Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva

E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Academ i a Bras i l ei r a de Letra s

Dicionário de Sinônimos da L í n g ua Po rt u g u e s a

Ac a d e m i a B r a s i l e i r a d e L et r a s

Rocha Pombo

Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva
E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa
2.a Edição

Rio de Janeiro 2011

C O L E Ç Ã O A N T Ô N I O D E M O R A I S S I LV A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS Diretoria de 2011 Presidente: Marcos Vinicios Vilaça Secretária-Geral: Ana Maria Machado Primeiro-Secretário: Domício Proença Filho Segundo-Secretário: Murilo Melo Filho Tesoureiro: Geraldo Holanda Cavalcanti C O M I S S Ã O D E L E X I C O G R A F I A DA A B L Eduardo Portella Evanildo Bechara Alfredo Bosi Preparação Ana Laura Mello Berner Revisão Vania Maria da Cunha Martins Santos Denise Teixeira Viana Paulo Teixeira Pinto Filho João Luiz Lisboa Pacheco Sandra Pássaro Produção editorial Monique Mendes Editoração eletrônica Estúdio Castellani Projeto gráfico Victor Burton

Catalogação na fonte: Biblioteca da Academia Brasileira de Letras P784 Pombo, Rocha, 1857-1933. Dicionário de sinônimos da língua portuguesa / Rocha Pombo ; [apresentação, Evanildo Bechara]. – 2. ed. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2011. 526 p. ; 23 cm. – (Coleção Antônio de Morais Silva ; v. 10) ISBN 978-85-7440-184-3 1. Língua portuguesa. I. Bechara, Evanildo, 1928-. II. Título. III. Série. CDD 469

Apresentação
E va ni l d o Becha r a

A

trajetória cultural de Rocha Pombo é o fiel espelho de um permanente bravo lutador que, vencendo as precariedades do torrão natal, galga honroso lugar no quadro dos intelectuais brasileiros. De nome completo José Francisco da Rocha Pombo, nasceu o autor deste Dicionário de Sinônimos em Morretes, na província do Paraná, em 4 de dezembro de 1857, com evidentes dotes literários, que cedo se manifestaram; mas foi para a carreira política que encaminhou seus primeiros passos, alcançando, aos vintes anos, lugar de destaque na Assembleia Provincial. Entretanto, se viu impotente para inverter suas posições diante das poderosas tramas parlamentares de uma política quase sempre afastada do interesse público. Salvou-o a alegria de ver publicado nesse mesmo ano seu primeiro estudo sobre instrução pública, na revista fluminense A escola, com transcrição na Revista del Plata, de Buenos Aires. Encontrara na atividade cultural o campo em que se iria destacar, mas um campo que pouco lhe dava para garantir com dignidade seu sustento e da sua família. Os obstáculos não o tiraram da trilha iniciada; em Curitiba, viu em 1888 publicado seu romance A honra do barão; em 1882, Dadá, a boa filha e, em 1888, Petrucelo. Também não lhe faltava o estro para o poemeto Guaíra, saído em 1886. Desiludido com os parcos recursos que seu torrão natal lhe oferecia, deixou Curitiba em 1897, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde poderia ter mais recompensada sua maturidade intelectual. Realmente na Capital, apesar de não diminuídas suas horas de trabalho intenso, encontrou ambiente mais propício às produções que vieram inúmeras. Os livros didáticos na área da História representam sua maior atividade, como Nossa Pátria, para crianças, que chegou a alcançar mais de sessenta edições. Sua História do Brasil, em dez volumes, acabada em 1917, consumiu-lhe doze anos de trabalho. As muitas horas de trabalho não lhe permitiam, para a confecção de seus estudos, a pesquisa atenta, a consulta aos arquivos para a composição das obras históricas. Mas o zelo e a honestidade profissional o faziam abastecer-se nas fontes mais autorizadas, e delas extrair o material que aproveitava. Um trabalhador operoso na mesma área de historiografia, Ro-

VIII

Rocha Pombo

dolfo Garcia, que, em 1935, sucedeu a Rocha Pombo na Cadeira 39 da ABL, assim a ele se referiu, no discurso de posse: “Rocha Pombo fez o que foi possível fazer (...). Entretanto, não há como desconhecer o extraordinário mérito da obra de Rocha Pombo, sua utilidade provada, os serviços prestados aos estudantes, que o estimam sobre todas as congêneres.” Seus pendores literários desde cedo aflorados nas tentativas de ficção acima lembrados, iriam estimulá-lo a compor uma obra sobre língua portuguesa. Autor de compêndios didáticos, cedo deve ter chegado à conclusão de que à bibliografia escolar, bem como ao escritor novel, faltava um bom, desenvolvido e atualizado dicionário de sinônimos, uma vez que, à época, o mercado só contava com produções portuguesas mais antigas, todas datadas do século XIX. Armou-se dessas fontes, algumas vezes transcrevendo-as literalmente, e das mais importantes francesas e espanholas no assunto, e partiu para elaboração deste seu, preocupando-se com mais extensão dos verbetes, e mostrando, quase sempre com muita propriedade, as diferentes franjas semânticas das palavras que integram a série sinonímica, evidenciando que não são, por isso, intercambiáveis. Saído em 1914 pela prestimosa Francisco Alves, vem agora esta 2.a edição editada pela sua Academia, para a qual fora eleito em março de 1933, embora nela não tivesse tomado posse por motivo de seu repentino falecimento, em junho do mesmo ano. Passado quase um século do aparecimento deste Dicionário de Sinônimos, de Rocha Pombo, pode ainda embrear-se com os melhores saídos em nossos dias.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa

ADVERTÊNCIA

Autorizo os Srs. Francisco Alves & Cia., cedendo à condição que me impuseram, a adotar na impressão deste trabalho a grafia que lhes convier. Rio, 1914
ROCHA POMBO

com os verbos “ir”. “levar”.. No primeiro caso. São raras as relações lógicas que se não possam marcar pela preposição a: “andamos a cavalo”. “matamos a tiro”. como acrescenta Roquete. “Ir para algures”.. estava eu à vista da mesa servida. encontrou-me ele pela manhã. “ação. no entanto. ou “vir a alguma parte” “indica a ideia de pouca demora”. Entende Lacerda que “ainda os mais corretos escritores usam indistintamente das preposições a e para” quando querem exprimir relação de locativo. “trouxe uma flor para a menina”. “lançou à terra”. as nossas notas às duas acepções em que parece melhor fixado o valor da preposição a comparativamente com os seus sinônimos. para que sejamos cidadãos dignos. e alguns outros que designam movimento. “dirigir-se”. está ela hoje. quase inteiramente despojada do seu valor de origem. “Foi para Viena como secretário de embaixada”. Essa diferença fica bem clara nestas frases: “dei um livro a meu filho”. etc. e – “virei para o Rio em junho”. segundo observa Lafaye. nesta acepção. no segundo caso. Há entre “convidar para” e . Não nos parece que seja assim. no tempo das caçadas ia para Salvaterra ou Vila Viçosa: e quando os franceses vieram a Portugal. Exemplos: “Ele se esforça por instruir-nos. O próprio Roquete escreve: “serve (ou servem) a formar”. de. ou “pronto para ouvi-lo”. A e para. no entender de Roq. “morre à míngua”. ou longa estada. foi para o Brazil”. Dizem muitos indiferentemente: “apto a dirigir”. – Restringiremos. portanto. “trazer”. nem sempre. “virei ao Rio em junho”. o que. o fim (ou o desejo) com que se executa a ação”. e convidou-me a jantar. ou o propósito de ir ou vir e voltar logo. A distinção entre as duas formas revela-se muito clara nestas frases: “convidou-me a jantar”. por “explica mais diretamente a intenção. quando residia em Queluz. imediata”. ou “o objeto imediato da ação”. ia muitas vezes a Mafra. as preposições a e para.. e “convidou-me para jantar”. e convidou-me para jantar com ele domingo. e a tal ponto que.. e nunca mais houve novas dele. “comemos a enjoar”. a fim marca intuito menos imediato e mais preciso. e às vezes para sempre”. segundo Bruns. para. além disso. “encaminhar-se”. – Estas preposições ex- primem relação de fim para que. “Ir a”. em vez de “para formar”. e emprega-se “quando se supõe somente possibilidade ou probabilidade de lograr o que se intenta”. E ainda este de Vieira: “Porque o pai fez uma viagem para as conquistas. assinalam: para. e – “vou para Lisboa”. a fim. João VI. como a prep. e há entre elas uma diferença análoga à que se lhes nota nos casos em que marcam relação de locativo. – As duas preposições empregam-se. – Como preposições de fim para que. pois. “bateram-se à espada”. não exclui. Ninguém dirá que têm o mesmo valor estas expressões: – “Vou a Lisboa”. Este exemplo de Roquete expõe nitidamente a diferença entre as duas preposições: “ElRei d. a fim de que nos tornemos capazes de servir a pátria”. 2 A. “pronto a ouvi-lo”. ou o anfitrião ia para a mesa. marcam ainda relação de dativo. por. vinha com frequência a Lisboa. propriamente a ideia de regresso. no verão ia para o Alfeite.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 1 A. “pescamos à linha”. – Confundem-se muito frequentemente. tomaste por devoção vir os sábados à Penha de França”. Com 3 toda razão diz Aulete que a preposição a é de todas a mais vaga. “vir”. ou “apto para dirigir”. para (exprimindo relação locativa). “dá a entender intenção de grande” (ou pelo menos de alguma) “demora. “fugiram a toda pressa”. “vem a galope”. pelo menos entre aqueles que se mostram mais fiéis ao espírito da língua.

– Rampa e ladeira exprimem igualmente plano inclinado. vertente. enquanto que a rampa nem sempre é acessível. Esta última locução (que é mais geral – diz Laf. – Todas estas palavras designam situações em torno de um ponto. – Imediações são partes da cidade. como as fraldas de uma camisa. arrabaldes. Bairros são secções de uma cidade. vizinhanças e circunvizinhanças são os lugares que se seguem às imediações. adjacências.) exprime que o objeto de que se trata não tem serventia alguma. mas suge- nias. confins. do alto do monte para baixo. – Lado. contornos. etc. e vertente adita à significação de encosta a ideia de origem de rio. ou de uma povoação. de um monte. orla. falda (ou fralda) é também (na acepção em que a tomamos aqui) a parte inferior do monte: difere de aba porque acrescenta. ou de superfície dobrada. base. proximidades são pontos das cercanias. o seu alvitre de nada me serve. pois que não resolve o embaraço em que me vejo”. de um chapéu. em certos casos. rampa. e neste caso. comarcas. ou lados designam apenas as partes opostas da montanha (ou de qualquer corpo) sem ideia alguma acessória. Dizemos: “a ladeira da Glória”. com esta diferença: a ladeira (lado suave de colina ou monte) é menos áspera. Base é toda a porção do plano horizontal que o monte abrange. sopé. à ideia de extremidade e inclinação. aclive. e aclive é também essa inclinação. lados. – Distritos são secções maiores que compreendem vários bairros. – Encosta é toda a parte inclinada de um monte. – Flanco e ilharga designam também os lados do monte. com alguns verbos como “servir”. 4 ABAS. pois pode ser tão íngreme que se torne de difícil ou mesmo impossível ascensão. “O meu rebenque – diz o major – não serve para nada.. – Todas estas palavras designam “refegos. – Declive (ou declívio) é a inclinação da encosta. “valer”: “não serve de nada”. mas considerada de baixo para cima. arredores. redondeza. ilharga. ladeira. ou de um município. “a rampa do Pão de Açúcar”. e sugerem ideia de altitude. ou de um lugar. e distinguem-se principalmente pela ideia. circunvizinhanças. imediações. distritos. assim como comarcas são divisões mais extensas que distritos. e por sugerir alguma coisa de fecundidade.. subúrbios. declive. cerca- costa. a primeira nega que ele sirva no momento. o sentido de forma irregular. meu amigo. cercanias são as paragens em torno de um lugar. e o primeiro termo ainda se distingue do segundo por ser mais expressivo e mais belo. orla é mais o recorte da aba. diferençando-se a segunda da primeira pela noção acessória de contorno (e ambas dando ideia de convivência). contiguidades. mais fácil de subir. – Aba é a parte mais baixa e prolongada de um cone. para um fim que se tinha em vista presentemente. proximidades.4 Rocha Pombo “convidar a” a mesma diferença que explica Lafaye entre “prier à diner” e “prier de diner”. de “vertidura de águas pluviais”. – Arrabaldes designa a . – Há ainda em português outra preposição que deve. 3 ABA. lado. “não serve para nada”. en- rindo uma ideia de amplitude. parte pendente de alguma coisa”. inclinação. ser considerada como sinônimo da preposição para: é de. bairros. que marcam. flanco. – Sopé e orla designam a parte do monte que assenta no plano horizontal ocupado por ele: sopé é a porção do dito plano onde a montanha começa. ou da parte onde a montanha começa a destacar-se do plano sobre que assenta. de maior ou menor afastamento desse ponto. falda. e mais afastadas que as circunvizinhanças. que lhe ficam imediatamente em volta.

humilhando o vencido. dá ideia da inferioridade moral do que é domado. a império. “O homem que vê o que eu vi e abafa no peito o grito da indignação”. “não gosta de ponto algum das circunvizinhanças do Castelo”. vencer é sair vitorioso de um combate. sem grande esforço. ou para além do circuito urbano. jugular. “cortar a cabeça”). domar é submeter. “quando anoiteceu estávamos já nas proximidades da fazenda”. tudo que fica dentro dos limites do círculo visual de que se supõe centro à cidade. arredores são arrabaldes mais distantes. – Redondeza ou redondezas. domar. superar. é “matar por asfixia”. conter é moderar. debelar é reprimir à custa de guerra. ou tendo poucas habitações. subjugar pela força bruta.). “a Tijuca é um dos mais belos arrabaldes do Rio”. que se mova. dentro do seu perímetro”. é preciso que se contenha o instinto das multidões. suplantar (etimologicamente “meter debaixo dos pés”) é vencer com orgulho. as porções habitadas que se seguem às abas. – Abafa-se uma conspiração antes que venha para a rua: abafa-se o pranto para que ninguém o veja.. reprimir. “o Méier. não se pode conter as lágrimas diante de um infortúnio. sobrelevar é “pôr-se acima de”. de um transe. contiguidades e adjacências. – Por subúrbios entende-se toda parte habitada que fica sob a jurisdição da cidade. superar é vencer e ficar superior a alguém ou alguma coisa.). sobrepujar é superar depois de esforço e luta. e confins são os limites em relação aos de outro. reprime-se a custo uma explosão de raiva ou de furor. suplantar. “a epidemia alastrou-se pela redondeza do nosso acampamento. sujeitar é reduzir à obediência. sujeitar. dominar. (Fil. ou o poder de”. “tem casa nas vizinhanças da praça ou do bairro”. – “Debelaram afinal as nossas forças aquele que foi o mais grave levante dos últimos tempos”. porém. “morar em Pedrouços é morar nas abas de Lisboa” (Bruns. e mesmo tratando-se de homens. – Reprimem-se movimentos subversivos da ordem pública. sofrear é conter com prudência e cuidado.. que cresça. que vingue. ou um ponto dado. e quase sempre não povoados. “aqueles jardins e pomares já eram adjacências e quase contiguidades de Jerusalém”. sofrear. de um embaraço. sobrepujar. não deixar que apareça ou que se desenvolva. “nas vastas comarcas daquela província há distritos riquíssimos em minerais”. submeter. dominar é submeter com império. “acudiram-lhes alguns dos nossos. tome forças. conter. – Abas são “os pontos extremos de uma povoação. vencer. como senhor..). – Abafar é impedir que respire.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 5 porção de uma vila ou cidade que lhe fica fora dos muros. sobrelevar. . – Contém-se um ímpeto de cólera. ou vencer em luta. “nas cercanias de Olinda lutou-se toda a tarde”. – Diremos com propriedade: “o bairro de Botafogo”. subjugar. que opere. jugular é reprimir. debelar. subjugar é submeter a jugo. como estrangulando (do latim jugulare “degolar”. que reprimiram os inimigos”. até com força e violência. e chegou até os confins do país inimigo”. reprimir é conter com mais energia e decisão. (Herc. impedir que se manifeste. vencer com escarmento. 5 ABAFAR. sendo o segundo termo mais vago. nem luta material. pôr sob a autoridade. sufocar. contidos. o mais aprazível dos nossos subúrbios”. refrear. refrear é conter com esforço e trabalho.. sufocar é impedir de viver privando da respiração. – Contornos designa a totalidade dos arredores (de uma cidade ou de um lugar). “em todo o contorno da vila não se encontrou um morador pobre”. Elys. “nos arredores de S. submeter é “reduzir à dependência. – Sufoca-se uma rebelião no seu começo. “mudou-se mais para as imediações do centro urbano”. Cruz há algumas fazendas”.

ocultar. por meio de roupas ou cobertas”. acoitar. atabafar. que andava a superar as misérias daquele meio. reter. – Atabafar. e não só fugindo. abafam-se as chamas para que se não propaguem. expanda ou desordene alguma coisa”. – “Aquele homem dominou os outros tão completamente que ninguém mais pôde protestar”.. para atravessar a praça”. “encobre-se a falta alheia tornando-nos até certo ponto cúmplice do delinquente”. por fraqueza que se explica. como em: “abafou o processo. – Tapar – diz Bruns. agasalhar. – “Com aquele golpe certeiro conseguiu jugular a sedição”. – “é um termo genérico. com a sua habilidade e energia dominou a revolta”. com cuidado”. “. sonegar. acobertar. – Cobrir é “ocultar ou resguardar pondo alguma coisa em cima. co- comida para que não esfrie. es- brir. subtrair. – “O senhor não conseguirá suplantar-nos com todo o seu poder”. “Encobrem algumas mais. diante. – “É preciso cobrir bem o menino.. “à vista do vendaval iminente fomos abrigar-nos na enseada dos Reis”. tapar a cara com as mãos. receptar. meu filho. ou ainda “furtar alguma coisa à vista de outrem.. – “Resguarde-se do mal. ou não fazer conhecida uma coisa que nos interessa a nós ou a alguém. tapar. os sicários... – “Abrigaram-se em nossa casa contra a tormenta”. abafa-se a conder. – Resguardar é também amparar “contra o tempo ou contra alguma coisa. abafar significa “tolher a respiração. ou que se agite. – Neste grupo. “abafemos o triste incidente para que ninguém mais o explore”. ou impedir que pela evaporação esfrie um corpo. ou que se torne pública a culpa de alguém”.. encobrir. Como diz Bruns. as culpas dos filhos”. e hoje é incontestavelmente a figura que sobreleva todas as outras ali”. mas evitando-lhe a ação. é “abafar com precipitação e energia”. “Conviria que cobrisse a cabeça com a manta”. a formação da culpa”. “Ninguém se deve expor às friagens de junho se não bem agasalhado”. meu amigo. – Abafa-se o doente para facilitar-lhe a transpiração.. ou em redor”. – Abrigar quer dizer “amparar contra o mau tempo.” Oculta-se uma verdade para não comprometer inutilmente a honra . nem o gênio é capaz de suplantar a altivez de uma consciência”.. mas defendendo-se. tapar o doente. – “O homem que não refreia os seus apetites é incapaz de refrear os seus ódios”. segundo Bruns. confinando ambiente respirável de modo a provocar suor ou calor artificial. – O pai sujeita os filhos. pois – que eu saiba – não tem cura quando sobrevém na sua idade”. como neste exemplo: “Chegou a abrir-se a sessão. – Abafar aqui significa “não deixar seguir os trâmites usuais”. mas os espertos atabafaram tudo antes que nós chegássemos”. “. “cumpre que cada um de nós vença por sua parte os embaraços que sobrevierem”. – “Agasalhe-se bem. – Agasalhar é ainda “defender-se contra o tempo. – “Subjugamos as tribos menos dispostas ao trato dos estrangeiros”.. 6 ABAFAR.” 7 ABAFAR. – “Ele. abrigar.6 Rocha Pom bo “os Jesuítas tiveram aqui a grande missão de andar debelando paixões e barbarias”. – Ocultar é “não dar testemunho do que se viu. – “A autoridade venceu naquele conflito desigual”. de significação vaga quando se emprega fora do sentido reto de cobrir. Dizemos tapar o menino no berço. “Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio” (Herc). – Domam-se as feras. fugindo ou fazendo dele fugir para um abrigo”. os bárbaros. sobrepujou afinal todas as traições. resguardar. o tutor os tutelados.. – “Em poucos dias o general submeteu toda a província”. – Encobrir é “evitar que se veja ou se conheça algum intento... e evitar que se descubra”..

portanto.. distinguindo-se deste em ser terreno baixo que apenas os enxurros banham acidentalmente. – Brejo. guardar. charco. – Atascadeiro ou (atasqueiro) diz o mesmo que atoleiro.. mas em caso algum se esconderá para que não suponham que se quer subtrair à ação da justiça”. 8 ABAFEIRA. – Receptar é “receber. inculto. furtar alguma coisa ou alguém ardilosamente às vistas. – Lagoeiro é termo popular.).. de aparecer. coberto de vegetação”. atascadeiro. lamaçal. mas sem a intenção de encobrir-lhe o crime. – Banhado é “quase charco. terreno flácido e lodoso. lameiral. lagoeiro. – Todos estes vocábulos sugerem ideia de água suja e estagnada. etc.. “ocultar contra a lei”. – Acoitar é “dar coito. embora menos que no lamaçal. – Charco é “terreno alagadiço. – Lodaçal é alagoa de lodo. – Lameiro (ou lameira) é “terra baixa e pantanosa”.. ou “grande lameiro” . asilo. (Aul. – Reter é “conservar indevidamente em seu poder o que lhe não pertence”. terra onde há lama. permanece. mas não se acoberta um defeito físico: acoberta-se por piedade um foragido. – Subtrair significa “tirar com astúcia ou fraude. – Enxurdeiro (ou enxurdeira) é lodaçal revolvido. pântano. – Lamaçal é pântano mais extenso. sendo este verbo apenas de sentido mais vago e geral. No Brasil é “terreno úmido. e que é vestido de vegetação rasteira. – Lameirão (ou lamarão) é palavra de uso vulgar: aumentativo de lameiro. chafurdei- ro. chafurda. mas não tanto e tão extenso como no lodaçal. – Lodeiro (ou lodeira) é lugar “onde há muito lodo”. “Para libertá-los do infortúnio e subtraí-los à vingança”.. lenteiro. “O caboclo mete a cabeça no brejo e desaparece”. – Pântano é “lugar coberto de camada de lama pouco profunda”.” É termo brasileiro. segundo Bruns. “os facínoras subtraíram-se às diligências da polícia”. – Tremedal é lamaçal vasto e profundo. que parecia nem ter intenção de ocultá-lo”. lameirão. e se estagna e abafa. é “o estado do lugar não arejado.” “O porão onde mora é uma horrível abafeira”.).. banhado. ou aquela cidade é o atascadeiro dos moços”. “terra encharcada devido a aluviões”. mercadorias sobre que se tinha de pagar imposto. segundo Bruns.. – Pantanal é aumentativo de pântano. sem vegetação espontânea”..mas eu não sou homem que oculte a baixeza da minha esfera” (Garrett). – Sonegar é termo forense e indica propriamente “esconder e negar sob juramento”. de vasa. é “terreno balofo. – Abafeira. Encobre-se. – Acobertar é “proteger um culpado. de chavascal”. brejo. lameiro. enxurdeiro.. “O desgraçado escondeu tão mal o furto. tremedal. – Lameiral está nas mesmas condições: e indica série de lameiros. “O advogado subtraiu uma folha dos autos”. onde a água se acumula. Só se acoita a um criminoso ou indivíduo que tal se julga. lameiro extenso. Sonegam-se bens a inventário.. – Esconder é ocultar com mais cuidado e interesse. ou em depressões de terreno”. pantanoso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 7 de alguém. ou a si próprio. “A nuvem encobre o sol”. “aquele moço fugiu para subtrair-se ao serviço militar”. Diremos: ele se ocultou em casa (deixou de sair. atoleiro. (Mont’Alv. não “acoberta o sol”. homizio”: é. com a diferença de que atascadeiro é mais profundo. paul. “Aquela casa. disfarçando-se para não ser visto ou descoberto”.. e designa “porção de águas de chuva (ou de despejo) que fica temporariamente depositada em sítios baixos. É quase encobrir. de água lodacenta. esconder o furto ou roubo que outrem fez”. “. pantanal. lodaçal. e quase que só se emprega em sentido figurado. como os chiqueiros. É usado quase exclusivamente nesta acepção. à ação ou poder de alguém”. lodeiro. – Paul é “alagoa formada por enchente”. onde se chafurdam animais.

Dizemos: “abaixaram comovidos o pavilhão sagrado”: e não “baixaram”. e além disso dá mais completa a ideia de abaixar.: “Não se taxe de nimiedade o estabelecer sinonímia entre estes dois vocábulos. neste sentido. Abaixa-se a bandeira a meio pau (desce-se do alto para o meio da haste). – Lenteiro (como diz a forma de que se derivou – lento. depreciar.” “Ele abateu a espada diante do general”. portanto. se é indiferente empregar um ou outro. ou ação dirigida a diminuir os créditos de alguém. A propósito escreve Bruns. que se examinem algumas formas para se ver que não é assim. Raciocinemos (no entanto) um momento. “Como é que ele se rebaixa até aquele papel ignominioso?” “O chefe o tem rebaixado ao ponto de convertê-lo em besta miserável”. infamar. vai passar por uma porta mais baixa que a parte superior do objeto? Como diremos que. humilhar. manchar. fazer que uma coisa desça do lugar em que está até um certo outro lugar. deprimir. é ainda conexo de arriar. por que diremos abaixar. Arria-se a carga se é pesada. ou lentar) é terreno úmido. só quem cansa a arria. ao encontrar a F. abaixa-se a cortina por causa do sol. no primeiro caso: – “Abaixa a cabeça!”? E não diremos no segundo: – “Baixei a cabeça. na rua. Excluindo a ideia acessória de alívio. – Arriar é que é. É também baixar: “não desce. Fig. desdoirar. É indigno de um homem abater a inocência.8 Rocha Pom bo (C.). abater. apenas a saudamos com um aceno de cabeça? Não gritaremos. e figuradamente – casas imundas. – Aviltar é “fazer vil. 10 ABAIXAR. envergonhar. Quem chega desce a carga. – Rebaixar é “abater infamando”. equivalente quase perfeito de abaixar. – Chafurda. o verdadeiro sinônimo de arriar. molhado. e chafurdeiro. mas não se arria a bandeira senão quando se a retira da haste. desprezível”.”? Se não há sinonímia entre os dois verbos. e verás a teus pés o que andas procurando”. com esta diferença: pode exprimir também (arriar) a ideia de alívio.. rebaixar. arriar. “Os vícios nos abaixam. abater. “baixa da própria dignidade”: e não “abaixou”. envilecer. Não se desce sem haver subido. pegajoso. – Abaixar é. isto é. “Os inimigos abateram as armas. aviltar. desonrar. degradar. que à primeira vista só parecem diferir na preposição que prefixa o primeiro. 9 ABAIXAR. – Abater acrescenta à ação de abaixar a ideia de força ou violência. difamar. desabonar. abater. abjeto. de humilhação. deslustrar.. e significa. – Descer é correlativo de “subir”. ou “abaixa”. descer. Tratemos de substituir baixar por abaixar e vice-versa. – Abater é “abaixar humilhando”. Abate-se o orgulho de alguém. desacreditar. a virtude nos levanta” (Leitão de Andrade). baixar. Que diremos a quem. levando um objeto frágil à cabeça. preposição que mais parece um a eufônico do que partícula significativa. Basta. descer. precisamente quando a advertência exige brevidade? Não é: – “Baixa os olhos!” que dizemos a quem queremos humilhar? Não é: – “Abaixa a mão!” que diz aquele que se vê ameaçado por alguém? E não obstante também se diz: – “Abaixa os olhos. “ele baixou até o crime”. no entanto. de mais longa enunciação que baixar. – Todos estes verbos exprimem intuito. é rebaixar afrontando. macular. “Tenta- . nesses exemplos: não é tangível a impropriedade das frases? – “Dizemos ainda: baixou o câmbio”. como arriar principalmente. ou não baixa a dar satisfações a ninguém”. – Abaixar significa “descer do conceito em que se era tido”. ou chafurdeira (esta forma é extensão daquela) são lamaçais onde chafurdam porcos. – Abaixar e baixar parecem ser a mesma palavra e com perfeita identidade de significação.

e desabonar é “diminuir o crédito e o bom nome”. Depreciar significa “diminuir o preço. E cita como exemplo: “Este escritor afeta elevar S. – Humilhar é “oprimir. no seu ódio sacrílego de brutos. difamar “tirar a fama”. empanar o luzimento”. enfraquece. é privar da fama. na acepção natural. Uma pessoa depreciada ou deprimida não está mais na estima em que esteve”. o valor”.: “Tem muito maior alcance a ação de desacreditar que a de desabonar”: quem desabona diminui o apreço. afoitar-se. difamar-nos. arrojar-se. muito mais expressivo e mais forte. difamar. no sentido figurado. arriscar-se. “Uma fraqueza desabona. – Entre desabonar e desacreditar convém. do mesmo modo. – Deprimir e depreciar. o sinônimo mais próximo de rebaixar: significa “fazer decair do conceito. ou o apreço. desmerecer na estima. É preciso distinguir infamar de difamar. e. ou rebaixa. pois. como desacreditar é “destruir o crédito”. assinalar diferença. – Envergonhar é “molestar alguém confundindo-lhe o pudor”. (Cast. marcam os respetivos radicais. “marcam uma ação que ataca. ou tem glória. deslustrá-lo infligindo-lhe alguma pecha infamante”. “Estas leves travessuras não depreciam um moço”. (Camil).) “Quem é aquele pobre-diabo de rodapés para desdoirar Camões?” – De deslustrar e desdoirar aproxima-se desluzir. “Ele se desacredita pelos próprios atos”. de hierarquia”. Pode-se definir precisamente: infamar “marcar de infâmia”. a fama de alguém com estigma infamante”. o mérito.).). o direito de parecer digno). “Não se compreende como aquele moço chegou a praticar atos que degradam”. de intuito afrontoso. “Esta torpeza mancha toda uma vida”. não humilhe os vencidos”. como infamar é “privar da fama”. “Com aqueles destemperos só envergonham a família”.. a boa reputação da vítima. por mais subtil que esta seja. “A mínima suspeita macula aquela inocência”. 11 ABALANÇAR-SE. “Meu pai não sente vergonha de deslustrar seu sangue”. quem goza de alta posição. – Envilecer é também fazer vil. mas não o destrói. Exemplos: “A conduta daquele homem desonra a toda a família”. Deprimir – acrescenta – inclui “intenção de destruir no conceito com grande desejo de prejudicar”. só eles vivem praticando atos que infamam”. Exemplo: “Tentam. aventurar- . Significam ambos “privar da fama”. no sentido com que entra neste grupo. como só se desdoira quem brilha no mundo. só se deslustra quem é ilustre. Crisóstomo para deprimir S. – Degradar é “fazer baixar de grau. não a classe ou a dignidade (como acontece com o verbo degradar) mas o valor. e apresentam de comum a ideia de obrigar a descer da posição ou do conceito em que alguém estava. “Este crime envergonha a toda a geração”. mas só as más ações desacreditam” (Bruns. e infamar é “ofender a honra. tornar abjeto “por abaixamento”. – Deslustrar e desdoirar. – Macular e manchar são formas do mesmo termo latino (macular. “O intento daquele monstro é ainda infamar a memória do tio”. Propriamente falando. mas não dá ideia de força. apresentam diferença equivalente à que. “naquele alcouce os mais nobres se aviltam”. – Desonrar é “tirar a honra”. macula) e significam “marear um nome. é. descer de posto. ofender o pundonor. no entanto. “General.. Macular é talvez mais fino e mais nobre: manchar é. no entanto. Bastanos o que diz Bruns. atrever-se. mas este significa mais – “perder ou tirar o brilho. “Desluzia as gerações dos inimigos com a injustiça da sua malquerença”. quem desacredita arruína o crédito. o crédito de alguém. Diríamos: as más ações envilecem (quer dizer: fazem que se perca a estima. atirar-se. castigar envergonhando”..” (Boss. no entanto. Agostinho. “Glória alguma do mundo poderá induzi-lo a humilhar os pequenos”. ou tentar destruir a fama dizendo da vítima e espalhando coisas que podem ser até aleivosas”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 9 ram aviltar-nos perante a nação”. como diz Laf.

“Partimos daqui no dia tal. se abalançou a publicar o artigo?” – “O homem afoitou-se a atravessar o escuro. e ainda se arriscou a andar pelos lugares mais públicos”. Também do grupo abala o estudante assim que ouve falar em bomba. desapareceu da rua do Ouvidor”. e fugir é “deixar um ponto às pressas”. como sair. “O exército abalou dali ao ter certeza de que o inimigo estava a chegar”. – “Pois há quem ouse ir a comícios neste país arriscando a própria vida?”. e no outro dia seguimos para Mendes.. arriscar-se é “expor-se a um risco. sumir-se. mas distingue-se claramente de um e outro porque acrescenta à ideia de “pôr-se em movimento” a de “continuação de marcha iniciada”. – Abalar (sent. tentação”.) significa “sair precipitadamente e às ocultas.. e trouxe nos braços o menino desfalecido”. ousar é. desaparecer. Paulo”. “Ousa o bandido falar em lei. desaparecer. – Fugir aproxima-se de esgueirar-se com esta diferença: esgueirar-se é “desaparecer com astúcia. é “empreender um lance de resultado incerto”. perigo. só confiando na ventura.” – Azular é brasileirismo bem moderno. fig. – “O gatuno pressentiu-nos e esgueirou-se”. voltará por S. de partir e de sair. para alguma coisa. diferindo deste porque não dá. portanto. de modo a não ser visto”. é “sujeitar-se a que lhe aconteça bem ou mal”. saindo de casa às 3 da tarde. a um perigo eventual”.). azular. retirar-se. o companheiro foge” (Garrett). coragem.. a ir à cidade convulsionada. ousar. Não poderíamos trocar aí nenhum dos verbos. sair. dali seguindo para ponto ignorado”. etc. atirar-se com ímpeto”. e discutir justiça?” – “Afinal animou-se a pobre viúva a ir a palácio. É sim quase perfeito de sair. aventurar-se é “expor-se a boa ou má sorte”. azulou dali quando nos viu de longe”. “Por que desapareceu o senhor de nossa casa?” – Sumir-se é mais que desaparecer porque dá ideia de “deixar de ser visto sem . – “Ele se aventura a ir a Minas: se for feliz. e significa – abalar. e salvou a criança”. “O exército fugiu perseguido pela cavalaria inimiga” (Aul. depois de haver meditado”. esgueirar- -se. – Seguir aproxima-se. “Espavorido. atrever-se é “afoitar-se com audácia”. fugir. boa ou má”. mais a ideia de deixar um certo lugar” que de “ir para outro”. “F. – “O sr. – Desaparecer é deixar de ser visto. pôr-se a caminho”. pernoitamos em Campo Grande. “F. “o mais genérico de todos estes sinônimos. mas perdeu o tempo”. tomar uma resolução súbita”. Diremos: “Ele saiu da cidade há uma hora: e no outro dia partiu para S. – Partir quer dizer – “começar marcha ou viagem. partir. – Apliquemos todos esses verbos.10 Rocha Pombo -se. Paulo. sem os receios ou escrúpulos usuais”. Ninguém segue seu caminho sem haver começado a andar. 12 ABALAR. arrojar-se é “precipitar-se. ausentar-se. – “Como é que um soldado se atreve a chegar tão perto da trincheira inimiga?” – “O pescador atirou-se ao mar. sem ideia alguma acessória quanto ao intuito de quem desaparece. “Depois da meia-noite desapareceram as crianças”. e só com o fim de não continuar presente num lugar”. e tanto pode ter sentido favorável como desfavorável”: significa “atrever-se confiante e seguro. animar-se quer dizer “ter alma. “desviar-se precipitadamente de alguém ou de alguma coisa para evitar incômodo. seguir. embora sem a intenção de esconder-se. – “O bombeiro arrojou-se ao furor do incêndio. atirar-se é “lançar-se sem ímpeto. Abala o garoto quando vê o policial. é “retirar-se sorrateiramente”. força. – Abalançar-se quer dizer “não hesitar. animar-se. como se se sumisse no espaço. afoitar-se é “não hesitar sem refletir muito no perigo. – Esgueirar-se é “azular com a ideia de esconder-se”. risco. mas decisivamente”. como diz Bruns.

13 ABALAR. mas que fosse um escritor notável ninguém sabia”. por algum mérito ou aptidão. “Tais coisas lhe disse o velho que o dissuadiu de casar” (tirou-lhe isto do espírito). demover. “demover operando no espírito. exímio. dissuadir. este verbo empregado aqui. com toda a sua eloquência. e de retirar-se principalmente. era um jornalista distinto. “Não se trata de um tipo qualquer. mas em tal evidência que se fez digno de ser notado. notável. “deixou de ser visto nela. célebre. de frequentá-la”. eminente. ou de intento. significa “mover um pouco”. “O homem retirou-se da festa mais cedo do que se esperava”. – Dissuadir é “tirar do espírito”. não consegue abalar-me neste modo de ver”. é mestre abalizado no seu ofício”. o que se distinguiu por alguma grande ação. e tido como exemplo. mas não creio que cheguem a demover-me do meu propósito. consumado. “O juiz ausentou-se durante as férias”. na acepção figurada.Dicionário de Sinônim os da Língua Portuguesa 11 que se saiba o paradeiro ou o destino de quem se sumiu. – Ausentar-se é “deixar de estar presente em alguma parte”. isto é. pois enuncia “a ideia de mudar do que se era. se destaca do comum e se põe em relevo. não apenas em simples destaque. te análogo ao que tem no sentido físico. de sair. – Abalizado – dizemos de um profissional ou de um artista que se fez completo na sua profissão ou na sua arte. famoso. na consciência”. e não. . 14 ABALIZADO. “F. apenas não fica muito firme nelas. “As suas palavras poderiam abalar-me alguma coisa. – Assinalado é o que se destacou por alguma prova brilhante no seu ofício. não propriamente. de fim ou de necessidade com que alguém se retira: apenas marca a noção de “não estar mais presente onde se estava”. “F. afamado. – Demover diz muito mais. ou do que se intentava”. mas ao fato de haver deixado a cadeira. Dizemos: “O homem. aqui. ínclito. “Fazem esforços por abalar na alma do povo as crenças de que ele vive”. Mas ausentar-se não dá (como retirar-se. egrégio. Não diríamos neste caso – ausenta-se – pois que o nosso pensamento não é aludir ao fato de não ter mais o homem ficado presente. Do mesmo modo não confundiremos os dois termos para empregá-los indistintamente nesta frase: “O pobre viúvo sumiu-se do mundo” (isto é. Diremos que um amigo (que continuamos aliás a encontrar na rua) desapareceu de nossa casa. digno. é um escritor abalizado”. – Abalar. “fazer que uma pessoa fique em dúvida a respeito de alguma coisa”. “Não arrefeceu nunca em Vieira aquele assinalado heroísmo da sua imensa fé”. Quem se deixa abalar nas suas convicções nem por isso as renuncia. – Ilustre é um desses vocábulos que parecem gastos pelo uso. “que se sumiu de nossa casa”. preclaro. “As armas e os varões assinalados” (Cam. mas a de “haver deixado um lugar”. assim como retirar-se marca. É. “No meio do tumulto. grande. pois jamais me dissuadirão de que a Justiça está comigo”. o presidente suspende a sessão e retira-se”. às vezes) ideia de plano. insigne. conspícuo. “tirar do estado de firmeza”. Dizemos: “Ele me demoveu (e não – abalou) do intento de vingança”.” – Notável diz mais que distinto: designa o que se pôs. com valor perfeitamen- ilustre. e aproxima-se em certos casos de desaparecer. famigerado. assinalado.). distinto. desapareceu para sempre). “F. Em suma: quem desaparece nem sempre tem tenção de sumir-se: agora o que não é possível é que alguém se suma sem haver desaparecido. “Demovemos uma criança de ficar no meio do barulho”. nobre. mas de um moço distinto. – Distinto é aquele que. a ideia de “não estar mais presente”. portanto.

tratando-se de um conspirador de alta raça.. pela sua grandeza moral. – Digno é um epíteto mais modesto do que todos os precedentes: digno se diz daquele que “se porta discretamente no seu cargo. é um médico afamado” (isto é – que tem bom nome ou boa fama de profissional na cidade onde clinica). mas a raríssimos grandes poetas ou grandes artistas chamaríamos com propriedade famosos. belo. ou “preclaro ministro”. é um digno funcionário”. Afamado é quem ou o que tem fama. ou feitos. ou onde aparece”. Diríamos: “Job foi um varão insigne pela virtude da resignação” (e não – “um varão assinalado)”. nenhum excede a Cavour pela função histórica”. significa “digno e excelente”. Diremos: “famigerado bandido”. ou a coisas. Aplicado a qualidades. de aldeia”. “F.. “O nobre ancião falou solene”. ou mesmo – grande. célebre enuncia não fama ruidosa. mas “grandeza que tem alguma coisa de solenidade e de esplendor na história. e que por isso mesmo é merecedor de alguma coisa mais que o comum.. ou alguma grande qualidade ou aptidão. “As afamadas laranjas da Argélia”.. boa ou má (em regra – má) “se espalha num dado círculo e com aparato”. (porque. afastando-nos um pouco do autor. – Insigne é quem. “Aquela criatura.. – Nobre.. mais do que rei no seu império do mundo”. por exemplo: “preclaro representante da nação”. diz menos que ilustre. “A preclara majestade de d. ou o que “se assinala por algum grande mérito.12 Rocha Pombo No seu sentido próprio. Nem todos os ilustres são preclaros. função. mas. conforme o caso. “Entre os políticos ilustres de Itália. ou “está tendo fama no seu tempo. Só por menoscabo diríamos: “famigerado cultor das musas”. Há capitães ao mesmo tempo célebres e famosos como Alexandre. apesar do que diz Bruns.. “famigerado conspirador. ofício. e segundo observa Bruns. ou então em frases enfáticas.... Henrique. – Famoso e célebre.. como nota Lafaye. é de assinalado que mais se aproxima: ilustre quer dizer – “conhecido e brilhante por si mesmo. ou qualidades que dão lustre”. Charcot é célebre. “famigerado desordeiro”.. mas os preclaros são ao mesmo tempo ilustres. destacado por ações. – Famigerado quase sempre se toma em sentido pejorativo: designa indivíduo cuja fama.. “O preclaro varão que ilustrou o seu tempo”.. eminente. porque conserve uns laivos da antiga acepção. com razão.” Difere de assinalado em que este “chama atenção mais para os feitos do indivíduo que se assinalou”. só porque se trata de homens ilustres. é grande. “tocam-se de perto.. já lhe não caberia bem o epíteto). missão. Mas preclaro diz mais e é mais nobre: exprime – “excelente. brilhante”. o grande Infante. – Afamado diz muito menos que famoso.” “A nobre altivez daquela criança salvou-nos a todos”. – Preclaro e insigne aproximam-se de ilustre. ou a coisas subsistentes. Mas rarissimamente poderíamos dizer sem flagrante absurdo. só se pode aplicar a pessoas vivas. É ainda preciso notar que tanto se aplica a pessoas como a coisas.. mas decerto que não diríamos dele – o famoso Charcot. “Os afamados charutos da Bahia”.. ou mesmo nas vicissitudes da vida”. e no meio em que vive. ou melhor – célebre.. Não seria muito próprio. mas melhor a coisas. “Que nobre alma a daquela dama tão obscura e tão desventurada. podendo até ser a de um bandido. e insigne exprime “qualidade inerente à pessoa ou coisa insigne”. “F. e no seu lugar. observaremos que: famoso é vocábulo menos nobre. é digna de respeito”. ou na sua condição própria”. Diríamos: “O preclaro Tácito”. chamar – famoso a um médico que se fizesse conhecido e ilustre fora do seu meio: diríamos antes – notável. e deve aplicar-se a um fato ou a uma vida “que fez grande ruído no mundo”. e hoje é termo de que só se usa na oratória parlamentar. “Este . “Nada tenho a dizer ao nobre senador”.

ou no desempenho de algum alto cargo”. Dizemos: “o grande Infante”. como há jogadores exímios. ou das nossas letras”. Entre todos os vocábulos deste grupo. ou “F. segundo Roq. – Abalo é “movimento amplo. convulsão. e tanto um como outro exprimem mais do que exímio quando se quer marcar precisamente elevação pela capacidade e pelo mérito. “egrégio pastor de almas”. muito raros outros caberiam nos dois exemplos. sem ser insigne. – Agitação será mais “uma comoção continuada por algum tempo”. é verdadeiramente o egrégio e venerável patriarca daquela família”. digno de respeito pela compostura e gravidade na sua conduta. – “é o que chega ao último grau da glória”. “F. que tem nome ruidoso e brilhante”. tratando-se de pessoas. excepcional. apenas sensível na superfície”. – Convulsão aplicar-se-ia para designar um terremoto violento de grandes proporções. terremoto. magistrado. Só é grande o homem “excepcionalmente notável que foi consagrado pelo culto das gerações”. como – “um filósofo consumado”. – Grande é um genérico que se não confunde entre os do grupo. Há ínclitos generais. Qualquer dos dois termos só pode ser. notável de si mesmo”. – Consumado aproxima-se de abalizado. – Todos estes vocábulos significam fenômenos sísmicos. e por isso mesmo pouco intenso e pouco sensível. Dizemos: “O egrégio tribunal”. – Eminente e conspícuo diz mais do que ilustre: eminente é o que “excede à estatura moral. – Comoção é “estrondo ou abalo no interior da terra. conspícuo é o que se faz “tão ilustre e eminente que dá nas vistas de todo mundo”. e nem chegou a ser um verdadeiro tremor de terra. mesmo referindo-nos aos mais abalizados no seu ofício: “F. como diz Bruns. ou de que se tem sinais evidentes. – Exímio exprime a “qualidade de superexcelência”. aplicado a pessoas ilustres. pois que estes não são mais que abalos menos amplos conquanto mais intensos e mais sensíveis”. ou acontecimento extraordinário. – Terremoto é “forte tremor de terra tendo consequências na crosta terrestre”. Egrégio é “honrado e ilustre. ou o fato. é um artesão eminente”. como há ínclitos poetas. agitação. “F. Não poderíamos dizer. artista eminente. sim – é “um favor grande. “uma série de abalos. sobreleva aos mais hábeis”. Mas diríamos: escritor. estremecimento. Há exímios poetas. ou o feito de proporções fora do comum “– que se incorporaram definitivamente na história humana”. mas um favor que no momento assumiu proporções que não teria em ocasião normal”: um favor insigne. – Tremor de terra é. ou melhor. é figura conspícua da nossa política.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 13 homem. Tanto podemos dizer – “um artista”. e. Um favor. Consumado significa – “subido à perfeição.. tratando de coisas – a que “se eleva acima de outra coisa e se põe muito alto”. 15 ABALO. um favor ou serviço que se manifesta. ou na sua profissão (principalmente na sua arte) “excede. ou um serviço assinalado é não como entendem Bourg. e se diz daquele que na sua arte. menos extenso e menos sensível que o tremor de terra.. – Trepidação é leve abalo. a uma profunda e acabada perícia na sua ciência ou na sua arte”. no dia seguinte . de estremecimentos. mas um simples abalo. – Parece que se vê melhor nestes exemplos: “Temia-se um terremoto. de grande massa”. Berg. tremor de terra. ou às proporções de grandeza dos seus pares”. “o grande Vieira”. tornou-se naquele momento figura assinalada pelo heroísmo com que fez frente ao inimigo”. e de consequências gravíssimas para a região convulsionada. o que é “muito falado. “Ínclito”. e por isso “posto no pináculo entre os da mesma classe”. é um conspícuo marceneiro”. comoção. tre- pidação.

se o faz. – “atracar com balroas. da Acad. arremeter. etimologicamente. “não querer saber da pessoa ou da coisa que se abandona”.: “O antigo português tinha o verbo bandir (“banir”. desfavorecer. desprezar. logo à noite repetiram-se uns estremecimentos. desajudar. “A vaca danada arremete contra todos”. no outro dia. – Acometer é quase assaltar: é “investir subitamente e com decisão”. quando esta se acha em iminente risco de perecer. que: “o desamparo se refere ao bem necessário de que se priva o desamparado. bordo com bordo”. mas os três verbos sugerem o mesmo ato. abordar. “O inimigo investe. para melhor combater. de todos os do grupo. impetuosamente”. é “deixá-la entregue aos seus próprios recursos. pôr de lado e esquecido”. “A primeira vez sentiu-se uma rápida comoção ao sopé da montanha. ou de sacrificar 1 O italiano conserva o verbo bandire.. porém. escreve Bruns. dessocorrer. – Abordar é “aproximar-se uma de outra embarcação. desapoiar. mas decerto não é em tal acepção que abalroamento é sinônimo de investida. “Com muita gente armada a investiram e abordaram (a caravela) por duas partes”. desarrimar. – Agredir é propriamente “provocar.. agredir. Diz Roq. “desterrar”)1 que nos revela a existência de um substantivo mais antigo – bandon – de que nos vem bando (“pregão”. (Dic. – Abalroar. consistindo a diferença apenas “nos meios de que se valem os tripulantes de um navio para aprisionar um navio inimigo”: abalroar. como aferrar. “O inimigo nos atacou de frente”. “Vamos atacar o forte”. (Dic. de emboscada. Abandonar tem com efeito alguma coisa de “exilar. é mais genérico do que abalroar.. “Ele não tinha motivos para agredir-nos tão insolitamente”. e como nos convencêssemos de que semelhante agitação subterrânea é prenúncio de catástrofes.) – Investir é “arremeter hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. aferrar. O rico que não socorre a sua família pobre a desampara. ligeiros estremecimentos: e depois tudo voltou à serenidade normal. 17 ABANDONAR. os quais se reputam deficientes ou nulos”. tomar ofensiva contra alguém”.). acometer. “Assaltaram os brutos a fortaleza à noite”. “Os bárbaros abandonaram os míseros náufragos ali na ilha deserta”. neste grupo. “O bandido nos atacará em caminho se facilitarmos”. Quanto a abandonar.” 16 ABALROAR. pois. “Não se ataca impunemente a honra alheia”. Abalroar. atacar. – Atracar. e decisivamente”. Bandon era ordem de bandir. desvaler. mas uma formidável convulsão que alterou toda a topografia da ilha”. “Os inimigos abalroaram uma nau de El-Rei”. desdenhar. atracar. . aferrar é “atracar com ferros (quaisquer que sejam)”. – Atacar é.” “O que se deu ali não foi um simples terremoto. e atracar é “prender de qualquer modo”. assaltar. desamparar.14 Rocha Pombo houve algumas trepidações do solo junto do monte. Não há dúvida. fugimos. “Acometeu-nos o inimigo sem que o esperássemos tão cedo”. da Acad. – Assaltar é “investir à traição. o abandono se refere ao mal iminente a que se deixa exposto o abandonado. investir. Também se diz: “Assaltou-nos em caminho a tormenta”. o verbo de significação mais genérica: “é ir hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. como se disse. “decreto”). é “atracar com balroas” (instrumento próprio para abordagem em combate). que o abalroamento de dois navios é devido ao acaso.. desproteger. é – como define Aul. Abandonar é. Diz Bruns. mas não consegue abalroar a nossa embarcação”. e com intuito hostil”. – Arremeter é “atacar com fúria. “com precipitação”.

sem sacrificar alguma coisa da clareza e propriedade da expressão. conquanto não seja o aplicado. tinha direito a ser por nós socorrido. morreu em amarguras. neste grupo. – “A amizade – diz ele – exige a naturalidade. a paixão veemente só é real quando há abandono”. na perdição ou na desgraça. pouco apreço. pois em todos figura o prefixo negativo ou privativo des. como desamparar é “negar amparo”. desajudar (“negar ajuda. desfavorecer (“negar favor”). simpleza. depois de o haver definido como sinônimo de naturalidade.”. preguiça. e ela respondeu com uma graça e naturalidade de criança”. entendemos: desvaler (“não acudir”). aquele a quem se abandona. “Aquele ricaço desdenha a nossa pobreza porque nós lhe desdenhamos a arrogância”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 15 sua honra. ingenuidade. desafetação. Todos estes sinônimos têm a significação geral “de indiferença. pois. pelos próprios respetivos radicais. de se vestir sem artifícios que deem na vista”.. singeleza. inação. mas aqueles que estavam conosco e se afastaram não fazem menos que desajudar-nos”. substituir um pelo outro. auxílio”. naturalidade.. a santa continuou muda”. de dizer.. abdicação.. “Nesta causa pode um parente desapoiar-nos sem que nos prejudique. e só se abandona a quem. inércia. incúria. apesar de certos caprichos fúteis de um mal-entendido purismo. não foi dessocorrido de algumas almas piedosas”. e antes “fazer o contrário”). etc. – Desdenhar é “ter em pouca conta”. ou se desprotege. Aqui há seguramente lapso: o abandono dessa frase não é o que o autor definiu como sendo o abandon francês. É estranha a aplicação do termo feita por Bruns. Pode-se desapoiar sem desproteger. desafetação já “sugere ideia de esforço ou de propósito no . e só se desarrima a quem precisa de nós. descuido. desídia. como só se desampara aquele a quem devíamos valer. abandonado de todo o mundo. – Quanto aos outros do grupo. negligência. mas os filhos fizeram mais: desarrimaram-no na velhice dolorosa: e afinal.. “Falamos à rapariga. desmazelo. abandono. indolência. como dessocorrer é “deixar de oferecer o socorro que se nos pede”. desprezo ou pouco interesse revelado por alguém”: diferençada. É simples de ver que eu me não sinto desamparado só porque um sujeito me desprotege. distração. a distinção será fácil desde que se tenha em vista o respetivo radical. languidez. pois que só se dessocorre aquele que está em perigo ou em situação difícil.. segnícia. O abandono dessa frase é sinônimo de renunciamento. Só nos desfavorece aquele de cujos favores dependíamos. desleixo. nas maneiras. moleza. ócio. a abandona”. Como estes.. no trajo. abnegação. mas o amor. desarrimar (“privar de arrimo”). Mas aqui. ou pelos outros indistintamente. se desampara ou se desdenha. Nem sempre se despreza. – Desproteger é “recusar a proteção que antes se dava a alguém”. desvaler sem desdenhar. Desarrimar não é propriamente dessocorrer. é “tratar com desdém. mesmo desprezado pelos amigos. desalinho. desapoiar (“deixar de apoiar”). abstração. e tão distintamente que em muitos casos não seria possível. lhaneza. etc. acinte ou altivez”.. desapercebimento. – Naturalidade é “maneira de se mostrar. “Os homens o desvaleram sempre naquelas angústias. acídia. e o definido por Bruns. “Desdenhando o poder dos homens. – Desafetação já se não aplicaria com a mesma propriedade a uma criança. 18 ABANDONO. é: “negligência amável no falar. – Abandono é um galicismo (neste grupo) que pode perfeitamente ser incorporado na língua.” “Aquela candura da jovem princesa ressalta de todo o abandono em que se deixa ver lá no parque”. “Aquele homem. – Desprezar é “não dar a alguém ou alguma coisa o apreço ou importância que se lhe dava”.

o pessimista ou o misantropo. O descuido na elocução. estado de torpor”. Neste grupo não é bem assim. “A singeleza daquele viver é mais edificante do que todas as opulências dos grandes”. – Inação é um “estado de inércia passageiro. naturalidade. e tendo também alguma coisa de moleza”. “Pilhou-me a visita. Pode ser oriunda de mal físico. – Descuido é (como se vê da formação do vocábulo) “falta de cuidado no trato. distinguindo-se desta em significar mais uma “inércia moral que afasta do trabalho. está passando a ser quase um vício elegante.. – Desalinho é “maneira ainda mais descuidosa que a negligência: é quase incorreção de costumes. ou de frase. mas deve tirar a vontade de agir e de viver: a indolência chega a ser às vezes uma virtude para o cético. no vestir. lhano (do latim planus = liso.16 Rocha Pombo sentido de parecer desafetado ou natural”. pouca atenção com que alguém cumpre sua tarefa ou desempenha um dever. conquanto diga Roq. uma falta de ação para certas ocupações”. que parece ter sido vulgar outrora.” – Negligência2 diz também maneira descuidosa. com toda gravidade. apatia. – Ingenuidade é a “singeleza de quem não oculta o que sente. e quase inconveniência que se não perdoa em gente de educação”. as coisas mais sabidas do mundo. falta de energia. ou dos temas a tempo: por incúria teve castigo”. – Indolência diz etimologicamente – “falta de sensibilidade. nem disfarça o que faz. trajo sem capricho. que cessa logo que desaparece a causa acidental que constrange o inativo”. – Languidez é um quase “desfalecimento semelhante à depressão mórbida. ou de trajar”. “Ele ficou em pasmo ante a simpleza daquele bárbaro ali impassível a tudo que se passa”. mas “descuido culposo de quem deixa de parecer como deve. Desafetação pode simular-se. “Calino é o tipo do ingênuo: diz. . acidentes de ânimo. ou que torna avesso ao cumprimento do dever. Se é mesmo vício a preguiça. ou no desempenho de uma tarefa”: mais censurável sem dúvida que desalinho. – Indolência e preguiça. – Moleza é “preguiça sensual”.” – Lhaneza é a qualidade do que é 2 Usa-se muito hoje do francês negligé em vez de negligência. “Ninguém há de ter o direito de acusar-me de incúria na minha profissão”.. “Por negligência foi censurada a menina que não deu conta das lições. postura desafetada. É ela “um relaxamento de ânimo. ou de cumprir um dever do seu ofício”. parelho.. “Passam a ser censuráveis aqueles modos: aquilo já é desalinho. e antes um humor sempre igual. A preguiça pode não ser um vício... – Desídia é quase incúria. – Acídia (ou acédia. “Este tipo vem aqui fingir desafetações de Tartufo. “Nada alterava jamais a lhaneza daquele caráter”. o contrário. Negligência sempre é menos do que incúria. sem desigualdades de relevo). – Simpleza sugere ideia de inconsciência. enquanto que incúria é o próprio fato de não fazer o que devia”. ou surpreendeu-me nesta negligência em que se está em casa”. no gesto. na postura. como as crianças”.. – Singeleza é a qualidade do que não tem “refolhos e malícias”. indiferença por tudo que a outros merece cuidados ou atenção”. Diz Roq. “O descuido de quem se apresenta maltrajado em um salão de cerimônia é imperdoável”. no falar. é muito mais grave que simples desalinho. – Inércia é “imobilidade. de quase ignorância e parvoíce: é a “singeleza ou a ingenuidade do inculto e rude”. e ordinariamente revela falha moral. mais conforme à etimologia) é uma inércia mais de espírito ainda do que desídia (talvez originariamente uma e outra do mesmo radical grego). Incúria é igualmente (conforme está indicando a própria etimologia) descuido. a preguiça um vício”. não. Diz Lafaye que “a indolência é um defeito.

que é uma tibieza e fastio espiritual que a alma tem para o exercício das obras virtuosas. “ter em menor apreço do que o devido”. como intr. do que desleixo. abrir mão de uma coisa facilmente. mas também “abater o valor. pois. mostrando por ela pouca estima ou nenhum interesse”. tocando sem sentir. mas “prezar menos do que seria justo”. – Abaratar (ou baratar) significa “diminuir o custo. abstração. “Os tais conluiaram-se no intento de embaratecer os bons ofícios do competidor”. Mas este difere de baratear porque significa. ou as qualidades. Usamos também de embaratecer. desapreciar. a significação de “baixar de preço”. a consideração”. não só “baixar de preço”. não esteve conosco?” Menoscabar não é somente menosprezar. Distração é também desapercebimento. diminuir o crédito. desestimar. “Não é por menoscabá-lo que . que a define assim: “O sétimo e último vício capital se chama acídia. um defeito mais punível que desleixo. porque se tenha trabalhado é que se fica em ócio: é este. distração sugerem ideia de estado bem semelhante a umas aparências de abandono. a importância. falta de correção. Menosprezar não é propriamente “desprezar”. – Ócio é antínomo de trabalho. Desapercebimento é “um como estado de inconsciência aparente. em que alguém fica sem dar atenção a nada. mais. no entanto. olhando sem ver. “ter em menor conta do que a antiga em que se tinha alguma coisa. – Menosprezar. “Os meus instantes de ócio são poucos. e ter os seus sentidos materiais como que suspensos ou apagados. pois. mal- baratar. de Fr.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 17 e usar-se em vez de preguiça. a aversão ao movimento. “Míseras criaturas é o que elas são. do que desídia. naquela causa. ou sem notar em torno de si coisas que lhe não deviam passar despercebidas”. que se não sabe por que é que falha nos léxicos.. pelo menos no Brasil: “O café já barateou”. baratear. parecendo que desmazelo é mais grave e mais culposo “porque exprime. “Não pensem que ele vai agora baratear as aptidões”. especialmente para as coisas do culto divino e comunicação com Deus”. Dizemos. “Ele não há de consentir assim que lhe abaratem a honra de juiz”. – Deleixo (ou Desleixo) e desmazelo significam “relaxamento no cumprir o dever. Tem ainda. como se vê do Leal Conselheiro e do Catecismo. ou porque se seja forçado a ficar inativo. mas “fazer baixar de preço”. fazer baixar o preço de alguma coisa”. a inércia e moleza do bárbaro”. Bartolomeu dos Mártires. é dar “por menos do justo valor. ou porque se descanse dele. desestimar distinguem-se ligeiramente. tornar barato. o valimento de alguém”. A mesma diferença no sentido figurado. Abstração é o “desapercebimento de uma pessoa completamente alheada do meio em que se acha. – Baratear é “oferecer por menor preço”. tendo ouvidos e não ouvindo. do que preguiça. – Segnícia é mais do que indolência. que é mais “ausência de sentimento muito nítido do dever” – Desapercebimento. menoscabar. mas de quem parece “não pensar em coisa alguma. “Havemos então de menosprezá-lo só porque. – Malbaratar é “desperdiçar coisa estimável”. mais lazer do que inação. não tendo na conta devida”. a malbaratar na vida os melhores dons que lhes tocaram”. desencarecer. por um motivo interior. porque junta a tudo isso alguma coisa de miséria moral mais lastimável: segnícia deve ser o “torpor estúpido. e figuradamente é. embaratecer. etc. porque a minha vida é muito atribulada de serviço”. uma como tensão mental que a separa – dir-se-ia – das outras pessoas”. mas uma desídia quase ostentosa. depreciar. é “vender com prejuízo. 19 ABARATAR. menoscabar. não apenas falta de correção. menosprezar.

que. “Só desestima o dinheiro quem lhe não sabe o valor”.. com a significação que tem neste grupo. e como em penitência. trasgo. e há entre eles uma certa distinção análoga à que se nota entre fantasma e abantesma. duende. – Duende designa alguma coisa semelhante ao que se chama vulgarmente “alma do outro mundo”. formas de aves ou de animais fantásticos”. significando assim – “alma penada”... inspira repugnância”. “alma dolorosa”. e causando terror. ou melhor – “a alma de algum conhecido. “Encontrou no caminho um fantasma que o obrigou a voltar”. além de terror. O mais vago de todos é o primeiro dos três: visão é “toda imagem que se julga ver. “Imundos abantesmas vagavam naquela região mais do pecado que da morte”. como em: “O fantasma da dor. aparição. – Abantesma é forma popular de fantasma. Lêmures e manes eram.. subtil. quer durante o sono”. “Ninguém decerto vai desencarecer-lhe os grandes serviços prestados à pátria naquele momento”. havendo apenas entre os dois a mesma diferença que há entre os respetivos radicais – estima e apreço.) é o que se poderia chamar também – “alma penada” – mas que toma “aspetos estranhos. mas quase sempre “para atormentar os vivos”. sombra.” Sombra pode-se dizer que. “espíritos que andavam vagando pela Terra. e é de crer que junte à ideia de visão a de penitência. e talvez porque sugira melhor esta última noção é que se distingue de todos os do grupo. e tanto menos quanto estima é um sentimento mais profundo que apreço. manes. saíam do inferno à noite para. como a sombra” (fenômeno . Desestimar é “não ter em estima. avejão. visão. quer em vigília. fantasma.18 Rocha Pombo dele digo estas coisas”. socorrer. 20 ABANTESMA. ou à falsa visão de certos doentes. significando “forma vaga subsistente de alguém que foi vivo”. Espetro será o fantasma. espetro. mas ainda conservando alguma coisa da forma humana”. é vocábulo de alta nobreza histórica. Larva será espetro menos nítido. mesmo instantâneo. – Avejão (fig. julga alguém ver. imaterial.. É este verbo um sinônimo quase perfeito de desapreciar. deixar de estimar. não ter por alguém ou alguma coisa a mesma estima que se tinha”. atribuída à imaginação dos alucinados. – Espetro e larva designam também fantasmas. Também se aproxima de “símbolo”. manes e lêmures. Abantesma é propriamente “fantasma sem forma definida. por alucinação.. larva. às vezes. emudeceu”. “coisa impalpável. de coisas falsas ou imaginárias e medonhas). – Visão. Aparição distingue-se de visão em “acrescentar à ideia de imagem sobrenatural a ideia de miraculoso. ou não corpórea. aparição. de inesperado e súbito. ou do remorso”. ou de ter na mesma conta exagerada em que se tinha (e tanto no sentido próprio como no figurado).. “Aquela casa. sombra são vocábulos de significação mais genérica e vaga. “personificação”. heroica – dir-se-ia – e terrível do diabo”. “Quando encontrou no vestíbulo a larva de Aquiles. de ser tão caro ou encarecido como era. Em qualquer dos casos desaprecia diria sem dúvida alguma coisa menos. Manes designava particularmente “as almas dos avós ou dos parentes falecidos”. e que. ou aquela consciência vive atormentada de fantasmas” (isto é. ou perseguindo os vivos”. – Desencarecer é deixar de encarecer. – Trasgo é qualquer coisa como “figura ostentosa. dando sempre a ideia comum de coisa sobrenatural.. entre os romanos. lêmures. “representação”. Este vocábulo (fantasma) significa imagem fantástica ou incorpórea. que se deixa ver sem perfeito relevo. tendo figura humana mais ou menos acentuada. mas todos. “Não se desestima a um amigo só porque caiu em pobreza”.

emperrado. – Abarroado quer dizer “teimoso. obstinado. Compreender é sinônimo que se pode ter como quase perfeito de abranger. aferrado. em modo de ser. como diz Lafaye. – Cabeçudo é o que se deixa guiar só pela sua cabeça. tanto assim que em certas formas não poderiam ser trocados. e ainda hoje. “O poder de Roma abrangia multidão de povos” (Bruns. (Aul. libertino. ca- Abarcar e abranger significam “encerrar ou conter em si muitas coisas: em abarcar há ideia de esforço. no entanto. – Monopolizar enuncia a forma legal de “exercer exclusivamente o comércio ou qualquer encargo ou função”. porfiado. e mesmo de abarcar”. ou que não cede. “Ele é opiniático. birrento. No Brasil é muito comum dizer-se indiferentemente: “Abarcar ou abranger o mundo com as pernas”.). afincado. exprime alguma coisa de “alcançar”. alguma companhia. “Abarcava todo o peixe que vinha à Ribeira”. e sei que por coisa alguma se dissuadirá daquele intento”. – Abarcar significa “apoderar-se da mercadoria como quem a prendesse nos braços”. e nunca propriamente: “O incêndio compreendeu. pertinaz. etc. compreender. opiniático. ou na índole do opiniático. devasso abarroado”. Entre os antigos. Isto quer dizer que com efeito o opiniático e o obstinado. monopolizar. e é sem dúvida com esta significação que entra aqui o verbo monopolizar: é “tomar alguém. caprichoso. em razões em suma. fundada em opinião.. entre os dois bem marcada diferença. o que se escusa de agir. por sua parte. mas distinguindo-se o primeiro do segundo em significar “uma tendência ou qualidade própria. ou da exploração de certas indústrias”. 22 ABARCAR. por exemplo: “Nesta relação não se compreendem (e não se abrangem) os casos a que se refere o ministro”. mesmo entre muita gente de cultura. não: “Cesar abarcou todas as dignidades da república”. contumaz. firme. enfeixando-as. insistente. encaprichado. aos desejos de outrem. que mais talvez o uso comum do que a precisão ou a propriedade fixa em alguns o emprego de um de preferência a outro.) – Açambarcar exprime a mesma ação de prender ou arrecadar mercadorias: mas “de modo mais amplo. Há. tenaz. ou mesmo alguma nação a propriedade de um certo gênero de negócios. relutante. “não cedem à vontade. atravessar. Há o monopólio não fundado em lei. nestas por exemplo: “O homem está obstinado em não aceitar o cargo”. no entanto. obstinado com insolência e por motivos torpes”. – Atravessar é “comprar as mercadorias em caminho. essencial. 21 açambarcar. enquanto que obstinado é o “que resiste. Deve notar-se. antes que cheguem à praça ou ao mercado público”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 19 físico). perseverante. Diremos: “O incêndio abrangeu todo o quarteirão”. – pelo outro. insistente. – Obstinado e opiniático poderiam tomar-se em certos casos como sinônimos perfeitos. embirrante. constante. Abranger. etc. muito raros hão de ser os casos em que um se não possa substituir beçudo. sombra era o mesmo que “alma”. o direito “exclusivo ou privilégio de vender ou comprar”. de modo a fazer subir pela carestia o preço das coisas. Teríamos de dizer. mas por efeito de uma determinação ativa e refletida”. e faz o que . que parecem estar na mesma natureza.” 23 ABARROADO. abranger. em abranger. ABARCAR. persistente. a ataques”. a embaraços. teimoso. “Sedutor. ou reunindo-as por meio de sambarca”. – Todos estes verbos exprimem de comum a ideia de abuso contra a liberdade de comprar e vender.

opulento. seguro conscienciosamente”. e não: caprichoso: “A caprichosa menina não atende a coisa alguma”. – Pertinaz já inclui alguma coisa de teimosia.. e não: “A encaprichada menina”. sem explicar-se. aferrado diz – “fixo como alguma coisa que se prendesse a ferro a uma outra coisa”. ricaço. nem cede. rico. birrento.). capitalista. nem fraqueja”. milionário. – Abastado é quem está “fartamente provido de bens para viver em abastança”. perseverante acrescentam à qualidade do que é firme a “ideia de esforço no propósito de conservar-se firme numa resolução. seu intento. se não se teima propriamente. porfiado no trabalho. Porfiado é ser “constante mostrando um certo brio e valor”. remediado marcam . ou bens que excedem às próprias necessidades”. quer. ou no seu intento. argentário. – Opulento é sujeito muito rico que “vive vida brilhante e sumptuosa. – Aproxima-se deste o vocábulo insistente: o qual. ou não obedece à ordem legítima. antipatia ou aversão”. – Caprichoso é aquele que se mostra seguro e inabalável. na atitude. ou ao que de nós se espera”. apatacado.20 Rocha Pombo entende sem ouvir conselhos. – Contumaz quer dizer “obstinado. Relutante é “mais que porfiado. obrar ou pedir”. o que nem sempre acontece com caprichoso. Afincado equivale a “fixo e seguro como uma haste que se fixasse ao solo”. e por extensão é aquele que “segue sua opinião. – Tenaz exprime “firme e vigoroso em pensar. remediado. além de significar “pertinácia em querer. nas ideias. banqueiro. revel. ou à citação feita por um juiz”. Emperrado significa o que se firma na sua opinião. mas “por opinião ou capricho”. mesmo porque encaprichado reclama sempre um completivo. e perseverante como quem sabe o que vale a fortuna”. ou tem força para continuar firme no seu posto. endi- nheirado. resoluto. e diz – “sujeito muito rico e com ares de ufano das suas riquezas”. relutante contra as seduções do vício. “que se não abala. persistente na ideia de vencer. firme significa “obstinado. relutante. Constante é “ser sempre igual ao que se foi ou se prometeu ser. aferrado. Dizemos: “Ele está encaprichado no propósito de molestar-nos”. mas o pertinaz é um teimoso. no seu desejo”. pois enuncia a ideia de que o porfiado é “capaz de ir ao extremo. com obstinação e enfado”. Perseverante é o “que se conserva firme e constante num sentimento. embirrante. pelo menos se repetem esforços e tentativas. e difere de encaprichado por isto: porque encaprichado significa que se tomou “por acinte ou por vingança uma atitude caprichosa”. poderiam aproximar-se de caprichoso e cabeçudo. Birrento é “emperrado ou teimoso por birra.. Diremos. porfiado. etc. em querer. Embirrante é o que “insiste” nalguma coisa “por birra. firme significam todos “fixo no lugar. – Endinheirado. capricho. – Rico é aquele “que possui muitas riquezas. de travar luta na resistência”. que não atende. numa resolução” (Aul. “Este homem extraordinário é constante na virtude.. – Afincado. – Constante. “mais pelo prazer de contrariar do que por sincera convicção”. e fica imóvel. e reincide no seu modo de ver ou de conduzir-se sem se importar com o que é seguido por todos”. etc. – Ricaço é aumentativo de rico.. – Emperrado. dá ideia de que. num intento ou numa tarefa”. “Testemunha contumaz”. portanto: “Contumaz no erro”. persistente. etc. 24 ABASTADO. – Teimoso é “o que persiste em pensar ou agir como se o fizesse quase por acinte”. Persistente é o que “sabe. apatacado. ostentando a sua riqueza”. como o animal que empaca (podendo dar-se-lhe empacado como sinônimo quase perfeito).. na vontade”. advertências ou mesmo ordens de ninguém. não por acinte. em agir”.

perverter com escândalo”. pondo-a fora do seu estado próprio. – Adulterar é “fazer mudar alguma coisa falseando-a. – Dizemos: Abastarda-se uma geração. – Depravar é “perder as qualidades que tinha. milionário exprimem a ideia de “possuidor de grandes riquezas em dinheiro. – Degenerar é “perder mais ou menos o tipo. – Viciar é.”: “Ele enfeia o caso para que nós não vamos”. se bem que enuncie igualmente a ideia de “estragar. estragar desvirtuando. arquimilionário. impuro”. a natureza. – Deteriorar é “alterar danificando. o mérito. – Desvirtuar significa. – Desfigurar é. capitalista. Capitalista é o que “vive dos rendimentos de seus capitais”. Desnaturar é “alterar a natureza. adulterar. Remediado é o que tem com que viver sem apuros. perverter. depravar. Apatacado diz menos ainda. Banqueiro é o que “faz negócios de banco” (Aul. menos que perverter. ou uma condição de fortuna que fica entre a do rico e a do pobre”. portanto. um indivíduo ou uma raça. miliardário.). aqui. deturpar. ou de mais ou menos paixão com que se cuida do dinheiro. o brilho. correto.). pois: “O andar afea-lhe um pouco a elegância” (e não – desfea-lhe). – Perverter é “mudar para mal” (Aul. ou especular sobre empréstimos e outras transações de praça”. isto é. degenera uma família. Afea-se (ou afeia-se) uma coisa “tornando-a menos correta. pois reduz a simples patacas as posses do sujeito. É sinônimo perfeito. viciar. desnaturar. ou de transformar piorando”. ofendendo o pudor”. que “vive de negociar. desfear. “A idade a desfeou horrivelmente” (e não – afeou). preocupado só de lucros. ou o modo de ser de uma coisa ou pessoa. 25 degenerar. e acrescentam à noção geral de rico a ideia de apego ou amor ao dinheiro. – Deturpar é “desfigurar deprimindo. fazer feio com o propósito de impressionar. segundo a própria etimologia. ideia que se sente em desfear. deprimindo-a com perfídia”. afear. Argentário é o mais genérico e diz “homem dado a grandes negócios. Milionário é o “ricaço que possui milhões”. deformar. No Brasil usa-se também o verbo enfear (ou enfeiar) com o sentido de “exagerar. “tirar a virtude. etc. o modo de ser normal”. e significa “alterar alguma coisa fazendo-a feia”. estragar. tuoso”.) transtornando. desfigura-se um texto tirando-lhe as belezas próprias da língua. – Desfear é uma dessas anomalias morfológicas da língua que o uso impõe. é “estragar o que era puro”. desfigurar. fazendo pior ou imprestável”. corromper. defeiABASTARDAR. Diremos. desvirtuar. ou melhor. profanando. bonita”. que se note: em afear não há tão viva a ideia de “mudar tornando defeituoso”. ou ainda uma ideia do valor preciso ou das proporções da fortuna possuída. etc. legítimo”. deixar imperfeito. demover. vivendo só pelo dinheiro”. – Corromper é “pôr fora do estado de pureza própria”. – Estes verbos exprimem de comum a ideia de mudar a forma. “tirar a figura”. convindo. ou de fazer que uma coisa não seja ou não se faça tão bem como devia fazer-se”. as feições de alguém ou de alguma coisa” (Aul).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 21 uma certa “mediania. deteriorar. alterar a forma própria. em geral. as qualidades da sua geração” (Aul. banqueiro. – Deformar é “mudar a forma primitiva. – Argentário. – Já se usam também como gradações da ideia expressa por este último vocábulo: bilionário. O endinheirado é aquele que ajuntou algum dinheiro e saiu da pobreza. o valor próprio de alguma coisa”. deforma-se uma fi- . o “aspeto. próprio. quase perfeito de afear. Desfea-se (ou desfeia-se) – isto é – “torna-se feio” o que “era bonito. – Abastardar significa “fazer ilegítimo. – Estragar enuncia a ideia geral de “destruir.

com certa cerimônia. e – de munição. “Ele nos ministrou todas as coisas de que precisávamos”. “Nós sempre nos fornecemos (e não – fornimos) de tudo aqui mesmo no bairro”. ou que habilitem a defender-se”. abastecer. dar. “Munem-se as praças de guerra esperando o inimigo”. Municiar é “prover de munições para um certo tempo. mu- nir. – “Quando chegamos àquela zona assolada pela seca foi necessário municionar muitos dos nossos postos. “O grande comboio abastou então a praça. – Entre fornir e fornecer nota-se a mesma relação que entre abastar e abastecer. Diremos também: “O menino está bem fornido (e não – fornecido) de carnes e com boas cores”. “A secretaria ministrará todas as informações necessárias ao juiz”. – Aprovisionar é “abastar de provisões. “A caravana. “E até de paciência vou munir-me para sofrer aquele biltre. e de predicação mais imprecisa e vaga. pelos desregramentos. oferecer. deprava-se um indivíduo. prover pouco a pouco e com regularidade”. de pão ou de carne uma praça onde havia necessidade de algum desses artigos”. aprovisionar. municionar. e. 26 ABASTAR. ou em cumprimento de um dever ou de um contrato”. ou “ficam bem municiadas as duas praças guardando aquele posto”. como por necessidade de acautelar o futuro ou prevenir algum mal”. e dali em diante foi ela sendo abastecida pelos lavradores dos arredores”. significa “fornecer. prover. subministrar. conferir. para uma diligência”. para que se pervertam almas basta às vezes um instante. fornecer. e abastecer é “abastar gradualmente. – Ministrar e subministrar são muitas vezes empregados indiferentemente. significa “fornecer. “Muniram-se de documentos contra a calúnia”. ou corrompe-se o menino nas más companhias. “Só os colonos vizinhos abastecem (e não – abastam) o nosso mercado”. como função própria ou dever de ofício”. as melhores índoles viciam-se fora do lar.” – Municiar e municionar são formações vernáculas – de municio. no entanto. fornir. munir. “Vai bem municiada a escolta”. “Aprovisiona-se de água. o primeiro. nem para prazo certo”. Subministrar é – diz Bruns. Ministrar. pelos crimes”. ou pelo menos de intuito que se procura dissimular ou encobrir”. – “fazer com que alguma coisa chegue ao poder de alguém que necessita dela para se sustentar”: “Os americanos subministravam armas aos insurretos cubanos”. corrompe-se o pão exposto à umidade. ministrar. apresentar. – Prover é o mais compreensivo dos do grupo. no entanto. e por uma determinação própria. é que nos forniu de pão: agora o que preciso é ver quem no-lo forneça regularmente”. “Munam-se todos de roupas de lã para o inverno”. do indispensável”. deturpa-se a memória de alguém. e fornecer é uma forma extensiva de fornir. municiar. Poder-se-ia ainda dizer sem . uma nação pelos erros. – Abastar significa propriamente “prover do bastante. e nem sempre com fim especial e imediato. ao passar.22 Rocha Pombo gura fazendo-a monstruosa. adulteram as nossas palavras quando as transmitem infielmente de propósito. desvirtuam as nossas intenções quando as interpretam de má-fé. o tempo devastador estraga formosura. – Munir significa propriamente “prover de armas e ou- tras coisas que tornem forte. pois estavam quase todos completamente desprovidos de tudo”. o segundo. “As colheitas excepcionais daquele ano abastaram (e não – abasteceram) toda a província”. Fornir é “prover do necessário. Municionar é “abastar de munições de toda ordem. quaisquer que sejam estas”. ou em obediência a uma ordem. deteriora-se o caráter fraco em luta com a miséria. Notemos ainda que subministrar sugere ideia de “ação clandestina. desnatura-se o homem no vício ou no crime.

como o castelo. – rápida e inesperadamente”: “Abateu o telhado”. – Destruir é. etc.. estragar. e deita-se abaixo. deita-se abaixo a muralha que se quer reconstruir. Bruns. desabar. cai o balão que já estava no ar. montanhas”. “Desmoronam-se castelos”. etc. arrasar. etc.. abater com estrondo”.. “Desabou a fachada de um edifício.. “Ruiu todo o edifí- destruir. Não se diria com propriedade: “Tombou-lhe dentre os dedos o charuto”. o verbo abater e a forma perifrástica pôr ou deitar abaixo: “Diferençam-se em que abate-se uma coisa para que deixe de existir. cio abalando a redondeza”. desfazer. vastas construções. caiu um raio sobre a torre. – Demolir é “desfazer pouco a pouco uma vasta construção..) e caindo pouco a pouco. Tanto se derriba a árvore. “Ouviu-se a descarga e o mísero tombou. como dissemos. arruinar.. mas deve aplicar-se “só a coisas de grande volume.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 23 deslize da pura vernaculidade: “Aprovisionar de pólvora a praça”. desmanchar. “Ouvia-se cá de baixo o ruir dos cedros lá no Líbano”.. ou a de que é “extraordinária e sensacional a queda”. derrocar. e sugere a ideia de que é “volumosa a coisa que tomba”. demolir.. caiu o chapéu de cima da mesa. – Precipitar-se é “lançar-se com violência de cima para baixo. lançar-se para um lado estendendo-se”. cair “a aba ou a beira”. como a muralha. Provisão (rad.. demolir. derruir. como no exemplo. – Tombar é “cair com fracasso. – Cair é. – Compara assim. – Abater é baixar ou cair “a prumo – diz Bruns. o lugar em que estava para vir a lugar mais baixo. de aprovisionar) é tudo quanto convém. despenhar-se. Mas esta ideia é melhor expressa ainda pelo primeiro. “Abateu a terra em torno”. – Ruir é “cair. – Desabar significa propriamente “abater em torno com fracasso”. e deita-se abaixo aquela que se quer substituir. ou “Deixei tombar o lápis”. aos que guarnecem a praça. – Entendemos que derribar. abate-se a fortaleza que não convém deixar de pé. e aproxima-se de destruir. e munição (rad. “Despenha-se a avalanche inundando toda a várzea”. pois só é suscetível de demolir-se o que foi construído. deitar abaixo. 27 ABATER. como grossos muros. renovando ou transformando: manda-se abater a árvore que intercepta a vista. – Aluir é abalar-se. derribar.” 28 ABATER. caiu chuva. se se dissesse: “Municionar de água ou de pão a praça”..” – Desmoronar é “ir desfazendo-se” (Bruns. desabou a barranca”. ruir. porém: “A artilheria demoliu”. tanto para esse fim. porém. precipitar-se. Não se daria o mesmo. “Cai a casa. “desmoronam-se esperanças ou ilusões”. desprender-se e sair do lugar em que estava”. e até. Podemos dizer sem grave ofensa à índole da língua: “A artilheria inimiga destruiu a colina” (isto é – “desarranjou-lhe a estrutura”). portanto. de municionar) é tudo que se aplica diretamente à defesa da praça. como para tornar a levantar. desmantelar. Mas diremos: “Tombam rochedos”. tombar. que também significa propriamente “desfazer o que foi construído”. Derribar é “fazer cair. aniquilar. cair com ímpeto em lugar profundo”. tirar de cima para baixo”. cair. “Daquela medonha altura precipitou-se o monstro no abismo e desapareceu”. – Despenhar-se é vir abaixo desprendendo-se de grande altura (segundo a etimologia – “cair do alto de rochedo”). dos do grupo. nem tanto. pois municionar tem predicação mais restrita. e mais ou menos rapidamente. pelo menos tanto como abater. o verbo de sentido mais geral: enuncia a ideia de deixar uma coisa. “Tombam árvores”. aluir. “fazer que uma coisa deixe de ser . “A parede aluiu com as chuvas”. no sentido figurado. se aproxima de deitar abaixo. desmoronar.

– Desmanchar é também desfazer. “Descontam-se letras e outros papéis de crédito”. ou mesmo destruir assolando”. deminuir. Desmantela-se uma fortaleza arruinando-lhe as muralhas.24 Rocha Pombo o que era desarranjando-lhe a estrutura”. mas podemos também desmanchar um aparelho. desmantela-se uma corporação que se desagrega e fica sem ter quem a dirija e represente. deduzir. esmorecimento. – Estragar é “desfazer. desmantela-se um exército desfazendo-lhe a parte mais forte. aniquilaram num momento o inimigo”. – Descontar é propriamente “deduzir de uma conta”. descontar. quer se trate de quantias. “Com tais erros aniquila-se a obra de muitas gerações”. – Minuir é “fazer menor”. – Desmantelar é. e por extensão: “abater de uma quantia uma outra que já foi paga ou que não deve ser paga”. “Do total a que chegou suponho que é preciso deminuir alguma coisa”. de Souza). ou as cédulas do tesouro a recolher já sofrem desconto” (e não abatimento). “Carregando impetuosos. consistindo apenas a diferença entre os dois em “poder subtrair aplicar-se somente a números”. definhamento. como se desfaz um nó. depressão. como se desfaz um exército. Deduzir dá “ideia genérica de abater. como se desmancha um muro. “Deduzam da nossa dívida a importância dos serviços que temos prestado”. esvaimento. “Arruinaram depressa todo um quarteirão da cidade”. – Arruinar é “estragar e reduzir a ruínas”. . um monte) até que fique rasa com o chão”. o mesmo que deminuir. verbo de sentido muito geral. neste grupo. demolir grandes moles (rochedos. de tirar uma coisa da outra. uma cidade. subtrair. conservando-lhes as peças para armá-las de novo. significa “deduzir de uma certa importância uma outra que se combinou não fosse paga”: Abateu 20 0/0 nas compras que fiz”.. demolir as fortificações de uma praça. uma floresta. languidez. portanto. e deminuir (ou diminuir) é “fazer menor uma quantidade tirando dela uma outra quantidade”. acabrunhamento. – Arrasar é “destruir completamente uma coisa (um edifício. É. ou os muros ou paredes de um edifício”. uma cerca (isto é – se desfaz. desfalecimento. como bem define Aul. aqui. em geral. desmaio. mas sem ideia necessária de destruir. “O bombardeio estragou enormemente a cidade”. construções)”. esvaecimento. – Derrocar (ou derocar) é “derribar com estrondo. minuir. 29 ABATER. uma fortuna. quer de quantidades em geral”. ou mesmo – se destrói). e em sentido mais restrito é estragar. etc. Não há dúvida que se desmancha uma intriga. e até uma casa. quase o mesmo que “minguar ou fazer minguar”. “desguarnecer um objeto daquilo que o protege ou que lhe é essencial. um enredo. Minuir é. prata e joias que a infanta consigo levasse” (Fr. – Aniquilar é “destruir reduzindo a nada”. 30 ABATIMENTO. destruir com fracasso”. – Abater. “Que da soma maior do dote se descontaria todo o oiro. “Vai o tempo inexorável minuindo aquela robustez”. “Os títulos. montanhas. “Já deduziu da nota as parcelas que estavam marcadas”? – Subtrair é. dividindo-o. Derruir (ou deruir) é “pôr abaixo abalando. – Desfazer é. “mudar o estado de uma coisa de modo que não seja mais o que era”. ou “deixar de meter em conta”. “Derruíram em poucas horas as muralhas do forte”. “Tito arrasou Jerusalém”. L. instituições. privando-o de unidade de comando e de ação. como – figuradamente – se derrocam grandezas. etc. Derrocam-se muralhas. portanto. acobardamento. “É preciso abater do ordenado do mês o que corresponde aos dias da licença”. Tanto se desfaz um muro.

– Desânimo e desesperação. por trabalhos. delíquio. desilusões. O organismo que se extenua por trabalho. um quase esmorecimento muito rápido. Desesperação é “o auge do desalento” – diz ainda Bruns. quebra de forças ou de ânimo”: “Os meus alquebramentos não vão até o extremo de desalentar-me para a vida”. – Esmorecimento é quase desmaio.”. desânimo. – Definhamento. o remorso. o desalento. desânimo. produzida por medo. perda de lucidez “em consequência de desfalecimento”. “É o desânimo que nos arreda de encetarmos a empresa: é o desalento que nos induz a não continuar o que não nos deu os resultados que esperávamos obter”. – Esvaimento (do mesmo rad. ou sofrer alguma coisa”. de coragem. – Acobardamento é a “depressão de ânimo. desesperação (desesperança e desespero). Desanima aquele que “deixa de sentir a indispensável coragem para vencer um embaraço. levanta-se Portugal como por um prodígio”. o amor. mas não chegou a feri-la de desalento para as coisas de arte”. opressão. ou por doença ou desgosto. fortaleza moral.. mas é mais lento e extenso. tédio e abandono em que fica um doente”. – Depressão é o “abaixamento de forças produzindo abatimento do corpo e do espírito”. Análogas aplicações no sentido moral: a saudade. desânimo e desesperação dizem-se só do espírito”. “A doença alquebrou-a.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 25 debilitação. coragem. vanescere) é o desfalecimento produzido por exaustão (e tanto no sentido moral como no físico). “Não foi propriamente desmaio o que ela teve. – Alquebramento é “diminuição. que não esteja sujeita a profundas debilitações em certas crises. – Languidez é o “estado de fraqueza. de energia”. definha. alquebramento.. Pode-se esmorecer subitamente.. . – Abatimento é o “estado em que fica uma pessoa por efeito de grande dor ou choque (se é moral) ou de doença grave ou prolongado sofrimento físico”. mas um simples esvaecimento”. principalmente morais) produzida por trabalhos. ao cansaço ou à fraqueza”. superar algum contratempo. – Prostração diz mais que os três precedentes: é o “extremo abatimento. o que se imobiliza ou não tem regra na vida. uma consequência necessária da crápula é o “enfraquecimento do espírito”. – Desfalecimento é a “perda de forças e de coragem”. “Daqueles sessenta anos de esvaimento. produzido por dores físicas ou morais. ou vencer um mal ou um sofrimento”. O desânimo pode ser originado pela pusilanimidade: o desalento funda-se na experiência. desalento. debilitação e enfraquecimento “exprimem também diminuição de forças (tanto tratando-se do corpo como do espírito)”. o que não se nutre convenientemente enfraquece. – “Abatimento e prostração dizem-se do corpo e do espírito.. doenças ou miséria”. – Esvaecimento será um desmaio “muito subtil. – Acabrunhamento é o “estado de fadiga.) do espírito: desanimar e desesperar marcam fenômenos da vida subjetiva. “Só a morte porá termo a todo aquele acabrunhamento”. podem produzir definhamento em almas extremamente sensíveis. debilita-se. instantâneo”. desalento. mas decerto que se não dirá: – “desmaiou subitamente”. – Segundo Bruns. tristeza. sim – só se dizem (como no entender de Bruns. que “podem confundir-se: ambos significam falta de ânimo. “não há esperança. refere-se melhor à perda da esperança. etc. – Desalento é a falta de forças (físicas ou morais. entregue inteiramente à dor. em que se fica sem ação. porém. por falta de coragem para arrostar um embaraço. – Desmaio será um “desfalecimento súbito”. etc. pois a ideia de subitaneidade já está contida em desmaiar. enfraquecimento. Quanto a desânimo e desalento diz Bruns.. Desespera aquele que “perde de todo a coragem e a esperança”. e o desânimo à perda da coragem. prostração.

mas certamente não se pode abandonar e largar. o desvario de quem se desengana de alguma coisa. Pode-se largar e abandonar. – Delíquio aproxima-se de desmaio e de esvaimento: é o estado em que fica uma pessoa que desfalece “como se se dissolvesse”. “Como não lhe atenderam aos reclamos. – Abdicar é “renunciar. é “abdicar em sentido amplo e geral”. – Ceder é (como diz Aul. Mas. “deixar o que se tinha começado. ou em proveito de alguém. como se rejeita uma coroa.26 Rocha Pombo É preciso distinguir as três formas – desesperação. “Desobrigou-se facilmente da grande missão”. desesperança e desespero. ou vago). devendo notar-se que é sempre voluntariamente que se resigna. – Largar e abandonar significam “deixar. a privação de toda esperança. ou de um cargo que não mais lhe convinha ocupar. “Renunciai instintos ignóbeis” (Mont’Alverne). “Esaú cedeu a Jacob o seu direito de primogenitura”. “Abdica o rei o seu trono em favor de outrem.) “desistir de alguma coisa em favor”. desistir. desobrigar-se. Desespero significa mais a raiva. largou o ofício de órfãs” (deixou-o livre. – Exonerar-se é também demitir-se. que aquele que renuncia pode ser a isso forçado. “O pobre está desobrigado de dar esmolas”. resignar.”. – Rejeitar é propriamente “lançar de si com veemência ou ímpeto”. “F.. – Desistir de. o que se exonera”. quem abandona “como que foge ou se afasta da coisa abandonada”. – Desobrigar-se é “isentar-se da responsabilidade. ou “não querer coisa a que se tem direito. de permitir. mesmo de loiros”. – Resignar é íntimo convizinho de renunciar e de abdicar. e. no entanto.. “A desesperança de quem viveu sem pensar no destino pode chegar à desesperação de morte horrível. ou em cuja posse se estava legitimamente”.. 31 ABDICAR. de aceitar”. “Ele se desobrigaria do pacto se nós o maltratássemos”. “tirar de si por vontade ou a contragosto”.. – O mesmo deve acontecer a quem recusa. “O príncipe abandonou a sua causa”. no posto”. Desesperação é a aflição. esquecendo-a. abandonar. ou encargo ou tarefa pesada. ou sem nada mais ter que ver com a sorte dela. “Como é que se recusa entrada a um moço daquela ordem?” “Ele recusou tão bom emprego”. Rejeita-se uma proposta desonesta. ou não se pode dizer que se larga depois de haver abandonado. exone- rar-se. mas sugere a ideia de que se “alivia de peso.. recusar. rejeitar. desistir da obrigação que se tomara. “Não há fortes que não tenham seus delíquios na vida”. pôr de lado alguma coisa. demitiu-se ele próprio daquelas funções”. pois quem abdica ainda usa do seu direito de passar a outrem a dignidade abdicada. livrar-se ou exonerar-se de um dever”. “Vou desobrigar- -me contigo da promessa que fiz”. Desiste-se de um emprego. alguma dignidade ou alto cargo”. mas quem resigna entende-se que mais propriamente renuncia do que abdica. . desiste-se de um pleito. uma ignomínia. Quem rejeita não está de posse ainda da coisa rejeitada. Quem se demite põe-se fora do lugar em que estava: quem se exonera liberta-se de um trabalho. “Renunciam-se (e não – abdicam-se) riquezas”. ou algum cargo”. ou a função em que se estava”. é “abrir mão de. quem larga como que “deixa fugir ou escapar a coisa largada”. igualmente como aquele que abdica. “despojar-se de alguma honra ou algum proveito antes de tempo”. a angústia em que fica quem perdeu a esperança. em favor ou proveito de alguém. Desesperança é apenas a falta.. largar. ceder. renunciar. demitir-se. quem renuncia (como quem resigna) despoja-se do cargo ou da coisa renunciada. atormentada de todos os desesperos do precito”.” – Renunciar é “depor voluntariamente”. – Demitir-se é “deixar de permanecer no cargo. Recusar diz menos que rejeitar: é “deixar de receber. ou de um intento.

barriga. Benzimento é também ato de benzer. O terceiro. benzer. – Bojo é termo genérico. pedir bens e prosperidades para alguém”. a parte para onde vai o alimento quando é ingerido. e também “abençoam a assistência ao fim da missa”. se pode dizer no sentido moral e de louvores. – Abdômen (diz Bruns. Bendizer e abençoar confundem-se muitas vezes na significação extensiva de “desejar. bendizer. bendizer pode referir-se também a coisas. O que se diz de bendizer aplica-se a louvar. – três verbos portugueses (bendizer. profundo. – Entranha (ou entranhas) diz também ventre. a pança ou o pandulho”: não com a mesma propriedade – “encheu o ventre”. Benzer não é hoje usado senão para indicar as benções eclesiásticas ou supersticiosas. – em forma convexa: “O bojo de um frasco. de atividade funcional”. de um barril. – Do verbo latino benedicere formaram-se – diz Roq. pois. – Bento designa a benção da Igreja. não já de abençoar. ou benções”. que bendito.. significa “deitar a benção.. o instante em que nos vem alguma felicidade. Pão bento. significa propriamente “dizer bem. e não – louvamos. bento. pandulho.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 32 ABDÔMEN.. e às vezes abençoado. e mesmo como significando “ato de benzer. nem sempre são abençoadas do Céu nos campos de batalha”. Dizemos – a benção do pão. benzer. a santos e a homens. pandulho. benzimento. abençoado. em vez da de volume. Benção é tanto o ato de abençoar como de benzer. significa “lançar benções acompanhando-as de preces e ritos apropriados à coisa que se benze. de uma parede.”. uma família. têm entre si alguma diferença. benzer. Nossa Senhora é bendita entre todas as mulheres. etc. benzer e abençoar) torna-se mais sensível nos particípios destes verbos. já não . Daí bojo com aplicação ao volume desabalado do abdômen. sensível. abençoar (ou abendiçoar). – Também se sente a distinção nos derivados benção e benzimento (ou benzedura). uma nação. pança são plebeísmos a que se dá sentido semelhante ao de abdômen. O primeiro. como dizemos – a benção dos pais. “O justo bendiz (ou louva) ao Senhor tanto na prosperidade como na desgraça”. e bento no sentido legal e de consagração. louvar. louvar. bendito. Dizemos vulgarmente: “encheu a barriga. O segundo.” – Barriga.) “é o nome científico da cavidade que encerra os intestinos do homem. posto que concordem na ideia principal. dada pelo sacerdote com as cerimônias do costume. bendizer. ventre. Esta diferença – diz Roq. de um tronco de árvore. e nunca – “encheu o abdômen”. “Os pais abençoam os filhos para que sejam felizes”. “Os sacerdotes benzem tudo que é consagrado ao culto divino”. etc. Bendizemos a hora. água benta. bojo. significando “amplitude. entranha. bentas com grande pompa na Igreja. benção. “O bojo de um navio. “sugere ideia de fecundidade. 27 pança. Distinguem-se de abdômen e de ventre por significarem mais particularmente o estômago. porque louvar é mais “fazer elogios” do que “dizer bem e dar graças”. mas. “As bandeiras militares. grandeza de volume de forma arredondada”. exalçar”. “alargamento ou saliência” – diz Aul. – Bendito ou abençoado se diz para designar a proteção particular de Deus sobre uma pessoa. com esta diferença: louvar se diz em relação a Deus. extensivamente diz-se do vulto que essa cavidade apresenta exteriormente”. 33 ABENÇOAR.. etc. Todas as nações foram abençoadas em Jesus Cristo. abençoar) que. mas acrescentando-lhe ideia de “íntimo. – Ventre é também abdômen. isto é – “sugerem ideia de ventre volumoso”. – Vê-se. – (entre bendizer. da vela de uma embarcação”.

no entanto. rigorosamente falando.. intrujão. – Buraco é “abertura.). por . introduzido. entremetido. fresta. – Se o buraco é muito fino. discutindo negócios alheios.. fizeram enormes furos. mas para ouvir o que se diz. Benzimento ou benzedura ficou tendo aplicação quase exclusiva a “coisas de cabala. passa a ser orifício. – Racha é a “abertura por efeito de rotura” (Aul. ordinariamente circular”. Nem sempre. mas a benzimento do fogo preferimos dizer – a benção do fogo. que mirava tudo. é uma racha aberta de propósito com instrumento cortante. e por extensão qualquer fenda por onde penetra a custo a luz. ou no costado do navio”.. – Fresta. orifício.” Rombo. O sacerdote benze o fogo. o óleo. ou dos efeitos do calórico. a abertura que há entre o quício e a porta. Poder-se-ia dizer igualmente sem grande impropriedade: “. frincha. saber de tudo que se faz.. e não dá ideia de proporções: tanto é buraco um rombo enorme feito através de uma montanha como é buraco o furo feito por uma bala através de uma parede. mas o que “se mete com certa audácia naquilo que lhe não compete”. ingerido. além de grande força onomatopeica. “frinchas da madeira”. é uma rotura natural. 34 ABERTURA. metediço. a gestos ou figurações de supersticiosos”. a água. “Pelo vão de uma janela”. greta.): o que. aberta. e fenda é exatamente o contrário – enuncia apenas a ideia de que se não acham unidas ou apertadas as duas partes de um corpo que se disgregam. – Vão é “todo o vazio ou espaço aberto num corpo”. nem sempre se dá em relação a aberta. – Interstício é propriamente “o que fica entre duas coisas”. A terceira.). interstício.” 35 ABELHUDO. mas com a cabeça coberta. fisga. furo. rotura. a abertura é artificial”. o espaço livre entre duas ou mais partes de uma coisa”. abertura e resquício. cumprindo observar. fisga são muito semelhantes pela ideia comum. por uma fisga de roupa” (Herc. ou estreita: devendo notar-se: que fresta é das três a que exprime abertura menos estreita. no entanto. própria de dilatação ou contração dos corpos sólidos. – Rotura é a “aberta deixada por um rompimento”. resquício. que sugerem. Fisga é quase o mesmo que fresta: apenas fisga dá ideia de abertura feita por um corte ou rasgão. fenda. A segunda. pelo menos. abertura. – Furo e rombo designam “buraco. é. Diremos: “Por uma fresta da porta mal fechada vi-a passar” (e não: por uma fenda). A primeira. in- trometido. escreve Roq. A greta e o resquício são naturais. resquício. “Eu. falha. é “o espaço que fica entre duas partes de um corpo que se separam”. nem mesmo nos casos em que se aplica o verbo benzer. fenda. tomando atitude em questões que lhe não pertencem”. rotura feita com mais ou menos violência.28 Rocha Pombo se pode mais aplicar a cerimônias de culto. racha. “As bombardas fizeram rombos enormes na muralha. vão. “por um vão da floresta. intruso. buraco.: “A diferença que existe entre a significação destas três palavras é bem fácil de notar. principalmente rombo. Este dá ideia ainda de rotura de grandes proporções. – Abelhudo é aquele que vive (como a abelha num jardim) “metendo-se em toda parte. pois esta enuncia apenas o “claro de greta grande. que abertura sugere ideia de que a racha foi “feita de propósito” (como nota Roq. de abertura longa e fina. – Entremetido é. – Quanto a greta. – Frincha “dá ideia de fenda. dá mais ideia de violência e de grandeza. – Aberta é o mesmo que abertura. ou da montanha. greta. claro” e vagamente: “Frinchas da renda”. rombo. oferecido. “As fendas que o sol fez no muro” (e não as frestas). taralhão. não propriamente abelhudo.

intrusas e ridículas. com muita propriedade. portanto. com ridiculez. o de amplo é exíguo (ou constrito). “O assunto é muito amplo para ser tratado em meia hora”. largo. O antônimo de largo é estreito. e de significação mais vaga. lhe chamam taralhice. e a este trato ou modo de falar. largo direito. escreve João Ribeiro na última série das suas Frases feitas: “Atribui-se o ditado “Nunca o vi mais gordo” ao imprudente que. aplicar (como acontece em relação a amplo) em certos sentidos morais: não diríamos. larga liberdade. e portanto contra o direito”. Assim. amplo. familiaridade ou importância. e em certos casos sugere ideia de amplitude: “Horizontes abertos”. ou pelo menos tendo algum interesse. Bluteau já havia. (Aul. que abrange todas as dimensões. de grande circunferência”. E uma vez que taralhão e gordo se equivalem. conversar ou obrar. desenvolvido. e com mais atrevimento que desaso”. Diz Bruns. portanto.). diz que amplo. 36 ABERTO.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 29 isso. “O entremetido parece sempre demasiado gordo”. por exemplo: larga jurisdição. o entremetido é abelhudo: só a inversa é que é menos exata. “campina dilatada e aberta. – Vasto é mais do que amplo e espaçoso. dilatado. e até que metediço: é o que “entra onde não deve entrar. – Metediço é como se se dissesse oferecido: é o que “vai ou se mete em toda parte mesmo sem ser chamado”. afetando graça. e em sentido lato dá ideia de “tão desmedido e aberto como se fora feito por arrasamento e assolação”. engana. suponho que o sentido passou de um ditado ao outro. – Aberto é talvez o mais genérico do grupo. e o epíteto se aplica a pessoas afetadas. extenso. se entremete onde não é chamado. e “em frase chula quer dizer – aquele que tem um modo de tratar com termos. Creio que por elipse se tirou da outra frase muito comum: “meter-se a taralhão”. A propósito de taralhão. Diz – “o que está desimpedido. é ampla quando nela folga tudo o que contém. o oferecido aborrece. ou fim oculto em meter-se onde não foi convidado a ir. – Intrujão é ao mesmo tempo metediço e abelhudo. contendo muita mobília. é o que é amplo – largo e comprido – extenso. a propósito de taralhão. – Introduzido é mais que oferecido. que “uma sala é espaçosa quando. e os taralhões são pardais que engordam muito. naturais ou afetados que o fazem ridículo. – Espaçoso é “o que compreende relativamente grande porção de espaço”. “Taralhão é o que se entremete onde o não chamam” (Bento Antonio). da Acad. desfruta. ainda nela há muito espaço desocupado. – Intrometido é o mesmo que entremetido. estirado. – Intruso é o que “se põe nalgum lugar alheio. explanado. ao passo que taralhão parece o mais inofensivo. livre de obstáculos. lato. e mais ainda: é o “tipo manhoso e importuno que persegue com lábias. espaçoso. valendo-se de astúcias e perfídias”. porque chamam de taralhão à pessoa gorda. De toda a família é o mais forte. – Largo é o que “só tem grande a largura”: muito menos. Largo não se poderia também. desconfia-se do oferecido. enquanto que oferecido diz também alguma coisa de dissimulado. . é vasta quando as suas dimensões são extraordinárias”. vasto. “Vasta campanha. – Ingerido (que se confunde bem com inserido ou enxerido) é o que “intervém em questões ou negócios pretendendo resolver ou adiantar o que é de competência alheia”.) “Com grandes poderes e ampla jurisdição” (Dic. explora.” – Amplo ajunta à noção de dilatado a ideia de “vasto contorno. Repulsa-se o metediço. Distingue-se de oferecido porque dá mais ideia de atrevimento e desaso. ou jocosos ou sérios. O metediço irrita. “Casa espaçosa”. velhaco. notado que o termo se toma metaforicamente por gordo.

erro.. – Regaladamente diz mais do que “em abundância”. – “Estamos em nossa casa a bel-prazer. ou “com fartura”: acrescenta a isso a ideia de “com alegria e voluptuosidade de sibarita”. absurdo. aberto”. Estamos folgadamente onde nada nos aperta ou oprime.. à farta. vasto. sem preocupações”.30 Rocha Pombo vasto país. regaladamente. Camões disse: “Esperando com olhos longos o marido ausente”. estirado. aberto”. desconchavo. – Dilatado diz juntamente o que “é longo. dilatados tempos”. largamente. ou pelo menos nem sempre – campo longo. “Percorremos as formosas e latas veredas daquela região”. e à saciedade se goza um prazer se não se deseja mais. À larga diz “em plena trassenso. desrazão. mais desenvolvido que o normal”. deixa-se a criança brincar à vontade.). ou (como em semântica) de sentido ilimitado”. à lar- liberdade”. nem com tanta propriedade. ou como senhora rica “que cuida mais da mesa que da fama”. diz “extenso. desafogadamente. – Explanado. “conforme é do nosso agrado”.. desregramento”. despropósito. a “de largura. “sem apertos ou empecilhos”. – Lato é quase o mesmo que amplo. “Não pudemos aguentar toda aquela estirada arenga”. “sem regular cuidados”. Passamos regaladamente “quando passamos como. desconcerto. con- ga. “até mais não desejar ou não querer”. vive-se à larga quando se gasta desregradamente. que é o mesmo que “até ficar satisfeito”. “Este vocábulo. ou diz menos do que largo”.” – Desenvolvido refere-se a uma grandeza que tomou proporções notáveis: “O menino está desenvolvido”. desatino. disparate. – Extenso diz menos que amplo. Não diria decerto: “. folgadamente. além da ideia de amplitude propriamente. estas duas frases: “Falou largamente contra o governo”. – Desafogadamente enuncia a ideia de “sem nenhum embaraço ou premura. de extensão.. error. “sem obedecer a escrúpulos”. fazendo-se mais convizinho de longo. extenso. É de mais força que largamente. enquanto que à larga sugere ideia de “incontinência. claudica- . a uma parte do continente explanada como imensa campanha a perder de vista”. no sentido próprio. “Desenvolvido demais foi o discurso”.. extenso. “Falou à larga contra o governo”. desvairo. vive-se à farta se se não tem necessidade de calcular muito as despesas. vive-se desafogadamente quando se vive sem ânsias ou preocupações. à regalona. – À vontade quer dizer “como quiser ou desejar”. “Chegamos ali. fica-se a gosto onde não há cerimônia. – À farta equivale a “com fartura”. diz mais. igual. a gosto. portanto. amplo. – Folgadamente corresponde a “com largueza” (Aul. no entanto. 38 ABERRAÇÃO. falta. destempero. despautério. 37 A BEL-PRAZER. príncipes”. e na acepção usual referem-se mais ao comprimento do que à largura. vasto mar”.. pois esta forma equivale apenas a “de modo amplo”. “Estão bem desenvolvidos os serviços da construção”. dilatado. com olhos extensos... à vontade. – À regalona diz ainda mais que regaladamente: significa “de maneira ostentosa. plano. à grande”. destampatório.. longo exprime ainda mais particularmente a ideia de comprimento.. sugere. – Estirado quer dizer “estendido.. extravagância. “sem medir gastos”. – Mas. – A bel-prazer significa “segundo a própria satisfação”. Diríamos indiferentemente longo ou extenso caminho. ou se se tem com fartura o que é necessário. Trata-se à regalona quem se trata como grão-senhor. à saciedade. livremente. “Dilatada campina.. dilatados domínios. A gosto exprime “sem constranger-se”. Ninguém confundirá. e aproxima-se de à saciedade. na acepção lata.

além de forma erudita.. – Desconchavo é também o que “desgarra das normas. – Disparate é desatino que tem “mais de graça que propriamente de doidice”. queda. pois este vocábulo enuncia “o que é contrário ao senso comum”. Toma. desvio. ou do que se tinha assentado”. descaminho. O que é absurdo ao sentir ou ver de uns pode deixar de o ser ao de outros.. – Despautério é forma popular de disparate. ou mesmo os sentidos materiais bastassem para senti-los (contrassensos). outros percebidos ainda mais prontamente. Decerto que tratando de Lutero não diria o padre católico: “os absurdos”.. mas: “Disseste absurdos”. lares de absurdo. além de mais preciso. ou cometeste aberrações”. aquilo que está “em colisão com a consciência”. é como se disséssemos.. de equilíbrio mental”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 31 ção. e diz “absurdo. – Erro é “tudo o que não se concilia com a razão. e só se deve aplicar a deformidades e a erros extraordinários. mas nunca chegou a tais destemperos”. e não: “os absurdos”. uns percebidos quando colidem com o entendimento (desrazões). “Simples faltas que nem se podem ter por erros. deslize. lapso. determinado. como se apenas o bom senso. “uma extensão de erro”. – Despropósito é “dito ou ação fora de propósito. Dizemos também: “as aberrações do espírito humano”. etc. – Extravagância é “tudo o que se desvia das normas usuais do bom senso e da boa razão” (Aul. “contrário ao que é razoável”. Revendo um tema. – Desatino é “falta de tino. “F. devendo considerar-se que parece inseparável da ideia de culpa.” – Error é. poderia confundir-se com abuso: designa simples infração de raciocínio. quer dizer “o erro que comete quem se desvia das leis do espírito. Desrazão e contrassenso são casos particu3 Diz Laf. portanto. descaída. conquanto seja este menos forte nesta acepção. de aprumo. despropósito que não vale a pena de combater ou destruir”. “Este homem tem perpetrado tais absurdos. – Intr. patada. – Destempero é extravagância “mais estrondosa e deplorável”.). é destempero que chega a parecer excesso de doido. descuido. é mais forte. aplicado a fatos de psicologia.. “as aberrações do demônio”. confusão produzida por desvio do normal”. flagrante. desacerto. são erros de certa ordem.. equívoco. – Contrassenso é o mesmo que “contrário ao senso comum. que não se ajusta à ordem de ideias ou de fatos que se seguia”. ou melhor com a consciência vigente. persistência ou “reincidência numa série de erros”. – Aberração3 significa propriamente o “ato de sair do caminho direito (aberrar).. ao modo de ver de todo mundo”. é o que não está “no mesmo tom.. ao passo que aberração enuncia a ideia geral de aberrar. Mas entre absurdo e aberração deve notar-se pelo menos esta diferença facilmente perceptível: absurdo é termo genérico e que. verbo de predicação muito mais vaga. por extensão. uma acepção que o aproxima de absurdo. LXXIX – que aberração era um termo de astronomia somente antes do começo do século XIX. ou cometido estas aberrações”. principalmente no plural. cinca. Aberração. em certos casos. ou dos princípios da lógica. – Desrazão significa propriamente “contra a razão”. mas. concreto”. e mais: “erros de entendimento ou de juízo que de . engano. não diria o professor ao aluno: “Disseste. e por isso aproxima-se muito de falta. – Destampatório é “extravagância ou despropósito descomunal”. perder-se no caminho”. – Desvairo (ou desvaire) será o desatino “leve e sem a graça do disparate”. comete às vezes umas tantas extravagâncias.. ou em desacordo com aquilo de que se trata”. ou do que se dizia. – Desconcerto é “disparate sem espírito. transviamento da linha em que se ia. porque absurdo é o fato “em si mesmo.

– Equívoco é menos que descuido: é o engano “cometido contra a vontade ou intenção de quem o comete”. pato. ou da direção em que se ia ou que tinha de ser seguida. apataratado. porém. parvajola. acamelado. que podiam passar como apenas claudicações censuráveis. Deslize é “ligeiro desvio da linha. “Os seus deslizes nem são descaídas quanto mais quedas”. ou por falta de noção exata do dever”. sandeu. – Patada é plebeísmo que significa “despropósito grosseiro. burrego. néscio.) – Desvio e descaminho quase que se equivalem. aparvalhado. bobório. e por fim. ou de perder o caminho certo ou direito”. aplicar-se a erros de entendimento. asno. truão. Exemplo: “Repetem-se os lapsos. papalvo. estúpido. – Todos estes vocábulos exprimem de comum a ideia de “falta de inteligência. queda. boçal. já ele não sabia explicar tão frequentes equívocos. no entanto. assentam mais propriamente a faltas de senso prático. e no sentido figurado designa o “ato de cometer erros por defeito de espírito. palerma. não devendo entender-se que este (o derivado) seja sempre. Claudicação é propriamente o “ato de coxear”. embotado. de vivacidade. aboçalado. patau. apalhaçado. apapalvado. erro brutal. abasbacado. aburregado. idiota. tabaréu. abobalhado. e sempre sem as proporções e a gravidade que tem o erro propriamente”. toleirão. de graça para agradar. estes. amatungado. amatutado. bufão. besta. (Aul. pascácio. basbana. maninelo. bestiaga. ignorante. mas. pasmado. ou que tem ares de besta”. ignorantão. doidivanas. estulto. ingênuo. fátuo. significa “que se mostra besta. e desvio é o “ato de mudar de rumo. abasbanado. lorpa. burro. conduta”. beócio. mais por ilusão do que em consciência. deslize equivalem quase a claudicações: queda sugere de mais a ideia de culpa ou de pecado. chocarreiro. – Cinca (ou cincada) é “erro de ofício”. palhaço.” Podem. asinino. parvo. lerdaço. – Desacerto é “erro ou falta cometida por irreflexão ou inadvertência”. apalermado. tolo. como poderia parecer. Quanto a alguns do grupo há uma observação a fazer. quadrúpede. abobado. patego. – Lapso é quase equívoco: é engano devido mais à falta de memória que a desmazelo ou ignorância. pataroco. estólido. matuto. patarata. imbecil. jogral. pacóvio. depois. atoleimado. bolônio. – Descuido é o “engano cometido por falta de atenção”. simples. bronco. notando-se. tapado. lerdo. boca-aberta. rude. palúrdio. do reto caminho”. – Descaída. apenas uma extensa e atenuada do seu radical. de expediente na vida. rombo. aparvoado. aburrado. ignaro. e inclui ideia de asneira agressiva”. apalonçado. enfatuado. viram todos como erros que logo tomaram o caráter de verdadeiros crimes”. camelo. jumento.32 Rocha Pombo 39 ABESTALHADO. acaipirado. pateta. parvoinho. charro. – Engano será o “erro ou a falta cometida sem culpa. simplório. palonço. e que se refere à diferença notável marcada pela derivação. que descaminho é o “fato de tomar caminho errado. papa-moscas. caipira. apatetado. Quer isto dizer que mesmo um indivíduo muito inteligente . em regra. não tiveram mais desculpa os muitos enganos. alvar. estupidarrão. em certos casos. obtuso. de espírito para agir”.Vejamos: Besta é tropo conhecido que designa o indivíduo em que aparentemente se denuncia uma indigência de entendimento e uma índole obstinada semelhantes ao que parece ter o quadrúpede desse nome: abestalhado. bobo. descaída é mais “deslize ou lapso que propriamente queda”. aplicável a cada um desses e o respetivo derivado. mentecapto. alorpado. asneirão. boto. ou “falta cometida por imperícia”. maturrão. patocho. camelório. ajogralado. parvoeirão. aumentando àqueles a ideia “de ingenuidade ou inconsciência”. basbaque.

curto de compreensão como criança. palerma. aliás. e revelando isso por inépcias. ou parecendo lorpa”. disparates gaguejados a custo. Dá apataratado = “que se faz patarata”. que significa “estúpido e sem préstimo ou valor algum”. conquanto. a de grande inépcia”. mais com esgares. diz melhor “o que não tem o discernimento. “tipo mais boçal e desfrutável que o bobo”. lerdo no pensar e no agir”.). do que propriamente com discursos ou ditos graciosos”. “meio pato”. Notemos ainda que entre abobado e abobalhado é preciso fazer uma ligeira distinção: o primeiro quer dizer que parece bobo. como outros muitos do grupo. por figura. que é forma erudita. muito usado pelo menos em grande parte do sul do Brasil. Dá apapalvado = “com jeito de papalvo”. histrião por ofício do que propriamente idiota ou besta”. equivale a “bobo insolente. diz C. – Patarata é “pessoa tola. que é provincianismo algarvio. por fazer-se engraçado. Além de abobado e abobalhado.. patego. – Papalvo quer dizer “simplório. meio parvo”) e aparvalhado (“semelhante a parvo. e parvajola = “que. maluco pretensioso”. como se sabe. nem a compostura. mímica espalhafatosa. – Palúrdio quer dizer “idiota.) = “grande parvo”. Temos ainda: parvoeirão (aum. impostora. e por analogia significa o “indivíduo pobre de espírito que procura divertir os outros. – Palerma é o indivíduo “quase idiota e que parece ter tanta incapacidade para pensar como para mover-se”. dando ideia do “indivíduo lorpa. e o segundo. formas que pouco alteram a significa- ção que tem aqui. Dá atoleimado – “que se faz de tolo”. era. que se deixa iludir. – Lerdo equivale a “pesado. que tem ares de bobo. enganar. afetada. parvoinho” (pois parvajola é também forma diminutiva). rude. estúpido” – Lerdaço é aumentativo de lerdo. – Patocho. que é a mais usada. a própria palavra pato. preguiçoso. demasiado ingênuo. com idêntica significação. – Parvoinho é simples diminutivo de parvo.) é o “indivíduo pesado. parecendo. – Basbaque é convizi- . explorar facilmente”. fútil”. “que se faz de camelo”. – Estólido. O mesmo deve entender-se quanto aos outros do grupo que dão derivados. – Parvo quer dizer “pequeno de espírito. o que é “leviano com petulância”. graçolas charras. modos e gestos de quase idiota. além da ideia de parvoíce. Acamelado = “com ares de camelo”. Parece dar-se o contrário com aparvoado (“feito parvo. – Palhaço significa mais – “bobo. – Tolo e estólido são formações do mesmo latino stolidus: a forma popular. – Camelo (fig. o jogral de corte. – Pateta designa indivíduo “desorientado e abobado”. na Idade Média. pataroco. – Apalhaçado = “que se faz palhaço”. fácil de enganar”. além de abestalhado. de Fig. pretensiosa. – Besta. mandrião. não figure nos léxicos. uma forma diminutiva ainda mais acentuada de pato.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 33 pode ser abestalhado (isto é – ter modos e ares de besta). lasso. patocho. e que significa o mesmo que patego. Temos ainda alorpado = “feito. a medida do bom senso comum”. abrutalhado”. abobalhado = “que se faz de bobo”. (Aul. – Bobo. com jeito de parvo”). estúpido. estouvado. – Patau (que também poderia ser uma adaptação do francês pataud) sugere. se ostenta parvo. ignorante que se mete a sabichão. Dá apalermado = “com ares de palerma”. – Camelório diz “quase camelo”. incapaz de esforço físico ou mental”. – Lorpa é o indivíduo “inepto. – Pataroco é outro provincianismo algarvio. ou “que se assemelha a patarata”. Do mesmo radical temos ainda: patau. – Patego é como se dissesse “pequeno pato”. dá bestiaga. – Bobório quer dizer “bobo a afetar compostura de gente sensata”. temos ainda bobório. ou palavras deturpadas e sem nexo. ou melhor. Dá apatetado = “com ares de pateta”.

quase impertinente”. – Maninelo é o “bobo que se mete ridiculamente a gostar muito de mulheres” (corresponde ao nosso brasileirismo coió). de espírito entorpecido. por falta de estímulo”. rude equivale a “de difícil compreensão por desmazelo. – Palonço equivale a “tipo sem vida. – Idiota e imbecil equivalem-se. extravagante. – Truão é o “bobo vagabundo. fora do papel que lhe cabe. grosseiro. falto de inteligência”: bronco é o que “não entende por defeito de faculdade aperceptiva”. – Estupidarrão e toleirão são aumentativos de estúpido e tolo. Ajogralado = dado a jogral.). que tapado é aquele que parece ter o espírito “como que fechado para o mundo exterior”. no entanto. por um prejuízo dos atenienses tido como estúpido ou pouco inteligente). ou de inteligência pesada. – Rude significa mais “áspero. atabalhoado. significando “estólido. sem malícia e sem espírito”. “maroto estúpido. – Boçal exprime “estúpido e bobo que repugna. – Tapado. – Mentecapto é o que “não tem siso”. de boa-fé excessiva. tosco do que propriamente bronco”. meio bobo. e. tão massa-bruta que as moscas lhe entram na boca”. – Abasbanado = “parecendo basbana”. – Estulto quer dizer “tolo.34 Rocha Pombo nho de palerma: é o “ingênuo que pasma de tudo. inepto”. – Simplório quer dizer – “despreocupado. – Estúpido diz propriamente “rude. desafrontado e chalaceiro”. desconfiado e escuso. – Apalonçado = à semelhança de palonço”. – Doidivanas é o “indivíduo sem tino. como pateta”. que é imbecil. crédulo demais”. vaga como doido. que “faz figura ridícula por inépcia”: caipira é o “homem do mato. de Fig. – Papa-moscas está dizendo tudo por si mesmo: “tão inerte. – Pacóvio é simplório da mesma família: “idiota e lorpa”. rombo e rude têm uma sinonímia quase perfeita. bronco. Bronco e rombo equivalem-se na significação de “estúpido. é aplicável ao indivíduo “inepto. o mesmo matuto. amatutado = “com ares de matuto”. é muito empregado com esta significação. – Bolônio é “indivíduo rústico e simples que se deixa enganar por todos” (Bruns. – Chocarreiro é o “bufão insolente. – Néscio quer dizer “que nada sabe. na acepção em que é aqui tomado. no entanto. que salta e canta por dinheiro”. imbecil”. rude. – Fátuo é o “ignorante tolo e presumido”. – Tabaréu tem significação muito parecida com a do nosso caipira. – Abasbacado (ou embasbacado) = “que é ou se mostra como basbaque”. – Sandeu (do esp. – Simples. que diz mais chalaças do que salta”. bruto de senso. – Bufão é o “truão espalhafatoso. obra. segundo C. desapercebido. bobo que faz o seu papel com certo aparato”. – Enfatuado (ou infatuado) é “o que se torna fátuo”. idiota. Ainda assim. – Basbana. farsista. significa o mesmo que “ingênuo. – Obtuso é o bronco “que se esforça” e “quebra a cabeça” inutilmente porque é “incapaz de compreender”. é provincianismo algarvio. imbecil como basbaque”. rombo e tolhido.. no entanto. É o mesmo que boca-aberta. convindo notar-se. tonto. parvo. burro abobado. estraga-albardas”. sem disfarce. tipo desavisado”. pasmado e imbecil”.” Temos ainda: acaipirado = “com ares ou modos de caipira”. rombo é o que “não tem capacidade de raciocínio”. estouvado. O idiota é desequili- . – Jogral é o “bobo de praça”. quase papalvo. ou que inspira asco ou aversão”. que fala. obtuso. O tabaréu. sandio) equivale a “tapado. sem prática da cidade. ignorante. – Beócio. segundo a origem do vocábulo (designa habitante da Beócia. que “se atrapalha com a tarefa por falta de aptidão”. – Pascácio assemelha-se bem a “bobo. curto de espírito. abobado”. é o sujeito que “não sabe ainda bem o seu ofício”. – Aboçalado = “que tem aparências de boçal”. que fica parado e em pasmo diante de coisas que não entende”.

nem sente mais nada”. “falto de cultura. jumento. alvar. chegar-se.” – Chegar-se e achegar-se. – Aproximar-se equivale a apropinquar-se. sem nenhuma cultura intelectual”. isto é. Tanto se diz: “abeirou-se do precipício”. De burro. que sempre se toma em mau sentido. para designar a pessoa que não sabe o que devia saber. – Pasmado. além de inculto. Asneirão e asinino são meras gradações de asno: significando asneirão “grande asno”. encostar-se. bruto. Ingênuo é menos que alvar: significa “sem malícia como criança.. Alvar tem hoje. a palavra ignorante num sentido mais restrito. 40 ABEIRAR-SE. – E vem agora. Ignaro é “uma expressão pejorativa de ignorante.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 35 brado. – Quadrúpede designa “sujeito. e neste grupo. e amatungado = “feito matungo”. e imbecil é “quase idiota. asno. significando ambos “chegar perto”. burro. burro. abrutalhado”. como “abeirou-se do amigo”.: “Todo homem é mais ou menos ignorante”. inconsciente como o próprio instinto”. Qual é aquele que tudo sabe? Pois só aquele que tudo soubesse de alguma coisa ignorante. ingênuo aproximam-se.”. conchegar-se. Dir-se-ia: “Aproximei-me pouco a pouco.. o asno que é afeito ao jugo”. no sentido figurado. mas é tão fraco de espírito”. “semelhante a asno” ou “que faz de asno”. se bem que pareçam dizer. que equivale a “pequeno burro”. e diz-se com propriedade da plebe e povo rude. por analogia. o pasmado tem o curto senso fixo num objeto. aproximar-se. principalmente jumento – “o burro de carga. decisão”. – Ignorantão é aumentativo de ignorante. sem agudeza de senso”. avizinhar-se. acercar-se. aplica-se ao sujeito esbodegado. Mas já uma dife- . ou que ignora as coisas mais geralmente sabidas. completando esta fa- mília. acostar-se. ou o mais possível. e. parecendo que este último sugere “ideia de pressa. abordar. Toma-se. não ouve. sentido desfigurado do próprio. ou incapaz de esforço em coisas de espírito. amatungado. inópia intelectual. “chegar junto. Maturrão será um aumentativo de matungo. aconchegar-se. ou ao lado de alguém”. pelo menos da cultura comum”. – Ignaro exprime – “inculto. asinino. é menos atabalhoado. – Charro é “gordo. à primeira vista.. e asinino. e não: “Apropinquei-me. – Matungo (brasileirismo do sul) no sentido que aqui tem. Sobre estes dois sinônimos escreve Roq. Jumento (assim como burro) é o mesmo que asno. e “não vê.. e diz “quase imbecil. temos: aburrado (ou emburrado) = que se obstina como burro”. matungo. ou que não tem a ciência necessária à profissão que exerce. que é “termo familiar que se aplica a um néscio que pretende impor-se como sábio”. e burrego. – Ignorante diz apenas “que não tem instrução”. alapuzado”. – Abeirar-se diz propriamente “aproximar-se da beira”. lerdo e inepto. de sinceridade. asneirão. maturrão. celeridade. rentear. defeito de aptidão comparáveis à bruteza do asno ou do quadrúpede em geral. grosseiro. segundo a etimologia. toda a zoologia transfigurada: quadrúpede. Tanto a idiotia como a imbecilidade podem ter como causa algum defeito orgânico do cérebro. e designa o estado da mais crassa e vergonhosa ignorância: aplicada às pessoas é injuriosa. e diz Bruns.. achegar-se. candura e boa-fé que tocam a parvoíce”. o basbaque “não vê nem sente”. apropinquar- -se. São todos termos chulos empregados para significar. burrego. e por isso mesmo incorrendo frequentemente em enganos e caindo em ridículo”. É quase o mesmo que basbaque e palerma: apenas o palerma “parece não ver”. Pasmado equivale a “falto de vivacidade.. “não tem senso nem discernimento para distinguir coisas diferentes”. parecem a mesma coisa. contudo.

aproximar-se de súbito”. e significa “pôr-se em volta. “acercaram-se do forte. “zangar-se a todo instante e por qualquer coisa”. No primeiro exemplo.. atual. e tornar-se violento e impetuoso como os loucos”. segundo a própria etimologia. – Irritar-se é “perder a calma. ele apenas se pôs mais perto de nós. enfadar-se. “irritar-se como as vespas”. – Acercar-se é formado de a + cerca (ou cerco) + ar. encostar-se é “apoiar as costas a alguma coisa”. irritar-se. e mais lidimamente com esta. tão próprio como: “Aconcheguem-se mais”. – Abordar é propriamente “chegar à borda. – Conchegar-se e aconchegar-se significam “aproximar-se reciprocamente (uma coisa ou pessoa da outra) de modo a ficarem unidas. tomar-se . enraivar-se. de propósito. Dizemos: “Acostei-me à parede” (isto é – “pus-me rente à parede”) – o que é muito diferente de: “Encostei-me à parede” (isto é – “descansei o corpo apoiando-me na parede”). pelo lado”. ou em círculo. pelo menos. rente”. embravecer (embravecer-se. embravear). para pedir-nos socorro ou proteção. No segundo caso. aborrecer-se como por impulsão súbita”. em torno de alguém ou alguma coisa”. encolerizar-se. incitar-se. e não: “conchegar-nos”. Não se confundem estas frases: “Ele chegou-se a nós” e “Ele achegou-se de nós”. enfadar-se. “Acercamo-nos dele”. aborrecer-se.” 41 ABESPINHAR-SE.. aproximar-se bem”. vimos no céu. – Irar-se é: “perder a calma. – Enfrenesiar-se. Notemos que o prefixo a de aconchegar-se lhe aumenta uma ideia de ação imediata. ou frenesiar-se (também no Brasil – enfrenisar-se) é “zangar-se. melindrar-se. – Rentear = “passar muito junto. anojar-se. ou com ele”. zangar-se. – Zangar-se é quase o mesmo que “dar o cavaco”. “Renteamos o despenhadeiro”. ou da árvore”. assanhar-se. ou “abordamo-nos na rua”.36 Rocha Pombo rença de sintaxe os distingue: chegar-se emprega-se só com a preposição a. com a mesma solicitude se juntaram. indignar-se. pois este verbo não marca tão bem atividade e gradação como o outro. pois até à força podiam conchegar-se. ou uniram: tanto não diz: “conchegaram-se”. – Avizinhar-se diz propriamente “fazer-se vizinho. enquizilar-se (ou quizilar-se). ele se aproxima de nós como para amparar-se. enfurecer-se instantaneamente” (pois a ira dura menos ainda que o furor). agastar-se. desgostar-se. excitar-se. magoar-se. “abordei-o”. “Abordamos o abismo”. raivar). ao fim de alguma coisa. enfrenisar-se. apaixonar-se. exacerbar-se. esquentar-se. conquanto digam alguns lexicógrafos que se equivalem.. – Enfurecer-se é “irritar-se até o furor. – Acostar-se e encostar-se enunciam ações diferentes. Acostar-se é “juntar-se a alguma coisa pelas costas. e também: “Renteamos com o acampamento. ou pelas costelas.. exaltar-se. exasperar-se provocado por alguém ou por alguma coisa”. ou raivecer (ou ainda enraivar-se) equivale a “encher-se de raiva”. estimular-se. – Abespinhar-se diz. impacientar-se. É preciso dizer: “Acostamo-nos à floresta ou à serra” (isto é – fomos até ficar muito junto à floresta ou à serra). “Concheguem-se mais” não é. molestar-se. irar-se. perder a razão momentaneamente. exasperar-se. flagrante. – Enraivecer-se. tanto para agasalhar-se ou confortar-se como para resistir a algum mal”. amuar-se por qualquer coisa. Dizemos: “Eles se aconchegaram” querendo exprimir que duas ou mais pessoas. e não: “Encostamo-nos”. e mais por vício de educação que por temperamento”. em contacto. “Queremos ou desejamos aconchegar-nos o mais possível”. arrenegar-se.. “Quando a caravana se avizinhava de Jerusalém. agravar-se. enraivecer-se (raivecer-se. enfurecer-se. enquanto que achegar-se pode ser empregado tanto com essa como com a preposição de.

abordar. ancorar. como neste exemplo: “Fundeou toda a frota na vasta baía. apor- tar. fundear. e por ter sido instigado”. surgir. só tratando-se de pequenas embarcações. diz “fazer-se áspero. ou. – Arrenegar-se equivale a “zangar-se maldizendo e blasfemando”. enquanto que amuar-se significa mais “desgostar-se por suscetibilidade”. Pode-se dizer. mostrar-se sentido por ofensa”. arribar. – Molestar-se é “mostrar-se ofendido por incômodo ou por importunação”. ou embravecer-se (ou embravear) é “tornar-se bravio. O próprio Deus pode encolerizar-se (e também irar-se. principalmente como pronominal: é “mostrar aversão ou repugnância. – Indignar-se significa “encher-se de ira por algum motivo muito nobre. quase assanho. ou seja mau”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 37 de rancor violento e brutal. portanto. ou em presença de alguma coisa que se tem por indigna”. – Encolerizar-se é “ir ao extremo da ira.” ou “deixar de sentir o prazer que se sentia”. – Enfadar-se é menos que aborrecer-se: é “quase amuar-se”. Quem se estimula contra nós é porque foi provocado ou importunado. e sugere a ideia de que foi ofendido ou provocado aquele que se encoleriza”. – Desgostar-se é propriamente “não ter mais o gosto que se tinha. e à tarde ancoramos a nossa nau mais junto à terra”. e pode bem ser que não revele a sua irritação por mais do que animar-se de disposições infensas. do que aborrecido. tirar para a praia”. por excesso de pundonor. – Esquentar-se é “exaltar-se um pouco. chegar. rude. – Fundear significa “dar ou tomar fundo”. – Varar também só é aplicável a pequenas embarcações. – Exacerbar-se. ou irritar-se) à vista de sacrilégios. devendo empregar-se. sair da serenidade habitual”. 42 ABICAR. – Abicar significa propriamente (assim como embicar4) “dar com o bico (a proa) em terra”. – Impacientar-se é propriamente “perder a paciência. atracar. ou do que é normal”. – Melindrar-se quer dizer “desgostar-se por motivos muito delicados. quem se excita é como quem “se irrita despertando da sua calma habitual”. inquieto. – Exaltar-se é mais do que esquentar-se: é “fazer-se mais enérgico e veemente do que convém. fazer-se rude e quase furioso”. – Assanhar-se é “ficar agitado. Incitar- -se é mais vizinho de estimular-se: quem se incita mostra “vigor anormal. segundo a própria etimologia. – Aborrecer-se diz propriamente “sentir horror”. violento”. ou de grandes pecados. . incitar-se e estimular-se equivalem-se com pequena diferença. ou “ressentir-se de alguma coisa desagradável”. – Agravar-se é “fazer-se grave por desconfiança ou aborrecimento. ansioso”. – Anojar-se é “sentir-se incomodado. ficar insofrido. – Ancorar equivale a fundear lançando âncora” (Aul. e quer dizer “pôr em seco. “ancorar” depois de “haver fundeado”. – Agastar-se é “enfadar-se ligeiramente. mostrando-se agitado e hostil.). feroz como bruto irritado”. – Embravecer. varar. – Magoar-se é “sentir-se melindrado por alguma ofensa”. aborrecido. ou mesmo simples desprazer”. – Enquizilarse (ou quizilar-se) é mostrar-se menos que zangado: mais “indisposto por impaciência e antipatia ou quase aversão”. ou por afetação de melindre”. conduzir 4 Convindo não confundir com embicar = “encaminhar pela bica”. seja bom. – Excitar-se. mas perdeu alguma coisa na acepção comum. em fúria ou alvoroço hostil”. triste e desgostoso”. – Aportar diz precisamente “tomar porto. portanto. – Apaixonar-se é “sair do estado normal por exaltação de algum sentimento. distinguindo-se deste em sugerir a ideia de “desgostar-se como por fadiga”. – Exasperar-se é “irritar-se em extremo. parecer exausto de paciência”.

– Surgir é “aparecer. entre sorvedouro e tragadoiro a mesma diferença que se nota entre sorver e tragar. 43 ABISMO5. significando quase o mesmo que detestável. – profundo. A ideia principal que sugere esta palavra é a do perigo da queda. rodomoinho. – Arribar significa “ser forçado a tomar porto”. – Abordar significa propriamente “encostar ao bordo”. a ideia de tragar que predomina nesta palavra. 44 ABJETO. é mais forte e sugere a ideia da violência inevitável com que a voragem engole. É. abominoso. e caput “cabeça”) é um espaço vazio – diz Bourguig. ignóbil. escarpado. sorvedouro. execrando. são mais para temer os perigos. onde alguém é lançado como castigo. chegar por via marítima” (Aul. entrar no porto”. – Abismo (do baixo-latim abysmus. ação de correntes opostas. execrável. onde. despenhadeiro. a ser precipitado. odioso. só a ideia de “absorção para o fundo”. – Despenhadeiro diz propriamente “rochedo elevado e abruto” de onde há grande perigo em lançar-se alguém. A embarcação que sai. sendo de notar que a coisa abjeta é a que repelimos como indigna de nós. precipício. dar com o bordo junto à terra”. de um lago. aborrecível (aborrível). no entanto. e por extensão “chegar à terra ou ao porto. pois o remoinho pode também levar para os ares. por causa do escarpamento das beiras. correspondente de abyssus) significa propriamente aquilo “que não tem fundo” e onde desaparece para sempre o que chegou a cair. voragem. – “desses terríveis remoinhos formados pela 5 Abismo é do baixo-latim abysmus. e da dificuldade da marcha quando se as circula. – Chegar é o mais genérico de todos os do grupo. vil. ou da passagem quando se as quer evitar”.) parecendo aduzir à “noção de chegar a ideia de surpresa”. as embarcações que a imperícia ou a fatalidade leva até onde alcança a influência do torvelinho. de um rio. se emprega esta palavra para designar os grandes perigos de que muito dificilmente se pode sair e que só se descobrem quando já é dificílimo evitá-los”. traga o que nela cai. particularmente. como este. “entrar num porto que não é o que se demandava”. repelente. no entanto. repugnante. não chega – arriba. tragando-as. subvertendo-as. – “Precipício (do latim prœ “para diante”. traga- doiro. – Rodomoinho (ou remoinho) é quase o mesmo que sorvedoiro: não dá. indigno. e que arrastam fatalmente para a profundeza. do grego abussos = a + bussos “sem fundo”). no sentido figurado. – Báratro era o precipício onde se fazia cair o criminoso de certos crimes em Atenas: daí a significação de “profundeza como a do inferno”. como se dissesse: “apresentar-se. tratando-se de navios: “entrar no porto ao cabo de uma viagem”. e. – Sorvedouro e tragadoiro confundem-se: este último.38 Rocha Pombo ao porto. desprezível. “procurar abrigo ou refúgio”. báratro. – Atracar equivale quase a abordar: é “chegar e prender-se à terra ou a outra embarcação”. – Pego é a parte mais profunda do mar. abominando. no qual se está exposto a cair. e quer dizer “alcançar o ponto demandado”. A forma culta é abysso (latim clássico abyssus. – Voragem (do latim vorago) “é o nome” – diz Bruns. pois. pego. portanto. detestável. abominável. por isso. baixo. mas volta ao porto sem ter seguido a seu destino. Há. portanto. – Abjeto é o mais compreensivo de todos os do grupo. ou sem ser esperado”. É “por isso que. emprega-se no figurado para designar o que atrai irresistivelmente para a ruína ou a morte inevitável”. e a coisa detestável é a que não pode . entrar de repente.

portanto. a avareza. v.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 39 ter a nossa sanção moral. que o verbo abjurar. – Desprezível significa precisamente. baixo de condição.. é um poeta detestável” (não abjeto). e muito vil o que as sofre contente. 45 ABJURAR. vil o que perde a estima dos outros e ainda a sua própria. se afasta com horror”. porém. como algumas ocupações mecânicas. convertendo o homem numa besta malévola. que nem ânimo tem para saber calar. o que “se condena. – Execrando é “o que merece maldição de todo mundo”. repelido por todas as consciências como sacrilégio”. como.: Abjurar (do latim abjurare “negar com juramento”) é renunciar solenemente à religião que se tem seguido e que se reputa falsa. feroz e brutal na sua execução. e aplica-se ao que é baixo e desprezível. abrenunciar. Entre nós temos o exemplo do padre Guilherme Dias. apostatar e renegar escreve Bruns. Abominando quer dizer – “que se há de abominar. não é por todos aplicado ao mesmo ato: o que é abjurar para uns é apostatar para outros. abjurou os erros do catolicismo. – Aborrecível. Convém ainda advertir que abjeto ajunta à noção de detestável a ideia de baixeza. trair. são “palavras que apresentam a ideia de desprezo. – Execrável é o que “atenta contra lei sagrada”. ao passo que os protestantes qualificam esse ato com o verbo apostatar. São particularmente vis os vícios que desonram e infamam. se detesta.. a coisa abjeta deixaria de ser detestável. renegar. é baixo. e que por isso são tidos em nenhuma conta. Note-se. enquanto os católicos dizem que ele apostatou do catolicismo. que. feroz e estúpida. – Vil e baixo também se aproximam muito. Um indivíduo. ou aborrível. – Repelente oferece alguma coisa de comum com detestável e abjeto. e é dos mais vagos do grupo. e entregue de ordinário a gentes tidas por infames em seu proceder”. significa propriamente – “que inspira horror. ou uma coisa. o mais vil dos homens é o que vende sua honra e sua consciência para adquirir dignidades e riquezas. que “afronta o nosso sentimento religioso”. Todo vício é baixo e desprezível. que não encerra ideia depreciativa. que empregam o verbo apos- . nem instrução. g. Em caso algum. É mais forte que execrável. posto que sob diferentes aspetos. que não exigem mais que um trabalho material e nenhum talento.. porém chamamos particularmente baixos aqueles que supõem falta de vigor e de energia. – Repugnante é vizinho de repelente: é “o que se repulsa como coisa nojenta”. “F. Segundo Roq. Abominoso é o que “contém. converter-se. – Sobre abjurar. pode ser detestável. O descarado adulador. apos- tatar. Os católicos dizem que Henrique IV de França abjurou o protestantismo. que causa aversão”. grosseiro e vil”. segundo os protestantes. Baixo é o que por cobardia sofre injúrias de outrem. renunciar. porém. sem ser abjeta.. “Note-se também que os católicos. segundo a própria formação – “digno de desprezo”. – Odioso quer dizer – “que merece ódio”. que se fez para ser negado. ou a coisa da qual não queremos saber. Baixo é o homem que abate a sua dignidade. – Abominável é “o que é digno de condenação como coisa ímpia e nefanda”. Chamamos ofícios baixos aqueles que só exerce a gente miserável e abandonada. “A vida fora de Paris é detestável” (não abjeta). desprofessar. por seu interesse e com o fim de fazer fortuna por meios indecorosos. como costuma suceder na embriaguez. Chamase vil o “exercício que se tem por desprezível em razão de ser sujo. – Indigno aproxima-se de ignóbil. – Ignóbil diz propriamente – “sem nobreza. o que está cheio de abominação”. podendo-se entender que reúne o valor destes dois: é repelente o que “se detesta ou repele com asco”. e não é recebida por nós.

de “dar testemunho. – “Em linguagem cirúrgica” – diz Bruns. 47 ABNEGAÇÃO. e que leva a passar de uma religião reconhecida falsa para uma religião considerada verdadeira”. Um sujeito que se passasse para uma religião nova (ou para outro partido. de- sambição. Abjurar diz propriamente “jurar contra alguma coisa. a sua seita. Abrenuncia-se a vida ímpia em que se andava. e até de consciência. desamor. ceder um ganho lícito. renunciar a uma herança em favor de um parente pobre: é abnegação ceder o que nos é indispensável. ou um ateu – não se poderia dizer que apostatou: sim que renunciou. 46 ABLAÇÃO. O sujeito que desprofessa o seu culto pode passar a crer só consigo mesmo o que já cria. isto é. desprendimento. lançando-a fora do espírito. a abnegação não tem limites. abrenunciar significa “negar. o sentido de ser o interesse. de exercer em público. amputação. segundo a própria formação. quando se emprega este termo. o seu culto. pois mesmo aquele que trai o seu Deus.. põe longe de si a coisa (o princípio. devendo subentender-se que aquele que renuncia abandona apenas a velha crença. A ablação consiste em extrair de qualquer parte do corpo uma parte mórbida: faz-se a ablação de um quisto”. Além disso. a crença. desinteresse. sem mágoa. ou escola filosófica) e fosse combater a antiga – esse.: “Converter-se marca simplesmente uma mudança que se operou nas crenças. – Trair neste grupo aproxima-se muito de renegar: é “negar ou protestar com perfídia.). tem-se em vista a religião que se abraça. Quantos traidores ficam preferindo de coração. – Sobre converter-se (que se aproxima de abjurar). – Desprofessar é neologismo aproveitável e perfeitamente legítimo: diz. o demônio. princípio. isto é. a sua causa. O desinteresse cessa onde principia o interesse próprio. lhe dão. por conveniência própria. – Renunciar é aqui convizinho de apostatar. arriscar a saúde velando duran- .: “Abnegação diz mais que desinteresse. ou do seu partido e vai para outro. Este diz apenas. abrenuncia-se o espírito do mal. altruísmo. interceder em favor de um inimigo. Quem apostata deixa. deixando apenas de continuar a fazer confissão pública da sua crença. mas aquele que apostata é como o trânsfuga. “deixar de crer. um indiferente em matéria religiosa. e ficasse sem nenhuma crença. de reconhecer formalmente. nem sempre a renegará necessariamente. escola. e dele se diz com toda propriedade que apostatou. faltando à fé jurada com os da grei”. de aceitar. Henrique IV converteu-se ao catolicismo. detestar afastando com horror”. etc. sim. – Abrenunciar é mais forte que renunciar. Pode-se renegar sem trair: e a inversa também é admissível. como vimos.40 Rocha Pombo tatar. diz Bourguig. “deixar de professar”. – Renegar é ao mesmo tempo abjurar e apostatar “passando a ter ódio à coisa renegada”. na fé. ou sem intenções hostis a respeito da coisa renunciada. de que apostatou por uma outra coisa. podendo ainda continuar a tê-la em respeito. e não a que se deixa. Desinteresse diz-se do que é material: é desinteresse vender por baixo preço (com pequeno lucro). – “consiste a amputação em cortar um membro superior ou inferior: amputam-se os braços ou as pernas. abandona. causa. não assim os membros das outras religiões”. a opinião. sem ódio. o principal móbil que leva à mudança de religião. – Quanto a abnegação e desinteresse escreve Bruns. a coisa traída. de ter na conta em que se tinha”. um erro sacrílego em que se vivia. que sai do seu grêmio. e não a convicção. é um apóstata.” Quem abjura afasta da consciência a coisa abjurada. etc. desapego. De um sujeito que tivesse deixado a sua religião.

nota-se no vocábulo ainda outra: a de uma causa que penetra no objeto impuro para o modificar e devolver-lhe a pureza primitiva. Quase que só se usa no sentido figurado. muito judiciosamente: “Nestes entra o radical puro. e sugere ainda a “ideia geral de desmisturar. acrisolar. – Desapego e desprendimento dizem quase a mesma coisa. – Abluir diz aqui propriamente a ação de “fazer puro como as coisas sagradas”. E mesmo: “De uma certa quantidade de calda apura-se (não – purificase) tantos quilos de açúcar”. aptidões. – Acrisolar é “purificar como se apura em cadinho ou crisol”. e figuradamente “tornar puro aquilo que se manchara. ou a coisas a que nos tínhamos afeiçoado”. o pouco caso com que se vê passar uma felicidade a que se tinha direito”. Não se implantam liberdades onde não se expurgam erros”. etc.” Tanto se limpa com água. – Limpar é o mais genérico do grupo. lavar. diz “fazer limpo. Expurgar é tornar completamente puro o que ainda não se havia purgado ou purificado de todo. revogar. E em sentido translato também se usa: “Aqui (no Purgatório) – disse-me o patriarca – lavam-se almas”. mundificar (também mundar). verificar o que há de essencial nalguma coisa: e nesta última acepção não se confunde com purificar. apurar. – Abolir significa “declarar não existente. como se purifica o sangue. Desapego. é “fazer livre de impurezas. – Mundificar. cassar. desfeito. Purgar é tornar puro fazendo expelir o que há de impuro no que se purga. mas. – Desprendimento é a “indiferença com que se vê um perigo. limpo). . 49 ABOLIR. – Acendrar é “limpar e fazer brilhante como os metais polidos”. o ar. o coração. – Lavar é “limpar com água”. a decisão com que se renuncia a grandes bens. Quase que só se usa hoje em sentido figurado. Purifica-se o espírito. segundo a própria formação. “Tais amarguras dir-se-ia que te abluem a alma”. deduzir. mediante qualquer processo. a coragem estouvada com que se afronta um mal. ou com cinza. purificar. tratando-se de qualidades morais. ou mundar (de mundus = puro. derrogar. e diz. senão a “facilidade.” tirar a mancha ou as manchas”. Sobre estes três verbos escreve Bruns. limpar. suprimir. desmacular. pelo menos quando é certo que a pessoa que se apega mostra mais vontade e esforço em apegar-se do que mostraria em prender-se ou deixar-se prender. Os ventos rijos purificam o ar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 41 te noites consecutivas o amigo doente”. além dessa ideia. infirmar. proscrever. expurgar. anular. parece mais forte. A fermentação purga o mosto. mas – “de um negócio. Desapego não é. tornar puro”. Limpe-se ele primeiro (ou lave-se) das acusações que lhe fazem”. e não – purifica”. “Naquele horrível sacrifício a mísera se desmaculou do nefando pecado”. substâncias estranhas”. invalidar. purgar. ab-rogar. etc. pois. segundo a própria etimologia. como com óleos. ou de coisas estranhas. acendrar. Tanto se apura como se purifica o açúcar. – Desambição e desamor não fazem mais do que marcar a perfeita antonímia em que ficam com os respetivos radicais. no entanto. “A chuva lava o ar”. a água. Purificar é tornar puro. de uma discussão. – Purificar (como purgar e expurgar) exprime a ideia geral de “fazer puro eliminando impurezas”. ou com preparações. Também é usado figuradamente. – Desmacular é neologismo perfeitamente admissível. ou aplicando-se a coisas morais: “Limpamo-nos de culpa e pena”. “Lavam-se as mãos”. antiquar. – Altruísmo é o nome moderno da velha virtude cristã do amor do próximo. 48 ABLUIR. de um esforço alguma coisa se apura. extinguir. – Apurar diz também “fazer puro separando fezes.

e desta mesma o art. cortar alguma ou algumas partes delas. ou uma infração essencial invalida um contrato. É antônimo de confirmar. – Antiquar é “deixar cair em desuso”. ou “sem valor”. Aplica-se em regra nos casos em que a lei. de dar segurança pelo caráter ou pelas aptidões de uma pessoa. instituições. ou a lei tal aboliu tal repartição”. com esta diferença: supõe-se sempre um ato de autoridade que anule: o que não se dá quando se trata de invalidar. Neste caso empregaríamos o verbo suprimiu. usos. De uma lei não se diz cassada. como de pessoas. O prefixo ab. – Revogar é quase sinônimo perfeito de derrogar: significa. – Invalidar significa “tirar o valor”. Do mesmo. e. não seria perfeitamente lídimo dizer: “Mais hoje. caução. tantos já foi derrogado por lei ulterior”. fiança. portanto. isto é – não se faz indispensável que em lugar da disposição suprimida fique vigorando disposição nova. – abonação é a ação de abonar. mas decerto que não diríamos: “A lei tal aboliu um cargo no ministério tal”. como de instituições. ou estava inquinada de algum vício.. Na fórmula legislativa: “Revogam-se as disposições em contrário” não seria permitido empregar o verbo derrogam-se. – Extinguir significa também abolir. é quase o mesmo que anular. isto é. garantia.. por exemplo: “O decreto. costumes. etc. e tanto se emprega tratando-se de leis. costumes. enquanto que derrogar exprime com mais propriedade “deixar sem toda a força. De um decreto que ontem ou há poucos dias se publicou e hoje se deixa sem efeito. pois que a diferença que se quer ver entre eles é quase convencional. – Suprimir é mais genérico e menos técnico que derrogar. pediu-lhe abono. a ação de declarar “não vigente”. não se dirá ab-rogado. e tanto se emprega tratando de leis. mas que não havia tido aplicação ainda. ou a resolução que se tomara.. pôr de lado parte de alguma coisa”. tratando-se de leis – “excluir. e. mas só o juiz competente pode anulá-lo”.42 Rocha Pombo apagado”. havia de abolir-se. atenuar ou diminuir a força de uma lei cortando-lhe uma parte”. “F. Ninguém diria. etc. fatos de linguagem.. “A nova lei ab-rogou a lei tal. mas ab-rogada. ou a anular. Uma circunstância ignorada ou imprevista. tinha algum senão. – Abono é o próprio ato de assumir alguém por um outro uma certa responsabilidade moral. 50 ABONO. alguma coisa contra o direito. é “prescrever por falta de aplicação”. de uma sentença. costumes.. e sim: “. mais amanhã havia de extinguir-se a monarquia”. impostos. isto é. Por isso ab-rogar se diz em referência a uma lei ou a um decreto que a autoridade competente deixou sem efeito e substituiu por outro: derrogar deve aplicar-se menos a toda uma lei do que a uma ou algumas disposições dela. melhor do que este. extinguiu. .. abonação. portanto. penhor. cancelado por ato público”. – Proscrever é “declarar excluído. senão cassado. ao passo que para suprimir basta o ato supressório. – Cassar é propriamente “declarar sem efeito o decreto que se tinha publicado. arras.. – Infirmar é “tirar a força. porém. Dizemos: “A lei de 13 de maio aboliu a escravidão”. – Anular diz propriamente “tornar nulo”. quando muito. e com certa razão. com esta diferença: é só uma nova disposição que derroga a outra. parece apenas mais ativo e mais forte do que o prefixo de. modo. segurança. e sim: “. mas significa também “eliminar. coisas.”. Emprega-se tratando-se de leis. etc. sinal. mas em certos casos não se poderia empregar um pelo outro.. ou não tinha começado a produzir efeito”.. o vigor de uma lei. hi- poteca. o decreto ou a sentença anulada. de um princípio jurídico ou filosófico”.” – Ab-rogar e derrogar confundem-se de ordinário. “como se não existisse”.

hipotecária. gorar. Só.: “Abortar é não chegar a realizar-se por causa de um defeito intrínseco ou por uma força estranha o . – Sinal é o dinheiro ou a coisa que o comprador ou um dos contratantes adianta como garantia do ajuste que há de fazer. frustrar-se. – Segurança é propriamente “garantia moral”. mas quanto ao autóctone da península nada sabemos. – Arras. juratória. portanto. natural. até a espécie humana – no próprio país onde se encontra. próprio do país”. – Íncola é o que “habita um país que não é o do seu nascimento”. – Aborígene e autóctone confundem-se de ordinário. – Quanto a caução. e até estes dois com o terceiro do grupo. – A garantia. segundo as diferentes relações em que se a considera: pignoratícia.). – Aborígene é o povo que se considera como o primitivo num país. “O preço de um objeto vendido sob garantia é devolvido ao comprador se. fracassar. na escala antropológica. e quanto ao autóctone desta parte da América nada sabemos até agora de positivo”. em linguagem jurídica se dá à caução diferentes nomes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 43 mas compreende-se que em casos tais não vale só a abonação de um parente”. e confunde-se com abonação. portanto. 52 ABORTAR. nativo. origi- nário. Fiança é a obrigação em que alguma pessoa se constitui voluntariamente de pagar por outra quando este o não faça. A pessoa que a tal se obriga chama-se “fiador”. diz o mesmo quase que sinal. escreve Roq. ou que foi o habitante mais antigo que nele se encontrou (de modo que pode ser até adventício no país onde foi encontrado): enquanto que autóctone deve ser o povo ou o indivíduo que apareceu. – Originário = que “tem origem no próprio país. etc. malograr-se. penhor. por isso. e significa “filho do país.. – Quanto aos quatro primeiros do grupo escreve Bruns. íncola. se chama centro de criação é que se encontraria o legítimo autóctone. chama-se indireta. mas decerto que não é aborígene senão o selvagem que aqui encontramos. e significa qualquer meio de assegurar a outrem que havemos de cumprir nossos deveres ou os ajustes que com ele fizemos. o objeto não corresponder às condições devidas: é a garantia direta”. falhar. ou por um terceiro que responde pelo cumprimento da obrigação. que indígena é o mesmo que natural. parecendo que a diferença consiste apenas em ser o primeiro “escrito e formal”. em linguagem científica. antes de terminar o prazo em que a garantia cessa. ou na própria raça”. ou de cumprir seu dever no caso em que ele o não cumpra. indígena. hipoteca e fiança. e que dá direito ao credor de pagar-se por eles. Mas a diferença entre eles marca-se bem neste exemplo: “O filho de europeu nascido no Brasil é indígena. Pode ela ser consensual. autóctone. no que. ou “que é próprio do lugar do nascimento (Aul. segundo as disposições da lei. Hipoteca é a obrigação de bens de raiz por alguma dívida. – Penhor é o móvel que se obriga ou empenha ao credor para segurança de uma dívida. fideijussória. Se a garantia é feita por outra pessoa que não o próprio comprador. ou não se sabe se seria possível afirmar a autoctonia daquele que é o mais antigo habitador da península”. Apenas natural acrescenta à noção a ideia de incultura. ou nascido na própria terra onde vive”. 51 ABORÍGENE. pode ser direta ou indireta. judicial ou legal.: “A primeira palavra é o gênero a que pertencem as outras como espécies. Quer-se dizer. que se formou. segundo Bruns. que subiu. – Nativo = oriundo. isto é. dada pelo próprio interessado que se obriga. “O ibero é o aborígene da Espanha. se não se cumprem as condições do contrato.

onde as águas como que se espalham penetrando nas terras”. (É o que se chama no interior do Brasil igarapé.). – Suavizar é “fazer mais suave. – Lagamar é “recôncavo mais vasto. temperar.. que aliás é mais preciso e mais forte. diminuir as proporções”. aplacar pouco . a dor.).. baía. suavizar. – Calheta é um braço de mar ou de rio “apertado entre duas pontas de cer. Fracassam conspirações. tirar o que há de áspero. suave. “diminuir a intensidade do que é demasiadamente ativo” (Bruns. falham cálculos. mas que não penetra demais na costa”. não suceder como se esperava” (Aul. abonançar. – Enternecer é tornar mais do que brando: é “fazer tenro.. como as campinas florescidas. meio doce”). enterne- lagamar. golfo. – Adoçar diz propriamente “fazer doce” (como adocicar equivale a “tornar mais doce. como fracassam grandes negócios planeados. – Temperar é “pôr em grau de força. enseada. atenuar. – Amenizar é fazer ameno. adoçar. – Falhar é “não produzir o efeito desejado. Também se chama furo ao pequeno canal que une duas porções de água maiores.. frustrar-se de todo e produzindo sensação”. e “cuja abertura é ordinariamente bastante larga” (Aul. adormecer. e que sendo pouco profundo só dá curso a pequenas embarcações. – Golfo é porção considerável de mar que entra muito pela terra. isto é. falham esperanças. – Angra é “um braço de mar. Gorar é não ter bom resultado aquilo em que fundávamos boas esperanças: uma empresa. abrigada (abrigo). – Abra. terra”. Suaviza-se a voz. é “fazer brando”. há de gorar se o público se não capacitar da sua utilidade. não ter bom êxito devido a causas alheias: malogra-se uma viagem quando um acontecimento nos impede de partir. segundo o próprio radical. como num rio. os sofrimentos morais. moderar. angra.44 Rocha Pombo impedir: aborta a conspiração malplaneada.” – Atenuar é “fazer mais delicado. calheta. – Serenar é “fazer sereno. – Fracassar é “falhar imprevistamente. “fresco. serenar. reduzir a menos. isto é – o igarapé mais estreito ou menos franco à passagem de canoas). intenso nalguma coisa”. uma abra alongada pelo interior da terra”. de movimento. – Enseada é “grande porção de água aberta. é. forte. o lugar de bastante fundo que de qualquer modo está defendido do ímpeto das águas e dos ventos”. Falham planos. Frustrar-se é não obter o resultado que até certo ponto se tinha o direito de esperar: um filho inteligente frustra as esperanças do pai quando abandona o estudo pelo vício. a ação. a sensibilidade – como que adormecer. apaziguar. O pai dirá que as suas esperanças se frustraram”. adormentar. aprazível. e aquela de que o governo chega a ter conhecimento. dócil. reduzir força. duro.). acalmar. 54 ABRANDAR. – Moderar é “diminuir movimento. comovido”. – Adormentar é diminuir ou “suspender momentaneamente o movimento.. sensível. ou quando uma notícia nos obriga a retroceder depois de a ter principiado. de intensidade conveniente”. isto é. por muito útil que seja. mitigar. segundo Bruns. 53 ABRA. entrando por boca estreita e alargando-se no interior”. Malograr-se é não vingar. recôncavo. delicioso. “tanto na costa. – Abrandar. conter em certos limites”. – Recôncavo é “pequena enseada e metida mais para os fundos de uma baía ou de um golfo”. – Abrigada (ou abrigo) é “qualquer porção de mar manso (resguardado de certos ventos) onde os navios se podem refugiar contra tormentas”. – Baía é “grande porção de mar que penetra na costa. – Esteiro é um estreito braço de mar ou de rio que penetra nas terras. esteiro. moderar o ímpeto. amenizar. ampla e pacífica.

pode aumentar ou diminuir”. – Cáustico e queimante dizem quase a mesma coisa: apenas o primeiro aplica-se para significar coisa ou droga que “destrói o tecido orgânico como se fosse fogo”. harmonizar. abrasador. e o segundo exprime propriamente “que queima”. e ajunta à noção de abrandar a ideia de “agradar. carbonizante.. tem cabida ao falar das calamidades. Quente é o que “pode ter mais ou menos calor. 56 ABRASAR-SE6. ao mar. considerados como tempestades da vida. – Mitigar é moderar o rigor. escreve Roq. queimante. quando se desenvolve a chama. abrasear e esbrasear. queimoso. segundo Bruns. “tão quente que parece queimar como o fogo”. incinerar-se.. ardente. devendo notar-se o flamar-se. conflagrar-se. – Abonançar – “fora do sentido reto. Também se diz: “sol carbonizante”. com o verbo estar. Bruns. cálido. isto é. o verbo não encerra. ou cuja temperatura. – Comburente quer dizer “que produz combustão. a rudeza. Não se diria com propriedade.). inflamar-se. antes. dos infortúnios. pelo contrário. em moderar há significação reguladora. in- loroso. com o valor de cálido quando se diz: “clima quente”. fazer cessar a tormenta” (Bruns. quando levanta 6 Há uma certa diferença entre abrasar. “que atua como o próprio fogo”. Quando penetra o fogo num corpo combustível.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 45 a pouco”. estabelece uma gradação ascendente no valor destes três adjetivos e dispostos nesta ordem: caloroso. a moderação sendo constante: o que não se dá com acalmar. – Acalmar. ca- seguinte: cálido é o que tem naturalmente um alto grau de calor. Emprega-se. pois. . deixa supor que a agitação. está no mesmo caso de abrasante: vale por um superlativo de quente. “é fazer diminuir a cólera. ao vento. arder. a violência. a emoção. Efetivamente. na acepção que tem aqui. etc. ou que abrasa”. queimar-se. e se manifesta à simples vista. como “sol abrasador”. – Queimoso é o mesmo.: “Explicam estas palavras os diferentes graus pelos quais pode passar um corpo combustível desde o instante em que se lhe ateou fogo até que foi inteiramente consumido. inflama-se. comburente. a sua significação é a mesma nos dois sentidos: serenar. – Carbonizante significa propriamente “que reduz a carvão”. a agitação. 55 ABRASADOR (ou abrasante). – Abrasador (ou abrasante) significa propriamente “que reduz a brasas”: no sentido figurado diz. consolar”. a violência. “que dias quentes”. etc.. a ideia de ser a calma completa nem duradoura. pôr de acordo”. desencadeou-se depois com mais fúria”. ardente. vermelho e crepitante como brasa”. – Sobre arder.” “Não há nada capaz de mitigar-lhe aquela saudade”.. – Caloroso define-se pelo próprio radical. “Como esta música ou esta voz lhe mitiga tantas dores. abrasar-se e queimar-se. Nem deve este adjetivo ser usado. incendiar-se. candente. podem recrudescer: “o vendaval que acalmara (que ficara menos forte) ao amanhecer. dizemos que arde. por exemplo: “a sopa está cálida”. Dizer que a idade acalma as paixões não significa tanto como “a idade modera as paixões”. incendiar-se. Apaziguar diz propriamente “restabelecer a paz. porém. abrasear = “fazer da cor da brasa ou pôr em estado como de brasa”. – Candente se diz daquilo “que de tão quente parece ou branco ou vermelho”. que tem referindo-se ao tempo. determinada por ação estranha. esbrasear = “tornar quase como brasa. Abrasar significa “reduzir a brasas” (sentido natural). no entanto. – Ardente. o que de si mesmo é quente. quente. – Cálido e quente aproximam-se bastante. e apenas menos forte que queimante. cáustico. que faz arder. portanto. etc.

e aplica-se particularmente às matérias líquidas e resinosas. é apressar. a decisão de um caso ou de um negócio. Pode abrasar-se um corpo sem formar labaredas: – tal é o ferro na frágua. 57 ABREVIAR. fazer menos demorado.. tirar”. dificuldades de vida.. reduzir.. esconderijo. e até saudades. resumir”. – Encurtar é “diminuir distância.. – Sobre asilo e refúgio. Rômulo fundou também um asilo no bosque entre o Palatino e o Capitólio. e ainda depois. ímpetos. quem Romulus [acer asylum] Retulit. Os descendentes de Hércules fundaram em Atenas outro asilo como o de Cadmo. diminuir em todas as dimensões. se queimam os corpos quando. acolhimento. amparo. Reduzem-se dificuldades de um negócio ou de uma campanha. está todo repassado dele e feito brasa. acolhida. queimou-se. refúgio. encurtar. apesar de compacto. do qual faz menção Virgílio nos seguintes versos: diminuir. et gelida monstrat sub rupe [lupercal. – Os quatro primeiros termos tomam-se no sentido figurado. que significa “levar. incendeia-se. aspirações. Abrevia-se um prazo. – Diminuir. encurta-se um Ilinc lucum ingentem. – Restringir é “tornar mais curto ou limitado como que apertando os extremos”. colher o que é demais. e diz propriamente “fazer menor”. . – Conflagrar é “pôr inteiramente em chamas. e antes disso. – Incinerar diz propriamente “queimar até reduzir a cinzas”. despedindo chamas. caminho. uma haste. e segundo o seu verdadeiro sentido. e quando a força do fogo ou do incêndio devorou a matéria combustível e a reduziu a cinzas. é o mais genérico do grupo. fazer menor o que se supõe grande no comprimento”. e o segundo designa a força com que a superfície deste corpo arroja de si o fogo que a penetra. “Asilo é derivado do a privativo. restringir. valhacoito. asilo quer dizer: “lugar de refúgio. uma proteção. extensão. coito. Diferença-se. pois. pouco mais ou menos com as mesmas diferenças”. a aflição etc. Cadmo fez edificar um asilo para todo gênero de delinquentes. que por isso se chamam inflamáveis. reduzir um prazo. como pelo incêndio. encaminhar com mais presteza uma solução”. roubar. resguardo. o refúgio é um recurso contra a indigência. Usa-se frequentemente no sentido translato. abrasa-se. quando o corpo que deu alimento ao fogo. como trabalho mental. como se reduzem aspirações. houve asilos só para certos criminosos. Pas. esforços. aplicando-se tanto no sentido moral como no físico. uma defesa contra a força e perseguição. se comunica aos corpos vizinhos. e tudo irá melhor”. e por isso figura em outro grupo. O incêndio supõe um grande fogo que. Diminui-se tanto prazo. depois de consumido o que dava alimento ao fogo. guarida. de onde ninguém pode tirar os que se acolhem nele”. “Vamos restringir todo o nosso esforço a nada arriscar em vão”. Etimologicamente. restam somente os resíduos incombustíveis. destruir completamente pelo fogo”.] O asilo é. 58 ABRIGO.46 Rocha Pombo labareda e se propaga com rapidez e fracasso. Tanto pelo fogo ordinário. uma corda. e do verbo grego sylan. “Restrinja os seus gastos. – Reduzir significa neste grupo “fazer mais simples. – Abreviar é “diminuir o tempo em que alguma coisa se há de fazer. e tomando ala faz rápidos progressos. aqui. portanto. asilo. arder de inflamar em que o primeiro designa a ação ordinária pela qual o fogo se apodera dum corpo e o vai consumindo. escreve Alv. caminho. homizio.

Aul..) – Esconderijo é “lugar. sempre escuro. “o próprio ato de receber como quem protege e acarinha”.. de garantia por lei ou costume. e hoje quase todos parece que preferem empregar acolhida. – Resguardo é “defesa.). deu-se toda a Deus”. “A eles (montes) se acolhem (os homens) como a castelos e lugares. entreabrir. – Acolhida e acolhimento confundem-se muito. – Coito (ou melhor. – Valhacoito é o “lugar seguro onde alguém se refugia e abriga contra o que teme ou procura evitar”. Busca a nau um refúgio em qualquer porto fugindo à tempestade que receia. da morte”. couto.. Chega-se a dizer: “A delegação de tal país teve boa acolhida na corte do imperador. (Vieira) – Abrigo é quase o mesmo que asilo. em que têm amparo e defensão certa”. em vez de: “.... a ideia de segurança. “Recolhida naquele soberano asilo. e onde. proteger de qualquer modo.. – Descerrar é apenas “desunir o que estava unido ou cerrado”. – Homizio é “valhacoito procurado por criminoso perseguido da justiça”. – Guarida é propriamente a cova ou covil onde as feras se recolhem contra a chuva ou a tormenta. pois. ou na casa de alguém”. a coitadinha dispensou o acolhimento que lhe quiseram fazer naquela casa”. pois. tem o melhor ou o mais cordial acolhimento o parente que não víamos de muito e que chega de surpresa”.. soabrir. a igreja é um asilo para o criminoso.. da Ac. onde alguém procura abrigo fugindo às vistas de pessoas a quem tenha de dar contas de alguma coisa”. “Tem boa acolhida em nossa casa um amigo que nos procura para pedir-nos um obséquio. proteção momentânea contra algum mal ou perigo iminente”.. entreabrir. deixa passagem apenas a um raio de sol ou a uma réstia de luz. – Entreabrir é “abrir pouco e com cuidado... hospeda e agasalha”. “Os bandidos têm o seu valhacoito lá no fundo da floresta”. “Debaixo da árvore encontrou resguardo contra o sol”. ou de fora para dentro”. distinguindo-se apenas em não dar. e sagrado. ou a perseguição”. ou uma cortina. – Dispostos em outra ordem (descerrar. e busca num porto amigo um asilo fugindo à força superior que a persegue. as pessoas que se recolhiam.. mesmo nos casos em que só caberia acolhimento. o “lugar seguro onde alguém se oculta fugindo a perigo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 47 O hospital é um refúgio para os pobres doentes.. oferecia-lhe segura acolhida”. portanto. teve bom acolhimento”. (Dic. – Soabrir é “abrir muito pouco e instantaneamente”. se o afastamento que se operou no pano da cortina. – cit. escancarar) marcam estes vocábulos uma perfeita gradação de sorites. E também: “Por mais pobre e humilde que fosse. Descerra-se uma porta. Acolhida é. em vez de: “. soabrir. descerrar.. do latim cautum) era a propriedade ou lugar “onde não podiam entrar as justiças de El-Rei”. Por uma janela soaberta mal se revezaria uma voz ou se distinguiria um vulto. ou na folha da porta. – Amparo significa o ato de acolher e sustentar ou apoiar.” em vez de: “. por uma por- . abrir. es- cancarar. como se vê neste exemplo: “A religião oferecia-lhe seguro acolhimento das lutas mundanas”. “Perdido no campo. (Cardoso) “Por isso Tertuliano chamou judiciosamente à sepultura asilo. mas de modo a poder-se ver e falar para fora. ficavam fora e livres dela. como asilo. “O assassino buscou ou teve homizio seguro no sertão. O couto é. Até em mestres se encontra confusão. e acolhimento é “o modo como se recebe. onde alguém se furta a olhares de estranhos”. Emprega-se em sentido figurado para designar “abrigo ligeiro. foi afinal ter na casinha do pobre fácil resguardo contra a tormenta”. “A casa de um antigo discípulo lhe serviu de abrigo no último período da vida” (Aul. 59 ABRIR.. fácil esconderijo. acolhida”.

– Divorciar é.. alfaques. desunem-se mesmo povos que eram amigos. unidas”. baixios. a ideia de soltar. baixos. que “os autores as têm confundido. separam-se os bons dos maus. soabrem-se os lábios num ríctus imperceptível. eliminando os embaraços que se acharem entre uma e outra.. sirtes. separar. 60 ABRIR.. desatar. pois o verbo desunir só se deve aplicar quando se trata de coisas que tinham sido enlaçadas. e significa. coisas que haviam sido incorporadas ou ajuntadas. ou no seu lugar. apertado”. Abre-se uma caixa. recifes. e é só neste sentido que se diz – “abrir caminho”. “Fazem tudo por divorciar-me do meu partido”. duas ou mais coisas. abre-se uma porta para que alguém entre. segundo a lei”. Tanto que não se diria. sendo elas distintas e indicando coisas diferentes. – Desunir é antônimo de unir. apartar. desunem-se. Desune-se um casal (separando um do outro esposo). – Escancarar é abrir completamente. uma gaveta. e onde rebentam as ondas. “separar o que estava ligado”. Abrir é “remover alguma coisa da abertura que está ocupando (fechando) de modo que deixe passar. desprender. separar uma da outra margem. destruindo portanto a unidade ou o todo desmembrado. – Separar diz propriamente “pôr. em geral. – Desmembrar é desunir ou “separar por membros”. portanto. por essa abertura desimpedida. desunem-se famílias que viviam em perfeita união. parcéis. – Soltar enuncia a ideia geral de “libertar coisas que estavam juntas ou presas umas a outras”. ligadas intimamente. ou um lado do caminho do outro lado. distanciar. duas ou mais coisas ou pessoas. por exemplo: “desunir os bons dos maus”. ou as partes de uma coisa umas das outras. desmembrar. diz Roq. – Apartar é “impedir que continuem. – Todas estas palavras designam acidentes ou situações no mar (ou nos rios). por exemplo. portanto. “desunimo-nos ao chegar à vila”. um pacote de biscoitos. associadas. Dizem os etimologistas que cachopos é corrupção de scopuli “rocha”. Cachopos são penhascos que saem fora d’água. fare- lhões.) Abre-se a boca falando. “de lés a lés”. Em referência a caminhos de ferro. mesmo que nunca tivessem sido unidas. “desunir. e de modo mais preciso. escolhos. alguma outra coisa”. separa-se a Igreja do Estado: em regra. soltar. tratando-se particularmente do vínculo conjugal. restingas. separar “o que estava unido. porque em tal caso já não se trata só de “separar as margens”. desunir.. – Quanto às quatro primeiras do grupo. afastar. é “afastar uma coisa da outra”.. Abrolhos é voz usada em sentido transla- . – Desligar é antônimo de ligar e diz. mas veria distintamente quem estivesse dentro da casa. banco. divorciar. Mesmo quando se abre um caminho não se faz outra coisa senão. escancara-se a gargalhar. – Desprender ainda exprime com mais força. – Desatar é “deixar livre uma coisa que estava presa por nó”. amigos que se separam para sempre. “Nunca se divorciou da religião de seus pais”. 61 ABROLHOS. separar por sentença.48 Rocha Pombo ta entreaberta um homem não passaria. já não se emprega o verbo abrir. e na acepção lata é “separar definitivamente”. aqui. e que impedem ou dificultam a navegação. (Aul. separa-se uma coisa da outra. Abre-se uma janela para falar com alguém. cada qual para o seu lado. – Distanciar é “afastar muito as pessoas ou coisas que se separaram”. cachopos. ligado. entreabrem-se os lábios a sorrir.” Separa-se o trigo do joio. quase sempre junto das costas. – Abrir. o mais possível. desligar. Divorciam-se colegas. – Afastar é “pôr uma longe da outra as coisas que se desuniram ou separaram”.

ou contíguos à costa. pois não seria próprio dizer: “os escondidos desígnios de Deus”. – Absconso e abscôndito não são apenas. empinados acima d’água. não se pode navegar sem risco. mesmo muito íngreme. – Ladeirento = “disposto como em ladeiras. 63 ABSCONSO. escondido. – Aprumado = “talhado a prumo”. por falta de altura de água. e tanto pode aplicar-se a um cume de monte como a uma encosta que seja tão íngreme que pareça levar como verticalmente ao pino do monte. Baixios (prolongamento de baixos) são bancos de areia em que. retruso. ainda empregado como adjetivo. O alfaque é breve e fundo. – Íngreme é “menos inclinado. conserva alguma coisa da sua função de particípio. uns contíguos à terra. até a penúltima. íngreme. Este diz precisamente “posto fora das vistas. e pelo perigo que perto deles correm os navios.. risco por causa da pouca altura de água. – Sirtes são baixos de areia movediça por entre penhascos. “a encosta nua de um monte que fica vertical. que são baixos iguais. Mas absconso e abscôndito já não seriam aplicáveis propriamente senão em sentido moral ou abstrato. 62 ABRUPTO. São menores que os cachopos. – Restingas são baixos de penhascos. por isso que se espraia largamente (chamando-se também por isso esparcelados). mas o parcel tem pouca altura. onde não há fundo para navios de grande calado”. escabroso”. escreve Lac. outros formando ilhetas: e por sua grandeza. cobertos de água. – Recifes (ou recife.. no que se distinguem dos parcéis. ou pelo menos não seja fácil encontrar”. de modo que não seja possível. encoberto. “as grandes verdades escondidas ao vulgo”. e por isso perigosíssimos”. mas pode navegar-se. – Empinado é o menos preciso destes cinco vocábulos. ocul- to. se é tal o declive que torne penosa a decida ou a ascensão. conforme a origem arábica. são baixios ou bancos de areia ou de pedra. ou de areia. – Quanto às palavras que se seguem. empi- nado. “a escondida intenção de levar-me à forca”. Mesmo de uma ladeira pode dizer-se escarpada. ou menos a pique do que alcantilado. Farelhões são “escolhos pontiagudos. por espaço de muitas milhas.: “Baixos é palavra genérica. alcantilado. e por onde não se poderia subir ou descer sem grande esforço ou sem artifício”.. secreto.. andam assinalados nas cartas marítimas”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 49 to para indicar aqueles cachopos que formam pontas como a planta chamada abrolhos ou estrepes. ladeirento. por exemplo. – Abrupto difere de alcantilado e de íngreme em ajuntar à noção de “flanco a pique a ideia de áspero. de rocha ou de coral. Escolhos são aqueles penhascos que estão debaixo d’água e não se descobrem bem: donde resulta serem mais perigosos que os cachopos.. e por isso ali tocam os navios. ou quase a prumo. escarpado. e também arrecifes) designa “rochedo ou série de rochedos pouco destacados da água e perto da costa embaraçando a navegação”. sem dúvida. e designa o fundo do mar onde há pouca altura. onde se corre. – Banco é “cômoro ou elevação mais ou menos extensa de areia. Uma ladeira.. às vezes. pode-se subir”. para onde a corrente arrasta as embarcações. e de impossível ou muito difícil acesso. recôndito. quase empinado”. aprumado. – Escarpado diz “íngreme e difícil de subir”. e têm a circunstância de prolongar-se. inclinado. formas eruditas de escondido. como parece. – mesmo porque escondido. mas com a circunstância de serem desiguais e muito fundos. – Absconso . um monte. Alcantilada é. abscôndito. Deve aplicar-se particularmente a coisas materiais. – Alfaques. clandestino.

nem confessamos. – O absolutismo (diz Bruns. que é clandestino vem a ser secreto: este é lícito. Deve aplicar-se a coisas materiais. O despotismo é o abuso do absolutismo.: “Uma coisa é secreta quando ninguém ou poucos a sabem ou conhecem. . Disto resulta que nem tudo o que é secreto é clandestino. virtudes eminentes. as operações. Os avisos. ou a secreta vida das abelhas. tirania. não”. recônditos e humildes nesta miséria”. o secreto processo. – Tirania é palavra que tem hoje significação diferente da que teve em tempos idos. tudo. por exemplo. depois esgueirou-se para um ponto recôndito do parque. Com o absolutismo podem conciliar-se intenções retas e benéficas. “Absconsos intentos da majestade em furor”. o sol. Chamamos casamento secreto ao que. retruso e hostil. as maravilhas secretas da natureza. ou procurando violá-la sem que ninguém o conheça. Secreta é uma junta quando secretamente se celebra.. os cabedais ocultos no seio da terra”. as intenções ocultas do mouro. além de oculto. escreve Roq. retraído às vistas. dados ou feitos por um ministro”. e é clandestina quando se faz às escondidas. – Recôndito exprime “escondido muito longe. 64 ABSOLUTISMO. – “tem-se dado tanto o nome de tirano como o de déspota ao rei absoluto. em Marrocos. despotismo. – Recôndito e retruso aproximam-se. haveres e liberdade de todos os súbditos. diz ainda abstruso. “O sol ficou oculto pela árvore ou pela nuvem. – Secreto se diz do que fica mais que oculto. não obstante ser permitida. converte-se em despotismo. esse poder é limitado por leis. até que passasse o perigo”. as quais velam pela vida. “Nestes últimos tempos” – escreve Roq. caudilhismo. “O trabalho secreto dos conspiradores. autocracia. por qualquer motivo que nos é pessoal. o céu.. e em certos casos figuradamente. aquele. num canto da sala. É agora tomada como enunciando a ideia de um excesso de poder político degenerando em dureza de mais rigor que o despotismo. porém. o horizonte está encoberto. – Encoberto é o que ficou oculto.) “é a forma de governo monárquico em que o poder é exercido pelo soberano. a ideia de concentrado e profundo. quer dizer. e é clandestina quando se verifica clandestinamente contra o expresso mandado da lei. porém. só porque governa como senhor absoluto. nada disso. faltando à lei. Também se dá o nome de despotismo à forma de governo em que o monarca não tem de obedecer a nenhuma lei. os ocultos desígnios da Providência. devido à interposição de algum corpo opaco entre essa coisa e a nossa vista”. é o caso omisso que o monarca faz das leis que deve respeitar: quando o absolutismo oprime. militarismo. “O mísero ali ficou. “Lá esteve tímido e retruso. e chama-se clandestino quando o celebramos às escondidas sem observar as regras que prescrevem as leis canônicas. e podendo aplicar-se tanto em sentido moral como físico.. repulsado à força”. deixaram-nos sempre cuidadosamente encoberto aquele intento”. ou “a coisa que não podemos ver. persegue e atormenta. chamadas leis do Estado. retirado muito para a profundeza”. “O tempo. “Ficaremos para sempre no sertão. não declaramos. – Retruso diz “posto para o fundo. assim como abscôndito. – Clandestino é “o que é secreto e contrário à lei”. O absolutismo é chamado autocracia ao falar-se da Rússia”. como. “O abscôndito espírito de Deus era sentido ali no oceano”. se estende ao despotismo. Quanto a estes dois vocábulos. de onde pôde dar o bote certeiro”. e ainda às vezes negamos. ditadura. humilhado.50 Rocha Pombo ajunta à significação de escondido. os acordos secretos. oculto.. – Oculto é simplesmente “furtado às vistas” de qualquer modo. misterioso. porque fica “como em segredo e reservado a alguns”.

exprime-se que essa corporação ou pessoa tem competência e autoridade para dispor ou determinar. terminante. clama. – Em sentido amplo. para o homem absoluto. exige. permanece inabalável nos seus propósitos. senão na aplicação delas. inapelável. ou de tal artigo de uma lei. obriga aos demais a fazer o que não devem contra toda a razão e justiça. se aprovam ou não a sua conduta é. Quem é imperioso quer. não na forma de governo. valendo-se do dito direito.: “Quem é absoluto quer ser obedecido. seja legal ou de força. Tirano por conseguinte é o opressor. extremamente exigente neste ponto. livre de embaraços de qualquer natureza”. Dizemos: “forma imperativa da lei. ordena de modo que não deixa lugar a dúvidas ou observações”. etc. “Opinião. tomados num sentido restrito. atitude. ou acidentes ou mudanças imprevistas. – Arrogante é o que se impõe “com soberba e altivez. que não deixa lugar a dúvidas”. incondicional. quando se diz que dispõe ou determina imperiosamente. déspota. cabal. porque tão tirano e despótico pode ser o governo de um como o de muitos cônsules. que é definitivo. que exige com império”. imperioso. Quando se diz que uma pessoa. senão nos atos dos que governam. que não admite réplica. ou que se funda na supremacia da força armada. não sujeito a contrariedade. dúvida ou contestação. ou tomara uma atitude imperiosa”. sobretudo. e quaisquer que sejam as observações que lhe façam. parecer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 51 o que é um grave erro. pois. categó- rico. ou tomara uma atitude imperativa” e: “fez um gesto. e déspota. imperativo. – Ditadura é um regímen excepcional que se caracteriza pela concentração de todos os poderes políticos do Estado nas mãos de um chefe. não somente o opressor. É mais do que imperioso. Imperioso equivale a “que se impõe. decisivo. pode não o ser tanto no que toca à execução efetiva das suas ordens”. que ordena. absoluto significa “fora de contraste. ou que não muda de resolução”. sentido imperativo de uma frase” (e não: imperioso). 65 ABSOLUTO. Entre imperioso e imperativo só existe a diferença marcada pelos respetivos sufixos. intento. resolve. com exatidão a diferença que existe entre as duas palavras. escreve Bruns. tirano e déspota. peremptório. claro”. – Decisivo equivale a “que põe termo a toda dúvida. A tirania e o despotismo não estão nas instituições. Para compreender. que o não contradigam. – Caudilhismo é adaptação do antigo espanhol (de capdillo “capitão”) para significar o regímen político caracterizado pelo predomínio de chefes de bando em certos países da América. ou uma corporação. positivo. irredutível. – Categórico diz o mesmo que “precisamente definido. – Militarismo é o sistema em que o poder político é exercido por chefes militares. basta ter presente que tirano é aquele que oprime a outro. pois ajunta à significação deste vocábulo uma ideia de excesso de orgulho com que se manda. e que. aquele em quem se reconhece um direito indisputável de mando. ainda quando seja seu igual na sociedade. ponto secundário: o que ele quer é a execução efetiva e completa do que decidiu. determina ou dispõe imperativamente. – Definitivo = “que explica. Sentimos bem nitidamente a distinção destas frases: “fez um gesto. como quem se presume forte e ufano da sua força”. – Sobre absoluto e imperioso. pretende que ante ele se observe uma postura respeitosa. e que lhe deem provas de deferência e submissão. arrogante. declaração definitiva”. definitivo. quer-se dizer que ordena mais com arrogância do que com autoridade. quer. – Irredutível apro- . senão o dominador”. nem lhe façam observações. acima de contingências.

e dá prova mais de misericórdia que de justiça. Remitem-se culpas. dívidas. – Incondicional é “o que se não sujeita a condições. ou a qualquer castigo. Remitir é desistir em todo. do grupo. Absolvemos o acusado. malsoante. descriminar.52 Rocha Pombo xima-se aqui de decisivo: diferençando-se deste em sugerir também a noção do grau de força ou de capacidade com que a coisa ou pessoa irredutível não altera o seu modo de ser ou de agir. ou que era preciso seguir”. – Descriminar equivale precisamente a “absolver de crime”. – Quanto aos três primeiros destes vocábulos. deixar como se não existisse. pecados. e tanto que. escreve Bruns. – Indultar e agraciar dizem aqui mais particularmente “conceder perdão de crime de alta gravidade”. desculpar. não sujeito mais a dúvida ou a nova resolução” – Cabal = “pleno. destemperado. – Escusar e tolerar sugerem a ideia de “deixar que passe a falta sem puni-la”. desarmônico. acima de eventualidades”. – Desentoado é o que está “fora do tom próprio. e significa “esquecer. de que se não pode apelar”. não cede do que resolve. é convizinho. o crime político”. quer. ou em parte. “que não admite outra solução”. discordante. do que havia direito a exigir. – Desarmônico é o mais geral: exprime “que não faz harmonia ou acorde. ou do som conveniente”. perdoar. terminante. Confunde-se. ou não tivesse sido perpetrado. renunciando a qualquer desforra. – Inapelável = “de que não há recurso. destoante. só o soberano ou o órgão legítimo da soberania nas repúblicas é que anistiam. tribunal inapelável. remitimos a dívida. Tanto quem escusa como quem tolera supõe-se que tem alguma superioridade sobre aquele a quem aproveita a escusa ou a tolerância.. etc. convindo notar o seguinte: dissonante diz apenas “que não está de acordo com o som que se quer. Este verbo dá também a supor que a pessoa a quem se faz a remissão tem certas condições que a tornam credora desse benefício. – Desculpar diz propriamente “relevar a culpa. que não está . portanto. toado. – Ábsono diz propriamente “que discrepa. Quem indulta ou agracia exerce função soberana. completo”. destemperado. tolerar.: “Absolver é desligar o culpado dos laços que o prendiam. ou de redimir. com outros do grupo: dissonante. destoante. mas sugere ainda a “ideia de muito afastamento do som que convém ou da harmonia dominante”. e suspende a execução da justiça”. pensa. – Anistiar é adaptação moderna. – Malsoante diz propriamente “que soa mal”. diz Alv. dissonante. agraciar. fica fora de hipóteses. ou que não se associa a outro som para formar harmonia”. discordante. perdoamos a pena. acerca de remissão. portanto. o mais próximo de ábsono: exprime não só destoante. Pas. – Terminante diz propriamente “que põe fim”. desarmonioso. ou com a regra estabelecida ou vigente”. de acordo com Roq. discrepante. desafinado. Perdoar é esquecer uma ofensa. – discrepante é. – Peremptório = “que completa e decide. 66 ABSOLVER. escusar. Despacho. – destoante é o que não condiz com o “tom próprio. remitir. compete ao príncipe e ao magistrado. “imperativo”. discordante. decisão. 67 ÁBSONO. discrepante. desen- indultar. acabado.” Entre remitir e anistiar há esta diferença. ou a falta cometida”.: “A remissão é concedida por quem cede dos direitos que lhe competiam acerca de alguma coisa. desafinado. – discordante é “o que se não põe ou não está fiel ao acorde. de desarmônico. que se afasta de outro som. anistiar. remitir dá uma ideia de resgatar. ou não faz acorde com outro som”. juiz. direta do grego. não se submete a continências.

) do latim sugere. chu- char. É. – Sobre devorar. porque em absorver há. – Chupar = “sorver. por tragar ou aspirar. A consumpção não serve para nada. que é desordenado em si mesmo e fora de toda conveniência”. muito mais próprio dizer-se: “O doente não tem mais forças nem para deglutir alimento sólido. ou uma voz pode ser desarmônica sem ser propriamente desarmoniosa. Diremos que “o oceano engole (e não – deglute) a embarcação”. 68 ABSORVER. de perfazer. sem mastigar”. e até muitas vezes não faz senão causar prejuízo. – Tragar é “beber aos tragos e tomando bem o sabor. – Comer é quase o mesmo que consumir. distingui-los precisamente. consumar. ou de “deixar que vá ao estômago. não afina pela desordem que aí reina). latino. ou que está completamente fora do tom: é mais que desafinado. aspirar. ideia de esforço para consumir separando por partes a coisa a absorver). a ideia de esforço. ‘No mar quase toda consumação se faz em proveito da reprodução’ (Buff.: “Comer vem de comedo. ainda que o primeiro designe antes a ação de completar.). Um som. tragar. – Engolir exprime simplesmente a ação de “levar ao estômago”. além disso. tragar e comer escreve Roq. – Entre engolir e deglutir pode notar-se diferença análoga. por outro lado. e significa mastigar e engolir . a voz. não sendo fácil. A esponja chupa a água. No meio de um tumulto a palavra ponderada é desarmônica (isto é. de gastar (user). cujo sentido próprio é acabar. deglutir marca. ou ao fundo”. deglutir. que significa igualmente chupar. Nos tempos coloniais dizia-se no Brasil “beber fumo”. que não se afina convenientemente”. engolir sofregamente. fazer que desapareça”. – Desarmonioso é o mais geral e absoluto do grupo: não precisa. tomaram-se outrora indiferentemente um pelo outro. a ideia do esforço com que se engole. destacando porções”. e o segundo a de destruir. A abelha chupa o mel. devorar. – Sorver diz também “beber aos sorvos” (Aul. ou o instrumento destemperado desordena de todo a harmonia. E tanto que dizemos: “o mar sorveu o frágil batel” (não – absorveu. o fumo. O morcego chupa o sangue aos outros animais. – Consumir acrescenta à noção de absorver a ideia de “extinguir lentamente. o que nem sempre se dá em relação a chupar. sugar. com a significação que têm aqui. – Destemperado é o que desafina de todo. – Aspirar é “atrair aos pulmões. julga os dois verbos como quase perfeitos equivalentes. mal engole caldos”. mas outros o derivam (como Aul.). consumir com avidez. beber. engolir. – Sugar é equivalente de chupar. chupar. – Chuchar parece a alguns uma simples forma popular de chupar. enunciada pelo prefixo ab. rapidamente”. sorver. –” Devorar é “tragar. Laf. e rigorosamente. comer. mas não marca a ideia de desligar de todo as partes que vão sendo sorvidas. Assim consuma-se um ato. o ar. pois não se supõe que a esponja faça esforço em chupar a água. enuncia a ação de “mastigar e engolir”. “A ação de consumar – diz ele – não destrói em vão como a de consumir. A consumação serve para a reprodução. etc.” Só se aspira matéria gasosa. atrair líquido quase sempre com esforço”. que não tem harmonia. – Desafinado exprime “que não está no tom próprio. consome-se uma certa matéria”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 53 igual ao som dominante”. pelo nariz ou pela boca. Distingue-se deste por incluir. ou a voz desafinada não faz harmonia perfeita. O instrumento. – Beber é “engolir líquidos”. de adjunto completivo: enuncia “que não faz acorde. consumir. Sobre consumir e consumar diz Bourguig: “Consumar e consumir. em regra. – Absorver designa a ação de “consumir pouco a pouco.

enlevado. arrebatado. III) – Embebido significa. abstração. maravilhado. e do. 69 ABSORTO. assombrado e abismado escreve Bruns. V) Homem arrebatado em Deus. (Aul.) “Saiam como fora de si. – Absorto exprime: como que “fora da consciência. (Cam. tragar vem de trogo. meditabundo.”. – Abismado diz mais que assombrado. enlevado em êxtase”. Estatelado acrescenta a estático uma ideia de esvaimento.. ouvintes embebidos etc. apreensivo. – Impressionado diz propriamente “sob a tortura de impressão de dor. silencioso e melancólico”. – Apreensivo significa “tomado de cismas. E casar-se com ela. Lus. de medo.) – Enlevado exprime a nímia confiança que se põe num parecer..: “Arrebatado usa-se não poucas vezes para se exprimir um deleite mental ou corpóreo. significa comer ou tragar com voracidade ou sofreguidão”. tão intenso que chega como a alienar-nos. – Contemplativo é “absorto em coisas místicas”. Da boca do facundo capitão Pendendo estavam todos embebidos. ou da contemplação de suas qualidades. abstraído (abstrato). que ama o afastamento. dando porém a entender que a causa desse estado é algo que impõe medo. c. pensativo. meditar em graves coisas”. contemplativo. “Eis que no meio da Missa fica subitamente arrebatado”. extasia- “tinha embebido em si a doutrina do Apóstolo” (Feo). – Meditativo e meditabundo parece que têm a mesma significação. – Sobre admirado. pois nos representa como “caídos em abismo de que não se sai”. – Extasiado “o mesmo que absorto e em pasmo”. assombrado. – Sobre enlevado. grego (τρώγω) e significa engolir sem mastigar. embebido e arrebatado escreve Alv. etc. meditabundo diz mais “pensativo e triste”. de suspeitas”.” Assombrado é “muito admirado”. mas no sentido em que aqui se toma quer dizer – profundamente atento. distraído. o mais usual destes termos. e no entanto diferençam-se assim: meditativo quer dizer – “dado. que vive ou está “como se tivesse a alma toda voltada para fora do mundo sensível. admirado. e devorar. d’enlevado.. nas qualidades ou promessas de qualquer pessoa. e arrebatados em Deus”. – Preocupado ajunta à noção de impressionado a ideia de “pungido de cuidados”. – Arroubado significa “arrebatado de altas emoções ou de sublimes pensamentos”. meditativo.: “Admirado. ... (Cam. amante enlevado num falso parecer. que está “solitário. estatelado. Estático exprime “parado. (Souza. Num falso parecer mal entendido. de devoro. – Pensativo está ou fica por momentos quem “pensa ou parece pensar só nalguma coisa”. distração. estático. é o de menor significação. metido nos poros: a esponja embebe-se do líquido. se só os olhos pudessem julgar. ficamos admirados ao ver o que não esperávamos. propenso a refletir. – Extático diz “absorto. diriam exatamente o mesmo que extático e extasiado. respeito etc.54 Rocha Pombo alimentos para sustentar-se. e numa concentração de todo o espírito num assunto”. de pressentimentos. de desconfiança. imóvel como estátua. abismado. embebido. extático.) – Estático e estatelado. impressionado. preocupado. delíquio ou inanição. – Maravilhado diz mais que os três precedentes: ajunta-lhes a ideia de “grande surpresa e admiração que nos abalam e deixam em pasmo”. latino. (Feo. Lus. arrebatado “de grande admiração e como em esquecimento de si próprio”. Pas. insensível a tudo que está em torno”. arroubado. ao pé da letra. a ponto de ficar como maravilhado da vista dessa pessoa.. c.

No cabedal das línguas cultas ocupam um lugar muito importante as palavras que representam ideias abstratas. uma como alheação do homem concentrado naquele objeto interior que o tira como de si mesmo. corresponde à linguagem metafísica. Enfim. achando-nos no mais profundo desta abstração. segundo a expressão de Bossuet. o espírito do distraído é instável. o pensamento do indivíduo. incapaz de aplicar-se ao que quer que seja. – Sobre distraído. como o resultado de um caráter particular. como a matemática. Em nosso entender. distraindo-se de suas obrigações. e na consideração de suas abstrações. abstraído e abstrato. e designa a operação do entendimento por meio da qual desunimos coisas que na realidade são inseparáveis. e de repente entra uma pessoa. por assim dizer. e abstraído quando a referimos às pessoas. – Abstração é. distractus “atraído de um lado e de outro. por assim dizê-lo. e assim dizemos: Este homem está sempre abstraído em seus estudos ou meditações. abstraídos nelas. para podê-las considerar cada uma em particular sem dependência nem relação com as demais. A causa das abstrações é antes interior. servindo-se de uma por outra. atraído para longe de”. O espírito do abstraído está longe do que vós lhe dizeis. e sendo estas o objeto das ciências mais elevadas. ou se faz um ruído forte. como uma ocupação contínua.: “Abstraído. diremos que nos distraiu. – Sobre abstraído e distraído lê-se em Laf. abstração e distração vejamos Roq. Uma palavra casual nos leva insensivelmente de um objeto exterior a outro interior abstraindo-nos inteiramente daquele. em conversação consigo mesmo. de dentro para fora. escreve magistralmente: “Encerra-se nestas duas palavras a ideia comum de falta de atenção. chamam tanto a atenção dos que as estudam que. mas com esta diferença: que são as ideias próprias. de diversos lados ou para diversos lados”. abstrair-se nisto. ao contrário. pois. merece o nome de abstraído. daquilo de que se trata. Querem alguns que distração seja diversão do pensamento de todo objeto exterior para atender aos interiores. ocupando-se ele tão fortemente com estas ideias interiores que só atende às coisas que elas representam. Uma imaginação abstraída só à sua própria ideia atende como se não houvesse outras. nos fere repentinamente os sentidos qualquer objeto exterior. olhamos a abstração como uma coisa habitual. e. Pas. e não que nos abstraiu. em vícios. a metafísica. ocupando-se. separando-nos da abstração. Diz-se de um homem que está distraído no jogo em amores. distrai-nos. por concentrar-se. A palavra abstrato usa-se quando a aplicamos às coisas. que o fazem abstraído. a que procuramos voltar bem depressa”. Se estamos engolfados em nosso estudo solitário. e é um novo objeto exterior que faz o . e a filosofia. que significa – separar ou arrancar uma coisa do lugar em que está ou supomos estar. dissipado. são indiferentes e como insensíveis aos objetos exteriores. O homem que se aparta do trato e comunicação das gentes.: “A palavra abstração vem da latina abstrahere. pois a abstração se exerce de fora para dentro. A distração é momentânea e como passageira. mas quando.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 55 pela visão interior vendo o que os olhos não têm a faculdade de ver”. há verdadeira e notável distinção entre as duas palavras. distraído. abstractus “tirado. a da distração é exterior”. e comumente de distraído por abstraído. porém. ele deixa vagar seus pensamentos. fixando-nos nela com exclusão de todas as outras. e dizemos abstrair-se quando nos alheamos dos objetos sensíveis para nos entregarmos aos intelectuais. de cuja definição resultará que haja pouca diferença entre as duas palavras. e a distração. Falamos em abstrato quando o fazemos com separação de qualquer coisa. evaporado. ele está à mercê de todas as impressões. Alv.

lustroso. estando a ouvir um discurso que se nos dirige. porém o homem de razão abstém-se dele quando sabe que lhe é nocivo. priva- que gozamos ou queremos gozar. A privação é de ordinário forçada. ouvimos do lado uma coisa interessante. porém. abstinência. Dizemos: “O aço já terso da ferrugem” (Fil. Refulgente é um reforço de fulgente. refulgente. sem ser pelo brunidor. e perdem o fruto das conversações”. e falam muito. privar-se supõe apego à coisa. Vicente de Fora. polido. nos entretemos com o nosso próprio cogitar. – Polido e brunido aproximam-se. e pena de não poder gozar dela. mas. quando.: Abster-se exprime a ação sem referi-la ao sentimento que pode acompanhá-la. – Fúlgido é o “que fulge de si mesmo”. (Bern. As abstrações são mais próprias dos homens dados a meditações. (Cardoso) Ficamos distraídos quando. É difícil que não fiquemos distraídos quando. e tanto na acepção moral como na física. ouvindo tal orador no palácio das Cortes. Fácil nos é abster-nos do que não conhecemos nem amamos. fúlgido. nos privamos das coisas que conhecemos. luzente. imaculado. estando a contemplar um objeto. admirando as belezas da Ajuda. terso. abstraído. brunido. que nos agradam. com dificuldade. brunido se aplica mais propriamente ao brilho que se dá aos metais. luzido. Para o que prefere sua saúde aos prazeres. isto é. polido e lustroso”. Cândidas al- . a estudos profundos. caso raro é que se prive de vinho. ou as antiguidades de S. recolhidos conosco. mas para o que prefere os prazeres à saúde. fulgente é o “que está fulgindo ou sendo brilhante no momento”. privar-se. delicado. acrescenta à ideia de alvura a de pureza e imaculidade. Ficamos abstraídos quando não pensamos em nenhum objeto presente. mas que por certas razões dela nos abstemos. 70 ABSTER-SE. e atrai a sua atenção. atendemos a festins etc. ainda melhor que alvo. ou que nos é indiferente. – Escreve Roq. 71 ABSTERSO. alvo. e os distraídos meditam pouco. limpo. que a desvia do objeto a que ele a tinha aplicado. Aul. quando. ora está em Roma no meio da praça de S. luzidio. Tanto se aplica em sentido natural como em translato. – Cândido.56 Rocha Pombo homem distraído. fulgente. escutando um discurso enfadonho. “A força da oração o abstraiu deste desterro”.). nitente. quando. pois temos desgosto e ainda pena de nos vermos privados daquilo que muito desejamos lograr. – Alvo e branco se confundem. a abstinência não é na realidade privação. como dizemos: “Linguagem tersa. mudamos a atenção para outro diverso. silencioso e solitário para o comércio divino”. Podendo o bêbado beber. nitidez e brilho.) As distrações pertencem mais aos espíritos levianos e às crianças que se distraem com lindos nadas. “Os abstraídos meditam muito e falam pouco. – Absterso é como um redobramento de terso. e este significa “livre de manchas. brilhante. escutamos outro diferente. ção. mas a distinção entre os dois consiste em que alvo ajunta à noção de branco a ideia de puro. Elys. polido se diz de tudo a que se deu polimento. nítido. límpido. quando estamos numa parte e o pensamento noutra. dados a nossas ocupações. – Vemos que abstinência supõe que podemos gozar de uma coisa. a abstinência é também privação. lúcido. branco. cit. estilo absterso e brilhante”. Pedro. nem desejamos. Uma pessoa abstraída tem o espírito muitas vezes a grandes distâncias: ora está em Lisboa em frente da estátua equestre. de cândido. reluzente. e assim se entende ser voluntária. – Brilhante exprime “muito polido e luzente: que tem grande brilho”. “Devem guardar o coração desempenhado.

– Frugal é propriamente o que se nutre “só de frutas”. principalmente quanto a bebidas que embriagam. – Abstêmio é o que se abstém de excessos na mesa. – Moderado e comedido muito se aproximam. – Sóbrio coisa abstrata é difícil de entender porque dista muito das ideias sensíveis e comuns. – Lustroso confunde-se com brilhante. designa “uma qualidade mais forte e que parece depender de mais esforço e energia moral”. – Comedido significa “que sabe regular. e em sentido geral. frugal. reluzente é forma redobrada de luzente. – Nítido ajunta à noção de limpo. olhos reluzentes de cólera. cheio de luz. lustroso. – Abstido é quase o mesmo que abstinente. “no momento”. Num sentido mais restrito embora. Luzido acrescenta à noção de polido. É preciso notar-lhes. Tudo que é abstruso é abstrato. Uma coisa abstrusa é difícil de compreender. propriamente uma qualidade (como se dá com abstinente) mas um estado. e no uso dos bens da vida”. a ideia de brilhante. abstruso. uma abstido. 73 ABSTRATO. luzidio. temperado. não só este é mais intenso e complexo. sóbrio. Dizemos com propriedade: luzidos batalhões. (Aul. a ideia de esbelto. pomposo. vistoso”. e abstrusa dizemos que é a ciência da geometria transcendental. que despede luz um tanto indecisa. quase tacanho e avaro”. o que se mostra moderado em todas as funções.. medir as suas palavras e ações de um modo conveniente”. brilhante. – Segundo Roq. mas. Cândido livro.) – Parco diz mais que sóbrio: é aplicável ao que é “pouco abundante. curto. terso. no entanto. brilhante como a própria luz”. e por extensão “o que se satisfaz com pequena quantidade de alimento”. comedido. nitente diz. cuja relação não é possível descobrir nem seguir. 72 ABSTINENTE. particularmente no comer e no beber”. reduzido. Não seria próprio dizer. reluzente. é “o que só toma o alimento indispensável. a lúcida visão do gênio. luzidio diz propriamente – “que é semelhante ao que brilha”. pequeno. convindo notar-se que abstido deve aplicar-se ao que. lúcido é o mais forte da secção: diz – “claro. apesar do esforço extraordinário que nossa inteligência faça para consegui-lo. diáfano. – Límpido acrescenta à ideia de terso e puro a de lustroso. se abstém de alguma coisa: não designa. ou instantânea e fugaz. abóbada ou esfera luzente. 74 ABUNDÂNCIA. parco. luzente quer dizer – “que espalha luz em torno”. continente. luzente. portanto. O primeiro. abstêmio. moderado. portanto: “lustrosa estrela”. lúcido confundem-se muito. riqueza. – Limpo diz – “livre de impurezas”: é o mais genérico do grupo. temperante. as inclinações da própria natureza”. diáfano.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 57 mas de crianças. opu- lência. – Continente designa “o que tem a virtude de sofrear os impulsos. alguma diferença marcada pelos respetivos sufixos. Exemplos: “Nítidas frontes fulgem do meio da turba”. além de limpo – “correto. airoso. fartura. como lustroso restringe ao que se lustrou ou poliu a qualidade que enuncia. no entanto. “Nitentes florações nos trouxe a primavera”. Um tratado sobre o entendimento humano precisamente deve ser abstrato. mas nem tudo que é abstrato é abstruso. discriminado. e muito menos a totalidade que deles resulta. – Luzido. porque depende de um encadeamento de raciocínios. – Abundância (do latim abundan- . um ponto luzidio no escuro da floresta. está temperante no mesmo caso: significa “moderado nos apetites. – Abstinente é aquele que se abstém de alguma coisa por necessidade de consciência ou por sentimento de dever.

. o preconceito parece mais a “suposta certeza”.. ou sem conhecê-la. prevenção. f. crença popular sem fundamento. “a superabundância de bens da fortuna e de coisas preciosas”. – Superstição – diz Bruns. de superstare) é uma depravação do senso religioso. ou conto mentiroso com pretensões a coisa séria e verdadeira.58 Rocha Pombo tia. Quem vive na fartura tem mais do que lhe é necessário. patranha. ou caso fictício com que se engana. A preocupação tira a liberdade do ânimo. a convicção assentada. su- perstição. fanatismo. ou de que alguém se persuade por ingenuidade. de ab + undo. A preocupação nasce de alguma impressão viva e profunda que enche de seu objeto a capacidade do ânimo. absorve-o. – Opulência é a “riqueza com aparato e ostentação”. com a diferença que a preocupação reside particularmente no entendimento. Podemos admitir ainda o preconceito da honra: não o prejuízo. e o faz cego. superstição (superstitio. as quais. de que não saímos como por um capricho do nosso amor próprio. portanto... – Patranha diz – “grande tolice. ou por índole supersticiosa”. que não pode ouvir nem conceber outras contrárias. preconceito. Aproxima-se-lhe peta. à cega confiança em coisas ineficazes”. interessando-nos a respeito desse objeto. um respeito cego a coisas vãs. – Quem vive na abundância não precisa de mais nada para viver. do dinheiro. As preocupações não são boas . induz em erro. A prevenção é uma disposição antecipada da alma que a faz inclinar-se a julgar mais ou menos favorável ou desfavoravelmente de um objeto. e a faz injusta. – Riqueza é. preocupação. – “é sentimento de veneração religiosa fundado no temor ou na ignorância. Dizemos: a superstição da honra. – Fartura diz mais que abundância: significa “em quantidade tal que já excede ao que é suficiente”. – Abusão é “falsa história. convindo não esquecer que patranha parece significar que as mentiras ou as tolices se referem a assuntos de religião. de um objeto. mas este supõe que o nosso espírito “foi induzido a deixar-se dominar” da falsa noção que nos impede de julgar livremente. e que portanto nos impede de julgá-la de consciência”. Quem viveu sempre na riqueza “não sabe o que é ser pobre”. – Prejuízo diz propriamente “juízo antecipado. Confunde-se com preconceito. – Acerca de preocupação e prevenção diz Roq. de abundare. um gênero de petas. f. como diz Roq. da verdade. impedindo de julgar sãmente. um excesso de credulidade que turva a consciência ou faz calar a razão. e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos ou supostos deveres.: “Estes dois termos exprimem uma disposição interior oposta ao conhecimento da consciência. O prejuízo parece mais um temor supersticioso. e que impede o ânimo de adquirir os conhecimentos necessários para julgar das coisas retamente. conforme define Aul. etc. A prevenção nasce de certas relações ou informações que nos deram. prejuízo. do destino. de perfeito acordo com Aul. 75 ABUSÃO. peta. – Crendice é. e que é. Quem vive na opulência goza com ufania da sua riqueza. crendice. opinião que se tem de uma coisa antes de examiná-la diretamente. A preocupação é o estado do ânimo de tal modo cheio e possuído de certas ideias. Propriamente. não permitem à nossa alma o conservar seu equilíbrio e sua indiferença. A prevenção tira a imparcialidade do juízo. e cativa o pensamento. e a prevenção tem seu principal assento na vontade. – Todas estas palavras indicam ou sugerem defeito de consciência. e que só aceitam os néscios”. e absurda e ridícula. e pode estender-se mesmo a coisas que não sejam religiosas. are) diz propriamente “em quantidade tão grande que satisfaz plenamente ao que se deseja”.

e às vezes alguma outra coisa que se lhe pode seguir”. e fechar. que nasce das opiniões supersticiosas. “Findou o sofrimento da triste criatura” (e não – finalizou). – Entre findar e finalizar dáse uma diferença análoga. esforço “para chegar ao fim”. Ontem se concluiu o negócio. neste caso. rematar. ultimar. seriam sinônimos perfeitos se não fosse a nuança assinalada na predicação daquele primeiro verbo: o que se fecha fica “resolvido definitivamente. ultimar. devendo notar-se. cessar. Finalizar enuncia ação. é romper a continuação ou seguida do fato com o que fica por fazer”. finalizar. e é nesta última acepção. – é um termo geral. e. senão puramente de uma ação que cessa. injustas e cruéis. não a coisa concluída. acabar é. mas a inversa não seria exata. o princípio que teve essa coisa. Findar é “ter fim”. não somente sem vergonha e sem consciência.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 59 para coisa nenhuma: devem combater-se como inimigas da verdade. além de “ter fim” – chegar. quando a um aparte do ministro. que se distingue de findar. e faz cometer ações ridículas. parar. rematou a tremenda objurgatória com uma invetiva ultrajante”. intermitir. que a toda suspensão de trabalho ou ação pode aplicar-se. de entrar. levar ao fim (ao cabo). não acaba de chegar. concluir representa a ação no deixar a coisa completa. bem marcado. basta buscá-la num exemplo. para distingui-la. ainda que não seja por muito tempo. formal. como se o que as faz houvera recebido alguma missão de Deus”. porque podem prevenir-nos contra o engano”. – Segundo Roq. descontinuar. “é um zelo cego e apaixonado. – Finalizar. é pouco perceptível sua diferença. portanto. – Acabar e findar têm muito íntima conexão. por muito tempo. 76 ACABAR. acaba de sair. – “Cessar – diz ainda Roq. senão também com uma espécie de alegria e consolação. porque não se trata diretamente de uma coisa finalizada e completa por meio da conclusão. Há prevenções justas e razoáveis: é mister examiná-las. Como as ações destes dois verbos são em geral inseparáveis. – Fanatismo. – Descontinuar é suspender o trabalho. ultimado”: o que se remata “tem termo preciso. Dizemos rematar quando queremos exprimir que se “pôs fim ou conclusão a uma coisa com um sinal próprio ou de um modo completo”. ao meio-dia acabou de correr. Quem diz ultimar indica a ação de “chegar ao termo de uma coisa deixando supor que se havia começado e que se vai ou pode dar princípio a outra. rematar. concluir. para sempre. no qual o que se acaba seja precisamente a ação de outro verbo: Amanhã acabarei de escrever. e parecia terminar ou concluir já mais calmo.. de chegar. porém. – Terminar é “ir ao termo. no entanto. e até pode ser que solene”. como que estabelecendo uma certa relação de ordem ou de seguimento entre a coisa que se ultima. Um exemplo: “Quando ouvimos aquela apóstrofe vibrante supusemos que o orador ia ultimar as graves acusações.. portanto. interromper. findar. “acabar representa a ação de chegar ao termo ou fim de uma operação. terminar. que findar enuncia simples fato em muitos casos em que acabar enuncia ação. terminar. “Finalizamos o trabalho com muita fortuna” (e não – findamos). – Rematar. Em nenhum destes exemplos se pode usar sem impropriedade do verbo concluir. “Acabamos a nossa tarefa” (e não – findamos). fechar. Segue-se que em todos os casos em que se aplica findar pode aplicar-se acabar. fechar podem confundir-se. concluído. sem indicar diferença alguma. mas ele continuou no mesmo tom veemente. Cessa-se por um instante. do termo e fim a que chega. segundo o mesmo Roq. mas a operação com que se conclui”. etc. Hoje se acaba minha fadiga. . suspender.

ter fim. envelhecido. que um homem faleceu quando acabou seus dias naturalmente. descomposto. ralado. esgotado. gasto. exinanido. acabar de ser”.60 Rocha Pombo levar ao termo. – “Acabar – escreve Roq. Morre. e por sua desventura também muitas vezes perece. fatigado. morrer. nos suplícios. pagam o tributo à lei da morte. perecer. amofinado. nem falece. “Intermite-se a aplicação de um medicamento quando sobrevêm acessos do mal que se combate”. – Expirar é “render o último alento. – Morrer é acabar de viver. mortificado. para indicar que vai baixando pouco a pouco até acabar. Morre tudo quanto é vivente. cansado. alquebrado. alterado. que a serra vai morrendo. expirar. Perece.. curvado. Acaba ou fenece a serra. O homem não morre só quando o prazo dos seus dias está cheio. Descontinua-se quando “se deixa de prosseguir aquilo que é contínuo ou sucessivo”. Fenecem as serras nas planícies. Muitas vezes se acaba a vida antes que tenhamos acabado a mocidade. acaba. nos cárceres. cessar de agir. 78 ACABADO. avelhentado. perder a vida. acabar. Diz-se mui urbanamente. finar-se. “Para o relógio quando se lhe acaba a corda”. nem morre7. dar o último suspiro. – Extinguir-se significa “fenecer. abati- do. arruinado. nem falece (nem fenece). aniquilado. tratando-se de movimento ou de função”. à míngua. de inimigos ou de rivais. uma cidade. falece. e não morre. mudado. – Parar significa “cessar. nem se fina. etc. extenuado. e por uma espécie de eufemismo. prostrado. de atuar. idoso. fenecer. e de um modo mui genérico. de sede. Falece o homem quando passa da presente a melhor vida. – Finar-se exprime propriamente o acabamento progressivo do ser vivente. ou há de perecer tudo quanto existe. fina-se o homem. interrompe-se alguma coisa quando “se lhe corta ou suspende bruscamente a ação ou o modo de ser”. nos naufrágios?! Todos os seres animados finam-se quando. acabrunhado. extinguir-se. exausto. mas o irracional não falece. e não perece. desfeito. . Morre o vivente. velho. Quantos têm perecido de fome. ou deixar de exercer por algum tempo função própria ou alheia”. – Fenecer é chegar ao fim do prazo ou extensão própria da coisa que fenece. Perece um edifício. inanido. falecer. quebrado. nos terremotos. quebrantado. – Todos estes verbos significam “chegar ao fim”. – significa chegar ao cabo ou fim de uma operação sem indicar a conclusão. e porque as plantas têm uma espécie de vida. chegar ao limite”. Depressa se acaba o dinheiro a quem gasta perdulariamente. cessar de todo. 7 Figuradamente dizemos. mas morre muitas vezes às mãos de assassinos. do mesmo modo que diziam os latinos vita functus est. enfraquecido. ou de se fazer sentir por intervalos”. e sugere a ideia do desaparecimento da coisa que se extingue. acabar de existir no mesmo instante”. e às vezes por desastre ou infortúnio. 77 ACABAR. nos incêndios. – Falecer é fazer falta acabando. consumido. mas não se dirá que faleceu aquele que morreu na guerra ou às mãos do algoz”. acurvado. e às vezes no mar. ou morrer de todo. demudado. como descontinuar. desfigurado. combalido. quer se trate de duração ou de espaço. – Intermitir é “suspender ou interromper de momento a momento. também as plantas morrem. macerado. definhado. enunciam ação de “cessar. – Fenece a vida do homem muitas vezes quando ele menos o espera. extenuadas as forças. debilitado. – Interromper e suspender. exaurido. suspende-se alguma coisa quando “se a interrompe por algum tempo e a deixa pendente”. nem se fina. – Perecer é chegar ao fim da existência. aliás.

– Curvado (e acurvado) enuncia ideia da postura daquele que a idade ou o sofrimento fez pender. “que não é precisamente ao exercício das virtudes que se deve o estar gasto”. Todo velho deve ser idoso. – Confunde-se com aniquilado: notando-se que este ajunta a quebrantado a ideia de humilhação. abateu e como que curvou. isto é. – Exinanido = “aniquilado. – Prostrado = “violentamente abatido. – Quebrado se diz daquele que está enfraquecido. esmagado de dores. avelhentado é o que tem ares de velho. ou mesmo por algum sofrimento moral”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 61 transtornado. – Definhado = “consumido. Agora está combalido: o tempo não poupa nem a glória. de desgraça. desmanchado indicam todos. alterado. – Acabrunhado ajunta à noção de abatido moralmente a ideia de profundo desânimo e tristeza. – Mortificado = “ferido de angústias. está hoje abatida. – Gasto confundir-se-ia com os precedentes. etc. mofino. – Abatido significa “desfigurado e enfraquecido. de doença. e por isso falto de forças”. macerado. mais que os anos. ou o que os trabalhos amofinaram”. – Velho e idoso distinguem-se assim: idoso é o que chegou à idade avançada. com pequenas diferenças de nuanças. muito esgotado de forças. que enuncia apenas a ideia de “não nutrido. mas o segundo dá ideia mais clara de extenuamento. que vai murchando e morrendo de desconsolações”. demudado. o estado do semblante. sugerindo ideia de mal passageiro. Aplica-se mais propriamente à situação da vida que à própria vida. mortificado pelos padecimentos”. – Arruinado = tão alterado na saúde ou nas forças que parece perdido. – Debilitado = “um tanto enfraquecido”. desfeito. ainda ontem tão altiva. atormentado pelo sofrimento. – Combalido exprime “abalado. mudado. – Macerado quer dizer “desfeito. – Cansado e fati- gado exprimem a mesma noção de “quebrado de forças”. velho é o que. mais exausto de forças do que devia estar. Diz também “o que a moléstia afligiu. – Acabado dizemos daquele em cuja fisionomia o tempo. de sofrimentos. . “Aquela figura. que parece estar morrendo”. doença ou idade”. curvada pelo infortúnio”. como diz Bruns. sem forças e sem ânimo”. muito enfraquecido pelas privações”. de todo o conspecto da pessoa abalada de sofrimento. se deles não se distinguisse em sugerir. também devido quase sempre a causas momentâneas. de susto. – Extenuado = muito exausto. É mais forte que inanido. desmanchado. o que se deixa abater e como emurchecer de dor moral”. transtornado. Entre exaurido e exausto pode notar-se esta diferença: exaurido dá melhor a ideia da causa que exauriu. que parece tombar”. de trabalhos”. – Envelhecido e avelhentado: o primeiro se aplica à pessoa que parece ter mais idade do que realmente tem. por fadiga. medo. – Ralado = “vexado. – Desfigurado está aquele que mostra na fronte “sinais de depressão física produzida por alguma doença. afligido. – Como desfigurado – descomposto. – Consumido indica melhor o que se sente “ferido profundamente na alma. que parece velho sem o ser. exaurido e exausto seriam quase sinônimos perfeitos se os dois últimos não sugerissem ideia do esforço que produziu o esgotamento. – Alquebrado se aplica ao velho que a doença. – Quebrantado convém mais àquele que se deixou abater por motivos que muitas vezes são imaginários. o já não ter o vigor. – Enfraquecido = “falto de forças”. e sugere alguma coisa de resignação. – Esgotado. devido à idade avançada. os trabalhos ou as doenças parecem ter feito mais estragos de que se devia esperar. a louçania que só a idade não extingue. se sente enfraquecido e enfermo.. falto de forças (físicas ou morais). mas há homens idosos que não se pode dizer precisamente velhos. – Amofinado = “ressentido de moléstia. e enuncia de maneira mais completa e mais forte a noção de esgotado. de remorsos”.

magistral. aborrecer. O mesmo não se poderia dizer de acabado.” É preciso. e dá ideia do desespero em que fica o que se aflige. “Um amigo 8 É tal a dificuldade que apresenta a falta de precisão absoluta do valor lógico de certas palavras que em muitos casos é forçoso admitir formas como esta – mais perfeitas – apesar do que. uma dançarina perfeita (e não – completo médico. da impaciência. e aplica-se àquilo que foi elevado ao mais alto grau de perfeição. explicações. essa ideia de execução. a do aborrecimento. – Oprimir dá ideia “do gravame. algumas linhas antes. sentenças. ferir de grande mal. dançarina completa). pelo peso de algum desgosto ou de alguma desgraça”. completo. inteiro. sob o da figura: uma beleza completa reúne muitas perfeições. entristecer. além de completo. aquilo. plenas informações. É mais genérico do que perfeito. no entanto. – Pleno diz propriamente “cheio. ou o artista (se se trata de uma obra de arte) pode ainda acrescentar alguma coisa. e exprime virtudes ou méritos em conjunto. importunar. um certo mérito. consternar. diz também “alguma coisa de terminante. e sugerir. muitas qualidades eminentes. “O que pode ser melhor – diz Laf. molestar. perfeito. afligir. portanto. pois um é encarado sob ponto de vista mais restrito que o outro”. Uma beleza perfeita – diz o citado autor – tem a qualidade “beleza” em alto grau. acrescentar que cabal. desgostar. notando-se apenas que “em cabal há uma ideia de justeza. – Afligir diz propriamente “abalar a alma violentamente. angustiar. aqui. – Completo aplica-se apenas ao homem. mortificar. não é acabado”. contristar. inquietar. Dizemos: um perfeito médico. no entender de Bruns. – Humi- . a produção. apoquentar. e um esposo é completo. que satisfaz completamente”. como.. se diz em referência a uma “coisa que se fez de modo tão perfeito que nada se deixou a desejar”. Razões. completo. é sinônimo perfeito de completo. do mau humor em que se sente o apoquentado. soluções cabais (completas e decisivas). – Acabado. Distingue-se dos demais do grupo em conservar a atividade predicativa do verbo. – Magistral é “o que foi feito com mestria ou consumada perícia”. o serviço no qual se reconhecem as perfeições do autor ou do mestre que o executou. M. humilhar. ou a perfeição sob um ponto de vista particular. sessão plena.62 Rocha Pombo 79 ACABADO. diz o próprio Lafaye quando escreve que o que pode ser melhor não é perfeito. perfeito é mais extenso: aplica-se tanto ao homem como às coisas. de exatidão que não há em completo. é o trabalho. sendo que amofinar sugere a ideia da tristeza em que fica o que se amofina. – não é perfeito. pleno. amofinar. amargurar. pode não brilhar (ou não ser “beleza”) senão sob um certo ponto de vista. agoniar. a que o autor. Além disso. da rudeza com que se molesta e aflige. ou com que se faz alguém sofrer”. atormentar. definitivo”. por exemplo. Pleno direito.. Delaf. 80 ACABRUNHAR. incomodar. opri- mir. – Acabrunhar significa “abater o ânimo pelo castigo ou pelo sofrimento.me Mazarin era uma das mais8 perfeitas belezas da corte: só lhe faltava espírito para ser completa. ou pelo menos as qualidades mais excelentes que caracterizam um tipo”. é antes perfeito. e apoquentar. e que só se aplica a fatos morais ou a coisas de espírito. às coisas que se lhe referem. magoar. de pontualidade. inquietar muito. – Cabal. – Perfeito significa propriamente “feito de modo completo”. cabal. enquanto que perfeito é mais próprio para designar uma certa qualidade. e significa “que reúne todas as qualidades. – Amofinar e apoquentar são muito próximos: ambos exprimem a ação de diminuir a coragem com pequenas coisas. vexar.

no entanto. – Amargurar é “causar dor acerba e profunda. ou alguma grande desgraça. quando estranha que se não possa dizer “a universidade de medicina de Lisboa. por parte de quem humilha. de abusar dos brios do humilhado: enquanto que vexar exprime a ação de expor a afronta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 63 lhar acrescenta à ação de oprimir a ideia de afrontar. uma inadvertência. “Ela entristeceu (ficou triste ou mostrou-se triste) diante daquela cena. ou ainda num vasto instituto de educação. em aflição horrível”. causar displicência”. e equivale a “oprimir envergonhando”. oprimir-nos. mas não nos humilha. de todo o grupo. a universidade de medicina do Porto. à vista de alguma fatalidade. Distingue-se de vexar por isso mesmo: porque sugere o intento. Uma autoridade injusta ou estúpida pode afligir-nos. ou mesmo uma só arte ou uma só ciência. ou um aborrecimento que não é duradoiro”. um aperto em que nos põem. Temos academia ou escola de . os de predicação menos forte: uma suspeita. causar desgosto a alguém”. – Molestar e aborrecer aproximam-se do precedente. ginásio. universi- dade. – Inquietar e incomodar são. de diminuir os créditos. pondo a alma em estado de confrac- ção tal que ela só sente forças para repugnar a vida”. ou os mais duros corações”. a escândalo. É menos intenso que contristar. em ânsias de dor”. – Desgostar é “contrariar o gosto de alguém. de rebaixar. “tira a calma e serenidade” (diz muito menos que aflige). podendo ser que o vexado nem por isso se sinta ferido propriamente na sua honra. Discordamos de Bruns. que se lamenta como castigo do céu. – Atormentar é “afligir de tormentos. fazer perder a paciência”. ou uma escola toma a si apenas uma certa ordem de ciências ou artes. – Angustiar é “pôr em grande aperto de alma. uma ligeira dor incômoda. que determina a classe do mesmo e a denominação que lhe compete. colégio. luto e tristeza que faz supor a alma como prostrada de dor imensa. Uma academia. e diferençam-se assim: molestar sugere a ideia do incômodo que se causa à pessoa molestada. um mal-estar. aborrecer é “pôr de mau humor. uma falta que se cometeu desapercebidamente. ou numa cidade. Um garoto decerto que nos vexa (ou nos molesta) em público se nos expõe a algum ridículo. isto é. – Magoar enuncia a ação de “produzir ligeira dor. – Agoniar é “impor ou fazer sofrer suplício ou aflição como de agonia”. 81 ACADEMIA. que significa “afligir ligeiramente. equiparados até certo ponto”. instituto. escola. – Também é convizinho destes importunar. – Entristecer é propriamente “encher de tristeza”. nem a categoria do ensino que se dá no estabelecimento. – Universidade devia ser o conjunto de todos os cursos que se podem fazer num país. vexar-nos mesmo: nem por isso nos humilhará. hoje. enfastiar. – Todas estas palavras designam estabelecimentos onde se ensina ou se estuda. pois este já enuncia que a coisa que nos contrista “produz em nossa alma uma pena mais funda”. ou um pressentimento inquieta. – Consternar é “produzir um sentimento tal de pesar. por universidade designamos o estabelecimento onde se professam muitas faculdades. porém. e de assombro. deixando o atormentado como em conturbação. sendo-lhe. mesmo que não sejam todas as que se podem professar. liceu. ferir de grande angústia. – Mortificar é “afligir até deixar exausto de forças ou de ânimo como se estivesse a morrer”. É nisto antes de tudo que consiste a diferença entre universidade e os demais termos do grupo. Não é propriamente a independência de que aí se fala. que realmente era de contristar os ânimos mais fortes. já que estes estabelecimentos em nada dependem da universidade de Coimbra.

ou “academia de agricultura”. matemática e teologia. ou onde se dá um cuidado mais especial aos exercícios físicos. de medicina. escola de cirurgia. quer tratando-se de ciências. por ex. O Instituto de França. no entanto. ou melhor as artes ou ciências de toda uma categoria.. de direito. de engenharia. o nome de ginásios a colégios onde se ensinam matérias do curso preparatório. escola ou academia de belas-artes. ou – “universo da estrela d’alva”. ou “de aprendizes marinheiros”. – Ginásio e liceu são os menos latos do grupo. Dizemos “academia ou escola de belas-artes. precisa do estabelecimento a que nos referimos. Mas o que certamente se não nos permitiria é que tentássemos dizer sem dislate clamante.. e só por figura é que podemos aplicá-la para exprimir a totalidade das nações do nosso mundo. por exemplo. porém. em grande número de casos. pela simples razão de que esta ordem de institutos. como a cursos práticos de artes e ofícios. – Academia e escola são usados. e dizer.. Mas esta forma não faria mais do que pôr em destaque e tornar flagrante um absurdo que passa disfarçado e que é tolerável enquanto não se tenta restringir expressamente o termo universidade. academia de pintura. e isto porque a palavra “universo” abrange todos sistemas de mundos. Colégio é estabelecimento onde se reúnem pessoas (meninos ou adultos) para estudar. e só se aplica a estabelecimento onde se façam altos estudos.64 Rocha Pombo medicina. Quando empregamos esta palavra para designar um instituto onde se professam apenas algumas faculdades. compreende todas as academias de artes e ciências de Paris. de letras. mas não diremos “academia de artes e ofícios”. ensina diversas especialidades ou classes de ciências. por exemplo – “universo mundial”. desde – “intituto primário” – até – “instituto de altos estudos”. por exemplo – universidade de medicina. indistintamente. direito. ou “de altas ciências”. pois a ideia dominante que o termo sugere é a da “reunião das pessoas que foram escolhidas e que ficam no estabelecimento em perfeita igualdade de condições”. o nosso interlocutor não terá noção exata. de direito. Escola é mais prática e mais popular. em vez de uma. Instituto é ainda mais genérico e extensivo do que colégio: pode aplicar-se a toda categoria de estabelecimentos onde se estude ou onde se ensine. ou mesmo academia ou escola de música. etc. Deve notar-se. e pode abranger todo gênero de estudos. quando reduzimos o universo ao nosso mundo. mais particularmente aplica-se a internato. É preciso notar ainda que tanto academia como escola podem designar estabelecimento onde se ensinem diversas ciências ou artes. teríamos de juntar-lhe todos os que fossem necessários para designar as diversas ciências professadas. . ou onde se ministre ensino superior. – ou só – academia – há de subentender-se que se sabe já de que academia ou escola se está tratando: ou então. Se se disser só – escola. mas este se aplica tanto a escola de instrução secundária. O mesmo não se dá em relação à universidade. que academia é mais nobre. Não se sabe como usar de nenhum desses dois vocábulos sem um restritivo que lhes designe a especialidade de conhecimentos que ministram. não pecamos mais contra a precisão lógica do vocábulo do que. Liceu está no mesmo caso. quer tratando-se artes liberais. etc.. Dá-se hoje. ou – “universo solar”. – Colégio e instituto são os mais genéricos do grupo. e se quiséssemos dar-lhe os mesmos restritivos que são indispensáveis tratando-se de escola ou de academia. ou “academia de instrução primária”. Ginásio designa estabelecimento (internato ou externato) onde se faz educação tanto moral como física de meninos ou moços.

enchendo-as de afagos e mimos. portanto. “acampamento é termo genérico. só se acariciam aquelas criaturas que merecem os nossos afagos e blandícias. é mais expressivo e intenso. amimar. bem impressionado. dispor bem. grata conosco a pessoa a quem se agrada ou se afaga. no entanto. – Acaridar diz propriamente “tratar com caridade”. A pessoa tímida é natural que se mostre acanhada. como. como: “acalentar sonhos. Este último verbo. pudicícia. tímido. sendo carícia sinal mais delicado ainda de amor do que meiguice. apoucamento. se fosse criança a pessoa que se amima”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 82 ACALENTAR. acariciar. isto é. modéstia. e por extensão e figuradamente pode aplicar-se nos casos em que se trata de coisas morais ou abstratas. – Acariciar é “tratar com carícia”. pudico. a sua ternura divina”. e até vícios”. isto é. de palavras de conforto. – Arraial. designava o acampamento em cujo centro se elevava a tenda do rei.. apoucado. é quase afagar. e tanto quanto afago o é em relação a agrado. sem tendas nem comodidades. Acarinha-se a um amigo. de modo a fazer suave. mimosas e têm o nosso amor comovido.. tratando-as com afeto paternal. Acarinham-se a todos os meninos. mas particularmente designa o recinto ou área onde um exército em campanha ergue as suas tendas e se instala com certa comodidade e segurança. acarinhar. entrando. mas as crianças ele acariciou sempre com um estremecimento que dizia bem até onde era capaz de ir. agradar é apenas. por palavras. pundonoroso. Entre acanhado e tímido é preciso notar diferenças que à primeira vista se não percebem distintamente. com muita brandura. demonstrações de muita benevolência e afeto. 83 ACAMPAMENTO. – Bivaque (do frandês bivac) é o estado de um exército acampado ao ar livre. – Acanhado se diz do que tem “tão pouco desembaraço e vivacidade e que se mostra tão tolhido que parece diminuir-se aos nossos olhos”. ou a todas as criaturas desvalidas. mesmo do que carinho. diz-se do terreno onde esse exército passa a noite ao sereno”. – Se- gundo Bruns. doce. minorar o sofrimento. arraial. procurar diminuir a pena. por ex. de atos de amizade. beijando-as.. 65 afagar. vergonhoso. esperanças. acariciam-se as crianças. e por todos que precisam da nossa assistência e socorro. ou que se acham em situação em que tenham o direito de contar com a nossa bondade de coração. desejos. também por atos e palavras. num salão sumptuoso. pudor e pundonor. ameigar. bivaque. – Amimar é tratar com mimos. agradar. aqui. acanhamento. palavra tomada ao espanhol. reales. deixar satisfeito. – Consolar é. Afagar é fazer. com “manifestações delicadas de afeto e desvelo. timidez. É natural também que a pessoa . 84 ACANHADO. vergonha. – Acalentar designa particularmente a “ação de aquecer a criança nos braços para que sossegue e adormeça”. gestos e atos. ou dirigindo-se a personagem ilustre. a uma pessoa que se estima. pois ambos indicam que se deseja fazer contente. meigo o que é tratado”. mostrando o amor que as almas bem formadas têm pelos que sofrem. pudor. hoje é termo poético. – Agradar. acaridar. antes de tudo porque são tenras. ou tornar esquecido ou menos intenso o pesar que aflige alguém”. mo- desto. “por meio de carinhos. Daí o fato de ser acarinhar menos expressivo de ternura do que acariciar. no enlevo de amar. consolar. Só se acaridam. por extensão.. pudibundo. “Jesus acarinhava a todo o mundo. àqueles que são menos felizes do que nós. – Ameigar diz propriamente “tratar com meiguices.

fato.. uma condição de índole. e consiste num sentimento natural de justa medida em tudo – no agir. o escrúpulo. ou pelo receio de que sejamos malsucedidos. mesmo porque é de supor que uma criança é inconsciente em questões de bons costumes. de retraimento. O tímido pode não ser acanhado. mas pudor é o próprio sentimento que induz a escrúpulos delicados contra tudo que se oponha à honestidade e à decência. – Segundo Lac. timidez diz algo de tibieza de ânimo. Timidez é. os modos e ares indecisos que revelam a timidez. A potência. o recato. mas devem distinguir-se assim: pudico diz o “que tem pudor”. a pequenez de alma e de espírito que diminuem um indivíduo e o tornam inútil. o enleio no movimento e na expressão. que expressa a modéstia. o pejo que. discreto. apoucamento exprime a falta de ânimo. o modo que revela pudor. De sorte que se pode entender acanhamento como sinal de timidez. no falar. Uma criança tímida. quando emprega a sua energia. ação é “um vocábulo abstrato. nem por isso há de ser vergonhosa. cuidado. e que se manifesta ou pela desconfiança que alguém nos inspira. Pundoroso é. trôpego. sem o valor que se devia esperar”. por uma delicadeza da consciência moral. mas o acanhado revela quase sempre timidez. – Apoucado e apoucamento não se podem confundir com os dois precedentes. “o que tem pundonor”. está em ação e produz o ato”. indulgente. – Modéstia não parece que seja bem como definem os lexicógrafos – uma completa ausência de vaidade: é antes uma virtude dos sábios. pudicícia é a “qualidade de ser pudico. sem exal- tamentos. sem o modo de ser normal. Apoucado. trôpego. mofino. mesquinho. nem ímpetos – em suma sábio. . na acepção moral desta palavra. é a virtude de ter pudor”. portanto. A ação é o exercício de uma potência. ato é o resultado da ação dessa mesma potência. acanhamento diz o gesto tacanho. ato é um vocábulo concreto. ato. diz mais do que tímido. à vista do que. pudibundo se emprega para designar “o gesto. diz “escasso. aos olhos de outrem. Uma criança é natural que seja tímida. comedido. não sendo a inversa perfeitamente verdadeira. benigno e afável. Modesto diz. já não dá só ideia de simples tolhimento de alma: significa a vacilação. uma qualidade subjetiva. moderado. – Fato designa “ato de certa importância. pelos modos como se apresenta. sem ambições exageradas. portanto.66 Rocha Pombo acanhada pareça tímida. pois a vergonha. razoável. no modo como se comporta. – Pudor e pudicícia usam-se frequentemente um pelo outro. – Vergonhoso. tacanho. – Pudico e pudibundo também se confundem. esmero com que se defende a honra”. Ambos sugerem ideia de fina sensibilidade em questões de moral. – Pudor e pundonor são palavras de significação muito distinta e que só por erro ou inadvertência são confundidas às vezes. assim. 85 AÇÃO. consumado e reconhecido”. e pode ser tímida sem ser propriamente acanhada. a postura contrafeita. no sentido que tem aqui. – Pundonor parece termo que os espanhóis adaptaram da dicção francesa point d’honneur. neste grupo. nos impede de comprometer o nosso decoro. de irresolução e perplexidade. portanto. de boa fama. de pudor. e significa “nímia susceptibilidade em questões de brio e amor-próprio. ou ainda pela dúvida em que nos sentimos a nosso próprio respeito. nem mesmo se deve admitir apoucamento como degeneração ou vício da modéstia: segundo a própria formação. de um modo incorreto. imprestável. Acanhamento sugere alguma coisa de rude. o enleio da pessoa pudica”. no trato com toda classe de homens. não seria própria esta forma: acanhado e tímido. de parecer.

. – Litígio. exprime “nobre questão em que alguém se empenha confiante na justiça”. e esperando pela sentença (placitum) ou pelo desenlace favorável. Além dessa acepção. ire. luta convencionada. contenda é “a fase a que pode chegar a pendência tornando-se mais viva. processo. é peleja formal e de resultados decisivos quase sempre.. por motivos fúteis. Esta é o “litígio ou a questão em que se empenham duas ou mais partes trocando razões e argumentos. prélio. – Peleja designa a luta encarniçada e corpo a corpo. por questões de pundonor”. atacar”. portanto. mas não pelejam. – Desafio é “o ato de provocar outra pessoa para duelo”. litis “pleito. combate. pendência. discutindo sem má-fé.. significar também questão judicial propriamente. pleito. e sem graves consequências”. questão judiciária”. com que se empenham devotamentos pelas grandes ideias de que se presume que trata sempre um jornalista cônscio da sua missão. aplica-se o termo combate para designar qualquer luta em que a vida está exposta: o combate dos Horácios e Coriáceos terminou em combate entre dois homens”. mais apaixonada. “marchar contra. refrega. convém. Lide será. luta. Pleito. Dois inimigos separados por um rio ou por outro qualquer acidente. só defendendo a sua causa. como este. é a fase. mas sem leviandades”. – Conflito é “o encontro hostil. pugna. lutam. pequenina. não esquecer que lide (ou lida) vem de lis. peleja. ou pelo menos de grande importância. batalha. sem armas”. em – “lides da impren- sa” sugere-se o afã nobilíssimo com que se trata das altas questões. ou medindo forças e destrezas com capricho. uma luta caracterizada pela elevação dos motivos. a oposição ativa em que se põem duas ou mais pessoas ou coisas”. aqui. briga. campanha. intensa. no entanto. – No latim prœlium figura como radical o verbo eo. e pode assim apanhar-se no português prélio a significação de “luta em que os lutadores se adiantem. conflito. entre outras coisas. – Combate – diz Bruns. – Pleito é quase o mesmo que litígio: pode. – Ação é o mais genérico do grupo: seriam raríssimos os casos em que não pudesse substituir a qualquer dos outros. regulada e solene. rixa.. – Batalha é combate de vastas proporções. guerra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 86 AÇÃO. diferençando-se em que a rixa pode ficar só na disputa de palavras ou degenerar em briga. ou mesmo duas ou mais nações que não puderam chegar a acordo em relação a algum reclamo ou intento”. combatem-se. litígio. e só por extensão se aplica no sentido de luta. mas sugere melhor a ideia da correção dos que pleiteiam. violenta”. duelo. – Contenda e pendência aproximam-se bastante: ambos sugerem mais ideia de controvérsia e discussão que de luta material: se bem que se não lhes recuse esta última acepção. Mas a contenda parece uma gradação da pendência. se apressam a investir um contra o outro”. Dizemos – “as lutas políticas” –. – Lide e luta tomamse ordinariamente quase como sinônimos perfeitos. contenda. mas é muito mais próprio dizer – “as lides acadêmicas”. de troços de exércitos inimigos que travam luta entre si. – Pugna significa propriamente “luta a punho. – Briga e rixa são termos vulgares que significam “disputa escandalosa. Em – “lutas da imprensa” há a sugestão de que os trabalhos do jornalista amargaram no embate das intrigas e das perfídias. “As lides do jornalismo” – diz uma coisa. “as lutas da imprensa ou do jornalismo” – diz outra. Ação aqui é “o exercício da atividade hostil entre duas ou mais forças em conflito”. aliás. 67 lide. que significa. o choque. – “é o encontro de ordinário imprevisto. Pode dar-se entre . ou “o estado de conflito em que se põem duas ou mais pessoas. desafio. – Duelo é “a luta entre duas (ou mesmo mais) pessoas. recontro.

reaparece. Os feitos que correm em juízo. preside a todos os atos da vida. demanda.: “Com muita razão diz um autor que a demanda dá origem e princípio ao litígio. e distribui os bens ou os males segundo o seu desígnio. 87 AÇÃO. e todas as vicissitudes de uma guerra. fado. S. e deixando também indecisa a luta”. destino. – Recontro é “combate ligeiro. persegue-nos ou abandona-nos. favorece-nos ou esmaga-nos. segundo nos é ela favorável ou contrária. ou a condição a que a fortuna ou o acaso trouxeram uma pessoa. – Escreve Roq. – Campanha exprime “todas as batalhas. 88 ACASO. que no uso ordinário a palavra demanda não significa só o ato de intentar o litígio. não se lhe referem fatos sucessivos: revela-se de quando em quando. sina. querela se emprega para designar questões e dissídios de pequena monta. efeito quando designa o estado. sendo este apenas mais lato: é “a denúncia ou queixa que se dá contra alguém para reparação de agravo ou ofensa”. fadário. É nisto que não se assemelha à fortuna. porém. obra arbitrariamente. ventura. – “A sorte é ao mesmo tempo efeito e causa. e avoir un procès quer dizer em português – ter uma demanda. boa fortuna ou má fortuna. litígio. combates. furioso como tormenta. É forma geral e extensa que pode abranger quase todos os casos em que figurem as outras do grupo. À controvérsia judicial que se suscita quando o demandado não consente no que o demandante requer se chama com razão litígio. processo. – Querela é equivalente quase a ação. entre poderes públicos.. e delas provêm fatos. entre animais. casual. pretensões. “O acaso – diz ele – o mais fantástico de todos os seres desta série. desejos. isto é. e neste caso diz o mesmo que litígio judicial”. e ao acaso só se imputam fatos isolados. – Acerca de muitos destes vocábulos. ou de certa fase de uma guerra”. Os que neste caso usam a palavra processo cometem um galicismo. caprichosa. entre interesses. querela. o uso do direito de pleitear perante um tri- . tendo por isso muita analogia com a fatalidade. bunal”. por isso. Fora da acepção jurídica. consubstancia Bruns. Pleito é palavra castelhana. entre indivíduos. que nos deixam estupefatos de prazer ou de dor. É o acaso que nos leva ao lugar onde encontramos a felicidade ou a desventura. volúvel. ou perante uma autoridade superior”. felizes ou desgraçados. indeciso entre inimigos”. e que este se trata e se desenvolve no processo. – Ação é termo genérico ainda neste sentido: é o “próprio ato de requerer ou demandar em juízo. os autos judiciais e termos que se fazem por escrito em qualquer litígio se chamam processo. Quantas descobertas são filhas do acaso? – A fortuna. – Questão designa “toda espécie de dúvida em que ficam duas ou mais pessoas e que deve ser dirimida em juízo. – Refrega é “recontro violento. devendo notar-se que o primeiro termo só se aplica para designar a guerra terrestre. e de outros. de que os antigos fizeram uma divindade cega. o que se pode colher de Roq. produzindo debandada.” Temos. sorte.. mas ainda a ação proposta e disputada contenciosamente em juízo – o que vale o mesmo que litígio judicial ou pleito. Note-se. de fr. dita. oculta-se. pois esta parece obrar de um modo constante. fortuna. entre seres inanimados. estrela. questão. Ao ato de pedir ou requerer em direito se chama demandar. pleito. porque o que nós chamamos processo é em francês procédure.68 Rocha Pombo nações. Luiz.. fatalidade. prepara combinações de circunstâncias tão impossíveis de prever como de impedir. As suas manifestações não são constantes.

em vez de acaso. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” Em qualquer desses casos. transformados em rãs ou outras alimárias. – “destino extraordinário e irresistível que se atribui a um poder sobrenatural”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 69 causa. e dita. fortuna às elevadas (ou de mais vulto): a sorte de Creso ao lado de Ciro era mais invejável que a sua fortuna. quando fazemos referência às ações ou obras que lhes deram lustre. por acaso. é claro. Podemos. – Fadário é – diz Aul. que hesitasse em empregar indistintamente. não exprimiría- . Eis por que denominamos destino à combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que se efetuam em virtude de leis inflexíveis. e ainda hoje se diz que “tal indivíduo nasceu em boa ou má estrela”. Dizemos. – Sina marca melhor do que quase todos os do grupo o caráter de fatalidade das coisas que têm de suceder na vida de cada um. Sina e destino seriam sinônimos perfeitos se o primeiro não se limitasse de ordinário às coisas funestas da vida.. até que um certo acontecimento os venha libertar. ninguém pode resistir às leis do destino. como é fatalidade. Refere-se mais particularmente a certas vicissitudes da vida mundana. persegue-nos. A fatalidade não obra arbitrária e caprichosamente: obedece como a um impulso omnipotente. e que nos trazem fatal e inelutavelmente ao ponto em que só nos resta obedecer: ante o destino desaparece a nossa força. qualquer das três formas. 89 ACASO. não nos deixa. se poderiam ser trocadas. que lhe deram origem. dizer – “a sina dos grandes homens”. por ex. quando. ventura. José de Lacerda. porventura. – São re- almente muito fáceis de confundir-se. sempre tomam-se a boa parte. Nas três frases seguintes vejamos. da fortuna e da sorte. sujeitos ao seu fado. porém. oh rapaz. não. Paulo. como bem o prova a acepção que esta palavra tem nos contos de encantamentos em que se vêm príncipes. no cristianismo. mas quando fazemos alusão às amarguras que quase todos tiveram de sofrer. uma divindade cega a quem os deuses e os homens estavam submetidos: tinha nas mãos a sorte dos mortais. O estava escrito dos maometanos é a fatalidade. como diz D. a palavra sorte aplica-se melhor às condições modestas. O nosso fado é intangível. lhe atribuímos um fato isolado. – Ventura e dita são também seres fantásticos sem vontade certa nem determinada. – O fado é o estado que resulta das imposições do destino. ou uma série de fatos favoráveis ou desfavoráveis. se na primeira frase. geralmente. é outra palavra do mesmo gênero. no entanto. a predestinação de S. Por outro lado. acompanha-nos. conservando-se-lhes uma perfeita propriedade: “Teria o nosso amigo visto acaso alguma coisa estranha lá no parque?” “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” “Terias. – “o alto destino de Napoleão”. ou sem preferências. Os seus decretos eram irrevogáveis e tinham o caráter da fatalidade. considerando-a um misto de acaso ou de fortuna. apesar de terem passado as quimeras da astrologia. a uma disposição superior e impenetrável.. mas sem coragem para corrigir-se. entre os antigos. mesmo de boas letras. e decerto que neste caso não empregaríamos sina. ou que tem boa ou má estrela. – A fatalidade (do latim fatum “o que está dito ou decretado”) distingue-se do acaso. às extravagâncias de que alguém se lamenta. que se conservou na língua (com a significação que tem aqui). – Estrela. e no entanto. – O destino era. aniquila-se a nossa vontade: somos obrigados a obedecer ao destino. não haveria talvez muita gente. em ser agente e não sujeito. puséssemos por acaso. e por mais que façamos. Refere-se à suposta influência dos astros no destino dos homens. atribuindo-os ao seu fadário. e procurando por isso consolar-se dos erros ou deslizes.

que se dá às coisas santas. Quando pergunto se o nosso amigo “viu acaso”. que ele tenha visto. os santos. portanto: – que acaso sugere contrariedade intencional e dá à pergunta a função de negar: – que por acaso é mais convizinho de porventura. – Na segunda frase que formulamos acima: “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” – também não poderíamos substituir a locução por acaso por simplesmente acaso. que se tem ou se dá a alguém ou a alguma coisa. a mesma ideia de estranheza e negação. “acatamento é todo ato externo com que mostramos o nosso respeito. reverenciar. reverência. Reverenciamos os mestres. limpando a pena”: aí não caberia. – Deferência é o respeito que se tem aos sentimentos. respeito religioso. “És tu acaso meu filho?” “Veio ele acaso ter conosco?” “Tinha eu acaso notícia da tua chegada?” Em nenhum destes exemplos. os pastores. ao mérito. – Veneração é respeito profundo e submisso. oh rapaz. Veneramos a Deus. a ideia do interesse com que se espera por uma resposta satisfatória quando se faz a pergunta. “Passaste acaso?” – equivaleria a – “Dar-se-á que tenhas passado?” ou – “Será possível que tenha passado?” E – “Passaste por acaso?” – diria: – “Por uma casualidade (isto é. mais ou menos. o soberano. ou estranho que isso se tenha dado. S. repulsa. Quando pergunto se ele “viu por acaso”. as coisas religiosas e sagradas. ou aos objetos que julgamos mais dignos de respeito e honra. a tudo aquilo a que . se há necessidade de distinção. em nenhuma dessas frases. respeitar. Respeitamos os outros homens. os magistrados. ou “sem que tivesses tensão”) passaste?” – A terceira frase: “Terias. “Chegamos por acaso à livraria. deferência. pelo menos. fomos dar conosco por acaso junto ao morro. ao saber. todas as pessoas a quem devemos esses sentimentos. Luiz. etc.. deferir. mas aqui a minha dúvida é mais condescendente. seria indiferente usar acaso e por acaso. 90 ACATAR. rebate. por alguma superioridade que julgamos haver nessa pessoa. preferindo-os aos nossos próprios. – Reverência é respeito com temor filial. como no exemplo acima. venerar. Caim retrucou ao anjo que lhe perguntava por Abel: “Sou eu acaso o guarda de meu irmão?” Este acaso. ponho em dúvida. devendo notar-se que. os seus direitos. veneração. decerto que exprimo dúvida também. há de ser a mesma que se acaba de assinalar. e quase nego. não mostraria o mesmo interesse. só muito raramente poderá a locução por acaso ser substituída por qualquer dos dois outros advérbios. Se eu empregasse a locução por acaso. ou às que reputamos como tais. dizendo: “Terias visto ou encontrado acaso alguém à minha espera?” – é como se fizesse a pergunta insinuando a negativa. Acatamos. ou consideração. – Fora dos casos interrogativos. e não sugere. à virtude. os nossos deveres. respeitamo-nos a nós mesmos. os pais.70 Rocha Pombo mos com a mesma precisão o pensamento de quem perguntava. desejos e gostos de qualquer pessoa. para dizer o que desejamos. – Respeito é a atenção. como acaso. os nossos justos interesses. acaso nem porventura. acatamento. espécie de culto. respeito. nega intencionalmente o que se pergunta. “sem que te apercebesses”.. em cuja presença estamos como o filho costuma estar diante de seu pai. as suas infelicidades. e se eu empregasse o advérbio acaso. com respeitoso temor. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” – enuncia o meu intento de saber uma coisa que desejo e pela qual estou ansioso. então. isto é. – Segundo fr. reverenciamos tudo aquilo. reverência ou veneração. feri o dedo por acaso. em vez de indiferença. Deferimos (rendemos deferência) à idade. – Segue-se. distinguindose esta forma daquela em sugerir.

Mas entre acautelar e precaver há a diferença que provém de que aquele que trata de precaver-se toma cuidado. e acautelar-me é dispor os meios de evitar alguma coisa que receio. acautelar. a vigilância do espírito contra o que pode sobrevir”. tomar a dianteira”) enuncia a ação de “adiantar-se a tomar expediente acerca do que pode acontecer. – Cauto sugere ideia da firmeza e segurança do que sabe guardar-se contra os perigos. ire “chegar antes. “F. ere “tomar cuidado”. admissível a forma: “está cauto”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 71 tributamos algum gênero de culto. prevenir-me é pôr-me de sobreaviso. cautela. disposições. etc. e precaução é o ato de precaver-me. que significa “prevenido de muito cuidado. Não será por isso que eu seja precavido. ou segurança. chegar”: prevenir diz. é “uma medida de prudência posta em prática antecipadamente. Entrou. pois ele não cogita de um determinado mal.. aviso.. pre- venido. – Não há dificuldade em distinguir prevenção de sobreaviso. o modo de ser precavido. previdência. sendo este “a disposição de ânimo em que fica quem se previne”. Designa qualidade própria: não seria. resguardos contra o mal que teme. – caveo. portanto. a honra. Basta sentir a diferença que há entre estas formas: “Ela sempre se livrará cautamente (com a cautela. pôr a bom recato. mas previno-me contra o frio. ire significa “vir”. Entre cauto e acautelado fica sem dúvida cauteloso. “guardar-se”: à vista do que. e é prevenido. mas julga apenas que isso é possível. e quem se acautela cuida de resguardar-se contra coisas certas de que está prevenido. passar adiante.. precaver. previdente. e contra essa possibilidade é que se apercebe precavendo-se. consequentemente. a atenção. ou em certas circunstâncias: e então “está acautelado”. e entre os respetivos conexos. a pátria. “defender. defende-se por assim dizer de eventualidades. – Precaver em certos casos poderia confundir-se facilmente com prevenir. acautelam-se os cautos contra males iminentes. precatado. – Prevenir (do latim prœvenio. Não diremos que o homem que segura a sua casa se acautele contra sinistros. cauto. sobreaviso. precatar. ou está prevenido quem se põe ou se acha nesse estado. que lhe é própria) daqueles abismos”. – Precatar é “estar atento. prevenir. prever. “adiantarse” à coisa contra a qual se previne. Acautelado é o que toma cautela no momento. avisado. guardar-me. como os pais. apercebido contra alguma coisa . precavido. defender-me antecipadamente do mal possível. – Acautelar diz. Precaver-me é. portanto. os homens de virtudes. a fortuna.. Quem se previne põe-se de ânimo desconfiado contra alguém ou alguma coisa. pois. é o estado ou a atitude de suspeita em que se fica em relação ao que se deve temer”. nem se apercebe de que esteja para sobrevir sinistro. cauteloso. prevenção.” 91 ACAUTELADO. ficar ou pôr de sobreaviso a respeito de alguma coisa que se receia”. mas é necessário não perder de vista o radical de cada um desses verbos: – venio.. mas sou prevenido e acautelado. guarda-se. prudente. Decerto que eu não me posso precaver contra a noite. como já ficou exposto. A prevenção. prevenir com cautela.. de meticulosa cautela”. Acautelam-se os interesses. e seguiu logo cautelosamente pelo jardim”. precaver se aproxima ainda mais de acautelar que de prevenir. em boa guarda”. quem se acautela toma providências. prudência. avisar. os bens. “o apercebimento. precaução. quem previne males previstos faz o que supõe que os evita antes que eles ocorram: daí a diferença entre acautelar e prevenir. portanto. e acautelo-me deste ou contra este agasalhando-me. Quem acautela os negócios de outrem cerca-os de garantias. – Cautela é. pois. “vir antes”. ficou acauteladamente em casa”.

uma injúria. deixa. a obrigação que se nos impõe. a ideia que exprime”. o que ela diz por si mesma. uma ferida na guerra. qual- samente estabelece S. as armas para brigar. – Consentir sugere ideia de “permitir. L. de ideias. e também aprovar. – Anuir é propriamente “fazer sinal. uma oferta. ou se nos manda. – Aderir é “dar aprovação afinal àquilo que se tinha recusado ou combatido”. assentir. consentir. – Concordar é “chegar a acordo depois de dissensão. aceitamos as condições de um contrato. “é declarar que se aceita o que outros decidiram. tomamos o livro para ler. – Previdente é o que sabe prever. sentido. significação. etc. – Assentir é “mostrar que se é da mesma opinião. concordar. refletido e seguro no agir. a espada. uma notícia. Recebemos um presente.”. de modo de ver. segundo Bruns. porém. – Significação é “o valor semântico da palavra. do conselho mais sábio para o caso. que se sente do mesmo modo”. apreendê-la com a mão (ou pô-la sob seu domínio). a pena para escrever. – Avisado é aquele que está fortalecido do aviso que convém. tomamos amor. e que se cooperará para o intuito geral. Aquiescer é consentir voluntariamente e sem esforço”. que nos mande. e prever diz “ver antecipadamente o que se pode dar em relação a alguma coisa que se deve evitar”. e prevenir-se contra surpresas. de não discordar. aquiescer. asco. sendo o aviso esse estado de atividade consciencial em que se acha o avisado. – Aceder. receber. . e assim. “Tomar alguém uma certa coisa – diz ele – é havê-la para si. tomamos ocasião. autorizar o que se nos oferece ou propõe. ensejo. regulado pela disposição das palavras”. e sem o qual não seria possível sair-se bem. ou ofereça essa coisa. precatado designa aquele que se não deixará pilhar desprevenido em caso em que da atenção dependa o sucesso. ou pôr-se em perfeita identidade de sentimentos. ou o valor da frase ou do discurso. uma certa gradação entre estes verbos. etc. e prudente será aquele que possua essa virtude. ou se nos oferece. 94 ACEITAR. Tomamos o vestido. nem supõe ação estranha. ou o que vem a nós. que se está de acordo e se consente”. ou admitir por mero desejo de ser agradável ou de não contrariar”. – Aceitar é receber com agrado e boa sombra. que faz o ânimo calmo. ou dê. pois. recebemos um hóspede. a qualidade de quem sabe prever. o dinheiro que se nos deve. ódio. etc.. um favor. – Receber é tomar o que se nos dá. – Prudência é mais que aviso: designa a virtude de uma sábia ponderação. entrever que se tinham outras tenções. – Muito judicio- ção dizemos dos “vários sentidos em que uma palavra pode ser empregada”.”. uma visita. 92 ACEPÇÃO. ou exprimir de qualquer modo. o chapéu. – Condescender é “consentir por tolerância”. conformar-se. chamá-la a si. a proposta que se nos faz. de vistas. – Acep- quer que seja o motivo do consentimento”. recebemos o foro que se nos paga. Não envolve. con- descender. tempo. assentir. e sendo avisar a ação de despertar ou ter desperto o ânimo ou produzir esse estado. – Previdência é.72 Rocha Pombo certa que é para temer”. uma graça. 93 ACEDER. tomar. Aceitamos um obséquio. – Sentido é “o valor da palavra conforme a aplicação que tem na frase. aderir. – Conformar-se é “estar. do mesmo voto. dar consentimento. anuir. é o ato de prever tanto quanto é possível. nem ideia de movimento que no-la traga. sob uma outra ordem.

como a flecha. – Ácido é tudo que impressiona desagradavelmente. desejo ardente de alcançar o termo. acre. apressurar. pois a coisa amarga. a espécie de sonoridade de um instrumento ou de uma voz”. uma solução esperada etc. tom. – Timbre não é propriamente o tom. Uma coisa pode ser acerba tanto ao gosto como ao olfato. “Tomar as palavras pela toada é (diz Aul. tanto se diz acerbo o som como a ironia. – Som é “todo ruído que os corpos produzem quando em movimento ou em vibração”. – Aligeirar é propriamente “fazer que se mova. que caminhe. portan- . azedo. é todavia mais ingrata. antecipando. – Ativar. acérrimo. 39). como está dizendo o próprio radical. como o olhar ou como a censura. ácido. estas duas palavras confundem-se geralmente”. Matéria azeda é a que se alterou do normal pela fermentação: figuradamente azedo significa.. neste sentido. discutir na mesma. do grego. Aligeira-se o passo. áspero. Dizem muitos: – “palavras ácidas. toada. o diapasão de uma cantiga. e só é sinônimo de amargo pela acerbidade. É o mais genérico do grupo. travoso. diapasão. – Acelerar – diz Bruns. – Acerbo é “tudo que punge algum dos nossos sentidos”. azedo. – Sonido (e soído) significa um “som particular. soni- ACENTO. – “denota impaciência (sofreguidão). amargas decepções (como dizemos – “momento amargoso” etc. agro são proliferações de ak. um negócio.. – Apressar denota ação viva. acérrimo. – Acento é o “modo como se exprime uma emoção”. é interpretá-las à letra sem atender ao espírito delas”. acrimonioso. sugerindo a ideia de remoques ou palavras mordazes. amargo. acre. um tanto ácido”. o espinho. de acre” (Chass. o tom que serve de norma. agro. é dar mais rapidez ao movimento ou ao ato. no maior número dos casos. picantes como a coisa ácida: notando-se que não é usada pela maioria dos autores. travento. (Amargoso significa “um tanto amargo”).” 96 ACENTO. ácidos remoques. o voo.: “Dizemos a pronúncia do Minho. etc. – Precipitar quer dizer aqui “apressar. 98 ACERBO. acrimonioso. estranho”. e falar. ativar. “apressar com precipitação”. diminutivo de acidus) diz propriamente “meio ácido. mais ligeiro”. mas “a qualidade do som. é “fazer mais ativo”. – Toada é o tom de uma voz. e poderia. apressar.. precipitar. conquanto menos pungente ao paladar. amargoso. do (soído). como ao ouvido. partícula que marca ideia de “alguma coisa de agudo. tom é a “maior ou menor intensidade de força com que se exprime”. – Diapasão é o som próprio de um instrumento. timbre. Não obstante. Aligeiram-se os soldados pelo exercício. ali97 73 geirar. – Apressurar é dar-se pressa desordenadamente. pronúncia.) tomá-las pelo som e não pela significação..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 ACELERAR. – Azedo (de acidulus. etc. suprir a qualquer dos outros que nele figuram. etc. e o acento dos minhotos. Dizemos – dias amargos.) – para significar quanto essas decepções e esses dias nos deixaram na alma uma impressão comparável à que na boca produz o gosto do fel. senão no natural. ou pela mesma toada é discutir ou falar segundo os modos ou pela mesma forma por que outrem fizera. ácido. como o sabor lancinante do limão. referindo-se pronúncia ao modo de serem ditas as palavras. e acento a uma particularidade da voz de quem as diz. pelo qual se afinam outros. – A maior parte destes adjetivos têm a mesma raiz: acerbo. – Sobre estas duas palavras escreve Bruns. ou afastar-nos do princípio: é inerente a este verbo a ideia do pouco cuidado que resulta da própria pressa. som. movimento apressado para chegar ao fim.

.. ou exercício da palavra. fazer.. mas ainda sem estabelecer dependência direta... como pensar.. porém.). (com relação a..): e.. Tanto pode ser aplicado no sentido moral como no físico. – A propósito de. referir.. – Quanto a é outra locução que marca também conexão direta entre o objeto e o que se vai enunciar. A propósito de uma história podemos contar outra história muito diferente e que apenas nos tenha sido sugerida pela primeira.. mas a alguma outra coisa que com essa tenha pontos de relação. que molesta algum dos nossos sentidos”. acérrimos furores.. em que acerca de.74 Rocha Pombo to... ou com respeito a tal ou tal assunto. a colocação de tal ponto geográfico com respeito a tal outro”. falar. como acerca de e a respeito de. mal humorado.” – Áspero é “tudo o que impressiona desagradavelmente. Até uma menina é capaz de fazer uma acerba reprimenda... em alusão a... necessária... – Sobre. quanto a. como dizemos agras escarpas. diz ou faz. relativamente a. Além disso. sobre. ou negócio. recriminações acérrimas. ou em relação ao negócio): “O diretor ouviu o ministro sobre o negócio”. – “Acerca de.. Divergem. – Em . é um tanto acre.. ou pelo menos dá ideia da autoridade da pessoa que escreve.. a propósito de alguma coisa não é propriamente referir o que esteja ligado a essa coisa.. É fácil de sentir a diferença que é palpável entre estas duas formas: “O ministro ouviu o diretor acerca do negócio” (ou a respeito do. se exacerba.. caso.. – Agro só se diferencia de acre em ser mais extensivo. Usa-se mais frequentemente no superlativo: acérrima invetiva.. ou a respeito de. mas reprimenda áspera deixaria supor que não fora feita em termos delicados. etc. inculto. é que se prende o que se vai dizer.). exprime muito mais vagamente a ideia de outras locuções deste grupo. colocação: como as disposições do testador com respeito a seus filhos.. o que sai do seu estado de calma”.. – Acrimonioso não se deve confundir com acre.. escrever.. se empregam com os que designam operação... designa “o que é rude e violento.. a propósito de. modificam a ideia representada pelo verbo.. etc. e com respeito a.. e a respeito de.. conduta... Confunde-se muito com acerbo. etc. Uma palavra áspera pode não ser acerba.). – Em relação a. e aplicado a uma pessoa. escreve ou faz alguma coisa. esta preposição sobre marca. (Bruns. Quem fala em relação a alguma coisa diz sem dúvida coisas que estão com aquela em relação mais direta do que quando fala a propósito da dita coisa..... etc. Usam-se indiferentemente com verbos que designam operação intelectual. em referência a. e em relação a. (com res- peito a. Dizemos: agras penas. disputar acerca de. A coisa acrimoniosa contém alguma acrimônia.. só se usa com esta classe de verbos. em grande número de casos em que não seria perceptível uma diferença essencial mas muito subtil. e o objeto sobre que se diz.. palavras azedas. mas convém não esquecer que áspero sugere ideia de rude. estabelece uma relação precisa e direta entre o que vamos dizer.. rigorosa entre o caso e o que se vai dizer. negócio azedo. Estilo acerbo pode não ser áspero.. – Acre é o “que tem sabor picante e corrosivo” (Aul. 99 ACERCA DE.) já enuncia mais precisamente que ao assunto. Falar. deliberar. azedos momentos”. “o que se irrita. fixando-a na do objeto em que a ação recai ou se executa.. (ou com relação a. e a respeito de.. a conduta de Cícero com respeito a Otavio. áspero e desabrido”. diz “que mostra azedume. revelando violência reprimida.. ou com respeito a. semelhança ou analogia.. e parece áspero. ou relativamente a. Equivale a sobre... Dizemos: – “discussão azeda. a respeito de.. ou falar sobre o que lhe diga diretamente respeito.... no sentido figurado. meditar. em relação a.

ACESSÓRIO. Um sujeito. atinar mesmo com as coisas de que absolutamente nada se sabia. de pedras. – Acessório se diz de tudo que numa coisa (num corpo. e usa-se tanto no sentido natural como no figurado9.. sem que faça falta no todo de que se elimina. numa questão. de um dom excepcional que só se explicaria por faculdades que o fizessem superior aos homens comuns.. – Acervo diz “grande porção de coisas”. subsecivo. – Contingente é “o que não é necessário. – Cúmulo dá ideia de grande quantidade de coisas formando monte. etc. sem dizer de modo expresso qual a coisa a que se alude”. – Secundário é “o que é de menor importância. é falar considerando uma coisa que não foi citada. – Monte diz também “grande porção de coisas”. ou mudar logo”. acertar. cúmulo. acumulando. equivalente a amontoamento. desordem. pode falar em alusão a certos fatos ou a certos homens sem os referir. ou então ao cabo de algum esforço. distinguem-se tão bem como os dois verbos que ordinariamente se confunde. – Pilha é “porção de coisas numa certa ordem”: pilha de tábuas. tino) que nem todos têm.. 102 secundário. grandeza descomunal.. . de areia. 100 ACERTAR. precisa. e sem razão. e só se usa. “Que acervo de asneiras disse o homem em tão curtos instantes”. pilha. adivinhar. num pensamento. e quase sempre à má parte. ideia de confusão. que se esteiam mutuamente. falar acerca ou a respeito de coisa determinada clara. contingente. numa festa. ruma. melhor ainda do que este. porque todos os que ouvem sabem já qual é a coisa a que se alude. “Que monte de absurdos!”. de frutas. monte. portanto. etc.). sobressalente. – Quem acerta dá por uma coisa casualmente. de segunda ordem. etc. pelo próprio nome”. montão. de modo que ocupem o menor espaço possível”. atinar. por ser aí demais. excesso de coisas que se vão reunindo. e que. portanto. Falar em referência é. ou indispensável e próprio. e em alusão a. – Montão é aumentativo de monte. – Aquele que adivinha vale-se de um tino misterioso. – Sobressalente = “que sobra. – Ruma é “porção de coisas uniformes. de valor que não é principal. no sentido figurado. de armas. referir vagamente. pois que referir é “indicar positivamente. fora da acepção jurídica. “não é parte essencial ou fundamental”. pode permanecer apenas por algum tempo. Adivinhar é. “um monte de laranjas. de sacos. é cada uma das pilhas de coisas iguais e sobrepostas umas às outras. por exemplo.. mas que se põe de reserva para momentos em que venha a servir”. mas de uma vidência maravilhosa. 101 ACERVO. e para cujo conhecimento o adivinho não se serve nem de esforço. de gelo”. 9 Usamos também acúmulo por acumulação. rima. podendo por isso ajustar-se umas às outras. Quem arruma coloca em rumas as coisas que se devem arrumar. nem de acaso. e sugere. Não seria de bom gosto dizer: acervo de verdades. ou num banquete político. tenacidade. Falar em alusão é falar quase a propósito.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 75 referência a. – Quem atina acerta com alguma coisa pondo em ação umas tantas qualidades de espírito (argúcia. em relação a outra coisa”. e aludir é “indicar por sugestão. sobrepondo. expressamente. que excede ao necessário. pois. – Subsecivo é o que pode ou deve ser eliminado.. – Rima.. nem era necessário que se o fizesse. e tanto se emprega no sentido próprio como no figurado: – neste último igualmente à má parte. segundo Bruns.

Ex. e naquelas regiões até então ignoradas acharam um novo reino vegetal e animal.. proveitoso. anda esta palavra em regra associada à ideia de bom.: “Encontrar corresponde ao verbo latino invenire: na sua mais lata significação representa a ação de dar com uma coisa que se buscava. – Inventar corresponde ao latim invenire na sua significação restrita de “discorrer. além disso.76 Rocha Pombo 103 ACHADO. e. e que invento se restringe às artes. mas só Deus poderia dizer: “Eu te deparei um amigo”. invenção. a mesma diferença que se dá entre ação e ato”... por exemplo: “A passagem com que deparei”: o que é erro. in- ventar. acham-se os animais e as plantas que povoam sua superfície. dizemos que achou. encontrar. mas não a descobrimos. invento. pois o p. que é composto da preposição de e do verbo latino parare “preparar”. de revelar o que não era sabido”. estabelecer.. achar de novo”. uma boa fortuna. um enterro. a não querer dar a entender que a andava buscando. etc. Alguns o quiseram fazer sinônimo de encontrar. trabalho. tanto moral como fisicamente. assim como. ou que por casualidade se oferece. Ninguém dirá que achou a procissão. – Descoberta e descobrimento designam o ato de “dar com alguma coisa oculta. e não coberta ou oculta. com a diferença que invenção é muito mais extensiva. indo pela rua.. Esta distinção.. descoberta. aos fatos de extraordinárias proporções realizados pelos navegadores e viajantes modernos. Descobrem-se as minas. descobrir.. oculto ou secreto. Ao passar 10 Se bem que se não siga sempre muito à risca esta distinção. o estafeta. Colombo e Cook descobriram novos mundos. Muitos autores dos nossos dias dizem indiferentemente descobrimento ou descoberta da América. que se encontrou. a minha diligência. pela praça encontrei uma procissão. dizendo. etc. Uma coisa simplesmente perdida achamo-la quando chegamos aonde ela está e a descobrimos com a vista. – Deparar. mui razoável por certo. – Achado é “aquilo com que se deu. a apanhou e guardou. e andando à procura dela e encontrando-a. não deixaria de ter bom patrono entre os clássicos. A duas léguas de Lisboa encontrei o correio. a obra do inventor. feliz. etc. – Sobre invento e invenção escreve o mesmo autor que “exprimem o que se inventou. nos apresenta uma pessoa ou coisa de que havíamos. diferente de nós. quase sempre por acaso. o que se acha estava visível ou aparente. que nos subministra. O que se descobre não estava visível ou aparente. imaginação. etc. mas fora de nosso alcance atual. porque ela estava manifesta. descobrimento. pois o modo correto de falar é: “A passagem que o acaso. tendo-a perdido. Descoberta aplica-se mais particularmente ao que se descobre no domínio das artes e das ciências. ou não conhecida. 15). nem se há de dizer nunca: descobrimento da pólvora. as nascentes que a terra encerra em seu seio.: o descobrimento da América. é achar o que era ignorado. É por isso que não se usa comumente nas primeiras pessoas: Dizemos que Deus nos depara um amigo. viu no chão uma peça de oiro. acha ou . a descoberta da pólvora10. Descobrimento aplica-se às descobertas de grande alcance. Lucena diz: “Mais encontraram acaso as ilhas do que as acharam por arte”. o produto da faculdade inventiva (ou criadora). dizemos igualmente que achou. entre invenção e invento. me deparou”. 104 ACHAR. – Acerca deste grupo escreve Roq. De um homem que. etc. Pode-se. que nos é útil. com a voz neutra. (3. como diz Roq. mas podendo ser também fruto de esforço”. ou de nossa vista. e exprime a ação daquele que pelo seu engenho. – Descobrir é pôr patente o que estava coberto. exprime a ação de um agente. Só não se diz. etc. deparar. mas a mesma espécie de homem.

– Fortuito vem de fortuna: é o sucesso extraordinário. e significa em geral o sofrimento que traz a alteração da saúde. enfermidade. Volta inventou a pilha que dele tomou o nome de voltaica”.. – Moléstia toma-se quase sempre na significação da palavra latina. coisa que pode ou não acontecer. (Tusc. “fraqueza. ocasional. a última exprime bem a falta de saúde acompanhada de do- res ou incômodos físicos. ou trabalho penoso de corpo ou de espírito. aleatório. – Achaque. o que se segue: “Todas estas palavras enunciam um desarranjo ou desordem no estado normal da saúde do homem. indisposição. segundo sua origem (do verbo latino doleo). incômodo (incômodos). É o que acontece sem ser esperado. mal. de S. a terceira é preferível para indicar a falta de saúde que provém de fraqueza do corpo. abandono de forças. a física acha as causas e os efeitos. fortuito. sem que se ligue a causas que possam ser previstas: e. – Quanto às quatro primeiras palavras deste grupo é ainda de Roq. enfadamento. “Porque parecendo. – Doença. Fr. – Acerca de acidental e de fortuito. mas favorável”. contingente. tantas vezes sucedeu que veio a ser havido por mistério”. Pas. achaque. segundo Roq. casual. – Contingente sugere ideia de coincidência. – Indisposição é “estado em que a pessoa fica ligeiramente fora do normal”. A mecânica inventa as ferramentas e as máquinas. se bem que no plural se aproxime de moléstia. Parece corresponder ao morbus dos latinos. aqui tem decerto um sentido mais restrito. escreve Alv. segundo a força da palavra latina. 3. nem nos viera à imaginação o que sucede”. – Mal é termo genérico para designar tudo que causa dano ao homem. sani non sunt. – Inesperado. que não se espera numa ocasião ou circunstância determinada”. a segunda também se generalizou a todo incômodo. que vem e . incerto. L. e significa “que depende de certas condições ou circunstâncias. caso acidental. enfermidade. como o definiu Cícero: Molestia est œgritudo permanens (Tusc. eventual. no mesmo sentido em que dizia Cícero: Qui in morbo sunt. moléstia do corpo acompanhada de dores. 106 ACIDENTAL. Dizemos com razão – doente o que não está são. “supõe conhecimento da possibilidade de uma coisa. que atua ou que se produz sem ser normalmente. 10). 4. isto é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 77 descobre coisas novas.. – Eventual distingue-se de todos os do grupo em enunciar apenas a ideia de coisa que ocorre. Inopinado supõe que não se havia pensado. debilidade da natureza no sentido em que disse Cícero: Infermitas puerorum et ferocitas juvenum” (Senect. Copérnico inventou um novo sistema do mundo. ou novos usos. podendo substituir em quase todos os casos a todos os outros do grupo. segundo a origem árabe ax xaqui. significa enfermidade ou moléstia habitual. em sentido desfavorável. ou que não é permanente. Herschel descobriu um novo planeta.. novas combinações de objetos já conhecidos. mas cada uma delas indica modificações particulares que distinguem os diferentes gêneros de sofrimento”. quer dizer estado doloroso do corpo. “Acidental vem de acidente”. moléstia. etc. portanto. – Incômodo é “mal passageiro”. – Imprevisto supõe ignorância da possibilidade da coisa. imprevisto. 105 ACHAQUE. Um engenho fecundo acha muitas coisas. A primeira fez-se extensiva a todo defeito físico ou moral. falta de forças. mas o engenho penetrante inventa coisas novas. ines- perado. 8). Harvée achou ou descobriu a circulação do sangue. – Enfermidade significa. que quer dizer doença permanente. mas não habitual. primeiro. 4)... doen- ça. inopinado.

povoações e províncias. 107 ACIDENTE. “suceder”) diz-se de qualquer desgraça que sobrevém inesperadamente. e considerando-a até certo ponto como contrária às leis ordinárias. e que por isso se acredita que é devido ao acaso. se diz de qualquer grande desgraça.. (Bruns. agitação. – Postos nesta ordem – aplaudir. abrangendo a significação de todos os outros: é todo acontecimento funesto. toda desgraça irremediável. incendimento sagrado por alguém ou alguma coisa. porém. trazendo consigo a carestia e a penúria. vocábulo que significou primitivamente os estragos que a saraiva produz nos campos) significa. – Revés é a desgraça que faz mudar completamente uma situação. ou mesmo num indivíduo. glorificar – estes verbos marcam a gradação. e até somente numa família. glorificar. – Proclamar é “dar sanção. – Desgraça é o mais genérico do grupo. segundo as superstições astrológicas.. do destino. a força crescente dos sentimentos com que se manifesta aprovação. – Ocasional significa propriamente “de ocasião”. Em regra. como se se desse testemunho. aclama-se espontaneamente. expressos. aceitar solenemente”.) – Vitoriar é “aclamar estrepitosamente. mas a uma série desses fatos que sobrevêm uns aos outros.). considerável. pois nesse caso não se atende a um fato adverso somente. pela influência nociva dos astros.. calamidade. alegria. ou não se tem certeza”. proclamar. – Casual se diz de todo fenômeno cuja causa é desconhecida. – Calamidade (do latim calamitas. pública ou privada. delírio. no sentido figurado. formado do prefixo negativo des e de astre. declarar com desvanecimento e no meio de extraordinário aparato”. num Estado. – Catástrofe é acontecimento extraordinário.. calamidade. – Aclamar é “aprovar. e como se se tornasse publicamente reconhecido o que se proclama. isto é. se assim nos podemos exprimir. proclamar. muda. vitoriar. e por extensão. acidente (do latim accidere. (Há muita diferença entre proclamar e aclamar. – Aleatório “é termo jurídico: aplica-se a disposições que se tomam para o caso em que se dê uma circunstância possível. proclama-se. desastre. mas não provável”. vitoriar. cumprindo um dever.. isto é. livremente. 108 ACLAMAR. – Aplaudir é “dar sinais ostensivos. mas sempre sugerindo a ideia de transtorno violento e profundo.. etc. desgraça. que sobrevém como castigo. de que se aprova e sanciona”. – Glorificar é “fazer a consagração . transforma completamente o estado precedente noutro estado muito pior. que é o único que hoje tem. e contra a qual nada se pode fazer. revés. – Segundo Bruns. catástrofe. – Desastre (vocábulo francês. destruição das searas pelas intempéries. numa sociedade. aclamar. Esta revolução completa pode dar-se num povo. O sentido desta palavra é sempre coletivo. se declarasse autêntico. constituindo um conjunto que tem importância excepcional”. que revolve.. mesmo quando se fala de uma calamidade privada. Como a destruição das searas é uma desgraça que afeta sobremodo a muitas famílias. que aniquila e destrói tudo. desgraça da qual é impossível sair. como se se fizesse escolha solene da pessoa aclamada. “que aparece como circunstância que se não prevê”. mas para pior. com vivacidade. movimentos de delírio”. é o reverso da medalha.78 Rocha Pombo passa”. entusiasmo. uma grande desgraça causada. segundo a sua etimologia. sem que nada a fizesse prever. – Incerto é “tudo aquilo a respeito do que se está em dúvida. que se dá como de momento. aplaudir. “astro”) significa propriamente um grande infortúnio.

e pode-se dizer que a nuança entre uns e outros é marcada pelos respetivos radicais. – Elucidar é “fazer perfeitamente claro. Não se poderia dizer. mas nem sempre nos ilumina. um assunto. da ACOBARDAR. espavorir. De sorte que só se entende que alguém se acobarda quando deixa de ter o ânimo que é próprio do homem. ou um vulcão. aterrorizar.” – Iluminar é de predicação mais viva e de ação mais direta que alumiar e ilustrar. um debate. apavorar. alumiar. decerto que ninguém teria a lembrança de arriscar: “Deus que o alumie. esparzir claridade”. – Explanar = “explicar tornando simples. talentos que excedem ao que é grandeza comum entre os homens”. tratando de cobardia. de um enfermo. etc. inteligível. iluminar. mas amedrontam uma criança. – Aclarar é “tornar claro. – Ilustrar significa “lançar luz. e sim medroso. atemorizar. ilustrar. – Esclarecer é “aclarar completando. – Acobardar é “reduzir alguém a uma incapacidade absoluta de reagir”.. e não – alumia-se. A lição do mestre abalizado nos ilustra. quebrantar. Muito bem nota Roq. mais por defeito da coisa que se explica do que da pessoa a quem é explicada. Também não será próprio o verbo acobardar tratando-se de casos em que a coisa a resistir.. 109 ACLARAR.. explicar. explanar. também poderíamos dizer assim: “Deus que lhe ilumine o caminho da vida”.. – Todos estes verbos enunciam ação de diminuir ou abater o ânimo de. ou para atacar um inimigo que o afronta. A noite. feitos..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 79 de virtudes. num sentido muito alto. e: “Deus que lhe alumie o caminho escabroso que vai seguir” (isto é – que lhe torne claro o caminho). Dizemos: “Deus que o ilumine” (isto é – que lhe torne luminoso o espírito. esclarecer. e distingue-se de ilustrar em grande número de casos.. uma invetiva não acobardam.. distinguindo-se destes. mas que me apavora. pois iluminar..” “A palavra de Jesus alumia os cegos” (não – “ilustra.. elucidar. a vencer.. me acobarda. O grande homem ilustra (dá brilho) o seu tempo”. fazer que se veja claro”.. Quem se acobarda perde a coragem para repelir um ataque. fazendo fácil”. assustar. e isto quer no sentido próprio..) não se pode dizer que seja cobarde. amedrontar. como a própria luz”. ou de um decrépito. A glorificação deve ser um ato ou uma cerimônia tal que se compare à solenidade de culto: só a merecem os verdadeiros gênios e os santos. que uma tormenta.”) Ilustra-se uma obra. desembrulhando aquilo que se não entendia. significa “dar à inteligência uma nova e intensa claridade a que não escapem as coisas mais abstrusas”. explicando o que parecia obscuro ou estava confuso”. seja superior a forças humanas ou fique fora do nosso alcance. – Explicar é esclarecer como desdobrando. o senso interior). que me atemoriza ou me quebranta. aterrar. É convizinho de ilustrar. no entanto... – Alumiar diz propriamente “dar luz. por exemplo. ou nos alumia o espírito.. a solidão. ou a evitar etc. projetar brilho sobre”. que de um menino (de uma mulher. quer no figurado. alumiar e iluminar. . “pois que diante destes os homens ficam como se estivessem diante de divindades”. em sugerir ideia do modo completo como a coisa elucidada ficou esclarecida. Uma questão pode ter sido ilustrada por um mestre..” O sol alumia a todos”.. ou o relâmpago. e não – “ilustra.” Pelo menos esta forma seria de lidimidade muito duvidosa. estendendo. sem que só por isso haja necessariamente ficado de todo elucidada. quanto ao primeiro exemplo.. 110 intimidar. a atacar. Mas. e não – “alumia. etc. E como um caminho só se faz claro a olhos que saibam ver.

Sente-se. é causar susto. ou é de uma tão delicada modéstia que passa a ter sem dúvida outro nome. – Feito é o mesmo que fato. – Intimidar é “fazer tímido”. igualmente a ideia do que tem de misterioso. deixar agitado de susto: e sugere a ideia da fuga que revela o espanto. de impressão violenta. “Na miséria ou na doença os mais fortes se quebrantam”. lá fora. um súbito terror de imobilizar. o movimento. É dos mais extensivos do grupo. Uma visão diremos que nos aterra. e os fatos são certos. que se deixe abater. o menino na presença dos examinadores. etc. a presença daquele biltre intimidou o velho soldado (O velho soldado nem por isso perderia direito a continuar sendo o mais legítimo dos heróis: poderia mesmo juntar talvez agora ao antigo. façanhas. atemorizamos o mau estudante com a presença do pai. Não se poderia dizer.80 Rocha Pombo sua função. O segundo significa também “encher de terror”. como sobrenatural.) – Assustar é “produzir impressão súbita de espanto ou medo”.. o perdulário lembrando-lhe o futuro. Mas a diferença entre estes dois verbos é bem sensível quando se compara medo e temor. – Quanto aos três primeiros escreve Roq. etc. o mísero escravo intimidou-se”.. mas – “nos apavora”. representando-nos a vontade. sagrado. a iminência de uma grande desgraça nos aterroriza. Exemplos: “Bastou uma palavra mais alto e mais áspera para que o outro se intimidasse ali. com relação direta à essência ou qualidade do fato em si mesmo. grave. como virtude contra o escândalo. falsos ou duvidosos. – Quebrantar é “fazer que se perca o ânimo. sinalando a palavra diretamente a intenção do que as executa. mu- . que em atemorizar se inclui a ideia do motivo real. e tem alguma coisa de análogo a aterrar por sugerir. – Apavorar diz propriamente “encher de pavor. e menos acobarda. e sem razão. o pavor que sentimos. O fato tem uma relação direta com a coisa executada. que leva alguém a perder o ânimo. quase sempre. “A ação tem uma relação imediata com a pessoa que a executa.) “Por estar na rua. proezas. – Aterrar e aterrorizar confundem-se muito. amofinar”. mas aquele que se intimida – ou é de uma prudência tão meticulosa que se avizinha de cobardia. (O outro aqui não é decerto um herói. más ou indiferentes. O primeiro exprime “inspirar um medo. um grande espanto. nem intimida. mas seguramente mais humano. Pode-se intimidar a todo o mundo talvez. Até os animais podemos assustar. o heroísmo um tanto menos espetaculoso. (Ver o grupo. que se inclui em aterrar. – Espavorir é “fazer abalado de pavor. submisso. mas é possível que explicasse suficientemente a sua quebra de ânimo como excesso de pudor. de coisa sagrada. o que fica executado por meio da ação. nos espavore”. Daí vem que as ações são boas. causar grande medo”. já que é tarde para defendê-lo a pulso ou à força de armas).) Amedrontamos uma criança. da sua tarefa. a parte que nela tem a pessoa. mas não sugere a ideia de mistério. “O sofrimento moral quebranta mais que os males físicos”. representando-nos o efeito. abater inteiramente o ânimo aterrado”. ou então é mesmo de natureza ou de condição tímido por ser fraco. o produto. atemoriza-se o réu diante do tribunal. fatos. portanto. – Amedrontar é “causar medo”. etc. (Ninguém diria amedronta. um assassino acossado de remorso ou perseguido da justiça. feitos. “O crente atemoriza-se do castigo divino”.. um espírito supersticioso. ou: “Bastou a presença do mestre para intimidar o menino”.. ou – “O castigo do céu atemoriza os crentes”. tão discutível e brutal. 111 AÇÕES. “Só ao ver ao longe o filho do senhor. calando-se”. como atemorizar é “causar temor”. por exemplo: “A noite. de salvar o seu decoro intimidando-se.

113 AÇOITAR. refugiar-se. afligir. – Homiziar é sempre um delito. Quem se oculta deixa apenas de aparecer. mas principalmente batendo. Um político.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 81 dada por eufonia a pronúncia dura de a na doce de ei. quem se esconde procura escapar tanto às vistas como à investigação de outrem. mas o seu uso mais frequente é representar as ações nobres. pungir. proeza (em francês prouesse “action de preux”) “diz-se propriamente das façanhas da antiga cavalaria. acoitar nem sempre. – Açoitar é “bater com açoite ou látego. acossado do clamor geral.) é feito heroico. esconder-se. – Esconder é “furtar alguém ou alguma coisa à ação. sim. es- conder. cortante”. Usam-se todos também no sentido moral. – Todos estes verbos enunciam ação de molestar fisicamente. ao esforço de outrem. de facere. De um criminoso julgado. fustigar. homiziar. isto é – “acolher e amparar alguém contra risco iminente. a virtudes. ilustres de homens famosos e dignos de memória”. ato. flagelar. mas que se foi homiziar no estrangeiro. Nem por isso asilamos a primeira. pois o chicote ou rebenque não só molesta. – Acoitamos uma pessoa que sabemos comprometida com autoridade pública. – Azorragar é “bater com azorrague”. chibatar (ou chibatear). Um bandido. um anarquista. e como castigo”. e tanto se faz às bestas lerdas. pois ocultamos uma coisa evitando apenas que outros a vejam. – Refugiar-se diz propriamente “fugir e valer-se de algum lugar seguro para escapar a algum perigo”. a valor excepcionais. mas ultraja também. não se dirá que se refugiou. vergastar (verdascar). – Ocultar é menos do que esconder. zurzir. como um assassino que foge da polícia.. comprometido em algum atentado ou algum movimento subversivo. abrigar-se. nem sempre. refugia-se na floresta. a esforço. que se considera com direito a essa coisa ou essa pessoa”. e sugere a ideia de “fortes golpes que molestam e afrontam a vítima”. e diferençam-se quase que só pelo gênero do instrumento com que se molesta. corresponde muitas vezes a obra. – Chicotar (ou chicotear) é “pungir a chicote”. ocultar. sagrado (asilo) em que alguém se julga a salvo de qualquer perseguição. homiziar-se. como aos homens que se deseja humilhar. 112 ACOITAR. – Abrigar é “dar abrigo”. surrar. abrigar. Esconde-se aquele que se esquiva à ação dos que o procuram. ou com alguém a que essa pessoa esteja sujeita. magoar açoitando ou vergastando”. azorragar. . que se asila em nossa casa. chicotar (ou chicotear). “Abrigamos em nossa casa bons e maus”. – Segundo Laf. nem o segundo pode dizer-se. – Vergastar (ou verdascar) é “bater com vergasta (ou verdasca) isto é – com vara muito fina e rija. devido à grande coragem. mas só homiziamos o criminoso que tenta escapar à ação da lei penal. asilar-se. ocultar-se. – Façanha (do latim facinus. – Homiziamos em nossa casa alguém “que sabemos condenado por algum crime”: e exatamente nisto é que este verbo se distingue de acoitar: este é mais extensivo: tanto podemos acoitar um menino que fugiu da casa dos pais. “obrar” etc. refugia-se na Inglaterra ou na Suíça. Vem acoitar-se em nossa casa o indivíduo que se julga culpado de algum crime. – Asilar expressa a ideia de lugar seguro. “fazer”. asilar. – Zurzir é “espicaçar. das que são contadas nos antigos romances”. De um revolucionário vencido que conseguiu fugir não se pode dizer que foi homiziar-se no estrangeiro (e sim – refugiar-se). ou contra mal de que é perseguido”: “O hoteleiro abrigou da (ou contra a) chuva aquelas crianças”. – Surrar é o mais compreensivo do grupo: exprime a ideia geral de “molestar de qualquer modo. acoitar-se.

etc. multidão (comboio). Acompanha-se uma irmã à igreja (não – segue-se)”. a isso o aconselhamos. ou o fato de cair. isto é. – é sempre mais de uma. etc. portanto. como a despiedade de um mau poeta. 116 ACONSELHAR. quando dizemos explicitamente a Pedro que levante cedo. “acompanha no encalço”. é mais restrito que escoltar. e dá ideia de que nunca é uma só pessoa que escolta. – O sentido translato é análogo ao natural em todos estes verbos. (não – acompanha-se). quer para o servir. Tanto pode flagelar-nos um inimigo como um infortúnio. É claro que. numa situação difícil. – Quanto a comboiar é preciso que se note que. levar até o íntimo do espírito ou do . escoltar. sugerimos a Pedro o que está no seu interesse. – Ajustar é “modificar uma coisa de maneira que com outra se combine”. seguir. quando lhe fazemos sentir por meias palavras. tropas de carga. até que o fustigado perca a paciência e saia do estado normal de atividade ou de calma”. adequar. sem perder o seu caráter. – Apropriar aqui é “dar a uma coisa condições que a tornem própria para o fim que se deseja”. ou mesmo na conveniência da pessoa a quem se sugere.. ou a um caso determinado”. insinuar... – transformar uma coisa de modo que. boiadas. a que faça alguma coisa que não faria de moto-próprio”. em vez de dar um conselho”. alguma coisa que está no nosso interesse. 115 ACOMPANHAR. – Fustigar é quase como zurzir: designa a ação “de picar.82 Rocha Pombo macerando. é também “encaminhar numa certa direção (num negócio. – Escoltar é “acompanhar para proteger ou para vigiar”. Ninguém diria que sugeriu a Pedro que levantasse muito cedo: salvo se quisesse mesmo fazer uma simples sugestão. e quer para observá-lo. sofra as alterações que o caso exige: acomodar um drama estrangeiro ao teatro português”. guiar. – Acomodar “é – diz Bruns.. bater com vergasta e repetidamente. pois nunca se comboia senão para proteger. mas indo-lhe na retaguarda e sem perdê-lo de vista. persuadir. – Flagelar tem hoje uma acepção especial. ou por meios indiretos e vagos. – Acompanha-se uma pessoa quando se vai a seu lado e subentende-se que tomando parte nas vicissitudes que essa pessoa tiver no seu caminho.. – Adequar é “fazer uma coisa proporcionada a um certo fim. por meio de razões insistentes e bons argumentos..” Pode aconselhar-se bem ou mal. boiar. zurzindo para exemplar e corrigir”. adaptar. e muito subtilmente. ou por circunlóquios. navios. mas – “segue no encalço” (ou vai. de boa ou de má-fé. em regra. – Insinuar está quase no mesmo caso de sugerir: é “introduzir. significando a ação de impor pena como suplício e castigo. Não se poderia dizer. a coisa a comboiar – carros. – Sugerir é “fazer entrar no espírito de alguém.). como calamidade. Segue-se-lhe a pista a alguém. tomar o mesmo rumo de alguém.). Além disso. sempre se entende que é grupo. – Aconselhar é “induzir alguém. ajustar. conveniente a um determinado uso. na vida. As forças escoltaram os prisioneiros até Pernambuco. ou a verdasca”. e sugere noção da superioridade de quem chibata com respeito ao chibatado. a conveniência de ocultar-se às vistas da polícia. Um galé só sai da sua prisão escoltado. – Adaptar é “fazer alguma coisa apta especialmente para uma calculada serventia”. 114 ACOMODAR. sugerir. Porque seguir é que diz inspirar. Uma nação pode ser flagelada por uma inundação ou por um mau governo. benévola ou perversamente. com- “ir atrás. apropriar. – Chibatar (ou chibatear) é “aplicar a chibata.

– Passar-se está quase no mesmo caso: não é. – Dar-se é. – Convir é encontrar-se com outra pessoa numa certa igualdade de intuitos. Dizem que se deram naquele momento sucessos imprevistos. mas de razão. contratar. entrar em acordo. – Acordo supõe que a pessoa. não há dúvida que em tais casos seja bem empregado: aconteceu o que tínhamos previsto. Nesta palavra acordo (accordo) figura a raiz cor. tão extensivo. ac (c por d) + cordo diz propriamente “ao coração”. etc. como termo genérico. que chegou a fazê-lo. três primeiros. As ocorrências que se dão diariamente já não impressionam. previsto ou imprevisto. assento.. etc. aceite o que lhe propomos ou dizemos”. mas encerra ideia de causa anterior.: convindo não esquecer que insinuar envolve ideia de má vontade ou de intuito ilegítimo de quem insinua”. Não é convicção que leva uma pessoa a persuadir-se: é antes a autoridade de quem persuade. convencio- passar-se. marcha. Por isso é que se diz muito acertadamente que onde nunca houve desacordo não seria próprio dizer que veio a dar-se acordo. Convenção é sempre mais solene e ato de mais importância do que convênio. contrato. – Convenção é “o acordo. a que chega quem faz acordo.. se recorde. suceder. Geralmente. Dizendo – “aconteceu uma desgraça” – referimo-nos à desgraça em si. concertar. assentar. tratar. um verbo que em todos os casos poderia substituir a qualquer dos nar. “coração”. dar-se. importante ou não. – isto é – significa a união de sentimentos e extensivamente de ideias. pacto. operar sobre o espírito ou o coração de alguém para que se oriente. de direito ou de interesses a que se submetem afinal partes que não puderam dirimir de outro modo a contenda ou a questão debatida”. combinação. uma suspeita.. Decerto que se não poderia dizer: “Passou-se uma catástrofe. como guia o mestre os seus discípulos. “para o coração”. para que a pessoa guiada não se afaste do reto caminho. é assistir com bons conselhos. pactuar. ou suceder.: “Acontecer é termo genérico. portanto.” Ocorrer é o mesmo que suceder ou acontecer. pois. diz Bruns. com mais energia. ocorrer. concordar. aplicável a qualquer fato. emprega-se. passar-se-ia um desastre se não fora a nossa prudência”. 117 ACONTECER. O que se faz entre as pessoas que convêm chama-se convênio. – Também se pode guiar mal ou bem. combinar. cordis. ajuste. etc. e é de predicação mais precisa. – Persuadir é “insistir em que alguém creia.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 83 coração de alguém uma ideia. quando se quer dar a entender que do que sucede ou acontece se origina alguma consequência. e. significa “sugerir mais diretamente. porém. Dão-se às vezes desgraças que surpreendem os mais fortes ânimos.” – Suceder é o mesmo que acontecer. convenção.. não de vontades ou de impulsos propriamente. se incenda. acordo. porém. tratado. não obstante. sem outra ideia acessória. aconteceu um desastre. Guiamos os nossos filhos. – Guiar é dirigir alguém nalgum serviço. convênio. 118 ACORDAR. aqui. que deu cors. aqui. concerto. Os que convêm fazem convênio: celebrar . primeiro relutara ou não se tinha mostrado a ele propícia. ajustar.. acontecer não relaciona o fato com outro anterior nem o atribui a determinada causa. convir. – Quanto aos três primeiros. – Inspirar. ou ocorrer. de opiniões. significando o mesmo que acontecer.. se anime. um desejo etc. intento. Deram-se acontecimentos extraordinários em Lisboa. dizendo “sucedeu uma desgraça” – apresentamos o fato como consequência de tal ou tal existência: “na perfuração dos túneis sucedem desgraças amiúde. – Acordar é. concordata.

que tratar tem uma significação muito menos precisa. nos termos ou nas condições da lei. confrontá-las. portanto. pactuar com os inimigos da pátria”. – Segundo Roq. que este termo se presta a ser tomado a má parte. deixando sentir que se havia antes discordado”.) – Ajustar é “convir em alguma coisa. juntá-las. no entanto. mas já envolve compromisso moral mais solene do que aquilo que simplesmente se combinou. “entrar em concerto. o ato de ajustar. despertar. – Combinar (do latim combinare – cum + bini “com” + “par”) diz precisamente “pôr uma coisa ao lado da outra. ainda quando não tenha sanção legal – não a podendo mesmo ter quando. e designa “ajuste entre credores e devedor”. – Concerto é um pouco mais que simples combinação: é “a harmonia perfeita a que se chega acerca de alguma coisa depois de haver ponderado todos os prós e contras”: pode não chegar a ser um contrato.84 Rocha Pombo convenção é convencionar. de modo que fique sólido e perfeito”. – Assento diz propriamente “o registro solene de um convênio. O que se combina fica assentado apenas mentalmente: não tem força de acordo ou de pacto feito. pois. pois. e tem mais propriamente sentido jurídico. para que dele resultem direitos e obrigações legais ou morais”. – Combinação é o ato de combinar ou aquilo mesmo que se combinou. a forma autêntica. mas dizemos também. ou junto uma da outra. referindo-nos a negócios de pequena monta: “o tratado é devido”. da sentença que foi proferida”: assentar é. – Contratar é. como se vê naquele verso de Camões (Canç. depois de debate. como frequentemente sucede. decidir. pois. Dois exércitos não celebram tratado. como quando se diz: fazer um pacto com o diabo. É certo. tanto convenções como tratados. do estado de adormecimento em que jazia. É precisamente em virtude do caráter de imutabilidade que o pacto reveste. ou ainda mais restrito – comercial. mas convenção: só poderes soberanos têm capacidade para celebrar. 15): Ah! quem de sonho tal nunca acordara – Despertar é pôr ou pôr-se um homem esperto. e também a cessação do sonho. compará-las”: combinar é. fora da acepção que tem neste grupo.: – “Acordar e despertar são verbos ativos e neutros. – Acordar exprime propriamente a cessação do sono. o pacto se faz sobre coisas cuja sanção é superior ao alcance das leis humanas. – Concordar é convizinho de concertar: é “vir a acordo como os que se conciliam. – “O pacto é uma convenção formal em que cada pactário declara renunciar ao direito de romper o pactuado. da resolução que se tomou. se bem que o mesmo se pode quase dizer de tratado. o recobro dos sentidos. ou nas condições de um arranjo ou negócio depois de haverem as partes discutido”. “reduzir a escrito (ou dar-lhe toda autenticidade) um acordo a que se chegou. 119 ACORDAR. “dispor. Trata-se tanto de altos interesses de nações como das coisas mais insignificantes do mundo. expedito para exercer suas faculda- . portanto. ordenar os termos de um acordo ou de um convênio”. – Contrato é “aquilo que se tratou reduzido a escrito. – Concertar é. celebrar contrato. Mas tratado é uma convenção de alta categoria: só pode ser celebrado entre nações. ou dos costumes. (Bruns. – Tratado e contrato correspondem a convenção e convênio ou guardam respetivamente entre si a mesma analogia. – Concordata é termo jurídico que tem principalmente duas acepções: exprime “acordo ou convenção solene feita entre o sumo pontífice e um soberano”. é um compromisso que fica obrigatório para cada um dos que nele tomam parte. e representam a ação pela qual um homem sai. ou o tiram. por acordo comum”. Ajuste é.

sustentar no esforço. porque em afluir se inclui a ideia 11 Poder-se-ia notar entre estes dois verbos alguma diferença. cheio de correntes”. Com o exemplo do capitão animam-se os soldados a investir o baluarte. Para o segundo os outros despertavam. – Encorrear (ou acorrear) é “prender por meio de correias. ir ou vir para alguma parte. já se nota uma diferença fundamental: tratando-se de pessoas (ou quaisquer animais) só se emprega afluir quando se faz referência a muitos indivíduos. ou seu intento. para sair do qual é necessário mais esforço nosso quando acordamos. encorrear (ou acorrear). aqui. do peso dos grilhões. no figurado é “coagir. animar. – Acorrentar (ou encorrentar)11. Uma só pessoa seria impróprio dizer que aflui. sendo que despertar anuncia sono profundo. ou uma doença. por meio de palavras persuasivas. induzir. Quem in- agrilhoar. duz um menino a faltar às aulas não é talvez menos perverso do que aquele que o incita a praticar o mal. encadear. Quantos homens acordam do sono da culpa. como se vê ainda de outros versos de Camões (Lus. A palavra do santo velho alentava os moços. é “prender por meio de corrente”. ou de quem nos quer tornar espertos. enlaçar de modo a tolher os movimentos ao que se encorreia”. e que se interrompe a horas desacostumadas. – Amarrar diz propriamente “prender com amarra”. Parece que a ação de acordar precede à de despertar. acoroçoar (a + coração + ar) diz “avigorar o coração”: quer dizer – confortar alguém no que empreende. 121 ACORRENTAR (ou encorrentar). Animam-se os enfermos contando-se-lhes casos de cura prodigiosos. É próximo de encadear. distinguindo-se em sugerir. pois encorrentar diz mais propriamente “carregado de ferros. Não há ninguém que anime aqueles míseros no eito. isto é – por meio de cabos. ou por exemplos ou por medo. prender. – Induzir. Segundo a própria etimologia. acudir. para sofrer um mal. a fazer alguma coisa”. – Acoroçoa-se alguém na sua tarefa. melhor do que este. a ideia da força. mas não chegam a estar assaz espertos para praticarem resolutamente a virtude!” 120 ACOROÇOAR. – Agrilhoar diz mais ainda que acorrentar. isto é. é “levar alguém. do sofrimento do agrilhoado. e não se possa afastar do posto em que se a fixou. . VI. amarrar. marchar. de modo que a coisa amarrada fique segura. alentar. insuflar coragem. 122 ACORRER. Colombo voltou da América encorrentado (não acorrentado). – Animar é “infundir alma”. para um trabalho.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 85 des. – A mesma diferença existe na acepção figurada. afluir. prepotência com que se prende. A esperança nos alenta nesta luta. isto é – dar vigor às forças do espírito para uma resolução. incitando-o com palavras e afagos a que tenha coragem e se esforce por vencer. dureza. – Alentar significa propriamente “dar alento. incitar. 38): Os do quarto da prima se deitavam. – Estes três verbos enunciam a ação de correr. – Prender é o mais genérico do grupo: diz “ligar uma coisa a outra. que acordar supõe um sono ordinário e que acaba regularmente. correntes. ou cordas. conter dentro de certos limites”. pois encerra ideia da tirania com que se agrilhoa. sem envolver ideia do modo como se a prende”. Entre os dois primeiros e o outro. no sentido próprio. incitar na tarefa. – Incitar é um pouco mais: é “induzir com grande esforço e vivo empenho”. mais ou menos intimamente.

se habituou a ir todos os dias à igreja. tanto maus quanto bons. de condição. ou para determinado lugar. Acostuma-se alguém com alguma coisa.. meio ou vida nova. na mesma terra onde nasceu e se criou e onde vive). tar-se. ou a perigo que viu. os nossos costumes. pois entre o perseguidor e o perseguido a distância pode ser considerável”. que do exterior.” Devemos. e a diferença entre os dois consiste em que aquele é de predicação menos intensa e mais vaga. de meio. e com a mesma sem-razão com que se confunde costume com hábito. ou por termos repetido muitas vezes”: devemos os nossos hábitos mais a nós próprios do que a outros. acomodar-se. o acossador tem à vista o acossado. ou do modo de parecer peculiar a cada pessoa. pelo menos. Ele se dá tão bem na roça como na corte. hábito. e afazer-se a condição. Isto quer dizer que afluir significa (como na acepção própria. 124 habituar-se. Quem acode atende a grito de socorro. ou a provocação: o que. a vivo interesse. M. amoldar-se. lhe não é mais estranho como a princípio. dar-se. quase o mesmo que acostumar-se. pois. – Costume é “tudo que forma o modo de ser próprio de alguém ou de um povo: o convívio é que o faz. em Paris. poder-se-ia dizer que ninguém acorre a um certo ponto. aqui. – Todos os verbos deste grupo enunciam ação de mudar de vida. ajusACOSTUMAR-SE. ou a alguma coisa que procura solícito impedir ou evitar. como: “eles acorreram ou acudiram. adaptar-se. mas quem ouve um grito de socorro não acorre apenas: acode. – Hábito é “tudo que fazemos já quase maquinalmente. Quando muito. portanto. – Dar-se exprime.” Outra diferença: como há casos em que afluir não substituiria nenhum dos dois. a mesma diferença. mas nunca se habituará à vida dos boulevards. afazer-se. por exemplo. F. quando sente que o meio. afinal. Tal ideia não existe em perseguir. do caráter em suma. A. ou nalgum lugar. tanto social como físico. do indivíduo subjetivo. Esta ideia não há em acorrer e acudir: tanto podemos dizer “ele acorreu ou acudiu ao ver o desabamento”. afeiçoar-se.86 Rocha Pombo de multidão. ou sem grande interesse de momento ou urgente. Resta observar que costume se poderia definir como significando hábito moral. 123 ACOSSAR. pois inclui mais ideia de modo de ser do espírito. ou a um gênero de vida que nunca tive. perseguir. mas depende de mim habituar-me a um certo serviço.. aclimar-se (aclimatar-se). de cópia ou abundância. Entre acostumar-se e habituar-se há. – “é perseguir hostilizando. por nos termos exercitado com esforço. natural) “mover-se lentamente (como os líquidos) numa certa direção. Não está em mim acostumar-me numa cidade. Por isso mesmo não se explicaria. não se acostuma no campo. e que em acorrer e acudir está implícita a ideia de pressa: não se acorre nem se acode devagar. Entre acorrer e acudir é preciso também notar que é fácil marcar uma certa nuança. nem sempre se dá quanto a acorrer. ou cede a medo. que um paulista nos viesse dizer que se acostuma em S. há-os também nos quais não seria permitido usar de acudir. Ela nun- . conseguintemente. a obediência. à procura de um ponto”. nem de acorrer por afluir: por exemplo: em – “as famílias da redondeza afluíram à cidade no dia da festa” – não poderíamos (sem alterar o valor lógico da frase) pôr nenhum dos dois primeiros verbos no lugar de afluíram. com habituar-se. acostumou-se. porque “corre a socorrer”. Paulo (isto é. – Confunde-se acostumar-se. – Acossar – diz Bruns. menos a nós próprios do que à ação do meio em que vivemos. identificar-se. modelar-se. sem motivo instante. Costume.

Ajuntar é pôr umas coisas junto a outras. Aumentei o número dos livros da minha biblioteca. – Identificar-se é “acomodar-se tão bem com alguma coisa como se se fizesse igual a ela”. Decerto nada impediria que uma pessoa. dar-se bem. acrescer. ficarem medida igual”. aumentar. pois que se torna mais intensa. porque acrescentei alguns que me faltavam. “ficar maior. em regra. – Adaptar-se enuncia a “ação de se fazer alguém próprio. . Um ricaço aumenta suas rendas acrescentando novas propriedades às que já tinha”. – Exemplos: afazemo-nos a uma tarefa nova. No verbo adicionar há implícita a ideia de que. afinal. qualquer que seja o processo de crescimento.. em relação a outrem ou alguma coisa. designativo de esforço por parte de quem se amolda: ideia que se não inclui em modelar-se. como a soma para a adição. Não assim o que se 12 Aliás. ou à índole das pessoas prudentes. acomodo-me à compostura. – “é o meio. acrescenta-se. pois ninguém se afaz a alguma coisa sem esforço. e este é o meio por que o aumento se verifica. dizemos que acresce. o primeiro é o resultado. – Acrescentar é uma extensão de acrescer. nesta acepção. capaz. unir. ou para algum serviço ou função”. ou que não é propriamente o nosso”. “adicionar é reunir um todo (ou uma parte) a outro todo12 da mesma espécie: adicionar um ato à Constituição do Estado. amoldo-me a todas as contingências: só não posso modelar-me pelo sentir dos ímpios.” Quando uma coisa cresce de volume. identificou-se ele completamente com a sorte daqueles homens. a raiva. por acréscimo ou adição gradual de novas moléculas ou porções de massa. afeiçoei-me sempre às condições da minha vida. ela procura ajustar-se ao modo de ser do esposo. 126 ACRESCENTAR. acrescentando. – Aclimar-se é “afazer-se. O aumento é sempre efeito da adição ou aditamento.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 87 ca se pôde dar com os caprichos do noivo. adaptado da forma francesa. adir. etc. agregar. – Amoldar-se é propriamente “tomar alguém ou alguma coisa por molde ou modelo”. viesse. – Segundo Bruns. e modelar-se diz o mesmo.” – Ajustar-se quer dizer “pôr-se alguém. Para aumentar. adaptar-se a um clima novo. pois. de intensidade. mais ampla. a felicidade. – Afeiçoar-se é “semelhante ao precedente: designa a ação de dar-se perfeitamente com alguma coisa (ou com alguém) amoldando-se a ela”. como ficam duas superfícies planas que se juntam. dizemos que aumenta. – Afazer-se aproxima-se mais de habituar-se. de extensão. – “O segundo” – diz Roq. aumenta-se. pouco a pouco. a alegria. O que se junta ou ajunta forma parte integrante do todo. A dor. ninguém diria que acresce: e sim que aumenta. por exemplo. aditar. de amplitude. adaptam-se rapazes à vida militar. ajuntar. adi- cionar. que se não dá com a vida do Rio. E não se diria: Acrescentei o número de livros porque o aumentei. apto para uma certa coisa. juntar. – Acomodar-se diz propriamente “ficar a gosto nalgum lugar ou com alguma coisa.” – Acrescer é. aclimar-se-ão neste trabalho ou neste meio se tiverem perseverança e cautela. a acostumar-se aqui. isto é. mais extensa por acrescimento. com alguma coisa. isto seria melhor juntar. 125 ACRESCENTAR. – Aclimatar-se é o mesmo verbo. O sentido translato é análogo. – Acrescentar é tornar mais longo ou mais complexo: acrescentar um parágrafo à carta. a coisa adicionada é menor do que a coisa a que se adiciona: esta fica para aquela como o todo para a parte. sem constrangimento. Quando uma coisa aumenta “crescendo.. notando-se apenas entre os dois a diferença marcada pelo prefixo a de amoldar-se. de força.

ou uma ou mais porções a um corpo fazendo-o maior. referindo-se a uma peça complementar da Constituição. que enuncia apenas o “ato de se pôr ou de ficar uma coisa juntamente ou em cooperação com outra”.88 Rocha Pombo agrega. Enquanto que o verbo crer significa “considerar como verdade aquilo que está no coração ou na consciência”. só admite a forma pronominal recíproca: poder-se-á ainda dizer – “ajuntar-nosemos”. e aquele de formação latina. (estarei junto do sr. que diz precisamente “ter como verdade. nunca – “me ajuntarei. este de formação vernácula. – Entre ajuntar e juntar parece que há sempre alguma diferença. sugere também alguma coisa de dúvida no considerar como certa a coisa em que se crê. dos quais temos aditar e adicionar. e.” Isto quer dizer que ajuntar marca (pelo prefixo a = ad) a atividade. bastariam alguns exemplos para deixar clara a distinção que é preciso não esquecer entre os dois.. aos autos. como se vê dos nossos léxicos. é de mais lídima propriedade a aplicação do verbo acreditar. É exato. crer. ao discurso lido: casos em que adicionar não seria pelo menos de muito escrupulosa propriedade. unir”. Crer encerra ideia de certeza profunda. Juntam-se coisas homogêneas. peça que lhe fica como que apensa. ou por uma tendência ou um modo de ser da nossa natureza moral. não o que sentimos. é evidente que não faremos com a mesma precisão e a mesma força as afirmações que aí se formulam.) nesta questão”. Se nestes exemplos substituirmos o verbo crer pelo outro. por uma capacidade própria do nosso entendimento. Todos dizemos: “Creio que ele virá” – querendo dizer: “Acredito que ele virá”. e é só por engano talvez que lhe damos a significação perfeita de acreditar. menos à imprecisa propriedade do vocábulo. que o próprio verbo crer. ajuntar. e neste caso. em vez de – “aditamento constitucional”. no entanto. em certos casos. Por isso ajuntar é aumentar o todo. Mas quem diz: “Creio que ele virá” – funda naturalmente a sua crença ou a sua confiança na afirmação daquele que tem de vir.. deixando como apensa a coisa aditada”: adicionar exprime “acrescentar como adição. – Adir (de addere = ad + dare) significa “pôr ao pé. e agregar é aumentar o conjunto.. “creio firmemente na imortalidade da alma”.. mas provavelmente devemos isso. É preciso. Aditam-se razões às que já foram produzidas: adiciona-se alguma coisa a uma coisa dada.” (porque ajuntar. mas aquilo que outros nos afirmam”. parecendo. no entanto. ajuntar.. aqui. Deu-nos adido e adição. . aliás. 127 ACREDITAR. “ajuntamos laranjas. – Aditar diz. que se equivalem perfeitamente. notar que dizemos: aditar alguma coisa às provas feitas. “creio que ela não descerá jamais àquela miséria moral”. adaptar. – Adicionar. portanto. “ajuntar ao que estava feito. não – “eu me ajuntarei ou ajuntar-me-ei”. pois cada parte agregada conserva a sua individualidade. como parcela que vai aumentar... mas sem dúvida ninguém se animaria a dizer – “adição constitucional”.. portanto. “Creio em Deus”. Basta notar que se diz: – “juntamos os nossos esforços” e não – “ajuntamos. o esforço do sujeito que põe uma coisa junto de outra: o que não se dá em relação a juntar.. Exemplo: “Convença-se de que me juntarei ao sr. are) e todos designam a ação de acrescentar. de convicção segura e inabalável. agregam-se essas ou outras”. que a uma desfiguração de sentido que se explicaria talvez por uma vantagem do menor esforço com que pronunciamos crer em vez de acreditar.. É certo que dizemos – “ato adicional”.”. ajuntamos dinheiro” e não – “juntamos. e isso por uma injunção do nosso espírito. aditar e adir têm o mesmo radical (do. e como perfazer a soma”. – Confundem-se mui- to estes dois verbos.

ajudar. 129 ACUDIR.... além de ser quebradiço ou deteriorável. e amparo (ou ampara-se) ao que nada tem”. dá-se auxílio (ou auxilia-se) ao que já tem meios. – Bruns. protejam para que não caiam. Acudir dá ainda ideia de que a pessoa pela qual se grita deve fazer tudo pela nossa salvação. Mais vale quem Deus ajuda Do que quem muito madruga.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 89 Muita gente não crê em Deus. acolhe e abriga. e o mesmo aconteceu com o verbo ajudar relativamente a auxiliar. IX. que é latina (auxilium). A quem madruga Deus ajuda. os que precisam de amparo. e esta (ajuda) passou para o domínio do vulgo. – Acudir é “correr em socorro de alguém”. da Acad. – Proteger envolve ideia da superioridade de quem guarda ou ajuda. como ainda se vê em Camões. não pereçam. – O mesmo se pode dizer de quem me ajuda. amparar. de que os sustentem. e precisa de ter mais. O protegido não é sujeito que precise de socorro ou de amparo. Só se amparam aos desvalidos. necessita cuidados assíduos para conservar-se. abandonados. mas acredita em visões. Nada mais frágil que “a saúde”. valer. E a inversa é também admissível: só porque alguém nos socorre num grande embaraço. foi aquela (auxílio) admitida com certo ar de nobreza. não sucumbam. socorrer. Nem sempre quem acode socorre efetivamente. vem apenas completar o nosso esforço e a nossa capacidade de defesa. frágil. – Socorrer não implica a ideia da presença da pessoa. “segundo o aca- . quando gritamos. Manoel. Quem me auxilia apenas concorre para que eu vença. ou em Jesus. cujo socorro se pede. Aquele que nos grita: Acudi-me! – solicita ansiosamente a nossa assistência nalgum perigo em que se encontra. 80). não se segue necessariamente que nos haja acudido. “acro se diz do que. pois entende-se que nós. dá-se socorro (ou socorre-se) ao que não tem o suficiente. auxiliar. ou aumenta a minha força. que. a que se empregava era a portuguesa ajuda. Há metais acros. guardem. 128 ACRO. que disse sentenciosamente: Fraqueza é dar ajuda ao mais potente. defender. – Frágil aplica-se ao que.. sendo duro e pouco dúctil. isto é. espúrios. Dá-se ajuda (ou ajuda-se) a uma pessoa que está embaraçada com trabalho que não pode fazer. 37) a palavra auxílio. ou para que o faça mais prontamente. se quebra ao ser trabalhado. quebradiço. Escreve Roq. em lendas fantásticas e contos da carochinha. ou para que multiplique as próprias forças e se ponha ainda mais no caso de alcançar o que almeja. IV. Quem nos socorre. como se vê dos seguintes provérbios em que no uso ordinário se não pode substituir um pelo outro: Deus ajuda aos que trabalham. – Amparar supõe o desvalimento completo da pessoa que se ampara. era ignorada ou não usada até princípios do reinado de D. mas antes de auxílio. Depois que os poetas e escritores cultos foram alatinando a língua. no entanto. e o protetor dá-lhe um auxílio poderoso para que ele se revigore. O vidro é quebradiço. proteger. isto é – que tenha vindo solícito ao lugar em que perigamos. (Lus. forças etc. nos julgamos inteiramente perdidos. – Auxiliar diz propriamente “dar auxílio”. – Segundo dêmico Francisco Dias (Mem..” – Quebradiço é o que se quebra facilmente. isto é – aumentar a força de alguém que já não se julga fraco.. a minha capacidade de triunfar. ou mesmo num perigo. junto da pessoa que se deve socorrer. salvar.

. Pas. descobre. e nas demandas chama- -se autor ao que intenta ação contra o réu ou acusado. o delator satisfaz sua maldade acusando os crimes ou delitos contra as leis. que serão o seu corpo de delito. acudir. e defere secretamente o que ele crê ter visto. e que animam a calúnia com o interesse”. um judas infame. – Salvar “é pôr alguém livre ou a salvo de algum perigo. arguir. malsim.. O denunciante pode ser levado somente do zelo do bem público. embaraço. de assassínio. “O acusador – diz Alv. A acusação pode ser às vezes um ato bom. já para assegurar-se da verdade da denúncia. e pode fazê-lo cumprindo dever de cargo. um homem vendido. Mais extensamente.. acusador. mas o delator é uma personagem odiada. reclamando a devida punição”. Contudo. – Acusar. “Quem me valerá nesta contingência?” 130 ACUSAR. quer ainda amparando-o vigorosamente ou defendendo-o”. fundada e nobre. O malsim exerce o seu ofício em tudo que respeita aos contrabandos. ou suspeitas ao governo”. 131 ACUSAR.90 Rocha Pombo Quem nos defende é como quem se pusesse entre nós e o nosso inimigo e dos golpes deste nos guardasse. que se aproveita de um abraço para introduzir no bolso do que chama amigo papéis. – Malsinar é acusar como malsim. paga. e talvez a de algum vil interesse. – Segundo Roq. um homem corruto. ou exercendo direito . – Acusar é denunciar alguém como criminoso. para fazerem a perdição da outra. para que façam o que entenderem. deixando este encargo às partes interessadas. o delator obra por maldade. que aviltam neste mister uma parte dos cidadãos. por preço. quer protegendo-o. e não acusador. o denunciante nutre seu zelo fazendo conhecer às autoridades as ações e opiniões condenadas em política. amparar. nunca pelo bem público: procede com disfarce e ocultando-se. malsinar. toma-se à má parte. intentando uma ação criminal de roubo. – Delatar acrescenta à ideia de denunciar a de malevolência. “Valha-nos o céu nesta amargura”. aqui. que dá interpretações criminosas às coisas mais inocentes. criminar. quer acudindo-lhe e dando-lhe socorro oportuno e eficaz. delatar. desastre etc. que trafica às escondidas da honra e vida de seus semelhantes. defender “é ficar ao lado de alguém para impedir que outrem se aproxime hostilmente.. a palavra acusador é odiosa. incriminar. já para evitar ou remediar o mal que se denuncia. culpar. denunciar.. salvar. Nos tempos modernos o uso tem quase fixado o valor de cada uma destas palavras. sem apresentar as provas. o denunciante. isto é.) – isto é – que lhe acudisse. “denunciar é manifestar aos juízes um delito oculto. Man. – Delator vem do latim delactor: é um indivíduo que procura. um traidor que finge viver com os outros em termos de boa amizade para vir no conhecimento de seus segredos. denunciante.. como fazem os malsins. – Valer aqui é muito próximo de socorrer. é “atribuir a alguém falta ou crime. delator. etc. Quando a acusação é justa. quer auxiliando-lhe os esforços. e é designado pela frase de vil delator. outras (e são as mais comuns) é ato de malevolência. Os delatores formam a classe mais vil e infame: são a arma dos governos fracos e corrompidos. um homem indignado. ou mesmo para evitar ataques previstos ou repelir agressões”. e muitas vezes o que deseja fazer que se creia: o seu ofício é o de trair. – será um homem irritado. e por ofício. “Vendo-se já no último perigo recorreu a Deus que lhe valesse” (P. ou por interesse. Bern. Mas quem acusa articula fatos com que pretende dar provas do crime ou da falta por que acusa. o acusador acusa aberta e publicamente. in- culpar.

– Adágio não se confunde com dito. dito. e enunciando conceito menos vulgar. como o rifão. tudo que se tornou clássico. segundo – em ser o adágio sempre anônimo. 324). preceito. Diríamos: “Pode arguir-me de muita coisa. nem paremia ou máxima. axioma. apotegma. Segundo Roq. ou os provérbios de Salomão”: e aí não caberia nenhum outro dos vocábulos do grupo. anexim. pode mesmo culpar-me de imprudente. ditado. a máxima . paremia. dito. ou de parábola concisa”. “Poderá arguir-me de tudo. aforismo. brocardo. dizendo: “E daqui nasceu aquela paremia ou provérbio: que o céu era para Deus. dando normas ou noções em que se representa a experiência dos tempos. brocardo. anexim. menos de não ter sabido defender a inocência”. “dizer ou declarar alguém autor de um crime.” – Arguir é “acusar de falta. senhor. que incriminar. O anexim. pensamento. – Culpar é “atribuir culpa a alguém. ou o código não incrimina esta conduta. rifão – quase todos exprimem conceito exclusivamente moral. rifão ou anexim. sentença. máxima. paremia é palavra grega (paroimia) pouco usada em nossa língua.. exprobrar culpa como invectivando. pronunciá-lo por criminoso ou réu”. dar-lhe culpa. e de sentido ainda mais profundo. mas decerto não seria próprio designar nenhuma dessas frases por adágio. e mais vulgar que provérbio: propriamente é “a sentença. rifão. ditados ou anexins. mas apenas por indícios. frívola e sempre velada. – Criminar (criminari) é. que juiz há de puni-la?” – não seria permitido o emprego de criminar.. – Incriminar tem-se geralmente como sinônimo perfeito de criminar. princípio. “Gato ruivo do que usa disso cuida”. cré com cré – cá e lá más fadas há” – podem ser tidos como rifões. ou sentença vulgar. significa “reduzir a crime. a frase. – Sentença é um provérbio mais solene. Neste exemplo: “Se a lei. a sabedoria vulgar. quase sempre mais longo. – Inculpar é “ver como culpa um ato que talvez não o seja”. e como tal usou-a Vieira. parêmia. Adágio. dada em poucas palavras. repreender com acrimônia. sem formular propriamente acusação”. prolóquio. mais brilhante de forma. seco de forma. – Culpar e inculpar estão em caso análogo. ou os grandes princípios de ciência ou de arte. sentença.. – Parêmia pode ser comparada a provérbio: é menos usada que este. – Prolóquio é sentença menos grave e profunda. e que significa provérbio. – Todas estas palavras enunciam conceito. Note-se. São mais vizinhos de ditérios. tendo portanto um sentido translato que apenas corresponde à noção que se quer sugerir. trocadilhos. provérbio. breve e incisivo. graçolas. a moral vigente. em frase rápida. apodos e chufas que de adágio ou provérbio. cla- ra. conceito. ou que foi consagrado pela razão humana em todos os tempos. ou provérbio. mas inculpar-me assim este gesto. em termos precisos.. e a terra para os homens. Dizemos: “as sentenças. no entanto. 132 ADÁGIO. sugestiva. ditado. máxima. Distingue-se adágio de provérbio: primeiro – em dar o adágio noção simples e clara.. pois é uma sentença moral mais profunda. “lé com lé. delito.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 91 ou faculdade própria. não só rude.. e em ser o provérbio mais grave. e exprime “sentença sob uma certa forma de alegoria. e como que condensam. segundo Roq. fazendo censuras mais com veemência do que com razões”. enquanto que provérbio pode ter autor conhecido. mas quase sempre chula. considerar como crime um certo ato”: e nesta acepção é bem distinto do outro. provérbio. muito menos por sentença.. como o ditado têm uma forma. é levar muito longe e arriscar muito a sua argúcia de juiz. melhor do que criminar.” (IV. prolóquio. considerar alguém como culpado.

aproxima-se de axioma. nele pintavam os guerreiros suas letras e divisas. a mais conhecida de todas e a mais forte. – Pensamento e conceito são palavras de significação mais vaga. e deixou As que Ele para si na cruz tomou. os dardos. ou o ponto de vista que vai ser seguido pelo orador”. Além disso. Também os havia de metal.. e daqui veio chamar-se também escudo às armas de uma família ou de uma nação. Um prolóquio vale sempre por uma proposição. broquel. – Segundo Roq. o que já foi tão suficientemente demonstrado que dispensa mais demonstração”. “regra de conduta. e nisto distingue-se dos outros. de religião. o ditado é dos três o que mais se aproxima de adágio. significa escudo pequeno de madeira forrado de couro forte. que cobre a embraçadeira que está por dentro. um simples conceito vulgar. e que em poucas palavras dá um sábio conselho. e armas de arremesso. (Lus. e que serviam para cobrir o corpo. Broquel. Na qual vos deu por armas. pavês. como se vê daqueles versos de Camões: Vede-o no vosso escudo. ditado e anexim confundem-se: o dito quase sempre tem ares de pilhéria. – Apotegma é “juízo ou sentença. porque os primeiros foram de couro) e significa a arma defensiva oblonga ou oval. de arte. e designam apenas um juízo enunciado com intenção de exprimir uma verdade. Por isso. porque se fizeram logo de ferro e aço. “dito notável ou palavra memorável de algum personagem ilustre”. égide. pois esta é sempre uma noção resumida por grande autoridade moral. muito usadas antes da invenção da pólvora. no entanto. dando um conselho. rodela. de ciência. escudo. mas que se diferençavam na matéria ou na forma. ou no uso que das mesmas se fazia. profunda atribuída a uma alta autoridade”. golpes de espada. que provavelmente vem do bouclier francês e do buccula latino. – Princípio é mais do que preceito. pensamento é menos preciso – é “uma proposição de forma simples. que é também “enunciado aceito por todos como sendo de si mesmo evidente”. e em regra tem quase o valor da máxima. E é exatamente por isto que se distingue máxima de ditado: este é anônimo e popular: a máxima é menos comum e tem autor quase sempre conhecido e até indicado ao ser ela proferida. – Aforismo tem menos de científico e de preciso do que axioma: designa também. ou parte dele contra os botes de lança. – Dito. se impõe. dar uma noção. todas estas palavras designam “armas defensivas. enfiava-se no braço esquerdo pelas braçadeiras. Conceito é a síntese de uma noção a que se chegou pelo estudo ou pela reflexão. Este é o que se prescreve. precisa. quer tratando-se de ciência. mas eloquente. ou mesmo por um período todo. sentença jurídica ou moral criada por alguma grande autoridade”. e que anuncia o assunto que se vai desenvolver. 7). – Brocardo é “máxima que se popularizou. quer de arte. preceito ou noção expressa em breves termos”. que presente Vos amostra a vitória já passada. de ação ou de execução. no meio tem um embigo de metal ou diamante. uma verdade. a máxima é sempre moral: o ditado pode exprimir apenas um conselho. como diz Aul. pois o preceito pode ser de moral. com seu brocal. palavra comum à língua castelhana. I. – Escudo vem do latim scutus (do grego skútos “couro”.92 Rocha Pombo pela qual começa alguém um discurso ou um escrito. se dá como regra: princípio é “o que está consagrado pela razão vigente. ou de dever. 133 ADARGA. ou. – Preceito pode aproximar-se dos precedentes: é também uma norma ou regra de conduta. Pa- . ou qualquer coisa que interesse ou que seja útil”.

medrar. palavra igualmente comum à língua castelhana. “fazêla efetiva antes da época ou do dia em que deve adiantá-la”. œgis (do grego aigis.. I. adiantamos ou antecipamos alguma quantia à conta dele”.. escudo ou couraça de pele de cabra. florescer.. ADIANTAR-SE. e que vem do árabe addarca ou addara.. – “é a operação pela qual. “Nos colégios... – Adiantar-se e progredir podem confundir-se.... 136 Bruns.. prosperar. uma diferença subtil entre as duas expressões: adiantar refere-se ao ato. – Avantajar-se significa “levar vantagem a alguém.. desenvolver-se com presteza. em atividade vitoriosa: quem progride anda também para diante. ainda que impropriamente. cheia de serpentes.. obtemos a soma do gasto desse dia. O uso também confunde soma com total. Há. feito da pele da cabra Amalteia. as mensalidades pagam-se adiantadas.: “Consideram-se estas palavras como sinônimos perfeitos: a quem se prontificou a fazer-nos um trabalho por certo preço. entre mouros e africanos. – Soma é o número que se obtém ao praticar a adição..... Era arma antigamente usada em Espanha. mas entre estas duas frases: – “meus negócios não se adiantam”. e em cujo centro estava a cabeça de Gorgona ou Medusa. ajuntando um ou vários números a outro.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 93 rece corresponder ao clypeus dos latinos. – Quanto a estes verbos escreve Bruns.. – Égide é palavra latina. – Todos estes verbos dão ideia de “ir para diante no desenvolvimento próprio e natural”. diz ele: Por armas tem adargas e terçados . que cobria todo o corpo do soldado. “meus negócios não progridem” – há sempre uma diferença facilmente perceptível. de aix “cabra”). Quem se adianta marcha resoluto para a frente. – Pavês (do italiano pavese) era escudo grande e oblongo. que era escudo menor dos peões. Distinguem-se ainda estes dois verbos nestes exemplos: “o mal. Em dois lugares faz Camões menção desta arma defensiva. tornou soma e adição sinônimos perfeitos. antecipar ao tempo.. designa uma espécie de escudo pequeno e delgado. No sentido figurado quer dizer “defesa. não aumentam na proporção dos meus esforços..... proteção”. obtemos um número equivalente a todos.. avantajar-se. e uma abertura onde se metia o dedo polegar para o segurar. o pai de um aluno pode. O uso. a doença progride” (e não – adianta-se). no entanto. A primeira diz evidentemente que meus negócios não se encaminham à solução que eu desejo. e significa escudo oblongo de couro com duas embraçadeiras em que se enfiava o braço... e significa propriamente o escudo de Minerva ou Palas. a segunda exprime que os meus negócios não se desenvolvem.. escudo de couro. 47. obtemos o total do gasto dessa semana”. (Lus. mas nem por isso devem considerar-se como sinônimos perfeitos. e com a hastea perigosa. e que vem do italiano rotella. – Adição – diz as somas do gasto de cada um dos sete dias da semana. porém. vingar. “os dias daquele enfermo se adiantam” (e não – progridem). falando dos habitantes de Moçambique... Com a adarga. antecipar a mensalidade”. – Adarga é palavra comum à língua castelhana. total. Adicionando (ou reunindo) progredir. soma. 87). 135 ADIANTAR. vai seguro.. antecipar. Fazendo a adição das verbas despendidas num dia da semana. 134 ADIÇÃO. isto é... em Portugal. . – Total é o número equivalente a várias somas parciais. portanto. – Rodela. – Progredir é..

Paulo”. Partidista é quase o mesmo. esforça-se muito. – “A ideia fundamental do verbo medrar – diz Bruns. e por aquela estultícia vitoriosa de que se ufanam. “Tu te avantajarás a Pedro se fores esperto. parcial. grandes vidas. – Partidário é “membro de um partido. gerações.. Tem razão Bruns. “A tua reforma. que se deixou influenciar. iniciado. nem “sectário de Jesus ou de S. conseguir o seu fim. assecla. isto é. como florescem povos. faccionário.. desenvolver-se brilhantemente”. os interesses que aumentam. mesmo nos casos em que a cláusula correlata não está expressa. como vai feliz na vida. trabalha em excesso. “F. ter bom êxito. cidades. a causa ou a ideia. Vinga a flor. crescer na fortuna”. – é “o aumento. que se convenceu e aderiu ou se ligou a uma seita. ou de uma ideia”. seita. ou que se fez defensor de uma ideia”. “A causa da independência alcançou logo um grande número de adeptos”. sequaz. de uma ciência. o que é certo é que a empresa não deixa de prosperar”. a um partido. crescer não obstante algum entrave. “Aquele tipo não te avantaja em coisa alguma”. adepto esforçado de uma causa. “O novo credo. sectário (sectarista). está iniciado no ocultismo” – equivale a – “F. – Sectário diz propriamente “membro de uma seita. – Iniciado (ao contrário do que pensam alguns) parece que diz menos que adepto. quer em volume. as nossas esperanças. faccioso. pois o iniciado considera-se apenas “admitido a iniciação”. estabelecimentos. mas nem por isso se pode dizer que ele prospere. quer em quantidade. Além disso envolve também ideia de heterodoxia ou dissidência. 137 ADEPTO. O que prospera não só se desenvolve e aumenta. é de supor que fica subentendido. “F.”. Dizemos: “sectário do calvinismo”. ser feliz”. pois. e sugere ideia de obstinação e fanatismo.”. distinguindo-se este do primeiro em exprimir melhor o empenho. Florescem letras e artes. como ainda florescem países.. filho – disse o deputado ao colega sonhador – não encontrará adeptos”. partidista. como vingam os nossos planos. “sectário de Lutero”. facção. etc. – Vingar aqui (vincere) é próximo de medrar: significa “tomar vitalidade. de uma escola filosófica. – Prosperar é “ir adiante. É. de uma doutrina: diz mais neófito propriamente do que adepto. as searas que abundam. ganha muito. O partidário pode pertencer apenas a .. porquanto. “As rendas se lhe aumentam sempre. ade- rente. as noções. ou o complemento terminativo não está claro. força ou poder”. nunca: “sectário do Cristianismo”. a entrar nos mistérios de um culto. – Adepto é “o que foi catequizado. ou o novo partido já conta bom número de iniciados”. partido. “Apesar de todos os contraventos. mas os seus negócios não prosperam”. Medram o menino que cresce. um verbo de predicação sempre relativa. “Eles se nos avantajam pelo ar desenvolto. prosperar com esplendor. – Florescer é “ir prosperamente em tudo. a população que se multiplica”. ou mesmo de um partido”. habilitado a receber os princípios. a paixão com que se toma o partido.”. pois dizemos: “Os iniciados da religião bramânica”. começou a estudar e a conhecer o ocultismo”. e iniciado designa mais um estado do que uma condição: conquanto isto não signifique de forma absoluta a impropriedade de iniciado como puro substantivo. prosperar..94 Rocha Pombo fazer mais ou melhor do que outrem”.. partidário. Quando eu digo: “Aquele rapaz tem-se avantajado muito nos seus estudos” – quero exprimir que o rapaz de quem se trata tem feito muito mais do que outros. quando observa que adepto designa um modo de ser. parcialidade. deixando supor que o sectário é sempre alguém que se afastou da sua antiga religião ou do seu partido. ou do que o comum dos estudantes.

(Aliás. A facção só se faz partido quando assume o caráter e a força de coletividade legítima. decoração. vãs. a uma causa que até aí havia hostilizado ou combatido. apaixona-se pela sua causa. ou se atavia. na expressão – é comum a todos os verbos deste grupo. isto é. entre eles poderiam confundir-se ou ser empregados indistintamente. “pertencente a facção”. portanto. algum partido ou seita. perturbador. da cegueira com que o assecla acompanha alguém ou alguma coisa. Raros. de adornos de oiro ou pedraria. insignificantes: e o segundo mais ainda que o primeiro. – Enfeitar e ataviar aproximam-se. ou mais correto no gosto. mas o partidista exalta-se na defesa do seu partido. e emprega-se frequentemente em casos como o exemplo acima. 138 ADEREÇAR. melhor do que assecla. mas decerto ninguém dirá que uma senhora se adereça de fitas. 13 Também entre sectário e sectarista. é “o indivíduo que se liga a outro indivíduo”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 um partido. adorno. decorar. enfeite. ataviar. seita diz dissidência. e sim que se enfeita ou se atavia com as penas do pavão. faccioso vale por “viciado de espírito de facção. separação. enfeitar. aprimorar. – Aderente se diz daquele que aderiu. “adornar de adereços”. engalanar. embelecer. a pessoa que se adereça quer brilhar. ornar. confunde-se com assecla: apenas sequaz envolve. pela ideia. designando este o sectário apaixonado de forte espírito de seita. mais vistoso. a que se atavia exagera ou dispõe sem gosto os seus adornos ou enfeites. – Diferença análoga pode notar-se entre faccionário e faccioso13: o primeiro diz apenas “membro de facção”. Ninguém diria que. ou sustentam a mesma causa”. – Sequaz. Além disso. ideia de parcialidade ou partidismo pessoal. aqui. aformosear. a uma ideia. o grupo dirigido por um chefe”. portanto. do que ideia de incorporação. que sugerem. a que se enfeita quer parecer mais bela do que é. adornar. atavio. Sugere. conquanto não pareça muito próprio. desligamento da doutrina que se professava. por exemplo. – Assecla (como se vê da própria formação: ad + sequi) é “o que segue alguém. afeito a maquinações”. alindar. isto é. a gralha da fábula se adorna. até pela etimologia (sequi). e parcialidade é o “bando. A liga ou aliança de algumas parcialidades pode formar um grande partido. esforça-se pela vitória. o verbo enfeitar é o mais genérico e vulgar. trabalhando francamente por uma causa. o que vai como se fosse na comitiva ou no séquito de alguém”. adereço. E como já vimos. sedicioso. – Adornar e . pois atavio é adorno mais falso que enfeite. Uma senhora se adereça. A facção distingue-se do partido em significar “grupo ou ajuntamento hostil e secreto contra outro grupo. de joias. no aspeto. – A ideia de tornar belo. desordeiro. ou se enfeita. professar as ideias ou opiniões desse partido. ou deseja disfarçar algum defeito. or- namentar. Além disso. que deu a sua sanção. e por pouco se não diz sinônimo do nosso brasileirismo capanga. Um só partido pode dividir-se em várias parcialidades. aderente sugere menos ideia de convicção ou de identidade de opiniões entre a pessoa que adere e a causa ou partido a que se faz adesão. da causa que se servia. no entanto. gala. ou que se atavia de brilhantes. ou que se enfeita de joias. de aliança. partidos. ou mesmo contra um homem”. enquanto que partido designa apenas “reunião ou conjunto de indivíduos que defendem as mesmas opiniões. – Parcial.) – Adereçar diz. de liga. ornato. de “adornar de coisas ligeiras. primor. embelezar. ideia de subserviência. e mostra-se por isso mais fútil ainda que a pessoa que se enfeita. ornamento. ou contra instituições. o seu apoio a um partido.

primor “o alto grau de perfeição a que se eleva aquilo que se aprimora. a capacidade. entre ornar e ornamentar. nas quatro operações aritméticas. num artefato. ou no salto. adestrar a memória. correto. próprio do edifício ou da coisa de que se trata. exercitar. – Aprimorar é dar ao que é já belo. aliás. e mais talvez de decoração. ou mesmo em alguma aptidão especial – no desenho. bastará um exemplo para deixar bem clara a distinção que se sente entre estes dois verbos: “A cidade se embelece de dia em dia. de lavor artístico”. ou mesmo os nossos braços. e adorno tanto se aplica a pessoas como a coisas. pois esta forma significa não – “fazer belo simplesmente” (embelezar). e que só se alindam coisas muito mimosas. ou na economia política”. alegria ruidosa – tudo que se encerra em gala. seriam perfeitamente lídimas estas outras formas: adestrar-se nas lides parlamentares. – Embelezar e embelecer. num edifício. – Exercitar é mais genérico. ágil” – portanto.. à custa de esforço. ou na ciência do direito. Aformosear e alindar estão em caso correspondente. uma expressão primorosa. é trabalho de acabamento. afinal. Aproxima-se por isso de ornato. linda criança” (e não – “formoso ramilhete”. na datilografia. ensinar. nem “formosa criança”: mesmo porque – “formosa criança” já seria outra coisa). de um palácio. Pode-se também adestrar num certo sentido: na corrida.96 Rocha Pombo ornar diferençam-se tão bem como adorno e ornato. Ninguém seria capaz de dizer: “vou adestrar-me na filosofia. ou pelo menos de rigorosa propriedade dizer que a cidade se embeleza). e designa toda e qualquer ação de “aumentar as aptidões.” (não seria próprio. deixa supor que os adornos de que se decora têm um fim especial. Lindo exprime “belo gentil. gracioso. Aprimora-se a educação. Também ornato deve confrontar-se com ornamento: este é uma decoração mais brilhante. e no entanto. ingênuo. de uma câmara só se faz excepcionalmente. e excedem naturalmente ao simples ornato. mas este sugere ideia de brilho. a . ou na marcha. no tiro ao alvo. mas é claro que referindo-nos a um exercício que seja mais mecânico do que de raciocínio. e diz “tudo que aumenta a beleza”. taful”. portanto. loução. – Tanto se adestra um animal como um homem.” 139 ADESTRAR. Pode-se. na dialética. na escrita. ou na poesia.” (não se diria que vamos embelecer. etc. as nossas mãos. portanto. E isso porque adestrar diz propriamente “fazer-se muito hábil. nalgum ofício ou função. e para algum ato ou função extraordinária e de grande solenidade. A ornamentação de um templo. Dizemos que se aformoseia o estilo.. A mesma diferença há. ou na matemática: salvo se nos referimos apenas à técnica de algum instrumento. mas – “tornar belo cada vez mais” (embelecer). mesmo o espírito. nas manobras militares. por exemplo.. – De ornamentar aproxima-se engalanar. instruir. Esta. tornar-se perito. de algum processo. na pugna.. aparato de festa. a alma. mesmo numa produção literária. desembaraçar. fazer-nos mais destro. o caráter. como se aprimora uma obra de arte. Ornato aplica-se mais a coisas. porém. ou uma virtude. e no entanto. pelo exercício. em que é possível. se se aceita a definição dos lexicógrafos.. etc. numa função que não seja puramente espiritual. de mais imponência.. rápido. – Aformosear e alindar apresentam a mesma diferença que se reconhece entre formoso e lindo. infantis. elegante – um alto grau. Dizemos: “lindo ramilhete. ou políticas – em tudo. etc. e designa “o que. mais sumptuosa e augusta. ou de alguma operação. etc. são sinônimos perfeitos. uma excelência suprema. Sendo. Ainda outro: “Para a festa vamos embelezar toda a praça. Mas note-se que não dizemos: adestrar na música.

Nestes exemplos: “A língua se amplia adaptando de outras os termos novos de . delongar. envolve mais ideia do processo. demorar para ir ganhando tempo”. torná-lo mais largo. diligente. instrui-se a mocidade. – Instruir é “preparar alguém nalguma arte ou ciência. para mais tarde”. conquanto não tenha a força deste. e ensina-se um papagaio a falar. fazer parar. retardar de propósito”. exprimo nada menos do que exprimiria se dissesse: “instruamos a mocidade”. isto é. prorrogar. – Protelar = “demorar. 140 ADIAR. – A um papagaio ensina-se. dilação. Prorroga-se uma licença. trabalhos. protelar. “O tribunal anda procrastinando a sentença”.. por exemplo. do que propriamente ideia da ação de quem instrui. esperto. alongar. profissão”. – Ampliar confunde-se com dilatar: aquele sugere. ou uma grande festa para o ano próximo. mas podendo ser também por mero capricho. etc. – Desembaraçar pode aproximar-se do primeiro verbo deste grupo: diz precisamente “fazer expedito. um negócio. num cargo. ou para impedir que da coisa que se protela alguém se aproveite se não for protelada. etc. reformas. ou a um cão. Exercitamo-nos numa profissão. ampliar. isto é – afasta-se o termo desse prazo.. para enganar. do vencimento de uma letra. demo- rar. sem marcar prazo fixo. a época de pagamento de um imposto. malévolo quase sempre. num trabalho. mister. segundo os lexicógrafos. estirar. que ensinar. ou por muito tempo. do trabalho. no entanto. demora-se um processo.. formando-lhe. mais espaçoso”. Quando digo: “ensinemos a mocidade”. da função de transmitir o que deve ser aprendido. equivale a instruir.. entravar ou reter por um certo tempo”. Observase. mesmo neste caso. Apraza-se uma negociação. uma entrevista. – Todos estes verbos sugerem ideia de espaçamento. procrastinar. ordinariamente por desídia..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 97 força. Retarda-se uma solução. “o governo procrastina a solução de um negócio de tal monta”. “Nós insistimos por que se faça a coisa com urgência”: e ele a contemporizar muito impassível”. – Diferir é “deixar para depois. mas não se instrui um macaco ou um papagaio. dilatar. Evidentemente não seria próprio dizer que se adiou uma comemoração. Mas retardar quer dizer propriamente – “deixar para mais tarde”.) Adiam-se negócios. no entanto. que adiar é “transferir por dias”. um despacho. numa virtude. infundir-lhe doutrinas. – Demorar confronta-se com retardar: ambos dizem – “fazer que se espere. transferir. por meio do exercício”. como se ensina alguma coisa a um cavalo. – Dilatar é “ampliar um prazo que se fixara. a função ou o processo que a isso se destine. hábil nalgum ofício. comunicar-lhe. e neste caso. aprazar. – Remanchar = “demorar com certa manha”. como construindo-lhe o espírito”. Prorroga-se uma sessão do Congresso. lépido. espaçar. não dar no tempo oportuno”. contemporizar. noções ou princípios.. repetindo muitas vezes. resoluções. prolongar.. Instruise um batalhão. retardar. Notemos. com algum fim. – Prorrogar é “dilatar um prazo que se venceu”. Pode-se usar também este verbo ensinar como só transitivo. diferir. uma ideia de extensividade que se não encontra em dilatar. Difere-se uma resolução. no entanto. remanchar. – Transferir diz a mesma coisa. – Procrastinar é “remeter continuamente para o dia seguinte o que se deve fazer”. – Aprazar é “assinar um tempo certo (prazo) para alguma coisa”. (Aul. Dilata-se o tempo que se tinha para fazer alguma coisa. – Adiar é “deixar para outro dia”. o vigor. subentendendo o complemento indireto da predicação. pois quem instrui opera sobre o espírito do que é instruído. e demorar exprime – “não mover. – Contemporizar é “entreter.

ou resistência. como se dilata distendendo-se. – Alongar. procrastina-se prometendo sempre dá-la “amanhã” e não dando nunca. contemporizar. e sim – “vou dilatar. consentimento”. demorar: significa propriamente – “deixar para depois. – Estirar e espaçar significam. e podia ainda alongar-se essa rua prolongando-a. tornar maior um interstício. Delongar confronta-se com retardar. Espaçar enuncia. sem embargo. procrastinar. tornar mais vasto. e assim enchendo tempo. malgrado. quer dizer “de má vontade. esta locução oposição ou resistência de pessoa estranha. pelo menos não teria a mesma propriedade.. 141 A DESPEITO. mais ou menos forte. mais aberto. Mas: demora-se uma solução quando não se cuida de dá-la. e delonga-se adiando-a indefinidamente. mágoa com isso que se faz. mas alonga-se dando-lhe mais extensão. vinda das pessoas ou das coisas. Também não se compreende como se alongaria uma cabeça humana. mas em cada uma delas há uma relação particular em que consiste sua diferença”. ou que tenhais . Ninguém diria. que vencemos. é claro que malgrado. se deixa para depois. ou numa certa direção e até um dado limite. para outra ocasião”.. indica. salvo se se lhes quer mesmo mudar a forma. e significa “contra sua vontade”. não obs- tante. uma moeda.. “convém ampliar a todas as classes do curso primário aquela medida”. isto é. que só tenham uma dimensão característica. que se alonga uma esfera. ou entre atos que se repetem. aqui. “vou ampliar a minha oficina com mais uma secção de roupas”. em que não só há desgosto senão também sentimento. ou por alguma conveniência ou cálculo. retarda-se a dita solução deixando-a para mais tarde. embora. I. – Apesar indica mais forte oposição. difere-se quando. como se reconhece em ampliar. ou de compreensão. (Camões. por mais que. sem dar ideia de limite. portanto. neste outro exemplo: “. 2) – não caberia o verbo ampliando. Uma rua que se prolongou até uma praça por isso mesmo alongou-se. ou um quadrado perfeito.. com desgosto ou desagrado. ainda que. prolongar e delongar apresentam entre si as diferenças marcadas pelos respetivos prefixos. isto é – “ainda que vos pese. apesar. e de outro lado até uma outra rua. posto que. “Apesar vosso levarei a minha adiante”. pois este verbo é que significa “estender. – aí não caberia decerto o verbo dilatar. ou de nossa mesma vontade. uma rua. por desídia. Uma serpente contrai-se e dilata-se: e tanto se dilata engrossando. mas ninguém dirá que uma serpente se amplia quando se distende. sem sugerir noção de proporções. isto é. prolonga-se estendendo-a a começar de um dos extremos. e nem o mesmo valor. de mau grado. e sem marcar a ideia de fazer aumentar em todas as dimensões. Prolongar é “estender para diante uma coisa longa”. fazer mais longo. e naturalmente só se diz de coisas que sejam longas. etc. Do mesmo modo. Malgrado seu é o mesmo que “a mal de seu grado”. Prolonga-se e também se alonga uma linha. – Significando a palavra grado “vontade. conquanto. diferir. portanto. a qual não é eficaz para impedir a ação. ainda. de uma parte até à praça. um prazo. as memórias gloriosas daqueles reis que foram dilatando a Fé... – Segundo Roq. bem que. o Império. “Submeto-me de malgrado” quer dizer “contra minha vontade.98 Rocha Pombo que precisa”. e contra a qual obramos”. Também não se diria: “vou ampliar no mundo a vossa fama”. “todas estas locuções adverbiais exprimem uma oposição. contemporiza-se quanto à semelhante solução falando em dá-la sem fazê-lo. e dificultando-a sempre. Alongar é “fazer mais extenso ou comprido”. com desgosto meu”.. a ideia de fazer maior a distância entre diversas coisas.

queremos predizer o futuro. ou admitido que seja assim”. agoiro. em despeito do juramento.. “Apesar meu. porque se emprega também nos casos em que se trata de uma oposição puramente condicional ou possível.. pressagiar. hoje é “conjeturar por certos sinais ou pressentimentos sobre o futuro. prognosticar. 142 ADIVINHAR. – isto é – em desprezo das leis. profetizar. “Sem embargo das queixas dos povos o mau príncipe prossegue em suas opressões”. gestu. etc. Confirma-se mais nossa asserção por outro lugar do mesmo Vieira. “Por mais que me hostilizem. que significava antigamente “predizer o futuro pelo canto. “Faz calor não obstante ter chovido”. predição. prophetizo (de pró “antes”. e por extensão. “Conquanto este seja mais inteligente. não obstante andar doente”. – Agoirar é o verbo latino auguro ou auguror. sem embargo dos insensatos motejos dos ímpios”. e tem a significação restrita de .” – Vindo despeito de despectus “desprezo”. Catarina. “Não deixarei de protestar ainda que me matem”. e exprime “por mais que assim pareça ou que seja de fato. e significa literalmente “dizer uma coisa antes que aconteça.”. com a diferença que é termo bíblico e teológico. e neste sentido se usa hoje quando.. e phemi “digo”) e vale o mesmo que dizer antes ou predizer. “Amanhã hei de ir ao campo ainda que chova”.. e a despeito do imperador”. Isto pertence aos outros. – Adivinhar.. agoirar. ou sem embargo. isto é – “com pesar. vel pastu futura divino). – Conquanto enuncia oposição ainda menor do que sem embargo. – Ainda que tem mais extensão que as duas antecedentes. – Profetizar é verbo grego. era entre os pagãos “predizer o futuro por uma espécie de inspiração que eles supunham divina”. diz: “A constância firme até à morte com que defenderam a mesma verdade apesar. beijo a mão que desejara ver cortada”. hei de vencer”. A despeito das leis.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 99 pesar” farei o que intento. por certos incidentes insignificantes. e mais fácil de vencer: exclui o embaraço ou impedimento que pode delas resultar. de onde veio divinatio. a que chamamos agoiros. vaticínio. presságio. sem declarar por que modo se veio a sabê-la nem dar a conhecer o grau de autoridade que merece quem a prediz”. pelo despeito com que pisa igualmente os palácios dos reis e as cabanas dos pastores”. vaticinar. tem mais energia e aumenta de força por ajuntar à ideia de oposição ou resistência o desprezo com que se vence. onde.” – Por mais que exclui toda dúvida e indica resolução firme. – “O último destes vocábulos – escreve Roq. em latim divino. É mais forte que ainda que. “Saio de casa. profecia. o gesto.. “Digam embora que eu fugi”. o pasto das aves” (propriè est ex avium cantu. – Posto que = “dado mesmo. “O homem virtuoso observa pontualmente os preceitos de sua religião. resistência. – Bem que = “ainda assim. e às vezes acertar com o que há de acontecer”.. com mágoa beijo a mão. é claro que a locução a despeito. que não cede a oposições. “conjeturar de qualquer modo”.. mesmo que”. prognóstico. Bem se autoriza esta inteligência da palavra despeito com o seguinte mui elegante lugar de Vieira: “Tem-se acreditado a morte com o vulgo de muito igual. etc. ou dificuldade absoluta. aquele aprende mais porque é mais aplicado. falando dos cinquenta sábios que se renderam à doutrina de S. nos quais não têm seu uso próprio as locuções não obstante. – Não obstante exclui simplesmente uma oposição. do próprio dever. – Embora indica pouca atenção ao embaraço ou à contrariedade. – Sem embargo indica uma resistência menor de coisas ou circunstâncias. seus sinônimos. predizer. – é o gênero a que os outros pertencem como espécies”. adivinhação. ou em despeito. – Predizer é o verbo latino predico.

e sagio “penetro. mágico. ou profetizar cantando. por meio de discurso certo ou conjetural. e que.. tendo bem examinado o doente. os prognósticos dos políticos e estadistas. aquele . 3). – Sendo certo que a adivinhação. – As predições que faziam os vates chamavam-se vaticínios. e supersticiosa. 1. sinto”) e significa “pressentir.. etc. divino’) é “– diz Bourguig. os astrônomos. e feito o diagnóstico. astrólogo. 7). e somente é um sinal que indica ou anuncia coisa futura. o que sucedeu em Évora no tempo de El-Rei d. é ilusória. – “O adivinho (do latim ‘divinus. vate. de vates. quiromante. – Os astrólogos faziam inumeráveis prognósticos acerca de acontecimentos futuros. segundo o poeta. II. De Divin. prognosticam os eclipses. feiticeiro.. – Pressagiar é verbo latino. fundados na suposta influência dos astros. Vieira tinha a simplicidade ou mania de apontar como causas de grandes desgraças e calamidades. chamavam-se agoiros (angurium. “predizer. –” propriamente falando. em latim vaticinor. 31) Nescio quid profecto mihi animus prœsagit mali (Ter. IV.100 Rocha Pombo anunciar as coisas futuras em virtude do espírito de profecia. como disse Camões: Que o coração presago nunca mente. e às vezes nascida de um pressentimento instintivo que não engana. e daquele estro ou furor que estimula o poeta quando estende as vistas sobre o futuro. id est futura ante sentire (Cic. Extensivamente aplica-se depois a qualquer sucesso ou sinal indiferente de que a superstição se valia para ler no futuro. a que Scaligero dá por origem o grego phátes “falador”. Heaut. no mesmo sentido em que o usaram Cícero e Terêncio: Is igitur qui ante sagit quam ablata res est dicitur prœsagire. e assim mesmo o anúncio que destas coisas faz o profeta. 143 ADIVINHO. I. das aves. De tais sucessos não se deve tomar nem bom nem mau agoiro. por uma espécie de tino interior de que se não sabe dar razão. e gignosko “sei. serve particularmente hoje esta palavra para indicar um enigma que se propõe a alguém para o decifrar. – Todas estas predições provêm do homem: não assim o presságio. “mentiroso” (fatuos primum vates vocatos esse apud omnes satis constat. – Prognosticar é o verbo grego progignosko (de pró “antes”. era predizer. guiados por mais seguras regras. vel avigarrium. mandin- gueiro. etc. Quando as predições se fundavam no canto. id est avigerium. fundados nas analogias e probabilidades que lhes ministra a história. no voo. e enfim. forma mui facilmente o seu prognóstico acerca da crise e do termo da doença. o qual se não pode chamar uma predição. profeta. os eclipses. em linguagem técnica. o presságio é uma conjetura legítima e razoável. da natureza dos objetos sobre que se faz o prognóstico”. porque eram acompanhadas de certo canto poético. pelo qual se prediz alguma coisa futura. O médico. Deste gênero são os sinais de que fala Virgílio no livro I das Geórgicas. raramente falham. ter pressentimento. haríolo. prœsagio (de prae “antes”. que ainda o p. bruxo. – Vaticinar.. precipitada. ou que os homens têm como tal. e assim se podem chamar ainda hoje aquelas conjeturas que os políticos for- mam sobre a sorte futura das nações. (Lus. – O dom sobrenatural de conhecer as coisas futuras chama-se profecia. – O agoiro é uma conjetura fútil. porque nenhuma conexão têm com o que há de acontecer. – Tudo o que se prediz antes de acontecer é predição. necromante. como a entendiam os antigos. João I e que o nosso Camões cita como um presságio daquele feliz reinado dizendo: Ser isto ordenação dos ceus divina Por sinais muito claros se mostrou Quando em Evora a voz de uma menina Ante tempo falando o nomeou. à phates). avium garritus). pressagiaram a morte de Cesar. conheço”) e significa.

e a quem se atribuía o dom de predizer o futuro. e que lhe permite executar livremente toda sorte de prodígios. mas ainda o poder sobrenatural de praticar ações maravilhosas. e reservava-se para os profetas exclusivamente a inspiração divina. .. – Astrólogo era o sábio versado no segredo dos astros e conhecedor da sua suposta influência nos acontecimentos humanos.. As ciganas são quiromantes. e no sentido figurado emprega-se sempre para designar um personagem que faz coisas agradáveis e maravilhosas.. ou mesmo à sua sagacidade natural”. – O necromante (do grego nekrós “morto” e manteia “adivinhação”) é “um mágico que evoca os mortos. cuja visão genial alcança o futuro. ou a bruxa é. superiores ao poder humano. Este parece termo introduzido pelos africanos. – Vate era o que fazia vaticínios. os acontecimentos que prevê: aquele que nos ameaçou de tais desgraças foi verdadeiro profeta. isto é.. praticada ainda hoje em alguns lugares do Brasil. pois a Itália foi na Idade Média fecunda em homens dados a toda espécie de ciências ocultas. – Segundo Bruns. etc. parecendo ser de importação italiana. Entre os pagãos. – O quiromante (do grego kheir “mão”. operar metamorfoses. muito destro. no entanto. quer se lha atribua ao estudo das ciências ocultas. ou prevendo facilmente as consequências dos acontecimentos. e manteia “adivinhação”) é propriamente o que prediz o futuro das pessoas pela inspeção das linhas da mão.. o que profetizava cantando. – Haríolo era o charlatão que dizia “a sina mediante uma espórtula”. um homem que se julgava inspirado de Deus. a pessoa que tem pacto com o diabo para fazer malefícios. ou cuja arte se reduz a evocar os mortos. como simples feiticeiros ou mágicos. Esta segunda acepção conserva-se no sentido figurado para designar aquele que anuncia. na maior parte das quais era indispensável o lume para brucciare (“queimar”) as plantas e ingredientes auxiliares das adivinhações em que o agente principal era o próprio diabo (il brucciato. o presente e o futuro. – O mágico. dispor dos espíritos e dos gênios. pois. O bruxo. Mandinga é a feitiçaria grosseira dos negros. – O profeta (do grego pró “antes”. o feiticeiro e o necromante possuem. ou para os debelar. e mais ainda que tudo isso. e phemi “digo”) era. entre os judeus e os cristãos. e muitas vezes também em descobrir e revelar o futuro. bruxo é palavra de etimologia muito duvidosa. conhecimento que lhe submete todas as forças da natureza. e hoje reserva-se o vocábulo para designar o grande poeta. do inferno e emprega-o sobretudo em fazer mal. para saber deles o futuro ou as coisas ocultas aos vivos e que os espíritos podem revelar”. – Mandingueiro = “que faz ou usa mandingas”. não emana da divindade. eram tidos. A faculdade de conhecer que possui o adivinho estende-se sobre todas as coisas. transportar-se para onde quiser. consideravam-se os adivinhos como homens inspirados do Céu. É este último sentido que o vocábulo conserva geralmente no figurado: designa então um homem muito hábil. – O feiticeiro (de feitiço “encantamento”) em francês sorcier (de sort “destino”) é aquele que tira sortes: recebe seu poder do demônio. com mais ou menos certeza ou probabilidade. como ainda hoje se lhe chama nas aldeias da Itália meridional). muito sagaz. não somente o dom de conhecer coisas ocultas. com efeito. O do mágico (de magia. e compreende o passado. Toma-se não raramente à má parte esta palavra. semelhante dom. ciência dos magos) provém de conhecimento das ciências ocultas. penetrando subtilmente nos pensamentos dos outros. quer se lhe atribua a sapiência a um dom da Divindade. em causar dano aos homens ou aos animais. ao contrário.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 101 que se julga dotado de um poder divino para descobrir e conhecer o que está oculto aos outros homens.

Se tiramos o adjetivo. e aquele só se aplica em referência a países. dá vivacidade e energia ao discurso: é útil e conveniente. o uso mais particular que se dá a cada um deles – adjetivo é termo da gramática e da lógica. Luiz: “Na língua grega. conveniente para vestir. Neste sentido genérico. próximo. epíteto diz o mesmo que na latina diz adjetivo: quer um. mais animada a ideia. contíguo. menos distante”. chegado confrontam-se. A casa ou a aldeia próxima. – epíteto é termo da eloquência e da poesia. Ninguém diria que. paragens não têm fim preciso ou limite certo). – Confim (ou confine) e confinante dizem propriamente – “que tem o mesmo fim. imediato. regiões. – Unido quer dizer “tão junto (um objeto. ou fronteiros. e se a extensão não é certa. zonas confins (não – confinantes. – Sobre estes dois vocábulos lê-se em fr. contíguo. por exemplo. mais pitoresca. regiões. quer outro significa ‘vocábulo aposto. limítrofe. Marca-se assim perfeitamente a diferença entre confim e confinante. – Imediato.. sem que medeie coisa igual entre uma e outra”. – Próximo diz – “mais chegado. epíteto. propriedades rurais (todo território de extensão determinada) podem ser limítrofes. Mas. nem confinantes. tratando-se de duas coisas. fronteiro. porém.. Países. a próxima semana. sem energia. que jaz perto”. unido. ou unidos. não dando apenas a mesma ideia de ligação perfeita que se inclui neste último. Aproximam-se de fronteiro. O adjetivo completa ideia do nome e o sentido da proposição: é necessário. Paragens. – Adjacente quer dizer – “que está nas imediações. Nesta frase: . É mais ainda que contíguo. chegado. – Chegado diz menos que pegado: significa “muito próximo”. ou se os limites não são fixos e precisos. confinante. províncias. ou uma superfície da outra) que não fique espaço nenhum entre a coisa que está junta e aquela a que se junta”. Limítrofe é o mais próximo de contíguo. O espírito justo emprega o adjetivo mais próprio: a imaginação brilhante emprega o epíteto mais expressivo. distritos. S. pegado. quer de tempo. confim. junto. pode-se dizer que os dois coincidem exatamente um com o outro. mas este é mais extenso. unido. pois que zonas. – Pegado é quase o mesmo que unido. limítrofe. contíguas são extensões (ou coisas) que se tocam (con=cum+ tago. ou contíguos. As primeiras duas artes consideram o adjetivo como exprimindo uma qualidade do substantivo. pegado. O adjetivo acaba a imagem do objeto: o epíteto dá-lhe colorido. a proposição muda de termos: se tiramos o epíteto a proposição fica sem ornato. sem graça. As outras duas consideram o epíteto como exprimindo uma qualidade do substantivo. forma arcaica de tango. a mesma linha divisória”. é “a que se segue à primeira. vizinhos: Não se diria: paragens limítrofes. O epíteto faz mais viva. ere “tocar”). confins. e pôr-lhe a ideia vivamente em destaque. necessária para modificar ou determinar a sua ideia. vizinho. É claro que a coisa imediata pode não estar unida à coisa precedente. e quer se trate de espaço. mais do que próximo. – Junto é o que fica ao lado. ou confinantes. – Imediata. Considerando. a casa contígua à minha é desta limítrofe. os termos próprios serão adjacentes. ornar. e fronteiras são extensões (ou coisas) que ficam ou que estão uma defronte à outra: não é necessário que estejam contíguas ou unidas. – Vizinho é o que se acha “mais por perto de nós”. ou ajuntado ao substantivo para modificar-lhe a significação’. o próximo verão. pois só podem ser confinantes ou limítrofes territórios que tenham fim certo e preciso (limite) e cujos limites se encontrem. 145 ADJETIVO. ou em geral a territórios.102 Rocha Pombo 144 ADJACENTE.

– Admiração é “o forte movimento de alma que em nós excita alguma coisa extraordinária.). e admiração de seus doutores. que fica junto de uma repartição. admirado.. – Estes dois vocábulos Exorcizar (ou. enquanto que adido se diz do funcionário. arrebatamento. surpresa. espantado. Mas vejamos. 147 ADJURAR. expulsá-lo com grande clamor. – Esconjurar não é apenas uma outra forma de conjurar. o sujeito muda. ficou admirado. susto e assombro confundem-se frequentemente. e na maioria dos casos sem muita razão. como dizem alguns autores: é “conjurar imprecando. etc. conjurar. em plena Câmara. assustado.” – só uma distinção muito subtil é que poderia dar uma preferência formal por um dos três vocábulos. enlevado. Tirado esse adjetivo. proferiu aqueles horrores!. e completa o sujeito da proposição. e adido de embaixada. assombro. Dizemos: adjunto do promotor público. etc. surpreendido (surpreso). ordenar em nome do próprio Deus. etc. exorcizar (ou exorcismar). Fernando. como se cria nos velhos tempos” – diz Bourguig. designam pessoas (autoridades. quer para auxiliá-las. induzir energicamente. – Empregam-se todos estes verbos em sentido figurado. entusiasmado (entusiasta). professor. esconjurar. adjunto do lente de geografia. Mas adjunto se supõe sempre junto de uma outra pessoa (juiz. funcionários) que têm funções junto de outras autoridades. assombrado. entusiasmo. arrebatado.. como se vê deste exemplo de Vieira: “D. por exemplo: “Qual não foi o meu espanto (ou o meu susto. pasmo. pasmado. maravilhado. quer para substituí-las. exorcismar) é “fazer as adjurações... transportado.. em nome de Deus. da pátria. transporte. ou o meu assombro) quando o moço. e com significação análoga à que lhes fica assinalada respetivamente. maldizendo”.. e a proposição é falsa. ou está admirado de ver a justiça tão liberal quando a julgávamos tão somítica?” – Pasmo é a “admiração levada a uma intensidade tal que absorve todos os sentidos da pessoa que está pasmada”. – Espanto.. maravilha. extasiado (extático). talvez melhor. “Aquela cena estranha causa pasmo geral”. diz propriamente “tomado de admiração”.. 148 ADMIRAÇÃO. arroubado.” – Admirado. na surpresa que o assalta. é renegar abrenunciando. adido. Tirado o epíteto. o menino emudeceu”. de um tribunal.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 103 ‘O homem justo é digno da imortalidade’ – o adjetivo ‘justo’ determina a ideia principal. de certa missão. Muitas vezes é empregado este vocábulo para exprimir a própria coisa que excita admiração. – Adjurar é “concitar com império. e quase pinta aos nossos olhos um hórrido objeto.. de alguma coisa sagrada. 146 ADJUNTO. enlevo. É certo que nesta frase. e que nós manifestamos principalmente pelo olhar”. Nesta outra: ‘A pálida morte pisa com igual despeito os palácios e as cabanas’ – o epíteto ‘pálida’ dá uma cor à ideia principal. espanto. que se faça alguma coisa”. “O sr. aqui (com a função de predicativo). – Conjurar é mais que protestar contra a obsessão e que ordenar ao demônio que saia do corpo de um atribulado: é fazê-lo sair. êxtase. arroubo. – susto. ou que deixe de atormentar alguma alma. Pasmado. – Espanto diz – . etc. os esconjuros (exorcismos) próprios para expelir o demônio de um corpo”. e particularmente “ordenar ao demônio que saia do corpo de um possesso. mas a imagem descorada e amortecida”. a fama da Universidade. repelindo. fica o mesmo sentido.

“a grandeza dos Estados Unidos do Norte é o espanto de todo o mundo”. “Aquilo (aquela ação extraordinária. um sobressalto. Dizemos: “pequeno susto. – Maravilha (no sentido que lhe dá lugar neste grupo) é “sentimento de assombro tão vivo e intenso como se fosse produzido por alguma causa sobrenatural”. pareceu-nos em completa transfiguração: enquanto ela (a noiva). admira ou adora”. e é tomado também este vocábulo como significando a própria coisa que nos surpreende. – Assombro é “grande espanto. e muitas horas depois ainda a encontramos extática. “Ali ficou. “Vieira foi o assombro do seu século”. o pobre. sacudida de paixão violenta”. quase inconsciente nas profundezas do seu êxtase. “Naqueles arroubos da sua vida moral. nem: “pequeno espanto”. “O noivo. causado por alguma coisa inesperada”. “Ele está entusiasmado com a vitória”. daqueles transportes de alegria passou à demência.. Vemo-la extasiada se ela se mostra como entregue ao seu êxtase. – Surpresa é a “súbita impressão que nos causa alguma coisa que não esperávamos”. porque o que a população sente não é comoção de quase terror. extática. “Ouvindo um lance daquela oratória grandiosa. em pasmo. ele vivia mais num instante do que outros num século”. extasiado da íntima alegria da bemaventurança. Surpreendido é o que .. encheu de um vasto e grave clamor todo o templo”. arrebatada. causado pela suspeita de algum perigo). pois o que o auditório sente é mais admiração que surpresa ou pasmo). entusiasta é “o que se devota com entusiasmo por alguém ou por alguma causa” (é uma qualidade). violenta impressão de surpresa e quase terror”. “A população está assustada com aquele boato que ontem correu. ou como tocada de centelha divina”.104 Rocha Pombo “admiração que é quase pasmo. – Êxtase (ou extasis) é “o estado de quase delíquio em que fica a pessoa que se arrebata. e no qual parece tomada de pasmo e maravilha”. e sentindo-se como em deslumbramento de coisas divinas”. admiração profunda e solene”. pois este vocábulo já enuncia um estado de alma que é mais alarme do que espanto). “Senti um grande susto em toda a assistência”. abalo mais ou menos forte.. Fica-se maravilhado à vista de um prodígio. gozando o seu arroubamento. ou aquela conquista surpreendente) põe-me na alma agitada mais maravilha que alegria”. ou às próprias condições da natureza. – Espantado. serena e extática.. a assistência. Entusiasmado é “o que está sentindo entusiasmo” (é um estado).” (não – espantada. como se estivesse incendida do próprio Deus.” – Arroubo (ou arroubamento) é o estado em que fica a alma “arrebatada de altas emoções. em todo o delírio da sua fé”. É um estado semelhante àquele “engano da alma. ficou por longo tempo em adoração diante da imagem”. mas não seria muito próprio dizer (na acepção que lhes damos aqui): “pequeno assombro”.” – Entusiasmo é “o estado de agitação e arrebatamento em que fica a alma. “O auditório está assombrado de ouvir aquela palavra tão nova.. ou aquele invento. diante do altar extasiada. é um como esquecimento da alma pela coisa que aprecia. – Arrebatamento diz – “admiração súbita e impetuosa”. tão brilhante e segura” (e não – assustados nem mesmo – espantado. “O moço está espantado de me ver marchar” (não – assustado. e. – Transporte é “arrebatamento da alma.. grande susto”.. – Susto é menos que espanto: é “espanto súbito. se parece como absorta. “ele é grande entusiasta do capitão”. e a nossa maravilha provém de sentirmos que tal prodígio excede às forças humanas. que a fortuna não deixa durar muito. mais inconsciente e mais delicioso. assustado e assombrado distinguem-se de igual maneira. – Enlevo é “um êxtase mais sereno.. mas apenas uma desconfiança. “Transportado de cólera.

dizemos de preferência surpresa. o espaço marcado no céu. consi- derar. 149 ADMIRAR. espanto ou alegria”. ou com maus olhos. que está enlevado para o céu. Em contemplar sente-se também a sugestão de ideia semelhante. – com que se olha. – Ver e olhar distinguem-se essencialmente. . que procura entender as coisas do universo. pois. um problema. – Fitar e encarar ainda se confundem mais facilmente. admitem adjuntos modificativos da respetiva ação. Ver exprime o exercício da fa- culdade de “receber pelos olhos a impressão que nos causam as coisas exteriores”.. “Vivemos aqui. e se nos referimos mais à condição que ao estado momentâneo em que ficou a pessoa que se surpreende. a contemplar as maravilhas de Deus”. fitar. significava.. Como bem define Aul. – Apreciar é “ver com muito interesse. encarar.. – Observar e examinar confrontamse. “Como é que encara o sr. Quem contempla e quem considera entende-se. Mas a diferença entre os dois verbos consiste em ser a ação de considerar mais própria do espírito que indaga. e a de contemplar mais própria da alma que se enleva ou extasia. ou para os astros. olhar. examinar. mas bastam alguns exemplos para ver como se distinguem. “Eu pasmava de olhar e ver o homem” (Garrett). etc.). fitar os olhos em. sem embargo da restrição que fazem alguns autores quanto a ver. Considerar sugere a ideia de ter (quem considera) o espírito voltado para o alto. para a abóbada celeste. quer outro destes verbos. a conduta deste moço?” (e não – fita). e. – Contemplar é “admirar longamente. Olhar é simplesmente “dirigir os olhos para algures. A palavra latina templum. ou com desprezo”. “Vê-se com os próprios olhos. – Olhar e encarar poderiam confundir-se em grande número de casos. ou para alguém ou alguma coisa”. que entra na composição do verbo contemplar. estudo minucioso e com muita atenção”. mas é certo que o último acrescenta força e intensidade à ação do primeiro. até pela analogia da formação. nem a capa lhe escapará nos ombros”. etc.. portanto. com apreço”. “Aquela criatura já considera gravemente na vida. – “encarar é olhar direito para fixar bem. por que se os não tiver ambos abertos. ou vê-se preto. autorizam-se com os clássicos. ver. e quem observa só estuda ou considera a coisa a observar aplicando 14 Fitar significa “fixar (os olhos) com muita atenção”. “Ele encarou de frente o inimigo” (e não – fitou). ao alcance de todos os sentidos. que vale mais por “perplexa. uma doutrina. – Considerar (de con = cum e sidus “astro”) confunde-se muito com o precedente. “Ele fitou14 aquele ponto com muita insistência” (e não – encarou). Examina-se um caso. em susto. apreciar. Mas quem examina é de supor que tem perto. E quer um. ou o desplante. “Olha-se de esguelha. Resta dizer que sugere também a intenção – o interesse. “Olhou e viu tudo cerrado” (R. vê-se vesgamente. ou a arrogância. olhar com atenção”. uma obra de arte. Tanto podemos olhar sem ver propriamente como podemos ver sem ter olhado. no destino”. – Admirar é “ver alguma coisa com grande atenção. na floresta sagrada. da Sil. ou de relance. contemplar. – Examinar é “fazer inspeção ocular. a mercê de ver com ambos os olhos. dentro do qual o áugure observava o voo das aves. como se a pessoa que contempla estivesse absorta.” Mas tanto esta como a forma do exemplo acima. entre outras coisas. em grande pasmo para a coisa contemplada”. conquanto no uso vulgar muitas vezes se empregue um pelo outro. dar de cara com. ou cor-de-rosa”. Vieira tem este exemplo: “Faça-me V. observar. perturbada”. M.. uma paragem.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 105 está sentindo surpresa.. devíamos dizer: “Ele fitou os olhos naquele ponto. a coisa a examinar.

“Aquele discurso estupefativo deixava-nos imobilizados.ndo marcam uma certa diferença entre os dois: admirando enuncia a ideia – “que está sendo admirado. 150 ADMIRÁVEL15. e não se pode dizer que seja estupenda.. Em estupefaciente e estupefativo encontra-se. singular. soberbo. dão no mesmo grupo. etc.. como assombroso “o que 15 Roq. Parece que o mundo ficou até hoje ali. – Raro é “o que se faz notar por não ser frequente. como se a tivéssemos batida. – Espantoso é propriamente “o que causa espanto”. – Surpreendente é “o que nos causa admiração ou espanto porque se nos apresenta de súbito e sem que o esperássemos”. amável e amativo.. Não se confundem também estupefaciente e estupefativo. pela simples definição. curioso. Há na história lances estupendos e edificantes. Se esses fossem sinônimos. esplêndido. – Singular é “o que impressiona por ser único em seu gênero. atônito.106 Rocha Pombo apenas os olhos. viva atenção (curiosidade) por ser original. – Todas estas palavras designam coisas que nos impressionam mais ou menos fortemente. Mas incontestavelmente os sufixos vel e . raro.. assombro tão grande que nos suspende. estupefaciente. a mesma raiz grega tup. por ser extraordinário. excelente.. surpreendente.. enquanto que admirável diz – “digno de ser admirado”. raro. su- . que está causando admiração. inverossímeis”. Uma cena de canibalismo é estupefaciente. como no precedente. e Bruns. e examinar a conduta de alguém é ponderarlhe os atos. excitando a nossa emotividade. além de raro. admirando. o que é estupefaciente nos faz estupefato. é fora das proporções usuais. afrontada de coisas anormais. que sugere a ideia de bater. monstruosas. distinto de todos os outros da mesma espécie”. a alma. impressionar vivamente. pois este diz melhor que o primeiro “que gera estupefação”. estupendo. arrebatador. como em estado de estupor.. exclamativas e admirações). Observar a conduta de alguém é seguir-lhe os passos.” (não com a mesma propriedade – admirável). magnífico. – Excelente é “o que impressiona pela sua grandeza. extraordinário. como sinônimos. Não será o sermão admirável (isto é – ‘digno de admiração’). estranho. grandioso. por assim dizer. tão nova e admiranda!. isto é. porque sucede poucas vezes. assombroso.). apesar do que dizem alguns autores: o que é estupendo imobiliza-nos de assombro. – Curioso é “o que desperta interesse. O astrônomo observa o céu (e não propriamente – examina). ou imprevisto”. – Estranho é “o que. pasmoso. mas será admirativo” (isto é – cheio de sentenças. e ainda melhor citando este exemplo de Vieira: “Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir.. Vem ver como “está admirável a aurora!” (não – admiranda). Mas estupefaciente não é o mesmo que estupendo. desperta assombro”. “cheio de estupefações”. e maravilhoso “o que nos deixa maravilhados”. estupefativo. ou que se impõe à nossa admiração”. esquisito. e que por isso causa movimento de alma anormal”. (e não – estupefacientes).. Dão os lexicógrafos como tendo o mesmo valor o adjetivo admirando. – É admirável “aquilo que provoca admiração”. abalado e suspenso ante aquela cena. – Extraordinário é “o que nos chama a atenção por estar fora da regra ordinária ou da ordem normal das coisas ou dos fenômenos. – Estupendo é “o que nos causa espanto. também o seriam: estimável e estimativo. ou porque excede ou está abaixo da medida comum”. distanciá-los.” (aquele discurso cheio de coisas que nos deixam estupefatos. admirável e admirativo: e eles próprios se encarregam de.. pungir. maravilhoso. ou porque não se encontra comumente”. como se a tivesse sempre debaixo dos olhos. espantoso. para estabelecer a respeito dessa pessoa um juízo seguro.

ou porque se lhe pediu – uma noção clara do modo como essa pessoa se . – Arrebatador é “o que produz admiração súbita. fazer sentir uma inconveniência”. – Arguir. 151 ADMITIR. receber. – Grandioso é “o que junta à grandeza serena e brilhante do que é excelso e majestoso a magnificência do sublime”. é “repreender acusando de vício. – Quem permite alguma coisa admite-a com autoridade. – Pasmoso é “o que. Em Roma. tacitamente. 152 ADMITIR. advertir. censor era o magistrado que exercia a censura. mas com energia e mesmo com certa arrogância e aspereza. ameaçando de castigo. inspira um sentimento de admiração solene. – Avisar e aconselhar confrontam-se. que sugere a ideia de “pensar”. chamar atenção para alguma falta. concorrendo assim para que essa pessoa se dirija melhor em alguma conjuntura.) que ela ignorava. e como que invetivando”. sem castigo ou censura. “ad- ência ou por sentimento de dever. que é uma como admiração quase passiva”. estigmatizar. pela excelência. pela raridade. ou porque exceda ao que é normal. de respeito religioso”. defeito ou falta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 107 perioridade ou distinção”. – Quem admite alguma coisa deixa apenas que essa coisa seja ou se realize. “sentir”) é.” 153 ADMOESTAR. – Esplêndido significa “admirável pelo brilho e perfeição”. “Pedro admitiu que o negócio fosse discutido lá mesmo no escritório”. “em termos brandos e amistosos. – Quem tolera alguma coisa é que a permite pelo silêncio. consideração e correspondência.. avisar. – Repreender é advertir. que vigiava sobre os costumes. Um fidalgo admite à sua mesa e em sua sociedade um homem limpo a quem nunca visita. A recepção é mais cerimoniosa: supõe certa igualdade. consentir. – Advertir é “admoestar mais formalmente e com certa autoridade”. repreender. aconselhar. imponente no seu modo de ser”: é mais que excelente: – é o que “sobreleva a coisas do mesmo gênero também excelentes”. etc. Os príncipes admitem à sua audiência os ministros estrangeiros16 e recebem em suas cortes os grandes senhores das outras”. arguir. produz pasmo.” – Censurar é “repreender como por direito de função. mas que recebe. – Segundo Roq. as sociedades literárias e científicas recebem em seu grêmio os homens notáveis e doutos. – “Antonio não permitirá que a escolta lhe penetre na oficina”.. cen- mitir indica um ato de urbanidade pelo qual se franqueia a porta da casa ao que de um modo decoroso a ela se apresenta. verberar.. aqui. tolerar. – Magnífico é “o que. Mas quem avisa dá à pessoa avisada conhecimento de coisas (faltas. permitir. pela pompa e majestade. – Quem consente que alguma coisa se faça é porque se põe de harmonia com o sentir da pessoa que a quer fazer. isto é. forte impulso de alma”. entusiasmo impetuoso. quem aconselha dá à pessoa que é aconselhada – ou porque espontaneamente se interesse por ela. – Soberbo é “o que se mostra augusto.” “O pobre marido ainda lhe tolera todos os caprichos e extravagâncias. no qual figura a raiz men ou man. “Ele há de afinal consentir que a filha case. surar. como se a aprovasse mais pelo desejo de condescender com outrem do que por impulso de consci16 Aliás. pelo esplendor. e discutindo e mostrando a falta”. hoje não dizemos que o chefe de Estado admite o ministro ou embaixador. As corporações. “não só com autoridade. – Admoestar (admonere. deixa que ela passe sem oposição. etc. circunstâncias.

está doente. – Estigmatizar (formação vernácula de stigma “ferrete”. idade subsequente à puerícia. Sabemos. Todos conhecemos jovens de quarenta anos. porém. em que se tem força. portanto. A latitude dada assim ao período da adolescência é corroborada pela Academia espanhola que a define: “la edad desde los catorce hasta los veinticinco años”. mancebo. a que evite a companhia de um colega desmoralizado. Não seria próprio dizer. Principia quando a juventude. – Adolescência – diz Bruns. jovem. mocidade. – Confundem-se beça. ou de ouvidos. reprovar com acrimônia. Admoesta-se o filho ou o aluno. Verbera-se uma injustiça do tribunal. Aconselha-se a um parente mais moço. pois. do coração. um ato iníquo do mau governo. ou o caluniador. repreender violentamente”. não – que é bom jovem. Quem está sofrendo dor de dentes. juventude. dos quatorze aos vinte e cinco anos”. quanto pode durar. Este vocábulo está. de uma senhora que vai para o leito. “crescer”. ter o conselheiro autoridade moral em relação ao aconselhado. e dura mais ou menos. e repreende-o se ele reincide na culpa. mancebia. Segue-se que para aconselhar é preciso. e que para avisar basta que a pessoa que avisa tenha motivos especiais de cuidado (interesse a zelar. que alguém enfermou ou do coração. para que não repita a falta. A mocidade será. ou com quem temos familiaridade. enfermou momentaneamente. e com ela se confunde ao princípio. mas é suscetível de durar mais que ela. ou de faltas que não cometeu. portanto – que F. ou se supõe. temperamento. – Mocidade vem-nos do castelhano mocedad (idade de mozo). a época da vida que prin- . e não – que enfermou. juventude. ou posição social do indivíduo. por conseguinte. ou do peito. Não diríamos. ou parecer dignos da carreira que abraçam. mocidade. na linguagem comum. ou de momento. E depois do parto – que enfermou. parecendo esta última expressão excluir a gravidade que o médico e o ministro devem ter. ordinariamente estes dois verbos. moço. Dizemos – doença do peito. enfermar. Adverte o chefe da repartição a um empregado que não cumpre o seu dever. nem por isso está enfermo. ou dor de ca- puberdade. vigor. principia com a puberdade. Também o que adoece naturalmente sente dor: o que enferma sente a fraqueza que provém do mal ou da doença. Estigmatiza-se a calúnia. voz derivada do verbo adolescere. atendendo à sua etimologia. censura-lhe a desídia. assim como velhos de vinte e cinco. – Juventude é a quadra da vida em que se é jovem. quando a juventude principia: não se sabe. púbere. Mas adoece uma pessoa quando deixa de estar sã. ou dever a cumprir) com a pessoa que é avisada. do figado.108 Rocha Pombo deve conduzir em certo caso. Dizemos: – longa enfermidade: e não – enfermidade rápida. adolescente. 155 ADOLESCÊNCIA. como se vê nos moços ambiciosos que procuram guindar-se pela política. e não – que adoeceu. perfeitamente definido por Faria: “período da vida em que o organismo chega a desenvolver-se plenamente. de um ministro se diz que é bom moço. “açoite”) é “arguir fortemente. se esta o obriga a refrear os ardores da natureza. no momento do parto – que adoeceu. Avisa-se a um amigo de que alguma coisa se trama contra ele. – vem-nos do latim adolescentia. isto é. De um médico. – Verberar (verberare. É de lamentar que o arguisse de males que não fez. portanto. de verber. 154 ADOECER. e impetuosidade nas paixões. e enferma quando a moléstia é de tal natureza que a debilite. Costuma-se dizer. segundo a constituição. “marca”) é “verberar como indigna” (a coisa ou pessoa estigmatizada). e não – enfermidade.

era o juramento de fidelidade que o vassalo fazia ao senhor feudal. a profunda estima. segundo a rigorosa propriedade da palavra. do árabe mansubon17. – Puberdade é a idade em que o indivíduo se torna púbere. 156 ADORAÇÃO. Por sua vez diz Roq. os grandes homens. Pode-se mesmo. mas é pouco usado nesta acepção. venerar. – Honra é. acata- mento. palavra. em compostura de perfeita discrição e gravidade. portanto. pode-se. como algumas outras palavras deste grupo. por meio de grandes demonstrações de respeito e submissão. só Deus é que se adora. adorável. A pessoa que a outra acata. – Mancebo. em atitude de vivo apercebimento e vigilância. etc. – Reverencia-se aquilo que merece o nosso culto.) de grande respeito por alguma coisa sagrada. “apto para procriar”. e acaba ao entrar na idade madura. mas em geral se usa por jovem. “o grande apreço. homenagem. conservar. a explica comparativamente: porque a juventude é a idade do homem entre a adolescência e a idade varonil. No sentido figurado. a consideração que se tem pelas pessoas a quem se devem tais sentimentos”. e a mocidade é o tempo em que o homem conserva aquele vigor. do espanhol mozo. – 17 Segundo outros.: “A voz jovem (do latim juvenis) explica a ideia absolutamente. as grandes virtudes. – Mancebia significa propriamente a qualidade. honrar. sobre os trinta a trinta e cinco anos”. e podem durar mais ou menos tempo. . e tende a perdê-la de todo. diante da pessoa que julga respeitável. fervor. reverência. reverenciar. No sentido próprio. atribuindo à palavra moço a sua primitiva significação de solteiro. dizer que “a mocidade é o espaço da vida compreendido entre a puberdade e a idade em que compete ao homem tomar estado. no sentido próprio. no entanto. a voz moço. adorar é “amar com o mesmo extremo. e venerando “o que se impõe à nossa veneração”. abnegação. parecer. “o filho que ainda está sob a autoridade do pai”. como dos quatorze até os vinte e um anos. Um homem de trinta anos já não é jovem. ou esta espécie de culto que rendemos às coisas em presença das quais nos sentimos humildes e de alma confusa e abalada. respeito. a sabedoria. formado de manus e capere “mão” e “reter. porém ainda é moço. a nossa família. Quem respeita fica. venerável. respeitável. venerando. – Fora da acepção que esta. as grandes virtudes. – Venerável e venerando são definidos como sinônimos perfeitos. “não dar as costas”) é todo sinal de atenção com que vemos ou tratamos uma pessoa ou coisa. – Reverência é a manifestação (por atitude. ter debaixo de”) e significando. – Veneração é respeito profundo. e por extensão aquelas que pela sua grandeza moral assumem a nossos olhos um aspeto de santidade. respeitar. e depois a autoridade subalterna à autoridade superior que representava diretamente o soberano. isto é. a condição de mancebo. veneração. de respicere – re spicere – “olhar para trás”. renunciamento com que se ama a Deus”. ou que a algum santo ou divindade acata – procura. acatável. ou disposição que são próprios da juventude. acatar. chamar a si o ente acatado ou insinuar-se-lhe no ânimo. etc. significa rigorosamente o moço de poucos anos. que não é muito frequente nos clássicos”. adorar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 109 cipia com a puberdade. considerar venerável como significando “o que é digno de ser venerado”. tem no XC. do latim mancipium (de manceps. gesto. isto é. acatamento confunde-se com reverência e mesmo com adoração. honra. – Acatável é a pessoa que merece o nosso acatamento. Adorável é “o que é digno de ser adorado”. como a velhice. Honramos os nossos pais. – Adoração é ato de adorar. – Veneram-se os santos e as coisas santas. aqui. – Homenagem. – Respeito (respectus.

aduaneiro. – Segundo Bruns. ou não ser sincero no louvar: não será baixo. submissão e acatamento que se tributam a uma pessoa que consideramos como nosso superior”. É quase adular. como diz Bruns.). a todo o esforço que faz o adulador por insinuar-se no ânimo do adulado. excessiva. – Bajular exprime ação ainda mais abjeta que a do verbo adular. alho. Aduana e alfândega são palavras de origem árabe.110 Rocha Pombo 159 ADULAR. de coisas curiosas. empregado em linguagem popular para dizer o mesmo que lisonjear com certa intenção de insinuar-se no ânimo do lisonjeado. e portanto que mais enojam do que louvam. E adular não se reduz a simples louvores ou ao intento de ser agradável só por palavras. – Tempero é a quantidade dessas coisas que se juntam à comida. nem por isso se tem na conta de indigno como quem bajula. soez. é “juntar à comida que se prepara os adubos (como tomate. e quando o não faz por uma requintada delicadeza será talvez com o pensamento de ganhar-lhe o coração. pois louvaminhar não é senão lisonjear demais e continuamente. tempero. em política principalmente. louvaminhar. abrir caminho adulando os chefes de quem dependem as posições. repugnante. alfande- gário. ‘armazém’) depositavam-se as mercadorias sujeitas a direitos. engrossar. Um manjar que se condimentou com perícia é apetitoso e restaurador. – “serve de capacho ou de sabujo”. daí vem o dizer-se ainda ‘tarifas aduaneiras’. Condimenta-se o estilo. “a primeira destas palavras já quase desapareceu da língua: só a registramos aqui a título de curiosidade. como para fazê-la mais nutritiva. Quem lisonjeia pode querer apenas tornar-se agradável ao lisonjeado. No sentido que tem aqui. condimentar.. um sujeito indigno. lisonjear. – Lisonjeiro (ou lisonjeador). alfândega. pode ser exagerado. homenagem é “o sinal de respeito. engrossador. tempera-se a frase. e não se satisfaz “só com palavras. Só quando a lisonja é calculada. de todos os vocábulos do grupo. mas estende-se aos atos. Também se emprega no sentido figurado: aduba-se a narrativa. que a tornem agradável”. ‘escrever’) registravam-se as mercadorias sujeitas a direitos. Estabelecida esta diferença. nem mesmo se envilece como o que adula: será talvez mais próximo do lisonjeador. juntando-lhe sal. O bajulador humilha-se. isto é. – Condimento é a porção mais substancial dos adubos e que serve não só para tornar a comida de cheiro e de sabor mais delicado. – Engrossar. cheiros. etc. aqui. fazer louvaminhas. e – ‘movimento alfandegário’ à quantidade de mercancias que passam pela alfândega”. obediência. nem sempre pelo menos. – Adubar. adulador. compreende-se que – ‘movimento aduaneiro’ se refira aos ingressos de direitos. é o que enuncia ação que nem sempre é vil. adubo. louvaminheiro. e o grau de perfeição com que é ela temperada. temperar. o discurso.. Aduba-se um prato especial para F. é termo de gíria. – O louvaminheiro não é tão sórdido como o bajulador. lisonjeiro (ou lisonjeador). aqui. É mais termo criado pelo instinto de crítica do nosso povo para zurzir o vício de. condimento. de fazer-se-lhe simpático. e para explicação do seu derivado aduaneiro. gabos. – Tanto condimentar como temperar se usam também no sentido figurado. mas vai até os serviços mais asquerosos” que dele exija o bajulado. é que passa o lisonjeiro a ser adulador. mas de etimologia diferente: na aduana (de dana. O lisonjeiro não é. . bajulador. louvores afetados e fúteis. pimenta. 158 ADUBAR. portanto. bajular. 157 ADUANA. na alfândega (de fundag ‘depósito’. vinagre. Quem engrossa. no entanto. – Temperar a comida é “dar-lhe o sabor próprio..

. nem lhe tire o valor próprio: é possível até que a coisa contrafeita seja superior à coisa legítima. em seu favor. “Coadunam-se os vários grupos políticos para conjurar a crise”. Quem contrafaz. pois ambos são formados do latim unus. ajuntar. no entanto. ligar. opiniões. pode muito bem ser que não estrague o produto. unificar têm ainda o mesmo radical. “um”. e ad em adunar. – Coadunar acrescenta à ação de adunar a ideia acessória de concurso. dizendo. Unem-se os esposos. a de evolução natural. coisas diferentes. congregar. é inegável. pois a coisa imitada nem sequer incide sob a sanção dos códigos. “Vamos unir os nossos esforços. Aunar e adunar. Unir é “juntar (coisas semelhantes. Carlos Magno pretendeu adunar à fé católica povos de mui diferentes crenças”. reunir. estabelece uma nuança diferente. portanto. e a. unificar. procedendo natural e brandamente. e como que impelindo. coligar. de aproveitar alguém. por meio dos respetivos prefixos. tendo radical comum. “são. incorporar. como se imitam gêneros de comércio. Adunar é trazer com esforço. aliar. corrompendo. exprimem. do esforço que outro fez – do que propriamente a ideia de falsificar. Por isso. coadunar. unir. Mas falsificar é fazer isso. mais a ideia de infringir direitos alheios. “Os governos prudentes aunam os partidos. falsificar é também convizinho de contrafazer. pois (quer se trate de coisas.. aunar e coadunar. deixa pior a coisa falsificada que pretende fazer passar por legítima. os membros da mes- . o volume. reunir. Adulterar distingue-se ainda de falsificar em poder empregar-se no sentido translato. quer de atos). imi- 111 tar. etc. Falsificase um produto de indústria introduzindo no mercado (e com o mesmo nome e com todas as aparências de que seja o mesmo) um outro produto que não tem as mesmas qualidades daquele. Não se poderia dizer. aumentando-lhe ou diminuindo-lhe o peso. agrupar. – Adunar. o mesmo vocábulo. portanto – “adunar muitas coisas”. aunar. converter num todo. Aunar é. e adulterar é alterar a pureza própria de uma coisa dando-lhe outro aspeto. é preciso que nos unamos contra o inimigo comum”. que muito convém ter em conta: ad envolvendo ideia de impelimento. Quem contrafaz pode imitar com tanta perfeição que se torne difícil distinguir a coisa legítima da coisa contrafeita. como se imita uma obra de arte. e apresentam. Este verbo contrafazer sugere. “Adunaram-se as hostes. Adulteram-se vinhos. como se adulteram ideias. enquanto que falsificar só se aplica propriamente a coisas materiais. com perfeita lidimidade. porém. “fingir com tal perfeição que aquilo que se imitou não se distinga facilmente da imitação”. que opiniões ou ideias se falsificam. etc. no entanto. “Aquela desgraça adunou os dois chefes”. falsificar. estragando. batidas da catástrofe”. a em aunar. agregar. Imita-se a conduta de alguém. O prefixo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 160 ADULTERAR. – Imitar é menos ainda que contrafazer. de força. Imitar é.. nuanças da mesma ideia fundamental. – Adulterar e falsificar confundem-se facilmente: exprimem ambos “a ação de tirar a uma coisa as qualidades que lhe são próprias”. ou mesmo coisas diferentes) de tal modo que pareçam uma só coisa”. contrafazer. Apenas as imitações nunca têm ou só excepcionalmente chegam a ter o mesmo valor da coisa imitada. – Unir. Quem falsifica estraga sempre. diminuindo o valor à coisa falsificada. coisas diferentes que se pretende unificar. 161 ADUNAR. segundo Bruns. portanto. mais sensível diferença de ação que a notada entre os três precedentes.

um só todo”. aquele significa “inclinado como se quisesse. em regra da mesma ordem. conservam o mesmo valor e a mesma distinção que têm no sentido natural. incorporar do que unir”. os grupos. de modo a fazer-lhe mais difícil a defesa. Incorpora-se um exército. “Uniram-se os chefes contra o ditador” (e não – reuniram-se). Aliar (ad+ligare) sugere ideia de esforço mais ponderado e formal que fizeram os que se aliaram.. aliar e coligar enunciam a mesma ideia de “fazer acordo moral” (sem. Reunir é mais congregar. Têm ambos o mesmo radical (grex. Unificar é “fazer de várias coisas. pois. curvo. uma à outra. alegar. de fazer pacto mais solene.112 Rocha Pombo ma família. uma secção de circunferência (arco). “Reúnem-se as forças para a batalha” (não – unem-se). curvo e terminado em ponta. ou para defesa de uma mesma causa. de modo que formem um só corpo”. facções. “Aliaram-se o Brasil. ajuntar. O advogado do autor aduz provas mais positivas e cabais contra o réu. as pessoas que se ligam ou aliam). etc.. propriamente: agregar “fazer vir ao aprisco. portanto. pois. 162 ADUNCO. Dizemos: “O pobre velho já está ou já anda muito arcado (e não – arqueado). e mais particularmente entre nações. a República Argentina e o Uruguai”. o advogado do réu defende-o. ou em grupos diferentes”. Unificam-se dois ou mais Estados (reúnem-se sob o mesmo governo supremo. Este verbo reserva-se para exprimir a ação de celebrar acordo de mais importância. arcado.” Arqueados são os supercílios de uma menina (e não arcados). – Ajuntar é “reunir com mais cuidado e trabalho”. – Recurvado é “meio curvo. – Curvo indica a forma da figura que não é reta nem quebrada. – Ligar. mas que representa. – Arcado é um tanto diferente de arqueado. gregis. se não da mesma natureza. “juntar argumentos. etc. “Reuniram-se os deputados para a eleição prévia” (e não – uniram-se). recurvado. Nestas frases: “a desgraça encontrou os irmãos unidos”. e “o emissário foi encontrar os irmãos reunidos na casa do tio” – percebe-se bem claro como são distintos fundamentalmente os dois verbos. – Agrupar é “reunir em um só grupo. Coligar está. aliam-se formando um só). indivíduos (não – aliam-se). Reunir é “dar unidade a coisas que se achavam dispersas”. – Aduzir (adducere é “jun- tar a razões já expostas. ou se fosse tomar a forma de arco”. – Incorporar assemelha-se a reunir: é “juntar uma coisa a outra ou muitas coisas entre si. que se ligam. etc. outras razões e argumentos que deem força aos primeiros”. – Adunco (ad + uncus. “gancho”) diz propriamente “em forma de gancho. e congregar “reunir todo o rebanho. Ligam-se partidos. ar- queado. alegando atenuantes ou justificativas em seu favor e procurando destruir a acusação. a argumentos já formulados. “rebanho”) e dizem. isto é. chamar ao aprisco todas as ovelhas”. em relação a ligar. sugerir necessariamente a ideia de ficarem reunidas ou juntas. com pouca diferença ou irregularidade. se se põem de concerto quanto a uma certa questão. Ligam-se indivíduos. mais ou menos curvo”.. 163 ADUZIR. uma companhia. incorporar no rebanho”. . como coadunar em relação a adunar: aplica-se mais propriamente quando são muitas as pessoas. etc. – Agregar e congregar apresentam diferença análoga à que se nota entre adunar e coadunar. – Alegar é. Este diz propriamente “em forma de arco”. (não ligaram-se). Numa acepção mais ampla. ou de anzol”. do mesmo partido. e também “tornar a unir coisas que se tinham desunido”.

estrangeiro. de convicção contra o intento com que se nos persegue. alienígena. quando queremos exprimir que o indivíduo estranho aí não tem intuito de fixar-se no país como os que nele se acham. 164 ADVENTÍCIO. contra aquilo que se afirma em oposição à justiça. Não se poderia dizer. êmulo.. – Todas estas palavras designam pessoas que não nasceram no. “a palavra adversário compõese da preposição latina ad “junto”. o que não é originário do país onde vive. “mudado”. não se pode dizer que seja um forasteiro. todavia podem estes . Mas ádvena diz propriamente “indivíduo que chega. pois esta palavra designa melhor o indivíduo que é hóspede na terra onde se encontra. à verdade. inimigo. que os referidos povos aqui são ádvenas. antagonista. pois. ádvena aproxima-se mais talvez de estrangeiro que de adventício. que não é do país. etc. – Alienígena (alienus “alheio”. mas podendo ter-se fixado no país novo onde se encontra”. competidor. contra o erro em que alguém está. – Forasteiro confunde-se frequentemente com estrangeiro. e versus. pois este vocábulo deixa supor que o que chega há de sair logo. pode não ser de fora do país. particípio de verto “voltado”. e dizemos alienígena. concorrente. de uma pessoa. foras- teiro. e gignere “gerar”) emprega-se como antônimo de indígena (indu ou endo = in “no” (país) e gignere) e significa. à inocência” etc. ou não são originárias. indivíduo ou raça que não é a própria do país em que está”. ou mesmo que nele vive sem certos direitos (os políticos) e sem certos deveres (o do serviço militar). ádvena. que nele está. O ádvena. – Ainda que o interesse e o amor-próprio sejam de ordinário as causas por que muitos se fizeram nossos adversários. ou desde que tenham aqueles indivíduos perdido a sua própria): o mesmo não se dá em relação a forasteiro. mas apenas da cidade. Essa gente ádvena aí diz “a gente que estava ali de pouso. mas que nele vive longos anos. forasteiro. ou seguindo diferente opinião ou partido. no entanto. porém. o peregrino. em confronto (expresso ou tácito) com os que são nascidos (indígenas) no país onde está o alienígena. ádvena. quando fazemos alusão à nacionalidade do indivíduo. ou que nele se fixou. demonstrações de defesa. entretanto. ou com os respetivos antônimos. porque não era a raça latina que ocupava o continente quando este foi conhecido. quando nos referimos ao que chega em relação ao que vive na terra. 165 ADVERSÁRIO. – Adventício e ádvena têm a mesma etimologia (do latim advenire = ad + venire) e significam “indivíduo vindo de fora. com outros. Estrangeiros podem ser até indivíduos que tenham nascido no país em que vivem (desde que os pais lhes conservem a nacionalidade de origem. do país onde se acham. Dizemos: adventício. ou do lugar onde chega. Estrangeiro é propriamente “o que é estranho ao país.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 113 circunstâncias. mesmo implícita. diferente da dos filhos do país onde o estrangeiro está. Segue-se disto que forasteiro ainda é mais próximo de ádvena que estrangeiro. quando consideramos o que veio de fora em relação ao que estava no país. – Segundo Roq. “A gente ádvena associou-se compungida à imensa consternação de toda a vila naquele instante”. estrangeiro. que está de passagem”. Adventício diz igualmente “indivíduo ou raça vinda de outro país. rival. – Resta notar que todos estes vocábulos só se empregam em relação. pois o adversário é com efeito aquele que se voltou contra nós outros. ou pugnando por interesses que nos prejudicam. chegada por dias”. Os povos de origem latina são adventícios na América. Por isso.

pois abraça as pessoas. e daqui vêm as palavras adversidade. no mérito. generosa. e agonixomai. valendo-se de meios honestos. os de jogos e exercícios. – Por analogia chamamos sorte adversa a que nos é contrária. Adversário não supõe ódio. Não há propriamente rivalidade nas opiniões e ideias. e sobretudo nos empregos. repreensível sobretudo em seus excessos. Pompeu e Cesar foram rivais. há muitos rivais em amor. se nem sempre baixa. não há ação baixa. no esplendor. faz com que receiemos o inimigo ainda depois de reconciliados com ele. pois este apenas concorre conosco. dois rivais acometem-se. somo-lo. e não admite ódio nem inveja. que os Newtonianos são antagonistas dos Cartesianos em seus sistemas. pois. – Rival é palavra latina. no talento. e também se rivaliza em ações virtuosas. no luxo. que todas as palavras anteriores. por bons motivos e com razão. nas riquezas. e também por prejuízos e caprichos. como na generosidade. as ações e todas as coisas que nos podem desagradar. e designa a pessoa que compete com outra em arte. mas sim nas doutrinas e partidos. como os literários. isto é. sem se confundir com adversário. ou fazer dano: somos inimigos de certos manjares. ou indiferentes. este procura sempre fazer mal. ou que se propõe imitá-la e até excedê-la. até nos animais se dá certa rivalidade. nobre. honras. v. tenaz. – Entre os antigos. “eu combato”. É mais do que simples concorrente. longe de excluírem as ideias de nobreza e urbanidade. . mas posteriormente foi limitando-se a combates mais nobres e menos sangrentos. pois antagonistes compõe-se da proposição anti. Os rivais têm interesses opostos que se combatem. Só os homens de mérito têm adversários e êmulos: e as almas grandes. nos interesses e inclinações. adversamente.114 Rocha Pombo ser amigos debaixo de outros respeitos. ciência. – Êmulo é também palavra latina. rivalis. Dizemos. e até proclama. Cícero e Hortênsio foram êmulos. muito de rival. supõe graves injúrias recebidas. e sucesso adverso o que nos causa dano e conduz ao infortúnio. Tantos são os bens que da amizade resultam. O êmulo reconhece. Dois êmulos caminham. e até heroísmo: é uma rivalidade mais distinta e elevada. umas vezes por nossa natural inclinação. os soberanos em sua grandeza e esplendor. inimigo. porque costuma ser traidor. æmulus. “a todos os seres organizados e sensíveis. “contra”. “propõe-se a fazer ou conseguir aquilo que nós também nos julgamos capazes de alcançar”. O vulgo não conhece mais que inimigos. g. se é bem fundada. pois. A inimizade é de ordinário uma paixão. a que ela não conduza. nem à contradição. aos animais e às plantas”. e os partidos que não saem da linha da nobreza. a palavra grega antagonistes (antagonista em latim e nas línguas que deste se derivam) significava um inimigo armado e em ato de batalha. rivais e antagonistas. e ainda generosos e delicados: não assim o inimigo. nem procedimento vil. no valor. de certos costumes. sim. e indica uma oposição mais forte que a precedente. generosidade. que para isso é ele inimigo. ao menos rancorosa. os ingleses e os franceses em seus adiantamentos científicos e industriais. as supõem. de certos prazeres. os amantes em obséquios a uma dama. e as antigas adversar e adversia. Esta palavra tem muita extensão em seus significados. e graças. o mérito dos competidores.. Os êmulos correm a mesma carreira. Estende-se a inimizade. galhardia. vivem em harmonia. Temos. no heroísmo. quantos são os males que a inimizade produz. Aquele pode favorecer-nos em tudo aquilo que não pertence à disputa. em ações louváveis. contrariar. em sua significação metafórica. – Competidor é “o que está contra nós na conquista de alguma coisa”. Diferença-se. Êmulo denota competição honesta.

sendo necessário para a realização do fato. aos fins. desfortunado. e se acha reduzido à maior miséria e aflição. O que perde no jogo. a guerra. tristezas. desditoso. É desfavorável aquilo que. – desfavorável. às tendências. que vem da castelhana desdicha. O parecer do relator foi desfavorável à pretensão. As minorias declaram-se contrárias às propostas da maioria. contrário. – Desdita acrescenta à ideia do mal o efeito da desgraça. e significa todo sucesso lamentável que cai imprevisto sobre alguém. as inundações. e não – aconteceu uma desdita. misérias. e então fazem-se adversas. porque não deu motivo a elas por seu procedimento ou falta de prudência. – Desgraça é termo genérico. – às ideias. oposto. infeliz. não só é desgraçado porque padece um verdadeiro mal. senão das suas opiniões. de insucessos e coisas contrárias”. cada uma hostilizar a outra. desfavo- 115 rável.” 167 ADVERSIDADE. As partes contrárias não tratam precisamente de fazer vingar o seu intento: o que pretendem é impedir que o contrário triunfe. consiste a sinonímia destes vocábulos em que: – Adverso se diz do que tende a prevalecer por meio da luta. “explica o mal em si mesmo”. infortúnio. A república é adversa à monarquia. senão por sua má sorte.. as erupções vulcânicas. Frequentemente os pais têm ideias opostas a respeito do futuro dos filhos. pareceres e decisões. porém. não por isto. em lugar de favorecer. As partes adversas procuram mutuamente suplantar-se. e outras muitas grandes desgraças que afligem as nações. sem deixar-lhe alívio ou descanso. desdita. pela triste situação a que o reduziu sua desgraça. desafortunado. que não provêm do homem. e é mais usada esta palavra que desdita. Mas a sorte adversa só assume o caráter de adversidade quando persegue o indivíduo continuadamente. a peste. mal-afortunado. Aquele que não sai bem nas suas empresas. cai em infortúnio. pode queixar-se de sua desventura. antes encontra adversidades. que é propriamente um infortúnio público e geral. etc. contrário. os terremotos. do que quer impedir o triunfo alheio. “Afinal teve no pleito ou na cam- panha fortuna ou sorte adversa”. caipora. mal-aventurado. Por isso dizemos: Aconteceu ontem uma desgraça no mar. tende a impedir o que outrem pretende. tal como a fome. desgraçado. – Infelicidade é o contrário de felicidade. calamidade. no rio. do que. infelicidade. desfortuna. sorte adversa (ou adver- sa fortuna). – Quando a desgraça é grande e se estende a infinito número de pessoas e a países inteiros. porque só fazemos relação ao fato. O que perdeu. a privação do que constitui o homem feliz. chamase-lhe calamidade. sem que o incomode nem o aflija a perda. e só por pura ponderação se chamará desdita à sua desgraça. como é também desditoso. tendendo a fins diferentes. desgraça. caiporismo. se declara contra isso.. fortuna adversa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 166 ADVERSO. – Desventura é má sorte. do que tende a fins diferentes. “Caiu aquela nobre figura vencida pela adversidade” (isto é – pela constância da má sorte). diz Roq. Desfavorável não se diz propriamente das pessoas. desaventurado. vale por sofrimentos. – Adversidade e sorte adversa (ou fortuna adversa) dizem quase a mesma coisa: exprimem o fato de ser uma criatura “perseguida de males. – oposto. mas não é desgraçado nem desditoso. – “Desgraça”. ao malsucedido. mas vulgarmente se toma por desgraça. para conseguir o seu intento. sem consolo nem esperança de alívio. – “Relativamente – diz Bruns. No plural. desventurado. – Infortúnio vem a ser uma série ou cadeia de desgraças. desventura. procuram. é desgraçado no jogo. toda a sua fazenda. com relação à triste situação em que se acha o desgraçado. As partes opostas. e . infortunado.

ou que não se saiu tão bem como costuma sair-se. . é “o sujeito que se julga assim perseguido da má sorte”. significa “sem fortuna. Os lexicógrafos estão de acordo em considerá-los sinônimos perfeitos. – Mal-afortunado será um antônimo mais perfeito de bem-afortunado. transviou-se no caminho. voltarei logo de Paris”. – Entre desventurado e desaventurado não é perceptível diferença alguma. “Tive a desfortuna de lhe não merecer simpatia”. o mal-afortunado. ou bem-aventurança). o que é perseguido de desventuras”. o rei magnânimo que foi deposto e banido. O desafortunado. como já se disse. isto é. – Caipora e caiporismo são vocábulos adotados dos nossos indígenas. ou sem êxito no caso”. mal-afortunado – “com má fortuna. ou “a predestinação. “Um capitão tem a desfortuna de ver fugir e escapar-se o inimigo quando ia certo de esmagá-lo” (não – o infortúnio). tanto que dizemos: “ele vai à ventura” (e não – à fortuna). malaventurado é antônimo de bem-aventurado. o menino que foi vítima de uma imprudência – são todos mal-aventurados. impedindo o êxito que se calculava”. “Não acredito que ele consiga o que quer. ou com mau sucesso em certas circunstâncias”. ou a trama de algum espírito mau”. portanto. é o sujeito “sem ventura”. – Entre desfortunado e desafortunado há a diferença expressa pela partícula de intensidade a que figura no segundo antes da negativa des. a boa fortuna que sempre tivera. o sacerdote que se deixou imolar pela sua fé. o amigo que se perdeu num lance de honra. – É preciso comparar alguns dos vocábulos deste grupo que têm o mesmo radical. – Desventurado. Aquele. ou desaventurado. Como se viu. enquanto que desafortunado é antônimo de afortunado: marca-se assim uma distinção muito clara entre mal-afortunado e desafortunado: este. Em qualquer dos dois exemplos. e o primeiro. E isto pela razão de ter a palavra aventura. foi malsucedido no empenho. que dá o segundo desses compostos. o mal-aventurado errou nos esforços que fez. e aquele. pois é muito desafortunado sempre que pede alguma coisa à política”. – “Foi ele tão desfortunado (tão sem boa fortuna) que não conseguiu sequer uma vez bater no alvo”. Mas entre os dois e mal-aventurado já se nota alguma distinção. – Infortúnio e desfortuna. O desventurado lutou contra a sorte. que se empenhou numa causa de alta grandeza moral e saiu batido de infortúnio. a substituição de um adjetivo pelo outro mudaria o sentido da frase. “Se eu for mal-afortunado agora no meu intento. falta de boa fortuna. uma significação que nele desaparece. A ventura não parece tão cega como a fortuna. “Tem padecido os seus infortúnios com serenidade e resignação” (não – as suas desfortunas). – Desventurados são os pais que têm uma velhice de desilusões e amarguras com os filhos. a causas misteriosas e inevitáveis. caipora. “É preciso consolar uma criatura infortunada (perseguida de infortúnios)”. – É conveniente notar ainda o que distingue estes compostos de ventura dos compostos de fortuna. – Entre infortunado e desfortunado há diferença análoga à que notamos entre infortúnio e desfortuna. – Notemos ainda que mal-afortunado é muito próximo do nosso caipora. “o que não consegue chegar ao seu dia. “ele deixa tudo à fortuna” (e não – à ventura). O homem desafortunado é o que não teve no momento. ou num certo caso. infortúnio é grande desgraça que se prolonga (e quase sempre se usa no plural): desfortuna diz apenas “fortuna contrária. “a falta de boa fortuna em tudo quanto se tenta na vida”. deve a desfortuna. significando: – o último. o infortunado mesmo. falta que se atribui. ou mesmo o infortúnio. e este significa propriamente “que alcançou ou alcançará felicidade” (boa ventura.116 Rocha Pombo às vezes quase o mundo inteiro.

– É nosso advogado quem toma a nossa defesa perante algum superior nosso. intermediário. aqui. letrado. e que se vale mais de chicana que de razões. O mesmo se pode dizer quanto a rábula (do latim rabere. os direitos das gentes. interventor. advocatura. Saraiva este nome: “advogado que fala muito e sabe pouco. o estudante de direito é jurista18. coragens e ousadias que não sejam as mais recomendáveis. ou do estabelecimento em relação aos seus subordinados. – Letrado. aplicado aos que conhecem direito ou seguem a carreira do direito. a praticar males que talvez não praticássemos sem o seu pa19 Patrono deu o nosso vernáculo patrão – o dono da fábrica. – Rábula é. patrocinador. – Jurisconsulto é o legista profundo. tagarela”. mediador. ou nos livre de males.: – “Advogado é. legista.” “A advocacia na campanha não dá o pão e tira o couro”. – Patrono. – Causídico e rábula são termos depreciativos. e particularmente ao advogado que faz perante o júri a defesa de um réu. o prazo de tempo que se levou advogando”. termo que hoje se tornou popular. patrocinador e padroeiro assemelham-se muito (têm o mesmo radical). conquanto nos léxicos se definam como significando a mesma coisa. – Segundo Bruns. raivoso. jurisconsulto. – Patrono confunde-se com advogado e defensor. e também que haja muitos bacharéis muito mais alicantineiros e chicanistas do que tantos rábulas. pa- droeiro. advocatura é “o exercício. Advocacia é “a profissão do advogado”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 168 ADVOCACIA. patrono. – Jurista é termo mais relativo à teoria que à prática. e também com isso pode estimular em nós instintos. os antigos usos. Passou depois a significar o chefe da casa (pater) em relação aos agregados e protegidos19. patrocina a nossa causa: pode ter para isso motivos que não sejam os mais legítimos. causídico. isto é. designa principalmente o advogado que dá consultas. e jurista é também aquele que conhece a história do direito. portanto. 170 ADVOGADO. portanto. ou perante alguma pessoa ou mesmo perante algum poder com cuja benignidade precisamos de contar para que nos absolva de culpas. rábula. – Patrono é pois o que não só defende os direitos do seu cliente como cuida solicitamente de salvaguardar-lhe os interesses. O patrono defende-nos e protege-nos como se fosse nosso chefe ou nosso pai (patrão). defensor. o patrocinador nos toma à sua conta. instigando-nos. o que defende causas de direito com autorização legal”. manobras. medianeiro.) – Defensor é termo genérico que se aplica a toda pessoa que defende a outra. tendências. 169 ADVOGADO. que designam: causídico é aquele que trata de causas mais talvez com astúcias. defensor. – Legista é o que conhece as leis a fundo e as interpreta. gritador. “estar furioso. (Nada disto impede sem dúvida que haja rábulas de 18 Hoje está-se introduzindo o neologismo direitista. os costumes passados”. dos estrangeiros em geral. fala e age por nós. mais depreciativo do que causídico: aplicase ao advogado sem pergaminho. artimanhas do que com lisura. Assim define S. protetor. patrono. – Distinguem-se 117 perfeitamente estas duas palavras. muito mais valor do que muitos bacharéis. violento”). . “Durante a minha advocatura no sul fiz menos fortuna do que inimizades. intercessor. jurista. e disserta ou escreve sobre leis. ou o senhor em relação aos seus libertos. Designava antigamente o que defendia os interesses da plebe. que debela os casos intrincados.

civil. e não ao contrário”. delicado. Poderia confundir-se com mediador. bondade. cortesão. meiguice. – Defensor. prestígio e valimento em favor de alguém e perante um poder a cuja presença esse al- guém não pode ir diretamente para alcançar o que deseja”. benevolente. ternura. fineza. Dizemos – “patrocinador de crimes ou de criminosos” (patrono de criminosos seria já coisa muito diferente: o patrono de criminosos toma. e por extensão é “o que nos ampara perante alguém de cuja munificência temos necessidade”. sua solicitude e valimento. – Medianeiro diz muito mais do que mediador: é “o que interpõe a sua autoridade. A ação de proteger (de protetor) naturalmente marca. uma qualidade inerente ao caráter da pessoa que se mostra amável: ou tem fins interesseiros. ou a triunfar numa certa conjuntura”. a superioridade de condições da pessoa que protege sobre as da pessoa protegida. – Padroeiro é propriamente “o que exerce o direito de padroado”. afável. mais se parece com intermediário: este. benigno. dá-se de superiores para inferiores. a maior parte das vezes. a defesa de criminosos. Não é. indulgência. entre elas”: enquanto que intercessor sugere a ideia de que a pessoa pela qual se intercede precisa de defesa e proteção perante aquela junto da qual tem de agir o intercessor. por assim dizer. de qualquer condição que ela seja. carinho. agradável. de acordo com as leis. benévolo. Consiste na maneira cativante com que as pessoas de posição prendem a vontade dos que lhes falam.118 Rocha Pombo trocínio. e não só nos ampara. – Mediador. e vice-versa. cortesia. ocultar. porém. Tal que é amável com os estranhos é ríspido e intratável com os seus. benignidade. O agrado é o testemunho da alegria que sentimos ao receber em nossa casa. é toda pessoa que defende a outra. fino. – Interventor é “aquele que. induz os celerados a praticar crimes). meigo. complacente. e vice-versa. bom. A amabilidade consiste em empregar todos os meios possíveis para nos tornarmos agradáveis à pessoa a quem a testemunhamos. protege criminosos. – Segundo Bruns. carinhoso. como nos habilita a vencer na vida. indulgente. polido. afeição. – Protetor (de protegere = pro + tegere. ou faz simplesmente parte da bagagem das convenções sociais com que os homens pretendem enganar-se reciprocamente. em nome de um terceiro. amistoso. ci- vilidade. delicadeza. Sebastião é o padroeiro da cidade (isto é – protege no céu a cidade do Rio de Janeiro). bondoso. amabilidade. melhor do que todos os outros do grupo. “cobrir. afetuoso. o patrocinador de criminosos acolhe. Tanto o agrado como a afabilidade são geralmente provas de um caráter bem formado. é apenas o que se põe ou fica entre duas pessoas fazendo sentir a uma o que a outra quer. se mete entre duas ou mais pessoas ou facções. ao passo que o mediador tem sempre algum interesse ou empenho em conciliar aqueles entre os quais se põe. para restabelecer acordo ou ordem entre elas. A civilidade é a convenção estabelecida na sociedade para que os seus membros se avenham . e não sendo mais por uma que por outra”. amável. como já vimos no parágrafo precedente. complacência. portanto. S. benevolência. cortesania. agrado. “a afabilidade (do latim ad “a”. obsequioso. muito claro. urbano. polidez.. mas este é o que se interpõe entre duas pessoas “para servir apenas de veículo. – Intercessor é a pessoa que se põe entre nós e aquele perante o qual precisamos de defesa. terno. 171 AFABILIDADE. anima. esconder”) é “o que nos toma sob sua guarda. ou ao falar em qualquer parte com uma pessoa. urbanidade. e fari ou afari “falar”) dá-se de superior para inferior. mostrando-se assim afáveis. cortês.

como indica a palavra. para com a pessoa que recebe o carinho. – Carinhosa é a pessoa que nos recebe. Uma pessoa é benévola. – Cortesania é o requinte da polidez: é “a polidez da corte. a virtude das grandes almas. Mas benevolência é apenas “uma disposição de alma. revelando sempre por nós os seus afetos. e isso tanto mais me cativa quanto é certo que ele não é benévolo com todo mundo”. O homem delicado é-o mais por temperamento. no entanto. isto é. pois sem ela nos tornaríamos desagradáveis até aos nossos mais próximos. – Benigno é “o homem de natureza moral muito singela. – Carinho não é uma qualidade. Complacente é o amigo que se compraz conosco. supomos que seria imprópria a mudança dos dois vocábulos: “Ele se mostrou benevolente comigo. – Delicadeza é a qualidade do homem muito polido. Nesta frase. a acolhê-la. de simpatia. Varia segundo os meios. A civilidade exagerada – a que o vulgo chama política – é ridícula e presta-se ao escárnio. sempre que estas pareçam merecer-no-la. que isto quer significar que benévolo expressa melhor uma como qualidade pessoal. pois a polidez exige que não só nos tornemos agradáveis. Entre benévolo e benevolente não estabelecem os dicionários diferença alguma.. afagando-nos. porém. a diligência que se mostra em fazer o gosto de alguém. necessário ter grande trato do mundo. é. O amigo afetuoso é o que nos trata com afeição. a que se usa nos grandes centros urbanos. a atraí-la enchendo-a de meiguices e provas de amizade”. e benevolente (“que está sendo benévolo”) uma disposição atual de sentimentos. ou pela benignidade. a civilidade bem entendida deve reinar em toda parte. que se contenta de ter para com seus semelhantes sentimentos propícios”. – Complacência é também menos uma qualidade do que uma disposição moral: é a “boa vontade. como se nos abrisse a alma. leva a sua mansuetude e tolerância a uma quase renúncia de si mesmo para ser-nos agradável. – Cortesia é a demonstração do respeito que nos devemos mutuamente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 119 mutuamente. – Afeição é a “conformidade moral que leva uma pessoa a chegar-se muito a outra. senão que penhoremos as pessoas com quem tratamos. que obram e se exprimem nobremente. pois. suave no trato. Basta conhecer certas regras e observar certas práticas para ser tido como homem civil. – Benevolência poderia confundir-se com benignidade. Dizemos: “os reis benignos são amados do seu povo”. Parece.” – Cortesão. perdeu hoje esse sentido: é mais “palaciano. mesmo em família. e saber amoldar-se às situações. portanto. finura e delicadeza. por índole talvez do que por educação. não só com mostras de bondade. como com sentimentos ternos. – Polidez é a civilidade das pessoas de fino trato. ou – os homens benevolentes). um movimento propício de coração em favor de alguém”. para ser um homem polido. que. os lugares e a condição das pessoas. A urbanidade é a civilidade de bom tom. tem-se não só para com as pessoas que conhecemos como também para com as desconhecidas. – Polidez e urbanidade confundem-se no fundo. Contudo. em estar de acordo com os desejos de alguém”. pela amizade. ou pode ter benevolência com esta ou aquela outra pessoa. “os homens benignos fazem-se queridos” (e não – os reis benévolos. os tempos. – Complacente . mostra-se de boa vontade com alguém no momento. A benignidade é. áulico e até adulador” do que cortês. sincera. tratando-se de pessoas. uma ideia da excelência da pessoa benigna em relação àquela a respeito da qual assim se mostra. indício de bom ânimo. fino. fazendo-se meiga. e sugere sempre. senão sinal de qualidades. de modo a não se ofenderem nem se desagradarem. de intimidade da pessoa que faz. entretanto. com facilidade..

sereno e afável. labutação. pois a surdez lhe impede ouvi-la. A meiguice é a qualidade das crianças e das virgens. A faina de bordo. que só por extensão se pode atribuir a homens. – A criatura indulgente conosco é a que tem para os nossos defeitos mais perdão do que rigor. todo esforço difícil”. – Lida é “trabalho afanoso. é “trabalho penoso. ou então de que são capazes só as excelentes naturezas morais encontrando-se com as misérias da vida. O mudo não fala porque ignora o som da palavra. os que se mostram mais do que amáveis. claudica. bondoso é apenas “o que tem bondades quase que aparentes. a candura dos simples edificada de instintivo sentimento de renúncia e de simpatia. julgada tão excelsa que o próprio Jesus a atribuía só a Deus. – Bondade é a qualidade de ser bom. faina. aforçuramento. uma delicadeza de sentimentos levada a extremos de meiguice. pode ser completa (o que é raro) ou parcial. quando se mostra conosco tolerante. azáfama incessante”. Ternos são os corações que ficam como que em êxtase de piedade. envolve mais a ideia de pressa que de trabalho. trabalho. ou de todo não pode falar. Tanta lida para tão pouca vida. Poder-se-ia dizer que é um predicamento divino. luta. “Os meus afãs não me deixam sentir estes pequenos incômodos”. mento. 173 AFÃ. fadiga. ou aquele de quem dependemos. laboração. – Mudez é propriamente a incapacidade orgânica de articular a voz. lucubração. (Bruns. azáfama. um sujeito . afadiga- é o nosso superior hierárquico. e a provas de afeto que nos comovem. que nos cansa. e mesmo a faina das ruas. ou de um trabalho urgente”. labor (lavor). pois a afasia provém de alguma “lesão na substância nervosa frontocerebral.) – Afonia é a falta de voz: mal ou defeito “que provém da laringe”. aqui. pois que parecem deslumbrados mais de amar que de sentir o nosso amor. sendo a esta que é devida a gaguez”. – São meigos os propensos ao amor. no entanto. mudez. afonia. – Fineza poderia considerar-se como sinônimo quase perfeito de delicadeza. – O homem amistoso é o que nos trata como costumam tratar-nos os nossos legítimos amigos. – Fadiga. Um sujeito aforçurado gasta inutilmente as próprias forças. “Na azáfama em que vive. – Bom é aquele que tem essa virtude. e afadigamento é uma extensão de fadiga. e os esposos entre si. – Afã é “toda atividade penosa. a faina dos campos. porque deixa supor sempre a inocência. pois que só os pais sabem ter com os filhos. Este. pois. afásico. ou diante de um infeliz. ou de amor na presença de uma criança que sofre. mas um fino cavalheiro é aquele que sabe requintar a sua delicadeza e fazer-se “muito delicado”. O afônico sente dificuldade ou mesmo impossibilidade na emissão da voz. e sugere ideia de afãs contínuos. de longas fadigas. – Entre bom e bondoso há muita diferença. a virtude de ser contrário a tudo quanto é mau. lida. mais misericórdia do que justiça. labuta. aquele homem não tem tempo de atender-nos”. trabalho aturado e debaixo de barulho”. para exprimir o movimento geral das grandes cidades. afônico. – Azáfama significa mais “o apressuramento com que se cuida da tarefa. – Faina é uma outra forma de afã: é “todo serviço feito sem muita ordem e com pressa. e é próximo de aforçuramento. ou da pessoa amada. É mais usado no plural. A indulgência supõe sempre uma autoridade ou poder mais alto que o da pessoa com quem se é indulgente. e nos vence as forças”. o que é cheio de deferências conosco”. – Ternura é. – O afásico titubeia. e portanto fica ele incapaz de imitá-la. conforme já ficou em outra parte definido.120 Rocha Pombo 172 AFASIA. mudo.

. ou pondo-a de lado. trave. ou conseguir alguma coisa”.. mas nem sempre sem fruto. à luz do gás. e segundo outros do latim trahere20 – retirar. mas que também nos agrada e satisfaz”. ou da lâmpada. o modo como um trabalho foi acabado”. – Retirar (formado de re. Quanto a labor confrontado com lavor. ao esforço. “retrocesso”. “Naquela contínua luta do seu viver foi morrendo”. – Afastar (do latim abstare. que cansa o espírito ou o corpo.. trabalis “próprio das árvores.. que não devem ser tomadas indiferentemente. – Labor é sinônimo de trabalho. . e a que aplicamos toda a intensidade do nosso espírito.. portanto. Lucubrar (de lucubrare (de lux) “trabalhar à noite”) significa propriamente “fazer serão”: e. retira-se o chapéu de cima da mesa. No plural. No plural acrescenta a labor uma ideia de faina. e de qualquer ornato em relevo. portanto. separar. retira-se uma ofensa. tem o sentido próprio de “afastar para trás.” Resta acrescentar que lavor significa também “a perfeição da mão de obra. à contensão mental com que é feita uma obra de arte ou de ciência”. ou melhor. chamando-a a nós. Afastam-se de nós alguns amigos. lida penosa. pôr para aquém”. palavras mui distintas. chamar a si. passando a significar “toda aplicação de aptidões no sentido de fazer algum objeto. etc. de lida ou fadiga. originou que lavor seja abusivamente empregado por trabalho ou faina. isto é. retirar. – Lavor dizemos do trabalho “de agulha. retira-se o filho do colégio. – Labor é “todo esforço exercido com aptidão e gosto. nas línguas neolatinas. lavor tem a mesma origem. – Lucubração é todo trabalho que nos absorve dia e noite. ou mesmo de afadigamento”. sugere a ideia das penas e fadigas que produz todo exercício aturado. “Os trabalhos da vida” – é quase como se se dissesse – “as lutas da vida”. voltando por onde tinha ido. pois se formou de lavrar (laborare). “As lutas da vida o venceram”. – Laboração é uma forma extensa de labor: é a ação de exercer o labor (laborar). por labor. como se fora mesmo um combate. Labuta é esforço afanoso. do que lidava com madeiras (trabs. Labutação é o mesmo que “labuta afadigada”. – Luta é “trabalho doloroso. depois generalizou-se. e ter “três vezes”) + tirar. – Labor e lavor são. do gótico tairan segundo alguns. relativo a traves”). arredar. afasta-se do espírito uma ideia sinistra. desviar. e por extensão significa – “tirar uma coisa do lugar em que estava. não. confundindo a pronúncia dos dois vocábulos. lucubrações aplica-se mais particularmente “ao trabalho feito à noite. “viga. dizemos. ocupação árdua de que se vive. apartar. – Labor é trabalho longo e difícil.: “Labor é palavra que tomamos diretamente do latim labor. Só a ignorância. escreve Bruns. e no plural – “trabalho pesado e afanoso”. afasta-se da parede o sofá. cansa também. “As nossas laborações naquele transe nos inutilizaram por muitos dias”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 121 afadigado despende forças. ainda quando os dicionários as confundam e as expliquem uma pela outra. lavor. que nos fatiga. ou das nossas aptidões.. deslo- car. feito por desenho. mas indiretamente. árvore grande”.” Retira-se um exército. O próprio latim tem retrahere “tirar para traz”. – Entre labuta e labutação (que com os dois precedentes têm origem comum) deve notar-se análoga diferença. – A palavra trabalho foi primitivamente aplicada à função do construtor. de ab + stare “estar ou ficar longe”) significa propriamente “tirar uma coisa ou pessoa de junto da outra”. 174 AFASTAR. lucubração. descaminhar (desencaminhar). e que só não acabrunha as grandes naturezas morais”. – 20 Parece que estes têm mais razão do que aqueles. equivalente aqui a retro (re que marca “retração”.

prende alguma coisa”. Noutro sentido. (Por mais que digam os lexicógrafos. – Separar é “pôr duas ou mais coisas ou pessoas longe uma das outras”. descaminha-se o menino da escola. e é. e por. “A pulso desloca o rochedo. Ferrolho é – diz Aul. Deslocam-se figuras da política em todas as grandes crises.) – Apartar é “pôr de parte”. um forte apego. ainda que se não aliste em outras fileiras. ou algum fato suceder. Só no sentido moral é que as coisas ou pessoas separadas nem sempre se julgam a distância umas das outras. Separa o lavrador a palha do grão. designam formas ou modos particulares de fechar. dar espaço ou caminho”.. separam-se os casados quando não podem viver juntos. e apartamento os resultados morais da separação.. – Deslocar é “mover alguma coisa do lugar próprio. 175 AFERRO. “Com perícia admirável desloca o dente e saca-o num instante”. – o que estava unido. – “é tirar uma coisa ou uma pessoa do ponto ou da linha em que alguma outra coisa ou pessoa vai passar. – “tranqueta de ferro . melhor ainda que desviar. tranca-se. misturado: sempre com referência a mais de um objeto. tranca. Desencaminhar tem significação diferente. Quando alguém se aparta de outra pessoa toma um lugar para longe dessa pessoa. “Separa-se – diz Roq. – Descaminhar. retirá-la do ponto em que se acha”.. unir com firmeza” (do latim fixare). Segundo Vieira. Descaminha-se a gente.” (III. e lá do alto deixa-o tombar sobre a cidade”. diz ele: “Feita a separação dos maus e bons.”. temos aferro às ideias que defendemos com tenacidade”.. se se emprega a tranca. 176 AFERROLHAR. o trigo do joio. neste caso. desencaminhar não se confunde com descaminhar.. extensão – perverter. este verbo sugere ideia da atitude contrária em que fica a pessoa que se aparta em relação àquela de quem se apartou. Desviamos o corpo para evitar um golpe. no sentido próprio e originário. fecho. ou quando se desquitam. aferrolha-se. – Fechar aqui exprime a ação geral de “cerrar. falando do juízo final. parece que separação indica principalmente a ação de separar. Em sentido mais restrito. – Diz muito bem Bruns. de completivo de predicação: é “tirar do bom caminho. no juízo final hão de separar-se os bons dos maus.122 Rocha Pombo Arredar é “desviar bruscamente. desviar indica a ação de tirar de uma direção para fazer tomar outra diferente. tomando uma azinhaga”. – Os dois outros do grupo. o processo mediante o qual se cerra. trancar.. pois. Se alguém se aparta do seu partido é que toma posição contra este. Separar diz muito mais que apartar. desviamos uma criança que vai ser pisada. fecho é a “peça com que se fecha. ferrolho. põem-se estas em lugar onde fiquem separadas das primeiras. ligado. O aferro provém da convicção. é-lhe inerente a ideia de fim.: “O apego é a constância que provém mais do hábito que da reflexão. 163). exprime a ideia de “tirar ou de sair do caminho próprio. arredam-se as cadeiras do meio da sala. apego. vem fazer que tomemos outra rota). Arreda a multidão à passagem do cortejo. “Aquele sucesso imprevisto vem descaminhar-nos da vereda em que íamos” (isto é. a fruta podre da sã. ou nem sempre estarão necessariamente desligadas. Quando dentre muitas coisas se apartam algumas. portanto. diferençando-se segundo a peça com que se fecha: se se emprega o ferrolho. e nem carece. como descaminhar. desviamos do sentido uma lembrança funesta. – Desviar – diz Bruns. propósito ou conveniência. ou da direção que se seguia”. fechar. liga. prostituir”. do caminho certo. e sossegados os prantos daquele último apartamento. quando somos sedentários por gosto. Temos apego à casa.

É por afeto ou por afeição que se sente prazer em encontrar a pessoa a quem se estima. pois esta é constante. – Afeto e afeição – diz Bruns. inclinação. vai embeber-se na ombreira ou noutra peça. e é tal o seu fundo de benevolência que estende por sobre os vícios o véu das perfeições. ou não se expandindo. amor. ternura. fechando-os fortemente. há nele algo mais da tibieza do afeto. Figuradamente. está-se humilhado e adora-se. No afeto há moderação.. um livro. sobrevive à infidelidade: sofre-se e ama-se.. Aferrolha-se ou tranca-se igualmente uma porta. e não só os negamos. tudo o que sei é que principiei a amá-la sem saber por quê. Muitas vezes a paixão desaparece com o logro da coisa desejada. Tranca é uma barra semelhante ao ferrolho. deixando de falar. Não são os defeitos da alma apenas que recusamos ver no objeto que nos apraz: são também os do corpo. porém. Afeição é a tendência. Tudo nela tem encanto à nossa vista. – O amor é um sentimento que se pode considerar intermé- dio entre o afeto e a paixão. A afeição que temos às coisas nos induz a ter cuidados com elas. e que cessei de a amar sem saber a causa”. E assim como é ela que unicamente nos interessa. Fecha-se a boca. O amor. Só o pensar que a ternura da pessoa amada pode ou poderia repartir-se com outrem faz-nos estremecer. quiséramos que só nós fôssemos o único que lhe interessasse. por assim dizer. ou inclinação comedida que se tem para alguém ou para alguma coisa. paixão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 123 (ou qualquer peça de ferro que se empregue em fechar) que. uma gaveta. de tais méritos. a amargura sustém-nos. um portão. não dizendo o que se sente. de madeira. e ambicionamos encontrar-nos sempre e exclusivamente na sua presença. Deliciamo-nos em ouvir falar dela. propensão. – Paixão é o desejo veemente de obter e possuir a pessoa ou a coisa que desperta em nós esse sentimento. O amor recusa crer nos defeitos que vê na pessoa amada. sem causa. recordou-se que esse defeito existia numa menina a quem amara desde a infância. Antes de Garnier já Diderot definira admiravelmente o amor pela boca de Gardeil. na paixão há arrebatamento. aferrolhar e trancar dizem “prender com segurança”. amizade. – diferençam-se apenas em ser a afeição extensiva a pessoas e a coisas. e acabamos por amá-los. Se no amor não há os arrebatos da paixão. O austero Descartes simpatizava com os olhos vesgos: procurando a origem de tal gosto. de gozar da sua companhia. uma carta. Adolphe Garnier. diz do amor: “O caráter distintivo do amor é o de preocupar exclusivamente o nosso pensamento com a existência de uma pessoa do outro sexo. apego. 177 AFETO (afeição). Também se fecha a alma. um cofre. o . de lhe ser útil. Também se diz – “aferrolhar a fortuna”. impedindo assim que se abra a porta ou janela em que está pregada”. quando este se dirige à sua amante La Chaux: “Ignoro a razão de já a não amar. É certo que o amor aumenta com os méritos do objeto amado: não vem. Uma diferença essencial entre a afeição e a paixão é que a afeição se sente por aquilo que se possui.. no entanto. correndo horizontalmente pelos anéis. no entanto. e o afeto só a pessoas. podendo ser. e a paixão sente-se geralmente por aquilo que se deseja possuir. não assim o afeto ou a afeição. Num sentido mais geral. no seu Traité des facultés de l’âme. dedicação. Fecha-se uma porta. senão que os tomamos por perfeições. e às vezes cessa sem ela”. De que provém? Nasce. não obstante.. e que se procura a ocasião de a ver. a qual nos causa um como deslumbramento contínuo pelas qualidades e perfeições que a nossa imaginação lhe atribui. por que está abraçada. significando que se a retém com usura ou somiticaria.

etc. mas ao qual o coração fica alheio. como as há que têm inclinação para o mal. a um hábito. o apreço do caráter. seja amor. dissimulado. fantasiado. degenerará facilmente em paixão. e procura. amor ao próximo. ou para qualquer vício. que o afetado. – Dedicação é o desprendimento de si próprio em favor de outrem. O indivíduo afetado é o que anda. traja e se apresenta fora do natural. fantasiar. 178 AFETAÇÃO. disfarçar. a dedicação leva às vezes ao sacrifício. da índole e do espírito do amigo. não for combatida. fortalecendo-se. porém. só quer dizer que as relações do trato não são desagradáveis entre aqueles que se dizem amigos – a amizade verdadeira tem. disfarce. caracteres especiais pelos quais se pode determinar. que se revela em tudo o que ao filho diz respeito. simulado.124 Rocha Pombo amor é o sentimento pelo qual se ama ou se quer bem a alguma pessoa: amor paternal. Se a razão não pode dominar. fingir (fazer de. não obstante. não é um sentimento distinto do amor paternal: é a sua manifestação. contrafazer. pode tornar-se amor. aptidões. nem o amor. pois. o sujeito que se finge quer ser diferente daquilo que é. fantasia. por exemplo. astuto. fala. a um animal. de um como voto feito. Usa-se também este verbo como pronominal: o indivíduo que se afeta no dizer é o que procura apurar tanto a elocução que se torna ridículo. é a disposição e tendência natural do espírito para alguma coisa. disfarçado. afetar. geralmente. tais são: a necessidade de expansão e de confiança recíprocas. por exemplo. José de Lacerda – é “o apego particular de uma a outra pessoa. que realmente não se têm”. a recordação originam o apego. fingido. aparência. aparentar. Se a inclinação. se. é esse próprio amor. mas o efeito de uma firme resolução. fingimento. intuitos. encobre com artifícios (fingimentos) o que sente. representar de). afetado. seja amizade. e pelo qual nos consideramos ligados. Tem-se apego a um objeto. assim como o animal tem apego ao homem. contrafeito. ou que duas pessoas têm entre si”. etc. não é mais do que o embrião desses sentimentos. Um criado é dedicado a seu amo. iludir os . no sentido lato da palavra. pois aquele que se sente levado por ela para o jogo. propriamente. ou de alguma ideia. e o desejo de ser-lhe agradável e útil até a preço do próprio sacrifício. foge desse mal sem grande esforço. Não se pode dizer que há amizade sem que o tempo e as vicissitudes da vida a tenham cimentado e posto à prova. dissimulação. Vemos assim que esta palavra é menos expressiva que qualquer das três precedentes. também o origina a inclinação quando é fomentada. esta disposição. – O apego é um sentimento que pode ter maior ou menor intensidade. mas em si. pode facilmente triunfar da inclinação. a paixão. ou em amor. – Inclinação.. amor à ciência. Há pessoas que têm inclinação para o bem. – A amizade – diz d. O hábito. dissimular. não é o sentimento. aparente. a reflexão. – Fingido é aquele que faz por parecer o que não é: é mais hábil. no sentido que geralmente se lhe atribui. A ternura paternal. – Afetação é “o modo contrafeito de mostrar sentimentos. amor filial. a uma pessoa. a um partido. enquanto este exagera porque aspira passar por mais do que realmente é. Num sentido mais restrito. ou amizade. a inclinação é a disposição e tendência natural do espírito para amar alguém em razão do que nessa pessoa nos agrada. contrafação. Quem afeta alguma coisa inculca sentir o que de fato não sente. um homem é dedicado ao seu partido. O abuso que se faz desta palavra não exclui que a amizade exista: se ela é vã na boca da quase totalidade dos humanos. simular. portanto. – A ternura não é sentimento: é a manifestação de um sentimento. simula- ção.

“o ato de fazer alguma coisa de modo contrário ao que é legítimo. não dizemos. o prazer. reconhecida. inculcando outra coisa que por ela se quer fazer passar”. Um homem prudente pode.. portanto. Quando . – Simular e fingir têm de comum a significação de “ocultar. assimilar e assemelhar. como. ou que disfarça suas intenções. como simular é próximo de fingir. e afetuoso = “cheio de afeto. ou que tenha aparências de outra pela qual se quer que essa coisa passe. nos gestos. nas atitudes. O que se fantasia impõe-se pelo efeito produzido sobre a imaginação dos outros. mas – “demonstrações. que uma coisa seja semelhante a outra (as palavras latinas simulare e similis deram-nos simular. ou movimentos – de atração para aqueles que se lhe representam como bons. e afetuoso só a pessoas. O homem que disfarça procura sempre arredar do pensamento dos outros a noção exata do que lhe convém: o que dissimula cala mais o que sabe ou o que sente do que disfarça o que deseja. – Os verbos fazer e representar em certas formas valem por fingir. – Ainda que os di- cionários deem como significando a mesma coisa e tendo o mesmo valor. ou apreendido nos objetos pela nossa alma. qualidades afetivas”. Afetivo significa. “de afeto. ou o mal. paixões. – Aparentar é “mostrar aparências de que uma coisa é assim mesmo como se faz crer. que aos olhos de outrem encubram a verdade que não se deseja. isto é. O sujeito que dissimula faz por parecer estranho ao que se passa em volta de si. ou representa de tolo). no que diz. “qualidades afetuosas”. e “nada mais falso do que a fantasia de que se valem os espertos contra a ingenuidade dos tolos ou das crianças”. Parece. por exemplo. ou procura. excita nela comoções. sentido. Pelo menos diferençam-se eles em poder afetivo aplicar-se tanto a pessoas como a fenômenos morais. simulou um ataque pela retaguarda”. 180 AFETOS. no entanto. – Segundo S. “F. Dizemos – “criaturas afetivas”. por um falso exterior. e produzem nele efeitos proporcionados. Usa-se o verbo fingir como transitivo e como pronominal. afetuoso. O sujeito que se disfarça. A dissimulação pode não ser um defeito: o disfarce nem sempre. “contrário ao que é natural que se esperasse dele”. etc.). afável”. é fazer crer pela aparência simulada”. – Disfarçar é tomar aspeto. próprio de afeto. “Ela está fingindo que não nos vê”. quer ou pensa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 125 outros. ou – “criaturas afetuosas”. se não se mostrasse contrafeito. por discrição. e às vezes em toda a pessoa do homem. que tem relação com afeto”. nestas frases: “O pobre homem está fazendo de Judas”. ou a dor. ou aparências. “ele se faz de tolo” (o homem está fingindo ou representando de Judas. – Contrafação é. reveste-se de artifícios (disfarces) que o desfigurem. O dissimulado mostra-se alheio exatamente àquilo que de fato lhe interessa. – Fantasiar é “iludir pelo aspeto.. como não obraria se fosse sincero. ou – de aversão para aqueles que se lhe representam como maus: e estas comoções comunicam-se ao corpo. ocultar o que pensa ou quer. portanto. que o disfarçado tem intuito de enganar. e que nem sempre se poderá dizer o mesmo do dissimulado. dissimular. portanto. isto é.. aqui. muitas vezes. “demonstrações afetuosas”. Luiz. Mas quem simula faz que uma coisa pareça em vez de outra. “o bem. ele finge ou finge-se de tolo.. no movimento do sangue. convém distinguir estes dois adjetivos. que se manifestam nos olhos. ou de que é tal como parece” (aparente). a verdade. benigno. 179 AFETIVO. ou ao que se devia esperar”. Quem se contrafaz obra. Disfarce é muito semelhante a dissimulação. na cor do rosto.

e que. e não se devem render a clamores dos que apaixonadamente insistem em perseguir a inocência”.. – Cozer (do latim coquere) é “preparar ao fogo. O amor sensual. até que pela fervura do líquido chegue essa coisa ao estado que convém”. devem com madura consideração examinar as causas dos acusados e a intenção dos acusadores. no precedente parágrafo. e os fez julgadores. e sua alma inclinava-se suave e gostosamente para as doutrinas expendidas neles. violentas. Antonio de Sant’Anna. e arrastam o homem ao quebrantamento da lei e do dever. por afetuosa. a seguinte passagem: . a compaixão. depois de S. temperadas. afetos – que citamos acima. – Aferventar é “submeter um líquido a um grau de calor em que ele comece a ferver. – Ferver é “submeter um líquido a estado de ebulição por certo tempo”. e favorável: o parecer apaixonado não é imparcial.. Souza. o reconhecimento são afetos. no meio de um líquido. chamam-se simplesmente afetos. o amor filial. – Há entre aquentar e aquecer uma diferença análoga à que se nota entre ferver e aferventar. como diz Roq.. aquentar pela segunda vez”. – Na linguagem da retórica. – Escrevendo Maria. são brandas. afetos e paixões são uma mesma coisa”. e arrebatado pela paixão. digo que neste Sermonário se admira um livro que tem mais frutos que folhas.. “Assim por conseguinte cada um dos afetuosos suspiros tiram alguma coisa da ferrugem do pecado”.. isto é. começa Alves Passos observando que se sabe “o sentido em que estes dois vocábulos são sinônimos”... Apaixonado é o que obra como involuntariamente..126 Rocha Pombo estas comoções. do latim calens. a ambição. “Aqueles a quem Deus cometeu o juízo. ferver. estabelecida a sinonímia e a diferença dos dois vocábulos – afetuoso e apaixonado – e também desenvolvido o pensamento de Fr. O parecer afetuoso é cheio de carinhos.” As paixões. aquentar. Os simples afetos são comoções brandas e suaves que se podem ajustar com a razão. a vingança são paixões. aferventa-se a sopa ou o café. consideradas em si e nos seus efeitos. e apostados a rasgar cortesia”. dar a alguma coisa começo de quentura”. a nosso ver. 182 AFERVENTAR. O autor da passagem citada amava o escritor dos Sermões. apaixonado. chamam-se mais propriamente paixões. A amizade. – Requentar é “tornar a fazer quente. a um certo grau de calor. impetuosas. cozer. de Barr. Afetuoso é o plenus amoris dos latinos. incoativo de calere) significa “fazer meio quente. aquecer (do latim calescere. Quando fortes. José de Jesus aquecer. Fr. a cólera.. 181 AFETUOSO. coze-se o feijão ou a carne. requentar. Eufros. doces. Aquentar (radical quente. no parecer que sobre o mérito deles deu Fr. pode o leitor consultar o artigo – Paixões. que violentas e impetuosas fazem muitas vezes emudecer a razão.. suave. mas apesar disso. Brandão. “Eram caluniadores e apaixonados. para verificar-lhes a significação precisa. Br. “Nos Sermões de Fr. José de Jesus Maria. lemos. “Ao coração apaixonado nada se deve crer”. Ferve-se a água. é ferver mal e mal”. padecer a nota de apaixonada. O afetuoso inclina-se para um objeto: o apaixonado é arrastado por ele. “antes sem temor de que a minha aprovação possa. submeter alguma coisa sólida. Luiz. o seu voto era imparcial – a amizade ao orador não o arrastava ao elogio dos seus sermões: eis aqui. de calere “estar quente”) designa a ação de “tornar quente”. L. . não assim as paixões. P.. “são afetos levados ao último grau e assenhoreando-se da vontade.” Daqui nos veio a ideia do presente artigo.

– Conexão é. afinidade. de affinis = ad + finis) sugere ideia de junção. ou que seja comum aos dois. atração química. que os ponha num certo grau de conveniência. chama-se gravitação: tal é a dos planetas para o centro de suas órbitas – o qual. a conexão ou conformidade existente entre as coisas sob um certo ponto de vista”. – Quanto a atração. muito aproximada de outra pela espécie. – A coesão é a força que produz a coerência. reservando o nome de coesão para designar a força que liga as partes que formam uma substância única ou homogênea (de um corpo simples)”. Quando consideramos a atração solicitando os corpos terrestres. Quando ela exprime a tendência que têm os graves para seus respetivos centros de gravidade.. e no sentido lato. – A adesão é a força que produz a aderência. “algum lado ou aspeto pelo qual se liguem ou associem”. chamamos-lhe mais ordinariamente gravidade: e o mesmo nome damos a essa força considerada nos corpos de que se compõe cada astro. adesão. – Afinidade (affinitas. “é o grau de afinidade. – “A aderência. a natureza das propriedades ou do modo de ser entre duas ou mais coisas ou fenômenos”. o aspeto. também se chama atração planetária.. entre duas ou mais coisas. vizinhança: é a “relação de proximidade. atração. conforme. chamada atração. a aproximaremse do centro da Terra. e que só tende a mantê-los adunados. toma o nome de gravitação”. ou analogia entre pessoas. contiguidade. Chamase esta força atração. é a relação de sangue ou de aliança doméstica entre pessoas. – Parentesco. e a relação que os corpos ou suas partes têm entre si.: “Palavras científicas com que se exprimem as diferentes maneiras por que se manifesta essa força invisível que há na natureza. coesão. semelhança. e solicitando-os uns para os outros. semelhança essencial”. quase igual a outra.. – A coerência é o estado das partes unidas entre si para formar um todo. é “a relação de proximidade. a semelhança de natureza. similaridade. aqui. 184 AFINIDADE. – Analogia é o ponto. 127 parentesco. . A que se exercita sobre as últimas moléculas dos corpos recebe o nome de afinidade. e Berg. e cada uma das suas partículas. A mesma atração considerada nos grandes corpos. por isso. e todos para um centro comum. escreve também Roq. ou também atração de composição”. escrevem Bourg. aderência. gravitação. gravidade. S. – A inerência é a relação que une a qualidade à substância. adesão. a respeito desse astro. – Semelhança é “a qualidade de ser uma coisa parecida. “Isto não tem relação com aquilo” – quer dizer: não há entre isto e aquilo coisa alguma que os aproxime. de que se compõe o sistema do mundo. Luiz – “uma força universal na natureza que solicita todas as moléculas da matéria e todos os agregados dela. semelhança. gravitação. ou coesão. a aproximarem-se uns dos outros debaixo de certas leis. pela forma. Quando o corpo é formado de substâncias de natureza diferente (isto é. ou astros. pelo modo de ser”. – Similaridade diz propriamente “igualdade de natureza. a forma. denominase adesão ou coesão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 AFINIDADE. inerên- cia. de propriedade ou conveniência entre duas coisas. propriamente. A atração que se dá quando os corpos se tocam. conexão. quando se trata de um corpo composto) dão os químicos mais particularmente o nome de afinidade à força que une as partes constitutivas do corpo. relação. analogia. a força que une entre si as partes constitutivas de um corpo. – “Há” – diz fr. fenômenos ou coisas”. coerência. é o estado de duas coisas que se prendem uma a outra e que são mais ou menos difíceis de separar. ou “o modo de ser semelhante entre duas ou mais coisas diferentes”. – Relação.

comprovar. Consanguíneos são os irmãos. dizer. com serenidade de quem não receia desmentido”. segundo Aul. – Colar é “afixar por meio de cola”. etc.128 Rocha Pombo 185 AFINIDADE.. afim. agnação. “Asseguro-lhe. 187 AFIXAR. – Cognatos são os filhos da mesma mãe e de pais diferentes. só têm sentido figurado. ou por cima de outra”. aplicar. é “fazer alguma coisa pegar a outra. “Afirmei ontem que o rei fora deposto: confirmo hoje este despacho”. – Chumbar e soldar. os concunhados. atar. cognação. É diverso da consanguinidade. agnatos. de pix “pez”) é. do que se sabe”. assegurar. fez. o mesmo que grudar e colar: é “aplicar. – Ratificar é “repetir categoricamente o que se afirmou. – Afirmar é “dizer formalmente aquilo de que se está convencido”. ligar uma coisa a outra. aqui. – Fixar e afixar só se distinguem pelo que o prefixo ad acrescenta ao segundo. ou garanto-lhe o que digo. ou fazer aderir. “o parentesco pelo lado da mulher. – Aplicar. seguro. quer agnatos. sobrepor. ou mesmo os cunhados. – Comprovar é “fazer prova mais forte de alguma coisa que se afirmou”. isto é. – Pregar é “prender por meio de prego”. os filhos do mesmo pai e de mães diferentes. – Atestar é propriamente “dar testemunho de que uma coisa é como se diz”. colar. estável. de- duzindo. atestar. – sobrepor é “pôr alguma coisa sobre. por parte do varão”. grudar. aumentar o valor da afirmação que se fez. “o parentesco pelo lado masculino.” – Assegurar é “afirmar com segurança. se não pertenciam pelo sangue à mesma família. apor. Mas aquele que garante (na acepção que tem aqui este verbo) assegura a veracidade. – Pegar (do latim picare. soldar. dá fiança. – Afixar é propriamente “fazer fixo”. de qualquer modo. fi- xar. e vice-versa. dá certeza daquilo que disse ele próprio. – Apor e sobrepor também se distinguem pelos respetivos prefixos: – apor é “juntar uma coisa a outra. Afins são. consan- guinidade. cognato. por exemplo. ligar. explicando. uma coisa a outra. asseverar. quer cognatos. ratificar. confirmar. Duas coisas fixam-se (e não – afixam-se). e diferençam-se . Só se afixa uma coisa a outra coisa. como se fosse colada. ou superior. segurar. não dando mais energia ao modo de afirmar. – Agnação e cognação marcam parentescos também “opostos”: o primeiro. mas num sentido geral é “prender fortemente”. aderir a outra”. – Certificar é próximo de atestar: significa “dar por certo aquilo que se sabe. prender. Confirmar é “afirmar uma segunda vez e dar testemunho solene do que se viu. isto é. – Segurar é “fazer firme. argumentando. declarar definitivamente aquilo que se tinha dito”. o segundo. – Demonstrar é “pôr em clareza e evidência aquilo que se disse. corroborar. pregar. chumbar. como trazendo em favor da afirmação testemunhos ou documentos valiosos”. ou pôr uma coisa em cima de outra”. garantir. aqui. certificar. parentesco existente entre pessoas do mesmo casal”. – Garantir é empregado frequentemente por assegurar. ou que outro disse. que significa “parentesco pelo sangue. 186 AFIRMAR. convictamente. ágnato. cognação era “o laço de parentesco natural sem direitos civis”. garanto-lhe que é exato o que ele disse”. convencer da certeza de que uma coisa é como se afirma”. aqui. pegar. fazer aderir por meio de alguma substância glutinosa”. – Corroborar é “dar força ao que se disse. demonstrar.” Na jurisprudência antiga. etc. – Afinidade é “o parentesco resultante de uniões conjugais entre membros de famílias diferentes”. pensa.” – Grudar é “prender com grude”.

angústia. A pessoa inquieta sente-se preocupada com alguma coisa que lhe desagrada. pesadume (pesadumbre. angústia que abate o espírito (diz Bruns. pesar. pesadelo. pois indica apenas a falta de prazer. “Nada viu que lhe aliviasse a saudade e pesadume”. – Pesadume (ou pesadumbre. – Agoniado está quem sente ou parece sentir essa aflição de hora da morte. – Consternação é “a grande tristeza e desalento produzidos por alguma espantosa desgraça”. ou ar viciado. opressão. a sensação desagradável que se experimenta respirando mal. tris- teza. menos que pesaroso. prender como por meio de solda”. segurar. tirando-nos a calma e o sossego. de qualquer modo”. agoniado. ansiedade. “unir. que perturba a razão. incômodos. no entanto. dorido. de fios. – Prender = “Fazer sujeito. ligeira amargura”. ou pelo que receia venha a dar-se. dolorido. mas o segundo é mais forte. suplício. dor. inquietação.”. incomodado. desgostoso. ou a desconfiança. A criatura magoada. profundamente penalizado e inconsolável.. etc. é “toda ânsia que se pareça com essa aflição de morrer”.. e leva o aflito a obrar sem tino”. mas designa um desgosto ou pesar menos fundo. (Fil. do espanhol) = “tristeza lamentosa. doloroso. se recebe. Uma pessoa triste dá indício de que tem na alma preocupações que lhe toldam vida. ou por falta de ar. mas está como revelando no semblante a tristeza.). etc. alguma coisa. ou a dúvida. etc. triste. não só não sente prazer. amargura. pena. trabalhos. Angústia é uma opressão tão forte e dolorosa. corda. mágoa. ou devido à moléstia que afete a função respiratória. espanhol). inquieto. coisa que nos fere o coração”. desgosto. consternação. – Desgosto é o “mau grado que nos causa algum sucesso. e mostra-se um tanto ansiosa dessa preocupação. laços. atormentado. – Pesar é a “dor moral. magoado. o sentimento de tristeza (condolência) que nos causa uma notícia. atribulado. cit. fita. Também ficamos pesarosos (cheios de pesar) de não ter podido evitar um mal ou de não haver involuntariamente cumprido um dever. sofrimento. um sucesso que não se esperava”. angustiado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 129 claramente pelos respetivos radicais. – Mágoa é quase como desgosto. agonia. consternado. pesaroso. – soldar. tortura. indicando ambos a ação de prender uma coisa a outra: – chumbar. Opressão é. e por extensão. ou pelo mal que aconteceu. padecimento. em geral. se vê.). etc. – Agonia (do grego agon “combate”) é propriamente a luta que o moribundo trava com a morte na hora extrema. – Opressão e angústia podem confundir-se. – Inquietação é menos que aflição: designa o “estado de espírito em que o medo. “prender como se ficasse seguro por chumbo. ou mesmo pelo peso do chumbo”. Desgostoso é. – Amargura é dor mo- . ansioso (ansiado). – Tristeza é o “estado de compunção em que se fica. ou que lhe alteram o humor normal. supliciado. a saudade que sente. numa aflição e ansiedade de quem se sentisse estrangular. porém mais fino e talvez mais sincero. muitas vezes por algum motivo que não é grande. aflito. – Ligar = juntar e prender com liga ou ligadura. tribulação. ou mesmo sem motivo real e preciso”. de boa vontade com que se faz. 188 AFLIÇÃO. Aul. o desgosto. amargurado. ou.. Elys. penalizado. tormento.”. torturado. nos põe. laço. como se a pessoa angustiada tivesse impedida a respiração.. como definem os léxicos. Quem está consternado mostra-se abatido de dor e de espanto. – Atar = “prender por meio de atadura. reter. transe. – Aflição (de afligere (ad + fligere) “deitar por terra” é “grande incômodo moral.

– Tribulação é “trabalho aflitivo. torcer. o sentimento de funda tristeza que nos vence a alma no meio dos contrastes da vida. quer morais. Entre ansioso e ansiado convém não esquecer que há esta diferença: o primeiro emprega-se no sentido moral: o segundo. “Oh vós que passais pelo caminho – clamava o patriarca bíblico – atendei. ou o incumbido de pedir aos deuses nas preces públicas. Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos”. preces. aqui. Os três adjetivos dolorido. – Ansiedade. ligeiras e vagas.. de significar. torturado se sente aquele a quem se infligem duros constrangimentos. mas doloridos). sensibilizado”. vozes doloridas. magoado. O atribulado sente-se como que perseguido de aflições.. o sofrimento alheio”. ou por alguma pancada violenta. Quando muito. – Trabalhos toma-se aqui como significando “as contrariedades. por exemplo: “tenho as mãos. contrair”) significa “os tormentos a que se sujeitava o acusado quando não queria revelar alguma coisa que interessava à justiça”. as lidas e penas que se sofrem na vida. – Transe é como a crise. pois o penalizado mostra que avalia a dor do seu semelhante.... o momento mais duro dos trabalhos. tanto morais como físicas. as dores.. pode notar-se que doloroso quase que se emprega de preferência no sentido moral. Longe. quer pela impaciência com que espera o que deseja. “A menina está ansiosa pelo noivo”. Em sentido lato. que nos causa a desgraça. (Não costumamos dizer. quer físicas. transar”) era o tormento a que se submetia a vítima nos holocaustos. e exprime “todo gênero de provações. É mais propriamente a manifestação da dor que a mesma dor. É assim que na oração simbólica (o Credo) se diz que “. quer pelo receio de alguma desgraça. tormento como castigo. de sofreguidão.) – Dorido diz mais “triste. ire). Dor moral é a “comoção amarga. de dó. flagelo. (Doridos cantos. ou longas e intensas”. o seguinte: quem padece sofre os males com certa resignação. – Tormento é a “dor e a inquietação ansiosa. no físico. pois. orações doridas). no entanto.). Hoje. ou provações comparáveis à tortura. deve notarse. sugestiva de “enleiar. ou então devida a alguma anormalidade de funções de qualquer dos órgãos. – Suplício (do latim supplicium.. – Pena é “o sentimento de desgosto. mas principalmente morais. das amarguras: momento que se deseja “passe logo” (de transeo. ou os pés dolorosos. partes do corpo doloridas. e talvez até com uma quase ufania de os padecer. dorido e doloroso confundem-se. (e não – sofreu. causadas por sofrimento físico ou moral”. de desejo inquieto e aflitivo em que fica a pessoa ansiosa.130 Rocha Pombo ral acerbíssima. os males. de algum bem que se perdeu. “O doente está ansiado”. – Tortura (de torquere “dobrar.. tortura”. – Dor é “toda sensação que nos molesta.. e não seria fácil assinalar-lhes clara diferença. é o sofrimento do que vai ser justiçado. e vede se há dor igual à minha dor!”. As dores do atormentado são dores que afligem e mortificam. de alguma esperança que se extinguiu”. a cabeça. – Dolorido emprega-se num e noutro sentido. causada por alguma alteração traumática dos tecidos. – Padecimento é empregado na mesma acepção. apenas o sofrimento físico – o padecimento é uma forma estoica de sofrer as coisas que nos amarguram. (Almas doloridas.. juntas doloridas. súplicas. no qual figura a raiz grega plek. e por extensão empregamos esta palavra suplício para designar padecimentos que se podem comparar aos de um condenado à morte. que aflige e angustia abalando e pungindo os mais nobres e santos afetos da pessoa amargurada. como querem alguns autores. ou causada pela consciência de algum mal que se fez. é o estado de quase opressão. . – Sofrimento é o mais genérico deste grupo.

porém. as pessoas ou os grupos seguindo-se uns aos outros sem interrupção. aglomeração. – Reunião é. seguindo todas a mesma direção: é o que se depreende da etimologia da palavra (em latim fluere. . – Turba é a multidão indisciplinada e turbulenta. ruas da Baixa é à saída das repartições. aqui. ajuntamento. como em “gróppo di vento”). de cuidado ou de dor. agrupamento. mas este acrescenta à multidão. Assim. multidão. – Agrupamento é reunião por grupos. assembleia. formando conjunto que facilmente se destaca. triste e abatida”. devendo notar-se. tropel. anárquico. ou não ter funções ou fins legítimos. O mesmo diz tropel. e vale por grande ajuntamento desgovernado. ou gruppo significa. Cintra atrai no verão um grande concurso de gente. significando “correr para um sítio). como em turbilhões”. de alarde hostil. turba. nos dias de parada. – Incômodo (ou incômodos) é “a sensação de fadiga. no entanto. de que trata o referido autor: e o mesmo se diz dos demais. como. “núcleo revolto.. enquanto que concurso indica o movimento simultâneo de muitas pessoas que convergem por diferentes vias a um ponto dado. turba que se forma desordenadamente. e comumente de assanho. o grupo de pessoas que se juntaram para algum fim: é muito próximo de ajuntamento e de assembleia. tumultuoso. As outras três palavras que se seguem representam afluência de pessoas reunidas num ponto determinado sem ideia de estarem em movimento. turbilhão”.. A hora em que há maior concorrência nas AFLUÊNCIA. quer paradas. isto é. – Multidão é uma grande reunião de gente sem nenhuma ideia acessória. que ajuntamento é quase sempre tomado à má parte. à turba e à turbamulta – a ideia necessária de movimento. – Aglomeração (cujo radical glomus significa “novelo. de pesar. Na linguagem corrente. – Segundo Bruns. indica que a reunião pode não ser legítima. chusma. “O vasto tropel de beduínos fazia estremecer a planura”. turbamulta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 131 ou que se experimentam nalguma empresa”. – Afluência – escreve ele – “considera as pessoas dirigindo-se para um ponto. – Concorrência diz-se das pessoas com relação a um ponto dado. entre outras coisas. 189 concurso.. com que a pessoa incomodada se sente inquieta. reunião. isto é. são as de corporações políticas. há grande afluência ao local onde ela se efetua. é erro. ou indisposta. no inverno é enorme a concorrência aos teatros. Tem formação análoga à de aglomeração (o italiano gróppo. Empregar este vocábulo para designar a gente já reunida no ponto a que já convergiu. e traz consigo a desordem. mas neste movimento nada revela a ideia de continuidade. e é como se dissesse turba-multidão. que este último é particularmente empregado para designar uma reunião mais importante e solene. rolo”) diz “ajuntamento feito como que em atropelo. por exemplo. afluência não se limita a designar a muita gente que se dirige a um ponto seguindo a mesma via. – Aproxima-se de tropel e de turbamulta. “conjunto de muitas pessoas” é a ideia geral que encerram os seis primeiros vocábulos do grupo. – Ajuntamento designa a reunião de pessoas que pararam num ponto para um fim determinado”. – Concurso representa a mesma ideia que afluência. senão toda a que vai convergindo para o mesmo sítio por diversas vias. concorrência. Este é uma formação pleonástica de duas palavras do mesmo valor. de que nós trataremos. que obra em confusão. multidão. mas entre os dois vocábulos há uma diferença essencial: afluência considera o movimento como contínuo e regular. quer se considerem em movimento.

ousado. veemência. que se mostra impávido e sereno. precipitado. não toma com calma as proporções do perigo: arremessa-se à luta com o desassombro e afoiteza de quem não sabe poupar a vida. – Aguçado significa – “de gume ou de ponta muito fina ou adelgaçada. exceto o João que é trabalhador”. impertérrito. impavidez. ousadia. que intrepidez e que bravura: o capitão arrojado não mede bem as consequências da investida. agudo. mas na temeridade (que é às vezes uma como exageração do heroísmo) sempre há mais alguma consciência do perigo do que na afoiteza. no entanto. audaz. valente.132 Rocha Pombo 190 AFORA. – Cortante diz apenas – “que corta”. ímpeto. impetuoso. resolução. quer dizer – um ânimo seguro. determinação. Nos dois exemplos seguintes nota-se essa particularidade: “Afora o mais novo. tornando-se por isso muito cortante. – Temerário já é mais próximo de afoito. ou um espinho”. violência. bravura. O temerário leva a sua audácia e resolução até uma quase loucura. denodo. como coisa que corta”. intrepidez. intré- pido. sem preocupações que o levem a vacilar”. arrebatado. O verbo aguçar (do latim acutare) significa mesmo “fazer agudo”. arrojado. audácia. talhante. atrevimento. determinado. impetuosidade. – . impassível. incisivo. uma fé perfeita no próprio valor. valor. mas decerto que não diremos – uma foice afiada. – Incisivo – “próprio para cortar. temeridade. inconsideração. imperturbabilidade. 192 AFOITO. ou que se lança a encontro do perigo. intemente. coragem. denodado. este adjetivo afiado. 191 AFIADO. ou à vista de embaraços ou obstáculos opostos ao que intentamos. atrevido. não obstante. desafogado. Arrojo é mais que denodo. valoroso. ardido. veemente. – Cortante e talhante exprimem a qualidade. Diremos – um bisturi. corajoso. e afora. precipitação. resoluto. nos campos de batalha. a ponta de um punção. cor- tante. afoiteza. – O desafrontado mostra que se não deixa impressionar ante um obstáculo ou perigo: antes fica altivo. impassibilidade. confiança. amolado. erecto à vista dele. arriscado. heroico. ou faz uma ideia muito imperfeita do perigo. bravo. exceto se diz melhor do que se exclui. – Desassombrado é semelhante a desafrontado: significa – “que não se assusta. não só afronta. – O homem afoito. todos os irmãos são uns vadios”. destemido. – Todas estas palavras designam qualidades ou estados de alma que se revelam ante os grandes perigos. temerário. Na afoiteza. confia- do. audacioso. atua com força e decisão. “Todos os irmãos são vadios. – Agudo diz – “muito vivo. penetrante. Nem a todo gênero de instrumentos se aplica. um canivete. fino. – Confiado é aquele que mostra em si mesmo uma demasiada confiança. mas investe o embaraço. destemor. impávido. valentia. violento. ou ignorância ou falta de prudência. animoso. decisão. imperturbável. – Um instrumento afiado tem o fio muito fino. do que não se inclui. e talhante sugere a ideia de separar de todo (talhar) a coisa que se corta”. – Amolado se diz do instrumento que se aguçou a rebolo (mola “mó”. “pedra de amolar”). arrebatamento. há sempre. Em sentido translato – “que opera. – É ainda de Bruns: Exceto e afora empregam-se indistintamente. heroísmo. desafrontado. intrêmulo. uma navalha afiada. inconsiderado. que corta” – define Aul. – Arrojado é o que. heroicidade. decidido. arrojo. ou não o conhece. pode ser o gume de uma faca. ânimo. a propriedade do instrumento que foi afiado. aguçado. imponderado. ardimento. exceto.

que vivem sempre felizes” – parece que fica muito clara a significação do vocábulo intemente (apenas – “não temente”). Destemido é “o que nada teme.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 133 Atrevido sugere a ideia de que o arrojado é inferior em forças àquele contra o qual investe. a firmeza com que se afrontam os perigos e se trata de os vencer. Quer isto dizer que atrevimento é a decisão pouco refletida. no entanto. – Imponderado é convizinho dos dois precedentes. a constância. é tão desgraçado: vejo. arrojado. valor moral. que zomba dos perigos. inquebrantável em situações difíceis. que não se abala de pavor”.. mas o sujeito intemente é o que não teme aquilo que é natural se tema. a índole. o temperamento normal que se não perde no meio dos embaraços. O valoroso tem mais de coragem. A valentia é qualidade de que se ufanam os campeões. robusto. pois. Não seria de estranhar que muito sujeito ousado viesse a mostrar-se covarde. Neste exemplo: “F. – Destemido. pois a ousadia não é mais do que uma coragem que se funda na confiança que o ousado logrou de sucessos anteriores. que é corajoso e intrépido”. com que alguém se arrisca a um perigo. isto é. que mostra ousadia extrema. A decisão (decisio. – Coragem (do baixo latim coragium “força do coração) designa propriamente a energia moral. de alma forte que de força muscular. sem probabilidades de vencer: o afoito ainda pode. do que propriamente valor”. – Arriscado quer dizer – “que se expõe a perigos mais do que se permitiria a uma coragem regulada pela prudência”. impávido poderiam confundir-se. – Audaz (conquanto oriundo da mesma raiz de que proveio ousado) envolve as ideias de intrépido. e parece dar mais prova de irreverência que de destemor. sendo o destemor uma das grandes qualidades do herói. quase temerário. e até ímpias. O valor consiste mais na grande- . Impavidez é a “serenidade com que se encara. – Audacioso (formação vernácula de audácia) não diz senão – “que revela alguma audácia (ou uma audácia menos nobre e legítima). salvar-se pela vitória. igual. leviana e confiante. – Ousado é menos que atrevido. pois. por isso mesmo. que teme tanto castigos do Céu. intemente.) – Determinado diz melhor a firmeza com que o resoluto executa o que resolveu. consequência da resolução que se tomou. que despreza os tropeços”. sem comover-se. “valentia moral”. mas o primeiro se aplica de preferência ao indivíduo que é forte no físico. Nem se diz. com um golpe de audácia. propriamente”. grandeza de alma no meio dos perigos. criaturas intementes. desafrontada. denotando apenas a inconsideração mais leviandade que propriamente coragem. A determinação parece. notando-se que imponderado e inconsiderado não envolvem necessariamente a ideia de coragem afoita que se encontra em arriscado. “coragem resoluta. Audácia é. ere] “cortar”) revela-se no ânimo seguro e pronto com que alguém se dirige em dada conjuntura. Impávido é “o que se não amedronta. pode conservar espírito forte. – Decidido é “que não vacila ante obstáculos ou perigos”. sem agitar-se. – Valente e valoroso andam de ordinário confundidos. – Inconsiderado significa o mesmo quase que afoito.. alentado e animoso.. que se mostra calmo e tranquilo ante o que pode sobrevir. talvez mais petulância que audácia. de decidere [= de + cœdo. O general inconsiderado meterá o seu exército em risco de desastres. sendo a resolução um ato que resulta de reflexão. O sujeito animoso é o que se conserva como é. O homem fisicamente fraco e até enfermo pode bem ser corajoso. e que para investi-lo tem de juntar ao arrojo a afoiteza. sem temer. – Ânimo não tem a força de coragem: é mais “a posse de si mesmo. algum perigo”. (Resoluto parece dizer alguma coisa mais calmo e ponderado que decidido.

– Impetuoso é o que cede a impulsos instantâneos da sua coragem e pratica atos heroicos que parecem mais inconsiderados do que atos voluntários de valor. – Heroico é o que se mostra digno de triunfar galhardamente pelo valor moral. – Violento é muito distinto de precipitado. excelência de intuitos. – Intrépido é aquele que não vacila na investida. – Intrêmulo. têm valor para arrostar o mal. além de impávidos. ou um impulso mais devido ao temperamento que à decisão de quem obra”. A intrepidez é a qualidade daqueles que. – Precipitado confunde-se com inconsiderado e imponderado. que não volta as costas ao inimigo. livre de receios”. pois o sujeito afoito pode ainda ter ideia do perigo. dos escarmentos”. no esforço e altivez com que se afronta a desgraça ou o inimigo. dos perigos. “que não se assusta diante do inimigo. que se aventura. o ataque. dá provas mais que de coragem comum. ou que se abalança a atos de audácia pouco refletidos (ardimentos)”. O homem que salva de um incêndio uma criança. a desgraça. Intrêmulo diz – “que não treme diante do perigo”. pois ímpeto quer dizer mesmo “decisão súbita e veemente” (e impetuosidade é a qualidade de ser impetuoso). Veemência é “a viva intensidade de uma apóstrofe. pois. mas de uma bravura que vai até o delírio. rápido e violento”. ante só perigos. alguma coisa mais que afoiteza. Precipitação é. e apenas não pensar nas exatas proporções dele: o precipitado não cogita do perigo. impassível são convizinhos muito íntimos. para não trepidar ante a própria morte. que é um bravo o homem que num dado momento da vida se portou com a majestade de alma própria dos heróis. como já se disse. e só figuradamente se aplicaria à grandeza moral dos que triunfam pela excelência de virtudes mais excelsas: dizemos. resolução é o “intento ou o propósito que se tomou depois de haver muito refletido na coisa que se trata de resolver”. que é animoso. sendo a violência “uma perpetração. de censura ou de exprobração”. – imper- . ou que matasse uma criança. por esforço hercúleo. esplendor das ações (sendo heroicidade a “qualidade de ser herói”). sem se aperceber do perigo. – Denodado significa “desprendido. – Resoluto é quase o mesmo que decidido: apenas no resoluto se supõe uma reflexão mais funda do que no decidido. pois heroísmo é tudo isto junto: grandeza de alma. desafrontado. Não se teria por heroísmo a valentia de um sujeito que vencesse a um enfermo. explicando-lhes a diferença. – A bravura pode-se dizer que é a virtude dos homens de guerra. o violento só não dá ao que vai fazer uma atenção perfeita. do que propriamente no vigor de um físico sadio e robusto. no entanto. imperturbável. nem mesmo ao que viesse a triunfar da fé. senão – “uma súplica veemente”. – Impertérrito é antônimo de pertérrito. e conserva a coragem e a calma nos combates”. – Veemente quer dizer “impetuoso e forte. – Ardido é galicismo pouco usado (hardi) significando propriamente “atrevido. e significa. de afronta. por exemplo: – “um pedido”. pela constância. O denodo é a qualidade dos que. sem pensar nele. Ninguém diria. portanto. de um ato de coragem. ou um inválido. A própria formação destas palavras está. Um homem precipitado atira-se a um abismo sem o ver. se mostram isentos de preocupações que não sejam as de se mostrarem desembaraçados de tudo para alcançar o que almejam. pois. coragem desassombrada. – Arrebatado é “o que se incende de sentimentos heroicos diante das desgraças. mas a precipitação enuncia mais claro um ato fora de toda consciência.134 Rocha Pombo za de ânimo. assim. de uma abnegação que excede a tudo que tem de augusto o heroís- mo: e é a isto que se deve chamar arrebatamento moral.

só nos incomoda com um prejuízo fundado. ou no capricho. porém. não se altera ante o perigo. esta. ou do que ouve”. dissimula-se o agravo mais facilmente que a ofensa. eu posso estar agravado. porque o agressor lhe fez rosto. – “Entre o agravo e a afronta” – diz Roq. Seja exemplo: Está um homem na rua descuidado. chasco. e este não perdoa com facilidade. para a ofensa basta que haja insulto. fica. o agravo pode vir de qualquer parte sem que afronte. sem ter nisto vaidade. sustentou o seu feito sem voltar as costas. “que se não perturba. esta afronta-nos sempre. não vê nisto mais que uma injustiça. quando realmente o é. ou uma declaração de sua insuficiência. mete o homem mão à espada. ainda que ela mesma conheça que a não tem. porque a ofensa nos choca diretamente com o amor-próprio. comumente. em regra. Se o que deu as pauladas ficara de pé firme fazendo rosto a seu inimigo. não. remoque. na opinião. se a este agravo acresceu um desprezo do seu mérito. Desconfiar da probidade de um homem de bem é uma injúria. a ofensa junta ao agravo o desprezo ou o insulto. – impassível. pois que a afronta há de ser sustentada: circunstância que não é necessária para constituir o agravo. toma-o como desprezo ou insulto. porque em dizer aquela verdade não se dá a injustiça que exige o agravo para o ser. mas não afrontado. nem pretender elogios. e foge. O mesmo confirmará outro exemplo: Está um homem com as costas voltadas. E assim. “que nada sofre. afrontado. mofa. zombaria. não obstante que aquele nos causa um prejuízo efetivo. que é vingar-se: este homem fica decerto agravado. sátira. ficaria o que levou as pauladas agravado e afrontado juntamente: agravado. Não agrava o que diz de outrem que é torto. de atonia moral. afrontado. ser uma virtude de estoico. – Quanto a injúria e ultraje. injúria. – ultraje apresenta a ideia de vilipêndio público em detrimento de alguém. ou estado de ânimo. o homem. a mulher. como já notou d. porque insulta seu amor-próprio e o humilha. e faz o que lhe cumpre como homem de brio. nem olha como leves os insultos. porque lhe deram à traição. e faz e sustenta. porém. quando . e não o deixam levar avante o que intenta. porque aquele. feito às qualidades pessoais de alguém. Para o agravo é preciso que haja injustiça. O que levou as pauladas recebeu agravo. Quixote: que a afronta vem da parte de quem a pode fazer. ainda que não haja injustiça. que se mostra indiferente. a ofensa. irrisão. tratá-lo publicamente de ladrão é um ultraje. chega outro por detrás. diz Roq. O que tem direito a um acesso. porém esta. porém ofende aquele a quem se diz. segundo as leis do maldito duelo. ultraje. crê-se agravado. e não o alcança para castigá-lo. e dão-lhe pancadas. Tratar de feia a uma mulher formosa é um agravo que. e o não conseguiu. vexame. chegam dez indivíduos armados. em outro §: injúria apresenta a ideia de agravo violento. porque nas mulheres pode mais. ou a afronta. mas não afronta. A impassibilidade pode. e dá-lhe duas bengaladas. de que decerto se não dará por ofendido. escárnio. ou o mal que o assalta”. ofensa. avania. insensível diante do que vê. – “há esta diferença. troça. não se pode dizer que dança mal sem fazer-lhe um agravo. – O agravo atropela nosso direito. apodo. privando-nos realmente do que nos pertence. 193 AFRONTA. segue-o o homem. a vaidade que a modéstia”. gracejo. chacota. De um homem que dança bem. e a pé firme.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 135 turbável –. ou um vício. Aquele prejudica-nos talvez sem nos afrontar. mas a multidão dos contrários se lhe opõem. insulto. que deprima. ou nos humilha. Por isso. ofendida uma mulher a quem se disputa a boa figura. portanto. crê-se ofendido. agravo.

porém. e extorsões que os muçulmanos faziam aos cristãos”. Os exploradores do polo afrontam a morte por amor à ciência. A palavra com que se designou aquilo. – Afrontar e arrostar. – Sátira. jantar.. o gesto. rega-bofe. encara-se a sangue-frio o perigo. 195 ÁGAPE. – Vexame é “tudo o que constrange. festiva”. dirigido a algum defeito ou a alguma falta da pessoa a quem se ofende. portanto. – Insulto dá ideia de ofensa feita de propósito. – Troça. intentando obrigar o inimigo a que recue”. e. alimento”) é “refeição abundante e alegre”. patuscada de vagabundos. torpeza”) significando hoje “grande e farta refeição alegre. aqui. violência. gracejo pesado. porém: que afrontar não implica a ideia de luta que existe em arrostar. – Arrostar (vocábulo derivado do latim rostrum “esporão de navio”) é o mais expressivo deste grupo. insultos. – Chacota é “zombaria por ditérios ou termos burlescos”. expondo-o a ridículo. – Brequefeste (do inglês breakfast “almoço. comezaina. – Irrisão é a “zombaria que consiste em rir. encarar. e sugere o intento de insultar e expor à vergonha. de entender de Lacerda e de Roquete. acrescentando a este a ideia de desprezo. a atitude com que se falta ao devido respeito com alguém. patuscada. Afrontar a morte não é combatê-la: é encará-la impávido. por palavras engraçadas ou escarninhas”. o ataque. – Apodo (mais usado no plural) é “o remoque ligeiro. não devera passar de injúria. aqui. – Pândega é “rega-bofe estrondoso. isto é. que os primitivos cristãos faziam em comum e às ocultas. – Patuscada é comezaina que desanda para a troça. – Gracejo é de todos os do grupo o menos forte. como é sabido. – Avanias são propriamente as “vexações. onde há mais fartura de comidas que delícias. ficou (do grego ágape “amor. e tanto que reclama um adjunto quase sempre para que se torne ofensivo: gracejo de mau gosto. Encara-se com terror a morte. – Mofa é também o sinal – palavras ou gestos – “com que se mostra desprezo por alguém. um complemento que lhe determine a significação. irritantes”. de ditos pouco delicados. bródio. que expõem a vítima a irrisão pública. janta. maliciosos. – Bródio é quase o mesmo que patuscada. pândega. é mais modesto. – Rega-bofe é grande folia de comes e bebes.” – . pode ser mesmo oferecer-se até certo ponto a ela. era a refeição com ares de cerimônia cultual. arrostar. e que depois foi proibida pela Igreja porque quase sempre degenerava em orgia. que o não tenham por ultraje”. Arrostar peleja frente a frente. breque- feste. banquete. preferimos o de Bruns. com esta diferença. – Chasco é muito semelhante a remoque. e passou para a língua significando vexames. porém. é termo popular significando “a zombaria aparatosa que se faz com alguém.136 Rocha Pombo 194 AFRONTAR. é a palavra picante. encerram a de denodo. Diz neste caso – “ofensa por meio de graçolas. com intuito de ofendê-lo”. poucas haverá. Encarar necessita. excluindo a ideia de medo. – Escárnio (do italiano schérno) é mais forte do que muitos deste grupo: ajunta à intenção de ofensa a ideia de nojo e repulsa. apenas o bródio é menos charro. conquanto animado.: “No sentido figurado destes verbos – escreve ele – o menos expressivo é encarar. por atos ou palavras. o insulto disfarçado. – Remoque é “dito picante que disfarça uma censura ou repreensão”. – Ao modo muito. – Ágape.. escândalo. escarnecer da vítima”. com ostentação. – Zombaria é o dito. – Comezaina é ágape menos nobre. às vezes mais brincando que ofendendo”. que melindra o pudor”.

epíteto menos frequente que campestre. e. de beleza natural. à baixeza. de rus “campo”. selvático. não conhece os usos da gente fina. reconhecido por favores”. e dá provas disso. penhorado. etc. pode. rústico implica falta de tato. de ager “cam- po”). sugerindo ideia da luta que o moribundo trava com a morte. grato. do esforço e aflição de estertor em que se vê o moribundo. no entanto. Falando de sítios. ou por algum motivo excepcional”. à rudeza. e janta é o “jantar mais simples.. – Estertorar acrescenta a agonizar a ideia do trabalho. – Agradecido é o que não se esquece do benefício que recebeu. isto é. ainda assim. Diz-se de pessoas e de coisas. devido mesmo à sua própria simplicidade. Confunde-se frequentemente com agreste. Por uma gentileza fica-se grato. feito em família”. É assim que há pessoas que morrem sem agonia. ao trato da boa sociedade. selvagem. Por alguém que nos proteje ou socorre ficamos reconhecidos. (do latim agrestis. do seu apreço por aquele que lhe fez bem. e pode faltar às leis da conveniência. no entanto. 196 AGONIZAR. e geralmente só encerra a ideia de viver ou habitar no campo. – Reconhecido dá. nem trabalhado com arte o objeto rústico. segundo o mesmo autor. – Agonizar é hoje usado só como intransitivo. aplicado a pessoas ou ao que lhes é particular. rústico. melhor que os dois precedentes. 197 AGRADECIDO.. – Silvestre é o que é próprio da selva. fundadas por mútua convenção social. gentilezas. mas. campesino. apreciáveis os seus sentimentos. difere de agreste. do que carece da polidez das cidades. – Grato é igualmente o que é sensível ao benefício. podendo ser. dizendo-se indiferentemente – flor agreste ou flor silvestre.. silvestre. campestre. cativo. agreste exclui toda ideia de cultura. sem cultura. rudez intelectual... como antônimo de urbs “cidade”) diz-se do que tem o caráter próprio da simplicidade aldeã ou camponesa. 198 AGRESTE. etc. a ideia de como o que recebeu benefícios quer dar provas da sua gratidão. e nunca se toma em bom sentido. ser agradável. São propriedades rústicas as que constam de terras de lavoura. sem fazer. não podem ser suportados por quem se habituou às delicadezas. – E campesino. mas guardando intimamente a lembrança do bem que se lhe fez.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 137 Jantar é uma das duas refeições normais feitas diariamente. os costumes agrestes. “Um lugar agreste só tem rochedos escalvados. – Obrigado = “que se julga em obrigação moral com alguém que lhe fez alguma fineza”. que se julga como preso moralmente àquele a quem as deve”.” – Campestre. portanto. – Penhorado = “obrigado. manifestações disso. – Agreste. que não sofrem as ânsias da morte. – Cativo – tão reconhecido por serviços. refere-se a tudo que pertence ao campo cultivado. que implica a ideia de rudez moral. plantas raquíticas. tanto falando de homens como de animais. para indicar a flor que não é cultivada. Não é polido. O homem agreste é grosseiro a ponto de ser intratável. tem a mesma origem deste. o que nasce e vive nos matos. O homem rústico carece de urbanidade. Por um obséquio fica-se agradecido. – Entre silvestre e selvático há diferença bem fácil de assinalar: flor sel- . diz Bruns. obri- gado. isto é. refere-se à grosseria. ou sem a beleza da arte. que não agonizam no momento de morrer. porém. – Banquete é “jantar solene. reconhecido. inépcia. as maneiras agrestes. – Rústico (em latim rusticus. dado em honra de alguém. terrenos ingratos. estertorar. para exprimir o ato de morrer. – Em sentido desfavorável.

seja de conta própria. etc. O agricultor. 200 AGRICULTURA. às propriedades territoriais”. que ele considera como uma arte pela qual sente gosto. ou crédito agrícola. Dizemos: medidas agrárias (e não – agrícolas). enquanto que a flor silvestre pode ser tão delicada como as que se cultivam. – Entre rural e rústico (ambos oriundos de rus “campo”) há uma diferença análoga à que se acaba de ver entre os dois precedentes. O agricultor é. trabalho agrícola (não – agrário). de determinadas plantas. seja de conta alheia. porém. indica uma especialidade: há cultivadores de cereais. O agrônomo é o indivíduo versado na teoria da agricultura: pode ser agricultor ou não. este vocábulo. lei agrária (não – agrícola).138 Rocha Pombo vática decerto que não é simplesmente a flor que não foi colhida nos jardins. à propriedade territorial em si. agricultor. – Agricultura – escreve Bruns. grosseira como a selva bruta. e pequenos lavradores. nem lavrá-las: basta ser entendido em agricultura. e não à arte que ele exerce. e não obstante.. lavradores pobres. No sentido rigoroso. mas rústico se aplica ao que não está cultivado. . por si próprio (ou de sua conta) e em ponto grande. cultivador. sendo a ideia de propriedade e de riqueza inerente a este vocábulo. de letras. a agronomia é a teoria dessa arte. disforme. seja para que a cultive. colono. à vida dos que se dedicam à exploração das terras. senão que a exerce como ocupação. porém.. Ambos se empregam para designar o que não é da cidade. seja para simplesmente povoá-la”. próprio da cultura dos campos”. agronomia. a agronomia é teórica. e corresponde a agrário. se o homem de quem se trata é rude. selvagem). rural se aplica à propriedade. brutal como os que vivem nos matos. estes vocábulos divergem entre si. proprietário ou rendeiro. mas a flor sem beleza. se dedica à agricultura. O colono habita terra que não é sua própria. relativo às terras ocupadas. o proprietário das terras que explora. agrônomo. Lavrador é o homem que lavra a terra. grandes lavradores. não é indiferente empregar um em vez de outro. Colono só remotamente encerra a ideia de agricultura. e corresponde a agrícola. rústico. – “é a arte de cultivar a terra. ao campo onde se trabalha. 199 AGRÍCOLA. a qual varia de processos à medida que a agronomia se aperfeiçoa. Agricultor é o proprietário que. lavrador. no seu valor próprio. pequenos agricultores. Tratando-se de pessoas não se diz silvestre (e sim. Diríamos: crédito agrário. pois. agrícola (de ager e colere “cultivar”) já significa “relativo ao trabalho. A cultura dos campos efetuada constitui a agricultura. o que não está situado dentro da área urbana. não só conhece a agricultura como arte. quando seguido de um complemento. visto que para ser agrônomo não é necessário possuir terras. – Agrí- cola e agrário não poderiam confundir-se: agrário (de ager “campo”) diz apenas “próprio do campo ou das terras utilizáveis. O cultivador vive de cultivar: é a única ideia que o vocábulo sugere. A agricultura é prática. que explora terras e as cultiva. porque se refere à profissão do indivíduo. Não há. de artes. Numa ordem de ideias mais restrita. – Agricultor e agrônomo também se confundem frequentemente. conforme fosse o crédito fundado na propriedade rural em si. – Os substantivos agricultor e lavrador confundem-se frequentemente na linguagem comum. e com eles designa-se indistintamente o indivíduo. Há lavradores ricos. mas poder-se-á dizer selvático. ou mediante jornal. ou fundado na produção agrícola. – Cultivador é um termo genérico que se pode dizer tanto do agricultor como do lavrador. rural. inculto. agrário.

Irrigam-se as plantações. ou o pensamento . ou se tão abundantes são as lágrimas que as faces fiquem tão molhadas como se tivessem saído d’água. ou na grama orvalhada. argúcia (arguto e argucioso).” – Irrigar e regar confundem-se. astúcia (astuto e astucioso). ou por transbordamento. – Banha-se o rosto. – Segundo d. ou se vem alguma coisa ou pessoa. alagar. perspicácia (perspi- caz). subtileza (subtil). ou aguar tão bem como se a coisa banhada tivesse imergido n’água. regar. designa a qualidade especial de descobrir sem esforço o que é confuso. a densidade. os campos. “exprimem diferentes qualidades da vista corporal. 202 AGUAR. – Molha-se o dedo na salmoura. molha-se os pés na sarjeta. A agudeza vê os objetos mais subtis. dando atenção. se o suor é tanto. banhar. minúcias que escapam à visão comum. inundar. – A perspicácia da vista vê claro por entre. A palavra. no fundo dos objetos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 AGUARDAR. esperar. e os que. rega-se a goles de água ou de vinho a garganta ressequida. Espera-se o que é feliz ou agradável. finura (fino). particularidades. Luiz. represas etc. José de 139 Lacerda. 203 AGUDEZA (agudo). A penetração vê no interior. obscuro. no seu justo valor. a solidez. que deve suceder ou vir. mas não dizemos – regar as ruas (sim irrigar). A vista penetrante alcança o íntimo das coisas. do véu. aguardar algum bem que se deseja e se julga que há de vir. – Aguar diz apenas – “derramar água sobre alguma coisa. Mesmo tratando-se de campos. atilamento (atilado).. A enxurrada inundou as ruas. tino (atinado). juntar água a. ressentindo-se da etimologia. Esperar é ter esperança. – Sagacidade – diz Bruns. as ruas. É pela sagacidade que se apreciam. Rega-se o canteiro. A ruptura do açude inundou o caminho. a dureza própria ou normal. e através da nuvem. – Os três primeiros substantivos do grupo. ou de lágrimas. Mas alagar sugere a ideia de que a porção de espaço alagada ficou por algum tempo debaixo d’água (como formando lago). emaranhado. banhar de água.” – Banhar é “meter n’água alguma coisa. encher de água. e também fica-se com as faces banhadas de suor. – Água-se uma flor.” O homem perspicaz vê claramente através dos disfarces. de invasão de água por excesso dela em outro ponto. e estas durante muitos dias ficaram alagadas. para que não murche tão depressa. os campos... mais delicados. molhar. e inundar envolve ideia de extravasamento. A vista aguda apanha diferenças. irrigar. não é mais do que uma extensão de regar. – Alagar e inundar também se confundem. ou noutro líquido”. segundo S. mais finos. no entanto. os jardins. se representam como tais. imergindo-os. ou que se presume sucederá ou virá... dos fatos. que se dizia dos cães que tinham delicadeza de olfato para achar a caça pelo rasto. ou pondo-os debaixo de uma corrente de água. Irrigar. – Molhar é propriamente “umedecer ao ponto em que a coisa molhada perca o estado de secura. olhando se sucede. as lavouras. e por translação se aplicam ao entendimento ou à vista intelectual. do obstáculo. e não – que se regam.. o que se aguarda pode sê-lo ou não”. as mãos. e que se descobre o mérito que se oculta. dizemos – que se irrigam. se o trabalho de umedecer as terras é feito por meio de canais. Dizemos – regar ou irrigar as plantas. por sua posição. as qualidades das pessoas e das coisas. penetração (penetrante). regam-se as hortas. molha-se a cabeça apanhando chuva sem estar coberto. sagacidade (sagaz). “aguardar é estar à espera. As grandes chuvas alagaram os campos. – “vem do latim sagax. num vaso.

e também de menor emprego de força que em suster”. suspender. – Subtil = “agudo. – Suster (de sustinere. 204 AGUENTAR. na discussão. a perspicácia. tão bem como amparar. – Apoiar é também “impedir a queda. Não se há de dizer. fazer firme. ou tato muito subtil para apanhar o que nos interessa. mas que a ampara. ponta. e é mais expressivo que o primeiro. cavilha”) é uma peça com que se prende. enquanto que a coisa que se esteia assenta. como define Aul. esteio é uma peça muito maior e mais forte. para sentir o que convém. – Subtileza é a qualidade de subtil. um como faro. especar é fazer o mesmo com espeque. especar um telhado. ou a escora impede apenas que a coisa amparada se desloque de todo. ou de inclinar-se demais. para que daí não saia ou não se desvie”. ou de pedra. segundo a formação do vocábulo (susum pendere) diz precisamente “deixar pendente em cima ou no ar”. se inclui ideia de ação momentânea. a escolha do falar. ou o vigamento de um edifício. – “conservar em equilíbrio sobre a corrente da água”. não penda. só se especa ou só se escora . que alguma coisa caia”. repousa. mas não sugere. – Amparar é “impedir. o cuidado meticuloso com que se faz alguma coisa sem nada esquecer do que lhe pertence. acima”. Finura é um termo genérico pelo qual se designa a habilidade de ver. a oportunidade de obrar. de sofismas. e estear é pôr em segurança. Finura é frequentemente sinônimo de velhacaria e de diplomacia.. especar e estear confundem-se com apoiar. Se alguém impede que uma senhora dê uma queda não se diz que a apoia. se apoia e fica firme sobre o esteio. estável. de ferro. – Suspender. escorar. Astucioso – “que usa de astúcias para enganar”. amparar. artifícios para enganar. Escora é um espeque mais forte. Argucioso é o que usa de argúcias. segura. como observa Bruns.” – Tino é “a finura instintiva. ideia de esforço.” – Atilamento é “a habilidade. de madeira ou de metal. que exprime a ação ou o efeito geral que os três primeiros particularizam: escorar é dar apoio por meio de escora. nem estear um galho de árvore para que não se quebre. haste. o que é razoável”. o abaixamento de alguma coisa”. pois em aguentar. escora alguma coisa para que não vire. segurar”) significa também “manter (alguma coisa) no lugar em que está”. O espírito arguto agencia razões para envolver o adversário na disputa. ou de cair. – Escorar. Exemplo: “É uma criatura de tino admirável: e faz tudo com tanta habilidade e atilamento que maravilha os mesmos que a educaram”. pois o espeque. sustendo-a. portanto. especar. portanto. a facilidade de compreender. Astuto = “sagaz no enredo. e tenere “conservar. de susum “para cima. e por extensão – “manter alguma coisa no estado ou na posição em que se acha. Uma trave que serve de apoio a outra nem por isso se deve dizer que a ampara. estear. – Astúcia é a habilidade no emprego de ardis. de madeira.. – Argúcia será então a “subtileza no argumentar ou no discutir”. ou pelo menos de menor duração. a agudeza natural. empregando esteio. apurado. com que se impede alguma coisa de virar de uma vez. Além disso.140 Rocha Pombo que se disfarça. suster. em que assenta algum grande peso e fica firme. Escorar e especar distinguem-se ainda de estear por isto: o que se especa ou se escora não descansa propriamente sobre a escora ou o espeque. na distinção notada entre os respetivos radicais: o espeque (do inglês spike “espigão. penetrante”. – Sustentar é uma ex- tensão de suster: dá ideia do maior esforço com que se apoia ou se mantém alguma coisa no lugar próprio. – Aguentar é propriamente. comumente uma trave mais ou menos grossa. apoiar. A diferença consiste. dissimulado e malicioso”. ou não caia de uma vez. sustentar.

– Professor é o que professa. catedrático. segundo o método escolástico. professor. lente. O esteio apoia. instrutor. firme a coisa esteada. que dá o verbo to stay “ficar. e resistir. Segue-se. ao encarregado da educação de qualquer menino. como orador. institutor. O preceptor dá preceitos e conselhos continuamente a seu aluno. orienta. como ainda se lê em Camões. mestre. suportar. ou ruína iminente. lia ou explicava as doutrinas aprovadas pela escola ou universidade.. – Preceptor dizemos do que está encarregado de instruir. para evitar uma queda. O mestre dá lições a certas e determinadas horas. O mesmo não se dá em relação a estear. mestre é todo homem que dá lições. portanto. – Aio é a palavra que antigamente se usava em lugar de preceptor. o mais expressivo da função de educar crianças. – Quem educa não dá só instrução: nutre. para fazer que permaneça seguro. guiá-lo pelo bom caminho (e até pelo mau caminho não deixaria de ser educar). portanto. aio refere-se particularmente ao que educa fi- lho de príncipes ou de grandes senhores. prepara num certo sentido o espírito do discípulo. de música. tornando segura. entre todos os do grupo. de tudo quanto lhe interessa. e que se esteia para fixar. amo. falando do mesmo Egas Moniz: Mas.: “Todos estes ensinam em público uma ciência ou faculdade. Institutor. e quase sempre ostentando seu saber oralmente. – Institutor é o que ensina meninos em estabelecimento público. 205 AIO. diz Roq. preceptor. instrutor de ginástica. de esgrima. Educar é dirigir o educando. contidas num . para o formar moralmente e facilitar-lhe todos os conhecimentos possíveis: dirige-lhe a educação e a instrução em geral. Egas Moniz foi aio de d. – Lente ou leitor é o que. e tanto que com perfeita propriedade se deve dizer: educador da mocidade (não institutor). de educar um menino. de equitação.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 141 como provisoriamente. expondo suas doutrinas como próprias. formar (instituir) o espírito do educando. de dança. e tem um certo número de discípulos. 35) Amo é hoje desusado neste sentido. pois sempre se subentende que a coisa a escorar ou a especar já não está em segurança. preceptor. pedagogo (e pedagogista). Mas o educador faz tudo isso. Afonso Henriques. toma conta de toda a sua conduta. – Instrutor é propriamente o que dá alguma instrução prática. III. Instrutor militar. diz com muito mais precisão “o que se encarrega de preparar na alma da criança os fundamentos sobre que há de assentar a educação futura”. com se oferecer a dura morte O fiel Egas amo. foi livrado (Lus. institutor da infância (não educador). etc. inabalável na posição que se quer.: – Mestre dizemos do que ensina alguma ciência ou arte. – Segundo Roq. aguenta em cima. – Quanto aos três últimos vocábulos do grupo. que se especa ou se escora como um recurso de momento. educador. ensina em público uma ciência ou faculdade. cujos pais o confiaram à sua direção. Talvez que seja. tendo recebido já o menino ou o moço que lhe veio do institutor. pois o próprio termo educador pode não ter a extensão que se atribui ao institutor. por isso se diz: mestre de gramática. ou estar no mesmo lugar”) sugere a ideia de permanecer em posição vertical. e pode-se dizer superficial e ligeira. mas em cada um deles concorrem circunstâncias particulares que os distinguem entre si. que é moderna na língua. Também lhe chamavam naquele tempo amo. para que venha a ser na vida o homem que se deseja. e não o perde um instante de vista. pois o esteio (do inglês stay. Sugere este vocábulo a ideia de criar.

e pedagogista é o versado em pedagogia. A elegância consiste no modo de ser discretamente belo. falando de Fortunato de Chiaromonte. sem pertencerem ao corpo universitário. donairoso (donaire). tem nobre aspeto. loução (louçania). de ser aprimorado sem afetação. neste grupo. (V. fidalgo (fidalguia). ou a uma universidade. tafularia). professam em academias. gazil. – Pedagogo e pedagogista.142 Rocha Pombo compêndio. pertence-lhe o nome de professor”. portanto. impressiona mais o coração que os olhos. e que. além disso. galante (galantice. Deve notar-se que pedagogo é o professor que ensina segundo a pedagogia. suave. reuniões literárias etc. cavalheiroso. – Engraçado é o que mostra alguma graça nas maneiras. pois há muitos homens sábios e instruídos que. diz: “Era de tão rara gentileza. – Catedrático é o proprietário de uma cadeira (cátedra) de universidade (ou de uma escola superior) em que ensina a faculdade de que está encarregado. – Nobre. é mais varonil que a formosura. generoso. é “o dom subtil. bizarro (bizarria). Disto nos deixaram exemplos dois mestres da língua. mas esta é menos distinta e brilhante. ornada com os retoques da modéstia. gentil (gentileza). no porte. pois a graça é uma prenda mais espiritual. – Fidalgo é o que se mostra fino. – Gracioso é aquele ou aquilo cujo aspeto tem graça. guapo (guapice). porém. O professor pode não ser catedrático. 206 AIROSO (airosidade). porém. – Graça. engraçado (graciosidade. mas é sempre condecorado com o título de mestre. – Elegante é “o que é bem modelado. 441). 116) – Consiste a beleza e a formosura na boa proporção e harmonia das partes que compõem um todo. E o padre Bernardes. e é distinto e gracioso”. Gentileza é “a galhardia e bom ar” – diz Roq. galhardo. galhardo (galhardia). distinto (distinção). – Airoso se diz de quem apresenta um aspeto agradável. a quem chama galhardo e belo. Vieira. se professa à moderna. principalmente o primeiro. encanta. ou a uma corporação religiosa. que tenha uns ares que nos agradem. falando de Absalão. do qual se não afastava. esbelto (esbelteza). quase sempre a má parte. ateneus. que consiste num modo de ser que atrai. seduz”. garrido (garridice). belo (beleza). É donairosa a pessoa que é mais engraçada que graciosa. delicado.” (V. a palavra formosura. Graciosidade é a qualidade de ser gracioso. A nobreza confunde-se com a fidalguia. – A graça é mais que o simples donaire. garboso (garbo. bonito (boniteza). garbosidade). a de distinto. O catedrático pertence sempre a uma universidade (ou a uma escola): se ensina à antiga. enquanto que o donaire é apenas uma aparência airosa. é austero na moral. vistoso. nobre é o que. delicado nas maneiras. diz: “Esta foi a pensão que pagou Absalão à sua gentileza”. que têm hoje acepção muito diferente da antiga. – “acompanhado de nobre presença. O lente ou leitor pode pertencer.. acrescenta às qualidades de airoso. tem também o nome de lente. pois aludem. lindo (lindeza). etc. podendo até não ter a profissão de pedagogo. elegante. cavalheiro. nobre (nobreza). à presunção com que o pedagogo alardeia a sua capacidade. grácil (gracilidade). digno. elegante (elegância). formoso (formosura). no andar uma certa graça (airosidade). cavalheiresco (cavalheirismo). limita-se a representar aquela ideia com relação . Tomam-se. deve aquela usar-se particularmente quando se fala do masculino”. aqui. gracioso. garbo próprios de fidalgo”. graça). – Gentil é “o que tem delicadeza.. taful (tafulice. A pessoa airosa pode não ser bela. galanteria). nem mesmo elegan- te: basta que tenha nos modos. são sinônimos de professor. no falar. e sendo esta privativa do sexo feminino.

– Bonito é um diminutivo de bom. Grácil significa “delicado. cavalheiresco”. É assim que não chamamos formoso a um poema. graça. interessante”.. dos quais não pode. – Galhardo (do italiano gagliardo) diz – “robusto. e por isso acontece muitas vezes que o gosto. o que tem aparências de saúde. tafulice e tafularia. festivo”. Se a Vênus de Médicis. – Bizarro exprime “esbelto e gentil. – Cavalheiroso e cavalheiresco são definidos como significando a mesma coisa. Garbosidade é a qualidade de ser garboso. os modos. Tafulice é a qualidade de taful. como diz o prolóquio: “Quem o feio ama bonito lhe parece. e também indica maior perfeição no objeto lindo. aprumo e coragem. entende-se particularmente das feições. que mofas não fariam as nossas damas de quem lhe louvasse a beleza do talhe? A formosura só se aplica ao físico. que pretende agradar às damas. isto é. “mas que não chega a ser formoso”. varonil. com destreza e elegância (galhardia). do embaraço. são belíssimos para os inteligentes. alegre. põe a formosura no que está mais distante da beleza. – Esbelto (ou esvelto) designa “o que é de formas corretas. franzino. à ternura de um afeto: a tudo isso assenta propriamente beleza”. Bizarria é tudo isto junto: elegância. etc. talvez com ditos engraçados. Tafularia é a facécia do taful. forte. concerto.. viciado por algum capricho ou costume. sacudido. por ser mais expressivo.” Galanteria é a arte de ser galante. de onde vem galante. os ditos de que se serve o galante para agradar. pode notar-se. ao que obra sobre os sentidos. lépido. – Vistoso é apenas “o que parece bem à vista. e o Apolo Pitio. da expressão do rosto. – Coisas análogas devem dizer-se em relação a taful. se mostra altivo. Neste sentido admira-se a beleza do Apolo do Belvedere. que se destaca do vulgo”. da ação”. Garboso é o que. pois este adjetivo junta à qualidade de bonito um certo ar e graça que muito o aproximam de belo e formoso. a beleza aplica-se também ao moral. com asseios esquisitos. e formosos para todos. dizer-se que são formosos. Galantice é a qualidade de ser galante. –.. pessoa de distinção”. fino. Também se entende especialmente das boas proporções do rosto acompanhadas de graça e donaire. quando queremos designar o que tem maneiras de alto bom-tom. dizemos de preferência. Luiz. porém. o que é afeito ao trato de gente culta e fina.. além de elegante. São os olhos os juízes da formosura. Gazil é corrupção de grácil. bem proporcionado. no entanto. – Tratando-se do homem. a palavra beleza representa a ideia da perfeição possível. que o primeiro . de boa disposição”. Coisa galante quer dizer – bem ornada. vivo.” – Galante. mimoso. Bonito é palavra familiar que indica coisa agradável à vista. do Hércules Farnésio. Gracilidade só deve aplicar-se ao que é pequeno. Taful significa – “loução.” Quando se diz das pessoas. a Vênus de Médicis. se pudesse vestir à francesa. do asseio etc. namorado. com igual propriedade. – Garbo é “um quase orgulho de ostentar figura e galhardia”. da tarefa. engraçada. “homem de distinção. bravo. que tomou na linguagem vulgar um sentido especial. faceiro. e ornato dos trajos. e toma-se ordinariamente pelo oposto de feio. possante. segundo S. isto é. à expressão de um sentimento.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 143 ao agradável. que se sai garbosamente. ataviada com gosto. elegante e gracioso”. pois distinto significa apenas – “que não se confunde com o comum. – Gazil e grácil são adaptações do mesmo vocábulo latino gracilis. brioso. em cujo corpo se não encontra defeito. ao que obra diretamente sobre o espírito. os modos como ele se apresenta. Boniteza é “a qualidade do que é bonito” – diz o mesmo Roq. sendo esbelteza a qualidade de ser esbelto. – “Lindeza é palavra mais culta que boniteza. “refere-se ao gosto. as graças. desembaraço.

significa também “ligeiro. 207 ÁGIL. pois a destreza é “uma agilidade acompanhada ou servida de astúcia e arte”. expediência. é a perturbação da ordem estabelecida. ligeireza. tanto a qualidade de ser loução. destreza. Algo significava haveres. 208 AGIOTA. “delicado no trato. abalo. para designar “leviandade. ligeiro. portanto. toma-se também à má parte. educação e qualidades nobres. garbo) de parecer loução. Bem se vê: a guapice só se encontra em moços. arruaça. correspondendo a gentileza com gentileza. enfeites. etc. volubilidade” e principalmente “habilidade em escamotear”. esquisito e engalanado”. além de significar qualidade do que é ligeiro. festivo”. para auferir ganhos. destro. muito veloz” – do que propriamente ágil. bravo. hijodalgo). sécio. rebelião. do prestamista que empresta dinheiro com usura abusiva”. – Re- . bens. usurário. motim. diz Bruns. valendo-se da alta.144 Rocha Pombo designa propriamente – “que tem ou revela qualidades e maneiras que eram de rigor entre os antigos cavaleiros (nos tempos da Cavalaria)”. etc. desembaraço natural no mover-se”. a resistência à autoridade opressora: exprime tanto como levantar contra. – Lépido. conquanto haja talvez muitos velhos que se jactem de guapos. rapidez. pronunciamento. Com todas estas partes servia-se a pátria e adquiria-se a fidalguia”. o que tem maneiras gentis e sentimentos cavalheirescos”.. – Fidalgo (é ainda de Roq.. sem discrepar das boas normas”. lesto. revolução. tanto o ato como a qualidade do que é cavalheiro (se bem que para exprimir a qualidade poderia usar-se de cavalheirice). onzeneiro (ou onze- nário).) “é termo corruto de filho d’algo (do castelhano hidalgo. Na linguagem corrente. – Garrido exprime – “vivo. cataclismo.. uma qualidade que assenta nas crianças e nas meninas. como os próprios modos (trajo. – Destro só se aplica ao homem. Ligeireza. É o cavalheirismo. por meio de atos tendentes a subvertê-la. sedição.. revolta. alegre. é “o que é no trato parecido com os antigos fidalgos. a agitação é geralmente a precursora de qualquer das comoções designadas pelas outras palavras deste grupo”. além de ágil. 209 AGITAÇÃO. na verdadeira acepção da palavra. – Agilidade é “facilidade. – Segundo Alves Passos: – “Rebelião é a desobediência. alegre. insurreição. fino. to. – Loução diz – “de aspeto gentil. no falar. aqui. – Expedito é o que se não embaraça no agir. convulsão. A garridice é. – Segundo Bruns. Louçania é. agilidade. lépido. como usurário. papéis de crédito. conflagração. – Revolta (to turn agaisnt em inglês) exprime tanto como voltar contra. sendo expediência a “qualidade de ser expedito”. ágil tanto pode ser o homem como o simples animal. leve. sublevação. expedi- mais – “vivo. “Teve comigo um gesto cavalheiresco”. ufano. Fidalgo. agiota se diz. comoção. designa aquele que trafica em fundos públicos. ou da baixa de preço que estes sofrem. – Ligeiro diz levantamento. e cavalheiresco enuncia – “próprio do cavaleiro. bizarro e gentil”. isto é. Pretende-se que esta subtil distinção se sente nestas frases: “Recebeu-me muito afável e cavalheiroso”. segundo ostentava o antigo fidalgo”. – Onzeneiro (ou onzenário) é o usurário que exige usura requintada e faz questão de lucros descomunais. “é o movimento anormal do povo quando os espíritos sobressaltados planeiam ou tramam contra os dirigentes. é discreto e gracioso”. – Lesto é “o que. “agiota. no sentido que lhe damos aqui. – Agitação. choque. pronto e gracioso”. – Guapo é “o que se mostra lépido.

A arruaça é o motim da mais ínfima ralé. e é geralmente promovida pelo próprio governo quando lhe convém fazer alardes de força. revolta. uma agitação tumultuosa e de curta duração. Não diremos. – Comoção é quase o mesmo que convulsão: apenas não sugere tão necessariamente a ideia de violência e transtorno que se envolve em convulsão. e que publicamente declara não reconhecer por legítima. segundo for a sua importância. Às vezes a simples rebelião de uma alta personagem motiva a revolta de um reino. pronunciamiento) “é termo puramente espanhol com que se designam as frequentes insubordinações dos chefes militares de Espanha.” – Convulsão é. ou a guarnição de um presídio que se levanta contra o respetivo comandante (e sim – que está em revolta): como não diremos que está em revolta toda a população de um dos Estados da República. em revolução. ou por uma vasta província. generalizada por todo um país. e revolução indica o triunfo da revolta. É de ordinário uma fermentação momentânea de algum bando do povo. e antes achar-se de ânimo firme e resoluto em combatê-la. ou em insurreição. à crispação produzida por uma impressão forte”. e a subverter toda a ordem política. – Conflagração é “convulsão .. por exemplo.. e se esta não for sufocada. se comunica rapidamente a todos os membros de um corpo. que se decidiu em favor do revoltoso.. Assim. – Sublevação é mais extenso que levantamento: designa “o fato de insurgir-se em massa uma população inteira”. mesmo sem certeza de que se consumem as mudanças operadas (e sim diremos – que está em revolução). A rebelião não é algumas vezes senão uma simples desobediência. ou contra a autoridade constituída. ou pelo menos é aquele cujas consequências são de menor importância. A consequência da sublevação é a guerra civil. perturba a ordem estabelecida. segundo Bruns.. “o resultado imediato da agitação: degenera em revolta. A rebelião é ato de arremessar a luva.. inspirada por alguns. tratando-se de política. – A insurreição. é a revolução em suma. rápida e tremenda. e revolução é a coroa de loiros para o vencedor. passageira”. uma oposição ou resistência à autoridade. e a revolução é a vitória. semelhante ao tremor. indignado contra seus opressores..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 145 volução é a mudança da ordem estabelecida. revolta é a guerra formal. Pronunciamento (ou melhor. – O motim é o menor dos movimentos contra a ordem normal. que está em revolução a força que guarda um posto.. que. tendo chegado a depor autoridades. ou tomar disposições que não soubera justificar de outro modo. revolução é apenas uma revolta mais extensa. Da rebelião passa-se à revolta. – Rebelião designa a ação das pessoas.. porém mais violenta. diz Roq. “é o estado em que se acha um povo depois que se levantou e se armou para combater a autoridade a que estava sujeito. – Choque diz “comoção instantânea. virá a mudança da sua política – outra ordem de coisas – a revolução. e quando um povo. – O levantamento é. causada por descontentamento. e muitas vezes por pertinácia e falta de reflexão”. um particular está em rebelião “quando se opõe aos decretos do poder público. – Abalo é “o movimento contra a ordem. uma revolução talvez menos formal e extensa. de oposição. e a gravidade do que o origina. por uma série de atentados. ou do mesmo povo. o estado das coisas. O motim tende mais a perturbar a ordem que a combater a autoridade. – Na linguagem comum. está em revolta ou revoltado”. O motim é um levantamento de pouca importância. – A sedição é um espírito geral de perturbação. de uma assembleia. Rebelião é a declaração de guerra. e a revolta produz a revolução. a luta contra a autoridade. a revolta é o duelo. no entanto. a revolta tem sempre alguma coisa de violento e terrível.

nem a debate tampouco. tomando-lhe em suma os termos gerais. assisado. e procura impô-la a outrem. e significa – “dar atenção. ou a respeito de alguma coisa. quase propor – do que propriamente de discutir. Entre aventar e ventilar não se notaria grande diferença fundamental. – Tratar é o mais genérico do grupo. com vivo empenho. circunspeto. quase que não faz mais do que apresentá-la à atenção de outros. – Discutir é “examinar todos os termos de uma questão. Pode dizer-se. “que sabe julgar direito. porém. ventilar. aventar. Sensato confunde-se com ajuizado. e procurando vencê-lo. mas procura desembaraçá-la. Quem discute sustenta sempre um modo de ver. encontrando-se com adversário. ou graceja e zomba do que argumenta ou discute”. mas este refere-se mais particularmente ao estado. – Prudente é a pessoa que. indicar. grave. geral como se fosse um incêndio”. à conduta da pessoa a quem se o aplica. no entanto. um problema. cuidar de alguma coisa para resolvê-la”. Aventar tem mais de expor. clara e nítida. defende uma opinião. dando-o por ainda não liquidado. Assisado e sisudo também se confundem. – Ventilar e aventar exprimem um pouco mais do que simplesmente agitar: quem ventila ou aventa um caso. “é uma conflagração que transtorna toda a ordem política de um país”. ou agitando-a. nem por isso o discute propriamente: apenas o faz lembrado e o põe à vista de outros ou do público. – Cataclismo. e o outro designa mais estado que qualidade. do “que tem uma compreensão exata das coisas. judicioso. na acepção que tem aqui. uma ideia. prudente. cordato. chama sobre ele a atenção geral. uma questão. pois este designa qualidade. – Ajuizado diz propriamente – “que tem juízo”. assisado e sisudo são vocábulos que coincidem no mesmo radical sensus. sensato. Sisudo acrescenta a assisado a ideia de “discreto. pondo-lhe os termos muito precisos. fazê-la simples e líquida. Assisado quer dizer – “que tem siso”. um princípio. isto é. e sujeitando-o a disputa ou a debate. 211 AJUIZADO. discutir. ou discutindo-a formalmente e debatendo-a. grave na compostura”. Em regra. vasta. pondo-o em dúvida. faz isso – ou apresentando-a apenas em seus termos gerais.146 Rocha Pombo tão violenta. sá- bio. Quem trata de um assunto. sério. sisudo. só se debatem questões de grande importância. a serenidade e moderação do que é sábio. disputar. de uma questão. ponderado. tem a calma. – Controverte-se um assunto. prudência. uma opinião. nas quais têm muito interesse os que as debatem: tais como os casos políticos e os judiciários de alta monta. isto é. Nesta frase: “F. 210 AGITAR. isto é. decerto que a não discute propriamente. tino. e mostra interesse em que se trate de discuti-lo e resolvê-lo. exalta-se mais. controverter. tem sido muito ajuizado em toda esta questão” – decerto que não caberia com lídima propriedade o adjetivo sensato. discreto. deba- ter. analisar todos os aspetos de um caso”. além da sisudez. – Sensato. oferecendo opinião sobre ele. – Quem agita uma questão. uma perfeita inteligência da . Disputar é “uma forma de discutir e debater: o que disputa. – Debater é ventilar e discutir esforçadamente. avisado. Quem aventa uma hipótese. que em ventilar se sente já alguma coisa de intuito dialético: ventila-se um assunto estudando-lhe ligeiramente as proporções. ou mesmo de estudar. ou sugere a ideia da compostura que mantém essa pessoa num dado momento. muitas vezes até sem dela fazer mesmo a apologia. que tem uma justa medida das coisas”. bom senso. lembrar. tratar. que tem juízo.

é um homem sério afirma-se que F.. nem – “ostenta porte sério). e sem pesar os atos”. cordis. série. fileira. que na acepção que tem aqui. A gravidade é própria dos homens velhos. “coração”) é o homem “prudente. como nestas frases: “Trata-se de negócio sério”. medindo.. – Circunspeto significa propriamente – “comedido. – Cordato (de cor. tendo a frente voltada para o mesmo lado”. acentuando muito as palavras”). que se mostra sagaz. Ainda podemos deixar. mais uma qualidade moral do que modo de ser exterior. no cumprimento dos seus deveres. – Discreto é “o que se mostra atento nas palavras. Conforme a definição de Bruns. apercebido do que convém. nem sempre assim. não saindo nunca da linha normal no modo de portar-se”. aqui. conveniente nas ações. “é a série de pessoas ou de coisas postas uma ao lado da outra com a frente voltada para o mesmo lado”. “Ele foi sempre um homem grave” (quer dizer – “de maneiras lentas que o fazem parecer severo”). portanto. na retidão de conduta. Dizemos: “Ele marchou com gravidade para a forca”. – Não assim. – Fileira é propriamente uma série de filas. que chega sempre à boa razão. altivo e severo. “Ela tem o porte grave das matronas” (e não – “marchou com seriedade”. de tudo que se lhe passa em torno”. – Cada uma das duas longas filas que. pois na linha as coisas podem estar sem regra de sucessividade. aprumado no agir e no falar. sem apreciar maduramente as coisas. estão separadas por um espaço. linha. reservado. dando provas de juízo e atilamento”. A seriedade é. que parecem sentir o peso dos anos. Quando se diz que F. um tino seguro para precaver-se dos males e perigos”.. modesto. – Renque é “uma série de coisas ou de pessoas postas em linha”. – Linha e série não se confundem. pelo menos.. . Ele falou grave (isto é – “pesadamente. – Ponderado é “o que nada faz sem refletir muito.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 147 vida. “é a série de pessoas ou de coisas postas umas atrás das outras. é um homem em cuja probidade se pode ter plena confiança. “Trata-se de negócio grave”. entre seriedade e gravidade: “Ele falou sério” (isto é – “disse o que sente”). sincero e direito nos seus tratos. que raciocina com acerto”. renque. no seu grupo 493. Aplicado a coisas ou fatos é que o vocábulo grave é mais forte que sério. fechado e sereno. Seriedade é uma virtude que consiste mais na lisura de consciência. de equilíbrio moral”. “Ele foi sempre um homem sério” (isto é – “sempre foi probo e digno”). é uma ala. na inteireza de caráter do que na simples compostura que se mostra ou afeta às vezes calculadamente. porque se sabe que tem sido sempre correto. conquanto exprimam ambos a continuidade ou sequência de coisas ou pessoas numa certa direção. segundo Bruns. não é a mesma seriedade de que trata Roq. como se nunca estivesse desapercebido do seu posto. “O caso é muito sério”. cauteloso. “O caso é muito grave”: nas quais se sente como grave diz muito mais do que sério. enquanto que na série as coisas. enquanto que gravidade é mais modo de ser exterior do que propriamente virtude. sabendo bem discernir as coisas. – Judicioso exprime – “que julga com bom juízo. revelando ou afetando grande segurança de reflexão. que se satisfaz ou se concilia com o que é razoável”. – Fila. quanto à seriedade. – Avisado é “o que procede com acerto. fila. liso. como até ordinariamente obedecem a critério de classificação. nos seguintes exemplos. voltadas de frente uma para outra. bem clara a distinção entre grave e sério. das suas condições. não só se sucedem numa certa ordem. 212 ALA. – Grave é “o que tem aspeto nobre.

– Jactar-se é dizer publicamente. fanfarrear. Ufana-se o artista da sua obra quando sente que ela lhe deu uma grande expressão da própria alma. blasonar. ou que se nos atribui”. Fanfarrice é a qualidade de fanfarrão. vangloriar-se (vanglória).. de força. ou de magnanimidade. aqui. Só se ostenta o que realmente se mostra. que alardeia méritos que não possui. ou de coisas fúteis e vãs é que é ridículo. porém. tanto se pode dizer daquilo que se possui. – Blasonar é quase o mesmo que bazofiar: apenas blasonar. – Sob este aspeto. ou que é material. como entre si. fanfúrria). – Fanfarrear é. ostentar (ostenta- ção). A jactância não é propriamente ostentação. pelo menos. por alguma honra. Pode-se fazer alarde de rico (alardear fortuna ou cabedais) e fazer alarde de honradez. Agora. de valente. de piedade. Ninguém ostentará méritos que nunca teve. é usado com um completivo: blasona-se de nobre. mais de rigor do que o outro. por mais que signifiquem ambos “proclamar com aparato e desvanecimento (alarde. ou de ter dançado uma valsa com mestria e elegância. outro tanto se deve dizer de ufanar-se..148 Rocha Pombo 213 ALARDEAR (alarde). fanfarrear (fanfarrice. com ênfase. orgulhar-se ou orgulhecer-se. – isso é outra coisa. ufanar-se de haver ganho uma partida de bilhar. Blasonar (de qualquer coisa que seja) é sempre. Quem se vangloria de alguma coisa presume demais do que essa coisa vale. ou de honras. de prosápia. ou que é material. ou que pode ser visto por todos. jactar-se (jactância). Desvanecer-se da amizade de um homem digno é perfeitamente legítimo. bazofiar (bazófia). entre todos os do grupo. é que este verbo desvanecer-se envolve ideia que o aproxima dos demais deste grupo. desvanecer-se (desvanecimento). fanfarronada. Fanfarronada (ou fanfúrria) é “a prosa do . ou da honra que se nos faz – é coisa que se diz sem descaída moral. Alardear. O desvanecimento. fanfarronice. Quem é que se não ufana da justiça que se lhe fez. A bazófia é coisa semelhante ao que vulgarmente se chama prosa ou intimação. que blasona de façanhas que nunca praticou. – Vangloriar-se aproxima-se do precedente. o que melhor acentua a ideia de todos alardes. como do que se não possui. A ufania é um como contentamento desvanecido. Só fanfarreia o boborio que berra e bufa de valente e corre de uma criança. nem alarde: é mais “um quase desvanecimento e alegria em que se fica de haver alcançado alguma coisa cujo valor se exagera”. intimar (intimação). as qualidades. é “uma exaltação do amor-próprio que nos leva a ter um orgulho exagerado daquilo que se nos diz ou faz. posições que nunca ocupou. ufanar-se (ufania). etc. vitórias com que apenas tem sonhado. fortuna ou triunfo”. jactar-se. bazofiar. e dá-lhe por isso uma importância que ela não tem. de tino. vangloriar-se. Mas só desvanecer-se de ser belo. Gautier – o capitão Fracasso. num caso em que dessa justiça lhe pendia o crédito? Só quem pode não ufanar-se nunca de coisa alguma. A vanglória é “uma ideia falsa ou exagerada que faz alguém de si próprio”. – Bazofiar é “fazer ostentação ridícula ou escandalosa de grandeza. tanto de todos os do grupo. Assim de alardear. os feitos. etc.. ostentações charras e ridículas que só se admitem naquele tipo de Th. impróprio de um homem sério. etc. ou é invisível. Mesmo desvanecer-nos da benevolência que se tem conosco. Qualquer pode fazer ostentação de riqueza. os próprios méritos. mas decerto que ninguém se lembrará de fazer ostentação de gênio. de valentia. ostentação) aquilo que se tem ou se supõe ter. – Alardear e ostentar distinguem-se. ostentar. uma alegria orgulhosa que se sente por haver alcançado alguma vitória. – Desvanecer-se é “sentir vaidade por algum mérito. gabar-se. Conforme o complemento da sua predicação..

– Bulha será um barulho insignificante. – Intimar exprime. – Vozeria diz propriamente “multidão confusa de vozes”. 214 ALARGAR. ou vozes em confusão e descompassadas. alvoroço. uma rua: em geral. arruído. gritaria. ou de ódio”. Alarga-se um caminho.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 149 fanfarrão. Neste sentido. os motins destacados de uma comoção ou revolta”. o sujeito que trata os outros com arrogância. berreiro. na acepção com que figura neste grupo. – Berreiro é “grito ou gritaria monótona. e também as vozes lastimosas dos que pranteiam. é “a confusão. abrir. murmúrio. Incorporamo-lo para designar a desordem e confusão de vozes no meio das quais nada se discerne. Amplia-se um jardim. com ares de quem sempre está mandando (intimação). desordem estrondosa”. a ideia de “blasonar de poderoso. de entusiasmo. turba. sussurro. – Barulho é termo vulgar que corresponde a tumulto: é apenas um tumulto menos grave. celeuma. tornar mais largo. – Alvoroço é “manifestação estrondosa de alegria. ampliar. – Gritaria designa multidão de gritos. – Dilatar é também “fazer maior. tumulto. mais extenso. borborinho. barulho. dilatam-se as narinas para aspirar o perfume. – Celeuma. algazarra. é “conjunto de vozes desordenadas formando ‘coro de arruídos’”. e só figuradamente é que se emprega por ampliar. ser o primeiro a falar nos próprios méritos”. – Rumor é mais “eco de vozeria. – Ampliar é “tornar maior alguma coisa em todas as suas partes. rumor. Fanfarronice é “o modo de ser fanfarrão. de ameaça. – Algazarra é adaptação do árabe: era “vozeria. repercussão de desordem.. 215 ALARIDO. dá-se o nome de celeuma à vozeria. Só se orgulha de alguma coisa quem sente uma importância exagerada que dessa coisa lhe vem. os gestos. por exemplo: “Vamos alargar o nosso campo de ação”. os atos do fanfarrão”. tudo que tem comprimento e largura. mais arrelia. Intima. dilatam-se alguns corpos sob a ação do calor. ameaçando”. a forma orgulhecer-se. designa certo canto ou cantilena cadenciosa que os marujos e outros operários entoam quando trabalham para se animarem mutuamente. conquanto menos usada. – Gabar-se não é mais do que “elogiar-se a si mesmo. designa a vozeria dos que se travam de razões. aqui. e até de dores violentas. de arruído que propriamente essas coisas”. contendem ou bulham. rusga que barulho. etc. de fazer fanfarronadas. em qualquer dimensão. uma praça. Por extensão. sig- nifica o clamor que se levanta ao travar-se a peleja. como o berro de alguns animais”. as forças que empregam na manobra. fazer crescer proporcionalmente”. – Alargar diz propriamente “fazer mais largo”. uma bola de borracha que se enche de ar. vo- zeria. bulha. ou se amesquinham. que fazem mais bramar que gemer”. em todas as dimensões. – Tumulto é “grande comoção e alarido. etc. – Sussurro é palavra onomatopaica desig- . Dilatam-se as pupilas à medida que a luz ambiente diminui.). murmurinho. pedindo. ou mais longo”. – Turba. de menores proporções. dilatar. ou no trabalho. dilata-se um orifício. grito ou alarido”. bramido. – Bramido é “clamor de cólera.. segundo a origem grega. que os moiros levantavam em qualquer acometimento ou conflito de guerra. – Alarido – diz d. gritaria. de importante”. José de Lacerda – “conforme a origem árabe.” (Aul. – Orgulhar-se é mais que desvanecer-se. – Arruído é quase tumulto. quando se diz. – Clamor é “como gritaria grave e aflita. as palavras. parece que é mais expressiva e até mais própria. a desordem. protestando. e compassarem com as vozes. clamor. Por extensão.

enquanto que o susto nos deixa como suspenso: quando o susto assalta o homem. ou a de instigar à fuga. é o ato de dirigir-se alguém a outrem. 217 ALARME. e não temor. como se o objeto do reclamo fosse fundado sempre em direito”. reclamo. – Clamor. – Chamada é propriamente “a voz ou sinal com que se avisa ou com que se chama atenção e se convoca. e que conservamos contra nossa vontade. – diz-se do grito ou gritos que se soltam para anunciar um perigo.. ignorando. receio. Figuradamente. temor. porém. Por isso se diz que temos o temor de Deus. sussurro de multidão falando a um tempo e mal contido”. O medo distingue-se do temor em ser este um produto da razão e até certo ponto da vontade. assombramento. ou com indignação”. espanto. a do susto não o é geralmente. de tambores com que se convoca o povo (ou uma guarnição militar) para defender-se quando sobrevém um perigo. O temor é o estado do espírito que se perturba pela apreensão de um perigo. ou de viração em arvoredo”. Causa medo aquilo que vemos. – Reclamo é “apelo instante e formal. o alarme.” – Chamamento designa a “ação de chamar com esforço. e como termo de técnica militar. clamando. pavor. assusta-nos o que não podemos definir. O rebate sempre encerra a ideia de defensa. emprega-se este vocábulo para designar a perturbação que causa a ameaça. medo. – Rebate é o toque de sinos. 216 ALARME. – Segundo Bruns. chamada. porém. como um recurso de aflição. cuja ocorrência temos por certa e próxima. de testemunho ou de juízo da pessoa para quem se apela”. o medo é um sobressalto violento e repentino que nos leva ao temor. ou de um mal que certos indícios nos levam a julgar não só possível mas até provável. – Susto é uma espécie de medo que nos deixa como suspenso durante os primeiros instantes. é “chamamento com desespero. a suspeita de algum perigo. Emprega-se esta palavra com muita propriedade quando nos referimos à previsão de acontecimentos muito desagradáveis. do que pela propriedade de resumir a ideia dos outros seis do grupo. apelo. A causa do medo é determinada. – Terror é um termo que mais se refere à causa do sentimento . tendo a mesma significação. enquanto que aquele é um sentimento irresistível e espontâneo que nos assalta sem querermos. O susto diferençase ainda do medo em levar-nos este a fugir da coisa que nos amedronta. o susto dura pouco. terror. que temos medo dos cães danados. assombro. susto. – Borborinho é também voz onomatopaica. – Alarme – escreve Bruns. pânico. real ou suposta. sobressalto. no sentido próprio da palavra. a de defensa. é o toque de clarim ou de tambor com que se reúnem os soldados. do inimigo. e que nos induz a evitar aquilo que julgamos nos há de ser nocivo. este para repentina e inconscientemente. – Murmúrio é “leve sussurro como de água corrente. ou talvez desfiguração de murmurinho. ou de desejo ansioso em causa dependente de amparo. e não medo de Deus.” – Apelo é “pedido de socorro. aqui. Particularmente. chamamento. “a ideia comum aos sete primeiros vocábulos deste grupo é a do sentimento ou sensação penosa que nos assalta quando um perigo sobrevém”. e mais pelo extenso uso que se faz desta palavra. – Murmurinho é como “vozeria abafada. – Alarme. rebate. O medo é mais ou menos prolongado. – Medo é termo genérico. é a confusão e gritaria que se manifesta num acampamento ou praça de guerra à aproximação.150 Rocha Pombo nando “rumor menos perceptível e mais confuso”. clamor. quanto tempo nos separa ainda deles.

“fazer tremer”) aplica-se aos perigos ou males que julgamos irresistíveis. – Pânico é propriamente um adjetivo que qualifica o substantivo terror. designando a casa. em regra casa de família. e se qualquer incômodo sobrevém que pareça sintoma dessa peste. e se ela sobrevém inesperadamente. pânico. é denominada hotel. hospedaria. aqui. ou que vence todas as energias morais”. morando fora o pensionista. e na qual são principalmente admitidos aqueles que trazem cavalgaduras ou veículos. – Albergaria – escreve Bruns. – Estalagem é casa onde se recebem passageiros que não pretendem grandes comodidades. O medo da peste leva-nos a fugir da cidade. – Sobressalto é “a comoção que se sente sob a iminência de algum perigo. que nos impede de agir ou de fazer alguma coisa – do que propriamente temor. uma obediência a escrúpulos de qualquer ordem. – Receio é menos que medo ou que temor: é mais – um estado de dúvida. pousada. – Pensão tem aqui um sentido particular. – Albergue é propriamente a casa onde se hospeda aquele que está fora da sua terra. ou mal que se suspeita”. estala- gem. tem uma acepção especial para designar o estado de terror em que fica uma pessoa surpreendida de alguma coisa ou de algum fenômeno misterioso. reina o alarme. albergue. é o espanto que nos domina. e algum ou muito luxo. pensão. – Pousada é termo castelhano que se diz por estalagem. Certos estabelecimentos de caridade ainda hoje têm albergarias destinadas ao mesmo fim. um grande terror que faz desvairar. Na cidade em cujos contornos a peste faz muitas vítimas. e aquela.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 151 que ao próprio sentimento. Confunde-se com susto. colhe-nos o susto. ou – o terror. – Pavor é “um medo incoercível. e até em só fornecer as refeições. Propriamente só se diz neste último sentido. ou o grande terror que se apodera de alguém à vista de um caso espantoso. 218 ALBERGARIA. para exprimir. quer seja pagando. Difere da casa de cômodos em dar esta ordinariamente só a dormida. mediante um pagamento convencionado que também se chama pensão. – “era o nome da dependência dos mosteiros destinada a hospedar os transeuntes. o temor de sermos assaltados dessa peste nos leva a evitar a comunicação com as pessoas provenientes das localidades empestadas. guarida. – Guarida é o local onde se encontra abrigo contra a intempérie ou contra a perseguição. Significa também a própria coisa ou fenômeno misterioso que assombra. porém. é. do cuidado e preocupação que nos causa o mal que nos sobressalta. quer devido à mera hospitalidade. O espanto pode deixar-nos paralisados como o susto. e assombramento. mas sobressalto sugere ideia da inquietação em que se fica. principalmente no Alentejo e no Algarves. Foi o terror dos franceses que ocasionou a grande hecatombe da ponte de barcas do Porto. tanto a cama como a mesa. – Espanto é uma forte impressão causada por alguma coisa que sobrevém inesperada e repentinamente. ou impelir-nos a uma fuga insensata como o medo. ou o terror infundado que assalta a muitas pessoas. – Assombro é grande espanto. por isso se diz que os bandidos espalham o terror por onde andam. se a hospedaria reúne certas condições de comodidade. – Hospedaria é casa onde se recebem hóspedes de cama e mesa. . frequente dizer-se indiferentemente – o pânico. particularmente os pobres que iam de viagem”. Terror (do latim terrere. que imobiliza e como que maravilha. A suposta existência de uma terrível peste espalha um pânico geral”. Essa peste espalha o terror por toda parte. hotel. onde se recebem hóspedes. e contra os quais é inútil qualquer luta.

Consegue um bom emprego o que solicita com mérito. 221 ALCANÇAR. alcançar supõe sempre graça. – “Lograr é propriamente o termo de nosso desejo – diz Roq. A artilheria moderna alcança a grandes distâncias. Por não poder alcançar um ramo. sentir pelo tato”)”. – sem relação aos meios empregados para isso. não alcança. esbran- quiçado. – Gozar é ter. a de seu pai. – Palácio diz-se de qualquer edifício grandioso. pois só impetramos graças de um superior. das dos bispos. e dos governadores ou vice-reis das colônias”. – Conseguir é o termo de nossa solicitude. (Bruns. – Al- zar. ou do grande senhor. útil. isto é. “era propriamente o palácio afortalezado onde os reis ou governadores faziam residência. Noutra ordem de ideias. da capacidade. chegar designa o fato. enfim. Vê-se. atingir. – Tocar (da mesma origem de atingir) ex- . que este vocábulo tem significação menos genérica que o precedente (obter). que fizemos diligência por ela. tudo o que nos é honroso. chegar diz-se do próprio fato. paço. se este viveu mais anos do que ele”. “tocar. lograr. palácio. pretendendo-as e solicitando-as com rogos e súplicas”. chegar. é albescente. Logra uma grande fortuna o que cançar “denota esforço”. alvacento. defendida de fortificações”. de inferiores. a ser branca. Qualquer superfície que parece ter tido originariamente outra cor. – Impetrar é alcançar do superior a graça que se havia solicitado. da força de efetuar. só se diz das residências das pessoas reais. atenções. agradável. impetrar. contração de palácio. As balas não chegavam à fortaleza. Obtêm-se cargos. Consegue-se o que com diligência e perseverança se busca. ou que a ela tínhamos direito. go- pode viver sem demandas nem pretensões. entre branco e cinzento”. etc. possuir alguma coisa que nos dá gosto ou prazer sem indicar que a buscamos. Um homem chega à idade avançada.152 Rocha Pombo 219 ALBESCENTE. ou tem protetor de valimento. e tende. porém. dignidades. ou que nos é grata. – Esbranquiçado significa “um tanto branco. tem força para fazer chegar balas a grande distância. disposto para habitação ou para outro fim. o fim a que se dirigem os meios com relação a eles. mas quando lá chegaram tiveram quem os agasalhasse. Em poesia diz-se dos atuais paços dos monarcas. lê-se em Bruns. segundo Bruns. alcançar diz-se da possibilidade. pois. – Lograr e conseguir podem supor justiça. ou se pretende.) – Atingir (que também colocam alguns no grupo CCXXI) diz “alcançar ligeiramente. diminutivo de castrum. porém. como se chegasse apenas a tocar de leve a coisa alcançada (ad + tangere. favores. Alcança o perdão o que interpõe rogos humildes e pede misericórdia. e obtêm-se de iguais. – Alcançar é o termo de nossos rogos. tocar. temos de subir a um banco para lhe chegar com a mão. – Castelo (de castellum. 222 ALCANÇAR. – Alvacento é a cor fixa que tira para branco. de superiores.. – Paço. e mais restrita a tem ainda impetrar. conseguir. meio branco”. obter. alvadio. Os náufragos alcançaram a praia depois de mil perigos.: “Albescente diz-se daquilo que se está tornando branco. – Alvadio diz-se da cor intermédia. – Quanto aos três primeiros. “fortaleza”) corresponde com exatidão a alcáçar (do árabe): era “a antiga habitação do rei. castelo. Os homens sóbrios e de bom temperamento gozam ordinariamente de boa saúde. – Alcáçar (ou alcácer).. 220 ALCÁCER (ou ALCÁÇAR). – Obter é alcançar uma coisa que se pretende ou deseja.

súcia. enxame. de alguma corporação. As fragas tornam a ascensão difícil. e ao perigo a que se expõem os que transitam próximo da sua beira. de lídima propriedade dizer que se viu – “um bando parado”. – Escarpa é “rochedo alcan- turba. de ladrões. precipício. que na linguagem vulgar só se aplica a aves. a fim de não ofender a honra do ladrão. aventurosa. ou “na escola”. a base do alcantil mergulha no mar. – é o gênero em que entram os outros como espécies”. – Precipício é termo geral que indica “todo acidente perigoso onde se pode cair”. itaimbé. – Riba e ribança confundem-se com ribanceira: este é apenas uma extensão daqueles. irregularidade. ou uma coisa acima da sua posição ordinária. ou “um bando de estudantes na aula”. elevar. Quase que destes dois se pode dizer o que se diz de alcançar e chegar. escarpa. troço.: – “Alcantil é a vertente talhada a pique. – Multidão quer dizer “grande número”. horda. de assassinos. – Bruns. bando. multidão. timo destes vocábulos – diz Roq. caterva. – Grota é aberta. as mãos. improbidade e dolo. – Elevar é “pôr em lugar alto. a voz. mais ou menos larga e profunda. no entanto. em montanha. ou é banhada por alguma corrente impetuosa. mas relativamente à profundidade a que está a base. e tendo a base regada ou não de corrente”. fazer subir”. – Despenhadeiro é a vertente ou precipício considerado. corja. matula. de . desfalque. – Bando. – Alcateia é um coletivo que se emprega para designar “multidão de animais ferozes”. ou mesmo de algum particular. batiza-se atualmente sob o nome de irregularidade. diferençando-se. despenhadeiro. exaltar a dignidades. Um bando de estudantes só se vê na rua. não com relação ao pendor. designa multidão. etc. e por onde quase sempre corre água. além de inépcia ou desmazelo. legião. vista de frente. ou desde baixo. e sugere ideia de vida errante. – Ribanceira considera a vertente como tendo pendor considerável.” 226 ALCATEIA. quadrilha. etc. 224 ALCANTIL. ou ao alto. sem mais ideia alguma acessória: multidão de pessoas. Figuradamente aplica-se a indivíduos da espécie humana aos quais se ligue alguma ideia que os ponha em relação com aqueles animais: alcateia de bandidos. ou quase a pique. – “O úl- Alcance é. em ordem eminente. ribanceira. talvez endireitando. matilha. ribança. escarpa. chusma. deste em não sugerir com a mesma força a ideia de atividade. – Erguer é levantar pondo em pé. etc.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 153 prime a mesma ideia. tirar para cima. como os olhos. ou a caminho do colégio. – Alçar é levantar o que está caído. nas contas que alguém é obrigado a prestar. 223 ALCANCE. riba. turma. grupo. acrescenta irregularidade e escreve: “Quando o desfalque é cometido nos dinheiros do Estado. despenhadeiro. Não seria. a escarpa é quase sempre de acesso impossível sem ajuda de arte. – tilado. como um edifício. Se o alcance acusa. encosta muito íngreme”. pedra escarpada que propriamente escarpa. de livros. Exprime ele a ideia de “pôr em alto. – Segundo Bruns. não tanto como o do alcantil. – Fraga é mais aspereza de serra. passa a ser desfalque. – Itaimbé é palavra do tupi designando rochedo a prumo. magote. troça. alcateia de lobos. grota. fazendo crescer para cima. malta. erguer. etc. 225 ALÇAR. levantar. se este é da categoria das chamadas pessoas decentes”. rancho. fraga. por isso. de panteras. a diferença entre a quantia que entrega e a que devia entregar.

– Legião era entre os romanos um corpo de tropas. destempero. de gente sem ordem”. de sapos. tapete. – Alcatifa é o tecido rico. podendo estar ou não fixo . de salteadores. isto é. pelo menos. e até de fereza (sobretudo os três últimos): súcia de malandros. de parcelamento: um magote parece que deixa supor sempre outro ou outros magotes. nunca se diria. 227 ALCATIFA. – Enxame aplica-se mais particularmente tratando-se de abelhas. mas agradáveis. ao ser preso. e parece que encerra ideia de atividade. a mais extensa”. corja. “obrar. etc. e deixando supor que é multidão fazendo parte de uma série de multidões. desregramento: horda de bárbaros. – é alcatifa que tem significação mais nobre. portanto. e também de divisão. – Magote é semelhante a grupo e a turma: significa “porção de pessoas. Dizemos: um rancho de fiéis. banditismo. ou de aves. de crianças. perversidade. matula.ere. e no sentido figurado empregase para designar multidão laboriosa. de lobos. Quando Jesus perguntou pelo nome do espírito mau que atormentava o possesso: – “O meu nome é legião” – respondeu o espírito. sugere sempre ideia de que se trata de defender uma causa. ou mesmo de coisas”. E também. alfombra. a mais exata. de missionários (não – um bando). nem um enxame de vagabundos ou de vadios. de estrelas. de bandidos. pândega. que cobre todo o pavimento de uma habitação. quando reprimiu a ira de Pedro. Não se diria: um enxame de lobos. espesso. toma-se sempre a má parte. agir”. matula de desordeiros. ou a causa especial que põe em movimento a legião: “legião patriótica. – Malta designa também multidão. pois neste coletivo figura o radical agmen = agimen. caterva estão nas mesmas condições do precedente: juntam à noção de muitos indivíduos reunidos a ideia de indisciplina. e que não porá logo aqui mais de doze legiões de Anjos?” Este coletivo legião. uma coisa fantástica. de malfeitores. Uma turba de sábios. de facínoras. – Rancho é o mesmo que bando: apenas não sugere. Dizemos: quadrilha de salteadores. e sugere também a ideia de que essas pessoas ou essas coisas fazem parte de multidão maior. companhia. feito de uma só peça. ou de realizar algum intento. de ago. caterva de lobos. mas sugere ideia de festa. disse a este: – “Cuidas que não posso rogar a meu Pai.154 Rocha Pombo ideias. e está fixo nele. – Troço significa “multidão ou porção. de depravamento e banditismo. que cobre o pavimento ou parte dele. de peregrinos. de intuito escuso. – Alfombra é o tapete de maiores ou menores dimensões. – Matilha é também coletivo de cláusula restrita: matilha de cães.. ideia de aventura. confortável. – Turma era “uma divisão tática na milícia romana”: diz. orgia. alfombra. mas em pequeno número”. – Grupo é “conjunto de coisas ou pessoas reunidas. em tumulto”. – Turba significa “multidão desordenada. portanto. – Chusma significa “multidão em alvoroço”. de guerrilheiros por exemplo. – Troça também diz “multidão”. tapeçaria. mas sugerindo ideia de vagabundagem. – Quadrilha está nas mesmas condições de turma: designa “um certo número de indivíduos aprestados para a guerra”. designa multidão certa. Súcia. – “Dos três primeiros vocábulos – diz Bruns. de gatunos. como este. Neste sentido continuou a usar-se para exprimir o motivo que impele. legião negra”. E até sem cláusula é usado para designar “multidão de cães de caça”. ou “legião da morte. bom ou mau. e fora deste caso. legião acadêmica”. corja de vadios. no entanto: quadrilha de colegiais. – Horda sugere ideia de selvageria. ou malandros. de cores variegadas. coisa semelhante a batalhão.. em atividade mais ou menos ordenada. ou mesmo de velhos – seria. tapete.

lupanar. do que propriamente por um nome. prenome. além de ser um termo coletivo. não se dá tal sinonímia. e a segunda. e João da Costa é o nome do indivíduo.. “a primeira. sobrenome das pessoas segundo a diferença das famílias. eram sinônimas em significarem o referir a seu favor algum dito.) – Sentina é o “prostíbulo imundo. assim como os nomes de animais. a suas vilas e cidades. portanto. – Agnome é o epíteto que se adiciona ao cognome para fazer que ressalte alguma virtude ou qualidade própria do indivíduo. Os reis davam. 230 ALEGAR. e que acaba com ela. exclusivo do indivíduo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 155 no chão. com que se designa um conjunto de tapetes. – Apodo é quase o mesmo que alcunha. – Nome é a palavra com que se designa ou distingue uma pessoa ou coisa. – Prenome é propriamente o nome que precede ao nome de família e que é. (Bruns. de sala. é trazer o advogado leis e razões em defensa do direito de sua causa”. Hoje. coelho. “Os panos de Arrás são tapeçarias de muito valor artístico”. de mesa. e que se junta ao nome de alguém para torná-lo mais preciso. sobrenome. etc. – Sobrenome é o nome que se interpõe entre o nome de batismo e o de família. como perdigão. onde impura a depravação moral. onde o vício ostenta as suas torpezas”. – Bordel é termo francês introduzido na língua. etc. foram apelidos nobres da descendência das famílias. – Cognome é o designativo de alguma qualidade notável ou característica. – Tapete é termo genérico. Costa é o apelido.. – Alcoice é a casa onde se dão cômodos às parelhas que procuram ter comércio. antonomásia. nobres. e o menos usado dos deste grupo: designa a casa de prostituição considerando-a sob o ponto de vista das orgias que nela se fazem”. palavra árabe (alconia). que serve para cobrir as paredes.. 228 ALCOICE. – Segundo Roq. etc. ou autoridade que prova o intento proposto. de corredor. exemplo. pega. portuguesa. citar. – Lupanar (do latim lupa “meretriz”) é a casa onde residem meretrizes. A maior parte das casas que nas cidades se intitulam hotéis para pernoitar são alcoices. e em termos forenses. tem a significação especial de pano de armação. “alegar é agnome. Em João da Costa. bordel. cada um deles tem. – Estes quatro vocábulos empregam-se indistintamente para designar as casas públicas de prostituição. apodo. a sua significação particular. no entanto. muito usada no tempos gloriosos de nossas guerras. e já há muito. – Citar é referir textos e autoridades .. apelido. – Antonomásia confunde-se com cognome e com alcunha. porém. que tanto designa o estofo da alfombra ou da alcatifa como esses próprios objetos. alcunhas de leais. João é o prenome. aves. por honra e mercê. – Prostíbulo (do latim prostibula “meretriz das ruas”) é o lupanar considerado como sentina onde as infelizes se degradam. Emprega-se esta palavra de preferência às outras quando se alude à moralidade dos que frequentam essas casas: frequentador de lupanares. sentina. mas diferença-se destes em não ser próprio e expresso. mas apenas alusivo do indivíduo a quem se aplica: vale mais por um epíteto que designa o indivíduo sem nomeá-lo. por exemplo. mas não é muito usado em português com esta significação. 229 ALCUNHA.. cognome. – Segundo Roq. sendo que o apelido se transmite e distingue as famílias”. notáveis. Há tapetes de escada. prostíbulo. nome. – Tapeçaria. peixes. porque alcunha só significa apelido injurioso. e quase sempre alusivo a algum defeito da pessoa. sardinha. alcatifas etc.

mais suave. que dá alegria.. jovialidade. e defender-nos. – Fixada a diferença entre alegria e contentamento. não assim o contentamento. Ao contrário. para sustentá-lo. uma pessoa estar contente. danças. de alegria. Antes que o ardente licor. citado perante o juiz. Diríamos que o contentamento é filosófico. ou pelo gosto que se logra. ledice. alegre. e sempre a acompanha. festivo. jubiloso. a alegria. que é afeto interior. buliçosa. em memória de faustos acontecimentos. ou pela satisfação de que se goza. como diz o nosso poeta. Luiz. segundo a força do verbo exultar. não será difícil fixá-la entre outros dos vocábulos deste grupo. que. contentamento. O homem alegre nem sempre é feliz. Quando o contentamento se manifesta exteriormente nas ações ou nas palavras. e até imoderada. fizesse seu efeito no moiro de Moçambique. e eles a usavam em lugar de alegria: em Camões ainda é frequente o adjetivo ledo em lugar de alegre. exultante. quiçá louca em seus transportes. mas não lhe achamos autoridade suficiente para a estimar como tal. fazer saber o chamamento do juiz. – Diz Roq. rompe em saltos. Está exultante a criatura que parece ufana da sua felicidade ou da satisfação que tem. ou ledica como diziam os antigos. Pode fingir-se a alegria. é alegria. satisfação. e produz contentamento no ânimo dos que foram causa dele. – Jovialidade significa “disposição natural para a alegria ruidosa mais inocente. Há velhos joviais. Citam-se os autores. etc. júbilo. Hoje. a palavra ledo é desusada. ledo. ou é surda a seus gritos. de S. sem parecer alegre. porque é demonstração exterior. e peso ao nosso dito. regozi- jo. mas a jovialidade só assenta nos moços. álacre. – O júbilo é mais animado que a alegria. que é saltar de gozo. e mostra-se por sons. nem a acompanha. Seria para desejar que o uso lhe desse a significação modificada que lhe atribui D. e em estilo forense é noticiar. e muito mais pelo regalo com que o tratava.. etc. que interessa a toda uma nação. muitos há que sem mostrarem alegria gozam de felicidade. não é a felicidade. tranquilidade de consciência. é alegria. alegra ao público. – Alacridade é a . as pessoas. aquele supõe igualdade e sossego de ânimo. alacridade. muitas vezes prescinde da consciência. e quase sempre se aplica às demonstrações públicas de gosto e alegria. alegou o advogado leis e razões tão importantes que por suas alegações conseguiu que ficasse de nenhum efeito a citação. e pertence principalmente ao juízo e à reflexão. Um fausto sucesso. bailes. citamos. e pertence à imaginação. a alegria é desigual. exprime cada um deles seu diferente grau ou circunstâncias”. alegamos. quase ufano da vida”. causada. alegam-se fatos e razões. formada da partícula reduplicativa re e gozo. satisfeito. vozes. já ele estava mui contente pelo acolhimento que lhe fazia o Gama. ou pelo bem que se possui. porém. que “o contentamento é uma situação agradável do ânimo. celebra-se com festas e regozijos. como está dizendo a palavra. poética. 231 ALEGRIA. – Ledice. A pessoa jubilosa mostra-se alvoroçada de alegria.. Pode. não cabendo no coração. pois representando todos um estado agradável no espírito do homem. pois. conduz à felicidade. tranquila e serena que a alegria. nem a ela conduz. exultação. celebradas com festas. gritos de aclamação. dizendo que é menos viva. e só em poesia terá cabimento.. Para dar autoridade ao que dizemos. – Regozijo. Para defender o réu.156 Rocha Pombo em prova do que se diz. jovial. é corrupção da palavra latina lœtitia. – Exultação é o último grau da alegria. ou gozo repetido ou prolongado. porque na embriaguez do espírito se deixa arrastar da força do prazer. Fr. temperamento irrequieto. contente. ou o que eles dizem.

o “ato de faltar à fé que se devia”. e não se poderia dizer que foi pérfido. potência. que nos promete o que não tem tenção de cumprir. caluniador). que dissimula com ares de inocência o golpe que vai descarregar. mas é um pouco mais preciso que além. nas maneiras dissimuladas com que procura alguém enganar a outrem para lograr do enganado alguma coisa. potente. – Calúnia é “a falsa imputação que se faz a alguém de atos que lhe prejudiquem a honra”. segundo Bruns. vigoroso. 234 ALENTADO. robustez. possança. após. falsidade (falso. (traiçoeiro. ou para trás. robusto. reforçado. deslealdade (desleal). adiante.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 157 “alegria aberta e serena.. esforçado. e é antônimo de antes. e sugere ideia de “posto à frente de alguma coisa”. valentia. a deveres ou compromissos que temos contraído. Entre falso e falsá- rio. com perfídia e infidelidade. 232 ALEIVE. Quem é vigoroso é capaz de empregar grandes forças. – Após é de todos os do grupo o mais preciso: diz – “logo depois. à vivacidade que indicam aptidões para praticar atos que necessitam de esforço. pujante. – Vigoroso refere-se à manifestação de força. aquele que exteriormente revela ter uma respiração fácil e poderosa (alento) que lhe permite fazer grandes esforços. além da distinção sob o ponto de vista das funções gramaticais. “é aquele cuja arca do peito apresenta uma ampla superfície”. praticada com má-fé. – Traição é.. infidelidade (infiel). discreta e segura”. 233 ALÉM. e confundese. pois a perfídia consiste em “faltar à fé parecendo fiel”. calúnia (ca- lunioso. Entre os dois vocábulos traiçoeiro e traidor há diferença análoga à que notamos entre calunioso e caluniador. aleivosia é a qualidade de ser aleivoso. força. traidor). pois falsário é “o que faltou ao que prometeu solenemente. dos bons princípios morais. perfídia (pérfido). vigor. Mas o traidor é sempre infiel. – A deslealdade consiste em faltar com alguém. esforço. – Satisfação é “o estado de alma em que ficamos quando alguma coisa vem corresponder aos nossos desejos. traição. alento. forte. posterior a alguma coisa”. isto é. É antônimo de atrás. Um homem alentado pode suportar grandes fadigas. à traição. – A falsidade consiste no modo traiçoeiro. imediatamente depois”. portanto.. aqui. e essa capacidade . – Calunioso é aquilo que envolve calúnia. possante. propriamente. – Alentado. pois que traiu abertamente. reforço. valente. O homem desleal é o que sai das normas. ao movimento. Calabar foi traidor. passou para os inimigos sem astúcias com os seus próprios. designa situação do que se encontra “depois de alguma outra coisa e em relação ao lugar que ocupamos nós: é antônimo de aquém. deve notar-se que o segundo tem uma significação especial e precisa que seria bastante para excluí-lo deste grupo se não fosse a ideia fundamental comum que o põe em relação com os demais. também relativamente a nós. e pode não ser pérfido. o que perpetra calúnia. e particularmente com falso. – Além. – Depois quer dizer – “em seguida. fortaleza (fortidão). depois. que é nosso igual ou superior. Emprega-se frequentemente aleivosia por aleive. pujança. e caluniador. é o que iludiu ou procurou iludir a boa-fé dos outros”. – Aleive é a própria calúnia que se disfarça. – Adiante é também aplicado para designar ordem de situação. Falso é o que nos diz aquilo que não sente. falsário). etc. aleivosia (aleivoso). ferindo ou prejudicando aquele a quem devia lealdade. aos nossos sentimentos”.

O indivíduo esforçado é o que tem qualidades para vencer pelo trabalho. Foi. – Robusto (do latim robur “força”) diz-se da pessoa que no vigor muscular. ou álcool de fortidão maravilhosa”. o seu jogo enérgico mostram o vigor latente. que pujante se diz daquele que é capaz de vencer em pugna. dizemos fortidão. que se impõe pelo enorme poder dos músculos” (possança).. cimitarra. 6. “É à valentia dos soldados. “A alma potente do justo a nada cede”. que se punha à cinta. disse: Quis generum meum ad gladium alligavit? – “Quem foi que atou meu genro àquela espada?” O primeiro talvez que usou esta palavra em sentido reto. chanfalho. Afinal essas distinções não são essenciais. – Espada – diz Roq. na tradução dos Mártires. como em latim. – Gládio é a palavra latina gladius. foi Filinto Elysio. “O leão tem mais força que o burro”. Exemplos: “A fé aumenta a fortaleza das almas”. – é palavra italiana e castelhana. que se deveu a vitória”. – Possante quer dizer – “que tem grande força. O homem robusto tem membros atléticos. sem nenhuma ideia acessória. a fortaleza daqueles muros.”. 1. onde diz: Detrás dos Vexillarios vão Hastatos.158 Rocha Pombo manifesta-se exteriormente. – Valente é aquele que não teme o perigo e é capaz de enfrentá-lo. e espada de folha larga na ponta. a ideia de ativo.. que sendo de pequena estatura.” – Força é “capacidade de ação ou de resistência física”. aumento de vigor”.. etc. tórax amplo. montante. Quando essa capacidade é atribuída aos animais.. “Quando operou aquela possante máquina de guerra.” “O gladiador estava ainda em toda a sua pujança”. só se aplica à força exercida pelo homem. que vem do latim bárbaro spatha. – Fortaleza é “a energia moral. que. sabre. preferimos dizer força. espada. na forma opulenta dos membros. terça- do. mesmo quando não as emprega: o movimento dos membros. do grego spathe. movimentos pausados: nisto se distingue sobremaneira daquele que é vigoroso. é a qualidade de ser forte”. segundo Varrão. e que possante sugere ideia de “opulência de força” e “majestade de aspeto. ou do antigo castelo. – Reforço é “acréscimo de força. – Forte é um termo genérico que exprime o poder de obrar ou de resistir. daquelas grandes virtudes ou daquelas construções maravilhosas”. no entanto. das pernas. E se se trata da propriedade correspondente nos inorgânicos. a fortidão do seu gênio. energético. portanto. “A potência daquele espírito. É reforçado o homem que tem mais desenvolvidos os órgãos de ação física próprios para uma certa função ou esforço: reforçado do peito. 235 ALFANJE. pois dizemos também: a força da dinamite. revela força e saúde. tanto pelo menos quanto à bravura do general. trazia uma grande espada à cinta. durindana. que significa “espátula”. assim como as há muito corpulentas que não são robustas. É preciso notar. – Esforço é a ação moral ou física de que alguém é capaz. vem de cladis “matança na guerra” (quasi cladius. Não se sabe ao certo qual era a forma desta arma ofensiva entre os romanos. e que era longa. mas deve ter-se como provado que se metia em bainha. e também um castigo de . quod ad cladem sit inventus). gládio. E zombando de seu genro Lentulo. que potente adita à noção de “poderoso. porque Cícero diz na oração pro Marcello: Gladium vaginâ vacuum in urbe non vidimus – “não vimos na cidade espada desembainhada”. Este vocábulo. Há pessoas magras que são fortes. e designa a arma que se julga corresponder ao gladius dos latinos.. “Matéria explosiva. dos braços. usada em sentido figurado por escritores de boa nota para designar o poder supremo. contudo. pois o vigor manifesta-se na energia dos movimentos. Confunde-se com pujante e potente. Com gladios na segunda forma. eficaz”. etc.

. De Re Milit. diz: “Flor enfim da terra. pelo comum desejada. II. afinal. 24). 236 ALFIM. F. e cada ano cortada . definitiva. ou de uma enumeração: “Enfim acabou de falar. de Souza e por Vieira”. enfim. velha. e os espanhóis da sua tizona. falando dos habitantes de Moçambique. Os seguintes lugares de Vieira talvez possam servir de modelo neste caso.. por fim. gladios majores. – Cimitarra é “espada pérsica. pois Camões. que “alfim é expressão castelhana mas admitida em nossa língua. que depois de não poucos esforços de seu Mestre foram elevados a tão alta dignidade. é mais ou menos extensa. ou o fim dos fins. e usada por Fr. pesada e terrível. – Sabre é “espada pequena. Fr. decisiva ou positiva sua significação. terminou seu discurso”. – Diz Roq. de um discurso. falando da peste: “O gladio que feriu o povo”.. resta que se adote e se observe: do que duvidamos em tempos em que se vêm postergadas outras mais importantes observações acerca de nossa tão maltratada língua. logramos nosso intento.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 159 Deus. L. quos semispathas nominant – em que não poderíamos deixar de empregar os dois vocábulos gladio e espada. Depois de enumerar os formosos dotes de Helena. de figura curva. – Enfim é um modo translatício. que se brandia com ambas as mãos para acutilar por alto. disse: Por armas têm adargas e terçados. Falando ele dos apóstolos. que significa. e por ele se designa uma espada grande. Chama-se fim ao termo material de uma coisa. de S. tivemos alfim a ventura de sair bem em nossa empresa”. – Mais positivo e terminante que as duas expressões anteriores é o advérbio finalmente. de uma conversação. larga. Segundo a preposição que se lhe ajunta. de uma arenga. 47). para zombarmos da valentia dos fanfarrões que se gabam de façanhas inauditas. ainda mais burlesco do que durin- dana: é “grande espada. As duas primeiras não resolvem absolutamente. É palavra muito usada nos clássicos. que não corta”. e de três dedos de largo”. É hoje usada na gendarmeria”. pelo que também se lhe dava o nome de espada de ambalas mãos. e poética. – Terçado do castelhano terciado...” (II. irrevogavelmente. por última conclusão. de que usam os valentes e denodados cavaleiros em suas lides. como os franceses da sua flamberge. I. Confundem-na muitos com enfim e com finalmente. que designa a conclusão. Alfim denota que.. Miguel de Asnide era tão agigantado que trazia na cinta um montante por espada ordinária (D. e nomeadamente se houvéramos de traduzir aquele lugar de Vegecio.. senão usando de um circunlóquio extenso e escusado. et alios minores. de aço fino. ou das areias da praia. – Montante – define Aul. – Durindana é termo cômico e burlesco. – “grande espada antiga. e também ao conseguimento do objeto que nos propusemos. 15: Habent. do Couto)” – Chanfalho é termo vulgar. ou pelo menos mais curta que o terçado. que tem só um gume. não. – Quer o autor dos Sinônimos da língua portuguesa (D. mas é mister distingui-las.. depois de se haverem vencido todos os obstáculos. ou que desejávamos. Mui sensato é este parecer. quos spathas vocant. pelo que nos atreveríamos a dizer que é a conclusão das conclusões. (Lus. e assim nos servimos desta palavra. como disse Camões. deixam alguma coisa que esperar: a terceira. diz: “Como homens alfim levantados do pó da terra. é espada curta e larga. e assim dizemos: “Depois de havermos gasto tanto. finalmente. ao cabo de tantas fadigas. curta e curva. enferrujada. – Alfanje é espada mouresca e turca. Luiz) que se use esta palavra em sentido reto quando aludirmos aos usos bélicos dos romanos.

(Roq. dizemos afinal. senão já quase desconhecido. algures. “algoz diz-se melhor de quem martiriza moralmente. carrasco e verdugo. que faz. o estranho não só não é nosso. carrasco. estranho. 146). – Quanto aos três primeiros. – Segundo Bruns. dos que martirizam moral e fisicamente”. executor. senão que ignoramos se tem dono”. – Executor substitui a quase todos os outros do grupo. es- tes dois advérbios “são atualmente pouco usados na linguagem culta. 239 ALHEIO. e aplica-se hoje com sentido análogo. – Carnífice diz – “homem sanguinário. diz Bruns.160 Rocha Pombo 238 ALGUNS. sem determinar o lugar. “Depois de nos mostrar toda a casa. “Afinal chegou o nosso dia”. 5). 241 ALI. são: “denominações comuns ao executor da alta justiça nos países onde vigora a pena de morte”. é simplesmente o que executa a sentença. são muito expressivos. – “Entre com o arado do tempo”. e que passou. (III. suficiente não obstante para que em muitos casos as duas expressões não possam empregar-se indistintamente. – Ali diz propria- mente – “naquele lugar”. subentendendo-se que é quase sempre a de morte. por isso mesmo. algoz é esse indivíduo. ou que lhe não ocorrem. posto que se refira igualmente a pessoas ou coisas indeterminadas. E começando aquele famoso exórdio do sermão sobre o dia de juízo. e por certo merecedores de serem revividos”. Entre alheio e estranho também se nota a seguinte diferença: o alheio não é nosso. – Algoz é termo culto. ou que é capaz de fazer morticínios”. O segundo. (XII. – há uma muito leve diferença. – algures.. isto é. verdugo. de outrem. No sentido figurado. alhures = “noutra parte”. e o primeiro não só pouco usado. isto é. – Resta-nos dizer que o primeiro do grupo é hoje muito pouco usado: em vez de alfim. – Alguns “refere-se limitadamente a pessoas ou coisas indeterminadas.. algures = “em algum sítio”. certos. – A locução por fim equivale a “finalmente”. – Alhures (pronuncie-se alures) exclui o lugar em que estamos. etc. cobiçar o que é de outrem é cobiçar o que pertence a determinado indivíduo. que aquele que fala não conhece bem. – . e dá a entender que são conhecidas e que se poderiam nomear se necessário fosse”. verdugo é palavra castelhana que se introduziu na língua portuguesa. 240 ALHURES. alheio e de outrem – escreve Bruns. carnífice. lá. não exclui nenhum.” 237 ALGOZ. próprio da poesia e do estilo elevado. levou-nos por fim ao parque. sacrificador. “em conclusão”.. de outrem não só indica que o objeto não é nosso. ou outro qualquer (que faça de algoz contra alguém.). que o flagele e martirize como se quisesse tirar-lhe a vida). diz: “Abrasado finalmente o mundo”. – Alheio indica apenas que o objeto não é nosso. acolá. a ser sacrílega. aí. mas afirma que outrem é seu dono.. “Carlos I de Inglaterra foi executado por um algoz mascarado que se prontificou a substituir o carrasco que havia desaparecido”. nem é preciso indicar.. – Carrasco e verdugo designam o indivíduo que tem o ofício de executor. Cobiçar o alheio é cobiçar o que não é nosso. para designar o indivíduo que imita contra alguém as funções do sacrifício. ou da tortura como cerimônia de culto. além. carrasco é termo popular. – Sacrificador era o encarregado de sacrificar as vítimas entre quase todos os povos antigos. é menos vago. tanto à vista como no sítio de que se acaba de tratar. da execução religiosa. Não obstante.

Há homens que contraem alianças que não estão em relação com a nobreza da sua prosápia. e dela difere em que a liga se celebra geralmente entre Estados. nem o que está ocupando a pessoa com quem falo”. Duas pessoas de gostos diametralmente opostos formam uma união desgraçada. para realizar-se.. bodas. a desproporção das fortunas. – União é a palavra que mais se relaciona com as conveniências pessoais dos cônjuges. 244 ALICERCE. – Casamento é o vocábulo que exprime a associação do homem e da mulher. ou entre partidos que não têm interesses opostos. – Acolá diz – “ali. na parte oposta àquela em que estou. ou entre partidos que. núpcias. pelo qual dá um ao outro poder sobre seu corpo. que. – “Aliança é a união de vontades e forças para fins determinados. A palavra aliança toma-se indiferentemente. têm interesses ou sustentam princípios diametralmente contrários. do castelhano boda. maciça de alvenaria. – Aí quer dizer – “nesse lugar”. isto é – no lugar que não é o em que me encontro eu presentemente e que está distante de mim. e sobre a qual assentam os muros de uma constru- . fundamento. confederação. entre homem e mulher. em circunstâncias normais. – “é uma espécie de liga momentânea. – Neste grupo. comumente. conseguido este. porém liga. coalizão. exprime o contrato. o banquete nupcial.. ou à anterior indiferença”. isto é – no lugar em que se encontra a pessoa a quem nos dirigimos. significa o festim doméstico. – Além significa – “mais para diante. nem produz resultados iguais. peanha. um fim. base. – Matrimônio. etc. que se refere precisamente ao contrato. Aliança diz-se com respeito às pessoas e às coisas. sem nenhuma outra ideia acessória”. liga. – Liga é uma semelhante união. porém menos duradoira. nuptiœ. que obrigam as nações que se aliaram”. ou mesmo não visível”. A coalizão visa a matrimônio. noivado. refere-se às pessoas. consórcio. povos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 161 Lá significa – “naquele outro lugar”. não impediram a aliança de duas famílias. união. pelo contrário a palavra liga toma-se quase sempre em mau sentido. podendo ser boa ou má. – Confederação é “uma união. – Alicerce (ou alicerces) é a “parte sólida. ao rito e aparato com que costuma celebrar-se o matrimônio.). Assim dizemos que a diferença de religião. – Núpcias é palavra latina. – Coalizão – diz Bruns. entre reis. embasa- mento. casamento. José de Lacerda). e refere-se propriamente às solenidades legais. 242 ALIANÇA. sem relação necessária às leis religiosas ou civis de cada nação. etc. “a palavra aliança refere-se ao que da união é aparente e se relaciona com as convenções sociais. com que se soleniza esta festa de família. convertem-se em regras de direito público..” (D. e também as bodas que a este se seguem”. mas que não é o que eu ocupo. naquele lugar que está à vista. (Bruns. com que é estabelecida. cada Estado. É termo genérico do direito das gentes. segundo Roq. enquanto que a coalizão se faz entre Estados. e tem lugar mediante convenções particulares. ou cada partido volta ao seu anterior antagonismo. supõe maior formalidade. – Bodas. A aliança entre soberanos (ou entre Estados) forma-se por via de tratados. 243 ALIANÇA. do outro lado de um lugar ou um acidente à vista. pedestal. encravada no solo firme. e as condições. corporações. e não requer as formalidades com que se estipulam as alianças. – Noivado é “expressão vulgar com que se designa a cerimônia religiosa do matrimônio católico.

seus fundamentos são como suas raízes.). – Engodar é “atrair com presentes e mimos. – “Peanha é palavra portuguesa formada de pé e anha. Mas o que é decisivo na escolha entre estas duas pa- lavras. pelo menos nem sempre. – Pedestal (do francês piédestal. apoderar-se da vontade e da ação de alguém para fins criminosos ou indignos”. Base emprega-se ordinariamente no singular e falando de um objeto pouco extenso.. J. o embasamento sobre os alicerces. Entre este e fundamento há. e sua base tem tanto de circunferência. 245 ALICIAR. ordinariamente de mármore. 246 ALIENAR. Uma montanha é abalada até nos seus fundamentos. significando “a parte inferior sobre a qual repousam os corpos”. Há uma palavra que parece mais técnica para designar o assento geral. – Aliciar é “trazer alguém para o nosso partido. é termo de arquitetura. a que falte alguém com o seu dever”. e designa a peça de pedra ou de madeira. é que “fundamento encerra a ideia de solidez. “Não basta que a virtude seja a base de vossa conduta. iludindo a boa-fé. no entanto. pei- tar. se não estabelecerdes essa base mesma sobre fundamentos inabaláveis”. sobre que se põe estátua ou busto. na palavra base”. sensível diferença: embasamento não é mais do que tudo aquilo que acima do solo serve de suporte ao edifício: assenta. O fundamento está oculto na terra. enquanto que base designa apenas “os pontos por onde começa o edifício a erguer-se do solo”. seduzir. cuja base assenta nos fundamentos do templo” (Volt. apoio”. falando-lhe às ambições”. e tratando de um edifício. – Alienar exprime a ideia geral que os outros verbos deste grupo especializam: a ideia de desfazer-se . enganando com artifícios. “por todos os meios ilícitos e desonestos. que alguns querem seja corrução de lignea. permutar. no entanto. soco e cornija. O fundamento é aquilo sobre que assenta a base. e tratando-se de edifícios. de uso tão frequente no sentido figurado. sobre que assenta uma construção”. “pé”. – Seduzir é “desviar do reto caminho.. a qual não se inclui.). tinha uma base (Roll. e varia segundo as ordens de arquitetura”. a máquina de guerra dos antigos.). – Corromper é. na maioria dos casos. poderia confundir-se com alicerce se este não sugerisse a ideia. subornar. aqui. como estes assentam sobre os fundamentos. às vezes movediça. as estátuas monumentais. ou uma coluna: sua base é seu pedestal. fazendo-lhe promessas. ou como seu pedestal”. etc. corromper.162 Rocha Pombo ção”. muito mais o corrompido. pois. o aparelho de solidez e segurança sobre que repousa um edifício: é o vocábulo embasamento. e do teutônico stall. O ato de corromper envilece tanto o corrompido como o que corrompe. boas palavras e artes”. chamada em francês tortue e que era móvel. compreendendo a estrutura subterrânea.: “Fundamento usa-se mais no plural. que sustém as colunas. melhor no plural) é “toda a área de solo. vender. é coberta de habitações ou de verdura. – Sobre fundamento e base escreve Laf. que o caracteriza. de pied. e indica um corpo sólido. corrompendo com habilidades e finuras”.. tra- ficar. – Peitar é “por meio de paga. “pôr alguém a nosso favor e levá-lo a fazer o que é do nosso interesse”. assenta-se uma base. (J. “O mago encerrou-me numa estátua colossal. engodar. “base. mas não um fundamento ou fundamentos. trocar. – Subornar é “induzir de qualquer modo. lançam-se fundamentos. consta de base.. como um rochedo. a base está acima da terra e se vê: cavam-se. com ofertas e pagas.. cambiar. escambiar. “de pau”. – Fundamento (aqui. – Base é termo geral. de apoio firme.

catalogar. não propriamente permuta. que “se refere à ideia da necessidade que de comer têm os seres viventes. limpando ao mesmo tempo. ou que se a permutou. etc. – Catalogar é “arrolar em certa ordem. tráfico. o primeiro verbo sugere melhor a ideia de mutualidade entre os que fazem a transação. por exemplo) levar artigos de comércio. mas mediante dinheiro (vender). no entanto. Os poderosos do sé- inventariar.. poda. que os dois países permutam. que diz apenas – “pôr em rol”. Quando os mercadores de um país vão a outro (ou vão entre bárbaros. não se pode dizer. Mantém-se a família. e que se estabelecessem assim entre os dois mútuas relações de comércio. e cambiar é mais propriamente “trocar moeda de um por moeda de outro país”. as más ervas que crescem entre os cereais.” 249 ALISTAR. arrolam-se os instrumentos e armas indispensáveis para a viagem. Haverá troca. alistou-se no partido (e não – relacionou-se. monda. e nutre-se com as verdades da filosofia. manter. nutrir.” – Inventariar. dizemos que se vendeu. no seu lugar. – Poda é “o ato de cortar a rama supérflua que de ano para ano fica nos vegetais. de lugar”. Há. 248 ALIMPA. Arrola-se a roupa. passá-la a outrem. diz Roq. em geral.. 247 ALIMENTAR. – Monda se diz do ato de arrancar à mão. – Manter diz propriamente – “conservar alguma coisa como está. No sentido figurado. Relacionam-se os objetos que vão para o depósito. de emprego. dar o sustento. Se a cessão é feita mediante dinheiro.. – Nutrir explica esta mesma necessidade satisfeita em proveito do indivíduo pelos bons resultados da digestão. etc. só por isso. a atitude. a opinião. Nutre-se o rico de bons manjares.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 163 alguém de alguma coisa. se damos uma coisa por outra. relacionar. e com explicações que facilitem a respeito das coisas catalogadas o que se deseja saber de cada uma. nem – arrolou-se). papéis. Catalogam-se livros. a comida diária. diz o mesmo que relacionar. sustentar. – Alistar distingue-se dos outros deste grupo em sugerir a ideia de inscrever com certa solenidade a pessoa que se alista. nas condições em que se encontra. de cedê-la. e. sem mais ideia alguma acessória. mas sugerindo ideia da indagação e pesquisa que faz o que inventaria. ou que há permuta entre os dois países. os que ficam. – é o ato de cortar os ramos desnecessários ou nocivos à existência da árvore. e os trocam por outros desse país. Fora do comércio. indica a operação de trocar. Alimenta-se o pobre com umas sopas. “troca”) distinguem-se assim: escambar. é arrolar e descrever minuciosamente os bens de um espólio ou de uma execução. ou com sacho. relacionam-se fatos. Para haver permuta seria preciso que do país onde se vendeu ou trocou fossem também mercadores ao outro país. Tanto assim que se diz: alistou-se eleitor. culo sustentaram com sua influência e conselhos muitos erros e heresias”. – Relacionar é “dar em relação com as informações precisas”: ideia que se não encerra em arrolar. arrolar. – Sustentar significa prover do necessário para a vida. na acepção jurídica. dizemos que foi trocada. – Alimentar. permutar significa – “trocar de posto. O literato alimenta-se lendo Horácio. mantém-se a promessa. As pessoas caritativas sustentam muitas famílias necessitadas. principalmente na vinha. alguma diferença entre permutar e trocar. que é pouco usado. a água as plantas. . da ferrugem e outros parasitas que os cobrem. dizemos que a lenha alimenta o fogo. – A alimpa – diz Bruns. – Cambiar e escambiar (do mesmo tema cambio.

” – Seira = cesto de palha. – Diz Bruns. – cesto de bananas. e serve para guardar ou conduzir pão. alforje. Coruja que o dr. mala. seira. que se conduz sobre cangalhas em viagem”. quase . no seu romance Divina Pastora. com divisões e escaninhos. Diferem apenas. feito de varas entrançadas. fechada por todos os lados menos por um (a boca) destinada a conter provisoriamente diversos objetos miúdos. com bolsa para guardar dinheiro e mais misteres de um viajor”. de junco. – Alcofa é. carcás. quanto à origem: aljava nos vem do árabe. de taquara partida. e diferentes objetos”.” – Mala é “saco de coiro. picoá. – Mochila é “uma espécie de saco de sola para trazer roupa e outros artigos de uso que os soldados de infanteria e de caçadores em marcha põem às costas. como se vê. largo e leve. balaio. cesto de feijão (e não – cesta). pois. Usa-se para trazer ao ombro. e este poderia comparar-se a bolsa ou estojo se não fosse a particularidade de ser a guaiaca presa sempre à cintura. etc. Vieir. em uma nota. cesta de roupa suja (e não – cesto). – Picoá. – Cesto é uma cesta mais grosseira. carcás. e mais ou menos semelhante a uma bolsa para dinheiro”. etc. peçuelos) é uma bruaca menor. em forma de alforje. ou sobre as cavalgaduras. que a primeira e a terceira palavras deste grupo – aljava e carcás – são sinônimos perfeitos e com qualquer delas se designa o estojo onde se metem as setas e que se traz pendente do ombro. servindo para guardar objetos de costura. para que se equilibrem sobre o animal.164 Rocha Pombo 250 ALJAVA. – Bruaca (ou broaca) é termo nosso. cesto flexível de vime. para guardar coisas de uso. Estojo de desenho.. saco. segundo Aul. pois. – Saco é “peça de pano ou de coiro. Pereira Coruja: “espécie de saco de coiro. Usa-se mais no plural.). segundo o prof. No Bra- sil dizemos – cesta de costura. seirão. de modo a formar como dois sacos ou compartimentos. – Cesta é “vaso grande. que serve para conter frutas. – Guaiaca é outro. jacá. sem arco ou asas. alcofa. papéis. É. frutas. bordados. de junco ou de esparto. etc. aparelhos de profissão. etc. madeira. bruaca. usado entre os tropeiros e homens do campo. etc. ou folhas de palma. do grego. que o próprio cavaleiro leva consigo à garupa. etc. de alforjes apenas em serem de coiro. acrescenta que é ordinariamente redondo. bolsa. – Peçuelo (ou melhor. mochila. Assim o define o prof. e outros quaisquer objetos”. de coiro ou de pano. – Cabaz = “cesto fundo. dobrada.” (Aul. Também se costuma chamar sapicoá”. Coruja. farinha. descoberto (ou mesmo com tampa móvel). Diz o prof. assim define esta palavra: “Cinta de coiro lavrado. – Açafate (ou çafate) = “pequeno cesto tecido de vimes delgados e descascados. estojo de costura. cesta. a fim de resguardar ou de os transportar)”. “um saco fechado em ambas as extremidades. Seirão = “seira grande. a fim de igualar o peso dos dois lados”. e que serve para conter ou transportar roupa. – Alforje (usado comumente no plural) é. que se põe sobre as bestas de carga”. geralmente com asas. Dom. segundo definição de Aul. cabaz. es- tojo. acrescenta o mesmo autor. pois são sempre duas as bruacas. e ordinariamente de forma retangular. e em que se leva fato de jornada.) – Balaio é “cesto grande. oleado ou pano. grande. de três ou quatro dedos de altura. cesta. fechado ou não com cadeado ou chave. lona. seguro por meio de correias”. peçuelo.. José Antonio do Valle. ou mesmo de cabedal. e com a abertura no centro. é “mala de algodão ou linho com abertura no meio: serve para conduzir roupa ou mantimentos em viagem. rendas e também flores. de palha. – Estojo é “uma caixa. V. (D. de madeira. guaiaca. – Bolsa é “um saco de qualquer estofo. um nome indígena mais equivalente a alforje. Diferem. de cascas de embira. esparto. açafate.

senão em alguns. água gelada (e não – gélida). gelado. – Se- gundo Roq. ou mais frio do que o gelo. 252 ALMA.. Diz-se que um homem tem a alma grande.. profundo. are. alere. em denotar inteligência. segundo. faculdades intelectuais ativas que àquele só são acessórias. “que quer dizer respiração”. vasto. Alma desperta ideia de substância simples. alma refere-se aos atos. sem relação nenhuma com o corpo. – “Álgido é termo científico e poético. em sua significação mais lata. e clima frígido significariam outra coisa). Noutra acepção.. falando do demônio: “É espírito: vê as almas”. exprime qualidade ou modo de ser. nobre. a causa oculta da vida.. Deus. poético e da linguagem vulgar. frígido. ar que se respira. espírito.. – Gelado quer dizer propriamente – “reduzido à temperatura do gelo”. Os gregos designavam a alma pela palavra psyche. Os filósofos materialistas têm querido negar à alma humana a qualidade de espiritual. Álgido se diz do que comunica a sensação do gelo. feito de esparto ou de taquara”. Seja qual for sua etimologia. Dizemos: clima frio. espírito. a gélida indiferença (não – gelada). do sentimento. no entender de alguns etimologistas. diz: “Tudo isto que vemos (no . mas não são almas. para condução de coisas miúdas”. zona frígida (zona fria.. briosa. eu. tal é aquele de Vieira em que. glacial é científico. No sentido figurado. gélido. glacial. o princípio. 251 ÁLGIDO. Espírito difere de alma. re- gelado. – Jacá = “cesto grande e grosseiro. sopro. as substâncias espirituais que animaram os corpos humanos. nutrir”. qualifica-se de álgido ao que vive no que é glacial: as plantas e os animais álgidos vivem nas regiões glaciais”. que anima ou animou o corpo. representa esta palavra. empregado mais no sentido moral. aos afetos.) – Frio significa propriamente “sem calor”. frigidus) diz também “frio. primeiro em encerrar a ideia de princípio subtil. Vieira disse. Frígido (do mesmo latim que deu frio.” – Gélido é termo poético. do que está frequentemente gelado. onde há muito frio”. e que tem o espírito penetrante. alento”. do movimento de todos os seres viventes”. invisível que não é essencial ao outro vocábulo. coração. É provavelmente esta última definição que caracteriza a diferença entre os dois. “alma. “ar. ainda depois de separadas deles. – Espírito é a palavra latina spiritus. e davam-lhe a mesma extensão que nós damos à palavra alma. frio. ou “que não é quente”. Falando do homem. sendo que espírito só indica substância imaterial. nem em todos os casos se podem empregar indiferentemente. à inteligência. e significando o mesmo que gelado. “privado de calor”. ao pensamento.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 165 sempre com asas. mas nenhum se lembrou ainda de dizer que o espírito era matéria. alma e espírito nem sempre são sinônimos perfeitos. melhor do que este (que designa apenas estado quase sempre). Dizemos: o gélido cadáver (e não – gelado). inteligente e livre. os anjos. de spiro. aos sentimentos. ânimo. “vivificar. derivam a palavra alma do verbo latino alo. devendo notar-se que. outros. os demônios são espíritos. almas do outro mundo. querendo encarecer o valor da alma sobre o corpo. glacial. (Bruns. a que os franceses chamam revenants.. chamam-se almas. termo latino que vem do grego anemos. e assim dizemos: as almas do Purgatório. “sopro”. vem de anima. e vale o mesmo que sopro ou hálito. e talvez com mais razão. Além disso distinguem-se estes adjetivos por sua diferente significação. “respirar”. isto é. – Regelado é redobramento do precedente e diz – “muito frio. Daí vem chamar-se psicologia à parte da filosofia que trata da alma.

soberbo. Na sua significação primitiva vale o mesmo que alma. – O calendário indica a ordem e série de todos os dias do ano. – Indicador será um guia mais particular: indicador das ruas. abatido. além do calendário do ano. designa um folheto ou livro (e às vezes livro bem alentado) em que. as fases da lua e as variações dos dias. nobre. é o indicador dos pontos por onde se tem de passar. o princípio das estações. “órgão dos afetos”. roteiro. – Roteiro. humilde. moderna na nossa língua com esta acepção. elevado. Como notamos entre parênteses. – A palavra anuário. número áureo.166 Rocha Pombo homem) com os próprios olhos é aquele espírito sublime. e ainda menos de espírito”. Particularmente. – Vademeco (latim vade mecum) = “folheto com indicações ligeiras. – Ânimo é a mesma palavra latina animus. “livro pequeno. ciência ou arte”. quando é tomado como sede da fortaleza moral. e nisto se distingue de alma e espírito (se bem que nem sempre essencialmente). é uma espécie de almanaque cuja utilidade é particular às casas de comércio. 253 ALMANAQUE. se indicam os eclipses. nem sempre é de rigor a distinção que faz Roq. epacta. letra dominical. eu é a alma. chamamo-la espírito. como esta. re- pertório. indicação romana. e à burocracia em geral”. quando se considera a alma como ser pensante. imenso – a alma (II. às repartições oficiais. ou intenção.) – Manual é vademeco mais extenso. – Coração só pode ser tido como sinônimo de alma e de espírito: de alma. e. Segundo os afetos que o ânimo experimenta. – Em linguagem filosófica. para uso do clero. guia. há também folhinhas eclesiásticas. entrada e saída do sol em cada um dos signos do Zodíaco. (Usa-se neste caso mais propriamente de itinerário. palavra árabe introduzida na língua espanhola. ciclo solar. grego. pois. há o calendário parietal. esforço. é folheto ou pequeno livro em que se encontram todas as indicações indispensáveis aos que se ocupam de algum serviço: guia dos viajantes. do mesmo modo que anima. ou quando nela se vê apenas a faculdade intelectual. ou do rumo que se há de seguir nalguma viagem. ou altivo. pode ele ser baixo. grande. quase sempre valor. e que passou desta para todas as línguas europeias. folhinha. espírito. fórmulas ou noções de uso frequente em algum ofício ou profissão”. – Folhinha é o calendário adequado ao uso do povo. vil ou soberba. guia dos lavradores. de anemos. porém o uso tem preferido este vocábulo para designar a faculdade sensitiva e seus atos: representa. vil. aqui. manual. vademeco. indicador. anuário. só folhinha e repertório são genuinamente portugueses. ou de mero passatempo. 71). é o conjunto das faculdades que formam a individualidade psicológica. etc. . – Almanaque. Além do calendário folheto. – Diz Bruns. quando exprime. alma esforçada ou abatida. dos caminhos de ferro. calendário. – Repertório é uma espécie de almanaque acomodado às necessidades da gente do campo. é provido de vária leitura e indicações interessantes. dispostos por meses. que contém em resumo aquilo que é indispensável em algum ofício. – Guia. prontuário. ardente. Também dizemos: espírito baixo ou altivo. da coragem etc. designa também o santo ou a festa própria de cada dia do ano. “que de todos estes vocábulos. de espírito. segundo a índole das pessoas a que é destinado. no sentido restrito que tem neste grupo. que se compõe de folhas sobrepostas que se vão retirando uma a uma cada dia. vontade. esforçado: o que com propriedade (em muitos casos) não se poderia dizer de alma. – Prontuário é o “manual onde se acha prontamente o que se quer sobre algum ofício ou profissão”.

é a mais extensa. – Almeja-se voltar à casa dos pais. fala. por isso que se razoa e se empregam razões para conseguir o fim que se deseja”. desejar. em perigosas e decisivas circunstâncias. e que excedem muito a nossa capacidade”. animado e vivo. oração.. Como diz Roq.ere) diz “fecundo. ou um alto posto na política. vencer um embaraço. ou fazer as pazes com o amigo. criador. – Desejar é “ter vontade de conseguir ou de gozar alguma coisa: é querer com mais gosto”. homilia. é um arrazoamento. pois. Arenga-se também a corporações respeitáveis. Ambiciona-se uma grande fortuna. – “é o gênero a que pertencem como espécies todas as composições oratórias. Em contrário sentido fazem os grandes conspiradores arengas ao povo. que faz crescer”. ou de o excitar a alguma ação ou empresa. sermão. nutritivo. – Cobiça-se a bengala. de produzir forças. pretender. – Almo (do latim alimus. etc. próprio dizer que F. – Criador é aquilo que é capaz de gerar. imoderadamente”. como tendo por fim persuadir e mover. – Almejar é “desejar ardentemente. 256 ALOCUÇÃO. que alimenta. que se dirige a um grande concurso para comovê-lo. de alo. nutriente. honras. Nutriente (do latim nutriens) quer dizer “que nutre”. – Entre nutriente e nutritivo há esta diferença: nutritivo (de formação vernácula) significa “de nutrição: que tem a propriedade de ser nutriente”. arrazoamento. panegírico. – Arenga é uma espécie de arrazoamento oratório. dis- curso. Tudo o que se diz de viva voz a um auditório mais ou menos numeroso. as sublevações de seus exércitos com eloquentes e veementes arengas. – A palavra arrazoamento. no entanto. prédica. A arenga dirige-se. conferência. Dizemos: as qualidades. elogio. ao coração. – Aspira-se um bom lugar na administração. e têm entre si algumas diferenças. São arengas também os estudados e cerimo- . poder.. que nutre. criador. 255 ALMO. tomam diferentes nomes. que. o cavalo do Pedro. – Aspirar é “desejar com esforço e veemência”. segundo a contextura. Arengas são as que os antigos generais faziam a suas tropas em vésperas de combate. – Deseja-se recobrar a saúde. que andam quase sempre os dois aplicados indistintamente. apetece riquezas. – Pretende-se um cargo de importância ou chegar a almirante quando se é simples marinheiro. Não seria. em notáveis circunstâncias. de nutrir. com o fim de o convencer e persuadir. ou possuir alguma coisa que nos agrada. ou o que está acima dos nossos méritos”. como as que Salustio põe na boca de Catilina para animar e enfurecer a seus cúmplices. arenga. aspirar. o leite é muito nutriente (e não – nutritivo). prática. e com serenidade e confiança nos votos com que se espera pela coisa almejada”. por isso. a pessoas eminentes. querer do fundo da alma. cobiçar. 167 apetecer. ou propriedades nutritivas de um produto vegetal (e não – nutrientes). Os sábios e valorosos generais a acalmaram muitas vezes. – Apetecer é “desejar alguma coisa como por necessidade de ceder a exigências da própria natureza”. e mui comumente para animar os soldados a empreender com denodo a batalha ou qualquer ação perigosa. É certo. – Cobiçar é “desejar o que não nos pertence. – Pretender é “desejar coisas muito altas e de grande monta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 254 ALMEJAR. as quais devem atribuir-se antes ao artifício retórico dos historiadores e poetas que à eloquência dos seus heróis. ambicionar. – Ambicionar é “desejar demais. preleção. os fins e as circunstâncias. de todas as deste grupo. para excitá-lo à rebelião. – Apetece-se quanta fruta se vê nas mercearias. proclamação.

mover e interessar a uma pessoa. e chamamos ainda hoje. – Preleção é o mesmo que “discurso didático. – Do substantivo os. ou fala dirigida a alguém sem aparato oratório. que significa “falar. escrita. rogar”. João de Castro. perante o povo. e só se dá de superior para inferior. animados e engrandecidos por quantos meios subministra a arte da eloquência. um conquistador numa cidade.. como a paz ou a guerra. o louvor de alguma grande vida”. proclamar.. para persuadir. socorra. de causas particulares em que ele devia decidir. ou por um general. práticas impertinentes. Esta palavra é mais bem recebida entre o vulgo do que arenga. diz-se com muita frequência que o coronel fez uma fala a seus soldados. pensamentos. de Mirabeau. uma prática destinada a esclarecer algum ponto de doutrina ou alguma passagem das Escrituras”. Dizemos oração dominical. para importantes sucessos ou negócios públicos. Há. e sempre destinada a nutrir esperança ou coragem na alma daqueles a quem se dirige”. suplicar. Po- rém.. De modo que àquilo que os antigos chamavam oratio. do alto do púlpito”. ao entrar um príncipe. se bem que não exclua a noção de instruir. a defensa. como as de Isócrates. tiraram os latinos o verbo orare. vocal. o general à sua tropa. assim chamavam. como as orações que fazemos a Deus e aos Santos. uma diferença muito subtil entre estes dois vocábulos: “prática sugere intenção de instruir.”: e do segundo: “Acabada a prática. entendendo por ele uma composição literária feita por qualquer de nossos oradores acerca de algum importante assunto. dizer muito alto”. fúnebre. no entanto. raciocínios coordenados entre si.. etc. que em seu sentido reto é um arrazoamento ou alocução disposta com inteligência e arte. de Demóstenes. ou nos perdoe as faltas que havemos cometido. como devida homenagem que se lhes rende e jura. os governadores e demais autoridades. “oração”. ou a um ser superior. – Conferência tem aqui a significação particular que lhe damos . – Panegírico é a “oração em que se faz a apologia. pedir. que ele quase sempre toma no mau sentido de razões longas ou ininteligíveis. – Prática é exortação menos solene e menos veemente que arenga. de explanar”. de Cícero. dirigida a um povo ou a um exército por um príncipe. Diz-se ordinariamente do que o Papa dirige aos cardeais em consistório. – Alocução é discurso breve. – Sermão é “uma prática religiosa. Às vezes corresponde às arengas dos antigos generais. onde diz. etc. por ocasião de algum notável acontecimento que interessa a Igreja. tais são as que Jacinto Freire põe na boca de Coge Cofar e de d. em grandes momentos. ou melhor. favoreça. Usa-se mais comum e geralmente em sentido religioso. sobre questões de alta monta. ou prática em que se explica uma lição”. e feita com certa solenidade. a formação e aprovação de leis. um general. o superior a seus súbditos. aos que fazem os oradores modernos se lhes dá geralmente o nome de discursos.oris. de Fox. lhe dirigem as câmaras. – Homilia é “um sermão menos formal e solene. as da Igreja segundo o ritual. de Eschines. Chamaram os latinos orações aos discursos que compunham com o maior esmero. falando do primeiro: “Fez aos turcos uma breve prática. “boca”. para chegar aos fins que nisso propôs: o que verifica por uma dedução de ideias. agora lhe chamamos discursos no sentido oratório. – Prédica é o mesmo que prática religiosa.168 Rocha Pombo niosos discursos que. a estes arrazoamentos públicos orações. – Proclamação é “uma fala ou arenga mais solene. e daqui oratio. jaculatória.. enquanto que “prédica sugere mais a ideia de anunciar. tais são os de Pitt. mental. a que nos ampare.” – Fala é termo vulgar que vale o mesmo que prática no sentido em que aqui a tomamos. ou sacropolítica. e que nós traduzimos pela palavra oração..

a altaneria e a sobranceria podem facilmente confundir-se com orgulho. como o entende Roquete21.) 257 ALPENDRE. valente. que também nos dá átrio) é “o espaço que fica à frente do pórtico. – Pórtico é “portal de grande edifício. é a altaneria exagerada até a presunção. – Nas suas manifestações. mais legítimo como testemunho. Quem dissesse que é soberbo. pelos ares insolentes. ou mesmo ser indício de virtudes excelentes: a soberba é sempre fútil. – Sobranceria. O orgulho pode ainda justificarse. ou em geral.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 169 hoje comumente: designa a “composição literária ou científica. sobranceria. ou quem se mostrasse soberbo de alguma coisa – estaria julgado só por isso. pelo desprezo com que encara o resto dos homens. pórtico. vestíbulo. cuja abóbada é quase sempre sustentada de colunas e que serve de entrada”. átrio. não se tendo como inferior a . palácio. que se mostra pelos gestos. Ninguém se vexaria de dizer que tem orgulho de algum bem magnífico. e que compreende certo espaço coberto. – A empáfia é a soberba arrogante. um orgulho afetado e estulto. nunca. alpendrada. Denominamos alpendre o adro coberto que há diante da porta de algumas ermidas e conventos. arrogância e altaneria – do que propriamente orgulho. lida perante um auditório”. e sobretudo com soberba e empáfia. em casas nobres. de ter preeminência sobre outros. fatuidade.: “é um pórtico sustido em pilares diante da porta de algum edifício”.. impostura. elogio histórico (e decerto ninguém diria panegírico histórico ou fúnebre. Empáfia tem ainda alguma coisa de ostentação e fanfarrice.” – Vestíbulo é “o espaço que vai da rua até à porta que dá no interior. Orgulho difere de soberba em ser um sentimento que não é incompatível com a discrição. que mostra o sobranceiro. que vive entre os homens como entre iguais. pois que panegírico diz propriamente “discurso festivo e laudatório”. da nossa família. telheiro. de estar acima de outros. rico. e consiste em parecer que se é altivo. mas distingue-se deste em ser mais justo. dá-se o nome de anteportaria. um ridículo entono. nos grandes edifícios”. inda que impropriamente.: “alpendre e alpendrada (ou alpendrado) têm por fundo o próprio edifício. etc. O orgulho pode ser nobre. adro. fazer-se legítimo: a soberba. Sendo o orgulho o alto conceito que temos de nós próprios. a magnanimidade. é possível que se torne para o orgulhoso em forte estímulo na sociedade e na vida. altivez. portanto. O sujeito altivo é aquele que está no mundo como quem está no que é seu. diz Roq. elogio fúnebre. – Adro (do latim atrium. em regra sem grande extensão. pode dizerse. – Elogio é quase panegírico. Ao alpendre. Hoje alpendre diz-se quase exclusivamente daquela parte de um pátio que está coberta por telhado. e raramente deixará de revelar pequenez de espírito. Dizemos. forte. de alguma honra excepcional. ou não”: diz-se mais particularmente do que se vê à entrada dos templos de alta construção. e pode ser aberto. – Altivez é antônimo de humildade. ou de não ter vícios torpes. 258 ALTANERIA. – Segundo Bruns. empáfia. como templo. alpendrada o alpendre sobre que abrem as janelas de alguns chalets. orgulho. A soberba não é só a manifestação do orgulho: é mais um falso orgulho. e à alpendrada. – Altaneria é uma afetação de altivez. – Aplica-se o vocábulo átrio ao “pátio que nos grandes edifícios leva da entrada até à escadaria. chama-se galeria”. a nobreza de alma e outras grandes qualidades morais.. 21 Alpendre. soberba. do nosso valor. o telheiro está contra o edifício ou isolado.

sofreu alterações maiores do que se tivesse sido apenas reformada. na maioria dos casos. de superioridade. – Altura. – Reformar é quase mudar. – Impostura. A altivez é. contada da sua parte inferior até à parte superior: só se aplica a coisas físicas. Nesta frase: “Os reis. corrigir. chamamos a essa operação variar. – Se se muda de forma. altura.. ostentoso. do honesto. de orgulho – que se confunde com bazófia. Posso ir ao Porto por mar ou por terra: é uma alternativa. no segundo caso. – Transformar também se confunde com reformar aqui. ou de uma montanha. – Remodelar é “refazer alguma coisa sobre novos moldes ou modelos”. dilema. – Alteza só se emprega tratando-se de elevação moral ou social.. é “construir outra vez ou de novo”. sofrem mais que nós outros. emendar. altura de uma torre. consideramos a elevação da torre ou da montanha sobre o nível do mar. De resto. modificar. mas distingue-se de todos. à forma. variar. porém. que significa alguma coisa como substituir. – Se a alteração é total ou completa. renovar. à cor de um corpo ou de um todo e também às suas condições ou ao seu modo de ser ou de funcionar – uma nova disposição. mudar. 259 ALTERNATIVA. à estrutura. – Fatuidade é a soberba do imbecil. re- ternativa é a opção entre duas coisas ou ações. – Reconstituir é “dar a alguma . A coisa que se transformou. conforme indica o prefixo re. – Reorganizar seria propriamente “dar organização nova àquilo que havia deixado de existir”. – Se se vai alterando pouco a pouco. os que não temos de onde cair” – a palavra alturas está aplicada também a elevação moral. renovar. 262 ALTERAR. (Bruns. Impostor é o sujeito cheio de si. do sagrado. Não é altivo o indivíduo que afronta um velho. de uma torre. – Alterar enuncia a ação geral que os outros verbos deste grupo particularizam: é dar – às partes.. calculamos a dimensão da montanha ou da torre desde a base até o cimo. retificar. manifestação de legítimo orgulho. ao peso. Ou casar.170 Rocha Pombo ninguém. no entanto. é a elevação de um corpo. usamos do verbo mudar. ou se se fazem alterações num certo sentido – dizemos que isso é modificar. não é uma distin- formar. a coisa que se renova toma um novo aspeto. ambas possíveis. e sem que se contradigam. altura. transformar.. – Pode-se dizer – alti- tude de uma montanha. quando tombam das suas alturas. Alteza. diferença-se deste modo: a coisa que se reforma conserva ainda os seus fundamentos: mudará apenas o que nela não pode ou não convém ficar. mais do que soberba talvez. No primeiro caso. reconstituir. remodelar. – Disjuntiva é a opção entre duas coisas opostas. ou que se mostra arrogante com uma criança. – Reconstruir. disjuntiva. refazer. das quais uma há de ficar precisamente prejudicada. é uma afetação de grandeza. com muita empáfia. e principalmente do último. substituir. – Dilema é a alternativa ou disjuntiva em que não há opção satisfatória”. a fazer alarde de si mesmo. – “Al- ção absoluta. se é que alguma soberba exista que não seja tal. 261 ALTEZA. Deixa de ser altivez todo movimento de alma que não se funda numa perfeita consciência do direito. mas é usado este verbo para designar o ato de “dar organização diferente mesmo àquilo que já existia ou que ainda existe”. em caso algum teria sentido físico. ou fazer-se freira: é uma disjuntiva.) 260 ALTITUDE. reconstruir. como já se viu no § precedente. reorganizar.

José Joaquim de Mora. corrige-se o que não está bem direito. louco. na frase: “Preciso de refazer (ou de reconstituir) as minhas forças”. atordoado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 171 coisa uma nova estrutura. aturdido. a que se confunde”. – Retificar. fascinar. alucinado. sem confundir-se. cego. delirante. Mas. e que fica em estado como de estupidez ou imbecilidade”. Um sujeito que trabalhou o dia inteiro deve refazer-se das fadigas para a nova tarefa. alucinam. ou bem expurgado de erros. as impressões veementes. uma disposição íntima. os raciocínios excessivamente subtis. e noutros poderia confundir-se muito com este. por exemplo. Quem pode ler. e que foi editada pela Real Academia da língua. ofuscar. Aqui. as obras dos filósofos alemães? A imaginação é a faculdade que se alucina. por simpatia. – Deslumbrar é “turvar a vista por meio de luz muito forte”. ou curvo. ou por antipatia com as pessoas interessadas – ofusca-se. Aquele que funda as suas esperanças de acenso no sorriso ou no aperto de mãos do ministro – alucina-se. pois. mas devendo notar-se que este é mais extenso e de significação menos precisa. e no sentido figurado é “alucinar. “sentir”. falsas aparências. doido. magnífica”. e também o que não está ainda bem puro. Nesta palavra demente figura a raiz grega man ou men. de que é autor d. dar quebranto”. as questões espinhosas. que sugere a ideia de “pensar”. 263 ALUCINAR. confundir o entendimento ou a razão. a razão. emenda-se o que está errado. confundem. fazer que desvaire por falta de uma visão perfeita das coisas”. etc. do latim fascinare. – Louco é propriamente “o que perdeu a razão”. estonteado.” (Roq. – Refazer é um pouco menos que reconstituir em certos casos. perdido. as ilusões do amor-próprio. desvairado. deslumbrar. alucinado” (égaré). – Demente é “o que está privado das faculdades de raciocinar. o entendimento. o artigo correspondente a estes vocábulos: “As esperanças quiméricas. corrigir e emendar confundem-se: todos enunciam a ação de pôr uma coisa nas condições em que se quer que fique. As razões sofísticas. as promessas enganadoras. Mas aqui mesmo pode notar-se alguma diferença entre estes dois verbos. e no sentido figurado equivale a “perdido. como. Mente é. essencial que pode ser ou não diferente da antiga. ou a um ou outro deles é capaz de corresponder) éperdu e égaré: tanto diz – “agitado. – Cego só tem aqui sentido figurado e diz – “que perdeu ou tem perdida a visão da alma ou do entendimento. – Alucinado é o que subitamente desvaira e se arrebata como louco por efeito de alucinação. – Cegar é “perturbar a vista de qualquer modo. desvairado como se tivesse subitamente enlouquecido”. fica muito próximo de perdido.: “Traduzimos da Coleção de sinônimos da língua espanhola. insano.) 264 ALUCINADO. como o cego tem perdido a vista”. encantar. ofuscá-la por alguma coisa brilhante. a que se ofusca. – Sobre os três primeiros verbos deste grupo. cegar. profunda. tudo o que é indefinido. confundir. A ação de refazer não é tão essencial. espantado como doido. Um doente de anemia vai reconstituir-se na ilha da Madeira. significa propriamente “enfeitiçar. “o . perturbado por uma emoção violenta” (éperdu) como – “fora de si. de- mente. – Fascinar. ofusca. retifica-se o que está torto. renovando-lhe apenas os elementos”. lê-se em Bruns. e no sentido figurado quer dizer – “enganar por meio de prestígios. de entender. Pode dizer-se que perdido encerra o valor dos dois vocábulos franceses (ou a eles. completa como a de reconstituir. As narrações complicadas. insensato. Aquele que sustenta uma causa injusta.

e caracterizada pelos desvarios. nem declinou os nomes dos quadrilheiros”. indicar. – Delirante é “o que está como perturbado momentaneamente das faculdades intelectuais. sem tino”. mas ainda de função gramatical. pois que o verbo aludir. uma ideia da coisa. sentindo-se apenas em estado que não é de perfeita lucidez”. mas nem sequer um fato teve a coragem de referir. da inteligência”. Em vez de “circunstância aludida”. Dizer – “a coisa aludida” seria o mesmo que dizer – “a coisa. a que consiste em ser talvez a doidice uma forma de loucura mais completa e permanente. que é “referir por palavras adequadas e precisas que esclareçam o articulado”. por figura. expor. – Entre aludir e referir há uma diferença notável.172 Rocha Pombo espírito.”) Não se assiste a cerimônia. expressas pela voz. referir. “O enfermo foi assistido” – está direito (porque se quis dizer que o enfermo foi socorrido). e por isso não pensa normalmente”. ou a que indivíduos se endereça o ataque: e neste caso se diz que ele aludiu a esses tipos. Sente-se que referir seria indicar expressa e claramente fatos. 265 ALUDIR. “privado do espírito. – Expor é “fazer uma relação minuciosa do que se quer tornar conhecido de outrem. pois. e não podemos dizer – “a coisa aludida”. é. alude-se a uma coisa. pelo próprio nome. diremos corretamente: “circunstância a que se alude”. declinar. os gestos ridículos e estabanamentos do doido. sem tento no que faz”. aflito. portanto –. e confunde-se ainda com articular. de surpresa ou de susto”. há entre referir e aludir uma diferença que é frequentemente esquecida. ou com intuito de queixa. Refere-se uma coisa. assistir é verbo intransitivo e significa “estar presente a. mencionar. não pode dar particípio passivo.. mas à cerimônia. Quando alguém nos diz intencionalmente que – “certos tipos execrandos escandalizam a moral pública” – subentende-se que nós sabemos a que tipos se dirige a apóstrofe. 22 Note-se que assistir tem diferentes acepções. não só de significação. muito próximo de referir. Declinar é. ou por dever de ofício. mais por inadvertência talvez do que por ignorância. Sob o ponto de vista gramatical. – Estonteado = “perturbado como quem acorda repentinamente. mas – “a cerimônia foi assistida” é construção viciosa (porque. marcá-la ou mostrá-la”. ou o ato procedido”. neste caso. enun- ciar. segundo os lexicógrafos. – Desvairado é “o que ficou em súbita exaltação que o põe agitado. Dizemos. – Aturdido = “subitamente perturbado. – Mencionar é indicar claramente.. e assim privado de senso normal. ou ainda por desejo de instruir alguém sobre a coisa que se expõe”. consignar positivamente”. Atordoado = “menos que aturdido. Aludir é “referir indiretamente. – Indicar é “apontar precisamente alguma coisa. dizer onde se encontra. – Insensato é “o que não tem senso comum. sem a declarar pelo nome. não sendo transitivo. ou o conjunto das faculdades superiores do homem”: demente exprime. às suas tropelias e infâmias. – Enunciar é apenas “declarar por palavras. – Insano diz propriamente – “o que está enfermo da razão”: a insânia sugere também a ideia de loucura instantânea. incapaz de fazer juízo”. – Doido é quase o mesmo que louco: se se pode notar alguma diferença entre os dois vocábulos. Referir quer dizer – “indicar de modo claro e preciso a coisa sobre que se quer chamar a atenção de alguém”. isto é –. sugerindo apenas. a faculdade. e que declinar seria dar os próprios nomes dos criminosos. . Neste exemplo vê-se melhor a distinção: “O homem aludiu aos bandidos. formular por termos próprios”. portanto – “a coisa referida”. ou – “o caso assistido”22.

quando a indica direta e claramente. termo que já foi genérico. como: os educandos do instituto.. por curto tempo. que o instrui e guia. quer como interno.. ou por meses. Nas praias de banhos alugam-se casas aos banhistas. – Aluno é o car. sublo- anos. que se prende à coisa a que se refere”. relativo. ou do internato tal (os meninos que estão sendo educados nesse internato). qualquer pessoa que recebeu lições de F.. e substituindo-o por alugar. Procuramos naquele livro das Escrituras tudo que é concernente ao adultério. isto é: aluga-se para um fim determinado. – Sublocar = “alugar a outrem uma coisa que se tem tomado a alguém por aluguel”. Aluno. meninos cuja educação me está confiada).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 266 ALUSIVO. a um ato. é uma designação que se refere ao estabelecimento onde o menino aprende. – Educando é sinônimo bem próximo dos dois precedentes: e em muitos casos poderia substituir a um ou outro. e dizemos que é alusiva quando apenas sugere ideia dessa coisa. sem a nomear. e por alguns menino que frequenta alguma escola. 268 ALUNO. no entanto.. “Os alunos da minha turma foram aprovados” (decerto que não ficaria bem aqui dizer – educandos).. portanto. Tanto podem locar os proprietários como os que estão no usufruto da coisa locada. Aluga-se um trem: alugam-se móveis (não – arrendam-se). locar. ou a cada um em particular ou em separado”. de modo ainda mais preciso. discípulo. não tem nenhum discípulo”. e parece que todo o trabalho do ministro consistiu em dar toda amplitude à parte relativa a desfalques. . e também se arrendam mediante contrato.. Os termos referentes àquele fato são ásperos. Em outros muitos casos. Dizemos também que é discípulo de F. – como aluguel e renda. palavras alusivas à má conduta de alguém. por dias. – Concernente exprime. quer como externo. que diz respeito a. – Respetivo diz – “que compete. não seria possível a substituição. nas cidades arrendam-se ou alugam-se casas por semestre. “Entre os alunos do colégio tal. concernen- 173 te. dar de aluguel mediante contrato”.. e por preço que constitui renda ou rendimento para o proprietário. arrendar. educando. nestes: “Respeito muito os discípulos de Loyola ou de Comte” (não educandos por certo). quer de arte ou de moral. – Alugar e arrendar diferençam-se entre si – diz Bruns. arrenda-se por tempo mais longo e às vezes sem prazo certo. – Discípulo é o menino que é entregue aos cuidados e esforços de um mestre ou professor. ou da aula de música. aos defeitos da criança. alquilar. etc. F. respetivo. ordinariamente de uma vez. Uma companhia de cômicos aluga o teatro da povoação por onde passa. “Os meus discípulos são os melhores alunos do ginásio tal”. – A mesma diferença. que pertence. e discípulo só se diz com relação ao mestre. – Relativo exprime – “que tem relação com. Tanto posso dizer: os meus educandos (os meus discípulos. 267 ALUGAR. e pelo preço que se combina pagar. há entre os dois primeiros adjetivos deste grupo: dizemos que uma coisa é referente a outra quando a ela se refere. quer de ciência. isto é. – Exemplos: Discurso alusivo a uma questão. a ideia contida em referente e relativo: diz – “que é próprio. Apresentaram-se os diversos clubes tendo envolto em crepe os respetivos estandartes. referente. – Alquilar. que se atribui à coisa a que se refere”. como. só se diz atualmente falando de cavalgaduras e carruagens. – Locar = “alugar.. que respeita ao próprio a que se refere. um empresário arrenda o teatro que quer explorar. o uso vai mesmo postergando este vocábulo. que se nota entre os verbos aludir e referir. por exemplo.

decisivo do que intenção. que é apenas o estado de espírito em que estamos. Intento é propósito mais firme e seguro. e que continua alguns minutos depois do pôr do sol. que significa “ponto ou fim que se colima”. âmago da vida..) – Alvor (ou albor. a que levamos o nosso intento. a alegria dos campos. a vida e alento do mundo”. coração. a parte que fica no centro dos vegetais. – Interior designa sim- . alvor (ou albor). (Roq. mas dos recessos desta alma não sairão jamais os meus gemidos. seio. é – como disse Vieira – o riso do céu. – Alvo é “o ponto que se quer atingir ou onde se quer terior. purpurina. contingente”) (Sar. mais brilhante que a alva. escopo. incerto. de recato. espalha-se nas regiões etéreas. A aurora. pretender. dilú- culo. – Profundeza e recesso. – Fito é “o alvo sobre o qual temos toda a nossa atenção e esforço”. – Escopo é muito próximo de alvo e de fim. afugenta as trevas da noite. – Propósito é “resolução tomada. cerne. firme determinação”. a respiração das flores. 270 ALVO. resoluto. quer morais quer físicos. Começa o horizonte a fazer-se alvo com a aproximação do sol: eleva-se pouco a pouco esta alvura. miolo. a determinação em que estamos de fazer alguma coisa”. Ter em mira quer dizer “desejar. – Imo é também o mais profundo das coisas. fito. Matiza-se insensivelmente no horizonte a alvura com a cor cerúlea. e no sentido figurado. ou a disposição de alma em que nos deixa aquilo que temos desejo ou vontade de fazer. in- tento. crepúsculo. aurora. – Dilúculo é termo poético designando o romper do dia. ter os olhos sobre. e parece dar mais ideia de festa do que exprimir propriamente fase do alvorecer. – Intenção e intento significam “o desígnio que nos leva a agir. até que o astro do dia mostre seu afogueado limbo: eis a aurora. mas só se emprega no sentido moral. o mais profundo nos seres. e em ondas de progressiva luz derrama-se no firmamento. a que se destina o nosso trabalho”. examinar: é portanto escopo “aquilo que se visa. e que no momento prende a nossa atenção”. e mais benigna que o sol. No grego skopós. e com ela se patenteia de novo a formosura do universo. medula. a harmonia das aves. figura a raiz skeh.174 Rocha Pombo 269 ALVA. distinguem-se assim: recesso. aqui. o crepúsculo da manhã. o propósito que temos formado. fim. in- acertar”.. de creperus “duvidoso. Pode ser físico ou moral. – Mira é mais propriamente “o ato de fitar o alvo”. além de profundeza. alvorada. – Âmago é propriamente a medula. imo. – Crepúsculo (de crepusculum. e alvorada – dir-se-ia – é uma extensão de alvor. que sugere ideia de observar. que se tem por fim atingir”. e também de mira. madrugada. pode dividir-se pelo pensamento em dois tempos que formam o que vulgarmente chamamos madrugada. meio.” – Objeto é “tudo que está fora de nós. de intenção de ocultar. – Fim é “o ponto a que se quer chegar. – “A luz que aparece no horizonte. que não cansa nossos olhos. antes lhes dá motivo para se recrearem vendo alvorecer o dia. centro. Esta luz suave. Aquela dor chegou às profundezas do meu coração. recesso. íntimo. profundeza. objeto. que é estranho ao eu. 271 ÂMAGO.) é a meia-luz indecisa que precede ao nascer. Dizemos: âmago da alma. sugere ideia de mistério. rósea. ainda não tinta de vivas cores. e vai crescendo e matizando-se de luminosas cores até que o sol o doire com seus brilhantes raios. intenção. é a alva. é o íntimo das coisas. mira. propósito. como é muito usado também) é o primeiro sinal da alva. entremeia-se o oiro vivo dos apolíneos raios.

acalmar aplica-se ao que está em alto grau de intensidade. Em grande número de outros casos não seria possível usar um pelo outro. Enfraquece o exército pelas deserções. descer. ou tratandose de certas frutas. Centro é termo de geometria para designar. as cordas de um instrumento. a discórdia. abrandar ao que é duro. – Na linguagem vulgar. pelo estrondo. da floresta. Abatem as desgraças aquele orgulho. senão ponto afastado da circunferência dela. beira etc. sossegar ao que está inquieto. quer abstratas quer concretas. o que fica por dentro da casca”.”. ao que parece irritado. o ponto que fica a igual distância de todos os pontos da circunferência. Feriram a França no coração. ou. num círculo. centro da arena – desde que sejam circulares. serenar. Dizemos: centro da mesa. Estou afinal no meio dos meus amigos (como poderia estar no meio de bandidos). 272 AMAINAR. crescido. a substância mole que se encontra no centro das árvores. esta palavra miolo como designando toda a parte do pão contida dentro da côdea. Afrouxam-se os grilhões. ou. – Coração só figuradamente é que entra neste grupo. Meio. nem sempre. – Em muitos casos poderia também confundir-se meio com seio. recôndito. a parte central. para exprimir o núcleo. Interior do coração. ainda que fosse redonda. Amaina o temporal. abater ao que está elevado. sossegar. carinho. extremidade. Naquela terra está o coração da pátria. porque os há que não chegam a ter cerne”. Até que enfim restituiu-me a sorte ao seio de minha família. a vida. etc. tranquilizar. enfraquecer. teso. abrandar. castigos. ou pelo menos esta não é forma tão precisa como aquela. mas convém nunca esquecer que há entre eles uma diferença tal que se não poderiam substituir em grande número de casos com propriedade. abateu com as chuvas o rochedo. Sossega o . – Afrouxar aplica-se ao que está apertado. tão rigorosa distinção. interior do país. cóleras. a parte onde está a força. no entanto. Dizemos: meio do caminho. diminuir.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 175 plesmente a parte interna. conforto. Mas este último sugere ideia de conchego. suavizar. altivo. no entanto. Também dizemos – o coração da noite – para exprimir a plenitude dela. – Miolo (corrução de medula) é “frequentemente empregada pela própria latina: pode definir-se. da cidade. no entanto. dos ossos” etc. pelos estragos que causa. enfraquecer ao que é ou está forte. Uma pessoa mete-se no meio da turba (e não no centro). pelo furor. – Centro e meio. meio da floresta. a cólera divina. O diâmetro passa pelo centro da circunferência (não – pelo meio). não se reconhece. O centro da terra – é uma coisa: o meio da terra – é outra. central de alguma coisa. mas neste caso não lhe indicaríamos precisamente o centro. aba- ter. por analogia. – o coração da África indicando o meio dela. o sentimento característico das coisas. Poderíamos dizer mesmo: meio da mesa. Abrandam-se dores. em delírio. o ponto que é equidistante de todas as partes da periferia. os laços que prendem alguma coisa. afrouxar. e além disso meio é mais extenso e genérico. enfraquece a mocidade vencida pelo vício. fazer baixar. – Cerne é “a parte mais dura de muitos vegetais. áspero. acalmar. – Me- dula é “o âmago. – Diminuir é o mais genérico do grupo: diz “reduzir a força. em certos casos poderiam ser usados indistintamente. do edifício. selvagerias. – Amainar emprega-se quando a coisa se caracteriza pela agitação. afastado dos olhos como um mistério”. numa esfera. aplica-se a tudo que não é lado. atenuar. Em nenhuma dessas frases seria próprio substituir nenhum dos dois vocábulos. – Estes verbos têm de comum a ideia de “diminuir de intensidade”. furente. – Íntimo quer dizer “profundo.

: – “Concubina é vocábulo que hoje apenas se emprega na linguagem da Igreja. diminui a tristeza. uma esposa ilegítima que vive na dependência e na sujeição: tendo estas ideias vindo até nós pela consideração dos usos e costumes dos países e das épocas em que o concubinato era legalmente tolerado. a extensão. Há. menos impaciente. assim dizemos – barregã de frade. e o único que pode. ou de cônego: – Amásia é termo vulgar. ou ao falar de mulheres ou da antiguidade ou da Idade Média. 273 AMANSAR. onde a mulher é geralmente considerada como igual ao homem. manceba. barregã. é “fazer sereno”. e menos ainda que os domesticamos. as aflições. Napoleão III teve muitas amantes. este tem amantes. o volume. diminuem as forças. amásia. – Barregã (do castelhano barragana) é termo insultuoso e depreciativo. onde a mulher é considerada como inferior ao homem. o revoltado. tanto no sentido moral como no físico. que melhor que outro qualquer designa a mulher que só pelo interesse é concubina de algum homem asqueroso. Podem-se domar animais bravios. no entanto. da qual a concubina era frequentemente uma como escrava. isto é. Uma outra diferença importante entre os dois termos. 274 AMANTE.. isto é. diminui o furor. – Amante é o termo que se considera mais decente na nossa época. ou do viúvo. – Segun- do Lacerda – “podem-se domesticar os animais bravios. como diz o próprio radical. é qualificativo humilhante da concubina de homem casado. – Serenar. – Suavizar = “tornar mais suave”. o comprimento. etc. Salomão tinha concubinas. ou que pelo seu caráter não devera ter amorios. Diminuem as águas da enxurrada. menos ríspido. isto é. . podem-se reduzir a viver na mesma habitação com o homem. amiga. Por isso. segundo define Aul. de sentimentos e de convívio. mas sem ficarem contudo tão obedientes que se possa dizer que os “amansamos”. – Sobre os primeiros cinco vocábulos deste grupo escreve Bruns. concubina. é vocábulo que. melhor que – amante de frade. nos países do Oriente. Concubina (do latim cum “com” e cubare “estar deitado”) encerra a ideia de coabitação. pelo contrário. sendo. se não enaltece a mulher. domesticar. podem-se tornar submissos e obedientes. ou cônego. e como que a ser seus servos ou seus companheiros. o peso. Podem-se amansar os animais ferozes. a dor.” – Atenuar = “fazer menos forte”. estes têm concubinas. menos forte.176 Rocha Pombo enfermo. Amante. uma distinção social muito importante que con- vém considerar entre eles. menos violento. o rigor. agitado e aflito. a força. podendo a amante viver ou não na casa do homem solteiro. diminuindo a agitação. por assim dizer. a intensidade. o desordeiro. domar. a torna pelo menos igual ao homem. – Manceba está hoje sendo inteiramente desusado como sinônimo perfeito de amásia. mas não sendo frequente encontrá-la na casa do homem casado. diminui-se o prazo. assim como amiga – termo mais escolhido – qualifica a mulher que vive das liberalidades do seu amante”. e admitido até pela esposa legítima. – Comborça. A concubina é. ao passo que no Ocidente. comborça. o pranto. além da suplantação de um dos termos pelo outro. Muito frequente é também que a amante de um homem seja casada ou viva com outro homem. – Tranquilizar = “fazer mais tranquilo. Acalma-se a turba que bramava. é que a palavra amante não encerra a ideia de coabitação. que. sem ofender demais (a não ser a ouvidos muito delicados) ser admitido em qualquer linguagem. como é comum para os designar a ambos com relação de reciprocidade.

cupi- dez.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 275 AMARROTAR. ratinar. arrugar. segundo Aul. erriçar). Ambição significa principalmente o desejo de alcançar poder. – Avareza é vício de alma que torna sórdido o avarento. encaracolar em forma de riço”. e por analogia. – O mesmo quase diz riçar. “Os cabelos se lhe erriçam de horror” (não – riçam).. frisar. áspero. – Amassar é. cobiça refere-se apenas à riqueza. – Ratinar é. – O mesmo radical deu-nos crispar. – Embrulhar é “apertar. – Encarquilhar é “encolher formando rugas.) – Encarapinhar é “fazer muito crespo. Há ambiciosos que. cerrado como carapinha. entre o qual e encrespar pode notar-se a distinção que consiste em ser o verbo crispar aplicável a fenômenos morais melhor do que o outro. esmagar alguma coisa debaixo de outra. Velhice encarquilhada (cheia de rugas e mofina. dignidades. aqui. enrolar em espiral” (Aul. ouriçar”. – Arrepiar (de arre “para trás” e pio = pilus + ar) significa “ouriçar (os cabelos). “de um dia para outro uma grande dor lhe arruga as faces”. amassar. pô-los em sentido contrário ao em que estava ou que é o normal”. gastam a mãos largas para obterem o que ambicionam”. que é o radical de amarrotar (e que deu também o verbo português marlotar). a seda. enovelado demais. ganância. e franzir poderiam facilmente confundir-se. só ambição – diz Bruns. amarfanha-se uma roupa tirando-lhe o aspeto de lisura que lhe é próprio. “agitado de cólera. – Encrespar é “fazer crespo”. quando se a embrulha e amassa entre os dedos. avidez. gana. que é “fazer em riço. Diremos: a alma lhe crispou de dor. levantar o pelo” (frisa). começando por ser um termo genérico para indicar todo desejo imoderado. achatando-a. significa “fazer felpudo. encrespar. na ânsia e sofreguidão de acumular. – Encaracolar é “dar a forma de caracol. honras. sentiu o coração a crispar-lhe de angústia (e não – “encrespar”). – Amarrotar é. reduzindo-a a massa informe. – Frisar.. enrugar. na paixão pelo dinheiro. amarfanhar. pois. ao dinheiro. “deformar. esta distinção não é essencial. “não liso e correntio. é palavra árabe (mallôta) que designa “capote curto com capuz. encarapinhar. “Enruga a pele o tempo”. amassar. ma- 177 chucar (ou amachucar). cobiça. vincos. – Machucar (ou amachucar) é amolgar. neste grupo. longe de serem cobiçosos. cobiça designa um sentimento vil. embrulhar. encarquilhar. – Cupidez é bem fácil de confundir . marlotar. crispar. toda ansiedade com que se quer alguma coisa ou se executa alguma função. arrepiar. encrespar. Amarfanha-se o papel. arrepiar. emaranhado. justo ao corpo muito deselegante e só usado pelos pobres”. contrafazer. franzir.. “dar a aparência ou o feitio de ratina (aos panos)”. enrolar e comprimir como se faz com embrulhos”. sendo a de franzir momentânea. quebrantada). rugoso. 276 AMBIÇÃO. arrugar. – Amarfanhar é “encrespar. fazer hirto como a marrafa” (cabelos do topete lançados para a testa). tornar felpudo”. – Enrugar. – Avidez (conquanto da mesma origem latina avere) não se confunde com avareza. – Dos dois primeiros vocábulos. isto é.. levantá-los e deitá-los para trás. Entre riçar e eriçar (ou erriçar) nota-se esta diferença: eriçar quer dizer “riçar momentaneamente. quebrar as linhas. avareza. Aliás. e quando muito deve notar-se entre eles esta diferença: enrugar enuncia ação lenta e mais completa que a de arrugar. e que consiste no amor desordenado aos bens materiais. pregas” (carquilhas). pode ser tomado a boa parte. riçar (eriçar. tirar a forma própria de alguma coisa. ondulado. – Marlota. “frisar. franziu a testa afrontando-nos”. encaracolar. reduzir ao aspeto rude da marlota”. ou de encontro a outra. eriçar. anelado”.

“Este equívoco do padre Vieira precisa explicação. e vox. sem escrúpulos e sem medida”. e daquela frase pode-se entender que Heitor provoca a Aquiles. sendo às vezes impossível consegui-lo. a ambiguidade dúvida.. O mau gosto dos nossos seiscentistas introduziu o uso dos equívocos como um ornato oratório. aequivocos (de aequus. esse lhe descobriu a cara. duvidoso. discurso”. tão bom orador como era. – Equívoco é palavra latina. Refere-se antes ao giro da frase ou colocação das palavras que aos termos equívocos dela. confusão. “voz”). Chamam-se equívocas as palavras que se podem entender em dois ou mais sentidos. É. – Ambiguidade. equívoco”. mas de ordinário aplicase cupidez mais particularmente para designar desejo imoderado em questões de amor. Sabem todos que a partícula des é um prefixo que corresponde ao latino dis. que se acha só nos termos. em roda. e apesar de o ter como um defeito. ao contrário da ambiguidade. e bollo. – Gana é termo do espanhol que significa “apetite desregrado. e significa em geral multiplicidade de significações. impreciso. até raiva incontinente”. e ao qual se ajuntou depois logos “palavra. desfazer. “igual”. ou maior . que significa “ao pé. pois. ou porque elas mesmas têm várias significações distintas. posto que tenham um significado mui diverso. 470). vontade irreprimível. anfibologia. vário. Vieira. incerteza. segundo Roq. ação feita em contrário ou em sentido oposto a outra. con- fuso. dizendo: “Quem tirou o véu ao amor. Não me estranheis o equívoco. Mas o que nem todos sabem é que esta mesma partícula em alguns poucos vocábulos tem um valor mui diferente. ou “que fere de dois lados”. e figuradamente “ambíguo. que em manhã tão alegre e tão festiva até os Evangelistas o usaram”. ambiguidade. pagou largo tributo a este depravado uso. privativo ou disjuntivo. incerteza na linguagem e nas ideias.178 Rocha Pombo com o precedente. “lançar”. Aí nenhuma das palavras é ambígua nem equívoca. “rodear. os poetas invertem muitas vezes esta ordem. a significação de “desespero pelo ganho. dúbio. etc. ou porque se confundem com outras da língua que se pronunciam e escrevem do mesmo modo. pela força do uso. equívoco. – Anfibologia vem do grego amphibólia. duvidar”) e consiste em apresentar a frase um sentido geral. porque o mostrou desvelado. Ou vem então de amphibolos. mas é anfibológico o sentido. jogando de vocábulos para divertir o auditório ou os leitores. mas regularmente tem dois sentidos – um natural e imediato. anfibológico. equívoco. confusão. composto da preposição amphi. e às vezes tão disfarçado que só o entendem os que penetram a alusão. 277 AMBÍGUO. incerto. que é o que parece querer-se dar a entender. ainda que regularmente se ponha o sujeito antes do verbo. voracidade. g. artificial. que também é formado de amphi e bollo. e outro. “desmanchar o que está feito”. Comete-se esta falta quando se constrói uma frase de modo que possa admitir duas diferentes interpretações. pois indica “prolongação de ato. desprezar “não prezar” etc. – Ganância tem. de modo que custa descobrir ou adivinhar o pensamento do autor. ou fingido. ou este àquele. E assim se diz – uma palavra ambígua e – uma frase anfibológica. não se emendava de cair nele. e significa “ferido”. Deste gênero é a seguinte: “Heitor Aquiles chama a desafio”. andar à roda. fome.. desviado ou apartado. que admite diferentes interpretações. e se antepõe a muitos vocábulos para exprimir “separação. ou para mostrar agudeza de engenho. “é palavra latina (ambiguitas. v. intensidade na ação. de dois lados”. como ele mesmo confessa num sermão da Ressurreição (VI. que só compreende a pessoa que fala. dúvida. de ambigo. porque.

– Dúbio é o que é incerto. Dizemos: a dúbia. o vário modo de entender as coisas da fé. que pode variar ou que varia constantemente. e não significa “deixar de velar” – o que seria “dormir”. – Vário diz inconstante. fixa. ou aquela que se não pode interpretar com segurança. pelo contexto da sentença. g. Linguagem duvidosa é “a que se usa de propósito para enganar. – Recinto é mais próximo de âmbito. que é composto de des e velar. desvelado. porque véu é contração de velo (de velum latino) – o que forma equívoco com a significação geralmente aceita de desvelado. melhor do que dúbio. e também o mesmo concerto. a duvidosa. ou a coisa de que se trata. ou dando da mesma uma ideia. A ambiguidade é parto de limitado talento. . ou limitada. – Confusa será a construção que “possa dar ensejo a enganos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 179 perfeição”. A anfibologia provém da ignorância das regras gramaticais ou da intenção dobre de quem fala. O equívoco é “indigno de um homem franco e honrado. emprega a palavra desvelado. Linguagem dúbia. significaria “privar de véu. e no figurado “não cuidar” – mas sim “velar muito. fazendo a partícula des privativa. A vária sorte. – Incerto é propriamente aquilo que não é determinado. que muda facilmente. solícito”. A isto chamam com razão os franceses jouer sur les mots.. – Âmbito sugere ideia de superfície. pois este nunca deve jogar de vocábulos senão em obras jocosas”.. a forma que não for exata. perfeitamente determinada”. andar muito. porque delata engano. referindo-se ao verbo velar (velare) que significa “cobrir com véu”. ou é a forma a que se pode atribuir mais de um sentido”. que não significam “deixar de cantar” – o que seria “ficar calado” – mas sim “cantar muito e em harmonia ou concerto de instrumentos”. – Imprecisa será a linguagem que não for “clara. a ocultar o verdadeiro sentido”. com o mesmo Vieira. e escorreita de relações maldistintas”. ou dos que se querem esconder na obscuridade. A esta espécie pertence o verbo desvelar. e dubiedade é o estado de hesitação e perplexidade em que ficamos quando não temos um fundamento seguro para o modo como se há de agir. v. desvelar. e descante. mas de repente. – Área é a extensão de uma certa superfície. ou atitude dúbia é apenas “a que dá lugar a mais de uma interpretação. é a linguagem anfibológica destinada a induzir em erro. área. caprichoso. significaria “sem véu”. ter muito cuidado. descobrir”. maldefinido. pois a dúvida é o estado de vacilação em que a frase nos deixa o espírito à vista dos termos em que está concebida. – Linguagem duvidosa é aquela que não exprime pensamento certo. sendo confusão quando a obscuridade é tal que nada nos deixe entender precisamente. É mais próximo de dúbio que de duvidoso. ou para a resolução que se tem de tomar. vago. que se designa precisamente. a ideia de esperteza calculada. descantar. 278 ÂMBITO. recinto. que é indeciso. como sucede com os charlatães e impostores. Ora. não com a significação do verbo desvelar-se. o qual. é neste sentido que o padre Vieira tinha usado este verbo e o seu substantivo desvelo. precedido da partícula des. como em francês o verbo dévoiler. e nós. Entre dúbio e duvidoso pode notar-se uma diferença muito subtil que consiste em sugerir duvidoso. ou espaço de extensão determinada. a incerta fortuna. volúvel. mas com a de “privado de véu”. que não for desembaraçada de termos ambíguos. e deve ser evitado pelo literato. se bem que em muitos casos se confunda com ambos. Desconfia-se da forma duvidosa: procura-se fixar a linguagem dúbia. lhe chamamos jogar de vocábulos. ou que pode deixar margem a alternativas de interpretação. ou de fim ilícito com que se fez ou deixou duvidosa a forma.

intimidar. ate- morizar. Esses monges de Teate viviam a pregar de terra em terra. que não se submete a autoridades. – Vadio “é o que vaga por ociosidade. aplica-se a quem anda de terra em terra. – Ambos também se diferença de dois (ou os dois) em referir-se este ao número. e que tomou esse nome da circunstância de ser o seu fundador (Caraffa). desorientado” (equivalente ao égaré do francês). – Vaganau = “que vive a vagar. sem rumo fixo. trocista e malandro”.. professor ambulante. 281 AMEAÇAR. aqui. airado. ou que não tem dono conhecido. – Vagabundo acrescenta à ideia de errante a de ociosidade. que significa – “andar vagaroso. nômade. amedrontar. vagabundo. e aquele. Esta noção se ilustra pelo seguinte trecho de Vieira: “O querer e o poder fazer bem são duas coisas totalmente diferentes. apenas análoga à própria (de romeiro): designa “o que viaja por terras estranhas. como se não tivessem destino e se se não deixassem dirigir de nenhuma autoridade. ou que se imporá algum castigo (se se trata. errante. os dois. arcebispo de Chieti. ou habitação fixa. ou o âmbito da praça. neste último caso. como já se disse. longe do próprio país”. fundada nas primeiras décadas do século XVI na Itália. – Segundo Bruns. vadio. É assim que se diz indiferentemente: a área. de superior para inferior). ao conjunto. porém: “a voz ressoou por toda a área da sala”. e que nem sempre existem unidas no mesmo sujeito. – Ameaçar é “dizer ou protestar que se fará algum mal. vagabundo. e um e outro deixaram no país legítimo renome. à ventura.: – “Ambos e um e outro distinguem-se em referir-se o primeiro ao conjunto dos dois. o que leva vida solta e alegre”. Temos ainda este exemplo: Aqueles dois moços. – Peregrino também apresenta aqui uma significação especial. e sem mais objeto que o de não estar parado: de todos é conhecida a lenda do Judeu errante. sem compreender a ideia de mister. de vadiagem: antes aproxima-se mais de passeante. – Airado será “o vadio elegante. e um e outro a cada um distintamente. que neste é necessária. – Perdido.. um e outro. vagante. – Teatino propriamente era o monge pertencente a uma Ordem religiosa. só por distração”. – Escreve sobre estas formas o provecto Bruns. – Vagante é o mesmo que vagabundo.” 280 AMBULANTE. – Nômade (ou nômada) se aplica para designar o homem primitivo que não tinha morada. mas: “ressoou a voz por todo o âmbito da sala” ou “por todo o recinto”. despreocupado. sem eira nem beira”. mas sem a ideia. ambulante diz-se de quem exerce um mister de terra em terra: músico ambulante. tunante. outrora Teate. e o mesmo significa atemorizar. que não se ocupa de nada. mas ambas se requerem essencialmente para o exercício da nobre virtude da beneficência”. Há entre os dois a diferença que consiste em sugerir o verbo intimidar a ideia de que a pessoa que intimida conta com a fraqueza de ânimo da . quer dizer “que errou o caminho. dentista.180 Rocha Pombo pois designa “o espaço compreendido entre dados limites. perdido. do circo.. da explanada”. que não tem domicílio certo. Daí a significação com que ficou esta palavra teatino na linguagem comum: designa o (homem ou animal) que anda vagando. peregrino. passeante.” – Tunante é “o vadio de baixa classe. vaganau. – Intimidar diz propriamente “causar temor”. vadiagem”. 279 AMBOS. – Errante. não se dirá. assustar. teati- no. ou ambos aqueles moços foram heróis na campanha.

– Amedrontar é que convizinha muito de perto com intimidar: quer dizer “impressionar algum ânimo fraco”. – Aprazível é aquilo “(tanto no mundo das coisas como na esfera moral) que nos encanta a vista. Ora. etc. Portanto. deleitoso escreve o mesmo seguro Bruns. as recompensas ao mérito. que é agradável é ameno. para que aquilo que causa prazer seja ameno. é necessário que o gozo seja puro. o grato sensibiliza”. “qualidade”. Deve notar-se uma certa diferença entre estes dois verbos: intimida-se a um menino ameaçando-o de cortar-lhe a mão se tocar no doce. Querem os dicionaristas que deleitável e deleitoso designem a mesma ideia. no entanto. Tudo o que causa prazer é agradável. – O que é ameno – diz Bruns. E tanto é assim que dizemos: delícias do Paraíso (não – deleites). agradável. aqui. bem se poderia admitir que um herói se atemorizasse do castigo divino. deleitável.) Pode-se. entender assim: que é deleitável o que 23 Já o poeta dissera. nem tudo. Muito longe disso – é no sentido moral que delicioso exprime o mais alto grau do prazer23. A delícia consola os sentidos e o espírito. a boa música. segundo o qual – “delícia. e avel. deleitoso. Entre agradável e grato nota-se esta distinção: o que é agradável dá prazer aos sentidos. suave. portanto. – Sobre delicioso. mas. o que é grato é relativo aos sentimentos. Entre delicioso e deleitável – não é possível ver as diferenças que notaram Roquete e Lacerda entre delícia e deleite. mas também.: “O que é deleitável causa-nos deleite. dizer que um herói se intimida. (E não completa infelizmente o autor a exposição do seu modo de ver. delicioso. deleitável. O agradável apraz. – Delicioso é mais do que aprazível. aprazível. e nada mais aprazível no mundo do que ser útil ao nosso semelhante. “tolhê-lo. Entendem esses autores (seguidos por muitos outros) que deleite indica o maior grau de delícia. Não seria próprio. o que é delicioso causa abundância de delícias. isto é – que propriamente deve aplicar-se só em relação às sensações. delicioso diz muito mais que deleitável. inocentemente deleitável. as demonstrações do reconhecimento. nem a criatura alguma incapaz de sentir o verdadeiro temor. um medo sagrado. deleite carnal (não – delícia carnal). valor ou qualidades do que lhe dá origem. ou a função mais aprazível é a do juiz que salva a inocência. A trovoada amedronta até espíritos fortes (e ninguém diria – aqui intimida). ou induzi-lo a ceder a motivos imaginários”. e o mais recente de todos eles chega a preferir a forma deleitoso a deleitável..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 181 pessoa que é intimidada: o que não se dá com atemorizar. – Assustar. a do artista que nobilita a sua arte. e sobretudo. enquanto que sem desar para ele. que é um escrúpulo ou um forte movimento de consciência. Também não se atemoriza a uma criança. grato. porém. Só no uso comum é que se pode entender de delicioso como entende Lacerda. não só exprime o prazer sentido. encarece o mérito. os perfumes.” É aprazível um panorama. Agradáveis são as belas paisagens. é delicioso o que nos arrebata. – é agradável. nem um idiota. Neste ponto ainda preferimos Bruns. . falando da saudade: – o delicioso pungir de acerbo espinho. É deleitável o que nos dá prazer. é “produzir medo súbito e quase pavor com que se ameaça alguém”. se atendermos a que a desinência oso designa “abundância”. 282 AMENO. isto é. amedronta-se o ladrão (que vai penetrar na casa) disparando para o ar o revólver. gratas são as provas de amizade. atendendo aos fundamentos que ele oferece. Deleite é o gozo dos sentidos”. obteremos a verdadeira diferença que há entre os dois adjetivos”. ou que nos excita na alma um sereno prazer – e cândida alegria.

. seja como for”. ou uns a outros”.: “Com tamanha pancada. rombo. ou mesmo uma noção perfeita dessa coisa”... achatar. unido ao outro.182 Rocha Pombo produz deleite. deformar. prova. acumular as pedras que vêm da montanha. juntar sem ordem”. arrumar. acumular. Dizemos – amostra do pano (e não – mostra). nem – acumular as frutas que se estão colhendo. – Sinal é. Usa-se também no sentido translato para exprimir o efeito de causar impressão forte (fazer mossa). triturar”.) – Arrumar é “propriamente pôr em rumas. Entre amostra e mostra parece que não há mais diferença que a de ser o segundo mais aplicável no sentido moral. e com que se dá uma ideia. a carteira. ou ajuntar em maço. ou – os peixes que se estão pescando: porque em todos estes casos não se subentende medida a encher. demonstração. deu mostra ou mostras de indiferença (e não – amostras). ajuntar. 285 AMOSTRA. tirar a acuidade ou agudeza”. com toda aquela atividade e economia. depressa ajuntará dinheiro ou fortuna”.. já excede à medida normal. Dizemos: uma prosa deleitável. tanto no sentido figurado como no natural. Usa-se também no sentido figurado para designar o ato ou o efeito de causar funda impressão no ânimo de alguém. tirar a forma de. é “de uma certa coisa uma parte ou porção com que experimentamos a qualidade dessa coisa”. comprimir violentamente. reunir é “tornar a unir”. ou paragem (e não – deleitável). – Embotar é “fazer boto. Dizemos: o deleitoso vale.. que lhe abolou o elmo. – Ajuntar e reunir são muito difíceis de distinguir-se: ajuntar é “pôr um ao lado. – Prova.. arranjar um sobre outro”. – Todos estes verbos enunciam a ideia de reunir. segundo Lacerda.. e é deleitoso o que está cheio de deleites. ajuntar. (e sim – reuni meus irmãos. ou esmagando”. emaçar. – Amossar é produzir mossa (marca de pressão violenta sobre corpo compressível). portanto – é “unir outra vez o que já fora unido”: e aí está no que consiste a diferença entre os dois. o livro. e não – deleitosa). o fragmento de uma coisa..” Amassou o chapéu. o pedaço. – Deformar é “tirar a forma própria. registra este exemplo do Dic.” Pode-se dizer indiferentemente: “reunir ou ajuntar as forças debandadas ou dispersas”. quebrar as arestas a. da Ac. reunir. É por isso que dizemos: “aquele homem. É o mais genérico do grupo. – Amontoar é “reunir aos montes. formar de algumas ou muitas coisas um só volume”. Aul. amossar. formar montão.. sinal. – Amostra é “o resumo. amassar. – Emaçar é “reunir. amassando. embotar. e não diremos: “aquele homem reunirá. mas ninguém diria: ajuntei meus irmãos para combinarmos a resolução mais acertada”. “Emaçamos os papéis. “o que dá .. ou reunir. abolar. É usado igualmente no sentido moral. Aí deve usar-se o verbo amontoar.. ou campo. isto é. mas não dizemos – acumular o trigo no campo. dobrando. – Esmagar é “espremer. acumular fortuna ou riquezas. – Amolgar significa “tirar a um objeto ou a alguma porção desse objeto a forma própria deprimindo.. 284 AMONTOAR. mostra. neste grupo. de formar conjunto. – Acumular é sinônimo quase perfeito de amontoar: apenas acrescenta à significação deste uma ideia de continuidade e de reflexão: o que se acumula já sobra. Por isso dizemos – acumular empregos ou cargos. achatar. de associar coisas em quantidade. – Abolar é reduzir a bolo. e arrumamos os maços no armário ou na estante”. esmagar. 283 AMOLGAR. indício.” – Amassar diz propriamente “deformar reduzindo à massa.

um sinal mais claro. É dos mais extensos entre os do grupo. Dizemos: a amplitude de um campo. de um certo espaço mesmo. amplitude significa extensão maior ou menor. longe do convívio do mundo. frade. aponta. hipócrita. quando o asceta o é só na aparência e nas exterioridades. de uma linha. – Amplidão e amplitude são duas formas vernáculas da mesma palavra latina amplitudo. e talvez exprime ou representa. denota. dizendo – imensidão do céu. fora da acepção própria que tem na tecnologia científica. é-lhe inerente a ideia de mortificação do corpo. amplitude fora do comum. – Há mais austeridade na ideia sugerida pela palavra monge que na do vocábulo cenobita. denuncia. imensidade. mas. – É asceta qualquer pessoa que despreza o bulício do mundo e se entrega inteiramente a exercícios espirituais (sendo o ascetismo independente de qualquer ordem religiosa). asceta. a não ser por figura muito forçada). e gozar a seu modo de um isolamento que não é absoluto. Figuradamente se diz de qualquer pessoa que vive retirada do trato social. que é mais – grande extensão. é muito semelhante a amplitude e a grandeza: designa as proporções de uma superfície. extensão. – Solitário é termo genérico: diz-se indistintamente de quantos vivem em sítios apartados. etc. As palavras são sinais das ideias. ou melhor o sentido que por extensão se lhes dá comumente. enquanto que imensidade sugere ideia de ilimitado. de quantidade extraordinária. amplidão infinita (e nunca amplitude infinita. O . de infinito. do espaço. âmbito. – Demonstração. Imensidade é mais do que sinônimo perfeito. O cenobita (do grego koinos. vastidão. etc. Esta é mais próxima de grandeza. cuida de uma ermida ou capela. eremita. imensidão sugere ideia de grande número. – Indício é o que indica. aqui. – Vastidão é a qualidade do que é vasto. Este vocábulo toma-se sempre à boa parte. de vida retraída.. é “uma prova mais completa. salvo se a esta déssemos um completivo. Dizemos ainda: tratar do assunto em toda a sua amplitude (e não – amplidão). grandeza. – Entre imensidade e imensidão mal se poderia marcar uma diferença muito subtil. em lugar isolado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 notícia de outra coisa com que tem relação. e aí vivem entregues à meditação religiosa. de privações voluntárias. chama-se-lhe tartufo. mas sim a companhia de alguns homens da sua feição. O vasto âmbito da sala. religioso. Em todas as religiões há ascetas. O monge é como o desenganado que foge ao mundo e aos homens. de infinito. – Extensão. para com eles viver em comum. amplitude. quando esta palavra se refere aos católicos romanos. para viver na contemplação e no estudo. – Anacoreta. manifestação mais decisiva”. fanático. da praça. aquela é mais vizinha de imensidade. monge. solitário. “vida”) é o monge que não procura precisamente a solidão. Na maioria dos casos. de vastidão. – Âmbito é o espaço compreendido dentro de certos limites. o mesmo não se dá com imensidão. cenobita. imensidão. a amplidão do espaço. e bios. segundo Bruns. As nuvens grossas são indícios de chuva”. – Grandeza é propriamente a qualidade de ser grande. Dizemos: aqui estamos a enfrentar com a imensidade (e não – com a imensidão. “comum”. das estrelas). pois. – Eremita (ermitã ou ermitão) é o religioso que. pois é equivalente de infinito. devendo logo notar-se que ambos têm aqui sentido figurado. Amplidão significa extensão sem ideia de quantidade precisa ou determinável. “aplica-se aos que se retiram do vaivém do mundo para sítio isolado. leva ao conhecimento de algum objeto. 286 AMPLIDÃO. 287 ANACORETA.

– Extrato é a cópia literal de um ou vários trechos de uma obra. dos costumes próprios de uma sociedade. dizse. drama. o frade é do convento. mais frequentemente do sumário que precede a cada uma das divisões de um poema”.). argumento. desgoverno. ou tão somente o fim de expor o objeto. o plano e a sequência das ideias explanadas na obra de que se trata. de modo que. pode ter por objeto a crítica. é o mesmo que resumo. resumo. Em política. – Epílogo é o “resumo que se faz no fim de um trabalho literário (discurso. epílogo. compêndio. sem pretensões a substituir outro. – Desgoverno. Em acepção mais alta. e fecha os olhos às desgraças da terra que não remedeia para não se distrair da contemplação em que vive. são precisamente distintas. anarquia é “ausência de governo. pois o fanático julga-se superior ao resto da humanidade. súmula. – Suma é “o resumo que nos dá em substância a matéria de um trabalho”. muito longe de ser “falta de governo”. como termo escolástico. um sumário em que se indiquem apenas os capítulos de um livro. – Desconcerto é ausência de acordo moral – e a desordem que revela esse desacordo. Esta palavra toma-se a má parte. desordem. seja qual for a sua crença. como termo filosófico – anarquia será o vocábulo com que se há de designar “o regime social independente de autoridade política. o termo mais apropriado é epítome. porém. o legítimo asceta é geralmente egoísta. – Sumário é uma exposição das principais matérias contidas no texto. – Religioso diz-se daquele que. ou a direção da sociedade humana só pelas leis morais”. reduz a sua doutrina. – Compêndio é a exposição abreviada dos princípios de uma ANÁLISE. concerto. . – Resumo é o livro que. sumário. – Resunta. – Anarquia e desordem são palavras que. quer ligando-se a ela por votos. se têm como sinônimos perfeitos. desregramento. balbúrdia. cizânia. Noutro sentido. destempero na administração da coisa pública. Nesta acepção. – “Na série de ideias em que os primeiros sete vocábulos deste grupo são sinônimos. no uso comum. se recorde o texto da obra principal. 289 ANARQUIA. Num sentido menos vulgar. é desregramento de autoridade. – Súmula é “uma pequena suma. porque se aplica a todos quantos se dedicam à vida religiosa. infração dos princípios morais. – Argumento é o mesmo que sumário. quer que tudo e que todos se amoldem às suas imposições. consubstanciando-a e resumindo-a. confusão. discórdia. análise diz-se de trabalho literário ou científico em que é examinado outro de igual natureza. suma. Entre monge e frade há a mesma diferença que entre mosteiro e convento: o monge é do mosteiro. porém. é a repetição abreviada dos argumentos. Em sentido lato. poema. propriamente só os que exercem o governo é que podem praticar desgovernos. religioso é sinônimo ainda mais próximo de monge e frade. Noutro sentido. ao lê-lo. pró ou contra. quer por simples resolução. caos. pensa ser inspirado pela divindade. mau governo.184 Rocha Pombo asceta. de poder público”. observa os preceitos que ela lhe impõe. porém. pois pretende a bem-aventurança para si. des- extrato. se diz da obra literária que extrai abreviadamente a doutrina de outra. epítome. recapitulando a matéria de que no entrecho se tratou desenvolvidamente”. – Desordem é “falta de ordem normal”. etc. 288 arte ou ciência. resunta. ou os artigos de uma revista”. – Fanático diz-se de quem é ultrarreligioso. Mas religioso é palavra de mais lata extensão. no entanto. feita pelo que defende alguma tese. no entanto. – Desregramento é “desvio das normas.

devido à irrupção de paixões. o estudo de todas as partes de um órgão ou de todo um cadáver. por alguém que se sente abalado de grandes amarguras. separar em partes um órgão. A excomunhão é a sentença ou decisão da autoridade eclesiástica pela qual se exclui do grêmio da Igreja aquele que. e a dissecção consiste em dividir. de concerto moral. O monge partiu amaldiçoando a cidade. “Deve ser horrível a ânsia com que o réu espera a sentença do júri”. o transtorno geral em que ninguém mais se entende.. O profeta que amaldiçoou os meninos perdidos. “Um prisioneiro espera com ansiedade o dia em que se há de ver livre”. – Confusão é “a desordem que chegou ao seu mais alto grau. – Balbúrdia é grande desordem..: “Ansiedade difere de ânsia como incerteza difere de receio. “Vive em ânsias (ou na ansiedade) aquele que receia a cada momento . anátema. excomunhão. de qualquer grêmio).. como a excomunhão. Aquele filho que os pais amaldiçoaram. Nestes termos a eles se refere Bruns. Não se compreende discórdia sem agitação. ou todo um organismo. de boa paz” do que propriamente discórdia: e distingue-se desta ainda em sugerir a ideia de que foi um terceiro que a lançou ou acendeu. hostilidades. amaldiçoar. – Destes dois vocábulos diz S. Há ansiedade quando o espírito está inquieto esperando que um sucesso feliz acabe de realizar-se. “visão da alma”. é o “exame minucioso. como se tudo estivesse em turbilhões.. bom ou mau. ou quando labuta na incerteza de se qualquer sucesso. Como termo de Medicina. veementes furores”. de funda consternação. autópsia. criando transtornos. de sagrados ressentimentos. – Ana- tomia é. 292 ANCIÃO.. a seguinte diferença: “o anátema dimana. – Maldição exprime ideia mais genérica do que anátema. da organização de seres animados: é o extremo da confusão. – Anatematizar e excomungar exprimem de comum a ação de excluir. pertencendo a ela. – Ancião ajunta à ideia de velho a de autoridade: é o velho respeitável e digno de veneração pela sua sabedoria e probidade”. tornando-se difícil restabelecer-se a paz. 290 ANATEMATIZAR. lhe não é obediente”. dissecção. – Velho exprime simplesmente “o homem que tem chegado à idade da velhice”. – Discórdia é “desconcerto profundo e violento. ânsia. enquanto que maldição é um como anátema lançado por alguma alta autoridade moral.. antes da criação da vida. – Confundem-se or- dinariamente estes dois vocábulos. pois este é a maldição formal imposta pela Igreja. E dá estes entre outros exemplos. Há ânsia quando se receia que um mal suceda”.. às injúrias e ao desprezo contra aquele que a Igreja anatematizou.. e num sentido mais alto e abstruso.. banir do grêmio da Igreja (e no sentido geral.. feito diretamente pelo médico”. 293 ANSIEDADE. para examinar-lhe a estrutura. para o qual parece que não há mais corretivo. excomungar. – Cizânia é mais – “falta de harmonia. neste grupo. mas aquele é fulminado contra os que da Igreja se emanciparam: o seu fim imediato é o de incitar ao ódio e à perseguição. Mas entre anátema e excomunhão nota Bruns. dos poderes eclesiásticos. – Autópsia significa propriamente “vista de si mesmo”. sem desvarios e estrondos. expulsar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 185 de uma instituição. ou “visão interior”. velho. se realizará ou não. maldição. a arte de dissecar. de uma família”. – Caos é o estado que se compara ao da matéria amorfa. Luiz. 291 ANATOMIA..

poderia uma pessoa elegante. farrapos. Tais são certos catarros. ou de certos climas. entretanto. – Andaço é palavra vulgar que indica epidemia menor. ou fazer alusão aos seus farrapos. vestida com certo apuro. “que se diz das graves epidemias que semeiam a morte em províncias e nações. por várias regiões. correndo às vezes toda a extensão do globo. 296 ANDRAJOS. contágio. Tais são a sarna. no entanto. – Seguir é propriamente “continuar a viagem começada. Devemos acrescentar. ou então por orgulho gracioso. doença que grassa pela terra. como não dizemos – a ansiedade. – Transitar exprime a ideia geral de “passar além. ou as ânsias da morte. de qualquer modo que se faça este trânsito: e tem relação a um ponto determinado a que a pessoa ou coisa se dirige. “povo”) as que provêm da infecção do ar. estendendose a províncias e reinos inteiros. mais talvez sofrimento físico do que moral. 297 ANEXAR. a lepra. sem relação a pontos determinados. a peste de Levante. sobre”. – Marchar é “andar ou caminhar compassadamente: dizse especialmente da tropa de guerra quando vai com ordem de marcha”. mas – a ânsia. molam- bos. por meio do ar. e devido a causas puramente locais”. ir de viagem de um lugar para outro. Não dizemos – a ânsia. – Endemia é “mal próprio de um país. antiq. distrito ou paragem”. roupas muito rotas e sujas. móveis. – Passar é “dirigir-se para algum ponto atravessando um caminho ou uma certa zona.. que sugerem. mas – a ansiedade de quem espera. seguir. caminhar. que usasse andrajos. ou pelas roupas. marchar. de associação de uma a outra coisa. que ansiedade sugere mais ideia de impaciência aflitiva. de um lugar para outro. referir-se. o cólera-morbo. – Molambos é brasileirismo significando – trapos. comunicando-se de umas a outras”. incorporação. incerteza dolorosa – do que ânsia. Acrescenta Bruns. – São palavras que quase sempre se empregam indiferentemente para designar as roupas velhas. 295 ANDAR. fica fazendo parte desta conquanto . anexo. aperto do coração. sujas ou rotas de que se cobrem os mendigos.” – Parece que não se distingue bem a diferença. ou enfermidades epidêmicas (do grego epi. ir. e demós. por tango “tocar”) é uma enfermidade que se comunica pelo contato. – Caminhar é fazer caminho. in- passar. Por excesso de modéstia. epidemia. a esta lista a palavra peste. etc. trapos.. “Aqueles farrapos da antiga opulência. “em. 294 ANDAÇO. peste. que é realmente muito subtil. – Chamase epidemia. no entanto. que é angústia. aos seus trapos: não seria próprio. – Ir é andar. o contágio (de cum e tago. das outras pela ideia que sugere de grande miséria dolorosa e como que sagrada. transitar. ou que foi anexada a outra. etc. endemia..186 Rocha Pombo que lhe descubram o desfalque. ou seja imediato. anexado. fazer caminho. A coisa anexa. os males venéreos. ou enfim. marchando ou caminhando para diante”. A primeira distinguese. – Estas palavras têm de comum a ideia. ou mover-se corporar. ou mesmo à mediania a que tivesse descido um homem rico. viajar”.. – Segundo Roq. e nunca decerto se empregaria no caso o vocábulo andrajos. em certos tempos ou estações do ano”. qualquer corpo infestado. incorporado... que pode levar consigo certos miasmas morbíficos. etc. a febre amarela. – Andar é mover-se dando passos para diante.” – diríamos referindo-nos à pobreza. anexação.

Angariamos adeptos para a nossa causa. ficam dependentes da mesma diocese.: “Estes dois adjetivos exprimem ideias diferentes (isto é. – Mexido e revirado são massas de farinha com peixe ou carne. Quando duas freguesias se anexam. – A maior parte destas palavras são quaiseirismos comuns. – Anexo diz-se. formando corpo à parte. designa o que se associou a outro sem perder coisa alguma das suas condições próprias. ou um país qualquer que se anexa a outro continua a ser o que era anteriormente. sob o comando do mesmo chefe. O Texas foi anexado à União norte-americana. desencaminhando. e passa a formar com esse exército um só todo. com aquilo a que foi anexado. isto é. Quando muito. dependente. Dependente diz-se do que. um Estado. Entre diversas províncias unidas não há nenhuma a que se atribua hegemonia ou preeminência. escreve Bruns. apenas adstrito à soberania do país a que foi anexado. – Incorporar designa uma ação ou efeito mais completo que o da simples anexação. recrutam-se os conscritos refratários. Mesmo quando se diz que se recrutam partidários para uma causa. Uma repartição que se anexou a outra fica apenas sob a mesma direção sob que esta se acha. Uma força militar que se incorpora num exército perde inteiramente a sua forma ou condição antiga. operários para as nossas oficinas. e desde essa época. mexido. tudo muito misturado e revolvido. um todo em que nenhuma das partes fica dependente nem nenhuma dominante. 299 ANGARIAR. do que forma parte de um todo. aliciar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 187 conserve o seu modo de ser ou o seu caráter individual. revirado. unido. mingau. admite-se que o angu é mais condimentado. nenhuma delas fica imperando sobre a outra: eram duas. perdendo o seu caráter individual. melhor ainda que anexo. – Angaria- -se “fazendo acordo. 300 ANGU. – Angu e pirão. Um Estado que se incorpora a outro passa a fazer com este como um só corpo. formam uma. seduzindo com muitas promessas e vantagens”. Isto se entende principalmente em matéria política. pirão. dá-se ideia do esforço e trabalho com que se angariam esses partidários. 298 ANEXO. daquilo que recebe domínio alheio ou lhe pertence. quase sempre à força. – Alicia-se “enganando. Recrutam-se praças para um batalhão. angu ou mingau. Neste exemplo marca-se bem a distinção entre os dois verbos: “A Alsácia-Lorena foi anexada à Alemanha em 1871. – Escaldado é o mesmo que pirão. entre os brasil nem sempre se nota diferença essencial e precisa. dois primeiros. recrutar. ficou sob o pacto federal daquela outra república sem perder o predicamento de Estado. – Recruta-se com autoridade. tratando com boas maneiras a pessoa ou pessoas que se quer atrair ao nosso partido ou ao nosso serviço”. sendo o pirão apenas a farinha fervida ou aferventada em água ou em caldo de peixe. e há quem alicie inocências para a miséria dos bordéis. angariamos amizades que nos sejam úteis na desgraça. destacando-se do México. pois. recebe domínio alheio. uma ideia comum fundamental diferenciada por ideias acessórias): o que está anexo forma. – Unido. escaldado. Alicia-se gente para a revolta. o pensamento constante da política alemã tem consistido em fazer tudo por incorporar definitivamente aquelas províncias ao império”. sendo apenas mais . Essas freguesias. papa. aplicam-se indiferentemente à farinha de mandioca escaldada em água. porém. por exemplo. dependente. – Sobre os ainda que per se constitua um todo à parte”.

– Desejo é vontade mais viva. aspiração. que não se põe de acordo com a ordem conhecida e aceita”. tem-se anseio (ou anseios) por alguma coisa que nos apaixona.) com ovos. – Irregularidade é a qualidade do que é contrário à boa ordem. O eclipse enoiteceu a face da Terra (não anoiteceu)”. etc. A estação tem sido muito anormal (fora do que comumente se observa). deforme. Aquela calma em F. de frutas. da regra comum. sente-se anelo (ou anelos) do Céu. açúcar. mesmo que seja isso apenas aparentemente. etc. e particularmente designa comida grosseira.188 Rocha Pombo 303 ANÔMALO. As irregularidades de uma vida licenciosa nem sempre se poderá dizer que sejam anormais. ou de coisas excelentes. excentricidade. desordenado. as leis conhecidas. É anomalia de linguagem toda forma admitida pelo uso. muito bem estes dois verbos. desejo. isto é. qualquer substância pouco consistente. da ordem estabelecida. – “Anoitecer é o fenômeno que observamos cada dia entre o pôr do sol e o cerrar da noite. anomalia. alimentam-se grandes aspirações que raramente se realizam. Tanto dizemos – escaldado de farinha (esta fervida em caldo de carne ou de peixe) como – escaldado de ovos. e só excepcionalmente é que ele se mostra calmo). ou que se não acha no estado ordinário”. é anormal (isto é. Para minha alma enoiteceu no dia em que vi morta minha filha. numa certa regra que rege o maior número das coisas ou fenômenos de que se trata”. – Irregular distingue-se de anormal em sugerir mais claro a ideia de infração culposa: ideia que não é essencial no outro. – Tem-se vontade de sair cedo de casa (sem fazer disso grande questão). – Excepcional é o que não se conforma com a regra geral. É anômalo “um mal desconhecido. – Mingau é um angu especial. – Distingue Bruns. anoitecia. mas que se afasta da gramática pela construção viciosa ou absurda. leite. do que infringe a regra instituída. – Aspiração é desejo mais grave. monstruosidade. – Anelo é desejo mais intenso e solícito. As anormalidades . vulgarmente. qualidade do anormal. ou de arroz. 301 ANELO. malidade. etc. o menos expressivo e forte. feito de farinha (de mandioca. vonta- de. – Anormalidade é ato anormal. – De todos os vocábulos deste grupo. anor- extenso do que estes. não está no seu temperamento. fica fora das leis. muito altas ou muito difíceis. como anseio é anelo mais ardente e fervoroso. de milho. malpreparada. – Desordenado é “o que sai da ordem vigente. excepcional. excêntrico. – Anormal é “o que infringe a regra dominante. enquanto que a excepcionalidade consiste apenas em “não entrar a coisa excepcional na regra instituída. de trigo. ANOITECER. – Enoitecer é o fenômeno anormal que se pode observar a qualquer hora do dia quando o tempo se escurece por uma causa qualquer. disforme. as normas aceitas. disformidade. – É anômalo o que se afasta do usual. ou um sintoma aberrante em certo morbo”. excepcionalidade. pois apenas significa a disposição favorável de agir em qualquer circunstância. 302 enoitecer. irregularidade. que se tem como fazendo votos e procurando vê-los realizados na vida. É uma anomalia moral um sujeito malvado professando uma religião de paz. tem-se desejo de possuir algum bem que nos agrada ou nos encanta. de sagu. Quando chegávamos à fazenda. deformidade. monstruoso. Difere muito de anormal. anormal. – Papa significa “massa em geral”. irregular. é vontade. anseio. pois este não se adstringe a regra nenhuma. que não se opera segundo as condições normais.

etc.) – As apostilas são notas ou glosas (ou observações elucidativas) quase sempre pouco extensas. (Comento vale mais por nota e fica em relação a comentário como nota em relação a anotações. – Mais extensas que as anotações são as explicações. – Deforme confundir-se-ia com monstruoso se este não sugerisse a ideia. ou um sentido oculto ou obscuro que se aclara com autoridades e raciocínios. É assim que a anotação instrui. de anomalia na conformação (deformidade)”.) – Assim como o fim das anotações é explicar com clareza e exatidão as frases e palavras. comento. afastando-se do que se nota em todos ou no comum dos indivíduos.. sempre nos deixa em dúvida. cotas. de afeições. “as anotações e as notas se empregam para aclarar e ilustrar (anotar) alguns lugares de uma obra. as notas são curtas. notas. estragado pelo tempo”. anosa existência (carvalho. O anoso carvalho. – Cota é “a citação de autor posta à margem. Também se chamam notas os reparos e tachas que se põem a alguns escritos. ob- servações. – Explanar é “explicar. bem-feita. ou para completá-lo. glosas. – Segundo Roq. Mais extensão admitem as anotações. por engenhosa que seja a interpretação. senão que se estendem a facilitar a inteligência das coisas ao vulgo dos leitores”. sem a forma própria do gênero. – Antigo é “o que é tão velho ou tem tanta idade que já se acha fora de uso”. tornando simples e fácil de entender um . à justiça. anotações. da direção.. deforme significa “defetivo. ou cuja vida ou duração é tão extensa como um século”. por sua parte. de irregularidade repugnante à moral. interpretar. etc. – Disforme e deforme poderiam confundir-se se se disfarçasse o valor preciso dos respetivos prefixos. coisas ou fenômenos do mesmo gênero”. mas rigorosamente falando. um fenômeno. assim a interpretação. A anotação. antigo.”. de original. são extensas e eruditas explicações de um texto”. a referência à matéria deles. e só figuradamente é que se emprega excentricidade para significar “o que tem um indivíduo. e só dizem o que é precisamente necessário para aclarar e ilustrar a obra. – Idoso equivale a “anoso. explanação. apostilar. as quais. uma coisa. 305 ANOTAR. explanar. pois não se limitam. porque cada leitor se julga com direito de ser intérprete. – Anoso dizemos melhor tratando de coisas ou de fenômenos. que excede. interpretação. e envolve ideia de vício. supõe ambiguidade. Mas disforme quer dizer “fora da forma usual. velho. que vêm a ser como breves comentários das obras. idoso. (Quem explica não faz menos do que “desdobrar aquilo que é complicado”. à inteligência comum. comentar. do centro que lhe é próprio. em linguagem exata. que se costuma pôr à margem do texto para explicá-lo. explicação. fixando seu verdadeiro sentido. 304 ANOSO. à justiça. numa criatura nem sempre serão irregulares (isto é. que lhe é essencial. Também se chama assim a nota marginal posta em autos. comentário. de tendências. – Excêntrico é propriamente o que sai do núcleo. – Velho é “aquilo que está gasto. a aclarar o sentido da frase ou palavra. e a interpretação limita-se a apresentar razões pró e contra. e procura achar o verdadeiro sentido do texto que se interpreta. que exagera a forma própria comum”.). existência que conta grande número de anos). e aplica-se de preferência ao homem”. derrama sobre o texto uma luz que a todos alumia. explicar. secular. nem sempre serão contrárias à moral. etc. como aquelas. conhecido só de alguns eruditos. – Secular é propriamente “o que conta séculos de existência. apostilas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 189 de gosto.

de uma forma um tanto vaga ou abstrusa. Em nenhum destes casos seria de tão lídima propriedade o verbo anuviar. severo. – Obscurecer sugere ideia mais sensível de atividade subjetiva: significa “privar de luz. prévio. mares antárticos. meridional. de fazer sombrio. a ideia de turbação e escureza. não se possa substituir um pelo outro. É mais próprio. – Antecedente é. – Anuviar é “toldar de nuvens. à ideia de ante24 Poder-se-ia juntar a este grupo os verbos eclipsar e enoitar. dizer – hemisfério austral – em vez de hemisfério meridional. 308 ANTECEDENTE. Eclipsar significa “escurecer pela interposição de corpo opaco entre a luz e o órgão visual”. Quando se diz que F. Dizemos: o tempo está meio nublado. A paixão política obscurece os espíritos mais luminosos. – Escurecer é o mais genérico e vago do grupo. pelo menos não tanto quanto as divícias lhe obscurecem o senso moral para a justiça”. melhor do que aquele. 306 ANUVIAR. – Toldar é semelhante a nublar. ensombrar. escurecer. sendo apenas de menos intensidade que o outro. austral. uma frase”. fazer menos claro e límpido”. No sentido fig. um princípio. que envolve ideia de toldação e ensombramento.. Muito raro será o caso em que. – Meridional quer dizer – “que fica ao sul de um outro ponto designado”.” Escurece o tempo. – Ensombrar é “fazer sombrio. – Dizemos também – terras ou mares austrais – para designar os que ficam no hemisfério do sul. – Nublar é quase o mesmo que anuviar: apenas este sugere. tem valor análogo. – Carregar tem uma acepção especial. anterior. fechar. Enoitar diz propriamente “pôr ou deixar em noite”. quer-se dizer que F. ensombrou-se aquela alma à vista de tal cena. exprimindo “a ação ou o efeito de fazer ou de fazer-se escuro. obscure- cer. – Entenebrecer é mais forte que escurecer. . aquele sacrilégio ficou para sempre a ensombrar-lhe as magnificências do sólio sagrado. se pôs em guarda conosco. escuro. precedente. segundo Bruns. grave. portanto. ensombrar como se entre a coisa anuviada e a nossa vista passasse ou se interpusesse uma nuvem”. sendo a treva (tenebra) a ausência completa da luz24. que se isolou moralmente da nossa intimidade. como se vê deste exemplo: “Esta miséria jamais nos há de obcecar. Quem se incumbe da explanação de um texto. “termo especulativo que. 307 ANTÁRTICO. deixar em meia-luz”.. – Obcecar (no sentido figurado) confunde-se com obscurecer. A saudade ensombra-lhe o semblante. – An- tártico significa “que está abaixo do círculo polar do sul”. de uma questão – há de explicar-lhe os termos e esclarecê-los de modo que se torne mais facilmente inteligível. toldar. como se escurece a inteligência mais lúcida. carregar. Terras. lúgubre”. e neste caso não seria aplicável meridionais. – Tanto no sentido natural como no figurado exprimem de comum estes verbos a ideia de eclipsar.. devendo notar-se que a predicação de obcecar é mais completa e direta. de um problema.190 Rocha Pombo texto. torvo. Ele carregou o semblante ao ver aquela miséria. no sentido figurado. fechou a alma. mesmo no sentido figurado: significa “fazer sombrio. enquanto que carregar diz muito mais. – Austral designa todo o hemisfério oposto ao boreal. a dor como que lhe nublou um tanto a razão naquele instante. fazendo o radical tolda em toldar função análoga à de nuvem em nublar. ou a cor mais viva. cobrir de sombras. nublar. pois que significa “fechar ou fechar-se como hostilmente”. entenebrecer. obcecar. – Fechar equivale ao precedente.

– É pre- “antecessor é o que ocupou algum lugar em relação ao que nele lhe sucedeu imediatamente. – Anterior e prévio devem distinguir-se. 309 ANTECEDENTES. – Ascendente dizemos de qualquer dos parentes de que provimos: o nosso pai. ascen- ciso admitir uma certa distinção entre estas duas palavras como substantivos. – Confun- dem-se comumente estes dois vocábulos. maiores. avoengos. pois não especifica se outros fatos ou outras coisas se intercalam ou não entre o fato ou a coisa atual e o fato ou a coisa anterior. Notando-se defeitos no contrato anterior. predecessor. o dono de uma casa de comércio. dentes. ou daquilo em que lhes havemos sucedido”. precedentes. não só anterior. entre o fato atual ou a coisa presente e o fato ou a coisa precedente. – Observa Bruns. os grandes. – Antecessores dizemos dos ascendentes. às dignidades. reúne frequentemente a de causa. tiveram seus antecessores nos cargos. designa prioridade no espaço ou no tempo. o gerente de uma empresa. não se intercala nenhum outro fato ou nenhuma outra coisa. Esta palavra encerra algo de nobre e de elevado. dirá: o meu antecessor. como precedente. sem nenhuma ideia de causa nem de influência. antepassados. – Precedente indica prioridade ou anterioridade. 310 ANTECESSOR. o II ou o I. os duques. O serventuário de um ofício. aqui não designam parentesco de sangue . mas também necessário. isto é. referindo-nos a todos os sucessos que são como determinantes desse acontecimento. etc. 311 ANTECESSORES. de influência. o nosso avô.. que nos impede empregá-la em circunstâncias triviais. e corresponde mais ao cerimonial. considerando-os como tendo fruído do que nos legaram. da justiça. mas de modo indeterminado. fazendo alusão à conduta que parece explicar de perto o delito de que se acusa esse criminoso. em geral. etc. o que é prévio é. isto é. O capítulo precedente ao capítulo IV é o capítulo III. O capítulo de que se fala como anterior ao capítulo IV pode ser o III. – Antepassado não se poderia dizer do pai nem do avô: só do bisavô para além se podem começar a contar os antepassados. mas não deverá dizer: os meus predecessores”. Dizemos também: os precedentes de um criminoso. Os reis. As consequências provêm das causas antecedentes. segundo Lacerda. contam com desvanecimento grande número de predecessores. e predecessor é o que o ocupou antes do antecessor”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 191 rioridade. mas é preciso notar que. etc. – Antecedentes de um fato são todos os fatos de que esse fato decorre como uma consequência ou corolário. avós. – Anterior. O pobre como o rico. são nossos ascendentes.. com muita razão: “Predecessor indica sujeito ou classe elevada. o nosso bisavô. mas só a primeira dessas denominações quadra bem na boca de todas as classes. aos privilégios. pais. Neste vocábulo o que predomina é a ideia de que. de figuras que os precederam na dignidade. – Precedentes são os fatos que precedem imediatamente o fato de que se trata. tem ascendentes. fez-se novo contrato baseado em condições prévias”. antepassados ou antecessores. outros que antes deles ocuparam os mesmos cargos. que ascendentes é “o termo mais genérico e o menos pretensioso entre os primeiros três deste grupo. o plebeu como o nobre. O que é anterior está antes ou precede. antigos.. como avós. – Pais. Acrescenta Roq. os funcionários da administração. enquanto que antecessor corresponde à ordem material de sucederem-se as pessoas umas às outras. Dizemos: os antecedentes históricos de um certo acontecimento.

estes três vocábulos escreve Roq.: “Na frase da milícia antiga – diz Vieira – o muro significava a fortificação mais estreita. ou que chegasse a época do pagamento). aos homens. dos Lusíadas: Oh tu. É mais forte que a antipatia. 314 ANTIPATIA. Que contra vossas patrias. muralha. pois dizemos – nossos pais.. e é assim que muito se há delirado sobre ela. antes do tempo devido”. – Prematuramente significa “antes da ocasião própria em que alguma coisa se deve fazer ou deve dar-se”. IV. e.” – Maiores é “o termo genérico em que se compreendem todos os que viveram antes de nós. pagou adiantadamente três meses do aluguel da casa (pagou antes que começasse a correr o aluguel. parentes ou não”. as que hoje se chamam fortificações ou obras exteriores. e pathos. – Avós designa antepassados mais remotos. como aos de todas as raças e que viveram antes de nós. aversão. consistia em muro e antemural: o muro que cingia e defendia a cidade. muralhas para resistir aos inimigos que a quisessem atacar”. muro. oh nobre Coriolano. muros para impedir a entrada de contrabandos e para que se recebam nas portas os direitos de octroi. asco. segundo Alv. segundo a arquitetura militar antiga. e por vezes fabulosos. rancor. – “Das duas palavras gregas anti. F. e o antemural que cingia e defendia o muro”. e é assim que o emprega Camões na seguinte passagem do c. seus efeitos são prodigiosos. a fim de cingir e defender uma praça ou cidade fortificada. mas parece não ser tão invencível . adiantadamente. Catilina. “paixão”. F. 312 ANTECIPADAMENTE. F. 104 e 372). – Adiantadamente exprime “com antecedência. prematuramente. com profano Coração. conforme havíamos combinado (preveniu antes do dia ou da hora em que devia vir). ou mesmo os antepassados. – Antigos parece encerrar ideia de mais afastamento ainda que avós. Hoje fazem-se muros só para cercar uma quinta. – Avoengos designa mais propriamente “a série dos avós ou progenitores de quem descendemos em linha reta” (Aul. – Antecipadamente diz “antes do prazo estipulado”. horror. zanga. muitas vezes morais. etc. construído segundo as regras da nova arquitetura militar. não só da nossa nação. se bem que isto não seja essencial à palavra. Paris tem muros e muralhas. e o antemural. quizila. – Aversão é sentimento que tem igualmente alguma coisa de desconhecido em suas causas. e vós outros dos antigos. A causa de tal oposição é desconhecida inteiramente.) e só por extensão é que se aplica este termo para designar os ascendentes em geral. “reserva-se este nome para os homens célebres da antiguidade. antes de chegar à idade em que é mais comum que se morra). asca. edificam-se muralhas só para fortificar e defender praças. ódio. gana. (VI. e do recinto da cidade. Sertorio. Passos. repugnância.192 Rocha Pombo 313 ANTEMURAL. morreu prematuramente (isto é. vos fizestes inimigos. referindo-nos até a Adão e Eva. A fortificação das cidades mais inexpugnáveis. “contra”. preveniu-nos antecipadamente que não viria hoje. compondo uma que poderíamos dizer literalmente contrapaixão (ou contrassentimento) formou-se a palavra latina antipatia (que se trasladou para as línguas derivadas) e que significa uma oposição ou inimizade natural ou irresistível dos seres uns contra outros. frequentemente exagerados. que a defendem no largo. – Pais indica os mais próximos do nosso tempo. – Muralha é o muro de praça fortificada. – Sobre ou direto: referem-se em geral às gerações que nos precederam.

Roq. segundo a sentença de Horácio. e prefere os arcaísmos de nossos avós às boas expressões que o uso depois introduziu – este não se livrará da pecha de rançoso. enquanto que arcaico significa apenas “que o vocábulo é muito antigo. mas as obsoletas parecem condenadas a perpétuo esquecimento. de gana (em sentido figurado) que é “um forte desejo de mal. arqueólogo. e até em amor. aborrecimento. – Quizila (ou quizília) é palavra da língua bunda. no entanto. em lugar da qual se usa em linguagem comum”. e ainda de capricho. e até de “quase ridículo”. – Horror é “grande aversão e repugnância. O escritor que se serve de palavras e locuções antiquadas (ou desusadas). e significa a antipatia que os pretos têm a certos comeres ou ações. mas genuínas da língua. – Rancor é “ódio profundo e oculto. já excluído pelo uso”. segundo o mesmo Roq. que a repugnância é menos invencível que a aversão. – Asco é “aversão. parece com o tempo ganhar forças. que a forma não está em moda por ser muito velha”. nas ações. e que esta o é também menos que a antipatia. – Obsoleto acrescenta à significação das duas outras uma ideia de – “excluído ou proscrito”. pois têm muito de caprichosos estes sentimentos que devemos chamar acidentais. má vontade que se tem a alguém. A aversão e a antipatia exercem-se indistintamente nas pessoas e nas coisas. Diz. Camões e Bernardes não se parecem com Gil Vicente e Sá de Miranda. para fugir à invasão do neologismo. encarniçamento e quase furor impulsivo contra alguém. de mera vontade. – Estas palavras “indicam coisa antiga que decaiu do uso”. O uso pode fazer ainda reviver. arrelia do que aversão propriamente. e clássico para seus respetivos tempos”. de ligeiros motivos. posto que todos escrevessem em bom português. Sem nada mendigarem aos estranhos. muitas expressões desusadas ou antiquadas. e cada escritor o estilo que lhe é próprio. arcaico. 316 ANTIQUÁRIO. obsoleto. – Zanga é “a quase aversão que se tem a pessoa ou coisa que se julga de mau agoiro”. mais naquelas que nestas. De qualquer modo que se manifeste. Cada século tem seu cunho particular. – Asca. a repugnância. muitas vezes sem ódio”. é palavra vulgar que indica “aversão.. não as obsoletas. por graves injúrias recebidas. e chega a inveterar-se na alma como um veneno mortal. – Entre desusado e arcaico deve notar-se a seguinte diferença: desusado diz propriamente “fora do uso. merece louvor. – A repugnância é ainda mais forte que a aversão. repugnância que se tem a coisa torpe ou imunda”. portanto. – “O domí- nio” – escreve Bruns. e talvez com mais razão. que de ordinário foram substituídas por outras mais bem derivadas e mais sonoras”. produzido sempre por alguma causa muito grave”. e que muitas vezes acontece que uma e outra (aversão e repugnância) chegam a converter-se em afeto. 315 ANTIQUADO. Mas isto mesmo poderíamos dizer. porém o que busca desenterrar velharias. às vezes gratuitamente”. Barros e Fernão Mendes Pinto não escreveram como Fernão Lopes e Castanheda.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 193 nem tão profunda. são cruéis e terríveis seus efeitos. desusado. de antipatia: quantas vezes se tem antipatia por uma pessoa só porque não a conhecemos de perto? – O ódio nasce quase sempre de poderosas e fundadas causas. Aproxima-se. expressivas e com boa analogia. o ódio. – “em que o antiquário e o arqueólogo exercitam a sua atividade . talvez com desejo de vingança”. Luiz de Souza e Vieira diferem muito de Seita e Paiva. As palavras e frases antiquadas ou desusadas “podem ainda usar-se em poesia e em estilo jocoso. É mais “tédio. algumas vezes.

. e dizemos só da flagrante oposição que existe entre duas palavras ou duas ideias aproximadas: dizer que um homem é de uma ‘orgulhosa’ ‘simplicidade’ é fazer uma antítese. – Oposição é aqui “o maior ou menor afastamento em que uma coisa fica da outra”. de horror. que as conhece. que as coleciona (e que até com elas negocia). É por antífrase que eles designavam o mar Negro sob o nome de Ponto Euxino (mar hospitaleiro). (II. cova. distinguem a antífrase da contraverdade. gruta. – Furna é cova profunda. “é uma palavra ou uma locução que deve ser entendida num sentido contrário ao que exprime essa palavra ou essa locução. – Contradição é “desconcerto entre o que se disse e o que se está dizendo. mas sem fundamentar claramente a distinção. contradição. falando de um celerado. lapa. um antiquário pode tornar-se arqueólogo”. e significa uma grande escavação aberta a modo de abóbada. antino- mia. – Segundo Bourg. e diferença-se de todas as do grupo em acrescentar-lhes à significação comum a ideia de medo. Esta palavra é. há.. Esta palavra não é poética. essa proposição marca que Quinault é um medíocre poeta”. É também por antífrase que. diz-se particularmente da fauce lôbrega de um vulcão. caverna. escura e medonha. pela antífrase. – Arqueólogo é “o que é muito versado em tudo quanto respeita a antiguidades. cuja disforme boca mostra ter uma légua de âmbito. 317 ANTÍTESE.194 Rocha Pombo é o mesmo”. em literatura. Bourg e Berg. o qual entrou no português como palavra culta e poética. Se não houvesse aí antífrase. É por antífrase que os gregos designavam as Fúrias pelo nome de Eumênides (deusas benignas. as explica. e que a aproximação faz ressaltar melhor”. que deu o latim antrum. Quando Boileau diz: “Asseguro: Quinault é um Virgílio” – a proposição: “Quinault é um Virgílio” “deve ser entendida em um sentido contrário ao que lhe é natural e próprio. 227)”. e Berg. que se aplica a situações. ‘conservar-se’) é a oposição que existe entre coisas contrárias. o sentido real que está no pensamento do satírico. e Berg. toca. caverna. – Antiquário é o que tem gosto pelas coisas antigas. qualidades ou modos de ser diferentes. muito mais restrita que contraste. subterrâneo. – Antilogia “é a contradição ou desconchavo entre as ideias sustentadas pelo mesmo autor.. 318 ANTRO. – Segundo Roq. ou entre os capítulos de um mesmo livro”. ‘frente a frente’ e stare. contraste entre as ideias ou as afirmações de alguém e as nossas”. contemplando a horrenda furna e estômago do monte (Etna).. antítese “pertence exclusivamente à linguagem literária. contrariedade. ou benévolas). Com estudo e paciência. portanto. – Antinomia é “a oposição que se nota entre duas leis ou princípios”. e segundo a sua origem significa – cova profunda e escura. antífrase. mas admitido. e defendida pelos lados como um recinto. dizemos: este santo homem”. a caracteres. em filosofia. e em geral sempre que se nota uma impressiva contrariedade entre duas coisas. oposição. – A segunda do grupo é latina. – O contraste (do latim contra. que se dedica ao seu estudo. buraco. porém. – “a primeira destas palavras é o grego antron. antilogia. que às . essa afirmativa marcaria que Quinault é um poeta de primeira ordem. – Contrariedade é “a relação que se nota entre duas coisas ou duas ideias opostas”. – A antífrase. furna. de que nos deixou exemplo Bernardes na Floresta: “Estando em cima. e não somente às partes de um mesmo período. contraste. entre as duas palavras diferença considerável. etc. ainda segundo Bourg. Esta palavra emprega-se nas artes.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 195 outras não é inerente. operações. o modo solene. luxo. ou para carregar cavalgaduras. ou mesmo uma caverna menos profunda e de menores proporções”. – Lapa é palavra portuguesa. vinda talvez do grego lápathos. assim como à reunião deles se chama aprestos ou aparelhos. e por analogia. de fazer sucesso. o que escrevera Roquete). desde o mais elevado até o mais ínfimo. os facínoras. o lugar onde alguém se esconde. e os zagais acolhem-se às lapas”. dispõem e arranjam diversos materiais ou coisas para a execução de qualquer obra. Quando se diz: “o aparato daquela cena” – quer-se dar ideia. mag- nificência. esplendor. sem opulência de formas. ostentação. quase pelas mesmas palavras. aparelhos aos arreios necessários para montar. na Vida do Arcebispo: “E viu juntamente que ao pé do penedo se abria uma lapa que podia ser bastante abrigo para o tempo”. das cores que um artista empregou no seu quadro.. mais ou menos ampla e profunda”. – Subterrâneo designa “em geral todo espaço que se encontra no subsolo”. pois – os preparativos de uma função. brilho e formosura. figuradamente – sumptuosidade do estilo. como diz Luiz de Souza. a grandiosa disposição com que se celebra algum ato extraordinário. grandeza.. do palácio. que repete.. 319 APARATO. e as lapas dão abrigo aos pastores. os antros. Em estilo poético. grego krupta) e significa concavidade da terra entre penhascos. pois não só as compreende todas. as grutas são habitadas pelos anacoretas.. do festim. pois que a significação desta palavra se estende a tudo o que se executa com pompa e ostentação. os preparativos de uma guerra. apresto. – Sumptuosidade. Diz mais que sumptuosidade. e quer dizer uma caverna na encosta de monte. Dizemos. como do brilho. não só das proporções dela.. etc. sumptuosidade. porque acrescenta à noção de grandeza a ideia de excelência. dizemos que se fazem preparativos. A significação da palavra aparelho é muito mais extensa que a das anteriores. – Toca = “buraco onde vivem ou se refugiam caças”. como indica a própria origem latina. as cavernas. majestade. com alguma vergonha. e que sugere ideia de deslumbrar. as cavernas. – Os antros servem de covil às feras. materiais. de produzir sensação.. as feras. no sentido em que se . portanto. pompa. “as ninfas e os deuses campestres habitam as grutas. que “engrandecem” (aos que a contemplam). às vezes suscetível de ornato rústico. mas abrange os instrumentos. – Grandeza (segundo Lacerda. preparativo. desde o exercício e arte da pintura até o mais baixo ofício mecânico. e coberta por um penedo ou chapa de pedra: isto mesmo significa a palavra lapa. aparelho. de um assédio. alardo. – Gruta é palavra castelhana e portuguesa (talvez do latim crypta. disposições para todo exercício. e também. – Pompa é o aparato ostentoso. – Magnificência é o esplendor. Não há pompa sem grandeza exuberante. trabalho ou obra. Chamam-se. é o esplendor exagerado de um ato solene. e dizia-se antigamente aparelhos para dizer missa. estende-se desde a ciência e manobras náuticas. é a qualidade daquilo em que se faz ostentação de riqueza: sumptuosidade do templo. fausto. – “quando se reúnem. – Aparato é o movimento pomposo. sem majestade de encenação. da grandiosidade excepcional que ela vai ter ou que apresenta. – Buraco “será uma cova. a pompa que maravilham. – Cova é “abertura feita na terra. de asilo aos homens e de guarida aos ladrões. – Segundo Roq. ou de um banquete.” 320 APARATO. Às disposições para qualquer faustosa cerimônia ou festividade se lhes dá o nome de aparatos.

e em sentido translato – seriedade. imprecisas de verdade): – Mostra. – Distingue rição. maneiras. no viver. é brilho. e majestade ao ideal das mesmas coisas”. etc. de manifestar-se.196 Rocha Pombo toma aqui o vocábulo. excelência. soberania. – O ar (ou os ares) com que uma pessoa se nos apresenta é o conjunto de tudo quanto da parte dessa pessoa nos impressiona à primeira vista: o semblante. e então se lhe chama exterioridade”. enuncia-se apenas a ideia de que sobre essa pessoa se atiraram . – Ostentação é o brilho e aparato. ou não definida: “o que ela diz tem visos de verdade” (tem aparências vagas. luxo de sapiência. 323 APEDREJAR. É de notar que se diria: “Ele vive com certo fausto” (isto é – com alguma pompa de quem deseja ser tido como rico). – Aspeto é a exterioridade que nos impressiona ao primeiro relance de olhos. e figuradamente. o exagero calculado com que se exibe alguma coisa. de alguma coisa ou ação. de poder. da qual nos deixa ver apenas uma parte”. a voz. aparição diz-se da coisa que aparece. ou pelo menos não perfeitamente lídimo. o aparecimento (ou apa- bos. Há criaturas que fazem alardo de fortuna. gravidade de alguma pessoa. seriedade. de uma civilização etc. como de talentos e virtudes. tamanho de alguma coisa. – Majestade indica magnificência. etc. – Grandeza indica luxo.. grandeza. exterior. – Fausto é luxo custoso. – Estes dois ver- muito bem Bruns. dava-se a morte pelo apedrejamento. poderio. significa extensão. distinguem-se. de poderio. estas duas palavras: – “Aparecimento é o ato de aparecer. antigamente se lapidava. visos. – Luxo é toda manifestação exagerada do desejo de conforto. de um panorama. – Alardo (ou alarde) é ostentação mais estrondosa. Como hoje se lincha. – Semblante é o modo de ser da fisionomia humana: é. poder. e a ideia que nos resulta dela. correr a pedradas. – Majestade indica decoro. é o aspeto. mostra. exteriori- dade. os modos. Tanto se faz ostentação de riqueza ou de força muscular. pelo que é às vezes enganosa. ou do desejo de agradar ou de fazer figura. 321 APARECIMENTO. e do próprio ato de aparecer. O esplendor da natureza. – Visos quer dizer – aparência não clara. ar (ares). quase sumptuosidade. os gestos. considerado esse ato como coisa inesperada.. da corte. e lapidar é matar a pedradas. deste modo: apedrejar é simplesmente jogar pedras a alguém ou a alguma coisa. o que quer que seja de acento espiritual que distingue uma fronte humana. diz Lacerda. aqui. – Esplendor. e o objeto aparecido como extraordinário. neste caso) da febre amarela. porte ou conduta que ela mostra exteriormente. o esplendor da mocidade. 322 APARÊNCIA. nos modos. – “a aparência é o efeito que produz a vista de uma coisa. – Segundo Roq. Dizemos: o aparecimento do cadáver que se andava procurando. aparição. mas não se diz: o aparecimento. lapidar. mas. semblante. Grandeza refere-se “à parte material das coisas. do espírito. impróprio seria. que à primeira vista parecem sinônimos perfeitos. dignidade. dando ideia da ufania de quem alardeia. Exterior é o que cada corpo mostra pela parte de fora: aplicado às pessoas. isto é. por assim dizer. lustre. Luxo no trajar. aspeto. no entanto. “é manifestação de uma coisa presente. de beleza. de erudição. a aparição do cometa de Halley”. senão a aparição do anjo Gabriel. etc. Quando se diz que alguém foi apedrejado. ostentação (de grandeza e poder). dizer: “. com ‘certa’ sumptuosidade”.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 197 pedras. ou com alguma parte dele. e por isso está o pé apertado. cumeada). estreita dir-se-á da que é pouco larga ou pouco ampla. pois exclui todas as outras coisas do número daquelas que se salva ou a que se refere o enunciado. 324 APELAÇÃO. cimo. agravo. dizer-se: . 326 APÊNDICE.. Falta-me apenas o quinto volume para completar a obra. culminância. – Exclusivamente exprime exceção mais completa ainda. e que. O apêndice liga-se intimamente com o texto. – “são partes que se acrescentam a uma obra para completá-la. gradação. de agir contra uma decisão ou um julgamento que se considera injusto. portanto. sumidade. Esta rua é estreita. – “Tanto o Bruns. são diferentes dela no fundo.” – Apelação é “o recurso interposto da primeira instância para a segunda. dizer: o mais alto cume da cordilheira ou da montanha. pináculo. Falou exclusivamente do ponto que se controvertia (isto é. exclusivamente. apêndice como o suplemento” – escreve pino. pois cume significa toda a porção superior das grandes elevações. ou restringir-lhe o alcance. os dois primeiros termos deste grupo. o direito de reclamar. 327 APERTADO. – Apenas. como a faculdade. 328 ÁPICE. alto. Quando dizemos que Estevão foi lapidado em Jerusalém. ou contrário à lei”. que frequentemente se ouve: calçado ou vestido apertado para indicar que o pé ou o corpo não se encontram neles à vontade. O suplemento completa o texto com artigos que lhe faltam. não é rico: tem só (ou somente) quinhentas libras de rendimento. afirmamos que Estevão foi morto a pedradas. e diz que esta expressão é imprópria. tope.. falou só desse ponto sem desviar-se para nenhum outro ponto). – Definindo. no entanto. A um código junta-se o apêndice que encerra as alterações que se fizeram a alguns dos seus artigos. suplemento. apogeu. Podemos. melhor do que somente.” Parece. – Recurso é termo genérico exprimindo “não só o ato de recorrer. cume (cumeeira. só (ou somente). Não admite. ou só. no seu vocabulário jurídico. dar maior extensão à matéria. diz Teixeira de Freitas: – “Agravo é um dos recursos frequentes da nossa ordem judiciária. só (ou somente) enuncia quantidade sem relação determinada: F. e apertada da que. píncaro. – Segundo Bruns. e por ser estreito o vestido. por isso. o calçado é estreito. – Ápice é a parte mais elevada de um corpo. sendo demasiado estreita. por isso. caracteres diferentes.. a que fica superior a todas as outras. está como cingida de um e outro lado. 325 APENAS. que o agravo é o recurso de que se vale a parte perante a própria autoridade que deu a decisão. Falando de superfícies. se bem sejam da mesma natureza da obra. fastígio. e que a apelação é recurso para juízo de instância superior à do juiz contra cuja sentença se recorre. – Com toda razão observa Bruns. que contém os vocábulos que no dicionário não estão incluídos”. e está apertada entre altas paredes. no entanto. quando as decisões são apeláveis. sugere ideia de insuficiência ou insignificância para determinado fim: Não o compro porque tenho apenas cinco mil-réis. para explanar a doutrina. têm. recurso. estreito. auge. ninguém diria com propriedade: – “ápice mais alto de um edifício ou de um monte”. expor novas aplicações. anda o corpo apertado. não devendo. A um dicionário junta-se o suplemento. zênite.

cujo autor não é conhecido. – “é palavra latina (suppositus) e significa o que se põe falsamente em lugar do verdadeiro. – Alto é igualmente qualquer das porções elevadas de um corpo.198 Rocha Pombo o cume da ladeira ou da lomba. – Zênite é termo técnico de astronomia. de volume e de extensão. e é aplicável no sentido translato. da colina. – Cimo (do latim cyma) é propriamente a parte que de um corpo se destaca ou se faz saliente. tope. cume. da escada. A cumiada dos Pireneus.. cumeada. “Ele estava no auge da raiva. Culminância sugere ideia de imensa altura do pináculo. alto da porta.” “A linha desdobra-se pelo fastígio da cordilheira”. Em qualquer destes casos preferiríamos empregar cimo. é a parte mais elevada.”. é também a série dos cumes de uma serra ou cordilheira”. mas esta palavra é de aplicação mais restrita. – Cumieira (ou cumeeira) é “a parte mais alta. fabuloso. como: alto da árvore. correlativo de nadir: em linguagem comum designa também “a culminância a que alguma pessoa atinge na esfera em que exerce o seu esforço. Tanto podemos dizer: o cimo do monte. – Suposto – diz Roq. pela analogia da posição desse ponto com a do sol quando se acha no zênite. ou do muro. suposto. alto do palácio. a cumeada dos Andes. de algum corpo em geral. dá-se este nome a todo livro duvidoso. o cimo da planta. Não seria próprio dizer: – o cume da ladeira. etc. o ponto acima do qual não é possível ir. “Ficamos até em pasmo. Pode comparar-se a culminância. O mesmo se poderia dizer de píncaro se este designasse.” – Tope (ou topo) é a parte superior de qualquer coisa. – Cume (do latim culmen) é a parte que se eleva também acima das outras. – Apócrifo é palavra grega (apókruphos) que significa coisa secreta. de autor incerto. “No auge da fortuna. em vez de todos os pontos elevados. não conhecida antes. ou de grandes construções. a contemplar o fastígio maravilhoso do templo. o mais alto de todos. Entre cume e cimo deve admitir-se. Ainda que a au- . a sumidade e a outros do grupo. ou da escada. tratando-se de uma montanha. sem dar ideia necessária de grandeza ou de altura extraordinária. portanto. como exprime culminância. – Cumiada (ou cumeada) é também “a parte mais alta. fictício. alto da testa.” – Auge só se aplica a fenômenos morais. Mas pináculo envolve ideia de terminação da coisa elevada em ponta aguda. o cimo do chapéu. também por analogia (com o fenômeno astronômico a que se dá esse nome). Sumidade acrescenta à noção de cimo. é “o auge supremo.. alto.” – Apogeu. sem mais ideia alguma acessória. quase sempre melhor aplicada quando se trata de um edifício”. – Pináculo é mais expressivo do que pino. ou da fama.” 329 APÓCRIFO. e indica “o alto grau de intensidade a que é capaz de chegar um sentimento ou a que um fato pode atingir”. ou da ladeira. nem – o cume do telhado. Em linguagem eclesiástica. e que a Igreja Católica não incluiu no cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas. Tanto dizemos: o tope do monte. pretenso. “Ele ascendeu então ao fastígio da glória. uma certa diferença. o cimo da escarpa. só devemos empregar cume tratando de montanhas. como o cimo do edifício.. Rigorosamente falando. a ideia de grandeza. e de pouca ou nenhuma fé. falso. por analogia com a significação desta palavra como termo de arquitetura. como: o tope do mastro. Tanto é de lídima propriedade dizer: alto do monte. nem mesmo – o cume da torre. mais à vista e mais brilhante de algum edifício. – Pino é um correlativo de base: designa o ponto culminante de alguma coisa. ou da colina.. alto das ruínas. – Fastígio. particularmente se diz do livro ou da obra que falsamente se atribui a quem não é seu autor.

apologias em defesa da religião mem de comum estes verbos a ideia de cessar alguém de exercer as funções do seu cargo. ele conter doutrina boa e verdadeira. dos livros apócrifos. mas que se tornam estranhas pela enormidade. porque essas correm nos tribunais. – Pretensa é a coisa que se quer fazer passar por ser a verdadeira. não permite a Igreja que se tirem argumentos para provar as verdades teológicas”. – Falso é propriamente o contrário à verdade ou como tal admitido. de modo a que fique livre de penúria o aposentado. e perturbadores da ordem pública. mas as acusações vagas. prestando serviços durante um certo prazo. – Expri- panegírico. etc. Fabuloso nem sempre exclui a ideia de verdadeiro. – Elogio é “o discurso. como se estivessem nas respetivas funções. e contra elas advogam os letrados perante os juízes. Conhecemos orações fúnebres que são verdadeiros panegíricos. pode. cristã. reformar. É mais ato ou dever de ofício. e assegurando-lhe o soldo da patente. Fazem-se as apologias para desvanecer as acusações com que se agravam as classes mencionadas. os lentes. na tribuna do júri. sistemático. como se dá em relação a fictício. pois por erro tem-se atribuído a autores clássicos obras que não escreveram. – O panegírico é um elogio mais incondicional. justificação. empregaria certamente de preferência – fictícia. Um advogado. – Fabuloso distingue-se de fictício em sugerir ideia de prodígio. para rechaçar as falsidades com que os pagãos procuravam fazê-los odiosos como inimigos dos deuses e de todas as potestades. – Aposentar diz propriamente – “dispensar do serviço. A justificação consiste só nas provas que se deduzem do exame das testemunhas. como um prêmio. concedendo-se-lhes. um partido. Deste modo perseguidos e caluniados os primeiros Cristãos. 331 APOSENTAR. uma opinião. – Reformar é dispensar do serviço o militar que se fez inválido.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 199 toridade do livro suposto se repute suspeita. – Jubilam-se os professores. suposta ou falsa. do que de esforço puramente moral: e nisto distinguese de apologia. quer tirar proveito é fabulosa”. Decerto que ninguém diria: “a promessa de que F. ou do exercício do cargo. Este é o verdadeiro caso da apologia. direito a todos os honorários do cargo. a suposto. contudo. e é qualquer discurso ou escrito no qual se defende um sistema. faz a defesa de um réu (não a apologia). uma nação ou pessoa. e serve para manifestar a inocência do acusado”. foi-lhes forçoso apresentar aos imperadores. dos documentos autênticos. jubilar. da pessoa de quem se trata. (Roq. e sempre com intuito de só fazer que ressaltem as altas virtudes. 330 APOLOGIA. “segundo o valor da palavra grega.) – Defesa é todo esforço feito para demonstrar a não culpabilidade de algum acusado. isto é – fabulosas). porém. – Fictícia é a coisa criada pela imaginação e que só nesta existe. ou mesmo todos os vencimentos”. ao senado e aos magistrados. Nas associações científicas e literárias é uso fazer-se o elogio dos sócios falecidos (não panegírico). Aquele homem nos disse coisas fabulosas do que se passa no sertão (coisas que se têm ou podem ter como verdadeiras. conservando uma parte dos vencimentos. . não as acusações jurídicas. significa defensa. ou o escrito em que se demonstra ou procura demonstrar como a pessoa elogiada é digna dos louvores que se lhe fazem”. – Apologia. etc. espalhadas entre o público e que vão tomando corpo com grave dano das pessoas acusadas até que acabam em perseguição formal pela justiça. elogio. defesa. ou porque fez jus a tal vantagem. ou porque se ache ou seja julgado inválido para continuar a servir.

núncio. de uma escola literária. emissário. e não cessa de chamar a atenção de todos para ela. Aplica-se também a coisas e a fenômenos. Só se apropria de alguma coisa. missionário. a ignorância? Evangelizador. enviado. Aplica-se particularmente esta palavra para designar o sacerdote ou o clérigo que se incumbe de ir a terras de pagãos ensinar o Evangelho e instruir nas coisas cristãs. – Apossar-se alguém de alguma coisa – escreve Roq. em obediência a algum voto. – Conquistar é ganhar à força de armas um estado. apropriar-se. ou desempenha missão equivalente à daqueles discípulos. Se se deve admitir entre eles alguma distinção. como de felicidades. e conquistou parte dela. causas augustas. de chamar ao grêmio do Cristianismo. – Apóstolo (do grego apostolos. Não se evangelizam senão grandes verdades. Tanto se diz: propagandista da república. S. doutrinas de redenção. da desordem. depois usurpou o império. propagandista. ideias excelentes. usando de prepotência. e também arrogar-se uma autoridade. que lhe não cabe. de exprimir evangelizador a ideia de que aquele que evangeliza não faz menos do que proclamar alguma coisa de que ele próprio está ufano e espantado. O que se apossa chama a coisa a si. a perfídia. de encerrar a palavra missionário a ideia de que aquele que missiona toma uma tarefa como sacrifício. do socialismo. muito subtil. pregoeiro. usurpar. No mesmo caso está evangelizador. – Anunciador significa apenas “aquele que anuncia”. por exemplo: missionário da revolta. João Batista foi “o precursor de Jesus Cristo”. in- vadir. Quem seria capaz de dizer: evangelizar o erro. Por extensão. naturalmente fazendo-lhe a apologia. o direito de ser o dono dessa coisa. – é “simplesmente meter-se de posse dela. “enviado. 333 APÓSTOLO. Não seria próprio dizer. aquele que se arroga a propriedade. apóstolo e missionário têm. Por isso mesmo tem o vocábulo um valor peculiar. grita em favor da coisa apregoada. – Missionário é o que toma a si a propaganda de alguma causa sagrada. precursor. Tanto pode ser anunciador de desgraças. de um sistema filosófico. – Usurpar é tirar a outrem o que é seu. que resulta: de sugerir o vocábulo apóstolo o intento de fazer prosélitos.. etc. portanto. damos o nome de apóstolo àquele que exerce na terra funções. como se diz: propagandista do casamento.200 Rocha Pombo 332 APOSSAR-SE. não tardou a invadir a Europa quase toda. anunciador. – Precursor diz propriamente – “o que vai adiante de alguém anunciando-lhe a chegada”. As refregas precur- . etc. e não deve ser empregado senão em casos que recordem a grandeza moral dos antigos missionários. propagandista de pílulas. – Propagandista é termo comum e geral que designa “todo e qualquer indivíduo que se encarrega de inculcar ao maior número alguma coisa. Entre apossar-se e apropriar-se há uma diferença de ordem jurídica. uma cidade. – Invadir é acometer e entrar por força em alguma parte. lugar à parte no grupo. Napoleão apossou-se primeiramente do comando geral. evangelizador. retém-na em seu poder ou sob seu domínio. por ele enviados a pregar a boa-nova a todas as nações. porém. O pregoeiro faz mais que o simples anunciador: fala muito alto. etc. uma dignidade. tomá-la para si. é só esta. conquistar. fazer-se senhor dela. mensageiro de algum príncipe”) designa propriamente cada um dos doze discípulos de Jesus.. Nem sempre se apropria de alguma coisa aquele que dessa coisa se apossa. mas suas conquistas e invasões ficaram sem efeito quando os aliados o desapossaram de sua autoridade usurpada”. etc. mensageiro.

chamar a si de direito alguma coisa”. – Deter é “prender e conservar preso”. e mediante ordem ou mandado de autoridade pública”.. arrestar a alguém pela força do direito. deter. prender. a guarda fiscal apresa as mercadorias que os contrabandistas querem subtrair aos direitos. pelo valor de alguém”. Deificação é um ato pelo qual se supõe a divindade onde não está senão a criatura. palavras escreve Lacerda: “Apoteose era a cerimônia mediante a qual era alguém posto no número dos deuses. ou pelo direito da força”. A alta conta em que é preciso ter aquela propriedade. ou algum animal. gêneros embarcados. tanto nos merece”. Um gesto precursor de tormenta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 soras do arrasamento. Supõe-se que aquele que se apresenta o faz por algum dever com a pessoa perante a qual comparece. deificação – Sobre estas duas valor. o préstimo de alguém ou de alguma coisa”. O enviado (esta palavra. pelos talentos. pelo seu valimento. estima. aqui. – Estima é a “consideração em que se têm as qualidades de uma pessoa”. Prende-se a ave no viveiro.. e cujo sucesso se lhe confia. logo que estes morriam. – capturar. Aquele ar sereno precursor da saúde moral. – Apreender é “prender. seriam sinônimos perfeitos se mensageiro não encerrasse a ideia muito clara de que a mensagem não é própria de mensageiro. aparecer. Prende-se o monóculo na órbita ocular.... segurar. Apreço é a “consideração particular que se tem pelo mérito. à audiência. alguma coisa. . A pessoa ou coisa estimada pode mesmo não ter valor. ou quase religioso”.. é “o ato ou disposição de pôr em cálculo.. – Prender enuncia a ideia geral de “impedir alguém. culto religioso. rendendo a esta. em nome do qual ele vem. compareceu à sessão. apreender. ou atando-lhe as asas. – Consideração é a “atenção respeitosa que se tem por alguma pessoa que. apresentou-se pronto para o serviço (e não – compareceu). arrestar. – E comparecer ainda sugere melhor a ideia da obrigatoriedade do ato de apresentar-se. navios. – Diz Bruns. – Emissário e enviado só se poderiam diferençar pela nobreza do vocábulo emissário. etc. aqui. diz simplesmente – “posto a caminho”) não faz mais do que cumprir estrictamente a ordem que leva. ou alguma coisa de locomover-se. – Arrestar é termo jurídico e significa “apreender. Prende-se o celerado em flagrante de homicídio. apanhar.. 336 APRESAR. F. em consideração das suas preeminentes virtudes. Não teve o rei em conta o meu serviço. ou em geral. Dizemos: F. ou de mover-se livremente”. A polícia captura os criminosos. que “capturar é prender. 334 APOTEOSE. e captura os contrabandistas”. o – Apresentar-se é “fazer-se presente em alguma parte ou perante alguém”. aqui. Esta ideia não se encerra necessariamente em núncio. pelos seus atributos morais. pela sua posição. comparecer. embargando que siga ou que continue a estar onde estava. – Segurar é “prender e conservar em segurança”. consideração. Os romanos usavam assim a respeito dos imperadores.. mas o emissário supõe-se que leva incumbência mais alta. ou subtraídos aos direitos a que estão sujeitos. 337 APRESENTAR-SE. conta. Ambos significam – “o que é mandado”. ou ter valor só para nós. de admitir a cômputo. 335 APREÇO. e que “apresar é tomar como presa. (e não apresentou-se). – Núncio e mensageiro. Prende-se o cão à corrente. mas daquele que a enviou. – Conta.

não aptidão. mangueira. para o trabalho. – Segundo Bruns. há. etc. A propensão. Além disso. – Curral é “um cercado. dizer no sentido figurado – o aprisco da Igreja. seguimo-la. “estes dois verbos empregam-se geralmente sem outra distinção que não seja a da exigência da eufonia. talento. inspira o desejo que solicita a aquisição de um objeto. diferem.). ou da casa paterna (e não redil. Usa-se. aqui. só pode manifestar-se na prática.). – Os dois primeiros são termos literários. que F. etc. – Talento. capacidade. Apareceu a peste em Bombaim. ou contrariamo-la: e eis o motivo por que se toma esta palavra como sinônima de amor ou afeição. A inclinação. enquanto que aptidão não se emprega bem senão falando de estudos sérios. – Capacidade é o conjunto de qualidades e conhecimentos necessários para levar a bem-determinada ordem de coisas. para a tarefa. 339 APROFUNDAR. As disposições carecem de ser cultivadas. a esgrima. disposição. aplicação de inteligência. redil. ou uma disposição favorável. jeito. feito de tela de arame. Profundar é cavar muito fundo. de madeira ou de muro. vocação. entre eles uma diferença muito notável.. presume exercício e prática. uma disposição natural do espírito para alguma arte ou mister”.202 Rocha Pombo – Aparecer dá ideia geral do fato de “se deixar ver” alguém ou alguma coisa. mais ou menos grande ou violenta. pode-se empregar essa palavra falando de estudos ligeiros ou recreativos. e assim diremos que certa pessoa tem. por isso. mais ou menos agradável ou lisonjeira. que significa “um vasto curral de bois”. desenvolve-se. inclinação. porém. tem aptidão para o negócio. ou de cabras. habilidade. Esta capacidade refere-se mais ao que requer estudo. entregamonos a ela sem reservas. da felicidade. 338 APRISCO. exercita-se por si mesma. e a inclinação uma espécie de gosto. mas disposição para a dança e para a ginástica.” – Vocação. onde se recolhe o rebanho”. Aparece um grande sinal no céu. propen- são. – Mangueira é brasileirismo comum. na cultura. de ter certa vocação para ela. curral. gosto. denota um poderoso atrativo.. – Aprisco dá ideia do abrigo em que ficam as ovelhas. como aptidão. a capacidade. – Aptidão (Bensabat) “é a capacidade natural para fazer uma certa coisa. a aptidão opera. como o talento. proteção. segurança. como curral de bois. Tanto se diz – curral de porcos. as duas palavras quanto à sua aplicação: talento dizendo-se particularmente com relação aos estudos pu- . A propensão. que encerra aprisco). Ter talento para a pintura é mais do que ter aptidão para a pintura. a ginástica. como a dança. aliás. – Disposição também se diz da faculdade de ser próprio para uma dada coisa. pois este não sugere a mesma ideia de amparo. – Redil é “um curral para rebanho miúdo. pois a aptidão pode ficar inativa. e não a combatemos senão com grande pesar e com poderosos recursos. além de designar dom natural (diz Bruns. como disposição diz menos que aptidão. profundar. podendo ser ou não coberto”. Aprofundar é tornar ainda mais fundo o que se profundou. ou de um vivo prazer. (Dizemos. diz um hábil sinonimista. porém. e o talento só se revela no exercício. fazer profundo. por isso aptidão não se aplica senão relativamente às artes liberais. No sentido figurado subsiste a mesma gradação”. significa “uma tendência própria. às letras ou às ciências. arrebata a alma seduzida pela promessa do repouso. mas essa faculdade é menor que aptidão. 340 APTIDÃO. e por isso pode dizer-se que o talento é a aptidão no terreno da prática. idoneidade.

etc. “conduzo”) designa. cia. aqui estou. astúcia designa só o que sugere fatos característicos dos outros vocábulos do grupo. e agó. e também não é comum dizer-se – um banqueiro. não obstante. vocábulo formado do grego stratos. – Estratagema (do francês stratagème. e capacidade relativamente às coisas práticas da vida.: Ardil. e sem referência alguma a outro lugar. Quando cá se contrapõe a lá indica a terra ou o lugar em que estamos comparando com outro de que já falamos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 203 ramente científicos. ou um general que carece de talento. a discreta perícia com que nos sentimos para alguma coisa”. jantou aqui ontem. – Jeito é muito próximo de disposição: é “o desembaraço. à força de boa vontade e de estudo. só e absolutamente. “exército”. ou pelo menos a facilidade. ou ‘neste lugar’ onde se acha a pessoa que fala. cilada. – Habilidade é vocábulo mais significativo que capacidade e idoneidade. emboscada. mas sim. v. – Dos cinco primeiros do grupo.: Aqui vivo. Cá tem maior extensão. e a que nos referimos como se vê no ditado vulgar – Cá e lá más fadas há”. negócios. e procede com disfarce”. não só fato. senão que sugere a ideia de que por várias vezes já se praticaram tais coisas. – O ardil é o meio que se emprega para obter o fim desejado. preferência. um tenente tem bastante capacidade para comandar a companhia. A habilidade não só revela a ideia de se possuir o conjunto de qualidades e de conhecimentos necessários para levar a bom resultado uma determinada ordem de coisas. astú- vérbios“ valem o mesmo que ‘este lugar’. os ardis de guerra . mas também o que o sugere. janto aqui – supõe. a expediência. ou – passou ontem aqui a noite – é como se dissesse – jantou. adquiriu nela bastante idoneidade. pois além de designar o lugar onde se está. 341 AQUI. sem excluir determinadamente outro lugar. arteirice. estratagema. etc. diz Bruns. Um recruta pode ter aptidão para aprender o exercício. mas nem todos os chefes de corpo têm a idoneidade precisa para comandar uma divisão. passou a noite ‘nesta casa’. g. ou relação alguma respetivamente a outro. F. e sempre com bom resultado”.. e conseguintemente este vocábulo encerra a ideia de faculdades adquiridas. senão quando já não possa opor-lhes obstáculo. Pedro parece ter jeito para as letras. Convém ter presente que tanto a capacidade como o talento não podem existir onde não há aptidão. o lugar onde vivo e onde janto. – Idoneidade. palavra não muito usada. empresas. cá. No estilo familiar entende-se – aqui por ‘nesta casa’. esta noite durmo cá – exclui determinadamente o lugar onde costumo jantar ou dormir. Vivo aqui. a habilidade. arteirice. 342 ARDIL. que estes dois ad- A diferença entre os dois consiste em que aqui designa o lugar de um modo absoluto. José de Lacerda – “oculta os meios de que se serve. pois quando alguém diz – F. logro. direção de assuntos. a idoneidade adquire-se pela prática. estratagema e logro designam fatos. não tinha nenhuma aptidão para a magistratura. e sem sugerir a menor ideia de dúvida. acrescenta por si só a exclusão de outro lugar determinado (lá) que direta ou indiretamente se contrapõe àquele em que nos achamos. se o capitão vier a faltar. ou um escultor de capacidade. “O ardiloso” – diz d. Assim é que ninguém dirá – um poeta. mas sim. armadilha. mas creio que nunca terá gosto para a cultura antiga. – Gosto é mais do que jeito: designa este “como senso íntimo que nos faz preferir uma coisa a outra”. no sentido reto. literários ou artísticos. obrando de modo que o lesado não conheça as intenções. de capacidade. de talento. é independente da ideia de aptidão. – Escreve Roq. Mas – janto hoje cá.

Noutra acepção. O que é difícil necessita pulso. designa a arte ou manha de quem tem inventiva para fraudes. – Note-se também que difícil e dificultoso ponderam a dificuldade. resolução. ímprobo. é “a parte exterior do corpo”. mas não incluem a ideia de impossibilidade. até pela sua formação. – Doloroso = “que se faz com esforço que mais punge e amarga que fatiga”. perseverança. e quase sempre mais à alma que ao nosso valor físico. Mas esta palavra. fatigante. e obter dela o que queremos. A emboscada sugere a ideia de que o autor se esconde ou se disfarça para o assalto. com perseverança. enquanto que árduo pode frequentemente encerrar essa ideia: árdua empresa é a de pretender corrigir defeitos morais”. fatigante”. – Espinhoso = “que é de difícil execução porque exige grande habilidade e fortuna”. como fato. doloroso. malícia e ruindade. – Intrincado é o que parece difícil. obstáculos. A arteirice maquina. – Armadilha é “a cilada que se arranja contra alguém para que se deixe cair como no laço a veação”. – Cilada e emboscada designam “a surpresa que se prepara contra alguém para vencê-lo à traição”. “A raposa tem astúcia. difícil. conforme a definição dos lexicógrafos em geral. mas diferençando-se desta em que o arteiro planeia com arte. aproveitando os descuidos e as ocasiões. trabalhoso. Fatigante é aquilo que só se faz com muita fadiga. pormenores. – Astúcia é um dom natural. – Difícil diz-se do grosso do trabalho ou da empresa. Extensivamente. sem mais noção alguma acessória. intrincado. pois este sugere ideia do grande esforço que exige a coisa trabalhosa. – “O que é árduo (escreve Bruns. com habilidade. mas há de ser muito penosa. quase idêntico à arteirice.). – Logro é o ardil caviloso. 344 ÁREA. dificultoso. O estratagema difere do ardil em contar este com a impossibilidade de defesa. sem que ela no-lo possa negar. 343 ÁRDUO. não se desempenha senão à custa de esforço doloroso”. dificultoso convém às particularidades. – Fatigante não é o mesmo que trabalhoso. pareceria só aplicável à face su- . – Arteirice. ou para conseguir os seus fins empregando vias tortuosas mas habilmente combinadas. é muito difícil. da terra. é a realização de um engano habilmente preparado. penoso. ou que é cheio de trabalhos. coragem. talento. é dificultoso reunir uma coleção completa de selos. procurando-se enganar a vítima. custoso. missão dolorosa. espinhoso. Tarefa. Tanto dizemos – superfície do mar. a cilada é feita com astúcia. misto de finura e de falta de escrúpulos. rude. – Superfície. da sua essência. tato. superfície. a astúcia obra simplesmente. É difícil resolver certos problemas. que leva o lesado a ser o próprio a oferecer o que pretendemos. o que é dificultoso supera-se com paciência. julgando que obra em seu proveito. e o astucioso. diz-se dos meios extraordinários que se combinam com arte e manha para surpreender de improviso a pessoa que visamos. Pode não ser mesmo difícil a missão. podendo dar ensejo a coisas desagradáveis a quem executa.204 Rocha Pombo para surpreender ou vencer o inimigo. – Penosa é “a tarefa que. força. como – superfície de um poliedro. mais porque está embaraçado e difícil de entender que pelo trabalho que poderia dar. – Ímprobo é “o trabalho excessivo. além de difícil ou mesmo árdua. e o estratagema em levar o lesado a não poder negar-nos o que pretendemos. – Trabalhoso é o que custa muito trabalho. – Custoso é “aquilo que se não faz com facilidade”. é árduo escrever para o teatro. quem pretende insinuar-se no espírito alheio necessita ter arteirice”. etc.

cansado. tanto zona estéril. A infecundidade diferença-se da esterilidade pelo seguinte: dá o primeiro uma ideia muito nítida de que a coisa infecunda não tem qualidades criadoras. sacrifício estéril). contra a qual não há ação corretiva possível. pelo menos.. Deve notar-se. – Infecundo é “o que não tem qualidades de natureza próprias para produzir amplamente”. em todo caso. ou onde só nascem plantas inúteis ou daninhas”. – Área é “superfície limitada de qualquer modo. ou porque seja seco. improdutivo por falta de cultura”. estéril.. improlífico. sequidade. quanto. para gerar. maninho. ser um acidente. A infecundidade daquela fazenda é devida à má administração. que a aridez é mais propriamente devida à natureza do terreno. ou não as exerce se as tem.. Os meus esforços não foram tão infrutuosos como eu receava (aqui não seria tão próprio usar infrutíferos).” etc. pelo menos. esterilidade. só se aplica aos animais. visos de perfeitamente lógica uma expressão como esta. A sequidade pode. “além de infecundo. sáfaro. para ter efeito. infecundidade. – Improdutivo também enuncia ideia geral de estéril. aridez. – Sáfaro é também “exausto (terreno). não produz com a abundância que se esperava. – Terreno árido é o que nada produz. no agente que a explora. para que produzisse. ou terreno estéril. e até ser um defeito remediável pela rega artificial. maninhez. “poder-se-ia confundir com infecundo se . e até homem estéril (e ainda esforço. seco. infrutuoso. infrutuosidade. cabra estéril. E tanto parece assim que ninguém se arriscaria a dizer – superfície do céu – por exemplo. pois esterilidade exprime a ideia geral de incapacidade para produzir. portanto. de incapacidade para produzir. infecundidade. Dizemos. infrutífero. A infrutuosidade de uma planta. É um pouco menos que ímprobo. etc. como a de uma tarefa ou um trabalho supõe-se que é devida mais. A maninhez supõe-se que é mais devida a abandono do que às qualidades da terra. improdutividade. – Improlífico = “incapaz de procriar”. inclinada.. – Maninho (do latim malignus) quer dizer. a ideia de aridez absoluta. – Terra ou terreno seco é aquele a que falta umidade suficiente para que se torne produtivo. mas sugere mais claro a ideia do esforço que se fez 25 E isso por mais que se nos objete neste caso que o super que figura no termo enuncia uma ideia de relação entre a face e o centro do corpo. como – superfície vertical. portanto. tanto na coisa explorada. nem árido. trabalho. que a improdutividade está. Dizemos – a esterilidade das regiões polares (não. ou à falta de custeio próprio (não – esterilidade). Tanto dizemos – superfície horizontal. – Infrutífero é propriamente “o que não produz os frutos que devia produzir”. infecundo. como planta estéril. ou a circunstâncias estranhas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 205 perior dos corpos. de um campo. Trabalhei quanto pude. 345 ÁRIDO. Área de um polígono.). Infrutuoso é “o que não é tão abundante em frutos como se esperava”. mas tudo que fiz foi completamente improdutivo (não sem dúvida – estéril.). No sentido translato. – Estéril é termo de mais extensividade do que árido. Supõe-se. tanto se diz do terreno. como do trabalho que não compensa o esforço feito. o uso autoriza o emprego deste vocábulo mesmo nos casos em que não se trata de face superior. improdutivo. Não tem. Não obstante. E por quê? Simplesmente porque a palavra superfície sugere que o corpo ao qual se aplica tem outra face que não é superior. ou porque lhe faltem outras qualidades de terra fecunda. ingrato. No sentido natural. ou à imperícia de quem trabalha ou de quem cuida da planta. de uma sala. além da noção que exprime. ou improdutivo por falta de cultura – bravio. – Ingrato. esterilidade sugere. e nada tendo com a posição em que se encontre a face. por exemplo: a superfície inferior da caixa25.

se limita a um espaço determinado de tempo. O armistício tem ordinariamente por fim recolher os feridos. suspensão de armas. esquadrilha. etc. esquadra. enquanto durou a guerra com os holandeses. porque só constava de três embarcações. suspensão de armas é locução vulgar.. pela sua comum falta de recursos. e D. “As tiranias sacrílegas não voltam: os monstros são improlíficos (e não – infecundos) para a história”. (Lus. Sancho I a tomar Silves. tais eram as que os fenícios e cartagineses enviavam à Espanha na infância da navegação. tais foram as que ajudaram D. III. nenhum destes nomes lhe é próprio. Obedeceste à força portuguesa. porque constava de treze navios”. planear a paz. As tréguas são geralmente motivadas pela nenhuma eficácia das operações entre os beligerantes. as comboiadas por nau ou naus de guerra. olor. nem ainda o de esquadra. combinada entre dois exércitos em campanha. geralmente a anos. como as que vinham todos os anos do Brasil para Portugal. hálito. mas o armistício é absolutamente a mesma coisa que a suspensão de armas – frase que designa a interrupção momentânea da luta. 86) 26 Lisboa. ou pelo desejo de se combinar a paz. ou entre duas nações que estão em guerra.) “é a reunião de navios mercantes dados à vela com o objeto de exportar e importar mercadorias de um para outro porto marítimo mais ou menos distante. – Armada é o conjunto total dos vasos de guerra de uma nação. 57) E ainda: Foi das valentes gentes ajudada. à que comandava Vasco da Gama. enterrar os mortos. Em todo caso. – No seu grupo 457. e ainda a circunstância de deixar entender que os exércitos beligerantes se recolhem a quartel”. e pela duração que é inerente ao sentido do vocábulo. em rigor. 348 AROMA (aromas). (Lus. João de Áustria. Pode-se dizer que as tréguas são um tratado de paz que. umas vezes chama frota. tal foi a de d. Camões. o que bem distingue armistício de tréguas é o fato de serem sempre estas de muito maior duração que aquele. cheiro (cheiros). ou de hostilizar o inimigo. outras. 347 ARMISTÍCIO. sim. “armistício é termo diplomático e técnico. como diz o nosso poeta: Tu26 a quem obedece o mar profundo. – Segundo Bruns. armada.206 Rocha Pombo não marcasse. mas talvez esquadra mui numerosa. ou em terra. diz Roq. 346 ARMADA. podia chamar-se armada. frota. A de Pedro Álvares Cabral. perfume. que passava. fragrância. a noção de incapacidade própria e talvez ingênita para a procriação”. – Esquadra é uma reunião de navios de guerra com o objeto de proteger o comércio. De armas fortes e gente apercebida A recobrar Judéa já perdida. senão o de esquadrilha. III. porém. e em tempos modernos. – Frota (escreve Roq. Da germânica armada. no mar. Toma-se às vezes por esquadra. dar tempo a discutir uma proposta. que venceu os turcos nas águas de Lepanto. tré- guas. melhor do que este.: “Fragrância per- . Afonso Henriques a tomar Lisboa. Ajudada também da forte armada Que das boreais partes foi mandada. ou frota armada. e não terem o objeto determinado que tem o armistício. em vez de ser definitivo. bem provida de armas. odor. – Tréguas distingue-se de armistício pela sua generalidade.

acompanhado do desejo veemente de emenda e reparação. – E no grupo 215: “Apesar de que o cheiro pode ser bom ou mau.” – Odor pode aproximar-se de fragrância e de cheiro. “O olor da rosa lhe é gratíssimo. extrai-se de um livro o que ele tem de substancial. bálsamos. ou sejam – resinas. não só por parte de quem arranca. que não sugere. Odor de floresta virgem. sacar. – Aroma é palavra grega. ou se arranca) um dente. e porque o devemos amar . remorso. “Arrebatou-lhe o livro sem que ela tivesse tempo de gritar sequer por socorro”. em seu sentido próprio27. sem restrição da qualidade do cheiro”. ideia. Extrai-se oiro da mina. porém de pouco tempo. extrai-se (como se tira.. ou perpetramos algum grave delito. – Indica a palavra remorso. um jasmim. e significa a dor profunda e sincera de ter ofendido a Deus por ser quem é. significando “suave emanação de algumas substâncias”. pelo menos nem sempre. contrição. como resistência do que é arrancado. que se aplica a – toda droga cheirosa. nem da coisa sacada. cheiros. Fragrância explica a ideia de um cheiro grato. do alcanfor. aroma. o perfume das plantas”. no plural. O aroma é próprio das drogas e das árvores que o produzem. lenhos (raízes). 350 ARREPENDIMENTO. encerra ideia de esforço. – Pesar é a recordação molesta e penosa causada pela falta que se cometeu. um cravo. – Contrição é palavra religiosa. do cravo. o uso autoriza o emprego desta palavra tratando-se de qualquer substância que dá perfume.. posto que em francês parfums corresponda a aromas. ou da parte de onde se arranca. O aroma supõe. compunção. – Sacar enuncia a mesma ação de arrancar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 207 tence exclusivamente às flores. além disto. de lenteiro. É aromática a árvore da canela. arrependimento “é o sentido pesar. e ao fumo ou vapor odorífero que elas despedem”.” – Olor é “o cheiro particular de cada flor. mas sem a ideia de resistência por parte da coisa ou pessoa de que se saca. se saca.” – Arrebatar acrescenta à noção de arrancar a ideia de violência e rapidez. 27 E. de jardim.. pesar. de pomares. o remordimento. – Segundo Lacerda. – Diz muito bem Bruns. ou odor acre de carniça. no entanto. no sentido translato. a angústia que nos atormenta a consciência quando delinquimos.. unguentos de grande fragrância. uma açucena. 349 ARRANCAR. em português aplica-se particularmente às matérias odoríferas. tirar. diz-se comumente das substâncias que produzem bom e agradável cheiro. a pena pungente de haver cometido erro ou culpa. e por meio da arte algumas vezes se faz durável. atrição. Melhor do que tirar. “Os hálitos que vêm da recendente alfombra. mesmo de força por parte de quem saca. um lírio. esta última. Daí se refere a impropriedade de frases como estas (que aliás se encontram até em autores de nota): “arrancou da espada”. tirar do lugar em que estava”. e também distingue-se de perfume por “sugerir sempre ideia da substância de que mana. óleos. da pimenta. Esta supõe um efeito passageiro em seu estado natural. como é a vida das flores. uma causa permanente de fragrância... – Perfumes. penitência. o verbo tirar. – Hálito só figuradamente é que entra neste grupo. que se exalam em fumo cheiroso. e aroma exprime ideia de mais larga duração”. Tem fragrância uma rosa. extrair.. mas arrancar indica força. de azinhavre. que arrancar e tirar exprimem um ato de força. agradável ou desagradável. “arrancara da casa a pobre criatura que nem mais se movia. – Extrair diz propriamente “tirar para fora. arrebatar.

mas que. embora mais estreito.” – Penitência é ao mesmo tempo “a compunção. O uso. algumas considerações a propósito da escassez de vocábulos de que. coisa feita com artifício – são expressões vulgares que exprimem que o objeto de que se trata está feito com primor. o designativo imediato pelo que exprime quanto às proporções da corrente de água é ribeira. O artifício é a arte manifestada no trabalho que analisamos. porém. regato. a não .208 Rocha Pombo de todo o coração sobre todas as coisas. ou as formas com que se designam as pequenas correntes de água. – Torrente é “volume de água que se despenha. Aqui. (e é mais por isso que também damos aqui este grupo): “Coisa feita com arte. Como é que há de o francês enunciar a noção de riacho. enquanto que são numerosos os diminutivos dessa palavra.. o arrependimento do contrito. torrente. os remorsos. artificial. que corre impetuosa e desordenada”. – So- bre arte e artifício escreve Bruns. Não nos parece. 352 ARTE. – Córrego é “regueiro mais rápido. que socorrer-nos da adjetivação quando é preciso marcar a grandeza dos rios. com o desejo de sofrer penas que lhe resgatem a culpa cometida”. no Distrito Federal. e que quase sempre seca no estio”. ribeirão. A contrição alcança-nos o perdão de Deus. que significa “abundante curso de água. riacho. – Atrição é quase o mesmo que contrição: é também termo de teologia. independentemente de qualquer manifestação. Tanto aplicamos o vocábulo rio ao Amazonas. – A compunção (define Bruns. – Faz Bruns. por menos que o latim rivus no-lo autorizasse.. Consolemo-nos da penúria. – Ribeirão é propriamente “ribeiro grande”. ribeira. e é raro encontrar ruisseau também sem atributivo. apertado entre margens altas”. e diz menos que ribeiro. ou a outro rio. no mesmo caso. e exprime a ideia de que o atrito se impressiona mais com o castigo do que com a dor da consciência. artístico. – Riacho é diminutivo de rio. – Depois de rio. – Regueiro (ou regueira) é propriamente o sulco por onde se escoa a água do rego. porém. regras e preceitos que a constituem – métodos. padecem do mesmo mal. que o francês seja no caso mais rico. ao Danúbio como ao Alfeu. navegável ou não”. ela subsiste pelo simples fato de haver métodos. – Regato é “o mais diminuto dos cursos de água perene”. Temos. perseguem o malvado impenitente até à sepultura”. regras e preceitos que o artista há de observar para produzir. artifício. profundo e vasto do que são de ordinário os rios. – Arroio será de menores proporções que riacho. córrego. não conseguiu fixar o valor próprio que o termo deve ter no português. regueiro. pode-se dizer talvez. se ressente a língua portuguesa. temos rios que nem são ribeirões. apenas menos amplo. senão do verdadeiro amor divino. rio.) “é uma contrição levada ao mais alto grau. Vejamos até que ponto há justeza nestes dois modos de exprimir-se. e por extensão é toda porção insignificante de água corrente. – Ribeiro é “pequena corrente de água que brota de nascente. 351 ARROIO. a reparação aquieta o arrependimento. mesmo porque todas as línguas conhecidas. o tempo diminui o pesar. portanto. ou regato sem dizer petit ruisseau? – Rio é a corrente de água mais ou menos considerável que vai ter ao mar. por exemplo. como ao Sca- mandro. pois é a dor profunda (e amargurada) de ter ofendido a Deus. para designação de rio. ribeiro. dor que não provém do receio do castigo. no entanto. pois frequentemente nessa língua se emprega fleuve e rivière. mas o que é inegável é que a arte existe por si própria.

o homem hábil. a escultura. os boticários. etc. mas não é um artista. téchne. os quais não se chamam artistas (pelo menos nem sempre. o artista. não impedem que a arte seja. o artifício é a habilidade com que a obra foi executada. que é um artífice. além disso. assim como a pintura.) 354 ARTE. dizer – que ela está feita com arte – é como um pleonasmo. ou banaysos téchne. O artifício é que não pode existir sem manifestação: não há artifício onde nada há que o revele. 353 ARTE. venha por síncope da grega areté.: “Arte diz-se de qualquer conjunto de regras que têm por fim guiar na prática. ermoglyphikós. a profissão. pois representam a variação feminina de grammatikós. que entre os gregos tinha mui lata significação. – A isso convém acrescentar: sob um ponto de vista mais elevado. ou de certa classe: tais são os médicos. a arquitetura. guiado por Bourg. a arte consiste no talento com que é feita uma obra. A gramática. – Profissão é aquele modo de vida que cada um exerce publicamente. os cirurgiões. Tanto que dizemos: – uma coisa foi feita com arte. tal é o de ferreiro. e Berg. concordando com o substantivo feminino subentendido téchne ‘arte’. O ofício requer um trabalho material. ofício. do latim ministerium. rhetorikós. a arquitetura. – como dizemos: – uma coisa foi feita sem arte.. de carpinteiro. sentimentos e ideias agradáveis. pois abrangia toda disciplina em que se davam regras e preceitos. que hoje temos como substantivos. mas não há arte: – querendo-se exprimir que o autor da obra empregou na execução dela alguma habilidade. dialektikós. logikós. zographikós. entre artificial e natural uma antonímia que se não nota entre natural e artístico. a profissão. a música. de que nós fizemos arte.. Dizemos também (e aqui se marca muito claramente a distinção que é preciso notar entre os dois vocábulos): – neste trabalho. palavra mais usada antigamente do que hoje (mester). profissão – “Posto que a palavra latina ars. pois se não houvesse a arte de a fazer ela não existiria”. etc. – Artes liberais chamavam os antigos as que ornavam o espírito. a arte. a poética. mas não se pode dizer que seja artística. são as que dependem do trabalho das mãos. etc. escreve Bruns.. a lógica. sem excluir nem exigir um trabalho material”. tais são todos os ofícios fabris. cuja execução depende principalmente do espírito do artista. etc. antigamente só exercidas por escravos. – Belas-artes são as que nos suscitam ao mesmo tempo sensações. que a obra é artificial. o homem de uma ordem. a dialética. a eloquência. um trabalho ou ocupação qualquer. Ciência diz-se de um conjunto de conhecimentos que dependem intrinsecamente de certos . e pode ser mecânica ou de outro gênero. e eram cultivadas por homens livres. Há.) nem são homens de ofício propriamente. a retórica. são adjetivos substantivados. o ofício faz o operário. de tal modo que todas estas palavras. ou nesta obra há algum artifício. – Artes mecânicas. Conseguintemente dizemos – que uma coisa está feita com artifício – para exprimir que nela há primor de execução. architektonikós. como a pintura.. etc. – Sobre estes dois vocábu- los. a que os gregos chamavam cheironaxia. mecânico ou de mãos. todavia ela equivale a esta outra. a estatuária. – Mister. um trabalho de engenho.. mas hoje se entendem principalmente aquelas em que predomina o espírito. ‘virtude’.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 209 serem empregados. a estatuária. poietikós. (Roq. o jornaleiro. eram artes. ciência. tais como a poesia. mister. os advogados. que se propõem imitar a natureza na sua maior perfeição. A arte faz o artífice. em oposição às que só exerciam os escravos. mas não revelou talento. é o mesmo que ofício mecânico ou fabril. a pintura.

oficial. e a ciência que instrui. Esses princípios podem guiar na prática. essa demonstração foi feita alhures. pois este o que pretende é demonstrar a verdade dos seus princípios. – Artífice é “o oficial mecânico que fez uma certa obra”.. mas essa utilidade nada importa para a ciência do geômetra. não como expressão da verdade. as superfícies. comumente. – Oficial e mestre também se confundem. A filologia. A arte do agrimensor não tem por missão demonstrar a evidência das regras que a formam. artista. – A geometria é a ciência que se ocupa de medir as linhas. pois. – Artista é “o que exerce uma arte liberal”. e isso é quanto basta para se dar por exato o resultado da aplicação das regras demonstradas. O proletário é. – Proletário sugere ideia da condição social a que se sente reduzido ainda o operário. aplicadas. sendo o conjunto de vários conhecimentos. “o que tem por ofício alguma arte mecânica”. mestre. – Operário e obreiro. proletariado dos titulares. Ela funda as suas regras em princípios evidentes. não inculcarlhes o valor prático. mesmo que possam guiar na prática. Tanto que dizemos já – proletariado intelectual. 356 ÁRTICO. qualquer que seja a forma que apresente. Mas a palavra mestre. – Ár- operário. trabalhador. Há entre os dois termos. – Entre operário e trabalhador nota-se uma certa diferença. Mas essas regras são consideradas apenas quanto à sua utilidade no trabalho de determinar a área do campo. obreiro. do conjunto de conhecimentos que formam um sistema. O operário entende-se que tem aptidões especiais para o trabalho de que se ocupa.. – Operário confunde-se hoje ordinariamente com proletário. uma distinção que se não deve esquecer. é ciência”. – Obreiro. é arte. como qualquer outro profissional que se julga oprimido e angustiado na vida. – Proletário é tanto o operário. formas portuguesas oriundas do mesmo original (do latim opera). os obreiros da civilização. o operário que reivindica. que demonstra. portanto. artífice. tendem principalmente a dotar a inteligência com a verdade. pode ter uma significação mais alta e mais extensiva. que grava no espírito de modo tal que a dúvida não pode subsistir ante a evidência das suas verdades.. setentrional. da grande causa (e não operários). boreal. porém. por exemplo: os obreiros da fé. proletário. o homem do trabalho que protesta e reclama. como um título ou tratamento. 355 ARTESÃO (ou artesano). norte. os volumes. A gramática. dá-se. tendo por fim subministrar umas tantas regras para a correta expressão do pensamento. – Artesão é tico é adjetivo menos extensivo que setentrional. Partindo. A agrimensura é a arte de medir os campos. atribuindo os seus males à má organização da sociedade. o trabalhador supõe-se que entende de todo e qualquer serviço para o qual não se exija um préstimo especial. do princípio de que é a arte que aplica. por exemplo. profissional. Dizemos. no entanto. encerra ela as regras necessárias para proceder-se à exata avaliação de qualquer terreno. enquanto que . conduzem a um resultado previsto: ciência. Mas ninguém se lembrou ainda de dizer – operariado intelectual. e efetivamente as regras da agrimensura fundam-se nos princípios da geometria. ou – operariado profissional. ao oficial que se tem por senhor do seu ofício. confundem-se aplicados aos que vivem de algum trabalho manual. resulta que entre estes dois vocábulos existe a seguinte sinonímia: Arte dir-se-á do conjunto de regras que. – Profissional é todo aquele que exerce uma profissão. pois só se diz do que está para além do círculo polar do norte.. conhecimentos que.210 Rocha Pombo princípios gerais.

artificioso. e dá. 357 ARTICULAR. proferir.. – Artefacto é qualquer produto de trabalho mecânico. fin- mos que significa “feito pela arte ou pela indústria do homem”. mas em regra com o intuito de iludir. Dizemos. Zona ártica (oposta à antártica). – Falso é “o que não é exato. ou o conjunto de meios que se emprega para alcançar um resultado. o que é inventado. falso. ou de marcenaria – também dizemos – artifícios de caça. dizer.. o processo... América setentrional (a que fica a norte da meridional). mas talvez com in- confundir estes dois vocábulos. – Pronunciar é “enunciar a palavra com clareza e precisão”.. – Artificial é “todo trabalho feito com arte”: opõe-se a natural. Disse-me ela que virá hoje à tarde. 359 ARTIFICIAL. Do mesmo modo que dizemos – artefactos de cerâmica. “território ficto” da respetiva nação (querendo significar que se consideram a embaixada e o navio de guerra como se fossem prolongamentos do território nacional). para fazer alguma coisa (e. aceito como tal”. Ele pronunciou aquela palavra com certa intencionalidade. – Não se poderiam gido. no entanto. Este. – Proferir é pronunciar em voz alta e com certa solenidade. por exemplo. tento de que passe por natural e verdadeiro”. factício. fingido. . 358 ARTIFICIAL. Aí mesmo. – Ficto. suposto. por mais clara que lhes seja a comunidade de estrutura. 360 ARTIFÍCIO. para conseguir um artefacto). – Artifício. ou devido a circunstâncias de momento”. proferiu na Câmara um belo discurso. – Dizer é “expressar por meio de palavras”. fictício. ficto. em que não tenha entrado algum artifício – e que não seja. F. pois só aplicamos o nome de artifícios a certa ordem de artefactos. artefacto. – F. Se ele me falar sobre isto. simulado. isto é. ou de pesca. ere). – Boreal se aplica a tudo que fica para o norte do equador. pronunciar. de enganar. é evidente a distinção que se nota entre os dois vocábulos. no entanto. “Vou desfazer os artifícios de que usou contra mim”. Mas artifício aproxima-se mais de artefacto quando se aplica também a coisas que se fizeram com certa arte. como artificioso. é o meio. – Norte emprega-se para designar. verdadeiro. artificial. – Artificial já vi- falar.” – Simulado exprime o mesmo que fingido. Chama-se a um navio de guerra. só se aplica tratando-se de coisas não propriamente materiais ou concretas. àqueles que sugerem a ideia de que foram feitos “para enganar”. pois. ao palácio de uma embaixada. conforme já se viu. portanto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 211 setentrional quer apenas dizer – “que está para o lado do norte”. – Fictício é “o que só existe na imaginação. – Ficto quer dizer “fingido.. – Factício significa também “feito ou criado pelo homem. – Fingido é “o que imita calculadamente a coisa verdadeira pela qual quer passar. A tudo que é artificial nem sempre caberá o epíteto artificioso. Hemisfério boreal (o que fica para cima do equador). – Articular é “dizer a palavra destacando-lhe bem as sílabas”. – Falar é “comunicar-se com alguém por meio de palavra viva”. legítimo. o hemisfério onde se conta a latitude. melhor ainda do que este. puro”. em vez de setentrional. articulou com receio algumas palavras. fictício e fingido são formas oriundas do mesmo original (fingo. Resta observar que artifício se emprega ainda no sentido translato: o que não se dá com o outro. porém. Latitude norte (ou setentrional). – Artificioso é também o que se fez com artifício. ideia do intento de “fazer acreditar que a coisa fingida é a coisa real”. nada se concebe.

ou melhor. morte. Só é crime. portanto. e abusando o matador da sua força. homicide. fazer cessar. no entanto... Neste exemplo: “Os bandidos foram cometendo. com injustiça e crueldade”. – Matar enuncia a ideia geral de “tirar a vida a um ser vivo”. Diremos. meurtre. degolar. voluntária ou involuntariamente. est un meurtre. O homicídio involuntário é uma desgraça e não um crime”. o meurtre. ou de que grosseiro artifício se valeu para obter aquilo. se nomme assassinat”. massacrar. – é uma prova o podermos dizer: “as brasas estão quase apagadas”.. ou das vantagens que tem sobre a vítima”. e não – “as áscuas estão quase apagadas”. – Assassino é o que. – Assassinar é “matar a homem que se não pode defender. ou abusando da sua força. não é assassinato.” – seria possível empregar. que F. praticou morte envenenando alguém? E não seria o caso de dizermos então que F. o “ato de matar”.. mata o seu semelhante. cometeu assassínio? Sob um ponto de vista filológico. – De que entre estas duas palavras não existe sinonímia perfeita – diz Bruns. com a mesma propriedade. mata- dor. commis avec préméditation ou guet-apens. morticínio. ou à traição. O homicídio. Entre assassínio e assassinato não fazem os léxicos distinção alguma. Nem será morte se o que o fez não usou de violência.. seria pleonasmo o dizer-se – “brasa viva”. expressão que é muito trivial. portanto. matança. assassinatos em vez de assassínios? Bourg. – Massacrar (do francês massacrer. . – Áscua implica. para exprimir “brilho ou fulgor”. no entanto. trucidar. à traição.” (Em nenhum destes casos caberia artefacto. Nem sempre. E. adaptado do alemão matsken “degolar”) é “matar em massa gente sem defesa” (Besch. isto é. assassínio. enquanto a terminação . assassínios em massa. homicida. dizem que “o homicídio é o fato de dar a morte a outrem. no seu artigo sobre assassinat. Num país onde fosse permitido assassinar. a ideia de ser completa a incandescência: ideia que não é inerente à palavra brasa. é o termo próprio para exprimir – trucidar. “ferro em brasa”: expressões que parecem autorizar-nos a empregar o termo brasa para exprimir calor. brasa. Conclui-se ao menos de tudo que assassínio designa o ato em si mesmo. Só figuradamente se emprega este verbo para significar – “exaurir. no sentido que esta palavra tem aqui. 362 ASSASSINAR..) 361 ÁSCUA. degolar equivale quase. Também se diz – “brilhar como uma áscua de oiro”. commis volontairement. e Berg.. tirar o vigor”. assassinato. a morte. isto é. cometido sem premeditação.” Parece que não poderemos traduzir este vocábulo francês meurtre só por morte. a ação de matar com premeditação e abuso de força. e matar com perfídia e violência. infração de lei. em direito seria preciso marcar talvez uma certa diferença entre os dois. por exemplo..io de assassínio marca simplesmente forma substantival. como vemos algures. matar. e áscua.ato em assassinato sugere a ideia de crime ou delito. Na guerra. a morte de criatura humana feita com a responsabilidade do que matou. Logo. seria preciso notar que a desinência . Dizem-nos agora os citados autores: “L’homicide. o homicídio voluntário. capitulado nos códigos.. – Degolar é “matar cortando o pescoço”. homicídio. pois se o fosse. será homicídio.). em toda aquela região desolada. e que assassinato designa o próprio crime. São os mesmos autores indicados que definem: “Le meurtre. decerto que é morte.212 Rocha Pombo “É fácil de ver de que rude. massacrar. – Trucidar é “matar com excessos de barbaridade. 363 ASSASSINO. cometido voluntariamente.

O assédio poderia consistir apenas em manobras a certa distância. são frequentes as que se fazem muitas vezes. ou de uma fortaleza. ou de grande número de animais”. mas assíduo (Bruns. “apertar o sítio”. no entanto. ideia necessária de cerco propriamente. ou mesmo por todos os lados. não dá o cerco ideia alguma da coisa cercada: pode ser uma grande cidade. cerco. Podemos dizer – matança de bois ou de ratos.). cercando-a por vários. e o sítio supõe-se que será longo. São assíduas as visitas que se repetem com insistência e com certa regularidade. Besch. ou mesmo uma casa. “F. porém. Não se entende a mesma coisa ao dizer: “Tenho o suficiente para a viagem” – revelando. O cerco pode ser de curta duração. 366 ASSÍDUO. – Bastante indica maior quantidade que suficiente. um posto militar. – Bloqueio (do alemão blockhaus “pequeno forte de madeira”. – A julgar no fundo o mesmo radical. morticínio de bois. mais vivo intento que o que é frequente. confundir os dois vocábulos. – Quando se diz: “Tenho o bastante para fazer esta viagem” – entende-se que não há necessidade de esquivar-se a gastos supérfluos. desde que se lhes encontra mais constante e mais repetido que o que é frequente. Bastaria notar que se diz: “fechar o sítio”. é assaz incrédulo para. seja homem. impedindo que nele entre ou dele saia embarcação alguma. e incapazes de defender-se”. sem sugerir. Além disso. com suficiente. nem “apertar o assédio”. e – matança de mulheres. esta maneira de se exprimir.) aplica-se mais propriamente a operações militares destinadas a trancar um porto. . sendo puramente adverbial. – Matança é “morte de muita gente. um bosque. no entanto. – O que é assíduo é só pela respetiva estrutura. porém. – Morte é o que praticou o matador. pois não só dá ideia da duração que podem ter as operações de guerra. e tendo muito de comum as duas preposições ad e ob. que não se tem dinheiro de sobra. sem mais ideia alguma acessória. 365 ASSÉDIO. – “Estes três vocábulos” – diz Bruns. portanto. um forte. e não – “fechar o assédio”. ou à vista mesmo de uma praça. Assédio (de ad + sedes.. – Sítio (de obsidium formado de obsideo = ob + sedeo) deveria ter o mesmo valor de assédio. pode frequentemente confundir-se com bastante. Este vocábulo. – Morticínio é “matança de criaturas humanas em grande número. ameaçando-a. E. sítio. – Sítio. não seria possível. ou de assideo = ad + sedeo) é a operação de acampar um exército hostilmente junto ou diante de uma cidade.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 213 o assassínio não figuraria nas leis penais: não seria propriamente assassinato. menos vezes. “Livro assaz despretensioso”. ou de inocentes. assédio e sítio não se diferençariam senão pela forma. uma aldeia. como ainda a ideia do aperto em que se põe a praça sitiada. 364 ASSAZ. Não devemos dizer. dir-se-á do livro que não tem pretensões. frequente. no propósito de rendê-la”. não é simplesmente assédio: é mais próximo de cerco. – É matador “aquele que mata. onde se tenha metido o inimigo.” diz claramente que o indivíduo do que se trata não é crédulo. bloqueio. pondo-a em perigo crescente. O que é assíduo indica mais empenho. seja irracional”. quando menos em grande número de casos. bastante é mais que suficiente. suficiente. Não se diz que um bom empregado é frequente. – “assim dispostos apresentam a sua gradação descendente”: assaz é mais que bastante. – Sítio sugere ideia da importância da praça sitiada. – Cerco é termo genérico e designa aqui a operação de “instalar forças militares em torno de uma praça. bastante..

– Subscre- ver é simplesmente “pôr o nome por baixo de algum escrito”. assento. e não só essa coisa. regra”. etc. um artigo de imprensa. consonância. con- ainda que não faça propriamente parte dela. a primeira de astér “astro”. – Rima é a “perfeita igualdade de som e de acento no fim de dois ou mais versos”. 370 ASTROLOGIA. menos precisa. como. O assunto é o ponto em si. do curso e movimento dos astros. ou julga sem fundamento científico. – Assinar designa o ato de “pôr a própria pessoa o seu nome por baixo de algum escrito. influxo dos astros. “a narração por escrito do que se passa em uma assembleia. por exemplo: fala e casa. mas diferentes consoantes”. Firma-se uma letra.. isto é. para isto. isto é – que terminam por palavras “cujas desinências têm da sílaba predominante para o fim as mesmas vogais. por exemplo. do aspeto. rima. 369 ASSUNTO. matéria. O astrólogo conta o que imagina. – Ata é soante. ou numa reunião em que se tomaram deliberações”. objeto. um contrato. ou em credo e enredo. só se chamam rimados os que a têm. Mesmo um outro pode subscrever por nós. feita das mesmas letras mas de sons ou acentos nem sempre iguais. e chamava-se comumente astrologia judiciária. 368 ASSONÂNCIA. assoante. auto. que consiste no estudo e conhecimento do céu e dos fenômenos celestes. – Assunto e objeto também se distinguem. e a segunda. de astér e nómos “lei. astronomia. o astrônomo funda-se em cálculos que não falham. aquilo de que nos ocupamos atualmente. para que se saiba que é ela quem escreve”. A matéria abrange todo o gênero a que pertence a coisa de que se trata. e logo “discurso”. ou igualdade de sons”. uma declaração. O uso. mas tudo quanto a ela é acessório. O assunto de história tratado por Arriaga é a revolução de 1820. – Auto é “o registro solene de cerimônia que se celebrou. – Assonância significa “semelhança de sons. – formadas. registro. – Consonância diz propriamente “sons que se correspondem. e por isso merece a estima dos sábios. e por isso mesmo mais vaga. porém. Subscreve-se uma lista. e designa a verdadeira ciência dos astros. Parecem significar ambas a ciência dos astros e das leis que lhes regem os movimentos. firmar. termo. medo e preto. diz-nos o que sabe.). – Firmar é “assinar documento para que se torne autêntico”. – Astronomia é termo mais moderno. para produzir efeitos jurídicos. subscrever. Dizem-se consoantes os versos de rima com pouca propriedade chamada literal. valendo-se o astrólogo. – Duas palavras gregas de origem – diz Roq. – Assunto é o ponto particular e determinado de que se trata no discurso ou no livro. 371 ATA. Assina-se uma carta. como. o objeto é o alcance que pode ter o assunto (Bruns. harmonia imperfeita”. em poética dizem-se assoantes os versos que em vez de rima têm apenas assonância. uma felicitação coletiva. A matéria de que o historiador se ocupa é a história. ou para que se tenha mais tarde testemunho autêntico da verdade .. de resolução coletiva que foi tornada. rimado. E como nem todos os versos carecem de rima. Entende-se por astrologia a suposta arte de predizer futuros acontecimentos. busca e acha aplauso entre o néscio vulgo. – Matéria é palavra de maior extensão que assunto. pôs entre elas uma notável diferença. posição. versos que terminassem em besta e lesta..214 Rocha Pombo 367 ASSINAR. senão de ritmo.

e no sentido restrito em que é tomado neste grupo. – Ateu (do grego a privativo. gentio (gentil). escrita e autenticada pelo respetivo escrivão e testemunhas”. ou a súmula de um sucesso. na acepção que tem aqui. heterodoxo. porque a procurou inutilmente.. descrente. na acepção em que aqui consideramos este vocábulo. ordena-se o registro de um fato. ou de um papel importante. porém. herege (herético). – Descrente é “o que não crê com firmeza. – Tumba. profano. tumba. incrédulo (incréu). e theos “deus”) é o homem que não crê na existência de Deus. 373 ATEU. como – “féretro humilde”. – Termo é convizinho de assento: é o “auto conciso de um ajuste. ou prova escrita de contrato do que propriamente – registro autêntico de resolução que se tomou”. idólatra. será verdadeira a inversa. designa a maca em que o cadáver é transportado até a beira da sepultura. Entre cético e incrédulo é preciso notar a seguinte distinção: o incrédulo não crê porque não cogita de saber a verdade. ou diligência. o cético. – Esquife diferença-se de tumba em não ter tampa. esquife. “féretro pobre”. em confiar”. amor.. e da qual é tirado para se enterrar. irreligioso. ímpio. reduz-se a auto uma deliberação. de uma sessão do Congresso. em regra. pois descrido significa – “que não crê decisivamente. con- . cético. e que se rebela contra Deus. designa “o que não crê nas verdades que a religião ensina ou que a Igreja manda crer”. que detesta Deus e a humanidade. no entanto. mas ainda é certo que se não aplica geralmente a caixão pobre e desguarnecido. O incrédulo zomba da religião.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 215 sobre o que se fez ou resolveu”. des- crido. que duvida ou vacila em crer. O primeiro. que não sente pelo semelhante senão ódio e desprezo. por extensão. que se desiludiu de crer”. – Infiel é palavra de significação muito restrita. – Descrido enuncia de modo mais completo a noção de descrente: é como se se dissesse – um descrente definitivo. e por isso despreza o culto público e o objeto desse mesmo culto”. – Féretro é termo genérico que pode substituir qualquer dos outros deste grupo. O cético argumenta contra as grandes verdades da religião. – Segundo Bruns. sacrílego. não só é termo mais escolhido. é antiquado: equivale a auto. pagão. – Incréu é forma contrata de incrédulo. – Incrédulo é vocábulo de significação mais extensa: designa “o que não crê facilmente”. veneração. O ímpio. e quase sempre é um leviano e fútil. desde que impiedade encerra a ideia de ufania contra Deus e os homens. – Irreligioso diz apenas “que não tem religião alguma”. toma-se por termo uma confissão ou um testamento”. caixão. que afeta uma falsa independência moral. como esta.). 372 ATAÚDE. ou superioridade de espírito. (Aul. faz-se assento de um acordo ou de um compromisso. Mais restritamente – “é a narração circunstanciada de qualquer ato. féretro. para que fique lembrança dele” (Aul. infiel. ou de um clube. – Cético é o que não crê senão quando sente a verdade em plena evidência. leigo. – Registro é o “ato de se lançar em livro próprio a cópia ou o extrato de um documento. sem a solenidade deste. e muitas vezes mostra-se amargurado de não aceitá-las porque lhe parecem contrárias à razão humana. O ímpio é quase um celerado. – Ímpio é – diz Lacerda – “o que não tem piedade. é sacrílego: nem sempre. e. Significa mais – “contrato escrito. Tanto dizemos – “féretro sumptuoso”. contra tudo que merece grande respeito. judiciária ou administrativa.) – Assento. – Sacrílego é o que atenta contra coisa sagrada. – ataúde e caixão são sinônimos perfeitos. apenas.

que têm uma lei positiva e uma religião revelada que são obrigados a seguir. ou porque. e obedeceram à sua vocação. Observa Fleury que entre estes gentios incircuncisos alguns havia que adoravam o verdadeiro Deus. adoradores de um só Deus. Os adoradores de Júpiter. mas não eram pagãos. como se lê nos Atos dos Apóstolos. A palavra gentios não designa senão as pessoas que não creem na religião revelada. III. de uma religião. etc. aos infiéis. são. Os gentios foram chamados à fé. de uma doutrina – que não se submete à autoridade que a regula. como foi ordenado no ano 310. dos gentios. e com fanatismo. na visão do campo de Ourique Aos infiéis. são pagãos. continuaram a adorar os falsos deuses. depois de convertidas ao Cristianismo as vilas e cidades. de Xaca. Pretendem alguns sábios que os gentios foram assim chamados porque não têm outra lei mais que a natural e as que a si mesmos se impõem. fecerit testamentum. e aos quais se concedia a permissão de habitar a Terra Santa. – Gentio era “toda a gente que ficava fora da nossa grei”. porque não queriam militar debaixo das bandeiras de Cristo”. porque os imperadores cristãos obrigaram por seus editos aos adoradores de falsos deuses a retirar-se para as aldeias ou lugares de pouca conta.216 Rocha Pombo siderada neste grupo: é o qualificativo com que na Idade Média os Cristãos designavam os maometanos. ou um culto de falsos deuses. que se chamavam pagus. Seja como for. (Lus. os sectários de Mafoma. o nome de pagãos foi dado aos infiéis que. de Fo. se quando era ainda paisano. os pagãos são gentios. de Brama. como entre nós o é paisano a soldado ou militar. contanto que observassem a lei natural e se abstivessem de sangue. os pagãos persistiram em sua idolatria. gentes. A Igreja nascente não falava senão de gentios.: “Assim como os gregos e os romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não fossem eles próprios. propriamente falando. entre os latinos. onde exerciam sua religião. chamaram-se pagãos (pagani) os povos que ficaram infiéis. 15). Paulo foi o apóstolo das gentes. Sobre esta e a palavra pagão escreve Roq. paganus era oposto a miles. É termo que se pode aplicar a todos os que desconhecem a religião cristã e celebram cultos bárbaros. eram gentios. quod Christi vexillis non militarent = “daqui veio talvez chamarem os Cristãos pagãos aos gentios. e de outras falsas divindades. como crê Barônio. e a de pagãos distingue aqueles que observam cegamente. assim também os judeus chamavam goim. ou porque preferiram deixar o serviço a receber o batismo. Depois do estabelecimento do Cristianismo. 45) – Idólatra designa propriamente “o que adora ídolos”. etc. porque os infiéis se recusaram a alistar-se na milícia de Jesus Cristo. Ut portet nomen meum coram gentibus (IX. – Heterodoxo se diz do membro de uma igreja. como também foram bárbaros para os romanos todos os povos que se encontravam fora de Roma. si dum paganus erat. S. como lhes chamou d. ou infiéis. isto é. segundo observa Fleury. ou fosse.. “o soldado. e este mesmo nome deram depois aos Cristãos”. Confúcio e Sócrates. gentios. por oposição aos judeus e aos Cristãos. retirados das cidades. tivesse feito testamento”. Cita Ainsworth a favor desta opinião a passagem seguinte: Miles. por- que. como diz S. Jerônimo. nações. Senhor. – que tem opinião diferente dos demais sectários (heteros “outro” + doxa “opinião”). uma religião mitológica. que refutavam a pluralidade dos deuses. mas nem todos os gentios são pagãos. Afonso Henriques. E acrescenta: Hinc et fortasse christiani gentes dixere paganos. Pelo que. É antôni- . E não a mim que creio o que podeis. ou. ou gentios todos os povos que não eram da sua religião. ainda se conservou a idolatria nas aldeias (pagi).

Se. a propriedade. meditação. Não obstante. crime. porém. não de reflexão. – Meditação. esse ato chamase reflexão. – Leigo e profano distinguem apenas o que nada tem com a religião. e crimes leves. necessitamos refletir. aplicação. – Na primeira. – atentado tem duas acepções muito distintas. grande. – Cogitação enuncia “o ato ou a operação de pensar sobre alguma coisa”. chama-se aplicação. exprime-se que o ato criminoso foi planeado e começado a perpetrar. ponde- ração. – Atenção é o ato pelo qual o nosso espírito fixa o seu poder sobre algum objeto externo. instigados pelos Jesuítas. Como exemplo da primeira acepção. reflexão. e que consiste em que a reflexão deduz consequências. – Crime é o ato pelo qual a vida. transgressão. culpa. para os crentes. não meditar. seja por ser o ato praticado contra quem ou contra aquilo que é geralmente respeitado. – Segundo Bruns. contensão. em vez de num objeto externo. cuidado. A paixão do Redentor é um assunto de meditação. Na segunda acepção. pe- cado. infração. cogitação. – Vigilância é um cuidado contínuo. que não pertence ao clero. a diligência levados quase a um verdadeira inquietação por aquilo que nos interessa ou de que devemos dar contas”. ou que não diz respeito a crença nenhuma. seja porque revelem instintos depravados no criminoso. dedicação. intensa aplicação”. Muitas vezes comete-se delito sem infringir as leis . violação. Há crimes graves. desvelo. enquanto que a meditação se exerce sobre fatos cujas consequências se conhecem antecipadamente. uma atividade que está sempre alerta (vígil “que vela”). – Apercepção é a “capacidade própria da inteligência para conceber ideia das coisas reais”. – Desvelo é o “cuidado e vigilância contínua de quem se empenha com afinco em realizar alguma coisa. – Contensão significa “profundo esforço espiritual. – Cuidado é a “atenção zelosa. é “uma espécie de reflexão prolongada e persistente”. ou a atenção é demorada e persistente. – Herege (ou herético) é o que levou a heterodoxia ao extremo de discutir com certa paixão e sustentar graves erros em ponto de fé. uma atenção que se não deixa iludir. solicitude. as nossas faculdades se fixam sobre objetos internos. ou de efetuar negócio de grande importância. junta à noção de leigo a de ímpio e sacrílego. praticaram nas terras da Boa-Hora para assassinarem el-rei D. – Delito é uma infração à lei. apontaremos – o atentado que alguns nobres. de extremo cuidado e grave aplicação com que se estuda e trata de resolver alguma alta questão. que não cessa de agir enquanto não consegue o seu fim”. tentativa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 217 mo de ortodoxo. Como exemplos da segunda. delito. – Solicitude é a “atenção. indefectível com que se faz alguma coisa”. – Ponderação sugere ideia de atenção mais profunda. 374 ATENÇÃO. a honra. 375 ATENTADO. os direitos ou os interesses alheios são atacados ou aniquilados. quebrantamento. citaremos – o atentado contra Carnot. – os frequentes atentados dos governos contra as liberdades públicas. como bem define Bruns. José. – Profano. o cuidado. quebra. há entre os dois vocábulos uma diferença notável. indica-se com esta palavra um desses crimes que causam indignação. Se a reflexão. não se lhe pode atribuir a gravidade do crime. porém. não chegando. a consumar-se por circunstâncias independentes da vontade do autor. ou de executar alguma tarefa”. – Dedicação é quase solicitude e desvelo: é “a boa vontade e empenho com que se cuida de cumprir um dever. em muitos casos. apercepção. vigilância. falta. Antes de empreender um negócio importante..

– Infração é o ato de “infringir. – dizemos da direção que se dá aos membros. e o pecado venial – o que não importa em perda da graça. não de cada uma das suas partes. aquele que pela sua gravidade como que mata as almas. O crime quase sempre imprime baldão em quem o comete. – Culpa = “ato ou omissão menos grave do que crime”. etc. ou suplicante. – Pecado é infração da lei religiosa. A postura de uma pessoa é decente conforme os olhos que a veem. ou a prática de um crime ou de um delito que se começou. – Postura difere de atitude em revelar este o sentimento próprio. pressuroso. – Transgressão é propriamente “o ato de fazer alguma coisa passando por cima das leis”. evitar frases como estas: a postura da cabeça. de quebrar a lei. portanto.: frases nas quais posição ou gesto seriam o termo adequado. ou só da cabeça ou dos membros. solíci- to. nos revela as disposições. também. O celerado que lança uma bomba explosiva sobre uma multidão. ou indiferente. e frequentemente. os sentimentos. quebrantamento = “ato de infringir lei ou preceito”. e geralmente aplica-se este termo só a casos de pouca importância. afadigado. – Quebra. – Tentativa é propriamente um atentado. das leis morais. Particularmente aplicado a . Quem erra um golpe ou um tiro de bala contra uma pessoa comete uma tentativa de morte. 377 ATIVO. Tudo que exerce a ação que lhe é própria. postura. A autoridade que dá uma ordem absurda comete transgressão. e nisso difere também da atitude. 376 ATITUDE. mas quem comete violação tem sempre culpa. que pode ser facilmente perdoado. na pessoa. que opera os efeitos que lhe são naturais. que na atualidade a dominam”. neste grupo. afanoso. da lei. ou o preceito moral”. isto é. à cabeça. Dizemos – infração involuntária. solerte. mata ou tenta ferir ou matar o seu semelhante. do propósito com que a lei é infringida. Quem deseja mal ao próximo comete pecado. e que exprime um sentimento.218 Rocha Pombo morais. – Atividade é antônimo de inércia. desvelado. – Violação distingue-se dos dois precedentes em encerrar a ideia da força. É preciso não esquecer que atitude e postura se dizem do conjunto do corpo. Há o pecado mortal. aludir à apreciação alheia. quem fere. infringem-se as leis morais sem cometer delito. e aquele. cuidadoso. como comete infração das leis penais quem furta uma carteira. experto. gesto. passa esta a ser um atentado. mas que não chegou a consumar-se por alguma circunstância alheia à vontade do autor. é ativo. – Falta = “omissão menos grave do que culpa”. – Ati- tude. apressurado. parecendo que o segundo é muito mais forte. mais ou menos grave. Quem comete uma infração pode não ter culpa. Não é possível violar (de violo. ou se as circunstâncias da tentativa são excep- cionalmente notáveis. mesmo que não mate ninguém. Se a pessoa alvejada tem uma alta representação social. postura. ansioso. e por extensão. verbo latino oriundo de vis “força”) sem cometer violência. – Gesto é um movimento do corpo todo. diligente. não uma tentativa. comete um atentado. Um braço estendido horizontalmente não pode permanecer muito tempo nessa posição. o delito. ao busto. zeloso. moirejante. atitude benigna. a postura das mãos. uma paixão. é “o que. O gesto é rápido. posição. não. pois esta resulta da consciência com que a infração foi cometida. Devemos. – Posição – referindo-nos somente ao que desta palavra é relativo às pessoas. O negociante que não pagou os impostos devidos cometeu infração das leis fiscais. e nunca – violação involuntária. Assim dizemos – atitude serena ou ameaçadora.

que “ansioso não se diz de uma qualidade da pessoa.. afanoso. além de ser ativo.. “não consegue o que pretende”. – Violento é o que se exerce . esmerado. quase precipitado”. além de ativo. – Afadigado = “ansioso no trabalho. e que os seus esforços são regulados cuidadosamente pelo esmero com que procura dar conta da sua tarefa. forte. a sua força e virtude constituem a eficácia. e se a sua ação sobre ela é de natureza que afugenta a doença. mas de um estado anormal em que ela se encontra. a afligir-se por ver cumprida a sua tarefa. tem uma pronta e clara inteligência das coisas. mas um discurso eficaz previne-a e combate-a. perícia. diz Alv. e o caráter do que é ativo. A natureza poderosa dos meios. – Apressurado = “que tem pressa em fazer. Pas. eficaz. sagaz. – Afanoso = “ativo. esforçado na sua lida”.. convizinho desses dois: experto é o “homem que. – Solerte é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 219 faculdades do homem. e o caráter do que é eficaz. – Quanto aos dois primeiros. que é pronto nos misteres de que se ocupa. impaciente por acabar. – Diligente será o homem que. além de ativo e diligente. Um discurso ativo surpreende e não deixa tempo para a dúvida... com atividade as suas aptidões. como define Aul. perdendo-se ou dispersando-se inutilmente. ou com que obram as causas. astuto. enérgico. vivo interesse nos encargos que lhe são confiados. Observa com razão Bruns. cansado mais do que talvez exigiria a tarefa”. Nem sempre o homem ativo pode ser tido como diligente. mostra zelo. portanto. empenhado com grande esforço.: “A diligência. solícito. O mesmo não se deve entender quanto ao diligente. que exerce. Nem sempre a esperteza é uma virtude de que nos possamos desvanecer: antes pelo contrário.” – Desvelado é mais que cuidadoso: é “aquele que não descansa antes de haver cumprido a sua tarefa”. impaciente de cumprir o seu dever ou de executar algum serviço. ou “enquanto”. – Enérgico diz propriamente “que opera com grande atividade. convencendo e persuadindo”. ou quem se impacienta por ver que ela tarda a chegar”. ou trata bem da sua tarefa ou de um negócio que lhe compete. afadigado como um moiro”. em suma. – Zeloso é o que. – Ansioso é o que se não satisfaz com ser apenas solícito e desvelado. – Experto é tomado frequentemente a má parte. mas chega a inquietar-se. E neste sentido depreciativo aproxima-se mais de ladino. dizemos que é ativo aquele que se move na vida com desembaraço. Caixeiro solerte. “prudente com astúcia”. Na acepção figurada que lhe dá lugar neste grupo dir-se-ia. “mostra escrúpulo em cuidar da sua tarefa. em defender os interesses que lhe estão confiados”. pois este se supõe sempre que exerce a sua atividade com muito bom senso. Solerte diplomata. – Moirejante = “esforçado. porém. e a viveza com que se empregam os meios para obter um fim. que de ativo e diligente. se por sua virtude combate com segurança os efeitos do mal. violento. constituem a atividade. pois a atividade pode não ser ponderada e sair da justa medida.. – Solícito diz “cuidadoso e diligente. ou das causas. 378 ATIVO. é cuidadoso. que se exerce com muita força”. Está ansioso aquele que procura chegar ao termo de uma coisa. que é de vivo engenho e de fácil penetração”. segundo Lac. – Pressuroso = ativo. vigilante. que é expedito em adiantar os seus negócios. e obra com energia em toda a economia animal. – Cuidadoso se diz daquele “que desempenha com cuidado o seu cargo. Por isso o homem ativo nem sempre conseguirá fazer o que deseja. assíduo em dar conta de seu mister ou de algum encargo”. esse medicamento ativo é um remédio eficaz. Um medicamento ativo produz prontamente o seu efeito.

no entanto. modo de ser. e de modo áspero e sem atenção a conveniências que normalmente se guardariam. cômico. (Bruns. com força mais que normal”. artista. que opera com energia demasiada. 2. “A diferença” – diz ele – “deve ser a mesma que se nota entre presente e atual. – Sobre estes dois lidade. comediante. Predicado e atributo. essencial. provas. 381 ATRIBUTO. e – imputar é atribuir-lha aplicando-lhe logo o mérito ou o demérito da ação. cessa de o ser logo que se retira para entre bastidores. comediante. presente. e artista se intitula o meu sapateiro. se o é como representante das personagens que entram na comédia. próprio..220 Rocha Pombo com atividade anormal e brusca. hoje. repetindo Roquete: “Exprimem ambos a ação de referir a alguém uma coisa. constituindo uma das suas virtudes. é ator enquanto está no palco. incisivos. que em lógica são sinônimos perfeitos. não porque a língua o autorize. O que é ou está presente acha-se aqui mesmo. dando-o como autor dela. agora. – Qualidade é o que faz com que uma coisa seja tal como se diz. e deveria imputar-se isso aos maus governos. diferençam-se na linguagem vulgar: 1. em que – atribuir é dar alguém por autor de alguma coisa vagamente. se é considerado como pago para fazer rir o público. argumentos. contingente. direta ou indireta dele. atual. Remédio forte. propriedade. rápida. faça-o por profissão. A tolerância é um dos predicados do espírito livre. Atribuir toma-se indiferentemente em boa ou má parte. se age prontamente.” 380 ATRIBUIR. por simples asserção. um discurso violento ataca sempre alguém. imputar. Artista é um termo muito extensivo. lhe pertence tão indiscutivelmente que a pessoa ou coisa deixaria de ser o que é se lhe faltasse tal atributo. Dizemos que um remédio é enérgico se ele é mais do que ativo.. – So- um fato à pessoa que julgamos ser causa mais ou menos remota.º) em o atributo constituir estado. predicado. que facilitaram a conquista. diante de nós. Cômico ou comediante é aquele que tem a profissão de ser ator no teatro: cômico. e que é violento se abate o organismo e pode até pôr em risco o doente. – Forte = “que atua com muita força. acidental. – Propriedade é aquilo que. presentemente. Papel de boa qualidade.) 382 ATUALMENTE. alguma coisa. alguma instituição. imputa-se . e o predicado como exigido. a torna distinta e inconfundível. ou por mero passatempo. estando na essência da pessoa ou da coisa. em presença (prœ). A propriedade do ímã é atrair o ferro. Fortes razões.º) em considerar-se o atributo como existente. e o predicado. imputar toma-se quase sempre em mau sentido”. – Nota Laf. Atual significa verbos escreveu Lacerda. impetuosa. diferençam-se. ação. Um discurso enérgico é feito em termos fortes. qua- bre estes quatro vocábulos escreve Bruns. claros. pertencendo exclusivamente à pessoa ou coisa. As excelentes qualidades de uma pessoa”. que parece muito estreita a sinonímia que existe entre os dois primeiros advérbios deste grupo. – Atributo “se diz daquilo que. Atribui-se a ruína dos impérios aos conquistadores. A eternidade é um dos atributos de Deus. Atribui-se uma obra ao que se crê ser autor dela. – Predicado é o que se exige na pessoa ou coisa para ser tida como válida ou verdadeira. 379 ATOR.: “Quem representa no teatro uma personagem qualquer. mas porque o uso assim o tem estabelecido: Rafael foi artista.

383 ATUAR. espírito. Não se confundem. – mas à fase da vida em que nos achamos. dá com precisão admirável o nosso agora. operar (obrar). nem em ideia. o tempo em que se está vivendo. Emprega-se. agora está pobre. “Opõe-se o estado presente de uma pessoa a suas calamidades passadas” (Vauv.). em oposição a outra fase passada.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 221 ‘que está em ato (actu) e não em potência (potentiâ)’.). dizemos que influi. e não é difícil apanhar a natureza e extensão dessa relação em todos os do grupo. estes três verbos. e agora em vez de hoje.” É evidente que tanto numa como noutra língua esses advérbios estão postos – maintenant em lugar de aujourd’hui. ou em referência aos reis seus predecessores. atualmente é relativo. Mas disse d’Alembert com perfeita justeza: “Os acadêmicos. nem limitando o que afirmamos ao próprio dia atual – hoje. sob diversos aspetos – costumes. dizemos que atua. agir.. que é a forma vernácula do mesmo verbo latino operare). nesta ou a esta hora” associa a noção mais vaga de “nos ou os dias que correm. tanto atuais como futuros”.). possível ou futuro. como a época atual. ou da humanidade. “Nossa natureza está presentemente corrompida” (Mol. Ilustra o autor essas definições com profusão de exemplos extraídos de clássicos. Quem diz presentemente não faz decerto referência em oposição a fato que tivesse sucedido ontem. Seja como for. nem em expectativa. Quem diz hoje refere-se a fato em oposição a fato ocorrido ontem. de um povo. marca relação com outro tempo. dizemos que opera (ou obra. modas. nem por vir em geral”. e querendo marcar uma certa relação com o passado. parece. “O rei que reina presentemente” – dir-se-á de maneira absoluta.” É preciso notar que hoje. “emprega-se sobretudo para opor uma certa época da vida de um homem. O francês. nem atuar. ou há poucos dias. “Opõese o presente aos séculos passados” (Volt. no entanto. ser ainda mais próprio para o passado. às épocas precedentes.. que hoje marque também ideia muito semelhante a presentemente. segundo a linguagem da antiga metafísica. portanto. – Presente refere-se sem dúvida tanto ao futuro como ao passado. – Agora (do latim hac hora) é também advérbio que à noção precisa de “neste ou a este momento. no ou o tempo que não é o passado de que se falava”. e nem por isso fica livre da extensão que é admissível. Quando produz sobre alguma coisa o efeito que lhe é próprio. como os dois advérbios precedentes. Dizemos: “Felizmente hoje não me deixo afrontar daquelas abusões. Um sucesso pode influir sobre coisas futuras (não operar. etc. e marca alguma coisa em oposição com o que é ideal. E quando exerce influxo (ou influência) sobre alguma coisa. – Quando uma coisa (ou mesmo uma pessoa) exerce ativamente a sua força (física ou moral) sobre outra. “Ele foi rico em outros tempos. Só mesmo dando-lhe muita latitude é que admitimos. presentemente de maneira absoluta. de sorte que o que é atual não está nem em potência. – Hoje. Em suma: hoje é tanto o dia atual propriamente. no entanto. “Il était riche autrefois. influir. exatamente como em português.. porque estes .” – referindo-nos não a abusões que tivéssemos precisamente ontem.). atual caracteriza-se unicamente por sugerir uma ideia de realidade em oposição ao que poderá ou poderia ser. hipotético. mas a fato passado há muito tempo. portanto. com o seu maintenant (main + tenant). maintenant il est pauvre”. “o rei que reina atualmente” – empregar-se-á de preferência quando se quiser sugerir alguma relação com os reis que hão de vir depois dele. “Nós nos preparamos atualmente para reinar um dia com os santos no céu” (Bourd. segundo o mesmo Laf.

perturbar. majestoso. magnífico. que é augusto e venerando como as coisas sagradas”. sumptuoso e magnífico ao ponto de sugerir a ideia de coisa sagrada e divina. – Aturar é sofrer com repugnância e de mau grado. suportar. semblante majestoso. Préstito imponente. A augusta fronte do pontífice. alterar as condições. “Aquele discurso atuou fortemente no espírito da Câmara.. 386 AUGUSTO. mas sugere mais particularmente a ideia de perturbação do senso interior. por não dar escândalo. solene. andar. A luz forte perturba a vista (não – conturba). Aguentam-se grosserias de um biltre. – Grandioso = “aquilo cuja pompa e mag- . – Aguentar é vocábulo de uso comum (com a significação que tem neste grupo) e enuncia a ideia de sofrer com esforço. A alma se lhe conturba ao saber daquela desgraça. um grande rumor ou vozeria – aturdem-nos. ou mudar a ordem. e em cuja presença se sente um como religioso temor. ou: “é possível que tenha de operar ainda alguma transformação política imprevista”. – Aturdir e atordoar têm de comum a ideia de perturbar os sentidos. padecer.: – Sofrer “exprime a ideia geral e absoluta de levar o mal que nos acontece. uma queda. gesto. 384 ATURAR. O que tem dores padece. sobera- bar. o gesto soberano de desdém. pode ser incluído neste grupo.. pomposo. poder. – Imponente é o que. com a mesma significação de obrar. pela sua grandeza. O filho submisso atura a rabugice do velho pai. ou da sua classe. ou injuriado. glorioso. pontifical. sofre. ostentoso. a majestosa cerimônia da sagração do bispo.222 Rocha Pombo enunciam ação que depende de atividade e quase de esforço consciente). – Majestoso é o que esplende pela sua aparência grandiosa e sublime. grandioso. – Padecer exprime particularmente o sofrimento físico do indivíduo. e é possível que se destine a operar uma verdadeira revolução no seio do ministério”. Aguenta-se a estupidez de um funcionário imbecil. – Suportar é sofrer com paciência e conformidade. – Segundo Roq. uma pancada na cabeça – atordoam. enfermidades. O homem caritativo suporta com bom semblante os defeitos e fraquezas do próximo. ou contrafazendo-se. Uma tormenta. imponente. contrariando-se muito. to- lerar. O soberano olhar da princesa. e só se no. O que tem desgostos domésticos. Aturdir significa “perturbar o senso confundindo-o”. se bem que mais genérica. aguentar. uma bebida alcoólica. – Soberano é o que está no mais alto grau de poder. Porte. – Perturbar é interverter. O rei prudente tolera alguns abusos contra sua autoridade para evitar maiores males”. ou que se vê na pobreza. atordoar. – Pontifical = “que tem aparência de pompa religiosa. e portanto acima de todos os do seu gênero. 385 ATURDIR. – Conturbar exprime a mesma noção geral de pôr em desordem e confusão. – Tolerar é também sofrer por efeito de prudência ou de boa educação. esplêndido. O ar majestoso da rainha. – Solene = “que tem caráter de formal e brilhante autenticidade”. ou que nos fazem. – Atordoar aplica-se mais particularmente à ação de perturbar por efeito físico: um cheiro muito forte. se impõe ao respeito ou à admiração de todos. postura imponente. contur- distinguem pela causa que produz a perturbação. solene. ou majestade. a situação ou estado normal de alguma coisa. conquanto pouco tolerado pelos vernaculistas escrupulosos. – Também agir. ou de uma autoridade ignorante. porém é sofrer em silêncio. – Augusto é o que é tão grande. sofrer. a figura augusta do patriarca.

a biblioteca. – Observa Bruns. ou de matéria que se acumula”. e o de crescer é minguar. se for devido a forças interiores. consideraremos o modo como esse incremento ou desenvolvimento se opera para empregar um dos verbos aumentar ou crescer. – Pomposo = “que tem mais que o aparato de solenidades usuais. crescer. propício. ou que não é contínuo por muito tempo”. – Intumescer = “inchar demais. o rio. Aumenta a fortuna. ainda mostra ostentação.. que vem a certa hora. empolamar. – Empolar = “crescer. proteção. fazer-se túmido. brando vento aprazível. – Avultar pode dizer-se que é muito mais extenso e compreensivo que avolumar-se. mas sim ao incremento. orgulho e ufania”. ou por uma impressão muito vaga. excelente e augusto”. – Viração “é vento fresco. que tem o brilho ostentoso da riqueza”. crescer é relativo ao volume. além de esplêndido e aparatoso. – Encorpar = “tomar maior corpo. engrandecer. – Aura é “brisa fagueira. crescer como um tumor”. fazer-se mais extenso. zéfiro. – Esplêndido = “sereno e brilhante. – Há casos. ou mais largo”. ampliar-se. avolumar-se como empola”. – Ampliar-se = “tornar-se de proporções maiores. 387 AUMENTAR. quase imperceptível. dilatar-se. usaremos de crescer. propício como o favônio”. Se o incremento ou desenvolvimento for devido à afluência do que vem do exterior. avulta aquela grande figura no meio da turba. – Exagerar = “dar proporções fora do normal”. – Engrandecer = “fazer-se grande. que “o antônimo de aumentar é diminuir. encorpar. a que sopra alegrando os prados”. empolar. impulso próprio”. e que.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 223 nificência excedem à grandeza comum”. – Dilatar-se = “ampliar-se. no entanto. ou a minha felicidade (e sim aumenta-se). exagerar. – No entender de Bruns. etc. patrocínio. ou a minha febre. nem ao volume. – Glorioso = “que ascendeu à elevação do que se fez ilustre e excelente. brisa. e crescer. – Engrossar = “fazer-se mais grosso”. – Empolamar (outra forma de empolar) = “fazer empolado demais”. avolumar-se. então. intumescer. o verbo adequado será aumentar. salva- guarda. inchar. o menino. – Inchar = crescer com esforço. ou por efeito de gás que se dilata. e isso porque aumentar considera concurso alheio. – Amplificar-se ajunta à significação de ampliar-se a ideia do esforço com que se faz maior o que já era grande. aragem. amplificar-se. – Brisa é também muito próximo dos precedentes: é “vento suave e fresco”. Cresce a planta. e entre os dois deve notar-se a diferença que consiste unicamente em aplicar-se o primeiro só a coisas concretas. fa- vônio. viração. fazer-se mais largo ou extenso”. 389 AUSPÍCIOS. Não se diz: avoluma-se a minha dor. avul- tar. mais sólido e de maior vulto”. Avulta o prestígio do general. ou maior do que era”. que se sente apenas pela agitação das folhas. portanto. 388 AURA. e pode ser empregado tan- to no sentido abstrato como no concreto. isto é. engrossar. que nos cause mais pela quentura ou pela frieza do que pela força. digno de honras sobre-humanas. “cada um dos vocábulos deste grupo sugere a ideia . os meus males avultam com os meus receios. – Aragem é um brando movimento do ar. em que não se atende nem à quantidade. – Magnífico sugere ideia do que chegou ao máximo esplendor e grandeza. – Avolumar-se é muito próximo de aumentar. ao desenvolvimento. fazer mais compacto. aumentar é relativo à quantidade. – Ostentoso = “que. – Zéfiro é “brisa matutina.

socorro ou amparo. rígido. de avis e spicere “ver. Pode ser esperançoso um estudante. 390 AUSPICIOSO. e o que designa maior eficácia: literalmente “guarda que salva”. nem ampara. se arriscavam confiados apenas na proteção que os deuses lhes haviam de confiar. entendendo-se que o patrocínio provém sempre do forte para o fraco. inexorável. refere-se antes à nossa conduta conosco mesmo que com os demais. quando desde princípio tem o favor do público. ativa. por analogia. esperançoso. que pugna em favor daquele que é protegido ou melhor patrocinado. sem embargo. A austeridade. Pode ser auspiciosa uma estreia. pelas suas qualidades e dotes próprios. etc. um poeta. à vista do que apresenta. porém. prometedor. o que. pode ser-lhe retirado por várias circunstâncias: e eis aí a versatilidade e inconstância dos auspícios. Há. um casamento. por si mesmo. autoriza a esperar-se que venha a dar o que promete. e que até são malvados. contemplar”) é o termo que designa menor influência benéfica. – Auspícios (do latim auspex. como depende muitas vezes do temperamento e do gênero de vida que muitos são obrigados a levar. têm costumes mui rígidos e austeros. etc. portanto. auxílio. na qual. pois. o que a proteção pode fazer é impedir que se chegue à situação de necessitar de ajuda. ou por alguns conselhos ou recomendações. – Prometedor é o que. ríspi- do.224 Rocha Pombo de uma influência eficaz para o logro do que outrem deseja”. Este termo sugere sempre a ideia de autoridade revestida do poder de defender. de salvar. acontece que homens que não fazem profissão de virtude. assim como os romanos costumavam consultar os auspícios – isto é. – Segundo Roq. Os fracos procuram a proteção dos poderosos. é o mais expressivo de todos os deste grupo. do superior para o inferior: ideia que não é inerente à proteção. por um apoio indeterminado. É prometedor o menino que fez alguma coisa extraordinária para a sua idade. que põe ao abrigo de grandes perigos. os presságios tirados do voo ou do canto das aves – antes de se aventurarem em alguma empresa. e tegere “cobrir”) predomina a ideia dos meios que se adotam para pôr o protegido ao abrigo de algum mal. – Esperançoso é “o que inspira esperanças de grande sucesso. “As leis são a salvaguarda dos cidadãos”. este vocábulo designa a influência favorável. um natalício. pois a proteção defende. que se manifesta pela benevolência. sem embargo . inalterável. não obstante. deixa prever que alcançará o êxito que aspira”. assim também. – “a austeridade consiste em sujeitarmo-nos a regras rígidas da maneira de viver. severo. – Salvaguarda não é vocábulo muito usado. duro. como também de mortificação e penitência. o mesmo não se dá quanto a auspicioso. sem contudo ir até auxílio imediato ou intervenção ativa. auspicioso significa sempre – “que começa sob a influência de bons augúrios. inabalável. porém. mas vaga e um tanto ou quanto incerta. Auspícios podem ser bons ou maus. rigoroso. 391 AUSTERO. Em proteção (do latim pro “adiante”. ou auxilia ou socorre. – Patrocínio denota proteção eficaz. cobre. esse favor. que se pode prever terá esplêndido sucesso”. observando-as estrictamente e sem delas nos separarmos. como se vê no grupo precedente. quando eram favoráveis os auspícios. – Se auspícios tem a significação um tanto vaga. mas nem sempre ajuda. Assim se diz que “uma empresa principiou sob bons auspícios”. neste vocábulo uma grande vaguidade de significação. inflexível. Ainda que geralmente se tome a austeridade em sentido de aspereza e rigorosa virtude.

soberania. em outros sucede o contrário. relação autêntica. A austeridade consigo mesmo não é incômoda a ninguém. e por essa razão sempre é temida. O severo não manifesta condescendência alguma. Se aplicarmos esta palavra aos princípios ou causas. de propósito. – Inexorável é “o que não cede nem a súplicas e lágrimas”. – Tomamos aqui estas palavras na acepção política. 392 AUTÊNTICO. – O homem rigoroso tudo exagera. e nada lhe contenta o excessivo rigor. positivo. – Ríspido aplica-se ao que se excede nas manifestações da severidade. – Infle- xível exprime. O homem severo não se aparta nunca de seus princípios. do que é mais que rígido: dureza de alma é quase crueldade. solene. pois não se concebe um Estado independente sem que seja por isso mes- . e por isso não são raros os casos em que a rispidez não exclui a magnanimidade e outras virtudes de coração. – Independência pode-se dizer que se confunde com soberania. sem serem severos com os outros. em sentido moral. ou melhor. e como tal capaz de produzir todos os efeitos jurídicos”. – Inabalável é “o que não muda de opinião. que não muda da resolução tomada”. ou uma província. – Solene é “o que. independência. Muitos homens. pouco conforme às vezes com a equidade. além de formal e autêntico. se fez com grande aparato e plena publicidade”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 225 disto. no entanto. ou um documento formal pode não ser autêntico. e a severidade o é pelo caráter e os princípios. Dizemos que um Estado. segundo a própria formação do vocábulo. – Formal é “o que se fez na devida forma. – Inabalável é mais forte que inalterável. indicará ela certo caráter virtuoso. formal. A austeridade chega a converter-se em hábito. ou mesmo um distrito ou um município goza de autonomia quando ele se governa. bem que os homens severos costumem ser pontuais e exatos no cumprimento de suas obrigações. contrato. mostrando-se firme e seguro no seu modo de ver ou de obrar”. pois encerra muito claro a ideia de que a coisa ou pessoa inabalável não cede a esforço. contra o rigor. juramento solene. ao mesmo tempo que o rigoroso os leva a um extremo que é mais prejudicial do que útil. nem de temer o severo. – Duro dizemos. Não inclui necessariamente a ideia de autenticidade: um ato. e se a aplicarmos às ações. pois só se torna autêntico o ato formal depois de legalizado juridicamente. se administra pelas suas leis próprias. que parece o mesmo sempre”. e faz como aborrecível a virtude. Dizemos: carta. – A severidade exerce-se de ordinário antes com os demais que conosco. 393 AUTONOMIA. – Inalterável é “o que se não move exteriormente. genuíno”. Diz La Bruyère que um filósofo austero. – Autênti- co designa “o caráter de legitimidade que toma o ato ou a coisa que se fez com todos os requisitos que lhe são próprios. A rispidez quase que depende mais do temperamento e da educação que propriamente das qualidades fundamentais da criatura. e vem a parecer mais áspero e grosseiro que severo. e mais ainda com os que dele dependem. subentendendo-se que essas leis ficam sempre dentro de alguma lei geral. podendo. “que não se dobra. porém. a severidade com os outros pode ser obra de virtude ou de vício. declaração formal. todos se viram pelos excessos a que de ordinário arrasta”. e de gênio áspero. ou limitadas por alguma autoridade superior. espanta a todos. um gênio austero e rígido também costuma sê-lo com todos. Não podemos deixar de ter certa admiração pelo homem austero. são austeros consigo mesmos. indicará extremada rigidez. admitir-se algum coração duro que não seja propriamente cruel. e que por isso é claro.

humana. porque pensa e discorre bem. Dizemos: a sorte avara (e não – avarenta). o contrário os lexicógrafos) que avarento pode ser empregado como substantivo (significando – “homem avaro”). aliás. de modo que o mesmo homem pode ser bom autor. sem reconhecer acima de si nenhuma outra autoridade. – Ávido é também adjetivo. Deve dizer-se mesmo que a distinção entre os dois verbos se regula pela que existe entre os respetivos radicais: apreçar é estipular preço. quer a lei seja divina. escritor. porém. Avalia-se uma propriedade. isto é. somítico. – Entre apreçar e apreciar há. já se vê. – Apreçar é “dar o preço. salvo figuradamente. não há caso algum na língua em que ele se nos apresente como substantivo. cobiçoso. – A soberania política consiste na qualidade de poder um Estado existir por si mesmo. apreçar (apreçar e apreciar). um sofrimento. 395 AUTORIDADE. aqui. 397 AVARENTO (avaro). tacanho. porque se refere exclusivamente ao que escreve sobre direito público”. A avareza é um vício que mata a alma. só é empregado como adjetivo. – Poder é a autoridade que se acompanha da força necessária para fazer-se obedecer. agarrado. fona. A significação da palavra publicista é restrita. é “a resultante dos elementos materiais em que funda o poderoso o seu poder”. cainho. sovina. e mau escritor porque escreve incorretamente o que pensou com profundidade. hoje o nome de publicista a todo aquele que. Mas ávido distingue-se de um e outro. e vive ansioso por entesourar tudo o que adquire. 394 AUTOR. e muito excepcionalmente como adjetivo.226 Rocha Pombo mo soberano. ainda quanto a isto. quer natural. não só pela ex- . 396 AVALIAR. e tanto se aplica no sentido moral ou abstrato. interesseiro. a diferença que consiste em não ser inerente ao segundo a ideia de cálculo. um serviço. examinar com interesse e cuidado. Entre avarento e avaro. Potestade supõe o poder que a sustenta. ávido. – Avaliar é “calcular o valor de uma coisa”. potestade. força. “autoridade é a superioridade legal. escreve para o público. Isto quer dizer (por mais que digam. com autoridade. e que o inverso se dá em relação a avaro. ainda que se prive a si mesmo dos bens mais comuns da vida”. de algum trabalho ou produção”. poder. ou de opinião”. olhar. que é a entidade representativa de todo o país. é preciso notar uma diferença essencial. que os léxicos dão como sendo a mesma coisa. – Avarento é “o homem que tem a paixão da riqueza. a soberania. – Segundo Lacerda. só se diz escritor fazendo-se referência ao estilo. como se avalia um esforço mental. e converte a criatura humana em simples animal. pois isso é comum a toda aquela categoria gramatical. publicista. é exercida pela União. do conjunto dos Estados. portanto. calcular o valor venal de alguma coisa. – “Estes três vocábulos aplicam-se aos homens de letras que publicam obras de sua composição. Os Estados do Brasil são autônomos. o avarento é um enfermo de consciência (não – o avaro). apreciar é ver com apreço. – Força. mesquinho. porque esta palavra se refere somente a este gênero de produção. como no sentido físico. e que nos conste. “Pobre está já (Roma) tão decaída da antiga potestade”. Também se chama escritor qualquer autor literário. gastando o menos que é possível. Os nossos clássicos davam a esta palavra a significação geral de poder. e em relação a avarento está no mesmo caso de avaro. – Damos. aqui. Chama-se autor o que dá à luz qualquer escrito.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 227 tensividade. – Avaria. a águia é ave. – Dano é “o mal que provém de nos haverem diminuído o valor de alguma coisa que nos pertence. o seu bocado como o cão o seu osso”. – Perda é o dano total. Também significa. no entanto. e quase sempre o que vê em poder de outros. 400 AVERIGUAR. o pardal é pássaro. apertado no despender. ou melhor. provar que uma coisa é certa. o morcego são voláteis. a todo animal que voa mesmo sem ser ave. ga para designar estrago de mercadorias a bordo de navios. – Pássaro é “a ave pequena. danos puramente materiais. o cobiçoso deseja muito adquirir. e perda de colheitas. e até procurando lograr os outros se for possível sem parecer propriamente gatuno”. a galinha. prejuízo. pássaro. poupando em excesso”. Como diz Roq. as coisas inúteis”. – Prejuízo é “desfalque resultante de perda. o morcego não é pássaro nem ave (porque não é ovíparo). O pardal. reconhecer. dizemos dos danos causados principalmente pelas grandes chuvas e inundações. O condor. estrago ou avaria”. e até pródigo”. – Tacanho aproxima-se de mesquinho: é “o estreito.) é “o que esconde. aqui. “o que cede muito aos seus lucros. acrescenta. como dissemos. achar a verdade. nada faz que lhe não redunde em proveitos pessoais”. – Segundo Lacerda: averiguar é procurar. estragos nas árvores. além da acepção especial em que mais particularmente se empre- . – Verificar é “empregar os meios convenientes para cada um a si mesmo convencer-se de que alguma coisa sucedeu como se conta. estrago. a águia. a andorinha. o pato são aves. As avarias são suscetíveis de reparação. – Volátil aplica-se a todas as aves. que diminui a quantidade. – Cobiçoso não diz propriamente o mesmo que avarento. constatar.” – Lesão é termo bem mais extensivo do que dano: designa “toda sorte de prejuízos que de qualquer modo se cause a pessoas ou coisas”. e só particularmente é que significa – “ansioso de riquezas”. – Agarrado aproxima-se de cainho: é “o que prende quanto tem. – Fona é “a criatura miúda” que faz questão das coisas mais insignificantes. que vive a apanhar os restos. – “pode o cobiçoso ser liberal. magnífico. – Cainho (fig. que prefere sofrer vexames a gastar o seu vintém”. os estragos podem sê-lo. – Somítico deve comparar-se muito de perto com tacanho e mesquinho. – Estrago é o dano que prejudica parte do que se possui. é “o que exagera a sua pobreza. – Interesseiro é. o que. – Ave é “o nome ge- nérico que se aplica a todo animal ovíparo provido de asas”. guarda o seu dinheiro. como pela significação própria. dano. o tucano são pássaros. no entanto. 399 AVE. como está dizendo claramente a palavra. a estes uma certa ideia de torpeza: o somítico é mesquinho com os outros para só gastar com aquilo que lhe dá prazer. ou pelo menos considerável do que se possui. diligenciar. Ávido é “o que deseja ardentemente alguma coisa pela qual anseia. perda. verificar. de voo curto”. volátil. que danifica a qualidade. medindo tudo com muita escassez. como o animal agarra a sua presa”. o sabiá. 398 AVARIA. lesão. – Sovina é “a pessoa mesquinha. e considerados como reparáveis por meio de gastos pecuniários. em regra. Este quer “para guardar”. – Mesquinho. e. verdadeira. Um temporal causa avarias nos muros da quinta. entre os nossos clássicos. ou não. o que não se dá em relação a avarento. nem mesmo a de mesquinhez. e que procura alcançar com solicitude e esforço”. fazendo-se em tudo mais indigente do que é. mas cobiçoso não inclui necessariamente a ideia de avareza. o avestruz.

ver. deixar clara a verdade”. bispar. a face. regulada esta pelo lado em que a folha se liga a outras”. conveniente. – Avivar é “dar mais vida. próprio. descobrir. o verbo avivar. mais atividade. – Enxergar é “avistar mal. ou avistar mal e mal. “Enxergamos muito confusamente a caravana.” – Lobrigar é “ver indistintamente. 402 AVISTAR. devisar. – “O avesso” – diz Bruns. – Constatar (que muitos se dão o luxo de condenar como galicismo escusado) é “estabelecer. 403 AVIVAR. a verdade sobre alguma coisa. entre eles a seguinte diferença: azado dizemos do que. distinguir”. através de algum obstáculo”. aqui. os vários aspetos”. – Ver designa a bulos há a diferença marcada pela partícula verbal incoativa entar que figura no segundo. – Inverso significa “de modo contrário ao que é natural. e dar disso testemunho”. etc. muito usado com a significação de “enxergar ou avistar com dificuldade e rapidamente”. enxergar. As frases: “avivente um bocadinho o fogo da lareira”. Há. “Logo que saímos da floresta. sem a ideia de que a vida seja completa”. é “enxergar ou mesmo lobrigar com esforços”. separando ou discriminando a coisa vista de outras coisas. – Reconhecer é “chegar ao resultado de ver que uma coisa é realmente como se dizia. O reverso é a parte oposta ao lado principal. ou na própria coisa vista. ou a parte oposta ao reverso. – Verso é “a parte de uma superfície. verificar é “ver clara. ou “mais vivo” em absoluto. avistamos muito ao fundo do campo a casa da fazenda”. dizemos: “à folha ou à página tal verso” (isto é – “à página oposta à página numerada”). como se se houvesse eliminado algum obstáculo entre a nossa visão e a coisa descoberta”. ou sentido que não é o próprio”.” – Em suma: averiguar é “reconhecer a verdade”. aviventar. perdendo-se entre as lombas da campanha. inverso. lobrigar. as medalhas têm anverso e reverso”. – Bispar é vocábulo popular. anverso. porque o que se quis exprimir é que a nova desgraça tornou a antiga dor tão viva como tinha sido). de cima para baixo. – Entre estes dois vocá- guir. ser empregados indistintamente. – “é o lado pelo qual uma coisa não deve ser vista. se nos apresenta como favorável. Aquela desgraça vem avivar-me a dor antiga (e não – aviventar-me. oposta à da frente. ou mais particularmente de uma folha de papel. de diante para trás. Referindo-nos a um caderno ou a um livro sem numeração por páginas e sim só por folhas. oportuno. propício. e oportuno dizemos do que vem a . e iremos ter ainda hoje à fazenda”. adequado. “dê-nos qualquer ideia que nos avivente ao menos a memória” – não admitiriam. ou de livro. voltado da direita para a esquerda. sem quebra de rigorosa lidimidade lógica. distin- ação de “receber pela vista uma impressão direta do mundo exterior”. Anverso é o lado principal. 404 AZADO. O pano tem avesso. reverso. “aviventemos alguma coisa a nossa marcha. – Avistar é “alcançar com a vista alguma coisa”. descobrir. verso. depois de exame. direção.” 401 AVESSO.228 Rocha Pombo e que é exata etc. mais intensidade etc. sem que o esperemos. – Devisar é “perceber pela vista. – Discernir é “ver claramente. mal devisar alguma coisa estando-se no escuro”. discernir. à primeira vista. mais rapidez. que significa “tornar vivo”. – Descobrir é aqui “ver ao longe.” – Aviventar é “dar um pouco de vida. ou posto em ordem. no entanto. – Distinguir. – Azado e oportuno poderiam.

como acreditava o espírito supersticioso dos antigos. quando se trata de honrar a virtude’ (Anecd.. na verdade. sugere “a ideia de sinistro. funesto.. e que se assemelha à dança das bacantes. bailam os homens por alegria e diversão. dançam os cavalheiros e senhoras nobres em suas salas. E. dança e folia escreve Roq. significa – “que se adota. fan- dango. em que os próprios reis não duvidavam tomar parte. 406 BAILE. A folia indicava noutro tempo (que hoje é palavra antiquada) certo modo particular de bailar. ou fosse feito para tal fim”. Diz Bruns. com mais ou menos ligeireza. dança. e. ou que convém ao fim que se colima”. jongo. samba. é uma dança rápida ao som de pandeiro ou adufe. entre várias pessoas. de ballizô. faziam-se antigamente folias por ocasiões de alegria pública. como se viesse a propósito. e designa particularmente o movimento regular do corpo e seus membros ao compasso e tom de música. – Nefasto significa “cheio de desgraças e calamidades”. – Propício é “o que se apresenta oportuno. cantando. e assim como os animais retouçam de contentes e alegres. e dizia a todos: ‘Eu assento que nada fica mal à Majestade. – Conveniente diz também – “que é favorável. – Dança é palavra mais nobre. – Aziago se diz. aqui. – Infausto diz menos que aziago. Pedro I sabemos que tinha gosto particular de bailar a folia. muito alegre e festivo. – Sobre baile. senão para a maneira de pisar. e prometendo sucesso”. e só exprime a ação física de bai- lar. No dia em que armou cavaleiro a D. – Baile é nome genérico e vulgar. não feliz”. é lúgubre e sinistro”. “O momento parece azado para uma tentativa” (e não – oportuno) – desde que veio inesperadamente. pois exprime apenas – “não propício. Bailam os moços e moças do povo em suas festas e reuniões. folgança. a nossa. daquilo “que anuncia desgraças”. bailado. tem só um termo para significar estes movimentos – é o substantivo danse. quem baila dá saltos. ou do cálculo que fizemos. bailam os próprios selvagens à sombra de frondosas árvores. que “baile. – Folia. isto . ora mais graves. Port. dançou em público com seus cortesãos. tem três que determinam as ideias acessórias destes saltos e movimentos. favorável. O bailar é uma espécie de instinto nas criaturas racionais. como a palavra de origem francesa (folie ‘loucura’) o está dizendo. fatal”. e ao som de rústicos instrumentos. e seu verbo danser. folia. a dança é própria de gente nobre e cavalheira. além da de aziago. pois El-Rei D. ora mais rápidos. – Funesto. em que era muito eminente. nefasto. por isso. – Adequado exprime – “que se ajusta ao que pretendemos. ao som de flautas. ‘saltar’. ‘saltar. porém. que não só dá regras para mover o corpo e os membros a compasso. ter o corpo em elegante postura.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 229 encontro dos nossos desejos. no sentido em que esta palavra se pode confundir com dança. – Próprio. 405 AZIAGO. – Agoirento é “o que. e fazer as cortesias e mesuras que a boa educação prescreve. e faz movimentos de corpo mais ou menos compassados. executando concertadamente todos os movimentos. mas é certo que ao que nós chamamos bailar chamavam os latinos saltare. ainda hoje. além de aziago. (e não – o “momento azado”). dar saltos’.: “Não defendemos a etimologia do verbo bailar. vantajoso ao fim que se deseja”. mais pobre que a nossa. João Afonso Teles. agoi- rento.. II)”. designa o conjunto ou série de movimentos com que se executa uma dança. A dança é uma arte semelhante à que entre os gregos se chamava orchestike. “Chegou o momento oportuno de jogar a partida”. A língua francesa. talvez semelhante ao que chamam hoje contradança. infausto.

ou um defeito natural que provém dos órgãos da voz. – Samba é também bailado popular. Hesitamos em preferir um de dois ou três bons empregos que se nos oferecem (não – vacilamos). embalançar). que pode ser arremessado com força”. – Tartamudear é precipitar as palavras de modo confuso. Mas tanto este como balançar sugerem melhor a ideia de ficar em dúvida entre duas ou mais coisas. como acabamos de dizer. ou danças mímicas. As danças ou bailados executavam-se ao som de grandes tambores. apesar do nosso desejo e até do nosso esforço. É defeito comum à infância e à extrema velhice. hesi- é. mas não há mestres de baile (senão noutro sentido). indeciso. baile é propriamente a festa. – Distingue-se este dos dois últimos verbos do grupo em dar. como medindo os motivos de escolha e decisão. quer dizer: na bailarina considera-se o baile.230 Rocha Pombo 408 BALANCEAR (balançar. na dançarina considera-se a dança. duvidar. os movimentos do corpo. Vacilamos entre coisas que nos repugnam e que nos impõem (não – hesitamos). o bailado. Assim. antes da abolição. mais ou menos ruidosa. – Fandango é “festa de danças ruidosas. gaguejar. De uma pessoa se diz que baila bem quando se atende à maneira como faz cada um dos movimentos que entram na dança. espingardas ou canhões”. No sul do Brasil. feitas mais de barulho que de bailados. a ideia de que a pessoa que hesita tem desejo de não hesitar. Nos teatros há bailarinas que executam os bailados. muito clara. – Projetil é “qualquer corpo. – Bal- de qualquer forma. – Folgança ou folguedo é termo popular que designa toda espécie de diversão com que se descansa do trabalho. Colhidos de improviso. 407 BALA. cortando as palavras e repetindo várias vezes a mesma sílaba antes de pronunciar a seguinte. ou ter gagueira) é falar com dificuldade. mas indica particularmente baile popular.. confundi-las num ruído surdo que não as deixa claramente entendidas. Quem vacila quer agora uma coisa. – Jongo é “dança ou bailado em público e ao ar livre”. – Duvidar é “hesitar por não ter certeza. fandangos etc. e que consiste em danças. é a dança mímica espetaculosa”. ou em tomar a tarefa que se lhe propõe”. – Balancear “é pôr ou ficar como suspenso. uma valsa são danças. comparando-as. ou um conhecimento exato do que se deve fazer”. bailados são as próprias danças. logo mais uma outra. – Balançar é outra forma de balancear. mas aplica-se comumente esta palavra a toda festa livre e reles. uma polca. usado pelos africanos. buciar é “não pronunciar claramente certas articulações. oscilante”. O mesmo se deve dizer de embalançar. e dançarinas que executam jotas. é o mesmo que fandango. – Hesitar enuncia o estado de espírito “em que. tangidos à mão. nos teatros há corpo de baile. Hoje está quase inteiramente extinto no Brasil”. tartamudear. e dizemos que dança bem quando se atende ao modo como executa as diferentes danças em que toma parte. ou solene. 409 BALBUCIAR. vacilar. – Bala é “o projetil de forma cônica ou esférica que pode ser lançado por armas de fogo. – Bailado. Pode ser isto um efeito acidental da comoção ou da emoção. balbuciamos. É a gagueira um defeito dos órgãos vocais. da Espanha passou para toda a América colonial. há mestres de dança. misturá-las. – Noutro sentido. depois outra. duvida tomar. projetil. mas não há corpo de dança. não sentimos razões suficientemente fortes que nos levem a tomar uma resolução”. – Gaguejar (ser gago. uma mazurca. “F. tar. e os movimentos com que essas danças se executam constituem o baile. Note-se que estes três verbos entram aqui no seu sentido figurado. como as .

ou não sobressai acima da ordem habitual das coisas. comum. seja declarado em falência se. – Vulgar se diz do que é próprio do vulgo. portanto.°) um comerciante pode estar em estado de quebra (isto é. Daí se vê que há entre falência e quebra diferenças essenciais: 1. pode continuar seus pagamentos e escapar assim.”. daí resulta que comum se diz do termo ou expressão que não é elevada. que é comum. é o estado dos comercintes falidos ou quebrados – isto é. ou quebra. se goza de um crédito suficiente. Pen. mas particularmente mais pelas baixas que pelas altas. quebra. vulgar. ou quando menos “de muitos”. familiar. sem certa nobreza. é muito usual. e. culposa. aplicá-lo àqueles termos que têm algo de indecente ou de baixo. 263 do Cod. ordinário. Isto ainda mais se confirma pela redação do art.. isto é. fraudulenta.. não ficam contudo bem em todas as ocasiões. Acompanhada de fraude ou de falta grave. não puder solver compromissos. porém.. falência. e for obrigado a cessar pagamentos. – Falência. A bancarrota fraudulenta é corriqueiro. e também “que não é raro”. à falência. de si mesma. ter mais dívidas que bens) e. nem de falta grave. o art. As pessoas nervosas tartamudeiam quando vivamente emocionadas”. porém. e significa o mesmo que falência ou falimento.º) ao contrário. punível quando não é acompanhada de fraude. o vulgo não se compõe só do que é ínfimo. A bancarrota simples é a falência que é acompanhada de falta grave. grosseiro. 411 BANCARROTA. – Corriqueiro se diz do que corre na boca de todos. trivial. e não à bancarrota. a bancarrota pode não ser fraudulenta. (Bruns. do Com... e como o que não é raro tem pouco valor. Como.’: logo.º) a falência é um estado exclusivamente próprio aos negociantes. – Sobre estes três termos de jurisprudência escreve Teixeira de Freitas: – “Bancarrota denota geralmente entre nós o estado de falência ou quebra de qualquer comerciante. sem que haja todavia fraude da parte do falido: é um delito da competência dos tribunais correcionais.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 231 crianças. – Familiar se diz “da linguagem ou dos termos usados em família”. e impróprio de pessoas decentes. e Berg. de trivium “encruzilhada”) dizemos do termo ou expressão própria dos que andam pelas encruzilhadas ou pelas esquinas. – Segundo Bruns. à declaração de falência. gaguejamos. resumem assim: “A quebra é o estado de um devedor. – Ordinário se diz do que não se destaca do comum. ou não merece apreço. cujo passivo é superior ao ativo. – banal se diz do termo ou expressão que é usado por todas as classes sociais. E demais. . que cessam seus pagamentos. vulgar.. A falência é o estado de um comerciante que cessou seus pagamentos. 3. 798 do Cod. por falta de recursos presentes. Este vocábulo pode considerar-se só neste sentido. ainda que não seja fraudulenta. Por imperfeição natural. entretanto. A falência não é. – Comum significa propriamente “de todos”. dizendo – ‘a bancarrota que foi qualificada de fraudulenta. – Trivial (do latim trivialis. pode dar-se que um comerciante cujo ativo exceda de muito ao passivo.. dir-se-á ordinário do termo. aplica os epítetos casual. O que é vulgar carece de uma certa nobreza que não é comum entre o vulgo. “que é frequente”. O que é trivial é baixo. sem ficarem mal na boca de ninguém. – Bourg. na ordem de ideias em que consideramos a sinonímia destes vocábulos. 2. comerciante ou não. expressão ou linguagem que não se salienta de nenhum modo. – Quebra entende-se de comerciante. conseguintemente. resulta daí que vulgar se diz dos termos e expressões que.) 410 BANAL. ou que nelas estão parados à espera que alguém os ocupe. a falência passa a ser uma bancarrota.

charanga. estandarte. O banido é expulso. música. “cheio de crimes”. proscrever. exilar. é bandoleiro. O salteador vive do roubo. Os vocábulos bandido e malfeitor são frequentemente empregados como qualificativos das pessoas de má índole”. vesânico. malfeitor. – Celerado “é o bandido monstruoso que praticou. – Insígnia é qualquer emblema que distinga. – Exilar exprime simplesmente o ato de .232 Rocha Pombo a falência acompanhada de fraude: é crime. Quando o salteador opera com outros. pois o banimento importa a perda. – Música é. ou orquestra do batalhão. simbolizando uma nação. – Todos estes verbos têm de comum a ideia de expulsar da terra. insíg- – “malfeitor é. ou de privar da pátria ou do país onde se vive ou mesmo se está de passagem ou de pouco. esta palavra encerra a ideia de pena infamante. “crime”. ou que assalta de noite as habitações isoladas. – Banir é o mais forte de todos. celerado. “o termo genérico aplicável a todo grupo de músicos que executam alguma composição musical”. a banda do regimento. ou que é capaz de praticar. degredar. facínora. pavilhão. ou do batalhão naval. do grupo. como sinal ou como distintivo. ou feita e mantida por alguma associação. desfraldada à frente dos exércitos. filarmônica. e não é raro que seja também assassino. – Vexilo é termo antiquado correspondente a estandarte: era a bandeira militar. ou a bordo de navios. como não seria a ninguém permitido arriscar esta monstruosidade: a banda do teatro lírico. grandes crimes” (scelus. – Filarmônica é a banda de música particular. 414 BANDIDO. o malfeitor pode viver do roubo sem nunca assassinar. triar. ou que seja próprio para representar alguma instituição. salteador. a palavra menos enérgica. mas sem se lhe determinar o ponto para onde deve retirarse. – Estandarte é a bandeira de forma e cor fixas. fanfarra. – Banda é uma corporação de músicos pertencente a algum batalhão. assim como pode ser ladrão e assassino. Fanfarra é o mesmo que charanga. – Salteador é o ladrão que ataca os viajantes nos caminhos. – Pavilhão pode-se dizer que é o nome que toma o estandarte nas tendas de campanha. – Orquestra é o conjunto de professores que executam altas peças de música em concerto. – Segundo Bruns. or- questra. sendo a pena de banimento muito mais grave que a de deportação ou mesmo desterro. ou em teatros. 415 BANIR. – Facínora (e facinoroso) é também o sujeito perverso. – Charanga é a banda formada só com instrumentos metálicos. nem mesmo – orquestra popular. 412 BANDA. “pelo menos na mente de quem ordena o ato”. vexilo. – Bandido é o malfeitor perseguido pela justiça. dos direitos de pátria. Não se poderia dizer – orquestra militar. aqui. desterrar. doido. e como tal da competência dos tribunais ou câmaras criminais”. e entre todos obedecem a um chefe. ou mesmo a algum estabelecimento público: a banda da polícia. – Bandeira é qualquer pedaço de pano preso a uma haste e arvorado de modo a que se o aviste de longe. que deu scelero. deportar. Pode-se distinguir estes dois últimos vocábulos pela particularidade que apresenta celerado de sugerir a ideia de bandido ou malfeitor impulsivo. para sempre. No Alentejo dizem que os ciganos e os malteses são malfeitores. expa- nia. de que sceleratus é particípio). não podendo o banido voltar jamais ao território de que foi expulso. 413 BANDEIRA. bando- leiro. Segundo alguns autores.

se pareciam com as dos bárbaros. a deportação é semelhante ao banimento (?). Este vocábulo designa o ato de sair da pátria. 48). seja como infamante e aflitiva. mas ordinariamente infringindo as leis da sintaxe. vem a palavra solecismo. e também a ferocidade própria da fera. por esse ato. ou por dureza de alma. ou da língua deles eram tiradas. – Expatriar não é pena que se imponha. mas até se fixava um prêmio para aquele que tirasse a vida ao proscrito se encontrado na pátria. e. de todo o grupo. e neste caso quase sempre indica atitude infensa. ação. .) – Desumanidade é a ausência de sentimentos humanos. posto que nele predomine a ideia de prepotência por parte de quem decreta a pena. quando ainda os franceses tinham a sua semibárbara de Ronsard. ou mesmo sentimento 28 Segundo Teixeira de Freitas (Vocabulário jurídico. solecismo. o solecismo é um defeito da construção da oração e que pode provir de ignorância ou de descuido. própria do vulgo que tudo adultera. Muitas vezes até o exílio é voluntário. corrompida. com a diferença que o barbarismo é uma locução viciosa. ou só explicável no selvagem. Poderíamos. Não se liga a este vocábulo nenhuma ideia de pena infamante. – “Significam estas duas palavras” – diz Roq. – Degredar é enviar para o degredo. esqueceu a pureza da língua grega. fixando a residência em que o desterrado deve cumprir a pena. é o prazer que mostram certas naturezas experimentar à vista de espetáculos que tanto têm de bárbaros como de cruéis. o mais próximo de banir: era antigamente (em Roma e na Grécia) o ato de expulsar da pátria e proibir que o proscrito a ela regressasse sob pena de morte. deram com muita razão o nome de barbarismo às palavras e expressões que. ferocidade (fereza). portanto. – Segundo Lacerda – barbaridade é a disposição do homem rude.) – Ferocidade. colônia ateniense na Silícia. que. crueldade (crueza). chamar barbarismos galicanos ao que mui francesmente se chamou galicismos. com o andar dos tempos. seja só como pena infamante (degradação). por orgulho. – “em geral erros de linguagem. desumanidade. pois. sem outra ideia acessória além da de inculcar que a ausência será longa. ou da terra em que se tem domicílio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 233 enviar para fora da pátria. (Crueza é a própria ação cruel. vemos sofrer o nosso semelhante sem socorrê-lo. – Deportar é desterrar perpetuamente para uma colônia distante. nós outros. – De Soles. o trato que denuncia a índole sanguinária. 416 BARBARIDADE. Mais comumente proscreviam-se aqueles que procuravam escapar à ação da justiça. ou protesto implícito contra a política existente ou contra as ideias dominantes na terra de onde se retirou o êxul. ou limitando-lhe a menor distância em que pode ficar do seu domicílio. – Desterrar diz propriamente “fazer sair da terra onde se habita”. e portanto figuradamente. Cometem-se estes de muitos modos na língua”. (Fereza é o ato mesmo de ferocidade. 417 BARBARISMO. (Será. e não a da gravidade da culpa da vítima. por egoísmo. por sua viciosa pronúncia. é a manifestação de um certo prazer à vista de sucessos fortuitos ou provocados que trazem consigo derramamento de sangue. é a indiferença com que. – Proscrever é. falto de humanidade.) – Crueldade é a inclinação à prática de atos sanguinários. com referência ao homem. próprio de bárbaro. ou para longe do país onde se acha o deportado28. que temos uma linguagem culta e polida desde Camões. não só se lhes confiscavam os bens. o modo. Por isso que os gregos e romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não eram eles. sem polícia.

lancha. enquanto que embarcação designa qualquer corpo flutuante que pode conter pessoas ou coisas. todos os vocábulos que se seguem apresentam de comum a ideia de “próprios para transporte por água (rio. – Embarcação não se diz hoje dos navios de guerra. ou mar)”. bote. e que serve também para o serviço de carga e descarga de navios. na polícia. para os quais é termo genérico.. nas artes. e pode até prestar-se para longas viagens. que não cultivam as artes. os autores que o precederam: “Os antigos egípcios. nas letras. mas não é um barco. pequeno escaler. larga e aberta como a alvarenga”. fragata. navio. A jangada é uma embarcação. – Gôndola – “pequena embarcação (como a galeota) movida a remos.. – Manchua – “pequeno barco usado nas costas da Ásia”. como o batelão e a alvarenga. O iate. tartana. e vice-versa. galé. de Fig. A nação bárbara conhece e respeita em geral essas leis. inferiores nas ciências. sem exceção.234 Rocha Pombo 418 BÁRBARO. depois os gregos. etc. iate. nem convenções sociais. e. – Batel e escaler são pequenas embarcações que conduzem para bordo dos navios não atracados ao cais. de um só mastro. como força agressiva. caravela. sim”. batelão. igara. – A caravela era menor que a fragata. com dois ou três mastros”. – Selvagens são os habitantes das selvas. barcaça. era inferior à nau. no entanto. galera. – Lancha é “embarcação pequena e sem tilha (coberta) que anda tanto à vela como a remos”. e transporte de passageiros de terra para os vapores. Talvez por isso é que se diz – “batel da vida” (e nunca – escaler. – Barco é “termo genérico. bergantim. estreita e comprida. à imitação destes os romanos. serve mais para recreio. escuna. junco. menos porém que embarcação. O escaler distingue-se do outro em ser movido ou poder mover-se tanto a remos como a vela. – Galeão (aum. – Como os precedentes. – Resume Lacerda assim. e hoje os chineses. – Tartana era um xaveco menor. usada outrora. pois é restrito à ideia de construção. – Batelão (aumentativo de batel) é “barca rasa e grande. mas só se diz dos barcos cobertos. batel. e servia tanto para a guerra como para o tráfego marítimo. barco. piroga. sobre estes dois vocábulos. – A fragata. Servem ambas para o trasbordo de cargas. por considerarem todos. – Galé é embarcação de baixo bordo. xaveco. – Nau era o maior navio outrora empregado principalmente na guerra. movido a remos. é maior. como o iate. brigue. 419 BARCO. – Xaveco – espécie de fragata usada outrora pelos mouros no corso do Mediterrâneo. de galé) – “antigo navio .) fazendo alusão ao esforço e trabalho com que é levado. alvarenga. catraia. – Chata é “barcaça larga e de pouco fundo. nem respeita lei alguma. nem gozam dos benefícios da civilização. gôndola. – Barca = “embarcação larga e pouco funda” (C. galeão. – Galera = “antiga embarcação. empregada. Uma nação selvagem não conhece. de vela e remos. chata. manchua. usada principalmente para recreio”. – Bote é batel de rio. – Catraia é bote pequeno. nau. galeota. rebocadas dos navios para os trapiches ou vice-versa. – Navio é a embarcação destinada a navegar no mar alto. sendo o batel movido só a esforço do remeiro. elegante e luxuoso. embarcação. selvagem. no serviço de transporte de cargas dentro da baía”.). deram o nome de bárbaros a todos os estrangeiros. de vela e remos. mas carece de aperfeiçoamento em tudo quanto constitui o que se chama um povo civilizado”. canoa. barca. – Barcaça é barca maior. – Galeota (diminutivo de galé) é pequeno barco.

de castelo em castelo. poeta ambulante da língua d’oc. etc. do francês bátard. – Canoa – “pequena embarcação. que compete a qualquer filho ilegítimo.). entre os celtas. Bastardo significa. ou de bas “vil. O filho bastardo pode ser natural. por exemplo. – Escuna – “brigue tendo vergas no mastro da proa e sem mastaréu de joanete”. – bastardo. poetas da língua d’oïl. usado pelos chineses”. temperado do agudo e grave da legítima. Desta última acepção da palavra espúrio nasceu o sentido figurado. espécie”. ou que não temos como tal o que vulgarmente se lhe atribui. e quer dizer – “exces29 Segundo Roq. – “Todos estes vocábulos” – escreve S. peça bastarda a que não tem as medidas próprias da sua espécie. – Vate era o profeta que fazia os seus vaticínios em estilo elevado. (C. ou espúrio: são duas espécies de bastardia. que no norte da França. um livro é espúrio. redundância. isto é – que lhe não conhecemos o autor. ou pela ordinária desigualdade da condição dos pais. e também movida a remos”. ilegíti- mo.. etc. – Junco – “pequena canoa ou batel.. e nós mesmos chamamos. baixo”. ou pelo descuido. feita quase sempre de um só tronco de árvore escavado”. – espúrio é termo desonroso. v. de pai eclesiástico. e de uso nas enseadas e nos rios. natural. E chamamos espúrio o que nasce de pessoas entre as quais há esse impedimento. vate. mas há entre eles diferenças mui notáveis”. 420 BARDO. fino e leve. – Bardo era. que vale o mesmo que – “baixamentenacido”. trovador. – Bastardo é denominação genérica. e aos quais se devem os primeiros romances de cavalaria. e é ainda correspondente aos trouvères. se dedicavam à poesia épica. nau de guerra”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 235 de alto bordo. de Fig. e art “raça. de mãe religiosa. que andava pelo sul da França cantando sonetos e trovas. em geral o que nasce de pessoas entre as quais não há impedimento algum legal que lhes vede o contraírem matrimônio. de barreguice. de dois mastros. Chamamos natural o que nasce de concubinato. – Brigue – “bergantim maior”. letra bastarda a que é degenerada da romana. 422 BATOLOGIA. perissologia. e stard “nascido”. que lhe damos na Arte Crítica. senão que dá a entender que o pai é incógnito porque a mãe se facilitava a vários quando o concebeu. por ser uma alteração dela. – Piroga e igara – “canoas de índios”. quando não em verso (Bruns. e parece referir-se. . uma obra. trombeta bastarda a que dá um som misto. de matrimônio clandestino. em algumas línguas. porque não só denota bastardia. do XI ao XV século. também ordinário. o nome que se dava aos poetas e cantores populares. coisa degenerada29.) – Bergantim – “pequena fragata. rapsoda. que eles têm na educação da prole. – Redundância é o termo genérico de que os outros do grupo especializam a significação. – de casado e solteira ou vice-versa. – Segundo Roq. – Trovador é a designação equivalente a troubadour. gr. vem do alemão boest “degenerado”. 421 BASTARDO. tautologia. ou da união dos sexos. que daí se presume provir aos filhos. e também o que não tem pai certo. quanto à degeneração. não tanto à ilegitimidade do matrimônio. antigamente bastard. ou que não é havido de matrimônio celebrado com as solenidades da lei. Luiz – “exprimem a qualidade do filho que é ilegítimo. espúrio. quando dizemos que uma produção. ou pela imoralidade que acompanha o ato em que são gerados.

O velho prometeu-lhe que sim. . . e ainda outros a atribuem a um pastor que fazia o mesmo que o mau poeta. na pedra chamada in- dex. voltou. duvidando Mercúrio que ele cumprisse a palavra. é superfluidade de palavras. inquit. redundante. . são entre si distintos. . . verbosidade aparatosa. A toda inútil repetição de palavras chama-se batologia. é a repetição inútil da mesma ideia ou pensamento por termos diferentes. dado serem todos contra a elegância e concisão da frase. II das Metamorfoses. porque gosta de variar um mesmo pensamento. Sub illis Montibus. mudou de forma. O primeiro defeito (batologia) opõe-se à elegância. e variá-la de cem maneiras diferentes. . variando-o de muitos modos diferentes. . Vieira também cai algumas vezes neste defeito: o que não admira. – Das três outras diz Roq.236 Rocha Pombo so de palavras para ornar o estilo. redundância nímia. e não são fáceis de evitar como o precedente. – O que não sabe omitir. rogou a este que não o descobrisse. . . . . Consiste principalmente este defeito em amplificar demasiadamente um pensamento. . amplificá-la. E com efeito. . ausentou-se. e tinha o costume de repetir cada coisa duas e mais vezes. e é demasiado grosseiro para que nele caiam ainda escritores medíocres. A verdade é que a palavra grega Báthos significa ‘tartamudo’ ou ‘gago’. indignado. o que não é absolutamente necessário naquela passagem. – Tautologia. é justamente o que Boileau chama com graça – ‘estéril abundância’. . e perguntou-lhe se tinha visto para que parte fora o gado que pouco antes andava apascentando. e estavam ao pé daqueles montes’. palavra grega battología (de báthos e logos) sobre cuja origem não estão de acordo os autores. O segundo (tautologia) e o terceiro (perissologia) opõem-se à concisão. outros a atribuem a um mau poeta do mesmo nome. e para tentar sua cobiça ofereceu-lhe uma vaca e um touro se lhe dissesse a verdade. isto é – ‘descobridora’ ou ‘denunciadora’. e não havendo ninguém visto fazer o roubo senão um pastor velho chamado Batto. Mercúrio o transformou. não obstante. Pelo que. porém. ou para fazer mais explícito o enunciado”. . chamado Batto. e também exageração. em colhendo entre mãos uma ideia. encarecimento. no qual refere como Mercúrio furtou a Apolo o gado que andava guardando. e seu estilo é. Dizem uns que se deve ao nome do fundador de Cirene. que repetia um pensamento com as mesmas expressões que havia empregado a primeira vez. . et erant sub [montibus illis. daqui se chamaram battos a todos os que repetiam sem necessidade uma mesma palavra. três ou mais vezes as sílabas iniciais das palavras até que rompem a falar. o qual supõem que era gago. – Perissologia (de perissos ‘que é demais’ + logós). – “que indicam três defeitos do estilo que. Sêneca afeta mais concisão na frase. As frases de Ovídio são bastante concisas. sem embargo. é nímio e prolixo muitas vezes. O velho então respondeu-lhe: ‘Agora há pouco ao pé daqueles montes estavam. . porque. . de mostrar que se sabe dizer uma mesma coisa de muitas e diferentes maneiras. diz Ovídio. . entre o muito que sempre ocorre quando se escreve sobre matérias bem-estudadas. erant. não a larga até haver apurado quanto sua rica imaginação lhe podia sugerir para ilustrá-la. . do grego tautologia (de tautó ‘o mesmo’ + logós). é . como a origem e composição de cada uma delas o dá a conhecer. e como os que o são repetem duas. . e. oferecendo-lhe em prêmio uma novilha. falou deste Ovídio naquela passagem do liv. porque Sêneca era um dos seus autores favoritos. – Esta afetação. .

A primeira é palavra vulgar. e engana e arruína sem fé nem consciência. caráter belicoso. atitude belicosa. à profissão do soldado. e incorporou-se na língua para designar o refinado hipócrita em matéria de religião. e como tal só pode qualificar o que é moral: furor belicoso. e guerreiro o que é prático. – Guerreiro é o que é afeito à guerra. É termo concreto. inspira o temor de Deus. Pode um povo. Quando belicoso se diz do homem. na sua boa-fé e simpleza. Em suma: é militar mais próximo de bélico. Propriamente. É vocábulo mais extenso que belicoso. são os lábios. que são as bordas em que muitas vezes brilha a cor do rubim. No sentido que tem aqui. enquanto que marcial se diz tanto do que é abstrato como do que é concreto.” 423 BEATO. só qualifica o abstrato. – que às práticas afetadas de piedade alia a mais refinada velhacaria. que faz dessa pessoa mais um monomaníaco do que um religioso. hábil em coisas de guerra. que lhe é próprio ou que serve para ela. – Belicoso é termo abstrato. intuitos belicosos. mar- membranas carnosas e sem osso que for- cial. mas a moral: os povos bárbaros são belicosos (isto é – dados à guerra. guerreiro. ingênuo. esta palavra designa a pessoa que é muito solícita nas suas devoções e práticas religiosas.. do que convicta e segura de uma crença racional e verdadeira. belicoso. que não só afeta ser virtuoso. Supõe-se sempre no beato um espírito fraco. ou um indivíduo ser belicoso. Elementos bélicos. e marcial mais de belicoso”. não lhe qualifica a entidade física. que se insinua habilmente na simpatia alheia. de uma religião malcompreendida. etc. ou que a ela é relativo. material bélico. como dissemos. 424 BEIÇO. e não ser guerreiro. e também um grande guerreiro pode acontecer que não tenha instintos belicosos. como reveste todos os seus atos e discursos de melíflua unção: aconselha a virtude. – Beato. aprestos bélicos. e cobrem os dentes quando se fecham. podemos estabelecer que militar qualifica o que é teórico. o deus da guerra. carola. Porte marcial. aplica-se à pessoa que parece mais obsedada. mas de hipócrita que afeta grande devoção. e como tal só deve aplicar-se ao que é material. e explora os incautos. virtudes que não tem. Neste sentido. A parte mais macia e delicada dos beiços. mais por tolice que por cálculo. neste grupo. tartufo. inculca o bem. dominados de instinto militar). mais por simplicidade de espírito que por interesse” (Bruns. . militar. hipócrita. Ajudam os beiços a fala e a mastigação: só os lábios osculam e beijam”. lábio. Marte) significa propriamente o que é relativo a Marte. que com tanta razão dizia: Quem não sabe calar. – Militar (do latim miles ‘soldado’) dizemos de tudo o que é relativo à carreira das armas. – Segundo Roq. e incorre na censura do citado Boileau. – Tartufo é o nome do protagonista de uma comédia de Molière. – Hipócrita é o que finge sentimentos. isto é – nas festas de igreja. beato “aproxima-se muito de hipócrita. – Dizemos bélico daquilo “que concerne à guerra. e quando abrem o sorriso deixam ver alvos dentes. – Tartufo é aquele – diz Bruns. – Marcial (de Mars. tanto no homem como nos animais. não um escritor judicioso. – Carola é o que faz consistir toda a sua religiosidade nas superfetações do culto. nem escrever [sabe. induz a observância das práticas religiosas. 425 BÉLICO. tem uma acepção que só o uso autoriza. a segunda é científica e poética. as “duas mam a parte exterior da boca.). Comparando militar com guerreiro. pois este.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 237 um declamador. incendimento marcial. nas procissões. chamam-se beiços.

429 BISPADO. – Diocese é o território dentro do qual exerce um bispo a sua autoridade e jurisdição. episcopado. . – Favor – diz muito bem Roq. – a ideia comum aos termos deste grupo é que os atos por eles expressos se aplicam em favor de alguém. tanto com os outros homens todos como com os próprios animais. – – Segundo Bruns. 428 BIBLIOTECA. graça. como sendo nosso irmão”. consideração ou piedade de quem a outorga. mercê. – Mitra é o mesmo bispado ou dignidade de bispo.238 Rocha Pombo 426 BENEFICÊNCIA. – Episcopado é a função. Por outro lado. – Não é possível confundir estes dois vocábulos. e sem ideia alguma de dever”. quem o faz sobre quem o recebe. devendo notar-se que. – Livraria é multidão de livros destinados à venda. – Amor ao próximo (ou do próximo) é também uma virtude evangélica: é a que mais se aproxima de caridade. – Altruísmo está quase nas mesmas condições: é o “amor dos outros”. Vamos recorrer da vigararia para o bispado. Mudou-se a biblioteca nacional para a Avenida (não – livraria). 427 BENEFÍCIO.. Podese dizer que é mais uma virtude interior. dádiva. posição ou valimento por parte de Bispado é a jurisdição do bispo. como ninguém se animaria a perpetrar: “Vim da livraria pública. altruísmo. portanto. a divisão eclesiástica que fica sob a administração de um bispo. Ninguém diria: – “Vou à biblioteca do Sr. – Benefício é um dom gratuito que inculca ideia de ação sagrada. Um homem que não dá esmolas pode ter em alto grau a virtude da caridade. obséquio. como que obedecendo aos impulsos da própria natureza moral. amor ao próximo. por isso mesmo. talvez sem sugestão de ideia religiosa: é mais. mitra. – Caridade é propriamente “o amor do nosso próximo. – é termo genérico que significa todo ato de benevolência afetuosa que distingue e prefere a pessoa favorecida. – Biblioteca é. galardão que se dá em agradecimento ou recompensa de bons serviços. humanidade. – Todos estes vocábulos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia de abnegação que leva um homem a interessar-se pelo seu semelhante. F. – Graça é um benefício ou distinção que se concede sem merecimento particular de quem o recebe e sim só por afeto. e de superioridade de fortuna. considerada como pessoa jurídica e na sua capacidade de possuir bens temporais. o amor ao próximo é uma locução que vale muito pouco porque não fixa sentimento nenhum. – Filantropia é a mesma caridade. diocese. nem sempre aquele que mais esmolas dá será o mais caritativo. Emprega-se também para designar o conjunto dos bispos de uma província eclesiástica ou de uma nação. uma qualidade da alma do que virtude social. – Obséquio é simplesmente “ato de delicadeza com que se procura agradar ao obsequiado”.. caridade. – Humanidade é apenas o conjunto de qualidades que levam a criatura a ter sentimentos simpáticos. favor. no entanto. livraria. “o conjunto de livros destinados à leitura”. uma virtude social. – O bispado de Mariana. e também a autoridade deste. é o nome positivista do amor ao próximo. ou o prazo durante o qual exerce o bispo a sua função. filantropia. Acrescentei de alguns volumes a minha pequena biblioteca (e não – livraria). por isso mesmo que é mais do que a própria caridade exterior ou praticante. – Beneficência é “a virtude de fazer o bem espontaneamente. – Mercê é prêmio. ou da livraria municipal”. Alves”.

vem provavelmente de pela. por esforço. e designa toda sorte de projetil que saia das bombardas. mas elevada e científica. 430 BOIAR. e de seu uso nos deixou Camões bom exemplo na estância LXVII. Teve ele sessenta anos de episcopado. globus. é mais poética do que bala. manda os dilijentes Ministros amostrar as armaduras. e não se podem usar indistintamente umas por outras”. que alguns querem venha do inglês ball (que se pronuncia bol) e designa especialmente os corpos esféricos maciços com que se joga.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 239 O bispado só pode condenar. e daí a locução – “sair nos pelouros”. e peitos reluzentes. esfera celeste. ou esférica (oca ou sólida). e tomar alguma direção. Nadam os animais. e para mais clareza. quando muito poderá ter uma parte fora da água. e laminas seguras. “ser nomeado ou eleito”. bala. 432 BOLHA. Mitra rendosa. – Pelouro. e designa um corpo esférico. Por ser palavra hoje pouco vulgar. ou terráqueo. de geografia e de astronomia. empola. em cuja superfície se figuram os diversos acidentes da superfície da terra. pelouro. e significa um corpo sólido perfeitamente redondo: no que concorda com globo. e de bom soído. – A imensa diocese de Mato Grosso. Na nossa antiga forma de eleições. ou “sobrenada se tem altura”. – Boiar é “não ir para o fundo da água”. isto é –. flutua a jangada. com a diferença que esfera é termo de geometria. ou então de pello. a segunda. ou esfera terráquea. flutuar. borbulha. O corpo que boia pode nem ser visto à tona ou à superfície da água. “lançar”. – Bolha . ou os signos ou constelações celestes e a que estão adaptados círculos astronômicos que representam o curso do sol na eclítica. – Sobrenadar é mais que flutuar. – “Todas estas palavras designam um corpo esférico. Dividiu-se em três a diocese do Amazonas.. arcabuzes. – Flutuar é “ficar em cima da água ou de qualquer outro líquido”. A primeira chama-se globo terrestre. – São tomados aqui todos estes vocábulos como significando particularmente as pequenas elevações que se formam na pele. de cujo centro todas as linhas que se tiram até à superfície são iguais.. esfera. do canto I dos Lusíadas: Isto dizendo. palavra muito usada dos nossos antigos antes que tomássemos dos franceses a que hoje se usa. vesícula. espingardas de aço puras. e tem mais lata significação que globo. pois o corpo que sobrenada quase que fica todo fora da água. – Esfera é também voz grega. redondo por todas as partes. É palavra vulgar. Mitra muito rica. ajunta-se-lhe o qualificativo – terrestre. não vulgar. – A bola é redonda por todos os lados. – Se- gundo Roq. Pelouros. – Boiam as urtigas marinhas. O episcopado americano. etc.. chamavam-se pelouros a umas bolas de cera dentro das quais se metiam os papelinhos contendo os nomes das pessoas de que se fazia escolha para juiz ordinário etc. 431 BOLA. – A mitra vai reclamar contra a extorsão que contra ela cometeu a municipalidade. com a terminação exagerativa ouro. ou impor penas no espiritual. globo. – Globo é palavra trasladada do latim. mas cada uma delas exprime uma espécie de redondeza. bala. Escudos de pinturas diferentes. O episcopado brasileiro. Malhas finas. Por este nome é conhecida entre os doutos a terra que habitamos. Designa particularmente toda máquina redonda e móvel.. nadar. Vêm arnezes. sobrenadar. – O meu episcopado tem sido tormentoso. Flutua a cortiça. não ir ao fundo. – Nadar é.

de qualquer madeira. da praia. praia. – Torrente é “uma quantidade de água que se despenha em cachões e impetuosamente”. – Jacto é “uma porção de líquido ou fluido arremessada com ímpeto”. jacto. distinguindo-se deste apenas em sugerir a ideia de maior porção da margem que a beira pode compreender. . – Riba designa “margem de rio onde a terra é levantada”. e de uso geral nas cidades modernas. devido aos nateiros. o cajado pelo pastor.. contendo ou não serosidade. e como que lhe serve de barreira”. – Bengala é o bastão de cana. varapau. segurando-o por baixo da extremidade superior. e é o símbolo de certas autoridades”. mais ou menos elevada. praia e costa – “indicam coisas que têm relação imediata com as águas do mar ou dos rios. – Sendo borda a extremidade prolongada de qualquer superfície. ou certa extensão de ribas”. – Cajado é o bordão que tem a parte superior em forma de arco. genérico dos demais deste grupo. o pau pelo camponês. – Gorgolhão (ou gorgolão) é “golfada. –. e quase sempre de areia. 434 BORDA. – Ribeira é a margem mais ou menos em declive. O bordão é usado pelo viandante. 435 BORDÃO. – Praia é toda a extensão de terra plana que as águas do mar cobrem e banham com suas enchentes. gorgolhão. – Golfada é o “jacto que sai por um canal ou aberta”. ou costa. O cáustico forma bolhas. – Vesícula é termo científico. é de terra vegetal. – Segundo Bruns. quase que não tem largura. margem. de ordinário coberta de água no cacete. Dizemos – “pernoitar à beira do rio ou do mar”. de junco. ribanceira. inverno e descoberta no verão. e é frequentemente chamado também varapau. – Ribeira. coberta de verdura. bengala. mas ninguém diria sem absurdo ou pelo menos impropriedade clamante: “pernoitar à borda do rio”. jacto cheio. – Margem é toda a extensão de terra chã. mui fresca e produtiva. “bordão é o pau grosso a que alguém se arrima. margem. bastão. ao longo dos rios. quando é do mar. – Costa é a porção de terra ao longo do mar. – Bastão é uma grossa bengala de castão. e por isso aprazível à vista. ribeira. – Pau é o bordão considerado mais como arma que como amparo. – Cachão é “a bolha ou borbotão que forma um líquido ao correr com força”. mas cada uma delas a seu modo. cachão. – Beira é quase sinônimo perfeito de borda. ribeira. tor- rente. da ribeira.240 Rocha Pombo é a pequena saliência que encerra matéria serosa. cajado. – Cacete (do francês casse-tête) é o bastão grosseiro de que usam os garotos e valentões de praça ou de estrada. – Ribança é “continuidade. golfada. beira. costa. – Ribanceira é “como ribança mais áspera”. ou borbotão que sai com ímpeto e ruído”. – A empola ocupa maior superfície que a bolha e pode estar ou não cheia de aquosidade. referindo-se a borda. e tanto se aplica relativamente a rios como relativamente ao mar. riba. ribança. – Jorro é “uma porção de borbotões impelidos com força”. jorro. e é por assim dizer a orla da margem.. 433 BORBOTÃO. – Borbulha é uma saliência ainda menor que a bolha. e quando é de rios. – “Todas estas palavras” – diz Roq. Uma pancada pode produzir empola. Estes dois termos dizem-se mais ordinariamente dos rios que do mar. o varapau pelo desordeiro. pau. – Borbotão (ordinariamente usado no plural) é “o fluxo desordenado ou jacto impetuoso que faz a água ou qualquer líquido ao sair de um lugar para outro”. supõe-se ser de areia.

corcunda e marreca. Por extensão designa o defeito físico das costas ou do peito daquele que é algo corcunda. 437 BOSQUE. é “a tormenta furiosa do mar. tormenta. como bosque. opulenta. segundo Lacerda. chamada bossa.. mas sem a ideia de ser basto ou espesso. Usa-se muito igualmente no sentido figurado. só de pessoas. temporal.. entre os gregos. 438 BOSSA. Parece provir da semelhança que apresenta com a restinga no meio do mar. capão. é apenas menos extensa que a floresta”. mata. giba. – Tormenta muito se aproxima de tempestade. se consagravam a divindades bucólicas”. diz Bruns. – Sertão é “a grande floresta desolada e sem habitantes”. corcova. arvoredo. Só quem foi colhido por uma borrasca nos Pireneus é que se pode fazer uma ideia da fúria dos elementos na terra. Pind. Aquiles. a giba pouco aparente é mesmo. Na linguagem dos marítimos. selva. É termo nosso que os primeiros povoadores da terra fizeram da palavra desertão (grande deserto). tempestade refere-se mais à agitação do mar. – Aguaceiro é “uma carga de água súbita e violenta”. e borrasca à impetuosidade e fúria dos ventos”. – Gibosidade (além de designar a qualidade de giboso. ou da má fortuna. gibosidade. também se emprega para designar a chuva de neve que cai nas altas montanhas quando é impelida por um forte e frio vento do norte. – Bossa aqui. capoeira. – Restinga é o capão que fica no meio do campo ou junto a algum rio. cientificamente. emaranhado”. – “pertence melhor à linguagem marítima que à terrestre. e onde se abriga a criação miúda”. É palavra indígena que incorporamos à língua (formada de taba “habitação” + oera “que foi”). é a protuberância natural que têm no dorso certos animais. vendaval. – Corcunda e marreca designam tanto o defeito como a própria pessoa que o tem: a corcunda é uma corcova considerável. em estilo poético. procela horrenda do cruel Mavorte (Diniz. – Capão. o vulto que faz a giba. – Temporal é “borrasca que se prolonga por dias”. ideia que é igualmente expressa por marreca. menos violento e talvez mais imprevisto. como os que. Os vendavais da vida. As montanhas são as gibosidades da terra. de ter giba) é o defeito. – Mata é “a selva rude. suprimindo-lhe a sílaba inicial. – Giba (em latim gibba) é o nome científico de qualquer protuberância que existe no que devera ser plano. sertão. – Procela. – Bosque é o “nome que se dá a uma porção de árvores reunidas”. corcunda. – Tempestade é o mau tempo em que há violenta agitação do ar. – Arvoredo é também. porque é súbita. multidão de árvores. formada quase sempre de grandes árvores. e que se encontra agora mais distante da casa. tempestade. – Selva é “o bosque espesso. tapera. acompanhada o mais das vezes de chuva. saraiva e trovoada. ou da sorte. . mesmo que seja muito forte”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 436 BORRASCA. cuidado com esmero.. marreca. luco. não obstante. aguaceiro. e muito usada em significação translata. Bossa. – Vendaval é “o temporal mais forte e tempestuoso”. significando “bosque nas vizinhanças quase sempre de habitação”. procela. – Tapera é o capão ou bosque pouco espesso onde ainda se encontram vestígios de habitação antiga. giba e corcova dizem-se de pessoas e de animais.)”. distinguindo-se desta em sugerir a ideia de ser o fenômeno mais rápido. refre- 241 ga. – Refrega é “rajada de vento que não chega a ser tormenta. – “O vocábulo borrasca” – diz Bruns. – Luco é termo poético significando “o bosque cheio de flores. é também brasileirismo. como as três últimas. floresta. – Corcova é a giba considerada como aleijão. – Capoeira é “mata que já foi capão. restinga.

. A qualidade de conciso consiste em enunciar o pensamento em poucas palavras. só se diz com propriedade das novas hastes que saem da raiz da planta. curto. dizemos indiferentemente breve ou curto: é breve a vida do homem. – Sapato é o calçado de couro grosso quase sempre. O que não tem tanto comprimento como devia ter ou se supunha que tivesse. tanto da raiz como dos galhos da planta. mas muito usual entre a nossa gente do campo. O que não é conciso é prolixo. pois a quantidade que este adjetivo enuncia não exclui a riqueza nem o adorno. 441 BOTIM. para que não se torne difícil o ato de calçar. – Bota é o calçado de cano alto. e em excluir quanto seja alheio ao assunto. como dissemos.. – Lacônico também dizemos do que é enunciado no menor número possível de palavras. reno- vo. – Gomo é corrução deste último vocábulo. olho. designa também a gema quando está prestes a dar a folha ou a flor”. – Preciso é antônimo de difuso. o que é lacônico pode correr o risco de ser afetado. e que só cobre o pé. com a significação que todos conhecem: loja reservada onde se vendem bebidas. tendo o cano mais ou menos alto. broto. desprezando tudo quanto seja circunstância acessória ou pormenores. tomando consistência. portanto.). cobre o pé e a perna até um pouco acima do joelho ordinariamente. farmácia. havendo. – Rebento. . lacônico e sucinto só se dizem do que é relativo ao estilo. – Sucinto.) designa propriamente “a arte de preparar medicamentos”. e que. ou então aberto na frente. – “Olho é a parte que na ramagem das árvores e arbustos indica o lugar onde se hão de formar os botões e as gemas na época do desabrolhar dos vegetais. 442 BREVE. – Mas. calçado. – Bo- botim de senhora ou de criança. Todos os estilos podem ser precisos. forma a gema. consistindo a precisão no emprego dos termos mais adequados. – Calçado é o nome genérico de todos os deste grupo. porém. entre os dois alguma diferença. na cidade. na sua curta vida sofre o homem bastante. este. é curto. que melhor se diz do discurso ou da obra. sucin- tim e botina (ou botinha) são diminutivos de bota. Botina (ou botinha) é o 30 De botica temos o diminutivo botequim. o que é lacônico emprega só as palavras absolutamente indispensáveis. (Bruns. ou renovo. qualifica aquele escrito ou fala em que o escritor ou orador se atém exclusivamente ao essencial. O que é conciso pode ser perfeito (e é enérgico e simples). Botim é a bota de cano baixo. o uso baniu esta última: nos grandes centros urbanos ninguém mais diz botica.30 e sim farmácia. preciso. to. veneno” etc. – Só o uso autoriza-nos designar pelo vocábulo farmácia a loja ou estabelecimento onde se vendem drogas e remédios. no entanto. que do estilo. 440 BOTICA. botina. – Segundo Bruns. pois o vocábulo farmácia (do grego phár makon “remédio. sapato. O que é conciso exprime brevemente o pensamento. ao que é característico próprio do assunto. – Conciso.242 Rocha Pombo 439 BOTÃO. conciso.) – Broto é o mesmo rebento ao apontar. gomo. e não breve. A loja onde se vendem remédios e drogas chama-se botica (do grego apotheke “lugar oculto ou reservado”). rebento. quase sempre guarnecido de elásticos. lacônico. gema. – Breve é o que se faz em pouco tempo: discurso breve (breve demora no campo. bota. sem ampliações nem ornatos. Falando-se do tempo. na estação. não breve: uma obra que nos empolga sempre nos parece curta. rebento. O primeiro sinal de vida que dá o olho constitui o botão.

e refulgir é “emitir ou refletir luz quase com a mesma intensidade da que brilha”. faiscar à maneira de raios”. e nunca “brilhante lapidado”. Ninguém dirá: “mina de brilhantes”. A forma coruscar é mais fiel ao latim coruscare. – Brilhar é “emitir de si próprio. É. designa o objeto esquisito. no entanto. ou “extrair brilhantes”. clara como a do sol”. relampaguear. – Rebrilhar é “brilhar de novo. presente. dar claridade como corpo inflamado”. refulgurar. – Refulgurar é fulgurar outra vez. cintilar vagamente. a partícula incoativa ecer. translu- zir. tremeluzir. fuzilar. – Relampejar e os três verbos que se seguem (relampejar. ou raios luminosos”. – Relumbrar é luzir como chama ou como lume. 444 BRILHAR. – Faiscar é propriamente “despedir faíscas”. – Flamear (ou flamejar) é “emitir brilho como de chama. mimo. e sem diferença alguma sensível entre nenhum deles. – Resplendecer é o mesmo verbo mais fiel à forma latina (resplendescere). tem fulgir na sua estrutura a raiz grega fleg (phleg) que sugere ideia de “queimar”. – Fulgurar é “brilhar de luz muito forte e instantânea”. sem ideia de gradação de intensidade. – Resplandecer é “reluzir.) – Resplender é “luzir amplamente. luzir. luz muito viva e radiosa”. esplender com majestade. “diamante lapidado”. dom. cintilar. (Aqui não seria. donativo. encantador. “um anel de diamante”. 31 Como fulgurar. luz muito forte. espargir luz. 445 BRINDE. ou pequeno raio ou faísca elétrica”. resplender.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 443 BRILHANTE. com luz mais viva”. como despedindo jactos de luz”. ou que está em combustão ou em estado candente. mas sem intensidade que chegue a deslumbrar”. o verbo esplendendo. Estes dois verbos parecem envolver a ideia de que a luz que fulgura ou refulgura mais deslumbra e cega do que ilumina propriamente. “o mineral no estado nativo. rutilar. como trepidando. – Luzir é simplesmente “emitir luz”. oferta. – Brilhante é o nome que toma o diamante depois de lapidado. isto é. refletir fulgurações. – Irradiar é “lançar. – Conquanto de- 243 signem a mesma pedra preciosa. ou “brilhante em bruto”. – Coriscar é “luzir como corisco. não lapidado”. fulgir. – Fuzilar é “despedir lumes. que neste figura. – Fulgir31 é “luzir vivamente”. – fragmentos em ignição que saem de um corpo ferido por outro. refletir esplendor. flamear (flamejar). . E. reluzir. como relâmpago. o mais expressivo. ou refletir. relampaguear e relampadejar) enunciam a ideia de luzir instantaneamente. – Rutilar é “luzir com luz viva e fugaz”. marca uma diferença bem sensível entre os dois verbos. chispar. – Cintilar é “brilhar com rápidas intermitências. rebrilhar. portanto. intensa. pelo menos tão próprio. – Transluzir é “emitir luz através de alguma coisa”. – Reluzir diz melhor – “refletir luz”. luzir. esplende majestoso na amplidão do céu. pois. “Aquela doce e gloriosa luz vem resplandecendo dalém dos montes”. mimo. dádiva. de todo o grupo. brilhar solenemente. resplandecer (resplendecer). vaga”. como ninguém se lembraria de perpetrar: “um adereço de diamante”. Dizemos. irradiar. – Todos estes verbos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia fundamental de emissão de luz. não seria possível confundir as duas palavras nem empregá-las indiferentemente. relampadejar). vacilante. fulgurar. Resplandece o sol quando vem nascendo. como chispar é “desprender chispas”. – Esplender dizem muitos autores que é o mesmo que resplandecer. faiscar. esplender. relumbrar. diamante. coriscar (coruscar). “diamante em bruto”. – Diamante é. refulgir. relampear (relampejar. – Este último vocábulo. fino. – Tremeluzir é “dar luz indecisa.

nevoeiro. – Dádiva é uma prova de generosidade. – Bulcão é “nuvem muito densa e negra. dito para que outros riam”. – Cômico é “o que é próprio da comédia. burla. – Bruma é “cerração espessa. mas emprega-se. literal ou gráfica. Busca-se ou procura-se por toda parte aquilo de que se necessita. ou de homens e coisas. – Nevoeiro é “grande névoa. que é bobo de praça”. o mesmo que gênero burlesco. – Caricato é o que tem a aparência de caricatura. – Nuvem é “acumulação de vapores. névoa. feito para causar alegria e riso. extravagante. – Ridículo é termo genérico aplicável a “tudo que provoca o riso ou que merece escárnio”. e este vocábulo não inculca que o objeto que constitui o presente reúna qualidades determinadas. – Grotesco sugere ideia de “caprichoso.. – “é um obséquio. de alguma coisa). nimbo. – Neblina é “nevoeiro menos denso e muito chegado à terra”. Para exprimir caricatura tem o francês a palavra charge (= representação exagerada. Procura-se (mas não se busca) uma palavra no dicionário. Caricato equivaleria. chistoso. procurar não inclui nem exclui essa ideia. – Destes dois verbos caricato. o que desperta riso. Gênero bufo. hilaridade”. que escurece o ar e ameaça de tormenta”. – A oferta considera-se como feita de inferior a superior”. uma prova de boa vontade. grotesco. ridículo. cômico. com mais propriedade do que este. – Bufão é o mesmo que bufo. – Dom é uma prova de munificência. ou o motejo. 446 BRUMA. caligem. bufão. esquisito. Ópera-bufa. Buscar inclui sempre a ideia de movimento por parte de quem busca. faceta. cerração profunda”. mas de esquisitice. – Névoa é “vapor aquoso que pela sua densidade não sobe muito nem se desfaz em chuva. – Burlesco diz propriamente “por diz muito judiciosamente Bruns. portanto. O que nos parece . – Negror e negrume só por figura é que se tomam por “bruma muito espessa. – Cerração é “forte nevoeiro que cobre os campos ou o mar. recebe o nome de donativo. faceto. escura e que quase sempre se desfaz em chuva”. grotesca de fatos.244 Rocha Pombo que por gentileza se oferece a alguém. bulcão. que é quase sempre seguida de tempestade”. 448 BUSCAR. nuvem. esquisito ao ponto de cair no ridículo”. que é demasiado até o ridículo. por brincadeira.: “Pretendem alguns que em buscar há mais diligência ou empenho que em procurar: não nos parece que tenha fundamento essa distinção. – “O brinde” – diz Bruns. e esta palavra (que tomamos do italiano) designa a representação caprichosa. nevoeiro principalmente no mar. ou bulcão ou caligem. excêntrico. pairando ordinariamente na encosta ou no cume dos montes”. bufo. como substantivo. densa e baixa”. cerração. – Faceto quer dizer – “engraçado. seria o mesmo que ópera-cômica. – O presente é uma prova de amizade. por exemplo.. negrume. negror. ao nosso carregado ou exagerado. muito fechado. o burlesco. em suspensão na atmosfera”. – Extravagante é “o que saiu do normal. – Truanesco é “o que faz coisas ou diz tolices de truão. que não guarda a devida compostura”. como de burla. – Bufo (transplantação do italiano) indica também o que é burlesco. truanesco. procurar. mais ou menos densos. ampla. por gracejo. impedindo que se veja claro a pouca distância”. e só pode consistir em algo de delicado”. 447 BURLESCO. principalmente nas manhãs de inverno”. chiste e graça que se não confundem com a zombaria. – Nimbo é “a nuvem grossa. neblina. Quando a dádiva tem um fim benéfico. – Caligem é “nevoeiro muito denso e escuro.

ou sem elevação que se destaque muito do continente”. rápido. – Cabelo é do grupo o termo genérico. não penteado. cabedelo. – Marrafa é uma porção de cabelo riçado. . Um inquilino procura casa para onde mudar-se. salto. – Guilhotina é “o aparelho moderno. catarata. corredeira. pontal. – Cabedelo é – Entre cadafalso e patíbulo. 451 CACHOEIRA. 449 CABELEIRA. cascata. quando o volume delas não é muito considerável. Ambos designam o instrumento de suplício nos países onde subsiste a pena de morte. – Corredeira é brasileirismo equivalente a cachoeira. Cabo é “a grande porção de terra que se mete pelo mar. principalmente quando é em profusão. ou um cabo de pequenas proporções. um necessitado busca ou procura um emprego”. o instrumento mais ignominioso: é “o aparelho onde se estrangulam os condenados à pena última”. catadu- delha. gue- “um diminutivo de cabo. caindo sobre a testa ou para os lados. e igualmente se diz dos cabelos postiços compostos de modo que cubram os naturais ou a calva”. – Pontal é “uma ponta de terra para o mar”. ou sobre os ombros. mudando bruscamente de nível. a ideia de que o fluxo das águas é menos vivo que na cachoeira. – Grenha designa cabelo embaraçado. – Madeixa é “um negalho. como diz o latim promontorium (mons in mare prominens). – pa. e vale por um pequeno cabo. – Cabeleira. ao patíbulo sobem os monstros. para decapitar de modo instantâneo os condenados”. que uma pessoa tem na cabeça. A cachoeira pode ser formada por um salto vertical (e então chama-se mesmo salto) ou por um plano muito inclinado”. e tanto se diz do homem como de certos animais.. usado principalmente em França e durante a Revolução. patíbulo. cabelo. Lesurques morreu no cadafalso. que se julga serem sinônimos perfeitos. Também se diz de cada uma das duas porções em que se divide a cabeleira ao penteá-la. – Catadupa e catarata dizem-se da queda de um grande volume de águas e de grande altura. se bem que encerre a ideia de menor volume de águas. desnudada e cheia de montículos de areia”. uma porção de cabelo enovelado ou em trança”. composta e ordenada. designa catadupa. 450 CABO. caindo pelas faces. promontório. – Cachoeira. uma madeixa de cabelo da cabeça ou da barba”. mas o patíbulo sugere ideia do castigo merecido pelo paciente. por mais que o uso geral não dê por semelhante distinção. – Forca é. longa. no entanto. – Cascata é a queda. forma cachões. forca.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 245 acertado estabelecer é que quem procura sabe que existe o que anda procurando. – Melena significa certa porção de cabelo. de todos. coma. sugerindo. marrafa. imponente”. é “o ponto onde um rio. em desordem. – Promontório é o cabo que termina em rocha escarpada ou em monte. – Salto. “diz-se de todo o cabelo. é preciso admitir uma certa diferença. 452 CADAFALSO. segundo Bruns. aqui. ou descida de águas por entre rochedos. enquanto que aquele que busca ignora se há o que anda buscando. e designa “o conjunto dos pelos que vestem a cabeça do homem”. guilhotina. sem notáveis acidentes. – Coma é “cabeleira farta. grenha. madeixa. ideia que se não encerra em cadafalso. e aplica-se particularmente a uma praia que avança para o mar. revolto. segundo Lacerda. – Guedelha é “uma pequena porção. – Rápido é “a parte de um rio onde a água muda um tanto de nível sem formar queda”. melena.

aqui. de guardar em segredo o que não deve ser divulgado. – Tratando dos seis primeiros vocábulos deste grupo. ou por moléstia. estimar. e senilidade à diminuição da energia moral e física ao mesmo tempo. quase sinistro. ou não revela o que sabe ou o que sente”. – Velho é o homem avançado em idade e sem mais o vigor de moço. – Calado é “o que está sem falar. quieto. – Reservado é um tanto mais expressivo que o termo calado. mais de rotina que de ciência. velho (velhice). ancião”). prudente”. que contém o mesmo radical latino que o primeiro (senex “velho. senilidade. ou por defeito orgânico (e então é mudo). pois. – Quieto. de sorte que um sujeito que esteja calado ou mesmo que seja mudo pode não estar silencioso. guarda silêncio. 455 CALCULAR. além de calado. Há entre calado e mudo. – Taciturno é aquele que. calado. ao alquebramento das forças. Decrepitude (ou decrepidez) é a qualidade de decrépito. computar. ou fazer operações . conta. gesto. caduquice é “manifestação de caducidade. ou por algum motivo. e que chega ao seu fim”. – Caduco. contar. Entre caducidade e caduquice há muita distinção: caducidade é “a idade ou a qualidade de caduco”. ou pela idade. diz o mesmo que “sereno. mudo.. aplicável tanto a pessoas como a coisas: o que é ou está silencioso exclui a ideia de rumor. no entanto. silencioso. pois à ideia de falar pouco reúne a de muito cuidado em não dizer o que é inconveniente. é obra. uma diferença que se não deve esquecer. sombrio. cálculo. taciturno. por isso é que este vocábulo sugere ideia de estar em silêncio. calmo. se mostra esquivo. e mesmo que silencioso. O que está mudo não pronuncia palavra alguma. de ar severo. o que está calado também cômputo. – Inválido é o que. se tornou incapaz das funções que lhe eram próprias. que não está mais na lucidez da sua razão e que caiu em quase idiotia. 454 CALADO. evitando o convívio e tudo vendo com maus olhos. designa o que tem perdido as forças do espírito. inválido (invalidez). e senilidade. reservado.246 Rocha Pombo 453 CADUCO (caducidade e caduquice). mas este ensino. – Quieto é propriamente o que não se agita. ou por deformação orgânica. aplicado às pessoas. consiste em fazer numerações e algumas operações aritméticas para conhecer uma quantidade: é. por assim dizer. ensina-se a ler. avaliar. – Sombrio é quase o mesmo que taciturno: apenas sugere melhor a ideia de tristeza que em taciturno como que desaparece ou se disfarça sob o ar de esquivança ou mesmo de repugnância que este encerra. não articula palavra alguma por um motivo qualquer. – Calcular é executar operações aritméticas. de- crépito (decrepitude). senectude. carregado. o romance da sábia língua do cálculo. suputar. de ser discreto. nas escolas de primeiras letras.: – “A palavra contar é a mais genérica de todas estas. – Velhice é o estado de exaustão a que chega o velho. Deve notar-se entre os dois vocábulos a seguinte diferença: senectude refere-se mais particularmente ao físico. esmar. diz Roq. palavra etc. reserva e cautela. nem se move demais. que está de todo gasto. escrever e contar. também designa a qualidade do que chegou à extrema velhice. sombrio. discreto. orçar. mas o que é calado nem por isso se entende que esteja ou seja mudo: basta que fale pouco e com muita prudência. desfeito. – Senectude é a idade avançada. – Silencioso é termo genérico e muito extenso. – Invalidez é a qualidade ou condição de inválido. de caduco”. desordenado. – Decrépito designa “o que não tem mais forças para viver.

Para estabelecer o orçamento de um ano econômico suputam-se (hoje só se usa – orçam-se) as receitas e os gastos prováveis. construído com mais ou menos arte. a uma demonstração. O amo toma contas a seu feitor. etc. raia.. pois é uma operação determinada e limitada a cálculo. Um menino conta primeiramente pelos dedos – um. Assim é que o cronologista computa os tempos. etc. dois e três fazem cinco. pois. mas não rigorosa. quase sem refletir”). para chegar a um conhecimento. 456 CAMINHO. adicionar os números dados.. – Orçar é “calcular aproximadamente. como – via marítima. ou fluvial (e não – estrada. O computar é próprio dos doutos. Há. vereda.. ou fazer um cálculo. começando por um. É assim que tanto dizemos – via terrestre. estrada. o geômetra. em lugar de combinar. nem mesmo caminho). em suputar uma ideia de cômputo falível”. quando queremos saber o número de certas coisas. senda. – O cômputo compreende-se no cálculo e na conta. – Calcular usase no sentido figurado. e como que ressentindo-se disso no significado. O comerciante tem seu livro de contas em que assenta tudo quanto se refere a seu débito e a seu crédito. de uma despesa. – Avaliar é “estabelecer o valor de uma coisa. trilha. de comércio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 247 particulares da ciência dos números. aberto por entre obstácu- . – O contar olha-se como negócio que poderemos chamar econômico. como se pode ver nos dicionários”. partindo de termos conhecidos para chegar a um desconhecido. isto é. sem os fundamentos com que se orça”. – Suputar (que é desusado) é. – Dizemos – cálculos astronômicos. etc. etc. e de modo que se preste ao tráfego de veículos”. cálculo diferencial. Há estradas de rodagem. picada. de uma receita provável por ser baseada em dados que não devem variar muito”. etc. e com muito mais razão está longe de poder calcular por divisões. vici- na. e este deve ter suas contas claras e em dia. – Esmar é “orçar ligeiramente. – Trilha (ou trilho) é caminho estreito. dois. raciocinar. o infinito. e apenas se aplica no sentido próprio. “computar com dados cuja exatidão se julga a mais perfeita possível. já se diz também – caminho de ferro. infinitesimal. segundo Bruns. – Via só dá ideia do meio de comunicação entre um e outro ponto. três. estradas de ferro. relativo a assuntos de interesse material. via. – O cálculo é uma verdadeira ciência formada de muitos métodos mui sábios. combinar. – Estimar é determinar o valor de uma coisa. Por influência do francês. e rigorosamente falando não computa enquanto não pode dizer – um e dois fazem três. algébricos. – Todas estas palavras têm de comum a propriedade de designar “espaço aberto conduzindo de um lugar a outro”. carreiro. e o astrônomo computa sobre tábuas de sua ciência para fixar o tempo e o instante mesmo da repetição de um fenômeno. isto é. e até certo ponto tem necessidade de saber calcular. O astrônomo calcula a volta dos cometas. de administração. Contamos quando numeramos. atalho. Todo homem deve saber contar. A palavra computar não é conhecida do vulgo. – Contar entra em mui variadas locuções. etc.. em vez da qual usa de contar. para conhecer o total ou o resultado que se procura. – Estrada é “caminho largo. – Caminho não sugere mais que a ideia de “espaço ou trilho livre entre dois pontos”. azinhaga. com mais fundamento do que quando se estima”. – Computar é reunir. dois. etc. pois esmar é “estimar a olho. calcular a esmo. a uma prova. fazer o cálculo de um gasto. multiplicações e diminuições. integral. sem base segura: é pouco menos vago apenas do que esmar (não sendo este mais que uma contração daquele. sem calcular.

astuto. o sofístico descobre-se facilmente. – Atalho é “caminho estreito. Talvez só se explique isso pela beleza fônica do vocábulo. traiçoeiro. No capcioso há engano. religioso. – Argucioso é “o que usa de . – Insidioso (do latim insidiœ “ciladas”) revela ideia de laço preparado para nele fazer cair alguém. para os lugares vizinhos”. – Sofístico só se diz dos argumentos. o esgotamento. subtil. canção. o que é insidioso. Aplica-se particularmente este vocábulo ao discurso ou argumento com que se enreda alguém de modo tal que toda escapatória se lhe torna impossível. – Raia é. é um “hino religioso.. canseira. – Azinhaga é também “caminho estreito”. Não se compreende como é tão usada esta palavra na frase – a senda. arguto. não obstante. argucioso. – Vereda é “trilha tão maldistinta que apenas parece marcar o rumo seguido”. e até – “a larga” senda do progresso.. – Vicina é termo pouco usado. do tom. desânimo e prostração em que põem a fadiga e o cansaço”. o desgosto em que se fica. – Cansaço é “a depressão de ânimo e de forças físicas que se seguem a esforço longo ou violento”. – Picada é “trilha mal aberta em floresta. – Arguto diz-se do que é subtil e engenhoso. ou caminho muito estreito por onde mal pode passar-se.248 Rocha Pombo 458 CÂNTICO. fazer esforços para apoderar-se de”.) enuncia a ideia de meios hábeis. em vez dele. caviloso. e mais frequentemente se toma à boa que à má parte.. cortando-se apenas as árvores. Um argumento capcioso leva ao erro. Ficou a morrer de cansaço quando deixou a forja. fadiga.. – Carreiro é “caminho estreito. – Canto é “toda composição poética que pode ser cantada”. velhaco. e mesmo heroico”. falaz. 459 CAPCIOSO. no que é arguto há muitas vezes algo de capcioso. a passagem rápida para transpor um embaraço. canto. São só para nós as canseiras da vida. astucioso. (não – os cansaços). – Senda. aberto pelo tráfego de carros”. que levam de um caminho geral ou de uma estrada. hino. dos modos. sub-reptício. Designa particularmente o poema lírico sobre tema popular. “uma curta trilha destinada a jogos de corrida”. falacioso. – Segundo Bruns. – Fadiga é o “cansaço que resulta de longos trabalhos. a locução – caminho vicinal – para indicar os “pequenos caminhos. etc. (não – de canseira). – Lassidão é a “completa exaustão.. – O hino é “um cântico que pode ser patriótico. se se atende à respetiva origem (do latim semita de semis + iter) deve significar “meio caminho”. Nesta acepção.. à vontade. – Canseira é “o abatimento geral que impede de agir. ou insidioso não é fácil de descobrir. a indisposição. lassidão. O que é capcioso dirige-se ao entendimento. Empregam-se meios capciosos para levar alguma pessoa a confessar aquilo mesmo que nega obstinadamente.. destinados a apanhar a alguém como se apanha um animal a que se armam laços disfarçados. ardiloso. – capcioso (do latim captare “tratar de apanhar. insidioso. aqui. no insidioso há má intenção... e só daqueles com que se pretende enganar o entendimento sem nenhum outro fim imediato. panegírico”. solene. trilha.. uma promessa insidiosa conduz a imprudências. etc. O que é capcioso. pois este designa melhor o sulco. ob-reptício. – O cântico lo. azinhaga por onde se evitam as longas curvas do caminho geral”. numa certa direção”. 457 CANSAÇO. Diz-se das palavras. – Canção é termo muito mais próprio do que canto para significar “a poesia que é própria para ser cantada”. trilha é vocábulo mais próprio e mais usado do que trilho. mas sugere a ideia de “complicado e escuso”. empregando-se.. devidos à faina muito agitada e aflitiva”. sofístico.

– Ob-reptício = “que se obteve por meio de ardil. e que importa conhecer para não as confundir”. E junto do penedo outro penedo. de argumentos capciosos. – “Por estas palavras” – diz Roq. a capitulação é . portanto. gestos. V. José Agostinho de Macedo diz na Meditação: Mas que pasmosa arquitetura é esta Deste corpo. astucioso. – Conquanto prove- nham do mesmo original latino (capitulum. nos Lusíadas. cabido. – “designa-se a parte mais nobre do homem. e pode aplicar-se tanto à linguagem como à própria pessoa. É expressão vulgar. frente. Que eu pelo rosto angélico apertava. E no c. é o que emprega astúcias contra outrem”. 51: Que não no largo mar. Não fiquei homem. 460 CAPITULAÇÃO. eu sinto? [A frente Qual soberana. fraude ou mentira para enganar”. – Falacioso é “o que usa de falácia. rosto. ou fronte (que vêm ambas de frons). quer dizer – de enredos. como a serpe na relva”. rendição. que mente. etc. de subtilezas e disfarces”. em lugar dela usam os poetas a palavra frente. e às vezes incivil e grosseira. Também só se deve referir ao discurso. cume ou cimo. – Cara é da palavra grega kára. tos estes dois sinônimos. Não é admitida em estilo elevado. Mas no lago entraremos de Aqueronte. mas não seria próprio dizer – tipo falaz. – Sub-reptício = “que se conseguiu iludindo. – Astuto só se pode referir às pessoas. só à linguagem. e significava cabeça. é o que se insinua habilmente no ânimo de outrem. e de alguns animais brutos. parte que ao corpo. de surpresa ou dolo”. A rendição supõe que a entrega é feita “sem ajuste prévio nem condições. 56: Estando c’um penedo fronte a fronte. – Astuto é “o que com arte. como quem prepara emboscadas”. vulto. capítulo é “a assembleia em que o cabido toma as deliberações para que tem autoridade”. que inventa e dissimula para fazer cair em erro”. enganando. mentindo. sagacidade consegue o que deseja”. de falsidades”. que eu palpo. – Caviloso é “aquilo em que há sofisma ou má-fé. sabe usar de disfarce para encobrir o seu intento enganoso. – Falaz é também “enganador. mas entre nós só significa a parte anterior da cabeça do homem. fronte. além de astuto. finura. preside e manda. para fugir a um compromisso”. qual soberana. Mas.” 461 CAPÍTULO. tanto às pessoas como aos discursos. isto é. Dizemos – gestos falazes ou falaciosos. – Velhaco é “o que usa de fraude para enganar. de caput “cabeça”) distinguem-se assim estes dois vocábulos: cabido é “a corporação de cônegos de uma sé”. e sim – tipo falacioso. – Astucioso é “o que. ou karé. não. lhe preside e manda! E Camões. ou ato de capitulação. – Traiçoeiro é “o que age com perfídia. – Subtil é “o que induz a erro sem que a vítima se aperceba. com leda fronte. – Ardiloso é “o que emprega meios enganosos e traiçoeiros. 462 CARA. face.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 249 argúcias. ou ocultando a verdade ou qualquer circunstância que conhecida seria motivo para que se não nos concedesse”. mas mudo e [quedo. Ambos significam o ato de entregar-se ou de se considerar vencida uma praça de guerra. cada uma delas ajunta à ideia fundamental alguma acessória que a modifica. Aplica-se. passando a guarnição da praça rendida a ser prisioneira do vencedor”. semblan- te. – São bem distin- “a entrega da praça feita e regulada por uma convenção prévia. I. armando traição”.

F. ou que é passageira33. mas em desejo aceso? (Lus. (Lus. em que o nariz forma uma espécie de bico. significando rigorosamente a maçã do rosto. 33 E aqui está a verdadeira distinção entre caráter e humor: no caráter há fixidez de disposições. – Segundo Bourg. entende-se sempre como sendo uma disposição permanente do espírito. e humor alegre.250 Rocha Pombo 463 CARÁTER. tempe- – Chamavam os latinos rostrum ao bico das aves. e como é no rosto que mais avultam as feições humanas. III. e talvez “rosto formoso”. e ao que com ele se parecia. e da seguinte: E com o seu apertando o rosto amado. O mais comum. Que o coração converte. – À palavra latina vultus muitas vezes corresponde a nossa semblante. Um caráter leal é a disposição permanente para a lealdade. índole. pois só se diz dos racionais. gênio. não somente uma simples disposição do espírito. marcando. ramento. muito a propósito. Pode dizer-se igualmente. usam-na os poetas para indicar o mesmo rosto. sombrio. por ser a parte saliente do corpo. para a franqueza: uma disposição. “O semblante (o vulto) muitas vezes indica os sentimentos da alma”.. . – Caráter. Vultus animi sensus plerumque idicant (De Orat. constituição. ou pouco mais ou menos permanente. instinto. esquisito. pois humor. Dizemos – um caráter leal (não – um humor leal). etc. significa por extensão toda ela. e muitas vezes equivale à representação exterior. Toda disposição de espírito própria para estabelecer uma séria distinção entre um homem e um outro homem é um elemento do caráter. feitio. pode entender-se que essa disposição é permanente. os nossos antigos chamavam. ânimo. idiossincrasia. mas uma disposição tal que possa estabelecer uma notável distinção entre um homem e um outro homem. do que na alma se passa. De um vulto de Medusa propriamente. Dizemos – F. ao esporão da proa das embarcações. Não há. e ainda hoje os castelhanos chamam rostro à cara dos racionais. porém. ou a parte da cara desde os olhos até à barba. e não – está de bom caráter. com a sociabilidade ou a falta de sociabilidade: tais são as disposições para ser alegre. ou quase permanente. Que os soluços e lágrimas aumenta. que. marcando simplesmente uma certa disposição do espírito. está de bom humor. 35). II.. quando a consideramos voltada para nós. II. para a probidade. que no rosto se mostra.. natural. feição. complacente. sombrio. 41) – Semblante (talvez do francês semblant) é o rosto considerado como expressão dos afetos ou paixões. – Da palavra latina facies vem o nosso vocábulo face. especialmente as disposições do espírito que têm relação com a moralidade são elementos essenciais do caráter. de tendências. como se vê da precedente citação de Camões. dócil. O humor resulta de um certo número de disposições do espírito que têm relação com a melancolia. usa-se. sobretudo visto de perfil. as disposições que formam o humor podem ser e são quase sempre momentâneas. é significar esta palavra vulto o relevo do corpo humano. é de um caráter austero. É expressão mais elevada que a palavra cara. e é poética. ou com o seu contrário. sombrio. como se vê deste lugar de Cícero. compleição. humor. e não – de humor austero. que tem preso Em pedra não. – “o caráter e o humor resultam de disposições do espírito que são particulares a uma pessoa. ou com a mesma propriedade um caráter ou – um humor. rabugento. alegre. Por suavidade de pronúncia se diz rosto. como se infere destes versos de Camões: Quem32 de uma peregrina formosura. e Berg. ou para ser triste. uma perfeita equivalência entre caráter alegre. 142) 32 Subentende-se: pode livrar-se. no entanto.

e essa ideia torna-se como que característica da própria mistura ou amálgama. sólida e capaz de resistir às fadigas. temperamento dá. a índole. – Temperamento (de temperare ‘misturar. de preferência – um temperamento ardente. e não sob o ponto de vista do bem ou do mal. a ideia de uma certa força ou violência atribuída aos elementos. considerados no seu grau de força ou de vivacidade. – Gênio é a disposição natural com que cada um revela a sua vontade. não se é arrebatado. – Segundo Lafaye –. – Entre índole. feição parece enunciar melhor a ideia de modos exteriores.. a despeito do que diz Bruns.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 251 portanto. por isso. o gênio e o temperamento forma o caráter de cada indivíduo.. – Feição é. tem bom gênio (e nem por isso terá sempre boa índole). – Idiossincrasia é termo erudito e moderno. e que é eminentemente própria para distinguir um de outro homem. escreve o mesmo autor: “Complexão (do latim complexio. plexus ‘dobrado com. – Temperamento é a sensibilidade. no exercício de alguma função ou na prática de certos atos. que sabe moderar os transportes de ira. à virtude. o estado de espírito em que se está em certa situação.. ao bem. a natureza de cada indivíduo. O homem que não se irrita facilmente. Dir-se-á. que se refere à moralidade. Mas o homem – diz Roq. sugere melhor a compleição. pois. revelada na maneira de ser. formado pela índole e o gênio. nem temperamentos). de cum + 34 Pode mesmo ter mau gênio e ter boa índole. sobretudo entre as partes líquidas. – Instinto é o modo de ser ou de agir quase inconsciente. que os movimentos da sensibilidade. e não se enoja arrebatadamente. uma saúde robusta. Comparando compleição e temperamento. e segundo o qual julgamos as coisas. e – uma compleição delicada”. – Complexão (ou melhor – compleição que é mais vernáculo. não tem sentido. um – temperamento forte. a índole de cada um. a conformação dos membros. Quando se é de um natural brando.. de costumes e hábitos. enquanto que compleição e temperamento designam o estado de saúde interior. e – uma compleição biliosa. A constituição representa (é ainda de Laf. melhor. quando se é brando por temperamento ou compleição. adoçar’) anuncia um amálgama de coisas violentas que têm necessidade de corrigir-se e que se corrigem uma pela outra. – Há naturais (ou naturezas morais) benfazejos. – Feição e feitio bem que se podem confundir. Mas.. as suas emoções. importado diretamente do gre- .) antes o bom estado exterior e visível do corpo. viciosos. gênio e temperamento há tanta semelhança que poderiam facilmente confundir-se os três vocábulos”. como feitio. é o impulso natural a que obedece o homem. mais ou menos viva de cada um. no entanto. tem boa índole (e não se dirá – tem bom gênio)34. no modo de encarar as pessoas e as coisas. – que é naturalmente inclinado à verdade. Poderia aproximar-se muito de humor. natural exprime as qualidades do caráter. é o modo de ser do espírito. não se cometem crueldades. – Feitio. humor leal. como por inspiração. e os animais principalmente. isto é.. aqui. nem sujeito a fortes movimentos de paixões. – Índole é “o modo de ser. – Ânimo é. complicado’) exprime uma certa união de todos os sistemas e aparelhos orgânicos. as disposições naturais para o bem ou para o mal – ou melhor.) e temperamento não significam mais que o humor.. bons ou maus. O humor não resulta de disposições que tenham relação com a moralidade. a inclinação de cada um”. Estas duas palavras fazem conceber uma proporção entre os elementos do corpo. a natureza moral. sem refletir nem cogitar do que se vai fazer. bruscos (e não – compleições. os humores. a perspicácia com que se faz alguma coisa espontaneamente. A união da índole. Também significa o tino.

formam o esqueleto. sugerindo ideia de “cortar. – os ossos do corpo completo do homem. o verbo precisar. 465 CARECER. e até mesmo de quase penúria: ideia que se não inclui na palavra careza. em virtude da qual cada indivíduo sente de modo diverso os efeitos da mesma causa”. Quando se diz que.. “Ele sacrifica-se a trabalhar dia e noite porque precisa ou porque necessita”. Ninguém carece daquilo que lhe não seria de proveito. necessitar. por assim dizer. Quem necessita de alguma coisa dá ideia de que essa coisa lhe é necessária. – Arcaboiço (de que não cogita o autor citado) é a “armação de ossos que formam. e carcaça é termo que só em linguagem familiar se pode dizer por esqueleto. de ser. necessidade. expressa que lhe conviria muito alcançar ou possuir essa coisa. e conforme se emprega ou não entre os dois a preposição de. como intransitivos. nem – que necessita de cem contos. nem protetor. O sujeito que carece de emprego. miséria. ou conveniência em falar-lhe).). de preço mais alto que o comum. sede. que estes verbos precisar35 e necessitar. carência. – Segundo Bruns. ou de proteção. ou carere. de escassez que obriga à privação muita gente. Observemos. indigência. Necessitar aproxima-se. Como não se carece de meia dúzia de chapéus para não andar descoberto (sim – de um chapéu).. pobreza. fome. não se pode carecer de cem contos.) 464 CARCAÇA. – Careza é a qualidade de caro. um artigo. precisar. Neste caso empregaríamos. Há.. É conveniente notar ainda que não carece daquilo que nunca se teve. carece de cem contos para realizar um negócio que planeou”. sem dúvida.252 Rocha Pombo go. ou do animal. Também não se diria que “F. escassez. 35 O verbo precisar também pode ter significação diferente quando rege algum outro. isto é. arcaboiço. penúria. não tem nenhum emprego. portanto. portanto. inó- (do latim carescere. nem de um banquete para matar a fome (sim – de um pouco de pão). – Esqueleto é palavra científica. Quem precisa de alguma coisa. uma grande diferença entre careza e carestia: esta sugere ideia de carência. – Carecer carece de lógica é que não é senão absurdo. . como entendem Roq. O argumento que pia. – Carestia é “o preço elevado das coisas determinado pela falta ou pela grande escassez dessas coisas”. para coisa alguma. por último. A carcaça é a porção de ossos que formam o tronco do homem ou o bojo dos animais. – Entre precisar e necessitar poderia ser mais difícil estabelecer diferença do que entre estes e aquele primeiro verbo. mais de carecer do que precisar. dizemos que – um negociante precisa de cem contos para ampliar as operações da sua casa (e não – que carece. Quem carece de alguma coisa é que não tem essa coisa que lhe seria útil. em que figura a raiz grega ker. – Carência é “a falta de alguma coisa. Para isso seria necessário admitir que esse homem sabe que não tem vergonha e quer ou deseja tê-la. encurtar”) significa propriamente “ter falta daquilo que se deseja ou de que se precisa”. no entanto. a base ou o fundamento do organismo humano”. mas falta que se sente e que passa. e Lac.. “Preciso falar-lhe” (isto é – tenho obrigação de. a ser necessidade quase”. Em bom português não se poderia dizer que – “um homem carece de honra ou de vergonha”. 466 CARESTIA. Por isso. careza. significam evidentemente “ter falta do que é indispensável”. (Aul. esqueleto. “Preciso de falar-lhe” (isto é – tenho necessidade. Em regra. significando “disposição particular do temperamento e constituição. ou precisão de falar-lhe).

todo ofício vem a ser cargo. ministério. sem que tenham mais título que sua eleição ou nomeação. às vezes até adquirida por herança. Há empregos vagos na repartição tal (não – cargos). colocação. Mais restritamente é “a falta do necessário”. com efeito. – a ideia própria da palavra ofício é a de obrigar (ao que exerce o ofício) a fazer uma certa coisa útil à sociedade. mas esquecendo-se que nem todo cargo é ofício. que sugere. Um homem que luta heroicamente para viver pode estar até em penúria sem ser indigente. enquanto que os ofícios constituem. Confundem-se às vezes estas palavras. emprego. Entre cargo e encargo não é muito raro notar uma certa confusão. do grego peina “fome. pois. Um sujeito rico pode achar-se em verdadeira miséria de vida se é um perdido. isto é – de ser curto. Certos cargos no governo e na administração do Estado são verdadeiros ofícios que de direito se exercem. Encargo não é mais que a obrigação que decorre de um cargo ou de um compromisso que se tomou. Lavra a miséria num país.. em abastança”. papel. por mais distintas que sejam estas duas palavras. de ser. ofício. isto é – de achar-se alguém em tal penúria que precisa de recorrer à caridade de seus semelhantes”. é que não temos as notícias que esperávamos. de indigência que comove. A ideia própria de ministério é a de que a pessoa que o exerce desempenha um certo cargo por outra pessoa. “temos carência de notícias a respeito de alguém ou de algum sucesso”. parco.. de fazer ou cumprir um certo dever aquele que toma o cargo ou o ofício. insuficiente para o fim a que é destinada”. pode ser bem físico ou moral”. mesquinho. de não possuir meios de viver folgado. pode definir-se como significando “contingência fatal.” (e em nenhum . que dependem de nomeação ou de eleição. e sugere a ideia de que “o necessitado solicita auxílio. aflitiva de algum bem. que inspira piedade. da diplomacia. – Necessidade. ou da autoridade que a nomeia. É.)] é “pobreza extrema e dolorosa. força”. lugar. a cargo pela necessidade. – Pobreza é “a qualidade de ser pobre. “tomo o encargo de avisá-lo a tempo. portanto. muitos outros entre os vocábulos deste grupo) empregar no sentido moral como no físico”. “meios. etc. e tanto se pode (como. em nome de outrem. etc. não se pode dizer que sejam propriamente ofícios. – Escassez é “a qualidade de escasso. a coisa escassa. aliás. o emprego muito diferente do cargo. “os meus encargos estão satisfeitos”. isto é. 467 CARGO (encargo). Dizemos inópia tanto em referência à falta de dinheiro. do alto funcionalismo (não – empregos). falta absoluta. por assim dizer. – Miséria é “o estado de penúria. Tem-se fome ou sede de justiça (isto é – clama-se por uma justiça sem a qual teremos de perecer). função. necessidade violenta” (Chass. clamante do indispensável”. mas os cargos de prefeito ou de intendente municipal. – Segundo Roq. é pobreza horrível e desventurada. recursos. uma qualidade permanente. corresponde. e ali a fome já espreita as vidas. senão cargos. – Indigência é “a qualidade ou estado de indigente. Há cargos da magistratura. pede socorro”. imposta pelo destino”. – Sede e fome entram aqui numa acepção muito particular: exprimem “necessidade ansiosa. em toda a sua extensão. porque os que os desempenham só o fazem ou devem fazer por um certo tempo. pois. – Emprego encerra a ideia de estar o empregado sujeito a um trabalho permanente e obrigatório. Dizemos: “cumpro os meus encargos”. + ops. carência absoluta de alguma coisa”. – Penúria [latim penuria.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 253 por exemplo.) e que significa “falta. ou como direito anexo a uma dignidade. de moralidade. como à falta de talento. – Inópia é a palavra inopia que importamos do latim (de inops = in neg.

principalmente quando o conteúdo delas interessava a muitos. É possível. tratando de graves assuntos. e é antônimo de frugívoro. Feros vos amostrais. 130) 470 CARTA. – Lugar é “qualquer emprego. capaz de sentimentos de caridade”. Significa. missiva. epístola. Deveres caridosos (e não – deveres caritativos). com a significação de cruel e sanguinário. a função própria que se toma num dado momento. – O bilhete difere da carta: em se ocupar só de um assunto. funções) é “o conjunto das obrigações. mas as respetivas terminações marcam entre eles uma diferença bem sensível. – Papel figura neste grupo com o sentido translato que se lhe dá em frases como estas: “fiz do melhor modo que pude o meu papel”. o segundo anuncia simplesmente o fato. Familiarmente dá-se hoje o nome de epístola a uma carta muito longa e em estilo pretensioso. em forma literária e em tom solene. o lobo são animais carniceiros. – Segundo “caridoso indica maior e mais frequente caridade que caritativo”. que se ceva de carniça. e carnívoro pertence ao que come carne. “F. cheio de caridade”. – Colocação é quase o mesmo que emprego: ajunta apenas à significação deste a ideia de que o emprego é permanente e quase sempre de certa importância. como quase sempre é usada. e cavaleiros? (Lus. é muito caritativo”. quando comparam estas duas espécies de animais. o cão.. – Caridoso diz apenas – “de caridade. “F. – Caritativo é propriamente “o de natureza moral dada a atos de caridade. – Epístolas dizemos das cartas dos antigos. caritativo. a nosso ver. o gosto. ou tratando de assuntos que lhe interessam mais ou menos diretamente. emprego ou ofício”. – Carniceiro é o animal que Bruns. portanto.. – Missiva é a carta considerada com relação à pessoa que a manda. a obrigação que se aceita num certo caso. mas essa distinção não basta.. de pequena importância. 469 CARNICEIRO. e não pode viver de outra coisa. carnívoro é o que come carne. de um ministério. III. se nutre de carne. por isso mais usado é. Ato caridoso. o leão. Paulo. que se confundem. o homem. dos serviços próprios de um cargo. o hábito constante. Carnívoro é termo mais próprio de ciências naturais. O primeiro indica o apetite natural. está no seu papel”. – Diz Bruns. Criatura caritativa. estes dois adjetivos. por exemplo. o costume. carniceiro é termo vulgar da língua. carnívoro. e sem razão. – carta é o termo usual com que se designam os escritos que se dirigem a alguém dando-lhe notícias. e que isso é “devido à índole da terminação oso”. por uma necessidade de natureza. 468 CARIDOSO. Os naturalistas. e o uso geral o admita. ó peitos carniceiros. e não – caridosa. o instinto. ou de assunto ligeiro. Estes dois adje- tivos designam em geral os animais que se sustentam de carne. sentimentos caridosos (e não – ato caritativo. indício de caridade. por mais que muita autoridade de nota o queira. como. como fez Camões naquela apóstrofe aos assassinos de Inez de Castro: Contra uma dama.254 Rocha Pombo destes casos – cargo ou cargos). em conter poucas palavras e excluir as formas cerimoniosas que encabeçam e concluem as cartas ordinárias. é termo pouco usado. as epístolas de S. mais ordinariamente – emprego por pouco tempo ou de pequena monta”. o gato são carnívoros. que se ceva de carne crua. – Função (ou. às vezes. Parece. e pode nutrir-se de frutos da terra. dizem que o nome de carniceiro pertence àquele que. próprio de caridade. O tigre. nem – sentimentos caritativos). bilhete. mas não é reduzido a este só alimento. .

e por extensão. às casas habitadas de um distrito. designa. – Fogos é o nome que se dá. portanto. cujo teto de pouca inclinação é coberto de feltro. palácio. – “casa rústica de madeira. palacete. de uma cidade. ou de ramos de árvores para habitação de pastores”. ou de uma povoação: “a aldeia vizinha não chega a ter cem fogos”. 255 tugúrio. colmo. “era-lhe o céu um teto misericordioso”. Por isso. usa-se quase sempre com um adjetivo: bela vivenda. pardieiro. – Casebre é “pequena casa velha e arruinada. tenda. castelo. canto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 471 CASA. significando “casa de escada exterior. ou onde se fica por algum tempo. o sítio. – Tenda é “armação coberta para abrigo provisório ou de passagem em caminho ou em campanha”. ou choupana. – Arribana é “palheiro que serve mais para guarda de animais e trem de viagem propriamente que para habitação. passou a designar também a própria casa. aqui. o mais genérico. – Palheiro é propriamente o lugar onde se guarda palha: designa. toda parte onde se abrigam alguns animais: a casa do escaravelho. à própria habitação magnífica. solar. portanto. – Palácio é “o edifício de proporções acima do normal. ou palácio. e forma grande saliência sobre as paredes”. coberta de tela de lona ordinariamente”. ordinariamente revestida de madeira. onde alguém se aloja provisoriamente”. – Mansarda afasta-se um pouco do francês de que a tomamos (mansarde é propriamente água-furtada ou trapeira. – Casa é “o edifício de certas proporções destinado à habitação do homem”.). – Cabana (do italiano capánna) é “casinha coberta de colmo ou de palha. nas estatísticas. no português usual. cabana. a sua choupana). – Palhoça é “pequena casa coberta de palha”. biombo. “prédio rico e elegante”. “abrigo ou habitação muito rústica e grosseira”. de convívio amoroso: “teto paterno”. onde mora gente muito pobre”. – Habitação é. – Morada é “à habitação onde se mora. prédio. (Aul. – Vivenda é a “habitação onde se vive”. de proteção. ou biombo – tudo será habitação. grandioso e magnífico”. isto é – o último andar de uma casa tendo a janela ou janelas já abertas no telhado): tem. é “o lugar. – Colmo. chalé. palheiro. designando. onde se abrigam à noite os camponeses. palhoça. pelo menos com a mesma propriedade –. – Chalé é palavra da língua francesa. choça. – Lar é a “habitação considerada como abrigo tranquilo e seguro da família”. e sugere melhor a ideia de conchego. teto. hoje muito em voga. – Barraca é “tenda ligeira. habitação. de todos os vocábulos deste grupo. que é o que significa propriamente esta palavra habitação. asfalto ou ardósia. de tegere “cobrir”) é “o abrigo onde qualquer vivente se recolhe. – Canto. choupana. vivenda. barraca. que se habita: casa. onde alguém como que se refugia afastando-se do mundo”. por modéstia ou por falsa humildade. etc. neste grupo. Dizemos que o selvagem procura a sua choça (e não. – Choça é “habitação ainda mais rústica e grosseira que a choupana”. no estilo suíço. cômodo. lar. em linguagem vulgar. – Teto (latim tectum. fogo. também de tegere) é quase o mesmo que tugúrio: apenas teto não se aplica a um abrigo de animais. vivenda detestável. a morada humilde e desolada. casebre. Palacete é diminutivo de palácio. – Choupana é – diz Aul. De “ato de habitar”. a casa dos coelhos. prestando-se quando muito para pernoite ao abrigo de intempéries”. arribana. junto ou no meio das roças ou lavouras”. morada. aqui. e sugere a ideia da maior ou menor comodidade com que a gente aí se abriga e vive. mansarda. ou habitualmente ou por algum tempo”. Este nome dá-se também. – Tugúrio (latim tugurium. é “o colmo tomado pela cabana que é dele coberta”. mais a significação de “habitação .

pessoa. propriedade real”. suposição. – Pardieiro é – diz Aul. – Solar é “a propriedade (terras e casa) considerada como representando uma tradição de família. se se der o caso de não ter ele filhos. de circumstare ‘estar à roda de’) diz-se das particularidades de um fato. menos precária. de Newton. de Leibnitz chamam-se hipóteses e não suposições. hipótese. Roubaud. a situação da França em 93. onde se vive com opulência”. mas que. conjuntura. funda-se numa verdade filosófica. – Cômodo. luxuosa. a situação atual do país. “o conjunto de circunstâncias que determinam o estado ou a condição de uma coisa. termo vulgar. pode ser favorável ou desfavorável. têm com ele alguma relação. situação. incômoda e difícil. entra na conversação ordinária. A hipótese é mais certa. a suposição é gratuita. sempre que este fato se possa relacionar com princípio geral: aos casos particulares não têm os magistrados senão leis gerais para aplicar. – Circunstância (do latim circumstantia. porque esta só de longe se relaciona com o ponto de que aquela está próxima. à inteligência. – De suposição e hipótese escreve Roq. – Bruns. nem com ele se relacionam imediatamente. aqui.: “Além da primeira diferença que há entre estas palavras (e que consiste em ser um. suposição. etc. Um sinonimista francês. como alegação. – Castelo era antiga habitação fortificada. circunstância. – Biombo é “um pequeno recinto separado de uma sala por meio de tabique móvel. ou das coisas que. – “edifício velho e em ruínas”: “Já me cansam estas perpétuas ruínas. tendo passado por herança de pais a filhos desde alguns séculos”. num dado momento. a propriedade que consta da casa e do terreno onde está construída”. Os sistemas de Descartes. e que serve de dormitório.” . que não tem outro fundamento que a má vontade da pessoa que supõe. aqui. compara a conjuntura com a circunstância dizendo: A conjuntura e a circunstância estão para o fato como dois círculos concêntricos estão para um ponto dado: a circunstância é o círculo circunscrito na conjuntura. 472 CASO. e muitas vezes se toma em mau sentido.256 Rocha Pombo humilde. fora das cidades. – Prédio (latim prœdium. de modo que formam um corpo ou sistema. assim como a circunstância. e onde residiam os grandes senhores feudais. – A hipótese toma-se muitas vezes por um conjunto de proposições unidas e ordenadas. têm com ele alguma relação imediata: os crimes perdem muito da sua gravidade quando neles ocorrem circunstâncias atenuantes. Costuma-se dizer: “vou para o meu biombo” para significar que se vai para casa. e a suposição toma-se por uma proposição ou verdadeira ou aprovada. distingue assim as três primeiras palavras deste grupo: “Caso se diz do que se considera possível: em caso de desgraça. de gabinete”.” A situação em que me encontro agora. termo científico. e outro. é “uma parte de prédio que se aluga por baixo preço e por pouco tempo ordinariamente”. a suposição é mais familiar. fiador”) é propriamente “bem de raiz. Também se diz de um fato que apresenta tal ou tal caráter. aqui. à explicação das coisas. só tem por base a verossimilhança. estes pardieiros intermináveis” (Garrett).” – Situação é. gratuita ou falsa. separadas do fato. distinguem-se mais em que: a hipótese é uma suposição puramente ideal. designa “a casa que é nossa própria. sucesso. Particularmente se diz de todas as hipóteses que se podem considerar nas ciências abstratas.. contudo. – Conjuntura é o vocábulo com que se indica o conjunto de circunstâncias que nem estão no fato. A conjuntura. A hipótese refere-se às ciências: à instrução. onde há pobreza”. Hoje é “habitação nobre. mas. etc. penhor. do prœs “garante.

e culpa da outra. e até os defeitos. venham a sair moralmente imaculadas. que intemerato sugere uma ideia que nem. mas sim erro. e aí estará talvez o que torna a virtude da castidade diferente de muitas das que figuram neste grupo. – Pena (latim pœna. – Punição é “o ato de punir”. . puro. absoluta. pudicícia. e quando cede ao dever. que está na sua plena integridade”. nem sentiu. Mesmo referindo-nos à própria Virgem. virgem. que regula.). expiação”) sugere ideia do “sofrimento que se impõe como punição do crime. nem mesmo sabe que é inocente. (A pessoa casta nem pensa em semelhantes prazeres. – Pureza não é propriamente uma virtude particular. não só as ações voluntárias quando contrárias à lei.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 473 CASTO. e nem ainda conhece o que pode alterar a perfeita integridade da alma e do corpo”. e o lustre da virgindade: Ela supõe uma alma inocente. A pessoa pudica teme. mas também os erros. a perseverança. o próprio prazer honesto. – Punir implica a ideia de imposição de pena. cândida. mesmo de uma brutal violência. – “É a castidade” – diz fr. omissão. continência. que é são e puro de espírito. Por isso mesmo é que não se pode considerar a inocência como propriamente uma virtude. punir. que qualquer sopro impuro a embaça e murcha: um só instante de fraqueza. pelo menos em todos os casos. no entanto. censura. de algum modo. virgem. A viuvez. ações voluntárias. – Intemerato e imaculado podem dizer-se sinônimos perfeitos. será essencial em imaculado: a ideia de – não violado. inocente. descuido. e sujeita à autoridade sagrada da lei. castigar a frase”. que não passe a segundas núpcias. – Castigo é “tanto o ato de castigar. Esta virtude é mais ordinária no sexo feminino. – Pudicícia é a castidade acompanhada de pudor. impoluto. Pode haver criaturas que. Castigar supõe autoridade de uma parte. um modo de ser. castigo. deve ser continente. – Ilibado (latim illibatus = in + libatus) quer dizer – “intacto. é a excelência. como do espírito que se estende a todos os tempos e momentos da vida. Em poesia não é muito raro empregarse imáculo por imaculado. – Incorrupto é “o que não foi corrompido. pena. de alma fiel. É uma flor delicadíssima. mas castigar indica principalmente a ideia de corrigir. Parece. que não ficou alterado na sua pureza”. ainda quando permitidos. a honra. – Punir supõe autoridade de uma parte. 474 CASTIGAR. conti- 257 nente. intacta. incorrupto. do grego poiné “vingança. pois o inocente não conhece o mal. inalterada”. as faltas. intemerato. ou delito. ou grande falta que deve ser punida”. tanto do corpo. S. um só pensamento voluntário faz perder o merecimento desta angélica virtude. delitos. como o próprio sofrimento com que se castiga”. pureza. ilibado. etc. pudico. O celibato cristão demanda continência perpétua. sabe coartá-lo dentro dos mais estritos limites. nem sabe pensar no mal. (Lac. – Continência exprime a abstinência atual dos prazeres da carne. inocência. e perfeita. virgindade. mas da outra não supõe necessariamente culpa. Punem-se crimes. punição. – Impoluto é “o que não foi poluído. – Inocência tem aqui a acepção de candura: é a qualidade do inocente. Neste sentido dizemos até – “castigar o estilo. Luiz – “uma virtude. mas como um estado de alma.). que nem experimentou. – Virgindade exprime uma continência universal. castidade. imaculado (imáculo). os apetites e prazeres sensuais. aperfeiçoar por meio da repreensão. e cora de os ver ainda levemente transgredidos. quando contrárias à lei: e castigam-se. dizemos indistintamente – imaculada ou intemerata. ou de honesta vergonha. isto é – do que não tem malícia.

portanto. auferir lucros do serviço que presta a seu amo. o rol inscreve e conta. – Causa é o que produz uma ação. – Todas estas palavras designam aquilo que se tem como determinante das nossas ações. escravo. Do mesmo modo difere prisão de cativeiro. É condição essencial do catálogo: 1. denomina-se nômina. etc. Fazer uma nômina dos empregados por ordem de antiguidade. – Catálogo (do grego katalogos “exposição desenvolvida. Fazemos ou organizamos o catálogo de uma biblioteca. Hoje. por exemplo. nomeia por ordem. prisão. – Enumeração é a lista que se faz com o fim de atender ao total que apresenta. de usar da sua liberdade”. – Rol é a lista que contém. O servo é considerado como pessoa. minuciosa”) dizemos das relações ou enumerações de muitas coisas da mesma espécie. a sua condição pessoal. ou da botânica. cativeiro. ou obedeça a uma certa ordem. – Segundo Bruns. motivo. razão. por exemplo – rol dos convidados. nomenclatura. A servidão é muito diferente da escravidão. principalmente tratandose de ciências. vemos que: o catálogo inscreve e circunstancia. atendendo a que nessa lista a única indicação numérica é a dos números de ordem. móvel. mas não poderiam ser aplicadas indistintamente. em certos casos. Quando a nomenclatura inscreve ou classifica nomes de pessoas. ficando sob a dependência de outrem”.°) que cada objeto catalogado se faça acompanhar de algum esclarecimento que melhor o caracterize e distinga dos outros. certas indicações numéricas. rol. escravidão. Não diremos. o que se deixou prender na guerra. etc. Recapitulando. pretexto. e não escravo. – Escravo é “o que passou a ser propriedade de outrem. servidão. – Relação é quase o mesmo que lista: apenas deixa supor que as coisas ou pessoas relacionadas estão inscritas numa certa ordem.º) que a enumeração seja metódica. supondo-se que estes esperam sempre o seu resgate. nem mesmo servo. mesmo aquelas que parecem mais semelhantes. passar por herança ou legado”. pois o primeiro designa apenas o fato de “achar-se alguém privado por algum tempo de agir livremente. ou não tanto a esmo como numa simples lista. nômina. a lista apenas inscreve. O judeu em Babilônia foi cativo. – Cativo é propriamente “o que foi capturado. só se lhe pode dar o nome de lista ou relação. ou ao conjunto das coisas enumeradas. pode ser vendido. pelo menos nem sempre. 2. De tudo isto é privado o escravo. – Servo é “o que está sujeito a outrem”. mas prisioneiros. 477 CAUSA. Sempre que a enumeração careça dessas condições. de expressões que formam grupo separado. Fazemos a lista dos livros que desejamos comprar. 476 CATIVO. na guerra não se fazem cativos. enumeração. prisioneiro. e a enumeração inscreve ou expõe sucessivamente para que cada unidade contribua para o conjunto. a nomenclatura inscreve denominando. – Prisioneiro aproxima-se de cativo: é “o que fica em poder do seu vencedor”. a nômina inscreve. ao lado do nome das coisas ou pessoas arroladas. mas diferentes entre si. e que.258 Rocha Pombo 475 CATÁLOGO. O cativo pode conservar ainda a sua dignidade. Nomenclatura geográfica. O cativeiro não humilha. mas – lista dos convidados. etc. perdeu a sua liberdade. pode possuir bens. é o fato em virtude . A escravidão não só humilha. o nome dos respetivos autores. O catálogo de uma livraria ou de uma biblioteca compreende o título das obras que a formam. – Nomenclatura é uma lista de nomes. como despoja a criatura de quase todas as suas qualidades humanas. servo. relação. lista.

Um espírito mordaz ataca tudo e todos. – Entre cáustico e causticante parece haver apenas a distinção marcada pela ideia de atualidade. – Móvel é “um motivo mais ponderoso. no sentido figurado. frases pungitivas. como já vimos em outro grupo (o XCVIII) é “o que tem sabor picante e corrosivo”. um gênio acerbo. F. que se inclui em causticante. cruciante. Um espírito cáustico emprega a ironia. isto é – capaz de pungir (mas não – pungente). penetrar afligindo”. escarninho. mas que só pungem a certas almas. ditos e expressões picantes. invetiva. – Ferino é “o que é selvagem. etc. impelindo a nossa vontade de praticar uma ação. isto é – que usa de uma palavra ou frase (ou mesmo gesto. elogio. Talvez porque se julgue esta palavra como originada do verbo ferir. – Picante é “o que é acre. que opera tanto sobre o espírito como sobre o coração”. de flagrância. Dizemos tanto – termos irônicos. pune e instrui”. picante. Po- deria ainda alguém dizer – sátira mordente (e talvez não – sátira mordaz). – Entre mordaz e mordente há diferença bem sensível: mordente significa mais “espicaçante. – Pungente é um tanto mais forte e subtil que mordente: o que punge “penetra como espinho”. Parece também que este tem mais força que o primeiro. lancinante. – Acre. áspero e desabrido”. ferino. que nos leva a fazer alguma coisa ou a agir de certo modo em dadas circunstâncias.) “denota certa malignidade irritante. satírico. – Lancinante é “o que penetra causando grande dor. rasga como estilete”. mordaz. – Motivo é simplesmente o que opera em nós excitando-nos. sarcástico. Gritos lancinantes = os que entram na alma de quem os ouve como lancetas. picante. como – olhar irônico. irônico. saudação. ofende a boa reputação. ou o que diz ironia. A causa da intervenção da força pública foi o tumulto que ali se levantou. motejos para fazer sobressair o ridículo e os defeitos dos outros. causticante. postura) para exprimir exatamente o contrário do que diz ou afeta. designa “o que é rude e violento. cruel”. irrita. picar. Diremos com mais propriedade – estilo cáustico (em vez de – causticante). – Pungitivo é “o que tem qualidades para pungir. até carinhos irônicos. como ao paladar a pimenta”. provocador” do que só mordaz. chufas. pungente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 259 do qual se dá um outro fato. discurso. pungitivo. acre. ou de conduzir-nos deste ou daquele modo em dadas circunstâncias. e algumas vezes a indignação e a veemência: é um moralista ou um juiz de mau humor. os vícios e os defeitos mais censuráveis. o móvel que se dá como causa da ação”. abocanha a honra.. atraindo por isso o ódio ou o desprezo de todos. à consideração. satírico. Um espírito satírico ataca. Dizer – “santo” a um bandido seria dizer-lhe uma palavra pungente. não poupa ninguém. as suas armas são um gracejo vivo e picante. mordaz (morden- te). – Razão é “o motivo que se invoca para justificar algum ato. é frequente vê-la empregada como signifi- . – Cáustico (segundo resume Bens. Dizer – “bandido” a um santo será usar de uma palavra pungitiva. feroz. e. brutal. que condena. sobretudo. 478 CÁUSTICO. etc. o que corta. Há palavras. e pica. devida ao sufixo de atividade ante. Aquela palavra ou aquela frase saiu causticante como ferro em brasa (e não – cáustica). atitude. – Pretexto é “uma razão falsa ou fictícia que se dá para não dar a verdadeira”. terebrante. – Motivo e móvel são os nomes que damos ao fato. um caráter mais ou menos maligno. É usado mais frequentemente no superlativo: acérrima ironia. – Irônico é o que contém. próprio de fera”: e no sentido figurado – “o que é rude. – palavra causticante (em vez de – cáustica). deixou de vir devido ao mau tempo (o mau tempo foi causa da ausência). pungente. ao intento.

entretanto. o semblante celestial de uma menina (e não – celeste). acontecimento. ou aconselha que se faça”. – Celeste significa – “próprio do céu (e também de Deus) que está ou que aparece no céu. deífico. doloroso em excesso. marcada pela partícula de extensividade que figura no segundo. – Cruciante vale por “aflitivo como o sacrifício da cruz. Na maioria dos casos. – Celebrar e solenizar dizem-se tanto dos acontecimentos alegres como dos tristes. 481 CELESTE. – Entre divino e divinal há uma distinção análoga. Ninguém diria – misericórdia divinal – em referência à misericórdia de Deus (e sim – misericórdia divina). 480 CELEBRAR. vindo do céu. celígeno. de alegria. época extraordinária na vida de uma nação ou uma família”. – Festejar (do latim festus “alegre”) é. Como ninguém diria – a ternura divina daquela mãe (mas – a ternura divinal). – Celígeno quer dizer – “nascido no céu. É com hinos de louvor e de alegria que a Igreja católica festeja um santo. equivalente a – “o que envolve ou manifesta escárnio. quer seja atual. cruel e pungente em extremo”. – “é fazê-la sem razão suficiente. empregam-se indistintamente celeste e celestial. – Terebrante. em certos casos. e a fim de bem gravar no espírito a lembrança do acontecimento que se soleniza. de indicar o modo de render homenagem a qualquer pessoa ou acontecimento. – Deífico é também termo poético. é “o que punge como acúleo (como verruma. amargamente”. célico. – Celestial. significando mais – divinizante – que propriamente – divino. celebram-se exéquias. – Célico e celígeno são termos usados na poesia.). solenizar.. que vem do céu”. S. quer passado. João. é com danças e divertimentos que o povo festeja S. – Consideram-se aqui estes vocábulos na acepção que lhes é comum. . – Sarcástico é “o que envolve mais do que ironia pungentíssima: é o que revela desprezo. tendo a mesma significação. rememorar. divino. – Solenizar é celebrar com pompa extraordinária. que tem origem no céu”. 479 CEGAMENTE. – Celebrar encerra duas ideias principais: a de ser grande o número de pessoas que concorrem e a do aparato da festa ou da cerimônia celebrada.. conforme se vê em – corpo celeste (referindo-nos a um astro. Aproxima-se-lhe muito escarninho. o único que claramente encerra a ideia de festa. celestial. – “Fazer alguma celebra-se um aniversário com grandes festejos. recordar outra vez uma data ou acontecimento”. comemo- rar. “o que é como se fosse celeste”. divinal. como dos grandiosos. O padre celebra a missa. – Comemorar é “celebrar festa solene que recorde algum sucesso. celestial. Pedro e S. (Bruns. para o fazer ou deixar de fazer. coisa às cegas” – escreve muito bem Lac. no sentido em que aqui o tomamos. festejar. significando: o primeiro. intuito de humilhar. que em certos casos é fundamental. designa. de ofender mostrando repugnância”. – Entre celeste e celestial há uma diferença. às cegas. dos três primeiros verbos deste grupo. Fazer alguma coisa cegamente é fazê-la porque se põe confiança na pessoa que manda. pois este pode valer ainda como um restritivo de firmamento. Antônio.260 Rocha Pombo cando – “o que fere sem piedade.) até o mais fundo da vida”. Dizemos: cólera celeste (cólera divina) e não – cólera celestial. e não – corpo celestial)]. – Rememorar é “repetir uma comemoração. divino e divinal. persuade. do céu” [nem sempre – celeste. que é como nojo pela pessoa ou coisa escarnecida”.

túmulo. de não sujeição aos laços da união conjugal (Bruns. carneiro. Dizemos. e taphos “sepulcro”). Dos sacerdotes católicos dizemos que são celibatários. e não – sepulcro raso. que é forma antiquada) é “toda construção grandiosa levantada à memória de um morto. tem no português a mesma significação de monumento sepulcral. portanto. passou depois a ser nome apelativo. por exemplo – sepultura rasa. O carneiro pode ser levantado do solo. e phagein “comer”] é adjetivo substantivado concordando com lithos “pedra”. estendeu-se a todo sepulcro magnífico e sumptuoso. “carne”. mauso- léu. campa. enquanto que celibatário encerra frequentemente a ideia de não poder ou não querer contrair matrimônio. De um ancião se diz que é celibatário quando se quer designar o seu estado social. e na maior parte dos casos podem ser empregados indistintamente. – Das quatro primeiras palavras deste grupo escreve Roq. sarcófago. quase o mesmo que cova: apenas a cova é uma sepultura ainda mais tosca e mais ligeira. e não – solteiros. fizemos nós túmulo. – Monumento (ou moimento. 11). da palavra grega kenotaphion (de kenos “vazio”. . erigido à memória de defunto enterrado em outro lugar. e solteiro – às vezes até solteirão – quando queremos pôr em relevo o seu estado de independência. que designava uma espécie de pedra calcária que consumia as carnes. Mais tarde. ou qualquer construção acima do solo. ordinariamente em forma de templo. solteiro. o lugar onde se sepultam os mortos. a não ser no último exemplo deste artigo. – Jazigo é “o pequeno edifício. É um mausoléu menos sumptuoso. jazigo. – Cenotáfio. – Solteiro. e numa necrópole. sepulcra regum sic vocant. que entre os latinos também tinha. como se vê em Ferreira: “Mausoléus aos mortos não dão vida”. guarnecido de muros. – Mausoléu (do latim mausoleum) foi primitivamente nome próprio. sepulcro. supõe alguma coisa mais que simples sepultura. designando os sepulcros grandiosos dos reis. e por extensão – o sepulcro feito desta pedra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 482 CELIBATÁRIO. mas – sepulcro levantado da terra. 483 CENOTÁFIO. hipogeu. pois. Nenhuma das duas têm saliência. onde se depositam os cadáveres ou os ossos dos membros de uma família”. igualmente do grego sarkophágos [de sarx (genit sarkós). – Concordam es- 261 tes vocábulos em designar a pessoa que não casou. É este o nome que mais comumente se dá aos depósitos de cadáveres que não são propriamente simples sepulturas. como se vê da seguinte passagem de Floro: In mausoleum se (Cleópatra). – Carneiro é o lugar subterrâneo. catacumbas. – Sepultura é. mas cada um deles recorda particular circunstância pela qual se diferençam”. como diz a etimologia. esconder”: designam. (Eleg. contenha-lhe ou não os restos”. que é apenas o espaço que se abre na terra para guardar o cadáver. – Sarcófago. sepultura. O próprio animal pode ter sepultura (não – sepulcro). indica essa ideia sem nenhuma outra acessória. só com a significação figurada de sepulcro. – Sepulcro e sepultura (do mesmo latim sepelire) sugerem a ideia de “ocultar. cova. que em sentido reto significava “montículo”. 6). Da palavra latina tumulus (a tumore terrœ). e em geral – sepulcro em que o cadáver se consumiu.). recipit (4. monumento. onde se depositam cadáveres. que designava o magnífico e sumptuoso monumento sepulcral que a rainha Artemísia mandou erigir a seu marido Mausolo. porém.: “Designam estes vocábulos o monumento elevado à memória de algum defunto ilustre. Sepulcro é mais nobre. e a que os nossos antigos chamavam moimento. – Hipogeu só será usado hoje em linguagem poética: designa.

reprimenda. cuidar da polícia. confusão e obscuridade do estilo. com o que o cargo de censor vem a ser o de uma espécie de magistrado na república literária. arguição. Por extensão. castigando aos que os pervertiam com seu desordenado procedimento. Aprova a censura o que muitas vezes condena a crítica. 484 CENSURA. porque a crítica. exprobração. pois não se pode julgar de uma obra sem notar defeitos maiores ou menores. aprovando-os ou desaprovando-os. diz Roq. ponderação. que são inseparáveis de tudo que é humano. reproche. e. julgá-las literariamente. nem com o desempenho das regras de bem escrever. – Das três primeiras do grupo. são irrepreensíveis aos olhos da censura. e esta é uma das circunstâncias que a diferençam daquela – a censu- ra – cuja significação. dar a conhecer suas belezas. Não há coisa mais fácil que agradar ao público com uma sátira. Não há coisa mais difícil que fazer uma boa crítica. porque é o juízo fundado que se faz das obras. residência. à verdade. senão o de examiná-las. dá-se ainda hoje o nome de catacumba ao grande túmulo comum. aos bons costumes. . objurgatória (objurgação). mas sempre com fundamento e equidade. a correção e o castigo do que aparece contrário à lei. mas que pela má disposição das matérias. à razão. repreensão. cova. segundo as regras da arte e do bom gosto. cujos mui importantes cargos eram guardar o padrão ou registro do povo. em que. porém os meios de que se valem são muito diferentes. Distinguem-se também em que o objeto da crítica não é precisamente o de censurar. comentário. – Campa é. – A sátira é um juízo. rara vez imparcial. sobretudo. para que se emende ou evite. podem talvez ter por objeto a correção e o desengano. como coisa a mais conducente para a boa moral pública. e. representa o ridículo. subterrâneo. faz ver o erro como tal. remoque. nem sempre. assim como pode acontecer que a crítica literária nada tenha a dizer onde a censura moral muito tenha que repreender e condenar. Tem muita relação com a censura. A crítica supõe a censura. se ridiculizam os defeitos. família e bens. no entanto.: “Censura vem da palavra latina census ‘censo’. propriamente. e pela utilidade das verdades que defendem ou anunciam. e notar-lhes os defeitos. ao exame. distinguir’) e significava a arte de julgar as obras de engenho. como vimos. pondo de parte o que pode merecer elogio. repartir as quotas dos impostos. adotando os meios de reformá-los. advertência. crítica. ante os censores ou censitores. a sátira. sendo que a censura leva consigo a repreensão. – Catacumbas eram as vastas construções subterrâneas destinadas a guardar cadáveres. no uso comum. em especial. pois muitas pessoas pouco instruídas e muito audazes atrevem-se a censurar sem serem capazes de fazer a devida crítica. para que se despreze. julgamento e correção dos livros. que era entre os romanos a declaração autêntica que os cidadãos faziam de seus nomes. sem se importar com o estilo. “a lápide que cobre o sepulcro ou mesmo a sepultura rasa”: toma-se frequentemente pela própria sepultura. como a sátira. Muitas obras há que pela solidez dos princípios. como era o dos antigos na política. são defeituosíssimas aos olhos da crítica. recriminação. impureza da linguagem. a censura supõe a crítica. mais moderada. Este nome. observação. raramente imparcial. sátira. dos costumes públicos. – Crítica é palavra grega kritiké (de krino ‘julgar. Assim que a crítica. admoestação. é mais extensa. repreender e corrigir as obras. magistrados da primeira plana. veio a ficar reduzido à censura dos costumes públicos. e sempre violenta.262 Rocha Pombo como insinua a própria etimologia.

entre nós. Daqui vem que a eficácia da sátira é maior e sem efeitos mais perigosos. – Reproche é palavra francesa de que muito se abusa. liturgia é também “o modo como se regula a execução das cerimônias de um culto público”. – Ponderação será “uma advertência ou observação mais disfarçada. – Observação é “o ato de advertir fazendo considerações sobre a falta cometida ou sobre o dever que se deixou de cumprir”. como cometeu tal erro ou falta”. – “o rito é a reunião de todas as cerimônias de um culto religioso. – Arguição é “o ato de acusar alguém de falta ou erro. – Remoque é “dito ou frase picante que mal dissimula a intenção de repreender. Signi- fica – “ato de lançar em rosto a alguém a falta cometida. e mais reflexionando. ou com tanta evidência. 485 CERIMÔNIA. por exemplo: “Vamos celebrar o ato com todo o rigor do ritual” – não seria admissível a palavra rito. mostrando-lhe. senão compiladas por escrito para sua execução. ou em termos menos positivos. e não – católico da liturgia grega. – Ritual é. sobre a conduta de alguém”. mais como invetivando-o do que simplesmente fazendo-lhe acusações e censuras”. rito. A admoestação é sempre feita em termos brandos. – Se- gundo Roq. a censura ou acusação desabrida que se lança à face de alguém. de criticar malevolamente”. – Objurgatória é “a repreensão áspera. O ritual romano. Não dizemos – o rito romano – senão quando queremos diferençar as cerimônias do culto católico romano das de outro culto também católico mas não romano. – Reprimenda = “admoestação formal e severa. para que o admoestado não reincida nela”. Mas nesta frase. Rito exprime mais que cerimônia. não precisamente postas em prática. Uma sátira ligeira pode fazer esquecer o mérito mais sólido”. – Recriminação é “a censura mais forte. esta recreia mais que instrui. ilustrada de exemplos e largas considerações. – Entre liturgia e rito há diferenças essenciais. que F. prescreve as cerimônias com que se devem celebrar os ofícios divinos. a maneira de executá-lo são as cerimônias”. – Repreensão “é o ato de condenar o erro ou a falta cometida: o que é sempre feito com certa acrimônia. Quando se diz – ritual romano – já não se marca tão bem. – Exprobração enuncia a ideia de “lançar em rosto as culpas. no entanto. do que propriamente advertindo”. e autorizadas pelo Sumo Pontífice. ou para estabelecer uma opinião. – Admoestação é “o ato de fazer sentir o erro ou falta cometida. ou melhor – a ação de objurgar. – Advertência é “o ato de chamar atenção para o mal que se fez. com o intuito de envergonhá-lo”. – Ritual e rito confundem-se aqui. Uma crítica necessita ser mui bem fundada para corrigir. ou vícios de alguém”. o conjunto de cerimônias que. – Objurgação é “o ato. sobre a coisa a respeito da qual se pondera. ritual. pois. estão prescritas por quem tinha autoridade para estabelecer o rito. liturgia. de superior a inferior”. ou pelo patriarca de alguma seita. com razões e argumentos. As cerimônias são o modo por que o rito se executa. ou de acusar desabridamente”. ou para a falta em que se caiu mais por descuido que por desídia”. essa diferença: o que . ou em termos mais ou menos ásperos”. por exemplo. a acusação mais grave e violenta com que se rebate a outra censura ou acusação”. É evidente que aplicamos rito quando queremos assinalar diferenças de liturgia ou de cerimônias entre cultos da mesma religião. Dizemos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 263 Aquela instrui mais que recreia. é católico do rito grego. ou defeitos e vícios. ou faltas. o rito grego. E. por isso se diz – o rito romano. – Comentário é “o exame ou mesmo a crítica. para os diferentes atos de um culto.

centelha. Dizemos – liturgia católica (e não – rito católico – salvo se quisermos distinguir entre rito católico e rito protestante). de situação aprazível. e que se levanta em forma piramidal acima do corpo que arde. o chamariz tanto atrai o público a alguma parte. para um ponto. No uso vulgar confundem-se estas palavras. mas não se pode dizer – o fogo da razão. porém é palavra preferível para o estilo culto. flama. 488 CHAPADA. negaça. uma porção de crianças. como o fogo. chispa. – Planalto é “grande planura elevada. como pode atrair. – Chama é. um cardume de peixes etc. pelo menos nem sempre. reclamo. Todavia. um bando de aves. chispa e centelha designam todas “pequenas porções de fogo ou de matéria inflamada que se desprendem de fogo maior”. o engodo é a astúcia que o engana. – Negaça. – Lume exprime propriamente o que dá luz e claridade. – Incêndio é “grande fogo ou fogueira que se alastra e devora”. particularmente. que chama atenção. é essa matéria acesa. “a parte mais luminosa do fogo. e figuradamente. cêndio. porque a palavra chama se tornou vulgar. entende-se. faísca. De engodo quase que se pode dizer outro tanto. – Dos três primeiros vocábulos deste grupo diz Bruns. o reclamo é o que desperta a atenção para o chamariz”. Isso. – Flama tem a mesma significação (é a forma erudita do latim flamma. ou – o fogo dos olhos. ou a certa altura delas”. Dizemos – o fogo da mocidade. é “o nome que se dá ao pássaro que se deixa na gaiola de alçapão para chamar os outros”. como o lume. num sentido mais extenso. – Chispa planície. mas não se dirá – o lume da mocidade. é mais correto dizer – o fogo. fogueira. – Labareda designa grande chama. enquanto que planície é “toda extensão de terras chãs e baixas. planura. fogo. – Chapada é “extensão de terras mais ou menos planas no alto de montanhas. ou queimam. in- dá ideia da rapidez com que a partícula ardente se desprende. isto é – não no alto nem na encosta de montanhas”. lume. – Atrativo é termo genérico. fagulha. – Fogueira é. designando “tudo que atrai.264 Rocha Pombo parece que aproxima este termo ritual mais de liturgia que mesmo de rito. e fogo. e grande labareda ou brasido”. ou cintilam e dão luz. e comunicam o calor e ardor da paixão. é “o que serve para provocar. no sentido translato. engodo. É certo que se diz – o lume. pois que. atrativo. – Faísca. 487 CHAMARIZ. esplanada. o resultado do fogo: é o fogo aplicado à matéria combustível (e a esta circunscrito – como diz muito bem Bruns.). é “tudo que serve para engodar alguém”. Dizemos – o lume da razão. isca. de que chama é a forma popular). em ala. mas é porque nos olhos há estas duas propriedades. – Isca é “tudo que se prende ao anzol para atrair e enganar o peixe”. e centelha dá ideia da luz produzida pela fagulha (e é como se se dissesse – partícula de chama). e num sentido geral. Só de reclamo é que se não poderia fazer. planalto. mas. ou para algures.: – “O chamariz é o que atrai o público a alguma parte. que se eleva e ondeia em línguas de fogo. mais que o uso indicado. segundo Lacerda. uma récula de garotos. pois. fagulha. o que causa calor. que faz convergir”. tomadas essas palavras em sentido restrito. do que – o lume dos olhos. deve notar-se com cuidado a diferença que há entre uma e outra. – Planura é quase o mesmo que planície: apenas sugere ideia de beleza de panoramas. labareda. por assim dizer. 486 CHAMA. queima e abrasa. enganar”. seduzir. ou vasta planície .

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 265 muito alta. Quando as águas alteiam nos rios. trocista. o que provoca riso por meio de gracejos”. O moço engraçado pode fazer-se ridículo: o gracioso. – Gracioso é “o que mostra mais graça nos modos. também. chama-se a isto com propriedade cheia. e sem necessidade. Diz-se – inundação de bárbaros. e. pilhérico. no sentido translato: dilúvio de gente. Todos estes vocábulos se aplicam tanto às pessoas como às coisas. como inundação. engraçado. como estilo faceto. modos chistosos. pois. e inundam os campos e prados vizinhos. e transbordam nalguns sítios que alagam. Distingue-se ainda cheia de inundação em que aquela só se diz de rios ou ribeiras. este é gentil fazendo graças. e esta. Dizemos tanto – criatura faceta. folgazão. ou – “não faça de engraçado” – não caberia certamente o vocábulo gracioso. o que sabe dar uma nota fina e original sobre as coisas. dito engraçado. frase pilhérica. do francês plateau. moço pilhérico. – Esplanada é “uma arca muito plana em volta ou à frente de algum edifício”. e diverte os outros. e também: gênio. nem sempre a enchente é cheia. moço engraçado. fase em que alguma coisa se avoluma: daí a acepção particular de – cheia. além da natural. em que pode ser tomada. os homens”. diz-se que há inundação. a figurada de – multidão excessiva. Cheia tem só a significação reta. Moço folgazão. dilúvio de alegrias. – Dilúvio é “grande inundação. . – Chistoso dizemos do “que nos distrai e faz rir com ditos picantes mas sem malignidade”. isto é. na gentileza da figura. pois ordinariamente é o imbecil que procura ser engraçado: o mesmo não se pode dizer – é até justo que o contrário se diga do gracioso. É também o contrário de vazante. enchente. Hoje usa-se muito. Às grandes cheias do Tejo deveria chamar-se inundações. não conhecem limites. espírito folgazão. – Espirituoso é “o que tem espírito quando conversa (ou quando escreve). Quando os rios saem da madre. inundação. Há rios que enchem e vazam em época certa. e esta. – Folgazão é o que se diverte. como – palavras chistosas. subtil e galante. e não se pode dizer – cheia de bárbaros”. – Pilhérico é “o que faz rir pelas pilhérias. com mais ou menos espírito”. são eles contudo distintos quanto à etimologia. pelos contos ou façanhas imaginárias que inventa e que inculca. espirituoso. porque muito se parecem com as do Nilo. ou o que emprega chiste ou graça leve. não. Usa-se. – Entre engraçado e gracioso há grande diferença: este último é o que tem graça fina e delicada de si mesmo. e então quando a respeito desses se diz – enchente – não se quer dizer – cheia. – Faceto é “o que encerra. O engraçado pode não ter graça nenhuma. ou nos ditos”. – Engraçado é simplesmente “o que tem graça. por isso. estendem suas águas pelas veigas. do que mesmo nas palavras. – Enchente diz no sentido próprio – abundância. dilúvio. de depósitos de água. antes de tudo. gracioso. crescimento. etc. e até gestos. mais brincando ruidosamente que falando. 489 CHEIA. no entanto. que quer parecer espirituoso. Nesta frase. e designam duas coisas que se não devem confundir. pois graciosas só podem ser as pessoas de apurada cheia e inundação diz Roq. dilúvio de misérias. isto é. o emprego de enchente por cheia.: “Posto que no uso comum da língua se confundam estes dois vocábulos. que parece alagar todo um continente”. e por extensão – toda superfície de terreno plano que não chega a ser planura. os fatos. que se eleva gradualmente”. É muito comum. nos gestos. – De 490 CHISTOSO. aquele é o que mostra certa graça. faceto. por exemplo: “Não se faça engraçado”. Tanto se diz – pessoa chistosa. inundação pode dizer-se também do mar. conto faceto.

– Parlador já não é também o indivíduo que só fala muito. que é mais parlapatão do que linguareiro e do que linguarudo. – O linguareiro é o que diz tudo que sabe. graçolas. . muito amáveis. e mesmo pela discrição dos gracejos. como se vê do próprio artigo transcrito. desordem”. isto é. – Parlante dirá um pouco menos que parlador. e finamente galantes. e formado de prognóstico). – Chocalheiro é “o que fala muito e indiscretamente. isto é.. sem atender à causa. pelo ar simpático. linguarei- ro (linguarudo). Confunde-se mui comumente chocalheiro com chocarreiro. mas há de sugerir sempre a ideia de que pelo menos é pouco substancioso o que diz o parlante.. O linguarudo fala mais ainda porque tem o vício de intrigar e maldizer que pelo desejo de falar. mas sim – “o indivíduo que fala da vida alheia”. que fala muito. pernóstico. é – como se diz em linguagem popular – o que “dá de língua” a propósito de tudo. por ser amigo de dizer novidades. ares trocistas. e sempre sobre coisas fúteis. e que é o calor que ao ovo comunica a ave que sobre ele se mantém. – Sobre estes dois verbos escreve Bruns. para rir à custa destes”. e empregamo-la para designar “o sujeito que fala muito embrulhando tudo”. que significa “embrulhada. e torna-se importuno falando a torto e a direito”.. Não assim o linguarudo.266 Rocha Pombo educação. emprega-se a forma falante que não encerra de modo algum a ideia de falar por maldade. 492 CHOCAR. deve notar-se que chocar é não só relativo à transformação que se vai operando no ovo. Naquela acepção. Mas o linguareiro não tem malícia propriamente: fala por ser leviano. nem o indivíduo que fala da vida alheia: designa mais propriamente o sujeito que mais fanfarreia do que fala. pois este vocábulo não se emprega hoje para designar simplesmente o indivíduo que fala muito.. brincadeiras com os outros. incubar. presumindo de tudo entender e falar muito bem”. Falando das doenças que se desenvolvem pouco a pouco antes de se declararem abertamente. 491 CHOCALHEIRO (chocarreiro). não – chocadeira artificial. movendo-se. e agitando-se. ou falar maldizendo. falador. mas também à causa dessa transformação.” 36 Ou melhor – quase perfeitos. parlador. não guarda reserva em coisa alguma. pois só se diz chocarreiro daquele que diz chocarrices. que nos agradam até pelos gestos. Também se diz – gênio trocista. falante. chalaças grosseiras e próprias de gente baixa. com muitos gestos e acionados. – Pernóstico é “o sujeito pretensioso no falar. e indispõe porque irrita. por ter o vício de não guardar nenhum segredo. É termo popular (o mesmo que pronóstico. designando tanto um como o outro uma mesma operação. gárrulo. significando indivíduo que simplesmente fala muito. O chocalheiro é leviano e indispõe porque importuna: o chocarreiro é petulante.: “Ainda que estes verbos sejam sinônimos perfeitos36. – Com o linguarudo pode confundir-se falador. confusão. fazendo barulho. Deve dizer-se – incubadora artificial. – Incubar refere-se apenas à operação ou transformação. Garabulho (ou garabulha) é palavra importada do italiano garbuglio. parlante. que é mais falador que linguareiro. garabulho. – Trocista é “o sujeito que faz pilhérias. que é termo bem diferente. graçolas. estardalhaço como um chocalho. como fazem os passarinhos e as crianças”. que divulga quanta coisa lhe disseram. devemos empregar exclusivamente o verbo incubar. como às vezes se ouve. – Gárrulo é “o que fala como se falasse sem pensar.

que o magoe. O embate é violento. fazem contravapor os respetivos maquinistas. De duas pessoas que caminhem apressadamente e que esbarrem uma com a outra ao dobrar de uma esquina. Choram também as videiras e os ramos quando se cortam. ou um deles recuando ao encontrar-se com o outro. – São os dois primeiros vocábulos deste grupo os substantivos com que se designa o encontro mais ou menos violento de dois corpos que se embatem. fazem chorar os olhos. ou em geral – coisa de que essa pessoa se ressinta”. que lhe é característica. encontro. ou verter lágrimas chama-se chorar” – diz Roq. mas não de terríveis efeitos. do latim fleo. ou mesmo um ato que se ponha em contraste com os sentimentos da pessoa a quem nos dirigimos. O pranto é mais forte e intenso que o choro. senão de simples oposição. – Lamentar é queixar-se com pranto e mostras de dor. embate. 495 CHORAR. Aquele que melindra nem sempre ofende propriamente. ge- contraste. ao avistar-se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 493 CHOCAR. pois que melindrar supõe. soluçar. – “Ao derramar. que é excessiva a suscetibilidade de quem se julga melindrado. ofender. como se diz no artigo. com lamentos – e talvez soluços. É termo genérico. caminhando uma para outra. ou mesmo do que choque. nem mesmo de encontro. na palavra choque apenas a de encontro (que não é senão o fato ou o ato de chegar uma coisa diante de outra)37. por exemplo. melindrar. – Contraste é a oposição que existe entre duas coisas: não inclui ideia de choque. conflito. não se entende que sejam ideias apenas contrárias ou opostas. porque neste derramam-se lágrimas com lamentos e soluços. ou mesmo recuando ambos depois de se encontrarem. um levando o outro de impelida. Chora-se de alegria não menos que de tristeza. – do castelhano llorar. dizemos que tiveram choque. que o prejudique moralmente. se. etc. pois não só indica as lágrimas que provêm de dor e aflição. mas ideias que se embatem. Pode haver encontro sem haver choque. – Quando às lágrimas se juntam vozes queixosas. 494 CHOQUE. O fumo. lamentar. o choque pode ser ou não violento. como as que por alguma circunstância se destilam das glândulas lacrimais. (Segundo Bruns. os ácidos. nem de luta. Jeremias lamentou poeticamente . As ondas alterosas. mer. – O verbo 267 chocar sugere a ideia. quer dizer o que esse alguém possui de mais delicado e sensível na sua natureza moral”. ou diante da qual falamos ou agimos”. e também exprime canto lúgubre em que se chora alguma grande calamidade. vêm embater contra a costa. prantear. – Melindrar é “ofender os melindres de alguém. Ideias em conflito. Duas locomotivas lançadas a todo vapor em uma mesma via.) – Conflito é mais embate. lagrimar. luta propriamente do que simples encontro. pranteia-se. que o vento impele. – Ofender é aqui tomado na acepção especial de “fazer a alguém coisa que o moleste. Na palavra embate predomina a ideia de violência e de impetuosidade. dá-se entre as máquinas um choque mais ou menos violento. elevam-se a grande altura. carpir. do abalo que pode causar uma frase nossa. e 37 Por isso mesmo é que é preciso admitir que choque não é simplesmente encontro. têm um embate terrível. da “impressão rude que produz uma ofensa. desfazem-se em espuma. pois esta palavra dá ideia do abalo que o encontro produz. O navio que embate (ou bate) contra um rochedo abre-se e afunda: o mal não seria tão grande se tivesse havido somente choque. se caminhavam devagar não terão mais que encontro. na maioria dos casos.

a mais poética. (Lus. e acompanhar os enterros. mas. cidade fortificada. Che frutti infamia al traditor. e carpir-se. Chorou-te toda a terra que pisaste. Na fortaleza há sempre guarnição fixa. – Costumavam os antigos arrancar. não só o estar dentro do recinto da povoação. na acepção em que é preciso tomá-lo neste grupo. pois há como que aflição monstruosa no embate das ondas contra a praia. 3) Ora. forte (fortim). – Forte e fortaleza confundem-se muito frequentemente. exprimir aflição. veio a significar quase o mesmo que lamentar. e para exprimir esta ação de profunda dor. de que o nosso poeta fez mui frequente uso. e a que se chamava carpideiras. (Ibid. Os semeados campos alagaram Com lagrimas correndo piedosas. fazendo mostras de dor e aflição. é o verbo chorar. É condição da cidadela. Mais te choram as almas que vestindo Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. e que em lugar das outras muitas vezes se emprega. como estão dizendo os seguintes lugares: Os altos promontorios o choraram. – Soluçar é “prantear e gemer com aflição. XXXIII. como se a alma abalada clamasse em desespero para fora”. Havia antigamente mulheres a quem se pagava para carpir-se sobre defuntos. Parlare e lagrimar’ vedrai insieme. X. III. E dos rios as aguas saudosas. Julgam muitos que não passe este verbo de simples variante de la- grimejar (ou lacrimejar). O forte pequeno é um fortim. III. por meio de voz inarticulada e lamentosa”. – Castelo designa a . cas- telo. Refere-se. na ocasião de luto. os seus habitantes podem continuar a defender-se na cidadela. den seme. (Ib. Por isso dizemos figuradamente que – o mar soluça e não – pranteia. o Gange e o Indo. praça. pois. como a que é mediana. para significar “verter lágrimas como por efeito de imensa dor. – Fortaleza é a construção que se eleva em qualquer ponto para defender uma cidade ou um passo. nem – chora. ch’io [rodo. Thomé. o qual. É com este sentido que empregou Dante o seu lagrimare num daqueles versos que pôs na boca de Ugolino: Ma se le mie parole esser. E por memoria eterna. 118) – Gemer é “dar sinal de grande dor. Se o inimigo se apoderar da cidade. usavam do verbo carpir. 84) As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram. mas fortaleza nunca se deve dizer de uma fortificação pequena. e a esta espécie de poema elegíaco se deu com razão o nome de lamentações. em fonte pura As lagrimas choradas transformaram. De todas estas palavras. – Segundo Bruns. 496 CIDADELA. 135) Choraram-te. e desfigurar as faces. é de uma força e intensidade que o tornam indispensável na língua. ou pelo menos desgrenhar os cabelos. este vocábulo especialmente às ações que demonstram dor e mágoa. João I. traduzir este lagrimare pelo nosso chorar não seria menos do que diminuir deploravelmente aquela grande figura. – Lagrimar é “verter lágrimas”. Os grandes prantos são sempre acompanhados de gemidos. Do uso de carpir-se sobre os defuntos se faz menção na Crônica de d. gemendo e pranteando”. por extensão.268 Rocha Pombo as desgraças da ingrata Jerusalém. fortaleza. (Inf. – cidadela é a fortaleza que domina a cidade dentro da qual ela está edificada. podendo forte designar indiferentemente a que é grande. mas também oferecer grandes meios de defesa.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 269 residência ou o recinto fortificado e geralmente construído em ponto elevado. o forte da Graça é uma fortaleza”. é o nome que se dá ainda mais vulgarmente ao zero. e que. – Cigano (de zíngaro. A praça de Elvas é uma cidade fortificada. valdevino. além de sinônimo de zero. mas designa apenas a raça ou povo que vagueia por muitos países da Europa. nada. E a prova disto temos em que cifra. que é mister não confundir. 498 CIGANO. uma povoação cercada de muros e baluartes. – Valdevino (ou valdevinos) é “o sujeito desocupado. E. a vender bugigangas. ou zingano) é “o indivíduo que vive errante. dá ideia de simples sinal (com que nos números se marcarão as casas onde não houver algarismos representativos).: “são termos da arte militar. a que também se chama praça.). nômade. senão também porque estão geralmente ocupadas e habitadas por militares. As fortalezas diferençam-se das cidades fortificadas. que só sugere os vícios característicos daquela gente vagabunda. desordeiro. contém população mais ou menos numerosa. e sim – “noves fora – nada”. boêmio. ou a ocupar alturas sobre que o inimigo poderia estabelecer-se vantajosamente. sem serviço. – Comparando cidade fortificada e fortaleza. As fortalezas são como umas cidadelas destinadas a conservar trânsitos importantes. – Ambulante não encerra ideia alguma depreciativa: é apenas “o indivíduo que anda de lugar em lugar. ou o literato que só vive pelo espírito e pouco se importa de prover as próprias necessidades materiais da vida. Entende-se por cidade fortificada. dizer-se: “três vezes nove – vinte e sete. noves fora – zero”. significa