências se conhecem antecipadamente. – Cogitação enuncia “o ato ou a operação de pensar sobre alguma coisa”. o cuidado. ou de efetuar negócio de grande importância. apercepção. Como exemplos da segunda. vigilância. – os frequentes atentados dos governos contra as liberdades públicas. A paixão do Redentor é um assunto de meditação. – Meditação. – Apercepção é a “capacidade própria da inteligência para conceber ideia das coisas reais”. Muitas vezes comete-se delito sem infringir as leis . – Contensão significa “profundo esforço espiritual. transgressão.. culpa. reflexão. Se a reflexão. seja por ser o ato praticado contra quem ou contra aquilo que é geralmente respeitado. há entre os dois vocábulos uma diferença notável. – Desvelo é o “cuidado e vigilância contínua de quem se empenha com afinco em realizar alguma coisa. – Leigo e profano distinguem apenas o que nada tem com a religião. delito. violação. não meditar. – Herege (ou herético) é o que levou a heterodoxia ao extremo de discutir com certa paixão e sustentar graves erros em ponto de fé. – Ponderação sugere ideia de atenção mais profunda.

– Postura difere de atitude em revelar este o sentimento próprio. aquele que pela sua gravidade como que mata as almas. que opera os efeitos que lhe são naturais. – Quebra. – Infração é o ato de “infringir. – Gesto é um movimento do corpo todo. experto. e geralmente aplica-se este termo só a casos de pouca importância. – Culpa = “ato ou omissão menos grave do que crime”. comete um atentado. ou o preceito moral”. infringem-se as leis morais sem cometer delito. ansioso. na pessoa. ou suplicante. – Transgressão é propriamente “o ato de fazer alguma coisa passando por cima das leis”. moirejante. parecendo que o segundo é muito mais forte. Se a pessoa alvejada tem uma alta representação social. Um braço estendido horizontalmente não pode permanecer muito tempo nessa posição. ou só da cabeça ou dos membros. O gesto é rápido. afanoso. ou se as circunstâncias da tentativa são excep- cionalmente notáveis. ao busto. Quem erra um golpe ou um tiro de bala contra uma pessoa comete uma tentativa de morte. – Falta = “omissão menos grave do que culpa”. evitar frases como estas: a postura da cabeça. – Violação distingue-se dos dois precedentes em encerrar a ideia da força. cuidadoso. pressuroso. pois esta resulta da consciência com que a infração foi cometida. Particularmente aplicado a . aludir à apreciação alheia. Há o pecado mortal. zeloso. 376 ATITUDE. apressurado. mas que não chegou a consumar-se por alguma circunstância alheia à vontade do autor. Tudo que exerce a ação que lhe é própria. mais ou menos grave. afadigado. postura. – Posição – referindo-nos somente ao que desta palavra é relativo às pessoas. e que exprime um sentimento. quem fere. não. quebrantamento = “ato de infringir lei ou preceito”. – Atividade é antônimo de inércia.218 Rocha Pombo morais. Não é possível violar (de violo. é ativo. gesto. solerte. uma paixão. a postura das mãos. que na atualidade a dominam”. postura. O celerado que lança uma bomba explosiva sobre uma multidão. solíci- to. A autoridade que dá uma ordem absurda comete transgressão. verbo latino oriundo de vis “força”) sem cometer violência. desvelado. A postura de uma pessoa é decente conforme os olhos que a veem. Quem comete uma infração pode não ter culpa. e frequentemente. e aquele. Dizemos – infração involuntária.: frases nas quais posição ou gesto seriam o termo adequado. como comete infração das leis penais quem furta uma carteira. neste grupo. etc. e nunca – violação involuntária. É preciso não esquecer que atitude e postura se dizem do conjunto do corpo. 377 ATIVO. diligente. – dizemos da direção que se dá aos membros. atitude benigna. também. os sentimentos. isto é. não uma tentativa. – Tentativa é propriamente um atentado. mata ou tenta ferir ou matar o seu semelhante. e por extensão. – Pecado é infração da lei religiosa. portanto. não de cada uma das suas partes. à cabeça. – Ati- tude. mas quem comete violação tem sempre culpa. Quem deseja mal ao próximo comete pecado. o delito. Devemos. O crime quase sempre imprime baldão em quem o comete. das leis morais. do propósito com que a lei é infringida. e o pecado venial – o que não importa em perda da graça. passa esta a ser um atentado. O negociante que não pagou os impostos devidos cometeu infração das leis fiscais. ou indiferente. nos revela as disposições. e nisso difere também da atitude. de quebrar a lei. da lei. mesmo que não mate ninguém. que pode ser facilmente perdoado. Assim dizemos – atitude serena ou ameaçadora. é “o que. ou a prática de um crime ou de um delito que se começou. posição.

portanto. que é de vivo engenho e de fácil penetração”. além de ativo. e obra com energia em toda a economia animal. – Solícito diz “cuidadoso e diligente. além de ativo e diligente.. O mesmo não se deve entender quanto ao diligente. e a viveza com que se empregam os meios para obter um fim. que é pronto nos misteres de que se ocupa. “prudente com astúcia”. solícito. convizinho desses dois: experto é o “homem que. impaciente de cumprir o seu dever ou de executar algum serviço. pois este se supõe sempre que exerce a sua atividade com muito bom senso. A natureza poderosa dos meios. – Moirejante = “esforçado.. – Apressurado = “que tem pressa em fazer. vigilante. em defender os interesses que lhe estão confiados”. Nem sempre o homem ativo pode ser tido como diligente. – Afanoso = “ativo. – Solerte é. se por sua virtude combate com segurança os efeitos do mal. porém. a sua força e virtude constituem a eficácia. dizemos que é ativo aquele que se move na vida com desembaraço. pois a atividade pode não ser ponderada e sair da justa medida. perícia. e que os seus esforços são regulados cuidadosamente pelo esmero com que procura dar conta da sua tarefa. “não consegue o que pretende”. que é expedito em adiantar os seus negócios. convencendo e persuadindo”. – Pressuroso = ativo. forte. que exerce. esse medicamento ativo é um remédio eficaz. Está ansioso aquele que procura chegar ao termo de uma coisa.. e o caráter do que é ativo. Observa com razão Bruns.. que se exerce com muita força”. Pas. Por isso o homem ativo nem sempre conseguirá fazer o que deseja. cansado mais do que talvez exigiria a tarefa”. mas um discurso eficaz previne-a e combate-a. quase precipitado”. que “ansioso não se diz de uma qualidade da pessoa. mas chega a inquietar-se. Um medicamento ativo produz prontamente o seu efeito. violento. Solerte diplomata.. ou trata bem da sua tarefa ou de um negócio que lhe compete. e se a sua ação sobre ela é de natureza que afugenta a doença. afadigado como um moiro”. astuto. – Zeloso é o que. – Violento é o que se exerce . tem uma pronta e clara inteligência das coisas. assíduo em dar conta de seu mister ou de algum encargo”. ou quem se impacienta por ver que ela tarda a chegar”. Na acepção figurada que lhe dá lugar neste grupo dir-se-ia. esforçado na sua lida”. – Afadigado = “ansioso no trabalho. Nem sempre a esperteza é uma virtude de que nos possamos desvanecer: antes pelo contrário. 378 ATIVO. a afligir-se por ver cumprida a sua tarefa. E neste sentido depreciativo aproxima-se mais de ladino. perdendo-se ou dispersando-se inutilmente. constituem a atividade. como define Aul. esmerado. e o caráter do que é eficaz. Um discurso ativo surpreende e não deixa tempo para a dúvida.: “A diligência. empenhado com grande esforço. mas de um estado anormal em que ela se encontra.. – Experto é tomado frequentemente a má parte. sagaz.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 219 faculdades do homem. é cuidadoso. “mostra escrúpulo em cuidar da sua tarefa. eficaz. ou das causas. impaciente por acabar. ou com que obram as causas. além de ser ativo. com atividade as suas aptidões. ou “enquanto”. – Quanto aos dois primeiros. que de ativo e diligente. Caixeiro solerte. – Ansioso é o que se não satisfaz com ser apenas solícito e desvelado. afanoso.” – Desvelado é mais que cuidadoso: é “aquele que não descansa antes de haver cumprido a sua tarefa”. segundo Lac. em suma. – Diligente será o homem que. enérgico. diz Alv. – Cuidadoso se diz daquele “que desempenha com cuidado o seu cargo. – Enérgico diz propriamente “que opera com grande atividade. mostra zelo. vivo interesse nos encargos que lhe são confiados.

ou por mero passatempo. com força mais que normal”. – Propriedade é aquilo que. hoje. que opera com energia demasiada. 379 ATOR. Atribui-se uma obra ao que se crê ser autor dela. imputar toma-se quase sempre em mau sentido”. provas. – Forte = “que atua com muita força. presentemente. comediante. Remédio forte. em que – atribuir é dar alguém por autor de alguma coisa vagamente. não porque a língua o autorize. Um discurso enérgico é feito em termos fortes. mas porque o uso assim o tem estabelecido: Rafael foi artista. claros. – So- um fato à pessoa que julgamos ser causa mais ou menos remota. artista. Cômico ou comediante é aquele que tem a profissão de ser ator no teatro: cômico. Papel de boa qualidade. A eternidade é um dos atributos de Deus. próprio. lhe pertence tão indiscutivelmente que a pessoa ou coisa deixaria de ser o que é se lhe faltasse tal atributo. a torna distinta e inconfundível. se o é como representante das personagens que entram na comédia. alguma instituição.: “Quem representa no teatro uma personagem qualquer. cessa de o ser logo que se retira para entre bastidores. contingente. e o predicado como exigido. ação. repetindo Roquete: “Exprimem ambos a ação de referir a alguém uma coisa. Atribui-se a ruína dos impérios aos conquistadores.º) em considerar-se o atributo como existente. alguma coisa. – Atributo “se diz daquilo que. comediante. um discurso violento ataca sempre alguém. por simples asserção. predicado.º) em o atributo constituir estado. imputar. modo de ser. que parece muito estreita a sinonímia que existe entre os dois primeiros advérbios deste grupo. faça-o por profissão. diferençam-se na linguagem vulgar: 1. é ator enquanto está no palco. (Bruns. estando na essência da pessoa ou da coisa. direta ou indireta dele. – Nota Laf. e deveria imputar-se isso aos maus governos. Dizemos que um remédio é enérgico se ele é mais do que ativo. presente.) 382 ATUALMENTE. dando-o como autor dela. A tolerância é um dos predicados do espírito livre. Atual significa verbos escreveu Lacerda. rápida. argumentos. “A diferença” – diz ele – “deve ser a mesma que se nota entre presente e atual. e artista se intitula o meu sapateiro. e de modo áspero e sem atenção a conveniências que normalmente se guardariam. pertencendo exclusivamente à pessoa ou coisa. propriedade. incisivos. e – imputar é atribuir-lha aplicando-lhe logo o mérito ou o demérito da ação. agora.220 Rocha Pombo com atividade anormal e brusca. A propriedade do ímã é atrair o ferro. Fortes razões. O que é ou está presente acha-se aqui mesmo. acidental.. As excelentes qualidades de uma pessoa”. que em lógica são sinônimos perfeitos. imputa-se .” 380 ATRIBUIR. que facilitaram a conquista. – Qualidade é o que faz com que uma coisa seja tal como se diz. – Predicado é o que se exige na pessoa ou coisa para ser tida como válida ou verdadeira. 381 ATRIBUTO. se age prontamente. cômico. Artista é um termo muito extensivo. atual. e que é violento se abate o organismo e pode até pôr em risco o doente. impetuosa.. – Sobre estes dois lidade. 2. diante de nós. essencial. em presença (prœ). Atribuir toma-se indiferentemente em boa ou má parte. diferençam-se. se é considerado como pago para fazer rir o público. qua- bre estes quatro vocábulos escreve Bruns. Predicado e atributo. constituindo uma das suas virtudes. no entanto. e o predicado.

. nem atuar. Ilustra o autor essas definições com profusão de exemplos extraídos de clássicos. porque estes . operar (obrar).” É preciso notar que hoje.). no entanto. e não é difícil apanhar a natureza e extensão dessa relação em todos os do grupo. presentemente de maneira absoluta. Não se confundem. Quando produz sobre alguma coisa o efeito que lhe é próprio. possível ou futuro. estes três verbos. com o seu maintenant (main + tenant). exatamente como em português. Mas disse d’Alembert com perfeita justeza: “Os acadêmicos. “O rei que reina presentemente” – dir-se-á de maneira absoluta. atual caracteriza-se unicamente por sugerir uma ideia de realidade em oposição ao que poderá ou poderia ser. o tempo em que se está vivendo. modas. e agora em vez de hoje. espírito.. portanto. ou em referência aos reis seus predecessores. ou há poucos dias. “Il était riche autrefois. “emprega-se sobretudo para opor uma certa época da vida de um homem. de sorte que o que é atual não está nem em potência. Um sucesso pode influir sobre coisas futuras (não operar. nem em expectativa. no entanto. segundo a linguagem da antiga metafísica. nem limitando o que afirmamos ao próprio dia atual – hoje. dizemos que opera (ou obra. agora está pobre. maintenant il est pauvre”.” – referindo-nos não a abusões que tivéssemos precisamente ontem.” É evidente que tanto numa como noutra língua esses advérbios estão postos – maintenant em lugar de aujourd’hui. 383 ATUAR. de um povo. como os dois advérbios precedentes. portanto. O francês. dizemos que atua. hipotético. – Presente refere-se sem dúvida tanto ao futuro como ao passado. e marca alguma coisa em oposição com o que é ideal. sob diversos aspetos – costumes. etc. tanto atuais como futuros”. Seja como for. “Ele foi rico em outros tempos. Quem diz presentemente não faz decerto referência em oposição a fato que tivesse sucedido ontem. dá com precisão admirável o nosso agora. Só mesmo dando-lhe muita latitude é que admitimos. marca relação com outro tempo. “Nós nos preparamos atualmente para reinar um dia com os santos no céu” (Bourd. mas a fato passado há muito tempo. como a época atual. “Nossa natureza está presentemente corrompida” (Mol. em oposição a outra fase passada. que hoje marque também ideia muito semelhante a presentemente. ou da humanidade. – Agora (do latim hac hora) é também advérbio que à noção precisa de “neste ou a este momento. Dizemos: “Felizmente hoje não me deixo afrontar daquelas abusões. segundo o mesmo Laf.). e querendo marcar uma certa relação com o passado. ser ainda mais próprio para o passado. dizemos que influi. nesta ou a esta hora” associa a noção mais vaga de “nos ou os dias que correm. agir. às épocas precedentes. “Opõese o presente aos séculos passados” (Volt. atualmente é relativo. “o rei que reina atualmente” – empregar-se-á de preferência quando se quiser sugerir alguma relação com os reis que hão de vir depois dele.. nem em ideia. Quem diz hoje refere-se a fato em oposição a fato ocorrido ontem. “Opõe-se o estado presente de uma pessoa a suas calamidades passadas” (Vauv. Emprega-se.). E quando exerce influxo (ou influência) sobre alguma coisa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 221 ‘que está em ato (actu) e não em potência (potentiâ)’. – mas à fase da vida em que nos achamos. – Quando uma coisa (ou mesmo uma pessoa) exerce ativamente a sua força (física ou moral) sobre outra. nem por vir em geral”. que é a forma vernácula do mesmo verbo latino operare). e nem por isso fica livre da extensão que é admissível. – Hoje. Em suma: hoje é tanto o dia atual propriamente. influir.). no ou o tempo que não é o passado de que se falava”. parece.

se bem que mais genérica. padecer. e em cuja presença se sente um como religioso temor. ou majestade. solene. esplêndido. semblante majestoso. por não dar escândalo. e só se no. Aguentam-se grosserias de um biltre. – Aturdir e atordoar têm de comum a ideia de perturbar os sentidos. ou contrafazendo-se. 384 ATURAR. Porte. O filho submisso atura a rabugice do velho pai. majestoso. se impõe ao respeito ou à admiração de todos. ou que nos fazem. 385 ATURDIR. – Aguentar é vocábulo de uso comum (com a significação que tem neste grupo) e enuncia a ideia de sofrer com esforço. Préstito imponente. solene. ou da sua classe. contrariando-se muito. sofre. enfermidades. – Majestoso é o que esplende pela sua aparência grandiosa e sublime. grandioso. A alma se lhe conturba ao saber daquela desgraça. andar. um grande rumor ou vozeria – aturdem-nos. e portanto acima de todos os do seu gênero. ou mudar a ordem. ou: “é possível que tenha de operar ainda alguma transformação política imprevista”. Aturdir significa “perturbar o senso confundindo-o”. ostentoso. – Aturar é sofrer com repugnância e de mau grado. A augusta fronte do pontífice. – Atordoar aplica-se mais particularmente à ação de perturbar por efeito físico: um cheiro muito forte. ou que se vê na pobreza.222 Rocha Pombo enunciam ação que depende de atividade e quase de esforço consciente). a majestosa cerimônia da sagração do bispo. Uma tormenta.. – Segundo Roq. conquanto pouco tolerado pelos vernaculistas escrupulosos. 386 AUGUSTO. glorioso. – Tolerar é também sofrer por efeito de prudência ou de boa educação. O ar majestoso da rainha. A luz forte perturba a vista (não – conturba). O rei prudente tolera alguns abusos contra sua autoridade para evitar maiores males”. pomposo. – Pontifical = “que tem aparência de pompa religiosa. – Solene = “que tem caráter de formal e brilhante autenticidade”. atordoar. uma bebida alcoólica. com a mesma significação de obrar. sumptuoso e magnífico ao ponto de sugerir a ideia de coisa sagrada e divina. O que tem dores padece. a figura augusta do patriarca. pela sua grandeza. O homem caritativo suporta com bom semblante os defeitos e fraquezas do próximo. uma pancada na cabeça – atordoam. – Padecer exprime particularmente o sofrimento físico do indivíduo. O soberano olhar da princesa. – Imponente é o que. Aguenta-se a estupidez de um funcionário imbecil. “Aquele discurso atuou fortemente no espírito da Câmara. O que tem desgostos domésticos. to- lerar. – Perturbar é interverter. imponente. porém é sofrer em silêncio.. – Conturbar exprime a mesma noção geral de pôr em desordem e confusão. que é augusto e venerando como as coisas sagradas”. o gesto soberano de desdém. – Grandioso = “aquilo cuja pompa e mag- . – Suportar é sofrer com paciência e conformidade. gesto. pontifical. postura imponente. – Soberano é o que está no mais alto grau de poder. sofrer. alterar as condições. perturbar. suportar. contur- distinguem pela causa que produz a perturbação. ou de uma autoridade ignorante. pode ser incluído neste grupo. uma queda. magnífico. a situação ou estado normal de alguma coisa. ou injuriado.: – Sofrer “exprime a ideia geral e absoluta de levar o mal que nos acontece. e é possível que se destine a operar uma verdadeira revolução no seio do ministério”. mas sugere mais particularmente a ideia de perturbação do senso interior. – Também agir. poder. sobera- bar. aguentar. – Augusto é o que é tão grande.

– Encorpar = “tomar maior corpo. digno de honras sobre-humanas. quase imperceptível. brisa. se for devido a forças interiores. mas sim ao incremento. Cresce a planta. engrandecer. avulta aquela grande figura no meio da turba. o verbo adequado será aumentar. além de esplêndido e aparatoso. ainda mostra ostentação. ou que não é contínuo por muito tempo”. – Amplificar-se ajunta à significação de ampliar-se a ideia do esforço com que se faz maior o que já era grande. Se o incremento ou desenvolvimento for devido à afluência do que vem do exterior. fa- vônio. – No entender de Bruns. que vem a certa hora. ou a minha febre. excelente e augusto”. empolamar. dilatar-se. 388 AURA. ou de matéria que se acumula”. – Glorioso = “que ascendeu à elevação do que se fez ilustre e excelente. – Ostentoso = “que. zéfiro. – Avolumar-se é muito próximo de aumentar. os meus males avultam com os meus receios. consideraremos o modo como esse incremento ou desenvolvimento se opera para empregar um dos verbos aumentar ou crescer. amplificar-se. Não se diz: avoluma-se a minha dor. fazer-se mais largo ou extenso”. orgulho e ufania”. intumescer. “cada um dos vocábulos deste grupo sugere a ideia . avolumar-se. encorpar. propício como o favônio”. – Intumescer = “inchar demais. ou por uma impressão muito vaga. – Engrossar = “fazer-se mais grosso”. fazer mais compacto. e que. salva- guarda. 387 AUMENTAR. o menino. viração. aragem. empolar. então. que “o antônimo de aumentar é diminuir. usaremos de crescer. – Há casos. – Brisa é também muito próximo dos precedentes: é “vento suave e fresco”. ou maior do que era”. inchar. – Aura é “brisa fagueira. Avulta o prestígio do general. que tem o brilho ostentoso da riqueza”. o rio. a biblioteca. e pode ser empregado tan- to no sentido abstrato como no concreto. impulso próprio”. portanto. brando vento aprazível. ou a minha felicidade (e sim aumenta-se). avul- tar. – Dilatar-se = “ampliar-se. em que não se atende nem à quantidade. que se sente apenas pela agitação das folhas. ao desenvolvimento. e crescer. patrocínio. – Ampliar-se = “tornar-se de proporções maiores. – Engrandecer = “fazer-se grande. etc. – Avultar pode dizer-se que é muito mais extenso e compreensivo que avolumar-se. ampliar-se. crescer. exagerar. a que sopra alegrando os prados”. – Zéfiro é “brisa matutina. no entanto. fazer-se mais extenso. avolumar-se como empola”. – Exagerar = “dar proporções fora do normal”. – Esplêndido = “sereno e brilhante. nem ao volume. propício. – Empolamar (outra forma de empolar) = “fazer empolado demais”. 389 AUSPÍCIOS. – Observa Bruns. Aumenta a fortuna. – Inchar = crescer com esforço. – Empolar = “crescer. – Aragem é um brando movimento do ar. que nos cause mais pela quentura ou pela frieza do que pela força. ou por efeito de gás que se dilata.. fazer-se túmido. e entre os dois deve notar-se a diferença que consiste unicamente em aplicar-se o primeiro só a coisas concretas. e isso porque aumentar considera concurso alheio. engrossar. aumentar é relativo à quantidade. e o de crescer é minguar. crescer é relativo ao volume. isto é. proteção. mais sólido e de maior vulto”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 223 nificência excedem à grandeza comum”. ou mais largo”. crescer como um tumor”. – Magnífico sugere ideia do que chegou ao máximo esplendor e grandeza. – Pomposo = “que tem mais que o aparato de solenidades usuais. – Viração “é vento fresco.

um poeta. sem contudo ir até auxílio imediato ou intervenção ativa. na qual. socorro ou amparo. rígido. etc. – Esperançoso é “o que inspira esperanças de grande sucesso. Pode ser auspiciosa uma estreia. este vocábulo designa a influência favorável. A austeridade. sem embargo . Há. auxílio. mas nem sempre ajuda. os presságios tirados do voo ou do canto das aves – antes de se aventurarem em alguma empresa. é o mais expressivo de todos os deste grupo. autoriza a esperar-se que venha a dar o que promete. cobre. assim também. e que até são malvados. como se vê no grupo precedente. ou por alguns conselhos ou recomendações. assim como os romanos costumavam consultar os auspícios – isto é. por si mesmo. que põe ao abrigo de grandes perigos. que se manifesta pela benevolência. um casamento. contemplar”) é o termo que designa menor influência benéfica. como também de mortificação e penitência. de salvar. Os fracos procuram a proteção dos poderosos. deixa prever que alcançará o êxito que aspira”. nem ampara. pois. Auspícios podem ser bons ou maus. quando eram favoráveis os auspícios. – Segundo Roq. 390 AUSPICIOSO. – Salvaguarda não é vocábulo muito usado. e tegere “cobrir”) predomina a ideia dos meios que se adotam para pôr o protegido ao abrigo de algum mal. inflexível. porém. esperançoso. de avis e spicere “ver. ou auxilia ou socorre. mas vaga e um tanto ou quanto incerta. o que. – Prometedor é o que. Assim se diz que “uma empresa principiou sob bons auspícios”. duro. pois a proteção defende. portanto. – “a austeridade consiste em sujeitarmo-nos a regras rígidas da maneira de viver. Ainda que geralmente se tome a austeridade em sentido de aspereza e rigorosa virtude. um natalício. – Auspícios (do latim auspex. do superior para o inferior: ideia que não é inerente à proteção. se arriscavam confiados apenas na proteção que os deuses lhes haviam de confiar. acontece que homens que não fazem profissão de virtude. porém. ativa. que se pode prever terá esplêndido sucesso”. entendendo-se que o patrocínio provém sempre do forte para o fraco. por um apoio indeterminado. não obstante. pode ser-lhe retirado por várias circunstâncias: e eis aí a versatilidade e inconstância dos auspícios. inabalável. Pode ser esperançoso um estudante. Em proteção (do latim pro “adiante”. prometedor. Este termo sugere sempre a ideia de autoridade revestida do poder de defender. – Se auspícios tem a significação um tanto vaga.224 Rocha Pombo de uma influência eficaz para o logro do que outrem deseja”. o que a proteção pode fazer é impedir que se chegue à situação de necessitar de ajuda. auspicioso significa sempre – “que começa sob a influência de bons augúrios. 391 AUSTERO. têm costumes mui rígidos e austeros. sem embargo. e o que designa maior eficácia: literalmente “guarda que salva”. pelas suas qualidades e dotes próprios. “As leis são a salvaguarda dos cidadãos”. ríspi- do. que pugna em favor daquele que é protegido ou melhor patrocinado. – Patrocínio denota proteção eficaz. refere-se antes à nossa conduta conosco mesmo que com os demais. etc. inexorável. quando desde princípio tem o favor do público. neste vocábulo uma grande vaguidade de significação. severo. esse favor. observando-as estrictamente e sem delas nos separarmos. inalterável. É prometedor o menino que fez alguma coisa extraordinária para a sua idade. por analogia. o mesmo não se dá quanto a auspicioso. como depende muitas vezes do temperamento e do gênero de vida que muitos são obrigados a levar. rigoroso. à vista do que apresenta.

nem de temer o severo. espanta a todos. em sentido moral. Não podemos deixar de ter certa admiração pelo homem austero. pois só se torna autêntico o ato formal depois de legalizado juridicamente. e que por isso é claro. – Autênti- co designa “o caráter de legitimidade que toma o ato ou a coisa que se fez com todos os requisitos que lhe são próprios. admitir-se algum coração duro que não seja propriamente cruel. indicará ela certo caráter virtuoso. Dizemos: carta. que não muda da resolução tomada”. Se aplicarmos esta palavra aos princípios ou causas. – Inexorável é “o que não cede nem a súplicas e lágrimas”. um gênio austero e rígido também costuma sê-lo com todos. sem serem severos com os outros. positivo. ou melhor. e como tal capaz de produzir todos os efeitos jurídicos”. são austeros consigo mesmos. “que não se dobra. e a severidade o é pelo caráter e os princípios. ou limitadas por alguma autoridade superior. Diz La Bruyère que um filósofo austero. se fez com grande aparato e plena publicidade”. – A severidade exerce-se de ordinário antes com os demais que conosco. – O homem rigoroso tudo exagera. pouco conforme às vezes com a equidade. e se a aplicarmos às ações. do que é mais que rígido: dureza de alma é quase crueldade. Muitos homens. no entanto. contra o rigor. contrato. ou um documento formal pode não ser autêntico. A rispidez quase que depende mais do temperamento e da educação que propriamente das qualidades fundamentais da criatura. pois não se concebe um Estado independente sem que seja por isso mes- . a severidade com os outros pode ser obra de virtude ou de vício. e vem a parecer mais áspero e grosseiro que severo. formal. – Tomamos aqui estas palavras na acepção política. – Inabalável é “o que não muda de opinião. todos se viram pelos excessos a que de ordinário arrasta”. ao mesmo tempo que o rigoroso os leva a um extremo que é mais prejudicial do que útil. – Inalterável é “o que se não move exteriormente. 393 AUTONOMIA. além de formal e autêntico. genuíno”. e por isso não são raros os casos em que a rispidez não exclui a magnanimidade e outras virtudes de coração. – Inabalável é mais forte que inalterável. subentendendo-se que essas leis ficam sempre dentro de alguma lei geral. – Independência pode-se dizer que se confunde com soberania. – Infle- xível exprime. 392 AUTÊNTICO. – Duro dizemos. ou mesmo um distrito ou um município goza de autonomia quando ele se governa. Não inclui necessariamente a ideia de autenticidade: um ato. O homem severo não se aparta nunca de seus princípios. declaração formal. A austeridade chega a converter-se em hábito. pois encerra muito claro a ideia de que a coisa ou pessoa inabalável não cede a esforço. e nada lhe contenta o excessivo rigor. indicará extremada rigidez. e mais ainda com os que dele dependem.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 225 disto. bem que os homens severos costumem ser pontuais e exatos no cumprimento de suas obrigações. – Ríspido aplica-se ao que se excede nas manifestações da severidade. se administra pelas suas leis próprias. de propósito. – Solene é “o que. em outros sucede o contrário. segundo a própria formação do vocábulo. porém. Dizemos que um Estado. relação autêntica. – Formal é “o que se fez na devida forma. que parece o mesmo sempre”. podendo. solene. A austeridade consigo mesmo não é incômoda a ninguém. e por essa razão sempre é temida. ou uma província. O severo não manifesta condescendência alguma. soberania. e faz como aborrecível a virtude. e de gênio áspero. mostrando-se firme e seguro no seu modo de ver ou de obrar”. independência. juramento solene.

escreve para o público. agarrado. e tanto se aplica no sentido moral ou abstrato. sem reconhecer acima de si nenhuma outra autoridade. Mas ávido distingue-se de um e outro. ou de opinião”. do conjunto dos Estados.226 Rocha Pombo mo soberano. porque se refere exclusivamente ao que escreve sobre direito público”. A significação da palavra publicista é restrita. e mau escritor porque escreve incorretamente o que pensou com profundidade. interesseiro. somítico. ávido. porque esta palavra se refere somente a este gênero de produção. – Ávido é também adjetivo. – Avaliar é “calcular o valor de uma coisa”. quer natural. aqui. ainda quanto a isto. força. Os Estados do Brasil são autônomos. Avalia-se uma propriedade. gastando o menos que é possível. a soberania. aqui. que é a entidade representativa de todo o país. a diferença que consiste em não ser inerente ao segundo a ideia de cálculo. o contrário os lexicógrafos) que avarento pode ser empregado como substantivo (significando – “homem avaro”). – “Estes três vocábulos aplicam-se aos homens de letras que publicam obras de sua composição. apreciar é ver com apreço. Entre avarento e avaro. de algum trabalho ou produção”. um sofrimento. o avarento é um enfermo de consciência (não – o avaro). isto é. – Damos. porque pensa e discorre bem. de modo que o mesmo homem pode ser bom autor. potestade. já se vê. e que o inverso se dá em relação a avaro. não há caso algum na língua em que ele se nos apresente como substantivo. A avareza é um vício que mata a alma. – Apreçar é “dar o preço. tacanho. 395 AUTORIDADE. com autoridade. humana. como se avalia um esforço mental. calcular o valor venal de alguma coisa. ainda que se prive a si mesmo dos bens mais comuns da vida”. examinar com interesse e cuidado. salvo figuradamente. hoje o nome de publicista a todo aquele que. – Segundo Lacerda. é “a resultante dos elementos materiais em que funda o poderoso o seu poder”. é exercida pela União. 396 AVALIAR. sovina. poder. Dizemos: a sorte avara (e não – avarenta). “Pobre está já (Roma) tão decaída da antiga potestade”. cainho. e vive ansioso por entesourar tudo o que adquire. que os léxicos dão como sendo a mesma coisa. quer a lei seja divina. não só pela ex- . – Entre apreçar e apreciar há. publicista. como no sentido físico. portanto. escritor. 394 AUTOR. só se diz escritor fazendo-se referência ao estilo. apreçar (apreçar e apreciar). Deve dizer-se mesmo que a distinção entre os dois verbos se regula pela que existe entre os respetivos radicais: apreçar é estipular preço. porém. e muito excepcionalmente como adjetivo. olhar. 397 AVARENTO (avaro). fona. – A soberania política consiste na qualidade de poder um Estado existir por si mesmo. Também se chama escritor qualquer autor literário. é preciso notar uma diferença essencial. Isto quer dizer (por mais que digam. pois isso é comum a toda aquela categoria gramatical. e que nos conste. – Poder é a autoridade que se acompanha da força necessária para fazer-se obedecer. Os nossos clássicos davam a esta palavra a significação geral de poder. aliás. só é empregado como adjetivo. e em relação a avarento está no mesmo caso de avaro. – Força. um serviço. Chama-se autor o que dá à luz qualquer escrito. cobiçoso. mesquinho. – Avarento é “o homem que tem a paixão da riqueza. e converte a criatura humana em simples animal. Potestade supõe o poder que a sustenta. “autoridade é a superioridade legal.

o tucano são pássaros. fazendo-se em tudo mais indigente do que é. prejuízo. apertado no despender. 399 AVE. – Somítico deve comparar-se muito de perto com tacanho e mesquinho. e. danos puramente materiais. – Segundo Lacerda: averiguar é procurar. achar a verdade. no entanto. 400 AVERIGUAR. dizemos dos danos causados principalmente pelas grandes chuvas e inundações. – Mesquinho. o que não se dá em relação a avarento. verificar. a todo animal que voa mesmo sem ser ave. o morcego são voláteis. O condor. provar que uma coisa é certa. reconhecer. de voo curto”. como o animal agarra a sua presa”. – “pode o cobiçoso ser liberal. Como diz Roq. o pato são aves. ou pelo menos considerável do que se possui. que prefere sofrer vexames a gastar o seu vintém”. o cobiçoso deseja muito adquirir. – Ave é “o nome ge- nérico que se aplica a todo animal ovíparo provido de asas”. medindo tudo com muita escassez. a estes uma certa ideia de torpeza: o somítico é mesquinho com os outros para só gastar com aquilo que lhe dá prazer. – Pássaro é “a ave pequena. – Volátil aplica-se a todas as aves. e até procurando lograr os outros se for possível sem parecer propriamente gatuno”. como dissemos. aqui. diligenciar. a águia. verdadeira. estrago ou avaria”. – Estrago é o dano que prejudica parte do que se possui. que danifica a qualidade. – Cainho (fig. – Tacanho aproxima-se de mesquinho: é “o estreito. o pardal é pássaro. estrago.) é “o que esconde. e quase sempre o que vê em poder de outros. e até pródigo”. Um temporal causa avarias nos muros da quinta. ga para designar estrago de mercadorias a bordo de navios. ou não. dano. nada faz que lhe não redunde em proveitos pessoais”. a águia é ave. e perda de colheitas. o avestruz. a galinha. ou melhor. e considerados como reparáveis por meio de gastos pecuniários. As avarias são suscetíveis de reparação. no entanto. O pardal. e só particularmente é que significa – “ansioso de riquezas”. as coisas inúteis”. que vive a apanhar os restos. o seu bocado como o cão o seu osso”. – Perda é o dano total. o que. – Cobiçoso não diz propriamente o mesmo que avarento. magnífico. – Prejuízo é “desfalque resultante de perda. constatar.” – Lesão é termo bem mais extensivo do que dano: designa “toda sorte de prejuízos que de qualquer modo se cause a pessoas ou coisas”. que diminui a quantidade. poupando em excesso”. além da acepção especial em que mais particularmente se empre- . o sabiá. – Agarrado aproxima-se de cainho: é “o que prende quanto tem. pássaro. nem mesmo a de mesquinhez. – Dano é “o mal que provém de nos haverem diminuído o valor de alguma coisa que nos pertence. – Avaria. Ávido é “o que deseja ardentemente alguma coisa pela qual anseia. e que procura alcançar com solicitude e esforço”. – Verificar é “empregar os meios convenientes para cada um a si mesmo convencer-se de que alguma coisa sucedeu como se conta. os estragos podem sê-lo. acrescenta. é “o que exagera a sua pobreza.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 227 tensividade. – Interesseiro é. lesão. 398 AVARIA. mas cobiçoso não inclui necessariamente a ideia de avareza. a andorinha. guarda o seu dinheiro. como pela significação própria. Também significa. – Fona é “a criatura miúda” que faz questão das coisas mais insignificantes. entre os nossos clássicos. “o que cede muito aos seus lucros. perda. volátil. como está dizendo claramente a palavra. – Sovina é “a pessoa mesquinha. o morcego não é pássaro nem ave (porque não é ovíparo). estragos nas árvores. Este quer “para guardar”. em regra.

ou mais particularmente de uma folha de papel. depois de exame. Há. ou posto em ordem. etc. distin- ação de “receber pela vista uma impressão direta do mundo exterior”. ou “mais vivo” em absoluto. reverso.” – Em suma: averiguar é “reconhecer a verdade”. enxergar. porque o que se quis exprimir é que a nova desgraça tornou a antiga dor tão viva como tinha sido). deixar clara a verdade”. descobrir. mal devisar alguma coisa estando-se no escuro”.228 Rocha Pombo e que é exata etc. “Logo que saímos da floresta. ou de livro. – “O avesso” – diz Bruns. aqui. – Enxergar é “avistar mal. e dar disso testemunho”. “aviventemos alguma coisa a nossa marcha. discernir. – Inverso significa “de modo contrário ao que é natural. e iremos ter ainda hoje à fazenda”. de diante para trás. – Discernir é “ver claramente. regulada esta pelo lado em que a folha se liga a outras”. voltado da direita para a esquerda. no entanto. 403 AVIVAR. os vários aspetos”. – Devisar é “perceber pela vista. dizemos: “à folha ou à página tal verso” (isto é – “à página oposta à página numerada”). que significa “tornar vivo”. ser empregados indistintamente. inverso. O reverso é a parte oposta ao lado principal. perdendo-se entre as lombas da campanha.” 401 AVESSO. oportuno. avistamos muito ao fundo do campo a casa da fazenda”. – Bispar é vocábulo popular. sem que o esperemos. – Descobrir é aqui “ver ao longe. descobrir. como se se houvesse eliminado algum obstáculo entre a nossa visão e a coisa descoberta”. ou sentido que não é o próprio”. – Reconhecer é “chegar ao resultado de ver que uma coisa é realmente como se dizia. direção. anverso. – Avivar é “dar mais vida. o verbo avivar. mais atividade. a face. 404 AZADO. próprio. – Avistar é “alcançar com a vista alguma coisa”. adequado. distinguir”. – Ver designa a bulos há a diferença marcada pela partícula verbal incoativa entar que figura no segundo. e oportuno dizemos do que vem a . – “é o lado pelo qual uma coisa não deve ser vista. mais intensidade etc. “Enxergamos muito confusamente a caravana. à primeira vista. ver. é “enxergar ou mesmo lobrigar com esforços”. entre eles a seguinte diferença: azado dizemos do que. as medalhas têm anverso e reverso”. sem quebra de rigorosa lidimidade lógica. através de algum obstáculo”. 402 AVISTAR. muito usado com a significação de “enxergar ou avistar com dificuldade e rapidamente”. mais rapidez. a verdade sobre alguma coisa. ou a parte oposta ao reverso. sem a ideia de que a vida seja completa”. aviventar. de cima para baixo. devisar.” – Aviventar é “dar um pouco de vida. se nos apresenta como favorável. ou avistar mal e mal. Anverso é o lado principal. verso. “dê-nos qualquer ideia que nos avivente ao menos a memória” – não admitiriam. separando ou discriminando a coisa vista de outras coisas.” – Lobrigar é “ver indistintamente. – Entre estes dois vocá- guir. conveniente. ou na própria coisa vista. bispar. propício. oposta à da frente. Aquela desgraça vem avivar-me a dor antiga (e não – aviventar-me. Referindo-nos a um caderno ou a um livro sem numeração por páginas e sim só por folhas. – Azado e oportuno poderiam. lobrigar. O pano tem avesso. – Verso é “a parte de uma superfície. – Constatar (que muitos se dão o luxo de condenar como galicismo escusado) é “estabelecer. – Distinguir. As frases: “avivente um bocadinho o fogo da lareira”. verificar é “ver clara.

aqui. pois El-Rei D. por isso. E. como se viesse a propósito. – Adequado exprime – “que se ajusta ao que pretendemos. 406 BAILE. e seu verbo danser. fatal”. e só exprime a ação física de bai- lar. como acreditava o espírito supersticioso dos antigos. mas é certo que ao que nós chamamos bailar chamavam os latinos saltare. A língua francesa. e prometendo sucesso”. pois exprime apenas – “não propício. talvez semelhante ao que chamam hoje contradança. daquilo “que anuncia desgraças”. quem baila dá saltos.: “Não defendemos a etimologia do verbo bailar. e fazer as cortesias e mesuras que a boa educação prescreve. e faz movimentos de corpo mais ou menos compassados. faziam-se antigamente folias por ocasiões de alegria pública. e designa particularmente o movimento regular do corpo e seus membros ao compasso e tom de música. 405 AZIAGO. Diz Bruns. como a palavra de origem francesa (folie ‘loucura’) o está dizendo. dançam os cavalheiros e senhoras nobres em suas salas. muito alegre e festivo. Pedro I sabemos que tinha gosto particular de bailar a folia. tem só um termo para significar estes movimentos – é o substantivo danse. nefasto. – Próprio. é uma dança rápida ao som de pandeiro ou adufe. com mais ou menos ligeireza. dança e folia escreve Roq. II)”. ou que convém ao fim que se colima”. – Infausto diz menos que aziago. funesto. folia. ao som de flautas. bailam os próprios selvagens à sombra de frondosas árvores. de ballizô. entre várias pessoas. Port. – Sobre baile. dar saltos’. e. “Chegou o momento oportuno de jogar a partida”. – Propício é “o que se apresenta oportuno. dançou em público com seus cortesãos. ainda hoje.. designa o conjunto ou série de movimentos com que se executa uma dança. ou do cálculo que fizemos. sugere “a ideia de sinistro.. senão para a maneira de pisar. – Folia. ‘saltar. folgança. não feliz”. – Funesto. tem três que determinam as ideias acessórias destes saltos e movimentos. infausto. cantando. – Baile é nome genérico e vulgar. ter o corpo em elegante postura. A dança é uma arte semelhante à que entre os gregos se chamava orchestike. que não só dá regras para mover o corpo e os membros a compasso. e que se assemelha à dança das bacantes. bailado. mais pobre que a nossa. ora mais rápidos. agoi- rento. No dia em que armou cavaleiro a D. e dizia a todos: ‘Eu assento que nada fica mal à Majestade. jongo. fan- dango. bailam os homens por alegria e diversão. significa – “que se adota. dança. “O momento parece azado para uma tentativa” (e não – oportuno) – desde que veio inesperadamente. a nossa. O bailar é uma espécie de instinto nas criaturas racionais. – Agoirento é “o que. Bailam os moços e moças do povo em suas festas e reuniões. A folia indicava noutro tempo (que hoje é palavra antiquada) certo modo particular de bailar. é lúgubre e sinistro”. e assim como os animais retouçam de contentes e alegres. em que era muito eminente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 229 encontro dos nossos desejos. em que os próprios reis não duvidavam tomar parte. João Afonso Teles.. vantajoso ao fim que se deseja”. (e não – o “momento azado”). porém. – Dança é palavra mais nobre. – Aziago se diz. isto . favorável. e ao som de rústicos instrumentos. na verdade. que “baile. quando se trata de honrar a virtude’ (Anecd. ‘saltar’. ou fosse feito para tal fim”. além da de aziago. além de aziago. no sentido em que esta palavra se pode confundir com dança. – Conveniente diz também – “que é favorável. ora mais graves. a dança é própria de gente nobre e cavalheira. samba. – Nefasto significa “cheio de desgraças e calamidades”. executando concertadamente todos os movimentos.

buciar é “não pronunciar claramente certas articulações. – Balancear “é pôr ou ficar como suspenso. mas não há mestres de baile (senão noutro sentido). indeciso. As danças ou bailados executavam-se ao som de grandes tambores. duvidar. o bailado. que pode ser arremessado com força”. Note-se que estes três verbos entram aqui no seu sentido figurado. 409 BALBUCIAR. é o mesmo que fandango. – Jongo é “dança ou bailado em público e ao ar livre”. antes da abolição. ou em tomar a tarefa que se lhe propõe”. misturá-las. – Duvidar é “hesitar por não ter certeza. De uma pessoa se diz que baila bem quando se atende à maneira como faz cada um dos movimentos que entram na dança. vacilar. cortando as palavras e repetindo várias vezes a mesma sílaba antes de pronunciar a seguinte. espingardas ou canhões”. mas indica particularmente baile popular.. muito clara. Colhidos de improviso. na dançarina considera-se a dança. é a dança mímica espetaculosa”. nos teatros há corpo de baile. tangidos à mão. uma mazurca. confundi-las num ruído surdo que não as deixa claramente entendidas. ou ter gagueira) é falar com dificuldade. balbuciamos. como medindo os motivos de escolha e decisão. Mas tanto este como balançar sugerem melhor a ideia de ficar em dúvida entre duas ou mais coisas. – Distingue-se este dos dois últimos verbos do grupo em dar. há mestres de dança. não sentimos razões suficientemente fortes que nos levem a tomar uma resolução”. hesi- é. tartamudear. uma valsa são danças. ou um conhecimento exato do que se deve fazer”. usado pelos africanos. Assim. feitas mais de barulho que de bailados. uma polca. e os movimentos com que essas danças se executam constituem o baile. como acabamos de dizer. tar. – Hesitar enuncia o estado de espírito “em que. embalançar). baile é propriamente a festa. a ideia de que a pessoa que hesita tem desejo de não hesitar. mas aplica-se comumente esta palavra a toda festa livre e reles. Hesitamos em preferir um de dois ou três bons empregos que se nos oferecem (não – vacilamos). Hoje está quase inteiramente extinto no Brasil”. – Noutro sentido. “F. projetil.230 Rocha Pombo 408 BALANCEAR (balançar. fandangos etc. os movimentos do corpo. depois outra. e que consiste em danças. mais ou menos ruidosa. – Fandango é “festa de danças ruidosas. 407 BALA. e dizemos que dança bem quando se atende ao modo como executa as diferentes danças em que toma parte. Pode ser isto um efeito acidental da comoção ou da emoção. – Gaguejar (ser gago. – Bailado. gaguejar. ou um defeito natural que provém dos órgãos da voz. – Tartamudear é precipitar as palavras de modo confuso. Quem vacila quer agora uma coisa. duvida tomar. quer dizer: na bailarina considera-se o baile. da Espanha passou para toda a América colonial. – Bala é “o projetil de forma cônica ou esférica que pode ser lançado por armas de fogo. comparando-as. mas não há corpo de dança. logo mais uma outra. ou solene. como as . – Bal- de qualquer forma. – Projetil é “qualquer corpo. bailados são as próprias danças. É a gagueira um defeito dos órgãos vocais. O mesmo se deve dizer de embalançar. No sul do Brasil. É defeito comum à infância e à extrema velhice. Nos teatros há bailarinas que executam os bailados. – Folgança ou folguedo é termo popular que designa toda espécie de diversão com que se descansa do trabalho. ou danças mímicas. e dançarinas que executam jotas. – Balançar é outra forma de balancear. – Samba é também bailado popular. Vacilamos entre coisas que nos repugnam e que nos impõem (não – hesitamos). apesar do nosso desejo e até do nosso esforço. oscilante”.

– banal se diz do termo ou expressão que é usado por todas as classes sociais.º) ao contrário. de si mesma. se goza de um crédito suficiente. dizendo – ‘a bancarrota que foi qualificada de fraudulenta. Como. A bancarrota simples é a falência que é acompanhada de falta grave. ainda que não seja fraudulenta. aplica os epítetos casual. pode dar-se que um comerciante cujo ativo exceda de muito ao passivo. Acompanhada de fraude ou de falta grave. resumem assim: “A quebra é o estado de um devedor. – Ordinário se diz do que não se destaca do comum. A bancarrota fraudulenta é corriqueiro.. As pessoas nervosas tartamudeiam quando vivamente emocionadas”. na ordem de ideias em que consideramos a sinonímia destes vocábulos. porém. 2. ordinário. por falta de recursos presentes. vulgar. e for obrigado a cessar pagamentos. aplicá-lo àqueles termos que têm algo de indecente ou de baixo. falência. expressão ou linguagem que não se salienta de nenhum modo. ou que nelas estão parados à espera que alguém os ocupe. Daí se vê que há entre falência e quebra diferenças essenciais: 1. não ficam contudo bem em todas as ocasiões. dir-se-á ordinário do termo. ou não sobressai acima da ordem habitual das coisas. punível quando não é acompanhada de fraude. O que é vulgar carece de uma certa nobreza que não é comum entre o vulgo. entretanto. o vulgo não se compõe só do que é ínfimo. – Corriqueiro se diz do que corre na boca de todos. e também “que não é raro”. de trivium “encruzilhada”) dizemos do termo ou expressão própria dos que andam pelas encruzilhadas ou pelas esquinas. daí resulta que comum se diz do termo ou expressão que não é elevada. – Segundo Bruns. e.. o art.º) a falência é um estado exclusivamente próprio aos negociantes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 231 crianças. Por imperfeição natural. – Comum significa propriamente “de todos”. cujo passivo é superior ao ativo. nem de falta grave. “que é frequente”. quebra. é o estado dos comercintes falidos ou quebrados – isto é. à declaração de falência.”. – Bourg. E demais. mas particularmente mais pelas baixas que pelas altas.. 263 do Cod. (Bruns. a falência passa a ser uma bancarrota. culposa. a bancarrota pode não ser fraudulenta. ou quebra.’: logo. 798 do Cod. familiar. e impróprio de pessoas decentes. seja declarado em falência se. e como o que não é raro tem pouco valor. A falência não é. pode continuar seus pagamentos e escapar assim. porém. Isto ainda mais se confirma pela redação do art.°) um comerciante pode estar em estado de quebra (isto é. e significa o mesmo que falência ou falimento. comerciante ou não.) 410 BANAL. conseguintemente. vulgar. comum. que é comum. sem certa nobreza. sem ficarem mal na boca de ninguém. – Trivial (do latim trivialis. gaguejamos.. A falência é o estado de um comerciante que cessou seus pagamentos.. . 3. – Vulgar se diz do que é próprio do vulgo. – Familiar se diz “da linguagem ou dos termos usados em família”. – Quebra entende-se de comerciante. é muito usual. sem que haja todavia fraude da parte do falido: é um delito da competência dos tribunais correcionais. Pen. não puder solver compromissos. trivial. isto é. Este vocábulo pode considerar-se só neste sentido. à falência. que cessam seus pagamentos. – Falência. ter mais dívidas que bens) e. O que é trivial é baixo.. portanto. resulta daí que vulgar se diz dos termos e expressões que.. – Sobre estes três termos de jurisprudência escreve Teixeira de Freitas: – “Bancarrota denota geralmente entre nós o estado de falência ou quebra de qualquer comerciante. e não à bancarrota. do Com. ou quando menos “de muitos”. e Berg. ou não merece apreço. grosseiro. 411 BANCARROTA. fraudulenta.

– Insígnia é qualquer emblema que distinga. Os vocábulos bandido e malfeitor são frequentemente empregados como qualificativos das pessoas de má índole”. ou a bordo de navios. a banda do regimento. ou de privar da pátria ou do país onde se vive ou mesmo se está de passagem ou de pouco. nem mesmo – orquestra popular. triar. – Filarmônica é a banda de música particular. Quando o salteador opera com outros. O banido é expulso. No Alentejo dizem que os ciganos e os malteses são malfeitores. degredar. ou feita e mantida por alguma associação. ou em teatros. vesânico. 415 BANIR. como sinal ou como distintivo. “pelo menos na mente de quem ordena o ato”. grandes crimes” (scelus. – Música é. – Todos estes verbos têm de comum a ideia de expulsar da terra. charanga. Fanfarra é o mesmo que charanga. – Bandido é o malfeitor perseguido pela justiça. – Pavilhão pode-se dizer que é o nome que toma o estandarte nas tendas de campanha. expa- nia. e não é raro que seja também assassino. pavilhão. simbolizando uma nação. fanfarra. de que sceleratus é particípio). 413 BANDEIRA. esta palavra encerra a ideia de pena infamante. – Facínora (e facinoroso) é também o sujeito perverso. ou que assalta de noite as habitações isoladas.232 Rocha Pombo a falência acompanhada de fraude: é crime. – Bandeira é qualquer pedaço de pano preso a uma haste e arvorado de modo a que se o aviste de longe. exilar. or- questra. ou do batalhão naval. O salteador vive do roubo. – Charanga é a banda formada só com instrumentos metálicos. que deu scelero. Segundo alguns autores. 414 BANDIDO. salteador. vexilo. “cheio de crimes”. Não se poderia dizer – orquestra militar. proscrever. – Banda é uma corporação de músicos pertencente a algum batalhão. assim como pode ser ladrão e assassino. é bandoleiro. ou que é capaz de praticar. 412 BANDA. “crime”. – Exilar exprime simplesmente o ato de . ou mesmo a algum estabelecimento público: a banda da polícia. não podendo o banido voltar jamais ao território de que foi expulso. filarmônica. insíg- – “malfeitor é. – Segundo Bruns. bando- leiro. música. Pode-se distinguir estes dois últimos vocábulos pela particularidade que apresenta celerado de sugerir a ideia de bandido ou malfeitor impulsivo. o malfeitor pode viver do roubo sem nunca assassinar. – Orquestra é o conjunto de professores que executam altas peças de música em concerto. desterrar. a palavra menos enérgica. sendo a pena de banimento muito mais grave que a de deportação ou mesmo desterro. – Banir é o mais forte de todos. pois o banimento importa a perda. celerado. do grupo. ou que seja próprio para representar alguma instituição. “o termo genérico aplicável a todo grupo de músicos que executam alguma composição musical”. – Estandarte é a bandeira de forma e cor fixas. dos direitos de pátria. desfraldada à frente dos exércitos. – Vexilo é termo antiquado correspondente a estandarte: era a bandeira militar. ou orquestra do batalhão. e como tal da competência dos tribunais ou câmaras criminais”. – Celerado “é o bandido monstruoso que praticou. estandarte. aqui. malfeitor. e entre todos obedecem a um chefe. doido. mas sem se lhe determinar o ponto para onde deve retirarse. como não seria a ninguém permitido arriscar esta monstruosidade: a banda do teatro lírico. – Salteador é o ladrão que ataca os viajantes nos caminhos. para sempre. facínora. deportar.

ou só explicável no selvagem. mas ordinariamente infringindo as leis da sintaxe. se pareciam com as dos bárbaros. de todo o grupo. por orgulho. . por sua viciosa pronúncia. o trato que denuncia a índole sanguinária. e. ou da terra em que se tem domicílio. mas até se fixava um prêmio para aquele que tirasse a vida ao proscrito se encontrado na pátria. Por isso que os gregos e romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não eram eles. sem outra ideia acessória além da de inculcar que a ausência será longa. crueldade (crueza). 416 BARBARIDADE. Mais comumente proscreviam-se aqueles que procuravam escapar à ação da justiça. – Proscrever é. vem a palavra solecismo. (Crueza é a própria ação cruel.) – Ferocidade. o solecismo é um defeito da construção da oração e que pode provir de ignorância ou de descuido. 48). solecismo. Poderíamos. o mais próximo de banir: era antigamente (em Roma e na Grécia) o ato de expulsar da pátria e proibir que o proscrito a ela regressasse sob pena de morte. é a manifestação de um certo prazer à vista de sucessos fortuitos ou provocados que trazem consigo derramamento de sangue. deram com muita razão o nome de barbarismo às palavras e expressões que. nós outros. é o prazer que mostram certas naturezas experimentar à vista de espetáculos que tanto têm de bárbaros como de cruéis. com referência ao homem. fixando a residência em que o desterrado deve cumprir a pena. é a indiferença com que. vemos sofrer o nosso semelhante sem socorrê-lo. – “Significam estas duas palavras” – diz Roq.) – Desumanidade é a ausência de sentimentos humanos. ou da língua deles eram tiradas. – “em geral erros de linguagem. com a diferença que o barbarismo é uma locução viciosa. ação. – Desterrar diz propriamente “fazer sair da terra onde se habita”. ou protesto implícito contra a política existente ou contra as ideias dominantes na terra de onde se retirou o êxul. – Deportar é desterrar perpetuamente para uma colônia distante. e também a ferocidade própria da fera. ou limitando-lhe a menor distância em que pode ficar do seu domicílio. Cometem-se estes de muitos modos na língua”. com o andar dos tempos. ou para longe do país onde se acha o deportado28. quando ainda os franceses tinham a sua semibárbara de Ronsard.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 233 enviar para fora da pátria. desumanidade. ou mesmo sentimento 28 Segundo Teixeira de Freitas (Vocabulário jurídico. a deportação é semelhante ao banimento (?). Muitas vezes até o exílio é voluntário. portanto. 417 BARBARISMO. não só se lhes confiscavam os bens. própria do vulgo que tudo adultera. por egoísmo.) – Crueldade é a inclinação à prática de atos sanguinários. (Será. e neste caso quase sempre indica atitude infensa. corrompida. sem polícia. falto de humanidade. pois. seja só como pena infamante (degradação). posto que nele predomine a ideia de prepotência por parte de quem decreta a pena. por esse ato. e não a da gravidade da culpa da vítima. próprio de bárbaro. esqueceu a pureza da língua grega. – Expatriar não é pena que se imponha. seja como infamante e aflitiva. (Fereza é o ato mesmo de ferocidade. Não se liga a este vocábulo nenhuma ideia de pena infamante. chamar barbarismos galicanos ao que mui francesmente se chamou galicismos. – Degredar é enviar para o degredo. ou por dureza de alma. colônia ateniense na Silícia. – De Soles. o modo. e portanto figuradamente. ferocidade (fereza). que temos uma linguagem culta e polida desde Camões. – Segundo Lacerda – barbaridade é a disposição do homem rude. Este vocábulo designa o ato de sair da pátria. que.

era inferior à nau. bergantim. iate.) fazendo alusão ao esforço e trabalho com que é levado. e vice-versa.234 Rocha Pombo 418 BÁRBARO. menos porém que embarcação. como força agressiva. no entanto. de vela e remos. tartana. catraia. – Barco é “termo genérico. Uma nação selvagem não conhece. A jangada é uma embarcação. galera. usada principalmente para recreio”. lancha. batel. bote. – Galera = “antiga embarcação. Talvez por isso é que se diz – “batel da vida” (e nunca – escaler. estreita e comprida. nas letras. navio. todos os vocábulos que se seguem apresentam de comum a ideia de “próprios para transporte por água (rio. – A fragata. – Embarcação não se diz hoje dos navios de guerra. – Barcaça é barca maior. – Galeão (aum. embarcação. – Lancha é “embarcação pequena e sem tilha (coberta) que anda tanto à vela como a remos”. larga e aberta como a alvarenga”. – Galeota (diminutivo de galé) é pequeno barco. nau. igara. movido a remos. empregada. por considerarem todos. piroga. para os quais é termo genérico. e servia tanto para a guerra como para o tráfego marítimo. com dois ou três mastros”. pois é restrito à ideia de construção. sim”. manchua. é maior. – Galé é embarcação de baixo bordo. – Resume Lacerda assim. no serviço de transporte de cargas dentro da baía”. barcaça. 419 BARCO. de Fig. chata. barco. – Batel e escaler são pequenas embarcações que conduzem para bordo dos navios não atracados ao cais. e pode até prestar-se para longas viagens. – Catraia é bote pequeno. – Batelão (aumentativo de batel) é “barca rasa e grande. etc. serve mais para recreio. – Gôndola – “pequena embarcação (como a galeota) movida a remos. escuna. selvagem. mas só se diz dos barcos cobertos. galé. – Tartana era um xaveco menor. – Navio é a embarcação destinada a navegar no mar alto. ou mar)”. – Nau era o maior navio outrora empregado principalmente na guerra. alvarenga. usada outrora. e transporte de passageiros de terra para os vapores. galeota. deram o nome de bárbaros a todos os estrangeiros. rebocadas dos navios para os trapiches ou vice-versa. nem convenções sociais. barca. galeão. e. elegante e luxuoso.).. O escaler distingue-se do outro em ser movido ou poder mover-se tanto a remos como a vela. O iate. sobre estes dois vocábulos. como o iate.. como o batelão e a alvarenga. xaveco. – A caravela era menor que a fragata. nas artes. junco. gôndola. mas carece de aperfeiçoamento em tudo quanto constitui o que se chama um povo civilizado”. e hoje os chineses. e que serve também para o serviço de carga e descarga de navios. à imitação destes os romanos. nem respeita lei alguma. – Chata é “barcaça larga e de pouco fundo. enquanto que embarcação designa qualquer corpo flutuante que pode conter pessoas ou coisas. sendo o batel movido só a esforço do remeiro. os autores que o precederam: “Os antigos egípcios. inferiores nas ciências. – Xaveco – espécie de fragata usada outrora pelos mouros no corso do Mediterrâneo. de galé) – “antigo navio . depois os gregos. canoa. batelão. fragata. – Selvagens são os habitantes das selvas. nem gozam dos benefícios da civilização. de um só mastro. brigue. – Barca = “embarcação larga e pouco funda” (C. pequeno escaler. de vela e remos. que não cultivam as artes. – Como os precedentes. mas não é um barco. Servem ambas para o trasbordo de cargas. na polícia. – Manchua – “pequeno barco usado nas costas da Ásia”. sem exceção. caravela. A nação bárbara conhece e respeita em geral essas leis. – Bote é batel de rio.

420 BARDO. rapsoda. ou pelo descuido. que no norte da França. – Canoa – “pequena embarcação. coisa degenerada29. poeta ambulante da língua d’oc. perissologia. – bastardo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 235 de alto bordo. baixo”. porque não só denota bastardia. ou que não é havido de matrimônio celebrado com as solenidades da lei. que vale o mesmo que – “baixamentenacido”. se dedicavam à poesia épica. O filho bastardo pode ser natural. e nós mesmos chamamos. vate. – Junco – “pequena canoa ou batel. ou que não temos como tal o que vulgarmente se lhe atribui. em algumas línguas. de pai eclesiástico. não tanto à ilegitimidade do matrimônio. Bastardo significa. ou pela ordinária desigualdade da condição dos pais. espúrio. trovador. . tautologia. usado pelos chineses”. ou pela imoralidade que acompanha o ato em que são gerados. Desta última acepção da palavra espúrio nasceu o sentido figurado. uma obra. Chamamos natural o que nasce de concubinato. – Vate era o profeta que fazia os seus vaticínios em estilo elevado. isto é – que lhe não conhecemos o autor. senão que dá a entender que o pai é incógnito porque a mãe se facilitava a vários quando o concebeu. de matrimônio clandestino. – de casado e solteira ou vice-versa. Luiz – “exprimem a qualidade do filho que é ilegítimo. que compete a qualquer filho ilegítimo. em geral o que nasce de pessoas entre as quais não há impedimento algum legal que lhes vede o contraírem matrimônio. natural. espécie”. por exemplo. e é ainda correspondente aos trouvères. 421 BASTARDO. – Escuna – “brigue tendo vergas no mastro da proa e sem mastaréu de joanete”.) – Bergantim – “pequena fragata. temperado do agudo e grave da legítima. por ser uma alteração dela. poetas da língua d’oïl. ou de bas “vil. feita quase sempre de um só tronco de árvore escavado”. de mãe religiosa. de castelo em castelo. etc. e art “raça. e stard “nascido”. letra bastarda a que é degenerada da romana. que daí se presume provir aos filhos. – Brigue – “bergantim maior”. redundância. – espúrio é termo desonroso. de Fig. e também o que não tem pai certo. gr. – Redundância é o termo genérico de que os outros do grupo especializam a significação. e de uso nas enseadas e nos rios. de dois mastros. – Bardo era. que lhe damos na Arte Crítica. – Bastardo é denominação genérica. peça bastarda a que não tem as medidas próprias da sua espécie. E chamamos espúrio o que nasce de pessoas entre as quais há esse impedimento. um livro é espúrio.. – Trovador é a designação equivalente a troubadour. – Segundo Roq. mas há entre eles diferenças mui notáveis”. ou espúrio: são duas espécies de bastardia. etc. também ordinário. entre os celtas. (C.). de barreguice. vem do alemão boest “degenerado”. v. quando não em verso (Bruns. quanto à degeneração. – Piroga e igara – “canoas de índios”. quando dizemos que uma produção. 422 BATOLOGIA. ilegíti- mo. ou da união dos sexos. do XI ao XV século. o nome que se dava aos poetas e cantores populares. nau de guerra”. do francês bátard. fino e leve. antigamente bastard. e também movida a remos”. trombeta bastarda a que dá um som misto. que andava pelo sul da França cantando sonetos e trovas. que eles têm na educação da prole.. – “Todos estes vocábulos” – escreve S. e quer dizer – “exces29 Segundo Roq. e parece referir-se. e aos quais se devem os primeiros romances de cavalaria.

e também exageração. . o que não é absolutamente necessário naquela passagem. ausentou-se. . diz Ovídio. . . e ainda outros a atribuem a um pastor que fazia o mesmo que o mau poeta. é nímio e prolixo muitas vezes. verbosidade aparatosa. – Esta afetação. é a repetição inútil da mesma ideia ou pensamento por termos diferentes. As frases de Ovídio são bastante concisas. entre o muito que sempre ocorre quando se escreve sobre matérias bem-estudadas. chamado Batto. porque Sêneca era um dos seus autores favoritos. indignado. e tinha o costume de repetir cada coisa duas e mais vezes. oferecendo-lhe em prêmio uma novilha. ou para fazer mais explícito o enunciado”. O segundo (tautologia) e o terceiro (perissologia) opõem-se à concisão. sem embargo. variando-o de muitos modos diferentes. voltou. – “que indicam três defeitos do estilo que. do grego tautologia (de tautó ‘o mesmo’ + logós). e. Pelo que. . e perguntou-lhe se tinha visto para que parte fora o gado que pouco antes andava apascentando. et erant sub [montibus illis. no qual refere como Mercúrio furtou a Apolo o gado que andava guardando. é superfluidade de palavras. . como a origem e composição de cada uma delas o dá a conhecer. encarecimento. não a larga até haver apurado quanto sua rica imaginação lhe podia sugerir para ilustrá-la. duvidando Mercúrio que ele cumprisse a palavra. Mercúrio o transformou. . . porém. e variá-la de cem maneiras diferentes. mudou de forma. . . isto é – ‘descobridora’ ou ‘denunciadora’. E com efeito. dado serem todos contra a elegância e concisão da frase. na pedra chamada in- dex. porque gosta de variar um mesmo pensamento. o qual supõem que era gago. . Sub illis Montibus. O velho então respondeu-lhe: ‘Agora há pouco ao pé daqueles montes estavam. . . falou deste Ovídio naquela passagem do liv. A verdade é que a palavra grega Báthos significa ‘tartamudo’ ou ‘gago’. e é demasiado grosseiro para que nele caiam ainda escritores medíocres. erant. Dizem uns que se deve ao nome do fundador de Cirene.236 Rocha Pombo so de palavras para ornar o estilo. . não obstante. é . O primeiro defeito (batologia) opõe-se à elegância. rogou a este que não o descobrisse. . A toda inútil repetição de palavras chama-se batologia. e como os que o são repetem duas. palavra grega battología (de báthos e logos) sobre cuja origem não estão de acordo os autores. e seu estilo é. Consiste principalmente este defeito em amplificar demasiadamente um pensamento. II das Metamorfoses. em colhendo entre mãos uma ideia. Sêneca afeta mais concisão na frase. . e não havendo ninguém visto fazer o roubo senão um pastor velho chamado Batto. . e para tentar sua cobiça ofereceu-lhe uma vaca e um touro se lhe dissesse a verdade. O velho prometeu-lhe que sim. – Perissologia (de perissos ‘que é demais’ + logós). redundância nímia. e não são fáceis de evitar como o precedente. daqui se chamaram battos a todos os que repetiam sem necessidade uma mesma palavra. redundante. . que repetia um pensamento com as mesmas expressões que havia empregado a primeira vez. porque. Vieira também cai algumas vezes neste defeito: o que não admira. – Das três outras diz Roq. três ou mais vezes as sílabas iniciais das palavras até que rompem a falar. outros a atribuem a um mau poeta do mesmo nome. – Tautologia. de mostrar que se sabe dizer uma mesma coisa de muitas e diferentes maneiras. – O que não sabe omitir. inquit. . são entre si distintos. . e estavam ao pé daqueles montes’. amplificá-la. . . é justamente o que Boileau chama com graça – ‘estéril abundância’.

– Dizemos bélico daquilo “que concerne à guerra. esta palavra designa a pessoa que é muito solícita nas suas devoções e práticas religiosas. tem uma acepção que só o uso autoriza. as “duas mam a parte exterior da boca. não um escritor judicioso. Neste sentido. e engana e arruína sem fé nem consciência. e quando abrem o sorriso deixam ver alvos dentes. Pode um povo. intuitos belicosos. – Belicoso é termo abstrato. só qualifica o abstrato. incendimento marcial. mais por simplicidade de espírito que por interesse” (Bruns. – que às práticas afetadas de piedade alia a mais refinada velhacaria. Em suma: é militar mais próximo de bélico. É vocábulo mais extenso que belicoso. ou que a ela é relativo. A primeira é palavra vulgar. – Marcial (de Mars. virtudes que não tem. carola.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 237 um declamador. chamam-se beiços. ou um indivíduo ser belicoso. e como tal só pode qualificar o que é moral: furor belicoso.. Ajudam os beiços a fala e a mastigação: só os lábios osculam e beijam”. . que não só afeta ser virtuoso. e também um grande guerreiro pode acontecer que não tenha instintos belicosos. tanto no homem como nos animais. – Guerreiro é o que é afeito à guerra. nem escrever [sabe. mar- membranas carnosas e sem osso que for- cial. – Tartufo é o nome do protagonista de uma comédia de Molière. e cobrem os dentes quando se fecham. 424 BEIÇO.” 423 BEATO. A parte mais macia e delicada dos beiços. guerreiro. Comparando militar com guerreiro. a segunda é científica e poética. induz a observância das práticas religiosas. enquanto que marcial se diz tanto do que é abstrato como do que é concreto. como reveste todos os seus atos e discursos de melíflua unção: aconselha a virtude. militar. atitude belicosa. material bélico. caráter belicoso. Supõe-se sempre no beato um espírito fraco. Quando belicoso se diz do homem. beato “aproxima-se muito de hipócrita. Propriamente. e como tal só deve aplicar-se ao que é material. etc. – Hipócrita é o que finge sentimentos. tartufo. que com tanta razão dizia: Quem não sabe calar. do que convicta e segura de uma crença racional e verdadeira. inculca o bem. isto é – nas festas de igreja. não lhe qualifica a entidade física. e guerreiro o que é prático. pois este. É termo concreto. como dissemos. lábio. o deus da guerra. hábil em coisas de guerra. Elementos bélicos. – Militar (do latim miles ‘soldado’) dizemos de tudo o que é relativo à carreira das armas. mas a moral: os povos bárbaros são belicosos (isto é – dados à guerra. No sentido que tem aqui. Porte marcial. – Beato. que se insinua habilmente na simpatia alheia.). neste grupo. que faz dessa pessoa mais um monomaníaco do que um religioso. belicoso. na sua boa-fé e simpleza. são os lábios. e incorporou-se na língua para designar o refinado hipócrita em matéria de religião. – Segundo Roq. e incorre na censura do citado Boileau. mas de hipócrita que afeta grande devoção. e explora os incautos. podemos estabelecer que militar qualifica o que é teórico. que são as bordas em que muitas vezes brilha a cor do rubim. ingênuo. de uma religião malcompreendida. – Carola é o que faz consistir toda a sua religiosidade nas superfetações do culto. à profissão do soldado. inspira o temor de Deus. hipócrita. aprestos bélicos. – Tartufo é aquele – diz Bruns. e não ser guerreiro. nas procissões. Marte) significa propriamente o que é relativo a Marte. 425 BÉLICO. que lhe é próprio ou que serve para ela. dominados de instinto militar). e marcial mais de belicoso”. aplica-se à pessoa que parece mais obsedada. mais por tolice que por cálculo.

. Acrescentei de alguns volumes a minha pequena biblioteca (e não – livraria). humanidade. galardão que se dá em agradecimento ou recompensa de bons serviços. o amor ao próximo é uma locução que vale muito pouco porque não fixa sentimento nenhum. – Caridade é propriamente “o amor do nosso próximo. Emprega-se também para designar o conjunto dos bispos de uma província eclesiástica ou de uma nação. a divisão eclesiástica que fica sob a administração de um bispo. Mudou-se a biblioteca nacional para a Avenida (não – livraria). – Mercê é prêmio. por isso mesmo que é mais do que a própria caridade exterior ou praticante. como sendo nosso irmão”. livraria. – Benefício é um dom gratuito que inculca ideia de ação sagrada. Vamos recorrer da vigararia para o bispado. – Episcopado é a função. 429 BISPADO. e sem ideia alguma de dever”. e também a autoridade deste. uma qualidade da alma do que virtude social. altruísmo. uma virtude social. dádiva. – O bispado de Mariana. ou da livraria municipal”. – Livraria é multidão de livros destinados à venda. – Todos estes vocábulos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia de abnegação que leva um homem a interessar-se pelo seu semelhante. é o nome positivista do amor ao próximo. posição ou valimento por parte de Bispado é a jurisdição do bispo. – Diocese é o território dentro do qual exerce um bispo a sua autoridade e jurisdição. talvez sem sugestão de ideia religiosa: é mais. quem o faz sobre quem o recebe. – – Segundo Bruns. – Beneficência é “a virtude de fazer o bem espontaneamente. episcopado. como ninguém se animaria a perpetrar: “Vim da livraria pública.238 Rocha Pombo 426 BENEFICÊNCIA. – Humanidade é apenas o conjunto de qualidades que levam a criatura a ter sentimentos simpáticos. mercê. portanto. – Graça é um benefício ou distinção que se concede sem merecimento particular de quem o recebe e sim só por afeto. considerada como pessoa jurídica e na sua capacidade de possuir bens temporais. mitra. – Não é possível confundir estes dois vocábulos. amor ao próximo. filantropia. consideração ou piedade de quem a outorga. – Biblioteca é. Podese dizer que é mais uma virtude interior. Um homem que não dá esmolas pode ter em alto grau a virtude da caridade. “o conjunto de livros destinados à leitura”. diocese. obséquio. graça. Por outro lado. – Favor – diz muito bem Roq. favor. – Altruísmo está quase nas mesmas condições: é o “amor dos outros”. nem sempre aquele que mais esmolas dá será o mais caritativo. 428 BIBLIOTECA. 427 BENEFÍCIO. devendo notar-se que. no entanto. F. Ninguém diria: – “Vou à biblioteca do Sr.. ou o prazo durante o qual exerce o bispo a sua função. tanto com os outros homens todos como com os próprios animais. – a ideia comum aos termos deste grupo é que os atos por eles expressos se aplicam em favor de alguém. – Mitra é o mesmo bispado ou dignidade de bispo. – Obséquio é simplesmente “ato de delicadeza com que se procura agradar ao obsequiado”. e de superioridade de fortuna. . – Amor ao próximo (ou do próximo) é também uma virtude evangélica: é a que mais se aproxima de caridade. por isso mesmo. – é termo genérico que significa todo ato de benevolência afetuosa que distingue e prefere a pessoa favorecida. – Filantropia é a mesma caridade. Alves”. como que obedecendo aos impulsos da própria natureza moral. caridade.

432 BOLHA. – A bola é redonda por todos os lados. Teve ele sessenta anos de episcopado. Por este nome é conhecida entre os doutos a terra que habitamos. Pelouros. globo. – “Todas estas palavras designam um corpo esférico. redondo por todas as partes. flutua a jangada. – Pelouro. – Bolha . flutuar. Escudos de pinturas diferentes. 430 BOIAR. Dividiu-se em três a diocese do Amazonas. espingardas de aço puras. que alguns querem venha do inglês ball (que se pronuncia bol) e designa especialmente os corpos esféricos maciços com que se joga. e daí a locução – “sair nos pelouros”. e tem mais lata significação que globo. e significa um corpo sólido perfeitamente redondo: no que concorda com globo. pelouro. “lançar”. vesícula. com a terminação exagerativa ouro. – A mitra vai reclamar contra a extorsão que contra ela cometeu a municipalidade. bala. em cuja superfície se figuram os diversos acidentes da superfície da terra. Malhas finas. de geografia e de astronomia. mas elevada e científica. manda os dilijentes Ministros amostrar as armaduras. O corpo que boia pode nem ser visto à tona ou à superfície da água. e de seu uso nos deixou Camões bom exemplo na estância LXVII. do canto I dos Lusíadas: Isto dizendo. – Boiar é “não ir para o fundo da água”. – A imensa diocese de Mato Grosso.. a segunda. de cujo centro todas as linhas que se tiram até à superfície são iguais. ou então de pello. – Boiam as urtigas marinhas. Na nossa antiga forma de eleições. vem provavelmente de pela. quando muito poderá ter uma parte fora da água.. não ir ao fundo. Mitra rendosa. palavra muito usada dos nossos antigos antes que tomássemos dos franceses a que hoje se usa. por esforço. e para mais clareza. nadar. e peitos reluzentes. com a diferença que esfera é termo de geometria. não vulgar. A primeira chama-se globo terrestre. ou os signos ou constelações celestes e a que estão adaptados círculos astronômicos que representam o curso do sol na eclítica. “ser nomeado ou eleito”. – Esfera é também voz grega. e laminas seguras. e designa um corpo esférico. chamavam-se pelouros a umas bolas de cera dentro das quais se metiam os papelinhos contendo os nomes das pessoas de que se fazia escolha para juiz ordinário etc. mas cada uma delas exprime uma espécie de redondeza. pois o corpo que sobrenada quase que fica todo fora da água. Mitra muito rica. Designa particularmente toda máquina redonda e móvel. ou esférica (oca ou sólida). empola. e de bom soído. globus. – Se- gundo Roq. – Flutuar é “ficar em cima da água ou de qualquer outro líquido”. ou esfera terráquea. O episcopado americano.. Vêm arnezes. esfera. bala. etc. e não se podem usar indistintamente umas por outras”. Nadam os animais. arcabuzes. Por ser palavra hoje pouco vulgar. esfera celeste. e designa toda sorte de projetil que saia das bombardas. e tomar alguma direção. – O meu episcopado tem sido tormentoso. ou impor penas no espiritual. ajunta-se-lhe o qualificativo – terrestre. isto é –.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 239 O bispado só pode condenar.. é mais poética do que bala. – Globo é palavra trasladada do latim. – Sobrenadar é mais que flutuar. – São tomados aqui todos estes vocábulos como significando particularmente as pequenas elevações que se formam na pele. ou “sobrenada se tem altura”. Flutua a cortiça. – Nadar é. É palavra vulgar. 431 BOLA. O episcopado brasileiro. borbulha. sobrenadar. ou terráqueo.

– Cachão é “a bolha ou borbotão que forma um líquido ao correr com força”. – Pau é o bordão considerado mais como arma que como amparo. e quase sempre de areia. – Sendo borda a extremidade prolongada de qualquer superfície. ou borbotão que sai com ímpeto e ruído”. – Torrente é “uma quantidade de água que se despenha em cachões e impetuosamente”. mui fresca e produtiva. – Margem é toda a extensão de terra chã. quase que não tem largura. “bordão é o pau grosso a que alguém se arrima. – Ribeira é a margem mais ou menos em declive. da ribeira. – Jacto é “uma porção de líquido ou fluido arremessada com ímpeto”. ou costa. – Segundo Bruns. – Bastão é uma grossa bengala de castão. margem. distinguindo-se deste apenas em sugerir a ideia de maior porção da margem que a beira pode compreender. segurando-o por baixo da extremidade superior. – “Todas estas palavras” – diz Roq. o pau pelo camponês. o cajado pelo pastor. e quando é de rios. coberta de verdura. 434 BORDA. supõe-se ser de areia. ao longo dos rios. praia. riba. Estes dois termos dizem-se mais ordinariamente dos rios que do mar. de junco. pau. – Jorro é “uma porção de borbotões impelidos com força”. mais ou menos elevada. –. inverno e descoberta no verão. de qualquer madeira. – Golfada é o “jacto que sai por um canal ou aberta”. ribança. mas cada uma delas a seu modo. de ordinário coberta de água no cacete. – Ribeira. e é frequentemente chamado também varapau. margem. e é por assim dizer a orla da margem. – Borbulha é uma saliência ainda menor que a bolha. jorro. ou certa extensão de ribas”. praia e costa – “indicam coisas que têm relação imediata com as águas do mar ou dos rios. cachão. – Cacete (do francês casse-tête) é o bastão grosseiro de que usam os garotos e valentões de praça ou de estrada. Uma pancada pode produzir empola. beira. jacto. e por isso aprazível à vista. genérico dos demais deste grupo. – Borbotão (ordinariamente usado no plural) é “o fluxo desordenado ou jacto impetuoso que faz a água ou qualquer líquido ao sair de um lugar para outro”. costa. – Bengala é o bastão de cana. Dizemos – “pernoitar à beira do rio ou do mar”.. – A empola ocupa maior superfície que a bolha e pode estar ou não cheia de aquosidade. é de terra vegetal. devido aos nateiros.. e tanto se aplica relativamente a rios como relativamente ao mar. O cáustico forma bolhas. O bordão é usado pelo viandante. – Ribança é “continuidade. ribeira. mas ninguém diria sem absurdo ou pelo menos impropriedade clamante: “pernoitar à borda do rio”.240 Rocha Pombo é a pequena saliência que encerra matéria serosa. o varapau pelo desordeiro. jacto cheio. varapau. – Vesícula é termo científico. – Costa é a porção de terra ao longo do mar. – Ribanceira é “como ribança mais áspera”. – Gorgolhão (ou gorgolão) é “golfada. 433 BORBOTÃO. referindo-se a borda. – Praia é toda a extensão de terra plana que as águas do mar cobrem e banham com suas enchentes. contendo ou não serosidade. quando é do mar. bengala. tor- rente. . gorgolhão. cajado. golfada. 435 BORDÃO. e de uso geral nas cidades modernas. ribeira. – Cajado é o bordão que tem a parte superior em forma de arco. bastão. da praia. e é o símbolo de certas autoridades”. – Beira é quase sinônimo perfeito de borda. e como que lhe serve de barreira”. – Riba designa “margem de rio onde a terra é levantada”. ribanceira.

a giba pouco aparente é mesmo. vendaval. – Bossa aqui. é também brasileirismo. mesmo que seja muito forte”.. tempestade. formada quase sempre de grandes árvores.. restinga. – Corcova é a giba considerada como aleijão. Aquiles. e muito usada em significação translata. É palavra indígena que incorporamos à língua (formada de taba “habitação” + oera “que foi”). segundo Lacerda.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 436 BORRASCA. corcova. floresta. capoeira. distinguindo-se desta em sugerir a ideia de ser o fenômeno mais rápido. – Procela. mas sem a ideia de ser basto ou espesso. Por extensão designa o defeito físico das costas ou do peito daquele que é algo corcunda. marreca. corcunda. entre os gregos. – Sertão é “a grande floresta desolada e sem habitantes”. se consagravam a divindades bucólicas”. – Giba (em latim gibba) é o nome científico de qualquer protuberância que existe no que devera ser plano. Parece provir da semelhança que apresenta com a restinga no meio do mar. menos violento e talvez mais imprevisto. . opulenta. – Selva é “o bosque espesso. só de pessoas. também se emprega para designar a chuva de neve que cai nas altas montanhas quando é impelida por um forte e frio vento do norte. – Luco é termo poético significando “o bosque cheio de flores. – Bosque é o “nome que se dá a uma porção de árvores reunidas”. – Mata é “a selva rude. selva. ideia que é igualmente expressa por marreca. como bosque. saraiva e trovoada. capão. – “O vocábulo borrasca” – diz Bruns. e que se encontra agora mais distante da casa. – Tapera é o capão ou bosque pouco espesso onde ainda se encontram vestígios de habitação antiga. significando “bosque nas vizinhanças quase sempre de habitação”. é a protuberância natural que têm no dorso certos animais. emaranhado”. tempestade refere-se mais à agitação do mar. suprimindo-lhe a sílaba inicial. Pind. ou da sorte. multidão de árvores. – Tormenta muito se aproxima de tempestade. não obstante. corcunda e marreca. e borrasca à impetuosidade e fúria dos ventos”.)”. giba e corcova dizem-se de pessoas e de animais. – “pertence melhor à linguagem marítima que à terrestre. – Arvoredo é também. acompanhada o mais das vezes de chuva. 438 BOSSA. Usa-se muito igualmente no sentido figurado. Bossa. o vulto que faz a giba. É termo nosso que os primeiros povoadores da terra fizeram da palavra desertão (grande deserto). em estilo poético. ou da má fortuna. é apenas menos extensa que a floresta”. diz Bruns. de ter giba) é o defeito. – Vendaval é “o temporal mais forte e tempestuoso”. Na linguagem dos marítimos. procela horrenda do cruel Mavorte (Diniz. – Tempestade é o mau tempo em que há violenta agitação do ar. procela. porque é súbita. sertão. – Gibosidade (além de designar a qualidade de giboso. As montanhas são as gibosidades da terra. como os que. 437 BOSQUE. – Temporal é “borrasca que se prolonga por dias”. Os vendavais da vida. – Restinga é o capão que fica no meio do campo ou junto a algum rio. Só quem foi colhido por uma borrasca nos Pireneus é que se pode fazer uma ideia da fúria dos elementos na terra. tormenta. – Capoeira é “mata que já foi capão. aguaceiro. – Corcunda e marreca designam tanto o defeito como a própria pessoa que o tem: a corcunda é uma corcova considerável. chamada bossa. arvoredo.. – Refrega é “rajada de vento que não chega a ser tormenta. gibosidade. como as três últimas. – Capão. luco. giba. e onde se abriga a criação miúda”. – Aguaceiro é “uma carga de água súbita e violenta”. cientificamente. é “a tormenta furiosa do mar. temporal. mata. tapera. refre- 241 ga. cuidado com esmero.

O primeiro sinal de vida que dá o olho constitui o botão. 442 BREVE. este. o que é lacônico emprega só as palavras absolutamente indispensáveis. não breve: uma obra que nos empolga sempre nos parece curta. (Bruns. dizemos indiferentemente breve ou curto: é breve a vida do homem. portanto. no entanto. para que não se torne difícil o ato de calçar. designa também a gema quando está prestes a dar a folha ou a flor”. como dissemos.. – “Olho é a parte que na ramagem das árvores e arbustos indica o lugar onde se hão de formar os botões e as gemas na época do desabrolhar dos vegetais. havendo. 441 BOTIM.242 Rocha Pombo 439 BOTÃO. ao que é característico próprio do assunto. e não breve. ou renovo. só se diz com propriedade das novas hastes que saem da raiz da planta. 440 BOTICA. – Lacônico também dizemos do que é enunciado no menor número possível de palavras. O que não é conciso é prolixo. tomando consistência. farmácia. sucin- tim e botina (ou botinha) são diminutivos de bota. curto. olho. broto. Botina (ou botinha) é o 30 De botica temos o diminutivo botequim. – Sucinto. tendo o cano mais ou menos alto. – Breve é o que se faz em pouco tempo: discurso breve (breve demora no campo. calçado. to.) – Broto é o mesmo rebento ao apontar. – Segundo Bruns. sapato. cobre o pé e a perna até um pouco acima do joelho ordinariamente. veneno” etc. – Conciso. conciso.). pois o vocábulo farmácia (do grego phár makon “remédio. A loja onde se vendem remédios e drogas chama-se botica (do grego apotheke “lugar oculto ou reservado”). e que só cobre o pé. na estação. – Preciso é antônimo de difuso. O que é conciso exprime brevemente o pensamento. – Calçado é o nome genérico de todos os deste grupo. que do estilo. Falando-se do tempo. lacônico. o uso baniu esta última: nos grandes centros urbanos ninguém mais diz botica. – Sapato é o calçado de couro grosso quase sempre. bota.30 e sim farmácia. – Só o uso autoriza-nos designar pelo vocábulo farmácia a loja ou estabelecimento onde se vendem drogas e remédios. reno- vo. O que não tem tanto comprimento como devia ter ou se supunha que tivesse. rebento. ou então aberto na frente. O que é conciso pode ser perfeito (e é enérgico e simples). – Mas. preciso. porém. A qualidade de conciso consiste em enunciar o pensamento em poucas palavras.. – Gomo é corrução deste último vocábulo. consistindo a precisão no emprego dos termos mais adequados. com a significação que todos conhecem: loja reservada onde se vendem bebidas. Botim é a bota de cano baixo. quase sempre guarnecido de elásticos. forma a gema. gomo. pois a quantidade que este adjetivo enuncia não exclui a riqueza nem o adorno. desprezando tudo quanto seja circunstância acessória ou pormenores. entre os dois alguma diferença. rebento.) designa propriamente “a arte de preparar medicamentos”. e que. na cidade. lacônico e sucinto só se dizem do que é relativo ao estilo. botina. na sua curta vida sofre o homem bastante. tanto da raiz como dos galhos da planta. – Bota é o calçado de cano alto. o que é lacônico pode correr o risco de ser afetado. – Bo- botim de senhora ou de criança. qualifica aquele escrito ou fala em que o escritor ou orador se atém exclusivamente ao essencial. é curto. sem ampliações nem ornatos. mas muito usual entre a nossa gente do campo. – Rebento. . gema. que melhor se diz do discurso ou da obra. e em excluir quanto seja alheio ao assunto. Todos os estilos podem ser precisos.

– Relampejar e os três verbos que se seguem (relampejar. – Coriscar é “luzir como corisco. dar claridade como corpo inflamado”. – Brilhar é “emitir de si próprio. intensa. – Fuzilar é “despedir lumes.) – Resplender é “luzir amplamente. no entanto. donativo. fulgurar. ou que está em combustão ou em estado candente. irradiar. esplende majestoso na amplidão do céu. fuzilar. (Aqui não seria. – Fulgurar é “brilhar de luz muito forte e instantânea”. – Este último vocábulo. E. luz muito viva e radiosa”. marca uma diferença bem sensível entre os dois verbos. – Todos estes verbos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia fundamental de emissão de luz.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 443 BRILHANTE. – Rutilar é “luzir com luz viva e fugaz”. refulgurar. como chispar é “desprender chispas”. coriscar (coruscar). o mais expressivo. resplender. ou pequeno raio ou faísca elétrica”. relampaguear. – Cintilar é “brilhar com rápidas intermitências. Resplandece o sol quando vem nascendo. clara como a do sol”. dádiva. “Aquela doce e gloriosa luz vem resplandecendo dalém dos montes”. cintilar. – Tremeluzir é “dar luz indecisa. oferta. É. ou raios luminosos”. reluzir. portanto. – Irradiar é “lançar. mimo. rutilar. esplender. Ninguém dirá: “mina de brilhantes”. – fragmentos em ignição que saem de um corpo ferido por outro. luzir. mas sem intensidade que chegue a deslumbrar”. ou refletir. pois. e sem diferença alguma sensível entre nenhum deles. a partícula incoativa ecer. – Reluzir diz melhor – “refletir luz”. diamante. relampaguear e relampadejar) enunciam a ideia de luzir instantaneamente. como relâmpago. não seria possível confundir as duas palavras nem empregá-las indiferentemente. vacilante. espargir luz. o verbo esplendendo. como trepidando. Dizemos. encantador. tremeluzir. A forma coruscar é mais fiel ao latim coruscare. faiscar à maneira de raios”. – Refulgurar é fulgurar outra vez. tem fulgir na sua estrutura a raiz grega fleg (phleg) que sugere ideia de “queimar”. . faiscar. e nunca “brilhante lapidado”. e refulgir é “emitir ou refletir luz quase com a mesma intensidade da que brilha”. como despedindo jactos de luz”. – Relumbrar é luzir como chama ou como lume. – Resplendecer é o mesmo verbo mais fiel à forma latina (resplendescere). – Rebrilhar é “brilhar de novo. resplandecer (resplendecer). com luz mais viva”. refletir esplendor. – Flamear (ou flamejar) é “emitir brilho como de chama. – Luzir é simplesmente “emitir luz”. – Resplandecer é “reluzir. fino. brilhar solenemente. refulgir. pelo menos tão próprio. cintilar vagamente. não lapidado”. Estes dois verbos parecem envolver a ideia de que a luz que fulgura ou refulgura mais deslumbra e cega do que ilumina propriamente. mimo. designa o objeto esquisito. de todo o grupo. vaga”. ou “extrair brilhantes”. – Conquanto de- 243 signem a mesma pedra preciosa. esplender com majestade. “um anel de diamante”. como ninguém se lembraria de perpetrar: “um adereço de diamante”. sem ideia de gradação de intensidade. 31 Como fulgurar. rebrilhar. presente. 444 BRILHAR. translu- zir. 445 BRINDE. fulgir. dom. relumbrar. luzir. – Diamante é. relampadejar). isto é. – Fulgir31 é “luzir vivamente”. ou “brilhante em bruto”. “o mineral no estado nativo. chispar. – Brilhante é o nome que toma o diamante depois de lapidado. – Esplender dizem muitos autores que é o mesmo que resplandecer. relampear (relampejar. “diamante lapidado”. “diamante em bruto”. luz muito forte. – Faiscar é propriamente “despedir faíscas”. flamear (flamejar). – Transluzir é “emitir luz através de alguma coisa”. refletir fulgurações. que neste figura.

feito para causar alegria e riso. mais ou menos densos. ou de homens e coisas. – Faceto quer dizer – “engraçado. literal ou gráfica. ampla. o que desperta riso. – Ridículo é termo genérico aplicável a “tudo que provoca o riso ou que merece escárnio”. – Cômico é “o que é próprio da comédia. procurar. pairando ordinariamente na encosta ou no cume dos montes”. ridículo. – Bufão é o mesmo que bufo. extravagante. por gracejo. – Extravagante é “o que saiu do normal. como substantivo. névoa. recebe o nome de donativo. esquisito ao ponto de cair no ridículo”. 448 BUSCAR. – Truanesco é “o que faz coisas ou diz tolices de truão. – Destes dois verbos caricato. Buscar inclui sempre a ideia de movimento por parte de quem busca. negrume. grotesca de fatos. – Nuvem é “acumulação de vapores. chistoso. com mais propriedade do que este. – Grotesco sugere ideia de “caprichoso. grotesco. e este vocábulo não inculca que o objeto que constitui o presente reúna qualidades determinadas. – Negror e negrume só por figura é que se tomam por “bruma muito espessa. ou bulcão ou caligem. esquisito. – Nevoeiro é “grande névoa. – Bulcão é “nuvem muito densa e negra. cerração profunda”. Busca-se ou procura-se por toda parte aquilo de que se necessita. o burlesco. – Caligem é “nevoeiro muito denso e escuro. excêntrico. escura e que quase sempre se desfaz em chuva”. – Bufo (transplantação do italiano) indica também o que é burlesco.244 Rocha Pombo que por gentileza se oferece a alguém. – “é um obséquio. como de burla. bulcão. por exemplo. densa e baixa”. nimbo. de alguma coisa). que é bobo de praça”. em suspensão na atmosfera”. negror. mas emprega-se. – Dom é uma prova de munificência. cômico. seria o mesmo que ópera-cômica. nuvem. nevoeiro. – Bruma é “cerração espessa. hilaridade”. muito fechado. – Dádiva é uma prova de generosidade. – Névoa é “vapor aquoso que pela sua densidade não sobe muito nem se desfaz em chuva. Ópera-bufa. o mesmo que gênero burlesco. que não guarda a devida compostura”. – A oferta considera-se como feita de inferior a superior”. e esta palavra (que tomamos do italiano) designa a representação caprichosa. – Cerração é “forte nevoeiro que cobre os campos ou o mar. que é demasiado até o ridículo. bufão. neblina. – O presente é uma prova de amizade. 446 BRUMA. por brincadeira.. 447 BURLESCO. faceto. Caricato equivaleria. procurar não inclui nem exclui essa ideia. principalmente nas manhãs de inverno”. truanesco. bufo. e só pode consistir em algo de delicado”. – Neblina é “nevoeiro menos denso e muito chegado à terra”. caligem. Gênero bufo. – Burlesco diz propriamente “por diz muito judiciosamente Bruns. cerração. Procura-se (mas não se busca) uma palavra no dicionário. Para exprimir caricatura tem o francês a palavra charge (= representação exagerada. que escurece o ar e ameaça de tormenta”. impedindo que se veja claro a pouca distância”. ao nosso carregado ou exagerado. – “O brinde” – diz Bruns. dito para que outros riam”. O que nos parece . faceta. mas de esquisitice. burla.: “Pretendem alguns que em buscar há mais diligência ou empenho que em procurar: não nos parece que tenha fundamento essa distinção. – Nimbo é “a nuvem grossa.. portanto. chiste e graça que se não confundem com a zombaria. uma prova de boa vontade. que é quase sempre seguida de tempestade”. ou o motejo. nevoeiro principalmente no mar. Quando a dádiva tem um fim benéfico. – Caricato é o que tem a aparência de caricatura.

caindo pelas faces. forma cachões. de todos. Cabo é “a grande porção de terra que se mete pelo mar. quando o volume delas não é muito considerável. revolto. . – Guilhotina é “o aparelho moderno. se bem que encerre a ideia de menor volume de águas. – Madeixa é “um negalho. patíbulo. promontório. – Cascata é a queda. “diz-se de todo o cabelo. ou descida de águas por entre rochedos. – Salto. cascata. para decapitar de modo instantâneo os condenados”. e igualmente se diz dos cabelos postiços compostos de modo que cubram os naturais ou a calva”. aqui. e vale por um pequeno cabo. – Rápido é “a parte de um rio onde a água muda um tanto de nível sem formar queda”. e designa “o conjunto dos pelos que vestem a cabeça do homem”. e tanto se diz do homem como de certos animais. cabelo. caindo sobre a testa ou para os lados. catarata. usado principalmente em França e durante a Revolução. em desordem. – Grenha designa cabelo embaraçado. ideia que se não encerra em cadafalso. – Catadupa e catarata dizem-se da queda de um grande volume de águas e de grande altura. – pa. o instrumento mais ignominioso: é “o aparelho onde se estrangulam os condenados à pena última”. 449 CABELEIRA. composta e ordenada. – Promontório é o cabo que termina em rocha escarpada ou em monte. corredeira. – Guedelha é “uma pequena porção. sugerindo. marrafa. gue- “um diminutivo de cabo. – Coma é “cabeleira farta. Um inquilino procura casa para onde mudar-se. Ambos designam o instrumento de suplício nos países onde subsiste a pena de morte. – Cabelo é do grupo o termo genérico. – Marrafa é uma porção de cabelo riçado. não penteado. ou sem elevação que se destaque muito do continente”. rápido. Também se diz de cada uma das duas porções em que se divide a cabeleira ao penteá-la. coma. – Corredeira é brasileirismo equivalente a cachoeira. enquanto que aquele que busca ignora se há o que anda buscando. um necessitado busca ou procura um emprego”. ao patíbulo sobem os monstros. uma madeixa de cabelo da cabeça ou da barba”. catadu- delha. A cachoeira pode ser formada por um salto vertical (e então chama-se mesmo salto) ou por um plano muito inclinado”. – Pontal é “uma ponta de terra para o mar”. – Melena significa certa porção de cabelo. e aplica-se particularmente a uma praia que avança para o mar. imponente”. uma porção de cabelo enovelado ou em trança”. é “o ponto onde um rio. guilhotina. segundo Bruns. madeixa. no entanto. longa. ou sobre os ombros. Lesurques morreu no cadafalso. 452 CADAFALSO. cabedelo. melena. como diz o latim promontorium (mons in mare prominens). – Cabeleira. desnudada e cheia de montículos de areia”. por mais que o uso geral não dê por semelhante distinção. é preciso admitir uma certa diferença. forca. que uma pessoa tem na cabeça. – Cabedelo é – Entre cadafalso e patíbulo. a ideia de que o fluxo das águas é menos vivo que na cachoeira. – Cachoeira. que se julga serem sinônimos perfeitos. mas o patíbulo sugere ideia do castigo merecido pelo paciente. segundo Lacerda. – Forca é. salto. 451 CACHOEIRA.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 245 acertado estabelecer é que quem procura sabe que existe o que anda procurando. grenha. sem notáveis acidentes. pontal. principalmente quando é em profusão. ou um cabo de pequenas proporções. mudando bruscamente de nível. designa catadupa. 450 CABO..

caduquice é “manifestação de caducidade. de ar severo. ou não revela o que sabe ou o que sente”. discreto. que está de todo gasto. ou por algum motivo. orçar. se mostra esquivo. calado. de caduco”. – Reservado é um tanto mais expressivo que o termo calado. 455 CALCULAR. O que está mudo não pronuncia palavra alguma. – Velho é o homem avançado em idade e sem mais o vigor de moço. aplicável tanto a pessoas como a coisas: o que é ou está silencioso exclui a ideia de rumor. computar. ancião”). evitando o convívio e tudo vendo com maus olhos. – Inválido é o que. Entre caducidade e caduquice há muita distinção: caducidade é “a idade ou a qualidade de caduco”. ensina-se a ler. também designa a qualidade do que chegou à extrema velhice. mas este ensino. ou pela idade. avaliar. e que chega ao seu fim”.246 Rocha Pombo 453 CADUCO (caducidade e caduquice). não articula palavra alguma por um motivo qualquer. além de calado. estimar. senilidade. contar. – Calado é “o que está sem falar. – Calcular é executar operações aritméticas. – Decrépito designa “o que não tem mais forças para viver. diz o mesmo que “sereno. e mesmo que silencioso. que contém o mesmo radical latino que o primeiro (senex “velho. no entanto. aplicado às pessoas. sombrio. senectude. – Taciturno é aquele que. pois. Deve notar-se entre os dois vocábulos a seguinte diferença: senectude refere-se mais particularmente ao físico. de guardar em segredo o que não deve ser divulgado. – Senectude é a idade avançada. pois à ideia de falar pouco reúne a de muito cuidado em não dizer o que é inconveniente. é obra. e senilidade. mas o que é calado nem por isso se entende que esteja ou seja mudo: basta que fale pouco e com muita prudência. – Caduco. por isso é que este vocábulo sugere ideia de estar em silêncio. consiste em fazer numerações e algumas operações aritméticas para conhecer uma quantidade: é. gesto. cálculo. – Invalidez é a qualidade ou condição de inválido. carregado. – Quieto é propriamente o que não se agita. – Tratando dos seis primeiros vocábulos deste grupo. prudente”. ou fazer operações . reservado. ou por deformação orgânica. nem se move demais. velho (velhice). sombrio. guarda silêncio. desfeito. ou por defeito orgânico (e então é mudo). palavra etc. – Sombrio é quase o mesmo que taciturno: apenas sugere melhor a ideia de tristeza que em taciturno como que desaparece ou se disfarça sob o ar de esquivança ou mesmo de repugnância que este encerra. quase sinistro. Há entre calado e mudo. taciturno. desordenado. de ser discreto. e senilidade à diminuição da energia moral e física ao mesmo tempo. quieto. aqui. suputar. por assim dizer. diz Roq. calmo. – Silencioso é termo genérico e muito extenso. mudo. conta. nas escolas de primeiras letras. esmar. Decrepitude (ou decrepidez) é a qualidade de decrépito. que não está mais na lucidez da sua razão e que caiu em quase idiotia.: – “A palavra contar é a mais genérica de todas estas. reserva e cautela. ao alquebramento das forças. o romance da sábia língua do cálculo. ou por moléstia. 454 CALADO. – Quieto. de- crépito (decrepitude). o que está calado também cômputo. escrever e contar. se tornou incapaz das funções que lhe eram próprias. de sorte que um sujeito que esteja calado ou mesmo que seja mudo pode não estar silencioso. designa o que tem perdido as forças do espírito. inválido (invalidez). uma diferença que se não deve esquecer. silencioso. – Velhice é o estado de exaustão a que chega o velho.. mais de rotina que de ciência.

carreiro. etc.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 247 particulares da ciência dos números. pois. partindo de termos conhecidos para chegar a um desconhecido. – Dizemos – cálculos astronômicos. fazer o cálculo de um gasto. três. Um menino conta primeiramente pelos dedos – um. nem mesmo caminho). segundo Bruns. como se pode ver nos dicionários”. atalho. – Estimar é determinar o valor de uma coisa. senda. raia. e este deve ter suas contas claras e em dia. “computar com dados cuja exatidão se julga a mais perfeita possível. começando por um. ou fazer um cálculo. raciocinar. – O cômputo compreende-se no cálculo e na conta. calcular a esmo. pois é uma operação determinada e limitada a cálculo. O computar é próprio dos doutos. etc. o infinito. – Via só dá ideia do meio de comunicação entre um e outro ponto. em vez da qual usa de contar. e de modo que se preste ao tráfego de veículos”. em suputar uma ideia de cômputo falível”. É assim que tanto dizemos – via terrestre. – O cálculo é uma verdadeira ciência formada de muitos métodos mui sábios. azinhaga. como – via marítima.. etc. dois. Para estabelecer o orçamento de um ano econômico suputam-se (hoje só se usa – orçam-se) as receitas e os gastos prováveis. Há. dois e três fazem cinco. construído com mais ou menos arte. infinitesimal. mas não rigorosa. com mais fundamento do que quando se estima”. – Suputar (que é desusado) é. estrada. para conhecer o total ou o resultado que se procura. Assim é que o cronologista computa os tempos. via. isto é. etc. 456 CAMINHO. quando queremos saber o número de certas coisas. picada. sem calcular. O astrônomo calcula a volta dos cometas. combinar. de uma despesa. O comerciante tem seu livro de contas em que assenta tudo quanto se refere a seu débito e a seu crédito. A palavra computar não é conhecida do vulgo. para chegar a um conhecimento. sem os fundamentos com que se orça”. de comércio. e o astrônomo computa sobre tábuas de sua ciência para fixar o tempo e o instante mesmo da repetição de um fenômeno. etc. isto é. – Trilha (ou trilho) é caminho estreito. – Avaliar é “estabelecer o valor de uma coisa. – Calcular usase no sentido figurado. dois. – Estrada é “caminho largo. e apenas se aplica no sentido próprio. – Contar entra em mui variadas locuções. o geômetra. – Todas estas palavras têm de comum a propriedade de designar “espaço aberto conduzindo de um lugar a outro”. – Esmar é “orçar ligeiramente. etc. – Computar é reunir. trilha. a uma prova. de uma receita provável por ser baseada em dados que não devem variar muito”. integral. Por influência do francês. estradas de ferro. ou fluvial (e não – estrada. e rigorosamente falando não computa enquanto não pode dizer – um e dois fazem três. quase sem refletir”). a uma demonstração. de administração. – O contar olha-se como negócio que poderemos chamar econômico. já se diz também – caminho de ferro. sem base segura: é pouco menos vago apenas do que esmar (não sendo este mais que uma contração daquele. e até certo ponto tem necessidade de saber calcular. Contamos quando numeramos. – Orçar é “calcular aproximadamente. pois esmar é “estimar a olho. algébricos.. em lugar de combinar. etc. e como que ressentindo-se disso no significado. aberto por entre obstácu- .. vici- na. e com muito mais razão está longe de poder calcular por divisões. Todo homem deve saber contar. – Caminho não sugere mais que a ideia de “espaço ou trilho livre entre dois pontos”.. multiplicações e diminuições. relativo a assuntos de interesse material. O amo toma contas a seu feitor. Há estradas de rodagem. adicionar os números dados. cálculo diferencial. vereda.

No capcioso há engano. São só para nós as canseiras da vida. – Atalho é “caminho estreito.. e até – “a larga” senda do progresso. do tom.248 Rocha Pombo 458 CÂNTICO. – Fadiga é o “cansaço que resulta de longos trabalhos. para os lugares vizinhos”. 457 CANSAÇO. canseira. – Insidioso (do latim insidiœ “ciladas”) revela ideia de laço preparado para nele fazer cair alguém.. Um argumento capcioso leva ao erro. numa certa direção”. – Arguto diz-se do que é subtil e engenhoso. dos modos. destinados a apanhar a alguém como se apanha um animal a que se armam laços disfarçados. subtil. velhaco. canção. e mesmo heroico”. – O hino é “um cântico que pode ser patriótico. (não – de canseira). uma promessa insidiosa conduz a imprudências. – Azinhaga é também “caminho estreito”. Aplica-se particularmente este vocábulo ao discurso ou argumento com que se enreda alguém de modo tal que toda escapatória se lhe torna impossível.. fadiga. em vez dele. a passagem rápida para transpor um embaraço. lassidão. sofístico.. astuto. é um “hino religioso. que levam de um caminho geral ou de uma estrada.. traiçoeiro. hino. mas sugere a ideia de “complicado e escuso”. e mais frequentemente se toma à boa que à má parte. – O cântico lo. ardiloso. – Canção é termo muito mais próprio do que canto para significar “a poesia que é própria para ser cantada”. – Raia é. – Vicina é termo pouco usado.) enuncia a ideia de meios hábeis. ou caminho muito estreito por onde mal pode passar-se. aberto pelo tráfego de carros”. solene. azinhaga por onde se evitam as longas curvas do caminho geral”. (não – os cansaços). no que é arguto há muitas vezes algo de capcioso. – Vereda é “trilha tão maldistinta que apenas parece marcar o rumo seguido”. canto. astucioso. – Lassidão é a “completa exaustão. O que é capcioso.. – Picada é “trilha mal aberta em floresta. pois este designa melhor o sulco.. trilha é vocábulo mais próprio e mais usado do que trilho. O que é capcioso dirige-se ao entendimento. fazer esforços para apoderar-se de”.. cortando-se apenas as árvores. religioso. – Senda. e só daqueles com que se pretende enganar o entendimento sem nenhum outro fim imediato. Talvez só se explique isso pela beleza fônica do vocábulo. falaz. – Canseira é “o abatimento geral que impede de agir. Designa particularmente o poema lírico sobre tema popular. panegírico”. arguto. não obstante. etc. aqui. a locução – caminho vicinal – para indicar os “pequenos caminhos. no insidioso há má intenção. o esgotamento. “uma curta trilha destinada a jogos de corrida”. – Cansaço é “a depressão de ânimo e de forças físicas que se seguem a esforço longo ou violento”. Nesta acepção. à vontade. o sofístico descobre-se facilmente. Ficou a morrer de cansaço quando deixou a forja. empregando-se. argucioso. Não se compreende como é tão usada esta palavra na frase – a senda. o desgosto em que se fica. ob-reptício. – Carreiro é “caminho estreito. insidioso. Diz-se das palavras. sub-reptício.. – Segundo Bruns. a indisposição. etc. – Sofístico só se diz dos argumentos. caviloso. se se atende à respetiva origem (do latim semita de semis + iter) deve significar “meio caminho”. falacioso. o que é insidioso. ou insidioso não é fácil de descobrir.. – Canto é “toda composição poética que pode ser cantada”. trilha.. – Argucioso é “o que usa de . desânimo e prostração em que põem a fadiga e o cansaço”. Empregam-se meios capciosos para levar alguma pessoa a confessar aquilo mesmo que nega obstinadamente. devidos à faina muito agitada e aflitiva”. 459 CAPCIOSO. – capcioso (do latim captare “tratar de apanhar.

astucioso. gestos. 56: Estando c’um penedo fronte a fronte. e sim – tipo falacioso. 460 CAPITULAÇÃO. quer dizer – de enredos. – Astuto só se pode referir às pessoas. face. José Agostinho de Macedo diz na Meditação: Mas que pasmosa arquitetura é esta Deste corpo. de falsidades”. É expressão vulgar. de argumentos capciosos. Mas. é o que emprega astúcias contra outrem”. ou ocultando a verdade ou qualquer circunstância que conhecida seria motivo para que se não nos concedesse”. A rendição supõe que a entrega é feita “sem ajuste prévio nem condições. tanto às pessoas como aos discursos. enganando. frente. mentindo. – Astucioso é “o que. isto é. sagacidade consegue o que deseja”. – Velhaco é “o que usa de fraude para enganar. vulto. e às vezes incivil e grosseira. tos estes dois sinônimos. 51: Que não no largo mar. – São bem distin- “a entrega da praça feita e regulada por uma convenção prévia. Não fiquei homem. passando a guarnição da praça rendida a ser prisioneira do vencedor”. – Sub-reptício = “que se conseguiu iludindo. é o que se insinua habilmente no ânimo de outrem. rendição. de subtilezas e disfarces”. E junto do penedo outro penedo. semblan- te. que eu palpo. 462 CARA. que inventa e dissimula para fazer cair em erro”. cabido. só à linguagem. nos Lusíadas. como quem prepara emboscadas”. como a serpe na relva”. mas não seria próprio dizer – tipo falaz. Ambos significam o ato de entregar-se ou de se considerar vencida uma praça de guerra.” 461 CAPÍTULO. cume ou cimo. em lugar dela usam os poetas a palavra frente. ou ato de capitulação. Mas no lago entraremos de Aqueronte. – Cara é da palavra grega kára. – “designa-se a parte mais nobre do homem. Dizemos – gestos falazes ou falaciosos. de caput “cabeça”) distinguem-se assim estes dois vocábulos: cabido é “a corporação de cônegos de uma sé”. preside e manda. – Ardiloso é “o que emprega meios enganosos e traiçoeiros. armando traição”. a capitulação é . sabe usar de disfarce para encobrir o seu intento enganoso. cada uma delas ajunta à ideia fundamental alguma acessória que a modifica. de surpresa ou dolo”. portanto. I. capítulo é “a assembleia em que o cabido toma as deliberações para que tem autoridade”. Não é admitida em estilo elevado. Aplica-se. – Falacioso é “o que usa de falácia. E no c. finura. Também só se deve referir ao discurso. além de astuto. e que importa conhecer para não as confundir”. e pode aplicar-se tanto à linguagem como à própria pessoa. qual soberana. mas entre nós só significa a parte anterior da cabeça do homem. mas mudo e [quedo. – Falaz é também “enganador. não. – Subtil é “o que induz a erro sem que a vítima se aperceba. e de alguns animais brutos. etc. eu sinto? [A frente Qual soberana. e significava cabeça.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 249 argúcias. para fugir a um compromisso”. ou karé. – Conquanto prove- nham do mesmo original latino (capitulum. – Caviloso é “aquilo em que há sofisma ou má-fé. parte que ao corpo. – “Por estas palavras” – diz Roq. Que eu pelo rosto angélico apertava. – Traiçoeiro é “o que age com perfídia. lhe preside e manda! E Camões. com leda fronte. que mente. ou fronte (que vêm ambas de frons). fraude ou mentira para enganar”. rosto. fronte. V. – Astuto é “o que com arte. – Ob-reptício = “que se obteve por meio de ardil.

– Caráter. Pode dizer-se igualmente. gênio. II. . O humor resulta de um certo número de disposições do espírito que têm relação com a melancolia. para a probidade. do que na alma se passa. – À palavra latina vultus muitas vezes corresponde a nossa semblante. feição. De um vulto de Medusa propriamente. para a franqueza: uma disposição. usam-na os poetas para indicar o mesmo rosto. É expressão mais elevada que a palavra cara. sombrio. e ao que com ele se parecia. sombrio. ramento. tempe- – Chamavam os latinos rostrum ao bico das aves. e não – está de bom caráter. entende-se sempre como sendo uma disposição permanente do espírito. (Lus. II. III. ânimo. em que o nariz forma uma espécie de bico. ou a parte da cara desde os olhos até à barba. usa-se. e talvez “rosto formoso”. sobretudo visto de perfil. Dizemos – F. significa por extensão toda ela. é significar esta palavra vulto o relevo do corpo humano. etc. no entanto. marcando. ou que é passageira33. – “o caráter e o humor resultam de disposições do espírito que são particulares a uma pessoa. com a sociabilidade ou a falta de sociabilidade: tais são as disposições para ser alegre. F. por ser a parte saliente do corpo. ou com a mesma propriedade um caráter ou – um humor. rabugento. sombrio. quando a consideramos voltada para nós. humor. e humor alegre. dócil. e ainda hoje os castelhanos chamam rostro à cara dos racionais. Toda disposição de espírito própria para estabelecer uma séria distinção entre um homem e um outro homem é um elemento do caráter. uma perfeita equivalência entre caráter alegre. – Da palavra latina facies vem o nosso vocábulo face. como se vê deste lugar de Cícero. não somente uma simples disposição do espírito.. ou quase permanente. 41) – Semblante (talvez do francês semblant) é o rosto considerado como expressão dos afetos ou paixões. especialmente as disposições do espírito que têm relação com a moralidade são elementos essenciais do caráter. 35). pode entender-se que essa disposição é permanente. compleição. que no rosto se mostra. porém. “O semblante (o vulto) muitas vezes indica os sentimentos da alma”. é de um caráter austero. os nossos antigos chamavam. que. mas uma disposição tal que possa estabelecer uma notável distinção entre um homem e um outro homem. constituição. que tem preso Em pedra não. ao esporão da proa das embarcações. marcando simplesmente uma certa disposição do espírito.250 Rocha Pombo 463 CARÁTER. alegre. Que o coração converte. O mais comum. as disposições que formam o humor podem ser e são quase sempre momentâneas. e não – de humor austero. idiossincrasia. pois humor. como se infere destes versos de Camões: Quem32 de uma peregrina formosura. como se vê da precedente citação de Camões. complacente. muito a propósito. e é poética. ou com o seu contrário. feitio.. natural. ou para ser triste. esquisito. de tendências. Por suavidade de pronúncia se diz rosto. Não há. e muitas vezes equivale à representação exterior. – Segundo Bourg. instinto. e Berg. Um caráter leal é a disposição permanente para a lealdade. significando rigorosamente a maçã do rosto. Que os soluços e lágrimas aumenta. pois só se diz dos racionais. e da seguinte: E com o seu apertando o rosto amado. índole. ou pouco mais ou menos permanente. 142) 32 Subentende-se: pode livrar-se.. está de bom humor. mas em desejo aceso? (Lus. e como é no rosto que mais avultam as feições humanas. 33 E aqui está a verdadeira distinção entre caráter e humor: no caráter há fixidez de disposições. Vultus animi sensus plerumque idicant (De Orat. Dizemos – um caráter leal (não – um humor leal).

.. não se é arrebatado. a inclinação de cada um”. – Complexão (ou melhor – compleição que é mais vernáculo. e que é eminentemente própria para distinguir um de outro homem. escreve o mesmo autor: “Complexão (do latim complexio. melhor. e essa ideia torna-se como que característica da própria mistura ou amálgama. bons ou maus. por isso. importado diretamente do gre- . as suas emoções. quando se é brando por temperamento ou compleição. um – temperamento forte. Também significa o tino. não se cometem crueldades. no modo de encarar as pessoas e as coisas. O humor não resulta de disposições que tenham relação com a moralidade. e não se enoja arrebatadamente. a natureza de cada indivíduo. de costumes e hábitos. tem bom gênio (e nem por isso terá sempre boa índole). a ideia de uma certa força ou violência atribuída aos elementos. pois. viciosos. humor leal. plexus ‘dobrado com. Quando se é de um natural brando. o estado de espírito em que se está em certa situação. a índole. e segundo o qual julgamos as coisas. de preferência – um temperamento ardente. temperamento dá. Poderia aproximar-se muito de humor. é o modo de ser do espírito. – Instinto é o modo de ser ou de agir quase inconsciente. revelada na maneira de ser. – que é naturalmente inclinado à verdade. sugere melhor a compleição. A constituição representa (é ainda de Laf. feição parece enunciar melhor a ideia de modos exteriores. considerados no seu grau de força ou de vivacidade. – Gênio é a disposição natural com que cada um revela a sua vontade. nem sujeito a fortes movimentos de paixões. ao bem. o gênio e o temperamento forma o caráter de cada indivíduo. – Feição e feitio bem que se podem confundir. e os animais principalmente. uma saúde robusta. Dir-se-á. mais ou menos viva de cada um. – Feitio. O homem que não se irrita facilmente. que os movimentos da sensibilidade. sólida e capaz de resistir às fadigas. e não sob o ponto de vista do bem ou do mal. bruscos (e não – compleições. complicado’) exprime uma certa união de todos os sistemas e aparelhos orgânicos. – Entre índole. no entanto. a índole de cada um. formado pela índole e o gênio.) e temperamento não significam mais que o humor. os humores. Mas. tem boa índole (e não se dirá – tem bom gênio)34. e – uma compleição delicada”. de cum + 34 Pode mesmo ter mau gênio e ter boa índole.. – Segundo Lafaye –. – Temperamento (de temperare ‘misturar.) antes o bom estado exterior e visível do corpo. Comparando compleição e temperamento.. que sabe moderar os transportes de ira. como feitio. A união da índole.. sobretudo entre as partes líquidas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 251 portanto. a conformação dos membros. a despeito do que diz Bruns. Estas duas palavras fazem conceber uma proporção entre os elementos do corpo. a natureza moral.. – Feição é. Mas o homem – diz Roq. – Idiossincrasia é termo erudito e moderno. isto é. nem temperamentos). – Há naturais (ou naturezas morais) benfazejos. no exercício de alguma função ou na prática de certos atos. é o impulso natural a que obedece o homem. que se refere à moralidade. como por inspiração. – Ânimo é. as disposições naturais para o bem ou para o mal – ou melhor. enquanto que compleição e temperamento designam o estado de saúde interior. gênio e temperamento há tanta semelhança que poderiam facilmente confundir-se os três vocábulos”. adoçar’) anuncia um amálgama de coisas violentas que têm necessidade de corrigir-se e que se corrigem uma pela outra. sem refletir nem cogitar do que se vai fazer. e – uma compleição biliosa. aqui. não tem sentido. a perspicácia com que se faz alguma coisa espontaneamente. à virtude. natural exprime as qualidades do caráter.. – Índole é “o modo de ser. – Temperamento é a sensibilidade.

– Careza é a qualidade de caro. sem dúvida. . Para isso seria necessário admitir que esse homem sabe que não tem vergonha e quer ou deseja tê-la. de ser. – Carecer carece de lógica é que não é senão absurdo. em virtude da qual cada indivíduo sente de modo diverso os efeitos da mesma causa”. fome. Por isso.. Também não se diria que “F. em que figura a raiz grega ker. o verbo precisar. carece de cem contos para realizar um negócio que planeou”. encurtar”) significa propriamente “ter falta daquilo que se deseja ou de que se precisa”. Ninguém carece daquilo que lhe não seria de proveito. Necessitar aproxima-se. 35 O verbo precisar também pode ter significação diferente quando rege algum outro. Há. portanto. de escassez que obriga à privação muita gente. expressa que lhe conviria muito alcançar ou possuir essa coisa. Em bom português não se poderia dizer que – “um homem carece de honra ou de vergonha”. e Lac. pobreza. “Ele sacrifica-se a trabalhar dia e noite porque precisa ou porque necessita”. (Aul. 465 CARECER. ou de proteção.. Quem necessita de alguma coisa dá ideia de que essa coisa lhe é necessária. por assim dizer.) 464 CARCAÇA. necessidade. nem protetor. e carcaça é termo que só em linguagem familiar se pode dizer por esqueleto. Quando se diz que. – Carência é “a falta de alguma coisa. necessitar. Observemos. 466 CARESTIA. ou conveniência em falar-lhe). precisar. arcaboiço. penúria. e até mesmo de quase penúria: ideia que se não inclui na palavra careza. Quem carece de alguma coisa é que não tem essa coisa que lhe seria útil. significam evidentemente “ter falta do que é indispensável”. por último. – Carestia é “o preço elevado das coisas determinado pela falta ou pela grande escassez dessas coisas”. “Preciso de falar-lhe” (isto é – tenho necessidade. – Segundo Bruns. ou carere. escassez. – Esqueleto é palavra científica. de preço mais alto que o comum. sede. mas falta que se sente e que passa. um artigo. ou precisão de falar-lhe). no entanto. como entendem Roq. Neste caso empregaríamos. para coisa alguma. O sujeito que carece de emprego. e conforme se emprega ou não entre os dois a preposição de. nem – que necessita de cem contos. que estes verbos precisar35 e necessitar. sugerindo ideia de “cortar. miséria. a ser necessidade quase”. dizemos que – um negociante precisa de cem contos para ampliar as operações da sua casa (e não – que carece. formam o esqueleto. careza. mais de carecer do que precisar. a base ou o fundamento do organismo humano”. Em regra. É conveniente notar ainda que não carece daquilo que nunca se teve.252 Rocha Pombo go. uma grande diferença entre careza e carestia: esta sugere ideia de carência. – Entre precisar e necessitar poderia ser mais difícil estabelecer diferença do que entre estes e aquele primeiro verbo. inó- (do latim carescere. O argumento que pia. isto é. portanto. A carcaça é a porção de ossos que formam o tronco do homem ou o bojo dos animais. significando “disposição particular do temperamento e constituição. esqueleto. não se pode carecer de cem contos. como intransitivos. Como não se carece de meia dúzia de chapéus para não andar descoberto (sim – de um chapéu). – os ossos do corpo completo do homem. ou do animal. carência. “Preciso falar-lhe” (isto é – tenho obrigação de. não tem nenhum emprego.. – Arcaboiço (de que não cogita o autor citado) é a “armação de ossos que formam. indigência..). nem de um banquete para matar a fome (sim – de um pouco de pão). Quem precisa de alguma coisa.

recursos. em toda a sua extensão. como à falta de talento. muitos outros entre os vocábulos deste grupo) empregar no sentido moral como no físico”. ou da autoridade que a nomeia.) e que significa “falta. etc. Tem-se fome ou sede de justiça (isto é – clama-se por uma justiça sem a qual teremos de perecer). de ser. aflitiva de algum bem. – Miséria é “o estado de penúria. todo ofício vem a ser cargo. pede socorro”. emprego. – a ideia própria da palavra ofício é a de obrigar (ao que exerce o ofício) a fazer uma certa coisa útil à sociedade. que inspira piedade. de moralidade. é pobreza horrível e desventurada. e ali a fome já espreita as vidas. Certos cargos no governo e na administração do Estado são verdadeiros ofícios que de direito se exercem. de fazer ou cumprir um certo dever aquele que toma o cargo ou o ofício. – Indigência é “a qualidade ou estado de indigente. pode ser bem físico ou moral”. clamante do indispensável”. Um homem que luta heroicamente para viver pode estar até em penúria sem ser indigente. Um sujeito rico pode achar-se em verdadeira miséria de vida se é um perdido. etc. é que não temos as notícias que esperávamos. do alto funcionalismo (não – empregos). – Pobreza é “a qualidade de ser pobre. do grego peina “fome.. necessidade violenta” (Chass. papel. da diplomacia. força”. senão cargos. a cargo pela necessidade.)] é “pobreza extrema e dolorosa. por mais distintas que sejam estas duas palavras. Há empregos vagos na repartição tal (não – cargos).. função. isto é – de achar-se alguém em tal penúria que precisa de recorrer à caridade de seus semelhantes”. – Escassez é “a qualidade de escasso. por assim dizer. 467 CARGO (encargo). mas esquecendo-se que nem todo cargo é ofício.” (e em nenhum . às vezes até adquirida por herança. – Necessidade. de indigência que comove. portanto. mas os cargos de prefeito ou de intendente municipal. Há cargos da magistratura. “meios. Lavra a miséria num país. uma qualidade permanente. Entre cargo e encargo não é muito raro notar uma certa confusão. que dependem de nomeação ou de eleição. com efeito. – Inópia é a palavra inopia que importamos do latim (de inops = in neg. pois. colocação. – Segundo Roq. não se pode dizer que sejam propriamente ofícios. – Penúria [latim penuria. aliás. e sugere a ideia de que “o necessitado solicita auxílio. ofício. a coisa escassa. pode definir-se como significando “contingência fatal. A ideia própria de ministério é a de que a pessoa que o exerce desempenha um certo cargo por outra pessoa. isto é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 253 por exemplo. carência absoluta de alguma coisa”. Encargo não é mais que a obrigação que decorre de um cargo ou de um compromisso que se tomou. imposta pelo destino”. parco. de não possuir meios de viver folgado. “os meus encargos estão satisfeitos”. insuficiente para o fim a que é destinada”. Dizemos: “cumpro os meus encargos”. – Emprego encerra a ideia de estar o empregado sujeito a um trabalho permanente e obrigatório. – Sede e fome entram aqui numa acepção muito particular: exprimem “necessidade ansiosa. corresponde. pois. + ops. Confundem-se às vezes estas palavras. e tanto se pode (como. que sugere. É. ministério. em abastança”. ou como direito anexo a uma dignidade. mesquinho. falta absoluta. “temos carência de notícias a respeito de alguém ou de algum sucesso”. lugar. porque os que os desempenham só o fazem ou devem fazer por um certo tempo. sem que tenham mais título que sua eleição ou nomeação. enquanto que os ofícios constituem. Dizemos inópia tanto em referência à falta de dinheiro. “tomo o encargo de avisá-lo a tempo. em nome de outrem. o emprego muito diferente do cargo. isto é – de ser curto. Mais restritamente é “a falta do necessário”.

– Carniceiro é o animal que Bruns.. capaz de sentimentos de caridade”. tratando de graves assuntos. 468 CARIDOSO. o gosto. portanto. O tigre. e sem razão. é termo pouco usado. nem – sentimentos caritativos). ou tratando de assuntos que lhe interessam mais ou menos diretamente. que se ceva de carniça. – O bilhete difere da carta: em se ocupar só de um assunto. 130) 470 CARTA. – Função (ou. o hábito constante. – Caridoso diz apenas – “de caridade. às vezes. – carta é o termo usual com que se designam os escritos que se dirigem a alguém dando-lhe notícias. . 469 CARNICEIRO. como fez Camões naquela apóstrofe aos assassinos de Inez de Castro: Contra uma dama. “F. carniceiro é termo vulgar da língua. emprego ou ofício”. por uma necessidade de natureza. Criatura caritativa. de pequena importância. indício de caridade. por mais que muita autoridade de nota o queira.. mais ordinariamente – emprego por pouco tempo ou de pequena monta”. “F. mas as respetivas terminações marcam entre eles uma diferença bem sensível. próprio de caridade. – Colocação é quase o mesmo que emprego: ajunta apenas à significação deste a ideia de que o emprego é permanente e quase sempre de certa importância. as epístolas de S. Familiarmente dá-se hoje o nome de epístola a uma carta muito longa e em estilo pretensioso. o costume. e carnívoro pertence ao que come carne. estes dois adjetivos. o instinto. a obrigação que se aceita num certo caso. Os naturalistas. como. dos serviços próprios de um cargo. – Lugar é “qualquer emprego. que se ceva de carne crua. a função própria que se toma num dado momento. a nosso ver. de um ministério. o cão. e o uso geral o admita. o gato são carnívoros.. e cavaleiros? (Lus. que se confundem. – Epístolas dizemos das cartas dos antigos. missiva. – Missiva é a carta considerada com relação à pessoa que a manda. e pode nutrir-se de frutos da terra. III. – Papel figura neste grupo com o sentido translato que se lhe dá em frases como estas: “fiz do melhor modo que pude o meu papel”. Feros vos amostrais. É possível. em conter poucas palavras e excluir as formas cerimoniosas que encabeçam e concluem as cartas ordinárias. Estes dois adje- tivos designam em geral os animais que se sustentam de carne. Significa. por exemplo. e é antônimo de frugívoro. Deveres caridosos (e não – deveres caritativos). Paulo. o segundo anuncia simplesmente o fato. ó peitos carniceiros. dizem que o nome de carniceiro pertence àquele que. como quase sempre é usada. Parece. é muito caritativo”. quando comparam estas duas espécies de animais. Ato caridoso. o lobo são animais carniceiros. Carnívoro é termo mais próprio de ciências naturais. epístola. se nutre de carne. por isso mais usado é. mas essa distinção não basta.254 Rocha Pombo destes casos – cargo ou cargos). e não – caridosa. sentimentos caridosos (e não – ato caritativo. mas não é reduzido a este só alimento. caritativo. carnívoro é o que come carne. carnívoro. O primeiro indica o apetite natural. – Segundo “caridoso indica maior e mais frequente caridade que caritativo”. com a significação de cruel e sanguinário. está no seu papel”. o homem. principalmente quando o conteúdo delas interessava a muitos. funções) é “o conjunto das obrigações. o leão. e que isso é “devido à índole da terminação oso”. cheio de caridade”. bilhete. – Diz Bruns. ou de assunto ligeiro. em forma literária e em tom solene. – Caritativo é propriamente “o de natureza moral dada a atos de caridade. e não pode viver de outra coisa.

é “o lugar. – Vivenda é a “habitação onde se vive”. neste grupo. palheiro. e por extensão. – Tugúrio (latim tugurium. – Habitação é. o mais genérico. habitação. hoje muito em voga. o sítio. às casas habitadas de um distrito. canto. a morada humilde e desolada. passou a designar também a própria casa. prédio. “abrigo ou habitação muito rústica e grosseira”. mansarda. solar. que se habita: casa. – Canto. asfalto ou ardósia. – Choça é “habitação ainda mais rústica e grosseira que a choupana”. aqui. – Morada é “à habitação onde se mora. (Aul. portanto. – Cabana (do italiano capánna) é “casinha coberta de colmo ou de palha. casebre. vivenda detestável. por modéstia ou por falsa humildade. Este nome dá-se também. “era-lhe o céu um teto misericordioso”. pelo menos com a mesma propriedade –. – Tenda é “armação coberta para abrigo provisório ou de passagem em caminho ou em campanha”. – Choupana é – diz Aul. a sua choupana). castelo. – Casa é “o edifício de certas proporções destinado à habitação do homem”. junto ou no meio das roças ou lavouras”. mais a significação de “habitação . designando. palácio. é “o colmo tomado pela cabana que é dele coberta”. ou biombo – tudo será habitação. toda parte onde se abrigam alguns animais: a casa do escaravelho. arribana. de convívio amoroso: “teto paterno”. Palacete é diminutivo de palácio. – Chalé é palavra da língua francesa. e sugere melhor a ideia de conchego. a casa dos coelhos. biombo. onde alguém como que se refugia afastando-se do mundo”. de tegere “cobrir”) é “o abrigo onde qualquer vivente se recolhe. ou habitualmente ou por algum tempo”. – “casa rústica de madeira. morada. teto. – Palácio é “o edifício de proporções acima do normal. ordinariamente revestida de madeira. e forma grande saliência sobre as paredes”. – Mansarda afasta-se um pouco do francês de que a tomamos (mansarde é propriamente água-furtada ou trapeira. vivenda. cujo teto de pouca inclinação é coberto de feltro. – Lar é a “habitação considerada como abrigo tranquilo e seguro da família”. ou palácio. à própria habitação magnífica. – Fogos é o nome que se dá.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 471 CASA. – Arribana é “palheiro que serve mais para guarda de animais e trem de viagem propriamente que para habitação.). cômodo. Dizemos que o selvagem procura a sua choça (e não. pardieiro. em linguagem vulgar. e sugere a ideia da maior ou menor comodidade com que a gente aí se abriga e vive. 255 tugúrio. lar. ou onde se fica por algum tempo. palhoça. ou de uma povoação: “a aldeia vizinha não chega a ter cem fogos”. choupana. ou de ramos de árvores para habitação de pastores”. coberta de tela de lona ordinariamente”. grandioso e magnífico”. isto é – o último andar de uma casa tendo a janela ou janelas já abertas no telhado): tem. – Casebre é “pequena casa velha e arruinada. choça. onde mora gente muito pobre”. barraca. tenda. de todos os vocábulos deste grupo. etc. de proteção. palacete. fogo. portanto. no estilo suíço. – Palheiro é propriamente o lugar onde se guarda palha: designa. designa. colmo. “prédio rico e elegante”. – Teto (latim tectum. prestando-se quando muito para pernoite ao abrigo de intempéries”. Por isso. de uma cidade. chalé. De “ato de habitar”. aqui. significando “casa de escada exterior. que é o que significa propriamente esta palavra habitação. – Palhoça é “pequena casa coberta de palha”. – Colmo. – Barraca é “tenda ligeira. onde alguém se aloja provisoriamente”. onde se abrigam à noite os camponeses. usa-se quase sempre com um adjetivo: bela vivenda. no português usual. nas estatísticas. ou choupana. cabana. também de tegere) é quase o mesmo que tugúrio: apenas teto não se aplica a um abrigo de animais.

– A hipótese toma-se muitas vezes por um conjunto de proposições unidas e ordenadas.” A situação em que me encontro agora. aqui. – Cômodo. que não tem outro fundamento que a má vontade da pessoa que supõe. a suposição é gratuita.” – Situação é. só tem por base a verossimilhança. Um sinonimista francês. etc. porque esta só de longe se relaciona com o ponto de que aquela está próxima. e onde residiam os grandes senhores feudais. termo vulgar. gratuita ou falsa. a situação da França em 93. propriedade real”. “o conjunto de circunstâncias que determinam o estado ou a condição de uma coisa. a situação atual do país. Roubaud. a suposição é mais familiar. – Prédio (latim prœdium. A hipótese é mais certa. ou das coisas que. como alegação. menos precária. – Solar é “a propriedade (terras e casa) considerada como representando uma tradição de família. pessoa. – “edifício velho e em ruínas”: “Já me cansam estas perpétuas ruínas. – De suposição e hipótese escreve Roq. etc. incômoda e difícil. Particularmente se diz de todas as hipóteses que se podem considerar nas ciências abstratas. de Newton. compara a conjuntura com a circunstância dizendo: A conjuntura e a circunstância estão para o fato como dois círculos concêntricos estão para um ponto dado: a circunstância é o círculo circunscrito na conjuntura. e que serve de dormitório. e muitas vezes se toma em mau sentido. – Bruns. Os sistemas de Descartes. Costuma-se dizer: “vou para o meu biombo” para significar que se vai para casa. conjuntura. mas. estes pardieiros intermináveis” (Garrett).. hipótese. têm com ele alguma relação. Também se diz de um fato que apresenta tal ou tal caráter. suposição. de modo que formam um corpo ou sistema. aqui. Hoje é “habitação nobre. contudo. designa “a casa que é nossa própria. distingue assim as três primeiras palavras deste grupo: “Caso se diz do que se considera possível: em caso de desgraça. tendo passado por herança de pais a filhos desde alguns séculos”. penhor. separadas do fato. distinguem-se mais em que: a hipótese é uma suposição puramente ideal. funda-se numa verdade filosófica. de Leibnitz chamam-se hipóteses e não suposições. de circumstare ‘estar à roda de’) diz-se das particularidades de um fato. fiador”) é propriamente “bem de raiz.” . entra na conversação ordinária. sucesso. se se der o caso de não ter ele filhos. – Pardieiro é – diz Aul. sempre que este fato se possa relacionar com princípio geral: aos casos particulares não têm os magistrados senão leis gerais para aplicar. – Conjuntura é o vocábulo com que se indica o conjunto de circunstâncias que nem estão no fato. num dado momento. de gabinete”. – Circunstância (do latim circumstantia. aqui. circunstância. assim como a circunstância. à explicação das coisas. e a suposição toma-se por uma proposição ou verdadeira ou aprovada. nem com ele se relacionam imediatamente. situação. e outro.: “Além da primeira diferença que há entre estas palavras (e que consiste em ser um. têm com ele alguma relação imediata: os crimes perdem muito da sua gravidade quando neles ocorrem circunstâncias atenuantes. suposição. a propriedade que consta da casa e do terreno onde está construída”. fora das cidades. pode ser favorável ou desfavorável. A conjuntura. à inteligência. 472 CASO. do prœs “garante. onde há pobreza”. mas que. luxuosa. A hipótese refere-se às ciências: à instrução. onde se vive com opulência”. é “uma parte de prédio que se aluga por baixo preço e por pouco tempo ordinariamente”.256 Rocha Pombo humilde. – Biombo é “um pequeno recinto separado de uma sala por meio de tabique móvel. – Castelo era antiga habitação fortificada. termo científico.

– Incorrupto é “o que não foi corrompido. que é são e puro de espírito. que qualquer sopro impuro a embaça e murcha: um só instante de fraqueza. castigo. inocência. continência. um modo de ser. mesmo de uma brutal violência. a honra. que está na sua plena integridade”. é a excelência. ou delito. impoluto. que regula. – “É a castidade” – diz fr. – Virgindade exprime uma continência universal. Em poesia não é muito raro empregarse imáculo por imaculado. Mesmo referindo-nos à própria Virgem. inocente. castidade. – Punição é “o ato de punir”. descuido. A pessoa pudica teme. – Punir supõe autoridade de uma parte. intacta. cândida. – Intemerato e imaculado podem dizer-se sinônimos perfeitos. (A pessoa casta nem pensa em semelhantes prazeres. de algum modo. pudicícia. Luiz – “uma virtude. e sujeita à autoridade sagrada da lei. e até os defeitos. Neste sentido dizemos até – “castigar o estilo. – Pudicícia é a castidade acompanhada de pudor. nem sentiu. o próprio prazer honesto. venham a sair moralmente imaculadas. intemerato. pelo menos em todos os casos. – Continência exprime a abstinência atual dos prazeres da carne. mas sim erro. aperfeiçoar por meio da repreensão. omissão. mas como um estado de alma. será essencial em imaculado: a ideia de – não violado. Castigar supõe autoridade de uma parte. – Impoluto é “o que não foi poluído. incorrupto. Esta virtude é mais ordinária no sexo feminino. absoluta. Parece. os apetites e prazeres sensuais.). virgem. Por isso mesmo é que não se pode considerar a inocência como propriamente uma virtude. pena. que intemerato sugere uma ideia que nem. ou de honesta vergonha. 474 CASTIGAR. castigar a frase”. Pode haver criaturas que. e o lustre da virgindade: Ela supõe uma alma inocente. mas também os erros. que não ficou alterado na sua pureza”. como do espírito que se estende a todos os tempos e momentos da vida. pureza. e perfeita. que nem experimentou. delitos. – Ilibado (latim illibatus = in + libatus) quer dizer – “intacto. mas castigar indica principalmente a ideia de corrigir. nem sabe pensar no mal. puro. virgindade. . como o próprio sofrimento com que se castiga”. – Pureza não é propriamente uma virtude particular. e aí estará talvez o que torna a virtude da castidade diferente de muitas das que figuram neste grupo. – Inocência tem aqui a acepção de candura: é a qualidade do inocente. É uma flor delicadíssima. conti- 257 nente. a perseverança. dizemos indistintamente – imaculada ou intemerata. que não passe a segundas núpcias. inalterada”. quando contrárias à lei: e castigam-se. Punem-se crimes. nem mesmo sabe que é inocente. – Pena (latim pœna. as faltas. etc. e nem ainda conhece o que pode alterar a perfeita integridade da alma e do corpo”. ações voluntárias. pudico. virgem. e cora de os ver ainda levemente transgredidos. O celibato cristão demanda continência perpétua. – Punir implica a ideia de imposição de pena. ilibado.). mas da outra não supõe necessariamente culpa. isto é – do que não tem malícia. deve ser continente. pois o inocente não conhece o mal. do grego poiné “vingança. A viuvez. e quando cede ao dever. (Lac. ainda quando permitidos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 473 CASTO. expiação”) sugere ideia do “sofrimento que se impõe como punição do crime. S. no entanto. – Castigo é “tanto o ato de castigar. punir. um só pensamento voluntário faz perder o merecimento desta angélica virtude. ou grande falta que deve ser punida”. sabe coartá-lo dentro dos mais estritos limites. punição. tanto do corpo. e culpa da outra. censura. imaculado (imáculo). de alma fiel. não só as ações voluntárias quando contrárias à lei.

é o fato em virtude . Nomenclatura geográfica. ou não tanto a esmo como numa simples lista. O catálogo de uma livraria ou de uma biblioteca compreende o título das obras que a formam. servidão. certas indicações numéricas. mas diferentes entre si. de expressões que formam grupo separado. O cativo pode conservar ainda a sua dignidade. minuciosa”) dizemos das relações ou enumerações de muitas coisas da mesma espécie. relação. Recapitulando. móvel.258 Rocha Pombo 475 CATÁLOGO. mas prisioneiros. escravidão. ao lado do nome das coisas ou pessoas arroladas. 477 CAUSA. – Rol é a lista que contém. e não escravo. passar por herança ou legado”.º) que a enumeração seja metódica. só se lhe pode dar o nome de lista ou relação. servo. Do mesmo modo difere prisão de cativeiro. ou ao conjunto das coisas enumeradas. O cativeiro não humilha. Hoje. a lista apenas inscreve. De tudo isto é privado o escravo. ou obedeça a uma certa ordem. enumeração. cativeiro. pode ser vendido. – Nomenclatura é uma lista de nomes. prisão. etc. – Segundo Bruns. rol.°) que cada objeto catalogado se faça acompanhar de algum esclarecimento que melhor o caracterize e distinga dos outros. mesmo aquelas que parecem mais semelhantes. e que. – Enumeração é a lista que se faz com o fim de atender ao total que apresenta. por exemplo. Sempre que a enumeração careça dessas condições. a sua condição pessoal. – Escravo é “o que passou a ser propriedade de outrem. vemos que: o catálogo inscreve e circunstancia. A escravidão não só humilha. – Causa é o que produz uma ação. motivo. Fazemos a lista dos livros que desejamos comprar. Fazer uma nômina dos empregados por ordem de antiguidade. 476 CATIVO. portanto. – Todas estas palavras designam aquilo que se tem como determinante das nossas ações. Fazemos ou organizamos o catálogo de uma biblioteca. 2. a nomenclatura inscreve denominando. o que se deixou prender na guerra. lista. pois o primeiro designa apenas o fato de “achar-se alguém privado por algum tempo de agir livremente. supondo-se que estes esperam sempre o seu resgate. razão. de usar da sua liberdade”. etc. em certos casos. nomeia por ordem. pode possuir bens. pelo menos nem sempre. escravo. – Servo é “o que está sujeito a outrem”. Quando a nomenclatura inscreve ou classifica nomes de pessoas. prisioneiro. e a enumeração inscreve ou expõe sucessivamente para que cada unidade contribua para o conjunto. ficando sob a dependência de outrem”. o nome dos respetivos autores. por exemplo – rol dos convidados. o rol inscreve e conta. – Prisioneiro aproxima-se de cativo: é “o que fica em poder do seu vencedor”. etc. O servo é considerado como pessoa. Não diremos. ou da botânica. pretexto. na guerra não se fazem cativos. denomina-se nômina. mas – lista dos convidados. É condição essencial do catálogo: 1. auferir lucros do serviço que presta a seu amo. perdeu a sua liberdade. nem mesmo servo. – Relação é quase o mesmo que lista: apenas deixa supor que as coisas ou pessoas relacionadas estão inscritas numa certa ordem. atendendo a que nessa lista a única indicação numérica é a dos números de ordem. mas não poderiam ser aplicadas indistintamente. nomenclatura. como despoja a criatura de quase todas as suas qualidades humanas. nômina. – Catálogo (do grego katalogos “exposição desenvolvida. A servidão é muito diferente da escravidão. – Cativo é propriamente “o que foi capturado. principalmente tratandose de ciências. a nômina inscreve. O judeu em Babilônia foi cativo.

satírico. escarninho. acre. chufas. – Motivo é simplesmente o que opera em nós excitando-nos. e pica. ferino. pungente. ao intento. picar. as suas armas são um gracejo vivo e picante. Um espírito cáustico emprega a ironia. terebrante. Po- deria ainda alguém dizer – sátira mordente (e talvez não – sátira mordaz).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 259 do qual se dá um outro fato. etc. 478 CÁUSTICO. – Pungitivo é “o que tem qualidades para pungir. provocador” do que só mordaz. isto é – capaz de pungir (mas não – pungente). motejos para fazer sobressair o ridículo e os defeitos dos outros. áspero e desabrido”. Gritos lancinantes = os que entram na alma de quem os ouve como lancetas. os vícios e os defeitos mais censuráveis. mas que só pungem a certas almas. como já vimos em outro grupo (o XCVIII) é “o que tem sabor picante e corrosivo”. – Picante é “o que é acre. que se inclui em causticante. – Acre. picante. ditos e expressões picantes. Um espírito satírico ataca.) “denota certa malignidade irritante. que nos leva a fazer alguma coisa ou a agir de certo modo em dadas circunstâncias. não poupa ninguém. elogio. – palavra causticante (em vez de – cáustica). irônico. Dizemos tanto – termos irônicos. satírico. irrita. e. Aquela palavra ou aquela frase saiu causticante como ferro em brasa (e não – cáustica). – Móvel é “um motivo mais ponderoso. – Motivo e móvel são os nomes que damos ao fato. lancinante. devida ao sufixo de atividade ante. atraindo por isso o ódio ou o desprezo de todos. abocanha a honra. etc. cruciante. como ao paladar a pimenta”. isto é – que usa de uma palavra ou frase (ou mesmo gesto. Talvez porque se julgue esta palavra como originada do verbo ferir. saudação. Há palavras. sobretudo. um caráter mais ou menos maligno. o móvel que se dá como causa da ação”. mordaz. que condena. é frequente vê-la empregada como signifi- . Dizer – “bandido” a um santo será usar de uma palavra pungitiva. – Irônico é o que contém. de flagrância. impelindo a nossa vontade de praticar uma ação. – Lancinante é “o que penetra causando grande dor. atitude. picante. como – olhar irônico. deixou de vir devido ao mau tempo (o mau tempo foi causa da ausência). o que corta. ou o que diz ironia. ou de conduzir-nos deste ou daquele modo em dadas circunstâncias. frases pungitivas. mordaz (morden- te). sarcástico. pune e instrui”. ofende a boa reputação. invetiva. pungente. – Pretexto é “uma razão falsa ou fictícia que se dá para não dar a verdadeira”. – Entre mordaz e mordente há diferença bem sensível: mordente significa mais “espicaçante. – Ferino é “o que é selvagem. Parece também que este tem mais força que o primeiro. próprio de fera”: e no sentido figurado – “o que é rude.. A causa da intervenção da força pública foi o tumulto que ali se levantou. – Pungente é um tanto mais forte e subtil que mordente: o que punge “penetra como espinho”. um gênio acerbo. pungitivo. – Entre cáustico e causticante parece haver apenas a distinção marcada pela ideia de atualidade. feroz. postura) para exprimir exatamente o contrário do que diz ou afeta. e algumas vezes a indignação e a veemência: é um moralista ou um juiz de mau humor. discurso. no sentido figurado. até carinhos irônicos. F. que opera tanto sobre o espírito como sobre o coração”. Diremos com mais propriedade – estilo cáustico (em vez de – causticante). – Cáustico (segundo resume Bens. cruel”. – Razão é “o motivo que se invoca para justificar algum ato. brutal. causticante. penetrar afligindo”. É usado mais frequentemente no superlativo: acérrima ironia. Um espírito mordaz ataca tudo e todos. rasga como estilete”. Dizer – “santo” a um bandido seria dizer-lhe uma palavra pungente. designa “o que é rude e violento. à consideração.

vindo do céu. tendo a mesma significação. – Festejar (do latim festus “alegre”) é.) até o mais fundo da vida”. – Celebrar encerra duas ideias principais: a de ser grande o número de pessoas que concorrem e a do aparato da festa ou da cerimônia celebrada. de alegria. para o fazer ou deixar de fazer. de indicar o modo de render homenagem a qualquer pessoa ou acontecimento. dos três primeiros verbos deste grupo. o único que claramente encerra a ideia de festa. e não – corpo celestial)]. solenizar. quer seja atual.260 Rocha Pombo cando – “o que fere sem piedade. – “Fazer alguma celebra-se um aniversário com grandes festejos. celebram-se exéquias. ou aconselha que se faça”. – Solenizar é celebrar com pompa extraordinária. – Celestial. Como ninguém diria – a ternura divina daquela mãe (mas – a ternura divinal).. acontecimento. coisa às cegas” – escreve muito bem Lac. equivalente a – “o que envolve ou manifesta escárnio. Na maioria dos casos. em certos casos. – Sarcástico é “o que envolve mais do que ironia pungentíssima: é o que revela desprezo. às cegas. persuade. – Comemorar é “celebrar festa solene que recorde algum sucesso. – Rememorar é “repetir uma comemoração. como dos grandiosos. O padre celebra a missa. celestial. quer passado. – Deífico é também termo poético. Antônio. 481 CELESTE. conforme se vê em – corpo celeste (referindo-nos a um astro. . divino e divinal. – Célico e celígeno são termos usados na poesia. de ofender mostrando repugnância”. – Celeste significa – “próprio do céu (e também de Deus) que está ou que aparece no céu. (Bruns. festejar. divino. – Consideram-se aqui estes vocábulos na acepção que lhes é comum. João. Pedro e S. Ninguém diria – misericórdia divinal – em referência à misericórdia de Deus (e sim – misericórdia divina).. significando mais – divinizante – que propriamente – divino. – Celígeno quer dizer – “nascido no céu. doloroso em excesso. – Cruciante vale por “aflitivo como o sacrifício da cruz. Fazer alguma coisa cegamente é fazê-la porque se põe confiança na pessoa que manda. o semblante celestial de uma menina (e não – celeste). no sentido em que aqui o tomamos. celestial. comemo- rar. marcada pela partícula de extensividade que figura no segundo. e a fim de bem gravar no espírito a lembrança do acontecimento que se soleniza. empregam-se indistintamente celeste e celestial. Aproxima-se-lhe muito escarninho. “o que é como se fosse celeste”. que tem origem no céu”. divinal. época extraordinária na vida de uma nação ou uma família”. do céu” [nem sempre – celeste. intuito de humilhar. rememorar. recordar outra vez uma data ou acontecimento”. célico. cruel e pungente em extremo”. deífico. significando: o primeiro. pois este pode valer ainda como um restritivo de firmamento. É com hinos de louvor e de alegria que a Igreja católica festeja um santo. 480 CELEBRAR.). – Entre celeste e celestial há uma diferença. que em certos casos é fundamental. que vem do céu”. celígeno. é com danças e divertimentos que o povo festeja S. amargamente”. designa. Dizemos: cólera celeste (cólera divina) e não – cólera celestial. 479 CEGAMENTE. – Terebrante. S. é “o que punge como acúleo (como verruma. que é como nojo pela pessoa ou coisa escarnecida”. – Celebrar e solenizar dizem-se tanto dos acontecimentos alegres como dos tristes. – Entre divino e divinal há uma distinção análoga. – “é fazê-la sem razão suficiente. entretanto.

pois. o lugar onde se sepultam os mortos. mauso- léu. – Concordam es- 261 tes vocábulos em designar a pessoa que não casou. e solteiro – às vezes até solteirão – quando queremos pôr em relevo o seu estado de independência. O próprio animal pode ter sepultura (não – sepulcro). que designava uma espécie de pedra calcária que consumia as carnes. porém. 11). sarcófago. e não – solteiros. e não – sepulcro raso. – Monumento (ou moimento. como se vê em Ferreira: “Mausoléus aos mortos não dão vida”. e na maior parte dos casos podem ser empregados indistintamente. Dos sacerdotes católicos dizemos que são celibatários. – Sepultura é. Da palavra latina tumulus (a tumore terrœ). enquanto que celibatário encerra frequentemente a ideia de não poder ou não querer contrair matrimônio. monumento. supõe alguma coisa mais que simples sepultura. carneiro. É um mausoléu menos sumptuoso. a não ser no último exemplo deste artigo. por exemplo – sepultura rasa.). mas cada um deles recorda particular circunstância pela qual se diferençam”. indica essa ideia sem nenhuma outra acessória. Sepulcro é mais nobre. fizemos nós túmulo. Nenhuma das duas têm saliência. contenha-lhe ou não os restos”. 483 CENOTÁFIO. – Jazigo é “o pequeno edifício. esconder”: designam. recipit (4. túmulo. – Mausoléu (do latim mausoleum) foi primitivamente nome próprio. guarnecido de muros. que é apenas o espaço que se abre na terra para guardar o cadáver. É este o nome que mais comumente se dá aos depósitos de cadáveres que não são propriamente simples sepulturas. designando os sepulcros grandiosos dos reis. como diz a etimologia. catacumbas. onde se depositam os cadáveres ou os ossos dos membros de uma família”. sepultura. quase o mesmo que cova: apenas a cova é uma sepultura ainda mais tosca e mais ligeira. e por extensão – o sepulcro feito desta pedra. só com a significação figurada de sepulcro. cova. jazigo. estendeu-se a todo sepulcro magnífico e sumptuoso. e taphos “sepulcro”). que designava o magnífico e sumptuoso monumento sepulcral que a rainha Artemísia mandou erigir a seu marido Mausolo. mas – sepulcro levantado da terra. Mais tarde. campa. solteiro.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 482 CELIBATÁRIO. erigido à memória de defunto enterrado em outro lugar. que é forma antiquada) é “toda construção grandiosa levantada à memória de um morto. – Solteiro. e em geral – sepulcro em que o cadáver se consumiu. igualmente do grego sarkophágos [de sarx (genit sarkós). – Cenotáfio. que em sentido reto significava “montículo”. . passou depois a ser nome apelativo. da palavra grega kenotaphion (de kenos “vazio”. e a que os nossos antigos chamavam moimento. onde se depositam cadáveres. como se vê da seguinte passagem de Floro: In mausoleum se (Cleópatra). que entre os latinos também tinha. – Carneiro é o lugar subterrâneo. O carneiro pode ser levantado do solo. ou qualquer construção acima do solo. ordinariamente em forma de templo. hipogeu. sepulcro. e phagein “comer”] é adjetivo substantivado concordando com lithos “pedra”. – Das quatro primeiras palavras deste grupo escreve Roq. portanto. sepulcra regum sic vocant. – Sarcófago. de não sujeição aos laços da união conjugal (Bruns. tem no português a mesma significação de monumento sepulcral. Dizemos. 6). – Sepulcro e sepultura (do mesmo latim sepelire) sugerem a ideia de “ocultar. De um ancião se diz que é celibatário quando se quer designar o seu estado social. “carne”. e numa necrópole. – Hipogeu só será usado hoje em linguagem poética: designa. (Eleg.: “Designam estes vocábulos o monumento elevado à memória de algum defunto ilustre.

– Campa é. aos bons costumes. porque é o juízo fundado que se faz das obras. repartir as quotas dos impostos. com o que o cargo de censor vem a ser o de uma espécie de magistrado na república literária. – Crítica é palavra grega kritiké (de krino ‘julgar. mais moderada. família e bens. no entanto. cova. Tem muita relação com a censura. diz Roq. repreender e corrigir as obras. a censura supõe a crítica. segundo as regras da arte e do bom gosto. em especial. sátira. são defeituosíssimas aos olhos da crítica. reprimenda. dos costumes públicos. impureza da linguagem. pondo de parte o que pode merecer elogio. arguição. sem se importar com o estilo. – A sátira é um juízo. Por extensão. dá-se ainda hoje o nome de catacumba ao grande túmulo comum. nem com o desempenho das regras de bem escrever. magistrados da primeira plana. Aprova a censura o que muitas vezes condena a crítica.262 Rocha Pombo como insinua a própria etimologia. aprovando-os ou desaprovando-os. Não há coisa mais fácil que agradar ao público com uma sátira. rara vez imparcial. à verdade. castigando aos que os pervertiam com seu desordenado procedimento. – Catacumbas eram as vastas construções subterrâneas destinadas a guardar cadáveres. crítica. como a sátira. e notar-lhes os defeitos. a correção e o castigo do que aparece contrário à lei. Assim que a crítica. e sempre violenta. que são inseparáveis de tudo que é humano. . para que se despreze. representa o ridículo. admoestação. “a lápide que cobre o sepulcro ou mesmo a sepultura rasa”: toma-se frequentemente pela própria sepultura. pois muitas pessoas pouco instruídas e muito audazes atrevem-se a censurar sem serem capazes de fazer a devida crítica. exprobração. e pela utilidade das verdades que defendem ou anunciam. que era entre os romanos a declaração autêntica que os cidadãos faziam de seus nomes. porém os meios de que se valem são muito diferentes. em que. Distinguem-se também em que o objeto da crítica não é precisamente o de censurar. e.: “Censura vem da palavra latina census ‘censo’. como vimos. remoque. a sátira. pois não se pode julgar de uma obra sem notar defeitos maiores ou menores. dar a conhecer suas belezas. ao exame. assim como pode acontecer que a crítica literária nada tenha a dizer onde a censura moral muito tenha que repreender e condenar. Muitas obras há que pela solidez dos princípios. julgamento e correção dos livros. mas que pela má disposição das matérias. faz ver o erro como tal. cujos mui importantes cargos eram guardar o padrão ou registro do povo. distinguir’) e significava a arte de julgar as obras de engenho. Este nome. reproche. repreensão. no uso comum. advertência. e esta é uma das circunstâncias que a diferençam daquela – a censu- ra – cuja significação. A crítica supõe a censura. confusão e obscuridade do estilo. se ridiculizam os defeitos. senão o de examiná-las. objurgatória (objurgação). raramente imparcial. podem talvez ter por objeto a correção e o desengano. veio a ficar reduzido à censura dos costumes públicos. à razão. observação. nem sempre. – Das três primeiras do grupo. cuidar da polícia. ponderação. sendo que a censura leva consigo a repreensão. subterrâneo. porque a crítica. é mais extensa. recriminação. 484 CENSURA. adotando os meios de reformá-los. são irrepreensíveis aos olhos da censura. para que se emende ou evite. Não há coisa mais difícil que fazer uma boa crítica. comentário. mas sempre com fundamento e equidade. ante os censores ou censitores. sobretudo. e. residência. propriamente. como era o dos antigos na política. julgá-las literariamente. como coisa a mais conducente para a boa moral pública.

mostrando-lhe. por isso se diz – o rito romano. prescreve as cerimônias com que se devem celebrar os ofícios divinos. – Exprobração enuncia a ideia de “lançar em rosto as culpas. ou melhor – a ação de objurgar. 485 CERIMÔNIA. Rito exprime mais que cerimônia. – Recriminação é “a censura mais forte. – Remoque é “dito ou frase picante que mal dissimula a intenção de repreender. Uma sátira ligeira pode fazer esquecer o mérito mais sólido”. mais como invetivando-o do que simplesmente fazendo-lhe acusações e censuras”. é católico do rito grego. – Se- gundo Roq. – Advertência é “o ato de chamar atenção para o mal que se fez. para os diferentes atos de um culto. Mas nesta frase. liturgia. esta recreia mais que instrui. Não dizemos – o rito romano – senão quando queremos diferençar as cerimônias do culto católico romano das de outro culto também católico mas não romano. ou faltas. senão compiladas por escrito para sua execução. a censura ou acusação desabrida que se lança à face de alguém. sobre a coisa a respeito da qual se pondera. ou em termos menos positivos. ou para a falta em que se caiu mais por descuido que por desídia”. ou de acusar desabridamente”. – Ponderação será “uma advertência ou observação mais disfarçada. pois. com o intuito de envergonhá-lo”. Dizemos. – Reproche é palavra francesa de que muito se abusa. – Repreensão “é o ato de condenar o erro ou a falta cometida: o que é sempre feito com certa acrimônia. que F. Uma crítica necessita ser mui bem fundada para corrigir. do que propriamente advertindo”. a maneira de executá-lo são as cerimônias”. não precisamente postas em prática. E. ou com tanta evidência. liturgia é também “o modo como se regula a execução das cerimônias de um culto público”. rito. de superior a inferior”. estão prescritas por quem tinha autoridade para estabelecer o rito. e mais reflexionando. a acusação mais grave e violenta com que se rebate a outra censura ou acusação”. de criticar malevolamente”. sobre a conduta de alguém”. o conjunto de cerimônias que. essa diferença: o que . ou em termos mais ou menos ásperos”. como cometeu tal erro ou falta”. Quando se diz – ritual romano – já não se marca tão bem. – Observação é “o ato de advertir fazendo considerações sobre a falta cometida ou sobre o dever que se deixou de cumprir”. no entanto. ritual. – Admoestação é “o ato de fazer sentir o erro ou falta cometida. As cerimônias são o modo por que o rito se executa. e autorizadas pelo Sumo Pontífice. – Comentário é “o exame ou mesmo a crítica. ou para estabelecer uma opinião. Daqui vem que a eficácia da sátira é maior e sem efeitos mais perigosos. por exemplo. A admoestação é sempre feita em termos brandos. – Ritual é. – Entre liturgia e rito há diferenças essenciais.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 263 Aquela instrui mais que recreia. com razões e argumentos. – Objurgação é “o ato. o rito grego. ilustrada de exemplos e largas considerações. e não – católico da liturgia grega. – Ritual e rito confundem-se aqui. – “o rito é a reunião de todas as cerimônias de um culto religioso. – Objurgatória é “a repreensão áspera. – Reprimenda = “admoestação formal e severa. É evidente que aplicamos rito quando queremos assinalar diferenças de liturgia ou de cerimônias entre cultos da mesma religião. Signi- fica – “ato de lançar em rosto a alguém a falta cometida. entre nós. ou pelo patriarca de alguma seita. por exemplo: “Vamos celebrar o ato com todo o rigor do ritual” – não seria admissível a palavra rito. – Arguição é “o ato de acusar alguém de falta ou erro. ou defeitos e vícios. O ritual romano. ou vícios de alguém”. para que o admoestado não reincida nela”.

– Chispa planície. É certo que se diz – o lume. mas não se dirá – o lume da mocidade. negaça. que faz convergir”. é “o que serve para provocar. um bando de aves. uma porção de crianças. um cardume de peixes etc. – Labareda designa grande chama. e num sentido geral. – Flama tem a mesma significação (é a forma erudita do latim flamma. como o fogo. faísca. segundo Lacerda. particularmente. in- dá ideia da rapidez com que a partícula ardente se desprende. o que causa calor. chispa. Dizemos – liturgia católica (e não – rito católico – salvo se quisermos distinguir entre rito católico e rito protestante). – Faísca. labareda. 487 CHAMARIZ. – Lume exprime propriamente o que dá luz e claridade. – Chama é. – Fogueira é. 488 CHAPADA. o chamariz tanto atrai o público a alguma parte. e que se levanta em forma piramidal acima do corpo que arde. – Planalto é “grande planura elevada. enganar”. reclamo. o resultado do fogo: é o fogo aplicado à matéria combustível (e a esta circunscrito – como diz muito bem Bruns. – Isca é “tudo que se prende ao anzol para atrair e enganar o peixe”. num sentido mais extenso. ou – o fogo dos olhos. pois. e grande labareda ou brasido”. é “o nome que se dá ao pássaro que se deixa na gaiola de alçapão para chamar os outros”. é “tudo que serve para engodar alguém”. que chama atenção. fagulha. Só de reclamo é que se não poderia fazer.: – “O chamariz é o que atrai o público a alguma parte. centelha. ou a certa altura delas”. flama. o engodo é a astúcia que o engana. Dizemos – o fogo da mocidade. “a parte mais luminosa do fogo. entende-se. como o lume. mas. enquanto que planície é “toda extensão de terras chãs e baixas.). ou cintilam e dão luz. fogueira. cêndio. porque a palavra chama se tornou vulgar. fogo. – Dos três primeiros vocábulos deste grupo diz Bruns. isca. e comunicam o calor e ardor da paixão. planalto. é mais correto dizer – o fogo. para um ponto. em ala. que se eleva e ondeia em línguas de fogo. ou queimam. porém é palavra preferível para o estilo culto. e centelha dá ideia da luz produzida pela fagulha (e é como se se dissesse – partícula de chama). no sentido translato. 486 CHAMA. – Chapada é “extensão de terras mais ou menos planas no alto de montanhas. ou para algures. No uso vulgar confundem-se estas palavras. lume. pelo menos nem sempre. designando “tudo que atrai. planura. de que chama é a forma popular). do que – o lume dos olhos. pois que. isto é – não no alto nem na encosta de montanhas”. atrativo. Isso. mas é porque nos olhos há estas duas propriedades. fagulha. como pode atrair. de situação aprazível.264 Rocha Pombo parece que aproxima este termo ritual mais de liturgia que mesmo de rito. Todavia. uma récula de garotos. esplanada. De engodo quase que se pode dizer outro tanto. tomadas essas palavras em sentido restrito. deve notar-se com cuidado a diferença que há entre uma e outra. mas não se pode dizer – o fogo da razão. e figuradamente. ou vasta planície . é essa matéria acesa. chispa e centelha designam todas “pequenas porções de fogo ou de matéria inflamada que se desprendem de fogo maior”. o reclamo é o que desperta a atenção para o chamariz”. – Negaça. mais que o uso indicado. engodo. Dizemos – o lume da razão. – Atrativo é termo genérico. por assim dizer. – Incêndio é “grande fogo ou fogueira que se alastra e devora”. e fogo. queima e abrasa. seduzir. – Planura é quase o mesmo que planície: apenas sugere ideia de beleza de panoramas.

não. e até gestos. conto faceto. isto é. e esta. que quer parecer espirituoso. estendem suas águas pelas veigas. Usa-se. a figurada de – multidão excessiva. ou – “não faça de engraçado” – não caberia certamente o vocábulo gracioso. – Folgazão é o que se diverte. também. – Entre engraçado e gracioso há grande diferença: este último é o que tem graça fina e delicada de si mesmo. Nesta frase. este é gentil fazendo graças. isto é. os fatos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 265 muito alta. moço pilhérico. – Gracioso é “o que mostra mais graça nos modos. enchente. e diverte os outros. por isso. ou o que emprega chiste ou graça leve. engraçado. folgazão. Hoje usa-se muito. crescimento. Há rios que enchem e vazam em época certa. É também o contrário de vazante. em que pode ser tomada. por exemplo: “Não se faça engraçado”. como inundação. pois ordinariamente é o imbecil que procura ser engraçado: o mesmo não se pode dizer – é até justo que o contrário se diga do gracioso. Diz-se – inundação de bárbaros. e transbordam nalguns sítios que alagam. e não se pode dizer – cheia de bárbaros”. pelos contos ou façanhas imaginárias que inventa e que inculca. aquele é o que mostra certa graça. porque muito se parecem com as do Nilo. o que provoca riso por meio de gracejos”. Todos estes vocábulos se aplicam tanto às pessoas como às coisas. Dizemos tanto – criatura faceta. Quando os rios saem da madre. Cheia tem só a significação reta. – Faceto é “o que encerra. espirituoso. e esta. – Espirituoso é “o que tem espírito quando conversa (ou quando escreve). na gentileza da figura. Moço folgazão. inundação. etc. . pois. – Esplanada é “uma arca muito plana em volta ou à frente de algum edifício”. Quando as águas alteiam nos rios. com mais ou menos espírito”. frase pilhérica. dilúvio de misérias. – Enchente diz no sentido próprio – abundância. e por extensão – toda superfície de terreno plano que não chega a ser planura. modos chistosos. como – palavras chistosas. – Pilhérico é “o que faz rir pelas pilhérias. e também: gênio. diz-se que há inundação. o que sabe dar uma nota fina e original sobre as coisas. – De 490 CHISTOSO. e sem necessidade.: “Posto que no uso comum da língua se confundam estes dois vocábulos. subtil e galante. que parece alagar todo um continente”. mais brincando ruidosamente que falando. – Engraçado é simplesmente “o que tem graça. os homens”. dilúvio. no sentido translato: dilúvio de gente. o emprego de enchente por cheia. que se eleva gradualmente”. dilúvio de alegrias. É muito comum. trocista. do francês plateau. pilhérico. inundação pode dizer-se também do mar. no entanto. Distingue-se ainda cheia de inundação em que aquela só se diz de rios ou ribeiras. Às grandes cheias do Tejo deveria chamar-se inundações. pois graciosas só podem ser as pessoas de apurada cheia e inundação diz Roq. e então quando a respeito desses se diz – enchente – não se quer dizer – cheia. gracioso. como estilo faceto. 489 CHEIA. não conhecem limites. nem sempre a enchente é cheia. do que mesmo nas palavras. além da natural. espírito folgazão. fase em que alguma coisa se avoluma: daí a acepção particular de – cheia. de depósitos de água. e inundam os campos e prados vizinhos. nos gestos. e designam duas coisas que se não devem confundir. O engraçado pode não ter graça nenhuma. antes de tudo. – Dilúvio é “grande inundação. moço engraçado. são eles contudo distintos quanto à etimologia. e. – Chistoso dizemos do “que nos distrai e faz rir com ditos picantes mas sem malignidade”. chama-se a isto com propriedade cheia. ou nos ditos”. dito engraçado. Tanto se diz – pessoa chistosa. O moço engraçado pode fazer-se ridículo: o gracioso. faceto.

492 CHOCAR. Mas o linguareiro não tem malícia propriamente: fala por ser leviano. presumindo de tudo entender e falar muito bem”. e finamente galantes. que fala muito. falante.” 36 Ou melhor – quase perfeitos. que nos agradam até pelos gestos. Falando das doenças que se desenvolvem pouco a pouco antes de se declararem abertamente. brincadeiras com os outros.. fazendo barulho. estardalhaço como um chocalho. – Parlante dirá um pouco menos que parlador. que é termo bem diferente. parlante. ares trocistas. graçolas. mas também à causa dessa transformação..: “Ainda que estes verbos sejam sinônimos perfeitos36. deve notar-se que chocar é não só relativo à transformação que se vai operando no ovo. – Com o linguarudo pode confundir-se falador. 491 CHOCALHEIRO (chocarreiro). não guarda reserva em coisa alguma. – Gárrulo é “o que fala como se falasse sem pensar. e empregamo-la para designar “o sujeito que fala muito embrulhando tudo”. como fazem os passarinhos e as crianças”. desordem”. O chocalheiro é leviano e indispõe porque importuna: o chocarreiro é petulante. O linguarudo fala mais ainda porque tem o vício de intrigar e maldizer que pelo desejo de falar. é – como se diz em linguagem popular – o que “dá de língua” a propósito de tudo. por ser amigo de dizer novidades. mas sim – “o indivíduo que fala da vida alheia”. – Pernóstico é “o sujeito pretensioso no falar. por ter o vício de não guardar nenhum segredo. Também se diz – gênio trocista. pois este vocábulo não se emprega hoje para designar simplesmente o indivíduo que fala muito. pelo ar simpático. Não assim o linguarudo. falador. que significa “embrulhada. graçolas. incubar. com muitos gestos e acionados. pois só se diz chocarreiro daquele que diz chocarrices.266 Rocha Pombo educação. designando tanto um como o outro uma mesma operação. mas há de sugerir sempre a ideia de que pelo menos é pouco substancioso o que diz o parlante.. nem o indivíduo que fala da vida alheia: designa mais propriamente o sujeito que mais fanfarreia do que fala. como se vê do próprio artigo transcrito. e agitando-se. É termo popular (o mesmo que pronóstico. que é mais falador que linguareiro. para rir à custa destes”. muito amáveis. e formado de prognóstico). – Chocalheiro é “o que fala muito e indiscretamente. que é mais parlapatão do que linguareiro e do que linguarudo. – Sobre estes dois verbos escreve Bruns. isto é. e sempre sobre coisas fúteis. emprega-se a forma falante que não encerra de modo algum a ideia de falar por maldade. e que é o calor que ao ovo comunica a ave que sobre ele se mantém. Confunde-se mui comumente chocalheiro com chocarreiro. pernóstico. chalaças grosseiras e próprias de gente baixa. que divulga quanta coisa lhe disseram. movendo-se. significando indivíduo que simplesmente fala muito. e torna-se importuno falando a torto e a direito”. – Trocista é “o sujeito que faz pilhérias. devemos empregar exclusivamente o verbo incubar. sem atender à causa. confusão.. Deve dizer-se – incubadora artificial. Naquela acepção. isto é. . – Parlador já não é também o indivíduo que só fala muito. – O linguareiro é o que diz tudo que sabe. garabulho. – Incubar refere-se apenas à operação ou transformação. gárrulo. não – chocadeira artificial. ou falar maldizendo. Garabulho (ou garabulha) é palavra importada do italiano garbuglio. e indispõe porque irrita. e mesmo pela discrição dos gracejos. como às vezes se ouve. linguarei- ro (linguarudo). parlador.

É termo genérico. vêm embater contra a costa. – do castelhano llorar. pois esta palavra dá ideia do abalo que o encontro produz. dizemos que tiveram choque. pranteia-se. senão de simples oposição. prantear. do latim fleo. ge- contraste. mer. Duas locomotivas lançadas a todo vapor em uma mesma via. têm um embate terrível. Na palavra embate predomina a ideia de violência e de impetuosidade. embate. O fumo. o choque pode ser ou não violento. O pranto é mais forte e intenso que o choro. O embate é violento. do abalo que pode causar uma frase nossa. quer dizer o que esse alguém possui de mais delicado e sensível na sua natureza moral”. carpir. elevam-se a grande altura. Pode haver encontro sem haver choque. soluçar. mas não de terríveis efeitos. porque neste derramam-se lágrimas com lamentos e soluços. melindrar. um levando o outro de impelida. – O verbo 267 chocar sugere a ideia. na palavra choque apenas a de encontro (que não é senão o fato ou o ato de chegar uma coisa diante de outra)37. e 37 Por isso mesmo é que é preciso admitir que choque não é simplesmente encontro. caminhando uma para outra. nem de luta. pois não só indica as lágrimas que provêm de dor e aflição. – Lamentar é queixar-se com pranto e mostras de dor. – Quando às lágrimas se juntam vozes queixosas. Aquele que melindra nem sempre ofende propriamente. conflito. fazem chorar os olhos. e também exprime canto lúgubre em que se chora alguma grande calamidade. mas ideias que se embatem. (Segundo Bruns. De duas pessoas que caminhem apressadamente e que esbarrem uma com a outra ao dobrar de uma esquina.) – Conflito é mais embate. ou mesmo do que choque. O navio que embate (ou bate) contra um rochedo abre-se e afunda: o mal não seria tão grande se tivesse havido somente choque. – “Ao derramar. etc. ou em geral – coisa de que essa pessoa se ressinta”. – Contraste é a oposição que existe entre duas coisas: não inclui ideia de choque. se caminhavam devagar não terão mais que encontro. – São os dois primeiros vocábulos deste grupo os substantivos com que se designa o encontro mais ou menos violento de dois corpos que se embatem. ao avistar-se. que o prejudique moralmente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 493 CHOCAR. desfazem-se em espuma. pois que melindrar supõe. 494 CHOQUE. dá-se entre as máquinas um choque mais ou menos violento. que o magoe. Chora-se de alegria não menos que de tristeza. como se diz no artigo. por exemplo. que o vento impele. luta propriamente do que simples encontro. que lhe é característica. As ondas alterosas. ou verter lágrimas chama-se chorar” – diz Roq. ou um deles recuando ao encontrar-se com o outro. 495 CHORAR. os ácidos. na maioria dos casos. encontro. fazem contravapor os respetivos maquinistas. como as que por alguma circunstância se destilam das glândulas lacrimais. ou mesmo recuando ambos depois de se encontrarem. ou diante da qual falamos ou agimos”. – Melindrar é “ofender os melindres de alguém. ofender. não se entende que sejam ideias apenas contrárias ou opostas. Jeremias lamentou poeticamente . lagrimar. que é excessiva a suscetibilidade de quem se julga melindrado. da “impressão rude que produz uma ofensa. Ideias em conflito. – Ofender é aqui tomado na acepção especial de “fazer a alguém coisa que o moleste. nem mesmo de encontro. com lamentos – e talvez soluços. lamentar. ou mesmo um ato que se ponha em contraste com os sentimentos da pessoa a quem nos dirigimos. Choram também as videiras e os ramos quando se cortam. se.

podendo forte designar indiferentemente a que é grande. por extensão. XXXIII. como se a alma abalada clamasse em desespero para fora”. E dos rios as aguas saudosas. na acepção em que é preciso tomá-lo neste grupo. mas também oferecer grandes meios de defesa. e que em lugar das outras muitas vezes se emprega. fortaleza. De todas estas palavras. Os semeados campos alagaram Com lagrimas correndo piedosas. Mais te choram as almas que vestindo Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. gemendo e pranteando”. X. por meio de voz inarticulada e lamentosa”. cas- telo. Os grandes prantos são sempre acompanhados de gemidos. e acompanhar os enterros. 135) Choraram-te. (Inf. fazendo mostras de dor e aflição. Se o inimigo se apoderar da cidade. É com este sentido que empregou Dante o seu lagrimare num daqueles versos que pôs na boca de Ugolino: Ma se le mie parole esser. (Lus. Na fortaleza há sempre guarnição fixa. e carpir-se. para significar “verter lágrimas como por efeito de imensa dor. na ocasião de luto. Parlare e lagrimar’ vedrai insieme. mas. ch’io [rodo. – Fortaleza é a construção que se eleva em qualquer ponto para defender uma cidade ou um passo. den seme. – Costumavam os antigos arrancar. Refere-se. como a que é mediana. – Castelo designa a . é o verbo chorar. praça. 84) As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram. E por memoria eterna. 118) – Gemer é “dar sinal de grande dor. os seus habitantes podem continuar a defender-se na cidadela. Chorou-te toda a terra que pisaste. nem – chora. Por isso dizemos figuradamente que – o mar soluça e não – pranteia. o Gange e o Indo. a mais poética. cidade fortificada. Havia antigamente mulheres a quem se pagava para carpir-se sobre defuntos. veio a significar quase o mesmo que lamentar. É condição da cidadela. traduzir este lagrimare pelo nosso chorar não seria menos do que diminuir deploravelmente aquela grande figura. como estão dizendo os seguintes lugares: Os altos promontorios o choraram. – Lagrimar é “verter lágrimas”. não só o estar dentro do recinto da povoação. III. – Segundo Bruns. Julgam muitos que não passe este verbo de simples variante de la- grimejar (ou lacrimejar). pois. de que o nosso poeta fez mui frequente uso. usavam do verbo carpir. pois há como que aflição monstruosa no embate das ondas contra a praia. exprimir aflição. (Ib. mas fortaleza nunca se deve dizer de uma fortificação pequena.268 Rocha Pombo as desgraças da ingrata Jerusalém. 496 CIDADELA. – Forte e fortaleza confundem-se muito frequentemente. Do uso de carpir-se sobre os defuntos se faz menção na Crônica de d. 3) Ora. – cidadela é a fortaleza que domina a cidade dentro da qual ela está edificada. forte (fortim). O forte pequeno é um fortim. este vocábulo especialmente às ações que demonstram dor e mágoa. Thomé. João I. ou pelo menos desgrenhar os cabelos. e a que se chamava carpideiras. e desfigurar as faces. – Soluçar é “prantear e gemer com aflição. e para exprimir esta ação de profunda dor. (Ibid. o qual. é de uma força e intensidade que o tornam indispensável na língua. Che frutti infamia al traditor. III. em fonte pura As lagrimas choradas transformaram. e a esta espécie de poema elegíaco se deu com razão o nome de lamentações.

mas tem hoje nas rodas cultas um sentido muito particular.. ou com outros fins de mais ou menos importância. As fortalezas diferençam-se das cidades fortificadas. – Comparando cidade fortificada e fortaleza. valdevino. dizer-se: “três vezes nove – vinte e sete. – Zíngaro (ou zingano) é quase o mesmo que cigano. – Nômade é “o designativo de povo ou de tribo que vive mudando continuamente de terra”. e sim – “noves fora – nada”. boêmio. de qualquer grau. e vivendo de astúcias e furtos”. no entanto. diz Roq. uma povoação cercada de muros e baluartes. noves fora – zero”. da Ásia Menor. 497 CIFRA. mas designa apenas a raça ou povo que vagueia por muitos países da Europa. A praça d