Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva

E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Academ i a Bras i l ei r a de Letra s

Dicionário de Sinônimos da L í n g ua Po rt u g u e s a

Ac a d e m i a B r a s i l e i r a d e L et r a s

Rocha Pombo

Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva
E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa
2.a Edição

Rio de Janeiro 2011

C O L E Ç Ã O A N T Ô N I O D E M O R A I S S I LV A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS Diretoria de 2011 Presidente: Marcos Vinicios Vilaça Secretária-Geral: Ana Maria Machado Primeiro-Secretário: Domício Proença Filho Segundo-Secretário: Murilo Melo Filho Tesoureiro: Geraldo Holanda Cavalcanti C O M I S S Ã O D E L E X I C O G R A F I A DA A B L Eduardo Portella Evanildo Bechara Alfredo Bosi Preparação Ana Laura Mello Berner Revisão Vania Maria da Cunha Martins Santos Denise Teixeira Viana Paulo Teixeira Pinto Filho João Luiz Lisboa Pacheco Sandra Pássaro Produção editorial Monique Mendes Editoração eletrônica Estúdio Castellani Projeto gráfico Victor Burton

Catalogação na fonte: Biblioteca da Academia Brasileira de Letras P784 Pombo, Rocha, 1857-1933. Dicionário de sinônimos da língua portuguesa / Rocha Pombo ; [apresentação, Evanildo Bechara]. – 2. ed. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2011. 526 p. ; 23 cm. – (Coleção Antônio de Morais Silva ; v. 10) ISBN 978-85-7440-184-3 1. Língua portuguesa. I. Bechara, Evanildo, 1928-. II. Título. III. Série. CDD 469

Apresentação
E va ni l d o Becha r a

A

trajetória cultural de Rocha Pombo é o fiel espelho de um permanente bravo lutador que, vencendo as precariedades do torrão natal, galga honroso lugar no quadro dos intelectuais brasileiros. De nome completo José Francisco da Rocha Pombo, nasceu o autor deste Dicionário de Sinônimos em Morretes, na província do Paraná, em 4 de dezembro de 1857, com evidentes dotes literários, que cedo se manifestaram; mas foi para a carreira política que encaminhou seus primeiros passos, alcançando, aos vintes anos, lugar de destaque na Assembleia Provincial. Entretanto, se viu impotente para inverter suas posições diante das poderosas tramas parlamentares de uma política quase sempre afastada do interesse público. Salvou-o a alegria de ver publicado nesse mesmo ano seu primeiro estudo sobre instrução pública, na revista fluminense A escola, com transcrição na Revista del Plata, de Buenos Aires. Encontrara na atividade cultural o campo em que se iria destacar, mas um campo que pouco lhe dava para garantir com dignidade seu sustento e da sua família. Os obstáculos não o tiraram da trilha iniciada; em Curitiba, viu em 1888 publicado seu romance A honra do barão; em 1882, Dadá, a boa filha e, em 1888, Petrucelo. Também não lhe faltava o estro para o poemeto Guaíra, saído em 1886. Desiludido com os parcos recursos que seu torrão natal lhe oferecia, deixou Curitiba em 1897, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde poderia ter mais recompensada sua maturidade intelectual. Realmente na Capital, apesar de não diminuídas suas horas de trabalho intenso, encontrou ambiente mais propício às produções que vieram inúmeras. Os livros didáticos na área da História representam sua maior atividade, como Nossa Pátria, para crianças, que chegou a alcançar mais de sessenta edições. Sua História do Brasil, em dez volumes, acabada em 1917, consumiu-lhe doze anos de trabalho. As muitas horas de trabalho não lhe permitiam, para a confecção de seus estudos, a pesquisa atenta, a consulta aos arquivos para a composição das obras históricas. Mas o zelo e a honestidade profissional o faziam abastecer-se nas fontes mais autorizadas, e delas extrair o material que aproveitava. Um trabalhador operoso na mesma área de historiografia, Ro-

VIII

Rocha Pombo

dolfo Garcia, que, em 1935, sucedeu a Rocha Pombo na Cadeira 39 da ABL, assim a ele se referiu, no discurso de posse: “Rocha Pombo fez o que foi possível fazer (...). Entretanto, não há como desconhecer o extraordinário mérito da obra de Rocha Pombo, sua utilidade provada, os serviços prestados aos estudantes, que o estimam sobre todas as congêneres.” Seus pendores literários desde cedo aflorados nas tentativas de ficção acima lembrados, iriam estimulá-lo a compor uma obra sobre língua portuguesa. Autor de compêndios didáticos, cedo deve ter chegado à conclusão de que à bibliografia escolar, bem como ao escritor novel, faltava um bom, desenvolvido e atualizado dicionário de sinônimos, uma vez que, à época, o mercado só contava com produções portuguesas mais antigas, todas datadas do século XIX. Armou-se dessas fontes, algumas vezes transcrevendo-as literalmente, e das mais importantes francesas e espanholas no assunto, e partiu para elaboração deste seu, preocupando-se com mais extensão dos verbetes, e mostrando, quase sempre com muita propriedade, as diferentes franjas semânticas das palavras que integram a série sinonímica, evidenciando que não são, por isso, intercambiáveis. Saído em 1914 pela prestimosa Francisco Alves, vem agora esta 2.a edição editada pela sua Academia, para a qual fora eleito em março de 1933, embora nela não tivesse tomado posse por motivo de seu repentino falecimento, em junho do mesmo ano. Passado quase um século do aparecimento deste Dicionário de Sinônimos, de Rocha Pombo, pode ainda embrear-se com os melhores saídos em nossos dias.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa

ADVERTÊNCIA

Autorizo os Srs. Francisco Alves & Cia., cedendo à condição que me impuseram, a adotar na impressão deste trabalho a grafia que lhes convier. Rio, 1914
ROCHA POMBO

vinha com frequência a Lisboa. e a tal ponto que. Dizem muitos indiferentemente: “apto a dirigir”. Ninguém dirá que têm o mesmo valor estas expressões: – “Vou a Lisboa”. encontrou-me ele pela manhã. no segundo caso. João VI. “ação. Exemplos: “Ele se esforça por instruir-nos. a fim. “matamos a tiro”. – Confundem-se muito frequentemente. e – “virei para o Rio em junho”. assinalam: para. ou longa estada. “Ir para algures”. ou “o objeto imediato da ação”. a fim de que nos tornemos capazes de servir a pátria”.. com os verbos “ir”. pelo menos entre aqueles que se mostram mais fiéis ao espírito da língua. “pronto a ouvi-lo”. ou “vir a alguma parte” “indica a ideia de pouca demora”. Este exemplo de Roquete expõe nitidamente a diferença entre as duas preposições: “ElRei d. o que. “trouxe uma flor para a menina”. ou o anfitrião ia para a mesa. foi para o Brazil”. “fugiram a toda pressa”. São raras as relações lógicas que se não possam marcar pela preposição a: “andamos a cavalo”. marcam ainda relação de dativo. e alguns outros que designam movimento. “virei ao Rio em junho”. Essa diferença fica bem clara nestas frases: “dei um livro a meu filho”. e convidou-me para jantar com ele domingo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 1 A.. no verão ia para o Alfeite. e nunca mais houve novas dele. – Estas preposições ex- primem relação de fim para que. “trazer”. quase inteiramente despojada do seu valor de origem. pois. e “convidou-me para jantar”. além disso. e emprega-se “quando se supõe somente possibilidade ou probabilidade de lograr o que se intenta”. como a prep. “Foi para Viena como secretário de embaixada”. por “explica mais diretamente a intenção. no entanto. segundo Bruns. “morre à míngua”. ou o propósito de ir ou vir e voltar logo. “comemos a enjoar”. de. propriamente a ideia de regresso. “levar”. não exclui. 2 A.. está ela hoje. no tempo das caçadas ia para Salvaterra ou Vila Viçosa: e quando os franceses vieram a Portugal. portanto. nesta acepção. Com 3 toda razão diz Aulete que a preposição a é de todas a mais vaga. quando residia em Queluz. A e para. – Como preposições de fim para que. nem sempre. “Ir a”. “lançou à terra”. imediata”. “vir”. ia muitas vezes a Mafra. “encaminhar-se”. etc. ou “pronto para ouvi-lo”. segundo observa Lafaye. no entender de Roq. Há entre “convidar para” e . “pescamos à linha”. Não nos parece que seja assim. para. estava eu à vista da mesa servida. e há entre elas uma diferença análoga à que se lhes nota nos casos em que marcam relação de locativo. para que sejamos cidadãos dignos. como acrescenta Roquete. – As duas preposições empregam-se. para (exprimindo relação locativa). E ainda este de Vieira: “Porque o pai fez uma viagem para as conquistas. o fim (ou o desejo) com que se executa a ação”. por. “dá a entender intenção de grande” (ou pelo menos de alguma) “demora. O próprio Roquete escreve: “serve (ou servem) a formar”. as nossas notas às duas acepções em que parece melhor fixado o valor da preposição a comparativamente com os seus sinônimos. “bateram-se à espada”. ou “apto para dirigir”. A distinção entre as duas formas revela-se muito clara nestas frases: “convidou-me a jantar”. “dirigir-se”. tomaste por devoção vir os sábados à Penha de França”. e às vezes para sempre”. No primeiro caso. – Restringiremos.. as preposições a e para. em vez de “para formar”. “vem a galope”. e convidou-me a jantar. e – “vou para Lisboa”. a fim marca intuito menos imediato e mais preciso. Entende Lacerda que “ainda os mais corretos escritores usam indistintamente das preposições a e para” quando querem exprimir relação de locativo.

aclive. mas considerada de baixo para cima.. e vertente adita à significação de encosta a ideia de origem de rio. e por sugerir alguma coisa de fecundidade. mais fácil de subir. como as fraldas de uma camisa. ou de uma povoação. meu amigo. lados. en- rindo uma ideia de amplitude. ladeira. Dizemos: “a ladeira da Glória”. orla é mais o recorte da aba. ser considerada como sinônimo da preposição para: é de. diferençando-se a segunda da primeira pela noção acessória de contorno (e ambas dando ideia de convivência). Esta última locução (que é mais geral – diz Laf. Bairros são secções de uma cidade. o seu alvitre de nada me serve. bairros. – Encosta é toda a parte inclinada de um monte. ou lados designam apenas as partes opostas da montanha (ou de qualquer corpo) sem ideia alguma acessória. – Distritos são secções maiores que compreendem vários bairros. 3 ABA. – Sopé e orla designam a parte do monte que assenta no plano horizontal ocupado por ele: sopé é a porção do dito plano onde a montanha começa. ou da parte onde a montanha começa a destacar-se do plano sobre que assenta. circunvizinhanças. subúrbios. ou de superfície dobrada. – Rampa e ladeira exprimem igualmente plano inclinado. – Lado. para um fim que se tinha em vista presentemente. enquanto que a rampa nem sempre é acessível. e neste caso. à ideia de extremidade e inclinação. declive. em certos casos. distritos. e aclive é também essa inclinação. cercanias são as paragens em torno de um lugar. com esta diferença: a ladeira (lado suave de colina ou monte) é menos áspera. flanco. mas suge- nias. e distinguem-se principalmente pela ideia. contiguidades. lado. arrabaldes. a primeira nega que ele sirva no momento. – Todas estas palavras designam situações em torno de um ponto. e sugerem ideia de altitude. o sentido de forma irregular. ou de um lugar. e o primeiro termo ainda se distingue do segundo por ser mais expressivo e mais belo. proximidades.4 Rocha Pombo “convidar a” a mesma diferença que explica Lafaye entre “prier à diner” e “prier de diner”. – Declive (ou declívio) é a inclinação da encosta. pois pode ser tão íngreme que se torne de difícil ou mesmo impossível ascensão. base. rampa. orla. 4 ABAS. ilharga. falda. “a rampa do Pão de Açúcar”. comarcas. – Aba é a parte mais baixa e prolongada de um cone. – Todas estas palavras designam “refegos. redondeza.. de um monte.) exprime que o objeto de que se trata não tem serventia alguma. adjacências. “não serve para nada”. de um chapéu. arredores. – Há ainda em português outra preposição que deve. com alguns verbos como “servir”. de maior ou menor afastamento desse ponto. confins. “O meu rebenque – diz o major – não serve para nada. etc. vertente. assim como comarcas são divisões mais extensas que distritos. imediações. que marcam. inclinação. e mais afastadas que as circunvizinhanças. contornos. parte pendente de alguma coisa”. proximidades são pontos das cercanias. de “vertidura de águas pluviais”. ou de um município. que lhe ficam imediatamente em volta. Base é toda a porção do plano horizontal que o monte abrange. do alto do monte para baixo. cerca- costa. – Flanco e ilharga designam também os lados do monte. “valer”: “não serve de nada”. vizinhanças e circunvizinhanças são os lugares que se seguem às imediações. pois que não resolve o embaraço em que me vejo”. – Arrabaldes designa a . sopé. – Imediações são partes da cidade. falda (ou fralda) é também (na acepção em que a tomamos aqui) a parte inferior do monte: difere de aba porque acrescenta.

contiguidades e adjacências. – Sufoca-se uma rebelião no seu começo. e confins são os limites em relação aos de outro.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 5 porção de uma vila ou cidade que lhe fica fora dos muros. vencer é sair vitorioso de um combate. “nas cercanias de Olinda lutou-se toda a tarde”. sobrepujar é superar depois de esforço e luta. humilhando o vencido. – Diremos com propriedade: “o bairro de Botafogo”. suplantar.). subjugar é submeter a jugo. reprimir. 5 ABAFAR. jugular é reprimir. – Contornos designa a totalidade dos arredores (de uma cidade ou de um lugar). sufocar. de um embaraço. contidos. não deixar que apareça ou que se desenvolva. impedir que se manifeste. dominar. “em todo o contorno da vila não se encontrou um morador pobre”. arredores são arrabaldes mais distantes. – Contém-se um ímpeto de cólera. . de um transe. ou para além do circuito urbano. (Herc. as porções habitadas que se seguem às abas. é preciso que se contenha o instinto das multidões..). reprimir é conter com mais energia e decisão. submeter. “acudiram-lhes alguns dos nossos. “nas vastas comarcas daquela província há distritos riquíssimos em minerais”. tudo que fica dentro dos limites do círculo visual de que se supõe centro à cidade. suplantar (etimologicamente “meter debaixo dos pés”) é vencer com orgulho. “não gosta de ponto algum das circunvizinhanças do Castelo”. – Reprimem-se movimentos subversivos da ordem pública. “cortar a cabeça”). – Abafar é impedir que respire. porém. como estrangulando (do latim jugulare “degolar”. superar. superar é vencer e ficar superior a alguém ou alguma coisa. é “matar por asfixia”. dentro do seu perímetro”. conter. debelar. – Abas são “os pontos extremos de uma povoação. sobrelevar. “aqueles jardins e pomares já eram adjacências e quase contiguidades de Jerusalém”. “quando anoiteceu estávamos já nas proximidades da fazenda”. domar. refrear. ou tendo poucas habitações. dominar é submeter com império. Elys. “morar em Pedrouços é morar nas abas de Lisboa” (Bruns. que cresça. que reprimiram os inimigos”. “a Tijuca é um dos mais belos arrabaldes do Rio”. debelar é reprimir à custa de guerra. e quase sempre não povoados. dá ideia da inferioridade moral do que é domado. como senhor. sofrear. “mudou-se mais para as imediações do centro urbano”. ou vencer em luta. sujeitar é reduzir à obediência.. “tem casa nas vizinhanças da praça ou do bairro”. tome forças. sufocar é impedir de viver privando da respiração. ou o poder de”. (Fil. sem grande esforço. jugular. sujeitar. sobrepujar. pôr sob a autoridade. que opere. – “Debelaram afinal as nossas forças aquele que foi o mais grave levante dos últimos tempos”. nem luta material. – Abafa-se uma conspiração antes que venha para a rua: abafa-se o pranto para que ninguém o veja. que vingue. e chegou até os confins do país inimigo”. ou um ponto dado. refrear é conter com esforço e trabalho. Cruz há algumas fazendas”. até com força e violência. domar é submeter.). vencer com escarmento. sendo o segundo termo mais vago. vencer. subjugar. reprime-se a custo uma explosão de raiva ou de furor. que se mova. não se pode conter as lágrimas diante de um infortúnio. “a epidemia alastrou-se pela redondeza do nosso acampamento. “O homem que vê o que eu vi e abafa no peito o grito da indignação”. o mais aprazível dos nossos subúrbios”. “nos arredores de S. sobrelevar é “pôr-se acima de”.. e mesmo tratando-se de homens. submeter é “reduzir à dependência. a império.. subjugar pela força bruta. – Redondeza ou redondezas. “o Méier. conter é moderar. sofrear é conter com prudência e cuidado. – Por subúrbios entende-se toda parte habitada que fica sob a jurisdição da cidade.

nem o gênio é capaz de suplantar a altivez de uma consciência”.” 7 ABAFAR. es- brir. Dizemos tapar o menino no berço. para atravessar a praça”. “Ninguém se deve expor às friagens de junho se não bem agasalhado”. e não só fugindo. sobrepujou afinal todas as traições. – “Abrigaram-se em nossa casa contra a tormenta”. segundo Bruns. – Atabafar. mas defendendo-se. abafa-se a conder. “. expanda ou desordene alguma coisa”.. por fraqueza que se explica. meu amigo. o tutor os tutelados. – “O senhor não conseguirá suplantar-nos com todo o seu poder”. diante. ou ainda “furtar alguma coisa à vista de outrem. – Abrigar quer dizer “amparar contra o mau tempo. pois – que eu saiba – não tem cura quando sobrevém na sua idade”. ou em redor”. com a sua habilidade e energia dominou a revolta”. “. – Abafar aqui significa “não deixar seguir os trâmites usuais”. Como diz Bruns.. – Resguardar é também amparar “contra o tempo ou contra alguma coisa. reter. acobertar. – “Subjugamos as tribos menos dispostas ao trato dos estrangeiros”. ou que se torne pública a culpa de alguém”. – “Agasalhe-se bem.. que andava a superar as misérias daquele meio. e hoje é incontestavelmente a figura que sobreleva todas as outras ali”. com cuidado”. “abafemos o triste incidente para que ninguém mais o explore”. – “Em poucos dias o general submeteu toda a província”. – “Aquele homem dominou os outros tão completamente que ninguém mais pôde protestar”. “à vista do vendaval iminente fomos abrigar-nos na enseada dos Reis”. subtrair. sonegar. ou impedir que pela evaporação esfrie um corpo. – “Resguarde-se do mal.. – Cobrir é “ocultar ou resguardar pondo alguma coisa em cima. os sicários. tapar. “Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio” (Herc). – Domam-se as feras. por meio de roupas ou cobertas”. atabafar. ou não fazer conhecida uma coisa que nos interessa a nós ou a alguém. – “Ele.” Oculta-se uma verdade para não comprometer inutilmente a honra . tapar a cara com as mãos. – “É preciso cobrir bem o menino. – “Com aquele golpe certeiro conseguiu jugular a sedição”.. – Abafa-se o doente para facilitar-lhe a transpiração. é “abafar com precipitação e energia”. como em: “abafou o processo. – O pai sujeita os filhos. mas evitando-lhe a ação. de significação vaga quando se emprega fora do sentido reto de cobrir. – “é um termo genérico. “encobre-se a falta alheia tornando-nos até certo ponto cúmplice do delinquente”..6 Rocha Pom bo “os Jesuítas tiveram aqui a grande missão de andar debelando paixões e barbarias”. as culpas dos filhos”.. – Agasalhar é ainda “defender-se contra o tempo. tapar o doente.. encobrir.. – Encobrir é “evitar que se veja ou se conheça algum intento. fugindo ou fazendo dele fugir para um abrigo”. abafam-se as chamas para que se não propaguem. agasalhar. confinando ambiente respirável de modo a provocar suor ou calor artificial.. – Ocultar é “não dar testemunho do que se viu. – Tapar – diz Bruns. ocultar. resguardar. abrigar.. “Conviria que cobrisse a cabeça com a manta”. – “O homem que não refreia os seus apetites é incapaz de refrear os seus ódios”.. como neste exemplo: “Chegou a abrir-se a sessão. a formação da culpa”.. e evitar que se descubra”. “Encobrem algumas mais. – Neste grupo. ou que se agite. mas os espertos atabafaram tudo antes que nós chegássemos”. receptar. os bárbaros. “cumpre que cada um de nós vença por sua parte os embaraços que sobrevierem”. acoitar. co- comida para que não esfrie. abafar significa “tolher a respiração. meu filho. – “A autoridade venceu naquele conflito desigual”. 6 ABAFAR.

portanto. – Pântano é “lugar coberto de camada de lama pouco profunda”.. lameiro extenso. charco. asilo.” “O porão onde mora é uma horrível abafeira”. coberto de vegetação”. “os facínoras subtraíram-se às diligências da polícia”. permanece. lodeiro. ou a si próprio... (Aul. distinguindo-se deste em ser terreno baixo que apenas os enxurros banham acidentalmente. de chavascal”.mas eu não sou homem que oculte a baixeza da minha esfera” (Garrett).” É termo brasileiro. – Lamaçal é pântano mais extenso. de vasa. segundo Bruns.. ou aquela cidade é o atascadeiro dos moços”. Encobre-se. “O desgraçado escondeu tão mal o furto. mercadorias sobre que se tinha de pagar imposto. é “o estado do lugar não arejado. com a diferença de que atascadeiro é mais profundo. terra onde há lama.. – Paul é “alagoa formada por enchente”. chafurda. ou em depressões de terreno”. de água lodacenta. – Enxurdeiro (ou enxurdeira) é lodaçal revolvido. banhado. tremedal. “Para libertá-los do infortúnio e subtraí-los à vingança”.. (Mont’Alv. – Reter é “conservar indevidamente em seu poder o que lhe não pertence”. – Sonegar é termo forense e indica propriamente “esconder e negar sob juramento”. mas não tanto e tão extenso como no lodaçal. lenteiro. – Pantanal é aumentativo de pântano. terreno flácido e lodoso. lagoeiro. furtar alguma coisa ou alguém ardilosamente às vistas.). – Lameiral está nas mesmas condições: e indica série de lameiros. onde se chafurdam animais. lameirão. mas em caso algum se esconderá para que não suponham que se quer subtrair à ação da justiça”.. chafurdei- ro. lodaçal. onde a água se acumula. e se estagna e abafa. atascadeiro.. pantanoso. “ocultar contra a lei”. é “terreno balofo. Só se acoita a um criminoso ou indivíduo que tal se julga. “Aquela casa.. e que é vestido de vegetação rasteira. – Abafeira. etc. mas não se acoberta um defeito físico: acoberta-se por piedade um foragido. – Acobertar é “proteger um culpado. – Todos estes vocábulos sugerem ideia de água suja e estagnada. sendo este verbo apenas de sentido mais vago e geral. – Subtrair significa “tirar com astúcia ou fraude. “aquele moço fugiu para subtrair-se ao serviço militar”. brejo. – Banhado é “quase charco. disfarçando-se para não ser visto ou descoberto”. pantanal.. “O advogado subtraiu uma folha dos autos”. – Lodeiro (ou lodeira) é lugar “onde há muito lodo”. lamaçal. – Tremedal é lamaçal vasto e profundo. – Brejo. – Acoitar é “dar coito. 8 ABAFEIRA. atoleiro. Sonegam-se bens a inventário. É quase encobrir. pântano. “.). como os chiqueiros. enxurdeiro. “A nuvem encobre o sol”. – Lameirão (ou lamarão) é palavra de uso vulgar: aumentativo de lameiro. Diremos: ele se ocultou em casa (deixou de sair. segundo Bruns. – Lagoeiro é termo popular. que parecia nem ter intenção de ocultá-lo”. – Lodaçal é alagoa de lodo. mas sem a intenção de encobrir-lhe o crime.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 7 de alguém. – Receptar é “receber. e quase que só se emprega em sentido figurado. paul. e designa “porção de águas de chuva (ou de despejo) que fica temporariamente depositada em sítios baixos. – Charco é “terreno alagadiço. sem vegetação espontânea”. não “acoberta o sol”. É usado quase exclusivamente nesta acepção. homizio”: é. lameiral. esconder o furto ou roubo que outrem fez”. lameiro.. ou “grande lameiro” . embora menos que no lamaçal.. No Brasil é “terreno úmido. “terra encharcada devido a aluviões”. – Esconder é ocultar com mais cuidado e interesse. – Lameiro (ou lameira) é “terra baixa e pantanosa”. inculto. guardar. à ação ou poder de alguém”. – Atascadeiro ou (atasqueiro) diz o mesmo que atoleiro. “O caboclo mete a cabeça no brejo e desaparece”. de aparecer.

é ainda conexo de arriar. difamar.). que à primeira vista só parecem diferir na preposição que prefixa o primeiro. Excluindo a ideia acessória de alívio. arriar. – Abaixar é. descer. – Abaixar e baixar parecem ser a mesma palavra e com perfeita identidade de significação. portanto. – Abater acrescenta à ação de abaixar a ideia de força ou violência. – Todos estes verbos exprimem intuito. e significa. de humilhação. infamar. de mais longa enunciação que baixar. Raciocinemos (no entanto) um momento. “Como é que ele se rebaixa até aquele papel ignominioso?” “O chefe o tem rebaixado ao ponto de convertê-lo em besta miserável”. Basta. nesses exemplos: não é tangível a impropriedade das frases? – “Dizemos ainda: baixou o câmbio”. abaixa-se a cortina por causa do sol. “Tenta- . A propósito escreve Bruns. desonrar. que se examinem algumas formas para se ver que não é assim. ou lentar) é terreno úmido. desacreditar. com esta diferença: pode exprimir também (arriar) a ideia de alívio. por que diremos abaixar. e figuradamente – casas imundas. – Lenteiro (como diz a forma de que se derivou – lento. “Os inimigos abateram as armas. descer. depreciar. degradar. Abaixa-se a bandeira a meio pau (desce-se do alto para o meio da haste). rebaixar.: “Não se taxe de nimiedade o estabelecer sinonímia entre estes dois vocábulos. no entanto. Arria-se a carga se é pesada. preposição que mais parece um a eufônico do que partícula significativa. desabonar. envergonhar. o verdadeiro sinônimo de arriar. neste sentido. Não se desce sem haver subido. Tratemos de substituir baixar por abaixar e vice-versa. abater. e chafurdeiro. apenas a saudamos com um aceno de cabeça? Não gritaremos. Abate-se o orgulho de alguém. abjeto. “Os vícios nos abaixam. abater. – Chafurda. precisamente quando a advertência exige brevidade? Não é: – “Baixa os olhos!” que dizemos a quem queremos humilhar? Não é: – “Abaixa a mão!” que diz aquele que se vê ameaçado por alguém? E não obstante também se diz: – “Abaixa os olhos.” “Ele abateu a espada diante do general”. deslustrar. na rua. “ele baixou até o crime”. Que diremos a quem. abater. ou “abaixa”. – Aviltar é “fazer vil. É também baixar: “não desce. isto é. se é indiferente empregar um ou outro. Dizemos: “abaixaram comovidos o pavilhão sagrado”: e não “baixaram”. desdoirar. É indigno de um homem abater a inocência. deprimir. como arriar principalmente. ao encontrar a F. macular. – Abater é “abaixar humilhando”. 9 ABAIXAR. fazer que uma coisa desça do lugar em que está até um certo outro lugar. Quem chega desce a carga. ou chafurdeira (esta forma é extensão daquela) são lamaçais onde chafurdam porcos. só quem cansa a arria. desprezível”. – Abaixar significa “descer do conceito em que se era tido”. pegajoso. – Descer é correlativo de “subir”. a virtude nos levanta” (Leitão de Andrade). vai passar por uma porta mais baixa que a parte superior do objeto? Como diremos que. molhado.8 Rocha Pom bo (C. levando um objeto frágil à cabeça. “baixa da própria dignidade”: e não “abaixou”. mas não se arria a bandeira senão quando se a retira da haste. envilecer.. equivalente quase perfeito de abaixar. e além disso dá mais completa a ideia de abaixar. ou não baixa a dar satisfações a ninguém”. 10 ABAIXAR. no primeiro caso: – “Abaixa a cabeça!”? E não diremos no segundo: – “Baixei a cabeça. baixar.”? Se não há sinonímia entre os dois verbos. aviltar. é rebaixar afrontando. manchar. – Rebaixar é “abater infamando”. Fig. humilhar. e verás a teus pés o que andas procurando”. – Arriar é que é.. ou ação dirigida a diminuir os créditos de alguém.

Agostinho. como só se desdoira quem brilha no mundo. como diz Laf. o valor”. “naquele alcouce os mais nobres se aviltam”. atirar-se. apresentam diferença equivalente à que. – Envergonhar é “molestar alguém confundindo-lhe o pudor”. quem goza de alta posição. de intuito afrontoso. Propriamente falando. difamar. e desabonar é “diminuir o crédito e o bom nome”. Exemplo: “Tentam. arrojar-se. – Humilhar é “oprimir. o sinônimo mais próximo de rebaixar: significa “fazer decair do conceito. e apresentam de comum a ideia de obrigar a descer da posição ou do conceito em que alguém estava. no sentido figurado. – Macular e manchar são formas do mesmo termo latino (macular. Uma pessoa depreciada ou deprimida não está mais na estima em que esteve”. de hierarquia”. difamar-nos. (Cast. só eles vivem praticando atos que infamam”. (Camil). marcam os respetivos radicais. ou rebaixa. “A mínima suspeita macula aquela inocência”. ofender o pundonor. – Deslustrar e desdoirar. castigar envergonhando”.” (Boss. a boa reputação da vítima. mas não o destrói. ou tem glória.) “Quem é aquele pobre-diabo de rodapés para desdoirar Camões?” – De deslustrar e desdoirar aproxima-se desluzir. “Estas leves travessuras não depreciam um moço”. Pode-se definir precisamente: infamar “marcar de infâmia”. “General.). “Este crime envergonha a toda a geração”. no entanto... “Meu pai não sente vergonha de deslustrar seu sangue”. E cita como exemplo: “Este escritor afeta elevar S. por mais subtil que esta seja. como infamar é “privar da fama”. ou o apreço. aventurar- . “Ele se desacredita pelos próprios atos”. “Esta torpeza mancha toda uma vida”. não a classe ou a dignidade (como acontece com o verbo degradar) mas o valor. assinalar diferença. Macular é talvez mais fino e mais nobre: manchar é. desmerecer na estima. na acepção natural. afoitar-se. e infamar é “ofender a honra. do mesmo modo. atrever-se. o mérito. macula) e significam “marear um nome. tornar abjeto “por abaixamento”. empanar o luzimento”. “Com aqueles destemperos só envergonham a família”. – Desonrar é “tirar a honra”. no entanto. no entanto.. no seu ódio sacrílego de brutos. “Não se compreende como aquele moço chegou a praticar atos que degradam”. – Entre desabonar e desacreditar convém.: “Tem muito maior alcance a ação de desacreditar que a de desabonar”: quem desabona diminui o apreço. e. muito mais expressivo e mais forte. mas não dá ideia de força. ou tentar destruir a fama dizendo da vítima e espalhando coisas que podem ser até aleivosas”. Exemplos: “A conduta daquele homem desonra a toda a família”. – Deprimir e depreciar. Deprimir – acrescenta – inclui “intenção de destruir no conceito com grande desejo de prejudicar”. “Glória alguma do mundo poderá induzi-lo a humilhar os pequenos”. – Degradar é “fazer baixar de grau. Significam ambos “privar da fama”. 11 ABALANÇAR-SE. o crédito de alguém. só se deslustra quem é ilustre. mas este significa mais – “perder ou tirar o brilho. difamar “tirar a fama”. Crisóstomo para deprimir S. o direito de parecer digno). no sentido com que entra neste grupo. como desacreditar é “destruir o crédito”. é privar da fama. a fama de alguém com estigma infamante”. “Desluzia as gerações dos inimigos com a injustiça da sua malquerença”. Bastanos o que diz Bruns.). arriscar-se. mas só as más ações desacreditam” (Bruns. descer de posto. É preciso distinguir infamar de difamar. não humilhe os vencidos”. pois. Diríamos: as más ações envilecem (quer dizer: fazem que se perca a estima. “O intento daquele monstro é ainda infamar a memória do tio”. enfraquece. Depreciar significa “diminuir o preço. quem desacredita arruína o crédito. deslustrá-lo infligindo-lhe alguma pecha infamante”. é. “marcam uma ação que ataca. – Envilecer é também fazer vil.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 9 ram aviltar-nos perante a nação”. “Uma fraqueza desabona.

e ainda se arriscou a andar pelos lugares mais públicos”. o companheiro foge” (Garrett).) significa “sair precipitadamente e às ocultas. portanto. atirar-se com ímpeto”. dali seguindo para ponto ignorado”. – “O bombeiro arrojou-se ao furor do incêndio. tomar uma resolução súbita”. afoitar-se é “não hesitar sem refletir muito no perigo. de modo a não ser visto”. Abala o garoto quando vê o policial. “Depois da meia-noite desapareceram as crianças”.. – Abalançar-se quer dizer “não hesitar. pernoitamos em Campo Grande. e no outro dia seguimos para Mendes. – Partir quer dizer – “começar marcha ou viagem. diferindo deste porque não dá. “Ousa o bandido falar em lei.” – Azular é brasileirismo bem moderno. e só com o fim de não continuar presente num lugar”. azular. – Fugir aproxima-se de esgueirar-se com esta diferença: esgueirar-se é “desaparecer com astúcia. animar-se quer dizer “ter alma. “Partimos daqui no dia tal. embora sem a intenção de esconder-se.). arrojar-se é “precipitar-se. a ir à cidade convulsionada. é “empreender um lance de resultado incerto”. Não poderíamos trocar aí nenhum dos verbos. ausentar-se. como se se sumisse no espaço. desaparecer. etc. “desviar-se precipitadamente de alguém ou de alguma coisa para evitar incômodo. sumir-se. saindo de casa às 3 da tarde. é “sujeitar-se a que lhe aconteça bem ou mal”. aventurar-se é “expor-se a boa ou má sorte”. boa ou má”. fugir. coragem. “O exército abalou dali ao ter certeza de que o inimigo estava a chegar”. – Seguir aproxima-se. esgueirar- -se. “O exército fugiu perseguido pela cavalaria inimiga” (Aul. e fugir é “deixar um ponto às pressas”. voltará por S. – Esgueirar-se é “azular com a ideia de esconder-se”. – “Pois há quem ouse ir a comícios neste país arriscando a própria vida?”. só confiando na ventura. é “retirar-se sorrateiramente”. sem os receios ou escrúpulos usuais”. – “O gatuno pressentiu-nos e esgueirou-se”.10 Rocha Pombo -se. desaparecer. Paulo”. É sim quase perfeito de sair. pôr-se a caminho”. Diremos: “Ele saiu da cidade há uma hora: e no outro dia partiu para S. seguir. sem ideia alguma acessória quanto ao intuito de quem desaparece. ousar. – Apliquemos todos esses verbos. a um perigo eventual”. – Abalar (sent. fig. mais a ideia de deixar um certo lugar” que de “ir para outro”. e discutir justiça?” – “Afinal animou-se a pobre viúva a ir a palácio. perigo. Ninguém segue seu caminho sem haver começado a andar. “o mais genérico de todos estes sinônimos. mas distingue-se claramente de um e outro porque acrescenta à ideia de “pôr-se em movimento” a de “continuação de marcha iniciada”. – Desaparecer é deixar de ser visto.. e salvou a criança”. – “Ele se aventura a ir a Minas: se for feliz. força. e tanto pode ter sentido favorável como desfavorável”: significa “atrever-se confiante e seguro. partir. de partir e de sair. atrever-se é “afoitar-se com audácia”. Também do grupo abala o estudante assim que ouve falar em bomba. “Espavorido. como sair. se abalançou a publicar o artigo?” – “O homem afoitou-se a atravessar o escuro.. – “Como é que um soldado se atreve a chegar tão perto da trincheira inimiga?” – “O pescador atirou-se ao mar. como diz Bruns. sair. arriscar-se é “expor-se a um risco. depois de haver meditado”. Paulo. e significa – abalar. 12 ABALAR. “Por que desapareceu o senhor de nossa casa?” – Sumir-se é mais que desaparecer porque dá ideia de “deixar de ser visto sem . mas decisivamente”. e trouxe nos braços o menino desfalecido”. para alguma coisa. desapareceu da rua do Ouvidor”. “F. ousar é. retirar-se. atirar-se é “lançar-se sem ímpeto. – “O sr. mas perdeu o tempo”. azulou dali quando nos viu de longe”. tentação”. “F. animar-se. risco.

ou de intento. não consegue abalar-me neste modo de ver”. às vezes) ideia de plano. Mas ausentar-se não dá (como retirar-se. famoso. – Ausentar-se é “deixar de estar presente em alguma parte”. . grande. notável. ou do que se intentava”. Dizemos: “O homem. com toda a sua eloquência. mas não creio que cheguem a demover-me do meu propósito. – Distinto é aquele que.). a ideia de “não estar mais presente”. na acepção figurada. “As suas palavras poderiam abalar-me alguma coisa. – Demover diz muito mais. de sair. “Não arrefeceu nunca em Vieira aquele assinalado heroísmo da sua imensa fé”. e de retirar-se principalmente. é um escritor abalizado”. e tido como exemplo. e aproxima-se em certos casos de desaparecer. Quem se deixa abalar nas suas convicções nem por isso as renuncia. pois enuncia “a ideia de mudar do que se era. “O juiz ausentou-se durante as férias”. famigerado. 14 ABALIZADO. de frequentá-la”. dissuadir. assim como retirar-se marca. mas ao fato de haver deixado a cadeira.Dicionário de Sinônim os da Língua Portuguesa 11 que se saiba o paradeiro ou o destino de quem se sumiu. e não. “Não se trata de um tipo qualquer. É. “demover operando no espírito. “F. não apenas em simples destaque. por algum mérito ou aptidão. consumado. nobre. desapareceu para sempre). Diremos que um amigo (que continuamos aliás a encontrar na rua) desapareceu de nossa casa. preclaro. – Abalar. significa “mover um pouco”. Dizemos: “Ele me demoveu (e não – abalou) do intento de vingança”. mas a de “haver deixado um lugar”. “F. “Fazem esforços por abalar na alma do povo as crenças de que ele vive”. “fazer que uma pessoa fique em dúvida a respeito de alguma coisa”. exímio. “F. se destaca do comum e se põe em relevo. demover. eminente. “tirar do estado de firmeza”. era um jornalista distinto. “As armas e os varões assinalados” (Cam. mas em tal evidência que se fez digno de ser notado. Em suma: quem desaparece nem sempre tem tenção de sumir-se: agora o que não é possível é que alguém se suma sem haver desaparecido. digno. “Tais coisas lhe disse o velho que o dissuadiu de casar” (tirou-lhe isto do espírito). afamado. mas que fosse um escritor notável ninguém sabia”. o que se distinguiu por alguma grande ação. isto é. assinalado. de fim ou de necessidade com que alguém se retira: apenas marca a noção de “não estar mais presente onde se estava”. Do mesmo modo não confundiremos os dois termos para empregá-los indistintamente nesta frase: “O pobre viúvo sumiu-se do mundo” (isto é. portanto. – Assinalado é o que se destacou por alguma prova brilhante no seu ofício. célebre. conspícuo. ínclito. o presidente suspende a sessão e retira-se”. na consciência”. não propriamente. com valor perfeitamen- ilustre. “deixou de ser visto nela. pois jamais me dissuadirão de que a Justiça está comigo”. 13 ABALAR. “No meio do tumulto. é mestre abalizado no seu ofício”. te análogo ao que tem no sentido físico. distinto. – Ilustre é um desses vocábulos que parecem gastos pelo uso.” – Notável diz mais que distinto: designa o que se pôs. “que se sumiu de nossa casa”. “O homem retirou-se da festa mais cedo do que se esperava”. – Abalizado – dizemos de um profissional ou de um artista que se fez completo na sua profissão ou na sua arte. mas de um moço distinto. Não diríamos neste caso – ausenta-se – pois que o nosso pensamento não é aludir ao fato de não ter mais o homem ficado presente. “Demovemos uma criança de ficar no meio do barulho”. aqui. insigne. egrégio. – Dissuadir é “tirar do espírito”. apenas não fica muito firme nelas. este verbo empregado aqui.

chamar – famoso a um médico que se fizesse conhecido e ilustre fora do seu meio: diríamos antes – notável. mais do que rei no seu império do mundo”. é um digno funcionário”. mas decerto que não diríamos dele – o famoso Charcot.. Há capitães ao mesmo tempo célebres e famosos como Alexandre. observaremos que: famoso é vocábulo menos nobre. “Os afamados charutos da Bahia”. ou onde aparece”. apesar do que diz Bruns. Só por menoscabo diríamos: “famigerado cultor das musas”. – Preclaro e insigne aproximam-se de ilustre. é digna de respeito”. – Insigne é quem. “tocam-se de perto. ou mesmo – grande. Afamado é quem ou o que tem fama. “Entre os políticos ilustres de Itália. com razão. “famigerado conspirador. – Afamado diz muito menos que famoso. “Aquela criatura. de aldeia”. – Famigerado quase sempre se toma em sentido pejorativo: designa indivíduo cuja fama. é um médico afamado” (isto é – que tem bom nome ou boa fama de profissional na cidade onde clinica).. mas a raríssimos grandes poetas ou grandes artistas chamaríamos com propriedade famosos. “Que nobre alma a daquela dama tão obscura e tão desventurada. belo. eminente.. porque conserve uns laivos da antiga acepção. Diríamos: “Job foi um varão insigne pela virtude da resignação” (e não – “um varão assinalado)”. e no seu lugar. – Digno é um epíteto mais modesto do que todos os precedentes: digno se diz daquele que “se porta discretamente no seu cargo.” Difere de assinalado em que este “chama atenção mais para os feitos do indivíduo que se assinalou”. ou “preclaro ministro”... e deve aplicar-se a um fato ou a uma vida “que fez grande ruído no mundo”.” “A nobre altivez daquela criança salvou-nos a todos”.. “O nobre ancião falou solene”.. só se pode aplicar a pessoas vivas. diz menos que ilustre. o grande Infante. destacado por ações. Mas preclaro diz mais e é mais nobre: exprime – “excelente. podendo até ser a de um bandido. ou na sua condição própria”... missão. como nota Lafaye.12 Rocha Pombo No seu sentido próprio.. Mas rarissimamente poderíamos dizer sem flagrante absurdo. Diremos: “famigerado bandido”. ou então em frases enfáticas.. (porque. significa “digno e excelente”. boa ou má (em regra – má) “se espalha num dado círculo e com aparato”. conforme o caso. ou mesmo nas vicissitudes da vida”. mas os preclaros são ao mesmo tempo ilustres. é grande. ou a coisas. ou o que “se assinala por algum grande mérito. brilhante”. ou a coisas subsistentes. mas melhor a coisas. Henrique. Charcot é célebre. Nem todos os ilustres são preclaros. ou melhor – célebre. tratando-se de um conspirador de alta raça. ou qualidades que dão lustre”. Não seria muito próprio. Aplicado a qualidades.. ou alguma grande qualidade ou aptidão. e no meio em que vive. ou “está tendo fama no seu tempo. – Nobre. – Famoso e célebre. “Nada tenho a dizer ao nobre senador”. Diríamos: “O preclaro Tácito”. é de assinalado que mais se aproxima: ilustre quer dizer – “conhecido e brilhante por si mesmo. nenhum excede a Cavour pela função histórica”. função.. ou feitos. “F. “As afamadas laranjas da Argélia”. célebre enuncia não fama ruidosa. “F.. e que por isso mesmo é merecedor de alguma coisa mais que o comum.. “Este .. “O preclaro varão que ilustrou o seu tempo”. mas “grandeza que tem alguma coisa de solenidade e de esplendor na história. ofício. só porque se trata de homens ilustres. e insigne exprime “qualidade inerente à pessoa ou coisa insigne”... pela sua grandeza moral. É ainda preciso notar que tanto se aplica a pessoas como a coisas. mas. afastando-nos um pouco do autor. e segundo observa Bruns. e hoje é termo de que só se usa na oratória parlamentar. “A preclara majestade de d. “famigerado desordeiro”. por exemplo: “preclaro representante da nação”. já lhe não caberia bem o epíteto).

apenas sensível na superfície”. ou o feito de proporções fora do comum “– que se incorporaram definitivamente na história humana”. digno de respeito pela compostura e gravidade na sua conduta. muito raros outros caberiam nos dois exemplos. – Eminente e conspícuo diz mais do que ilustre: eminente é o que “excede à estatura moral. ou acontecimento extraordinário. como diz Bruns. sem ser insigne. ou às proporções de grandeza dos seus pares”. – Grande é um genérico que se não confunde entre os do grupo. é verdadeiramente o egrégio e venerável patriarca daquela família”. – Trepidação é leve abalo. tremor de terra. convulsão. – Parece que se vê melhor nestes exemplos: “Temia-se um terremoto. “uma série de abalos. sobreleva aos mais hábeis”. Egrégio é “honrado e ilustre. de grande massa”. “F. é figura conspícua da nossa política. ou na sua profissão (principalmente na sua arte) “excede. no dia seguinte . estremecimento. Só é grande o homem “excepcionalmente notável que foi consagrado pelo culto das gerações”. – Terremoto é “forte tremor de terra tendo consequências na crosta terrestre”. – Tremor de terra é. aplicado a pessoas ilustres. agitação. ou melhor. excepcional. Tanto podemos dizer – “um artista”. e por isso “posto no pináculo entre os da mesma classe”. “egrégio pastor de almas”. notável de si mesmo”. artista eminente. tornou-se naquele momento figura assinalada pelo heroísmo com que fez frente ao inimigo”. como – “um filósofo consumado”.. conspícuo é o que se faz “tão ilustre e eminente que dá nas vistas de todo mundo”.. que tem nome ruidoso e brilhante”. e nem chegou a ser um verdadeiro tremor de terra. e tanto um como outro exprimem mais do que exímio quando se quer marcar precisamente elevação pela capacidade e pelo mérito. um favor ou serviço que se manifesta. “F. ou um serviço assinalado é não como entendem Bourg. tratando de coisas – a que “se eleva acima de outra coisa e se põe muito alto”. mas um simples abalo. Berg.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 13 homem. ou de que se tem sinais evidentes. sim – é “um favor grande. mesmo referindo-nos aos mais abalizados no seu ofício: “F. é um artesão eminente”. Dizemos: “O egrégio tribunal”. terremoto. Não poderíamos dizer. ou no desempenho de algum alto cargo”. ou o fato. mas um favor que no momento assumiu proporções que não teria em ocasião normal”: um favor insigne. magistrado. menos extenso e menos sensível que o tremor de terra. – “é o que chega ao último grau da glória”. é um conspícuo marceneiro”. ou “F. – Abalo é “movimento amplo. Dizemos: “o grande Infante”. Há exímios poetas. e de consequências gravíssimas para a região convulsionada. – Comoção é “estrondo ou abalo no interior da terra. – Convulsão aplicar-se-ia para designar um terremoto violento de grandes proporções. e por isso mesmo pouco intenso e pouco sensível. Entre todos os vocábulos deste grupo. – Agitação será mais “uma comoção continuada por algum tempo”. “o grande Vieira”. o que é “muito falado. 15 ABALO. – Todos estes vocábulos significam fenômenos sísmicos. a uma profunda e acabada perícia na sua ciência ou na sua arte”. tre- pidação. “Ínclito”. Um favor. como há jogadores exímios. como há ínclitos poetas. Há ínclitos generais. – Consumado aproxima-se de abalizado. ou das nossas letras”. Qualquer dos dois termos só pode ser. de estremecimentos. Mas diríamos: escritor. e. tratando-se de pessoas. pois que estes não são mais que abalos menos amplos conquanto mais intensos e mais sensíveis”. segundo Roq. e se diz daquele que na sua arte. comoção. – Exímio exprime a “qualidade de superexcelência”. Consumado significa – “subido à perfeição.

que: “o desamparo se refere ao bem necessário de que se priva o desamparado. consistindo a diferença apenas “nos meios de que se valem os tripulantes de um navio para aprisionar um navio inimigo”: abalroar. Abalroar. desapoiar. Abandonar tem com efeito alguma coisa de “exilar. escreve Bruns.. O rico que não socorre a sua família pobre a desampara. – Assaltar é “investir à traição. neste grupo. e como nos convencêssemos de que semelhante agitação subterrânea é prenúncio de catástrofes. desamparar. fugimos. para melhor combater. da Acad. “Com muita gente armada a investiram e abordaram (a caravela) por duas partes”. agredir.). – Agredir é propriamente “provocar. (Dic. – Atracar. – “atracar com balroas. “Não se ataca impunemente a honra alheia”. Bandon era ordem de bandir. etimologicamente. “Acometeu-nos o inimigo sem que o esperássemos tão cedo”. . aferrar.. Não há dúvida. “Vamos atacar o forte”. abordar.: “O antigo português tinha o verbo bandir (“banir”. como aferrar. e atracar é “prender de qualquer modo”.. “O inimigo investe. “A vaca danada arremete contra todos”. acometer. bordo com bordo”. – Arremeter é “atacar com fúria. ligeiros estremecimentos: e depois tudo voltou à serenidade normal. mas os três verbos sugerem o mesmo ato. pôr de lado e esquecido”.14 Rocha Pombo houve algumas trepidações do solo junto do monte. tomar ofensiva contra alguém”. se o faz. Diz Bruns. – Atacar é.. desarrimar. é – como define Aul. é “deixá-la entregue aos seus próprios recursos. “decreto”). mas decerto não é em tal acepção que abalroamento é sinônimo de investida. impetuosamente”. aferrar é “atracar com ferros (quaisquer que sejam)”. “Os inimigos abalroaram uma nau de El-Rei”. o verbo de significação mais genérica: “é ir hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. – Acometer é quase assaltar: é “investir subitamente e com decisão”. quando esta se acha em iminente risco de perecer. mas não consegue abalroar a nossa embarcação”. “desterrar”)1 que nos revela a existência de um substantivo mais antigo – bandon – de que nos vem bando (“pregão”. é “atracar com balroas” (instrumento próprio para abordagem em combate). assaltar. “Ele não tinha motivos para agredir-nos tão insolitamente”. Também se diz: “Assaltou-nos em caminho a tormenta”. “Os bárbaros abandonaram os míseros náufragos ali na ilha deserta”. desajudar. logo à noite repetiram-se uns estremecimentos. atracar. no outro dia. investir. 17 ABANDONAR. – Abalroar. mas uma formidável convulsão que alterou toda a topografia da ilha”. de emboscada. que o abalroamento de dois navios é devido ao acaso. desfavorecer. o abandono se refere ao mal iminente a que se deixa exposto o abandonado.) – Investir é “arremeter hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. “com precipitação”.” 16 ABALROAR.” “O que se deu ali não foi um simples terremoto. “Assaltaram os brutos a fortaleza à noite”. como se disse. e decisivamente”. é mais genérico do que abalroar. “não querer saber da pessoa ou da coisa que se abandona”. de todos os do grupo. porém. dessocorrer. “A primeira vez sentiu-se uma rápida comoção ao sopé da montanha. os quais se reputam deficientes ou nulos”. (Dic. desdenhar. Quanto a abandonar. pois. ou de sacrificar 1 O italiano conserva o verbo bandire. desprezar. da Acad. desproteger. e com intuito hostil”. Abandonar é. arremeter. Diz Roq. desvaler. “O inimigo nos atacou de frente”. “O bandido nos atacará em caminho se facilitarmos”. – Abordar é “aproximar-se uma de outra embarcação. atacar.

pois em todos figura o prefixo negativo ou privativo des. auxílio”. – “A amizade – diz ele – exige a naturalidade. desafetação. não foi dessocorrido de algumas almas piedosas”. e ela respondeu com uma graça e naturalidade de criança”. e antes “fazer o contrário”). se desampara ou se desdenha. desafetação já “sugere ideia de esforço ou de propósito no . singeleza. neste grupo.”. desapercebimento.” “Aquela candura da jovem princesa ressalta de todo o abandono em que se deixa ver lá no parque”.. pouco apreço. acinte ou altivez”. Nem sempre se despreza.. substituir um pelo outro. etc. Todos estes sinônimos têm a significação geral “de indiferença. como desamparar é “negar amparo”. nas maneiras. inércia. desídia. – Naturalidade é “maneira de se mostrar. e o definido por Bruns. “Os homens o desvaleram sempre naquelas angústias. – Desafetação já se não aplicaria com a mesma propriedade a uma criança. segnícia. mas aqueles que estavam conosco e se afastaram não fazem menos que desajudar-nos”. Como estes. pelos próprios respetivos radicais. acídia. – Desprezar é “não dar a alguém ou alguma coisa o apreço ou importância que se lhe dava”. Desarrimar não é propriamente dessocorrer.. inação. abnegação. indolência. mesmo desprezado pelos amigos. – Quanto aos outros do grupo. naturalidade.. lhaneza. de se vestir sem artifícios que deem na vista”. e só se abandona a quem. Mas aqui. sem sacrificar alguma coisa da clareza e propriedade da expressão. depois de o haver definido como sinônimo de naturalidade. ou pelos outros indistintamente. negligência. e só se desarrima a quem precisa de nós. desvaler sem desdenhar. O abandono dessa frase é sinônimo de renunciamento. é “tratar com desdém. incúria. mas os filhos fizeram mais: desarrimaram-no na velhice dolorosa: e afinal. conquanto não seja o aplicado. abandono. ou se desprotege. “Aquele ricaço desdenha a nossa pobreza porque nós lhe desdenhamos a arrogância”. Pode-se desapoiar sem desproteger. a abandona”. desleixo. mas o amor. como dessocorrer é “deixar de oferecer o socorro que se nos pede”. “Nesta causa pode um parente desapoiar-nos sem que nos prejudique.. desalinho. Só nos desfavorece aquele de cujos favores dependíamos. é: “negligência amável no falar. “Falamos à rapariga. tinha direito a ser por nós socorrido. pois.. “Desdenhando o poder dos homens. – Abandono é um galicismo (neste grupo) que pode perfeitamente ser incorporado na língua. abstração. desfavorecer (“negar favor”). 18 ABANDONO. morreu em amarguras. preguiça. desajudar (“negar ajuda. languidez. pois que só se dessocorre aquele que está em perigo ou em situação difícil. de dizer. entendemos: desvaler (“não acudir”).. descuido. – Desdenhar é “ter em pouca conta”. a santa continuou muda”. na perdição ou na desgraça. apesar de certos caprichos fúteis de um mal-entendido purismo. a paixão veemente só é real quando há abandono”. no trajo. É estranha a aplicação do termo feita por Bruns. moleza. e tão distintamente que em muitos casos não seria possível. a distinção será fácil desde que se tenha em vista o respetivo radical. desarrimar (“privar de arrimo”). desmazelo. abandonado de todo o mundo. como só se desampara aquele a quem devíamos valer. Aqui há seguramente lapso: o abandono dessa frase não é o que o autor definiu como sendo o abandon francês. distração. simpleza.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 15 sua honra. É simples de ver que eu me não sinto desamparado só porque um sujeito me desprotege. abdicação.. – Desproteger é “recusar a proteção que antes se dava a alguém”. aquele a quem se abandona. ócio. desprezo ou pouco interesse revelado por alguém”: diferençada. “Aquele homem. desapoiar (“deixar de apoiar”). ingenuidade. etc.

“Este tipo vem aqui fingir desafetações de Tartufo.” – Lhaneza é a qualidade do que é 2 Usa-se muito hoje do francês negligé em vez de negligência. no vestir. “Pilhou-me a visita. uma falta de ação para certas ocupações”. “A singeleza daquele viver é mais edificante do que todas as opulências dos grandes”. trajo sem capricho. parelho. – Inércia é “imobilidade. – Languidez é um quase “desfalecimento semelhante à depressão mórbida. mas “descuido culposo de quem deixa de parecer como deve. com toda gravidade.. “Ninguém há de ter o direito de acusar-me de incúria na minha profissão”. acidentes de ânimo. Neste grupo não é bem assim. – Indolência diz etimologicamente – “falta de sensibilidade. – Acídia (ou acédia.” – Negligência2 diz também maneira descuidosa. – Desídia é quase incúria. ou de frase. – Singeleza é a qualidade do que não tem “refolhos e malícias”. postura desafetada. as coisas mais sabidas do mundo. Diz Lafaye que “a indolência é um defeito. – Ingenuidade é a “singeleza de quem não oculta o que sente. não. distinguindo-se desta em significar mais uma “inércia moral que afasta do trabalho. “Por negligência foi censurada a menina que não deu conta das lições. indiferença por tudo que a outros merece cuidados ou atenção”. Desafetação pode simular-se.16 Rocha Pombo sentido de parecer desafetado ou natural”. que parece ter sido vulgar outrora. na postura. e tendo também alguma coisa de moleza”. .. pouca atenção com que alguém cumpre sua tarefa ou desempenha um dever. Pode ser oriunda de mal físico. – Inação é um “estado de inércia passageiro. o contrário. – Desalinho é “maneira ainda mais descuidosa que a negligência: é quase incorreção de costumes. ou no desempenho de uma tarefa”: mais censurável sem dúvida que desalinho. Incúria é igualmente (conforme está indicando a própria etimologia) descuido. Se é mesmo vício a preguiça.. estado de torpor”. “O descuido de quem se apresenta maltrajado em um salão de cerimônia é imperdoável”. como as crianças”. ou de trajar”. – Moleza é “preguiça sensual”. de quase ignorância e parvoíce: é a “singeleza ou a ingenuidade do inculto e rude”. mais conforme à etimologia) é uma inércia mais de espírito ainda do que desídia (talvez originariamente uma e outra do mesmo radical grego). apatia. conquanto diga Roq. no gesto. O descuido na elocução. sem desigualdades de relevo). A preguiça pode não ser um vício. é muito mais grave que simples desalinho. É ela “um relaxamento de ânimo.. a preguiça um vício”. ou dos temas a tempo: por incúria teve castigo”.. e quase inconveniência que se não perdoa em gente de educação”. mas deve tirar a vontade de agir e de viver: a indolência chega a ser às vezes uma virtude para o cético. enquanto que incúria é o próprio fato de não fazer o que devia”. ou surpreendeu-me nesta negligência em que se está em casa”. “Passam a ser censuráveis aqueles modos: aquilo já é desalinho. e ordinariamente revela falha moral. falta de energia. Diz Roq. – Indolência e preguiça. “Ele ficou em pasmo ante a simpleza daquele bárbaro ali impassível a tudo que se passa”. “Nada alterava jamais a lhaneza daquele caráter”. o pessimista ou o misantropo. lhano (do latim planus = liso. “Calino é o tipo do ingênuo: diz. nem disfarça o que faz. ou que torna avesso ao cumprimento do dever. no falar. e antes um humor sempre igual. ou de cumprir um dever do seu ofício”. – Descuido é (como se vê da formação do vocábulo) “falta de cuidado no trato. Negligência sempre é menos do que incúria. que cessa logo que desaparece a causa acidental que constrange o inativo”.. naturalidade. está passando a ser quase um vício elegante. – Simpleza sugere ideia de inconsciência.

– Segnícia é mais do que indolência. do que desleixo. depreciar. “Os tais conluiaram-se no intento de embaratecer os bons ofícios do competidor”. “ter em menor apreço do que o devido”. desestimar. ou porque se seja forçado a ficar inativo. “Ele não há de consentir assim que lhe abaratem a honra de juiz”. mais. A mesma diferença no sentido figurado. um defeito mais punível que desleixo. fazer baixar o preço de alguma coisa”. “ter em menor conta do que a antiga em que se tinha alguma coisa.. mas uma desídia quase ostentosa. do que desídia. Distração é também desapercebimento. – Ócio é antínomo de trabalho. naquela causa. a aversão ao movimento. de Fr. ou porque se descanse dele. que é mais “ausência de sentimento muito nítido do dever” – Desapercebimento. tornar barato. baratear. a malbaratar na vida os melhores dons que lhes tocaram”. no entanto. tocando sem sentir. – Deleixo (ou Desleixo) e desmazelo significam “relaxamento no cumprir o dever. menoscabar. abrir mão de uma coisa facilmente. especialmente para as coisas do culto divino e comunicação com Deus”. Desapercebimento é “um como estado de inconsciência aparente. – Malbaratar é “desperdiçar coisa estimável”. Usamos também de embaratecer. diminuir o crédito. que se não sabe por que é que falha nos léxicos. parecendo que desmazelo é mais grave e mais culposo “porque exprime. não apenas falta de correção. porque a minha vida é muito atribulada de serviço”. como intr. como se vê do Leal Conselheiro e do Catecismo. Mas este difere de baratear porque significa. embaratecer. pois. ou as qualidades. ou sem notar em torno de si coisas que lhe não deviam passar despercebidas”. porque junta a tudo isso alguma coisa de miséria moral mais lastimável: segnícia deve ser o “torpor estúpido. tendo ouvidos e não ouvindo. o valimento de alguém”. não só “baixar de preço”. “Os meus instantes de ócio são poucos. não esteve conosco?” Menoscabar não é somente menosprezar. – Menosprezar. pois. por um motivo interior. Dizemos. “Não pensem que ele vai agora baratear as aptidões”. a importância. abstração. falta de correção. mostrando por ela pouca estima ou nenhum interesse”. é dar “por menos do justo valor. mas de quem parece “não pensar em coisa alguma. é “vender com prejuízo. não tendo na conta devida”. mas “prezar menos do que seria justo”. mal- baratar. menoscabar. 19 ABARATAR. Bartolomeu dos Mártires. e ter os seus sentidos materiais como que suspensos ou apagados. em que alguém fica sem dar atenção a nada. Tem ainda. pelo menos no Brasil: “O café já barateou”. a consideração”. uma como tensão mental que a separa – dir-se-ia – das outras pessoas”. desestimar distinguem-se ligeiramente. desapreciar. mas também “abater o valor. olhando sem ver. porque se tenha trabalhado é que se fica em ócio: é este. distração sugerem ideia de estado bem semelhante a umas aparências de abandono. menosprezar. desencarecer. Abstração é o “desapercebimento de uma pessoa completamente alheada do meio em que se acha. – Baratear é “oferecer por menor preço”. “Havemos então de menosprezá-lo só porque. etc. “Não é por menoscabá-lo que .Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 17 e usar-se em vez de preguiça. do que preguiça. Menosprezar não é propriamente “desprezar”. mais lazer do que inação. que a define assim: “O sétimo e último vício capital se chama acídia. que é uma tibieza e fastio espiritual que a alma tem para o exercício das obras virtuosas. mas “fazer baixar de preço”. a inércia e moleza do bárbaro”. e figuradamente é. “Míseras criaturas é o que elas são. – Abaratar (ou baratar) significa “diminuir o custo. a significação de “baixar de preço”.

“alma dolorosa”.. larva. além de terror. é vocábulo de alta nobreza histórica. ou de ter na mesma conta exagerada em que se tinha (e tanto no sentido próprio como no figurado).) é o que se poderia chamar também – “alma penada” – mas que toma “aspetos estranhos. com a significação que tem neste grupo. Este vocábulo (fantasma) significa imagem fantástica ou incorpórea. imaterial. Em qualquer dos casos desaprecia diria sem dúvida alguma coisa menos. trasgo. entre os romanos. sombra são vocábulos de significação mais genérica e vaga. de inesperado e súbito. quer durante o sono”. inspira repugnância”.18 Rocha Pombo dele digo estas coisas”. “Encontrou no caminho um fantasma que o obrigou a voltar”. fantasma. “personificação”. mesmo instantâneo. Aparição distingue-se de visão em “acrescentar à ideia de imagem sobrenatural a ideia de miraculoso.. aparição. – Avejão (fig.. espetro. Espetro será o fantasma. quer em vigília. atribuída à imaginação dos alucinados. ou não corpórea.. “espíritos que andavam vagando pela Terra. e que.” Sombra pode-se dizer que. mas quase sempre “para atormentar os vivos”. duende. tendo figura humana mais ou menos acentuada.. que. e há entre eles uma certa distinção análoga à que se nota entre fantasma e abantesma. formas de aves ou de animais fantásticos”. – Visão. e como em penitência. às vezes. – Abantesma é forma popular de fantasma.. Também se aproxima de “símbolo”. e talvez porque sugira melhor esta última noção é que se distingue de todos os do grupo. ou à falsa visão de certos doentes. Manes designava particularmente “as almas dos avós ou dos parentes falecidos”. mas todos. subtil. “Aquela casa. havendo apenas entre os dois a mesma diferença que há entre os respetivos radicais – estima e apreço. socorrer. manes. não ter por alguém ou alguma coisa a mesma estima que se tinha”. avejão. de ser tão caro ou encarecido como era. ou do remorso”. manes e lêmures. e causando terror.. 20 ABANTESMA. dando sempre a ideia comum de coisa sobrenatural. “representação”. “Só desestima o dinheiro quem lhe não sabe o valor”. sombra. Abantesma é propriamente “fantasma sem forma definida. “coisa impalpável. julga alguém ver. significando “forma vaga subsistente de alguém que foi vivo”. ou aquela consciência vive atormentada de fantasmas” (isto é. aparição. como a sombra” (fenômeno . “Quando encontrou no vestíbulo a larva de Aquiles. Desestimar é “não ter em estima. e tanto menos quanto estima é um sentimento mais profundo que apreço. ou perseguindo os vivos”. deixar de estimar. lêmures. como em: “O fantasma da dor. que se deixa ver sem perfeito relevo. – Espetro e larva designam também fantasmas. Larva será espetro menos nítido. significando assim – “alma penada”. – Trasgo é qualquer coisa como “figura ostentosa. emudeceu”. heroica – dir-se-ia – e terrível do diabo”. por alucinação. Lêmures e manes eram.. mas ainda conservando alguma coisa da forma humana”. e é de crer que junte à ideia de visão a de penitência. É este verbo um sinônimo quase perfeito de desapreciar. O mais vago de todos é o primeiro dos três: visão é “toda imagem que se julga ver. “Não se desestima a um amigo só porque caiu em pobreza”. – Desencarecer é deixar de encarecer. ou melhor – “a alma de algum conhecido. “Imundos abantesmas vagavam naquela região mais do pecado que da morte”. de coisas falsas ou imaginárias e medonhas). visão. saíam do inferno à noite para. – Duende designa alguma coisa semelhante ao que se chama vulgarmente “alma do outro mundo”. “Ninguém decerto vai desencarecer-lhe os grandes serviços prestados à pátria naquele momento”.

aferrado. encaprichado. Entre os antigos. emperrado. mas distinguindo-se o primeiro do segundo em significar “uma tendência ou qualidade própria. de modo a fazer subir pela carestia o preço das coisas. relutante. o direito “exclusivo ou privilégio de vender ou comprar”. por exemplo: “Nesta relação não se compreendem (e não se abrangem) os casos a que se refere o ministro”. mas por efeito de uma determinação ativa e refletida”. nestas por exemplo: “O homem está obstinado em não aceitar o cargo”. monopolizar. em razões em suma. Compreender é sinônimo que se pode ter como quase perfeito de abranger. 22 ABARCAR. devasso abarroado”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 19 físico). tenaz. (Aul. Isto quer dizer que com efeito o opiniático e o obstinado. essencial. afincado. persistente. 21 açambarcar. em modo de ser. “não cedem à vontade. Há o monopólio não fundado em lei. constante. perseverante. caprichoso. obstinado com insolência e por motivos torpes”. “O poder de Roma abrangia multidão de povos” (Bruns. ca- Abarcar e abranger significam “encerrar ou conter em si muitas coisas: em abarcar há ideia de esforço. exprime alguma coisa de “alcançar”. e mesmo de abarcar”. Há. Abranger. Diremos: “O incêndio abrangeu todo o quarteirão”. opiniático. tanto assim que em certas formas não poderiam ser trocados. a embaraços. Teríamos de dizer. “Abarcava todo o peixe que vinha à Ribeira”. – Obstinado e opiniático poderiam tomar-se em certos casos como sinônimos perfeitos. contumaz.) – Açambarcar exprime a mesma ação de prender ou arrecadar mercadorias: mas “de modo mais amplo. insistente. firme. abranger. mesmo entre muita gente de cultura. atravessar. e nunca propriamente: “O incêndio compreendeu. teimoso. ou mesmo alguma nação a propriedade de um certo gênero de negócios. que mais talvez o uso comum do que a precisão ou a propriedade fixa em alguns o emprego de um de preferência a outro. etc. como diz Lafaye.). e faz o que . entre os dois bem marcada diferença. e é sem dúvida com esta significação que entra aqui o verbo monopolizar: é “tomar alguém. birrento. – pelo outro. fundada em opinião. a ataques”. não: “Cesar abarcou todas as dignidades da república”. libertino. – Abarroado quer dizer “teimoso.” 23 ABARROADO. antes que cheguem à praça ou ao mercado público”. – Abarcar significa “apoderar-se da mercadoria como quem a prendesse nos braços”. No Brasil é muito comum dizer-se indiferentemente: “Abarcar ou abranger o mundo com as pernas”. etc. ou que não cede. enfeixando-as. – Todos estes verbos exprimem de comum a ideia de abuso contra a liberdade de comprar e vender. e sei que por coisa alguma se dissuadirá daquele intento”. ou reunindo-as por meio de sambarca”. – Atravessar é “comprar as mercadorias em caminho. em abranger.. embirrante. que parecem estar na mesma natureza. sombra era o mesmo que “alma”. e ainda hoje. insistente. ou na índole do opiniático. muito raros hão de ser os casos em que um se não possa substituir beçudo. “Sedutor. no entanto. – Monopolizar enuncia a forma legal de “exercer exclusivamente o comércio ou qualquer encargo ou função”. porfiado. ABARCAR. ou da exploração de certas indústrias”. aos desejos de outrem. pertinaz. Deve notar-se. “Ele é opiniático. por sua parte. – Cabeçudo é o que se deixa guiar só pela sua cabeça. obstinado. no entanto. alguma companhia. compreender. o que se escusa de agir. enquanto que obstinado é o “que resiste.

– Teimoso é “o que persiste em pensar ou agir como se o fizesse quase por acinte”. Perseverante é o “que se conserva firme e constante num sentimento. Emperrado significa o que se firma na sua opinião. na vontade”. aferrado diz – “fixo como alguma coisa que se prendesse a ferro a uma outra coisa”. – Contumaz quer dizer “obstinado. porfiado no trabalho. Persistente é o que “sabe. capitalista. em agir”. endi- nheirado. remediado. persistente na ideia de vencer. Birrento é “emperrado ou teimoso por birra. antipatia ou aversão”. “Testemunha contumaz”. – Emperrado.. revel. opulento. mas “por opinião ou capricho”. em querer. advertências ou mesmo ordens de ninguém. ostentando a sua riqueza”. e diz – “sujeito muito rico e com ares de ufano das suas riquezas”. – Pertinaz já inclui alguma coisa de teimosia.20 Rocha Pombo entende sem ouvir conselhos. 24 ABASTADO. e reincide no seu modo de ver ou de conduzir-se sem se importar com o que é seguido por todos”. milionário. e não: “A encaprichada menina”. mesmo porque encaprichado reclama sempre um completivo. – Opulento é sujeito muito rico que “vive vida brilhante e sumptuosa. pelo menos se repetem esforços e tentativas. e não: caprichoso: “A caprichosa menina não atende a coisa alguma”. relutante. dá ideia de que. sem explicar-se. – Constante. pois enuncia a ideia de que o porfiado é “capaz de ir ao extremo. Dizemos: “Ele está encaprichado no propósito de molestar-nos”. seu intento. mas o pertinaz é um teimoso. Diremos. firme significam todos “fixo no lugar.). ou tem força para continuar firme no seu posto. nem cede. porfiado. Afincado equivale a “fixo e seguro como uma haste que se fixasse ao solo”. Porfiado é ser “constante mostrando um certo brio e valor”. etc. Constante é “ser sempre igual ao que se foi ou se prometeu ser. banqueiro. nas ideias. birrento. ou à citação feita por um juiz”. no seu desejo”. ou não obedece à ordem legítima. – Endinheirado. se não se teima propriamente. numa resolução” (Aul. e difere de encaprichado por isto: porque encaprichado significa que se tomou “por acinte ou por vingança uma atitude caprichosa”. – Rico é aquele “que possui muitas riquezas. e fica imóvel. quer. – Abastado é quem está “fartamente provido de bens para viver em abastança”. “mais pelo prazer de contrariar do que por sincera convicção”. na atitude. além de significar “pertinácia em querer. – Afincado. remediado marcam .. como o animal que empaca (podendo dar-se-lhe empacado como sinônimo quase perfeito). obrar ou pedir”. argentário. – Caprichoso é aquele que se mostra seguro e inabalável. apatacado. portanto: “Contumaz no erro”. embirrante. etc. perseverante acrescentam à qualidade do que é firme a “ideia de esforço no propósito de conservar-se firme numa resolução. nem fraqueja”. – Aproxima-se deste o vocábulo insistente: o qual. – Ricaço é aumentativo de rico. firme significa “obstinado. aferrado. capricho. de travar luta na resistência”.. ricaço. e por extensão é aquele que “segue sua opinião.. não por acinte. “que se não abala.. Embirrante é o que “insiste” nalguma coisa “por birra. rico. relutante contra as seduções do vício. ou bens que excedem às próprias necessidades”. ou no seu intento. persistente. o que nem sempre acontece com caprichoso. com obstinação e enfado”. poderiam aproximar-se de caprichoso e cabeçudo. etc. Relutante é “mais que porfiado. que não atende. “Este homem extraordinário é constante na virtude. – Tenaz exprime “firme e vigoroso em pensar. ou ao que de nós se espera”. seguro conscienciosamente”. resoluto. apatacado. e perseverante como quem sabe o que vale a fortuna”. num intento ou numa tarefa”.

ou uma condição de fortuna que fica entre a do rico e a do pobre”. arquimilionário. milionário exprimem a ideia de “possuidor de grandes riquezas em dinheiro. deforma-se uma fi- . miliardário. estragar. capitalista. Apatacado diz menos ainda. o modo de ser normal”. ou de fazer que uma coisa não seja ou não se faça tão bem como devia fazer-se”. – Perverter é “mudar para mal” (Aul. portanto. degenera uma família. ideia que se sente em desfear. deformar. Milionário é o “ricaço que possui milhões”. perverter. se bem que enuncie igualmente a ideia de “estragar. – Desvirtuar significa. menos que perverter. desfear. ou melhor. depravar. ou de mais ou menos paixão com que se cuida do dinheiro.). desfigura-se um texto tirando-lhe as belezas próprias da língua. etc. – Já se usam também como gradações da ideia expressa por este último vocábulo: bilionário.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 21 uma certa “mediania. em geral. – Deturpar é “desfigurar deprimindo. que “vive de negociar. desfigurar. que se note: em afear não há tão viva a ideia de “mudar tornando defeituoso”. e acrescentam à noção geral de rico a ideia de apego ou amor ao dinheiro. deprimindo-a com perfídia”. – Abastardar significa “fazer ilegítimo. deixar imperfeito. vivendo só pelo dinheiro”. – Desfigurar é. corromper. – Argentário. aqui. ou ainda uma ideia do valor preciso ou das proporções da fortuna possuída. preocupado só de lucros. – Adulterar é “fazer mudar alguma coisa falseando-a. bonita”. e significa “alterar alguma coisa fazendo-a feia”. correto. – Estragar enuncia a ideia geral de “destruir.”: “Ele enfeia o caso para que nós não vamos”. Diremos.). pondo-a fora do seu estado próprio. quase perfeito de afear. adulterar. – Dizemos: Abastarda-se uma geração. “tirar a virtude. – Viciar é. profanando. legítimo”. demover. tuoso”. pois reduz a simples patacas as posses do sujeito. as qualidades da sua geração” (Aul. as feições de alguém ou de alguma coisa” (Aul). etc. É sinônimo perfeito. o valor próprio de alguma coisa”. Afea-se (ou afeia-se) uma coisa “tornando-a menos correta. “A idade a desfeou horrivelmente” (e não – afeou). afear. – Degenerar é “perder mais ou menos o tipo. – Desfear é uma dessas anomalias morfológicas da língua que o uso impõe. fazendo pior ou imprestável”. ofendendo o pudor”. isto é. – Corromper é “pôr fora do estado de pureza própria”. – Depravar é “perder as qualidades que tinha. viciar. deteriorar. – Deformar é “mudar a forma primitiva. é “estragar o que era puro”. O endinheirado é aquele que ajuntou algum dinheiro e saiu da pobreza. o mérito. “tirar a figura”. perverter com escândalo”. pois: “O andar afea-lhe um pouco a elegância” (e não – desfea-lhe). Desnaturar é “alterar a natureza. o “aspeto. ou o modo de ser de uma coisa ou pessoa. fazer feio com o propósito de impressionar. Argentário é o mais genérico e diz “homem dado a grandes negócios. a natureza. 25 degenerar. No Brasil usa-se também o verbo enfear (ou enfeiar) com o sentido de “exagerar. convindo. estragar desvirtuando. desvirtuar. alterar a forma própria. desnaturar.) transtornando. um indivíduo ou uma raça. Remediado é o que tem com que viver sem apuros. deturpar. impuro”. – Deteriorar é “alterar danificando. Capitalista é o que “vive dos rendimentos de seus capitais”. Desfea-se (ou desfeia-se) – isto é – “torna-se feio” o que “era bonito. Banqueiro é o que “faz negócios de banco” (Aul. banqueiro. ou especular sobre empréstimos e outras transações de praça”. segundo a própria etimologia. – Estes verbos exprimem de comum a ideia de mudar a forma. ou de transformar piorando”. defeiABASTARDAR. próprio. o brilho.

as melhores índoles viciam-se fora do lar. no entanto. Subministrar é – diz Bruns. o primeiro. ministrar. “Munam-se todos de roupas de lã para o inverno”. deturpa-se a memória de alguém. prover pouco a pouco e com regularidade”. é que nos forniu de pão: agora o que preciso é ver quem no-lo forneça regularmente”. municionar. o tempo devastador estraga formosura. pelos desregramentos. e por uma determinação própria. oferecer. pois estavam quase todos completamente desprovidos de tudo”. Ministrar. apresentar. significa “fornecer. desvirtuam as nossas intenções quando as interpretam de má-fé. e nem sempre com fim especial e imediato. ao passar. o segundo. ou corrompe-se o menino nas más companhias. abastecer. prover. “E até de paciência vou munir-me para sofrer aquele biltre. e – de munição. 26 ABASTAR. significa “fornecer. “Muniram-se de documentos contra a calúnia”. para que se pervertam almas basta às vezes um instante. para uma diligência”. – Abastar significa propriamente “prover do bastante. como função própria ou dever de ofício”. desnatura-se o homem no vício ou no crime. Notemos ainda que subministrar sugere ideia de “ação clandestina. e fornecer é uma forma extensiva de fornir. ou pelo menos de intuito que se procura dissimular ou encobrir”. ou “ficam bem municiadas as duas praças guardando aquele posto”. subministrar. – Munir significa propriamente “prover de armas e ou- tras coisas que tornem forte. do indispensável”. “Só os colonos vizinhos abastecem (e não – abastam) o nosso mercado”. mu- nir. ou em cumprimento de um dever ou de um contrato”. Municiar é “prover de munições para um certo tempo. e de predicação mais imprecisa e vaga. “Munem-se as praças de guerra esperando o inimigo”. “A secretaria ministrará todas as informações necessárias ao juiz”. – Aprovisionar é “abastar de provisões. Municionar é “abastar de munições de toda ordem. Poder-se-ia ainda dizer sem . fornir. quaisquer que sejam estas”. – Entre fornir e fornecer nota-se a mesma relação que entre abastar e abastecer. “As colheitas excepcionais daquele ano abastaram (e não – abasteceram) toda a província”. “Aprovisiona-se de água. – Prover é o mais compreensivo dos do grupo. ou que habilitem a defender-se”. – “Quando chegamos àquela zona assolada pela seca foi necessário municionar muitos dos nossos postos. municiar. com certa cerimônia. “Ele nos ministrou todas as coisas de que precisávamos”. adulteram as nossas palavras quando as transmitem infielmente de propósito. deteriora-se o caráter fraco em luta com a miséria. e abastecer é “abastar gradualmente. uma nação pelos erros. no entanto. “O grande comboio abastou então a praça. nem para prazo certo”. “Vai bem municiada a escolta”. aprovisionar. deprava-se um indivíduo. corrompe-se o pão exposto à umidade. munir. e dali em diante foi ela sendo abastecida pelos lavradores dos arredores”. “Nós sempre nos fornecemos (e não – fornimos) de tudo aqui mesmo no bairro”. – “fazer com que alguma coisa chegue ao poder de alguém que necessita dela para se sustentar”: “Os americanos subministravam armas aos insurretos cubanos”. Fornir é “prover do necessário. “A caravana. Diremos também: “O menino está bem fornido (e não – fornecido) de carnes e com boas cores”.22 Rocha Pombo gura fazendo-a monstruosa. conferir. pelos crimes”. fornecer.” – Municiar e municionar são formações vernáculas – de municio. dar. de pão ou de carne uma praça onde havia necessidade de algum desses artigos”. e. ou em obediência a uma ordem. como por necessidade de acautelar o futuro ou prevenir algum mal”. – Ministrar e subministrar são muitas vezes empregados indiferentemente.

cair com ímpeto em lugar profundo”.) e caindo pouco a pouco. precipitar-se. Provisão (rad.. aos que guarnecem a praça. montanhas”. o verbo abater e a forma perifrástica pôr ou deitar abaixo: “Diferençam-se em que abate-se uma coisa para que deixe de existir. portanto. e aproxima-se de destruir. porém: “A artilheria demoliu”. deita-se abaixo a muralha que se quer reconstruir. se se dissesse: “Municionar de água ou de pão a praça”. Podemos dizer sem grave ofensa à índole da língua: “A artilheria inimiga destruiu a colina” (isto é – “desarranjou-lhe a estrutura”).. – Precipitar-se é “lançar-se com violência de cima para baixo. de municionar) é tudo que se aplica diretamente à defesa da praça. cai o balão que já estava no ar. que também significa propriamente “desfazer o que foi construído”. “Desabou a fachada de um edifício. derrocar. e mais ou menos rapidamente. “Ruiu todo o edifí- destruir. – Ruir é “cair. e deita-se abaixo aquela que se quer substituir. Bruns. ou “Deixei tombar o lápis”. “desmoronam-se esperanças ou ilusões”. Não se daria o mesmo. lançar-se para um lado estendendo-se”. abate-se a fortaleza que não convém deixar de pé. “Tombam árvores”. caiu o chapéu de cima da mesa. – Desabar significa propriamente “abater em torno com fracasso”. tanto para esse fim. cio abalando a redondeza”. o verbo de sentido mais geral: enuncia a ideia de deixar uma coisa. aniquilar. Mas diremos: “Tombam rochedos”. “Abateu a terra em torno”.. pois municionar tem predicação mais restrita. derruir. “Ouviu-se a descarga e o mísero tombou. desfazer. pois só é suscetível de demolir-se o que foi construído. arrasar. – Demolir é “desfazer pouco a pouco uma vasta construção. “Despenha-se a avalanche inundando toda a várzea”. etc.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 23 deslize da pura vernaculidade: “Aprovisionar de pólvora a praça”. “A parede aluiu com as chuvas”. de aprovisionar) é tudo quanto convém. renovando ou transformando: manda-se abater a árvore que intercepta a vista. ou a de que é “extraordinária e sensacional a queda”. desabou a barranca”.. como dissemos. desabar. – Destruir é. estragar... “fazer que uma coisa deixe de ser .. cair. “Cai a casa. – Entendemos que derribar. Derribar é “fazer cair. caiu um raio sobre a torre. como o castelo.” 28 ABATER.. como para tornar a levantar. no sentido figurado. pelo menos tanto como abater. desmoronar. – Compara assim. aluir. nem tanto. – Tombar é “cair com fracasso. Mas esta ideia é melhor expressa ainda pelo primeiro. vastas construções. e sugere a ideia de que é “volumosa a coisa que tomba”. – Abater é baixar ou cair “a prumo – diz Bruns. demolir. se aproxima de deitar abaixo. derribar. Tanto se derriba a árvore. demolir. desprender-se e sair do lugar em que estava”. arruinar. e deita-se abaixo. caiu chuva. desmanchar. despenhar-se. etc. e até. o lugar em que estava para vir a lugar mais baixo. mas deve aplicar-se “só a coisas de grande volume. como no exemplo. e munição (rad. como grossos muros.. porém. etc. “Ouvia-se cá de baixo o ruir dos cedros lá no Líbano”. tirar de cima para baixo”. 27 ABATER. – Despenhar-se é vir abaixo desprendendo-se de grande altura (segundo a etimologia – “cair do alto de rochedo”). deitar abaixo. tombar. Não se diria com propriedade: “Tombou-lhe dentre os dedos o charuto”. cair “a aba ou a beira”. “Desmoronam-se castelos”.” – Desmoronar é “ir desfazendo-se” (Bruns. ruir. – rápida e inesperadamente”: “Abateu o telhado”. – Aluir é abalar-se. “Daquela medonha altura precipitou-se o monstro no abismo e desapareceu”.. abater com estrondo”. – Cair é. dos do grupo. desmantelar. como a muralha.

– Abater. privando-o de unidade de comando e de ação. “mudar o estado de uma coisa de modo que não seja mais o que era”. mas sem ideia necessária de destruir. portanto. Derrocam-se muralhas. como – figuradamente – se derrocam grandezas. uma cidade. – Desmanchar é também desfazer. “Já deduziu da nota as parcelas que estavam marcadas”? – Subtrair é. ou mesmo – se destrói). 29 ABATER. desmantela-se uma corporação que se desagrega e fica sem ter quem a dirija e represente. Minuir é. uma fortuna. – Aniquilar é “destruir reduzindo a nada”. – Desmantelar é. e por extensão: “abater de uma quantia uma outra que já foi paga ou que não deve ser paga”. minuir. É. “desguarnecer um objeto daquilo que o protege ou que lhe é essencial. esvaecimento. subtrair. desfalecimento. esvaimento. mas podemos também desmanchar um aparelho. “Do total a que chegou suponho que é preciso deminuir alguma coisa”. como se desfaz um nó. 30 ABATIMENTO. um enredo. Tanto se desfaz um muro. “Que da soma maior do dote se descontaria todo o oiro. demolir as fortificações de uma praça. deduzir. e em sentido mais restrito é estragar. prata e joias que a infanta consigo levasse” (Fr. esmorecimento. instituições. construções)”. “Os títulos. quase o mesmo que “minguar ou fazer minguar”. de Souza). ou “deixar de meter em conta”. – Descontar é propriamente “deduzir de uma conta”. “Tito arrasou Jerusalém”. “Descontam-se letras e outros papéis de crédito”. em geral. o mesmo que deminuir. ou os muros ou paredes de um edifício”. conservando-lhes as peças para armá-las de novo. Deduzir dá “ideia genérica de abater. demolir grandes moles (rochedos. ou mesmo destruir assolando”. ou as cédulas do tesouro a recolher já sofrem desconto” (e não abatimento). um monte) até que fique rasa com o chão”. “Deduzam da nossa dívida a importância dos serviços que temos prestado”. significa “deduzir de uma certa importância uma outra que se combinou não fosse paga”: Abateu 20 0/0 nas compras que fiz”. como se desfaz um exército. desmaio. quer de quantidades em geral”. “Carregando impetuosos. Não há dúvida que se desmancha uma intriga. como bem define Aul. – Estragar é “desfazer. verbo de sentido muito geral. “O bombardeio estragou enormemente a cidade”. – Desfazer é. Desmantela-se uma fortaleza arruinando-lhe as muralhas. uma floresta. como se desmancha um muro. de tirar uma coisa da outra. “Vai o tempo inexorável minuindo aquela robustez”. . desmantela-se um exército desfazendo-lhe a parte mais forte. dividindo-o. neste grupo. “É preciso abater do ordenado do mês o que corresponde aos dias da licença”.. “Derruíram em poucas horas as muralhas do forte”. descontar.24 Rocha Pombo o que era desarranjando-lhe a estrutura”. – Arrasar é “destruir completamente uma coisa (um edifício. deminuir. – Derrocar (ou derocar) é “derribar com estrondo. “Com tais erros aniquila-se a obra de muitas gerações”. L. portanto. etc. aqui. consistindo apenas a diferença entre os dois em “poder subtrair aplicar-se somente a números”. definhamento. quer se trate de quantias. etc. depressão. – Arruinar é “estragar e reduzir a ruínas”. montanhas. e deminuir (ou diminuir) é “fazer menor uma quantidade tirando dela uma outra quantidade”. acabrunhamento. acobardamento. e até uma casa. destruir com fracasso”. “Arruinaram depressa todo um quarteirão da cidade”. – Minuir é “fazer menor”. Derruir (ou deruir) é “pôr abaixo abalando. uma cerca (isto é – se desfaz. languidez. aniquilaram num momento o inimigo”.

fortaleza moral. o que se imobiliza ou não tem regra na vida. ou vencer um mal ou um sofrimento”. em que se fica sem ação.. Quanto a desânimo e desalento diz Bruns. doenças ou miséria”. produzido por dores físicas ou morais. “Não foi propriamente desmaio o que ela teve. opressão. Desespera aquele que “perde de todo a coragem e a esperança”. – Prostração diz mais que os três precedentes: é o “extremo abatimento. produzida por medo. um quase esmorecimento muito rápido. Desesperação é “o auge do desalento” – diz ainda Bruns. . O organismo que se extenua por trabalho. Pode-se esmorecer subitamente. O desânimo pode ser originado pela pusilanimidade: o desalento funda-se na experiência. uma consequência necessária da crápula é o “enfraquecimento do espírito”.) do espírito: desanimar e desesperar marcam fenômenos da vida subjetiva. o amor. – Esvaimento (do mesmo rad.. entregue inteiramente à dor. – Desmaio será um “desfalecimento súbito”. tristeza. definha. de coragem. quebra de forças ou de ânimo”: “Os meus alquebramentos não vão até o extremo de desalentar-me para a vida”. pois a ideia de subitaneidade já está contida em desmaiar. “É o desânimo que nos arreda de encetarmos a empresa: é o desalento que nos induz a não continuar o que não nos deu os resultados que esperávamos obter”. desânimo. que não esteja sujeita a profundas debilitações em certas crises. etc. Desanima aquele que “deixa de sentir a indispensável coragem para vencer um embaraço. “A doença alquebrou-a. enfraquecimento. de energia”. principalmente morais) produzida por trabalhos. tédio e abandono em que fica um doente”. – “Abatimento e prostração dizem-se do corpo e do espírito.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 25 debilitação. o remorso. – Depressão é o “abaixamento de forças produzindo abatimento do corpo e do espírito”. ao cansaço ou à fraqueza”.”. debilita-se. – Languidez é o “estado de fraqueza. debilitação e enfraquecimento “exprimem também diminuição de forças (tanto tratando-se do corpo como do espírito)”. por trabalhos. levanta-se Portugal como por um prodígio”. desesperação (desesperança e desespero). superar algum contratempo. ou sofrer alguma coisa”. etc. ou por doença ou desgosto. mas decerto que se não dirá: – “desmaiou subitamente”. vanescere) é o desfalecimento produzido por exaustão (e tanto no sentido moral como no físico). o desalento. refere-se melhor à perda da esperança. mas é mais lento e extenso. desânimo e desesperação dizem-se só do espírito”. – Desalento é a falta de forças (físicas ou morais. – Alquebramento é “diminuição. “Daqueles sessenta anos de esvaimento. – Esmorecimento é quase desmaio. – Segundo Bruns. – Acabrunhamento é o “estado de fadiga. “Só a morte porá termo a todo aquele acabrunhamento”. Análogas aplicações no sentido moral: a saudade. instantâneo”.. desalento.. e o desânimo à perda da coragem. que “podem confundir-se: ambos significam falta de ânimo. alquebramento. delíquio. desalento. – Acobardamento é a “depressão de ânimo. porém. – Definhamento. desânimo. podem produzir definhamento em almas extremamente sensíveis. prostração. mas um simples esvaecimento”.. perda de lucidez “em consequência de desfalecimento”. sim – só se dizem (como no entender de Bruns. – Esvaecimento será um desmaio “muito subtil. desilusões. – Desfalecimento é a “perda de forças e de coragem”. por falta de coragem para arrostar um embaraço. – Abatimento é o “estado em que fica uma pessoa por efeito de grande dor ou choque (se é moral) ou de doença grave ou prolongado sofrimento físico”. “não há esperança. – Desânimo e desesperação. coragem. o que não se nutre convenientemente enfraquece. mas não chegou a feri-la de desalento para as coisas de arte”.

. devendo notar-se que é sempre voluntariamente que se resigna. a angústia em que fica quem perdeu a esperança. mas sugere a ideia de que se “alivia de peso. pois quem abdica ainda usa do seu direito de passar a outrem a dignidade abdicada. – Delíquio aproxima-se de desmaio e de esvaimento: é o estado em que fica uma pessoa que desfalece “como se se dissolvesse”. no posto”. – Largar e abandonar significam “deixar. – Demitir-se é “deixar de permanecer no cargo. “Renunciam-se (e não – abdicam-se) riquezas”. Desesperança é apenas a falta. ou encargo ou tarefa pesada.) “desistir de alguma coisa em favor”. Desespero significa mais a raiva. – O mesmo deve acontecer a quem recusa. desesperança e desespero. Quem rejeita não está de posse ainda da coisa rejeitada. “O pobre está desobrigado de dar esmolas”. “Como não lhe atenderam aos reclamos. 31 ABDICAR. – Resignar é íntimo convizinho de renunciar e de abdicar.. largar. . Recusar diz menos que rejeitar: é “deixar de receber. desobrigar-se. demitir-se. “Renunciai instintos ignóbeis” (Mont’Alverne). “Não há fortes que não tenham seus delíquios na vida”. Desesperação é a aflição. recusar. é “abdicar em sentido amplo e geral”. ou de um cargo que não mais lhe convinha ocupar. ou vago). – Ceder é (como diz Aul. quem renuncia (como quem resigna) despoja-se do cargo ou da coisa renunciada. atormentada de todos os desesperos do precito”. – Rejeitar é propriamente “lançar de si com veemência ou ímpeto”. quem larga como que “deixa fugir ou escapar a coisa largada”. “Esaú cedeu a Jacob o seu direito de primogenitura”. pôr de lado alguma coisa. renunciar. ou sem nada mais ter que ver com a sorte dela. mesmo de loiros”. ou não se pode dizer que se larga depois de haver abandonado. a privação de toda esperança. o desvario de quem se desengana de alguma coisa. “Ele se desobrigaria do pacto se nós o maltratássemos”. “O príncipe abandonou a sua causa”. “A desesperança de quem viveu sem pensar no destino pode chegar à desesperação de morte horrível. resignar. “deixar o que se tinha começado. Rejeita-se uma proposta desonesta. ou algum cargo”. rejeitar. abandonar. e.. de aceitar”. é “abrir mão de. de permitir. ou de um intento. ceder. uma ignomínia. alguma dignidade ou alto cargo”. o que se exonera”. – Abdicar é “renunciar. “tirar de si por vontade ou a contragosto”.26 Rocha Pombo É preciso distinguir as três formas – desesperação. “Vou desobrigar- -me contigo da promessa que fiz”. que aquele que renuncia pode ser a isso forçado. Desiste-se de um emprego. – Desobrigar-se é “isentar-se da responsabilidade. mas quem resigna entende-se que mais propriamente renuncia do que abdica. mas certamente não se pode abandonar e largar. igualmente como aquele que abdica. livrar-se ou exonerar-se de um dever”. desistir. “F. desistir da obrigação que se tomara. “despojar-se de alguma honra ou algum proveito antes de tempo”.” – Renunciar é “depor voluntariamente”. – Exonerar-se é também demitir-se. quem abandona “como que foge ou se afasta da coisa abandonada”. – Desistir de. largou o ofício de órfãs” (deixou-o livre. Mas. desiste-se de um pleito.. esquecendo-a. ou a função em que se estava”. demitiu-se ele próprio daquelas funções”.. “Como é que se recusa entrada a um moço daquela ordem?” “Ele recusou tão bom emprego”. exone- rar-se.. ou em cuja posse se estava legitimamente”. “Desobrigou-se facilmente da grande missão”.”. Quem se demite põe-se fora do lugar em que estava: quem se exonera liberta-se de um trabalho. em favor ou proveito de alguém. como se rejeita uma coroa. ou em proveito de alguém. no entanto. “Abdica o rei o seu trono em favor de outrem. ou “não querer coisa a que se tem direito. Pode-se largar e abandonar.

significando “amplitude. isto é – “sugerem ideia de ventre volumoso”. – Abdômen (diz Bruns. e não – louvamos. grandeza de volume de forma arredondada”. benzer e abençoar) torna-se mais sensível nos particípios destes verbos. ou benções”. “O bojo de um navio. Nossa Senhora é bendita entre todas as mulheres. bendizer. o instante em que nos vem alguma felicidade. Daí bojo com aplicação ao volume desabalado do abdômen. O segundo. mas. entranha. bendizer. – Ventre é também abdômen. “Os sacerdotes benzem tudo que é consagrado ao culto divino”. – Bento designa a benção da Igreja. porque louvar é mais “fazer elogios” do que “dizer bem e dar graças”. significa propriamente “dizer bem. “sugere ideia de fecundidade. não já de abençoar. e bento no sentido legal e de consagração. de um barril. têm entre si alguma diferença. e nunca – “encheu o abdômen”. pois. dada pelo sacerdote com as cerimônias do costume. significa “lançar benções acompanhando-as de preces e ritos apropriados à coisa que se benze. e também “abençoam a assistência ao fim da missa”. bentas com grande pompa na Igreja. etc. abençoar (ou abendiçoar). O que se diz de bendizer aplica-se a louvar.”. – Entranha (ou entranhas) diz também ventre. bendito. exalçar”. 27 pança. significa “deitar a benção. Benzer não é hoje usado senão para indicar as benções eclesiásticas ou supersticiosas.. bojo. – Bendito ou abençoado se diz para designar a proteção particular de Deus sobre uma pessoa. “O justo bendiz (ou louva) ao Senhor tanto na prosperidade como na desgraça”. 33 ABENÇOAR. pandulho. uma nação. mas acrescentando-lhe ideia de “íntimo.) “é o nome científico da cavidade que encerra os intestinos do homem. Dizemos – a benção do pão. já não . Esta diferença – diz Roq. bendizer pode referir-se também a coisas. Dizemos vulgarmente: “encheu a barriga.. – três verbos portugueses (bendizer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 32 ABDÔMEN. pandulho. O terceiro.. – em forma convexa: “O bojo de um frasco. sensível. benzer. da vela de uma embarcação”. Distinguem-se de abdômen e de ventre por significarem mais particularmente o estômago. em vez da de volume. etc. ventre. abençoar) que. a santos e a homens. “alargamento ou saliência” – diz Aul. pedir bens e prosperidades para alguém”. como dizemos – a benção dos pais. – (entre bendizer. de atividade funcional”. – Do verbo latino benedicere formaram-se – diz Roq. bento. benzer. Bendizer e abençoar confundem-se muitas vezes na significação extensiva de “desejar. água benta. posto que concordem na ideia principal. a parte para onde vai o alimento quando é ingerido. profundo. extensivamente diz-se do vulto que essa cavidade apresenta exteriormente”. Bendizemos a hora. pança são plebeísmos a que se dá sentido semelhante ao de abdômen. etc. Pão bento. barriga. benzimento. louvar. – Também se sente a distinção nos derivados benção e benzimento (ou benzedura). benzer. de um tronco de árvore. a pança ou o pandulho”: não com a mesma propriedade – “encheu o ventre”.” – Barriga. que bendito. e mesmo como significando “ato de benzer. – Vê-se. – Bojo é termo genérico. “Os pais abençoam os filhos para que sejam felizes”. de uma parede. Todas as nações foram abençoadas em Jesus Cristo.. “As bandeiras militares. e às vezes abençoado. nem sempre são abençoadas do Céu nos campos de batalha”. Benção é tanto o ato de abençoar como de benzer. uma família. O primeiro. Benzimento é também ato de benzer. louvar. benção. se pode dizer no sentido moral e de louvores. abençoado. com esta diferença: louvar se diz em relação a Deus.

: “A diferença que existe entre a significação destas três palavras é bem fácil de notar.” Rombo.” 35 ABELHUDO.): o que. intrujão. discutindo negócios alheios. nem mesmo nos casos em que se aplica o verbo benzer. saber de tudo que se faz.. – Se o buraco é muito fino. frincha. mas o que “se mete com certa audácia naquilo que lhe não compete”. abertura. ou da montanha. – Vão é “todo o vazio ou espaço aberto num corpo”. mas para ouvir o que se diz. passa a ser orifício. fenda. – Entremetido é. entremetido. nem sempre se dá em relação a aberta. no entanto. a gestos ou figurações de supersticiosos”. falha. racha. taralhão. própria de dilatação ou contração dos corpos sólidos. além de grande força onomatopeica.. rigorosamente falando. “Eu. e não dá ideia de proporções: tanto é buraco um rombo enorme feito através de uma montanha como é buraco o furo feito por uma bala através de uma parede. mas com a cabeça coberta. metediço. ou no costado do navio”. fisga. rombo. rotura feita com mais ou menos violência. a água. – Aberta é o mesmo que abertura. – Interstício é propriamente “o que fica entre duas coisas”. “Pelo vão de uma janela”. fisga são muito semelhantes pela ideia comum. a abertura que há entre o quício e a porta. O sacerdote benze o fogo. principalmente rombo. A greta e o resquício são naturais..). greta. Nem sempre. no entanto. fenda. vão. A primeira. – Rotura é a “aberta deixada por um rompimento”. – Furo e rombo designam “buraco. Benzimento ou benzedura ficou tendo aplicação quase exclusiva a “coisas de cabala. – Frincha “dá ideia de fenda. ou estreita: devendo notar-se: que fresta é das três a que exprime abertura menos estreita. e fenda é exatamente o contrário – enuncia apenas a ideia de que se não acham unidas ou apertadas as duas partes de um corpo que se disgregam. – Buraco é “abertura. por uma fisga de roupa” (Herc. Este dá ideia ainda de rotura de grandes proporções. – Racha é a “abertura por efeito de rotura” (Aul. furo. por . o óleo. Poder-se-ia dizer igualmente sem grande impropriedade: “. pois esta enuncia apenas o “claro de greta grande. é uma racha aberta de propósito com instrumento cortante. mas a benzimento do fogo preferimos dizer – a benção do fogo.28 Rocha Pombo se pode mais aplicar a cerimônias de culto. “As fendas que o sol fez no muro” (e não as frestas). que sugerem. é. que mirava tudo.. aberta. escreve Roq. fresta. é “o espaço que fica entre duas partes de um corpo que se separam”. resquício. – Abelhudo é aquele que vive (como a abelha num jardim) “metendo-se em toda parte. in- trometido. resquício. tomando atitude em questões que lhe não pertencem”. claro” e vagamente: “Frinchas da renda”. A terceira. – Quanto a greta. buraco. interstício. cumprindo observar. a abertura é artificial”. 34 ABERTURA. orifício. introduzido. “As bombardas fizeram rombos enormes na muralha. ou dos efeitos do calórico. de abertura longa e fina. Fisga é quase o mesmo que fresta: apenas fisga dá ideia de abertura feita por um corte ou rasgão. fizeram enormes furos. e por extensão qualquer fenda por onde penetra a custo a luz. não propriamente abelhudo. oferecido. ingerido. Diremos: “Por uma fresta da porta mal fechada vi-a passar” (e não: por uma fenda). rotura. que abertura sugere ideia de que a racha foi “feita de propósito” (como nota Roq. dá mais ideia de violência e de grandeza. greta. ordinariamente circular”. “por um vão da floresta. intruso. pelo menos. é uma rotura natural. abertura e resquício.). A segunda. “frinchas da madeira”. – Fresta. o espaço livre entre duas ou mais partes de uma coisa”.

é o que é amplo – largo e comprido – extenso. portanto.) “Com grandes poderes e ampla jurisdição” (Dic. o entremetido é abelhudo: só a inversa é que é menos exata.). “O assunto é muito amplo para ser tratado em meia hora”. – Intrujão é ao mesmo tempo metediço e abelhudo. engana. e os taralhões são pardais que engordam muito. (Aul. lhe chamam taralhice. e mais ainda: é o “tipo manhoso e importuno que persegue com lábias. ou jocosos ou sérios. Largo não se poderia também. a propósito de taralhão. ao passo que taralhão parece o mais inofensivo. com muita propriedade. se entremete onde não é chamado. . e até que metediço: é o que “entra onde não deve entrar. e em certos casos sugere ideia de amplitude: “Horizontes abertos”. por exemplo: larga jurisdição. e o epíteto se aplica a pessoas afetadas. o de amplo é exíguo (ou constrito). O metediço irrita. ou pelo menos tendo algum interesse. – Aberto é talvez o mais genérico do grupo. conversar ou obrar. o oferecido aborrece. – Intrometido é o mesmo que entremetido. Creio que por elipse se tirou da outra frase muito comum: “meter-se a taralhão”. e de significação mais vaga. velhaco. contendo muita mobília. “Casa espaçosa”. Diz Bruns. escreve João Ribeiro na última série das suas Frases feitas: “Atribui-se o ditado “Nunca o vi mais gordo” ao imprudente que. livre de obstáculos. aplicar (como acontece em relação a amplo) em certos sentidos morais: não diríamos. largo. amplo. e portanto contra o direito”. é ampla quando nela folga tudo o que contém. com ridiculez. – Introduzido é mais que oferecido. da Acad. explora. largo direito. Bluteau já havia. lato. – Ingerido (que se confunde bem com inserido ou enxerido) é o que “intervém em questões ou negócios pretendendo resolver ou adiantar o que é de competência alheia”. familiaridade ou importância. “campina dilatada e aberta. – Largo é o que “só tem grande a largura”: muito menos. extenso. e com mais atrevimento que desaso”. A propósito de taralhão. de grande circunferência”. notado que o termo se toma metaforicamente por gordo. “Vasta campanha. – Espaçoso é “o que compreende relativamente grande porção de espaço”. enquanto que oferecido diz também alguma coisa de dissimulado. valendo-se de astúcias e perfídias”. e a este trato ou modo de falar. desenvolvido. “O entremetido parece sempre demasiado gordo”. “Taralhão é o que se entremete onde o não chamam” (Bento Antonio). que “uma sala é espaçosa quando. vasto. dilatado.” – Amplo ajunta à noção de dilatado a ideia de “vasto contorno. Diz – “o que está desimpedido. explanado. De toda a família é o mais forte. O antônimo de largo é estreito. porque chamam de taralhão à pessoa gorda. 36 ABERTO. diz que amplo. – Vasto é mais do que amplo e espaçoso. é vasta quando as suas dimensões são extraordinárias”. espaçoso. desfruta. suponho que o sentido passou de um ditado ao outro. naturais ou afetados que o fazem ridículo. Assim. desconfia-se do oferecido. E uma vez que taralhão e gordo se equivalem. Repulsa-se o metediço. ainda nela há muito espaço desocupado. portanto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 29 isso. larga liberdade. que abrange todas as dimensões. e “em frase chula quer dizer – aquele que tem um modo de tratar com termos. ou fim oculto em meter-se onde não foi convidado a ir. afetando graça. estirado. – Intruso é o que “se põe nalgum lugar alheio. intrusas e ridículas. – Metediço é como se se dissesse oferecido: é o que “vai ou se mete em toda parte mesmo sem ser chamado”. e em sentido lato dá ideia de “tão desmedido e aberto como se fora feito por arrasamento e assolação”. Distingue-se de oferecido porque dá mais ideia de atrevimento e desaso.

dilatado. com olhos extensos. desregramento”. 38 ABERRAÇÃO. mais desenvolvido que o normal”. aberto”. na acepção lata. à vontade. “conforme é do nosso agrado”. ou “com fartura”: acrescenta a isso a ideia de “com alegria e voluptuosidade de sibarita”. “Falou à larga contra o governo”. Camões disse: “Esperando com olhos longos o marido ausente”. falta. despautério. dilatados domínios... “sem regular cuidados”. fazendo-se mais convizinho de longo. vive-se desafogadamente quando se vive sem ânsias ou preocupações. “Percorremos as formosas e latas veredas daquela região”. “Não pudemos aguentar toda aquela estirada arenga”. desrazão. plano. sugere. desconcerto. igual. sem preocupações”. – À regalona diz ainda mais que regaladamente: significa “de maneira ostentosa. enquanto que à larga sugere ideia de “incontinência.. 37 A BEL-PRAZER. a gosto. aberto”. Trata-se à regalona quem se trata como grão-senhor. – Desafogadamente enuncia a ideia de “sem nenhum embaraço ou premura. diz mais. extravagância. À larga diz “em plena trassenso. Ninguém confundirá. “Dilatada campina. vive-se à farta se se não tem necessidade de calcular muito as despesas. “sem medir gastos”. “até mais não desejar ou não querer”. Estamos folgadamente onde nada nos aperta ou oprime. – Folgadamente corresponde a “com largueza” (Aul. amplo. portanto.” – Desenvolvido refere-se a uma grandeza que tomou proporções notáveis: “O menino está desenvolvido”. “Chegamos ali. A gosto exprime “sem constranger-se”.. regaladamente. – À vontade quer dizer “como quiser ou desejar”. extenso. folgadamente. e aproxima-se de à saciedade. à lar- liberdade”.30 Rocha Pombo vasto país. nem com tanta propriedade. largamente.. – Dilatado diz juntamente o que “é longo. no entanto. livremente. “sem obedecer a escrúpulos”. estirado. error. erro. disparate. – Lato é quase o mesmo que amplo. desvairo. ou como senhora rica “que cuida mais da mesa que da fama”. estas duas frases: “Falou largamente contra o governo”. – Explanado. e na acepção usual referem-se mais ao comprimento do que à largura. – Regaladamente diz mais do que “em abundância”. vasto. que é o mesmo que “até ficar satisfeito”. “Este vocábulo. longo exprime ainda mais particularmente a ideia de comprimento. Não diria decerto: “. – À farta equivale a “com fartura”. extenso. dilatados tempos”. – Estirado quer dizer “estendido. destempero. con- ga. – Extenso diz menos que amplo. destampatório. a “de largura. despropósito. à farta. Passamos regaladamente “quando passamos como. ou se se tem com fartura o que é necessário. desconchavo. desatino. de extensão. ou pelo menos nem sempre – campo longo. absurdo... “Estão bem desenvolvidos os serviços da construção”. e à saciedade se goza um prazer se não se deseja mais. além da ideia de amplitude propriamente.). no sentido próprio. vive-se à larga quando se gasta desregradamente. à regalona. Diríamos indiferentemente longo ou extenso caminho. – Mas. “sem apertos ou empecilhos”. É de mais força que largamente. ou diz menos do que largo”. – A bel-prazer significa “segundo a própria satisfação”. desafogadamente.. a uma parte do continente explanada como imensa campanha a perder de vista”. “Desenvolvido demais foi o discurso”.. – “Estamos em nossa casa a bel-prazer. ou (como em semântica) de sentido ilimitado”.. fica-se a gosto onde não há cerimônia. príncipes”. à grande”. claudica- .. diz “extenso. deixa-se a criança brincar à vontade.. pois esta forma equivale apenas a “de modo amplo”. à saciedade. vasto mar”.

principalmente no plural. – Desrazão significa propriamente “contra a razão”.. equívoco. ao modo de ver de todo mundo”. – Desatino é “falta de tino. uns percebidos quando colidem com o entendimento (desrazões). mas nunca chegou a tais destemperos”. mas: “Disseste absurdos”. Toma. é mais forte. poderia confundir-se com abuso: designa simples infração de raciocínio. quer dizer “o erro que comete quem se desvia das leis do espírito. ou mesmo os sentidos materiais bastassem para senti-los (contrassensos). ou cometido estas aberrações”. – Despautério é forma popular de disparate. ou do que se tinha assentado”. lares de absurdo. confusão produzida por desvio do normal”. ou do que se dizia. “F. – Destampatório é “extravagância ou despropósito descomunal”. uma acepção que o aproxima de absurdo. “Simples faltas que nem se podem ter por erros. é destempero que chega a parecer excesso de doido.” – Error é. – Aberração3 significa propriamente o “ato de sair do caminho direito (aberrar). não diria o professor ao aluno: “Disseste. ou em desacordo com aquilo de que se trata”. etc. aquilo que está “em colisão com a consciência”. engano. descaída.). flagrante. – Erro é “tudo o que não se concilia com a razão. devendo considerar-se que parece inseparável da ideia de culpa. O que é absurdo ao sentir ou ver de uns pode deixar de o ser ao de outros. – Extravagância é “tudo o que se desvia das normas usuais do bom senso e da boa razão” (Aul. de equilíbrio mental”. – Contrassenso é o mesmo que “contrário ao senso comum. ou cometeste aberrações”. “as aberrações do demônio”. despropósito que não vale a pena de combater ou destruir”. Desrazão e contrassenso são casos particu3 Diz Laf. verbo de predicação muito mais vaga. ou dos princípios da lógica. transviamento da linha em que se ia. porque absurdo é o fato “em si mesmo. cinca. deslize.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 31 ção. – Despropósito é “dito ou ação fora de propósito. – Intr.. portanto. ao passo que aberração enuncia a ideia geral de aberrar. descaminho. lapso. pois este vocábulo enuncia “o que é contrário ao senso comum”. de aprumo. descuido. Revendo um tema. por extensão. persistência ou “reincidência numa série de erros”.. – Desconchavo é também o que “desgarra das normas. e não: “os absurdos”. aplicado a fatos de psicologia. patada. “uma extensão de erro”. Dizemos também: “as aberrações do espírito humano”. outros percebidos ainda mais prontamente. em certos casos. conquanto seja este menos forte nesta acepção. determinado. Aberração. desvio. além de mais preciso. é como se disséssemos. “contrário ao que é razoável”. além de forma erudita. LXXIX – que aberração era um termo de astronomia somente antes do começo do século XIX. “Este homem tem perpetrado tais absurdos. e mais: “erros de entendimento ou de juízo que de . e diz “absurdo. como se apenas o bom senso.. queda. – Desvairo (ou desvaire) será o desatino “leve e sem a graça do disparate”. perder-se no caminho”.. são erros de certa ordem. – Desconcerto é “disparate sem espírito. é o que não está “no mesmo tom. Decerto que tratando de Lutero não diria o padre católico: “os absurdos”. mas. desacerto.. que não se ajusta à ordem de ideias ou de fatos que se seguia”. comete às vezes umas tantas extravagâncias.. ou melhor com a consciência vigente. e por isso aproxima-se muito de falta. Mas entre absurdo e aberração deve notar-se pelo menos esta diferença facilmente perceptível: absurdo é termo genérico e que. concreto”. – Disparate é desatino que tem “mais de graça que propriamente de doidice”. e só se deve aplicar a deformidades e a erros extraordinários. – Destempero é extravagância “mais estrondosa e deplorável”...

– Desacerto é “erro ou falta cometida por irreflexão ou inadvertência”. abasbanado. – Descaída. basbana. apenas uma extensa e atenuada do seu radical. que descaminho é o “fato de tomar caminho errado. néscio. Deslize é “ligeiro desvio da linha. notando-se. abobado. enfatuado. abasbacado. beócio. tapado. burrego. – Todos estes vocábulos exprimem de comum a ideia de “falta de inteligência. palúrdio. bufão. embotado. obtuso. e por fim. simplório. asinino. – Descuido é o “engano cometido por falta de atenção”. de vivacidade. lerdaço. Claudicação é propriamente o “ato de coxear”. amatutado. Quer isto dizer que mesmo um indivíduo muito inteligente . idiota. – Patada é plebeísmo que significa “despropósito grosseiro. – Cinca (ou cincada) é “erro de ofício”. rude. atoleimado. – Equívoco é menos que descuido: é o engano “cometido contra a vontade ou intenção de quem o comete”. (Aul. em certos casos. apalhaçado. porém. lerdo. ou que tem ares de besta”. aburregado. estupidarrão. doidivanas. ou “falta cometida por imperícia”. bolônio. pato.Vejamos: Besta é tropo conhecido que designa o indivíduo em que aparentemente se denuncia uma indigência de entendimento e uma índole obstinada semelhantes ao que parece ter o quadrúpede desse nome: abestalhado. bobório. viram todos como erros que logo tomaram o caráter de verdadeiros crimes”. apapalvado. abobalhado. de expediente na vida. – Lapso é quase equívoco: é engano devido mais à falta de memória que a desmazelo ou ignorância. ignorantão. palonço. jogral. “Os seus deslizes nem são descaídas quanto mais quedas”. ou por falta de noção exata do dever”. patarata. no entanto. tolo. pateta. imbecil. já ele não sabia explicar tão frequentes equívocos. mais por ilusão do que em consciência. descaída é mais “deslize ou lapso que propriamente queda”. não tiveram mais desculpa os muitos enganos. assentam mais propriamente a faltas de senso prático. bobo. burro.” Podem. rombo. chocarreiro. simples. aplicar-se a erros de entendimento. apataratado. estúpido. asno. tabaréu. apalonçado. alorpado. pasmado. queda. bestiaga. caipira. quadrúpede. Exemplo: “Repetem-se os lapsos. truão. como poderia parecer. boto. parvoeirão. e sempre sem as proporções e a gravidade que tem o erro propriamente”. em regra. – Engano será o “erro ou a falta cometida sem culpa.32 Rocha Pombo 39 ABESTALHADO. mas. basbaque. e no sentido figurado designa o “ato de cometer erros por defeito de espírito. de graça para agradar. asneirão. maturrão. matuto.) – Desvio e descaminho quase que se equivalem. parvoinho. pataroco. pascácio. alvar. sandeu. besta. pacóvio. toleirão. e desvio é o “ato de mudar de rumo. patego. Quanto a alguns do grupo há uma observação a fazer. boçal. charro. estólido. lorpa. boca-aberta. não devendo entender-se que este (o derivado) seja sempre. camelo. aboçalado. patocho. papa-moscas. amatungado. conduta”. estulto. aplicável a cada um desses e o respetivo derivado. parvo. papalvo. significa “que se mostra besta. acamelado. mentecapto. jumento. bronco. do reto caminho”. estes. ou de perder o caminho certo ou direito”. camelório. palerma. ajogralado. apatetado. maninelo. erro brutal. depois. e inclui ideia de asneira agressiva”. parvajola. acaipirado. ignorante. e que se refere à diferença notável marcada pela derivação. palhaço. que podiam passar como apenas claudicações censuráveis. de espírito para agir”. aumentando àqueles a ideia “de ingenuidade ou inconsciência”. patau. aparvalhado. ingênuo. ou da direção em que se ia ou que tinha de ser seguida. fátuo. ignaro. aburrado. aparvoado. deslize equivalem quase a claudicações: queda sugere de mais a ideia de culpa ou de pecado. apalermado.

e parvajola = “que. formas que pouco alteram a significa- ção que tem aqui. Dá apatetado = “com ares de pateta”. curto de compreensão como criança.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 33 pode ser abestalhado (isto é – ter modos e ares de besta). o jogral de corte. estúpido” – Lerdaço é aumentativo de lerdo. – Apalhaçado = “que se faz palhaço”. era. Notemos ainda que entre abobado e abobalhado é preciso fazer uma ligeira distinção: o primeiro quer dizer que parece bobo. – Bobório quer dizer “bobo a afetar compostura de gente sensata”. Do mesmo radical temos ainda: patau. e revelando isso por inépcias. – Parvoinho é simples diminutivo de parvo. que tem ares de bobo. além da ideia de parvoíce. conquanto. patego. temos ainda bobório. na Idade Média. Dá apapalvado = “com jeito de papalvo”. e o segundo. maluco pretensioso”. do que propriamente com discursos ou ditos graciosos”. por fazer-se engraçado. fútil”. dando ideia do “indivíduo lorpa. impostora. e por analogia significa o “indivíduo pobre de espírito que procura divertir os outros. incapaz de esforço físico ou mental”. – Patego é como se dissesse “pequeno pato”. “meio pato”. lerdo no pensar e no agir”. – Patau (que também poderia ser uma adaptação do francês pataud) sugere. com idêntica significação. fácil de enganar”.) = “grande parvo”. mandrião. Parece dar-se o contrário com aparvoado (“feito parvo. graçolas charras. – Estólido. afetada. não figure nos léxicos. e que significa o mesmo que patego. a medida do bom senso comum”. Dá apalermado = “com ares de palerma”. como outros muitos do grupo. abobalhado = “que se faz de bobo”. mais com esgares. – Lerdo equivale a “pesado. – Besta.) é o “indivíduo pesado. O mesmo deve entender-se quanto aos outros do grupo que dão derivados. se ostenta parvo. Temos ainda: parvoeirão (aum. aliás. demasiado ingênuo. – Basbaque é convizi- . – Palhaço significa mais – “bobo. – Palúrdio quer dizer “idiota. Acamelado = “com ares de camelo”. o que é “leviano com petulância”. preguiçoso. de Fig. que é provincianismo algarvio. histrião por ofício do que propriamente idiota ou besta”. Dá apataratado = “que se faz patarata”. disparates gaguejados a custo. ou palavras deturpadas e sem nexo. diz melhor “o que não tem o discernimento. por figura. ou parecendo lorpa”. – Patocho. que significa “estúpido e sem préstimo ou valor algum”. lasso. – Papalvo quer dizer “simplório. “que se faz de camelo”. parvoinho” (pois parvajola é também forma diminutiva). meio parvo”) e aparvalhado (“semelhante a parvo. a de grande inépcia”. ou “que se assemelha a patarata”. pretensiosa. – Parvo quer dizer “pequeno de espírito. dá bestiaga. Temos ainda alorpado = “feito. mímica espalhafatosa. pataroco. explorar facilmente”. patocho. – Pateta designa indivíduo “desorientado e abobado”. uma forma diminutiva ainda mais acentuada de pato. ou melhor. – Tolo e estólido são formações do mesmo latino stolidus: a forma popular. – Bobo. – Camelo (fig. diz C. Dá atoleimado – “que se faz de tolo”. estúpido.). que se deixa iludir. parecendo. nem a compostura. – Pataroco é outro provincianismo algarvio. – Patarata é “pessoa tola. palerma. que é a mais usada. (Aul.. enganar. Além de abobado e abobalhado. equivale a “bobo insolente. estouvado. ignorante que se mete a sabichão. – Palerma é o indivíduo “quase idiota e que parece ter tanta incapacidade para pensar como para mover-se”. modos e gestos de quase idiota. rude. com jeito de parvo”). como se sabe. “tipo mais boçal e desfrutável que o bobo”. – Camelório diz “quase camelo”. a própria palavra pato. – Lorpa é o indivíduo “inepto. muito usado pelo menos em grande parte do sul do Brasil. que é forma erudita. abrutalhado”. além de abestalhado.

rude. “maroto estúpido. – Estupidarrão e toleirão são aumentativos de estúpido e tolo. desconfiado e escuso. sem prática da cidade. – Simples. sandio) equivale a “tapado. – Abasbacado (ou embasbacado) = “que é ou se mostra como basbaque”. – Idiota e imbecil equivalem-se. – Aboçalado = “que tem aparências de boçal”. – Fátuo é o “ignorante tolo e presumido”. meio bobo. – Basbana. bruto de senso. significa o mesmo que “ingênuo.” Temos ainda: acaipirado = “com ares ou modos de caipira”. – Estulto quer dizer “tolo. é aplicável ao indivíduo “inepto. – Jogral é o “bobo de praça”. – Beócio. abobado”. obra. significando “estólido. – Rude significa mais “áspero. idiota. que “faz figura ridícula por inépcia”: caipira é o “homem do mato. é provincianismo algarvio.. segundo C. pasmado e imbecil”. – Chocarreiro é o “bufão insolente. bronco. crédulo demais”. extravagante. é muito empregado com esta significação. – Tabaréu tem significação muito parecida com a do nosso caipira. tonto. grosseiro. inepto”. de boa-fé excessiva. rombo é o que “não tem capacidade de raciocínio”. segundo a origem do vocábulo (designa habitante da Beócia. – Bolônio é “indivíduo rústico e simples que se deixa enganar por todos” (Bruns. na acepção em que é aqui tomado. vaga como doido. que é imbecil. falto de inteligência”: bronco é o que “não entende por defeito de faculdade aperceptiva”. – Bufão é o “truão espalhafatoso. quase impertinente”. amatutado = “com ares de matuto”. – Maninelo é o “bobo que se mete ridiculamente a gostar muito de mulheres” (corresponde ao nosso brasileirismo coió). – Mentecapto é o que “não tem siso”. o mesmo matuto. bobo que faz o seu papel com certo aparato”. – Abasbanado = “parecendo basbana”. estouvado. de espírito entorpecido. fora do papel que lhe cabe. que “se atrapalha com a tarefa por falta de aptidão”. no entanto. como pateta”. – Pacóvio é simplório da mesma família: “idiota e lorpa”. quase papalvo. no entanto. – Papa-moscas está dizendo tudo por si mesmo: “tão inerte. – Obtuso é o bronco “que se esforça” e “quebra a cabeça” inutilmente porque é “incapaz de compreender”. ou de inteligência pesada. O tabaréu. Ajogralado = dado a jogral. sem malícia e sem espírito”. farsista. rombo e tolhido. de Fig. que fica parado e em pasmo diante de coisas que não entende”. – Sandeu (do esp. – Estúpido diz propriamente “rude. no entanto. – Tapado. rombo e rude têm uma sinonímia quase perfeita. – Boçal exprime “estúpido e bobo que repugna. obtuso. desapercebido. e. – Truão é o “bobo vagabundo. burro abobado. por um prejuízo dos atenienses tido como estúpido ou pouco inteligente). – Enfatuado (ou infatuado) é “o que se torna fátuo”. que diz mais chalaças do que salta”. tosco do que propriamente bronco”. O idiota é desequili- . – Simplório quer dizer – “despreocupado. ou que inspira asco ou aversão”. – Doidivanas é o “indivíduo sem tino. tipo desavisado”. – Apalonçado = à semelhança de palonço”. que tapado é aquele que parece ter o espírito “como que fechado para o mundo exterior”. – Palonço equivale a “tipo sem vida. tão massa-bruta que as moscas lhe entram na boca”. rude equivale a “de difícil compreensão por desmazelo. parvo. que fala. Ainda assim.). – Pascácio assemelha-se bem a “bobo. sem disfarce. atabalhoado. por falta de estímulo”. É o mesmo que boca-aberta. curto de espírito.34 Rocha Pombo nho de palerma: é o “ingênuo que pasma de tudo. imbecil”. desafrontado e chalaceiro”. – Néscio quer dizer “que nada sabe. imbecil como basbaque”. Bronco e rombo equivalem-se na significação de “estúpido. convindo notar-se. que salta e canta por dinheiro”. é o sujeito que “não sabe ainda bem o seu ofício”. ignorante. estraga-albardas”.

e não: “Apropinquei-me. Jumento (assim como burro) é o mesmo que asno. e. Asneirão e asinino são meras gradações de asno: significando asneirão “grande asno”. ou ao lado de alguém”. Maturrão será um aumentativo de matungo. inconsciente como o próprio instinto”. alapuzado”. grosseiro. celeridade. – Ignaro exprime – “inculto.”. É quase o mesmo que basbaque e palerma: apenas o palerma “parece não ver”. sem nenhuma cultura intelectual”. ou que ignora as coisas mais geralmente sabidas. toda a zoologia transfigurada: quadrúpede. e “não vê. decisão”. se bem que pareçam dizer. significando ambos “chegar perto”. alvar. completando esta fa- mília. o asno que é afeito ao jugo”. – Abeirar-se diz propriamente “aproximar-se da beira”. candura e boa-fé que tocam a parvoíce”. burro. e imbecil é “quase idiota. Pasmado equivale a “falto de vivacidade. – Charro é “gordo. ou que não tem a ciência necessária à profissão que exerce. – Matungo (brasileirismo do sul) no sentido que aqui tem. e designa o estado da mais crassa e vergonhosa ignorância: aplicada às pessoas é injuriosa. como “abeirou-se do amigo”. e burrego. isto é. 40 ABEIRAR-SE. – E vem agora. bruto. inópia intelectual.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 35 brado. “semelhante a asno” ou “que faz de asno”. De burro. asinino. Toma-se. e diz “quase imbecil. ingênuo aproximam-se. mas é tão fraco de espírito”. “não tem senso nem discernimento para distinguir coisas diferentes”. Sobre estes dois sinônimos escreve Roq. parecem a mesma coisa. – Pasmado. nem sente mais nada”.. chegar-se. Tanto se diz: “abeirou-se do precipício”. lerdo e inepto.” – Chegar-se e achegar-se. contudo. ou o mais possível. e por isso mesmo incorrendo frequentemente em enganos e caindo em ridículo”. no sentido figurado. o basbaque “não vê nem sente”. aproximar-se. e neste grupo. temos: aburrado (ou emburrado) = que se obstina como burro”. abordar. e diz-se com propriedade da plebe e povo rude. encostar-se.. avizinhar-se. à primeira vista. Mas já uma dife- . sem agudeza de senso”. e diz Bruns. acercar-se.: “Todo homem é mais ou menos ignorante”. Tanto a idiotia como a imbecilidade podem ter como causa algum defeito orgânico do cérebro. não ouve. que é “termo familiar que se aplica a um néscio que pretende impor-se como sábio”. matungo. para designar a pessoa que não sabe o que devia saber. conchegar-se.. – Ignorante diz apenas “que não tem instrução”. apropinquar- -se. de sinceridade. São todos termos chulos empregados para significar. “chegar junto. rentear. asno. Qual é aquele que tudo sabe? Pois só aquele que tudo soubesse de alguma coisa ignorante. sentido desfigurado do próprio. principalmente jumento – “o burro de carga.. amatungado. pelo menos da cultura comum”. burrego. – Aproximar-se equivale a apropinquar-se. Alvar tem hoje. e asinino. o pasmado tem o curto senso fixo num objeto. aconchegar-se. Dir-se-ia: “Aproximei-me pouco a pouco. que equivale a “pequeno burro”. aplica-se ao sujeito esbodegado. defeito de aptidão comparáveis à bruteza do asno ou do quadrúpede em geral. – Quadrúpede designa “sujeito. jumento. segundo a etimologia. maturrão. Ignaro é “uma expressão pejorativa de ignorante. abrutalhado”. Ingênuo é menos que alvar: significa “sem malícia como criança. “falto de cultura. ou incapaz de esforço em coisas de espírito. e amatungado = “feito matungo”. que sempre se toma em mau sentido. é menos atabalhoado. além de inculto. a palavra ignorante num sentido mais restrito. burro. achegar-se. por analogia. asneirão. parecendo que este último sugere “ideia de pressa. – Ignorantão é aumentativo de ignorante... acostar-se.

Dizemos: “Acostei-me à parede” (isto é – “pus-me rente à parede”) – o que é muito diferente de: “Encostei-me à parede” (isto é – “descansei o corpo apoiando-me na parede”). ou raivecer (ou ainda enraivar-se) equivale a “encher-se de raiva”. enraivecer-se (raivecer-se. Acostar-se é “juntar-se a alguma coisa pelas costas.. ou pelas costelas. molestar-se. agravar-se. enraivar-se. “zangar-se a todo instante e por qualquer coisa”. – Zangar-se é quase o mesmo que “dar o cavaco”. ao fim de alguma coisa. “Abordamos o abismo”. enfadar-se. ou com ele”. É preciso dizer: “Acostamo-nos à floresta ou à serra” (isto é – fomos até ficar muito junto à floresta ou à serra). Dizemos: “Eles se aconchegaram” querendo exprimir que duas ou mais pessoas. embravear). – Enfrenesiar-se. pois até à força podiam conchegar-se. No primeiro exemplo. em contacto. pois este verbo não marca tão bem atividade e gradação como o outro. aproximar-se bem”. “Renteamos o despenhadeiro”. rente”. e mais por vício de educação que por temperamento”. e significa “pôr-se em volta. “abordei-o”. segundo a própria etimologia. e também: “Renteamos com o acampamento. vimos no céu. irar-se. amuar-se por qualquer coisa. irritar-se. ou da árvore”. – Abespinhar-se diz. estimular-se. – Avizinhar-se diz propriamente “fazer-se vizinho. encolerizar-se. com a mesma solicitude se juntaram. “Queremos ou desejamos aconchegar-nos o mais possível”. apaixonar-se. exasperar-se. tão próprio como: “Aconcheguem-se mais”. No segundo caso. enfurecer-se. pelo menos. “Acercamo-nos dele”. tanto para agasalhar-se ou confortar-se como para resistir a algum mal”. “Concheguem-se mais” não é. anojar-se. – Acostar-se e encostar-se enunciam ações diferentes. magoar-se. de propósito. embravecer (embravecer-se. ou em círculo. “irritar-se como as vespas”. – Enraivecer-se. – Irritar-se é “perder a calma.. melindrar-se. e não: “Encostamo-nos”. exaltar-se. – Abordar é propriamente “chegar à borda. tomar-se .. pelo lado”. em torno de alguém ou alguma coisa”.. zangar-se. ou frenesiar-se (também no Brasil – enfrenisar-se) é “zangar-se. incitar-se. ele apenas se pôs mais perto de nós. “Quando a caravana se avizinhava de Jerusalém. – Conchegar-se e aconchegar-se significam “aproximar-se reciprocamente (uma coisa ou pessoa da outra) de modo a ficarem unidas. enquanto que achegar-se pode ser empregado tanto com essa como com a preposição de. indignar-se. enfadar-se. enquizilar-se (ou quizilar-se). raivar). enfurecer-se instantaneamente” (pois a ira dura menos ainda que o furor). – Acercar-se é formado de a + cerca (ou cerco) + ar. atual. “acercaram-se do forte. arrenegar-se. aproximar-se de súbito”. desgostar-se. aborrecer-se. impacientar-se. – Irar-se é: “perder a calma. e tornar-se violento e impetuoso como os loucos”. e não: “conchegar-nos”. agastar-se. flagrante. Não se confundem estas frases: “Ele chegou-se a nós” e “Ele achegou-se de nós”. excitar-se.” 41 ABESPINHAR-SE. ou “abordamo-nos na rua”. e mais lidimamente com esta. aborrecer-se como por impulsão súbita”. assanhar-se.36 Rocha Pombo rença de sintaxe os distingue: chegar-se emprega-se só com a preposição a. esquentar-se. exacerbar-se.. para pedir-nos socorro ou proteção. – Enfurecer-se é “irritar-se até o furor. enfrenisar-se. ou uniram: tanto não diz: “conchegaram-se”. – Rentear = “passar muito junto. encostar-se é “apoiar as costas a alguma coisa”. perder a razão momentaneamente. exasperar-se provocado por alguém ou por alguma coisa”. conquanto digam alguns lexicógrafos que se equivalem. Notemos que o prefixo a de aconchegar-se lhe aumenta uma ideia de ação imediata. ele se aproxima de nós como para amparar-se.

enquanto que amuar-se significa mais “desgostar-se por suscetibilidade”. distinguindo-se deste em sugerir a ideia de “desgostar-se como por fadiga”. – Apaixonar-se é “sair do estado normal por exaltação de algum sentimento. – Abicar significa propriamente (assim como embicar4) “dar com o bico (a proa) em terra”. em fúria ou alvoroço hostil”. – Encolerizar-se é “ir ao extremo da ira. mostrar-se sentido por ofensa”. mas perdeu alguma coisa na acepção comum. ou seja mau”. Pode-se dizer. – Ancorar equivale a fundear lançando âncora” (Aul. – Enquizilarse (ou quizilar-se) é mostrar-se menos que zangado: mais “indisposto por impaciência e antipatia ou quase aversão”. ou de grandes pecados. portanto. sair da serenidade habitual”. – Exacerbar-se. – Desgostar-se é propriamente “não ter mais o gosto que se tinha.” ou “deixar de sentir o prazer que se sentia”. – Embravecer. e à tarde ancoramos a nossa nau mais junto à terra”. – Anojar-se é “sentir-se incomodado. violento”. – Excitar-se. ou mesmo simples desprazer”. – Fundear significa “dar ou tomar fundo”. e quer dizer “pôr em seco. inquieto. feroz como bruto irritado”. – Impacientar-se é propriamente “perder a paciência. conduzir 4 Convindo não confundir com embicar = “encaminhar pela bica”. atracar. mostrando-se agitado e hostil. – Esquentar-se é “exaltar-se um pouco. ou do que é normal”. e sugere a ideia de que foi ofendido ou provocado aquele que se encoleriza”. do que aborrecido. devendo empregar-se. Incitar- -se é mais vizinho de estimular-se: quem se incita mostra “vigor anormal. – Molestar-se é “mostrar-se ofendido por incômodo ou por importunação”. como neste exemplo: “Fundeou toda a frota na vasta baía. quem se excita é como quem “se irrita despertando da sua calma habitual”. – Aborrecer-se diz propriamente “sentir horror”. tirar para a praia”. . e por ter sido instigado”. ou embravecer-se (ou embravear) é “tornar-se bravio. ancorar. – Agastar-se é “enfadar-se ligeiramente. ou. por excesso de pundonor. – Indignar-se significa “encher-se de ira por algum motivo muito nobre. diz “fazer-se áspero. parecer exausto de paciência”. incitar-se e estimular-se equivalem-se com pequena diferença. abordar. – Enfadar-se é menos que aborrecer-se: é “quase amuar-se”. “ancorar” depois de “haver fundeado”. Quem se estimula contra nós é porque foi provocado ou importunado. quase assanho.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 37 de rancor violento e brutal. ou “ressentir-se de alguma coisa desagradável”. triste e desgostoso”. ansioso”. ficar insofrido. – Magoar-se é “sentir-se melindrado por alguma ofensa”. rude. 42 ABICAR. segundo a própria etimologia.). ou irritar-se) à vista de sacrilégios. – Aportar diz precisamente “tomar porto. surgir. – Agravar-se é “fazer-se grave por desconfiança ou aborrecimento. principalmente como pronominal: é “mostrar aversão ou repugnância. – Assanhar-se é “ficar agitado. – Exasperar-se é “irritar-se em extremo. – Exaltar-se é mais do que esquentar-se: é “fazer-se mais enérgico e veemente do que convém. só tratando-se de pequenas embarcações. e pode bem ser que não revele a sua irritação por mais do que animar-se de disposições infensas. – Melindrar-se quer dizer “desgostar-se por motivos muito delicados. seja bom. ou por afetação de melindre”. apor- tar. portanto. chegar. – Arrenegar-se equivale a “zangar-se maldizendo e blasfemando”. ou em presença de alguma coisa que se tem por indigna”. aborrecido. arribar. O próprio Deus pode encolerizar-se (e também irar-se. – Varar também só é aplicável a pequenas embarcações. fundear. fazer-se rude e quase furioso”. varar.

– Rodomoinho (ou remoinho) é quase o mesmo que sorvedoiro: não dá. sendo de notar que a coisa abjeta é a que repelimos como indigna de nós. chegar por via marítima” (Aul. – “desses terríveis remoinhos formados pela 5 Abismo é do baixo-latim abysmus. como se dissesse: “apresentar-se. no entanto. desprezível. no entanto.38 Rocha Pombo ao porto. no sentido figurado. abominando. É “por isso que. a ser precipitado. báratro. escarpado. não chega – arriba. execrável. sorvedouro. é mais forte e sugere a ideia da violência inevitável com que a voragem engole. e quer dizer “alcançar o ponto demandado”. de um lago. dar com o bordo junto à terra”. “procurar abrigo ou refúgio”. – Pego é a parte mais profunda do mar. só a ideia de “absorção para o fundo”. – Atracar equivale quase a abordar: é “chegar e prender-se à terra ou a outra embarcação”. portanto. e que arrastam fatalmente para a profundeza. repugnante. – Arribar significa “ser forçado a tomar porto”. “entrar num porto que não é o que se demandava”.) parecendo aduzir à “noção de chegar a ideia de surpresa”. – Abordar significa propriamente “encostar ao bordo”. execrando. – Báratro era o precipício onde se fazia cair o criminoso de certos crimes em Atenas: daí a significação de “profundeza como a do inferno”. portanto. as embarcações que a imperícia ou a fatalidade leva até onde alcança a influência do torvelinho. indigno. aborrecível (aborrível). – profundo. A embarcação que sai. A forma culta é abysso (latim clássico abyssus. odioso. e da dificuldade da marcha quando se as circula. entrar no porto”. 43 ABISMO5. pois. de um rio. abominável. subvertendo-as. voragem. abominoso. ou da passagem quando se as quer evitar”. – Chegar é o mais genérico de todos os do grupo. como este. ou sem ser esperado”. – Abjeto é o mais compreensivo de todos os do grupo. são mais para temer os perigos. traga o que nela cai. correspondente de abyssus) significa propriamente aquilo “que não tem fundo” e onde desaparece para sempre o que chegou a cair. A ideia principal que sugere esta palavra é a do perigo da queda. rodomoinho. por isso. onde alguém é lançado como castigo. pois o remoinho pode também levar para os ares. do grego abussos = a + bussos “sem fundo”). se emprega esta palavra para designar os grandes perigos de que muito dificilmente se pode sair e que só se descobrem quando já é dificílimo evitá-los”. e a coisa detestável é a que não pode . particularmente. entrar de repente. – Abismo (do baixo-latim abysmus. – “Precipício (do latim prœ “para diante”. – Despenhadeiro diz propriamente “rochedo elevado e abruto” de onde há grande perigo em lançar-se alguém. ignóbil. e caput “cabeça”) é um espaço vazio – diz Bourguig. pego. e. Há. significando quase o mesmo que detestável. por causa do escarpamento das beiras. a ideia de tragar que predomina nesta palavra. baixo. – Voragem (do latim vorago) “é o nome” – diz Bruns. 44 ABJETO. despenhadeiro. ação de correntes opostas. traga- doiro. vil. tratando-se de navios: “entrar no porto ao cabo de uma viagem”. repelente. – Sorvedouro e tragadoiro confundem-se: este último. mas volta ao porto sem ter seguido a seu destino. detestável. precipício. e por extensão “chegar à terra ou ao porto. É. onde. emprega-se no figurado para designar o que atrai irresistivelmente para a ruína ou a morte inevitável”. no qual se está exposto a cair. entre sorvedouro e tragadoiro a mesma diferença que se nota entre sorver e tragar. – Surgir é “aparecer. tragando-as.

sem ser abjeta. “A vida fora de Paris é detestável” (não abjeta). como algumas ocupações mecânicas. enquanto os católicos dizem que ele apostatou do catolicismo. a coisa abjeta deixaria de ser detestável. que o verbo abjurar. a avareza. – Sobre abjurar. São particularmente vis os vícios que desonram e infamam.: Abjurar (do latim abjurare “negar com juramento”) é renunciar solenemente à religião que se tem seguido e que se reputa falsa. nem instrução. Note-se. abjurou os erros do catolicismo. repelido por todas as consciências como sacrilégio”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 39 ter a nossa sanção moral. ou a coisa da qual não queremos saber. baixo de condição. e não é recebida por nós. ou uma coisa. são “palavras que apresentam a ideia de desprezo. Um indivíduo. Segundo Roq. Baixo é o que por cobardia sofre injúrias de outrem. porém chamamos particularmente baixos aqueles que supõem falta de vigor e de energia. – Vil e baixo também se aproximam muito. Os católicos dizem que Henrique IV de França abjurou o protestantismo. – Execrando é “o que merece maldição de todo mundo”. apos- tatar. o que “se condena. porém. – Execrável é o que “atenta contra lei sagrada”. segundo a própria formação – “digno de desprezo”. segundo os protestantes. Abominoso é o que “contém. – Abominável é “o que é digno de condenação como coisa ímpia e nefanda”. que. que se fez para ser negado. 45 ABJURAR. que “afronta o nosso sentimento religioso”. Chamamos ofícios baixos aqueles que só exerce a gente miserável e abandonada. e é dos mais vagos do grupo. o que está cheio de abominação”. é um poeta detestável” (não abjeto). e muito vil o que as sofre contente. É mais forte que execrável. – Repugnante é vizinho de repelente: é “o que se repulsa como coisa nojenta”. “F. posto que sob diferentes aspetos. convertendo o homem numa besta malévola. Todo vício é baixo e desprezível. se detesta. – Repelente oferece alguma coisa de comum com detestável e abjeto. converter-se. Abominando quer dizer – “que se há de abominar. Baixo é o homem que abate a sua dignidade. abrenunciar. como costuma suceder na embriaguez. desprofessar. se afasta com horror”. – Indigno aproxima-se de ignóbil. porém. – Ignóbil diz propriamente – “sem nobreza. não é por todos aplicado ao mesmo ato: o que é abjurar para uns é apostatar para outros. pode ser detestável. trair. Convém ainda advertir que abjeto ajunta à noção de detestável a ideia de baixeza. renegar. que não exigem mais que um trabalho material e nenhum talento. g. O descarado adulador. vil o que perde a estima dos outros e ainda a sua própria. que empregam o verbo apos- . v.. o mais vil dos homens é o que vende sua honra e sua consciência para adquirir dignidades e riquezas. Chamase vil o “exercício que se tem por desprezível em razão de ser sujo. e entregue de ordinário a gentes tidas por infames em seu proceder”. – Odioso quer dizer – “que merece ódio”. significa propriamente – “que inspira horror. feroz e brutal na sua execução.. podendo-se entender que reúne o valor destes dois: é repelente o que “se detesta ou repele com asco”. “Note-se também que os católicos.. ou aborrível. grosseiro e vil”. – Desprezível significa precisamente. – Aborrecível.. que causa aversão”. que não encerra ideia depreciativa. Em caso algum. que nem ânimo tem para saber calar. feroz e estúpida. é baixo. Entre nós temos o exemplo do padre Guilherme Dias. renunciar. ao passo que os protestantes qualificam esse ato com o verbo apostatar. por seu interesse e com o fim de fazer fortuna por meios indecorosos. e que por isso são tidos em nenhuma conta. e aplica-se ao que é baixo e desprezível. portanto. como. apostatar e renegar escreve Bruns.

etc. de- sambição. segundo a própria formação. lhe dão. – Desprofessar é neologismo aproveitável e perfeitamente legítimo: diz. detestar afastando com horror”. Abjurar diz propriamente “jurar contra alguma coisa. não assim os membros das outras religiões”. pois mesmo aquele que trai o seu Deus. – Trair neste grupo aproxima-se muito de renegar: é “negar ou protestar com perfídia. e não a que se deixa. a abnegação não tem limites. de exercer em público. altruísmo. Quantos traidores ficam preferindo de coração. nem sempre a renegará necessariamente. escola. amputação. 47 ABNEGAÇÃO. – Abrenunciar é mais forte que renunciar. – “Em linguagem cirúrgica” – diz Bruns. de ter na conta em que se tinha”. Este diz apenas. é um apóstata. ceder um ganho lícito. podendo ainda continuar a tê-la em respeito. como vimos. O desinteresse cessa onde principia o interesse próprio. sim. a crença. “deixar de professar”. – Sobre converter-se (que se aproxima de abjurar). causa. a coisa traída. – Renegar é ao mesmo tempo abjurar e apostatar “passando a ter ódio à coisa renegada”. isto é. a sua causa.: “Abnegação diz mais que desinteresse. desinteresse. e até de consciência. e ficasse sem nenhuma crença. Pode-se renegar sem trair: e a inversa também é admissível. a opinião.). e dele se diz com toda propriedade que apostatou. isto é. abrenuncia-se o espírito do mal. ou escola filosófica) e fosse combater a antiga – esse. devendo subentender-se que aquele que renuncia abandona apenas a velha crença. e que leva a passar de uma religião reconhecida falsa para uma religião considerada verdadeira”. renunciar a uma herança em favor de um parente pobre: é abnegação ceder o que nos é indispensável. A ablação consiste em extrair de qualquer parte do corpo uma parte mórbida: faz-se a ablação de um quisto”. interceder em favor de um inimigo. põe longe de si a coisa (o princípio. desamor. sem ódio. ou sem intenções hostis a respeito da coisa renunciada. Um sujeito que se passasse para uma religião nova (ou para outro partido. – Quanto a abnegação e desinteresse escreve Bruns. de aceitar. diz Bourguig. que sai do seu grêmio. ou do seu partido e vai para outro. na fé.” Quem abjura afasta da consciência a coisa abjurada. um indiferente em matéria religiosa. etc. de “dar testemunho. abrenunciar significa “negar. mas aquele que apostata é como o trânsfuga. Quem apostata deixa. quando se emprega este termo. De um sujeito que tivesse deixado a sua religião. abandona. um erro sacrílego em que se vivia. – Renunciar é aqui convizinho de apostatar. 46 ABLAÇÃO. a sua seita. de reconhecer formalmente. o principal móbil que leva à mudança de religião. desapego. desprendimento. Henrique IV converteu-se ao catolicismo. lançando-a fora do espírito. Desinteresse diz-se do que é material: é desinteresse vender por baixo preço (com pequeno lucro). o demônio. de que apostatou por uma outra coisa. por conveniência própria. tem-se em vista a religião que se abraça. arriscar a saúde velando duran- . – “consiste a amputação em cortar um membro superior ou inferior: amputam-se os braços ou as pernas. O sujeito que desprofessa o seu culto pode passar a crer só consigo mesmo o que já cria. e não a convicção. Abrenuncia-se a vida ímpia em que se andava. o sentido de ser o interesse. o seu culto. “deixar de crer.40 Rocha Pombo tatar.: “Converter-se marca simplesmente uma mudança que se operou nas crenças. sem mágoa. princípio.. deixando apenas de continuar a fazer confissão pública da sua crença. faltando à fé jurada com os da grei”. Além disso. ou um ateu – não se poderia dizer que apostatou: sim que renunciou.

– Apurar diz também “fazer puro separando fezes. – Mundificar. segundo a própria etimologia. é “fazer livre de impurezas. Os ventos rijos purificam o ar. – Abolir significa “declarar não existente. – Lavar é “limpar com água”. pois. 48 ABLUIR. no entanto. o pouco caso com que se vê passar uma felicidade a que se tinha direito”. desfeito. e não – purifica”. Desapego. Purificar é tornar puro. além dessa ideia. Sobre estes três verbos escreve Bruns. suprimir. acendrar. “A chuva lava o ar”. limpar. E mesmo: “De uma certa quantidade de calda apura-se (não – purificase) tantos quilos de açúcar”. “Tais amarguras dir-se-ia que te abluem a alma”. Tanto se apura como se purifica o açúcar. mas. mundificar (também mundar). ou mundar (de mundus = puro. ou aplicando-se a coisas morais: “Limpamo-nos de culpa e pena”. muito judiciosamente: “Nestes entra o radical puro. purificar. deduzir. purgar. lavar. ou com cinza. ab-rogar. limpo). E em sentido translato também se usa: “Aqui (no Purgatório) – disse-me o patriarca – lavam-se almas”. o coração. “Naquele horrível sacrifício a mísera se desmaculou do nefando pecado”. e figuradamente “tornar puro aquilo que se manchara. o ar. – Desmacular é neologismo perfeitamente admissível. infirmar. ou com preparações. expurgar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 41 te noites consecutivas o amigo doente”. Desapego não é. a decisão com que se renuncia a grandes bens. . tratando-se de qualidades morais. e diz. – Acendrar é “limpar e fazer brilhante como os metais polidos”. – Limpar é o mais genérico do grupo. ou de coisas estranhas. Não se implantam liberdades onde não se expurgam erros”. – Altruísmo é o nome moderno da velha virtude cristã do amor do próximo. Purgar é tornar puro fazendo expelir o que há de impuro no que se purga. – Abluir diz aqui propriamente a ação de “fazer puro como as coisas sagradas”. Limpe-se ele primeiro (ou lave-se) das acusações que lhe fazem”. – Desapego e desprendimento dizem quase a mesma coisa. Purifica-se o espírito. – Desprendimento é a “indiferença com que se vê um perigo. Também é usado figuradamente. Quase que só se usa hoje em sentido figurado. antiquar. segundo a própria formação. substâncias estranhas”. parece mais forte. etc. aptidões. de um esforço alguma coisa se apura. a água. a coragem estouvada com que se afronta um mal. 49 ABOLIR. diz “fazer limpo. – Desambição e desamor não fazem mais do que marcar a perfeita antonímia em que ficam com os respetivos radicais. de uma discussão. ou a coisas a que nos tínhamos afeiçoado”. invalidar. – Acrisolar é “purificar como se apura em cadinho ou crisol”. acrisolar. extinguir. e sugere ainda a “ideia geral de desmisturar. desmacular. senão a “facilidade. Expurgar é tornar completamente puro o que ainda não se havia purgado ou purificado de todo. Quase que só se usa no sentido figurado. – Purificar (como purgar e expurgar) exprime a ideia geral de “fazer puro eliminando impurezas”. como com óleos.” Tanto se limpa com água. proscrever. apurar. “Lavam-se as mãos”. revogar. mas – “de um negócio. A fermentação purga o mosto.” tirar a mancha ou as manchas”. pelo menos quando é certo que a pessoa que se apega mostra mais vontade e esforço em apegar-se do que mostraria em prender-se ou deixar-se prender. anular. tornar puro”. etc. verificar o que há de essencial nalguma coisa: e nesta última acepção não se confunde com purificar. mediante qualquer processo. derrogar. nota-se no vocábulo ainda outra: a de uma causa que penetra no objeto impuro para o modificar e devolver-lhe a pureza primitiva. como se purifica o sangue. cassar.

– Invalidar significa “tirar o valor”. fiança. como de pessoas. etc. modo. portanto. sinal. quando muito. e sim: “. . costumes. não se dirá ab-rogado. “F. De uma lei não se diz cassada. e sim: “. – Revogar é quase sinônimo perfeito de derrogar: significa. não seria perfeitamente lídimo dizer: “Mais hoje. coisas. mais amanhã havia de extinguir-se a monarquia”. – Anular diz propriamente “tornar nulo”.. mas ab-rogada. a ação de declarar “não vigente”. Emprega-se tratando-se de leis. Por isso ab-rogar se diz em referência a uma lei ou a um decreto que a autoridade competente deixou sem efeito e substituiu por outro: derrogar deve aplicar-se menos a toda uma lei do que a uma ou algumas disposições dela. impostos. Neste caso empregaríamos o verbo suprimiu. ao passo que para suprimir basta o ato supressório. pois que a diferença que se quer ver entre eles é quase convencional. ou estava inquinada de algum vício. com esta diferença: supõe-se sempre um ato de autoridade que anule: o que não se dá quando se trata de invalidar. enquanto que derrogar exprime com mais propriedade “deixar sem toda a força. garantia. é quase o mesmo que anular. “como se não existisse”. porém. – abonação é a ação de abonar.. de um princípio jurídico ou filosófico”. atenuar ou diminuir a força de uma lei cortando-lhe uma parte”.. havia de abolir-se. e desta mesma o art. cortar alguma ou algumas partes delas. tinha algum senão.. Do mesmo. e com certa razão. mas significa também “eliminar. O prefixo ab. arras.. ou a resolução que se tomara. ou não tinha começado a produzir efeito”. ou “sem valor”. – Extinguir significa também abolir. mas que não havia tido aplicação ainda.”. Ninguém diria. isto é. mas em certos casos não se poderia empregar um pelo outro. costumes. costumes. de uma sentença. É antônimo de confirmar. alguma coisa contra o direito. Aplica-se em regra nos casos em que a lei.. ou uma infração essencial invalida um contrato. Uma circunstância ignorada ou imprevista. cancelado por ato público”.. senão cassado. Dizemos: “A lei de 13 de maio aboliu a escravidão”. pôr de lado parte de alguma coisa”. e tanto se emprega tratando-se de leis. penhor.. “A nova lei ab-rogou a lei tal.. o vigor de uma lei. e tanto se emprega tratando de leis. portanto. etc. 50 ABONO. de dar segurança pelo caráter ou pelas aptidões de uma pessoa. abonação. isto é. com esta diferença: é só uma nova disposição que derroga a outra. caução. extinguiu. por exemplo: “O decreto. – Antiquar é “deixar cair em desuso”. e. como de instituições. – Proscrever é “declarar excluído. fatos de linguagem. melhor do que este. – Abono é o próprio ato de assumir alguém por um outro uma certa responsabilidade moral. e. hi- poteca. – Suprimir é mais genérico e menos técnico que derrogar.” – Ab-rogar e derrogar confundem-se de ordinário. pediu-lhe abono. tantos já foi derrogado por lei ulterior”. ou a anular. tratando-se de leis – “excluir. o decreto ou a sentença anulada. segurança. Na fórmula legislativa: “Revogam-se as disposições em contrário” não seria permitido empregar o verbo derrogam-se.42 Rocha Pombo apagado”. mas decerto que não diríamos: “A lei tal aboliu um cargo no ministério tal”. De um decreto que ontem ou há poucos dias se publicou e hoje se deixa sem efeito. usos. ou a lei tal aboliu tal repartição”. – Cassar é propriamente “declarar sem efeito o decreto que se tinha publicado. instituições. isto é – não se faz indispensável que em lugar da disposição suprimida fique vigorando disposição nova. etc. mas só o juiz competente pode anulá-lo”. é “prescrever por falta de aplicação”. – Infirmar é “tirar a força. parece apenas mais ativo e mais forte do que o prefixo de.

Se a garantia é feita por outra pessoa que não o próprio comprador. mas decerto que não é aborígene senão o selvagem que aqui encontramos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 43 mas compreende-se que em casos tais não vale só a abonação de um parente”. na escala antropológica.). ou na própria raça”. por isso. ou não se sabe se seria possível afirmar a autoctonia daquele que é o mais antigo habitador da península”. Apenas natural acrescenta à noção a ideia de incultura. ou por um terceiro que responde pelo cumprimento da obrigação. – Nativo = oriundo. fideijussória. o objeto não corresponder às condições devidas: é a garantia direta”. “O ibero é o aborígene da Espanha. A pessoa que a tal se obriga chama-se “fiador”. Pode ela ser consensual. malograr-se. que subiu. no que. Hipoteca é a obrigação de bens de raiz por alguma dívida. e quanto ao autóctone desta parte da América nada sabemos até agora de positivo”. indígena. chama-se indireta. mas quanto ao autóctone da península nada sabemos. “O preço de um objeto vendido sob garantia é devolvido ao comprador se. etc. e que dá direito ao credor de pagar-se por eles. – Segurança é propriamente “garantia moral”. – Aborígene e autóctone confundem-se de ordinário. segundo as diferentes relações em que se a considera: pignoratícia. portanto. segundo Bruns. próprio do país”. hipoteca e fiança. Só. – Arras. que se formou. Fiança é a obrigação em que alguma pessoa se constitui voluntariamente de pagar por outra quando este o não faça. antes de terminar o prazo em que a garantia cessa. que indígena é o mesmo que natural. dada pelo próprio interessado que se obriga. isto é. nativo. – Quanto aos quatro primeiros do grupo escreve Bruns.. – Penhor é o móvel que se obriga ou empenha ao credor para segurança de uma dívida. segundo as disposições da lei. ou que foi o habitante mais antigo que nele se encontrou (de modo que pode ser até adventício no país onde foi encontrado): enquanto que autóctone deve ser o povo ou o indivíduo que apareceu. até a espécie humana – no próprio país onde se encontra. se não se cumprem as condições do contrato. ou de cumprir seu dever no caso em que ele o não cumpra. penhor. autóctone. – Íncola é o que “habita um país que não é o do seu nascimento”. gorar. íncola. origi- nário. em linguagem científica. ou nascido na própria terra onde vive”. e significa “filho do país. se chama centro de criação é que se encontraria o legítimo autóctone. 52 ABORTAR. portanto. fracassar.: “Abortar é não chegar a realizar-se por causa de um defeito intrínseco ou por uma força estranha o . pode ser direta ou indireta.: “A primeira palavra é o gênero a que pertencem as outras como espécies. juratória. falhar. – Sinal é o dinheiro ou a coisa que o comprador ou um dos contratantes adianta como garantia do ajuste que há de fazer. frustrar-se. 51 ABORÍGENE. e confunde-se com abonação. parecendo que a diferença consiste apenas em ser o primeiro “escrito e formal”. – A garantia. diz o mesmo quase que sinal. – Originário = que “tem origem no próprio país. judicial ou legal. Mas a diferença entre eles marca-se bem neste exemplo: “O filho de europeu nascido no Brasil é indígena. escreve Roq. – Aborígene é o povo que se considera como o primitivo num país. ou “que é próprio do lugar do nascimento (Aul. Quer-se dizer. e significa qualquer meio de assegurar a outrem que havemos de cumprir nossos deveres ou os ajustes que com ele fizemos. natural. e até estes dois com o terceiro do grupo. em linguagem jurídica se dá à caução diferentes nomes. – Quanto a caução. hipotecária.

enterne- lagamar. – Falhar é “não produzir o efeito desejado. a sensibilidade – como que adormecer. é “fazer brando”. – Abra.. “tanto na costa. os sofrimentos morais. esteiro. recôncavo.” – Atenuar é “fazer mais delicado. comovido”. atenuar. enseada. – Abrigada (ou abrigo) é “qualquer porção de mar manso (resguardado de certos ventos) onde os navios se podem refugiar contra tormentas”. é. apaziguar. Frustrar-se é não obter o resultado que até certo ponto se tinha o direito de esperar: um filho inteligente frustra as esperanças do pai quando abandona o estudo pelo vício. adormentar. – Serenar é “fazer sereno. adoçar. delicioso. Suaviza-se a voz.. como fracassam grandes negócios planeados. mas que não penetra demais na costa”. – Golfo é porção considerável de mar que entra muito pela terra. – Moderar é “diminuir movimento. – Adoçar diz propriamente “fazer doce” (como adocicar equivale a “tornar mais doce. forte. tirar o que há de áspero.. – Enternecer é tornar mais do que brando: é “fazer tenro. – Baía é “grande porção de mar que penetra na costa. conter em certos limites”. e aquela de que o governo chega a ter conhecimento. a ação. amenizar. temperar. aprazível. serenar. intenso nalguma coisa”. baía. e que sendo pouco profundo só dá curso a pequenas embarcações. – Enseada é “grande porção de água aberta. não ter bom êxito devido a causas alheias: malogra-se uma viagem quando um acontecimento nos impede de partir. Também se chama furo ao pequeno canal que une duas porções de água maiores. há de gorar se o público se não capacitar da sua utilidade. – Calheta é um braço de mar ou de rio “apertado entre duas pontas de cer. por muito útil que seja. isto é – o igarapé mais estreito ou menos franco à passagem de canoas). acalmar. de intensidade conveniente”.. – Amenizar é fazer ameno. frustrar-se de todo e produzindo sensação”. isto é. (É o que se chama no interior do Brasil igarapé. como num rio. diminuir as proporções”. – Lagamar é “recôncavo mais vasto.). como as campinas florescidas. falham cálculos. onde as águas como que se espalham penetrando nas terras”. “fresco. – Temperar é “pôr em grau de força. entrando por boca estreita e alargando-se no interior”. moderar. reduzir a menos. – Adormentar é diminuir ou “suspender momentaneamente o movimento. 54 ABRANDAR. segundo Bruns. o lugar de bastante fundo que de qualquer modo está defendido do ímpeto das águas e dos ventos”. que aliás é mais preciso e mais forte. ou quando uma notícia nos obriga a retroceder depois de a ter principiado. moderar o ímpeto. de movimento. golfo. suave. duro. terra”. Falham planos. reduzir força. – Recôncavo é “pequena enseada e metida mais para os fundos de uma baía ou de um golfo”. a dor.44 Rocha Pombo impedir: aborta a conspiração malplaneada. Gorar é não ter bom resultado aquilo em que fundávamos boas esperanças: uma empresa. – Angra é “um braço de mar. ampla e pacífica. calheta. e “cuja abertura é ordinariamente bastante larga” (Aul. adormecer. mitigar. 53 ABRA. suavizar. meio doce”). uma abra alongada pelo interior da terra”. – Abrandar. “diminuir a intensidade do que é demasiadamente ativo” (Bruns. abrigada (abrigo). O pai dirá que as suas esperanças se frustraram”. angra. isto é. Fracassam conspirações. – Suavizar é “fazer mais suave. dócil. Malograr-se é não vingar. – Fracassar é “falhar imprevistamente. não suceder como se esperava” (Aul. falham esperanças. aplacar pouco . – Esteiro é um estreito braço de mar ou de rio que penetra nas terras. segundo o próprio radical. sensível. abonançar.)..).

porém. queimoso. comburente. Dizer que a idade acalma as paixões não significa tanto como “a idade modera as paixões”. e o segundo exprime propriamente “que queima”. e apenas menos forte que queimante. na acepção que tem aqui. Não se diria com propriedade. cálido. queimar-se. fazer cessar a tormenta” (Bruns. em moderar há significação reguladora. está no mesmo caso de abrasante: vale por um superlativo de quente. “tão quente que parece queimar como o fogo”. – Sobre arder. escreve Roq. “Como esta música ou esta voz lhe mitiga tantas dores. e ajunta à noção de abrandar a ideia de “agradar. – Acalmar. com o valor de cálido quando se diz: “clima quente”. etc. – Queimoso é o mesmo. abrasear e esbrasear. harmonizar. que faz arder. inflama-se. – Carbonizante significa propriamente “que reduz a carvão”. como “sol abrasador”. – Ardente. dizemos que arde. tem cabida ao falar das calamidades. etc. Emprega-se. Efetivamente. o verbo não encerra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 45 a pouco”. “que atua como o próprio fogo”. a emoção. abrasear = “fazer da cor da brasa ou pôr em estado como de brasa”.. “que dias quentes”. – Abonançar – “fora do sentido reto. antes. devendo notar-se o flamar-se. esbrasear = “tornar quase como brasa. 56 ABRASAR-SE6. – Abrasador (ou abrasante) significa propriamente “que reduz a brasas”: no sentido figurado diz. a sua significação é a mesma nos dois sentidos: serenar. incendiar-se. etc. – Cáustico e queimante dizem quase a mesma coisa: apenas o primeiro aplica-se para significar coisa ou droga que “destrói o tecido orgânico como se fosse fogo”.” “Não há nada capaz de mitigar-lhe aquela saudade”. a rudeza. consolar”. a moderação sendo constante: o que não se dá com acalmar. ardente. portanto. o que de si mesmo é quente.. cáustico. a violência. abrasador. Também se diz: “sol carbonizante”. – Candente se diz daquilo “que de tão quente parece ou branco ou vermelho”. ou que abrasa”. a ideia de ser a calma completa nem duradoura. ou cuja temperatura. ao mar. isto é. ao vento. – Caloroso define-se pelo próprio radical.: “Explicam estas palavras os diferentes graus pelos quais pode passar um corpo combustível desde o instante em que se lhe ateou fogo até que foi inteiramente consumido. pôr de acordo”. Bruns. . por exemplo: “a sopa está cálida”. 55 ABRASADOR (ou abrasante). incendiar-se. com o verbo estar. in- loroso. determinada por ação estranha. arder. Quando penetra o fogo num corpo combustível. pode aumentar ou diminuir”. queimante. – Comburente quer dizer “que produz combustão. segundo Bruns. quando levanta 6 Há uma certa diferença entre abrasar. “é fazer diminuir a cólera. ca- seguinte: cálido é o que tem naturalmente um alto grau de calor. deixa supor que a agitação. – Cálido e quente aproximam-se bastante. pelo contrário. a agitação. incinerar-se. Abrasar significa “reduzir a brasas” (sentido natural). quente. inflamar-se. Nem deve este adjetivo ser usado. a violência. Apaziguar diz propriamente “restabelecer a paz. quando se desenvolve a chama. dos infortúnios. podem recrudescer: “o vendaval que acalmara (que ficara menos forte) ao amanhecer. que tem referindo-se ao tempo. carbonizante. – Mitigar é moderar o rigor. desencadeou-se depois com mais fúria”. e se manifesta à simples vista.). pois. conflagrar-se. considerados como tempestades da vida. candente. abrasar-se e queimar-se. vermelho e crepitante como brasa”. Quente é o que “pode ter mais ou menos calor. ardente. no entanto. estabelece uma gradação ascendente no valor destes três adjetivos e dispostos nesta ordem: caloroso...

escreve Alv. incendeia-se. “Restrinja os seus gastos. aspirações. portanto. diminuir em todas as dimensões. “Vamos restringir todo o nosso esforço a nada arriscar em vão”. asilo quer dizer: “lugar de refúgio. como se reduzem aspirações. “Asilo é derivado do a privativo. uma proteção. Diminui-se tanto prazo. encaminhar com mais presteza uma solução”. encurta-se um Ilinc lucum ingentem. é o mais genérico do grupo. colher o que é demais. se queimam os corpos quando. dificuldades de vida. acolhida.. – Reduzir significa neste grupo “fazer mais simples. a aflição etc. aplicando-se tanto no sentido moral como no físico. reduzir um prazo. Diferença-se. resumir”. – Abreviar é “diminuir o tempo em que alguma coisa se há de fazer. ímpetos. quando o corpo que deu alimento ao fogo.. pouco mais ou menos com as mesmas diferenças”. queimou-se. Rômulo fundou também um asilo no bosque entre o Palatino e o Capitólio. houve asilos só para certos criminosos. tirar”. O incêndio supõe um grande fogo que. é apressar. uma defesa contra a força e perseguição. – Conflagrar é “pôr inteiramente em chamas. uma haste. asilo. fazer menos demorado. . arder de inflamar em que o primeiro designa a ação ordinária pela qual o fogo se apodera dum corpo e o vai consumindo. – Encurtar é “diminuir distância. coito. o refúgio é um recurso contra a indigência. do qual faz menção Virgílio nos seguintes versos: diminuir. Etimologicamente. Pas. reduzir. e quando a força do fogo ou do incêndio devorou a matéria combustível e a reduziu a cinzas. extensão. acolhimento. que por isso se chamam inflamáveis. e diz propriamente “fazer menor”. guarida. Pode abrasar-se um corpo sem formar labaredas: – tal é o ferro na frágua. de onde ninguém pode tirar os que se acolhem nele”. e antes disso. e do verbo grego sylan. a decisão de um caso ou de um negócio. esconderijo. e até saudades. – Incinerar diz propriamente “queimar até reduzir a cinzas”. – Restringir é “tornar mais curto ou limitado como que apertando os extremos”. apesar de compacto. refúgio. uma corda. caminho. 57 ABREVIAR. Abrevia-se um prazo. encurtar. – Sobre asilo e refúgio. restringir.46 Rocha Pombo labareda e se propaga com rapidez e fracasso.. caminho. está todo repassado dele e feito brasa. e aplica-se particularmente às matérias líquidas e resinosas.] O asilo é. et gelida monstrat sub rupe [lupercal. e segundo o seu verdadeiro sentido. 58 ABRIGO. Usa-se frequentemente no sentido translato. homizio.. abrasa-se. e ainda depois. quem Romulus [acer asylum] Retulit. resguardo. Os descendentes de Hércules fundaram em Atenas outro asilo como o de Cadmo. restam somente os resíduos incombustíveis. – Os quatro primeiros termos tomam-se no sentido figurado. destruir completamente pelo fogo”. valhacoito. que significa “levar. como trabalho mental. roubar. fazer menor o que se supõe grande no comprimento”. Reduzem-se dificuldades de um negócio ou de uma campanha. e por isso figura em outro grupo. pois. depois de consumido o que dava alimento ao fogo. – Diminuir. e tomando ala faz rápidos progressos. aqui. e o segundo designa a força com que a superfície deste corpo arroja de si o fogo que a penetra. e tudo irá melhor”. Tanto pelo fogo ordinário. esforços. se comunica aos corpos vizinhos. amparo. como pelo incêndio. Cadmo fez edificar um asilo para todo gênero de delinquentes. despedindo chamas.

ou na casa de alguém”.. deixa passagem apenas a um raio de sol ou a uma réstia de luz.).. entreabrir. ou de fora para dentro”. 59 ABRIR. Acolhida é. Busca a nau um refúgio em qualquer porto fugindo à tempestade que receia. – Homizio é “valhacoito procurado por criminoso perseguido da justiça”. pois. abrir.. ou uma cortina. Até em mestres se encontra confusão. teve bom acolhimento”. – Resguardo é “defesa. – Amparo significa o ato de acolher e sustentar ou apoiar. es- cancarar. por uma por- . – Soabrir é “abrir muito pouco e instantaneamente”. tem o melhor ou o mais cordial acolhimento o parente que não víamos de muito e que chega de surpresa”...Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 47 O hospital é um refúgio para os pobres doentes. ou na folha da porta. Por uma janela soaberta mal se revezaria uma voz ou se distinguiria um vulto. “A eles (montes) se acolhem (os homens) como a castelos e lugares. as pessoas que se recolhiam.. couto. e hoje quase todos parece que preferem empregar acolhida. deu-se toda a Deus”. “O assassino buscou ou teve homizio seguro no sertão. onde alguém procura abrigo fugindo às vistas de pessoas a quem tenha de dar contas de alguma coisa”.. E também: “Por mais pobre e humilde que fosse. e onde. escancarar) marcam estes vocábulos uma perfeita gradação de sorites. – Descerrar é apenas “desunir o que estava unido ou cerrado”. a ideia de segurança. fácil esconderijo.. “Os bandidos têm o seu valhacoito lá no fundo da floresta”. – Coito (ou melhor.” em vez de: “. mesmo nos casos em que só caberia acolhimento. entreabrir. Aul. Descerra-se uma porta. – Dispostos em outra ordem (descerrar. portanto. Emprega-se em sentido figurado para designar “abrigo ligeiro. oferecia-lhe segura acolhida”. (Dic. (Vieira) – Abrigo é quase o mesmo que asilo... ou a perseguição”. “o próprio ato de receber como quem protege e acarinha”. sempre escuro. “Perdido no campo. do latim cautum) era a propriedade ou lugar “onde não podiam entrar as justiças de El-Rei”. o “lugar seguro onde alguém se oculta fugindo a perigo. como asilo. de garantia por lei ou costume. em vez de: “. e sagrado. e busca num porto amigo um asilo fugindo à força superior que a persegue. foi afinal ter na casinha do pobre fácil resguardo contra a tormenta”. como se vê neste exemplo: “A religião oferecia-lhe seguro acolhimento das lutas mundanas”. Chega-se a dizer: “A delegação de tal país teve boa acolhida na corte do imperador. proteção momentânea contra algum mal ou perigo iminente”. “Tem boa acolhida em nossa casa um amigo que nos procura para pedir-nos um obséquio. se o afastamento que se operou no pano da cortina.. a igreja é um asilo para o criminoso.. O couto é. distinguindo-se apenas em não dar. a coitadinha dispensou o acolhimento que lhe quiseram fazer naquela casa”. “Recolhida naquele soberano asilo. “A casa de um antigo discípulo lhe serviu de abrigo no último período da vida” (Aul. proteger de qualquer modo. em vez de: “. da morte”. acolhida”.. e acolhimento é “o modo como se recebe. – Valhacoito é o “lugar seguro onde alguém se refugia e abriga contra o que teme ou procura evitar”. – Guarida é propriamente a cova ou covil onde as feras se recolhem contra a chuva ou a tormenta.) – Esconderijo é “lugar. – Acolhida e acolhimento confundem-se muito. “Debaixo da árvore encontrou resguardo contra o sol”. soabrir. hospeda e agasalha”.. pois. descerrar. da Ac.. em que têm amparo e defensão certa”. soabrir. mas de modo a poder-se ver e falar para fora.. (Cardoso) “Por isso Tertuliano chamou judiciosamente à sepultura asilo. – cit. onde alguém se furta a olhares de estranhos”. – Entreabrir é “abrir pouco e com cuidado. ficavam fora e livres dela.

Mesmo quando se abre um caminho não se faz outra coisa senão. – Desligar é antônimo de ligar e diz. soabrem-se os lábios num ríctus imperceptível. restingas. banco. 60 ABRIR. – Desprender ainda exprime com mais força. Abrolhos é voz usada em sentido transla- . apartar. desatar. em geral. separa-se uma coisa da outra. Em referência a caminhos de ferro. separar. Dizem os etimologistas que cachopos é corrupção de scopuli “rocha”. uma gaveta. mas veria distintamente quem estivesse dentro da casa. sendo elas distintas e indicando coisas diferentes. afastar. Abre-se uma janela para falar com alguém. já não se emprega o verbo abrir. separar “o que estava unido. desunem-se mesmo povos que eram amigos. Desune-se um casal (separando um do outro esposo). – Todas estas palavras designam acidentes ou situações no mar (ou nos rios). – Quanto às quatro primeiras do grupo. mesmo que nunca tivessem sido unidas. – Afastar é “pôr uma longe da outra as coisas que se desuniram ou separaram”. desunir. apertado”. – Soltar enuncia a ideia geral de “libertar coisas que estavam juntas ou presas umas a outras”. duas ou mais coisas ou pessoas. alguma outra coisa”. baixios.. associadas. – Desatar é “deixar livre uma coisa que estava presa por nó”. recifes. e que impedem ou dificultam a navegação. “Nunca se divorciou da religião de seus pais”. e onde rebentam as ondas. unidas”. cachopos. um pacote de biscoitos. abre-se uma porta para que alguém entre. Divorciam-se colegas. Tanto que não se diria. escancara-se a gargalhar. sirtes. escolhos. separam-se os bons dos maus. “separar o que estava ligado”.. – Separar diz propriamente “pôr. quase sempre junto das costas. fare- lhões. separar por sentença. portanto. “de lés a lés”. desligar. (Aul. “Fazem tudo por divorciar-me do meu partido”. – Escancarar é abrir completamente.. e é só neste sentido que se diz – “abrir caminho”. destruindo portanto a unidade ou o todo desmembrado. alfaques. entreabrem-se os lábios a sorrir.) Abre-se a boca falando. soltar. Cachopos são penhascos que saem fora d’água. coisas que haviam sido incorporadas ou ajuntadas. amigos que se separam para sempre. – Desunir é antônimo de unir. ou um lado do caminho do outro lado. Abre-se uma caixa. portanto. aqui. separa-se a Igreja do Estado: em regra. diz Roq. – Abrir. Abrir é “remover alguma coisa da abertura que está ocupando (fechando) de modo que deixe passar. ou as partes de uma coisa umas das outras. porque em tal caso já não se trata só de “separar as margens”. “desunir. e na acepção lata é “separar definitivamente”. ou no seu lugar. é “afastar uma coisa da outra”. cada qual para o seu lado. ligado. distanciar. o mais possível. e significa. e de modo mais preciso. por exemplo: “desunir os bons dos maus”. eliminando os embaraços que se acharem entre uma e outra. desprender. por exemplo. a ideia de soltar.. 61 ABROLHOS. divorciar.. tratando-se particularmente do vínculo conjugal.48 Rocha Pombo ta entreaberta um homem não passaria. baixos. segundo a lei”. – Divorciar é. “desunimo-nos ao chegar à vila”. separar uma da outra margem. – Apartar é “impedir que continuem. que “os autores as têm confundido. desmembrar.” Separa-se o trigo do joio. ligadas intimamente. duas ou mais coisas. por essa abertura desimpedida. – Distanciar é “afastar muito as pessoas ou coisas que se separaram”. desunem-se. parcéis. desunem-se famílias que viviam em perfeita união. – Desmembrar é desunir ou “separar por membros”. pois o verbo desunir só se deve aplicar quando se trata de coisas que tinham sido enlaçadas.

escarpado. – Banco é “cômoro ou elevação mais ou menos extensa de areia. – Sirtes são baixos de areia movediça por entre penhascos. O alfaque é breve e fundo. ladeirento. – Abrupto difere de alcantilado e de íngreme em ajuntar à noção de “flanco a pique a ideia de áspero. “as grandes verdades escondidas ao vulgo”. – Absconso e abscôndito não são apenas. – Ladeirento = “disposto como em ladeiras. conserva alguma coisa da sua função de particípio. quase empinado”. inclinado. e por onde não se poderia subir ou descer sem grande esforço ou sem artifício”. e pelo perigo que perto deles correm os navios. Mesmo de uma ladeira pode dizer-se escarpada. e por isso ali tocam os navios. – Quanto às palavras que se seguem. Uma ladeira. – Aprumado = “talhado a prumo”. 63 ABSCONSO. e por isso perigosíssimos”.. aprumado. mas o parcel tem pouca altura. Baixios (prolongamento de baixos) são bancos de areia em que. Alcantilada é. ocul- to. Deve aplicar-se particularmente a coisas materiais. ou menos a pique do que alcantilado. e tanto pode aplicar-se a um cume de monte como a uma encosta que seja tão íngreme que pareça levar como verticalmente ao pino do monte. pois não seria próprio dizer: “os escondidos desígnios de Deus”. – Absconso . São menores que os cachopos. por isso que se espraia largamente (chamando-se também por isso esparcelados). até a penúltima. cobertos de água. – Escarpado diz “íngreme e difícil de subir”. – Alfaques. escabroso”. de modo que não seja possível. por espaço de muitas milhas. formas eruditas de escondido. 62 ABRUPTO. Farelhões são “escolhos pontiagudos. onde se corre. – Íngreme é “menos inclinado. uns contíguos à terra. ou quase a prumo. “a escondida intenção de levar-me à forca”. no que se distinguem dos parcéis.. risco por causa da pouca altura de água. por falta de altura de água. retruso. clandestino.. ou de areia. íngreme. se é tal o declive que torne penosa a decida ou a ascensão. mas pode navegar-se. empi- nado. pode-se subir”. – mesmo porque escondido. Escolhos são aqueles penhascos que estão debaixo d’água e não se descobrem bem: donde resulta serem mais perigosos que os cachopos. escondido. para onde a corrente arrasta as embarcações. de rocha ou de coral. por exemplo. e de impossível ou muito difícil acesso. outros formando ilhetas: e por sua grandeza. não se pode navegar sem risco. – Recifes (ou recife.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 49 to para indicar aqueles cachopos que formam pontas como a planta chamada abrolhos ou estrepes.: “Baixos é palavra genérica. ou pelo menos não seja fácil encontrar”. encoberto. um monte. – Restingas são baixos de penhascos. onde não há fundo para navios de grande calado”. mas com a circunstância de serem desiguais e muito fundos. são baixios ou bancos de areia ou de pedra. alcantilado.. ou contíguos à costa. empinados acima d’água. Mas absconso e abscôndito já não seriam aplicáveis propriamente senão em sentido moral ou abstrato. e designa o fundo do mar onde há pouca altura. mesmo muito íngreme. e também arrecifes) designa “rochedo ou série de rochedos pouco destacados da água e perto da costa embaraçando a navegação”. às vezes. – Empinado é o menos preciso destes cinco vocábulos. “a encosta nua de um monte que fica vertical. andam assinalados nas cartas marítimas”. Este diz precisamente “posto fora das vistas. como parece.. sem dúvida. abscôndito. escreve Lac.. secreto. recôndito. que são baixos iguais. ainda empregado como adjetivo. conforme a origem arábica. e têm a circunstância de prolongar-se.

depois esgueirou-se para um ponto recôndito do parque. – “tem-se dado tanto o nome de tirano como o de déspota ao rei absoluto. o sol. ditadura.. deixaram-nos sempre cuidadosamente encoberto aquele intento”. o secreto processo. as quais velam pela vida. ou a secreta vida das abelhas. e é clandestina quando se faz às escondidas. as maravilhas secretas da natureza. nem confessamos. repulsado à força”. – O absolutismo (diz Bruns. os acordos secretos. militarismo. e chama-se clandestino quando o celebramos às escondidas sem observar as regras que prescrevem as leis canônicas. nada disso. “Nestes últimos tempos” – escreve Roq. Também se dá o nome de despotismo à forma de governo em que o monarca não tem de obedecer a nenhuma lei. retraído às vistas. – Oculto é simplesmente “furtado às vistas” de qualquer modo. autocracia. tudo. “O mísero ali ficou. “O abscôndito espírito de Deus era sentido ali no oceano”. como. “O tempo. e em certos casos figuradamente. despotismo. recônditos e humildes nesta miséria”. e ainda às vezes negamos. Chamamos casamento secreto ao que. “Ficaremos para sempre no sertão. porém. não”. persegue e atormenta. – Tirania é palavra que tem hoje significação diferente da que teve em tempos idos. escreve Roq. é o caso omisso que o monarca faz das leis que deve respeitar: quando o absolutismo oprime.. por exemplo. O absolutismo é chamado autocracia ao falar-se da Rússia”.. tirania.. Disto resulta que nem tudo o que é secreto é clandestino. – Clandestino é “o que é secreto e contrário à lei”. num canto da sala. virtudes eminentes. – Recôndito exprime “escondido muito longe. Deve aplicar-se a coisas materiais. ou “a coisa que não podemos ver. “Lá esteve tímido e retruso. devido à interposição de algum corpo opaco entre essa coisa e a nossa vista”. retruso e hostil. só porque governa como senhor absoluto. quer dizer. não obstante ser permitida. Os avisos.) “é a forma de governo monárquico em que o poder é exercido pelo soberano.: “Uma coisa é secreta quando ninguém ou poucos a sabem ou conhecem. aquele. os ocultos desígnios da Providência. as intenções ocultas do mouro. diz ainda abstruso. 64 ABSOLUTISMO. em Marrocos. os cabedais ocultos no seio da terra”. O despotismo é o abuso do absolutismo. misterioso. o céu. ou procurando violá-la sem que ninguém o conheça. É agora tomada como enunciando a ideia de um excesso de poder político degenerando em dureza de mais rigor que o despotismo. Quanto a estes dois vocábulos. haveres e liberdade de todos os súbditos. se estende ao despotismo. assim como abscôndito. que é clandestino vem a ser secreto: este é lícito. esse poder é limitado por leis. caudilhismo. dados ou feitos por um ministro”. porém. e podendo aplicar-se tanto em sentido moral como físico. porque fica “como em segredo e reservado a alguns”. não declaramos. até que passasse o perigo”. – Secreto se diz do que fica mais que oculto.50 Rocha Pombo ajunta à significação de escondido. faltando à lei. “O trabalho secreto dos conspiradores. a ideia de concentrado e profundo. e é clandestina quando se verifica clandestinamente contra o expresso mandado da lei. as operações. oculto. converte-se em despotismo. . de onde pôde dar o bote certeiro”. por qualquer motivo que nos é pessoal. – Recôndito e retruso aproximam-se. – Retruso diz “posto para o fundo. Com o absolutismo podem conciliar-se intenções retas e benéficas. além de oculto. chamadas leis do Estado. – Encoberto é o que ficou oculto. o horizonte está encoberto. humilhado. retirado muito para a profundeza”. Secreta é uma junta quando secretamente se celebra. “Absconsos intentos da majestade em furor”. “O sol ficou oculto pela árvore ou pela nuvem.

A tirania e o despotismo não estão nas instituições. Quem é imperioso quer. valendo-se do dito direito. – Decisivo equivale a “que põe termo a toda dúvida. sentido imperativo de uma frase” (e não: imperioso). e que lhe deem provas de deferência e submissão. pois. tirano e déspota. quando se diz que dispõe ou determina imperiosamente. e que. porque tão tirano e despótico pode ser o governo de um como o de muitos cônsules. acima de contingências. que não admite réplica. permanece inabalável nos seus propósitos. Sentimos bem nitidamente a distinção destas frases: “fez um gesto. cabal. clama. declaração definitiva”. – Em sentido amplo. se aprovam ou não a sua conduta é. não somente o opressor. ou uma corporação. pois ajunta à significação deste vocábulo uma ideia de excesso de orgulho com que se manda. pode não o ser tanto no que toca à execução efetiva das suas ordens”. inapelável. quer.: “Quem é absoluto quer ser obedecido. intento. e quaisquer que sejam as observações que lhe façam. Dizemos: “forma imperativa da lei. não sujeito a contrariedade. quer-se dizer que ordena mais com arrogância do que com autoridade. ou acidentes ou mudanças imprevistas. ou de tal artigo de uma lei. – Categórico diz o mesmo que “precisamente definido. livre de embaraços de qualquer natureza”. claro”. déspota. nem lhe façam observações. – Militarismo é o sistema em que o poder político é exercido por chefes militares. Tirano por conseguinte é o opressor. aquele em quem se reconhece um direito indisputável de mando. etc. determina ou dispõe imperativamente. imperioso. – Arrogante é o que se impõe “com soberba e altivez. peremptório. exige. como quem se presume forte e ufano da sua força”. “Opinião. obriga aos demais a fazer o que não devem contra toda a razão e justiça. resolve. escreve Bruns. para o homem absoluto. imperativo. – Ditadura é um regímen excepcional que se caracteriza pela concentração de todos os poderes políticos do Estado nas mãos de um chefe. Imperioso equivale a “que se impõe. terminante. basta ter presente que tirano é aquele que oprime a outro. que exige com império”. positivo. exprime-se que essa corporação ou pessoa tem competência e autoridade para dispor ou determinar. senão o dominador”. ponto secundário: o que ele quer é a execução efetiva e completa do que decidiu. Quando se diz que uma pessoa. ou tomara uma atitude imperativa” e: “fez um gesto. ainda quando seja seu igual na sociedade. decisivo. absoluto significa “fora de contraste. senão na aplicação delas. ou tomara uma atitude imperiosa”. – Sobre absoluto e imperioso. arrogante. definitivo. e déspota. atitude. – Caudilhismo é adaptação do antigo espanhol (de capdillo “capitão”) para significar o regímen político caracterizado pelo predomínio de chefes de bando em certos países da América. irredutível. sobretudo. ou que não muda de resolução”. que ordena. ou que se funda na supremacia da força armada. com exatidão a diferença que existe entre as duas palavras. Para compreender. categó- rico. É mais do que imperioso. 65 ABSOLUTO. que não deixa lugar a dúvidas”. extremamente exigente neste ponto. Entre imperioso e imperativo só existe a diferença marcada pelos respetivos sufixos. – Irredutível apro- . – Definitivo = “que explica. não na forma de governo. ordena de modo que não deixa lugar a dúvidas ou observações”. que o não contradigam. que é definitivo. seja legal ou de força. incondicional. pretende que ante ele se observe uma postura respeitosa. tomados num sentido restrito. parecer. senão nos atos dos que governam. dúvida ou contestação.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 51 o que é um grave erro.

– Anistiar é adaptação moderna. – Escusar e tolerar sugerem a ideia de “deixar que passe a falta sem puni-la”. portanto. acabado. deixar como se não existisse. desen- indultar. escusar. ou que não se associa a outro som para formar harmonia”. toado. dissonante. que não está . Confunde-se. “que não admite outra solução”. de que se não pode apelar”. convindo notar o seguinte: dissonante diz apenas “que não está de acordo com o som que se quer. pensa. ou em parte. – discordante é “o que se não põe ou não está fiel ao acorde. direta do grego. ou de redimir. diz Alv. – Quanto aos três primeiros destes vocábulos. – Peremptório = “que completa e decide. discrepante. com outros do grupo: dissonante. – Desentoado é o que está “fora do tom próprio. do grupo. completo”. desarmônico. remitimos a dívida. discordante. só o soberano ou o órgão legítimo da soberania nas repúblicas é que anistiam. discordante. escreve Bruns. 66 ABSOLVER. Tanto quem escusa como quem tolera supõe-se que tem alguma superioridade sobre aquele a quem aproveita a escusa ou a tolerância. desarmonioso. – Inapelável = “de que não há recurso. – Malsoante diz propriamente “que soa mal”. Este verbo dá também a supor que a pessoa a quem se faz a remissão tem certas condições que a tornam credora desse benefício. e suspende a execução da justiça”. desculpar.” Entre remitir e anistiar há esta diferença. tolerar. malsoante. – Incondicional é “o que se não sujeita a condições. 67 ÁBSONO. dívidas. – Indultar e agraciar dizem aqui mais particularmente “conceder perdão de crime de alta gravidade”. discordante. não se submete a continências. Remitem-se culpas. destemperado. anistiar. – Terminante diz propriamente “que põe fim”. não sujeito mais a dúvida ou a nova resolução” – Cabal = “pleno. mas sugere ainda a “ideia de muito afastamento do som que convém ou da harmonia dominante”. agraciar. ou do som conveniente”. fica fora de hipóteses. ou a falta cometida”. descriminar. compete ao príncipe e ao magistrado. discrepante. e tanto que. pecados. de desarmônico. “imperativo”. perdoamos a pena. Pas. terminante. juiz. ou com a regra estabelecida ou vigente”. – Ábsono diz propriamente “que discrepa. ou não tivesse sido perpetrado. é convizinho. – Desarmônico é o mais geral: exprime “que não faz harmonia ou acorde.52 Rocha Pombo xima-se aqui de decisivo: diferençando-se deste em sugerir também a noção do grau de força ou de capacidade com que a coisa ou pessoa irredutível não altera o seu modo de ser ou de agir. remitir dá uma ideia de resgatar. Despacho. ou a qualquer castigo. – Descriminar equivale precisamente a “absolver de crime”. de acordo com Roq.: “Absolver é desligar o culpado dos laços que o prendiam. tribunal inapelável. – destoante é o que não condiz com o “tom próprio. – Desculpar diz propriamente “relevar a culpa. acima de eventualidades”. destemperado. não cede do que resolve. o mais próximo de ábsono: exprime não só destoante. e significa “esquecer. ou que era preciso seguir”. Quem indulta ou agracia exerce função soberana. renunciando a qualquer desforra. Remitir é desistir em todo. Absolvemos o acusado. perdoar. e dá prova mais de misericórdia que de justiça. desafinado. do que havia direito a exigir. ou não faz acorde com outro som”. desafinado. o crime político”. Perdoar é esquecer uma ofensa. remitir. que se afasta de outro som. etc. – discrepante é. decisão. destoante.: “A remissão é concedida por quem cede dos direitos que lhe competiam acerca de alguma coisa. quer.. acerca de remissão. destoante. portanto.

consumar. ou o instrumento destemperado desordena de todo a harmonia. sem mastigar”. chupar. A consumação serve para a reprodução.: “Comer vem de comedo. muito mais próprio dizer-se: “O doente não tem mais forças nem para deglutir alimento sólido.) do latim sugere. deglutir marca. – Sugar é equivalente de chupar. “A ação de consumar – diz ele – não destrói em vão como a de consumir. deglutir. o fumo. – Desafinado exprime “que não está no tom próprio. distingui-los precisamente. aspirar. de perfazer.” Só se aspira matéria gasosa. julga os dois verbos como quase perfeitos equivalentes. mas outros o derivam (como Aul.). não sendo fácil. –” Devorar é “tragar. Distingue-se deste por incluir. pois não se supõe que a esponja faça esforço em chupar a água. ou a voz desafinada não faz harmonia perfeita. ou que está completamente fora do tom: é mais que desafinado. 68 ABSORVER. ou ao fundo”. consome-se uma certa matéria”. – Aspirar é “atrair aos pulmões. rapidamente”. cujo sentido próprio é acabar. fazer que desapareça”. que não tem harmonia. o ar. o que nem sempre se dá em relação a chupar. – Consumir acrescenta à noção de absorver a ideia de “extinguir lentamente. É. enunciada pelo prefixo ab. sugar. por tragar ou aspirar.). e o segundo a de destruir. a voz. em regra. etc. sorver. A esponja chupa a água. ou de “deixar que vá ao estômago. por outro lado. A consumpção não serve para nada. a ideia de esforço. O instrumento. enuncia a ação de “mastigar e engolir”. – Chuchar parece a alguns uma simples forma popular de chupar. O morcego chupa o sangue aos outros animais. e rigorosamente. não afina pela desordem que aí reina). chu- char. consumir. – Sorver diz também “beber aos sorvos” (Aul. – Beber é “engolir líquidos”. engolir. latino. comer. mas não marca a ideia de desligar de todo as partes que vão sendo sorvidas. ainda que o primeiro designe antes a ação de completar. pelo nariz ou pela boca. – Absorver designa a ação de “consumir pouco a pouco. engolir sofregamente. que significa igualmente chupar. ideia de esforço para consumir separando por partes a coisa a absorver). – Engolir exprime simplesmente a ação de “levar ao estômago”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 53 igual ao som dominante”. de gastar (user). que é desordenado em si mesmo e fora de toda conveniência”. Laf. porque em absorver há. No meio de um tumulto a palavra ponderada é desarmônica (isto é. Um som. devorar. ou uma voz pode ser desarmônica sem ser propriamente desarmoniosa. de adjunto completivo: enuncia “que não faz acorde. – Tragar é “beber aos tragos e tomando bem o sabor. – Desarmonioso é o mais geral e absoluto do grupo: não precisa. tragar e comer escreve Roq. além disso. tomaram-se outrora indiferentemente um pelo outro. Nos tempos coloniais dizia-se no Brasil “beber fumo”. A abelha chupa o mel. – Comer é quase o mesmo que consumir. a ideia do esforço com que se engole. tragar. consumir com avidez. – Chupar = “sorver. destacando porções”. ‘No mar quase toda consumação se faz em proveito da reprodução’ (Buff. Diremos que “o oceano engole (e não – deglute) a embarcação”. Assim consuma-se um ato. que não se afina convenientemente”. beber. Sobre consumir e consumar diz Bourguig: “Consumar e consumir. E tanto que dizemos: “o mar sorveu o frágil batel” (não – absorveu. e até muitas vezes não faz senão causar prejuízo. – Entre engolir e deglutir pode notar-se diferença análoga. com a significação que têm aqui. – Sobre devorar. atrair líquido quase sempre com esforço”. mal engole caldos”. – Destemperado é o que desafina de todo. e significa mastigar e engolir .

de medo. estatelado. (Feo. Da boca do facundo capitão Pendendo estavam todos embebidos. imóvel como estátua. – Maravilhado diz mais que os três precedentes: ajunta-lhes a ideia de “grande surpresa e admiração que nos abalam e deixam em pasmo”. ficamos admirados ao ver o que não esperávamos. tão intenso que chega como a alienar-nos. pensativo. arrebatado. meditabundo diz mais “pensativo e triste”. apreensivo. que ama o afastamento. extasia- “tinha embebido em si a doutrina do Apóstolo” (Feo). mas no sentido em que aqui se toma quer dizer – profundamente atento. – Arroubado significa “arrebatado de altas emoções ou de sublimes pensamentos”. meditabundo. arroubado. Lus. abstraído (abstrato). grego (τρώγω) e significa engolir sem mastigar. respeito etc.. – Sobre enlevado. – Pensativo está ou fica por momentos quem “pensa ou parece pensar só nalguma coisa”. impressionado. arrebatado “de grande admiração e como em esquecimento de si próprio”. enlevado em êxtase”. é o de menor significação. silencioso e melancólico”. de suspeitas”. metido nos poros: a esponja embebe-se do líquido. pois nos representa como “caídos em abismo de que não se sai”. (Aul. maravilhado. extático.) – Enlevado exprime a nímia confiança que se põe num parecer. assombrado. assombrado e abismado escreve Bruns. embebido e arrebatado escreve Alv. – Abismado diz mais que assombrado. III) – Embebido significa. insensível a tudo que está em torno”. – Extasiado “o mesmo que absorto e em pasmo”. nas qualidades ou promessas de qualquer pessoa. latino. – Apreensivo significa “tomado de cismas. (Souza.) – Estático e estatelado. ouvintes embebidos etc. abstração. propenso a refletir. – Extático diz “absorto. se só os olhos pudessem julgar. Lus. c. Estático exprime “parado. (Cam... tragar vem de trogo. e do.” Assombrado é “muito admirado”. etc. (Cam. – Meditativo e meditabundo parece que têm a mesma significação. distração. admirado. ou da contemplação de suas qualidades. contemplativo.54 Rocha Pombo alimentos para sustentar-se. ao pé da letra. – Contemplativo é “absorto em coisas místicas”.: “Arrebatado usa-se não poucas vezes para se exprimir um deleite mental ou corpóreo. – Absorto exprime: como que “fora da consciência. e arrebatados em Deus”. que vive ou está “como se tivesse a alma toda voltada para fora do mundo sensível. c..: “Admirado. 69 ABSORTO. – Sobre admirado.. Estatelado acrescenta a estático uma ideia de esvaimento. d’enlevado. amante enlevado num falso parecer. distraído. de devoro. delíquio ou inanição. diriam exatamente o mesmo que extático e extasiado.”. de pressentimentos. – Impressionado diz propriamente “sob a tortura de impressão de dor. – Preocupado ajunta à noção de impressionado a ideia de “pungido de cuidados”. significa comer ou tragar com voracidade ou sofreguidão”. dando porém a entender que a causa desse estado é algo que impõe medo. a ponto de ficar como maravilhado da vista dessa pessoa. V) Homem arrebatado em Deus. e numa concentração de todo o espírito num assunto”. meditativo. Num falso parecer mal entendido. que está “solitário. “Eis que no meio da Missa fica subitamente arrebatado”. o mais usual destes termos. e devorar. preocupado. de desconfiança. meditar em graves coisas”. embebido.) “Saiam como fora de si. E casar-se com ela.. Pas. abismado. e no entanto diferençam-se assim: meditativo quer dizer – “dado. . estático. enlevado.

daquilo de que se trata. Alv. ele deixa vagar seus pensamentos. nos fere repentinamente os sentidos qualquer objeto exterior. segundo a expressão de Bossuet. para podê-las considerar cada uma em particular sem dependência nem relação com as demais. distraindo-se de suas obrigações. atraído para longe de”. fixando-nos nela com exclusão de todas as outras. O espírito do abstraído está longe do que vós lhe dizeis. a metafísica. pois. ou se faz um ruído forte. achando-nos no mais profundo desta abstração. corresponde à linguagem metafísica. abstractus “tirado. são indiferentes e como insensíveis aos objetos exteriores. e designa a operação do entendimento por meio da qual desunimos coisas que na realidade são inseparáveis. chamam tanto a atenção dos que as estudam que. por concentrar-se. abstrair-se nisto. que o fazem abstraído. e é um novo objeto exterior que faz o . e a distração. incapaz de aplicar-se ao que quer que seja. e. de dentro para fora. e de repente entra uma pessoa. por assim dizê-lo. distractus “atraído de um lado e de outro. Falamos em abstrato quando o fazemos com separação de qualquer coisa. o espírito do distraído é instável. a da distração é exterior”. escreve magistralmente: “Encerra-se nestas duas palavras a ideia comum de falta de atenção. de diversos lados ou para diversos lados”. que significa – separar ou arrancar uma coisa do lugar em que está ou supomos estar. e não que nos abstraiu. por assim dizer. A palavra abstrato usa-se quando a aplicamos às coisas. a que procuramos voltar bem depressa”. Em nosso entender. de cuja definição resultará que haja pouca diferença entre as duas palavras. e assim dizemos: Este homem está sempre abstraído em seus estudos ou meditações. ele está à mercê de todas as impressões. distrai-nos. dissipado. Diz-se de um homem que está distraído no jogo em amores. pois a abstração se exerce de fora para dentro.: “A palavra abstração vem da latina abstrahere. – Sobre abstraído e distraído lê-se em Laf. A distração é momentânea e como passageira. Uma imaginação abstraída só à sua própria ideia atende como se não houvesse outras. evaporado. servindo-se de uma por outra. e na consideração de suas abstrações. abstração e distração vejamos Roq. mas com esta diferença: que são as ideias próprias. ocupando-se ele tão fortemente com estas ideias interiores que só atende às coisas que elas representam. abstraído e abstrato. olhamos a abstração como uma coisa habitual.: “Abstraído. Querem alguns que distração seja diversão do pensamento de todo objeto exterior para atender aos interiores. – Abstração é. em vícios. o pensamento do indivíduo. e abstraído quando a referimos às pessoas. como a matemática. diremos que nos distraiu. e sendo estas o objeto das ciências mais elevadas. e dizemos abstrair-se quando nos alheamos dos objetos sensíveis para nos entregarmos aos intelectuais. Pas. ocupando-se. abstraídos nelas. há verdadeira e notável distinção entre as duas palavras. – Sobre distraído. merece o nome de abstraído. A causa das abstrações é antes interior. em conversação consigo mesmo. porém. como uma ocupação contínua. No cabedal das línguas cultas ocupam um lugar muito importante as palavras que representam ideias abstratas. Enfim. como o resultado de um caráter particular. ao contrário. separando-nos da abstração. distraído. Uma palavra casual nos leva insensivelmente de um objeto exterior a outro interior abstraindo-nos inteiramente daquele. e a filosofia. uma como alheação do homem concentrado naquele objeto interior que o tira como de si mesmo. e comumente de distraído por abstraído. O homem que se aparta do trato e comunicação das gentes. Se estamos engolfados em nosso estudo solitário.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 55 pela visão interior vendo o que os olhos não têm a faculdade de ver”. mas quando.

Refulgente é um reforço de fulgente. fulgente é o “que está fulgindo ou sendo brilhante no momento”. – Brilhante exprime “muito polido e luzente: que tem grande brilho”. luzido. de cândido. nitidez e brilho. delicado. As abstrações são mais próprias dos homens dados a meditações. polido e lustroso”. pois temos desgosto e ainda pena de nos vermos privados daquilo que muito desejamos lograr. e este significa “livre de manchas. A privação é de ordinário forçada. – Fúlgido é o “que fulge de si mesmo”. quando. É difícil que não fiquemos distraídos quando. lúcido. ou que nos é indiferente. 70 ABSTER-SE. dados a nossas ocupações. (Bern. – Polido e brunido aproximam-se. “A força da oração o abstraiu deste desterro”. estando a contemplar um objeto. Cândidas al- . “Devem guardar o coração desempenhado. Fácil nos é abster-nos do que não conhecemos nem amamos. admirando as belezas da Ajuda. ouvindo tal orador no palácio das Cortes. Ficamos abstraídos quando não pensamos em nenhum objeto presente. mas a distinção entre os dois consiste em que alvo ajunta à noção de branco a ideia de puro. caso raro é que se prive de vinho.: Abster-se exprime a ação sem referi-la ao sentimento que pode acompanhá-la. quando. refulgente. e perdem o fruto das conversações”. mas para o que prefere os prazeres à saúde. abstinência. – Escreve Roq. lustroso. nos entretemos com o nosso próprio cogitar. porém. a estudos profundos. “Os abstraídos meditam muito e falam pouco. Tanto se aplica em sentido natural como em translato. estando a ouvir um discurso que se nos dirige. a abstinência é também privação. que a desvia do objeto a que ele a tinha aplicado. que nos agradam. mas que por certas razões dela nos abstemos. silencioso e solitário para o comércio divino”. escutando um discurso enfadonho.56 Rocha Pombo homem distraído. (Cardoso) Ficamos distraídos quando. porém o homem de razão abstém-se dele quando sabe que lhe é nocivo. privar-se. ora está em Roma no meio da praça de S. luzidio. e assim se entende ser voluntária. sem ser pelo brunidor. imaculado. alvo. brilhante. priva- que gozamos ou queremos gozar. nitente. como dizemos: “Linguagem tersa. recolhidos conosco. Aul. brunido. estilo absterso e brilhante”. – Vemos que abstinência supõe que podemos gozar de uma coisa. brunido se aplica mais propriamente ao brilho que se dá aos metais. limpo. Podendo o bêbado beber. reluzente. isto é. ção. – Cândido. polido. cit. atendemos a festins etc.) As distrações pertencem mais aos espíritos levianos e às crianças que se distraem com lindos nadas. Para o que prefere sua saúde aos prazeres. nítido. Elys. fúlgido. escutamos outro diferente. quando estamos numa parte e o pensamento noutra. abstraído. Uma pessoa abstraída tem o espírito muitas vezes a grandes distâncias: ora está em Lisboa em frente da estátua equestre. a abstinência não é na realidade privação. 71 ABSTERSO. privar-se supõe apego à coisa. ouvimos do lado uma coisa interessante. luzente. terso. mudamos a atenção para outro diverso. e tanto na acepção moral como na física. Vicente de Fora. nos privamos das coisas que conhecemos. branco. – Alvo e branco se confundem. e os distraídos meditam pouco. nem desejamos. e atrai a sua atenção. mas. com dificuldade. quando. e pena de não poder gozar dela. ainda melhor que alvo. fulgente.). Pedro. acrescenta à ideia de alvura a de pureza e imaculidade. Dizemos: “O aço já terso da ferrugem” (Fil. – Absterso é como um redobramento de terso. polido se diz de tudo a que se deu polimento. ou as antiguidades de S. e falam muito. límpido.

O primeiro. reluzente. diáfano. como lustroso restringe ao que se lustrou ou poliu a qualidade que enuncia. ou instantânea e fugaz. – Moderado e comedido muito se aproximam. – Limpo diz – “livre de impurezas”: é o mais genérico do grupo. – Luzido. Não seria próprio dizer. Luzido acrescenta à noção de polido. lustroso. parco. abóbada ou esfera luzente. diáfano. vistoso”. temperante. está temperante no mesmo caso: significa “moderado nos apetites. apesar do esforço extraordinário que nossa inteligência faça para consegui-lo. (Aul. lúcido é o mais forte da secção: diz – “claro. se abstém de alguma coisa: não designa. a ideia de esbelto. as inclinações da própria natureza”. airoso. Cândido livro. porque depende de um encadeamento de raciocínios. “no momento”. – Lustroso confunde-se com brilhante. pequeno. designa “uma qualidade mais forte e que parece depender de mais esforço e energia moral”. portanto. convindo notar-se que abstido deve aplicar-se ao que. – Abstinente é aquele que se abstém de alguma coisa por necessidade de consciência ou por sentimento de dever. lúcido confundem-se muito. moderado. alguma diferença marcada pelos respetivos sufixos. “Nitentes florações nos trouxe a primavera”. no entanto. É preciso notar-lhes. – Sóbrio coisa abstrata é difícil de entender porque dista muito das ideias sensíveis e comuns. – Comedido significa “que sabe regular. mas nem tudo que é abstrato é abstruso. cuja relação não é possível descobrir nem seguir. é “o que só toma o alimento indispensável. terso. – Segundo Roq. cheio de luz. – Abstêmio é o que se abstém de excessos na mesa. particularmente no comer e no beber”. e por extensão “o que se satisfaz com pequena quantidade de alimento”. Um tratado sobre o entendimento humano precisamente deve ser abstrato. temperado. – Límpido acrescenta à ideia de terso e puro a de lustroso. e em sentido geral. frugal. luzidio. curto. medir as suas palavras e ações de um modo conveniente”. no entanto. – Abstido é quase o mesmo que abstinente. sóbrio. mas. a lúcida visão do gênio. 72 ABSTINENTE. – Abundância (do latim abundan- . luzente. reduzido. – Continente designa “o que tem a virtude de sofrear os impulsos.) – Parco diz mais que sóbrio: é aplicável ao que é “pouco abundante. riqueza.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 57 mas de crianças. – Nítido ajunta à noção de limpo. luzente quer dizer – “que espalha luz em torno”. principalmente quanto a bebidas que embriagam. – Frugal é propriamente o que se nutre “só de frutas”. comedido. Dizemos com propriedade: luzidos batalhões. Num sentido mais restrito embora. propriamente uma qualidade (como se dá com abstinente) mas um estado. luzidio diz propriamente – “que é semelhante ao que brilha”. opu- lência. a ideia de brilhante. olhos reluzentes de cólera.. abstêmio. o que se mostra moderado em todas as funções. pomposo. Uma coisa abstrusa é difícil de compreender. que despede luz um tanto indecisa. brilhante como a própria luz”. 73 ABSTRATO. não só este é mais intenso e complexo. discriminado. uma abstido. e abstrusa dizemos que é a ciência da geometria transcendental. abstruso. um ponto luzidio no escuro da floresta. Exemplos: “Nítidas frontes fulgem do meio da turba”. reluzente é forma redobrada de luzente. e no uso dos bens da vida”. portanto: “lustrosa estrela”. brilhante. Tudo que é abstruso é abstrato. além de limpo – “correto. nitente diz. e muito menos a totalidade que deles resulta. quase tacanho e avaro”. fartura. 74 ABUNDÂNCIA. continente.

Confunde-se com preconceito. – Fartura diz mais que abundância: significa “em quantidade tal que já excede ao que é suficiente”. A preocupação nasce de alguma impressão viva e profunda que enche de seu objeto a capacidade do ânimo. as quais. crendice. A prevenção tira a imparcialidade do juízo.. ou por índole supersticiosa”. – Todas estas palavras indicam ou sugerem defeito de consciência. Propriamente. – Acerca de preocupação e prevenção diz Roq. portanto. su- perstição. e absurda e ridícula. Quem vive na fartura tem mais do que lhe é necessário. a convicção assentada. e o faz cego. are) diz propriamente “em quantidade tão grande que satisfaz plenamente ao que se deseja”. preconceito. 75 ABUSÃO.58 Rocha Pombo tia. e a faz injusta. Quem viveu sempre na riqueza “não sabe o que é ser pobre”.: “Estes dois termos exprimem uma disposição interior oposta ao conhecimento da consciência. A preocupação é o estado do ânimo de tal modo cheio e possuído de certas ideias. crença popular sem fundamento.. prejuízo. A prevenção nasce de certas relações ou informações que nos deram. f. de um objeto. ou de que alguém se persuade por ingenuidade. – Superstição – diz Bruns. – Prejuízo diz propriamente “juízo antecipado. Dizemos: a superstição da honra. patranha. e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos ou supostos deveres. e pode estender-se mesmo a coisas que não sejam religiosas. opinião que se tem de uma coisa antes de examiná-la diretamente. A prevenção é uma disposição antecipada da alma que a faz inclinar-se a julgar mais ou menos favorável ou desfavoravelmente de um objeto. ou conto mentiroso com pretensões a coisa séria e verdadeira. – Patranha diz – “grande tolice. – Riqueza é.. e que portanto nos impede de julgá-la de consciência”. à cega confiança em coisas ineficazes”. Quem vive na opulência goza com ufania da sua riqueza. um respeito cego a coisas vãs. um gênero de petas. o preconceito parece mais a “suposta certeza”. absorve-o. de perfeito acordo com Aul. – Opulência é a “riqueza com aparato e ostentação”. de ab + undo. e a prevenção tem seu principal assento na vontade. – Crendice é. que não pode ouvir nem conceber outras contrárias. – “é sentimento de veneração religiosa fundado no temor ou na ignorância.. e que é. e cativa o pensamento. ou sem conhecê-la. e que só aceitam os néscios”. A preocupação tira a liberdade do ânimo. etc. superstição (superstitio. ou caso fictício com que se engana. peta. – Quem vive na abundância não precisa de mais nada para viver. preocupação. – Abusão é “falsa história. não permitem à nossa alma o conservar seu equilíbrio e sua indiferença. f. como diz Roq. Podemos admitir ainda o preconceito da honra: não o prejuízo. impedindo de julgar sãmente. mas este supõe que o nosso espírito “foi induzido a deixar-se dominar” da falsa noção que nos impede de julgar livremente. As preocupações não são boas . de superstare) é uma depravação do senso religioso. induz em erro. conforme define Aul. “a superabundância de bens da fortuna e de coisas preciosas”. Aproxima-se-lhe peta. convindo não esquecer que patranha parece significar que as mentiras ou as tolices se referem a assuntos de religião. fanatismo. da verdade. com a diferença que a preocupação reside particularmente no entendimento. de abundare. do dinheiro. O prejuízo parece mais um temor supersticioso. do destino. prevenção. um excesso de credulidade que turva a consciência ou faz calar a razão. de que não saímos como por um capricho do nosso amor próprio. interessando-nos a respeito desse objeto. e que impede o ânimo de adquirir os conhecimentos necessários para julgar das coisas retamente.

– Descontinuar é suspender o trabalho. segundo o mesmo Roq. – Segundo Roq. injustas e cruéis. do termo e fim a que chega. que findar enuncia simples fato em muitos casos em que acabar enuncia ação. Cessa-se por um instante. porque não se trata diretamente de uma coisa finalizada e completa por meio da conclusão. 76 ACABAR. no entanto. portanto. quando a um aparte do ministro. e fechar. como se o que as faz houvera recebido alguma missão de Deus”. “é um zelo cego e apaixonado. Finalizar enuncia ação. mas ele continuou no mesmo tom veemente. “acabar representa a ação de chegar ao termo ou fim de uma operação. não somente sem vergonha e sem consciência. e parecia terminar ou concluir já mais calmo. terminar. basta buscá-la num exemplo. não acaba de chegar. Segue-se que em todos os casos em que se aplica findar pode aplicar-se acabar. de chegar. e. e é nesta última acepção. para sempre. porque podem prevenir-nos contra o engano”. cessar. ainda que não seja por muito tempo. e às vezes alguma outra coisa que se lhe pode seguir”. Ontem se concluiu o negócio. “Finalizamos o trabalho com muita fortuna” (e não – findamos). suspender. porém. que se distingue de findar. “Acabamos a nossa tarefa” (e não – findamos). – Finalizar. finalizar. interromper... – é um termo geral. Findar é “ter fim”. portanto. Dizemos rematar quando queremos exprimir que se “pôs fim ou conclusão a uma coisa com um sinal próprio ou de um modo completo”. concluir. Como as ações destes dois verbos são em geral inseparáveis. descontinuar. bem marcado. concluir representa a ação no deixar a coisa completa. mas a inversa não seria exata. no qual o que se acaba seja precisamente a ação de outro verbo: Amanhã acabarei de escrever. – Fanatismo. senão também com uma espécie de alegria e consolação. o princípio que teve essa coisa. concluído. formal. é pouco perceptível sua diferença. seriam sinônimos perfeitos se não fosse a nuança assinalada na predicação daquele primeiro verbo: o que se fecha fica “resolvido definitivamente. – Rematar. devendo notar-se. – “Cessar – diz ainda Roq. “Findou o sofrimento da triste criatura” (e não – finalizou). terminar. . ao meio-dia acabou de correr. rematou a tremenda objurgatória com uma invetiva ultrajante”. levar ao fim (ao cabo). Em nenhum destes exemplos se pode usar sem impropriedade do verbo concluir. ultimado”: o que se remata “tem termo preciso. que nasce das opiniões supersticiosas. rematar. ultimar. como que estabelecendo uma certa relação de ordem ou de seguimento entre a coisa que se ultima. fechar. mas a operação com que se conclui”. intermitir. e faz cometer ações ridículas. parar. e até pode ser que solene”. Um exemplo: “Quando ouvimos aquela apóstrofe vibrante supusemos que o orador ia ultimar as graves acusações. Há prevenções justas e razoáveis: é mister examiná-las. de entrar. – Entre findar e finalizar dáse uma diferença análoga. não a coisa concluída. findar. é romper a continuação ou seguida do fato com o que fica por fazer”. sem indicar diferença alguma. Quem diz ultimar indica a ação de “chegar ao termo de uma coisa deixando supor que se havia começado e que se vai ou pode dar princípio a outra. por muito tempo. senão puramente de uma ação que cessa. etc. esforço “para chegar ao fim”. rematar. acaba de sair. além de “ter fim” – chegar. ultimar. – Terminar é “ir ao termo. fechar podem confundir-se. que a toda suspensão de trabalho ou ação pode aplicar-se. – Acabar e findar têm muito íntima conexão. Hoje se acaba minha fadiga. acabar é. para distingui-la. neste caso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 59 para coisa nenhuma: devem combater-se como inimigas da verdade.

avelhentado. debilitado. ou deixar de exercer por algum tempo função própria ou alheia”. prostrado. nos naufrágios?! Todos os seres animados finam-se quando. quebrado. acabrunhado. de atuar. ralado. e não perece. abati- do. mortificado. – Intermitir é “suspender ou interromper de momento a momento. nem se fina. mas não se dirá que faleceu aquele que morreu na guerra ou às mãos do algoz”. quebrantado. nem morre7. nos suplícios. – Falecer é fazer falta acabando. cessar de todo. acurvado. para indicar que vai baixando pouco a pouco até acabar. arruinado. mas o irracional não falece. enunciam ação de “cessar. amofinado. inanido. como descontinuar. e às vezes no mar. – Interromper e suspender. 7 Figuradamente dizemos. . esgotado. “Intermite-se a aplicação de um medicamento quando sobrevêm acessos do mal que se combate”. suspende-se alguma coisa quando “se a interrompe por algum tempo e a deixa pendente”. combalido. – Morrer é acabar de viver. Diz-se mui urbanamente. nos cárceres. desfigurado. do mesmo modo que diziam os latinos vita functus est. aliás. descomposto. morrer. também as plantas morrem. Perece. cessar de agir. – “Acabar – escreve Roq. gasto. – Perecer é chegar ao fim da existência. O homem não morre só quando o prazo dos seus dias está cheio. Descontinua-se quando “se deixa de prosseguir aquilo que é contínuo ou sucessivo”. Perece um edifício. – Todos estes verbos significam “chegar ao fim”. alquebrado. quer se trate de duração ou de espaço. nos incêndios. extenuado. e não morre. 77 ACABAR. que a serra vai morrendo. fina-se o homem. etc. e sugere a ideia do desaparecimento da coisa que se extingue. – Finar-se exprime propriamente o acabamento progressivo do ser vivente. perder a vida. idoso. ou há de perecer tudo quanto existe. perecer. exausto. – significa chegar ao cabo ou fim de uma operação sem indicar a conclusão. à míngua. exinanido. mudado. Morre o vivente. – Extinguir-se significa “fenecer. ter fim. ou de se fazer sentir por intervalos”. extenuadas as forças. definhado. enfraquecido. e porque as plantas têm uma espécie de vida. curvado. de sede. que um homem faleceu quando acabou seus dias naturalmente. envelhecido.60 Rocha Pombo levar ao termo. macerado. Fenecem as serras nas planícies. – Fenecer é chegar ao fim do prazo ou extensão própria da coisa que fenece. Acaba ou fenece a serra. demudado. Depressa se acaba o dinheiro a quem gasta perdulariamente. cansado. alterado. expirar.. – Expirar é “render o último alento. falece. velho. pagam o tributo à lei da morte. e às vezes por desastre ou infortúnio. acabar de ser”. interrompe-se alguma coisa quando “se lhe corta ou suspende bruscamente a ação ou o modo de ser”. de inimigos ou de rivais. mas morre muitas vezes às mãos de assassinos. nos terremotos. ou morrer de todo. – Parar significa “cessar. e por sua desventura também muitas vezes perece. tratando-se de movimento ou de função”. e por uma espécie de eufemismo. exaurido. chegar ao limite”. uma cidade. nem falece (nem fenece). aniquilado. falecer. Morre tudo quanto é vivente. desfeito. fenecer. finar-se. nem falece. 78 ACABADO. consumido. acabar de existir no mesmo instante”. Falece o homem quando passa da presente a melhor vida. extinguir-se. acabar. nem se fina. acaba. Muitas vezes se acaba a vida antes que tenhamos acabado a mocidade. e de um modo mui genérico. Quantos têm perecido de fome. fatigado. “Para o relógio quando se lhe acaba a corda”. – Fenece a vida do homem muitas vezes quando ele menos o espera. Morre. dar o último suspiro.

o que se deixa abater e como emurchecer de dor moral”. de doença. atormentado pelo sofrimento. – Mortificado = “ferido de angústias. afligido. alterado. Aplica-se mais propriamente à situação da vida que à própria vida. – Quebrado se diz daquele que está enfraquecido. “que não é precisamente ao exercício das virtudes que se deve o estar gasto”. mas há homens idosos que não se pode dizer precisamente velhos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 61 transtornado. mofino. está hoje abatida. mudado. o estado do semblante. mais exausto de forças do que devia estar. e sugere alguma coisa de resignação. – Combalido exprime “abalado. – Abatido significa “desfigurado e enfraquecido. – Curvado (e acurvado) enuncia ideia da postura daquele que a idade ou o sofrimento fez pender. de sofrimentos. – Extenuado = muito exausto. – Alquebrado se aplica ao velho que a doença. que vai murchando e morrendo de desconsolações”. – Macerado quer dizer “desfeito. muito esgotado de forças. mas o segundo dá ideia mais clara de extenuamento. – Esgotado. de todo o conspecto da pessoa abalada de sofrimento. também devido quase sempre a causas momentâneas. de remorsos”. muito enfraquecido pelas privações”. que parece estar morrendo”.. – Quebrantado convém mais àquele que se deixou abater por motivos que muitas vezes são imaginários. falto de forças (físicas ou morais). – Consumido indica melhor o que se sente “ferido profundamente na alma. de susto. o já não ter o vigor. Diz também “o que a moléstia afligiu. – Debilitado = “um tanto enfraquecido”. desmanchado indicam todos. desfeito. esmagado de dores. de desgraça. a louçania que só a idade não extingue. – Como desfigurado – descomposto. sugerindo ideia de mal passageiro. velho é o que. ainda ontem tão altiva. – Definhado = “consumido. ou o que os trabalhos amofinaram”. ou mesmo por algum sofrimento moral”. – Acabrunhado ajunta à noção de abatido moralmente a ideia de profundo desânimo e tristeza. – Amofinado = “ressentido de moléstia. transtornado. – Envelhecido e avelhentado: o primeiro se aplica à pessoa que parece ter mais idade do que realmente tem. É mais forte que inanido. – Desfigurado está aquele que mostra na fronte “sinais de depressão física produzida por alguma doença. demudado. como diz Bruns. de trabalhos”. curvada pelo infortúnio”. sem forças e sem ânimo”. por fadiga. desmanchado. . devido à idade avançada. com pequenas diferenças de nuanças. macerado. – Velho e idoso distinguem-se assim: idoso é o que chegou à idade avançada. se deles não se distinguisse em sugerir. – Acabado dizemos daquele em cuja fisionomia o tempo. que enuncia apenas a ideia de “não nutrido. isto é. doença ou idade”. os trabalhos ou as doenças parecem ter feito mais estragos de que se devia esperar. Entre exaurido e exausto pode notar-se esta diferença: exaurido dá melhor a ideia da causa que exauriu. – Prostrado = “violentamente abatido. – Exinanido = “aniquilado. – Gasto confundir-se-ia com os precedentes. – Enfraquecido = “falto de forças”. e por isso falto de forças”. exaurido e exausto seriam quase sinônimos perfeitos se os dois últimos não sugerissem ideia do esforço que produziu o esgotamento. – Ralado = “vexado. – Confunde-se com aniquilado: notando-se que este ajunta a quebrantado a ideia de humilhação. – Cansado e fati- gado exprimem a mesma noção de “quebrado de forças”. e enuncia de maneira mais completa e mais forte a noção de esgotado. que parece velho sem o ser. – Arruinado = tão alterado na saúde ou nas forças que parece perdido. Agora está combalido: o tempo não poupa nem a glória. mortificado pelos padecimentos”. que parece tombar”. abateu e como que curvou. Todo velho deve ser idoso. etc. medo. se sente enfraquecido e enfermo. avelhentado é o que tem ares de velho. “Aquela figura. mais que os anos.

não é acabado”. inquietar.. algumas linhas antes. opri- mir. “O que pode ser melhor – diz Laf. O mesmo não se poderia dizer de acabado. portanto. definitivo”. é o trabalho. M. a produção. amofinar. a do aborrecimento. e apoquentar. perfeito. soluções cabais (completas e decisivas). ou o artista (se se trata de uma obra de arte) pode ainda acrescentar alguma coisa. e que só se aplica a fatos morais ou a coisas de espírito. muitas qualidades eminentes. pois um é encarado sob ponto de vista mais restrito que o outro”. Dizemos: um perfeito médico. e dá ideia do desespero em que fica o que se aflige. pleno. entristecer. uma dançarina perfeita (e não – completo médico. – Acabado. acrescentar que cabal. completo. que satisfaz completamente”. Pleno direito. se diz em referência a uma “coisa que se fez de modo tão perfeito que nada se deixou a desejar”. é antes perfeito. magoar. inteiro. plenas informações. diz o próprio Lafaye quando escreve que o que pode ser melhor não é perfeito. a que o autor. Distingue-se dos demais do grupo em conservar a atividade predicativa do verbo.. agoniar. – Oprimir dá ideia “do gravame. além de completo. – Acabrunhar significa “abater o ânimo pelo castigo ou pelo sofrimento. importunar. e aplica-se àquilo que foi elevado ao mais alto grau de perfeição. do mau humor em que se sente o apoquentado.me Mazarin era uma das mais8 perfeitas belezas da corte: só lhe faltava espírito para ser completa. perfeito é mais extenso: aplica-se tanto ao homem como às coisas. e um esposo é completo. 80 ACABRUNHAR. diz também “alguma coisa de terminante. notando-se apenas que “em cabal há uma ideia de justeza. “Um amigo 8 É tal a dificuldade que apresenta a falta de precisão absoluta do valor lógico de certas palavras que em muitos casos é forçoso admitir formas como esta – mais perfeitas – apesar do que. – Perfeito significa propriamente “feito de modo completo”. atormentar. Delaf. cabal. enquanto que perfeito é mais próprio para designar uma certa qualidade. dançarina completa). Uma beleza perfeita – diz o citado autor – tem a qualidade “beleza” em alto grau. e significa “que reúne todas as qualidades. explicações. – Humi- . Além disso. sentenças. é sinônimo perfeito de completo. aqui.” É preciso. inquietar muito. pode não brilhar (ou não ser “beleza”) senão sob um certo ponto de vista. Razões. molestar. às coisas que se lhe referem. – Afligir diz propriamente “abalar a alma violentamente. afligir. sessão plena. aquilo. desgostar. um certo mérito.62 Rocha Pombo 79 ACABADO. completo. humilhar. o serviço no qual se reconhecem as perfeições do autor ou do mestre que o executou. – Amofinar e apoquentar são muito próximos: ambos exprimem a ação de diminuir a coragem com pequenas coisas. ferir de grande mal. de exatidão que não há em completo. – Magistral é “o que foi feito com mestria ou consumada perícia”. – Cabal. no entanto. magistral. e sugerir. e exprime virtudes ou méritos em conjunto. ou pelo menos as qualidades mais excelentes que caracterizam um tipo”. por exemplo. da rudeza com que se molesta e aflige. no entender de Bruns. sendo que amofinar sugere a ideia da tristeza em que fica o que se amofina. sob o da figura: uma beleza completa reúne muitas perfeições. – não é perfeito. ou a perfeição sob um ponto de vista particular. como. vexar. É mais genérico do que perfeito. consternar. ou com que se faz alguém sofrer”. incomodar. – Pleno diz propriamente “cheio. pelo peso de algum desgosto ou de alguma desgraça”. mortificar. amargurar. aborrecer. contristar. – Completo aplica-se apenas ao homem. de pontualidade. essa ideia de execução. angustiar. da impaciência. apoquentar.

Uma academia. universi- dade. pois este já enuncia que a coisa que nos contrista “produz em nossa alma uma pena mais funda”. de rebaixar. por universidade designamos o estabelecimento onde se professam muitas faculdades. sendo-lhe. – Amargurar é “causar dor acerba e profunda. É menos intenso que contristar. de todo o grupo. nem a categoria do ensino que se dá no estabelecimento. instituto. Uma autoridade injusta ou estúpida pode afligir-nos. – Atormentar é “afligir de tormentos. – Mortificar é “afligir até deixar exausto de forças ou de ânimo como se estivesse a morrer”. podendo ser que o vexado nem por isso se sinta ferido propriamente na sua honra. Não é propriamente a independência de que aí se fala. 81 ACADEMIA. ginásio. Temos academia ou escola de . oprimir-nos. ou mesmo uma só arte ou uma só ciência. os de predicação menos forte: uma suspeita. à vista de alguma fatalidade. ou um aborrecimento que não é duradoiro”. uma inadvertência. e diferençam-se assim: molestar sugere a ideia do incômodo que se causa à pessoa molestada. uma ligeira dor incômoda. a universidade de medicina do Porto. – Entristecer é propriamente “encher de tristeza”. Discordamos de Bruns. causar displicência”. – Inquietar e incomodar são. e de assombro. – Agoniar é “impor ou fazer sofrer suplício ou aflição como de agonia”. ou os mais duros corações”. – Magoar enuncia a ação de “produzir ligeira dor. uma falta que se cometeu desapercebidamente. quando estranha que se não possa dizer “a universidade de medicina de Lisboa. “tira a calma e serenidade” (diz muito menos que aflige). no entanto. ferir de grande angústia. fazer perder a paciência”. deixando o atormentado como em conturbação. que significa “afligir ligeiramente. de diminuir os créditos. ou um pressentimento inquieta. ou uma escola toma a si apenas uma certa ordem de ciências ou artes. – Universidade devia ser o conjunto de todos os cursos que se podem fazer num país. em aflição horrível”. vexar-nos mesmo: nem por isso nos humilhará. aborrecer é “pôr de mau humor. isto é. ou ainda num vasto instituto de educação. – Consternar é “produzir um sentimento tal de pesar. de abusar dos brios do humilhado: enquanto que vexar exprime a ação de expor a afronta. que determina a classe do mesmo e a denominação que lhe compete. um mal-estar. colégio. e equivale a “oprimir envergonhando”. “Ela entristeceu (ficou triste ou mostrou-se triste) diante daquela cena. – Molestar e aborrecer aproximam-se do precedente. – Também é convizinho destes importunar. – Todas estas palavras designam estabelecimentos onde se ensina ou se estuda. causar desgosto a alguém”. – Angustiar é “pôr em grande aperto de alma. a escândalo. porém. que se lamenta como castigo do céu. – Desgostar é “contrariar o gosto de alguém. Um garoto decerto que nos vexa (ou nos molesta) em público se nos expõe a algum ridículo. escola. ou numa cidade. enfastiar. hoje. mesmo que não sejam todas as que se podem professar. ou alguma grande desgraça. equiparados até certo ponto”. liceu. mas não nos humilha. luto e tristeza que faz supor a alma como prostrada de dor imensa. É nisto antes de tudo que consiste a diferença entre universidade e os demais termos do grupo. em ânsias de dor”. que realmente era de contristar os ânimos mais fortes. Distingue-se de vexar por isso mesmo: porque sugere o intento. pondo a alma em estado de confrac- ção tal que ela só sente forças para repugnar a vida”. um aperto em que nos põem. por parte de quem humilha.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 63 lhar acrescenta à ação de oprimir a ideia de afrontar. já que estes estabelecimentos em nada dependem da universidade de Coimbra.

por exemplo – universidade de medicina. ou – “universo da estrela d’alva”. ou “de aprendizes marinheiros”. mas este se aplica tanto a escola de instrução secundária. direito. Se se disser só – escola. em vez de uma. quando reduzimos o universo ao nosso mundo. O mesmo não se dá em relação à universidade. – ou só – academia – há de subentender-se que se sabe já de que academia ou escola se está tratando: ou então. ou “de altas ciências”. e se quiséssemos dar-lhe os mesmos restritivos que são indispensáveis tratando-se de escola ou de academia. no entanto. o nosso interlocutor não terá noção exata. É preciso notar ainda que tanto academia como escola podem designar estabelecimento onde se ensinem diversas ciências ou artes. de engenharia. – Colégio e instituto são os mais genéricos do grupo. mas não diremos “academia de artes e ofícios”. e pode abranger todo gênero de estudos. porém.. precisa do estabelecimento a que nos referimos. por exemplo. e só se aplica a estabelecimento onde se façam altos estudos. Mas esta forma não faria mais do que pôr em destaque e tornar flagrante um absurdo que passa disfarçado e que é tolerável enquanto não se tenta restringir expressamente o termo universidade. que academia é mais nobre. pois a ideia dominante que o termo sugere é a da “reunião das pessoas que foram escolhidas e que ficam no estabelecimento em perfeita igualdade de condições”. em grande número de casos. desde – “intituto primário” – até – “instituto de altos estudos”.. academia de pintura. e dizer. escola ou academia de belas-artes. e só por figura é que podemos aplicá-la para exprimir a totalidade das nações do nosso mundo. o nome de ginásios a colégios onde se ensinam matérias do curso preparatório. teríamos de juntar-lhe todos os que fossem necessários para designar as diversas ciências professadas. Liceu está no mesmo caso. como a cursos práticos de artes e ofícios. de medicina. de letras. mais particularmente aplica-se a internato.. Deve notar-se. matemática e teologia. ou – “universo solar”. Quando empregamos esta palavra para designar um instituto onde se professam apenas algumas faculdades. Colégio é estabelecimento onde se reúnem pessoas (meninos ou adultos) para estudar. por ex. quer tratando-se de ciências. indistintamente. ou onde se dá um cuidado mais especial aos exercícios físicos. compreende todas as academias de artes e ciências de Paris. ou onde se ministre ensino superior. Escola é mais prática e mais popular. etc. por exemplo – “universo mundial”. e isto porque a palavra “universo” abrange todos sistemas de mundos. etc. ou “academia de agricultura”. Mas o que certamente se não nos permitiria é que tentássemos dizer sem dislate clamante. ou mesmo academia ou escola de música. escola de cirurgia. quer tratando-se artes liberais. Dá-se hoje. de direito. – Academia e escola são usados. O Instituto de França. Instituto é ainda mais genérico e extensivo do que colégio: pode aplicar-se a toda categoria de estabelecimentos onde se estude ou onde se ensine. ensina diversas especialidades ou classes de ciências. Não se sabe como usar de nenhum desses dois vocábulos sem um restritivo que lhes designe a especialidade de conhecimentos que ministram. – Ginásio e liceu são os menos latos do grupo. pela simples razão de que esta ordem de institutos.64 Rocha Pombo medicina. Dizemos “academia ou escola de belas-artes. ou melhor as artes ou ciências de toda uma categoria.. ou “academia de instrução primária”. de direito. Ginásio designa estabelecimento (internato ou externato) onde se faz educação tanto moral como física de meninos ou moços. não pecamos mais contra a precisão lógica do vocábulo do que. .

entrando. acaridar. por palavras. com “manifestações delicadas de afeto e desvelo. tímido. mas as crianças ele acariciou sempre com um estremecimento que dizia bem até onde era capaz de ir. bem impressionado. como. Entre acanhado e tímido é preciso notar diferenças que à primeira vista se não percebem distintamente. dispor bem. pudor. no enlevo de amar. mo- desto. 65 afagar. meigo o que é tratado”. A pessoa tímida é natural que se mostre acanhada. – Se- gundo Bruns. – Ameigar diz propriamente “tratar com meiguices. – Acanhado se diz do que tem “tão pouco desembaraço e vivacidade e que se mostra tão tolhido que parece diminuir-se aos nossos olhos”. diz-se do terreno onde esse exército passa a noite ao sereno”. vergonhoso. modéstia. antes de tudo porque são tenras. “Jesus acarinhava a todo o mundo. de modo a fazer suave. – Acalentar designa particularmente a “ação de aquecer a criança nos braços para que sossegue e adormeça”. ou tornar esquecido ou menos intenso o pesar que aflige alguém”. acariciam-se as crianças. agradar é apenas. a sua ternura divina”. acariciar. é mais expressivo e intenso. consolar. também por atos e palavras. 84 ACANHADO. ou que se acham em situação em que tenham o direito de contar com a nossa bondade de coração. “acampamento é termo genérico. grata conosco a pessoa a quem se agrada ou se afaga. àqueles que são menos felizes do que nós. isto é. arraial. pudico. pudor e pundonor. sendo carícia sinal mais delicado ainda de amor do que meiguice. esperanças. enchendo-as de afagos e mimos. beijando-as. sem tendas nem comodidades. por extensão. ameigar. Só se acaridam.. mesmo do que carinho. deixar satisfeito. tratando-as com afeto paternal.. e tanto quanto afago o é em relação a agrado. – Acariciar é “tratar com carícia”.. minorar o sofrimento. mas particularmente designa o recinto ou área onde um exército em campanha ergue as suas tendas e se instala com certa comodidade e segurança. doce. como: “acalentar sonhos. – Arraial. Acarinha-se a um amigo. Este último verbo. agradar. de atos de amizade. apoucamento. e por extensão e figuradamente pode aplicar-se nos casos em que se trata de coisas morais ou abstratas. Acarinham-se a todos os meninos. Afagar é fazer. – Agradar. e até vícios”. mostrando o amor que as almas bem formadas têm pelos que sofrem. reales.. pundonoroso. demonstrações de muita benevolência e afeto. acanhamento. isto é. pudicícia. bivaque. – Consolar é. só se acariciam aquelas criaturas que merecem os nossos afagos e blandícias. Daí o fato de ser acarinhar menos expressivo de ternura do que acariciar. mimosas e têm o nosso amor comovido. – Bivaque (do frandês bivac) é o estado de um exército acampado ao ar livre. – Amimar é tratar com mimos. vergonha. gestos e atos. apoucado. “por meio de carinhos. ou a todas as criaturas desvalidas. timidez. ou dirigindo-se a personagem ilustre. a uma pessoa que se estima. num salão sumptuoso. procurar diminuir a pena. com muita brandura. pudibundo. aqui. acarinhar. se fosse criança a pessoa que se amima”. amimar. designava o acampamento em cujo centro se elevava a tenda do rei. e por todos que precisam da nossa assistência e socorro. 83 ACAMPAMENTO. no entanto. pois ambos indicam que se deseja fazer contente. palavra tomada ao espanhol. por ex. de palavras de conforto. – Acaridar diz propriamente “tratar com caridade”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 82 ACALENTAR. é quase afagar. É natural também que a pessoa . desejos. hoje é termo poético. portanto.

acanhamento diz o gesto tacanho. uma qualidade subjetiva. a pequenez de alma e de espírito que diminuem um indivíduo e o tornam inútil. cuidado. De sorte que se pode entender acanhamento como sinal de timidez. O tímido pode não ser acanhado. ou ainda pela dúvida em que nos sentimos a nosso próprio respeito. o modo que revela pudor. Modesto diz. mas o acanhado revela quase sempre timidez. A ação é o exercício de uma potência. mas devem distinguir-se assim: pudico diz o “que tem pudor”. nem ímpetos – em suma sábio. já não dá só ideia de simples tolhimento de alma: significa a vacilação. – Pudor e pudicícia usam-se frequentemente um pelo outro. no modo como se comporta. não seria própria esta forma: acanhado e tímido. a postura contrafeita. de um modo incorreto. – Modéstia não parece que seja bem como definem os lexicógrafos – uma completa ausência de vaidade: é antes uma virtude dos sábios. indulgente. na acepção moral desta palavra. trôpego. Timidez é. o escrúpulo.66 Rocha Pombo acanhada pareça tímida. discreto. neste grupo. – Fato designa “ato de certa importância. ato. ou pelo receio de que sejamos malsucedidos. aos olhos de outrem. no trato com toda classe de homens. não sendo a inversa perfeitamente verdadeira. – Pudico e pudibundo também se confundem. portanto. Uma criança tímida. comedido. apoucamento exprime a falta de ânimo. trôpego. A potência. de irresolução e perplexidade. Uma criança é natural que seja tímida. de boa fama. consumado e reconhecido”. no sentido que tem aqui. é a virtude de ter pudor”. que expressa a modéstia. – Pudor e pundonor são palavras de significação muito distinta e que só por erro ou inadvertência são confundidas às vezes. uma condição de índole. quando emprega a sua energia. “o que tem pundonor”. pudicícia é a “qualidade de ser pudico. – Vergonhoso. – Segundo Lac. o enleio no movimento e na expressão. fato. . mesquinho. – Pundonor parece termo que os espanhóis adaptaram da dicção francesa point d’honneur. nem por isso há de ser vergonhosa. esmero com que se defende a honra”. razoável. e consiste num sentimento natural de justa medida em tudo – no agir. Ambos sugerem ideia de fina sensibilidade em questões de moral. por uma delicadeza da consciência moral. sem ambições exageradas. pudibundo se emprega para designar “o gesto. os modos e ares indecisos que revelam a timidez. mas pudor é o próprio sentimento que induz a escrúpulos delicados contra tudo que se oponha à honestidade e à decência. nem mesmo se deve admitir apoucamento como degeneração ou vício da modéstia: segundo a própria formação. 85 AÇÃO. pelos modos como se apresenta. Acanhamento sugere alguma coisa de rude. sem o valor que se devia esperar”. tacanho.. o pejo que. ato é um vocábulo concreto. sem o modo de ser normal. está em ação e produz o ato”. e que se manifesta ou pela desconfiança que alguém nos inspira. nos impede de comprometer o nosso decoro. de retraimento. pois a vergonha. Pundoroso é. e significa “nímia susceptibilidade em questões de brio e amor-próprio. de pudor. diz “escasso. sem exal- tamentos. à vista do que. portanto. ação é “um vocábulo abstrato. ato é o resultado da ação dessa mesma potência. de parecer. diz mais do que tímido. mesmo porque é de supor que uma criança é inconsciente em questões de bons costumes. o enleio da pessoa pudica”. timidez diz algo de tibieza de ânimo. benigno e afável. portanto. Apoucado. imprestável. mofino. assim. o recato. e pode ser tímida sem ser propriamente acanhada. – Apoucado e apoucamento não se podem confundir com os dois precedentes. no falar. moderado.

aplica-se o termo combate para designar qualquer luta em que a vida está exposta: o combate dos Horácios e Coriáceos terminou em combate entre dois homens”. refrega. campanha. rixa. litis “pleito. ou medindo forças e destrezas com capricho. Dois inimigos separados por um rio ou por outro qualquer acidente. conflito. luta. no entanto.. como este. portanto. aliás. combatem-se. é peleja formal e de resultados decisivos quase sempre. Em – “lutas da imprensa” há a sugestão de que os trabalhos do jornalista amargaram no embate das intrigas e das perfídias. combate. lutam. 67 lide. com que se empenham devotamentos pelas grandes ideias de que se presume que trata sempre um jornalista cônscio da sua missão. peleja. batalha. – Desafio é “o ato de provocar outra pessoa para duelo”. Mas a contenda parece uma gradação da pendência. mas não pelejam. Pleito. – Briga e rixa são termos vulgares que significam “disputa escandalosa. o choque. – Duelo é “a luta entre duas (ou mesmo mais) pessoas. – Conflito é “o encontro hostil. processo. pugna. mas sem leviandades”. mas é muito mais próprio dizer – “as lides acadêmicas”. significar também questão judicial propriamente. Ação aqui é “o exercício da atividade hostil entre duas ou mais forças em conflito”... contenda é “a fase a que pode chegar a pendência tornando-se mais viva. de troços de exércitos inimigos que travam luta entre si. questão judiciária”. é a fase. prélio. diferençando-se em que a rixa pode ficar só na disputa de palavras ou degenerar em briga. Além dessa acepção. recontro. mais apaixonada. luta convencionada. desafio. discutindo sem má-fé. Dizemos – “as lutas políticas” –. em – “lides da impren- sa” sugere-se o afã nobilíssimo com que se trata das altas questões. e pode assim apanhar-se no português prélio a significação de “luta em que os lutadores se adiantem. pleito. litígio. ou pelo menos de grande importância. e esperando pela sentença (placitum) ou pelo desenlace favorável. a oposição ativa em que se põem duas ou mais pessoas ou coisas”. “as lutas da imprensa ou do jornalismo” – diz outra. mas sugere melhor a ideia da correção dos que pleiteiam. guerra. por motivos fúteis. não esquecer que lide (ou lida) vem de lis. “As lides do jornalismo” – diz uma coisa. Esta é o “litígio ou a questão em que se empenham duas ou mais partes trocando razões e argumentos. – Ação é o mais genérico do grupo: seriam raríssimos os casos em que não pudesse substituir a qualquer dos outros. pequenina. entre outras coisas. intensa.. – Peleja designa a luta encarniçada e corpo a corpo. “marchar contra. que significa. regulada e solene. exprime “nobre questão em que alguém se empenha confiante na justiça”. – “é o encontro de ordinário imprevisto. Lide será. sem armas”. violenta”. se apressam a investir um contra o outro”. – Litígio. só defendendo a sua causa. duelo. uma luta caracterizada pela elevação dos motivos. – Contenda e pendência aproximam-se bastante: ambos sugerem mais ideia de controvérsia e discussão que de luta material: se bem que se não lhes recuse esta última acepção. – Pugna significa propriamente “luta a punho. atacar”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 86 AÇÃO. aqui. – No latim prœlium figura como radical o verbo eo. – Batalha é combate de vastas proporções. ou “o estado de conflito em que se põem duas ou mais pessoas. convém. ou mesmo duas ou mais nações que não puderam chegar a acordo em relação a algum reclamo ou intento”. e só por extensão se aplica no sentido de luta. por questões de pundonor”. – Pleito é quase o mesmo que litígio: pode. ire. Pode dar-se entre . e sem graves consequências”. pendência. briga. contenda. – Lide e luta tomamse ordinariamente quase como sinônimos perfeitos. – Combate – diz Bruns.

favorece-nos ou esmaga-nos. e delas provêm fatos. pois esta parece obrar de um modo constante. isto é. – Escreve Roq. mas ainda a ação proposta e disputada contenciosamente em juízo – o que vale o mesmo que litígio judicial ou pleito. querela se emprega para designar questões e dissídios de pequena monta. querela. É o acaso que nos leva ao lugar onde encontramos a felicidade ou a desventura.. e ao acaso só se imputam fatos isolados. oculta-se. processo. 88 ACASO. bunal”. ou de certa fase de uma guerra”. que nos deixam estupefatos de prazer ou de dor. À controvérsia judicial que se suscita quando o demandado não consente no que o demandante requer se chama com razão litígio. Ao ato de pedir ou requerer em direito se chama demandar. tendo por isso muita analogia com a fatalidade. pretensões. combates. e distribui os bens ou os males segundo o seu desígnio. o uso do direito de pleitear perante um tri- . persegue-nos ou abandona-nos. e neste caso diz o mesmo que litígio judicial”. destino. É forma geral e extensa que pode abranger quase todos os casos em que figurem as outras do grupo. – Questão designa “toda espécie de dúvida em que ficam duas ou mais pessoas e que deve ser dirimida em juízo. entre poderes públicos.: “Com muita razão diz um autor que a demanda dá origem e princípio ao litígio. indeciso entre inimigos”. desejos. – Refrega é “recontro violento. ou a condição a que a fortuna ou o acaso trouxeram uma pessoa. – Acerca de muitos destes vocábulos. estrela. Quantas descobertas são filhas do acaso? – A fortuna. Os feitos que correm em juízo. – Querela é equivalente quase a ação. reaparece. fortuna. Note-se. consubstancia Bruns. os autos judiciais e termos que se fazem por escrito em qualquer litígio se chamam processo. produzindo debandada. sorte. Fora da acepção jurídica. fatalidade. entre indivíduos. preside a todos os atos da vida. furioso como tormenta.68 Rocha Pombo nações. – “A sorte é ao mesmo tempo efeito e causa. ventura. ou perante uma autoridade superior”. sina. não se lhe referem fatos sucessivos: revela-se de quando em quando. e deixando também indecisa a luta”. Os que neste caso usam a palavra processo cometem um galicismo.. por isso. – Campanha exprime “todas as batalhas. e avoir un procès quer dizer em português – ter uma demanda. pleito. 87 AÇÃO. obra arbitrariamente. de que os antigos fizeram uma divindade cega. entre animais. casual. efeito quando designa o estado. e que este se trata e se desenvolve no processo. prepara combinações de circunstâncias tão impossíveis de prever como de impedir. e todas as vicissitudes de uma guerra. entre interesses. fadário. boa fortuna ou má fortuna. porque o que nós chamamos processo é em francês procédure. devendo notar-se que o primeiro termo só se aplica para designar a guerra terrestre. S. que no uso ordinário a palavra demanda não significa só o ato de intentar o litígio. Luiz. sendo este apenas mais lato: é “a denúncia ou queixa que se dá contra alguém para reparação de agravo ou ofensa”. – Ação é termo genérico ainda neste sentido: é o “próprio ato de requerer ou demandar em juízo. de fr. – Recontro é “combate ligeiro. questão. entre seres inanimados. o que se pode colher de Roq. fado.. segundo nos é ela favorável ou contrária. porém.” Temos. litígio. demanda. Pleito é palavra castelhana. e de outros. As suas manifestações não são constantes. “O acaso – diz ele – o mais fantástico de todos os seres desta série. volúvel. caprichosa. dita. felizes ou desgraçados. É nisto que não se assemelha à fortuna.

mesmo de boas letras. no cristianismo.. e que nos trazem fatal e inelutavelmente ao ponto em que só nos resta obedecer: ante o destino desaparece a nossa força. – O destino era. a palavra sorte aplica-se melhor às condições modestas. – “o alto destino de Napoleão”. às extravagâncias de que alguém se lamenta. e ainda hoje se diz que “tal indivíduo nasceu em boa ou má estrela”. e decerto que neste caso não empregaríamos sina. Os seus decretos eram irrevogáveis e tinham o caráter da fatalidade. Por outro lado. Refere-se mais particularmente a certas vicissitudes da vida mundana. não nos deixa. Nas três frases seguintes vejamos. da fortuna e da sorte. – “destino extraordinário e irresistível que se atribui a um poder sobrenatural”. porventura. ou que tem boa ou má estrela. – Ventura e dita são também seres fantásticos sem vontade certa nem determinada. se na primeira frase. quando. geralmente. considerando-a um misto de acaso ou de fortuna. entre os antigos. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” Em qualquer desses casos. sujeitos ao seu fado. no entanto. – São re- almente muito fáceis de confundir-se. dizer – “a sina dos grandes homens”. como bem o prova a acepção que esta palavra tem nos contos de encantamentos em que se vêm príncipes. até que um certo acontecimento os venha libertar. em vez de acaso. acompanha-nos. uma divindade cega a quem os deuses e os homens estavam submetidos: tinha nas mãos a sorte dos mortais. puséssemos por acaso. conservando-se-lhes uma perfeita propriedade: “Teria o nosso amigo visto acaso alguma coisa estranha lá no parque?” “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” “Terias. por acaso. ninguém pode resistir às leis do destino. mas sem coragem para corrigir-se. Podemos. que se conservou na língua (com a significação que tem aqui). não. persegue-nos. como é fatalidade. mas quando fazemos alusão às amarguras que quase todos tiveram de sofrer. – Estrela. Dizemos.. a predestinação de S. – Sina marca melhor do que quase todos os do grupo o caráter de fatalidade das coisas que têm de suceder na vida de cada um. Refere-se à suposta influência dos astros no destino dos homens. se poderiam ser trocadas. O nosso fado é intangível. ou uma série de fatos favoráveis ou desfavoráveis. por ex. José de Lacerda. Eis por que denominamos destino à combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que se efetuam em virtude de leis inflexíveis. que lhe deram origem. O estava escrito dos maometanos é a fatalidade. – O fado é o estado que resulta das imposições do destino. atribuindo-os ao seu fadário. sempre tomam-se a boa parte. não haveria talvez muita gente. Paulo. que hesitasse em empregar indistintamente. ou sem preferências. aniquila-se a nossa vontade: somos obrigados a obedecer ao destino. a uma disposição superior e impenetrável. e por mais que façamos. 89 ACASO. é claro. e dita. qualquer das três formas. e no entanto. oh rapaz. fortuna às elevadas (ou de mais vulto): a sorte de Creso ao lado de Ciro era mais invejável que a sua fortuna. apesar de terem passado as quimeras da astrologia. quando fazemos referência às ações ou obras que lhes deram lustre. – A fatalidade (do latim fatum “o que está dito ou decretado”) distingue-se do acaso. como diz D. A fatalidade não obra arbitrária e caprichosamente: obedece como a um impulso omnipotente. Sina e destino seriam sinônimos perfeitos se o primeiro não se limitasse de ordinário às coisas funestas da vida. lhe atribuímos um fato isolado. não exprimiría- . em ser agente e não sujeito. ventura. – Fadário é – diz Aul. e procurando por isso consolar-se dos erros ou deslizes. porém. transformados em rãs ou outras alimárias. é outra palavra do mesmo gênero.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 69 causa.

ou estranho que isso se tenha dado. que se dá às coisas santas. deferência. os pais. “És tu acaso meu filho?” “Veio ele acaso ter conosco?” “Tinha eu acaso notícia da tua chegada?” Em nenhum destes exemplos. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” – enuncia o meu intento de saber uma coisa que desejo e pela qual estou ansioso.. como acaso. que se tem ou se dá a alguém ou a alguma coisa. – Segue-se. com respeitoso temor. – Fora dos casos interrogativos. 90 ACATAR. em cuja presença estamos como o filho costuma estar diante de seu pai. portanto: – que acaso sugere contrariedade intencional e dá à pergunta a função de negar: – que por acaso é mais convizinho de porventura. S. os magistrados. não mostraria o mesmo interesse. Quando pergunto se ele “viu por acaso”. só muito raramente poderá a locução por acaso ser substituída por qualquer dos dois outros advérbios. em vez de indiferença. os nossos justos interesses. veneração. limpando a pena”: aí não caberia. venerar. os santos. – Deferência é o respeito que se tem aos sentimentos. Acatamos. em nenhuma dessas frases. preferindo-os aos nossos próprios. pelo menos. rebate. – Na segunda frase que formulamos acima: “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” – também não poderíamos substituir a locução por acaso por simplesmente acaso. por alguma superioridade que julgamos haver nessa pessoa. Se eu empregasse a locução por acaso. respeito religioso. isto é. reverenciamos tudo aquilo.70 Rocha Pombo mos com a mesma precisão o pensamento de quem perguntava. e se eu empregasse o advérbio acaso. ou aos objetos que julgamos mais dignos de respeito e honra. etc. “sem que te apercebesses”. seria indiferente usar acaso e por acaso. se há necessidade de distinção. as suas infelicidades. respeitamo-nos a nós mesmos. decerto que exprimo dúvida também. mas aqui a minha dúvida é mais condescendente. a tudo aquilo a que . reverenciar. “Chegamos por acaso à livraria. Respeitamos os outros homens. Veneramos a Deus. como no exemplo acima. então. feri o dedo por acaso. à virtude. e quase nego. as coisas religiosas e sagradas. repulsa. os pastores. dizendo: “Terias visto ou encontrado acaso alguém à minha espera?” – é como se fizesse a pergunta insinuando a negativa. – Reverência é respeito com temor filial. respeitar. Quando pergunto se o nosso amigo “viu acaso”. reverência. respeito. ou “sem que tivesses tensão”) passaste?” – A terceira frase: “Terias. – Veneração é respeito profundo e submisso. nega intencionalmente o que se pergunta. oh rapaz. espécie de culto. Luiz.. distinguindose esta forma daquela em sugerir. ou às que reputamos como tais. ponho em dúvida. desejos e gostos de qualquer pessoa. “Passaste acaso?” – equivaleria a – “Dar-se-á que tenhas passado?” ou – “Será possível que tenha passado?” E – “Passaste por acaso?” – diria: – “Por uma casualidade (isto é. fomos dar conosco por acaso junto ao morro. acatamento. Deferimos (rendemos deferência) à idade. há de ser a mesma que se acaba de assinalar. para dizer o que desejamos. ao mérito. os nossos deveres. que ele tenha visto. acaso nem porventura. Reverenciamos os mestres. ao saber. – Segundo fr. os seus direitos. ou consideração. o soberano. a mesma ideia de estranheza e negação. mais ou menos. deferir. – Respeito é a atenção. todas as pessoas a quem devemos esses sentimentos. Caim retrucou ao anjo que lhe perguntava por Abel: “Sou eu acaso o guarda de meu irmão?” Este acaso. devendo notar-se que. a ideia do interesse com que se espera por uma resposta satisfatória quando se faz a pergunta. e não sugere. reverência ou veneração. “acatamento é todo ato externo com que mostramos o nosso respeito.

avisar. “adiantarse” à coisa contra a qual se previne. que lhe é própria) daqueles abismos”.. Acautelam-se os interesses. – Precaver em certos casos poderia confundir-se facilmente com prevenir. precaver se aproxima ainda mais de acautelar que de prevenir. “vir antes”. ere “tomar cuidado”.” 91 ACAUTELADO. ire significa “vir”. prudência. portanto. e quem se acautela cuida de resguardar-se contra coisas certas de que está prevenido. é “uma medida de prudência posta em prática antecipadamente. Não diremos que o homem que segura a sua casa se acautele contra sinistros. portanto. Entrou. nem se apercebe de que esteja para sobrevir sinistro. cauto.. previdência. mas previno-me contra o frio. pôr a bom recato. a atenção. prevenir. mas sou prevenido e acautelado. Mas entre acautelar e precaver há a diferença que provém de que aquele que trata de precaver-se toma cuidado. como já ficou exposto. quem previne males previstos faz o que supõe que os evita antes que eles ocorram: daí a diferença entre acautelar e prevenir. cautela. e é prevenido. o modo de ser precavido. a pátria. ficou acauteladamente em casa”. portanto. ou em certas circunstâncias: e então “está acautelado”. resguardos contra o mal que teme.. A prevenção. – Acautelar diz. Acautelado é o que toma cautela no momento. consequentemente. avisado. – caveo. e contra essa possibilidade é que se apercebe precavendo-se. chegar”: prevenir diz. os bens. precatado. pois ele não cogita de um determinado mal. Designa qualidade própria: não seria. e seguiu logo cautelosamente pelo jardim”. – Cauto sugere ideia da firmeza e segurança do que sabe guardar-se contra os perigos. – Cautela é. tomar a dianteira”) enuncia a ação de “adiantar-se a tomar expediente acerca do que pode acontecer. “defender. Quem se previne põe-se de ânimo desconfiado contra alguém ou alguma coisa. os homens de virtudes. a honra. pre- venido. etc. Basta sentir a diferença que há entre estas formas: “Ela sempre se livrará cautamente (com a cautela. e acautelar-me é dispor os meios de evitar alguma coisa que receio. mas é necessário não perder de vista o radical de cada um desses verbos: – venio. precaver.. apercebido contra alguma coisa . quem se acautela toma providências. de meticulosa cautela”.. precavido. prevenção.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 71 tributamos algum gênero de culto.. e entre os respetivos conexos. Entre cauto e acautelado fica sem dúvida cauteloso. a fortuna. guarda-se. – Não há dificuldade em distinguir prevenção de sobreaviso. acautelar. Decerto que eu não me posso precaver contra a noite. sendo este “a disposição de ânimo em que fica quem se previne”. pois. aviso. “guardar-se”: à vista do que. defender-me antecipadamente do mal possível. em boa guarda”. ire “chegar antes. prevenir com cautela. – Precatar é “estar atento. “o apercebimento. prevenir-me é pôr-me de sobreaviso. previdente. é o estado ou a atitude de suspeita em que se fica em relação ao que se deve temer”. a vigilância do espírito contra o que pode sobrevir”. Quem acautela os negócios de outrem cerca-os de garantias. cauteloso. ou está prevenido quem se põe ou se acha nesse estado. disposições. ou segurança. guardar-me. prever. e precaução é o ato de precaver-me. defende-se por assim dizer de eventualidades. passar adiante. Precaver-me é. admissível a forma: “está cauto”. mas julga apenas que isso é possível. – Prevenir (do latim prœvenio. “F. ficar ou pôr de sobreaviso a respeito de alguma coisa que se receia”. Não será por isso que eu seja precavido. prudente. precatar. pois. precaução. acautelam-se os cautos contra males iminentes. como os pais. sobreaviso. e acautelo-me deste ou contra este agasalhando-me. que significa “prevenido de muito cuidado.

“Tomar alguém uma certa coisa – diz ele – é havê-la para si. uma graça. Não envolve. 92 ACEPÇÃO. e também aprovar.”. tomamos amor. con- descender. – Muito judicio- ção dizemos dos “vários sentidos em que uma palavra pode ser empregada”.. aceitamos as condições de um contrato. asco. dar consentimento. ensejo. L. é o ato de prever tanto quanto é possível. regulado pela disposição das palavras”. tomar. que se sente do mesmo modo”. que se está de acordo e se consente”. concordar. aderir. significação. – Anuir é propriamente “fazer sinal. ou se nos oferece.”. uma oferta. de ideias. uma visita. consentir. sob uma outra ordem. refletido e seguro no agir. – Previdência é. do conselho mais sábio para o caso. – Sentido é “o valor da palavra conforme a aplicação que tem na frase. – Avisado é aquele que está fortalecido do aviso que convém. pois. o chapéu. a obrigação que se nos impõe. ou ofereça essa coisa. ou pôr-se em perfeita identidade de sentimentos. porém. conformar-se. – Acep- quer que seja o motivo do consentimento”. anuir. ou exprimir de qualquer modo. receber. e assim. do mesmo voto. – Aderir é “dar aprovação afinal àquilo que se tinha recusado ou combatido”. e sem o qual não seria possível sair-se bem. uma injúria. e prever diz “ver antecipadamente o que se pode dar em relação a alguma coisa que se deve evitar”. 94 ACEITAR. a espada. o que ela diz por si mesma. nem ideia de movimento que no-la traga. sendo o aviso esse estado de atividade consciencial em que se acha o avisado. ódio. – Aceitar é receber com agrado e boa sombra. uma ferida na guerra. . Aceitamos um obséquio. de não discordar. tomamos o livro para ler. apreendê-la com a mão (ou pô-la sob seu domínio). etc. etc. segundo Bruns.72 Rocha Pombo certa que é para temer”. recebemos um hóspede. “é declarar que se aceita o que outros decidiram. uma certa gradação entre estes verbos. – Significação é “o valor semântico da palavra. que faz o ânimo calmo. – Aceder. qual- samente estabelece S. – Prudência é mais que aviso: designa a virtude de uma sábia ponderação. as armas para brigar. autorizar o que se nos oferece ou propõe. – Consentir sugere ideia de “permitir. – Condescender é “consentir por tolerância”. e que se cooperará para o intuito geral. – Concordar é “chegar a acordo depois de dissensão. sentido. e prudente será aquele que possua essa virtude. assentir. de vistas. nem supõe ação estranha. – Receber é tomar o que se nos dá. a pena para escrever. tomamos ocasião. aquiescer. ou admitir por mero desejo de ser agradável ou de não contrariar”. ou o valor da frase ou do discurso. – Previdente é o que sabe prever. – Conformar-se é “estar. a qualidade de quem sabe prever. ou dê. de modo de ver. Tomamos o vestido. tempo. ou se nos manda. um favor. uma notícia. assentir. a ideia que exprime”. etc. ou o que vem a nós. Aquiescer é consentir voluntariamente e sem esforço”. a proposta que se nos faz. Recebemos um presente. recebemos o foro que se nos paga. chamá-la a si. – Assentir é “mostrar que se é da mesma opinião. que nos mande. e prevenir-se contra surpresas. 93 ACEDER. entrever que se tinham outras tenções. e sendo avisar a ação de despertar ou ter desperto o ânimo ou produzir esse estado. deixa. o dinheiro que se nos deve. precatado designa aquele que se não deixará pilhar desprevenido em caso em que da atenção dependa o sucesso.

– Azedo (de acidulus. ácido. e só é sinônimo de amargo pela acerbidade.. estranho”. o espinho. Dizem muitos: – “palavras ácidas. ácido. soni- ACENTO. como o olhar ou como a censura. ácidos remoques. diminutivo de acidus) diz propriamente “meio ácido. “apressar com precipitação”. pelo qual se afinam outros. o diapasão de uma cantiga. tom. amargo. Não obstante. sugerindo a ideia de remoques ou palavras mordazes. Dizemos – dias amargos. referindo-se pronúncia ao modo de serem ditas as palavras. – Acento é o “modo como se exprime uma emoção”. áspero. – Aligeirar é propriamente “fazer que se mova. como o sabor lancinante do limão. pois a coisa amarga. no maior número dos casos. – Apressar denota ação viva. diapasão. conquanto menos pungente ao paladar. portan- . precipitar. ou pela mesma toada é discutir ou falar segundo os modos ou pela mesma forma por que outrem fizera. acérrimo. Matéria azeda é a que se alterou do normal pela fermentação: figuradamente azedo significa. etc. toada.. – Precipitar quer dizer aqui “apressar. tanto se diz acerbo o som como a ironia. como a flecha. e acento a uma particularidade da voz de quem as diz. – Toada é o tom de uma voz. Aligeira-se o passo. ativar. – Timbre não é propriamente o tom. como ao ouvido.. – Som é “todo ruído que os corpos produzem quando em movimento ou em vibração”. etc. mas “a qualidade do som. acre. ali97 73 geirar.” 96 ACENTO. neste sentido. mais ligeiro”. agro são proliferações de ak. (Amargoso significa “um tanto amargo”). um tanto ácido”. acre. acérrimo. o tom que serve de norma. apressurar. – Sonido (e soído) significa um “som particular. e poderia. é todavia mais ingrata. é interpretá-las à letra sem atender ao espírito delas”. – A maior parte destes adjetivos têm a mesma raiz: acerbo. – Acerbo é “tudo que punge algum dos nossos sentidos”. etc. estas duas palavras confundem-se geralmente”. “Tomar as palavras pela toada é (diz Aul. acrimonioso. movimento apressado para chegar ao fim. uma solução esperada etc. som. apressar. suprir a qualquer dos outros que nele figuram. azedo. – Ácido é tudo que impressiona desagradavelmente. que caminhe. Uma coisa pode ser acerba tanto ao gosto como ao olfato. – Ativar. um negócio. 39). desejo ardente de alcançar o termo. senão no natural. travoso. discutir na mesma. como está dizendo o próprio radical. agro. – Apressurar é dar-se pressa desordenadamente. do (soído).) – para significar quanto essas decepções e esses dias nos deixaram na alma uma impressão comparável à que na boca produz o gosto do fel. partícula que marca ideia de “alguma coisa de agudo. amargas decepções (como dizemos – “momento amargoso” etc. É o mais genérico do grupo. de acre” (Chass. e falar. acrimonioso. é “fazer mais ativo”. antecipando. do grego. – Sobre estas duas palavras escreve Bruns. Aligeiram-se os soldados pelo exercício.: “Dizemos a pronúncia do Minho. picantes como a coisa ácida: notando-se que não é usada pela maioria dos autores. timbre. – Acelerar – diz Bruns.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 ACELERAR.) tomá-las pelo som e não pela significação. ou afastar-nos do princípio: é inerente a este verbo a ideia do pouco cuidado que resulta da própria pressa. azedo. tom é a “maior ou menor intensidade de força com que se exprime”. a espécie de sonoridade de um instrumento ou de uma voz”.. amargoso. travento. é dar mais rapidez ao movimento ou ao ato. – “denota impaciência (sofreguidão). e o acento dos minhotos. pronúncia. 98 ACERBO. – Diapasão é o som próprio de um instrumento. o voo.

. mas reprimenda áspera deixaria supor que não fora feita em termos delicados. colocação: como as disposições do testador com respeito a seus filhos.. quanto a. A propósito de uma história podemos contar outra história muito diferente e que apenas nos tenha sido sugerida pela primeira.. – Sobre. escreve ou faz alguma coisa. e com respeito a. a colocação de tal ponto geográfico com respeito a tal outro”. a conduta de Cícero com respeito a Otavio. Estilo acerbo pode não ser áspero. ou negócio. Até uma menina é capaz de fazer uma acerba reprimenda.. – Acrimonioso não se deve confundir com acre. diz ou faz.... caso. meditar.. (ou com relação a. etc. e aplicado a uma pessoa.. deliberar. como acerca de e a respeito de. Uma palavra áspera pode não ser acerba. áspero e desabrido”.)... se empregam com os que designam operação.... Confunde-se muito com acerbo. é que se prende o que se vai dizer. se exacerba. como dizemos agras escarpas.. e o objeto sobre que se diz.. e a respeito de...). “o que se irrita. em referência a. – A propósito de. A coisa acrimoniosa contém alguma acrimônia... disputar acerca de.. ou com respeito a tal ou tal assunto. em grande número de casos em que não seria perceptível uma diferença essencial mas muito subtil.. azedos momentos”. mal humorado. – Quanto a é outra locução que marca também conexão direta entre o objeto e o que se vai enunciar. é um tanto acre.. sobre. diz “que mostra azedume. designa “o que é rude e violento.. etc. necessária... e a respeito de.. inculto. etc.. etc. ou relativamente a.) já enuncia mais precisamente que ao assunto. Tanto pode ser aplicado no sentido moral como no físico. – Acre é o “que tem sabor picante e corrosivo” (Aul. palavras azedas. Usa-se mais frequentemente no superlativo: acérrima invetiva.. semelhança ou analogia. Divergem.. no sentido figurado.. ou com respeito a.. a propósito de alguma coisa não é propriamente referir o que esteja ligado a essa coisa. em relação a... em que acerca de. a propósito de.... e em relação a. fazer. ou falar sobre o que lhe diga diretamente respeito.. É fácil de sentir a diferença que é palpável entre estas duas formas: “O ministro ouviu o diretor acerca do negócio” (ou a respeito do. Usam-se indiferentemente com verbos que designam operação intelectual. referir.. o que sai do seu estado de calma”. estabelece uma relação precisa e direta entre o que vamos dizer.. relativamente a. fixando-a na do objeto em que a ação recai ou se executa. revelando violência reprimida. falar. (com relação a. que molesta algum dos nossos sentidos”. ou a respeito de.. a respeito de. ou exercício da palavra. porém. Falar. – “Acerca de. 99 ACERCA DE. acérrimos furores.. como pensar. Dizemos: – “discussão azeda. Dizemos: agras penas. Equivale a sobre. Além disso...). (Bruns. recriminações acérrimas. conduta. e parece áspero....74 Rocha Pombo to. – Agro só se diferencia de acre em ser mais extensivo. – Em . ou pelo menos dá ideia da autoridade da pessoa que escreve.. mas convém não esquecer que áspero sugere ideia de rude. exprime muito mais vagamente a ideia de outras locuções deste grupo.. negócio azedo. modificam a ideia representada pelo verbo.. (com res- peito a..): e... ou em relação ao negócio): “O diretor ouviu o ministro sobre o negócio”. rigorosa entre o caso e o que se vai dizer.. – Em relação a. esta preposição sobre marca. mas a alguma outra coisa que com essa tenha pontos de relação. Quem fala em relação a alguma coisa diz sem dúvida coisas que estão com aquela em relação mais direta do que quando fala a propósito da dita coisa.. só se usa com esta classe de verbos. mas ainda sem estabelecer dependência direta.. em alusão a.” – Áspero é “tudo o que impressiona desagradavelmente. escrever.

pois.. pois que referir é “indicar positivamente. de segunda ordem. equivalente a amontoamento. nem era necessário que se o fizesse. e quase sempre à má parte.. portanto.). pode permanecer apenas por algum tempo. 100 ACERTAR. – Secundário é “o que é de menor importância. acumulando. fora da acepção jurídica. por ser aí demais. e tanto se emprega no sentido próprio como no figurado: – neste último igualmente à má parte. Quem arruma coloca em rumas as coisas que se devem arrumar. atinar. pelo próprio nome”. e só se usa. – Quem atina acerta com alguma coisa pondo em ação umas tantas qualidades de espírito (argúcia. segundo Bruns. etc. Adivinhar é. – Subsecivo é o que pode ou deve ser eliminado. ACESSÓRIO. monte. melhor ainda do que este. – Sobressalente = “que sobra. ou mudar logo”. podendo por isso ajustar-se umas às outras. em relação a outra coisa”. de areia. ruma. numa festa. que excede ao necessário. de pedras. num pensamento. ou indispensável e próprio. – Quem acerta dá por uma coisa casualmente. referir vagamente. – Montão é aumentativo de monte. de valor que não é principal. e em alusão a. e aludir é “indicar por sugestão. “Que monte de absurdos!”. “um monte de laranjas. – Aquele que adivinha vale-se de um tino misterioso. – Pilha é “porção de coisas numa certa ordem”: pilha de tábuas. de um dom excepcional que só se explicaria por faculdades que o fizessem superior aos homens comuns. e usa-se tanto no sentido natural como no figurado9. no sentido figurado. desordem. atinar mesmo com as coisas de que absolutamente nada se sabia. e para cujo conhecimento o adivinho não se serve nem de esforço. pilha. que se esteiam mutuamente. tino) que nem todos têm. “Que acervo de asneiras disse o homem em tão curtos instantes”. Um sujeito. ou num banquete político. rima. ideia de confusão. precisa. mas de uma vidência maravilhosa.. de gelo”. subsecivo. – Acervo diz “grande porção de coisas”. expressamente. etc. de frutas. grandeza descomunal. ou então ao cabo de algum esforço. 102 secundário. cúmulo. – Ruma é “porção de coisas uniformes. – Acessório se diz de tudo que numa coisa (num corpo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 75 referência a. – Rima.. Não seria de bom gosto dizer: acervo de verdades. Falar em alusão é falar quase a propósito. sobressalente. de modo que ocupem o menor espaço possível”. de sacos. tenacidade.. sem dizer de modo expresso qual a coisa a que se alude”. montão. – Cúmulo dá ideia de grande quantidade de coisas formando monte. 101 ACERVO. pode falar em alusão a certos fatos ou a certos homens sem os referir. distinguem-se tão bem como os dois verbos que ordinariamente se confunde. por exemplo. mas que se põe de reserva para momentos em que venha a servir”. – Contingente é “o que não é necessário.. – Monte diz também “grande porção de coisas”. porque todos os que ouvem sabem já qual é a coisa a que se alude. sobrepondo. de armas. sem que faça falta no todo de que se elimina. numa questão. e que. “não é parte essencial ou fundamental”. contingente. adivinhar. é cada uma das pilhas de coisas iguais e sobrepostas umas às outras.. acertar. falar acerca ou a respeito de coisa determinada clara. e sugere. é falar considerando uma coisa que não foi citada. Falar em referência é. nem de acaso. e sem razão. . etc. excesso de coisas que se vão reunindo. portanto. 9 Usamos também acúmulo por acumulação.

Descoberta aplica-se mais particularmente ao que se descobre no domínio das artes e das ciências. entre invenção e invento.: o descobrimento da América. feliz. descoberta. viu no chão uma peça de oiro.. mas só Deus poderia dizer: “Eu te deparei um amigo”. como diz Roq. exprime a ação de um agente. Descobrimento aplica-se às descobertas de grande alcance. mas fora de nosso alcance atual. pois o modo correto de falar é: “A passagem que o acaso. encontrar. etc. 104 ACHAR. a apanhou e guardou. mas não a descobrimos. Ex.: “Encontrar corresponde ao verbo latino invenire: na sua mais lata significação representa a ação de dar com uma coisa que se buscava. etc. a obra do inventor. me deparou”. etc. Alguns o quiseram fazer sinônimo de encontrar. as nascentes que a terra encerra em seu seio. a descoberta da pólvora10. pois o p. Muitos autores dos nossos dias dizem indiferentemente descobrimento ou descoberta da América.. Descobrem-se as minas. que se encontrou. – Achado é “aquilo com que se deu. mas podendo ser também fruto de esforço”. Ninguém dirá que achou a procissão. Colombo e Cook descobriram novos mundos.. pela praça encontrei uma procissão. e andando à procura dela e encontrando-a. – Deparar. descobrimento. oculto ou secreto. diferente de nós. nos apresenta uma pessoa ou coisa de que havíamos. proveitoso. Esta distinção. mui razoável por certo. tanto moral como fisicamente. acham-se os animais e as plantas que povoam sua superfície. além disso. dizendo. indo pela rua. tendo-a perdido. Ao passar 10 Se bem que se não siga sempre muito à risca esta distinção... mas a mesma espécie de homem. com a diferença que invenção é muito mais extensiva. a não querer dar a entender que a andava buscando. dizemos que achou. trabalho. quase sempre por acaso. é achar o que era ignorado. assim como. – Descobrir é pôr patente o que estava coberto. invento. e que invento se restringe às artes. e exprime a ação daquele que pelo seu engenho. etc. e não coberta ou oculta.. nem se há de dizer nunca: descobrimento da pólvora. – Descoberta e descobrimento designam o ato de “dar com alguma coisa oculta. etc. ou que por casualidade se oferece. uma boa fortuna. Só não se diz. que nos é útil. (3. A duas léguas de Lisboa encontrei o correio. o estafeta. Uma coisa simplesmente perdida achamo-la quando chegamos aonde ela está e a descobrimos com a vista. a mesma diferença que se dá entre ação e ato”. de revelar o que não era sabido”. a minha diligência. De um homem que. o que se acha estava visível ou aparente. acha ou . ou de nossa vista. deparar. imaginação. com a voz neutra. – Inventar corresponde ao latim invenire na sua significação restrita de “discorrer. por exemplo: “A passagem com que deparei”: o que é erro. que é composto da preposição de e do verbo latino parare “preparar”. invenção. aos fatos de extraordinárias proporções realizados pelos navegadores e viajantes modernos. anda esta palavra em regra associada à ideia de bom. achar de novo”. – Acerca deste grupo escreve Roq. não deixaria de ter bom patrono entre os clássicos. e naquelas regiões até então ignoradas acharam um novo reino vegetal e animal. porque ela estava manifesta. descobrir. ou não conhecida. um enterro. in- ventar. O que se descobre não estava visível ou aparente. 15). estabelecer.. É por isso que não se usa comumente nas primeiras pessoas: Dizemos que Deus nos depara um amigo. etc. que nos subministra. – Sobre invento e invenção escreve o mesmo autor que “exprimem o que se inventou. Pode-se.76 Rocha Pombo 103 ACHADO. e. dizemos igualmente que achou. o produto da faculdade inventiva (ou criadora). Lucena diz: “Mais encontraram acaso as ilhas do que as acharam por arte”.

(Tusc. Volta inventou a pilha que dele tomou o nome de voltaica”. mas cada uma delas indica modificações particulares que distinguem os diferentes gêneros de sofrimento”. Parece corresponder ao morbus dos latinos. segundo sua origem (do verbo latino doleo). em sentido desfavorável. 4. caso acidental. – Enfermidade significa. segundo a origem árabe ax xaqui. que quer dizer doença permanente.. coisa que pode ou não acontecer. Fr. doen- ça. 3.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 77 descobre coisas novas. – Incômodo é “mal passageiro”. – Quanto às quatro primeiras palavras deste grupo é ainda de Roq. “Acidental vem de acidente”.. ou trabalho penoso de corpo ou de espírito. primeiro. quer dizer estado doloroso do corpo. ocasional. portanto. “Porque parecendo. – Contingente sugere ideia de coincidência. podendo substituir em quase todos os casos a todos os outros do grupo. – Indisposição é “estado em que a pessoa fica ligeiramente fora do normal”. – Imprevisto supõe ignorância da possibilidade da coisa. novas combinações de objetos já conhecidos. incerto. Copérnico inventou um novo sistema do mundo. abandono de forças. a física acha as causas e os efeitos. enfermidade. segundo a força da palavra latina. etc. – Inesperado. casual. 10). achaque. como o definiu Cícero: Molestia est œgritudo permanens (Tusc. sem que se ligue a causas que possam ser previstas: e. ou que não é permanente. sani non sunt. Herschel descobriu um novo planeta. nem nos viera à imaginação o que sucede”. no mesmo sentido em que dizia Cícero: Qui in morbo sunt. L. se bem que no plural se aproxime de moléstia. que vem e . isto é. mas o engenho penetrante inventa coisas novas. – Fortuito vem de fortuna: é o sucesso extraordinário. eventual. a segunda também se generalizou a todo incômodo. Um engenho fecundo acha muitas coisas. Pas. – Achaque. A mecânica inventa as ferramentas e as máquinas. a terceira é preferível para indicar a falta de saúde que provém de fraqueza do corpo. aleatório. – Mal é termo genérico para designar tudo que causa dano ao homem. 106 ACIDENTAL. debilidade da natureza no sentido em que disse Cícero: Infermitas puerorum et ferocitas juvenum” (Senect. mal. contingente. 8). inopinado. imprevisto. moléstia do corpo acompanhada de dores. e significa em geral o sofrimento que traz a alteração da saúde. “supõe conhecimento da possibilidade de uma coisa. e significa “que depende de certas condições ou circunstâncias. fortuito. escreve Alv. ines- perado. A primeira fez-se extensiva a todo defeito físico ou moral. – Doença. mas favorável”.. falta de forças. 4). mas não habitual. a última exprime bem a falta de saúde acompanhada de do- res ou incômodos físicos. ou novos usos. enfermidade. 105 ACHAQUE. Harvée achou ou descobriu a circulação do sangue. Dizemos com razão – doente o que não está são. moléstia. – Acerca de acidental e de fortuito. É o que acontece sem ser esperado. “fraqueza. significa enfermidade ou moléstia habitual. incômodo (incômodos). de S. aqui tem decerto um sentido mais restrito. – Eventual distingue-se de todos os do grupo em enunciar apenas a ideia de coisa que ocorre. indisposição. que não se espera numa ocasião ou circunstância determinada”.. Inopinado supõe que não se havia pensado. enfadamento. – Moléstia toma-se quase sempre na significação da palavra latina. segundo Roq. que atua ou que se produz sem ser normalmente.. tantas vezes sucedeu que veio a ser havido por mistério”. o que se segue: “Todas estas palavras enunciam um desarranjo ou desordem no estado normal da saúde do homem.

povoações e províncias. glorificar. acidente (do latim accidere. que é o único que hoje tem. revés. numa sociedade. destruição das searas pelas intempéries. e considerando-a até certo ponto como contrária às leis ordinárias. proclamar. proclamar. segundo as superstições astrológicas. do destino. aplaudir. incendimento sagrado por alguém ou alguma coisa. se diz de qualquer grande desgraça. – Segundo Bruns.. que sobrevém como castigo. expressos. (Há muita diferença entre proclamar e aclamar.. – Proclamar é “dar sanção. 108 ACLAMAR. desgraça. abrangendo a significação de todos os outros: é todo acontecimento funesto. como se se fizesse escolha solene da pessoa aclamada.) – Vitoriar é “aclamar estrepitosamente.. mas a uma série desses fatos que sobrevêm uns aos outros. – Aplaudir é “dar sinais ostensivos. 107 ACIDENTE. constituindo um conjunto que tem importância excepcional”. mas não provável”. cumprindo um dever. e por extensão.. glorificar – estes verbos marcam a gradação. e até somente numa família. – Aclamar é “aprovar. – Calamidade (do latim calamitas. porém. no sentido figurado. num Estado. e como se se tornasse publicamente reconhecido o que se proclama. como se se desse testemunho. isto é. sem que nada a fizesse prever. – Ocasional significa propriamente “de ocasião”. toda desgraça irremediável. – Catástrofe é acontecimento extraordinário. que revolve. movimentos de delírio”. vitoriar. transforma completamente o estado precedente noutro estado muito pior. aceitar solenemente”. de que se aprova e sanciona”. com vivacidade. – Desgraça é o mais genérico do grupo. entusiasmo. – Desastre (vocábulo francês. desgraça da qual é impossível sair. mas para pior. trazendo consigo a carestia e a penúria. e contra a qual nada se pode fazer. catástrofe. segundo a sua etimologia. delírio. pois nesse caso não se atende a um fato adverso somente. – Casual se diz de todo fenômeno cuja causa é desconhecida. mesmo quando se fala de uma calamidade privada. isto é. calamidade. ou não se tem certeza”. ou mesmo num indivíduo. se assim nos podemos exprimir. vocábulo que significou primitivamente os estragos que a saraiva produz nos campos) significa. mas sempre sugerindo a ideia de transtorno violento e profundo. pela influência nociva dos astros. formado do prefixo negativo des e de astre.. uma grande desgraça causada. livremente. considerável. – Aleatório “é termo jurídico: aplica-se a disposições que se tomam para o caso em que se dê uma circunstância possível.. declarar com desvanecimento e no meio de extraordinário aparato”. muda. a força crescente dos sentimentos com que se manifesta aprovação. aclamar.78 Rocha Pombo passa”. e que por isso se acredita que é devido ao acaso. O sentido desta palavra é sempre coletivo. vitoriar. desastre.. calamidade. “que aparece como circunstância que se não prevê”. aclama-se espontaneamente. “suceder”) diz-se de qualquer desgraça que sobrevém inesperadamente. etc. se declarasse autêntico. Como a destruição das searas é uma desgraça que afeta sobremodo a muitas famílias. que se dá como de momento. que aniquila e destrói tudo. (Bruns. – Postos nesta ordem – aplaudir. agitação. Em regra. é o reverso da medalha. pública ou privada. “astro”) significa propriamente um grande infortúnio. – Glorificar é “fazer a consagração . Esta revolução completa pode dar-se num povo. – Incerto é “tudo aquilo a respeito do que se está em dúvida. proclama-se.). alegria. – Revés é a desgraça que faz mudar completamente uma situação.

A lição do mestre abalizado nos ilustra.. estendendo. por exemplo. explanar..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 79 de virtudes. – Acobardar é “reduzir alguém a uma incapacidade absoluta de reagir”. – Todos estes verbos enunciam ação de diminuir ou abater o ânimo de. um assunto. . mas amedrontam uma criança. sem que só por isso haja necessariamente ficado de todo elucidada. – Explicar é esclarecer como desdobrando. “pois que diante destes os homens ficam como se estivessem diante de divindades”.. apavorar.. Uma questão pode ter sido ilustrada por um mestre. Muito bem nota Roq. Dizemos: “Deus que o ilumine” (isto é – que lhe torne luminoso o espírito. quer no figurado. explicando o que parecia obscuro ou estava confuso”.. desembrulhando aquilo que se não entendia. quebrantar.) não se pode dizer que seja cobarde. e isto quer no sentido próprio. que me atemoriza ou me quebranta.. ou de um decrépito. assustar. amedrontar. De sorte que só se entende que alguém se acobarda quando deixa de ter o ânimo que é próprio do homem. mais por defeito da coisa que se explica do que da pessoa a quem é explicada. aterrar. a vencer. ilustrar... atemorizar.” – Iluminar é de predicação mais viva e de ação mais direta que alumiar e ilustrar. a solidão. iluminar. explicar. decerto que ninguém teria a lembrança de arriscar: “Deus que o alumie.. Mas. e: “Deus que lhe alumie o caminho escabroso que vai seguir” (isto é – que lhe torne claro o caminho). e pode-se dizer que a nuança entre uns e outros é marcada pelos respetivos radicais. – Aclarar é “tornar claro. – Ilustrar significa “lançar luz. 110 intimidar. um debate. como a própria luz”. alumiar e iluminar. É convizinho de ilustrar. pois iluminar. – Esclarecer é “aclarar completando. num sentido muito alto. ou para atacar um inimigo que o afronta.”) Ilustra-se uma obra. alumiar. de um enfermo. elucidar. e sim medroso. O grande homem ilustra (dá brilho) o seu tempo”. Não se poderia dizer. E como um caminho só se faz claro a olhos que saibam ver. etc.. mas que me apavora.. da ACOBARDAR.. – Explanar = “explicar tornando simples. A glorificação deve ser um ato ou uma cerimônia tal que se compare à solenidade de culto: só a merecem os verdadeiros gênios e os santos. Também não será próprio o verbo acobardar tratando-se de casos em que a coisa a resistir. o senso interior). tratando de cobardia. fazer que se veja claro”.” “A palavra de Jesus alumia os cegos” (não – “ilustra. espavorir. Quem se acobarda perde a coragem para repelir um ataque. projetar brilho sobre”. inteligível. significa “dar à inteligência uma nova e intensa claridade a que não escapem as coisas mais abstrusas”. que de um menino (de uma mulher. ou o relâmpago.” Pelo menos esta forma seria de lidimidade muito duvidosa. – Alumiar diz propriamente “dar luz. também poderíamos dizer assim: “Deus que lhe ilumine o caminho da vida”. seja superior a forças humanas ou fique fora do nosso alcance. talentos que excedem ao que é grandeza comum entre os homens”. a atacar... que uma tormenta. distinguindo-se destes. e não – “ilustra. no entanto.. mas nem sempre nos ilumina. e distingue-se de ilustrar em grande número de casos. aterrorizar.. e não – “alumia.” O sol alumia a todos”. A noite. me acobarda. etc. esclarecer. esparzir claridade”. quanto ao primeiro exemplo. 109 ACLARAR.. e não – alumia-se. ou a evitar etc. fazendo fácil”. ou nos alumia o espírito. uma invetiva não acobardam. feitos. – Elucidar é “fazer perfeitamente claro. ou um vulcão.. em sugerir ideia do modo completo como a coisa elucidada ficou esclarecida.

Não se poderia dizer. O segundo significa também “encher de terror”. O primeiro exprime “inspirar um medo. mas seguramente mais humano. – Feito é o mesmo que fato. O fato tem uma relação direta com a coisa executada. abater inteiramente o ânimo aterrado”. proezas.) – Assustar é “produzir impressão súbita de espanto ou medo”. e sem razão. Sente-se. Daí vem que as ações são boas. “O sofrimento moral quebranta mais que os males físicos”. o mísero escravo intimidou-se”. causar grande medo”. ou é de uma tão delicada modéstia que passa a ter sem dúvida outro nome.. façanhas. e menos acobarda. (Ver o grupo. – Aterrar e aterrorizar confundem-se muito. Uma visão diremos que nos aterra. falsos ou duvidosos. sagrado. nos espavore”. como atemorizar é “causar temor”. que leva alguém a perder o ânimo. – Quanto aos três primeiros escreve Roq.) “Por estar na rua. Exemplos: “Bastou uma palavra mais alto e mais áspera para que o outro se intimidasse ali. que em atemorizar se inclui a ideia do motivo real. mu- . e tem alguma coisa de análogo a aterrar por sugerir. atemoriza-se o réu diante do tribunal. atemorizamos o mau estudante com a presença do pai. – Quebrantar é “fazer que se perca o ânimo. um espírito supersticioso. Mas a diferença entre estes dois verbos é bem sensível quando se compara medo e temor. fatos. que se deixe abater. É dos mais extensivos do grupo. igualmente a ideia do que tem de misterioso. (O outro aqui não é decerto um herói. e os fatos são certos. é causar susto. portanto. um grande espanto. o pavor que sentimos. feitos.. um súbito terror de imobilizar. mas é possível que explicasse suficientemente a sua quebra de ânimo como excesso de pudor. – Intimidar é “fazer tímido”.80 Rocha Pombo sua função. etc. de coisa sagrada. o heroísmo um tanto menos espetaculoso.. “Na miséria ou na doença os mais fortes se quebrantam”. quase sempre. 111 AÇÕES. o que fica executado por meio da ação. a parte que nela tem a pessoa. deixar agitado de susto: e sugere a ideia da fuga que revela o espanto. da sua tarefa. com relação direta à essência ou qualidade do fato em si mesmo. que se inclui em aterrar. grave. ou – “O castigo do céu atemoriza os crentes”. representando-nos a vontade. nem intimida. – Espavorir é “fazer abalado de pavor. de impressão violenta. etc. Até os animais podemos assustar. o movimento. de salvar o seu decoro intimidando-se.) Amedrontamos uma criança. já que é tarde para defendê-lo a pulso ou à força de armas). tão discutível e brutal. etc. Pode-se intimidar a todo o mundo talvez. “O crente atemoriza-se do castigo divino”. o perdulário lembrando-lhe o futuro. – Apavorar diz propriamente “encher de pavor. submisso. sinalando a palavra diretamente a intenção do que as executa. o menino na presença dos examinadores. ou então é mesmo de natureza ou de condição tímido por ser fraco. um assassino acossado de remorso ou perseguido da justiça. por exemplo: “A noite. mas aquele que se intimida – ou é de uma prudência tão meticulosa que se avizinha de cobardia. “Só ao ver ao longe o filho do senhor. calando-se”. – Amedrontar é “causar medo”. a iminência de uma grande desgraça nos aterroriza. mas – “nos apavora”.. representando-nos o efeito. a presença daquele biltre intimidou o velho soldado (O velho soldado nem por isso perderia direito a continuar sendo o mais legítimo dos heróis: poderia mesmo juntar talvez agora ao antigo. como virtude contra o escândalo. mas não sugere a ideia de mistério. como sobrenatural. lá fora. (Ninguém diria amedronta. ou: “Bastou a presença do mestre para intimidar o menino”. “A ação tem uma relação imediata com a pessoa que a executa. más ou indiferentes. amofinar”. o produto.

corresponde muitas vezes a obra. a valor excepcionais. vergastar (verdascar). ocultar. 113 AÇOITAR. um anarquista. magoar açoitando ou vergastando”. ou com alguém a que essa pessoa esteja sujeita. cortante”. sagrado (asilo) em que alguém se julga a salvo de qualquer perseguição. que se asila em nossa casa.. acoitar nem sempre. refugiar-se. ilustres de homens famosos e dignos de memória”. . homiziar-se. – Vergastar (ou verdascar) é “bater com vergasta (ou verdasca) isto é – com vara muito fina e rija. ou contra mal de que é perseguido”: “O hoteleiro abrigou da (ou contra a) chuva aquelas crianças”. Um político. mas ultraja também. ocultar-se. pungir. De um criminoso julgado. pois o chicote ou rebenque não só molesta. e tanto se faz às bestas lerdas. azorragar. – Açoitar é “bater com açoite ou látego. 112 ACOITAR. surrar. – Todos estes verbos enunciam ação de molestar fisicamente. que se considera com direito a essa coisa ou essa pessoa”. asilar-se. esconder-se. das que são contadas nos antigos romances”. Esconde-se aquele que se esquiva à ação dos que o procuram. – Surrar é o mais compreensivo do grupo: exprime a ideia geral de “molestar de qualquer modo. e como castigo”. como um assassino que foge da polícia. de facere. – Ocultar é menos do que esconder. – Esconder é “furtar alguém ou alguma coisa à ação. – Homiziar é sempre um delito. nem sempre. sim. – Façanha (do latim facinus. devido à grande coragem. “fazer”. não se dirá que se refugiou. Quem se oculta deixa apenas de aparecer. – Abrigar é “dar abrigo”. acossado do clamor geral. acoitar-se. “Abrigamos em nossa casa bons e maus”. – Asilar expressa a ideia de lugar seguro. afligir. chibatar (ou chibatear). zurzir. mas só homiziamos o criminoso que tenta escapar à ação da lei penal. e sugere a ideia de “fortes golpes que molestam e afrontam a vítima”. – Acoitamos uma pessoa que sabemos comprometida com autoridade pública. Nem por isso asilamos a primeira. homiziar. comprometido em algum atentado ou algum movimento subversivo. asilar. ato. abrigar.) é feito heroico. – Refugiar-se diz propriamente “fugir e valer-se de algum lugar seguro para escapar a algum perigo”. pois ocultamos uma coisa evitando apenas que outros a vejam. mas o seu uso mais frequente é representar as ações nobres. – Zurzir é “espicaçar. flagelar. chicotar (ou chicotear). mas principalmente batendo. quem se esconde procura escapar tanto às vistas como à investigação de outrem. – Azorragar é “bater com azorrague”. es- conder. proeza (em francês prouesse “action de preux”) “diz-se propriamente das façanhas da antiga cavalaria. ao esforço de outrem. fustigar. a esforço. “obrar” etc. isto é – “acolher e amparar alguém contra risco iminente. nem o segundo pode dizer-se. Usam-se todos também no sentido moral. De um revolucionário vencido que conseguiu fugir não se pode dizer que foi homiziar-se no estrangeiro (e sim – refugiar-se). refugia-se na Inglaterra ou na Suíça.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 81 dada por eufonia a pronúncia dura de a na doce de ei. Um bandido. Vem acoitar-se em nossa casa o indivíduo que se julga culpado de algum crime. refugia-se na floresta. mas que se foi homiziar no estrangeiro. como aos homens que se deseja humilhar. – Homiziamos em nossa casa alguém “que sabemos condenado por algum crime”: e exatamente nisto é que este verbo se distingue de acoitar: este é mais extensivo: tanto podemos acoitar um menino que fugiu da casa dos pais. – Chicotar (ou chicotear) é “pungir a chicote”. abrigar-se. e diferençam-se quase que só pelo gênero do instrumento com que se molesta. a virtudes. – Segundo Laf.

. As forças escoltaram os prisioneiros até Pernambuco. a que faça alguma coisa que não faria de moto-próprio”.” Pode aconselhar-se bem ou mal. de boa ou de má-fé. ou por circunlóquios. – é sempre mais de uma. benévola ou perversamente. ou por meios indiretos e vagos.). – Quanto a comboiar é preciso que se note que. – Adequar é “fazer uma coisa proporcionada a um certo fim. boiar. multidão (comboio).82 Rocha Pombo macerando. mas – “segue no encalço” (ou vai. conveniente a um determinado uso. – Flagelar tem hoje uma acepção especial. tropas de carga.. sugerimos a Pedro o que está no seu interesse. 115 ACOMPANHAR. – Acompanha-se uma pessoa quando se vai a seu lado e subentende-se que tomando parte nas vicissitudes que essa pessoa tiver no seu caminho. significando a ação de impor pena como suplício e castigo. sempre se entende que é grupo. boiadas.. Um galé só sai da sua prisão escoltado. Ninguém diria que sugeriu a Pedro que levantasse muito cedo: salvo se quisesse mesmo fazer uma simples sugestão. navios. 114 ACOMODAR. por meio de razões insistentes e bons argumentos.. ou a um caso determinado”. é também “encaminhar numa certa direção (num negócio. com- “ir atrás. isto é. quando dizemos explicitamente a Pedro que levante cedo. – O sentido translato é análogo ao natural em todos estes verbos. seguir. – Aconselhar é “induzir alguém. etc. até que o fustigado perca a paciência e saia do estado normal de atividade ou de calma”. – Escoltar é “acompanhar para proteger ou para vigiar”. guiar. “acompanha no encalço”. Uma nação pode ser flagelada por uma inundação ou por um mau governo. como calamidade. sugerir. adequar. – Apropriar aqui é “dar a uma coisa condições que a tornem própria para o fim que se deseja”. é mais restrito que escoltar. etc. tomar o mesmo rumo de alguém. ou mesmo na conveniência da pessoa a quem se sugere. persuadir. – Ajustar é “modificar uma coisa de maneira que com outra se combine”. em regra.. bater com vergasta e repetidamente. – Sugerir é “fazer entrar no espírito de alguém. Porque seguir é que diz inspirar. e quer para observá-lo.. sem perder o seu caráter. – Insinuar está quase no mesmo caso de sugerir: é “introduzir. – Adaptar é “fazer alguma coisa apta especialmente para uma calculada serventia”. como a despiedade de um mau poeta. portanto. e dá ideia de que nunca é uma só pessoa que escolta. quer para o servir. pois nunca se comboia senão para proteger. sofra as alterações que o caso exige: acomodar um drama estrangeiro ao teatro português”. – Acomodar “é – diz Bruns. insinuar. Tanto pode flagelar-nos um inimigo como um infortúnio. escoltar. Segue-se-lhe a pista a alguém. mas indo-lhe na retaguarda e sem perdê-lo de vista. quando lhe fazemos sentir por meias palavras. levar até o íntimo do espírito ou do . adaptar. na vida. zurzindo para exemplar e corrigir”. (não – acompanha-se). – transformar uma coisa de modo que. Não se poderia dizer. Além disso. – Chibatar (ou chibatear) é “aplicar a chibata. a isso o aconselhamos. Acompanha-se uma irmã à igreja (não – segue-se)”. ou o fato de cair. 116 ACONSELHAR. apropriar. – Fustigar é quase como zurzir: designa a ação “de picar. ou a verdasca”. e muito subtilmente. É claro que. em vez de dar um conselho”. e sugere noção da superioridade de quem chibata com respeito ao chibatado. a coisa a comboiar – carros. alguma coisa que está no nosso interesse. ajustar. numa situação difícil. a conveniência de ocultar-se às vistas da polícia.).

primeiro relutara ou não se tinha mostrado a ele propícia. – Acordo supõe que a pessoa. é assistir com bons conselhos. ocorrer. Os que convêm fazem convênio: celebrar . convênio. – Convenção é “o acordo. aqui. aconteceu um desastre. ajustar. marcha. passar-se-ia um desastre se não fora a nossa prudência”. Por isso é que se diz muito acertadamente que onde nunca houve desacordo não seria próprio dizer que veio a dar-se acordo.” Ocorrer é o mesmo que suceder ou acontecer. com mais energia.: “Acontecer é termo genérico.: convindo não esquecer que insinuar envolve ideia de má vontade ou de intuito ilegítimo de quem insinua”. acordo.. portanto. Convenção é sempre mais solene e ato de mais importância do que convênio. assento. contrato. Guiamos os nossos filhos. – Dar-se é. quando se quer dar a entender que do que sucede ou acontece se origina alguma consequência.. ac (c por d) + cordo diz propriamente “ao coração”. aceite o que lhe propomos ou dizemos”. convencio- passar-se. se recorde. uma suspeita.. 118 ACORDAR. Dão-se às vezes desgraças que surpreendem os mais fortes ânimos. concerto. porém. concordar.. não há dúvida que em tais casos seja bem empregado: aconteceu o que tínhamos previsto. concordata.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 83 coração de alguém uma ideia. etc. a que chega quem faz acordo. etc. – Também se pode guiar mal ou bem. de direito ou de interesses a que se submetem afinal partes que não puderam dirimir de outro modo a contenda ou a questão debatida”. – Inspirar.. de opiniões. como guia o mestre os seus discípulos. tratado. tão extensivo. e. – Guiar é dirigir alguém nalgum serviço. previsto ou imprevisto. – Convir é encontrar-se com outra pessoa numa certa igualdade de intuitos. tratar. combinar. emprega-se. intento. cordis. acontecer não relaciona o fato com outro anterior nem o atribui a determinada causa. – Quanto aos três primeiros. combinação. – Acordar é. ajuste. convenção. diz Bruns. como termo genérico. – isto é – significa a união de sentimentos e extensivamente de ideias. aplicável a qualquer fato. ou suceder. que deu cors. dizendo “sucedeu uma desgraça” – apresentamos o fato como consequência de tal ou tal existência: “na perfuração dos túneis sucedem desgraças amiúde. – Persuadir é “insistir em que alguém creia. pacto. importante ou não. não obstante. O que se faz entre as pessoas que convêm chama-se convênio. três primeiros. significando o mesmo que acontecer. porém. pois. significa “sugerir mais diretamente. um desejo etc. Nesta palavra acordo (accordo) figura a raiz cor. um verbo que em todos os casos poderia substituir a qualquer dos nar. Decerto que se não poderia dizer: “Passou-se uma catástrofe. Não é convicção que leva uma pessoa a persuadir-se: é antes a autoridade de quem persuade. “para o coração”.” – Suceder é o mesmo que acontecer. etc. Dizendo – “aconteceu uma desgraça” – referimo-nos à desgraça em si. entrar em acordo.. Dizem que se deram naquele momento sucessos imprevistos. operar sobre o espírito ou o coração de alguém para que se oriente. contratar. Geralmente. aqui. concertar. As ocorrências que se dão diariamente já não impressionam. e é de predicação mais precisa. mas de razão. ou ocorrer. que chegou a fazê-lo. – Passar-se está quase no mesmo caso: não é. Deram-se acontecimentos extraordinários em Lisboa. suceder. assentar. não de vontades ou de impulsos propriamente. pactuar. 117 ACONTECER. convir. se incenda. dar-se. mas encerra ideia de causa anterior. sem outra ideia acessória. para que a pessoa guiada não se afaste do reto caminho. se anime. “coração”.

119 ACORDAR.) – Ajustar é “convir em alguma coisa. pactuar com os inimigos da pátria”. portanto. o recobro dos sentidos. É precisamente em virtude do caráter de imutabilidade que o pacto reveste. – Concordata é termo jurídico que tem principalmente duas acepções: exprime “acordo ou convenção solene feita entre o sumo pontífice e um soberano”. – Concordar é convizinho de concertar: é “vir a acordo como os que se conciliam. como frequentemente sucede. por acordo comum”. mas já envolve compromisso moral mais solene do que aquilo que simplesmente se combinou. – Combinar (do latim combinare – cum + bini “com” + “par”) diz precisamente “pôr uma coisa ao lado da outra. Ajuste é. e também a cessação do sonho. juntá-las. para que dele resultem direitos e obrigações legais ou morais”. referindo-nos a negócios de pequena monta: “o tratado é devido”. (Bruns. – Segundo Roq. “dispor. – Contratar é. 15): Ah! quem de sonho tal nunca acordara – Despertar é pôr ou pôr-se um homem esperto. “entrar em concerto. de modo que fique sólido e perfeito”. expedito para exercer suas faculda- . – Tratado e contrato correspondem a convenção e convênio ou guardam respetivamente entre si a mesma analogia. compará-las”: combinar é. pois. ainda quando não tenha sanção legal – não a podendo mesmo ter quando. o ato de ajustar. como quando se diz: fazer um pacto com o diabo. ou ainda mais restrito – comercial. portanto.: – “Acordar e despertar são verbos ativos e neutros. fora da acepção que tem neste grupo. despertar. o pacto se faz sobre coisas cuja sanção é superior ao alcance das leis humanas. e designa “ajuste entre credores e devedor”. mas convenção: só poderes soberanos têm capacidade para celebrar. decidir. – Assento diz propriamente “o registro solene de um convênio. da sentença que foi proferida”: assentar é. – Concertar é. no entanto. da resolução que se tomou. ou o tiram. confrontá-las. ou nas condições de um arranjo ou negócio depois de haverem as partes discutido”. é um compromisso que fica obrigatório para cada um dos que nele tomam parte. Trata-se tanto de altos interesses de nações como das coisas mais insignificantes do mundo. e representam a ação pela qual um homem sai. – Acordar exprime propriamente a cessação do sono. e tem mais propriamente sentido jurídico. – Concerto é um pouco mais que simples combinação: é “a harmonia perfeita a que se chega acerca de alguma coisa depois de haver ponderado todos os prós e contras”: pode não chegar a ser um contrato. – Contrato é “aquilo que se tratou reduzido a escrito. deixando sentir que se havia antes discordado”. – “O pacto é uma convenção formal em que cada pactário declara renunciar ao direito de romper o pactuado. depois de debate. tanto convenções como tratados. – Combinação é o ato de combinar ou aquilo mesmo que se combinou. “reduzir a escrito (ou dar-lhe toda autenticidade) um acordo a que se chegou. como se vê naquele verso de Camões (Canç. pois. a forma autêntica. se bem que o mesmo se pode quase dizer de tratado. que este termo se presta a ser tomado a má parte.84 Rocha Pombo convenção é convencionar. É certo. pois. Dois exércitos não celebram tratado. que tratar tem uma significação muito menos precisa. nos termos ou nas condições da lei. O que se combina fica assentado apenas mentalmente: não tem força de acordo ou de pacto feito. ordenar os termos de um acordo ou de um convênio”. mas dizemos também. Mas tratado é uma convenção de alta categoria: só pode ser celebrado entre nações. ou junto uma da outra. do estado de adormecimento em que jazia. celebrar contrato. ou dos costumes.

acudir. Animam-se os enfermos contando-se-lhes casos de cura prodigiosos. isto é – por meio de cabos. correntes. induzir. – Prender é o mais genérico do grupo: diz “ligar uma coisa a outra. – Induzir. . A palavra do santo velho alentava os moços. porque em afluir se inclui a ideia 11 Poder-se-ia notar entre estes dois verbos alguma diferença. – Amarrar diz propriamente “prender com amarra”. Entre os dois primeiros e o outro. VI. prender. duz um menino a faltar às aulas não é talvez menos perverso do que aquele que o incita a praticar o mal. prepotência com que se prende. acoroçoar (a + coração + ar) diz “avigorar o coração”: quer dizer – confortar alguém no que empreende. pois encorrentar diz mais propriamente “carregado de ferros. ou seu intento. incitar na tarefa. – Animar é “infundir alma”. dureza. ou por exemplos ou por medo. – Acoroçoa-se alguém na sua tarefa. já se nota uma diferença fundamental: tratando-se de pessoas (ou quaisquer animais) só se emprega afluir quando se faz referência a muitos indivíduos. e que se interrompe a horas desacostumadas. melhor do que este. Para o segundo os outros despertavam. pois encerra ideia da tirania com que se agrilhoa. cheio de correntes”. sendo que despertar anuncia sono profundo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 85 des. Não há ninguém que anime aqueles míseros no eito. – Agrilhoar diz mais ainda que acorrentar. 122 ACORRER. para um trabalho. – Incitar é um pouco mais: é “induzir com grande esforço e vivo empenho”. é “prender por meio de corrente”. animar. ir ou vir para alguma parte. isto é – dar vigor às forças do espírito para uma resolução. 121 ACORRENTAR (ou encorrentar). do peso dos grilhões. no sentido próprio. ou de quem nos quer tornar espertos. – Encorrear (ou acorrear) é “prender por meio de correias. a fazer alguma coisa”. sustentar no esforço. de modo que a coisa amarrada fique segura. – A mesma diferença existe na acepção figurada. incitando-o com palavras e afagos a que tenha coragem e se esforce por vencer. mais ou menos intimamente. encorrear (ou acorrear). afluir. Quantos homens acordam do sono da culpa. marchar. – Alentar significa propriamente “dar alento. para sofrer um mal. Uma só pessoa seria impróprio dizer que aflui. ou cordas. A esperança nos alenta nesta luta. incitar. Colombo voltou da América encorrentado (não acorrentado). – Estes três verbos enunciam a ação de correr. a ideia da força. do sofrimento do agrilhoado. – Acorrentar (ou encorrentar)11. conter dentro de certos limites”. Com o exemplo do capitão animam-se os soldados a investir o baluarte. encadear. e não se possa afastar do posto em que se a fixou. ou uma doença. sem envolver ideia do modo como se a prende”. Quem in- agrilhoar. alentar. no figurado é “coagir. 38): Os do quarto da prima se deitavam. distinguindo-se em sugerir. aqui. é “levar alguém. que acordar supõe um sono ordinário e que acaba regularmente. isto é. Segundo a própria etimologia. É próximo de encadear. mas não chegam a estar assaz espertos para praticarem resolutamente a virtude!” 120 ACOROÇOAR. amarrar. por meio de palavras persuasivas. Parece que a ação de acordar precede à de despertar. enlaçar de modo a tolher os movimentos ao que se encorreia”. para sair do qual é necessário mais esforço nosso quando acordamos. insuflar coragem. como se vê ainda de outros versos de Camões (Lus.

a vivo interesse. se habituou a ir todos os dias à igreja. os nossos costumes. tanto maus quanto bons. por nos termos exercitado com esforço. como: “eles acorreram ou acudiram.. ou para determinado lugar. Acostuma-se alguém com alguma coisa. acostumou-se. nem de acorrer por afluir: por exemplo: em – “as famílias da redondeza afluíram à cidade no dia da festa” – não poderíamos (sem alterar o valor lógico da frase) pôr nenhum dos dois primeiros verbos no lugar de afluíram. poder-se-ia dizer que ninguém acorre a um certo ponto. aqui. ou a um gênero de vida que nunca tive. dar-se. que um paulista nos viesse dizer que se acostuma em S. a mesma diferença. Entre acostumar-se e habituar-se há. e que em acorrer e acudir está implícita a ideia de pressa: não se acorre nem se acode devagar.” Outra diferença: como há casos em que afluir não substituiria nenhum dos dois. hábito. lhe não é mais estranho como a princípio.86 Rocha Pombo de multidão. mas depende de mim habituar-me a um certo serviço. o acossador tem à vista o acossado. ou por termos repetido muitas vezes”: devemos os nossos hábitos mais a nós próprios do que a outros. por exemplo. F. ou nalgum lugar. ou a perigo que viu. Isto quer dizer que afluir significa (como na acepção própria. não se acostuma no campo. aclimar-se (aclimatar-se). 123 ACOSSAR. A. Costume. – Acossar – diz Bruns. de condição. amoldar-se. em Paris. pois inclui mais ideia de modo de ser do espírito. ajusACOSTUMAR-SE. pois entre o perseguidor e o perseguido a distância pode ser considerável”. acomodar-se. 124 habituar-se. ou do modo de parecer peculiar a cada pessoa. Por isso mesmo não se explicaria. de meio.. M. quase o mesmo que acostumar-se. identificar-se. a obediência. afinal. ou cede a medo. Esta ideia não há em acorrer e acudir: tanto podemos dizer “ele acorreu ou acudiu ao ver o desabamento”. Quando muito. Tal ideia não existe em perseguir. mas nunca se habituará à vida dos boulevards. Ela nun- . Entre acorrer e acudir é preciso também notar que é fácil marcar uma certa nuança. quando sente que o meio. e a diferença entre os dois consiste em que aquele é de predicação menos intensa e mais vaga. modelar-se. tanto social como físico. do caráter em suma. há-os também nos quais não seria permitido usar de acudir. sem motivo instante. afazer-se. à procura de um ponto”. – Hábito é “tudo que fazemos já quase maquinalmente. nem sempre se dá quanto a acorrer. Resta observar que costume se poderia definir como significando hábito moral. do indivíduo subjetivo. – Confunde-se acostumar-se. com habituar-se. Quem acode atende a grito de socorro. na mesma terra onde nasceu e se criou e onde vive). Não está em mim acostumar-me numa cidade. e com a mesma sem-razão com que se confunde costume com hábito. adaptar-se. portanto. pelo menos. – Costume é “tudo que forma o modo de ser próprio de alguém ou de um povo: o convívio é que o faz. de cópia ou abundância. menos a nós próprios do que à ação do meio em que vivemos. porque “corre a socorrer”. e afazer-se a condição. que do exterior. pois.” Devemos. – “é perseguir hostilizando. tar-se. ou sem grande interesse de momento ou urgente. – Dar-se exprime. Ele se dá tão bem na roça como na corte. Paulo (isto é. ou a provocação: o que. perseguir. conseguintemente. natural) “mover-se lentamente (como os líquidos) numa certa direção. meio ou vida nova. mas quem ouve um grito de socorro não acorre apenas: acode. afeiçoar-se. ou a alguma coisa que procura solícito impedir ou evitar. – Todos os verbos deste grupo enunciam ação de mudar de vida.

pois ninguém se afaz a alguma coisa sem esforço. – Aclimar-se é “afazer-se. – Adaptar-se enuncia a “ação de se fazer alguém próprio. pois que se torna mais intensa. aumentar. acrescentando. designativo de esforço por parte de quem se amolda: ideia que se não inclui em modelar-se. . ou que não é propriamente o nosso”. Ajuntar é pôr umas coisas junto a outras. isto é. Para aumentar. Quando uma coisa aumenta “crescendo. 125 ACRESCENTAR. notando-se apenas entre os dois a diferença marcada pelo prefixo a de amoldar-se. adaptam-se rapazes à vida militar. – Acomodar-se diz propriamente “ficar a gosto nalgum lugar ou com alguma coisa.” – Ajustar-se quer dizer “pôr-se alguém. adir. mais extensa por acrescimento. de extensão. – “O segundo” – diz Roq. – Acrescentar é uma extensão de acrescer. O sentido translato é análogo. E não se diria: Acrescentei o número de livros porque o aumentei. por exemplo. – Afeiçoar-se é “semelhante ao precedente: designa a ação de dar-se perfeitamente com alguma coisa (ou com alguém) amoldando-se a ela”. identificou-se ele completamente com a sorte daqueles homens. Decerto nada impediria que uma pessoa.. ou à índole das pessoas prudentes. Um ricaço aumenta suas rendas acrescentando novas propriedades às que já tinha”. aumenta-se. adaptado da forma francesa. – Afazer-se aproxima-se mais de habituar-se. de intensidade. dizemos que acresce. – Acrescentar é tornar mais longo ou mais complexo: acrescentar um parágrafo à carta. por acréscimo ou adição gradual de novas moléculas ou porções de massa. Não assim o que se 12 Aliás. e este é o meio por que o aumento se verifica. O aumento é sempre efeito da adição ou aditamento. – Amoldar-se é propriamente “tomar alguém ou alguma coisa por molde ou modelo”. aclimar-se-ão neste trabalho ou neste meio se tiverem perseverança e cautela. acrescenta-se. de amplitude. “ficar maior. A dor. adi- cionar. 126 ACRESCENTAR. isto seria melhor juntar. etc. – Aclimatar-se é o mesmo verbo. a felicidade. e modelar-se diz o mesmo. – Segundo Bruns. de força. a acostumar-se aqui. agregar. em relação a outrem ou alguma coisa. ela procura ajustar-se ao modo de ser do esposo. ou para algum serviço ou função”. aditar. Aumentei o número dos livros da minha biblioteca. acomodo-me à compostura. com alguma coisa. acrescer. juntar. a raiva. afeiçoei-me sempre às condições da minha vida. como a soma para a adição.” Quando uma coisa cresce de volume. capaz.. – “é o meio. viesse. ajuntar. a coisa adicionada é menor do que a coisa a que se adiciona: esta fica para aquela como o todo para a parte. apto para uma certa coisa. amoldo-me a todas as contingências: só não posso modelar-me pelo sentir dos ímpios. O que se junta ou ajunta forma parte integrante do todo. que se não dá com a vida do Rio. “adicionar é reunir um todo (ou uma parte) a outro todo12 da mesma espécie: adicionar um ato à Constituição do Estado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 87 ca se pôde dar com os caprichos do noivo. adaptar-se a um clima novo. ficarem medida igual”. dar-se bem. No verbo adicionar há implícita a ideia de que.” – Acrescer é. qualquer que seja o processo de crescimento. – Exemplos: afazemo-nos a uma tarefa nova. como ficam duas superfícies planas que se juntam. nesta acepção. pois. mais ampla. o primeiro é o resultado. em regra. sem constrangimento. ninguém diria que acresce: e sim que aumenta. unir. – Identificar-se é “acomodar-se tão bem com alguma coisa como se se fizesse igual a ela”. porque acrescentei alguns que me faltavam. afinal. a alegria. dizemos que aumenta. pouco a pouco.

Mas quem diz: “Creio que ele virá” – funda naturalmente a sua crença ou a sua confiança na afirmação daquele que tem de vir. notar que dizemos: aditar alguma coisa às provas feitas. que o próprio verbo crer. aditar e adir têm o mesmo radical (do. – Adicionar. que enuncia apenas o “ato de se pôr ou de ficar uma coisa juntamente ou em cooperação com outra”. Aditam-se razões às que já foram produzidas: adiciona-se alguma coisa a uma coisa dada. . de convicção segura e inabalável.”. ao discurso lido: casos em que adicionar não seria pelo menos de muito escrupulosa propriedade. are) e todos designam a ação de acrescentar. em certos casos. não – “eu me ajuntarei ou ajuntar-me-ei”.88 Rocha Pombo agrega. portanto. que diz precisamente “ter como verdade. (estarei junto do sr. por uma capacidade própria do nosso entendimento. “ajuntamos laranjas.. – Entre ajuntar e juntar parece que há sempre alguma diferença. e agregar é aumentar o conjunto. menos à imprecisa propriedade do vocábulo.. agregam-se essas ou outras”... no entanto. este de formação vernácula. Por isso ajuntar é aumentar o todo. aos autos.” (porque ajuntar. crer. que a uma desfiguração de sentido que se explicaria talvez por uma vantagem do menor esforço com que pronunciamos crer em vez de acreditar. 127 ACREDITAR. como parcela que vai aumentar. “ajuntar ao que estava feito. pois cada parte agregada conserva a sua individualidade.. nunca – “me ajuntarei. Crer encerra ideia de certeza profunda. Todos dizemos: “Creio que ele virá” – querendo dizer: “Acredito que ele virá”. – Aditar diz. ou uma ou mais porções a um corpo fazendo-o maior. Deu-nos adido e adição. “creio que ela não descerá jamais àquela miséria moral”. o esforço do sujeito que põe uma coisa junto de outra: o que não se dá em relação a juntar.. é de mais lídima propriedade a aplicação do verbo acreditar. é evidente que não faremos com a mesma precisão e a mesma força as afirmações que aí se formulam. parecendo. unir”. bastariam alguns exemplos para deixar clara a distinção que é preciso não esquecer entre os dois. “Creio em Deus”. como se vê dos nossos léxicos. e como perfazer a soma”. Enquanto que o verbo crer significa “considerar como verdade aquilo que está no coração ou na consciência”. dos quais temos aditar e adicionar.. ajuntamos dinheiro” e não – “juntamos. Juntam-se coisas homogêneas. em vez de – “aditamento constitucional”. e isso por uma injunção do nosso espírito. só admite a forma pronominal recíproca: poder-se-á ainda dizer – “ajuntar-nosemos”. e aquele de formação latina. É exato. É certo que dizemos – “ato adicional”. Se nestes exemplos substituirmos o verbo crer pelo outro. deixando como apensa a coisa aditada”: adicionar exprime “acrescentar como adição.. mas sem dúvida ninguém se animaria a dizer – “adição constitucional”. não o que sentimos. É preciso. ou por uma tendência ou um modo de ser da nossa natureza moral. – Confundem-se mui- to estes dois verbos. e é só por engano talvez que lhe damos a significação perfeita de acreditar. aqui. peça que lhe fica como que apensa. portanto. e neste caso. adaptar.. no entanto. mas aquilo que outros nos afirmam”. ajuntar. Basta notar que se diz: – “juntamos os nossos esforços” e não – “ajuntamos. aliás.” Isto quer dizer que ajuntar marca (pelo prefixo a = ad) a atividade. – Adir (de addere = ad + dare) significa “pôr ao pé. referindo-se a uma peça complementar da Constituição. e. que se equivalem perfeitamente. mas provavelmente devemos isso. ajuntar.. “creio firmemente na imortalidade da alma”. Exemplo: “Convença-se de que me juntarei ao sr.) nesta questão”. sugere também alguma coisa de dúvida no considerar como certa a coisa em que se crê.

Nem sempre quem acode socorre efetivamente.. não pereçam. – Auxiliar diz propriamente “dar auxílio”. necessita cuidados assíduos para conservar-se. ajudar. e esta (ajuda) passou para o domínio do vulgo. forças etc. era ignorada ou não usada até princípios do reinado de D. junto da pessoa que se deve socorrer. 129 ACUDIR. de que os sustentem. 37) a palavra auxílio. no entanto. Quem me auxilia apenas concorre para que eu vença. além de ser quebradiço ou deteriorável. “segundo o aca- . frágil. e precisa de ter mais. – Frágil aplica-se ao que. como se vê dos seguintes provérbios em que no uso ordinário se não pode substituir um pelo outro: Deus ajuda aos que trabalham. mas acredita em visões.. IV. A quem madruga Deus ajuda. não sucumbam. se quebra ao ser trabalhado. Mais vale quem Deus ajuda Do que quem muito madruga. e o mesmo aconteceu com o verbo ajudar relativamente a auxiliar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 89 Muita gente não crê em Deus. como ainda se vê em Camões. Manoel. os que precisam de amparo.. Escreve Roq. E a inversa é também admissível: só porque alguém nos socorre num grande embaraço. vem apenas completar o nosso esforço e a nossa capacidade de defesa. amparar. isto é – que tenha vindo solícito ao lugar em que perigamos. isto é – aumentar a força de alguém que já não se julga fraco. guardem. sendo duro e pouco dúctil. cujo socorro se pede. quando gritamos. socorrer. IX. Nada mais frágil que “a saúde”. e o protetor dá-lhe um auxílio poderoso para que ele se revigore.. O protegido não é sujeito que precise de socorro ou de amparo. mas antes de auxílio. – O mesmo se pode dizer de quem me ajuda. não se segue necessariamente que nos haja acudido. ou para que o faça mais prontamente. – Segundo dêmico Francisco Dias (Mem. 80). – Acudir é “correr em socorro de alguém”. – Socorrer não implica a ideia da presença da pessoa. isto é. pois entende-se que nós. a minha capacidade de triunfar. Acudir dá ainda ideia de que a pessoa pela qual se grita deve fazer tudo pela nossa salvação. protejam para que não caiam. valer. Depois que os poetas e escritores cultos foram alatinando a língua. a que se empregava era a portuguesa ajuda. salvar. e amparo (ou ampara-se) ao que nada tem”. “acro se diz do que. Aquele que nos grita: Acudi-me! – solicita ansiosamente a nossa assistência nalgum perigo em que se encontra.” – Quebradiço é o que se quebra facilmente. nos julgamos inteiramente perdidos. quebradiço. ou aumenta a minha força. que disse sentenciosamente: Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. proteger. ou para que multiplique as próprias forças e se ponha ainda mais no caso de alcançar o que almeja. espúrios. – Amparar supõe o desvalimento completo da pessoa que se ampara.. – Bruns. – Proteger envolve ideia da superioridade de quem guarda ou ajuda. Quem nos socorre. em lendas fantásticas e contos da carochinha. Dá-se ajuda (ou ajuda-se) a uma pessoa que está embaraçada com trabalho que não pode fazer. ou em Jesus. auxiliar. da Acad. (Lus. dá-se auxílio (ou auxilia-se) ao que já tem meios. defender.. ou mesmo num perigo. foi aquela (auxílio) admitida com certo ar de nobreza. 128 ACRO. Só se amparam aos desvalidos. dá-se socorro (ou socorre-se) ao que não tem o suficiente. que. abandonados. Há metais acros. acolhe e abriga. que é latina (auxilium). O vidro é quebradiço.

– Segundo Roq. que serão o seu corpo de delito. Os delatores formam a classe mais vil e infame: são a arma dos governos fracos e corrompidos. um judas infame. quer acudindo-lhe e dando-lhe socorro oportuno e eficaz. mas o delator é uma personagem odiada. denunciante. o denunciante. – Valer aqui é muito próximo de socorrer. O malsim exerce o seu ofício em tudo que respeita aos contrabandos. o acusador acusa aberta e publicamente. Mas quem acusa articula fatos com que pretende dar provas do crime ou da falta por que acusa. por preço. culpar.. ou mesmo para evitar ataques previstos ou repelir agressões”. que se aproveita de um abraço para introduzir no bolso do que chama amigo papéis. o delator satisfaz sua maldade acusando os crimes ou delitos contra as leis. e talvez a de algum vil interesse. – Salvar “é pôr alguém livre ou a salvo de algum perigo. desastre etc. reclamando a devida punição”. o denunciante nutre seu zelo fazendo conhecer às autoridades as ações e opiniões condenadas em política. salvar. e defere secretamente o que ele crê ter visto. “Quem me valerá nesta contingência?” 130 ACUSAR. denunciar.. que dá interpretações criminosas às coisas mais inocentes. Mais extensamente. para fazerem a perdição da outra. e que animam a calúnia com o interesse”. embaraço. incriminar. deixando este encargo às partes interessadas. – será um homem irritado. malsinar. “Vendo-se já no último perigo recorreu a Deus que lhe valesse” (P. um homem vendido. 131 ACUSAR. acudir. intentando uma ação criminal de roubo. já para assegurar-se da verdade da denúncia. O denunciante pode ser levado somente do zelo do bem público. que trafica às escondidas da honra e vida de seus semelhantes. e por ofício. fundada e nobre. para que façam o que entenderem. in- culpar. e é designado pela frase de vil delator. isto é. nunca pelo bem público: procede com disfarce e ocultando-se. paga. um homem corruto. defender “é ficar ao lado de alguém para impedir que outrem se aproxime hostilmente. Quando a acusação é justa. ou por interesse. acusador. – Acusar é denunciar alguém como criminoso. quer auxiliando-lhe os esforços. de assassínio. como fazem os malsins. – Delatar acrescenta à ideia de denunciar a de malevolência. que aviltam neste mister uma parte dos cidadãos. etc. Bern. delatar. já para evitar ou remediar o mal que se denuncia. – Malsinar é acusar como malsim. ou exercendo direito . A acusação pode ser às vezes um ato bom. arguir. é “atribuir a alguém falta ou crime. criminar. sem apresentar as provas. ou suspeitas ao governo”. Nos tempos modernos o uso tem quase fixado o valor de cada uma destas palavras. a palavra acusador é odiosa.. um traidor que finge viver com os outros em termos de boa amizade para vir no conhecimento de seus segredos. toma-se à má parte.. amparar. e muitas vezes o que deseja fazer que se creia: o seu ofício é o de trair.90 Rocha Pombo Quem nos defende é como quem se pusesse entre nós e o nosso inimigo e dos golpes deste nos guardasse. e nas demandas chama- -se autor ao que intenta ação contra o réu ou acusado. – Acusar. Contudo. descobre. Pas. quer ainda amparando-o vigorosamente ou defendendo-o”. e não acusador. malsim.. Man. – Delator vem do latim delactor: é um indivíduo que procura.) – isto é – que lhe acudisse. “O acusador – diz Alv. delator. quer protegendo-o.. “denunciar é manifestar aos juízes um delito oculto. um homem indignado. “Valha-nos o céu nesta amargura”. e pode fazê-lo cumprindo dever de cargo. outras (e são as mais comuns) é ato de malevolência. o delator obra por maldade. aqui.

. – Todas estas palavras enunciam conceito. a máxima . anexim. e em ser o provérbio mais grave. sugestiva.” (IV. Note-se. Neste exemplo: “Se a lei. “Gato ruivo do que usa disso cuida”. dito. 324). tendo portanto um sentido translato que apenas corresponde à noção que se quer sugerir. menos de não ter sabido defender a inocência”. frívola e sempre velada. e mais vulgar que provérbio: propriamente é “a sentença. é levar muito longe e arriscar muito a sua argúcia de juiz. – Culpar é “atribuir culpa a alguém. – Adágio não se confunde com dito. mais brilhante de forma. ou sentença vulgar. São mais vizinhos de ditérios. Segundo Roq. dar-lhe culpa. paremia.. a moral vigente. paremia é palavra grega (paroimia) pouco usada em nossa língua. e enunciando conceito menos vulgar. repreender com acrimônia. rifão – quase todos exprimem conceito exclusivamente moral. segundo – em ser o adágio sempre anônimo. nem paremia ou máxima. Diríamos: “Pode arguir-me de muita coisa. delito. rifão ou anexim. “lé com lé. princípio. mas decerto não seria próprio designar nenhuma dessas frases por adágio. O anexim.. em frase rápida. mas quase sempre chula. 132 ADÁGIO. ou o código não incrimina esta conduta. pode mesmo culpar-me de imprudente.. máxima. como o ditado têm uma forma. ou provérbio. “dizer ou declarar alguém autor de um crime. pronunciá-lo por criminoso ou réu”. – Inculpar é “ver como culpa um ato que talvez não o seja”. Adágio. prolóquio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 91 ou faculdade própria.. pensamento. não só rude. exprobrar culpa como invectivando. em termos precisos. ou os grandes princípios de ciência ou de arte. máxima. – Prolóquio é sentença menos grave e profunda. que incriminar.. “Poderá arguir-me de tudo. segundo Roq. brocardo. enquanto que provérbio pode ter autor conhecido. dada em poucas palavras. trocadilhos. e exprime “sentença sob uma certa forma de alegoria. muito menos por sentença. dizendo: “E daqui nasceu aquela paremia ou provérbio: que o céu era para Deus. – Sentença é um provérbio mais solene. apotegma. apodos e chufas que de adágio ou provérbio. prolóquio. provérbio. quase sempre mais longo. aforismo. – Incriminar tem-se geralmente como sinônimo perfeito de criminar. e a terra para os homens. e como que condensam. dando normas ou noções em que se representa a experiência dos tempos. seco de forma. tudo que se tornou clássico. mas apenas por indícios. a frase. que juiz há de puni-la?” – não seria permitido o emprego de criminar. sem formular propriamente acusação”. no entanto. ou que foi consagrado pela razão humana em todos os tempos. axioma. anexim. – Criminar (criminari) é. melhor do que criminar. – Culpar e inculpar estão em caso análogo. preceito. como o rifão. ou os provérbios de Salomão”: e aí não caberia nenhum outro dos vocábulos do grupo. ou de parábola concisa”. e como tal usou-a Vieira. Distingue-se adágio de provérbio: primeiro – em dar o adágio noção simples e clara. considerar como crime um certo ato”: e nesta acepção é bem distinto do outro.” – Arguir é “acusar de falta. breve e incisivo. significa “reduzir a crime. ditados ou anexins. sentença. pois é uma sentença moral mais profunda. brocardo. graçolas. Dizemos: “as sentenças. sentença. senhor. ditado. cla- ra. considerar alguém como culpado. e de sentido ainda mais profundo. rifão. cré com cré – cá e lá más fadas há” – podem ser tidos como rifões. mas inculpar-me assim este gesto. dito. provérbio. e que significa provérbio. parêmia. a sabedoria vulgar. conceito.. – Parêmia pode ser comparada a provérbio: é menos usada que este. ditado. fazendo censuras mais com veemência do que com razões”.

dando um conselho. a máxima é sempre moral: o ditado pode exprimir apenas um conselho. quer de arte. ou qualquer coisa que interesse ou que seja útil”. ou de dever. de ciência. que é também “enunciado aceito por todos como sendo de si mesmo evidente”. e armas de arremesso. – Pensamento e conceito são palavras de significação mais vaga. – Apotegma é “juízo ou sentença. égide. ditado e anexim confundem-se: o dito quase sempre tem ares de pilhéria. e nisto distingue-se dos outros. se impõe. E é exatamente por isto que se distingue máxima de ditado: este é anônimo e popular: a máxima é menos comum e tem autor quase sempre conhecido e até indicado ao ser ela proferida. pois esta é sempre uma noção resumida por grande autoridade moral. pois o preceito pode ser de moral. de ação ou de execução. e que anuncia o assunto que se vai desenvolver. significa escudo pequeno de madeira forrado de couro forte. 133 ADARGA. Também os havia de metal. e que em poucas palavras dá um sábio conselho. porque se fizeram logo de ferro e aço. mas que se diferençavam na matéria ou na forma. – Princípio é mais do que preceito. aproxima-se de axioma. porque os primeiros foram de couro) e significa a arma defensiva oblonga ou oval. que cobre a embraçadeira que está por dentro. ou no uso que das mesmas se fazia. todas estas palavras designam “armas defensivas. “regra de conduta. o que já foi tão suficientemente demonstrado que dispensa mais demonstração”. preceito ou noção expressa em breves termos”. de arte. enfiava-se no braço esquerdo pelas braçadeiras. Broquel. – Segundo Roq. 7). e em regra tem quase o valor da máxima. Pa- . Este é o que se prescreve. – Dito. Além disso. ou parte dele contra os botes de lança. profunda atribuída a uma alta autoridade”. palavra comum à língua castelhana. – Preceito pode aproximar-se dos precedentes: é também uma norma ou regra de conduta. rodela. dar uma noção. e deixou As que Ele para si na cruz tomou. mas eloquente. (Lus. com seu brocal. como diz Aul. – Aforismo tem menos de científico e de preciso do que axioma: designa também. se dá como regra: princípio é “o que está consagrado pela razão vigente. pensamento é menos preciso – é “uma proposição de forma simples. “dito notável ou palavra memorável de algum personagem ilustre”. golpes de espada. ou. – Escudo vem do latim scutus (do grego skútos “couro”. que provavelmente vem do bouclier francês e do buccula latino. broquel.92 Rocha Pombo pela qual começa alguém um discurso ou um escrito. Um prolóquio vale sempre por uma proposição. nele pintavam os guerreiros suas letras e divisas. no meio tem um embigo de metal ou diamante. a mais conhecida de todas e a mais forte. precisa. e designam apenas um juízo enunciado com intenção de exprimir uma verdade. escudo. no entanto. sentença jurídica ou moral criada por alguma grande autoridade”. e daqui veio chamar-se também escudo às armas de uma família ou de uma nação. os dardos. – Brocardo é “máxima que se popularizou. e que serviam para cobrir o corpo. ou o ponto de vista que vai ser seguido pelo orador”. ou mesmo por um período todo. de religião.. um simples conceito vulgar. muito usadas antes da invenção da pólvora. como se vê daqueles versos de Camões: Vede-o no vosso escudo. que presente Vos amostra a vitória já passada. Na qual vos deu por armas. quer tratando-se de ciência. I. pavês. Conceito é a síntese de uma noção a que se chegou pelo estudo ou pela reflexão. o ditado é dos três o que mais se aproxima de adágio. Por isso. uma verdade.

portanto.. obtemos o total do gasto dessa semana”. total. diz ele: Por armas tem adargas e terçados . obtemos a soma do gasto desse dia...: “Consideram-se estas palavras como sinônimos perfeitos: a quem se prontificou a fazer-nos um trabalho por certo preço.. – Progredir é. designa uma espécie de escudo pequeno e delgado. em Portugal. Adicionando (ou reunindo) progredir.. escudo ou couraça de pele de cabra. Com a adarga.. – Pavês (do italiano pavese) era escudo grande e oblongo. isto é. – Soma é o número que se obtém ao praticar a adição. I. adiantamos ou antecipamos alguma quantia à conta dele”. antecipar a mensalidade”. “fazêla efetiva antes da época ou do dia em que deve adiantá-la”. antecipar.. Em dois lugares faz Camões menção desta arma defensiva. e que vem do árabe addarca ou addara. – Avantajar-se significa “levar vantagem a alguém. o pai de um aluno pode. obtemos um número equivalente a todos. em atividade vitoriosa: quem progride anda também para diante. mas nem por isso devem considerar-se como sinônimos perfeitos. de aix “cabra”). desenvolver-se com presteza. O uso também confunde soma com total. e uma abertura onde se metia o dedo polegar para o segurar. florescer. Era arma antigamente usada em Espanha. – Quanto a estes verbos escreve Bruns. porém.. a segunda exprime que os meus negócios não se desenvolvem. Há. tornou soma e adição sinônimos perfeitos. .Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 93 rece corresponder ao clypeus dos latinos.. antecipar ao tempo. cheia de serpentes. “meus negócios não progridem” – há sempre uma diferença facilmente perceptível. proteção”. avantajar-se..... vai seguro. não aumentam na proporção dos meus esforços. e significa propriamente o escudo de Minerva ou Palas. – Égide é palavra latina.. 87). Quem se adianta marcha resoluto para a frente.. – Rodela. que cobria todo o corpo do soldado. – Adiantar-se e progredir podem confundir-se. palavra igualmente comum à língua castelhana. 134 ADIÇÃO. escudo de couro. vingar. uma diferença subtil entre as duas expressões: adiantar refere-se ao ato. – Adição – diz as somas do gasto de cada um dos sete dias da semana. A primeira diz evidentemente que meus negócios não se encaminham à solução que eu desejo... e significa escudo oblongo de couro com duas embraçadeiras em que se enfiava o braço.. medrar... – Todos estes verbos dão ideia de “ir para diante no desenvolvimento próprio e natural”. no entanto. mas entre estas duas frases: – “meus negócios não se adiantam”.. falando dos habitantes de Moçambique. 136 Bruns. “Nos colégios.. – “é a operação pela qual. e que vem do italiano rotella.. No sentido figurado quer dizer “defesa. e em cujo centro estava a cabeça de Gorgona ou Medusa.. œgis (do grego aigis. – Adarga é palavra comum à língua castelhana. e com a hastea perigosa. a doença progride” (e não – adianta-se). “os dias daquele enfermo se adiantam” (e não – progridem). feito da pele da cabra Amalteia. – Total é o número equivalente a várias somas parciais.. que era escudo menor dos peões. 47. prosperar.... 135 ADIANTAR. Fazendo a adição das verbas despendidas num dia da semana. ADIANTAR-SE.. ainda que impropriamente. entre mouros e africanos. soma. as mensalidades pagam-se adiantadas. Distinguem-se ainda estes dois verbos nestes exemplos: “o mal. ajuntando um ou vários números a outro... O uso.. (Lus.

cidades. – Adepto é “o que foi catequizado. gerações.94 Rocha Pombo fazer mais ou melhor do que outrem”.. de uma ciência. como vai feliz na vida. porquanto. “F. nunca: “sectário do Cristianismo”. força ou poder”. pois dizemos: “Os iniciados da religião bramânica”. a um partido. mas nem por isso se pode dizer que ele prospere. começou a estudar e a conhecer o ocultismo”. crescer na fortuna”. como vingam os nossos planos. a causa ou a ideia. Além disso envolve também ideia de heterodoxia ou dissidência. iniciado. de uma escola filosófica. “A causa da independência alcançou logo um grande número de adeptos”. etc. e iniciado designa mais um estado do que uma condição: conquanto isto não signifique de forma absoluta a impropriedade de iniciado como puro substantivo. “Eles se nos avantajam pelo ar desenvolto. Partidista é quase o mesmo. ou que se fez defensor de uma ideia”. 137 ADEPTO. adepto esforçado de uma causa. Medram o menino que cresce.. que se convenceu e aderiu ou se ligou a uma seita. – Prosperar é “ir adiante. a entrar nos mistérios de um culto.. Vinga a flor. “O novo credo. as nossas esperanças. sequaz. assecla. pois. Paulo”. ou o novo partido já conta bom número de iniciados”.”. Dizemos: “sectário do calvinismo”. mesmo nos casos em que a cláusula correlata não está expressa. ou de uma ideia”. “Apesar de todos os contraventos.. ou do que o comum dos estudantes. ter bom êxito. “As rendas se lhe aumentam sempre. – “A ideia fundamental do verbo medrar – diz Bruns. trabalha em excesso. – Iniciado (ao contrário do que pensam alguns) parece que diz menos que adepto. e sugere ideia de obstinação e fanatismo. e por aquela estultícia vitoriosa de que se ufanam. partido. “sectário de Lutero”. faccioso. Florescem letras e artes. – Florescer é “ir prosperamente em tudo. quer em quantidade. estabelecimentos. prosperar com esplendor. isto é. deixando supor que o sectário é sempre alguém que se afastou da sua antiga religião ou do seu partido. “A tua reforma. parcial. partidista. os interesses que aumentam. “F. seita. como florescem povos. – Vingar aqui (vincere) é próximo de medrar: significa “tomar vitalidade. ou mesmo de um partido”. ser feliz”. sectário (sectarista). a população que se multiplica”. ganha muito. crescer não obstante algum entrave. facção. conseguir o seu fim. as searas que abundam. parcialidade. partidário. O partidário pode pertencer apenas a . – Sectário diz propriamente “membro de uma seita. é de supor que fica subentendido. um verbo de predicação sempre relativa. pois o iniciado considera-se apenas “admitido a iniciação”. está iniciado no ocultismo” – equivale a – “F. as noções. o que é certo é que a empresa não deixa de prosperar”. desenvolver-se brilhantemente”. filho – disse o deputado ao colega sonhador – não encontrará adeptos”. Tem razão Bruns. ou o complemento terminativo não está claro.”. nem “sectário de Jesus ou de S. – Partidário é “membro de um partido. habilitado a receber os princípios. quer em volume. – é “o aumento.. ade- rente. É. grandes vidas. como ainda florescem países. Quando eu digo: “Aquele rapaz tem-se avantajado muito nos seus estudos” – quero exprimir que o rapaz de quem se trata tem feito muito mais do que outros. prosperar. que se deixou influenciar. faccionário.. a paixão com que se toma o partido. “Tu te avantajarás a Pedro se fores esperto. mas os seus negócios não prosperam”. esforça-se muito. O que prospera não só se desenvolve e aumenta.”. distinguindo-se este do primeiro em exprimir melhor o empenho. de uma doutrina: diz mais neófito propriamente do que adepto. “Aquele tipo não te avantaja em coisa alguma”. quando observa que adepto designa um modo de ser.

afeito a maquinações”. isto é. insignificantes: e o segundo mais ainda que o primeiro. engalanar. ou que se enfeita de joias. ideia de subserviência. vãs. ou se enfeita. sedicioso. E como já vimos. algum partido ou seita. – Diferença análoga pode notar-se entre faccionário e faccioso13: o primeiro diz apenas “membro de facção”. mais vistoso. adornar. e sim que se enfeita ou se atavia com as penas do pavão. confunde-se com assecla: apenas sequaz envolve. de “adornar de coisas ligeiras. desordeiro. embelecer. aqui. ou mais correto no gosto. ornar. gala. ornamento. partidos. é “o indivíduo que se liga a outro indivíduo”. melhor do que assecla. a que se enfeita quer parecer mais bela do que é. – Sequaz. ataviar. da causa que se servia. desligamento da doutrina que se professava. entre eles poderiam confundir-se ou ser empregados indistintamente. o verbo enfeitar é o mais genérico e vulgar. – Aderente se diz daquele que aderiu. do que ideia de incorporação. mas decerto ninguém dirá que uma senhora se adereça de fitas. ou que se atavia de brilhantes. embelezar. mas o partidista exalta-se na defesa do seu partido.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 um partido. ou sustentam a mesma causa”. o grupo dirigido por um chefe”. a gralha da fábula se adorna. 138 ADEREÇAR. enquanto que partido designa apenas “reunião ou conjunto de indivíduos que defendem as mesmas opiniões. na expressão – é comum a todos os verbos deste grupo. o que vai como se fosse na comitiva ou no séquito de alguém”. Uma senhora se adereça. portanto. ou contra instituições. o seu apoio a um partido. A facção só se faz partido quando assume o caráter e a força de coletividade legítima. Raros. – Assecla (como se vê da própria formação: ad + sequi) é “o que segue alguém. de aliança. no aspeto. que deu a sua sanção. or- namentar. adorno. (Aliás. enfeitar. decorar. a uma causa que até aí havia hostilizado ou combatido. decoração. por exemplo. e por pouco se não diz sinônimo do nosso brasileirismo capanga. isto é. de joias. atavio. ou mesmo contra um homem”. aformosear. Um só partido pode dividir-se em várias parcialidades. a que se atavia exagera ou dispõe sem gosto os seus adornos ou enfeites. até pela etimologia (sequi). enfeite. professar as ideias ou opiniões desse partido. A liga ou aliança de algumas parcialidades pode formar um grande partido. Ninguém diria que. a pessoa que se adereça quer brilhar. e emprega-se frequentemente em casos como o exemplo acima. pela ideia. Sugere. primor. trabalhando francamente por uma causa. conquanto não pareça muito próprio. da cegueira com que o assecla acompanha alguém ou alguma coisa. separação. de liga. ou se atavia. – Parcial. e mostra-se por isso mais fútil ainda que a pessoa que se enfeita. a uma ideia. pois atavio é adorno mais falso que enfeite. aprimorar. perturbador. ou deseja disfarçar algum defeito. A facção distingue-se do partido em significar “grupo ou ajuntamento hostil e secreto contra outro grupo. adereço. Além disso.) – Adereçar diz. faccioso vale por “viciado de espírito de facção. seita diz dissidência. ideia de parcialidade ou partidismo pessoal. e parcialidade é o “bando. 13 Também entre sectário e sectarista. no entanto. “adornar de adereços”. “pertencente a facção”. portanto. alindar. de adornos de oiro ou pedraria. ornato. Além disso. que sugerem. apaixona-se pela sua causa. – Adornar e . esforça-se pela vitória. – A ideia de tornar belo. – Enfeitar e ataviar aproximam-se. designando este o sectário apaixonado de forte espírito de seita. aderente sugere menos ideia de convicção ou de identidade de opiniões entre a pessoa que adere e a causa ou partido a que se faz adesão.

ou mesmo em alguma aptidão especial – no desenho. taful”. ingênuo. ou uma virtude. a capacidade. e no entanto. A mesma diferença há. Ninguém seria capaz de dizer: “vou adestrar-me na filosofia.” (não se diria que vamos embelecer. mas este sugere ideia de brilho. o caráter. nas manobras militares. ou na ciência do direito. Ainda outro: “Para a festa vamos embelezar toda a praça. e designa “o que. e para algum ato ou função extraordinária e de grande solenidade. – Tanto se adestra um animal como um homem. uma excelência suprema. de lavor artístico”. na datilografia. se se aceita a definição dos lexicógrafos. ágil” – portanto. e adorno tanto se aplica a pessoas como a coisas. ou na poesia. na pugna. Também ornato deve confrontar-se com ornamento: este é uma decoração mais brilhante. Ornato aplica-se mais a coisas. alegria ruidosa – tudo que se encerra em gala. portanto. Dizemos: “lindo ramilhete. são sinônimos perfeitos. e diz “tudo que aumenta a beleza”. etc. a alma. e que só se alindam coisas muito mimosas.96 Rocha Pombo ornar diferençam-se tão bem como adorno e ornato. instruir. como se aprimora uma obra de arte. nalgum ofício ou função. mas – “tornar belo cada vez mais” (embelecer). nas quatro operações aritméticas. linda criança” (e não – “formoso ramilhete”. seriam perfeitamente lídimas estas outras formas: adestrar-se nas lides parlamentares. infantis. à custa de esforço. ou de alguma operação.. elegante – um alto grau. Mas note-se que não dizemos: adestrar na música. – De ornamentar aproxima-se engalanar. num artefato. primor “o alto grau de perfeição a que se eleva aquilo que se aprimora.” (não seria próprio. a . de um palácio. tornar-se perito. gracioso. mais sumptuosa e augusta.. e designa toda e qualquer ação de “aumentar as aptidões. ou na economia política”. aliás. A ornamentação de um templo. Sendo.. – Exercitar é mais genérico. por exemplo. ou pelo menos de rigorosa propriedade dizer que a cidade se embeleza). próprio do edifício ou da coisa de que se trata.. exercitar. etc. – Aprimorar é dar ao que é já belo. Esta. de mais imponência. ou políticas – em tudo. ensinar. portanto. ou no salto. desembaraçar. aparato de festa. em que é possível. etc. – Embelezar e embelecer. no tiro ao alvo. Aformosear e alindar estão em caso correspondente.” 139 ADESTRAR. de algum processo. Dizemos que se aformoseia o estilo. etc. E isso porque adestrar diz propriamente “fazer-se muito hábil. correto. ou mesmo os nossos braços. rápido. ou na marcha. Aprimora-se a educação. numa função que não seja puramente espiritual. fazer-nos mais destro. Lindo exprime “belo gentil. nem “formosa criança”: mesmo porque – “formosa criança” já seria outra coisa). Pode-se. adestrar a memória. e no entanto. mesmo o espírito. – Aformosear e alindar apresentam a mesma diferença que se reconhece entre formoso e lindo. bastará um exemplo para deixar bem clara a distinção que se sente entre estes dois verbos: “A cidade se embelece de dia em dia. afinal. as nossas mãos.. num edifício. é trabalho de acabamento. uma expressão primorosa. porém. de uma câmara só se faz excepcionalmente. mesmo numa produção literária. Pode-se também adestrar num certo sentido: na corrida. loução. pois esta forma significa não – “fazer belo simplesmente” (embelezar). na escrita.. Aproxima-se por isso de ornato. ou na matemática: salvo se nos referimos apenas à técnica de algum instrumento. mas é claro que referindo-nos a um exercício que seja mais mecânico do que de raciocínio. e excedem naturalmente ao simples ornato. deixa supor que os adornos de que se decora têm um fim especial. na dialética. e mais talvez de decoração. pelo exercício. entre ornar e ornamentar.

– A um papagaio ensina-se. ou por muito tempo. no entanto. uma entrevista. retardar de propósito”. para enganar. trabalhos. torná-lo mais largo. instrui-se a mocidade. o vigor. para mais tarde”. como construindo-lhe o espírito”. mas podendo ser também por mero capricho. envolve mais ideia do processo. fazer parar. a época de pagamento de um imposto. por meio do exercício”. Quando digo: “ensinemos a mocidade”. pois quem instrui opera sobre o espírito do que é instruído. prolongar.. prorrogar. “o governo procrastina a solução de um negócio de tal monta”. entravar ou reter por um certo tempo”. 140 ADIAR. malévolo quase sempre. – Ampliar confunde-se com dilatar: aquele sugere. etc. – Adiar é “deixar para outro dia”. dilatar. esperto. – Desembaraçar pode aproximar-se do primeiro verbo deste grupo: diz precisamente “fazer expedito. isto é – afasta-se o termo desse prazo. (Aul. – Contemporizar é “entreter. Retarda-se uma solução. infundir-lhe doutrinas. uma ideia de extensividade que se não encontra em dilatar. demorar para ir ganhando tempo”. ordinariamente por desídia. Prorroga-se uma sessão do Congresso. equivale a instruir. reformas. – Remanchar = “demorar com certa manha”. do que propriamente ideia da ação de quem instrui.) Adiam-se negócios. – Aprazar é “assinar um tempo certo (prazo) para alguma coisa”. um negócio. Nestes exemplos: “A língua se amplia adaptando de outras os termos novos de . isto é. hábil nalgum ofício. remanchar. subentendendo o complemento indireto da predicação... do trabalho. ou uma grande festa para o ano próximo. como se ensina alguma coisa a um cavalo. repetindo muitas vezes. mais espaçoso”. não dar no tempo oportuno”. que adiar é “transferir por dias”. no entanto. comunicar-lhe. – Procrastinar é “remeter continuamente para o dia seguinte o que se deve fazer”. Dilata-se o tempo que se tinha para fazer alguma coisa. alongar. Evidentemente não seria próprio dizer que se adiou uma comemoração. contemporizar. sem marcar prazo fixo. conquanto não tenha a força deste. transferir. num trabalho. delongar. espaçar. Exercitamo-nos numa profissão. – Protelar = “demorar. “O tribunal anda procrastinando a sentença”. – Todos estes verbos sugerem ideia de espaçamento. por exemplo. etc. diligente. resoluções. no entanto. com algum fim. noções ou princípios. protelar. mesmo neste caso. – Dilatar é “ampliar um prazo que se fixara.. exprimo nada menos do que exprimiria se dissesse: “instruamos a mocidade”. a função ou o processo que a isso se destine. diferir. do vencimento de uma letra. formando-lhe. um despacho. – Demorar confronta-se com retardar: ambos dizem – “fazer que se espere.. Notemos. – Prorrogar é “dilatar um prazo que se venceu”. – Diferir é “deixar para depois. Difere-se uma resolução. mister. Pode-se usar também este verbo ensinar como só transitivo. “Nós insistimos por que se faça a coisa com urgência”: e ele a contemporizar muito impassível”. aprazar. ou a um cão. ou para impedir que da coisa que se protela alguém se aproveite se não for protelada. demo- rar. segundo os lexicógrafos. Apraza-se uma negociação. Instruise um batalhão. profissão”. que ensinar. estirar. num cargo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 97 força. e ensina-se um papagaio a falar. e demorar exprime – “não mover. retardar. e neste caso. Observase. Prorroga-se uma licença. – Instruir é “preparar alguém nalguma arte ou ciência. numa virtude. – Transferir diz a mesma coisa. mas não se instrui um macaco ou um papagaio... Mas retardar quer dizer propriamente – “deixar para mais tarde”. procrastinar. demora-se um processo. ampliar. lépido. dilação. da função de transmitir o que deve ser aprendido.

por mais que. e sim – “vou dilatar. indica.. as memórias gloriosas daqueles reis que foram dilatando a Fé. “Apesar vosso levarei a minha adiante”. mas ninguém dirá que uma serpente se amplia quando se distende. com desgosto ou desagrado. difere-se quando. – Alongar. Malgrado seu é o mesmo que “a mal de seu grado”. “todas estas locuções adverbiais exprimem uma oposição. em que não só há desgosto senão também sentimento. uma moeda. Delongar confronta-se com retardar. consentimento”. prolongar e delongar apresentam entre si as diferenças marcadas pelos respetivos prefixos. fazer mais longo. apesar. ou um quadrado perfeito. Uma serpente contrai-se e dilata-se: e tanto se dilata engrossando. ou numa certa direção e até um dado limite. que vencemos. aqui.. um prazo. o Império. Do mesmo modo. ainda. ou de nossa mesma vontade. mais ou menos forte. ou resistência. salvo se se lhes quer mesmo mudar a forma. sem dar ideia de limite. se deixa para depois. pois este verbo é que significa “estender. como se reconhece em ampliar. ou entre atos que se repetem. Prolonga-se e também se alonga uma linha. e delonga-se adiando-a indefinidamente. sem sugerir noção de proporções. pelo menos não teria a mesma propriedade. como se dilata distendendo-se. embora. e naturalmente só se diz de coisas que sejam longas. conquanto. uma rua. tornar mais vasto. I. e sem marcar a ideia de fazer aumentar em todas as dimensões. Espaçar enuncia.. procrastina-se prometendo sempre dá-la “amanhã” e não dando nunca. e dificultando-a sempre.. com desgosto meu”. sem embargo. para outra ocasião”. – Segundo Roq. e contra a qual obramos”.. – aí não caberia decerto o verbo dilatar. Prolongar é “estender para diante uma coisa longa”. neste outro exemplo: “. Também não se compreende como se alongaria uma cabeça humana. que se alonga uma esfera. e podia ainda alongar-se essa rua prolongando-a. é claro que malgrado. 2) – não caberia o verbo ampliando. – Apesar indica mais forte oposição. vinda das pessoas ou das coisas. “Submeto-me de malgrado” quer dizer “contra minha vontade. ou que tenhais . malgrado. mas alonga-se dando-lhe mais extensão. que só tenham uma dimensão característica. a qual não é eficaz para impedir a ação. “convém ampliar a todas as classes do curso primário aquela medida”. mais aberto. bem que. a ideia de fazer maior a distância entre diversas coisas. de uma parte até à praça. Ninguém diria.. tornar maior um interstício. isto é. retarda-se a dita solução deixando-a para mais tarde. mágoa com isso que se faz. ou de compreensão. isto é – “ainda que vos pese. Alongar é “fazer mais extenso ou comprido”. Mas: demora-se uma solução quando não se cuida de dá-la. ou por alguma conveniência ou cálculo. mas em cada uma delas há uma relação particular em que consiste sua diferença”. etc. 141 A DESPEITO. de mau grado. e assim enchendo tempo. – Estirar e espaçar significam. demorar: significa propriamente – “deixar para depois. esta locução oposição ou resistência de pessoa estranha. não obs- tante. contemporiza-se quanto à semelhante solução falando em dá-la sem fazê-lo. ainda que. e significa “contra sua vontade”. contemporizar. quer dizer “de má vontade. diferir. (Camões. e de outro lado até uma outra rua.. por desídia. portanto. posto que. – Significando a palavra grado “vontade. Uma rua que se prolongou até uma praça por isso mesmo alongou-se. e nem o mesmo valor. procrastinar. “vou ampliar a minha oficina com mais uma secção de roupas”. Também não se diria: “vou ampliar no mundo a vossa fama”.98 Rocha Pombo que precisa”. portanto. prolonga-se estendendo-a a começar de um dos extremos. isto é.

com mágoa beijo a mão.. que significava antigamente “predizer o futuro pelo canto. – “O último destes vocábulos – escreve Roq. resistência.. – é o gênero a que os outros pertencem como espécies”. falando dos cinquenta sábios que se renderam à doutrina de S. predição. sem declarar por que modo se veio a sabê-la nem dar a conhecer o grau de autoridade que merece quem a prediz”... beijo a mão que desejara ver cortada”. “Não deixarei de protestar ainda que me matem”. vaticinar. ou admitido que seja assim”.. nos quais não têm seu uso próprio as locuções não obstante. agoirar. “Apesar meu. aquele aprende mais porque é mais aplicado... “Sem embargo das queixas dos povos o mau príncipe prossegue em suas opressões”. e mais fácil de vencer: exclui o embaraço ou impedimento que pode delas resultar. em latim divino. – Posto que = “dado mesmo. a que chamamos agoiros. com a diferença que é termo bíblico e teológico. vaticínio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 99 pesar” farei o que intento. – Embora indica pouca atenção ao embaraço ou à contrariedade. o gesto. – Conquanto enuncia oposição ainda menor do que sem embargo.”. A despeito das leis. pelo despeito com que pisa igualmente os palácios dos reis e as cabanas dos pastores”. seus sinônimos. – Sem embargo indica uma resistência menor de coisas ou circunstâncias. agoiro. queremos predizer o futuro. – Predizer é o verbo latino predico. de onde veio divinatio. É mais forte que ainda que. etc.” – Por mais que exclui toda dúvida e indica resolução firme. era entre os pagãos “predizer o futuro por uma espécie de inspiração que eles supunham divina”. do próprio dever. pressagiar. é claro que a locução a despeito. 142 ADIVINHAR. Bem se autoriza esta inteligência da palavra despeito com o seguinte mui elegante lugar de Vieira: “Tem-se acreditado a morte com o vulgo de muito igual. e às vezes acertar com o que há de acontecer”. Confirma-se mais nossa asserção por outro lugar do mesmo Vieira. adivinhação. diz: “A constância firme até à morte com que defenderam a mesma verdade apesar. “Saio de casa. “Digam embora que eu fugi”. – Profetizar é verbo grego. “Por mais que me hostilizem.. – Bem que = “ainda assim. “Amanhã hei de ir ao campo ainda que chova”. por certos incidentes insignificantes. e neste sentido se usa hoje quando. em despeito do juramento. que não cede a oposições. e phemi “digo”) e vale o mesmo que dizer antes ou predizer. predizer. “Conquanto este seja mais inteligente. – Adivinhar. prognosticar. prophetizo (de pró “antes”. vel pastu futura divino). Catarina. gestu. profetizar. sem embargo dos insensatos motejos dos ímpios”. e exprime “por mais que assim pareça ou que seja de fato. e a despeito do imperador”. hoje é “conjeturar por certos sinais ou pressentimentos sobre o futuro. Isto pertence aos outros. hei de vencer”. porque se emprega também nos casos em que se trata de uma oposição puramente condicional ou possível. “O homem virtuoso observa pontualmente os preceitos de sua religião. “conjeturar de qualquer modo”.” – Vindo despeito de despectus “desprezo”. onde. ou em despeito. – Não obstante exclui simplesmente uma oposição. “Faz calor não obstante ter chovido”. e por extensão. ou sem embargo. presságio. – isto é – em desprezo das leis. etc. e tem a significação restrita de . – Agoirar é o verbo latino auguro ou auguror. isto é – “com pesar. tem mais energia e aumenta de força por ajuntar à ideia de oposição ou resistência o desprezo com que se vence. mesmo que”. e significa literalmente “dizer uma coisa antes que aconteça. prognóstico. não obstante andar doente”. – Ainda que tem mais extensão que as duas antecedentes. profecia. o pasto das aves” (propriè est ex avium cantu. ou dificuldade absoluta.

forma mui facilmente o seu prognóstico acerca da crise e do termo da doença. em linguagem técnica. João I e que o nosso Camões cita como um presságio daquele feliz reinado dizendo: Ser isto ordenação dos ceus divina Por sinais muito claros se mostrou Quando em Evora a voz de uma menina Ante tempo falando o nomeou. ou que os homens têm como tal. necromante. fundados nas analogias e probabilidades que lhes ministra a história. – Pressagiar é verbo latino. etc. e somente é um sinal que indica ou anuncia coisa futura. De Divin. Deste gênero são os sinais de que fala Virgílio no livro I das Geórgicas. id est futura ante sentire (Cic. astrólogo. vel avigarrium.. avium garritus). – O dom sobrenatural de conhecer as coisas futuras chama-se profecia. – As predições que faziam os vates chamavam-se vaticínios. De tais sucessos não se deve tomar nem bom nem mau agoiro. – Sendo certo que a adivinhação. – Tudo o que se prediz antes de acontecer é predição. – O agoiro é uma conjetura fútil. os prognósticos dos políticos e estadistas. fundados na suposta influência dos astros.. que ainda o p. e daquele estro ou furor que estimula o poeta quando estende as vistas sobre o futuro. bruxo. – Todas estas predições provêm do homem: não assim o presságio. no mesmo sentido em que o usaram Cícero e Terêncio: Is igitur qui ante sagit quam ablata res est dicitur prœsagire. mágico. 7). raramente falham. 3). aquele . e sagio “penetro. Heaut. haríolo. (Lus. tendo bem examinado o doente. Quando as predições se fundavam no canto. e feito o diagnóstico. 143 ADIVINHO. “predizer. de vates. II. – Os astrólogos faziam inumeráveis prognósticos acerca de acontecimentos futuros. – “O adivinho (do latim ‘divinus. porque nenhuma conexão têm com o que há de acontecer. e assim mesmo o anúncio que destas coisas faz o profeta. o presságio é uma conjetura legítima e razoável. à phates). sinto”) e significa “pressentir. o que sucedeu em Évora no tempo de El-Rei d. a que Scaligero dá por origem o grego phátes “falador”. é ilusória. etc. feiticeiro.. das aves. segundo o poeta. id est avigerium.100 Rocha Pombo anunciar as coisas futuras em virtude do espírito de profecia. os eclipses. prognosticam os eclipses. guiados por mais seguras regras. Extensivamente aplica-se depois a qualquer sucesso ou sinal indiferente de que a superstição se valia para ler no futuro. pelo qual se prediz alguma coisa futura. da natureza dos objetos sobre que se faz o prognóstico”. I. prœsagio (de prae “antes”. profeta. – Prognosticar é o verbo grego progignosko (de pró “antes”. como a entendiam os antigos. e supersticiosa. e às vezes nascida de um pressentimento instintivo que não engana. 31) Nescio quid profecto mihi animus prœsagit mali (Ter. ter pressentimento. e que. –” propriamente falando. – Vaticinar. no voo. vate. os astrônomos. e gignosko “sei. e enfim. conheço”) e significa. IV. por uma espécie de tino interior de que se não sabe dar razão. Vieira tinha a simplicidade ou mania de apontar como causas de grandes desgraças e calamidades. mandin- gueiro. por meio de discurso certo ou conjetural. “mentiroso” (fatuos primum vates vocatos esse apud omnes satis constat. como disse Camões: Que o coração presago nunca mente. precipitada. divino’) é “– diz Bourguig. quiromante. ou profetizar cantando. o qual se não pode chamar uma predição. era predizer. 1. serve particularmente hoje esta palavra para indicar um enigma que se propõe a alguém para o decifrar. e assim se podem chamar ainda hoje aquelas conjeturas que os políticos for- mam sobre a sorte futura das nações. O médico. porque eram acompanhadas de certo canto poético. em latim vaticinor.. pressagiaram a morte de Cesar. chamavam-se agoiros (angurium.

O bruxo. ou para os debelar. quer se lhe atribua a sapiência a um dom da Divindade. – Mandingueiro = “que faz ou usa mandingas”. ou cuja arte se reduz a evocar os mortos. um homem que se julgava inspirado de Deus. e no sentido figurado emprega-se sempre para designar um personagem que faz coisas agradáveis e maravilhosas. transportar-se para onde quiser. operar metamorfoses. – Segundo Bruns. e phemi “digo”) era. e a quem se atribuía o dom de predizer o futuro. ao contrário.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 101 que se julga dotado de um poder divino para descobrir e conhecer o que está oculto aos outros homens. pois. As ciganas são quiromantes. do inferno e emprega-o sobretudo em fazer mal. e mais ainda que tudo isso. – O quiromante (do grego kheir “mão”. cuja visão genial alcança o futuro.. A faculdade de conhecer que possui o adivinho estende-se sobre todas as coisas. no entanto. – O necromante (do grego nekrós “morto” e manteia “adivinhação”) é “um mágico que evoca os mortos. O do mágico (de magia. – Vate era o que fazia vaticínios. e manteia “adivinhação”) é propriamente o que prediz o futuro das pessoas pela inspeção das linhas da mão. dispor dos espíritos e dos gênios. e compreende o passado.. – Haríolo era o charlatão que dizia “a sina mediante uma espórtula”. conhecimento que lhe submete todas as forças da natureza. como simples feiticeiros ou mágicos. É este último sentido que o vocábulo conserva geralmente no figurado: designa então um homem muito hábil. ou a bruxa é. Este parece termo introduzido pelos africanos. praticada ainda hoje em alguns lugares do Brasil. quer se lha atribua ao estudo das ciências ocultas. bruxo é palavra de etimologia muito duvidosa. com mais ou menos certeza ou probabilidade. e que lhe permite executar livremente toda sorte de prodígios. semelhante dom. ou prevendo facilmente as consequências dos acontecimentos. eram tidos. Esta segunda acepção conserva-se no sentido figurado para designar aquele que anuncia. – O profeta (do grego pró “antes”. – Astrólogo era o sábio versado no segredo dos astros e conhecedor da sua suposta influência nos acontecimentos humanos. muito sagaz. e hoje reserva-se o vocábulo para designar o grande poeta.. o que profetizava cantando. Mandinga é a feitiçaria grosseira dos negros. Toma-se não raramente à má parte esta palavra. mas ainda o poder sobrenatural de praticar ações maravilhosas. para saber deles o futuro ou as coisas ocultas aos vivos e que os espíritos podem revelar”. pois a Itália foi na Idade Média fecunda em homens dados a toda espécie de ciências ocultas. a pessoa que tem pacto com o diabo para fazer malefícios. etc. em causar dano aos homens ou aos animais. não emana da divindade. parecendo ser de importação italiana. superiores ao poder humano. isto é. consideravam-se os adivinhos como homens inspirados do Céu. ciência dos magos) provém de conhecimento das ciências ocultas. e reservava-se para os profetas exclusivamente a inspiração divina. o feiticeiro e o necromante possuem. e muitas vezes também em descobrir e revelar o futuro. entre os judeus e os cristãos. o presente e o futuro. – O feiticeiro (de feitiço “encantamento”) em francês sorcier (de sort “destino”) é aquele que tira sortes: recebe seu poder do demônio. os acontecimentos que prevê: aquele que nos ameaçou de tais desgraças foi verdadeiro profeta. na maior parte das quais era indispensável o lume para brucciare (“queimar”) as plantas e ingredientes auxiliares das adivinhações em que o agente principal era o próprio diabo (il brucciato. .. não somente o dom de conhecer coisas ocultas. muito destro. – O mágico. penetrando subtilmente nos pensamentos dos outros. Entre os pagãos.. ou mesmo à sua sagacidade natural”. como ainda hoje se lhe chama nas aldeias da Itália meridional). com efeito.

Países. – Junto é o que fica ao lado.102 Rocha Pombo 144 ADJACENTE. Paragens. contíguas são extensões (ou coisas) que se tocam (con=cum+ tago. – Imediata. pegado. Nesta frase: . unido. O epíteto faz mais viva. pois só podem ser confinantes ou limítrofes territórios que tenham fim certo e preciso (limite) e cujos limites se encontrem. O espírito justo emprega o adjetivo mais próprio: a imaginação brilhante emprega o epíteto mais expressivo. e pôr-lhe a ideia vivamente em destaque. – Chegado diz menos que pegado: significa “muito próximo”. limítrofe. ou unidos. regiões. Neste sentido genérico. quer de tempo. e se a extensão não é certa. O adjetivo acaba a imagem do objeto: o epíteto dá-lhe colorido. ere “tocar”). contíguo. – Sobre estes dois vocábulos lê-se em fr. Limítrofe é o mais próximo de contíguo. vizinho. e fronteiras são extensões (ou coisas) que ficam ou que estão uma defronte à outra: não é necessário que estejam contíguas ou unidas. a próxima semana. epíteto diz o mesmo que na latina diz adjetivo: quer um. Marca-se assim perfeitamente a diferença entre confim e confinante. ornar.. – Vizinho é o que se acha “mais por perto de nós”. imediato. mas este é mais extenso. É mais ainda que contíguo. Considerando. chegado. contíguo. mais do que próximo. forma arcaica de tango. confins. regiões. confinante. a mesma linha divisória”. vizinhos: Não se diria: paragens limítrofes. As outras duas consideram o epíteto como exprimindo uma qualidade do substantivo. junto. sem que medeie coisa igual entre uma e outra”. confim. menos distante”. é “a que se segue à primeira. e aquele só se aplica em referência a países. pode-se dizer que os dois coincidem exatamente um com o outro. – Adjacente quer dizer – “que está nas imediações. O adjetivo completa ideia do nome e o sentido da proposição: é necessário. – Próximo diz – “mais chegado. próximo. nem confinantes. chegado confrontam-se. ou em geral a territórios. a casa contígua à minha é desta limítrofe. e quer se trate de espaço. mais animada a ideia. A casa ou a aldeia próxima. – Pegado é quase o mesmo que unido. ou confinantes. epíteto. a proposição muda de termos: se tiramos o epíteto a proposição fica sem ornato. tratando-se de duas coisas. não dando apenas a mesma ideia de ligação perfeita que se inclui neste último. o uso mais particular que se dá a cada um deles – adjetivo é termo da gramática e da lógica. unido. É claro que a coisa imediata pode não estar unida à coisa precedente. Se tiramos o adjetivo. S. – Imediato. – epíteto é termo da eloquência e da poesia. paragens não têm fim preciso ou limite certo). Luiz: “Na língua grega. pois que zonas. distritos. pegado. – Unido quer dizer “tão junto (um objeto. Aproximam-se de fronteiro. o próximo verão. necessária para modificar ou determinar a sua ideia. quer outro significa ‘vocábulo aposto. – Confim (ou confine) e confinante dizem propriamente – “que tem o mesmo fim. mais pitoresca. por exemplo.. porém. Mas. dá vivacidade e energia ao discurso: é útil e conveniente. os termos próprios serão adjacentes. limítrofe. Ninguém diria que. As primeiras duas artes consideram o adjetivo como exprimindo uma qualidade do substantivo. ou fronteiros. zonas confins (não – confinantes. ou uma superfície da outra) que não fique espaço nenhum entre a coisa que está junta e aquela a que se junta”. ou ajuntado ao substantivo para modificar-lhe a significação’. propriedades rurais (todo território de extensão determinada) podem ser limítrofes. conveniente para vestir. que jaz perto”. 145 ADJETIVO. províncias. ou contíguos. sem energia. ou se os limites não são fixos e precisos. sem graça. fronteiro.

transportado. etc. e completa o sujeito da proposição. diz propriamente “tomado de admiração”. etc. “O sr.. fica o mesmo sentido.. espanto. por exemplo: “Qual não foi o meu espanto (ou o meu susto.. ou que deixe de atormentar alguma alma. de certa missão. Mas adjunto se supõe sempre junto de uma outra pessoa (juiz.” – só uma distinção muito subtil é que poderia dar uma preferência formal por um dos três vocábulos. a fama da Universidade. enquanto que adido se diz do funcionário. designam pessoas (autoridades. arroubo. ou o meu assombro) quando o moço. mas a imagem descorada e amortecida”.” – Admirado. de alguma coisa sagrada. entusiasmado (entusiasta).. em plena Câmara. 147 ADJURAR. e particularmente “ordenar ao demônio que saia do corpo de um possesso. exorcismar) é “fazer as adjurações. admirado. ou está admirado de ver a justiça tão liberal quando a julgávamos tão somítica?” – Pasmo é a “admiração levada a uma intensidade tal que absorve todos os sentidos da pessoa que está pasmada”.. e a proposição é falsa. exorcizar (ou exorcismar).). Fernando. – Espanto. da pátria. o sujeito muda. quer para auxiliá-las. assombrado. é renegar abrenunciando. arroubado. Tirado esse adjetivo. que fica junto de uma repartição. É certo que nesta frase. Tirado o epíteto. Dizemos: adjunto do promotor público. êxtase. – Estes dois vocábulos Exorcizar (ou. pasmo. adido. extasiado (extático). em nome de Deus. Mas vejamos. “Aquela cena estranha causa pasmo geral”. o menino emudeceu”. – Adjurar é “concitar com império. – Espanto diz – . Muitas vezes é empregado este vocábulo para exprimir a própria coisa que excita admiração. – Esconjurar não é apenas uma outra forma de conjurar. pasmado. ficou admirado. enlevado.. os esconjuros (exorcismos) próprios para expelir o demônio de um corpo”. Nesta outra: ‘A pálida morte pisa com igual despeito os palácios e as cabanas’ – o epíteto ‘pálida’ dá uma cor à ideia principal. ordenar em nome do próprio Deus. maldizendo”. – Empregam-se todos estes verbos em sentido figurado. talvez melhor. e adido de embaixada. que se faça alguma coisa”. e com significação análoga à que lhes fica assinalada respetivamente. assombro. e quase pinta aos nossos olhos um hórrido objeto. maravilhado. – Admiração é “o forte movimento de alma que em nós excita alguma coisa extraordinária. como dizem alguns autores: é “conjurar imprecando. – susto. assustado. 148 ADMIRAÇÃO. transporte. esconjurar. espantado. proferiu aqueles horrores!. funcionários) que têm funções junto de outras autoridades. na surpresa que o assalta. 146 ADJUNTO. repelindo. e na maioria dos casos sem muita razão. etc. conjurar. surpresa.. enlevo. entusiasmo. – Conjurar é mais que protestar contra a obsessão e que ordenar ao demônio que saia do corpo de um atribulado: é fazê-lo sair. arrebatado. expulsá-lo com grande clamor. etc. arrebatamento.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 103 ‘O homem justo é digno da imortalidade’ – o adjetivo ‘justo’ determina a ideia principal. como se cria nos velhos tempos” – diz Bourguig. como se vê deste exemplo de Vieira: “D.. maravilha. adjunto do lente de geografia. e que nós manifestamos principalmente pelo olhar”. surpreendido (surpreso). susto e assombro confundem-se frequentemente. aqui (com a função de predicativo). e admiração de seus doutores. de um tribunal.. induzir energicamente. Pasmado. professor. quer para substituí-las.

.. “O auditório está assombrado de ouvir aquela palavra tão nova. e a nossa maravilha provém de sentirmos que tal prodígio excede às forças humanas. que a fortuna não deixa durar muito. pois este vocábulo já enuncia um estado de alma que é mais alarme do que espanto). pois o que o auditório sente é mais admiração que surpresa ou pasmo). Entusiasmado é “o que está sentindo entusiasmo” (é um estado). e. “ele é grande entusiasta do capitão”. – Arrebatamento diz – “admiração súbita e impetuosa”. “Transportado de cólera. em pasmo. É um estado semelhante àquele “engano da alma. encheu de um vasto e grave clamor todo o templo”. – Transporte é “arrebatamento da alma. pareceu-nos em completa transfiguração: enquanto ela (a noiva). gozando o seu arroubamento. abalo mais ou menos forte. mais inconsciente e mais delicioso.. violenta impressão de surpresa e quase terror”. “O moço está espantado de me ver marchar” (não – assustado. ele vivia mais num instante do que outros num século”.. grande susto”. – Susto é menos que espanto: é “espanto súbito. “Naqueles arroubos da sua vida moral. ou aquele invento. assustado e assombrado distinguem-se de igual maneira. mas apenas uma desconfiança. extasiado da íntima alegria da bemaventurança. admira ou adora”. extática. a assistência. tão brilhante e segura” (e não – assustados nem mesmo – espantado. e é tomado também este vocábulo como significando a própria coisa que nos surpreende. “Senti um grande susto em toda a assistência”.” (não – espantada.” – Arroubo (ou arroubamento) é o estado em que fica a alma “arrebatada de altas emoções. “a grandeza dos Estados Unidos do Norte é o espanto de todo o mundo”. e no qual parece tomada de pasmo e maravilha”. – Assombro é “grande espanto. Surpreendido é o que . causado por alguma coisa inesperada”. “Ele está entusiasmado com a vitória”. Fica-se maravilhado à vista de um prodígio. o pobre. mas não seria muito próprio dizer (na acepção que lhes damos aqui): “pequeno assombro”. daqueles transportes de alegria passou à demência. “A população está assustada com aquele boato que ontem correu. “Aquilo (aquela ação extraordinária. Dizemos: “pequeno susto. causado pela suspeita de algum perigo). como se estivesse incendida do próprio Deus. “Ouvindo um lance daquela oratória grandiosa. ficou por longo tempo em adoração diante da imagem”. ou às próprias condições da natureza. porque o que a população sente não é comoção de quase terror. serena e extática. e sentindo-se como em deslumbramento de coisas divinas”. se parece como absorta. um sobressalto. em todo o delírio da sua fé”. “O noivo. e muitas horas depois ainda a encontramos extática. diante do altar extasiada. “Vieira foi o assombro do seu século”. “Ali ficou. ou como tocada de centelha divina”. Vemo-la extasiada se ela se mostra como entregue ao seu êxtase.. – Enlevo é “um êxtase mais sereno. – Maravilha (no sentido que lhe dá lugar neste grupo) é “sentimento de assombro tão vivo e intenso como se fosse produzido por alguma causa sobrenatural”. – Espantado. arrebatada. nem: “pequeno espanto”. – Êxtase (ou extasis) é “o estado de quase delíquio em que fica a pessoa que se arrebata. admiração profunda e solene”. quase inconsciente nas profundezas do seu êxtase. ou aquela conquista surpreendente) põe-me na alma agitada mais maravilha que alegria”.” – Entusiasmo é “o estado de agitação e arrebatamento em que fica a alma.104 Rocha Pombo “admiração que é quase pasmo.... sacudida de paixão violenta”. – Surpresa é a “súbita impressão que nos causa alguma coisa que não esperávamos”. é um como esquecimento da alma pela coisa que aprecia. entusiasta é “o que se devota com entusiasmo por alguém ou por alguma causa” (é uma qualidade).

“Como é que encara o sr. e se nos referimos mais à condição que ao estado momentâneo em que ficou a pessoa que se surpreende. ver. ou a arrogância. – Contemplar é “admirar longamente. examinar. a mercê de ver com ambos os olhos. “Ele fitou14 aquele ponto com muita insistência” (e não – encarou). “Aquela criatura já considera gravemente na vida. – Admirar é “ver alguma coisa com grande atenção. etc. a contemplar as maravilhas de Deus”. apreciar. Considerar sugere a ideia de ter (quem considera) o espírito voltado para o alto. – Observar e examinar confrontamse. – Apreciar é “ver com muito interesse. Ver exprime o exercício da fa- culdade de “receber pelos olhos a impressão que nos causam as coisas exteriores”. Como bem define Aul. ou com desprezo”. “Vê-se com os próprios olhos. olhar. mas bastam alguns exemplos para ver como se distinguem.. “Olha-se de esguelha. portanto. a conduta deste moço?” (e não – fita). Examina-se um caso. Olhar é simplesmente “dirigir os olhos para algures. ou o desplante. fitar. encarar. na floresta sagrada. mas é certo que o último acrescenta força e intensidade à ação do primeiro. 149 ADMIRAR. em susto. dentro do qual o áugure observava o voo das aves. que vale mais por “perplexa.). ao alcance de todos os sentidos. uma obra de arte. Mas quem examina é de supor que tem perto. admitem adjuntos modificativos da respetiva ação. entre outras coisas. vê-se vesgamente.. espanto ou alegria”. quer outro destes verbos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 105 está sentindo surpresa. – Ver e olhar distinguem-se essencialmente. – Fitar e encarar ainda se confundem mais facilmente. ou de relance. – Considerar (de con = cum e sidus “astro”) confunde-se muito com o precedente. dar de cara com. Quem contempla e quem considera entende-se. autorizam-se com os clássicos. Em contemplar sente-se também a sugestão de ideia semelhante. Tanto podemos olhar sem ver propriamente como podemos ver sem ter olhado. até pela analogia da formação. pois. “Olhou e viu tudo cerrado” (R. dizemos de preferência surpresa. fitar os olhos em. contemplar. no destino”. Mas a diferença entre os dois verbos consiste em ser a ação de considerar mais própria do espírito que indaga. ou para os astros. por que se os não tiver ambos abertos. A palavra latina templum. ou cor-de-rosa”. estudo minucioso e com muita atenção”. – Examinar é “fazer inspeção ocular.. – “encarar é olhar direito para fixar bem. uma doutrina. para a abóbada celeste. a coisa a examinar. com apreço”. nem a capa lhe escapará nos ombros”. ou vê-se preto. observar. “Ele encarou de frente o inimigo” (e não – fitou). olhar com atenção”. e quem observa só estuda ou considera a coisa a observar aplicando 14 Fitar significa “fixar (os olhos) com muita atenção”. . “Eu pasmava de olhar e ver o homem” (Garrett). que está enlevado para o céu. ou com maus olhos.” Mas tanto esta como a forma do exemplo acima. como se a pessoa que contempla estivesse absorta. um problema. ou para alguém ou alguma coisa”. E quer um. consi- derar. que procura entender as coisas do universo. M.. e a de contemplar mais própria da alma que se enleva ou extasia. Resta dizer que sugere também a intenção – o interesse. da Sil. significava. – Olhar e encarar poderiam confundir-se em grande número de casos. etc. em grande pasmo para a coisa contemplada”. uma paragem. que entra na composição do verbo contemplar. – com que se olha. Vieira tem este exemplo: “Faça-me V. devíamos dizer: “Ele fitou os olhos naquele ponto. sem embargo da restrição que fazem alguns autores quanto a ver.. e. o espaço marcado no céu. perturbada”.. “Vivemos aqui. conquanto no uso vulgar muitas vezes se empregue um pelo outro.

– Excelente é “o que impressiona pela sua grandeza.. pasmoso. raro. e maravilhoso “o que nos deixa maravilhados”. além de raro. ou que se impõe à nossa admiração”.. arrebatador. estupefativo. tão nova e admiranda!. mas será admirativo” (isto é – cheio de sentenças. admirando. dão no mesmo grupo. que está causando admiração. também o seriam: estimável e estimativo. surpreendente.” (aquele discurso cheio de coisas que nos deixam estupefatos. pois este diz melhor que o primeiro “que gera estupefação”. Parece que o mundo ficou até hoje ali. e ainda melhor citando este exemplo de Vieira: “Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir. isto é.ndo marcam uma certa diferença entre os dois: admirando enuncia a ideia – “que está sendo admirado. a mesma raiz grega tup. Dão os lexicógrafos como tendo o mesmo valor o adjetivo admirando. raro. espantoso. apesar do que dizem alguns autores: o que é estupendo imobiliza-nos de assombro. admirável e admirativo: e eles próprios se encarregam de. assombro tão grande que nos suspende. como em estado de estupor. Em estupefaciente e estupefativo encontra-se. a alma. por ser extraordinário. estranho. monstruosas. ou porque não se encontra comumente”. (e não – estupefacientes). su- . esplêndido. – Singular é “o que impressiona por ser único em seu gênero. atônito. – Surpreendente é “o que nos causa admiração ou espanto porque se nos apresenta de súbito e sem que o esperássemos”. e examinar a conduta de alguém é ponderarlhe os atos. Não será o sermão admirável (isto é – ‘digno de admiração’). o que é estupefaciente nos faz estupefato. para estabelecer a respeito dessa pessoa um juízo seguro. excelente. Vem ver como “está admirável a aurora!” (não – admiranda). estupendo.). como no precedente. etc. por assim dizer... estupefaciente. como se a tivéssemos batida. grandioso. inverossímeis”. – Estranho é “o que. 150 ADMIRÁVEL15.. Se esses fossem sinônimos. como se a tivesse sempre debaixo dos olhos. assombroso. Uma cena de canibalismo é estupefaciente. “cheio de estupefações”. e que por isso causa movimento de alma anormal”. singular. Mas incontestavelmente os sufixos vel e . desperta assombro”. amável e amativo. distinto de todos os outros da mesma espécie”. excitando a nossa emotividade. viva atenção (curiosidade) por ser original. distanciá-los. Observar a conduta de alguém é seguir-lhe os passos. Não se confundem também estupefaciente e estupefativo. que sugere a ideia de bater. curioso.. – É admirável “aquilo que provoca admiração”.. e Bruns. – Curioso é “o que desperta interesse. – Espantoso é propriamente “o que causa espanto”.106 Rocha Pombo apenas os olhos. – Extraordinário é “o que nos chama a atenção por estar fora da regra ordinária ou da ordem normal das coisas ou dos fenômenos. extraordinário. afrontada de coisas anormais. – Estupendo é “o que nos causa espanto. maravilhoso. exclamativas e admirações). como assombroso “o que 15 Roq. pela simples definição. – Raro é “o que se faz notar por não ser frequente. impressionar vivamente. esquisito.” (não com a mesma propriedade – admirável). é fora das proporções usuais. enquanto que admirável diz – “digno de ser admirado”.. ou imprevisto”. abalado e suspenso ante aquela cena. e não se pode dizer que seja estupenda. Há na história lances estupendos e edificantes. magnífico. O astrônomo observa o céu (e não propriamente – examina). pungir. porque sucede poucas vezes... ou porque excede ou está abaixo da medida comum”. como sinônimos. – Todas estas palavras designam coisas que nos impressionam mais ou menos fortemente. soberbo. Mas estupefaciente não é o mesmo que estupendo. “Aquele discurso estupefativo deixava-nos imobilizados.

consentir. hoje não dizemos que o chefe de Estado admite o ministro ou embaixador. – Arguir. que sugere a ideia de “pensar”. – Arrebatador é “o que produz admiração súbita. Os príncipes admitem à sua audiência os ministros estrangeiros16 e recebem em suas cortes os grandes senhores das outras”. estigmatizar. – Magnífico é “o que. Mas quem avisa dá à pessoa avisada conhecimento de coisas (faltas. – Quem admite alguma coisa deixa apenas que essa coisa seja ou se realize. pela pompa e majestade. censor era o magistrado que exercia a censura. repreender. circunstâncias. que vigiava sobre os costumes.” 153 ADMOESTAR. – Avisar e aconselhar confrontam-se. Em Roma. ou porque exceda ao que é normal. pelo esplendor. advertir. que é uma como admiração quase passiva”. receber. sem castigo ou censura. pela excelência. – Advertir é “admoestar mais formalmente e com certa autoridade”. defeito ou falta. 152 ADMITIR. concorrendo assim para que essa pessoa se dirija melhor em alguma conjuntura. “Ele há de afinal consentir que a filha case. – Quem tolera alguma coisa é que a permite pelo silêncio. isto é. – “Antonio não permitirá que a escolta lhe penetre na oficina”. tolerar. fazer sentir uma inconveniência”. – Admoestar (admonere. inspira um sentimento de admiração solene. “sentir”) é. – Quem permite alguma coisa admite-a com autoridade. ameaçando de castigo. mas que recebe. e como que invetivando”. deixa que ela passe sem oposição. – Segundo Roq. cen- mitir indica um ato de urbanidade pelo qual se franqueia a porta da casa ao que de um modo decoroso a ela se apresenta. de respeito religioso”. – Pasmoso é “o que. mas com energia e mesmo com certa arrogância e aspereza. como se a aprovasse mais pelo desejo de condescender com outrem do que por impulso de consci16 Aliás. imponente no seu modo de ser”: é mais que excelente: – é o que “sobreleva a coisas do mesmo gênero também excelentes”. – Quem consente que alguma coisa se faça é porque se põe de harmonia com o sentir da pessoa que a quer fazer. produz pasmo. pela raridade. As corporações. verberar. no qual figura a raiz men ou man. “não só com autoridade. tacitamente. forte impulso de alma”.. A recepção é mais cerimoniosa: supõe certa igualdade. quem aconselha dá à pessoa que é aconselhada – ou porque espontaneamente se interesse por ela. arguir..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 107 perioridade ou distinção”. permitir. ou porque se lhe pediu – uma noção clara do modo como essa pessoa se . entusiasmo impetuoso. e discutindo e mostrando a falta”.” – Censurar é “repreender como por direito de função. etc. etc. “ad- ência ou por sentimento de dever. chamar atenção para alguma falta. Um fidalgo admite à sua mesa e em sua sociedade um homem limpo a quem nunca visita. consideração e correspondência. as sociedades literárias e científicas recebem em seu grêmio os homens notáveis e doutos. 151 ADMITIR. – Grandioso é “o que junta à grandeza serena e brilhante do que é excelso e majestoso a magnificência do sublime”.. avisar. surar. – Repreender é advertir.) que ela ignorava. aconselhar. “em termos brandos e amistosos. – Soberbo é “o que se mostra augusto. aqui. – Esplêndido significa “admirável pelo brilho e perfeição”. é “repreender acusando de vício. “Pedro admitiu que o negócio fosse discutido lá mesmo no escritório”.” “O pobre marido ainda lhe tolera todos os caprichos e extravagâncias.

do coração. portanto. e impetuosidade nas paixões. – Adolescência – diz Bruns. censura-lhe a desídia. ou posição social do indivíduo. do figado. A mocidade será. e com ela se confunde ao princípio. reprovar com acrimônia. porém. ou do peito. ou de ouvidos. pois. “crescer”. e que para avisar basta que a pessoa que avisa tenha motivos especiais de cuidado (interesse a zelar. está doente. ou de faltas que não cometeu. e dura mais ou menos. jovem. De um médico. Dizemos: – longa enfermidade: e não – enfermidade rápida. que alguém enfermou ou do coração. de um ministro se diz que é bom moço. parecendo esta última expressão excluir a gravidade que o médico e o ministro devem ter. ou dor de ca- puberdade. e repreende-o se ele reincide na culpa. ter o conselheiro autoridade moral em relação ao aconselhado. juventude. quando a juventude principia: não se sabe. 154 ADOECER. repreender violentamente”. juventude. Quem está sofrendo dor de dentes. – Verberar (verberare. e não – enfermidade. portanto – que F. enfermou momentaneamente. ou parecer dignos da carreira que abraçam. ou se supõe. e enferma quando a moléstia é de tal natureza que a debilite. como se vê nos moços ambiciosos que procuram guindar-se pela política. Aconselha-se a um parente mais moço. Todos conhecemos jovens de quarenta anos. de verber. e não – que adoeceu. 155 ADOLESCÊNCIA. um ato iníquo do mau governo. isto é. enfermar. mocidade. quanto pode durar. e não – que enfermou. não – que é bom jovem. atendendo à sua etimologia. Mas adoece uma pessoa quando deixa de estar sã. Principia quando a juventude. a que evite a companhia de um colega desmoralizado. Segue-se que para aconselhar é preciso. Admoesta-se o filho ou o aluno. Não diríamos. – Juventude é a quadra da vida em que se é jovem. ou com quem temos familiaridade. ou dever a cumprir) com a pessoa que é avisada. mas é suscetível de durar mais que ela. “açoite”) é “arguir fortemente. temperamento. mancebo. em que se tem força. voz derivada do verbo adolescere. de uma senhora que vai para o leito. A latitude dada assim ao período da adolescência é corroborada pela Academia espanhola que a define: “la edad desde los catorce hasta los veinticinco años”. se esta o obriga a refrear os ardores da natureza.108 Rocha Pombo deve conduzir em certo caso. E depois do parto – que enfermou. nem por isso está enfermo. – Estigmatizar (formação vernácula de stigma “ferrete”. Não seria próprio dizer. portanto. para que não repita a falta. Dizemos – doença do peito. vigor. a época da vida que prin- . segundo a constituição. ou o caluniador. por conseguinte. Adverte o chefe da repartição a um empregado que não cumpre o seu dever. Também o que adoece naturalmente sente dor: o que enferma sente a fraqueza que provém do mal ou da doença. Avisa-se a um amigo de que alguma coisa se trama contra ele. púbere. ou de momento. Este vocábulo está. ordinariamente estes dois verbos. moço. “marca”) é “verberar como indigna” (a coisa ou pessoa estigmatizada). assim como velhos de vinte e cinco. Estigmatiza-se a calúnia. É de lamentar que o arguisse de males que não fez. mancebia. Costuma-se dizer. – Mocidade vem-nos do castelhano mocedad (idade de mozo). perfeitamente definido por Faria: “período da vida em que o organismo chega a desenvolver-se plenamente. na linguagem comum. principia com a puberdade. Sabemos. mocidade. dos quatorze aos vinte e cinco anos”. no momento do parto – que adoeceu. idade subsequente à puerícia. adolescente. – vem-nos do latim adolescentia. Verbera-se uma injustiça do tribunal. – Confundem-se beça.

– Veneração é respeito profundo. “o filho que ainda está sob a autoridade do pai”. e depois a autoridade subalterna à autoridade superior que representava diretamente o soberano. acata- mento. abnegação. aqui. – Veneram-se os santos e as coisas santas. como dos quatorze até os vinte e um anos. isto é. chamar a si o ente acatado ou insinuar-se-lhe no ânimo.: “A voz jovem (do latim juvenis) explica a ideia absolutamente. de respicere – re spicere – “olhar para trás”. mas é pouco usado nesta acepção. – Puberdade é a idade em que o indivíduo se torna púbere. 156 ADORAÇÃO. “apto para procriar”. etc. do espanhol mozo. ter debaixo de”) e significando. venerar. adorar. acatar. reverência. a nossa família. – Venerável e venerando são definidos como sinônimos perfeitos. Honramos os nossos pais. venerável. e a mocidade é o tempo em que o homem conserva aquele vigor. – Adoração é ato de adorar. os grandes homens. do latim mancipium (de manceps. reverenciar. gesto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 109 cipia com a puberdade. – Acatável é a pessoa que merece o nosso acatamento. a profunda estima. porém ainda é moço. em atitude de vivo apercebimento e vigilância. a sabedoria. mas em geral se usa por jovem. parecer. . acatamento confunde-se com reverência e mesmo com adoração. como a velhice. A pessoa que a outra acata. honrar. honra. homenagem. – Respeito (respectus. “o grande apreço. – Reverência é a manifestação (por atitude. do árabe mansubon17. a consideração que se tem pelas pessoas a quem se devem tais sentimentos”. sobre os trinta a trinta e cinco anos”. – Mancebo. No sentido próprio. e venerando “o que se impõe à nossa veneração”. a voz moço. – Honra é. adorar é “amar com o mesmo extremo. respeitar. ou que a algum santo ou divindade acata – procura. formado de manus e capere “mão” e “reter. etc. a explica comparativamente: porque a juventude é a idade do homem entre a adolescência e a idade varonil. ou esta espécie de culto que rendemos às coisas em presença das quais nos sentimos humildes e de alma confusa e abalada. considerar venerável como significando “o que é digno de ser venerado”. só Deus é que se adora. como algumas outras palavras deste grupo. segundo a rigorosa propriedade da palavra. isto é. e acaba ao entrar na idade madura. respeitável. que não é muito frequente nos clássicos”. e podem durar mais ou menos tempo. a condição de mancebo. no entanto. veneração. – Mancebia significa propriamente a qualidade. pode-se. palavra.) de grande respeito por alguma coisa sagrada. significa rigorosamente o moço de poucos anos. atribuindo à palavra moço a sua primitiva significação de solteiro. Pode-se mesmo. – 17 Segundo outros. adorável. – Homenagem. em compostura de perfeita discrição e gravidade. portanto. no sentido próprio. “não dar as costas”) é todo sinal de atenção com que vemos ou tratamos uma pessoa ou coisa. era o juramento de fidelidade que o vassalo fazia ao senhor feudal. fervor. conservar. Quem respeita fica. respeito. – Reverencia-se aquilo que merece o nosso culto. Adorável é “o que é digno de ser adorado”. – Fora da acepção que esta. ou disposição que são próprios da juventude. acatável. as grandes virtudes. e tende a perdê-la de todo. renunciamento com que se ama a Deus”. por meio de grandes demonstrações de respeito e submissão. Um homem de trinta anos já não é jovem. No sentido figurado. e por extensão aquelas que pela sua grandeza moral assumem a nossos olhos um aspeto de santidade. tem no XC. venerando. as grandes virtudes. Por sua vez diz Roq. dizer que “a mocidade é o espaço da vida compreendido entre a puberdade e a idade em que compete ao homem tomar estado. diante da pessoa que julga respeitável.

– “serve de capacho ou de sabujo”. É mais termo criado pelo instinto de crítica do nosso povo para zurzir o vício de. 157 ADUANA. condimentar. aqui. Só quando a lisonja é calculada. gabos. é o que enuncia ação que nem sempre é vil. nem mesmo se envilece como o que adula: será talvez mais próximo do lisonjeador. – Lisonjeiro (ou lisonjeador). e portanto que mais enojam do que louvam.. isto é. um sujeito indigno.110 Rocha Pombo 159 ADULAR. bajulador. alfândega. e quando o não faz por uma requintada delicadeza será talvez com o pensamento de ganhar-lhe o coração. e – ‘movimento alfandegário’ à quantidade de mercancias que passam pela alfândega”. Um manjar que se condimentou com perícia é apetitoso e restaurador. – Tanto condimentar como temperar se usam também no sentido figurado. e não se satisfaz “só com palavras. compreende-se que – ‘movimento aduaneiro’ se refira aos ingressos de direitos. mas de etimologia diferente: na aduana (de dana. louvores afetados e fúteis. bajular. Quem lisonjeia pode querer apenas tornar-se agradável ao lisonjeado. lisonjear. aqui. fazer louvaminhas. E adular não se reduz a simples louvores ou ao intento de ser agradável só por palavras. e para explicação do seu derivado aduaneiro. alho. – Engrossar. 158 ADUBAR. de fazer-se-lhe simpático. “a primeira destas palavras já quase desapareceu da língua: só a registramos aqui a título de curiosidade. soez. como diz Bruns. ‘escrever’) registravam-se as mercadorias sujeitas a direitos. – Adubar. pode ser exagerado. mas vai até os serviços mais asquerosos” que dele exija o bajulado. o discurso. engrossador. juntando-lhe sal. empregado em linguagem popular para dizer o mesmo que lisonjear com certa intenção de insinuar-se no ânimo do lisonjeado.. pois louvaminhar não é senão lisonjear demais e continuamente. vinagre. – Tempero é a quantidade dessas coisas que se juntam à comida. adulador. Estabelecida esta diferença. – Segundo Bruns. excessiva. louvaminhar. de todos os vocábulos do grupo. ou não ser sincero no louvar: não será baixo. engrossar. condimento. Aduba-se um prato especial para F. cheiros. abrir caminho adulando os chefes de quem dependem as posições.. tempera-se a frase. portanto. O bajulador humilha-se. que a tornem agradável”. na alfândega (de fundag ‘depósito’. homenagem é “o sinal de respeito. tempero. é “juntar à comida que se prepara os adubos (como tomate. obediência. – Bajular exprime ação ainda mais abjeta que a do verbo adular. mas estende-se aos atos. – Condimento é a porção mais substancial dos adubos e que serve não só para tornar a comida de cheiro e de sabor mais delicado. é termo de gíria. de coisas curiosas. adubo. como para fazê-la mais nutritiva. pimenta. lisonjeiro (ou lisonjeador). no entanto.). louvaminheiro. é que passa o lisonjeiro a ser adulador. Aduana e alfândega são palavras de origem árabe. repugnante. No sentido que tem aqui. . em política principalmente. O lisonjeiro não é. – O louvaminheiro não é tão sórdido como o bajulador. Também se emprega no sentido figurado: aduba-se a narrativa. É quase adular. daí vem o dizer-se ainda ‘tarifas aduaneiras’. Condimenta-se o estilo. alfande- gário. – Temperar a comida é “dar-lhe o sabor próprio. ‘armazém’) depositavam-se as mercadorias sujeitas a direitos. nem sempre pelo menos. etc. temperar. a todo o esforço que faz o adulador por insinuar-se no ânimo do adulado. e o grau de perfeição com que é ela temperada. submissão e acatamento que se tributam a uma pessoa que consideramos como nosso superior”. aduaneiro. Quem engrossa. nem por isso se tem na conta de indigno como quem bajula.

Mas falsificar é fazer isso. aunar. e adulterar é alterar a pureza própria de uma coisa dando-lhe outro aspeto. e como que impelindo. do esforço que outro fez – do que propriamente a ideia de falsificar. Adulterar distingue-se ainda de falsificar em poder empregar-se no sentido translato. mais a ideia de infringir direitos alheios. “são. falsificar é também convizinho de contrafazer. O prefixo. reunir. porém. – Coadunar acrescenta à ação de adunar a ideia acessória de concurso. quer de atos). Unir é “juntar (coisas semelhantes. Carlos Magno pretendeu adunar à fé católica povos de mui diferentes crenças”. agregar. – Adunar. e ad em adunar. portanto. estragando. Não se poderia dizer. portanto – “adunar muitas coisas”. unificar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 160 ADULTERAR. “um”. Por isso. aumentando-lhe ou diminuindo-lhe o peso. Quem contrafaz.. Quem falsifica estraga sempre. de aproveitar alguém. dizendo. reunir. agrupar. congregar. unificar têm ainda o mesmo radical. exprimem. em seu favor. deixa pior a coisa falsificada que pretende fazer passar por legítima. Adunar é trazer com esforço. pois a coisa imitada nem sequer incide sob a sanção dos códigos. ligar. imi- 111 tar. é preciso que nos unamos contra o inimigo comum”. como se imitam gêneros de comércio. 161 ADUNAR. “fingir com tal perfeição que aquilo que se imitou não se distinga facilmente da imitação”. – Unir. incorporar. Imitar é. estabelece uma nuança diferente. nem lhe tire o valor próprio: é possível até que a coisa contrafeita seja superior à coisa legítima. Aunar e adunar. coadunar. aunar e coadunar. coisas diferentes. como se imita uma obra de arte. com perfeita lidimidade. no entanto. “Vamos unir os nossos esforços. “Os governos prudentes aunam os partidos. etc. falsificar. Apenas as imitações nunca têm ou só excepcionalmente chegam a ter o mesmo valor da coisa imitada. ou mesmo coisas diferentes) de tal modo que pareçam uma só coisa”. o mesmo vocábulo.. é inegável. pode muito bem ser que não estrague o produto. e apresentam. enquanto que falsificar só se aplica propriamente a coisas materiais. corrompendo. de força. Quem contrafaz pode imitar com tanta perfeição que se torne difícil distinguir a coisa legítima da coisa contrafeita. unir. a de evolução natural. o volume. portanto. como se adulteram ideias. “Adunaram-se as hostes. tendo radical comum. ajuntar. – Imitar é menos ainda que contrafazer. que opiniões ou ideias se falsificam. por meio dos respetivos prefixos. diminuindo o valor à coisa falsificada. e a. “Aquela desgraça adunou os dois chefes”. opiniões. pois (quer se trate de coisas. batidas da catástrofe”. converter num todo. mais sensível diferença de ação que a notada entre os três precedentes. “Coadunam-se os vários grupos políticos para conjurar a crise”. a em aunar. segundo Bruns. Unem-se os esposos. procedendo natural e brandamente. aliar. contrafazer. – Adulterar e falsificar confundem-se facilmente: exprimem ambos “a ação de tirar a uma coisa as qualidades que lhe são próprias”. Adulteram-se vinhos. que muito convém ter em conta: ad envolvendo ideia de impelimento. coisas diferentes que se pretende unificar. Este verbo contrafazer sugere. no entanto. Imita-se a conduta de alguém. Falsificase um produto de indústria introduzindo no mercado (e com o mesmo nome e com todas as aparências de que seja o mesmo) um outro produto que não tem as mesmas qualidades daquele.. etc. os membros da mes- . Aunar é. coligar. pois ambos são formados do latim unus. nuanças da mesma ideia fundamental.

– Recurvado é “meio curvo. “juntar argumentos. e congregar “reunir todo o rebanho. Aliar (ad+ligare) sugere ideia de esforço mais ponderado e formal que fizeram os que se aliaram. indivíduos (não – aliam-se). ou para defesa de uma mesma causa. etc. e mais particularmente entre nações. sugerir necessariamente a ideia de ficarem reunidas ou juntas. ou de anzol”. as pessoas que se ligam ou aliam). em regra da mesma ordem. Coligar está. Este verbo reserva-se para exprimir a ação de celebrar acordo de mais importância. com pouca diferença ou irregularidade. Unificar é “fazer de várias coisas. – Ajuntar é “reunir com mais cuidado e trabalho”. de modo a fazer-lhe mais difícil a defesa. – Agregar e congregar apresentam diferença análoga à que se nota entre adunar e coadunar. – Curvo indica a forma da figura que não é reta nem quebrada. “gancho”) diz propriamente “em forma de gancho. curvo e terminado em ponta. “Reúnem-se as forças para a batalha” (não – unem-se). ou se fosse tomar a forma de arco”.. facções. o advogado do réu defende-o. aquele significa “inclinado como se quisesse. 162 ADUNCO. etc. – Alegar é. de modo que formem um só corpo”. Reunir é “dar unidade a coisas que se achavam dispersas”. . gregis. se se põem de concerto quanto a uma certa questão. etc. isto é. e “o emissário foi encontrar os irmãos reunidos na casa do tio” – percebe-se bem claro como são distintos fundamentalmente os dois verbos. aliam-se formando um só). uma companhia. um só todo”. “Reuniram-se os deputados para a eleição prévia” (e não – uniram-se). “rebanho”) e dizem. conservam o mesmo valor e a mesma distinção que têm no sentido natural. Reunir é mais congregar. alegando atenuantes ou justificativas em seu favor e procurando destruir a acusação. etc. Têm ambos o mesmo radical (grex. a argumentos já formulados. 163 ADUZIR. – Incorporar assemelha-se a reunir: é “juntar uma coisa a outra ou muitas coisas entre si. outras razões e argumentos que deem força aos primeiros”. chamar ao aprisco todas as ovelhas”. uma à outra. – Ligar. ou em grupos diferentes”. em relação a ligar. ajuntar. se não da mesma natureza. “Aliaram-se o Brasil. portanto. Numa acepção mais ampla. mas que representa. a República Argentina e o Uruguai”. mais ou menos curvo”. Ligam-se partidos. incorporar no rebanho”. pois. ar- queado. aliar e coligar enunciam a mesma ideia de “fazer acordo moral” (sem. incorporar do que unir”. Unificam-se dois ou mais Estados (reúnem-se sob o mesmo governo supremo. e também “tornar a unir coisas que se tinham desunido”. Incorpora-se um exército. alegar. pois. de fazer pacto mais solene. Dizemos: “O pobre velho já está ou já anda muito arcado (e não – arqueado)... do mesmo partido. – Adunco (ad + uncus. propriamente: agregar “fazer vir ao aprisco. – Agrupar é “reunir em um só grupo. Este diz propriamente “em forma de arco”. – Arcado é um tanto diferente de arqueado. Ligam-se indivíduos.112 Rocha Pombo ma família. “Uniram-se os chefes contra o ditador” (e não – reuniram-se). – Aduzir (adducere é “jun- tar a razões já expostas. curvo. os grupos. O advogado do autor aduz provas mais positivas e cabais contra o réu. uma secção de circunferência (arco). que se ligam.” Arqueados são os supercílios de uma menina (e não arcados). Nestas frases: “a desgraça encontrou os irmãos unidos”. recurvado. arcado. como coadunar em relação a adunar: aplica-se mais propriamente quando são muitas as pessoas. (não ligaram-se).

quando consideramos o que veio de fora em relação ao que estava no país. Mas ádvena diz propriamente “indivíduo que chega. Adventício diz igualmente “indivíduo ou raça vinda de outro país. à inocência” etc. – Resta notar que todos estes vocábulos só se empregam em relação. do país onde se acham. com outros.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 113 circunstâncias. êmulo. contra o erro em que alguém está. Estrangeiro é propriamente “o que é estranho ao país. inimigo. – Ainda que o interesse e o amor-próprio sejam de ordinário as causas por que muitos se fizeram nossos adversários. o que não é originário do país onde vive. Dizemos: adventício. Segue-se disto que forasteiro ainda é mais próximo de ádvena que estrangeiro. diferente da dos filhos do país onde o estrangeiro está. 164 ADVENTÍCIO. pois. estrangeiro. e dizemos alienígena. quando nos referimos ao que chega em relação ao que vive na terra. ou desde que tenham aqueles indivíduos perdido a sua própria): o mesmo não se dá em relação a forasteiro. “A gente ádvena associou-se compungida à imensa consternação de toda a vila naquele instante”. de uma pessoa. e versus. todavia podem estes . que não é do país. mesmo implícita. concorrente. indivíduo ou raça que não é a própria do país em que está”. pode não ser de fora do país. O ádvena. ou com os respetivos antônimos. entretanto. rival. alienígena. – Segundo Roq. pois esta palavra designa melhor o indivíduo que é hóspede na terra onde se encontra. – Todas estas palavras designam pessoas que não nasceram no. à verdade. porém. – Alienígena (alienus “alheio”. forasteiro. que está de passagem”. Não se poderia dizer. ou do lugar onde chega. ou não são originárias. estrangeiro. quando fazemos alusão à nacionalidade do indivíduo. contra aquilo que se afirma em oposição à justiça. ádvena. chegada por dias”.. de convicção contra o intento com que se nos persegue. Os povos de origem latina são adventícios na América. o peregrino. foras- teiro. ádvena. “a palavra adversário compõese da preposição latina ad “junto”. demonstrações de defesa. ou pugnando por interesses que nos prejudicam. Essa gente ádvena aí diz “a gente que estava ali de pouso. não se pode dizer que seja um forasteiro. mas que nele vive longos anos. etc. particípio de verto “voltado”. ádvena aproxima-se mais talvez de estrangeiro que de adventício. pois este vocábulo deixa supor que o que chega há de sair logo. que nele está. ou mesmo que nele vive sem certos direitos (os políticos) e sem certos deveres (o do serviço militar). – Forasteiro confunde-se frequentemente com estrangeiro. porque não era a raça latina que ocupava o continente quando este foi conhecido. que os referidos povos aqui são ádvenas. antagonista. Por isso. mas apenas da cidade. – Adventício e ádvena têm a mesma etimologia (do latim advenire = ad + venire) e significam “indivíduo vindo de fora. ou que nele se fixou. em confronto (expresso ou tácito) com os que são nascidos (indígenas) no país onde está o alienígena. 165 ADVERSÁRIO. e gignere “gerar”) emprega-se como antônimo de indígena (indu ou endo = in “no” (país) e gignere) e significa. quando queremos exprimir que o indivíduo estranho aí não tem intuito de fixar-se no país como os que nele se acham. ou seguindo diferente opinião ou partido. Estrangeiros podem ser até indivíduos que tenham nascido no país em que vivem (desde que os pais lhes conservem a nacionalidade de origem. pois o adversário é com efeito aquele que se voltou contra nós outros. “mudado”. competidor. no entanto. mas podendo ter-se fixado no país novo onde se encontra”.

pois abraça as pessoas. Os rivais têm interesses opostos que se combatem. e indica uma oposição mais forte que a precedente. que todas as palavras anteriores. no valor. as ações e todas as coisas que nos podem desagradar. repreensível sobretudo em seus excessos. no talento. e sucesso adverso o que nos causa dano e conduz ao infortúnio. O êmulo reconhece. v. as supõem. A inimizade é de ordinário uma paixão. pois este apenas concorre conosco. dois rivais acometem-se. sim. no esplendor. o mérito dos competidores. galhardia. como na generosidade. isto é. valendo-se de meios honestos. tenaz. supõe graves injúrias recebidas. quantos são os males que a inimizade produz. Adversário não supõe ódio. em sua significação metafórica. adversamente. mas posteriormente foi limitando-se a combates mais nobres e menos sangrentos. que para isso é ele inimigo. generosa.114 Rocha Pombo ser amigos debaixo de outros respeitos. “contra”. e até heroísmo: é uma rivalidade mais distinta e elevada. não há ação baixa. este procura sempre fazer mal. longe de excluírem as ideias de nobreza e urbanidade. e os partidos que não saem da linha da nobreza. Aquele pode favorecer-nos em tudo aquilo que não pertence à disputa. e daqui vêm as palavras adversidade. æmulus. os ingleses e os franceses em seus adiantamentos científicos e industriais. e sobretudo nos empregos. g. até nos animais se dá certa rivalidade. É mais do que simples concorrente. nas riquezas. faz com que receiemos o inimigo ainda depois de reconciliados com ele. a palavra grega antagonistes (antagonista em latim e nas línguas que deste se derivam) significava um inimigo armado e em ato de batalha. Não há propriamente rivalidade nas opiniões e ideias. – Entre os antigos. . generosidade. ao menos rancorosa. pois. pois. Diferença-se. nem procedimento vil. ou fazer dano: somos inimigos de certos manjares. “a todos os seres organizados e sensíveis. Temos. honras. porque costuma ser traidor.. Estende-se a inimizade. os soberanos em sua grandeza e esplendor. – Por analogia chamamos sorte adversa a que nos é contrária. Dois êmulos caminham. por bons motivos e com razão. Os êmulos correm a mesma carreira. sem se confundir com adversário. Pompeu e Cesar foram rivais. e as antigas adversar e adversia. e não admite ódio nem inveja. nos interesses e inclinações. O vulgo não conhece mais que inimigos. Dizemos. ou indiferentes. – Êmulo é também palavra latina. de certos prazeres. rivais e antagonistas. Cícero e Hortênsio foram êmulos. – Rival é palavra latina. que os Newtonianos são antagonistas dos Cartesianos em seus sistemas. ou que se propõe imitá-la e até excedê-la. nem à contradição. se é bem fundada. se nem sempre baixa. no luxo. “eu combato”. no heroísmo. aos animais e às plantas”. – Competidor é “o que está contra nós na conquista de alguma coisa”. “propõe-se a fazer ou conseguir aquilo que nós também nos julgamos capazes de alcançar”. inimigo. Tantos são os bens que da amizade resultam. de certos costumes. em ações louváveis. e também se rivaliza em ações virtuosas. a que ela não conduza. e agonixomai. e também por prejuízos e caprichos. ciência. umas vezes por nossa natural inclinação. muito de rival. como os literários. há muitos rivais em amor. os de jogos e exercícios. e até proclama. e graças. Só os homens de mérito têm adversários e êmulos: e as almas grandes. e designa a pessoa que compete com outra em arte. contrariar. Êmulo denota competição honesta. rivalis. os amantes em obséquios a uma dama. somo-lo. vivem em harmonia. e ainda generosos e delicados: não assim o inimigo. pois antagonistes compõe-se da proposição anti. no mérito. Esta palavra tem muita extensão em seus significados. mas sim nas doutrinas e partidos. nobre.

para conseguir o seu intento. mas vulgarmente se toma por desgraça. Mas a sorte adversa só assume o caráter de adversidade quando persegue o indivíduo continuadamente. e outras muitas grandes desgraças que afligem as nações. chamase-lhe calamidade. desventura. contrário. não só é desgraçado porque padece um verdadeiro mal. e só por pura ponderação se chamará desdita à sua desgraça. É desfavorável aquilo que. tristezas. do que. pela triste situação a que o reduziu sua desgraça.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 166 ADVERSO. Desfavorável não se diz propriamente das pessoas. misérias. às tendências. e não – aconteceu uma desdita. como é também desditoso. As partes contrárias não tratam precisamente de fazer vingar o seu intento: o que pretendem é impedir que o contrário triunfe. etc. – Infelicidade é o contrário de felicidade. – desfavorável. senão por sua má sorte. tendendo a fins diferentes. e então fazem-se adversas. que é propriamente um infortúnio público e geral. as inundações. desafortunado. calamidade. de insucessos e coisas contrárias”. a privação do que constitui o homem feliz. aos fins. cai em infortúnio. A república é adversa à monarquia. desfortunado. desfavo- 115 rável. e é mais usada esta palavra que desdita. antes encontra adversidades. Por isso dizemos: Aconteceu ontem uma desgraça no mar. senão das suas opiniões. As minorias declaram-se contrárias às propostas da maioria. mal-aventurado. “Afinal teve no pleito ou na cam- panha fortuna ou sorte adversa”.. e . vale por sofrimentos. desgraça. os terremotos. infeliz.” 167 ADVERSIDADE. tende a impedir o que outrem pretende. e significa todo sucesso lamentável que cai imprevisto sobre alguém. consiste a sinonímia destes vocábulos em que: – Adverso se diz do que tende a prevalecer por meio da luta. sendo necessário para a realização do fato. desventurado. se declara contra isso. desditoso. infortunado. O que perdeu. – oposto. a guerra. com relação à triste situação em que se acha o desgraçado. tal como a fome. Aquele que não sai bem nas suas empresas. As partes adversas procuram mutuamente suplantar-se. infortúnio. “explica o mal em si mesmo”. e se acha reduzido à maior miséria e aflição. pode queixar-se de sua desventura. – Infortúnio vem a ser uma série ou cadeia de desgraças. porque só fazemos relação ao fato. – Desgraça é termo genérico. sem consolo nem esperança de alívio. as erupções vulcânicas. em lugar de favorecer. desgraçado. O parecer do relator foi desfavorável à pretensão. – às ideias.. cada uma hostilizar a outra. que vem da castelhana desdicha. infelicidade. sorte adversa (ou adver- sa fortuna). ao malsucedido. no rio. caipora. sem deixar-lhe alívio ou descanso. sem que o incomode nem o aflija a perda. O que perde no jogo. toda a sua fazenda. do que tende a fins diferentes. “Caiu aquela nobre figura vencida pela adversidade” (isto é – pela constância da má sorte). – Desdita acrescenta à ideia do mal o efeito da desgraça. desfortuna. fortuna adversa. porque não deu motivo a elas por seu procedimento ou falta de prudência. diz Roq. No plural. Frequentemente os pais têm ideias opostas a respeito do futuro dos filhos. – “Desgraça”. procuram. – Desventura é má sorte. – Adversidade e sorte adversa (ou fortuna adversa) dizem quase a mesma coisa: exprimem o fato de ser uma criatura “perseguida de males. desdita. – “Relativamente – diz Bruns. contrário. a peste. oposto. que não provêm do homem. mas não é desgraçado nem desditoso. desaventurado. do que quer impedir o triunfo alheio. não por isto. – Quando a desgraça é grande e se estende a infinito número de pessoas e a países inteiros. caiporismo. As partes opostas. pareceres e decisões. é desgraçado no jogo. porém. mal-afortunado.

voltarei logo de Paris”. O desafortunado. isto é. uma significação que nele desaparece. – Desventurado. falta que se atribui. ou desaventurado. ou sem êxito no caso”. “ele deixa tudo à fortuna” (e não – à ventura). deve a desfortuna. “Se eu for mal-afortunado agora no meu intento. o sacerdote que se deixou imolar pela sua fé. como já se disse. portanto. caipora. – Entre infortunado e desfortunado há diferença análoga à que notamos entre infortúnio e desfortuna. o rei magnânimo que foi deposto e banido. – Mal-afortunado será um antônimo mais perfeito de bem-afortunado. “Um capitão tem a desfortuna de ver fugir e escapar-se o inimigo quando ia certo de esmagá-lo” (não – o infortúnio). – Infortúnio e desfortuna. ou com mau sucesso em certas circunstâncias”. – É conveniente notar ainda o que distingue estes compostos de ventura dos compostos de fortuna. – Desventurados são os pais que têm uma velhice de desilusões e amarguras com os filhos. significa “sem fortuna. a substituição de um adjetivo pelo outro mudaria o sentido da frase. infortúnio é grande desgraça que se prolonga (e quase sempre se usa no plural): desfortuna diz apenas “fortuna contrária. “Tive a desfortuna de lhe não merecer simpatia”. ou que não se saiu tão bem como costuma sair-se. enquanto que desafortunado é antônimo de afortunado: marca-se assim uma distinção muito clara entre mal-afortunado e desafortunado: este. malaventurado é antônimo de bem-aventurado. e este significa propriamente “que alcançou ou alcançará felicidade” (boa ventura. . ou “a predestinação. o amigo que se perdeu num lance de honra. Aquele. o mal-aventurado errou nos esforços que fez. Os lexicógrafos estão de acordo em considerá-los sinônimos perfeitos. – É preciso comparar alguns dos vocábulos deste grupo que têm o mesmo radical. A ventura não parece tão cega como a fortuna. Como se viu. pois é muito desafortunado sempre que pede alguma coisa à política”. ou bem-aventurança). “a falta de boa fortuna em tudo quanto se tenta na vida”. – Notemos ainda que mal-afortunado é muito próximo do nosso caipora. e o primeiro. “Não acredito que ele consiga o que quer. – “Foi ele tão desfortunado (tão sem boa fortuna) que não conseguiu sequer uma vez bater no alvo”. e aquele. transviou-se no caminho. – Entre desventurado e desaventurado não é perceptível diferença alguma. O desventurado lutou contra a sorte. “Tem padecido os seus infortúnios com serenidade e resignação” (não – as suas desfortunas). a causas misteriosas e inevitáveis.116 Rocha Pombo às vezes quase o mundo inteiro. “o que não consegue chegar ao seu dia. o menino que foi vítima de uma imprudência – são todos mal-aventurados. O homem desafortunado é o que não teve no momento. significando: – o último. ou a trama de algum espírito mau”. a boa fortuna que sempre tivera. ou num certo caso. Em qualquer dos dois exemplos. impedindo o êxito que se calculava”. é “o sujeito que se julga assim perseguido da má sorte”. Mas entre os dois e mal-aventurado já se nota alguma distinção. falta de boa fortuna. E isto pela razão de ter a palavra aventura. que dá o segundo desses compostos. ou mesmo o infortúnio. o mal-afortunado. o infortunado mesmo. o que é perseguido de desventuras”. – Caipora e caiporismo são vocábulos adotados dos nossos indígenas. foi malsucedido no empenho. – Entre desfortunado e desafortunado há a diferença expressa pela partícula de intensidade a que figura no segundo antes da negativa des. é o sujeito “sem ventura”. mal-afortunado – “com má fortuna. “É preciso consolar uma criatura infortunada (perseguida de infortúnios)”. que se empenhou numa causa de alta grandeza moral e saiu batido de infortúnio. tanto que dizemos: “ele vai à ventura” (e não – à fortuna).

Saraiva este nome: “advogado que fala muito e sabe pouco. legista. ou nos livre de males. instigando-nos. O patrono defende-nos e protege-nos como se fosse nosso chefe ou nosso pai (patrão). medianeiro. conquanto nos léxicos se definam como significando a mesma coisa. ou do estabelecimento em relação aos seus subordinados. – Rábula é. os antigos usos.” “A advocacia na campanha não dá o pão e tira o couro”. patrono. mediador. portanto. intermediário. coragens e ousadias que não sejam as mais recomendáveis. e também que haja muitos bacharéis muito mais alicantineiros e chicanistas do que tantos rábulas. e disserta ou escreve sobre leis. mais depreciativo do que causídico: aplicase ao advogado sem pergaminho. fala e age por nós. Designava antigamente o que defendia os interesses da plebe. dos estrangeiros em geral. portanto. raivoso. pa- droeiro. e particularmente ao advogado que faz perante o júri a defesa de um réu. – É nosso advogado quem toma a nossa defesa perante algum superior nosso. advocatura. – Legista é o que conhece as leis a fundo e as interpreta. o patrocinador nos toma à sua conta. 170 ADVOGADO. o prazo de tempo que se levou advogando”. isto é. – Segundo Bruns. tendências. jurisconsulto. aqui. – Patrono é pois o que não só defende os direitos do seu cliente como cuida solicitamente de salvaguardar-lhe os interesses. patrocinador. muito mais valor do que muitos bacharéis. causídico. tagarela”. “estar furioso. “Durante a minha advocatura no sul fiz menos fortuna do que inimizades. – Letrado. advocatura é “o exercício. Advocacia é “a profissão do advogado”. 169 ADVOGADO. ou perante alguma pessoa ou mesmo perante algum poder com cuja benignidade precisamos de contar para que nos absolva de culpas.) – Defensor é termo genérico que se aplica a toda pessoa que defende a outra. interventor. – Distinguem-se 117 perfeitamente estas duas palavras. designa principalmente o advogado que dá consultas. patrono. o que defende causas de direito com autorização legal”. (Nada disto impede sem dúvida que haja rábulas de 18 Hoje está-se introduzindo o neologismo direitista. rábula. e que se vale mais de chicana que de razões. Passou depois a significar o chefe da casa (pater) em relação aos agregados e protegidos19. e também com isso pode estimular em nós instintos. os direitos das gentes. letrado. . jurista. patrocina a nossa causa: pode ter para isso motivos que não sejam os mais legítimos. Assim define S. aplicado aos que conhecem direito ou seguem a carreira do direito. ou o senhor em relação aos seus libertos. intercessor. que debela os casos intrincados. e jurista é também aquele que conhece a história do direito. manobras. violento”). os costumes passados”.: – “Advogado é. artimanhas do que com lisura. – Causídico e rábula são termos depreciativos. a praticar males que talvez não praticássemos sem o seu pa19 Patrono deu o nosso vernáculo patrão – o dono da fábrica. patrocinador e padroeiro assemelham-se muito (têm o mesmo radical). – Jurista é termo mais relativo à teoria que à prática. O mesmo se pode dizer quanto a rábula (do latim rabere.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 168 ADVOCACIA. protetor. – Patrono confunde-se com advogado e defensor. o estudante de direito é jurista18. defensor. que designam: causídico é aquele que trata de causas mais talvez com astúcias. termo que hoje se tornou popular. defensor. gritador. – Jurisconsulto é o legista profundo. – Patrono.

Tanto o agrado como a afabilidade são geralmente provas de um caráter bem formado. anima. bom. cortesia. prestígio e valimento em favor de alguém e perante um poder a cuja presença esse al- guém não pode ir diretamente para alcançar o que deseja”. ci- vilidade. agrado. afeição. polido. por assim dizer. indulgência. polidez. a superioridade de condições da pessoa que protege sobre as da pessoa protegida. – Defensor. esconder”) é “o que nos toma sob sua guarda. – Protetor (de protegere = pro + tegere. civil. S. protege criminosos. urbano. é apenas o que se põe ou fica entre duas pessoas fazendo sentir a uma o que a outra quer. delicado. se mete entre duas ou mais pessoas ou facções. – Medianeiro diz muito mais do que mediador: é “o que interpõe a sua autoridade. amável. a defesa de criminosos. – Intercessor é a pessoa que se põe entre nós e aquele perante o qual precisamos de defesa. terno. uma qualidade inerente ao caráter da pessoa que se mostra amável: ou tem fins interesseiros. portanto. urbanidade. e não ao contrário”. e fari ou afari “falar”) dá-se de superior para inferior. amabilidade. Dizemos – “patrocinador de crimes ou de criminosos” (patrono de criminosos seria já coisa muito diferente: o patrono de criminosos toma. em nome de um terceiro. complacência. e não sendo mais por uma que por outra”. ou faz simplesmente parte da bagagem das convenções sociais com que os homens pretendem enganar-se reciprocamente. cortês. e vice-versa. benévolo. carinhoso. – Padroeiro é propriamente “o que exerce o direito de padroado”. ocultar. melhor do que todos os outros do grupo. – Interventor é “aquele que. para restabelecer acordo ou ordem entre elas. o patrocinador de criminosos acolhe. a maior parte das vezes. ternura. dá-se de superiores para inferiores. cortesão.. mais se parece com intermediário: este. fineza. complacente. mas este é o que se interpõe entre duas pessoas “para servir apenas de veículo. Não é. bondoso. – Segundo Bruns. afetuoso. benevolência. ou a triunfar numa certa conjuntura”. ao passo que o mediador tem sempre algum interesse ou empenho em conciliar aqueles entre os quais se põe. de acordo com as leis. Tal que é amável com os estranhos é ríspido e intratável com os seus. mostrando-se assim afáveis. porém. sua solicitude e valimento. indulgente. afável. A civilidade é a convenção estabelecida na sociedade para que os seus membros se avenham . benigno. “cobrir. de qualquer condição que ela seja. meiguice. cortesania. – Mediador. benignidade. muito claro.118 Rocha Pombo trocínio. Consiste na maneira cativante com que as pessoas de posição prendem a vontade dos que lhes falam. 171 AFABILIDADE. como já vimos no parágrafo precedente. delicadeza. A amabilidade consiste em empregar todos os meios possíveis para nos tornarmos agradáveis à pessoa a quem a testemunhamos. entre elas”: enquanto que intercessor sugere a ideia de que a pessoa pela qual se intercede precisa de defesa e proteção perante aquela junto da qual tem de agir o intercessor. “a afabilidade (do latim ad “a”. obsequioso. bondade. é toda pessoa que defende a outra. O agrado é o testemunho da alegria que sentimos ao receber em nossa casa. fino. amistoso. benevolente. carinho. como nos habilita a vencer na vida. meigo. e não só nos ampara. Poderia confundir-se com mediador. induz os celerados a praticar crimes). ou ao falar em qualquer parte com uma pessoa. agradável. A ação de proteger (de protetor) naturalmente marca. Sebastião é o padroeiro da cidade (isto é – protege no céu a cidade do Rio de Janeiro). e por extensão é “o que nos ampara perante alguém de cuja munificência temos necessidade”. e vice-versa.

– Afeição é a “conformidade moral que leva uma pessoa a chegar-se muito a outra. sempre que estas pareçam merecer-no-la. A civilidade exagerada – a que o vulgo chama política – é ridícula e presta-se ao escárnio. pela amizade. afagando-nos. em estar de acordo com os desejos de alguém”. necessário ter grande trato do mundo. pois a polidez exige que não só nos tornemos agradáveis. Nesta frase.. uma ideia da excelência da pessoa benigna em relação àquela a respeito da qual assim se mostra. entretanto. mostra-se de boa vontade com alguém no momento. – Polidez é a civilidade das pessoas de fino trato. Parece. porém. e benevolente (“que está sendo benévolo”) uma disposição atual de sentimentos. pois. que isto quer significar que benévolo expressa melhor uma como qualidade pessoal. Varia segundo os meios. Basta conhecer certas regras e observar certas práticas para ser tido como homem civil. – Carinhosa é a pessoa que nos recebe. O amigo afetuoso é o que nos trata com afeição. que obram e se exprimem nobremente. revelando sempre por nós os seus afetos. que. finura e delicadeza. A benignidade é. áulico e até adulador” do que cortês. indício de bom ânimo. os lugares e a condição das pessoas. Dizemos: “os reis benignos são amados do seu povo”. pois sem ela nos tornaríamos desagradáveis até aos nossos mais próximos. no entanto. para com a pessoa que recebe o carinho. é. a que se usa nos grandes centros urbanos. a atraí-la enchendo-a de meiguices e provas de amizade”. sincera. – Complacência é também menos uma qualidade do que uma disposição moral: é a “boa vontade. – Cortesia é a demonstração do respeito que nos devemos mutuamente. ou pode ter benevolência com esta ou aquela outra pessoa. – Benigno é “o homem de natureza moral muito singela. perdeu hoje esse sentido: é mais “palaciano. para ser um homem polido. Complacente é o amigo que se compraz conosco.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 119 mutuamente. como indica a palavra. supomos que seria imprópria a mudança dos dois vocábulos: “Ele se mostrou benevolente comigo. Entre benévolo e benevolente não estabelecem os dicionários diferença alguma. e isso tanto mais me cativa quanto é certo que ele não é benévolo com todo mundo”. que se contenta de ter para com seus semelhantes sentimentos propícios”.” – Cortesão.. senão sinal de qualidades. a acolhê-la. ou pela benignidade. tratando-se de pessoas. – Delicadeza é a qualidade do homem muito polido. de intimidade da pessoa que faz. fino. Mas benevolência é apenas “uma disposição de alma. – Cortesania é o requinte da polidez: é “a polidez da corte. fazendo-se meiga. isto é. mesmo em família. a diligência que se mostra em fazer o gosto de alguém. com facilidade. por índole talvez do que por educação. e sugere sempre. leva a sua mansuetude e tolerância a uma quase renúncia de si mesmo para ser-nos agradável. portanto. O homem delicado é-o mais por temperamento. e saber amoldar-se às situações. Uma pessoa é benévola. – Benevolência poderia confundir-se com benignidade. A urbanidade é a civilidade de bom tom. – Complacente . de simpatia. de modo a não se ofenderem nem se desagradarem. como com sentimentos ternos. “os homens benignos fazem-se queridos” (e não – os reis benévolos. os tempos. a civilidade bem entendida deve reinar em toda parte. suave no trato. um movimento propício de coração em favor de alguém”. não só com mostras de bondade. Contudo. tem-se não só para com as pessoas que conhecemos como também para com as desconhecidas. – Polidez e urbanidade confundem-se no fundo. como se nos abrisse a alma. – Carinho não é uma qualidade. a virtude das grandes almas. ou – os homens benevolentes). senão que penhoremos as pessoas com quem tratamos.

aqui. trabalho aturado e debaixo de barulho”. – Bondade é a qualidade de ser bom. afonia. sereno e afável. quando se mostra conosco tolerante. Ternos são os corações que ficam como que em êxtase de piedade. – O homem amistoso é o que nos trata como costumam tratar-nos os nossos legítimos amigos. – Fadiga. claudica. aforçuramento. “Os meus afãs não me deixam sentir estes pequenos incômodos”. fadiga. lida. A faina de bordo. – Azáfama significa mais “o apressuramento com que se cuida da tarefa. – Afã é “toda atividade penosa. laboração. pois que parecem deslumbrados mais de amar que de sentir o nosso amor. (Bruns.) – Afonia é a falta de voz: mal ou defeito “que provém da laringe”. ou de um trabalho urgente”. – Bom é aquele que tem essa virtude. afadiga- é o nosso superior hierárquico. labutação. luta. no entanto. afásico. a virtude de ser contrário a tudo quanto é mau. mento. os que se mostram mais do que amáveis. e é próximo de aforçuramento. mudo. lucubração. labuta. pois a afasia provém de alguma “lesão na substância nervosa frontocerebral. – O afásico titubeia. e sugere ideia de afãs contínuos. e nos vence as forças”. ou aquele de quem dependemos. uma delicadeza de sentimentos levada a extremos de meiguice. afônico. Um sujeito aforçurado gasta inutilmente as próprias forças. a faina dos campos. pois que só os pais sabem ter com os filhos. que nos cansa. de longas fadigas. 173 AFÃ. – Entre bom e bondoso há muita diferença. azáfama incessante”. julgada tão excelsa que o próprio Jesus a atribuía só a Deus. labor (lavor). pode ser completa (o que é raro) ou parcial. É mais usado no plural.120 Rocha Pombo 172 AFASIA. azáfama. – Lida é “trabalho afanoso. Este. e os esposos entre si. mas um fino cavalheiro é aquele que sabe requintar a sua delicadeza e fazer-se “muito delicado”. – A criatura indulgente conosco é a que tem para os nossos defeitos mais perdão do que rigor. – Faina é uma outra forma de afã: é “todo serviço feito sem muita ordem e com pressa. O mudo não fala porque ignora o som da palavra. todo esforço difícil”. Poder-se-ia dizer que é um predicamento divino. A indulgência supõe sempre uma autoridade ou poder mais alto que o da pessoa com quem se é indulgente. a candura dos simples edificada de instintivo sentimento de renúncia e de simpatia. pois. A meiguice é a qualidade das crianças e das virgens. um sujeito . sendo a esta que é devida a gaguez”. e portanto fica ele incapaz de imitá-la. o que é cheio de deferências conosco”. para exprimir o movimento geral das grandes cidades. faina. – Fineza poderia considerar-se como sinônimo quase perfeito de delicadeza. aquele homem não tem tempo de atender-nos”. ou então de que são capazes só as excelentes naturezas morais encontrando-se com as misérias da vida. – São meigos os propensos ao amor. é “trabalho penoso. O afônico sente dificuldade ou mesmo impossibilidade na emissão da voz. Tanta lida para tão pouca vida. pois a surdez lhe impede ouvi-la. e mesmo a faina das ruas. ou da pessoa amada. mudez. envolve mais a ideia de pressa que de trabalho. e a provas de afeto que nos comovem. trabalho. que só por extensão se pode atribuir a homens. – Mudez é propriamente a incapacidade orgânica de articular a voz. ou de amor na presença de uma criança que sofre. “Na azáfama em que vive. bondoso é apenas “o que tem bondades quase que aparentes. conforme já ficou em outra parte definido. porque deixa supor sempre a inocência. mais misericórdia do que justiça. e afadigamento é uma extensão de fadiga. – Ternura é. ou de todo não pode falar. ou diante de um infeliz.

– Labor é trabalho longo e difícil. e no plural – “trabalho pesado e afanoso”. e a que aplicamos toda a intensidade do nosso espírito. Só a ignorância. ocupação árdua de que se vive. – Laboração é uma forma extensa de labor: é a ação de exercer o labor (laborar). que cansa o espírito ou o corpo.: “Labor é palavra que tomamos diretamente do latim labor. 174 AFASTAR.. “viga. portanto. mas indiretamente. árvore grande”. dizemos. isto é. afasta-se da parede o sofá. mas nem sempre sem fruto. pois se formou de lavrar (laborare). retira-se o chapéu de cima da mesa. pôr para aquém”. afasta-se do espírito uma ideia sinistra. ou mesmo de afadigamento”. ou melhor. – Lavor dizemos do trabalho “de agulha. feito por desenho. e por extensão significa – “tirar uma coisa do lugar em que estava. – Luta é “trabalho doloroso.. Quanto a labor confrontado com lavor. chamar a si. por labor. Afastam-se de nós alguns amigos. trabalis “próprio das árvores.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 121 afadigado despende forças. – 20 Parece que estes têm mais razão do que aqueles. apartar. Lucubrar (de lucubrare (de lux) “trabalhar à noite”) significa propriamente “fazer serão”: e.. retira-se o filho do colégio. de ab + stare “estar ou ficar longe”) significa propriamente “tirar uma coisa ou pessoa de junto da outra”. e de qualquer ornato em relevo. à luz do gás. palavras mui distintas. – A palavra trabalho foi primitivamente aplicada à função do construtor. ou das nossas aptidões. escreve Bruns. ainda quando os dicionários as confundam e as expliquem uma pela outra. portanto. e segundo outros do latim trahere20 – retirar. lavor. retira-se uma ofensa. tem o sentido próprio de “afastar para trás. No plural acrescenta a labor uma ideia de faina. – Labor e lavor são. do que lidava com madeiras (trabs.. – Afastar (do latim abstare. lida penosa. – Retirar (formado de re. como se fora mesmo um combate.. relativo a traves”). que não devem ser tomadas indiferentemente. lucubrações aplica-se mais particularmente “ao trabalho feito à noite. mas que também nos agrada e satisfaz”. e ter “três vezes”) + tirar. “Naquela contínua luta do seu viver foi morrendo”. ou pondo-a de lado. descaminhar (desencaminhar). ou conseguir alguma coisa”. do gótico tairan segundo alguns. lavor tem a mesma origem. voltando por onde tinha ido. etc. arredar. equivalente aqui a retro (re que marca “retração”. “retrocesso”. – Lucubração é todo trabalho que nos absorve dia e noite. ao esforço. e que só não acabrunha as grandes naturezas morais”. o modo como um trabalho foi acabado”. que nos fatiga. originou que lavor seja abusivamente empregado por trabalho ou faina.” Retira-se um exército. – Labor é “todo esforço exercido com aptidão e gosto. cansa também. nas línguas neolatinas. à contensão mental com que é feita uma obra de arte ou de ciência”. No plural. passando a significar “toda aplicação de aptidões no sentido de fazer algum objeto. Labuta é esforço afanoso. . deslo- car. desviar. retirar. de lida ou fadiga. Labutação é o mesmo que “labuta afadigada”. lucubração. não. depois generalizou-se. sugere a ideia das penas e fadigas que produz todo exercício aturado. – Entre labuta e labutação (que com os dois precedentes têm origem comum) deve notar-se análoga diferença. chamando-a a nós. – Labor é sinônimo de trabalho. ou da lâmpada. separar.” Resta acrescentar que lavor significa também “a perfeição da mão de obra. “Os trabalhos da vida” – é quase como se se dissesse – “as lutas da vida”. “As nossas laborações naquele transe nos inutilizaram por muitos dias”. trave.. confundindo a pronúncia dos dois vocábulos. O próprio latim tem retrahere “tirar para traz”. “As lutas da vida o venceram”.

separam-se os casados quando não podem viver juntos. Separa o lavrador a palha do grão. e apartamento os resultados morais da separação. diferençando-se segundo a peça com que se fecha: se se emprega o ferrolho. pois.. prostituir”. misturado: sempre com referência a mais de um objeto. vem fazer que tomemos outra rota). arredam-se as cadeiras do meio da sala. e lá do alto deixa-o tombar sobre a cidade”. quando somos sedentários por gosto. “A pulso desloca o rochedo. Separar diz muito mais que apartar. ainda que se não aliste em outras fileiras. no juízo final hão de separar-se os bons dos maus. Desviamos o corpo para evitar um golpe. ou algum fato suceder.) – Apartar é “pôr de parte”. trancar. põem-se estas em lugar onde fiquem separadas das primeiras. tranca-se. designam formas ou modos particulares de fechar. propósito ou conveniência. extensão – perverter. desviamos do sentido uma lembrança funesta.: “O apego é a constância que provém mais do hábito que da reflexão. Temos apego à casa. dar espaço ou caminho”. descaminha-se o menino da escola. 175 AFERRO. unir com firmeza” (do latim fixare). ou da direção que se seguia”. este verbo sugere ideia da atitude contrária em que fica a pessoa que se aparta em relação àquela de quem se apartou. Se alguém se aparta do seu partido é que toma posição contra este. – Deslocar é “mover alguma coisa do lugar próprio. desviamos uma criança que vai ser pisada. e por. – Separar é “pôr duas ou mais coisas ou pessoas longe uma das outras”. é-lhe inerente a ideia de fim. tomando uma azinhaga”. – Desviar – diz Bruns. falando do juízo final. Em sentido mais restrito. de completivo de predicação: é “tirar do bom caminho.. temos aferro às ideias que defendemos com tenacidade”. Deslocam-se figuras da política em todas as grandes crises. ou quando se desquitam. melhor ainda que desviar. O aferro provém da convicção. “Com perícia admirável desloca o dente e saca-o num instante”. Noutro sentido. Descaminha-se a gente.. como descaminhar. portanto. exprime a ideia de “tirar ou de sair do caminho próprio. o processo mediante o qual se cerra. e é. um forte apego. o trigo do joio.. prende alguma coisa”. Só no sentido moral é que as coisas ou pessoas separadas nem sempre se julgam a distância umas das outras. fecho é a “peça com que se fecha. ligado. retirá-la do ponto em que se acha”. (Por mais que digam os lexicógrafos. desencaminhar não se confunde com descaminhar. Segundo Vieira. “Aquele sucesso imprevisto vem descaminhar-nos da vereda em que íamos” (isto é. parece que separação indica principalmente a ação de separar. – Descaminhar. no sentido próprio e originário. aferrolha-se. Desencaminhar tem significação diferente.” (III. desviar indica a ação de tirar de uma direção para fazer tomar outra diferente. e nem carece. e sossegados os prantos daquele último apartamento. neste caso. liga.”. fecho. fechar. do caminho certo. – “tranqueta de ferro . diz ele: “Feita a separação dos maus e bons. – Diz muito bem Bruns. tranca. ou nem sempre estarão necessariamente desligadas.. – Os dois outros do grupo. – “é tirar uma coisa ou uma pessoa do ponto ou da linha em que alguma outra coisa ou pessoa vai passar. 176 AFERROLHAR. – o que estava unido. apego. Ferrolho é – diz Aul. a fruta podre da sã. 163). se se emprega a tranca. Quando alguém se aparta de outra pessoa toma um lugar para longe dessa pessoa. ferrolho. Quando dentre muitas coisas se apartam algumas..122 Rocha Pombo Arredar é “desviar bruscamente. – Fechar aqui exprime a ação geral de “cerrar. “Separa-se – diz Roq. Arreda a multidão à passagem do cortejo.

há nele algo mais da tibieza do afeto. Afeição é a tendência. diz do amor: “O caráter distintivo do amor é o de preocupar exclusivamente o nosso pensamento com a existência de uma pessoa do outro sexo. de lhe ser útil. quando este se dirige à sua amante La Chaux: “Ignoro a razão de já a não amar. a amargura sustém-nos. ternura. porém. O amor recusa crer nos defeitos que vê na pessoa amada. dedicação. pois esta é constante. e o afeto só a pessoas. – Afeto e afeição – diz Bruns. não obstante.. A afeição que temos às coisas nos induz a ter cuidados com elas. Também se diz – “aferrolhar a fortuna”. vai embeber-se na ombreira ou noutra peça. ou inclinação comedida que se tem para alguém ou para alguma coisa. ou não se expandindo. Não são os defeitos da alma apenas que recusamos ver no objeto que nos apraz: são também os do corpo. 177 AFETO (afeição). paixão.. um livro. Figuradamente. amizade. está-se humilhado e adora-se. e é tal o seu fundo de benevolência que estende por sobre os vícios o véu das perfeições. tudo o que sei é que principiei a amá-la sem saber por quê. no entanto. de tais méritos. podendo ser. no entanto. Se no amor não há os arrebatos da paixão. Tudo nela tem encanto à nossa vista. Tranca é uma barra semelhante ao ferrolho. por que está abraçada. aferrolhar e trancar dizem “prender com segurança”. Fecha-se a boca. Também se fecha a alma. Adolphe Garnier. É por afeto ou por afeição que se sente prazer em encontrar a pessoa a quem se estima. de madeira. uma gaveta. Aferrolha-se ou tranca-se igualmente uma porta. O austero Descartes simpatizava com os olhos vesgos: procurando a origem de tal gosto. – Paixão é o desejo veemente de obter e possuir a pessoa ou a coisa que desperta em nós esse sentimento. De que provém? Nasce. inclinação. Só o pensar que a ternura da pessoa amada pode ou poderia repartir-se com outrem faz-nos estremecer. Deliciamo-nos em ouvir falar dela. senão que os tomamos por perfeições. apego. deixando de falar. de gozar da sua companhia. e ambicionamos encontrar-nos sempre e exclusivamente na sua presença. No afeto há moderação. recordou-se que esse defeito existia numa menina a quem amara desde a infância. e que se procura a ocasião de a ver. É certo que o amor aumenta com os méritos do objeto amado: não vem. um cofre. por assim dizer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 123 (ou qualquer peça de ferro que se empregue em fechar) que. significando que se a retém com usura ou somiticaria. quiséramos que só nós fôssemos o único que lhe interessasse. uma carta. e não só os negamos. Num sentido mais geral. correndo horizontalmente pelos anéis. Antes de Garnier já Diderot definira admiravelmente o amor pela boca de Gardeil. Fecha-se uma porta. E assim como é ela que unicamente nos interessa. não dizendo o que se sente. não assim o afeto ou a afeição. – diferençam-se apenas em ser a afeição extensiva a pessoas e a coisas. – O amor é um sentimento que se pode considerar intermé- dio entre o afeto e a paixão. fechando-os fortemente. propensão. sem causa. sobrevive à infidelidade: sofre-se e ama-se.. o . um portão. no seu Traité des facultés de l’âme. e a paixão sente-se geralmente por aquilo que se deseja possuir. impedindo assim que se abra a porta ou janela em que está pregada”. e que cessei de a amar sem saber a causa”. Muitas vezes a paixão desaparece com o logro da coisa desejada. e às vezes cessa sem ela”.. e acabamos por amá-los. na paixão há arrebatamento. Uma diferença essencial entre a afeição e a paixão é que a afeição se sente por aquilo que se possui. a qual nos causa um como deslumbramento contínuo pelas qualidades e perfeições que a nossa imaginação lhe atribui. amor. O amor.

e o desejo de ser-lhe agradável e útil até a preço do próprio sacrifício. – Afetação é “o modo contrafeito de mostrar sentimentos. por exemplo. por exemplo. ou de alguma ideia. afetar. O abuso que se faz desta palavra não exclui que a amizade exista: se ela é vã na boca da quase totalidade dos humanos. – Fingido é aquele que faz por parecer o que não é: é mais hábil. aptidões. disfarçar. – Inclinação. nem o amor. 178 AFETAÇÃO. degenerará facilmente em paixão. a paixão. dissimulado. contrafação. no sentido lato da palavra. Quem afeta alguma coisa inculca sentir o que de fato não sente. mas ao qual o coração fica alheio. fingir (fazer de. contrafeito. iludir os . caracteres especiais pelos quais se pode determinar. intuitos. a inclinação é a disposição e tendência natural do espírito para amar alguém em razão do que nessa pessoa nos agrada. etc. – Dedicação é o desprendimento de si próprio em favor de outrem. fantasiado. pode tornar-se amor. Tem-se apego a um objeto. não for combatida. a dedicação leva às vezes ao sacrifício. Não se pode dizer que há amizade sem que o tempo e as vicissitudes da vida a tenham cimentado e posto à prova. a reflexão. e procura. pois aquele que se sente levado por ela para o jogo. não é mais do que o embrião desses sentimentos. Se a inclinação. a recordação originam o apego. no sentido que geralmente se lhe atribui. porém. o apreço do caráter. propriamente. fortalecendo-se. amor filial. Há pessoas que têm inclinação para o bem. que o afetado. da índole e do espírito do amigo.124 Rocha Pombo amor é o sentimento pelo qual se ama ou se quer bem a alguma pessoa: amor paternal. a um animal. mas em si. Um criado é dedicado a seu amo. – A ternura não é sentimento: é a manifestação de um sentimento. representar de). dissimular. a um hábito. O hábito. aparência. a uma pessoa. não é o sentimento. esta disposição. ou em amor. de um como voto feito. Se a razão não pode dominar. um homem é dedicado ao seu partido. como as há que têm inclinação para o mal. fantasiar. etc. fingido. amor à ciência. simulado. – O apego é um sentimento que pode ter maior ou menor intensidade. que se revela em tudo o que ao filho diz respeito. aparentar. pois. fingimento. o sujeito que se finge quer ser diferente daquilo que é. Usa-se também este verbo como pronominal: o indivíduo que se afeta no dizer é o que procura apurar tanto a elocução que se torna ridículo.. só quer dizer que as relações do trato não são desagradáveis entre aqueles que se dizem amigos – a amizade verdadeira tem. seja amizade. e pelo qual nos consideramos ligados. assim como o animal tem apego ao homem. portanto. tais são: a necessidade de expansão e de confiança recíprocas. simular. A ternura paternal. é esse próprio amor. não obstante. aparente. dissimulação. amor ao próximo. ou que duas pessoas têm entre si”. astuto. a um partido. ou para qualquer vício. seja amor. geralmente. se. Num sentido mais restrito. Vemos assim que esta palavra é menos expressiva que qualquer das três precedentes. mas o efeito de uma firme resolução. pode facilmente triunfar da inclinação. que realmente não se têm”. traja e se apresenta fora do natural. enquanto este exagera porque aspira passar por mais do que realmente é. disfarçado. José de Lacerda – é “o apego particular de uma a outra pessoa. contrafazer. afetado. foge desse mal sem grande esforço. O indivíduo afetado é o que anda. também o origina a inclinação quando é fomentada. é a disposição e tendência natural do espírito para alguma coisa. simula- ção. não é um sentimento distinto do amor paternal: é a sua manifestação. – A amizade – diz d. encobre com artifícios (fingimentos) o que sente. fala. disfarce. fantasia. ou amizade.

que aos olhos de outrem encubram a verdade que não se deseja. Usa-se o verbo fingir como transitivo e como pronominal. no entanto. por um falso exterior. ou a dor. que o disfarçado tem intuito de enganar. ou movimentos – de atração para aqueles que se lhe representam como bons. que tem relação com afeto”. O sujeito que se disfarça. inculcando outra coisa que por ela se quer fazer passar”. – Contrafação é. nos gestos. o prazer. ocultar o que pensa ou quer. Luiz. Um homem prudente pode. mas – “demonstrações. por exemplo. não dizemos. ou ao que se devia esperar”. a verdade.. muitas vezes. afetuoso. A dissimulação pode não ser um defeito: o disfarce nem sempre. dissimular. ou procura. “o bem. 180 AFETOS. ou – de aversão para aqueles que se lhe representam como maus: e estas comoções comunicam-se ao corpo. Disfarce é muito semelhante a dissimulação. ou representa de tolo). convém distinguir estes dois adjetivos. portanto.. Dizemos – “criaturas afetivas”. e afetuoso só a pessoas. e que nem sempre se poderá dizer o mesmo do dissimulado. Parece. próprio de afeto. – Ainda que os di- cionários deem como significando a mesma coisa e tendo o mesmo valor. – Simular e fingir têm de comum a significação de “ocultar. como não obraria se fosse sincero. excita nela comoções. por discrição.). e afetuoso = “cheio de afeto. “Ela está fingindo que não nos vê”. ou apreendido nos objetos pela nossa alma. “demonstrações afetuosas”. Pelo menos diferençam-se eles em poder afetivo aplicar-se tanto a pessoas como a fenômenos morais. etc. qualidades afetivas”. é fazer crer pela aparência simulada”. ou – “criaturas afetuosas”. O homem que disfarça procura sempre arredar do pensamento dos outros a noção exata do que lhe convém: o que dissimula cala mais o que sabe ou o que sente do que disfarça o que deseja. portanto. Quando . como simular é próximo de fingir. como.. ou de que é tal como parece” (aparente). “F. Mas quem simula faz que uma coisa pareça em vez de outra. nestas frases: “O pobre homem está fazendo de Judas”. portanto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 125 outros. ou que disfarça suas intenções. nas atitudes. 179 AFETIVO. O sujeito que dissimula faz por parecer estranho ao que se passa em volta de si. – Segundo S. que uma coisa seja semelhante a outra (as palavras latinas simulare e similis deram-nos simular. “contrário ao que é natural que se esperasse dele”. no que diz. – Aparentar é “mostrar aparências de que uma coisa é assim mesmo como se faz crer. afável”. e produzem nele efeitos proporcionados. O dissimulado mostra-se alheio exatamente àquilo que de fato lhe interessa. benigno. isto é. que se manifestam nos olhos. paixões. “o ato de fazer alguma coisa de modo contrário ao que é legítimo. no movimento do sangue. – Disfarçar é tomar aspeto. Quem se contrafaz obra. – Os verbos fazer e representar em certas formas valem por fingir. – Fantasiar é “iludir pelo aspeto. Afetivo significa. sentido. “ele se faz de tolo” (o homem está fingindo ou representando de Judas. “qualidades afetuosas”. “de afeto. e às vezes em toda a pessoa do homem. aqui. reconhecida. na cor do rosto. O que se fantasia impõe-se pelo efeito produzido sobre a imaginação dos outros. assimilar e assemelhar. ele finge ou finge-se de tolo. ou que tenha aparências de outra pela qual se quer que essa coisa passe. isto é. ou aparências. se não se mostrasse contrafeito. quer ou pensa. simulou um ataque pela retaguarda”. reveste-se de artifícios (disfarces) que o desfigurem. ou o mal. e “nada mais falso do que a fantasia de que se valem os espertos contra a ingenuidade dos tolos ou das crianças”..

incoativo de calere) significa “fazer meio quente. e apostados a rasgar cortesia”. P. aquentar pela segunda vez”. impetuosas.” Daqui nos veio a ideia do presente artigo. chamam-se simplesmente afetos. violentas. digo que neste Sermonário se admira um livro que tem mais frutos que folhas. – Requentar é “tornar a fazer quente. chamam-se mais propriamente paixões. José de Jesus aquecer. para verificar-lhes a significação precisa. “são afetos levados ao último grau e assenhoreando-se da vontade. não assim as paixões. e arrastam o homem ao quebrantamento da lei e do dever. Souza. a seguinte passagem: . são brandas. a vingança são paixões. Afetuoso é o plenus amoris dos latinos. “Nos Sermões de Fr. ferver. submeter alguma coisa sólida. Br. cozer. no precedente parágrafo. – Ferver é “submeter um líquido a estado de ebulição por certo tempo”.. e que. depois de S. suave. doces.. – Cozer (do latim coquere) é “preparar ao fogo. de calere “estar quente”) designa a ação de “tornar quente”. aquentar. “Aqueles a quem Deus cometeu o juízo. o seu voto era imparcial – a amizade ao orador não o arrastava ao elogio dos seus sermões: eis aqui. afetos – que citamos acima. Apaixonado é o que obra como involuntariamente. requentar. mas apesar disso. 182 AFERVENTAR.” As paixões. como diz Roq. Fr. a um certo grau de calor. a compaixão. que violentas e impetuosas fazem muitas vezes emudecer a razão. “Ao coração apaixonado nada se deve crer”. é ferver mal e mal”.. pode o leitor consultar o artigo – Paixões. o reconhecimento são afetos. e sua alma inclinava-se suave e gostosamente para as doutrinas expendidas neles. no meio de um líquido. por afetuosa. no parecer que sobre o mérito deles deu Fr... padecer a nota de apaixonada. a cólera.126 Rocha Pombo estas comoções. dar a alguma coisa começo de quentura”. e não se devem render a clamores dos que apaixonadamente insistem em perseguir a inocência”. – Há entre aquentar e aquecer uma diferença análoga à que se nota entre ferver e aferventar. estabelecida a sinonímia e a diferença dos dois vocábulos – afetuoso e apaixonado – e também desenvolvido o pensamento de Fr. a ambição. Brandão. Os simples afetos são comoções brandas e suaves que se podem ajustar com a razão. O autor da passagem citada amava o escritor dos Sermões. e favorável: o parecer apaixonado não é imparcial. até que pela fervura do líquido chegue essa coisa ao estado que convém”. L. aquecer (do latim calescere. a nosso ver. temperadas.. lemos. O parecer afetuoso é cheio de carinhos. José de Jesus Maria. O afetuoso inclina-se para um objeto: o apaixonado é arrastado por ele. e arrebatado pela paixão. do latim calens. – Na linguagem da retórica. devem com madura consideração examinar as causas dos acusados e a intenção dos acusadores. começa Alves Passos observando que se sabe “o sentido em que estes dois vocábulos são sinônimos”. apaixonado.. Ferve-se a água. – Aferventar é “submeter um líquido a um grau de calor em que ele comece a ferver. .. Antonio de Sant’Anna. afetos e paixões são uma mesma coisa”. 181 AFETUOSO. Aquentar (radical quente. A amizade. “Eram caluniadores e apaixonados.. e os fez julgadores. isto é. consideradas em si e nos seus efeitos. o amor filial. de Barr. – Escrevendo Maria.. Luiz. coze-se o feijão ou a carne. Quando fortes. “Assim por conseguinte cada um dos afetuosos suspiros tiram alguma coisa da ferrugem do pecado”.. aferventa-se a sopa ou o café. “antes sem temor de que a minha aprovação possa. Eufros. O amor sensual.

– Afinidade (affinitas.. adesão. é o estado de duas coisas que se prendem uma a outra e que são mais ou menos difíceis de separar. reservando o nome de coesão para designar a força que liga as partes que formam uma substância única ou homogênea (de um corpo simples)”. pelo modo de ser”. e Berg. 127 parentesco. semelhança essencial”. fenômenos ou coisas”. semelhança. gravidade. – Relação. gravitação. a força que une entre si as partes constitutivas de um corpo. de que se compõe o sistema do mundo. Quando o corpo é formado de substâncias de natureza diferente (isto é. quase igual a outra. por isso. semelhança. – A coesão é a força que produz a coerência. a aproximaremse do centro da Terra. e no sentido lato. “é o grau de afinidade. coerência. – “Há” – diz fr. – Semelhança é “a qualidade de ser uma coisa parecida. gravitação. escreve também Roq. e todos para um centro comum. 184 AFINIDADE. muito aproximada de outra pela espécie. denominase adesão ou coesão.. propriamente. atração química. de affinis = ad + finis) sugere ideia de junção. “Isto não tem relação com aquilo” – quer dizer: não há entre isto e aquilo coisa alguma que os aproxime. quando se trata de um corpo composto) dão os químicos mais particularmente o nome de afinidade à força que une as partes constitutivas do corpo. – Parentesco. e que só tende a mantê-los adunados. chamamos-lhe mais ordinariamente gravidade: e o mesmo nome damos a essa força considerada nos corpos de que se compõe cada astro. adesão. aderência. também se chama atração planetária. . chama-se gravitação: tal é a dos planetas para o centro de suas órbitas – o qual. – Similaridade diz propriamente “igualdade de natureza. o aspeto. afinidade.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 AFINIDADE. entre duas ou mais coisas. S. é a relação de sangue ou de aliança doméstica entre pessoas. A atração que se dá quando os corpos se tocam. Chamase esta força atração. – Quanto a atração. ou “o modo de ser semelhante entre duas ou mais coisas diferentes”. Quando consideramos a atração solicitando os corpos terrestres. Quando ela exprime a tendência que têm os graves para seus respetivos centros de gravidade. inerên- cia. ou também atração de composição”. analogia. Luiz – “uma força universal na natureza que solicita todas as moléculas da matéria e todos os agregados dela. a aproximarem-se uns dos outros debaixo de certas leis. e cada uma das suas partículas. e solicitando-os uns para os outros. chamada atração. escrevem Bourg. – A inerência é a relação que une a qualidade à substância. a forma. A mesma atração considerada nos grandes corpos.. e a relação que os corpos ou suas partes têm entre si. – A adesão é a força que produz a aderência. a semelhança de natureza. a respeito desse astro. a natureza das propriedades ou do modo de ser entre duas ou mais coisas ou fenômenos”.: “Palavras científicas com que se exprimem as diferentes maneiras por que se manifesta essa força invisível que há na natureza. ou coesão. ou astros. – “A aderência. A que se exercita sobre as últimas moléculas dos corpos recebe o nome de afinidade. “algum lado ou aspeto pelo qual se liguem ou associem”. relação. – A coerência é o estado das partes unidas entre si para formar um todo. pela forma. coesão. conforme. ou analogia entre pessoas. vizinhança: é a “relação de proximidade. de propriedade ou conveniência entre duas coisas. a conexão ou conformidade existente entre as coisas sob um certo ponto de vista”. ou que seja comum aos dois. aqui. – Conexão é. toma o nome de gravitação”. – Analogia é o ponto. conexão. é “a relação de proximidade. contiguidade. que os ponha num certo grau de conveniência. similaridade. atração.

– Colar é “afixar por meio de cola”. do que se sabe”. ou por cima de outra”. É diverso da consanguinidade. – Afirmar é “dizer formalmente aquilo de que se está convencido”. Só se afixa uma coisa a outra coisa. pegar. – Apor e sobrepor também se distinguem pelos respetivos prefixos: – apor é “juntar uma coisa a outra. atar. Duas coisas fixam-se (e não – afixam-se). – Pregar é “prender por meio de prego”. corroborar. comprovar. de- duzindo. colar. chumbar. pensa. isto é. segurar. ratificar. ou garanto-lhe o que digo. uma coisa a outra. não dando mais energia ao modo de afirmar. cognato. sobrepor. agnação. e diferençam-se . só têm sentido figurado. afim.” – Grudar é “prender com grude”. parentesco existente entre pessoas do mesmo casal”. ou superior. ou que outro disse. aqui. apor. consan- guinidade. – Cognatos são os filhos da mesma mãe e de pais diferentes. soldar. Afins são. seguro. é “fazer alguma coisa pegar a outra. dá certeza daquilo que disse ele próprio. – Garantir é empregado frequentemente por assegurar. declarar definitivamente aquilo que se tinha dito”. por exemplo. como se fosse colada. – Certificar é próximo de atestar: significa “dar por certo aquilo que se sabe. “Afirmei ontem que o rei fora deposto: confirmo hoje este despacho”. pregar. isto é. Confirmar é “afirmar uma segunda vez e dar testemunho solene do que se viu. estável. de qualquer modo. – Aplicar. de pix “pez”) é. dá fiança. e vice-versa. “o parentesco pelo lado da mulher. fi- xar. etc.” Na jurisprudência antiga. – Afixar é propriamente “fazer fixo”. – Ratificar é “repetir categoricamente o que se afirmou. confirmar. asseverar. certificar. – sobrepor é “pôr alguma coisa sobre.. os concunhados. – Agnação e cognação marcam parentescos também “opostos”: o primeiro. – Demonstrar é “pôr em clareza e evidência aquilo que se disse. assegurar. argumentando. ou mesmo os cunhados. – Segurar é “fazer firme. convictamente. ou pôr uma coisa em cima de outra”. demonstrar. como trazendo em favor da afirmação testemunhos ou documentos valiosos”. aqui. Consanguíneos são os irmãos. os filhos do mesmo pai e de mães diferentes. aqui. ágnato. – Afinidade é “o parentesco resultante de uniões conjugais entre membros de famílias diferentes”. ligar uma coisa a outra. mas num sentido geral é “prender fortemente”. – Comprovar é “fazer prova mais forte de alguma coisa que se afirmou”. atestar. cognação. Mas aquele que garante (na acepção que tem aqui este verbo) assegura a veracidade. – Pegar (do latim picare. dizer. fazer aderir por meio de alguma substância glutinosa”. quer agnatos. “o parentesco pelo lado masculino. segundo Aul. convencer da certeza de que uma coisa é como se afirma”. ligar.” – Assegurar é “afirmar com segurança. – Fixar e afixar só se distinguem pelo que o prefixo ad acrescenta ao segundo. grudar. – Chumbar e soldar. o segundo. aplicar. aumentar o valor da afirmação que se fez. garanto-lhe que é exato o que ele disse”. quer cognatos.128 Rocha Pombo 185 AFINIDADE. se não pertenciam pelo sangue à mesma família. – Corroborar é “dar força ao que se disse. que significa “parentesco pelo sangue. – Atestar é propriamente “dar testemunho de que uma coisa é como se diz”. prender. agnatos. 186 AFIRMAR. garantir. etc. por parte do varão”. “Asseguro-lhe. 187 AFIXAR. cognação era “o laço de parentesco natural sem direitos civis”. o mesmo que grudar e colar: é “aplicar. aderir a outra”. explicando. com serenidade de quem não receia desmentido”. ou fazer aderir. fez.

Quem está consternado mostra-se abatido de dor e de espanto. pena. desgostoso. torturado. magoado. ou a dúvida. pesadelo. supliciado. opressão. ou por falta de ar. A criatura magoada. tris- teza. amargura. angustiado. ou que lhe alteram o humor normal. – Pesadume (ou pesadumbre. penalizado. incomodado. ou devido à moléstia que afete a função respiratória. aflito. segurar. angústia que abate o espírito (diz Bruns.. no entanto. ou. indicando ambos a ação de prender uma coisa a outra: – chumbar.). alguma coisa. numa aflição e ansiedade de quem se sentisse estrangular. etc. – Agoniado está quem sente ou parece sentir essa aflição de hora da morte. de boa vontade com que se faz. inquieto. se recebe. e por extensão. pois indica apenas a falta de prazer. amargurado. é “toda ânsia que se pareça com essa aflição de morrer”. transe. desgosto. porém mais fino e talvez mais sincero. de fios.. fita. – Atar = “prender por meio de atadura.). “unir. ou pelo que receia venha a dar-se. prender como por meio de solda”. o desgosto. a sensação desagradável que se experimenta respirando mal. consternação. do espanhol) = “tristeza lamentosa. ou ar viciado. – Desgosto é o “mau grado que nos causa algum sucesso. mas o segundo é mais forte. (Fil. – Consternação é “a grande tristeza e desalento produzidos por alguma espantosa desgraça”. e leva o aflito a obrar sem tino”. – Ligar = juntar e prender com liga ou ligadura. Opressão é.”. e mostra-se um tanto ansiosa dessa preocupação. Elys.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 129 claramente pelos respetivos radicais. nos põe. mas está como revelando no semblante a tristeza. – Inquietação é menos que aflição: designa o “estado de espírito em que o medo. menos que pesaroso. etc. dor. muitas vezes por algum motivo que não é grande. doloroso. – Mágoa é quase como desgosto. ligeira amargura”. cit. ansiedade. corda. em geral. consternado. Também ficamos pesarosos (cheios de pesar) de não ter podido evitar um mal ou de não haver involuntariamente cumprido um dever. ou pelo mal que aconteceu. – Pesar é a “dor moral. laços. como definem os léxicos.. – Opressão e angústia podem confundir-se. suplício. padecimento. “Nada viu que lhe aliviasse a saudade e pesadume”. pesadume (pesadumbre. dolorido. ou mesmo pelo peso do chumbo”. dorido. agonia. profundamente penalizado e inconsolável. inquietação. se vê.”. Aul. ou a desconfiança. a saudade que sente. de qualquer modo”. reter. A pessoa inquieta sente-se preocupada com alguma coisa que lhe desagrada. mas designa um desgosto ou pesar menos fundo. etc. atormentado. Uma pessoa triste dá indício de que tem na alma preocupações que lhe toldam vida. – Amargura é dor mo- .. Desgostoso é. – soldar. etc. – Agonia (do grego agon “combate”) é propriamente a luta que o moribundo trava com a morte na hora extrema. – Prender = “Fazer sujeito. – Aflição (de afligere (ad + fligere) “deitar por terra” é “grande incômodo moral. tormento. – Tristeza é o “estado de compunção em que se fica. que perturba a razão. não só não sente prazer. ansioso (ansiado). mágoa. incômodos. espanhol). coisa que nos fere o coração”. angústia. pesaroso. tortura. sofrimento. 188 AFLIÇÃO. tirando-nos a calma e o sossego. triste. como se a pessoa angustiada tivesse impedida a respiração. laço. Angústia é uma opressão tão forte e dolorosa. “prender como se ficasse seguro por chumbo. um sucesso que não se esperava”. pesar. trabalhos. atribulado. tribulação. ou mesmo sem motivo real e preciso”. agoniado. o sentimento de tristeza (condolência) que nos causa uma notícia.

as lidas e penas que se sofrem na vida. (e não – sofreu.. por exemplo: “tenho as mãos. torcer. o momento mais duro dos trabalhos. de sofreguidão. a cabeça. Longe.) – Dorido diz mais “triste. das amarguras: momento que se deseja “passe logo” (de transeo. Entre ansioso e ansiado convém não esquecer que há esta diferença: o primeiro emprega-se no sentido moral: o segundo. de algum bem que se perdeu. e vede se há dor igual à minha dor!”. quer físicas. (Almas doloridas. torturado se sente aquele a quem se infligem duros constrangimentos. aqui. e talvez até com uma quase ufania de os padecer.. – Ansiedade. no entanto.. e exprime “todo gênero de provações. quer pela impaciência com que espera o que deseja. dorido e doloroso confundem-se. quer morais. o sofrimento alheio”. e por extensão empregamos esta palavra suplício para designar padecimentos que se podem comparar aos de um condenado à morte. pois. Quando muito. no físico. – Dolorido emprega-se num e noutro sentido.130 Rocha Pombo ral acerbíssima. É mais propriamente a manifestação da dor que a mesma dor. Os três adjetivos dolorido.. É assim que na oração simbólica (o Credo) se diz que “. As dores do atormentado são dores que afligem e mortificam. “Oh vós que passais pelo caminho – clamava o patriarca bíblico – atendei. sugestiva de “enleiar. flagelo. – Sofrimento é o mais genérico deste grupo. o sentimento de funda tristeza que nos vence a alma no meio dos contrastes da vida. o seguinte: quem padece sofre os males com certa resignação. preces. – Padecimento é empregado na mesma acepção. ou causada pela consciência de algum mal que se fez. contrair”) significa “os tormentos a que se sujeitava o acusado quando não queria revelar alguma coisa que interessava à justiça”. causadas por sofrimento físico ou moral”. no qual figura a raiz grega plek. ou por alguma pancada violenta.. as dores. tanto morais como físicas. é o sofrimento do que vai ser justiçado. apenas o sofrimento físico – o padecimento é uma forma estoica de sofrer as coisas que nos amarguram. “O doente está ansiado”. ou longas e intensas”. é o estado de quase opressão. quer pelo receio de alguma desgraça.. os males.. Hoje. sensibilizado”. Em sentido lato. Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos”. ou o incumbido de pedir aos deuses nas preces públicas. Dor moral é a “comoção amarga. de dó.. ire). e não seria fácil assinalar-lhes clara diferença. mas doloridos). de alguma esperança que se extinguiu”. súplicas. – Transe é como a crise. ou provações comparáveis à tortura. de desejo inquieto e aflitivo em que fica a pessoa ansiosa. – Tormento é a “dor e a inquietação ansiosa. deve notarse.. ligeiras e vagas. como querem alguns autores. tormento como castigo. – Suplício (do latim supplicium. transar”) era o tormento a que se submetia a vítima nos holocaustos. – Pena é “o sentimento de desgosto. orações doridas). que nos causa a desgraça. juntas doloridas. de significar. pode notar-se que doloroso quase que se emprega de preferência no sentido moral. tortura”. . – Tribulação é “trabalho aflitivo. ou então devida a alguma anormalidade de funções de qualquer dos órgãos. ou os pés dolorosos. “A menina está ansiosa pelo noivo”. (Doridos cantos. magoado. vozes doloridas.). pois o penalizado mostra que avalia a dor do seu semelhante. – Dor é “toda sensação que nos molesta. (Não costumamos dizer. mas principalmente morais. que aflige e angustia abalando e pungindo os mais nobres e santos afetos da pessoa amargurada.. partes do corpo doloridas. – Trabalhos toma-se aqui como significando “as contrariedades. causada por alguma alteração traumática dos tecidos. O atribulado sente-se como que perseguido de aflições. – Tortura (de torquere “dobrar.

e vale por grande ajuntamento desgovernado. que este último é particularmente empregado para designar uma reunião mais importante e solene. As outras três palavras que se seguem representam afluência de pessoas reunidas num ponto determinado sem ideia de estarem em movimento. o grupo de pessoas que se juntaram para algum fim: é muito próximo de ajuntamento e de assembleia. de alarde hostil. – Multidão é uma grande reunião de gente sem nenhuma ideia acessória. O mesmo diz tropel. que ajuntamento é quase sempre tomado à má parte. isto é. à turba e à turbamulta – a ideia necessária de movimento. no entanto. seguindo todas a mesma direção: é o que se depreende da etimologia da palavra (em latim fluere. concorrência. aglomeração. afluência não se limita a designar a muita gente que se dirige a um ponto seguindo a mesma via. e comumente de assanho... mas neste movimento nada revela a ideia de continuidade. – Concorrência diz-se das pessoas com relação a um ponto dado. – Ajuntamento designa a reunião de pessoas que pararam num ponto para um fim determinado”. de que trata o referido autor: e o mesmo se diz dos demais. tropel. como. Este é uma formação pleonástica de duas palavras do mesmo valor.. significando “correr para um sítio). – Reunião é. e é como se dissesse turba-multidão. e traz consigo a desordem. – Segundo Bruns. mas este acrescenta à multidão. são as de corporações políticas. “O vasto tropel de beduínos fazia estremecer a planura”. . por exemplo. entre outras coisas. Assim. – Turba é a multidão indisciplinada e turbulenta. assembleia. turba que se forma desordenadamente. nos dias de parada. turbilhão”. mas entre os dois vocábulos há uma diferença essencial: afluência considera o movimento como contínuo e regular. – Agrupamento é reunião por grupos. reunião. Cintra atrai no verão um grande concurso de gente. como em turbilhões”. ruas da Baixa é à saída das repartições. ou indisposta. multidão. – Aglomeração (cujo radical glomus significa “novelo. as pessoas ou os grupos seguindo-se uns aos outros sem interrupção. turba. com que a pessoa incomodada se sente inquieta. formando conjunto que facilmente se destaca. triste e abatida”. quer paradas. de pesar. agrupamento. A hora em que há maior concorrência nas AFLUÊNCIA. ajuntamento. – Aproxima-se de tropel e de turbamulta. como em “gróppo di vento”). Na linguagem corrente. anárquico. Empregar este vocábulo para designar a gente já reunida no ponto a que já convergiu. há grande afluência ao local onde ela se efetua. que obra em confusão. indica que a reunião pode não ser legítima. senão toda a que vai convergindo para o mesmo sítio por diversas vias.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 131 ou que se experimentam nalguma empresa”. Tem formação análoga à de aglomeração (o italiano gróppo. “conjunto de muitas pessoas” é a ideia geral que encerram os seis primeiros vocábulos do grupo. aqui. ou não ter funções ou fins legítimos. porém. “núcleo revolto. rolo”) diz “ajuntamento feito como que em atropelo. devendo notar-se. é erro. – Afluência – escreve ele – “considera as pessoas dirigindo-se para um ponto. multidão. tumultuoso. isto é. no inverno é enorme a concorrência aos teatros. chusma. – Concurso representa a mesma ideia que afluência. 189 concurso. turbamulta. quer se considerem em movimento. ou gruppo significa. enquanto que concurso indica o movimento simultâneo de muitas pessoas que convergem por diferentes vias a um ponto dado. de que nós trataremos. de cuidado ou de dor. – Incômodo (ou incômodos) é “a sensação de fadiga.

ânimo. exceto o João que é trabalhador”. não só afronta. destemor. imponderado. há sempre. inconsideração. audacioso. “pedra de amolar”). – Confiado é aquele que mostra em si mesmo uma demasiada confiança. – O homem afoito. arrebatamento. “Todos os irmãos são vadios. O verbo aguçar (do latim acutare) significa mesmo “fazer agudo”. – Cortante diz apenas – “que corta”. todos os irmãos são uns vadios”. um canivete. heroico. – Desassombrado é semelhante a desafrontado: significa – “que não se assusta. audácia. a ponta de um punção. intré- pido. – Um instrumento afiado tem o fio muito fino. – Todas estas palavras designam qualidades ou estados de alma que se revelam ante os grandes perigos. valente. agudo. ou que se lança a encontro do perigo. quer dizer – um ânimo seguro. – É ainda de Bruns: Exceto e afora empregam-se indistintamente. não obstante. destemido. atrevimento. que corta” – define Aul. determinado. arriscado. talhante. – Amolado se diz do instrumento que se aguçou a rebolo (mola “mó”. e afora. que se mostra impávido e sereno. ou não o conhece. decidido. valor. veemente. arrojado. do que não se inclui. intrepidez. ímpeto. – Incisivo – “próprio para cortar. erecto à vista dele. cor- tante. bravo. – O desafrontado mostra que se não deixa impressionar ante um obstáculo ou perigo: antes fica altivo. exceto se diz melhor do que se exclui. mas na temeridade (que é às vezes uma como exageração do heroísmo) sempre há mais alguma consciência do perigo do que na afoiteza. denodo. temerário. bravura. atrevido. violento. penetrante. resolução. – . ardido. denodado. uma navalha afiada. – Arrojado é o que. confiança. Em sentido translato – “que opera. temeridade. resoluto. atua com força e decisão. Diremos – um bisturi. confia- do. exceto. audaz. não toma com calma as proporções do perigo: arremessa-se à luta com o desassombro e afoiteza de quem não sabe poupar a vida. no entanto. 191 AFIADO. como coisa que corta”. este adjetivo afiado. 192 AFOITO. veemência. fino. arrojo. ousado. impetuoso. nos campos de batalha. imperturbável. mas decerto que não diremos – uma foice afiada. Na afoiteza. violência. impassível. amolado. Arrojo é mais que denodo. e talhante sugere a ideia de separar de todo (talhar) a coisa que se corta”. – Aguçado significa – “de gume ou de ponta muito fina ou adelgaçada. coragem. que intrepidez e que bravura: o capitão arrojado não mede bem as consequências da investida. – Agudo diz – “muito vivo. sem preocupações que o levem a vacilar”. aguçado. uma fé perfeita no próprio valor. O temerário leva a sua audácia e resolução até uma quase loucura. ou ignorância ou falta de prudência. ou à vista de embaraços ou obstáculos opostos ao que intentamos. intrêmulo. incisivo. pode ser o gume de uma faca. a propriedade do instrumento que foi afiado. mas investe o embaraço. – Temerário já é mais próximo de afoito. valentia. impassibilidade.132 Rocha Pombo 190 AFORA. impetuosidade. arrebatado. animoso. valoroso. – Cortante e talhante exprimem a qualidade. ardimento. heroicidade. Nem a todo gênero de instrumentos se aplica. determinação. impávido. imperturbabilidade. desafogado. afoiteza. precipitado. impavidez. Nos dois exemplos seguintes nota-se essa particularidade: “Afora o mais novo. intemente. ou faz uma ideia muito imperfeita do perigo. corajoso. impertérrito. heroísmo. ou um espinho”. tornando-se por isso muito cortante. precipitação. inconsiderado. desafrontado. decisão. ousadia.

e que para investi-lo tem de juntar ao arrojo a afoiteza. O sujeito animoso é o que se conserva como é. – Ânimo não tem a força de coragem: é mais “a posse de si mesmo. propriamente”. denotando apenas a inconsideração mais leviandade que propriamente coragem. O homem fisicamente fraco e até enfermo pode bem ser corajoso. O valor consiste mais na grande- .. sem comover-se. (Resoluto parece dizer alguma coisa mais calmo e ponderado que decidido. Nem se diz. e até ímpias. o temperamento normal que se não perde no meio dos embaraços. de decidere [= de + cœdo. do que propriamente valor”. sem temer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 133 Atrevido sugere a ideia de que o arrojado é inferior em forças àquele contra o qual investe. notando-se que imponderado e inconsiderado não envolvem necessariamente a ideia de coragem afoita que se encontra em arriscado. Audácia é. a índole. – Audacioso (formação vernácula de audácia) não diz senão – “que revela alguma audácia (ou uma audácia menos nobre e legítima). leviana e confiante. – Arriscado quer dizer – “que se expõe a perigos mais do que se permitiria a uma coragem regulada pela prudência”. salvar-se pela vitória.. intemente. valor moral. talvez mais petulância que audácia. Impávido é “o que se não amedronta. arrojado. igual. A determinação parece. grandeza de alma no meio dos perigos. a constância. a firmeza com que se afrontam os perigos e se trata de os vencer. Destemido é “o que nada teme. sem probabilidades de vencer: o afoito ainda pode. O general inconsiderado meterá o seu exército em risco de desastres. Impavidez é a “serenidade com que se encara.. pois. robusto. sem agitar-se. Neste exemplo: “F. que é corajoso e intrépido”. por isso mesmo. que teme tanto castigos do Céu. pois. Quer isto dizer que atrevimento é a decisão pouco refletida. – Ousado é menos que atrevido. inquebrantável em situações difíceis. de alma forte que de força muscular. O valoroso tem mais de coragem. “coragem resoluta. pois a ousadia não é mais do que uma coragem que se funda na confiança que o ousado logrou de sucessos anteriores. A decisão (decisio. – Destemido. A valentia é qualidade de que se ufanam os campeões. com um golpe de audácia. isto é. mas o sujeito intemente é o que não teme aquilo que é natural se tema. consequência da resolução que se tomou. impávido poderiam confundir-se. com que alguém se arrisca a um perigo. Não seria de estranhar que muito sujeito ousado viesse a mostrar-se covarde. sendo a resolução um ato que resulta de reflexão. que vivem sempre felizes” – parece que fica muito clara a significação do vocábulo intemente (apenas – “não temente”). – Inconsiderado significa o mesmo quase que afoito. desafrontada. no entanto. é tão desgraçado: vejo. – Coragem (do baixo latim coragium “força do coração) designa propriamente a energia moral. – Audaz (conquanto oriundo da mesma raiz de que proveio ousado) envolve as ideias de intrépido. pode conservar espírito forte. – Valente e valoroso andam de ordinário confundidos. – Decidido é “que não vacila ante obstáculos ou perigos”. algum perigo”. mas o primeiro se aplica de preferência ao indivíduo que é forte no físico. quase temerário. criaturas intementes. – Imponderado é convizinho dos dois precedentes. e parece dar mais prova de irreverência que de destemor. que não se abala de pavor”. que despreza os tropeços”. sendo o destemor uma das grandes qualidades do herói. “valentia moral”. ere] “cortar”) revela-se no ânimo seguro e pronto com que alguém se dirige em dada conjuntura. alentado e animoso. que se mostra calmo e tranquilo ante o que pode sobrevir.) – Determinado diz melhor a firmeza com que o resoluto executa o que resolveu. que mostra ousadia extrema. que zomba dos perigos.

ou um inválido. assim. senão – “uma súplica veemente”. mas a precipitação enuncia mais claro um ato fora de toda consciência. como já se disse. explicando-lhes a diferença. do que propriamente no vigor de um físico sadio e robusto. A intrepidez é a qualidade daqueles que. e apenas não pensar nas exatas proporções dele: o precipitado não cogita do perigo. de afronta. o ataque. a desgraça. que é animoso. Veemência é “a viva intensidade de uma apóstrofe. por exemplo: – “um pedido”. sem se aperceber do perigo. Intrêmulo diz – “que não treme diante do perigo”. esplendor das ações (sendo heroicidade a “qualidade de ser herói”). de uma abnegação que excede a tudo que tem de augusto o heroís- mo: e é a isto que se deve chamar arrebatamento moral. mas de uma bravura que vai até o delírio. e conserva a coragem e a calma nos combates”. de censura ou de exprobração”. Precipitação é. imperturbável. que não volta as costas ao inimigo. e significa. Um homem precipitado atira-se a um abismo sem o ver. dos escarmentos”. – Violento é muito distinto de precipitado. o violento só não dá ao que vai fazer uma atenção perfeita. pois o sujeito afoito pode ainda ter ideia do perigo. pois. desafrontado. – Intrépido é aquele que não vacila na investida. – A bravura pode-se dizer que é a virtude dos homens de guerra. e só figuradamente se aplicaria à grandeza moral dos que triunfam pela excelência de virtudes mais excelsas: dizemos. dá provas mais que de coragem comum. para não trepidar ante a própria morte. pois heroísmo é tudo isto junto: grandeza de alma. de um ato de coragem. alguma coisa mais que afoiteza. Não se teria por heroísmo a valentia de um sujeito que vencesse a um enfermo. no entanto. portanto. – Impetuoso é o que cede a impulsos instantâneos da sua coragem e pratica atos heroicos que parecem mais inconsiderados do que atos voluntários de valor. no esforço e altivez com que se afronta a desgraça ou o inimigo. têm valor para arrostar o mal. Ninguém diria. ou que matasse uma criança. resolução é o “intento ou o propósito que se tomou depois de haver muito refletido na coisa que se trata de resolver”. ou um impulso mais devido ao temperamento que à decisão de quem obra”. O homem que salva de um incêndio uma criança. rápido e violento”. que se aventura. dos perigos. pois ímpeto quer dizer mesmo “decisão súbita e veemente” (e impetuosidade é a qualidade de ser impetuoso). ante só perigos. livre de receios”. sendo a violência “uma perpetração. – Arrebatado é “o que se incende de sentimentos heroicos diante das desgraças. além de impávidos. nem mesmo ao que viesse a triunfar da fé. – Resoluto é quase o mesmo que decidido: apenas no resoluto se supõe uma reflexão mais funda do que no decidido. – Heroico é o que se mostra digno de triunfar galhardamente pelo valor moral. A própria formação destas palavras está. – Impertérrito é antônimo de pertérrito. “que não se assusta diante do inimigo. sem pensar nele. – Veemente quer dizer “impetuoso e forte. por esforço hercúleo. – Precipitado confunde-se com inconsiderado e imponderado. – Ardido é galicismo pouco usado (hardi) significando propriamente “atrevido. excelência de intuitos. ou que se abalança a atos de audácia pouco refletidos (ardimentos)”. se mostram isentos de preocupações que não sejam as de se mostrarem desembaraçados de tudo para alcançar o que almejam. coragem desassombrada. pela constância.134 Rocha Pombo za de ânimo. que é um bravo o homem que num dado momento da vida se portou com a majestade de alma própria dos heróis. – Intrêmulo. impassível são convizinhos muito íntimos. pois. O denodo é a qualidade dos que. – Denodado significa “desprendido. – imper- .

mas não afronta. não obstante que aquele nos causa um prejuízo efetivo. a mulher. mas não afrontado. em outro §: injúria apresenta a ideia de agravo violento. nem pretender elogios. irrisão. a vaidade que a modéstia”. Quixote: que a afronta vem da parte de quem a pode fazer. e faz e sustenta. E assim. e faz o que lhe cumpre como homem de brio. Se o que deu as pauladas ficara de pé firme fazendo rosto a seu inimigo. agravo. nem olha como leves os insultos. chacota. segundo as leis do maldito duelo. escárnio. ou o mal que o assalta”. ficaria o que levou as pauladas agravado e afrontado juntamente: agravado. comumente. pois que a afronta há de ser sustentada: circunstância que não é necessária para constituir o agravo. “que se não perturba. mete o homem mão à espada. não. crê-se agravado. mofa. feito às qualidades pessoais de alguém. porque nas mulheres pode mais. ofendida uma mulher a quem se disputa a boa figura. vexame. e dá-lhe duas bengaladas. esta. apodo. chegam dez indivíduos armados. segue-o o homem. e o não conseguiu. portanto. O mesmo confirmará outro exemplo: Está um homem com as costas voltadas. – impassível. “que nada sofre. remoque. só nos incomoda com um prejuízo fundado. porém. zombaria. A impassibilidade pode. porém. eu posso estar agravado. Aquele prejudica-nos talvez sem nos afrontar. quando . ainda que não haja injustiça. na opinião. sátira. não se pode dizer que dança mal sem fazer-lhe um agravo. porém esta. de que decerto se não dará por ofendido. o agravo pode vir de qualquer parte sem que afronte. O que tem direito a um acesso. como já notou d. ultraje. e foge. o homem. Não agrava o que diz de outrem que é torto. para a ofensa basta que haja insulto. que é vingar-se: este homem fica decerto agravado. diz Roq. ou no capricho. afrontado. insensível diante do que vê. insulto. de atonia moral. ou estado de ânimo. chasco. crê-se ofendido. e a pé firme. sustentou o seu feito sem voltar as costas. e dão-lhe pancadas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 135 turbável –. sem ter nisto vaidade. O que levou as pauladas recebeu agravo. – O agravo atropela nosso direito. troça. avania. porque lhe deram à traição. 193 AFRONTA. De um homem que dança bem. e não o alcança para castigá-lo. – “há esta diferença. não se altera ante o perigo. – Quanto a injúria e ultraje. injúria. Por isso. e este não perdoa com facilidade. não vê nisto mais que uma injustiça. mas a multidão dos contrários se lhe opõem. – ultraje apresenta a ideia de vilipêndio público em detrimento de alguém. Para o agravo é preciso que haja injustiça. ou um vício. ou uma declaração de sua insuficiência. ou nos humilha. ofensa. porque aquele. toma-o como desprezo ou insulto. esta afronta-nos sempre. ainda que ela mesma conheça que a não tem. Tratar de feia a uma mulher formosa é um agravo que. chega outro por detrás. porque o agressor lhe fez rosto. Desconfiar da probidade de um homem de bem é uma injúria. Seja exemplo: Está um homem na rua descuidado. dissimula-se o agravo mais facilmente que a ofensa. tratá-lo publicamente de ladrão é um ultraje. ou a afronta. afrontado. ou do que ouve”. se a este agravo acresceu um desprezo do seu mérito. quando realmente o é. em regra. que deprima. porque em dizer aquela verdade não se dá a injustiça que exige o agravo para o ser. a ofensa junta ao agravo o desprezo ou o insulto. privando-nos realmente do que nos pertence. porém ofende aquele a quem se diz. a ofensa. – “Entre o agravo e a afronta” – diz Roq. e não o deixam levar avante o que intenta. que se mostra indiferente. ser uma virtude de estoico. gracejo. fica. porque insulta seu amor-próprio e o humilha. porque a ofensa nos choca diretamente com o amor-próprio.

arrostar. – Gracejo é de todos os do grupo o menos forte. que expõem a vítima a irrisão pública. e extorsões que os muçulmanos faziam aos cristãos”. irritantes”. insultos. janta.. com ostentação.. excluindo a ideia de medo. é mais modesto. porém: que afrontar não implica a ideia de luta que existe em arrostar. bródio. alimento”) é “refeição abundante e alegre”. e. por atos ou palavras. ficou (do grego ágape “amor. de ditos pouco delicados. aqui. A palavra com que se designou aquilo. portanto. a atitude com que se falta ao devido respeito com alguém. – Vexame é “tudo o que constrange. como é sabido. e que depois foi proibida pela Igreja porque quase sempre degenerava em orgia. – Comezaina é ágape menos nobre. encara-se a sangue-frio o perigo. – Pândega é “rega-bofe estrondoso. – Afrontar e arrostar. violência. Encara-se com terror a morte. pode ser mesmo oferecer-se até certo ponto a ela. – Sátira. porém. – Troça. apenas o bródio é menos charro. – Mofa é também o sinal – palavras ou gestos – “com que se mostra desprezo por alguém. torpeza”) significando hoje “grande e farta refeição alegre. – Ágape. Afrontar a morte não é combatê-la: é encará-la impávido. por palavras engraçadas ou escarninhas”. aqui. festiva”. escândalo. – Escárnio (do italiano schérno) é mais forte do que muitos deste grupo: ajunta à intenção de ofensa a ideia de nojo e repulsa. – Chacota é “zombaria por ditérios ou termos burlescos”. – Chasco é muito semelhante a remoque. que melindra o pudor”. gracejo pesado. dirigido a algum defeito ou a alguma falta da pessoa a quem se ofende. maliciosos. – Remoque é “dito picante que disfarça uma censura ou repreensão”. – Insulto dá ideia de ofensa feita de propósito. era a refeição com ares de cerimônia cultual. – Bródio é quase o mesmo que patuscada. encerram a de denodo. conquanto animado. poucas haverá. breque- feste. é a palavra picante. expondo-o a ridículo. Arrostar peleja frente a frente. o insulto disfarçado. que os primitivos cristãos faziam em comum e às ocultas. – Avanias são propriamente as “vexações.: “No sentido figurado destes verbos – escreve ele – o menos expressivo é encarar. – Zombaria é o dito. de entender de Lacerda e de Roquete. – Rega-bofe é grande folia de comes e bebes. 195 ÁGAPE. – Arrostar (vocábulo derivado do latim rostrum “esporão de navio”) é o mais expressivo deste grupo. – Apodo (mais usado no plural) é “o remoque ligeiro. que o não tenham por ultraje”. um complemento que lhe determine a significação. patuscada de vagabundos. preferimos o de Bruns. patuscada. jantar. Os exploradores do polo afrontam a morte por amor à ciência. pândega. – Ao modo muito. acrescentando a este a ideia de desprezo. e passou para a língua significando vexames. escarnecer da vítima”. encarar. o ataque. – Irrisão é a “zombaria que consiste em rir. – Brequefeste (do inglês breakfast “almoço. – Patuscada é comezaina que desanda para a troça. rega-bofe. comezaina. com intuito de ofendê-lo”. banquete. Diz neste caso – “ofensa por meio de graçolas. Encarar necessita. é termo popular significando “a zombaria aparatosa que se faz com alguém. com esta diferença. e sugere o intento de insultar e expor à vergonha. às vezes mais brincando que ofendendo”. e tanto que reclama um adjunto quase sempre para que se torne ofensivo: gracejo de mau gosto.136 Rocha Pombo 194 AFRONTAR. onde há mais fartura de comidas que delícias. intentando obrigar o inimigo a que recue”. porém. o gesto.” – . não devera passar de injúria. isto é.

que não sofrem as ânsias da morte. para exprimir o ato de morrer. ser agradável. do que carece da polidez das cidades. tanto falando de homens como de animais.. – Agreste.. porém. tem a mesma origem deste.. e. a ideia de como o que recebeu benefícios quer dar provas da sua gratidão. – Agonizar é hoje usado só como intransitivo.. fundadas por mútua convenção social. reconhecido por favores”. ou por algum motivo excepcional”. O homem agreste é grosseiro a ponto de ser intratável. manifestações disso. plantas raquíticas. refere-se à grosseria. no entanto. nem trabalhado com arte o objeto rústico. Por alguém que nos proteje ou socorre ficamos reconhecidos. selvagem. inépcia. 196 AGONIZAR.. ou sem a beleza da arte. Diz-se de pessoas e de coisas. rústico implica falta de tato. É assim que há pessoas que morrem sem agonia. cativo. – Entre silvestre e selvático há diferença bem fácil de assinalar: flor sel- . 198 AGRESTE. à baixeza. silvestre. do seu apreço por aquele que lhe fez bem. – Agradecido é o que não se esquece do benefício que recebeu. que não agonizam no momento de morrer. diz Bruns. – Cativo – tão reconhecido por serviços. apreciáveis os seus sentimentos. difere de agreste. e pode faltar às leis da conveniência. obri- gado. que implica a ideia de rudez moral. – Silvestre é o que é próprio da selva. epíteto menos frequente que campestre. – Rústico (em latim rusticus. – Reconhecido dá. as maneiras agrestes. dizendo-se indiferentemente – flor agreste ou flor silvestre. não podem ser suportados por quem se habituou às delicadezas. Por uma gentileza fica-se grato. segundo o mesmo autor. (do latim agrestis. – E campesino. “Um lugar agreste só tem rochedos escalvados. dado em honra de alguém. – Grato é igualmente o que é sensível ao benefício. o que nasce e vive nos matos. Por um obséquio fica-se agradecido. refere-se a tudo que pertence ao campo cultivado. devido mesmo à sua própria simplicidade. podendo ser. do esforço e aflição de estertor em que se vê o moribundo. ainda assim. mas. ao trato da boa sociedade. que se julga como preso moralmente àquele a quem as deve”. reconhecido. de ager “cam- po”). de rus “campo”. isto é. – Banquete é “jantar solene. de beleza natural. penhorado.” – Campestre. os costumes agrestes. mas guardando intimamente a lembrança do bem que se lhe fez. sem fazer. gentilezas. para indicar a flor que não é cultivada. O homem rústico carece de urbanidade. selvático. e geralmente só encerra a ideia de viver ou habitar no campo. – Obrigado = “que se julga em obrigação moral com alguém que lhe fez alguma fineza”. sem cultura. no entanto. rústico. feito em família”. estertorar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 137 Jantar é uma das duas refeições normais feitas diariamente. pode. e janta é o “jantar mais simples. campesino. Não é polido. isto é. agreste exclui toda ideia de cultura. – Em sentido desfavorável. aplicado a pessoas ou ao que lhes é particular. e dá provas disso. não conhece os usos da gente fina. – Penhorado = “obrigado. – Estertorar acrescenta a agonizar a ideia do trabalho. 197 AGRADECIDO. e nunca se toma em bom sentido. grato. Confunde-se frequentemente com agreste. etc. Falando de sítios. melhor que os dois precedentes. etc. terrenos ingratos. sugerindo ideia da luta que o moribundo trava com a morte. à rudeza. campestre. como antônimo de urbs “cidade”) diz-se do que tem o caráter próprio da simplicidade aldeã ou camponesa. São propriedades rústicas as que constam de terras de lavoura. rudez intelectual. portanto.

O cultivador vive de cultivar: é a única ideia que o vocábulo sugere. porém. ao campo onde se trabalha. e corresponde a agrícola. se o homem de quem se trata é rude. porém. trabalho agrícola (não – agrário). agricultor. seja de conta própria. a agronomia é a teoria dessa arte. etc. visto que para ser agrônomo não é necessário possuir terras. – Agricultura – escreve Bruns. se dedica à agricultura. pois. – Entre rural e rústico (ambos oriundos de rus “campo”) há uma diferença análoga à que se acaba de ver entre os dois precedentes. próprio da cultura dos campos”. 199 AGRÍCOLA. Dizemos: medidas agrárias (e não – agrícolas). conforme fosse o crédito fundado na propriedade rural em si. 200 AGRICULTURA. quando seguido de um complemento.138 Rocha Pombo vática decerto que não é simplesmente a flor que não foi colhida nos jardins. às propriedades territoriais”. Lavrador é o homem que lavra a terra. ou fundado na produção agrícola. a agronomia é teórica. No sentido rigoroso. Numa ordem de ideias mais restrita. este vocábulo. o proprietário das terras que explora. brutal como os que vivem nos matos. O agricultor. não é indiferente empregar um em vez de outro. . grosseira como a selva bruta. Não há. – Os substantivos agricultor e lavrador confundem-se frequentemente na linguagem comum. grandes lavradores. disforme. senão que a exerce como ocupação. – Agricultor e agrônomo também se confundem frequentemente. Tratando-se de pessoas não se diz silvestre (e sim. lavrador. o que não está situado dentro da área urbana. pequenos agricultores. rural se aplica à propriedade. O agrônomo é o indivíduo versado na teoria da agricultura: pode ser agricultor ou não. A cultura dos campos efetuada constitui a agricultura. agrônomo. no seu valor próprio. mas rústico se aplica ao que não está cultivado. de determinadas plantas. de letras. indica uma especialidade: há cultivadores de cereais. relativo às terras ocupadas. a qual varia de processos à medida que a agronomia se aperfeiçoa. nem lavrá-las: basta ser entendido em agricultura. Diríamos: crédito agrário. – Agrí- cola e agrário não poderiam confundir-se: agrário (de ager “campo”) diz apenas “próprio do campo ou das terras utilizáveis. mas poder-se-á dizer selvático. enquanto que a flor silvestre pode ser tão delicada como as que se cultivam. e com eles designa-se indistintamente o indivíduo. rural. Agricultor é o proprietário que. rústico. e pequenos lavradores. – Cultivador é um termo genérico que se pode dizer tanto do agricultor como do lavrador. de artes. proprietário ou rendeiro. O colono habita terra que não é sua própria.. ou crédito agrícola. lei agrária (não – agrícola). selvagem). por si próprio (ou de sua conta) e em ponto grande. ou mediante jornal. e corresponde a agrário. Colono só remotamente encerra a ideia de agricultura. seja para que a cultive. Há lavradores ricos. Ambos se empregam para designar o que não é da cidade. lavradores pobres. à propriedade territorial em si. porque se refere à profissão do indivíduo. seja de conta alheia. e não à arte que ele exerce. não só conhece a agricultura como arte. e não obstante.. O agricultor é. que explora terras e as cultiva. agrário. A agricultura é prática. à vida dos que se dedicam à exploração das terras. mas a flor sem beleza. que ele considera como uma arte pela qual sente gosto. estes vocábulos divergem entre si. agronomia. colono. seja para simplesmente povoá-la”. inculto. agrícola (de ager e colere “cultivar”) já significa “relativo ao trabalho. – “é a arte de cultivar a terra. cultivador. sendo a ideia de propriedade e de riqueza inerente a este vocábulo.

Esperar é ter esperança. ou pondo-os debaixo de uma corrente de água. mais finos. astúcia (astuto e astucioso). sagacidade (sagaz). ou noutro líquido”. “aguardar é estar à espera. ou se vem alguma coisa ou pessoa. dando atenção. – Alagar e inundar também se confundem. no entanto. Dizemos – regar ou irrigar as plantas. mais delicados. banhar. A vista aguda apanha diferenças. que deve suceder ou vir. Mas alagar sugere a ideia de que a porção de espaço alagada ficou por algum tempo debaixo d’água (como formando lago). dos fatos.” – Banhar é “meter n’água alguma coisa. se o trabalho de umedecer as terras é feito por meio de canais. Irrigam-se as plantações. os campos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 AGUARDAR. A penetração vê no interior. represas etc. encher de água. A agudeza vê os objetos mais subtis. e por translação se aplicam ao entendimento ou à vista intelectual. – A perspicácia da vista vê claro por entre. ou na grama orvalhada. banhar de água. As grandes chuvas alagaram os campos. subtileza (subtil). para que não murche tão depressa. imergindo-os. molha-se a cabeça apanhando chuva sem estar coberto. as ruas. – Molha-se o dedo na salmoura. as qualidades das pessoas e das coisas. – Água-se uma flor. e através da nuvem. e que se descobre o mérito que se oculta. ressentindo-se da etimologia. Irrigar. as mãos. molhar. – Molhar é propriamente “umedecer ao ponto em que a coisa molhada perca o estado de secura. ou que se presume sucederá ou virá. as lavouras. 203 AGUDEZA (agudo). – Aguar diz apenas – “derramar água sobre alguma coisa. molha-se os pés na sarjeta. ou o pensamento . particularidades. José de 139 Lacerda. Rega-se o canteiro. finura (fino). no fundo dos objetos. 202 AGUAR. argúcia (arguto e argucioso). se o suor é tanto. – Os três primeiros substantivos do grupo.. A ruptura do açude inundou o caminho. – “vem do latim sagax. É pela sagacidade que se apreciam. segundo S. e inundar envolve ideia de extravasamento. ou se tão abundantes são as lágrimas que as faces fiquem tão molhadas como se tivessem saído d’água. regar. minúcias que escapam à visão comum. – Banha-se o rosto.” O homem perspicaz vê claramente através dos disfarces. ou por transbordamento. e também fica-se com as faces banhadas de suor. os campos. obscuro. olhando se sucede. “exprimem diferentes qualidades da vista corporal. – Segundo d.. de invasão de água por excesso dela em outro ponto... inundar. dizemos – que se irrigam. perspicácia (perspi- caz). a densidade. A palavra. – Sagacidade – diz Bruns. e os que. tino (atinado). designa a qualidade especial de descobrir sem esforço o que é confuso. Mesmo tratando-se de campos. do véu. Luiz. esperar. emaranhado. rega-se a goles de água ou de vinho a garganta ressequida. Espera-se o que é feliz ou agradável. os jardins. não é mais do que uma extensão de regar. a solidez.” – Irrigar e regar confundem-se. e estas durante muitos dias ficaram alagadas. penetração (penetrante). e não – que se regam. se representam como tais. aguardar algum bem que se deseja e se julga que há de vir. regam-se as hortas. por sua posição. ou aguar tão bem como se a coisa banhada tivesse imergido n’água. atilamento (atilado). no seu justo valor. a dureza própria ou normal. num vaso. alagar. irrigar.. que se dizia dos cães que tinham delicadeza de olfato para achar a caça pelo rasto. mas não dizemos – regar as ruas (sim irrigar). o que se aguarda pode sê-lo ou não”. do obstáculo.. juntar água a. A vista penetrante alcança o íntimo das coisas. ou de lágrimas. A enxurrada inundou as ruas.

a escolha do falar. apoiar. estear. ponta. escora alguma coisa para que não vire. e também de menor emprego de força que em suster”. apurado. pois em aguentar. ou a escora impede apenas que a coisa amparada se desloque de todo.140 Rocha Pombo que se disfarça. sustendo-a. se inclui ideia de ação momentânea. haste. – Amparar é “impedir. a facilidade de compreender. de ferro. na distinção notada entre os respetivos radicais: o espeque (do inglês spike “espigão. ou de cair. especar. que alguma coisa caia”. a agudeza natural. especar e estear confundem-se com apoiar. pois o espeque. portanto. que exprime a ação ou o efeito geral que os três primeiros particularizam: escorar é dar apoio por meio de escora. Uma trave que serve de apoio a outra nem por isso se deve dizer que a ampara. para que daí não saia ou não se desvie”. Escorar e especar distinguem-se ainda de estear por isto: o que se especa ou se escora não descansa propriamente sobre a escora ou o espeque. sustentar. mas não sugere. amparar. Escora é um espeque mais forte. ou não caia de uma vez.” – Tino é “a finura instintiva. artifícios para enganar. O espírito arguto agencia razões para envolver o adversário na disputa. Finura é frequentemente sinônimo de velhacaria e de diplomacia. como define Aul. Astuto = “sagaz no enredo. – Argúcia será então a “subtileza no argumentar ou no discutir”. só se especa ou só se escora . – Sustentar é uma ex- tensão de suster: dá ideia do maior esforço com que se apoia ou se mantém alguma coisa no lugar próprio.. penetrante”. ou de inclinar-se demais. a oportunidade de obrar. A diferença consiste. – Astúcia é a habilidade no emprego de ardis. ou tato muito subtil para apanhar o que nos interessa. – Aguentar é propriamente. o cuidado meticuloso com que se faz alguma coisa sem nada esquecer do que lhe pertence. enquanto que a coisa que se esteia assenta. dissimulado e malicioso”. cavilha”) é uma peça com que se prende. ou pelo menos de menor duração. na discussão. empregando esteio. para sentir o que convém. acima”. com que se impede alguma coisa de virar de uma vez. um como faro. Exemplo: “É uma criatura de tino admirável: e faz tudo com tanta habilidade e atilamento que maravilha os mesmos que a educaram”. segurar”) significa também “manter (alguma coisa) no lugar em que está”. como observa Bruns. mas que a ampara. segura. fazer firme. – “conservar em equilíbrio sobre a corrente da água”. segundo a formação do vocábulo (susum pendere) diz precisamente “deixar pendente em cima ou no ar”. escorar. – Escorar. esteio é uma peça muito maior e mais forte. ideia de esforço. em que assenta algum grande peso e fica firme. Argucioso é o que usa de argúcias. – Apoiar é também “impedir a queda. e por extensão – “manter alguma coisa no estado ou na posição em que se acha. especar é fazer o mesmo com espeque. Não se há de dizer. repousa. – Suster (de sustinere. o que é razoável”. o abaixamento de alguma coisa”. – Subtileza é a qualidade de subtil. Finura é um termo genérico pelo qual se designa a habilidade de ver. de sofismas. portanto. de madeira ou de metal. e tenere “conservar. estável. e estear é pôr em segurança. ou de pedra. 204 AGUENTAR. – Suspender.” – Atilamento é “a habilidade. tão bem como amparar. Além disso. Astucioso – “que usa de astúcias para enganar”. nem estear um galho de árvore para que não se quebre.. não penda. ou o vigamento de um edifício. suster. de madeira. comumente uma trave mais ou menos grossa. especar um telhado. – Subtil = “agudo. suspender. e é mais expressivo que o primeiro. Se alguém impede que uma senhora dê uma queda não se diz que a apoia. se apoia e fica firme sobre o esteio. a perspicácia. de susum “para cima.

– Lente ou leitor é o que. expondo suas doutrinas como próprias. – Quanto aos três últimos vocábulos do grupo. tornando segura. que é moderna na língua. e tanto que com perfeita propriedade se deve dizer: educador da mocidade (não institutor). que dá o verbo to stay “ficar. para que venha a ser na vida o homem que se deseja. professor. – Preceptor dizemos do que está encarregado de instruir. suportar. e não o perde um instante de vista.: – Mestre dizemos do que ensina alguma ciência ou arte. Egas Moniz foi aio de d. e pode-se dizer superficial e ligeira. Institutor. e resistir. institutor. – Aio é a palavra que antigamente se usava em lugar de preceptor. Mas o educador faz tudo isso. catedrático. lente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 141 como provisoriamente. III. contidas num . para o formar moralmente e facilitar-lhe todos os conhecimentos possíveis: dirige-lhe a educação e a instrução em geral. pois o esteio (do inglês stay. institutor da infância (não educador). Também lhe chamavam naquele tempo amo. para fazer que permaneça seguro. de esgrima. por isso se diz: mestre de gramática. O preceptor dá preceitos e conselhos continuamente a seu aluno. de equitação. pois o próprio termo educador pode não ter a extensão que se atribui ao institutor. O esteio apoia. de tudo quanto lhe interessa. diz com muito mais precisão “o que se encarrega de preparar na alma da criança os fundamentos sobre que há de assentar a educação futura”. – Segundo Roq.: “Todos estes ensinam em público uma ciência ou faculdade. tendo recebido já o menino ou o moço que lhe veio do institutor. ou estar no mesmo lugar”) sugere a ideia de permanecer em posição vertical. e que se esteia para fixar. pois sempre se subentende que a coisa a escorar ou a especar já não está em segurança. etc. de educar um menino. – Quem educa não dá só instrução: nutre.. que se especa ou se escora como um recurso de momento. para evitar uma queda. ao encarregado da educação de qualquer menino. aguenta em cima. mas em cada um deles concorrem circunstâncias particulares que os distinguem entre si. orienta. 35) Amo é hoje desusado neste sentido. 205 AIO. como orador. portanto. firme a coisa esteada. – Institutor é o que ensina meninos em estabelecimento público. o mais expressivo da função de educar crianças. ensina em público uma ciência ou faculdade. inabalável na posição que se quer. Segue-se. Instrutor militar. com se oferecer a dura morte O fiel Egas amo. aio refere-se particularmente ao que educa fi- lho de príncipes ou de grandes senhores. – Professor é o que professa. educador. e tem um certo número de discípulos. – Instrutor é propriamente o que dá alguma instrução prática. como ainda se lê em Camões. ou ruína iminente. Educar é dirigir o educando. segundo o método escolástico. Sugere este vocábulo a ideia de criar. entre todos os do grupo. Talvez que seja. diz Roq. cujos pais o confiaram à sua direção. O mestre dá lições a certas e determinadas horas. mestre. amo. Afonso Henriques. preceptor. mestre é todo homem que dá lições. foi livrado (Lus. guiá-lo pelo bom caminho (e até pelo mau caminho não deixaria de ser educar). de dança. falando do mesmo Egas Moniz: Mas. prepara num certo sentido o espírito do discípulo. toma conta de toda a sua conduta. lia ou explicava as doutrinas aprovadas pela escola ou universidade. pedagogo (e pedagogista). formar (instituir) o espírito do educando. instrutor. e quase sempre ostentando seu saber oralmente. portanto. de música. instrutor de ginástica. preceptor. O mesmo não se dá em relação a estear.

– Pedagogo e pedagogista. nem mesmo elegan- te: basta que tenha nos modos. à presunção com que o pedagogo alardeia a sua capacidade. acrescenta às qualidades de airoso. galhardo. a palavra formosura. – Airoso se diz de quem apresenta um aspeto agradável. generoso. esbelto (esbelteza). cavalheiro. e que. pertence-lhe o nome de professor”. gentil (gentileza). (V. – Gentil é “o que tem delicadeza. ornada com os retoques da modéstia. Disto nos deixaram exemplos dois mestres da língua. – Fidalgo é o que se mostra fino. ou a uma corporação religiosa. encanta. – “acompanhado de nobre presença. fidalgo (fidalguia). galhardo (galhardia). reuniões literárias etc. cavalheiresco (cavalheirismo). podendo até não ter a profissão de pedagogo. suave. delicado nas maneiras. a de distinto. – Catedrático é o proprietário de uma cadeira (cátedra) de universidade (ou de uma escola superior) em que ensina a faculdade de que está encarregado. é “o dom subtil. deve aquela usar-se particularmente quando se fala do masculino”. galanteria). no andar uma certa graça (airosidade). de ser aprimorado sem afetação. tem também o nome de lente. bizarro (bizarria). gazil. são sinônimos de professor. sem pertencerem ao corpo universitário. ou a uma universidade. mas é sempre condecorado com o título de mestre. nobre é o que. distinto (distinção). 116) – Consiste a beleza e a formosura na boa proporção e harmonia das partes que compõem um todo. 441). garboso (garbo. pois aludem. cavalheiroso. Deve notar-se que pedagogo é o professor que ensina segundo a pedagogia. Graciosidade é a qualidade de ser gracioso. diz: “Era de tão rara gentileza. ateneus. tem nobre aspeto. – Nobre. galante (galantice. e sendo esta privativa do sexo feminino. tafularia). nobre (nobreza). e é distinto e gracioso”. é mais varonil que a formosura. formoso (formosura). garbo próprios de fidalgo”. É donairosa a pessoa que é mais engraçada que graciosa. elegante. a quem chama galhardo e belo. vistoso. guapo (guapice). que tenha uns ares que nos agradem. impressiona mais o coração que os olhos. E o padre Bernardes.” (V. taful (tafulice. seduz”. A pessoa airosa pode não ser bela. Tomam-se. graça). é austero na moral. – Engraçado é o que mostra alguma graça nas maneiras. O professor pode não ser catedrático. pois a graça é uma prenda mais espiritual. O catedrático pertence sempre a uma universidade (ou a uma escola): se ensina à antiga. se professa à moderna. etc. que consiste num modo de ser que atrai. e pedagogista é o versado em pedagogia. no porte. portanto. grácil (gracilidade). lindo (lindeza). delicado. – A graça é mais que o simples donaire. digno. A elegância consiste no modo de ser discretamente belo. bonito (boniteza). engraçado (graciosidade. – Elegante é “o que é bem modelado. elegante (elegância). – Gracioso é aquele ou aquilo cujo aspeto tem graça. O lente ou leitor pode pertencer. além disso. 206 AIROSO (airosidade). pois há muitos homens sábios e instruídos que. falando de Absalão. donairoso (donaire). – Graça. porém. no falar. Gentileza é “a galhardia e bom ar” – diz Roq. que têm hoje acepção muito diferente da antiga. gracioso. porém. garrido (garridice). limita-se a representar aquela ideia com relação . quase sempre a má parte. falando de Fortunato de Chiaromonte. aqui. principalmente o primeiro. professam em academias. belo (beleza). enquanto que o donaire é apenas uma aparência airosa. Vieira. loução (louçania). diz: “Esta foi a pensão que pagou Absalão à sua gentileza”... do qual se não afastava. mas esta é menos distinta e brilhante. garbosidade).142 Rocha Pombo compêndio. A nobreza confunde-se com a fidalguia. neste grupo.

pois distinto significa apenas – “que não se confunde com o comum. Tafularia é a facécia do taful. cavalheiresco”.. – Tratando-se do homem.. varonil. além de elegante. – Coisas análogas devem dizer-se em relação a taful. ataviada com gosto. do Hércules Farnésio. Também se entende especialmente das boas proporções do rosto acompanhadas de graça e donaire. faceiro. talvez com ditos engraçados.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 143 ao agradável. dos quais não pode. o que tem aparências de saúde. graça. a palavra beleza representa a ideia da perfeição possível. Taful significa – “loução. e ornato dos trajos. –. etc. – Bonito é um diminutivo de bom. – Esbelto (ou esvelto) designa “o que é de formas corretas. que se sai garbosamente. que se destaca do vulgo”. Garboso é o que. da tarefa. Gracilidade só deve aplicar-se ao que é pequeno. quando queremos designar o que tem maneiras de alto bom-tom. e toma-se ordinariamente pelo oposto de feio. – Gazil e grácil são adaptações do mesmo vocábulo latino gracilis. que o primeiro . viciado por algum capricho ou costume. interessante”. Tafulice é a qualidade de taful. e formosos para todos. que pretende agradar às damas. à ternura de um afeto: a tudo isso assenta propriamente beleza”. vivo. pode notar-se. – Garbo é “um quase orgulho de ostentar figura e galhardia”. se pudesse vestir à francesa. como diz o prolóquio: “Quem o feio ama bonito lhe parece. Bizarria é tudo isto junto: elegância. que tomou na linguagem vulgar um sentido especial. as graças. são belíssimos para os inteligentes. dizer-se que são formosos. de onde vem galante. Coisa galante quer dizer – bem ornada. Gazil é corrupção de grácil. engraçada. se mostra altivo. – Galhardo (do italiano gagliardo) diz – “robusto. Garbosidade é a qualidade de ser garboso. da expressão do rosto. Galantice é a qualidade de ser galante. franzino. os ditos de que se serve o galante para agradar. forte. põe a formosura no que está mais distante da beleza. Boniteza é “a qualidade do que é bonito” – diz o mesmo Roq. concerto.” – Galante. Luiz. desembaraço. e por isso acontece muitas vezes que o gosto. tafulice e tafularia. os modos. “refere-se ao gosto. mimoso. que mofas não fariam as nossas damas de quem lhe louvasse a beleza do talhe? A formosura só se aplica ao físico. Grácil significa “delicado.” Galanteria é a arte de ser galante. bem proporcionado. ao que obra sobre os sentidos. a Vênus de Médicis.” Quando se diz das pessoas. brioso. em cujo corpo se não encontra defeito. – Bizarro exprime “esbelto e gentil. isto é. à expressão de um sentimento. os modos como ele se apresenta. “mas que não chega a ser formoso”. e o Apolo Pitio.. fino. lépido. dizemos de preferência. por ser mais expressivo. porém. da ação”. o que é afeito ao trato de gente culta e fina. Bonito é palavra familiar que indica coisa agradável à vista. – Cavalheiroso e cavalheiresco são definidos como significando a mesma coisa. ao que obra diretamente sobre o espírito. “homem de distinção. Se a Vênus de Médicis. possante. aprumo e coragem. entende-se particularmente das feições. pessoa de distinção”. sacudido. segundo S. alegre. É assim que não chamamos formoso a um poema. festivo”. do asseio etc. elegante e gracioso”. a beleza aplica-se também ao moral. – Vistoso é apenas “o que parece bem à vista. de boa disposição”. com igual propriedade. do embaraço. com asseios esquisitos. no entanto. namorado.. isto é. – “Lindeza é palavra mais culta que boniteza. sendo esbelteza a qualidade de ser esbelto. Neste sentido admira-se a beleza do Apolo do Belvedere. pois este adjetivo junta à qualidade de bonito um certo ar e graça que muito o aproximam de belo e formoso. e também indica maior perfeição no objeto lindo. com destreza e elegância (galhardia). bravo. São os olhos os juízes da formosura.

como usurário. toma-se também à má parte. Louçania é. convulsão. rapidez. tanto o ato como a qualidade do que é cavalheiro (se bem que para exprimir a qualidade poderia usar-se de cavalheirice). sublevação. educação e qualidades nobres. Algo significava haveres. agiota se diz. 209 AGITAÇÃO. bravo. desembaraço natural no mover-se”. – Garrido exprime – “vivo. insurreição. muito veloz” – do que propriamente ágil. – Expedito é o que se não embaraça no agir. – Segundo Bruns. designa aquele que trafica em fundos públicos. destreza. – Fidalgo (é ainda de Roq. onzeneiro (ou onze- nário). segundo ostentava o antigo fidalgo”. Fidalgo. portanto. como os próprios modos (trajo. usurário. festivo”. para designar “leviandade.. significa também “ligeiro. fino. valendo-se da alta. revolta. hijodalgo). – Guapo é “o que se mostra lépido. pronto e gracioso”. – Re- . “é o movimento anormal do povo quando os espíritos sobressaltados planeiam ou tramam contra os dirigentes. ufano. sem discrepar das boas normas”. etc. alegre. ou da baixa de preço que estes sofrem. além de ágil.. A garridice é. – Ligeiro diz levantamento. leve. aqui. tanto a qualidade de ser loução. esquisito e engalanado”. – Destro só se aplica ao homem. rebelião. comoção. É o cavalheirismo. bens.144 Rocha Pombo designa propriamente – “que tem ou revela qualidades e maneiras que eram de rigor entre os antigos cavaleiros (nos tempos da Cavalaria)”. diz Bruns. revolução. por meio de atos tendentes a subvertê-la. na verdadeira acepção da palavra. “Teve comigo um gesto cavalheiresco”. – Onzeneiro (ou onzenário) é o usurário que exige usura requintada e faz questão de lucros descomunais. papéis de crédito. além de significar qualidade do que é ligeiro. para auferir ganhos. “agiota. garbo) de parecer loução. – Agitação. motim. é “o que é no trato parecido com os antigos fidalgos. etc. a agitação é geralmente a precursora de qualquer das comoções designadas pelas outras palavras deste grupo”. Pretende-se que esta subtil distinção se sente nestas frases: “Recebeu-me muito afável e cavalheiroso”. no sentido que lhe damos aqui.) “é termo corruto de filho d’algo (do castelhano hidalgo. uma qualidade que assenta nas crianças e nas meninas. destro. correspondendo a gentileza com gentileza. to. Com todas estas partes servia-se a pátria e adquiria-se a fidalguia”. – Revolta (to turn agaisnt em inglês) exprime tanto como voltar contra. – Agilidade é “facilidade. 207 ÁGIL. é discreto e gracioso”. bizarro e gentil”. conquanto haja talvez muitos velhos que se jactem de guapos. – Segundo Alves Passos: – “Rebelião é a desobediência. – Lesto é “o que. volubilidade” e principalmente “habilidade em escamotear”. do prestamista que empresta dinheiro com usura abusiva”. sendo expediência a “qualidade de ser expedito”. o que tem maneiras gentis e sentimentos cavalheirescos”. enfeites. é a perturbação da ordem estabelecida. conflagração. – Loução diz – “de aspeto gentil. ágil tanto pode ser o homem como o simples animal. sedição. Na linguagem corrente. Bem se vê: a guapice só se encontra em moços. 208 AGIOTA. e cavalheiresco enuncia – “próprio do cavaleiro. pois a destreza é “uma agilidade acompanhada ou servida de astúcia e arte”. arruaça. pronunciamento. agilidade. choque. Ligeireza. expedi- mais – “vivo.. “delicado no trato. lépido. isto é. ligeireza. alegre. lesto. expediência. sécio. a resistência à autoridade opressora: exprime tanto como levantar contra. no falar. abalo.. – Lépido. cataclismo. ligeiro.

e quando um povo. segundo Bruns. e antes achar-se de ânimo firme e resoluto em combatê-la. ou em insurreição. e revolução é a coroa de loiros para o vencedor. virá a mudança da sua política – outra ordem de coisas – a revolução. ou tomar disposições que não soubera justificar de outro modo. O motim tende mais a perturbar a ordem que a combater a autoridade. – O levantamento é. é a revolução em suma. e se esta não for sufocada. e a revolução é a vitória. e a revolta produz a revolução. O motim é um levantamento de pouca importância. segundo for a sua importância. tratando-se de política. passageira”. a revolta é o duelo. e a gravidade do que o origina. “é o estado em que se acha um povo depois que se levantou e se armou para combater a autoridade a que estava sujeito. Da rebelião passa-se à revolta. inspirada por alguns. rápida e tremenda. É de ordinário uma fermentação momentânea de algum bando do povo. tendo chegado a depor autoridades. causada por descontentamento. – Na linguagem comum. um particular está em rebelião “quando se opõe aos decretos do poder público. ou do mesmo povo. “o resultado imediato da agitação: degenera em revolta. o estado das coisas. Não diremos. A arruaça é o motim da mais ínfima ralé. porém mais violenta. Rebelião é a declaração de guerra. à crispação produzida por uma impressão forte”. ou pelo menos é aquele cujas consequências são de menor importância. Pronunciamento (ou melhor. – O motim é o menor dos movimentos contra a ordem normal. por uma série de atentados. e a subverter toda a ordem política. uma agitação tumultuosa e de curta duração. – A sedição é um espírito geral de perturbação. está em revolta ou revoltado”. ou contra a autoridade constituída. uma revolução talvez menos formal e extensa. mesmo sem certeza de que se consumem as mudanças operadas (e sim diremos – que está em revolução). pronunciamiento) “é termo puramente espanhol com que se designam as frequentes insubordinações dos chefes militares de Espanha. e revolução indica o triunfo da revolta... e que publicamente declara não reconhecer por legítima. uma oposição ou resistência à autoridade. – Sublevação é mais extenso que levantamento: designa “o fato de insurgir-se em massa uma população inteira”. que está em revolução a força que guarda um posto. Às vezes a simples rebelião de uma alta personagem motiva a revolta de um reino. se comunica rapidamente a todos os membros de um corpo.. ou por uma vasta província.. revolta é a guerra formal.. revolta. que. que se decidiu em favor do revoltoso. – Comoção é quase o mesmo que convulsão: apenas não sugere tão necessariamente a ideia de violência e transtorno que se envolve em convulsão. e é geralmente promovida pelo próprio governo quando lhe convém fazer alardes de força. indignado contra seus opressores. – Abalo é “o movimento contra a ordem. em revolução. – Choque diz “comoção instantânea. – Conflagração é “convulsão . e muitas vezes por pertinácia e falta de reflexão”. de oposição. no entanto. perturba a ordem estabelecida. ou a guarnição de um presídio que se levanta contra o respetivo comandante (e sim – que está em revolta): como não diremos que está em revolta toda a população de um dos Estados da República. a luta contra a autoridade. A consequência da sublevação é a guerra civil.” – Convulsão é. Assim. – Rebelião designa a ação das pessoas. a revolta tem sempre alguma coisa de violento e terrível. – A insurreição.. revolução é apenas uma revolta mais extensa. de uma assembleia. por exemplo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 145 volução é a mudança da ordem estabelecida. semelhante ao tremor... A rebelião é ato de arremessar a luva. A rebelião não é algumas vezes senão uma simples desobediência. generalizada por todo um país. diz Roq.

avisado. – Controverte-se um assunto. sensato. na acepção que tem aqui. com vivo empenho. grave. nem por isso o discute propriamente: apenas o faz lembrado e o põe à vista de outros ou do público. grave na compostura”. – Prudente é a pessoa que. isto é. assisado. e sujeitando-o a disputa ou a debate. mas procura desembaraçá-la. sá- bio. discreto. Aventar tem mais de expor. nem a debate tampouco. assisado e sisudo são vocábulos que coincidem no mesmo radical sensus. indicar. que em ventilar se sente já alguma coisa de intuito dialético: ventila-se um assunto estudando-lhe ligeiramente as proporções. além da sisudez. um princípio. analisar todos os aspetos de um caso”. e mostra interesse em que se trate de discuti-lo e resolvê-lo. Quem trata de um assunto. ou a respeito de alguma coisa. Quem discute sustenta sempre um modo de ver. uma questão. no entanto. mas este refere-se mais particularmente ao estado. cordato. tratar. e procura impô-la a outrem. Sensato confunde-se com ajuizado. controverter. ou agitando-a. – Cataclismo. ventilar. geral como se fosse um incêndio”. tomando-lhe em suma os termos gerais. ou mesmo de estudar. que tem juízo. a serenidade e moderação do que é sábio. tino. encontrando-se com adversário. oferecendo opinião sobre ele. fazê-la simples e líquida. e o outro designa mais estado que qualidade. uma perfeita inteligência da . discutir. tem a calma. quase que não faz mais do que apresentá-la à atenção de outros. – Tratar é o mais genérico do grupo. 211 AJUIZADO. exalta-se mais. Nesta frase: “F. bom senso. prudente. ou discutindo-a formalmente e debatendo-a. à conduta da pessoa a quem se o aplica. Quem aventa uma hipótese. decerto que a não discute propriamente. – Ajuizado diz propriamente – “que tem juízo”. que tem uma justa medida das coisas”. do “que tem uma compreensão exata das coisas. vasta. 210 AGITAR. “é uma conflagração que transtorna toda a ordem política de um país”. Em regra. porém. Pode dizer-se. faz isso – ou apresentando-a apenas em seus termos gerais. Assisado e sisudo também se confundem. disputar. Sisudo acrescenta a assisado a ideia de “discreto. de uma questão. prudência. Disputar é “uma forma de discutir e debater: o que disputa. tem sido muito ajuizado em toda esta questão” – decerto que não caberia com lídima propriedade o adjetivo sensato. judicioso. – Debater é ventilar e discutir esforçadamente. chama sobre ele a atenção geral. ou sugere a ideia da compostura que mantém essa pessoa num dado momento. isto é. pondo-o em dúvida. uma ideia. lembrar. um problema. Assisado quer dizer – “que tem siso”. – Quem agita uma questão. aventar. ponderado. sério. muitas vezes até sem dela fazer mesmo a apologia. isto é.146 Rocha Pombo tão violenta. sisudo. – Discutir é “examinar todos os termos de uma questão. uma opinião. circunspeto. pondo-lhe os termos muito precisos. – Sensato. dando-o por ainda não liquidado. e procurando vencê-lo. e significa – “dar atenção. quase propor – do que propriamente de discutir. deba- ter. só se debatem questões de grande importância. cuidar de alguma coisa para resolvê-la”. clara e nítida. Entre aventar e ventilar não se notaria grande diferença fundamental. nas quais têm muito interesse os que as debatem: tais como os casos políticos e os judiciários de alta monta. pois este designa qualidade. – Ventilar e aventar exprimem um pouco mais do que simplesmente agitar: quem ventila ou aventa um caso. defende uma opinião. ou graceja e zomba do que argumenta ou discute”. “que sabe julgar direito.

pois na linha as coisas podem estar sem regra de sucessividade. liso. é um homem em cuja probidade se pode ter plena confiança. “O caso é muito sério”. – Ponderado é “o que nada faz sem refletir muito. A seriedade é. enquanto que na série as coisas. “O caso é muito grave”: nas quais se sente como grave diz muito mais do que sério. – Fila. conveniente nas ações. – Linha e série não se confundem. sincero e direito nos seus tratos. no cumprimento dos seus deveres. estão separadas por um espaço. mais uma qualidade moral do que modo de ser exterior. “é a série de pessoas ou de coisas postas uma ao lado da outra com a frente voltada para o mesmo lado”. apercebido do que convém. – Discreto é “o que se mostra atento nas palavras. entre seriedade e gravidade: “Ele falou sério” (isto é – “disse o que sente”). e sem pesar os atos”. 212 ALA. no seu grupo 493. – Não assim. cauteloso. renque. nem – “ostenta porte sério). série. – Cordato (de cor. de equilíbrio moral”. A gravidade é própria dos homens velhos. pelo menos. que chega sempre à boa razão. sem apreciar maduramente as coisas. “Ela tem o porte grave das matronas” (e não – “marchou com seriedade”. linha. acentuando muito as palavras”). sabendo bem discernir as coisas. cordis. que parecem sentir o peso dos anos. “coração”) é o homem “prudente. não é a mesma seriedade de que trata Roq. segundo Bruns. revelando ou afetando grande segurança de reflexão. – Grave é “o que tem aspeto nobre. porque se sabe que tem sido sempre correto. Dizemos: “Ele marchou com gravidade para a forca”. é um homem sério afirma-se que F. “Ele foi sempre um homem grave” (quer dizer – “de maneiras lentas que o fazem parecer severo”). de tudo que se lhe passa em torno”.. fila. bem clara a distinção entre grave e sério. – Fileira é propriamente uma série de filas. Ele falou grave (isto é – “pesadamente.. modesto. Ainda podemos deixar. fileira. não saindo nunca da linha normal no modo de portar-se”. “é a série de pessoas ou de coisas postas umas atrás das outras. tendo a frente voltada para o mesmo lado”. que se satisfaz ou se concilia com o que é razoável”. reservado. nem sempre assim. é uma ala. – Circunspeto significa propriamente – “comedido. como se nunca estivesse desapercebido do seu posto. medindo. voltadas de frente uma para outra. Quando se diz que F. Seriedade é uma virtude que consiste mais na lisura de consciência. que raciocina com acerto”. Aplicado a coisas ou fatos é que o vocábulo grave é mais forte que sério. não só se sucedem numa certa ordem. fechado e sereno. aqui. na retidão de conduta. enquanto que gravidade é mais modo de ser exterior do que propriamente virtude.. “Ele foi sempre um homem sério” (isto é – “sempre foi probo e digno”). um tino seguro para precaver-se dos males e perigos”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 147 vida. – Judicioso exprime – “que julga com bom juízo. como nestas frases: “Trata-se de negócio sério”. que na acepção que tem aqui. – Cada uma das duas longas filas que. conquanto exprimam ambos a continuidade ou sequência de coisas ou pessoas numa certa direção. nos seguintes exemplos. . como até ordinariamente obedecem a critério de classificação. quanto à seriedade. que se mostra sagaz. Conforme a definição de Bruns. na inteireza de caráter do que na simples compostura que se mostra ou afeta às vezes calculadamente. das suas condições. “Trata-se de negócio grave”. altivo e severo. aprumado no agir e no falar. – Renque é “uma série de coisas ou de pessoas postas em linha”.. dando provas de juízo e atilamento”. – Avisado é “o que procede com acerto. portanto.

etc. ou que pode ser visto por todos. por alguma honra. mas decerto que ninguém se lembrará de fazer ostentação de gênio. é “uma exaltação do amor-próprio que nos leva a ter um orgulho exagerado daquilo que se nos diz ou faz. de prosápia. fanfarronice. ou da honra que se nos faz – é coisa que se diz sem descaída moral. outro tanto se deve dizer de ufanar-se. as qualidades. Desvanecer-se da amizade de um homem digno é perfeitamente legítimo. ou de magnanimidade. ufanar-se (ufania). ou de coisas fúteis e vãs é que é ridículo. fanfarronada. aqui. Agora. vangloriar-se (vanglória).. de piedade. ostentações charras e ridículas que só se admitem naquele tipo de Th. de valente. os feitos. ou de honras. ou que é material. – Jactar-se é dizer publicamente. é que este verbo desvanecer-se envolve ideia que o aproxima dos demais deste grupo. o que melhor acentua a ideia de todos alardes. A vanglória é “uma ideia falsa ou exagerada que faz alguém de si próprio”. – Bazofiar é “fazer ostentação ridícula ou escandalosa de grandeza. fanfarrear.. entre todos os do grupo. Só se ostenta o que realmente se mostra. Fanfarrice é a qualidade de fanfarrão. O desvanecimento. ufanar-se de haver ganho uma partida de bilhar. impróprio de um homem sério. – Sob este aspeto. os próprios méritos. mais de rigor do que o outro. uma alegria orgulhosa que se sente por haver alcançado alguma vitória. A bazófia é coisa semelhante ao que vulgarmente se chama prosa ou intimação. intimar (intimação). Ufana-se o artista da sua obra quando sente que ela lhe deu uma grande expressão da própria alma. A jactância não é propriamente ostentação. por mais que signifiquem ambos “proclamar com aparato e desvanecimento (alarde. ostentar (ostenta- ção). etc. nem alarde: é mais “um quase desvanecimento e alegria em que se fica de haver alcançado alguma coisa cujo valor se exagera”. fanfarrear (fanfarrice. – Blasonar é quase o mesmo que bazofiar: apenas blasonar. blasonar.. Mesmo desvanecer-nos da benevolência que se tem conosco. vangloriar-se. Pode-se fazer alarde de rico (alardear fortuna ou cabedais) e fazer alarde de honradez. Blasonar (de qualquer coisa que seja) é sempre. gabar-se. – Vangloriar-se aproxima-se do precedente. Só fanfarreia o boborio que berra e bufa de valente e corre de uma criança. – Fanfarrear é. fanfúrria). e dá-lhe por isso uma importância que ela não tem. ou de ter dançado uma valsa com mestria e elegância. tanto se pode dizer daquilo que se possui. ou é invisível. com ênfase. fortuna ou triunfo”. vitórias com que apenas tem sonhado. que blasona de façanhas que nunca praticou. de tino. num caso em que dessa justiça lhe pendia o crédito? Só quem pode não ufanar-se nunca de coisa alguma. como entre si. etc. ou que se nos atribui”. posições que nunca ocupou. ostentar. como do que se não possui. bazofiar (bazófia). é usado com um completivo: blasona-se de nobre. jactar-se (jactância). Quem se vangloria de alguma coisa presume demais do que essa coisa vale. Alardear. que alardeia méritos que não possui. Quem é que se não ufana da justiça que se lhe fez. – isso é outra coisa. de força. jactar-se. tanto de todos os do grupo. de valentia. Fanfarronada (ou fanfúrria) é “a prosa do . Assim de alardear. Ninguém ostentará méritos que nunca teve. bazofiar.. Gautier – o capitão Fracasso. A ufania é um como contentamento desvanecido. Qualquer pode fazer ostentação de riqueza. ou que é material. Conforme o complemento da sua predicação. – Alardear e ostentar distinguem-se. pelo menos. Mas só desvanecer-se de ser belo. orgulhar-se ou orgulhecer-se.148 Rocha Pombo 213 ALARDEAR (alarde). porém. – Desvanecer-se é “sentir vaidade por algum mérito. ostentação) aquilo que se tem ou se supõe ter. desvanecer-se (desvanecimento).

segundo a origem grega. borborinho. Amplia-se um jardim. – Sussurro é palavra onomatopaica desig- . – Clamor é “como gritaria grave e aflita. mais arrelia. etc. abrir. quando se diz. – Algazarra é adaptação do árabe: era “vozeria. sussurro.. bulha. algazarra. bramido. é “conjunto de vozes desordenadas formando ‘coro de arruídos’”. barulho. como o berro de alguns animais”. ser o primeiro a falar nos próprios méritos”.. a forma orgulhecer-se. Fanfarronice é “o modo de ser fanfarrão. a desordem. de menores proporções. dá-se o nome de celeuma à vozeria. em qualquer dimensão. – Alargar diz propriamente “fazer mais largo”. fazer crescer proporcionalmente”. gritaria. e compassarem com as vozes. – Bramido é “clamor de cólera. com ares de quem sempre está mandando (intimação). tudo que tem comprimento e largura. sig- nifica o clamor que se levanta ao travar-se a peleja. grito ou alarido”. 214 ALARGAR. – Ampliar é “tornar maior alguma coisa em todas as suas partes. uma praça. – Berreiro é “grito ou gritaria monótona. – Bulha será um barulho insignificante. de fazer fanfarronadas. gritaria. as forças que empregam na manobra. e até de dores violentas. – Orgulhar-se é mais que desvanecer-se. o sujeito que trata os outros com arrogância. ampliar. os motins destacados de uma comoção ou revolta”. ou no trabalho. – Gritaria designa multidão de gritos. tornar mais largo. – Turba. – Barulho é termo vulgar que corresponde a tumulto: é apenas um tumulto menos grave. rusga que barulho. Por extensão. que os moiros levantavam em qualquer acometimento ou conflito de guerra. de ameaça. rumor. de entusiasmo. e também as vozes lastimosas dos que pranteiam. etc. dilatam-se alguns corpos sob a ação do calor. de importante”. aqui. alvoroço. ou se amesquinham. a ideia de “blasonar de poderoso. – Rumor é mais “eco de vozeria. ou de ódio”. murmúrio. é “a confusão. turba. berreiro.). que fazem mais bramar que gemer”. – Tumulto é “grande comoção e alarido. – Gabar-se não é mais do que “elogiar-se a si mesmo. dilatam-se as narinas para aspirar o perfume. Por extensão. conquanto menos usada. e só figuradamente é que se emprega por ampliar. dilata-se um orifício. os gestos. uma rua: em geral. – Vozeria diz propriamente “multidão confusa de vozes”. tumulto. Incorporamo-lo para designar a desordem e confusão de vozes no meio das quais nada se discerne. desordem estrondosa”. Intima. – Dilatar é também “fazer maior. ameaçando”. pedindo. de arruído que propriamente essas coisas”. arruído. parece que é mais expressiva e até mais própria. celeuma. contendem ou bulham. dilatar. ou mais longo”. as palavras. vo- zeria. mais extenso. murmurinho. repercussão de desordem. Neste sentido. designa certo canto ou cantilena cadenciosa que os marujos e outros operários entoam quando trabalham para se animarem mutuamente. clamor. na acepção com que figura neste grupo. por exemplo: “Vamos alargar o nosso campo de ação”. os atos do fanfarrão”. protestando. em todas as dimensões.” (Aul. uma bola de borracha que se enche de ar. Alarga-se um caminho. Só se orgulha de alguma coisa quem sente uma importância exagerada que dessa coisa lhe vem. – Arruído é quase tumulto. 215 ALARIDO. – Alarido – diz d. José de Lacerda – “conforme a origem árabe. Dilatam-se as pupilas à medida que a luz ambiente diminui. designa a vozeria dos que se travam de razões. – Alvoroço é “manifestação estrondosa de alegria.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 149 fanfarrão. – Intimar exprime. ou vozes em confusão e descompassadas. – Celeuma.

de tambores com que se convoca o povo (ou uma guarnição militar) para defender-se quando sobrevém um perigo. do que pela propriedade de resumir a ideia dos outros seis do grupo. no sentido próprio da palavra. é a confusão e gritaria que se manifesta num acampamento ou praça de guerra à aproximação. susto. “a ideia comum aos sete primeiros vocábulos deste grupo é a do sentimento ou sensação penosa que nos assalta quando um perigo sobrevém”. Particularmente. o susto dura pouco. aqui. e mais pelo extenso uso que se faz desta palavra. – Alarme – escreve Bruns. assusta-nos o que não podemos definir. O rebate sempre encerra a ideia de defensa. ou de viração em arvoredo”. este para repentina e inconscientemente. é o toque de clarim ou de tambor com que se reúnem os soldados. clamor. e como termo de técnica militar. é o ato de dirigir-se alguém a outrem. cuja ocorrência temos por certa e próxima. como um recurso de aflição.” – Chamamento designa a “ação de chamar com esforço. a do susto não o é geralmente. ou talvez desfiguração de murmurinho. e que nos induz a evitar aquilo que julgamos nos há de ser nocivo. – Clamor. e não temor. O susto diferençase ainda do medo em levar-nos este a fugir da coisa que nos amedronta. emprega-se este vocábulo para designar a perturbação que causa a ameaça.150 Rocha Pombo nando “rumor menos perceptível e mais confuso”. A causa do medo é determinada. medo. ou com indignação”. clamando. porém. ignorando. a de defensa. chamada. 217 ALARME. – Murmurinho é como “vozeria abafada. quanto tempo nos separa ainda deles. como se o objeto do reclamo fosse fundado sempre em direito”. ou a de instigar à fuga. de testemunho ou de juízo da pessoa para quem se apela”. – Susto é uma espécie de medo que nos deixa como suspenso durante os primeiros instantes. – Borborinho é também voz onomatopaica. Causa medo aquilo que vemos.. Emprega-se esta palavra com muita propriedade quando nos referimos à previsão de acontecimentos muito desagradáveis. – Terror é um termo que mais se refere à causa do sentimento . porém. ou de um mal que certos indícios nos levam a julgar não só possível mas até provável. que temos medo dos cães danados. enquanto que aquele é um sentimento irresistível e espontâneo que nos assalta sem querermos. O medo distingue-se do temor em ser este um produto da razão e até certo ponto da vontade. é “chamamento com desespero. rebate. O temor é o estado do espírito que se perturba pela apreensão de um perigo. Figuradamente. Por isso se diz que temos o temor de Deus.” – Apelo é “pedido de socorro. assombro. – Segundo Bruns. e que conservamos contra nossa vontade. receio. sobressalto. – diz-se do grito ou gritos que se soltam para anunciar um perigo. 216 ALARME. – Chamada é propriamente “a voz ou sinal com que se avisa ou com que se chama atenção e se convoca. – Murmúrio é “leve sussurro como de água corrente. pânico. chamamento. assombramento. pavor. e não medo de Deus. – Reclamo é “apelo instante e formal. – Medo é termo genérico. do inimigo. o medo é um sobressalto violento e repentino que nos leva ao temor. tendo a mesma significação. terror. espanto. – Rebate é o toque de sinos. a suspeita de algum perigo. reclamo. real ou suposta. o alarme. temor. apelo. – Alarme. sussurro de multidão falando a um tempo e mal contido”. O medo é mais ou menos prolongado. enquanto que o susto nos deixa como suspenso: quando o susto assalta o homem. ou de desejo ansioso em causa dependente de amparo.

Foi o terror dos franceses que ocasionou a grande hecatombe da ponte de barcas do Porto. O espanto pode deixar-nos paralisados como o susto. Difere da casa de cômodos em dar esta ordinariamente só a dormida. – Receio é menos que medo ou que temor: é mais – um estado de dúvida. Essa peste espalha o terror por toda parte. mas sobressalto sugere ideia da inquietação em que se fica. – Pensão tem aqui um sentido particular. aqui. hotel. um grande terror que faz desvairar. e contra os quais é inútil qualquer luta. particularmente os pobres que iam de viagem”. 218 ALBERGARIA. – Assombro é grande espanto. Na cidade em cujos contornos a peste faz muitas vítimas. pânico. principalmente no Alentejo e no Algarves. o temor de sermos assaltados dessa peste nos leva a evitar a comunicação com as pessoas provenientes das localidades empestadas. ou o terror infundado que assalta a muitas pessoas. – Albergue é propriamente a casa onde se hospeda aquele que está fora da sua terra. Propriamente só se diz neste último sentido. Significa também a própria coisa ou fenômeno misterioso que assombra. e algum ou muito luxo. morando fora o pensionista. e na qual são principalmente admitidos aqueles que trazem cavalgaduras ou veículos. ou que vence todas as energias morais”. A suposta existência de uma terrível peste espalha um pânico geral”. e assombramento. que imobiliza e como que maravilha. pensão. – Pânico é propriamente um adjetivo que qualifica o substantivo terror. frequente dizer-se indiferentemente – o pânico. – Hospedaria é casa onde se recebem hóspedes de cama e mesa. e aquela. tanto a cama como a mesa. mediante um pagamento convencionado que também se chama pensão. é. uma obediência a escrúpulos de qualquer ordem. ou o grande terror que se apodera de alguém à vista de um caso espantoso. . ou impelir-nos a uma fuga insensata como o medo. – “era o nome da dependência dos mosteiros destinada a hospedar os transeuntes. “fazer tremer”) aplica-se aos perigos ou males que julgamos irresistíveis. do cuidado e preocupação que nos causa o mal que nos sobressalta. pousada. – Pousada é termo castelhano que se diz por estalagem. – Espanto é uma forte impressão causada por alguma coisa que sobrevém inesperada e repentinamente. porém. designando a casa. para exprimir. – Estalagem é casa onde se recebem passageiros que não pretendem grandes comodidades. – Pavor é “um medo incoercível. guarida. ou mal que se suspeita”. que nos impede de agir ou de fazer alguma coisa – do que propriamente temor. colhe-nos o susto. se a hospedaria reúne certas condições de comodidade. – Guarida é o local onde se encontra abrigo contra a intempérie ou contra a perseguição. estala- gem. e se ela sobrevém inesperadamente. Confunde-se com susto. e até em só fornecer as refeições. – Sobressalto é “a comoção que se sente sob a iminência de algum perigo. Terror (do latim terrere. quer devido à mera hospitalidade. O medo da peste leva-nos a fugir da cidade. hospedaria. tem uma acepção especial para designar o estado de terror em que fica uma pessoa surpreendida de alguma coisa ou de algum fenômeno misterioso. quer seja pagando. por isso se diz que os bandidos espalham o terror por onde andam. e se qualquer incômodo sobrevém que pareça sintoma dessa peste. onde se recebem hóspedes. é denominada hotel. – Albergaria – escreve Bruns. Certos estabelecimentos de caridade ainda hoje têm albergarias destinadas ao mesmo fim. albergue. é o espanto que nos domina. ou – o terror.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 151 que ao próprio sentimento. em regra casa de família. reina o alarme.

atingir. meio branco”. – Gozar é ter. – Palácio diz-se de qualquer edifício grandioso. segundo Bruns. chegar diz-se do próprio fato. mas quando lá chegaram tiveram quem os agasalhasse. porém.. Os homens sóbrios e de bom temperamento gozam ordinariamente de boa saúde.152 Rocha Pombo 219 ALBESCENTE. 222 ALCANÇAR. Consegue um bom emprego o que solicita com mérito. – Alcáçar (ou alcácer). – Castelo (de castellum. (Bruns. – Alcançar é o termo de nossos rogos. pois só impetramos graças de um superior. – Impetrar é alcançar do superior a graça que se havia solicitado. – Esbranquiçado significa “um tanto branco. útil. – Quanto aos três primeiros. – Alvadio diz-se da cor intermédia.) – Atingir (que também colocam alguns no grupo CCXXI) diz “alcançar ligeiramente. favores. alvadio. paço. de superiores. das dos bispos. sentir pelo tato”)”. impetrar. enfim. – Obter é alcançar uma coisa que se pretende ou deseja. go- pode viver sem demandas nem pretensões. e dos governadores ou vice-reis das colônias”. ou tem protetor de valimento. isto é. Vê-se. As balas não chegavam à fortaleza. esbran- quiçado. é albescente. pois. da capacidade. obter. tudo o que nos é honroso. 221 ALCANÇAR. e mais restrita a tem ainda impetrar. “tocar. Consegue-se o que com diligência e perseverança se busca. lograr. chegar. e tende. agradável. como se chegasse apenas a tocar de leve a coisa alcançada (ad + tangere. – Lograr e conseguir podem supor justiça. tem força para fazer chegar balas a grande distância. 220 ALCÁCER (ou ALCÁÇAR). – Alvacento é a cor fixa que tira para branco. castelo. Obtêm-se cargos. de inferiores. alvacento. ou se pretende. se este viveu mais anos do que ele”. – Conseguir é o termo de nossa solicitude. chegar designa o fato. não alcança. atenções. Alcança o perdão o que interpõe rogos humildes e pede misericórdia. defendida de fortificações”. diminutivo de castrum. A artilheria moderna alcança a grandes distâncias. – sem relação aos meios empregados para isso. que fizemos diligência por ela. Por não poder alcançar um ramo. porém. o fim a que se dirigem os meios com relação a eles.. – “Lograr é propriamente o termo de nosso desejo – diz Roq. Os náufragos alcançaram a praia depois de mil perigos. tocar. ou que nos é grata. Qualquer superfície que parece ter tido originariamente outra cor. lê-se em Bruns. contração de palácio. dignidades. possuir alguma coisa que nos dá gosto ou prazer sem indicar que a buscamos. Em poesia diz-se dos atuais paços dos monarcas. entre branco e cinzento”. temos de subir a um banco para lhe chegar com a mão. – Paço. etc. alcançar supõe sempre graça. ou que a ela tínhamos direito. ou do grande senhor. palácio.: “Albescente diz-se daquilo que se está tornando branco. Logra uma grande fortuna o que cançar “denota esforço”. a ser branca. da força de efetuar. – Al- zar. pretendendo-as e solicitando-as com rogos e súplicas”. “fortaleza”) corresponde com exatidão a alcáçar (do árabe): era “a antiga habitação do rei. “era propriamente o palácio afortalezado onde os reis ou governadores faziam residência. Um homem chega à idade avançada. – Tocar (da mesma origem de atingir) ex- . e obtêm-se de iguais. a de seu pai. disposto para habitação ou para outro fim. Noutra ordem de ideias. alcançar diz-se da possibilidade. conseguir. só se diz das residências das pessoas reais. que este vocábulo tem significação menos genérica que o precedente (obter).

de ladrões. ou “um bando de estudantes na aula”. matula. e ao perigo a que se expõem os que transitam próximo da sua beira. ou a caminho do colégio. – tilado. – “O úl- Alcance é. passa a ser desfalque. itaimbé. acrescenta irregularidade e escreve: “Quando o desfalque é cometido nos dinheiros do Estado. ou mesmo de algum particular. as mãos. riba. Figuradamente aplica-se a indivíduos da espécie humana aos quais se ligue alguma ideia que os ponha em relação com aqueles animais: alcateia de bandidos. encosta muito íngreme”. bando. ribanceira. alcateia de lobos. 224 ALCANTIL. horda. de lídima propriedade dizer que se viu – “um bando parado”. – Ribanceira considera a vertente como tendo pendor considerável. troço. malta.: – “Alcantil é a vertente talhada a pique. não com relação ao pendor. grota. exaltar a dignidades. pedra escarpada que propriamente escarpa. ou quase a pique. – Grota é aberta. matilha. timo destes vocábulos – diz Roq. levantar. erguer. precipício. vista de frente. como os olhos. fazendo crescer para cima. etc. a voz. fraga. escarpa. 225 ALÇAR. sem mais ideia alguma acessória: multidão de pessoas. irregularidade. além de inépcia ou desmazelo. nas contas que alguém é obrigado a prestar. de livros. e sugere ideia de vida errante. talvez endireitando. – Elevar é “pôr em lugar alto. – Riba e ribança confundem-se com ribanceira: este é apenas uma extensão daqueles. quadrilha. Não seria. mais ou menos larga e profunda. – Despenhadeiro é a vertente ou precipício considerado. diferençando-se. – Alçar é levantar o que está caído. elevar. designa multidão. – Bruns. se este é da categoria das chamadas pessoas decentes”. de alguma corporação. ou uma coisa acima da sua posição ordinária. multidão. – Erguer é levantar pondo em pé. como um edifício. Um bando de estudantes só se vê na rua. magote. etc. etc. fazer subir”. rancho. a escarpa é quase sempre de acesso impossível sem ajuda de arte. ou ao alto. no entanto. troça. enxame. – Segundo Bruns. ou é banhada por alguma corrente impetuosa. – é o gênero em que entram os outros como espécies”. a base do alcantil mergulha no mar. – Itaimbé é palavra do tupi designando rochedo a prumo. e por onde quase sempre corre água. ou “na escola”. ou desde baixo. legião. súcia.” 226 ALCATEIA. Se o alcance acusa. Quase que destes dois se pode dizer o que se diz de alcançar e chegar. – Alcateia é um coletivo que se emprega para designar “multidão de animais ferozes”. despenhadeiro. batiza-se atualmente sob o nome de irregularidade. 223 ALCANCE. em montanha.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 153 prime a mesma ideia. etc. chusma. e tendo a base regada ou não de corrente”. – Escarpa é “rochedo alcan- turba. por isso. improbidade e dolo. a diferença entre a quantia que entrega e a que devia entregar. despenhadeiro. desfalque. de panteras. – Fraga é mais aspereza de serra. – Multidão quer dizer “grande número”. As fragas tornam a ascensão difícil. tirar para cima. em ordem eminente. que na linguagem vulgar só se aplica a aves. corja. – Precipício é termo geral que indica “todo acidente perigoso onde se pode cair”. aventurosa. de assassinos. não tanto como o do alcantil. deste em não sugerir com a mesma força a ideia de atividade. escarpa. ribança. turma. mas relativamente à profundidade a que está a base. – Bando. grupo. caterva. de . Exprime ele a ideia de “pôr em alto. a fim de não ofender a honra do ladrão.

quando reprimiu a ira de Pedro. – Alfombra é o tapete de maiores ou menores dimensões. Uma turba de sábios. que cobre todo o pavimento de uma habitação. – é alcatifa que tem significação mais nobre. etc. e também de divisão. portanto. sugere sempre ideia de que se trata de defender uma causa. pândega. e sugere também a ideia de que essas pessoas ou essas coisas fazem parte de multidão maior. a mais exata. matula. de crianças. de salteadores. – Legião era entre os romanos um corpo de tropas. caterva de lobos. desregramento: horda de bárbaros. – “Dos três primeiros vocábulos – diz Bruns.ere. – Malta designa também multidão. – Rancho é o mesmo que bando: apenas não sugere. – Grupo é “conjunto de coisas ou pessoas reunidas. no entanto: quadrilha de colegiais. e está fixo nele. e deixando supor que é multidão fazendo parte de uma série de multidões. em tumulto”. uma coisa fantástica. e no sentido figurado empregase para designar multidão laboriosa.154 Rocha Pombo ideias. de cores variegadas. caterva estão nas mesmas condições do precedente: juntam à noção de muitos indivíduos reunidos a ideia de indisciplina. de missionários (não – um bando). podendo estar ou não fixo . legião negra”. nunca se diria. e fora deste caso. de facínoras. corja. matula de desordeiros. e parece que encerra ideia de atividade. de gente sem ordem”. Súcia. alfombra. – Matilha é também coletivo de cláusula restrita: matilha de cães. isto é. espesso. que cobre o pavimento ou parte dele. a mais extensa”. ou mesmo de velhos – seria. – Chusma significa “multidão em alvoroço”. “obrar. agir”. confortável. portanto. nem um enxame de vagabundos ou de vadios. – Quadrilha está nas mesmas condições de turma: designa “um certo número de indivíduos aprestados para a guerra”. banditismo. orgia. de intuito escuso. tapete. de guerrilheiros por exemplo. de depravamento e banditismo. e até de fereza (sobretudo os três últimos): súcia de malandros. mas em pequeno número”. E também. – Troça também diz “multidão”. pois neste coletivo figura o radical agmen = agimen. feito de uma só peça. destempero. de malfeitores. – Alcatifa é o tecido rico. ou mesmo de coisas”. de peregrinos. alfombra. perversidade. ou de realizar algum intento. – Magote é semelhante a grupo e a turma: significa “porção de pessoas. de sapos. – Turma era “uma divisão tática na milícia romana”: diz. mas agradáveis. ou “legião da morte. legião acadêmica”. – Enxame aplica-se mais particularmente tratando-se de abelhas. de lobos. ou a causa especial que põe em movimento a legião: “legião patriótica. toma-se sempre a má parte. coisa semelhante a batalhão. – Turba significa “multidão desordenada. em atividade mais ou menos ordenada. pelo menos. Dizemos: um rancho de fiéis. mas sugere ideia de festa. de parcelamento: um magote parece que deixa supor sempre outro ou outros magotes. – Horda sugere ideia de selvageria. E até sem cláusula é usado para designar “multidão de cães de caça”. Neste sentido continuou a usar-se para exprimir o motivo que impele. de gatunos. de bandidos. 227 ALCATIFA. tapete. ideia de aventura. ou malandros. companhia. disse a este: – “Cuidas que não posso rogar a meu Pai. mas sugerindo ideia de vagabundagem.. ao ser preso. Quando Jesus perguntou pelo nome do espírito mau que atormentava o possesso: – “O meu nome é legião” – respondeu o espírito. como este. tapeçaria. – Troço significa “multidão ou porção. de ago. de estrelas. bom ou mau. corja de vadios. designa multidão certa. ou de aves.. e que não porá logo aqui mais de doze legiões de Anjos?” Este coletivo legião. Não se diria: um enxame de lobos. Dizemos: quadrilha de salteadores.

por honra e mercê. muito usada no tempos gloriosos de nossas guerras. 230 ALEGAR. no entanto. e João da Costa é o nome do indivíduo. e que acaba com ela. João é o prenome. que tanto designa o estofo da alfombra ou da alcatifa como esses próprios objetos. mas apenas alusivo do indivíduo a quem se aplica: vale mais por um epíteto que designa o indivíduo sem nomeá-lo. de sala. sentina. lupanar. coelho. a sua significação particular. nobres. mas diferença-se destes em não ser próprio e expresso. Em João da Costa. tem a significação especial de pano de armação.. eram sinônimas em significarem o referir a seu favor algum dito. alcunhas de leais. de corredor. por exemplo. Emprega-se esta palavra de preferência às outras quando se alude à moralidade dos que frequentam essas casas: frequentador de lupanares. assim como os nomes de animais. – Alcoice é a casa onde se dão cômodos às parelhas que procuram ter comércio. Os reis davam. palavra árabe (alconia). e já há muito. prenome. onde impura a depravação moral. porém. sobrenome das pessoas segundo a diferença das famílias. bordel. – Segundo Roq. portanto. “Os panos de Arrás são tapeçarias de muito valor artístico”. – Prostíbulo (do latim prostibula “meretriz das ruas”) é o lupanar considerado como sentina onde as infelizes se degradam. – Bordel é termo francês introduzido na língua. – Segundo Roq. – Sobrenome é o nome que se interpõe entre o nome de batismo e o de família. é trazer o advogado leis e razões em defensa do direito de sua causa”. exemplo. com que se designa um conjunto de tapetes. e em termos forenses. pega. – Citar é referir textos e autoridades .. foram apelidos nobres da descendência das famílias. – Tapeçaria. – Prenome é propriamente o nome que precede ao nome de família e que é. antonomásia. “a primeira. além de ser um termo coletivo. – Apodo é quase o mesmo que alcunha. prostíbulo. como perdigão. ou autoridade que prova o intento proposto. sendo que o apelido se transmite e distingue as famílias”.. notáveis. alcatifas etc. 229 ALCUNHA. a suas vilas e cidades. – Estes quatro vocábulos empregam-se indistintamente para designar as casas públicas de prostituição. de mesa. – Antonomásia confunde-se com cognome e com alcunha. exclusivo do indivíduo. e o menos usado dos deste grupo: designa a casa de prostituição considerando-a sob o ponto de vista das orgias que nela se fazem”. cognome. aves. (Bruns. e a segunda. peixes. do que propriamente por um nome. sobrenome. etc. cada um deles tem. etc. não se dá tal sinonímia. onde o vício ostenta as suas torpezas”. Costa é o apelido. A maior parte das casas que nas cidades se intitulam hotéis para pernoitar são alcoices. – Lupanar (do latim lupa “meretriz”) é a casa onde residem meretrizes. apodo. – Cognome é o designativo de alguma qualidade notável ou característica. etc. que serve para cobrir as paredes. e que se junta ao nome de alguém para torná-lo mais preciso.) – Sentina é o “prostíbulo imundo. citar. portuguesa. nome. – Agnome é o epíteto que se adiciona ao cognome para fazer que ressalte alguma virtude ou qualidade própria do indivíduo. Hoje. 228 ALCOICE. Há tapetes de escada. porque alcunha só significa apelido injurioso. – Nome é a palavra com que se designa ou distingue uma pessoa ou coisa. e quase sempre alusivo a algum defeito da pessoa. “alegar é agnome. apelido. – Tapete é termo genérico..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 155 no chão. mas não é muito usado em português com esta significação. sardinha..

O homem alegre nem sempre é feliz. que é saltar de gozo. e pertence principalmente ao juízo e à reflexão. tranquila e serena que a alegria. Ao contrário. quase ufano da vida”. Para dar autoridade ao que dizemos. é alegria. e produz contentamento no ânimo dos que foram causa dele. Há velhos joviais. Quando o contentamento se manifesta exteriormente nas ações ou nas palavras. uma pessoa estar contente. porque é demonstração exterior. celebra-se com festas e regozijos. como diz o nosso poeta. e sempre a acompanha. A pessoa jubilosa mostra-se alvoroçada de alegria. Fr. e só em poesia terá cabimento. Antes que o ardente licor. nem a acompanha. fizesse seu efeito no moiro de Moçambique. – Alacridade é a . pois. Seria para desejar que o uso lhe desse a significação modificada que lhe atribui D. buliçosa. ledice. festivo. poética. conduz à felicidade. Luiz. citado perante o juiz. a palavra ledo é desusada. ledo. alacridade. contente. alegam-se fatos e razões. etc. de alegria. – O júbilo é mais animado que a alegria. causada. ou pelo gosto que se logra. Citam-se os autores. nem a ela conduz. porque na embriaguez do espírito se deixa arrastar da força do prazer. bailes. exprime cada um deles seu diferente grau ou circunstâncias”. Diríamos que o contentamento é filosófico. – Exultação é o último grau da alegria.156 Rocha Pombo em prova do que se diz. pois representando todos um estado agradável no espírito do homem. regozi- jo. Está exultante a criatura que parece ufana da sua felicidade ou da satisfação que tem. ou o que eles dizem. porém. danças. não assim o contentamento.. – Diz Roq. e muito mais pelo regalo com que o tratava. não é a felicidade. é corrupção da palavra latina lœtitia. ou ledica como diziam os antigos. muitas vezes prescinde da consciência. não será difícil fixá-la entre outros dos vocábulos deste grupo. e eles a usavam em lugar de alegria: em Camões ainda é frequente o adjetivo ledo em lugar de alegre. gritos de aclamação. jovial. Um fausto sucesso. jovialidade. satisfação. jubiloso. e defender-nos. que interessa a toda uma nação. e peso ao nosso dito. e mostra-se por sons. formada da partícula reduplicativa re e gozo. e quase sempre se aplica às demonstrações públicas de gosto e alegria. – Regozijo. como está dizendo a palavra. alegra ao público. vozes. muitos há que sem mostrarem alegria gozam de felicidade. que dá alegria. alegou o advogado leis e razões tão importantes que por suas alegações conseguiu que ficasse de nenhum efeito a citação.. segundo a força do verbo exultar. temperamento irrequieto. alegamos. Hoje. etc. ou é surda a seus gritos. álacre. Para defender o réu. exultante. citamos. ou pela satisfação de que se goza. fazer saber o chamamento do juiz. não cabendo no coração. que é afeto interior. ou gozo repetido ou prolongado. as pessoas. 231 ALEGRIA.. mas a jovialidade só assenta nos moços. de S. e até imoderada. já ele estava mui contente pelo acolhimento que lhe fazia o Gama. tranquilidade de consciência. Pode fingir-se a alegria. celebradas com festas. rompe em saltos.. para sustentá-lo. exultação. alegre. satisfeito. aquele supõe igualdade e sossego de ânimo. a alegria é desigual. mas não lhe achamos autoridade suficiente para a estimar como tal. – Jovialidade significa “disposição natural para a alegria ruidosa mais inocente. a alegria. que. Pode. contentamento. júbilo. sem parecer alegre. ou pelo bem que se possui. e em estilo forense é noticiar. quiçá louca em seus transportes. e pertence à imaginação. mais suave. dizendo que é menos viva. é alegria. que “o contentamento é uma situação agradável do ânimo. em memória de faustos acontecimentos. – Fixada a diferença entre alegria e contentamento. – Ledice.

“é aquele cuja arca do peito apresenta uma ampla superfície”. – Adiante é também aplicado para designar ordem de situação.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 157 “alegria aberta e serena. praticada com má-fé. robustez. e essa capacidade . ou para trás. 233 ALÉM. passou para os inimigos sem astúcias com os seus próprios. traidor). posterior a alguma coisa”. – Traição é. fortaleza (fortidão). forte. nas maneiras dissimuladas com que procura alguém enganar a outrem para lograr do enganado alguma coisa. aquele que exteriormente revela ter uma respiração fácil e poderosa (alento) que lhe permite fazer grandes esforços. – A deslealdade consiste em faltar com alguém. com perfídia e infidelidade. ao movimento. reforço. 232 ALEIVE. ferindo ou prejudicando aquele a quem devia lealdade. etc. – Calunioso é aquilo que envolve calúnia. – Após é de todos os do grupo o mais preciso: diz – “logo depois. à traição. segundo Bruns. esforçado. a deveres ou compromissos que temos contraído. (traiçoeiro. traição. potência. após. isto é. e confundese. e é antônimo de antes. Calabar foi traidor. discreta e segura”. aos nossos sentimentos”. e sugere ideia de “posto à frente de alguma coisa”. robusto. Emprega-se frequentemente aleivosia por aleive. que dissimula com ares de inocência o golpe que vai descarregar. falsário). à vivacidade que indicam aptidões para praticar atos que necessitam de esforço.. Entre os dois vocábulos traiçoeiro e traidor há diferença análoga à que notamos entre calunioso e caluniador. possança. É antônimo de atrás. – Satisfação é “o estado de alma em que ficamos quando alguma coisa vem corresponder aos nossos desejos. designa situação do que se encontra “depois de alguma outra coisa e em relação ao lugar que ocupamos nós: é antônimo de aquém. caluniador). Um homem alentado pode suportar grandes fadigas. é o que iludiu ou procurou iludir a boa-fé dos outros”. aleivosia é a qualidade de ser aleivoso. Falso é o que nos diz aquilo que não sente. potente. além da distinção sob o ponto de vista das funções gramaticais. dos bons princípios morais. vigor. deve notar-se que o segundo tem uma significação especial e precisa que seria bastante para excluí-lo deste grupo se não fosse a ideia fundamental comum que o põe em relação com os demais. 234 ALENTADO. O homem desleal é o que sai das normas. Entre falso e falsá- rio. também relativamente a nós. – Calúnia é “a falsa imputação que se faz a alguém de atos que lhe prejudiquem a honra”. propriamente. pujança. Mas o traidor é sempre infiel.. imediatamente depois”. vigoroso. – Alentado. infidelidade (infiel). aqui. valente. e pode não ser pérfido. perfídia (pérfido). adiante. esforço. – A falsidade consiste no modo traiçoeiro. reforçado. que nos promete o que não tem tenção de cumprir. alento. e caluniador. pois falsário é “o que faltou ao que prometeu solenemente. o “ato de faltar à fé que se devia”. Quem é vigoroso é capaz de empregar grandes forças. força. o que perpetra calúnia. calúnia (ca- lunioso. e não se poderia dizer que foi pérfido. valentia. pujante. depois. – Depois quer dizer – “em seguida. mas é um pouco mais preciso que além. falsidade (falso. aleivosia (aleivoso). – Aleive é a própria calúnia que se disfarça. – Vigoroso refere-se à manifestação de força. deslealdade (desleal). pois a perfídia consiste em “faltar à fé parecendo fiel”. e particularmente com falso. possante.. – Além. portanto. que é nosso igual ou superior. pois que traiu abertamente.

etc. – Espada – diz Roq. gládio. – é palavra italiana e castelhana. que. Exemplos: “A fé aumenta a fortaleza das almas”. disse: Quis generum meum ad gladium alligavit? – “Quem foi que atou meu genro àquela espada?” O primeiro talvez que usou esta palavra em sentido reto. a ideia de ativo. aumento de vigor”. no entanto. pois o vigor manifesta-se na energia dos movimentos. contudo. e que era longa. e espada de folha larga na ponta. – Robusto (do latim robur “força”) diz-se da pessoa que no vigor muscular.158 Rocha Pombo manifesta-se exteriormente. eficaz”.. 235 ALFANJE.. Afinal essas distinções não são essenciais. terça- do. “A potência daquele espírito. do grego spathe.”. quod ad cladem sit inventus). Não se sabe ao certo qual era a forma desta arma ofensiva entre os romanos. mas deve ter-se como provado que se metia em bainha. mesmo quando não as emprega: o movimento dos membros. “O leão tem mais força que o burro”. espada. usada em sentido figurado por escritores de boa nota para designar o poder supremo. a fortidão do seu gênio. revela força e saúde. Confunde-se com pujante e potente.. é a qualidade de ser forte”. que se deveu a vitória”. só se aplica à força exercida pelo homem. e também um castigo de . – Gládio é a palavra latina gladius.” “O gladiador estava ainda em toda a sua pujança”. energético. sem nenhuma ideia acessória.. na tradução dos Mártires. tanto pelo menos quanto à bravura do general. movimentos pausados: nisto se distingue sobremaneira daquele que é vigoroso. dos braços. cimitarra. É preciso notar. portanto. E se se trata da propriedade correspondente nos inorgânicos. 1. – Esforço é a ação moral ou física de que alguém é capaz. Há pessoas magras que são fortes. etc. que pujante se diz daquele que é capaz de vencer em pugna. tórax amplo. foi Filinto Elysio. segundo Varrão. na forma opulenta dos membros. O indivíduo esforçado é o que tem qualidades para vencer pelo trabalho. que se impõe pelo enorme poder dos músculos” (possança). como em latim. 6. assim como as há muito corpulentas que não são robustas. “Matéria explosiva. “É à valentia dos soldados. montante. Foi. e designa a arma que se julga corresponder ao gladius dos latinos. vem de cladis “matança na guerra” (quasi cladius.. que se punha à cinta. chanfalho. – Possante quer dizer – “que tem grande força. trazia uma grande espada à cinta. sabre. – Forte é um termo genérico que exprime o poder de obrar ou de resistir. que significa “espátula”. que vem do latim bárbaro spatha. “A alma potente do justo a nada cede”. É reforçado o homem que tem mais desenvolvidos os órgãos de ação física próprios para uma certa função ou esforço: reforçado do peito. “Quando operou aquela possante máquina de guerra. daquelas grandes virtudes ou daquelas construções maravilhosas”. que potente adita à noção de “poderoso. a fortaleza daqueles muros. porque Cícero diz na oração pro Marcello: Gladium vaginâ vacuum in urbe non vidimus – “não vimos na cidade espada desembainhada”. ou do antigo castelo. pois dizemos também: a força da dinamite. das pernas. ou álcool de fortidão maravilhosa”. – Valente é aquele que não teme o perigo e é capaz de enfrentá-lo. E zombando de seu genro Lentulo. o seu jogo enérgico mostram o vigor latente. e que possante sugere ideia de “opulência de força” e “majestade de aspeto. O homem robusto tem membros atléticos. onde diz: Detrás dos Vexillarios vão Hastatos. preferimos dizer força. Este vocábulo. – Fortaleza é “a energia moral. durindana.” – Força é “capacidade de ação ou de resistência física”. Com gladios na segunda forma. – Reforço é “acréscimo de força. que sendo de pequena estatura. Quando essa capacidade é atribuída aos animais. dizemos fortidão.

e por ele se designa uma espada grande. que depois de não poucos esforços de seu Mestre foram elevados a tão alta dignidade. de Souza e por Vieira”. para zombarmos da valentia dos fanfarrões que se gabam de façanhas inauditas. é mais ou menos extensa. Os seguintes lugares de Vieira talvez possam servir de modelo neste caso. de uma arenga. falando da peste: “O gladio que feriu o povo”. e os espanhóis da sua tizona. tivemos alfim a ventura de sair bem em nossa empresa”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 159 Deus. Mui sensato é este parecer. depois de se haverem vencido todos os obstáculos. por fim. pesada e terrível. pelo que nos atreveríamos a dizer que é a conclusão das conclusões. Fr. Confundem-na muitos com enfim e com finalmente. ou das areias da praia. ainda mais burlesco do que durin- dana: é “grande espada. enferrujada. II. 236 ALFIM. falando dos habitantes de Moçambique. Luiz) que se use esta palavra em sentido reto quando aludirmos aos usos bélicos dos romanos. resta que se adote e se observe: do que duvidamos em tempos em que se vêm postergadas outras mais importantes observações acerca de nossa tão maltratada língua. Alfim denota que. de uma conversação. é espada curta e larga. ou o fim dos fins. que não corta”. de aço fino. Chama-se fim ao termo material de uma coisa. – Cimitarra é “espada pérsica. e assim dizemos: “Depois de havermos gasto tanto. pelo que também se lhe dava o nome de espada de ambalas mãos. e assim nos servimos desta palavra. e nomeadamente se houvéramos de traduzir aquele lugar de Vegecio.. – Quer o autor dos Sinônimos da língua portuguesa (D. – Diz Roq. I. É palavra muito usada nos clássicos. ou de uma enumeração: “Enfim acabou de falar. ao cabo de tantas fadigas. (Lus. finalmente. que tem só um gume. – Mais positivo e terminante que as duas expressões anteriores é o advérbio finalmente. velha. – Terçado do castelhano terciado. e também ao conseguimento do objeto que nos propusemos. – Alfanje é espada mouresca e turca. As duas primeiras não resolvem absolutamente. Segundo a preposição que se lhe ajunta.. 47). larga. disse: Por armas têm adargas e terçados.. logramos nosso intento. Miguel de Asnide era tão agigantado que trazia na cinta um montante por espada ordinária (D. e de três dedos de largo”.. de um discurso. definitiva. não. – “grande espada antiga. mas é mister distingui-las. – Durindana é termo cômico e burlesco. enfim. ou que desejávamos. pelo comum desejada. por última conclusão. senão usando de um circunlóquio extenso e escusado. de figura curva.. que se brandia com ambas as mãos para acutilar por alto... 15: Habent. de que usam os valentes e denodados cavaleiros em suas lides. L. e poética.” (II. terminou seu discurso”. afinal. e usada por Fr. decisiva ou positiva sua significação. pois Camões. do Couto)” – Chanfalho é termo vulgar. que significa. quos semispathas nominant – em que não poderíamos deixar de empregar os dois vocábulos gladio e espada. Falando ele dos apóstolos. que designa a conclusão. ou pelo menos mais curta que o terçado.. diz: “Flor enfim da terra. F. – Montante – define Aul. et alios minores. Depois de enumerar os formosos dotes de Helena. – Sabre é “espada pequena. De Re Milit. diz: “Como homens alfim levantados do pó da terra. de S. quos spathas vocant. curta e curva. deixam alguma coisa que esperar: a terceira. – Enfim é um modo translatício. que “alfim é expressão castelhana mas admitida em nossa língua. 24). É hoje usada na gendarmeria”. como os franceses da sua flamberge. irrevogavelmente. e cada ano cortada . como disse Camões. gladios majores.

carnífice. algures. mas afirma que outrem é seu dono. acolá. o estranho não só não é nosso. senão que ignoramos se tem dono”. – há uma muito leve diferença. Cobiçar o alheio é cobiçar o que não é nosso. para designar o indivíduo que imita contra alguém as funções do sacrifício. diz: “Abrasado finalmente o mundo”. carrasco. é simplesmente o que executa a sentença. levou-nos por fim ao parque. 239 ALHEIO. e por certo merecedores de serem revividos”. alheio e de outrem – escreve Bruns. carrasco e verdugo. – Algoz é termo culto. cobiçar o que é de outrem é cobiçar o que pertence a determinado indivíduo. e que passou. es- tes dois advérbios “são atualmente pouco usados na linguagem culta.. são muito expressivos. – Alhures (pronuncie-se alures) exclui o lugar em que estamos. “algoz diz-se melhor de quem martiriza moralmente. que aquele que fala não conhece bem. – Carrasco e verdugo designam o indivíduo que tem o ofício de executor. (III. 146). aí. – A locução por fim equivale a “finalmente”. dos que martirizam moral e fisicamente”. que o flagele e martirize como se quisesse tirar-lhe a vida). e aplica-se hoje com sentido análogo. – Ali diz propria- mente – “naquele lugar”. diz Bruns. – “Entre com o arado do tempo”. senão já quase desconhecido. – Segundo Bruns. algoz é esse indivíduo. próprio da poesia e do estilo elevado. (Roq. ou outro qualquer (que faça de algoz contra alguém. suficiente não obstante para que em muitos casos as duas expressões não possam empregar-se indistintamente.). 240 ALHURES. Entre alheio e estranho também se nota a seguinte diferença: o alheio não é nosso.” 237 ALGOZ.. – algures. que faz. verdugo é palavra castelhana que se introduziu na língua portuguesa. verdugo. etc. sem determinar o lugar. – Sacrificador era o encarregado de sacrificar as vítimas entre quase todos os povos antigos. a ser sacrílega. “Depois de nos mostrar toda a casa. – Carnífice diz – “homem sanguinário. são: “denominações comuns ao executor da alta justiça nos países onde vigora a pena de morte”. ou da tortura como cerimônia de culto. “Carlos I de Inglaterra foi executado por um algoz mascarado que se prontificou a substituir o carrasco que havia desaparecido”. sacrificador. dizemos afinal. e o primeiro não só pouco usado. subentendendo-se que é quase sempre a de morte. Não obstante. – Alheio indica apenas que o objeto não é nosso. certos. ou que é capaz de fazer morticínios”.160 Rocha Pombo 238 ALGUNS. de outrem não só indica que o objeto não é nosso. alhures = “noutra parte”. algures = “em algum sítio”. lá. 241 ALI. – Alguns “refere-se limitadamente a pessoas ou coisas indeterminadas. O segundo. além. estranho. – Resta-nos dizer que o primeiro do grupo é hoje muito pouco usado: em vez de alfim. ou que lhe não ocorrem. 5). de outrem. isto é. isto é. por isso mesmo. e dá a entender que são conhecidas e que se poderiam nomear se necessário fosse”. executor.. (XII. nem é preciso indicar. da execução religiosa. E começando aquele famoso exórdio do sermão sobre o dia de juízo. é menos vago. “em conclusão”. não exclui nenhum. “Afinal chegou o nosso dia”. – Executor substitui a quase todos os outros do grupo. carrasco é termo popular. – Quanto aos três primeiros. – .. tanto à vista como no sítio de que se acaba de tratar. posto que se refira igualmente a pessoas ou coisas indeterminadas.. No sentido figurado.

pelo qual dá um ao outro poder sobre seu corpo. José de Lacerda). que se refere precisamente ao contrato. É termo genérico do direito das gentes. – Coalizão – diz Bruns. não impediram a aliança de duas famílias. – Neste grupo. – Além significa – “mais para diante. ou à anterior indiferença”. exprime o contrato. sem relação necessária às leis religiosas ou civis de cada nação. e sobre a qual assentam os muros de uma constru- . podendo ser boa ou má. mas que não é o que eu ocupo. do outro lado de um lugar ou um acidente à vista. porém liga. e tem lugar mediante convenções particulares. nem o que está ocupando a pessoa com quem falo”. segundo Roq. conseguido este. Assim dizemos que a diferença de religião. fundamento. pedestal. liga. refere-se às pessoas. convertem-se em regras de direito público. e também as bodas que a este se seguem”. etc.. com que é estabelecida. um fim. isto é – no lugar em que se encontra a pessoa a quem nos dirigimos. ou mesmo não visível”. e as condições. – Aí quer dizer – “nesse lugar”. 243 ALIANÇA. peanha. porém menos duradoira. – Bodas. “a palavra aliança refere-se ao que da união é aparente e se relaciona com as convenções sociais. ao rito e aparato com que costuma celebrar-se o matrimônio. cada Estado. Há homens que contraem alianças que não estão em relação com a nobreza da sua prosápia. – Acolá diz – “ali. encravada no solo firme. e dela difere em que a liga se celebra geralmente entre Estados. núpcias. ou entre partidos que não têm interesses opostos. coalizão. que. o banquete nupcial. A coalizão visa a matrimônio.). 244 ALICERCE. têm interesses ou sustentam princípios diametralmente contrários. embasa- mento. – União é a palavra que mais se relaciona com as conveniências pessoais dos cônjuges. A aliança entre soberanos (ou entre Estados) forma-se por via de tratados. sem nenhuma outra ideia acessória”. – Liga é uma semelhante união. e refere-se propriamente às solenidades legais. comumente. – “é uma espécie de liga momentânea. – “Aliança é a união de vontades e forças para fins determinados.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 161 Lá significa – “naquele outro lugar”. noivado. (Bruns. – Confederação é “uma união. casamento. corporações. com que se soleniza esta festa de família. nuptiœ. pelo contrário a palavra liga toma-se quase sempre em mau sentido. nem produz resultados iguais. – Alicerce (ou alicerces) é a “parte sólida. na parte oposta àquela em que estou. etc. supõe maior formalidade. entre reis. bodas. significa o festim doméstico. povos. – Núpcias é palavra latina. – Noivado é “expressão vulgar com que se designa a cerimônia religiosa do matrimônio católico. em circunstâncias normais. isto é – no lugar que não é o em que me encontro eu presentemente e que está distante de mim. do castelhano boda. consórcio... base. a desproporção das fortunas. união. naquele lugar que está à vista. 242 ALIANÇA. confederação. Aliança diz-se com respeito às pessoas e às coisas. ou cada partido volta ao seu anterior antagonismo. ou entre partidos que. maciça de alvenaria. que obrigam as nações que se aliaram”. A palavra aliança toma-se indiferentemente. entre homem e mulher. para realizar-se. – Casamento é o vocábulo que exprime a associação do homem e da mulher. e não requer as formalidades com que se estipulam as alianças. – Matrimônio. enquanto que a coalizão se faz entre Estados.” (D. Duas pessoas de gostos diametralmente opostos formam uma união desgraçada.

“base. sensível diferença: embasamento não é mais do que tudo aquilo que acima do solo serve de suporte ao edifício: assenta. é que “fundamento encerra a ideia de solidez. de apoio firme. Base emprega-se ordinariamente no singular e falando de um objeto pouco extenso. – Pedestal (do francês piédestal. como um rochedo.. – Seduzir é “desviar do reto caminho. “O mago encerrou-me numa estátua colossal..: “Fundamento usa-se mais no plural. – Peitar é “por meio de paga. O fundamento é aquilo sobre que assenta a base. consta de base. J. apoio”. sobre que se põe estátua ou busto. 245 ALICIAR. subornar. e designa a peça de pedra ou de madeira. cambiar. enganando com artifícios. seduzir. e varia segundo as ordens de arquitetura”. e tratando de um edifício.162 Rocha Pombo ção”. é coberta de habitações ou de verdura.. poderia confundir-se com alicerce se este não sugerisse a ideia. pois. seus fundamentos são como suas raízes. a que falte alguém com o seu dever”. muito mais o corrompido. o aparelho de solidez e segurança sobre que repousa um edifício: é o vocábulo embasamento. ordinariamente de mármore. engodar. “por todos os meios ilícitos e desonestos. melhor no plural) é “toda a área de solo. mas não um fundamento ou fundamentos. falando-lhe às ambições”. corromper. e tratando-se de edifícios. o embasamento sobre os alicerces. soco e cornija. chamada em francês tortue e que era móvel. – Alienar exprime a ideia geral que os outros verbos deste grupo especializam: a ideia de desfazer-se . cuja base assenta nos fundamentos do templo” (Volt. corrompendo com habilidades e finuras”. “de pau”. permutar. Há uma palavra que parece mais técnica para designar o assento geral. a qual não se inclui.). que alguns querem seja corrução de lignea. Entre este e fundamento há. Uma montanha é abalada até nos seus fundamentos. sobre que assenta uma construção”. na palavra base”. – Subornar é “induzir de qualquer modo. “pôr alguém a nosso favor e levá-lo a fazer o que é do nosso interesse”. na maioria dos casos. no entanto. ou como seu pedestal”. O fundamento está oculto na terra. com ofertas e pagas. apoderar-se da vontade e da ação de alguém para fins criminosos ou indignos”. fazendo-lhe promessas. – “Peanha é palavra portuguesa formada de pé e anha. escambiar. etc.). pelo menos nem sempre. “Não basta que a virtude seja a base de vossa conduta. tinha uma base (Roll. – Sobre fundamento e base escreve Laf. iludindo a boa-fé. como estes assentam sobre os fundamentos. é termo de arquitetura. O ato de corromper envilece tanto o corrompido como o que corrompe. de uso tão frequente no sentido figurado. compreendendo a estrutura subterrânea. se não estabelecerdes essa base mesma sobre fundamentos inabaláveis”. pei- tar. Mas o que é decisivo na escolha entre estas duas pa- lavras. tra- ficar. vender. de pied.. lançam-se fundamentos. e indica um corpo sólido. boas palavras e artes”. – Engodar é “atrair com presentes e mimos. enquanto que base designa apenas “os pontos por onde começa o edifício a erguer-se do solo”. e sua base tem tanto de circunferência. a base está acima da terra e se vê: cavam-se. – Corromper é. ou uma coluna: sua base é seu pedestal.). – Base é termo geral. as estátuas monumentais. – Aliciar é “trazer alguém para o nosso partido. 246 ALIENAR. que sustém as colunas. a máquina de guerra dos antigos. assenta-se uma base. – Fundamento (aqui. “pé”. que o caracteriza.. no entanto. aqui. às vezes movediça. trocar. (J. significando “a parte inferior sobre a qual repousam os corpos”. e do teutônico stall.

por exemplo) levar artigos de comércio.. relacionam-se fatos. e cambiar é mais propriamente “trocar moeda de um por moeda de outro país”. monda. – Sustentar significa prover do necessário para a vida. 247 ALIMENTAR. a atitude. Para haver permuta seria preciso que do país onde se vendeu ou trocou fossem também mercadores ao outro país. e que se estabelecessem assim entre os dois mútuas relações de comércio. dizemos que a lenha alimenta o fogo. – Manter diz propriamente – “conservar alguma coisa como está. Os poderosos do sé- inventariar. que diz apenas – “pôr em rol”. – Relacionar é “dar em relação com as informações precisas”: ideia que se não encerra em arrolar. ou que há permuta entre os dois países. e. principalmente na vinha. e nutre-se com as verdades da filosofia. – Monda se diz do ato de arrancar à mão. e os trocam por outros desse país. sustentar. Se a cessão é feita mediante dinheiro. No sentido figurado. – é o ato de cortar os ramos desnecessários ou nocivos à existência da árvore. nutrir. 248 ALIMPA. que “se refere à ideia da necessidade que de comer têm os seres viventes. da ferrugem e outros parasitas que os cobrem. – Alistar distingue-se dos outros deste grupo em sugerir a ideia de inscrever com certa solenidade a pessoa que se alista. diz Roq. mantém-se a promessa. ou que se a permutou. catalogar. Fora do comércio.” – Inventariar. manter.. no seu lugar. Tanto assim que se diz: alistou-se eleitor. alguma diferença entre permutar e trocar. As pessoas caritativas sustentam muitas famílias necessitadas. Alimenta-se o pobre com umas sopas. o primeiro verbo sugere melhor a ideia de mutualidade entre os que fazem a transação. – Nutrir explica esta mesma necessidade satisfeita em proveito do indivíduo pelos bons resultados da digestão. indica a operação de trocar. dar o sustento. não propriamente permuta. “troca”) distinguem-se assim: escambar. na acepção jurídica. e com explicações que facilitem a respeito das coisas catalogadas o que se deseja saber de cada uma. – Cambiar e escambiar (do mesmo tema cambio. O literato alimenta-se lendo Horácio. a comida diária. . arrolar. não se pode dizer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 163 alguém de alguma coisa. mas mediante dinheiro (vender). de emprego. Haverá troca. poda. – Alimentar. dizemos que se vendeu. diz o mesmo que relacionar. a opinião. Há. passá-la a outrem. Nutre-se o rico de bons manjares. alistou-se no partido (e não – relacionou-se. permutar significa – “trocar de posto. – Catalogar é “arrolar em certa ordem. os que ficam. tráfico. limpando ao mesmo tempo. etc. só por isso. a água as plantas. etc. sem mais ideia alguma acessória.” 249 ALISTAR. relacionar. Quando os mercadores de um país vão a outro (ou vão entre bárbaros. as más ervas que crescem entre os cereais. ou com sacho. de lugar”.. que os dois países permutam. em geral. papéis. que é pouco usado. Catalogam-se livros. Relacionam-se os objetos que vão para o depósito. culo sustentaram com sua influência e conselhos muitos erros e heresias”. – Poda é “o ato de cortar a rama supérflua que de ano para ano fica nos vegetais. – A alimpa – diz Bruns. dizemos que foi trocada. Mantém-se a família. de cedê-la. nas condições em que se encontra. Arrola-se a roupa. se damos uma coisa por outra. mas sugerindo ideia da indagação e pesquisa que faz o que inventaria. nem – arrolou-se). é arrolar e descrever minuciosamente os bens de um espólio ou de uma execução. arrolam-se os instrumentos e armas indispensáveis para a viagem. no entanto.

acrescenta o mesmo autor. servindo para guardar objetos de costura. que a primeira e a terceira palavras deste grupo – aljava e carcás – são sinônimos perfeitos e com qualquer delas se designa o estojo onde se metem as setas e que se traz pendente do ombro. – Alforje (usado comumente no plural) é. – Bruaca (ou broaca) é termo nosso.164 Rocha Pombo 250 ALJAVA. farinha.). para que se equilibrem sobre o animal. açafate. madeira. segundo definição de Aul. – Picoá. seira.. e com a abertura no centro. pois são sempre duas as bruacas. bordados. de três ou quatro dedos de altura. quase . de taquara partida. estojo de costura. de madeira. carcás. – Cesta é “vaso grande. etc. de modo a formar como dois sacos ou compartimentos. Pereira Coruja: “espécie de saco de coiro. cesto de feijão (e não – cesta). Usa-se mais no plural. Vieir. de cascas de embira. acrescenta que é ordinariamente redondo. pois. Assim o define o prof. dobrada. de coiro ou de pano. um nome indígena mais equivalente a alforje. esparto. feito de varas entrançadas. cesta. Também se costuma chamar sapicoá”. e ordinariamente de forma retangular. cesta de roupa suja (e não – cesto). de junco ou de esparto. que serve para conter frutas. guaiaca. – Cesto é uma cesta mais grosseira. – Diz Bruns. Dom. de palha. es- tojo. “um saco fechado em ambas as extremidades. e outros quaisquer objetos”. É. No Bra- sil dizemos – cesta de costura. e mais ou menos semelhante a uma bolsa para dinheiro”. descoberto (ou mesmo com tampa móvel). seirão. com bolsa para guardar dinheiro e mais misteres de um viajor”. carcás. – Mochila é “uma espécie de saco de sola para trazer roupa e outros artigos de uso que os soldados de infanteria e de caçadores em marcha põem às costas. – Saco é “peça de pano ou de coiro. – Guaiaca é outro. ou mesmo de cabedal. em uma nota. no seu romance Divina Pastora. papéis. – Estojo é “uma caixa. etc. picoá. é “mala de algodão ou linho com abertura no meio: serve para conduzir roupa ou mantimentos em viagem. mala. geralmente com asas. ou folhas de palma. assim define esta palavra: “Cinta de coiro lavrado. etc. e este poderia comparar-se a bolsa ou estojo se não fosse a particularidade de ser a guaiaca presa sempre à cintura. fechada por todos os lados menos por um (a boca) destinada a conter provisoriamente diversos objetos miúdos.” – Mala é “saco de coiro. segundo Aul. de alforjes apenas em serem de coiro. e em que se leva fato de jornada. cesto flexível de vime. em forma de alforje. Coruja. (D. etc. com divisões e escaninhos. pois. oleado ou pano. frutas. aparelhos de profissão. Diferem apenas. que se conduz sobre cangalhas em viagem”. a fim de resguardar ou de os transportar)”. saco. peçuelos) é uma bruaca menor. e diferentes objetos”. – Cabaz = “cesto fundo. etc. bolsa. e que serve para conter ou transportar roupa. bruaca. do grego. peçuelo. rendas e também flores. – cesto de bananas. segundo o prof. sem arco ou asas. balaio. e serve para guardar ou conduzir pão.) – Balaio é “cesto grande. – Alcofa é. V. alcofa. usado entre os tropeiros e homens do campo. a fim de igualar o peso dos dois lados”. lona. Usa-se para trazer ao ombro. grande. José Antonio do Valle. – Açafate (ou çafate) = “pequeno cesto tecido de vimes delgados e descascados. como se vê. Seirão = “seira grande. que o próprio cavaleiro leva consigo à garupa. para guardar coisas de uso. etc. alforje. – Peçuelo (ou melhor. cabaz. seguro por meio de correias”. que se põe sobre as bestas de carga”. Diferem. de junco. Diz o prof. jacá. Estojo de desenho.” (Aul. quanto à origem: aljava nos vem do árabe. – Bolsa é “um saco de qualquer estofo.” – Seira = cesto de palha. Coruja que o dr. cesta. mochila. largo e leve.. fechado ou não com cadeado ou chave. ou sobre as cavalgaduras.

espírito. briosa. e davam-lhe a mesma extensão que nós damos à palavra alma. em denotar inteligência. espírito. – Gelado quer dizer propriamente – “reduzido à temperatura do gelo”. Dizemos: clima frio. “privado de calor”. gelado. “sopro”. mas nenhum se lembrou ainda de dizer que o espírito era matéria. do que está frequentemente gelado. empregado mais no sentido moral. representa esta palavra. os anjos. “ar. nem em todos os casos se podem empregar indiferentemente. e significando o mesmo que gelado. ou “que não é quente”. Noutra acepção. as substâncias espirituais que animaram os corpos humanos. sopro. para condução de coisas miúdas”. feito de esparto ou de taquara”. Diz-se que um homem tem a alma grande. Os gregos designavam a alma pela palavra psyche. sendo que espírito só indica substância imaterial. re- gelado. Seja qual for sua etimologia. Os filósofos materialistas têm querido negar à alma humana a qualidade de espiritual. alento”. profundo. isto é. 252 ALMA. do movimento de todos os seres viventes”. aos afetos. vem de anima. ar que se respira. frígido. “alma. coração. Dizemos: o gélido cadáver (e não – gelado). – Se- gundo Roq. glacial.. do sentimento. que anima ou animou o corpo. onde há muito frio”. e clima frígido significariam outra coisa). nobre. exprime qualidade ou modo de ser. de spiro. a que os franceses chamam revenants. Frígido (do mesmo latim que deu frio. are.” – Gélido é termo poético. faculdades intelectuais ativas que àquele só são acessórias.. alma refere-se aos atos. – “Álgido é termo científico e poético. chamam-se almas. no entender de alguns etimologistas. É provavelmente esta última definição que caracteriza a diferença entre os dois. Vieira disse. “que quer dizer respiração”. sem relação nenhuma com o corpo. melhor do que este (que designa apenas estado quase sempre). – Jacá = “cesto grande e grosseiro.. a gélida indiferença (não – gelada). Espírito difere de alma. qualifica-se de álgido ao que vive no que é glacial: as plantas e os animais álgidos vivem nas regiões glaciais”. Álgido se diz do que comunica a sensação do gelo. alere. poético e da linguagem vulgar. ânimo. diz: “Tudo isto que vemos (no . vasto. e talvez com mais razão. gélido. nutrir”. – Espírito é a palavra latina spiritus. outros. à inteligência. Alma desperta ideia de substância simples. termo latino que vem do grego anemos. ao pensamento. e assim dizemos: as almas do Purgatório. glacial é científico. a causa oculta da vida. os demônios são espíritos. “respirar”. água gelada (e não – gélida). Falando do homem. senão em alguns. ou mais frio do que o gelo.. primeiro em encerrar a ideia de princípio subtil. falando do demônio: “É espírito: vê as almas”. e que tem o espírito penetrante. aos sentimentos.) – Frio significa propriamente “sem calor”. Deus. ainda depois de separadas deles. o princípio.. zona frígida (zona fria. devendo notar-se que. mas não são almas. – Regelado é redobramento do precedente e diz – “muito frio. frio. almas do outro mundo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 165 sempre com asas. segundo. querendo encarecer o valor da alma sobre o corpo. inteligente e livre. em sua significação mais lata.. Além disso distinguem-se estes adjetivos por sua diferente significação. No sentido figurado. derivam a palavra alma do verbo latino alo. 251 ÁLGIDO. (Bruns. tal é aquele de Vieira em que. alma e espírito nem sempre são sinônimos perfeitos. Daí vem chamar-se psicologia à parte da filosofia que trata da alma. e vale o mesmo que sopro ou hálito. “vivificar. glacial. eu. invisível que não é essencial ao outro vocábulo.. frigidus) diz também “frio.

grego. há também folhinhas eclesiásticas.) – Manual é vademeco mais extenso. quando é tomado como sede da fortaleza moral. e à burocracia em geral”. letra dominical. . – A palavra anuário. para uso do clero. Além do calendário folheto. – Ânimo é a mesma palavra latina animus. de anemos. pode ele ser baixo. chamamo-la espírito. vil ou soberba. Como notamos entre parênteses. – Guia. Segundo os afetos que o ânimo experimenta. do mesmo modo que anima. dispostos por meses. palavra árabe introduzida na língua espanhola. – Repertório é uma espécie de almanaque acomodado às necessidades da gente do campo. dos caminhos de ferro. “livro pequeno. pois. – Em linguagem filosófica. que contém em resumo aquilo que é indispensável em algum ofício. – Folhinha é o calendário adequado ao uso do povo. alma esforçada ou abatida. de espírito. que se compõe de folhas sobrepostas que se vão retirando uma a uma cada dia. 253 ALMANAQUE. (Usa-se neste caso mais propriamente de itinerário. é o indicador dos pontos por onde se tem de passar. guia. abatido. há o calendário parietal. espírito. da coragem etc. ou quando nela se vê apenas a faculdade intelectual. e nisto se distingue de alma e espírito (se bem que nem sempre essencialmente). designa também o santo ou a festa própria de cada dia do ano. ou altivo. quando se considera a alma como ser pensante. guia dos lavradores. – Vademeco (latim vade mecum) = “folheto com indicações ligeiras. – Diz Bruns. calendário. no sentido restrito que tem neste grupo. eu é a alma. número áureo. às repartições oficiais. elevado. é folheto ou pequeno livro em que se encontram todas as indicações indispensáveis aos que se ocupam de algum serviço: guia dos viajantes. grande. – O calendário indica a ordem e série de todos os dias do ano. esforço. e que passou desta para todas as línguas europeias. humilde. e ainda menos de espírito”. entrada e saída do sol em cada um dos signos do Zodíaco. roteiro. além do calendário do ano. etc. “órgão dos afetos”. folhinha. vademeco. prontuário. nem sempre é de rigor a distinção que faz Roq. 71). Particularmente. fórmulas ou noções de uso frequente em algum ofício ou profissão”. é o conjunto das faculdades que formam a individualidade psicológica. quando exprime. se indicam os eclipses. Também dizemos: espírito baixo ou altivo.166 Rocha Pombo homem) com os próprios olhos é aquele espírito sublime. – Roteiro. Na sua significação primitiva vale o mesmo que alma. indicador. vontade. como esta. o princípio das estações. – Almanaque. ciência ou arte”. moderna na nossa língua com esta acepção. – Prontuário é o “manual onde se acha prontamente o que se quer sobre algum ofício ou profissão”. porém o uso tem preferido este vocábulo para designar a faculdade sensitiva e seus atos: representa. “que de todos estes vocábulos. é provido de vária leitura e indicações interessantes. nobre. manual. as fases da lua e as variações dos dias. epacta. – Coração só pode ser tido como sinônimo de alma e de espírito: de alma. é uma espécie de almanaque cuja utilidade é particular às casas de comércio. aqui. soberbo. vil. designa um folheto ou livro (e às vezes livro bem alentado) em que. só folhinha e repertório são genuinamente portugueses. – Indicador será um guia mais particular: indicador das ruas. esforçado: o que com propriedade (em muitos casos) não se poderia dizer de alma. ou intenção. anuário. re- pertório. ou de mero passatempo. segundo a índole das pessoas a que é destinado. ou do rumo que se há de seguir nalguma viagem. e. ardente. quase sempre valor. indicação romana. imenso – a alma (II. ciclo solar.

criador. o cavalo do Pedro. – “é o gênero a que pertencem como espécies todas as composições oratórias. o leite é muito nutriente (e não – nutritivo). querer do fundo da alma. e mui comumente para animar os soldados a empreender com denodo a batalha ou qualquer ação perigosa. com o fim de o convencer e persuadir. arrazoamento.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 254 ALMEJAR. Ambiciona-se uma grande fortuna. pretender. – Apetece-se quanta fruta se vê nas mercearias. sermão. ou fazer as pazes com o amigo. de produzir forças. os fins e as circunstâncias. e com serenidade e confiança nos votos com que se espera pela coisa almejada”. pois. elogio. que nutre. aspirar. – Ambicionar é “desejar demais. homilia. 255 ALMO. Arengas são as que os antigos generais faziam a suas tropas em vésperas de combate. Arenga-se também a corporações respeitáveis. – Almo (do latim alimus. Os sábios e valorosos generais a acalmaram muitas vezes.. – Pretende-se um cargo de importância ou chegar a almirante quando se é simples marinheiro. A arenga dirige-se. ou o que está acima dos nossos méritos”. – Arenga é uma espécie de arrazoamento oratório. honras. É certo. ou possuir alguma coisa que nos agrada. em notáveis circunstâncias. 167 apetecer. – Almeja-se voltar à casa dos pais. que. que alimenta. etc. prédica. oração. arenga. ao coração. em perigosas e decisivas circunstâncias. – Pretender é “desejar coisas muito altas e de grande monta. apetece riquezas. de alo. cobiçar. ou propriedades nutritivas de um produto vegetal (e não – nutrientes). imoderadamente”. nutritivo. que se dirige a um grande concurso para comovê-lo. preleção. e têm entre si algumas diferenças. de nutrir. e que excedem muito a nossa capacidade”. ambicionar. por isso que se razoa e se empregam razões para conseguir o fim que se deseja”. vencer um embaraço.ere) diz “fecundo. no entanto. desejar. a pessoas eminentes. São arengas também os estudados e cerimo- . Tudo o que se diz de viva voz a um auditório mais ou menos numeroso. ou um alto posto na política. – Aspirar é “desejar com esforço e veemência”. fala. proclamação. dis- curso. como as que Salustio põe na boca de Catilina para animar e enfurecer a seus cúmplices. – Aspira-se um bom lugar na administração. que andam quase sempre os dois aplicados indistintamente. – Deseja-se recobrar a saúde. poder. é um arrazoamento. – Cobiça-se a bengala. prática. criador. próprio dizer que F. – A palavra arrazoamento. as quais devem atribuir-se antes ao artifício retórico dos historiadores e poetas que à eloquência dos seus heróis. por isso. para excitá-lo à rebelião. panegírico. – Desejar é “ter vontade de conseguir ou de gozar alguma coisa: é querer com mais gosto”. tomam diferentes nomes. como tendo por fim persuadir e mover. ou de o excitar a alguma ação ou empresa. que faz crescer”. Em contrário sentido fazem os grandes conspiradores arengas ao povo. de todas as deste grupo. – Entre nutriente e nutritivo há esta diferença: nutritivo (de formação vernácula) significa “de nutrição: que tem a propriedade de ser nutriente”. – Cobiçar é “desejar o que não nos pertence. Como diz Roq. conferência. Não seria. animado e vivo. – Apetecer é “desejar alguma coisa como por necessidade de ceder a exigências da própria natureza”. nutriente. – Criador é aquilo que é capaz de gerar. segundo a contextura. 256 ALOCUÇÃO.. – Almejar é “desejar ardentemente. é a mais extensa. as sublevações de seus exércitos com eloquentes e veementes arengas. Dizemos: as qualidades. Nutriente (do latim nutriens) quer dizer “que nutre”.

fúnebre. aos que fazem os oradores modernos se lhes dá geralmente o nome de discursos. se bem que não exclua a noção de instruir. os governadores e demais autoridades.. mover e interessar a uma pessoa. falando do primeiro: “Fez aos turcos uma breve prática. pedir. vocal. que ele quase sempre toma no mau sentido de razões longas ou ininteligíveis.. de Eschines. dirigida a um povo ou a um exército por um príncipe. tiraram os latinos o verbo orare. práticas impertinentes. o superior a seus súbditos. para importantes sucessos ou negócios públicos. sobre questões de alta monta. Po- rém.168 Rocha Pombo niosos discursos que. as da Igreja segundo o ritual. do alto do púlpito”. ou prática em que se explica uma lição”. por ocasião de algum notável acontecimento que interessa a Igreja. escrita. ou por um general. um general. – Proclamação é “uma fala ou arenga mais solene. – Sermão é “uma prática religiosa. lhe dirigem as câmaras. – Panegírico é a “oração em que se faz a apologia. animados e engrandecidos por quantos meios subministra a arte da eloquência. etc. – Homilia é “um sermão menos formal e solene. para persuadir. ou fala dirigida a alguém sem aparato oratório. socorra. e daqui oratio. João de Castro. – Do substantivo os.. e feita com certa solenidade. suplicar. favoreça. de Mirabeau. que significa “falar. ou a um ser superior. e sempre destinada a nutrir esperança ou coragem na alma daqueles a quem se dirige”. etc. como devida homenagem que se lhes rende e jura. proclamar.. tais são as que Jacinto Freire põe na boca de Coge Cofar e de d.oris. rogar”. Diz-se ordinariamente do que o Papa dirige aos cardeais em consistório. Às vezes corresponde às arengas dos antigos generais. raciocínios coordenados entre si. ao entrar um príncipe.. enquanto que “prédica sugere mais a ideia de anunciar. no entanto. uma prática destinada a esclarecer algum ponto de doutrina ou alguma passagem das Escrituras”. Esta palavra é mais bem recebida entre o vulgo do que arenga. de causas particulares em que ele devia decidir. Há. perante o povo. um conquistador numa cidade. dizer muito alto”. o general à sua tropa.. o louvor de alguma grande vida”. a defensa. diz-se com muita frequência que o coronel fez uma fala a seus soldados. para chegar aos fins que nisso propôs: o que verifica por uma dedução de ideias. Dizemos oração dominical. de Cícero. assim chamavam. ou melhor. – Prédica é o mesmo que prática religiosa. “boca”. ou nos perdoe as faltas que havemos cometido. jaculatória. que em seu sentido reto é um arrazoamento ou alocução disposta com inteligência e arte.” – Fala é termo vulgar que vale o mesmo que prática no sentido em que aqui a tomamos. De modo que àquilo que os antigos chamavam oratio. – Conferência tem aqui a significação particular que lhe damos . entendendo por ele uma composição literária feita por qualquer de nossos oradores acerca de algum importante assunto.”: e do segundo: “Acabada a prática. Usa-se mais comum e geralmente em sentido religioso. uma diferença muito subtil entre estes dois vocábulos: “prática sugere intenção de instruir. Chamaram os latinos orações aos discursos que compunham com o maior esmero. e que nós traduzimos pela palavra oração. como as orações que fazemos a Deus e aos Santos. mental. onde diz. a que nos ampare. de Fox. – Preleção é o mesmo que “discurso didático. em grandes momentos. e só se dá de superior para inferior. e chamamos ainda hoje. – Prática é exortação menos solene e menos veemente que arenga. de Demóstenes. pensamentos. agora lhe chamamos discursos no sentido oratório. de explanar”. – Alocução é discurso breve. ou sacropolítica. a estes arrazoamentos públicos orações. como as de Isócrates. tais são os de Pitt. “oração”. a formação e aprovação de leis. como a paz ou a guerra.

fatuidade. mas distingue-se deste em ser mais justo. – Altivez é antônimo de humildade. vestíbulo. pois que panegírico diz propriamente “discurso festivo e laudatório”. um orgulho afetado e estulto. e consiste em parecer que se é altivo. como templo. elogio fúnebre. pelos ares insolentes. a nobreza de alma e outras grandes qualidades morais. – Aplica-se o vocábulo átrio ao “pátio que nos grandes edifícios leva da entrada até à escadaria. altivez. valente. sobranceria.) 257 ALPENDRE. cuja abóbada é quase sempre sustentada de colunas e que serve de entrada”. diz Roq. nunca. e pode ser aberto. Empáfia tem ainda alguma coisa de ostentação e fanfarrice. alpendrada o alpendre sobre que abrem as janelas de alguns chalets. é a altaneria exagerada até a presunção. – A empáfia é a soberba arrogante.: “é um pórtico sustido em pilares diante da porta de algum edifício”. A soberba não é só a manifestação do orgulho: é mais um falso orgulho. Orgulho difere de soberba em ser um sentimento que não é incompatível com a discrição. adro. é possível que se torne para o orgulhoso em forte estímulo na sociedade e na vida. arrogância e altaneria – do que propriamente orgulho. etc. ou não”: diz-se mais particularmente do que se vê à entrada dos templos de alta construção. de ter preeminência sobre outros. um ridículo entono.: “alpendre e alpendrada (ou alpendrado) têm por fundo o próprio edifício. O orgulho pode ainda justificarse. – Sobranceria. – Altaneria é uma afetação de altivez. ou quem se mostrasse soberbo de alguma coisa – estaria julgado só por isso. ou de não ter vícios torpes. em casas nobres. fazer-se legítimo: a soberba. – Pórtico é “portal de grande edifício. inda que impropriamente. forte. empáfia. do nosso valor. e à alpendrada. da nossa família. Ninguém se vexaria de dizer que tem orgulho de algum bem magnífico. o telheiro está contra o edifício ou isolado. a magnanimidade. elogio histórico (e decerto ninguém diria panegírico histórico ou fúnebre.. e raramente deixará de revelar pequenez de espírito. que também nos dá átrio) é “o espaço que fica à frente do pórtico. a altaneria e a sobranceria podem facilmente confundir-se com orgulho. Quem dissesse que é soberbo. dá-se o nome de anteportaria. palácio. ou mesmo ser indício de virtudes excelentes: a soberba é sempre fútil. nos grandes edifícios”. – Adro (do latim atrium. pode dizerse. – Nas suas manifestações. e sobretudo com soberba e empáfia. que se mostra pelos gestos. telheiro. que mostra o sobranceiro. orgulho. que vive entre os homens como entre iguais. Denominamos alpendre o adro coberto que há diante da porta de algumas ermidas e conventos. alpendrada. O sujeito altivo é aquele que está no mundo como quem está no que é seu. e que compreende certo espaço coberto. chama-se galeria”. lida perante um auditório”. 258 ALTANERIA. como o entende Roquete21. – Segundo Bruns. – Elogio é quase panegírico. Dizemos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 169 hoje comumente: designa a “composição literária ou científica. Hoje alpendre diz-se quase exclusivamente daquela parte de um pátio que está coberta por telhado. pelo desprezo com que encara o resto dos homens. em regra sem grande extensão. ou em geral. átrio. portanto. Ao alpendre. de alguma honra excepcional.” – Vestíbulo é “o espaço que vai da rua até à porta que dá no interior. Sendo o orgulho o alto conceito que temos de nós próprios. pórtico. impostura. 21 Alpendre. mais legítimo como testemunho.. não se tendo como inferior a . de estar acima de outros. rico. soberba. O orgulho pode ser nobre.

diferença-se deste modo: a coisa que se reforma conserva ainda os seus fundamentos: mudará apenas o que nela não pode ou não convém ficar. usamos do verbo mudar. os que não temos de onde cair” – a palavra alturas está aplicada também a elevação moral. Impostor é o sujeito cheio de si. corrigir. altura de uma torre. de superioridade. sofreu alterações maiores do que se tivesse sido apenas reformada. mas é usado este verbo para designar o ato de “dar organização diferente mesmo àquilo que já existia ou que ainda existe”. reconstruir. em caso algum teria sentido físico. disjuntiva. – Transformar também se confunde com reformar aqui. altura. das quais uma há de ficar precisamente prejudicada. – Remodelar é “refazer alguma coisa sobre novos moldes ou modelos”. chamamos a essa operação variar. não é uma distin- formar. renovar. substituir. reorganizar. Alteza. ou fazer-se freira: é uma disjuntiva. contada da sua parte inferior até à parte superior: só se aplica a coisas físicas. refazer. altura. se é que alguma soberba exista que não seja tal. ao peso. Posso ir ao Porto por mar ou por terra: é uma alternativa. como já se viu no § precedente. Não é altivo o indivíduo que afronta um velho. consideramos a elevação da torre ou da montanha sobre o nível do mar. Deixa de ser altivez todo movimento de alma que não se funda numa perfeita consciência do direito. retificar. variar. é “construir outra vez ou de novo”. – Impostura. modificar. A coisa que se transformou. é uma afetação de grandeza. mais do que soberba talvez. no entanto. – Dilema é a alternativa ou disjuntiva em que não há opção satisfatória”. Ou casar. é a elevação de um corpo. de uma torre. ou que se mostra arrogante com uma criança. ou de uma montanha.) 260 ALTITUDE. De resto. à estrutura. – Se a alteração é total ou completa. (Bruns. re- ternativa é a opção entre duas coisas ou ações. ostentoso. ou se se fazem alterações num certo sentido – dizemos que isso é modificar. – Reconstituir é “dar a alguma .. – Reformar é quase mudar. do sagrado. dilema. 259 ALTERNATIVA. – Se se muda de forma. – Alteza só se emprega tratando-se de elevação moral ou social. no segundo caso. 261 ALTEZA. mudar. quando tombam das suas alturas. à forma. No primeiro caso. A altivez é. na maioria dos casos. – Reorganizar seria propriamente “dar organização nova àquilo que havia deixado de existir”. e principalmente do último.. Nesta frase: “Os reis. – Alterar enuncia a ação geral que os outros verbos deste grupo particularizam: é dar – às partes. 262 ALTERAR. – Disjuntiva é a opção entre duas coisas opostas. a coisa que se renova toma um novo aspeto. de orgulho – que se confunde com bazófia. e sem que se contradigam. calculamos a dimensão da montanha ou da torre desde a base até o cimo. – Reconstruir. que significa alguma coisa como substituir. à cor de um corpo ou de um todo e também às suas condições ou ao seu modo de ser ou de funcionar – uma nova disposição. – “Al- ção absoluta.. renovar. sofrem mais que nós outros.170 Rocha Pombo ninguém. remodelar. do honesto. a fazer alarde de si mesmo. mas distingue-se de todos. transformar. manifestação de legítimo orgulho. – Pode-se dizer – alti- tude de uma montanha. – Altura. emendar. ambas possíveis. – Se se vai alterando pouco a pouco. conforme indica o prefixo re. porém.. reconstituir. – Fatuidade é a soberba do imbecil. com muita empáfia.

José Joaquim de Mora. e no sentido figurado quer dizer – “enganar por meio de prestígios. a que se confunde”. mas devendo notar-se que este é mais extenso e de significação menos precisa. ofuscá-la por alguma coisa brilhante. ou por antipatia com as pessoas interessadas – ofusca-se. Aquele que sustenta uma causa injusta. confundir. que sugere a ideia de “pensar”. fica muito próximo de perdido. insano. uma disposição íntima. corrigir e emendar confundem-se: todos enunciam a ação de pôr uma coisa nas condições em que se quer que fique. ou curvo. 263 ALUCINAR. desvairado como se tivesse subitamente enlouquecido”. e no sentido figurado é “alucinar. e no sentido figurado equivale a “perdido. na frase: “Preciso de refazer (ou de reconstituir) as minhas forças”. alucinado” (égaré). fazer que desvaire por falta de uma visão perfeita das coisas”. insensato. Aquele que funda as suas esperanças de acenso no sorriso ou no aperto de mãos do ministro – alucina-se. e noutros poderia confundir-se muito com este. as ilusões do amor-próprio. as impressões veementes. de- mente. a razão. cego. ou bem expurgado de erros. o entendimento. ofusca. confundem. completa como a de reconstituir. tudo o que é indefinido. por exemplo.” (Roq. do latim fascinare. renovando-lhe apenas os elementos”. espantado como doido. e que fica em estado como de estupidez ou imbecilidade”. e que foi editada pela Real Academia da língua. as obras dos filósofos alemães? A imaginação é a faculdade que se alucina. etc. Pode dizer-se que perdido encerra o valor dos dois vocábulos franceses (ou a eles. alucinam. As razões sofísticas. – Fascinar. fascinar. sem confundir-se. pois. retifica-se o que está torto. ou a um ou outro deles é capaz de corresponder) éperdu e égaré: tanto diz – “agitado. dar quebranto”. doido. louco. – Retificar. Um sujeito que trabalhou o dia inteiro deve refazer-se das fadigas para a nova tarefa.) 264 ALUCINADO. o artigo correspondente a estes vocábulos: “As esperanças quiméricas. profunda. significa propriamente “enfeitiçar. atordoado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 171 coisa uma nova estrutura. por simpatia. a que se ofusca. desvairado. – Deslumbrar é “turvar a vista por meio de luz muito forte”. as questões espinhosas. – Cego só tem aqui sentido figurado e diz – “que perdeu ou tem perdida a visão da alma ou do entendimento. essencial que pode ser ou não diferente da antiga. de entender. os raciocínios excessivamente subtis. – Refazer é um pouco menos que reconstituir em certos casos. alucinado. as promessas enganadoras. como. Aqui. Nesta palavra demente figura a raiz grega man ou men. – Louco é propriamente “o que perdeu a razão”. deslumbrar. lê-se em Bruns. magnífica”. Mas. Mente é. perdido.: “Traduzimos da Coleção de sinônimos da língua espanhola. como o cego tem perdido a vista”. Um doente de anemia vai reconstituir-se na ilha da Madeira. – Demente é “o que está privado das faculdades de raciocinar. falsas aparências. – Alucinado é o que subitamente desvaira e se arrebata como louco por efeito de alucinação. corrige-se o que não está bem direito. – Cegar é “perturbar a vista de qualquer modo. ofuscar. estonteado. delirante. emenda-se o que está errado. A ação de refazer não é tão essencial. Quem pode ler. perturbado por uma emoção violenta” (éperdu) como – “fora de si. e também o que não está ainda bem puro. As narrações complicadas. de que é autor d. aturdido. encantar. cegar. “o . “sentir”. confundir o entendimento ou a razão. Mas aqui mesmo pode notar-se alguma diferença entre estes dois verbos. – Sobre os três primeiros verbos deste grupo.

uma ideia da coisa.. ou o conjunto das faculdades superiores do homem”: demente exprime. mas – “a cerimônia foi assistida” é construção viciosa (porque. não pode dar particípio passivo. – Enunciar é apenas “declarar por palavras. e não podemos dizer – “a coisa aludida”. por figura. – Insensato é “o que não tem senso comum. incapaz de fazer juízo”. Sente-se que referir seria indicar expressa e claramente fatos. Atordoado = “menos que aturdido. pois. ou com intuito de queixa. isto é –. “privado do espírito. ou o ato procedido”. referir. mas ainda de função gramatical. a que consiste em ser talvez a doidice uma forma de loucura mais completa e permanente. indicar. expressas pela voz. – Indicar é “apontar precisamente alguma coisa. – Delirante é “o que está como perturbado momentaneamente das faculdades intelectuais. marcá-la ou mostrá-la”. e confunde-se ainda com articular. ou – “o caso assistido”22.”) Não se assiste a cerimônia. a faculdade. que é “referir por palavras adequadas e precisas que esclareçam o articulado”. segundo os lexicógrafos. enun- ciar. alude-se a uma coisa. portanto – “a coisa referida”. 265 ALUDIR. – Doido é quase o mesmo que louco: se se pode notar alguma diferença entre os dois vocábulos. 22 Note-se que assistir tem diferentes acepções. “O enfermo foi assistido” – está direito (porque se quis dizer que o enfermo foi socorrido). de surpresa ou de susto”. da inteligência”. e assim privado de senso normal. ou por dever de ofício. ou a que indivíduos se endereça o ataque: e neste caso se diz que ele aludiu a esses tipos. Aludir é “referir indiretamente. Neste exemplo vê-se melhor a distinção: “O homem aludiu aos bandidos. . sem tento no que faz”. – Entre aludir e referir há uma diferença notável. declinar. Em vez de “circunstância aludida”. – Aturdido = “subitamente perturbado. consignar positivamente”. diremos corretamente: “circunstância a que se alude”. às suas tropelias e infâmias. sem tino”. assistir é verbo intransitivo e significa “estar presente a. é.. Dizemos. – Insano diz propriamente – “o que está enfermo da razão”: a insânia sugere também a ideia de loucura instantânea. há entre referir e aludir uma diferença que é frequentemente esquecida. – Desvairado é “o que ficou em súbita exaltação que o põe agitado. – Estonteado = “perturbado como quem acorda repentinamente. Quando alguém nos diz intencionalmente que – “certos tipos execrandos escandalizam a moral pública” – subentende-se que nós sabemos a que tipos se dirige a apóstrofe. Refere-se uma coisa. mencionar. pelo próprio nome. dizer onde se encontra. – Mencionar é indicar claramente. portanto –.172 Rocha Pombo espírito. mas nem sequer um fato teve a coragem de referir. Declinar é. e por isso não pensa normalmente”. nem declinou os nomes dos quadrilheiros”. os gestos ridículos e estabanamentos do doido. formular por termos próprios”. sentindo-se apenas em estado que não é de perfeita lucidez”. não sendo transitivo. sugerindo apenas. sem a declarar pelo nome. muito próximo de referir. e caracterizada pelos desvarios. – Expor é “fazer uma relação minuciosa do que se quer tornar conhecido de outrem. Sob o ponto de vista gramatical. expor. Referir quer dizer – “indicar de modo claro e preciso a coisa sobre que se quer chamar a atenção de alguém”. aflito. neste caso. mais por inadvertência talvez do que por ignorância. mas à cerimônia. não só de significação. ou ainda por desejo de instruir alguém sobre a coisa que se expõe”. Dizer – “a coisa aludida” seria o mesmo que dizer – “a coisa. e que declinar seria dar os próprios nomes dos criminosos. pois que o verbo aludir.

referente. respetivo. educando. ou da aula de música. portanto. de modo ainda mais preciso. e por alguns menino que frequenta alguma escola. ordinariamente de uma vez. – Educando é sinônimo bem próximo dos dois precedentes: e em muitos casos poderia substituir a um ou outro. quer como externo. e parece que todo o trabalho do ministro consistiu em dar toda amplitude à parte relativa a desfalques. locar.. que o instrui e guia. Tanto podem locar os proprietários como os que estão no usufruto da coisa locada. e pelo preço que se combina pagar. Nas praias de banhos alugam-se casas aos banhistas. palavras alusivas à má conduta de alguém. – Aluno é o car.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 266 ALUSIVO. Apresentaram-se os diversos clubes tendo envolto em crepe os respetivos estandartes. F. há entre os dois primeiros adjetivos deste grupo: dizemos que uma coisa é referente a outra quando a ela se refere. sublo- anos. – A mesma diferença. não tem nenhum discípulo”. ou do internato tal (os meninos que estão sendo educados nesse internato). por exemplo.. – Alugar e arrendar diferençam-se entre si – diz Bruns. – Discípulo é o menino que é entregue aos cuidados e esforços de um mestre ou professor.. e também se arrendam mediante contrato.. – Alquilar.. – Relativo exprime – “que tem relação com. a um ato. quer como interno. no entanto. “Entre os alunos do colégio tal. e por preço que constitui renda ou rendimento para o proprietário. dar de aluguel mediante contrato”. concernen- 173 te. Em outros muitos casos. isto é. que respeita ao próprio a que se refere. alquilar. “Os alunos da minha turma foram aprovados” (decerto que não ficaria bem aqui dizer – educandos). Procuramos naquele livro das Escrituras tudo que é concernente ao adultério. quando a indica direta e claramente. termo que já foi genérico.. Uma companhia de cômicos aluga o teatro da povoação por onde passa. discípulo. quer de ciência. – como aluguel e renda. e substituindo-o por alugar. nestes: “Respeito muito os discípulos de Loyola ou de Comte” (não educandos por certo). nas cidades arrendam-se ou alugam-se casas por semestre. por curto tempo. aos defeitos da criança. meninos cuja educação me está confiada). é uma designação que se refere ao estabelecimento onde o menino aprende. – Exemplos: Discurso alusivo a uma questão. Aluno. como. e dizemos que é alusiva quando apenas sugere ideia dessa coisa. só se diz atualmente falando de cavalgaduras e carruagens. isto é: aluga-se para um fim determinado. ou por meses. relativo. quer de arte ou de moral. que se atribui à coisa a que se refere”. como: os educandos do instituto. Os termos referentes àquele fato são ásperos. arrendar. arrenda-se por tempo mais longo e às vezes sem prazo certo.. sem a nomear. a ideia contida em referente e relativo: diz – “que é próprio. – Locar = “alugar.. 268 ALUNO. Aluga-se um trem: alugam-se móveis (não – arrendam-se). Tanto posso dizer: os meus educandos (os meus discípulos. – Concernente exprime. que pertence. – Respetivo diz – “que compete. o uso vai mesmo postergando este vocábulo. um empresário arrenda o teatro que quer explorar. que se prende à coisa a que se refere”. . etc. que diz respeito a. qualquer pessoa que recebeu lições de F. “Os meus discípulos são os melhores alunos do ginásio tal”. Dizemos também que é discípulo de F. por dias. ou a cada um em particular ou em separado”. – Sublocar = “alugar a outrem uma coisa que se tem tomado a alguém por aluguel”. não seria possível a substituição. que se nota entre os verbos aludir e referir. e discípulo só se diz com relação ao mestre. 267 ALUGAR.

– Imo é também o mais profundo das coisas. imo. que não cansa nossos olhos. que é estranho ao eu. resoluto. que significa “ponto ou fim que se colima”. crepúsculo. incerto. figura a raiz skeh. miolo. alvorada. Aquela dor chegou às profundezas do meu coração. – Intenção e intento significam “o desígnio que nos leva a agir. – Fito é “o alvo sobre o qual temos toda a nossa atenção e esforço”. A aurora. antes lhes dá motivo para se recrearem vendo alvorecer o dia. Ter em mira quer dizer “desejar. até que o astro do dia mostre seu afogueado limbo: eis a aurora. pretender. como é muito usado também) é o primeiro sinal da alva. contingente”) (Sar. intenção. e parece dar mais ideia de festa do que exprimir propriamente fase do alvorecer. o crepúsculo da manhã. – Mira é mais propriamente “o ato de fitar o alvo”. íntimo. 270 ALVO. rósea. a que se destina o nosso trabalho”. de recato. aqui. – Profundeza e recesso. – Fim é “o ponto a que se quer chegar. fim. – Escopo é muito próximo de alvo e de fim. – Crepúsculo (de crepusculum. examinar: é portanto escopo “aquilo que se visa. – “A luz que aparece no horizonte. de intenção de ocultar. Dizemos: âmago da alma. profundeza.. é o íntimo das coisas. o propósito que temos formado. entremeia-se o oiro vivo dos apolíneos raios.) – Alvor (ou albor. centro. espalha-se nas regiões etéreas. e em ondas de progressiva luz derrama-se no firmamento. o mais profundo nos seres. a determinação em que estamos de fazer alguma coisa”. Intento é propósito mais firme e seguro. firme determinação”. além de profundeza. madrugada. fito. – Propósito é “resolução tomada. a alegria dos campos. alvor (ou albor). sugere ideia de mistério. (Roq. meio. pode dividir-se pelo pensamento em dois tempos que formam o que vulgarmente chamamos madrugada. recesso. âmago da vida. – Âmago é propriamente a medula. objeto. é – como disse Vieira – o riso do céu. e também de mira. dilú- culo. e mais benigna que o sol. seio. in- acertar”. purpurina. e vai crescendo e matizando-se de luminosas cores até que o sol o doire com seus brilhantes raios. a vida e alento do mundo”.) é a meia-luz indecisa que precede ao nascer.. – Interior designa sim- . que se tem por fim atingir”. a que levamos o nosso intento. que é apenas o estado de espírito em que estamos. afugenta as trevas da noite. mais brilhante que a alva. ter os olhos sobre. que sugere ideia de observar. a harmonia das aves. – Alvo é “o ponto que se quer atingir ou onde se quer terior. é a alva. aurora. decisivo do que intenção. No grego skopós. ou a disposição de alma em que nos deixa aquilo que temos desejo ou vontade de fazer. a respiração das flores. coração. escopo. e alvorada – dir-se-ia – é uma extensão de alvor. ainda não tinta de vivas cores. Esta luz suave. Matiza-se insensivelmente no horizonte a alvura com a cor cerúlea. Pode ser físico ou moral.” – Objeto é “tudo que está fora de nós. medula. distinguem-se assim: recesso. propósito. de creperus “duvidoso. mira. e que no momento prende a nossa atenção”. e no sentido figurado. e que continua alguns minutos depois do pôr do sol.174 Rocha Pombo 269 ALVA. e com ela se patenteia de novo a formosura do universo. – Dilúculo é termo poético designando o romper do dia. mas só se emprega no sentido moral. 271 ÂMAGO. Começa o horizonte a fazer-se alvo com a aproximação do sol: eleva-se pouco a pouco esta alvura. mas dos recessos desta alma não sairão jamais os meus gemidos. cerne. a parte que fica no centro dos vegetais. in- tento. quer morais quer físicos.

O centro da terra – é uma coisa: o meio da terra – é outra. e além disso meio é mais extenso e genérico. no entanto. os laços que prendem alguma coisa. teso. Centro é termo de geometria para designar. numa esfera. acalmar aplica-se ao que está em alto grau de intensidade. tão rigorosa distinção. Em nenhuma dessas frases seria próprio substituir nenhum dos dois vocábulos. suavizar. em certos casos poderiam ser usados indistintamente. Abrandam-se dores. o ponto que fica a igual distância de todos os pontos da circunferência. ou tratandose de certas frutas. áspero. Dizemos: centro da mesa. – Na linguagem vulgar. mas neste caso não lhe indicaríamos precisamente o centro. por analogia. ou. nem sempre. – Estes verbos têm de comum a ideia de “diminuir de intensidade”. – Íntimo quer dizer “profundo. Abatem as desgraças aquele orgulho. enfraquecer ao que é ou está forte. o que fica por dentro da casca”. abrandar. não se reconhece. dos ossos” etc. Enfraquece o exército pelas deserções. – Miolo (corrução de medula) é “frequentemente empregada pela própria latina: pode definir-se. – Afrouxar aplica-se ao que está apertado. afastado dos olhos como um mistério”. mas convém nunca esquecer que há entre eles uma diferença tal que se não poderiam substituir em grande número de casos com propriedade. – Diminuir é o mais genérico do grupo: diz “reduzir a força. para exprimir o núcleo. Naquela terra está o coração da pátria. descer. Meio. senão ponto afastado da circunferência dela. no entanto. atenuar. – Me- dula é “o âmago. Afrouxam-se os grilhões. Em grande número de outros casos não seria possível usar um pelo outro. castigos. Estou afinal no meio dos meus amigos (como poderia estar no meio de bandidos). da floresta. meio da floresta. a discórdia.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 175 plesmente a parte interna. beira etc. a parte onde está a força. Feriram a França no coração. recôndito. conforto. a cólera divina. no entanto. furente. etc. – Amainar emprega-se quando a coisa se caracteriza pela agitação. sossegar ao que está inquieto. – Centro e meio. Poderíamos dizer mesmo: meio da mesa. ou pelo menos esta não é forma tão precisa como aquela. central de alguma coisa. pelo estrondo. selvagerias. em delírio. – Cerne é “a parte mais dura de muitos vegetais. altivo. do edifício.”. afrouxar. ou. abrandar ao que é duro. a parte central. o sentimento característico das coisas. esta palavra miolo como designando toda a parte do pão contida dentro da côdea. quer abstratas quer concretas. enfraquece a mocidade vencida pelo vício. enfraquecer. aplica-se a tudo que não é lado. fazer baixar. abater ao que está elevado. ainda que fosse redonda. Interior do coração. Mas este último sugere ideia de conchego. a substância mole que se encontra no centro das árvores. da cidade. Dizemos: meio do caminho. interior do país. as cordas de um instrumento. ao que parece irritado. Também dizemos – o coração da noite – para exprimir a plenitude dela. o ponto que é equidistante de todas as partes da periferia. a vida. num círculo. Até que enfim restituiu-me a sorte ao seio de minha família. Uma pessoa mete-se no meio da turba (e não no centro). Sossega o . – o coração da África indicando o meio dela. Amaina o temporal. diminuir. sossegar. centro da arena – desde que sejam circulares. pelos estragos que causa. cóleras. porque os há que não chegam a ter cerne”. carinho. 272 AMAINAR. abateu com as chuvas o rochedo. – Coração só figuradamente é que entra neste grupo. aba- ter. O diâmetro passa pelo centro da circunferência (não – pelo meio). serenar. acalmar. pelo furor. crescido. – Em muitos casos poderia também confundir-se meio com seio. tranquilizar. extremidade.

176 Rocha Pombo enfermo. é que a palavra amante não encerra a ideia de coabitação. diminuindo a agitação. a força. – Amante é o termo que se considera mais decente na nossa época. o comprimento. ou cônego. Concubina (do latim cum “com” e cubare “estar deitado”) encerra a ideia de coabitação. a intensidade. menos forte. Podem-se domar animais bravios. amásia. sem ofender demais (a não ser a ouvidos muito delicados) ser admitido em qualquer linguagem. – Suavizar = “tornar mais suave”. 274 AMANTE. as aflições. melhor que – amante de frade. diminui a tristeza. assim como amiga – termo mais escolhido – qualifica a mulher que vive das liberalidades do seu amante”. ou de cônego: – Amásia é termo vulgar. comborça. o volume. estes têm concubinas. pelo contrário. segundo define Aul. é “fazer sereno”. e menos ainda que os domesticamos. nos países do Oriente. – Comborça. que melhor que outro qualquer designa a mulher que só pelo interesse é concubina de algum homem asqueroso. assim dizemos – barregã de frade. – Manceba está hoje sendo inteiramente desusado como sinônimo perfeito de amásia. – Serenar. menos impaciente. Acalma-se a turba que bramava. no entanto. podendo a amante viver ou não na casa do homem solteiro. podem-se reduzir a viver na mesma habitação com o homem. – Tranquilizar = “fazer mais tranquilo. e admitido até pela esposa legítima. de sentimentos e de convívio. ou que pelo seu caráter não devera ter amorios. isto é. Muito frequente é também que a amante de um homem seja casada ou viva com outro homem. ao passo que no Ocidente. o rigor. o revoltado. onde a mulher é considerada como inferior ao homem. Por isso. ou ao falar de mulheres ou da antiguidade ou da Idade Média. menos ríspido. onde a mulher é geralmente considerada como igual ao homem. se não enaltece a mulher. diminui o furor. manceba. mas sem ficarem contudo tão obedientes que se possa dizer que os “amansamos”. menos violento. Há. isto é. – Segun- do Lacerda – “podem-se domesticar os animais bravios. Podem-se amansar os animais ferozes. agitado e aflito. Salomão tinha concubinas. concubina. além da suplantação de um dos termos pelo outro. podem-se tornar submissos e obedientes.” – Atenuar = “fazer menos forte”. a torna pelo menos igual ao homem. Amante. é qualificativo humilhante da concubina de homem casado. o peso. e o único que pode. 273 AMANSAR. Diminuem as águas da enxurrada. da qual a concubina era frequentemente uma como escrava. – Barregã (do castelhano barragana) é termo insultuoso e depreciativo. . domar. por assim dizer. como é comum para os designar a ambos com relação de reciprocidade. o pranto. mas não sendo frequente encontrá-la na casa do homem casado. que.: – “Concubina é vocábulo que hoje apenas se emprega na linguagem da Igreja. domesticar. uma distinção social muito importante que con- vém considerar entre eles. Uma outra diferença importante entre os dois termos. sendo. a extensão. – Sobre os primeiros cinco vocábulos deste grupo escreve Bruns. barregã. tanto no sentido moral como no físico. A concubina é. diminuem as forças. uma esposa ilegítima que vive na dependência e na sujeição: tendo estas ideias vindo até nós pela consideração dos usos e costumes dos países e das épocas em que o concubinato era legalmente tolerado. Napoleão III teve muitas amantes. é vocábulo que. e como que a ser seus servos ou seus companheiros. diminui-se o prazo. etc. o desordeiro. como diz o próprio radical.. isto é. este tem amantes. amiga. a dor. ou do viúvo.

Ambição significa principalmente o desejo de alcançar poder. gastam a mãos largas para obterem o que ambicionam”. enrolar e comprimir como se faz com embrulhos”. “deformar. enrolar em espiral” (Aul. cerrado como carapinha. eriçar. crispar. ou de encontro a outra. emaranhado. – Avareza é vício de alma que torna sórdido o avarento.. “não liso e correntio. e por analogia. a seda. ratinar. esta distinção não é essencial. sentiu o coração a crispar-lhe de angústia (e não – “encrespar”).. esmagar alguma coisa debaixo de outra. encaracolar em forma de riço”. aqui. segundo Aul. honras. – Avidez (conquanto da mesma origem latina avere) não se confunde com avareza. – Marlota. – Arrepiar (de arre “para trás” e pio = pilus + ar) significa “ouriçar (os cabelos). e franzir poderiam facilmente confundir-se. dignidades. enrugar. pregas” (carquilhas). – O mesmo quase diz riçar. reduzindo-a a massa informe. – Amarfanhar é “encrespar. Entre riçar e eriçar (ou erriçar) nota-se esta diferença: eriçar quer dizer “riçar momentaneamente. amassar. franzir. justo ao corpo muito deselegante e só usado pelos pobres”. “agitado de cólera. “Os cabelos se lhe erriçam de horror” (não – riçam). – Amarrotar é. fazer hirto como a marrafa” (cabelos do topete lançados para a testa). avidez.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 275 AMARROTAR. ma- 177 chucar (ou amachucar). cobiça. sendo a de franzir momentânea. significa “fazer felpudo. “Enruga a pele o tempo”. “frisar. pô-los em sentido contrário ao em que estava ou que é o normal”. – O mesmo radical deu-nos crispar. – Encarquilhar é “encolher formando rugas. pois. avareza. “dar a aparência ou o feitio de ratina (aos panos)”. começando por ser um termo genérico para indicar todo desejo imoderado.. na paixão pelo dinheiro. Aliás. marlotar. gana. quando se a embrulha e amassa entre os dedos. neste grupo. arrugar. reduzir ao aspeto rude da marlota”. amassar. e quando muito deve notar-se entre eles esta diferença: enrugar enuncia ação lenta e mais completa que a de arrugar. só ambição – diz Bruns. na ânsia e sofreguidão de acumular. – Enrugar. ondulado. levantá-los e deitá-los para trás. encarapinhar. enovelado demais. – Cupidez é bem fácil de confundir . áspero. quebrantada). ao dinheiro. – Encaracolar é “dar a forma de caracol. Amarfanha-se o papel. – Machucar (ou amachucar) é amolgar. embrulhar. encaracolar. Velhice encarquilhada (cheia de rugas e mofina. – Ratinar é. ouriçar”. cupi- dez. entre o qual e encrespar pode notar-se a distinção que consiste em ser o verbo crispar aplicável a fenômenos morais melhor do que o outro. que é o radical de amarrotar (e que deu também o verbo português marlotar). amarfanhar. tornar felpudo”. cobiça designa um sentimento vil. e que consiste no amor desordenado aos bens materiais. é palavra árabe (mallôta) que designa “capote curto com capuz. – Embrulhar é “apertar. isto é. – Amassar é. anelado”. pode ser tomado a boa parte. vincos. achatando-a. amarfanha-se uma roupa tirando-lhe o aspeto de lisura que lhe é próprio. encrespar. encrespar. contrafazer. Diremos: a alma lhe crispou de dor. levantar o pelo” (frisa).) – Encarapinhar é “fazer muito crespo. encarquilhar. – Encrespar é “fazer crespo”. toda ansiedade com que se quer alguma coisa ou se executa alguma função. arrugar. ganância. quebrar as linhas. – Dos dois primeiros vocábulos. tirar a forma própria de alguma coisa. 276 AMBIÇÃO. riçar (eriçar. arrepiar. cobiça refere-se apenas à riqueza. franziu a testa afrontando-nos”. longe de serem cobiçosos. rugoso. frisar. Há ambiciosos que. erriçar).. arrepiar. “de um dia para outro uma grande dor lhe arruga as faces”. que é “fazer em riço. – Frisar.

de ambigo. impreciso. e figuradamente “ambíguo. 470). os poetas invertem muitas vezes esta ordem. e significa em geral multiplicidade de significações. e às vezes tão disfarçado que só o entendem os que penetram a alusão. a significação de “desespero pelo ganho. esse lhe descobriu a cara. vontade irreprimível. e significa “ferido”. sem escrúpulos e sem medida”. 277 AMBÍGUO. pois.178 Rocha Pombo com o precedente. equívoco. E assim se diz – uma palavra ambígua e – uma frase anfibológica. que se acha só nos termos. “desmanchar o que está feito”. vário. intensidade na ação. privativo ou disjuntivo. duvidoso. que em manhã tão alegre e tão festiva até os Evangelistas o usaram”. de dois lados”. “igual”. fome. Chamam-se equívocas as palavras que se podem entender em dois ou mais sentidos. desprezar “não prezar” etc. incerteza. ou “que fere de dois lados”. segundo Roq. anfibologia. Deste gênero é a seguinte: “Heitor Aquiles chama a desafio”. que também é formado de amphi e bollo. incerteza na linguagem e nas ideias. e bollo. mas regularmente tem dois sentidos – um natural e imediato. incerto. “rodear. jogando de vocábulos para divertir o auditório ou os leitores. – Equívoco é palavra latina. que só compreende a pessoa que fala. Refere-se antes ao giro da frase ou colocação das palavras que aos termos equívocos dela. posto que tenham um significado mui diverso. ambiguidade. voracidade. dúvida. O mau gosto dos nossos seiscentistas introduziu o uso dos equívocos como um ornato oratório. ou porque se confundem com outras da língua que se pronunciam e escrevem do mesmo modo. Comete-se esta falta quando se constrói uma frase de modo que possa admitir duas diferentes interpretações. con- fuso. artificial. que significa “ao pé. anfibológico. ao contrário da ambiguidade. Ou vem então de amphibolos. como ele mesmo confessa num sermão da Ressurreição (VI. não se emendava de cair nele. pagou largo tributo a este depravado uso. porque. equívoco. “Este equívoco do padre Vieira precisa explicação. ou fingido. e outro. porque o mostrou desvelado. ou este àquele. ainda que regularmente se ponha o sujeito antes do verbo. – Ganância tem. ação feita em contrário ou em sentido oposto a outra. a ambiguidade dúvida. de modo que custa descobrir ou adivinhar o pensamento do autor. “é palavra latina (ambiguitas. desfazer. mas é anfibológico o sentido. em roda. e ao qual se ajuntou depois logos “palavra. e vox. “lançar”. etc. Não me estranheis o equívoco. mas de ordinário aplicase cupidez mais particularmente para designar desejo imoderado em questões de amor. desviado ou apartado. Sabem todos que a partícula des é um prefixo que corresponde ao latino dis. composto da preposição amphi. que admite diferentes interpretações. pela força do uso. – Ambiguidade. equívoco”. pois indica “prolongação de ato. e se antepõe a muitos vocábulos para exprimir “separação. ou maior . dúbio. sendo às vezes impossível consegui-lo. até raiva incontinente”. duvidar”) e consiste em apresentar a frase um sentido geral. discurso”. ou para mostrar agudeza de engenho. g. Vieira. confusão. – Anfibologia vem do grego amphibólia. É. Mas o que nem todos sabem é que esta mesma partícula em alguns poucos vocábulos tem um valor mui diferente.. andar à roda. – Gana é termo do espanhol que significa “apetite desregrado. “voz”). tão bom orador como era. e daquela frase pode-se entender que Heitor provoca a Aquiles.. ou porque elas mesmas têm várias significações distintas. v. dizendo: “Quem tirou o véu ao amor. aequivocos (de aequus. e apesar de o ter como um defeito. Aí nenhuma das palavras é ambígua nem equívoca. confusão. que é o que parece querer-se dar a entender.

ou que pode deixar margem a alternativas de interpretação. É mais próximo de dúbio que de duvidoso. – Área é a extensão de uma certa superfície. ou a coisa de que se trata. lhe chamamos jogar de vocábulos. Desconfia-se da forma duvidosa: procura-se fixar a linguagem dúbia. – Incerto é propriamente aquilo que não é determinado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 179 perfeição”. pois a dúvida é o estado de vacilação em que a frase nos deixa o espírito à vista dos termos em que está concebida. caprichoso. mas com a de “privado de véu”. . perfeitamente determinada”. recinto. fixa. que não significam “deixar de cantar” – o que seria “ficar calado” – mas sim “cantar muito e em harmonia ou concerto de instrumentos”. vago. que não for desembaraçada de termos ambíguos. e também o mesmo concerto. – Âmbito sugere ideia de superfície. como em francês o verbo dévoiler. e descante. ou aquela que se não pode interpretar com segurança. significaria “sem véu”. e deve ser evitado pelo literato. ou limitada. o vário modo de entender as coisas da fé. ter muito cuidado. volúvel. ou atitude dúbia é apenas “a que dá lugar a mais de uma interpretação. é a linguagem anfibológica destinada a induzir em erro. a ideia de esperteza calculada. e escorreita de relações maldistintas”. – Vário diz inconstante. com o mesmo Vieira. a ocultar o verdadeiro sentido”. O equívoco é “indigno de um homem franco e honrado. ou espaço de extensão determinada. desvelado. – Imprecisa será a linguagem que não for “clara. área. ou dos que se querem esconder na obscuridade. g. emprega a palavra desvelado. Dizemos: a dúbia. que é composto de des e velar. – Confusa será a construção que “possa dar ensejo a enganos. porque véu é contração de velo (de velum latino) – o que forma equívoco com a significação geralmente aceita de desvelado. é neste sentido que o padre Vieira tinha usado este verbo e o seu substantivo desvelo. mas de repente. a duvidosa. solícito”. ou dando da mesma uma ideia. A esta espécie pertence o verbo desvelar. maldefinido. Linguagem dúbia. a incerta fortuna. e não significa “deixar de velar” – o que seria “dormir”. Entre dúbio e duvidoso pode notar-se uma diferença muito subtil que consiste em sugerir duvidoso. fazendo a partícula des privativa. andar muito. que muda facilmente. sendo confusão quando a obscuridade é tal que nada nos deixe entender precisamente. não com a significação do verbo desvelar-se. Linguagem duvidosa é “a que se usa de propósito para enganar. ou de fim ilícito com que se fez ou deixou duvidosa a forma. referindo-se ao verbo velar (velare) que significa “cobrir com véu”. e nós. que se designa precisamente. Ora. descobrir”. porque delata engano. – Linguagem duvidosa é aquela que não exprime pensamento certo. como sucede com os charlatães e impostores. A vária sorte. 278 ÂMBITO. que pode variar ou que varia constantemente. pelo contexto da sentença. pois este nunca deve jogar de vocábulos senão em obras jocosas”.. ou é a forma a que se pode atribuir mais de um sentido”. A ambiguidade é parto de limitado talento. – Recinto é mais próximo de âmbito. v. a forma que não for exata. se bem que em muitos casos se confunda com ambos. A anfibologia provém da ignorância das regras gramaticais ou da intenção dobre de quem fala. e no figurado “não cuidar” – mas sim “velar muito.. desvelar. A isto chamam com razão os franceses jouer sur les mots. o qual. que é indeciso. – Dúbio é o que é incerto. ou para a resolução que se tem de tomar. melhor do que dúbio. precedido da partícula des. significaria “privar de véu. descantar. e dubiedade é o estado de hesitação e perplexidade em que ficamos quando não temos um fundamento seguro para o modo como se há de agir.

: – “Ambos e um e outro distinguem-se em referir-se o primeiro ao conjunto dos dois. – Vagante é o mesmo que vagabundo. porém: “a voz ressoou por toda a área da sala”. Esses monges de Teate viviam a pregar de terra em terra.180 Rocha Pombo pois designa “o espaço compreendido entre dados limites. o que leva vida solta e alegre”. mas sem a ideia. mas: “ressoou a voz por todo o âmbito da sala” ou “por todo o recinto”. – Vaganau = “que vive a vagar. e que tomou esse nome da circunstância de ser o seu fundador (Caraffa). 279 AMBOS. vagante. sem eira nem beira”. aqui. e que nem sempre existem unidas no mesmo sujeito. só por distração”. errante. – Segundo Bruns. – Ambos também se diferença de dois (ou os dois) em referir-se este ao número. intimidar. longe do próprio país”. ou que se imporá algum castigo (se se trata. vaganau. tunante. Daí a significação com que ficou esta palavra teatino na linguagem comum: designa o (homem ou animal) que anda vagando. arcebispo de Chieti.. 281 AMEAÇAR. peregrino. dentista. desorientado” (equivalente ao égaré do francês).” 280 AMBULANTE. teati- no. à ventura. ate- morizar. da explanada”. apenas análoga à própria (de romeiro): designa “o que viaja por terras estranhas. que significa – “andar vagaroso. ou que não tem dono conhecido. vagabundo.. passeante. aplica-se a quem anda de terra em terra. – Perdido. não se dirá. ambulante diz-se de quem exerce um mister de terra em terra: músico ambulante. como se não tivessem destino e se se não deixassem dirigir de nenhuma autoridade. sem rumo fixo.. – Escreve sobre estas formas o provecto Bruns. airado.” – Tunante é “o vadio de baixa classe. Há entre os dois a diferença que consiste em sugerir o verbo intimidar a ideia de que a pessoa que intimida conta com a fraqueza de ânimo da . – Errante. neste último caso. Temos ainda este exemplo: Aqueles dois moços. Esta noção se ilustra pelo seguinte trecho de Vieira: “O querer e o poder fazer bem são duas coisas totalmente diferentes. amedrontar. ou habitação fixa. professor ambulante. – Peregrino também apresenta aqui uma significação especial. trocista e malandro”. ou o âmbito da praça. ao conjunto. vagabundo. – Ameaçar é “dizer ou protestar que se fará algum mal. – Intimidar diz propriamente “causar temor”. que não se submete a autoridades. outrora Teate. de superior para inferior). mas ambas se requerem essencialmente para o exercício da nobre virtude da beneficência”. um e outro. sem compreender a ideia de mister. como já se disse. perdido. assustar. – Vagabundo acrescenta à ideia de errante a de ociosidade. despreocupado. do circo. – Airado será “o vadio elegante. – Vadio “é o que vaga por ociosidade. de vadiagem: antes aproxima-se mais de passeante. que não tem domicílio certo. vadio. e sem mais objeto que o de não estar parado: de todos é conhecida a lenda do Judeu errante. quer dizer “que errou o caminho. e o mesmo significa atemorizar. que não se ocupa de nada. e aquele. nômade. vadiagem”. fundada nas primeiras décadas do século XVI na Itália. e um e outro a cada um distintamente. – Teatino propriamente era o monge pertencente a uma Ordem religiosa. – Nômade (ou nômada) se aplica para designar o homem primitivo que não tinha morada. que neste é necessária. ou ambos aqueles moços foram heróis na campanha. os dois. É assim que se diz indiferentemente: a área. e um e outro deixaram no país legítimo renome.

mas. se atendermos a que a desinência oso designa “abundância”. que é agradável é ameno. o que é grato é relativo aos sentimentos. Tudo o que causa prazer é agradável. . ou induzi-lo a ceder a motivos imaginários”. nem tudo. isto é – que propriamente deve aplicar-se só em relação às sensações. deleitoso. – Assustar. porém. o que é delicioso causa abundância de delícias. Só no uso comum é que se pode entender de delicioso como entende Lacerda. – é agradável. (E não completa infelizmente o autor a exposição do seu modo de ver. deleite carnal (não – delícia carnal). e sobretudo. dizer que um herói se intimida. gratas são as provas de amizade. nem um idiota. é “produzir medo súbito e quase pavor com que se ameaça alguém”. inocentemente deleitável. grato. que é um escrúpulo ou um forte movimento de consciência. no entanto. as demonstrações do reconhecimento. Querem os dicionaristas que deleitável e deleitoso designem a mesma ideia. 282 AMENO. Entre delicioso e deleitável – não é possível ver as diferenças que notaram Roquete e Lacerda entre delícia e deleite.. Deleite é o gozo dos sentidos”. Muito longe disso – é no sentido moral que delicioso exprime o mais alto grau do prazer23. Entre agradável e grato nota-se esta distinção: o que é agradável dá prazer aos sentidos. entender assim: que é deleitável o que 23 Já o poeta dissera. aprazível. ou a função mais aprazível é a do juiz que salva a inocência.: “O que é deleitável causa-nos deleite. segundo o qual – “delícia. a do artista que nobilita a sua arte. encarece o mérito. não só exprime o prazer sentido. valor ou qualidades do que lhe dá origem. deleitoso escreve o mesmo seguro Bruns. atendendo aos fundamentos que ele oferece. portanto. agradável. mas também. falando da saudade: – o delicioso pungir de acerbo espinho. “tolhê-lo. aqui. e o mais recente de todos eles chega a preferir a forma deleitoso a deleitável. deleitável. E tanto é assim que dizemos: delícias do Paraíso (não – deleites).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 181 pessoa que é intimidada: o que não se dá com atemorizar. Agradáveis são as belas paisagens. e nada mais aprazível no mundo do que ser útil ao nosso semelhante. etc. deleitável. é delicioso o que nos arrebata. – Amedrontar é que convizinha muito de perto com intimidar: quer dizer “impressionar algum ânimo fraco”. e avel. – Sobre delicioso. delicioso diz muito mais que deleitável. a boa música. Não seria próprio. – Aprazível é aquilo “(tanto no mundo das coisas como na esfera moral) que nos encanta a vista. suave. Deve notar-se uma certa diferença entre estes dois verbos: intimida-se a um menino ameaçando-o de cortar-lhe a mão se tocar no doce. o grato sensibiliza”. Entendem esses autores (seguidos por muitos outros) que deleite indica o maior grau de delícia. Portanto. é necessário que o gozo seja puro. nem a criatura alguma incapaz de sentir o verdadeiro temor. enquanto que sem desar para ele. A trovoada amedronta até espíritos fortes (e ninguém diria – aqui intimida). bem se poderia admitir que um herói se atemorizasse do castigo divino. – O que é ameno – diz Bruns. isto é. – Delicioso é mais do que aprazível. O agradável apraz. Ora. as recompensas ao mérito. “qualidade”. delicioso.) Pode-se. ou que nos excita na alma um sereno prazer – e cândida alegria. amedronta-se o ladrão (que vai penetrar na casa) disparando para o ar o revólver. Também não se atemoriza a uma criança. para que aquilo que causa prazer seja ameno. É deleitável o que nos dá prazer. Neste ponto ainda preferimos Bruns.” É aprazível um panorama. um medo sagrado. os perfumes. A delícia consola os sentidos e o espírito. obteremos a verdadeira diferença que há entre os dois adjetivos”.

de formar conjunto. neste grupo. com toda aquela atividade e economia. formar montão. ou paragem (e não – deleitável).. sinal. reunir é “tornar a unir”. “Emaçamos os papéis. acumular fortuna ou riquezas. registra este exemplo do Dic. – Amontoar é “reunir aos montes. Aul. – Acumular é sinônimo quase perfeito de amontoar: apenas acrescenta à significação deste uma ideia de continuidade e de reflexão: o que se acumula já sobra. ou – os peixes que se estão pescando: porque em todos estes casos não se subentende medida a encher.. – Amolgar significa “tirar a um objeto ou a alguma porção desse objeto a forma própria deprimindo. amossar. unido ao outro. e arrumamos os maços no armário ou na estante”. quebrar as arestas a. é “de uma certa coisa uma parte ou porção com que experimentamos a qualidade dessa coisa”. Dizemos: o deleitoso vale. e é deleitoso o que está cheio de deleites. o pedaço. Aí deve usar-se o verbo amontoar. – Amostra é “o resumo. ajuntar. Dizemos: uma prosa deleitável. “o que dá .182 Rocha Pombo produz deleite. demonstração. reunir. ou ajuntar em maço.: “Com tamanha pancada. indício. 283 AMOLGAR. esmagar. e não – deleitosa). arrumar. ou esmagando”. que lhe abolou o elmo. – Esmagar é “espremer. isto é. portanto – é “unir outra vez o que já fora unido”: e aí está no que consiste a diferença entre os dois. o fragmento de uma coisa. mas ninguém diria: ajuntei meus irmãos para combinarmos a resolução mais acertada”. ou reunir. Usa-se também no sentido figurado para designar o ato ou o efeito de causar funda impressão no ânimo de alguém. juntar sem ordem”. abolar. mas não dizemos – acumular o trigo no campo. e não diremos: “aquele homem reunirá. ou campo. emaçar. amassar. ou uns a outros”... Dizemos – amostra do pano (e não – mostra)... o livro. achatar. arranjar um sobre outro”. comprimir violentamente. – Amossar é produzir mossa (marca de pressão violenta sobre corpo compressível). nem – acumular as frutas que se estão colhendo. Usa-se também no sentido translato para exprimir o efeito de causar impressão forte (fazer mossa).. e com que se dá uma ideia. rombo. depressa ajuntará dinheiro ou fortuna”. amassando. – Deformar é “tirar a forma própria..” – Amassar diz propriamente “deformar reduzindo à massa.. achatar. (e sim – reuni meus irmãos.. 284 AMONTOAR. Entre amostra e mostra parece que não há mais diferença que a de ser o segundo mais aplicável no sentido moral. – Sinal é.” Amassou o chapéu. de associar coisas em quantidade. já excede à medida normal. ou mesmo uma noção perfeita dessa coisa”. ajuntar. – Prova. mostra. embotar. Por isso dizemos – acumular empregos ou cargos. tirar a acuidade ou agudeza”. – Embotar é “fazer boto.” Pode-se dizer indiferentemente: “reunir ou ajuntar as forças debandadas ou dispersas”. deformar.. triturar”.) – Arrumar é “propriamente pôr em rumas. É por isso que dizemos: “aquele homem. seja como for”. 285 AMOSTRA. tanto no sentido figurado como no natural. acumular. segundo Lacerda. É o mais genérico do grupo. a carteira. – Emaçar é “reunir. – Abolar é reduzir a bolo. prova. acumular as pedras que vêm da montanha. dobrando. tirar a forma de. da Ac.. formar de algumas ou muitas coisas um só volume”. deu mostra ou mostras de indiferença (e não – amostras). – Todos estes verbos enunciam a ideia de reunir. É usado igualmente no sentido moral. – Ajuntar e reunir são muito difíceis de distinguir-se: ajuntar é “pôr um ao lado.

quando o asceta o é só na aparência e nas exterioridades. Em todas as religiões há ascetas. de infinito. frade. É dos mais extensos entre os do grupo. segundo Bruns. As nuvens grossas são indícios de chuva”. religioso. de um certo espaço mesmo. solitário. – Entre imensidade e imensidão mal se poderia marcar uma diferença muito subtil. e aí vivem entregues à meditação religiosa. mas sim a companhia de alguns homens da sua feição. ou melhor o sentido que por extensão se lhes dá comumente. devendo logo notar-se que ambos têm aqui sentido figurado. aqui. o mesmo não se dá com imensidão. O cenobita (do grego koinos. eremita. – Eremita (ermitã ou ermitão) é o religioso que. “aplica-se aos que se retiram do vaivém do mundo para sítio isolado. que é mais – grande extensão. Figuradamente se diz de qualquer pessoa que vive retirada do trato social. – Extensão. e talvez exprime ou representa. de quantidade extraordinária. O . a não ser por figura muito forçada). – Âmbito é o espaço compreendido dentro de certos limites. amplitude significa extensão maior ou menor. e gozar a seu modo de um isolamento que não é absoluto. 286 AMPLIDÃO. O monge é como o desenganado que foge ao mundo e aos homens. – Solitário é termo genérico: diz-se indistintamente de quantos vivem em sítios apartados. O vasto âmbito da sala. da praça. 287 ANACORETA. para viver na contemplação e no estudo. etc. monge. cuida de uma ermida ou capela. cenobita. imensidão sugere ideia de grande número. mas. amplitude. âmbito. é-lhe inerente a ideia de mortificação do corpo. manifestação mais decisiva”. Esta é mais próxima de grandeza. – Vastidão é a qualidade do que é vasto. de privações voluntárias. Este vocábulo toma-se sempre à boa parte. de vida retraída. grandeza. fanático. – Demonstração. Dizemos: a amplitude de um campo. amplidão infinita (e nunca amplitude infinita. “comum”. – É asceta qualquer pessoa que despreza o bulício do mundo e se entrega inteiramente a exercícios espirituais (sendo o ascetismo independente de qualquer ordem religiosa). pois.. denota. As palavras são sinais das ideias. Dizemos: aqui estamos a enfrentar com a imensidade (e não – com a imensidão. Dizemos ainda: tratar do assunto em toda a sua amplitude (e não – amplidão). “vida”) é o monge que não procura precisamente a solidão. – Amplidão e amplitude são duas formas vernáculas da mesma palavra latina amplitudo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 notícia de outra coisa com que tem relação. – Há mais austeridade na ideia sugerida pela palavra monge que na do vocábulo cenobita. Imensidade é mais do que sinônimo perfeito. hipócrita. Amplidão significa extensão sem ideia de quantidade precisa ou determinável. dizendo – imensidão do céu. aquela é mais vizinha de imensidade. – Anacoreta. asceta. fora da acepção própria que tem na tecnologia científica. das estrelas). para com eles viver em comum. em lugar isolado. – Grandeza é propriamente a qualidade de ser grande. imensidade. aponta. Na maioria dos casos. de vastidão. quando esta palavra se refere aos católicos romanos. leva ao conhecimento de algum objeto. de uma linha. chama-se-lhe tartufo. – Indício é o que indica. um sinal mais claro. etc. pois é equivalente de infinito. salvo se a esta déssemos um completivo. vastidão. de infinito. denuncia. imensidão. é “uma prova mais completa. e bios. longe do convívio do mundo. enquanto que imensidade sugere ideia de ilimitado. a amplidão do espaço. amplitude fora do comum. é muito semelhante a amplitude e a grandeza: designa as proporções de uma superfície. do espaço. extensão.

epílogo. – Desconcerto é ausência de acordo moral – e a desordem que revela esse desacordo. – Anarquia e desordem são palavras que. pode ter por objeto a crítica. ou os artigos de uma revista”. desgoverno. desregramento. confusão. feita pelo que defende alguma tese. sem pretensões a substituir outro. Em política. súmula. porém. de modo que. o plano e a sequência das ideias explanadas na obra de que se trata. porque se aplica a todos quantos se dedicam à vida religiosa. Mas religioso é palavra de mais lata extensão. des- extrato. é a repetição abreviada dos argumentos. o termo mais apropriado é epítome. Noutro sentido. como termo filosófico – anarquia será o vocábulo com que se há de designar “o regime social independente de autoridade política. se têm como sinônimos perfeitos. mau governo. balbúrdia. discórdia. se diz da obra literária que extrai abreviadamente a doutrina de outra. – Religioso diz-se daquele que. . muito longe de ser “falta de governo”. Em acepção mais alta. – Epílogo é o “resumo que se faz no fim de um trabalho literário (discurso. – “Na série de ideias em que os primeiros sete vocábulos deste grupo são sinônimos. resunta. são precisamente distintas. – Compêndio é a exposição abreviada dos princípios de uma ANÁLISE. o legítimo asceta é geralmente egoísta. dos costumes próprios de uma sociedade. – Fanático diz-se de quem é ultrarreligioso. poema. – Sumário é uma exposição das principais matérias contidas no texto. pró ou contra. seja qual for a sua crença. consubstanciando-a e resumindo-a. Entre monge e frade há a mesma diferença que entre mosteiro e convento: o monge é do mosteiro. o frade é do convento. – Argumento é o mesmo que sumário. resumo. no entanto. Nesta acepção. compêndio. Noutro sentido. quer por simples resolução. mais frequentemente do sumário que precede a cada uma das divisões de um poema”. ao lê-lo. 288 arte ou ciência. dizse. anarquia é “ausência de governo. – Desregramento é “desvio das normas. de poder público”. recapitulando a matéria de que no entrecho se tratou desenvolvidamente”. um sumário em que se indiquem apenas os capítulos de um livro. como termo escolástico. 289 ANARQUIA. – Extrato é a cópia literal de um ou vários trechos de uma obra. infração dos princípios morais. e fecha os olhos às desgraças da terra que não remedeia para não se distrair da contemplação em que vive. desordem.184 Rocha Pombo asceta. no entanto. é o mesmo que resumo. se recorde o texto da obra principal. epítome. etc. suma. observa os preceitos que ela lhe impõe. destempero na administração da coisa pública. porém.). pois o fanático julga-se superior ao resto da humanidade. cizânia. ou a direção da sociedade humana só pelas leis morais”. reduz a sua doutrina. caos. drama. quer que tudo e que todos se amoldem às suas imposições. é desregramento de autoridade. porém. ou tão somente o fim de expor o objeto. concerto. – Súmula é “uma pequena suma. – Resunta. Em sentido lato. – Suma é “o resumo que nos dá em substância a matéria de um trabalho”. no uso comum. Esta palavra toma-se a má parte. análise diz-se de trabalho literário ou científico em que é examinado outro de igual natureza. quer ligando-se a ela por votos. – Resumo é o livro que. propriamente só os que exercem o governo é que podem praticar desgovernos. pois pretende a bem-aventurança para si. Num sentido menos vulgar. – Desordem é “falta de ordem normal”. sumário. religioso é sinônimo ainda mais próximo de monge e frade. – Desgoverno. pensa ser inspirado pela divindade. argumento.

Há ânsia quando se receia que um mal suceda”. enquanto que maldição é um como anátema lançado por alguma alta autoridade moral. anátema. maldição.. Não se compreende discórdia sem agitação. – Balbúrdia é grande desordem. dos poderes eclesiásticos. veementes furores”.. de boa paz” do que propriamente discórdia: e distingue-se desta ainda em sugerir a ideia de que foi um terceiro que a lançou ou acendeu. “visão da alma”. a seguinte diferença: “o anátema dimana. – Velho exprime simplesmente “o homem que tem chegado à idade da velhice”. – Cizânia é mais – “falta de harmonia. Há ansiedade quando o espírito está inquieto esperando que um sucesso feliz acabe de realizar-se.. expulsar. e num sentido mais alto e abstruso. lhe não é obediente”. é o “exame minucioso. – Anatematizar e excomungar exprimem de comum a ação de excluir.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 185 de uma instituição. neste grupo. excomungar. de uma família”. pois este é a maldição formal imposta pela Igreja. A excomunhão é a sentença ou decisão da autoridade eclesiástica pela qual se exclui do grêmio da Igreja aquele que. E dá estes entre outros exemplos. velho.. 290 ANATEMATIZAR. “Deve ser horrível a ânsia com que o réu espera a sentença do júri”... por alguém que se sente abalado de grandes amarguras. da organização de seres animados: é o extremo da confusão. ou quando labuta na incerteza de se qualquer sucesso. O monge partiu amaldiçoando a cidade. bom ou mau. amaldiçoar. – Ana- tomia é. ou “visão interior”.. dissecção. Luiz. ânsia. “Um prisioneiro espera com ansiedade o dia em que se há de ver livre”. separar em partes um órgão. criando transtornos. o estudo de todas as partes de um órgão ou de todo um cadáver. – Caos é o estado que se compara ao da matéria amorfa. Mas entre anátema e excomunhão nota Bruns. – Confusão é “a desordem que chegou ao seu mais alto grau. 293 ANSIEDADE. Aquele filho que os pais amaldiçoaram.. a arte de dissecar. 292 ANCIÃO. feito diretamente pelo médico”. pertencendo a ela. antes da criação da vida. O profeta que amaldiçoou os meninos perdidos. “Vive em ânsias (ou na ansiedade) aquele que receia a cada momento . e a dissecção consiste em dividir. hostilidades. mas aquele é fulminado contra os que da Igreja se emanciparam: o seu fim imediato é o de incitar ao ódio e à perseguição. sem desvarios e estrondos. – Autópsia significa propriamente “vista de si mesmo”. o transtorno geral em que ninguém mais se entende. – Discórdia é “desconcerto profundo e violento. banir do grêmio da Igreja (e no sentido geral. – Confundem-se or- dinariamente estes dois vocábulos. para o qual parece que não há mais corretivo.. como se tudo estivesse em turbilhões. tornando-se difícil restabelecer-se a paz. ou todo um organismo. – Ancião ajunta à ideia de velho a de autoridade: é o velho respeitável e digno de veneração pela sua sabedoria e probidade”. 291 ANATOMIA. devido à irrupção de paixões. – Destes dois vocábulos diz S. Como termo de Medicina.. de funda consternação. de concerto moral. como a excomunhão.: “Ansiedade difere de ânsia como incerteza difere de receio. de qualquer grêmio).. – Maldição exprime ideia mais genérica do que anátema. excomunhão. Nestes termos a eles se refere Bruns. às injúrias e ao desprezo contra aquele que a Igreja anatematizou. de sagrados ressentimentos. se realizará ou não. autópsia. para examinar-lhe a estrutura.

antiq. ou pelas roupas.. que pode levar consigo certos miasmas morbíficos. sobre”. ir de viagem de um lugar para outro. Tais são certos catarros.. mas – a ânsia. in- passar.. 297 ANEXAR. – São palavras que quase sempre se empregam indiferentemente para designar as roupas velhas. ou mover-se corporar. e nunca decerto se empregaria no caso o vocábulo andrajos. anexo. – Transitar exprime a ideia geral de “passar além. referir-se. sem relação a pontos determinados. A primeira distinguese.. marchar. – Estas palavras têm de comum a ideia. por várias regiões. epidemia. incerteza dolorosa – do que ânsia. das outras pela ideia que sugere de grande miséria dolorosa e como que sagrada. anexação. correndo às vezes toda a extensão do globo. que usasse andrajos.. fazer caminho. a peste de Levante. Por excesso de modéstia. vestida com certo apuro. poderia uma pessoa elegante. – Marchar é “andar ou caminhar compassadamente: dizse especialmente da tropa de guerra quando vai com ordem de marcha”. entretanto. de associação de uma a outra coisa. – Molambos é brasileirismo significando – trapos. e devido a causas puramente locais”. 295 ANDAR. como não dizemos – a ansiedade. ou mesmo à mediania a que tivesse descido um homem rico. estendendose a províncias e reinos inteiros. etc. de um lugar para outro. e demós. seguir. marchando ou caminhando para diante”. “Aqueles farrapos da antiga opulência. – Passar é “dirigir-se para algum ponto atravessando um caminho ou uma certa zona. peste. comunicando-se de umas a outras”. doença que grassa pela terra. – Seguir é propriamente “continuar a viagem começada. distrito ou paragem”. que é angústia. mas – a ansiedade de quem espera. por meio do ar. – Andaço é palavra vulgar que indica epidemia menor. aos seus trapos: não seria próprio. o cólera-morbo. ou então por orgulho gracioso. “que se diz das graves epidemias que semeiam a morte em províncias e nações. os males venéreos. ou as ânsias da morte. que ansiedade sugere mais ideia de impaciência aflitiva. em certos tempos ou estações do ano”. 296 ANDRAJOS. móveis. ou enfermidades epidêmicas (do grego epi. a febre amarela.. “povo”) as que provêm da infecção do ar. ou fazer alusão aos seus farrapos. que sugerem. ir. – Endemia é “mal próprio de um país. – Ir é andar. incorporado. caminhar. Acrescenta Bruns. endemia. transitar. que é realmente muito subtil. viajar”. mais talvez sofrimento físico do que moral. fica fazendo parte desta conquanto .186 Rocha Pombo que lhe descubram o desfalque. ou seja imediato. contágio. por tango “tocar”) é uma enfermidade que se comunica pelo contato. Não dizemos – a ânsia. trapos. no entanto.” – Parece que não se distingue bem a diferença. ou enfim. 294 ANDAÇO. ou que foi anexada a outra. Devemos acrescentar. farrapos. molam- bos. “em. sujas ou rotas de que se cobrem os mendigos. ou de certos climas. – Caminhar é fazer caminho. aperto do coração. A coisa anexa. – Segundo Roq. – Andar é mover-se dando passos para diante. Tais são a sarna. – Chamase epidemia. roupas muito rotas e sujas. a lepra. no entanto. o contágio (de cum e tago. etc. a esta lista a palavra peste. qualquer corpo infestado. anexado.” – diríamos referindo-nos à pobreza. incorporação. de qualquer modo que se faça este trânsito: e tem relação a um ponto determinado a que a pessoa ou coisa se dirige. etc.

desencaminhando. ficam dependentes da mesma diocese. Mesmo quando se diz que se recrutam partidários para uma causa. revirado. dá-se ideia do esforço e trabalho com que se angariam esses partidários. sendo o pirão apenas a farinha fervida ou aferventada em água ou em caldo de peixe. pirão. admite-se que o angu é mais condimentado. unido. – Unido. um todo em que nenhuma das partes fica dependente nem nenhuma dominante. seduzindo com muitas promessas e vantagens”. Uma repartição que se anexou a outra fica apenas sob a mesma direção sob que esta se acha. Quando muito. Quando duas freguesias se anexam. melhor ainda que anexo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 187 conserve o seu modo de ser ou o seu caráter individual. Um Estado que se incorpora a outro passa a fazer com este como um só corpo. dois primeiros. com aquilo a que foi anexado. Angariamos adeptos para a nossa causa. entre os brasil nem sempre se nota diferença essencial e precisa. ou um país qualquer que se anexa a outro continua a ser o que era anteriormente. uma ideia comum fundamental diferenciada por ideias acessórias): o que está anexo forma. sob o comando do mesmo chefe. 298 ANEXO. – Angu e pirão. operários para as nossas oficinas. – Sobre os ainda que per se constitua um todo à parte”. Uma força militar que se incorpora num exército perde inteiramente a sua forma ou condição antiga. recebe domínio alheio. – Incorporar designa uma ação ou efeito mais completo que o da simples anexação. apenas adstrito à soberania do país a que foi anexado. ficou sob o pacto federal daquela outra república sem perder o predicamento de Estado. dependente. recrutam-se os conscritos refratários. sendo apenas mais . formam uma. 300 ANGU. Alicia-se gente para a revolta. Entre diversas províncias unidas não há nenhuma a que se atribua hegemonia ou preeminência. tratando com boas maneiras a pessoa ou pessoas que se quer atrair ao nosso partido ou ao nosso serviço”. porém. aliciar. e passa a formar com esse exército um só todo. designa o que se associou a outro sem perder coisa alguma das suas condições próprias. formando corpo à parte. angu ou mingau. mingau. o pensamento constante da política alemã tem consistido em fazer tudo por incorporar definitivamente aquelas províncias ao império”. Dependente diz-se do que. – Escaldado é o mesmo que pirão. Recrutam-se praças para um batalhão. pois. papa. daquilo que recebe domínio alheio ou lhe pertence. mexido. 299 ANGARIAR. angariamos amizades que nos sejam úteis na desgraça. escaldado. isto é. quase sempre à força. Isto se entende principalmente em matéria política. dependente. do que forma parte de um todo. escreve Bruns. O Texas foi anexado à União norte-americana. Neste exemplo marca-se bem a distinção entre os dois verbos: “A Alsácia-Lorena foi anexada à Alemanha em 1871. e há quem alicie inocências para a miséria dos bordéis. – A maior parte destas palavras são quaiseirismos comuns. – Anexo diz-se. tudo muito misturado e revolvido. por exemplo. – Recruta-se com autoridade.: “Estes dois adjetivos exprimem ideias diferentes (isto é. – Mexido e revirado são massas de farinha com peixe ou carne. recrutar. destacando-se do México. e desde essa época. um Estado. – Alicia-se “enganando. Essas freguesias. – Angaria- -se “fazendo acordo. aplicam-se indiferentemente à farinha de mandioca escaldada em água. nenhuma delas fica imperando sobre a outra: eram duas. perdendo o seu caráter individual.

tem-se desejo de possuir algum bem que nos agrada ou nos encanta. É uma anomalia moral um sujeito malvado professando uma religião de paz. leite. de sagu. disformidade. Quando chegávamos à fazenda. malpreparada. açúcar. O eclipse enoiteceu a face da Terra (não anoiteceu)”. 301 ANELO. vonta- de. monstruoso. de milho. É anomalia de linguagem toda forma admitida pelo uso. as leis conhecidas. do que infringe a regra instituída. pois este não se adstringe a regra nenhuma. excêntrico. etc. – Mingau é um angu especial. – Excepcional é o que não se conforma com a regra geral. e particularmente designa comida grosseira. – Anelo é desejo mais intenso e solícito. – Distingue Bruns.) com ovos. mesmo que seja isso apenas aparentemente. As anormalidades . excepcional. anor- extenso do que estes. anoitecia. que não se opera segundo as condições normais. Difere muito de anormal. como anseio é anelo mais ardente e fervoroso. o menos expressivo e forte. é anormal (isto é. – Papa significa “massa em geral”. muito altas ou muito difíceis. fica fora das leis. deformidade. – De todos os vocábulos deste grupo. tem-se anseio (ou anseios) por alguma coisa que nos apaixona. desejo. qualquer substância pouco consistente. irregular. monstruosidade. da ordem estabelecida. ANOITECER. anomalia. ou um sintoma aberrante em certo morbo”. – É anômalo o que se afasta do usual. que não se põe de acordo com a ordem conhecida e aceita”. – Aspiração é desejo mais grave. malidade. alimentam-se grandes aspirações que raramente se realizam. ou que se não acha no estado ordinário”. da regra comum. as normas aceitas. É anômalo “um mal desconhecido. – Desordenado é “o que sai da ordem vigente. Tanto dizemos – escaldado de farinha (esta fervida em caldo de carne ou de peixe) como – escaldado de ovos. é vontade. anormal. e só excepcionalmente é que ele se mostra calmo). vulgarmente. ou de coisas excelentes. Aquela calma em F. disforme. As irregularidades de uma vida licenciosa nem sempre se poderá dizer que sejam anormais. feito de farinha (de mandioca. – Irregular distingue-se de anormal em sugerir mais claro a ideia de infração culposa: ideia que não é essencial no outro. – Tem-se vontade de sair cedo de casa (sem fazer disso grande questão). muito bem estes dois verbos. aspiração. ou de arroz. excepcionalidade. etc. irregularidade. – Anormal é “o que infringe a regra dominante. – Anormalidade é ato anormal. isto é. pois apenas significa a disposição favorável de agir em qualquer circunstância. não está no seu temperamento. anseio. qualidade do anormal. de trigo. Para minha alma enoiteceu no dia em que vi morta minha filha. – Enoitecer é o fenômeno anormal que se pode observar a qualquer hora do dia quando o tempo se escurece por uma causa qualquer. desordenado. – “Anoitecer é o fenômeno que observamos cada dia entre o pôr do sol e o cerrar da noite. etc. A estação tem sido muito anormal (fora do que comumente se observa). mas que se afasta da gramática pela construção viciosa ou absurda. numa certa regra que rege o maior número das coisas ou fenômenos de que se trata”. deforme. – Desejo é vontade mais viva. excentricidade. enquanto que a excepcionalidade consiste apenas em “não entrar a coisa excepcional na regra instituída. sente-se anelo (ou anelos) do Céu. – Irregularidade é a qualidade do que é contrário à boa ordem.188 Rocha Pombo 303 ANÔMALO. de frutas. 302 enoitecer. que se tem como fazendo votos e procurando vê-los realizados na vida.

que excede. comentário. a referência à matéria deles. etc. etc. notas. mas rigorosamente falando. etc. e só dizem o que é precisamente necessário para aclarar e ilustrar a obra. afastando-se do que se nota em todos ou no comum dos indivíduos. que se costuma pôr à margem do texto para explicá-lo. da direção. É assim que a anotação instrui. e procura achar o verdadeiro sentido do texto que se interpreta. – Anoso dizemos melhor tratando de coisas ou de fenômenos. interpretar. sem a forma própria do gênero. Mas disforme quer dizer “fora da forma usual. explicar. anotações. as quais. interpretação. explanar. glosas. ou um sentido oculto ou obscuro que se aclara com autoridades e raciocínios. são extensas e eruditas explicações de um texto”. que lhe é essencial. por sua parte. de afeições.. de original. O anoso carvalho. de tendências. uma coisa. ou cuja vida ou duração é tão extensa como um século”. secular. (Quem explica não faz menos do que “desdobrar aquilo que é complicado”. (Comento vale mais por nota e fica em relação a comentário como nota em relação a anotações. – Segundo Roq. estragado pelo tempo”. que exagera a forma própria comum”. velho. ou para completá-lo. assim a interpretação. fixando seu verdadeiro sentido. por engenhosa que seja a interpretação. nem sempre serão contrárias à moral. bem-feita. e só figuradamente é que se emprega excentricidade para significar “o que tem um indivíduo. – Cota é “a citação de autor posta à margem. Também se chama assim a nota marginal posta em autos.”. anosa existência (carvalho. “as anotações e as notas se empregam para aclarar e ilustrar (anotar) alguns lugares de uma obra. que vêm a ser como breves comentários das obras. de anomalia na conformação (deformidade)”. à justiça. explicação. supõe ambiguidade. antigo. sempre nos deixa em dúvida. pois não se limitam. à inteligência comum. – Velho é “aquilo que está gasto. de irregularidade repugnante à moral. – Disforme e deforme poderiam confundir-se se se disfarçasse o valor preciso dos respetivos prefixos. explanação. deforme significa “defetivo. tornando simples e fácil de entender um . numa criatura nem sempre serão irregulares (isto é. Mais extensão admitem as anotações. 305 ANOTAR. – Mais extensas que as anotações são as explicações. como aquelas. comentar. – Secular é propriamente “o que conta séculos de existência. coisas ou fenômenos do mesmo gênero”. – Antigo é “o que é tão velho ou tem tanta idade que já se acha fora de uso”. um fenômeno. conhecido só de alguns eruditos. comento. a aclarar o sentido da frase ou palavra. e a interpretação limita-se a apresentar razões pró e contra. cotas. derrama sobre o texto uma luz que a todos alumia. – Deforme confundir-se-ia com monstruoso se este não sugerisse a ideia. idoso.) – Assim como o fim das anotações é explicar com clareza e exatidão as frases e palavras. e aplica-se de preferência ao homem”. – Excêntrico é propriamente o que sai do núcleo. Também se chamam notas os reparos e tachas que se põem a alguns escritos. senão que se estendem a facilitar a inteligência das coisas ao vulgo dos leitores”. A anotação. apostilar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 189 de gosto. 304 ANOSO. do centro que lhe é próprio. – Idoso equivale a “anoso. em linguagem exata. – Explanar é “explicar.). à justiça. existência que conta grande número de anos). ob- servações.) – As apostilas são notas ou glosas (ou observações elucidativas) quase sempre pouco extensas. porque cada leitor se julga com direito de ser intérprete.. as notas são curtas. e envolve ideia de vício. apostilas.

mesmo no sentido figurado: significa “fazer sombrio..190 Rocha Pombo texto. dizer – hemisfério austral – em vez de hemisfério meridional. que envolve ideia de toldação e ensombramento. sendo apenas de menos intensidade que o outro. – Dizemos também – terras ou mares austrais – para designar os que ficam no hemisfério do sul. pelo menos não tanto quanto as divícias lhe obscurecem o senso moral para a justiça”. de uma questão – há de explicar-lhe os termos e esclarecê-los de modo que se torne mais facilmente inteligível. . – Fechar equivale ao precedente. A paixão política obscurece os espíritos mais luminosos. obcecar. cobrir de sombras. ou a cor mais viva. severo. fechar. Em nenhum destes casos seria de tão lídima propriedade o verbo anuviar. “termo especulativo que. – Nublar é quase o mesmo que anuviar: apenas este sugere. – Anuviar é “toldar de nuvens. a ideia de turbação e escureza. exprimindo “a ação ou o efeito de fazer ou de fazer-se escuro. ensombrou-se aquela alma à vista de tal cena. No sentido fig. sendo a treva (tenebra) a ausência completa da luz24. Ele carregou o semblante ao ver aquela miséria. A saudade ensombra-lhe o semblante. como se escurece a inteligência mais lúcida. de fazer sombrio. que se isolou moralmente da nossa intimidade. de uma forma um tanto vaga ou abstrusa. escuro. meridional. de um problema. deixar em meia-luz”. – Carregar tem uma acepção especial. carregar. Quando se diz que F. segundo Bruns. 308 ANTECEDENTE. pois que significa “fechar ou fechar-se como hostilmente”. tem valor análogo. Terras. Muito raro será o caso em que. 306 ANUVIAR. fechou a alma. quer-se dizer que F.. nublar. aquele sacrilégio ficou para sempre a ensombrar-lhe as magnificências do sólio sagrado. entenebrecer. grave. e neste caso não seria aplicável meridionais. no sentido figurado. fazer menos claro e límpido”. portanto. se pôs em guarda conosco. – Ensombrar é “fazer sombrio. – Escurecer é o mais genérico e vago do grupo. – Entenebrecer é mais forte que escurecer. lúgubre”.. É mais próprio. como se vê deste exemplo: “Esta miséria jamais nos há de obcecar. – Meridional quer dizer – “que fica ao sul de um outro ponto designado”. devendo notar-se que a predicação de obcecar é mais completa e direta. ensombrar.” Escurece o tempo. Eclipsar significa “escurecer pela interposição de corpo opaco entre a luz e o órgão visual”. Enoitar diz propriamente “pôr ou deixar em noite”. escurecer. uma frase”. toldar. – Obcecar (no sentido figurado) confunde-se com obscurecer. um princípio. melhor do que aquele. – An- tártico significa “que está abaixo do círculo polar do sul”. – Antecedente é. – Toldar é semelhante a nublar. fazendo o radical tolda em toldar função análoga à de nuvem em nublar. precedente. – Tanto no sentido natural como no figurado exprimem de comum estes verbos a ideia de eclipsar. mares antárticos. à ideia de ante24 Poder-se-ia juntar a este grupo os verbos eclipsar e enoitar. 307 ANTÁRTICO. prévio. – Obscurecer sugere ideia mais sensível de atividade subjetiva: significa “privar de luz. torvo. não se possa substituir um pelo outro. austral. – Austral designa todo o hemisfério oposto ao boreal. obscure- cer. a dor como que lhe nublou um tanto a razão naquele instante. ensombrar como se entre a coisa anuviada e a nossa vista passasse ou se interpusesse uma nuvem”. anterior. enquanto que carregar diz muito mais. Dizemos: o tempo está meio nublado. Quem se incumbe da explanação de um texto.

o nosso avô. mas não deverá dizer: os meus predecessores”. predecessor. – Anterior. – Observa Bruns. referindo-nos a todos os sucessos que são como determinantes desse acontecimento. 309 ANTECEDENTES. Notando-se defeitos no contrato anterior. os duques. como precedente. o que é prévio é. às dignidades. – Antecessores dizemos dos ascendentes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 191 rioridade. contam com desvanecimento grande número de predecessores. de influência. maiores. o gerente de uma empresa. – Ascendente dizemos de qualquer dos parentes de que provimos: o nosso pai. o plebeu como o nobre. tem ascendentes. sem nenhuma ideia de causa nem de influência. em geral. dirá: o meu antecessor. pois não especifica se outros fatos ou outras coisas se intercalam ou não entre o fato ou a coisa atual e o fato ou a coisa anterior. não só anterior. Neste vocábulo o que predomina é a ideia de que. ascen- ciso admitir uma certa distinção entre estas duas palavras como substantivos. avós. antigos. O pobre como o rico. aqui não designam parentesco de sangue . Dizemos também: os precedentes de um criminoso. segundo Lacerda. considerando-os como tendo fruído do que nos legaram. com muita razão: “Predecessor indica sujeito ou classe elevada. ou daquilo em que lhes havemos sucedido”. antepassados ou antecessores. Dizemos: os antecedentes históricos de um certo acontecimento. aos privilégios.. – Precedente indica prioridade ou anterioridade. O serventuário de um ofício. isto é. 311 ANTECESSORES. o II ou o I. não se intercala nenhum outro fato ou nenhuma outra coisa. de figuras que os precederam na dignidade. O capítulo precedente ao capítulo IV é o capítulo III. designa prioridade no espaço ou no tempo. fazendo alusão à conduta que parece explicar de perto o delito de que se acusa esse criminoso.. que ascendentes é “o termo mais genérico e o menos pretensioso entre os primeiros três deste grupo. As consequências provêm das causas antecedentes. como avós. – Antepassado não se poderia dizer do pai nem do avô: só do bisavô para além se podem começar a contar os antepassados. O capítulo de que se fala como anterior ao capítulo IV pode ser o III. da justiça. mas também necessário. o nosso bisavô. Os reis. isto é. antepassados. O que é anterior está antes ou precede. e predecessor é o que o ocupou antes do antecessor”. reúne frequentemente a de causa. mas de modo indeterminado. tiveram seus antecessores nos cargos. que nos impede empregá-la em circunstâncias triviais. enquanto que antecessor corresponde à ordem material de sucederem-se as pessoas umas às outras. – Antecedentes de um fato são todos os fatos de que esse fato decorre como uma consequência ou corolário. – É pre- “antecessor é o que ocupou algum lugar em relação ao que nele lhe sucedeu imediatamente. – Precedentes são os fatos que precedem imediatamente o fato de que se trata. – Pais. etc. os grandes. o dono de uma casa de comércio.. fez-se novo contrato baseado em condições prévias”. outros que antes deles ocuparam os mesmos cargos. entre o fato atual ou a coisa presente e o fato ou a coisa precedente. – Anterior e prévio devem distinguir-se. são nossos ascendentes. 310 ANTECESSOR. etc. precedentes. os funcionários da administração. – Confun- dem-se comumente estes dois vocábulos. pais. mas é preciso notar que. e corresponde mais ao cerimonial. etc. mas só a primeira dessas denominações quadra bem na boca de todas as classes. avoengos. Acrescenta Roq. dentes. Esta palavra encerra algo de nobre e de elevado.

compondo uma que poderíamos dizer literalmente contrapaixão (ou contrassentimento) formou-se a palavra latina antipatia (que se trasladou para as línguas derivadas) e que significa uma oposição ou inimizade natural ou irresistível dos seres uns contra outros. pagou adiantadamente três meses do aluguel da casa (pagou antes que começasse a correr o aluguel. dos Lusíadas: Oh tu. quizila. construído segundo as regras da nova arquitetura militar. preveniu-nos antecipadamente que não viria hoje. – Pais indica os mais próximos do nosso tempo. “contra”. parentes ou não”. pois dizemos – nossos pais. consistia em muro e antemural: o muro que cingia e defendia a cidade. aversão. morreu prematuramente (isto é.” – Maiores é “o termo genérico em que se compreendem todos os que viveram antes de nós. antes do tempo devido”. zanga. 314 ANTIPATIA. asca. gana.192 Rocha Pombo 313 ANTEMURAL. e. frequentemente exagerados. etc. muralha. rancor. segundo a arquitetura militar antiga. antes de chegar à idade em que é mais comum que se morra). Hoje fazem-se muros só para cercar uma quinta. conforme havíamos combinado (preveniu antes do dia ou da hora em que devia vir). – Adiantadamente exprime “com antecedência. estes três vocábulos escreve Roq. – Prematuramente significa “antes da ocasião própria em que alguma coisa se deve fazer ou deve dar-se”. – Avós designa antepassados mais remotos. Catilina. ou mesmo os antepassados. e o antemural que cingia e defendia o muro”. Paris tem muros e muralhas. A fortificação das cidades mais inexpugnáveis. asco. ou que chegasse a época do pagamento). seus efeitos são prodigiosos. – Muralha é o muro de praça fortificada. muro. prematuramente.) e só por extensão é que se aplica este termo para designar os ascendentes em geral. “paixão”. oh nobre Coriolano. É mais forte que a antipatia. mas parece não ser tão invencível . como aos de todas as raças e que viveram antes de nós. F. – “Das duas palavras gregas anti. F. e por vezes fabulosos. e é assim que o emprega Camões na seguinte passagem do c. a fim de cingir e defender uma praça ou cidade fortificada. se bem que isto não seja essencial à palavra. vos fizestes inimigos. e é assim que muito se há delirado sobre ela. e do recinto da cidade. aos homens. ódio. F.: “Na frase da milícia antiga – diz Vieira – o muro significava a fortificação mais estreita. 312 ANTECIPADAMENTE. edificam-se muralhas só para fortificar e defender praças. referindo-nos até a Adão e Eva. Que contra vossas patrias. e o antemural. segundo Alv. A causa de tal oposição é desconhecida inteiramente. adiantadamente. as que hoje se chamam fortificações ou obras exteriores. e vós outros dos antigos. muralhas para resistir aos inimigos que a quisessem atacar”. muitas vezes morais. – Antigos parece encerrar ideia de mais afastamento ainda que avós. que a defendem no largo. “reserva-se este nome para os homens célebres da antiguidade. (VI. – Sobre ou direto: referem-se em geral às gerações que nos precederam. repugnância. – Antecipadamente diz “antes do prazo estipulado”. 104 e 372). horror.. – Avoengos designa mais propriamente “a série dos avós ou progenitores de quem descendemos em linha reta” (Aul. e pathos. IV. não só da nossa nação. Passos. Sertorio. com profano Coração. – Aversão é sentimento que tem igualmente alguma coisa de desconhecido em suas causas. muros para impedir a entrada de contrabandos e para que se recebam nas portas os direitos de octroi.

e clássico para seus respetivos tempos”. e até de “quase ridículo”. – “em que o antiquário e o arqueólogo exercitam a sua atividade . é palavra vulgar que indica “aversão. 315 ANTIQUADO. muitas expressões desusadas ou antiquadas. e até em amor. Aproxima-se. – Horror é “grande aversão e repugnância. desusado. o ódio. – Quizila (ou quizília) é palavra da língua bunda. O escritor que se serve de palavras e locuções antiquadas (ou desusadas). já excluído pelo uso”. Camões e Bernardes não se parecem com Gil Vicente e Sá de Miranda. e cada escritor o estilo que lhe é próprio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 193 nem tão profunda. 316 ANTIQUÁRIO. em lugar da qual se usa em linguagem comum”. É mais “tédio. aborrecimento. enquanto que arcaico significa apenas “que o vocábulo é muito antigo. produzido sempre por alguma causa muito grave”. de ligeiros motivos. parece com o tempo ganhar forças. que a forma não está em moda por ser muito velha”. – Rancor é “ódio profundo e oculto. às vezes gratuitamente”. portanto. As palavras e frases antiquadas ou desusadas “podem ainda usar-se em poesia e em estilo jocoso. – Asca. que a repugnância é menos invencível que a aversão. – A repugnância é ainda mais forte que a aversão. Diz. e que muitas vezes acontece que uma e outra (aversão e repugnância) chegam a converter-se em afeto. muitas vezes sem ódio”. má vontade que se tem a alguém. pois têm muito de caprichosos estes sentimentos que devemos chamar acidentais. e significa a antipatia que os pretos têm a certos comeres ou ações. de antipatia: quantas vezes se tem antipatia por uma pessoa só porque não a conhecemos de perto? – O ódio nasce quase sempre de poderosas e fundadas causas. Sem nada mendigarem aos estranhos. talvez com desejo de vingança”. e prefere os arcaísmos de nossos avós às boas expressões que o uso depois introduziu – este não se livrará da pecha de rançoso. de gana (em sentido figurado) que é “um forte desejo de mal. nas ações. A aversão e a antipatia exercem-se indistintamente nas pessoas e nas coisas. e chega a inveterar-se na alma como um veneno mortal. não as obsoletas. – Estas palavras “indicam coisa antiga que decaiu do uso”. repugnância que se tem a coisa torpe ou imunda”. – Obsoleto acrescenta à significação das duas outras uma ideia de – “excluído ou proscrito”. O uso pode fazer ainda reviver. segundo o mesmo Roq. no entanto. Barros e Fernão Mendes Pinto não escreveram como Fernão Lopes e Castanheda. são cruéis e terríveis seus efeitos. expressivas e com boa analogia. posto que todos escrevessem em bom português. mais naquelas que nestas. De qualquer modo que se manifeste. – Entre desusado e arcaico deve notar-se a seguinte diferença: desusado diz propriamente “fora do uso. para fugir à invasão do neologismo.. arcaico. Roq. mas genuínas da língua. – “O domí- nio” – escreve Bruns. mas as obsoletas parecem condenadas a perpétuo esquecimento. porém o que busca desenterrar velharias. Mas isto mesmo poderíamos dizer. arqueólogo. Luiz de Souza e Vieira diferem muito de Seita e Paiva. arrelia do que aversão propriamente. – Zanga é “a quase aversão que se tem a pessoa ou coisa que se julga de mau agoiro”. a repugnância. de mera vontade. por graves injúrias recebidas. encarniçamento e quase furor impulsivo contra alguém. e talvez com mais razão. obsoleto. algumas vezes. segundo a sentença de Horácio. e ainda de capricho. que de ordinário foram substituídas por outras mais bem derivadas e mais sonoras”. merece louvor. e que esta o é também menos que a antipatia. Cada século tem seu cunho particular. – Asco é “aversão.

contradição. e Berg. escura e medonha. e dizemos só da flagrante oposição que existe entre duas palavras ou duas ideias aproximadas: dizer que um homem é de uma ‘orgulhosa’ ‘simplicidade’ é fazer uma antítese. antítese “pertence exclusivamente à linguagem literária. furna. – Segundo Roq. de que nos deixou exemplo Bernardes na Floresta: “Estando em cima. contraste.. caverna. o qual entrou no português como palavra culta e poética. o sentido real que está no pensamento do satírico. (II. subterrâneo. as explica. – A segunda do grupo é latina. portanto. É por antífrase que eles designavam o mar Negro sob o nome de Ponto Euxino (mar hospitaleiro). Esta palavra emprega-se nas artes. contrariedade. e segundo a sua origem significa – cova profunda e escura. Com estudo e paciência. lapa. gruta. ou benévolas). ‘frente a frente’ e stare. contraste entre as ideias ou as afirmações de alguém e as nossas”. antífrase. antilogia. e defendida pelos lados como um recinto. muito mais restrita que contraste. que se dedica ao seu estudo. que as coleciona (e que até com elas negocia). a caracteres. – Contrariedade é “a relação que se nota entre duas coisas ou duas ideias opostas”. – O contraste (do latim contra. buraco. – Furna é cova profunda. que se aplica a situações. e não somente às partes de um mesmo período. 317 ANTÍTESE.. dizemos: este santo homem”. Bourg e Berg. cuja disforme boca mostra ter uma légua de âmbito. um antiquário pode tornar-se arqueólogo”. cova. porém. essa proposição marca que Quinault é um medíocre poeta”.194 Rocha Pombo é o mesmo”. ou entre os capítulos de um mesmo livro”. entre as duas palavras diferença considerável. que as conhece. diz-se particularmente da fauce lôbrega de um vulcão. Se não houvesse aí antífrase. – A antífrase. toca. – Antilogia “é a contradição ou desconchavo entre as ideias sustentadas pelo mesmo autor. mas admitido. falando de um celerado. ainda segundo Bourg. qualidades ou modos de ser diferentes. – Antiquário é o que tem gosto pelas coisas antigas. – Antinomia é “a oposição que se nota entre duas leis ou princípios”. Esta palavra não é poética. essa afirmativa marcaria que Quinault é um poeta de primeira ordem. – Arqueólogo é “o que é muito versado em tudo quanto respeita a antiguidades. – Oposição é aqui “o maior ou menor afastamento em que uma coisa fica da outra”. – “a primeira destas palavras é o grego antron. em filosofia. Esta palavra é. caverna. e que a aproximação faz ressaltar melhor”.. e diferença-se de todas as do grupo em acrescentar-lhes à significação comum a ideia de medo. pela antífrase. e significa uma grande escavação aberta a modo de abóbada. que às . distinguem a antífrase da contraverdade. e Berg. etc. – Contradição é “desconcerto entre o que se disse e o que se está dizendo. Quando Boileau diz: “Asseguro: Quinault é um Virgílio” – a proposição: “Quinault é um Virgílio” “deve ser entendida em um sentido contrário ao que lhe é natural e próprio.. antino- mia. há. que deu o latim antrum. oposição. contemplando a horrenda furna e estômago do monte (Etna). – Segundo Bourg. 318 ANTRO. 227)”. É por antífrase que os gregos designavam as Fúrias pelo nome de Eumênides (deusas benignas. É também por antífrase que. ‘conservar-se’) é a oposição que existe entre coisas contrárias. mas sem fundamentar claramente a distinção. e em geral sempre que se nota uma impressiva contrariedade entre duas coisas. “é uma palavra ou uma locução que deve ser entendida num sentido contrário ao que exprime essa palavra ou essa locução. em literatura. de horror.

porque acrescenta à noção de grandeza a ideia de excelência. grandeza. Às disposições para qualquer faustosa cerimônia ou festividade se lhes dá o nome de aparatos. etc. sumptuosidade. e os zagais acolhem-se às lapas”. e que sugere ideia de deslumbrar. e as lapas dão abrigo aos pastores. ostentação. quase pelas mesmas palavras. Dizemos. aparelho. Não há pompa sem grandeza exuberante. dizemos que se fazem preparativos.. figuradamente – sumptuosidade do estilo. como diz Luiz de Souza. operações. esplendor. ou mesmo uma caverna menos profunda e de menores proporções”. – Cova é “abertura feita na terra. Chamam-se. dispõem e arranjam diversos materiais ou coisas para a execução de qualquer obra. Quando se diz: “o aparato daquela cena” – quer-se dar ideia. grego krupta) e significa concavidade da terra entre penhascos. e por analogia. com alguma vergonha. na Vida do Arcebispo: “E viu juntamente que ao pé do penedo se abria uma lapa que podia ser bastante abrigo para o tempo”. Em estilo poético. mais ou menos ampla e profunda”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 195 outras não é inerente. – Gruta é palavra castelhana e portuguesa (talvez do latim crypta. no sentido em que se . é o esplendor exagerado de um ato solene. o que escrevera Roquete).. pois – os preparativos de uma função. – Os antros servem de covil às feras. de asilo aos homens e de guarida aos ladrões. – Grandeza (segundo Lacerda. brilho e formosura. e também. como do brilho. é a qualidade daquilo em que se faz ostentação de riqueza: sumptuosidade do templo. fausto. Diz mais que sumptuosidade. aparelhos aos arreios necessários para montar. desde o exercício e arte da pintura até o mais baixo ofício mecânico. trabalho ou obra. que repete. apresto. e dizia-se antigamente aparelhos para dizer missa. portanto. mas abrange os instrumentos. majestade.. as grutas são habitadas pelos anacoretas. – Aparato é o movimento pomposo. ou de um banquete. – Segundo Roq. – Buraco “será uma cova. vinda talvez do grego lápathos. materiais.” 320 APARATO. preparativo. do palácio. as cavernas. as feras. assim como à reunião deles se chama aprestos ou aparelhos. pois não só as compreende todas. os preparativos de uma guerra. o modo solene. alardo. das cores que um artista empregou no seu quadro.. do festim. desde o mais elevado até o mais ínfimo. que “engrandecem” (aos que a contemplam). – Subterrâneo designa “em geral todo espaço que se encontra no subsolo”. A significação da palavra aparelho é muito mais extensa que a das anteriores.. de um assédio. – Magnificência é o esplendor. as cavernas. de fazer sucesso. sem opulência de formas. pompa. – Sumptuosidade. sem majestade de encenação. de produzir sensação. – Toca = “buraco onde vivem ou se refugiam caças”. disposições para todo exercício. e quer dizer uma caverna na encosta de monte. não só das proporções dela. – “quando se reúnem. os antros. – Pompa é o aparato ostentoso. os facínoras. – Lapa é palavra portuguesa. e coberta por um penedo ou chapa de pedra: isto mesmo significa a palavra lapa. luxo. 319 APARATO. “as ninfas e os deuses campestres habitam as grutas.. ou para carregar cavalgaduras. às vezes suscetível de ornato rústico. pois que a significação desta palavra se estende a tudo o que se executa com pompa e ostentação. a pompa que maravilham. o lugar onde alguém se esconde. da grandiosidade excepcional que ela vai ter ou que apresenta. mag- nificência. estende-se desde a ciência e manobras náuticas. a grandiosa disposição com que se celebra algum ato extraordinário. como indica a própria origem latina.

o que quer que seja de acento espiritual que distingue uma fronte humana. – Esplendor.. o esplendor da mocidade. exterior. mas. de poderio. Dizemos: o aparecimento do cadáver que se andava procurando. – Aspeto é a exterioridade que nos impressiona ao primeiro relance de olhos. – Majestade indica magnificência. 321 APARECIMENTO. da qual nos deixa ver apenas uma parte”. porte ou conduta que ela mostra exteriormente. ou não definida: “o que ela diz tem visos de verdade” (tem aparências vagas. Como hoje se lincha. o aparecimento (ou apa- bos. – Ostentação é o brilho e aparato. – “a aparência é o efeito que produz a vista de uma coisa.. a voz. “é manifestação de uma coisa presente. considerado esse ato como coisa inesperada. lustre. semblante. – Alardo (ou alarde) é ostentação mais estrondosa. Luxo no trajar. Grandeza refere-se “à parte material das coisas. Quando se diz que alguém foi apedrejado. nos modos. – Luxo é toda manifestação exagerada do desejo de conforto. É de notar que se diria: “Ele vive com certo fausto” (isto é – com alguma pompa de quem deseja ser tido como rico). e em sentido translato – seriedade. – Grandeza indica luxo. maneiras. seriedade. impróprio seria. enuncia-se apenas a ideia de que sobre essa pessoa se atiraram . etc. aparição diz-se da coisa que aparece. – Estes dois ver- muito bem Bruns. dando ideia da ufania de quem alardeia. Exterior é o que cada corpo mostra pela parte de fora: aplicado às pessoas. – Majestade indica decoro. poderio. ou pelo menos não perfeitamente lídimo. estas duas palavras: – “Aparecimento é o ato de aparecer. poder. é brilho. é o aspeto. imprecisas de verdade): – Mostra. etc. tamanho de alguma coisa. neste caso) da febre amarela. de um panorama. dignidade. Há criaturas que fazem alardo de fortuna. e o objeto aparecido como extraordinário. de poder. e figuradamente. 323 APEDREJAR. distinguem-se. do espírito. 322 APARÊNCIA. os gestos. que à primeira vista parecem sinônimos perfeitos. – Visos quer dizer – aparência não clara. ostentação (de grandeza e poder). de erudição. aqui. no viver. os modos. no entanto. significa extensão. lapidar. por assim dizer. – Distingue rição. quase sumptuosidade. Tanto se faz ostentação de riqueza ou de força muscular. como de talentos e virtudes.196 Rocha Pombo toma aqui o vocábulo. mostra. com ‘certa’ sumptuosidade”. de beleza. soberania. – O ar (ou os ares) com que uma pessoa se nos apresenta é o conjunto de tudo quanto da parte dessa pessoa nos impressiona à primeira vista: o semblante. dizer: “. antigamente se lapidava. a aparição do cometa de Halley”. – Segundo Roq. de uma civilização etc. ou do desejo de agradar ou de fazer figura. e majestade ao ideal das mesmas coisas”. aparição. ar (ares). isto é. pelo que é às vezes enganosa. e então se lhe chama exterioridade”. – Semblante é o modo de ser da fisionomia humana: é. etc. O esplendor da natureza. e a ideia que nos resulta dela. gravidade de alguma pessoa. visos. luxo de sapiência. – Fausto é luxo custoso. dava-se a morte pelo apedrejamento. correr a pedradas. deste modo: apedrejar é simplesmente jogar pedras a alguém ou a alguma coisa. o exagero calculado com que se exibe alguma coisa. grandeza. aspeto. e lapidar é matar a pedradas. de manifestar-se. da corte. mas não se diz: o aparecimento. excelência. de alguma coisa ou ação. senão a aparição do anjo Gabriel. e do próprio ato de aparecer. diz Lacerda. exteriori- dade.

só (ou somente) enuncia quantidade sem relação determinada: F. – Ápice é a parte mais elevada de um corpo. Falando de superfícies. agravo. 325 APENAS. Esta rua é estreita. e diz que esta expressão é imprópria. e por isso está o pé apertado. são diferentes dela no fundo. ou contrário à lei”. cumeada). Não admite. 328 ÁPICE. está como cingida de um e outro lado. auge. caracteres diferentes. gradação. o calçado é estreito. por isso. tope. A um dicionário junta-se o suplemento. o direito de reclamar. e que. culminância. dizer: o mais alto cume da cordilheira ou da montanha. pois cume significa toda a porção superior das grandes elevações. têm. zênite. apogeu. e apertada da que. sendo demasiado estreita. pináculo. A um código junta-se o apêndice que encerra as alterações que se fizeram a alguns dos seus artigos. cume (cumeeira. afirmamos que Estevão foi morto a pedradas. O suplemento completa o texto com artigos que lhe faltam. suplemento. – Recurso é termo genérico exprimindo “não só o ato de recorrer. que o agravo é o recurso de que se vale a parte perante a própria autoridade que deu a decisão. por isso. falou só desse ponto sem desviar-se para nenhum outro ponto). estreito. recurso. não é rico: tem só (ou somente) quinhentas libras de rendimento. ou só. – Exclusivamente exprime exceção mais completa ainda. no seu vocabulário jurídico. a que fica superior a todas as outras. 327 APERTADO. ou com alguma parte dele. anda o corpo apertado. sugere ideia de insuficiência ou insignificância para determinado fim: Não o compro porque tenho apenas cinco mil-réis. portanto. no entanto. não devendo. pois exclui todas as outras coisas do número daquelas que se salva ou a que se refere o enunciado. – “são partes que se acrescentam a uma obra para completá-la.. melhor do que somente. como a faculdade. píncaro. ninguém diria com propriedade: – “ápice mais alto de um edifício ou de um monte”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 197 pedras. e por ser estreito o vestido. quando as decisões são apeláveis. sumidade. exclusivamente. cimo. apêndice como o suplemento” – escreve pino. expor novas aplicações. no entanto. os dois primeiros termos deste grupo. – Apenas. – Segundo Bruns. – Com toda razão observa Bruns. Falta-me apenas o quinto volume para completar a obra. que contém os vocábulos que no dicionário não estão incluídos”. diz Teixeira de Freitas: – “Agravo é um dos recursos frequentes da nossa ordem judiciária. ou restringir-lhe o alcance.” – Apelação é “o recurso interposto da primeira instância para a segunda. – Definindo. fastígio. de agir contra uma decisão ou um julgamento que se considera injusto.. só (ou somente). que frequentemente se ouve: calçado ou vestido apertado para indicar que o pé ou o corpo não se encontram neles à vontade. dar maior extensão à matéria. Falou exclusivamente do ponto que se controvertia (isto é. – “Tanto o Bruns. 326 APÊNDICE. para explanar a doutrina. dizer-se: . Quando dizemos que Estevão foi lapidado em Jerusalém. se bem sejam da mesma natureza da obra. Podemos. alto. O apêndice liga-se intimamente com o texto. e que a apelação é recurso para juízo de instância superior à do juiz contra cuja sentença se recorre.” Parece. estreita dir-se-á da que é pouco larga ou pouco ampla.. 324 APELAÇÃO. e está apertada entre altas paredes.

como: o tope do mastro. “Ele ascendeu então ao fastígio da glória. – Zênite é termo técnico de astronomia.” – Apogeu. Culminância sugere ideia de imensa altura do pináculo. “No auge da fortuna. por analogia com a significação desta palavra como termo de arquitetura. a contemplar o fastígio maravilhoso do templo. Tanto é de lídima propriedade dizer: alto do monte. o ponto acima do qual não é possível ir. Em linguagem eclesiástica. alto do palácio. portanto. uma certa diferença. cume. a cumeada dos Andes. Não seria próprio dizer: – o cume da ladeira. alto. cumeada. alto das ruínas. pela analogia da posição desse ponto com a do sol quando se acha no zênite. – Cimo (do latim cyma) é propriamente a parte que de um corpo se destaca ou se faz saliente. o cimo da planta. – “é palavra latina (suppositus) e significa o que se põe falsamente em lugar do verdadeiro. Mas pináculo envolve ideia de terminação da coisa elevada em ponta aguda. – Pináculo é mais expressivo do que pino. em vez de todos os pontos elevados. ou da fama. Em qualquer destes casos preferiríamos empregar cimo. – Fastígio. Sumidade acrescenta à noção de cimo. – Alto é igualmente qualquer das porções elevadas de um corpo. falso. o cimo da escarpa. A cumiada dos Pireneus. – Cumieira (ou cumeeira) é “a parte mais alta. também por analogia (com o fenômeno astronômico a que se dá esse nome). Tanto podemos dizer: o cimo do monte. “Ficamos até em pasmo. não conhecida antes. é a parte mais elevada. ou do muro. é também a série dos cumes de uma serra ou cordilheira”.. Ainda que a au- . quase sempre melhor aplicada quando se trata de um edifício”. alto da porta. fictício. ou de grandes construções. tope.. como exprime culminância. a ideia de grandeza. – Suposto – diz Roq. só devemos empregar cume tratando de montanhas. suposto.” “A linha desdobra-se pelo fastígio da cordilheira”. dá-se este nome a todo livro duvidoso. “Ele estava no auge da raiva..198 Rocha Pombo o cume da ladeira ou da lomba. – Apócrifo é palavra grega (apókruphos) que significa coisa secreta. como o cimo do edifício. – Cume (do latim culmen) é a parte que se eleva também acima das outras.” 329 APÓCRIFO. Pode comparar-se a culminância. O mesmo se poderia dizer de píncaro se este designasse. ou da colina. de volume e de extensão. mais à vista e mais brilhante de algum edifício. como: alto da árvore. sem mais ideia alguma acessória. de autor incerto. cujo autor não é conhecido. mas esta palavra é de aplicação mais restrita. particularmente se diz do livro ou da obra que falsamente se atribui a quem não é seu autor. ou da ladeira.” – Auge só se aplica a fenômenos morais. nem – o cume do telhado. e que a Igreja Católica não incluiu no cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas. o cimo do chapéu. pretenso. fabuloso.. – Pino é um correlativo de base: designa o ponto culminante de alguma coisa. etc. Tanto dizemos: o tope do monte. sem dar ideia necessária de grandeza ou de altura extraordinária.”. o mais alto de todos. de algum corpo em geral. da colina. – Cumiada (ou cumeada) é também “a parte mais alta.” – Tope (ou topo) é a parte superior de qualquer coisa. Entre cume e cimo deve admitir-se. a sumidade e a outros do grupo. é “o auge supremo. nem mesmo – o cume da torre. Rigorosamente falando. correlativo de nadir: em linguagem comum designa também “a culminância a que alguma pessoa atinge na esfera em que exerce o seu esforço. tratando-se de uma montanha. e indica “o alto grau de intensidade a que é capaz de chegar um sentimento ou a que um fato pode atingir”. e de pouca ou nenhuma fé. da escada. alto da testa. ou da escada. e é aplicável no sentido translato.

significa defensa. e contra elas advogam os letrados perante os juízes. uma nação ou pessoa. 331 APOSENTAR. – Pretensa é a coisa que se quer fazer passar por ser a verdadeira. Nas associações científicas e literárias é uso fazer-se o elogio dos sócios falecidos (não panegírico). porém. – Elogio é “o discurso. – Falso é propriamente o contrário à verdade ou como tal admitido. defesa. mas que se tornam estranhas pela enormidade. “segundo o valor da palavra grega. empregaria certamente de preferência – fictícia. elogio. dos livros apócrifos. quer tirar proveito é fabulosa”. um partido. mas as acusações vagas. ou mesmo todos os vencimentos”. a suposto. de modo a que fique livre de penúria o aposentado.) – Defesa é todo esforço feito para demonstrar a não culpabilidade de algum acusado. para rechaçar as falsidades com que os pagãos procuravam fazê-los odiosos como inimigos dos deuses e de todas as potestades. não permite a Igreja que se tirem argumentos para provar as verdades teológicas”. – Aposentar diz propriamente – “dispensar do serviço. espalhadas entre o público e que vão tomando corpo com grave dano das pessoas acusadas até que acabam em perseguição formal pela justiça. ou do exercício do cargo. como se dá em relação a fictício. prestando serviços durante um certo prazo. porque essas correm nos tribunais. suposta ou falsa. isto é – fabulosas). Decerto que ninguém diria: “a promessa de que F. ao senado e aos magistrados. da pessoa de quem se trata. como um prêmio. Este é o verdadeiro caso da apologia. apologias em defesa da religião mem de comum estes verbos a ideia de cessar alguém de exercer as funções do seu cargo. É mais ato ou dever de ofício. ou o escrito em que se demonstra ou procura demonstrar como a pessoa elogiada é digna dos louvores que se lhe fazem”. 330 APOLOGIA. etc. e sempre com intuito de só fazer que ressaltem as altas virtudes. Fazem-se as apologias para desvanecer as acusações com que se agravam as classes mencionadas. pode. e serve para manifestar a inocência do acusado”. Aquele homem nos disse coisas fabulosas do que se passa no sertão (coisas que se têm ou podem ter como verdadeiras. dos documentos autênticos. – Expri- panegírico. e assegurando-lhe o soldo da patente. foi-lhes forçoso apresentar aos imperadores. – Apologia. justificação. jubilar. direito a todos os honorários do cargo. Um advogado. – O panegírico é um elogio mais incondicional. como se estivessem nas respetivas funções. concedendo-se-lhes. e é qualquer discurso ou escrito no qual se defende um sistema. Deste modo perseguidos e caluniados os primeiros Cristãos. os lentes. – Reformar é dispensar do serviço o militar que se fez inválido. Conhecemos orações fúnebres que são verdadeiros panegíricos. cristã. uma opinião. contudo. ou porque se ache ou seja julgado inválido para continuar a servir. – Fictícia é a coisa criada pela imaginação e que só nesta existe. (Roq. do que de esforço puramente moral: e nisto distinguese de apologia. Fabuloso nem sempre exclui a ideia de verdadeiro. .Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 199 toridade do livro suposto se repute suspeita. ele conter doutrina boa e verdadeira. ou porque fez jus a tal vantagem. – Fabuloso distingue-se de fictício em sugerir ideia de prodígio. conservando uma parte dos vencimentos. pois por erro tem-se atribuído a autores clássicos obras que não escreveram. na tribuna do júri. etc. e perturbadores da ordem pública. – Jubilam-se os professores. faz a defesa de um réu (não a apologia). sistemático. A justificação consiste só nas provas que se deduzem do exame das testemunhas. reformar. não as acusações jurídicas.

aquele que se arroga a propriedade. Tanto pode ser anunciador de desgraças. de encerrar a palavra missionário a ideia de que aquele que missiona toma uma tarefa como sacrifício. uma dignidade. e não cessa de chamar a atenção de todos para ela. não tardou a invadir a Europa quase toda. etc. Quem seria capaz de dizer: evangelizar o erro. in- vadir. propagandista de pílulas. apropriar-se. é só esta. como se diz: propagandista do casamento. por exemplo: missionário da revolta.. e também arrogar-se uma autoridade. o direito de ser o dono dessa coisa. naturalmente fazendo-lhe a apologia. retém-na em seu poder ou sob seu domínio. por ele enviados a pregar a boa-nova a todas as nações.200 Rocha Pombo 332 APOSSAR-SE.. Nem sempre se apropria de alguma coisa aquele que dessa coisa se apossa. etc. – Propagandista é termo comum e geral que designa “todo e qualquer indivíduo que se encarrega de inculcar ao maior número alguma coisa. uma cidade. tomá-la para si. de uma escola literária. damos o nome de apóstolo àquele que exerce na terra funções. propagandista. em obediência a algum voto. usando de prepotência. portanto. – Conquistar é ganhar à força de armas um estado. Por extensão. – Missionário é o que toma a si a propaganda de alguma causa sagrada. lugar à parte no grupo. que lhe não cabe. grita em favor da coisa apregoada. O que se apossa chama a coisa a si. As refregas precur- . de chamar ao grêmio do Cristianismo. e conquistou parte dela. a ignorância? Evangelizador. apóstolo e missionário têm. Entre apossar-se e apropriar-se há uma diferença de ordem jurídica. depois usurpou o império. – Anunciador significa apenas “aquele que anuncia”. precursor. 333 APÓSTOLO. “enviado. pregoeiro. Não se evangelizam senão grandes verdades. João Batista foi “o precursor de Jesus Cristo”. – Apóstolo (do grego apostolos. Aplica-se particularmente esta palavra para designar o sacerdote ou o clérigo que se incumbe de ir a terras de pagãos ensinar o Evangelho e instruir nas coisas cristãs. etc. Aplica-se também a coisas e a fenômenos. e não deve ser empregado senão em casos que recordem a grandeza moral dos antigos missionários. Só se apropria de alguma coisa. mensageiro. núncio. – Usurpar é tirar a outrem o que é seu. de um sistema filosófico. como de felicidades. Não seria próprio dizer. porém. enviado. O pregoeiro faz mais que o simples anunciador: fala muito alto. fazer-se senhor dela. da desordem. usurpar. Napoleão apossou-se primeiramente do comando geral. etc. Se se deve admitir entre eles alguma distinção. evangelizador. causas augustas. Tanto se diz: propagandista da república. missionário. – é “simplesmente meter-se de posse dela. ou desempenha missão equivalente à daqueles discípulos. anunciador. muito subtil. a perfídia. – Apossar-se alguém de alguma coisa – escreve Roq. – Precursor diz propriamente – “o que vai adiante de alguém anunciando-lhe a chegada”. de exprimir evangelizador a ideia de que aquele que evangeliza não faz menos do que proclamar alguma coisa de que ele próprio está ufano e espantado. que resulta: de sugerir o vocábulo apóstolo o intento de fazer prosélitos. emissário. mensageiro de algum príncipe”) designa propriamente cada um dos doze discípulos de Jesus. mas suas conquistas e invasões ficaram sem efeito quando os aliados o desapossaram de sua autoridade usurpada”. doutrinas de redenção. conquistar. S. do socialismo. ideias excelentes. Por isso mesmo tem o vocábulo um valor peculiar. No mesmo caso está evangelizador. – Invadir é acometer e entrar por força em alguma parte.

ou subtraídos aos direitos a que estão sujeitos. diz simplesmente – “posto a caminho”) não faz mais do que cumprir estrictamente a ordem que leva. ou algum animal. e cujo sucesso se lhe confia. ou quase religioso”. – Segurar é “prender e conservar em segurança”. que “capturar é prender. e que “apresar é tomar como presa. o préstimo de alguém ou de alguma coisa”. palavras escreve Lacerda: “Apoteose era a cerimônia mediante a qual era alguém posto no número dos deuses. O enviado (esta palavra. culto religioso. – Arrestar é termo jurídico e significa “apreender. pela sua posição. seriam sinônimos perfeitos se mensageiro não encerrasse a ideia muito clara de que a mensagem não é própria de mensageiro. (e não apresentou-se).. ou em geral. aparecer. segurar. 334 APOTEOSE. em consideração das suas preeminentes virtudes. pelo valor de alguém”. . e captura os contrabandistas”. Prende-se o cão à corrente. Um gesto precursor de tormenta. – Estima é a “consideração em que se têm as qualidades de uma pessoa”. ou ter valor só para nós. – capturar. pelos talentos. tanto nos merece”... gêneros embarcados. Apreço é a “consideração particular que se tem pelo mérito. aqui. apanhar. deificação – Sobre estas duas valor. Ambos significam – “o que é mandado”. Prende-se o celerado em flagrante de homicídio. 337 APRESENTAR-SE. – Emissário e enviado só se poderiam diferençar pela nobreza do vocábulo emissário. pelos seus atributos morais. embargando que siga ou que continue a estar onde estava. navios. Deificação é um ato pelo qual se supõe a divindade onde não está senão a criatura. logo que estes morriam. mas o emissário supõe-se que leva incumbência mais alta. A pessoa ou coisa estimada pode mesmo não ter valor. Esta ideia não se encerra necessariamente em núncio. apreender. Dizemos: F. – Deter é “prender e conservar preso”. 336 APRESAR.. pelo seu valimento. 335 APREÇO. ou pelo direito da força”.. Os romanos usavam assim a respeito dos imperadores. estima. comparecer. à audiência. conta. e mediante ordem ou mandado de autoridade pública”. – Conta. mas daquele que a enviou. rendendo a esta. Prende-se o monóculo na órbita ocular. etc. deter.. Não teve o rei em conta o meu serviço. – Núncio e mensageiro. arrestar a alguém pela força do direito. de admitir a cômputo. é “o ato ou disposição de pôr em cálculo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 soras do arrasamento.. Supõe-se que aquele que se apresenta o faz por algum dever com a pessoa perante a qual comparece. – E comparecer ainda sugere melhor a ideia da obrigatoriedade do ato de apresentar-se. – Prender enuncia a ideia geral de “impedir alguém. F. ou de mover-se livremente”. o – Apresentar-se é “fazer-se presente em alguma parte ou perante alguém”. – Apreender é “prender. compareceu à sessão. apresentou-se pronto para o serviço (e não – compareceu).. A polícia captura os criminosos. a guarda fiscal apresa as mercadorias que os contrabandistas querem subtrair aos direitos. aqui. – Diz Bruns. – Consideração é a “atenção respeitosa que se tem por alguma pessoa que. A alta conta em que é preciso ter aquela propriedade. ou atando-lhe as asas. em nome do qual ele vem. Prende-se a ave no viveiro. arrestar. alguma coisa.. aqui. prender. ou alguma coisa de locomover-se. Aquele ar sereno precursor da saúde moral. chamar a si de direito alguma coisa”. consideração.

como a dança.). segurança. a capacidade. e a inclinação uma espécie de gosto. A propensão. podendo ser ou não coberto”. Usa-se. 340 APTIDÃO. capacidade. mangueira. a ginástica. a esgrima. às letras ou às ciências. – Aptidão (Bensabat) “é a capacidade natural para fazer uma certa coisa. uma disposição natural do espírito para alguma arte ou mister”. profundar. que F. idoneidade. Tanto se diz – curral de porcos. exercita-se por si mesma. aqui. pode-se empregar essa palavra falando de estudos ligeiros ou recreativos. de madeira ou de muro. – Segundo Bruns. Apareceu a peste em Bombaim. – Mangueira é brasileirismo comum. Esta capacidade refere-se mais ao que requer estudo. mais ou menos agradável ou lisonjeira. (Dizemos. disposição. que significa “um vasto curral de bois”. As disposições carecem de ser cultivadas. tem aptidão para o negócio. além de designar dom natural (diz Bruns. por isso. presume exercício e prática. A inclinação. pois a aptidão pode ficar inativa. inspira o desejo que solicita a aquisição de um objeto. há. propen- são.202 Rocha Pombo – Aparecer dá ideia geral do fato de “se deixar ver” alguém ou alguma coisa. não aptidão. entre eles uma diferença muito notável. Aprofundar é tornar ainda mais fundo o que se profundou. para a tarefa. de ter certa vocação para ela. ou de cabras. dizer no sentido figurado – o aprisco da Igreja. mas essa faculdade é menor que aptidão. A propensão. as duas palavras quanto à sua aplicação: talento dizendo-se particularmente com relação aos estudos pu- . por isso aptidão não se aplica senão relativamente às artes liberais. inclinação. que encerra aprisco). só pode manifestar-se na prática. ou de um vivo prazer. entregamonos a ela sem reservas. desenvolve-se. jeito. – Talento. Ter talento para a pintura é mais do que ter aptidão para a pintura. vocação. e por isso pode dizer-se que o talento é a aptidão no terreno da prática.). – Curral é “um cercado. enquanto que aptidão não se emprega bem senão falando de estudos sérios. como curral de bois. onde se recolhe o rebanho”.. No sentido figurado subsiste a mesma gradação”. na cultura. gosto. denota um poderoso atrativo.” – Vocação. aliás. significa “uma tendência própria. habilidade. etc. “estes dois verbos empregam-se geralmente sem outra distinção que não seja a da exigência da eufonia. – Redil é “um curral para rebanho miúdo. fazer profundo. aplicação de inteligência. e assim diremos que certa pessoa tem. porém. – Disposição também se diz da faculdade de ser próprio para uma dada coisa. curral. – Aprisco dá ideia do abrigo em que ficam as ovelhas. e o talento só se revela no exercício.. da felicidade. – Capacidade é o conjunto de qualidades e conhecimentos necessários para levar a bem-determinada ordem de coisas. como o talento. Além disso. ou da casa paterna (e não redil. feito de tela de arame. etc. mas disposição para a dança e para a ginástica. diz um hábil sinonimista. pois este não sugere a mesma ideia de amparo. – Os dois primeiros são termos literários. talento. porém. proteção. e não a combatemos senão com grande pesar e com poderosos recursos. arrebata a alma seduzida pela promessa do repouso. como disposição diz menos que aptidão. redil. para o trabalho. ou uma disposição favorável. Aparece um grande sinal no céu. 338 APRISCO. a aptidão opera. ou contrariamo-la: e eis o motivo por que se toma esta palavra como sinônima de amor ou afeição. 339 APROFUNDAR. mais ou menos grande ou violenta. diferem. como aptidão. Profundar é cavar muito fundo. seguimo-la.

vocábulo formado do grego stratos. a expediência. direção de assuntos. literários ou artísticos. cá. a idoneidade adquire-se pela prática. preferência. A habilidade não só revela a ideia de se possuir o conjunto de qualidades e de conhecimentos necessários para levar a bom resultado uma determinada ordem de coisas. arteirice. jantou aqui ontem. mas sim. e também não é comum dizer-se – um banqueiro. 342 ARDIL. palavra não muito usada. e conseguintemente este vocábulo encerra a ideia de faculdades adquiridas. o lugar onde vivo e onde janto. cia. – Dos cinco primeiros do grupo. e sem referência alguma a outro lugar. Vivo aqui. v. ou um general que carece de talento. No estilo familiar entende-se – aqui por ‘nesta casa’. “conduzo”) designa. ou – passou ontem aqui a noite – é como se dissesse – jantou. obrando de modo que o lesado não conheça as intenções. emboscada. cilada. e sempre com bom resultado”. de talento. José de Lacerda – “oculta os meios de que se serve. estratagema. e agó. F. armadilha. e capacidade relativamente às coisas práticas da vida. no sentido reto. g. só e absolutamente. os ardis de guerra . ou pelo menos a facilidade. é independente da ideia de aptidão. ou um escultor de capacidade. Convém ter presente que tanto a capacidade como o talento não podem existir onde não há aptidão. empresas. à força de boa vontade e de estudo. mas nem todos os chefes de corpo têm a idoneidade precisa para comandar uma divisão.: Ardil. aqui estou. a habilidade. – Habilidade é vocábulo mais significativo que capacidade e idoneidade. senão que sugere a ideia de que por várias vezes já se praticaram tais coisas. Mas – janto hoje cá. – Gosto é mais do que jeito: designa este “como senso íntimo que nos faz preferir uma coisa a outra”. etc. – Escreve Roq. negócios. “O ardiloso” – diz d. astú- vérbios“ valem o mesmo que ‘este lugar’. pois quando alguém diz – F.: Aqui vivo. ou relação alguma respetivamente a outro. “exército”. – Estratagema (do francês stratagème. Quando cá se contrapõe a lá indica a terra ou o lugar em que estamos comparando com outro de que já falamos. Pedro parece ter jeito para as letras. se o capitão vier a faltar. mas também o que o sugere. ou ‘neste lugar’ onde se acha a pessoa que fala. diz Bruns. que estes dois ad- A diferença entre os dois consiste em que aqui designa o lugar de um modo absoluto. Cá tem maior extensão. – O ardil é o meio que se emprega para obter o fim desejado. não só fato. um tenente tem bastante capacidade para comandar a companhia. acrescenta por si só a exclusão de outro lugar determinado (lá) que direta ou indiretamente se contrapõe àquele em que nos achamos. mas sim.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 203 ramente científicos. esta noite durmo cá – exclui determinadamente o lugar onde costumo jantar ou dormir. senão quando já não possa opor-lhes obstáculo. etc. logro. sem excluir determinadamente outro lugar. Assim é que ninguém dirá – um poeta. estratagema e logro designam fatos. pois além de designar o lugar onde se está.. janto aqui – supõe. de capacidade. – Jeito é muito próximo de disposição: é “o desembaraço. e a que nos referimos como se vê no ditado vulgar – Cá e lá más fadas há”. e procede com disfarce”. não obstante. arteirice. passou a noite ‘nesta casa’. adquiriu nela bastante idoneidade. mas creio que nunca terá gosto para a cultura antiga. Um recruta pode ter aptidão para aprender o exercício. a discreta perícia com que nos sentimos para alguma coisa”. astúcia designa só o que sugere fatos característicos dos outros vocábulos do grupo. não tinha nenhuma aptidão para a magistratura. 341 AQUI. e sem sugerir a menor ideia de dúvida. – Idoneidade.

O estratagema difere do ardil em contar este com a impossibilidade de defesa. – Penosa é “a tarefa que. Pode não ser mesmo difícil a missão. fatigante”. – Arteirice. coragem. missão dolorosa. pois este sugere ideia do grande esforço que exige a coisa trabalhosa. difícil. A arteirice maquina. mais porque está embaraçado e difícil de entender que pelo trabalho que poderia dar. aproveitando os descuidos e as ocasiões. talento. ou para conseguir os seus fins empregando vias tortuosas mas habilmente combinadas. – Doloroso = “que se faz com esforço que mais punge e amarga que fatiga”. – Note-se também que difícil e dificultoso ponderam a dificuldade. diz-se dos meios extraordinários que se combinam com arte e manha para surpreender de improviso a pessoa que visamos. a astúcia obra simplesmente. 343 ÁRDUO. força. – Difícil diz-se do grosso do trabalho ou da empresa. – Superfície. superfície. que leva o lesado a ser o próprio a oferecer o que pretendemos. é dificultoso reunir uma coleção completa de selos. tato. sem que ela no-lo possa negar. fatigante. enquanto que árduo pode frequentemente encerrar essa ideia: árdua empresa é a de pretender corrigir defeitos morais”. como fato. perseverança. malícia e ruindade. e quase sempre mais à alma que ao nosso valor físico. é muito difícil. – Trabalhoso é o que custa muito trabalho. penoso. da terra. – Intrincado é o que parece difícil. com habilidade. ou que é cheio de trabalhos. 344 ÁREA. custoso. – “O que é árduo (escreve Bruns. é a realização de um engano habilmente preparado. obstáculos. quase idêntico à arteirice. com perseverança. é árduo escrever para o teatro. trabalhoso. – Espinhoso = “que é de difícil execução porque exige grande habilidade e fortuna”. “A raposa tem astúcia. – Armadilha é “a cilada que se arranja contra alguém para que se deixe cair como no laço a veação”. quem pretende insinuar-se no espírito alheio necessita ter arteirice”. conforme a definição dos lexicógrafos em geral. julgando que obra em seu proveito. e o estratagema em levar o lesado a não poder negar-nos o que pretendemos. pormenores. designa a arte ou manha de quem tem inventiva para fraudes. não se desempenha senão à custa de esforço doloroso”. como – superfície de um poliedro. – Astúcia é um dom natural. mas há de ser muito penosa. Mas esta palavra. o que é dificultoso supera-se com paciência. pareceria só aplicável à face su- . além de difícil ou mesmo árdua. podendo dar ensejo a coisas desagradáveis a quem executa. rude. – Fatigante não é o mesmo que trabalhoso. A emboscada sugere a ideia de que o autor se esconde ou se disfarça para o assalto. Fatigante é aquilo que só se faz com muita fadiga. É difícil resolver certos problemas. mas diferençando-se desta em que o arteiro planeia com arte. procurando-se enganar a vítima. Noutra acepção. – Ímprobo é “o trabalho excessivo. doloroso. até pela sua formação. – Logro é o ardil caviloso. Tarefa. resolução. – Custoso é “aquilo que se não faz com facilidade”. mas não incluem a ideia de impossibilidade. – Cilada e emboscada designam “a surpresa que se prepara contra alguém para vencê-lo à traição”. dificultoso convém às particularidades. a cilada é feita com astúcia.204 Rocha Pombo para surpreender ou vencer o inimigo. dificultoso. espinhoso. misto de finura e de falta de escrúpulos. e o astucioso. O que é difícil necessita pulso. etc. Tanto dizemos – superfície do mar. Extensivamente. da sua essência. sem mais noção alguma acessória. intrincado. e obter dela o que queremos. ímprobo.). é “a parte exterior do corpo”.

– Infecundo é “o que não tem qualidades de natureza próprias para produzir amplamente”. ser um acidente. para ter efeito. infrutuoso. É um pouco menos que ímprobo. E por quê? Simplesmente porque a palavra superfície sugere que o corpo ao qual se aplica tem outra face que não é superior. quanto.. que a aridez é mais propriamente devida à natureza do terreno. e nada tendo com a posição em que se encontre a face. além da noção que exprime. – Infrutífero é propriamente “o que não produz os frutos que devia produzir”. ou não as exerce se as tem. Supõe-se.. “poder-se-ia confundir com infecundo se . ou à imperícia de quem trabalha ou de quem cuida da planta. inclinada. – Sáfaro é também “exausto (terreno). Deve notar-se. infecundidade. pelo menos. de incapacidade para produzir. estéril. Tanto dizemos – superfície horizontal. – Ingrato. 345 ÁRIDO. como a de uma tarefa ou um trabalho supõe-se que é devida mais. infecundo. pelo menos. Trabalhei quanto pude. para que produzisse. No sentido translato. contra a qual não há ação corretiva possível. infrutuosidade. – Estéril é termo de mais extensividade do que árido. infrutífero. de uma sala. sequidade. – Terra ou terreno seco é aquele a que falta umidade suficiente para que se torne produtivo. Não obstante. A sequidade pode. E tanto parece assim que ninguém se arriscaria a dizer – superfície do céu – por exemplo. ou onde só nascem plantas inúteis ou daninhas”. como do trabalho que não compensa o esforço feito. – Maninho (do latim malignus) quer dizer. “além de infecundo. mas tudo que fiz foi completamente improdutivo (não sem dúvida – estéril. aridez. seco. como – superfície vertical. A maninhez supõe-se que é mais devida a abandono do que às qualidades da terra. em todo caso. esterilidade. Infrutuoso é “o que não é tão abundante em frutos como se esperava”. improlífico. como planta estéril. trabalho. mas sugere mais claro a ideia do esforço que se fez 25 E isso por mais que se nos objete neste caso que o super que figura no termo enuncia uma ideia de relação entre a face e o centro do corpo. infecundidade. tanto se diz do terreno. ou porque lhe faltem outras qualidades de terra fecunda. Não tem. sacrifício estéril). – Terreno árido é o que nada produz. no agente que a explora.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 205 perior dos corpos. sáfaro. improdutivo. tanto zona estéril. ou à falta de custeio próprio (não – esterilidade). improdutivo por falta de cultura”.). ou improdutivo por falta de cultura – bravio. ou porque seja seco. cabra estéril. etc. ou a circunstâncias estranhas.. só se aplica aos animais. A infecundidade diferença-se da esterilidade pelo seguinte: dá o primeiro uma ideia muito nítida de que a coisa infecunda não tem qualidades criadoras. Área de um polígono. ou terreno estéril. cansado. que a improdutividade está. maninhez. Os meus esforços não foram tão infrutuosos como eu receava (aqui não seria tão próprio usar infrutíferos). nem árido. A infecundidade daquela fazenda é devida à má administração. para gerar. tanto na coisa explorada. visos de perfeitamente lógica uma expressão como esta. pois esterilidade exprime a ideia geral de incapacidade para produzir. ingrato. A infrutuosidade de uma planta.. por exemplo: a superfície inferior da caixa25. a ideia de aridez absoluta. não produz com a abundância que se esperava. No sentido natural. o uso autoriza o emprego deste vocábulo mesmo nos casos em que não se trata de face superior. improdutividade.” etc. – Área é “superfície limitada de qualquer modo. portanto.). e até homem estéril (e ainda esforço. – Improlífico = “incapaz de procriar”. e até ser um defeito remediável pela rega artificial. maninho. – Improdutivo também enuncia ideia geral de estéril. portanto. Dizemos. de um campo. esterilidade sugere. Dizemos – a esterilidade das regiões polares (não.

nem ainda o de esquadra. ou em terra. 346 ARMADA. podia chamar-se armada. odor. Obedeceste à força portuguesa. umas vezes chama frota. porque só constava de três embarcações. tais foram as que ajudaram D. hálito. e ainda a circunstância de deixar entender que os exércitos beligerantes se recolhem a quartel”. dar tempo a discutir uma proposta. Em todo caso. frota. As tréguas são geralmente motivadas pela nenhuma eficácia das operações entre os beligerantes. no mar. bem provida de armas.. III. “As tiranias sacrílegas não voltam: os monstros são improlíficos (e não – infecundos) para a história”. “armistício é termo diplomático e técnico. esquadra. Ajudada também da forte armada Que das boreais partes foi mandada. tal foi a de d. e em tempos modernos. enquanto durou a guerra com os holandeses. ou pelo desejo de se combinar a paz. e D. – Frota (escreve Roq. porque constava de treze navios”. que venceu os turcos nas águas de Lepanto. suspensão de armas é locução vulgar. Da germânica armada. planear a paz. à que comandava Vasco da Gama. em rigor. e não terem o objeto determinado que tem o armistício. Camões. sim. olor. etc. ou entre duas nações que estão em guerra. mas talvez esquadra mui numerosa. suspensão de armas. – Tréguas distingue-se de armistício pela sua generalidade. João de Áustria. geralmente a anos. armada. pela sua comum falta de recursos. Toma-se às vezes por esquadra. que passava. e pela duração que é inerente ao sentido do vocábulo. cheiro (cheiros). (Lus. Sancho I a tomar Silves. enterrar os mortos. diz Roq. (Lus.206 Rocha Pombo não marcasse. outras. 348 AROMA (aromas). 347 ARMISTÍCIO. como as que vinham todos os anos do Brasil para Portugal. tais eram as que os fenícios e cartagineses enviavam à Espanha na infância da navegação. a noção de incapacidade própria e talvez ingênita para a procriação”. perfume.) “é a reunião de navios mercantes dados à vela com o objeto de exportar e importar mercadorias de um para outro porto marítimo mais ou menos distante. fragrância. esquadrilha. nenhum destes nomes lhe é próprio. – Esquadra é uma reunião de navios de guerra com o objeto de proteger o comércio. combinada entre dois exércitos em campanha. 86) 26 Lisboa. Afonso Henriques a tomar Lisboa. o que bem distingue armistício de tréguas é o fato de serem sempre estas de muito maior duração que aquele. O armistício tem ordinariamente por fim recolher os feridos. porém. III. – Armada é o conjunto total dos vasos de guerra de uma nação. A de Pedro Álvares Cabral. 57) E ainda: Foi das valentes gentes ajudada. se limita a um espaço determinado de tempo.: “Fragrância per- . Pode-se dizer que as tréguas são um tratado de paz que. como diz o nosso poeta: Tu26 a quem obedece o mar profundo. tré- guas. ou de hostilizar o inimigo. em vez de ser definitivo. melhor do que este. senão o de esquadrilha. mas o armistício é absolutamente a mesma coisa que a suspensão de armas – frase que designa a interrupção momentânea da luta. ou frota armada. – No seu grupo 457. De armas fortes e gente apercebida A recobrar Judéa já perdida. as comboiadas por nau ou naus de guerra. – Segundo Bruns.

– Diz muito bem Bruns. 27 E.” – Odor pode aproximar-se de fragrância e de cheiro. um jasmim. e por meio da arte algumas vezes se faz durável. lenhos (raízes). acompanhado do desejo veemente de emenda e reparação.. em português aplica-se particularmente às matérias odoríferas. – Perfumes. o remordimento. uma açucena. ou odor acre de carniça. um lírio. se saca. além disto. unguentos de grande fragrância. “Os hálitos que vêm da recendente alfombra. agradável ou desagradável. o verbo tirar. encerra ideia de esforço. nem da coisa sacada. É aromática a árvore da canela. Odor de floresta virgem. ou se arranca) um dente. “O olor da rosa lhe é gratíssimo. e aroma exprime ideia de mais larga duração”.. mas sem a ideia de resistência por parte da coisa ou pessoa de que se saca. remorso. que arrancar e tirar exprimem um ato de força. esta última. a pena pungente de haver cometido erro ou culpa. mas arrancar indica força. uma causa permanente de fragrância. Esta supõe um efeito passageiro em seu estado natural. porém de pouco tempo. pelo menos nem sempre. sacar. contrição. a angústia que nos atormenta a consciência quando delinquimos. o perfume das plantas”. – Contrição é palavra religiosa. Tem fragrância uma rosa. arrebatar. atrição. no plural. ou perpetramos algum grave delito. no entanto.. que se aplica a – toda droga cheirosa. significando “suave emanação de algumas substâncias”. óleos.. ideia. de lenteiro. O aroma supõe. extrair. de pomares.. – E no grupo 215: “Apesar de que o cheiro pode ser bom ou mau. – Pesar é a recordação molesta e penosa causada pela falta que se cometeu. o uso autoriza o emprego desta palavra tratando-se de qualquer substância que dá perfume.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 207 tence exclusivamente às flores. – Hálito só figuradamente é que entra neste grupo.. bálsamos. cheiros.” – Arrebatar acrescenta à noção de arrancar a ideia de violência e rapidez. Melhor do que tirar. diz-se comumente das substâncias que produzem bom e agradável cheiro. da pimenta. – Segundo Lacerda.” – Olor é “o cheiro particular de cada flor. “Arrebatou-lhe o livro sem que ela tivesse tempo de gritar sequer por socorro”. como resistência do que é arrancado.. em seu sentido próprio27. ou da parte de onde se arranca. pesar. no sentido translato. do cravo. – Aroma é palavra grega. ou sejam – resinas. tirar. Fragrância explica a ideia de um cheiro grato. e também distingue-se de perfume por “sugerir sempre ideia da substância de que mana. aroma. penitência. um cravo. de jardim. de azinhavre. 350 ARREPENDIMENTO. arrependimento “é o sentido pesar. Extrai-se oiro da mina. Daí se refere a impropriedade de frases como estas (que aliás se encontram até em autores de nota): “arrancou da espada”. posto que em francês parfums corresponda a aromas. extrai-se de um livro o que ele tem de substancial. – Extrair diz propriamente “tirar para fora. e ao fumo ou vapor odorífero que elas despedem”. não só por parte de quem arranca. “arrancara da casa a pobre criatura que nem mais se movia. do alcanfor. compunção. que não sugere. que se exalam em fumo cheiroso. tirar do lugar em que estava”. extrai-se (como se tira. e significa a dor profunda e sincera de ter ofendido a Deus por ser quem é. como é a vida das flores. mesmo de força por parte de quem saca. sem restrição da qualidade do cheiro”. e porque o devemos amar . O aroma é próprio das drogas e das árvores que o produzem. 349 ARRANCAR. – Indica a palavra remorso. – Sacar enuncia a mesma ação de arrancar.

208 Rocha Pombo de todo o coração sobre todas as coisas. O artifício é a arte manifestada no trabalho que analisamos. profundo e vasto do que são de ordinário os rios. a não . para designação de rio. coisa feita com artifício – são expressões vulgares que exprimem que o objeto de que se trata está feito com primor. dor que não provém do receio do castigo. ou as formas com que se designam as pequenas correntes de água.” – Penitência é ao mesmo tempo “a compunção. o designativo imediato pelo que exprime quanto às proporções da corrente de água é ribeira. ela subsiste pelo simples fato de haver métodos.. rio. córrego. no entanto. por menos que o latim rivus no-lo autorizasse. (e é mais por isso que também damos aqui este grupo): “Coisa feita com arte. Consolemo-nos da penúria. Tanto aplicamos o vocábulo rio ao Amazonas. com o desejo de sofrer penas que lhe resgatem a culpa cometida”. e exprime a ideia de que o atrito se impressiona mais com o castigo do que com a dor da consciência. apertado entre margens altas”. regras e preceitos que o artista há de observar para produzir. que o francês seja no caso mais rico. como ao Sca- mandro. Aqui. o arrependimento do contrito. e é raro encontrar ruisseau também sem atributivo. porém. enquanto que são numerosos os diminutivos dessa palavra. regueiro. regato. por exemplo. ou regato sem dizer petit ruisseau? – Rio é a corrente de água mais ou menos considerável que vai ter ao mar. mas que. pois é a dor profunda (e amargurada) de ter ofendido a Deus. padecem do mesmo mal. a reparação aquieta o arrependimento. senão do verdadeiro amor divino. pois frequentemente nessa língua se emprega fleuve e rivière. perseguem o malvado impenitente até à sepultura”. Não nos parece. temos rios que nem são ribeirões. – So- bre arte e artifício escreve Bruns. se ressente a língua portuguesa. que corre impetuosa e desordenada”. embora mais estreito. – Córrego é “regueiro mais rápido. – Regato é “o mais diminuto dos cursos de água perene”. – Ribeirão é propriamente “ribeiro grande”. – Depois de rio. 352 ARTE. artístico. – Torrente é “volume de água que se despenha. riacho.. – A compunção (define Bruns. Vejamos até que ponto há justeza nestes dois modos de exprimir-se. ribeiro. no mesmo caso. algumas considerações a propósito da escassez de vocábulos de que. pode-se dizer talvez. – Faz Bruns. apenas menos amplo. ou a outro rio. porém. Como é que há de o francês enunciar a noção de riacho. – Atrição é quase o mesmo que contrição: é também termo de teologia. 351 ARROIO. mesmo porque todas as línguas conhecidas. portanto.) “é uma contrição levada ao mais alto grau. e que quase sempre seca no estio”. no Distrito Federal. regras e preceitos que a constituem – métodos. e diz menos que ribeiro. ribeirão. artificial. independentemente de qualquer manifestação. – Regueiro (ou regueira) é propriamente o sulco por onde se escoa a água do rego. os remorsos. o tempo diminui o pesar. que significa “abundante curso de água. que socorrer-nos da adjetivação quando é preciso marcar a grandeza dos rios. – Riacho é diminutivo de rio. – Ribeiro é “pequena corrente de água que brota de nascente. ao Danúbio como ao Alfeu. – Arroio será de menores proporções que riacho. Temos. e por extensão é toda porção insignificante de água corrente. torrente. não conseguiu fixar o valor próprio que o termo deve ter no português. O uso. mas o que é inegável é que a arte existe por si própria. ribeira. A contrição alcança-nos o perdão de Deus. artifício. navegável ou não”.

téchne. ou banaysos téchne. tais como a poesia. Dizemos também (e aqui se marca muito claramente a distinção que é preciso notar entre os dois vocábulos): – neste trabalho. ‘virtude’. a arquitetura. mas hoje se entendem principalmente aquelas em que predomina o espírito. cuja execução depende principalmente do espírito do artista. o artista. dialektikós. a arte consiste no talento com que é feita uma obra. – Belas-artes são as que nos suscitam ao mesmo tempo sensações. a eloquência. os boticários. a música. logikós. que a obra é artificial. não impedem que a arte seja. são adjetivos substantivados. que se propõem imitar a natureza na sua maior perfeição.. eram artes.. escreve Bruns.. – Profissão é aquele modo de vida que cada um exerce publicamente. A arte faz o artífice. a lógica. o homem hábil. e Berg. são as que dependem do trabalho das mãos. a escultura. Conseguintemente dizemos – que uma coisa está feita com artifício – para exprimir que nela há primor de execução. (Roq. Há. entre artificial e natural uma antonímia que se não nota entre natural e artístico. a retórica. todavia ela equivale a esta outra. o homem de uma ordem. a profissão. que é um artífice. como a pintura. – Mister. tal é o de ferreiro. profissão – “Posto que a palavra latina ars.. ciência. architektonikós. de que nós fizemos arte. etc. palavra mais usada antigamente do que hoje (mester). etc. a estatuária. e eram cultivadas por homens livres. o artifício é a habilidade com que a obra foi executada. zographikós. concordando com o substantivo feminino subentendido téchne ‘arte’. a pintura. a estatuária. que entre os gregos tinha mui lata significação. a dialética. a arquitetura. de carpinteiro. e pode ser mecânica ou de outro gênero. além disso. mas não é um artista. em oposição às que só exerciam os escravos. ou nesta obra há algum artifício. os advogados.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 209 serem empregados. um trabalho de engenho. O artifício é que não pode existir sem manifestação: não há artifício onde nada há que o revele. poietikós. a poética. 353 ARTE. um trabalho ou ocupação qualquer.) 354 ARTE. mecânico ou de mãos.: “Arte diz-se de qualquer conjunto de regras que têm por fim guiar na prática. de tal modo que todas estas palavras. sentimentos e ideias agradáveis. o ofício faz o operário. mas não há arte: – querendo-se exprimir que o autor da obra empregou na execução dela alguma habilidade. O ofício requer um trabalho material. guiado por Bourg. que hoje temos como substantivos. pois se não houvesse a arte de a fazer ela não existiria”. ou de certa classe: tais são os médicos. venha por síncope da grega areté. etc. – Sobre estes dois vocábu- los. etc. a que os gregos chamavam cheironaxia. os quais não se chamam artistas (pelo menos nem sempre. – Artes mecânicas. o jornaleiro. Ciência diz-se de um conjunto de conhecimentos que dependem intrinsecamente de certos . tais são todos os ofícios fabris.) nem são homens de ofício propriamente. os cirurgiões. A gramática. – A isso convém acrescentar: sob um ponto de vista mais elevado. é o mesmo que ofício mecânico ou fabril. etc. – como dizemos: – uma coisa foi feita sem arte. pois abrangia toda disciplina em que se davam regras e preceitos. dizer – que ela está feita com arte – é como um pleonasmo. ofício. rhetorikós. do latim ministerium. a profissão. assim como a pintura. sem excluir nem exigir um trabalho material”.. mas não revelou talento. mas não se pode dizer que seja artística. mister. pois representam a variação feminina de grammatikós. antigamente só exercidas por escravos. a arte. ermoglyphikós. – Artes liberais chamavam os antigos as que ornavam o espírito. Tanto que dizemos: – uma coisa foi feita com arte.

mesmo que possam guiar na prática. comumente. encerra ela as regras necessárias para proceder-se à exata avaliação de qualquer terreno.. os obreiros da civilização. – Operário e obreiro. portanto. dá-se. – Ár- operário. é ciência”. os volumes. o homem do trabalho que protesta e reclama. 355 ARTESÃO (ou artesano). resulta que entre estes dois vocábulos existe a seguinte sinonímia: Arte dir-se-á do conjunto de regras que. que demonstra. Tanto que dizemos já – proletariado intelectual. proletariado dos titulares. trabalhador. – Entre operário e trabalhador nota-se uma certa diferença. é arte. Ela funda as suas regras em princípios evidentes.. ou – operariado profissional. norte. ao oficial que se tem por senhor do seu ofício. O operário entende-se que tem aptidões especiais para o trabalho de que se ocupa. por exemplo: os obreiros da fé. – Artífice é “o oficial mecânico que fez uma certa obra”. tendo por fim subministrar umas tantas regras para a correta expressão do pensamento. A agrimensura é a arte de medir os campos. que grava no espírito de modo tal que a dúvida não pode subsistir ante a evidência das suas verdades. – Proletário sugere ideia da condição social a que se sente reduzido ainda o operário. tendem principalmente a dotar a inteligência com a verdade. profissional. por exemplo. como um título ou tratamento. – Artista é “o que exerce uma arte liberal”. pois. pois só se diz do que está para além do círculo polar do norte. qualquer que seja a forma que apresente. não como expressão da verdade.. Esses princípios podem guiar na prática. – Proletário é tanto o operário. – Obreiro. o trabalhador supõe-se que entende de todo e qualquer serviço para o qual não se exija um préstimo especial. Dizemos. – Oficial e mestre também se confundem. Mas a palavra mestre. obreiro. – Artesão é tico é adjetivo menos extensivo que setentrional. “o que tem por ofício alguma arte mecânica”. uma distinção que se não deve esquecer. e isso é quanto basta para se dar por exato o resultado da aplicação das regras demonstradas. Partindo. – Operário confunde-se hoje ordinariamente com proletário. sendo o conjunto de vários conhecimentos. da grande causa (e não operários). aplicadas. Há entre os dois termos. não inculcarlhes o valor prático. mas essa utilidade nada importa para a ciência do geômetra. mestre. formas portuguesas oriundas do mesmo original (do latim opera). pois este o que pretende é demonstrar a verdade dos seus princípios. – Profissional é todo aquele que exerce uma profissão. do princípio de que é a arte que aplica. Mas essas regras são consideradas apenas quanto à sua utilidade no trabalho de determinar a área do campo. porém. A gramática. boreal. atribuindo os seus males à má organização da sociedade.. do conjunto de conhecimentos que formam um sistema. essa demonstração foi feita alhures. conhecimentos que. e a ciência que instrui. artista. A arte do agrimensor não tem por missão demonstrar a evidência das regras que a formam. as superfícies. – A geometria é a ciência que se ocupa de medir as linhas. o operário que reivindica. confundem-se aplicados aos que vivem de algum trabalho manual.210 Rocha Pombo princípios gerais. no entanto. O proletário é. proletário. setentrional. enquanto que . pode ter uma significação mais alta e mais extensiva. e efetivamente as regras da agrimensura fundam-se nos princípios da geometria. 356 ÁRTICO. conduzem a um resultado previsto: ciência. artífice. oficial. como qualquer outro profissional que se julga oprimido e angustiado na vida. A filologia. Mas ninguém se lembrou ainda de dizer – operariado intelectual.

o processo. Zona ártica (oposta à antártica). – Ficto. proferir. fin- mos que significa “feito pela arte ou pela indústria do homem”. Este. ere). para fazer alguma coisa (e. àqueles que sugerem a ideia de que foram feitos “para enganar”. falso. puro”. ou de marcenaria – também dizemos – artifícios de caça. no entanto. – Fictício é “o que só existe na imaginação. simulado. pronunciar. – Artificial já vi- falar. 360 ARTIFÍCIO. artificioso. mas talvez com in- confundir estes dois vocábulos. Aí mesmo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 211 setentrional quer apenas dizer – “que está para o lado do norte”. verdadeiro. – Artificial é “todo trabalho feito com arte”: opõe-se a natural. aceito como tal”. pois.. e dá. conforme já se viu. proferiu na Câmara um belo discurso. – Artifício. “Vou desfazer os artifícios de que usou contra mim”. é o meio. Se ele me falar sobre isto. – Articular é “dizer a palavra destacando-lhe bem as sílabas”. fictício. Do mesmo modo que dizemos – artefactos de cerâmica. – Artefacto é qualquer produto de trabalho mecânico. – Falso é “o que não é exato. Disse-me ela que virá hoje à tarde. Dizemos. suposto. portanto. “território ficto” da respetiva nação (querendo significar que se consideram a embaixada e o navio de guerra como se fossem prolongamentos do território nacional).. de enganar. o que é inventado. mas em regra com o intuito de iludir. por mais clara que lhes seja a comunidade de estrutura. por exemplo. só se aplica tratando-se de coisas não propriamente materiais ou concretas. dizer. artefacto. Mas artifício aproxima-se mais de artefacto quando se aplica também a coisas que se fizeram com certa arte. ou o conjunto de meios que se emprega para alcançar um resultado. América setentrional (a que fica a norte da meridional). é evidente a distinção que se nota entre os dois vocábulos. fingido. o hemisfério onde se conta a latitude.. porém. – Boreal se aplica a tudo que fica para o norte do equador. fictício e fingido são formas oriundas do mesmo original (fingo. em vez de setentrional. ao palácio de uma embaixada. tento de que passe por natural e verdadeiro”. Ele pronunciou aquela palavra com certa intencionalidade. pois só aplicamos o nome de artifícios a certa ordem de artefactos. articulou com receio algumas palavras. – Pronunciar é “enunciar a palavra com clareza e precisão”. 359 ARTIFICIAL. – Factício significa também “feito ou criado pelo homem. legítimo. ou devido a circunstâncias de momento”. ficto. – F. ou de pesca. para conseguir um artefacto). . nada se concebe. Chama-se a um navio de guerra. – Dizer é “expressar por meio de palavras”. – Fingido é “o que imita calculadamente a coisa verdadeira pela qual quer passar. – Norte emprega-se para designar.. melhor ainda do que este. Latitude norte (ou setentrional). 357 ARTICULAR. – Ficto quer dizer “fingido.. – Artificioso é também o que se fez com artifício. Hemisfério boreal (o que fica para cima do equador). no entanto. como artificioso. Resta observar que artifício se emprega ainda no sentido translato: o que não se dá com o outro. factício. A tudo que é artificial nem sempre caberá o epíteto artificioso. isto é. – Proferir é pronunciar em voz alta e com certa solenidade. F. – Falar é “comunicar-se com alguém por meio de palavra viva”. em que não tenha entrado algum artifício – e que não seja.” – Simulado exprime o mesmo que fingido. 358 ARTIFICIAL.. ideia do intento de “fazer acreditar que a coisa fingida é a coisa real”. – Não se poderiam gido. artificial.

no sentido que esta palavra tem aqui. morte. ou abusando da sua força. praticou morte envenenando alguém? E não seria o caso de dizermos então que F. est un meurtre. 363 ASSASSINO. no entanto.. homicídio. . cometido voluntariamente. – Degolar é “matar cortando o pescoço”. – Áscua implica. a ideia de ser completa a incandescência: ideia que não é inerente à palavra brasa. E. mata- dor. matar. o meurtre. com a mesma propriedade. Logo. dizem que “o homicídio é o fato de dar a morte a outrem. pois se o fosse. não é assassinato. ou das vantagens que tem sobre a vítima”. Nem será morte se o que o fez não usou de violência. isto é. portanto. se nomme assassinat”. – Assassinar é “matar a homem que se não pode defender. ou à traição. portanto. commis avec préméditation ou guet-apens. massacrar. Na guerra. e áscua. à traição.. infração de lei. Também se diz – “brilhar como uma áscua de oiro”. degolar equivale quase. e abusando o matador da sua força. o “ato de matar”..). matança. degolar.. decerto que é morte. voluntária ou involuntariamente. assassinatos em vez de assassínios? Bourg. seria preciso notar que a desinência . será homicídio. mata o seu semelhante. brasa.” Parece que não poderemos traduzir este vocábulo francês meurtre só por morte.. ou de que grosseiro artifício se valeu para obter aquilo. Nem sempre.. O homicídio. Só é crime. homicida. enquanto a terminação . adaptado do alemão matsken “degolar”) é “matar em massa gente sem defesa” (Besch. morticínio. fazer cessar. por exemplo.io de assassínio marca simplesmente forma substantival. Neste exemplo: “Os bandidos foram cometendo. e matar com perfídia e violência. O homicídio involuntário é uma desgraça e não um crime”.” – seria possível empregar. e Berg. expressão que é muito trivial. para exprimir “brilho ou fulgor”. – Massacrar (do francês massacrer. e que assassinato designa o próprio crime. com injustiça e crueldade”. que F. no entanto. – De que entre estas duas palavras não existe sinonímia perfeita – diz Bruns.) 361 ÁSCUA. a morte de criatura humana feita com a responsabilidade do que matou. cometido sem premeditação. Num país onde fosse permitido assassinar.” (Em nenhum destes casos caberia artefacto. no seu artigo sobre assassinat. tirar o vigor”. massacrar. é o termo próprio para exprimir – trucidar. – Assassino é o que. assassínios em massa. em direito seria preciso marcar talvez uma certa diferença entre os dois. commis volontairement. a ação de matar com premeditação e abuso de força. a morte. – Trucidar é “matar com excessos de barbaridade. meurtre. 362 ASSASSINAR. Dizem-nos agora os citados autores: “L’homicide. ou melhor. como vemos algures. Só figuradamente se emprega este verbo para significar – “exaurir. seria pleonasmo o dizer-se – “brasa viva”. e não – “as áscuas estão quase apagadas”. – Matar enuncia a ideia geral de “tirar a vida a um ser vivo”. – é uma prova o podermos dizer: “as brasas estão quase apagadas”. Entre assassínio e assassinato não fazem os léxicos distinção alguma. assassinato. São os mesmos autores indicados que definem: “Le meurtre. isto é. capitulado nos códigos. cometeu assassínio? Sob um ponto de vista filológico.. o homicídio voluntário.212 Rocha Pombo “É fácil de ver de que rude. Conclui-se ao menos de tudo que assassínio designa o ato em si mesmo. trucidar.ato em assassinato sugere a ideia de crime ou delito. Diremos. “ferro em brasa”: expressões que parecem autorizar-nos a empregar o termo brasa para exprimir calor.. assassínio. em toda aquela região desolada.. homicide.

sítio. – A julgar no fundo o mesmo radical. porém. O que é assíduo indica mais empenho. Assédio (de ad + sedes. O assédio poderia consistir apenas em manobras a certa distância. desde que se lhes encontra mais constante e mais repetido que o que é frequente. “apertar o sítio”. Besch. onde se tenha metido o inimigo. – Sítio (de obsidium formado de obsideo = ob + sedeo) deveria ter o mesmo valor de assédio. e tendo muito de comum as duas preposições ad e ob. assédio e sítio não se diferençariam senão pela forma. – Sítio sugere ideia da importância da praça sitiada. quando menos em grande número de casos. bastante é mais que suficiente. Não se entende a mesma coisa ao dizer: “Tenho o suficiente para a viagem” – revelando.. menos vezes. frequente. esta maneira de se exprimir. dir-se-á do livro que não tem pretensões. no propósito de rendê-la”. não dá o cerco ideia alguma da coisa cercada: pode ser uma grande cidade. Podemos dizer – matança de bois ou de ratos. confundir os dois vocábulos. ou de inocentes. suficiente. que não se tem dinheiro de sobra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 213 o assassínio não figuraria nas leis penais: não seria propriamente assassinato. ou mesmo por todos os lados. é assaz incrédulo para. portanto. ou à vista mesmo de uma praça. mas assíduo (Bruns. – Bloqueio (do alemão blockhaus “pequeno forte de madeira”. cerco. não seria possível. impedindo que nele entre ou dele saia embarcação alguma. seja homem. e incapazes de defender-se”. ou mesmo uma casa. – O que é assíduo é só pela respetiva estrutura. pondo-a em perigo crescente. – Bastante indica maior quantidade que suficiente. – Cerco é termo genérico e designa aqui a operação de “instalar forças militares em torno de uma praça. não é simplesmente assédio: é mais próximo de cerco. ideia necessária de cerco propriamente. Além disso. E. são frequentes as que se fazem muitas vezes. sem mais ideia alguma acessória. como ainda a ideia do aperto em que se põe a praça sitiada.” diz claramente que o indivíduo do que se trata não é crédulo. São assíduas as visitas que se repetem com insistência e com certa regularidade. 366 ASSÍDUO. bloqueio. – Morte é o que praticou o matador. 365 ASSÉDIO.). uma aldeia. um posto militar. Não devemos dizer. mais vivo intento que o que é frequente. morticínio de bois. seja irracional”. ameaçando-a. – Morticínio é “matança de criaturas humanas em grande número. bastante. Este vocábulo. cercando-a por vários. Bastaria notar que se diz: “fechar o sítio”. um bosque. – “assim dispostos apresentam a sua gradação descendente”: assaz é mais que bastante. ou de uma fortaleza. O cerco pode ser de curta duração. “Livro assaz despretensioso”. ou de grande número de animais”. – Quando se diz: “Tenho o bastante para fazer esta viagem” – entende-se que não há necessidade de esquivar-se a gastos supérfluos. porém. – É matador “aquele que mata. sendo puramente adverbial. pode frequentemente confundir-se com bastante. sem sugerir. ou de assideo = ad + sedeo) é a operação de acampar um exército hostilmente junto ou diante de uma cidade. e o sítio supõe-se que será longo. nem “apertar o assédio”.) aplica-se mais propriamente a operações militares destinadas a trancar um porto. pois não só dá ideia da duração que podem ter as operações de guerra. . no entanto. – Sítio. Não se diz que um bom empregado é frequente. “F.. 364 ASSAZ. – Matança é “morte de muita gente. e – matança de mulheres. – “Estes três vocábulos” – diz Bruns. um forte. com suficiente. no entanto. e não – “fechar o assédio”.

para produzir efeitos jurídicos. Assina-se uma carta. e a segunda. diz-nos o que sabe. de resolução coletiva que foi tornada. – Subscre- ver é simplesmente “pôr o nome por baixo de algum escrito”. astronomia. termo. mas tudo quanto a ela é acessório. pôs entre elas uma notável diferença. menos precisa. mas diferentes consoantes”. Parecem significar ambas a ciência dos astros e das leis que lhes regem os movimentos. – Rima é a “perfeita igualdade de som e de acento no fim de dois ou mais versos”. uma felicitação coletiva. ou numa reunião em que se tomaram deliberações”. Entende-se por astrologia a suposta arte de predizer futuros acontecimentos. do curso e movimento dos astros.. objeto. rimado. posição. isto é. – Assunto é o ponto particular e determinado de que se trata no discurso ou no livro. – Duas palavras gregas de origem – diz Roq. ou para que se tenha mais tarde testemunho autêntico da verdade . regra”. senão de ritmo. registro. influxo dos astros. que consiste no estudo e conhecimento do céu e dos fenômenos celestes. etc. a primeira de astér “astro”. e não só essa coisa. do aspeto. – formadas. como. 371 ATA. um artigo de imprensa. ou igualdade de sons”. – Firmar é “assinar documento para que se torne autêntico”. – Matéria é palavra de maior extensão que assunto. 369 ASSUNTO. A matéria abrange todo o gênero a que pertence a coisa de que se trata. harmonia imperfeita”.214 Rocha Pombo 367 ASSINAR. e logo “discurso”. porém. – Auto é “o registro solene de cerimônia que se celebrou. con- ainda que não faça propriamente parte dela. E como nem todos os versos carecem de rima. em poética dizem-se assoantes os versos que em vez de rima têm apenas assonância. ou julga sem fundamento científico.. valendo-se o astrólogo. e chamava-se comumente astrologia judiciária. aquilo de que nos ocupamos atualmente. um contrato. ou em credo e enredo. busca e acha aplauso entre o néscio vulgo. feita das mesmas letras mas de sons ou acentos nem sempre iguais. como. O uso. “a narração por escrito do que se passa em uma assembleia. O assunto é o ponto em si. – Ata é soante. Mesmo um outro pode subscrever por nós. O assunto de história tratado por Arriaga é a revolução de 1820.. – Assonância significa “semelhança de sons. A matéria de que o historiador se ocupa é a história. rima. só se chamam rimados os que a têm. Firma-se uma letra. e por isso mesmo mais vaga. por exemplo. firmar. e designa a verdadeira ciência dos astros. o astrônomo funda-se em cálculos que não falham. isto é – que terminam por palavras “cujas desinências têm da sílaba predominante para o fim as mesmas vogais. versos que terminassem em besta e lesta. assento. o objeto é o alcance que pode ter o assunto (Bruns. matéria. de astér e nómos “lei. 368 ASSONÂNCIA. O astrólogo conta o que imagina. e por isso merece a estima dos sábios. consonância. Dizem-se consoantes os versos de rima com pouca propriedade chamada literal. medo e preto. – Assinar designa o ato de “pôr a própria pessoa o seu nome por baixo de algum escrito. Subscreve-se uma lista. assoante. por exemplo: fala e casa. auto. 370 ASTROLOGIA. – Consonância diz propriamente “sons que se correspondem. uma declaração. para isto. – Astronomia é termo mais moderno. – Assunto e objeto também se distinguem. para que se saiba que é ela quem escreve”. subscrever.).

sacrílego. escrita e autenticada pelo respetivo escrivão e testemunhas”. – Féretro é termo genérico que pode substituir qualquer dos outros deste grupo. – Descrido enuncia de modo mais completo a noção de descrente: é como se se dissesse – um descrente definitivo. na acepção em que aqui consideramos este vocábulo.) – Assento. e da qual é tirado para se enterrar. pagão. na acepção que tem aqui. e. ou superioridade de espírito. descrente. faz-se assento de um acordo ou de um compromisso. esquife. heterodoxo. leigo. (Aul. é sacrílego: nem sempre. que se desiludiu de crer”. gentio (gentil). de uma sessão do Congresso. e theos “deus”) é o homem que não crê na existência de Deus. – Ímpio é – diz Lacerda – “o que não tem piedade. e no sentido restrito em que é tomado neste grupo. e muitas vezes mostra-se amargurado de não aceitá-las porque lhe parecem contrárias à razão humana. ordena-se o registro de um fato.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 215 sobre o que se fez ou resolveu”. irreligioso. Significa mais – “contrato escrito. ou a súmula de um sucesso. contra tudo que merece grande respeito. pois descrido significa – “que não crê decisivamente. o cético. e que se rebela contra Deus. – ataúde e caixão são sinônimos perfeitos. Mais restritamente – “é a narração circunstanciada de qualquer ato. por extensão. e por isso despreza o culto público e o objeto desse mesmo culto”. ou diligência. ou prova escrita de contrato do que propriamente – registro autêntico de resolução que se tomou”.. incrédulo (incréu). designa “o que não crê nas verdades que a religião ensina ou que a Igreja manda crer”. que detesta Deus e a humanidade. 372 ATAÚDE. porque a procurou inutilmente. toma-se por termo uma confissão ou um testamento”. em confiar”. que não sente pelo semelhante senão ódio e desprezo. O cético argumenta contra as grandes verdades da religião. – Registro é o “ato de se lançar em livro próprio a cópia ou o extrato de um documento. é antiquado: equivale a auto. como esta. sem a solenidade deste. – Esquife diferença-se de tumba em não ter tampa. que duvida ou vacila em crer. – Irreligioso diz apenas “que não tem religião alguma”. profano.). cético. designa a maca em que o cadáver é transportado até a beira da sepultura. Entre cético e incrédulo é preciso notar a seguinte distinção: o incrédulo não crê porque não cogita de saber a verdade. “féretro pobre”. para que fique lembrança dele” (Aul. con- . ou de um clube. – Descrente é “o que não crê com firmeza. O ímpio. em regra. infiel. 373 ATEU. caixão. O ímpio é quase um celerado. apenas. porém. mas ainda é certo que se não aplica geralmente a caixão pobre e desguarnecido. – Incréu é forma contrata de incrédulo. será verdadeira a inversa. tumba. amor. – Tumba. – Sacrílego é o que atenta contra coisa sagrada. ímpio. que afeta uma falsa independência moral. no entanto. reduz-se a auto uma deliberação. ou de um papel importante. O primeiro. veneração. e quase sempre é um leviano e fútil. não só é termo mais escolhido. féretro. desde que impiedade encerra a ideia de ufania contra Deus e os homens. – Infiel é palavra de significação muito restrita. Tanto dizemos – “féretro sumptuoso”. idólatra. des- crido. – Segundo Bruns.. – Incrédulo é vocábulo de significação mais extensa: designa “o que não crê facilmente”. como – “féretro humilde”. O incrédulo zomba da religião. – Termo é convizinho de assento: é o “auto conciso de um ajuste. – Ateu (do grego a privativo. judiciária ou administrativa. – Cético é o que não crê senão quando sente a verdade em plena evidência. herege (herético).

: “Assim como os gregos e os romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não fossem eles próprios. isto é. e este mesmo nome deram depois aos Cristãos”. porque não queriam militar debaixo das bandeiras de Cristo”. Observa Fleury que entre estes gentios incircuncisos alguns havia que adoravam o verdadeiro Deus. como se lê nos Atos dos Apóstolos. que refutavam a pluralidade dos deuses. adoradores de um só Deus. Jerônimo. como crê Barônio. gentes. ou fosse. Sobre esta e a palavra pagão escreve Roq. Afonso Henriques. ou porque preferiram deixar o serviço a receber o batismo. e de outras falsas divindades. entre os latinos. e a de pagãos distingue aqueles que observam cegamente. quod Christi vexillis non militarent = “daqui veio talvez chamarem os Cristãos pagãos aos gentios. como diz S. É antôni- . por- que. etc. paganus era oposto a miles. si dum paganus erat. como foi ordenado no ano 310. mas não eram pagãos. contanto que observassem a lei natural e se abstivessem de sangue. como também foram bárbaros para os romanos todos os povos que se encontravam fora de Roma. 45) – Idólatra designa propriamente “o que adora ídolos”. 15). ou infiéis. o nome de pagãos foi dado aos infiéis que. continuaram a adorar os falsos deuses. S. A Igreja nascente não falava senão de gentios. eram gentios. Depois do estabelecimento do Cristianismo. “o soldado. como entre nós o é paisano a soldado ou militar. os pagãos persistiram em sua idolatria. depois de convertidas ao Cristianismo as vilas e cidades. – Gentio era “toda a gente que ficava fora da nossa grei”. porque os infiéis se recusaram a alistar-se na milícia de Jesus Cristo. Ut portet nomen meum coram gentibus (IX.216 Rocha Pombo siderada neste grupo: é o qualificativo com que na Idade Média os Cristãos designavam os maometanos. gentios. III. Seja como for. uma religião mitológica. segundo observa Fleury. etc. mas nem todos os gentios são pagãos. e com fanatismo. de Fo. aos infiéis. Pretendem alguns sábios que os gentios foram assim chamados porque não têm outra lei mais que a natural e as que a si mesmos se impõem. Confúcio e Sócrates. (Lus. ou. onde exerciam sua religião.. fecerit testamentum. como lhes chamou d. que se chamavam pagus. Senhor. nações. chamaram-se pagãos (pagani) os povos que ficaram infiéis. assim também os judeus chamavam goim. por oposição aos judeus e aos Cristãos. de Brama. ainda se conservou a idolatria nas aldeias (pagi). É termo que se pode aplicar a todos os que desconhecem a religião cristã e celebram cultos bárbaros. Os gentios foram chamados à fé. de uma religião. porque os imperadores cristãos obrigaram por seus editos aos adoradores de falsos deuses a retirar-se para as aldeias ou lugares de pouca conta. tivesse feito testamento”. são pagãos. dos gentios. E não a mim que creio o que podeis. propriamente falando. – que tem opinião diferente dos demais sectários (heteros “outro” + doxa “opinião”). Paulo foi o apóstolo das gentes. de Xaca. e aos quais se concedia a permissão de habitar a Terra Santa. ou gentios todos os povos que não eram da sua religião. os sectários de Mafoma. Pelo que. na visão do campo de Ourique Aos infiéis. Os adoradores de Júpiter. A palavra gentios não designa senão as pessoas que não creem na religião revelada. e obedeceram à sua vocação. que têm uma lei positiva e uma religião revelada que são obrigados a seguir. os pagãos são gentios. ou porque. ou um culto de falsos deuses. E acrescenta: Hinc et fortasse christiani gentes dixere paganos. – Heterodoxo se diz do membro de uma igreja. são. retirados das cidades. de uma doutrina – que não se submete à autoridade que a regula. se quando era ainda paisano. Cita Ainsworth a favor desta opinião a passagem seguinte: Miles.

exprime-se que o ato criminoso foi planeado e começado a perpetrar. – Cogitação enuncia “o ato ou a operação de pensar sobre alguma coisa”. uma atenção que se não deixa iludir. quebra. ponde- ração. em vez de num objeto externo. Muitas vezes comete-se delito sem infringir as leis . ou de efetuar negócio de grande importância. contensão. 375 ATENTADO. pe- cado. seja por ser o ato praticado contra quem ou contra aquilo que é geralmente respeitado. as nossas faculdades se fixam sobre objetos internos. – Profano. enquanto que a meditação se exerce sobre fatos cujas consequências se conhecem antecipadamente. culpa. – Desvelo é o “cuidado e vigilância contínua de quem se empenha com afinco em realizar alguma coisa. uma atividade que está sempre alerta (vígil “que vela”). – Atenção é o ato pelo qual o nosso espírito fixa o seu poder sobre algum objeto externo. que não pertence ao clero. e crimes leves. – Apercepção é a “capacidade própria da inteligência para conceber ideia das coisas reais”. citaremos – o atentado contra Carnot. apontaremos – o atentado que alguns nobres. desvelo. vigilância. apercepção. – Solicitude é a “atenção. chama-se aplicação. – atentado tem duas acepções muito distintas. ou que não diz respeito a crença nenhuma. não meditar. transgressão. que não cessa de agir enquanto não consegue o seu fim”. solicitude. ou a atenção é demorada e persistente. o cuidado. necessitamos refletir. – Crime é o ato pelo qual a vida. A paixão do Redentor é um assunto de meditação. como bem define Bruns. 374 ATENÇÃO. – Ponderação sugere ideia de atenção mais profunda.. a diligência levados quase a um verdadeira inquietação por aquilo que nos interessa ou de que devemos dar contas”. Há crimes graves. é “uma espécie de reflexão prolongada e persistente”. instigados pelos Jesuítas. – Cuidado é a “atenção zelosa. a propriedade. intensa aplicação”. Antes de empreender um negócio importante. indefectível com que se faz alguma coisa”. Como exemplos da segunda. violação. e que consiste em que a reflexão deduz consequências. porém. – Meditação. – os frequentes atentados dos governos contra as liberdades públicas. – Dedicação é quase solicitude e desvelo: é “a boa vontade e empenho com que se cuida de cumprir um dever. porém. tentativa. não de reflexão. – Contensão significa “profundo esforço espiritual. Se. Na segunda acepção. os direitos ou os interesses alheios são atacados ou aniquilados. – Leigo e profano distinguem apenas o que nada tem com a religião. quebrantamento. a consumar-se por circunstâncias independentes da vontade do autor. ou de executar alguma tarefa”. delito. em muitos casos. a honra. dedicação. de extremo cuidado e grave aplicação com que se estuda e trata de resolver alguma alta questão. grande. esse ato chamase reflexão. falta. indica-se com esta palavra um desses crimes que causam indignação. – Segundo Bruns. praticaram nas terras da Boa-Hora para assassinarem el-rei D. reflexão. – Vigilância é um cuidado contínuo. para os crentes. Como exemplo da primeira acepção. – Herege (ou herético) é o que levou a heterodoxia ao extremo de discutir com certa paixão e sustentar graves erros em ponto de fé. crime. cogitação. Não obstante. – Na primeira. não chegando. Se a reflexão. junta à noção de leigo a de ímpio e sacrílego. aplicação. José. cuidado. não se lhe pode atribuir a gravidade do crime.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 217 mo de ortodoxo. – Delito é uma infração à lei. seja porque revelem instintos depravados no criminoso. infração. há entre os dois vocábulos uma diferença notável. meditação.

– Culpa = “ato ou omissão menos grave do que crime”. Um braço estendido horizontalmente não pode permanecer muito tempo nessa posição. e nisso difere também da atitude. – Falta = “omissão menos grave do que culpa”. 377 ATIVO. posição. afadigado. cuidadoso. O gesto é rápido. Há o pecado mortal. ou a prática de um crime ou de um delito que se começou. Dizemos – infração involuntária. uma paixão. ou se as circunstâncias da tentativa são excep- cionalmente notáveis. parecendo que o segundo é muito mais forte. como comete infração das leis penais quem furta uma carteira. Devemos. gesto. é ativo. não uma tentativa. – Ati- tude. e frequentemente. os sentimentos. de quebrar a lei. mas que não chegou a consumar-se por alguma circunstância alheia à vontade do autor.218 Rocha Pombo morais. – dizemos da direção que se dá aos membros. Assim dizemos – atitude serena ou ameaçadora. atitude benigna. mesmo que não mate ninguém. portanto. A postura de uma pessoa é decente conforme os olhos que a veem. ou indiferente. e por extensão. – Atividade é antônimo de inércia. – Violação distingue-se dos dois precedentes em encerrar a ideia da força. a postura das mãos. O negociante que não pagou os impostos devidos cometeu infração das leis fiscais. diligente. mas quem comete violação tem sempre culpa. que opera os efeitos que lhe são naturais. solíci- to. ansioso. – Quebra. apressurado. evitar frases como estas: a postura da cabeça. e aquele. do propósito com que a lei é infringida. desvelado. passa esta a ser um atentado. que pode ser facilmente perdoado. também. O celerado que lança uma bomba explosiva sobre uma multidão. Quem deseja mal ao próximo comete pecado. o delito. pois esta resulta da consciência com que a infração foi cometida. etc. postura. ou só da cabeça ou dos membros. e nunca – violação involuntária. da lei. – Postura difere de atitude em revelar este o sentimento próprio. na pessoa. comete um atentado. zeloso. quebrantamento = “ato de infringir lei ou preceito”. Se a pessoa alvejada tem uma alta representação social. – Infração é o ato de “infringir. Particularmente aplicado a . isto é. quem fere. O crime quase sempre imprime baldão em quem o comete. é “o que. experto. solerte. – Gesto é um movimento do corpo todo. moirejante. – Tentativa é propriamente um atentado. – Pecado é infração da lei religiosa. e geralmente aplica-se este termo só a casos de pouca importância. e o pecado venial – o que não importa em perda da graça. Não é possível violar (de violo. verbo latino oriundo de vis “força”) sem cometer violência. à cabeça. aquele que pela sua gravidade como que mata as almas.: frases nas quais posição ou gesto seriam o termo adequado. infringem-se as leis morais sem cometer delito. aludir à apreciação alheia. 376 ATITUDE. e que exprime um sentimento. mata ou tenta ferir ou matar o seu semelhante. nos revela as disposições. não de cada uma das suas partes. É preciso não esquecer que atitude e postura se dizem do conjunto do corpo. que na atualidade a dominam”. ou suplicante. – Posição – referindo-nos somente ao que desta palavra é relativo às pessoas. Quem comete uma infração pode não ter culpa. mais ou menos grave. Tudo que exerce a ação que lhe é própria. afanoso. pressuroso. não. ao busto. ou o preceito moral”. Quem erra um golpe ou um tiro de bala contra uma pessoa comete uma tentativa de morte. A autoridade que dá uma ordem absurda comete transgressão. – Transgressão é propriamente “o ato de fazer alguma coisa passando por cima das leis”. postura. das leis morais. neste grupo.

pois este se supõe sempre que exerce a sua atividade com muito bom senso. solícito. que exerce. além de ativo. – Enérgico diz propriamente “que opera com grande atividade. impaciente por acabar. – Afadigado = “ansioso no trabalho. como define Aul.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 219 faculdades do homem.. afadigado como um moiro”. mas de um estado anormal em que ela se encontra. convencendo e persuadindo”. portanto. O mesmo não se deve entender quanto ao diligente. esse medicamento ativo é um remédio eficaz. – Cuidadoso se diz daquele “que desempenha com cuidado o seu cargo. em suma. sagaz. ou trata bem da sua tarefa ou de um negócio que lhe compete. ou das causas. ou com que obram as causas. violento. perdendo-se ou dispersando-se inutilmente. – Apressurado = “que tem pressa em fazer. Solerte diplomata. assíduo em dar conta de seu mister ou de algum encargo”. Um medicamento ativo produz prontamente o seu efeito. Caixeiro solerte. Nem sempre a esperteza é uma virtude de que nos possamos desvanecer: antes pelo contrário. com atividade as suas aptidões. Um discurso ativo surpreende e não deixa tempo para a dúvida. se por sua virtude combate com segurança os efeitos do mal. Por isso o homem ativo nem sempre conseguirá fazer o que deseja. astuto. pois a atividade pode não ser ponderada e sair da justa medida. que é de vivo engenho e de fácil penetração”. E neste sentido depreciativo aproxima-se mais de ladino.. além de ativo e diligente. – Quanto aos dois primeiros. – Experto é tomado frequentemente a má parte.” – Desvelado é mais que cuidadoso: é “aquele que não descansa antes de haver cumprido a sua tarefa”. e o caráter do que é ativo. que “ansioso não se diz de uma qualidade da pessoa. A natureza poderosa dos meios. “não consegue o que pretende”. impaciente de cumprir o seu dever ou de executar algum serviço. além de ser ativo. mas um discurso eficaz previne-a e combate-a. eficaz. 378 ATIVO. – Solerte é. e se a sua ação sobre ela é de natureza que afugenta a doença. – Afanoso = “ativo. “prudente com astúcia”. diz Alv. que de ativo e diligente. – Diligente será o homem que. forte. é cuidadoso. – Zeloso é o que. ou “enquanto”. que é expedito em adiantar os seus negócios. e que os seus esforços são regulados cuidadosamente pelo esmero com que procura dar conta da sua tarefa.: “A diligência. tem uma pronta e clara inteligência das coisas. – Moirejante = “esforçado. enérgico. quase precipitado”. convizinho desses dois: experto é o “homem que. em defender os interesses que lhe estão confiados”. Observa com razão Bruns. segundo Lac. afanoso.. “mostra escrúpulo em cuidar da sua tarefa. Na acepção figurada que lhe dá lugar neste grupo dir-se-ia. constituem a atividade. mostra zelo. – Pressuroso = ativo. cansado mais do que talvez exigiria a tarefa”. que é pronto nos misteres de que se ocupa. Pas. vigilante.. – Solícito diz “cuidadoso e diligente. dizemos que é ativo aquele que se move na vida com desembaraço. porém. a afligir-se por ver cumprida a sua tarefa. empenhado com grande esforço. e a viveza com que se empregam os meios para obter um fim. a sua força e virtude constituem a eficácia. e o caráter do que é eficaz. esforçado na sua lida”. – Violento é o que se exerce . e obra com energia em toda a economia animal. Nem sempre o homem ativo pode ser tido como diligente.. ou quem se impacienta por ver que ela tarda a chegar”. esmerado.. vivo interesse nos encargos que lhe são confiados. que se exerce com muita força”. perícia. Está ansioso aquele que procura chegar ao termo de uma coisa. – Ansioso é o que se não satisfaz com ser apenas solícito e desvelado. mas chega a inquietar-se.

e que é violento se abate o organismo e pode até pôr em risco o doente. 381 ATRIBUTO. cômico. essencial. – Atributo “se diz daquilo que. em que – atribuir é dar alguém por autor de alguma coisa vagamente. Atual significa verbos escreveu Lacerda.º) em o atributo constituir estado. com força mais que normal”. ou por mero passatempo. cessa de o ser logo que se retira para entre bastidores. é ator enquanto está no palco. imputa-se .220 Rocha Pombo com atividade anormal e brusca. dando-o como autor dela.. que facilitaram a conquista. contingente. Remédio forte. se é considerado como pago para fazer rir o público. no entanto. qua- bre estes quatro vocábulos escreve Bruns. faça-o por profissão. “A diferença” – diz ele – “deve ser a mesma que se nota entre presente e atual. – Qualidade é o que faz com que uma coisa seja tal como se diz. Um discurso enérgico é feito em termos fortes. atual. diferençam-se. modo de ser. presente. ação. Predicado e atributo. e o predicado. impetuosa. hoje. constituindo uma das suas virtudes. que parece muito estreita a sinonímia que existe entre os dois primeiros advérbios deste grupo. próprio. e – imputar é atribuir-lha aplicando-lhe logo o mérito ou o demérito da ação. comediante. argumentos. imputar.” 380 ATRIBUIR. a torna distinta e inconfundível. A propriedade do ímã é atrair o ferro. direta ou indireta dele. alguma instituição. por simples asserção. em presença (prœ). não porque a língua o autorize. mas porque o uso assim o tem estabelecido: Rafael foi artista. – Predicado é o que se exige na pessoa ou coisa para ser tida como válida ou verdadeira. propriedade. Cômico ou comediante é aquele que tem a profissão de ser ator no teatro: cômico. diferençam-se na linguagem vulgar: 1. Atribuir toma-se indiferentemente em boa ou má parte.º) em considerar-se o atributo como existente. Dizemos que um remédio é enérgico se ele é mais do que ativo. alguma coisa. Fortes razões. e artista se intitula o meu sapateiro. – Forte = “que atua com muita força. – So- um fato à pessoa que julgamos ser causa mais ou menos remota. artista. que opera com energia demasiada. As excelentes qualidades de uma pessoa”. estando na essência da pessoa ou da coisa. provas. diante de nós.: “Quem representa no teatro uma personagem qualquer. – Propriedade é aquilo que. Atribui-se a ruína dos impérios aos conquistadores. (Bruns. O que é ou está presente acha-se aqui mesmo. que em lógica são sinônimos perfeitos. Papel de boa qualidade. presentemente. lhe pertence tão indiscutivelmente que a pessoa ou coisa deixaria de ser o que é se lhe faltasse tal atributo. A tolerância é um dos predicados do espírito livre. – Sobre estes dois lidade. 2. repetindo Roquete: “Exprimem ambos a ação de referir a alguém uma coisa. pertencendo exclusivamente à pessoa ou coisa. e deveria imputar-se isso aos maus governos. comediante. Atribui-se uma obra ao que se crê ser autor dela. acidental. se age prontamente.) 382 ATUALMENTE. 379 ATOR. rápida. agora. Artista é um termo muito extensivo. predicado. – Nota Laf. um discurso violento ataca sempre alguém. e de modo áspero e sem atenção a conveniências que normalmente se guardariam. A eternidade é um dos atributos de Deus. se o é como representante das personagens que entram na comédia. e o predicado como exigido. incisivos. imputar toma-se quase sempre em mau sentido”.. claros.

Quem diz hoje refere-se a fato em oposição a fato ocorrido ontem. hipotético. nem em ideia. – Agora (do latim hac hora) é também advérbio que à noção precisa de “neste ou a este momento. Quem diz presentemente não faz decerto referência em oposição a fato que tivesse sucedido ontem. nem atuar. dá com precisão admirável o nosso agora. que é a forma vernácula do mesmo verbo latino operare). dizemos que atua. no entanto. ou em referência aos reis seus predecessores. segundo a linguagem da antiga metafísica. de um povo. etc. nesta ou a esta hora” associa a noção mais vaga de “nos ou os dias que correm. Só mesmo dando-lhe muita latitude é que admitimos. Não se confundem.).). – Presente refere-se sem dúvida tanto ao futuro como ao passado. “emprega-se sobretudo para opor uma certa época da vida de um homem. Quando produz sobre alguma coisa o efeito que lhe é próprio. e nem por isso fica livre da extensão que é admissível.). atualmente é relativo. que hoje marque também ideia muito semelhante a presentemente. “Il était riche autrefois. exatamente como em português. possível ou futuro. tanto atuais como futuros”. ou há poucos dias. Dizemos: “Felizmente hoje não me deixo afrontar daquelas abusões. como a época atual. mas a fato passado há muito tempo. às épocas precedentes. como os dois advérbios precedentes. o tempo em que se está vivendo. Um sucesso pode influir sobre coisas futuras (não operar.” É evidente que tanto numa como noutra língua esses advérbios estão postos – maintenant em lugar de aujourd’hui. ou da humanidade. agir. “Opõe-se o estado presente de uma pessoa a suas calamidades passadas” (Vauv. sob diversos aspetos – costumes. Mas disse d’Alembert com perfeita justeza: “Os acadêmicos. dizemos que influi. “O rei que reina presentemente” – dir-se-á de maneira absoluta. “o rei que reina atualmente” – empregar-se-á de preferência quando se quiser sugerir alguma relação com os reis que hão de vir depois dele. com o seu maintenant (main + tenant). O francês. e querendo marcar uma certa relação com o passado. influir. no ou o tempo que não é o passado de que se falava”. Emprega-se. Em suma: hoje é tanto o dia atual propriamente. Seja como for. maintenant il est pauvre”. – Quando uma coisa (ou mesmo uma pessoa) exerce ativamente a sua força (física ou moral) sobre outra. parece. dizemos que opera (ou obra. “Ele foi rico em outros tempos. em oposição a outra fase passada. presentemente de maneira absoluta. portanto. estes três verbos. e marca alguma coisa em oposição com o que é ideal. espírito. – Hoje. no entanto. ser ainda mais próprio para o passado. nem limitando o que afirmamos ao próprio dia atual – hoje.” – referindo-nos não a abusões que tivéssemos precisamente ontem. nem em expectativa.). modas. Ilustra o autor essas definições com profusão de exemplos extraídos de clássicos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 221 ‘que está em ato (actu) e não em potência (potentiâ)’... “Opõese o presente aos séculos passados” (Volt. e agora em vez de hoje. agora está pobre.. “Nossa natureza está presentemente corrompida” (Mol. portanto. – mas à fase da vida em que nos achamos. porque estes . “Nós nos preparamos atualmente para reinar um dia com os santos no céu” (Bourd. e não é difícil apanhar a natureza e extensão dessa relação em todos os do grupo. operar (obrar). segundo o mesmo Laf. marca relação com outro tempo. nem por vir em geral”. E quando exerce influxo (ou influência) sobre alguma coisa.” É preciso notar que hoje. atual caracteriza-se unicamente por sugerir uma ideia de realidade em oposição ao que poderá ou poderia ser. 383 ATUAR. de sorte que o que é atual não está nem em potência.

to- lerar. O rei prudente tolera alguns abusos contra sua autoridade para evitar maiores males”. e portanto acima de todos os do seu gênero. ou de uma autoridade ignorante. ou majestade. se impõe ao respeito ou à admiração de todos. Aguentam-se grosserias de um biltre. porém é sofrer em silêncio. e só se no. glorioso. a situação ou estado normal de alguma coisa. Porte. sobera- bar. pomposo. O soberano olhar da princesa. 386 AUGUSTO. grandioso. O homem caritativo suporta com bom semblante os defeitos e fraquezas do próximo. semblante majestoso. a majestosa cerimônia da sagração do bispo. – Aturar é sofrer com repugnância e de mau grado. perturbar. 384 ATURAR. ou: “é possível que tenha de operar ainda alguma transformação política imprevista”. Uma tormenta. aguentar. uma bebida alcoólica. 385 ATURDIR.. sofre. – Augusto é o que é tão grande. contrariando-se muito. – Grandioso = “aquilo cuja pompa e mag- . magnífico. por não dar escândalo. se bem que mais genérica. ostentoso. e em cuja presença se sente um como religioso temor.. – Aguentar é vocábulo de uso comum (com a significação que tem neste grupo) e enuncia a ideia de sofrer com esforço. pode ser incluído neste grupo. O que tem dores padece. solene. – Conturbar exprime a mesma noção geral de pôr em desordem e confusão. – Perturbar é interverter. mas sugere mais particularmente a ideia de perturbação do senso interior. – Majestoso é o que esplende pela sua aparência grandiosa e sublime. suportar. um grande rumor ou vozeria – aturdem-nos. pela sua grandeza. ou que se vê na pobreza. – Imponente é o que. conquanto pouco tolerado pelos vernaculistas escrupulosos. atordoar. uma queda. sumptuoso e magnífico ao ponto de sugerir a ideia de coisa sagrada e divina. – Solene = “que tem caráter de formal e brilhante autenticidade”. a figura augusta do patriarca. majestoso. padecer. contur- distinguem pela causa que produz a perturbação. – Segundo Roq. esplêndido. sofrer. Préstito imponente. ou que nos fazem. A alma se lhe conturba ao saber daquela desgraça. andar. O que tem desgostos domésticos. com a mesma significação de obrar. O filho submisso atura a rabugice do velho pai. poder. ou contrafazendo-se. solene. que é augusto e venerando como as coisas sagradas”. ou injuriado. Aguenta-se a estupidez de um funcionário imbecil. – Padecer exprime particularmente o sofrimento físico do indivíduo. A augusta fronte do pontífice.222 Rocha Pombo enunciam ação que depende de atividade e quase de esforço consciente). – Suportar é sofrer com paciência e conformidade. o gesto soberano de desdém. – Soberano é o que está no mais alto grau de poder. – Atordoar aplica-se mais particularmente à ação de perturbar por efeito físico: um cheiro muito forte. ou mudar a ordem. Aturdir significa “perturbar o senso confundindo-o”. pontifical. postura imponente. alterar as condições. e é possível que se destine a operar uma verdadeira revolução no seio do ministério”. gesto. imponente.: – Sofrer “exprime a ideia geral e absoluta de levar o mal que nos acontece. – Tolerar é também sofrer por efeito de prudência ou de boa educação. ou da sua classe. uma pancada na cabeça – atordoam. – Aturdir e atordoar têm de comum a ideia de perturbar os sentidos. enfermidades. A luz forte perturba a vista (não – conturba). – Pontifical = “que tem aparência de pompa religiosa. O ar majestoso da rainha. – Também agir. “Aquele discurso atuou fortemente no espírito da Câmara.

que “o antônimo de aumentar é diminuir. nem ao volume. – Magnífico sugere ideia do que chegou ao máximo esplendor e grandeza. ou por efeito de gás que se dilata. dilatar-se. avolumar-se. o verbo adequado será aumentar. e isso porque aumentar considera concurso alheio. fa- vônio. – Pomposo = “que tem mais que o aparato de solenidades usuais. ou por uma impressão muito vaga. consideraremos o modo como esse incremento ou desenvolvimento se opera para empregar um dos verbos aumentar ou crescer. ampliar-se. – Ostentoso = “que. Se o incremento ou desenvolvimento for devido à afluência do que vem do exterior. digno de honras sobre-humanas. proteção. o rio. – Zéfiro é “brisa matutina. além de esplêndido e aparatoso. aumentar é relativo à quantidade. – Amplificar-se ajunta à significação de ampliar-se a ideia do esforço com que se faz maior o que já era grande. quase imperceptível. 389 AUSPÍCIOS. o menino. – Há casos. 388 AURA. avolumar-se como empola”. mais sólido e de maior vulto”. zéfiro. – Engrossar = “fazer-se mais grosso”. que nos cause mais pela quentura ou pela frieza do que pela força. ou a minha febre. crescer como um tumor”. salva- guarda. e que. ou que não é contínuo por muito tempo”. – Empolar = “crescer. 387 AUMENTAR. em que não se atende nem à quantidade. avulta aquela grande figura no meio da turba. exagerar. crescer é relativo ao volume. – Encorpar = “tomar maior corpo..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 223 nificência excedem à grandeza comum”. a biblioteca. excelente e augusto”. amplificar-se. e entre os dois deve notar-se a diferença que consiste unicamente em aplicar-se o primeiro só a coisas concretas. – Exagerar = “dar proporções fora do normal”. que se sente apenas pela agitação das folhas. propício como o favônio”. – Empolamar (outra forma de empolar) = “fazer empolado demais”. – Aragem é um brando movimento do ar. mas sim ao incremento. e o de crescer é minguar. engrossar. “cada um dos vocábulos deste grupo sugere a ideia . – Engrandecer = “fazer-se grande. empolar. fazer-se túmido. ou de matéria que se acumula”. – Esplêndido = “sereno e brilhante. que tem o brilho ostentoso da riqueza”. e pode ser empregado tan- to no sentido abstrato como no concreto. no entanto. empolamar. – Inchar = crescer com esforço. Avulta o prestígio do general. isto é. – Glorioso = “que ascendeu à elevação do que se fez ilustre e excelente. fazer-se mais extenso. ou mais largo”. encorpar. brisa. viração. fazer mais compacto. ao desenvolvimento. usaremos de crescer. – Avolumar-se é muito próximo de aumentar. a que sopra alegrando os prados”. – Avultar pode dizer-se que é muito mais extenso e compreensivo que avolumar-se. brando vento aprazível. Aumenta a fortuna. Não se diz: avoluma-se a minha dor. crescer. ou a minha felicidade (e sim aumenta-se). – Dilatar-se = “ampliar-se. orgulho e ufania”. que vem a certa hora. ainda mostra ostentação. se for devido a forças interiores. e crescer. – Brisa é também muito próximo dos precedentes: é “vento suave e fresco”. então. Cresce a planta. os meus males avultam com os meus receios. intumescer. – Observa Bruns. – Intumescer = “inchar demais. impulso próprio”. aragem. – Viração “é vento fresco. engrandecer. propício. patrocínio. portanto. avul- tar. inchar. – Ampliar-se = “tornar-se de proporções maiores. ou maior do que era”. etc. – No entender de Bruns. fazer-se mais largo ou extenso”. – Aura é “brisa fagueira.

auxílio. etc. Em proteção (do latim pro “adiante”. Os fracos procuram a proteção dos poderosos. rígido. à vista do que apresenta. neste vocábulo uma grande vaguidade de significação. têm costumes mui rígidos e austeros.224 Rocha Pombo de uma influência eficaz para o logro do que outrem deseja”. refere-se antes à nossa conduta conosco mesmo que com os demais. do superior para o inferior: ideia que não é inerente à proteção. como se vê no grupo precedente. – “a austeridade consiste em sujeitarmo-nos a regras rígidas da maneira de viver. por um apoio indeterminado. e tegere “cobrir”) predomina a ideia dos meios que se adotam para pôr o protegido ao abrigo de algum mal. 390 AUSPICIOSO. o que. – Auspícios (do latim auspex. auspicioso significa sempre – “que começa sob a influência de bons augúrios. pelas suas qualidades e dotes próprios. ou por alguns conselhos ou recomendações. que se pode prever terá esplêndido sucesso”. – Salvaguarda não é vocábulo muito usado. o que a proteção pode fazer é impedir que se chegue à situação de necessitar de ajuda. É prometedor o menino que fez alguma coisa extraordinária para a sua idade. porém. prometedor. e que até são malvados. sem embargo. – Segundo Roq. entendendo-se que o patrocínio provém sempre do forte para o fraco. pois a proteção defende. inflexível. 391 AUSTERO. quando desde princípio tem o favor do público. esperançoso. “As leis são a salvaguarda dos cidadãos”. os presságios tirados do voo ou do canto das aves – antes de se aventurarem em alguma empresa. de salvar. duro. – Prometedor é o que. pode ser-lhe retirado por várias circunstâncias: e eis aí a versatilidade e inconstância dos auspícios. que põe ao abrigo de grandes perigos. um poeta. este vocábulo designa a influência favorável. inalterável. sem contudo ir até auxílio imediato ou intervenção ativa. como depende muitas vezes do temperamento e do gênero de vida que muitos são obrigados a levar. nem ampara. deixa prever que alcançará o êxito que aspira”. Pode ser esperançoso um estudante. esse favor. contemplar”) é o termo que designa menor influência benéfica. – Patrocínio denota proteção eficaz. um casamento. é o mais expressivo de todos os deste grupo. acontece que homens que não fazem profissão de virtude. e o que designa maior eficácia: literalmente “guarda que salva”. mas vaga e um tanto ou quanto incerta. cobre. ativa. Ainda que geralmente se tome a austeridade em sentido de aspereza e rigorosa virtude. rigoroso. socorro ou amparo. porém. de avis e spicere “ver. assim como os romanos costumavam consultar os auspícios – isto é. por si mesmo. Auspícios podem ser bons ou maus. severo. Pode ser auspiciosa uma estreia. que pugna em favor daquele que é protegido ou melhor patrocinado. observando-as estrictamente e sem delas nos separarmos. Este termo sugere sempre a ideia de autoridade revestida do poder de defender. A austeridade. na qual. quando eram favoráveis os auspícios. sem embargo . inabalável. não obstante. inexorável. pois. se arriscavam confiados apenas na proteção que os deuses lhes haviam de confiar. o mesmo não se dá quanto a auspicioso. autoriza a esperar-se que venha a dar o que promete. Há. ou auxilia ou socorre. – Esperançoso é “o que inspira esperanças de grande sucesso. que se manifesta pela benevolência. Assim se diz que “uma empresa principiou sob bons auspícios”. um natalício. ríspi- do. – Se auspícios tem a significação um tanto vaga. como também de mortificação e penitência. por analogia. portanto. etc. assim também. mas nem sempre ajuda.

Dizemos que um Estado. nem de temer o severo. subentendendo-se que essas leis ficam sempre dentro de alguma lei geral. soberania. formal. no entanto. A rispidez quase que depende mais do temperamento e da educação que propriamente das qualidades fundamentais da criatura. e que por isso é claro. bem que os homens severos costumem ser pontuais e exatos no cumprimento de suas obrigações. e se a aplicarmos às ações. indicará extremada rigidez. – Autênti- co designa “o caráter de legitimidade que toma o ato ou a coisa que se fez com todos os requisitos que lhe são próprios. pois não se concebe um Estado independente sem que seja por isso mes- . admitir-se algum coração duro que não seja propriamente cruel. indicará ela certo caráter virtuoso. ou mesmo um distrito ou um município goza de autonomia quando ele se governa. a severidade com os outros pode ser obra de virtude ou de vício. em outros sucede o contrário. O homem severo não se aparta nunca de seus princípios. – Inalterável é “o que se não move exteriormente. segundo a própria formação do vocábulo. porém. – Infle- xível exprime. contrato. O severo não manifesta condescendência alguma. – Inabalável é mais forte que inalterável. espanta a todos. relação autêntica. 393 AUTONOMIA. – Solene é “o que. de propósito. que parece o mesmo sempre”. e a severidade o é pelo caráter e os princípios. e mais ainda com os que dele dependem. A austeridade consigo mesmo não é incômoda a ninguém. “que não se dobra. – Formal é “o que se fez na devida forma. declaração formal. ou uma província. e de gênio áspero. positivo. pois encerra muito claro a ideia de que a coisa ou pessoa inabalável não cede a esforço. e como tal capaz de produzir todos os efeitos jurídicos”. Se aplicarmos esta palavra aos princípios ou causas. e por essa razão sempre é temida. independência. se administra pelas suas leis próprias. se fez com grande aparato e plena publicidade”. Diz La Bruyère que um filósofo austero. Não podemos deixar de ter certa admiração pelo homem austero. contra o rigor. ou melhor. ou limitadas por alguma autoridade superior. – Ríspido aplica-se ao que se excede nas manifestações da severidade. e por isso não são raros os casos em que a rispidez não exclui a magnanimidade e outras virtudes de coração. são austeros consigo mesmos. e faz como aborrecível a virtude. – Duro dizemos. pois só se torna autêntico o ato formal depois de legalizado juridicamente. do que é mais que rígido: dureza de alma é quase crueldade. – Tomamos aqui estas palavras na acepção política. – Inabalável é “o que não muda de opinião. pouco conforme às vezes com a equidade. juramento solene. sem serem severos com os outros. – Inexorável é “o que não cede nem a súplicas e lágrimas”. ou um documento formal pode não ser autêntico. genuíno”. solene. em sentido moral. que não muda da resolução tomada”. – A severidade exerce-se de ordinário antes com os demais que conosco. Muitos homens.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 225 disto. e nada lhe contenta o excessivo rigor. – O homem rigoroso tudo exagera. Dizemos: carta. podendo. um gênio austero e rígido também costuma sê-lo com todos. além de formal e autêntico. ao mesmo tempo que o rigoroso os leva a um extremo que é mais prejudicial do que útil. e vem a parecer mais áspero e grosseiro que severo. – Independência pode-se dizer que se confunde com soberania. A austeridade chega a converter-se em hábito. Não inclui necessariamente a ideia de autenticidade: um ato. mostrando-se firme e seguro no seu modo de ver ou de obrar”. todos se viram pelos excessos a que de ordinário arrasta”. 392 AUTÊNTICO.

apreciar é ver com apreço. não há caso algum na língua em que ele se nos apresente como substantivo. examinar com interesse e cuidado. de modo que o mesmo homem pode ser bom autor. Isto quer dizer (por mais que digam. – “Estes três vocábulos aplicam-se aos homens de letras que publicam obras de sua composição. só é empregado como adjetivo. já se vê. mesquinho. – A soberania política consiste na qualidade de poder um Estado existir por si mesmo. é “a resultante dos elementos materiais em que funda o poderoso o seu poder”. apreçar (apreçar e apreciar). Também se chama escritor qualquer autor literário. um serviço. Os nossos clássicos davam a esta palavra a significação geral de poder. gastando o menos que é possível. – Apreçar é “dar o preço. com autoridade. é exercida pela União. e vive ansioso por entesourar tudo o que adquire. Mas ávido distingue-se de um e outro. e mau escritor porque escreve incorretamente o que pensou com profundidade. olhar. o avarento é um enfermo de consciência (não – o avaro). cobiçoso. e que o inverso se dá em relação a avaro. ainda quanto a isto. sovina. 397 AVARENTO (avaro). escritor. somítico. aqui. “Pobre está já (Roma) tão decaída da antiga potestade”. do conjunto dos Estados. humana. fona. força. o contrário os lexicógrafos) que avarento pode ser empregado como substantivo (significando – “homem avaro”). isto é. Potestade supõe o poder que a sustenta. como no sentido físico. a diferença que consiste em não ser inerente ao segundo a ideia de cálculo. poder. potestade. porque esta palavra se refere somente a este gênero de produção. e que nos conste. salvo figuradamente. ainda que se prive a si mesmo dos bens mais comuns da vida”. ou de opinião”. Os Estados do Brasil são autônomos. só se diz escritor fazendo-se referência ao estilo. aliás. calcular o valor venal de alguma coisa. ávido. como se avalia um esforço mental. 394 AUTOR. agarrado. e em relação a avarento está no mesmo caso de avaro. porque pensa e discorre bem. escreve para o público. um sofrimento. hoje o nome de publicista a todo aquele que. – Avaliar é “calcular o valor de uma coisa”. Chama-se autor o que dá à luz qualquer escrito. cainho. 395 AUTORIDADE. interesseiro. porém. – Damos. Dizemos: a sorte avara (e não – avarenta). 396 AVALIAR. aqui. sem reconhecer acima de si nenhuma outra autoridade. que os léxicos dão como sendo a mesma coisa. – Segundo Lacerda. e converte a criatura humana em simples animal. – Força. Avalia-se uma propriedade. porque se refere exclusivamente ao que escreve sobre direito público”. não só pela ex- . que é a entidade representativa de todo o país. “autoridade é a superioridade legal. pois isso é comum a toda aquela categoria gramatical. quer a lei seja divina. – Poder é a autoridade que se acompanha da força necessária para fazer-se obedecer. A significação da palavra publicista é restrita. – Avarento é “o homem que tem a paixão da riqueza. publicista. de algum trabalho ou produção”. quer natural. Deve dizer-se mesmo que a distinção entre os dois verbos se regula pela que existe entre os respetivos radicais: apreçar é estipular preço.226 Rocha Pombo mo soberano. e muito excepcionalmente como adjetivo. e tanto se aplica no sentido moral ou abstrato. portanto. a soberania. tacanho. – Entre apreçar e apreciar há. A avareza é um vício que mata a alma. Entre avarento e avaro. – Ávido é também adjetivo. é preciso notar uma diferença essencial.

dano. o tucano são pássaros. apertado no despender. dizemos dos danos causados principalmente pelas grandes chuvas e inundações. medindo tudo com muita escassez. estrago ou avaria”. que prefere sofrer vexames a gastar o seu vintém”. aqui. além da acepção especial em que mais particularmente se empre- . provar que uma coisa é certa. 398 AVARIA. os estragos podem sê-lo. que danifica a qualidade. – Cainho (fig. – Agarrado aproxima-se de cainho: é “o que prende quanto tem. verdadeira. a todo animal que voa mesmo sem ser ave. ou não. de voo curto”. o pato são aves. lesão. a galinha. – Avaria. em regra.) é “o que esconde. a estes uma certa ideia de torpeza: o somítico é mesquinho com os outros para só gastar com aquilo que lhe dá prazer. ou melhor. nem mesmo a de mesquinhez. achar a verdade. – Tacanho aproxima-se de mesquinho: é “o estreito. – Sovina é “a pessoa mesquinha. e considerados como reparáveis por meio de gastos pecuniários. volátil. mas cobiçoso não inclui necessariamente a ideia de avareza. – Dano é “o mal que provém de nos haverem diminuído o valor de alguma coisa que nos pertence. – Estrago é o dano que prejudica parte do que se possui. acrescenta. a águia. – Verificar é “empregar os meios convenientes para cada um a si mesmo convencer-se de que alguma coisa sucedeu como se conta. reconhecer. a águia é ave. no entanto. como o animal agarra a sua presa”. a andorinha. o sabiá. constatar. fazendo-se em tudo mais indigente do que é. ou pelo menos considerável do que se possui. e quase sempre o que vê em poder de outros. pássaro. – “pode o cobiçoso ser liberal.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 227 tensividade. Ávido é “o que deseja ardentemente alguma coisa pela qual anseia. o seu bocado como o cão o seu osso”. e até pródigo”. – Prejuízo é “desfalque resultante de perda. – Fona é “a criatura miúda” que faz questão das coisas mais insignificantes. O condor. 399 AVE. O pardal. “o que cede muito aos seus lucros. as coisas inúteis”. Também significa. – Cobiçoso não diz propriamente o mesmo que avarento. Um temporal causa avarias nos muros da quinta. magnífico. como pela significação própria. o morcego não é pássaro nem ave (porque não é ovíparo). o morcego são voláteis. como dissemos. nada faz que lhe não redunde em proveitos pessoais”. Como diz Roq. perda. – Volátil aplica-se a todas as aves. e. estragos nas árvores. o que não se dá em relação a avarento. – Pássaro é “a ave pequena.” – Lesão é termo bem mais extensivo do que dano: designa “toda sorte de prejuízos que de qualquer modo se cause a pessoas ou coisas”. o cobiçoso deseja muito adquirir. poupando em excesso”. como está dizendo claramente a palavra. o que. estrago. – Segundo Lacerda: averiguar é procurar. danos puramente materiais. – Somítico deve comparar-se muito de perto com tacanho e mesquinho. o avestruz. – Mesquinho. 400 AVERIGUAR. – Perda é o dano total. e até procurando lograr os outros se for possível sem parecer propriamente gatuno”. no entanto. ga para designar estrago de mercadorias a bordo de navios. – Interesseiro é. e só particularmente é que significa – “ansioso de riquezas”. e que procura alcançar com solicitude e esforço”. e perda de colheitas. diligenciar. As avarias são suscetíveis de reparação. é “o que exagera a sua pobreza. Este quer “para guardar”. – Ave é “o nome ge- nérico que se aplica a todo animal ovíparo provido de asas”. que diminui a quantidade. prejuízo. que vive a apanhar os restos. o pardal é pássaro. verificar. entre os nossos clássicos. guarda o seu dinheiro.

devisar. O pano tem avesso. o verbo avivar.228 Rocha Pombo e que é exata etc.” – Aviventar é “dar um pouco de vida. “dê-nos qualquer ideia que nos avivente ao menos a memória” – não admitiriam. – Entre estes dois vocá- guir. O reverso é a parte oposta ao lado principal. ou “mais vivo” em absoluto. inverso. “aviventemos alguma coisa a nossa marcha. – Enxergar é “avistar mal. ver. “Logo que saímos da floresta. ser empregados indistintamente. 403 AVIVAR. propício. de cima para baixo. – Inverso significa “de modo contrário ao que é natural. a face. ou mais particularmente de uma folha de papel. 404 AZADO. verso. e dar disso testemunho”. se nos apresenta como favorável. lobrigar. – “O avesso” – diz Bruns. descobrir. de diante para trás. anverso. e iremos ter ainda hoje à fazenda”. discernir. – Ver designa a bulos há a diferença marcada pela partícula verbal incoativa entar que figura no segundo. que significa “tornar vivo”. – Distinguir. Anverso é o lado principal. 402 AVISTAR. conveniente. Há. mal devisar alguma coisa estando-se no escuro”. através de algum obstáculo”. ou avistar mal e mal. – Azado e oportuno poderiam. – Avistar é “alcançar com a vista alguma coisa”. mais rapidez. Aquela desgraça vem avivar-me a dor antiga (e não – aviventar-me. – Constatar (que muitos se dão o luxo de condenar como galicismo escusado) é “estabelecer. sem que o esperemos. próprio.” 401 AVESSO. – Avivar é “dar mais vida. – Descobrir é aqui “ver ao longe. sem quebra de rigorosa lidimidade lógica. aviventar. etc. dizemos: “à folha ou à página tal verso” (isto é – “à página oposta à página numerada”). – Bispar é vocábulo popular. sem a ideia de que a vida seja completa”. reverso. Referindo-nos a um caderno ou a um livro sem numeração por páginas e sim só por folhas. no entanto. oportuno. aqui. – “é o lado pelo qual uma coisa não deve ser vista. adequado. mais atividade. – Verso é “a parte de uma superfície. ou posto em ordem. verificar é “ver clara. como se se houvesse eliminado algum obstáculo entre a nossa visão e a coisa descoberta”. mais intensidade etc. – Reconhecer é “chegar ao resultado de ver que uma coisa é realmente como se dizia. entre eles a seguinte diferença: azado dizemos do que. avistamos muito ao fundo do campo a casa da fazenda”. distin- ação de “receber pela vista uma impressão direta do mundo exterior”. ou na própria coisa vista. oposta à da frente.” – Em suma: averiguar é “reconhecer a verdade”. ou de livro. – Devisar é “perceber pela vista. separando ou discriminando a coisa vista de outras coisas. muito usado com a significação de “enxergar ou avistar com dificuldade e rapidamente”. descobrir. perdendo-se entre as lombas da campanha. os vários aspetos”. depois de exame. e oportuno dizemos do que vem a .” – Lobrigar é “ver indistintamente. a verdade sobre alguma coisa. ou a parte oposta ao reverso. porque o que se quis exprimir é que a nova desgraça tornou a antiga dor tão viva como tinha sido). deixar clara a verdade”. é “enxergar ou mesmo lobrigar com esforços”. regulada esta pelo lado em que a folha se liga a outras”. “Enxergamos muito confusamente a caravana. à primeira vista. bispar. ou sentido que não é o próprio”. voltado da direita para a esquerda. As frases: “avivente um bocadinho o fogo da lareira”. – Discernir é “ver claramente. direção. as medalhas têm anverso e reverso”. enxergar. distinguir”.

e assim como os animais retouçam de contentes e alegres. Bailam os moços e moças do povo em suas festas e reuniões. – Propício é “o que se apresenta oportuno. folia. faziam-se antigamente folias por ocasiões de alegria pública. II)”. e seu verbo danser. como a palavra de origem francesa (folie ‘loucura’) o está dizendo. e designa particularmente o movimento regular do corpo e seus membros ao compasso e tom de música. a dança é própria de gente nobre e cavalheira. ter o corpo em elegante postura. ainda hoje. em que era muito eminente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 229 encontro dos nossos desejos. funesto. – Conveniente diz também – “que é favorável. e só exprime a ação física de bai- lar. e prometendo sucesso”. não feliz”. agoi- rento. executando concertadamente todos os movimentos. como se viesse a propósito. – Dança é palavra mais nobre. e ao som de rústicos instrumentos. que “baile. No dia em que armou cavaleiro a D. ora mais graves. é uma dança rápida ao som de pandeiro ou adufe. (e não – o “momento azado”). – Nefasto significa “cheio de desgraças e calamidades”. 405 AZIAGO.. bailam os próprios selvagens à sombra de frondosas árvores. tem só um termo para significar estes movimentos – é o substantivo danse. no sentido em que esta palavra se pode confundir com dança. a nossa. talvez semelhante ao que chamam hoje contradança. quem baila dá saltos. cantando. – Folia. na verdade. porém. e. – Agoirento é “o que. isto . tem três que determinam as ideias acessórias destes saltos e movimentos. e fazer as cortesias e mesuras que a boa educação prescreve. pois El-Rei D. ‘saltar. E. pois exprime apenas – “não propício. aqui. O bailar é uma espécie de instinto nas criaturas racionais. dançam os cavalheiros e senhoras nobres em suas salas. samba. fan- dango. A dança é uma arte semelhante à que entre os gregos se chamava orchestike. ou fosse feito para tal fim”. bailam os homens por alegria e diversão. “Chegou o momento oportuno de jogar a partida”. e que se assemelha à dança das bacantes.: “Não defendemos a etimologia do verbo bailar. Port. muito alegre e festivo. dançou em público com seus cortesãos. Pedro I sabemos que tinha gosto particular de bailar a folia.. daquilo “que anuncia desgraças”. dança. – Funesto. é lúgubre e sinistro”. com mais ou menos ligeireza. – Infausto diz menos que aziago. mais pobre que a nossa. designa o conjunto ou série de movimentos com que se executa uma dança. ao som de flautas. além de aziago. e faz movimentos de corpo mais ou menos compassados. ou do cálculo que fizemos. – Baile é nome genérico e vulgar. mas é certo que ao que nós chamamos bailar chamavam os latinos saltare. – Próprio. bailado. além da de aziago. jongo. favorável. folgança. – Adequado exprime – “que se ajusta ao que pretendemos. – Aziago se diz. infausto. A folia indicava noutro tempo (que hoje é palavra antiquada) certo modo particular de bailar. significa – “que se adota. Diz Bruns. dança e folia escreve Roq. de ballizô.. e dizia a todos: ‘Eu assento que nada fica mal à Majestade. – Sobre baile. em que os próprios reis não duvidavam tomar parte. por isso. dar saltos’. sugere “a ideia de sinistro. quando se trata de honrar a virtude’ (Anecd. que não só dá regras para mover o corpo e os membros a compasso. como acreditava o espírito supersticioso dos antigos. senão para a maneira de pisar. A língua francesa. “O momento parece azado para uma tentativa” (e não – oportuno) – desde que veio inesperadamente. ou que convém ao fim que se colima”. ora mais rápidos. entre várias pessoas. vantajoso ao fim que se deseja”. 406 BAILE. ‘saltar’. João Afonso Teles. fatal”. nefasto.

depois outra. – Fandango é “festa de danças ruidosas. o bailado. 407 BALA. balbuciamos. ou um defeito natural que provém dos órgãos da voz. Nos teatros há bailarinas que executam os bailados. feitas mais de barulho que de bailados. buciar é “não pronunciar claramente certas articulações. há mestres de dança. hesi- é. quer dizer: na bailarina considera-se o baile. baile é propriamente a festa. não sentimos razões suficientemente fortes que nos levem a tomar uma resolução”. mas não há mestres de baile (senão noutro sentido). na dançarina considera-se a dança. Colhidos de improviso. – Noutro sentido. oscilante”. uma polca. apesar do nosso desejo e até do nosso esforço. antes da abolição. os movimentos do corpo. Quem vacila quer agora uma coisa. espingardas ou canhões”. Assim.230 Rocha Pombo 408 BALANCEAR (balançar. cortando as palavras e repetindo várias vezes a mesma sílaba antes de pronunciar a seguinte. muito clara. usado pelos africanos. como as . uma valsa são danças. como medindo os motivos de escolha e decisão. No sul do Brasil. – Bala é “o projetil de forma cônica ou esférica que pode ser lançado por armas de fogo. vacilar. – Balançar é outra forma de balancear. – Distingue-se este dos dois últimos verbos do grupo em dar. – Folgança ou folguedo é termo popular que designa toda espécie de diversão com que se descansa do trabalho. mais ou menos ruidosa. mas não há corpo de dança. e que consiste em danças. misturá-las. que pode ser arremessado com força”. 409 BALBUCIAR. duvida tomar. – Hesitar enuncia o estado de espírito “em que. a ideia de que a pessoa que hesita tem desejo de não hesitar. e dançarinas que executam jotas. É defeito comum à infância e à extrema velhice. mas indica particularmente baile popular. Note-se que estes três verbos entram aqui no seu sentido figurado. bailados são as próprias danças. – Balancear “é pôr ou ficar como suspenso.. – Tartamudear é precipitar as palavras de modo confuso. logo mais uma outra. uma mazurca. Pode ser isto um efeito acidental da comoção ou da emoção. duvidar. da Espanha passou para toda a América colonial. como acabamos de dizer. gaguejar. é o mesmo que fandango. “F. indeciso. As danças ou bailados executavam-se ao som de grandes tambores. nos teatros há corpo de baile. – Bal- de qualquer forma. – Projetil é “qualquer corpo. embalançar). tartamudear. tar. – Samba é também bailado popular. ou em tomar a tarefa que se lhe propõe”. Hesitamos em preferir um de dois ou três bons empregos que se nos oferecem (não – vacilamos). ou um conhecimento exato do que se deve fazer”. Vacilamos entre coisas que nos repugnam e que nos impõem (não – hesitamos). projetil. O mesmo se deve dizer de embalançar. – Bailado. e dizemos que dança bem quando se atende ao modo como executa as diferentes danças em que toma parte. ou danças mímicas. Hoje está quase inteiramente extinto no Brasil”. – Jongo é “dança ou bailado em público e ao ar livre”. ou ter gagueira) é falar com dificuldade. fandangos etc. é a dança mímica espetaculosa”. – Gaguejar (ser gago. É a gagueira um defeito dos órgãos vocais. comparando-as. e os movimentos com que essas danças se executam constituem o baile. – Duvidar é “hesitar por não ter certeza. tangidos à mão. mas aplica-se comumente esta palavra a toda festa livre e reles. De uma pessoa se diz que baila bem quando se atende à maneira como faz cada um dos movimentos que entram na dança. ou solene. Mas tanto este como balançar sugerem melhor a ideia de ficar em dúvida entre duas ou mais coisas. confundi-las num ruído surdo que não as deixa claramente entendidas.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 231 crianças. não ficam contudo bem em todas as ocasiões. pode continuar seus pagamentos e escapar assim. 263 do Cod. “que é frequente”. – Vulgar se diz do que é próprio do vulgo. falência. é o estado dos comercintes falidos ou quebrados – isto é. – Segundo Bruns. pode dar-se que um comerciante cujo ativo exceda de muito ao passivo. comerciante ou não. vulgar. A bancarrota simples é a falência que é acompanhada de falta grave. 2. ou quando menos “de muitos”. e não à bancarrota.) 410 BANAL. e for obrigado a cessar pagamentos.. (Bruns. 3. e como o que não é raro tem pouco valor. Como. conseguintemente. ter mais dívidas que bens) e. do Com. aplica os epítetos casual.”. – Sobre estes três termos de jurisprudência escreve Teixeira de Freitas: – “Bancarrota denota geralmente entre nós o estado de falência ou quebra de qualquer comerciante. – Trivial (do latim trivialis. ainda que não seja fraudulenta. – Falência. trivial. sem que haja todavia fraude da parte do falido: é um delito da competência dos tribunais correcionais. porém. à falência. ou não merece apreço. ou quebra. – Comum significa propriamente “de todos”. aplicá-lo àqueles termos que têm algo de indecente ou de baixo.º) a falência é um estado exclusivamente próprio aos negociantes. Por imperfeição natural. daí resulta que comum se diz do termo ou expressão que não é elevada. resulta daí que vulgar se diz dos termos e expressões que. vulgar. . A falência é o estado de um comerciante que cessou seus pagamentos. ordinário. se goza de um crédito suficiente.. quebra. expressão ou linguagem que não se salienta de nenhum modo..’: logo. na ordem de ideias em que consideramos a sinonímia destes vocábulos. – Ordinário se diz do que não se destaca do comum. o art. culposa. O que é vulgar carece de uma certa nobreza que não é comum entre o vulgo. A falência não é. – Familiar se diz “da linguagem ou dos termos usados em família”.. de trivium “encruzilhada”) dizemos do termo ou expressão própria dos que andam pelas encruzilhadas ou pelas esquinas. portanto. As pessoas nervosas tartamudeiam quando vivamente emocionadas”. ou que nelas estão parados à espera que alguém os ocupe. que cessam seus pagamentos. – banal se diz do termo ou expressão que é usado por todas as classes sociais. Este vocábulo pode considerar-se só neste sentido. seja declarado em falência se. ou não sobressai acima da ordem habitual das coisas. A bancarrota fraudulenta é corriqueiro.. Acompanhada de fraude ou de falta grave. – Quebra entende-se de comerciante. o vulgo não se compõe só do que é ínfimo. porém. 798 do Cod.. não puder solver compromissos. E demais. entretanto. nem de falta grave. a bancarrota pode não ser fraudulenta. e significa o mesmo que falência ou falimento. 411 BANCARROTA. punível quando não é acompanhada de fraude. O que é trivial é baixo. e. dizendo – ‘a bancarrota que foi qualificada de fraudulenta. resumem assim: “A quebra é o estado de um devedor. e também “que não é raro”.. mas particularmente mais pelas baixas que pelas altas. é muito usual. – Corriqueiro se diz do que corre na boca de todos. cujo passivo é superior ao ativo. e Berg. fraudulenta. Pen.°) um comerciante pode estar em estado de quebra (isto é. de si mesma. – Bourg. por falta de recursos presentes. Isto ainda mais se confirma pela redação do art. isto é. dir-se-á ordinário do termo. à declaração de falência. e impróprio de pessoas decentes. gaguejamos. familiar. grosseiro. sem ficarem mal na boca de ninguém. a falência passa a ser uma bancarrota. comum.º) ao contrário. sem certa nobreza. Daí se vê que há entre falência e quebra diferenças essenciais: 1. que é comum.

nem mesmo – orquestra popular. a palavra menos enérgica. que deu scelero. Não se poderia dizer – orquestra militar. mas sem se lhe determinar o ponto para onde deve retirarse. vexilo. pavilhão. música. aqui. ou que é capaz de praticar. malfeitor. – Celerado “é o bandido monstruoso que praticou.232 Rocha Pombo a falência acompanhada de fraude: é crime. como não seria a ninguém permitido arriscar esta monstruosidade: a banda do teatro lírico. – Pavilhão pode-se dizer que é o nome que toma o estandarte nas tendas de campanha. esta palavra encerra a ideia de pena infamante. grandes crimes” (scelus. fanfarra. filarmônica. expa- nia. – Salteador é o ladrão que ataca os viajantes nos caminhos. “pelo menos na mente de quem ordena o ato”. exilar. facínora. como sinal ou como distintivo. simbolizando uma nação. – Insígnia é qualquer emblema que distinga. proscrever. e como tal da competência dos tribunais ou câmaras criminais”. – Facínora (e facinoroso) é também o sujeito perverso. ou mesmo a algum estabelecimento público: a banda da polícia. e entre todos obedecem a um chefe. – Bandido é o malfeitor perseguido pela justiça. 415 BANIR. insíg- – “malfeitor é. O banido é expulso. é bandoleiro. ou que seja próprio para representar alguma instituição. assim como pode ser ladrão e assassino. 413 BANDEIRA. 412 BANDA. não podendo o banido voltar jamais ao território de que foi expulso. 414 BANDIDO. ou orquestra do batalhão. Quando o salteador opera com outros. estandarte. doido. – Filarmônica é a banda de música particular. or- questra. – Segundo Bruns. “o termo genérico aplicável a todo grupo de músicos que executam alguma composição musical”. charanga. vesânico. do grupo. bando- leiro. – Banda é uma corporação de músicos pertencente a algum batalhão. ou que assalta de noite as habitações isoladas. “cheio de crimes”. O salteador vive do roubo. – Bandeira é qualquer pedaço de pano preso a uma haste e arvorado de modo a que se o aviste de longe. desterrar. – Orquestra é o conjunto de professores que executam altas peças de música em concerto. sendo a pena de banimento muito mais grave que a de deportação ou mesmo desterro. dos direitos de pátria. – Charanga é a banda formada só com instrumentos metálicos. o malfeitor pode viver do roubo sem nunca assassinar. ou a bordo de navios. – Banir é o mais forte de todos. Os vocábulos bandido e malfeitor são frequentemente empregados como qualificativos das pessoas de má índole”. – Estandarte é a bandeira de forma e cor fixas. – Todos estes verbos têm de comum a ideia de expulsar da terra. salteador. – Vexilo é termo antiquado correspondente a estandarte: era a bandeira militar. – Música é. a banda do regimento. ou em teatros. degredar. ou feita e mantida por alguma associação. celerado. – Exilar exprime simplesmente o ato de . e não é raro que seja também assassino. pois o banimento importa a perda. de que sceleratus é particípio). “crime”. No Alentejo dizem que os ciganos e os malteses são malfeitores. Segundo alguns autores. Pode-se distinguir estes dois últimos vocábulos pela particularidade que apresenta celerado de sugerir a ideia de bandido ou malfeitor impulsivo. ou de privar da pátria ou do país onde se vive ou mesmo se está de passagem ou de pouco. Fanfarra é o mesmo que charanga. desfraldada à frente dos exércitos. ou do batalhão naval. deportar. triar. para sempre.

Este vocábulo designa o ato de sair da pátria. o trato que denuncia a índole sanguinária. de todo o grupo. – “Significam estas duas palavras” – diz Roq. pois. solecismo. e neste caso quase sempre indica atitude infensa. ou só explicável no selvagem. falto de humanidade. sem outra ideia acessória além da de inculcar que a ausência será longa. 417 BARBARISMO. por esse ato. mas ordinariamente infringindo as leis da sintaxe.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 233 enviar para fora da pátria. ou da língua deles eram tiradas. (Fereza é o ato mesmo de ferocidade. Não se liga a este vocábulo nenhuma ideia de pena infamante. – Proscrever é. por sua viciosa pronúncia. – Segundo Lacerda – barbaridade é a disposição do homem rude. e também a ferocidade própria da fera. não só se lhes confiscavam os bens.) – Desumanidade é a ausência de sentimentos humanos. sem polícia. com referência ao homem.) – Crueldade é a inclinação à prática de atos sanguinários. se pareciam com as dos bárbaros. por egoísmo. Cometem-se estes de muitos modos na língua”. (Crueza é a própria ação cruel. 416 BARBARIDADE.) – Ferocidade. – Expatriar não é pena que se imponha. ou protesto implícito contra a política existente ou contra as ideias dominantes na terra de onde se retirou o êxul. seja como infamante e aflitiva. Muitas vezes até o exílio é voluntário. – “em geral erros de linguagem. e. com a diferença que o barbarismo é uma locução viciosa. Mais comumente proscreviam-se aqueles que procuravam escapar à ação da justiça. Por isso que os gregos e romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não eram eles. – Deportar é desterrar perpetuamente para uma colônia distante. e portanto figuradamente. o mais próximo de banir: era antigamente (em Roma e na Grécia) o ato de expulsar da pátria e proibir que o proscrito a ela regressasse sob pena de morte. desumanidade. ferocidade (fereza). vem a palavra solecismo. esqueceu a pureza da língua grega. ou por dureza de alma. por orgulho. ação. quando ainda os franceses tinham a sua semibárbara de Ronsard. ou da terra em que se tem domicílio. – De Soles. corrompida. nós outros. ou para longe do país onde se acha o deportado28. com o andar dos tempos. é o prazer que mostram certas naturezas experimentar à vista de espetáculos que tanto têm de bárbaros como de cruéis. colônia ateniense na Silícia. o modo. – Degredar é enviar para o degredo. vemos sofrer o nosso semelhante sem socorrê-lo. própria do vulgo que tudo adultera. seja só como pena infamante (degradação). que temos uma linguagem culta e polida desde Camões. próprio de bárbaro. fixando a residência em que o desterrado deve cumprir a pena. e não a da gravidade da culpa da vítima. deram com muita razão o nome de barbarismo às palavras e expressões que. chamar barbarismos galicanos ao que mui francesmente se chamou galicismos. 48). a deportação é semelhante ao banimento (?). ou mesmo sentimento 28 Segundo Teixeira de Freitas (Vocabulário jurídico. crueldade (crueza). Poderíamos. . (Será. – Desterrar diz propriamente “fazer sair da terra onde se habita”. é a manifestação de um certo prazer à vista de sucessos fortuitos ou provocados que trazem consigo derramamento de sangue. posto que nele predomine a ideia de prepotência por parte de quem decreta a pena. ou limitando-lhe a menor distância em que pode ficar do seu domicílio. portanto. mas até se fixava um prêmio para aquele que tirasse a vida ao proscrito se encontrado na pátria. que. é a indiferença com que. o solecismo é um defeito da construção da oração e que pode provir de ignorância ou de descuido.

enquanto que embarcação designa qualquer corpo flutuante que pode conter pessoas ou coisas. brigue. – Resume Lacerda assim. galé. nem convenções sociais. – Barca = “embarcação larga e pouco funda” (C. os autores que o precederam: “Os antigos egípcios. manchua.) fazendo alusão ao esforço e trabalho com que é levado. é maior. nas letras. e vice-versa. elegante e luxuoso. lancha. depois os gregos. – Navio é a embarcação destinada a navegar no mar alto. – Bote é batel de rio. A nação bárbara conhece e respeita em geral essas leis. sobre estes dois vocábulos. bergantim.. embarcação. e transporte de passageiros de terra para os vapores. como o iate. – Lancha é “embarcação pequena e sem tilha (coberta) que anda tanto à vela como a remos”. larga e aberta como a alvarenga”. barco. nas artes. caravela. Servem ambas para o trasbordo de cargas. e hoje os chineses. – Embarcação não se diz hoje dos navios de guerra. – Barcaça é barca maior. barcaça. – Catraia é bote pequeno. de Fig. chata. O escaler distingue-se do outro em ser movido ou poder mover-se tanto a remos como a vela. selvagem. mas só se diz dos barcos cobertos. e. deram o nome de bárbaros a todos os estrangeiros. nem respeita lei alguma. bote. nem gozam dos benefícios da civilização. Talvez por isso é que se diz – “batel da vida” (e nunca – escaler. sendo o batel movido só a esforço do remeiro. que não cultivam as artes. – Gôndola – “pequena embarcação (como a galeota) movida a remos. escuna. para os quais é termo genérico. pois é restrito à ideia de construção. – Manchua – “pequeno barco usado nas costas da Ásia”. – A caravela era menor que a fragata. e que serve também para o serviço de carga e descarga de navios. sim”. – Galé é embarcação de baixo bordo. xaveco. nau. sem exceção. usada principalmente para recreio”. junco. – Galera = “antiga embarcação. por considerarem todos. barca. menos porém que embarcação. 419 BARCO. – Tartana era um xaveco menor.234 Rocha Pombo 418 BÁRBARO. e pode até prestar-se para longas viagens. e servia tanto para a guerra como para o tráfego marítimo. batelão. – Batel e escaler são pequenas embarcações que conduzem para bordo dos navios não atracados ao cais. – Chata é “barcaça larga e de pouco fundo. – Galeota (diminutivo de galé) é pequeno barco. galeota. todos os vocábulos que se seguem apresentam de comum a ideia de “próprios para transporte por água (rio. O iate. – Como os precedentes. de vela e remos. iate. piroga. – Nau era o maior navio outrora empregado principalmente na guerra. à imitação destes os romanos. etc. canoa. empregada. serve mais para recreio. – Batelão (aumentativo de batel) é “barca rasa e grande. gôndola. igara. – A fragata. – Galeão (aum. como o batelão e a alvarenga. galeão.). galera. – Xaveco – espécie de fragata usada outrora pelos mouros no corso do Mediterrâneo. A jangada é uma embarcação. estreita e comprida. inferiores nas ciências. mas carece de aperfeiçoamento em tudo quanto constitui o que se chama um povo civilizado”. no serviço de transporte de cargas dentro da baía”. – Barco é “termo genérico. de vela e remos. catraia. movido a remos. de galé) – “antigo navio . usada outrora. como força agressiva. Uma nação selvagem não conhece. alvarenga. no entanto. tartana. de um só mastro. batel. pequeno escaler. na polícia. navio. ou mar)”.. mas não é um barco. rebocadas dos navios para os trapiches ou vice-versa. com dois ou três mastros”. fragata. – Selvagens são os habitantes das selvas. era inferior à nau.

senão que dá a entender que o pai é incógnito porque a mãe se facilitava a vários quando o concebeu. ou pelo descuido. fino e leve. em geral o que nasce de pessoas entre as quais não há impedimento algum legal que lhes vede o contraírem matrimônio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 235 de alto bordo. – Redundância é o termo genérico de que os outros do grupo especializam a significação. usado pelos chineses”. uma obra. ou espúrio: são duas espécies de bastardia.). também ordinário. quando não em verso (Bruns. que vale o mesmo que – “baixamentenacido”. de Fig. de barreguice. Desta última acepção da palavra espúrio nasceu o sentido figurado. – Segundo Roq. – Bardo era. tautologia. etc. ou pela imoralidade que acompanha o ato em que são gerados. e também o que não tem pai certo. peça bastarda a que não tem as medidas próprias da sua espécie. que no norte da França. entre os celtas. de dois mastros. 421 BASTARDO. e nós mesmos chamamos. gr. que eles têm na educação da prole. e parece referir-se. – Vate era o profeta que fazia os seus vaticínios em estilo elevado. 420 BARDO. – espúrio é termo desonroso. isto é – que lhe não conhecemos o autor. ou que não temos como tal o que vulgarmente se lhe atribui. que lhe damos na Arte Crítica. quanto à degeneração. e também movida a remos”. mas há entre eles diferenças mui notáveis”. – “Todos estes vocábulos” – escreve S. Luiz – “exprimem a qualidade do filho que é ilegítimo. de castelo em castelo. porque não só denota bastardia. – Trovador é a designação equivalente a troubadour. rapsoda. nau de guerra”. de matrimônio clandestino. espúrio. e stard “nascido”. letra bastarda a que é degenerada da romana. espécie”. ou que não é havido de matrimônio celebrado com as solenidades da lei. que compete a qualquer filho ilegítimo. – Junco – “pequena canoa ou batel. O filho bastardo pode ser natural. o nome que se dava aos poetas e cantores populares. se dedicavam à poesia épica. etc. de pai eclesiástico. do XI ao XV século. e quer dizer – “exces29 Segundo Roq. – Bastardo é denominação genérica. v. ou de bas “vil. (C. por exemplo. perissologia. em algumas línguas. – de casado e solteira ou vice-versa. um livro é espúrio. coisa degenerada29. ou da união dos sexos. e art “raça. baixo”. que daí se presume provir aos filhos. – bastardo. que andava pelo sul da França cantando sonetos e trovas. – Brigue – “bergantim maior”. antigamente bastard. temperado do agudo e grave da legítima. vem do alemão boest “degenerado”. quando dizemos que uma produção. ilegíti- mo. – Escuna – “brigue tendo vergas no mastro da proa e sem mastaréu de joanete”. de mãe religiosa. – Piroga e igara – “canoas de índios”. 422 BATOLOGIA. e aos quais se devem os primeiros romances de cavalaria. e é ainda correspondente aos trouvères. – Canoa – “pequena embarcação. redundância. trombeta bastarda a que dá um som misto. não tanto à ilegitimidade do matrimônio. poetas da língua d’oïl. poeta ambulante da língua d’oc. por ser uma alteração dela. vate.. Bastardo significa. natural. trovador. E chamamos espúrio o que nasce de pessoas entre as quais há esse impedimento.) – Bergantim – “pequena fragata. ou pela ordinária desigualdade da condição dos pais. do francês bátard. feita quase sempre de um só tronco de árvore escavado”. Chamamos natural o que nasce de concubinato. . e de uso nas enseadas e nos rios..

é . O velho prometeu-lhe que sim. . são entre si distintos. oferecendo-lhe em prêmio uma novilha. . dado serem todos contra a elegância e concisão da frase. Mercúrio o transformou. porém. A verdade é que a palavra grega Báthos significa ‘tartamudo’ ou ‘gago’. e para tentar sua cobiça ofereceu-lhe uma vaca e um touro se lhe dissesse a verdade. . duvidando Mercúrio que ele cumprisse a palavra. é justamente o que Boileau chama com graça – ‘estéril abundância’. – Das três outras diz Roq. rogou a este que não o descobrisse. . e. e é demasiado grosseiro para que nele caiam ainda escritores medíocres. II das Metamorfoses. o qual supõem que era gago. – Tautologia. é nímio e prolixo muitas vezes. . outros a atribuem a um mau poeta do mesmo nome. chamado Batto. mudou de forma. . ou para fazer mais explícito o enunciado”. é superfluidade de palavras. de mostrar que se sabe dizer uma mesma coisa de muitas e diferentes maneiras. e também exageração. diz Ovídio. do grego tautologia (de tautó ‘o mesmo’ + logós).236 Rocha Pombo so de palavras para ornar o estilo. e tinha o costume de repetir cada coisa duas e mais vezes. . voltou. redundante. . e ainda outros a atribuem a um pastor que fazia o mesmo que o mau poeta. . Sêneca afeta mais concisão na frase. et erant sub [montibus illis. variando-o de muitos modos diferentes. . indignado. falou deste Ovídio naquela passagem do liv. O primeiro defeito (batologia) opõe-se à elegância. ausentou-se. e não havendo ninguém visto fazer o roubo senão um pastor velho chamado Batto. Pelo que. erant. amplificá-la. e como os que o são repetem duas. o que não é absolutamente necessário naquela passagem. daqui se chamaram battos a todos os que repetiam sem necessidade uma mesma palavra. . três ou mais vezes as sílabas iniciais das palavras até que rompem a falar. como a origem e composição de cada uma delas o dá a conhecer. verbosidade aparatosa. isto é – ‘descobridora’ ou ‘denunciadora’. . . e estavam ao pé daqueles montes’. Dizem uns que se deve ao nome do fundador de Cirene. porque Sêneca era um dos seus autores favoritos. e seu estilo é. porque. na pedra chamada in- dex. O segundo (tautologia) e o terceiro (perissologia) opõem-se à concisão. . As frases de Ovídio são bastante concisas. – Perissologia (de perissos ‘que é demais’ + logós). . Consiste principalmente este defeito em amplificar demasiadamente um pensamento. E com efeito. palavra grega battología (de báthos e logos) sobre cuja origem não estão de acordo os autores. . . . não a larga até haver apurado quanto sua rica imaginação lhe podia sugerir para ilustrá-la. Sub illis Montibus. O velho então respondeu-lhe: ‘Agora há pouco ao pé daqueles montes estavam. é a repetição inútil da mesma ideia ou pensamento por termos diferentes. . que repetia um pensamento com as mesmas expressões que havia empregado a primeira vez. encarecimento. redundância nímia. – Esta afetação. entre o muito que sempre ocorre quando se escreve sobre matérias bem-estudadas. sem embargo. . . porque gosta de variar um mesmo pensamento. e perguntou-lhe se tinha visto para que parte fora o gado que pouco antes andava apascentando. A toda inútil repetição de palavras chama-se batologia. e não são fáceis de evitar como o precedente. e variá-la de cem maneiras diferentes. Vieira também cai algumas vezes neste defeito: o que não admira. – “que indicam três defeitos do estilo que. . em colhendo entre mãos uma ideia. no qual refere como Mercúrio furtou a Apolo o gado que andava guardando. não obstante. inquit. – O que não sabe omitir.

. dominados de instinto militar). – Hipócrita é o que finge sentimentos. ingênuo. de uma religião malcompreendida. tanto no homem como nos animais. e não ser guerreiro. A primeira é palavra vulgar. tem uma acepção que só o uso autoriza. Marte) significa propriamente o que é relativo a Marte. guerreiro. – Tartufo é aquele – diz Bruns. o deus da guerra. como reveste todos os seus atos e discursos de melíflua unção: aconselha a virtude. aplica-se à pessoa que parece mais obsedada. esta palavra designa a pessoa que é muito solícita nas suas devoções e práticas religiosas. que não só afeta ser virtuoso. nem escrever [sabe. – Marcial (de Mars. e incorre na censura do citado Boileau. mas de hipócrita que afeta grande devoção. etc. mais por tolice que por cálculo. Neste sentido. A parte mais macia e delicada dos beiços. No sentido que tem aqui.. que com tanta razão dizia: Quem não sabe calar. a segunda é científica e poética. beato “aproxima-se muito de hipócrita. Elementos bélicos. e cobrem os dentes quando se fecham. – Tartufo é o nome do protagonista de uma comédia de Molière. – Carola é o que faz consistir toda a sua religiosidade nas superfetações do culto. carola. que são as bordas em que muitas vezes brilha a cor do rubim. lábio. e engana e arruína sem fé nem consciência. e marcial mais de belicoso”. e explora os incautos. que lhe é próprio ou que serve para ela. inculca o bem. Em suma: é militar mais próximo de bélico. atitude belicosa. inspira o temor de Deus. e quando abrem o sorriso deixam ver alvos dentes. – que às práticas afetadas de piedade alia a mais refinada velhacaria.” 423 BEATO. Supõe-se sempre no beato um espírito fraco. só qualifica o abstrato. militar. – Militar (do latim miles ‘soldado’) dizemos de tudo o que é relativo à carreira das armas. É vocábulo mais extenso que belicoso. são os lábios. material bélico. enquanto que marcial se diz tanto do que é abstrato como do que é concreto. mais por simplicidade de espírito que por interesse” (Bruns. ou que a ela é relativo. ou um indivíduo ser belicoso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 237 um declamador. virtudes que não tem. mas a moral: os povos bárbaros são belicosos (isto é – dados à guerra. nas procissões. e incorporou-se na língua para designar o refinado hipócrita em matéria de religião. hábil em coisas de guerra. 425 BÉLICO. e também um grande guerreiro pode acontecer que não tenha instintos belicosos. e como tal só deve aplicar-se ao que é material. caráter belicoso. aprestos bélicos. do que convicta e segura de uma crença racional e verdadeira. tartufo. e como tal só pode qualificar o que é moral: furor belicoso. – Guerreiro é o que é afeito à guerra. à profissão do soldado. Pode um povo. não um escritor judicioso. incendimento marcial. – Belicoso é termo abstrato. Porte marcial. as “duas mam a parte exterior da boca. Comparando militar com guerreiro. hipócrita. – Beato. isto é – nas festas de igreja. que faz dessa pessoa mais um monomaníaco do que um religioso. intuitos belicosos. Propriamente. Ajudam os beiços a fala e a mastigação: só os lábios osculam e beijam”. como dissemos. chamam-se beiços. induz a observância das práticas religiosas. – Dizemos bélico daquilo “que concerne à guerra. podemos estabelecer que militar qualifica o que é teórico. Quando belicoso se diz do homem. que se insinua habilmente na simpatia alheia. mar- membranas carnosas e sem osso que for- cial. não lhe qualifica a entidade física. É termo concreto. neste grupo. belicoso. 424 BEIÇO. na sua boa-fé e simpleza.). – Segundo Roq. pois este. e guerreiro o que é prático.

consideração ou piedade de quem a outorga. quem o faz sobre quem o recebe. Ninguém diria: – “Vou à biblioteca do Sr. mitra. – Diocese é o território dentro do qual exerce um bispo a sua autoridade e jurisdição. considerada como pessoa jurídica e na sua capacidade de possuir bens temporais. Alves”. Um homem que não dá esmolas pode ter em alto grau a virtude da caridade. amor ao próximo. humanidade. Podese dizer que é mais uma virtude interior. e também a autoridade deste. – Altruísmo está quase nas mesmas condições: é o “amor dos outros”. Mudou-se a biblioteca nacional para a Avenida (não – livraria). – Amor ao próximo (ou do próximo) é também uma virtude evangélica: é a que mais se aproxima de caridade. por isso mesmo. posição ou valimento por parte de Bispado é a jurisdição do bispo. por isso mesmo que é mais do que a própria caridade exterior ou praticante. como ninguém se animaria a perpetrar: “Vim da livraria pública. o amor ao próximo é uma locução que vale muito pouco porque não fixa sentimento nenhum. – Obséquio é simplesmente “ato de delicadeza com que se procura agradar ao obsequiado”. graça. 427 BENEFÍCIO.238 Rocha Pombo 426 BENEFICÊNCIA. e sem ideia alguma de dever”. F. galardão que se dá em agradecimento ou recompensa de bons serviços. portanto. 429 BISPADO.. diocese. – Humanidade é apenas o conjunto de qualidades que levam a criatura a ter sentimentos simpáticos. – Mitra é o mesmo bispado ou dignidade de bispo. Por outro lado. tanto com os outros homens todos como com os próprios animais. episcopado. Acrescentei de alguns volumes a minha pequena biblioteca (e não – livraria). – Filantropia é a mesma caridade. a divisão eclesiástica que fica sob a administração de um bispo. obséquio. – Benefício é um dom gratuito que inculca ideia de ação sagrada. como sendo nosso irmão”. favor. 428 BIBLIOTECA. altruísmo. livraria. – Mercê é prêmio. Emprega-se também para designar o conjunto dos bispos de uma província eclesiástica ou de uma nação. Vamos recorrer da vigararia para o bispado. – – Segundo Bruns. no entanto. devendo notar-se que. é o nome positivista do amor ao próximo. “o conjunto de livros destinados à leitura”. – Favor – diz muito bem Roq. . uma qualidade da alma do que virtude social. – é termo genérico que significa todo ato de benevolência afetuosa que distingue e prefere a pessoa favorecida. – Todos estes vocábulos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia de abnegação que leva um homem a interessar-se pelo seu semelhante.. filantropia. e de superioridade de fortuna. – Graça é um benefício ou distinção que se concede sem merecimento particular de quem o recebe e sim só por afeto. – a ideia comum aos termos deste grupo é que os atos por eles expressos se aplicam em favor de alguém. ou da livraria municipal”. nem sempre aquele que mais esmolas dá será o mais caritativo. – Beneficência é “a virtude de fazer o bem espontaneamente. – Caridade é propriamente “o amor do nosso próximo. – O bispado de Mariana. – Livraria é multidão de livros destinados à venda. – Episcopado é a função. ou o prazo durante o qual exerce o bispo a sua função. mercê. – Não é possível confundir estes dois vocábulos. dádiva. talvez sem sugestão de ideia religiosa: é mais. caridade. – Biblioteca é. uma virtude social. como que obedecendo aos impulsos da própria natureza moral.

“ser nomeado ou eleito”. chamavam-se pelouros a umas bolas de cera dentro das quais se metiam os papelinhos contendo os nomes das pessoas de que se fazia escolha para juiz ordinário etc. Flutua a cortiça. Malhas finas. e daí a locução – “sair nos pelouros”. flutua a jangada.. pelouro. e designa toda sorte de projetil que saia das bombardas. ou os signos ou constelações celestes e a que estão adaptados círculos astronômicos que representam o curso do sol na eclítica. com a terminação exagerativa ouro. “lançar”. Dividiu-se em três a diocese do Amazonas. 430 BOIAR. e designa um corpo esférico. Na nossa antiga forma de eleições. É palavra vulgar. etc. sobrenadar. – O meu episcopado tem sido tormentoso. e significa um corpo sólido perfeitamente redondo: no que concorda com globo. Teve ele sessenta anos de episcopado. por esforço. palavra muito usada dos nossos antigos antes que tomássemos dos franceses a que hoje se usa. e tem mais lata significação que globo. – Pelouro. vesícula. que alguns querem venha do inglês ball (que se pronuncia bol) e designa especialmente os corpos esféricos maciços com que se joga. O episcopado americano. e não se podem usar indistintamente umas por outras”. – Boiam as urtigas marinhas. A primeira chama-se globo terrestre. isto é –. – Se- gundo Roq. – Globo é palavra trasladada do latim. em cuja superfície se figuram os diversos acidentes da superfície da terra. a segunda.. ou “sobrenada se tem altura”. empola.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 239 O bispado só pode condenar. não vulgar. bala. não ir ao fundo. bala. Pelouros.. borbulha. arcabuzes. – Esfera é também voz grega. Vêm arnezes. ou então de pello. e tomar alguma direção. – Sobrenadar é mais que flutuar. 432 BOLHA. ou esfera terráquea. e peitos reluzentes. globus. de cujo centro todas as linhas que se tiram até à superfície são iguais. e para mais clareza. Mitra rendosa. – Boiar é “não ir para o fundo da água”. e de seu uso nos deixou Camões bom exemplo na estância LXVII.. manda os dilijentes Ministros amostrar as armaduras. pois o corpo que sobrenada quase que fica todo fora da água. O corpo que boia pode nem ser visto à tona ou à superfície da água. esfera celeste. – São tomados aqui todos estes vocábulos como significando particularmente as pequenas elevações que se formam na pele. vem provavelmente de pela. – A imensa diocese de Mato Grosso. globo. Nadam os animais. e laminas seguras. e de bom soído. ou terráqueo. de geografia e de astronomia. 431 BOLA. Designa particularmente toda máquina redonda e móvel. esfera. ou esférica (oca ou sólida). Por este nome é conhecida entre os doutos a terra que habitamos. Mitra muito rica. – Flutuar é “ficar em cima da água ou de qualquer outro líquido”. – “Todas estas palavras designam um corpo esférico. com a diferença que esfera é termo de geometria. Por ser palavra hoje pouco vulgar. – Bolha . ajunta-se-lhe o qualificativo – terrestre. mas cada uma delas exprime uma espécie de redondeza. – A bola é redonda por todos os lados. espingardas de aço puras. flutuar. é mais poética do que bala. Escudos de pinturas diferentes. do canto I dos Lusíadas: Isto dizendo. nadar. mas elevada e científica. redondo por todas as partes. quando muito poderá ter uma parte fora da água. ou impor penas no espiritual. O episcopado brasileiro. – A mitra vai reclamar contra a extorsão que contra ela cometeu a municipalidade. – Nadar é.

– Margem é toda a extensão de terra chã. – Beira é quase sinônimo perfeito de borda. – Ribança é “continuidade. cachão. e quase sempre de areia. coberta de verdura. Dizemos – “pernoitar à beira do rio ou do mar”. 434 BORDA. segurando-o por baixo da extremidade superior. – Cachão é “a bolha ou borbotão que forma um líquido ao correr com força”. contendo ou não serosidade. ou borbotão que sai com ímpeto e ruído”. – Ribeira é a margem mais ou menos em declive. e de uso geral nas cidades modernas. – Ribeira. “bordão é o pau grosso a que alguém se arrima. pau. – Borbulha é uma saliência ainda menor que a bolha. ou costa. – Vesícula é termo científico. mui fresca e produtiva. de junco. bengala. de qualquer madeira. supõe-se ser de areia. cajado. inverno e descoberta no verão. de ordinário coberta de água no cacete. – Jacto é “uma porção de líquido ou fluido arremessada com ímpeto”. e como que lhe serve de barreira”. – Sendo borda a extremidade prolongada de qualquer superfície. – Segundo Bruns. ribança. – Cajado é o bordão que tem a parte superior em forma de arco. – Pau é o bordão considerado mais como arma que como amparo. – Golfada é o “jacto que sai por um canal ou aberta”. – Gorgolhão (ou gorgolão) é “golfada. riba. – Riba designa “margem de rio onde a terra é levantada”. golfada. O cáustico forma bolhas. o pau pelo camponês. – Ribanceira é “como ribança mais áspera”. quando é do mar. varapau. – “Todas estas palavras” – diz Roq. da ribeira. mas ninguém diria sem absurdo ou pelo menos impropriedade clamante: “pernoitar à borda do rio”. – Bengala é o bastão de cana. tor- rente. ribeira. 433 BORBOTÃO. Estes dois termos dizem-se mais ordinariamente dos rios que do mar. margem. margem. ribanceira. distinguindo-se deste apenas em sugerir a ideia de maior porção da margem que a beira pode compreender. –. – Cacete (do francês casse-tête) é o bastão grosseiro de que usam os garotos e valentões de praça ou de estrada. beira. é de terra vegetal. – Praia é toda a extensão de terra plana que as águas do mar cobrem e banham com suas enchentes. bastão. ao longo dos rios. referindo-se a borda. o cajado pelo pastor. mas cada uma delas a seu modo. – Costa é a porção de terra ao longo do mar. jorro. da praia. Uma pancada pode produzir empola.240 Rocha Pombo é a pequena saliência que encerra matéria serosa. o varapau pelo desordeiro. costa. e tanto se aplica relativamente a rios como relativamente ao mar. – Torrente é “uma quantidade de água que se despenha em cachões e impetuosamente”. e quando é de rios.. jacto. praia e costa – “indicam coisas que têm relação imediata com as águas do mar ou dos rios. mais ou menos elevada. praia. ou certa extensão de ribas”. O bordão é usado pelo viandante. – A empola ocupa maior superfície que a bolha e pode estar ou não cheia de aquosidade. – Borbotão (ordinariamente usado no plural) é “o fluxo desordenado ou jacto impetuoso que faz a água ou qualquer líquido ao sair de um lugar para outro”. – Bastão é uma grossa bengala de castão. 435 BORDÃO. ribeira. e é o símbolo de certas autoridades”. e por isso aprazível à vista. e é frequentemente chamado também varapau. gorgolhão.. . devido aos nateiros. e é por assim dizer a orla da margem. quase que não tem largura. genérico dos demais deste grupo. – Jorro é “uma porção de borbotões impelidos com força”. jacto cheio.

Os vendavais da vida. porque é súbita. tapera. menos violento e talvez mais imprevisto. – Arvoredo é também. cientificamente. entre os gregos. giba. multidão de árvores. se consagravam a divindades bucólicas”. significando “bosque nas vizinhanças quase sempre de habitação”. – Giba (em latim gibba) é o nome científico de qualquer protuberância que existe no que devera ser plano. – Tapera é o capão ou bosque pouco espesso onde ainda se encontram vestígios de habitação antiga. corcunda. Pind. corcova. capoeira. vendaval. – Refrega é “rajada de vento que não chega a ser tormenta. opulenta. – Corcunda e marreca designam tanto o defeito como a própria pessoa que o tem: a corcunda é uma corcova considerável. – Corcova é a giba considerada como aleijão. tempestade. tempestade refere-se mais à agitação do mar. – Temporal é “borrasca que se prolonga por dias”. marreca. Na linguagem dos marítimos. Parece provir da semelhança que apresenta com a restinga no meio do mar. tormenta. em estilo poético. mata. 438 BOSSA. é a protuberância natural que têm no dorso certos animais. É palavra indígena que incorporamos à língua (formada de taba “habitação” + oera “que foi”).)”. É termo nosso que os primeiros povoadores da terra fizeram da palavra desertão (grande deserto). e borrasca à impetuosidade e fúria dos ventos”. o vulto que faz a giba. – “pertence melhor à linguagem marítima que à terrestre. como os que. emaranhado”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 436 BORRASCA. Só quem foi colhido por uma borrasca nos Pireneus é que se pode fazer uma ideia da fúria dos elementos na terra. é “a tormenta furiosa do mar. – Tempestade é o mau tempo em que há violenta agitação do ar. . é também brasileirismo. – Bossa aqui.. procela. corcunda e marreca. – Mata é “a selva rude. chamada bossa. mas sem a ideia de ser basto ou espesso. cuidado com esmero. e onde se abriga a criação miúda”. temporal.. floresta. Aquiles. Usa-se muito igualmente no sentido figurado. suprimindo-lhe a sílaba inicial. restinga. – Capão. capão. sertão. saraiva e trovoada. é apenas menos extensa que a floresta”. gibosidade. mesmo que seja muito forte”. – Aguaceiro é “uma carga de água súbita e violenta”. não obstante. também se emprega para designar a chuva de neve que cai nas altas montanhas quando é impelida por um forte e frio vento do norte. aguaceiro. a giba pouco aparente é mesmo. como as três últimas. luco. arvoredo. – Restinga é o capão que fica no meio do campo ou junto a algum rio. acompanhada o mais das vezes de chuva. de ter giba) é o defeito. giba e corcova dizem-se de pessoas e de animais. – Luco é termo poético significando “o bosque cheio de flores. distinguindo-se desta em sugerir a ideia de ser o fenômeno mais rápido. refre- 241 ga.. e que se encontra agora mais distante da casa. – “O vocábulo borrasca” – diz Bruns. – Tormenta muito se aproxima de tempestade. Bossa. ou da má fortuna. procela horrenda do cruel Mavorte (Diniz. – Selva é “o bosque espesso. – Gibosidade (além de designar a qualidade de giboso. como bosque. 437 BOSQUE. selva. só de pessoas. – Bosque é o “nome que se dá a uma porção de árvores reunidas”. – Capoeira é “mata que já foi capão. formada quase sempre de grandes árvores. e muito usada em significação translata. segundo Lacerda. – Procela. Por extensão designa o defeito físico das costas ou do peito daquele que é algo corcunda. ou da sorte. ideia que é igualmente expressa por marreca. – Vendaval é “o temporal mais forte e tempestuoso”. diz Bruns. – Sertão é “a grande floresta desolada e sem habitantes”. As montanhas são as gibosidades da terra.

na estação. ou então aberto na frente. – Breve é o que se faz em pouco tempo: discurso breve (breve demora no campo. rebento. O que é conciso pode ser perfeito (e é enérgico e simples). portanto. consistindo a precisão no emprego dos termos mais adequados. 440 BOTICA. A loja onde se vendem remédios e drogas chama-se botica (do grego apotheke “lugar oculto ou reservado”).) designa propriamente “a arte de preparar medicamentos”. rebento. o uso baniu esta última: nos grandes centros urbanos ninguém mais diz botica. sucin- tim e botina (ou botinha) são diminutivos de bota. (Bruns. Todos os estilos podem ser precisos. e que. havendo. – Lacônico também dizemos do que é enunciado no menor número possível de palavras. cobre o pé e a perna até um pouco acima do joelho ordinariamente. olho. sapato. o que é lacônico emprega só as palavras absolutamente indispensáveis. o que é lacônico pode correr o risco de ser afetado. O que não é conciso é prolixo. dizemos indiferentemente breve ou curto: é breve a vida do homem. porém. Falando-se do tempo. ao que é característico próprio do assunto. sem ampliações nem ornatos. broto. e que só cobre o pé. . – Só o uso autoriza-nos designar pelo vocábulo farmácia a loja ou estabelecimento onde se vendem drogas e remédios. to. gomo. não breve: uma obra que nos empolga sempre nos parece curta. como dissemos. só se diz com propriedade das novas hastes que saem da raiz da planta.. tomando consistência. e em excluir quanto seja alheio ao assunto. farmácia. bota.30 e sim farmácia. – Conciso. lacônico. – Calçado é o nome genérico de todos os deste grupo. Botim é a bota de cano baixo. – Mas. no entanto. preciso. O primeiro sinal de vida que dá o olho constitui o botão. conciso. calçado. A qualidade de conciso consiste em enunciar o pensamento em poucas palavras. tanto da raiz como dos galhos da planta. na sua curta vida sofre o homem bastante. designa também a gema quando está prestes a dar a folha ou a flor”. este.). é curto. mas muito usual entre a nossa gente do campo. botina. – Sucinto. – Gomo é corrução deste último vocábulo. desprezando tudo quanto seja circunstância acessória ou pormenores. que do estilo. tendo o cano mais ou menos alto. ou renovo. na cidade. lacônico e sucinto só se dizem do que é relativo ao estilo. com a significação que todos conhecem: loja reservada onde se vendem bebidas. que melhor se diz do discurso ou da obra.. 441 BOTIM. entre os dois alguma diferença. gema. – Segundo Bruns. – “Olho é a parte que na ramagem das árvores e arbustos indica o lugar onde se hão de formar os botões e as gemas na época do desabrolhar dos vegetais. – Rebento. e não breve. reno- vo. veneno” etc. – Sapato é o calçado de couro grosso quase sempre. – Bota é o calçado de cano alto. Botina (ou botinha) é o 30 De botica temos o diminutivo botequim. O que é conciso exprime brevemente o pensamento. – Preciso é antônimo de difuso. pois o vocábulo farmácia (do grego phár makon “remédio. qualifica aquele escrito ou fala em que o escritor ou orador se atém exclusivamente ao essencial. pois a quantidade que este adjetivo enuncia não exclui a riqueza nem o adorno.) – Broto é o mesmo rebento ao apontar. 442 BREVE.242 Rocha Pombo 439 BOTÃO. O que não tem tanto comprimento como devia ter ou se supunha que tivesse. quase sempre guarnecido de elásticos. – Bo- botim de senhora ou de criança. curto. forma a gema. para que não se torne difícil o ato de calçar.

não seria possível confundir as duas palavras nem empregá-las indiferentemente. relampadejar). clara como a do sol”. – Luzir é simplesmente “emitir luz”. – Reluzir diz melhor – “refletir luz”. refulgurar. relumbrar. resplender. como despedindo jactos de luz”. – Todos estes verbos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia fundamental de emissão de luz. relampaguear. encantador. “o mineral no estado nativo.) – Resplender é “luzir amplamente. não lapidado”. refletir fulgurações. – Irradiar é “lançar. luz muito forte. – fragmentos em ignição que saem de um corpo ferido por outro. intensa. resplandecer (resplendecer). tem fulgir na sua estrutura a raiz grega fleg (phleg) que sugere ideia de “queimar”. (Aqui não seria. de todo o grupo. – Transluzir é “emitir luz através de alguma coisa”. E. a partícula incoativa ecer. dar claridade como corpo inflamado”. e nunca “brilhante lapidado”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 443 BRILHANTE. ou “brilhante em bruto”. isto é. – Refulgurar é fulgurar outra vez. tremeluzir. 444 BRILHAR. esplende majestoso na amplidão do céu. luz muito viva e radiosa”. Dizemos. – Diamante é. faiscar à maneira de raios”. o mais expressivo. – Coriscar é “luzir como corisco. refletir esplendor. sem ideia de gradação de intensidade. fulgurar. que neste figura. oferta. “diamante lapidado”. como relâmpago. rutilar. – Este último vocábulo. relampear (relampejar. ou raios luminosos”. – Brilhante é o nome que toma o diamante depois de lapidado. – Fuzilar é “despedir lumes. vacilante. É. o verbo esplendendo. ou pequeno raio ou faísca elétrica”. dom. fuzilar. – Cintilar é “brilhar com rápidas intermitências. – Brilhar é “emitir de si próprio. rebrilhar. translu- zir. – Rebrilhar é “brilhar de novo. e sem diferença alguma sensível entre nenhum deles. coriscar (coruscar). chispar. – Rutilar é “luzir com luz viva e fugaz”. como trepidando. – Flamear (ou flamejar) é “emitir brilho como de chama. mas sem intensidade que chegue a deslumbrar”. cintilar vagamente. pelo menos tão próprio. – Conquanto de- 243 signem a mesma pedra preciosa. luzir. – Fulgir31 é “luzir vivamente”. – Faiscar é propriamente “despedir faíscas”. – Resplendecer é o mesmo verbo mais fiel à forma latina (resplendescere). – Fulgurar é “brilhar de luz muito forte e instantânea”. – Tremeluzir é “dar luz indecisa. portanto. mimo. flamear (flamejar). como ninguém se lembraria de perpetrar: “um adereço de diamante”. brilhar solenemente. irradiar. cintilar. “um anel de diamante”. – Relampejar e os três verbos que se seguem (relampejar. vaga”. espargir luz. donativo. esplender. Ninguém dirá: “mina de brilhantes”. pois. no entanto. fino. faiscar. e refulgir é “emitir ou refletir luz quase com a mesma intensidade da que brilha”. ou “extrair brilhantes”. dádiva. esplender com majestade. ou refletir. como chispar é “desprender chispas”. designa o objeto esquisito. 445 BRINDE. 31 Como fulgurar. relampaguear e relampadejar) enunciam a ideia de luzir instantaneamente. “Aquela doce e gloriosa luz vem resplandecendo dalém dos montes”. presente. – Resplandecer é “reluzir. refulgir. . A forma coruscar é mais fiel ao latim coruscare. – Relumbrar é luzir como chama ou como lume. Resplandece o sol quando vem nascendo. ou que está em combustão ou em estado candente. reluzir. “diamante em bruto”. mimo. luzir. marca uma diferença bem sensível entre os dois verbos. com luz mais viva”. diamante. Estes dois verbos parecem envolver a ideia de que a luz que fulgura ou refulgura mais deslumbra e cega do que ilumina propriamente. – Esplender dizem muitos autores que é o mesmo que resplandecer. fulgir.

– Destes dois verbos caricato. o que desperta riso. esquisito. O que nos parece . 447 BURLESCO. grotesca de fatos. ridículo. literal ou gráfica. bufo. – Neblina é “nevoeiro menos denso e muito chegado à terra”. Caricato equivaleria. – Dom é uma prova de munificência. Para exprimir caricatura tem o francês a palavra charge (= representação exagerada. e este vocábulo não inculca que o objeto que constitui o presente reúna qualidades determinadas. Gênero bufo. – “é um obséquio. faceto. cerração. – Faceto quer dizer – “engraçado. que é quase sempre seguida de tempestade”. – Cômico é “o que é próprio da comédia. ao nosso carregado ou exagerado. Buscar inclui sempre a ideia de movimento por parte de quem busca. faceta. chistoso. nevoeiro. o mesmo que gênero burlesco. mas de esquisitice. de alguma coisa).. procurar não inclui nem exclui essa ideia. mas emprega-se. ou de homens e coisas. em suspensão na atmosfera”. dito para que outros riam”. feito para causar alegria e riso. – Ridículo é termo genérico aplicável a “tudo que provoca o riso ou que merece escárnio”. – Grotesco sugere ideia de “caprichoso. 446 BRUMA. que é demasiado até o ridículo. nuvem. – Nevoeiro é “grande névoa.. e esta palavra (que tomamos do italiano) designa a representação caprichosa. procurar. como substantivo. cerração profunda”. com mais propriedade do que este. – O presente é uma prova de amizade. recebe o nome de donativo. portanto. – Nimbo é “a nuvem grossa. principalmente nas manhãs de inverno”. névoa. – Truanesco é “o que faz coisas ou diz tolices de truão. cômico. o burlesco. bulcão. extravagante. caligem. – Bufo (transplantação do italiano) indica também o que é burlesco. ampla.244 Rocha Pombo que por gentileza se oferece a alguém. – “O brinde” – diz Bruns. por gracejo. muito fechado.: “Pretendem alguns que em buscar há mais diligência ou empenho que em procurar: não nos parece que tenha fundamento essa distinção. 448 BUSCAR. mais ou menos densos. – Nuvem é “acumulação de vapores. nimbo. uma prova de boa vontade. esquisito ao ponto de cair no ridículo”. Procura-se (mas não se busca) uma palavra no dicionário. – Dádiva é uma prova de generosidade. – Bruma é “cerração espessa. – Bulcão é “nuvem muito densa e negra. por brincadeira. Ópera-bufa. que escurece o ar e ameaça de tormenta”. hilaridade”. – Névoa é “vapor aquoso que pela sua densidade não sobe muito nem se desfaz em chuva. burla. ou bulcão ou caligem. e só pode consistir em algo de delicado”. Busca-se ou procura-se por toda parte aquilo de que se necessita. – Bufão é o mesmo que bufo. densa e baixa”. – Caligem é “nevoeiro muito denso e escuro. – Caricato é o que tem a aparência de caricatura. que é bobo de praça”. seria o mesmo que ópera-cômica. neblina. – Negror e negrume só por figura é que se tomam por “bruma muito espessa. – Extravagante é “o que saiu do normal. escura e que quase sempre se desfaz em chuva”. negrume. ou o motejo. que não guarda a devida compostura”. – Burlesco diz propriamente “por diz muito judiciosamente Bruns. como de burla. grotesco. truanesco. – Cerração é “forte nevoeiro que cobre os campos ou o mar. Quando a dádiva tem um fim benéfico. impedindo que se veja claro a pouca distância”. pairando ordinariamente na encosta ou no cume dos montes”. excêntrico. por exemplo. bufão. nevoeiro principalmente no mar. negror. – A oferta considera-se como feita de inferior a superior”. chiste e graça que se não confundem com a zombaria.

longa. Cabo é “a grande porção de terra que se mete pelo mar. e tanto se diz do homem como de certos animais. ou um cabo de pequenas proporções. caindo sobre a testa ou para os lados. – Marrafa é uma porção de cabelo riçado. a ideia de que o fluxo das águas é menos vivo que na cachoeira. como diz o latim promontorium (mons in mare prominens). – Guedelha é “uma pequena porção. sugerindo. promontório. segundo Lacerda. e designa “o conjunto dos pelos que vestem a cabeça do homem”. A cachoeira pode ser formada por um salto vertical (e então chama-se mesmo salto) ou por um plano muito inclinado”. gue- “um diminutivo de cabo. é preciso admitir uma certa diferença. Lesurques morreu no cadafalso. salto. – Cabeleira. e vale por um pequeno cabo. ou descida de águas por entre rochedos. cabelo. – Catadupa e catarata dizem-se da queda de um grande volume de águas e de grande altura. segundo Bruns. cabedelo. de todos. guilhotina. – Cabedelo é – Entre cadafalso e patíbulo. – Cabelo é do grupo o termo genérico. – Madeixa é “um negalho. designa catadupa. mudando bruscamente de nível. – Melena significa certa porção de cabelo. aqui. 449 CABELEIRA. – Pontal é “uma ponta de terra para o mar”. rápido. – Cascata é a queda. – Forca é. – Grenha designa cabelo embaraçado. “diz-se de todo o cabelo. no entanto. pontal. quando o volume delas não é muito considerável. – Rápido é “a parte de um rio onde a água muda um tanto de nível sem formar queda”. é “o ponto onde um rio. principalmente quando é em profusão. 450 CABO. ao patíbulo sobem os monstros. e aplica-se particularmente a uma praia que avança para o mar. catarata. imponente”. – Cachoeira. madeixa. que se julga serem sinônimos perfeitos. o instrumento mais ignominioso: é “o aparelho onde se estrangulam os condenados à pena última”.. usado principalmente em França e durante a Revolução. se bem que encerre a ideia de menor volume de águas. mas o patíbulo sugere ideia do castigo merecido pelo paciente. coma. por mais que o uso geral não dê por semelhante distinção. corredeira. em desordem. ou sobre os ombros.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 245 acertado estabelecer é que quem procura sabe que existe o que anda procurando. – Guilhotina é “o aparelho moderno. – pa. enquanto que aquele que busca ignora se há o que anda buscando. – Promontório é o cabo que termina em rocha escarpada ou em monte. uma porção de cabelo enovelado ou em trança”. e igualmente se diz dos cabelos postiços compostos de modo que cubram os naturais ou a calva”. uma madeixa de cabelo da cabeça ou da barba”. – Corredeira é brasileirismo equivalente a cachoeira. ideia que se não encerra em cadafalso. marrafa. um necessitado busca ou procura um emprego”. grenha. composta e ordenada. não penteado. ou sem elevação que se destaque muito do continente”. Também se diz de cada uma das duas porções em que se divide a cabeleira ao penteá-la. para decapitar de modo instantâneo os condenados”. Ambos designam o instrumento de suplício nos países onde subsiste a pena de morte. – Salto. Um inquilino procura casa para onde mudar-se. que uma pessoa tem na cabeça. 451 CACHOEIRA. revolto. – Coma é “cabeleira farta. forca. melena. caindo pelas faces. 452 CADAFALSO. sem notáveis acidentes. catadu- delha. forma cachões. patíbulo. desnudada e cheia de montículos de areia”. . cascata.

454 CALADO. mas o que é calado nem por isso se entende que esteja ou seja mudo: basta que fale pouco e com muita prudência. ou não revela o que sabe ou o que sente”. ensina-se a ler. consiste em fazer numerações e algumas operações aritméticas para conhecer uma quantidade: é.: – “A palavra contar é a mais genérica de todas estas. que contém o mesmo radical latino que o primeiro (senex “velho. diz o mesmo que “sereno. e senilidade à diminuição da energia moral e física ao mesmo tempo. – Senectude é a idade avançada. computar. velho (velhice). calmo. Há entre calado e mudo. pois à ideia de falar pouco reúne a de muito cuidado em não dizer o que é inconveniente. por isso é que este vocábulo sugere ideia de estar em silêncio. escrever e contar. aplicável tanto a pessoas como a coisas: o que é ou está silencioso exclui a ideia de rumor. de- crépito (decrepitude). pois. – Caduco. também designa a qualidade do que chegou à extrema velhice. – Decrépito designa “o que não tem mais forças para viver. – Quieto é propriamente o que não se agita. quase sinistro. – Velhice é o estado de exaustão a que chega o velho. Deve notar-se entre os dois vocábulos a seguinte diferença: senectude refere-se mais particularmente ao físico. evitando o convívio e tudo vendo com maus olhos. – Sombrio é quase o mesmo que taciturno: apenas sugere melhor a ideia de tristeza que em taciturno como que desaparece ou se disfarça sob o ar de esquivança ou mesmo de repugnância que este encerra. reserva e cautela. – Velho é o homem avançado em idade e sem mais o vigor de moço. sombrio. ancião”). e senilidade. – Reservado é um tanto mais expressivo que o termo calado. senilidade. cálculo. – Inválido é o que. 455 CALCULAR. mas este ensino. ou fazer operações . nas escolas de primeiras letras. além de calado. guarda silêncio. prudente”. o que está calado também cômputo. se tornou incapaz das funções que lhe eram próprias. de sorte que um sujeito que esteja calado ou mesmo que seja mudo pode não estar silencioso. ou por defeito orgânico (e então é mudo). discreto.246 Rocha Pombo 453 CADUCO (caducidade e caduquice). aqui. – Silencioso é termo genérico e muito extenso. – Taciturno é aquele que. uma diferença que se não deve esquecer. silencioso. não articula palavra alguma por um motivo qualquer. mais de rotina que de ciência. taciturno. que não está mais na lucidez da sua razão e que caiu em quase idiotia. ao alquebramento das forças. – Quieto. aplicado às pessoas. Entre caducidade e caduquice há muita distinção: caducidade é “a idade ou a qualidade de caduco”. e que chega ao seu fim”. avaliar. inválido (invalidez). de ar severo. desfeito. de ser discreto. – Calcular é executar operações aritméticas. e mesmo que silencioso. calado.. ou pela idade. suputar. diz Roq. orçar. Decrepitude (ou decrepidez) é a qualidade de decrépito. de caduco”. esmar. – Calado é “o que está sem falar. desordenado. O que está mudo não pronuncia palavra alguma. de guardar em segredo o que não deve ser divulgado. se mostra esquivo. ou por moléstia. – Tratando dos seis primeiros vocábulos deste grupo. quieto. carregado. gesto. por assim dizer. mudo. caduquice é “manifestação de caducidade. – Invalidez é a qualidade ou condição de inválido. nem se move demais. o romance da sábia língua do cálculo. contar. que está de todo gasto. senectude. reservado. designa o que tem perdido as forças do espírito. ou por deformação orgânica. conta. estimar. sombrio. ou por algum motivo. no entanto. é obra. palavra etc.

– Trilha (ou trilho) é caminho estreito. atalho. – O contar olha-se como negócio que poderemos chamar econômico. etc. Por influência do francês. azinhaga. começando por um. e o astrônomo computa sobre tábuas de sua ciência para fixar o tempo e o instante mesmo da repetição de um fenômeno. multiplicações e diminuições. com mais fundamento do que quando se estima”. e com muito mais razão está longe de poder calcular por divisões. Assim é que o cronologista computa os tempos. – Dizemos – cálculos astronômicos. calcular a esmo. dois. como se pode ver nos dicionários”. – O cômputo compreende-se no cálculo e na conta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 247 particulares da ciência dos números. – Caminho não sugere mais que a ideia de “espaço ou trilho livre entre dois pontos”. vereda. em suputar uma ideia de cômputo falível”. estrada. de comércio. etc. picada. O computar é próprio dos doutos. O astrônomo calcula a volta dos cometas. – Estimar é determinar o valor de uma coisa. relativo a assuntos de interesse material. algébricos. de uma despesa. trilha. estradas de ferro. a uma prova. pois é uma operação determinada e limitada a cálculo. fazer o cálculo de um gasto. e como que ressentindo-se disso no significado.. O comerciante tem seu livro de contas em que assenta tudo quanto se refere a seu débito e a seu crédito. – Avaliar é “estabelecer o valor de uma coisa. o geômetra. isto é. etc. infinitesimal. etc. combinar. e este deve ter suas contas claras e em dia. em lugar de combinar.. cálculo diferencial. Há estradas de rodagem. – Suputar (que é desusado) é. três.. a uma demonstração. e até certo ponto tem necessidade de saber calcular. já se diz também – caminho de ferro. raciocinar. – Esmar é “orçar ligeiramente. – Via só dá ideia do meio de comunicação entre um e outro ponto. integral. sem calcular. sem base segura: é pouco menos vago apenas do que esmar (não sendo este mais que uma contração daquele. nem mesmo caminho). ou fazer um cálculo. etc. construído com mais ou menos arte. O amo toma contas a seu feitor. de administração. carreiro. sem os fundamentos com que se orça”. – Todas estas palavras têm de comum a propriedade de designar “espaço aberto conduzindo de um lugar a outro”. pois esmar é “estimar a olho. e de modo que se preste ao tráfego de veículos”. e apenas se aplica no sentido próprio. – Estrada é “caminho largo. “computar com dados cuja exatidão se julga a mais perfeita possível. partindo de termos conhecidos para chegar a um desconhecido. o infinito. Contamos quando numeramos. A palavra computar não é conhecida do vulgo.. senda. Para estabelecer o orçamento de um ano econômico suputam-se (hoje só se usa – orçam-se) as receitas e os gastos prováveis. 456 CAMINHO. como – via marítima. ou fluvial (e não – estrada. de uma receita provável por ser baseada em dados que não devem variar muito”. para conhecer o total ou o resultado que se procura. raia. Há. dois. pois. etc. – O cálculo é uma verdadeira ciência formada de muitos métodos mui sábios. segundo Bruns. e rigorosamente falando não computa enquanto não pode dizer – um e dois fazem três. Um menino conta primeiramente pelos dedos – um. isto é. – Orçar é “calcular aproximadamente. adicionar os números dados. mas não rigorosa. aberto por entre obstácu- . quando queremos saber o número de certas coisas. etc. Todo homem deve saber contar. É assim que tanto dizemos – via terrestre. em vez da qual usa de contar. – Calcular usase no sentido figurado. quase sem refletir”). vici- na. – Contar entra em mui variadas locuções. via. – Computar é reunir. dois e três fazem cinco. para chegar a um conhecimento.

religioso. caviloso. – Carreiro é “caminho estreito. azinhaga por onde se evitam as longas curvas do caminho geral”. no que é arguto há muitas vezes algo de capcioso. arguto. do tom. O que é capcioso dirige-se ao entendimento. Um argumento capcioso leva ao erro. – Vicina é termo pouco usado.. Empregam-se meios capciosos para levar alguma pessoa a confessar aquilo mesmo que nega obstinadamente. aberto pelo tráfego de carros”. e mesmo heroico”. – Canção é termo muito mais próprio do que canto para significar “a poesia que é própria para ser cantada”.. e até – “a larga” senda do progresso. o que é insidioso. mas sugere a ideia de “complicado e escuso”. se se atende à respetiva origem (do latim semita de semis + iter) deve significar “meio caminho”. pois este designa melhor o sulco. – Canseira é “o abatimento geral que impede de agir. ou caminho muito estreito por onde mal pode passar-se. – Segundo Bruns. Ficou a morrer de cansaço quando deixou a forja. devidos à faina muito agitada e aflitiva”. “uma curta trilha destinada a jogos de corrida”. a indisposição. e só daqueles com que se pretende enganar o entendimento sem nenhum outro fim imediato. Não se compreende como é tão usada esta palavra na frase – a senda. fazer esforços para apoderar-se de”. fadiga. Talvez só se explique isso pela beleza fônica do vocábulo. o sofístico descobre-se facilmente. panegírico”. argucioso. – Insidioso (do latim insidiœ “ciladas”) revela ideia de laço preparado para nele fazer cair alguém. é um “hino religioso.. e mais frequentemente se toma à boa que à má parte. a passagem rápida para transpor um embaraço. desânimo e prostração em que põem a fadiga e o cansaço”. empregando-se. que levam de um caminho geral ou de uma estrada. (não – de canseira). astuto. São só para nós as canseiras da vida. 459 CAPCIOSO. para os lugares vizinhos”. – Atalho é “caminho estreito. sub-reptício. trilha. Designa particularmente o poema lírico sobre tema popular. ob-reptício. Aplica-se particularmente este vocábulo ao discurso ou argumento com que se enreda alguém de modo tal que toda escapatória se lhe torna impossível. 457 CANSAÇO.248 Rocha Pombo 458 CÂNTICO. – Arguto diz-se do que é subtil e engenhoso. No capcioso há engano. – Raia é. canção. solene. à vontade. uma promessa insidiosa conduz a imprudências. velhaco. hino. dos modos. cortando-se apenas as árvores.. traiçoeiro. subtil. aqui. sofístico. Nesta acepção. – O hino é “um cântico que pode ser patriótico. Diz-se das palavras. – Cansaço é “a depressão de ânimo e de forças físicas que se seguem a esforço longo ou violento”.. o desgosto em que se fica. no insidioso há má intenção. lassidão. canto...) enuncia a ideia de meios hábeis. – Picada é “trilha mal aberta em floresta. a locução – caminho vicinal – para indicar os “pequenos caminhos. – O cântico lo. – Senda. (não – os cansaços).. – Vereda é “trilha tão maldistinta que apenas parece marcar o rumo seguido”. numa certa direção”. ou insidioso não é fácil de descobrir. etc. falacioso. astucioso. – Canto é “toda composição poética que pode ser cantada”. trilha é vocábulo mais próprio e mais usado do que trilho. – Fadiga é o “cansaço que resulta de longos trabalhos. – capcioso (do latim captare “tratar de apanhar. insidioso. – Argucioso é “o que usa de . falaz. – Sofístico só se diz dos argumentos. – Azinhaga é também “caminho estreito”.. canseira. não obstante. ardiloso... O que é capcioso. o esgotamento. – Lassidão é a “completa exaustão. em vez dele. destinados a apanhar a alguém como se apanha um animal a que se armam laços disfarçados. etc.

Que eu pelo rosto angélico apertava. que eu palpo. – Subtil é “o que induz a erro sem que a vítima se aperceba. ou fronte (que vêm ambas de frons). não. quer dizer – de enredos. Aplica-se. rendição. fronte. astucioso. de caput “cabeça”) distinguem-se assim estes dois vocábulos: cabido é “a corporação de cônegos de uma sé”. – Conquanto prove- nham do mesmo original latino (capitulum. cabido. com leda fronte. é o que se insinua habilmente no ânimo de outrem. É expressão vulgar. mentindo. a capitulação é . – “Por estas palavras” – diz Roq. tanto às pessoas como aos discursos. I. vulto. como quem prepara emboscadas”. mas mudo e [quedo. armando traição”. como a serpe na relva”. frente. Também só se deve referir ao discurso. etc. rosto. sabe usar de disfarce para encobrir o seu intento enganoso. – “designa-se a parte mais nobre do homem. nos Lusíadas. preside e manda. eu sinto? [A frente Qual soberana. e que importa conhecer para não as confundir”. ou ato de capitulação. 462 CARA. de falsidades”. gestos. passando a guarnição da praça rendida a ser prisioneira do vencedor”. para fugir a um compromisso”. 56: Estando c’um penedo fronte a fronte. é o que emprega astúcias contra outrem”. – Cara é da palavra grega kára. que mente. – Caviloso é “aquilo em que há sofisma ou má-fé. – Falacioso é “o que usa de falácia. Mas no lago entraremos de Aqueronte. cada uma delas ajunta à ideia fundamental alguma acessória que a modifica. – Astuto só se pode referir às pessoas. de surpresa ou dolo”. ou karé. parte que ao corpo.” 461 CAPÍTULO. 460 CAPITULAÇÃO. – Traiçoeiro é “o que age com perfídia. mas entre nós só significa a parte anterior da cabeça do homem. Ambos significam o ato de entregar-se ou de se considerar vencida uma praça de guerra. só à linguagem. – Velhaco é “o que usa de fraude para enganar. 51: Que não no largo mar. face. e às vezes incivil e grosseira. Dizemos – gestos falazes ou falaciosos. isto é. – Astucioso é “o que. – Sub-reptício = “que se conseguiu iludindo. portanto. Não é admitida em estilo elevado. em lugar dela usam os poetas a palavra frente. que inventa e dissimula para fazer cair em erro”. capítulo é “a assembleia em que o cabido toma as deliberações para que tem autoridade”. – Ardiloso é “o que emprega meios enganosos e traiçoeiros. – Ob-reptício = “que se obteve por meio de ardil. lhe preside e manda! E Camões. V. de subtilezas e disfarces”. e sim – tipo falacioso. A rendição supõe que a entrega é feita “sem ajuste prévio nem condições. E no c. e de alguns animais brutos. – Astuto é “o que com arte. de argumentos capciosos. Mas. e pode aplicar-se tanto à linguagem como à própria pessoa. mas não seria próprio dizer – tipo falaz. tos estes dois sinônimos. além de astuto. cume ou cimo. – Falaz é também “enganador. E junto do penedo outro penedo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 249 argúcias. ou ocultando a verdade ou qualquer circunstância que conhecida seria motivo para que se não nos concedesse”. qual soberana. fraude ou mentira para enganar”. José Agostinho de Macedo diz na Meditação: Mas que pasmosa arquitetura é esta Deste corpo. Não fiquei homem. semblan- te. – São bem distin- “a entrega da praça feita e regulada por uma convenção prévia. sagacidade consegue o que deseja”. e significava cabeça. enganando. finura.

ou com o seu contrário. O humor resulta de um certo número de disposições do espírito que têm relação com a melancolia. – Caráter. muito a propósito. significa por extensão toda ela. e é poética. natural. humor. marcando. O mais comum. Que o coração converte. II. as disposições que formam o humor podem ser e são quase sempre momentâneas. não somente uma simples disposição do espírito. Não há. É expressão mais elevada que a palavra cara. Por suavidade de pronúncia se diz rosto. sombrio. sombrio. com a sociabilidade ou a falta de sociabilidade: tais são as disposições para ser alegre. alegre. ou a parte da cara desde os olhos até à barba. ou pouco mais ou menos permanente. para a probidade. 35). “O semblante (o vulto) muitas vezes indica os sentimentos da alma”. gênio. porém. marcando simplesmente uma certa disposição do espírito. sombrio. 33 E aqui está a verdadeira distinção entre caráter e humor: no caráter há fixidez de disposições. tempe- – Chamavam os latinos rostrum ao bico das aves.250 Rocha Pombo 463 CARÁTER. e Berg. . F. e ainda hoje os castelhanos chamam rostro à cara dos racionais. instinto. Um caráter leal é a disposição permanente para a lealdade. usa-se. índole. ânimo. – Segundo Bourg. Toda disposição de espírito própria para estabelecer uma séria distinção entre um homem e um outro homem é um elemento do caráter. ou com a mesma propriedade um caráter ou – um humor. é significar esta palavra vulto o relevo do corpo humano. pois só se diz dos racionais. e não – de humor austero. II. – Da palavra latina facies vem o nosso vocábulo face. complacente. compleição. e muitas vezes equivale à representação exterior. sobretudo visto de perfil. e da seguinte: E com o seu apertando o rosto amado. usam-na os poetas para indicar o mesmo rosto. que tem preso Em pedra não. etc. ou que é passageira33. como se infere destes versos de Camões: Quem32 de uma peregrina formosura. e talvez “rosto formoso”. do que na alma se passa. – “o caráter e o humor resultam de disposições do espírito que são particulares a uma pessoa. em que o nariz forma uma espécie de bico. ou quase permanente. como se vê deste lugar de Cícero. pode entender-se que essa disposição é permanente. III.. que no rosto se mostra. Vultus animi sensus plerumque idicant (De Orat. Dizemos – um caráter leal (não – um humor leal). significando rigorosamente a maçã do rosto. como se vê da precedente citação de Camões.. Que os soluços e lágrimas aumenta. feitio. quando a consideramos voltada para nós. é de um caráter austero. e ao que com ele se parecia. por ser a parte saliente do corpo. especialmente as disposições do espírito que têm relação com a moralidade são elementos essenciais do caráter. constituição. mas em desejo aceso? (Lus. de tendências. uma perfeita equivalência entre caráter alegre. está de bom humor. entende-se sempre como sendo uma disposição permanente do espírito. dócil. De um vulto de Medusa propriamente. e não – está de bom caráter. ramento. que.. ao esporão da proa das embarcações. esquisito. Pode dizer-se igualmente. os nossos antigos chamavam. e como é no rosto que mais avultam as feições humanas. (Lus. rabugento. 41) – Semblante (talvez do francês semblant) é o rosto considerado como expressão dos afetos ou paixões. idiossincrasia. para a franqueza: uma disposição. – À palavra latina vultus muitas vezes corresponde a nossa semblante. no entanto. Dizemos – F. e humor alegre. pois humor. mas uma disposição tal que possa estabelecer uma notável distinção entre um homem e um outro homem. 142) 32 Subentende-se: pode livrar-se. ou para ser triste. feição.

– Entre índole. Também significa o tino. sem refletir nem cogitar do que se vai fazer. complicado’) exprime uma certa união de todos os sistemas e aparelhos orgânicos. a despeito do que diz Bruns. e – uma compleição delicada”.. – que é naturalmente inclinado à verdade. por isso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 251 portanto.. e segundo o qual julgamos as coisas. o gênio e o temperamento forma o caráter de cada indivíduo. as disposições naturais para o bem ou para o mal – ou melhor. aqui. não tem sentido. sugere melhor a compleição. bons ou maus. de preferência – um temperamento ardente. e essa ideia torna-se como que característica da própria mistura ou amálgama. – Há naturais (ou naturezas morais) benfazejos. A união da índole. natural exprime as qualidades do caráter. a perspicácia com que se faz alguma coisa espontaneamente. Estas duas palavras fazem conceber uma proporção entre os elementos do corpo. tem bom gênio (e nem por isso terá sempre boa índole). importado diretamente do gre- . – Complexão (ou melhor – compleição que é mais vernáculo. é o modo de ser do espírito. – Idiossincrasia é termo erudito e moderno. a inclinação de cada um”. pois. a índole. não se é arrebatado. uma saúde robusta.. de cum + 34 Pode mesmo ter mau gênio e ter boa índole. nem temperamentos). humor leal. e os animais principalmente. Mas.) e temperamento não significam mais que o humor. O humor não resulta de disposições que tenham relação com a moralidade. tem boa índole (e não se dirá – tem bom gênio)34. revelada na maneira de ser. que se refere à moralidade. enquanto que compleição e temperamento designam o estado de saúde interior. isto é. a índole de cada um. – Temperamento é a sensibilidade. como por inspiração. Mas o homem – diz Roq.. como feitio. Quando se é de um natural brando. que os movimentos da sensibilidade. ao bem. não se cometem crueldades. Dir-se-á. e que é eminentemente própria para distinguir um de outro homem. A constituição representa (é ainda de Laf. – Instinto é o modo de ser ou de agir quase inconsciente. – Feição e feitio bem que se podem confundir. quando se é brando por temperamento ou compleição. – Índole é “o modo de ser. – Segundo Lafaye –. à virtude. melhor. – Gênio é a disposição natural com que cada um revela a sua vontade. a ideia de uma certa força ou violência atribuída aos elementos. de costumes e hábitos. sólida e capaz de resistir às fadigas. adoçar’) anuncia um amálgama de coisas violentas que têm necessidade de corrigir-se e que se corrigem uma pela outra. no exercício de alguma função ou na prática de certos atos. os humores. é o impulso natural a que obedece o homem. feição parece enunciar melhor a ideia de modos exteriores. – Ânimo é. temperamento dá. no modo de encarar as pessoas e as coisas. – Temperamento (de temperare ‘misturar. plexus ‘dobrado com. O homem que não se irrita facilmente. a natureza moral.) antes o bom estado exterior e visível do corpo.. um – temperamento forte. Poderia aproximar-se muito de humor. e não sob o ponto de vista do bem ou do mal. considerados no seu grau de força ou de vivacidade. sobretudo entre as partes líquidas.. e não se enoja arrebatadamente. nem sujeito a fortes movimentos de paixões. no entanto. as suas emoções. e – uma compleição biliosa. bruscos (e não – compleições. – Feição é. – Feitio. a natureza de cada indivíduo. formado pela índole e o gênio.. escreve o mesmo autor: “Complexão (do latim complexio. Comparando compleição e temperamento. gênio e temperamento há tanta semelhança que poderiam facilmente confundir-se os três vocábulos”. o estado de espírito em que se está em certa situação. mais ou menos viva de cada um. que sabe moderar os transportes de ira. viciosos. a conformação dos membros.

ou de proteção. isto é. – Carência é “a falta de alguma coisa. Ninguém carece daquilo que lhe não seria de proveito. que estes verbos precisar35 e necessitar. miséria. – Carestia é “o preço elevado das coisas determinado pela falta ou pela grande escassez dessas coisas”.. escassez. sem dúvida. no entanto. Também não se diria que “F. por assim dizer. (Aul. em que figura a raiz grega ker. como entendem Roq. necessitar. a base ou o fundamento do organismo humano”. O argumento que pia. necessidade. sede. 35 O verbo precisar também pode ter significação diferente quando rege algum outro.. mas falta que se sente e que passa. e Lac.) 464 CARCAÇA. Há. significando “disposição particular do temperamento e constituição.). significam evidentemente “ter falta do que é indispensável”. mais de carecer do que precisar. portanto. Em regra. formam o esqueleto. um artigo. “Ele sacrifica-se a trabalhar dia e noite porque precisa ou porque necessita”. careza. “Preciso falar-lhe” (isto é – tenho obrigação de. Quem necessita de alguma coisa dá ideia de que essa coisa lhe é necessária. nem protetor. ou conveniência em falar-lhe). – Segundo Bruns. de preço mais alto que o comum. pobreza. É conveniente notar ainda que não carece daquilo que nunca se teve. – Carecer carece de lógica é que não é senão absurdo. Para isso seria necessário admitir que esse homem sabe que não tem vergonha e quer ou deseja tê-la. esqueleto. ou carere. de ser. 466 CARESTIA. arcaboiço. de escassez que obriga à privação muita gente. precisar. expressa que lhe conviria muito alcançar ou possuir essa coisa.. dizemos que – um negociante precisa de cem contos para ampliar as operações da sua casa (e não – que carece. o verbo precisar. ou precisão de falar-lhe).252 Rocha Pombo go. Em bom português não se poderia dizer que – “um homem carece de honra ou de vergonha”. e carcaça é termo que só em linguagem familiar se pode dizer por esqueleto. Como não se carece de meia dúzia de chapéus para não andar descoberto (sim – de um chapéu). “Preciso de falar-lhe” (isto é – tenho necessidade. para coisa alguma. em virtude da qual cada indivíduo sente de modo diverso os efeitos da mesma causa”. como intransitivos. . Quem carece de alguma coisa é que não tem essa coisa que lhe seria útil. ou do animal. Quem precisa de alguma coisa. penúria. e até mesmo de quase penúria: ideia que se não inclui na palavra careza. não se pode carecer de cem contos. Observemos. portanto. sugerindo ideia de “cortar. – Esqueleto é palavra científica. carece de cem contos para realizar um negócio que planeou”. indigência. – Entre precisar e necessitar poderia ser mais difícil estabelecer diferença do que entre estes e aquele primeiro verbo. A carcaça é a porção de ossos que formam o tronco do homem ou o bojo dos animais. O sujeito que carece de emprego. fome. não tem nenhum emprego. encurtar”) significa propriamente “ter falta daquilo que se deseja ou de que se precisa”. – os ossos do corpo completo do homem. Quando se diz que. – Careza é a qualidade de caro. inó- (do latim carescere. nem – que necessita de cem contos. nem de um banquete para matar a fome (sim – de um pouco de pão).. uma grande diferença entre careza e carestia: esta sugere ideia de carência. Neste caso empregaríamos. e conforme se emprega ou não entre os dois a preposição de. carência. Por isso. – Arcaboiço (de que não cogita o autor citado) é a “armação de ossos que formam. Necessitar aproxima-se. a ser necessidade quase”. por último. 465 CARECER.

uma qualidade permanente. senão cargos. “os meus encargos estão satisfeitos”. Certos cargos no governo e na administração do Estado são verdadeiros ofícios que de direito se exercem.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 253 por exemplo. Dizemos inópia tanto em referência à falta de dinheiro. de ser. de não possuir meios de viver folgado. necessidade violenta” (Chass. ou como direito anexo a uma dignidade. portanto. isto é – de achar-se alguém em tal penúria que precisa de recorrer à caridade de seus semelhantes”. é pobreza horrível e desventurada. isto é. recursos. Lavra a miséria num país. carência absoluta de alguma coisa”. força”. – Pobreza é “a qualidade de ser pobre. do grego peina “fome. ministério. em nome de outrem. Confundem-se às vezes estas palavras. “meios.)] é “pobreza extrema e dolorosa. – Indigência é “a qualidade ou estado de indigente..” (e em nenhum . – Necessidade. é que não temos as notícias que esperávamos. não se pode dizer que sejam propriamente ofícios. em toda a sua extensão. etc. Mais restritamente é “a falta do necessário”. – Miséria é “o estado de penúria. e ali a fome já espreita as vidas. lugar. porque os que os desempenham só o fazem ou devem fazer por um certo tempo. de fazer ou cumprir um certo dever aquele que toma o cargo ou o ofício. todo ofício vem a ser cargo. – Sede e fome entram aqui numa acepção muito particular: exprimem “necessidade ansiosa. É. insuficiente para o fim a que é destinada”. e tanto se pode (como. como à falta de talento. Encargo não é mais que a obrigação que decorre de um cargo ou de um compromisso que se tomou. – a ideia própria da palavra ofício é a de obrigar (ao que exerce o ofício) a fazer uma certa coisa útil à sociedade. enquanto que os ofícios constituem. isto é – de ser curto. colocação. e sugere a ideia de que “o necessitado solicita auxílio. mesquinho. Um homem que luta heroicamente para viver pode estar até em penúria sem ser indigente. pode ser bem físico ou moral”. Há empregos vagos na repartição tal (não – cargos).) e que significa “falta. ofício.. pode definir-se como significando “contingência fatal. etc. do alto funcionalismo (não – empregos). “temos carência de notícias a respeito de alguém ou de algum sucesso”. às vezes até adquirida por herança. com efeito. A ideia própria de ministério é a de que a pessoa que o exerce desempenha um certo cargo por outra pessoa. – Emprego encerra a ideia de estar o empregado sujeito a um trabalho permanente e obrigatório. a cargo pela necessidade. mas esquecendo-se que nem todo cargo é ofício. parco. de moralidade. função. – Escassez é “a qualidade de escasso. por mais distintas que sejam estas duas palavras. pois. papel. falta absoluta. pede socorro”. a coisa escassa. que dependem de nomeação ou de eleição. 467 CARGO (encargo). que inspira piedade. da diplomacia. o emprego muito diferente do cargo. de indigência que comove. Há cargos da magistratura. mas os cargos de prefeito ou de intendente municipal. clamante do indispensável”. aflitiva de algum bem. Tem-se fome ou sede de justiça (isto é – clama-se por uma justiça sem a qual teremos de perecer). que sugere. – Inópia é a palavra inopia que importamos do latim (de inops = in neg. emprego. – Segundo Roq. corresponde. Dizemos: “cumpro os meus encargos”. imposta pelo destino”. muitos outros entre os vocábulos deste grupo) empregar no sentido moral como no físico”. – Penúria [latim penuria. “tomo o encargo de avisá-lo a tempo. pois. Um sujeito rico pode achar-se em verdadeira miséria de vida se é um perdido. em abastança”. Entre cargo e encargo não é muito raro notar uma certa confusão. aliás. + ops. por assim dizer. sem que tenham mais título que sua eleição ou nomeação. ou da autoridade que a nomeia.

469 CARNICEIRO. ou de assunto ligeiro. – O bilhete difere da carta: em se ocupar só de um assunto. às vezes. está no seu papel”. com a significação de cruel e sanguinário. Paulo. por exemplo. mas as respetivas terminações marcam entre eles uma diferença bem sensível. Os naturalistas. ou tratando de assuntos que lhe interessam mais ou menos diretamente. Deveres caridosos (e não – deveres caritativos). que se confundem. – Função (ou. quando comparam estas duas espécies de animais. Feros vos amostrais.254 Rocha Pombo destes casos – cargo ou cargos). o segundo anuncia simplesmente o fato. o hábito constante. e não – caridosa. – Missiva é a carta considerada com relação à pessoa que a manda. o gato são carnívoros. Carnívoro é termo mais próprio de ciências naturais. . “F. ó peitos carniceiros. como fez Camões naquela apóstrofe aos assassinos de Inez de Castro: Contra uma dama. É possível.. carnívoro é o que come carne. – Caridoso diz apenas – “de caridade. mas essa distinção não basta. de pequena importância. portanto. e que isso é “devido à índole da terminação oso”. a obrigação que se aceita num certo caso. o costume. nem – sentimentos caritativos). e sem razão. Ato caridoso. e o uso geral o admita. epístola.. – Papel figura neste grupo com o sentido translato que se lhe dá em frases como estas: “fiz do melhor modo que pude o meu papel”. Familiarmente dá-se hoje o nome de epístola a uma carta muito longa e em estilo pretensioso. carnívoro. que se ceva de carniça. o leão. em forma literária e em tom solene. a função própria que se toma num dado momento. O primeiro indica o apetite natural. funções) é “o conjunto das obrigações. como quase sempre é usada. – carta é o termo usual com que se designam os escritos que se dirigem a alguém dando-lhe notícias. III. O tigre. indício de caridade. Estes dois adje- tivos designam em geral os animais que se sustentam de carne. missiva. é termo pouco usado. carniceiro é termo vulgar da língua. mais ordinariamente – emprego por pouco tempo ou de pequena monta”. é muito caritativo”. que se ceva de carne crua. capaz de sentimentos de caridade”. sentimentos caridosos (e não – ato caritativo. caritativo. bilhete. “F. tratando de graves assuntos. – Diz Bruns. o homem. 130) 470 CARTA. Significa. de um ministério. e não pode viver de outra coisa. como. – Lugar é “qualquer emprego.. Criatura caritativa. e pode nutrir-se de frutos da terra. e carnívoro pertence ao que come carne. por uma necessidade de natureza. – Carniceiro é o animal que Bruns. por isso mais usado é. emprego ou ofício”. estes dois adjetivos. – Caritativo é propriamente “o de natureza moral dada a atos de caridade. Parece. próprio de caridade. – Colocação é quase o mesmo que emprego: ajunta apenas à significação deste a ideia de que o emprego é permanente e quase sempre de certa importância. dizem que o nome de carniceiro pertence àquele que. em conter poucas palavras e excluir as formas cerimoniosas que encabeçam e concluem as cartas ordinárias. as epístolas de S. por mais que muita autoridade de nota o queira. – Segundo “caridoso indica maior e mais frequente caridade que caritativo”. o lobo são animais carniceiros. o gosto. se nutre de carne. o cão. – Epístolas dizemos das cartas dos antigos. principalmente quando o conteúdo delas interessava a muitos. mas não é reduzido a este só alimento. cheio de caridade”. e é antônimo de frugívoro. o instinto. e cavaleiros? (Lus. 468 CARIDOSO. dos serviços próprios de um cargo. a nosso ver.

junto ou no meio das roças ou lavouras”. choça. lar. choupana. – Habitação é. – Palácio é “o edifício de proporções acima do normal. aqui. palhoça. de uma cidade. o sítio. – Choça é “habitação ainda mais rústica e grosseira que a choupana”. cômodo. canto. no estilo suíço. no português usual. – Colmo. portanto. “prédio rico e elegante”. De “ato de habitar”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 471 CASA. a casa dos coelhos. palacete. – Chalé é palavra da língua francesa. por modéstia ou por falsa humildade. vivenda detestável. ou choupana. ou de uma povoação: “a aldeia vizinha não chega a ter cem fogos”. teto. de tegere “cobrir”) é “o abrigo onde qualquer vivente se recolhe. designa. ou palácio. ou habitualmente ou por algum tempo”. arribana.). – Teto (latim tectum. o mais genérico. coberta de tela de lona ordinariamente”. habitação. – Tenda é “armação coberta para abrigo provisório ou de passagem em caminho ou em campanha”. pelo menos com a mesma propriedade –. – Cabana (do italiano capánna) é “casinha coberta de colmo ou de palha. 255 tugúrio. – Canto. biombo. – Tugúrio (latim tugurium. – “casa rústica de madeira. chalé. que é o que significa propriamente esta palavra habitação. usa-se quase sempre com um adjetivo: bela vivenda. neste grupo. cujo teto de pouca inclinação é coberto de feltro. onde se abrigam à noite os camponeses. Este nome dá-se também. passou a designar também a própria casa. vivenda. designando. castelo. também de tegere) é quase o mesmo que tugúrio: apenas teto não se aplica a um abrigo de animais. Palacete é diminutivo de palácio. portanto. – Casebre é “pequena casa velha e arruinada. de convívio amoroso: “teto paterno”. de todos os vocábulos deste grupo. – Fogos é o nome que se dá. ou de ramos de árvores para habitação de pastores”. é “o colmo tomado pela cabana que é dele coberta”. que se habita: casa. ordinariamente revestida de madeira. – Morada é “à habitação onde se mora. morada. colmo. fogo. a sua choupana). – Palheiro é propriamente o lugar onde se guarda palha: designa. Por isso. – Casa é “o edifício de certas proporções destinado à habitação do homem”. à própria habitação magnífica. onde mora gente muito pobre”. cabana. – Mansarda afasta-se um pouco do francês de que a tomamos (mansarde é propriamente água-furtada ou trapeira. é “o lugar. grandioso e magnífico”. (Aul. barraca. ou onde se fica por algum tempo. palheiro. prestando-se quando muito para pernoite ao abrigo de intempéries”. significando “casa de escada exterior. prédio. e sugere melhor a ideia de conchego. onde alguém como que se refugia afastando-se do mundo”. isto é – o último andar de uma casa tendo a janela ou janelas já abertas no telhado): tem. hoje muito em voga. pardieiro. “era-lhe o céu um teto misericordioso”. toda parte onde se abrigam alguns animais: a casa do escaravelho. e forma grande saliência sobre as paredes”. – Barraca é “tenda ligeira. – Choupana é – diz Aul. – Lar é a “habitação considerada como abrigo tranquilo e seguro da família”. aqui. casebre. – Arribana é “palheiro que serve mais para guarda de animais e trem de viagem propriamente que para habitação. às casas habitadas de um distrito. – Vivenda é a “habitação onde se vive”. tenda. palácio. mais a significação de “habitação . e sugere a ideia da maior ou menor comodidade com que a gente aí se abriga e vive. etc. e por extensão. a morada humilde e desolada. “abrigo ou habitação muito rústica e grosseira”. ou biombo – tudo será habitação. mansarda. – Palhoça é “pequena casa coberta de palha”. nas estatísticas. de proteção. em linguagem vulgar. solar. Dizemos que o selvagem procura a sua choça (e não. asfalto ou ardósia. onde alguém se aloja provisoriamente”.

pode ser favorável ou desfavorável. de Leibnitz chamam-se hipóteses e não suposições.” A situação em que me encontro agora. A hipótese é mais certa. etc. aqui. de Newton. fiador”) é propriamente “bem de raiz. etc. – Bruns. – Pardieiro é – diz Aul. distinguem-se mais em que: a hipótese é uma suposição puramente ideal. onde há pobreza”. incômoda e difícil. mas. e outro. a propriedade que consta da casa e do terreno onde está construída”. porque esta só de longe se relaciona com o ponto de que aquela está próxima. – Castelo era antiga habitação fortificada. “o conjunto de circunstâncias que determinam o estado ou a condição de uma coisa. e muitas vezes se toma em mau sentido. a suposição é mais familiar. Hoje é “habitação nobre. é “uma parte de prédio que se aluga por baixo preço e por pouco tempo ordinariamente”. distingue assim as três primeiras palavras deste grupo: “Caso se diz do que se considera possível: em caso de desgraça. – “edifício velho e em ruínas”: “Já me cansam estas perpétuas ruínas. compara a conjuntura com a circunstância dizendo: A conjuntura e a circunstância estão para o fato como dois círculos concêntricos estão para um ponto dado: a circunstância é o círculo circunscrito na conjuntura. e que serve de dormitório. funda-se numa verdade filosófica. Os sistemas de Descartes. conjuntura. e onde residiam os grandes senhores feudais. contudo. – Biombo é “um pequeno recinto separado de uma sala por meio de tabique móvel. suposição. à explicação das coisas.” . A conjuntura. entra na conversação ordinária. a situação atual do país. onde se vive com opulência”. a situação da França em 93. têm com ele alguma relação. têm com ele alguma relação imediata: os crimes perdem muito da sua gravidade quando neles ocorrem circunstâncias atenuantes. penhor. propriedade real”. mas que. Um sinonimista francês. assim como a circunstância. Roubaud. sempre que este fato se possa relacionar com princípio geral: aos casos particulares não têm os magistrados senão leis gerais para aplicar. luxuosa. sucesso. de gabinete”.256 Rocha Pombo humilde. estes pardieiros intermináveis” (Garrett). Particularmente se diz de todas as hipóteses que se podem considerar nas ciências abstratas. à inteligência. fora das cidades. separadas do fato. só tem por base a verossimilhança. – Circunstância (do latim circumstantia. de modo que formam um corpo ou sistema. suposição. Costuma-se dizer: “vou para o meu biombo” para significar que se vai para casa. num dado momento. aqui. – Solar é “a propriedade (terras e casa) considerada como representando uma tradição de família. 472 CASO. designa “a casa que é nossa própria. gratuita ou falsa. como alegação. situação. do prœs “garante. hipótese. e a suposição toma-se por uma proposição ou verdadeira ou aprovada.: “Além da primeira diferença que há entre estas palavras (e que consiste em ser um. termo científico. aqui. pessoa. – Cômodo. de circumstare ‘estar à roda de’) diz-se das particularidades de um fato. ou das coisas que. tendo passado por herança de pais a filhos desde alguns séculos”. se se der o caso de não ter ele filhos. menos precária. que não tem outro fundamento que a má vontade da pessoa que supõe.. a suposição é gratuita. A hipótese refere-se às ciências: à instrução. – Conjuntura é o vocábulo com que se indica o conjunto de circunstâncias que nem estão no fato. Também se diz de um fato que apresenta tal ou tal caráter. – A hipótese toma-se muitas vezes por um conjunto de proposições unidas e ordenadas. circunstância. nem com ele se relacionam imediatamente. – De suposição e hipótese escreve Roq.” – Situação é. – Prédio (latim prœdium. termo vulgar.

absoluta. etc. sabe coartá-lo dentro dos mais estritos limites. ilibado. e até os defeitos. censura. (Lac. nem sentiu. – “É a castidade” – diz fr. do grego poiné “vingança. intemerato. mas da outra não supõe necessariamente culpa. – Pureza não é propriamente uma virtude particular. ou grande falta que deve ser punida”. e quando cede ao dever. – Pena (latim pœna. mas também os erros. Mesmo referindo-nos à própria Virgem. e perfeita. punição. – Castigo é “tanto o ato de castigar. e aí estará talvez o que torna a virtude da castidade diferente de muitas das que figuram neste grupo. pois o inocente não conhece o mal. isto é – do que não tem malícia.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 473 CASTO. nem mesmo sabe que é inocente. . – Virgindade exprime uma continência universal. que intemerato sugere uma ideia que nem. impoluto. que está na sua plena integridade”. é a excelência. imaculado (imáculo). mesmo de uma brutal violência. intacta. – Punição é “o ato de punir”. ou delito. cândida. mas sim erro. que é são e puro de espírito. – Inocência tem aqui a acepção de candura: é a qualidade do inocente. que não ficou alterado na sua pureza”. mas castigar indica principalmente a ideia de corrigir. ou de honesta vergonha. castigo. Punem-se crimes. continência. virgem.). um só pensamento voluntário faz perder o merecimento desta angélica virtude. deve ser continente. Castigar supõe autoridade de uma parte. pudico. nem sabe pensar no mal. Em poesia não é muito raro empregarse imáculo por imaculado. descuido. não só as ações voluntárias quando contrárias à lei. e culpa da outra. quando contrárias à lei: e castigam-se. O celibato cristão demanda continência perpétua. e nem ainda conhece o que pode alterar a perfeita integridade da alma e do corpo”. pena. dizemos indistintamente – imaculada ou intemerata. puro. que não passe a segundas núpcias. – Continência exprime a abstinência atual dos prazeres da carne. de alma fiel. – Incorrupto é “o que não foi corrompido. – Punir implica a ideia de imposição de pena. como o próprio sofrimento com que se castiga”. como do espírito que se estende a todos os tempos e momentos da vida. – Pudicícia é a castidade acompanhada de pudor. aperfeiçoar por meio da repreensão. Por isso mesmo é que não se pode considerar a inocência como propriamente uma virtude. – Punir supõe autoridade de uma parte. 474 CASTIGAR. e sujeita à autoridade sagrada da lei. ações voluntárias. delitos. tanto do corpo. punir. o próprio prazer honesto. incorrupto. A viuvez. que nem experimentou. as faltas. Luiz – “uma virtude. que qualquer sopro impuro a embaça e murcha: um só instante de fraqueza. – Ilibado (latim illibatus = in + libatus) quer dizer – “intacto. de algum modo. É uma flor delicadíssima. no entanto. um modo de ser. expiação”) sugere ideia do “sofrimento que se impõe como punição do crime. S. ainda quando permitidos. inocente. mas como um estado de alma. omissão. – Intemerato e imaculado podem dizer-se sinônimos perfeitos. a perseverança. inocência. conti- 257 nente. os apetites e prazeres sensuais. e cora de os ver ainda levemente transgredidos. pudicícia. Parece. – Impoluto é “o que não foi poluído. a honra. Esta virtude é mais ordinária no sexo feminino. castigar a frase”. que regula. (A pessoa casta nem pensa em semelhantes prazeres. será essencial em imaculado: a ideia de – não violado. venham a sair moralmente imaculadas. e o lustre da virgindade: Ela supõe uma alma inocente. pelo menos em todos os casos. Neste sentido dizemos até – “castigar o estilo. inalterada”. virgindade. Pode haver criaturas que. pureza. virgem. A pessoa pudica teme.). castidade.

por exemplo. – Nomenclatura é uma lista de nomes. O judeu em Babilônia foi cativo. É condição essencial do catálogo: 1. auferir lucros do serviço que presta a seu amo. o nome dos respetivos autores. perdeu a sua liberdade. mas prisioneiros. ou obedeça a uma certa ordem. razão. a sua condição pessoal. só se lhe pode dar o nome de lista ou relação. denomina-se nômina. A servidão é muito diferente da escravidão. – Prisioneiro aproxima-se de cativo: é “o que fica em poder do seu vencedor”. servo. prisão. escravo. 476 CATIVO. pretexto. ou não tanto a esmo como numa simples lista. nômina. de usar da sua liberdade”. mas não poderiam ser aplicadas indistintamente.°) que cada objeto catalogado se faça acompanhar de algum esclarecimento que melhor o caracterize e distinga dos outros. Sempre que a enumeração careça dessas condições. nomenclatura. pode ser vendido.º) que a enumeração seja metódica. pois o primeiro designa apenas o fato de “achar-se alguém privado por algum tempo de agir livremente. Fazer uma nômina dos empregados por ordem de antiguidade. na guerra não se fazem cativos. – Cativo é propriamente “o que foi capturado. – Catálogo (do grego katalogos “exposição desenvolvida. cativeiro. 2. O catálogo de uma livraria ou de uma biblioteca compreende o título das obras que a formam. 477 CAUSA. motivo. nomeia por ordem. supondo-se que estes esperam sempre o seu resgate. Do mesmo modo difere prisão de cativeiro. como despoja a criatura de quase todas as suas qualidades humanas. o que se deixou prender na guerra. etc. pelo menos nem sempre. enumeração. e a enumeração inscreve ou expõe sucessivamente para que cada unidade contribua para o conjunto. móvel. Hoje. A escravidão não só humilha. principalmente tratandose de ciências. certas indicações numéricas. Quando a nomenclatura inscreve ou classifica nomes de pessoas. a lista apenas inscreve. – Segundo Bruns. ou da botânica. ficando sob a dependência de outrem”. prisioneiro. – Rol é a lista que contém. e não escravo. – Servo é “o que está sujeito a outrem”. relação. mas – lista dos convidados. mesmo aquelas que parecem mais semelhantes. ao lado do nome das coisas ou pessoas arroladas. atendendo a que nessa lista a única indicação numérica é a dos números de ordem. O cativeiro não humilha. por exemplo – rol dos convidados. minuciosa”) dizemos das relações ou enumerações de muitas coisas da mesma espécie. vemos que: o catálogo inscreve e circunstancia. a nômina inscreve. o rol inscreve e conta. De tudo isto é privado o escravo. servidão. é o fato em virtude . O cativo pode conservar ainda a sua dignidade. etc. ou ao conjunto das coisas enumeradas. – Causa é o que produz uma ação. O servo é considerado como pessoa. e que. nem mesmo servo. – Escravo é “o que passou a ser propriedade de outrem. portanto. – Enumeração é a lista que se faz com o fim de atender ao total que apresenta. Fazemos a lista dos livros que desejamos comprar. Fazemos ou organizamos o catálogo de uma biblioteca. mas diferentes entre si. pode possuir bens. Não diremos. rol. etc.258 Rocha Pombo 475 CATÁLOGO. lista. passar por herança ou legado”. – Todas estas palavras designam aquilo que se tem como determinante das nossas ações. de expressões que formam grupo separado. Nomenclatura geográfica. em certos casos. escravidão. – Relação é quase o mesmo que lista: apenas deixa supor que as coisas ou pessoas relacionadas estão inscritas numa certa ordem. Recapitulando. a nomenclatura inscreve denominando.

no sentido figurado. mordaz (morden- te). Talvez porque se julgue esta palavra como originada do verbo ferir. brutal. deixou de vir devido ao mau tempo (o mau tempo foi causa da ausência). atitude. Dizer – “bandido” a um santo será usar de uma palavra pungitiva. cruel”. – Irônico é o que contém. lancinante. designa “o que é rude e violento. saudação. picante. – Acre. Gritos lancinantes = os que entram na alma de quem os ouve como lancetas. sobretudo. – Pungente é um tanto mais forte e subtil que mordente: o que punge “penetra como espinho”. impelindo a nossa vontade de praticar uma ação. o móvel que se dá como causa da ação”. as suas armas são um gracejo vivo e picante. mas que só pungem a certas almas. picante. feroz. A causa da intervenção da força pública foi o tumulto que ali se levantou. é frequente vê-la empregada como signifi- . de flagrância.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 259 do qual se dá um outro fato. etc. pungitivo. ofende a boa reputação. – palavra causticante (em vez de – cáustica). o que corta. Um espírito satírico ataca. como já vimos em outro grupo (o XCVIII) é “o que tem sabor picante e corrosivo”. frases pungitivas. os vícios e os defeitos mais censuráveis. que nos leva a fazer alguma coisa ou a agir de certo modo em dadas circunstâncias. motejos para fazer sobressair o ridículo e os defeitos dos outros. postura) para exprimir exatamente o contrário do que diz ou afeta. É usado mais frequentemente no superlativo: acérrima ironia. irrita. – Pungitivo é “o que tem qualidades para pungir. atraindo por isso o ódio ou o desprezo de todos. invetiva. – Móvel é “um motivo mais ponderoso. discurso. cruciante. pungente. abocanha a honra. ou de conduzir-nos deste ou daquele modo em dadas circunstâncias. à consideração. satírico. causticante. um caráter mais ou menos maligno. como ao paladar a pimenta”.. – Entre cáustico e causticante parece haver apenas a distinção marcada pela ideia de atualidade. não poupa ninguém.) “denota certa malignidade irritante. ditos e expressões picantes. áspero e desabrido”. próprio de fera”: e no sentido figurado – “o que é rude. ao intento. pungente. picar. etc. Parece também que este tem mais força que o primeiro. e pica. – Razão é “o motivo que se invoca para justificar algum ato. – Lancinante é “o que penetra causando grande dor. elogio. acre. provocador” do que só mordaz. Po- deria ainda alguém dizer – sátira mordente (e talvez não – sátira mordaz). – Picante é “o que é acre. Aquela palavra ou aquela frase saiu causticante como ferro em brasa (e não – cáustica). Um espírito cáustico emprega a ironia. Um espírito mordaz ataca tudo e todos. F. Há palavras. devida ao sufixo de atividade ante. isto é – que usa de uma palavra ou frase (ou mesmo gesto. mordaz. chufas. Diremos com mais propriedade – estilo cáustico (em vez de – causticante). um gênio acerbo. Dizemos tanto – termos irônicos. penetrar afligindo”. ou o que diz ironia. – Cáustico (segundo resume Bens. satírico. pune e instrui”. – Entre mordaz e mordente há diferença bem sensível: mordente significa mais “espicaçante. irônico. – Ferino é “o que é selvagem. isto é – capaz de pungir (mas não – pungente). – Pretexto é “uma razão falsa ou fictícia que se dá para não dar a verdadeira”. como – olhar irônico. – Motivo e móvel são os nomes que damos ao fato. 478 CÁUSTICO. terebrante. que se inclui em causticante. e algumas vezes a indignação e a veemência: é um moralista ou um juiz de mau humor. sarcástico. escarninho. que condena. – Motivo é simplesmente o que opera em nós excitando-nos. que opera tanto sobre o espírito como sobre o coração”. Dizer – “santo” a um bandido seria dizer-lhe uma palavra pungente. rasga como estilete”. ferino. e. até carinhos irônicos.

deífico. rememorar. que é como nojo pela pessoa ou coisa escarnecida”. – Terebrante. – “Fazer alguma celebra-se um aniversário com grandes festejos. 480 CELEBRAR. de indicar o modo de render homenagem a qualquer pessoa ou acontecimento. de alegria. – Celígeno quer dizer – “nascido no céu. é com danças e divertimentos que o povo festeja S. célico. Aproxima-se-lhe muito escarninho. e a fim de bem gravar no espírito a lembrança do acontecimento que se soleniza. designa. Ninguém diria – misericórdia divinal – em referência à misericórdia de Deus (e sim – misericórdia divina). – Celestial. celígeno. Antônio. recordar outra vez uma data ou acontecimento”. celestial. – Festejar (do latim festus “alegre”) é.260 Rocha Pombo cando – “o que fere sem piedade. divino e divinal. – Comemorar é “celebrar festa solene que recorde algum sucesso. época extraordinária na vida de uma nação ou uma família”. celebram-se exéquias. vindo do céu. marcada pela partícula de extensividade que figura no segundo. – Entre celeste e celestial há uma diferença. como dos grandiosos.. S. no sentido em que aqui o tomamos. (Bruns.) até o mais fundo da vida”. amargamente”. em certos casos. É com hinos de louvor e de alegria que a Igreja católica festeja um santo. doloroso em excesso. – Sarcástico é “o que envolve mais do que ironia pungentíssima: é o que revela desprezo. divinal. Dizemos: cólera celeste (cólera divina) e não – cólera celestial. O padre celebra a missa. 479 CEGAMENTE. . João. Como ninguém diria – a ternura divina daquela mãe (mas – a ternura divinal). pois este pode valer ainda como um restritivo de firmamento. conforme se vê em – corpo celeste (referindo-nos a um astro. Na maioria dos casos. acontecimento. divino. festejar. para o fazer ou deixar de fazer. – Rememorar é “repetir uma comemoração. às cegas. significando mais – divinizante – que propriamente – divino. equivalente a – “o que envolve ou manifesta escárnio. empregam-se indistintamente celeste e celestial. e não – corpo celestial)]. – Deífico é também termo poético. o único que claramente encerra a ideia de festa. do céu” [nem sempre – celeste. – Celebrar encerra duas ideias principais: a de ser grande o número de pessoas que concorrem e a do aparato da festa ou da cerimônia celebrada.). cruel e pungente em extremo”. – Entre divino e divinal há uma distinção análoga. 481 CELESTE. – Célico e celígeno são termos usados na poesia. – Cruciante vale por “aflitivo como o sacrifício da cruz. quer passado. persuade. tendo a mesma significação. celestial. – Celebrar e solenizar dizem-se tanto dos acontecimentos alegres como dos tristes. quer seja atual. que tem origem no céu”.. – Celeste significa – “próprio do céu (e também de Deus) que está ou que aparece no céu. intuito de humilhar. solenizar. – Solenizar é celebrar com pompa extraordinária. entretanto. Fazer alguma coisa cegamente é fazê-la porque se põe confiança na pessoa que manda. de ofender mostrando repugnância”. significando: o primeiro. o semblante celestial de uma menina (e não – celeste). coisa às cegas” – escreve muito bem Lac. “o que é como se fosse celeste”. que em certos casos é fundamental. é “o que punge como acúleo (como verruma. – Consideram-se aqui estes vocábulos na acepção que lhes é comum. que vem do céu”. ou aconselha que se faça”. comemo- rar. – “é fazê-la sem razão suficiente. dos três primeiros verbos deste grupo. Pedro e S.

passou depois a ser nome apelativo. da palavra grega kenotaphion (de kenos “vazio”. 6). sarcófago. por exemplo – sepultura rasa. “carne”. e não – solteiros. que é apenas o espaço que se abre na terra para guardar o cadáver. enquanto que celibatário encerra frequentemente a ideia de não poder ou não querer contrair matrimônio. que em sentido reto significava “montículo”. . carneiro. solteiro. que designava uma espécie de pedra calcária que consumia as carnes. O carneiro pode ser levantado do solo. porém. – Sepultura é. e taphos “sepulcro”). catacumbas. esconder”: designam. e phagein “comer”] é adjetivo substantivado concordando com lithos “pedra”. túmulo. de não sujeição aos laços da união conjugal (Bruns. tem no português a mesma significação de monumento sepulcral. – Sarcófago. Mais tarde. De um ancião se diz que é celibatário quando se quer designar o seu estado social. recipit (4. Sepulcro é mais nobre. – Hipogeu só será usado hoje em linguagem poética: designa. O próprio animal pode ter sepultura (não – sepulcro). – Monumento (ou moimento. sepulcra regum sic vocant.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 482 CELIBATÁRIO. e por extensão – o sepulcro feito desta pedra. – Jazigo é “o pequeno edifício. Nenhuma das duas têm saliência. hipogeu. supõe alguma coisa mais que simples sepultura. o lugar onde se sepultam os mortos. – Cenotáfio. indica essa ideia sem nenhuma outra acessória. que entre os latinos também tinha. fizemos nós túmulo. monumento. 483 CENOTÁFIO. campa. e não – sepulcro raso.). a não ser no último exemplo deste artigo. e na maior parte dos casos podem ser empregados indistintamente. (Eleg. – Carneiro é o lugar subterrâneo. que é forma antiquada) é “toda construção grandiosa levantada à memória de um morto. guarnecido de muros. mauso- léu. designando os sepulcros grandiosos dos reis. e a que os nossos antigos chamavam moimento. Dizemos. onde se depositam os cadáveres ou os ossos dos membros de uma família”. mas – sepulcro levantado da terra. ou qualquer construção acima do solo. cova. – Mausoléu (do latim mausoleum) foi primitivamente nome próprio.: “Designam estes vocábulos o monumento elevado à memória de algum defunto ilustre. igualmente do grego sarkophágos [de sarx (genit sarkós). erigido à memória de defunto enterrado em outro lugar. sepultura. – Concordam es- 261 tes vocábulos em designar a pessoa que não casou. jazigo. É um mausoléu menos sumptuoso. Dos sacerdotes católicos dizemos que são celibatários. mas cada um deles recorda particular circunstância pela qual se diferençam”. e em geral – sepulcro em que o cadáver se consumiu. estendeu-se a todo sepulcro magnífico e sumptuoso. – Solteiro. e solteiro – às vezes até solteirão – quando queremos pôr em relevo o seu estado de independência. – Das quatro primeiras palavras deste grupo escreve Roq. e numa necrópole. sepulcro. ordinariamente em forma de templo. pois. Da palavra latina tumulus (a tumore terrœ). contenha-lhe ou não os restos”. portanto. quase o mesmo que cova: apenas a cova é uma sepultura ainda mais tosca e mais ligeira. É este o nome que mais comumente se dá aos depósitos de cadáveres que não são propriamente simples sepulturas. só com a significação figurada de sepulcro. que designava o magnífico e sumptuoso monumento sepulcral que a rainha Artemísia mandou erigir a seu marido Mausolo. como se vê em Ferreira: “Mausoléus aos mortos não dão vida”. como se vê da seguinte passagem de Floro: In mausoleum se (Cleópatra). onde se depositam cadáveres. – Sepulcro e sepultura (do mesmo latim sepelire) sugerem a ideia de “ocultar. como diz a etimologia. 11).

podem talvez ter por objeto a correção e o desengano. e. ponderação. observação. adotando os meios de reformá-los. dos costumes públicos. e pela utilidade das verdades que defendem ou anunciam. com o que o cargo de censor vem a ser o de uma espécie de magistrado na república literária. que são inseparáveis de tudo que é humano. Não há coisa mais fácil que agradar ao público com uma sátira. pondo de parte o que pode merecer elogio. – A sátira é um juízo. a censura supõe a crítica. repreensão. sem se importar com o estilo. nem sempre. – Campa é. Não há coisa mais difícil que fazer uma boa crítica. como a sátira. sendo que a censura leva consigo a repreensão. – Catacumbas eram as vastas construções subterrâneas destinadas a guardar cadáveres. porque é o juízo fundado que se faz das obras. para que se emende ou evite. distinguir’) e significava a arte de julgar as obras de engenho. 484 CENSURA. julgá-las literariamente. raramente imparcial. castigando aos que os pervertiam com seu desordenado procedimento. faz ver o erro como tal. magistrados da primeira plana. Assim que a crítica. dá-se ainda hoje o nome de catacumba ao grande túmulo comum. aos bons costumes. cuidar da polícia. e notar-lhes os defeitos. pois não se pode julgar de uma obra sem notar defeitos maiores ou menores. são defeituosíssimas aos olhos da crítica. . veio a ficar reduzido à censura dos costumes públicos. a sátira. sátira. se ridiculizam os defeitos. e esta é uma das circunstâncias que a diferençam daquela – a censu- ra – cuja significação. que era entre os romanos a declaração autêntica que os cidadãos faziam de seus nomes. admoestação. impureza da linguagem. exprobração. cova. comentário. Tem muita relação com a censura. à verdade. no uso comum. subterrâneo. como vimos. Este nome. julgamento e correção dos livros. confusão e obscuridade do estilo.262 Rocha Pombo como insinua a própria etimologia. reproche. porque a crítica. residência. como era o dos antigos na política. rara vez imparcial. pois muitas pessoas pouco instruídas e muito audazes atrevem-se a censurar sem serem capazes de fazer a devida crítica. assim como pode acontecer que a crítica literária nada tenha a dizer onde a censura moral muito tenha que repreender e condenar. “a lápide que cobre o sepulcro ou mesmo a sepultura rasa”: toma-se frequentemente pela própria sepultura. mas que pela má disposição das matérias. recriminação. A crítica supõe a censura.: “Censura vem da palavra latina census ‘censo’. sobretudo. ante os censores ou censitores. no entanto. mais moderada. como coisa a mais conducente para a boa moral pública. Distinguem-se também em que o objeto da crítica não é precisamente o de censurar. família e bens. para que se despreze. são irrepreensíveis aos olhos da censura. à razão. em especial. e sempre violenta. representa o ridículo. a correção e o castigo do que aparece contrário à lei. propriamente. Aprova a censura o que muitas vezes condena a crítica. arguição. segundo as regras da arte e do bom gosto. repreender e corrigir as obras. é mais extensa. senão o de examiná-las. nem com o desempenho das regras de bem escrever. – Crítica é palavra grega kritiké (de krino ‘julgar. diz Roq. crítica. Muitas obras há que pela solidez dos princípios. – Das três primeiras do grupo. mas sempre com fundamento e equidade. advertência. remoque. porém os meios de que se valem são muito diferentes. cujos mui importantes cargos eram guardar o padrão ou registro do povo. repartir as quotas dos impostos. reprimenda. dar a conhecer suas belezas. e. em que. aprovando-os ou desaprovando-os. ao exame. Por extensão. objurgatória (objurgação).

para que o admoestado não reincida nela”. Signi- fica – “ato de lançar em rosto a alguém a falta cometida. – Advertência é “o ato de chamar atenção para o mal que se fez. ou melhor – a ação de objurgar. não precisamente postas em prática. ilustrada de exemplos e largas considerações. a maneira de executá-lo são as cerimônias”. do que propriamente advertindo”. – Reproche é palavra francesa de que muito se abusa. prescreve as cerimônias com que se devem celebrar os ofícios divinos. essa diferença: o que . ou em termos mais ou menos ásperos”. com o intuito de envergonhá-lo”. Dizemos. E. – Recriminação é “a censura mais forte. – Objurgatória é “a repreensão áspera. ou vícios de alguém”. por isso se diz – o rito romano. como cometeu tal erro ou falta”. ou de acusar desabridamente”. A admoestação é sempre feita em termos brandos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 263 Aquela instrui mais que recreia. a censura ou acusação desabrida que se lança à face de alguém. – Comentário é “o exame ou mesmo a crítica. Uma sátira ligeira pode fazer esquecer o mérito mais sólido”. 485 CERIMÔNIA. – Objurgação é “o ato. ou em termos menos positivos. liturgia é também “o modo como se regula a execução das cerimônias de um culto público”. mostrando-lhe. a acusação mais grave e violenta com que se rebate a outra censura ou acusação”. que F. esta recreia mais que instrui. Uma crítica necessita ser mui bem fundada para corrigir. – Repreensão “é o ato de condenar o erro ou a falta cometida: o que é sempre feito com certa acrimônia. rito. é católico do rito grego. por exemplo: “Vamos celebrar o ato com todo o rigor do ritual” – não seria admissível a palavra rito. e autorizadas pelo Sumo Pontífice. senão compiladas por escrito para sua execução. sobre a conduta de alguém”. Não dizemos – o rito romano – senão quando queremos diferençar as cerimônias do culto católico romano das de outro culto também católico mas não romano. mais como invetivando-o do que simplesmente fazendo-lhe acusações e censuras”. pois. – Ponderação será “uma advertência ou observação mais disfarçada. – Remoque é “dito ou frase picante que mal dissimula a intenção de repreender. – Se- gundo Roq. – Arguição é “o ato de acusar alguém de falta ou erro. ou defeitos e vícios. Daqui vem que a eficácia da sátira é maior e sem efeitos mais perigosos. – Ritual e rito confundem-se aqui. – Admoestação é “o ato de fazer sentir o erro ou falta cometida. o rito grego. e não – católico da liturgia grega. – Observação é “o ato de advertir fazendo considerações sobre a falta cometida ou sobre o dever que se deixou de cumprir”. sobre a coisa a respeito da qual se pondera. ou faltas. estão prescritas por quem tinha autoridade para estabelecer o rito. – Entre liturgia e rito há diferenças essenciais. Mas nesta frase. e mais reflexionando. O ritual romano. entre nós. ritual. Rito exprime mais que cerimônia. É evidente que aplicamos rito quando queremos assinalar diferenças de liturgia ou de cerimônias entre cultos da mesma religião. de superior a inferior”. ou para estabelecer uma opinião. As cerimônias são o modo por que o rito se executa. ou pelo patriarca de alguma seita. por exemplo. ou para a falta em que se caiu mais por descuido que por desídia”. no entanto. com razões e argumentos. o conjunto de cerimônias que. de criticar malevolamente”. – Ritual é. – Exprobração enuncia a ideia de “lançar em rosto as culpas. Quando se diz – ritual romano – já não se marca tão bem. – Reprimenda = “admoestação formal e severa. ou com tanta evidência. – “o rito é a reunião de todas as cerimônias de um culto religioso. para os diferentes atos de um culto. liturgia.

enganar”. fagulha. é essa matéria acesa. que se eleva e ondeia em línguas de fogo. chispa. porque a palavra chama se tornou vulgar. e centelha dá ideia da luz produzida pela fagulha (e é como se se dissesse – partícula de chama). – Labareda designa grande chama. como pode atrair. ou para algures. o resultado do fogo: é o fogo aplicado à matéria combustível (e a esta circunscrito – como diz muito bem Bruns. é “tudo que serve para engodar alguém”. que faz convergir”. mas não se dirá – o lume da mocidade. queima e abrasa. e comunicam o calor e ardor da paixão. reclamo. – Fogueira é. o reclamo é o que desperta a atenção para o chamariz”. – Isca é “tudo que se prende ao anzol para atrair e enganar o peixe”. uma porção de crianças. planura.264 Rocha Pombo parece que aproxima este termo ritual mais de liturgia que mesmo de rito. Todavia. enquanto que planície é “toda extensão de terras chãs e baixas. Dizemos – o fogo da mocidade. de situação aprazível. ou a certa altura delas”. – Chapada é “extensão de terras mais ou menos planas no alto de montanhas. e grande labareda ou brasido”. 486 CHAMA. do que – o lume dos olhos. designando “tudo que atrai. é “o nome que se dá ao pássaro que se deixa na gaiola de alçapão para chamar os outros”. um cardume de peixes etc. e figuradamente. porém é palavra preferível para o estilo culto. – Faísca. – Atrativo é termo genérico. o engodo é a astúcia que o engana. Só de reclamo é que se não poderia fazer. para um ponto. pelo menos nem sempre. “a parte mais luminosa do fogo. num sentido mais extenso. seduzir. – Incêndio é “grande fogo ou fogueira que se alastra e devora”. chispa e centelha designam todas “pequenas porções de fogo ou de matéria inflamada que se desprendem de fogo maior”. de que chama é a forma popular). esplanada. centelha. 487 CHAMARIZ. fogo. negaça. fagulha. – Chama é. isto é – não no alto nem na encosta de montanhas”. labareda. e num sentido geral. – Dos três primeiros vocábulos deste grupo diz Bruns. No uso vulgar confundem-se estas palavras. como o lume. pois que. mas. – Chispa planície. fogueira. De engodo quase que se pode dizer outro tanto. engodo. e fogo. mais que o uso indicado. o que causa calor. isca. deve notar-se com cuidado a diferença que há entre uma e outra. por assim dizer. ou – o fogo dos olhos. que chama atenção.: – “O chamariz é o que atrai o público a alguma parte. 488 CHAPADA. segundo Lacerda. é mais correto dizer – o fogo. ou vasta planície . um bando de aves. no sentido translato. lume. Dizemos – o lume da razão. ou queimam. Isso. – Lume exprime propriamente o que dá luz e claridade. – Flama tem a mesma significação (é a forma erudita do latim flamma. atrativo.). o chamariz tanto atrai o público a alguma parte. planalto. como o fogo. uma récula de garotos. e que se levanta em forma piramidal acima do corpo que arde. flama. mas é porque nos olhos há estas duas propriedades. – Negaça. É certo que se diz – o lume. mas não se pode dizer – o fogo da razão. em ala. tomadas essas palavras em sentido restrito. Dizemos – liturgia católica (e não – rito católico – salvo se quisermos distinguir entre rito católico e rito protestante). ou cintilam e dão luz. pois. é “o que serve para provocar. – Planalto é “grande planura elevada. in- dá ideia da rapidez com que a partícula ardente se desprende. faísca. entende-se. cêndio. particularmente. – Planura é quase o mesmo que planície: apenas sugere ideia de beleza de panoramas.

diz-se que há inundação. e designam duas coisas que se não devem confundir. pois ordinariamente é o imbecil que procura ser engraçado: o mesmo não se pode dizer – é até justo que o contrário se diga do gracioso. nos gestos. de depósitos de água. subtil e galante. ou o que emprega chiste ou graça leve. moço engraçado. enchente. – De 490 CHISTOSO. Às grandes cheias do Tejo deveria chamar-se inundações. chama-se a isto com propriedade cheia. mais brincando ruidosamente que falando. Tanto se diz – pessoa chistosa. e transbordam nalguns sítios que alagam. e sem necessidade. engraçado. em que pode ser tomada. – Faceto é “o que encerra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 265 muito alta. os fatos. Diz-se – inundação de bárbaros. espírito folgazão. dilúvio. – Gracioso é “o que mostra mais graça nos modos. estendem suas águas pelas veigas. etc. ou nos ditos”. por exemplo: “Não se faça engraçado”. Quando as águas alteiam nos rios. folgazão. Há rios que enchem e vazam em época certa. pois. pelos contos ou façanhas imaginárias que inventa e que inculca. Todos estes vocábulos se aplicam tanto às pessoas como às coisas. O engraçado pode não ter graça nenhuma. inundação. modos chistosos. Usa-se. o que provoca riso por meio de gracejos”. trocista. 489 CHEIA. por isso. como inundação. É também o contrário de vazante. este é gentil fazendo graças. – Dilúvio é “grande inundação. moço pilhérico. pois graciosas só podem ser as pessoas de apurada cheia e inundação diz Roq. – Pilhérico é “o que faz rir pelas pilhérias. Nesta frase. além da natural. como estilo faceto. do que mesmo nas palavras. nem sempre a enchente é cheia. porque muito se parecem com as do Nilo. no entanto. – Enchente diz no sentido próprio – abundância. inundação pode dizer-se também do mar. que se eleva gradualmente”. frase pilhérica. e por extensão – toda superfície de terreno plano que não chega a ser planura. e inundam os campos e prados vizinhos. espirituoso. Hoje usa-se muito. no sentido translato: dilúvio de gente. também. que quer parecer espirituoso. não. antes de tudo. dilúvio de alegrias. e esta. pilhérico. – Entre engraçado e gracioso há grande diferença: este último é o que tem graça fina e delicada de si mesmo. e diverte os outros. Distingue-se ainda cheia de inundação em que aquela só se diz de rios ou ribeiras. e. – Chistoso dizemos do “que nos distrai e faz rir com ditos picantes mas sem malignidade”. gracioso. e então quando a respeito desses se diz – enchente – não se quer dizer – cheia. isto é. e esta. Dizemos tanto – criatura faceta. . isto é. – Engraçado é simplesmente “o que tem graça. Moço folgazão. são eles contudo distintos quanto à etimologia. dilúvio de misérias. – Esplanada é “uma arca muito plana em volta ou à frente de algum edifício”. que parece alagar todo um continente”. – Espirituoso é “o que tem espírito quando conversa (ou quando escreve). não conhecem limites. do francês plateau. Quando os rios saem da madre. na gentileza da figura. aquele é o que mostra certa graça. a figurada de – multidão excessiva. crescimento. ou – “não faça de engraçado” – não caberia certamente o vocábulo gracioso. fase em que alguma coisa se avoluma: daí a acepção particular de – cheia. o emprego de enchente por cheia. e até gestos. O moço engraçado pode fazer-se ridículo: o gracioso.: “Posto que no uso comum da língua se confundam estes dois vocábulos. o que sabe dar uma nota fina e original sobre as coisas. conto faceto. dito engraçado. – Folgazão é o que se diverte. É muito comum. com mais ou menos espírito”. faceto. os homens”. e também: gênio. como – palavras chistosas. e não se pode dizer – cheia de bárbaros”. Cheia tem só a significação reta.

nem o indivíduo que fala da vida alheia: designa mais propriamente o sujeito que mais fanfarreia do que fala. 491 CHOCALHEIRO (chocarreiro). incubar. que significa “embrulhada. e empregamo-la para designar “o sujeito que fala muito embrulhando tudo”. que divulga quanta coisa lhe disseram. – O linguareiro é o que diz tudo que sabe.. Deve dizer-se – incubadora artificial. – Gárrulo é “o que fala como se falasse sem pensar. para rir à custa destes”. estardalhaço como um chocalho. que é termo bem diferente. garabulho. Garabulho (ou garabulha) é palavra importada do italiano garbuglio. linguarei- ro (linguarudo). brincadeiras com os outros. não – chocadeira artificial. presumindo de tudo entender e falar muito bem”. por ter o vício de não guardar nenhum segredo. parlador. É termo popular (o mesmo que pronóstico. chalaças grosseiras e próprias de gente baixa. e formado de prognóstico). mas também à causa dessa transformação. ares trocistas. ou falar maldizendo. isto é. – Sobre estes dois verbos escreve Bruns.. que é mais parlapatão do que linguareiro e do que linguarudo. 492 CHOCAR. Naquela acepção. e indispõe porque irrita. confusão. desordem”. parlante. e que é o calor que ao ovo comunica a ave que sobre ele se mantém. que fala muito. – Chocalheiro é “o que fala muito e indiscretamente. e finamente galantes. – Pernóstico é “o sujeito pretensioso no falar. – Trocista é “o sujeito que faz pilhérias. gárrulo. O chocalheiro é leviano e indispõe porque importuna: o chocarreiro é petulante. Falando das doenças que se desenvolvem pouco a pouco antes de se declararem abertamente. isto é. – Com o linguarudo pode confundir-se falador. fazendo barulho. falador. pois este vocábulo não se emprega hoje para designar simplesmente o indivíduo que fala muito. pernóstico. não guarda reserva em coisa alguma. mas há de sugerir sempre a ideia de que pelo menos é pouco substancioso o que diz o parlante.: “Ainda que estes verbos sejam sinônimos perfeitos36. significando indivíduo que simplesmente fala muito. – Parlador já não é também o indivíduo que só fala muito. pois só se diz chocarreiro daquele que diz chocarrices. Também se diz – gênio trocista. falante. como se vê do próprio artigo transcrito. e sempre sobre coisas fúteis. emprega-se a forma falante que não encerra de modo algum a ideia de falar por maldade. é – como se diz em linguagem popular – o que “dá de língua” a propósito de tudo. Confunde-se mui comumente chocalheiro com chocarreiro. Mas o linguareiro não tem malícia propriamente: fala por ser leviano. com muitos gestos e acionados. e torna-se importuno falando a torto e a direito”. por ser amigo de dizer novidades. e mesmo pela discrição dos gracejos. que nos agradam até pelos gestos. graçolas. designando tanto um como o outro uma mesma operação.266 Rocha Pombo educação.” 36 Ou melhor – quase perfeitos. O linguarudo fala mais ainda porque tem o vício de intrigar e maldizer que pelo desejo de falar. muito amáveis. . mas sim – “o indivíduo que fala da vida alheia”. sem atender à causa. – Parlante dirá um pouco menos que parlador. e agitando-se. devemos empregar exclusivamente o verbo incubar. como fazem os passarinhos e as crianças”. deve notar-se que chocar é não só relativo à transformação que se vai operando no ovo. – Incubar refere-se apenas à operação ou transformação. Não assim o linguarudo. movendo-se. que é mais falador que linguareiro.. graçolas. pelo ar simpático.. como às vezes se ouve.

495 CHORAR. – O verbo 267 chocar sugere a ideia. ofender. 494 CHOQUE. dá-se entre as máquinas um choque mais ou menos violento. que o prejudique moralmente. ou um deles recuando ao encontrar-se com o outro. nem mesmo de encontro. – “Ao derramar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 493 CHOCAR. encontro. conflito. mer. vêm embater contra a costa. carpir. caminhando uma para outra. – Ofender é aqui tomado na acepção especial de “fazer a alguém coisa que o moleste. como as que por alguma circunstância se destilam das glândulas lacrimais. não se entende que sejam ideias apenas contrárias ou opostas. melindrar. na palavra choque apenas a de encontro (que não é senão o fato ou o ato de chegar uma coisa diante de outra)37. elevam-se a grande altura. Chora-se de alegria não menos que de tristeza. ou mesmo um ato que se ponha em contraste com os sentimentos da pessoa a quem nos dirigimos. Pode haver encontro sem haver choque. dizemos que tiveram choque.) – Conflito é mais embate. – São os dois primeiros vocábulos deste grupo os substantivos com que se designa o encontro mais ou menos violento de dois corpos que se embatem. mas não de terríveis efeitos. mas ideias que se embatem. desfazem-se em espuma. que é excessiva a suscetibilidade de quem se julga melindrado. – Lamentar é queixar-se com pranto e mostras de dor. que lhe é característica. lamentar. De duas pessoas que caminhem apressadamente e que esbarrem uma com a outra ao dobrar de uma esquina. do latim fleo. ou verter lágrimas chama-se chorar” – diz Roq. do abalo que pode causar uma frase nossa. pois não só indica as lágrimas que provêm de dor e aflição. As ondas alterosas. Choram também as videiras e os ramos quando se cortam. da “impressão rude que produz uma ofensa. – Melindrar é “ofender os melindres de alguém. e 37 Por isso mesmo é que é preciso admitir que choque não é simplesmente encontro. porque neste derramam-se lágrimas com lamentos e soluços. O pranto é mais forte e intenso que o choro. – Quando às lágrimas se juntam vozes queixosas. Ideias em conflito. os ácidos. Jeremias lamentou poeticamente . luta propriamente do que simples encontro. pranteia-se. prantear. e também exprime canto lúgubre em que se chora alguma grande calamidade. ou em geral – coisa de que essa pessoa se ressinta”. Aquele que melindra nem sempre ofende propriamente. por exemplo. etc. soluçar. O navio que embate (ou bate) contra um rochedo abre-se e afunda: o mal não seria tão grande se tivesse havido somente choque. ou mesmo recuando ambos depois de se encontrarem. que o vento impele. O fumo. – Contraste é a oposição que existe entre duas coisas: não inclui ideia de choque. Duas locomotivas lançadas a todo vapor em uma mesma via. – do castelhano llorar. ou diante da qual falamos ou agimos”. como se diz no artigo. quer dizer o que esse alguém possui de mais delicado e sensível na sua natureza moral”. O embate é violento. ge- contraste. fazem chorar os olhos. se. o choque pode ser ou não violento. ou mesmo do que choque. Na palavra embate predomina a ideia de violência e de impetuosidade. (Segundo Bruns. É termo genérico. senão de simples oposição. que o magoe. pois esta palavra dá ideia do abalo que o encontro produz. na maioria dos casos. um levando o outro de impelida. nem de luta. têm um embate terrível. com lamentos – e talvez soluços. ao avistar-se. se caminhavam devagar não terão mais que encontro. fazem contravapor os respetivos maquinistas. lagrimar. embate. pois que melindrar supõe.

fazendo mostras de dor e aflição. a mais poética. X. nem – chora. e para exprimir esta ação de profunda dor. praça. É condição da cidadela. É com este sentido que empregou Dante o seu lagrimare num daqueles versos que pôs na boca de Ugolino: Ma se le mie parole esser. Na fortaleza há sempre guarnição fixa. exprimir aflição. Os semeados campos alagaram Com lagrimas correndo piedosas. – cidadela é a fortaleza que domina a cidade dentro da qual ela está edificada. na ocasião de luto. Thomé. fortaleza. na acepção em que é preciso tomá-lo neste grupo. cas- telo. Che frutti infamia al traditor. de que o nosso poeta fez mui frequente uso. – Costumavam os antigos arrancar. 118) – Gemer é “dar sinal de grande dor. den seme. – Lagrimar é “verter lágrimas”. Os grandes prantos são sempre acompanhados de gemidos. Havia antigamente mulheres a quem se pagava para carpir-se sobre defuntos. mas. Parlare e lagrimar’ vedrai insieme. Por isso dizemos figuradamente que – o mar soluça e não – pranteia. O forte pequeno é um fortim. ou pelo menos desgrenhar os cabelos. e carpir-se. III. é de uma força e intensidade que o tornam indispensável na língua. para significar “verter lágrimas como por efeito de imensa dor. Mais te choram as almas que vestindo Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. como a que é mediana. cidade fortificada. XXXIII. João I. Do uso de carpir-se sobre os defuntos se faz menção na Crônica de d. (Lus. 84) As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram. não só o estar dentro do recinto da povoação. é o verbo chorar. pois há como que aflição monstruosa no embate das ondas contra a praia. De todas estas palavras. e desfigurar as faces. pois. como estão dizendo os seguintes lugares: Os altos promontorios o choraram. (Ibid. como se a alma abalada clamasse em desespero para fora”. podendo forte designar indiferentemente a que é grande. mas fortaleza nunca se deve dizer de uma fortificação pequena. – Segundo Bruns. e a que se chamava carpideiras. 496 CIDADELA. Julgam muitos que não passe este verbo de simples variante de la- grimejar (ou lacrimejar). E dos rios as aguas saudosas. 3) Ora. mas também oferecer grandes meios de defesa. Refere-se. (Ib. ch’io [rodo. veio a significar quase o mesmo que lamentar. 135) Choraram-te. este vocábulo especialmente às ações que demonstram dor e mágoa. os seus habitantes podem continuar a defender-se na cidadela. por extensão. E por memoria eterna. em fonte pura As lagrimas choradas transformaram. e acompanhar os enterros. – Castelo designa a . III. traduzir este lagrimare pelo nosso chorar não seria menos do que diminuir deploravelmente aquela grande figura. usavam do verbo carpir. (Inf. – Soluçar é “prantear e gemer com aflição. por meio de voz inarticulada e lamentosa”. gemendo e pranteando”. o Gange e o Indo. e que em lugar das outras muitas vezes se emprega. Se o inimigo se apoderar da cidade. – Fortaleza é a construção que se eleva em qualquer ponto para defender uma cidade ou um passo. Chorou-te toda a terra que pisaste. e a esta espécie de poema elegíaco se deu com razão o nome de lamentações.268 Rocha Pombo as desgraças da ingrata Jerusalém. o qual. forte (fortim). – Forte e fortaleza confundem-se muito frequentemente.

a enganar a quantos pode. – Ambulante não encerra ideia alguma depreciativa: é apenas “o indivíduo que anda de lugar em lugar. no entanto. – Boêmio é propriamente o nome que os franceses dão ao cigano.). significa também – “número ou quantidade que resume outras quantidades”. além de sinônimo de zero. E. que é mister não confundir. – Diz Bruns.. e sim – “noves fora – nada”. é o nome que se dá ainda mais vulgarmente ao zero. mas tem hoje nas rodas cultas um sentido muito particular.. provocador. vagabundo. e não – abaixo de cifra. Isso quer dizer que zero. que só sugere os vícios característicos daquela gente vagabunda. desordeiro. – Nada aqui. melhor do que cifra. – Zíngaro (ou zingano) é quase o mesmo que cigano. – Valdevino (ou valdevinos) é “o sujeito desocupado. fra e zero são sinônimos perfeitos. – Praça é a povoação fortificada em que há guarnição permanente. – Cigano (de zíngaro. ou zingano) é “o indivíduo que vive errante. 497 CIFRA. mas designa apenas a raça ou povo que vagueia por muitos países da Europa. Dizemos: – a ambulante. contra os quais deblatera ferozmente”. zíngaro. zero. o forte da Graça é uma fortaleza”. que ci- receita atingiu ou excedeu a enorme cifra de tanto (e não – ao enorme zero. As fortalezas diferençam-se das cidades fortificadas. que não se fixa.: “são termos da arte militar. O exemplo é este: dizemos – tantos graus abaixo de zero. além da guarnição. – Nômade é “o designativo de povo ou de tribo que vive mudando continuamente de terra”. a vender bugigangas. é preciso admitir alguma