Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva

E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Academ i a Bras i l ei r a de Letra s

Dicionário de Sinônimos da L í n g ua Po rt u g u e s a

Ac a d e m i a B r a s i l e i r a d e L et r a s

Rocha Pombo

Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva
E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa
2.a Edição

Rio de Janeiro 2011

C O L E Ç Ã O A N T Ô N I O D E M O R A I S S I LV A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS Diretoria de 2011 Presidente: Marcos Vinicios Vilaça Secretária-Geral: Ana Maria Machado Primeiro-Secretário: Domício Proença Filho Segundo-Secretário: Murilo Melo Filho Tesoureiro: Geraldo Holanda Cavalcanti C O M I S S Ã O D E L E X I C O G R A F I A DA A B L Eduardo Portella Evanildo Bechara Alfredo Bosi Preparação Ana Laura Mello Berner Revisão Vania Maria da Cunha Martins Santos Denise Teixeira Viana Paulo Teixeira Pinto Filho João Luiz Lisboa Pacheco Sandra Pássaro Produção editorial Monique Mendes Editoração eletrônica Estúdio Castellani Projeto gráfico Victor Burton

Catalogação na fonte: Biblioteca da Academia Brasileira de Letras P784 Pombo, Rocha, 1857-1933. Dicionário de sinônimos da língua portuguesa / Rocha Pombo ; [apresentação, Evanildo Bechara]. – 2. ed. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2011. 526 p. ; 23 cm. – (Coleção Antônio de Morais Silva ; v. 10) ISBN 978-85-7440-184-3 1. Língua portuguesa. I. Bechara, Evanildo, 1928-. II. Título. III. Série. CDD 469

Apresentação
E va ni l d o Becha r a

A

trajetória cultural de Rocha Pombo é o fiel espelho de um permanente bravo lutador que, vencendo as precariedades do torrão natal, galga honroso lugar no quadro dos intelectuais brasileiros. De nome completo José Francisco da Rocha Pombo, nasceu o autor deste Dicionário de Sinônimos em Morretes, na província do Paraná, em 4 de dezembro de 1857, com evidentes dotes literários, que cedo se manifestaram; mas foi para a carreira política que encaminhou seus primeiros passos, alcançando, aos vintes anos, lugar de destaque na Assembleia Provincial. Entretanto, se viu impotente para inverter suas posições diante das poderosas tramas parlamentares de uma política quase sempre afastada do interesse público. Salvou-o a alegria de ver publicado nesse mesmo ano seu primeiro estudo sobre instrução pública, na revista fluminense A escola, com transcrição na Revista del Plata, de Buenos Aires. Encontrara na atividade cultural o campo em que se iria destacar, mas um campo que pouco lhe dava para garantir com dignidade seu sustento e da sua família. Os obstáculos não o tiraram da trilha iniciada; em Curitiba, viu em 1888 publicado seu romance A honra do barão; em 1882, Dadá, a boa filha e, em 1888, Petrucelo. Também não lhe faltava o estro para o poemeto Guaíra, saído em 1886. Desiludido com os parcos recursos que seu torrão natal lhe oferecia, deixou Curitiba em 1897, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde poderia ter mais recompensada sua maturidade intelectual. Realmente na Capital, apesar de não diminuídas suas horas de trabalho intenso, encontrou ambiente mais propício às produções que vieram inúmeras. Os livros didáticos na área da História representam sua maior atividade, como Nossa Pátria, para crianças, que chegou a alcançar mais de sessenta edições. Sua História do Brasil, em dez volumes, acabada em 1917, consumiu-lhe doze anos de trabalho. As muitas horas de trabalho não lhe permitiam, para a confecção de seus estudos, a pesquisa atenta, a consulta aos arquivos para a composição das obras históricas. Mas o zelo e a honestidade profissional o faziam abastecer-se nas fontes mais autorizadas, e delas extrair o material que aproveitava. Um trabalhador operoso na mesma área de historiografia, Ro-

VIII

Rocha Pombo

dolfo Garcia, que, em 1935, sucedeu a Rocha Pombo na Cadeira 39 da ABL, assim a ele se referiu, no discurso de posse: “Rocha Pombo fez o que foi possível fazer (...). Entretanto, não há como desconhecer o extraordinário mérito da obra de Rocha Pombo, sua utilidade provada, os serviços prestados aos estudantes, que o estimam sobre todas as congêneres.” Seus pendores literários desde cedo aflorados nas tentativas de ficção acima lembrados, iriam estimulá-lo a compor uma obra sobre língua portuguesa. Autor de compêndios didáticos, cedo deve ter chegado à conclusão de que à bibliografia escolar, bem como ao escritor novel, faltava um bom, desenvolvido e atualizado dicionário de sinônimos, uma vez que, à época, o mercado só contava com produções portuguesas mais antigas, todas datadas do século XIX. Armou-se dessas fontes, algumas vezes transcrevendo-as literalmente, e das mais importantes francesas e espanholas no assunto, e partiu para elaboração deste seu, preocupando-se com mais extensão dos verbetes, e mostrando, quase sempre com muita propriedade, as diferentes franjas semânticas das palavras que integram a série sinonímica, evidenciando que não são, por isso, intercambiáveis. Saído em 1914 pela prestimosa Francisco Alves, vem agora esta 2.a edição editada pela sua Academia, para a qual fora eleito em março de 1933, embora nela não tivesse tomado posse por motivo de seu repentino falecimento, em junho do mesmo ano. Passado quase um século do aparecimento deste Dicionário de Sinônimos, de Rocha Pombo, pode ainda embrear-se com os melhores saídos em nossos dias.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa

ADVERTÊNCIA

Autorizo os Srs. Francisco Alves & Cia., cedendo à condição que me impuseram, a adotar na impressão deste trabalho a grafia que lhes convier. Rio, 1914
ROCHA POMBO

“ação. as preposições a e para. – Como preposições de fim para que. imediata”. nesta acepção. 2 A. no tempo das caçadas ia para Salvaterra ou Vila Viçosa: e quando os franceses vieram a Portugal. a fim. O próprio Roquete escreve: “serve (ou servem) a formar”. encontrou-me ele pela manhã. Exemplos: “Ele se esforça por instruir-nos. ou “pronto para ouvi-lo”. vinha com frequência a Lisboa. “trazer”. nem sempre. por “explica mais diretamente a intenção. E ainda este de Vieira: “Porque o pai fez uma viagem para as conquistas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 1 A. para. como a prep. – As duas preposições empregam-se. no verão ia para o Alfeite. ou “apto para dirigir”. além disso. Ninguém dirá que têm o mesmo valor estas expressões: – “Vou a Lisboa”. – Estas preposições ex- primem relação de fim para que. no entender de Roq. estava eu à vista da mesa servida. portanto. “bateram-se à espada”. etc. e – “virei para o Rio em junho”. “virei ao Rio em junho”. o fim (ou o desejo) com que se executa a ação”. quase inteiramente despojada do seu valor de origem. ou “vir a alguma parte” “indica a ideia de pouca demora”. No primeiro caso. Com 3 toda razão diz Aulete que a preposição a é de todas a mais vaga. São raras as relações lógicas que se não possam marcar pela preposição a: “andamos a cavalo”. João VI. “levar”. A distinção entre as duas formas revela-se muito clara nestas frases: “convidou-me a jantar”. para (exprimindo relação locativa). quando residia em Queluz. “encaminhar-se”. para que sejamos cidadãos dignos. e – “vou para Lisboa”. – Restringiremos. “matamos a tiro”. por.. as nossas notas às duas acepções em que parece melhor fixado o valor da preposição a comparativamente com os seus sinônimos. Essa diferença fica bem clara nestas frases: “dei um livro a meu filho”. e há entre elas uma diferença análoga à que se lhes nota nos casos em que marcam relação de locativo. com os verbos “ir”. propriamente a ideia de regresso. “dirigir-se”. “pescamos à linha”. Entende Lacerda que “ainda os mais corretos escritores usam indistintamente das preposições a e para” quando querem exprimir relação de locativo. “pronto a ouvi-lo”. no segundo caso. como acrescenta Roquete. “Foi para Viena como secretário de embaixada”. e a tal ponto que. e alguns outros que designam movimento. e convidou-me a jantar. assinalam: para. de. marcam ainda relação de dativo. ou longa estada. “fugiram a toda pressa”. – Confundem-se muito frequentemente.. no entanto. “comemos a enjoar”. tomaste por devoção vir os sábados à Penha de França”. foi para o Brazil”. e convidou-me para jantar com ele domingo. “dá a entender intenção de grande” (ou pelo menos de alguma) “demora. Não nos parece que seja assim. Dizem muitos indiferentemente: “apto a dirigir”. e às vezes para sempre”. “Ir a”. em vez de “para formar”. ou “o objeto imediato da ação”. Este exemplo de Roquete expõe nitidamente a diferença entre as duas preposições: “ElRei d. a fim marca intuito menos imediato e mais preciso. ou o anfitrião ia para a mesa. “morre à míngua”. e nunca mais houve novas dele. segundo Bruns. não exclui. o que. e emprega-se “quando se supõe somente possibilidade ou probabilidade de lograr o que se intenta”. pelo menos entre aqueles que se mostram mais fiéis ao espírito da língua. “vem a galope”. está ela hoje. Há entre “convidar para” e . “trouxe uma flor para a menina”. “vir”.. segundo observa Lafaye. “Ir para algures”. a fim de que nos tornemos capazes de servir a pátria”.. ou o propósito de ir ou vir e voltar logo. e “convidou-me para jantar”. pois. A e para. ia muitas vezes a Mafra. “lançou à terra”.

a primeira nega que ele sirva no momento. subúrbios. ou da parte onde a montanha começa a destacar-se do plano sobre que assenta. sopé. de maior ou menor afastamento desse ponto. lado. com esta diferença: a ladeira (lado suave de colina ou monte) é menos áspera. vizinhanças e circunvizinhanças são os lugares que se seguem às imediações. distritos. o sentido de forma irregular. ou de superfície dobrada. que marcam. en- rindo uma ideia de amplitude. “não serve para nada”. – Todas estas palavras designam situações em torno de um ponto. – Flanco e ilharga designam também os lados do monte. ou de uma povoação. e sugerem ideia de altitude. redondeza. aclive. ser considerada como sinônimo da preposição para: é de. diferençando-se a segunda da primeira pela noção acessória de contorno (e ambas dando ideia de convivência). falda. de um monte. – Arrabaldes designa a . mas considerada de baixo para cima. e o primeiro termo ainda se distingue do segundo por ser mais expressivo e mais belo. “a rampa do Pão de Açúcar”. etc. pois pode ser tão íngreme que se torne de difícil ou mesmo impossível ascensão. à ideia de extremidade e inclinação. falda (ou fralda) é também (na acepção em que a tomamos aqui) a parte inferior do monte: difere de aba porque acrescenta. base. lados. de “vertidura de águas pluviais”. em certos casos. – Sopé e orla designam a parte do monte que assenta no plano horizontal ocupado por ele: sopé é a porção do dito plano onde a montanha começa.4 Rocha Pombo “convidar a” a mesma diferença que explica Lafaye entre “prier à diner” e “prier de diner”. rampa. pois que não resolve o embaraço em que me vejo”. declive. – Encosta é toda a parte inclinada de um monte. e distinguem-se principalmente pela ideia. orla. confins. do alto do monte para baixo. ou lados designam apenas as partes opostas da montanha (ou de qualquer corpo) sem ideia alguma acessória. – Imediações são partes da cidade. “O meu rebenque – diz o major – não serve para nada. assim como comarcas são divisões mais extensas que distritos. Esta última locução (que é mais geral – diz Laf. e mais afastadas que as circunvizinhanças. cercanias são as paragens em torno de um lugar. Bairros são secções de uma cidade. ilharga. o seu alvitre de nada me serve. arrabaldes. – Há ainda em português outra preposição que deve. 4 ABAS. – Aba é a parte mais baixa e prolongada de um cone. “valer”: “não serve de nada”. Base é toda a porção do plano horizontal que o monte abrange. com alguns verbos como “servir”. bairros. que lhe ficam imediatamente em volta. contiguidades. contornos. orla é mais o recorte da aba. ladeira. arredores. comarcas. – Rampa e ladeira exprimem igualmente plano inclinado. cerca- costa. e aclive é também essa inclinação. mas suge- nias. proximidades são pontos das cercanias. adjacências. como as fraldas de uma camisa. e vertente adita à significação de encosta a ideia de origem de rio. Dizemos: “a ladeira da Glória”.. – Lado.. de um chapéu. para um fim que se tinha em vista presentemente. imediações. flanco. enquanto que a rampa nem sempre é acessível. e por sugerir alguma coisa de fecundidade.) exprime que o objeto de que se trata não tem serventia alguma. meu amigo. proximidades. inclinação. ou de um município. parte pendente de alguma coisa”. vertente. mais fácil de subir. 3 ABA. ou de um lugar. – Declive (ou declívio) é a inclinação da encosta. – Distritos são secções maiores que compreendem vários bairros. circunvizinhanças. – Todas estas palavras designam “refegos. e neste caso.

ou o poder de”. superar. “a epidemia alastrou-se pela redondeza do nosso acampamento. sofrear é conter com prudência e cuidado. nem luta material. suplantar (etimologicamente “meter debaixo dos pés”) é vencer com orgulho. submeter é “reduzir à dependência. conter. submeter. .). o mais aprazível dos nossos subúrbios”. “morar em Pedrouços é morar nas abas de Lisboa” (Bruns. suplantar. – Sufoca-se uma rebelião no seu começo. sujeitar é reduzir à obediência. sobrelevar. é “matar por asfixia”. conter é moderar. refrear é conter com esforço e trabalho.). não deixar que apareça ou que se desenvolva. sobrepujar é superar depois de esforço e luta.). domar.. – Abas são “os pontos extremos de uma povoação. vencer é sair vitorioso de um combate.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 5 porção de uma vila ou cidade que lhe fica fora dos muros. de um embaraço. sem grande esforço. – Reprimem-se movimentos subversivos da ordem pública. – Diremos com propriedade: “o bairro de Botafogo”. ou um ponto dado. refrear. sufocar. dá ideia da inferioridade moral do que é domado. “o Méier. “O homem que vê o que eu vi e abafa no peito o grito da indignação”. debelar. “aqueles jardins e pomares já eram adjacências e quase contiguidades de Jerusalém”.. pôr sob a autoridade. Cruz há algumas fazendas”. reprimir. Elys. – Abafar é impedir que respire.. “cortar a cabeça”). debelar é reprimir à custa de guerra. arredores são arrabaldes mais distantes. – Abafa-se uma conspiração antes que venha para a rua: abafa-se o pranto para que ninguém o veja. – “Debelaram afinal as nossas forças aquele que foi o mais grave levante dos últimos tempos”. a império. “quando anoiteceu estávamos já nas proximidades da fazenda”. subjugar. ou para além do circuito urbano. e quase sempre não povoados. sobrepujar. sendo o segundo termo mais vago. e confins são os limites em relação aos de outro. de um transe. “não gosta de ponto algum das circunvizinhanças do Castelo”. que reprimiram os inimigos”. que opere. que cresça. “nas cercanias de Olinda lutou-se toda a tarde”. que vingue. porém. dentro do seu perímetro”. – Contornos designa a totalidade dos arredores (de uma cidade ou de um lugar). sobrelevar é “pôr-se acima de”. reprimir é conter com mais energia e decisão. ou vencer em luta. – Contém-se um ímpeto de cólera.. “em todo o contorno da vila não se encontrou um morador pobre”. superar é vencer e ficar superior a alguém ou alguma coisa. – Por subúrbios entende-se toda parte habitada que fica sob a jurisdição da cidade. tome forças. jugular. “acudiram-lhes alguns dos nossos. até com força e violência. dominar é submeter com império. como senhor. – Redondeza ou redondezas. humilhando o vencido. “nos arredores de S. “nas vastas comarcas daquela província há distritos riquíssimos em minerais”. domar é submeter. “a Tijuca é um dos mais belos arrabaldes do Rio”. e chegou até os confins do país inimigo”. vencer. é preciso que se contenha o instinto das multidões. sufocar é impedir de viver privando da respiração. que se mova. contidos. 5 ABAFAR. sofrear. jugular é reprimir. (Fil. e mesmo tratando-se de homens. “tem casa nas vizinhanças da praça ou do bairro”. tudo que fica dentro dos limites do círculo visual de que se supõe centro à cidade. dominar. contiguidades e adjacências. as porções habitadas que se seguem às abas. “mudou-se mais para as imediações do centro urbano”. como estrangulando (do latim jugulare “degolar”. impedir que se manifeste. ou tendo poucas habitações. subjugar pela força bruta. sujeitar. (Herc. subjugar é submeter a jugo. não se pode conter as lágrimas diante de um infortúnio. vencer com escarmento. reprime-se a custo uma explosão de raiva ou de furor.

– Atabafar. confinando ambiente respirável de modo a provocar suor ou calor artificial. tapar. ou que se agite. fugindo ou fazendo dele fugir para um abrigo”. para atravessar a praça”. sobrepujou afinal todas as traições.. – Agasalhar é ainda “defender-se contra o tempo. – “Resguarde-se do mal. expanda ou desordene alguma coisa”. a formação da culpa”. abafam-se as chamas para que se não propaguem. de significação vaga quando se emprega fora do sentido reto de cobrir. atabafar. – Cobrir é “ocultar ou resguardar pondo alguma coisa em cima. encobrir. acobertar. – O pai sujeita os filhos. ou não fazer conhecida uma coisa que nos interessa a nós ou a alguém. Dizemos tapar o menino no berço. acoitar. mas evitando-lhe a ação. “cumpre que cada um de nós vença por sua parte os embaraços que sobrevierem”. e hoje é incontestavelmente a figura que sobreleva todas as outras ali”. por meio de roupas ou cobertas”. com cuidado”. as culpas dos filhos”. – Neste grupo.. os sicários. “Ninguém se deve expor às friagens de junho se não bem agasalhado”. “Encobrem algumas mais. abafa-se a conder. por fraqueza que se explica. co- comida para que não esfrie. – “A autoridade venceu naquele conflito desigual”... meu amigo. – Resguardar é também amparar “contra o tempo ou contra alguma coisa. – “Em poucos dias o general submeteu toda a província”. meu filho. receptar. tapar o doente.. subtrair. abrigar. “. – “É preciso cobrir bem o menino. – Abrigar quer dizer “amparar contra o mau tempo. – “Abrigaram-se em nossa casa contra a tormenta”. – Abafa-se o doente para facilitar-lhe a transpiração. nem o gênio é capaz de suplantar a altivez de uma consciência”. sonegar.” 7 ABAFAR. mas defendendo-se. – “O homem que não refreia os seus apetites é incapaz de refrear os seus ódios”. ou em redor”. “Conviria que cobrisse a cabeça com a manta”. com a sua habilidade e energia dominou a revolta”. reter. – Tapar – diz Bruns. os bárbaros. “Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio” (Herc).. que andava a superar as misérias daquele meio. – “é um termo genérico. es- brir. e não só fugindo. como em: “abafou o processo. é “abafar com precipitação e energia”. diante. pois – que eu saiba – não tem cura quando sobrevém na sua idade”. – “O senhor não conseguirá suplantar-nos com todo o seu poder”. “. – Domam-se as feras.. agasalhar. Como diz Bruns. mas os espertos atabafaram tudo antes que nós chegássemos”. – Abafar aqui significa “não deixar seguir os trâmites usuais”. segundo Bruns. 6 ABAFAR.. – “Aquele homem dominou os outros tão completamente que ninguém mais pôde protestar”. abafar significa “tolher a respiração.. – “Ele. – “Com aquele golpe certeiro conseguiu jugular a sedição”. “à vista do vendaval iminente fomos abrigar-nos na enseada dos Reis”. como neste exemplo: “Chegou a abrir-se a sessão. e evitar que se descubra”..6 Rocha Pom bo “os Jesuítas tiveram aqui a grande missão de andar debelando paixões e barbarias”. – “Agasalhe-se bem. tapar a cara com as mãos. o tutor os tutelados.. “encobre-se a falta alheia tornando-nos até certo ponto cúmplice do delinquente”... ou impedir que pela evaporação esfrie um corpo. ou que se torne pública a culpa de alguém”. – “Subjugamos as tribos menos dispostas ao trato dos estrangeiros”.” Oculta-se uma verdade para não comprometer inutilmente a honra . ocultar. resguardar. – Ocultar é “não dar testemunho do que se viu. “abafemos o triste incidente para que ninguém mais o explore”. ou ainda “furtar alguma coisa à vista de outrem. – Encobrir é “evitar que se veja ou se conheça algum intento.

de água lodacenta. “Aquela casa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 7 de alguém. pantanal. chafurdei- ro. – Pantanal é aumentativo de pântano. – Lameirão (ou lamarão) é palavra de uso vulgar: aumentativo de lameiro. pantanoso. lodaçal. ou em depressões de terreno”. de aparecer. ou aquela cidade é o atascadeiro dos moços”. de vasa. ou “grande lameiro” . lenteiro. com a diferença de que atascadeiro é mais profundo. e designa “porção de águas de chuva (ou de despejo) que fica temporariamente depositada em sítios baixos. charco. – Charco é “terreno alagadiço. homizio”: é. – Acoitar é “dar coito. onde a água se acumula. asilo. Encobre-se. paul. “aquele moço fugiu para subtrair-se ao serviço militar”. – Todos estes vocábulos sugerem ideia de água suja e estagnada. lamaçal. – Lameiro (ou lameira) é “terra baixa e pantanosa”. não “acoberta o sol”. é “o estado do lugar não arejado. – Lodaçal é alagoa de lodo. Só se acoita a um criminoso ou indivíduo que tal se julga.mas eu não sou homem que oculte a baixeza da minha esfera” (Garrett). atoleiro. embora menos que no lamaçal. lameiro. que parecia nem ter intenção de ocultá-lo”. – Subtrair significa “tirar com astúcia ou fraude. Sonegam-se bens a inventário. enxurdeiro. permanece. (Aul. como os chiqueiros. “os facínoras subtraíram-se às diligências da polícia”. banhado. e quase que só se emprega em sentido figurado. etc. – Tremedal é lamaçal vasto e profundo. – Atascadeiro ou (atasqueiro) diz o mesmo que atoleiro. segundo Bruns. coberto de vegetação”. (Mont’Alv.. de chavascal”. lodeiro. guardar.. tremedal. lagoeiro. No Brasil é “terreno úmido. “O caboclo mete a cabeça no brejo e desaparece”. – Lamaçal é pântano mais extenso. terreno flácido e lodoso.. mercadorias sobre que se tinha de pagar imposto. – Lameiral está nas mesmas condições: e indica série de lameiros. – Pântano é “lugar coberto de camada de lama pouco profunda”. distinguindo-se deste em ser terreno baixo que apenas os enxurros banham acidentalmente. – Enxurdeiro (ou enxurdeira) é lodaçal revolvido. chafurda. disfarçando-se para não ser visto ou descoberto”. “Para libertá-los do infortúnio e subtraí-los à vingança”. inculto. – Brejo. – Esconder é ocultar com mais cuidado e interesse.. É quase encobrir. lameiral. e se estagna e abafa.. – Paul é “alagoa formada por enchente”. – Lagoeiro é termo popular. “A nuvem encobre o sol”. Diremos: ele se ocultou em casa (deixou de sair.).. – Banhado é “quase charco. mas sem a intenção de encobrir-lhe o crime. – Abafeira. esconder o furto ou roubo que outrem fez”.. sendo este verbo apenas de sentido mais vago e geral.” É termo brasileiro.. onde se chafurdam animais. mas não tanto e tão extenso como no lodaçal. terra onde há lama. furtar alguma coisa ou alguém ardilosamente às vistas. sem vegetação espontânea”. lameiro extenso. É usado quase exclusivamente nesta acepção. “ocultar contra a lei”.). portanto. – Acobertar é “proteger um culpado. é “terreno balofo. mas não se acoberta um defeito físico: acoberta-se por piedade um foragido. à ação ou poder de alguém”. segundo Bruns. – Reter é “conservar indevidamente em seu poder o que lhe não pertence”. lameirão. ou a si próprio. “O advogado subtraiu uma folha dos autos”. 8 ABAFEIRA.. brejo. atascadeiro. – Sonegar é termo forense e indica propriamente “esconder e negar sob juramento”. – Lodeiro (ou lodeira) é lugar “onde há muito lodo”. pântano. – Receptar é “receber.” “O porão onde mora é uma horrível abafeira”.. mas em caso algum se esconderá para que não suponham que se quer subtrair à ação da justiça”. e que é vestido de vegetação rasteira... “terra encharcada devido a aluviões”. “. “O desgraçado escondeu tão mal o furto.

ou não baixa a dar satisfações a ninguém”. fazer que uma coisa desça do lugar em que está até um certo outro lugar. precisamente quando a advertência exige brevidade? Não é: – “Baixa os olhos!” que dizemos a quem queremos humilhar? Não é: – “Abaixa a mão!” que diz aquele que se vê ameaçado por alguém? E não obstante também se diz: – “Abaixa os olhos. – Lenteiro (como diz a forma de que se derivou – lento.. de humilhação. Dizemos: “abaixaram comovidos o pavilhão sagrado”: e não “baixaram”. e figuradamente – casas imundas. abaixa-se a cortina por causa do sol. 10 ABAIXAR. com esta diferença: pode exprimir também (arriar) a ideia de alívio. Arria-se a carga se é pesada. desdoirar. é rebaixar afrontando. levando um objeto frágil à cabeça. Basta. ou “abaixa”. “Tenta- . É indigno de um homem abater a inocência. “baixa da própria dignidade”: e não “abaixou”. envergonhar. desonrar.. degradar. e verás a teus pés o que andas procurando”. apenas a saudamos com um aceno de cabeça? Não gritaremos. “ele baixou até o crime”. preposição que mais parece um a eufônico do que partícula significativa. – Abater acrescenta à ação de abaixar a ideia de força ou violência. Tratemos de substituir baixar por abaixar e vice-versa. – Rebaixar é “abater infamando”. – Descer é correlativo de “subir”. ou lentar) é terreno úmido. 9 ABAIXAR. molhado.”? Se não há sinonímia entre os dois verbos. “Como é que ele se rebaixa até aquele papel ignominioso?” “O chefe o tem rebaixado ao ponto de convertê-lo em besta miserável”. Raciocinemos (no entanto) um momento.8 Rocha Pom bo (C. deprimir. de mais longa enunciação que baixar. mas não se arria a bandeira senão quando se a retira da haste. neste sentido. no entanto. Fig. é ainda conexo de arriar. Que diremos a quem. – Abater é “abaixar humilhando”. ao encontrar a F. descer. A propósito escreve Bruns. baixar. – Aviltar é “fazer vil. portanto. abater. desabonar. rebaixar. macular. por que diremos abaixar. “Os inimigos abateram as armas. abater. isto é. e significa. – Abaixar é. depreciar. Quem chega desce a carga. difamar.” “Ele abateu a espada diante do general”. Abaixa-se a bandeira a meio pau (desce-se do alto para o meio da haste). descer. desprezível”.: “Não se taxe de nimiedade o estabelecer sinonímia entre estes dois vocábulos. Excluindo a ideia acessória de alívio. equivalente quase perfeito de abaixar. e além disso dá mais completa a ideia de abaixar. na rua. nesses exemplos: não é tangível a impropriedade das frases? – “Dizemos ainda: baixou o câmbio”. que à primeira vista só parecem diferir na preposição que prefixa o primeiro. envilecer. desacreditar. como arriar principalmente. no primeiro caso: – “Abaixa a cabeça!”? E não diremos no segundo: – “Baixei a cabeça. e chafurdeiro. ou chafurdeira (esta forma é extensão daquela) são lamaçais onde chafurdam porcos. pegajoso. ou ação dirigida a diminuir os créditos de alguém. que se examinem algumas formas para se ver que não é assim. só quem cansa a arria. – Arriar é que é. “Os vícios nos abaixam. Não se desce sem haver subido. a virtude nos levanta” (Leitão de Andrade). o verdadeiro sinônimo de arriar. abjeto. se é indiferente empregar um ou outro. deslustrar. – Abaixar e baixar parecem ser a mesma palavra e com perfeita identidade de significação. É também baixar: “não desce. humilhar. – Todos estes verbos exprimem intuito. vai passar por uma porta mais baixa que a parte superior do objeto? Como diremos que. manchar.). infamar. abater. – Chafurda. Abate-se o orgulho de alguém. arriar. – Abaixar significa “descer do conceito em que se era tido”. aviltar.

quem goza de alta posição. castigar envergonhando”. ou tem glória. atirar-se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 9 ram aviltar-nos perante a nação”. “General. de hierarquia”. – Envilecer é também fazer vil. Macular é talvez mais fino e mais nobre: manchar é. no entanto. – Entre desabonar e desacreditar convém. por mais subtil que esta seja. como infamar é “privar da fama”. ou tentar destruir a fama dizendo da vítima e espalhando coisas que podem ser até aleivosas”.). mas não o destrói. – Deslustrar e desdoirar. empanar o luzimento”. “Estas leves travessuras não depreciam um moço”. aventurar- . “naquele alcouce os mais nobres se aviltam”. no sentido com que entra neste grupo. – Envergonhar é “molestar alguém confundindo-lhe o pudor”. deslustrá-lo infligindo-lhe alguma pecha infamante”. do mesmo modo. Crisóstomo para deprimir S. É preciso distinguir infamar de difamar. só eles vivem praticando atos que infamam”. no entanto. “Meu pai não sente vergonha de deslustrar seu sangue”.. “marcam uma ação que ataca.) “Quem é aquele pobre-diabo de rodapés para desdoirar Camões?” – De deslustrar e desdoirar aproxima-se desluzir. Diríamos: as más ações envilecem (quer dizer: fazem que se perca a estima. no sentido figurado. Pode-se definir precisamente: infamar “marcar de infâmia”. atrever-se. não humilhe os vencidos”. na acepção natural. afoitar-se. ofender o pundonor. Depreciar significa “diminuir o preço. como só se desdoira quem brilha no mundo. (Camil). o direito de parecer digno). Exemplo: “Tentam. “A mínima suspeita macula aquela inocência”. tornar abjeto “por abaixamento”. é privar da fama. “O intento daquele monstro é ainda infamar a memória do tio”. “Desluzia as gerações dos inimigos com a injustiça da sua malquerença”. só se deslustra quem é ilustre. (Cast. – Degradar é “fazer baixar de grau. como desacreditar é “destruir o crédito”. não a classe ou a dignidade (como acontece com o verbo degradar) mas o valor.. a fama de alguém com estigma infamante”. Uma pessoa depreciada ou deprimida não está mais na estima em que esteve”. – Humilhar é “oprimir. muito mais expressivo e mais forte. “Ele se desacredita pelos próprios atos”. mas este significa mais – “perder ou tirar o brilho. “Uma fraqueza desabona. mas só as más ações desacreditam” (Bruns. arrojar-se. descer de posto. Exemplos: “A conduta daquele homem desonra a toda a família”. “Não se compreende como aquele moço chegou a praticar atos que degradam”. ou rebaixa. assinalar diferença.: “Tem muito maior alcance a ação de desacreditar que a de desabonar”: quem desabona diminui o apreço. Agostinho. “Esta torpeza mancha toda uma vida”. difamar “tirar a fama”. e apresentam de comum a ideia de obrigar a descer da posição ou do conceito em que alguém estava. o sinônimo mais próximo de rebaixar: significa “fazer decair do conceito. desmerecer na estima. marcam os respetivos radicais. “Glória alguma do mundo poderá induzi-lo a humilhar os pequenos”. – Macular e manchar são formas do mesmo termo latino (macular. quem desacredita arruína o crédito. pois. de intuito afrontoso. 11 ABALANÇAR-SE. – Desonrar é “tirar a honra”. Propriamente falando. é. Significam ambos “privar da fama”. a boa reputação da vítima. apresentam diferença equivalente à que. mas não dá ideia de força. difamar. e infamar é “ofender a honra. “Este crime envergonha a toda a geração”. enfraquece. – Deprimir e depreciar. o valor”. Deprimir – acrescenta – inclui “intenção de destruir no conceito com grande desejo de prejudicar”. E cita como exemplo: “Este escritor afeta elevar S. “Com aqueles destemperos só envergonham a família”. macula) e significam “marear um nome. e desabonar é “diminuir o crédito e o bom nome”.). arriscar-se. Bastanos o que diz Bruns. e. no entanto. ou o apreço. como diz Laf.” (Boss. o crédito de alguém. o mérito. difamar-nos.. no seu ódio sacrílego de brutos.

– Apliquemos todos esses verbos. “F. ausentar-se. tentação”. – Partir quer dizer – “começar marcha ou viagem. animar-se. Diremos: “Ele saiu da cidade há uma hora: e no outro dia partiu para S. É sim quase perfeito de sair. – Desaparecer é deixar de ser visto. como se se sumisse no espaço. Paulo. 12 ABALAR. e discutir justiça?” – “Afinal animou-se a pobre viúva a ir a palácio. – “Como é que um soldado se atreve a chegar tão perto da trincheira inimiga?” – “O pescador atirou-se ao mar. força. desapareceu da rua do Ouvidor”. como sair. arrojar-se é “precipitar-se.10 Rocha Pombo -se. boa ou má”. fig. sem ideia alguma acessória quanto ao intuito de quem desaparece. desaparecer. e significa – abalar.. “O exército fugiu perseguido pela cavalaria inimiga” (Aul. – Seguir aproxima-se.. de partir e de sair. – “O sr. – Abalar (sent. – Fugir aproxima-se de esgueirar-se com esta diferença: esgueirar-se é “desaparecer com astúcia. – Abalançar-se quer dizer “não hesitar. Paulo”. seguir. perigo. fugir. atrever-se é “afoitar-se com audácia”. mas distingue-se claramente de um e outro porque acrescenta à ideia de “pôr-se em movimento” a de “continuação de marcha iniciada”. risco. voltará por S. portanto. “Por que desapareceu o senhor de nossa casa?” – Sumir-se é mais que desaparecer porque dá ideia de “deixar de ser visto sem . sem os receios ou escrúpulos usuais”. embora sem a intenção de esconder-se. aventurar-se é “expor-se a boa ou má sorte”. e fugir é “deixar um ponto às pressas”. sair. ousar é. mas perdeu o tempo”. mas decisivamente”. animar-se quer dizer “ter alma. dali seguindo para ponto ignorado”. e tanto pode ter sentido favorável como desfavorável”: significa “atrever-se confiante e seguro. pôr-se a caminho”. saindo de casa às 3 da tarde. e trouxe nos braços o menino desfalecido”. Abala o garoto quando vê o policial. a um perigo eventual”. arriscar-se é “expor-se a um risco. é “retirar-se sorrateiramente”.” – Azular é brasileirismo bem moderno. azulou dali quando nos viu de longe”. coragem. Também do grupo abala o estudante assim que ouve falar em bomba. – “O bombeiro arrojou-se ao furor do incêndio. e no outro dia seguimos para Mendes. azular. e ainda se arriscou a andar pelos lugares mais públicos”. – “Pois há quem ouse ir a comícios neste país arriscando a própria vida?”. diferindo deste porque não dá. partir. “o mais genérico de todos estes sinônimos.) significa “sair precipitadamente e às ocultas. retirar-se. e salvou a criança”. de modo a não ser visto”. e só com o fim de não continuar presente num lugar”. etc. atirar-se é “lançar-se sem ímpeto. é “sujeitar-se a que lhe aconteça bem ou mal”.. Não poderíamos trocar aí nenhum dos verbos. “O exército abalou dali ao ter certeza de que o inimigo estava a chegar”. desaparecer. “Partimos daqui no dia tal. ousar. – Esgueirar-se é “azular com a ideia de esconder-se”. o companheiro foge” (Garrett). sumir-se. só confiando na ventura. depois de haver meditado”. mais a ideia de deixar um certo lugar” que de “ir para outro”. Ninguém segue seu caminho sem haver começado a andar. “Ousa o bandido falar em lei. é “empreender um lance de resultado incerto”. “desviar-se precipitadamente de alguém ou de alguma coisa para evitar incômodo. tomar uma resolução súbita”. atirar-se com ímpeto”. – “O gatuno pressentiu-nos e esgueirou-se”. afoitar-se é “não hesitar sem refletir muito no perigo. “Depois da meia-noite desapareceram as crianças”. para alguma coisa. esgueirar- -se.). a ir à cidade convulsionada. como diz Bruns. – “Ele se aventura a ir a Minas: se for feliz. “Espavorido. “F. pernoitamos em Campo Grande. se abalançou a publicar o artigo?” – “O homem afoitou-se a atravessar o escuro.

insigne. e tido como exemplo. “Não se trata de um tipo qualquer. nobre. aqui. – Abalar. “F. era um jornalista distinto. é mestre abalizado no seu ofício”. “Tais coisas lhe disse o velho que o dissuadiu de casar” (tirou-lhe isto do espírito). famigerado. – Assinalado é o que se destacou por alguma prova brilhante no seu ofício. com valor perfeitamen- ilustre. egrégio. . “As suas palavras poderiam abalar-me alguma coisa. mas a de “haver deixado um lugar”. não consegue abalar-me neste modo de ver”. o presidente suspende a sessão e retira-se”. Em suma: quem desaparece nem sempre tem tenção de sumir-se: agora o que não é possível é que alguém se suma sem haver desaparecido. eminente. notável. a ideia de “não estar mais presente”. – Distinto é aquele que. “O homem retirou-se da festa mais cedo do que se esperava”. “As armas e os varões assinalados” (Cam. 14 ABALIZADO. Mas ausentar-se não dá (como retirar-se. o que se distinguiu por alguma grande ação. portanto. pois enuncia “a ideia de mudar do que se era. mas em tal evidência que se fez digno de ser notado. “F. preclaro. “deixou de ser visto nela.Dicionário de Sinônim os da Língua Portuguesa 11 que se saiba o paradeiro ou o destino de quem se sumiu. por algum mérito ou aptidão. Do mesmo modo não confundiremos os dois termos para empregá-los indistintamente nesta frase: “O pobre viúvo sumiu-se do mundo” (isto é. – Dissuadir é “tirar do espírito”. mas não creio que cheguem a demover-me do meu propósito. “Fazem esforços por abalar na alma do povo as crenças de que ele vive”.). grande. apenas não fica muito firme nelas. “Não arrefeceu nunca em Vieira aquele assinalado heroísmo da sua imensa fé”.” – Notável diz mais que distinto: designa o que se pôs. te análogo ao que tem no sentido físico. na consciência”. Dizemos: “Ele me demoveu (e não – abalou) do intento de vingança”. se destaca do comum e se põe em relevo. famoso. distinto. pois jamais me dissuadirão de que a Justiça está comigo”. significa “mover um pouco”. mas ao fato de haver deixado a cadeira. consumado. assinalado. de fim ou de necessidade com que alguém se retira: apenas marca a noção de “não estar mais presente onde se estava”. – Ilustre é um desses vocábulos que parecem gastos pelo uso. “fazer que uma pessoa fique em dúvida a respeito de alguma coisa”. 13 ABALAR. dissuadir. na acepção figurada. É. afamado. – Demover diz muito mais. célebre. “F. isto é. demover. “O juiz ausentou-se durante as férias”. “Demovemos uma criança de ficar no meio do barulho”. desapareceu para sempre). “No meio do tumulto. – Ausentar-se é “deixar de estar presente em alguma parte”. mas de um moço distinto. e não. e de retirar-se principalmente. ou de intento. não apenas em simples destaque. conspícuo. “que se sumiu de nossa casa”. este verbo empregado aqui. exímio. Dizemos: “O homem. “demover operando no espírito. ou do que se intentava”. é um escritor abalizado”. digno. com toda a sua eloquência. Diremos que um amigo (que continuamos aliás a encontrar na rua) desapareceu de nossa casa. às vezes) ideia de plano. Não diríamos neste caso – ausenta-se – pois que o nosso pensamento não é aludir ao fato de não ter mais o homem ficado presente. “tirar do estado de firmeza”. ínclito. de sair. e aproxima-se em certos casos de desaparecer. Quem se deixa abalar nas suas convicções nem por isso as renuncia. – Abalizado – dizemos de um profissional ou de um artista que se fez completo na sua profissão ou na sua arte. assim como retirar-se marca. mas que fosse um escritor notável ninguém sabia”. de frequentá-la”. não propriamente.

” “A nobre altivez daquela criança salvou-nos a todos”. afastando-nos um pouco do autor. diz menos que ilustre. é um digno funcionário”. célebre enuncia não fama ruidosa. Afamado é quem ou o que tem fama. Não seria muito próprio. só porque se trata de homens ilustres. pela sua grandeza moral. porque conserve uns laivos da antiga acepção. de aldeia”. mas “grandeza que tem alguma coisa de solenidade e de esplendor na história. ofício.. “F. ou alguma grande qualidade ou aptidão. ou “preclaro ministro”.. eminente. Diríamos: “Job foi um varão insigne pela virtude da resignação” (e não – “um varão assinalado)”.. podendo até ser a de um bandido..” Difere de assinalado em que este “chama atenção mais para os feitos do indivíduo que se assinalou”.. ou feitos. mas decerto que não diríamos dele – o famoso Charcot. “As afamadas laranjas da Argélia”.. significa “digno e excelente”. ou qualidades que dão lustre”. “tocam-se de perto. mais do que rei no seu império do mundo”. já lhe não caberia bem o epíteto). só se pode aplicar a pessoas vivas. como nota Lafaye. ou onde aparece”.12 Rocha Pombo No seu sentido próprio. “Entre os políticos ilustres de Itália. e que por isso mesmo é merecedor de alguma coisa mais que o comum. e no meio em que vive.. Henrique. – Famoso e célebre. ou “está tendo fama no seu tempo. – Preclaro e insigne aproximam-se de ilustre.. mas. e hoje é termo de que só se usa na oratória parlamentar. Nem todos os ilustres são preclaros. Só por menoscabo diríamos: “famigerado cultor das musas”. boa ou má (em regra – má) “se espalha num dado círculo e com aparato”. o grande Infante. Charcot é célebre... “Nada tenho a dizer ao nobre senador”. – Insigne é quem. ou então em frases enfáticas. é de assinalado que mais se aproxima: ilustre quer dizer – “conhecido e brilhante por si mesmo. – Nobre. “famigerado desordeiro”. – Digno é um epíteto mais modesto do que todos os precedentes: digno se diz daquele que “se porta discretamente no seu cargo. missão. ou o que “se assinala por algum grande mérito. por exemplo: “preclaro representante da nação”. – Famigerado quase sempre se toma em sentido pejorativo: designa indivíduo cuja fama.. “O nobre ancião falou solene”. – Afamado diz muito menos que famoso. e insigne exprime “qualidade inerente à pessoa ou coisa insigne”. Mas preclaro diz mais e é mais nobre: exprime – “excelente. ou mesmo – grande. ou melhor – célebre. é grande. “Os afamados charutos da Bahia”. chamar – famoso a um médico que se fizesse conhecido e ilustre fora do seu meio: diríamos antes – notável. e no seu lugar. é um médico afamado” (isto é – que tem bom nome ou boa fama de profissional na cidade onde clinica). apesar do que diz Bruns.. “famigerado conspirador. ou na sua condição própria”.. “F. função. “Que nobre alma a daquela dama tão obscura e tão desventurada.. nenhum excede a Cavour pela função histórica”... mas a raríssimos grandes poetas ou grandes artistas chamaríamos com propriedade famosos. “A preclara majestade de d. mas os preclaros são ao mesmo tempo ilustres. “Aquela criatura. tratando-se de um conspirador de alta raça. Diríamos: “O preclaro Tácito”. observaremos que: famoso é vocábulo menos nobre. com razão. Aplicado a qualidades. ou mesmo nas vicissitudes da vida”.. e deve aplicar-se a um fato ou a uma vida “que fez grande ruído no mundo”. ou a coisas subsistentes.. Mas rarissimamente poderíamos dizer sem flagrante absurdo. Diremos: “famigerado bandido”. e segundo observa Bruns. é digna de respeito”. conforme o caso. mas melhor a coisas. “O preclaro varão que ilustrou o seu tempo”. (porque. belo. “Este . ou a coisas. destacado por ações. Há capitães ao mesmo tempo célebres e famosos como Alexandre. brilhante”. É ainda preciso notar que tanto se aplica a pessoas como a coisas.

sobreleva aos mais hábeis”. Berg. Mas diríamos: escritor. 15 ABALO. – Terremoto é “forte tremor de terra tendo consequências na crosta terrestre”. como há ínclitos poetas. “uma série de abalos. Tanto podemos dizer – “um artista”. sem ser insigne. – Tremor de terra é. de grande massa”. o que é “muito falado. ou no desempenho de algum alto cargo”. Dizemos: “O egrégio tribunal”. mas um simples abalo. – Todos estes vocábulos significam fenômenos sísmicos. convulsão. e por isso “posto no pináculo entre os da mesma classe”. a uma profunda e acabada perícia na sua ciência ou na sua arte”. de estremecimentos. e de consequências gravíssimas para a região convulsionada. – Eminente e conspícuo diz mais do que ilustre: eminente é o que “excede à estatura moral. – Convulsão aplicar-se-ia para designar um terremoto violento de grandes proporções. muito raros outros caberiam nos dois exemplos. “egrégio pastor de almas”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 13 homem. Entre todos os vocábulos deste grupo. um favor ou serviço que se manifesta. ou um serviço assinalado é não como entendem Bourg. “Ínclito”. como há jogadores exímios. tratando-se de pessoas. estremecimento. “F. como – “um filósofo consumado”. conspícuo é o que se faz “tão ilustre e eminente que dá nas vistas de todo mundo”. aplicado a pessoas ilustres. – Parece que se vê melhor nestes exemplos: “Temia-se um terremoto. é figura conspícua da nossa política. Só é grande o homem “excepcionalmente notável que foi consagrado pelo culto das gerações”. tratando de coisas – a que “se eleva acima de outra coisa e se põe muito alto”. Há exímios poetas. ou na sua profissão (principalmente na sua arte) “excede. – Comoção é “estrondo ou abalo no interior da terra. digno de respeito pela compostura e gravidade na sua conduta. – “é o que chega ao último grau da glória”. ou às proporções de grandeza dos seus pares”. Dizemos: “o grande Infante”. sim – é “um favor grande.. Qualquer dos dois termos só pode ser. segundo Roq. ou melhor.. – Grande é um genérico que se não confunde entre os do grupo. – Consumado aproxima-se de abalizado. – Exímio exprime a “qualidade de superexcelência”. menos extenso e menos sensível que o tremor de terra. – Agitação será mais “uma comoção continuada por algum tempo”. apenas sensível na superfície”. no dia seguinte . notável de si mesmo”. Consumado significa – “subido à perfeição. ou o feito de proporções fora do comum “– que se incorporaram definitivamente na história humana”. ou de que se tem sinais evidentes. e por isso mesmo pouco intenso e pouco sensível. ou das nossas letras”. terremoto. e. pois que estes não são mais que abalos menos amplos conquanto mais intensos e mais sensíveis”. que tem nome ruidoso e brilhante”. comoção. tornou-se naquele momento figura assinalada pelo heroísmo com que fez frente ao inimigo”. é um artesão eminente”. – Trepidação é leve abalo. Um favor. mesmo referindo-nos aos mais abalizados no seu ofício: “F. ou o fato. agitação. “F. ou “F. é verdadeiramente o egrégio e venerável patriarca daquela família”. excepcional. é um conspícuo marceneiro”. como diz Bruns. ou acontecimento extraordinário. artista eminente. Há ínclitos generais. tre- pidação. e tanto um como outro exprimem mais do que exímio quando se quer marcar precisamente elevação pela capacidade e pelo mérito. e se diz daquele que na sua arte. tremor de terra. Não poderíamos dizer. magistrado. mas um favor que no momento assumiu proporções que não teria em ocasião normal”: um favor insigne. – Abalo é “movimento amplo. e nem chegou a ser um verdadeiro tremor de terra. “o grande Vieira”. Egrégio é “honrado e ilustre.

mas não consegue abalroar a nossa embarcação”. “com precipitação”. “desterrar”)1 que nos revela a existência de um substantivo mais antigo – bandon – de que nos vem bando (“pregão”. 17 ABANDONAR. desarrimar. e decisivamente”. de todos os do grupo. Abalroar. “Os inimigos abalroaram uma nau de El-Rei”. “decreto”). Não há dúvida. – Acometer é quase assaltar: é “investir subitamente e com decisão”. investir. atracar. – Atacar é. atacar. pois. Bandon era ordem de bandir. Quanto a abandonar. – Assaltar é “investir à traição. para melhor combater. como se disse.14 Rocha Pombo houve algumas trepidações do solo junto do monte.). – Agredir é propriamente “provocar. desfavorecer. desapoiar. “Com muita gente armada a investiram e abordaram (a caravela) por duas partes”. os quais se reputam deficientes ou nulos”. Abandonar é. quando esta se acha em iminente risco de perecer. como aferrar. aferrar. O rico que não socorre a sua família pobre a desampara. Diz Roq. no outro dia. é “deixá-la entregue aos seus próprios recursos. porém. ligeiros estremecimentos: e depois tudo voltou à serenidade normal. “não querer saber da pessoa ou da coisa que se abandona”. “Assaltaram os brutos a fortaleza à noite”. é “atracar com balroas” (instrumento próprio para abordagem em combate). “O inimigo nos atacou de frente”. Diz Bruns. agredir. “O bandido nos atacará em caminho se facilitarmos”. “O inimigo investe. desproteger. da Acad. desajudar. “A vaca danada arremete contra todos”. “Vamos atacar o forte”. que o abalroamento de dois navios é devido ao acaso. se o faz.. assaltar. desvaler. ou de sacrificar 1 O italiano conserva o verbo bandire. “Os bárbaros abandonaram os míseros náufragos ali na ilha deserta”. que: “o desamparo se refere ao bem necessário de que se priva o desamparado. pôr de lado e esquecido”. e atracar é “prender de qualquer modo”. arremeter. mas uma formidável convulsão que alterou toda a topografia da ilha”. logo à noite repetiram-se uns estremecimentos. “Não se ataca impunemente a honra alheia”. mas decerto não é em tal acepção que abalroamento é sinônimo de investida. (Dic. abordar. – “atracar com balroas. acometer. desamparar. consistindo a diferença apenas “nos meios de que se valem os tripulantes de um navio para aprisionar um navio inimigo”: abalroar. . aferrar é “atracar com ferros (quaisquer que sejam)”. – Atracar. o verbo de significação mais genérica: “é ir hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. “Acometeu-nos o inimigo sem que o esperássemos tão cedo”. “A primeira vez sentiu-se uma rápida comoção ao sopé da montanha. impetuosamente”. fugimos. Abandonar tem com efeito alguma coisa de “exilar. etimologicamente. da Acad.. Também se diz: “Assaltou-nos em caminho a tormenta”. e como nos convencêssemos de que semelhante agitação subterrânea é prenúncio de catástrofes... desdenhar. desprezar. escreve Bruns. neste grupo. o abandono se refere ao mal iminente a que se deixa exposto o abandonado. de emboscada. dessocorrer. é mais genérico do que abalroar.” “O que se deu ali não foi um simples terremoto. “Ele não tinha motivos para agredir-nos tão insolitamente”. – Abalroar. bordo com bordo”.” 16 ABALROAR.) – Investir é “arremeter hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. é – como define Aul. – Arremeter é “atacar com fúria. e com intuito hostil”. mas os três verbos sugerem o mesmo ato. – Abordar é “aproximar-se uma de outra embarcação. tomar ofensiva contra alguém”.: “O antigo português tinha o verbo bandir (“banir”. (Dic.

Pode-se desapoiar sem desproteger. abandonado de todo o mundo.. pois em todos figura o prefixo negativo ou privativo des. Nem sempre se despreza. na perdição ou na desgraça. É simples de ver que eu me não sinto desamparado só porque um sujeito me desprotege. e tão distintamente que em muitos casos não seria possível. desídia. languidez. como só se desampara aquele a quem devíamos valer. pelos próprios respetivos radicais. não foi dessocorrido de algumas almas piedosas”. indolência. “Nesta causa pode um parente desapoiar-nos sem que nos prejudique. de dizer. mas aqueles que estavam conosco e se afastaram não fazem menos que desajudar-nos”.. desleixo. Aqui há seguramente lapso: o abandono dessa frase não é o que o autor definiu como sendo o abandon francês. descuido. mas o amor. segnícia. Todos estes sinônimos têm a significação geral “de indiferença. desfavorecer (“negar favor”). e só se desarrima a quem precisa de nós. – Desafetação já se não aplicaria com a mesma propriedade a uma criança. etc. desvaler sem desdenhar. pois que só se dessocorre aquele que está em perigo ou em situação difícil. desprezo ou pouco interesse revelado por alguém”: diferençada. auxílio”. Só nos desfavorece aquele de cujos favores dependíamos. é “tratar com desdém. Como estes. ingenuidade. desmazelo. Mas aqui.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 15 sua honra. a paixão veemente só é real quando há abandono”. naturalidade. de se vestir sem artifícios que deem na vista”. no trajo. “Aquele homem.” “Aquela candura da jovem princesa ressalta de todo o abandono em que se deixa ver lá no parque”. pois. e ela respondeu com uma graça e naturalidade de criança”. como desamparar é “negar amparo”. se desampara ou se desdenha. simpleza. 18 ABANDONO. mas os filhos fizeram mais: desarrimaram-no na velhice dolorosa: e afinal. neste grupo. e antes “fazer o contrário”). ou se desprotege. acinte ou altivez”. etc. desafetação já “sugere ideia de esforço ou de propósito no . negligência. desalinho. morreu em amarguras. depois de o haver definido como sinônimo de naturalidade. aquele a quem se abandona. – Abandono é um galicismo (neste grupo) que pode perfeitamente ser incorporado na língua. tinha direito a ser por nós socorrido. – Desdenhar é “ter em pouca conta”. singeleza. desapercebimento. abnegação. desarrimar (“privar de arrimo”). como dessocorrer é “deixar de oferecer o socorro que se nos pede”. “Aquele ricaço desdenha a nossa pobreza porque nós lhe desdenhamos a arrogância”.”. desafetação.. ócio. mesmo desprezado pelos amigos. a abandona”. – “A amizade – diz ele – exige a naturalidade. substituir um pelo outro.. desapoiar (“deixar de apoiar”). conquanto não seja o aplicado. preguiça.. pouco apreço. nas maneiras. e só se abandona a quem.. a santa continuou muda”. É estranha a aplicação do termo feita por Bruns. lhaneza. é: “negligência amável no falar.. ou pelos outros indistintamente. – Quanto aos outros do grupo. acídia. “Desdenhando o poder dos homens. “Falamos à rapariga. abstração. a distinção será fácil desde que se tenha em vista o respetivo radical. O abandono dessa frase é sinônimo de renunciamento. – Desproteger é “recusar a proteção que antes se dava a alguém”. inação. Desarrimar não é propriamente dessocorrer. “Os homens o desvaleram sempre naquelas angústias. e o definido por Bruns. distração.. abdicação. abandono. entendemos: desvaler (“não acudir”). – Naturalidade é “maneira de se mostrar. incúria. inércia. moleza. sem sacrificar alguma coisa da clareza e propriedade da expressão. apesar de certos caprichos fúteis de um mal-entendido purismo. – Desprezar é “não dar a alguém ou alguma coisa o apreço ou importância que se lhe dava”. desajudar (“negar ajuda.

o pessimista ou o misantropo. Desafetação pode simular-se. ou no desempenho de uma tarefa”: mais censurável sem dúvida que desalinho. Diz Roq. o contrário. é muito mais grave que simples desalinho. apatia. no falar. ou de trajar”. Incúria é igualmente (conforme está indicando a própria etimologia) descuido.” – Negligência2 diz também maneira descuidosa. como as crianças”. sem desigualdades de relevo). naturalidade. as coisas mais sabidas do mundo. “Este tipo vem aqui fingir desafetações de Tartufo. É ela “um relaxamento de ânimo. “Passam a ser censuráveis aqueles modos: aquilo já é desalinho.. – Inação é um “estado de inércia passageiro. postura desafetada. lhano (do latim planus = liso. de quase ignorância e parvoíce: é a “singeleza ou a ingenuidade do inculto e rude”. ou surpreendeu-me nesta negligência em que se está em casa”. enquanto que incúria é o próprio fato de não fazer o que devia”. – Desalinho é “maneira ainda mais descuidosa que a negligência: é quase incorreção de costumes. mas “descuido culposo de quem deixa de parecer como deve. – Indolência diz etimologicamente – “falta de sensibilidade. . – Simpleza sugere ideia de inconsciência. no gesto. ou dos temas a tempo: por incúria teve castigo”. “Ele ficou em pasmo ante a simpleza daquele bárbaro ali impassível a tudo que se passa”. – Languidez é um quase “desfalecimento semelhante à depressão mórbida. no vestir. – Acídia (ou acédia. e quase inconveniência que se não perdoa em gente de educação”... ou de frase. trajo sem capricho. uma falta de ação para certas ocupações”. “A singeleza daquele viver é mais edificante do que todas as opulências dos grandes”. – Inércia é “imobilidade. ou de cumprir um dever do seu ofício”.. “O descuido de quem se apresenta maltrajado em um salão de cerimônia é imperdoável”. e tendo também alguma coisa de moleza”. distinguindo-se desta em significar mais uma “inércia moral que afasta do trabalho. ou que torna avesso ao cumprimento do dever. que cessa logo que desaparece a causa acidental que constrange o inativo”. conquanto diga Roq. – Moleza é “preguiça sensual”. O descuido na elocução. “Nada alterava jamais a lhaneza daquele caráter”. a preguiça um vício”. está passando a ser quase um vício elegante. indiferença por tudo que a outros merece cuidados ou atenção”. “Por negligência foi censurada a menina que não deu conta das lições. e antes um humor sempre igual. Negligência sempre é menos do que incúria. – Singeleza é a qualidade do que não tem “refolhos e malícias”. na postura. – Descuido é (como se vê da formação do vocábulo) “falta de cuidado no trato. parelho. que parece ter sido vulgar outrora. Se é mesmo vício a preguiça. Diz Lafaye que “a indolência é um defeito.. não. acidentes de ânimo. e ordinariamente revela falha moral. pouca atenção com que alguém cumpre sua tarefa ou desempenha um dever. “Calino é o tipo do ingênuo: diz. mais conforme à etimologia) é uma inércia mais de espírito ainda do que desídia (talvez originariamente uma e outra do mesmo radical grego). mas deve tirar a vontade de agir e de viver: a indolência chega a ser às vezes uma virtude para o cético. Neste grupo não é bem assim.” – Lhaneza é a qualidade do que é 2 Usa-se muito hoje do francês negligé em vez de negligência. com toda gravidade. – Ingenuidade é a “singeleza de quem não oculta o que sente. estado de torpor”.. nem disfarça o que faz. falta de energia. A preguiça pode não ser um vício. Pode ser oriunda de mal físico.16 Rocha Pombo sentido de parecer desafetado ou natural”. “Ninguém há de ter o direito de acusar-me de incúria na minha profissão”. – Desídia é quase incúria. – Indolência e preguiça. “Pilhou-me a visita.

mostrando por ela pouca estima ou nenhum interesse”. em que alguém fica sem dar atenção a nada. não tendo na conta devida”. menoscabar. “Não é por menoscabá-lo que . do que desídia. do que preguiça. “Os tais conluiaram-se no intento de embaratecer os bons ofícios do competidor”. e figuradamente é. “ter em menor conta do que a antiga em que se tinha alguma coisa. desestimar. a significação de “baixar de preço”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 17 e usar-se em vez de preguiça. “ter em menor apreço do que o devido”. ou sem notar em torno de si coisas que lhe não deviam passar despercebidas”. a aversão ao movimento. falta de correção. naquela causa. “Ele não há de consentir assim que lhe abaratem a honra de juiz”. do que desleixo. porque junta a tudo isso alguma coisa de miséria moral mais lastimável: segnícia deve ser o “torpor estúpido. que se não sabe por que é que falha nos léxicos. – Deleixo (ou Desleixo) e desmazelo significam “relaxamento no cumprir o dever. menoscabar. que a define assim: “O sétimo e último vício capital se chama acídia. não só “baixar de preço”. “Míseras criaturas é o que elas são. – Segnícia é mais do que indolência. a consideração”. porque a minha vida é muito atribulada de serviço”. distração sugerem ideia de estado bem semelhante a umas aparências de abandono. desapreciar.. não apenas falta de correção. parecendo que desmazelo é mais grave e mais culposo “porque exprime. depreciar. – Baratear é “oferecer por menor preço”. mas “prezar menos do que seria justo”. Usamos também de embaratecer. desencarecer. Menosprezar não é propriamente “desprezar”. que é mais “ausência de sentimento muito nítido do dever” – Desapercebimento. “Não pensem que ele vai agora baratear as aptidões”. Desapercebimento é “um como estado de inconsciência aparente. especialmente para as coisas do culto divino e comunicação com Deus”. o valimento de alguém”. Bartolomeu dos Mártires. pois. uma como tensão mental que a separa – dir-se-ia – das outras pessoas”. menosprezar. mas de quem parece “não pensar em coisa alguma. Dizemos. não esteve conosco?” Menoscabar não é somente menosprezar. ou porque se seja forçado a ficar inativo. no entanto. etc. mal- baratar. de Fr. é “vender com prejuízo. – Ócio é antínomo de trabalho. como se vê do Leal Conselheiro e do Catecismo. mas também “abater o valor. ou as qualidades. e ter os seus sentidos materiais como que suspensos ou apagados. tornar barato. Tem ainda. embaratecer. tendo ouvidos e não ouvindo. a importância. por um motivo interior. abstração. um defeito mais punível que desleixo. pelo menos no Brasil: “O café já barateou”. mas uma desídia quase ostentosa. abrir mão de uma coisa facilmente. ou porque se descanse dele. – Abaratar (ou baratar) significa “diminuir o custo. Mas este difere de baratear porque significa. “Havemos então de menosprezá-lo só porque. é dar “por menos do justo valor. A mesma diferença no sentido figurado. desestimar distinguem-se ligeiramente. – Malbaratar é “desperdiçar coisa estimável”. mas “fazer baixar de preço”. a malbaratar na vida os melhores dons que lhes tocaram”. baratear. “Os meus instantes de ócio são poucos. 19 ABARATAR. porque se tenha trabalhado é que se fica em ócio: é este. – Menosprezar. como intr. mais. fazer baixar o preço de alguma coisa”. mais lazer do que inação. pois. tocando sem sentir. que é uma tibieza e fastio espiritual que a alma tem para o exercício das obras virtuosas. Distração é também desapercebimento. Abstração é o “desapercebimento de uma pessoa completamente alheada do meio em que se acha. diminuir o crédito. olhando sem ver. a inércia e moleza do bárbaro”.

e há entre eles uma certa distinção análoga à que se nota entre fantasma e abantesma. 20 ABANTESMA. fantasma. heroica – dir-se-ia – e terrível do diabo”. “Só desestima o dinheiro quem lhe não sabe o valor”. – Avejão (fig. e como em penitência. entre os romanos. Aparição distingue-se de visão em “acrescentar à ideia de imagem sobrenatural a ideia de miraculoso. significando assim – “alma penada”. aparição. subtil. ou melhor – “a alma de algum conhecido. havendo apenas entre os dois a mesma diferença que há entre os respetivos radicais – estima e apreço. que se deixa ver sem perfeito relevo.... socorrer. é vocábulo de alta nobreza histórica.18 Rocha Pombo dele digo estas coisas”. Desestimar é “não ter em estima. quer durante o sono”. de inesperado e súbito. “Ninguém decerto vai desencarecer-lhe os grandes serviços prestados à pátria naquele momento”. larva. Lêmures e manes eram. “Imundos abantesmas vagavam naquela região mais do pecado que da morte”. mas quase sempre “para atormentar os vivos”. “Não se desestima a um amigo só porque caiu em pobreza”.. deixar de estimar. e que. e causando terror. – Espetro e larva designam também fantasmas. imaterial. Abantesma é propriamente “fantasma sem forma definida. É este verbo um sinônimo quase perfeito de desapreciar. ou não corpórea. que.. ou do remorso”. “Encontrou no caminho um fantasma que o obrigou a voltar”. lêmures. “personificação”. Também se aproxima de “símbolo”. por alucinação. Manes designava particularmente “as almas dos avós ou dos parentes falecidos”. mas todos. Este vocábulo (fantasma) significa imagem fantástica ou incorpórea.” Sombra pode-se dizer que. não ter por alguém ou alguma coisa a mesma estima que se tinha”. inspira repugnância”. O mais vago de todos é o primeiro dos três: visão é “toda imagem que se julga ver. – Abantesma é forma popular de fantasma. de ser tão caro ou encarecido como era. aparição. avejão. ou de ter na mesma conta exagerada em que se tinha (e tanto no sentido próprio como no figurado). e talvez porque sugira melhor esta última noção é que se distingue de todos os do grupo. como a sombra” (fenômeno . mesmo instantâneo. Em qualquer dos casos desaprecia diria sem dúvida alguma coisa menos. sombra. – Visão. – Trasgo é qualquer coisa como “figura ostentosa. como em: “O fantasma da dor. saíam do inferno à noite para. “Quando encontrou no vestíbulo a larva de Aquiles. dando sempre a ideia comum de coisa sobrenatural. e é de crer que junte à ideia de visão a de penitência. mas ainda conservando alguma coisa da forma humana”. sombra são vocábulos de significação mais genérica e vaga. além de terror.. de coisas falsas ou imaginárias e medonhas). e tanto menos quanto estima é um sentimento mais profundo que apreço. espetro. – Desencarecer é deixar de encarecer.. ou aquela consciência vive atormentada de fantasmas” (isto é. “alma dolorosa”. julga alguém ver. trasgo. manes. visão. duende. “Aquela casa. ou à falsa visão de certos doentes. ou perseguindo os vivos”.) é o que se poderia chamar também – “alma penada” – mas que toma “aspetos estranhos. “espíritos que andavam vagando pela Terra. formas de aves ou de animais fantásticos”. significando “forma vaga subsistente de alguém que foi vivo”. – Duende designa alguma coisa semelhante ao que se chama vulgarmente “alma do outro mundo”. atribuída à imaginação dos alucinados. manes e lêmures.. tendo figura humana mais ou menos acentuada. Espetro será o fantasma. “representação”. com a significação que tem neste grupo. emudeceu”. “coisa impalpável. às vezes. quer em vigília. Larva será espetro menos nítido.

“O poder de Roma abrangia multidão de povos” (Bruns. emperrado. Há o monopólio não fundado em lei. e mesmo de abarcar”. no entanto. – Cabeçudo é o que se deixa guiar só pela sua cabeça. exprime alguma coisa de “alcançar”. Deve notar-se. constante. embirrante. o direito “exclusivo ou privilégio de vender ou comprar”. Diremos: “O incêndio abrangeu todo o quarteirão”. antes que cheguem à praça ou ao mercado público”. por exemplo: “Nesta relação não se compreendem (e não se abrangem) os casos a que se refere o ministro”. devasso abarroado”. e sei que por coisa alguma se dissuadirá daquele intento”. atravessar. por sua parte. e nunca propriamente: “O incêndio compreendeu. e ainda hoje. não: “Cesar abarcou todas as dignidades da república”. etc. caprichoso. ou da exploração de certas indústrias”. Teríamos de dizer. abranger. (Aul. – Obstinado e opiniático poderiam tomar-se em certos casos como sinônimos perfeitos. o que se escusa de agir. e faz o que . mas distinguindo-se o primeiro do segundo em significar “uma tendência ou qualidade própria. Isto quer dizer que com efeito o opiniático e o obstinado. nestas por exemplo: “O homem está obstinado em não aceitar o cargo”. firme. relutante. insistente. – Abarcar significa “apoderar-se da mercadoria como quem a prendesse nos braços”. alguma companhia. birrento. Entre os antigos. aos desejos de outrem. aferrado. ou mesmo alguma nação a propriedade de um certo gênero de negócios. ou que não cede. ou na índole do opiniático. contumaz. porfiado. compreender. 21 açambarcar. tanto assim que em certas formas não poderiam ser trocados. de modo a fazer subir pela carestia o preço das coisas. etc. muito raros hão de ser os casos em que um se não possa substituir beçudo. ABARCAR. monopolizar. – Monopolizar enuncia a forma legal de “exercer exclusivamente o comércio ou qualquer encargo ou função”. como diz Lafaye. em modo de ser. fundada em opinião. ca- Abarcar e abranger significam “encerrar ou conter em si muitas coisas: em abarcar há ideia de esforço. tenaz.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 19 físico). ou reunindo-as por meio de sambarca”.). Compreender é sinônimo que se pode ter como quase perfeito de abranger. a embaraços. – Atravessar é “comprar as mercadorias em caminho. enquanto que obstinado é o “que resiste. insistente. “Ele é opiniático.” 23 ABARROADO. perseverante.. 22 ABARCAR. obstinado. que mais talvez o uso comum do que a precisão ou a propriedade fixa em alguns o emprego de um de preferência a outro. – pelo outro. “não cedem à vontade. Há. afincado. essencial. mesmo entre muita gente de cultura. opiniático. – Todos estes verbos exprimem de comum a ideia de abuso contra a liberdade de comprar e vender. no entanto. teimoso. libertino. sombra era o mesmo que “alma”. em razões em suma. Abranger. pertinaz. No Brasil é muito comum dizer-se indiferentemente: “Abarcar ou abranger o mundo com as pernas”. e é sem dúvida com esta significação que entra aqui o verbo monopolizar: é “tomar alguém. enfeixando-as. a ataques”. “Abarcava todo o peixe que vinha à Ribeira”. entre os dois bem marcada diferença. que parecem estar na mesma natureza. em abranger. obstinado com insolência e por motivos torpes”.) – Açambarcar exprime a mesma ação de prender ou arrecadar mercadorias: mas “de modo mais amplo. mas por efeito de uma determinação ativa e refletida”. persistente. “Sedutor. encaprichado. – Abarroado quer dizer “teimoso.

e difere de encaprichado por isto: porque encaprichado significa que se tomou “por acinte ou por vingança uma atitude caprichosa”. Emperrado significa o que se firma na sua opinião. e fica imóvel. relutante contra as seduções do vício. ricaço. – Contumaz quer dizer “obstinado. obrar ou pedir”. quer. e por extensão é aquele que “segue sua opinião. poderiam aproximar-se de caprichoso e cabeçudo.).. além de significar “pertinácia em querer.. nem cede. num intento ou numa tarefa”. 24 ABASTADO. remediado. ou à citação feita por um juiz”. não por acinte. apatacado. Relutante é “mais que porfiado. pois enuncia a ideia de que o porfiado é “capaz de ir ao extremo. birrento. – Pertinaz já inclui alguma coisa de teimosia.. que não atende.20 Rocha Pombo entende sem ouvir conselhos. – Aproxima-se deste o vocábulo insistente: o qual. Embirrante é o que “insiste” nalguma coisa “por birra. – Constante. capitalista. Perseverante é o “que se conserva firme e constante num sentimento. apatacado. seguro conscienciosamente”.. – Opulento é sujeito muito rico que “vive vida brilhante e sumptuosa. – Caprichoso é aquele que se mostra seguro e inabalável. e perseverante como quem sabe o que vale a fortuna”. – Ricaço é aumentativo de rico. no seu desejo”. – Endinheirado. Diremos. e não: “A encaprichada menina”. etc. milionário. portanto: “Contumaz no erro”. persistente. ou não obedece à ordem legítima. ou ao que de nós se espera”. aferrado. seu intento. – Emperrado. se não se teima propriamente. em querer. mas o pertinaz é um teimoso. Persistente é o que “sabe. firme significa “obstinado. advertências ou mesmo ordens de ninguém. firme significam todos “fixo no lugar. antipatia ou aversão”. “Testemunha contumaz”. resoluto. mesmo porque encaprichado reclama sempre um completivo. – Tenaz exprime “firme e vigoroso em pensar. endi- nheirado. etc. – Abastado é quem está “fartamente provido de bens para viver em abastança”. – Teimoso é “o que persiste em pensar ou agir como se o fizesse quase por acinte”. Afincado equivale a “fixo e seguro como uma haste que se fixasse ao solo”.. embirrante. argentário. numa resolução” (Aul. Porfiado é ser “constante mostrando um certo brio e valor”. nas ideias. com obstinação e enfado”. perseverante acrescentam à qualidade do que é firme a “ideia de esforço no propósito de conservar-se firme numa resolução. o que nem sempre acontece com caprichoso. ostentando a sua riqueza”. dá ideia de que. ou no seu intento. opulento. ou bens que excedem às próprias necessidades”. Dizemos: “Ele está encaprichado no propósito de molestar-nos”. em agir”. capricho. “Este homem extraordinário é constante na virtude. nem fraqueja”. revel. e reincide no seu modo de ver ou de conduzir-se sem se importar com o que é seguido por todos”. aferrado diz – “fixo como alguma coisa que se prendesse a ferro a uma outra coisa”. de travar luta na resistência”. sem explicar-se. Constante é “ser sempre igual ao que se foi ou se prometeu ser. Birrento é “emperrado ou teimoso por birra. e diz – “sujeito muito rico e com ares de ufano das suas riquezas”. ou tem força para continuar firme no seu posto. e não: caprichoso: “A caprichosa menina não atende a coisa alguma”. mas “por opinião ou capricho”. na vontade”. remediado marcam . rico. – Rico é aquele “que possui muitas riquezas. persistente na ideia de vencer. como o animal que empaca (podendo dar-se-lhe empacado como sinônimo quase perfeito). “que se não abala. “mais pelo prazer de contrariar do que por sincera convicção”. porfiado no trabalho. – Afincado. relutante. etc. pelo menos se repetem esforços e tentativas. banqueiro. porfiado. na atitude.

perverter com escândalo”. pois: “O andar afea-lhe um pouco a elegância” (e não – desfea-lhe). – Viciar é. ou de transformar piorando”. ofendendo o pudor”. deformar. – Deturpar é “desfigurar deprimindo. 25 degenerar. – Corromper é “pôr fora do estado de pureza própria”. ou de fazer que uma coisa não seja ou não se faça tão bem como devia fazer-se”. ou melhor. – Dizemos: Abastarda-se uma geração. e significa “alterar alguma coisa fazendo-a feia”. – Degenerar é “perder mais ou menos o tipo. – Depravar é “perder as qualidades que tinha. próprio.). deixar imperfeito. correto. desfigurar. segundo a própria etimologia. ou o modo de ser de uma coisa ou pessoa. ideia que se sente em desfear.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 21 uma certa “mediania. adulterar. Argentário é o mais genérico e diz “homem dado a grandes negócios. deforma-se uma fi- . portanto.) transtornando. fazendo pior ou imprestável”. defeiABASTARDAR. ou de mais ou menos paixão com que se cuida do dinheiro. a natureza. legítimo”. pondo-a fora do seu estado próprio. milionário exprimem a ideia de “possuidor de grandes riquezas em dinheiro. corromper. deteriorar. estragar. isto é. pois reduz a simples patacas as posses do sujeito. degenera uma família. – Adulterar é “fazer mudar alguma coisa falseando-a. O endinheirado é aquele que ajuntou algum dinheiro e saiu da pobreza. miliardário. – Desfear é uma dessas anomalias morfológicas da língua que o uso impõe. depravar. desnaturar. – Argentário. arquimilionário. Banqueiro é o que “faz negócios de banco” (Aul. em geral. – Abastardar significa “fazer ilegítimo. convindo. o brilho. o valor próprio de alguma coisa”. – Desfigurar é. um indivíduo ou uma raça. – Deformar é “mudar a forma primitiva. bonita”. Diremos.”: “Ele enfeia o caso para que nós não vamos”. “A idade a desfeou horrivelmente” (e não – afeou). fazer feio com o propósito de impressionar. preocupado só de lucros. o “aspeto. No Brasil usa-se também o verbo enfear (ou enfeiar) com o sentido de “exagerar. e acrescentam à noção geral de rico a ideia de apego ou amor ao dinheiro. vivendo só pelo dinheiro”. etc. afear. que se note: em afear não há tão viva a ideia de “mudar tornando defeituoso”. as feições de alguém ou de alguma coisa” (Aul). estragar desvirtuando. – Desvirtuar significa. as qualidades da sua geração” (Aul. ou uma condição de fortuna que fica entre a do rico e a do pobre”. – Deteriorar é “alterar danificando. o mérito. Desnaturar é “alterar a natureza.). Desfea-se (ou desfeia-se) – isto é – “torna-se feio” o que “era bonito. viciar. se bem que enuncie igualmente a ideia de “estragar. É sinônimo perfeito. o modo de ser normal”. Apatacado diz menos ainda. deturpar. perverter. Remediado é o que tem com que viver sem apuros. tuoso”. impuro”. alterar a forma própria. – Perverter é “mudar para mal” (Aul. menos que perverter. deprimindo-a com perfídia”. profanando. “tirar a figura”. desvirtuar. – Estragar enuncia a ideia geral de “destruir. Capitalista é o que “vive dos rendimentos de seus capitais”. é “estragar o que era puro”. banqueiro. quase perfeito de afear. ou ainda uma ideia do valor preciso ou das proporções da fortuna possuída. – Estes verbos exprimem de comum a ideia de mudar a forma. capitalista. ou especular sobre empréstimos e outras transações de praça”. – Já se usam também como gradações da ideia expressa por este último vocábulo: bilionário. demover. “tirar a virtude. desfear. que “vive de negociar. etc. Milionário é o “ricaço que possui milhões”. aqui. Afea-se (ou afeia-se) uma coisa “tornando-a menos correta. desfigura-se um texto tirando-lhe as belezas próprias da língua.

e – de munição. ou “ficam bem municiadas as duas praças guardando aquele posto”. ou pelo menos de intuito que se procura dissimular ou encobrir”. e por uma determinação própria. Poder-se-ia ainda dizer sem . “Vai bem municiada a escolta”. corrompe-se o pão exposto à umidade. abastecer. – Aprovisionar é “abastar de provisões. “Munem-se as praças de guerra esperando o inimigo”. e. “Muniram-se de documentos contra a calúnia”. para que se pervertam almas basta às vezes um instante. pelos desregramentos. e de predicação mais imprecisa e vaga. mu- nir. munir. “As colheitas excepcionais daquele ano abastaram (e não – abasteceram) toda a província”. – “fazer com que alguma coisa chegue ao poder de alguém que necessita dela para se sustentar”: “Os americanos subministravam armas aos insurretos cubanos”. é que nos forniu de pão: agora o que preciso é ver quem no-lo forneça regularmente”. significa “fornecer. Fornir é “prover do necessário. e dali em diante foi ela sendo abastecida pelos lavradores dos arredores”. ministrar. o segundo. fornir. Notemos ainda que subministrar sugere ideia de “ação clandestina. com certa cerimônia. Municionar é “abastar de munições de toda ordem. conferir. – Munir significa propriamente “prover de armas e ou- tras coisas que tornem forte. deturpa-se a memória de alguém. ou em cumprimento de um dever ou de um contrato”. e fornecer é uma forma extensiva de fornir. prover pouco a pouco e com regularidade”. de pão ou de carne uma praça onde havia necessidade de algum desses artigos”. desnatura-se o homem no vício ou no crime. Subministrar é – diz Bruns. “A caravana. Diremos também: “O menino está bem fornido (e não – fornecido) de carnes e com boas cores”. – Abastar significa propriamente “prover do bastante. ao passar. as melhores índoles viciam-se fora do lar. “Só os colonos vizinhos abastecem (e não – abastam) o nosso mercado”. ou corrompe-se o menino nas más companhias. para uma diligência”. quaisquer que sejam estas”. Ministrar. Municiar é “prover de munições para um certo tempo. – “Quando chegamos àquela zona assolada pela seca foi necessário municionar muitos dos nossos postos. o tempo devastador estraga formosura.22 Rocha Pombo gura fazendo-a monstruosa. municiar. pelos crimes”. fornecer. “Nós sempre nos fornecemos (e não – fornimos) de tudo aqui mesmo no bairro”. subministrar. adulteram as nossas palavras quando as transmitem infielmente de propósito. do indispensável”. ou em obediência a uma ordem. “Ele nos ministrou todas as coisas de que precisávamos”. “Munam-se todos de roupas de lã para o inverno”. “E até de paciência vou munir-me para sofrer aquele biltre. ou que habilitem a defender-se”. significa “fornecer. municionar. uma nação pelos erros. 26 ABASTAR. deteriora-se o caráter fraco em luta com a miséria. pois estavam quase todos completamente desprovidos de tudo”. dar. “O grande comboio abastou então a praça. prover. oferecer. desvirtuam as nossas intenções quando as interpretam de má-fé. o primeiro. “Aprovisiona-se de água. aprovisionar. – Ministrar e subministrar são muitas vezes empregados indiferentemente. deprava-se um indivíduo. “A secretaria ministrará todas as informações necessárias ao juiz”. no entanto. apresentar. – Entre fornir e fornecer nota-se a mesma relação que entre abastar e abastecer. como função própria ou dever de ofício”. como por necessidade de acautelar o futuro ou prevenir algum mal”. no entanto. – Prover é o mais compreensivo dos do grupo. e nem sempre com fim especial e imediato.” – Municiar e municionar são formações vernáculas – de municio. e abastecer é “abastar gradualmente. nem para prazo certo”.

desabar.. tanto para esse fim. lançar-se para um lado estendendo-se”. abater com estrondo”. 27 ABATER. “fazer que uma coisa deixe de ser . Tanto se derriba a árvore. caiu um raio sobre a torre. desmanchar. “A parede aluiu com as chuvas”. mas deve aplicar-se “só a coisas de grande volume. como para tornar a levantar. – Cair é. “Daquela medonha altura precipitou-se o monstro no abismo e desapareceu”. estragar. caiu chuva. e mais ou menos rapidamente. demolir.. etc. aniquilar. – Desabar significa propriamente “abater em torno com fracasso”.) e caindo pouco a pouco. e até. – Abater é baixar ou cair “a prumo – diz Bruns. Não se daria o mesmo. arrasar. “Desabou a fachada de um edifício. derrocar. derruir. e deita-se abaixo. se se dissesse: “Municionar de água ou de pão a praça”. e munição (rad. e deita-se abaixo aquela que se quer substituir. – rápida e inesperadamente”: “Abateu o telhado”. de municionar) é tudo que se aplica diretamente à defesa da praça. Podemos dizer sem grave ofensa à índole da língua: “A artilheria inimiga destruiu a colina” (isto é – “desarranjou-lhe a estrutura”). desmoronar. “Cai a casa. o lugar em que estava para vir a lugar mais baixo. pois municionar tem predicação mais restrita. cair “a aba ou a beira”. “Ruiu todo o edifí- destruir. ruir.. nem tanto. – Compara assim. tirar de cima para baixo”.. cair com ímpeto em lugar profundo”. como no exemplo.” 28 ABATER. deita-se abaixo a muralha que se quer reconstruir. porém: “A artilheria demoliu”. como a muralha. desabou a barranca”. “Ouvia-se cá de baixo o ruir dos cedros lá no Líbano”. como dissemos. “Tombam árvores”. etc. desprender-se e sair do lugar em que estava”. arruinar.. – Ruir é “cair. se aproxima de deitar abaixo. vastas construções. como grossos muros. o verbo de sentido mais geral: enuncia a ideia de deixar uma coisa. desmantelar. como o castelo.. que também significa propriamente “desfazer o que foi construído”. no sentido figurado. derribar. porém. portanto. Mas diremos: “Tombam rochedos”. ou “Deixei tombar o lápis”. ou a de que é “extraordinária e sensacional a queda”. Derribar é “fazer cair. de aprovisionar) é tudo quanto convém. aos que guarnecem a praça.. caiu o chapéu de cima da mesa. Mas esta ideia é melhor expressa ainda pelo primeiro. – Aluir é abalar-se. – Tombar é “cair com fracasso. “Abateu a terra em torno”. Bruns. – Demolir é “desfazer pouco a pouco uma vasta construção. – Entendemos que derribar. – Destruir é. despenhar-se. abate-se a fortaleza que não convém deixar de pé. cio abalando a redondeza”. tombar. montanhas”. “Desmoronam-se castelos”. deitar abaixo. Não se diria com propriedade: “Tombou-lhe dentre os dedos o charuto”. “Despenha-se a avalanche inundando toda a várzea”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 23 deslize da pura vernaculidade: “Aprovisionar de pólvora a praça”.. renovando ou transformando: manda-se abater a árvore que intercepta a vista. demolir. e sugere a ideia de que é “volumosa a coisa que tomba”. “Ouviu-se a descarga e o mísero tombou.” – Desmoronar é “ir desfazendo-se” (Bruns. Provisão (rad. pelo menos tanto como abater. precipitar-se... pois só é suscetível de demolir-se o que foi construído. aluir. dos do grupo. o verbo abater e a forma perifrástica pôr ou deitar abaixo: “Diferençam-se em que abate-se uma coisa para que deixe de existir. e aproxima-se de destruir. – Despenhar-se é vir abaixo desprendendo-se de grande altura (segundo a etimologia – “cair do alto de rochedo”). – Precipitar-se é “lançar-se com violência de cima para baixo. desfazer. “desmoronam-se esperanças ou ilusões”. cair. cai o balão que já estava no ar. etc.

de Souza). aniquilaram num momento o inimigo”. – Desmanchar é também desfazer. desmantela-se uma corporação que se desagrega e fica sem ter quem a dirija e represente. Não há dúvida que se desmancha uma intriga. 29 ABATER. uma fortuna. esvaecimento. ou mesmo – se destrói). conservando-lhes as peças para armá-las de novo. – Desfazer é. . “Arruinaram depressa todo um quarteirão da cidade”. languidez. esmorecimento. montanhas. uma cidade. significa “deduzir de uma certa importância uma outra que se combinou não fosse paga”: Abateu 20 0/0 nas compras que fiz”. L. mas podemos também desmanchar um aparelho. quer se trate de quantias. um monte) até que fique rasa com o chão”. mas sem ideia necessária de destruir. descontar. acabrunhamento. uma floresta. etc. 30 ABATIMENTO. – Minuir é “fazer menor”. desfalecimento. “Derruíram em poucas horas as muralhas do forte”. prata e joias que a infanta consigo levasse” (Fr. – Derrocar (ou derocar) é “derribar com estrondo. “Os títulos. acobardamento. ou “deixar de meter em conta”. como – figuradamente – se derrocam grandezas. como se desfaz um exército. o mesmo que deminuir. – Aniquilar é “destruir reduzindo a nada”. Derrocam-se muralhas. “Com tais erros aniquila-se a obra de muitas gerações”. “mudar o estado de uma coisa de modo que não seja mais o que era”.24 Rocha Pombo o que era desarranjando-lhe a estrutura”. verbo de sentido muito geral. Deduzir dá “ideia genérica de abater. “Vai o tempo inexorável minuindo aquela robustez”. Desmantela-se uma fortaleza arruinando-lhe as muralhas. – Abater. esvaimento. demolir as fortificações de uma praça. “desguarnecer um objeto daquilo que o protege ou que lhe é essencial. desmantela-se um exército desfazendo-lhe a parte mais forte. quer de quantidades em geral”. em geral. subtrair. e até uma casa. dividindo-o. “O bombardeio estragou enormemente a cidade”. quase o mesmo que “minguar ou fazer minguar”. – Descontar é propriamente “deduzir de uma conta”. “Descontam-se letras e outros papéis de crédito”. demolir grandes moles (rochedos. “É preciso abater do ordenado do mês o que corresponde aos dias da licença”. minuir. e por extensão: “abater de uma quantia uma outra que já foi paga ou que não deve ser paga”. consistindo apenas a diferença entre os dois em “poder subtrair aplicar-se somente a números”. destruir com fracasso”. “Carregando impetuosos. deduzir. ou mesmo destruir assolando”. “Tito arrasou Jerusalém”. Minuir é. ou os muros ou paredes de um edifício”. neste grupo. – Desmantelar é. deminuir. etc. “Que da soma maior do dote se descontaria todo o oiro. Tanto se desfaz um muro. instituições.. construções)”. Derruir (ou deruir) é “pôr abaixo abalando. – Estragar é “desfazer. como bem define Aul. definhamento. ou as cédulas do tesouro a recolher já sofrem desconto” (e não abatimento). e em sentido mais restrito é estragar. desmaio. “Já deduziu da nota as parcelas que estavam marcadas”? – Subtrair é. “Deduzam da nossa dívida a importância dos serviços que temos prestado”. portanto. como se desfaz um nó. privando-o de unidade de comando e de ação. aqui. – Arruinar é “estragar e reduzir a ruínas”. como se desmancha um muro. É. de tirar uma coisa da outra. – Arrasar é “destruir completamente uma coisa (um edifício. “Do total a que chegou suponho que é preciso deminuir alguma coisa”. uma cerca (isto é – se desfaz. depressão. um enredo. e deminuir (ou diminuir) é “fazer menor uma quantidade tirando dela uma outra quantidade”. portanto.

prostração. desânimo. – Definhamento. mas é mais lento e extenso. desalento. Desanima aquele que “deixa de sentir a indispensável coragem para vencer um embaraço. entregue inteiramente à dor. ao cansaço ou à fraqueza”. enfraquecimento. levanta-se Portugal como por um prodígio”. superar algum contratempo. – Depressão é o “abaixamento de forças produzindo abatimento do corpo e do espírito”. – Acabrunhamento é o “estado de fadiga. de energia”. ou sofrer alguma coisa”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 25 debilitação.. tédio e abandono em que fica um doente”. sim – só se dizem (como no entender de Bruns. – Acobardamento é a “depressão de ânimo. quebra de forças ou de ânimo”: “Os meus alquebramentos não vão até o extremo de desalentar-me para a vida”. tristeza. – Esvaimento (do mesmo rad. debilitação e enfraquecimento “exprimem também diminuição de forças (tanto tratando-se do corpo como do espírito)”. mas não chegou a feri-la de desalento para as coisas de arte”. o desalento. delíquio. – Prostração diz mais que os três precedentes: é o “extremo abatimento. desilusões.. ou por doença ou desgosto. um quase esmorecimento muito rápido. em que se fica sem ação. alquebramento. o remorso. opressão. Desesperação é “o auge do desalento” – diz ainda Bruns. – Esvaecimento será um desmaio “muito subtil. debilita-se. – Segundo Bruns. que não esteja sujeita a profundas debilitações em certas crises.) do espírito: desanimar e desesperar marcam fenômenos da vida subjetiva. – Desânimo e desesperação.. o que se imobiliza ou não tem regra na vida. “Só a morte porá termo a todo aquele acabrunhamento”. podem produzir definhamento em almas extremamente sensíveis. – Esmorecimento é quase desmaio. o amor. desalento. ou vencer um mal ou um sofrimento”. Análogas aplicações no sentido moral: a saudade. “não há esperança. – “Abatimento e prostração dizem-se do corpo e do espírito. O desânimo pode ser originado pela pusilanimidade: o desalento funda-se na experiência. etc. coragem. uma consequência necessária da crápula é o “enfraquecimento do espírito”. – Languidez é o “estado de fraqueza. mas decerto que se não dirá: – “desmaiou subitamente”. doenças ou miséria”. Quanto a desânimo e desalento diz Bruns. “A doença alquebrou-a. desânimo. que “podem confundir-se: ambos significam falta de ânimo. pois a ideia de subitaneidade já está contida em desmaiar. “Não foi propriamente desmaio o que ela teve. e o desânimo à perda da coragem.. produzido por dores físicas ou morais. porém. instantâneo”. perda de lucidez “em consequência de desfalecimento”. de coragem. O organismo que se extenua por trabalho. mas um simples esvaecimento”. por trabalhos. vanescere) é o desfalecimento produzido por exaustão (e tanto no sentido moral como no físico).. desesperação (desesperança e desespero). – Desalento é a falta de forças (físicas ou morais.”. – Desmaio será um “desfalecimento súbito”. definha. desânimo e desesperação dizem-se só do espírito”. . – Desfalecimento é a “perda de forças e de coragem”. etc. produzida por medo. – Abatimento é o “estado em que fica uma pessoa por efeito de grande dor ou choque (se é moral) ou de doença grave ou prolongado sofrimento físico”. fortaleza moral. refere-se melhor à perda da esperança. principalmente morais) produzida por trabalhos. “Daqueles sessenta anos de esvaimento. – Alquebramento é “diminuição. “É o desânimo que nos arreda de encetarmos a empresa: é o desalento que nos induz a não continuar o que não nos deu os resultados que esperávamos obter”. o que não se nutre convenientemente enfraquece. Desespera aquele que “perde de todo a coragem e a esperança”. por falta de coragem para arrostar um embaraço. Pode-se esmorecer subitamente.

o que se exonera”. ou em cuja posse se estava legitimamente”. – O mesmo deve acontecer a quem recusa. ou sem nada mais ter que ver com a sorte dela. – Largar e abandonar significam “deixar. “Vou desobrigar- -me contigo da promessa que fiz”. ou de um intento. ceder. ou de um cargo que não mais lhe convinha ocupar. quem renuncia (como quem resigna) despoja-se do cargo ou da coisa renunciada. “O pobre está desobrigado de dar esmolas”. “O príncipe abandonou a sua causa”. – Rejeitar é propriamente “lançar de si com veemência ou ímpeto”. livrar-se ou exonerar-se de um dever”. 31 ABDICAR. Recusar diz menos que rejeitar: é “deixar de receber. “Como é que se recusa entrada a um moço daquela ordem?” “Ele recusou tão bom emprego”.. Desesperança é apenas a falta. resignar. é “abrir mão de. Rejeita-se uma proposta desonesta. “F. – Desistir de. – Desobrigar-se é “isentar-se da responsabilidade. igualmente como aquele que abdica.. Desiste-se de um emprego. esquecendo-a.) “desistir de alguma coisa em favor”. ou encargo ou tarefa pesada.. ou em proveito de alguém. quem larga como que “deixa fugir ou escapar a coisa largada”.26 Rocha Pombo É preciso distinguir as três formas – desesperação. de permitir. renunciar. desobrigar-se. devendo notar-se que é sempre voluntariamente que se resigna. no posto”. “deixar o que se tinha começado. “Renunciai instintos ignóbeis” (Mont’Alverne).. pôr de lado alguma coisa. – Demitir-se é “deixar de permanecer no cargo. “Esaú cedeu a Jacob o seu direito de primogenitura”. “A desesperança de quem viveu sem pensar no destino pode chegar à desesperação de morte horrível. a privação de toda esperança. Quem rejeita não está de posse ainda da coisa rejeitada.. desistir. a angústia em que fica quem perdeu a esperança. . mas sugere a ideia de que se “alivia de peso. “despojar-se de alguma honra ou algum proveito antes de tempo”. “Abdica o rei o seu trono em favor de outrem. – Abdicar é “renunciar. desiste-se de um pleito. que aquele que renuncia pode ser a isso forçado. atormentada de todos os desesperos do precito”. uma ignomínia. como se rejeita uma coroa. em favor ou proveito de alguém. o desvario de quem se desengana de alguma coisa. “Como não lhe atenderam aos reclamos. rejeitar. Desespero significa mais a raiva. mas certamente não se pode abandonar e largar. alguma dignidade ou alto cargo”. largou o ofício de órfãs” (deixou-o livre. no entanto.. ou não se pode dizer que se larga depois de haver abandonado. exone- rar-se. Desesperação é a aflição. mas quem resigna entende-se que mais propriamente renuncia do que abdica. “Desobrigou-se facilmente da grande missão”. ou algum cargo”. – Ceder é (como diz Aul. desesperança e desespero. – Exonerar-se é também demitir-se. Pode-se largar e abandonar. ou “não querer coisa a que se tem direito. de aceitar”. “Renunciam-se (e não – abdicam-se) riquezas”. Mas. e.” – Renunciar é “depor voluntariamente”.”. demitir-se. recusar. ou a função em que se estava”. largar. “tirar de si por vontade ou a contragosto”. – Delíquio aproxima-se de desmaio e de esvaimento: é o estado em que fica uma pessoa que desfalece “como se se dissolvesse”. abandonar. ou vago). mesmo de loiros”. “Ele se desobrigaria do pacto se nós o maltratássemos”. “Não há fortes que não tenham seus delíquios na vida”. pois quem abdica ainda usa do seu direito de passar a outrem a dignidade abdicada. desistir da obrigação que se tomara. quem abandona “como que foge ou se afasta da coisa abandonada”. é “abdicar em sentido amplo e geral”. demitiu-se ele próprio daquelas funções”. – Resignar é íntimo convizinho de renunciar e de abdicar. Quem se demite põe-se fora do lugar em que estava: quem se exonera liberta-se de um trabalho.

exalçar”. ventre. profundo. 27 pança. mas. etc. pandulho. – Bento designa a benção da Igreja. Bendizemos a hora. O segundo. e mesmo como significando “ato de benzer. significa “lançar benções acompanhando-as de preces e ritos apropriados à coisa que se benze. a pança ou o pandulho”: não com a mesma propriedade – “encheu o ventre”.. Distinguem-se de abdômen e de ventre por significarem mais particularmente o estômago. pança são plebeísmos a que se dá sentido semelhante ao de abdômen. abençoar) que. bendizer pode referir-se também a coisas. O que se diz de bendizer aplica-se a louvar. bentas com grande pompa na Igreja. significa “deitar a benção. – Do verbo latino benedicere formaram-se – diz Roq. O terceiro. bendito. significa propriamente “dizer bem. benção. Benzer não é hoje usado senão para indicar as benções eclesiásticas ou supersticiosas. benzer e abençoar) torna-se mais sensível nos particípios destes verbos. abençoar (ou abendiçoar). benzimento. Benzimento é também ato de benzer. “O bojo de um navio. benzer. etc. “Os pais abençoam os filhos para que sejam felizes”. da vela de uma embarcação”. – Ventre é também abdômen. abençoado. entranha. se pode dizer no sentido moral e de louvores. a parte para onde vai o alimento quando é ingerido. porque louvar é mais “fazer elogios” do que “dizer bem e dar graças”. de atividade funcional”. nem sempre são abençoadas do Céu nos campos de batalha”. Dizemos – a benção do pão.) “é o nome científico da cavidade que encerra os intestinos do homem. “O justo bendiz (ou louva) ao Senhor tanto na prosperidade como na desgraça”. benzer. Dizemos vulgarmente: “encheu a barriga. bojo. etc. – (entre bendizer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 32 ABDÔMEN. Todas as nações foram abençoadas em Jesus Cristo. e não – louvamos. Daí bojo com aplicação ao volume desabalado do abdômen. e às vezes abençoado. pandulho. “alargamento ou saliência” – diz Aul. pedir bens e prosperidades para alguém”. de um tronco de árvore. Esta diferença – diz Roq. Bendizer e abençoar confundem-se muitas vezes na significação extensiva de “desejar. significando “amplitude. e bento no sentido legal e de consagração. uma família. 33 ABENÇOAR. – Entranha (ou entranhas) diz também ventre. já não . grandeza de volume de forma arredondada”. “As bandeiras militares. benzer. louvar. pois. – em forma convexa: “O bojo de um frasco. água benta. Nossa Senhora é bendita entre todas as mulheres. sensível. Pão bento. – Bendito ou abençoado se diz para designar a proteção particular de Deus sobre uma pessoa. não já de abençoar. em vez da de volume. e nunca – “encheu o abdômen”. têm entre si alguma diferença. ou benções”. “Os sacerdotes benzem tudo que é consagrado ao culto divino”. o instante em que nos vem alguma felicidade. extensivamente diz-se do vulto que essa cavidade apresenta exteriormente”.. bento. – Bojo é termo genérico. bendizer. uma nação. mas acrescentando-lhe ideia de “íntimo.”. de uma parede. louvar. O primeiro. com esta diferença: louvar se diz em relação a Deus. – Vê-se. barriga. e também “abençoam a assistência ao fim da missa”. a santos e a homens. dada pelo sacerdote com as cerimônias do costume. de um barril. posto que concordem na ideia principal. – Abdômen (diz Bruns. – Também se sente a distinção nos derivados benção e benzimento (ou benzedura). “sugere ideia de fecundidade... que bendito. isto é – “sugerem ideia de ventre volumoso”. Benção é tanto o ato de abençoar como de benzer. – três verbos portugueses (bendizer.” – Barriga. bendizer. como dizemos – a benção dos pais.

mas com a cabeça coberta. Nem sempre.28 Rocha Pombo se pode mais aplicar a cerimônias de culto.): o que. “Eu. introduzido. no entanto. a abertura que há entre o quício e a porta. por . dá mais ideia de violência e de grandeza. é uma racha aberta de propósito com instrumento cortante. não propriamente abelhudo. o espaço livre entre duas ou mais partes de uma coisa”. – Aberta é o mesmo que abertura. a abertura é artificial”. intrujão. mas o que “se mete com certa audácia naquilo que lhe não compete”. – Rotura é a “aberta deixada por um rompimento”. entremetido. – Racha é a “abertura por efeito de rotura” (Aul. Fisga é quase o mesmo que fresta: apenas fisga dá ideia de abertura feita por um corte ou rasgão. a gestos ou figurações de supersticiosos”. tomando atitude em questões que lhe não pertencem”. buraco. “Pelo vão de uma janela”. escreve Roq. cumprindo observar.. fizeram enormes furos. a água.). interstício. pois esta enuncia apenas o “claro de greta grande. e não dá ideia de proporções: tanto é buraco um rombo enorme feito através de uma montanha como é buraco o furo feito por uma bala através de uma parede. metediço. falha. – Quanto a greta. A greta e o resquício são naturais. principalmente rombo. A segunda. é “o espaço que fica entre duas partes de um corpo que se separam”. – Abelhudo é aquele que vive (como a abelha num jardim) “metendo-se em toda parte. A terceira. ou estreita: devendo notar-se: que fresta é das três a que exprime abertura menos estreita. – Fresta. intruso. no entanto. ingerido. greta. rotura. por uma fisga de roupa” (Herc. rigorosamente falando. discutindo negócios alheios. aberta. vão. – Se o buraco é muito fino. ordinariamente circular”. Benzimento ou benzedura ficou tendo aplicação quase exclusiva a “coisas de cabala. orifício. – Buraco é “abertura. além de grande força onomatopeica. – Frincha “dá ideia de fenda. furo.. mas a benzimento do fogo preferimos dizer – a benção do fogo. e fenda é exatamente o contrário – enuncia apenas a ideia de que se não acham unidas ou apertadas as duas partes de um corpo que se disgregam. fenda. de abertura longa e fina. pelo menos. racha. “frinchas da madeira”. O sacerdote benze o fogo. “As fendas que o sol fez no muro” (e não as frestas). fenda. taralhão. – Vão é “todo o vazio ou espaço aberto num corpo”. abertura. própria de dilatação ou contração dos corpos sólidos. resquício.” 35 ABELHUDO. oferecido. que sugerem. o óleo. – Furo e rombo designam “buraco. que mirava tudo. fresta. – Interstício é propriamente “o que fica entre duas coisas”. Este dá ideia ainda de rotura de grandes proporções. in- trometido.. Diremos: “Por uma fresta da porta mal fechada vi-a passar” (e não: por uma fenda). claro” e vagamente: “Frinchas da renda”. que abertura sugere ideia de que a racha foi “feita de propósito” (como nota Roq. passa a ser orifício.: “A diferença que existe entre a significação destas três palavras é bem fácil de notar.). fisga. é. ou no costado do navio”. “por um vão da floresta. A primeira. resquício. e por extensão qualquer fenda por onde penetra a custo a luz. ou da montanha. 34 ABERTURA. greta. fisga são muito semelhantes pela ideia comum. nem sempre se dá em relação a aberta.. é uma rotura natural. Poder-se-ia dizer igualmente sem grande impropriedade: “. abertura e resquício. rombo. – Entremetido é. saber de tudo que se faz. nem mesmo nos casos em que se aplica o verbo benzer.” Rombo. ou dos efeitos do calórico. “As bombardas fizeram rombos enormes na muralha. rotura feita com mais ou menos violência. mas para ouvir o que se diz. frincha.

explanado. o de amplo é exíguo (ou constrito). e “em frase chula quer dizer – aquele que tem um modo de tratar com termos. De toda a família é o mais forte. “Taralhão é o que se entremete onde o não chamam” (Bento Antonio). largo direito. e portanto contra o direito”. velhaco. – Metediço é como se se dissesse oferecido: é o que “vai ou se mete em toda parte mesmo sem ser chamado”. e a este trato ou modo de falar.). largo. vasto. extenso. 36 ABERTO. diz que amplo. E uma vez que taralhão e gordo se equivalem. enquanto que oferecido diz também alguma coisa de dissimulado. notado que o termo se toma metaforicamente por gordo. ainda nela há muito espaço desocupado. porque chamam de taralhão à pessoa gorda. “O assunto é muito amplo para ser tratado em meia hora”. afetando graça. . é ampla quando nela folga tudo o que contém. suponho que o sentido passou de um ditado ao outro. lhe chamam taralhice. e o epíteto se aplica a pessoas afetadas. ao passo que taralhão parece o mais inofensivo. e de significação mais vaga.” – Amplo ajunta à noção de dilatado a ideia de “vasto contorno. O antônimo de largo é estreito. conversar ou obrar. a propósito de taralhão. e em sentido lato dá ideia de “tão desmedido e aberto como se fora feito por arrasamento e assolação”. dilatado. lato. é vasta quando as suas dimensões são extraordinárias”. com muita propriedade. o entremetido é abelhudo: só a inversa é que é menos exata. (Aul. é o que é amplo – largo e comprido – extenso. valendo-se de astúcias e perfídias”. desfruta. desconfia-se do oferecido. escreve João Ribeiro na última série das suas Frases feitas: “Atribui-se o ditado “Nunca o vi mais gordo” ao imprudente que. Distingue-se de oferecido porque dá mais ideia de atrevimento e desaso. “Casa espaçosa”. Diz – “o que está desimpedido. “O entremetido parece sempre demasiado gordo”. Diz Bruns. com ridiculez. – Aberto é talvez o mais genérico do grupo. – Ingerido (que se confunde bem com inserido ou enxerido) é o que “intervém em questões ou negócios pretendendo resolver ou adiantar o que é de competência alheia”. intrusas e ridículas. e mais ainda: é o “tipo manhoso e importuno que persegue com lábias. Assim. ou fim oculto em meter-se onde não foi convidado a ir. livre de obstáculos. explora. – Introduzido é mais que oferecido. por exemplo: larga jurisdição. engana. larga liberdade. “Vasta campanha. familiaridade ou importância. e até que metediço: é o que “entra onde não deve entrar. – Largo é o que “só tem grande a largura”: muito menos. Repulsa-se o metediço. estirado. contendo muita mobília. Creio que por elipse se tirou da outra frase muito comum: “meter-se a taralhão”. – Intrometido é o mesmo que entremetido.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 29 isso. que abrange todas as dimensões. A propósito de taralhão. e os taralhões são pardais que engordam muito. – Vasto é mais do que amplo e espaçoso. ou pelo menos tendo algum interesse. da Acad. Largo não se poderia também. – Espaçoso é “o que compreende relativamente grande porção de espaço”. – Intrujão é ao mesmo tempo metediço e abelhudo. ou jocosos ou sérios. naturais ou afetados que o fazem ridículo. portanto. “campina dilatada e aberta. Bluteau já havia. O metediço irrita. desenvolvido. o oferecido aborrece. e em certos casos sugere ideia de amplitude: “Horizontes abertos”. de grande circunferência”. portanto. amplo. se entremete onde não é chamado. aplicar (como acontece em relação a amplo) em certos sentidos morais: não diríamos. – Intruso é o que “se põe nalgum lugar alheio.) “Com grandes poderes e ampla jurisdição” (Dic. espaçoso. e com mais atrevimento que desaso”. que “uma sala é espaçosa quando.

38 ABERRAÇÃO. que é o mesmo que “até ficar satisfeito”. disparate. de extensão. “Falou à larga contra o governo”. destampatório. nem com tanta propriedade. e na acepção usual referem-se mais ao comprimento do que à largura. A gosto exprime “sem constranger-se”. desconcerto. à lar- liberdade”.. deixa-se a criança brincar à vontade. con- ga. à saciedade. com olhos extensos. diz mais.. a uma parte do continente explanada como imensa campanha a perder de vista”. “sem medir gastos”. longo exprime ainda mais particularmente a ideia de comprimento. desvairo. – Desafogadamente enuncia a ideia de “sem nenhum embaraço ou premura. portanto... ou “com fartura”: acrescenta a isso a ideia de “com alegria e voluptuosidade de sibarita”. igual.. – Extenso diz menos que amplo. “sem regular cuidados”. absurdo. claudica- . ou diz menos do que largo”.. vive-se à larga quando se gasta desregradamente. – Mas. largamente.. no sentido próprio. amplo. “Chegamos ali. “Dilatada campina. à grande”. – À farta equivale a “com fartura”. ou como senhora rica “que cuida mais da mesa que da fama”. vasto mar”. dilatados tempos”.30 Rocha Pombo vasto país. desrazão. além da ideia de amplitude propriamente. à farta. vasto. – Regaladamente diz mais do que “em abundância”. pois esta forma equivale apenas a “de modo amplo”. sem preocupações”. no entanto. – Dilatado diz juntamente o que “é longo. “Estão bem desenvolvidos os serviços da construção”. livremente. ou (como em semântica) de sentido ilimitado”.). ou se se tem com fartura o que é necessário. aberto”. Não diria decerto: “. extravagância. destempero.. – Folgadamente corresponde a “com largueza” (Aul. e aproxima-se de à saciedade. “Desenvolvido demais foi o discurso”. É de mais força que largamente. a gosto. despropósito. dilatado.. à vontade. príncipes”. desconchavo. À larga diz “em plena trassenso. folgadamente. Passamos regaladamente “quando passamos como. Diríamos indiferentemente longo ou extenso caminho. enquanto que à larga sugere ideia de “incontinência. despautério. mais desenvolvido que o normal”. sugere. fica-se a gosto onde não há cerimônia. “até mais não desejar ou não querer”. “Percorremos as formosas e latas veredas daquela região”. extenso. dilatados domínios. vive-se à farta se se não tem necessidade de calcular muito as despesas. 37 A BEL-PRAZER. fazendo-se mais convizinho de longo.. na acepção lata. – “Estamos em nossa casa a bel-prazer. e à saciedade se goza um prazer se não se deseja mais. Ninguém confundirá. desregramento”. error.. à regalona. – Explanado. diz “extenso. – À regalona diz ainda mais que regaladamente: significa “de maneira ostentosa. Estamos folgadamente onde nada nos aperta ou oprime. extenso. “Este vocábulo.. falta. estirado. vive-se desafogadamente quando se vive sem ânsias ou preocupações. desatino. – A bel-prazer significa “segundo a própria satisfação”. estas duas frases: “Falou largamente contra o governo”. aberto”. plano. Trata-se à regalona quem se trata como grão-senhor.” – Desenvolvido refere-se a uma grandeza que tomou proporções notáveis: “O menino está desenvolvido”. “sem apertos ou empecilhos”. “sem obedecer a escrúpulos”. ou pelo menos nem sempre – campo longo. “conforme é do nosso agrado”. erro. regaladamente. Camões disse: “Esperando com olhos longos o marido ausente”. “Não pudemos aguentar toda aquela estirada arenga”. – Estirado quer dizer “estendido. – À vontade quer dizer “como quiser ou desejar”. a “de largura. desafogadamente. – Lato é quase o mesmo que amplo.

ou cometeste aberrações”. portanto. equívoco.. ao modo de ver de todo mundo”. é como se disséssemos. é o que não está “no mesmo tom. de aprumo. e só se deve aplicar a deformidades e a erros extraordinários. como se apenas o bom senso.. e por isso aproxima-se muito de falta.. por extensão. Decerto que tratando de Lutero não diria o padre católico: “os absurdos”. LXXIX – que aberração era um termo de astronomia somente antes do começo do século XIX. persistência ou “reincidência numa série de erros”. é mais forte. e diz “absurdo. – Desconchavo é também o que “desgarra das normas. deslize. – Desatino é “falta de tino. verbo de predicação muito mais vaga. Aberração. aquilo que está “em colisão com a consciência”. ou dos princípios da lógica. – Destempero é extravagância “mais estrondosa e deplorável”. – Desconcerto é “disparate sem espírito. determinado. devendo considerar-se que parece inseparável da ideia de culpa. aplicado a fatos de psicologia. perder-se no caminho”. conquanto seja este menos forte nesta acepção. “uma extensão de erro”. ou melhor com a consciência vigente.. lares de absurdo. e não: “os absurdos”. transviamento da linha em que se ia. “Simples faltas que nem se podem ter por erros. flagrante. desacerto. – Despropósito é “dito ou ação fora de propósito.. – Despautério é forma popular de disparate. concreto”. não diria o professor ao aluno: “Disseste. patada. e mais: “erros de entendimento ou de juízo que de . ou mesmo os sentidos materiais bastassem para senti-los (contrassensos). ou do que se dizia. além de forma erudita. outros percebidos ainda mais prontamente. mas: “Disseste absurdos”. são erros de certa ordem. além de mais preciso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 31 ção..” – Error é. em certos casos. engano. poderia confundir-se com abuso: designa simples infração de raciocínio. – Destampatório é “extravagância ou despropósito descomunal”. uma acepção que o aproxima de absurdo. etc. descaminho. – Extravagância é “tudo o que se desvia das normas usuais do bom senso e da boa razão” (Aul. – Aberração3 significa propriamente o “ato de sair do caminho direito (aberrar). cinca. O que é absurdo ao sentir ou ver de uns pode deixar de o ser ao de outros. desvio. ou cometido estas aberrações”. que não se ajusta à ordem de ideias ou de fatos que se seguia”. descuido. principalmente no plural. “as aberrações do demônio”. Toma. – Desvairo (ou desvaire) será o desatino “leve e sem a graça do disparate”. – Erro é “tudo o que não se concilia com a razão. ou do que se tinha assentado”. comete às vezes umas tantas extravagâncias.. porque absurdo é o fato “em si mesmo. “contrário ao que é razoável”.). confusão produzida por desvio do normal”.. é destempero que chega a parecer excesso de doido. “F. de equilíbrio mental”. mas nunca chegou a tais destemperos”. ao passo que aberração enuncia a ideia geral de aberrar. – Disparate é desatino que tem “mais de graça que propriamente de doidice”. despropósito que não vale a pena de combater ou destruir”. ou em desacordo com aquilo de que se trata”. – Intr. uns percebidos quando colidem com o entendimento (desrazões). Desrazão e contrassenso são casos particu3 Diz Laf.. – Desrazão significa propriamente “contra a razão”. “Este homem tem perpetrado tais absurdos. pois este vocábulo enuncia “o que é contrário ao senso comum”. Dizemos também: “as aberrações do espírito humano”. – Contrassenso é o mesmo que “contrário ao senso comum. Mas entre absurdo e aberração deve notar-se pelo menos esta diferença facilmente perceptível: absurdo é termo genérico e que. Revendo um tema. mas. queda. descaída. lapso. quer dizer “o erro que comete quem se desvia das leis do espírito.

ou da direção em que se ia ou que tinha de ser seguida. palerma. já ele não sabia explicar tão frequentes equívocos. aburregado. matuto. – Patada é plebeísmo que significa “despropósito grosseiro. assentam mais propriamente a faltas de senso prático. truão. – Equívoco é menos que descuido: é o engano “cometido contra a vontade ou intenção de quem o comete”. aparvoado. abasbanado. ajogralado. e no sentido figurado designa o “ato de cometer erros por defeito de espírito. – Engano será o “erro ou a falta cometida sem culpa. asno. estupidarrão. significa “que se mostra besta. de espírito para agir”. estólido. bestiaga. lorpa. boçal. não tiveram mais desculpa os muitos enganos. embotado. estulto. apalhaçado. abobado. e que se refere à diferença notável marcada pela derivação. lerdo. como poderia parecer. palonço. ou que tem ares de besta”. asinino. pasmado. patarata. charro. jumento. apalonçado. queda. acaipirado. que descaminho é o “fato de tomar caminho errado. ignorante. simplório. Deslize é “ligeiro desvio da linha. tapado. papalvo. pateta. aplicável a cada um desses e o respetivo derivado. basbana. palhaço. aumentando àqueles a ideia “de ingenuidade ou inconsciência”. pato. caipira. bolônio. camelo. maninelo. ou “falta cometida por imperícia”. burrego. ingênuo. obtuso. – Desacerto é “erro ou falta cometida por irreflexão ou inadvertência”. bronco. patocho. que podiam passar como apenas claudicações censuráveis. de expediente na vida. – Lapso é quase equívoco: é engano devido mais à falta de memória que a desmazelo ou ignorância. e desvio é o “ato de mudar de rumo. patego. estes. idiota. Quanto a alguns do grupo há uma observação a fazer. aplicar-se a erros de entendimento. porém. bobo. basbaque. não devendo entender-se que este (o derivado) seja sempre. beócio. parvoinho. apalermado. aburrado. ou por falta de noção exata do dever”. papa-moscas. amatungado. em certos casos. mas. no entanto. pacóvio. – Descaída. lerdaço. palúrdio. em regra. acamelado. descaída é mais “deslize ou lapso que propriamente queda”. asneirão. parvajola. tolo. pataroco. abobalhado. Exemplo: “Repetem-se os lapsos. quadrúpede. alvar. chocarreiro. amatutado. camelório. rombo. imbecil. (Aul. abasbacado. viram todos como erros que logo tomaram o caráter de verdadeiros crimes”. aboçalado. depois. toleirão. mentecapto. ignorantão. burro. parvoeirão. erro brutal. pascácio. patau. tabaréu. Claudicação é propriamente o “ato de coxear”. – Cinca (ou cincada) é “erro de ofício”. apatetado. atoleimado. rude. besta. apataratado.) – Desvio e descaminho quase que se equivalem. aparvalhado. do reto caminho”. “Os seus deslizes nem são descaídas quanto mais quedas”. fátuo. parvo. alorpado. ou de perder o caminho certo ou direito”. – Todos estes vocábulos exprimem de comum a ideia de “falta de inteligência. bobório. bufão. estúpido. apenas uma extensa e atenuada do seu radical. maturrão. – Descuido é o “engano cometido por falta de atenção”. de graça para agradar. simples. mais por ilusão do que em consciência. boca-aberta. de vivacidade. sandeu. e por fim. ignaro.Vejamos: Besta é tropo conhecido que designa o indivíduo em que aparentemente se denuncia uma indigência de entendimento e uma índole obstinada semelhantes ao que parece ter o quadrúpede desse nome: abestalhado. Quer isto dizer que mesmo um indivíduo muito inteligente . notando-se. boto. jogral.” Podem. e inclui ideia de asneira agressiva”. deslize equivalem quase a claudicações: queda sugere de mais a ideia de culpa ou de pecado. e sempre sem as proporções e a gravidade que tem o erro propriamente”. enfatuado. apapalvado.32 Rocha Pombo 39 ABESTALHADO. néscio. conduta”. doidivanas.

explorar facilmente”. palerma. – Pateta designa indivíduo “desorientado e abobado”. Além de abobado e abobalhado. que é provincianismo algarvio. por fazer-se engraçado. que é forma erudita. – Patego é como se dissesse “pequeno pato”. – Palúrdio quer dizer “idiota. equivale a “bobo insolente. lasso. ou “que se assemelha a patarata”. fútil”. dá bestiaga. – Estólido. que significa “estúpido e sem préstimo ou valor algum”. disparates gaguejados a custo. parecendo. a de grande inépcia”. – Lorpa é o indivíduo “inepto. conquanto. – Palhaço significa mais – “bobo. patego. não figure nos léxicos. estúpido” – Lerdaço é aumentativo de lerdo. além da ideia de parvoíce. com idêntica significação. e revelando isso por inépcias. que é a mais usada. parvoinho” (pois parvajola é também forma diminutiva). Temos ainda: parvoeirão (aum. fácil de enganar”.. Dá apapalvado = “com jeito de papalvo”. ou melhor. pataroco. e que significa o mesmo que patego.) = “grande parvo”. patocho.) é o “indivíduo pesado. Parece dar-se o contrário com aparvoado (“feito parvo. – Palerma é o indivíduo “quase idiota e que parece ter tanta incapacidade para pensar como para mover-se”. enganar. – Patarata é “pessoa tola. – Apalhaçado = “que se faz palhaço”. impostora. modos e gestos de quase idiota. muito usado pelo menos em grande parte do sul do Brasil. O mesmo deve entender-se quanto aos outros do grupo que dão derivados. rude. mandrião. Notemos ainda que entre abobado e abobalhado é preciso fazer uma ligeira distinção: o primeiro quer dizer que parece bobo. “meio pato”. “tipo mais boçal e desfrutável que o bobo”. na Idade Média. – Camelório diz “quase camelo”. com jeito de parvo”). formas que pouco alteram a significa- ção que tem aqui. meio parvo”) e aparvalhado (“semelhante a parvo. – Parvoinho é simples diminutivo de parvo. uma forma diminutiva ainda mais acentuada de pato. – Lerdo equivale a “pesado. “que se faz de camelo”. se ostenta parvo. estúpido. era. estouvado. mais com esgares. Dá apataratado = “que se faz patarata”. – Besta. que se deixa iludir. que tem ares de bobo. (Aul. e parvajola = “que. e por analogia significa o “indivíduo pobre de espírito que procura divertir os outros. e o segundo. o jogral de corte. de Fig. mímica espalhafatosa. afetada. preguiçoso. lerdo no pensar e no agir”. diz melhor “o que não tem o discernimento. dando ideia do “indivíduo lorpa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 33 pode ser abestalhado (isto é – ter modos e ares de besta). – Basbaque é convizi- . ignorante que se mete a sabichão. ou palavras deturpadas e sem nexo. abobalhado = “que se faz de bobo”. como se sabe. Temos ainda alorpado = “feito. Dá apatetado = “com ares de pateta”. além de abestalhado.). Acamelado = “com ares de camelo”. o que é “leviano com petulância”. demasiado ingênuo. por figura. incapaz de esforço físico ou mental”. pretensiosa. – Bobo. – Bobório quer dizer “bobo a afetar compostura de gente sensata”. do que propriamente com discursos ou ditos graciosos”. – Patocho. a própria palavra pato. histrião por ofício do que propriamente idiota ou besta”. diz C. – Tolo e estólido são formações do mesmo latino stolidus: a forma popular. – Patau (que também poderia ser uma adaptação do francês pataud) sugere. ou parecendo lorpa”. curto de compreensão como criança. – Papalvo quer dizer “simplório. aliás. nem a compostura. graçolas charras. como outros muitos do grupo. – Pataroco é outro provincianismo algarvio. – Parvo quer dizer “pequeno de espírito. a medida do bom senso comum”. – Camelo (fig. temos ainda bobório. Do mesmo radical temos ainda: patau. Dá atoleimado – “que se faz de tolo”. abrutalhado”. maluco pretensioso”. Dá apalermado = “com ares de palerma”.

– Doidivanas é o “indivíduo sem tino. – Palonço equivale a “tipo sem vida. – Pascácio assemelha-se bem a “bobo. que fica parado e em pasmo diante de coisas que não entende”. Ainda assim. que “se atrapalha com a tarefa por falta de aptidão”. rombo é o que “não tem capacidade de raciocínio”. O idiota é desequili- . vaga como doido. bobo que faz o seu papel com certo aparato”. tonto. é aplicável ao indivíduo “inepto. ou de inteligência pesada.” Temos ainda: acaipirado = “com ares ou modos de caipira”. desconfiado e escuso. por um prejuízo dos atenienses tido como estúpido ou pouco inteligente). quase papalvo. – Beócio. estouvado. burro abobado. – Pacóvio é simplório da mesma família: “idiota e lorpa”. – Papa-moscas está dizendo tudo por si mesmo: “tão inerte. de boa-fé excessiva. que é imbecil. ou que inspira asco ou aversão”. é provincianismo algarvio. na acepção em que é aqui tomado. – Simples. bronco. – Abasbacado (ou embasbacado) = “que é ou se mostra como basbaque”. Bronco e rombo equivalem-se na significação de “estúpido. no entanto. no entanto. tão massa-bruta que as moscas lhe entram na boca”. bruto de senso. estraga-albardas”. – Rude significa mais “áspero. que tapado é aquele que parece ter o espírito “como que fechado para o mundo exterior”. segundo a origem do vocábulo (designa habitante da Beócia. e. rombo e tolhido. parvo. curto de espírito. grosseiro. falto de inteligência”: bronco é o que “não entende por defeito de faculdade aperceptiva”. rude. abobado”. pasmado e imbecil”. significa o mesmo que “ingênuo.34 Rocha Pombo nho de palerma: é o “ingênuo que pasma de tudo. sandio) equivale a “tapado. farsista. sem malícia e sem espírito”. – Bolônio é “indivíduo rústico e simples que se deixa enganar por todos” (Bruns. – Abasbanado = “parecendo basbana”. tipo desavisado”. É o mesmo que boca-aberta. – Simplório quer dizer – “despreocupado. por falta de estímulo”. é muito empregado com esta significação. – Néscio quer dizer “que nada sabe. – Basbana. obra. meio bobo. – Estúpido diz propriamente “rude. – Obtuso é o bronco “que se esforça” e “quebra a cabeça” inutilmente porque é “incapaz de compreender”. – Fátuo é o “ignorante tolo e presumido”. atabalhoado. – Estulto quer dizer “tolo.). – Maninelo é o “bobo que se mete ridiculamente a gostar muito de mulheres” (corresponde ao nosso brasileirismo coió). sem disfarce. crédulo demais”. no entanto. – Tapado. obtuso. inepto”. amatutado = “com ares de matuto”. – Truão é o “bobo vagabundo. que diz mais chalaças do que salta”. sem prática da cidade. – Tabaréu tem significação muito parecida com a do nosso caipira. segundo C. que salta e canta por dinheiro”. imbecil como basbaque”. rude equivale a “de difícil compreensão por desmazelo. ignorante. quase impertinente”. rombo e rude têm uma sinonímia quase perfeita. – Sandeu (do esp. é o sujeito que “não sabe ainda bem o seu ofício”. que fala. significando “estólido. de Fig. convindo notar-se. – Estupidarrão e toleirão são aumentativos de estúpido e tolo. de espírito entorpecido. desafrontado e chalaceiro”. – Boçal exprime “estúpido e bobo que repugna. que “faz figura ridícula por inépcia”: caipira é o “homem do mato. – Chocarreiro é o “bufão insolente. tosco do que propriamente bronco”. – Enfatuado (ou infatuado) é “o que se torna fátuo”. como pateta”. O tabaréu. – Idiota e imbecil equivalem-se. “maroto estúpido. desapercebido. – Apalonçado = à semelhança de palonço”. fora do papel que lhe cabe. extravagante. – Mentecapto é o que “não tem siso”. – Aboçalado = “que tem aparências de boçal”. o mesmo matuto. – Bufão é o “truão espalhafatoso.. imbecil”. idiota. Ajogralado = dado a jogral. – Jogral é o “bobo de praça”.

de sinceridade. e neste grupo. celeridade. ou o mais possível. – Ignaro exprime – “inculto. alvar. não ouve. chegar-se. decisão”. Tanto a idiotia como a imbecilidade podem ter como causa algum defeito orgânico do cérebro. – Matungo (brasileirismo do sul) no sentido que aqui tem. maturrão. candura e boa-fé que tocam a parvoíce”. – Charro é “gordo. Toma-se. amatungado. a palavra ignorante num sentido mais restrito. pelo menos da cultura comum”. – Aproximar-se equivale a apropinquar-se.. e designa o estado da mais crassa e vergonhosa ignorância: aplicada às pessoas é injuriosa. parecem a mesma coisa. por analogia. principalmente jumento – “o burro de carga. e. De burro. aproximar-se. isto é. acostar-se. se bem que pareçam dizer. que equivale a “pequeno burro”. e imbecil é “quase idiota. burro. e asinino. “falto de cultura.” – Chegar-se e achegar-se. o basbaque “não vê nem sente”. conchegar-se. Pasmado equivale a “falto de vivacidade. “não tem senso nem discernimento para distinguir coisas diferentes”. Tanto se diz: “abeirou-se do precipício”.. Qual é aquele que tudo sabe? Pois só aquele que tudo soubesse de alguma coisa ignorante. “chegar junto. sentido desfigurado do próprio. e por isso mesmo incorrendo frequentemente em enganos e caindo em ridículo”. jumento.. inópia intelectual. avizinhar-se. como “abeirou-se do amigo”.. Ignaro é “uma expressão pejorativa de ignorante. e diz-se com propriedade da plebe e povo rude. lerdo e inepto. Ingênuo é menos que alvar: significa “sem malícia como criança.: “Todo homem é mais ou menos ignorante”.. e não: “Apropinquei-me. ou que não tem a ciência necessária à profissão que exerce. aplica-se ao sujeito esbodegado. grosseiro. Alvar tem hoje. Jumento (assim como burro) é o mesmo que asno. toda a zoologia transfigurada: quadrúpede. São todos termos chulos empregados para significar. – Quadrúpede designa “sujeito. – E vem agora. alapuzado”. significando ambos “chegar perto”. para designar a pessoa que não sabe o que devia saber. completando esta fa- mília. asinino..”. além de inculto. sem agudeza de senso”. abrutalhado”. ingênuo aproximam-se. – Ignorantão é aumentativo de ignorante. que é “termo familiar que se aplica a um néscio que pretende impor-se como sábio”. É quase o mesmo que basbaque e palerma: apenas o palerma “parece não ver”. burrego. Dir-se-ia: “Aproximei-me pouco a pouco. – Abeirar-se diz propriamente “aproximar-se da beira”. ou que ignora as coisas mais geralmente sabidas. ou incapaz de esforço em coisas de espírito. Mas já uma dife- . que sempre se toma em mau sentido. à primeira vista. e “não vê. o pasmado tem o curto senso fixo num objeto. contudo. nem sente mais nada”. o asno que é afeito ao jugo”. “semelhante a asno” ou “que faz de asno”. Asneirão e asinino são meras gradações de asno: significando asneirão “grande asno”. asneirão. é menos atabalhoado. 40 ABEIRAR-SE. rentear. asno. e diz Bruns. sem nenhuma cultura intelectual”. aconchegar-se. ou ao lado de alguém”. acercar-se. inconsciente como o próprio instinto”. e amatungado = “feito matungo”. apropinquar- -se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 35 brado. matungo. abordar. encostar-se. bruto. temos: aburrado (ou emburrado) = que se obstina como burro”. segundo a etimologia. no sentido figurado. achegar-se. Maturrão será um aumentativo de matungo. parecendo que este último sugere “ideia de pressa. – Pasmado. e burrego. Sobre estes dois sinônimos escreve Roq. mas é tão fraco de espírito”. burro. defeito de aptidão comparáveis à bruteza do asno ou do quadrúpede em geral. e diz “quase imbecil. – Ignorante diz apenas “que não tem instrução”.

molestar-se. incitar-se. – Abespinhar-se diz. exasperar-se. – Enfurecer-se é “irritar-se até o furor. “irritar-se como as vespas”. “Abordamos o abismo”. para pedir-nos socorro ou proteção. flagrante. ou em círculo. ou “abordamo-nos na rua”. – Avizinhar-se diz propriamente “fazer-se vizinho. exacerbar-se. “Quando a caravana se avizinhava de Jerusalém. e também: “Renteamos com o acampamento. – Conchegar-se e aconchegar-se significam “aproximar-se reciprocamente (uma coisa ou pessoa da outra) de modo a ficarem unidas. enquanto que achegar-se pode ser empregado tanto com essa como com a preposição de. “acercaram-se do forte. enfadar-se. – Enraivecer-se. pelo menos. “zangar-se a todo instante e por qualquer coisa”.. aproximar-se bem”. atual. enfrenisar-se. – Acercar-se é formado de a + cerca (ou cerco) + ar. ou da árvore”.36 Rocha Pombo rença de sintaxe os distingue: chegar-se emprega-se só com a preposição a. – Abordar é propriamente “chegar à borda. e não: “conchegar-nos”. raivar). excitar-se. apaixonar-se. encolerizar-se. segundo a própria etimologia. arrenegar-se. irritar-se. e mais lidimamente com esta. – Acostar-se e encostar-se enunciam ações diferentes. com a mesma solicitude se juntaram. – Rentear = “passar muito junto.. enraivecer-se (raivecer-se. exasperar-se provocado por alguém ou por alguma coisa”. enfurecer-se.. Notemos que o prefixo a de aconchegar-se lhe aumenta uma ideia de ação imediata. – Irritar-se é “perder a calma. perder a razão momentaneamente. e mais por vício de educação que por temperamento”. pois até à força podiam conchegar-se. impacientar-se. – Irar-se é: “perder a calma. agravar-se. agastar-se. enquizilar-se (ou quizilar-se). enfurecer-se instantaneamente” (pois a ira dura menos ainda que o furor). amuar-se por qualquer coisa.” 41 ABESPINHAR-SE. aborrecer-se. ele apenas se pôs mais perto de nós. e não: “Encostamo-nos”. Não se confundem estas frases: “Ele chegou-se a nós” e “Ele achegou-se de nós”. No primeiro exemplo. tanto para agasalhar-se ou confortar-se como para resistir a algum mal”. Dizemos: “Eles se aconchegaram” querendo exprimir que duas ou mais pessoas.. tão próprio como: “Aconcheguem-se mais”. É preciso dizer: “Acostamo-nos à floresta ou à serra” (isto é – fomos até ficar muito junto à floresta ou à serra). “Renteamos o despenhadeiro”. esquentar-se. No segundo caso. encostar-se é “apoiar as costas a alguma coisa”. ao fim de alguma coisa. de propósito. pois este verbo não marca tão bem atividade e gradação como o outro. ou raivecer (ou ainda enraivar-se) equivale a “encher-se de raiva”. “Acercamo-nos dele”. ele se aproxima de nós como para amparar-se. – Enfrenesiar-se. tomar-se . exaltar-se. pelo lado”. enfadar-se. melindrar-se. e significa “pôr-se em volta. ou com ele”. anojar-se. embravecer (embravecer-se. magoar-se. enraivar-se. ou uniram: tanto não diz: “conchegaram-se”. – Zangar-se é quase o mesmo que “dar o cavaco”. irar-se. conquanto digam alguns lexicógrafos que se equivalem. desgostar-se.. “abordei-o”. Acostar-se é “juntar-se a alguma coisa pelas costas. “Queremos ou desejamos aconchegar-nos o mais possível”. rente”. embravear). zangar-se. vimos no céu. em torno de alguém ou alguma coisa”. estimular-se. indignar-se. ou frenesiar-se (também no Brasil – enfrenisar-se) é “zangar-se. “Concheguem-se mais” não é. assanhar-se. aproximar-se de súbito”. ou pelas costelas. Dizemos: “Acostei-me à parede” (isto é – “pus-me rente à parede”) – o que é muito diferente de: “Encostei-me à parede” (isto é – “descansei o corpo apoiando-me na parede”). em contacto. aborrecer-se como por impulsão súbita”. e tornar-se violento e impetuoso como os loucos”.

. seja bom. como neste exemplo: “Fundeou toda a frota na vasta baía. – Fundear significa “dar ou tomar fundo”. rude. ou irritar-se) à vista de sacrilégios. – Desgostar-se é propriamente “não ter mais o gosto que se tinha. Incitar- -se é mais vizinho de estimular-se: quem se incita mostra “vigor anormal. mostrando-se agitado e hostil. diz “fazer-se áspero. triste e desgostoso”. tirar para a praia”. por excesso de pundonor. ou. – Magoar-se é “sentir-se melindrado por alguma ofensa”. e pode bem ser que não revele a sua irritação por mais do que animar-se de disposições infensas. Pode-se dizer. violento”. e quer dizer “pôr em seco. – Impacientar-se é propriamente “perder a paciência. – Melindrar-se quer dizer “desgostar-se por motivos muito delicados. Quem se estimula contra nós é porque foi provocado ou importunado. ou do que é normal”. – Enquizilarse (ou quizilar-se) é mostrar-se menos que zangado: mais “indisposto por impaciência e antipatia ou quase aversão”. – Excitar-se. – Exaltar-se é mais do que esquentar-se: é “fazer-se mais enérgico e veemente do que convém. mas perdeu alguma coisa na acepção comum. distinguindo-se deste em sugerir a ideia de “desgostar-se como por fadiga”. – Apaixonar-se é “sair do estado normal por exaltação de algum sentimento. mostrar-se sentido por ofensa”. ou de grandes pecados. – Assanhar-se é “ficar agitado. ou por afetação de melindre”. surgir. ou mesmo simples desprazer”. sair da serenidade habitual”. – Esquentar-se é “exaltar-se um pouco. – Exacerbar-se. ficar insofrido. – Arrenegar-se equivale a “zangar-se maldizendo e blasfemando”. e à tarde ancoramos a nossa nau mais junto à terra”. varar. apor- tar. quem se excita é como quem “se irrita despertando da sua calma habitual”. – Ancorar equivale a fundear lançando âncora” (Aul. – Aportar diz precisamente “tomar porto. feroz como bruto irritado”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 37 de rancor violento e brutal. ou em presença de alguma coisa que se tem por indigna”. – Varar também só é aplicável a pequenas embarcações. ancorar. abordar. – Encolerizar-se é “ir ao extremo da ira. quase assanho. chegar. e sugere a ideia de que foi ofendido ou provocado aquele que se encoleriza”. arribar. – Enfadar-se é menos que aborrecer-se: é “quase amuar-se”.” ou “deixar de sentir o prazer que se sentia”. “ancorar” depois de “haver fundeado”. fundear.). ou seja mau”. devendo empregar-se. parecer exausto de paciência”. – Abicar significa propriamente (assim como embicar4) “dar com o bico (a proa) em terra”. em fúria ou alvoroço hostil”. do que aborrecido. ou “ressentir-se de alguma coisa desagradável”. fazer-se rude e quase furioso”. atracar. inquieto. – Anojar-se é “sentir-se incomodado. principalmente como pronominal: é “mostrar aversão ou repugnância. incitar-se e estimular-se equivalem-se com pequena diferença. – Agravar-se é “fazer-se grave por desconfiança ou aborrecimento. portanto. O próprio Deus pode encolerizar-se (e também irar-se. – Indignar-se significa “encher-se de ira por algum motivo muito nobre. segundo a própria etimologia. – Embravecer. 42 ABICAR. – Aborrecer-se diz propriamente “sentir horror”. – Exasperar-se é “irritar-se em extremo. portanto. só tratando-se de pequenas embarcações. aborrecido. enquanto que amuar-se significa mais “desgostar-se por suscetibilidade”. ou embravecer-se (ou embravear) é “tornar-se bravio. e por ter sido instigado”. ansioso”. – Agastar-se é “enfadar-se ligeiramente. – Molestar-se é “mostrar-se ofendido por incômodo ou por importunação”. conduzir 4 Convindo não confundir com embicar = “encaminhar pela bica”.

ou sem ser esperado”. sorvedouro. no entanto. e caput “cabeça”) é um espaço vazio – diz Bourguig. tragando-as. ignóbil. e por extensão “chegar à terra ou ao porto. particularmente. só a ideia de “absorção para o fundo”. portanto. pois. escarpado. repugnante. abominando. são mais para temer os perigos. voragem. a ideia de tragar que predomina nesta palavra. chegar por via marítima” (Aul. dar com o bordo junto à terra”. por causa do escarpamento das beiras. subvertendo-as. entrar de repente. entrar no porto”. mas volta ao porto sem ter seguido a seu destino. no entanto. como se dissesse: “apresentar-se. – Arribar significa “ser forçado a tomar porto”. detestável. significando quase o mesmo que detestável. – Abordar significa propriamente “encostar ao bordo”. aborrecível (aborrível). e a coisa detestável é a que não pode . – profundo. vil. – Abismo (do baixo-latim abysmus. portanto. – Despenhadeiro diz propriamente “rochedo elevado e abruto” de onde há grande perigo em lançar-se alguém. “entrar num porto que não é o que se demandava”. abominoso. execrável. – “desses terríveis remoinhos formados pela 5 Abismo é do baixo-latim abysmus. Há. – Chegar é o mais genérico de todos os do grupo. A embarcação que sai. – “Precipício (do latim prœ “para diante”. despenhadeiro. por isso. traga- doiro. entre sorvedouro e tragadoiro a mesma diferença que se nota entre sorver e tragar. no qual se está exposto a cair. abominável. onde alguém é lançado como castigo. baixo. no sentido figurado.38 Rocha Pombo ao porto. báratro. odioso. É. tratando-se de navios: “entrar no porto ao cabo de uma viagem”. A forma culta é abysso (latim clássico abyssus. é mais forte e sugere a ideia da violência inevitável com que a voragem engole. 43 ABISMO5. de um rio. pego. e. sendo de notar que a coisa abjeta é a que repelimos como indigna de nós. 44 ABJETO. – Pego é a parte mais profunda do mar. – Atracar equivale quase a abordar: é “chegar e prender-se à terra ou a outra embarcação”. execrando. “procurar abrigo ou refúgio”. – Sorvedouro e tragadoiro confundem-se: este último. precipício. É “por isso que. ação de correntes opostas. emprega-se no figurado para designar o que atrai irresistivelmente para a ruína ou a morte inevitável”. as embarcações que a imperícia ou a fatalidade leva até onde alcança a influência do torvelinho. e quer dizer “alcançar o ponto demandado”. onde. pois o remoinho pode também levar para os ares. repelente. indigno. ou da passagem quando se as quer evitar”. – Abjeto é o mais compreensivo de todos os do grupo. e que arrastam fatalmente para a profundeza. – Voragem (do latim vorago) “é o nome” – diz Bruns. desprezível. não chega – arriba. – Rodomoinho (ou remoinho) é quase o mesmo que sorvedoiro: não dá. de um lago. – Surgir é “aparecer.) parecendo aduzir à “noção de chegar a ideia de surpresa”. e da dificuldade da marcha quando se as circula. – Báratro era o precipício onde se fazia cair o criminoso de certos crimes em Atenas: daí a significação de “profundeza como a do inferno”. se emprega esta palavra para designar os grandes perigos de que muito dificilmente se pode sair e que só se descobrem quando já é dificílimo evitá-los”. rodomoinho. como este. do grego abussos = a + bussos “sem fundo”). correspondente de abyssus) significa propriamente aquilo “que não tem fundo” e onde desaparece para sempre o que chegou a cair. traga o que nela cai. a ser precipitado. A ideia principal que sugere esta palavra é a do perigo da queda.

. vil o que perde a estima dos outros e ainda a sua própria. “Note-se também que os católicos. enquanto os católicos dizem que ele apostatou do catolicismo. a avareza. se afasta com horror”. sem ser abjeta. não é por todos aplicado ao mesmo ato: o que é abjurar para uns é apostatar para outros. “A vida fora de Paris é detestável” (não abjeta). que nem ânimo tem para saber calar. que se fez para ser negado. que. – Execrável é o que “atenta contra lei sagrada”. São particularmente vis os vícios que desonram e infamam. e que por isso são tidos em nenhuma conta. é baixo. o que está cheio de abominação”. v. – Indigno aproxima-se de ignóbil. que não exigem mais que um trabalho material e nenhum talento. ao passo que os protestantes qualificam esse ato com o verbo apostatar. Chamamos ofícios baixos aqueles que só exerce a gente miserável e abandonada. – Execrando é “o que merece maldição de todo mundo”. a coisa abjeta deixaria de ser detestável. repelido por todas as consciências como sacrilégio”. ou uma coisa. abjurou os erros do catolicismo. Abominoso é o que “contém. o mais vil dos homens é o que vende sua honra e sua consciência para adquirir dignidades e riquezas. segundo a própria formação – “digno de desprezo”. posto que sob diferentes aspetos. convertendo o homem numa besta malévola. porém. Chamase vil o “exercício que se tem por desprezível em razão de ser sujo. significa propriamente – “que inspira horror. apostatar e renegar escreve Bruns. Os católicos dizem que Henrique IV de França abjurou o protestantismo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 39 ter a nossa sanção moral. Convém ainda advertir que abjeto ajunta à noção de detestável a ideia de baixeza. Entre nós temos o exemplo do padre Guilherme Dias. Todo vício é baixo e desprezível. – Odioso quer dizer – “que merece ódio”. o que “se condena.. 45 ABJURAR. e muito vil o que as sofre contente. pode ser detestável.. que causa aversão”. porém chamamos particularmente baixos aqueles que supõem falta de vigor e de energia. como algumas ocupações mecânicas. porém. Baixo é o que por cobardia sofre injúrias de outrem. Note-se. O descarado adulador. e é dos mais vagos do grupo. renunciar. – Ignóbil diz propriamente – “sem nobreza. – Aborrecível. “F. converter-se. Um indivíduo. que o verbo abjurar. – Vil e baixo também se aproximam muito. feroz e brutal na sua execução. apos- tatar. – Repugnante é vizinho de repelente: é “o que se repulsa como coisa nojenta”. são “palavras que apresentam a ideia de desprezo. Baixo é o homem que abate a sua dignidade. como costuma suceder na embriaguez. – Abominável é “o que é digno de condenação como coisa ímpia e nefanda”. segundo os protestantes. ou aborrível. grosseiro e vil”. g. e aplica-se ao que é baixo e desprezível. desprofessar. Abominando quer dizer – “que se há de abominar. Segundo Roq. que empregam o verbo apos- . É mais forte que execrável. abrenunciar. se detesta. que “afronta o nosso sentimento religioso”. por seu interesse e com o fim de fazer fortuna por meios indecorosos. – Repelente oferece alguma coisa de comum com detestável e abjeto. é um poeta detestável” (não abjeto). como. – Desprezível significa precisamente. podendo-se entender que reúne o valor destes dois: é repelente o que “se detesta ou repele com asco”. nem instrução. que não encerra ideia depreciativa. ou a coisa da qual não queremos saber. portanto. – Sobre abjurar. trair. e não é recebida por nós. feroz e estúpida.. Em caso algum.: Abjurar (do latim abjurare “negar com juramento”) é renunciar solenemente à religião que se tem seguido e que se reputa falsa. renegar. baixo de condição. e entregue de ordinário a gentes tidas por infames em seu proceder”.

que sai do seu grêmio.: “Abnegação diz mais que desinteresse. abandona.). lhe dão. de- sambição. – “consiste a amputação em cortar um membro superior ou inferior: amputam-se os braços ou as pernas. segundo a própria formação. e não a que se deixa. de aceitar. – “Em linguagem cirúrgica” – diz Bruns. – Desprofessar é neologismo aproveitável e perfeitamente legítimo: diz. Quantos traidores ficam preferindo de coração. ou escola filosófica) e fosse combater a antiga – esse. detestar afastando com horror”. – Renegar é ao mesmo tempo abjurar e apostatar “passando a ter ódio à coisa renegada”. amputação. ceder um ganho lícito. Desinteresse diz-se do que é material: é desinteresse vender por baixo preço (com pequeno lucro). a opinião. e não a convicção. causa. desprendimento. devendo subentender-se que aquele que renuncia abandona apenas a velha crença. Abjurar diz propriamente “jurar contra alguma coisa.. ou do seu partido e vai para outro. etc. lançando-a fora do espírito. diz Bourguig. podendo ainda continuar a tê-la em respeito. ou um ateu – não se poderia dizer que apostatou: sim que renunciou. O sujeito que desprofessa o seu culto pode passar a crer só consigo mesmo o que já cria. na fé. “deixar de crer. 47 ABNEGAÇÃO. sim. pois mesmo aquele que trai o seu Deus. abrenuncia-se o espírito do mal. o seu culto. princípio. escola. de exercer em público. de que apostatou por uma outra coisa. Pode-se renegar sem trair: e a inversa também é admissível. o demônio. abrenunciar significa “negar. e que leva a passar de uma religião reconhecida falsa para uma religião considerada verdadeira”. por conveniência própria. Além disso.40 Rocha Pombo tatar. nem sempre a renegará necessariamente. – Quanto a abnegação e desinteresse escreve Bruns. O desinteresse cessa onde principia o interesse próprio. isto é. – Sobre converter-se (que se aproxima de abjurar). o sentido de ser o interesse. – Renunciar é aqui convizinho de apostatar. e dele se diz com toda propriedade que apostatou. é um apóstata. deixando apenas de continuar a fazer confissão pública da sua crença. interceder em favor de um inimigo. e até de consciência. a sua causa. o principal móbil que leva à mudança de religião. faltando à fé jurada com os da grei”. ou sem intenções hostis a respeito da coisa renunciada. – Abrenunciar é mais forte que renunciar. etc. “deixar de professar”. um indiferente em matéria religiosa. altruísmo. sem mágoa. de ter na conta em que se tinha”. 46 ABLAÇÃO. desinteresse. Abrenuncia-se a vida ímpia em que se andava. quando se emprega este termo. põe longe de si a coisa (o princípio. um erro sacrílego em que se vivia. mas aquele que apostata é como o trânsfuga. e ficasse sem nenhuma crença. Quem apostata deixa.: “Converter-se marca simplesmente uma mudança que se operou nas crenças. a crença. não assim os membros das outras religiões”. a abnegação não tem limites. de “dar testemunho. arriscar a saúde velando duran- . tem-se em vista a religião que se abraça. De um sujeito que tivesse deixado a sua religião. como vimos. desapego. A ablação consiste em extrair de qualquer parte do corpo uma parte mórbida: faz-se a ablação de um quisto”. sem ódio. Este diz apenas. de reconhecer formalmente. a sua seita. isto é. a coisa traída. Um sujeito que se passasse para uma religião nova (ou para outro partido. Henrique IV converteu-se ao catolicismo.” Quem abjura afasta da consciência a coisa abjurada. desamor. renunciar a uma herança em favor de um parente pobre: é abnegação ceder o que nos é indispensável. – Trair neste grupo aproxima-se muito de renegar: é “negar ou protestar com perfídia.

” Tanto se limpa com água. como com óleos. Limpe-se ele primeiro (ou lave-se) das acusações que lhe fazem”. ou a coisas a que nos tínhamos afeiçoado”. “Tais amarguras dir-se-ia que te abluem a alma”. Purgar é tornar puro fazendo expelir o que há de impuro no que se purga. – Apurar diz também “fazer puro separando fezes. anular. E mesmo: “De uma certa quantidade de calda apura-se (não – purificase) tantos quilos de açúcar”. purificar. o ar. ou de coisas estranhas. no entanto. revogar. lavar. acrisolar. Desapego. diz “fazer limpo. a decisão com que se renuncia a grandes bens. a coragem estouvada com que se afronta um mal. limpar. mediante qualquer processo. ou aplicando-se a coisas morais: “Limpamo-nos de culpa e pena”. A fermentação purga o mosto. – Abolir significa “declarar não existente. etc. verificar o que há de essencial nalguma coisa: e nesta última acepção não se confunde com purificar. Purifica-se o espírito. proscrever. ab-rogar. limpo). – Desambição e desamor não fazem mais do que marcar a perfeita antonímia em que ficam com os respetivos radicais. Os ventos rijos purificam o ar. como se purifica o sangue. a água. muito judiciosamente: “Nestes entra o radical puro. expurgar. mas – “de um negócio. – Desmacular é neologismo perfeitamente admissível. – Altruísmo é o nome moderno da velha virtude cristã do amor do próximo. e figuradamente “tornar puro aquilo que se manchara. e não – purifica”. Também é usado figuradamente. e diz. acendrar. Tanto se apura como se purifica o açúcar. “A chuva lava o ar”. de um esforço alguma coisa se apura. E em sentido translato também se usa: “Aqui (no Purgatório) – disse-me o patriarca – lavam-se almas”. Sobre estes três verbos escreve Bruns. derrogar. Não se implantam liberdades onde não se expurgam erros”. mas. antiquar. – Acendrar é “limpar e fazer brilhante como os metais polidos”. – Acrisolar é “purificar como se apura em cadinho ou crisol”. Desapego não é. de uma discussão. desfeito. tornar puro”. nota-se no vocábulo ainda outra: a de uma causa que penetra no objeto impuro para o modificar e devolver-lhe a pureza primitiva. aptidões.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 41 te noites consecutivas o amigo doente”. cassar. Expurgar é tornar completamente puro o que ainda não se havia purgado ou purificado de todo. pelo menos quando é certo que a pessoa que se apega mostra mais vontade e esforço em apegar-se do que mostraria em prender-se ou deixar-se prender. “Naquele horrível sacrifício a mísera se desmaculou do nefando pecado”. – Limpar é o mais genérico do grupo. “Lavam-se as mãos”. tratando-se de qualidades morais. ou mundar (de mundus = puro. segundo a própria etimologia. Purificar é tornar puro. além dessa ideia. parece mais forte. segundo a própria formação. etc. . suprimir. – Mundificar. o coração. Quase que só se usa no sentido figurado. mundificar (também mundar). ou com cinza. 49 ABOLIR.” tirar a mancha ou as manchas”. desmacular. invalidar. – Abluir diz aqui propriamente a ação de “fazer puro como as coisas sagradas”. apurar. infirmar. pois. – Lavar é “limpar com água”. – Desapego e desprendimento dizem quase a mesma coisa. senão a “facilidade. purgar. – Purificar (como purgar e expurgar) exprime a ideia geral de “fazer puro eliminando impurezas”. – Desprendimento é a “indiferença com que se vê um perigo. o pouco caso com que se vê passar uma felicidade a que se tinha direito”. substâncias estranhas”. extinguir. 48 ABLUIR. deduzir. e sugere ainda a “ideia geral de desmisturar. ou com preparações. é “fazer livre de impurezas. Quase que só se usa hoje em sentido figurado.

pois que a diferença que se quer ver entre eles é quase convencional. ou a resolução que se tomara. não seria perfeitamente lídimo dizer: “Mais hoje. ou não tinha começado a produzir efeito”. Por isso ab-rogar se diz em referência a uma lei ou a um decreto que a autoridade competente deixou sem efeito e substituiu por outro: derrogar deve aplicar-se menos a toda uma lei do que a uma ou algumas disposições dela. mas em certos casos não se poderia empregar um pelo outro. fiança. Emprega-se tratando-se de leis. – abonação é a ação de abonar. instituições. a ação de declarar “não vigente”. Na fórmula legislativa: “Revogam-se as disposições em contrário” não seria permitido empregar o verbo derrogam-se. isto é. caução. pôr de lado parte de alguma coisa”. e. é quase o mesmo que anular. 50 ABONO. e tanto se emprega tratando de leis. havia de abolir-se. quando muito. ou a anular. cortar alguma ou algumas partes delas. costumes. e tanto se emprega tratando-se de leis. porém. – Infirmar é “tirar a força. costumes. De uma lei não se diz cassada. de uma sentença. Ninguém diria. o decreto ou a sentença anulada. usos. arras. e desta mesma o art. de um princípio jurídico ou filosófico”. e com certa razão. parece apenas mais ativo e mais forte do que o prefixo de. – Abono é o próprio ato de assumir alguém por um outro uma certa responsabilidade moral. alguma coisa contra o direito. “como se não existisse”. o vigor de uma lei. é “prescrever por falta de aplicação”. “A nova lei ab-rogou a lei tal. – Anular diz propriamente “tornar nulo”. . ao passo que para suprimir basta o ato supressório. costumes. ou uma infração essencial invalida um contrato. de dar segurança pelo caráter ou pelas aptidões de uma pessoa.”. mas significa também “eliminar. e sim: “.. com esta diferença: supõe-se sempre um ato de autoridade que anule: o que não se dá quando se trata de invalidar.42 Rocha Pombo apagado”. sinal. etc. De um decreto que ontem ou há poucos dias se publicou e hoje se deixa sem efeito. hi- poteca. mas ab-rogada. como de instituições.. penhor. portanto. por exemplo: “O decreto. atenuar ou diminuir a força de uma lei cortando-lhe uma parte”. Aplica-se em regra nos casos em que a lei.. Dizemos: “A lei de 13 de maio aboliu a escravidão”. – Extinguir significa também abolir. coisas. e... e sim: “. Uma circunstância ignorada ou imprevista. ou estava inquinada de algum vício. isto é – não se faz indispensável que em lugar da disposição suprimida fique vigorando disposição nova. O prefixo ab.. mas só o juiz competente pode anulá-lo”. – Suprimir é mais genérico e menos técnico que derrogar. não se dirá ab-rogado. mas decerto que não diríamos: “A lei tal aboliu um cargo no ministério tal”.. – Revogar é quase sinônimo perfeito de derrogar: significa. ou a lei tal aboliu tal repartição”. – Proscrever é “declarar excluído.” – Ab-rogar e derrogar confundem-se de ordinário. ou “sem valor”.. fatos de linguagem. – Cassar é propriamente “declarar sem efeito o decreto que se tinha publicado. melhor do que este. tinha algum senão. portanto. isto é. mais amanhã havia de extinguir-se a monarquia”. impostos. tantos já foi derrogado por lei ulterior”. pediu-lhe abono. etc. tratando-se de leis – “excluir. etc. abonação. com esta diferença: é só uma nova disposição que derroga a outra. Do mesmo.. segurança. extinguiu. – Antiquar é “deixar cair em desuso”. mas que não havia tido aplicação ainda. É antônimo de confirmar. cancelado por ato público”. modo. – Invalidar significa “tirar o valor”. senão cassado. Neste caso empregaríamos o verbo suprimiu. “F. garantia. como de pessoas. enquanto que derrogar exprime com mais propriedade “deixar sem toda a força.

falhar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 43 mas compreende-se que em casos tais não vale só a abonação de um parente”. – Aborígene e autóctone confundem-se de ordinário. juratória. Quer-se dizer.: “A primeira palavra é o gênero a que pertencem as outras como espécies. ou não se sabe se seria possível afirmar a autoctonia daquele que é o mais antigo habitador da península”. parecendo que a diferença consiste apenas em ser o primeiro “escrito e formal”. Só. etc. malograr-se. 52 ABORTAR. diz o mesmo quase que sinal. antes de terminar o prazo em que a garantia cessa. segundo Bruns. A pessoa que a tal se obriga chama-se “fiador”. escreve Roq. chama-se indireta. Apenas natural acrescenta à noção a ideia de incultura. ou que foi o habitante mais antigo que nele se encontrou (de modo que pode ser até adventício no país onde foi encontrado): enquanto que autóctone deve ser o povo ou o indivíduo que apareceu. – Segurança é propriamente “garantia moral”. em linguagem científica. “O ibero é o aborígene da Espanha. “O preço de um objeto vendido sob garantia é devolvido ao comprador se. até a espécie humana – no próprio país onde se encontra. gorar. ou de cumprir seu dever no caso em que ele o não cumpra. judicial ou legal. e confunde-se com abonação. e quanto ao autóctone desta parte da América nada sabemos até agora de positivo”. Hipoteca é a obrigação de bens de raiz por alguma dívida. na escala antropológica. e significa “filho do país. nativo. autóctone. hipoteca e fiança. – Quanto a caução. próprio do país”. Fiança é a obrigação em que alguma pessoa se constitui voluntariamente de pagar por outra quando este o não faça. em linguagem jurídica se dá à caução diferentes nomes. e significa qualquer meio de assegurar a outrem que havemos de cumprir nossos deveres ou os ajustes que com ele fizemos. segundo as diferentes relações em que se a considera: pignoratícia. ou na própria raça”. dada pelo próprio interessado que se obriga. por isso. ou por um terceiro que responde pelo cumprimento da obrigação.. mas decerto que não é aborígene senão o selvagem que aqui encontramos. – Penhor é o móvel que se obriga ou empenha ao credor para segurança de uma dívida. – Íncola é o que “habita um país que não é o do seu nascimento”. penhor.). – Nativo = oriundo. – Originário = que “tem origem no próprio país. 51 ABORÍGENE. que subiu. e que dá direito ao credor de pagar-se por eles.: “Abortar é não chegar a realizar-se por causa de um defeito intrínseco ou por uma força estranha o . Se a garantia é feita por outra pessoa que não o próprio comprador. origi- nário. fracassar. Mas a diferença entre eles marca-se bem neste exemplo: “O filho de europeu nascido no Brasil é indígena. que indígena é o mesmo que natural. se chama centro de criação é que se encontraria o legítimo autóctone. no que. pode ser direta ou indireta. fideijussória. natural. o objeto não corresponder às condições devidas: é a garantia direta”. – Aborígene é o povo que se considera como o primitivo num país. – A garantia. e até estes dois com o terceiro do grupo. mas quanto ao autóctone da península nada sabemos. portanto. que se formou. – Quanto aos quatro primeiros do grupo escreve Bruns. ou nascido na própria terra onde vive”. hipotecária. isto é. ou “que é próprio do lugar do nascimento (Aul. Pode ela ser consensual. indígena. segundo as disposições da lei. portanto. íncola. frustrar-se. – Arras. se não se cumprem as condições do contrato. – Sinal é o dinheiro ou a coisa que o comprador ou um dos contratantes adianta como garantia do ajuste que há de fazer.

moderar. é “fazer brando”. baía. – Enternecer é tornar mais do que brando: é “fazer tenro. adormecer. de intensidade conveniente”. – Calheta é um braço de mar ou de rio “apertado entre duas pontas de cer. entrando por boca estreita e alargando-se no interior”. moderar o ímpeto. – Adoçar diz propriamente “fazer doce” (como adocicar equivale a “tornar mais doce. aprazível. – Adormentar é diminuir ou “suspender momentaneamente o movimento. meio doce”). os sofrimentos morais. – Abrandar. – Falhar é “não produzir o efeito desejado. – Abra.. abonançar. não ter bom êxito devido a causas alheias: malogra-se uma viagem quando um acontecimento nos impede de partir. suavizar. falham esperanças. recôncavo. Falham planos. (É o que se chama no interior do Brasil igarapé.). como fracassam grandes negócios planeados. Fracassam conspirações. sensível. “fresco. – Moderar é “diminuir movimento.). Gorar é não ter bom resultado aquilo em que fundávamos boas esperanças: uma empresa. isto é. a sensibilidade – como que adormecer. reduzir a menos. angra. conter em certos limites”. 54 ABRANDAR. – Temperar é “pôr em grau de força. – Angra é “um braço de mar.. diminuir as proporções”. ampla e pacífica. – Fracassar é “falhar imprevistamente. ou quando uma notícia nos obriga a retroceder depois de a ter principiado. terra”. O pai dirá que as suas esperanças se frustraram”. temperar. Também se chama furo ao pequeno canal que une duas porções de água maiores. – Abrigada (ou abrigo) é “qualquer porção de mar manso (resguardado de certos ventos) onde os navios se podem refugiar contra tormentas”.44 Rocha Pombo impedir: aborta a conspiração malplaneada. abrigada (abrigo). – Serenar é “fazer sereno. falham cálculos.. – Amenizar é fazer ameno. – Golfo é porção considerável de mar que entra muito pela terra.” – Atenuar é “fazer mais delicado. esteiro. de movimento. calheta. segundo Bruns. Malograr-se é não vingar. é. serenar. frustrar-se de todo e produzindo sensação”. – Suavizar é “fazer mais suave. duro. enseada. golfo. “diminuir a intensidade do que é demasiadamente ativo” (Bruns. que aliás é mais preciso e mais forte. – Lagamar é “recôncavo mais vasto. – Esteiro é um estreito braço de mar ou de rio que penetra nas terras. suave. dócil. uma abra alongada pelo interior da terra”. e aquela de que o governo chega a ter conhecimento. isto é – o igarapé mais estreito ou menos franco à passagem de canoas). adormentar. como num rio.. “tanto na costa. 53 ABRA. amenizar. isto é. tirar o que há de áspero. atenuar. a ação. Frustrar-se é não obter o resultado que até certo ponto se tinha o direito de esperar: um filho inteligente frustra as esperanças do pai quando abandona o estudo pelo vício. Suaviza-se a voz. enterne- lagamar. segundo o próprio radical. – Enseada é “grande porção de água aberta. comovido”.. mitigar. forte. apaziguar. delicioso. – Baía é “grande porção de mar que penetra na costa. mas que não penetra demais na costa”. e que sendo pouco profundo só dá curso a pequenas embarcações. onde as águas como que se espalham penetrando nas terras”. como as campinas florescidas. intenso nalguma coisa”. e “cuja abertura é ordinariamente bastante larga” (Aul. por muito útil que seja. há de gorar se o público se não capacitar da sua utilidade. acalmar. adoçar. aplacar pouco . a dor. – Recôncavo é “pequena enseada e metida mais para os fundos de uma baía ou de um golfo”. não suceder como se esperava” (Aul. reduzir força.). o lugar de bastante fundo que de qualquer modo está defendido do ímpeto das águas e dos ventos”.

pôr de acordo”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 45 a pouco”. comburente. “Como esta música ou esta voz lhe mitiga tantas dores. estabelece uma gradação ascendente no valor destes três adjetivos e dispostos nesta ordem: caloroso. Não se diria com propriedade. pode aumentar ou diminuir”. abrasear e esbrasear. – Carbonizante significa propriamente “que reduz a carvão”. 55 ABRASADOR (ou abrasante). vermelho e crepitante como brasa”. queimar-se. está no mesmo caso de abrasante: vale por um superlativo de quente. quando se desenvolve a chama. etc. isto é. – Sobre arder. a emoção. e ajunta à noção de abrandar a ideia de “agradar.” “Não há nada capaz de mitigar-lhe aquela saudade”. ca- seguinte: cálido é o que tem naturalmente um alto grau de calor. na acepção que tem aqui. a moderação sendo constante: o que não se dá com acalmar. abrasar-se e queimar-se. – Abrasador (ou abrasante) significa propriamente “que reduz a brasas”: no sentido figurado diz. que tem referindo-se ao tempo. a ideia de ser a calma completa nem duradoura. e se manifesta à simples vista. ou que abrasa”. segundo Bruns.. fazer cessar a tormenta” (Bruns. – Comburente quer dizer “que produz combustão. inflama-se. o que de si mesmo é quente. queimante. – Ardente. Nem deve este adjetivo ser usado. Bruns. a violência. abrasear = “fazer da cor da brasa ou pôr em estado como de brasa”. ou cuja temperatura. deixa supor que a agitação. porém. a violência.: “Explicam estas palavras os diferentes graus pelos quais pode passar um corpo combustível desde o instante em que se lhe ateou fogo até que foi inteiramente consumido. por exemplo: “a sopa está cálida”. candente. pelo contrário. – Acalmar. in- loroso. arder. incinerar-se. considerados como tempestades da vida. em moderar há significação reguladora. no entanto. tem cabida ao falar das calamidades. ardente. inflamar-se. cálido. – Candente se diz daquilo “que de tão quente parece ou branco ou vermelho”. – Cálido e quente aproximam-se bastante. com o valor de cálido quando se diz: “clima quente”. como “sol abrasador”. a rudeza. Abrasar significa “reduzir a brasas” (sentido natural).. Quente é o que “pode ter mais ou menos calor. – Caloroso define-se pelo próprio radical. carbonizante. ardente. devendo notar-se o flamar-se. – Mitigar é moderar o rigor. “é fazer diminuir a cólera. Também se diz: “sol carbonizante”. determinada por ação estranha. desencadeou-se depois com mais fúria”. escreve Roq. ao mar. “que atua como o próprio fogo”. Efetivamente. etc. incendiar-se. conflagrar-se. ao vento. 56 ABRASAR-SE6. incendiar-se. o verbo não encerra. quando levanta 6 Há uma certa diferença entre abrasar. Quando penetra o fogo num corpo combustível. esbrasear = “tornar quase como brasa. dizemos que arde. antes. harmonizar. quente. pois.). que faz arder.. – Queimoso é o mesmo. e o segundo exprime propriamente “que queima”. com o verbo estar. e apenas menos forte que queimante. etc. queimoso. “que dias quentes”. Apaziguar diz propriamente “restabelecer a paz. portanto. dos infortúnios. a sua significação é a mesma nos dois sentidos: serenar. Emprega-se. cáustico. consolar”. abrasador. – Cáustico e queimante dizem quase a mesma coisa: apenas o primeiro aplica-se para significar coisa ou droga que “destrói o tecido orgânico como se fosse fogo”.. Dizer que a idade acalma as paixões não significa tanto como “a idade modera as paixões”. podem recrudescer: “o vendaval que acalmara (que ficara menos forte) ao amanhecer. “tão quente que parece queimar como o fogo”. . a agitação. – Abonançar – “fora do sentido reto.

dificuldades de vida.. – Encurtar é “diminuir distância. pouco mais ou menos com as mesmas diferenças”. esconderijo. asilo quer dizer: “lugar de refúgio. Abrevia-se um prazo. diminuir em todas as dimensões. e antes disso. e até saudades. escreve Alv. “Asilo é derivado do a privativo. restam somente os resíduos incombustíveis. Tanto pelo fogo ordinário. é apressar. Diminui-se tanto prazo. apesar de compacto. – Os quatro primeiros termos tomam-se no sentido figurado. “Vamos restringir todo o nosso esforço a nada arriscar em vão”. extensão. fazer menos demorado. arder de inflamar em que o primeiro designa a ação ordinária pela qual o fogo se apodera dum corpo e o vai consumindo. – Abreviar é “diminuir o tempo em que alguma coisa se há de fazer. roubar. e aplica-se particularmente às matérias líquidas e resinosas. a aflição etc.. fazer menor o que se supõe grande no comprimento”. o refúgio é um recurso contra a indigência. Pas. coito.. restringir. Pode abrasar-se um corpo sem formar labaredas: – tal é o ferro na frágua. e quando a força do fogo ou do incêndio devorou a matéria combustível e a reduziu a cinzas. tirar”. Rômulo fundou também um asilo no bosque entre o Palatino e o Capitólio. encurtar. como trabalho mental. Diferença-se. e o segundo designa a força com que a superfície deste corpo arroja de si o fogo que a penetra. homizio. – Incinerar diz propriamente “queimar até reduzir a cinzas”. reduzir. e segundo o seu verdadeiro sentido. despedindo chamas. resguardo. asilo. esforços. e do verbo grego sylan. guarida. aqui. se comunica aos corpos vizinhos. O incêndio supõe um grande fogo que. é o mais genérico do grupo. – Restringir é “tornar mais curto ou limitado como que apertando os extremos”. encurta-se um Ilinc lucum ingentem. – Diminuir. uma corda. e por isso figura em outro grupo. como pelo incêndio. que por isso se chamam inflamáveis. houve asilos só para certos criminosos. Cadmo fez edificar um asilo para todo gênero de delinquentes. caminho. caminho. está todo repassado dele e feito brasa. colher o que é demais. aplicando-se tanto no sentido moral como no físico. e ainda depois.] O asilo é. quando o corpo que deu alimento ao fogo. Os descendentes de Hércules fundaram em Atenas outro asilo como o de Cadmo.46 Rocha Pombo labareda e se propaga com rapidez e fracasso. destruir completamente pelo fogo”. encaminhar com mais presteza uma solução”. et gelida monstrat sub rupe [lupercal. do qual faz menção Virgílio nos seguintes versos: diminuir. se queimam os corpos quando. resumir”. abrasa-se. e diz propriamente “fazer menor”. que significa “levar. Usa-se frequentemente no sentido translato. valhacoito. queimou-se. 57 ABREVIAR. uma haste. refúgio. – Conflagrar é “pôr inteiramente em chamas. pois. acolhida. “Restrinja os seus gastos. 58 ABRIGO. acolhimento. como se reduzem aspirações. a decisão de um caso ou de um negócio. de onde ninguém pode tirar os que se acolhem nele”. incendeia-se. e tomando ala faz rápidos progressos. quem Romulus [acer asylum] Retulit. reduzir um prazo. portanto. depois de consumido o que dava alimento ao fogo. uma defesa contra a força e perseguição. amparo. ímpetos. Reduzem-se dificuldades de um negócio ou de uma campanha. – Sobre asilo e refúgio. uma proteção. – Reduzir significa neste grupo “fazer mais simples. Etimologicamente.. . aspirações. e tudo irá melhor”.

hospeda e agasalha”.” em vez de: “. “Recolhida naquele soberano asilo. “Debaixo da árvore encontrou resguardo contra o sol”. em que têm amparo e defensão certa”.. da Ac... e busca num porto amigo um asilo fugindo à força superior que a persegue.. O couto é. Acolhida é.. e onde. e hoje quase todos parece que preferem empregar acolhida. ou uma cortina. 59 ABRIR. entreabrir.. deixa passagem apenas a um raio de sol ou a uma réstia de luz. – Acolhida e acolhimento confundem-se muito. como asilo. E também: “Por mais pobre e humilde que fosse. distinguindo-se apenas em não dar. “Tem boa acolhida em nossa casa um amigo que nos procura para pedir-nos um obséquio. fácil esconderijo. – Valhacoito é o “lugar seguro onde alguém se refugia e abriga contra o que teme ou procura evitar”. Aul. portanto.. – Homizio é “valhacoito procurado por criminoso perseguido da justiça”. oferecia-lhe segura acolhida”. entreabrir. ficavam fora e livres dela. – cit. (Cardoso) “Por isso Tertuliano chamou judiciosamente à sepultura asilo. Por uma janela soaberta mal se revezaria uma voz ou se distinguiria um vulto. em vez de: “. – Entreabrir é “abrir pouco e com cuidado. – Coito (ou melhor. “o próprio ato de receber como quem protege e acarinha”. Descerra-se uma porta. proteger de qualquer modo. pois. acolhida”. – Dispostos em outra ordem (descerrar. – Resguardo é “defesa. ou na casa de alguém”.. “A casa de um antigo discípulo lhe serviu de abrigo no último período da vida” (Aul. a coitadinha dispensou o acolhimento que lhe quiseram fazer naquela casa”. couto. pois.. do latim cautum) era a propriedade ou lugar “onde não podiam entrar as justiças de El-Rei”. de garantia por lei ou costume.. Até em mestres se encontra confusão. – Soabrir é “abrir muito pouco e instantaneamente”. soabrir. es- cancarar.. proteção momentânea contra algum mal ou perigo iminente”. se o afastamento que se operou no pano da cortina. mas de modo a poder-se ver e falar para fora. – Amparo significa o ato de acolher e sustentar ou apoiar. em vez de: “. – Descerrar é apenas “desunir o que estava unido ou cerrado”. Chega-se a dizer: “A delegação de tal país teve boa acolhida na corte do imperador. Busca a nau um refúgio em qualquer porto fugindo à tempestade que receia. Emprega-se em sentido figurado para designar “abrigo ligeiro.. “O assassino buscou ou teve homizio seguro no sertão. da morte”.. “A eles (montes) se acolhem (os homens) como a castelos e lugares. a ideia de segurança.).. abrir. (Vieira) – Abrigo é quase o mesmo que asilo. o “lugar seguro onde alguém se oculta fugindo a perigo. sempre escuro. “Os bandidos têm o seu valhacoito lá no fundo da floresta”. foi afinal ter na casinha do pobre fácil resguardo contra a tormenta”. onde alguém procura abrigo fugindo às vistas de pessoas a quem tenha de dar contas de alguma coisa”. ou a perseguição”. tem o melhor ou o mais cordial acolhimento o parente que não víamos de muito e que chega de surpresa”. como se vê neste exemplo: “A religião oferecia-lhe seguro acolhimento das lutas mundanas”. – Guarida é propriamente a cova ou covil onde as feras se recolhem contra a chuva ou a tormenta. por uma por- . soabrir. escancarar) marcam estes vocábulos uma perfeita gradação de sorites. ou de fora para dentro”. ou na folha da porta. a igreja é um asilo para o criminoso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 47 O hospital é um refúgio para os pobres doentes. onde alguém se furta a olhares de estranhos”. e acolhimento é “o modo como se recebe. teve bom acolhimento”. as pessoas que se recolhiam. deu-se toda a Deus”. e sagrado. mesmo nos casos em que só caberia acolhimento. “Perdido no campo. (Dic..) – Esconderijo é “lugar.. descerrar.

“desunimo-nos ao chegar à vila”. por exemplo: “desunir os bons dos maus”. e significa. parcéis. recifes. e na acepção lata é “separar definitivamente”. “Fazem tudo por divorciar-me do meu partido”. 61 ABROLHOS.” Separa-se o trigo do joio. – Desligar é antônimo de ligar e diz. ou as partes de uma coisa umas das outras. escancara-se a gargalhar. ou um lado do caminho do outro lado.48 Rocha Pombo ta entreaberta um homem não passaria. uma gaveta. baixos. mesmo que nunca tivessem sido unidas. pois o verbo desunir só se deve aplicar quando se trata de coisas que tinham sido enlaçadas. mas veria distintamente quem estivesse dentro da casa. cachopos. Abre-se uma caixa. apertado”. baixios. “separar o que estava ligado”. separam-se os bons dos maus. – Escancarar é abrir completamente. separar uma da outra margem. Divorciam-se colegas. “desunir. divorciar. fare- lhões. apartar. afastar. coisas que haviam sido incorporadas ou ajuntadas. ou no seu lugar.. por exemplo. desunem-se. o mais possível. desunem-se famílias que viviam em perfeita união. ligadas intimamente. banco. já não se emprega o verbo abrir. desprender. desligar. separar “o que estava unido. – Desmembrar é desunir ou “separar por membros”. separar. separar por sentença. associadas. – Quanto às quatro primeiras do grupo. amigos que se separam para sempre. escolhos. ligado. por essa abertura desimpedida. – Desatar é “deixar livre uma coisa que estava presa por nó”. – Desunir é antônimo de unir. e onde rebentam as ondas. unidas”. eliminando os embaraços que se acharem entre uma e outra. cada qual para o seu lado. Tanto que não se diria. desunir. Abre-se uma janela para falar com alguém. Mesmo quando se abre um caminho não se faz outra coisa senão. separa-se a Igreja do Estado: em regra. diz Roq. aqui. – Desprender ainda exprime com mais força. desmembrar. em geral. tratando-se particularmente do vínculo conjugal. alfaques.. e que impedem ou dificultam a navegação. Abrir é “remover alguma coisa da abertura que está ocupando (fechando) de modo que deixe passar. Cachopos são penhascos que saem fora d’água. – Apartar é “impedir que continuem. – Divorciar é. quase sempre junto das costas.. um pacote de biscoitos. é “afastar uma coisa da outra”. duas ou mais coisas. desunem-se mesmo povos que eram amigos. alguma outra coisa”. separa-se uma coisa da outra. e de modo mais preciso. soabrem-se os lábios num ríctus imperceptível. que “os autores as têm confundido. portanto.. (Aul. destruindo portanto a unidade ou o todo desmembrado. “de lés a lés”. duas ou mais coisas ou pessoas. 60 ABRIR. restingas. – Abrir. porque em tal caso já não se trata só de “separar as margens”. Desune-se um casal (separando um do outro esposo). soltar. a ideia de soltar.. e é só neste sentido que se diz – “abrir caminho”. desatar. “Nunca se divorciou da religião de seus pais”. – Afastar é “pôr uma longe da outra as coisas que se desuniram ou separaram”. – Distanciar é “afastar muito as pessoas ou coisas que se separaram”. sirtes. – Separar diz propriamente “pôr. Dizem os etimologistas que cachopos é corrupção de scopuli “rocha”. Abrolhos é voz usada em sentido transla- . distanciar. segundo a lei”. portanto. – Todas estas palavras designam acidentes ou situações no mar (ou nos rios).) Abre-se a boca falando. abre-se uma porta para que alguém entre. Em referência a caminhos de ferro. – Soltar enuncia a ideia geral de “libertar coisas que estavam juntas ou presas umas a outras”. sendo elas distintas e indicando coisas diferentes. entreabrem-se os lábios a sorrir.

pode-se subir”. “a escondida intenção de levar-me à forca”. – Alfaques. mas o parcel tem pouca altura. ocul- to. cobertos de água. escondido. – Absconso e abscôndito não são apenas. Alcantilada é... – Íngreme é “menos inclinado. secreto. um monte. e tanto pode aplicar-se a um cume de monte como a uma encosta que seja tão íngreme que pareça levar como verticalmente ao pino do monte.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 49 to para indicar aqueles cachopos que formam pontas como a planta chamada abrolhos ou estrepes. aprumado. – Recifes (ou recife. íngreme. escreve Lac. pois não seria próprio dizer: “os escondidos desígnios de Deus”. conserva alguma coisa da sua função de particípio. Uma ladeira. mas com a circunstância de serem desiguais e muito fundos. Este diz precisamente “posto fora das vistas. ainda empregado como adjetivo. uns contíguos à terra. às vezes. por exemplo. onde se corre. que são baixos iguais. Deve aplicar-se particularmente a coisas materiais. São menores que os cachopos. e pelo perigo que perto deles correm os navios. Mas absconso e abscôndito já não seriam aplicáveis propriamente senão em sentido moral ou abstrato. andam assinalados nas cartas marítimas”.. – Quanto às palavras que se seguem. mesmo muito íngreme. formas eruditas de escondido. por espaço de muitas milhas. ou contíguos à costa. e designa o fundo do mar onde há pouca altura. 62 ABRUPTO. sem dúvida. – Abrupto difere de alcantilado e de íngreme em ajuntar à noção de “flanco a pique a ideia de áspero.. recôndito. no que se distinguem dos parcéis. retruso. 63 ABSCONSO. e por isso ali tocam os navios. – Empinado é o menos preciso destes cinco vocábulos. ou pelo menos não seja fácil encontrar”. – Absconso . clandestino. de rocha ou de coral. “as grandes verdades escondidas ao vulgo”. inclinado. risco por causa da pouca altura de água. como parece. e têm a circunstância de prolongar-se. ou menos a pique do que alcantilado. e de impossível ou muito difícil acesso. – Sirtes são baixos de areia movediça por entre penhascos. – Ladeirento = “disposto como em ladeiras. encoberto.: “Baixos é palavra genérica. por isso que se espraia largamente (chamando-se também por isso esparcelados). Escolhos são aqueles penhascos que estão debaixo d’água e não se descobrem bem: donde resulta serem mais perigosos que os cachopos. Baixios (prolongamento de baixos) são bancos de areia em que. – Restingas são baixos de penhascos. abscôndito. empinados acima d’água. empi- nado. “a encosta nua de um monte que fica vertical. e por onde não se poderia subir ou descer sem grande esforço ou sem artifício”.. – mesmo porque escondido. alcantilado. mas pode navegar-se.. O alfaque é breve e fundo. ladeirento. quase empinado”. – Banco é “cômoro ou elevação mais ou menos extensa de areia. Mesmo de uma ladeira pode dizer-se escarpada. escarpado. para onde a corrente arrasta as embarcações. escabroso”. onde não há fundo para navios de grande calado”. – Escarpado diz “íngreme e difícil de subir”. – Aprumado = “talhado a prumo”. outros formando ilhetas: e por sua grandeza. Farelhões são “escolhos pontiagudos. conforme a origem arábica. de modo que não seja possível. ou de areia. ou quase a prumo. e por isso perigosíssimos”. e também arrecifes) designa “rochedo ou série de rochedos pouco destacados da água e perto da costa embaraçando a navegação”. são baixios ou bancos de areia ou de pedra. até a penúltima. não se pode navegar sem risco. se é tal o declive que torne penosa a decida ou a ascensão. por falta de altura de água.

“Lá esteve tímido e retruso. É agora tomada como enunciando a ideia de um excesso de poder político degenerando em dureza de mais rigor que o despotismo. os acordos secretos. as quais velam pela vida. diz ainda abstruso. é o caso omisso que o monarca faz das leis que deve respeitar: quando o absolutismo oprime. em Marrocos. as operações.. não”. devido à interposição de algum corpo opaco entre essa coisa e a nossa vista”. Quanto a estes dois vocábulos. porém. se estende ao despotismo. só porque governa como senhor absoluto. “O sol ficou oculto pela árvore ou pela nuvem. “O trabalho secreto dos conspiradores. as maravilhas secretas da natureza. O despotismo é o abuso do absolutismo.50 Rocha Pombo ajunta à significação de escondido. que é clandestino vem a ser secreto: este é lícito. porque fica “como em segredo e reservado a alguns”. escreve Roq. caudilhismo. tudo. recônditos e humildes nesta miséria”. ou a secreta vida das abelhas. não declaramos. o céu. a ideia de concentrado e profundo. humilhado. – Retruso diz “posto para o fundo. de onde pôde dar o bote certeiro”. autocracia. num canto da sala. aquele. “Nestes últimos tempos” – escreve Roq. militarismo. virtudes eminentes. esse poder é limitado por leis. não obstante ser permitida. como. repulsado à força”.. “O mísero ali ficou. dados ou feitos por um ministro”. haveres e liberdade de todos os súbditos. “Absconsos intentos da majestade em furor”. os cabedais ocultos no seio da terra”. retraído às vistas.. Deve aplicar-se a coisas materiais. e ainda às vezes negamos. depois esgueirou-se para um ponto recôndito do parque. ditadura. assim como abscôndito. – Secreto se diz do que fica mais que oculto. despotismo. Com o absolutismo podem conciliar-se intenções retas e benéficas. faltando à lei. – Clandestino é “o que é secreto e contrário à lei”. ou procurando violá-la sem que ninguém o conheça. “Ficaremos para sempre no sertão. até que passasse o perigo”. – Encoberto é o que ficou oculto. ou “a coisa que não podemos ver. o horizonte está encoberto. nem confessamos. – “tem-se dado tanto o nome de tirano como o de déspota ao rei absoluto. e é clandestina quando se verifica clandestinamente contra o expresso mandado da lei. e é clandestina quando se faz às escondidas. “O tempo. – Tirania é palavra que tem hoje significação diferente da que teve em tempos idos. chamadas leis do Estado. retirado muito para a profundeza”. Disto resulta que nem tudo o que é secreto é clandestino. e em certos casos figuradamente. as intenções ocultas do mouro. persegue e atormenta. Também se dá o nome de despotismo à forma de governo em que o monarca não tem de obedecer a nenhuma lei. o secreto processo.. Chamamos casamento secreto ao que. porém. – O absolutismo (diz Bruns. e podendo aplicar-se tanto em sentido moral como físico. oculto. 64 ABSOLUTISMO. – Recôndito e retruso aproximam-se. Os avisos. – Recôndito exprime “escondido muito longe. – Oculto é simplesmente “furtado às vistas” de qualquer modo. “O abscôndito espírito de Deus era sentido ali no oceano”. Secreta é uma junta quando secretamente se celebra. quer dizer. por qualquer motivo que nos é pessoal. nada disso. deixaram-nos sempre cuidadosamente encoberto aquele intento”.) “é a forma de governo monárquico em que o poder é exercido pelo soberano. .: “Uma coisa é secreta quando ninguém ou poucos a sabem ou conhecem. retruso e hostil. os ocultos desígnios da Providência. tirania. e chama-se clandestino quando o celebramos às escondidas sem observar as regras que prescrevem as leis canônicas. misterioso. por exemplo. além de oculto. O absolutismo é chamado autocracia ao falar-se da Rússia”. o sol. converte-se em despotismo.

quer. pode não o ser tanto no que toca à execução efetiva das suas ordens”. nem lhe façam observações. como quem se presume forte e ufano da sua força”. ou que se funda na supremacia da força armada. acima de contingências. – Irredutível apro- . resolve. – Categórico diz o mesmo que “precisamente definido. tomados num sentido restrito. pois. Imperioso equivale a “que se impõe. ou acidentes ou mudanças imprevistas. ou tomara uma atitude imperativa” e: “fez um gesto. e que lhe deem provas de deferência e submissão. seja legal ou de força. quando se diz que dispõe ou determina imperiosamente. imperativo. claro”. senão na aplicação delas. – Definitivo = “que explica. ponto secundário: o que ele quer é a execução efetiva e completa do que decidiu. pois ajunta à significação deste vocábulo uma ideia de excesso de orgulho com que se manda. atitude. permanece inabalável nos seus propósitos. parecer. não somente o opressor.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 51 o que é um grave erro. categó- rico. obriga aos demais a fazer o que não devem contra toda a razão e justiça. senão nos atos dos que governam. livre de embaraços de qualquer natureza”. – Em sentido amplo. dúvida ou contestação. declaração definitiva”. – Decisivo equivale a “que põe termo a toda dúvida. Quem é imperioso quer. “Opinião. déspota. – Militarismo é o sistema em que o poder político é exercido por chefes militares. definitivo. clama. peremptório. É mais do que imperioso. e déspota. ordena de modo que não deixa lugar a dúvidas ou observações”. Dizemos: “forma imperativa da lei. absoluto significa “fora de contraste. incondicional. ou que não muda de resolução”. se aprovam ou não a sua conduta é. inapelável. sobretudo. positivo. decisivo. exige. etc. tirano e déspota. escreve Bruns. Sentimos bem nitidamente a distinção destas frases: “fez um gesto. irredutível. intento. Tirano por conseguinte é o opressor. aquele em quem se reconhece um direito indisputável de mando. imperioso. que ordena. para o homem absoluto. ou de tal artigo de uma lei. – Caudilhismo é adaptação do antigo espanhol (de capdillo “capitão”) para significar o regímen político caracterizado pelo predomínio de chefes de bando em certos países da América. arrogante. senão o dominador”. ou uma corporação. não sujeito a contrariedade. Entre imperioso e imperativo só existe a diferença marcada pelos respetivos sufixos. e quaisquer que sejam as observações que lhe façam. – Ditadura é um regímen excepcional que se caracteriza pela concentração de todos os poderes políticos do Estado nas mãos de um chefe. ainda quando seja seu igual na sociedade. 65 ABSOLUTO. valendo-se do dito direito. basta ter presente que tirano é aquele que oprime a outro. – Sobre absoluto e imperioso. Quando se diz que uma pessoa. não na forma de governo. que não deixa lugar a dúvidas”. com exatidão a diferença que existe entre as duas palavras. – Arrogante é o que se impõe “com soberba e altivez. ou tomara uma atitude imperiosa”. Para compreender. determina ou dispõe imperativamente. quer-se dizer que ordena mais com arrogância do que com autoridade. terminante. que exige com império”. cabal. porque tão tirano e despótico pode ser o governo de um como o de muitos cônsules.: “Quem é absoluto quer ser obedecido. que é definitivo. sentido imperativo de uma frase” (e não: imperioso). extremamente exigente neste ponto. que o não contradigam. exprime-se que essa corporação ou pessoa tem competência e autoridade para dispor ou determinar. A tirania e o despotismo não estão nas instituições. e que. pretende que ante ele se observe uma postura respeitosa. que não admite réplica.

– Ábsono diz propriamente “que discrepa. portanto. ou que não se associa a outro som para formar harmonia”. ou que era preciso seguir”. completo”. Tanto quem escusa como quem tolera supõe-se que tem alguma superioridade sobre aquele a quem aproveita a escusa ou a tolerância. fica fora de hipóteses. – Terminante diz propriamente “que põe fim”. do grupo. Despacho. remitimos a dívida. desafinado. diz Alv. discrepante. ou do som conveniente”. – discrepante é. não se submete a continências. – Desculpar diz propriamente “relevar a culpa. Este verbo dá também a supor que a pessoa a quem se faz a remissão tem certas condições que a tornam credora desse benefício. direta do grego. ou em parte. e suspende a execução da justiça”. malsoante. destemperado. ou de redimir. perdoamos a pena. – Malsoante diz propriamente “que soa mal”. e dá prova mais de misericórdia que de justiça.” Entre remitir e anistiar há esta diferença. acabado. ou não tivesse sido perpetrado. remitir dá uma ideia de resgatar. discrepante. o mais próximo de ábsono: exprime não só destoante. ou a falta cometida”. Pas. convindo notar o seguinte: dissonante diz apenas “que não está de acordo com o som que se quer. tolerar. – Peremptório = “que completa e decide. Absolvemos o acusado. Confunde-se. – destoante é o que não condiz com o “tom próprio. anistiar. – Anistiar é adaptação moderna. de desarmônico. toado. 66 ABSOLVER. destemperado. – discordante é “o que se não põe ou não está fiel ao acorde. quer. de acordo com Roq. mas sugere ainda a “ideia de muito afastamento do som que convém ou da harmonia dominante”.: “A remissão é concedida por quem cede dos direitos que lhe competiam acerca de alguma coisa. tribunal inapelável. – Incondicional é “o que se não sujeita a condições. remitir. com outros do grupo: dissonante. é convizinho. acima de eventualidades”. discordante. discordante. deixar como se não existisse. descriminar. ou não faz acorde com outro som”.52 Rocha Pombo xima-se aqui de decisivo: diferençando-se deste em sugerir também a noção do grau de força ou de capacidade com que a coisa ou pessoa irredutível não altera o seu modo de ser ou de agir. discordante. decisão. desculpar. o crime político”. – Inapelável = “de que não há recurso. do que havia direito a exigir. “que não admite outra solução”. Perdoar é esquecer uma ofensa. renunciando a qualquer desforra. “imperativo”. de que se não pode apelar”. pensa. desafinado. Quem indulta ou agracia exerce função soberana. Remitir é desistir em todo. etc. pecados. agraciar. escreve Bruns. dívidas. – Desentoado é o que está “fora do tom próprio. – Quanto aos três primeiros destes vocábulos. destoante. – Desarmônico é o mais geral: exprime “que não faz harmonia ou acorde..: “Absolver é desligar o culpado dos laços que o prendiam. e tanto que. perdoar. ou a qualquer castigo. compete ao príncipe e ao magistrado. desen- indultar. desarmônico. portanto. não sujeito mais a dúvida ou a nova resolução” – Cabal = “pleno. – Indultar e agraciar dizem aqui mais particularmente “conceder perdão de crime de alta gravidade”. juiz. Remitem-se culpas. – Descriminar equivale precisamente a “absolver de crime”. dissonante. e significa “esquecer. terminante. 67 ÁBSONO. – Escusar e tolerar sugerem a ideia de “deixar que passe a falta sem puni-la”. que não está . não cede do que resolve. desarmonioso. que se afasta de outro som. escusar. destoante. ou com a regra estabelecida ou vigente”. só o soberano ou o órgão legítimo da soberania nas repúblicas é que anistiam. acerca de remissão.

a ideia de esforço. A consumação serve para a reprodução. a ideia do esforço com que se engole. Diremos que “o oceano engole (e não – deglute) a embarcação”. destacando porções”. Nos tempos coloniais dizia-se no Brasil “beber fumo”. e rigorosamente. deglutir. porque em absorver há. sem mastigar”. e significa mastigar e engolir . ou ao fundo”. Laf. ou de “deixar que vá ao estômago. – Consumir acrescenta à noção de absorver a ideia de “extinguir lentamente. que não tem harmonia. ideia de esforço para consumir separando por partes a coisa a absorver). pelo nariz ou pela boca. – Destemperado é o que desafina de todo. beber. No meio de um tumulto a palavra ponderada é desarmônica (isto é. – Sugar é equivalente de chupar. O morcego chupa o sangue aos outros animais. – Tragar é “beber aos tragos e tomando bem o sabor.).). o fumo. o ar. com a significação que têm aqui. chu- char. por tragar ou aspirar. consumir. engolir. –” Devorar é “tragar. tragar e comer escreve Roq. Sobre consumir e consumar diz Bourguig: “Consumar e consumir. – Comer é quase o mesmo que consumir. pois não se supõe que a esponja faça esforço em chupar a água.” Só se aspira matéria gasosa. Distingue-se deste por incluir. – Desafinado exprime “que não está no tom próprio. rapidamente”. julga os dois verbos como quase perfeitos equivalentes. e o segundo a de destruir. enunciada pelo prefixo ab. distingui-los precisamente. – Sobre devorar.: “Comer vem de comedo. A esponja chupa a água. de gastar (user). ou uma voz pode ser desarmônica sem ser propriamente desarmoniosa. aspirar. que não se afina convenientemente”. – Desarmonioso é o mais geral e absoluto do grupo: não precisa. deglutir marca. por outro lado. – Beber é “engolir líquidos”. ou que está completamente fora do tom: é mais que desafinado. de adjunto completivo: enuncia “que não faz acorde. tomaram-se outrora indiferentemente um pelo outro. A abelha chupa o mel. latino. 68 ABSORVER. ‘No mar quase toda consumação se faz em proveito da reprodução’ (Buff. engolir sofregamente. “A ação de consumar – diz ele – não destrói em vão como a de consumir. – Entre engolir e deglutir pode notar-se diferença análoga. – Absorver designa a ação de “consumir pouco a pouco. consumar. O instrumento. comer. – Engolir exprime simplesmente a ação de “levar ao estômago”. ainda que o primeiro designe antes a ação de completar. mal engole caldos”. Um som. fazer que desapareça”. Assim consuma-se um ato. cujo sentido próprio é acabar. – Chupar = “sorver. consome-se uma certa matéria”. a voz. sorver. não afina pela desordem que aí reina). o que nem sempre se dá em relação a chupar. A consumpção não serve para nada. etc. que é desordenado em si mesmo e fora de toda conveniência”. tragar. e até muitas vezes não faz senão causar prejuízo. em regra. É. chupar. de perfazer. muito mais próprio dizer-se: “O doente não tem mais forças nem para deglutir alimento sólido. mas outros o derivam (como Aul. sugar. atrair líquido quase sempre com esforço”. consumir com avidez.) do latim sugere. ou a voz desafinada não faz harmonia perfeita. – Aspirar é “atrair aos pulmões. mas não marca a ideia de desligar de todo as partes que vão sendo sorvidas. ou o instrumento destemperado desordena de todo a harmonia. além disso. E tanto que dizemos: “o mar sorveu o frágil batel” (não – absorveu. não sendo fácil. enuncia a ação de “mastigar e engolir”. – Chuchar parece a alguns uma simples forma popular de chupar. que significa igualmente chupar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 53 igual ao som dominante”. devorar. – Sorver diz também “beber aos sorvos” (Aul.

insensível a tudo que está em torno”. abstração. estatelado. distraído. extasia- “tinha embebido em si a doutrina do Apóstolo” (Feo).) – Estático e estatelado. c. mas no sentido em que aqui se toma quer dizer – profundamente atento. que ama o afastamento. apreensivo. e numa concentração de todo o espírito num assunto”. que vive ou está “como se tivesse a alma toda voltada para fora do mundo sensível. abstraído (abstrato). e no entanto diferençam-se assim: meditativo quer dizer – “dado. abismado. (Cam. – Apreensivo significa “tomado de cismas. meditar em graves coisas”.. impressionado. (Aul. Da boca do facundo capitão Pendendo estavam todos embebidos. o mais usual destes termos. Pas. estático. meditativo. ou da contemplação de suas qualidades. – Absorto exprime: como que “fora da consciência. ficamos admirados ao ver o que não esperávamos. – Pensativo está ou fica por momentos quem “pensa ou parece pensar só nalguma coisa”. extático. – Impressionado diz propriamente “sob a tortura de impressão de dor. silencioso e melancólico”. Lus. dando porém a entender que a causa desse estado é algo que impõe medo. – Abismado diz mais que assombrado. assombrado. etc. enlevado.” Assombrado é “muito admirado”.. embebido e arrebatado escreve Alv. amante enlevado num falso parecer. delíquio ou inanição.: “Arrebatado usa-se não poucas vezes para se exprimir um deleite mental ou corpóreo. ouvintes embebidos etc. (Souza. (Feo. Estático exprime “parado. de desconfiança.”. e arrebatados em Deus”. diriam exatamente o mesmo que extático e extasiado. pensativo.. imóvel como estátua. preocupado. respeito etc. c. III) – Embebido significa.54 Rocha Pombo alimentos para sustentar-se. – Arroubado significa “arrebatado de altas emoções ou de sublimes pensamentos”. – Preocupado ajunta à noção de impressionado a ideia de “pungido de cuidados”. arrebatado. “Eis que no meio da Missa fica subitamente arrebatado”. grego (τρώγω) e significa engolir sem mastigar. que está “solitário. significa comer ou tragar com voracidade ou sofreguidão”. V) Homem arrebatado em Deus.) – Enlevado exprime a nímia confiança que se põe num parecer. é o de menor significação. Num falso parecer mal entendido. – Sobre admirado.. E casar-se com ela. de pressentimentos. – Extasiado “o mesmo que absorto e em pasmo”. Estatelado acrescenta a estático uma ideia de esvaimento. enlevado em êxtase”. meditabundo diz mais “pensativo e triste”. nas qualidades ou promessas de qualquer pessoa.. distração. se só os olhos pudessem julgar. – Contemplativo é “absorto em coisas místicas”.) “Saiam como fora de si. . – Meditativo e meditabundo parece que têm a mesma significação.: “Admirado. tão intenso que chega como a alienar-nos. latino.. admirado. pois nos representa como “caídos em abismo de que não se sai”. propenso a refletir. – Sobre enlevado. – Extático diz “absorto. ao pé da letra. de medo. assombrado e abismado escreve Bruns. Lus. arroubado. de devoro. e do. – Maravilhado diz mais que os três precedentes: ajunta-lhes a ideia de “grande surpresa e admiração que nos abalam e deixam em pasmo”. metido nos poros: a esponja embebe-se do líquido. meditabundo. de suspeitas”. 69 ABSORTO. a ponto de ficar como maravilhado da vista dessa pessoa. embebido. tragar vem de trogo. maravilhado. arrebatado “de grande admiração e como em esquecimento de si próprio”. d’enlevado. contemplativo. (Cam. e devorar.

ele deixa vagar seus pensamentos. Alv. merece o nome de abstraído. Uma imaginação abstraída só à sua própria ideia atende como se não houvesse outras. por assim dizê-lo. e abstraído quando a referimos às pessoas. evaporado. de cuja definição resultará que haja pouca diferença entre as duas palavras. mas quando. e não que nos abstraiu. e assim dizemos: Este homem está sempre abstraído em seus estudos ou meditações. e a filosofia. por concentrar-se. corresponde à linguagem metafísica. segundo a expressão de Bossuet. como a matemática. há verdadeira e notável distinção entre as duas palavras. incapaz de aplicar-se ao que quer que seja. e designa a operação do entendimento por meio da qual desunimos coisas que na realidade são inseparáveis. Uma palavra casual nos leva insensivelmente de um objeto exterior a outro interior abstraindo-nos inteiramente daquele. nos fere repentinamente os sentidos qualquer objeto exterior. Pas. atraído para longe de”. a metafísica. chamam tanto a atenção dos que as estudam que. de diversos lados ou para diversos lados”. uma como alheação do homem concentrado naquele objeto interior que o tira como de si mesmo. para podê-las considerar cada uma em particular sem dependência nem relação com as demais. ao contrário. dissipado. A distração é momentânea e como passageira. abstraídos nelas. fixando-nos nela com exclusão de todas as outras. pois. e a distração. A causa das abstrações é antes interior. A palavra abstrato usa-se quando a aplicamos às coisas. a que procuramos voltar bem depressa”. pois a abstração se exerce de fora para dentro. porém. o pensamento do indivíduo. daquilo de que se trata. distractus “atraído de um lado e de outro. e na consideração de suas abstrações. e comumente de distraído por abstraído. escreve magistralmente: “Encerra-se nestas duas palavras a ideia comum de falta de atenção. abstraído e abstrato. abstrair-se nisto. e é um novo objeto exterior que faz o .: “Abstraído. achando-nos no mais profundo desta abstração. separando-nos da abstração. distraído. Querem alguns que distração seja diversão do pensamento de todo objeto exterior para atender aos interiores. distraindo-se de suas obrigações. Se estamos engolfados em nosso estudo solitário. e de repente entra uma pessoa. como o resultado de um caráter particular. e. O espírito do abstraído está longe do que vós lhe dizeis. mas com esta diferença: que são as ideias próprias. como uma ocupação contínua. o espírito do distraído é instável. que o fazem abstraído. – Sobre abstraído e distraído lê-se em Laf. ou se faz um ruído forte. a da distração é exterior”. ele está à mercê de todas as impressões. que significa – separar ou arrancar uma coisa do lugar em que está ou supomos estar.: “A palavra abstração vem da latina abstrahere. abstractus “tirado. em conversação consigo mesmo. – Sobre distraído. O homem que se aparta do trato e comunicação das gentes. – Abstração é. ocupando-se. No cabedal das línguas cultas ocupam um lugar muito importante as palavras que representam ideias abstratas. Diz-se de um homem que está distraído no jogo em amores. distrai-nos. Falamos em abstrato quando o fazemos com separação de qualquer coisa. ocupando-se ele tão fortemente com estas ideias interiores que só atende às coisas que elas representam. e sendo estas o objeto das ciências mais elevadas. por assim dizer. diremos que nos distraiu. Em nosso entender. de dentro para fora. olhamos a abstração como uma coisa habitual. servindo-se de uma por outra. são indiferentes e como insensíveis aos objetos exteriores. Enfim. em vícios. abstração e distração vejamos Roq. e dizemos abstrair-se quando nos alheamos dos objetos sensíveis para nos entregarmos aos intelectuais.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 55 pela visão interior vendo o que os olhos não têm a faculdade de ver”.

Uma pessoa abstraída tem o espírito muitas vezes a grandes distâncias: ora está em Lisboa em frente da estátua equestre. (Bern. – Fúlgido é o “que fulge de si mesmo”. limpo. e falam muito. ção. e atrai a sua atenção. caso raro é que se prive de vinho. e perdem o fruto das conversações”. “Os abstraídos meditam muito e falam pouco. Cândidas al- . privar-se. Tanto se aplica em sentido natural como em translato. polido. Aul. privar-se supõe apego à coisa. branco. – Vemos que abstinência supõe que podemos gozar de uma coisa. brilhante. (Cardoso) Ficamos distraídos quando. 70 ABSTER-SE. ou as antiguidades de S. límpido. “Devem guardar o coração desempenhado. e os distraídos meditam pouco. luzente. e pena de não poder gozar dela. abstraído. como dizemos: “Linguagem tersa. escutamos outro diferente. ouvindo tal orador no palácio das Cortes. polido se diz de tudo a que se deu polimento. pois temos desgosto e ainda pena de nos vermos privados daquilo que muito desejamos lograr. sem ser pelo brunidor. mudamos a atenção para outro diverso. As abstrações são mais próprias dos homens dados a meditações. que a desvia do objeto a que ele a tinha aplicado. – Escreve Roq. É difícil que não fiquemos distraídos quando. Dizemos: “O aço já terso da ferrugem” (Fil. atendemos a festins etc. luzidio. – Brilhante exprime “muito polido e luzente: que tem grande brilho”. nem desejamos. luzido. alvo. fulgente. escutando um discurso enfadonho. quando. Podendo o bêbado beber. quando estamos numa parte e o pensamento noutra. isto é.). porém o homem de razão abstém-se dele quando sabe que lhe é nocivo. ora está em Roma no meio da praça de S. quando.56 Rocha Pombo homem distraído. mas que por certas razões dela nos abstemos. de cândido. e assim se entende ser voluntária. priva- que gozamos ou queremos gozar. ainda melhor que alvo. brunido. estando a contemplar um objeto. terso. – Polido e brunido aproximam-se. a estudos profundos. refulgente. cit. a abstinência não é na realidade privação. – Absterso é como um redobramento de terso. Fácil nos é abster-nos do que não conhecemos nem amamos. nitente. com dificuldade. A privação é de ordinário forçada. Para o que prefere sua saúde aos prazeres. admirando as belezas da Ajuda. – Alvo e branco se confundem. ouvimos do lado uma coisa interessante. nos entretemos com o nosso próprio cogitar. e tanto na acepção moral como na física. estando a ouvir um discurso que se nos dirige. fúlgido. reluzente. lúcido. estilo absterso e brilhante”. silencioso e solitário para o comércio divino”.: Abster-se exprime a ação sem referi-la ao sentimento que pode acompanhá-la. a abstinência é também privação. porém. ou que nos é indiferente. Elys. Ficamos abstraídos quando não pensamos em nenhum objeto presente. fulgente é o “que está fulgindo ou sendo brilhante no momento”. mas para o que prefere os prazeres à saúde. mas. abstinência. lustroso. recolhidos conosco. Vicente de Fora. quando. mas a distinção entre os dois consiste em que alvo ajunta à noção de branco a ideia de puro. “A força da oração o abstraiu deste desterro”. polido e lustroso”. dados a nossas ocupações. imaculado. nitidez e brilho. – Cândido. que nos agradam. acrescenta à ideia de alvura a de pureza e imaculidade. nítido.) As distrações pertencem mais aos espíritos levianos e às crianças que se distraem com lindos nadas. Pedro. nos privamos das coisas que conhecemos. brunido se aplica mais propriamente ao brilho que se dá aos metais. 71 ABSTERSO. e este significa “livre de manchas. Refulgente é um reforço de fulgente. delicado.

opu- lência. O primeiro. (Aul. temperado. “Nitentes florações nos trouxe a primavera”. terso. abóbada ou esfera luzente. quase tacanho e avaro”. moderado. – Lustroso confunde-se com brilhante. fartura. reluzente é forma redobrada de luzente. que despede luz um tanto indecisa. luzidio diz propriamente – “que é semelhante ao que brilha”. – Abstinente é aquele que se abstém de alguma coisa por necessidade de consciência ou por sentimento de dever. porque depende de um encadeamento de raciocínios. comedido. – Límpido acrescenta à ideia de terso e puro a de lustroso. cheio de luz. olhos reluzentes de cólera. luzidio. a ideia de esbelto. – Abundância (do latim abundan- . 74 ABUNDÂNCIA. – Luzido. 73 ABSTRATO. alguma diferença marcada pelos respetivos sufixos. – Abstêmio é o que se abstém de excessos na mesa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 57 mas de crianças. Dizemos com propriedade: luzidos batalhões. – Moderado e comedido muito se aproximam. sóbrio. frugal. airoso. mas nem tudo que é abstrato é abstruso.) – Parco diz mais que sóbrio: é aplicável ao que é “pouco abundante. além de limpo – “correto. particularmente no comer e no beber”. Não seria próprio dizer. se abstém de alguma coisa: não designa. 72 ABSTINENTE. medir as suas palavras e ações de um modo conveniente”. convindo notar-se que abstido deve aplicar-se ao que. no entanto. uma abstido. e abstrusa dizemos que é a ciência da geometria transcendental. abstêmio. um ponto luzidio no escuro da floresta. discriminado. reluzente. reduzido. riqueza. abstruso. parco. nitente diz. – Sóbrio coisa abstrata é difícil de entender porque dista muito das ideias sensíveis e comuns. designa “uma qualidade mais forte e que parece depender de mais esforço e energia moral”. e no uso dos bens da vida”. propriamente uma qualidade (como se dá com abstinente) mas um estado. temperante. vistoso”. está temperante no mesmo caso: significa “moderado nos apetites. as inclinações da própria natureza”. e por extensão “o que se satisfaz com pequena quantidade de alimento”. e muito menos a totalidade que deles resulta. Uma coisa abstrusa é difícil de compreender. – Limpo diz – “livre de impurezas”: é o mais genérico do grupo. Um tratado sobre o entendimento humano precisamente deve ser abstrato. ou instantânea e fugaz. Cândido livro. Num sentido mais restrito embora. mas. brilhante como a própria luz”. lúcido é o mais forte da secção: diz – “claro. luzente. pequeno. como lustroso restringe ao que se lustrou ou poliu a qualidade que enuncia. Exemplos: “Nítidas frontes fulgem do meio da turba”. e em sentido geral. – Continente designa “o que tem a virtude de sofrear os impulsos. É preciso notar-lhes. curto. “no momento”. Luzido acrescenta à noção de polido. principalmente quanto a bebidas que embriagam. no entanto. brilhante. diáfano. cuja relação não é possível descobrir nem seguir. lúcido confundem-se muito.. o que se mostra moderado em todas as funções. pomposo. a ideia de brilhante. Tudo que é abstruso é abstrato. – Comedido significa “que sabe regular. não só este é mais intenso e complexo. continente. apesar do esforço extraordinário que nossa inteligência faça para consegui-lo. – Segundo Roq. é “o que só toma o alimento indispensável. portanto: “lustrosa estrela”. – Frugal é propriamente o que se nutre “só de frutas”. diáfano. lustroso. – Abstido é quase o mesmo que abstinente. a lúcida visão do gênio. portanto. – Nítido ajunta à noção de limpo. luzente quer dizer – “que espalha luz em torno”.

ou conto mentiroso com pretensões a coisa séria e verdadeira. e pode estender-se mesmo a coisas que não sejam religiosas. su- perstição. superstição (superstitio. etc. as quais. Quem vive na fartura tem mais do que lhe é necessário.. – Prejuízo diz propriamente “juízo antecipado. ou por índole supersticiosa”. “a superabundância de bens da fortuna e de coisas preciosas”. portanto. Confunde-se com preconceito. – Patranha diz – “grande tolice. e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos ou supostos deveres. e a prevenção tem seu principal assento na vontade. o preconceito parece mais a “suposta certeza”.58 Rocha Pombo tia. impedindo de julgar sãmente. e que portanto nos impede de julgá-la de consciência”. de superstare) é uma depravação do senso religioso. f. crendice. Quem viveu sempre na riqueza “não sabe o que é ser pobre”. – Crendice é. de um objeto. prevenção. – Riqueza é. absorve-o. e que impede o ânimo de adquirir os conhecimentos necessários para julgar das coisas retamente. ou caso fictício com que se engana. A prevenção é uma disposição antecipada da alma que a faz inclinar-se a julgar mais ou menos favorável ou desfavoravelmente de um objeto. que não pode ouvir nem conceber outras contrárias. e a faz injusta. interessando-nos a respeito desse objeto. – Opulência é a “riqueza com aparato e ostentação”. preocupação. – Superstição – diz Bruns. A preocupação nasce de alguma impressão viva e profunda que enche de seu objeto a capacidade do ânimo. e que só aceitam os néscios”. A prevenção tira a imparcialidade do juízo. e que é. ou de que alguém se persuade por ingenuidade. do dinheiro. are) diz propriamente “em quantidade tão grande que satisfaz plenamente ao que se deseja”. Aproxima-se-lhe peta. Dizemos: a superstição da honra. induz em erro. fanatismo. As preocupações não são boas . patranha. como diz Roq. a convicção assentada. f. não permitem à nossa alma o conservar seu equilíbrio e sua indiferença. preconceito. da verdade. de perfeito acordo com Aul. e absurda e ridícula. – “é sentimento de veneração religiosa fundado no temor ou na ignorância. convindo não esquecer que patranha parece significar que as mentiras ou as tolices se referem a assuntos de religião. com a diferença que a preocupação reside particularmente no entendimento. A preocupação é o estado do ânimo de tal modo cheio e possuído de certas ideias. crença popular sem fundamento. e cativa o pensamento.. à cega confiança em coisas ineficazes”. O prejuízo parece mais um temor supersticioso. – Acerca de preocupação e prevenção diz Roq.. um respeito cego a coisas vãs. um excesso de credulidade que turva a consciência ou faz calar a razão. e o faz cego. de abundare. Propriamente. um gênero de petas. peta. Quem vive na opulência goza com ufania da sua riqueza.. – Todas estas palavras indicam ou sugerem defeito de consciência. – Quem vive na abundância não precisa de mais nada para viver. prejuízo.: “Estes dois termos exprimem uma disposição interior oposta ao conhecimento da consciência. de ab + undo. Podemos admitir ainda o preconceito da honra: não o prejuízo. de que não saímos como por um capricho do nosso amor próprio. A prevenção nasce de certas relações ou informações que nos deram. conforme define Aul. do destino. mas este supõe que o nosso espírito “foi induzido a deixar-se dominar” da falsa noção que nos impede de julgar livremente. ou sem conhecê-la. 75 ABUSÃO. A preocupação tira a liberdade do ânimo. opinião que se tem de uma coisa antes de examiná-la diretamente. – Fartura diz mais que abundância: significa “em quantidade tal que já excede ao que é suficiente”. – Abusão é “falsa história.

ainda que não seja por muito tempo. sem indicar diferença alguma. ultimado”: o que se remata “tem termo preciso. seriam sinônimos perfeitos se não fosse a nuança assinalada na predicação daquele primeiro verbo: o que se fecha fica “resolvido definitivamente. além de “ter fim” – chegar. – Acabar e findar têm muito íntima conexão. – é um termo geral. interromper. portanto. – Segundo Roq. como que estabelecendo uma certa relação de ordem ou de seguimento entre a coisa que se ultima. formal. 76 ACABAR. para sempre. “Findou o sofrimento da triste criatura” (e não – finalizou). intermitir. Há prevenções justas e razoáveis: é mister examiná-las. Findar é “ter fim”. . suspender. ultimar. “é um zelo cego e apaixonado. porque não se trata diretamente de uma coisa finalizada e completa por meio da conclusão. é pouco perceptível sua diferença. porque podem prevenir-nos contra o engano”. e fechar. “Acabamos a nossa tarefa” (e não – findamos). Em nenhum destes exemplos se pode usar sem impropriedade do verbo concluir. – Finalizar. segundo o mesmo Roq. cessar. que se distingue de findar. que findar enuncia simples fato em muitos casos em que acabar enuncia ação. rematar. para distingui-la.. não acaba de chegar. que a toda suspensão de trabalho ou ação pode aplicar-se. ultimar. porém. de entrar. mas ele continuou no mesmo tom veemente. e às vezes alguma outra coisa que se lhe pode seguir”. não a coisa concluída. que nasce das opiniões supersticiosas. Ontem se concluiu o negócio. e faz cometer ações ridículas. Hoje se acaba minha fadiga. descontinuar. e. devendo notar-se. do termo e fim a que chega. mas a inversa não seria exata.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 59 para coisa nenhuma: devem combater-se como inimigas da verdade. no qual o que se acaba seja precisamente a ação de outro verbo: Amanhã acabarei de escrever. como se o que as faz houvera recebido alguma missão de Deus”. parar. acaba de sair. acabar é. senão também com uma espécie de alegria e consolação. Segue-se que em todos os casos em que se aplica findar pode aplicar-se acabar. – Descontinuar é suspender o trabalho. “acabar representa a ação de chegar ao termo ou fim de uma operação. Quem diz ultimar indica a ação de “chegar ao termo de uma coisa deixando supor que se havia começado e que se vai ou pode dar princípio a outra. fechar. concluído. bem marcado. – Terminar é “ir ao termo. levar ao fim (ao cabo). de chegar. basta buscá-la num exemplo. concluir. – Fanatismo. e é nesta última acepção. por muito tempo. Como as ações destes dois verbos são em geral inseparáveis. rematar. rematou a tremenda objurgatória com uma invetiva ultrajante”. – Entre findar e finalizar dáse uma diferença análoga. terminar. senão puramente de uma ação que cessa. o princípio que teve essa coisa. fechar podem confundir-se. esforço “para chegar ao fim”. Um exemplo: “Quando ouvimos aquela apóstrofe vibrante supusemos que o orador ia ultimar as graves acusações. etc. e até pode ser que solene”. – “Cessar – diz ainda Roq. concluir representa a ação no deixar a coisa completa. Finalizar enuncia ação. “Finalizamos o trabalho com muita fortuna” (e não – findamos). não somente sem vergonha e sem consciência. findar. ao meio-dia acabou de correr. injustas e cruéis. Cessa-se por um instante. finalizar. mas a operação com que se conclui”. neste caso. é romper a continuação ou seguida do fato com o que fica por fazer”.. quando a um aparte do ministro. e parecia terminar ou concluir já mais calmo. terminar. – Rematar. Dizemos rematar quando queremos exprimir que se “pôs fim ou conclusão a uma coisa com um sinal próprio ou de um modo completo”. portanto. no entanto.

fina-se o homem. nos incêndios. 78 ACABADO. ou de se fazer sentir por intervalos”. ou deixar de exercer por algum tempo função própria ou alheia”. – Perecer é chegar ao fim da existência. de inimigos ou de rivais. mortificado. acabrunhado. perecer. perder a vida. – Interromper e suspender. para indicar que vai baixando pouco a pouco até acabar. aliás. de sede. e por sua desventura também muitas vezes perece. também as plantas morrem. que a serra vai morrendo. envelhecido. descomposto. e não morre. e sugere a ideia do desaparecimento da coisa que se extingue. – Falecer é fazer falta acabando. alquebrado. amofinado. desfeito. alterado. à míngua. interrompe-se alguma coisa quando “se lhe corta ou suspende bruscamente a ação ou o modo de ser”. falecer. “Intermite-se a aplicação de um medicamento quando sobrevêm acessos do mal que se combate”. combalido. extenuado. consumido. 77 ACABAR. nem falece. nem falece (nem fenece). e porque as plantas têm uma espécie de vida. “Para o relógio quando se lhe acaba a corda”. – Fenece a vida do homem muitas vezes quando ele menos o espera. acabar de existir no mesmo instante”. nem morre7. chegar ao limite”. exinanido. nos terremotos. ou morrer de todo. tratando-se de movimento ou de função”. inanido. definhado. – Expirar é “render o último alento. Diz-se mui urbanamente. e às vezes por desastre ou infortúnio. curvado. cessar de agir. Muitas vezes se acaba a vida antes que tenhamos acabado a mocidade. falece. extenuadas as forças. aniquilado. acabar. Descontinua-se quando “se deixa de prosseguir aquilo que é contínuo ou sucessivo”. esgotado. Perece. nos naufrágios?! Todos os seres animados finam-se quando. – Finar-se exprime propriamente o acabamento progressivo do ser vivente. . Fenecem as serras nas planícies. etc. exausto. – significa chegar ao cabo ou fim de uma operação sem indicar a conclusão. mas o irracional não falece. como descontinuar. O homem não morre só quando o prazo dos seus dias está cheio. abati- do. quebrado. ter fim. – Intermitir é “suspender ou interromper de momento a momento. macerado. Morre tudo quanto é vivente. morrer. dar o último suspiro.60 Rocha Pombo levar ao termo.. debilitado. Depressa se acaba o dinheiro a quem gasta perdulariamente. nem se fina. mas não se dirá que faleceu aquele que morreu na guerra ou às mãos do algoz”. uma cidade. que um homem faleceu quando acabou seus dias naturalmente. cessar de todo. quebrantado. desfigurado. nos suplícios. – Parar significa “cessar. extinguir-se. – Morrer é acabar de viver. finar-se. e não perece. idoso. Falece o homem quando passa da presente a melhor vida. enfraquecido. ou há de perecer tudo quanto existe. e de um modo mui genérico. prostrado. mudado. avelhentado. – Extinguir-se significa “fenecer. arruinado. – “Acabar – escreve Roq. quer se trate de duração ou de espaço. demudado. – Todos estes verbos significam “chegar ao fim”. Acaba ou fenece a serra. velho. e às vezes no mar. ralado. exaurido. nem se fina. 7 Figuradamente dizemos. acaba. Perece um edifício. e por uma espécie de eufemismo. expirar. gasto. nos cárceres. acurvado. suspende-se alguma coisa quando “se a interrompe por algum tempo e a deixa pendente”. Quantos têm perecido de fome. Morre o vivente. de atuar. cansado. fenecer. acabar de ser”. mas morre muitas vezes às mãos de assassinos. enunciam ação de “cessar. fatigado. do mesmo modo que diziam os latinos vita functus est. – Fenecer é chegar ao fim do prazo ou extensão própria da coisa que fenece. pagam o tributo à lei da morte. Morre.

avelhentado é o que tem ares de velho. – Abatido significa “desfigurado e enfraquecido.. mas o segundo dá ideia mais clara de extenuamento. e por isso falto de forças”. muito esgotado de forças. como diz Bruns. por fadiga. também devido quase sempre a causas momentâneas. curvada pelo infortúnio”. afligido. que parece estar morrendo”. a louçania que só a idade não extingue. macerado. mudado. o estado do semblante. – Acabrunhado ajunta à noção de abatido moralmente a ideia de profundo desânimo e tristeza. esmagado de dores. mais que os anos. – Ralado = “vexado. mais exausto de forças do que devia estar. – Alquebrado se aplica ao velho que a doença. doença ou idade”. – Esgotado. de doença. – Curvado (e acurvado) enuncia ideia da postura daquele que a idade ou o sofrimento fez pender. de desgraça. ainda ontem tão altiva. com pequenas diferenças de nuanças. e enuncia de maneira mais completa e mais forte a noção de esgotado. o que se deixa abater e como emurchecer de dor moral”. ou o que os trabalhos amofinaram”. atormentado pelo sofrimento. de todo o conspecto da pessoa abalada de sofrimento. – Quebrado se diz daquele que está enfraquecido. – Como desfigurado – descomposto. se sente enfraquecido e enfermo. exaurido e exausto seriam quase sinônimos perfeitos se os dois últimos não sugerissem ideia do esforço que produziu o esgotamento. que vai murchando e morrendo de desconsolações”. “Aquela figura. – Arruinado = tão alterado na saúde ou nas forças que parece perdido. de susto. isto é. ou mesmo por algum sofrimento moral”. que parece tombar”. Aplica-se mais propriamente à situação da vida que à própria vida. – Consumido indica melhor o que se sente “ferido profundamente na alma. o já não ter o vigor. mortificado pelos padecimentos”. e sugere alguma coisa de resignação. se deles não se distinguisse em sugerir. – Extenuado = muito exausto. mofino. – Amofinado = “ressentido de moléstia. alterado. Agora está combalido: o tempo não poupa nem a glória. muito enfraquecido pelas privações”. sem forças e sem ânimo”. – Mortificado = “ferido de angústias. falto de forças (físicas ou morais). “que não é precisamente ao exercício das virtudes que se deve o estar gasto”. desmanchado. velho é o que. Entre exaurido e exausto pode notar-se esta diferença: exaurido dá melhor a ideia da causa que exauriu. É mais forte que inanido. etc. desmanchado indicam todos. que parece velho sem o ser. .Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 61 transtornado. de trabalhos”. está hoje abatida. devido à idade avançada. Todo velho deve ser idoso. – Debilitado = “um tanto enfraquecido”. de sofrimentos. Diz também “o que a moléstia afligiu. – Gasto confundir-se-ia com os precedentes. de remorsos”. que enuncia apenas a ideia de “não nutrido. os trabalhos ou as doenças parecem ter feito mais estragos de que se devia esperar. – Envelhecido e avelhentado: o primeiro se aplica à pessoa que parece ter mais idade do que realmente tem. – Acabado dizemos daquele em cuja fisionomia o tempo. – Cansado e fati- gado exprimem a mesma noção de “quebrado de forças”. mas há homens idosos que não se pode dizer precisamente velhos. – Macerado quer dizer “desfeito. medo. – Combalido exprime “abalado. – Velho e idoso distinguem-se assim: idoso é o que chegou à idade avançada. – Desfigurado está aquele que mostra na fronte “sinais de depressão física produzida por alguma doença. demudado. transtornado. – Prostrado = “violentamente abatido. – Exinanido = “aniquilado. desfeito. – Quebrantado convém mais àquele que se deixou abater por motivos que muitas vezes são imaginários. abateu e como que curvou. sugerindo ideia de mal passageiro. – Enfraquecido = “falto de forças”. – Confunde-se com aniquilado: notando-se que este ajunta a quebrantado a ideia de humilhação. – Definhado = “consumido.

inteiro. o serviço no qual se reconhecem as perfeições do autor ou do mestre que o executou. pleno. apoquentar. soluções cabais (completas e decisivas). – Acabrunhar significa “abater o ânimo pelo castigo ou pelo sofrimento. entristecer. – Completo aplica-se apenas ao homem. além de completo. perfeito é mais extenso: aplica-se tanto ao homem como às coisas. que satisfaz completamente”. molestar. perfeito.” É preciso. dançarina completa). como. magistral. no entender de Bruns. inquietar muito. magoar. se diz em referência a uma “coisa que se fez de modo tão perfeito que nada se deixou a desejar”. algumas linhas antes. e exprime virtudes ou méritos em conjunto. essa ideia de execução. a do aborrecimento. ou o artista (se se trata de uma obra de arte) pode ainda acrescentar alguma coisa. no entanto. a produção. – Acabado. – Humi- . uma dançarina perfeita (e não – completo médico. afligir. mortificar. desgostar. completo. M.62 Rocha Pombo 79 ACABADO. cabal. da rudeza com que se molesta e aflige. É mais genérico do que perfeito. e apoquentar. – não é perfeito. pois um é encarado sob ponto de vista mais restrito que o outro”. e que só se aplica a fatos morais ou a coisas de espírito. ou a perfeição sob um ponto de vista particular. ou pelo menos as qualidades mais excelentes que caracterizam um tipo”. aborrecer. Além disso. “Um amigo 8 É tal a dificuldade que apresenta a falta de precisão absoluta do valor lógico de certas palavras que em muitos casos é forçoso admitir formas como esta – mais perfeitas – apesar do que. sendo que amofinar sugere a ideia da tristeza em que fica o que se amofina.. atormentar. às coisas que se lhe referem. por exemplo. Delaf.. plenas informações. Dizemos: um perfeito médico. enquanto que perfeito é mais próprio para designar uma certa qualidade. de pontualidade. opri- mir. aquilo. e sugerir. O mesmo não se poderia dizer de acabado. é antes perfeito. é o trabalho. amofinar. sessão plena. – Pleno diz propriamente “cheio. – Perfeito significa propriamente “feito de modo completo”. incomodar. e dá ideia do desespero em que fica o que se aflige. “O que pode ser melhor – diz Laf.me Mazarin era uma das mais8 perfeitas belezas da corte: só lhe faltava espírito para ser completa. diz também “alguma coisa de terminante. diz o próprio Lafaye quando escreve que o que pode ser melhor não é perfeito. contristar. 80 ACABRUNHAR. – Afligir diz propriamente “abalar a alma violentamente. a que o autor. inquietar. de exatidão que não há em completo. um certo mérito. amargurar. consternar. é sinônimo perfeito de completo. – Magistral é “o que foi feito com mestria ou consumada perícia”. – Oprimir dá ideia “do gravame. ou com que se faz alguém sofrer”. definitivo”. – Amofinar e apoquentar são muito próximos: ambos exprimem a ação de diminuir a coragem com pequenas coisas. pode não brilhar (ou não ser “beleza”) senão sob um certo ponto de vista. portanto. notando-se apenas que “em cabal há uma ideia de justeza. acrescentar que cabal. da impaciência. humilhar. e significa “que reúne todas as qualidades. Razões. sentenças. sob o da figura: uma beleza completa reúne muitas perfeições. e um esposo é completo. ferir de grande mal. agoniar. completo. angustiar. não é acabado”. Distingue-se dos demais do grupo em conservar a atividade predicativa do verbo. aqui. pelo peso de algum desgosto ou de alguma desgraça”. e aplica-se àquilo que foi elevado ao mais alto grau de perfeição. muitas qualidades eminentes. vexar. Pleno direito. Uma beleza perfeita – diz o citado autor – tem a qualidade “beleza” em alto grau. do mau humor em que se sente o apoquentado. – Cabal. explicações. importunar.

pondo a alma em estado de confrac- ção tal que ela só sente forças para repugnar a vida”. uma inadvertência. no entanto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 63 lhar acrescenta à ação de oprimir a ideia de afrontar. – Desgostar é “contrariar o gosto de alguém. instituto. – Inquietar e incomodar são. uma ligeira dor incômoda. em ânsias de dor”. “Ela entristeceu (ficou triste ou mostrou-se triste) diante daquela cena. porém. e equivale a “oprimir envergonhando”. “tira a calma e serenidade” (diz muito menos que aflige). Uma autoridade injusta ou estúpida pode afligir-nos. pois este já enuncia que a coisa que nos contrista “produz em nossa alma uma pena mais funda”. universi- dade. escola. que significa “afligir ligeiramente. – Agoniar é “impor ou fazer sofrer suplício ou aflição como de agonia”. que determina a classe do mesmo e a denominação que lhe compete. e de assombro. – Mortificar é “afligir até deixar exausto de forças ou de ânimo como se estivesse a morrer”. enfastiar. Temos academia ou escola de . aborrecer é “pôr de mau humor. em aflição horrível”. Um garoto decerto que nos vexa (ou nos molesta) em público se nos expõe a algum ridículo. É nisto antes de tudo que consiste a diferença entre universidade e os demais termos do grupo. Uma academia. ou numa cidade. um mal-estar. por universidade designamos o estabelecimento onde se professam muitas faculdades. ginásio. colégio. fazer perder a paciência”. ou um pressentimento inquieta. – Molestar e aborrecer aproximam-se do precedente. oprimir-nos. de abusar dos brios do humilhado: enquanto que vexar exprime a ação de expor a afronta. – Todas estas palavras designam estabelecimentos onde se ensina ou se estuda. – Magoar enuncia a ação de “produzir ligeira dor. que se lamenta como castigo do céu. a escândalo. ou uma escola toma a si apenas uma certa ordem de ciências ou artes. equiparados até certo ponto”. de rebaixar. É menos intenso que contristar. – Entristecer é propriamente “encher de tristeza”. – Consternar é “produzir um sentimento tal de pesar. 81 ACADEMIA. – Também é convizinho destes importunar. vexar-nos mesmo: nem por isso nos humilhará. ou ainda num vasto instituto de educação. podendo ser que o vexado nem por isso se sinta ferido propriamente na sua honra. quando estranha que se não possa dizer “a universidade de medicina de Lisboa. e diferençam-se assim: molestar sugere a ideia do incômodo que se causa à pessoa molestada. isto é. ou mesmo uma só arte ou uma só ciência. – Angustiar é “pôr em grande aperto de alma. à vista de alguma fatalidade. de diminuir os créditos. Não é propriamente a independência de que aí se fala. causar desgosto a alguém”. um aperto em que nos põem. de todo o grupo. a universidade de medicina do Porto. ou alguma grande desgraça. hoje. causar displicência”. Discordamos de Bruns. os de predicação menos forte: uma suspeita. – Atormentar é “afligir de tormentos. uma falta que se cometeu desapercebidamente. ferir de grande angústia. que realmente era de contristar os ânimos mais fortes. liceu. já que estes estabelecimentos em nada dependem da universidade de Coimbra. por parte de quem humilha. Distingue-se de vexar por isso mesmo: porque sugere o intento. – Universidade devia ser o conjunto de todos os cursos que se podem fazer num país. luto e tristeza que faz supor a alma como prostrada de dor imensa. mas não nos humilha. nem a categoria do ensino que se dá no estabelecimento. ou os mais duros corações”. – Amargurar é “causar dor acerba e profunda. ou um aborrecimento que não é duradoiro”. sendo-lhe. deixando o atormentado como em conturbação. mesmo que não sejam todas as que se podem professar.

pela simples razão de que esta ordem de institutos. porém. Não se sabe como usar de nenhum desses dois vocábulos sem um restritivo que lhes designe a especialidade de conhecimentos que ministram. ou – “universo solar”. o nosso interlocutor não terá noção exata.. escola ou academia de belas-artes. por exemplo – universidade de medicina. e pode abranger todo gênero de estudos. ou “de altas ciências”. – Colégio e instituto são os mais genéricos do grupo. quando reduzimos o universo ao nosso mundo. Mas o que certamente se não nos permitiria é que tentássemos dizer sem dislate clamante. – Ginásio e liceu são os menos latos do grupo. e só se aplica a estabelecimento onde se façam altos estudos. Dá-se hoje. ou “academia de instrução primária”. Mas esta forma não faria mais do que pôr em destaque e tornar flagrante um absurdo que passa disfarçado e que é tolerável enquanto não se tenta restringir expressamente o termo universidade. no entanto. academia de pintura. É preciso notar ainda que tanto academia como escola podem designar estabelecimento onde se ensinem diversas ciências ou artes. mas não diremos “academia de artes e ofícios”. – ou só – academia – há de subentender-se que se sabe já de que academia ou escola se está tratando: ou então. ou “de aprendizes marinheiros”. Escola é mais prática e mais popular. por exemplo – “universo mundial”. mas este se aplica tanto a escola de instrução secundária. ou – “universo da estrela d’alva”. direito. etc. quer tratando-se artes liberais. não pecamos mais contra a precisão lógica do vocábulo do que. ou mesmo academia ou escola de música. teríamos de juntar-lhe todos os que fossem necessários para designar as diversas ciências professadas. o nome de ginásios a colégios onde se ensinam matérias do curso preparatório. . de direito. Ginásio designa estabelecimento (internato ou externato) onde se faz educação tanto moral como física de meninos ou moços. ou onde se ministre ensino superior. ensina diversas especialidades ou classes de ciências. por ex. por exemplo. pois a ideia dominante que o termo sugere é a da “reunião das pessoas que foram escolhidas e que ficam no estabelecimento em perfeita igualdade de condições”. Liceu está no mesmo caso. e se quiséssemos dar-lhe os mesmos restritivos que são indispensáveis tratando-se de escola ou de academia. de direito.. Instituto é ainda mais genérico e extensivo do que colégio: pode aplicar-se a toda categoria de estabelecimentos onde se estude ou onde se ensine. O mesmo não se dá em relação à universidade. Colégio é estabelecimento onde se reúnem pessoas (meninos ou adultos) para estudar. Se se disser só – escola. O Instituto de França. etc. mais particularmente aplica-se a internato. de letras. Quando empregamos esta palavra para designar um instituto onde se professam apenas algumas faculdades. como a cursos práticos de artes e ofícios. – Academia e escola são usados. compreende todas as academias de artes e ciências de Paris. Dizemos “academia ou escola de belas-artes. em grande número de casos. e dizer. que academia é mais nobre. de medicina. precisa do estabelecimento a que nos referimos. ou “academia de agricultura”. ou onde se dá um cuidado mais especial aos exercícios físicos.64 Rocha Pombo medicina. Deve notar-se. em vez de uma. e isto porque a palavra “universo” abrange todos sistemas de mundos. quer tratando-se de ciências.. e só por figura é que podemos aplicá-la para exprimir a totalidade das nações do nosso mundo. desde – “intituto primário” – até – “instituto de altos estudos”. indistintamente. ou melhor as artes ou ciências de toda uma categoria. matemática e teologia. de engenharia.. escola de cirurgia.

gestos e atos. apoucado. meigo o que é tratado”. pois ambos indicam que se deseja fazer contente.. mas particularmente designa o recinto ou área onde um exército em campanha ergue as suas tendas e se instala com certa comodidade e segurança. por extensão. “por meio de carinhos. – Amimar é tratar com mimos. por ex. acariciar. a sua ternura divina”.. isto é. – Acalentar designa particularmente a “ação de aquecer a criança nos braços para que sossegue e adormeça”. dispor bem. minorar o sofrimento. tratando-as com afeto paternal. 65 afagar. também por atos e palavras. entrando. se fosse criança a pessoa que se amima”. agradar é apenas. Este último verbo.. acariciam-se as crianças. a uma pessoa que se estima. ou que se acham em situação em que tenham o direito de contar com a nossa bondade de coração. modéstia. palavra tomada ao espanhol. ameigar. e tanto quanto afago o é em relação a agrado. mo- desto. Afagar é fazer. mostrando o amor que as almas bem formadas têm pelos que sofrem. enchendo-as de afagos e mimos. amimar. bem impressionado. – Consolar é. deixar satisfeito. – Acariciar é “tratar com carícia”. antes de tudo porque são tenras. acanhamento. Daí o fato de ser acarinhar menos expressivo de ternura do que acariciar. esperanças. isto é. demonstrações de muita benevolência e afeto. grata conosco a pessoa a quem se agrada ou se afaga. “Jesus acarinhava a todo o mundo. pudicícia. 84 ACANHADO. beijando-as. sem tendas nem comodidades. pudor e pundonor. tímido. designava o acampamento em cujo centro se elevava a tenda do rei. diz-se do terreno onde esse exército passa a noite ao sereno”. procurar diminuir a pena. aqui. e até vícios”. ou tornar esquecido ou menos intenso o pesar que aflige alguém”. mimosas e têm o nosso amor comovido. ou a todas as criaturas desvalidas. mas as crianças ele acariciou sempre com um estremecimento que dizia bem até onde era capaz de ir.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 82 ACALENTAR. e por extensão e figuradamente pode aplicar-se nos casos em que se trata de coisas morais ou abstratas. Acarinha-se a um amigo. de palavras de conforto. timidez. – Arraial. desejos. num salão sumptuoso. – Se- gundo Bruns. e por todos que precisam da nossa assistência e socorro. bivaque. hoje é termo poético. A pessoa tímida é natural que se mostre acanhada. por palavras. É natural também que a pessoa . vergonha. “acampamento é termo genérico. portanto. pudor. é mais expressivo e intenso. agradar. Entre acanhado e tímido é preciso notar diferenças que à primeira vista se não percebem distintamente. consolar. acarinhar. no enlevo de amar. apoucamento. vergonhoso. 83 ACAMPAMENTO. como: “acalentar sonhos. – Bivaque (do frandês bivac) é o estado de um exército acampado ao ar livre. acaridar.. pundonoroso. ou dirigindo-se a personagem ilustre. doce. de modo a fazer suave. com muita brandura. àqueles que são menos felizes do que nós. Acarinham-se a todos os meninos. só se acariciam aquelas criaturas que merecem os nossos afagos e blandícias. arraial. pudico. Só se acaridam. – Acanhado se diz do que tem “tão pouco desembaraço e vivacidade e que se mostra tão tolhido que parece diminuir-se aos nossos olhos”. – Acaridar diz propriamente “tratar com caridade”. como. sendo carícia sinal mais delicado ainda de amor do que meiguice. com “manifestações delicadas de afeto e desvelo. mesmo do que carinho. reales. pudibundo. de atos de amizade. no entanto. – Agradar. – Ameigar diz propriamente “tratar com meiguices. é quase afagar.

diz mais do que tímido. sem o modo de ser normal. não sendo a inversa perfeitamente verdadeira. trôpego. no sentido que tem aqui. de parecer. Pundoroso é. pudibundo se emprega para designar “o gesto. uma condição de índole. – Vergonhoso. neste grupo. de pudor. e consiste num sentimento natural de justa medida em tudo – no agir. consumado e reconhecido”. à vista do que. a postura contrafeita. fato. assim. uma qualidade subjetiva. de irresolução e perplexidade. – Pundonor parece termo que os espanhóis adaptaram da dicção francesa point d’honneur. – Fato designa “ato de certa importância. nem por isso há de ser vergonhosa. e significa “nímia susceptibilidade em questões de brio e amor-próprio. diz “escasso. “o que tem pundonor”. de um modo incorreto. Acanhamento sugere alguma coisa de rude. mesmo porque é de supor que uma criança é inconsciente em questões de bons costumes. o modo que revela pudor. ato é o resultado da ação dessa mesma potência. no falar. cuidado. – Apoucado e apoucamento não se podem confundir com os dois precedentes. o enleio no movimento e na expressão. . esmero com que se defende a honra”. – Pudor e pudicícia usam-se frequentemente um pelo outro. na acepção moral desta palavra. mas o acanhado revela quase sempre timidez. quando emprega a sua energia. O tímido pode não ser acanhado. discreto. o pejo que. aos olhos de outrem. mas devem distinguir-se assim: pudico diz o “que tem pudor”. De sorte que se pode entender acanhamento como sinal de timidez. timidez diz algo de tibieza de ânimo. nem mesmo se deve admitir apoucamento como degeneração ou vício da modéstia: segundo a própria formação. acanhamento diz o gesto tacanho. – Segundo Lac. ato. ação é “um vocábulo abstrato. tacanho. no trato com toda classe de homens. e que se manifesta ou pela desconfiança que alguém nos inspira. 85 AÇÃO. sem exal- tamentos. sem o valor que se devia esperar”. sem ambições exageradas. – Modéstia não parece que seja bem como definem os lexicógrafos – uma completa ausência de vaidade: é antes uma virtude dos sábios. Uma criança tímida. o recato. pelos modos como se apresenta. os modos e ares indecisos que revelam a timidez. a pequenez de alma e de espírito que diminuem um indivíduo e o tornam inútil. comedido. o escrúpulo. é a virtude de ter pudor”. mofino. razoável. por uma delicadeza da consciência moral. de boa fama. – Pudor e pundonor são palavras de significação muito distinta e que só por erro ou inadvertência são confundidas às vezes.. moderado. mas pudor é o próprio sentimento que induz a escrúpulos delicados contra tudo que se oponha à honestidade e à decência. mesquinho. trôpego. portanto. apoucamento exprime a falta de ânimo. Uma criança é natural que seja tímida. pudicícia é a “qualidade de ser pudico. Apoucado. Timidez é.66 Rocha Pombo acanhada pareça tímida. imprestável. A potência. pois a vergonha. ato é um vocábulo concreto. portanto. de retraimento. o enleio da pessoa pudica”. benigno e afável. e pode ser tímida sem ser propriamente acanhada. está em ação e produz o ato”. já não dá só ideia de simples tolhimento de alma: significa a vacilação. A ação é o exercício de uma potência. indulgente. nos impede de comprometer o nosso decoro. ou pelo receio de que sejamos malsucedidos. Ambos sugerem ideia de fina sensibilidade em questões de moral. portanto. ou ainda pela dúvida em que nos sentimos a nosso próprio respeito. nem ímpetos – em suma sábio. – Pudico e pudibundo também se confundem. que expressa a modéstia. Modesto diz. não seria própria esta forma: acanhado e tímido. no modo como se comporta.

mas sugere melhor a ideia da correção dos que pleiteiam. pugna. ire. litígio. desafio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 86 AÇÃO. contenda é “a fase a que pode chegar a pendência tornando-se mais viva. Lide será. peleja. mas sem leviandades”. discutindo sem má-fé.. Esta é o “litígio ou a questão em que se empenham duas ou mais partes trocando razões e argumentos. pequenina. – Peleja designa a luta encarniçada e corpo a corpo. contenda. litis “pleito. a oposição ativa em que se põem duas ou mais pessoas ou coisas”. ou pelo menos de grande importância. combatem-se. regulada e solene. ou mesmo duas ou mais nações que não puderam chegar a acordo em relação a algum reclamo ou intento”. “marchar contra. – Briga e rixa são termos vulgares que significam “disputa escandalosa. sem armas”. Em – “lutas da imprensa” há a sugestão de que os trabalhos do jornalista amargaram no embate das intrigas e das perfídias. – No latim prœlium figura como radical o verbo eo. pleito. rixa. – Duelo é “a luta entre duas (ou mesmo mais) pessoas. Dois inimigos separados por um rio ou por outro qualquer acidente. entre outras coisas. portanto. campanha. – Batalha é combate de vastas proporções. – Ação é o mais genérico do grupo: seriam raríssimos os casos em que não pudesse substituir a qualquer dos outros. mas é muito mais próprio dizer – “as lides acadêmicas”. aqui. com que se empenham devotamentos pelas grandes ideias de que se presume que trata sempre um jornalista cônscio da sua missão. – Contenda e pendência aproximam-se bastante: ambos sugerem mais ideia de controvérsia e discussão que de luta material: se bem que se não lhes recuse esta última acepção. aliás. violenta”. como este. não esquecer que lide (ou lida) vem de lis. “As lides do jornalismo” – diz uma coisa. prélio. só defendendo a sua causa.. uma luta caracterizada pela elevação dos motivos. por motivos fúteis. e só por extensão se aplica no sentido de luta. 67 lide. Dizemos – “as lutas políticas” –. – Lide e luta tomamse ordinariamente quase como sinônimos perfeitos. pendência. atacar”. Ação aqui é “o exercício da atividade hostil entre duas ou mais forças em conflito”. “as lutas da imprensa ou do jornalismo” – diz outra. no entanto. duelo. e pode assim apanhar-se no português prélio a significação de “luta em que os lutadores se adiantem. mas não pelejam. batalha. Pleito. é peleja formal e de resultados decisivos quase sempre. – Desafio é “o ato de provocar outra pessoa para duelo”. ou medindo forças e destrezas com capricho. – Pugna significa propriamente “luta a punho. – Litígio.. conflito. ou “o estado de conflito em que se põem duas ou mais pessoas. guerra. é a fase. que significa. lutam. Pode dar-se entre . exprime “nobre questão em que alguém se empenha confiante na justiça”. convém. recontro. luta. – Pleito é quase o mesmo que litígio: pode. intensa. luta convencionada. questão judiciária”.. mais apaixonada. e sem graves consequências”. Mas a contenda parece uma gradação da pendência. refrega. se apressam a investir um contra o outro”. de troços de exércitos inimigos que travam luta entre si. em – “lides da impren- sa” sugere-se o afã nobilíssimo com que se trata das altas questões. Além dessa acepção. briga. – Combate – diz Bruns. processo. diferençando-se em que a rixa pode ficar só na disputa de palavras ou degenerar em briga. aplica-se o termo combate para designar qualquer luta em que a vida está exposta: o combate dos Horácios e Coriáceos terminou em combate entre dois homens”. por questões de pundonor”. significar também questão judicial propriamente. e esperando pela sentença (placitum) ou pelo desenlace favorável. – Conflito é “o encontro hostil. – “é o encontro de ordinário imprevisto. o choque. combate.

sendo este apenas mais lato: é “a denúncia ou queixa que se dá contra alguém para reparação de agravo ou ofensa”. volúvel. – Campanha exprime “todas as batalhas. persegue-nos ou abandona-nos.. ou perante uma autoridade superior”. É forma geral e extensa que pode abranger quase todos os casos em que figurem as outras do grupo. boa fortuna ou má fortuna. caprichosa. – “A sorte é ao mesmo tempo efeito e causa. porém. e deixando também indecisa a luta”. indeciso entre inimigos”. É nisto que não se assemelha à fortuna. – Questão designa “toda espécie de dúvida em que ficam duas ou mais pessoas e que deve ser dirimida em juízo. Ao ato de pedir ou requerer em direito se chama demandar. fadário. questão. À controvérsia judicial que se suscita quando o demandado não consente no que o demandante requer se chama com razão litígio. porque o que nós chamamos processo é em francês procédure. entre indivíduos. por isso. sina. e todas as vicissitudes de uma guerra.68 Rocha Pombo nações. querela se emprega para designar questões e dissídios de pequena monta. tendo por isso muita analogia com a fatalidade. oculta-se. segundo nos é ela favorável ou contrária. obra arbitrariamente. – Recontro é “combate ligeiro.: “Com muita razão diz um autor que a demanda dá origem e princípio ao litígio. de fr. dita. não se lhe referem fatos sucessivos: revela-se de quando em quando. entre seres inanimados. litígio. e ao acaso só se imputam fatos isolados. favorece-nos ou esmaga-nos. e avoir un procès quer dizer em português – ter uma demanda. de que os antigos fizeram uma divindade cega. “O acaso – diz ele – o mais fantástico de todos os seres desta série. – Acerca de muitos destes vocábulos. furioso como tormenta. desejos. produzindo debandada. pois esta parece obrar de um modo constante. demanda. reaparece. destino. As suas manifestações não são constantes. mas ainda a ação proposta e disputada contenciosamente em juízo – o que vale o mesmo que litígio judicial ou pleito.. felizes ou desgraçados. bunal”. os autos judiciais e termos que se fazem por escrito em qualquer litígio se chamam processo. que no uso ordinário a palavra demanda não significa só o ato de intentar o litígio. casual. fortuna. – Escreve Roq. ventura.” Temos. estrela. e distribui os bens ou os males segundo o seu desígnio. 88 ACASO. – Querela é equivalente quase a ação. pleito. querela. sorte. processo. Pleito é palavra castelhana. e delas provêm fatos. entre animais. consubstancia Bruns. É o acaso que nos leva ao lugar onde encontramos a felicidade ou a desventura. Fora da acepção jurídica. o que se pode colher de Roq. e que este se trata e se desenvolve no processo. fatalidade. – Ação é termo genérico ainda neste sentido: é o “próprio ato de requerer ou demandar em juízo. preside a todos os atos da vida. devendo notar-se que o primeiro termo só se aplica para designar a guerra terrestre. Luiz. entre interesses.. combates. efeito quando designa o estado. Os feitos que correm em juízo. – Refrega é “recontro violento. pretensões. Os que neste caso usam a palavra processo cometem um galicismo. fado. isto é. entre poderes públicos. o uso do direito de pleitear perante um tri- . ou a condição a que a fortuna ou o acaso trouxeram uma pessoa. Quantas descobertas são filhas do acaso? – A fortuna. ou de certa fase de uma guerra”. e neste caso diz o mesmo que litígio judicial”. 87 AÇÃO. prepara combinações de circunstâncias tão impossíveis de prever como de impedir. e de outros. que nos deixam estupefatos de prazer ou de dor. Note-se. S.

– Sina marca melhor do que quase todos os do grupo o caráter de fatalidade das coisas que têm de suceder na vida de cada um. ou uma série de fatos favoráveis ou desfavoráveis. – Fadário é – diz Aul. mesmo de boas letras. por ex. uma divindade cega a quem os deuses e os homens estavam submetidos: tinha nas mãos a sorte dos mortais. sempre tomam-se a boa parte. transformados em rãs ou outras alimárias. qualquer das três formas. não haveria talvez muita gente. a uma disposição superior e impenetrável. e no entanto. ninguém pode resistir às leis do destino.. é claro. e decerto que neste caso não empregaríamos sina. quando fazemos referência às ações ou obras que lhes deram lustre. Por outro lado. como é fatalidade. considerando-a um misto de acaso ou de fortuna. conservando-se-lhes uma perfeita propriedade: “Teria o nosso amigo visto acaso alguma coisa estranha lá no parque?” “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” “Terias. Refere-se mais particularmente a certas vicissitudes da vida mundana. – Estrela. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” Em qualquer desses casos. aniquila-se a nossa vontade: somos obrigados a obedecer ao destino. Paulo. Os seus decretos eram irrevogáveis e tinham o caráter da fatalidade. e por mais que façamos. que lhe deram origem. se poderiam ser trocadas. mas sem coragem para corrigir-se. fortuna às elevadas (ou de mais vulto): a sorte de Creso ao lado de Ciro era mais invejável que a sua fortuna. em vez de acaso. não nos deixa. – O destino era. e que nos trazem fatal e inelutavelmente ao ponto em que só nos resta obedecer: ante o destino desaparece a nossa força. no cristianismo. Refere-se à suposta influência dos astros no destino dos homens. – “o alto destino de Napoleão”. – São re- almente muito fáceis de confundir-se. Nas três frases seguintes vejamos. e dita. ou que tem boa ou má estrela. dizer – “a sina dos grandes homens”. 89 ACASO. persegue-nos. é outra palavra do mesmo gênero. Dizemos. – O fado é o estado que resulta das imposições do destino. ou sem preferências. atribuindo-os ao seu fadário. que se conservou na língua (com a significação que tem aqui). puséssemos por acaso. ventura. por acaso. sujeitos ao seu fado. entre os antigos. da fortuna e da sorte. geralmente. apesar de terem passado as quimeras da astrologia. que hesitasse em empregar indistintamente. O nosso fado é intangível. José de Lacerda. até que um certo acontecimento os venha libertar. quando.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 69 causa.. O estava escrito dos maometanos é a fatalidade. – Ventura e dita são também seres fantásticos sem vontade certa nem determinada. – A fatalidade (do latim fatum “o que está dito ou decretado”) distingue-se do acaso. acompanha-nos. às extravagâncias de que alguém se lamenta. no entanto. Eis por que denominamos destino à combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que se efetuam em virtude de leis inflexíveis. oh rapaz. a predestinação de S. lhe atribuímos um fato isolado. como bem o prova a acepção que esta palavra tem nos contos de encantamentos em que se vêm príncipes. Sina e destino seriam sinônimos perfeitos se o primeiro não se limitasse de ordinário às coisas funestas da vida. Podemos. não. não exprimiría- . porventura. porém. como diz D. a palavra sorte aplica-se melhor às condições modestas. e ainda hoje se diz que “tal indivíduo nasceu em boa ou má estrela”. se na primeira frase. e procurando por isso consolar-se dos erros ou deslizes. mas quando fazemos alusão às amarguras que quase todos tiveram de sofrer. em ser agente e não sujeito. – “destino extraordinário e irresistível que se atribui a um poder sobrenatural”. A fatalidade não obra arbitrária e caprichosamente: obedece como a um impulso omnipotente.

ou aos objetos que julgamos mais dignos de respeito e honra. – Deferência é o respeito que se tem aos sentimentos. os nossos justos interesses. ou consideração. as coisas religiosas e sagradas. por alguma superioridade que julgamos haver nessa pessoa. reverenciar. etc. as suas infelicidades. desejos e gostos de qualquer pessoa. “sem que te apercebesses”. seria indiferente usar acaso e por acaso. em cuja presença estamos como o filho costuma estar diante de seu pai. – Na segunda frase que formulamos acima: “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” – também não poderíamos substituir a locução por acaso por simplesmente acaso. respeito religioso. Se eu empregasse a locução por acaso. mais ou menos. dizendo: “Terias visto ou encontrado acaso alguém à minha espera?” – é como se fizesse a pergunta insinuando a negativa. ou estranho que isso se tenha dado. ou às que reputamos como tais. à virtude. veneração. e não sugere. acatamento. Reverenciamos os mestres. os santos. respeitar. a ideia do interesse com que se espera por uma resposta satisfatória quando se faz a pergunta. reverenciamos tudo aquilo. Quando pergunto se ele “viu por acaso”. S. pelo menos. e quase nego. Deferimos (rendemos deferência) à idade. – Veneração é respeito profundo e submisso.. então. respeito. – Respeito é a atenção. os seus direitos. decerto que exprimo dúvida também. – Segue-se. isto é. limpando a pena”: aí não caberia. os pais. Caim retrucou ao anjo que lhe perguntava por Abel: “Sou eu acaso o guarda de meu irmão?” Este acaso. – Segundo fr. 90 ACATAR. venerar. que se dá às coisas santas. acaso nem porventura. repulsa. reverência. a tudo aquilo a que . devendo notar-se que. para dizer o que desejamos. fomos dar conosco por acaso junto ao morro. – Reverência é respeito com temor filial.70 Rocha Pombo mos com a mesma precisão o pensamento de quem perguntava. se há necessidade de distinção. como no exemplo acima. “Passaste acaso?” – equivaleria a – “Dar-se-á que tenhas passado?” ou – “Será possível que tenha passado?” E – “Passaste por acaso?” – diria: – “Por uma casualidade (isto é. Luiz. deferir. mas aqui a minha dúvida é mais condescendente. ao saber. em nenhuma dessas frases. espécie de culto. os pastores. há de ser a mesma que se acaba de assinalar.. Acatamos. o soberano. ou “sem que tivesses tensão”) passaste?” – A terceira frase: “Terias. e se eu empregasse o advérbio acaso. ao mérito. Veneramos a Deus. respeitamo-nos a nós mesmos. que ele tenha visto. como acaso. a mesma ideia de estranheza e negação. distinguindose esta forma daquela em sugerir. Respeitamos os outros homens. portanto: – que acaso sugere contrariedade intencional e dá à pergunta a função de negar: – que por acaso é mais convizinho de porventura. reverência ou veneração. oh rapaz. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” – enuncia o meu intento de saber uma coisa que desejo e pela qual estou ansioso. não mostraria o mesmo interesse. os nossos deveres. – Fora dos casos interrogativos. nega intencionalmente o que se pergunta. os magistrados. rebate. deferência. “acatamento é todo ato externo com que mostramos o nosso respeito. ponho em dúvida. preferindo-os aos nossos próprios. que se tem ou se dá a alguém ou a alguma coisa. em vez de indiferença. Quando pergunto se o nosso amigo “viu acaso”. todas as pessoas a quem devemos esses sentimentos. “És tu acaso meu filho?” “Veio ele acaso ter conosco?” “Tinha eu acaso notícia da tua chegada?” Em nenhum destes exemplos. com respeitoso temor. “Chegamos por acaso à livraria. só muito raramente poderá a locução por acaso ser substituída por qualquer dos dois outros advérbios. feri o dedo por acaso.

ficar ou pôr de sobreaviso a respeito de alguma coisa que se receia”. “guardar-se”: à vista do que. ere “tomar cuidado”.. Não será por isso que eu seja precavido. previdente. a honra. A prevenção.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 71 tributamos algum gênero de culto. Designa qualidade própria: não seria. e seguiu logo cautelosamente pelo jardim”. pre- venido. Basta sentir a diferença que há entre estas formas: “Ela sempre se livrará cautamente (com a cautela. Precaver-me é. – Acautelar diz. e precaução é o ato de precaver-me. portanto. guarda-se. prevenir com cautela. Quem se previne põe-se de ânimo desconfiado contra alguém ou alguma coisa. chegar”: prevenir diz. é “uma medida de prudência posta em prática antecipadamente. – Precatar é “estar atento. Quem acautela os negócios de outrem cerca-os de garantias. em boa guarda”. prevenir. Mas entre acautelar e precaver há a diferença que provém de que aquele que trata de precaver-se toma cuidado. precatado. pois ele não cogita de um determinado mal. a atenção. etc. “vir antes”. Entre cauto e acautelado fica sem dúvida cauteloso. precaver. cautela. nem se apercebe de que esteja para sobrevir sinistro. “defender. sendo este “a disposição de ânimo em que fica quem se previne”. ire significa “vir”. Decerto que eu não me posso precaver contra a noite. e entre os respetivos conexos. tomar a dianteira”) enuncia a ação de “adiantar-se a tomar expediente acerca do que pode acontecer. pois. precavido. prevenção. ou está prevenido quem se põe ou se acha nesse estado. e é prevenido. Acautelam-se os interesses. – Precaver em certos casos poderia confundir-se facilmente com prevenir. e acautelar-me é dispor os meios de evitar alguma coisa que receio.. a vigilância do espírito contra o que pode sobrevir”. “F.. defender-me antecipadamente do mal possível. ou segurança. portanto. “o apercebimento. prevenir-me é pôr-me de sobreaviso. consequentemente. a fortuna. mas é necessário não perder de vista o radical de cada um desses verbos: – venio. ou em certas circunstâncias: e então “está acautelado”. sobreaviso. que lhe é própria) daqueles abismos”. precaver se aproxima ainda mais de acautelar que de prevenir. – Cautela é. apercebido contra alguma coisa .. prudente. quem se acautela toma providências. passar adiante. Acautelado é o que toma cautela no momento. precatar. quem previne males previstos faz o que supõe que os evita antes que eles ocorram: daí a diferença entre acautelar e prevenir. avisar. portanto. – Não há dificuldade em distinguir prevenção de sobreaviso. defende-se por assim dizer de eventualidades. – Prevenir (do latim prœvenio. cauto. disposições. “adiantarse” à coisa contra a qual se previne. resguardos contra o mal que teme. como os pais.. e acautelo-me deste ou contra este agasalhando-me. é o estado ou a atitude de suspeita em que se fica em relação ao que se deve temer”. o modo de ser precavido. mas julga apenas que isso é possível. Entrou. admissível a forma: “está cauto”. os homens de virtudes. os bens.. precaução. a pátria. – Cauto sugere ideia da firmeza e segurança do que sabe guardar-se contra os perigos. – caveo. ire “chegar antes. que significa “prevenido de muito cuidado. pois. avisado. prever. aviso. prudência. mas sou prevenido e acautelado. previdência. guardar-me. acautelam-se os cautos contra males iminentes. de meticulosa cautela”. Não diremos que o homem que segura a sua casa se acautele contra sinistros. e quem se acautela cuida de resguardar-se contra coisas certas de que está prevenido. acautelar. mas previno-me contra o frio. como já ficou exposto.” 91 ACAUTELADO. e contra essa possibilidade é que se apercebe precavendo-se. ficou acauteladamente em casa”. pôr a bom recato. cauteloso.

etc. recebemos o foro que se nos paga. a obrigação que se nos impõe. o chapéu. – Significação é “o valor semântico da palavra. pois. ou ofereça essa coisa. etc. ou dê. que se está de acordo e se consente”. con- descender. autorizar o que se nos oferece ou propõe. e sem o qual não seria possível sair-se bem. “é declarar que se aceita o que outros decidiram. que nos mande. assentir. asco. a proposta que se nos faz. ou se nos oferece. ou o que vem a nós. – Acep- quer que seja o motivo do consentimento”. Recebemos um presente. ensejo. que se sente do mesmo modo”. e sendo avisar a ação de despertar ou ter desperto o ânimo ou produzir esse estado.”. consentir. e prevenir-se contra surpresas. receber. – Aderir é “dar aprovação afinal àquilo que se tinha recusado ou combatido”. chamá-la a si. o que ela diz por si mesma. – Avisado é aquele que está fortalecido do aviso que convém. recebemos um hóspede. o dinheiro que se nos deve. tomamos ocasião. qual- samente estabelece S. regulado pela disposição das palavras”. uma injúria. – Assentir é “mostrar que se é da mesma opinião. dar consentimento. e também aprovar. refletido e seguro no agir. e assim. 94 ACEITAR. – Condescender é “consentir por tolerância”. de não discordar. – Prudência é mais que aviso: designa a virtude de uma sábia ponderação. tomamos o livro para ler. nem ideia de movimento que no-la traga. Tomamos o vestido. tomar. concordar. a espada. ou se nos manda. do conselho mais sábio para o caso. Aceitamos um obséquio. – Previdência é. ou exprimir de qualquer modo. a ideia que exprime”. do mesmo voto. e que se cooperará para o intuito geral. aceitamos as condições de um contrato. deixa. precatado designa aquele que se não deixará pilhar desprevenido em caso em que da atenção dependa o sucesso. – Consentir sugere ideia de “permitir. “Tomar alguém uma certa coisa – diz ele – é havê-la para si. anuir. que faz o ânimo calmo. a qualidade de quem sabe prever. conformar-se. ou o valor da frase ou do discurso. – Aceitar é receber com agrado e boa sombra. ódio. – Conformar-se é “estar. uma graça. – Sentido é “o valor da palavra conforme a aplicação que tem na frase. uma oferta.”. sentido. sob uma outra ordem. entrever que se tinham outras tenções. Aquiescer é consentir voluntariamente e sem esforço”. tomamos amor. – Concordar é “chegar a acordo depois de dissensão. e prudente será aquele que possua essa virtude. uma ferida na guerra. a pena para escrever. 92 ACEPÇÃO.72 Rocha Pombo certa que é para temer”. de vistas. de modo de ver. Não envolve. – Muito judicio- ção dizemos dos “vários sentidos em que uma palavra pode ser empregada”. uma notícia. sendo o aviso esse estado de atividade consciencial em que se acha o avisado. ou admitir por mero desejo de ser agradável ou de não contrariar”. .. L. significação. – Aceder. – Anuir é propriamente “fazer sinal. é o ato de prever tanto quanto é possível. e prever diz “ver antecipadamente o que se pode dar em relação a alguma coisa que se deve evitar”. 93 ACEDER. etc. de ideias. – Previdente é o que sabe prever. aderir. apreendê-la com a mão (ou pô-la sob seu domínio). uma certa gradação entre estes verbos. uma visita. assentir. ou pôr-se em perfeita identidade de sentimentos. aquiescer. tempo. segundo Bruns. porém. nem supõe ação estranha. as armas para brigar. um favor. – Receber é tomar o que se nos dá.

diminutivo de acidus) diz propriamente “meio ácido. “Tomar as palavras pela toada é (diz Aul. – Acerbo é “tudo que punge algum dos nossos sentidos”. amargoso. e o acento dos minhotos.) tomá-las pelo som e não pela significação. Dizemos – dias amargos. ácido.” 96 ACENTO. – Acento é o “modo como se exprime uma emoção”. mas “a qualidade do som. precipitar. é interpretá-las à letra sem atender ao espírito delas”. o diapasão de uma cantiga.. neste sentido. Não obstante. como o olhar ou como a censura. É o mais genérico do grupo. Aligeiram-se os soldados pelo exercício. desejo ardente de alcançar o termo. uma solução esperada etc. etc. senão no natural. antecipando.) – para significar quanto essas decepções e esses dias nos deixaram na alma uma impressão comparável à que na boca produz o gosto do fel. acérrimo. e acento a uma particularidade da voz de quem as diz. um negócio. pelo qual se afinam outros. do grego. – Som é “todo ruído que os corpos produzem quando em movimento ou em vibração”. um tanto ácido”. azedo. pronúncia. etc. como o sabor lancinante do limão. “apressar com precipitação”. – Timbre não é propriamente o tom. tom é a “maior ou menor intensidade de força com que se exprime”. ácidos remoques. apressurar. som. diapasão. Matéria azeda é a que se alterou do normal pela fermentação: figuradamente azedo significa. azedo. Dizem muitos: – “palavras ácidas. discutir na mesma. tom. é dar mais rapidez ao movimento ou ao ato. – Azedo (de acidulus. amargas decepções (como dizemos – “momento amargoso” etc. e falar. acre. Aligeira-se o passo. – “denota impaciência (sofreguidão). soni- ACENTO. de acre” (Chass. – Precipitar quer dizer aqui “apressar. partícula que marca ideia de “alguma coisa de agudo. travoso. timbre. ativar. (Amargoso significa “um tanto amargo”). como está dizendo o próprio radical. referindo-se pronúncia ao modo de serem ditas as palavras. travento. – Diapasão é o som próprio de um instrumento. pois a coisa amarga. como ao ouvido. toada. acre. e poderia. ali97 73 geirar. – A maior parte destes adjetivos têm a mesma raiz: acerbo.. – Sonido (e soído) significa um “som particular. movimento apressado para chegar ao fim. mais ligeiro”. estranho”. – Ácido é tudo que impressiona desagradavelmente. portan- . e só é sinônimo de amargo pela acerbidade.. amargo. tanto se diz acerbo o som como a ironia. acrimonioso. picantes como a coisa ácida: notando-se que não é usada pela maioria dos autores. o voo. áspero. Uma coisa pode ser acerba tanto ao gosto como ao olfato. é todavia mais ingrata. ou afastar-nos do princípio: é inerente a este verbo a ideia do pouco cuidado que resulta da própria pressa. 98 ACERBO. acrimonioso. que caminhe. agro. – Apressurar é dar-se pressa desordenadamente. – Toada é o tom de uma voz. 39). é “fazer mais ativo”. a espécie de sonoridade de um instrumento ou de uma voz”. – Sobre estas duas palavras escreve Bruns. ou pela mesma toada é discutir ou falar segundo os modos ou pela mesma forma por que outrem fizera. ácido. conquanto menos pungente ao paladar. – Apressar denota ação viva. sugerindo a ideia de remoques ou palavras mordazes. agro são proliferações de ak. acérrimo. apressar.: “Dizemos a pronúncia do Minho. etc.. estas duas palavras confundem-se geralmente”. no maior número dos casos. como a flecha.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 ACELERAR. o espinho. – Acelerar – diz Bruns. – Aligeirar é propriamente “fazer que se mova. suprir a qualquer dos outros que nele figuram. do (soído). o tom que serve de norma. – Ativar.

azedos momentos”. designa “o que é rude e violento.). Equivale a sobre. colocação: como as disposições do testador com respeito a seus filhos. ou exercício da palavra.. esta preposição sobre marca.. Uma palavra áspera pode não ser acerba. estabelece uma relação precisa e direta entre o que vamos dizer. em referência a.. se exacerba. mas reprimenda áspera deixaria supor que não fora feita em termos delicados. negócio azedo.. em grande número de casos em que não seria perceptível uma diferença essencial mas muito subtil.... que molesta algum dos nossos sentidos”.. (com relação a. (Bruns. Divergem. e a respeito de.. disputar acerca de.... mas convém não esquecer que áspero sugere ideia de rude. no sentido figurado. 99 ACERCA DE.” – Áspero é “tudo o que impressiona desagradavelmente. diz “que mostra azedume. – Quanto a é outra locução que marca também conexão direta entre o objeto e o que se vai enunciar..) já enuncia mais precisamente que ao assunto. necessária.74 Rocha Pombo to. deliberar.. mas ainda sem estabelecer dependência direta. – Acre é o “que tem sabor picante e corrosivo” (Aul. se empregam com os que designam operação.... modificam a ideia representada pelo verbo. e com respeito a.. – Agro só se diferencia de acre em ser mais extensivo. – “Acerca de. e o objeto sobre que se diz. como dizemos agras escarpas.). só se usa com esta classe de verbos.. como pensar. e parece áspero. caso. – Em relação a. a conduta de Cícero com respeito a Otavio. ou relativamente a.. Usa-se mais frequentemente no superlativo: acérrima invetiva. escreve ou faz alguma coisa. (ou com relação a. ou negócio.. mas a alguma outra coisa que com essa tenha pontos de relação.. e a respeito de.. Usam-se indiferentemente com verbos que designam operação intelectual. Estilo acerbo pode não ser áspero. (com res- peito a. ou pelo menos dá ideia da autoridade da pessoa que escreve.. fixando-a na do objeto em que a ação recai ou se executa. etc... A propósito de uma história podemos contar outra história muito diferente e que apenas nos tenha sido sugerida pela primeira. Quem fala em relação a alguma coisa diz sem dúvida coisas que estão com aquela em relação mais direta do que quando fala a propósito da dita coisa. palavras azedas.. acérrimos furores. falar.... é um tanto acre. a propósito de alguma coisa não é propriamente referir o que esteja ligado a essa coisa... é que se prende o que se vai dizer. semelhança ou analogia. – Acrimonioso não se deve confundir com acre.. exprime muito mais vagamente a ideia de outras locuções deste grupo. porém. etc. Além disso. Até uma menina é capaz de fazer uma acerba reprimenda.): e. a colocação de tal ponto geográfico com respeito a tal outro”. fazer. etc. sobre. referir. ou a respeito de. o que sai do seu estado de calma”... inculto. ou falar sobre o que lhe diga diretamente respeito. A coisa acrimoniosa contém alguma acrimônia... – Sobre.... etc.). recriminações acérrimas... e em relação a. e aplicado a uma pessoa.... ou em relação ao negócio): “O diretor ouviu o ministro sobre o negócio”.. rigorosa entre o caso e o que se vai dizer. revelando violência reprimida. “o que se irrita. mal humorado.. quanto a. diz ou faz. – Em . áspero e desabrido”. conduta. – A propósito de. relativamente a. ou com respeito a. meditar. Confunde-se muito com acerbo. em relação a. escrever..... Dizemos: agras penas. em que acerca de.... Tanto pode ser aplicado no sentido moral como no físico. Dizemos: – “discussão azeda. a propósito de. como acerca de e a respeito de. É fácil de sentir a diferença que é palpável entre estas duas formas: “O ministro ouviu o diretor acerca do negócio” (ou a respeito do. em alusão a. Falar. ou com respeito a tal ou tal assunto.. a respeito de..

de valor que não é principal. – Quem atina acerta com alguma coisa pondo em ação umas tantas qualidades de espírito (argúcia. e que. “não é parte essencial ou fundamental”. tenacidade. sem dizer de modo expresso qual a coisa a que se alude”. portanto. em relação a outra coisa”. ou mudar logo”. Adivinhar é. sobrepondo... de frutas. mas que se põe de reserva para momentos em que venha a servir”. montão. – Sobressalente = “que sobra. nem era necessário que se o fizesse.. distinguem-se tão bem como os dois verbos que ordinariamente se confunde. de sacos. referir vagamente. de gelo”. e sugere. tino) que nem todos têm. – Montão é aumentativo de monte. e só se usa. ACESSÓRIO. “Que monte de absurdos!”. – Cúmulo dá ideia de grande quantidade de coisas formando monte. é cada uma das pilhas de coisas iguais e sobrepostas umas às outras. porque todos os que ouvem sabem já qual é a coisa a que se alude. sem que faça falta no todo de que se elimina.. pelo próprio nome”. Quem arruma coloca em rumas as coisas que se devem arrumar. de pedras. adivinhar. – Subsecivo é o que pode ou deve ser eliminado. “Que acervo de asneiras disse o homem em tão curtos instantes”. – Secundário é “o que é de menor importância.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 75 referência a. excesso de coisas que se vão reunindo. ou num banquete político. acumulando. etc. subsecivo. precisa. atinar mesmo com as coisas de que absolutamente nada se sabia. – Ruma é “porção de coisas uniformes. de um dom excepcional que só se explicaria por faculdades que o fizessem superior aos homens comuns. atinar. falar acerca ou a respeito de coisa determinada clara. e usa-se tanto no sentido natural como no figurado9.). – Acervo diz “grande porção de coisas”. no sentido figurado. – Acessório se diz de tudo que numa coisa (num corpo. por ser aí demais. etc. e quase sempre à má parte. e em alusão a. pois. Falar em alusão é falar quase a propósito. podendo por isso ajustar-se umas às outras. – Monte diz também “grande porção de coisas”. 101 ACERVO. – Pilha é “porção de coisas numa certa ordem”: pilha de tábuas. Falar em referência é. pois que referir é “indicar positivamente. – Contingente é “o que não é necessário. portanto. que se esteiam mutuamente. num pensamento.. mas de uma vidência maravilhosa. contingente. ruma. sobressalente. – Aquele que adivinha vale-se de um tino misterioso. fora da acepção jurídica. pode permanecer apenas por algum tempo. por exemplo. e para cujo conhecimento o adivinho não se serve nem de esforço. numa festa. desordem. nem de acaso. 100 ACERTAR. e tanto se emprega no sentido próprio como no figurado: – neste último igualmente à má parte. Não seria de bom gosto dizer: acervo de verdades. monte. grandeza descomunal. 102 secundário. ou então ao cabo de algum esforço. de segunda ordem. rima. – Rima. numa questão. de areia. pilha. de armas. equivalente a amontoamento. . que excede ao necessário. segundo Bruns. melhor ainda do que este. ou indispensável e próprio. pode falar em alusão a certos fatos ou a certos homens sem os referir. etc. ideia de confusão. é falar considerando uma coisa que não foi citada. 9 Usamos também acúmulo por acumulação. de modo que ocupem o menor espaço possível”. e sem razão... cúmulo. e aludir é “indicar por sugestão. – Quem acerta dá por uma coisa casualmente. “um monte de laranjas. expressamente. acertar. Um sujeito.

mui razoável por certo. nos apresenta uma pessoa ou coisa de que havíamos.: “Encontrar corresponde ao verbo latino invenire: na sua mais lata significação representa a ação de dar com uma coisa que se buscava. e andando à procura dela e encontrando-a. etc. acha ou . De um homem que. aos fatos de extraordinárias proporções realizados pelos navegadores e viajantes modernos. in- ventar. nem se há de dizer nunca: descobrimento da pólvora. Descoberta aplica-se mais particularmente ao que se descobre no domínio das artes e das ciências. com a diferença que invenção é muito mais extensiva. – Descoberta e descobrimento designam o ato de “dar com alguma coisa oculta. Só não se diz. Alguns o quiseram fazer sinônimo de encontrar. invento. Descobrem-se as minas. a mesma diferença que se dá entre ação e ato”. Colombo e Cook descobriram novos mundos. ou não conhecida. Uma coisa simplesmente perdida achamo-la quando chegamos aonde ela está e a descobrimos com a vista. Esta distinção. proveitoso. mas fora de nosso alcance atual. Muitos autores dos nossos dias dizem indiferentemente descobrimento ou descoberta da América. – Deparar. descoberta. trabalho. que se encontrou. que nos subministra. 104 ACHAR. viu no chão uma peça de oiro. além disso.. a descoberta da pólvora10. anda esta palavra em regra associada à ideia de bom. invenção. achar de novo”. a apanhou e guardou. Ex. – Inventar corresponde ao latim invenire na sua significação restrita de “discorrer.: o descobrimento da América. e. dizendo. feliz. tendo-a perdido. encontrar. o produto da faculdade inventiva (ou criadora). – Descobrir é pôr patente o que estava coberto. estabelecer. assim como. mas a mesma espécie de homem. o estafeta. – Achado é “aquilo com que se deu. – Sobre invento e invenção escreve o mesmo autor que “exprimem o que se inventou. ou de nossa vista. ou que por casualidade se oferece. pois o modo correto de falar é: “A passagem que o acaso. descobrir. o que se acha estava visível ou aparente. deparar. Pode-se.. a não querer dar a entender que a andava buscando. mas podendo ser também fruto de esforço”. me deparou”. 15). tanto moral como fisicamente. uma boa fortuna. dizemos que achou. mas só Deus poderia dizer: “Eu te deparei um amigo”. que é composto da preposição de e do verbo latino parare “preparar”. por exemplo: “A passagem com que deparei”: o que é erro. descobrimento. e que invento se restringe às artes. Ao passar 10 Se bem que se não siga sempre muito à risca esta distinção. com a voz neutra. é achar o que era ignorado. etc.. oculto ou secreto. as nascentes que a terra encerra em seu seio. etc. que nos é útil. e exprime a ação daquele que pelo seu engenho. acham-se os animais e as plantas que povoam sua superfície... diferente de nós. Lucena diz: “Mais encontraram acaso as ilhas do que as acharam por arte”. pois o p. Descobrimento aplica-se às descobertas de grande alcance. etc. dizemos igualmente que achou. O que se descobre não estava visível ou aparente. pela praça encontrei uma procissão. e naquelas regiões até então ignoradas acharam um novo reino vegetal e animal. etc. porque ela estava manifesta. indo pela rua. entre invenção e invento. etc. mas não a descobrimos. – Acerca deste grupo escreve Roq. exprime a ação de um agente. a obra do inventor.. como diz Roq. quase sempre por acaso. não deixaria de ter bom patrono entre os clássicos. um enterro. (3. a minha diligência. imaginação..76 Rocha Pombo 103 ACHADO. Ninguém dirá que achou a procissão. de revelar o que não era sabido”. É por isso que não se usa comumente nas primeiras pessoas: Dizemos que Deus nos depara um amigo. e não coberta ou oculta. A duas léguas de Lisboa encontrei o correio.

a segunda também se generalizou a todo incômodo. que não se espera numa ocasião ou circunstância determinada”. mas o engenho penetrante inventa coisas novas. podendo substituir em quase todos os casos a todos os outros do grupo. significa enfermidade ou moléstia habitual. mas cada uma delas indica modificações particulares que distinguem os diferentes gêneros de sofrimento”. imprevisto. isto é. e significa em geral o sofrimento que traz a alteração da saúde.. abandono de forças. de S.. o que se segue: “Todas estas palavras enunciam um desarranjo ou desordem no estado normal da saúde do homem. moléstia do corpo acompanhada de dores. casual. Harvée achou ou descobriu a circulação do sangue. – Eventual distingue-se de todos os do grupo em enunciar apenas a ideia de coisa que ocorre. contingente. enfadamento. – Contingente sugere ideia de coincidência. que atua ou que se produz sem ser normalmente. – Inesperado. 8). aqui tem decerto um sentido mais restrito. 3. Um engenho fecundo acha muitas coisas. aleatório. etc. fortuito. – Fortuito vem de fortuna: é o sucesso extraordinário. – Achaque. doen- ça.. 10). ou novos usos. – Incômodo é “mal passageiro”. no mesmo sentido em que dizia Cícero: Qui in morbo sunt. ocasional. – Moléstia toma-se quase sempre na significação da palavra latina. incerto. que vem e . – Imprevisto supõe ignorância da possibilidade da coisa. “Porque parecendo. a última exprime bem a falta de saúde acompanhada de do- res ou incômodos físicos. a terceira é preferível para indicar a falta de saúde que provém de fraqueza do corpo. Pas. – Indisposição é “estado em que a pessoa fica ligeiramente fora do normal”. É o que acontece sem ser esperado.. mal. a física acha as causas e os efeitos. segundo a origem árabe ax xaqui. escreve Alv. “supõe conhecimento da possibilidade de uma coisa. caso acidental. tantas vezes sucedeu que veio a ser havido por mistério”. coisa que pode ou não acontecer. ou trabalho penoso de corpo ou de espírito. mas favorável”. 105 ACHAQUE. 106 ACIDENTAL. – Quanto às quatro primeiras palavras deste grupo é ainda de Roq. “fraqueza. Copérnico inventou um novo sistema do mundo. – Mal é termo genérico para designar tudo que causa dano ao homem. que quer dizer doença permanente. Inopinado supõe que não se havia pensado. segundo a força da palavra latina. A mecânica inventa as ferramentas e as máquinas. enfermidade. inopinado. Fr. “Acidental vem de acidente”. Herschel descobriu um novo planeta. como o definiu Cícero: Molestia est œgritudo permanens (Tusc. eventual. sem que se ligue a causas que possam ser previstas: e. quer dizer estado doloroso do corpo. (Tusc. achaque. Parece corresponder ao morbus dos latinos. primeiro. e significa “que depende de certas condições ou circunstâncias. mas não habitual.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 77 descobre coisas novas. incômodo (incômodos). A primeira fez-se extensiva a todo defeito físico ou moral. enfermidade. ines- perado. moléstia. Dizemos com razão – doente o que não está são. sani non sunt. novas combinações de objetos já conhecidos. – Acerca de acidental e de fortuito. – Doença. segundo sua origem (do verbo latino doleo). – Enfermidade significa. 4. nem nos viera à imaginação o que sucede”. falta de forças.. debilidade da natureza no sentido em que disse Cícero: Infermitas puerorum et ferocitas juvenum” (Senect. Volta inventou a pilha que dele tomou o nome de voltaica”. 4). indisposição. L. se bem que no plural se aproxime de moléstia. portanto. em sentido desfavorável. segundo Roq. ou que não é permanente.

– Desastre (vocábulo francês. – Segundo Bruns. “que aparece como circunstância que se não prevê”. isto é. e por extensão. mas não provável”.).78 Rocha Pombo passa”. vocábulo que significou primitivamente os estragos que a saraiva produz nos campos) significa. 108 ACLAMAR. – Revés é a desgraça que faz mudar completamente uma situação. e que por isso se acredita que é devido ao acaso. abrangendo a significação de todos os outros: é todo acontecimento funesto. calamidade. – Aclamar é “aprovar. porém. livremente. pública ou privada. etc. considerável. agitação. trazendo consigo a carestia e a penúria.. vitoriar. e considerando-a até certo ponto como contrária às leis ordinárias. calamidade. – Aplaudir é “dar sinais ostensivos. se declarasse autêntico. segundo a sua etimologia. – Catástrofe é acontecimento extraordinário. num Estado. – Proclamar é “dar sanção. proclamar. e contra a qual nada se pode fazer. ou mesmo num indivíduo. com vivacidade. aplaudir. isto é. mas sempre sugerindo a ideia de transtorno violento e profundo. proclama-se. movimentos de delírio”. desgraça da qual é impossível sair. aclama-se espontaneamente.. que se dá como de momento. – Glorificar é “fazer a consagração . pela influência nociva dos astros. destruição das searas pelas intempéries. mesmo quando se fala de uma calamidade privada. vitoriar. (Bruns. – Calamidade (do latim calamitas. sem que nada a fizesse prever. revés. Esta revolução completa pode dar-se num povo.. constituindo um conjunto que tem importância excepcional”. que sobrevém como castigo. que é o único que hoje tem. se diz de qualquer grande desgraça. cumprindo um dever. que aniquila e destrói tudo. como se se desse testemunho. desastre. Como a destruição das searas é uma desgraça que afeta sobremodo a muitas famílias.. incendimento sagrado por alguém ou alguma coisa. de que se aprova e sanciona”.. – Ocasional significa propriamente “de ocasião”. catástrofe. entusiasmo. transforma completamente o estado precedente noutro estado muito pior. – Casual se diz de todo fenômeno cuja causa é desconhecida. acidente (do latim accidere. mas a uma série desses fatos que sobrevêm uns aos outros.) – Vitoriar é “aclamar estrepitosamente. “astro”) significa propriamente um grande infortúnio. formado do prefixo negativo des e de astre. povoações e províncias. desgraça. ou não se tem certeza”. alegria. se assim nos podemos exprimir. declarar com desvanecimento e no meio de extraordinário aparato”. e até somente numa família. – Desgraça é o mais genérico do grupo. glorificar – estes verbos marcam a gradação. pois nesse caso não se atende a um fato adverso somente. – Postos nesta ordem – aplaudir. – Aleatório “é termo jurídico: aplica-se a disposições que se tomam para o caso em que se dê uma circunstância possível. segundo as superstições astrológicas. (Há muita diferença entre proclamar e aclamar. delírio.. “suceder”) diz-se de qualquer desgraça que sobrevém inesperadamente. glorificar. muda. como se se fizesse escolha solene da pessoa aclamada. e como se se tornasse publicamente reconhecido o que se proclama. a força crescente dos sentimentos com que se manifesta aprovação. uma grande desgraça causada. toda desgraça irremediável. é o reverso da medalha. aclamar.. aceitar solenemente”. proclamar. O sentido desta palavra é sempre coletivo. expressos. Em regra. no sentido figurado. mas para pior. que revolve. numa sociedade. do destino. 107 ACIDENTE. – Incerto é “tudo aquilo a respeito do que se está em dúvida.

e não – alumia-se. atemorizar. fazendo fácil”. esparzir claridade”. . e: “Deus que lhe alumie o caminho escabroso que vai seguir” (isto é – que lhe torne claro o caminho). em sugerir ideia do modo completo como a coisa elucidada ficou esclarecida. assustar. a atacar. amedrontar. mas amedrontam uma criança. o senso interior). quer no figurado. que uma tormenta.. espavorir. A noite. – Esclarecer é “aclarar completando. ou a evitar etc. E como um caminho só se faz claro a olhos que saibam ver. Não se poderia dizer... projetar brilho sobre”. alumiar. me acobarda.) não se pode dizer que seja cobarde. 110 intimidar.” “A palavra de Jesus alumia os cegos” (não – “ilustra. tratando de cobardia. aterrar. e não – “ilustra. O grande homem ilustra (dá brilho) o seu tempo”. pois iluminar. seja superior a forças humanas ou fique fora do nosso alcance. que de um menino (de uma mulher.. – Todos estes verbos enunciam ação de diminuir ou abater o ânimo de. – Alumiar diz propriamente “dar luz. mais por defeito da coisa que se explica do que da pessoa a quem é explicada... desembrulhando aquilo que se não entendia. etc. – Ilustrar significa “lançar luz. A glorificação deve ser um ato ou uma cerimônia tal que se compare à solenidade de culto: só a merecem os verdadeiros gênios e os santos. esclarecer. decerto que ninguém teria a lembrança de arriscar: “Deus que o alumie. um assunto. um debate. Dizemos: “Deus que o ilumine” (isto é – que lhe torne luminoso o espírito. significa “dar à inteligência uma nova e intensa claridade a que não escapem as coisas mais abstrusas”. e isto quer no sentido próprio.” O sol alumia a todos”. inteligível. também poderíamos dizer assim: “Deus que lhe ilumine o caminho da vida”.. quanto ao primeiro exemplo.. que me atemoriza ou me quebranta. mas nem sempre nos ilumina. sem que só por isso haja necessariamente ficado de todo elucidada.. explicar. Uma questão pode ter sido ilustrada por um mestre. “pois que diante destes os homens ficam como se estivessem diante de divindades”. talentos que excedem ao que é grandeza comum entre os homens”. – Aclarar é “tornar claro. elucidar... – Elucidar é “fazer perfeitamente claro. a vencer. Mas. e sim medroso. explanar. A lição do mestre abalizado nos ilustra.” – Iluminar é de predicação mais viva e de ação mais direta que alumiar e ilustrar. – Acobardar é “reduzir alguém a uma incapacidade absoluta de reagir”.. explicando o que parecia obscuro ou estava confuso”. estendendo. etc. Também não será próprio o verbo acobardar tratando-se de casos em que a coisa a resistir. Muito bem nota Roq. feitos.”) Ilustra-se uma obra.. alumiar e iluminar. no entanto. ou para atacar um inimigo que o afronta. como a própria luz”.. e pode-se dizer que a nuança entre uns e outros é marcada pelos respetivos radicais.. quebrantar. mas que me apavora. ou de um decrépito. De sorte que só se entende que alguém se acobarda quando deixa de ter o ânimo que é próprio do homem. da ACOBARDAR. de um enfermo. – Explicar é esclarecer como desdobrando. aterrorizar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 79 de virtudes. ou um vulcão. É convizinho de ilustrar. ou o relâmpago. distinguindo-se destes.. – Explanar = “explicar tornando simples. 109 ACLARAR. a solidão. iluminar. ou nos alumia o espírito. fazer que se veja claro”. ilustrar.. por exemplo. apavorar. uma invetiva não acobardam.. e não – “alumia. num sentido muito alto.” Pelo menos esta forma seria de lidimidade muito duvidosa. Quem se acobarda perde a coragem para repelir um ataque. e distingue-se de ilustrar em grande número de casos.

sinalando a palavra diretamente a intenção do que as executa. como virtude contra o escândalo. o produto.) – Assustar é “produzir impressão súbita de espanto ou medo”.) “Por estar na rua. nem intimida. amofinar”.. mas seguramente mais humano. um assassino acossado de remorso ou perseguido da justiça. o perdulário lembrando-lhe o futuro. mas aquele que se intimida – ou é de uma prudência tão meticulosa que se avizinha de cobardia. Não se poderia dizer. Exemplos: “Bastou uma palavra mais alto e mais áspera para que o outro se intimidasse ali. “Na miséria ou na doença os mais fortes se quebrantam”. representando-nos a vontade. portanto. calando-se”. de impressão violenta. – Apavorar diz propriamente “encher de pavor. o movimento. um espírito supersticioso. e tem alguma coisa de análogo a aterrar por sugerir. – Feito é o mesmo que fato. atemorizamos o mau estudante com a presença do pai. ou é de uma tão delicada modéstia que passa a ter sem dúvida outro nome. representando-nos o efeito. Mas a diferença entre estes dois verbos é bem sensível quando se compara medo e temor. Pode-se intimidar a todo o mundo talvez.) Amedrontamos uma criança. ou – “O castigo do céu atemoriza os crentes”. feitos. mu- . de coisa sagrada. proezas. e menos acobarda. que leva alguém a perder o ânimo. causar grande medo”. mas é possível que explicasse suficientemente a sua quebra de ânimo como excesso de pudor. – Amedrontar é “causar medo”. O fato tem uma relação direta com a coisa executada. a parte que nela tem a pessoa. Sente-se. o menino na presença dos examinadores. etc. etc. é causar susto. sagrado. que se deixe abater.. – Quanto aos três primeiros escreve Roq. tão discutível e brutal. – Quebrantar é “fazer que se perca o ânimo. nos espavore”. por exemplo: “A noite. e os fatos são certos. o heroísmo um tanto menos espetaculoso. Uma visão diremos que nos aterra. ou: “Bastou a presença do mestre para intimidar o menino”. fatos. a iminência de uma grande desgraça nos aterroriza. grave. o que fica executado por meio da ação. como atemorizar é “causar temor”. da sua tarefa. “Só ao ver ao longe o filho do senhor. já que é tarde para defendê-lo a pulso ou à força de armas). igualmente a ideia do que tem de misterioso. quase sempre. mas – “nos apavora”. com relação direta à essência ou qualidade do fato em si mesmo. que se inclui em aterrar. – Aterrar e aterrorizar confundem-se muito. mas não sugere a ideia de mistério. abater inteiramente o ânimo aterrado”. a presença daquele biltre intimidou o velho soldado (O velho soldado nem por isso perderia direito a continuar sendo o mais legítimo dos heróis: poderia mesmo juntar talvez agora ao antigo. que em atemorizar se inclui a ideia do motivo real. lá fora. deixar agitado de susto: e sugere a ideia da fuga que revela o espanto. um súbito terror de imobilizar. ou então é mesmo de natureza ou de condição tímido por ser fraco. Até os animais podemos assustar. façanhas. Daí vem que as ações são boas. – Intimidar é “fazer tímido”. 111 AÇÕES. O primeiro exprime “inspirar um medo. (Ver o grupo. “O sofrimento moral quebranta mais que os males físicos”. “A ação tem uma relação imediata com a pessoa que a executa. “O crente atemoriza-se do castigo divino”. como sobrenatural. o mísero escravo intimidou-se”. atemoriza-se o réu diante do tribunal. um grande espanto. (O outro aqui não é decerto um herói. É dos mais extensivos do grupo. más ou indiferentes. e sem razão. O segundo significa também “encher de terror”.. etc. falsos ou duvidosos. o pavor que sentimos.80 Rocha Pombo sua função. (Ninguém diria amedronta. submisso. – Espavorir é “fazer abalado de pavor. de salvar o seu decoro intimidando-se..

fustigar. De um criminoso julgado. quem se esconde procura escapar tanto às vistas como à investigação de outrem. vergastar (verdascar).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 81 dada por eufonia a pronúncia dura de a na doce de ei. pungir. a esforço. – Ocultar é menos do que esconder. “obrar” etc. abrigar-se. como um assassino que foge da polícia.. nem o segundo pode dizer-se. e tanto se faz às bestas lerdas. corresponde muitas vezes a obra. acoitar-se. afligir. – Esconder é “furtar alguém ou alguma coisa à ação. surrar. não se dirá que se refugiou. e como castigo”. – Azorragar é “bater com azorrague”. – Acoitamos uma pessoa que sabemos comprometida com autoridade pública. refugiar-se. mas principalmente batendo. chibatar (ou chibatear). – Todos estes verbos enunciam ação de molestar fisicamente. ocultar-se. Nem por isso asilamos a primeira. – Homiziamos em nossa casa alguém “que sabemos condenado por algum crime”: e exatamente nisto é que este verbo se distingue de acoitar: este é mais extensivo: tanto podemos acoitar um menino que fugiu da casa dos pais. nem sempre. sagrado (asilo) em que alguém se julga a salvo de qualquer perseguição. Um político. zurzir. Vem acoitar-se em nossa casa o indivíduo que se julga culpado de algum crime. ao esforço de outrem. – Surrar é o mais compreensivo do grupo: exprime a ideia geral de “molestar de qualquer modo. 113 AÇOITAR. ou com alguém a que essa pessoa esteja sujeita. mas ultraja também. – Zurzir é “espicaçar. a virtudes. pois o chicote ou rebenque não só molesta. como aos homens que se deseja humilhar. – Açoitar é “bater com açoite ou látego. homiziar-se. – Asilar expressa a ideia de lugar seguro. refugia-se na floresta. devido à grande coragem. comprometido em algum atentado ou algum movimento subversivo. acoitar nem sempre. . proeza (em francês prouesse “action de preux”) “diz-se propriamente das façanhas da antiga cavalaria. isto é – “acolher e amparar alguém contra risco iminente. mas o seu uso mais frequente é representar as ações nobres. – Chicotar (ou chicotear) é “pungir a chicote”. – Refugiar-se diz propriamente “fugir e valer-se de algum lugar seguro para escapar a algum perigo”. – Segundo Laf. esconder-se. que se considera com direito a essa coisa ou essa pessoa”. De um revolucionário vencido que conseguiu fugir não se pode dizer que foi homiziar-se no estrangeiro (e sim – refugiar-se). mas só homiziamos o criminoso que tenta escapar à ação da lei penal. ilustres de homens famosos e dignos de memória”. magoar açoitando ou vergastando”. flagelar. ou contra mal de que é perseguido”: “O hoteleiro abrigou da (ou contra a) chuva aquelas crianças”. a valor excepcionais. Usam-se todos também no sentido moral. ato. ocultar. – Façanha (do latim facinus. Um bandido. de facere. um anarquista. Quem se oculta deixa apenas de aparecer. “Abrigamos em nossa casa bons e maus”. es- conder. que se asila em nossa casa. acossado do clamor geral. chicotar (ou chicotear). – Abrigar é “dar abrigo”. sim. e diferençam-se quase que só pelo gênero do instrumento com que se molesta. cortante”. das que são contadas nos antigos romances”. refugia-se na Inglaterra ou na Suíça.) é feito heroico. asilar. – Vergastar (ou verdascar) é “bater com vergasta (ou verdasca) isto é – com vara muito fina e rija. Esconde-se aquele que se esquiva à ação dos que o procuram. asilar-se. e sugere a ideia de “fortes golpes que molestam e afrontam a vítima”. azorragar. “fazer”. abrigar. pois ocultamos uma coisa evitando apenas que outros a vejam. – Homiziar é sempre um delito. mas que se foi homiziar no estrangeiro. homiziar. 112 ACOITAR.

– é sempre mais de uma. alguma coisa que está no nosso interesse. – Adaptar é “fazer alguma coisa apta especialmente para uma calculada serventia”. é mais restrito que escoltar. – Chibatar (ou chibatear) é “aplicar a chibata. pois nunca se comboia senão para proteger. mas indo-lhe na retaguarda e sem perdê-lo de vista. Acompanha-se uma irmã à igreja (não – segue-se)”. – O sentido translato é análogo ao natural em todos estes verbos.82 Rocha Pombo macerando. ou por meios indiretos e vagos. “acompanha no encalço”.” Pode aconselhar-se bem ou mal. isto é.. etc. portanto. a isso o aconselhamos. boiadas.. numa situação difícil. 116 ACONSELHAR. até que o fustigado perca a paciência e saia do estado normal de atividade ou de calma”. e muito subtilmente. As forças escoltaram os prisioneiros até Pernambuco. ou a um caso determinado”. por meio de razões insistentes e bons argumentos. – Insinuar está quase no mesmo caso de sugerir: é “introduzir. É claro que. sem perder o seu caráter.). Segue-se-lhe a pista a alguém. quando lhe fazemos sentir por meias palavras. ou por circunlóquios. tropas de carga. e quer para observá-lo. sofra as alterações que o caso exige: acomodar um drama estrangeiro ao teatro português”. Além disso. com- “ir atrás.). guiar. – Quanto a comboiar é preciso que se note que. em regra. zurzindo para exemplar e corrigir”. – Sugerir é “fazer entrar no espírito de alguém. ou a verdasca”. – Acomodar “é – diz Bruns. ou o fato de cair. a que faça alguma coisa que não faria de moto-próprio”. sugerimos a Pedro o que está no seu interesse. – Aconselhar é “induzir alguém. como calamidade. seguir. insinuar... boiar. mas – “segue no encalço” (ou vai. Porque seguir é que diz inspirar. – transformar uma coisa de modo que. ou mesmo na conveniência da pessoa a quem se sugere. na vida. como a despiedade de um mau poeta. e dá ideia de que nunca é uma só pessoa que escolta. é também “encaminhar numa certa direção (num negócio. apropriar. 115 ACOMPANHAR. benévola ou perversamente.. sugerir. – Fustigar é quase como zurzir: designa a ação “de picar. – Apropriar aqui é “dar a uma coisa condições que a tornem própria para o fim que se deseja”. – Adequar é “fazer uma coisa proporcionada a um certo fim. adaptar. e sugere noção da superioridade de quem chibata com respeito ao chibatado. tomar o mesmo rumo de alguém. quando dizemos explicitamente a Pedro que levante cedo. significando a ação de impor pena como suplício e castigo. a conveniência de ocultar-se às vistas da polícia. em vez de dar um conselho”. navios. sempre se entende que é grupo. 114 ACOMODAR. persuadir. multidão (comboio). – Escoltar é “acompanhar para proteger ou para vigiar”. – Flagelar tem hoje uma acepção especial.. a coisa a comboiar – carros. – Acompanha-se uma pessoa quando se vai a seu lado e subentende-se que tomando parte nas vicissitudes que essa pessoa tiver no seu caminho. quer para o servir. Um galé só sai da sua prisão escoltado. conveniente a um determinado uso. Não se poderia dizer. adequar. levar até o íntimo do espírito ou do . Tanto pode flagelar-nos um inimigo como um infortúnio. escoltar. ajustar. – Ajustar é “modificar uma coisa de maneira que com outra se combine”. Ninguém diria que sugeriu a Pedro que levantasse muito cedo: salvo se quisesse mesmo fazer uma simples sugestão. bater com vergasta e repetidamente. (não – acompanha-se). Uma nação pode ser flagelada por uma inundação ou por um mau governo. de boa ou de má-fé. etc.

não de vontades ou de impulsos propriamente. ajuste. dar-se. ajustar. tão extensivo. aqui. convenção.. tratar. – Quanto aos três primeiros. não há dúvida que em tais casos seja bem empregado: aconteceu o que tínhamos previsto. e. ou ocorrer. pois. porém. 118 ACORDAR. combinar.” Ocorrer é o mesmo que suceder ou acontecer. ocorrer. operar sobre o espírito ou o coração de alguém para que se oriente. como guia o mestre os seus discípulos. combinação. marcha. significa “sugerir mais diretamente. como termo genérico. para que a pessoa guiada não se afaste do reto caminho. entrar em acordo. mas encerra ideia de causa anterior. – Passar-se está quase no mesmo caso: não é. que deu cors. de direito ou de interesses a que se submetem afinal partes que não puderam dirimir de outro modo a contenda ou a questão debatida”. uma suspeita. a que chega quem faz acordo. – Persuadir é “insistir em que alguém creia. intento. Decerto que se não poderia dizer: “Passou-se uma catástrofe. emprega-se.: “Acontecer é termo genérico. convênio. etc. um desejo etc. dizendo “sucedeu uma desgraça” – apresentamos o fato como consequência de tal ou tal existência: “na perfuração dos túneis sucedem desgraças amiúde. As ocorrências que se dão diariamente já não impressionam.. – Dar-se é. Não é convicção que leva uma pessoa a persuadir-se: é antes a autoridade de quem persuade.: convindo não esquecer que insinuar envolve ideia de má vontade ou de intuito ilegítimo de quem insinua”. etc. acordo. significando o mesmo que acontecer.. 117 ACONTECER. Nesta palavra acordo (accordo) figura a raiz cor. “coração”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 83 coração de alguém uma ideia. que chegou a fazê-lo. mas de razão. se anime. sem outra ideia acessória. concerto. aplicável a qualquer fato. “para o coração”. importante ou não. aqui.. – Inspirar. convencio- passar-se. – isto é – significa a união de sentimentos e extensivamente de ideias. aceite o que lhe propomos ou dizemos”. O que se faz entre as pessoas que convêm chama-se convênio. é assistir com bons conselhos. Dão-se às vezes desgraças que surpreendem os mais fortes ânimos. Os que convêm fazem convênio: celebrar . tratado. de opiniões. concordata. convir.” – Suceder é o mesmo que acontecer. assentar. porém. primeiro relutara ou não se tinha mostrado a ele propícia. Dizem que se deram naquele momento sucessos imprevistos. não obstante. contratar. Convenção é sempre mais solene e ato de mais importância do que convênio. portanto. diz Bruns. previsto ou imprevisto. concertar. pactuar.. quando se quer dar a entender que do que sucede ou acontece se origina alguma consequência.. – Também se pode guiar mal ou bem. e é de predicação mais precisa. – Acordo supõe que a pessoa. concordar. Geralmente. – Guiar é dirigir alguém nalgum serviço. um verbo que em todos os casos poderia substituir a qualquer dos nar. ou suceder. três primeiros. Dizendo – “aconteceu uma desgraça” – referimo-nos à desgraça em si. pacto. cordis. – Acordar é. Por isso é que se diz muito acertadamente que onde nunca houve desacordo não seria próprio dizer que veio a dar-se acordo. se recorde. ac (c por d) + cordo diz propriamente “ao coração”. se incenda. – Convenção é “o acordo. Deram-se acontecimentos extraordinários em Lisboa. etc. assento. aconteceu um desastre. acontecer não relaciona o fato com outro anterior nem o atribui a determinada causa. suceder. Guiamos os nossos filhos. – Convir é encontrar-se com outra pessoa numa certa igualdade de intuitos. contrato. passar-se-ia um desastre se não fora a nossa prudência”. com mais energia.

ou ainda mais restrito – comercial. despertar. pois. Dois exércitos não celebram tratado. e também a cessação do sonho.84 Rocha Pombo convenção é convencionar. como se vê naquele verso de Camões (Canç. da sentença que foi proferida”: assentar é. se bem que o mesmo se pode quase dizer de tratado. mas já envolve compromisso moral mais solene do que aquilo que simplesmente se combinou. e representam a ação pela qual um homem sai. – Contrato é “aquilo que se tratou reduzido a escrito. – Segundo Roq. – Acordar exprime propriamente a cessação do sono. ou dos costumes. pactuar com os inimigos da pátria”. por acordo comum”. – Tratado e contrato correspondem a convenção e convênio ou guardam respetivamente entre si a mesma analogia. expedito para exercer suas faculda- . referindo-nos a negócios de pequena monta: “o tratado é devido”. celebrar contrato. e designa “ajuste entre credores e devedor”. – Concordata é termo jurídico que tem principalmente duas acepções: exprime “acordo ou convenção solene feita entre o sumo pontífice e um soberano”. portanto. confrontá-las. mas convenção: só poderes soberanos têm capacidade para celebrar. do estado de adormecimento em que jazia. depois de debate. é um compromisso que fica obrigatório para cada um dos que nele tomam parte. o pacto se faz sobre coisas cuja sanção é superior ao alcance das leis humanas. – Combinação é o ato de combinar ou aquilo mesmo que se combinou. – Concordar é convizinho de concertar: é “vir a acordo como os que se conciliam. compará-las”: combinar é. É precisamente em virtude do caráter de imutabilidade que o pacto reveste. portanto. deixando sentir que se havia antes discordado”. É certo. da resolução que se tomou. 119 ACORDAR. “dispor. – Concerto é um pouco mais que simples combinação: é “a harmonia perfeita a que se chega acerca de alguma coisa depois de haver ponderado todos os prós e contras”: pode não chegar a ser um contrato. ou o tiram. ordenar os termos de um acordo ou de um convênio”. – “O pacto é uma convenção formal em que cada pactário declara renunciar ao direito de romper o pactuado. pois. – Combinar (do latim combinare – cum + bini “com” + “par”) diz precisamente “pôr uma coisa ao lado da outra. a forma autêntica. nos termos ou nas condições da lei. O que se combina fica assentado apenas mentalmente: não tem força de acordo ou de pacto feito.: – “Acordar e despertar são verbos ativos e neutros. – Assento diz propriamente “o registro solene de um convênio. e tem mais propriamente sentido jurídico. o ato de ajustar. juntá-las. Trata-se tanto de altos interesses de nações como das coisas mais insignificantes do mundo. para que dele resultem direitos e obrigações legais ou morais”. “entrar em concerto. (Bruns. o recobro dos sentidos. Ajuste é. de modo que fique sólido e perfeito”. que tratar tem uma significação muito menos precisa. – Contratar é. – Concertar é. como frequentemente sucede. como quando se diz: fazer um pacto com o diabo. no entanto. tanto convenções como tratados. mas dizemos também. fora da acepção que tem neste grupo. ainda quando não tenha sanção legal – não a podendo mesmo ter quando. Mas tratado é uma convenção de alta categoria: só pode ser celebrado entre nações. decidir.) – Ajustar é “convir em alguma coisa. que este termo se presta a ser tomado a má parte. 15): Ah! quem de sonho tal nunca acordara – Despertar é pôr ou pôr-se um homem esperto. pois. “reduzir a escrito (ou dar-lhe toda autenticidade) um acordo a que se chegou. ou junto uma da outra. ou nas condições de um arranjo ou negócio depois de haverem as partes discutido”.

e não se possa afastar do posto em que se a fixou. – A mesma diferença existe na acepção figurada. Para o segundo os outros despertavam. induzir. no figurado é “coagir. Entre os dois primeiros e o outro. Quem in- agrilhoar. 122 ACORRER. porque em afluir se inclui a ideia 11 Poder-se-ia notar entre estes dois verbos alguma diferença. – Alentar significa propriamente “dar alento. melhor do que este. afluir. por meio de palavras persuasivas. prender. Não há ninguém que anime aqueles míseros no eito. já se nota uma diferença fundamental: tratando-se de pessoas (ou quaisquer animais) só se emprega afluir quando se faz referência a muitos indivíduos. duz um menino a faltar às aulas não é talvez menos perverso do que aquele que o incita a praticar o mal. – Animar é “infundir alma”. – Incitar é um pouco mais: é “induzir com grande esforço e vivo empenho”. – Encorrear (ou acorrear) é “prender por meio de correias. conter dentro de certos limites”. isto é – dar vigor às forças do espírito para uma resolução. Quantos homens acordam do sono da culpa. é “prender por meio de corrente”. – Estes três verbos enunciam a ação de correr. insuflar coragem. – Acorrentar (ou encorrentar)11. 38): Os do quarto da prima se deitavam. A esperança nos alenta nesta luta. amarrar. Uma só pessoa seria impróprio dizer que aflui. isto é. ir ou vir para alguma parte. a fazer alguma coisa”. que acordar supõe um sono ordinário e que acaba regularmente. – Agrilhoar diz mais ainda que acorrentar. marchar. pois encorrentar diz mais propriamente “carregado de ferros. Animam-se os enfermos contando-se-lhes casos de cura prodigiosos. do sofrimento do agrilhoado. sustentar no esforço. – Prender é o mais genérico do grupo: diz “ligar uma coisa a outra. pois encerra ideia da tirania com que se agrilhoa. prepotência com que se prende. – Induzir. correntes. acudir. distinguindo-se em sugerir. do peso dos grilhões. no sentido próprio. sem envolver ideia do modo como se a prende”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 85 des. animar. mais ou menos intimamente. encorrear (ou acorrear). incitar. dureza. como se vê ainda de outros versos de Camões (Lus. Parece que a ação de acordar precede à de despertar. . A palavra do santo velho alentava os moços. ou seu intento. enlaçar de modo a tolher os movimentos ao que se encorreia”. incitando-o com palavras e afagos a que tenha coragem e se esforce por vencer. ou de quem nos quer tornar espertos. de modo que a coisa amarrada fique segura. para um trabalho. incitar na tarefa. É próximo de encadear. para sofrer um mal. 121 ACORRENTAR (ou encorrentar). encadear. Segundo a própria etimologia. – Acoroçoa-se alguém na sua tarefa. VI. ou por exemplos ou por medo. a ideia da força. – Amarrar diz propriamente “prender com amarra”. cheio de correntes”. para sair do qual é necessário mais esforço nosso quando acordamos. ou uma doença. ou cordas. aqui. isto é – por meio de cabos. sendo que despertar anuncia sono profundo. acoroçoar (a + coração + ar) diz “avigorar o coração”: quer dizer – confortar alguém no que empreende. mas não chegam a estar assaz espertos para praticarem resolutamente a virtude!” 120 ACOROÇOAR. Colombo voltou da América encorrentado (não acorrentado). e que se interrompe a horas desacostumadas. é “levar alguém. Com o exemplo do capitão animam-se os soldados a investir o baluarte. alentar.

ou a alguma coisa que procura solícito impedir ou evitar. modelar-se. Entre acostumar-se e habituar-se há. Resta observar que costume se poderia definir como significando hábito moral. e que em acorrer e acudir está implícita a ideia de pressa: não se acorre nem se acode devagar. ou por termos repetido muitas vezes”: devemos os nossos hábitos mais a nós próprios do que a outros. pois. acomodar-se. tanto social como físico.” Devemos. – Acossar – diz Bruns.. portanto. – Confunde-se acostumar-se. ou sem grande interesse de momento ou urgente. ou nalgum lugar. Isto quer dizer que afluir significa (como na acepção própria. por exemplo. com habituar-se. a vivo interesse. meio ou vida nova. e com a mesma sem-razão com que se confunde costume com hábito. porque “corre a socorrer”. não se acostuma no campo. ou do modo de parecer peculiar a cada pessoa. afazer-se. a mesma diferença. Não está em mim acostumar-me numa cidade. – Todos os verbos deste grupo enunciam ação de mudar de vida. conseguintemente. amoldar-se. em Paris. M. nem sempre se dá quanto a acorrer. – Costume é “tudo que forma o modo de ser próprio de alguém ou de um povo: o convívio é que o faz. como: “eles acorreram ou acudiram. – “é perseguir hostilizando. identificar-se. – Dar-se exprime. hábito. Tal ideia não existe em perseguir. ou cede a medo. à procura de um ponto”. Costume. menos a nós próprios do que à ação do meio em que vivemos. pois entre o perseguidor e o perseguido a distância pode ser considerável”. afeiçoar-se. e afazer-se a condição. pelo menos.. pois inclui mais ideia de modo de ser do espírito. acostumou-se. aqui. a obediência. Paulo (isto é. quando sente que o meio. há-os também nos quais não seria permitido usar de acudir. Ele se dá tão bem na roça como na corte. o acossador tem à vista o acossado. adaptar-se. que um paulista nos viesse dizer que se acostuma em S. tar-se. Quem acode atende a grito de socorro. 124 habituar-se. lhe não é mais estranho como a princípio. mas nunca se habituará à vida dos boulevards. Quando muito. na mesma terra onde nasceu e se criou e onde vive). e a diferença entre os dois consiste em que aquele é de predicação menos intensa e mais vaga.86 Rocha Pombo de multidão. ajusACOSTUMAR-SE. natural) “mover-se lentamente (como os líquidos) numa certa direção. ou a provocação: o que. de meio. ou a perigo que viu. que do exterior. ou para determinado lugar. 123 ACOSSAR. por nos termos exercitado com esforço. – Hábito é “tudo que fazemos já quase maquinalmente. dar-se. se habituou a ir todos os dias à igreja. os nossos costumes. perseguir. quase o mesmo que acostumar-se. Acostuma-se alguém com alguma coisa.” Outra diferença: como há casos em que afluir não substituiria nenhum dos dois. de condição. Por isso mesmo não se explicaria. mas depende de mim habituar-me a um certo serviço. do caráter em suma. Esta ideia não há em acorrer e acudir: tanto podemos dizer “ele acorreu ou acudiu ao ver o desabamento”. ou a um gênero de vida que nunca tive. sem motivo instante. afinal. poder-se-ia dizer que ninguém acorre a um certo ponto. A. Entre acorrer e acudir é preciso também notar que é fácil marcar uma certa nuança. tanto maus quanto bons. Ela nun- . mas quem ouve um grito de socorro não acorre apenas: acode. de cópia ou abundância. aclimar-se (aclimatar-se). do indivíduo subjetivo. F. nem de acorrer por afluir: por exemplo: em – “as famílias da redondeza afluíram à cidade no dia da festa” – não poderíamos (sem alterar o valor lógico da frase) pôr nenhum dos dois primeiros verbos no lugar de afluíram.

dizemos que acresce. porque acrescentei alguns que me faltavam. “ficar maior. – Aclimar-se é “afazer-se. Aumentei o número dos livros da minha biblioteca.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 87 ca se pôde dar com os caprichos do noivo. agregar.” – Ajustar-se quer dizer “pôr-se alguém. O que se junta ou ajunta forma parte integrante do todo. identificou-se ele completamente com a sorte daqueles homens. Um ricaço aumenta suas rendas acrescentando novas propriedades às que já tinha”.. pois. sem constrangimento. qualquer que seja o processo de crescimento. a felicidade. – Acomodar-se diz propriamente “ficar a gosto nalgum lugar ou com alguma coisa. acrescer. A dor. afinal. – Acrescentar é uma extensão de acrescer.” – Acrescer é. etc. acrescentando. e modelar-se diz o mesmo. ficarem medida igual”. amoldo-me a todas as contingências: só não posso modelar-me pelo sentir dos ímpios. – Afazer-se aproxima-se mais de habituar-se. mais ampla. o primeiro é o resultado. como ficam duas superfícies planas que se juntam. pois que se torna mais intensa. – “é o meio. ninguém diria que acresce: e sim que aumenta. – Aclimatar-se é o mesmo verbo. ajuntar.. ou à índole das pessoas prudentes. acomodo-me à compostura. a raiva. adaptar-se a um clima novo. adi- cionar. de intensidade. ou que não é propriamente o nosso”. a acostumar-se aqui. Quando uma coisa aumenta “crescendo. Decerto nada impediria que uma pessoa. a coisa adicionada é menor do que a coisa a que se adiciona: esta fica para aquela como o todo para a parte. afeiçoei-me sempre às condições da minha vida. dar-se bem. capaz. por exemplo.” Quando uma coisa cresce de volume. adaptado da forma francesa. – Segundo Bruns. viesse. acrescenta-se. em relação a outrem ou alguma coisa. de amplitude. – Amoldar-se é propriamente “tomar alguém ou alguma coisa por molde ou modelo”. – Adaptar-se enuncia a “ação de se fazer alguém próprio. pouco a pouco. aditar. Não assim o que se 12 Aliás. mais extensa por acrescimento. ela procura ajustar-se ao modo de ser do esposo. em regra. de força. E não se diria: Acrescentei o número de livros porque o aumentei. adaptam-se rapazes à vida militar. que se não dá com a vida do Rio. ou para algum serviço ou função”. – Exemplos: afazemo-nos a uma tarefa nova. – Identificar-se é “acomodar-se tão bem com alguma coisa como se se fizesse igual a ela”. unir. de extensão. O aumento é sempre efeito da adição ou aditamento. Ajuntar é pôr umas coisas junto a outras. aclimar-se-ão neste trabalho ou neste meio se tiverem perseverança e cautela. com alguma coisa. 126 ACRESCENTAR. como a soma para a adição. O sentido translato é análogo. dizemos que aumenta. adir. 125 ACRESCENTAR. designativo de esforço por parte de quem se amolda: ideia que se não inclui em modelar-se. No verbo adicionar há implícita a ideia de que. e este é o meio por que o aumento se verifica. – Acrescentar é tornar mais longo ou mais complexo: acrescentar um parágrafo à carta. isto é. – “O segundo” – diz Roq. aumenta-se. Para aumentar. . apto para uma certa coisa. a alegria. pois ninguém se afaz a alguma coisa sem esforço. nesta acepção. aumentar. notando-se apenas entre os dois a diferença marcada pelo prefixo a de amoldar-se. por acréscimo ou adição gradual de novas moléculas ou porções de massa. juntar. – Afeiçoar-se é “semelhante ao precedente: designa a ação de dar-se perfeitamente com alguma coisa (ou com alguém) amoldando-se a ela”. isto seria melhor juntar. “adicionar é reunir um todo (ou uma parte) a outro todo12 da mesma espécie: adicionar um ato à Constituição do Estado.

(estarei junto do sr. menos à imprecisa propriedade do vocábulo. Crer encerra ideia de certeza profunda. Se nestes exemplos substituirmos o verbo crer pelo outro. o esforço do sujeito que põe uma coisa junto de outra: o que não se dá em relação a juntar. Exemplo: “Convença-se de que me juntarei ao sr. no entanto. notar que dizemos: aditar alguma coisa às provas feitas. É certo que dizemos – “ato adicional”..” (porque ajuntar. agregam-se essas ou outras”.. . portanto. de convicção segura e inabalável. pois cada parte agregada conserva a sua individualidade. este de formação vernácula. que se equivalem perfeitamente. adaptar. é de mais lídima propriedade a aplicação do verbo acreditar.. ajuntar. e. mas sem dúvida ninguém se animaria a dizer – “adição constitucional”. – Entre ajuntar e juntar parece que há sempre alguma diferença. no entanto. dos quais temos aditar e adicionar. Mas quem diz: “Creio que ele virá” – funda naturalmente a sua crença ou a sua confiança na afirmação daquele que tem de vir.) nesta questão”. que o próprio verbo crer. e aquele de formação latina. – Aditar diz.. por uma capacidade própria do nosso entendimento. Juntam-se coisas homogêneas. “creio firmemente na imortalidade da alma”. – Adicionar. como se vê dos nossos léxicos. e isso por uma injunção do nosso espírito.. que enuncia apenas o “ato de se pôr ou de ficar uma coisa juntamente ou em cooperação com outra”. e agregar é aumentar o conjunto. “ajuntamos laranjas.” Isto quer dizer que ajuntar marca (pelo prefixo a = ad) a atividade. 127 ACREDITAR. e neste caso. Por isso ajuntar é aumentar o todo.. não – “eu me ajuntarei ou ajuntar-me-ei”. Basta notar que se diz: – “juntamos os nossos esforços” e não – “ajuntamos. mas provavelmente devemos isso. É preciso. É exato. referindo-se a uma peça complementar da Constituição. – Adir (de addere = ad + dare) significa “pôr ao pé. unir”. parecendo. como parcela que vai aumentar. peça que lhe fica como que apensa. só admite a forma pronominal recíproca: poder-se-á ainda dizer – “ajuntar-nosemos”. é evidente que não faremos com a mesma precisão e a mesma força as afirmações que aí se formulam. ao discurso lido: casos em que adicionar não seria pelo menos de muito escrupulosa propriedade. mas aquilo que outros nos afirmam”.. ajuntar. are) e todos designam a ação de acrescentar. “creio que ela não descerá jamais àquela miséria moral”. e é só por engano talvez que lhe damos a significação perfeita de acreditar.. ajuntamos dinheiro” e não – “juntamos. “ajuntar ao que estava feito.. – Confundem-se mui- to estes dois verbos. não o que sentimos. em certos casos. aditar e adir têm o mesmo radical (do. portanto. nunca – “me ajuntarei. bastariam alguns exemplos para deixar clara a distinção que é preciso não esquecer entre os dois. Deu-nos adido e adição..”.88 Rocha Pombo agrega. aqui. aliás. ou por uma tendência ou um modo de ser da nossa natureza moral. em vez de – “aditamento constitucional”. e como perfazer a soma”. Aditam-se razões às que já foram produzidas: adiciona-se alguma coisa a uma coisa dada. Todos dizemos: “Creio que ele virá” – querendo dizer: “Acredito que ele virá”. sugere também alguma coisa de dúvida no considerar como certa a coisa em que se crê. que a uma desfiguração de sentido que se explicaria talvez por uma vantagem do menor esforço com que pronunciamos crer em vez de acreditar. Enquanto que o verbo crer significa “considerar como verdade aquilo que está no coração ou na consciência”. crer. “Creio em Deus”. ou uma ou mais porções a um corpo fazendo-o maior. aos autos. deixando como apensa a coisa aditada”: adicionar exprime “acrescentar como adição. que diz precisamente “ter como verdade.

amparar. 80). O vidro é quebradiço. Há metais acros. como se vê dos seguintes provérbios em que no uso ordinário se não pode substituir um pelo outro: Deus ajuda aos que trabalham. IV. que é latina (auxilium). dá-se socorro (ou socorre-se) ao que não tem o suficiente. – Socorrer não implica a ideia da presença da pessoa.. quebradiço. acolhe e abriga. e esta (ajuda) passou para o domínio do vulgo. 129 ACUDIR.. sendo duro e pouco dúctil. isto é – que tenha vindo solícito ao lugar em que perigamos. além de ser quebradiço ou deteriorável.” – Quebradiço é o que se quebra facilmente. se quebra ao ser trabalhado. Mais vale quem Deus ajuda Do que quem muito madruga. isto é. Nem sempre quem acode socorre efetivamente. ou para que multiplique as próprias forças e se ponha ainda mais no caso de alcançar o que almeja. que. “segundo o aca- . no entanto. nos julgamos inteiramente perdidos. salvar. defender. (Lus. e o protetor dá-lhe um auxílio poderoso para que ele se revigore. não se segue necessariamente que nos haja acudido. socorrer. frágil. 128 ACRO. Dá-se ajuda (ou ajuda-se) a uma pessoa que está embaraçada com trabalho que não pode fazer. Só se amparam aos desvalidos. ou mesmo num perigo.. era ignorada ou não usada até princípios do reinado de D. abandonados. a que se empregava era a portuguesa ajuda. Quem me auxilia apenas concorre para que eu vença. dá-se auxílio (ou auxilia-se) ao que já tem meios. espúrios. proteger. não sucumbam. a minha capacidade de triunfar. da Acad. e amparo (ou ampara-se) ao que nada tem”. Depois que os poetas e escritores cultos foram alatinando a língua. – Segundo dêmico Francisco Dias (Mem. auxiliar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 89 Muita gente não crê em Deus. ajudar. junto da pessoa que se deve socorrer. de que os sustentem... Acudir dá ainda ideia de que a pessoa pela qual se grita deve fazer tudo pela nossa salvação. forças etc. isto é – aumentar a força de alguém que já não se julga fraco. não pereçam. IX. Nada mais frágil que “a saúde”. quando gritamos. valer. ou em Jesus. Aquele que nos grita: Acudi-me! – solicita ansiosamente a nossa assistência nalgum perigo em que se encontra. e precisa de ter mais. – O mesmo se pode dizer de quem me ajuda. “acro se diz do que. foi aquela (auxílio) admitida com certo ar de nobreza. O protegido não é sujeito que precise de socorro ou de amparo. ou aumenta a minha força. Escreve Roq. mas antes de auxílio. em lendas fantásticas e contos da carochinha. vem apenas completar o nosso esforço e a nossa capacidade de defesa. Quem nos socorre.. pois entende-se que nós. – Frágil aplica-se ao que. os que precisam de amparo. Manoel. e o mesmo aconteceu com o verbo ajudar relativamente a auxiliar. cujo socorro se pede. – Auxiliar diz propriamente “dar auxílio”. – Amparar supõe o desvalimento completo da pessoa que se ampara. como ainda se vê em Camões. – Acudir é “correr em socorro de alguém”. E a inversa é também admissível: só porque alguém nos socorre num grande embaraço. que disse sentenciosamente: Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. 37) a palavra auxílio. – Bruns. necessita cuidados assíduos para conservar-se. mas acredita em visões. – Proteger envolve ideia da superioridade de quem guarda ou ajuda. protejam para que não caiam. ou para que o faça mais prontamente. A quem madruga Deus ajuda. guardem.

deixando este encargo às partes interessadas. sem apresentar as provas. Quando a acusação é justa. “Quem me valerá nesta contingência?” 130 ACUSAR. Nos tempos modernos o uso tem quase fixado o valor de cada uma destas palavras. Bern. um traidor que finge viver com os outros em termos de boa amizade para vir no conhecimento de seus segredos. ou exercendo direito . e é designado pela frase de vil delator..) – isto é – que lhe acudisse. mas o delator é uma personagem odiada. delatar. Os delatores formam a classe mais vil e infame: são a arma dos governos fracos e corrompidos. e não acusador. ou por interesse. incriminar. para que façam o que entenderem. – será um homem irritado. desastre etc. um homem indignado. quer auxiliando-lhe os esforços. “Vendo-se já no último perigo recorreu a Deus que lhe valesse” (P.. “denunciar é manifestar aos juízes um delito oculto.. embaraço. ou suspeitas ao governo”. paga. culpar. acusador. como fazem os malsins. – Malsinar é acusar como malsim. toma-se à má parte. etc. Man. – Segundo Roq. – Acusar. denunciante. e por ofício. e nas demandas chama- -se autor ao que intenta ação contra o réu ou acusado. amparar. outras (e são as mais comuns) é ato de malevolência. o delator obra por maldade. reclamando a devida punição”. e defere secretamente o que ele crê ter visto. e talvez a de algum vil interesse. Mas quem acusa articula fatos com que pretende dar provas do crime ou da falta por que acusa. acudir. – Delator vem do latim delactor: é um indivíduo que procura. que trafica às escondidas da honra e vida de seus semelhantes. intentando uma ação criminal de roubo. denunciar. – Delatar acrescenta à ideia de denunciar a de malevolência. quer acudindo-lhe e dando-lhe socorro oportuno e eficaz. e que animam a calúnia com o interesse”. já para evitar ou remediar o mal que se denuncia. Contudo. para fazerem a perdição da outra. e pode fazê-lo cumprindo dever de cargo. de assassínio. que aviltam neste mister uma parte dos cidadãos. isto é. defender “é ficar ao lado de alguém para impedir que outrem se aproxime hostilmente. “O acusador – diz Alv. um judas infame. nunca pelo bem público: procede com disfarce e ocultando-se.. A acusação pode ser às vezes um ato bom. “Valha-nos o céu nesta amargura”. por preço. – Valer aqui é muito próximo de socorrer. O malsim exerce o seu ofício em tudo que respeita aos contrabandos. O denunciante pode ser levado somente do zelo do bem público. aqui. – Acusar é denunciar alguém como criminoso. arguir. o denunciante nutre seu zelo fazendo conhecer às autoridades as ações e opiniões condenadas em política. é “atribuir a alguém falta ou crime. que serão o seu corpo de delito.. o denunciante. o delator satisfaz sua maldade acusando os crimes ou delitos contra as leis. o acusador acusa aberta e publicamente. que dá interpretações criminosas às coisas mais inocentes. quer ainda amparando-o vigorosamente ou defendendo-o”.90 Rocha Pombo Quem nos defende é como quem se pusesse entre nós e o nosso inimigo e dos golpes deste nos guardasse. Pas. delator. 131 ACUSAR. salvar. Mais extensamente. a palavra acusador é odiosa. malsinar. que se aproveita de um abraço para introduzir no bolso do que chama amigo papéis. criminar. malsim. descobre. fundada e nobre. já para assegurar-se da verdade da denúncia. um homem vendido. – Salvar “é pôr alguém livre ou a salvo de algum perigo. ou mesmo para evitar ataques previstos ou repelir agressões”.. e muitas vezes o que deseja fazer que se creia: o seu ofício é o de trair. in- culpar. um homem corruto. quer protegendo-o.

– Inculpar é “ver como culpa um ato que talvez não o seja”.. ou o código não incrimina esta conduta. em frase rápida. conceito. O anexim. anexim. e que significa provérbio. – Todas estas palavras enunciam conceito. quase sempre mais longo. e em ser o provérbio mais grave. máxima. como o rifão. pensamento. parêmia. sugestiva. ditado. ou os grandes princípios de ciência ou de arte. – Parêmia pode ser comparada a provérbio: é menos usada que este. frívola e sempre velada.. brocardo. Note-se. tendo portanto um sentido translato que apenas corresponde à noção que se quer sugerir.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 91 ou faculdade própria. prolóquio. dito. “Poderá arguir-me de tudo. dada em poucas palavras. Neste exemplo: “Se a lei. graçolas. e exprime “sentença sob uma certa forma de alegoria. ou de parábola concisa”. ou os provérbios de Salomão”: e aí não caberia nenhum outro dos vocábulos do grupo. Diríamos: “Pode arguir-me de muita coisa. mas apenas por indícios. considerar alguém como culpado. brocardo. e enunciando conceito menos vulgar. no entanto.” – Arguir é “acusar de falta.. mas decerto não seria próprio designar nenhuma dessas frases por adágio. nem paremia ou máxima. rifão. é levar muito longe e arriscar muito a sua argúcia de juiz. dizendo: “E daqui nasceu aquela paremia ou provérbio: que o céu era para Deus. ditados ou anexins. apodos e chufas que de adágio ou provérbio. breve e incisivo. 324).. Distingue-se adágio de provérbio: primeiro – em dar o adágio noção simples e clara. dar-lhe culpa. preceito. provérbio. delito. Adágio. fazendo censuras mais com veemência do que com razões”. melhor do que criminar. considerar como crime um certo ato”: e nesta acepção é bem distinto do outro. – Incriminar tem-se geralmente como sinônimo perfeito de criminar. a frase. mas quase sempre chula. segundo Roq. aforismo. máxima. como o ditado têm uma forma. – Culpar e inculpar estão em caso análogo. exprobrar culpa como invectivando.” (IV. sem formular propriamente acusação”. enquanto que provérbio pode ter autor conhecido. não só rude. rifão ou anexim. a moral vigente. – Adágio não se confunde com dito. que incriminar. São mais vizinhos de ditérios. rifão – quase todos exprimem conceito exclusivamente moral. menos de não ter sabido defender a inocência”. a máxima . pois é uma sentença moral mais profunda.. “Gato ruivo do que usa disso cuida”. paremia é palavra grega (paroimia) pouco usada em nossa língua. dando normas ou noções em que se representa a experiência dos tempos. segundo – em ser o adágio sempre anônimo. paremia. “dizer ou declarar alguém autor de um crime. – Criminar (criminari) é. a sabedoria vulgar. ditado. – Sentença é um provérbio mais solene. que juiz há de puni-la?” – não seria permitido o emprego de criminar. muito menos por sentença. e a terra para os homens. tudo que se tornou clássico. princípio. provérbio. e como que condensam. repreender com acrimônia.. dito. mais brilhante de forma. 132 ADÁGIO. “lé com lé. ou sentença vulgar. anexim. axioma. Segundo Roq. apotegma. ou provérbio. sentença. ou que foi consagrado pela razão humana em todos os tempos. cré com cré – cá e lá más fadas há” – podem ser tidos como rifões. pode mesmo culpar-me de imprudente. em termos precisos. e como tal usou-a Vieira. senhor. trocadilhos.. e de sentido ainda mais profundo. e mais vulgar que provérbio: propriamente é “a sentença. seco de forma. – Culpar é “atribuir culpa a alguém. mas inculpar-me assim este gesto. significa “reduzir a crime. – Prolóquio é sentença menos grave e profunda. prolóquio. cla- ra. Dizemos: “as sentenças. pronunciá-lo por criminoso ou réu”. sentença.

golpes de espada. pois esta é sempre uma noção resumida por grande autoridade moral. que presente Vos amostra a vitória já passada. Este é o que se prescreve. e que anuncia o assunto que se vai desenvolver. quer tratando-se de ciência. ou. a máxima é sempre moral: o ditado pode exprimir apenas um conselho. ou qualquer coisa que interesse ou que seja útil”. Pa- . de religião. nele pintavam os guerreiros suas letras e divisas. – Pensamento e conceito são palavras de significação mais vaga. ditado e anexim confundem-se: o dito quase sempre tem ares de pilhéria. que é também “enunciado aceito por todos como sendo de si mesmo evidente”. de arte. e em regra tem quase o valor da máxima. mas eloquente. sentença jurídica ou moral criada por alguma grande autoridade”. dar uma noção. escudo. se dá como regra: princípio é “o que está consagrado pela razão vigente. ou parte dele contra os botes de lança. Broquel. e armas de arremesso. palavra comum à língua castelhana. e que serviam para cobrir o corpo. os dardos. ou o ponto de vista que vai ser seguido pelo orador”. – Preceito pode aproximar-se dos precedentes: é também uma norma ou regra de conduta. que cobre a embraçadeira que está por dentro. muito usadas antes da invenção da pólvora. 133 ADARGA. uma verdade. “dito notável ou palavra memorável de algum personagem ilustre”. o que já foi tão suficientemente demonstrado que dispensa mais demonstração”. Por isso. égide. E é exatamente por isto que se distingue máxima de ditado: este é anônimo e popular: a máxima é menos comum e tem autor quase sempre conhecido e até indicado ao ser ela proferida. Além disso. quer de arte. aproxima-se de axioma. como diz Aul. de ação ou de execução. a mais conhecida de todas e a mais forte. se impõe. – Escudo vem do latim scutus (do grego skútos “couro”. – Dito. de ciência. – Segundo Roq. rodela. mas que se diferençavam na matéria ou na forma. – Apotegma é “juízo ou sentença. como se vê daqueles versos de Camões: Vede-o no vosso escudo. e deixou As que Ele para si na cruz tomou. 7). I. no entanto. ou no uso que das mesmas se fazia. o ditado é dos três o que mais se aproxima de adágio. e nisto distingue-se dos outros. todas estas palavras designam “armas defensivas. e daqui veio chamar-se também escudo às armas de uma família ou de uma nação. pavês. precisa. Na qual vos deu por armas.92 Rocha Pombo pela qual começa alguém um discurso ou um escrito. significa escudo pequeno de madeira forrado de couro forte. Conceito é a síntese de uma noção a que se chegou pelo estudo ou pela reflexão.. que provavelmente vem do bouclier francês e do buccula latino. um simples conceito vulgar. porque os primeiros foram de couro) e significa a arma defensiva oblonga ou oval. ou de dever. – Princípio é mais do que preceito. pensamento é menos preciso – é “uma proposição de forma simples. e designam apenas um juízo enunciado com intenção de exprimir uma verdade. ou mesmo por um período todo. e que em poucas palavras dá um sábio conselho. porque se fizeram logo de ferro e aço. (Lus. “regra de conduta. Também os havia de metal. pois o preceito pode ser de moral. profunda atribuída a uma alta autoridade”. dando um conselho. – Brocardo é “máxima que se popularizou. – Aforismo tem menos de científico e de preciso do que axioma: designa também. enfiava-se no braço esquerdo pelas braçadeiras. broquel. preceito ou noção expressa em breves termos”. Um prolóquio vale sempre por uma proposição. no meio tem um embigo de metal ou diamante. com seu brocal.

total. A primeira diz evidentemente que meus negócios não se encaminham à solução que eu desejo. em atividade vitoriosa: quem progride anda também para diante. Há. ainda que impropriamente. e que vem do árabe addarca ou addara. no entanto. antecipar. as mensalidades pagam-se adiantadas. “meus negócios não progridem” – há sempre uma diferença facilmente perceptível. porém. vai seguro. isto é. tornou soma e adição sinônimos perfeitos. – Adição – diz as somas do gasto de cada um dos sete dias da semana. – Todos estes verbos dão ideia de “ir para diante no desenvolvimento próprio e natural”. diz ele: Por armas tem adargas e terçados . entre mouros e africanos. escudo de couro. designa uma espécie de escudo pequeno e delgado. cheia de serpentes. e significa propriamente o escudo de Minerva ou Palas. falando dos habitantes de Moçambique. palavra igualmente comum à língua castelhana.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 93 rece corresponder ao clypeus dos latinos. e uma abertura onde se metia o dedo polegar para o segurar. – Progredir é.. – Adiantar-se e progredir podem confundir-se. soma. Em dois lugares faz Camões menção desta arma defensiva. ADIANTAR-SE.. florescer. 135 ADIANTAR.. prosperar... que cobria todo o corpo do soldado..: “Consideram-se estas palavras como sinônimos perfeitos: a quem se prontificou a fazer-nos um trabalho por certo preço. proteção”. feito da pele da cabra Amalteia.. – Égide é palavra latina.. I. – Soma é o número que se obtém ao praticar a adição.. 136 Bruns. obtemos um número equivalente a todos. – Avantajar-se significa “levar vantagem a alguém. o pai de um aluno pode... – Adarga é palavra comum à língua castelhana. 47. “os dias daquele enfermo se adiantam” (e não – progridem). portanto.. ajuntando um ou vários números a outro. desenvolver-se com presteza.. No sentido figurado quer dizer “defesa. e que vem do italiano rotella. mas nem por isso devem considerar-se como sinônimos perfeitos. medrar. de aix “cabra”). a doença progride” (e não – adianta-se). Distinguem-se ainda estes dois verbos nestes exemplos: “o mal. (Lus. e significa escudo oblongo de couro com duas embraçadeiras em que se enfiava o braço... – Rodela. uma diferença subtil entre as duas expressões: adiantar refere-se ao ato. a segunda exprime que os meus negócios não se desenvolvem. – Pavês (do italiano pavese) era escudo grande e oblongo. vingar. œgis (do grego aigis. mas entre estas duas frases: – “meus negócios não se adiantam”. avantajar-se.. . em Portugal.. e em cujo centro estava a cabeça de Gorgona ou Medusa. – Quanto a estes verbos escreve Bruns.. antecipar ao tempo. – “é a operação pela qual... antecipar a mensalidade”. Era arma antigamente usada em Espanha. Fazendo a adição das verbas despendidas num dia da semana..... Adicionando (ou reunindo) progredir. que era escudo menor dos peões.. “Nos colégios... O uso. não aumentam na proporção dos meus esforços. – Total é o número equivalente a várias somas parciais. e com a hastea perigosa. obtemos o total do gasto dessa semana”..... obtemos a soma do gasto desse dia.. “fazêla efetiva antes da época ou do dia em que deve adiantá-la”. Com a adarga. 87). O uso também confunde soma com total. Quem se adianta marcha resoluto para a frente. escudo ou couraça de pele de cabra. adiantamos ou antecipamos alguma quantia à conta dele”. 134 ADIÇÃO.

está iniciado no ocultismo” – equivale a – “F. as noções. ou do que o comum dos estudantes. quer em volume. grandes vidas. “O novo credo. mesmo nos casos em que a cláusula correlata não está expressa. a causa ou a ideia. ganha muito. Dizemos: “sectário do calvinismo”. cidades. prosperar com esplendor. que se convenceu e aderiu ou se ligou a uma seita. partidista. “Apesar de todos os contraventos.. assecla. força ou poder”. “A tua reforma. a população que se multiplica”.. Florescem letras e artes. “Eles se nos avantajam pelo ar desenvolto. ter bom êxito. 137 ADEPTO. esforça-se muito. – é “o aumento. parcial. ou de uma ideia”. de uma ciência. ou o novo partido já conta bom número de iniciados”. É. O partidário pode pertencer apenas a . Quando eu digo: “Aquele rapaz tem-se avantajado muito nos seus estudos” – quero exprimir que o rapaz de quem se trata tem feito muito mais do que outros. ou mesmo de um partido”.. quando observa que adepto designa um modo de ser. as searas que abundam. ade- rente. mas nem por isso se pode dizer que ele prospere. um verbo de predicação sempre relativa. a um partido. quer em quantidade. o que é certo é que a empresa não deixa de prosperar”. adepto esforçado de uma causa. os interesses que aumentam.94 Rocha Pombo fazer mais ou melhor do que outrem”. as nossas esperanças. “F. sectário (sectarista). “sectário de Lutero”. filho – disse o deputado ao colega sonhador – não encontrará adeptos”. – Adepto é “o que foi catequizado.. isto é. pois o iniciado considera-se apenas “admitido a iniciação”.”. deixando supor que o sectário é sempre alguém que se afastou da sua antiga religião ou do seu partido. ser feliz”. porquanto. – Iniciado (ao contrário do que pensam alguns) parece que diz menos que adepto. – Partidário é “membro de um partido. facção. – Sectário diz propriamente “membro de uma seita. começou a estudar e a conhecer o ocultismo”. crescer não obstante algum entrave. que se deixou influenciar.”. Medram o menino que cresce. Vinga a flor. “Aquele tipo não te avantaja em coisa alguma”. partido. nunca: “sectário do Cristianismo”. “Tu te avantajarás a Pedro se fores esperto. distinguindo-se este do primeiro em exprimir melhor o empenho. prosperar. – Vingar aqui (vincere) é próximo de medrar: significa “tomar vitalidade. partidário. e por aquela estultícia vitoriosa de que se ufanam. etc. mas os seus negócios não prosperam”. de uma escola filosófica. “F. como ainda florescem países.. faccionário. a paixão com que se toma o partido. como vingam os nossos planos. – Prosperar é “ir adiante. é de supor que fica subentendido.. e sugere ideia de obstinação e fanatismo. estabelecimentos. de uma doutrina: diz mais neófito propriamente do que adepto. – “A ideia fundamental do verbo medrar – diz Bruns. sequaz. “As rendas se lhe aumentam sempre. parcialidade. Tem razão Bruns. nem “sectário de Jesus ou de S. ou o complemento terminativo não está claro. gerações. pois dizemos: “Os iniciados da religião bramânica”. desenvolver-se brilhantemente”. como florescem povos. a entrar nos mistérios de um culto. Além disso envolve também ideia de heterodoxia ou dissidência. habilitado a receber os princípios. faccioso. O que prospera não só se desenvolve e aumenta. pois. trabalha em excesso. e iniciado designa mais um estado do que uma condição: conquanto isto não signifique de forma absoluta a impropriedade de iniciado como puro substantivo. crescer na fortuna”. conseguir o seu fim. ou que se fez defensor de uma ideia”. – Florescer é “ir prosperamente em tudo. seita.”. iniciado. “A causa da independência alcançou logo um grande número de adeptos”. como vai feliz na vida. Paulo”. Partidista é quase o mesmo.

do que ideia de incorporação. da causa que se servia. trabalhando francamente por uma causa. “pertencente a facção”. 138 ADEREÇAR. ideia de parcialidade ou partidismo pessoal. – Assecla (como se vê da própria formação: ad + sequi) é “o que segue alguém. ou contra instituições. portanto. a uma causa que até aí havia hostilizado ou combatido. Sugere. e sim que se enfeita ou se atavia com as penas do pavão. mas o partidista exalta-se na defesa do seu partido. alindar. – Adornar e . ornamento. decoração. enquanto que partido designa apenas “reunião ou conjunto de indivíduos que defendem as mesmas opiniões. insignificantes: e o segundo mais ainda que o primeiro. melhor do que assecla. ornar. e por pouco se não diz sinônimo do nosso brasileirismo capanga. desligamento da doutrina que se professava. (Aliás. aqui. apaixona-se pela sua causa. A facção só se faz partido quando assume o caráter e a força de coletividade legítima. a gralha da fábula se adorna. a uma ideia. or- namentar. 13 Também entre sectário e sectarista. aformosear. o seu apoio a um partido. que deu a sua sanção. portanto. o verbo enfeitar é o mais genérico e vulgar. ou que se enfeita de joias. ou mais correto no gosto. sedicioso. até pela etimologia (sequi). Além disso. professar as ideias ou opiniões desse partido. pela ideia. A facção distingue-se do partido em significar “grupo ou ajuntamento hostil e secreto contra outro grupo. aprimorar. na expressão – é comum a todos os verbos deste grupo. – Enfeitar e ataviar aproximam-se. – A ideia de tornar belo. o que vai como se fosse na comitiva ou no séquito de alguém”. algum partido ou seita.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 um partido. conquanto não pareça muito próprio. decorar. que sugerem. A liga ou aliança de algumas parcialidades pode formar um grande partido. da cegueira com que o assecla acompanha alguém ou alguma coisa. seita diz dissidência. entre eles poderiam confundir-se ou ser empregados indistintamente. o grupo dirigido por um chefe”. mas decerto ninguém dirá que uma senhora se adereça de fitas. atavio. e parcialidade é o “bando. – Sequaz. e mostra-se por isso mais fútil ainda que a pessoa que se enfeita. a que se atavia exagera ou dispõe sem gosto os seus adornos ou enfeites. ou se enfeita. gala. “adornar de adereços”. Um só partido pode dividir-se em várias parcialidades. perturbador. por exemplo. ornato. e emprega-se frequentemente em casos como o exemplo acima. adorno. de joias. engalanar. confunde-se com assecla: apenas sequaz envolve. de “adornar de coisas ligeiras. de liga.) – Adereçar diz. Uma senhora se adereça. no entanto. – Parcial. – Diferença análoga pode notar-se entre faccionário e faccioso13: o primeiro diz apenas “membro de facção”. ou deseja disfarçar algum defeito. ou se atavia. pois atavio é adorno mais falso que enfeite. separação. vãs. desordeiro. – Aderente se diz daquele que aderiu. de adornos de oiro ou pedraria. designando este o sectário apaixonado de forte espírito de seita. faccioso vale por “viciado de espírito de facção. de aliança. Além disso. ou que se atavia de brilhantes. no aspeto. embelecer. Ninguém diria que. Raros. ideia de subserviência. mais vistoso. afeito a maquinações”. ataviar. aderente sugere menos ideia de convicção ou de identidade de opiniões entre a pessoa que adere e a causa ou partido a que se faz adesão. isto é. adornar. enfeitar. enfeite. é “o indivíduo que se liga a outro indivíduo”. embelezar. partidos. esforça-se pela vitória. a que se enfeita quer parecer mais bela do que é. ou sustentam a mesma causa”. isto é. a pessoa que se adereça quer brilhar. primor. adereço. ou mesmo contra um homem”. E como já vimos.

infantis. ou políticas – em tudo. são sinônimos perfeitos. mesmo o espírito. próprio do edifício ou da coisa de que se trata. – Embelezar e embelecer. como se aprimora uma obra de arte. ágil” – portanto. ou na poesia. taful”. nem “formosa criança”: mesmo porque – “formosa criança” já seria outra coisa). linda criança” (e não – “formoso ramilhete”. etc. mesmo numa produção literária. – Exercitar é mais genérico. a alma. A ornamentação de um templo. bastará um exemplo para deixar bem clara a distinção que se sente entre estes dois verbos: “A cidade se embelece de dia em dia. seriam perfeitamente lídimas estas outras formas: adestrar-se nas lides parlamentares. Dizemos: “lindo ramilhete. mas – “tornar belo cada vez mais” (embelecer). uma excelência suprema. tornar-se perito. portanto. Aformosear e alindar estão em caso correspondente. na escrita. ou uma virtude. e mais talvez de decoração. por exemplo.” 139 ADESTRAR. ou de alguma operação. ou no salto. – Aprimorar é dar ao que é já belo. aparato de festa.96 Rocha Pombo ornar diferençam-se tão bem como adorno e ornato. Sendo. ingênuo.. nas manobras militares. Também ornato deve confrontar-se com ornamento: este é uma decoração mais brilhante. ou na ciência do direito. Ainda outro: “Para a festa vamos embelezar toda a praça. e que só se alindam coisas muito mimosas. e diz “tudo que aumenta a beleza”. à custa de esforço. o caráter. num edifício. de lavor artístico”. – Tanto se adestra um animal como um homem. afinal. na pugna. em que é possível. ou na matemática: salvo se nos referimos apenas à técnica de algum instrumento... Ninguém seria capaz de dizer: “vou adestrar-me na filosofia. é trabalho de acabamento. e designa toda e qualquer ação de “aumentar as aptidões. e no entanto.. Pode-se também adestrar num certo sentido: na corrida. numa função que não seja puramente espiritual. e excedem naturalmente ao simples ornato. fazer-nos mais destro. e designa “o que. etc. desembaraçar. ou na marcha. de uma câmara só se faz excepcionalmente. mas este sugere ideia de brilho. Mas note-se que não dizemos: adestrar na música. num artefato. mais sumptuosa e augusta. etc. Esta. adestrar a memória. no tiro ao alvo. Ornato aplica-se mais a coisas. as nossas mãos. se se aceita a definição dos lexicógrafos. ou mesmo em alguma aptidão especial – no desenho. alegria ruidosa – tudo que se encerra em gala. – De ornamentar aproxima-se engalanar.” (não seria próprio. na dialética. gracioso. Pode-se. mas é claro que referindo-nos a um exercício que seja mais mecânico do que de raciocínio. porém. correto. Lindo exprime “belo gentil. a . E isso porque adestrar diz propriamente “fazer-se muito hábil. pois esta forma significa não – “fazer belo simplesmente” (embelezar). e no entanto. na datilografia. portanto. e adorno tanto se aplica a pessoas como a coisas. e para algum ato ou função extraordinária e de grande solenidade. aliás. instruir. elegante – um alto grau. exercitar. nas quatro operações aritméticas. Aproxima-se por isso de ornato. deixa supor que os adornos de que se decora têm um fim especial. entre ornar e ornamentar. uma expressão primorosa. ou mesmo os nossos braços. etc. de um palácio. a capacidade. primor “o alto grau de perfeição a que se eleva aquilo que se aprimora. – Aformosear e alindar apresentam a mesma diferença que se reconhece entre formoso e lindo.” (não se diria que vamos embelecer. rápido. pelo exercício. nalgum ofício ou função. A mesma diferença há. de algum processo. ou pelo menos de rigorosa propriedade dizer que a cidade se embeleza).. ensinar. loução. ou na economia política”. de mais imponência. Dizemos que se aformoseia o estilo.. Aprimora-se a educação.

dilatar. para enganar. exprimo nada menos do que exprimiria se dissesse: “instruamos a mocidade”. protelar. formando-lhe. mais espaçoso”. aprazar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 97 força. “o governo procrastina a solução de um negócio de tal monta”. no entanto. lépido. ou por muito tempo. transferir. do vencimento de uma letra. prolongar. – Todos estes verbos sugerem ideia de espaçamento. um despacho. – Transferir diz a mesma coisa. isto é – afasta-se o termo desse prazo. uma ideia de extensividade que se não encontra em dilatar. repetindo muitas vezes. um negócio. como construindo-lhe o espírito”. contemporizar. etc. uma entrevista. dilação. por meio do exercício”. retardar de propósito”.. para mais tarde”. ordinariamente por desídia. e ensina-se um papagaio a falar. hábil nalgum ofício. demorar para ir ganhando tempo”. Prorroga-se uma licença. Exercitamo-nos numa profissão. – Demorar confronta-se com retardar: ambos dizem – “fazer que se espere. Quando digo: “ensinemos a mocidade”. Observase. instrui-se a mocidade. que ensinar.. trabalhos. comunicar-lhe. Prorroga-se uma sessão do Congresso. malévolo quase sempre. diferir. sem marcar prazo fixo. Apraza-se uma negociação. diligente. prorrogar. equivale a instruir. por exemplo. torná-lo mais largo. etc. Pode-se usar também este verbo ensinar como só transitivo.. envolve mais ideia do processo. Notemos. resoluções. Difere-se uma resolução. 140 ADIAR. e neste caso. reformas. conquanto não tenha a força deste. pois quem instrui opera sobre o espírito do que é instruído. delongar. profissão”. entravar ou reter por um certo tempo”. “Nós insistimos por que se faça a coisa com urgência”: e ele a contemporizar muito impassível”. do trabalho. ampliar. do que propriamente ideia da ação de quem instrui. – Instruir é “preparar alguém nalguma arte ou ciência.) Adiam-se negócios. infundir-lhe doutrinas. num cargo.. – Aprazar é “assinar um tempo certo (prazo) para alguma coisa”. – Ampliar confunde-se com dilatar: aquele sugere. (Aul. num trabalho. mas podendo ser também por mero capricho. da função de transmitir o que deve ser aprendido. procrastinar.. no entanto. – Contemporizar é “entreter. fazer parar. isto é. ou a um cão. subentendendo o complemento indireto da predicação. ou para impedir que da coisa que se protela alguém se aproveite se não for protelada. demo- rar. no entanto. remanchar. mister. demora-se um processo. – Protelar = “demorar. Instruise um batalhão. Retarda-se uma solução. a época de pagamento de um imposto. – Remanchar = “demorar com certa manha”. segundo os lexicógrafos. – Procrastinar é “remeter continuamente para o dia seguinte o que se deve fazer”. espaçar. com algum fim. Nestes exemplos: “A língua se amplia adaptando de outras os termos novos de . – Prorrogar é “dilatar um prazo que se venceu”. Mas retardar quer dizer propriamente – “deixar para mais tarde”. mesmo neste caso. – Dilatar é “ampliar um prazo que se fixara. “O tribunal anda procrastinando a sentença”. o vigor.. esperto. – Diferir é “deixar para depois. estirar. – A um papagaio ensina-se. não dar no tempo oportuno”. mas não se instrui um macaco ou um papagaio. – Adiar é “deixar para outro dia”. ou uma grande festa para o ano próximo. e demorar exprime – “não mover. que adiar é “transferir por dias”. numa virtude. noções ou princípios. alongar. a função ou o processo que a isso se destine. retardar. – Desembaraçar pode aproximar-se do primeiro verbo deste grupo: diz precisamente “fazer expedito. Dilata-se o tempo que se tinha para fazer alguma coisa. Evidentemente não seria próprio dizer que se adiou uma comemoração. como se ensina alguma coisa a um cavalo..

que se alonga uma esfera. sem dar ideia de limite. isto é – “ainda que vos pese..98 Rocha Pombo que precisa”. “Apesar vosso levarei a minha adiante”. ou de compreensão. ou um quadrado perfeito. conquanto. I. Alongar é “fazer mais extenso ou comprido”. tornar mais vasto. isto é. – aí não caberia decerto o verbo dilatar. que só tenham uma dimensão característica. sem embargo. mágoa com isso que se faz. não obs- tante. Uma rua que se prolongou até uma praça por isso mesmo alongou-se. Mas: demora-se uma solução quando não se cuida de dá-la. ou por alguma conveniência ou cálculo. retarda-se a dita solução deixando-a para mais tarde. de mau grado. pelo menos não teria a mesma propriedade. Prolonga-se e também se alonga uma linha. isto é. ainda. mais ou menos forte. com desgosto ou desagrado. quer dizer “de má vontade. diferir. procrastinar. um prazo. e naturalmente só se diz de coisas que sejam longas. ou numa certa direção e até um dado limite. Também não se diria: “vou ampliar no mundo a vossa fama”. bem que. apesar. contemporiza-se quanto à semelhante solução falando em dá-la sem fazê-lo. como se reconhece em ampliar. se deixa para depois. e assim enchendo tempo. tornar maior um interstício. para outra ocasião”. fazer mais longo. “vou ampliar a minha oficina com mais uma secção de roupas”. 2) – não caberia o verbo ampliando. – Estirar e espaçar significam. (Camões. Prolongar é “estender para diante uma coisa longa”. – Alongar. ainda que. e delonga-se adiando-a indefinidamente. mas alonga-se dando-lhe mais extensão. malgrado.. demorar: significa propriamente – “deixar para depois. prolonga-se estendendo-a a começar de um dos extremos. – Apesar indica mais forte oposição. e podia ainda alongar-se essa rua prolongando-a. etc. e contra a qual obramos”. ou resistência. consentimento”. portanto. Espaçar enuncia. mas em cada uma delas há uma relação particular em que consiste sua diferença”. portanto. por desídia. Uma serpente contrai-se e dilata-se: e tanto se dilata engrossando. mais aberto. com desgosto meu”. uma rua. sem sugerir noção de proporções. salvo se se lhes quer mesmo mudar a forma. embora. ou que tenhais . por mais que. uma moeda. ou entre atos que se repetem. é claro que malgrado. pois este verbo é que significa “estender.. e significa “contra sua vontade”. Malgrado seu é o mesmo que “a mal de seu grado”. posto que. neste outro exemplo: “. e de outro lado até uma outra rua. que vencemos. a qual não é eficaz para impedir a ação. prolongar e delongar apresentam entre si as diferenças marcadas pelos respetivos prefixos. como se dilata distendendo-se. de uma parte até à praça. – Segundo Roq. contemporizar.. ou de nossa mesma vontade.. – Significando a palavra grado “vontade. procrastina-se prometendo sempre dá-la “amanhã” e não dando nunca. e dificultando-a sempre. 141 A DESPEITO. e sim – “vou dilatar. e sem marcar a ideia de fazer aumentar em todas as dimensões. “todas estas locuções adverbiais exprimem uma oposição. e nem o mesmo valor. indica. Do mesmo modo. “convém ampliar a todas as classes do curso primário aquela medida”. “Submeto-me de malgrado” quer dizer “contra minha vontade.. em que não só há desgosto senão também sentimento. aqui. difere-se quando. as memórias gloriosas daqueles reis que foram dilatando a Fé.. Ninguém diria. vinda das pessoas ou das coisas. o Império. mas ninguém dirá que uma serpente se amplia quando se distende. esta locução oposição ou resistência de pessoa estranha. a ideia de fazer maior a distância entre diversas coisas. Delongar confronta-se com retardar. Também não se compreende como se alongaria uma cabeça humana.

É mais forte que ainda que. Confirma-se mais nossa asserção por outro lugar do mesmo Vieira. sem embargo dos insensatos motejos dos ímpios”. ou dificuldade absoluta. Catarina. etc. vaticinar. que significava antigamente “predizer o futuro pelo canto.. – Profetizar é verbo grego. resistência. pelo despeito com que pisa igualmente os palácios dos reis e as cabanas dos pastores”.. 142 ADIVINHAR. beijo a mão que desejara ver cortada”. – isto é – em desprezo das leis. vel pastu futura divino).”. – Bem que = “ainda assim.. predição. “O homem virtuoso observa pontualmente os preceitos de sua religião. prognosticar.” – Por mais que exclui toda dúvida e indica resolução firme. prophetizo (de pró “antes”. e neste sentido se usa hoje quando.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 99 pesar” farei o que intento. “Digam embora que eu fugi”. Isto pertence aos outros. isto é – “com pesar. – Conquanto enuncia oposição ainda menor do que sem embargo. aquele aprende mais porque é mais aplicado. em latim divino. diz: “A constância firme até à morte com que defenderam a mesma verdade apesar. “Conquanto este seja mais inteligente. ou admitido que seja assim”. “Não deixarei de protestar ainda que me matem”. adivinhação. – Predizer é o verbo latino predico. – Agoirar é o verbo latino auguro ou auguror. “conjeturar de qualquer modo”. “Faz calor não obstante ter chovido”. ou sem embargo. profecia. e a despeito do imperador”. “Amanhã hei de ir ao campo ainda que chova”. hei de vencer”. com mágoa beijo a mão. e mais fácil de vencer: exclui o embaraço ou impedimento que pode delas resultar. – Não obstante exclui simplesmente uma oposição. seus sinônimos. Bem se autoriza esta inteligência da palavra despeito com o seguinte mui elegante lugar de Vieira: “Tem-se acreditado a morte com o vulgo de muito igual. predizer. vaticínio.” – Vindo despeito de despectus “desprezo”. ou em despeito. prognóstico.. e exprime “por mais que assim pareça ou que seja de fato. pressagiar. que não cede a oposições. falando dos cinquenta sábios que se renderam à doutrina de S. e significa literalmente “dizer uma coisa antes que aconteça. – é o gênero a que os outros pertencem como espécies”. onde. o pasto das aves” (propriè est ex avium cantu. A despeito das leis. agoiro. – Posto que = “dado mesmo.. – Adivinhar.. “Sem embargo das queixas dos povos o mau príncipe prossegue em suas opressões”. etc.. – Sem embargo indica uma resistência menor de coisas ou circunstâncias. o gesto. tem mais energia e aumenta de força por ajuntar à ideia de oposição ou resistência o desprezo com que se vence. agoirar. nos quais não têm seu uso próprio as locuções não obstante. com a diferença que é termo bíblico e teológico. sem declarar por que modo se veio a sabê-la nem dar a conhecer o grau de autoridade que merece quem a prediz”. e por extensão. em despeito do juramento. é claro que a locução a despeito. – Ainda que tem mais extensão que as duas antecedentes. mesmo que”. profetizar. hoje é “conjeturar por certos sinais ou pressentimentos sobre o futuro. do próprio dever. – “O último destes vocábulos – escreve Roq. era entre os pagãos “predizer o futuro por uma espécie de inspiração que eles supunham divina”. queremos predizer o futuro. e às vezes acertar com o que há de acontecer”. presságio.. “Por mais que me hostilizem. e phemi “digo”) e vale o mesmo que dizer antes ou predizer. de onde veio divinatio. porque se emprega também nos casos em que se trata de uma oposição puramente condicional ou possível. a que chamamos agoiros. e tem a significação restrita de . “Apesar meu. “Saio de casa. não obstante andar doente”. por certos incidentes insignificantes. gestu. – Embora indica pouca atenção ao embaraço ou à contrariedade.

e assim mesmo o anúncio que destas coisas faz o profeta. id est futura ante sentire (Cic. da natureza dos objetos sobre que se faz o prognóstico”. ter pressentimento. os prognósticos dos políticos e estadistas. e que. prognosticam os eclipses. por uma espécie de tino interior de que se não sabe dar razão. por meio de discurso certo ou conjetural. feiticeiro. sinto”) e significa “pressentir. haríolo. à phates).. – Pressagiar é verbo latino. mandin- gueiro. o que sucedeu em Évora no tempo de El-Rei d. e sagio “penetro. fundados nas analogias e probabilidades que lhes ministra a história. divino’) é “– diz Bourguig. como disse Camões: Que o coração presago nunca mente. De tais sucessos não se deve tomar nem bom nem mau agoiro. porque eram acompanhadas de certo canto poético. II. é ilusória. precipitada. – O dom sobrenatural de conhecer as coisas futuras chama-se profecia. de vates. astrólogo. O médico. em linguagem técnica. e daquele estro ou furor que estimula o poeta quando estende as vistas sobre o futuro. De Divin. e às vezes nascida de um pressentimento instintivo que não engana. que ainda o p. ou profetizar cantando. – Vaticinar. necromante. chamavam-se agoiros (angurium. em latim vaticinor. 3). e gignosko “sei. – O agoiro é uma conjetura fútil. etc. pressagiaram a morte de Cesar. João I e que o nosso Camões cita como um presságio daquele feliz reinado dizendo: Ser isto ordenação dos ceus divina Por sinais muito claros se mostrou Quando em Evora a voz de uma menina Ante tempo falando o nomeou. vel avigarrium. prœsagio (de prae “antes”. Heaut. quiromante. era predizer. mágico. os astrônomos. fundados na suposta influência dos astros. tendo bem examinado o doente. serve particularmente hoje esta palavra para indicar um enigma que se propõe a alguém para o decifrar.. – As predições que faziam os vates chamavam-se vaticínios. a que Scaligero dá por origem o grego phátes “falador”. vate.100 Rocha Pombo anunciar as coisas futuras em virtude do espírito de profecia. – Prognosticar é o verbo grego progignosko (de pró “antes”. 7). conheço”) e significa. bruxo. e feito o diagnóstico. porque nenhuma conexão têm com o que há de acontecer. “predizer. no voo. 1. etc. o presságio é uma conjetura legítima e razoável.. “mentiroso” (fatuos primum vates vocatos esse apud omnes satis constat. como a entendiam os antigos. o qual se não pode chamar uma predição. Deste gênero são os sinais de que fala Virgílio no livro I das Geórgicas. – Sendo certo que a adivinhação. e somente é um sinal que indica ou anuncia coisa futura. Extensivamente aplica-se depois a qualquer sucesso ou sinal indiferente de que a superstição se valia para ler no futuro. raramente falham. – “O adivinho (do latim ‘divinus. segundo o poeta. Quando as predições se fundavam no canto. e assim se podem chamar ainda hoje aquelas conjeturas que os políticos for- mam sobre a sorte futura das nações. ou que os homens têm como tal. no mesmo sentido em que o usaram Cícero e Terêncio: Is igitur qui ante sagit quam ablata res est dicitur prœsagire. 143 ADIVINHO. Vieira tinha a simplicidade ou mania de apontar como causas de grandes desgraças e calamidades. das aves. profeta. – Os astrólogos faziam inumeráveis prognósticos acerca de acontecimentos futuros. avium garritus). – Todas estas predições provêm do homem: não assim o presságio. id est avigerium. 31) Nescio quid profecto mihi animus prœsagit mali (Ter. IV. aquele . (Lus. forma mui facilmente o seu prognóstico acerca da crise e do termo da doença. –” propriamente falando.. pelo qual se prediz alguma coisa futura. I. – Tudo o que se prediz antes de acontecer é predição. os eclipses. guiados por mais seguras regras. e enfim. e supersticiosa.

ou mesmo à sua sagacidade natural”. com efeito. consideravam-se os adivinhos como homens inspirados do Céu. operar metamorfoses. bruxo é palavra de etimologia muito duvidosa.. pois a Itália foi na Idade Média fecunda em homens dados a toda espécie de ciências ocultas. ou para os debelar. ou cuja arte se reduz a evocar os mortos. um homem que se julgava inspirado de Deus. o presente e o futuro. – Segundo Bruns. ou a bruxa é. O bruxo. eram tidos. e a quem se atribuía o dom de predizer o futuro. para saber deles o futuro ou as coisas ocultas aos vivos e que os espíritos podem revelar”. transportar-se para onde quiser. – O profeta (do grego pró “antes”. penetrando subtilmente nos pensamentos dos outros. – O feiticeiro (de feitiço “encantamento”) em francês sorcier (de sort “destino”) é aquele que tira sortes: recebe seu poder do demônio. quer se lha atribua ao estudo das ciências ocultas. e que lhe permite executar livremente toda sorte de prodígios.. e compreende o passado. e manteia “adivinhação”) é propriamente o que prediz o futuro das pessoas pela inspeção das linhas da mão. Toma-se não raramente à má parte esta palavra. ou prevendo facilmente as consequências dos acontecimentos. cuja visão genial alcança o futuro. – Mandingueiro = “que faz ou usa mandingas”. etc. – O quiromante (do grego kheir “mão”. As ciganas são quiromantes. do inferno e emprega-o sobretudo em fazer mal. isto é. não somente o dom de conhecer coisas ocultas. como simples feiticeiros ou mágicos. muito destro. – Haríolo era o charlatão que dizia “a sina mediante uma espórtula”. muito sagaz. mas ainda o poder sobrenatural de praticar ações maravilhosas. praticada ainda hoje em alguns lugares do Brasil. – O mágico. Mandinga é a feitiçaria grosseira dos negros. ciência dos magos) provém de conhecimento das ciências ocultas. . parecendo ser de importação italiana. A faculdade de conhecer que possui o adivinho estende-se sobre todas as coisas. e phemi “digo”) era. entre os judeus e os cristãos. os acontecimentos que prevê: aquele que nos ameaçou de tais desgraças foi verdadeiro profeta. Este parece termo introduzido pelos africanos. É este último sentido que o vocábulo conserva geralmente no figurado: designa então um homem muito hábil. e hoje reserva-se o vocábulo para designar o grande poeta. com mais ou menos certeza ou probabilidade. – Vate era o que fazia vaticínios. e reservava-se para os profetas exclusivamente a inspiração divina. em causar dano aos homens ou aos animais. superiores ao poder humano. e muitas vezes também em descobrir e revelar o futuro. semelhante dom.. conhecimento que lhe submete todas as forças da natureza. o que profetizava cantando.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 101 que se julga dotado de um poder divino para descobrir e conhecer o que está oculto aos outros homens. – Astrólogo era o sábio versado no segredo dos astros e conhecedor da sua suposta influência nos acontecimentos humanos. Esta segunda acepção conserva-se no sentido figurado para designar aquele que anuncia. ao contrário.. no entanto. como ainda hoje se lhe chama nas aldeias da Itália meridional). – O necromante (do grego nekrós “morto” e manteia “adivinhação”) é “um mágico que evoca os mortos. e mais ainda que tudo isso. na maior parte das quais era indispensável o lume para brucciare (“queimar”) as plantas e ingredientes auxiliares das adivinhações em que o agente principal era o próprio diabo (il brucciato. pois. o feiticeiro e o necromante possuem. quer se lhe atribua a sapiência a um dom da Divindade. não emana da divindade. e no sentido figurado emprega-se sempre para designar um personagem que faz coisas agradáveis e maravilhosas. a pessoa que tem pacto com o diabo para fazer malefícios.. O do mágico (de magia. dispor dos espíritos e dos gênios. Entre os pagãos.

Luiz: “Na língua grega. É mais ainda que contíguo. junto. mas este é mais extenso. necessária para modificar ou determinar a sua ideia. tratando-se de duas coisas. É claro que a coisa imediata pode não estar unida à coisa precedente. a casa contígua à minha é desta limítrofe. confim. chegado. pois que zonas. ou ajuntado ao substantivo para modificar-lhe a significação’. unido.102 Rocha Pombo 144 ADJACENTE. ou se os limites não são fixos e precisos. mais animada a ideia. vizinho. contíguo. Paragens. – Adjacente quer dizer – “que está nas imediações. a próxima semana. a mesma linha divisória”. e se a extensão não é certa. é “a que se segue à primeira. – Sobre estes dois vocábulos lê-se em fr. A casa ou a aldeia próxima. pois só podem ser confinantes ou limítrofes territórios que tenham fim certo e preciso (limite) e cujos limites se encontrem. pegado. O epíteto faz mais viva. As primeiras duas artes consideram o adjetivo como exprimindo uma qualidade do substantivo. não dando apenas a mesma ideia de ligação perfeita que se inclui neste último. forma arcaica de tango. – Unido quer dizer “tão junto (um objeto. Neste sentido genérico. pode-se dizer que os dois coincidem exatamente um com o outro. os termos próprios serão adjacentes. confinante. ere “tocar”). propriedades rurais (todo território de extensão determinada) podem ser limítrofes. – Confim (ou confine) e confinante dizem propriamente – “que tem o mesmo fim. nem confinantes. – epíteto é termo da eloquência e da poesia. Mas. O adjetivo acaba a imagem do objeto: o epíteto dá-lhe colorido. O espírito justo emprega o adjetivo mais próprio: a imaginação brilhante emprega o epíteto mais expressivo. – Imediata. mais pitoresca. limítrofe.. por exemplo. sem graça. epíteto. paragens não têm fim preciso ou limite certo). conveniente para vestir. ou uma superfície da outra) que não fique espaço nenhum entre a coisa que está junta e aquela a que se junta”. o uso mais particular que se dá a cada um deles – adjetivo é termo da gramática e da lógica. unido. e quer se trate de espaço. ou confinantes. vizinhos: Não se diria: paragens limítrofes. próximo. contíguas são extensões (ou coisas) que se tocam (con=cum+ tago. dá vivacidade e energia ao discurso: é útil e conveniente. zonas confins (não – confinantes. e aquele só se aplica em referência a países. – Imediato. sem que medeie coisa igual entre uma e outra”. Marca-se assim perfeitamente a diferença entre confim e confinante. contíguo. quer outro significa ‘vocábulo aposto. e fronteiras são extensões (ou coisas) que ficam ou que estão uma defronte à outra: não é necessário que estejam contíguas ou unidas. Aproximam-se de fronteiro. sem energia. ou fronteiros. S. ou contíguos. As outras duas consideram o epíteto como exprimindo uma qualidade do substantivo. Nesta frase: . epíteto diz o mesmo que na latina diz adjetivo: quer um. O adjetivo completa ideia do nome e o sentido da proposição: é necessário. limítrofe. e pôr-lhe a ideia vivamente em destaque. menos distante”. 145 ADJETIVO. Limítrofe é o mais próximo de contíguo. ou em geral a territórios. mais do que próximo. confins. distritos. – Junto é o que fica ao lado. – Chegado diz menos que pegado: significa “muito próximo”. Ninguém diria que. que jaz perto”. quer de tempo. Se tiramos o adjetivo. pegado. chegado confrontam-se. regiões. imediato. – Pegado é quase o mesmo que unido. províncias. a proposição muda de termos: se tiramos o epíteto a proposição fica sem ornato. ornar. – Vizinho é o que se acha “mais por perto de nós”. fronteiro. ou unidos. – Próximo diz – “mais chegado. o próximo verão.. Países. Considerando. regiões. porém.

em plena Câmara. funcionários) que têm funções junto de outras autoridades. admirado. arrebatado. de certa missão. pasmado.. surpreendido (surpreso). ficou admirado. como dizem alguns autores: é “conjurar imprecando.” – Admirado. etc. maldizendo”. – Conjurar é mais que protestar contra a obsessão e que ordenar ao demônio que saia do corpo de um atribulado: é fazê-lo sair. Dizemos: adjunto do promotor público. e que nós manifestamos principalmente pelo olhar”. transportado. – Esconjurar não é apenas uma outra forma de conjurar. mas a imagem descorada e amortecida”. etc. – Estes dois vocábulos Exorcizar (ou. o menino emudeceu”. – Adjurar é “concitar com império. maravilha. ou está admirado de ver a justiça tão liberal quando a julgávamos tão somítica?” – Pasmo é a “admiração levada a uma intensidade tal que absorve todos os sentidos da pessoa que está pasmada”. aqui (com a função de predicativo).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 103 ‘O homem justo é digno da imortalidade’ – o adjetivo ‘justo’ determina a ideia principal. na surpresa que o assalta. por exemplo: “Qual não foi o meu espanto (ou o meu susto. enlevo. expulsá-lo com grande clamor.. quer para substituí-las. assombrado. É certo que nesta frase. assustado. surpresa. entusiasmo. da pátria. e particularmente “ordenar ao demônio que saia do corpo de um possesso. e admiração de seus doutores. os esconjuros (exorcismos) próprios para expelir o demônio de um corpo”. talvez melhor. arroubo. fica o mesmo sentido. arroubado. maravilhado. proferiu aqueles horrores!. como se cria nos velhos tempos” – diz Bourguig. assombro. Mas adjunto se supõe sempre junto de uma outra pessoa (juiz. 147 ADJURAR. é renegar abrenunciando. e adido de embaixada. Muitas vezes é empregado este vocábulo para exprimir a própria coisa que excita admiração. e com significação análoga à que lhes fica assinalada respetivamente. Fernando. espanto. diz propriamente “tomado de admiração”. designam pessoas (autoridades. enlevado.. 148 ADMIRAÇÃO.. e quase pinta aos nossos olhos um hórrido objeto. quer para auxiliá-las. – Espanto diz – . que se faça alguma coisa”.. “O sr. Tirado esse adjetivo. e completa o sujeito da proposição. ou que deixe de atormentar alguma alma. Mas vejamos. o sujeito muda. extasiado (extático).. e na maioria dos casos sem muita razão. êxtase. – susto. em nome de Deus. induzir energicamente. conjurar. Nesta outra: ‘A pálida morte pisa com igual despeito os palácios e as cabanas’ – o epíteto ‘pálida’ dá uma cor à ideia principal. enquanto que adido se diz do funcionário. espantado. ordenar em nome do próprio Deus. pasmo. transporte. – Admiração é “o forte movimento de alma que em nós excita alguma coisa extraordinária. 146 ADJUNTO. entusiasmado (entusiasta). – Empregam-se todos estes verbos em sentido figurado. exorcizar (ou exorcismar). esconjurar. susto e assombro confundem-se frequentemente. etc. professor. de um tribunal. Tirado o epíteto. que fica junto de uma repartição.. repelindo.).” – só uma distinção muito subtil é que poderia dar uma preferência formal por um dos três vocábulos. – Espanto. adido... a fama da Universidade. arrebatamento. exorcismar) é “fazer as adjurações. “Aquela cena estranha causa pasmo geral”. de alguma coisa sagrada. Pasmado. ou o meu assombro) quando o moço. etc. adjunto do lente de geografia. como se vê deste exemplo de Vieira: “D. e a proposição é falsa.

extática. se parece como absorta. – Transporte é “arrebatamento da alma. abalo mais ou menos forte. encheu de um vasto e grave clamor todo o templo”. Fica-se maravilhado à vista de um prodígio. – Êxtase (ou extasis) é “o estado de quase delíquio em que fica a pessoa que se arrebata..104 Rocha Pombo “admiração que é quase pasmo. serena e extática. causado pela suspeita de algum perigo).” – Entusiasmo é “o estado de agitação e arrebatamento em que fica a alma. em pasmo. ficou por longo tempo em adoração diante da imagem”. admiração profunda e solene”. “O noivo.” – Arroubo (ou arroubamento) é o estado em que fica a alma “arrebatada de altas emoções. entusiasta é “o que se devota com entusiasmo por alguém ou por alguma causa” (é uma qualidade). arrebatada. – Maravilha (no sentido que lhe dá lugar neste grupo) é “sentimento de assombro tão vivo e intenso como se fosse produzido por alguma causa sobrenatural”. “Ouvindo um lance daquela oratória grandiosa. Vemo-la extasiada se ela se mostra como entregue ao seu êxtase. – Susto é menos que espanto: é “espanto súbito. “A população está assustada com aquele boato que ontem correu. daqueles transportes de alegria passou à demência. “Ali ficou. “Aquilo (aquela ação extraordinária. – Assombro é “grande espanto. “ele é grande entusiasta do capitão”.. Dizemos: “pequeno susto. e sentindo-se como em deslumbramento de coisas divinas”. – Enlevo é “um êxtase mais sereno. e a nossa maravilha provém de sentirmos que tal prodígio excede às forças humanas. “Naqueles arroubos da sua vida moral. e no qual parece tomada de pasmo e maravilha”. sacudida de paixão violenta”. tão brilhante e segura” (e não – assustados nem mesmo – espantado. ele vivia mais num instante do que outros num século”. o pobre. nem: “pequeno espanto”. ou aquela conquista surpreendente) põe-me na alma agitada mais maravilha que alegria”. – Arrebatamento diz – “admiração súbita e impetuosa”. causado por alguma coisa inesperada”. é um como esquecimento da alma pela coisa que aprecia. mas não seria muito próprio dizer (na acepção que lhes damos aqui): “pequeno assombro”. – Surpresa é a “súbita impressão que nos causa alguma coisa que não esperávamos”. ou às próprias condições da natureza. Surpreendido é o que . violenta impressão de surpresa e quase terror”. um sobressalto. mais inconsciente e mais delicioso. “Senti um grande susto em toda a assistência”. “Vieira foi o assombro do seu século”. ou como tocada de centelha divina”. gozando o seu arroubamento. “Transportado de cólera. pois este vocábulo já enuncia um estado de alma que é mais alarme do que espanto). mas apenas uma desconfiança.. – Espantado... quase inconsciente nas profundezas do seu êxtase. como se estivesse incendida do próprio Deus. e muitas horas depois ainda a encontramos extática.. “O moço está espantado de me ver marchar” (não – assustado. grande susto”. É um estado semelhante àquele “engano da alma. extasiado da íntima alegria da bemaventurança. admira ou adora”. e é tomado também este vocábulo como significando a própria coisa que nos surpreende. em todo o delírio da sua fé”.. a assistência. porque o que a população sente não é comoção de quase terror. pois o que o auditório sente é mais admiração que surpresa ou pasmo). e. ou aquele invento. “a grandeza dos Estados Unidos do Norte é o espanto de todo o mundo”.. Entusiasmado é “o que está sentindo entusiasmo” (é um estado). “Ele está entusiasmado com a vitória”. diante do altar extasiada.” (não – espantada. “O auditório está assombrado de ouvir aquela palavra tão nova. pareceu-nos em completa transfiguração: enquanto ela (a noiva). assustado e assombrado distinguem-se de igual maneira. que a fortuna não deixa durar muito.

Quem contempla e quem considera entende-se. contemplar. Resta dizer que sugere também a intenção – o interesse. a contemplar as maravilhas de Deus”. a conduta deste moço?” (e não – fita). apreciar. ver. examinar. a coisa a examinar. até pela analogia da formação. ou o desplante. que procura entender as coisas do universo. “Vivemos aqui. – Admirar é “ver alguma coisa com grande atenção. Mas quem examina é de supor que tem perto. ou para alguém ou alguma coisa”.. e quem observa só estuda ou considera a coisa a observar aplicando 14 Fitar significa “fixar (os olhos) com muita atenção”. que entra na composição do verbo contemplar. nem a capa lhe escapará nos ombros”. E quer um. fitar os olhos em. dentro do qual o áugure observava o voo das aves. Mas a diferença entre os dois verbos consiste em ser a ação de considerar mais própria do espírito que indaga. quer outro destes verbos. admitem adjuntos modificativos da respetiva ação. e. dar de cara com. Ver exprime o exercício da fa- culdade de “receber pelos olhos a impressão que nos causam as coisas exteriores”. Tanto podemos olhar sem ver propriamente como podemos ver sem ter olhado. e a de contemplar mais própria da alma que se enleva ou extasia. pois. “Ele fitou14 aquele ponto com muita insistência” (e não – encarou). uma paragem. como se a pessoa que contempla estivesse absorta. ou vê-se preto. ou a arrogância. mas bastam alguns exemplos para ver como se distinguem. olhar com atenção”. etc.” Mas tanto esta como a forma do exemplo acima. – Observar e examinar confrontamse. da Sil. – Examinar é “fazer inspeção ocular. dizemos de preferência surpresa. espanto ou alegria”. em susto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 105 está sentindo surpresa. Examina-se um caso.. Como bem define Aul.. – Ver e olhar distinguem-se essencialmente. vê-se vesgamente. 149 ADMIRAR. “Olhou e viu tudo cerrado” (R. observar.. consi- derar. Vieira tem este exemplo: “Faça-me V. Olhar é simplesmente “dirigir os olhos para algures. uma doutrina. um problema. “Olha-se de esguelha. – Apreciar é “ver com muito interesse. “Ele encarou de frente o inimigo” (e não – fitou). – Contemplar é “admirar longamente. Considerar sugere a ideia de ter (quem considera) o espírito voltado para o alto. ou de relance. perturbada”. o espaço marcado no céu. – Fitar e encarar ainda se confundem mais facilmente. que vale mais por “perplexa. em grande pasmo para a coisa contemplada”.. Em contemplar sente-se também a sugestão de ideia semelhante. ou para os astros. – “encarar é olhar direito para fixar bem. autorizam-se com os clássicos. devíamos dizer: “Ele fitou os olhos naquele ponto. significava. ou cor-de-rosa”. ou com maus olhos. na floresta sagrada. etc. ao alcance de todos os sentidos. portanto. “Aquela criatura já considera gravemente na vida. – Considerar (de con = cum e sidus “astro”) confunde-se muito com o precedente. – Olhar e encarar poderiam confundir-se em grande número de casos. – com que se olha. A palavra latina templum.. entre outras coisas. para a abóbada celeste. olhar. ou com desprezo”. com apreço”. por que se os não tiver ambos abertos. no destino”. sem embargo da restrição que fazem alguns autores quanto a ver. e se nos referimos mais à condição que ao estado momentâneo em que ficou a pessoa que se surpreende. a mercê de ver com ambos os olhos. . estudo minucioso e com muita atenção”. uma obra de arte. “Vê-se com os próprios olhos. que está enlevado para o céu. conquanto no uso vulgar muitas vezes se empregue um pelo outro. mas é certo que o último acrescenta força e intensidade à ação do primeiro. M. encarar.). fitar. “Como é que encara o sr. “Eu pasmava de olhar e ver o homem” (Garrett).

. magnífico. amável e amativo. como em estado de estupor. como se a tivesse sempre debaixo dos olhos. espantoso. também o seriam: estimável e estimativo. distanciá-los. como no precedente. para estabelecer a respeito dessa pessoa um juízo seguro. Mas incontestavelmente os sufixos vel e . arrebatador. pois este diz melhor que o primeiro “que gera estupefação”.. abalado e suspenso ante aquela cena. a mesma raiz grega tup. Mas estupefaciente não é o mesmo que estupendo. admirável e admirativo: e eles próprios se encarregam de. enquanto que admirável diz – “digno de ser admirado”. surpreendente. por assim dizer. grandioso.” (aquele discurso cheio de coisas que nos deixam estupefatos. assombro tão grande que nos suspende. – Estranho é “o que. su- . desperta assombro”. excelente. a alma. viva atenção (curiosidade) por ser original. ou porque não se encontra comumente”. como sinônimos. o que é estupefaciente nos faz estupefato. Observar a conduta de alguém é seguir-lhe os passos. monstruosas. distinto de todos os outros da mesma espécie”. Dão os lexicógrafos como tendo o mesmo valor o adjetivo admirando. estranho. – Raro é “o que se faz notar por não ser frequente. tão nova e admiranda!. pela simples definição. – Curioso é “o que desperta interesse. singular. dão no mesmo grupo.. pungir.106 Rocha Pombo apenas os olhos.). assombroso. mas será admirativo” (isto é – cheio de sentenças. estupendo. além de raro.. e não se pode dizer que seja estupenda.. pasmoso.. – Espantoso é propriamente “o que causa espanto”. esplêndido. ou imprevisto”. Se esses fossem sinônimos. é fora das proporções usuais. Há na história lances estupendos e edificantes. Em estupefaciente e estupefativo encontra-se. excitando a nossa emotividade. que está causando admiração. – Extraordinário é “o que nos chama a atenção por estar fora da regra ordinária ou da ordem normal das coisas ou dos fenômenos. estupefaciente. atônito. O astrônomo observa o céu (e não propriamente – examina).” (não com a mesma propriedade – admirável). raro. exclamativas e admirações). e que por isso causa movimento de alma anormal”.ndo marcam uma certa diferença entre os dois: admirando enuncia a ideia – “que está sendo admirado. – Todas estas palavras designam coisas que nos impressionam mais ou menos fortemente. etc. por ser extraordinário. – É admirável “aquilo que provoca admiração”. Parece que o mundo ficou até hoje ali. e ainda melhor citando este exemplo de Vieira: “Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir. afrontada de coisas anormais. 150 ADMIRÁVEL15. inverossímeis”. e maravilhoso “o que nos deixa maravilhados”. – Excelente é “o que impressiona pela sua grandeza. e Bruns. – Singular é “o que impressiona por ser único em seu gênero. soberbo. Vem ver como “está admirável a aurora!” (não – admiranda). – Surpreendente é “o que nos causa admiração ou espanto porque se nos apresenta de súbito e sem que o esperássemos”.. “cheio de estupefações”.. curioso. como assombroso “o que 15 Roq. Uma cena de canibalismo é estupefaciente. como se a tivéssemos batida. impressionar vivamente. isto é. Não se confundem também estupefaciente e estupefativo. porque sucede poucas vezes. ou porque excede ou está abaixo da medida comum”. esquisito. raro. “Aquele discurso estupefativo deixava-nos imobilizados. ou que se impõe à nossa admiração”. (e não – estupefacientes).. que sugere a ideia de bater. e examinar a conduta de alguém é ponderarlhe os atos. – Estupendo é “o que nos causa espanto. apesar do que dizem alguns autores: o que é estupendo imobiliza-nos de assombro.. estupefativo. Não será o sermão admirável (isto é – ‘digno de admiração’). extraordinário. maravilhoso. admirando.

quem aconselha dá à pessoa que é aconselhada – ou porque espontaneamente se interesse por ela. repreender. – Avisar e aconselhar confrontam-se. As corporações. defeito ou falta. “ad- ência ou por sentimento de dever. que é uma como admiração quase passiva”. censor era o magistrado que exercia a censura. Os príncipes admitem à sua audiência os ministros estrangeiros16 e recebem em suas cortes os grandes senhores das outras”. receber.” “O pobre marido ainda lhe tolera todos os caprichos e extravagâncias. tolerar. – Quem consente que alguma coisa se faça é porque se põe de harmonia com o sentir da pessoa que a quer fazer. entusiasmo impetuoso.. – Esplêndido significa “admirável pelo brilho e perfeição”. 152 ADMITIR. – Quem permite alguma coisa admite-a com autoridade. “sentir”) é. mas que recebe. “Pedro admitiu que o negócio fosse discutido lá mesmo no escritório”. que vigiava sobre os costumes. permitir. etc.) que ela ignorava. 151 ADMITIR.. as sociedades literárias e científicas recebem em seu grêmio os homens notáveis e doutos. avisar. – Segundo Roq. sem castigo ou censura. pela raridade. – Grandioso é “o que junta à grandeza serena e brilhante do que é excelso e majestoso a magnificência do sublime”. imponente no seu modo de ser”: é mais que excelente: – é o que “sobreleva a coisas do mesmo gênero também excelentes”. ou porque se lhe pediu – uma noção clara do modo como essa pessoa se . Um fidalgo admite à sua mesa e em sua sociedade um homem limpo a quem nunca visita. – Arguir. A recepção é mais cerimoniosa: supõe certa igualdade. arguir. surar. deixa que ela passe sem oposição. no qual figura a raiz men ou man. “não só com autoridade. e como que invetivando”. concorrendo assim para que essa pessoa se dirija melhor em alguma conjuntura. produz pasmo. – Quem admite alguma coisa deixa apenas que essa coisa seja ou se realize. – Repreender é advertir. pela excelência. tacitamente. – Arrebatador é “o que produz admiração súbita. – Pasmoso é “o que. é “repreender acusando de vício. inspira um sentimento de admiração solene. – Magnífico é “o que.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 107 perioridade ou distinção”. pela pompa e majestade. de respeito religioso”. – Admoestar (admonere. chamar atenção para alguma falta. consideração e correspondência. hoje não dizemos que o chefe de Estado admite o ministro ou embaixador. forte impulso de alma”. que sugere a ideia de “pensar”. como se a aprovasse mais pelo desejo de condescender com outrem do que por impulso de consci16 Aliás. e discutindo e mostrando a falta”. ameaçando de castigo. verberar. pelo esplendor. – Soberbo é “o que se mostra augusto.. cen- mitir indica um ato de urbanidade pelo qual se franqueia a porta da casa ao que de um modo decoroso a ela se apresenta. consentir. – Advertir é “admoestar mais formalmente e com certa autoridade”. aqui. estigmatizar. circunstâncias. “em termos brandos e amistosos. Mas quem avisa dá à pessoa avisada conhecimento de coisas (faltas. etc. fazer sentir uma inconveniência”.” – Censurar é “repreender como por direito de função.” 153 ADMOESTAR. Em Roma. – “Antonio não permitirá que a escolta lhe penetre na oficina”. “Ele há de afinal consentir que a filha case. – Quem tolera alguma coisa é que a permite pelo silêncio. aconselhar. advertir. isto é. mas com energia e mesmo com certa arrogância e aspereza. ou porque exceda ao que é normal.

perfeitamente definido por Faria: “período da vida em que o organismo chega a desenvolver-se plenamente. enfermou momentaneamente. E depois do parto – que enfermou. em que se tem força. que alguém enfermou ou do coração. isto é. enfermar. quando a juventude principia: não se sabe. Sabemos. e não – que enfermou. De um médico. censura-lhe a desídia. Quem está sofrendo dor de dentes. pois. ou de momento. de um ministro se diz que é bom moço. atendendo à sua etimologia. A latitude dada assim ao período da adolescência é corroborada pela Academia espanhola que a define: “la edad desde los catorce hasta los veinticinco años”. e com ela se confunde ao princípio. e que para avisar basta que a pessoa que avisa tenha motivos especiais de cuidado (interesse a zelar. – Adolescência – diz Bruns. portanto – que F. parecendo esta última expressão excluir a gravidade que o médico e o ministro devem ter. porém. É de lamentar que o arguisse de males que não fez. – Juventude é a quadra da vida em que se é jovem. Verbera-se uma injustiça do tribunal. e dura mais ou menos. juventude. mancebo. voz derivada do verbo adolescere. do figado. 155 ADOLESCÊNCIA. segundo a constituição. temperamento. Aconselha-se a um parente mais moço. – vem-nos do latim adolescentia. jovem. de uma senhora que vai para o leito. principia com a puberdade. reprovar com acrimônia. um ato iníquo do mau governo. Mas adoece uma pessoa quando deixa de estar sã. Não diríamos. repreender violentamente”. para que não repita a falta. nem por isso está enfermo. “crescer”. Todos conhecemos jovens de quarenta anos. Estigmatiza-se a calúnia. ou do peito. ou de ouvidos. Este vocábulo está. ou se supõe. e impetuosidade nas paixões. ou o caluniador. quanto pode durar.108 Rocha Pombo deve conduzir em certo caso. – Estigmatizar (formação vernácula de stigma “ferrete”. na linguagem comum. vigor. ou dever a cumprir) com a pessoa que é avisada. idade subsequente à puerícia. a época da vida que prin- . ou parecer dignos da carreira que abraçam. ordinariamente estes dois verbos. Admoesta-se o filho ou o aluno. mocidade. dos quatorze aos vinte e cinco anos”. não – que é bom jovem. assim como velhos de vinte e cinco. juventude. 154 ADOECER. portanto. “açoite”) é “arguir fortemente. portanto. púbere. e não – que adoeceu. por conseguinte. Avisa-se a um amigo de que alguma coisa se trama contra ele. – Mocidade vem-nos do castelhano mocedad (idade de mozo). mas é suscetível de durar mais que ela. Segue-se que para aconselhar é preciso. e não – enfermidade. e enferma quando a moléstia é de tal natureza que a debilite. moço. ou posição social do indivíduo. ou com quem temos familiaridade. se esta o obriga a refrear os ardores da natureza. Adverte o chefe da repartição a um empregado que não cumpre o seu dever. adolescente. do coração. mocidade. de verber. ou dor de ca- puberdade. e repreende-o se ele reincide na culpa. no momento do parto – que adoeceu. Costuma-se dizer. – Confundem-se beça. “marca”) é “verberar como indigna” (a coisa ou pessoa estigmatizada). mancebia. Principia quando a juventude. ou de faltas que não cometeu. – Verberar (verberare. A mocidade será. como se vê nos moços ambiciosos que procuram guindar-se pela política. está doente. Também o que adoece naturalmente sente dor: o que enferma sente a fraqueza que provém do mal ou da doença. a que evite a companhia de um colega desmoralizado. Dizemos – doença do peito. ter o conselheiro autoridade moral em relação ao aconselhado. Não seria próprio dizer. Dizemos: – longa enfermidade: e não – enfermidade rápida.

ter debaixo de”) e significando. – Veneram-se os santos e as coisas santas. ou esta espécie de culto que rendemos às coisas em presença das quais nos sentimos humildes e de alma confusa e abalada. a consideração que se tem pelas pessoas a quem se devem tais sentimentos”. e venerando “o que se impõe à nossa veneração”. isto é. ou que a algum santo ou divindade acata – procura. respeitável. respeitar. gesto. acatar. respeito. os grandes homens. a nossa família. e tende a perdê-la de todo. reverência. – 17 Segundo outros. diante da pessoa que julga respeitável. palavra. como a velhice. renunciamento com que se ama a Deus”. Um homem de trinta anos já não é jovem. de respicere – re spicere – “olhar para trás”. chamar a si o ente acatado ou insinuar-se-lhe no ânimo. as grandes virtudes. “apto para procriar”. – Mancebia significa propriamente a qualidade. – Adoração é ato de adorar. venerável. que não é muito frequente nos clássicos”.: “A voz jovem (do latim juvenis) explica a ideia absolutamente. – Reverência é a manifestação (por atitude. – Honra é. do espanhol mozo. abnegação. ou disposição que são próprios da juventude. – Respeito (respectus. Pode-se mesmo. Quem respeita fica. atribuindo à palavra moço a sua primitiva significação de solteiro. e podem durar mais ou menos tempo. aqui. mas é pouco usado nesta acepção. pode-se. Por sua vez diz Roq. segundo a rigorosa propriedade da palavra. significa rigorosamente o moço de poucos anos. portanto. “não dar as costas”) é todo sinal de atenção com que vemos ou tratamos uma pessoa ou coisa. honrar. e a mocidade é o tempo em que o homem conserva aquele vigor. No sentido próprio. a explica comparativamente: porque a juventude é a idade do homem entre a adolescência e a idade varonil. No sentido figurado. como algumas outras palavras deste grupo. veneração. – Mancebo. mas em geral se usa por jovem. “o filho que ainda está sob a autoridade do pai”. do árabe mansubon17. a profunda estima. “o grande apreço. considerar venerável como significando “o que é digno de ser venerado”. e por extensão aquelas que pela sua grandeza moral assumem a nossos olhos um aspeto de santidade. só Deus é que se adora. etc. a condição de mancebo. do latim mancipium (de manceps. parecer. acatamento confunde-se com reverência e mesmo com adoração.) de grande respeito por alguma coisa sagrada. em atitude de vivo apercebimento e vigilância. a sabedoria. porém ainda é moço. formado de manus e capere “mão” e “reter. fervor. por meio de grandes demonstrações de respeito e submissão. e depois a autoridade subalterna à autoridade superior que representava diretamente o soberano. conservar. Honramos os nossos pais. no entanto. tem no XC. – Reverencia-se aquilo que merece o nosso culto. sobre os trinta a trinta e cinco anos”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 109 cipia com a puberdade. adorar é “amar com o mesmo extremo. em compostura de perfeita discrição e gravidade. isto é. adorável. – Fora da acepção que esta. – Veneração é respeito profundo. venerando. acata- mento. – Puberdade é a idade em que o indivíduo se torna púbere. era o juramento de fidelidade que o vassalo fazia ao senhor feudal. honra. como dos quatorze até os vinte e um anos. as grandes virtudes. . 156 ADORAÇÃO. dizer que “a mocidade é o espaço da vida compreendido entre a puberdade e a idade em que compete ao homem tomar estado. – Homenagem. a voz moço. – Acatável é a pessoa que merece o nosso acatamento. homenagem. Adorável é “o que é digno de ser adorado”. reverenciar. etc. no sentido próprio. A pessoa que a outra acata. adorar. venerar. – Venerável e venerando são definidos como sinônimos perfeitos. acatável. e acaba ao entrar na idade madura.

Um manjar que se condimentou com perícia é apetitoso e restaurador. lisonjear. Condimenta-se o estilo. juntando-lhe sal.110 Rocha Pombo 159 ADULAR. E adular não se reduz a simples louvores ou ao intento de ser agradável só por palavras. homenagem é “o sinal de respeito. na alfândega (de fundag ‘depósito’. abrir caminho adulando os chefes de quem dependem as posições. O lisonjeiro não é. O bajulador humilha-se. e não se satisfaz “só com palavras. condimentar. – Lisonjeiro (ou lisonjeador). Quem engrossa. repugnante. – Condimento é a porção mais substancial dos adubos e que serve não só para tornar a comida de cheiro e de sabor mais delicado. e portanto que mais enojam do que louvam.. Estabelecida esta diferença. etc. é termo de gíria. fazer louvaminhas. nem sempre pelo menos. “a primeira destas palavras já quase desapareceu da língua: só a registramos aqui a título de curiosidade. Aduba-se um prato especial para F. de fazer-se-lhe simpático. – O louvaminheiro não é tão sórdido como o bajulador. Aduana e alfândega são palavras de origem árabe. um sujeito indigno. temperar. aqui. – Tempero é a quantidade dessas coisas que se juntam à comida. cheiros. louvaminheiro. e o grau de perfeição com que é ela temperada. nem mesmo se envilece como o que adula: será talvez mais próximo do lisonjeador. é o que enuncia ação que nem sempre é vil. mas vai até os serviços mais asquerosos” que dele exija o bajulado. excessiva. 158 ADUBAR. engrossador. É mais termo criado pelo instinto de crítica do nosso povo para zurzir o vício de. pode ser exagerado. pois louvaminhar não é senão lisonjear demais e continuamente. é “juntar à comida que se prepara os adubos (como tomate. – Bajular exprime ação ainda mais abjeta que a do verbo adular. – Segundo Bruns. gabos. adulador. bajulador. bajular. como para fazê-la mais nutritiva. – Engrossar. e – ‘movimento alfandegário’ à quantidade de mercancias que passam pela alfândega”. submissão e acatamento que se tributam a uma pessoa que consideramos como nosso superior”. soez. compreende-se que – ‘movimento aduaneiro’ se refira aos ingressos de direitos. – Temperar a comida é “dar-lhe o sabor próprio. de coisas curiosas. e para explicação do seu derivado aduaneiro. alho. No sentido que tem aqui. adubo. o discurso. obediência. 157 ADUANA. mas estende-se aos atos. alfande- gário. pimenta. daí vem o dizer-se ainda ‘tarifas aduaneiras’. – “serve de capacho ou de sabujo”. É quase adular. . ou não ser sincero no louvar: não será baixo. lisonjeiro (ou lisonjeador). empregado em linguagem popular para dizer o mesmo que lisonjear com certa intenção de insinuar-se no ânimo do lisonjeado. que a tornem agradável”. de todos os vocábulos do grupo. e quando o não faz por uma requintada delicadeza será talvez com o pensamento de ganhar-lhe o coração.. portanto. nem por isso se tem na conta de indigno como quem bajula. ‘armazém’) depositavam-se as mercadorias sujeitas a direitos. a todo o esforço que faz o adulador por insinuar-se no ânimo do adulado. como diz Bruns. condimento. engrossar. em política principalmente. tempero. Também se emprega no sentido figurado: aduba-se a narrativa. no entanto. tempera-se a frase. Só quando a lisonja é calculada. louvaminhar. mas de etimologia diferente: na aduana (de dana. aduaneiro. aqui. Quem lisonjeia pode querer apenas tornar-se agradável ao lisonjeado.). – Adubar. isto é. alfândega. – Tanto condimentar como temperar se usam também no sentido figurado.. ‘escrever’) registravam-se as mercadorias sujeitas a direitos. louvores afetados e fúteis. é que passa o lisonjeiro a ser adulador. vinagre.

portanto. enquanto que falsificar só se aplica propriamente a coisas materiais. batidas da catástrofe”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 160 ADULTERAR. pois ambos são formados do latim unus. coisas diferentes que se pretende unificar. pois a coisa imitada nem sequer incide sob a sanção dos códigos. Não se poderia dizer. que muito convém ter em conta: ad envolvendo ideia de impelimento. mais sensível diferença de ação que a notada entre os três precedentes. etc. Imita-se a conduta de alguém. mais a ideia de infringir direitos alheios.. “Vamos unir os nossos esforços. agrupar. Adunar é trazer com esforço. a em aunar. em seu favor. os membros da mes- . e apresentam. opiniões.. nem lhe tire o valor próprio: é possível até que a coisa contrafeita seja superior à coisa legítima. porém. no entanto. Quem contrafaz. ligar. estragando. coadunar. falsificar. corrompendo. unificar. Apenas as imitações nunca têm ou só excepcionalmente chegam a ter o mesmo valor da coisa imitada. “fingir com tal perfeição que aquilo que se imitou não se distinga facilmente da imitação”. – Coadunar acrescenta à ação de adunar a ideia acessória de concurso. 161 ADUNAR. Este verbo contrafazer sugere. a de evolução natural. “um”. – Adulterar e falsificar confundem-se facilmente: exprimem ambos “a ação de tirar a uma coisa as qualidades que lhe são próprias”. do esforço que outro fez – do que propriamente a ideia de falsificar. Unir é “juntar (coisas semelhantes. reunir. dizendo. “são. deixa pior a coisa falsificada que pretende fazer passar por legítima. Mas falsificar é fazer isso. unificar têm ainda o mesmo radical. e a. “Adunaram-se as hostes. etc. pode muito bem ser que não estrague o produto. por meio dos respetivos prefixos. coligar. Adulteram-se vinhos. agregar. Quem falsifica estraga sempre. aliar. contrafazer. congregar. quer de atos). Carlos Magno pretendeu adunar à fé católica povos de mui diferentes crenças”. ajuntar. é preciso que nos unamos contra o inimigo comum”. tendo radical comum. segundo Bruns. portanto. converter num todo. no entanto. “Os governos prudentes aunam os partidos. ou mesmo coisas diferentes) de tal modo que pareçam uma só coisa”. procedendo natural e brandamente. Imitar é. reunir. estabelece uma nuança diferente. “Aquela desgraça adunou os dois chefes”. O prefixo. diminuindo o valor à coisa falsificada. – Imitar é menos ainda que contrafazer. o mesmo vocábulo. Aunar é. é inegável. – Unir.. Unem-se os esposos. nuanças da mesma ideia fundamental. coisas diferentes. aunar. aumentando-lhe ou diminuindo-lhe o peso. que opiniões ou ideias se falsificam. unir. de aproveitar alguém. e ad em adunar. imi- 111 tar. de força. Quem contrafaz pode imitar com tanta perfeição que se torne difícil distinguir a coisa legítima da coisa contrafeita. Falsificase um produto de indústria introduzindo no mercado (e com o mesmo nome e com todas as aparências de que seja o mesmo) um outro produto que não tem as mesmas qualidades daquele. “Coadunam-se os vários grupos políticos para conjurar a crise”. e adulterar é alterar a pureza própria de uma coisa dando-lhe outro aspeto. exprimem. Aunar e adunar. Adulterar distingue-se ainda de falsificar em poder empregar-se no sentido translato. como se imitam gêneros de comércio. como se imita uma obra de arte. como se adulteram ideias. aunar e coadunar. e como que impelindo. portanto – “adunar muitas coisas”. – Adunar. o volume. falsificar é também convizinho de contrafazer. com perfeita lidimidade. pois (quer se trate de coisas. incorporar. Por isso.

alegar. os grupos.. “Reúnem-se as forças para a batalha” (não – unem-se). curvo e terminado em ponta. outras razões e argumentos que deem força aos primeiros”. indivíduos (não – aliam-se). Numa acepção mais ampla. ou em grupos diferentes”. e também “tornar a unir coisas que se tinham desunido”. curvo. – Curvo indica a forma da figura que não é reta nem quebrada. se se põem de concerto quanto a uma certa questão. etc. uma à outra. em regra da mesma ordem. facções. “rebanho”) e dizem. gregis. conservam o mesmo valor e a mesma distinção que têm no sentido natural. ajuntar. “Uniram-se os chefes contra o ditador” (e não – reuniram-se). – Agrupar é “reunir em um só grupo. – Adunco (ad + uncus. portanto. – Alegar é. O advogado do autor aduz provas mais positivas e cabais contra o réu. incorporar no rebanho”. – Ligar. sugerir necessariamente a ideia de ficarem reunidas ou juntas. e mais particularmente entre nações. recurvado. pois. – Incorporar assemelha-se a reunir: é “juntar uma coisa a outra ou muitas coisas entre si. ou para defesa de uma mesma causa. pois. que se ligam. – Arcado é um tanto diferente de arqueado. “juntar argumentos. Reunir é mais congregar. – Aduzir (adducere é “jun- tar a razões já expostas. etc. aliar e coligar enunciam a mesma ideia de “fazer acordo moral” (sem. chamar ao aprisco todas as ovelhas”. propriamente: agregar “fazer vir ao aprisco. um só todo”. Este verbo reserva-se para exprimir a ação de celebrar acordo de mais importância. se não da mesma natureza. Reunir é “dar unidade a coisas que se achavam dispersas”. ou se fosse tomar a forma de arco”. 163 ADUZIR. Ligam-se partidos. Dizemos: “O pobre velho já está ou já anda muito arcado (e não – arqueado). – Recurvado é “meio curvo. ar- queado. com pouca diferença ou irregularidade. Coligar está. – Agregar e congregar apresentam diferença análoga à que se nota entre adunar e coadunar. a República Argentina e o Uruguai”. uma secção de circunferência (arco). “Reuniram-se os deputados para a eleição prévia” (e não – uniram-se). – Ajuntar é “reunir com mais cuidado e trabalho”. Unificam-se dois ou mais Estados (reúnem-se sob o mesmo governo supremo. (não ligaram-se). de fazer pacto mais solene. de modo a fazer-lhe mais difícil a defesa. 162 ADUNCO. “gancho”) diz propriamente “em forma de gancho. alegando atenuantes ou justificativas em seu favor e procurando destruir a acusação. Incorpora-se um exército.. Este diz propriamente “em forma de arco”. etc. o advogado do réu defende-o. “Aliaram-se o Brasil. aliam-se formando um só). como coadunar em relação a adunar: aplica-se mais propriamente quando são muitas as pessoas. de modo que formem um só corpo”. incorporar do que unir”. ou de anzol”. etc. Aliar (ad+ligare) sugere ideia de esforço mais ponderado e formal que fizeram os que se aliaram. Unificar é “fazer de várias coisas. arcado. a argumentos já formulados. e congregar “reunir todo o rebanho. aquele significa “inclinado como se quisesse. Ligam-se indivíduos. as pessoas que se ligam ou aliam).112 Rocha Pombo ma família. Têm ambos o mesmo radical (grex. do mesmo partido. uma companhia. e “o emissário foi encontrar os irmãos reunidos na casa do tio” – percebe-se bem claro como são distintos fundamentalmente os dois verbos.” Arqueados são os supercílios de uma menina (e não arcados). isto é.. mas que representa. Nestas frases: “a desgraça encontrou os irmãos unidos”. em relação a ligar. . mais ou menos curvo”.

– Alienígena (alienus “alheio”. ou que nele se fixou. estrangeiro. – Adventício e ádvena têm a mesma etimologia (do latim advenire = ad + venire) e significam “indivíduo vindo de fora. que os referidos povos aqui são ádvenas. ádvena aproxima-se mais talvez de estrangeiro que de adventício. todavia podem estes . que nele está. inimigo. quando queremos exprimir que o indivíduo estranho aí não tem intuito de fixar-se no país como os que nele se acham. com outros. Segue-se disto que forasteiro ainda é mais próximo de ádvena que estrangeiro. à inocência” etc. contra aquilo que se afirma em oposição à justiça. quando consideramos o que veio de fora em relação ao que estava no país. 165 ADVERSÁRIO. diferente da dos filhos do país onde o estrangeiro está. de uma pessoa. entretanto. o que não é originário do país onde vive. que não é do país. foras- teiro. antagonista. mas apenas da cidade. porque não era a raça latina que ocupava o continente quando este foi conhecido. forasteiro. competidor. ou do lugar onde chega. e dizemos alienígena. ou pugnando por interesses que nos prejudicam. contra o erro em que alguém está. – Forasteiro confunde-se frequentemente com estrangeiro. ou com os respetivos antônimos. “A gente ádvena associou-se compungida à imensa consternação de toda a vila naquele instante”. pois esta palavra designa melhor o indivíduo que é hóspede na terra onde se encontra. e versus. ou mesmo que nele vive sem certos direitos (os políticos) e sem certos deveres (o do serviço militar). ádvena. Por isso. Mas ádvena diz propriamente “indivíduo que chega. pois o adversário é com efeito aquele que se voltou contra nós outros. – Todas estas palavras designam pessoas que não nasceram no. o peregrino. mas podendo ter-se fixado no país novo onde se encontra”. alienígena.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 113 circunstâncias. pois este vocábulo deixa supor que o que chega há de sair logo. à verdade. rival. Os povos de origem latina são adventícios na América. e gignere “gerar”) emprega-se como antônimo de indígena (indu ou endo = in “no” (país) e gignere) e significa. Não se poderia dizer. particípio de verto “voltado”. – Resta notar que todos estes vocábulos só se empregam em relação. – Ainda que o interesse e o amor-próprio sejam de ordinário as causas por que muitos se fizeram nossos adversários. êmulo. 164 ADVENTÍCIO. no entanto. de convicção contra o intento com que se nos persegue. porém. estrangeiro. O ádvena. Dizemos: adventício. Essa gente ádvena aí diz “a gente que estava ali de pouso. demonstrações de defesa. indivíduo ou raça que não é a própria do país em que está”. não se pode dizer que seja um forasteiro.. mas que nele vive longos anos. ou seguindo diferente opinião ou partido. ou desde que tenham aqueles indivíduos perdido a sua própria): o mesmo não se dá em relação a forasteiro. “mudado”. pois. Adventício diz igualmente “indivíduo ou raça vinda de outro país. mesmo implícita. chegada por dias”. ádvena. Estrangeiro é propriamente “o que é estranho ao país. do país onde se acham. quando nos referimos ao que chega em relação ao que vive na terra. – Segundo Roq. pode não ser de fora do país. concorrente. que está de passagem”. quando fazemos alusão à nacionalidade do indivíduo. etc. Estrangeiros podem ser até indivíduos que tenham nascido no país em que vivem (desde que os pais lhes conservem a nacionalidade de origem. em confronto (expresso ou tácito) com os que são nascidos (indígenas) no país onde está o alienígena. ou não são originárias. “a palavra adversário compõese da preposição latina ad “junto”.

valendo-se de meios honestos. isto é. Dizemos. ciência. os soberanos em sua grandeza e esplendor. que todas as palavras anteriores. “a todos os seres organizados e sensíveis. – Entre os antigos. dois rivais acometem-se. æmulus. e graças. muito de rival. – Rival é palavra latina. Adversário não supõe ódio. pois. no esplendor. nem à contradição. os amantes em obséquios a uma dama. quantos são os males que a inimizade produz. generosa. como na generosidade. nem procedimento vil. aos animais e às plantas”.. e os partidos que não saem da linha da nobreza. Temos. sem se confundir com adversário. e até heroísmo: é uma rivalidade mais distinta e elevada. os ingleses e os franceses em seus adiantamentos científicos e industriais. no luxo. como os literários. porque costuma ser traidor. Diferença-se. no heroísmo. no mérito. honras. Tantos são os bens que da amizade resultam. e sobretudo nos empregos. em ações louváveis. tenaz. adversamente. O vulgo não conhece mais que inimigos. rivalis. nobre. mas sim nas doutrinas e partidos. – Êmulo é também palavra latina. Os rivais têm interesses opostos que se combatem.114 Rocha Pombo ser amigos debaixo de outros respeitos. se nem sempre baixa. no talento. que para isso é ele inimigo. Dois êmulos caminham. Só os homens de mérito têm adversários e êmulos: e as almas grandes. repreensível sobretudo em seus excessos. e designa a pessoa que compete com outra em arte. – Competidor é “o que está contra nós na conquista de alguma coisa”. e ainda generosos e delicados: não assim o inimigo. pois este apenas concorre conosco. e sucesso adverso o que nos causa dano e conduz ao infortúnio. que os Newtonianos são antagonistas dos Cartesianos em seus sistemas. e as antigas adversar e adversia. Estende-se a inimizade. de certos prazeres. inimigo. não há ação baixa. Cícero e Hortênsio foram êmulos. e indica uma oposição mais forte que a precedente. ou que se propõe imitá-la e até excedê-la. em sua significação metafórica. somo-lo. no valor. se é bem fundada. “contra”. e agonixomai. Êmulo denota competição honesta. e até proclama. “eu combato”. Aquele pode favorecer-nos em tudo aquilo que não pertence à disputa. pois. galhardia. Os êmulos correm a mesma carreira. vivem em harmonia. e também se rivaliza em ações virtuosas. O êmulo reconhece. as ações e todas as coisas que nos podem desagradar. ou indiferentes. os de jogos e exercícios. a que ela não conduza. – Por analogia chamamos sorte adversa a que nos é contrária. e também por prejuízos e caprichos. rivais e antagonistas. pois abraça as pessoas. Esta palavra tem muita extensão em seus significados. de certos costumes. por bons motivos e com razão. o mérito dos competidores. ou fazer dano: somos inimigos de certos manjares. e não admite ódio nem inveja. g. Não há propriamente rivalidade nas opiniões e ideias. faz com que receiemos o inimigo ainda depois de reconciliados com ele. supõe graves injúrias recebidas. as supõem. a palavra grega antagonistes (antagonista em latim e nas línguas que deste se derivam) significava um inimigo armado e em ato de batalha. v. generosidade. até nos animais se dá certa rivalidade. “propõe-se a fazer ou conseguir aquilo que nós também nos julgamos capazes de alcançar”. pois antagonistes compõe-se da proposição anti. este procura sempre fazer mal. ao menos rancorosa. sim. há muitos rivais em amor. umas vezes por nossa natural inclinação. contrariar. nas riquezas. . nos interesses e inclinações. e daqui vêm as palavras adversidade. mas posteriormente foi limitando-se a combates mais nobres e menos sangrentos. É mais do que simples concorrente. Pompeu e Cesar foram rivais. A inimizade é de ordinário uma paixão. longe de excluírem as ideias de nobreza e urbanidade.

– Infortúnio vem a ser uma série ou cadeia de desgraças. sorte adversa (ou adver- sa fortuna). porque não deu motivo a elas por seu procedimento ou falta de prudência. desafortunado. É desfavorável aquilo que. ao malsucedido. e significa todo sucesso lamentável que cai imprevisto sobre alguém. e se acha reduzido à maior miséria e aflição. contrário. do que quer impedir o triunfo alheio. – “Relativamente – diz Bruns. sem deixar-lhe alívio ou descanso. que vem da castelhana desdicha. senão por sua má sorte. contrário.. – Adversidade e sorte adversa (ou fortuna adversa) dizem quase a mesma coisa: exprimem o fato de ser uma criatura “perseguida de males.. consiste a sinonímia destes vocábulos em que: – Adverso se diz do que tende a prevalecer por meio da luta. para conseguir o seu intento. – oposto. e é mais usada esta palavra que desdita. em lugar de favorecer. mas vulgarmente se toma por desgraça. calamidade. cada uma hostilizar a outra. diz Roq. – Desventura é má sorte.” 167 ADVERSIDADE. desfortunado. – às ideias. etc. infelicidade. infeliz. – Desdita acrescenta à ideia do mal o efeito da desgraça. – desfavorável. e outras muitas grandes desgraças que afligem as nações. desdita. O que perde no jogo. mal-afortunado. As partes adversas procuram mutuamente suplantar-se. no rio. sem que o incomode nem o aflija a perda. pareceres e decisões. porque só fazemos relação ao fato. caipora. e então fazem-se adversas. que é propriamente um infortúnio público e geral. a guerra. “explica o mal em si mesmo”. e . pela triste situação a que o reduziu sua desgraça. as erupções vulcânicas. – “Desgraça”. misérias. As partes opostas. mas não é desgraçado nem desditoso. do que. se declara contra isso. de insucessos e coisas contrárias”. desfavo- 115 rável. tende a impedir o que outrem pretende. O que perdeu. sem consolo nem esperança de alívio. infortúnio. desditoso. cai em infortúnio. e só por pura ponderação se chamará desdita à sua desgraça. desgraça. como é também desditoso. não só é desgraçado porque padece um verdadeiro mal. Mas a sorte adversa só assume o caráter de adversidade quando persegue o indivíduo continuadamente. tendendo a fins diferentes. tristezas. desaventurado. do que tende a fins diferentes. oposto. infortunado. – Quando a desgraça é grande e se estende a infinito número de pessoas e a países inteiros. fortuna adversa. a privação do que constitui o homem feliz. é desgraçado no jogo. desfortuna. pode queixar-se de sua desventura. – Infelicidade é o contrário de felicidade. com relação à triste situação em que se acha o desgraçado. Por isso dizemos: Aconteceu ontem uma desgraça no mar. chamase-lhe calamidade. – Desgraça é termo genérico. as inundações. procuram. mal-aventurado. desgraçado. tal como a fome. aos fins. caiporismo. Frequentemente os pais têm ideias opostas a respeito do futuro dos filhos. que não provêm do homem. As partes contrárias não tratam precisamente de fazer vingar o seu intento: o que pretendem é impedir que o contrário triunfe. O parecer do relator foi desfavorável à pretensão. porém. senão das suas opiniões. Desfavorável não se diz propriamente das pessoas. Aquele que não sai bem nas suas empresas. vale por sofrimentos. não por isto. “Afinal teve no pleito ou na cam- panha fortuna ou sorte adversa”. sendo necessário para a realização do fato. a peste. “Caiu aquela nobre figura vencida pela adversidade” (isto é – pela constância da má sorte). às tendências. toda a sua fazenda. os terremotos. antes encontra adversidades. No plural. e não – aconteceu uma desdita. desventura. desventurado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 166 ADVERSO. A república é adversa à monarquia. As minorias declaram-se contrárias às propostas da maioria.

A ventura não parece tão cega como a fortuna. ou a trama de algum espírito mau”. o que é perseguido de desventuras”. Em qualquer dos dois exemplos. ou sem êxito no caso”. é “o sujeito que se julga assim perseguido da má sorte”. pois é muito desafortunado sempre que pede alguma coisa à política”. o mal-afortunado. Mas entre os dois e mal-aventurado já se nota alguma distinção. – Notemos ainda que mal-afortunado é muito próximo do nosso caipora. deve a desfortuna. – É conveniente notar ainda o que distingue estes compostos de ventura dos compostos de fortuna. E isto pela razão de ter a palavra aventura. O homem desafortunado é o que não teve no momento. O desafortunado. – Entre infortunado e desfortunado há diferença análoga à que notamos entre infortúnio e desfortuna. a causas misteriosas e inevitáveis. que dá o segundo desses compostos. “Não acredito que ele consiga o que quer. foi malsucedido no empenho. como já se disse. ou desaventurado. voltarei logo de Paris”. – “Foi ele tão desfortunado (tão sem boa fortuna) que não conseguiu sequer uma vez bater no alvo”. – É preciso comparar alguns dos vocábulos deste grupo que têm o mesmo radical. o menino que foi vítima de uma imprudência – são todos mal-aventurados. “ele deixa tudo à fortuna” (e não – à ventura). impedindo o êxito que se calculava”. falta de boa fortuna. enquanto que desafortunado é antônimo de afortunado: marca-se assim uma distinção muito clara entre mal-afortunado e desafortunado: este. malaventurado é antônimo de bem-aventurado. o mal-aventurado errou nos esforços que fez. o sacerdote que se deixou imolar pela sua fé. e este significa propriamente “que alcançou ou alcançará felicidade” (boa ventura. a substituição de um adjetivo pelo outro mudaria o sentido da frase. transviou-se no caminho. o infortunado mesmo. – Entre desventurado e desaventurado não é perceptível diferença alguma. ou com mau sucesso em certas circunstâncias”. – Entre desfortunado e desafortunado há a diferença expressa pela partícula de intensidade a que figura no segundo antes da negativa des. Como se viu. caipora. ou num certo caso. que se empenhou numa causa de alta grandeza moral e saiu batido de infortúnio. . ou “a predestinação. – Caipora e caiporismo são vocábulos adotados dos nossos indígenas. ou mesmo o infortúnio. Os lexicógrafos estão de acordo em considerá-los sinônimos perfeitos. o amigo que se perdeu num lance de honra. e o primeiro. significando: – o último. – Mal-afortunado será um antônimo mais perfeito de bem-afortunado. a boa fortuna que sempre tivera. infortúnio é grande desgraça que se prolonga (e quase sempre se usa no plural): desfortuna diz apenas “fortuna contrária. “a falta de boa fortuna em tudo quanto se tenta na vida”.116 Rocha Pombo às vezes quase o mundo inteiro. ou que não se saiu tão bem como costuma sair-se. significa “sem fortuna. é o sujeito “sem ventura”. “Um capitão tem a desfortuna de ver fugir e escapar-se o inimigo quando ia certo de esmagá-lo” (não – o infortúnio). – Infortúnio e desfortuna. “o que não consegue chegar ao seu dia. ou bem-aventurança). – Desventurados são os pais que têm uma velhice de desilusões e amarguras com os filhos. mal-afortunado – “com má fortuna. isto é. uma significação que nele desaparece. o rei magnânimo que foi deposto e banido. “Se eu for mal-afortunado agora no meu intento. “Tem padecido os seus infortúnios com serenidade e resignação” (não – as suas desfortunas). Aquele. portanto. O desventurado lutou contra a sorte. tanto que dizemos: “ele vai à ventura” (e não – à fortuna). “É preciso consolar uma criatura infortunada (perseguida de infortúnios)”. falta que se atribui. e aquele. – Desventurado. “Tive a desfortuna de lhe não merecer simpatia”.

medianeiro. . e também com isso pode estimular em nós instintos. dos estrangeiros em geral. rábula.: – “Advogado é. que designam: causídico é aquele que trata de causas mais talvez com astúcias. – Rábula é. tendências. gritador. designa principalmente o advogado que dá consultas. mediador. defensor. instigando-nos. – Jurisconsulto é o legista profundo. “estar furioso. 170 ADVOGADO. – Distinguem-se 117 perfeitamente estas duas palavras. patrocinador e padroeiro assemelham-se muito (têm o mesmo radical). manobras. violento”). intercessor. protetor. os costumes passados”. ou nos livre de males. Saraiva este nome: “advogado que fala muito e sabe pouco. – Jurista é termo mais relativo à teoria que à prática. – Legista é o que conhece as leis a fundo e as interpreta. interventor. o prazo de tempo que se levou advogando”. isto é. jurisconsulto. e disserta ou escreve sobre leis.” “A advocacia na campanha não dá o pão e tira o couro”. o que defende causas de direito com autorização legal”. e jurista é também aquele que conhece a história do direito. Passou depois a significar o chefe da casa (pater) em relação aos agregados e protegidos19. causídico. ou do estabelecimento em relação aos seus subordinados.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 168 ADVOCACIA. letrado. jurista. aplicado aos que conhecem direito ou seguem a carreira do direito. e particularmente ao advogado que faz perante o júri a defesa de um réu. patrocinador. termo que hoje se tornou popular. coragens e ousadias que não sejam as mais recomendáveis. a praticar males que talvez não praticássemos sem o seu pa19 Patrono deu o nosso vernáculo patrão – o dono da fábrica. legista. muito mais valor do que muitos bacharéis. o patrocinador nos toma à sua conta. raivoso. que debela os casos intrincados. Assim define S. patrono. e também que haja muitos bacharéis muito mais alicantineiros e chicanistas do que tantos rábulas. advocatura é “o exercício. mais depreciativo do que causídico: aplicase ao advogado sem pergaminho. – Causídico e rábula são termos depreciativos. ou o senhor em relação aos seus libertos. defensor. O patrono defende-nos e protege-nos como se fosse nosso chefe ou nosso pai (patrão). intermediário. Advocacia é “a profissão do advogado”. 169 ADVOGADO. artimanhas do que com lisura. O mesmo se pode dizer quanto a rábula (do latim rabere.) – Defensor é termo genérico que se aplica a toda pessoa que defende a outra. – É nosso advogado quem toma a nossa defesa perante algum superior nosso. advocatura. os direitos das gentes. os antigos usos. Designava antigamente o que defendia os interesses da plebe. patrono. – Letrado. – Patrono é pois o que não só defende os direitos do seu cliente como cuida solicitamente de salvaguardar-lhe os interesses. tagarela”. “Durante a minha advocatura no sul fiz menos fortuna do que inimizades. pa- droeiro. – Patrono confunde-se com advogado e defensor. conquanto nos léxicos se definam como significando a mesma coisa. o estudante de direito é jurista18. ou perante alguma pessoa ou mesmo perante algum poder com cuja benignidade precisamos de contar para que nos absolva de culpas. portanto. fala e age por nós. – Segundo Bruns. – Patrono. patrocina a nossa causa: pode ter para isso motivos que não sejam os mais legítimos. e que se vale mais de chicana que de razões. (Nada disto impede sem dúvida que haja rábulas de 18 Hoje está-se introduzindo o neologismo direitista. portanto. aqui.

prestígio e valimento em favor de alguém e perante um poder a cuja presença esse al- guém não pode ir diretamente para alcançar o que deseja”. indulgência. delicado. fineza. benigno. polidez. agradável. meiguice. muito claro. porém. – Medianeiro diz muito mais do que mediador: é “o que interpõe a sua autoridade. o patrocinador de criminosos acolhe. A ação de proteger (de protetor) naturalmente marca. – Padroeiro é propriamente “o que exerce o direito de padroado”. – Segundo Bruns. delicadeza. mais se parece com intermediário: este. complacência. carinhoso. “cobrir. A civilidade é a convenção estabelecida na sociedade para que os seus membros se avenham . ternura. afeição. amável. e vice-versa. terno. Consiste na maneira cativante com que as pessoas de posição prendem a vontade dos que lhes falam. Sebastião é o padroeiro da cidade (isto é – protege no céu a cidade do Rio de Janeiro). bom. ocultar. a superioridade de condições da pessoa que protege sobre as da pessoa protegida. e não ao contrário”.118 Rocha Pombo trocínio. amabilidade. mostrando-se assim afáveis. bondoso. anima. Tanto o agrado como a afabilidade são geralmente provas de um caráter bem formado. Tal que é amável com os estranhos é ríspido e intratável com os seus. é toda pessoa que defende a outra. Dizemos – “patrocinador de crimes ou de criminosos” (patrono de criminosos seria já coisa muito diferente: o patrono de criminosos toma. – Intercessor é a pessoa que se põe entre nós e aquele perante o qual precisamos de defesa. e por extensão é “o que nos ampara perante alguém de cuja munificência temos necessidade”. S. O agrado é o testemunho da alegria que sentimos ao receber em nossa casa. cortesia. Não é. induz os celerados a praticar crimes). – Protetor (de protegere = pro + tegere. como já vimos no parágrafo precedente. ou ao falar em qualquer parte com uma pessoa. – Defensor. agrado. – Mediador. como nos habilita a vencer na vida. entre elas”: enquanto que intercessor sugere a ideia de que a pessoa pela qual se intercede precisa de defesa e proteção perante aquela junto da qual tem de agir o intercessor. Poderia confundir-se com mediador. mas este é o que se interpõe entre duas pessoas “para servir apenas de veículo. e fari ou afari “falar”) dá-se de superior para inferior. complacente. benevolente. portanto. esconder”) é “o que nos toma sob sua guarda. e não sendo mais por uma que por outra”. afetuoso. em nome de um terceiro. amistoso. polido. é apenas o que se põe ou fica entre duas pessoas fazendo sentir a uma o que a outra quer. obsequioso. urbanidade. melhor do que todos os outros do grupo. civil. carinho. afável. se mete entre duas ou mais pessoas ou facções. para restabelecer acordo ou ordem entre elas. bondade. a maior parte das vezes. ou a triunfar numa certa conjuntura”. e vice-versa.. sua solicitude e valimento. cortês. ci- vilidade. indulgente. ao passo que o mediador tem sempre algum interesse ou empenho em conciliar aqueles entre os quais se põe. “a afabilidade (do latim ad “a”. por assim dizer. ou faz simplesmente parte da bagagem das convenções sociais com que os homens pretendem enganar-se reciprocamente. cortesania. uma qualidade inerente ao caráter da pessoa que se mostra amável: ou tem fins interesseiros. benignidade. e não só nos ampara. a defesa de criminosos. meigo. dá-se de superiores para inferiores. benévolo. protege criminosos. urbano. 171 AFABILIDADE. cortesão. fino. de acordo com as leis. – Interventor é “aquele que. benevolência. de qualquer condição que ela seja. A amabilidade consiste em empregar todos os meios possíveis para nos tornarmos agradáveis à pessoa a quem a testemunhamos.

que isto quer significar que benévolo expressa melhor uma como qualidade pessoal. fazendo-se meiga. finura e delicadeza. O amigo afetuoso é o que nos trata com afeição. Nesta frase. portanto. senão sinal de qualidades. a diligência que se mostra em fazer o gosto de alguém. – Delicadeza é a qualidade do homem muito polido. a que se usa nos grandes centros urbanos. para com a pessoa que recebe o carinho. Dizemos: “os reis benignos são amados do seu povo”. por índole talvez do que por educação. que. ou – os homens benevolentes). a civilidade bem entendida deve reinar em toda parte. Varia segundo os meios. afagando-nos. entretanto. a atraí-la enchendo-a de meiguices e provas de amizade”. é. em estar de acordo com os desejos de alguém”. – Carinho não é uma qualidade. – Afeição é a “conformidade moral que leva uma pessoa a chegar-se muito a outra. pela amizade. e saber amoldar-se às situações. mesmo em família. tem-se não só para com as pessoas que conhecemos como também para com as desconhecidas. fino. – Polidez é a civilidade das pessoas de fino trato. – Benigno é “o homem de natureza moral muito singela. uma ideia da excelência da pessoa benigna em relação àquela a respeito da qual assim se mostra. Mas benevolência é apenas “uma disposição de alma. Complacente é o amigo que se compraz conosco. Entre benévolo e benevolente não estabelecem os dicionários diferença alguma. Uma pessoa é benévola. e isso tanto mais me cativa quanto é certo que ele não é benévolo com todo mundo”. necessário ter grande trato do mundo. como indica a palavra. Contudo. pois sem ela nos tornaríamos desagradáveis até aos nossos mais próximos. – Polidez e urbanidade confundem-se no fundo. e benevolente (“que está sendo benévolo”) uma disposição atual de sentimentos. de intimidade da pessoa que faz. perdeu hoje esse sentido: é mais “palaciano. não só com mostras de bondade. – Complacente . – Cortesia é a demonstração do respeito que nos devemos mutuamente. tratando-se de pessoas. mostra-se de boa vontade com alguém no momento. porém. com facilidade. áulico e até adulador” do que cortês. pois a polidez exige que não só nos tornemos agradáveis. Basta conhecer certas regras e observar certas práticas para ser tido como homem civil.. sempre que estas pareçam merecer-no-la.. ou pela benignidade. de simpatia. Parece. A civilidade exagerada – a que o vulgo chama política – é ridícula e presta-se ao escárnio. para ser um homem polido. a acolhê-la.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 119 mutuamente. A urbanidade é a civilidade de bom tom. de modo a não se ofenderem nem se desagradarem. um movimento propício de coração em favor de alguém”. revelando sempre por nós os seus afetos. senão que penhoremos as pessoas com quem tratamos. como se nos abrisse a alma. e sugere sempre. os lugares e a condição das pessoas. O homem delicado é-o mais por temperamento. sincera. a virtude das grandes almas. – Carinhosa é a pessoa que nos recebe. os tempos. “os homens benignos fazem-se queridos” (e não – os reis benévolos. suave no trato. isto é. A benignidade é. pois. indício de bom ânimo. – Complacência é também menos uma qualidade do que uma disposição moral: é a “boa vontade. leva a sua mansuetude e tolerância a uma quase renúncia de si mesmo para ser-nos agradável.” – Cortesão. como com sentimentos ternos. supomos que seria imprópria a mudança dos dois vocábulos: “Ele se mostrou benevolente comigo. que se contenta de ter para com seus semelhantes sentimentos propícios”. – Cortesania é o requinte da polidez: é “a polidez da corte. que obram e se exprimem nobremente. – Benevolência poderia confundir-se com benignidade. ou pode ter benevolência com esta ou aquela outra pessoa. no entanto.

afônico. Tanta lida para tão pouca vida. – Fadiga. sendo a esta que é devida a gaguez”. e afadigamento é uma extensão de fadiga. aqui. O afônico sente dificuldade ou mesmo impossibilidade na emissão da voz. faina. e sugere ideia de afãs contínuos. claudica. mento. labuta. azáfama incessante”. ou da pessoa amada. porque deixa supor sempre a inocência. os que se mostram mais do que amáveis. envolve mais a ideia de pressa que de trabalho. a faina dos campos. – Bom é aquele que tem essa virtude. uma delicadeza de sentimentos levada a extremos de meiguice. – Fineza poderia considerar-se como sinônimo quase perfeito de delicadeza. quando se mostra conosco tolerante. conforme já ficou em outra parte definido. pois a afasia provém de alguma “lesão na substância nervosa frontocerebral. lida. e é próximo de aforçuramento.) – Afonia é a falta de voz: mal ou defeito “que provém da laringe”. O mudo não fala porque ignora o som da palavra. o que é cheio de deferências conosco”. – Entre bom e bondoso há muita diferença. mudez. – São meigos os propensos ao amor. pode ser completa (o que é raro) ou parcial. para exprimir o movimento geral das grandes cidades. pois a surdez lhe impede ouvi-la. ou aquele de quem dependemos. trabalho aturado e debaixo de barulho”. Ternos são os corações que ficam como que em êxtase de piedade. pois. bondoso é apenas “o que tem bondades quase que aparentes. – Ternura é. Um sujeito aforçurado gasta inutilmente as próprias forças. Poder-se-ia dizer que é um predicamento divino. – O homem amistoso é o que nos trata como costumam tratar-nos os nossos legítimos amigos. mas um fino cavalheiro é aquele que sabe requintar a sua delicadeza e fazer-se “muito delicado”. – Mudez é propriamente a incapacidade orgânica de articular a voz. “Os meus afãs não me deixam sentir estes pequenos incômodos”. fadiga. labutação. A faina de bordo. que nos cansa. que só por extensão se pode atribuir a homens. luta.120 Rocha Pombo 172 AFASIA. Este. afásico. – Lida é “trabalho afanoso. laboração. mudo. – Bondade é a qualidade de ser bom. trabalho. aquele homem não tem tempo de atender-nos”. pois que só os pais sabem ter com os filhos. e os esposos entre si. julgada tão excelsa que o próprio Jesus a atribuía só a Deus. e mesmo a faina das ruas. – Azáfama significa mais “o apressuramento com que se cuida da tarefa. de longas fadigas. ou de um trabalho urgente”. mais misericórdia do que justiça. a candura dos simples edificada de instintivo sentimento de renúncia e de simpatia. no entanto. labor (lavor). a virtude de ser contrário a tudo quanto é mau. A indulgência supõe sempre uma autoridade ou poder mais alto que o da pessoa com quem se é indulgente. e portanto fica ele incapaz de imitá-la. afadiga- é o nosso superior hierárquico. afonia. aforçuramento. azáfama. e nos vence as forças”. “Na azáfama em que vive. um sujeito . lucubração. – A criatura indulgente conosco é a que tem para os nossos defeitos mais perdão do que rigor. – Afã é “toda atividade penosa. pois que parecem deslumbrados mais de amar que de sentir o nosso amor. ou então de que são capazes só as excelentes naturezas morais encontrando-se com as misérias da vida. sereno e afável. ou de todo não pode falar. é “trabalho penoso. 173 AFÃ. ou diante de um infeliz. – O afásico titubeia. A meiguice é a qualidade das crianças e das virgens. (Bruns. É mais usado no plural. todo esforço difícil”. ou de amor na presença de uma criança que sofre. – Faina é uma outra forma de afã: é “todo serviço feito sem muita ordem e com pressa. e a provas de afeto que nos comovem.

mas nem sempre sem fruto. e no plural – “trabalho pesado e afanoso”. que cansa o espírito ou o corpo. desviar. e que só não acabrunha as grandes naturezas morais”. trabalis “próprio das árvores.. por labor.” Resta acrescentar que lavor significa também “a perfeição da mão de obra. voltando por onde tinha ido. palavras mui distintas. e a que aplicamos toda a intensidade do nosso espírito. pôr para aquém”. “Naquela contínua luta do seu viver foi morrendo”. e ter “três vezes”) + tirar. – 20 Parece que estes têm mais razão do que aqueles. – Labor e lavor são. isto é. feito por desenho. ou melhor. apartar. do que lidava com madeiras (trabs. depois generalizou-se. ao esforço. portanto. ocupação árdua de que se vive. à contensão mental com que é feita uma obra de arte ou de ciência”. – Labor é trabalho longo e difícil. “As nossas laborações naquele transe nos inutilizaram por muitos dias”. relativo a traves”). O próprio latim tem retrahere “tirar para traz”. – Luta é “trabalho doloroso. separar.. retirar. Labutação é o mesmo que “labuta afadigada”. árvore grande”. Labuta é esforço afanoso.. não.. – Lavor dizemos do trabalho “de agulha. que nos fatiga. escreve Bruns. etc. “As lutas da vida o venceram”. “retrocesso”.. afasta-se da parede o sofá. lucubração. retira-se uma ofensa.: “Labor é palavra que tomamos diretamente do latim labor. chamar a si. sugere a ideia das penas e fadigas que produz todo exercício aturado. de ab + stare “estar ou ficar longe”) significa propriamente “tirar uma coisa ou pessoa de junto da outra”. “viga. dizemos. – Lucubração é todo trabalho que nos absorve dia e noite. 174 AFASTAR. ou pondo-a de lado. – Retirar (formado de re. – A palavra trabalho foi primitivamente aplicada à função do construtor. Só a ignorância. portanto. e segundo outros do latim trahere20 – retirar. confundindo a pronúncia dos dois vocábulos. como se fora mesmo um combate. – Entre labuta e labutação (que com os dois precedentes têm origem comum) deve notar-se análoga diferença. descaminhar (desencaminhar). lucubrações aplica-se mais particularmente “ao trabalho feito à noite. retira-se o filho do colégio. Lucubrar (de lucubrare (de lux) “trabalhar à noite”) significa propriamente “fazer serão”: e. mas indiretamente.” Retira-se um exército. ou da lâmpada. trave. ou mesmo de afadigamento”. afasta-se do espírito uma ideia sinistra. lavor. . ou das nossas aptidões. No plural acrescenta a labor uma ideia de faina. retira-se o chapéu de cima da mesa. arredar. ainda quando os dicionários as confundam e as expliquem uma pela outra. de lida ou fadiga. pois se formou de lavrar (laborare). do gótico tairan segundo alguns. à luz do gás. nas línguas neolatinas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 121 afadigado despende forças. “Os trabalhos da vida” – é quase como se se dissesse – “as lutas da vida”. lavor tem a mesma origem. e de qualquer ornato em relevo. Afastam-se de nós alguns amigos. passando a significar “toda aplicação de aptidões no sentido de fazer algum objeto. – Afastar (do latim abstare. deslo- car. tem o sentido próprio de “afastar para trás. No plural. equivalente aqui a retro (re que marca “retração”.. originou que lavor seja abusivamente empregado por trabalho ou faina. cansa também. mas que também nos agrada e satisfaz”. – Labor é “todo esforço exercido com aptidão e gosto. – Laboração é uma forma extensa de labor: é a ação de exercer o labor (laborar). – Labor é sinônimo de trabalho. e por extensão significa – “tirar uma coisa do lugar em que estava. lida penosa. Quanto a labor confrontado com lavor. ou conseguir alguma coisa”. o modo como um trabalho foi acabado”. que não devem ser tomadas indiferentemente. chamando-a a nós.

122 Rocha Pombo Arredar é “desviar bruscamente. de completivo de predicação: é “tirar do bom caminho. Quando alguém se aparta de outra pessoa toma um lugar para longe dessa pessoa. Desviamos o corpo para evitar um golpe. Descaminha-se a gente. do caminho certo. Temos apego à casa. desviamos do sentido uma lembrança funesta. ou algum fato suceder. Ferrolho é – diz Aul. se se emprega a tranca. dar espaço ou caminho”. o processo mediante o qual se cerra. prende alguma coisa”. Quando dentre muitas coisas se apartam algumas. Separar diz muito mais que apartar. quando somos sedentários por gosto. trancar. liga.. separam-se os casados quando não podem viver juntos. O aferro provém da convicção. misturado: sempre com referência a mais de um objeto. diz ele: “Feita a separação dos maus e bons. parece que separação indica principalmente a ação de separar. portanto. extensão – perverter. ligado. fecho é a “peça com que se fecha.. é-lhe inerente a ideia de fim. aferrolha-se. “Com perícia admirável desloca o dente e saca-o num instante”. e nem carece. melhor ainda que desviar. Se alguém se aparta do seu partido é que toma posição contra este. retirá-la do ponto em que se acha”. – Deslocar é “mover alguma coisa do lugar próprio. ainda que se não aliste em outras fileiras. ou nem sempre estarão necessariamente desligadas. Noutro sentido. e lá do alto deixa-o tombar sobre a cidade”. descaminha-se o menino da escola. no sentido próprio e originário. – Fechar aqui exprime a ação geral de “cerrar.) – Apartar é “pôr de parte”. fechar. – Separar é “pôr duas ou mais coisas ou pessoas longe uma das outras”. – Os dois outros do grupo.”. Desencaminhar tem significação diferente. desviar indica a ação de tirar de uma direção para fazer tomar outra diferente. – Descaminhar. tranca. e é. e apartamento os resultados morais da separação.” (III. tomando uma azinhaga”. (Por mais que digam os lexicógrafos.. unir com firmeza” (do latim fixare). o trigo do joio. diferençando-se segundo a peça com que se fecha: se se emprega o ferrolho. 176 AFERROLHAR. Deslocam-se figuras da política em todas as grandes crises. temos aferro às ideias que defendemos com tenacidade”. Segundo Vieira. tranca-se.. põem-se estas em lugar onde fiquem separadas das primeiras. desencaminhar não se confunde com descaminhar.. 175 AFERRO. a fruta podre da sã. pois. Em sentido mais restrito. ou da direção que se seguia”. neste caso. ou quando se desquitam. vem fazer que tomemos outra rota). como descaminhar. Arreda a multidão à passagem do cortejo. arredam-se as cadeiras do meio da sala.. – “é tirar uma coisa ou uma pessoa do ponto ou da linha em que alguma outra coisa ou pessoa vai passar. 163). e por. no juízo final hão de separar-se os bons dos maus. – Desviar – diz Bruns.: “O apego é a constância que provém mais do hábito que da reflexão. fecho. falando do juízo final. exprime a ideia de “tirar ou de sair do caminho próprio. designam formas ou modos particulares de fechar. “Aquele sucesso imprevisto vem descaminhar-nos da vereda em que íamos” (isto é. Separa o lavrador a palha do grão. apego. propósito ou conveniência. e sossegados os prantos daquele último apartamento. – Diz muito bem Bruns. “Separa-se – diz Roq. – “tranqueta de ferro . um forte apego. “A pulso desloca o rochedo. ferrolho. – o que estava unido. prostituir”. Só no sentido moral é que as coisas ou pessoas separadas nem sempre se julgam a distância umas das outras. este verbo sugere ideia da atitude contrária em que fica a pessoa que se aparta em relação àquela de quem se apartou. desviamos uma criança que vai ser pisada.

amizade. deixando de falar. Tudo nela tem encanto à nossa vista. Fecha-se a boca. Num sentido mais geral. o . Afeição é a tendência. porém. A afeição que temos às coisas nos induz a ter cuidados com elas. no entanto. O amor recusa crer nos defeitos que vê na pessoa amada. – Paixão é o desejo veemente de obter e possuir a pessoa ou a coisa que desperta em nós esse sentimento. tudo o que sei é que principiei a amá-la sem saber por quê. quiséramos que só nós fôssemos o único que lhe interessasse. e a paixão sente-se geralmente por aquilo que se deseja possuir. um livro. e o afeto só a pessoas. pois esta é constante. não obstante. apego. ou não se expandindo. impedindo assim que se abra a porta ou janela em que está pregada”. e que cessei de a amar sem saber a causa”. a qual nos causa um como deslumbramento contínuo pelas qualidades e perfeições que a nossa imaginação lhe atribui. de lhe ser útil. a amargura sustém-nos. sobrevive à infidelidade: sofre-se e ama-se. propensão. e não só os negamos. uma carta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 123 (ou qualquer peça de ferro que se empregue em fechar) que. vai embeber-se na ombreira ou noutra peça. um portão. não dizendo o que se sente. Não são os defeitos da alma apenas que recusamos ver no objeto que nos apraz: são também os do corpo. há nele algo mais da tibieza do afeto. e ambicionamos encontrar-nos sempre e exclusivamente na sua presença. um cofre.. uma gaveta. senão que os tomamos por perfeições. e acabamos por amá-los. paixão. na paixão há arrebatamento. por que está abraçada.. Deliciamo-nos em ouvir falar dela. – Afeto e afeição – diz Bruns. É certo que o amor aumenta com os méritos do objeto amado: não vem. podendo ser. e às vezes cessa sem ela”. Aferrolha-se ou tranca-se igualmente uma porta. Tranca é uma barra semelhante ao ferrolho. – O amor é um sentimento que se pode considerar intermé- dio entre o afeto e a paixão. E assim como é ela que unicamente nos interessa. não assim o afeto ou a afeição. Fecha-se uma porta. O austero Descartes simpatizava com os olhos vesgos: procurando a origem de tal gosto. amor. Também se fecha a alma. de tais méritos. É por afeto ou por afeição que se sente prazer em encontrar a pessoa a quem se estima. no entanto. quando este se dirige à sua amante La Chaux: “Ignoro a razão de já a não amar. Também se diz – “aferrolhar a fortuna”. Antes de Garnier já Diderot definira admiravelmente o amor pela boca de Gardeil. Muitas vezes a paixão desaparece com o logro da coisa desejada. de madeira. Se no amor não há os arrebatos da paixão. e é tal o seu fundo de benevolência que estende por sobre os vícios o véu das perfeições. ternura. recordou-se que esse defeito existia numa menina a quem amara desde a infância. sem causa. Figuradamente. Só o pensar que a ternura da pessoa amada pode ou poderia repartir-se com outrem faz-nos estremecer. correndo horizontalmente pelos anéis. O amor. ou inclinação comedida que se tem para alguém ou para alguma coisa. aferrolhar e trancar dizem “prender com segurança”. está-se humilhado e adora-se. diz do amor: “O caráter distintivo do amor é o de preocupar exclusivamente o nosso pensamento com a existência de uma pessoa do outro sexo. inclinação. dedicação. significando que se a retém com usura ou somiticaria. por assim dizer. – diferençam-se apenas em ser a afeição extensiva a pessoas e a coisas. e que se procura a ocasião de a ver. De que provém? Nasce.. Adolphe Garnier. de gozar da sua companhia. No afeto há moderação. Uma diferença essencial entre a afeição e a paixão é que a afeição se sente por aquilo que se possui. fechando-os fortemente. 177 AFETO (afeição).. no seu Traité des facultés de l’âme.

fingir (fazer de. a recordação originam o apego. também o origina a inclinação quando é fomentada. simula- ção. ou que duas pessoas têm entre si”. pois aquele que se sente levado por ela para o jogo. astuto. no sentido que geralmente se lhe atribui. foge desse mal sem grande esforço. que o afetado. contrafeito. Quem afeta alguma coisa inculca sentir o que de fato não sente. aparentar. porém. – O apego é um sentimento que pode ter maior ou menor intensidade. mas o efeito de uma firme resolução. Se a razão não pode dominar. degenerará facilmente em paixão. iludir os . por exemplo.. simulado. a uma pessoa. amor filial. que se revela em tudo o que ao filho diz respeito. etc. não é o sentimento. intuitos. seja amizade. – A amizade – diz d. – Afetação é “o modo contrafeito de mostrar sentimentos. afetar. representar de). tais são: a necessidade de expansão e de confiança recíprocas. etc. fantasiar. fortalecendo-se. um homem é dedicado ao seu partido. traja e se apresenta fora do natural. geralmente. propriamente. O indivíduo afetado é o que anda. encobre com artifícios (fingimentos) o que sente. a dedicação leva às vezes ao sacrifício. simular. o apreço do caráter. a inclinação é a disposição e tendência natural do espírito para amar alguém em razão do que nessa pessoa nos agrada. Não se pode dizer que há amizade sem que o tempo e as vicissitudes da vida a tenham cimentado e posto à prova. pois. mas ao qual o coração fica alheio. de um como voto feito. ou em amor. O hábito. José de Lacerda – é “o apego particular de uma a outra pessoa. e o desejo de ser-lhe agradável e útil até a preço do próprio sacrifício. pode facilmente triunfar da inclinação. portanto. no sentido lato da palavra. Num sentido mais restrito.124 Rocha Pombo amor é o sentimento pelo qual se ama ou se quer bem a alguma pessoa: amor paternal. Usa-se também este verbo como pronominal: o indivíduo que se afeta no dizer é o que procura apurar tanto a elocução que se torna ridículo. – Inclinação. – Dedicação é o desprendimento de si próprio em favor de outrem. contrafação. e procura. disfarce. caracteres especiais pelos quais se pode determinar. pode tornar-se amor. disfarçado. disfarçar. – A ternura não é sentimento: é a manifestação de um sentimento. 178 AFETAÇÃO. não obstante. como as há que têm inclinação para o mal. afetado. enquanto este exagera porque aspira passar por mais do que realmente é. ou de alguma ideia. assim como o animal tem apego ao homem. Há pessoas que têm inclinação para o bem. – Fingido é aquele que faz por parecer o que não é: é mais hábil. a reflexão. aparência. A ternura paternal. fantasia. contrafazer. Um criado é dedicado a seu amo. é esse próprio amor. seja amor. só quer dizer que as relações do trato não são desagradáveis entre aqueles que se dizem amigos – a amizade verdadeira tem. dissimulado. fantasiado. se. aptidões. mas em si. da índole e do espírito do amigo. aparente. a um partido. Vemos assim que esta palavra é menos expressiva que qualquer das três precedentes. a um hábito. fala. a paixão. que realmente não se têm”. não for combatida. ou para qualquer vício. dissimular. dissimulação. por exemplo. amor ao próximo. a um animal. O abuso que se faz desta palavra não exclui que a amizade exista: se ela é vã na boca da quase totalidade dos humanos. não é um sentimento distinto do amor paternal: é a sua manifestação. não é mais do que o embrião desses sentimentos. nem o amor. amor à ciência. fingido. o sujeito que se finge quer ser diferente daquilo que é. Se a inclinação. é a disposição e tendência natural do espírito para alguma coisa. e pelo qual nos consideramos ligados. esta disposição. Tem-se apego a um objeto. ou amizade. fingimento.

ou que disfarça suas intenções. isto é. – Fantasiar é “iludir pelo aspeto. “o bem. por discrição. Um homem prudente pode. Quem se contrafaz obra.. como não obraria se fosse sincero. ou que tenha aparências de outra pela qual se quer que essa coisa passe. dissimular. – Segundo S.. benigno. A dissimulação pode não ser um defeito: o disfarce nem sempre. nestas frases: “O pobre homem está fazendo de Judas”. “qualidades afetuosas”. quer ou pensa. – Aparentar é “mostrar aparências de que uma coisa é assim mesmo como se faz crer. – Contrafação é. por exemplo. Dizemos – “criaturas afetivas”. etc. – Os verbos fazer e representar em certas formas valem por fingir. aqui.).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 125 outros. Usa-se o verbo fingir como transitivo e como pronominal. ou a dor. se não se mostrasse contrafeito. mas – “demonstrações. ou apreendido nos objetos pela nossa alma. no movimento do sangue. Parece. e produzem nele efeitos proporcionados. Luiz. nos gestos. isto é. que se manifestam nos olhos. muitas vezes. – Simular e fingir têm de comum a significação de “ocultar. próprio de afeto. Disfarce é muito semelhante a dissimulação. não dizemos. “Ela está fingindo que não nos vê”. ocultar o que pensa ou quer. Quando . afetuoso. “F. e afetuoso só a pessoas. 180 AFETOS. paixões.. simulou um ataque pela retaguarda”. ou procura. ou de que é tal como parece” (aparente). portanto. ou representa de tolo). que aos olhos de outrem encubram a verdade que não se deseja. – Ainda que os di- cionários deem como significando a mesma coisa e tendo o mesmo valor. assimilar e assemelhar. afável”. Pelo menos diferençam-se eles em poder afetivo aplicar-se tanto a pessoas como a fenômenos morais. 179 AFETIVO. que o disfarçado tem intuito de enganar. que uma coisa seja semelhante a outra (as palavras latinas simulare e similis deram-nos simular. O que se fantasia impõe-se pelo efeito produzido sobre a imaginação dos outros. a verdade. ou movimentos – de atração para aqueles que se lhe representam como bons. e que nem sempre se poderá dizer o mesmo do dissimulado. por um falso exterior. como. “de afeto. Afetivo significa. e afetuoso = “cheio de afeto. reconhecida. e às vezes em toda a pessoa do homem. – Disfarçar é tomar aspeto. excita nela comoções. ou ao que se devia esperar”. ou aparências. O dissimulado mostra-se alheio exatamente àquilo que de fato lhe interessa. na cor do rosto. sentido. como simular é próximo de fingir. é fazer crer pela aparência simulada”. ele finge ou finge-se de tolo. portanto. “o ato de fazer alguma coisa de modo contrário ao que é legítimo. o prazer. portanto. ou o mal. O sujeito que dissimula faz por parecer estranho ao que se passa em volta de si. “contrário ao que é natural que se esperasse dele”. “demonstrações afetuosas”. no que diz. ou – de aversão para aqueles que se lhe representam como maus: e estas comoções comunicam-se ao corpo. ou – “criaturas afetuosas”. qualidades afetivas”. e “nada mais falso do que a fantasia de que se valem os espertos contra a ingenuidade dos tolos ou das crianças”. Mas quem simula faz que uma coisa pareça em vez de outra. que tem relação com afeto”. reveste-se de artifícios (disfarces) que o desfigurem. “ele se faz de tolo” (o homem está fingindo ou representando de Judas. O homem que disfarça procura sempre arredar do pensamento dos outros a noção exata do que lhe convém: o que dissimula cala mais o que sabe ou o que sente do que disfarça o que deseja. nas atitudes.. inculcando outra coisa que por ela se quer fazer passar”. convém distinguir estes dois adjetivos. O sujeito que se disfarça. no entanto.

182 AFERVENTAR.. lemos. aquentar pela segunda vez”. afetos e paixões são uma mesma coisa”. e sua alma inclinava-se suave e gostosamente para as doutrinas expendidas neles. – Escrevendo Maria. O afetuoso inclina-se para um objeto: o apaixonado é arrastado por ele. de Barr. “são afetos levados ao último grau e assenhoreando-se da vontade. para verificar-lhes a significação precisa. – Há entre aquentar e aquecer uma diferença análoga à que se nota entre ferver e aferventar. no meio de um líquido. Apaixonado é o que obra como involuntariamente. e arrastam o homem ao quebrantamento da lei e do dever. violentas. Quando fortes. a compaixão... padecer a nota de apaixonada. 181 AFETUOSO. como diz Roq. afetos – que citamos acima. que violentas e impetuosas fazem muitas vezes emudecer a razão. e favorável: o parecer apaixonado não é imparcial. mas apesar disso. – Na linguagem da retórica. Luiz. isto é. e apostados a rasgar cortesia”. o seu voto era imparcial – a amizade ao orador não o arrastava ao elogio dos seus sermões: eis aqui.. o amor filial. submeter alguma coisa sólida. aquentar. a seguinte passagem: . “antes sem temor de que a minha aprovação possa. A amizade. impetuosas. pode o leitor consultar o artigo – Paixões.. apaixonado.” Daqui nos veio a ideia do presente artigo. a nosso ver. suave. requentar. O amor sensual. Brandão. Br. doces.. devem com madura consideração examinar as causas dos acusados e a intenção dos acusadores. no parecer que sobre o mérito deles deu Fr. aquecer (do latim calescere. consideradas em si e nos seus efeitos. Aquentar (radical quente. a ambição. temperadas. de calere “estar quente”) designa a ação de “tornar quente”. começa Alves Passos observando que se sabe “o sentido em que estes dois vocábulos são sinônimos”. dar a alguma coisa começo de quentura”. José de Jesus aquecer. L. O parecer afetuoso é cheio de carinhos. e arrebatado pela paixão. chamam-se mais propriamente paixões. P. no precedente parágrafo. coze-se o feijão ou a carne. Souza. Afetuoso é o plenus amoris dos latinos.” As paixões. o reconhecimento são afetos.. depois de S. O autor da passagem citada amava o escritor dos Sermões. a vingança são paixões. digo que neste Sermonário se admira um livro que tem mais frutos que folhas.. Ferve-se a água. – Requentar é “tornar a fazer quente. não assim as paixões. até que pela fervura do líquido chegue essa coisa ao estado que convém”. – Cozer (do latim coquere) é “preparar ao fogo. chamam-se simplesmente afetos.. ferver. do latim calens. por afetuosa. – Ferver é “submeter um líquido a estado de ebulição por certo tempo”. Fr. “Assim por conseguinte cada um dos afetuosos suspiros tiram alguma coisa da ferrugem do pecado”. a cólera..126 Rocha Pombo estas comoções. são brandas.. é ferver mal e mal”. – Aferventar é “submeter um líquido a um grau de calor em que ele comece a ferver. Eufros. e os fez julgadores. a um certo grau de calor. Antonio de Sant’Anna. e não se devem render a clamores dos que apaixonadamente insistem em perseguir a inocência”. José de Jesus Maria. aferventa-se a sopa ou o café. “Aqueles a quem Deus cometeu o juízo. cozer. Os simples afetos são comoções brandas e suaves que se podem ajustar com a razão. “Eram caluniadores e apaixonados. incoativo de calere) significa “fazer meio quente. “Ao coração apaixonado nada se deve crer”. estabelecida a sinonímia e a diferença dos dois vocábulos – afetuoso e apaixonado – e também desenvolvido o pensamento de Fr. “Nos Sermões de Fr. e que. .

. ou astros. A que se exercita sobre as últimas moléculas dos corpos recebe o nome de afinidade. – “A aderência. a aproximaremse do centro da Terra. fenômenos ou coisas”. Chamase esta força atração. “é o grau de afinidade. atração química. – Analogia é o ponto. – A coesão é a força que produz a coerência. e solicitando-os uns para os outros. conforme. é a relação de sangue ou de aliança doméstica entre pessoas. toma o nome de gravitação”. – Conexão é. chama-se gravitação: tal é a dos planetas para o centro de suas órbitas – o qual. – Relação. escreve também Roq. semelhança. de affinis = ad + finis) sugere ideia de junção. aqui. e Berg. e no sentido lato. por isso. que os ponha num certo grau de conveniência. contiguidade. ou coesão. adesão. é o estado de duas coisas que se prendem uma a outra e que são mais ou menos difíceis de separar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 AFINIDADE. a respeito desse astro. . – Similaridade diz propriamente “igualdade de natureza. entre duas ou mais coisas. “Isto não tem relação com aquilo” – quer dizer: não há entre isto e aquilo coisa alguma que os aproxime. de propriedade ou conveniência entre duas coisas. S. e que só tende a mantê-los adunados. ou que seja comum aos dois. A mesma atração considerada nos grandes corpos. quando se trata de um corpo composto) dão os químicos mais particularmente o nome de afinidade à força que une as partes constitutivas do corpo.. pelo modo de ser”. – A inerência é a relação que une a qualidade à substância. analogia. a semelhança de natureza. a força que une entre si as partes constitutivas de um corpo. aderência. “algum lado ou aspeto pelo qual se liguem ou associem”. Quando ela exprime a tendência que têm os graves para seus respetivos centros de gravidade. Quando o corpo é formado de substâncias de natureza diferente (isto é. – Semelhança é “a qualidade de ser uma coisa parecida. coesão. gravitação.. coerência. a forma. atração. também se chama atração planetária. chamada atração. propriamente. – A adesão é a força que produz a aderência. gravitação. escrevem Bourg. conexão. quase igual a outra. é “a relação de proximidade. e cada uma das suas partículas. de que se compõe o sistema do mundo. Luiz – “uma força universal na natureza que solicita todas as moléculas da matéria e todos os agregados dela. A atração que se dá quando os corpos se tocam. a conexão ou conformidade existente entre as coisas sob um certo ponto de vista”. ou também atração de composição”. 184 AFINIDADE. reservando o nome de coesão para designar a força que liga as partes que formam uma substância única ou homogênea (de um corpo simples)”. semelhança essencial”. gravidade. vizinhança: é a “relação de proximidade. semelhança. 127 parentesco.: “Palavras científicas com que se exprimem as diferentes maneiras por que se manifesta essa força invisível que há na natureza. denominase adesão ou coesão. similaridade. e todos para um centro comum. pela forma. adesão. a aproximarem-se uns dos outros debaixo de certas leis. inerên- cia. ou analogia entre pessoas. e a relação que os corpos ou suas partes têm entre si. – A coerência é o estado das partes unidas entre si para formar um todo. relação. o aspeto. chamamos-lhe mais ordinariamente gravidade: e o mesmo nome damos a essa força considerada nos corpos de que se compõe cada astro. – Parentesco. – “Há” – diz fr. – Afinidade (affinitas. – Quanto a atração. a natureza das propriedades ou do modo de ser entre duas ou mais coisas ou fenômenos”. ou “o modo de ser semelhante entre duas ou mais coisas diferentes”. afinidade. muito aproximada de outra pela espécie. Quando consideramos a atração solicitando os corpos terrestres.

ou por cima de outra”. como se fosse colada. declarar definitivamente aquilo que se tinha dito”.” Na jurisprudência antiga. comprovar. do que se sabe”. os filhos do mesmo pai e de mães diferentes. uma coisa a outra. – Corroborar é “dar força ao que se disse. de- duzindo. aumentar o valor da afirmação que se fez. soldar. pregar. – Afixar é propriamente “fazer fixo”. o mesmo que grudar e colar: é “aplicar. mas num sentido geral é “prender fortemente”. quer cognatos. por exemplo.128 Rocha Pombo 185 AFINIDADE. 186 AFIRMAR. só têm sentido figurado. aqui. – Chumbar e soldar. e diferençam-se . corroborar. – Cognatos são os filhos da mesma mãe e de pais diferentes. isto é. – Agnação e cognação marcam parentescos também “opostos”: o primeiro. consan- guinidade. ratificar. – Atestar é propriamente “dar testemunho de que uma coisa é como se diz”. aqui. pensa. cognação. não dando mais energia ao modo de afirmar. apor. – Apor e sobrepor também se distinguem pelos respetivos prefixos: – apor é “juntar uma coisa a outra. cognato. os concunhados. ágnato. quer agnatos. – Aplicar. Afins são. ou mesmo os cunhados. – Afinidade é “o parentesco resultante de uniões conjugais entre membros de famílias diferentes”. colar. asseverar. dá fiança. estável. ou superior.” – Grudar é “prender com grude”. – Pregar é “prender por meio de prego”. Confirmar é “afirmar uma segunda vez e dar testemunho solene do que se viu. ligar. – Fixar e afixar só se distinguem pelo que o prefixo ad acrescenta ao segundo. isto é. – Garantir é empregado frequentemente por assegurar. dá certeza daquilo que disse ele próprio. demonstrar. certificar. – sobrepor é “pôr alguma coisa sobre. agnatos. Consanguíneos são os irmãos. “o parentesco pelo lado masculino. chumbar. garanto-lhe que é exato o que ele disse”. garantir. aderir a outra”. parentesco existente entre pessoas do mesmo casal”. – Pegar (do latim picare. assegurar. fez. – Segurar é “fazer firme. agnação. – Ratificar é “repetir categoricamente o que se afirmou. “Afirmei ontem que o rei fora deposto: confirmo hoje este despacho”. aqui. Duas coisas fixam-se (e não – afixam-se). “Asseguro-lhe. grudar. argumentando. 187 AFIXAR. aplicar. convencer da certeza de que uma coisa é como se afirma”. atar. Mas aquele que garante (na acepção que tem aqui este verbo) assegura a veracidade. atestar. ou que outro disse. seguro. – Certificar é próximo de atestar: significa “dar por certo aquilo que se sabe.” – Assegurar é “afirmar com segurança. de pix “pez”) é. fi- xar. de qualquer modo. prender. etc. ou fazer aderir. segundo Aul. segurar. explicando. dizer. é “fazer alguma coisa pegar a outra. sobrepor. que significa “parentesco pelo sangue. o segundo. com serenidade de quem não receia desmentido”. fazer aderir por meio de alguma substância glutinosa”. por parte do varão”. ou pôr uma coisa em cima de outra”. – Comprovar é “fazer prova mais forte de alguma coisa que se afirmou”. confirmar. ou garanto-lhe o que digo. afim. e vice-versa. É diverso da consanguinidade. “o parentesco pelo lado da mulher. se não pertenciam pelo sangue à mesma família. ligar uma coisa a outra. Só se afixa uma coisa a outra coisa. etc. – Demonstrar é “pôr em clareza e evidência aquilo que se disse. – Colar é “afixar por meio de cola”. pegar. como trazendo em favor da afirmação testemunhos ou documentos valiosos”. cognação era “o laço de parentesco natural sem direitos civis”. convictamente. – Afirmar é “dizer formalmente aquilo de que se está convencido”..

ou mesmo sem motivo real e preciso”. – Mágoa é quase como desgosto. é “toda ânsia que se pareça com essa aflição de morrer”. Aul.. o sentimento de tristeza (condolência) que nos causa uma notícia. Angústia é uma opressão tão forte e dolorosa. pesaroso. – Agoniado está quem sente ou parece sentir essa aflição de hora da morte. ou pelo que receia venha a dar-se. etc. incomodado. um sucesso que não se esperava”.. a saudade que sente.”. amargurado. de qualquer modo”. – Desgosto é o “mau grado que nos causa algum sucesso. doloroso. – Aflição (de afligere (ad + fligere) “deitar por terra” é “grande incômodo moral. – Pesadume (ou pesadumbre. pois indica apenas a falta de prazer. Elys.”. ou ar viciado. corda. supliciado. suplício. fita. ou a desconfiança.). espanhol). (Fil. opressão. mágoa.). tribulação. cit. agoniado. como definem os léxicos. Também ficamos pesarosos (cheios de pesar) de não ter podido evitar um mal ou de não haver involuntariamente cumprido um dever. laço. ou pelo mal que aconteceu. e mostra-se um tanto ansiosa dessa preocupação. etc. ou a dúvida. sofrimento. porém mais fino e talvez mais sincero. – Agonia (do grego agon “combate”) é propriamente a luta que o moribundo trava com a morte na hora extrema. o desgosto. Quem está consternado mostra-se abatido de dor e de espanto. – Prender = “Fazer sujeito. dor. menos que pesaroso. “unir. se vê. – soldar. angústia. A pessoa inquieta sente-se preocupada com alguma coisa que lhe desagrada. prender como por meio de solda”. desgosto.. indicando ambos a ação de prender uma coisa a outra: – chumbar. consternação. amargura. Uma pessoa triste dá indício de que tem na alma preocupações que lhe toldam vida. não só não sente prazer. alguma coisa. do espanhol) = “tristeza lamentosa. profundamente penalizado e inconsolável. de boa vontade com que se faz. de fios. transe. ou devido à moléstia que afete a função respiratória. torturado. reter. tormento. dolorido. inquieto. nos põe. atormentado. inquietação. Opressão é. tortura. – Consternação é “a grande tristeza e desalento produzidos por alguma espantosa desgraça”.. no entanto. ansioso (ansiado). – Tristeza é o “estado de compunção em que se fica. em geral. como se a pessoa angustiada tivesse impedida a respiração. ou por falta de ar. e leva o aflito a obrar sem tino”. ligeira amargura”. mas está como revelando no semblante a tristeza. angústia que abate o espírito (diz Bruns. a sensação desagradável que se experimenta respirando mal. se recebe. – Ligar = juntar e prender com liga ou ligadura. dorido. – Atar = “prender por meio de atadura. ou mesmo pelo peso do chumbo”. Desgostoso é. – Inquietação é menos que aflição: designa o “estado de espírito em que o medo. magoado. trabalhos. triste. etc. que perturba a razão. tirando-nos a calma e o sossego. consternado. numa aflição e ansiedade de quem se sentisse estrangular. ansiedade. aflito. atribulado. padecimento. laços. tris- teza. angustiado. pesar. – Amargura é dor mo- . coisa que nos fere o coração”. penalizado. ou que lhe alteram o humor normal.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 129 claramente pelos respetivos radicais. mas designa um desgosto ou pesar menos fundo. “prender como se ficasse seguro por chumbo. muitas vezes por algum motivo que não é grande. 188 AFLIÇÃO. pesadume (pesadumbre. incômodos. e por extensão. ou. desgostoso. A criatura magoada. agonia. etc. pena. segurar. pesadelo. – Pesar é a “dor moral. “Nada viu que lhe aliviasse a saudade e pesadume”. – Opressão e angústia podem confundir-se. mas o segundo é mais forte.

. O atribulado sente-se como que perseguido de aflições.) – Dorido diz mais “triste. – Dor é “toda sensação que nos molesta. que nos causa a desgraça. sensibilizado”. – Tribulação é “trabalho aflitivo. – Transe é como a crise. quer morais. ou causada pela consciência de algum mal que se fez. causada por alguma alteração traumática dos tecidos. magoado. pode notar-se que doloroso quase que se emprega de preferência no sentido moral.. e por extensão empregamos esta palavra suplício para designar padecimentos que se podem comparar aos de um condenado à morte. – Ansiedade. de algum bem que se perdeu. – Dolorido emprega-se num e noutro sentido. ire). e talvez até com uma quase ufania de os padecer. o momento mais duro dos trabalhos. de alguma esperança que se extinguiu”. “A menina está ansiosa pelo noivo”. apenas o sofrimento físico – o padecimento é uma forma estoica de sofrer as coisas que nos amarguram.. Os três adjetivos dolorido. a cabeça. preces.. transar”) era o tormento a que se submetia a vítima nos holocaustos. – Padecimento é empregado na mesma acepção.). quer pelo receio de alguma desgraça. no entanto. orações doridas). súplicas. (Almas doloridas. ou então devida a alguma anormalidade de funções de qualquer dos órgãos. vozes doloridas. ou provações comparáveis à tortura. no físico. partes do corpo doloridas. sugestiva de “enleiar. juntas doloridas. – Tortura (de torquere “dobrar. flagelo.. Quando muito. ligeiras e vagas. o sentimento de funda tristeza que nos vence a alma no meio dos contrastes da vida. ou os pés dolorosos. das amarguras: momento que se deseja “passe logo” (de transeo. torturado se sente aquele a quem se infligem duros constrangimentos. de significar. pois. quer físicas. – Trabalhos toma-se aqui como significando “as contrariedades. tortura”.. Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos”. Longe. tanto morais como físicas. contrair”) significa “os tormentos a que se sujeitava o acusado quando não queria revelar alguma coisa que interessava à justiça”. e exprime “todo gênero de provações. – Suplício (do latim supplicium. o sofrimento alheio”. Entre ansioso e ansiado convém não esquecer que há esta diferença: o primeiro emprega-se no sentido moral: o segundo.. de dó. tormento como castigo. Dor moral é a “comoção amarga. é o estado de quase opressão.. As dores do atormentado são dores que afligem e mortificam. Hoje. por exemplo: “tenho as mãos. que aflige e angustia abalando e pungindo os mais nobres e santos afetos da pessoa amargurada. de sofreguidão. os males.. as lidas e penas que se sofrem na vida. – Tormento é a “dor e a inquietação ansiosa. É mais propriamente a manifestação da dor que a mesma dor. aqui.130 Rocha Pombo ral acerbíssima. é o sofrimento do que vai ser justiçado. deve notarse. “Oh vós que passais pelo caminho – clamava o patriarca bíblico – atendei. de desejo inquieto e aflitivo em que fica a pessoa ansiosa. “O doente está ansiado”. ou longas e intensas”. mas doloridos). causadas por sofrimento físico ou moral”. como querem alguns autores.. (Doridos cantos. e não seria fácil assinalar-lhes clara diferença. Em sentido lato. quer pela impaciência com que espera o que deseja. É assim que na oração simbólica (o Credo) se diz que “. o seguinte: quem padece sofre os males com certa resignação. as dores. – Sofrimento é o mais genérico deste grupo. ou o incumbido de pedir aos deuses nas preces públicas. no qual figura a raiz grega plek. mas principalmente morais. torcer. (Não costumamos dizer. – Pena é “o sentimento de desgosto. dorido e doloroso confundem-se. . (e não – sofreu. ou por alguma pancada violenta. e vede se há dor igual à minha dor!”. pois o penalizado mostra que avalia a dor do seu semelhante.

– Segundo Bruns. – Concorrência diz-se das pessoas com relação a um ponto dado. – Afluência – escreve ele – “considera as pessoas dirigindo-se para um ponto. entre outras coisas. Cintra atrai no verão um grande concurso de gente. indica que a reunião pode não ser legítima. turba que se forma desordenadamente. que este último é particularmente empregado para designar uma reunião mais importante e solene.. mas entre os dois vocábulos há uma diferença essencial: afluência considera o movimento como contínuo e regular. e comumente de assanho. por exemplo. O mesmo diz tropel. turbilhão”. como. Assim. mas neste movimento nada revela a ideia de continuidade. – Aglomeração (cujo radical glomus significa “novelo. Na linguagem corrente. de alarde hostil. “conjunto de muitas pessoas” é a ideia geral que encerram os seis primeiros vocábulos do grupo. ou gruppo significa. anárquico. – Agrupamento é reunião por grupos. ruas da Baixa é à saída das repartições. é erro. – Turba é a multidão indisciplinada e turbulenta. quer se considerem em movimento. concorrência. mas este acrescenta à multidão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 131 ou que se experimentam nalguma empresa”. enquanto que concurso indica o movimento simultâneo de muitas pessoas que convergem por diferentes vias a um ponto dado. e vale por grande ajuntamento desgovernado.. Empregar este vocábulo para designar a gente já reunida no ponto a que já convergiu. são as de corporações políticas. devendo notar-se. porém. triste e abatida”. multidão. Este é uma formação pleonástica de duas palavras do mesmo valor. isto é. quer paradas. 189 concurso. tumultuoso. – Incômodo (ou incômodos) é “a sensação de fadiga. chusma. turba. significando “correr para um sítio). isto é. formando conjunto que facilmente se destaca. afluência não se limita a designar a muita gente que se dirige a um ponto seguindo a mesma via. reunião. aqui. . há grande afluência ao local onde ela se efetua. “núcleo revolto. – Reunião é. que ajuntamento é quase sempre tomado à má parte. aglomeração. como em “gróppo di vento”). que obra em confusão. senão toda a que vai convergindo para o mesmo sítio por diversas vias. rolo”) diz “ajuntamento feito como que em atropelo. seguindo todas a mesma direção: é o que se depreende da etimologia da palavra (em latim fluere. com que a pessoa incomodada se sente inquieta. e é como se dissesse turba-multidão. A hora em que há maior concorrência nas AFLUÊNCIA. agrupamento. – Concurso representa a mesma ideia que afluência. assembleia.. de pesar. – Ajuntamento designa a reunião de pessoas que pararam num ponto para um fim determinado”. no entanto. ajuntamento. “O vasto tropel de beduínos fazia estremecer a planura”. como em turbilhões”. e traz consigo a desordem. – Aproxima-se de tropel e de turbamulta. ou não ter funções ou fins legítimos. turbamulta. – Multidão é uma grande reunião de gente sem nenhuma ideia acessória. de que nós trataremos. no inverno é enorme a concorrência aos teatros. à turba e à turbamulta – a ideia necessária de movimento. de cuidado ou de dor. de que trata o referido autor: e o mesmo se diz dos demais. o grupo de pessoas que se juntaram para algum fim: é muito próximo de ajuntamento e de assembleia. As outras três palavras que se seguem representam afluência de pessoas reunidas num ponto determinado sem ideia de estarem em movimento. multidão. ou indisposta. tropel. Tem formação análoga à de aglomeração (o italiano gróppo. as pessoas ou os grupos seguindo-se uns aos outros sem interrupção. nos dias de parada.

denodado. valente. todos os irmãos são uns vadios”. violência. quer dizer – um ânimo seguro. intrepidez. – Arrojado é o que. 191 AFIADO. intré- pido. ardimento. confia- do. confiança. – . impassibilidade. ou que se lança a encontro do perigo. precipitado. talhante. determinação. afoiteza. impertérrito. incisivo. audácia. resoluto. arrojo. ou à vista de embaraços ou obstáculos opostos ao que intentamos. coragem. bravura. mas na temeridade (que é às vezes uma como exageração do heroísmo) sempre há mais alguma consciência do perigo do que na afoiteza. intrêmulo. arrebatado. resolução. impetuoso. que intrepidez e que bravura: o capitão arrojado não mede bem as consequências da investida. ousado. heroicidade. – Incisivo – “próprio para cortar. – Agudo diz – “muito vivo. a propriedade do instrumento que foi afiado. pode ser o gume de uma faca. aguçado. destemor. Diremos – um bisturi. do que não se inclui. 192 AFOITO. a ponta de um punção. ardido. atrevimento. precipitação. sem preocupações que o levem a vacilar”. O verbo aguçar (do latim acutare) significa mesmo “fazer agudo”. no entanto. – Cortante e talhante exprimem a qualidade. um canivete. ânimo. impassível. arrebatamento. – Cortante diz apenas – “que corta”.132 Rocha Pombo 190 AFORA. O temerário leva a sua audácia e resolução até uma quase loucura. decisão. – Amolado se diz do instrumento que se aguçou a rebolo (mola “mó”. – É ainda de Bruns: Exceto e afora empregam-se indistintamente. – Confiado é aquele que mostra em si mesmo uma demasiada confiança. desafogado. exceto se diz melhor do que se exclui. erecto à vista dele. audaz. ou ignorância ou falta de prudência. inconsideração. – Um instrumento afiado tem o fio muito fino. ou não o conhece. ousadia. determinado. tornando-se por isso muito cortante. – O homem afoito. – Desassombrado é semelhante a desafrontado: significa – “que não se assusta. e afora. “Todos os irmãos são vadios. impetuosidade. audacioso. – Temerário já é mais próximo de afoito. temerário. uma navalha afiada. impávido. veemente. há sempre. animoso. ou um espinho”. este adjetivo afiado. denodo. e talhante sugere a ideia de separar de todo (talhar) a coisa que se corta”. imperturbabilidade. agudo. decidido. ou faz uma ideia muito imperfeita do perigo. não toma com calma as proporções do perigo: arremessa-se à luta com o desassombro e afoiteza de quem não sabe poupar a vida. valor. Arrojo é mais que denodo. destemido. veemência. – O desafrontado mostra que se não deixa impressionar ante um obstáculo ou perigo: antes fica altivo. temeridade. fino. não só afronta. que corta” – define Aul. – Todas estas palavras designam qualidades ou estados de alma que se revelam ante os grandes perigos. corajoso. intemente. imponderado. valentia. violento. cor- tante. arriscado. Nos dois exemplos seguintes nota-se essa particularidade: “Afora o mais novo. mas investe o embaraço. heroísmo. exceto. Em sentido translato – “que opera. valoroso. não obstante. desafrontado. ímpeto. heroico. como coisa que corta”. uma fé perfeita no próprio valor. arrojado. impavidez. imperturbável. penetrante. nos campos de batalha. exceto o João que é trabalhador”. amolado. “pedra de amolar”). que se mostra impávido e sereno. atrevido. Nem a todo gênero de instrumentos se aplica. mas decerto que não diremos – uma foice afiada. bravo. atua com força e decisão. inconsiderado. Na afoiteza. – Aguçado significa – “de gume ou de ponta muito fina ou adelgaçada.

que não se abala de pavor”. – Inconsiderado significa o mesmo quase que afoito. sem agitar-se.) – Determinado diz melhor a firmeza com que o resoluto executa o que resolveu. do que propriamente valor”. sendo o destemor uma das grandes qualidades do herói. a firmeza com que se afrontam os perigos e se trata de os vencer. de alma forte que de força muscular. – Audaz (conquanto oriundo da mesma raiz de que proveio ousado) envolve as ideias de intrépido. valor moral. que vivem sempre felizes” – parece que fica muito clara a significação do vocábulo intemente (apenas – “não temente”). sem temer. – Decidido é “que não vacila ante obstáculos ou perigos”. pois a ousadia não é mais do que uma coragem que se funda na confiança que o ousado logrou de sucessos anteriores. O general inconsiderado meterá o seu exército em risco de desastres. e até ímpias. O valor consiste mais na grande- . de decidere [= de + cœdo.. – Valente e valoroso andam de ordinário confundidos. “coragem resoluta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 133 Atrevido sugere a ideia de que o arrojado é inferior em forças àquele contra o qual investe. que é corajoso e intrépido”. que teme tanto castigos do Céu. pois. sem probabilidades de vencer: o afoito ainda pode. Impávido é “o que se não amedronta. – Audacioso (formação vernácula de audácia) não diz senão – “que revela alguma audácia (ou uma audácia menos nobre e legítima). Neste exemplo: “F. pois. isto é. robusto. Quer isto dizer que atrevimento é a decisão pouco refletida. consequência da resolução que se tomou. igual. por isso mesmo. que se mostra calmo e tranquilo ante o que pode sobrevir. a índole. propriamente”. A valentia é qualidade de que se ufanam os campeões. – Arriscado quer dizer – “que se expõe a perigos mais do que se permitiria a uma coragem regulada pela prudência”. arrojado. é tão desgraçado: vejo. e parece dar mais prova de irreverência que de destemor.. – Ousado é menos que atrevido. grandeza de alma no meio dos perigos.. com que alguém se arrisca a um perigo. Impavidez é a “serenidade com que se encara. Nem se diz. leviana e confiante. que zomba dos perigos. Audácia é. e que para investi-lo tem de juntar ao arrojo a afoiteza. Destemido é “o que nada teme. – Coragem (do baixo latim coragium “força do coração) designa propriamente a energia moral. quase temerário. talvez mais petulância que audácia. com um golpe de audácia. denotando apenas a inconsideração mais leviandade que propriamente coragem. mas o primeiro se aplica de preferência ao indivíduo que é forte no físico. inquebrantável em situações difíceis. que despreza os tropeços”. O valoroso tem mais de coragem. – Destemido. notando-se que imponderado e inconsiderado não envolvem necessariamente a ideia de coragem afoita que se encontra em arriscado. criaturas intementes. alentado e animoso. O sujeito animoso é o que se conserva como é. a constância. (Resoluto parece dizer alguma coisa mais calmo e ponderado que decidido. sem comover-se. intemente. A decisão (decisio. Não seria de estranhar que muito sujeito ousado viesse a mostrar-se covarde. mas o sujeito intemente é o que não teme aquilo que é natural se tema. A determinação parece. – Imponderado é convizinho dos dois precedentes. ere] “cortar”) revela-se no ânimo seguro e pronto com que alguém se dirige em dada conjuntura. algum perigo”. salvar-se pela vitória. O homem fisicamente fraco e até enfermo pode bem ser corajoso. impávido poderiam confundir-se. pode conservar espírito forte. sendo a resolução um ato que resulta de reflexão. no entanto. – Ânimo não tem a força de coragem: é mais “a posse de si mesmo. “valentia moral”. desafrontada. o temperamento normal que se não perde no meio dos embaraços. que mostra ousadia extrema.

– Denodado significa “desprendido. por esforço hercúleo. O homem que salva de um incêndio uma criança. mas de uma bravura que vai até o delírio. sem se aperceber do perigo. dá provas mais que de coragem comum. – Impertérrito é antônimo de pertérrito. ante só perigos.134 Rocha Pombo za de ânimo. O denodo é a qualidade dos que. – imper- . dos perigos. – Impetuoso é o que cede a impulsos instantâneos da sua coragem e pratica atos heroicos que parecem mais inconsiderados do que atos voluntários de valor. pois heroísmo é tudo isto junto: grandeza de alma. Não se teria por heroísmo a valentia de um sujeito que vencesse a um enfermo. Veemência é “a viva intensidade de uma apóstrofe. – Arrebatado é “o que se incende de sentimentos heroicos diante das desgraças. impassível são convizinhos muito íntimos. desafrontado. dos escarmentos”. de afronta. de uma abnegação que excede a tudo que tem de augusto o heroís- mo: e é a isto que se deve chamar arrebatamento moral. – Ardido é galicismo pouco usado (hardi) significando propriamente “atrevido. – A bravura pode-se dizer que é a virtude dos homens de guerra. nem mesmo ao que viesse a triunfar da fé. pois ímpeto quer dizer mesmo “decisão súbita e veemente” (e impetuosidade é a qualidade de ser impetuoso). sem pensar nele. que não volta as costas ao inimigo. assim. Precipitação é. ou que matasse uma criança. do que propriamente no vigor de um físico sadio e robusto. no esforço e altivez com que se afronta a desgraça ou o inimigo. o ataque. por exemplo: – “um pedido”. ou um impulso mais devido ao temperamento que à decisão de quem obra”. – Heroico é o que se mostra digno de triunfar galhardamente pelo valor moral. Um homem precipitado atira-se a um abismo sem o ver. – Violento é muito distinto de precipitado. no entanto. excelência de intuitos. têm valor para arrostar o mal. esplendor das ações (sendo heroicidade a “qualidade de ser herói”). a desgraça. alguma coisa mais que afoiteza. Intrêmulo diz – “que não treme diante do perigo”. explicando-lhes a diferença. pela constância. livre de receios”. imperturbável. – Precipitado confunde-se com inconsiderado e imponderado. A própria formação destas palavras está. o violento só não dá ao que vai fazer uma atenção perfeita. e apenas não pensar nas exatas proporções dele: o precipitado não cogita do perigo. que se aventura. mas a precipitação enuncia mais claro um ato fora de toda consciência. ou que se abalança a atos de audácia pouco refletidos (ardimentos)”. coragem desassombrada. de censura ou de exprobração”. sendo a violência “uma perpetração. para não trepidar ante a própria morte. ou um inválido. resolução é o “intento ou o propósito que se tomou depois de haver muito refletido na coisa que se trata de resolver”. Ninguém diria. pois. e conserva a coragem e a calma nos combates”. pois o sujeito afoito pode ainda ter ideia do perigo. – Resoluto é quase o mesmo que decidido: apenas no resoluto se supõe uma reflexão mais funda do que no decidido. rápido e violento”. que é animoso. de um ato de coragem. se mostram isentos de preocupações que não sejam as de se mostrarem desembaraçados de tudo para alcançar o que almejam. – Intrêmulo. e só figuradamente se aplicaria à grandeza moral dos que triunfam pela excelência de virtudes mais excelsas: dizemos. – Intrépido é aquele que não vacila na investida. portanto. além de impávidos. como já se disse. A intrepidez é a qualidade daqueles que. pois. “que não se assusta diante do inimigo. que é um bravo o homem que num dado momento da vida se portou com a majestade de alma própria dos heróis. senão – “uma súplica veemente”. – Veemente quer dizer “impetuoso e forte. e significa.

ou a afronta. feito às qualidades pessoais de alguém. só nos incomoda com um prejuízo fundado. zombaria. escárnio. para a ofensa basta que haja insulto. esta afronta-nos sempre. chasco. a mulher. segundo as leis do maldito duelo. de atonia moral. mete o homem mão à espada. fica. De um homem que dança bem. ultraje. e dá-lhe duas bengaladas. porque insulta seu amor-próprio e o humilha. portanto. pois que a afronta há de ser sustentada: circunstância que não é necessária para constituir o agravo. segue-o o homem.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 135 turbável –. nem olha como leves os insultos. chega outro por detrás. injúria. O que tem direito a um acesso. porque aquele. Para o agravo é preciso que haja injustiça. e dão-lhe pancadas. como já notou d. O mesmo confirmará outro exemplo: Está um homem com as costas voltadas. não obstante que aquele nos causa um prejuízo efetivo. porém. ou do que ouve”. toma-o como desprezo ou insulto. privando-nos realmente do que nos pertence. chacota. sátira. ou estado de ânimo. ou um vício. irrisão. de que decerto se não dará por ofendido. na opinião. que se mostra indiferente. afrontado. comumente. porque a ofensa nos choca diretamente com o amor-próprio. porém ofende aquele a quem se diz. remoque. ou o mal que o assalta”. insulto. Aquele prejudica-nos talvez sem nos afrontar. esta. – “há esta diferença. e foge. porém esta. – O agravo atropela nosso direito. e não o deixam levar avante o que intenta. ou uma declaração de sua insuficiência. – “Entre o agravo e a afronta” – diz Roq. vexame. mas a multidão dos contrários se lhe opõem. ser uma virtude de estoico. apodo. ainda que ela mesma conheça que a não tem. crê-se ofendido. crê-se agravado. porque lhe deram à traição. não se altera ante o perigo. sustentou o seu feito sem voltar as costas. e faz e sustenta. o homem. e a pé firme. em regra. que deprima. A impassibilidade pode. insensível diante do que vê. Quixote: que a afronta vem da parte de quem a pode fazer. porém. 193 AFRONTA. Se o que deu as pauladas ficara de pé firme fazendo rosto a seu inimigo. nem pretender elogios. e o não conseguiu. ficaria o que levou as pauladas agravado e afrontado juntamente: agravado. ainda que não haja injustiça. agravo. e este não perdoa com facilidade. mas não afrontado. sem ter nisto vaidade. – ultraje apresenta a ideia de vilipêndio público em detrimento de alguém. eu posso estar agravado. “que se não perturba. e faz o que lhe cumpre como homem de brio. – impassível. Não agrava o que diz de outrem que é torto. Desconfiar da probidade de um homem de bem é uma injúria. não vê nisto mais que uma injustiça. ofensa. – Quanto a injúria e ultraje. ou nos humilha. Por isso. O que levou as pauladas recebeu agravo. a vaidade que a modéstia”. se a este agravo acresceu um desprezo do seu mérito. gracejo. porque em dizer aquela verdade não se dá a injustiça que exige o agravo para o ser. avania. diz Roq. Tratar de feia a uma mulher formosa é um agravo que. que é vingar-se: este homem fica decerto agravado. Seja exemplo: Está um homem na rua descuidado. afrontado. E assim. mofa. quando realmente o é. ou no capricho. e não o alcança para castigá-lo. não se pode dizer que dança mal sem fazer-lhe um agravo. não. em outro §: injúria apresenta a ideia de agravo violento. dissimula-se o agravo mais facilmente que a ofensa. ofendida uma mulher a quem se disputa a boa figura. “que nada sofre. a ofensa. porque o agressor lhe fez rosto. chegam dez indivíduos armados. a ofensa junta ao agravo o desprezo ou o insulto. o agravo pode vir de qualquer parte sem que afronte. mas não afronta. troça. tratá-lo publicamente de ladrão é um ultraje. porque nas mulheres pode mais. quando .

festiva”.. era a refeição com ares de cerimônia cultual. com esta diferença. – Insulto dá ideia de ofensa feita de propósito. de entender de Lacerda e de Roquete. e que depois foi proibida pela Igreja porque quase sempre degenerava em orgia. escarnecer da vítima”. dirigido a algum defeito ou a alguma falta da pessoa a quem se ofende. – Ao modo muito. que expõem a vítima a irrisão pública. escândalo. porém. – Vexame é “tudo o que constrange. Arrostar peleja frente a frente. e. 195 ÁGAPE. – Brequefeste (do inglês breakfast “almoço. Diz neste caso – “ofensa por meio de graçolas.: “No sentido figurado destes verbos – escreve ele – o menos expressivo é encarar. aqui. rega-bofe. como é sabido. porém: que afrontar não implica a ideia de luta que existe em arrostar. preferimos o de Bruns. encara-se a sangue-frio o perigo. e sugere o intento de insultar e expor à vergonha. pode ser mesmo oferecer-se até certo ponto a ela.” – . violência. – Mofa é também o sinal – palavras ou gestos – “com que se mostra desprezo por alguém. de ditos pouco delicados. – Ágape. acrescentando a este a ideia de desprezo. não devera passar de injúria. – Bródio é quase o mesmo que patuscada. aqui. Encarar necessita. porém.. – Rega-bofe é grande folia de comes e bebes. – Chasco é muito semelhante a remoque. o ataque. isto é. o gesto. e tanto que reclama um adjunto quase sempre para que se torne ofensivo: gracejo de mau gosto. janta. patuscada de vagabundos. ficou (do grego ágape “amor. – Comezaina é ágape menos nobre. encerram a de denodo. patuscada. a atitude com que se falta ao devido respeito com alguém. apenas o bródio é menos charro. às vezes mais brincando que ofendendo”. – Zombaria é o dito. – Patuscada é comezaina que desanda para a troça. comezaina. encarar. – Apodo (mais usado no plural) é “o remoque ligeiro. – Troça. com ostentação. expondo-o a ridículo. poucas haverá. alimento”) é “refeição abundante e alegre”. excluindo a ideia de medo. conquanto animado. que o não tenham por ultraje”. – Gracejo é de todos os do grupo o menos forte. Encara-se com terror a morte. é termo popular significando “a zombaria aparatosa que se faz com alguém. portanto. com intuito de ofendê-lo”. torpeza”) significando hoje “grande e farta refeição alegre. por palavras engraçadas ou escarninhas”. – Escárnio (do italiano schérno) é mais forte do que muitos deste grupo: ajunta à intenção de ofensa a ideia de nojo e repulsa.136 Rocha Pombo 194 AFRONTAR. Os exploradores do polo afrontam a morte por amor à ciência. bródio. que os primitivos cristãos faziam em comum e às ocultas. breque- feste. por atos ou palavras. – Chacota é “zombaria por ditérios ou termos burlescos”. – Remoque é “dito picante que disfarça uma censura ou repreensão”. banquete. Afrontar a morte não é combatê-la: é encará-la impávido. – Pândega é “rega-bofe estrondoso. jantar. arrostar. pândega. – Afrontar e arrostar. – Sátira. gracejo pesado. A palavra com que se designou aquilo. é a palavra picante. um complemento que lhe determine a significação. intentando obrigar o inimigo a que recue”. irritantes”. – Irrisão é a “zombaria que consiste em rir. é mais modesto. maliciosos. o insulto disfarçado. insultos. onde há mais fartura de comidas que delícias. – Avanias são propriamente as “vexações. e passou para a língua significando vexames. e extorsões que os muçulmanos faziam aos cristãos”. que melindra o pudor”. – Arrostar (vocábulo derivado do latim rostrum “esporão de navio”) é o mais expressivo deste grupo.

rudez intelectual. – Grato é igualmente o que é sensível ao benefício. – Entre silvestre e selvático há diferença bem fácil de assinalar: flor sel- . – E campesino. e. refere-se à grosseria. – Rústico (em latim rusticus. dizendo-se indiferentemente – flor agreste ou flor silvestre. de rus “campo”. plantas raquíticas. para exprimir o ato de morrer. à rudeza. para indicar a flor que não é cultivada. São propriedades rústicas as que constam de terras de lavoura. penhorado. do seu apreço por aquele que lhe fez bem. – Silvestre é o que é próprio da selva. – Agreste. de ager “cam- po”). silvestre. inépcia. Por uma gentileza fica-se grato. sem cultura. difere de agreste. melhor que os dois precedentes. epíteto menos frequente que campestre. O homem agreste é grosseiro a ponto de ser intratável. como antônimo de urbs “cidade”) diz-se do que tem o caráter próprio da simplicidade aldeã ou camponesa. Falando de sítios. e dá provas disso. diz Bruns. e janta é o “jantar mais simples. ou sem a beleza da arte. Por alguém que nos proteje ou socorre ficamos reconhecidos. O homem rústico carece de urbanidade. cativo. a ideia de como o que recebeu benefícios quer dar provas da sua gratidão. e pode faltar às leis da conveniência. sem fazer. reconhecido por favores”. selvático. ou por algum motivo excepcional”. grato. mas. ser agradável. do que carece da polidez das cidades. e geralmente só encerra a ideia de viver ou habitar no campo. – Agonizar é hoje usado só como intransitivo. Diz-se de pessoas e de coisas. aplicado a pessoas ou ao que lhes é particular. etc. que se julga como preso moralmente àquele a quem as deve”. os costumes agrestes. 198 AGRESTE. obri- gado. isto é. – Obrigado = “que se julga em obrigação moral com alguém que lhe fez alguma fineza”. podendo ser. e nunca se toma em bom sentido. à baixeza. as maneiras agrestes. gentilezas. Por um obséquio fica-se agradecido. do esforço e aflição de estertor em que se vê o moribundo. no entanto. apreciáveis os seus sentimentos. no entanto. (do latim agrestis. É assim que há pessoas que morrem sem agonia. etc.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 137 Jantar é uma das duas refeições normais feitas diariamente. que implica a ideia de rudez moral. nem trabalhado com arte o objeto rústico. – Banquete é “jantar solene. estertorar.. dado em honra de alguém. segundo o mesmo autor. rústico. – Agradecido é o que não se esquece do benefício que recebeu. manifestações disso. refere-se a tudo que pertence ao campo cultivado.. agreste exclui toda ideia de cultura. – Penhorado = “obrigado. isto é. terrenos ingratos. fundadas por mútua convenção social. rústico implica falta de tato.. – Em sentido desfavorável. reconhecido. Confunde-se frequentemente com agreste. campesino. 197 AGRADECIDO. 196 AGONIZAR. sugerindo ideia da luta que o moribundo trava com a morte. ainda assim. – Reconhecido dá. que não sofrem as ânsias da morte. de beleza natural. ao trato da boa sociedade. mas guardando intimamente a lembrança do bem que se lhe fez. feito em família”.” – Campestre. porém. selvagem. portanto. “Um lugar agreste só tem rochedos escalvados. campestre. – Estertorar acrescenta a agonizar a ideia do trabalho. tanto falando de homens como de animais. não podem ser suportados por quem se habituou às delicadezas. não conhece os usos da gente fina. – Cativo – tão reconhecido por serviços... o que nasce e vive nos matos. Não é polido. que não agonizam no momento de morrer. devido mesmo à sua própria simplicidade. tem a mesma origem deste. pode.

agrário. porém. mas poder-se-á dizer selvático. grosseira como a selva bruta. e corresponde a agrícola. e não à arte que ele exerce. não é indiferente empregar um em vez de outro. ou fundado na produção agrícola. trabalho agrícola (não – agrário). lavradores pobres. Numa ordem de ideias mais restrita. rural. por si próprio (ou de sua conta) e em ponto grande. – Cultivador é um termo genérico que se pode dizer tanto do agricultor como do lavrador. não só conhece a agricultura como arte. O colono habita terra que não é sua própria. à vida dos que se dedicam à exploração das terras. quando seguido de um complemento. ao campo onde se trabalha. cultivador. colono. – Agrí- cola e agrário não poderiam confundir-se: agrário (de ager “campo”) diz apenas “próprio do campo ou das terras utilizáveis. o que não está situado dentro da área urbana. O cultivador vive de cultivar: é a única ideia que o vocábulo sugere. No sentido rigoroso. porque se refere à profissão do indivíduo. agricultor. indica uma especialidade: há cultivadores de cereais. ou crédito agrícola. .138 Rocha Pombo vática decerto que não é simplesmente a flor que não foi colhida nos jardins. Ambos se empregam para designar o que não é da cidade. 199 AGRÍCOLA. 200 AGRICULTURA. de artes. mas a flor sem beleza. próprio da cultura dos campos”. agrícola (de ager e colere “cultivar”) já significa “relativo ao trabalho. Lavrador é o homem que lavra a terra. que explora terras e as cultiva. brutal como os que vivem nos matos.. senão que a exerce como ocupação. grandes lavradores. visto que para ser agrônomo não é necessário possuir terras. às propriedades territoriais”. a qual varia de processos à medida que a agronomia se aperfeiçoa. se dedica à agricultura. que ele considera como uma arte pela qual sente gosto. relativo às terras ocupadas. ou mediante jornal. sendo a ideia de propriedade e de riqueza inerente a este vocábulo. selvagem). rural se aplica à propriedade. mas rústico se aplica ao que não está cultivado. pois. proprietário ou rendeiro. a agronomia é teórica. Não há. disforme. – Agricultor e agrônomo também se confundem frequentemente. no seu valor próprio. pequenos agricultores. Colono só remotamente encerra a ideia de agricultura. estes vocábulos divergem entre si. de letras. rústico. a agronomia é a teoria dessa arte. Há lavradores ricos. à propriedade territorial em si. e corresponde a agrário. de determinadas plantas. este vocábulo. e com eles designa-se indistintamente o indivíduo. A agricultura é prática. lei agrária (não – agrícola). agronomia. seja de conta alheia. nem lavrá-las: basta ser entendido em agricultura. seja para simplesmente povoá-la”. – Agricultura – escreve Bruns. seja para que a cultive. – “é a arte de cultivar a terra. conforme fosse o crédito fundado na propriedade rural em si. – Os substantivos agricultor e lavrador confundem-se frequentemente na linguagem comum. Tratando-se de pessoas não se diz silvestre (e sim. porém. etc. – Entre rural e rústico (ambos oriundos de rus “campo”) há uma diferença análoga à que se acaba de ver entre os dois precedentes. o proprietário das terras que explora. agrônomo. O agricultor é. e não obstante. se o homem de quem se trata é rude. O agrônomo é o indivíduo versado na teoria da agricultura: pode ser agricultor ou não. Dizemos: medidas agrárias (e não – agrícolas). lavrador. enquanto que a flor silvestre pode ser tão delicada como as que se cultivam. Diríamos: crédito agrário.. O agricultor. e pequenos lavradores. A cultura dos campos efetuada constitui a agricultura. inculto. Agricultor é o proprietário que. seja de conta própria.

emaranhado. do obstáculo. – Sagacidade – diz Bruns. – Segundo d. Irrigar. se representam como tais. A agudeza vê os objetos mais subtis. ou se vem alguma coisa ou pessoa. A penetração vê no interior. – “vem do latim sagax. atilamento (atilado). Rega-se o canteiro. a dureza própria ou normal. se o suor é tanto. que deve suceder ou vir. Mas alagar sugere a ideia de que a porção de espaço alagada ficou por algum tempo debaixo d’água (como formando lago). ou se tão abundantes são as lágrimas que as faces fiquem tão molhadas como se tivessem saído d’água.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 AGUARDAR. as lavouras.” – Irrigar e regar confundem-se. e inundar envolve ideia de extravasamento. ou pondo-os debaixo de uma corrente de água. banhar. ou na grama orvalhada. Luiz. para que não murche tão depressa. inundar. sagacidade (sagaz). ressentindo-se da etimologia.. particularidades. segundo S. juntar água a. no entanto. num vaso. e não – que se regam. olhando se sucede. mais finos. encher de água. esperar. Mesmo tratando-se de campos. “aguardar é estar à espera. A vista penetrante alcança o íntimo das coisas. Dizemos – regar ou irrigar as plantas. Irrigam-se as plantações. a solidez. 203 AGUDEZA (agudo). mais delicados. e os que. se o trabalho de umedecer as terras é feito por meio de canais. que se dizia dos cães que tinham delicadeza de olfato para achar a caça pelo rasto. argúcia (arguto e argucioso). represas etc. ou que se presume sucederá ou virá. no fundo dos objetos. de invasão de água por excesso dela em outro ponto.” O homem perspicaz vê claramente através dos disfarces.. ou noutro líquido”. e também fica-se com as faces banhadas de suor. regar. obscuro. dizemos – que se irrigam. – Os três primeiros substantivos do grupo. imergindo-os. – Molha-se o dedo na salmoura. os campos. As grandes chuvas alagaram os campos. A ruptura do açude inundou o caminho. as mãos. designa a qualidade especial de descobrir sem esforço o que é confuso. Espera-se o que é feliz ou agradável. e por translação se aplicam ao entendimento ou à vista intelectual. molha-se a cabeça apanhando chuva sem estar coberto. ou aguar tão bem como se a coisa banhada tivesse imergido n’água. A enxurrada inundou as ruas. penetração (penetrante). molhar. o que se aguarda pode sê-lo ou não”. finura (fino). as ruas. 202 AGUAR. subtileza (subtil). minúcias que escapam à visão comum. os jardins. ou de lágrimas. É pela sagacidade que se apreciam.. e estas durante muitos dias ficaram alagadas. – Alagar e inundar também se confundem. – Molhar é propriamente “umedecer ao ponto em que a coisa molhada perca o estado de secura. irrigar.” – Banhar é “meter n’água alguma coisa. não é mais do que uma extensão de regar. no seu justo valor. molha-se os pés na sarjeta.. astúcia (astuto e astucioso). mas não dizemos – regar as ruas (sim irrigar). – Banha-se o rosto.. – Aguar diz apenas – “derramar água sobre alguma coisa. – A perspicácia da vista vê claro por entre. do véu. a densidade. ou por transbordamento. José de 139 Lacerda. alagar. por sua posição. e através da nuvem. ou o pensamento . A vista aguda apanha diferenças. os campos. dando atenção. regam-se as hortas. banhar de água. rega-se a goles de água ou de vinho a garganta ressequida. A palavra. perspicácia (perspi- caz). – Água-se uma flor. tino (atinado). aguardar algum bem que se deseja e se julga que há de vir. e que se descobre o mérito que se oculta. dos fatos. as qualidades das pessoas e das coisas.. “exprimem diferentes qualidades da vista corporal. Esperar é ter esperança.

artifícios para enganar. segundo a formação do vocábulo (susum pendere) diz precisamente “deixar pendente em cima ou no ar”. ponta. só se especa ou só se escora .. – Subtil = “agudo. Não se há de dizer. – Astúcia é a habilidade no emprego de ardis. penetrante”. comumente uma trave mais ou menos grossa. ou de inclinar-se demais. – Aguentar é propriamente. apoiar. segura. especar e estear confundem-se com apoiar. de madeira. ou de cair. tão bem como amparar. – Amparar é “impedir. mas que a ampara. – Suspender. não penda. se inclui ideia de ação momentânea. de sofismas. amparar. de susum “para cima. Além disso. e tenere “conservar. de madeira ou de metal. como observa Bruns. pois em aguentar. para sentir o que convém. suspender.” – Atilamento é “a habilidade. esteio é uma peça muito maior e mais forte. ou pelo menos de menor duração. mas não sugere.140 Rocha Pombo que se disfarça. Argucioso é o que usa de argúcias. suster. a facilidade de compreender. Escorar e especar distinguem-se ainda de estear por isto: o que se especa ou se escora não descansa propriamente sobre a escora ou o espeque. portanto. acima”. que exprime a ação ou o efeito geral que os três primeiros particularizam: escorar é dar apoio por meio de escora. escora alguma coisa para que não vire. na discussão. Exemplo: “É uma criatura de tino admirável: e faz tudo com tanta habilidade e atilamento que maravilha os mesmos que a educaram”. ou tato muito subtil para apanhar o que nos interessa. ou o vigamento de um edifício. escorar. repousa. o abaixamento de alguma coisa”. e é mais expressivo que o primeiro. – Suster (de sustinere. apurado. como define Aul.. nem estear um galho de árvore para que não se quebre. – Subtileza é a qualidade de subtil. e estear é pôr em segurança. Finura é frequentemente sinônimo de velhacaria e de diplomacia. – Sustentar é uma ex- tensão de suster: dá ideia do maior esforço com que se apoia ou se mantém alguma coisa no lugar próprio. com que se impede alguma coisa de virar de uma vez. especar um telhado. O espírito arguto agencia razões para envolver o adversário na disputa. cavilha”) é uma peça com que se prende. portanto. – Apoiar é também “impedir a queda. – “conservar em equilíbrio sobre a corrente da água”. Escora é um espeque mais forte. dissimulado e malicioso”. e por extensão – “manter alguma coisa no estado ou na posição em que se acha. especar. ideia de esforço. Finura é um termo genérico pelo qual se designa a habilidade de ver. – Escorar. ou não caia de uma vez. – Argúcia será então a “subtileza no argumentar ou no discutir”. ou de pedra. Astuto = “sagaz no enredo. em que assenta algum grande peso e fica firme. especar é fazer o mesmo com espeque. estear. um como faro. na distinção notada entre os respetivos radicais: o espeque (do inglês spike “espigão. 204 AGUENTAR. o que é razoável”. enquanto que a coisa que se esteia assenta. para que daí não saia ou não se desvie”. Astucioso – “que usa de astúcias para enganar”. sustentar.” – Tino é “a finura instintiva. haste. que alguma coisa caia”. a oportunidade de obrar. A diferença consiste. ou a escora impede apenas que a coisa amparada se desloque de todo. de ferro. segurar”) significa também “manter (alguma coisa) no lugar em que está”. fazer firme. empregando esteio. a escolha do falar. sustendo-a. estável. o cuidado meticuloso com que se faz alguma coisa sem nada esquecer do que lhe pertence. pois o espeque. e também de menor emprego de força que em suster”. a agudeza natural. Se alguém impede que uma senhora dê uma queda não se diz que a apoia. a perspicácia. se apoia e fica firme sobre o esteio. Uma trave que serve de apoio a outra nem por isso se deve dizer que a ampara.

preceptor. lia ou explicava as doutrinas aprovadas pela escola ou universidade. Também lhe chamavam naquele tempo amo. de música. de educar um menino. por isso se diz: mestre de gramática. O mesmo não se dá em relação a estear. tornando segura. amo. pois sempre se subentende que a coisa a escorar ou a especar já não está em segurança. preceptor. – Professor é o que professa. e que se esteia para fixar. de equitação. mestre. inabalável na posição que se quer. o mais expressivo da função de educar crianças. Talvez que seja. – Segundo Roq. O mestre dá lições a certas e determinadas horas. foi livrado (Lus. Mas o educador faz tudo isso. como orador. – Quem educa não dá só instrução: nutre. pois o esteio (do inglês stay. mas em cada um deles concorrem circunstâncias particulares que os distinguem entre si. que dá o verbo to stay “ficar. Segue-se. mestre é todo homem que dá lições. Sugere este vocábulo a ideia de criar. Institutor. pedagogo (e pedagogista). 205 AIO. educador. institutor da infância (não educador). – Instrutor é propriamente o que dá alguma instrução prática. e tem um certo número de discípulos. como ainda se lê em Camões. ou ruína iminente. diz Roq. e não o perde um instante de vista. ao encarregado da educação de qualquer menino. Instrutor militar. ou estar no mesmo lugar”) sugere a ideia de permanecer em posição vertical. Educar é dirigir o educando. – Preceptor dizemos do que está encarregado de instruir. etc.. formar (instituir) o espírito do educando. para evitar uma queda. III. toma conta de toda a sua conduta.: – Mestre dizemos do que ensina alguma ciência ou arte. orienta. pois o próprio termo educador pode não ter a extensão que se atribui ao institutor. portanto. e tanto que com perfeita propriedade se deve dizer: educador da mocidade (não institutor). firme a coisa esteada. guiá-lo pelo bom caminho (e até pelo mau caminho não deixaria de ser educar). cujos pais o confiaram à sua direção. ensina em público uma ciência ou faculdade. que se especa ou se escora como um recurso de momento. instrutor de ginástica. O preceptor dá preceitos e conselhos continuamente a seu aluno. de tudo quanto lhe interessa. e pode-se dizer superficial e ligeira. para que venha a ser na vida o homem que se deseja. institutor. aguenta em cima. entre todos os do grupo. – Quanto aos três últimos vocábulos do grupo. Egas Moniz foi aio de d. que é moderna na língua. – Lente ou leitor é o que. falando do mesmo Egas Moniz: Mas. lente. prepara num certo sentido o espírito do discípulo. professor. tendo recebido já o menino ou o moço que lhe veio do institutor. aio refere-se particularmente ao que educa fi- lho de príncipes ou de grandes senhores. diz com muito mais precisão “o que se encarrega de preparar na alma da criança os fundamentos sobre que há de assentar a educação futura”. contidas num .: “Todos estes ensinam em público uma ciência ou faculdade. segundo o método escolástico. – Institutor é o que ensina meninos em estabelecimento público. para o formar moralmente e facilitar-lhe todos os conhecimentos possíveis: dirige-lhe a educação e a instrução em geral. de esgrima. instrutor. e resistir. suportar. 35) Amo é hoje desusado neste sentido. para fazer que permaneça seguro. – Aio é a palavra que antigamente se usava em lugar de preceptor. de dança. catedrático. com se oferecer a dura morte O fiel Egas amo. expondo suas doutrinas como próprias.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 141 como provisoriamente. Afonso Henriques. e quase sempre ostentando seu saber oralmente. portanto. O esteio apoia.

fidalgo (fidalguia). suave. É donairosa a pessoa que é mais engraçada que graciosa. Deve notar-se que pedagogo é o professor que ensina segundo a pedagogia. nobre (nobreza). generoso. vistoso. mas esta é menos distinta e brilhante. Gentileza é “a galhardia e bom ar” – diz Roq. formoso (formosura). A nobreza confunde-se com a fidalguia. principalmente o primeiro. nobre é o que. é “o dom subtil.142 Rocha Pombo compêndio. é mais varonil que a formosura. se professa à moderna. sem pertencerem ao corpo universitário. distinto (distinção). digno. (V. a quem chama galhardo e belo.. Tomam-se. ou a uma corporação religiosa. galhardo (galhardia). pois a graça é uma prenda mais espiritual. ateneus. a de distinto. A pessoa airosa pode não ser bela. O lente ou leitor pode pertencer. loução (louçania). etc. gentil (gentileza). que têm hoje acepção muito diferente da antiga. 441). O catedrático pertence sempre a uma universidade (ou a uma escola): se ensina à antiga. donairoso (donaire). 116) – Consiste a beleza e a formosura na boa proporção e harmonia das partes que compõem um todo. – Elegante é “o que é bem modelado. no andar uma certa graça (airosidade). enquanto que o donaire é apenas uma aparência airosa. neste grupo. mas é sempre condecorado com o título de mestre. pertence-lhe o nome de professor”. diz: “Esta foi a pensão que pagou Absalão à sua gentileza”. Graciosidade é a qualidade de ser gracioso. falando de Absalão. ornada com os retoques da modéstia. A elegância consiste no modo de ser discretamente belo. – “acompanhado de nobre presença. encanta. – Engraçado é o que mostra alguma graça nas maneiras. a palavra formosura. e que. porém. 206 AIROSO (airosidade). além disso. gracioso. garbosidade). Vieira. cavalheiro. – Fidalgo é o que se mostra fino. galhardo. galanteria). bizarro (bizarria). no porte. delicado nas maneiras. garbo próprios de fidalgo”. impressiona mais o coração que os olhos. esbelto (esbelteza). – Catedrático é o proprietário de uma cadeira (cátedra) de universidade (ou de uma escola superior) em que ensina a faculdade de que está encarregado. deve aquela usar-se particularmente quando se fala do masculino”.” (V. garrido (garridice). nem mesmo elegan- te: basta que tenha nos modos. do qual se não afastava. garboso (garbo. diz: “Era de tão rara gentileza. tem nobre aspeto. graça). grácil (gracilidade). Disto nos deixaram exemplos dois mestres da língua. e pedagogista é o versado em pedagogia. tafularia). elegante. – A graça é mais que o simples donaire. e sendo esta privativa do sexo feminino. taful (tafulice. acrescenta às qualidades de airoso. lindo (lindeza). – Nobre. no falar. porém. guapo (guapice). engraçado (graciosidade. – Gentil é “o que tem delicadeza. – Graça. portanto. são sinônimos de professor. cavalheiroso. professam em academias. é austero na moral. e é distinto e gracioso”. pois aludem. belo (beleza). seduz”. galante (galantice. elegante (elegância). ou a uma universidade. reuniões literárias etc. que consiste num modo de ser que atrai. quase sempre a má parte. bonito (boniteza). cavalheiresco (cavalheirismo). – Pedagogo e pedagogista. à presunção com que o pedagogo alardeia a sua capacidade. tem também o nome de lente.. E o padre Bernardes. falando de Fortunato de Chiaromonte. O professor pode não ser catedrático. – Gracioso é aquele ou aquilo cujo aspeto tem graça. limita-se a representar aquela ideia com relação . pois há muitos homens sábios e instruídos que. aqui. que tenha uns ares que nos agradem. delicado. – Airoso se diz de quem apresenta um aspeto agradável. de ser aprimorado sem afetação. gazil. podendo até não ter a profissão de pedagogo.

festivo”.” – Galante. brioso. a Vênus de Médicis. graça. vivo. – Vistoso é apenas “o que parece bem à vista. e também indica maior perfeição no objeto lindo. Garbosidade é a qualidade de ser garboso. – Bonito é um diminutivo de bom.. por ser mais expressivo. a palavra beleza representa a ideia da perfeição possível. É assim que não chamamos formoso a um poema. varonil. à ternura de um afeto: a tudo isso assenta propriamente beleza”. entende-se particularmente das feições. – Esbelto (ou esvelto) designa “o que é de formas corretas. aprumo e coragem. faceiro. Neste sentido admira-se a beleza do Apolo do Belvedere. os modos como ele se apresenta. que se destaca do vulgo”. fino. além de elegante. e por isso acontece muitas vezes que o gosto. porém. que mofas não fariam as nossas damas de quem lhe louvasse a beleza do talhe? A formosura só se aplica ao físico. com igual propriedade. Boniteza é “a qualidade do que é bonito” – diz o mesmo Roq. namorado. Coisa galante quer dizer – bem ornada. ao que obra sobre os sentidos. Garboso é o que.. Taful significa – “loução. Luiz. talvez com ditos engraçados. que tomou na linguagem vulgar um sentido especial. “refere-se ao gosto. –. Gracilidade só deve aplicar-se ao que é pequeno. Bonito é palavra familiar que indica coisa agradável à vista. São os olhos os juízes da formosura.. os modos. tafulice e tafularia. bravo. que pretende agradar às damas. põe a formosura no que está mais distante da beleza. os ditos de que se serve o galante para agradar. ataviada com gosto. Tafulice é a qualidade de taful. do asseio etc. e o Apolo Pitio. interessante”. de onde vem galante. dizer-se que são formosos.. Tafularia é a facécia do taful. pode notar-se. forte. segundo S. em cujo corpo se não encontra defeito. possante. quando queremos designar o que tem maneiras de alto bom-tom. Gazil é corrupção de grácil. com asseios esquisitos. Bizarria é tudo isto junto: elegância.” Galanteria é a arte de ser galante. que o primeiro . Se a Vênus de Médicis. do embaraço. à expressão de um sentimento. dos quais não pode. com destreza e elegância (galhardia). – Bizarro exprime “esbelto e gentil. da ação”. concerto. lépido. – Galhardo (do italiano gagliardo) diz – “robusto. como diz o prolóquio: “Quem o feio ama bonito lhe parece. e ornato dos trajos. elegante e gracioso”. dizemos de preferência. – Coisas análogas devem dizer-se em relação a taful. franzino.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 143 ao agradável. Também se entende especialmente das boas proporções do rosto acompanhadas de graça e donaire. da tarefa. e formosos para todos. alegre. pois distinto significa apenas – “que não se confunde com o comum. se mostra altivo. Galantice é a qualidade de ser galante. – Garbo é “um quase orgulho de ostentar figura e galhardia”. o que tem aparências de saúde. isto é. pois este adjetivo junta à qualidade de bonito um certo ar e graça que muito o aproximam de belo e formoso. sacudido. pessoa de distinção”. mimoso. a beleza aplica-se também ao moral. e toma-se ordinariamente pelo oposto de feio. se pudesse vestir à francesa. Grácil significa “delicado. o que é afeito ao trato de gente culta e fina. desembaraço.” Quando se diz das pessoas. de boa disposição”. são belíssimos para os inteligentes. cavalheiresco”. – “Lindeza é palavra mais culta que boniteza. etc. sendo esbelteza a qualidade de ser esbelto. – Tratando-se do homem. bem proporcionado. – Cavalheiroso e cavalheiresco são definidos como significando a mesma coisa. as graças. engraçada. – Gazil e grácil são adaptações do mesmo vocábulo latino gracilis. que se sai garbosamente. do Hércules Farnésio. no entanto. “mas que não chega a ser formoso”. “homem de distinção. viciado por algum capricho ou costume. isto é. ao que obra diretamente sobre o espírito. da expressão do rosto.

– Loução diz – “de aspeto gentil. conquanto haja talvez muitos velhos que se jactem de guapos.144 Rocha Pombo designa propriamente – “que tem ou revela qualidades e maneiras que eram de rigor entre os antigos cavaleiros (nos tempos da Cavalaria)”. além de ágil. no sentido que lhe damos aqui. – Destro só se aplica ao homem. sécio. bizarro e gentil”. tanto o ato como a qualidade do que é cavalheiro (se bem que para exprimir a qualidade poderia usar-se de cavalheirice). bens. ligeiro. rapidez. é a perturbação da ordem estabelecida. Fidalgo. esquisito e engalanado”. uma qualidade que assenta nas crianças e nas meninas. alegre. comoção. isto é. toma-se também à má parte. onzeneiro (ou onze- nário). Na linguagem corrente. “delicado no trato. Com todas estas partes servia-se a pátria e adquiria-se a fidalguia”. diz Bruns. lesto. é “o que é no trato parecido com os antigos fidalgos. na verdadeira acepção da palavra. como usurário. pronto e gracioso”. correspondendo a gentileza com gentileza. insurreição.. Algo significava haveres. por meio de atos tendentes a subvertê-la. bravo.. sendo expediência a “qualidade de ser expedito”. – Lesto é “o que. expedi- mais – “vivo. destreza. A garridice é. significa também “ligeiro. 207 ÁGIL. “Teve comigo um gesto cavalheiresco”. Louçania é. ligeireza. educação e qualidades nobres. além de significar qualidade do que é ligeiro. designa aquele que trafica em fundos públicos. expediência. revolução. fino. 209 AGITAÇÃO. sedição. – Segundo Bruns. – Revolta (to turn agaisnt em inglês) exprime tanto como voltar contra. 208 AGIOTA. portanto. agilidade. do prestamista que empresta dinheiro com usura abusiva”. segundo ostentava o antigo fidalgo”. lépido. – Segundo Alves Passos: – “Rebelião é a desobediência. alegre. como os próprios modos (trajo. agiota se diz. – Fidalgo (é ainda de Roq. usurário. – Garrido exprime – “vivo. muito veloz” – do que propriamente ágil.. etc. motim. choque. festivo”. aqui. pronunciamento. convulsão. ufano. cataclismo. ou da baixa de preço que estes sofrem. volubilidade” e principalmente “habilidade em escamotear”. arruaça. – Expedito é o que se não embaraça no agir. rebelião. etc. – Re- . abalo. – Lépido. desembaraço natural no mover-se”. – Agitação. Ligeireza.. – Guapo é “o que se mostra lépido. garbo) de parecer loução. e cavalheiresco enuncia – “próprio do cavaleiro. leve. ágil tanto pode ser o homem como o simples animal. sublevação. “agiota. É o cavalheirismo. papéis de crédito. destro. Pretende-se que esta subtil distinção se sente nestas frases: “Recebeu-me muito afável e cavalheiroso”. a agitação é geralmente a precursora de qualquer das comoções designadas pelas outras palavras deste grupo”. conflagração. para designar “leviandade. o que tem maneiras gentis e sentimentos cavalheirescos”. no falar. – Onzeneiro (ou onzenário) é o usurário que exige usura requintada e faz questão de lucros descomunais. – Ligeiro diz levantamento. é discreto e gracioso”. – Agilidade é “facilidade. tanto a qualidade de ser loução. para auferir ganhos. sem discrepar das boas normas”. a resistência à autoridade opressora: exprime tanto como levantar contra. “é o movimento anormal do povo quando os espíritos sobressaltados planeiam ou tramam contra os dirigentes. to. revolta. enfeites. Bem se vê: a guapice só se encontra em moços.) “é termo corruto de filho d’algo (do castelhano hidalgo. hijodalgo). valendo-se da alta. pois a destreza é “uma agilidade acompanhada ou servida de astúcia e arte”.

generalizada por todo um país. diz Roq. tratando-se de política. que se decidiu em favor do revoltoso. a revolta tem sempre alguma coisa de violento e terrível. revolta é a guerra formal. e a gravidade do que o origina... semelhante ao tremor. “é o estado em que se acha um povo depois que se levantou e se armou para combater a autoridade a que estava sujeito. O motim tende mais a perturbar a ordem que a combater a autoridade. “o resultado imediato da agitação: degenera em revolta. e que publicamente declara não reconhecer por legítima. ou em insurreição. uma revolução talvez menos formal e extensa.. Da rebelião passa-se à revolta.. Rebelião é a declaração de guerra. e muitas vezes por pertinácia e falta de reflexão”. O motim é um levantamento de pouca importância. à crispação produzida por uma impressão forte”. e a subverter toda a ordem política.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 145 volução é a mudança da ordem estabelecida. indignado contra seus opressores.. ou por uma vasta província. e se esta não for sufocada. – A sedição é um espírito geral de perturbação. e antes achar-se de ânimo firme e resoluto em combatê-la. no entanto. segundo for a sua importância. revolta.” – Convulsão é. – Na linguagem comum. um particular está em rebelião “quando se opõe aos decretos do poder público. Às vezes a simples rebelião de uma alta personagem motiva a revolta de um reino. de oposição. – Choque diz “comoção instantânea. que. em revolução. e revolução indica o triunfo da revolta. pronunciamiento) “é termo puramente espanhol com que se designam as frequentes insubordinações dos chefes militares de Espanha. virá a mudança da sua política – outra ordem de coisas – a revolução. perturba a ordem estabelecida. porém mais violenta. rápida e tremenda. de uma assembleia. e é geralmente promovida pelo próprio governo quando lhe convém fazer alardes de força. causada por descontentamento. – Conflagração é “convulsão . por exemplo. ou do mesmo povo. A arruaça é o motim da mais ínfima ralé.. segundo Bruns. uma oposição ou resistência à autoridade. tendo chegado a depor autoridades. e revolução é a coroa de loiros para o vencedor. É de ordinário uma fermentação momentânea de algum bando do povo. – Comoção é quase o mesmo que convulsão: apenas não sugere tão necessariamente a ideia de violência e transtorno que se envolve em convulsão. a luta contra a autoridade. é a revolução em suma. o estado das coisas.. por uma série de atentados. A rebelião é ato de arremessar a luva. Pronunciamento (ou melhor. – A insurreição. A rebelião não é algumas vezes senão uma simples desobediência. – O levantamento é. – Rebelião designa a ação das pessoas. que está em revolução a força que guarda um posto. e a revolução é a vitória. e quando um povo. mesmo sem certeza de que se consumem as mudanças operadas (e sim diremos – que está em revolução). ou a guarnição de um presídio que se levanta contra o respetivo comandante (e sim – que está em revolta): como não diremos que está em revolta toda a população de um dos Estados da República. – Sublevação é mais extenso que levantamento: designa “o fato de insurgir-se em massa uma população inteira”. – Abalo é “o movimento contra a ordem. a revolta é o duelo. Não diremos. ou contra a autoridade constituída. e a revolta produz a revolução. – O motim é o menor dos movimentos contra a ordem normal. ou tomar disposições que não soubera justificar de outro modo. Assim. revolução é apenas uma revolta mais extensa. inspirada por alguns. está em revolta ou revoltado”. passageira”. uma agitação tumultuosa e de curta duração.. A consequência da sublevação é a guerra civil. ou pelo menos é aquele cujas consequências são de menor importância. se comunica rapidamente a todos os membros de um corpo.

discutir. mas este refere-se mais particularmente ao estado. uma opinião. faz isso – ou apresentando-a apenas em seus termos gerais. no entanto. isto é. um problema. quase propor – do que propriamente de discutir. de uma questão. nem a debate tampouco. Sisudo acrescenta a assisado a ideia de “discreto. Quem aventa uma hipótese. pondo-lhe os termos muito precisos. indicar. dando-o por ainda não liquidado. defende uma opinião. assisado e sisudo são vocábulos que coincidem no mesmo radical sensus. 210 AGITAR. Em regra. tem sido muito ajuizado em toda esta questão” – decerto que não caberia com lídima propriedade o adjetivo sensato. – Quem agita uma questão. aventar. decerto que a não discute propriamente. cordato. Assisado quer dizer – “que tem siso”. porém. e significa – “dar atenção. muitas vezes até sem dela fazer mesmo a apologia. isto é. – Controverte-se um assunto. ou agitando-a. uma ideia. oferecendo opinião sobre ele. e mostra interesse em que se trate de discuti-lo e resolvê-lo. pois este designa qualidade. – Cataclismo. exalta-se mais. grave. ou mesmo de estudar. que tem juízo. sensato. Assisado e sisudo também se confundem. deba- ter. avisado. que tem uma justa medida das coisas”. só se debatem questões de grande importância. e sujeitando-o a disputa ou a debate. vasta. Quem discute sustenta sempre um modo de ver. sá- bio. Aventar tem mais de expor. ou graceja e zomba do que argumenta ou discute”. – Discutir é “examinar todos os termos de uma questão. – Sensato. fazê-la simples e líquida. com vivo empenho. nas quais têm muito interesse os que as debatem: tais como os casos políticos e os judiciários de alta monta. nem por isso o discute propriamente: apenas o faz lembrado e o põe à vista de outros ou do público. na acepção que tem aqui. sério. tino. pondo-o em dúvida. “que sabe julgar direito. circunspeto. – Ventilar e aventar exprimem um pouco mais do que simplesmente agitar: quem ventila ou aventa um caso. Quem trata de um assunto. – Prudente é a pessoa que. do “que tem uma compreensão exata das coisas. isto é. prudente. prudência. uma questão. 211 AJUIZADO. quase que não faz mais do que apresentá-la à atenção de outros. mas procura desembaraçá-la. Entre aventar e ventilar não se notaria grande diferença fundamental. e procura impô-la a outrem. um princípio. Disputar é “uma forma de discutir e debater: o que disputa. além da sisudez. “é uma conflagração que transtorna toda a ordem política de um país”. ventilar. cuidar de alguma coisa para resolvê-la”. analisar todos os aspetos de um caso”. tomando-lhe em suma os termos gerais. encontrando-se com adversário. tem a calma. lembrar. – Tratar é o mais genérico do grupo. grave na compostura”. – Ajuizado diz propriamente – “que tem juízo”. Sensato confunde-se com ajuizado. disputar. que em ventilar se sente já alguma coisa de intuito dialético: ventila-se um assunto estudando-lhe ligeiramente as proporções. discreto. ou sugere a ideia da compostura que mantém essa pessoa num dado momento. sisudo. ponderado. bom senso. geral como se fosse um incêndio”. ou discutindo-a formalmente e debatendo-a.146 Rocha Pombo tão violenta. Nesta frase: “F. clara e nítida. judicioso. assisado. tratar. controverter. chama sobre ele a atenção geral. – Debater é ventilar e discutir esforçadamente. uma perfeita inteligência da . Pode dizer-se. e procurando vencê-lo. à conduta da pessoa a quem se o aplica. ou a respeito de alguma coisa. e o outro designa mais estado que qualidade. a serenidade e moderação do que é sábio.

cordis. Conforme a definição de Bruns. sabendo bem discernir as coisas. que chega sempre à boa razão. sem apreciar maduramente as coisas. como nestas frases: “Trata-se de negócio sério”. é uma ala. Seriedade é uma virtude que consiste mais na lisura de consciência. 212 ALA. “coração”) é o homem “prudente. – Renque é “uma série de coisas ou de pessoas postas em linha”. que se satisfaz ou se concilia com o que é razoável”. não saindo nunca da linha normal no modo de portar-se”. fileira. um tino seguro para precaver-se dos males e perigos”. “é a série de pessoas ou de coisas postas uma ao lado da outra com a frente voltada para o mesmo lado”. – Linha e série não se confundem. é um homem em cuja probidade se pode ter plena confiança. Ele falou grave (isto é – “pesadamente. que raciocina com acerto”. – Ponderado é “o que nada faz sem refletir muito.. pelo menos. – Fila. que parecem sentir o peso dos anos. modesto. das suas condições. nem sempre assim. apercebido do que convém. que na acepção que tem aqui. altivo e severo. – Fileira é propriamente uma série de filas. porque se sabe que tem sido sempre correto. segundo Bruns. “O caso é muito sério”. . renque. “Ela tem o porte grave das matronas” (e não – “marchou com seriedade”. – Circunspeto significa propriamente – “comedido. como se nunca estivesse desapercebido do seu posto. “Trata-se de negócio grave”. nos seguintes exemplos. aqui. conveniente nas ações. – Não assim. estão separadas por um espaço. – Cordato (de cor. bem clara a distinção entre grave e sério. tendo a frente voltada para o mesmo lado”. A seriedade é. é um homem sério afirma-se que F. “O caso é muito grave”: nas quais se sente como grave diz muito mais do que sério. fechado e sereno. liso. de equilíbrio moral”. “Ele foi sempre um homem grave” (quer dizer – “de maneiras lentas que o fazem parecer severo”). de tudo que se lhe passa em torno”. voltadas de frente uma para outra. revelando ou afetando grande segurança de reflexão. sincero e direito nos seus tratos. enquanto que na série as coisas. medindo. dando provas de juízo e atilamento”. – Grave é “o que tem aspeto nobre. “é a série de pessoas ou de coisas postas umas atrás das outras.. não é a mesma seriedade de que trata Roq. linha. – Cada uma das duas longas filas que. que se mostra sagaz.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 147 vida. portanto. quanto à seriedade. Dizemos: “Ele marchou com gravidade para a forca”. – Avisado é “o que procede com acerto. e sem pesar os atos”. Ainda podemos deixar. mais uma qualidade moral do que modo de ser exterior. não só se sucedem numa certa ordem. conquanto exprimam ambos a continuidade ou sequência de coisas ou pessoas numa certa direção. série. A gravidade é própria dos homens velhos. como até ordinariamente obedecem a critério de classificação.. – Judicioso exprime – “que julga com bom juízo. – Discreto é “o que se mostra atento nas palavras. acentuando muito as palavras”). no cumprimento dos seus deveres. Aplicado a coisas ou fatos é que o vocábulo grave é mais forte que sério. aprumado no agir e no falar. na inteireza de caráter do que na simples compostura que se mostra ou afeta às vezes calculadamente. entre seriedade e gravidade: “Ele falou sério” (isto é – “disse o que sente”). fila. reservado. Quando se diz que F. “Ele foi sempre um homem sério” (isto é – “sempre foi probo e digno”). nem – “ostenta porte sério).. cauteloso. pois na linha as coisas podem estar sem regra de sucessividade. na retidão de conduta. no seu grupo 493. enquanto que gravidade é mais modo de ser exterior do que propriamente virtude.

Ninguém ostentará méritos que nunca teve. tanto se pode dizer daquilo que se possui. Mesmo desvanecer-nos da benevolência que se tem conosco. porém. Qualquer pode fazer ostentação de riqueza. é usado com um completivo: blasona-se de nobre. de valente. – Sob este aspeto. fanfarrear (fanfarrice. O desvanecimento. por mais que signifiquem ambos “proclamar com aparato e desvanecimento (alarde. num caso em que dessa justiça lhe pendia o crédito? Só quem pode não ufanar-se nunca de coisa alguma. como do que se não possui. fanfarronada. com ênfase. é que este verbo desvanecer-se envolve ideia que o aproxima dos demais deste grupo. orgulhar-se ou orgulhecer-se. gabar-se. Assim de alardear. Blasonar (de qualquer coisa que seja) é sempre. – Vangloriar-se aproxima-se do precedente. de força. ostentar (ostenta- ção). vangloriar-se.. impróprio de um homem sério. – Desvanecer-se é “sentir vaidade por algum mérito. Só fanfarreia o boborio que berra e bufa de valente e corre de uma criança. ou que é material. o que melhor acentua a ideia de todos alardes. ou de ter dançado uma valsa com mestria e elegância. etc. Gautier – o capitão Fracasso. Desvanecer-se da amizade de um homem digno é perfeitamente legítimo.. ou de magnanimidade. de tino. por alguma honra. jactar-se (jactância). os feitos. que alardeia méritos que não possui. Só se ostenta o que realmente se mostra. – Fanfarrear é. ou é invisível. de piedade.. pelo menos. tanto de todos os do grupo. desvanecer-se (desvanecimento). bazofiar. ou de coisas fúteis e vãs é que é ridículo. nem alarde: é mais “um quase desvanecimento e alegria em que se fica de haver alcançado alguma coisa cujo valor se exagera”. Alardear. etc. mais de rigor do que o outro. fortuna ou triunfo”. Pode-se fazer alarde de rico (alardear fortuna ou cabedais) e fazer alarde de honradez. jactar-se. fanfúrria). A ufania é um como contentamento desvanecido. posições que nunca ocupou. entre todos os do grupo. fanfarrear. fanfarronice. vitórias com que apenas tem sonhado.148 Rocha Pombo 213 ALARDEAR (alarde). intimar (intimação). mas decerto que ninguém se lembrará de fazer ostentação de gênio. – Bazofiar é “fazer ostentação ridícula ou escandalosa de grandeza. ou de honras. ou que é material. Agora. ufanar-se de haver ganho uma partida de bilhar. etc. como entre si. os próprios méritos. uma alegria orgulhosa que se sente por haver alcançado alguma vitória. – Jactar-se é dizer publicamente. – Blasonar é quase o mesmo que bazofiar: apenas blasonar. ou que se nos atribui”. ou da honra que se nos faz – é coisa que se diz sem descaída moral. bazofiar (bazófia). aqui. Fanfarronada (ou fanfúrria) é “a prosa do . vangloriar-se (vanglória). ostentação) aquilo que se tem ou se supõe ter. Conforme o complemento da sua predicação.. e dá-lhe por isso uma importância que ela não tem. ostentar. Quem é que se não ufana da justiça que se lhe fez. Quem se vangloria de alguma coisa presume demais do que essa coisa vale. A vanglória é “uma ideia falsa ou exagerada que faz alguém de si próprio”. – isso é outra coisa. é “uma exaltação do amor-próprio que nos leva a ter um orgulho exagerado daquilo que se nos diz ou faz. blasonar. Mas só desvanecer-se de ser belo. – Alardear e ostentar distinguem-se. Fanfarrice é a qualidade de fanfarrão. A bazófia é coisa semelhante ao que vulgarmente se chama prosa ou intimação. de valentia. de prosápia. que blasona de façanhas que nunca praticou. A jactância não é propriamente ostentação. ufanar-se (ufania). outro tanto se deve dizer de ufanar-se. Ufana-se o artista da sua obra quando sente que ela lhe deu uma grande expressão da própria alma. ostentações charras e ridículas que só se admitem naquele tipo de Th. as qualidades. ou que pode ser visto por todos.

os motins destacados de uma comoção ou revolta”. José de Lacerda – “conforme a origem árabe. borborinho. protestando. 214 ALARGAR. tornar mais largo. Por extensão. Neste sentido. arruído. repercussão de desordem. e também as vozes lastimosas dos que pranteiam. gritaria. sig- nifica o clamor que se levanta ao travar-se a peleja.). segundo a origem grega. – Bulha será um barulho insignificante. algazarra. fazer crescer proporcionalmente”. a ideia de “blasonar de poderoso. as forças que empregam na manobra. conquanto menos usada. – Arruído é quase tumulto. – Vozeria diz propriamente “multidão confusa de vozes”. murmúrio. berreiro. e compassarem com as vozes. – Barulho é termo vulgar que corresponde a tumulto: é apenas um tumulto menos grave. que fazem mais bramar que gemer”. bulha. em qualquer dimensão. dilatam-se alguns corpos sob a ação do calor. – Ampliar é “tornar maior alguma coisa em todas as suas partes. é “conjunto de vozes desordenadas formando ‘coro de arruídos’”. ou no trabalho. – Algazarra é adaptação do árabe: era “vozeria. – Bramido é “clamor de cólera. dilata-se um orifício. as palavras. os atos do fanfarrão”. Incorporamo-lo para designar a desordem e confusão de vozes no meio das quais nada se discerne. por exemplo: “Vamos alargar o nosso campo de ação”. de menores proporções. de arruído que propriamente essas coisas”. clamor. Por extensão. aqui.. ou de ódio”. – Alargar diz propriamente “fazer mais largo”. – Clamor é “como gritaria grave e aflita. contendem ou bulham. murmurinho. etc. – Alarido – diz d. – Orgulhar-se é mais que desvanecer-se. tudo que tem comprimento e largura. ser o primeiro a falar nos próprios méritos”. quando se diz. – Celeuma. Alarga-se um caminho. alvoroço. sussurro. etc. tumulto. a desordem. 215 ALARIDO. – Dilatar é também “fazer maior. bramido. Só se orgulha de alguma coisa quem sente uma importância exagerada que dessa coisa lhe vem. mais arrelia. dá-se o nome de celeuma à vozeria. grito ou alarido”. – Rumor é mais “eco de vozeria. e só figuradamente é que se emprega por ampliar. celeuma. é “a confusão. pedindo. Intima. uma rua: em geral. ou mais longo”. parece que é mais expressiva e até mais própria. turba. abrir. de entusiasmo. e até de dores violentas. ampliar. dilatar. na acepção com que figura neste grupo. – Berreiro é “grito ou gritaria monótona. a forma orgulhecer-se. – Alvoroço é “manifestação estrondosa de alegria. desordem estrondosa”. Fanfarronice é “o modo de ser fanfarrão. – Turba. Amplia-se um jardim. com ares de quem sempre está mandando (intimação).” (Aul. – Sussurro é palavra onomatopaica desig- . – Gritaria designa multidão de gritos. de fazer fanfarronadas. ameaçando”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 149 fanfarrão. rusga que barulho. uma bola de borracha que se enche de ar. de importante”. designa certo canto ou cantilena cadenciosa que os marujos e outros operários entoam quando trabalham para se animarem mutuamente. vo- zeria. gritaria. designa a vozeria dos que se travam de razões. – Intimar exprime. ou se amesquinham. – Gabar-se não é mais do que “elogiar-se a si mesmo. os gestos. de ameaça. em todas as dimensões. Dilatam-se as pupilas à medida que a luz ambiente diminui. mais extenso. barulho. que os moiros levantavam em qualquer acometimento ou conflito de guerra. rumor. o sujeito que trata os outros com arrogância. – Tumulto é “grande comoção e alarido. dilatam-se as narinas para aspirar o perfume. ou vozes em confusão e descompassadas. como o berro de alguns animais”. uma praça..

é “chamamento com desespero. terror. a de defensa. pavor. reclamo. e mais pelo extenso uso que se faz desta palavra. – Chamada é propriamente “a voz ou sinal com que se avisa ou com que se chama atenção e se convoca. ou de viração em arvoredo”. rebate. espanto. – Rebate é o toque de sinos. é o ato de dirigir-se alguém a outrem.150 Rocha Pombo nando “rumor menos perceptível e mais confuso”. chamada. ignorando. – Segundo Bruns. ou a de instigar à fuga. o alarme. – diz-se do grito ou gritos que se soltam para anunciar um perigo. real ou suposta. que temos medo dos cães danados. o susto dura pouco. quanto tempo nos separa ainda deles. a do susto não o é geralmente. “a ideia comum aos sete primeiros vocábulos deste grupo é a do sentimento ou sensação penosa que nos assalta quando um perigo sobrevém”. assombramento. e que nos induz a evitar aquilo que julgamos nos há de ser nocivo. este para repentina e inconscientemente. receio. assombro. A causa do medo é determinada. O medo é mais ou menos prolongado. no sentido próprio da palavra. – Terror é um termo que mais se refere à causa do sentimento . – Clamor. temor. do que pela propriedade de resumir a ideia dos outros seis do grupo. medo. porém. – Alarme. sussurro de multidão falando a um tempo e mal contido”. e que conservamos contra nossa vontade. Emprega-se esta palavra com muita propriedade quando nos referimos à previsão de acontecimentos muito desagradáveis. 216 ALARME. apelo. assusta-nos o que não podemos definir. – Borborinho é também voz onomatopaica. sobressalto. – Alarme – escreve Bruns. O rebate sempre encerra a ideia de defensa. 217 ALARME. ou com indignação”. do inimigo. e não temor. é o toque de clarim ou de tambor com que se reúnem os soldados. Particularmente. – Murmurinho é como “vozeria abafada. e não medo de Deus. susto.” – Apelo é “pedido de socorro. Por isso se diz que temos o temor de Deus. ou de desejo ansioso em causa dependente de amparo. é a confusão e gritaria que se manifesta num acampamento ou praça de guerra à aproximação.” – Chamamento designa a “ação de chamar com esforço. e como termo de técnica militar. de tambores com que se convoca o povo (ou uma guarnição militar) para defender-se quando sobrevém um perigo. tendo a mesma significação. Figuradamente. aqui. clamando. o medo é um sobressalto violento e repentino que nos leva ao temor. – Reclamo é “apelo instante e formal. a suspeita de algum perigo. cuja ocorrência temos por certa e próxima. – Susto é uma espécie de medo que nos deixa como suspenso durante os primeiros instantes. de testemunho ou de juízo da pessoa para quem se apela”. chamamento. O susto diferençase ainda do medo em levar-nos este a fugir da coisa que nos amedronta. clamor. O medo distingue-se do temor em ser este um produto da razão e até certo ponto da vontade. porém. – Murmúrio é “leve sussurro como de água corrente. enquanto que aquele é um sentimento irresistível e espontâneo que nos assalta sem querermos. O temor é o estado do espírito que se perturba pela apreensão de um perigo. emprega-se este vocábulo para designar a perturbação que causa a ameaça.. pânico. como um recurso de aflição. ou de um mal que certos indícios nos levam a julgar não só possível mas até provável. ou talvez desfiguração de murmurinho. Causa medo aquilo que vemos. enquanto que o susto nos deixa como suspenso: quando o susto assalta o homem. – Medo é termo genérico. como se o objeto do reclamo fosse fundado sempre em direito”.

uma obediência a escrúpulos de qualquer ordem. A suposta existência de uma terrível peste espalha um pânico geral”. – Espanto é uma forte impressão causada por alguma coisa que sobrevém inesperada e repentinamente. – Pânico é propriamente um adjetivo que qualifica o substantivo terror. que imobiliza e como que maravilha. por isso se diz que os bandidos espalham o terror por onde andam. Confunde-se com susto. “fazer tremer”) aplica-se aos perigos ou males que julgamos irresistíveis. particularmente os pobres que iam de viagem”. Terror (do latim terrere. albergue. 218 ALBERGARIA. o temor de sermos assaltados dessa peste nos leva a evitar a comunicação com as pessoas provenientes das localidades empestadas. Significa também a própria coisa ou fenômeno misterioso que assombra. porém. é denominada hotel. colhe-nos o susto. para exprimir. e na qual são principalmente admitidos aqueles que trazem cavalgaduras ou veículos. pousada. – Albergaria – escreve Bruns. Propriamente só se diz neste último sentido. – Pavor é “um medo incoercível. ou que vence todas as energias morais”. estala- gem. – Assombro é grande espanto. um grande terror que faz desvairar. – “era o nome da dependência dos mosteiros destinada a hospedar os transeuntes. que nos impede de agir ou de fazer alguma coisa – do que propriamente temor. quer devido à mera hospitalidade. O espanto pode deixar-nos paralisados como o susto. hotel. tem uma acepção especial para designar o estado de terror em que fica uma pessoa surpreendida de alguma coisa ou de algum fenômeno misterioso. e se qualquer incômodo sobrevém que pareça sintoma dessa peste. guarida. – Albergue é propriamente a casa onde se hospeda aquele que está fora da sua terra. – Guarida é o local onde se encontra abrigo contra a intempérie ou contra a perseguição. ou mal que se suspeita”. frequente dizer-se indiferentemente – o pânico.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 151 que ao próprio sentimento. – Estalagem é casa onde se recebem passageiros que não pretendem grandes comodidades. Difere da casa de cômodos em dar esta ordinariamente só a dormida. mas sobressalto sugere ideia da inquietação em que se fica. ou o grande terror que se apodera de alguém à vista de um caso espantoso. reina o alarme. mediante um pagamento convencionado que também se chama pensão. Essa peste espalha o terror por toda parte. Na cidade em cujos contornos a peste faz muitas vítimas. é. tanto a cama como a mesa. quer seja pagando. é o espanto que nos domina. Certos estabelecimentos de caridade ainda hoje têm albergarias destinadas ao mesmo fim. ou impelir-nos a uma fuga insensata como o medo. . – Pousada é termo castelhano que se diz por estalagem. ou o terror infundado que assalta a muitas pessoas. ou – o terror. pensão. principalmente no Alentejo e no Algarves. e aquela. onde se recebem hóspedes. pânico. – Hospedaria é casa onde se recebem hóspedes de cama e mesa. e contra os quais é inútil qualquer luta. – Pensão tem aqui um sentido particular. designando a casa. e assombramento. – Receio é menos que medo ou que temor: é mais – um estado de dúvida. em regra casa de família. O medo da peste leva-nos a fugir da cidade. Foi o terror dos franceses que ocasionou a grande hecatombe da ponte de barcas do Porto. do cuidado e preocupação que nos causa o mal que nos sobressalta. hospedaria. e algum ou muito luxo. morando fora o pensionista. se a hospedaria reúne certas condições de comodidade. e se ela sobrevém inesperadamente. aqui. e até em só fornecer as refeições. – Sobressalto é “a comoção que se sente sob a iminência de algum perigo.

A artilheria moderna alcança a grandes distâncias. – Alcançar é o termo de nossos rogos. Por não poder alcançar um ramo. – Al- zar. – Alcáçar (ou alcácer). diminutivo de castrum. e obtêm-se de iguais. e dos governadores ou vice-reis das colônias”. ou tem protetor de valimento. das dos bispos. tudo o que nos é honroso. 221 ALCANÇAR. lê-se em Bruns.: “Albescente diz-se daquilo que se está tornando branco. ou que a ela tínhamos direito. só se diz das residências das pessoas reais. a ser branca. Consegue-se o que com diligência e perseverança se busca. defendida de fortificações”. impetrar. disposto para habitação ou para outro fim. Consegue um bom emprego o que solicita com mérito. mas quando lá chegaram tiveram quem os agasalhasse. chegar diz-se do próprio fato. meio branco”. ou que nos é grata. – Obter é alcançar uma coisa que se pretende ou deseja. útil. agradável. lograr. possuir alguma coisa que nos dá gosto ou prazer sem indicar que a buscamos. Os homens sóbrios e de bom temperamento gozam ordinariamente de boa saúde. pretendendo-as e solicitando-as com rogos e súplicas”. e mais restrita a tem ainda impetrar. As balas não chegavam à fortaleza. Em poesia diz-se dos atuais paços dos monarcas. – Gozar é ter. pois. ou se pretende. “era propriamente o palácio afortalezado onde os reis ou governadores faziam residência. (Bruns. alcançar supõe sempre graça. castelo. pois só impetramos graças de um superior. – Conseguir é o termo de nossa solicitude. Obtêm-se cargos. enfim.) – Atingir (que também colocam alguns no grupo CCXXI) diz “alcançar ligeiramente. entre branco e cinzento”.152 Rocha Pombo 219 ALBESCENTE. que fizemos diligência por ela. dignidades. de inferiores. – Castelo (de castellum. tem força para fazer chegar balas a grande distância. “fortaleza”) corresponde com exatidão a alcáçar (do árabe): era “a antiga habitação do rei. de superiores. alvacento. ou do grande senhor. 222 ALCANÇAR. Vê-se. porém. o fim a que se dirigem os meios com relação a eles. atenções. que este vocábulo tem significação menos genérica que o precedente (obter). – Lograr e conseguir podem supor justiça. como se chegasse apenas a tocar de leve a coisa alcançada (ad + tangere. isto é. sentir pelo tato”)”. favores. etc. – Impetrar é alcançar do superior a graça que se havia solicitado. – Alvacento é a cor fixa que tira para branco. chegar designa o fato. temos de subir a um banco para lhe chegar com a mão. Logra uma grande fortuna o que cançar “denota esforço”. conseguir. a de seu pai. não alcança.. Qualquer superfície que parece ter tido originariamente outra cor. alcançar diz-se da possibilidade. porém. – Alvadio diz-se da cor intermédia. – Esbranquiçado significa “um tanto branco. esbran- quiçado. Um homem chega à idade avançada. – Quanto aos três primeiros. Alcança o perdão o que interpõe rogos humildes e pede misericórdia. é albescente. tocar. se este viveu mais anos do que ele”.. Os náufragos alcançaram a praia depois de mil perigos. alvadio. – sem relação aos meios empregados para isso. – Tocar (da mesma origem de atingir) ex- . chegar. atingir. da capacidade. – “Lograr é propriamente o termo de nosso desejo – diz Roq. obter. contração de palácio. – Palácio diz-se de qualquer edifício grandioso. “tocar. segundo Bruns. – Paço. palácio. paço. e tende. da força de efetuar. go- pode viver sem demandas nem pretensões. Noutra ordem de ideias. 220 ALCÁCER (ou ALCÁÇAR).

mais ou menos larga e profunda. exaltar a dignidades. não tanto como o do alcantil. As fragas tornam a ascensão difícil. ou é banhada por alguma corrente impetuosa. como um edifício. chusma. e tendo a base regada ou não de corrente”. de assassinos. não com relação ao pendor. – Ribanceira considera a vertente como tendo pendor considerável. de lídima propriedade dizer que se viu – “um bando parado”. nas contas que alguém é obrigado a prestar. diferençando-se. quadrilha. etc. grupo. a diferença entre a quantia que entrega e a que devia entregar. – Alçar é levantar o que está caído. a escarpa é quase sempre de acesso impossível sem ajuda de arte. vista de frente. designa multidão. ou “na escola”. – Segundo Bruns. malta. rancho. escarpa. – Escarpa é “rochedo alcan- turba. troço. Não seria. além de inépcia ou desmazelo. despenhadeiro. acrescenta irregularidade e escreve: “Quando o desfalque é cometido nos dinheiros do Estado.” 226 ALCATEIA. elevar. e sugere ideia de vida errante. – tilado. enxame. multidão. a fim de não ofender a honra do ladrão.: – “Alcantil é a vertente talhada a pique. de . mas relativamente à profundidade a que está a base. ribança. Quase que destes dois se pode dizer o que se diz de alcançar e chegar. como os olhos. improbidade e dolo. as mãos. erguer. etc. corja. – Riba e ribança confundem-se com ribanceira: este é apenas uma extensão daqueles. e ao perigo a que se expõem os que transitam próximo da sua beira. tirar para cima. por isso. horda. 225 ALÇAR. talvez endireitando. irregularidade. de panteras. aventurosa. de ladrões. ou a caminho do colégio. caterva. levantar. 223 ALCANCE. ribanceira. escarpa. em ordem eminente. desfalque. – é o gênero em que entram os outros como espécies”. bando. súcia. batiza-se atualmente sob o nome de irregularidade. – Grota é aberta. alcateia de lobos. – Multidão quer dizer “grande número”. a voz. deste em não sugerir com a mesma força a ideia de atividade. – “O úl- Alcance é. legião. Se o alcance acusa. – Alcateia é um coletivo que se emprega para designar “multidão de animais ferozes”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 153 prime a mesma ideia. de alguma corporação. sem mais ideia alguma acessória: multidão de pessoas. se este é da categoria das chamadas pessoas decentes”. precipício. – Despenhadeiro é a vertente ou precipício considerado. Exprime ele a ideia de “pôr em alto. fazer subir”. – Bando. que na linguagem vulgar só se aplica a aves. Um bando de estudantes só se vê na rua. etc. turma. ou desde baixo. – Bruns. itaimbé. fazendo crescer para cima. Figuradamente aplica-se a indivíduos da espécie humana aos quais se ligue alguma ideia que os ponha em relação com aqueles animais: alcateia de bandidos. em montanha. encosta muito íngreme”. timo destes vocábulos – diz Roq. ou mesmo de algum particular. grota. despenhadeiro. matula. ou “um bando de estudantes na aula”. fraga. – Precipício é termo geral que indica “todo acidente perigoso onde se pode cair”. troça. 224 ALCANTIL. ou quase a pique. – Erguer é levantar pondo em pé. – Elevar é “pôr em lugar alto. – Fraga é mais aspereza de serra. etc. a base do alcantil mergulha no mar. ou uma coisa acima da sua posição ordinária. de livros. – Itaimbé é palavra do tupi designando rochedo a prumo. pedra escarpada que propriamente escarpa. ou ao alto. riba. no entanto. magote. matilha. passa a ser desfalque. e por onde quase sempre corre água.

no entanto: quadrilha de colegiais. ideia de aventura. e fora deste caso. isto é. coisa semelhante a batalhão. portanto. banditismo. e também de divisão. mas sugere ideia de festa. – Malta designa também multidão. – Troça também diz “multidão”. ou mesmo de velhos – seria. a mais extensa”. e até de fereza (sobretudo os três últimos): súcia de malandros.. mas agradáveis. e que não porá logo aqui mais de doze legiões de Anjos?” Este coletivo legião. alfombra.154 Rocha Pombo ideias. ao ser preso. ou mesmo de coisas”. de intuito escuso. mas em pequeno número”. bom ou mau. – “Dos três primeiros vocábulos – diz Bruns. disse a este: – “Cuidas que não posso rogar a meu Pai. etc. e no sentido figurado empregase para designar multidão laboriosa. perversidade. de salteadores. caterva de lobos. de malfeitores. confortável. – é alcatifa que tem significação mais nobre. – Troço significa “multidão ou porção. Dizemos: quadrilha de salteadores.ere. em atividade mais ou menos ordenada. legião negra”. toma-se sempre a má parte. em tumulto”. “obrar. ou “legião da morte. ou malandros. de gente sem ordem”. de peregrinos. – Enxame aplica-se mais particularmente tratando-se de abelhas. que cobre o pavimento ou parte dele. 227 ALCATIFA. caterva estão nas mesmas condições do precedente: juntam à noção de muitos indivíduos reunidos a ideia de indisciplina. de facínoras. de missionários (não – um bando). pelo menos. – Legião era entre os romanos um corpo de tropas. Quando Jesus perguntou pelo nome do espírito mau que atormentava o possesso: – “O meu nome é legião” – respondeu o espírito. E também. orgia. de gatunos. ou de aves. matula. – Magote é semelhante a grupo e a turma: significa “porção de pessoas. portanto. de bandidos. alfombra. Dizemos: um rancho de fiéis. espesso. feito de uma só peça. como este. nem um enxame de vagabundos ou de vadios. – Alcatifa é o tecido rico. tapeçaria. de lobos. de ago. e deixando supor que é multidão fazendo parte de uma série de multidões. de estrelas. e está fixo nele. Neste sentido continuou a usar-se para exprimir o motivo que impele. – Chusma significa “multidão em alvoroço”. designa multidão certa. Não se diria: um enxame de lobos. Súcia. pois neste coletivo figura o radical agmen = agimen. a mais exata. – Turba significa “multidão desordenada. de crianças. companhia. que cobre todo o pavimento de uma habitação. matula de desordeiros. destempero. mas sugerindo ideia de vagabundagem. pândega. – Grupo é “conjunto de coisas ou pessoas reunidas. nunca se diria. podendo estar ou não fixo . corja. corja de vadios. agir”. e sugere também a ideia de que essas pessoas ou essas coisas fazem parte de multidão maior. de cores variegadas. – Horda sugere ideia de selvageria. de parcelamento: um magote parece que deixa supor sempre outro ou outros magotes. – Rancho é o mesmo que bando: apenas não sugere. de guerrilheiros por exemplo. e parece que encerra ideia de atividade. ou a causa especial que põe em movimento a legião: “legião patriótica. E até sem cláusula é usado para designar “multidão de cães de caça”. – Turma era “uma divisão tática na milícia romana”: diz. de sapos. tapete. tapete. quando reprimiu a ira de Pedro. – Alfombra é o tapete de maiores ou menores dimensões. Uma turba de sábios. desregramento: horda de bárbaros. – Matilha é também coletivo de cláusula restrita: matilha de cães. sugere sempre ideia de que se trata de defender uma causa. legião acadêmica”. – Quadrilha está nas mesmas condições de turma: designa “um certo número de indivíduos aprestados para a guerra”.. de depravamento e banditismo. ou de realizar algum intento. uma coisa fantástica.

(Bruns. Em João da Costa. exclusivo do indivíduo. apodo. cada um deles tem. 229 ALCUNHA. foram apelidos nobres da descendência das famílias. – Prenome é propriamente o nome que precede ao nome de família e que é. sobrenome das pessoas segundo a diferença das famílias. no entanto. e já há muito. e a segunda. não se dá tal sinonímia. mas não é muito usado em português com esta significação. é trazer o advogado leis e razões em defensa do direito de sua causa”. alcatifas etc. – Citar é referir textos e autoridades . antonomásia. – Tapete é termo genérico. mas apenas alusivo do indivíduo a quem se aplica: vale mais por um epíteto que designa o indivíduo sem nomeá-lo. – Prostíbulo (do latim prostibula “meretriz das ruas”) é o lupanar considerado como sentina onde as infelizes se degradam. citar. – Tapeçaria. e o menos usado dos deste grupo: designa a casa de prostituição considerando-a sob o ponto de vista das orgias que nela se fazem”. por exemplo. – Estes quatro vocábulos empregam-se indistintamente para designar as casas públicas de prostituição. e em termos forenses. de mesa. tem a significação especial de pano de armação. – Bordel é termo francês introduzido na língua. onde o vício ostenta as suas torpezas”. assim como os nomes de animais. muito usada no tempos gloriosos de nossas guerras. de corredor. onde impura a depravação moral. “Os panos de Arrás são tapeçarias de muito valor artístico”. Emprega-se esta palavra de preferência às outras quando se alude à moralidade dos que frequentam essas casas: frequentador de lupanares. – Agnome é o epíteto que se adiciona ao cognome para fazer que ressalte alguma virtude ou qualidade própria do indivíduo. e João da Costa é o nome do indivíduo. e que acaba com ela. 230 ALEGAR. Há tapetes de escada. Costa é o apelido. – Nome é a palavra com que se designa ou distingue uma pessoa ou coisa. ou autoridade que prova o intento proposto. – Segundo Roq. eram sinônimas em significarem o referir a seu favor algum dito. que serve para cobrir as paredes. – Cognome é o designativo de alguma qualidade notável ou característica. mas diferença-se destes em não ser próprio e expresso. e quase sempre alusivo a algum defeito da pessoa.. exemplo. apelido. – Segundo Roq. – Apodo é quase o mesmo que alcunha. nobres. Hoje. além de ser um termo coletivo. prenome. – Antonomásia confunde-se com cognome e com alcunha. sobrenome. e que se junta ao nome de alguém para torná-lo mais preciso. com que se designa um conjunto de tapetes. peixes. sardinha. a sua significação particular. portanto.. bordel. nome. – Lupanar (do latim lupa “meretriz”) é a casa onde residem meretrizes. por honra e mercê. “a primeira.. 228 ALCOICE. – Sobrenome é o nome que se interpõe entre o nome de batismo e o de família. aves. sendo que o apelido se transmite e distingue as famílias”. porém. Os reis davam. A maior parte das casas que nas cidades se intitulam hotéis para pernoitar são alcoices. etc. porque alcunha só significa apelido injurioso. “alegar é agnome. pega. notáveis. como perdigão. do que propriamente por um nome. palavra árabe (alconia).) – Sentina é o “prostíbulo imundo. coelho. que tanto designa o estofo da alfombra ou da alcatifa como esses próprios objetos.. etc. etc. João é o prenome. alcunhas de leais. prostíbulo.. de sala.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 155 no chão. – Alcoice é a casa onde se dão cômodos às parelhas que procuram ter comércio. lupanar. portuguesa. a suas vilas e cidades. cognome. sentina.

ledice. em memória de faustos acontecimentos. – Ledice. júbilo. celebradas com festas. contentamento. para sustentá-lo. A pessoa jubilosa mostra-se alvoroçada de alegria. alegam-se fatos e razões. jovial. Hoje. Ao contrário. Pode fingir-se a alegria. – Diz Roq. contente. pois representando todos um estado agradável no espírito do homem.156 Rocha Pombo em prova do que se diz. rompe em saltos. mais suave. celebra-se com festas e regozijos. ledo. quase ufano da vida”. e pertence à imaginação. – Exultação é o último grau da alegria. alegamos. e eles a usavam em lugar de alegria: em Camões ainda é frequente o adjetivo ledo em lugar de alegre. fizesse seu efeito no moiro de Moçambique. ou gozo repetido ou prolongado. a palavra ledo é desusada. Fr. buliçosa. não assim o contentamento. exultação. e muito mais pelo regalo com que o tratava. porém.. alegra ao público. nem a acompanha. Diríamos que o contentamento é filosófico.. que. exultante. as pessoas. ou pela satisfação de que se goza. mas não lhe achamos autoridade suficiente para a estimar como tal. como diz o nosso poeta. Antes que o ardente licor. Um fausto sucesso. – Regozijo. regozi- jo. porque é demonstração exterior.. Está exultante a criatura que parece ufana da sua felicidade ou da satisfação que tem. a alegria é desigual. alegre. exprime cada um deles seu diferente grau ou circunstâncias”. que “o contentamento é uma situação agradável do ânimo. aquele supõe igualdade e sossego de ânimo. dizendo que é menos viva. Seria para desejar que o uso lhe desse a significação modificada que lhe atribui D. 231 ALEGRIA. que é afeto interior. satisfeito. Para defender o réu. muitas vezes prescinde da consciência. segundo a força do verbo exultar. é alegria. causada.. nem a ela conduz. ou pelo bem que se possui. temperamento irrequieto. e defender-nos. – Fixada a diferença entre alegria e contentamento. – O júbilo é mais animado que a alegria. e até imoderada. sem parecer alegre. como está dizendo a palavra. e pertence principalmente ao juízo e à reflexão. vozes. tranquila e serena que a alegria. uma pessoa estar contente. não cabendo no coração. e quase sempre se aplica às demonstrações públicas de gosto e alegria. ou o que eles dizem. e mostra-se por sons. etc. e produz contentamento no ânimo dos que foram causa dele. e só em poesia terá cabimento. álacre. é corrupção da palavra latina lœtitia. tranquilidade de consciência. não será difícil fixá-la entre outros dos vocábulos deste grupo. porque na embriaguez do espírito se deixa arrastar da força do prazer. O homem alegre nem sempre é feliz. satisfação. e em estilo forense é noticiar. alacridade. bailes. ou ledica como diziam os antigos. festivo. não é a felicidade. e peso ao nosso dito. Luiz. Há velhos joviais. citado perante o juiz. formada da partícula reduplicativa re e gozo. mas a jovialidade só assenta nos moços. ou é surda a seus gritos. gritos de aclamação. jovialidade. danças. de alegria. a alegria. conduz à felicidade. jubiloso. pois. que é saltar de gozo. quiçá louca em seus transportes. de S. poética. e sempre a acompanha. Pode. Para dar autoridade ao que dizemos. muitos há que sem mostrarem alegria gozam de felicidade. já ele estava mui contente pelo acolhimento que lhe fazia o Gama. Quando o contentamento se manifesta exteriormente nas ações ou nas palavras. que dá alegria. que interessa a toda uma nação. alegou o advogado leis e razões tão importantes que por suas alegações conseguiu que ficasse de nenhum efeito a citação. etc. citamos. – Jovialidade significa “disposição natural para a alegria ruidosa mais inocente. fazer saber o chamamento do juiz. – Alacridade é a . Citam-se os autores. ou pelo gosto que se logra. é alegria.

propriamente. pois falsário é “o que faltou ao que prometeu solenemente. aleivosia é a qualidade de ser aleivoso. Quem é vigoroso é capaz de empregar grandes forças. isto é. deslealdade (desleal). pujante.. praticada com má-fé. reforçado. ferindo ou prejudicando aquele a quem devia lealdade. deve notar-se que o segundo tem uma significação especial e precisa que seria bastante para excluí-lo deste grupo se não fosse a ideia fundamental comum que o põe em relação com os demais.. robustez. e essa capacidade . etc. – Aleive é a própria calúnia que se disfarça. depois. Emprega-se frequentemente aleivosia por aleive. e sugere ideia de “posto à frente de alguma coisa”. Calabar foi traidor. e não se poderia dizer que foi pérfido. a deveres ou compromissos que temos contraído. o “ato de faltar à fé que se devia”. potente. falsidade (falso. O homem desleal é o que sai das normas. perfídia (pérfido). designa situação do que se encontra “depois de alguma outra coisa e em relação ao lugar que ocupamos nós: é antônimo de aquém. – Alentado. potência. robusto. que dissimula com ares de inocência o golpe que vai descarregar. posterior a alguma coisa”. nas maneiras dissimuladas com que procura alguém enganar a outrem para lograr do enganado alguma coisa. que nos promete o que não tem tenção de cumprir. à vivacidade que indicam aptidões para praticar atos que necessitam de esforço. e pode não ser pérfido. – Calunioso é aquilo que envolve calúnia. Mas o traidor é sempre infiel. – Satisfação é “o estado de alma em que ficamos quando alguma coisa vem corresponder aos nossos desejos. dos bons princípios morais. Entre falso e falsá- rio. falsário). forte.. adiante. – Depois quer dizer – “em seguida. – Calúnia é “a falsa imputação que se faz a alguém de atos que lhe prejudiquem a honra”. traição. após. pujança. – A deslealdade consiste em faltar com alguém. aos nossos sentimentos”. esforço. ao movimento. força. e particularmente com falso. pois que traiu abertamente. além da distinção sob o ponto de vista das funções gramaticais. e caluniador. discreta e segura”. infidelidade (infiel). valentia. que é nosso igual ou superior. 232 ALEIVE. alento. também relativamente a nós. com perfídia e infidelidade. caluniador). aqui. Um homem alentado pode suportar grandes fadigas. – Adiante é também aplicado para designar ordem de situação. Entre os dois vocábulos traiçoeiro e traidor há diferença análoga à que notamos entre calunioso e caluniador. é o que iludiu ou procurou iludir a boa-fé dos outros”. calúnia (ca- lunioso. aleivosia (aleivoso). aquele que exteriormente revela ter uma respiração fácil e poderosa (alento) que lhe permite fazer grandes esforços. – Vigoroso refere-se à manifestação de força. (traiçoeiro. vigoroso. esforçado. mas é um pouco mais preciso que além. e é antônimo de antes. – Traição é. – Além. segundo Bruns. imediatamente depois”. valente. Falso é o que nos diz aquilo que não sente. passou para os inimigos sem astúcias com os seus próprios.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 157 “alegria aberta e serena. possante. pois a perfídia consiste em “faltar à fé parecendo fiel”. – Após é de todos os do grupo o mais preciso: diz – “logo depois. fortaleza (fortidão). ou para trás. possança. vigor. 233 ALÉM. “é aquele cuja arca do peito apresenta uma ampla superfície”. – A falsidade consiste no modo traiçoeiro. reforço. o que perpetra calúnia. traidor). e confundese. É antônimo de atrás. portanto. 234 ALENTADO. à traição.

” “O gladiador estava ainda em toda a sua pujança”.. que se punha à cinta. “Matéria explosiva. “A alma potente do justo a nada cede”. dizemos fortidão. e designa a arma que se julga corresponder ao gladius dos latinos. aumento de vigor”. É reforçado o homem que tem mais desenvolvidos os órgãos de ação física próprios para uma certa função ou esforço: reforçado do peito. vem de cladis “matança na guerra” (quasi cladius. Confunde-se com pujante e potente.. a fortaleza daqueles muros. cimitarra. Foi. o seu jogo enérgico mostram o vigor latente. é a qualidade de ser forte”. como em latim. – Forte é um termo genérico que exprime o poder de obrar ou de resistir. que se impõe pelo enorme poder dos músculos” (possança). na forma opulenta dos membros. Afinal essas distinções não são essenciais. segundo Varrão. ou álcool de fortidão maravilhosa”. – Gládio é a palavra latina gladius. que significa “espátula”. porque Cícero diz na oração pro Marcello: Gladium vaginâ vacuum in urbe non vidimus – “não vimos na cidade espada desembainhada”. energético. ou do antigo castelo. no entanto. sem nenhuma ideia acessória.”. 6. “É à valentia dos soldados. – Fortaleza é “a energia moral. terça- do. – Reforço é “acréscimo de força. usada em sentido figurado por escritores de boa nota para designar o poder supremo. 1. onde diz: Detrás dos Vexillarios vão Hastatos. portanto. etc. disse: Quis generum meum ad gladium alligavit? – “Quem foi que atou meu genro àquela espada?” O primeiro talvez que usou esta palavra em sentido reto. movimentos pausados: nisto se distingue sobremaneira daquele que é vigoroso. contudo. tanto pelo menos quanto à bravura do general. que se deveu a vitória”. que potente adita à noção de “poderoso. mesmo quando não as emprega: o movimento dos membros. Há pessoas magras que são fortes. Não se sabe ao certo qual era a forma desta arma ofensiva entre os romanos. – Esforço é a ação moral ou física de que alguém é capaz. na tradução dos Mártires. – Valente é aquele que não teme o perigo e é capaz de enfrentá-lo. E zombando de seu genro Lentulo. “Quando operou aquela possante máquina de guerra. – Espada – diz Roq. eficaz”. – Robusto (do latim robur “força”) diz-se da pessoa que no vigor muscular. preferimos dizer força. pois o vigor manifesta-se na energia dos movimentos. durindana. – Possante quer dizer – “que tem grande força.. montante. Este vocábulo. Exemplos: “A fé aumenta a fortaleza das almas”. “O leão tem mais força que o burro”. tórax amplo. e que possante sugere ideia de “opulência de força” e “majestade de aspeto. “A potência daquele espírito. – é palavra italiana e castelhana. a fortidão do seu gênio. só se aplica à força exercida pelo homem. a ideia de ativo.” – Força é “capacidade de ação ou de resistência física”.. sabre. O homem robusto tem membros atléticos. que pujante se diz daquele que é capaz de vencer em pugna. mas deve ter-se como provado que se metia em bainha.. gládio. que vem do latim bárbaro spatha. chanfalho. 235 ALFANJE. E se se trata da propriedade correspondente nos inorgânicos. que sendo de pequena estatura. foi Filinto Elysio. pois dizemos também: a força da dinamite. que. daquelas grandes virtudes ou daquelas construções maravilhosas”. das pernas. espada. revela força e saúde. Com gladios na segunda forma. quod ad cladem sit inventus). trazia uma grande espada à cinta. do grego spathe. dos braços. etc. assim como as há muito corpulentas que não são robustas. Quando essa capacidade é atribuída aos animais. e espada de folha larga na ponta. O indivíduo esforçado é o que tem qualidades para vencer pelo trabalho. e que era longa. e também um castigo de .158 Rocha Pombo manifesta-se exteriormente. É preciso notar.

que depois de não poucos esforços de seu Mestre foram elevados a tão alta dignidade. II. falando dos habitantes de Moçambique. Segundo a preposição que se lhe ajunta. larga. diz: “Flor enfim da terra. ou o fim dos fins. logramos nosso intento. Depois de enumerar os formosos dotes de Helena. 24). curta e curva. diz: “Como homens alfim levantados do pó da terra. terminou seu discurso”. Miguel de Asnide era tão agigantado que trazia na cinta um montante por espada ordinária (D. e nomeadamente se houvéramos de traduzir aquele lugar de Vegecio. decisiva ou positiva sua significação. enferrujada. – Sabre é “espada pequena. pelo comum desejada. ou de uma enumeração: “Enfim acabou de falar.. mas é mister distingui-las. que significa. L. As duas primeiras não resolvem absolutamente. que tem só um gume. – Montante – define Aul. de uma conversação.. – “grande espada antiga.. de uma arenga. disse: Por armas têm adargas e terçados. e os espanhóis da sua tizona. e assim dizemos: “Depois de havermos gasto tanto. Chama-se fim ao termo material de uma coisa. 47). é mais ou menos extensa. Mui sensato é este parecer. de S. tivemos alfim a ventura de sair bem em nossa empresa”. não. afinal. pelo que também se lhe dava o nome de espada de ambalas mãos. por fim. e assim nos servimos desta palavra. ou das areias da praia. como disse Camões. irrevogavelmente. Fr. definitiva. gladios majores.. quos semispathas nominant – em que não poderíamos deixar de empregar os dois vocábulos gladio e espada. – Cimitarra é “espada pérsica. – Enfim é um modo translatício..” (II. depois de se haverem vencido todos os obstáculos. de Souza e por Vieira”. Confundem-na muitos com enfim e com finalmente. finalmente. – Durindana é termo cômico e burlesco. e usada por Fr. e cada ano cortada . – Terçado do castelhano terciado. Luiz) que se use esta palavra em sentido reto quando aludirmos aos usos bélicos dos romanos. quos spathas vocant. é espada curta e larga. velha. falando da peste: “O gladio que feriu o povo”. e de três dedos de largo”. ou pelo menos mais curta que o terçado. Os seguintes lugares de Vieira talvez possam servir de modelo neste caso. deixam alguma coisa que esperar: a terceira. ou que desejávamos. de que usam os valentes e denodados cavaleiros em suas lides. – Mais positivo e terminante que as duas expressões anteriores é o advérbio finalmente. – Alfanje é espada mouresca e turca. e poética.. De Re Milit. por última conclusão. É palavra muito usada nos clássicos. resta que se adote e se observe: do que duvidamos em tempos em que se vêm postergadas outras mais importantes observações acerca de nossa tão maltratada língua. – Diz Roq. de figura curva. pesada e terrível. que se brandia com ambas as mãos para acutilar por alto. e por ele se designa uma espada grande. F. Falando ele dos apóstolos. pelo que nos atreveríamos a dizer que é a conclusão das conclusões.. 15: Habent. I. que “alfim é expressão castelhana mas admitida em nossa língua. como os franceses da sua flamberge. que designa a conclusão.. É hoje usada na gendarmeria”. et alios minores. de aço fino. senão usando de um circunlóquio extenso e escusado. ainda mais burlesco do que durin- dana: é “grande espada. que não corta”. para zombarmos da valentia dos fanfarrões que se gabam de façanhas inauditas. Alfim denota que. do Couto)” – Chanfalho é termo vulgar. 236 ALFIM. – Quer o autor dos Sinônimos da língua portuguesa (D. ao cabo de tantas fadigas. (Lus. e também ao conseguimento do objeto que nos propusemos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 159 Deus. de um discurso. pois Camões. enfim.

e o primeiro não só pouco usado. são muito expressivos. nem é preciso indicar. sem determinar o lugar. O segundo. algures.. próprio da poesia e do estilo elevado. “algoz diz-se melhor de quem martiriza moralmente. “Depois de nos mostrar toda a casa. dizemos afinal. – A locução por fim equivale a “finalmente”. E começando aquele famoso exórdio do sermão sobre o dia de juízo. tanto à vista como no sítio de que se acaba de tratar. posto que se refira igualmente a pessoas ou coisas indeterminadas. e aplica-se hoje com sentido análogo. ou outro qualquer (que faça de algoz contra alguém.. ou que é capaz de fazer morticínios”. (Roq.). e dá a entender que são conhecidas e que se poderiam nomear se necessário fosse”. – Alheio indica apenas que o objeto não é nosso. ou que lhe não ocorrem. Cobiçar o alheio é cobiçar o que não é nosso. suficiente não obstante para que em muitos casos as duas expressões não possam empregar-se indistintamente. levou-nos por fim ao parque. Não obstante. – Carrasco e verdugo designam o indivíduo que tem o ofício de executor. 5). que aquele que fala não conhece bem. cobiçar o que é de outrem é cobiçar o que pertence a determinado indivíduo. estranho. de outrem. da execução religiosa. – algures. diz Bruns. “em conclusão”. executor. – Quanto aos três primeiros.” 237 ALGOZ. – Executor substitui a quase todos os outros do grupo. isto é. es- tes dois advérbios “são atualmente pouco usados na linguagem culta. – Ali diz propria- mente – “naquele lugar”. para designar o indivíduo que imita contra alguém as funções do sacrifício. além. – Carnífice diz – “homem sanguinário. 241 ALI. isto é. a ser sacrílega.160 Rocha Pombo 238 ALGUNS. etc. diz: “Abrasado finalmente o mundo”. e que passou. é menos vago. e por certo merecedores de serem revividos”. senão já quase desconhecido. lá. – “Entre com o arado do tempo”. carrasco é termo popular. é simplesmente o que executa a sentença. Entre alheio e estranho também se nota a seguinte diferença: o alheio não é nosso. senão que ignoramos se tem dono”. de outrem não só indica que o objeto não é nosso. por isso mesmo. (III. mas afirma que outrem é seu dono. – Algoz é termo culto.. 239 ALHEIO. alheio e de outrem – escreve Bruns. No sentido figurado. carrasco. aí. – Segundo Bruns. verdugo. sacrificador. 146). “Afinal chegou o nosso dia”. – Sacrificador era o encarregado de sacrificar as vítimas entre quase todos os povos antigos. – Resta-nos dizer que o primeiro do grupo é hoje muito pouco usado: em vez de alfim. – há uma muito leve diferença. – Alguns “refere-se limitadamente a pessoas ou coisas indeterminadas. certos. o estranho não só não é nosso. algures = “em algum sítio”. subentendendo-se que é quase sempre a de morte. “Carlos I de Inglaterra foi executado por um algoz mascarado que se prontificou a substituir o carrasco que havia desaparecido”. (XII. algoz é esse indivíduo. que faz. ou da tortura como cerimônia de culto. não exclui nenhum. 240 ALHURES. alhures = “noutra parte”. carnífice. – . são: “denominações comuns ao executor da alta justiça nos países onde vigora a pena de morte”. que o flagele e martirize como se quisesse tirar-lhe a vida). dos que martirizam moral e fisicamente”. – Alhures (pronuncie-se alures) exclui o lugar em que estamos. verdugo é palavra castelhana que se introduziu na língua portuguesa. acolá.. carrasco e verdugo..

sem nenhuma outra ideia acessória”. e as condições. – Núpcias é palavra latina. que. – Confederação é “uma união. peanha. 244 ALICERCE. e não requer as formalidades com que se estipulam as alianças. têm interesses ou sustentam princípios diametralmente contrários. coalizão. – Casamento é o vocábulo que exprime a associação do homem e da mulher. o banquete nupcial. corporações. Aliança diz-se com respeito às pessoas e às coisas. união. José de Lacerda). – Liga é uma semelhante união. A coalizão visa a matrimônio. É termo genérico do direito das gentes. ou entre partidos que. podendo ser boa ou má. significa o festim doméstico. – Coalizão – diz Bruns. a desproporção das fortunas. Há homens que contraem alianças que não estão em relação com a nobreza da sua prosápia. confederação. – Acolá diz – “ali. ao rito e aparato com que costuma celebrar-se o matrimônio. do outro lado de um lugar ou um acidente à vista. entre reis. embasa- mento. pedestal. fundamento. porém liga. – Neste grupo. com que é estabelecida. que obrigam as nações que se aliaram”. que se refere precisamente ao contrato. (Bruns. ou cada partido volta ao seu anterior antagonismo. pelo contrário a palavra liga toma-se quase sempre em mau sentido. sem relação necessária às leis religiosas ou civis de cada nação. – União é a palavra que mais se relaciona com as conveniências pessoais dos cônjuges. 243 ALIANÇA. e sobre a qual assentam os muros de uma constru- . “a palavra aliança refere-se ao que da união é aparente e se relaciona com as convenções sociais. etc. pelo qual dá um ao outro poder sobre seu corpo.). – “é uma espécie de liga momentânea. nem o que está ocupando a pessoa com quem falo”. – Alicerce (ou alicerces) é a “parte sólida.. um fim. e tem lugar mediante convenções particulares. mas que não é o que eu ocupo. 242 ALIANÇA. maciça de alvenaria. em circunstâncias normais. consórcio. – Além significa – “mais para diante. ou entre partidos que não têm interesses opostos. supõe maior formalidade. conseguido este. enquanto que a coalizão se faz entre Estados. segundo Roq. ou à anterior indiferença”. na parte oposta àquela em que estou. comumente. cada Estado. – Noivado é “expressão vulgar com que se designa a cerimônia religiosa do matrimônio católico. etc. naquele lugar que está à vista. exprime o contrato. bodas. do castelhano boda. convertem-se em regras de direito público. encravada no solo firme. base.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 161 Lá significa – “naquele outro lugar”. Assim dizemos que a diferença de religião. – “Aliança é a união de vontades e forças para fins determinados. Duas pessoas de gostos diametralmente opostos formam uma união desgraçada. nem produz resultados iguais. nuptiœ. povos.” (D. – Bodas. não impediram a aliança de duas famílias. – Aí quer dizer – “nesse lugar”. e dela difere em que a liga se celebra geralmente entre Estados. e refere-se propriamente às solenidades legais. noivado. porém menos duradoira. – Matrimônio. para realizar-se. ou mesmo não visível”. A aliança entre soberanos (ou entre Estados) forma-se por via de tratados. liga. casamento. refere-se às pessoas. entre homem e mulher. núpcias.. isto é – no lugar em que se encontra a pessoa a quem nos dirigimos.. A palavra aliança toma-se indiferentemente. com que se soleniza esta festa de família. isto é – no lugar que não é o em que me encontro eu presentemente e que está distante de mim. e também as bodas que a este se seguem”.

ordinariamente de mármore. vender. “pé”. – Engodar é “atrair com presentes e mimos.). pelo menos nem sempre. Uma montanha é abalada até nos seus fundamentos. a máquina de guerra dos antigos. consta de base. enquanto que base designa apenas “os pontos por onde começa o edifício a erguer-se do solo”.: “Fundamento usa-se mais no plural. a qual não se inclui.). melhor no plural) é “toda a área de solo.). sensível diferença: embasamento não é mais do que tudo aquilo que acima do solo serve de suporte ao edifício: assenta. Base emprega-se ordinariamente no singular e falando de um objeto pouco extenso. que sustém as colunas. O fundamento é aquilo sobre que assenta a base. fazendo-lhe promessas. etc. a que falte alguém com o seu dever”. cuja base assenta nos fundamentos do templo” (Volt. chamada em francês tortue e que era móvel. sobre que se põe estátua ou busto. – Base é termo geral. – Subornar é “induzir de qualquer modo. ou como seu pedestal”. o embasamento sobre os alicerces. J. 246 ALIENAR. e do teutônico stall.. e designa a peça de pedra ou de madeira. corromper. O fundamento está oculto na terra. a base está acima da terra e se vê: cavam-se. e sua base tem tanto de circunferência. aqui. boas palavras e artes”. – Seduzir é “desviar do reto caminho. e indica um corpo sólido. as estátuas monumentais. de uso tão frequente no sentido figurado. se não estabelecerdes essa base mesma sobre fundamentos inabaláveis”. e tratando de um edifício. o aparelho de solidez e segurança sobre que repousa um edifício: é o vocábulo embasamento. seus fundamentos são como suas raízes. – “Peanha é palavra portuguesa formada de pé e anha. O ato de corromper envilece tanto o corrompido como o que corrompe. – Fundamento (aqui. iludindo a boa-fé. (J. “por todos os meios ilícitos e desonestos. Mas o que é decisivo na escolha entre estas duas pa- lavras. “base.162 Rocha Pombo ção”. poderia confundir-se com alicerce se este não sugerisse a ideia. assenta-se uma base. sobre que assenta uma construção”. que o caracteriza. – Pedestal (do francês piédestal. tra- ficar. soco e cornija. enganando com artifícios. cambiar. às vezes movediça. como um rochedo. compreendendo a estrutura subterrânea. no entanto. de pied. “pôr alguém a nosso favor e levá-lo a fazer o que é do nosso interesse”.. subornar. permutar. falando-lhe às ambições”. Entre este e fundamento há. seduzir. é termo de arquitetura. no entanto. corrompendo com habilidades e finuras”. com ofertas e pagas. como estes assentam sobre os fundamentos. “de pau”. lançam-se fundamentos. mas não um fundamento ou fundamentos. – Aliciar é “trazer alguém para o nosso partido. e tratando-se de edifícios. na maioria dos casos. de apoio firme. pois. – Corromper é. – Peitar é “por meio de paga.. – Alienar exprime a ideia geral que os outros verbos deste grupo especializam: a ideia de desfazer-se . – Sobre fundamento e base escreve Laf.. que alguns querem seja corrução de lignea. ou uma coluna: sua base é seu pedestal. Há uma palavra que parece mais técnica para designar o assento geral. tinha uma base (Roll. trocar. apoderar-se da vontade e da ação de alguém para fins criminosos ou indignos”. escambiar. muito mais o corrompido.. na palavra base”. é que “fundamento encerra a ideia de solidez. apoio”. “O mago encerrou-me numa estátua colossal. significando “a parte inferior sobre a qual repousam os corpos”. “Não basta que a virtude seja a base de vossa conduta. é coberta de habitações ou de verdura. engodar. e varia segundo as ordens de arquitetura”. pei- tar. 245 ALICIAR.

No sentido figurado. . principalmente na vinha. nutrir. não se pode dizer. e os trocam por outros desse país. arrolar. que “se refere à ideia da necessidade que de comer têm os seres viventes. indica a operação de trocar. e. não propriamente permuta. culo sustentaram com sua influência e conselhos muitos erros e heresias”. relacionam-se fatos. catalogar. Se a cessão é feita mediante dinheiro. no seu lugar. diz Roq. nas condições em que se encontra. e com explicações que facilitem a respeito das coisas catalogadas o que se deseja saber de cada uma. a atitude. passá-la a outrem. os que ficam. Quando os mercadores de um país vão a outro (ou vão entre bárbaros. monda.” – Inventariar. mantém-se a promessa. – é o ato de cortar os ramos desnecessários ou nocivos à existência da árvore. Os poderosos do sé- inventariar. nem – arrolou-se). – Nutrir explica esta mesma necessidade satisfeita em proveito do indivíduo pelos bons resultados da digestão. é arrolar e descrever minuciosamente os bens de um espólio ou de uma execução. de emprego. a opinião. só por isso. mas mediante dinheiro (vender).” 249 ALISTAR. de lugar”.. no entanto. limpando ao mesmo tempo. que os dois países permutam. Tanto assim que se diz: alistou-se eleitor. – Monda se diz do ato de arrancar à mão. de cedê-la. poda. em geral.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 163 alguém de alguma coisa. Há. As pessoas caritativas sustentam muitas famílias necessitadas. que é pouco usado. dizemos que se vendeu. – A alimpa – diz Bruns. O literato alimenta-se lendo Horácio. – Sustentar significa prover do necessário para a vida. etc. “troca”) distinguem-se assim: escambar. ou com sacho. papéis. dizemos que a lenha alimenta o fogo. as más ervas que crescem entre os cereais. – Alistar distingue-se dos outros deste grupo em sugerir a ideia de inscrever com certa solenidade a pessoa que se alista. e nutre-se com as verdades da filosofia. arrolam-se os instrumentos e armas indispensáveis para a viagem. – Cambiar e escambiar (do mesmo tema cambio. diz o mesmo que relacionar. a comida diária. sem mais ideia alguma acessória.. Mantém-se a família. tráfico. o primeiro verbo sugere melhor a ideia de mutualidade entre os que fazem a transação. manter. dar o sustento. a água as plantas. Para haver permuta seria preciso que do país onde se vendeu ou trocou fossem também mercadores ao outro país. 247 ALIMENTAR. ou que há permuta entre os dois países.. e cambiar é mais propriamente “trocar moeda de um por moeda de outro país”. se damos uma coisa por outra. permutar significa – “trocar de posto. – Manter diz propriamente – “conservar alguma coisa como está. 248 ALIMPA. mas sugerindo ideia da indagação e pesquisa que faz o que inventaria. Relacionam-se os objetos que vão para o depósito. da ferrugem e outros parasitas que os cobrem. na acepção jurídica. por exemplo) levar artigos de comércio. alistou-se no partido (e não – relacionou-se. Haverá troca. – Catalogar é “arrolar em certa ordem. alguma diferença entre permutar e trocar. relacionar. que diz apenas – “pôr em rol”. Arrola-se a roupa. Catalogam-se livros. e que se estabelecessem assim entre os dois mútuas relações de comércio. dizemos que foi trocada. Nutre-se o rico de bons manjares. Fora do comércio. sustentar. ou que se a permutou. – Relacionar é “dar em relação com as informações precisas”: ideia que se não encerra em arrolar. Alimenta-se o pobre com umas sopas. – Poda é “o ato de cortar a rama supérflua que de ano para ano fica nos vegetais. etc. – Alimentar.

que se conduz sobre cangalhas em viagem”. carcás. Assim o define o prof. – Peçuelo (ou melhor. etc. pois são sempre duas as bruacas. peçuelos) é uma bruaca menor. de junco. V. cesto de feijão (e não – cesta). e em que se leva fato de jornada. para que se equilibrem sobre o animal. e mais ou menos semelhante a uma bolsa para dinheiro”. seirão. em uma nota. e este poderia comparar-se a bolsa ou estojo se não fosse a particularidade de ser a guaiaca presa sempre à cintura. cesto flexível de vime. feito de varas entrançadas. e outros quaisquer objetos”. – Açafate (ou çafate) = “pequeno cesto tecido de vimes delgados e descascados. guaiaca. e diferentes objetos”. é “mala de algodão ou linho com abertura no meio: serve para conduzir roupa ou mantimentos em viagem. alforje. Diferem.” – Mala é “saco de coiro. papéis. (D. de junco ou de esparto. aparelhos de profissão. – Picoá. – Diz Bruns. Seirão = “seira grande. assim define esta palavra: “Cinta de coiro lavrado. e serve para guardar ou conduzir pão.164 Rocha Pombo 250 ALJAVA. frutas. de modo a formar como dois sacos ou compartimentos. no seu romance Divina Pastora. ou mesmo de cabedal. cesta. seguro por meio de correias”. fechado ou não com cadeado ou chave.” (Aul. segundo o prof. de madeira. para guardar coisas de uso.. como se vê. e que serve para conter ou transportar roupa. com divisões e escaninhos. do grego. pois. Usa-se para trazer ao ombro. mala. acrescenta o mesmo autor. No Bra- sil dizemos – cesta de costura. etc. – Bruaca (ou broaca) é termo nosso.). largo e leve. que o próprio cavaleiro leva consigo à garupa. Dom. – Saco é “peça de pano ou de coiro. Usa-se mais no plural. que se põe sobre as bestas de carga”. Coruja que o dr. – Alforje (usado comumente no plural) é. mochila. cesta de roupa suja (e não – cesto). de cascas de embira. servindo para guardar objetos de costura. es- tojo. saco. geralmente com asas. descoberto (ou mesmo com tampa móvel). e com a abertura no centro. – Guaiaca é outro. peçuelo. que a primeira e a terceira palavras deste grupo – aljava e carcás – são sinônimos perfeitos e com qualquer delas se designa o estojo onde se metem as setas e que se traz pendente do ombro. jacá. bolsa. quanto à origem: aljava nos vem do árabe. madeira. – Cabaz = “cesto fundo. etc. estojo de costura. segundo Aul. dobrada. carcás. É. ou folhas de palma.” – Seira = cesto de palha. – Bolsa é “um saco de qualquer estofo. e ordinariamente de forma retangular. “um saco fechado em ambas as extremidades. pois. – Mochila é “uma espécie de saco de sola para trazer roupa e outros artigos de uso que os soldados de infanteria e de caçadores em marcha põem às costas. – Cesta é “vaso grande. etc.. – cesto de bananas. balaio.) – Balaio é “cesto grande. bruaca. a fim de igualar o peso dos dois lados”. Vieir. sem arco ou asas. açafate. grande. um nome indígena mais equivalente a alforje. Pereira Coruja: “espécie de saco de coiro. etc. de coiro ou de pano. de três ou quatro dedos de altura. Também se costuma chamar sapicoá”. – Estojo é “uma caixa. cesta. acrescenta que é ordinariamente redondo. de alforjes apenas em serem de coiro. esparto. Diferem apenas. etc. de palha. seira. José Antonio do Valle. de taquara partida. alcofa. oleado ou pano. em forma de alforje. usado entre os tropeiros e homens do campo. rendas e também flores. cabaz. fechada por todos os lados menos por um (a boca) destinada a conter provisoriamente diversos objetos miúdos. lona. ou sobre as cavalgaduras. segundo definição de Aul. picoá. a fim de resguardar ou de os transportar)”. Estojo de desenho. Diz o prof. bordados. Coruja. farinha. quase . – Cesto é uma cesta mais grosseira. que serve para conter frutas. – Alcofa é. com bolsa para guardar dinheiro e mais misteres de um viajor”.

ar que se respira. ainda depois de separadas deles. os demônios são espíritos. – Regelado é redobramento do precedente e diz – “muito frio.” – Gélido é termo poético. no entender de alguns etimologistas. – Espírito é a palavra latina spiritus. o princípio. gelado. gélido. espírito. e que tem o espírito penetrante.. os anjos. Espírito difere de alma. “sopro”. as substâncias espirituais que animaram os corpos humanos. (Bruns. nem em todos os casos se podem empregar indiferentemente. nobre. sem relação nenhuma com o corpo. briosa. derivam a palavra alma do verbo latino alo.. aos sentimentos.. de spiro. poético e da linguagem vulgar. frigidus) diz também “frio. alma e espírito nem sempre são sinônimos perfeitos. re- gelado. glacial é científico. segundo. para condução de coisas miúdas”. representa esta palavra. melhor do que este (que designa apenas estado quase sempre). zona frígida (zona fria. e significando o mesmo que gelado. à inteligência. alma refere-se aos atos. tal é aquele de Vieira em que. a gélida indiferença (não – gelada). Vieira disse. “ar. Os gregos designavam a alma pela palavra psyche. Noutra acepção.. are. termo latino que vem do grego anemos. exprime qualidade ou modo de ser. Seja qual for sua etimologia. Álgido se diz do que comunica a sensação do gelo. do movimento de todos os seres viventes”. ânimo. – Gelado quer dizer propriamente – “reduzido à temperatura do gelo”. aos afetos. profundo. ou mais frio do que o gelo. espírito.) – Frio significa propriamente “sem calor”. querendo encarecer o valor da alma sobre o corpo. – Se- gundo Roq. glacial. “vivificar. feito de esparto ou de taquara”. almas do outro mundo. glacial. frígido. ou “que não é quente”.. 251 ÁLGIDO. Além disso distinguem-se estes adjetivos por sua diferente significação. senão em alguns. e clima frígido significariam outra coisa). frio. primeiro em encerrar a ideia de princípio subtil. alento”. Deus. sopro. ao pensamento. Frígido (do mesmo latim que deu frio. Dizemos: clima frio. inteligente e livre. falando do demônio: “É espírito: vê as almas”. nutrir”. invisível que não é essencial ao outro vocábulo. – “Álgido é termo científico e poético. onde há muito frio”. a que os franceses chamam revenants. “que quer dizer respiração”. do que está frequentemente gelado. faculdades intelectuais ativas que àquele só são acessórias. e talvez com mais razão. Falando do homem. Daí vem chamar-se psicologia à parte da filosofia que trata da alma. sendo que espírito só indica substância imaterial. “alma. empregado mais no sentido moral. “privado de calor”. No sentido figurado. vasto. em denotar inteligência. em sua significação mais lata. alere. água gelada (e não – gélida). que anima ou animou o corpo. a causa oculta da vida. outros. Dizemos: o gélido cadáver (e não – gelado). vem de anima. eu. Alma desperta ideia de substância simples.. mas não são almas. mas nenhum se lembrou ainda de dizer que o espírito era matéria. diz: “Tudo isto que vemos (no . Os filósofos materialistas têm querido negar à alma humana a qualidade de espiritual. isto é. do sentimento. qualifica-se de álgido ao que vive no que é glacial: as plantas e os animais álgidos vivem nas regiões glaciais”. “respirar”. e assim dizemos: as almas do Purgatório. coração. 252 ALMA.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 165 sempre com asas. devendo notar-se que. e vale o mesmo que sopro ou hálito. Diz-se que um homem tem a alma grande. e davam-lhe a mesma extensão que nós damos à palavra alma.. – Jacá = “cesto grande e grosseiro. chamam-se almas. É provavelmente esta última definição que caracteriza a diferença entre os dois.

quando é tomado como sede da fortaleza moral. etc. vil ou soberba. Segundo os afetos que o ânimo experimenta. aqui. além do calendário do ano. dispostos por meses. só folhinha e repertório são genuinamente portugueses. – Indicador será um guia mais particular: indicador das ruas. – Ânimo é a mesma palavra latina animus. de anemos. 71). para uso do clero. Particularmente. Na sua significação primitiva vale o mesmo que alma. quando se considera a alma como ser pensante. é provido de vária leitura e indicações interessantes. pois. – Repertório é uma espécie de almanaque acomodado às necessidades da gente do campo. – Guia. espírito. que contém em resumo aquilo que é indispensável em algum ofício. letra dominical. 253 ALMANAQUE. – Folhinha é o calendário adequado ao uso do povo. folhinha. nobre. – Diz Bruns. segundo a índole das pessoas a que é destinado. moderna na nossa língua com esta acepção. ou quando nela se vê apenas a faculdade intelectual. é o conjunto das faculdades que formam a individualidade psicológica. vademeco. e nisto se distingue de alma e espírito (se bem que nem sempre essencialmente). número áureo. ou altivo. vontade. quando exprime. grego. como esta.) – Manual é vademeco mais extenso. imenso – a alma (II. fórmulas ou noções de uso frequente em algum ofício ou profissão”. nem sempre é de rigor a distinção que faz Roq. entrada e saída do sol em cada um dos signos do Zodíaco. . no sentido restrito que tem neste grupo. há também folhinhas eclesiásticas. ou intenção. de espírito. é o indicador dos pontos por onde se tem de passar. – Roteiro. eu é a alma. e. indicador. indicação romana. – O calendário indica a ordem e série de todos os dias do ano. calendário. elevado. re- pertório. – Vademeco (latim vade mecum) = “folheto com indicações ligeiras. do mesmo modo que anima. – A palavra anuário. dos caminhos de ferro. Também dizemos: espírito baixo ou altivo. – Almanaque. ciência ou arte”. esforço. palavra árabe introduzida na língua espanhola. é folheto ou pequeno livro em que se encontram todas as indicações indispensáveis aos que se ocupam de algum serviço: guia dos viajantes. às repartições oficiais. quase sempre valor. ou do rumo que se há de seguir nalguma viagem. esforçado: o que com propriedade (em muitos casos) não se poderia dizer de alma. – Coração só pode ser tido como sinônimo de alma e de espírito: de alma. manual. guia. há o calendário parietal. – Prontuário é o “manual onde se acha prontamente o que se quer sobre algum ofício ou profissão”. e ainda menos de espírito”. que se compõe de folhas sobrepostas que se vão retirando uma a uma cada dia. abatido. soberbo. – Em linguagem filosófica. alma esforçada ou abatida. grande. prontuário. o princípio das estações. da coragem etc. e que passou desta para todas as línguas europeias. “livro pequeno. Além do calendário folheto. guia dos lavradores. e à burocracia em geral”.166 Rocha Pombo homem) com os próprios olhos é aquele espírito sublime. “órgão dos afetos”. ardente. roteiro. humilde. chamamo-la espírito. anuário. “que de todos estes vocábulos. porém o uso tem preferido este vocábulo para designar a faculdade sensitiva e seus atos: representa. designa um folheto ou livro (e às vezes livro bem alentado) em que. epacta. ou de mero passatempo. é uma espécie de almanaque cuja utilidade é particular às casas de comércio. vil. (Usa-se neste caso mais propriamente de itinerário. as fases da lua e as variações dos dias. designa também o santo ou a festa própria de cada dia do ano. Como notamos entre parênteses. pode ele ser baixo. se indicam os eclipses. ciclo solar.

para excitá-lo à rebelião. ou fazer as pazes com o amigo. as quais devem atribuir-se antes ao artifício retórico dos historiadores e poetas que à eloquência dos seus heróis. pois. nutritivo. em perigosas e decisivas circunstâncias. nutriente. – Entre nutriente e nutritivo há esta diferença: nutritivo (de formação vernácula) significa “de nutrição: que tem a propriedade de ser nutriente”. preleção. – Almeja-se voltar à casa dos pais. de nutrir. 256 ALOCUÇÃO. que. 167 apetecer. São arengas também os estudados e cerimo- . ambicionar. imoderadamente”. – Desejar é “ter vontade de conseguir ou de gozar alguma coisa: é querer com mais gosto”. – Apetecer é “desejar alguma coisa como por necessidade de ceder a exigências da própria natureza”. dis- curso. ou propriedades nutritivas de um produto vegetal (e não – nutrientes). – “é o gênero a que pertencem como espécies todas as composições oratórias. com o fim de o convencer e persuadir. que andam quase sempre os dois aplicados indistintamente. que se dirige a um grande concurso para comovê-lo. – Almo (do latim alimus. é a mais extensa.. – A palavra arrazoamento.ere) diz “fecundo. Nutriente (do latim nutriens) quer dizer “que nutre”. pretender. etc. – Aspirar é “desejar com esforço e veemência”. conferência. apetece riquezas. Os sábios e valorosos generais a acalmaram muitas vezes. por isso. como tendo por fim persuadir e mover. – Pretende-se um cargo de importância ou chegar a almirante quando se é simples marinheiro. sermão. – Aspira-se um bom lugar na administração.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 254 ALMEJAR. Ambiciona-se uma grande fortuna. Dizemos: as qualidades. ao coração. arenga. Em contrário sentido fazem os grandes conspiradores arengas ao povo. que nutre. ou um alto posto na política. que faz crescer”. a pessoas eminentes. Não seria. criador. – Cobiçar é “desejar o que não nos pertence. tomam diferentes nomes. e que excedem muito a nossa capacidade”. ou de o excitar a alguma ação ou empresa. – Deseja-se recobrar a saúde. elogio. as sublevações de seus exércitos com eloquentes e veementes arengas. ou o que está acima dos nossos méritos”. de produzir forças. – Criador é aquilo que é capaz de gerar. cobiçar. como as que Salustio põe na boca de Catilina para animar e enfurecer a seus cúmplices. proclamação. É certo. que alimenta. em notáveis circunstâncias. – Cobiça-se a bengala. aspirar. – Ambicionar é “desejar demais. querer do fundo da alma. de alo. criador. no entanto. o leite é muito nutriente (e não – nutritivo). ou possuir alguma coisa que nos agrada. A arenga dirige-se. panegírico. poder. – Pretender é “desejar coisas muito altas e de grande monta. – Apetece-se quanta fruta se vê nas mercearias. fala. – Arenga é uma espécie de arrazoamento oratório. – Almejar é “desejar ardentemente. vencer um embaraço. Arengas são as que os antigos generais faziam a suas tropas em vésperas de combate. e têm entre si algumas diferenças. 255 ALMO. desejar. prédica. homilia. o cavalo do Pedro. honras. oração. e mui comumente para animar os soldados a empreender com denodo a batalha ou qualquer ação perigosa. os fins e as circunstâncias. segundo a contextura. arrazoamento. próprio dizer que F. é um arrazoamento. Tudo o que se diz de viva voz a um auditório mais ou menos numeroso. prática. de todas as deste grupo.. Arenga-se também a corporações respeitáveis. e com serenidade e confiança nos votos com que se espera pela coisa almejada”. por isso que se razoa e se empregam razões para conseguir o fim que se deseja”. animado e vivo. Como diz Roq.

do alto do púlpito”. “oração”. etc. como a paz ou a guerra. de Eschines. ou fala dirigida a alguém sem aparato oratório.. Chamaram os latinos orações aos discursos que compunham com o maior esmero. “boca”. favoreça. escrita. – Preleção é o mesmo que “discurso didático. – Prédica é o mesmo que prática religiosa. ou por um general. um conquistador numa cidade. mover e interessar a uma pessoa. como as de Isócrates. um general. raciocínios coordenados entre si. animados e engrandecidos por quantos meios subministra a arte da eloquência. – Panegírico é a “oração em que se faz a apologia. pedir. assim chamavam. o louvor de alguma grande vida”. o general à sua tropa. diz-se com muita frequência que o coronel fez uma fala a seus soldados. onde diz. João de Castro. Às vezes corresponde às arengas dos antigos generais.” – Fala é termo vulgar que vale o mesmo que prática no sentido em que aqui a tomamos. rogar”. para persuadir. a defensa. de Demóstenes. para importantes sucessos ou negócios públicos. fúnebre... ou melhor. – Alocução é discurso breve. e chamamos ainda hoje. no entanto. – Proclamação é “uma fala ou arenga mais solene. de explanar”. de Mirabeau. falando do primeiro: “Fez aos turcos uma breve prática. uma prática destinada a esclarecer algum ponto de doutrina ou alguma passagem das Escrituras”. que significa “falar.. ou a um ser superior. jaculatória. para chegar aos fins que nisso propôs: o que verifica por uma dedução de ideias. – Prática é exortação menos solene e menos veemente que arenga. Usa-se mais comum e geralmente em sentido religioso. dizer muito alto”. e feita com certa solenidade. e daqui oratio. de Cícero. De modo que àquilo que os antigos chamavam oratio. por ocasião de algum notável acontecimento que interessa a Igreja.oris. Há. sobre questões de alta monta. tais são as que Jacinto Freire põe na boca de Coge Cofar e de d. o superior a seus súbditos. se bem que não exclua a noção de instruir. práticas impertinentes. vocal. socorra. os governadores e demais autoridades. ou prática em que se explica uma lição”.. ao entrar um príncipe. – Do substantivo os. – Conferência tem aqui a significação particular que lhe damos . lhe dirigem as câmaras. etc. suplicar. agora lhe chamamos discursos no sentido oratório. de Fox. perante o povo. Esta palavra é mais bem recebida entre o vulgo do que arenga. mental. que em seu sentido reto é um arrazoamento ou alocução disposta com inteligência e arte.”: e do segundo: “Acabada a prática. tais são os de Pitt. Po- rém.. entendendo por ele uma composição literária feita por qualquer de nossos oradores acerca de algum importante assunto.168 Rocha Pombo niosos discursos que. proclamar. uma diferença muito subtil entre estes dois vocábulos: “prática sugere intenção de instruir. – Homilia é “um sermão menos formal e solene. e que nós traduzimos pela palavra oração. a formação e aprovação de leis. dirigida a um povo ou a um exército por um príncipe. de causas particulares em que ele devia decidir. enquanto que “prédica sugere mais a ideia de anunciar. as da Igreja segundo o ritual. Dizemos oração dominical. a estes arrazoamentos públicos orações. e sempre destinada a nutrir esperança ou coragem na alma daqueles a quem se dirige”. como devida homenagem que se lhes rende e jura. aos que fazem os oradores modernos se lhes dá geralmente o nome de discursos. em grandes momentos. Diz-se ordinariamente do que o Papa dirige aos cardeais em consistório. ou sacropolítica. a que nos ampare. – Sermão é “uma prática religiosa. tiraram os latinos o verbo orare. ou nos perdoe as faltas que havemos cometido. como as orações que fazemos a Deus e aos Santos. pensamentos. e só se dá de superior para inferior. que ele quase sempre toma no mau sentido de razões longas ou ininteligíveis.

nunca. orgulho. impostura. pelo desprezo com que encara o resto dos homens. em regra sem grande extensão. fazer-se legítimo: a soberba. mas distingue-se deste em ser mais justo. – A empáfia é a soberba arrogante. e consiste em parecer que se é altivo. do nosso valor. é possível que se torne para o orgulhoso em forte estímulo na sociedade e na vida. e que compreende certo espaço coberto.: “é um pórtico sustido em pilares diante da porta de algum edifício”..: “alpendre e alpendrada (ou alpendrado) têm por fundo o próprio edifício. e pode ser aberto. portanto. o telheiro está contra o edifício ou isolado. inda que impropriamente. da nossa família. elogio histórico (e decerto ninguém diria panegírico histórico ou fúnebre. 258 ALTANERIA. em casas nobres. – Pórtico é “portal de grande edifício. palácio. dá-se o nome de anteportaria.” – Vestíbulo é “o espaço que vai da rua até à porta que dá no interior. Empáfia tem ainda alguma coisa de ostentação e fanfarrice. como o entende Roquete21. como templo. cuja abóbada é quase sempre sustentada de colunas e que serve de entrada”. que também nos dá átrio) é “o espaço que fica à frente do pórtico. O orgulho pode ainda justificarse. fatuidade. a nobreza de alma e outras grandes qualidades morais. Ninguém se vexaria de dizer que tem orgulho de algum bem magnífico. 21 Alpendre. e sobretudo com soberba e empáfia. Hoje alpendre diz-se quase exclusivamente daquela parte de um pátio que está coberta por telhado. diz Roq. pórtico. que mostra o sobranceiro. chama-se galeria”. rico. telheiro. – Altaneria é uma afetação de altivez. – Nas suas manifestações. alpendrada. Ao alpendre. pelos ares insolentes. de ter preeminência sobre outros. soberba. lida perante um auditório”. e raramente deixará de revelar pequenez de espírito. Sendo o orgulho o alto conceito que temos de nós próprios. – Sobranceria. etc. – Segundo Bruns. elogio fúnebre. alpendrada o alpendre sobre que abrem as janelas de alguns chalets. Quem dissesse que é soberbo. adro. ou não”: diz-se mais particularmente do que se vê à entrada dos templos de alta construção. O sujeito altivo é aquele que está no mundo como quem está no que é seu. O orgulho pode ser nobre. – Altivez é antônimo de humildade. de alguma honra excepcional. – Aplica-se o vocábulo átrio ao “pátio que nos grandes edifícios leva da entrada até à escadaria. Orgulho difere de soberba em ser um sentimento que não é incompatível com a discrição. é a altaneria exagerada até a presunção.. que vive entre os homens como entre iguais. sobranceria. forte. ou de não ter vícios torpes.) 257 ALPENDRE. altivez. – Adro (do latim atrium. a magnanimidade. pode dizerse. ou quem se mostrasse soberbo de alguma coisa – estaria julgado só por isso. empáfia.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 169 hoje comumente: designa a “composição literária ou científica. um ridículo entono. ou em geral. A soberba não é só a manifestação do orgulho: é mais um falso orgulho. não se tendo como inferior a . a altaneria e a sobranceria podem facilmente confundir-se com orgulho. arrogância e altaneria – do que propriamente orgulho. pois que panegírico diz propriamente “discurso festivo e laudatório”. – Elogio é quase panegírico. mais legítimo como testemunho. Dizemos. vestíbulo. e à alpendrada. de estar acima de outros. nos grandes edifícios”. Denominamos alpendre o adro coberto que há diante da porta de algumas ermidas e conventos. ou mesmo ser indício de virtudes excelentes: a soberba é sempre fútil. átrio. valente. um orgulho afetado e estulto. que se mostra pelos gestos.

170 Rocha Pombo ninguém. manifestação de legítimo orgulho. ao peso. re- ternativa é a opção entre duas coisas ou ações. (Bruns. reconstituir. ostentoso. Deixa de ser altivez todo movimento de alma que não se funda numa perfeita consciência do direito. reorganizar. sofrem mais que nós outros. calculamos a dimensão da montanha ou da torre desde a base até o cimo. a coisa que se renova toma um novo aspeto. mas é usado este verbo para designar o ato de “dar organização diferente mesmo àquilo que já existia ou que ainda existe”. mas distingue-se de todos. – Transformar também se confunde com reformar aqui. 261 ALTEZA. mais do que soberba talvez. Posso ir ao Porto por mar ou por terra: é uma alternativa. Ou casar. Alteza. chamamos a essa operação variar. No primeiro caso. modificar. ou que se mostra arrogante com uma criança. porém. ou se se fazem alterações num certo sentido – dizemos que isso é modificar. – Se se vai alterando pouco a pouco. – Alterar enuncia a ação geral que os outros verbos deste grupo particularizam: é dar – às partes.. renovar. dilema. – Reconstruir. corrigir. Nesta frase: “Os reis. os que não temos de onde cair” – a palavra alturas está aplicada também a elevação moral. retificar. – Remodelar é “refazer alguma coisa sobre novos moldes ou modelos”. ambas possíveis. é “construir outra vez ou de novo”. – Dilema é a alternativa ou disjuntiva em que não há opção satisfatória”. contada da sua parte inferior até à parte superior: só se aplica a coisas físicas. disjuntiva. – Se se muda de forma. que significa alguma coisa como substituir. – Reorganizar seria propriamente “dar organização nova àquilo que havia deixado de existir”. e sem que se contradigam. A coisa que se transformou. quando tombam das suas alturas. no entanto. se é que alguma soberba exista que não seja tal. – Fatuidade é a soberba do imbecil.. substituir. do sagrado. a fazer alarde de si mesmo. transformar. à forma. em caso algum teria sentido físico. Não é altivo o indivíduo que afronta um velho.. renovar. – Altura. das quais uma há de ficar precisamente prejudicada. – Pode-se dizer – alti- tude de uma montanha. – Reconstituir é “dar a alguma . do honesto. conforme indica o prefixo re. de orgulho – que se confunde com bazófia. não é uma distin- formar. à cor de um corpo ou de um todo e também às suas condições ou ao seu modo de ser ou de funcionar – uma nova disposição. emendar. é uma afetação de grandeza. de uma torre. ou de uma montanha.. consideramos a elevação da torre ou da montanha sobre o nível do mar. usamos do verbo mudar. – Alteza só se emprega tratando-se de elevação moral ou social. variar. Impostor é o sujeito cheio de si. 259 ALTERNATIVA. de superioridade. – Impostura. 262 ALTERAR. como já se viu no § precedente. De resto. refazer. e principalmente do último. altura de uma torre. com muita empáfia.) 260 ALTITUDE. altura. – “Al- ção absoluta. na maioria dos casos. no segundo caso. à estrutura. altura. reconstruir. – Reformar é quase mudar. remodelar. sofreu alterações maiores do que se tivesse sido apenas reformada. ou fazer-se freira: é uma disjuntiva. diferença-se deste modo: a coisa que se reforma conserva ainda os seus fundamentos: mudará apenas o que nela não pode ou não convém ficar. mudar. é a elevação de um corpo. – Disjuntiva é a opção entre duas coisas opostas. A altivez é. – Se a alteração é total ou completa.

ofuscar. de entender. as promessas enganadoras. Quem pode ler. – Deslumbrar é “turvar a vista por meio de luz muito forte”. e no sentido figurado é “alucinar. delirante. e também o que não está ainda bem puro. dar quebranto”. por exemplo. e no sentido figurado quer dizer – “enganar por meio de prestígios. cegar. Um sujeito que trabalhou o dia inteiro deve refazer-se das fadigas para a nova tarefa. lê-se em Bruns. e que foi editada pela Real Academia da língua. confundir o entendimento ou a razão. – Demente é “o que está privado das faculdades de raciocinar. essencial que pode ser ou não diferente da antiga. – Fascinar. o entendimento. insano. alucinam. insensato. fica muito próximo de perdido. Mas aqui mesmo pode notar-se alguma diferença entre estes dois verbos. cego. desvairado. e no sentido figurado equivale a “perdido. ou bem expurgado de erros. as ilusões do amor-próprio. – Sobre os três primeiros verbos deste grupo. doido. – Retificar. aturdido. magnífica”.” (Roq. a que se ofusca. os raciocínios excessivamente subtis. estonteado. confundir. deslumbrar. Pode dizer-se que perdido encerra o valor dos dois vocábulos franceses (ou a eles.) 264 ALUCINADO. encantar. o artigo correspondente a estes vocábulos: “As esperanças quiméricas. as obras dos filósofos alemães? A imaginação é a faculdade que se alucina. a razão. e noutros poderia confundir-se muito com este. alucinado” (égaré).: “Traduzimos da Coleção de sinônimos da língua espanhola. significa propriamente “enfeitiçar. – Louco é propriamente “o que perdeu a razão”. Um doente de anemia vai reconstituir-se na ilha da Madeira. completa como a de reconstituir. fazer que desvaire por falta de uma visão perfeita das coisas”. confundem. emenda-se o que está errado. corrige-se o que não está bem direito. José Joaquim de Mora. – Alucinado é o que subitamente desvaira e se arrebata como louco por efeito de alucinação. – Cegar é “perturbar a vista de qualquer modo. de que é autor d. Aquele que funda as suas esperanças de acenso no sorriso ou no aperto de mãos do ministro – alucina-se. Mas. falsas aparências. “sentir”. pois. As narrações complicadas. perturbado por uma emoção violenta” (éperdu) como – “fora de si. tudo o que é indefinido. espantado como doido. como. mas devendo notar-se que este é mais extenso e de significação menos precisa. ofuscá-la por alguma coisa brilhante. “o . uma disposição íntima. ou curvo. – Refazer é um pouco menos que reconstituir em certos casos. alucinado. retifica-se o que está torto. corrigir e emendar confundem-se: todos enunciam a ação de pôr uma coisa nas condições em que se quer que fique. fascinar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 171 coisa uma nova estrutura. a que se confunde”. profunda. As razões sofísticas. Nesta palavra demente figura a raiz grega man ou men. as impressões veementes. – Cego só tem aqui sentido figurado e diz – “que perdeu ou tem perdida a visão da alma ou do entendimento. Mente é. etc. atordoado. ou a um ou outro deles é capaz de corresponder) éperdu e égaré: tanto diz – “agitado. na frase: “Preciso de refazer (ou de reconstituir) as minhas forças”. desvairado como se tivesse subitamente enlouquecido”. sem confundir-se. as questões espinhosas. renovando-lhe apenas os elementos”. 263 ALUCINAR. de- mente. do latim fascinare. e que fica em estado como de estupidez ou imbecilidade”. louco. como o cego tem perdido a vista”. perdido. Aquele que sustenta uma causa injusta. A ação de refazer não é tão essencial. por simpatia. ou por antipatia com as pessoas interessadas – ofusca-se. Aqui. ofusca. que sugere a ideia de “pensar”.

mas nem sequer um fato teve a coragem de referir. sem tento no que faz”. e que declinar seria dar os próprios nomes dos criminosos. sem a declarar pelo nome. Em vez de “circunstância aludida”. mas à cerimônia. diremos corretamente: “circunstância a que se alude”. Declinar é. muito próximo de referir. “privado do espírito. por figura. – Indicar é “apontar precisamente alguma coisa. alude-se a uma coisa. Dizemos. Sob o ponto de vista gramatical. e não podemos dizer – “a coisa aludida”. uma ideia da coisa. – Insano diz propriamente – “o que está enfermo da razão”: a insânia sugere também a ideia de loucura instantânea. ou – “o caso assistido”22. pois que o verbo aludir. ou ainda por desejo de instruir alguém sobre a coisa que se expõe”.. e por isso não pensa normalmente”. formular por termos próprios”. – Estonteado = “perturbado como quem acorda repentinamente. 22 Note-se que assistir tem diferentes acepções.. e confunde-se ainda com articular. mas – “a cerimônia foi assistida” é construção viciosa (porque. declinar. – Expor é “fazer uma relação minuciosa do que se quer tornar conhecido de outrem. – Entre aludir e referir há uma diferença notável. Refere-se uma coisa. Neste exemplo vê-se melhor a distinção: “O homem aludiu aos bandidos. nem declinou os nomes dos quadrilheiros”. Aludir é “referir indiretamente. portanto – “a coisa referida”. – Insensato é “o que não tem senso comum. da inteligência”. e assim privado de senso normal. a faculdade. ou o ato procedido”. sem tino”. às suas tropelias e infâmias. Referir quer dizer – “indicar de modo claro e preciso a coisa sobre que se quer chamar a atenção de alguém”. mencionar. pois. Sente-se que referir seria indicar expressa e claramente fatos. “O enfermo foi assistido” – está direito (porque se quis dizer que o enfermo foi socorrido). ou por dever de ofício. e caracterizada pelos desvarios. Quando alguém nos diz intencionalmente que – “certos tipos execrandos escandalizam a moral pública” – subentende-se que nós sabemos a que tipos se dirige a apóstrofe. isto é –. – Doido é quase o mesmo que louco: se se pode notar alguma diferença entre os dois vocábulos. sentindo-se apenas em estado que não é de perfeita lucidez”. que é “referir por palavras adequadas e precisas que esclareçam o articulado”. sugerindo apenas. – Mencionar é indicar claramente. ou com intuito de queixa. há entre referir e aludir uma diferença que é frequentemente esquecida. marcá-la ou mostrá-la”.”) Não se assiste a cerimônia. neste caso. enun- ciar. – Delirante é “o que está como perturbado momentaneamente das faculdades intelectuais. a que consiste em ser talvez a doidice uma forma de loucura mais completa e permanente. assistir é verbo intransitivo e significa “estar presente a. pelo próprio nome. – Desvairado é “o que ficou em súbita exaltação que o põe agitado. portanto –. Atordoado = “menos que aturdido. mais por inadvertência talvez do que por ignorância. consignar positivamente”. não pode dar particípio passivo. Dizer – “a coisa aludida” seria o mesmo que dizer – “a coisa. segundo os lexicógrafos. ou a que indivíduos se endereça o ataque: e neste caso se diz que ele aludiu a esses tipos. – Enunciar é apenas “declarar por palavras. 265 ALUDIR. indicar. . não só de significação. de surpresa ou de susto”. expressas pela voz. aflito. mas ainda de função gramatical. dizer onde se encontra. incapaz de fazer juízo”. – Aturdido = “subitamente perturbado. ou o conjunto das faculdades superiores do homem”: demente exprime. é. expor. não sendo transitivo. referir. os gestos ridículos e estabanamentos do doido.172 Rocha Pombo espírito.

não seria possível a substituição. quer de arte ou de moral. “Os meus discípulos são os melhores alunos do ginásio tal”. respetivo. e também se arrendam mediante contrato. e dizemos que é alusiva quando apenas sugere ideia dessa coisa. – Alquilar. – Locar = “alugar. relativo. e por preço que constitui renda ou rendimento para o proprietário. a ideia contida em referente e relativo: diz – “que é próprio. e discípulo só se diz com relação ao mestre. 267 ALUGAR. . dar de aluguel mediante contrato”. Procuramos naquele livro das Escrituras tudo que é concernente ao adultério. sublo- anos. não tem nenhum discípulo”. há entre os dois primeiros adjetivos deste grupo: dizemos que uma coisa é referente a outra quando a ela se refere. termo que já foi genérico. locar. que se atribui à coisa a que se refere”. por dias. F.. só se diz atualmente falando de cavalgaduras e carruagens. Apresentaram-se os diversos clubes tendo envolto em crepe os respetivos estandartes. isto é. que pertence. por exemplo. quer como externo. arrenda-se por tempo mais longo e às vezes sem prazo certo. como. sem a nomear. ou da aula de música. – Sublocar = “alugar a outrem uma coisa que se tem tomado a alguém por aluguel”. alquilar. ou a cada um em particular ou em separado”.. – A mesma diferença. discípulo. e parece que todo o trabalho do ministro consistiu em dar toda amplitude à parte relativa a desfalques. nas cidades arrendam-se ou alugam-se casas por semestre. que se nota entre os verbos aludir e referir.. portanto. por curto tempo. Tanto posso dizer: os meus educandos (os meus discípulos. Aluga-se um trem: alugam-se móveis (não – arrendam-se). quer de ciência. Os termos referentes àquele fato são ásperos. quer como interno. e substituindo-o por alugar. educando. que diz respeito a. Dizemos também que é discípulo de F. aos defeitos da criança. – Concernente exprime. – Relativo exprime – “que tem relação com. – Discípulo é o menino que é entregue aos cuidados e esforços de um mestre ou professor. quando a indica direta e claramente. – Alugar e arrendar diferençam-se entre si – diz Bruns. a um ato. meninos cuja educação me está confiada). que respeita ao próprio a que se refere. Tanto podem locar os proprietários como os que estão no usufruto da coisa locada. – Aluno é o car. como: os educandos do instituto. – Educando é sinônimo bem próximo dos dois precedentes: e em muitos casos poderia substituir a um ou outro. ou por meses. qualquer pessoa que recebeu lições de F. ordinariamente de uma vez. palavras alusivas à má conduta de alguém. o uso vai mesmo postergando este vocábulo. Nas praias de banhos alugam-se casas aos banhistas. isto é: aluga-se para um fim determinado. referente. é uma designação que se refere ao estabelecimento onde o menino aprende. 268 ALUNO. Uma companhia de cômicos aluga o teatro da povoação por onde passa. no entanto. Em outros muitos casos. nestes: “Respeito muito os discípulos de Loyola ou de Comte” (não educandos por certo).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 266 ALUSIVO. que o instrui e guia.. um empresário arrenda o teatro que quer explorar.. ou do internato tal (os meninos que estão sendo educados nesse internato)... “Entre os alunos do colégio tal. – Respetivo diz – “que compete. de modo ainda mais preciso. – Exemplos: Discurso alusivo a uma questão. etc. e pelo preço que se combina pagar. – como aluguel e renda. e por alguns menino que frequenta alguma escola. que se prende à coisa a que se refere”. concernen- 173 te.. arrendar. “Os alunos da minha turma foram aprovados” (decerto que não ficaria bem aqui dizer – educandos). Aluno.

crepúsculo. de intenção de ocultar. incerto.. e também de mira. a vida e alento do mundo”. e parece dar mais ideia de festa do que exprimir propriamente fase do alvorecer. contingente”) (Sar. que se tem por fim atingir”. – Propósito é “resolução tomada. dilú- culo. profundeza. fim. rósea. que é apenas o estado de espírito em que estamos. e em ondas de progressiva luz derrama-se no firmamento. – “A luz que aparece no horizonte. a que se destina o nosso trabalho”. íntimo. – Fito é “o alvo sobre o qual temos toda a nossa atenção e esforço”. seio. A aurora. que significa “ponto ou fim que se colima”. a respiração das flores. in- acertar”. e que continua alguns minutos depois do pôr do sol. e que no momento prende a nossa atenção”. a harmonia das aves. o propósito que temos formado. a parte que fica no centro dos vegetais. mira. – Intenção e intento significam “o desígnio que nos leva a agir. sugere ideia de mistério. que é estranho ao eu.) – Alvor (ou albor. decisivo do que intenção. ainda não tinta de vivas cores. – Interior designa sim- . Aquela dor chegou às profundezas do meu coração. fito. entremeia-se o oiro vivo dos apolíneos raios. aqui. recesso. Esta luz suave. propósito. – Fim é “o ponto a que se quer chegar. é a alva. mas dos recessos desta alma não sairão jamais os meus gemidos. pode dividir-se pelo pensamento em dois tempos que formam o que vulgarmente chamamos madrugada. o mais profundo nos seres. centro. Intento é propósito mais firme e seguro. a determinação em que estamos de fazer alguma coisa”. é – como disse Vieira – o riso do céu. além de profundeza.) é a meia-luz indecisa que precede ao nascer. medula. figura a raiz skeh. 270 ALVO. resoluto. distinguem-se assim: recesso. mais brilhante que a alva. firme determinação”. alvorada. ou a disposição de alma em que nos deixa aquilo que temos desejo ou vontade de fazer. e com ela se patenteia de novo a formosura do universo. e no sentido figurado. e mais benigna que o sol. é o íntimo das coisas. – Escopo é muito próximo de alvo e de fim. que sugere ideia de observar. imo. de recato. No grego skopós.” – Objeto é “tudo que está fora de nós. aurora. intenção. e alvorada – dir-se-ia – é uma extensão de alvor. quer morais quer físicos. – Profundeza e recesso. – Dilúculo é termo poético designando o romper do dia. madrugada. como é muito usado também) é o primeiro sinal da alva. a alegria dos campos. meio.174 Rocha Pombo 269 ALVA. pretender. (Roq. de creperus “duvidoso. Começa o horizonte a fazer-se alvo com a aproximação do sol: eleva-se pouco a pouco esta alvura. purpurina. Matiza-se insensivelmente no horizonte a alvura com a cor cerúlea.. escopo. in- tento. âmago da vida. Dizemos: âmago da alma. – Imo é também o mais profundo das coisas. – Alvo é “o ponto que se quer atingir ou onde se quer terior. Ter em mira quer dizer “desejar. até que o astro do dia mostre seu afogueado limbo: eis a aurora. que não cansa nossos olhos. espalha-se nas regiões etéreas. examinar: é portanto escopo “aquilo que se visa. mas só se emprega no sentido moral. ter os olhos sobre. afugenta as trevas da noite. Pode ser físico ou moral. – Crepúsculo (de crepusculum. – Mira é mais propriamente “o ato de fitar o alvo”. o crepúsculo da manhã. cerne. alvor (ou albor). 271 ÂMAGO. – Âmago é propriamente a medula. a que levamos o nosso intento. miolo. antes lhes dá motivo para se recrearem vendo alvorecer o dia. coração. e vai crescendo e matizando-se de luminosas cores até que o sol o doire com seus brilhantes raios. objeto.

o ponto que é equidistante de todas as partes da periferia. a parte central. ao que parece irritado. aba- ter. altivo. dos ossos” etc. O centro da terra – é uma coisa: o meio da terra – é outra. central de alguma coisa. Naquela terra está o coração da pátria. ou tratandose de certas frutas. Dizemos: meio do caminho. a cólera divina. – Cerne é “a parte mais dura de muitos vegetais. enfraquecer. – Na linguagem vulgar. o ponto que fica a igual distância de todos os pontos da circunferência. extremidade. – Miolo (corrução de medula) é “frequentemente empregada pela própria latina: pode definir-se. abrandar ao que é duro. sossegar ao que está inquieto. acalmar. áspero. Dizemos: centro da mesa. interior do país. esta palavra miolo como designando toda a parte do pão contida dentro da côdea. abater ao que está elevado. teso. ainda que fosse redonda. Estou afinal no meio dos meus amigos (como poderia estar no meio de bandidos). – Afrouxar aplica-se ao que está apertado. ou. em certos casos poderiam ser usados indistintamente. Interior do coração. o que fica por dentro da casca”. no entanto. – Estes verbos têm de comum a ideia de “diminuir de intensidade”. num círculo. as cordas de um instrumento. a discórdia. diminuir. Em nenhuma dessas frases seria próprio substituir nenhum dos dois vocábulos. – o coração da África indicando o meio dela. centro da arena – desde que sejam circulares. suavizar. Abatem as desgraças aquele orgulho.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 175 plesmente a parte interna. sossegar. abateu com as chuvas o rochedo. Sossega o . quer abstratas quer concretas. a parte onde está a força. pelo furor. – Íntimo quer dizer “profundo. Meio. senão ponto afastado da circunferência dela. afastado dos olhos como um mistério”. por analogia. numa esfera. conforto. Feriram a França no coração. – Amainar emprega-se quando a coisa se caracteriza pela agitação. mas convém nunca esquecer que há entre eles uma diferença tal que se não poderiam substituir em grande número de casos com propriedade. a substância mole que se encontra no centro das árvores. a vida. tranquilizar. enfraquecer ao que é ou está forte. mas neste caso não lhe indicaríamos precisamente o centro. não se reconhece. no entanto. – Coração só figuradamente é que entra neste grupo. porque os há que não chegam a ter cerne”. Mas este último sugere ideia de conchego. O diâmetro passa pelo centro da circunferência (não – pelo meio). Abrandam-se dores. furente. os laços que prendem alguma coisa. acalmar aplica-se ao que está em alto grau de intensidade. cóleras. crescido. Também dizemos – o coração da noite – para exprimir a plenitude dela. Uma pessoa mete-se no meio da turba (e não no centro). etc. castigos. para exprimir o núcleo. em delírio. da cidade. ou. descer. ou pelo menos esta não é forma tão precisa como aquela. atenuar. – Em muitos casos poderia também confundir-se meio com seio. enfraquece a mocidade vencida pelo vício. Amaina o temporal. carinho. o sentimento característico das coisas. 272 AMAINAR. afrouxar. fazer baixar. Até que enfim restituiu-me a sorte ao seio de minha família. e além disso meio é mais extenso e genérico. abrandar. beira etc. aplica-se a tudo que não é lado.”. pelos estragos que causa. da floresta. – Diminuir é o mais genérico do grupo: diz “reduzir a força. nem sempre. meio da floresta. tão rigorosa distinção. Centro é termo de geometria para designar. – Me- dula é “o âmago. Poderíamos dizer mesmo: meio da mesa. serenar. Em grande número de outros casos não seria possível usar um pelo outro. Enfraquece o exército pelas deserções. do edifício. pelo estrondo. selvagerias. recôndito. no entanto. Afrouxam-se os grilhões. – Centro e meio.

– Tranquilizar = “fazer mais tranquilo. Podem-se amansar os animais ferozes. o revoltado. uma distinção social muito importante que con- vém considerar entre eles. . que. sendo. ao passo que no Ocidente. isto é. podem-se reduzir a viver na mesma habitação com o homem. ou de cônego: – Amásia é termo vulgar.: – “Concubina é vocábulo que hoje apenas se emprega na linguagem da Igreja. domesticar. Salomão tinha concubinas. e menos ainda que os domesticamos. menos violento. mas sem ficarem contudo tão obedientes que se possa dizer que os “amansamos”.” – Atenuar = “fazer menos forte”. Podem-se domar animais bravios. a dor. menos impaciente. – Barregã (do castelhano barragana) é termo insultuoso e depreciativo. amiga. – Comborça. uma esposa ilegítima que vive na dependência e na sujeição: tendo estas ideias vindo até nós pela consideração dos usos e costumes dos países e das épocas em que o concubinato era legalmente tolerado. onde a mulher é geralmente considerada como igual ao homem. ou do viúvo. é qualificativo humilhante da concubina de homem casado. por assim dizer. estes têm concubinas. nos países do Oriente. barregã. podem-se tornar submissos e obedientes. no entanto. A concubina é. o desordeiro. Uma outra diferença importante entre os dois termos. agitado e aflito. concubina. ou que pelo seu caráter não devera ter amorios. o rigor. Há. – Manceba está hoje sendo inteiramente desusado como sinônimo perfeito de amásia. pelo contrário. assim dizemos – barregã de frade. ou ao falar de mulheres ou da antiguidade ou da Idade Média. é vocábulo que. que melhor que outro qualquer designa a mulher que só pelo interesse é concubina de algum homem asqueroso. este tem amantes. é “fazer sereno”. diminui o furor. isto é. – Suavizar = “tornar mais suave”. mas não sendo frequente encontrá-la na casa do homem casado. assim como amiga – termo mais escolhido – qualifica a mulher que vive das liberalidades do seu amante”. Acalma-se a turba que bramava. a intensidade. segundo define Aul. manceba. menos ríspido. o comprimento. sem ofender demais (a não ser a ouvidos muito delicados) ser admitido em qualquer linguagem. Napoleão III teve muitas amantes. o peso. diminuem as forças. 274 AMANTE. de sentimentos e de convívio. a torna pelo menos igual ao homem. tanto no sentido moral como no físico. domar. diminuindo a agitação. menos forte. onde a mulher é considerada como inferior ao homem. é que a palavra amante não encerra a ideia de coabitação. e admitido até pela esposa legítima. – Segun- do Lacerda – “podem-se domesticar os animais bravios. – Amante é o termo que se considera mais decente na nossa época. Por isso. amásia. Diminuem as águas da enxurrada. diminui-se o prazo. da qual a concubina era frequentemente uma como escrava. o pranto. Muito frequente é também que a amante de um homem seja casada ou viva com outro homem. e o único que pode. as aflições. diminui a tristeza. melhor que – amante de frade.. o volume. isto é. Concubina (do latim cum “com” e cubare “estar deitado”) encerra a ideia de coabitação. como diz o próprio radical. e como que a ser seus servos ou seus companheiros. além da suplantação de um dos termos pelo outro. – Sobre os primeiros cinco vocábulos deste grupo escreve Bruns. se não enaltece a mulher. Amante. comborça. podendo a amante viver ou não na casa do homem solteiro. como é comum para os designar a ambos com relação de reciprocidade. 273 AMANSAR. a força.176 Rocha Pombo enfermo. ou cônego. etc. a extensão. – Serenar.

Entre riçar e eriçar (ou erriçar) nota-se esta diferença: eriçar quer dizer “riçar momentaneamente. “Enruga a pele o tempo”. sentiu o coração a crispar-lhe de angústia (e não – “encrespar”). encarapinhar. “Os cabelos se lhe erriçam de horror” (não – riçam). – Avidez (conquanto da mesma origem latina avere) não se confunde com avareza. ao dinheiro. cupi- dez. gastam a mãos largas para obterem o que ambicionam”. – Dos dois primeiros vocábulos. – Encarquilhar é “encolher formando rugas. reduzir ao aspeto rude da marlota”. pô-los em sentido contrário ao em que estava ou que é o normal”. – Avareza é vício de alma que torna sórdido o avarento. encrespar. “deformar. segundo Aul.. isto é. – Arrepiar (de arre “para trás” e pio = pilus + ar) significa “ouriçar (os cabelos). ratinar. Há ambiciosos que. – Amassar é. pois. quebrar as linhas. que é o radical de amarrotar (e que deu também o verbo português marlotar). amassar. reduzindo-a a massa informe. enovelado demais. encaracolar. arrugar. emaranhado. – Machucar (ou amachucar) é amolgar. neste grupo. vincos. e por analogia.. e franzir poderiam facilmente confundir-se.) – Encarapinhar é “fazer muito crespo. erriçar). fazer hirto como a marrafa” (cabelos do topete lançados para a testa). quebrantada). honras. “não liso e correntio. – Marlota.. entre o qual e encrespar pode notar-se a distinção que consiste em ser o verbo crispar aplicável a fenômenos morais melhor do que o outro. levantá-los e deitá-los para trás. “agitado de cólera. rugoso. ganância. – Frisar. sendo a de franzir momentânea. “de um dia para outro uma grande dor lhe arruga as faces”.. Amarfanha-se o papel. Velhice encarquilhada (cheia de rugas e mofina. – Cupidez é bem fácil de confundir . encaracolar em forma de riço”. arrepiar. – O mesmo quase diz riçar. aqui. encarquilhar. só ambição – diz Bruns. encrespar. ma- 177 chucar (ou amachucar). frisar. amarfanhar. crispar. – Enrugar. tirar a forma própria de alguma coisa. pregas” (carquilhas). longe de serem cobiçosos. justo ao corpo muito deselegante e só usado pelos pobres”. cobiça designa um sentimento vil. cobiça refere-se apenas à riqueza. marlotar. franziu a testa afrontando-nos”. que é “fazer em riço. – Embrulhar é “apertar. “dar a aparência ou o feitio de ratina (aos panos)”. esta distinção não é essencial. e quando muito deve notar-se entre eles esta diferença: enrugar enuncia ação lenta e mais completa que a de arrugar. riçar (eriçar. na paixão pelo dinheiro. ondulado. gana. avareza. amassar. e que consiste no amor desordenado aos bens materiais. levantar o pelo” (frisa). começando por ser um termo genérico para indicar todo desejo imoderado. ouriçar”. a seda. áspero. na ânsia e sofreguidão de acumular. eriçar. cerrado como carapinha. avidez. amarfanha-se uma roupa tirando-lhe o aspeto de lisura que lhe é próprio. franzir. Ambição significa principalmente o desejo de alcançar poder. arrugar. achatando-a. “frisar. toda ansiedade com que se quer alguma coisa ou se executa alguma função. dignidades.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 275 AMARROTAR. embrulhar. enrolar e comprimir como se faz com embrulhos”. 276 AMBIÇÃO. contrafazer. ou de encontro a outra. Aliás. esmagar alguma coisa debaixo de outra. – Ratinar é. enrolar em espiral” (Aul. – O mesmo radical deu-nos crispar. – Encrespar é “fazer crespo”. Diremos: a alma lhe crispou de dor. é palavra árabe (mallôta) que designa “capote curto com capuz. significa “fazer felpudo. – Encaracolar é “dar a forma de caracol. quando se a embrulha e amassa entre os dedos. enrugar. pode ser tomado a boa parte. cobiça. arrepiar. anelado”. tornar felpudo”. – Amarrotar é. – Amarfanhar é “encrespar.

ação feita em contrário ou em sentido oposto a outra. que só compreende a pessoa que fala. e significa “ferido”. ou este àquele. a ambiguidade dúvida. confusão. fome. que em manhã tão alegre e tão festiva até os Evangelistas o usaram”. mas de ordinário aplicase cupidez mais particularmente para designar desejo imoderado em questões de amor. Aí nenhuma das palavras é ambígua nem equívoca. pagou largo tributo a este depravado uso. pois indica “prolongação de ato. e bollo. equívoco”. desfazer. os poetas invertem muitas vezes esta ordem. posto que tenham um significado mui diverso. voracidade. mas é anfibológico o sentido. “é palavra latina (ambiguitas. de dois lados”. ou fingido. “desmanchar o que está feito”.. artificial. intensidade na ação. em roda. “igual”. e outro. até raiva incontinente”. desviado ou apartado. e às vezes tão disfarçado que só o entendem os que penetram a alusão. a significação de “desespero pelo ganho. Refere-se antes ao giro da frase ou colocação das palavras que aos termos equívocos dela. porque. 277 AMBÍGUO. Vieira. que é o que parece querer-se dar a entender. O mau gosto dos nossos seiscentistas introduziu o uso dos equívocos como um ornato oratório. ainda que regularmente se ponha o sujeito antes do verbo. e apesar de o ter como um defeito. esse lhe descobriu a cara. e vox. – Ambiguidade. privativo ou disjuntivo. jogando de vocábulos para divertir o auditório ou os leitores. Comete-se esta falta quando se constrói uma frase de modo que possa admitir duas diferentes interpretações. composto da preposição amphi. anfibologia. con- fuso. – Equívoco é palavra latina. pela força do uso. discurso”. dizendo: “Quem tirou o véu ao amor. Mas o que nem todos sabem é que esta mesma partícula em alguns poucos vocábulos tem um valor mui diferente. impreciso. equívoco. não se emendava de cair nele. Ou vem então de amphibolos. incerteza na linguagem e nas ideias. ao contrário da ambiguidade. dúvida. desprezar “não prezar” etc. “lançar”. v. vário. duvidoso. sendo às vezes impossível consegui-lo. aequivocos (de aequus. “rodear. Chamam-se equívocas as palavras que se podem entender em dois ou mais sentidos. – Anfibologia vem do grego amphibólia. ou “que fere de dois lados”. ou porque se confundem com outras da língua que se pronunciam e escrevem do mesmo modo. tão bom orador como era. incerteza. andar à roda. segundo Roq. e daquela frase pode-se entender que Heitor provoca a Aquiles. ou maior . etc. e significa em geral multiplicidade de significações. e figuradamente “ambíguo.178 Rocha Pombo com o precedente. g. vontade irreprimível. de ambigo. e se antepõe a muitos vocábulos para exprimir “separação. Não me estranheis o equívoco. pois. equívoco. “Este equívoco do padre Vieira precisa explicação. confusão. que significa “ao pé. que também é formado de amphi e bollo. E assim se diz – uma palavra ambígua e – uma frase anfibológica. ou porque elas mesmas têm várias significações distintas. – Ganância tem. e ao qual se ajuntou depois logos “palavra. mas regularmente tem dois sentidos – um natural e imediato. sem escrúpulos e sem medida”. de modo que custa descobrir ou adivinhar o pensamento do autor. “voz”). Sabem todos que a partícula des é um prefixo que corresponde ao latino dis. dúbio. 470). como ele mesmo confessa num sermão da Ressurreição (VI. que se acha só nos termos. incerto.. que admite diferentes interpretações. Deste gênero é a seguinte: “Heitor Aquiles chama a desafio”. É. duvidar”) e consiste em apresentar a frase um sentido geral. porque o mostrou desvelado. anfibológico. ambiguidade. – Gana é termo do espanhol que significa “apetite desregrado. ou para mostrar agudeza de engenho.

Linguagem dúbia. significaria “privar de véu. ou de fim ilícito com que se fez ou deixou duvidosa a forma. descantar. a duvidosa.. – Área é a extensão de uma certa superfície. perfeitamente determinada”. que não for desembaraçada de termos ambíguos. e deve ser evitado pelo literato. A ambiguidade é parto de limitado talento. A esta espécie pertence o verbo desvelar. Ora. melhor do que dúbio. a ocultar o verdadeiro sentido”. 278 ÂMBITO. e escorreita de relações maldistintas”. mas de repente. – Recinto é mais próximo de âmbito. fazendo a partícula des privativa. ou a coisa de que se trata. que é composto de des e velar. maldefinido. – Incerto é propriamente aquilo que não é determinado. que é indeciso. – Linguagem duvidosa é aquela que não exprime pensamento certo. – Âmbito sugere ideia de superfície. ou limitada. emprega a palavra desvelado. como sucede com os charlatães e impostores. que se designa precisamente. v. – Dúbio é o que é incerto. e também o mesmo concerto.. A vária sorte. e no figurado “não cuidar” – mas sim “velar muito. ou que pode deixar margem a alternativas de interpretação. o qual. mas com a de “privado de véu”. que não significam “deixar de cantar” – o que seria “ficar calado” – mas sim “cantar muito e em harmonia ou concerto de instrumentos”. descobrir”. solícito”. ou dos que se querem esconder na obscuridade. desvelar. e não significa “deixar de velar” – o que seria “dormir”. pois a dúvida é o estado de vacilação em que a frase nos deixa o espírito à vista dos termos em que está concebida. e nós. porque véu é contração de velo (de velum latino) – o que forma equívoco com a significação geralmente aceita de desvelado. que pode variar ou que varia constantemente. porque delata engano. desvelado. pois este nunca deve jogar de vocábulos senão em obras jocosas”. a incerta fortuna. lhe chamamos jogar de vocábulos. volúvel. . a ideia de esperteza calculada. a forma que não for exata. ou para a resolução que se tem de tomar. g. ou espaço de extensão determinada. pelo contexto da sentença. É mais próximo de dúbio que de duvidoso. Dizemos: a dúbia. ou dando da mesma uma ideia. Linguagem duvidosa é “a que se usa de propósito para enganar. andar muito. recinto. e dubiedade é o estado de hesitação e perplexidade em que ficamos quando não temos um fundamento seguro para o modo como se há de agir. é a linguagem anfibológica destinada a induzir em erro. – Imprecisa será a linguagem que não for “clara. como em francês o verbo dévoiler. A anfibologia provém da ignorância das regras gramaticais ou da intenção dobre de quem fala. vago. área.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 179 perfeição”. é neste sentido que o padre Vieira tinha usado este verbo e o seu substantivo desvelo. sendo confusão quando a obscuridade é tal que nada nos deixe entender precisamente. ter muito cuidado. O equívoco é “indigno de um homem franco e honrado. Entre dúbio e duvidoso pode notar-se uma diferença muito subtil que consiste em sugerir duvidoso. ou é a forma a que se pode atribuir mais de um sentido”. – Confusa será a construção que “possa dar ensejo a enganos. o vário modo de entender as coisas da fé. – Vário diz inconstante. significaria “sem véu”. referindo-se ao verbo velar (velare) que significa “cobrir com véu”. fixa. se bem que em muitos casos se confunda com ambos. ou aquela que se não pode interpretar com segurança. e descante. que muda facilmente. Desconfia-se da forma duvidosa: procura-se fixar a linguagem dúbia. com o mesmo Vieira. não com a significação do verbo desvelar-se. precedido da partícula des. A isto chamam com razão os franceses jouer sur les mots. ou atitude dúbia é apenas “a que dá lugar a mais de uma interpretação. caprichoso.

e que nem sempre existem unidas no mesmo sujeito. os dois. que neste é necessária. vagabundo. neste último caso. – Ameaçar é “dizer ou protestar que se fará algum mal. vaganau. de vadiagem: antes aproxima-se mais de passeante. sem rumo fixo. um e outro. – Vagante é o mesmo que vagabundo. – Vaganau = “que vive a vagar. – Nômade (ou nômada) se aplica para designar o homem primitivo que não tinha morada.. ou que se imporá algum castigo (se se trata. Esses monges de Teate viviam a pregar de terra em terra. teati- no.: – “Ambos e um e outro distinguem-se em referir-se o primeiro ao conjunto dos dois. sem compreender a ideia de mister. – Airado será “o vadio elegante. aqui. do circo. – Segundo Bruns.” – Tunante é “o vadio de baixa classe. ate- morizar.180 Rocha Pombo pois designa “o espaço compreendido entre dados limites. ou habitação fixa. que não se submete a autoridades. intimidar. sem eira nem beira”. – Ambos também se diferença de dois (ou os dois) em referir-se este ao número. assustar. – Vagabundo acrescenta à ideia de errante a de ociosidade. ou ambos aqueles moços foram heróis na campanha.. dentista. aplica-se a quem anda de terra em terra. apenas análoga à própria (de romeiro): designa “o que viaja por terras estranhas. que significa – “andar vagaroso. arcebispo de Chieti. ou o âmbito da praça.. fundada nas primeiras décadas do século XVI na Itália. longe do próprio país”. porém: “a voz ressoou por toda a área da sala”. É assim que se diz indiferentemente: a área. – Perdido. e que tomou esse nome da circunstância de ser o seu fundador (Caraffa). professor ambulante. mas ambas se requerem essencialmente para o exercício da nobre virtude da beneficência”. vagabundo. mas sem a ideia. Esta noção se ilustra pelo seguinte trecho de Vieira: “O querer e o poder fazer bem são duas coisas totalmente diferentes. e um e outro deixaram no país legítimo renome. o que leva vida solta e alegre”. que não tem domicílio certo. que não se ocupa de nada. como já se disse. quer dizer “que errou o caminho. despreocupado. Temos ainda este exemplo: Aqueles dois moços. ambulante diz-se de quem exerce um mister de terra em terra: músico ambulante. à ventura. – Errante. 281 AMEAÇAR. e o mesmo significa atemorizar. como se não tivessem destino e se se não deixassem dirigir de nenhuma autoridade. peregrino. Daí a significação com que ficou esta palavra teatino na linguagem comum: designa o (homem ou animal) que anda vagando. vagante. airado. da explanada”. de superior para inferior). vadiagem”. – Vadio “é o que vaga por ociosidade. só por distração”. errante. vadio. mas: “ressoou a voz por todo o âmbito da sala” ou “por todo o recinto”. e um e outro a cada um distintamente. ou que não tem dono conhecido. 279 AMBOS. Há entre os dois a diferença que consiste em sugerir o verbo intimidar a ideia de que a pessoa que intimida conta com a fraqueza de ânimo da .” 280 AMBULANTE. ao conjunto. – Teatino propriamente era o monge pertencente a uma Ordem religiosa. outrora Teate. tunante. e sem mais objeto que o de não estar parado: de todos é conhecida a lenda do Judeu errante. trocista e malandro”. desorientado” (equivalente ao égaré do francês). passeante. – Intimidar diz propriamente “causar temor”. – Peregrino também apresenta aqui uma significação especial. nômade. perdido. – Escreve sobre estas formas o provecto Bruns. e aquele. amedrontar. não se dirá.

dizer que um herói se intimida.) Pode-se. o grato sensibiliza”. – é agradável. Ora. nem tudo. amedronta-se o ladrão (que vai penetrar na casa) disparando para o ar o revólver. Deleite é o gozo dos sentidos”. Entre delicioso e deleitável – não é possível ver as diferenças que notaram Roquete e Lacerda entre delícia e deleite. não só exprime o prazer sentido. Entendem esses autores (seguidos por muitos outros) que deleite indica o maior grau de delícia. bem se poderia admitir que um herói se atemorizasse do castigo divino. se atendermos a que a desinência oso designa “abundância”. grato. Tudo o que causa prazer é agradável. delicioso diz muito mais que deleitável. encarece o mérito. Querem os dicionaristas que deleitável e deleitoso designem a mesma ideia. delicioso. suave. inocentemente deleitável. nem um idiota. E tanto é assim que dizemos: delícias do Paraíso (não – deleites).. o que é delicioso causa abundância de delícias. É deleitável o que nos dá prazer. . Só no uso comum é que se pode entender de delicioso como entende Lacerda. Também não se atemoriza a uma criança. e sobretudo. A delícia consola os sentidos e o espírito. a boa música. – Aprazível é aquilo “(tanto no mundo das coisas como na esfera moral) que nos encanta a vista. aqui. ou induzi-lo a ceder a motivos imaginários”. – Assustar. (E não completa infelizmente o autor a exposição do seu modo de ver. atendendo aos fundamentos que ele oferece. porém. que é agradável é ameno. deleitável. agradável. aprazível. Não seria próprio. Portanto. falando da saudade: – o delicioso pungir de acerbo espinho. portanto. é necessário que o gozo seja puro. que é um escrúpulo ou um forte movimento de consciência. Muito longe disso – é no sentido moral que delicioso exprime o mais alto grau do prazer23. é delicioso o que nos arrebata.” É aprazível um panorama. “tolhê-lo. e avel. um medo sagrado. isto é. no entanto. enquanto que sem desar para ele. Entre agradável e grato nota-se esta distinção: o que é agradável dá prazer aos sentidos. os perfumes. nem a criatura alguma incapaz de sentir o verdadeiro temor. Deve notar-se uma certa diferença entre estes dois verbos: intimida-se a um menino ameaçando-o de cortar-lhe a mão se tocar no doce. para que aquilo que causa prazer seja ameno. O agradável apraz. – Delicioso é mais do que aprazível.: “O que é deleitável causa-nos deleite. entender assim: que é deleitável o que 23 Já o poeta dissera. gratas são as provas de amizade. 282 AMENO. Agradáveis são as belas paisagens. – Sobre delicioso. obteremos a verdadeira diferença que há entre os dois adjetivos”. e nada mais aprazível no mundo do que ser útil ao nosso semelhante. Neste ponto ainda preferimos Bruns. deleitoso. a do artista que nobilita a sua arte. é “produzir medo súbito e quase pavor com que se ameaça alguém”. ou a função mais aprazível é a do juiz que salva a inocência.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 181 pessoa que é intimidada: o que não se dá com atemorizar. deleite carnal (não – delícia carnal). mas também. – O que é ameno – diz Bruns. deleitoso escreve o mesmo seguro Bruns. valor ou qualidades do que lhe dá origem. ou que nos excita na alma um sereno prazer – e cândida alegria. as recompensas ao mérito. mas. “qualidade”. o que é grato é relativo aos sentimentos. A trovoada amedronta até espíritos fortes (e ninguém diria – aqui intimida). e o mais recente de todos eles chega a preferir a forma deleitoso a deleitável. segundo o qual – “delícia. isto é – que propriamente deve aplicar-se só em relação às sensações. etc. – Amedrontar é que convizinha muito de perto com intimidar: quer dizer “impressionar algum ânimo fraco”. deleitável. as demonstrações do reconhecimento.

“Emaçamos os papéis. juntar sem ordem”. – Emaçar é “reunir. – Esmagar é “espremer.. É por isso que dizemos: “aquele homem. – Sinal é. acumular.. Aí deve usar-se o verbo amontoar... é “de uma certa coisa uma parte ou porção com que experimentamos a qualidade dessa coisa”. arranjar um sobre outro”. 283 AMOLGAR. triturar”. tirar a acuidade ou agudeza”. o pedaço. – Amolgar significa “tirar a um objeto ou a alguma porção desse objeto a forma própria deprimindo. É o mais genérico do grupo. – Todos estes verbos enunciam a ideia de reunir. É usado igualmente no sentido moral. o livro.” – Amassar diz propriamente “deformar reduzindo à massa.. depressa ajuntará dinheiro ou fortuna”. – Amossar é produzir mossa (marca de pressão violenta sobre corpo compressível). acumular fortuna ou riquezas. – Ajuntar e reunir são muito difíceis de distinguir-se: ajuntar é “pôr um ao lado. Dizemos: o deleitoso vale.) – Arrumar é “propriamente pôr em rumas. ou esmagando”. – Prova. indício. isto é. Por isso dizemos – acumular empregos ou cargos. rombo. nem – acumular as frutas que se estão colhendo. – Amostra é “o resumo. – Acumular é sinônimo quase perfeito de amontoar: apenas acrescenta à significação deste uma ideia de continuidade e de reflexão: o que se acumula já sobra. comprimir violentamente. e não diremos: “aquele homem reunirá. mas ninguém diria: ajuntei meus irmãos para combinarmos a resolução mais acertada”. reunir é “tornar a unir”. amassar. de formar conjunto. ou mesmo uma noção perfeita dessa coisa”..: “Com tamanha pancada. formar montão. emaçar. ou campo. formar de algumas ou muitas coisas um só volume”.” Amassou o chapéu. amossar. demonstração. (e sim – reuni meus irmãos. com toda aquela atividade e economia. sinal. esmagar. 285 AMOSTRA. Aul. registra este exemplo do Dic.182 Rocha Pombo produz deleite. abolar. arrumar. Entre amostra e mostra parece que não há mais diferença que a de ser o segundo mais aplicável no sentido moral. e com que se dá uma ideia. achatar. segundo Lacerda. deu mostra ou mostras de indiferença (e não – amostras). 284 AMONTOAR. ou reunir. – Abolar é reduzir a bolo. ajuntar. mas não dizemos – acumular o trigo no campo.. já excede à medida normal. Usa-se também no sentido translato para exprimir o efeito de causar impressão forte (fazer mossa).” Pode-se dizer indiferentemente: “reunir ou ajuntar as forças debandadas ou dispersas”. reunir. unido ao outro. a carteira. quebrar as arestas a.. deformar. – Amontoar é “reunir aos montes. da Ac. o fragmento de uma coisa. Usa-se também no sentido figurado para designar o ato ou o efeito de causar funda impressão no ânimo de alguém. dobrando.. que lhe abolou o elmo. tanto no sentido figurado como no natural. portanto – é “unir outra vez o que já fora unido”: e aí está no que consiste a diferença entre os dois. achatar. “o que dá . – Deformar é “tirar a forma própria. seja como for”. ou ajuntar em maço. prova.. e é deleitoso o que está cheio de deleites. acumular as pedras que vêm da montanha. ou uns a outros”. mostra. neste grupo. e não – deleitosa). – Embotar é “fazer boto. ou paragem (e não – deleitável).. Dizemos: uma prosa deleitável. ou – os peixes que se estão pescando: porque em todos estes casos não se subentende medida a encher. Dizemos – amostra do pano (e não – mostra). embotar. ajuntar. e arrumamos os maços no armário ou na estante”.. de associar coisas em quantidade. tirar a forma de. amassando.

de vida retraída. – Entre imensidade e imensidão mal se poderia marcar uma diferença muito subtil. etc. – Solitário é termo genérico: diz-se indistintamente de quantos vivem em sítios apartados. aquela é mais vizinha de imensidade. As nuvens grossas são indícios de chuva”. e talvez exprime ou representa. O cenobita (do grego koinos. a não ser por figura muito forçada). das estrelas). amplitude. segundo Bruns. de um certo espaço mesmo. para viver na contemplação e no estudo. leva ao conhecimento de algum objeto. de infinito. – Âmbito é o espaço compreendido dentro de certos limites. que é mais – grande extensão. extensão. 286 AMPLIDÃO. e bios. pois. Na maioria dos casos. amplitude fora do comum. vastidão. de quantidade extraordinária. – Anacoreta. religioso. – Grandeza é propriamente a qualidade de ser grande. É dos mais extensos entre os do grupo. imensidão. é “uma prova mais completa. de infinito. aponta. e aí vivem entregues à meditação religiosa. de privações voluntárias. Esta é mais próxima de grandeza. longe do convívio do mundo. – Há mais austeridade na ideia sugerida pela palavra monge que na do vocábulo cenobita. Dizemos: aqui estamos a enfrentar com a imensidade (e não – com a imensidão. da praça. denota. – Demonstração. Dizemos ainda: tratar do assunto em toda a sua amplitude (e não – amplidão). devendo logo notar-se que ambos têm aqui sentido figurado. Dizemos: a amplitude de um campo. um sinal mais claro. de uma linha. manifestação mais decisiva”. eremita.. O vasto âmbito da sala. amplidão infinita (e nunca amplitude infinita. – Vastidão é a qualidade do que é vasto. chama-se-lhe tartufo. aqui. Amplidão significa extensão sem ideia de quantidade precisa ou determinável. As palavras são sinais das ideias. cuida de uma ermida ou capela. mas. grandeza. hipócrita. O monge é como o desenganado que foge ao mundo e aos homens. pois é equivalente de infinito. – Eremita (ermitã ou ermitão) é o religioso que. a amplidão do espaço. – Indício é o que indica. – Amplidão e amplitude são duas formas vernáculas da mesma palavra latina amplitudo. asceta. quando o asceta o é só na aparência e nas exterioridades. imensidade. quando esta palavra se refere aos católicos romanos. fanático. cenobita. monge. âmbito. “vida”) é o monge que não procura precisamente a solidão. Figuradamente se diz de qualquer pessoa que vive retirada do trato social. fora da acepção própria que tem na tecnologia científica. é-lhe inerente a ideia de mortificação do corpo. o mesmo não se dá com imensidão. imensidão sugere ideia de grande número. amplitude significa extensão maior ou menor. ou melhor o sentido que por extensão se lhes dá comumente. dizendo – imensidão do céu.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 notícia de outra coisa com que tem relação. O . enquanto que imensidade sugere ideia de ilimitado. “aplica-se aos que se retiram do vaivém do mundo para sítio isolado. denuncia. – Extensão. em lugar isolado. salvo se a esta déssemos um completivo. Este vocábulo toma-se sempre à boa parte. para com eles viver em comum. mas sim a companhia de alguns homens da sua feição. 287 ANACORETA. é muito semelhante a amplitude e a grandeza: designa as proporções de uma superfície. Imensidade é mais do que sinônimo perfeito. solitário. Em todas as religiões há ascetas. e gozar a seu modo de um isolamento que não é absoluto. de vastidão. frade. etc. do espaço. – É asceta qualquer pessoa que despreza o bulício do mundo e se entrega inteiramente a exercícios espirituais (sendo o ascetismo independente de qualquer ordem religiosa). “comum”.

desgoverno. como termo escolástico. des- extrato. mau governo. – Desgoverno. pois o fanático julga-se superior ao resto da humanidade. – “Na série de ideias em que os primeiros sete vocábulos deste grupo são sinônimos. Em política. desregramento. Noutro sentido. são precisamente distintas. Noutro sentido. 288 arte ou ciência. recapitulando a matéria de que no entrecho se tratou desenvolvidamente”. e fecha os olhos às desgraças da terra que não remedeia para não se distrair da contemplação em que vive. 289 ANARQUIA. se têm como sinônimos perfeitos. Em acepção mais alta. suma. é o mesmo que resumo. reduz a sua doutrina. concerto. o legítimo asceta é geralmente egoísta. pode ter por objeto a crítica. porém. Entre monge e frade há a mesma diferença que entre mosteiro e convento: o monge é do mosteiro. se recorde o texto da obra principal. Num sentido menos vulgar. etc. porém. – Desordem é “falta de ordem normal”. discórdia. análise diz-se de trabalho literário ou científico em que é examinado outro de igual natureza. o plano e a sequência das ideias explanadas na obra de que se trata. quer por simples resolução. se diz da obra literária que extrai abreviadamente a doutrina de outra. Mas religioso é palavra de mais lata extensão. mais frequentemente do sumário que precede a cada uma das divisões de um poema”. – Fanático diz-se de quem é ultrarreligioso. porém. poema. o termo mais apropriado é epítome. – Epílogo é o “resumo que se faz no fim de um trabalho literário (discurso. pois pretende a bem-aventurança para si. súmula. destempero na administração da coisa pública. pró ou contra. como termo filosófico – anarquia será o vocábulo com que se há de designar “o regime social independente de autoridade política. – Desregramento é “desvio das normas. – Súmula é “uma pequena suma. . – Argumento é o mesmo que sumário. consubstanciando-a e resumindo-a. – Desconcerto é ausência de acordo moral – e a desordem que revela esse desacordo. desordem. – Suma é “o resumo que nos dá em substância a matéria de um trabalho”. ou tão somente o fim de expor o objeto. Esta palavra toma-se a má parte. observa os preceitos que ela lhe impõe. balbúrdia. religioso é sinônimo ainda mais próximo de monge e frade. feita pelo que defende alguma tese. no uso comum. quer que tudo e que todos se amoldem às suas imposições. de modo que. resumo. epítome. epílogo. caos. seja qual for a sua crença. ao lê-lo. dos costumes próprios de uma sociedade. o frade é do convento. sem pretensões a substituir outro. porque se aplica a todos quantos se dedicam à vida religiosa. – Resunta. resunta.184 Rocha Pombo asceta. um sumário em que se indiquem apenas os capítulos de um livro. no entanto. propriamente só os que exercem o governo é que podem praticar desgovernos. – Compêndio é a exposição abreviada dos princípios de uma ANÁLISE. – Anarquia e desordem são palavras que. pensa ser inspirado pela divindade. ou os artigos de uma revista”. – Sumário é uma exposição das principais matérias contidas no texto. infração dos princípios morais. – Resumo é o livro que. de poder público”. compêndio. argumento.). cizânia. dizse. muito longe de ser “falta de governo”. – Religioso diz-se daquele que. no entanto. anarquia é “ausência de governo. Nesta acepção. confusão. sumário. – Extrato é a cópia literal de um ou vários trechos de uma obra. Em sentido lato. drama. quer ligando-se a ela por votos. é desregramento de autoridade. é a repetição abreviada dos argumentos. ou a direção da sociedade humana só pelas leis morais”.

. para o qual parece que não há mais corretivo. “Deve ser horrível a ânsia com que o réu espera a sentença do júri”. anátema. Luiz. Mas entre anátema e excomunhão nota Bruns. lhe não é obediente”. O monge partiu amaldiçoando a cidade. – Autópsia significa propriamente “vista de si mesmo”. banir do grêmio da Igreja (e no sentido geral. devido à irrupção de paixões. maldição. o estudo de todas as partes de um órgão ou de todo um cadáver. – Balbúrdia é grande desordem. – Maldição exprime ideia mais genérica do que anátema. excomunhão. feito diretamente pelo médico”. Aquele filho que os pais amaldiçoaram.. a seguinte diferença: “o anátema dimana. E dá estes entre outros exemplos. 293 ANSIEDADE. e num sentido mais alto e abstruso. autópsia. enquanto que maldição é um como anátema lançado por alguma alta autoridade moral. velho. e a dissecção consiste em dividir. 292 ANCIÃO. ânsia.. de uma família”. Nestes termos a eles se refere Bruns. – Velho exprime simplesmente “o homem que tem chegado à idade da velhice”. por alguém que se sente abalado de grandes amarguras. 291 ANATOMIA. de funda consternação. – Ana- tomia é.: “Ansiedade difere de ânsia como incerteza difere de receio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 185 de uma instituição. antes da criação da vida. separar em partes um órgão. – Confusão é “a desordem que chegou ao seu mais alto grau.. A excomunhão é a sentença ou decisão da autoridade eclesiástica pela qual se exclui do grêmio da Igreja aquele que. – Cizânia é mais – “falta de harmonia. “visão da alma”. veementes furores”... O profeta que amaldiçoou os meninos perdidos. pertencendo a ela. Não se compreende discórdia sem agitação. Há ânsia quando se receia que um mal suceda”. de concerto moral. – Ancião ajunta à ideia de velho a de autoridade: é o velho respeitável e digno de veneração pela sua sabedoria e probidade”. de sagrados ressentimentos. de qualquer grêmio)... como a excomunhão. sem desvarios e estrondos. “Vive em ânsias (ou na ansiedade) aquele que receia a cada momento . para examinar-lhe a estrutura. a arte de dissecar. criando transtornos. Como termo de Medicina. se realizará ou não. expulsar. ou “visão interior”. dos poderes eclesiásticos. – Confundem-se or- dinariamente estes dois vocábulos. dissecção. – Destes dois vocábulos diz S. ou todo um organismo. mas aquele é fulminado contra os que da Igreja se emanciparam: o seu fim imediato é o de incitar ao ódio e à perseguição.. hostilidades. às injúrias e ao desprezo contra aquele que a Igreja anatematizou. o transtorno geral em que ninguém mais se entende. “Um prisioneiro espera com ansiedade o dia em que se há de ver livre”. amaldiçoar. Há ansiedade quando o espírito está inquieto esperando que um sucesso feliz acabe de realizar-se. 290 ANATEMATIZAR. bom ou mau. da organização de seres animados: é o extremo da confusão. ou quando labuta na incerteza de se qualquer sucesso. – Caos é o estado que se compara ao da matéria amorfa... excomungar. – Discórdia é “desconcerto profundo e violento. – Anatematizar e excomungar exprimem de comum a ação de excluir. tornando-se difícil restabelecer-se a paz. pois este é a maldição formal imposta pela Igreja. neste grupo. de boa paz” do que propriamente discórdia: e distingue-se desta ainda em sugerir a ideia de que foi um terceiro que a lançou ou acendeu. como se tudo estivesse em turbilhões. é o “exame minucioso.

Devemos acrescentar. de qualquer modo que se faça este trânsito: e tem relação a um ponto determinado a que a pessoa ou coisa se dirige. “povo”) as que provêm da infecção do ar. comunicando-se de umas a outras”. o cólera-morbo. etc. ou mover-se corporar. endemia. que ansiedade sugere mais ideia de impaciência aflitiva. – Marchar é “andar ou caminhar compassadamente: dizse especialmente da tropa de guerra quando vai com ordem de marcha”. a febre amarela.. ir de viagem de um lugar para outro.186 Rocha Pombo que lhe descubram o desfalque. ou pelas roupas. 294 ANDAÇO. sujas ou rotas de que se cobrem os mendigos. vestida com certo apuro. seguir. das outras pela ideia que sugere de grande miséria dolorosa e como que sagrada. contágio. peste. – Ir é andar. por várias regiões. trapos.. – Endemia é “mal próprio de um país. que pode levar consigo certos miasmas morbíficos. – Caminhar é fazer caminho. fazer caminho. o contágio (de cum e tago. “que se diz das graves epidemias que semeiam a morte em províncias e nações. mas – a ânsia. transitar. a peste de Levante. incorporação. aperto do coração. como não dizemos – a ansiedade. e demós.. – Molambos é brasileirismo significando – trapos. ou seja imediato.” – Parece que não se distingue bem a diferença. sobre”. os males venéreos. 297 ANEXAR. anexado. aos seus trapos: não seria próprio. Acrescenta Bruns. – Andaço é palavra vulgar que indica epidemia menor. no entanto. por meio do ar. sem relação a pontos determinados. molam- bos. ou que foi anexada a outra. Não dizemos – a ânsia. – Passar é “dirigir-se para algum ponto atravessando um caminho ou uma certa zona. “em. mas – a ansiedade de quem espera. qualquer corpo infestado. e devido a causas puramente locais”. correndo às vezes toda a extensão do globo. de associação de uma a outra coisa. Tais são a sarna. marchar. poderia uma pessoa elegante. doença que grassa pela terra. viajar”. ou as ânsias da morte. ou enfim. que é angústia. anexação. estendendose a províncias e reinos inteiros. móveis. farrapos. A primeira distinguese. – São palavras que quase sempre se empregam indiferentemente para designar as roupas velhas. in- passar. anexo. roupas muito rotas e sujas. ou enfermidades epidêmicas (do grego epi. ou fazer alusão aos seus farrapos. 296 ANDRAJOS.. ou então por orgulho gracioso. – Seguir é propriamente “continuar a viagem começada. distrito ou paragem”. – Estas palavras têm de comum a ideia. etc. que é realmente muito subtil. – Chamase epidemia. mais talvez sofrimento físico do que moral. epidemia. incorporado. Por excesso de modéstia. por tango “tocar”) é uma enfermidade que se comunica pelo contato. no entanto. marchando ou caminhando para diante”.” – diríamos referindo-nos à pobreza. 295 ANDAR. que usasse andrajos. fica fazendo parte desta conquanto . e nunca decerto se empregaria no caso o vocábulo andrajos. – Transitar exprime a ideia geral de “passar além. que sugerem. ou de certos climas. ou mesmo à mediania a que tivesse descido um homem rico. entretanto. em certos tempos ou estações do ano”. – Segundo Roq. a esta lista a palavra peste. ir. caminhar. etc. A coisa anexa. antiq. incerteza dolorosa – do que ânsia.. referir-se. de um lugar para outro. Tais são certos catarros.. a lepra. “Aqueles farrapos da antiga opulência. – Andar é mover-se dando passos para diante.

unido. ou um país qualquer que se anexa a outro continua a ser o que era anteriormente. por exemplo. – Anexo diz-se. recebe domínio alheio. – Unido. pois. nenhuma delas fica imperando sobre a outra: eram duas. revirado. desencaminhando. aliciar. escaldado. um todo em que nenhuma das partes fica dependente nem nenhuma dominante. formando corpo à parte. recrutam-se os conscritos refratários. Essas freguesias. um Estado. Um Estado que se incorpora a outro passa a fazer com este como um só corpo. mingau. operários para as nossas oficinas. Isto se entende principalmente em matéria política. 299 ANGARIAR. o pensamento constante da política alemã tem consistido em fazer tudo por incorporar definitivamente aquelas províncias ao império”. mexido.: “Estes dois adjetivos exprimem ideias diferentes (isto é. e passa a formar com esse exército um só todo. uma ideia comum fundamental diferenciada por ideias acessórias): o que está anexo forma. – Incorporar designa uma ação ou efeito mais completo que o da simples anexação. Uma repartição que se anexou a outra fica apenas sob a mesma direção sob que esta se acha. angu ou mingau. seduzindo com muitas promessas e vantagens”. daquilo que recebe domínio alheio ou lhe pertence. Dependente diz-se do que. – Escaldado é o mesmo que pirão. – Angaria- -se “fazendo acordo. 300 ANGU.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 187 conserve o seu modo de ser ou o seu caráter individual. Uma força militar que se incorpora num exército perde inteiramente a sua forma ou condição antiga. angariamos amizades que nos sejam úteis na desgraça. tudo muito misturado e revolvido. porém. dependente. Quando duas freguesias se anexam. melhor ainda que anexo. escreve Bruns. Entre diversas províncias unidas não há nenhuma a que se atribua hegemonia ou preeminência. recrutar. 298 ANEXO. – Recruta-se com autoridade. dois primeiros. aplicam-se indiferentemente à farinha de mandioca escaldada em água. sendo o pirão apenas a farinha fervida ou aferventada em água ou em caldo de peixe. e desde essa época. Recrutam-se praças para um batalhão. – Alicia-se “enganando. pirão. entre os brasil nem sempre se nota diferença essencial e precisa. Angariamos adeptos para a nossa causa. dependente. destacando-se do México. tratando com boas maneiras a pessoa ou pessoas que se quer atrair ao nosso partido ou ao nosso serviço”. sob o comando do mesmo chefe. quase sempre à força. isto é. Quando muito. apenas adstrito à soberania do país a que foi anexado. do que forma parte de um todo. papa. Neste exemplo marca-se bem a distinção entre os dois verbos: “A Alsácia-Lorena foi anexada à Alemanha em 1871. dá-se ideia do esforço e trabalho com que se angariam esses partidários. designa o que se associou a outro sem perder coisa alguma das suas condições próprias. O Texas foi anexado à União norte-americana. com aquilo a que foi anexado. perdendo o seu caráter individual. sendo apenas mais . Alicia-se gente para a revolta. formam uma. ficou sob o pacto federal daquela outra república sem perder o predicamento de Estado. – A maior parte destas palavras são quaiseirismos comuns. e há quem alicie inocências para a miséria dos bordéis. – Sobre os ainda que per se constitua um todo à parte”. – Mexido e revirado são massas de farinha com peixe ou carne. ficam dependentes da mesma diocese. Mesmo quando se diz que se recrutam partidários para uma causa. – Angu e pirão. admite-se que o angu é mais condimentado.

– Desejo é vontade mais viva. irregular. – Excepcional é o que não se conforma com a regra geral. O eclipse enoiteceu a face da Terra (não anoiteceu)”. pois apenas significa a disposição favorável de agir em qualquer circunstância. É anomalia de linguagem toda forma admitida pelo uso. leite. – É anômalo o que se afasta do usual. que não se põe de acordo com a ordem conhecida e aceita”. irregularidade. qualidade do anormal. As anormalidades . da regra comum. etc. que não se opera segundo as condições normais. excepcionalidade. vulgarmente. É uma anomalia moral um sujeito malvado professando uma religião de paz. de sagu. fica fora das leis. ou um sintoma aberrante em certo morbo”. muito altas ou muito difíceis. disformidade. tem-se desejo de possuir algum bem que nos agrada ou nos encanta. – Desordenado é “o que sai da ordem vigente. A estação tem sido muito anormal (fora do que comumente se observa). deforme. Para minha alma enoiteceu no dia em que vi morta minha filha. é anormal (isto é. numa certa regra que rege o maior número das coisas ou fenômenos de que se trata”. – “Anoitecer é o fenômeno que observamos cada dia entre o pôr do sol e o cerrar da noite. excentricidade. ou de arroz. açúcar. isto é. É anômalo “um mal desconhecido. – Irregular distingue-se de anormal em sugerir mais claro a ideia de infração culposa: ideia que não é essencial no outro. – Mingau é um angu especial. excêntrico. de trigo. monstruoso. – Anormal é “o que infringe a regra dominante. e particularmente designa comida grosseira.188 Rocha Pombo 303 ANÔMALO. malpreparada. do que infringe a regra instituída.) com ovos. – De todos os vocábulos deste grupo. as leis conhecidas. pois este não se adstringe a regra nenhuma. e só excepcionalmente é que ele se mostra calmo). de frutas. da ordem estabelecida. disforme. 302 enoitecer. excepcional. anomalia. sente-se anelo (ou anelos) do Céu. anoitecia. mesmo que seja isso apenas aparentemente. que se tem como fazendo votos e procurando vê-los realizados na vida. é vontade. – Irregularidade é a qualidade do que é contrário à boa ordem. mas que se afasta da gramática pela construção viciosa ou absurda. – Tem-se vontade de sair cedo de casa (sem fazer disso grande questão). desordenado. As irregularidades de uma vida licenciosa nem sempre se poderá dizer que sejam anormais. enquanto que a excepcionalidade consiste apenas em “não entrar a coisa excepcional na regra instituída. como anseio é anelo mais ardente e fervoroso. – Anelo é desejo mais intenso e solícito. anor- extenso do que estes. feito de farinha (de mandioca. – Enoitecer é o fenômeno anormal que se pode observar a qualquer hora do dia quando o tempo se escurece por uma causa qualquer. de milho. – Anormalidade é ato anormal. deformidade. muito bem estes dois verbos. não está no seu temperamento. Tanto dizemos – escaldado de farinha (esta fervida em caldo de carne ou de peixe) como – escaldado de ovos. ANOITECER. – Aspiração é desejo mais grave. o menos expressivo e forte. ou de coisas excelentes. qualquer substância pouco consistente. alimentam-se grandes aspirações que raramente se realizam. vonta- de. monstruosidade. ou que se não acha no estado ordinário”. 301 ANELO. tem-se anseio (ou anseios) por alguma coisa que nos apaixona. Difere muito de anormal. etc. Aquela calma em F. – Papa significa “massa em geral”. etc. malidade. Quando chegávamos à fazenda. as normas aceitas. – Distingue Bruns. desejo. aspiração. anseio. anormal.

fixando seu verdadeiro sentido. e só figuradamente é que se emprega excentricidade para significar “o que tem um indivíduo. assim a interpretação. numa criatura nem sempre serão irregulares (isto é. 305 ANOTAR. deforme significa “defetivo. 304 ANOSO. – Velho é “aquilo que está gasto. bem-feita. que se costuma pôr à margem do texto para explicá-lo. as notas são curtas. É assim que a anotação instrui.) – Assim como o fim das anotações é explicar com clareza e exatidão as frases e palavras.. à inteligência comum. derrama sobre o texto uma luz que a todos alumia. etc. explicação. A anotação. antigo. que excede. Também se chamam notas os reparos e tachas que se põem a alguns escritos. ob- servações. sem a forma própria do gênero. pois não se limitam. comento. e aplica-se de preferência ao homem”. por engenhosa que seja a interpretação. interpretação. ou cuja vida ou duração é tão extensa como um século”. velho. etc.”. à justiça. – Anoso dizemos melhor tratando de coisas ou de fenômenos. de anomalia na conformação (deformidade)”. porque cada leitor se julga com direito de ser intérprete. supõe ambiguidade. explanação. apostilar. a referência à matéria deles. – Mais extensas que as anotações são as explicações. da direção. ou um sentido oculto ou obscuro que se aclara com autoridades e raciocínios. Mais extensão admitem as anotações. em linguagem exata. de irregularidade repugnante à moral. e só dizem o que é precisamente necessário para aclarar e ilustrar a obra. que vêm a ser como breves comentários das obras. glosas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 189 de gosto. idoso. que exagera a forma própria comum”. e envolve ideia de vício. as quais. do centro que lhe é próprio. uma coisa. comentário. anosa existência (carvalho. um fenômeno. – Excêntrico é propriamente o que sai do núcleo.. como aquelas. mas rigorosamente falando. – Cota é “a citação de autor posta à margem. conhecido só de alguns eruditos. senão que se estendem a facilitar a inteligência das coisas ao vulgo dos leitores”. – Segundo Roq. existência que conta grande número de anos). a aclarar o sentido da frase ou palavra. – Deforme confundir-se-ia com monstruoso se este não sugerisse a ideia. “as anotações e as notas se empregam para aclarar e ilustrar (anotar) alguns lugares de uma obra. secular. – Explanar é “explicar. são extensas e eruditas explicações de um texto”.). apostilas. comentar. notas. sempre nos deixa em dúvida. explicar. explanar. etc. afastando-se do que se nota em todos ou no comum dos indivíduos. de tendências. estragado pelo tempo”. tornando simples e fácil de entender um . e procura achar o verdadeiro sentido do texto que se interpreta. de afeições. e a interpretação limita-se a apresentar razões pró e contra. à justiça. ou para completá-lo. – Idoso equivale a “anoso. (Comento vale mais por nota e fica em relação a comentário como nota em relação a anotações. Também se chama assim a nota marginal posta em autos. Mas disforme quer dizer “fora da forma usual.) – As apostilas são notas ou glosas (ou observações elucidativas) quase sempre pouco extensas. (Quem explica não faz menos do que “desdobrar aquilo que é complicado”. anotações. coisas ou fenômenos do mesmo gênero”. – Disforme e deforme poderiam confundir-se se se disfarçasse o valor preciso dos respetivos prefixos. nem sempre serão contrárias à moral. – Secular é propriamente “o que conta séculos de existência. por sua parte. O anoso carvalho. – Antigo é “o que é tão velho ou tem tanta idade que já se acha fora de uso”. de original. que lhe é essencial. cotas. interpretar.

Quem se incumbe da explanação de um texto.. – Obscurecer sugere ideia mais sensível de atividade subjetiva: significa “privar de luz. – Toldar é semelhante a nublar. sendo a treva (tenebra) a ausência completa da luz24. e neste caso não seria aplicável meridionais. austral. enquanto que carregar diz muito mais.190 Rocha Pombo texto. que envolve ideia de toldação e ensombramento. cobrir de sombras. como se vê deste exemplo: “Esta miséria jamais nos há de obcecar. – Dizemos também – terras ou mares austrais – para designar os que ficam no hemisfério do sul. 308 ANTECEDENTE. Muito raro será o caso em que. toldar. fechar. escuro. – Tanto no sentido natural como no figurado exprimem de comum estes verbos a ideia de eclipsar. se pôs em guarda conosco. Terras. uma frase”. escurecer. – Escurecer é o mais genérico e vago do grupo. Enoitar diz propriamente “pôr ou deixar em noite”. torvo. não se possa substituir um pelo outro. de fazer sombrio. É mais próprio. a dor como que lhe nublou um tanto a razão naquele instante. Em nenhum destes casos seria de tão lídima propriedade o verbo anuviar. a ideia de turbação e escureza. meridional. grave. A paixão política obscurece os espíritos mais luminosos. deixar em meia-luz”. tem valor análogo. Dizemos: o tempo está meio nublado. – Entenebrecer é mais forte que escurecer. dizer – hemisfério austral – em vez de hemisfério meridional. fazendo o radical tolda em toldar função análoga à de nuvem em nublar. Quando se diz que F.. entenebrecer.. no sentido figurado. ou a cor mais viva. 306 ANUVIAR. ensombrar. nublar. à ideia de ante24 Poder-se-ia juntar a este grupo os verbos eclipsar e enoitar. – Ensombrar é “fazer sombrio. de uma forma um tanto vaga ou abstrusa. mares antárticos. portanto. um princípio. lúgubre”. pois que significa “fechar ou fechar-se como hostilmente”. pelo menos não tanto quanto as divícias lhe obscurecem o senso moral para a justiça”. – An- tártico significa “que está abaixo do círculo polar do sul”. ensombrou-se aquela alma à vista de tal cena. – Meridional quer dizer – “que fica ao sul de um outro ponto designado”. fechou a alma. ensombrar como se entre a coisa anuviada e a nossa vista passasse ou se interpusesse uma nuvem”.” Escurece o tempo. – Antecedente é. Ele carregou o semblante ao ver aquela miséria. – Anuviar é “toldar de nuvens. de um problema. prévio. A saudade ensombra-lhe o semblante. – Austral designa todo o hemisfério oposto ao boreal. 307 ANTÁRTICO. melhor do que aquele. obcecar. – Fechar equivale ao precedente. – Obcecar (no sentido figurado) confunde-se com obscurecer. obscure- cer. como se escurece a inteligência mais lúcida. sendo apenas de menos intensidade que o outro. carregar. – Carregar tem uma acepção especial. “termo especulativo que. anterior. quer-se dizer que F. de uma questão – há de explicar-lhe os termos e esclarecê-los de modo que se torne mais facilmente inteligível. . No sentido fig. exprimindo “a ação ou o efeito de fazer ou de fazer-se escuro. aquele sacrilégio ficou para sempre a ensombrar-lhe as magnificências do sólio sagrado. precedente. mesmo no sentido figurado: significa “fazer sombrio. devendo notar-se que a predicação de obcecar é mais completa e direta. Eclipsar significa “escurecer pela interposição de corpo opaco entre a luz e o órgão visual”. segundo Bruns. – Nublar é quase o mesmo que anuviar: apenas este sugere. fazer menos claro e límpido”. que se isolou moralmente da nossa intimidade. severo.

Dizemos também: os precedentes de um criminoso. – Observa Bruns. fazendo alusão à conduta que parece explicar de perto o delito de que se acusa esse criminoso. Notando-se defeitos no contrato anterior. avós. o gerente de uma empresa. – Antecessores dizemos dos ascendentes. o dono de uma casa de comércio. – Precedentes são os fatos que precedem imediatamente o fato de que se trata. O capítulo precedente ao capítulo IV é o capítulo III. dirá: o meu antecessor.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 191 rioridade. etc. aqui não designam parentesco de sangue . tem ascendentes. ascen- ciso admitir uma certa distinção entre estas duas palavras como substantivos. os funcionários da administração. e corresponde mais ao cerimonial. – Ascendente dizemos de qualquer dos parentes de que provimos: o nosso pai.. O pobre como o rico. mas só a primeira dessas denominações quadra bem na boca de todas as classes.. dentes. Os reis. precedentes. como avós. isto é. de figuras que os precederam na dignidade. o II ou o I. predecessor. pois não especifica se outros fatos ou outras coisas se intercalam ou não entre o fato ou a coisa atual e o fato ou a coisa anterior. referindo-nos a todos os sucessos que são como determinantes desse acontecimento. outros que antes deles ocuparam os mesmos cargos. O serventuário de um ofício. e predecessor é o que o ocupou antes do antecessor”.. Acrescenta Roq. como precedente. entre o fato atual ou a coisa presente e o fato ou a coisa precedente. antepassados. pais. – Antecedentes de um fato são todos os fatos de que esse fato decorre como uma consequência ou corolário. As consequências provêm das causas antecedentes. etc. – Confun- dem-se comumente estes dois vocábulos. Dizemos: os antecedentes históricos de um certo acontecimento. Neste vocábulo o que predomina é a ideia de que. da justiça. O capítulo de que se fala como anterior ao capítulo IV pode ser o III. – Anterior e prévio devem distinguir-se. reúne frequentemente a de causa. 311 ANTECESSORES. – Precedente indica prioridade ou anterioridade. contam com desvanecimento grande número de predecessores. o nosso bisavô. Esta palavra encerra algo de nobre e de elevado. não só anterior. O que é anterior está antes ou precede. 309 ANTECEDENTES. mas também necessário. não se intercala nenhum outro fato ou nenhuma outra coisa. maiores. o que é prévio é. sem nenhuma ideia de causa nem de influência. às dignidades. os duques. os grandes. que nos impede empregá-la em circunstâncias triviais. tiveram seus antecessores nos cargos. considerando-os como tendo fruído do que nos legaram. – Anterior. o plebeu como o nobre. isto é. de influência. 310 ANTECESSOR. avoengos. que ascendentes é “o termo mais genérico e o menos pretensioso entre os primeiros três deste grupo. mas é preciso notar que. mas de modo indeterminado. – É pre- “antecessor é o que ocupou algum lugar em relação ao que nele lhe sucedeu imediatamente. aos privilégios. fez-se novo contrato baseado em condições prévias”. enquanto que antecessor corresponde à ordem material de sucederem-se as pessoas umas às outras. o nosso avô. designa prioridade no espaço ou no tempo. – Pais. antigos. antepassados ou antecessores. segundo Lacerda. em geral. etc. – Antepassado não se poderia dizer do pai nem do avô: só do bisavô para além se podem começar a contar os antepassados. mas não deverá dizer: os meus predecessores”. ou daquilo em que lhes havemos sucedido”. com muita razão: “Predecessor indica sujeito ou classe elevada. são nossos ascendentes.

“reserva-se este nome para os homens célebres da antiguidade. a fim de cingir e defender uma praça ou cidade fortificada. F. A causa de tal oposição é desconhecida inteiramente. É mais forte que a antipatia. zanga. construído segundo as regras da nova arquitetura militar. oh nobre Coriolano. A fortificação das cidades mais inexpugnáveis. antes de chegar à idade em que é mais comum que se morra). muralhas para resistir aos inimigos que a quisessem atacar”. quizila. muralha. segundo a arquitetura militar antiga. gana. e o antemural. muitas vezes morais. – Prematuramente significa “antes da ocasião própria em que alguma coisa se deve fazer ou deve dar-se”. – Aversão é sentimento que tem igualmente alguma coisa de desconhecido em suas causas. etc. aversão. Paris tem muros e muralhas. – “Das duas palavras gregas anti. ódio. F. “contra”. vos fizestes inimigos. prematuramente. e do recinto da cidade.. e por vezes fabulosos. parentes ou não”. edificam-se muralhas só para fortificar e defender praças. frequentemente exagerados. referindo-nos até a Adão e Eva.192 Rocha Pombo 313 ANTEMURAL. 104 e 372). dos Lusíadas: Oh tu. (VI. 314 ANTIPATIA. muros para impedir a entrada de contrabandos e para que se recebam nas portas os direitos de octroi. se bem que isto não seja essencial à palavra. Catilina. preveniu-nos antecipadamente que não viria hoje. antes do tempo devido”.” – Maiores é “o termo genérico em que se compreendem todos os que viveram antes de nós. consistia em muro e antemural: o muro que cingia e defendia a cidade. repugnância. e. ou que chegasse a época do pagamento). – Antecipadamente diz “antes do prazo estipulado”. pois dizemos – nossos pais. não só da nossa nação. rancor. Hoje fazem-se muros só para cercar uma quinta. adiantadamente. “paixão”. Que contra vossas patrias. IV. – Adiantadamente exprime “com antecedência. seus efeitos são prodigiosos.) e só por extensão é que se aplica este termo para designar os ascendentes em geral. aos homens. com profano Coração. Sertorio.: “Na frase da milícia antiga – diz Vieira – o muro significava a fortificação mais estreita. F. – Pais indica os mais próximos do nosso tempo. muro. morreu prematuramente (isto é. asca. ou mesmo os antepassados. e vós outros dos antigos. Passos. e é assim que o emprega Camões na seguinte passagem do c. e pathos. – Sobre ou direto: referem-se em geral às gerações que nos precederam. segundo Alv. – Antigos parece encerrar ideia de mais afastamento ainda que avós. horror. – Muralha é o muro de praça fortificada. – Avoengos designa mais propriamente “a série dos avós ou progenitores de quem descendemos em linha reta” (Aul. e é assim que muito se há delirado sobre ela. as que hoje se chamam fortificações ou obras exteriores. que a defendem no largo. compondo uma que poderíamos dizer literalmente contrapaixão (ou contrassentimento) formou-se a palavra latina antipatia (que se trasladou para as línguas derivadas) e que significa uma oposição ou inimizade natural ou irresistível dos seres uns contra outros. estes três vocábulos escreve Roq. mas parece não ser tão invencível . 312 ANTECIPADAMENTE. – Avós designa antepassados mais remotos. pagou adiantadamente três meses do aluguel da casa (pagou antes que começasse a correr o aluguel. asco. como aos de todas as raças e que viveram antes de nós. conforme havíamos combinado (preveniu antes do dia ou da hora em que devia vir). e o antemural que cingia e defendia o muro”.

de gana (em sentido figurado) que é “um forte desejo de mal. Aproxima-se. e até de “quase ridículo”. é palavra vulgar que indica “aversão. o ódio. As palavras e frases antiquadas ou desusadas “podem ainda usar-se em poesia e em estilo jocoso. – Rancor é “ódio profundo e oculto. 316 ANTIQUÁRIO. portanto. Luiz de Souza e Vieira diferem muito de Seita e Paiva. – “O domí- nio” – escreve Bruns. e até em amor. que a forma não está em moda por ser muito velha”. por graves injúrias recebidas. Diz. – A repugnância é ainda mais forte que a aversão. segundo a sentença de Horácio. encarniçamento e quase furor impulsivo contra alguém. – Asco é “aversão. Barros e Fernão Mendes Pinto não escreveram como Fernão Lopes e Castanheda.. – Estas palavras “indicam coisa antiga que decaiu do uso”. mas genuínas da língua. no entanto. e que esta o é também menos que a antipatia. – Horror é “grande aversão e repugnância. não as obsoletas. Mas isto mesmo poderíamos dizer. muitas vezes sem ódio”. e significa a antipatia que os pretos têm a certos comeres ou ações. de antipatia: quantas vezes se tem antipatia por uma pessoa só porque não a conhecemos de perto? – O ódio nasce quase sempre de poderosas e fundadas causas. desusado. merece louvor. nas ações. posto que todos escrevessem em bom português. porém o que busca desenterrar velharias. mas as obsoletas parecem condenadas a perpétuo esquecimento. a repugnância. que a repugnância é menos invencível que a aversão. arcaico. em lugar da qual se usa em linguagem comum”. produzido sempre por alguma causa muito grave”. – Asca. aborrecimento. às vezes gratuitamente”. – Obsoleto acrescenta à significação das duas outras uma ideia de – “excluído ou proscrito”. muitas expressões desusadas ou antiquadas. e que muitas vezes acontece que uma e outra (aversão e repugnância) chegam a converter-se em afeto. – Entre desusado e arcaico deve notar-se a seguinte diferença: desusado diz propriamente “fora do uso. já excluído pelo uso”. e cada escritor o estilo que lhe é próprio. e ainda de capricho. e clássico para seus respetivos tempos”. para fugir à invasão do neologismo. e prefere os arcaísmos de nossos avós às boas expressões que o uso depois introduziu – este não se livrará da pecha de rançoso. repugnância que se tem a coisa torpe ou imunda”. pois têm muito de caprichosos estes sentimentos que devemos chamar acidentais. – “em que o antiquário e o arqueólogo exercitam a sua atividade . De qualquer modo que se manifeste. É mais “tédio. enquanto que arcaico significa apenas “que o vocábulo é muito antigo. 315 ANTIQUADO. Camões e Bernardes não se parecem com Gil Vicente e Sá de Miranda. O escritor que se serve de palavras e locuções antiquadas (ou desusadas). – Quizila (ou quizília) é palavra da língua bunda. O uso pode fazer ainda reviver. e talvez com mais razão. má vontade que se tem a alguém. e chega a inveterar-se na alma como um veneno mortal. são cruéis e terríveis seus efeitos. algumas vezes. que de ordinário foram substituídas por outras mais bem derivadas e mais sonoras”. mais naquelas que nestas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 193 nem tão profunda. parece com o tempo ganhar forças. Roq. arrelia do que aversão propriamente. – Zanga é “a quase aversão que se tem a pessoa ou coisa que se julga de mau agoiro”. talvez com desejo de vingança”. arqueólogo. A aversão e a antipatia exercem-se indistintamente nas pessoas e nas coisas. segundo o mesmo Roq. Sem nada mendigarem aos estranhos. expressivas e com boa analogia. de ligeiros motivos. Cada século tem seu cunho particular. obsoleto. de mera vontade.

‘frente a frente’ e stare. É por antífrase que os gregos designavam as Fúrias pelo nome de Eumênides (deusas benignas. um antiquário pode tornar-se arqueólogo”. Bourg e Berg. que às . e não somente às partes de um mesmo período. (II. Esta palavra é. – Contradição é “desconcerto entre o que se disse e o que se está dizendo. mas sem fundamentar claramente a distinção. contemplando a horrenda furna e estômago do monte (Etna). que deu o latim antrum. – Contrariedade é “a relação que se nota entre duas coisas ou duas ideias opostas”. – Antilogia “é a contradição ou desconchavo entre as ideias sustentadas pelo mesmo autor. etc. oposição. Esta palavra emprega-se nas artes. ainda segundo Bourg. furna. e defendida pelos lados como um recinto. lapa. subterrâneo. que se aplica a situações.194 Rocha Pombo é o mesmo”. e diferença-se de todas as do grupo em acrescentar-lhes à significação comum a ideia de medo. ou benévolas). cuja disforme boca mostra ter uma légua de âmbito. – Antiquário é o que tem gosto pelas coisas antigas. em filosofia. caverna. Se não houvesse aí antífrase. toca. de horror. buraco. – Antinomia é “a oposição que se nota entre duas leis ou princípios”. contraste. o qual entrou no português como palavra culta e poética. e segundo a sua origem significa – cova profunda e escura. – Furna é cova profunda. – Segundo Bourg. – O contraste (do latim contra. ou entre os capítulos de um mesmo livro”. antilogia.. essa afirmativa marcaria que Quinault é um poeta de primeira ordem. cova. porém. antítese “pertence exclusivamente à linguagem literária. e dizemos só da flagrante oposição que existe entre duas palavras ou duas ideias aproximadas: dizer que um homem é de uma ‘orgulhosa’ ‘simplicidade’ é fazer uma antítese.. que se dedica ao seu estudo. que as coleciona (e que até com elas negocia). contradição. e Berg. “é uma palavra ou uma locução que deve ser entendida num sentido contrário ao que exprime essa palavra ou essa locução. em literatura. Com estudo e paciência. ‘conservar-se’) é a oposição que existe entre coisas contrárias. caverna. Esta palavra não é poética. e em geral sempre que se nota uma impressiva contrariedade entre duas coisas. 318 ANTRO. o sentido real que está no pensamento do satírico. contraste entre as ideias ou as afirmações de alguém e as nossas”. É por antífrase que eles designavam o mar Negro sob o nome de Ponto Euxino (mar hospitaleiro). gruta. 227)”. – Arqueólogo é “o que é muito versado em tudo quanto respeita a antiguidades. – Oposição é aqui “o maior ou menor afastamento em que uma coisa fica da outra”. antino- mia. pela antífrase. as explica. diz-se particularmente da fauce lôbrega de um vulcão. e que a aproximação faz ressaltar melhor”. 317 ANTÍTESE. distinguem a antífrase da contraverdade. Quando Boileau diz: “Asseguro: Quinault é um Virgílio” – a proposição: “Quinault é um Virgílio” “deve ser entendida em um sentido contrário ao que lhe é natural e próprio.. entre as duas palavras diferença considerável. contrariedade. – “a primeira destas palavras é o grego antron. escura e medonha. há. – A segunda do grupo é latina. e Berg. essa proposição marca que Quinault é um medíocre poeta”. – A antífrase. que as conhece. e significa uma grande escavação aberta a modo de abóbada. qualidades ou modos de ser diferentes. É também por antífrase que. mas admitido.. antífrase. portanto. muito mais restrita que contraste. a caracteres. falando de um celerado. dizemos: este santo homem”. de que nos deixou exemplo Bernardes na Floresta: “Estando em cima. – Segundo Roq.

– Toca = “buraco onde vivem ou se refugiam caças”.. de produzir sensação. é o esplendor exagerado de um ato solene.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 195 outras não é inerente. pois – os preparativos de uma função. – Magnificência é o esplendor. alardo. e quer dizer uma caverna na encosta de monte. as feras. ou mesmo uma caverna menos profunda e de menores proporções”. figuradamente – sumptuosidade do estilo. ostentação. sem majestade de encenação.. – Cova é “abertura feita na terra. as grutas são habitadas pelos anacoretas. o que escrevera Roquete). majestade. A significação da palavra aparelho é muito mais extensa que a das anteriores. – Sumptuosidade. na Vida do Arcebispo: “E viu juntamente que ao pé do penedo se abria uma lapa que podia ser bastante abrigo para o tempo”. esplendor. – Segundo Roq. disposições para todo exercício. a pompa que maravilham. – “quando se reúnem. apresto. Quando se diz: “o aparato daquela cena” – quer-se dar ideia. assim como à reunião deles se chama aprestos ou aparelhos. fausto. luxo. – Buraco “será uma cova. e dizia-se antigamente aparelhos para dizer missa. e que sugere ideia de deslumbrar. – Aparato é o movimento pomposo. – Gruta é palavra castelhana e portuguesa (talvez do latim crypta. materiais. sumptuosidade. Diz mais que sumptuosidade. as cavernas. de asilo aos homens e de guarida aos ladrões. portanto. – Pompa é o aparato ostentoso. Em estilo poético. das cores que um artista empregou no seu quadro. estende-se desde a ciência e manobras náuticas. é a qualidade daquilo em que se faz ostentação de riqueza: sumptuosidade do templo.. como diz Luiz de Souza. 319 APARATO. do palácio. preparativo. que repete. – Lapa é palavra portuguesa. e coberta por um penedo ou chapa de pedra: isto mesmo significa a palavra lapa. “as ninfas e os deuses campestres habitam as grutas. ou de um banquete. mais ou menos ampla e profunda”. desde o mais elevado até o mais ínfimo. do festim. o lugar onde alguém se esconde. de um assédio. com alguma vergonha. no sentido em que se . os antros. grego krupta) e significa concavidade da terra entre penhascos. – Subterrâneo designa “em geral todo espaço que se encontra no subsolo”. grandeza. os preparativos de uma guerra. dizemos que se fazem preparativos. de fazer sucesso. Chamam-se. da grandiosidade excepcional que ela vai ter ou que apresenta. o modo solene. mag- nificência. como do brilho. pompa. dispõem e arranjam diversos materiais ou coisas para a execução de qualquer obra.” 320 APARATO. – Os antros servem de covil às feras. e os zagais acolhem-se às lapas”. Às disposições para qualquer faustosa cerimônia ou festividade se lhes dá o nome de aparatos. desde o exercício e arte da pintura até o mais baixo ofício mecânico. e por analogia. etc. sem opulência de formas. porque acrescenta à noção de grandeza a ideia de excelência. a grandiosa disposição com que se celebra algum ato extraordinário. ou para carregar cavalgaduras. e também. que “engrandecem” (aos que a contemplam). as cavernas. vinda talvez do grego lápathos. às vezes suscetível de ornato rústico. quase pelas mesmas palavras. Não há pompa sem grandeza exuberante. pois que a significação desta palavra se estende a tudo o que se executa com pompa e ostentação. não só das proporções dela. operações.. Dizemos. como indica a própria origem latina. e as lapas dão abrigo aos pastores. trabalho ou obra. aparelhos aos arreios necessários para montar. mas abrange os instrumentos. brilho e formosura. pois não só as compreende todas.. – Grandeza (segundo Lacerda. aparelho.. os facínoras.

visos. Como hoje se lincha. e então se lhe chama exterioridade”. – Visos quer dizer – aparência não clara. etc. imprecisas de verdade): – Mostra. Há criaturas que fazem alardo de fortuna. mostra. grandeza. como de talentos e virtudes. seriedade. – Esplendor. correr a pedradas. ar (ares). Grandeza refere-se “à parte material das coisas. semblante. e lapidar é matar a pedradas. o exagero calculado com que se exibe alguma coisa. ou não definida: “o que ela diz tem visos de verdade” (tem aparências vagas. de um panorama. – Estes dois ver- muito bem Bruns. – Grandeza indica luxo. mas. diz Lacerda. da corte. de beleza.. os modos. impróprio seria. de uma civilização etc. ou pelo menos não perfeitamente lídimo. senão a aparição do anjo Gabriel. – Semblante é o modo de ser da fisionomia humana: é. tamanho de alguma coisa. com ‘certa’ sumptuosidade”. de poderio. lapidar. – Segundo Roq. da qual nos deixa ver apenas uma parte”. os gestos. isto é. o que quer que seja de acento espiritual que distingue uma fronte humana. – Alardo (ou alarde) é ostentação mais estrondosa. de poder. dizer: “. antigamente se lapidava. é o aspeto. – Luxo é toda manifestação exagerada do desejo de conforto. distinguem-se. Luxo no trajar. exterior. excelência. que à primeira vista parecem sinônimos perfeitos. por assim dizer. porte ou conduta que ela mostra exteriormente. exteriori- dade. pelo que é às vezes enganosa. enuncia-se apenas a ideia de que sobre essa pessoa se atiraram . de alguma coisa ou ação. Quando se diz que alguém foi apedrejado. dignidade. poder. e majestade ao ideal das mesmas coisas”. “é manifestação de uma coisa presente. estas duas palavras: – “Aparecimento é o ato de aparecer. de manifestar-se. considerado esse ato como coisa inesperada. Dizemos: o aparecimento do cadáver que se andava procurando. 323 APEDREJAR. aqui. 321 APARECIMENTO. do espírito. É de notar que se diria: “Ele vive com certo fausto” (isto é – com alguma pompa de quem deseja ser tido como rico). e figuradamente. deste modo: apedrejar é simplesmente jogar pedras a alguém ou a alguma coisa. mas não se diz: o aparecimento. – “a aparência é o efeito que produz a vista de uma coisa. de erudição. o aparecimento (ou apa- bos. O esplendor da natureza. dava-se a morte pelo apedrejamento.196 Rocha Pombo toma aqui o vocábulo. ostentação (de grandeza e poder). luxo de sapiência. – Majestade indica decoro. aparição diz-se da coisa que aparece. maneiras. – Aspeto é a exterioridade que nos impressiona ao primeiro relance de olhos. – Fausto é luxo custoso. nos modos. no entanto. poderio. no viver. e do próprio ato de aparecer. – O ar (ou os ares) com que uma pessoa se nos apresenta é o conjunto de tudo quanto da parte dessa pessoa nos impressiona à primeira vista: o semblante. lustre. – Ostentação é o brilho e aparato. o esplendor da mocidade. – Majestade indica magnificência. dando ideia da ufania de quem alardeia. ou do desejo de agradar ou de fazer figura. e o objeto aparecido como extraordinário. gravidade de alguma pessoa. aparição. significa extensão.. etc. aspeto. quase sumptuosidade. é brilho. Tanto se faz ostentação de riqueza ou de força muscular. a aparição do cometa de Halley”. soberania. a voz. – Distingue rição. e em sentido translato – seriedade. Exterior é o que cada corpo mostra pela parte de fora: aplicado às pessoas. e a ideia que nos resulta dela. neste caso) da febre amarela. 322 APARÊNCIA. etc.

como a faculdade. cumeada). por isso. o calçado é estreito. culminância. – Apenas. Falou exclusivamente do ponto que se controvertia (isto é. cimo.. – “são partes que se acrescentam a uma obra para completá-la. são diferentes dela no fundo. apêndice como o suplemento” – escreve pino. – Recurso é termo genérico exprimindo “não só o ato de recorrer. – Exclusivamente exprime exceção mais completa ainda. pois exclui todas as outras coisas do número daquelas que se salva ou a que se refere o enunciado. Falta-me apenas o quinto volume para completar a obra. no seu vocabulário jurídico. A um dicionário junta-se o suplemento. O apêndice liga-se intimamente com o texto. falou só desse ponto sem desviar-se para nenhum outro ponto). 328 ÁPICE. Esta rua é estreita.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 197 pedras. sumidade. não devendo. sendo demasiado estreita. exclusivamente. e está apertada entre altas paredes. e que. que o agravo é o recurso de que se vale a parte perante a própria autoridade que deu a decisão. a que fica superior a todas as outras. o direito de reclamar. os dois primeiros termos deste grupo. Não admite. caracteres diferentes. sugere ideia de insuficiência ou insignificância para determinado fim: Não o compro porque tenho apenas cinco mil-réis. 327 APERTADO. Podemos. 324 APELAÇÃO. está como cingida de um e outro lado. suplemento. – Segundo Bruns. que contém os vocábulos que no dicionário não estão incluídos”.. e diz que esta expressão é imprópria. cume (cumeeira. recurso. fastígio. melhor do que somente. ou contrário à lei”. – Com toda razão observa Bruns. por isso. portanto. alto. estreito. ou só. tope. – “Tanto o Bruns. A um código junta-se o apêndice que encerra as alterações que se fizeram a alguns dos seus artigos. não é rico: tem só (ou somente) quinhentas libras de rendimento. zênite. para explanar a doutrina.” – Apelação é “o recurso interposto da primeira instância para a segunda. se bem sejam da mesma natureza da obra. Falando de superfícies. têm. diz Teixeira de Freitas: – “Agravo é um dos recursos frequentes da nossa ordem judiciária. e apertada da que. no entanto. dizer-se: . pináculo. ou com alguma parte dele. píncaro. que frequentemente se ouve: calçado ou vestido apertado para indicar que o pé ou o corpo não se encontram neles à vontade. dizer: o mais alto cume da cordilheira ou da montanha. quando as decisões são apeláveis.” Parece. ou restringir-lhe o alcance. 326 APÊNDICE. – Definindo. estreita dir-se-á da que é pouco larga ou pouco ampla. apogeu. e por ser estreito o vestido. expor novas aplicações. Quando dizemos que Estevão foi lapidado em Jerusalém. e que a apelação é recurso para juízo de instância superior à do juiz contra cuja sentença se recorre. auge.. de agir contra uma decisão ou um julgamento que se considera injusto. O suplemento completa o texto com artigos que lhe faltam. no entanto. ninguém diria com propriedade: – “ápice mais alto de um edifício ou de um monte”. – Ápice é a parte mais elevada de um corpo. 325 APENAS. pois cume significa toda a porção superior das grandes elevações. só (ou somente). agravo. anda o corpo apertado. afirmamos que Estevão foi morto a pedradas. só (ou somente) enuncia quantidade sem relação determinada: F. dar maior extensão à matéria. e por isso está o pé apertado. gradação.

” 329 APÓCRIFO. “Ele ascendeu então ao fastígio da glória. – Suposto – diz Roq. – Cimo (do latim cyma) é propriamente a parte que de um corpo se destaca ou se faz saliente. – Fastígio. A cumiada dos Pireneus. é a parte mais elevada. é “o auge supremo. Entre cume e cimo deve admitir-se. – Alto é igualmente qualquer das porções elevadas de um corpo. alto. alto do palácio. – Cumieira (ou cumeeira) é “a parte mais alta. – Pináculo é mais expressivo do que pino.”. Mas pináculo envolve ideia de terminação da coisa elevada em ponta aguda. dá-se este nome a todo livro duvidoso. o ponto acima do qual não é possível ir. cumeada. falso. de algum corpo em geral. ou da fama. da escada. Culminância sugere ideia de imensa altura do pináculo. como exprime culminância. uma certa diferença.. “No auge da fortuna. o cimo do chapéu. como: alto da árvore.” – Auge só se aplica a fenômenos morais. Não seria próprio dizer: – o cume da ladeira. cume. mas esta palavra é de aplicação mais restrita. o mais alto de todos. particularmente se diz do livro ou da obra que falsamente se atribui a quem não é seu autor. Em qualquer destes casos preferiríamos empregar cimo. da colina. – “é palavra latina (suppositus) e significa o que se põe falsamente em lugar do verdadeiro. de volume e de extensão. – Cumiada (ou cumeada) é também “a parte mais alta. Rigorosamente falando. só devemos empregar cume tratando de montanhas. a cumeada dos Andes. ou da escada. sem mais ideia alguma acessória. – Zênite é termo técnico de astronomia.” – Apogeu. nem mesmo – o cume da torre. ou da ladeira. correlativo de nadir: em linguagem comum designa também “a culminância a que alguma pessoa atinge na esfera em que exerce o seu esforço. não conhecida antes.. alto da porta. ou de grandes construções.. Em linguagem eclesiástica. quase sempre melhor aplicada quando se trata de um edifício”. “Ficamos até em pasmo. o cimo da escarpa. O mesmo se poderia dizer de píncaro se este designasse. portanto. etc. – Cume (do latim culmen) é a parte que se eleva também acima das outras. alto da testa. mais à vista e mais brilhante de algum edifício. e de pouca ou nenhuma fé. o cimo da planta. de autor incerto. Tanto é de lídima propriedade dizer: alto do monte. e que a Igreja Católica não incluiu no cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas. fabuloso. tope. a ideia de grandeza. pretenso. nem – o cume do telhado. por analogia com a significação desta palavra como termo de arquitetura. tratando-se de uma montanha.” “A linha desdobra-se pelo fastígio da cordilheira”. Tanto podemos dizer: o cimo do monte. também por analogia (com o fenômeno astronômico a que se dá esse nome). Tanto dizemos: o tope do monte. ou do muro. suposto. como: o tope do mastro. “Ele estava no auge da raiva. – Pino é um correlativo de base: designa o ponto culminante de alguma coisa. ou da colina.. pela analogia da posição desse ponto com a do sol quando se acha no zênite. cujo autor não é conhecido. alto das ruínas. em vez de todos os pontos elevados. sem dar ideia necessária de grandeza ou de altura extraordinária. a sumidade e a outros do grupo. e indica “o alto grau de intensidade a que é capaz de chegar um sentimento ou a que um fato pode atingir”. Ainda que a au- . como o cimo do edifício. fictício.” – Tope (ou topo) é a parte superior de qualquer coisa.198 Rocha Pombo o cume da ladeira ou da lomba. – Apócrifo é palavra grega (apókruphos) que significa coisa secreta. Sumidade acrescenta à noção de cimo. é também a série dos cumes de uma serra ou cordilheira”. e é aplicável no sentido translato. a contemplar o fastígio maravilhoso do templo. Pode comparar-se a culminância.

porque essas correm nos tribunais.) – Defesa é todo esforço feito para demonstrar a não culpabilidade de algum acusado. conservando uma parte dos vencimentos. espalhadas entre o público e que vão tomando corpo com grave dano das pessoas acusadas até que acabam em perseguição formal pela justiça. mas as acusações vagas. e sempre com intuito de só fazer que ressaltem as altas virtudes. – Aposentar diz propriamente – “dispensar do serviço. elogio. Um advogado. como um prêmio. e perturbadores da ordem pública. faz a defesa de um réu (não a apologia). ou porque fez jus a tal vantagem. justificação. porém. ou porque se ache ou seja julgado inválido para continuar a servir. Decerto que ninguém diria: “a promessa de que F. e assegurando-lhe o soldo da patente. Aquele homem nos disse coisas fabulosas do que se passa no sertão (coisas que se têm ou podem ter como verdadeiras. ao senado e aos magistrados. uma nação ou pessoa. ou mesmo todos os vencimentos”. A justificação consiste só nas provas que se deduzem do exame das testemunhas. concedendo-se-lhes. Conhecemos orações fúnebres que são verdadeiros panegíricos. e é qualquer discurso ou escrito no qual se defende um sistema. os lentes. jubilar. Fazem-se as apologias para desvanecer as acusações com que se agravam as classes mencionadas. pode. do que de esforço puramente moral: e nisto distinguese de apologia. apologias em defesa da religião mem de comum estes verbos a ideia de cessar alguém de exercer as funções do seu cargo. – Apologia. isto é – fabulosas). ele conter doutrina boa e verdadeira. – O panegírico é um elogio mais incondicional. e contra elas advogam os letrados perante os juízes. e serve para manifestar a inocência do acusado”. ou o escrito em que se demonstra ou procura demonstrar como a pessoa elogiada é digna dos louvores que se lhe fazem”. um partido.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 199 toridade do livro suposto se repute suspeita. prestando serviços durante um certo prazo. – Fabuloso distingue-se de fictício em sugerir ideia de prodígio. pois por erro tem-se atribuído a autores clássicos obras que não escreveram. Fabuloso nem sempre exclui a ideia de verdadeiro. – Jubilam-se os professores. sistemático. (Roq. como se dá em relação a fictício. direito a todos os honorários do cargo. defesa. Nas associações científicas e literárias é uso fazer-se o elogio dos sócios falecidos (não panegírico). – Falso é propriamente o contrário à verdade ou como tal admitido. empregaria certamente de preferência – fictícia. de modo a que fique livre de penúria o aposentado. Deste modo perseguidos e caluniados os primeiros Cristãos. 330 APOLOGIA. etc. – Elogio é “o discurso. Este é o verdadeiro caso da apologia. – Expri- panegírico. uma opinião. “segundo o valor da palavra grega. significa defensa. suposta ou falsa. dos documentos autênticos. mas que se tornam estranhas pela enormidade. ou do exercício do cargo. – Fictícia é a coisa criada pela imaginação e que só nesta existe. quer tirar proveito é fabulosa”. 331 APOSENTAR. – Reformar é dispensar do serviço o militar que se fez inválido. da pessoa de quem se trata. na tribuna do júri. não as acusações jurídicas. etc. . não permite a Igreja que se tirem argumentos para provar as verdades teológicas”. foi-lhes forçoso apresentar aos imperadores. – Pretensa é a coisa que se quer fazer passar por ser a verdadeira. a suposto. dos livros apócrifos. cristã. reformar. É mais ato ou dever de ofício. para rechaçar as falsidades com que os pagãos procuravam fazê-los odiosos como inimigos dos deuses e de todas as potestades. contudo. como se estivessem nas respetivas funções.

Entre apossar-se e apropriar-se há uma diferença de ordem jurídica. de chamar ao grêmio do Cristianismo. uma cidade. enviado. propagandista. Por isso mesmo tem o vocábulo um valor peculiar. etc. de encerrar a palavra missionário a ideia de que aquele que missiona toma uma tarefa como sacrifício. por exemplo: missionário da revolta. a perfídia. propagandista de pílulas. da desordem. O que se apossa chama a coisa a si. apóstolo e missionário têm. “enviado. Não se evangelizam senão grandes verdades. missionário. – é “simplesmente meter-se de posse dela. etc. núncio.. Nem sempre se apropria de alguma coisa aquele que dessa coisa se apossa. No mesmo caso está evangelizador. causas augustas. S. em obediência a algum voto. – Anunciador significa apenas “aquele que anuncia”. mensageiro. Só se apropria de alguma coisa. evangelizador. portanto. O pregoeiro faz mais que o simples anunciador: fala muito alto. Por extensão. emissário. de uma escola literária. aquele que se arroga a propriedade. ou desempenha missão equivalente à daqueles discípulos. – Apossar-se alguém de alguma coisa – escreve Roq. – Propagandista é termo comum e geral que designa “todo e qualquer indivíduo que se encarrega de inculcar ao maior número alguma coisa. é só esta. Quem seria capaz de dizer: evangelizar o erro. João Batista foi “o precursor de Jesus Cristo”. – Apóstolo (do grego apostolos. por ele enviados a pregar a boa-nova a todas as nações. – Invadir é acometer e entrar por força em alguma parte. anunciador. damos o nome de apóstolo àquele que exerce na terra funções. precursor. grita em favor da coisa apregoada. a ignorância? Evangelizador. o direito de ser o dono dessa coisa. usurpar. Tanto se diz: propagandista da república. depois usurpou o império. naturalmente fazendo-lhe a apologia. ideias excelentes. – Missionário é o que toma a si a propaganda de alguma causa sagrada. pregoeiro. Aplica-se também a coisas e a fenômenos. uma dignidade.200 Rocha Pombo 332 APOSSAR-SE.. Não seria próprio dizer. 333 APÓSTOLO. que resulta: de sugerir o vocábulo apóstolo o intento de fazer prosélitos. como de felicidades. etc. usando de prepotência. apropriar-se. do socialismo. tomá-la para si. lugar à parte no grupo. Tanto pode ser anunciador de desgraças. doutrinas de redenção. muito subtil. As refregas precur- . e também arrogar-se uma autoridade. que lhe não cabe. fazer-se senhor dela. não tardou a invadir a Europa quase toda. e não deve ser empregado senão em casos que recordem a grandeza moral dos antigos missionários. in- vadir. – Usurpar é tirar a outrem o que é seu. Napoleão apossou-se primeiramente do comando geral. e conquistou parte dela. e não cessa de chamar a atenção de todos para ela. Aplica-se particularmente esta palavra para designar o sacerdote ou o clérigo que se incumbe de ir a terras de pagãos ensinar o Evangelho e instruir nas coisas cristãs. de exprimir evangelizador a ideia de que aquele que evangeliza não faz menos do que proclamar alguma coisa de que ele próprio está ufano e espantado. mensageiro de algum príncipe”) designa propriamente cada um dos doze discípulos de Jesus. conquistar. – Conquistar é ganhar à força de armas um estado. de um sistema filosófico. retém-na em seu poder ou sob seu domínio. mas suas conquistas e invasões ficaram sem efeito quando os aliados o desapossaram de sua autoridade usurpada”. como se diz: propagandista do casamento. – Precursor diz propriamente – “o que vai adiante de alguém anunciando-lhe a chegada”. porém. etc. Se se deve admitir entre eles alguma distinção.

compareceu à sessão. – Emissário e enviado só se poderiam diferençar pela nobreza do vocábulo emissário. ou alguma coisa de locomover-se. Ambos significam – “o que é mandado”. e captura os contrabandistas”. – E comparecer ainda sugere melhor a ideia da obrigatoriedade do ato de apresentar-se. e cujo sucesso se lhe confia. – Diz Bruns. estima. A alta conta em que é preciso ter aquela propriedade. O enviado (esta palavra.. ou em geral. é “o ato ou disposição de pôr em cálculo. ou de mover-se livremente”. Supõe-se que aquele que se apresenta o faz por algum dever com a pessoa perante a qual comparece. ou ter valor só para nós. – Segurar é “prender e conservar em segurança”... Deificação é um ato pelo qual se supõe a divindade onde não está senão a criatura. conta. Não teve o rei em conta o meu serviço. a guarda fiscal apresa as mercadorias que os contrabandistas querem subtrair aos direitos.. logo que estes morriam. consideração. comparecer. ou pelo direito da força”.. pelos seus atributos morais. mas daquele que a enviou. diz simplesmente – “posto a caminho”) não faz mais do que cumprir estrictamente a ordem que leva. pelo seu valimento. – Consideração é a “atenção respeitosa que se tem por alguma pessoa que.. Esta ideia não se encerra necessariamente em núncio. (e não apresentou-se).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 soras do arrasamento. chamar a si de direito alguma coisa”. pelos talentos. deter. – Arrestar é termo jurídico e significa “apreender. – Deter é “prender e conservar preso”. à audiência. 337 APRESENTAR-SE. Prende-se o celerado em flagrante de homicídio. A pessoa ou coisa estimada pode mesmo não ter valor. navios. . ou atando-lhe as asas. 336 APRESAR. aqui. ou quase religioso”. A polícia captura os criminosos. aqui. alguma coisa. 334 APOTEOSE. etc. – Apreender é “prender. Os romanos usavam assim a respeito dos imperadores. apanhar. palavras escreve Lacerda: “Apoteose era a cerimônia mediante a qual era alguém posto no número dos deuses. deificação – Sobre estas duas valor. ou algum animal. – Núncio e mensageiro. – Prender enuncia a ideia geral de “impedir alguém. F. aparecer. ou subtraídos aos direitos a que estão sujeitos. pelo valor de alguém”. Um gesto precursor de tormenta. arrestar a alguém pela força do direito. seriam sinônimos perfeitos se mensageiro não encerrasse a ideia muito clara de que a mensagem não é própria de mensageiro. de admitir a cômputo. que “capturar é prender. – Conta. rendendo a esta. aqui. o – Apresentar-se é “fazer-se presente em alguma parte ou perante alguém”. mas o emissário supõe-se que leva incumbência mais alta. – capturar. Dizemos: F. o préstimo de alguém ou de alguma coisa”. – Estima é a “consideração em que se têm as qualidades de uma pessoa”. Apreço é a “consideração particular que se tem pelo mérito. gêneros embarcados. prender.. em nome do qual ele vem. culto religioso. Aquele ar sereno precursor da saúde moral. apresentou-se pronto para o serviço (e não – compareceu). e que “apresar é tomar como presa. pela sua posição. Prende-se o monóculo na órbita ocular. e mediante ordem ou mandado de autoridade pública”. arrestar. em consideração das suas preeminentes virtudes. Prende-se a ave no viveiro. tanto nos merece”. segurar. 335 APREÇO. Prende-se o cão à corrente. embargando que siga ou que continue a estar onde estava.. apreender..

– Redil é “um curral para rebanho miúdo. as duas palavras quanto à sua aplicação: talento dizendo-se particularmente com relação aos estudos pu- . onde se recolhe o rebanho”. como o talento. 338 APRISCO. profundar. enquanto que aptidão não se emprega bem senão falando de estudos sérios. porém. etc. seguimo-la. – Os dois primeiros são termos literários. por isso aptidão não se aplica senão relativamente às artes liberais. mas disposição para a dança e para a ginástica. desenvolve-se. na cultura. há. jeito. No sentido figurado subsiste a mesma gradação”. ou da casa paterna (e não redil. para a tarefa. a capacidade. significa “uma tendência própria. ou uma disposição favorável.). que encerra aprisco). da felicidade. pois este não sugere a mesma ideia de amparo. a esgrima. redil. e a inclinação uma espécie de gosto. não aptidão. presume exercício e prática. que significa “um vasto curral de bois”.202 Rocha Pombo – Aparecer dá ideia geral do fato de “se deixar ver” alguém ou alguma coisa. curral. Esta capacidade refere-se mais ao que requer estudo. aliás. As disposições carecem de ser cultivadas.” – Vocação. – Mangueira é brasileirismo comum. mais ou menos agradável ou lisonjeira. Apareceu a peste em Bombaim. segurança. gosto. ou de um vivo prazer. só pode manifestar-se na prática. ou contrariamo-la: e eis o motivo por que se toma esta palavra como sinônima de amor ou afeição. Profundar é cavar muito fundo.. tem aptidão para o negócio. além de designar dom natural (diz Bruns. feito de tela de arame. mais ou menos grande ou violenta. Aprofundar é tornar ainda mais fundo o que se profundou. diz um hábil sinonimista. denota um poderoso atrativo. entre eles uma diferença muito notável. como curral de bois. proteção. mangueira. – Capacidade é o conjunto de qualidades e conhecimentos necessários para levar a bem-determinada ordem de coisas. talento. A propensão. disposição. para o trabalho. que F. porém. entregamonos a ela sem reservas. às letras ou às ciências. 340 APTIDÃO. como disposição diz menos que aptidão. dizer no sentido figurado – o aprisco da Igreja. e assim diremos que certa pessoa tem. podendo ser ou não coberto”. 339 APROFUNDAR. como a dança. pode-se empregar essa palavra falando de estudos ligeiros ou recreativos. – Disposição também se diz da faculdade de ser próprio para uma dada coisa. fazer profundo. capacidade. Além disso.). Tanto se diz – curral de porcos. de madeira ou de muro. e o talento só se revela no exercício. Aparece um grande sinal no céu. e não a combatemos senão com grande pesar e com poderosos recursos. Usa-se. a aptidão opera. arrebata a alma seduzida pela promessa do repouso. uma disposição natural do espírito para alguma arte ou mister”.. habilidade. propen- são. de ter certa vocação para ela. ou de cabras. (Dizemos. mas essa faculdade é menor que aptidão. Ter talento para a pintura é mais do que ter aptidão para a pintura. – Aptidão (Bensabat) “é a capacidade natural para fazer uma certa coisa. aqui. vocação. idoneidade. “estes dois verbos empregam-se geralmente sem outra distinção que não seja a da exigência da eufonia. por isso. – Aprisco dá ideia do abrigo em que ficam as ovelhas. pois a aptidão pode ficar inativa. inclinação. e por isso pode dizer-se que o talento é a aptidão no terreno da prática. como aptidão. – Talento. inspira o desejo que solicita a aquisição de um objeto. etc. A inclinação. exercita-se por si mesma. – Curral é “um cercado. aplicação de inteligência. a ginástica. diferem. – Segundo Bruns. A propensão.

a discreta perícia com que nos sentimos para alguma coisa”. astú- vérbios“ valem o mesmo que ‘este lugar’. um tenente tem bastante capacidade para comandar a companhia. aqui estou. “O ardiloso” – diz d. arteirice. A habilidade não só revela a ideia de se possuir o conjunto de qualidades e de conhecimentos necessários para levar a bom resultado uma determinada ordem de coisas. à força de boa vontade e de estudo.: Ardil. literários ou artísticos. ou – passou ontem aqui a noite – é como se dissesse – jantou. os ardis de guerra . cilada. só e absolutamente. mas creio que nunca terá gosto para a cultura antiga. 341 AQUI. Convém ter presente que tanto a capacidade como o talento não podem existir onde não há aptidão. mas sim. a idoneidade adquire-se pela prática. Um recruta pode ter aptidão para aprender o exercício. – Jeito é muito próximo de disposição: é “o desembaraço. a habilidade. esta noite durmo cá – exclui determinadamente o lugar onde costumo jantar ou dormir. jantou aqui ontem. “conduzo”) designa. estratagema e logro designam fatos. a expediência. pois quando alguém diz – F. e capacidade relativamente às coisas práticas da vida. janto aqui – supõe. Quando cá se contrapõe a lá indica a terra ou o lugar em que estamos comparando com outro de que já falamos. “exército”. senão que sugere a ideia de que por várias vezes já se praticaram tais coisas. não tinha nenhuma aptidão para a magistratura. diz Bruns. armadilha. de capacidade. mas sim. astúcia designa só o que sugere fatos característicos dos outros vocábulos do grupo. senão quando já não possa opor-lhes obstáculo. cia. acrescenta por si só a exclusão de outro lugar determinado (lá) que direta ou indiretamente se contrapõe àquele em que nos achamos. e também não é comum dizer-se – um banqueiro. é independente da ideia de aptidão. – Dos cinco primeiros do grupo. empresas. preferência. ou um general que carece de talento. sem excluir determinadamente outro lugar. ou ‘neste lugar’ onde se acha a pessoa que fala. que estes dois ad- A diferença entre os dois consiste em que aqui designa o lugar de um modo absoluto. e procede com disfarce”. logro. No estilo familiar entende-se – aqui por ‘nesta casa’. – Estratagema (do francês stratagème. palavra não muito usada. v. e a que nos referimos como se vê no ditado vulgar – Cá e lá más fadas há”. g.: Aqui vivo. 342 ARDIL. e sempre com bom resultado”. não obstante. etc. emboscada. não só fato. se o capitão vier a faltar. – Habilidade é vocábulo mais significativo que capacidade e idoneidade. adquiriu nela bastante idoneidade. o lugar onde vivo e onde janto. passou a noite ‘nesta casa’. vocábulo formado do grego stratos. estratagema. Cá tem maior extensão. e sem referência alguma a outro lugar. direção de assuntos. mas também o que o sugere. e agó. pois além de designar o lugar onde se está. Pedro parece ter jeito para as letras. – O ardil é o meio que se emprega para obter o fim desejado. – Idoneidade. ou relação alguma respetivamente a outro. mas nem todos os chefes de corpo têm a idoneidade precisa para comandar uma divisão. F. – Escreve Roq. etc.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 203 ramente científicos. Mas – janto hoje cá. de talento. ou um escultor de capacidade. Assim é que ninguém dirá – um poeta. obrando de modo que o lesado não conheça as intenções. e sem sugerir a menor ideia de dúvida. – Gosto é mais do que jeito: designa este “como senso íntimo que nos faz preferir uma coisa a outra”. José de Lacerda – “oculta os meios de que se serve. no sentido reto. e conseguintemente este vocábulo encerra a ideia de faculdades adquiridas.. negócios. arteirice. Vivo aqui. ou pelo menos a facilidade. cá.

além de difícil ou mesmo árdua. diz-se dos meios extraordinários que se combinam com arte e manha para surpreender de improviso a pessoa que visamos. – Superfície. mais porque está embaraçado e difícil de entender que pelo trabalho que poderia dar. é a realização de um engano habilmente preparado. como fato. – Custoso é “aquilo que se não faz com facilidade”. é “a parte exterior do corpo”. O que é difícil necessita pulso. e o estratagema em levar o lesado a não poder negar-nos o que pretendemos. difícil. coragem. é muito difícil. 344 ÁREA. dificultoso.). A arteirice maquina. doloroso. etc. – Astúcia é um dom natural. talento. e obter dela o que queremos. trabalhoso. – Arteirice. designa a arte ou manha de quem tem inventiva para fraudes. ímprobo. – Espinhoso = “que é de difícil execução porque exige grande habilidade e fortuna”. intrincado. sem que ela no-lo possa negar. – Logro é o ardil caviloso. A emboscada sugere a ideia de que o autor se esconde ou se disfarça para o assalto. aproveitando os descuidos e as ocasiões. – Doloroso = “que se faz com esforço que mais punge e amarga que fatiga”. – Armadilha é “a cilada que se arranja contra alguém para que se deixe cair como no laço a veação”. podendo dar ensejo a coisas desagradáveis a quem executa. missão dolorosa. a astúcia obra simplesmente. fatigante”. da terra. o que é dificultoso supera-se com paciência. é dificultoso reunir uma coleção completa de selos. – Note-se também que difícil e dificultoso ponderam a dificuldade. como – superfície de um poliedro. quem pretende insinuar-se no espírito alheio necessita ter arteirice”. a cilada é feita com astúcia. dificultoso convém às particularidades. Tarefa. – Trabalhoso é o que custa muito trabalho. Pode não ser mesmo difícil a missão. da sua essência. tato. malícia e ruindade. Fatigante é aquilo que só se faz com muita fadiga. O estratagema difere do ardil em contar este com a impossibilidade de defesa. Extensivamente. é árduo escrever para o teatro. pareceria só aplicável à face su- . “A raposa tem astúcia. resolução. e quase sempre mais à alma que ao nosso valor físico. – Difícil diz-se do grosso do trabalho ou da empresa. fatigante. – Intrincado é o que parece difícil. 343 ÁRDUO. – Penosa é “a tarefa que. enquanto que árduo pode frequentemente encerrar essa ideia: árdua empresa é a de pretender corrigir defeitos morais”. até pela sua formação. força. rude. com habilidade. pormenores. pois este sugere ideia do grande esforço que exige a coisa trabalhosa. mas não incluem a ideia de impossibilidade. conforme a definição dos lexicógrafos em geral. custoso. perseverança. ou para conseguir os seus fins empregando vias tortuosas mas habilmente combinadas. quase idêntico à arteirice. não se desempenha senão à custa de esforço doloroso”. mas diferençando-se desta em que o arteiro planeia com arte. – Cilada e emboscada designam “a surpresa que se prepara contra alguém para vencê-lo à traição”. misto de finura e de falta de escrúpulos. Tanto dizemos – superfície do mar. Mas esta palavra. Noutra acepção. penoso.204 Rocha Pombo para surpreender ou vencer o inimigo. – Ímprobo é “o trabalho excessivo. e o astucioso. ou que é cheio de trabalhos. superfície. É difícil resolver certos problemas. procurando-se enganar a vítima. que leva o lesado a ser o próprio a oferecer o que pretendemos. espinhoso. – Fatigante não é o mesmo que trabalhoso. sem mais noção alguma acessória. julgando que obra em seu proveito. mas há de ser muito penosa. – “O que é árduo (escreve Bruns. com perseverança. obstáculos.

em todo caso. ou à imperícia de quem trabalha ou de quem cuida da planta. nem árido. ou porque lhe faltem outras qualidades de terra fecunda. visos de perfeitamente lógica uma expressão como esta. ou à falta de custeio próprio (não – esterilidade). que a aridez é mais propriamente devida à natureza do terreno. A infrutuosidade de uma planta. improdutivo. ou não as exerce se as tem. de um campo. mas tudo que fiz foi completamente improdutivo (não sem dúvida – estéril. improdutivo por falta de cultura”.). – Infrutífero é propriamente “o que não produz os frutos que devia produzir”. maninhez. Dizemos – a esterilidade das regiões polares (não. maninho. Deve notar-se. só se aplica aos animais.. aridez. estéril. contra a qual não há ação corretiva possível. – Infecundo é “o que não tem qualidades de natureza próprias para produzir amplamente”. infrutuoso. para gerar. que a improdutividade está. Infrutuoso é “o que não é tão abundante em frutos como se esperava”. cansado. como do trabalho que não compensa o esforço feito. – Maninho (do latim malignus) quer dizer. cabra estéril. pelo menos. ou a circunstâncias estranhas. improlífico. o uso autoriza o emprego deste vocábulo mesmo nos casos em que não se trata de face superior.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 205 perior dos corpos. – Estéril é termo de mais extensividade do que árido. ou porque seja seco. No sentido natural. portanto. Não obstante. inclinada. No sentido translato. A sequidade pode. infecundo. para ter efeito. A infecundidade daquela fazenda é devida à má administração. de incapacidade para produzir.. tanto na coisa explorada. Tanto dizemos – superfície horizontal. – Ingrato. ou onde só nascem plantas inúteis ou daninhas”. Dizemos. Trabalhei quanto pude. como planta estéril.. – Terra ou terreno seco é aquele a que falta umidade suficiente para que se torne produtivo. pois esterilidade exprime a ideia geral de incapacidade para produzir. sequidade. tanto zona estéril. esterilidade. ou terreno estéril. infrutuosidade. infecundidade. A maninhez supõe-se que é mais devida a abandono do que às qualidades da terra. “além de infecundo. E tanto parece assim que ninguém se arriscaria a dizer – superfície do céu – por exemplo. ou improdutivo por falta de cultura – bravio. como – superfície vertical. Supõe-se.” etc. – Improdutivo também enuncia ideia geral de estéril. infrutífero. não produz com a abundância que se esperava.. Os meus esforços não foram tão infrutuosos como eu receava (aqui não seria tão próprio usar infrutíferos). É um pouco menos que ímprobo. quanto. sacrifício estéril). como a de uma tarefa ou um trabalho supõe-se que é devida mais. mas sugere mais claro a ideia do esforço que se fez 25 E isso por mais que se nos objete neste caso que o super que figura no termo enuncia uma ideia de relação entre a face e o centro do corpo. infecundidade. por exemplo: a superfície inferior da caixa25. e nada tendo com a posição em que se encontre a face. tanto se diz do terreno. portanto. – Área é “superfície limitada de qualquer modo. no agente que a explora. – Terreno árido é o que nada produz. ser um acidente. improdutividade. etc. – Improlífico = “incapaz de procriar”. Não tem. – Sáfaro é também “exausto (terreno).). e até ser um defeito remediável pela rega artificial. além da noção que exprime. esterilidade sugere. E por quê? Simplesmente porque a palavra superfície sugere que o corpo ao qual se aplica tem outra face que não é superior. Área de um polígono. “poder-se-ia confundir com infecundo se . ingrato. e até homem estéril (e ainda esforço. para que produzisse. sáfaro. 345 ÁRIDO. trabalho. A infecundidade diferença-se da esterilidade pelo seguinte: dá o primeiro uma ideia muito nítida de que a coisa infecunda não tem qualidades criadoras. seco. pelo menos. a ideia de aridez absoluta. de uma sala.

III. Afonso Henriques a tomar Lisboa. Toma-se às vezes por esquadra. em rigor. frota. e pela duração que é inerente ao sentido do vocábulo. enquanto durou a guerra com os holandeses. armada. tais foram as que ajudaram D. se limita a um espaço determinado de tempo. e ainda a circunstância de deixar entender que os exércitos beligerantes se recolhem a quartel”. esquadra. no mar. etc. suspensão de armas. ou entre duas nações que estão em guerra. combinada entre dois exércitos em campanha. – Frota (escreve Roq. ou pelo desejo de se combinar a paz. “As tiranias sacrílegas não voltam: os monstros são improlíficos (e não – infecundos) para a história”. como as que vinham todos os anos do Brasil para Portugal. como diz o nosso poeta: Tu26 a quem obedece o mar profundo. umas vezes chama frota. mas o armistício é absolutamente a mesma coisa que a suspensão de armas – frase que designa a interrupção momentânea da luta. “armistício é termo diplomático e técnico. pela sua comum falta de recursos. nem ainda o de esquadra. enterrar os mortos. ou de hostilizar o inimigo. Da germânica armada. planear a paz. diz Roq. outras. à que comandava Vasco da Gama.206 Rocha Pombo não marcasse. melhor do que este. dar tempo a discutir uma proposta. bem provida de armas. porém. e não terem o objeto determinado que tem o armistício. Em todo caso. porque só constava de três embarcações. (Lus. – Esquadra é uma reunião de navios de guerra com o objeto de proteger o comércio. Ajudada também da forte armada Que das boreais partes foi mandada. hálito. João de Áustria. geralmente a anos. e D. Camões. Obedeceste à força portuguesa. III. ou em terra.: “Fragrância per- . as comboiadas por nau ou naus de guerra. cheiro (cheiros). ou frota armada. em vez de ser definitivo. fragrância. (Lus.. O armistício tem ordinariamente por fim recolher os feridos. Sancho I a tomar Silves. e em tempos modernos. – Armada é o conjunto total dos vasos de guerra de uma nação. sim. senão o de esquadrilha. Pode-se dizer que as tréguas são um tratado de paz que. 347 ARMISTÍCIO.) “é a reunião de navios mercantes dados à vela com o objeto de exportar e importar mercadorias de um para outro porto marítimo mais ou menos distante. nenhum destes nomes lhe é próprio. mas talvez esquadra mui numerosa. a noção de incapacidade própria e talvez ingênita para a procriação”. tal foi a de d. o que bem distingue armistício de tréguas é o fato de serem sempre estas de muito maior duração que aquele. De armas fortes e gente apercebida A recobrar Judéa já perdida. As tréguas são geralmente motivadas pela nenhuma eficácia das operações entre os beligerantes. suspensão de armas é locução vulgar. – Tréguas distingue-se de armistício pela sua generalidade. que venceu os turcos nas águas de Lepanto. esquadrilha. porque constava de treze navios”. odor. que passava. podia chamar-se armada. 86) 26 Lisboa. olor. – No seu grupo 457. tré- guas. – Segundo Bruns. 57) E ainda: Foi das valentes gentes ajudada. 348 AROMA (aromas). tais eram as que os fenícios e cartagineses enviavam à Espanha na infância da navegação. 346 ARMADA. A de Pedro Álvares Cabral. perfume.

– Hálito só figuradamente é que entra neste grupo. – Pesar é a recordação molesta e penosa causada pela falta que se cometeu. no plural. que não sugere. não só por parte de quem arranca. de pomares. de jardim. contrição.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 207 tence exclusivamente às flores. – E no grupo 215: “Apesar de que o cheiro pode ser bom ou mau. o verbo tirar. uma açucena. ou sejam – resinas. e ao fumo ou vapor odorífero que elas despedem”. que arrancar e tirar exprimem um ato de força. um jasmim. tirar. tirar do lugar em que estava”. 350 ARREPENDIMENTO. extrai-se de um livro o que ele tem de substancial. nem da coisa sacada. 349 ARRANCAR. acompanhado do desejo veemente de emenda e reparação. mesmo de força por parte de quem saca. remorso. penitência. 27 E. um lírio. e por meio da arte algumas vezes se faz durável. do cravo. “Arrebatou-lhe o livro sem que ela tivesse tempo de gritar sequer por socorro”. como é a vida das flores. arrebatar. compunção. sacar. como resistência do que é arrancado. – Segundo Lacerda. e aroma exprime ideia de mais larga duração”. de azinhavre. e porque o devemos amar . em seu sentido próprio27. ou se arranca) um dente. – Sacar enuncia a mesma ação de arrancar. Tem fragrância uma rosa. arrependimento “é o sentido pesar. e também distingue-se de perfume por “sugerir sempre ideia da substância de que mana. Odor de floresta virgem. de lenteiro.” – Odor pode aproximar-se de fragrância e de cheiro. o uso autoriza o emprego desta palavra tratando-se de qualquer substância que dá perfume. É aromática a árvore da canela. porém de pouco tempo.. bálsamos. cheiros. pesar. o remordimento. se saca.. ou odor acre de carniça. “O olor da rosa lhe é gratíssimo. do alcanfor. óleos. no sentido translato. – Perfumes. um cravo. posto que em francês parfums corresponda a aromas. Melhor do que tirar. encerra ideia de esforço. em português aplica-se particularmente às matérias odoríferas. significando “suave emanação de algumas substâncias”. O aroma é próprio das drogas e das árvores que o produzem. ideia. – Contrição é palavra religiosa. ou da parte de onde se arranca. aroma.. extrair. no entanto. esta última. ou perpetramos algum grave delito. – Diz muito bem Bruns. a angústia que nos atormenta a consciência quando delinquimos. diz-se comumente das substâncias que produzem bom e agradável cheiro.. atrição. o perfume das plantas”. – Extrair diz propriamente “tirar para fora. pelo menos nem sempre.. além disto. – Indica a palavra remorso.. que se aplica a – toda droga cheirosa. extrai-se (como se tira. sem restrição da qualidade do cheiro”. a pena pungente de haver cometido erro ou culpa. Daí se refere a impropriedade de frases como estas (que aliás se encontram até em autores de nota): “arrancou da espada”. “arrancara da casa a pobre criatura que nem mais se movia. Fragrância explica a ideia de um cheiro grato. mas arrancar indica força.” – Arrebatar acrescenta à noção de arrancar a ideia de violência e rapidez. lenhos (raízes). que se exalam em fumo cheiroso. Esta supõe um efeito passageiro em seu estado natural. “Os hálitos que vêm da recendente alfombra. agradável ou desagradável. da pimenta. Extrai-se oiro da mina. e significa a dor profunda e sincera de ter ofendido a Deus por ser quem é. mas sem a ideia de resistência por parte da coisa ou pessoa de que se saca. unguentos de grande fragrância. O aroma supõe. – Aroma é palavra grega.. uma causa permanente de fragrância.” – Olor é “o cheiro particular de cada flor.

coisa feita com artifício – são expressões vulgares que exprimem que o objeto de que se trata está feito com primor. o arrependimento do contrito. ou regato sem dizer petit ruisseau? – Rio é a corrente de água mais ou menos considerável que vai ter ao mar. a não . e por extensão é toda porção insignificante de água corrente. pois frequentemente nessa língua se emprega fleuve e rivière. Temos. como ao Sca- mandro. os remorsos. com o desejo de sofrer penas que lhe resgatem a culpa cometida”.208 Rocha Pombo de todo o coração sobre todas as coisas. dor que não provém do receio do castigo. mesmo porque todas as línguas conhecidas. algumas considerações a propósito da escassez de vocábulos de que. apertado entre margens altas”. profundo e vasto do que são de ordinário os rios. ou as formas com que se designam as pequenas correntes de água. artístico..) “é uma contrição levada ao mais alto grau. ao Danúbio como ao Alfeu. para designação de rio. Consolemo-nos da penúria. ribeira. artificial. por menos que o latim rivus no-lo autorizasse. – Regato é “o mais diminuto dos cursos de água perene”. perseguem o malvado impenitente até à sepultura”. torrente. independentemente de qualquer manifestação. Tanto aplicamos o vocábulo rio ao Amazonas. que socorrer-nos da adjetivação quando é preciso marcar a grandeza dos rios.. navegável ou não”. riacho. ribeirão. no mesmo caso. – Riacho é diminutivo de rio. regras e preceitos que a constituem – métodos. e exprime a ideia de que o atrito se impressiona mais com o castigo do que com a dor da consciência. o tempo diminui o pesar. ela subsiste pelo simples fato de haver métodos. que corre impetuosa e desordenada”. mas o que é inegável é que a arte existe por si própria. Aqui. porém. pois é a dor profunda (e amargurada) de ter ofendido a Deus. temos rios que nem são ribeirões. rio. porém.” – Penitência é ao mesmo tempo “a compunção. – Arroio será de menores proporções que riacho. regato. O uso. o designativo imediato pelo que exprime quanto às proporções da corrente de água é ribeira. – Ribeirão é propriamente “ribeiro grande”. – Faz Bruns. – So- bre arte e artifício escreve Bruns. ou a outro rio. enquanto que são numerosos os diminutivos dessa palavra. e é raro encontrar ruisseau também sem atributivo. senão do verdadeiro amor divino. que significa “abundante curso de água. – Ribeiro é “pequena corrente de água que brota de nascente. não conseguiu fixar o valor próprio que o termo deve ter no português. – Córrego é “regueiro mais rápido. córrego. embora mais estreito. O artifício é a arte manifestada no trabalho que analisamos. (e é mais por isso que também damos aqui este grupo): “Coisa feita com arte. – Regueiro (ou regueira) é propriamente o sulco por onde se escoa a água do rego. a reparação aquieta o arrependimento. A contrição alcança-nos o perdão de Deus. 351 ARROIO. e diz menos que ribeiro. 352 ARTE. – Torrente é “volume de água que se despenha. artifício. no Distrito Federal. padecem do mesmo mal. se ressente a língua portuguesa. mas que. Não nos parece. Como é que há de o francês enunciar a noção de riacho. no entanto. – Atrição é quase o mesmo que contrição: é também termo de teologia. por exemplo. portanto. – Depois de rio. pode-se dizer talvez. apenas menos amplo. – A compunção (define Bruns. ribeiro. regras e preceitos que o artista há de observar para produzir. e que quase sempre seca no estio”. que o francês seja no caso mais rico. regueiro. Vejamos até que ponto há justeza nestes dois modos de exprimir-se.

em oposição às que só exerciam os escravos. o ofício faz o operário. a profissão. escreve Bruns. os cirurgiões. Tanto que dizemos: – uma coisa foi feita com arte. ou de certa classe: tais são os médicos. a eloquência. ofício. a lógica. a pintura.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 209 serem empregados. – Mister. – A isso convém acrescentar: sob um ponto de vista mais elevado. os advogados. concordando com o substantivo feminino subentendido téchne ‘arte’. além disso. ou nesta obra há algum artifício. assim como a pintura. – Profissão é aquele modo de vida que cada um exerce publicamente. mas não é um artista. guiado por Bourg. – como dizemos: – uma coisa foi feita sem arte. que hoje temos como substantivos. tais como a poesia. logikós. tal é o de ferreiro.. Ciência diz-se de um conjunto de conhecimentos que dependem intrinsecamente de certos .. venha por síncope da grega areté. e eram cultivadas por homens livres. são adjetivos substantivados. etc. a arte consiste no talento com que é feita uma obra. a retórica. A arte faz o artífice. pois se não houvesse a arte de a fazer ela não existiria”. tais são todos os ofícios fabris. – Artes mecânicas. antigamente só exercidas por escravos.. ‘virtude’. que se propõem imitar a natureza na sua maior perfeição. eram artes.. a arquitetura. – Artes liberais chamavam os antigos as que ornavam o espírito. sem excluir nem exigir um trabalho material”. como a pintura. a poética.: “Arte diz-se de qualquer conjunto de regras que têm por fim guiar na prática. Há.) 354 ARTE. dizer – que ela está feita com arte – é como um pleonasmo. palavra mais usada antigamente do que hoje (mester). que é um artífice. cuja execução depende principalmente do espírito do artista. etc. mas não revelou talento. a estatuária. um trabalho ou ocupação qualquer. architektonikós. ou banaysos téchne. téchne. mas hoje se entendem principalmente aquelas em que predomina o espírito. profissão – “Posto que a palavra latina ars. de carpinteiro. mas não há arte: – querendo-se exprimir que o autor da obra empregou na execução dela alguma habilidade. a profissão. o homem de uma ordem. não impedem que a arte seja. todavia ela equivale a esta outra. são as que dependem do trabalho das mãos. a dialética. mecânico ou de mãos. os quais não se chamam artistas (pelo menos nem sempre. O ofício requer um trabalho material. – Sobre estes dois vocábu- los. que a obra é artificial. poietikós. pois abrangia toda disciplina em que se davam regras e preceitos. sentimentos e ideias agradáveis. o artista. a escultura. O artifício é que não pode existir sem manifestação: não há artifício onde nada há que o revele. entre artificial e natural uma antonímia que se não nota entre natural e artístico. de tal modo que todas estas palavras. pois representam a variação feminina de grammatikós.. A gramática. a arquitetura. 353 ARTE. o artifício é a habilidade com que a obra foi executada. a estatuária. o homem hábil.) nem são homens de ofício propriamente. Dizemos também (e aqui se marca muito claramente a distinção que é preciso notar entre os dois vocábulos): – neste trabalho. etc. que entre os gregos tinha mui lata significação. do latim ministerium. os boticários. ciência. etc. dialektikós. (Roq. a arte. e Berg. a que os gregos chamavam cheironaxia. mas não se pode dizer que seja artística. o jornaleiro. é o mesmo que ofício mecânico ou fabril. e pode ser mecânica ou de outro gênero. mister. zographikós. Conseguintemente dizemos – que uma coisa está feita com artifício – para exprimir que nela há primor de execução. um trabalho de engenho. de que nós fizemos arte. ermoglyphikós. rhetorikós. a música. etc. – Belas-artes são as que nos suscitam ao mesmo tempo sensações.

proletariado dos titulares. pois só se diz do que está para além do círculo polar do norte. mesmo que possam guiar na prática. trabalhador.. – Proletário é tanto o operário. Ela funda as suas regras em princípios evidentes. é arte. pode ter uma significação mais alta e mais extensiva. – Artista é “o que exerce uma arte liberal”. dá-se. Mas essas regras são consideradas apenas quanto à sua utilidade no trabalho de determinar a área do campo. que grava no espírito de modo tal que a dúvida não pode subsistir ante a evidência das suas verdades. – Artífice é “o oficial mecânico que fez uma certa obra”. conduzem a um resultado previsto: ciência. boreal. – Proletário sugere ideia da condição social a que se sente reduzido ainda o operário. os obreiros da civilização. o operário que reivindica. artista. do conjunto de conhecimentos que formam um sistema. essa demonstração foi feita alhures. e a ciência que instrui. – Obreiro. qualquer que seja a forma que apresente. da grande causa (e não operários). confundem-se aplicados aos que vivem de algum trabalho manual. tendo por fim subministrar umas tantas regras para a correta expressão do pensamento. – Ár- operário. A gramática. mas essa utilidade nada importa para a ciência do geômetra. é ciência”. por exemplo: os obreiros da fé. tendem principalmente a dotar a inteligência com a verdade. pois. mestre. o trabalhador supõe-se que entende de todo e qualquer serviço para o qual não se exija um préstimo especial.. encerra ela as regras necessárias para proceder-se à exata avaliação de qualquer terreno. – Operário e obreiro. O operário entende-se que tem aptidões especiais para o trabalho de que se ocupa. A arte do agrimensor não tem por missão demonstrar a evidência das regras que a formam. as superfícies. e isso é quanto basta para se dar por exato o resultado da aplicação das regras demonstradas. sendo o conjunto de vários conhecimentos. – A geometria é a ciência que se ocupa de medir as linhas. Partindo. Há entre os dois termos. obreiro. conhecimentos que. 355 ARTESÃO (ou artesano).210 Rocha Pombo princípios gerais. uma distinção que se não deve esquecer.. não como expressão da verdade. que demonstra. 356 ÁRTICO. formas portuguesas oriundas do mesmo original (do latim opera). e efetivamente as regras da agrimensura fundam-se nos princípios da geometria. A filologia. O proletário é. – Artesão é tico é adjetivo menos extensivo que setentrional. Dizemos. como qualquer outro profissional que se julga oprimido e angustiado na vida. ou – operariado profissional. norte. “o que tem por ofício alguma arte mecânica”. como um título ou tratamento. Mas a palavra mestre. oficial. aplicadas. do princípio de que é a arte que aplica. ao oficial que se tem por senhor do seu ofício. atribuindo os seus males à má organização da sociedade. portanto. artífice. o homem do trabalho que protesta e reclama. os volumes. por exemplo. comumente. porém.. – Operário confunde-se hoje ordinariamente com proletário. Tanto que dizemos já – proletariado intelectual. Mas ninguém se lembrou ainda de dizer – operariado intelectual. Esses princípios podem guiar na prática. profissional. no entanto. – Entre operário e trabalhador nota-se uma certa diferença. – Profissional é todo aquele que exerce uma profissão. A agrimensura é a arte de medir os campos. – Oficial e mestre também se confundem. pois este o que pretende é demonstrar a verdade dos seus princípios. enquanto que . setentrional. proletário. resulta que entre estes dois vocábulos existe a seguinte sinonímia: Arte dir-se-á do conjunto de regras que. não inculcarlhes o valor prático.

mas talvez com in- confundir estes dois vocábulos. o processo. factício. F. proferir. – Norte emprega-se para designar. articulou com receio algumas palavras. Mas artifício aproxima-se mais de artefacto quando se aplica também a coisas que se fizeram com certa arte. conforme já se viu. por mais clara que lhes seja a comunidade de estrutura.. A tudo que é artificial nem sempre caberá o epíteto artificioso. – Pronunciar é “enunciar a palavra com clareza e precisão”. – Não se poderiam gido. ao palácio de uma embaixada. – Falso é “o que não é exato. no entanto. mas em regra com o intuito de iludir. – Articular é “dizer a palavra destacando-lhe bem as sílabas”. por exemplo. Disse-me ela que virá hoje à tarde. fictício. portanto. o hemisfério onde se conta a latitude. no entanto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 211 setentrional quer apenas dizer – “que está para o lado do norte”. – Falar é “comunicar-se com alguém por meio de palavra viva”. de enganar. – Factício significa também “feito ou criado pelo homem. ficto. só se aplica tratando-se de coisas não propriamente materiais ou concretas. – Artificioso é também o que se fez com artifício. Chama-se a um navio de guerra. – Artificial é “todo trabalho feito com arte”: opõe-se a natural. artificioso.. nada se concebe. “Vou desfazer os artifícios de que usou contra mim”. é o meio. para fazer alguma coisa (e.. àqueles que sugerem a ideia de que foram feitos “para enganar”. suposto. fictício e fingido são formas oriundas do mesmo original (fingo. em vez de setentrional. simulado.. Zona ártica (oposta à antártica). “território ficto” da respetiva nação (querendo significar que se consideram a embaixada e o navio de guerra como se fossem prolongamentos do território nacional). Dizemos. 360 ARTIFÍCIO. – Ficto quer dizer “fingido. isto é. – Boreal se aplica a tudo que fica para o norte do equador. pronunciar. ideia do intento de “fazer acreditar que a coisa fingida é a coisa real”. – Artificial já vi- falar. aceito como tal”. 359 ARTIFICIAL. verdadeiro. artificial. fin- mos que significa “feito pela arte ou pela indústria do homem”. – Artifício. artefacto. – Fictício é “o que só existe na imaginação. – Proferir é pronunciar em voz alta e com certa solenidade. 357 ARTICULAR. Ele pronunciou aquela palavra com certa intencionalidade. em que não tenha entrado algum artifício – e que não seja. dizer. 358 ARTIFICIAL. – Fingido é “o que imita calculadamente a coisa verdadeira pela qual quer passar. e dá. falso.” – Simulado exprime o mesmo que fingido. ere). ou de pesca. é evidente a distinção que se nota entre os dois vocábulos. Hemisfério boreal (o que fica para cima do equador). ou devido a circunstâncias de momento”. Se ele me falar sobre isto. Este. como artificioso. – Dizer é “expressar por meio de palavras”.. Aí mesmo. Do mesmo modo que dizemos – artefactos de cerâmica. para conseguir um artefacto). Resta observar que artifício se emprega ainda no sentido translato: o que não se dá com o outro. puro”. tento de que passe por natural e verdadeiro”. – Ficto. ou de marcenaria – também dizemos – artifícios de caça. Latitude norte (ou setentrional). fingido. ou o conjunto de meios que se emprega para alcançar um resultado. porém. – Artefacto é qualquer produto de trabalho mecânico. pois só aplicamos o nome de artifícios a certa ordem de artefactos. o que é inventado. melhor ainda do que este. – F.. . América setentrional (a que fica a norte da meridional). proferiu na Câmara um belo discurso. legítimo. pois.

praticou morte envenenando alguém? E não seria o caso de dizermos então que F. São os mesmos autores indicados que definem: “Le meurtre. em toda aquela região desolada. Nem sempre. isto é. e áscua. degolar.” – seria possível empregar.) 361 ÁSCUA. será homicídio. o “ato de matar”. est un meurtre. para exprimir “brilho ou fulgor”. capitulado nos códigos. Só figuradamente se emprega este verbo para significar – “exaurir. seria preciso notar que a desinência . ou abusando da sua força. massacrar.” (Em nenhum destes casos caberia artefacto. Só é crime. 363 ASSASSINO. morticínio. – De que entre estas duas palavras não existe sinonímia perfeita – diz Bruns. . E. ou à traição. assassinatos em vez de assassínios? Bourg. Também se diz – “brilhar como uma áscua de oiro”. commis volontairement. em direito seria preciso marcar talvez uma certa diferença entre os dois. – Assassino é o que.. seria pleonasmo o dizer-se – “brasa viva”. Dizem-nos agora os citados autores: “L’homicide. matar.. se nomme assassinat”. como vemos algures. mata o seu semelhante. assassínio. degolar equivale quase.. e Berg. e que assassinato designa o próprio crime. tirar o vigor”.ato em assassinato sugere a ideia de crime ou delito. decerto que é morte. Neste exemplo: “Os bandidos foram cometendo. – Matar enuncia a ideia geral de “tirar a vida a um ser vivo”. – Assassinar é “matar a homem que se não pode defender.. O homicídio involuntário é uma desgraça e não um crime”. não é assassinato. com injustiça e crueldade”. a morte. Na guerra. homicida. homicide. voluntária ou involuntariamente. portanto. enquanto a terminação . ou das vantagens que tem sobre a vítima”.. assassinato. ou melhor. à traição. no entanto. Diremos. fazer cessar.” Parece que não poderemos traduzir este vocábulo francês meurtre só por morte. pois se o fosse. – Trucidar é “matar com excessos de barbaridade. portanto. dizem que “o homicídio é o fato de dar a morte a outrem. assassínios em massa.io de assassínio marca simplesmente forma substantival. – é uma prova o podermos dizer: “as brasas estão quase apagadas”. brasa. homicídio. massacrar. cometido sem premeditação. Conclui-se ao menos de tudo que assassínio designa o ato em si mesmo. a morte de criatura humana feita com a responsabilidade do que matou. – Degolar é “matar cortando o pescoço”. cometeu assassínio? Sob um ponto de vista filológico. por exemplo. morte. Num país onde fosse permitido assassinar. com a mesma propriedade. – Massacrar (do francês massacrer. mata- dor. trucidar. é o termo próprio para exprimir – trucidar. o meurtre. “ferro em brasa”: expressões que parecem autorizar-nos a empregar o termo brasa para exprimir calor. cometido voluntariamente. e abusando o matador da sua força. O homicídio. que F. meurtre. Logo. matança. adaptado do alemão matsken “degolar”) é “matar em massa gente sem defesa” (Besch. o homicídio voluntário.).. infração de lei. commis avec préméditation ou guet-apens. no entanto. no sentido que esta palavra tem aqui. 362 ASSASSINAR. – Áscua implica. Entre assassínio e assassinato não fazem os léxicos distinção alguma.212 Rocha Pombo “É fácil de ver de que rude. e não – “as áscuas estão quase apagadas”. e matar com perfídia e violência. ou de que grosseiro artifício se valeu para obter aquilo... a ação de matar com premeditação e abuso de força. isto é.. expressão que é muito trivial. no seu artigo sobre assassinat. a ideia de ser completa a incandescência: ideia que não é inerente à palavra brasa. Nem será morte se o que o fez não usou de violência.

é assaz incrédulo para. ou de uma fortaleza. Assédio (de ad + sedes. sítio. – Morticínio é “matança de criaturas humanas em grande número. – Cerco é termo genérico e designa aqui a operação de “instalar forças militares em torno de uma praça. seja irracional”. – Sítio. portanto. uma aldeia. ameaçando-a. dir-se-á do livro que não tem pretensões. seja homem. ou de grande número de animais”. e não – “fechar o assédio”. . Não devemos dizer. ou mesmo por todos os lados. – Sítio (de obsidium formado de obsideo = ob + sedeo) deveria ter o mesmo valor de assédio. Besch. – Morte é o que praticou o matador. ideia necessária de cerco propriamente. frequente. E. pondo-a em perigo crescente. confundir os dois vocábulos. “apertar o sítio”. como ainda a ideia do aperto em que se põe a praça sitiada. bloqueio. esta maneira de se exprimir.). – Quando se diz: “Tenho o bastante para fazer esta viagem” – entende-se que não há necessidade de esquivar-se a gastos supérfluos. suficiente. – Bloqueio (do alemão blockhaus “pequeno forte de madeira”. O cerco pode ser de curta duração. um bosque. 366 ASSÍDUO. bastante é mais que suficiente. – “assim dispostos apresentam a sua gradação descendente”: assaz é mais que bastante. no entanto. que não se tem dinheiro de sobra. um forte. Este vocábulo. pode frequentemente confundir-se com bastante. – A julgar no fundo o mesmo radical. e incapazes de defender-se”. impedindo que nele entre ou dele saia embarcação alguma. “F. mas assíduo (Bruns. menos vezes. sem sugerir.. não é simplesmente assédio: é mais próximo de cerco. – Bastante indica maior quantidade que suficiente. e tendo muito de comum as duas preposições ad e ob. – “Estes três vocábulos” – diz Bruns. porém. – Sítio sugere ideia da importância da praça sitiada. onde se tenha metido o inimigo. bastante.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 213 o assassínio não figuraria nas leis penais: não seria propriamente assassinato. Bastaria notar que se diz: “fechar o sítio”. – Matança é “morte de muita gente. porém. São assíduas as visitas que se repetem com insistência e com certa regularidade. no entanto. assédio e sítio não se diferençariam senão pela forma. desde que se lhes encontra mais constante e mais repetido que o que é frequente. ou à vista mesmo de uma praça. Não se entende a mesma coisa ao dizer: “Tenho o suficiente para a viagem” – revelando. um posto militar. – É matador “aquele que mata. cercando-a por vários. Não se diz que um bom empregado é frequente. ou mesmo uma casa. O que é assíduo indica mais empenho. ou de assideo = ad + sedeo) é a operação de acampar um exército hostilmente junto ou diante de uma cidade. não seria possível. com suficiente. são frequentes as que se fazem muitas vezes. mais vivo intento que o que é frequente. sem mais ideia alguma acessória. no propósito de rendê-la”. quando menos em grande número de casos. O assédio poderia consistir apenas em manobras a certa distância. 365 ASSÉDIO. não dá o cerco ideia alguma da coisa cercada: pode ser uma grande cidade.” diz claramente que o indivíduo do que se trata não é crédulo.) aplica-se mais propriamente a operações militares destinadas a trancar um porto. – O que é assíduo é só pela respetiva estrutura.. Além disso. 364 ASSAZ. “Livro assaz despretensioso”. ou de inocentes. morticínio de bois. nem “apertar o assédio”. e o sítio supõe-se que será longo. Podemos dizer – matança de bois ou de ratos. e – matança de mulheres. cerco. sendo puramente adverbial. pois não só dá ideia da duração que podem ter as operações de guerra.

ou numa reunião em que se tomaram deliberações”. – Assunto é o ponto particular e determinado de que se trata no discurso ou no livro. que consiste no estudo e conhecimento do céu e dos fenômenos celestes. pôs entre elas uma notável diferença. – Rima é a “perfeita igualdade de som e de acento no fim de dois ou mais versos”. e chamava-se comumente astrologia judiciária. senão de ritmo. e por isso merece a estima dos sábios. para isto. em poética dizem-se assoantes os versos que em vez de rima têm apenas assonância. E como nem todos os versos carecem de rima. etc. Subscreve-se uma lista. ou igualdade de sons”. uma declaração. valendo-se o astrólogo. – Duas palavras gregas de origem – diz Roq. O assunto é o ponto em si. porém. isto é – que terminam por palavras “cujas desinências têm da sílaba predominante para o fim as mesmas vogais. Entende-se por astrologia a suposta arte de predizer futuros acontecimentos. ou em credo e enredo. 369 ASSUNTO. – Assinar designa o ato de “pôr a própria pessoa o seu nome por baixo de algum escrito. um contrato. o objeto é o alcance que pode ter o assunto (Bruns. do curso e movimento dos astros. só se chamam rimados os que a têm. de resolução coletiva que foi tornada. subscrever. 371 ATA. e por isso mesmo mais vaga. medo e preto. por exemplo. consonância. rimado. para produzir efeitos jurídicos. – Subscre- ver é simplesmente “pôr o nome por baixo de algum escrito”. A matéria abrange todo o gênero a que pertence a coisa de que se trata. Mesmo um outro pode subscrever por nós. Firma-se uma letra. aquilo de que nos ocupamos atualmente.214 Rocha Pombo 367 ASSINAR. e não só essa coisa. 370 ASTROLOGIA. Dizem-se consoantes os versos de rima com pouca propriedade chamada literal. firmar. Assina-se uma carta. o astrônomo funda-se em cálculos que não falham. um artigo de imprensa. mas diferentes consoantes”. O uso. feita das mesmas letras mas de sons ou acentos nem sempre iguais. diz-nos o que sabe. e a segunda.. e logo “discurso”. – Auto é “o registro solene de cerimônia que se celebrou. ou julga sem fundamento científico. mas tudo quanto a ela é acessório. – Assunto e objeto também se distinguem. – Ata é soante. termo. “a narração por escrito do que se passa em uma assembleia. por exemplo: fala e casa. a primeira de astér “astro”. astronomia. para que se saiba que é ela quem escreve”. – Astronomia é termo mais moderno. rima. O astrólogo conta o que imagina. como. assoante. O assunto de história tratado por Arriaga é a revolução de 1820. A matéria de que o historiador se ocupa é a história. – Assonância significa “semelhança de sons.). assento. objeto. 368 ASSONÂNCIA. matéria. versos que terminassem em besta e lesta. ou para que se tenha mais tarde testemunho autêntico da verdade . busca e acha aplauso entre o néscio vulgo. – Consonância diz propriamente “sons que se correspondem. auto.. do aspeto. uma felicitação coletiva. regra”. – formadas. menos precisa. con- ainda que não faça propriamente parte dela. harmonia imperfeita”. registro. influxo dos astros. de astér e nómos “lei. Parecem significar ambas a ciência dos astros e das leis que lhes regem os movimentos. como.. – Matéria é palavra de maior extensão que assunto. posição. isto é. e designa a verdadeira ciência dos astros. – Firmar é “assinar documento para que se torne autêntico”.

con- . na acepção em que aqui consideramos este vocábulo. pois descrido significa – “que não crê decisivamente.).. o cético. O cético argumenta contra as grandes verdades da religião. 372 ATAÚDE. sem a solenidade deste. ou de um papel importante. pagão. como esta. – Termo é convizinho de assento: é o “auto conciso de um ajuste. contra tudo que merece grande respeito. é sacrílego: nem sempre. e. Mais restritamente – “é a narração circunstanciada de qualquer ato. esquife. na acepção que tem aqui. O primeiro. judiciária ou administrativa. como – “féretro humilde”. – Infiel é palavra de significação muito restrita. – Féretro é termo genérico que pode substituir qualquer dos outros deste grupo. porque a procurou inutilmente. desde que impiedade encerra a ideia de ufania contra Deus e os homens. O ímpio. ou a súmula de um sucesso. infiel. – ataúde e caixão são sinônimos perfeitos. ou de um clube. tumba. no entanto. em regra. – Esquife diferença-se de tumba em não ter tampa. Tanto dizemos – “féretro sumptuoso”. idólatra. – Registro é o “ato de se lançar em livro próprio a cópia ou o extrato de um documento. 373 ATEU. ímpio. amor. (Aul. é antiquado: equivale a auto. – Tumba. irreligioso. que afeta uma falsa independência moral. cético. O incrédulo zomba da religião. Significa mais – “contrato escrito. que duvida ou vacila em crer. e quase sempre é um leviano e fútil. – Segundo Bruns. designa “o que não crê nas verdades que a religião ensina ou que a Igreja manda crer”. escrita e autenticada pelo respetivo escrivão e testemunhas”. herege (herético). e no sentido restrito em que é tomado neste grupo. – Incrédulo é vocábulo de significação mais extensa: designa “o que não crê facilmente”. féretro. mas ainda é certo que se não aplica geralmente a caixão pobre e desguarnecido. faz-se assento de um acordo ou de um compromisso. heterodoxo. – Incréu é forma contrata de incrédulo. e por isso despreza o culto público e o objeto desse mesmo culto”. não só é termo mais escolhido. que se desiludiu de crer”. e que se rebela contra Deus. ou prova escrita de contrato do que propriamente – registro autêntico de resolução que se tomou”. toma-se por termo uma confissão ou um testamento”. caixão. – Descrido enuncia de modo mais completo a noção de descrente: é como se se dissesse – um descrente definitivo. – Irreligioso diz apenas “que não tem religião alguma”. que detesta Deus e a humanidade.. por extensão. descrente. ou diligência.) – Assento. incrédulo (incréu). leigo. des- crido. – Sacrílego é o que atenta contra coisa sagrada. designa a maca em que o cadáver é transportado até a beira da sepultura. – Ímpio é – diz Lacerda – “o que não tem piedade. gentio (gentil). profano. “féretro pobre”. em confiar”. reduz-se a auto uma deliberação. – Ateu (do grego a privativo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 215 sobre o que se fez ou resolveu”. apenas. ordena-se o registro de um fato. será verdadeira a inversa. Entre cético e incrédulo é preciso notar a seguinte distinção: o incrédulo não crê porque não cogita de saber a verdade. de uma sessão do Congresso. – Cético é o que não crê senão quando sente a verdade em plena evidência. – Descrente é “o que não crê com firmeza. ou superioridade de espírito. veneração. e muitas vezes mostra-se amargurado de não aceitá-las porque lhe parecem contrárias à razão humana. sacrílego. que não sente pelo semelhante senão ódio e desprezo. para que fique lembrança dele” (Aul. e theos “deus”) é o homem que não crê na existência de Deus. O ímpio é quase um celerado. porém. e da qual é tirado para se enterrar.

e a de pagãos distingue aqueles que observam cegamente. Os gentios foram chamados à fé. ainda se conservou a idolatria nas aldeias (pagi). Confúcio e Sócrates. Paulo foi o apóstolo das gentes. Observa Fleury que entre estes gentios incircuncisos alguns havia que adoravam o verdadeiro Deus. gentios. por oposição aos judeus e aos Cristãos.216 Rocha Pombo siderada neste grupo: é o qualificativo com que na Idade Média os Cristãos designavam os maometanos. – Heterodoxo se diz do membro de uma igreja. aos infiéis. de Xaca.: “Assim como os gregos e os romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não fossem eles próprios. Pelo que. os pagãos persistiram em sua idolatria. continuaram a adorar os falsos deuses. É antôni- . como entre nós o é paisano a soldado ou militar. porque os imperadores cristãos obrigaram por seus editos aos adoradores de falsos deuses a retirar-se para as aldeias ou lugares de pouca conta. que refutavam a pluralidade dos deuses. etc. ou. e obedeceram à sua vocação. mas não eram pagãos. de Brama. se quando era ainda paisano. como lhes chamou d. como diz S. ou porque. são. Pretendem alguns sábios que os gentios foram assim chamados porque não têm outra lei mais que a natural e as que a si mesmos se impõem. contanto que observassem a lei natural e se abstivessem de sangue. de Fo. E não a mim que creio o que podeis. chamaram-se pagãos (pagani) os povos que ficaram infiéis. ou porque preferiram deixar o serviço a receber o batismo. e com fanatismo. E acrescenta: Hinc et fortasse christiani gentes dixere paganos. adoradores de um só Deus. propriamente falando. ou fosse. Ut portet nomen meum coram gentibus (IX. Depois do estabelecimento do Cristianismo. III. tivesse feito testamento”. fecerit testamentum. Afonso Henriques. 15). Cita Ainsworth a favor desta opinião a passagem seguinte: Miles. e aos quais se concedia a permissão de habitar a Terra Santa. – Gentio era “toda a gente que ficava fora da nossa grei”. depois de convertidas ao Cristianismo as vilas e cidades. como também foram bárbaros para os romanos todos os povos que se encontravam fora de Roma. de uma doutrina – que não se submete à autoridade que a regula. como foi ordenado no ano 310. paganus era oposto a miles. de uma religião. Seja como for. S. – que tem opinião diferente dos demais sectários (heteros “outro” + doxa “opinião”). nações. Os adoradores de Júpiter. o nome de pagãos foi dado aos infiéis que. Jerônimo. segundo observa Fleury. e de outras falsas divindades. Sobre esta e a palavra pagão escreve Roq. porque os infiéis se recusaram a alistar-se na milícia de Jesus Cristo. que têm uma lei positiva e uma religião revelada que são obrigados a seguir. e este mesmo nome deram depois aos Cristãos”. “o soldado. como crê Barônio. A Igreja nascente não falava senão de gentios. retirados das cidades. Senhor. uma religião mitológica. (Lus. isto é. ou gentios todos os povos que não eram da sua religião. por- que. que se chamavam pagus. os sectários de Mafoma. A palavra gentios não designa senão as pessoas que não creem na religião revelada. entre os latinos. ou infiéis. dos gentios. são pagãos. os pagãos são gentios. eram gentios. porque não queriam militar debaixo das bandeiras de Cristo”. mas nem todos os gentios são pagãos. É termo que se pode aplicar a todos os que desconhecem a religião cristã e celebram cultos bárbaros. 45) – Idólatra designa propriamente “o que adora ídolos”. onde exerciam sua religião. na visão do campo de Ourique Aos infiéis. ou um culto de falsos deuses. etc. quod Christi vexillis non militarent = “daqui veio talvez chamarem os Cristãos pagãos aos gentios. assim também os judeus chamavam goim. como se lê nos Atos dos Apóstolos. si dum paganus erat.. gentes.

– Leigo e profano distinguem apenas o que nada tem com a religião. A paixão do Redentor é um assunto de meditação.. indica-se com esta palavra um desses crimes que causam indignação. Há crimes graves. e crimes leves. Na segunda acepção. Como exemplos da segunda. desvelo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 217 mo de ortodoxo. Muitas vezes comete-se delito sem infringir as leis . culpa. vigilância. esse ato chamase reflexão. Como exemplo da primeira acepção. apercepção. 374 ATENÇÃO. quebra. cuidado. Se a reflexão. para os crentes. não se lhe pode atribuir a gravidade do crime. necessitamos refletir. junta à noção de leigo a de ímpio e sacrílego. porém. a consumar-se por circunstâncias independentes da vontade do autor. exprime-se que o ato criminoso foi planeado e começado a perpetrar. os direitos ou os interesses alheios são atacados ou aniquilados. Não obstante. contensão. falta. é “uma espécie de reflexão prolongada e persistente”. uma atenção que se não deixa iludir. intensa aplicação”. – Segundo Bruns. – Desvelo é o “cuidado e vigilância contínua de quem se empenha com afinco em realizar alguma coisa. – Apercepção é a “capacidade própria da inteligência para conceber ideia das coisas reais”. citaremos – o atentado contra Carnot. meditação. como bem define Bruns. – Profano. tentativa. 375 ATENTADO. apontaremos – o atentado que alguns nobres. Antes de empreender um negócio importante. seja por ser o ato praticado contra quem ou contra aquilo que é geralmente respeitado. instigados pelos Jesuítas. indefectível com que se faz alguma coisa”. de extremo cuidado e grave aplicação com que se estuda e trata de resolver alguma alta questão. ou de efetuar negócio de grande importância. – Na primeira. pe- cado. que não pertence ao clero. ou que não diz respeito a crença nenhuma. Se. porém. – Meditação. violação. as nossas faculdades se fixam sobre objetos internos. não meditar. e que consiste em que a reflexão deduz consequências. ou a atenção é demorada e persistente. – Contensão significa “profundo esforço espiritual. transgressão. praticaram nas terras da Boa-Hora para assassinarem el-rei D. reflexão. delito. – Atenção é o ato pelo qual o nosso espírito fixa o seu poder sobre algum objeto externo. em muitos casos. em vez de num objeto externo. dedicação. José. enquanto que a meditação se exerce sobre fatos cujas consequências se conhecem antecipadamente. quebrantamento. – Cuidado é a “atenção zelosa. que não cessa de agir enquanto não consegue o seu fim”. – os frequentes atentados dos governos contra as liberdades públicas. aplicação. solicitude. chama-se aplicação. – Solicitude é a “atenção. – Vigilância é um cuidado contínuo. – Crime é o ato pelo qual a vida. não chegando. a honra. cogitação. uma atividade que está sempre alerta (vígil “que vela”). ou de executar alguma tarefa”. – Cogitação enuncia “o ato ou a operação de pensar sobre alguma coisa”. – Dedicação é quase solicitude e desvelo: é “a boa vontade e empenho com que se cuida de cumprir um dever. – Delito é uma infração à lei. grande. não de reflexão. a diligência levados quase a um verdadeira inquietação por aquilo que nos interessa ou de que devemos dar contas”. – atentado tem duas acepções muito distintas. ponde- ração. crime. infração. o cuidado. – Herege (ou herético) é o que levou a heterodoxia ao extremo de discutir com certa paixão e sustentar graves erros em ponto de fé. há entre os dois vocábulos uma diferença notável. seja porque revelem instintos depravados no criminoso. – Ponderação sugere ideia de atenção mais profunda. a propriedade.

É preciso não esquecer que atitude e postura se dizem do conjunto do corpo. ou indiferente. e o pecado venial – o que não importa em perda da graça. não uma tentativa. ou o preceito moral”. e aquele. O gesto é rápido. ou se as circunstâncias da tentativa são excep- cionalmente notáveis. na pessoa. passa esta a ser um atentado. e nunca – violação involuntária. Particularmente aplicado a . – Quebra. – Falta = “omissão menos grave do que culpa”. mesmo que não mate ninguém. Tudo que exerce a ação que lhe é própria. mais ou menos grave. gesto. e por extensão. como comete infração das leis penais quem furta uma carteira. a postura das mãos. – Transgressão é propriamente “o ato de fazer alguma coisa passando por cima das leis”. afadigado. experto. e que exprime um sentimento. infringem-se as leis morais sem cometer delito. e frequentemente. – Posição – referindo-nos somente ao que desta palavra é relativo às pessoas. que na atualidade a dominam”. portanto. apressurado. A autoridade que dá uma ordem absurda comete transgressão. ou só da cabeça ou dos membros. – Infração é o ato de “infringir. zeloso. – dizemos da direção que se dá aos membros. aquele que pela sua gravidade como que mata as almas. diligente. aludir à apreciação alheia. parecendo que o segundo é muito mais forte. ou suplicante. à cabeça. postura. moirejante. que pode ser facilmente perdoado. das leis morais. quem fere. é “o que. postura. mata ou tenta ferir ou matar o seu semelhante. neste grupo. Não é possível violar (de violo. Devemos. do propósito com que a lei é infringida. mas que não chegou a consumar-se por alguma circunstância alheia à vontade do autor. desvelado. e geralmente aplica-se este termo só a casos de pouca importância. e nisso difere também da atitude. – Atividade é antônimo de inércia. comete um atentado. – Postura difere de atitude em revelar este o sentimento próprio. – Gesto é um movimento do corpo todo. de quebrar a lei. solerte. O negociante que não pagou os impostos devidos cometeu infração das leis fiscais. nos revela as disposições. O crime quase sempre imprime baldão em quem o comete. que opera os efeitos que lhe são naturais. também. 376 ATITUDE. da lei. – Ati- tude. isto é.: frases nas quais posição ou gesto seriam o termo adequado. os sentimentos. Assim dizemos – atitude serena ou ameaçadora. ou a prática de um crime ou de um delito que se começou. etc. ao busto. – Culpa = “ato ou omissão menos grave do que crime”. cuidadoso. – Violação distingue-se dos dois precedentes em encerrar a ideia da força. Quem comete uma infração pode não ter culpa. pois esta resulta da consciência com que a infração foi cometida. Se a pessoa alvejada tem uma alta representação social. uma paixão. atitude benigna. posição. o delito. solíci- to. – Tentativa é propriamente um atentado. Um braço estendido horizontalmente não pode permanecer muito tempo nessa posição. Há o pecado mortal. afanoso. quebrantamento = “ato de infringir lei ou preceito”. verbo latino oriundo de vis “força”) sem cometer violência. não de cada uma das suas partes.218 Rocha Pombo morais. 377 ATIVO. não. evitar frases como estas: a postura da cabeça. – Pecado é infração da lei religiosa. Quem erra um golpe ou um tiro de bala contra uma pessoa comete uma tentativa de morte. pressuroso. Dizemos – infração involuntária. O celerado que lança uma bomba explosiva sobre uma multidão. A postura de uma pessoa é decente conforme os olhos que a veem. é ativo. mas quem comete violação tem sempre culpa. ansioso. Quem deseja mal ao próximo comete pecado.

– Enérgico diz propriamente “que opera com grande atividade. – Apressurado = “que tem pressa em fazer. e o caráter do que é ativo. em suma. que “ansioso não se diz de uma qualidade da pessoa. enérgico. Na acepção figurada que lhe dá lugar neste grupo dir-se-ia. Caixeiro solerte.” – Desvelado é mais que cuidadoso: é “aquele que não descansa antes de haver cumprido a sua tarefa”. ou trata bem da sua tarefa ou de um negócio que lhe compete. A natureza poderosa dos meios. que exerce. – Zeloso é o que. pois a atividade pode não ser ponderada e sair da justa medida. mas de um estado anormal em que ela se encontra.. Por isso o homem ativo nem sempre conseguirá fazer o que deseja. solícito. perdendo-se ou dispersando-se inutilmente. e se a sua ação sobre ela é de natureza que afugenta a doença. Solerte diplomata. Um medicamento ativo produz prontamente o seu efeito. E neste sentido depreciativo aproxima-se mais de ladino. Está ansioso aquele que procura chegar ao termo de uma coisa. além de ativo e diligente. portanto. O mesmo não se deve entender quanto ao diligente. – Cuidadoso se diz daquele “que desempenha com cuidado o seu cargo. sagaz. mas um discurso eficaz previne-a e combate-a. – Solícito diz “cuidadoso e diligente. ou “enquanto”. – Solerte é. cansado mais do que talvez exigiria a tarefa”. “mostra escrúpulo em cuidar da sua tarefa. astuto. convencendo e persuadindo”. além de ativo.. – Experto é tomado frequentemente a má parte. mas chega a inquietar-se. impaciente de cumprir o seu dever ou de executar algum serviço. com atividade as suas aptidões. além de ser ativo. afanoso.. dizemos que é ativo aquele que se move na vida com desembaraço. forte.. – Quanto aos dois primeiros. convizinho desses dois: experto é o “homem que. como define Aul. pois este se supõe sempre que exerce a sua atividade com muito bom senso. a sua força e virtude constituem a eficácia. porém. Um discurso ativo surpreende e não deixa tempo para a dúvida. empenhado com grande esforço. a afligir-se por ver cumprida a sua tarefa. – Violento é o que se exerce . em defender os interesses que lhe estão confiados”. vivo interesse nos encargos que lhe são confiados. quase precipitado”. impaciente por acabar. – Ansioso é o que se não satisfaz com ser apenas solícito e desvelado. e o caráter do que é eficaz. se por sua virtude combate com segurança os efeitos do mal. constituem a atividade. diz Alv.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 219 faculdades do homem.. perícia.: “A diligência. tem uma pronta e clara inteligência das coisas. é cuidadoso. – Afadigado = “ansioso no trabalho. ou quem se impacienta por ver que ela tarda a chegar”. Nem sempre o homem ativo pode ser tido como diligente. que é de vivo engenho e de fácil penetração”. – Moirejante = “esforçado. ou com que obram as causas. e obra com energia em toda a economia animal. – Afanoso = “ativo. Nem sempre a esperteza é uma virtude de que nos possamos desvanecer: antes pelo contrário. assíduo em dar conta de seu mister ou de algum encargo”. segundo Lac. e a viveza com que se empregam os meios para obter um fim. “prudente com astúcia”. esforçado na sua lida”. que é expedito em adiantar os seus negócios. ou das causas. que de ativo e diligente. esmerado. Observa com razão Bruns. – Pressuroso = ativo. mostra zelo.. esse medicamento ativo é um remédio eficaz. que se exerce com muita força”. 378 ATIVO. afadigado como um moiro”. Pas. violento. e que os seus esforços são regulados cuidadosamente pelo esmero com que procura dar conta da sua tarefa. eficaz. que é pronto nos misteres de que se ocupa. – Diligente será o homem que. “não consegue o que pretende”. vigilante.

contingente. é ator enquanto está no palco. alguma coisa.” 380 ATRIBUIR. Papel de boa qualidade. cômico. – Atributo “se diz daquilo que. dando-o como autor dela. se é considerado como pago para fazer rir o público. Remédio forte. em presença (prœ). não porque a língua o autorize. um discurso violento ataca sempre alguém. Atribui-se uma obra ao que se crê ser autor dela. argumentos. que opera com energia demasiada. e artista se intitula o meu sapateiro. imputa-se . – Qualidade é o que faz com que uma coisa seja tal como se diz. constituindo uma das suas virtudes. diante de nós. presente. imputar. A tolerância é um dos predicados do espírito livre. que facilitaram a conquista. Dizemos que um remédio é enérgico se ele é mais do que ativo. 2.º) em o atributo constituir estado. essencial. qua- bre estes quatro vocábulos escreve Bruns. ação. – Propriedade é aquilo que. e que é violento se abate o organismo e pode até pôr em risco o doente. propriedade.: “Quem representa no teatro uma personagem qualquer. alguma instituição. – Sobre estes dois lidade. rápida. As excelentes qualidades de uma pessoa”. em que – atribuir é dar alguém por autor de alguma coisa vagamente. estando na essência da pessoa ou da coisa. – So- um fato à pessoa que julgamos ser causa mais ou menos remota.) 382 ATUALMENTE. – Nota Laf. A eternidade é um dos atributos de Deus. direta ou indireta dele. Atribuir toma-se indiferentemente em boa ou má parte. e deveria imputar-se isso aos maus governos. predicado. 381 ATRIBUTO. se age prontamente. e de modo áspero e sem atenção a conveniências que normalmente se guardariam. artista.º) em considerar-se o atributo como existente. Fortes razões. comediante. agora. – Forte = “que atua com muita força. que parece muito estreita a sinonímia que existe entre os dois primeiros advérbios deste grupo. diferençam-se na linguagem vulgar: 1. cessa de o ser logo que se retira para entre bastidores. (Bruns. Cômico ou comediante é aquele que tem a profissão de ser ator no teatro: cômico. impetuosa. Artista é um termo muito extensivo. a torna distinta e inconfundível. A propriedade do ímã é atrair o ferro. presentemente. e – imputar é atribuir-lha aplicando-lhe logo o mérito ou o demérito da ação. mas porque o uso assim o tem estabelecido: Rafael foi artista. imputar toma-se quase sempre em mau sentido”. por simples asserção. repetindo Roquete: “Exprimem ambos a ação de referir a alguém uma coisa. O que é ou está presente acha-se aqui mesmo. diferençam-se. claros. e o predicado. incisivos. “A diferença” – diz ele – “deve ser a mesma que se nota entre presente e atual. comediante.220 Rocha Pombo com atividade anormal e brusca. próprio.. Atribui-se a ruína dos impérios aos conquistadores. e o predicado como exigido. faça-o por profissão. Um discurso enérgico é feito em termos fortes. ou por mero passatempo. no entanto. atual. modo de ser. acidental. Predicado e atributo. 379 ATOR.. hoje. provas. que em lógica são sinônimos perfeitos. lhe pertence tão indiscutivelmente que a pessoa ou coisa deixaria de ser o que é se lhe faltasse tal atributo. se o é como representante das personagens que entram na comédia. – Predicado é o que se exige na pessoa ou coisa para ser tida como válida ou verdadeira. Atual significa verbos escreveu Lacerda. pertencendo exclusivamente à pessoa ou coisa. com força mais que normal”.

E quando exerce influxo (ou influência) sobre alguma coisa. hipotético. maintenant il est pauvre”.” – referindo-nos não a abusões que tivéssemos precisamente ontem. de um povo. nem limitando o que afirmamos ao próprio dia atual – hoje. ou da humanidade. modas. Em suma: hoje é tanto o dia atual propriamente. e querendo marcar uma certa relação com o passado. operar (obrar). “Opõe-se o estado presente de uma pessoa a suas calamidades passadas” (Vauv. portanto. agir. segundo a linguagem da antiga metafísica.). tanto atuais como futuros”. ou há poucos dias. – Quando uma coisa (ou mesmo uma pessoa) exerce ativamente a sua força (física ou moral) sobre outra.). “Opõese o presente aos séculos passados” (Volt. marca relação com outro tempo.” É evidente que tanto numa como noutra língua esses advérbios estão postos – maintenant em lugar de aujourd’hui. porque estes . sob diversos aspetos – costumes. estes três verbos. Quem diz presentemente não faz decerto referência em oposição a fato que tivesse sucedido ontem. Emprega-se. às épocas precedentes. “o rei que reina atualmente” – empregar-se-á de preferência quando se quiser sugerir alguma relação com os reis que hão de vir depois dele. nem por vir em geral”. Mas disse d’Alembert com perfeita justeza: “Os acadêmicos. atualmente é relativo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 221 ‘que está em ato (actu) e não em potência (potentiâ)’. presentemente de maneira absoluta. e nem por isso fica livre da extensão que é admissível. com o seu maintenant (main + tenant). – Presente refere-se sem dúvida tanto ao futuro como ao passado.. 383 ATUAR. Um sucesso pode influir sobre coisas futuras (não operar. “O rei que reina presentemente” – dir-se-á de maneira absoluta. segundo o mesmo Laf. que é a forma vernácula do mesmo verbo latino operare). Dizemos: “Felizmente hoje não me deixo afrontar daquelas abusões. portanto. Quando produz sobre alguma coisa o efeito que lhe é próprio. e marca alguma coisa em oposição com o que é ideal. e não é difícil apanhar a natureza e extensão dessa relação em todos os do grupo. Ilustra o autor essas definições com profusão de exemplos extraídos de clássicos. nem atuar. O francês. o tempo em que se está vivendo. nesta ou a esta hora” associa a noção mais vaga de “nos ou os dias que correm. parece. – mas à fase da vida em que nos achamos. no entanto. como os dois advérbios precedentes. e agora em vez de hoje. Só mesmo dando-lhe muita latitude é que admitimos.” É preciso notar que hoje. que hoje marque também ideia muito semelhante a presentemente. agora está pobre.. influir. Não se confundem. no ou o tempo que não é o passado de que se falava”. dizemos que influi. dá com precisão admirável o nosso agora. atual caracteriza-se unicamente por sugerir uma ideia de realidade em oposição ao que poderá ou poderia ser. de sorte que o que é atual não está nem em potência. – Agora (do latim hac hora) é também advérbio que à noção precisa de “neste ou a este momento. como a época atual. “Nossa natureza está presentemente corrompida” (Mol. – Hoje. Seja como for. Quem diz hoje refere-se a fato em oposição a fato ocorrido ontem. dizemos que atua. etc. ou em referência aos reis seus predecessores. em oposição a outra fase passada. “Il était riche autrefois.). no entanto. mas a fato passado há muito tempo. dizemos que opera (ou obra. “Ele foi rico em outros tempos. “emprega-se sobretudo para opor uma certa época da vida de um homem. espírito.. possível ou futuro. nem em ideia. exatamente como em português. “Nós nos preparamos atualmente para reinar um dia com os santos no céu” (Bourd. ser ainda mais próprio para o passado.). nem em expectativa.

conquanto pouco tolerado pelos vernaculistas escrupulosos. poder. – Suportar é sofrer com paciência e conformidade. solene. – Majestoso é o que esplende pela sua aparência grandiosa e sublime. pode ser incluído neste grupo. A alma se lhe conturba ao saber daquela desgraça. ou da sua classe. glorioso. com a mesma significação de obrar. postura imponente.. O que tem dores padece. Aguenta-se a estupidez de um funcionário imbecil. a majestosa cerimônia da sagração do bispo. contur- distinguem pela causa que produz a perturbação. – Também agir. por não dar escândalo. A augusta fronte do pontífice. pela sua grandeza. – Solene = “que tem caráter de formal e brilhante autenticidade”. padecer. Aguentam-se grosserias de um biltre.. grandioso. que é augusto e venerando como as coisas sagradas”. – Padecer exprime particularmente o sofrimento físico do indivíduo. O que tem desgostos domésticos. sumptuoso e magnífico ao ponto de sugerir a ideia de coisa sagrada e divina. mas sugere mais particularmente a ideia de perturbação do senso interior. ou mudar a ordem. suportar. – Aturdir e atordoar têm de comum a ideia de perturbar os sentidos. O soberano olhar da princesa. – Tolerar é também sofrer por efeito de prudência ou de boa educação. – Segundo Roq. alterar as condições. andar. – Perturbar é interverter. e só se no. ostentoso. sofrer. – Pontifical = “que tem aparência de pompa religiosa. esplêndido. O filho submisso atura a rabugice do velho pai. sobera- bar. O ar majestoso da rainha. A luz forte perturba a vista (não – conturba). O rei prudente tolera alguns abusos contra sua autoridade para evitar maiores males”.: – Sofrer “exprime a ideia geral e absoluta de levar o mal que nos acontece. porém é sofrer em silêncio. 386 AUGUSTO. e portanto acima de todos os do seu gênero. – Aturar é sofrer com repugnância e de mau grado. imponente. ou majestade. uma bebida alcoólica. aguentar. ou injuriado. ou que nos fazem. – Soberano é o que está no mais alto grau de poder. a figura augusta do patriarca. magnífico. to- lerar. ou contrafazendo-se. um grande rumor ou vozeria – aturdem-nos.222 Rocha Pombo enunciam ação que depende de atividade e quase de esforço consciente). a situação ou estado normal de alguma coisa. enfermidades. uma queda. – Augusto é o que é tão grande. ou que se vê na pobreza. e é possível que se destine a operar uma verdadeira revolução no seio do ministério”. Uma tormenta. – Grandioso = “aquilo cuja pompa e mag- . ou de uma autoridade ignorante. uma pancada na cabeça – atordoam. se bem que mais genérica. – Atordoar aplica-se mais particularmente à ação de perturbar por efeito físico: um cheiro muito forte. 384 ATURAR. solene. Aturdir significa “perturbar o senso confundindo-o”. gesto. o gesto soberano de desdém. se impõe ao respeito ou à admiração de todos. ou: “é possível que tenha de operar ainda alguma transformação política imprevista”. Préstito imponente. semblante majestoso. – Imponente é o que. Porte. “Aquele discurso atuou fortemente no espírito da Câmara. O homem caritativo suporta com bom semblante os defeitos e fraquezas do próximo. pontifical. perturbar. pomposo. sofre. contrariando-se muito. – Aguentar é vocábulo de uso comum (com a significação que tem neste grupo) e enuncia a ideia de sofrer com esforço. – Conturbar exprime a mesma noção geral de pôr em desordem e confusão. e em cuja presença se sente um como religioso temor. 385 ATURDIR. majestoso. atordoar.

o rio. excelente e augusto”. que vem a certa hora.. – Ampliar-se = “tornar-se de proporções maiores. – Magnífico sugere ideia do que chegou ao máximo esplendor e grandeza. – Brisa é também muito próximo dos precedentes: é “vento suave e fresco”. dilatar-se. – Zéfiro é “brisa matutina. engrandecer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 223 nificência excedem à grandeza comum”. – Avolumar-se é muito próximo de aumentar. nem ao volume. ou maior do que era”. Se o incremento ou desenvolvimento for devido à afluência do que vem do exterior. empolar. – Há casos. o verbo adequado será aumentar. fazer-se túmido. ao desenvolvimento. viração. – Empolamar (outra forma de empolar) = “fazer empolado demais”. mas sim ao incremento. que “o antônimo de aumentar é diminuir. – Pomposo = “que tem mais que o aparato de solenidades usuais. e pode ser empregado tan- to no sentido abstrato como no concreto. etc. – Intumescer = “inchar demais. crescer é relativo ao volume. ou que não é contínuo por muito tempo”. digno de honras sobre-humanas. “cada um dos vocábulos deste grupo sugere a ideia . crescer. – Viração “é vento fresco. que se sente apenas pela agitação das folhas. propício como o favônio”. patrocínio. brando vento aprazível. ou por efeito de gás que se dilata. fazer-se mais extenso. salva- guarda. mais sólido e de maior vulto”. a que sopra alegrando os prados”. usaremos de crescer. inchar. aumentar é relativo à quantidade. – Glorioso = “que ascendeu à elevação do que se fez ilustre e excelente. em que não se atende nem à quantidade. e isso porque aumentar considera concurso alheio. Avulta o prestígio do general. os meus males avultam com os meus receios. ainda mostra ostentação. zéfiro. – Encorpar = “tomar maior corpo. Cresce a planta. fa- vônio. que tem o brilho ostentoso da riqueza”. e que. se for devido a forças interiores. ampliar-se. intumescer. – Engrossar = “fazer-se mais grosso”. ou por uma impressão muito vaga. – Engrandecer = “fazer-se grande. avolumar-se como empola”. – Empolar = “crescer. 388 AURA. fazer-se mais largo ou extenso”. então. e o de crescer é minguar. – Observa Bruns. avolumar-se. encorpar. fazer mais compacto. – Avultar pode dizer-se que é muito mais extenso e compreensivo que avolumar-se. 389 AUSPÍCIOS. – Inchar = crescer com esforço. – Exagerar = “dar proporções fora do normal”. portanto. – Esplêndido = “sereno e brilhante. isto é. orgulho e ufania”. ou mais largo”. impulso próprio”. além de esplêndido e aparatoso. quase imperceptível. Aumenta a fortuna. propício. exagerar. avulta aquela grande figura no meio da turba. e crescer. aragem. – Aura é “brisa fagueira. ou a minha felicidade (e sim aumenta-se). e entre os dois deve notar-se a diferença que consiste unicamente em aplicar-se o primeiro só a coisas concretas. – Amplificar-se ajunta à significação de ampliar-se a ideia do esforço com que se faz maior o que já era grande. engrossar. empolamar. o menino. ou de matéria que se acumula”. que nos cause mais pela quentura ou pela frieza do que pela força. no entanto. – Dilatar-se = “ampliar-se. Não se diz: avoluma-se a minha dor. brisa. 387 AUMENTAR. avul- tar. – No entender de Bruns. ou a minha febre. – Ostentoso = “que. – Aragem é um brando movimento do ar. consideraremos o modo como esse incremento ou desenvolvimento se opera para empregar um dos verbos aumentar ou crescer. amplificar-se. proteção. crescer como um tumor”. a biblioteca.

ou por alguns conselhos ou recomendações. esse favor. severo. etc. – Prometedor é o que. o que a proteção pode fazer é impedir que se chegue à situação de necessitar de ajuda. inabalável. – Salvaguarda não é vocábulo muito usado. etc. que pugna em favor daquele que é protegido ou melhor patrocinado. esperançoso. contemplar”) é o termo que designa menor influência benéfica. sem contudo ir até auxílio imediato ou intervenção ativa. 390 AUSPICIOSO. como se vê no grupo precedente. cobre. – Patrocínio denota proteção eficaz. auxílio. sem embargo. inexorável. este vocábulo designa a influência favorável.224 Rocha Pombo de uma influência eficaz para o logro do que outrem deseja”. ou auxilia ou socorre. quando eram favoráveis os auspícios. auspicioso significa sempre – “que começa sob a influência de bons augúrios. – Se auspícios tem a significação um tanto vaga. A austeridade. – Segundo Roq. na qual. autoriza a esperar-se que venha a dar o que promete. como também de mortificação e penitência. pelas suas qualidades e dotes próprios. assim também. deixa prever que alcançará o êxito que aspira”. não obstante. É prometedor o menino que fez alguma coisa extraordinária para a sua idade. quando desde princípio tem o favor do público. 391 AUSTERO. pois. têm costumes mui rígidos e austeros. e o que designa maior eficácia: literalmente “guarda que salva”. Em proteção (do latim pro “adiante”. um casamento. que se manifesta pela benevolência. Pode ser auspiciosa uma estreia. inalterável. Auspícios podem ser bons ou maus. assim como os romanos costumavam consultar os auspícios – isto é. acontece que homens que não fazem profissão de virtude. Os fracos procuram a proteção dos poderosos. por analogia. Este termo sugere sempre a ideia de autoridade revestida do poder de defender. Ainda que geralmente se tome a austeridade em sentido de aspereza e rigorosa virtude. mas nem sempre ajuda. o que. o mesmo não se dá quanto a auspicioso. inflexível. à vista do que apresenta. é o mais expressivo de todos os deste grupo. por si mesmo. de salvar. por um apoio indeterminado. socorro ou amparo. se arriscavam confiados apenas na proteção que os deuses lhes haviam de confiar. mas vaga e um tanto ou quanto incerta. pois a proteção defende. prometedor. Assim se diz que “uma empresa principiou sob bons auspícios”. rígido. ativa. neste vocábulo uma grande vaguidade de significação. sem embargo . os presságios tirados do voo ou do canto das aves – antes de se aventurarem em alguma empresa. que se pode prever terá esplêndido sucesso”. refere-se antes à nossa conduta conosco mesmo que com os demais. e tegere “cobrir”) predomina a ideia dos meios que se adotam para pôr o protegido ao abrigo de algum mal. como depende muitas vezes do temperamento e do gênero de vida que muitos são obrigados a levar. – Auspícios (do latim auspex. Há. – Esperançoso é “o que inspira esperanças de grande sucesso. pode ser-lhe retirado por várias circunstâncias: e eis aí a versatilidade e inconstância dos auspícios. que põe ao abrigo de grandes perigos. portanto. um natalício. nem ampara. um poeta. rigoroso. Pode ser esperançoso um estudante. ríspi- do. “As leis são a salvaguarda dos cidadãos”. duro. porém. e que até são malvados. entendendo-se que o patrocínio provém sempre do forte para o fraco. do superior para o inferior: ideia que não é inerente à proteção. de avis e spicere “ver. porém. observando-as estrictamente e sem delas nos separarmos. – “a austeridade consiste em sujeitarmo-nos a regras rígidas da maneira de viver.

contrato. – Inalterável é “o que se não move exteriormente. O homem severo não se aparta nunca de seus princípios. todos se viram pelos excessos a que de ordinário arrasta”. – Independência pode-se dizer que se confunde com soberania. segundo a própria formação do vocábulo. e vem a parecer mais áspero e grosseiro que severo. porém. pois encerra muito claro a ideia de que a coisa ou pessoa inabalável não cede a esforço. e mais ainda com os que dele dependem. – Ríspido aplica-se ao que se excede nas manifestações da severidade. 392 AUTÊNTICO. ou uma província. são austeros consigo mesmos. – O homem rigoroso tudo exagera. além de formal e autêntico. – Inexorável é “o que não cede nem a súplicas e lágrimas”. em sentido moral. “que não se dobra. mostrando-se firme e seguro no seu modo de ver ou de obrar”. ou um documento formal pode não ser autêntico. se fez com grande aparato e plena publicidade”. no entanto. – Solene é “o que. Se aplicarmos esta palavra aos princípios ou causas. e faz como aborrecível a virtude. – A severidade exerce-se de ordinário antes com os demais que conosco. – Inabalável é “o que não muda de opinião. e a severidade o é pelo caráter e os princípios. formal. 393 AUTONOMIA. contra o rigor. se administra pelas suas leis próprias. Muitos homens. ou limitadas por alguma autoridade superior. pois só se torna autêntico o ato formal depois de legalizado juridicamente. a severidade com os outros pode ser obra de virtude ou de vício.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 225 disto. – Infle- xível exprime. que parece o mesmo sempre”. subentendendo-se que essas leis ficam sempre dentro de alguma lei geral. ao mesmo tempo que o rigoroso os leva a um extremo que é mais prejudicial do que útil. soberania. sem serem severos com os outros. relação autêntica. ou mesmo um distrito ou um município goza de autonomia quando ele se governa. Dizemos: carta. positivo. A rispidez quase que depende mais do temperamento e da educação que propriamente das qualidades fundamentais da criatura. juramento solene. e como tal capaz de produzir todos os efeitos jurídicos”. Não podemos deixar de ter certa admiração pelo homem austero. A austeridade chega a converter-se em hábito. em outros sucede o contrário. solene. Não inclui necessariamente a ideia de autenticidade: um ato. e que por isso é claro. bem que os homens severos costumem ser pontuais e exatos no cumprimento de suas obrigações. e por essa razão sempre é temida. pouco conforme às vezes com a equidade. – Inabalável é mais forte que inalterável. Dizemos que um Estado. – Duro dizemos. genuíno”. – Formal é “o que se fez na devida forma. e de gênio áspero. ou melhor. e se a aplicarmos às ações. do que é mais que rígido: dureza de alma é quase crueldade. e nada lhe contenta o excessivo rigor. nem de temer o severo. A austeridade consigo mesmo não é incômoda a ninguém. um gênio austero e rígido também costuma sê-lo com todos. de propósito. declaração formal. espanta a todos. admitir-se algum coração duro que não seja propriamente cruel. O severo não manifesta condescendência alguma. independência. podendo. que não muda da resolução tomada”. indicará ela certo caráter virtuoso. indicará extremada rigidez. – Tomamos aqui estas palavras na acepção política. pois não se concebe um Estado independente sem que seja por isso mes- . – Autênti- co designa “o caráter de legitimidade que toma o ato ou a coisa que se fez com todos os requisitos que lhe são próprios. e por isso não são raros os casos em que a rispidez não exclui a magnanimidade e outras virtudes de coração. Diz La Bruyère que um filósofo austero.

– A soberania política consiste na qualidade de poder um Estado existir por si mesmo. “Pobre está já (Roma) tão decaída da antiga potestade”. Mas ávido distingue-se de um e outro. Dizemos: a sorte avara (e não – avarenta). do conjunto dos Estados. como no sentido físico. aqui. – Avarento é “o homem que tem a paixão da riqueza. como se avalia um esforço mental. agarrado. humana. “autoridade é a superioridade legal. ávido. quer natural. pois isso é comum a toda aquela categoria gramatical. Também se chama escritor qualquer autor literário. e vive ansioso por entesourar tudo o que adquire. gastando o menos que é possível. escritor. porque se refere exclusivamente ao que escreve sobre direito público”. com autoridade. Deve dizer-se mesmo que a distinção entre os dois verbos se regula pela que existe entre os respetivos radicais: apreçar é estipular preço. publicista. é exercida pela União. só se diz escritor fazendo-se referência ao estilo. 395 AUTORIDADE. fona. porque pensa e discorre bem. Os nossos clássicos davam a esta palavra a significação geral de poder. só é empregado como adjetivo. e que o inverso se dá em relação a avaro. que é a entidade representativa de todo o país. apreçar (apreçar e apreciar). aliás. A significação da palavra publicista é restrita. sem reconhecer acima de si nenhuma outra autoridade. – Segundo Lacerda. escreve para o público. quer a lei seja divina. calcular o valor venal de alguma coisa. ainda quanto a isto. a diferença que consiste em não ser inerente ao segundo a ideia de cálculo. – Força. e muito excepcionalmente como adjetivo. o contrário os lexicógrafos) que avarento pode ser empregado como substantivo (significando – “homem avaro”). – Entre apreçar e apreciar há. – “Estes três vocábulos aplicam-se aos homens de letras que publicam obras de sua composição. que os léxicos dão como sendo a mesma coisa. portanto. hoje o nome de publicista a todo aquele que. 394 AUTOR. e mau escritor porque escreve incorretamente o que pensou com profundidade. e tanto se aplica no sentido moral ou abstrato. um serviço. Entre avarento e avaro. Potestade supõe o poder que a sustenta. tacanho. não só pela ex- . somítico. não há caso algum na língua em que ele se nos apresente como substantivo. A avareza é um vício que mata a alma. 397 AVARENTO (avaro). e que nos conste. olhar. força. poder. 396 AVALIAR. sovina. – Damos. é preciso notar uma diferença essencial. salvo figuradamente. – Avaliar é “calcular o valor de uma coisa”. Os Estados do Brasil são autônomos. de algum trabalho ou produção”. Chama-se autor o que dá à luz qualquer escrito.226 Rocha Pombo mo soberano. ainda que se prive a si mesmo dos bens mais comuns da vida”. e converte a criatura humana em simples animal. apreciar é ver com apreço. o avarento é um enfermo de consciência (não – o avaro). de modo que o mesmo homem pode ser bom autor. já se vê. cobiçoso. cainho. aqui. – Ávido é também adjetivo. potestade. ou de opinião”. mesquinho. examinar com interesse e cuidado. Isto quer dizer (por mais que digam. e em relação a avarento está no mesmo caso de avaro. a soberania. – Apreçar é “dar o preço. interesseiro. porém. – Poder é a autoridade que se acompanha da força necessária para fazer-se obedecer. porque esta palavra se refere somente a este gênero de produção. é “a resultante dos elementos materiais em que funda o poderoso o seu poder”. isto é. Avalia-se uma propriedade. um sofrimento.

guarda o seu dinheiro. – Avaria. – Segundo Lacerda: averiguar é procurar. estrago ou avaria”. – Pássaro é “a ave pequena. 400 AVERIGUAR. – Tacanho aproxima-se de mesquinho: é “o estreito. e só particularmente é que significa – “ansioso de riquezas”. entre os nossos clássicos. as coisas inúteis”. em regra. As avarias são suscetíveis de reparação. reconhecer. o cobiçoso deseja muito adquirir. acrescenta. ou melhor. danos puramente materiais. diligenciar. poupando em excesso”. a andorinha. ou não. magnífico. – Mesquinho. o que. – Agarrado aproxima-se de cainho: é “o que prende quanto tem. volátil. verdadeira. o morcego não é pássaro nem ave (porque não é ovíparo). 398 AVARIA. – Estrago é o dano que prejudica parte do que se possui. o tucano são pássaros. e até pródigo”. como dissemos. – Perda é o dano total. que vive a apanhar os restos. verificar. a águia. a águia é ave. como pela significação própria. e. – Volátil aplica-se a todas as aves. o seu bocado como o cão o seu osso”. no entanto. e considerados como reparáveis por meio de gastos pecuniários. como o animal agarra a sua presa”. pássaro. – Sovina é “a pessoa mesquinha. constatar. estrago. o pardal é pássaro. – “pode o cobiçoso ser liberal. o pato são aves. 399 AVE. O pardal. a estes uma certa ideia de torpeza: o somítico é mesquinho com os outros para só gastar com aquilo que lhe dá prazer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 227 tensividade. – Dano é “o mal que provém de nos haverem diminuído o valor de alguma coisa que nos pertence. dano. o que não se dá em relação a avarento. o sabiá. – Cainho (fig. – Cobiçoso não diz propriamente o mesmo que avarento. no entanto. fazendo-se em tudo mais indigente do que é. e que procura alcançar com solicitude e esforço”.” – Lesão é termo bem mais extensivo do que dano: designa “toda sorte de prejuízos que de qualquer modo se cause a pessoas ou coisas”. Este quer “para guardar”. – Prejuízo é “desfalque resultante de perda. ga para designar estrago de mercadorias a bordo de navios. apertado no despender. nada faz que lhe não redunde em proveitos pessoais”. de voo curto”. Um temporal causa avarias nos muros da quinta. – Ave é “o nome ge- nérico que se aplica a todo animal ovíparo provido de asas”. e quase sempre o que vê em poder de outros. nem mesmo a de mesquinhez. provar que uma coisa é certa. e até procurando lograr os outros se for possível sem parecer propriamente gatuno”. Também significa. – Interesseiro é. Como diz Roq. “o que cede muito aos seus lucros. mas cobiçoso não inclui necessariamente a ideia de avareza. que diminui a quantidade. aqui. medindo tudo com muita escassez. ou pelo menos considerável do que se possui. além da acepção especial em que mais particularmente se empre- .) é “o que esconde. O condor. achar a verdade. a galinha. – Verificar é “empregar os meios convenientes para cada um a si mesmo convencer-se de que alguma coisa sucedeu como se conta. e perda de colheitas. a todo animal que voa mesmo sem ser ave. como está dizendo claramente a palavra. perda. – Somítico deve comparar-se muito de perto com tacanho e mesquinho. o avestruz. lesão. os estragos podem sê-lo. o morcego são voláteis. é “o que exagera a sua pobreza. prejuízo. dizemos dos danos causados principalmente pelas grandes chuvas e inundações. Ávido é “o que deseja ardentemente alguma coisa pela qual anseia. estragos nas árvores. que danifica a qualidade. – Fona é “a criatura miúda” que faz questão das coisas mais insignificantes. que prefere sofrer vexames a gastar o seu vintém”.

distin- ação de “receber pela vista uma impressão direta do mundo exterior”. – Azado e oportuno poderiam. avistamos muito ao fundo do campo a casa da fazenda”. voltado da direita para a esquerda. ser empregados indistintamente. de diante para trás. ou a parte oposta ao reverso. “Logo que saímos da floresta. ou mais particularmente de uma folha de papel. através de algum obstáculo”. – “O avesso” – diz Bruns. etc.” – Lobrigar é “ver indistintamente. – Bispar é vocábulo popular. oposta à da frente. discernir. – Enxergar é “avistar mal. separando ou discriminando a coisa vista de outras coisas. ou de livro. o verbo avivar. as medalhas têm anverso e reverso”. sem quebra de rigorosa lidimidade lógica. – Avistar é “alcançar com a vista alguma coisa”. perdendo-se entre as lombas da campanha. se nos apresenta como favorável. aviventar. 402 AVISTAR. porque o que se quis exprimir é que a nova desgraça tornou a antiga dor tão viva como tinha sido). – Devisar é “perceber pela vista. ver. 404 AZADO. direção. – Constatar (que muitos se dão o luxo de condenar como galicismo escusado) é “estabelecer. inverso.” – Em suma: averiguar é “reconhecer a verdade”. e oportuno dizemos do que vem a . O pano tem avesso. devisar. distinguir”. e dar disso testemunho”. ou avistar mal e mal. – Discernir é “ver claramente. – Entre estes dois vocá- guir. próprio. ou sentido que não é o próprio”. “dê-nos qualquer ideia que nos avivente ao menos a memória” – não admitiriam. à primeira vista. a face. dizemos: “à folha ou à página tal verso” (isto é – “à página oposta à página numerada”). que significa “tornar vivo”. adequado. propício. e iremos ter ainda hoje à fazenda”. “aviventemos alguma coisa a nossa marcha. os vários aspetos”. é “enxergar ou mesmo lobrigar com esforços”. lobrigar. aqui. – Avivar é “dar mais vida. mais rapidez. mal devisar alguma coisa estando-se no escuro”. verso. verificar é “ver clara. anverso. no entanto. de cima para baixo. oportuno. bispar. depois de exame. ou na própria coisa vista. As frases: “avivente um bocadinho o fogo da lareira”. mais atividade.” 401 AVESSO. “Enxergamos muito confusamente a caravana. reverso. Há. Aquela desgraça vem avivar-me a dor antiga (e não – aviventar-me. conveniente. Referindo-nos a um caderno ou a um livro sem numeração por páginas e sim só por folhas. – Inverso significa “de modo contrário ao que é natural. sem que o esperemos. sem a ideia de que a vida seja completa”. como se se houvesse eliminado algum obstáculo entre a nossa visão e a coisa descoberta”. regulada esta pelo lado em que a folha se liga a outras”. descobrir. Anverso é o lado principal. – Verso é “a parte de uma superfície. a verdade sobre alguma coisa. ou “mais vivo” em absoluto.228 Rocha Pombo e que é exata etc. – “é o lado pelo qual uma coisa não deve ser vista. – Reconhecer é “chegar ao resultado de ver que uma coisa é realmente como se dizia. 403 AVIVAR. enxergar. O reverso é a parte oposta ao lado principal. entre eles a seguinte diferença: azado dizemos do que. muito usado com a significação de “enxergar ou avistar com dificuldade e rapidamente”. – Distinguir.” – Aviventar é “dar um pouco de vida. – Ver designa a bulos há a diferença marcada pela partícula verbal incoativa entar que figura no segundo. mais intensidade etc. deixar clara a verdade”. ou posto em ordem. – Descobrir é aqui “ver ao longe. descobrir.

pois exprime apenas – “não propício. 405 AZIAGO. em que os próprios reis não duvidavam tomar parte. fatal”. como se viesse a propósito. pois El-Rei D.. ou que convém ao fim que se colima”. é lúgubre e sinistro”. na verdade. dançam os cavalheiros e senhoras nobres em suas salas. folia. faziam-se antigamente folias por ocasiões de alegria pública.. e assim como os animais retouçam de contentes e alegres. dança. No dia em que armou cavaleiro a D. em que era muito eminente. ou fosse feito para tal fim”. e designa particularmente o movimento regular do corpo e seus membros ao compasso e tom de música. dança e folia escreve Roq. (e não – o “momento azado”). fan- dango. – Propício é “o que se apresenta oportuno. E. ‘saltar. no sentido em que esta palavra se pode confundir com dança. além da de aziago. – Infausto diz menos que aziago. – Adequado exprime – “que se ajusta ao que pretendemos. mais pobre que a nossa. – Agoirento é “o que. é uma dança rápida ao som de pandeiro ou adufe. muito alegre e festivo. daquilo “que anuncia desgraças”. aqui. bailam os homens por alegria e diversão. e seu verbo danser. porém. – Baile é nome genérico e vulgar. ter o corpo em elegante postura. que não só dá regras para mover o corpo e os membros a compasso. e que se assemelha à dança das bacantes. Port. – Nefasto significa “cheio de desgraças e calamidades”. mas é certo que ao que nós chamamos bailar chamavam os latinos saltare. infausto. ora mais rápidos. quem baila dá saltos. samba. talvez semelhante ao que chamam hoje contradança. – Aziago se diz. significa – “que se adota. 406 BAILE. vantajoso ao fim que se deseja”. por isso. – Folia. que “baile. a dança é própria de gente nobre e cavalheira. a nossa. sugere “a ideia de sinistro. A folia indicava noutro tempo (que hoje é palavra antiquada) certo modo particular de bailar. tem só um termo para significar estes movimentos – é o substantivo danse. isto . com mais ou menos ligeireza. quando se trata de honrar a virtude’ (Anecd. ou do cálculo que fizemos. favorável. senão para a maneira de pisar. cantando. dançou em público com seus cortesãos. ora mais graves. ao som de flautas. agoi- rento. como acreditava o espírito supersticioso dos antigos. dar saltos’. – Sobre baile. entre várias pessoas.. bailado. e ao som de rústicos instrumentos.: “Não defendemos a etimologia do verbo bailar. jongo. e dizia a todos: ‘Eu assento que nada fica mal à Majestade. e só exprime a ação física de bai- lar. nefasto. tem três que determinam as ideias acessórias destes saltos e movimentos. bailam os próprios selvagens à sombra de frondosas árvores. e fazer as cortesias e mesuras que a boa educação prescreve. ainda hoje. Bailam os moços e moças do povo em suas festas e reuniões. – Funesto. executando concertadamente todos os movimentos. Diz Bruns. O bailar é uma espécie de instinto nas criaturas racionais. e faz movimentos de corpo mais ou menos compassados. II)”. e. Pedro I sabemos que tinha gosto particular de bailar a folia. folgança. “Chegou o momento oportuno de jogar a partida”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 229 encontro dos nossos desejos. de ballizô. – Próprio. como a palavra de origem francesa (folie ‘loucura’) o está dizendo. – Conveniente diz também – “que é favorável. designa o conjunto ou série de movimentos com que se executa uma dança. funesto. – Dança é palavra mais nobre. A língua francesa. A dança é uma arte semelhante à que entre os gregos se chamava orchestike. João Afonso Teles. ‘saltar’. “O momento parece azado para uma tentativa” (e não – oportuno) – desde que veio inesperadamente. não feliz”. e prometendo sucesso”. além de aziago.

bailados são as próprias danças. Quem vacila quer agora uma coisa. como as . vacilar. É defeito comum à infância e à extrema velhice. – Bailado. depois outra. espingardas ou canhões”. cortando as palavras e repetindo várias vezes a mesma sílaba antes de pronunciar a seguinte. os movimentos do corpo. – Folgança ou folguedo é termo popular que designa toda espécie de diversão com que se descansa do trabalho. – Bal- de qualquer forma. – Fandango é “festa de danças ruidosas. usado pelos africanos. Hesitamos em preferir um de dois ou três bons empregos que se nos oferecem (não – vacilamos). da Espanha passou para toda a América colonial. tangidos à mão. confundi-las num ruído surdo que não as deixa claramente entendidas. – Duvidar é “hesitar por não ter certeza.230 Rocha Pombo 408 BALANCEAR (balançar. 409 BALBUCIAR. fandangos etc. uma polca. o bailado. mas não há corpo de dança. embalançar). mais ou menos ruidosa. é a dança mímica espetaculosa”. tartamudear. baile é propriamente a festa. – Hesitar enuncia o estado de espírito “em que. 407 BALA. ou ter gagueira) é falar com dificuldade. É a gagueira um defeito dos órgãos vocais. mas não há mestres de baile (senão noutro sentido). Note-se que estes três verbos entram aqui no seu sentido figurado. quer dizer: na bailarina considera-se o baile. muito clara. não sentimos razões suficientemente fortes que nos levem a tomar uma resolução”. Hoje está quase inteiramente extinto no Brasil”. “F. comparando-as. ou em tomar a tarefa que se lhe propõe”. logo mais uma outra. na dançarina considera-se a dança. e os movimentos com que essas danças se executam constituem o baile. ou solene. – Projetil é “qualquer corpo. Nos teatros há bailarinas que executam os bailados. balbuciamos. buciar é “não pronunciar claramente certas articulações.. – Gaguejar (ser gago. – Samba é também bailado popular. – Balancear “é pôr ou ficar como suspenso. – Tartamudear é precipitar as palavras de modo confuso. ou um defeito natural que provém dos órgãos da voz. De uma pessoa se diz que baila bem quando se atende à maneira como faz cada um dos movimentos que entram na dança. Mas tanto este como balançar sugerem melhor a ideia de ficar em dúvida entre duas ou mais coisas. nos teatros há corpo de baile. – Balançar é outra forma de balancear. que pode ser arremessado com força”. gaguejar. Vacilamos entre coisas que nos repugnam e que nos impõem (não – hesitamos). e que consiste em danças. Pode ser isto um efeito acidental da comoção ou da emoção. a ideia de que a pessoa que hesita tem desejo de não hesitar. tar. O mesmo se deve dizer de embalançar. – Distingue-se este dos dois últimos verbos do grupo em dar. ou danças mímicas. uma valsa são danças. duvida tomar. hesi- é. – Bala é “o projetil de forma cônica ou esférica que pode ser lançado por armas de fogo. misturá-las. como medindo os motivos de escolha e decisão. duvidar. indeciso. há mestres de dança. As danças ou bailados executavam-se ao som de grandes tambores. antes da abolição. e dizemos que dança bem quando se atende ao modo como executa as diferentes danças em que toma parte. como acabamos de dizer. uma mazurca. é o mesmo que fandango. Assim. No sul do Brasil. mas aplica-se comumente esta palavra a toda festa livre e reles. – Noutro sentido. oscilante”. feitas mais de barulho que de bailados. apesar do nosso desejo e até do nosso esforço. ou um conhecimento exato do que se deve fazer”. e dançarinas que executam jotas. projetil. – Jongo é “dança ou bailado em público e ao ar livre”. Colhidos de improviso. mas indica particularmente baile popular.

sem ficarem mal na boca de ninguém. à falência. pode continuar seus pagamentos e escapar assim. 798 do Cod. – Falência. comum. e como o que não é raro tem pouco valor. Por imperfeição natural.. a falência passa a ser uma bancarrota. ou quebra. A bancarrota simples é a falência que é acompanhada de falta grave.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 231 crianças.º) ao contrário. conseguintemente. por falta de recursos presentes. sem que haja todavia fraude da parte do falido: é um delito da competência dos tribunais correcionais. ter mais dívidas que bens) e. – Comum significa propriamente “de todos”. não ficam contudo bem em todas as ocasiões. ainda que não seja fraudulenta.”. O que é trivial é baixo. seja declarado em falência se..’: logo. – Ordinário se diz do que não se destaca do comum. gaguejamos. – Trivial (do latim trivialis. comerciante ou não. quebra. o vulgo não se compõe só do que é ínfimo. 3. aplica os epítetos casual.. porém. entretanto. que é comum. é o estado dos comercintes falidos ou quebrados – isto é.. do Com. – Vulgar se diz do que é próprio do vulgo. de trivium “encruzilhada”) dizemos do termo ou expressão própria dos que andam pelas encruzilhadas ou pelas esquinas.. resulta daí que vulgar se diz dos termos e expressões que. dir-se-á ordinário do termo. e Berg. ou não merece apreço. A falência é o estado de um comerciante que cessou seus pagamentos. à declaração de falência.°) um comerciante pode estar em estado de quebra (isto é. de si mesma. sem certa nobreza. e impróprio de pessoas decentes. E demais.. familiar. pode dar-se que um comerciante cujo ativo exceda de muito ao passivo. é muito usual. ou quando menos “de muitos”. punível quando não é acompanhada de fraude. As pessoas nervosas tartamudeiam quando vivamente emocionadas”. na ordem de ideias em que consideramos a sinonímia destes vocábulos. Este vocábulo pode considerar-se só neste sentido. e significa o mesmo que falência ou falimento. Isto ainda mais se confirma pela redação do art. daí resulta que comum se diz do termo ou expressão que não é elevada. trivial. A falência não é. a bancarrota pode não ser fraudulenta. se goza de um crédito suficiente. O que é vulgar carece de uma certa nobreza que não é comum entre o vulgo. ou que nelas estão parados à espera que alguém os ocupe. (Bruns. resumem assim: “A quebra é o estado de um devedor. 411 BANCARROTA. e for obrigado a cessar pagamentos. grosseiro.. 2. isto é. – Corriqueiro se diz do que corre na boca de todos. – Familiar se diz “da linguagem ou dos termos usados em família”. . mas particularmente mais pelas baixas que pelas altas. e. – banal se diz do termo ou expressão que é usado por todas as classes sociais.) 410 BANAL. ou não sobressai acima da ordem habitual das coisas. portanto. “que é frequente”. – Quebra entende-se de comerciante. e também “que não é raro”. A bancarrota fraudulenta é corriqueiro. vulgar. Pen. dizendo – ‘a bancarrota que foi qualificada de fraudulenta. – Segundo Bruns.º) a falência é um estado exclusivamente próprio aos negociantes. Acompanhada de fraude ou de falta grave. culposa. – Sobre estes três termos de jurisprudência escreve Teixeira de Freitas: – “Bancarrota denota geralmente entre nós o estado de falência ou quebra de qualquer comerciante. – Bourg. que cessam seus pagamentos. Como. não puder solver compromissos. fraudulenta. Daí se vê que há entre falência e quebra diferenças essenciais: 1. o art. vulgar. ordinário. nem de falta grave. expressão ou linguagem que não se salienta de nenhum modo. falência. e não à bancarrota. 263 do Cod. porém. cujo passivo é superior ao ativo. aplicá-lo àqueles termos que têm algo de indecente ou de baixo.

nem mesmo – orquestra popular. doido. 413 BANDEIRA. O banido é expulso. simbolizando uma nação. de que sceleratus é particípio). – Segundo Bruns. Quando o salteador opera com outros. pois o banimento importa a perda. ou de privar da pátria ou do país onde se vive ou mesmo se está de passagem ou de pouco. 415 BANIR. Não se poderia dizer – orquestra militar. “crime”. para sempre. ou do batalhão naval. – Bandido é o malfeitor perseguido pela justiça. malfeitor. expa- nia. “pelo menos na mente de quem ordena o ato”. ou que assalta de noite as habitações isoladas. filarmônica. grandes crimes” (scelus. facínora. desfraldada à frente dos exércitos. bando- leiro. Fanfarra é o mesmo que charanga. 414 BANDIDO. dos direitos de pátria. e entre todos obedecem a um chefe. – Orquestra é o conjunto de professores que executam altas peças de música em concerto. triar. O salteador vive do roubo. degredar. – Salteador é o ladrão que ataca os viajantes nos caminhos. mas sem se lhe determinar o ponto para onde deve retirarse. esta palavra encerra a ideia de pena infamante. assim como pode ser ladrão e assassino. – Música é. – Exilar exprime simplesmente o ato de . – Banda é uma corporação de músicos pertencente a algum batalhão. fanfarra. – Filarmônica é a banda de música particular. ou que é capaz de praticar. e como tal da competência dos tribunais ou câmaras criminais”. ou feita e mantida por alguma associação. salteador. não podendo o banido voltar jamais ao território de que foi expulso. é bandoleiro. celerado. aqui. Os vocábulos bandido e malfeitor são frequentemente empregados como qualificativos das pessoas de má índole”. sendo a pena de banimento muito mais grave que a de deportação ou mesmo desterro. que deu scelero. or- questra. Segundo alguns autores. charanga. – Celerado “é o bandido monstruoso que praticou. deportar. – Estandarte é a bandeira de forma e cor fixas. ou em teatros. ou orquestra do batalhão. – Pavilhão pode-se dizer que é o nome que toma o estandarte nas tendas de campanha. – Todos estes verbos têm de comum a ideia de expulsar da terra. – Banir é o mais forte de todos. Pode-se distinguir estes dois últimos vocábulos pela particularidade que apresenta celerado de sugerir a ideia de bandido ou malfeitor impulsivo. exilar. vesânico. pavilhão. o malfeitor pode viver do roubo sem nunca assassinar. do grupo. “cheio de crimes”. – Charanga é a banda formada só com instrumentos metálicos. ou que seja próprio para representar alguma instituição. – Bandeira é qualquer pedaço de pano preso a uma haste e arvorado de modo a que se o aviste de longe. ou mesmo a algum estabelecimento público: a banda da polícia. música. proscrever. como não seria a ninguém permitido arriscar esta monstruosidade: a banda do teatro lírico. – Facínora (e facinoroso) é também o sujeito perverso. “o termo genérico aplicável a todo grupo de músicos que executam alguma composição musical”. como sinal ou como distintivo. No Alentejo dizem que os ciganos e os malteses são malfeitores. vexilo. – Insígnia é qualquer emblema que distinga. – Vexilo é termo antiquado correspondente a estandarte: era a bandeira militar. ou a bordo de navios. desterrar. 412 BANDA. insíg- – “malfeitor é. a banda do regimento. e não é raro que seja também assassino.232 Rocha Pombo a falência acompanhada de fraude: é crime. a palavra menos enérgica. estandarte.

Não se liga a este vocábulo nenhuma ideia de pena infamante. – Segundo Lacerda – barbaridade é a disposição do homem rude. – Degredar é enviar para o degredo. . ou por dureza de alma. Mais comumente proscreviam-se aqueles que procuravam escapar à ação da justiça. nós outros. e portanto figuradamente. com referência ao homem. seja só como pena infamante (degradação). sem polícia. é a manifestação de um certo prazer à vista de sucessos fortuitos ou provocados que trazem consigo derramamento de sangue. próprio de bárbaro. esqueceu a pureza da língua grega. ferocidade (fereza). Este vocábulo designa o ato de sair da pátria. solecismo. se pareciam com as dos bárbaros. – “Significam estas duas palavras” – diz Roq. 48). com a diferença que o barbarismo é uma locução viciosa. fixando a residência em que o desterrado deve cumprir a pena. ou da língua deles eram tiradas. – Proscrever é. sem outra ideia acessória além da de inculcar que a ausência será longa. – “em geral erros de linguagem. Por isso que os gregos e romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não eram eles. ou para longe do país onde se acha o deportado28. que temos uma linguagem culta e polida desde Camões. deram com muita razão o nome de barbarismo às palavras e expressões que. o solecismo é um defeito da construção da oração e que pode provir de ignorância ou de descuido. 417 BARBARISMO. e neste caso quase sempre indica atitude infensa. por esse ato. e também a ferocidade própria da fera. e não a da gravidade da culpa da vítima. – Deportar é desterrar perpetuamente para uma colônia distante. – Desterrar diz propriamente “fazer sair da terra onde se habita”. ou só explicável no selvagem. – De Soles. crueldade (crueza). chamar barbarismos galicanos ao que mui francesmente se chamou galicismos. desumanidade. (Será.) – Ferocidade.) – Desumanidade é a ausência de sentimentos humanos. o trato que denuncia a índole sanguinária. e. posto que nele predomine a ideia de prepotência por parte de quem decreta a pena. por egoísmo. (Fereza é o ato mesmo de ferocidade. vemos sofrer o nosso semelhante sem socorrê-lo. vem a palavra solecismo. é o prazer que mostram certas naturezas experimentar à vista de espetáculos que tanto têm de bárbaros como de cruéis. ou da terra em que se tem domicílio. (Crueza é a própria ação cruel. Cometem-se estes de muitos modos na língua”. corrompida. ação. o modo. não só se lhes confiscavam os bens. – Expatriar não é pena que se imponha. ou limitando-lhe a menor distância em que pode ficar do seu domicílio. ou protesto implícito contra a política existente ou contra as ideias dominantes na terra de onde se retirou o êxul. mas até se fixava um prêmio para aquele que tirasse a vida ao proscrito se encontrado na pátria.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 233 enviar para fora da pátria. que. o mais próximo de banir: era antigamente (em Roma e na Grécia) o ato de expulsar da pátria e proibir que o proscrito a ela regressasse sob pena de morte. portanto. seja como infamante e aflitiva. pois. Poderíamos. com o andar dos tempos.) – Crueldade é a inclinação à prática de atos sanguinários. falto de humanidade. é a indiferença com que. colônia ateniense na Silícia. quando ainda os franceses tinham a sua semibárbara de Ronsard. por orgulho. Muitas vezes até o exílio é voluntário. a deportação é semelhante ao banimento (?). por sua viciosa pronúncia. ou mesmo sentimento 28 Segundo Teixeira de Freitas (Vocabulário jurídico. mas ordinariamente infringindo as leis da sintaxe. 416 BARBARIDADE. de todo o grupo. própria do vulgo que tudo adultera.

mas carece de aperfeiçoamento em tudo quanto constitui o que se chama um povo civilizado”. galeota. os autores que o precederam: “Os antigos egípcios. galé. nau. de um só mastro. – Barcaça é barca maior. para os quais é termo genérico.) fazendo alusão ao esforço e trabalho com que é levado. Talvez por isso é que se diz – “batel da vida” (e nunca – escaler. A jangada é uma embarcação. etc. à imitação destes os romanos. escuna. era inferior à nau. larga e aberta como a alvarenga”. fragata. de galé) – “antigo navio . – Tartana era um xaveco menor. empregada. navio. – A caravela era menor que a fragata. sem exceção. e transporte de passageiros de terra para os vapores. – Xaveco – espécie de fragata usada outrora pelos mouros no corso do Mediterrâneo. enquanto que embarcação designa qualquer corpo flutuante que pode conter pessoas ou coisas. e vice-versa. O escaler distingue-se do outro em ser movido ou poder mover-se tanto a remos como a vela. Servem ambas para o trasbordo de cargas. como força agressiva. gôndola. – Galeão (aum. nem gozam dos benefícios da civilização. galera. manchua. xaveco. todos os vocábulos que se seguem apresentam de comum a ideia de “próprios para transporte por água (rio. embarcação. – Barca = “embarcação larga e pouco funda” (C. como o iate. barca. nas letras. – Lancha é “embarcação pequena e sem tilha (coberta) que anda tanto à vela como a remos”. – Resume Lacerda assim. usada principalmente para recreio”. é maior. bote. e. – Embarcação não se diz hoje dos navios de guerra. estreita e comprida. chata. nem convenções sociais. que não cultivam as artes. depois os gregos.234 Rocha Pombo 418 BÁRBARO. – Batel e escaler são pequenas embarcações que conduzem para bordo dos navios não atracados ao cais. batel. junco. mas não é um barco. – Gôndola – “pequena embarcação (como a galeota) movida a remos. batelão. sobre estes dois vocábulos. canoa. como o batelão e a alvarenga. de Fig. deram o nome de bárbaros a todos os estrangeiros. de vela e remos. – Galé é embarcação de baixo bordo. de vela e remos. – Navio é a embarcação destinada a navegar no mar alto. e hoje os chineses. no entanto. igara. barco. por considerarem todos. piroga.. e servia tanto para a guerra como para o tráfego marítimo. menos porém que embarcação. movido a remos. – Selvagens são os habitantes das selvas. – Catraia é bote pequeno. barcaça. – Galera = “antiga embarcação. A nação bárbara conhece e respeita em geral essas leis. galeão. sendo o batel movido só a esforço do remeiro. catraia. bergantim. nem respeita lei alguma. com dois ou três mastros”. nas artes.. rebocadas dos navios para os trapiches ou vice-versa. lancha. selvagem. sim”. mas só se diz dos barcos cobertos. iate. caravela. – Batelão (aumentativo de batel) é “barca rasa e grande. – Como os precedentes. tartana. – Barco é “termo genérico. – Chata é “barcaça larga e de pouco fundo. elegante e luxuoso. – Nau era o maior navio outrora empregado principalmente na guerra. ou mar)”. e que serve também para o serviço de carga e descarga de navios. inferiores nas ciências. usada outrora. Uma nação selvagem não conhece. na polícia.). – A fragata. brigue. pois é restrito à ideia de construção. – Bote é batel de rio. O iate. pequeno escaler. e pode até prestar-se para longas viagens. – Galeota (diminutivo de galé) é pequeno barco. serve mais para recreio. 419 BARCO. no serviço de transporte de cargas dentro da baía”. alvarenga. – Manchua – “pequeno barco usado nas costas da Ásia”.

– Segundo Roq. – Bastardo é denominação genérica. o nome que se dava aos poetas e cantores populares. que daí se presume provir aos filhos. quando dizemos que uma produção. quando não em verso (Bruns. vate.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 235 de alto bordo. uma obra. tautologia. O filho bastardo pode ser natural. . que compete a qualquer filho ilegítimo. também ordinário. e art “raça. coisa degenerada29. – Redundância é o termo genérico de que os outros do grupo especializam a significação. e é ainda correspondente aos trouvères.). isto é – que lhe não conhecemos o autor. ou pela imoralidade que acompanha o ato em que são gerados. se dedicavam à poesia épica. que vale o mesmo que – “baixamentenacido”. de matrimônio clandestino. e stard “nascido”. – Escuna – “brigue tendo vergas no mastro da proa e sem mastaréu de joanete”. – Junco – “pequena canoa ou batel. ou que não temos como tal o que vulgarmente se lhe atribui. por exemplo. ou de bas “vil. 421 BASTARDO. baixo”. e de uso nas enseadas e nos rios. – Bardo era. feita quase sempre de um só tronco de árvore escavado”. que lhe damos na Arte Crítica. v. e parece referir-se. que eles têm na educação da prole. fino e leve. em geral o que nasce de pessoas entre as quais não há impedimento algum legal que lhes vede o contraírem matrimônio. ou da união dos sexos. usado pelos chineses”. vem do alemão boest “degenerado”. poeta ambulante da língua d’oc. 422 BATOLOGIA. Desta última acepção da palavra espúrio nasceu o sentido figurado. rapsoda. redundância. – Piroga e igara – “canoas de índios”. e também movida a remos”. de Fig. – espúrio é termo desonroso. quanto à degeneração. porque não só denota bastardia. entre os celtas. temperado do agudo e grave da legítima. e aos quais se devem os primeiros romances de cavalaria. perissologia. e também o que não tem pai certo. senão que dá a entender que o pai é incógnito porque a mãe se facilitava a vários quando o concebeu. etc. (C. nau de guerra”. por ser uma alteração dela. um livro é espúrio. antigamente bastard. poetas da língua d’oïl. do francês bátard. de barreguice. – Trovador é a designação equivalente a troubadour. peça bastarda a que não tem as medidas próprias da sua espécie. – “Todos estes vocábulos” – escreve S. – Vate era o profeta que fazia os seus vaticínios em estilo elevado. mas há entre eles diferenças mui notáveis”. – de casado e solteira ou vice-versa. em algumas línguas.. de mãe religiosa. – Brigue – “bergantim maior”. ou pelo descuido. ou que não é havido de matrimônio celebrado com as solenidades da lei. de pai eclesiástico.. – bastardo. – Canoa – “pequena embarcação. que andava pelo sul da França cantando sonetos e trovas. letra bastarda a que é degenerada da romana. trovador. e nós mesmos chamamos. Luiz – “exprimem a qualidade do filho que é ilegítimo. Bastardo significa. ou espúrio: são duas espécies de bastardia. ilegíti- mo. que no norte da França. E chamamos espúrio o que nasce de pessoas entre as quais há esse impedimento. de castelo em castelo. 420 BARDO. não tanto à ilegitimidade do matrimônio. espúrio. do XI ao XV século. ou pela ordinária desigualdade da condição dos pais. natural. trombeta bastarda a que dá um som misto. Chamamos natural o que nasce de concubinato.) – Bergantim – “pequena fragata. gr. de dois mastros. etc. e quer dizer – “exces29 Segundo Roq. espécie”.

diz Ovídio. . indignado. falou deste Ovídio naquela passagem do liv. . isto é – ‘descobridora’ ou ‘denunciadora’. e tinha o costume de repetir cada coisa duas e mais vezes. O primeiro defeito (batologia) opõe-se à elegância. palavra grega battología (de báthos e logos) sobre cuja origem não estão de acordo os autores. e. e seu estilo é. voltou. é justamente o que Boileau chama com graça – ‘estéril abundância’. no qual refere como Mercúrio furtou a Apolo o gado que andava guardando. Mercúrio o transformou. o que não é absolutamente necessário naquela passagem. – O que não sabe omitir. de mostrar que se sabe dizer uma mesma coisa de muitas e diferentes maneiras. em colhendo entre mãos uma ideia. Pelo que. porque Sêneca era um dos seus autores favoritos. duvidando Mercúrio que ele cumprisse a palavra. . é . – Esta afetação. et erant sub [montibus illis. ou para fazer mais explícito o enunciado”. que repetia um pensamento com as mesmas expressões que havia empregado a primeira vez. A toda inútil repetição de palavras chama-se batologia. porque gosta de variar um mesmo pensamento. porém. . e como os que o são repetem duas. ausentou-se. O segundo (tautologia) e o terceiro (perissologia) opõem-se à concisão. Vieira também cai algumas vezes neste defeito: o que não admira. outros a atribuem a um mau poeta do mesmo nome. . rogou a este que não o descobrisse. do grego tautologia (de tautó ‘o mesmo’ + logós). encarecimento. e estavam ao pé daqueles montes’. e também exageração. e ainda outros a atribuem a um pastor que fazia o mesmo que o mau poeta. redundância nímia. II das Metamorfoses. redundante. As frases de Ovídio são bastante concisas. . – Das três outras diz Roq. e é demasiado grosseiro para que nele caiam ainda escritores medíocres. dado serem todos contra a elegância e concisão da frase. Sêneca afeta mais concisão na frase. inquit. não obstante. Sub illis Montibus. é superfluidade de palavras. . . daqui se chamaram battos a todos os que repetiam sem necessidade uma mesma palavra. é nímio e prolixo muitas vezes. . na pedra chamada in- dex. . e não havendo ninguém visto fazer o roubo senão um pastor velho chamado Batto. Dizem uns que se deve ao nome do fundador de Cirene. amplificá-la. . e perguntou-lhe se tinha visto para que parte fora o gado que pouco antes andava apascentando. E com efeito. é a repetição inútil da mesma ideia ou pensamento por termos diferentes. são entre si distintos. – Tautologia. O velho então respondeu-lhe: ‘Agora há pouco ao pé daqueles montes estavam. variando-o de muitos modos diferentes. sem embargo. mudou de forma. e variá-la de cem maneiras diferentes. . . . . – Perissologia (de perissos ‘que é demais’ + logós). o qual supõem que era gago. . erant. . entre o muito que sempre ocorre quando se escreve sobre matérias bem-estudadas. como a origem e composição de cada uma delas o dá a conhecer. – “que indicam três defeitos do estilo que.236 Rocha Pombo so de palavras para ornar o estilo. oferecendo-lhe em prêmio uma novilha. A verdade é que a palavra grega Báthos significa ‘tartamudo’ ou ‘gago’. e para tentar sua cobiça ofereceu-lhe uma vaca e um touro se lhe dissesse a verdade. e não são fáceis de evitar como o precedente. . não a larga até haver apurado quanto sua rica imaginação lhe podia sugerir para ilustrá-la. porque. verbosidade aparatosa. três ou mais vezes as sílabas iniciais das palavras até que rompem a falar. O velho prometeu-lhe que sim. . Consiste principalmente este defeito em amplificar demasiadamente um pensamento. chamado Batto. . . .

pois este. ingênuo. Ajudam os beiços a fala e a mastigação: só os lábios osculam e beijam”. tanto no homem como nos animais. hábil em coisas de guerra. só qualifica o abstrato. que lhe é próprio ou que serve para ela. beato “aproxima-se muito de hipócrita. Supõe-se sempre no beato um espírito fraco. as “duas mam a parte exterior da boca. Comparando militar com guerreiro. – Beato. ou um indivíduo ser belicoso. belicoso. e não ser guerreiro. nem escrever [sabe. à profissão do soldado. carola. inculca o bem. e incorre na censura do citado Boileau. que são as bordas em que muitas vezes brilha a cor do rubim. – que às práticas afetadas de piedade alia a mais refinada velhacaria. na sua boa-fé e simpleza. e cobrem os dentes quando se fecham. É termo concreto. mas a moral: os povos bárbaros são belicosos (isto é – dados à guerra. não lhe qualifica a entidade física. nas procissões.. e guerreiro o que é prático. – Carola é o que faz consistir toda a sua religiosidade nas superfetações do culto. militar. enquanto que marcial se diz tanto do que é abstrato como do que é concreto. podemos estabelecer que militar qualifica o que é teórico. – Hipócrita é o que finge sentimentos. Propriamente. induz a observância das práticas religiosas. e também um grande guerreiro pode acontecer que não tenha instintos belicosos. que se insinua habilmente na simpatia alheia. virtudes que não tem. A primeira é palavra vulgar. que faz dessa pessoa mais um monomaníaco do que um religioso. – Segundo Roq. de uma religião malcompreendida. tem uma acepção que só o uso autoriza. chamam-se beiços. Porte marcial. – Dizemos bélico daquilo “que concerne à guerra. – Guerreiro é o que é afeito à guerra. mais por tolice que por cálculo. são os lábios. . – Marcial (de Mars.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 237 um declamador. 425 BÉLICO. É vocábulo mais extenso que belicoso. o deus da guerra. inspira o temor de Deus. aprestos bélicos. – Belicoso é termo abstrato. A parte mais macia e delicada dos beiços. Em suma: é militar mais próximo de bélico. guerreiro. mais por simplicidade de espírito que por interesse” (Bruns. isto é – nas festas de igreja. não um escritor judicioso. lábio. – Tartufo é aquele – diz Bruns. do que convicta e segura de uma crença racional e verdadeira. e incorporou-se na língua para designar o refinado hipócrita em matéria de religião. neste grupo. que não só afeta ser virtuoso. mas de hipócrita que afeta grande devoção. incendimento marcial. No sentido que tem aqui.). e marcial mais de belicoso”. e explora os incautos. etc. – Militar (do latim miles ‘soldado’) dizemos de tudo o que é relativo à carreira das armas. 424 BEIÇO. Neste sentido.” 423 BEATO. tartufo. hipócrita. mar- membranas carnosas e sem osso que for- cial. aplica-se à pessoa que parece mais obsedada. como dissemos. e engana e arruína sem fé nem consciência. a segunda é científica e poética. – Tartufo é o nome do protagonista de uma comédia de Molière. e como tal só deve aplicar-se ao que é material. Pode um povo. material bélico. Elementos bélicos. atitude belicosa. que com tanta razão dizia: Quem não sabe calar. como reveste todos os seus atos e discursos de melíflua unção: aconselha a virtude. Quando belicoso se diz do homem. e quando abrem o sorriso deixam ver alvos dentes. Marte) significa propriamente o que é relativo a Marte. intuitos belicosos. dominados de instinto militar). ou que a ela é relativo. esta palavra designa a pessoa que é muito solícita nas suas devoções e práticas religiosas. e como tal só pode qualificar o que é moral: furor belicoso. caráter belicoso.

uma qualidade da alma do que virtude social. – Biblioteca é. – Diocese é o território dentro do qual exerce um bispo a sua autoridade e jurisdição. Vamos recorrer da vigararia para o bispado. “o conjunto de livros destinados à leitura”. uma virtude social. altruísmo. por isso mesmo que é mais do que a própria caridade exterior ou praticante. Mudou-se a biblioteca nacional para a Avenida (não – livraria). – – Segundo Bruns. o amor ao próximo é uma locução que vale muito pouco porque não fixa sentimento nenhum. amor ao próximo. como que obedecendo aos impulsos da própria natureza moral. ou o prazo durante o qual exerce o bispo a sua função. e sem ideia alguma de dever”. – O bispado de Mariana. dádiva. no entanto. – Caridade é propriamente “o amor do nosso próximo. e de superioridade de fortuna. diocese. Alves”. Ninguém diria: – “Vou à biblioteca do Sr. é o nome positivista do amor ao próximo. consideração ou piedade de quem a outorga. como sendo nosso irmão”. – Não é possível confundir estes dois vocábulos.. – Filantropia é a mesma caridade. a divisão eclesiástica que fica sob a administração de um bispo.238 Rocha Pombo 426 BENEFICÊNCIA. Acrescentei de alguns volumes a minha pequena biblioteca (e não – livraria). 429 BISPADO. F.. ou da livraria municipal”. 428 BIBLIOTECA. 427 BENEFÍCIO. devendo notar-se que. Um homem que não dá esmolas pode ter em alto grau a virtude da caridade. mercê. – Beneficência é “a virtude de fazer o bem espontaneamente. – Episcopado é a função. . e também a autoridade deste. favor. por isso mesmo. Por outro lado. – Benefício é um dom gratuito que inculca ideia de ação sagrada. graça. obséquio. talvez sem sugestão de ideia religiosa: é mais. quem o faz sobre quem o recebe. galardão que se dá em agradecimento ou recompensa de bons serviços. – Amor ao próximo (ou do próximo) é também uma virtude evangélica: é a que mais se aproxima de caridade. livraria. filantropia. nem sempre aquele que mais esmolas dá será o mais caritativo. – Livraria é multidão de livros destinados à venda. tanto com os outros homens todos como com os próprios animais. Emprega-se também para designar o conjunto dos bispos de uma província eclesiástica ou de uma nação. – Obséquio é simplesmente “ato de delicadeza com que se procura agradar ao obsequiado”. – Humanidade é apenas o conjunto de qualidades que levam a criatura a ter sentimentos simpáticos. – Favor – diz muito bem Roq. Podese dizer que é mais uma virtude interior. – é termo genérico que significa todo ato de benevolência afetuosa que distingue e prefere a pessoa favorecida. – Altruísmo está quase nas mesmas condições: é o “amor dos outros”. considerada como pessoa jurídica e na sua capacidade de possuir bens temporais. – Todos estes vocábulos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia de abnegação que leva um homem a interessar-se pelo seu semelhante. como ninguém se animaria a perpetrar: “Vim da livraria pública. caridade. humanidade. episcopado. portanto. – Mitra é o mesmo bispado ou dignidade de bispo. – Graça é um benefício ou distinção que se concede sem merecimento particular de quem o recebe e sim só por afeto. – a ideia comum aos termos deste grupo é que os atos por eles expressos se aplicam em favor de alguém. – Mercê é prêmio. posição ou valimento por parte de Bispado é a jurisdição do bispo. mitra.

Nadam os animais. “lançar”. e para mais clareza. 430 BOIAR. – A mitra vai reclamar contra a extorsão que contra ela cometeu a municipalidade. quando muito poderá ter uma parte fora da água. que alguns querem venha do inglês ball (que se pronuncia bol) e designa especialmente os corpos esféricos maciços com que se joga. Malhas finas. flutuar. – Globo é palavra trasladada do latim. etc. O episcopado americano. – Pelouro. Flutua a cortiça. redondo por todas as partes. chamavam-se pelouros a umas bolas de cera dentro das quais se metiam os papelinhos contendo os nomes das pessoas de que se fazia escolha para juiz ordinário etc. empola. e tomar alguma direção.. Dividiu-se em três a diocese do Amazonas. Escudos de pinturas diferentes. e significa um corpo sólido perfeitamente redondo: no que concorda com globo. 431 BOLA. flutua a jangada. ou os signos ou constelações celestes e a que estão adaptados círculos astronômicos que representam o curso do sol na eclítica. e laminas seguras. – A bola é redonda por todos os lados. – A imensa diocese de Mato Grosso. vem provavelmente de pela. A primeira chama-se globo terrestre. ou esfera terráquea. – Sobrenadar é mais que flutuar. palavra muito usada dos nossos antigos antes que tomássemos dos franceses a que hoje se usa. Teve ele sessenta anos de episcopado. – Boiam as urtigas marinhas. globo. não vulgar. e de bom soído. – “Todas estas palavras designam um corpo esférico. – O meu episcopado tem sido tormentoso. ajunta-se-lhe o qualificativo – terrestre. e designa toda sorte de projetil que saia das bombardas. “ser nomeado ou eleito”. ou “sobrenada se tem altura”. esfera celeste. é mais poética do que bala. – Esfera é também voz grega.. globus. do canto I dos Lusíadas: Isto dizendo. – Boiar é “não ir para o fundo da água”. ou então de pello. pelouro. O corpo que boia pode nem ser visto à tona ou à superfície da água. não ir ao fundo. bala. de cujo centro todas as linhas que se tiram até à superfície são iguais. e designa um corpo esférico. – Flutuar é “ficar em cima da água ou de qualquer outro líquido”. Mitra muito rica. Pelouros. nadar. por esforço. Mitra rendosa. e peitos reluzentes. esfera. pois o corpo que sobrenada quase que fica todo fora da água. ou esférica (oca ou sólida). e daí a locução – “sair nos pelouros”. É palavra vulgar. arcabuzes. Designa particularmente toda máquina redonda e móvel. 432 BOLHA. espingardas de aço puras. mas cada uma delas exprime uma espécie de redondeza. – São tomados aqui todos estes vocábulos como significando particularmente as pequenas elevações que se formam na pele. sobrenadar. isto é –..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 239 O bispado só pode condenar. com a terminação exagerativa ouro. mas elevada e científica. Por este nome é conhecida entre os doutos a terra que habitamos. Por ser palavra hoje pouco vulgar. ou terráqueo. Na nossa antiga forma de eleições. – Nadar é. a segunda. O episcopado brasileiro.. borbulha. ou impor penas no espiritual. com a diferença que esfera é termo de geometria. e de seu uso nos deixou Camões bom exemplo na estância LXVII. e não se podem usar indistintamente umas por outras”. bala. de geografia e de astronomia. – Bolha . em cuja superfície se figuram os diversos acidentes da superfície da terra. e tem mais lata significação que globo. – Se- gundo Roq. Vêm arnezes. manda os dilijentes Ministros amostrar as armaduras. vesícula.

– “Todas estas palavras” – diz Roq. praia e costa – “indicam coisas que têm relação imediata com as águas do mar ou dos rios..240 Rocha Pombo é a pequena saliência que encerra matéria serosa. ribanceira. e como que lhe serve de barreira”. quase que não tem largura. inverno e descoberta no verão. beira. e de uso geral nas cidades modernas. golfada. – Ribeira. gorgolhão. é de terra vegetal. e é por assim dizer a orla da margem. – Pau é o bordão considerado mais como arma que como amparo. segurando-o por baixo da extremidade superior. bastão.. – Beira é quase sinônimo perfeito de borda. – Cajado é o bordão que tem a parte superior em forma de arco. ou certa extensão de ribas”. genérico dos demais deste grupo. – Cachão é “a bolha ou borbotão que forma um líquido ao correr com força”. “bordão é o pau grosso a que alguém se arrima. ribança. riba. o cajado pelo pastor. cajado. margem. e é o símbolo de certas autoridades”. – Cacete (do francês casse-tête) é o bastão grosseiro de que usam os garotos e valentões de praça ou de estrada. – Ribanceira é “como ribança mais áspera”. e é frequentemente chamado também varapau. – Costa é a porção de terra ao longo do mar. 433 BORBOTÃO. . mas ninguém diria sem absurdo ou pelo menos impropriedade clamante: “pernoitar à borda do rio”. – Bastão é uma grossa bengala de castão. – Golfada é o “jacto que sai por um canal ou aberta”. 435 BORDÃO. –. cachão. tor- rente. – A empola ocupa maior superfície que a bolha e pode estar ou não cheia de aquosidade. – Ribança é “continuidade. jorro. – Ribeira é a margem mais ou menos em declive. – Sendo borda a extremidade prolongada de qualquer superfície. – Vesícula é termo científico. e por isso aprazível à vista. referindo-se a borda. o varapau pelo desordeiro. de junco. da ribeira. costa. bengala. Estes dois termos dizem-se mais ordinariamente dos rios que do mar. – Borbotão (ordinariamente usado no plural) é “o fluxo desordenado ou jacto impetuoso que faz a água ou qualquer líquido ao sair de um lugar para outro”. – Borbulha é uma saliência ainda menor que a bolha. mas cada uma delas a seu modo. de ordinário coberta de água no cacete. O bordão é usado pelo viandante. – Riba designa “margem de rio onde a terra é levantada”. O cáustico forma bolhas. – Segundo Bruns. – Jacto é “uma porção de líquido ou fluido arremessada com ímpeto”. devido aos nateiros. – Praia é toda a extensão de terra plana que as águas do mar cobrem e banham com suas enchentes. quando é do mar. varapau. praia. Uma pancada pode produzir empola. supõe-se ser de areia. margem. distinguindo-se deste apenas em sugerir a ideia de maior porção da margem que a beira pode compreender. da praia. mais ou menos elevada. – Gorgolhão (ou gorgolão) é “golfada. coberta de verdura. contendo ou não serosidade. – Torrente é “uma quantidade de água que se despenha em cachões e impetuosamente”. jacto cheio. Dizemos – “pernoitar à beira do rio ou do mar”. ou costa. – Margem é toda a extensão de terra chã. – Jorro é “uma porção de borbotões impelidos com força”. e tanto se aplica relativamente a rios como relativamente ao mar. ribeira. – Bengala é o bastão de cana. pau. 434 BORDA. o pau pelo camponês. ribeira. ao longo dos rios. jacto. de qualquer madeira. e quase sempre de areia. mui fresca e produtiva. e quando é de rios. ou borbotão que sai com ímpeto e ruído”.

. procela. – Tormenta muito se aproxima de tempestade. de ter giba) é o defeito. Parece provir da semelhança que apresenta com a restinga no meio do mar. saraiva e trovoada.)”. entre os gregos. formada quase sempre de grandes árvores. Os vendavais da vida. giba. Por extensão designa o defeito físico das costas ou do peito daquele que é algo corcunda. opulenta. menos violento e talvez mais imprevisto. se consagravam a divindades bucólicas”. é apenas menos extensa que a floresta”. chamada bossa. multidão de árvores. sertão. cientificamente. e borrasca à impetuosidade e fúria dos ventos”. 437 BOSQUE. – Bosque é o “nome que se dá a uma porção de árvores reunidas”. procela horrenda do cruel Mavorte (Diniz. ou da má fortuna. As montanhas são as gibosidades da terra. como as três últimas. mas sem a ideia de ser basto ou espesso. – Refrega é “rajada de vento que não chega a ser tormenta. refre- 241 ga. também se emprega para designar a chuva de neve que cai nas altas montanhas quando é impelida por um forte e frio vento do norte. Usa-se muito igualmente no sentido figurado.. – Bossa aqui. como bosque. – “pertence melhor à linguagem marítima que à terrestre. porque é súbita. tempestade refere-se mais à agitação do mar. 438 BOSSA. distinguindo-se desta em sugerir a ideia de ser o fenômeno mais rápido. marreca. – Giba (em latim gibba) é o nome científico de qualquer protuberância que existe no que devera ser plano. emaranhado”. – Corcunda e marreca designam tanto o defeito como a própria pessoa que o tem: a corcunda é uma corcova considerável. – Corcova é a giba considerada como aleijão. e muito usada em significação translata. mata. só de pessoas. – Tempestade é o mau tempo em que há violenta agitação do ar. corcova. tormenta. e onde se abriga a criação miúda”. temporal. – Arvoredo é também. arvoredo. – Luco é termo poético significando “o bosque cheio de flores. . corcunda. – Procela. Aquiles. e que se encontra agora mais distante da casa. acompanhada o mais das vezes de chuva. É palavra indígena que incorporamos à língua (formada de taba “habitação” + oera “que foi”). mesmo que seja muito forte”. não obstante. é “a tormenta furiosa do mar. aguaceiro.. como os que. selva. – “O vocábulo borrasca” – diz Bruns. – Restinga é o capão que fica no meio do campo ou junto a algum rio. ideia que é igualmente expressa por marreca. em estilo poético. a giba pouco aparente é mesmo. é a protuberância natural que têm no dorso certos animais. É termo nosso que os primeiros povoadores da terra fizeram da palavra desertão (grande deserto). – Gibosidade (além de designar a qualidade de giboso. – Capoeira é “mata que já foi capão. Pind. gibosidade. corcunda e marreca. Só quem foi colhido por uma borrasca nos Pireneus é que se pode fazer uma ideia da fúria dos elementos na terra. Bossa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 436 BORRASCA. capoeira. – Capão. ou da sorte. vendaval. – Tapera é o capão ou bosque pouco espesso onde ainda se encontram vestígios de habitação antiga. – Vendaval é “o temporal mais forte e tempestuoso”. cuidado com esmero. tempestade. floresta. – Sertão é “a grande floresta desolada e sem habitantes”. – Selva é “o bosque espesso. – Aguaceiro é “uma carga de água súbita e violenta”. capão. luco. restinga. o vulto que faz a giba. tapera. – Mata é “a selva rude. – Temporal é “borrasca que se prolonga por dias”. diz Bruns. suprimindo-lhe a sílaba inicial. giba e corcova dizem-se de pessoas e de animais. significando “bosque nas vizinhanças quase sempre de habitação”. Na linguagem dos marítimos. é também brasileirismo. segundo Lacerda.

A qualidade de conciso consiste em enunciar o pensamento em poucas palavras. pois o vocábulo farmácia (do grego phár makon “remédio. (Bruns. – Rebento. 440 BOTICA. O que é conciso exprime brevemente o pensamento. cobre o pé e a perna até um pouco acima do joelho ordinariamente. tendo o cano mais ou menos alto. o que é lacônico emprega só as palavras absolutamente indispensáveis. broto. ao que é característico próprio do assunto. O que não é conciso é prolixo. O que não tem tanto comprimento como devia ter ou se supunha que tivesse. mas muito usual entre a nossa gente do campo. e que. quase sempre guarnecido de elásticos. e em excluir quanto seja alheio ao assunto. e que só cobre o pé. calçado. Falando-se do tempo. O que é conciso pode ser perfeito (e é enérgico e simples). qualifica aquele escrito ou fala em que o escritor ou orador se atém exclusivamente ao essencial. e não breve. gomo. tomando consistência. que do estilo. ou renovo. só se diz com propriedade das novas hastes que saem da raiz da planta. porém. desprezando tudo quanto seja circunstância acessória ou pormenores.) – Broto é o mesmo rebento ao apontar. – Bo- botim de senhora ou de criança. como dissemos. – Bota é o calçado de cano alto. sem ampliações nem ornatos. entre os dois alguma diferença. . para que não se torne difícil o ato de calçar. farmácia. – Breve é o que se faz em pouco tempo: discurso breve (breve demora no campo. curto. – Calçado é o nome genérico de todos os deste grupo. A loja onde se vendem remédios e drogas chama-se botica (do grego apotheke “lugar oculto ou reservado”). no entanto. to. – Lacônico também dizemos do que é enunciado no menor número possível de palavras.). 442 BREVE. bota. ou então aberto na frente. dizemos indiferentemente breve ou curto: é breve a vida do homem. Botina (ou botinha) é o 30 De botica temos o diminutivo botequim. tanto da raiz como dos galhos da planta.. na cidade. – Preciso é antônimo de difuso. o uso baniu esta última: nos grandes centros urbanos ninguém mais diz botica. na sua curta vida sofre o homem bastante. com a significação que todos conhecem: loja reservada onde se vendem bebidas. sucin- tim e botina (ou botinha) são diminutivos de bota. – Segundo Bruns.) designa propriamente “a arte de preparar medicamentos”. pois a quantidade que este adjetivo enuncia não exclui a riqueza nem o adorno. sapato.242 Rocha Pombo 439 BOTÃO. havendo. – Sapato é o calçado de couro grosso quase sempre. Todos os estilos podem ser precisos..30 e sim farmácia. o que é lacônico pode correr o risco de ser afetado. gema. lacônico e sucinto só se dizem do que é relativo ao estilo. – Sucinto. – Só o uso autoriza-nos designar pelo vocábulo farmácia a loja ou estabelecimento onde se vendem drogas e remédios. não breve: uma obra que nos empolga sempre nos parece curta. reno- vo. botina. 441 BOTIM. este. rebento. na estação. – Conciso. – Gomo é corrução deste último vocábulo. lacônico. Botim é a bota de cano baixo. veneno” etc. – Mas. O primeiro sinal de vida que dá o olho constitui o botão. preciso. portanto. consistindo a precisão no emprego dos termos mais adequados. conciso. é curto. que melhor se diz do discurso ou da obra. rebento. designa também a gema quando está prestes a dar a folha ou a flor”. forma a gema. – “Olho é a parte que na ramagem das árvores e arbustos indica o lugar onde se hão de formar os botões e as gemas na época do desabrolhar dos vegetais. olho.

– Rutilar é “luzir com luz viva e fugaz”. “um anel de diamante”. rutilar. – Luzir é simplesmente “emitir luz”. refletir esplendor. espargir luz. – Fuzilar é “despedir lumes. como ninguém se lembraria de perpetrar: “um adereço de diamante”. como despedindo jactos de luz”. mimo. esplender. refletir fulgurações. faiscar à maneira de raios”. e sem diferença alguma sensível entre nenhum deles. . – Resplandecer é “reluzir. – Transluzir é “emitir luz através de alguma coisa”. – Este último vocábulo. – Brilhar é “emitir de si próprio. fino. refulgurar. É. o mais expressivo. – Faiscar é propriamente “despedir faíscas”. vacilante. – Fulgurar é “brilhar de luz muito forte e instantânea”. oferta. luzir. – Flamear (ou flamejar) é “emitir brilho como de chama. relampadejar). e nunca “brilhante lapidado”. – Cintilar é “brilhar com rápidas intermitências. designa o objeto esquisito. – Diamante é. Dizemos. relampaguear. Ninguém dirá: “mina de brilhantes”. que neste figura. tremeluzir. ou que está em combustão ou em estado candente. pois. 31 Como fulgurar. reluzir. como relâmpago. esplende majestoso na amplidão do céu. ou “brilhante em bruto”. tem fulgir na sua estrutura a raiz grega fleg (phleg) que sugere ideia de “queimar”. “diamante lapidado”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 443 BRILHANTE. mimo. “diamante em bruto”. mas sem intensidade que chegue a deslumbrar”. (Aqui não seria. não seria possível confundir as duas palavras nem empregá-las indiferentemente. – fragmentos em ignição que saem de um corpo ferido por outro. “Aquela doce e gloriosa luz vem resplandecendo dalém dos montes”. portanto. isto é. de todo o grupo. luzir. Estes dois verbos parecem envolver a ideia de que a luz que fulgura ou refulgura mais deslumbra e cega do que ilumina propriamente. com luz mais viva”. coriscar (coruscar). – Conquanto de- 243 signem a mesma pedra preciosa. a partícula incoativa ecer. presente. “o mineral no estado nativo. intensa. encantador. – Resplendecer é o mesmo verbo mais fiel à forma latina (resplendescere). no entanto. 445 BRINDE. resplender. – Coriscar é “luzir como corisco. refulgir.) – Resplender é “luzir amplamente. como trepidando. brilhar solenemente. cintilar. irradiar. luz muito viva e radiosa”. fulgurar. diamante. resplandecer (resplendecer). – Irradiar é “lançar. ou “extrair brilhantes”. – Relampejar e os três verbos que se seguem (relampejar. dar claridade como corpo inflamado”. donativo. esplender com majestade. 444 BRILHAR. ou pequeno raio ou faísca elétrica”. – Reluzir diz melhor – “refletir luz”. luz muito forte. – Todos estes verbos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia fundamental de emissão de luz. chispar. relampaguear e relampadejar) enunciam a ideia de luzir instantaneamente. fulgir. ou refletir. – Fulgir31 é “luzir vivamente”. ou raios luminosos”. – Refulgurar é fulgurar outra vez. rebrilhar. – Brilhante é o nome que toma o diamante depois de lapidado. – Tremeluzir é “dar luz indecisa. vaga”. Resplandece o sol quando vem nascendo. não lapidado”. dom. – Esplender dizem muitos autores que é o mesmo que resplandecer. – Relumbrar é luzir como chama ou como lume. clara como a do sol”. como chispar é “desprender chispas”. relumbrar. e refulgir é “emitir ou refletir luz quase com a mesma intensidade da que brilha”. cintilar vagamente. flamear (flamejar). o verbo esplendendo. fuzilar. – Rebrilhar é “brilhar de novo. translu- zir. marca uma diferença bem sensível entre os dois verbos. sem ideia de gradação de intensidade. pelo menos tão próprio. A forma coruscar é mais fiel ao latim coruscare. relampear (relampejar. faiscar. E. dádiva.

que não guarda a devida compostura”. esquisito ao ponto de cair no ridículo”. densa e baixa”. chistoso. o burlesco.: “Pretendem alguns que em buscar há mais diligência ou empenho que em procurar: não nos parece que tenha fundamento essa distinção. ou bulcão ou caligem. Procura-se (mas não se busca) uma palavra no dicionário. pairando ordinariamente na encosta ou no cume dos montes”. – “é um obséquio. o mesmo que gênero burlesco. – Caricato é o que tem a aparência de caricatura. Buscar inclui sempre a ideia de movimento por parte de quem busca. ao nosso carregado ou exagerado. que é demasiado até o ridículo. cerração. bufão. extravagante. – Cômico é “o que é próprio da comédia. esquisito. – “O brinde” – diz Bruns. feito para causar alegria e riso. – Bulcão é “nuvem muito densa e negra. impedindo que se veja claro a pouca distância”. – Faceto quer dizer – “engraçado. uma prova de boa vontade. truanesco. hilaridade”. O que nos parece . – Nuvem é “acumulação de vapores. nimbo. – Burlesco diz propriamente “por diz muito judiciosamente Bruns. – Ridículo é termo genérico aplicável a “tudo que provoca o riso ou que merece escárnio”. – Negror e negrume só por figura é que se tomam por “bruma muito espessa. faceto. principalmente nas manhãs de inverno”. – Bruma é “cerração espessa. – Truanesco é “o que faz coisas ou diz tolices de truão. – Caligem é “nevoeiro muito denso e escuro. 447 BURLESCO. em suspensão na atmosfera”. negror. e só pode consistir em algo de delicado”. nuvem. nevoeiro. – Neblina é “nevoeiro menos denso e muito chegado à terra”. – Bufão é o mesmo que bufo. como substantivo. – Destes dois verbos caricato. bulcão. como de burla. ampla. ou de homens e coisas. neblina. por brincadeira. nevoeiro principalmente no mar. que é quase sempre seguida de tempestade”. Busca-se ou procura-se por toda parte aquilo de que se necessita. faceta. muito fechado. procurar não inclui nem exclui essa ideia. 446 BRUMA. cerração profunda”. procurar. portanto. ridículo. o que desperta riso. – Cerração é “forte nevoeiro que cobre os campos ou o mar. e este vocábulo não inculca que o objeto que constitui o presente reúna qualidades determinadas. – A oferta considera-se como feita de inferior a superior”. grotesca de fatos. – Nimbo é “a nuvem grossa.244 Rocha Pombo que por gentileza se oferece a alguém. 448 BUSCAR. que escurece o ar e ameaça de tormenta”. negrume. mas emprega-se. Caricato equivaleria. Ópera-bufa. – Grotesco sugere ideia de “caprichoso. – Nevoeiro é “grande névoa.. Gênero bufo. – Bufo (transplantação do italiano) indica também o que é burlesco. dito para que outros riam”. caligem. Para exprimir caricatura tem o francês a palavra charge (= representação exagerada. – O presente é uma prova de amizade. grotesco. névoa. mais ou menos densos. burla. excêntrico. seria o mesmo que ópera-cômica. com mais propriedade do que este. Quando a dádiva tem um fim benéfico. chiste e graça que se não confundem com a zombaria. – Dom é uma prova de munificência.. cômico. e esta palavra (que tomamos do italiano) designa a representação caprichosa. escura e que quase sempre se desfaz em chuva”. por exemplo. – Dádiva é uma prova de generosidade. ou o motejo. – Extravagante é “o que saiu do normal. bufo. recebe o nome de donativo. literal ou gráfica. por gracejo. que é bobo de praça”. de alguma coisa). – Névoa é “vapor aquoso que pela sua densidade não sobe muito nem se desfaz em chuva. mas de esquisitice.

ideia que se não encerra em cadafalso. ou sem elevação que se destaque muito do continente”. Lesurques morreu no cadafalso. 449 CABELEIRA.. sem notáveis acidentes. gue- “um diminutivo de cabo. 450 CABO. Ambos designam o instrumento de suplício nos países onde subsiste a pena de morte. cabedelo. ou um cabo de pequenas proporções. rápido. composta e ordenada. mas o patíbulo sugere ideia do castigo merecido pelo paciente. ou descida de águas por entre rochedos. caindo sobre a testa ou para os lados. forma cachões. promontório. – Cabedelo é – Entre cadafalso e patíbulo. uma madeixa de cabelo da cabeça ou da barba”. usado principalmente em França e durante a Revolução. – Cachoeira. a ideia de que o fluxo das águas é menos vivo que na cachoeira. no entanto. uma porção de cabelo enovelado ou em trança”. marrafa. principalmente quando é em profusão. – Promontório é o cabo que termina em rocha escarpada ou em monte. catadu- delha. segundo Bruns. – Guedelha é “uma pequena porção. – Grenha designa cabelo embaraçado. para decapitar de modo instantâneo os condenados”. patíbulo. – Salto. – Catadupa e catarata dizem-se da queda de um grande volume de águas e de grande altura. como diz o latim promontorium (mons in mare prominens). forca. é preciso admitir uma certa diferença. – Pontal é “uma ponta de terra para o mar”. 451 CACHOEIRA. – pa. melena. Um inquilino procura casa para onde mudar-se. quando o volume delas não é muito considerável. – Melena significa certa porção de cabelo. . Também se diz de cada uma das duas porções em que se divide a cabeleira ao penteá-la. guilhotina. longa. cascata. – Rápido é “a parte de um rio onde a água muda um tanto de nível sem formar queda”. catarata. que se julga serem sinônimos perfeitos. salto. designa catadupa. não penteado. cabelo. A cachoeira pode ser formada por um salto vertical (e então chama-se mesmo salto) ou por um plano muito inclinado”. revolto. e vale por um pequeno cabo. – Cabeleira.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 245 acertado estabelecer é que quem procura sabe que existe o que anda procurando. e igualmente se diz dos cabelos postiços compostos de modo que cubram os naturais ou a calva”. grenha. aqui. mudando bruscamente de nível. – Madeixa é “um negalho. – Cabelo é do grupo o termo genérico. – Forca é. desnudada e cheia de montículos de areia”. “diz-se de todo o cabelo. ao patíbulo sobem os monstros. – Marrafa é uma porção de cabelo riçado. coma. madeixa. e aplica-se particularmente a uma praia que avança para o mar. por mais que o uso geral não dê por semelhante distinção. pontal. Cabo é “a grande porção de terra que se mete pelo mar. – Cascata é a queda. enquanto que aquele que busca ignora se há o que anda buscando. em desordem. imponente”. 452 CADAFALSO. – Guilhotina é “o aparelho moderno. se bem que encerre a ideia de menor volume de águas. ou sobre os ombros. de todos. e designa “o conjunto dos pelos que vestem a cabeça do homem”. um necessitado busca ou procura um emprego”. – Corredeira é brasileirismo equivalente a cachoeira. e tanto se diz do homem como de certos animais. segundo Lacerda. sugerindo. que uma pessoa tem na cabeça. – Coma é “cabeleira farta. caindo pelas faces. corredeira. é “o ponto onde um rio. o instrumento mais ignominioso: é “o aparelho onde se estrangulam os condenados à pena última”.

Deve notar-se entre os dois vocábulos a seguinte diferença: senectude refere-se mais particularmente ao físico. por assim dizer. de ar severo. senectude. – Tratando dos seis primeiros vocábulos deste grupo. mudo. Entre caducidade e caduquice há muita distinção: caducidade é “a idade ou a qualidade de caduco”. ancião”). mas o que é calado nem por isso se entende que esteja ou seja mudo: basta que fale pouco e com muita prudência. ou por algum motivo. ensina-se a ler. que não está mais na lucidez da sua razão e que caiu em quase idiotia. inválido (invalidez). – Invalidez é a qualidade ou condição de inválido. senilidade. aqui. palavra etc. é obra. silencioso. reservado. sombrio. e senilidade.: – “A palavra contar é a mais genérica de todas estas. se mostra esquivo. pois à ideia de falar pouco reúne a de muito cuidado em não dizer o que é inconveniente. ou não revela o que sabe ou o que sente”. quase sinistro. avaliar. diz o mesmo que “sereno. aplicável tanto a pessoas como a coisas: o que é ou está silencioso exclui a ideia de rumor. pois. – Velho é o homem avançado em idade e sem mais o vigor de moço. – Inválido é o que. calado. 454 CALADO. – Sombrio é quase o mesmo que taciturno: apenas sugere melhor a ideia de tristeza que em taciturno como que desaparece ou se disfarça sob o ar de esquivança ou mesmo de repugnância que este encerra. – Taciturno é aquele que. reserva e cautela. computar. mas este ensino. por isso é que este vocábulo sugere ideia de estar em silêncio. de sorte que um sujeito que esteja calado ou mesmo que seja mudo pode não estar silencioso. no entanto. que está de todo gasto. velho (velhice). carregado. – Caduco. uma diferença que se não deve esquecer. ou por defeito orgânico (e então é mudo). ou fazer operações . – Reservado é um tanto mais expressivo que o termo calado. o que está calado também cômputo. se tornou incapaz das funções que lhe eram próprias. Há entre calado e mudo. também designa a qualidade do que chegou à extrema velhice. taciturno. consiste em fazer numerações e algumas operações aritméticas para conhecer uma quantidade: é. e senilidade à diminuição da energia moral e física ao mesmo tempo. – Quieto. ou por moléstia. ao alquebramento das forças. escrever e contar. de guardar em segredo o que não deve ser divulgado. O que está mudo não pronuncia palavra alguma. – Silencioso é termo genérico e muito extenso. suputar. evitando o convívio e tudo vendo com maus olhos. Decrepitude (ou decrepidez) é a qualidade de decrépito. – Decrépito designa “o que não tem mais forças para viver. o romance da sábia língua do cálculo. quieto.246 Rocha Pombo 453 CADUCO (caducidade e caduquice). calmo. – Senectude é a idade avançada. conta. nas escolas de primeiras letras. gesto. designa o que tem perdido as forças do espírito. ou pela idade. – Calcular é executar operações aritméticas. e que chega ao seu fim”. nem se move demais. diz Roq. que contém o mesmo radical latino que o primeiro (senex “velho.. mais de rotina que de ciência. esmar. – Calado é “o que está sem falar. caduquice é “manifestação de caducidade. desfeito. além de calado. contar. não articula palavra alguma por um motivo qualquer. de ser discreto. – Quieto é propriamente o que não se agita. orçar. – Velhice é o estado de exaustão a que chega o velho. estimar. guarda silêncio. 455 CALCULAR. cálculo. de caduco”. e mesmo que silencioso. prudente”. sombrio. de- crépito (decrepitude). ou por deformação orgânica. desordenado. discreto. aplicado às pessoas.

– Computar é reunir. estradas de ferro. O astrônomo calcula a volta dos cometas. isto é. e como que ressentindo-se disso no significado. quando queremos saber o número de certas coisas. combinar. multiplicações e diminuições. – O cômputo compreende-se no cálculo e na conta. em lugar de combinar. e o astrônomo computa sobre tábuas de sua ciência para fixar o tempo e o instante mesmo da repetição de um fenômeno. O computar é próprio dos doutos. dois e três fazem cinco. isto é. – Dizemos – cálculos astronômicos. etc. como – via marítima. Há estradas de rodagem. partindo de termos conhecidos para chegar a um desconhecido. etc. sem base segura: é pouco menos vago apenas do que esmar (não sendo este mais que uma contração daquele. “computar com dados cuja exatidão se julga a mais perfeita possível. É assim que tanto dizemos – via terrestre. começando por um. e rigorosamente falando não computa enquanto não pode dizer – um e dois fazem três. Contamos quando numeramos. etc. – Orçar é “calcular aproximadamente. já se diz também – caminho de ferro. Um menino conta primeiramente pelos dedos – um. mas não rigorosa. de administração. raia. construído com mais ou menos arte. – Via só dá ideia do meio de comunicação entre um e outro ponto. pois.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 247 particulares da ciência dos números. infinitesimal. quase sem refletir”). Por influência do francês. pois é uma operação determinada e limitada a cálculo. em suputar uma ideia de cômputo falível”. a uma demonstração. Para estabelecer o orçamento de um ano econômico suputam-se (hoje só se usa – orçam-se) as receitas e os gastos prováveis. estrada. – Estrada é “caminho largo. dois. algébricos. dois. trilha. raciocinar.. ou fazer um cálculo. 456 CAMINHO. e este deve ter suas contas claras e em dia. – Avaliar é “estabelecer o valor de uma coisa.. para conhecer o total ou o resultado que se procura. e com muito mais razão está longe de poder calcular por divisões. cálculo diferencial. – Estimar é determinar o valor de uma coisa. – Trilha (ou trilho) é caminho estreito. fazer o cálculo de um gasto. adicionar os números dados. – Calcular usase no sentido figurado. em vez da qual usa de contar. segundo Bruns. – O cálculo é uma verdadeira ciência formada de muitos métodos mui sábios. – Todas estas palavras têm de comum a propriedade de designar “espaço aberto conduzindo de um lugar a outro”. – Suputar (que é desusado) é. sem os fundamentos com que se orça”. vici- na. de comércio. pois esmar é “estimar a olho.. como se pode ver nos dicionários”. nem mesmo caminho). – Esmar é “orçar ligeiramente. Há. ou fluvial (e não – estrada. O comerciante tem seu livro de contas em que assenta tudo quanto se refere a seu débito e a seu crédito. a uma prova. sem calcular. etc. azinhaga. Todo homem deve saber contar. carreiro. e de modo que se preste ao tráfego de veículos”. O amo toma contas a seu feitor. Assim é que o cronologista computa os tempos. de uma receita provável por ser baseada em dados que não devem variar muito”. atalho.. relativo a assuntos de interesse material. vereda. senda. – O contar olha-se como negócio que poderemos chamar econômico. picada. o infinito. calcular a esmo. aberto por entre obstácu- . integral. o geômetra. A palavra computar não é conhecida do vulgo. e até certo ponto tem necessidade de saber calcular. via. etc. etc. – Contar entra em mui variadas locuções. – Caminho não sugere mais que a ideia de “espaço ou trilho livre entre dois pontos”. e apenas se aplica no sentido próprio. etc. para chegar a um conhecimento. de uma despesa. três. com mais fundamento do que quando se estima”.

devidos à faina muito agitada e aflitiva”. – Lassidão é a “completa exaustão. Aplica-se particularmente este vocábulo ao discurso ou argumento com que se enreda alguém de modo tal que toda escapatória se lhe torna impossível. Designa particularmente o poema lírico sobre tema popular.. (não – os cansaços). – Atalho é “caminho estreito. – Arguto diz-se do que é subtil e engenhoso. – Vereda é “trilha tão maldistinta que apenas parece marcar o rumo seguido”. não obstante. subtil. a indisposição. 457 CANSAÇO. – Carreiro é “caminho estreito.. para os lugares vizinhos”. sofístico. – Sofístico só se diz dos argumentos. etc. canto. no que é arguto há muitas vezes algo de capcioso. – Picada é “trilha mal aberta em floresta. – Azinhaga é também “caminho estreito”. pois este designa melhor o sulco. uma promessa insidiosa conduz a imprudências. argucioso. – Cansaço é “a depressão de ânimo e de forças físicas que se seguem a esforço longo ou violento”. No capcioso há engano. – O cântico lo. traiçoeiro. – Argucioso é “o que usa de . destinados a apanhar a alguém como se apanha um animal a que se armam laços disfarçados. e mais frequentemente se toma à boa que à má parte. – Fadiga é o “cansaço que resulta de longos trabalhos. sub-reptício.) enuncia a ideia de meios hábeis... 459 CAPCIOSO. e só daqueles com que se pretende enganar o entendimento sem nenhum outro fim imediato. (não – de canseira). O que é capcioso dirige-se ao entendimento. – capcioso (do latim captare “tratar de apanhar. se se atende à respetiva origem (do latim semita de semis + iter) deve significar “meio caminho”. – Senda. – Insidioso (do latim insidiœ “ciladas”) revela ideia de laço preparado para nele fazer cair alguém. Diz-se das palavras. panegírico”. Nesta acepção. lassidão. cortando-se apenas as árvores. – Raia é. ou caminho muito estreito por onde mal pode passar-se.. fazer esforços para apoderar-se de”. o esgotamento. à vontade. falacioso. hino.. – Canto é “toda composição poética que pode ser cantada”. – Canseira é “o abatimento geral que impede de agir. o sofístico descobre-se facilmente. astucioso. – Vicina é termo pouco usado. a passagem rápida para transpor um embaraço.248 Rocha Pombo 458 CÂNTICO. ou insidioso não é fácil de descobrir. solene. e mesmo heroico”. é um “hino religioso. a locução – caminho vicinal – para indicar os “pequenos caminhos. em vez dele. trilha. – Segundo Bruns. falaz.... velhaco. São só para nós as canseiras da vida. aqui.. Não se compreende como é tão usada esta palavra na frase – a senda. que levam de um caminho geral ou de uma estrada. ardiloso. ob-reptício. trilha é vocábulo mais próprio e mais usado do que trilho. o desgosto em que se fica. o que é insidioso. – Canção é termo muito mais próprio do que canto para significar “a poesia que é própria para ser cantada”. empregando-se. arguto. e até – “a larga” senda do progresso. – O hino é “um cântico que pode ser patriótico. insidioso. astuto. O que é capcioso. Talvez só se explique isso pela beleza fônica do vocábulo. dos modos.. Empregam-se meios capciosos para levar alguma pessoa a confessar aquilo mesmo que nega obstinadamente. etc. canção. numa certa direção”. desânimo e prostração em que põem a fadiga e o cansaço”. azinhaga por onde se evitam as longas curvas do caminho geral”. mas sugere a ideia de “complicado e escuso”. canseira. no insidioso há má intenção. “uma curta trilha destinada a jogos de corrida”. aberto pelo tráfego de carros”. Um argumento capcioso leva ao erro. religioso. caviloso. do tom. fadiga. Ficou a morrer de cansaço quando deixou a forja.

vulto. finura. mas entre nós só significa a parte anterior da cabeça do homem. mas mudo e [quedo. Não é admitida em estilo elevado. – Caviloso é “aquilo em que há sofisma ou má-fé. E no c. Aplica-se. 56: Estando c’um penedo fronte a fronte. rosto. – Cara é da palavra grega kára. é o que se insinua habilmente no ânimo de outrem. – São bem distin- “a entrega da praça feita e regulada por uma convenção prévia. cume ou cimo. – Subtil é “o que induz a erro sem que a vítima se aperceba. nos Lusíadas. – Falaz é também “enganador. – Falacioso é “o que usa de falácia. preside e manda. V. Mas. com leda fronte. não. lhe preside e manda! E Camões. ou karé. sagacidade consegue o que deseja”. – Traiçoeiro é “o que age com perfídia. rendição. só à linguagem. fraude ou mentira para enganar”. – Astucioso é “o que. Dizemos – gestos falazes ou falaciosos. de surpresa ou dolo”. Também só se deve referir ao discurso. A rendição supõe que a entrega é feita “sem ajuste prévio nem condições. além de astuto. fronte. – Conquanto prove- nham do mesmo original latino (capitulum. e significava cabeça. qual soberana. – Sub-reptício = “que se conseguiu iludindo. 462 CARA. armando traição”. mentindo. – Ardiloso é “o que emprega meios enganosos e traiçoeiros. enganando. 51: Que não no largo mar. que eu palpo. e às vezes incivil e grosseira.” 461 CAPÍTULO. a capitulação é . etc. gestos. face. que inventa e dissimula para fazer cair em erro”. – “Por estas palavras” – diz Roq. – Astuto só se pode referir às pessoas. capítulo é “a assembleia em que o cabido toma as deliberações para que tem autoridade”. portanto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 249 argúcias. como a serpe na relva”. em lugar dela usam os poetas a palavra frente. que mente. – Ob-reptício = “que se obteve por meio de ardil. de falsidades”. Que eu pelo rosto angélico apertava. cabido. frente. sabe usar de disfarce para encobrir o seu intento enganoso. É expressão vulgar. é o que emprega astúcias contra outrem”. – Astuto é “o que com arte. de subtilezas e disfarces”. astucioso. passando a guarnição da praça rendida a ser prisioneira do vencedor”. e pode aplicar-se tanto à linguagem como à própria pessoa. parte que ao corpo. tos estes dois sinônimos. ou fronte (que vêm ambas de frons). para fugir a um compromisso”. eu sinto? [A frente Qual soberana. I. de caput “cabeça”) distinguem-se assim estes dois vocábulos: cabido é “a corporação de cônegos de uma sé”. Mas no lago entraremos de Aqueronte. quer dizer – de enredos. tanto às pessoas como aos discursos. e que importa conhecer para não as confundir”. – Velhaco é “o que usa de fraude para enganar. E junto do penedo outro penedo. como quem prepara emboscadas”. Ambos significam o ato de entregar-se ou de se considerar vencida uma praça de guerra. – “designa-se a parte mais nobre do homem. semblan- te. Não fiquei homem. cada uma delas ajunta à ideia fundamental alguma acessória que a modifica. isto é. e sim – tipo falacioso. José Agostinho de Macedo diz na Meditação: Mas que pasmosa arquitetura é esta Deste corpo. ou ocultando a verdade ou qualquer circunstância que conhecida seria motivo para que se não nos concedesse”. de argumentos capciosos. ou ato de capitulação. 460 CAPITULAÇÃO. mas não seria próprio dizer – tipo falaz. e de alguns animais brutos.

feitio. no entanto. sombrio. significa por extensão toda ela. índole. marcando. em que o nariz forma uma espécie de bico. que tem preso Em pedra não. ou a parte da cara desde os olhos até à barba. ou pouco mais ou menos permanente. as disposições que formam o humor podem ser e são quase sempre momentâneas. ao esporão da proa das embarcações. e ao que com ele se parecia. tempe- – Chamavam os latinos rostrum ao bico das aves. como se vê deste lugar de Cícero. com a sociabilidade ou a falta de sociabilidade: tais são as disposições para ser alegre. pode entender-se que essa disposição é permanente. pois só se diz dos racionais. de tendências. Não há. “O semblante (o vulto) muitas vezes indica os sentimentos da alma”. especialmente as disposições do espírito que têm relação com a moralidade são elementos essenciais do caráter. – Caráter. 33 E aqui está a verdadeira distinção entre caráter e humor: no caráter há fixidez de disposições. instinto. e Berg. está de bom humor. constituição. Dizemos – F. como se vê da precedente citação de Camões. como se infere destes versos de Camões: Quem32 de uma peregrina formosura. porém. e não – de humor austero. entende-se sempre como sendo uma disposição permanente do espírito. marcando simplesmente uma certa disposição do espírito. humor. sobretudo visto de perfil. Toda disposição de espírito própria para estabelecer uma séria distinção entre um homem e um outro homem é um elemento do caráter. ou para ser triste. . do que na alma se passa. ânimo. e muitas vezes equivale à representação exterior. III. – Da palavra latina facies vem o nosso vocábulo face. feição. O mais comum. – Segundo Bourg. e é poética. é significar esta palavra vulto o relevo do corpo humano.. Um caráter leal é a disposição permanente para a lealdade. esquisito. para a franqueza: uma disposição. É expressão mais elevada que a palavra cara.. etc. 142) 32 Subentende-se: pode livrar-se. e da seguinte: E com o seu apertando o rosto amado. (Lus. e humor alegre. 41) – Semblante (talvez do francês semblant) é o rosto considerado como expressão dos afetos ou paixões. F. para a probidade. sombrio. Dizemos – um caráter leal (não – um humor leal). Vultus animi sensus plerumque idicant (De Orat. De um vulto de Medusa propriamente. ou quase permanente. mas uma disposição tal que possa estabelecer uma notável distinção entre um homem e um outro homem. os nossos antigos chamavam. 35). Pode dizer-se igualmente. O humor resulta de um certo número de disposições do espírito que têm relação com a melancolia. rabugento. natural. ou com o seu contrário. e talvez “rosto formoso”. – “o caráter e o humor resultam de disposições do espírito que são particulares a uma pessoa. II. ou que é passageira33. e não – está de bom caráter. que. gênio. e ainda hoje os castelhanos chamam rostro à cara dos racionais. pois humor. ou com a mesma propriedade um caráter ou – um humor. muito a propósito. é de um caráter austero. dócil. significando rigorosamente a maçã do rosto.250 Rocha Pombo 463 CARÁTER. quando a consideramos voltada para nós. não somente uma simples disposição do espírito. sombrio. ramento. compleição. usam-na os poetas para indicar o mesmo rosto. uma perfeita equivalência entre caráter alegre. Por suavidade de pronúncia se diz rosto. – À palavra latina vultus muitas vezes corresponde a nossa semblante. usa-se. que no rosto se mostra. complacente. por ser a parte saliente do corpo. Que os soluços e lágrimas aumenta. Que o coração converte. alegre. II. idiossincrasia. e como é no rosto que mais avultam as feições humanas. mas em desejo aceso? (Lus..

escreve o mesmo autor: “Complexão (do latim complexio. – Segundo Lafaye –.. temperamento dá.. enquanto que compleição e temperamento designam o estado de saúde interior. a natureza de cada indivíduo. Comparando compleição e temperamento. e que é eminentemente própria para distinguir um de outro homem. considerados no seu grau de força ou de vivacidade. complicado’) exprime uma certa união de todos os sistemas e aparelhos orgânicos. – Índole é “o modo de ser. e os animais principalmente. – Temperamento (de temperare ‘misturar. a inclinação de cada um”. não se é arrebatado. que sabe moderar os transportes de ira. importado diretamente do gre- . feição parece enunciar melhor a ideia de modos exteriores. o gênio e o temperamento forma o caráter de cada indivíduo. isto é. humor leal. não tem sentido. como feitio.. plexus ‘dobrado com. natural exprime as qualidades do caráter. sobretudo entre as partes líquidas. ao bem. melhor. sem refletir nem cogitar do que se vai fazer. e essa ideia torna-se como que característica da própria mistura ou amálgama. é o impulso natural a que obedece o homem. mais ou menos viva de cada um. – Entre índole. – Temperamento é a sensibilidade. sugere melhor a compleição. uma saúde robusta. que os movimentos da sensibilidade. pois. não se cometem crueldades. as suas emoções. bons ou maus. Mas. a ideia de uma certa força ou violência atribuída aos elementos.. no modo de encarar as pessoas e as coisas. no exercício de alguma função ou na prática de certos atos. tem bom gênio (e nem por isso terá sempre boa índole). e – uma compleição delicada”. de preferência – um temperamento ardente. Também significa o tino.) e temperamento não significam mais que o humor. a índole de cada um. A constituição representa (é ainda de Laf.. Dir-se-á. gênio e temperamento há tanta semelhança que poderiam facilmente confundir-se os três vocábulos”. O humor não resulta de disposições que tenham relação com a moralidade. no entanto. adoçar’) anuncia um amálgama de coisas violentas que têm necessidade de corrigir-se e que se corrigem uma pela outra. – Complexão (ou melhor – compleição que é mais vernáculo. – Feitio. um – temperamento forte. tem boa índole (e não se dirá – tem bom gênio)34. aqui. como por inspiração. os humores. A união da índole. que se refere à moralidade. nem temperamentos). e não sob o ponto de vista do bem ou do mal. sólida e capaz de resistir às fadigas. Poderia aproximar-se muito de humor. – Instinto é o modo de ser ou de agir quase inconsciente. por isso. quando se é brando por temperamento ou compleição. – que é naturalmente inclinado à verdade. a despeito do que diz Bruns. de cum + 34 Pode mesmo ter mau gênio e ter boa índole. as disposições naturais para o bem ou para o mal – ou melhor. Estas duas palavras fazem conceber uma proporção entre os elementos do corpo. a índole. bruscos (e não – compleições. viciosos. revelada na maneira de ser. formado pela índole e o gênio. a conformação dos membros. e segundo o qual julgamos as coisas. Quando se é de um natural brando. é o modo de ser do espírito. – Ânimo é. à virtude. – Feição e feitio bem que se podem confundir. e – uma compleição biliosa. a perspicácia com que se faz alguma coisa espontaneamente. Mas o homem – diz Roq. de costumes e hábitos.) antes o bom estado exterior e visível do corpo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 251 portanto. – Há naturais (ou naturezas morais) benfazejos.. nem sujeito a fortes movimentos de paixões.. e não se enoja arrebatadamente. a natureza moral. O homem que não se irrita facilmente. – Feição é. – Idiossincrasia é termo erudito e moderno. o estado de espírito em que se está em certa situação. – Gênio é a disposição natural com que cada um revela a sua vontade.

não se pode carecer de cem contos. ou do animal. necessitar. não tem nenhum emprego. carência. precisar. Ninguém carece daquilo que lhe não seria de proveito.. arcaboiço. ou conveniência em falar-lhe). “Preciso de falar-lhe” (isto é – tenho necessidade. dizemos que – um negociante precisa de cem contos para ampliar as operações da sua casa (e não – que carece. e até mesmo de quase penúria: ideia que se não inclui na palavra careza. inó- (do latim carescere. miséria. fome. careza. significam evidentemente “ter falta do que é indispensável”. portanto. É conveniente notar ainda que não carece daquilo que nunca se teve. 465 CARECER. – Carência é “a falta de alguma coisa. que estes verbos precisar35 e necessitar. nem protetor. O sujeito que carece de emprego.252 Rocha Pombo go. Como não se carece de meia dúzia de chapéus para não andar descoberto (sim – de um chapéu). Há. Para isso seria necessário admitir que esse homem sabe que não tem vergonha e quer ou deseja tê-la. como intransitivos. 466 CARESTIA. a ser necessidade quase”. um artigo. isto é. no entanto. A carcaça é a porção de ossos que formam o tronco do homem ou o bojo dos animais. encurtar”) significa propriamente “ter falta daquilo que se deseja ou de que se precisa”. o verbo precisar. para coisa alguma. Também não se diria que “F. expressa que lhe conviria muito alcançar ou possuir essa coisa.. e conforme se emprega ou não entre os dois a preposição de. e Lac. – Carestia é “o preço elevado das coisas determinado pela falta ou pela grande escassez dessas coisas”. – Entre precisar e necessitar poderia ser mais difícil estabelecer diferença do que entre estes e aquele primeiro verbo. – Esqueleto é palavra científica. “Ele sacrifica-se a trabalhar dia e noite porque precisa ou porque necessita”. (Aul. – Carecer carece de lógica é que não é senão absurdo.) 464 CARCAÇA. por assim dizer. Quem precisa de alguma coisa. uma grande diferença entre careza e carestia: esta sugere ideia de carência. Quem carece de alguma coisa é que não tem essa coisa que lhe seria útil. necessidade. de escassez que obriga à privação muita gente. O argumento que pia. mas falta que se sente e que passa. nem de um banquete para matar a fome (sim – de um pouco de pão). Quem necessita de alguma coisa dá ideia de que essa coisa lhe é necessária. Neste caso empregaríamos. escassez. portanto. pobreza. sem dúvida. esqueleto. ou carere. ou de proteção. “Preciso falar-lhe” (isto é – tenho obrigação de. sugerindo ideia de “cortar. de ser. nem – que necessita de cem contos. carece de cem contos para realizar um negócio que planeou”. . Por isso. – Arcaboiço (de que não cogita o autor citado) é a “armação de ossos que formam. 35 O verbo precisar também pode ter significação diferente quando rege algum outro. ou precisão de falar-lhe). indigência.). mais de carecer do que precisar. a base ou o fundamento do organismo humano”. – Segundo Bruns.. Necessitar aproxima-se. como entendem Roq. e carcaça é termo que só em linguagem familiar se pode dizer por esqueleto. formam o esqueleto. penúria. em virtude da qual cada indivíduo sente de modo diverso os efeitos da mesma causa”. significando “disposição particular do temperamento e constituição. sede. Em regra. em que figura a raiz grega ker. por último. – os ossos do corpo completo do homem. Observemos. – Careza é a qualidade de caro. Quando se diz que.. de preço mais alto que o comum. Em bom português não se poderia dizer que – “um homem carece de honra ou de vergonha”.

Certos cargos no governo e na administração do Estado são verdadeiros ofícios que de direito se exercem. não se pode dizer que sejam propriamente ofícios. do alto funcionalismo (não – empregos). carência absoluta de alguma coisa”. insuficiente para o fim a que é destinada”. em nome de outrem. aflitiva de algum bem. da diplomacia. Lavra a miséria num país. pede socorro”. em abastança”. portanto. ofício. “os meus encargos estão satisfeitos”. imposta pelo destino”. – Emprego encerra a ideia de estar o empregado sujeito a um trabalho permanente e obrigatório. com efeito. clamante do indispensável”.. Há cargos da magistratura.” (e em nenhum . a cargo pela necessidade. – Miséria é “o estado de penúria. “temos carência de notícias a respeito de alguém ou de algum sucesso”. parco. mas os cargos de prefeito ou de intendente municipal. uma qualidade permanente. papel. – Penúria [latim penuria. senão cargos..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 253 por exemplo.)] é “pobreza extrema e dolorosa. e ali a fome já espreita as vidas. às vezes até adquirida por herança. mas esquecendo-se que nem todo cargo é ofício. de moralidade. e tanto se pode (como. É. isto é. que sugere. – Segundo Roq. força”.) e que significa “falta. Dizemos: “cumpro os meus encargos”. falta absoluta. Confundem-se às vezes estas palavras. Encargo não é mais que a obrigação que decorre de um cargo ou de um compromisso que se tomou. de indigência que comove. Há empregos vagos na repartição tal (não – cargos). ministério. – Pobreza é “a qualidade de ser pobre. como à falta de talento. pois. – Escassez é “a qualidade de escasso. ou como direito anexo a uma dignidade. ou da autoridade que a nomeia. pois. etc. e sugere a ideia de que “o necessitado solicita auxílio. muitos outros entre os vocábulos deste grupo) empregar no sentido moral como no físico”. por assim dizer. – Necessidade. o emprego muito diferente do cargo. função. Um homem que luta heroicamente para viver pode estar até em penúria sem ser indigente. + ops. por mais distintas que sejam estas duas palavras. de fazer ou cumprir um certo dever aquele que toma o cargo ou o ofício. Mais restritamente é “a falta do necessário”. isto é – de ser curto. enquanto que os ofícios constituem. Dizemos inópia tanto em referência à falta de dinheiro. que dependem de nomeação ou de eleição. – Indigência é “a qualidade ou estado de indigente. emprego. Tem-se fome ou sede de justiça (isto é – clama-se por uma justiça sem a qual teremos de perecer). recursos. lugar. pode definir-se como significando “contingência fatal. é que não temos as notícias que esperávamos. em toda a sua extensão. pode ser bem físico ou moral”. colocação. aliás. corresponde. A ideia própria de ministério é a de que a pessoa que o exerce desempenha um certo cargo por outra pessoa. 467 CARGO (encargo). – Inópia é a palavra inopia que importamos do latim (de inops = in neg. de ser. do grego peina “fome. “tomo o encargo de avisá-lo a tempo. é pobreza horrível e desventurada. todo ofício vem a ser cargo. a coisa escassa. de não possuir meios de viver folgado. porque os que os desempenham só o fazem ou devem fazer por um certo tempo. Entre cargo e encargo não é muito raro notar uma certa confusão. Um sujeito rico pode achar-se em verdadeira miséria de vida se é um perdido. sem que tenham mais título que sua eleição ou nomeação. – a ideia própria da palavra ofício é a de obrigar (ao que exerce o ofício) a fazer uma certa coisa útil à sociedade. “meios. isto é – de achar-se alguém em tal penúria que precisa de recorrer à caridade de seus semelhantes”. mesquinho. que inspira piedade. necessidade violenta” (Chass. – Sede e fome entram aqui numa acepção muito particular: exprimem “necessidade ansiosa. etc.

bilhete. indício de caridade. e que isso é “devido à índole da terminação oso”. e pode nutrir-se de frutos da terra. e é antônimo de frugívoro. Paulo. mas não é reduzido a este só alimento. – Lugar é “qualquer emprego.. emprego ou ofício”. ou de assunto ligeiro. Os naturalistas. O primeiro indica o apetite natural. – O bilhete difere da carta: em se ocupar só de um assunto. por uma necessidade de natureza. portanto. dizem que o nome de carniceiro pertence àquele que. Criatura caritativa. mais ordinariamente – emprego por pouco tempo ou de pequena monta”. o leão. – carta é o termo usual com que se designam os escritos que se dirigem a alguém dando-lhe notícias. Estes dois adje- tivos designam em geral os animais que se sustentam de carne. capaz de sentimentos de caridade”. próprio de caridade. é termo pouco usado. – Colocação é quase o mesmo que emprego: ajunta apenas à significação deste a ideia de que o emprego é permanente e quase sempre de certa importância. e não pode viver de outra coisa. Ato caridoso. . de um ministério.254 Rocha Pombo destes casos – cargo ou cargos). 130) 470 CARTA. em conter poucas palavras e excluir as formas cerimoniosas que encabeçam e concluem as cartas ordinárias. estes dois adjetivos. ou tratando de assuntos que lhe interessam mais ou menos diretamente. carnívoro. missiva. – Carniceiro é o animal que Bruns. – Diz Bruns.. nem – sentimentos caritativos). por exemplo. Significa. carnívoro é o que come carne. de pequena importância. 468 CARIDOSO. Feros vos amostrais. a função própria que se toma num dado momento. se nutre de carne. o gosto. que se ceva de carne crua. o instinto. o segundo anuncia simplesmente o fato. III. o hábito constante. epístola. o gato são carnívoros. Familiarmente dá-se hoje o nome de epístola a uma carta muito longa e em estilo pretensioso. está no seu papel”. “F. a nosso ver. o lobo são animais carniceiros. e carnívoro pertence ao que come carne. a obrigação que se aceita num certo caso. Carnívoro é termo mais próprio de ciências naturais. caritativo. cheio de caridade”. mas essa distinção não basta.. – Epístolas dizemos das cartas dos antigos. é muito caritativo”. o cão. Deveres caridosos (e não – deveres caritativos). como. as epístolas de S. que se ceva de carniça. 469 CARNICEIRO. carniceiro é termo vulgar da língua. “F. Parece. ó peitos carniceiros. e não – caridosa. quando comparam estas duas espécies de animais. por isso mais usado é. e o uso geral o admita. – Segundo “caridoso indica maior e mais frequente caridade que caritativo”. – Caridoso diz apenas – “de caridade. às vezes. principalmente quando o conteúdo delas interessava a muitos. tratando de graves assuntos. – Missiva é a carta considerada com relação à pessoa que a manda. mas as respetivas terminações marcam entre eles uma diferença bem sensível. e cavaleiros? (Lus. sentimentos caridosos (e não – ato caritativo. dos serviços próprios de um cargo. como fez Camões naquela apóstrofe aos assassinos de Inez de Castro: Contra uma dama. com a significação de cruel e sanguinário. funções) é “o conjunto das obrigações. que se confundem. como quase sempre é usada. – Função (ou. o homem. – Papel figura neste grupo com o sentido translato que se lhe dá em frases como estas: “fiz do melhor modo que pude o meu papel”. em forma literária e em tom solene. É possível. por mais que muita autoridade de nota o queira. e sem razão. – Caritativo é propriamente “o de natureza moral dada a atos de caridade. O tigre. o costume.

etc. – Tenda é “armação coberta para abrigo provisório ou de passagem em caminho ou em campanha”. “era-lhe o céu um teto misericordioso”. – Vivenda é a “habitação onde se vive”. vivenda detestável. – Palhoça é “pequena casa coberta de palha”. junto ou no meio das roças ou lavouras”. – Teto (latim tectum. lar. pelo menos com a mesma propriedade –. De “ato de habitar”. a sua choupana). canto. no estilo suíço. onde alguém se aloja provisoriamente”. prestando-se quando muito para pernoite ao abrigo de intempéries”. tenda. – Lar é a “habitação considerada como abrigo tranquilo e seguro da família”.). – Morada é “à habitação onde se mora. isto é – o último andar de uma casa tendo a janela ou janelas já abertas no telhado): tem. palheiro. e forma grande saliência sobre as paredes”. choça. – Canto. ou palácio. “abrigo ou habitação muito rústica e grosseira”. barraca. – Chalé é palavra da língua francesa. palácio. biombo. passou a designar também a própria casa. ou de ramos de árvores para habitação de pastores”. palacete. o sítio. – Palácio é “o edifício de proporções acima do normal. cabana. – Barraca é “tenda ligeira. teto. – “casa rústica de madeira. – Mansarda afasta-se um pouco do francês de que a tomamos (mansarde é propriamente água-furtada ou trapeira. designando. o mais genérico. – Fogos é o nome que se dá. significando “casa de escada exterior. e sugere a ideia da maior ou menor comodidade com que a gente aí se abriga e vive. pardieiro. Palacete é diminutivo de palácio. – Habitação é. – Casebre é “pequena casa velha e arruinada. – Choça é “habitação ainda mais rústica e grosseira que a choupana”. usa-se quase sempre com um adjetivo: bela vivenda. mansarda. ou choupana. que é o que significa propriamente esta palavra habitação. onde alguém como que se refugia afastando-se do mundo”. é “o colmo tomado pela cabana que é dele coberta”. toda parte onde se abrigam alguns animais: a casa do escaravelho. também de tegere) é quase o mesmo que tugúrio: apenas teto não se aplica a um abrigo de animais. habitação. – Palheiro é propriamente o lugar onde se guarda palha: designa. e sugere melhor a ideia de conchego. aqui. onde mora gente muito pobre”. coberta de tela de lona ordinariamente”. onde se abrigam à noite os camponeses. ou onde se fica por algum tempo. arribana. casebre.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 471 CASA. no português usual. de convívio amoroso: “teto paterno”. Este nome dá-se também. de proteção. choupana. portanto. designa. ordinariamente revestida de madeira. que se habita: casa. cujo teto de pouca inclinação é coberto de feltro. asfalto ou ardósia. ou de uma povoação: “a aldeia vizinha não chega a ter cem fogos”. fogo. aqui. grandioso e magnífico”. à própria habitação magnífica. de uma cidade. Dizemos que o selvagem procura a sua choça (e não. “prédio rico e elegante”. – Casa é “o edifício de certas proporções destinado à habitação do homem”. prédio. – Choupana é – diz Aul. solar. – Colmo. – Tugúrio (latim tugurium. (Aul. mais a significação de “habitação . ou biombo – tudo será habitação. ou habitualmente ou por algum tempo”. colmo. morada. a casa dos coelhos. 255 tugúrio. neste grupo. chalé. e por extensão. palhoça. cômodo. hoje muito em voga. nas estatísticas. castelo. – Arribana é “palheiro que serve mais para guarda de animais e trem de viagem propriamente que para habitação. é “o lugar. de tegere “cobrir”) é “o abrigo onde qualquer vivente se recolhe. portanto. em linguagem vulgar. vivenda. Por isso. por modéstia ou por falsa humildade. às casas habitadas de um distrito. de todos os vocábulos deste grupo. – Cabana (do italiano capánna) é “casinha coberta de colmo ou de palha. a morada humilde e desolada.

hipótese. a situação da França em 93. – Prédio (latim prœdium. etc.” A situação em que me encontro agora. – “edifício velho e em ruínas”: “Já me cansam estas perpétuas ruínas. distinguem-se mais em que: a hipótese é uma suposição puramente ideal. propriedade real”. pode ser favorável ou desfavorável. luxuosa. a suposição é gratuita.. distingue assim as três primeiras palavras deste grupo: “Caso se diz do que se considera possível: em caso de desgraça. circunstância. – Castelo era antiga habitação fortificada. e a suposição toma-se por uma proposição ou verdadeira ou aprovada. suposição. Particularmente se diz de todas as hipóteses que se podem considerar nas ciências abstratas. – Solar é “a propriedade (terras e casa) considerada como representando uma tradição de família. Também se diz de um fato que apresenta tal ou tal caráter. A conjuntura. fora das cidades. mas. menos precária. de Newton. como alegação. incômoda e difícil. termo científico. – De suposição e hipótese escreve Roq. “o conjunto de circunstâncias que determinam o estado ou a condição de uma coisa. A hipótese é mais certa. à explicação das coisas. é “uma parte de prédio que se aluga por baixo preço e por pouco tempo ordinariamente”. mas que. estes pardieiros intermináveis” (Garrett). têm com ele alguma relação.” – Situação é. – Bruns.” . etc. – Circunstância (do latim circumstantia.: “Além da primeira diferença que há entre estas palavras (e que consiste em ser um. sempre que este fato se possa relacionar com princípio geral: aos casos particulares não têm os magistrados senão leis gerais para aplicar. funda-se numa verdade filosófica. tendo passado por herança de pais a filhos desde alguns séculos”. sucesso. gratuita ou falsa. – Biombo é “um pequeno recinto separado de uma sala por meio de tabique móvel. – A hipótese toma-se muitas vezes por um conjunto de proposições unidas e ordenadas. de modo que formam um corpo ou sistema. designa “a casa que é nossa própria. se se der o caso de não ter ele filhos. – Conjuntura é o vocábulo com que se indica o conjunto de circunstâncias que nem estão no fato. e outro. assim como a circunstância. aqui. conjuntura. e onde residiam os grandes senhores feudais. Um sinonimista francês. situação. de gabinete”. num dado momento. a situação atual do país. a suposição é mais familiar. que não tem outro fundamento que a má vontade da pessoa que supõe. porque esta só de longe se relaciona com o ponto de que aquela está próxima. ou das coisas que. a propriedade que consta da casa e do terreno onde está construída”. termo vulgar. fiador”) é propriamente “bem de raiz. penhor. onde se vive com opulência”. separadas do fato. e muitas vezes se toma em mau sentido. Hoje é “habitação nobre. 472 CASO. entra na conversação ordinária.256 Rocha Pombo humilde. aqui. à inteligência. de circumstare ‘estar à roda de’) diz-se das particularidades de um fato. – Cômodo. contudo. – Pardieiro é – diz Aul. de Leibnitz chamam-se hipóteses e não suposições. nem com ele se relacionam imediatamente. do prœs “garante. A hipótese refere-se às ciências: à instrução. e que serve de dormitório. Os sistemas de Descartes. Costuma-se dizer: “vou para o meu biombo” para significar que se vai para casa. pessoa. aqui. suposição. compara a conjuntura com a circunstância dizendo: A conjuntura e a circunstância estão para o fato como dois círculos concêntricos estão para um ponto dado: a circunstância é o círculo circunscrito na conjuntura. Roubaud. têm com ele alguma relação imediata: os crimes perdem muito da sua gravidade quando neles ocorrem circunstâncias atenuantes. onde há pobreza”. só tem por base a verossimilhança.

– Pena (latim pœna. S. que intemerato sugere uma ideia que nem. dizemos indistintamente – imaculada ou intemerata. ilibado. punir. as faltas. tanto do corpo. – Castigo é “tanto o ato de castigar. pureza. de alma fiel. que regula. a honra. 474 CASTIGAR. Mesmo referindo-nos à própria Virgem. como o próprio sofrimento com que se castiga”.). é a excelência. aperfeiçoar por meio da repreensão. – Ilibado (latim illibatus = in + libatus) quer dizer – “intacto. A pessoa pudica teme. incorrupto. expiação”) sugere ideia do “sofrimento que se impõe como punição do crime. e cora de os ver ainda levemente transgredidos. do grego poiné “vingança. que qualquer sopro impuro a embaça e murcha: um só instante de fraqueza. etc. castigo. delitos.). pelo menos em todos os casos. sabe coartá-lo dentro dos mais estritos limites. e sujeita à autoridade sagrada da lei. e até os defeitos. e culpa da outra. no entanto. É uma flor delicadíssima. inocência. nem sentiu. que não passe a segundas núpcias. – Punir implica a ideia de imposição de pena. Castigar supõe autoridade de uma parte. – Pudicícia é a castidade acompanhada de pudor. de algum modo. ações voluntárias. mas sim erro. será essencial em imaculado: a ideia de – não violado. mas castigar indica principalmente a ideia de corrigir. – Inocência tem aqui a acepção de candura: é a qualidade do inocente. não só as ações voluntárias quando contrárias à lei.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 473 CASTO. puro. quando contrárias à lei: e castigam-se. mas como um estado de alma. Pode haver criaturas que. castigar a frase”. venham a sair moralmente imaculadas. descuido. Neste sentido dizemos até – “castigar o estilo. nem mesmo sabe que é inocente. A viuvez. continência. intemerato. um só pensamento voluntário faz perder o merecimento desta angélica virtude. impoluto. punição. virgem. a perseverança. – Impoluto é “o que não foi poluído. pudico. o próprio prazer honesto. e perfeita. cândida. virgindade. – Intemerato e imaculado podem dizer-se sinônimos perfeitos. ainda quando permitidos. conti- 257 nente. – Punição é “o ato de punir”. os apetites e prazeres sensuais. – “É a castidade” – diz fr. e aí estará talvez o que torna a virtude da castidade diferente de muitas das que figuram neste grupo. pena. mas da outra não supõe necessariamente culpa. O celibato cristão demanda continência perpétua. virgem. isto é – do que não tem malícia. que é são e puro de espírito. nem sabe pensar no mal. Esta virtude é mais ordinária no sexo feminino. ou delito. ou de honesta vergonha. mesmo de uma brutal violência. Parece. absoluta. Por isso mesmo é que não se pode considerar a inocência como propriamente uma virtude. (A pessoa casta nem pensa em semelhantes prazeres. pois o inocente não conhece o mal. e nem ainda conhece o que pode alterar a perfeita integridade da alma e do corpo”. que nem experimentou. inalterada”. que não ficou alterado na sua pureza”. mas também os erros. – Punir supõe autoridade de uma parte. (Lac. . pudicícia. Punem-se crimes. – Pureza não é propriamente uma virtude particular. um modo de ser. censura. como do espírito que se estende a todos os tempos e momentos da vida. e quando cede ao dever. Luiz – “uma virtude. – Continência exprime a abstinência atual dos prazeres da carne. castidade. ou grande falta que deve ser punida”. – Incorrupto é “o que não foi corrompido. inocente. imaculado (imáculo). que está na sua plena integridade”. e o lustre da virgindade: Ela supõe uma alma inocente. intacta. Em poesia não é muito raro empregarse imáculo por imaculado. deve ser continente. omissão. – Virgindade exprime uma continência universal.

minuciosa”) dizemos das relações ou enumerações de muitas coisas da mesma espécie.º) que a enumeração seja metódica. – Cativo é propriamente “o que foi capturado. 476 CATIVO. – Catálogo (do grego katalogos “exposição desenvolvida. supondo-se que estes esperam sempre o seu resgate. etc. cativeiro. Recapitulando. por exemplo – rol dos convidados. ou ao conjunto das coisas enumeradas. certas indicações numéricas. e não escravo. – Servo é “o que está sujeito a outrem”. servidão. – Enumeração é a lista que se faz com o fim de atender ao total que apresenta. passar por herança ou legado”. Nomenclatura geográfica. o que se deixou prender na guerra. Não diremos. O catálogo de uma livraria ou de uma biblioteca compreende o título das obras que a formam. – Nomenclatura é uma lista de nomes. – Relação é quase o mesmo que lista: apenas deixa supor que as coisas ou pessoas relacionadas estão inscritas numa certa ordem. prisão. denomina-se nômina. 477 CAUSA. mesmo aquelas que parecem mais semelhantes. atendendo a que nessa lista a única indicação numérica é a dos números de ordem. O servo é considerado como pessoa.258 Rocha Pombo 475 CATÁLOGO. ou obedeça a uma certa ordem. pois o primeiro designa apenas o fato de “achar-se alguém privado por algum tempo de agir livremente. principalmente tratandose de ciências. razão. – Prisioneiro aproxima-se de cativo: é “o que fica em poder do seu vencedor”. Fazemos a lista dos livros que desejamos comprar. O cativeiro não humilha. móvel. é o fato em virtude . etc. – Causa é o que produz uma ação. pretexto. o nome dos respetivos autores. em certos casos. – Todas estas palavras designam aquilo que se tem como determinante das nossas ações. etc. de expressões que formam grupo separado. Sempre que a enumeração careça dessas condições. mas não poderiam ser aplicadas indistintamente. escravo. de usar da sua liberdade”. pode ser vendido. Do mesmo modo difere prisão de cativeiro. auferir lucros do serviço que presta a seu amo. rol. a nomenclatura inscreve denominando. A escravidão não só humilha. A servidão é muito diferente da escravidão. nem mesmo servo. O cativo pode conservar ainda a sua dignidade. – Segundo Bruns. nômina. – Rol é a lista que contém. a lista apenas inscreve. o rol inscreve e conta.°) que cada objeto catalogado se faça acompanhar de algum esclarecimento que melhor o caracterize e distinga dos outros. ou não tanto a esmo como numa simples lista. Fazer uma nômina dos empregados por ordem de antiguidade. servo. portanto. nomeia por ordem. mas diferentes entre si. Fazemos ou organizamos o catálogo de uma biblioteca. vemos que: o catálogo inscreve e circunstancia. Hoje. – Escravo é “o que passou a ser propriedade de outrem. De tudo isto é privado o escravo. ao lado do nome das coisas ou pessoas arroladas. Quando a nomenclatura inscreve ou classifica nomes de pessoas. escravidão. relação. e a enumeração inscreve ou expõe sucessivamente para que cada unidade contribua para o conjunto. por exemplo. 2. ou da botânica. enumeração. lista. ficando sob a dependência de outrem”. perdeu a sua liberdade. a nômina inscreve. a sua condição pessoal. prisioneiro. pode possuir bens. mas prisioneiros. mas – lista dos convidados. O judeu em Babilônia foi cativo. como despoja a criatura de quase todas as suas qualidades humanas. motivo. nomenclatura. só se lhe pode dar o nome de lista ou relação. pelo menos nem sempre. É condição essencial do catálogo: 1. e que. na guerra não se fazem cativos.

e. não poupa ninguém. áspero e desabrido”. designa “o que é rude e violento. Um espírito satírico ataca. – Motivo é simplesmente o que opera em nós excitando-nos. mordaz. sarcástico. pungente. que se inclui em causticante. – Lancinante é “o que penetra causando grande dor. impelindo a nossa vontade de praticar uma ação. cruel”. lancinante. Um espírito mordaz ataca tudo e todos. picar. satírico. ou de conduzir-nos deste ou daquele modo em dadas circunstâncias. e pica. causticante. postura) para exprimir exatamente o contrário do que diz ou afeta. – Entre cáustico e causticante parece haver apenas a distinção marcada pela ideia de atualidade. atitude. isto é – que usa de uma palavra ou frase (ou mesmo gesto. como ao paladar a pimenta”. Um espírito cáustico emprega a ironia.) “denota certa malignidade irritante. pune e instrui”. de flagrância. cruciante. os vícios e os defeitos mais censuráveis. discurso. ao intento. rasga como estilete”. Talvez porque se julgue esta palavra como originada do verbo ferir. pungitivo. as suas armas são um gracejo vivo e picante. – palavra causticante (em vez de – cáustica). penetrar afligindo”. elogio. mas que só pungem a certas almas. – Razão é “o motivo que se invoca para justificar algum ato. – Motivo e móvel são os nomes que damos ao fato. É usado mais frequentemente no superlativo: acérrima ironia. F. Gritos lancinantes = os que entram na alma de quem os ouve como lancetas. – Acre. – Irônico é o que contém. – Entre mordaz e mordente há diferença bem sensível: mordente significa mais “espicaçante. que opera tanto sobre o espírito como sobre o coração”. um caráter mais ou menos maligno. um gênio acerbo. à consideração. Diremos com mais propriedade – estilo cáustico (em vez de – causticante). irrita.. Aquela palavra ou aquela frase saiu causticante como ferro em brasa (e não – cáustica). que nos leva a fazer alguma coisa ou a agir de certo modo em dadas circunstâncias. – Pungitivo é “o que tem qualidades para pungir. A causa da intervenção da força pública foi o tumulto que ali se levantou. ditos e expressões picantes. saudação. chufas. Parece também que este tem mais força que o primeiro. invetiva. é frequente vê-la empregada como signifi- . como – olhar irônico. 478 CÁUSTICO. e algumas vezes a indignação e a veemência: é um moralista ou um juiz de mau humor. Dizer – “bandido” a um santo será usar de uma palavra pungitiva. motejos para fazer sobressair o ridículo e os defeitos dos outros. que condena. – Pungente é um tanto mais forte e subtil que mordente: o que punge “penetra como espinho”. deixou de vir devido ao mau tempo (o mau tempo foi causa da ausência). ofende a boa reputação. como já vimos em outro grupo (o XCVIII) é “o que tem sabor picante e corrosivo”. terebrante. etc. até carinhos irônicos. o móvel que se dá como causa da ação”. provocador” do que só mordaz. Dizemos tanto – termos irônicos. – Cáustico (segundo resume Bens. escarninho. frases pungitivas. satírico. – Pretexto é “uma razão falsa ou fictícia que se dá para não dar a verdadeira”. etc. – Ferino é “o que é selvagem. pungente. no sentido figurado. – Picante é “o que é acre. sobretudo. próprio de fera”: e no sentido figurado – “o que é rude. picante. ou o que diz ironia. mordaz (morden- te). – Móvel é “um motivo mais ponderoso. Dizer – “santo” a um bandido seria dizer-lhe uma palavra pungente. abocanha a honra. acre. o que corta. irônico. Po- deria ainda alguém dizer – sátira mordente (e talvez não – sátira mordaz). Há palavras. ferino. feroz. devida ao sufixo de atividade ante. picante.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 259 do qual se dá um outro fato. brutal. isto é – capaz de pungir (mas não – pungente). atraindo por isso o ódio ou o desprezo de todos.

vindo do céu. celestial. “o que é como se fosse celeste”. que em certos casos é fundamental. – Rememorar é “repetir uma comemoração. pois este pode valer ainda como um restritivo de firmamento. deífico. quer passado. empregam-se indistintamente celeste e celestial. – Celebrar encerra duas ideias principais: a de ser grande o número de pessoas que concorrem e a do aparato da festa ou da cerimônia celebrada. – Festejar (do latim festus “alegre”) é. – Entre divino e divinal há uma distinção análoga. celestial. 479 CEGAMENTE. comemo- rar. solenizar. – Entre celeste e celestial há uma diferença. que vem do céu”. quer seja atual. – Solenizar é celebrar com pompa extraordinária. Antônio. – Celeste significa – “próprio do céu (e também de Deus) que está ou que aparece no céu. é “o que punge como acúleo (como verruma. – Consideram-se aqui estes vocábulos na acepção que lhes é comum.) até o mais fundo da vida”. – Celestial. – Célico e celígeno são termos usados na poesia. – Sarcástico é “o que envolve mais do que ironia pungentíssima: é o que revela desprezo. João. Fazer alguma coisa cegamente é fazê-la porque se põe confiança na pessoa que manda. como dos grandiosos. divino. acontecimento. de ofender mostrando repugnância”. no sentido em que aqui o tomamos. Como ninguém diria – a ternura divina daquela mãe (mas – a ternura divinal). entretanto. é com danças e divertimentos que o povo festeja S. . conforme se vê em – corpo celeste (referindo-nos a um astro. significando: o primeiro. – Cruciante vale por “aflitivo como o sacrifício da cruz. festejar. significando mais – divinizante – que propriamente – divino. – Comemorar é “celebrar festa solene que recorde algum sucesso. e não – corpo celestial)]. divinal. célico. de alegria. 480 CELEBRAR. o semblante celestial de uma menina (e não – celeste). o único que claramente encerra a ideia de festa. Ninguém diria – misericórdia divinal – em referência à misericórdia de Deus (e sim – misericórdia divina). para o fazer ou deixar de fazer. – Celebrar e solenizar dizem-se tanto dos acontecimentos alegres como dos tristes. época extraordinária na vida de uma nação ou uma família”.. tendo a mesma significação. O padre celebra a missa. cruel e pungente em extremo”. do céu” [nem sempre – celeste. – Celígeno quer dizer – “nascido no céu. doloroso em excesso. equivalente a – “o que envolve ou manifesta escárnio.). – Deífico é também termo poético. que é como nojo pela pessoa ou coisa escarnecida”. – “é fazê-la sem razão suficiente. e a fim de bem gravar no espírito a lembrança do acontecimento que se soleniza. às cegas. coisa às cegas” – escreve muito bem Lac. rememorar. – “Fazer alguma celebra-se um aniversário com grandes festejos. marcada pela partícula de extensividade que figura no segundo. em certos casos. Aproxima-se-lhe muito escarninho. celebram-se exéquias. S. (Bruns.260 Rocha Pombo cando – “o que fere sem piedade. persuade. celígeno. de indicar o modo de render homenagem a qualquer pessoa ou acontecimento. Dizemos: cólera celeste (cólera divina) e não – cólera celestial. intuito de humilhar. Pedro e S. amargamente”. dos três primeiros verbos deste grupo. – Terebrante. ou aconselha que se faça”. divino e divinal. Na maioria dos casos. designa. recordar outra vez uma data ou acontecimento”.. que tem origem no céu”. 481 CELESTE. É com hinos de louvor e de alegria que a Igreja católica festeja um santo.

Da palavra latina tumulus (a tumore terrœ). que em sentido reto significava “montículo”. solteiro. – Carneiro é o lugar subterrâneo. e não – solteiros. Nenhuma das duas têm saliência. O próprio animal pode ter sepultura (não – sepulcro). tem no português a mesma significação de monumento sepulcral. mas – sepulcro levantado da terra. mauso- léu. Dos sacerdotes católicos dizemos que são celibatários. e na maior parte dos casos podem ser empregados indistintamente. onde se depositam os cadáveres ou os ossos dos membros de uma família”. – Concordam es- 261 tes vocábulos em designar a pessoa que não casou. – Sarcófago. 11). e phagein “comer”] é adjetivo substantivado concordando com lithos “pedra”. túmulo. enquanto que celibatário encerra frequentemente a ideia de não poder ou não querer contrair matrimônio. e numa necrópole. supõe alguma coisa mais que simples sepultura. e a que os nossos antigos chamavam moimento. esconder”: designam. – Hipogeu só será usado hoje em linguagem poética: designa. O carneiro pode ser levantado do solo. Dizemos. – Solteiro. o lugar onde se sepultam os mortos. como diz a etimologia. só com a significação figurada de sepulcro. cova. que entre os latinos também tinha. . ou qualquer construção acima do solo. pois. como se vê em Ferreira: “Mausoléus aos mortos não dão vida”. passou depois a ser nome apelativo. campa. 483 CENOTÁFIO. que é forma antiquada) é “toda construção grandiosa levantada à memória de um morto. – Cenotáfio. de não sujeição aos laços da união conjugal (Bruns. Mais tarde. erigido à memória de defunto enterrado em outro lugar. e por extensão – o sepulcro feito desta pedra.: “Designam estes vocábulos o monumento elevado à memória de algum defunto ilustre. que designava uma espécie de pedra calcária que consumia as carnes. e solteiro – às vezes até solteirão – quando queremos pôr em relevo o seu estado de independência. ordinariamente em forma de templo. sepulcra regum sic vocant. como se vê da seguinte passagem de Floro: In mausoleum se (Cleópatra). igualmente do grego sarkophágos [de sarx (genit sarkós). contenha-lhe ou não os restos”. (Eleg. porém. jazigo. sepultura. designando os sepulcros grandiosos dos reis. a não ser no último exemplo deste artigo. É este o nome que mais comumente se dá aos depósitos de cadáveres que não são propriamente simples sepulturas. – Monumento (ou moimento. carneiro. – Mausoléu (do latim mausoleum) foi primitivamente nome próprio. – Jazigo é “o pequeno edifício.). por exemplo – sepultura rasa. estendeu-se a todo sepulcro magnífico e sumptuoso. que designava o magnífico e sumptuoso monumento sepulcral que a rainha Artemísia mandou erigir a seu marido Mausolo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 482 CELIBATÁRIO. – Das quatro primeiras palavras deste grupo escreve Roq. portanto. É um mausoléu menos sumptuoso. guarnecido de muros. e em geral – sepulcro em que o cadáver se consumiu. Sepulcro é mais nobre. hipogeu. indica essa ideia sem nenhuma outra acessória. 6). sarcófago. mas cada um deles recorda particular circunstância pela qual se diferençam”. que é apenas o espaço que se abre na terra para guardar o cadáver. catacumbas. da palavra grega kenotaphion (de kenos “vazio”. – Sepulcro e sepultura (do mesmo latim sepelire) sugerem a ideia de “ocultar. sepulcro. quase o mesmo que cova: apenas a cova é uma sepultura ainda mais tosca e mais ligeira. monumento. e não – sepulcro raso. “carne”. fizemos nós túmulo. e taphos “sepulcro”). De um ancião se diz que é celibatário quando se quer designar o seu estado social. – Sepultura é. recipit (4. onde se depositam cadáveres.

. reproche. cova. repreender e corrigir as obras. Tem muita relação com a censura. “a lápide que cobre o sepulcro ou mesmo a sepultura rasa”: toma-se frequentemente pela própria sepultura. – Campa é. Aprova a censura o que muitas vezes condena a crítica. segundo as regras da arte e do bom gosto. remoque. pois muitas pessoas pouco instruídas e muito audazes atrevem-se a censurar sem serem capazes de fazer a devida crítica. que são inseparáveis de tudo que é humano. a sátira. exprobração. como vimos. podem talvez ter por objeto a correção e o desengano. em especial. e esta é uma das circunstâncias que a diferençam daquela – a censu- ra – cuja significação. arguição. mas sempre com fundamento e equidade. advertência. – A sátira é um juízo. são defeituosíssimas aos olhos da crítica. sendo que a censura leva consigo a repreensão. julgá-las literariamente. porque a crítica. e. como coisa a mais conducente para a boa moral pública. à razão. impureza da linguagem. para que se despreze. Não há coisa mais difícil que fazer uma boa crítica. Muitas obras há que pela solidez dos princípios. com o que o cargo de censor vem a ser o de uma espécie de magistrado na república literária. como a sátira. Assim que a crítica. e notar-lhes os defeitos. distinguir’) e significava a arte de julgar as obras de engenho. nem sempre. cujos mui importantes cargos eram guardar o padrão ou registro do povo. família e bens. raramente imparcial. a correção e o castigo do que aparece contrário à lei. Por extensão. porque é o juízo fundado que se faz das obras. dos costumes públicos. são irrepreensíveis aos olhos da censura. e sempre violenta. dar a conhecer suas belezas. recriminação. dá-se ainda hoje o nome de catacumba ao grande túmulo comum. aprovando-os ou desaprovando-os. pondo de parte o que pode merecer elogio. faz ver o erro como tal. castigando aos que os pervertiam com seu desordenado procedimento. senão o de examiná-las. confusão e obscuridade do estilo. para que se emende ou evite. assim como pode acontecer que a crítica literária nada tenha a dizer onde a censura moral muito tenha que repreender e condenar. como era o dos antigos na política. admoestação. e. A crítica supõe a censura. rara vez imparcial. reprimenda. é mais extensa. – Catacumbas eram as vastas construções subterrâneas destinadas a guardar cadáveres. comentário. repreensão. representa o ridículo. subterrâneo. – Das três primeiras do grupo. ao exame. no uso comum. julgamento e correção dos livros. veio a ficar reduzido à censura dos costumes públicos. adotando os meios de reformá-los. Não há coisa mais fácil que agradar ao público com uma sátira. propriamente. diz Roq. em que.: “Censura vem da palavra latina census ‘censo’. crítica. mas que pela má disposição das matérias. Este nome. ponderação. objurgatória (objurgação). sem se importar com o estilo. repartir as quotas dos impostos. pois não se pode julgar de uma obra sem notar defeitos maiores ou menores.262 Rocha Pombo como insinua a própria etimologia. nem com o desempenho das regras de bem escrever. aos bons costumes. magistrados da primeira plana. se ridiculizam os defeitos. no entanto. residência. a censura supõe a crítica. ante os censores ou censitores. à verdade. Distinguem-se também em que o objeto da crítica não é precisamente o de censurar. cuidar da polícia. observação. sátira. sobretudo. e pela utilidade das verdades que defendem ou anunciam. – Crítica é palavra grega kritiké (de krino ‘julgar. que era entre os romanos a declaração autêntica que os cidadãos faziam de seus nomes. mais moderada. 484 CENSURA. porém os meios de que se valem são muito diferentes.

de superior a inferior”. Quando se diz – ritual romano – já não se marca tão bem. – Recriminação é “a censura mais forte. Rito exprime mais que cerimônia. para que o admoestado não reincida nela”. – Observação é “o ato de advertir fazendo considerações sobre a falta cometida ou sobre o dever que se deixou de cumprir”. estão prescritas por quem tinha autoridade para estabelecer o rito. e não – católico da liturgia grega. o rito grego. ou com tanta evidência. para os diferentes atos de um culto. com o intuito de envergonhá-lo”. por isso se diz – o rito romano. ilustrada de exemplos e largas considerações. ou em termos menos positivos. de criticar malevolamente”. ou de acusar desabridamente”. ou melhor – a ação de objurgar. senão compiladas por escrito para sua execução. e mais reflexionando. E. ou pelo patriarca de alguma seita. – Remoque é “dito ou frase picante que mal dissimula a intenção de repreender. mostrando-lhe. Dizemos. É evidente que aplicamos rito quando queremos assinalar diferenças de liturgia ou de cerimônias entre cultos da mesma religião. esta recreia mais que instrui. Daqui vem que a eficácia da sátira é maior e sem efeitos mais perigosos. – Objurgatória é “a repreensão áspera. que F. O ritual romano. – Exprobração enuncia a ideia de “lançar em rosto as culpas. – Entre liturgia e rito há diferenças essenciais. Uma crítica necessita ser mui bem fundada para corrigir. não precisamente postas em prática. Signi- fica – “ato de lançar em rosto a alguém a falta cometida. essa diferença: o que . a acusação mais grave e violenta com que se rebate a outra censura ou acusação”. ou faltas. – Reproche é palavra francesa de que muito se abusa. – “o rito é a reunião de todas as cerimônias de um culto religioso. é católico do rito grego. – Ritual é. – Ponderação será “uma advertência ou observação mais disfarçada. – Admoestação é “o ato de fazer sentir o erro ou falta cometida. Uma sátira ligeira pode fazer esquecer o mérito mais sólido”. no entanto. liturgia é também “o modo como se regula a execução das cerimônias de um culto público”. prescreve as cerimônias com que se devem celebrar os ofícios divinos. sobre a coisa a respeito da qual se pondera. – Objurgação é “o ato. rito. – Se- gundo Roq. 485 CERIMÔNIA.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 263 Aquela instrui mais que recreia. – Ritual e rito confundem-se aqui. a censura ou acusação desabrida que se lança à face de alguém. Mas nesta frase. ou vícios de alguém”. ou para a falta em que se caiu mais por descuido que por desídia”. liturgia. com razões e argumentos. por exemplo. As cerimônias são o modo por que o rito se executa. e autorizadas pelo Sumo Pontífice. o conjunto de cerimônias que. Não dizemos – o rito romano – senão quando queremos diferençar as cerimônias do culto católico romano das de outro culto também católico mas não romano. ou em termos mais ou menos ásperos”. – Advertência é “o ato de chamar atenção para o mal que se fez. – Arguição é “o ato de acusar alguém de falta ou erro. – Comentário é “o exame ou mesmo a crítica. – Repreensão “é o ato de condenar o erro ou a falta cometida: o que é sempre feito com certa acrimônia. ritual. ou para estabelecer uma opinião. ou defeitos e vícios. mais como invetivando-o do que simplesmente fazendo-lhe acusações e censuras”. entre nós. por exemplo: “Vamos celebrar o ato com todo o rigor do ritual” – não seria admissível a palavra rito. A admoestação é sempre feita em termos brandos. sobre a conduta de alguém”. como cometeu tal erro ou falta”. pois. – Reprimenda = “admoestação formal e severa. a maneira de executá-lo são as cerimônias”. do que propriamente advertindo”.

– Incêndio é “grande fogo ou fogueira que se alastra e devora”. isca. é “o que serve para provocar. – Chama é. ou a certa altura delas”. é essa matéria acesa. centelha. É certo que se diz – o lume. o reclamo é o que desperta a atenção para o chamariz”. é mais correto dizer – o fogo. e fogo. e centelha dá ideia da luz produzida pela fagulha (e é como se se dissesse – partícula de chama). Só de reclamo é que se não poderia fazer. um cardume de peixes etc. pois que. que faz convergir”.: – “O chamariz é o que atrai o público a alguma parte. fogueira. pelo menos nem sempre. 487 CHAMARIZ. labareda. ou cintilam e dão luz. 488 CHAPADA. mas não se pode dizer – o fogo da razão. e figuradamente. chispa. – Chapada é “extensão de terras mais ou menos planas no alto de montanhas. particularmente. mas é porque nos olhos há estas duas propriedades. – Isca é “tudo que se prende ao anzol para atrair e enganar o peixe”. seduzir. Todavia. é “o nome que se dá ao pássaro que se deixa na gaiola de alçapão para chamar os outros”. negaça. tomadas essas palavras em sentido restrito. o chamariz tanto atrai o público a alguma parte. chispa e centelha designam todas “pequenas porções de fogo ou de matéria inflamada que se desprendem de fogo maior”. do que – o lume dos olhos. – Atrativo é termo genérico. deve notar-se com cuidado a diferença que há entre uma e outra. Dizemos – liturgia católica (e não – rito católico – salvo se quisermos distinguir entre rito católico e rito protestante). uma porção de crianças. Dizemos – o fogo da mocidade. e num sentido geral. lume. como pode atrair.264 Rocha Pombo parece que aproxima este termo ritual mais de liturgia que mesmo de rito. De engodo quase que se pode dizer outro tanto. uma récula de garotos. “a parte mais luminosa do fogo. que chama atenção. designando “tudo que atrai. pois. enganar”. entende-se. isto é – não no alto nem na encosta de montanhas”. planura. e comunicam o calor e ardor da paixão. – Flama tem a mesma significação (é a forma erudita do latim flamma. esplanada. ou – o fogo dos olhos. porque a palavra chama se tornou vulgar. o resultado do fogo: é o fogo aplicado à matéria combustível (e a esta circunscrito – como diz muito bem Bruns. por assim dizer. – Planura é quase o mesmo que planície: apenas sugere ideia de beleza de panoramas. e grande labareda ou brasido”. – Lume exprime propriamente o que dá luz e claridade. 486 CHAMA. no sentido translato. fagulha. um bando de aves.). No uso vulgar confundem-se estas palavras. – Labareda designa grande chama. – Negaça. ou para algures. fogo. in- dá ideia da rapidez com que a partícula ardente se desprende. reclamo. o engodo é a astúcia que o engana. segundo Lacerda. de que chama é a forma popular). – Chispa planície. – Fogueira é. como o lume. num sentido mais extenso. ou queimam. engodo. mais que o uso indicado. – Dos três primeiros vocábulos deste grupo diz Bruns. flama. Dizemos – o lume da razão. como o fogo. – Faísca. – Planalto é “grande planura elevada. Isso. o que causa calor. é “tudo que serve para engodar alguém”. que se eleva e ondeia em línguas de fogo. para um ponto. ou vasta planície . em ala. faísca. atrativo. e que se levanta em forma piramidal acima do corpo que arde. mas não se dirá – o lume da mocidade. fagulha. de situação aprazível. cêndio. planalto. enquanto que planície é “toda extensão de terras chãs e baixas. queima e abrasa. mas. porém é palavra preferível para o estilo culto.

e então quando a respeito desses se diz – enchente – não se quer dizer – cheia. ou nos ditos”. são eles contudo distintos quanto à etimologia. ou – “não faça de engraçado” – não caberia certamente o vocábulo gracioso. por isso. Quando as águas alteiam nos rios. de depósitos de água. também. no sentido translato: dilúvio de gente. estendem suas águas pelas veigas. O engraçado pode não ter graça nenhuma. chama-se a isto com propriedade cheia. 489 CHEIA.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 265 muito alta. conto faceto. aquele é o que mostra certa graça. – Gracioso é “o que mostra mais graça nos modos. isto é. fase em que alguma coisa se avoluma: daí a acepção particular de – cheia. espirituoso. e designam duas coisas que se não devem confundir. que se eleva gradualmente”. Moço folgazão. os fatos. inundação pode dizer-se também do mar. nem sempre a enchente é cheia. além da natural. na gentileza da figura. do francês plateau. pois ordinariamente é o imbecil que procura ser engraçado: o mesmo não se pode dizer – é até justo que o contrário se diga do gracioso. e esta. O moço engraçado pode fazer-se ridículo: o gracioso. este é gentil fazendo graças. inundação. como estilo faceto. não. – Enchente diz no sentido próprio – abundância. pois. pois graciosas só podem ser as pessoas de apurada cheia e inundação diz Roq. antes de tudo. – Engraçado é simplesmente “o que tem graça. Usa-se. – Folgazão é o que se diverte. isto é. o emprego de enchente por cheia. enchente. – Esplanada é “uma arca muito plana em volta ou à frente de algum edifício”. e. com mais ou menos espírito”. – Dilúvio é “grande inundação. Distingue-se ainda cheia de inundação em que aquela só se diz de rios ou ribeiras. espírito folgazão. Todos estes vocábulos se aplicam tanto às pessoas como às coisas. É muito comum. moço pilhérico. É também o contrário de vazante. Tanto se diz – pessoa chistosa. – De 490 CHISTOSO. e também: gênio. mais brincando ruidosamente que falando. Nesta frase. em que pode ser tomada. subtil e galante. dilúvio. ou o que emprega chiste ou graça leve. moço engraçado. Dizemos tanto – criatura faceta. e inundam os campos e prados vizinhos. dito engraçado. do que mesmo nas palavras. pelos contos ou façanhas imaginárias que inventa e que inculca. que parece alagar todo um continente”. etc. e esta. dilúvio de alegrias. Hoje usa-se muito. dilúvio de misérias. pilhérico. – Espirituoso é “o que tem espírito quando conversa (ou quando escreve). engraçado. crescimento. porque muito se parecem com as do Nilo. no entanto. gracioso. como inundação. Cheia tem só a significação reta. nos gestos. Diz-se – inundação de bárbaros. diz-se que há inundação. trocista. frase pilhérica. e diverte os outros. e sem necessidade. o que sabe dar uma nota fina e original sobre as coisas. e transbordam nalguns sítios que alagam. e até gestos. e não se pode dizer – cheia de bárbaros”. modos chistosos. Há rios que enchem e vazam em época certa. – Chistoso dizemos do “que nos distrai e faz rir com ditos picantes mas sem malignidade”. Às grandes cheias do Tejo deveria chamar-se inundações. Quando os rios saem da madre. faceto. como – palavras chistosas. folgazão. não conhecem limites. a figurada de – multidão excessiva. . – Faceto é “o que encerra. o que provoca riso por meio de gracejos”. – Pilhérico é “o que faz rir pelas pilhérias. por exemplo: “Não se faça engraçado”. e por extensão – toda superfície de terreno plano que não chega a ser planura. – Entre engraçado e gracioso há grande diferença: este último é o que tem graça fina e delicada de si mesmo. os homens”.: “Posto que no uso comum da língua se confundam estes dois vocábulos. que quer parecer espirituoso.

mas há de sugerir sempre a ideia de que pelo menos é pouco substancioso o que diz o parlante. por ter o vício de não guardar nenhum segredo. Confunde-se mui comumente chocalheiro com chocarreiro. Naquela acepção. que é mais parlapatão do que linguareiro e do que linguarudo. com muitos gestos e acionados. e torna-se importuno falando a torto e a direito”.” 36 Ou melhor – quase perfeitos. não – chocadeira artificial. 491 CHOCALHEIRO (chocarreiro). incubar. parlante. para rir à custa destes”. e empregamo-la para designar “o sujeito que fala muito embrulhando tudo”. Falando das doenças que se desenvolvem pouco a pouco antes de se declararem abertamente. significando indivíduo que simplesmente fala muito. e formado de prognóstico). isto é. confusão. pelo ar simpático. garabulho. e indispõe porque irrita. estardalhaço como um chocalho. desordem”. como se vê do próprio artigo transcrito. pois este vocábulo não se emprega hoje para designar simplesmente o indivíduo que fala muito. – Trocista é “o sujeito que faz pilhérias. brincadeiras com os outros.. Deve dizer-se – incubadora artificial. nem o indivíduo que fala da vida alheia: designa mais propriamente o sujeito que mais fanfarreia do que fala. ares trocistas. linguarei- ro (linguarudo). e agitando-se. – Gárrulo é “o que fala como se falasse sem pensar.: “Ainda que estes verbos sejam sinônimos perfeitos36. designando tanto um como o outro uma mesma operação. mas sim – “o indivíduo que fala da vida alheia”.. ou falar maldizendo. – O linguareiro é o que diz tudo que sabe. falador. que nos agradam até pelos gestos. pois só se diz chocarreiro daquele que diz chocarrices. É termo popular (o mesmo que pronóstico. O chocalheiro é leviano e indispõe porque importuna: o chocarreiro é petulante. parlador. como às vezes se ouve. e sempre sobre coisas fúteis. graçolas. que divulga quanta coisa lhe disseram. gárrulo. graçolas. Não assim o linguarudo. – Parlante dirá um pouco menos que parlador. que significa “embrulhada. chalaças grosseiras e próprias de gente baixa. não guarda reserva em coisa alguma.. Mas o linguareiro não tem malícia propriamente: fala por ser leviano. movendo-se. é – como se diz em linguagem popular – o que “dá de língua” a propósito de tudo. como fazem os passarinhos e as crianças”. que é termo bem diferente. isto é.. pernóstico. – Sobre estes dois verbos escreve Bruns. muito amáveis. e mesmo pela discrição dos gracejos. e finamente galantes. Garabulho (ou garabulha) é palavra importada do italiano garbuglio. – Pernóstico é “o sujeito pretensioso no falar. deve notar-se que chocar é não só relativo à transformação que se vai operando no ovo. – Chocalheiro é “o que fala muito e indiscretamente. Também se diz – gênio trocista. mas também à causa dessa transformação. presumindo de tudo entender e falar muito bem”.266 Rocha Pombo educação. que é mais falador que linguareiro. que fala muito. fazendo barulho. por ser amigo de dizer novidades. – Parlador já não é também o indivíduo que só fala muito. – Incubar refere-se apenas à operação ou transformação. 492 CHOCAR. devemos empregar exclusivamente o verbo incubar. falante. . emprega-se a forma falante que não encerra de modo algum a ideia de falar por maldade. sem atender à causa. O linguarudo fala mais ainda porque tem o vício de intrigar e maldizer que pelo desejo de falar. e que é o calor que ao ovo comunica a ave que sobre ele se mantém. – Com o linguarudo pode confundir-se falador.

soluçar. prantear. fazem contravapor os respetivos maquinistas. ou em geral – coisa de que essa pessoa se ressinta”. – Contraste é a oposição que existe entre duas coisas: não inclui ideia de choque. ge- contraste. Pode haver encontro sem haver choque. O fumo. – Lamentar é queixar-se com pranto e mostras de dor. Na palavra embate predomina a ideia de violência e de impetuosidade. ofender. pranteia-se. vêm embater contra a costa. 494 CHOQUE. 495 CHORAR. conflito. ou verter lágrimas chama-se chorar” – diz Roq. O pranto é mais forte e intenso que o choro. etc. na palavra choque apenas a de encontro (que não é senão o fato ou o ato de chegar uma coisa diante de outra)37. ou diante da qual falamos ou agimos”. – O verbo 267 chocar sugere a ideia. têm um embate terrível. O navio que embate (ou bate) contra um rochedo abre-se e afunda: o mal não seria tão grande se tivesse havido somente choque. mas ideias que se embatem. o choque pode ser ou não violento. encontro. Ideias em conflito. que o vento impele.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 493 CHOCAR. – do castelhano llorar. pois esta palavra dá ideia do abalo que o encontro produz.) – Conflito é mais embate. e também exprime canto lúgubre em que se chora alguma grande calamidade. fazem chorar os olhos. os ácidos. com lamentos – e talvez soluços. ou mesmo um ato que se ponha em contraste com os sentimentos da pessoa a quem nos dirigimos. se. – Ofender é aqui tomado na acepção especial de “fazer a alguém coisa que o moleste. que é excessiva a suscetibilidade de quem se julga melindrado. não se entende que sejam ideias apenas contrárias ou opostas. É termo genérico. porque neste derramam-se lágrimas com lamentos e soluços. – Melindrar é “ofender os melindres de alguém. O embate é violento. caminhando uma para outra. – Quando às lágrimas se juntam vozes queixosas. carpir. na maioria dos casos. como se diz no artigo. ou mesmo recuando ambos depois de se encontrarem. que lhe é característica. que o prejudique moralmente. desfazem-se em espuma. Aquele que melindra nem sempre ofende propriamente. um levando o outro de impelida. senão de simples oposição. Jeremias lamentou poeticamente . embate. mas não de terríveis efeitos. mer. dizemos que tiveram choque. ou mesmo do que choque. do abalo que pode causar uma frase nossa. elevam-se a grande altura. dá-se entre as máquinas um choque mais ou menos violento. que o magoe. ou um deles recuando ao encontrar-se com o outro. Chora-se de alegria não menos que de tristeza. Choram também as videiras e os ramos quando se cortam. por exemplo. da “impressão rude que produz uma ofensa. lagrimar. lamentar. (Segundo Bruns. ao avistar-se. como as que por alguma circunstância se destilam das glândulas lacrimais. Duas locomotivas lançadas a todo vapor em uma mesma via. pois que melindrar supõe. De duas pessoas que caminhem apressadamente e que esbarrem uma com a outra ao dobrar de uma esquina. e 37 Por isso mesmo é que é preciso admitir que choque não é simplesmente encontro. nem mesmo de encontro. – “Ao derramar. luta propriamente do que simples encontro. quer dizer o que esse alguém possui de mais delicado e sensível na sua natureza moral”. – São os dois primeiros vocábulos deste grupo os substantivos com que se designa o encontro mais ou menos violento de dois corpos que se embatem. se caminhavam devagar não terão mais que encontro. do latim fleo. pois não só indica as lágrimas que provêm de dor e aflição. As ondas alterosas. nem de luta. melindrar.

– Lagrimar é “verter lágrimas”. Havia antigamente mulheres a quem se pagava para carpir-se sobre defuntos. ch’io [rodo. fazendo mostras de dor e aflição. Thomé. mas também oferecer grandes meios de defesa. e para exprimir esta ação de profunda dor. na acepção em que é preciso tomá-lo neste grupo. praça. Os semeados campos alagaram Com lagrimas correndo piedosas. na ocasião de luto. este vocábulo especialmente às ações que demonstram dor e mágoa. Julgam muitos que não passe este verbo de simples variante de la- grimejar (ou lacrimejar). não só o estar dentro do recinto da povoação. Che frutti infamia al traditor. e a esta espécie de poema elegíaco se deu com razão o nome de lamentações. Se o inimigo se apoderar da cidade. veio a significar quase o mesmo que lamentar. nem – chora. Refere-se. Parlare e lagrimar’ vedrai insieme. ou pelo menos desgrenhar os cabelos. os seus habitantes podem continuar a defender-se na cidadela. den seme. III. – Castelo designa a . – Segundo Bruns. – Fortaleza é a construção que se eleva em qualquer ponto para defender uma cidade ou um passo.268 Rocha Pombo as desgraças da ingrata Jerusalém. gemendo e pranteando”. como estão dizendo os seguintes lugares: Os altos promontorios o choraram. E por memoria eterna. – cidadela é a fortaleza que domina a cidade dentro da qual ela está edificada. como se a alma abalada clamasse em desespero para fora”. exprimir aflição. por meio de voz inarticulada e lamentosa”. como a que é mediana. XXXIII. Do uso de carpir-se sobre os defuntos se faz menção na Crônica de d. por extensão. – Soluçar é “prantear e gemer com aflição. O forte pequeno é um fortim. e desfigurar as faces. traduzir este lagrimare pelo nosso chorar não seria menos do que diminuir deploravelmente aquela grande figura. III. 496 CIDADELA. É condição da cidadela. 3) Ora. Mais te choram as almas que vestindo Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. É com este sentido que empregou Dante o seu lagrimare num daqueles versos que pôs na boca de Ugolino: Ma se le mie parole esser. (Lus. De todas estas palavras. pois. fortaleza. 118) – Gemer é “dar sinal de grande dor. cas- telo. (Ibid. – Costumavam os antigos arrancar. mas. o Gange e o Indo. (Inf. em fonte pura As lagrimas choradas transformaram. X. a mais poética. (Ib. é de uma força e intensidade que o tornam indispensável na língua. Na fortaleza há sempre guarnição fixa. 84) As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram. é o verbo chorar. E dos rios as aguas saudosas. Chorou-te toda a terra que pisaste. Os grandes prantos são sempre acompanhados de gemidos. forte (fortim). cidade fortificada. o qual. e acompanhar os enterros. e que em lugar das outras muitas vezes se emprega. para significar “verter lágrimas como por efeito de imensa dor. e a que se chamava carpideiras. podendo forte designar indiferentemente a que é grande. pois há como que aflição monstruosa no embate das ondas contra a praia. Por isso dizemos figuradamente que – o mar soluça e não – pranteia. – Forte e fortaleza confundem-se muito frequentemente. mas fortaleza nunca se deve dizer de uma fortificação pequena. de que o nosso poeta fez mui frequente uso. João I. usavam do verbo carpir. 135) Choraram-te. e carpir-se.

o forte da Graça é uma fortaleza”. – Cigano (de zíngaro. melhor do que cifra. . As fortalezas são como umas cidadelas destinadas a conservar trânsitos importantes. e não tem o sentido pejorativo que se dá hoje comumente à palavra cigano. ou que não exerce as suas funções ou misteres num só ponto certo”. zero..). diz Roq. a que também se chama praça. contém população mais ou menos numerosa. E. ou com outros fins de mais ou menos importância. dá ideia de simples sinal (com que nos números se marcarão as casas onde não houver algarismos representativos). Entende-se por cidade fortificada. A praça de Elvas é uma cidade fortificada. Isso quer dizer que zero. e culpando disso os outros homens e a sociedade. a enganar a quantos pode. que a defendem contra o inimigo. e não – abaixo de cifra. ou zingano) é “o indivíduo que vive errante. em regra de maus costumes. – Comparando cidade fortificada e fortaleza. sendo o primeiro o nome vulgar do algarismo que em matemática se denomina zero. e que. fra e zero são sinônimos perfeitos. 497 CIFRA. – Valdevino (ou valdevinos) é “o sujeito desocupado. – Boêmio é propriamente o nome que os franceses dão ao cigano. que ci- receita atingiu ou excedeu a enorme cifra de tanto (e não – ao enorme zero. a vender bugigangas. como os ciganos ou boêmios. – Praça é a povoação fortificada em que há guarnição permanente. ou o literato que só vive pelo espírito e pouco se importa de prover as próprias nec