Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva

E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Academ i a Bras i l ei r a de Letra s

Dicionário de Sinônimos da L í n g ua Po rt u g u e s a

Ac a d e m i a B r a s i l e i r a d e L et r a s

Rocha Pombo

Coleção Antôni o de M o r a i s Si lva
E STUDOS
DE

L Í N G UA P O RT U G U E S A

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa
2.a Edição

Rio de Janeiro 2011

C O L E Ç Ã O A N T Ô N I O D E M O R A I S S I LV A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS Diretoria de 2011 Presidente: Marcos Vinicios Vilaça Secretária-Geral: Ana Maria Machado Primeiro-Secretário: Domício Proença Filho Segundo-Secretário: Murilo Melo Filho Tesoureiro: Geraldo Holanda Cavalcanti C O M I S S Ã O D E L E X I C O G R A F I A DA A B L Eduardo Portella Evanildo Bechara Alfredo Bosi Preparação Ana Laura Mello Berner Revisão Vania Maria da Cunha Martins Santos Denise Teixeira Viana Paulo Teixeira Pinto Filho João Luiz Lisboa Pacheco Sandra Pássaro Produção editorial Monique Mendes Editoração eletrônica Estúdio Castellani Projeto gráfico Victor Burton

Catalogação na fonte: Biblioteca da Academia Brasileira de Letras P784 Pombo, Rocha, 1857-1933. Dicionário de sinônimos da língua portuguesa / Rocha Pombo ; [apresentação, Evanildo Bechara]. – 2. ed. – Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2011. 526 p. ; 23 cm. – (Coleção Antônio de Morais Silva ; v. 10) ISBN 978-85-7440-184-3 1. Língua portuguesa. I. Bechara, Evanildo, 1928-. II. Título. III. Série. CDD 469

Apresentação
E va ni l d o Becha r a

A

trajetória cultural de Rocha Pombo é o fiel espelho de um permanente bravo lutador que, vencendo as precariedades do torrão natal, galga honroso lugar no quadro dos intelectuais brasileiros. De nome completo José Francisco da Rocha Pombo, nasceu o autor deste Dicionário de Sinônimos em Morretes, na província do Paraná, em 4 de dezembro de 1857, com evidentes dotes literários, que cedo se manifestaram; mas foi para a carreira política que encaminhou seus primeiros passos, alcançando, aos vintes anos, lugar de destaque na Assembleia Provincial. Entretanto, se viu impotente para inverter suas posições diante das poderosas tramas parlamentares de uma política quase sempre afastada do interesse público. Salvou-o a alegria de ver publicado nesse mesmo ano seu primeiro estudo sobre instrução pública, na revista fluminense A escola, com transcrição na Revista del Plata, de Buenos Aires. Encontrara na atividade cultural o campo em que se iria destacar, mas um campo que pouco lhe dava para garantir com dignidade seu sustento e da sua família. Os obstáculos não o tiraram da trilha iniciada; em Curitiba, viu em 1888 publicado seu romance A honra do barão; em 1882, Dadá, a boa filha e, em 1888, Petrucelo. Também não lhe faltava o estro para o poemeto Guaíra, saído em 1886. Desiludido com os parcos recursos que seu torrão natal lhe oferecia, deixou Curitiba em 1897, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde poderia ter mais recompensada sua maturidade intelectual. Realmente na Capital, apesar de não diminuídas suas horas de trabalho intenso, encontrou ambiente mais propício às produções que vieram inúmeras. Os livros didáticos na área da História representam sua maior atividade, como Nossa Pátria, para crianças, que chegou a alcançar mais de sessenta edições. Sua História do Brasil, em dez volumes, acabada em 1917, consumiu-lhe doze anos de trabalho. As muitas horas de trabalho não lhe permitiam, para a confecção de seus estudos, a pesquisa atenta, a consulta aos arquivos para a composição das obras históricas. Mas o zelo e a honestidade profissional o faziam abastecer-se nas fontes mais autorizadas, e delas extrair o material que aproveitava. Um trabalhador operoso na mesma área de historiografia, Ro-

VIII

Rocha Pombo

dolfo Garcia, que, em 1935, sucedeu a Rocha Pombo na Cadeira 39 da ABL, assim a ele se referiu, no discurso de posse: “Rocha Pombo fez o que foi possível fazer (...). Entretanto, não há como desconhecer o extraordinário mérito da obra de Rocha Pombo, sua utilidade provada, os serviços prestados aos estudantes, que o estimam sobre todas as congêneres.” Seus pendores literários desde cedo aflorados nas tentativas de ficção acima lembrados, iriam estimulá-lo a compor uma obra sobre língua portuguesa. Autor de compêndios didáticos, cedo deve ter chegado à conclusão de que à bibliografia escolar, bem como ao escritor novel, faltava um bom, desenvolvido e atualizado dicionário de sinônimos, uma vez que, à época, o mercado só contava com produções portuguesas mais antigas, todas datadas do século XIX. Armou-se dessas fontes, algumas vezes transcrevendo-as literalmente, e das mais importantes francesas e espanholas no assunto, e partiu para elaboração deste seu, preocupando-se com mais extensão dos verbetes, e mostrando, quase sempre com muita propriedade, as diferentes franjas semânticas das palavras que integram a série sinonímica, evidenciando que não são, por isso, intercambiáveis. Saído em 1914 pela prestimosa Francisco Alves, vem agora esta 2.a edição editada pela sua Academia, para a qual fora eleito em março de 1933, embora nela não tivesse tomado posse por motivo de seu repentino falecimento, em junho do mesmo ano. Passado quase um século do aparecimento deste Dicionário de Sinônimos, de Rocha Pombo, pode ainda embrear-se com os melhores saídos em nossos dias.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa

ADVERTÊNCIA

Autorizo os Srs. Francisco Alves & Cia., cedendo à condição que me impuseram, a adotar na impressão deste trabalho a grafia que lhes convier. Rio, 1914
ROCHA POMBO

– Estas preposições ex- primem relação de fim para que. no tempo das caçadas ia para Salvaterra ou Vila Viçosa: e quando os franceses vieram a Portugal. vinha com frequência a Lisboa. estava eu à vista da mesa servida. E ainda este de Vieira: “Porque o pai fez uma viagem para as conquistas. ou “o objeto imediato da ação”. e – “vou para Lisboa”. João VI. “pronto a ouvi-lo”. – Restringiremos. no entender de Roq. como a prep. “vem a galope”. no segundo caso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 1 A. Com 3 toda razão diz Aulete que a preposição a é de todas a mais vaga. “trouxe uma flor para a menina”. “matamos a tiro”. “virei ao Rio em junho”. quase inteiramente despojada do seu valor de origem. ou “pronto para ouvi-lo”.. Ninguém dirá que têm o mesmo valor estas expressões: – “Vou a Lisboa”. São raras as relações lógicas que se não possam marcar pela preposição a: “andamos a cavalo”. portanto. além disso. ou “apto para dirigir”. “Ir para algures”. O próprio Roquete escreve: “serve (ou servem) a formar”. Não nos parece que seja assim. etc. e às vezes para sempre”. nem sempre. – As duas preposições empregam-se. ou o anfitrião ia para a mesa. por. Dizem muitos indiferentemente: “apto a dirigir”.. por “explica mais diretamente a intenção. assinalam: para.. – Confundem-se muito frequentemente. e – “virei para o Rio em junho”. A distinção entre as duas formas revela-se muito clara nestas frases: “convidou-me a jantar”. e convidou-me para jantar com ele domingo. com os verbos “ir”. A e para. para (exprimindo relação locativa). tomaste por devoção vir os sábados à Penha de França”. não exclui. as nossas notas às duas acepções em que parece melhor fixado o valor da preposição a comparativamente com os seus sinônimos. nesta acepção. Essa diferença fica bem clara nestas frases: “dei um livro a meu filho”. propriamente a ideia de regresso. “morre à míngua”. imediata”. as preposições a e para. de. está ela hoje. “vir”. 2 A. “bateram-se à espada”. Exemplos: “Ele se esforça por instruir-nos. pelo menos entre aqueles que se mostram mais fiéis ao espírito da língua. e a tal ponto que. “ação. a fim marca intuito menos imediato e mais preciso. pois. e há entre elas uma diferença análoga à que se lhes nota nos casos em que marcam relação de locativo. “encaminhar-se”. foi para o Brazil”. segundo Bruns. o fim (ou o desejo) com que se executa a ação”. “pescamos à linha”. “Ir a”. a fim de que nos tornemos capazes de servir a pátria”. “dirigir-se”. “lançou à terra”. ou o propósito de ir ou vir e voltar logo. e emprega-se “quando se supõe somente possibilidade ou probabilidade de lograr o que se intenta”. para que sejamos cidadãos dignos. Há entre “convidar para” e . e “convidou-me para jantar”. ia muitas vezes a Mafra. e nunca mais houve novas dele. – Como preposições de fim para que. “Foi para Viena como secretário de embaixada”. a fim. em vez de “para formar”. no verão ia para o Alfeite. “comemos a enjoar”. Este exemplo de Roquete expõe nitidamente a diferença entre as duas preposições: “ElRei d. o que. marcam ainda relação de dativo. “fugiram a toda pressa”. encontrou-me ele pela manhã. “trazer”. ou longa estada. no entanto. segundo observa Lafaye. “dá a entender intenção de grande” (ou pelo menos de alguma) “demora. e convidou-me a jantar.. como acrescenta Roquete. para. No primeiro caso. “levar”. ou “vir a alguma parte” “indica a ideia de pouca demora”. e alguns outros que designam movimento. quando residia em Queluz. Entende Lacerda que “ainda os mais corretos escritores usam indistintamente das preposições a e para” quando querem exprimir relação de locativo.

inclinação. – Há ainda em português outra preposição que deve. “valer”: “não serve de nada”.4 Rocha Pombo “convidar a” a mesma diferença que explica Lafaye entre “prier à diner” e “prier de diner”. bairros. e distinguem-se principalmente pela ideia. de “vertidura de águas pluviais”. ou lados designam apenas as partes opostas da montanha (ou de qualquer corpo) sem ideia alguma acessória. parte pendente de alguma coisa”. imediações. lados. mais fácil de subir. “não serve para nada”. pois que não resolve o embaraço em que me vejo”. como as fraldas de uma camisa. e por sugerir alguma coisa de fecundidade. base. à ideia de extremidade e inclinação. ser considerada como sinônimo da preposição para: é de. ou de superfície dobrada. pois pode ser tão íngreme que se torne de difícil ou mesmo impossível ascensão. “O meu rebenque – diz o major – não serve para nada. confins. sopé. en- rindo uma ideia de amplitude. – Declive (ou declívio) é a inclinação da encosta. orla é mais o recorte da aba. vertente. enquanto que a rampa nem sempre é acessível. falda. e o primeiro termo ainda se distingue do segundo por ser mais expressivo e mais belo. proximidades. Esta última locução (que é mais geral – diz Laf. cercanias são as paragens em torno de um lugar. e vertente adita à significação de encosta a ideia de origem de rio. proximidades são pontos das cercanias. orla. Dizemos: “a ladeira da Glória”. cerca- costa. arredores. – Flanco e ilharga designam também os lados do monte. que marcam. meu amigo. arrabaldes. rampa. distritos. – Todas estas palavras designam situações em torno de um ponto. com alguns verbos como “servir”. para um fim que se tinha em vista presentemente. ou da parte onde a montanha começa a destacar-se do plano sobre que assenta. Base é toda a porção do plano horizontal que o monte abrange. ou de uma povoação. do alto do monte para baixo. ou de um município. flanco. aclive. – Aba é a parte mais baixa e prolongada de um cone. lado. e aclive é também essa inclinação. 3 ABA.. – Rampa e ladeira exprimem igualmente plano inclinado. vizinhanças e circunvizinhanças são os lugares que se seguem às imediações. com esta diferença: a ladeira (lado suave de colina ou monte) é menos áspera. de maior ou menor afastamento desse ponto. assim como comarcas são divisões mais extensas que distritos. – Todas estas palavras designam “refegos. – Distritos são secções maiores que compreendem vários bairros. declive. o seu alvitre de nada me serve. – Lado.) exprime que o objeto de que se trata não tem serventia alguma. mas considerada de baixo para cima. comarcas.. – Sopé e orla designam a parte do monte que assenta no plano horizontal ocupado por ele: sopé é a porção do dito plano onde a montanha começa. contiguidades. Bairros são secções de uma cidade. etc. ou de um lugar. de um monte. e neste caso. circunvizinhanças. ilharga. de um chapéu. redondeza. diferençando-se a segunda da primeira pela noção acessória de contorno (e ambas dando ideia de convivência). subúrbios. a primeira nega que ele sirva no momento. e mais afastadas que as circunvizinhanças. – Imediações são partes da cidade. que lhe ficam imediatamente em volta. – Arrabaldes designa a . adjacências. “a rampa do Pão de Açúcar”. e sugerem ideia de altitude. falda (ou fralda) é também (na acepção em que a tomamos aqui) a parte inferior do monte: difere de aba porque acrescenta. ladeira. 4 ABAS. contornos. o sentido de forma irregular. em certos casos. – Encosta é toda a parte inclinada de um monte. mas suge- nias.

“não gosta de ponto algum das circunvizinhanças do Castelo”. “em todo o contorno da vila não se encontrou um morador pobre”. “nos arredores de S. subjugar pela força bruta. é preciso que se contenha o instinto das multidões. “cortar a cabeça”). jugular é reprimir. dá ideia da inferioridade moral do que é domado. humilhando o vencido..). “morar em Pedrouços é morar nas abas de Lisboa” (Bruns. “aqueles jardins e pomares já eram adjacências e quase contiguidades de Jerusalém”. – Contornos designa a totalidade dos arredores (de uma cidade ou de um lugar). como senhor. – “Debelaram afinal as nossas forças aquele que foi o mais grave levante dos últimos tempos”. que se mova. refrear. sofrear. ou um ponto dado. “a Tijuca é um dos mais belos arrabaldes do Rio”. e chegou até os confins do país inimigo”. dominar é submeter com império. que cresça. (Herc.. sobrelevar é “pôr-se acima de”. – Por subúrbios entende-se toda parte habitada que fica sob a jurisdição da cidade. como estrangulando (do latim jugulare “degolar”. de um embaraço. dentro do seu perímetro”. superar é vencer e ficar superior a alguém ou alguma coisa. Cruz há algumas fazendas”. pôr sob a autoridade. debelar. sobrepujar. 5 ABAFAR. “acudiram-lhes alguns dos nossos. sufocar. refrear é conter com esforço e trabalho. sendo o segundo termo mais vago. impedir que se manifeste. submeter é “reduzir à dependência. sofrear é conter com prudência e cuidado. “a epidemia alastrou-se pela redondeza do nosso acampamento. “nas cercanias de Olinda lutou-se toda a tarde”. “tem casa nas vizinhanças da praça ou do bairro”. sufocar é impedir de viver privando da respiração. sujeitar é reduzir à obediência.. tome forças. as porções habitadas que se seguem às abas. conter é moderar. subjugar é submeter a jugo. “quando anoiteceu estávamos já nas proximidades da fazenda”. ou tendo poucas habitações. – Abafar é impedir que respire. “mudou-se mais para as imediações do centro urbano”. – Sufoca-se uma rebelião no seu começo.). superar. domar. subjugar. – Abas são “os pontos extremos de uma povoação. não se pode conter as lágrimas diante de um infortúnio. é “matar por asfixia”. nem luta material. “nas vastas comarcas daquela província há distritos riquíssimos em minerais”. sem grande esforço. arredores são arrabaldes mais distantes. debelar é reprimir à custa de guerra. jugular. – Redondeza ou redondezas. que vingue. não deixar que apareça ou que se desenvolva. e mesmo tratando-se de homens. tudo que fica dentro dos limites do círculo visual de que se supõe centro à cidade. até com força e violência. (Fil. o mais aprazível dos nossos subúrbios”. sobrelevar. sujeitar. de um transe. vencer é sair vitorioso de um combate.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 5 porção de uma vila ou cidade que lhe fica fora dos muros. e confins são os limites em relação aos de outro. – Contém-se um ímpeto de cólera. ou para além do circuito urbano. vencer. “O homem que vê o que eu vi e abafa no peito o grito da indignação”. “o Méier. conter. porém. dominar. reprimir é conter com mais energia e decisão. ou o poder de”. contidos. Elys. suplantar (etimologicamente “meter debaixo dos pés”) é vencer com orgulho.). suplantar. reprime-se a custo uma explosão de raiva ou de furor.. – Abafa-se uma conspiração antes que venha para a rua: abafa-se o pranto para que ninguém o veja. reprimir. submeter. e quase sempre não povoados. . ou vencer em luta. domar é submeter. que opere. – Reprimem-se movimentos subversivos da ordem pública. que reprimiram os inimigos”. sobrepujar é superar depois de esforço e luta. vencer com escarmento. contiguidades e adjacências. a império. – Diremos com propriedade: “o bairro de Botafogo”.

com a sua habilidade e energia dominou a revolta”. – “Com aquele golpe certeiro conseguiu jugular a sedição”. ou que se torne pública a culpa de alguém”. – O pai sujeita os filhos. sobrepujou afinal todas as traições. “à vista do vendaval iminente fomos abrigar-nos na enseada dos Reis”. e evitar que se descubra”. pois – que eu saiba – não tem cura quando sobrevém na sua idade”. meu filho. – “Em poucos dias o general submeteu toda a província”. – “Subjugamos as tribos menos dispostas ao trato dos estrangeiros”. “Encobrem algumas mais. – “Resguarde-se do mal. – “Agasalhe-se bem.. ocultar. – “Aquele homem dominou os outros tão completamente que ninguém mais pôde protestar”. diante. por fraqueza que se explica. agasalhar.. es- brir. “. tapar o doente.. que andava a superar as misérias daquele meio. 6 ABAFAR. ou ainda “furtar alguma coisa à vista de outrem. como em: “abafou o processo. o tutor os tutelados. atabafar.. ou que se agite. de significação vaga quando se emprega fora do sentido reto de cobrir. Dizemos tapar o menino no berço. “Conviria que cobrisse a cabeça com a manta”... acoitar. mas evitando-lhe a ação. subtrair...6 Rocha Pom bo “os Jesuítas tiveram aqui a grande missão de andar debelando paixões e barbarias”. é “abafar com precipitação e energia”. ou impedir que pela evaporação esfrie um corpo. resguardar. por meio de roupas ou cobertas”.. “encobre-se a falta alheia tornando-nos até certo ponto cúmplice do delinquente”. “Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio” (Herc). – Abrigar quer dizer “amparar contra o mau tempo. – “É preciso cobrir bem o menino. “Ninguém se deve expor às friagens de junho se não bem agasalhado”. co- comida para que não esfrie. receptar. os bárbaros. – Encobrir é “evitar que se veja ou se conheça algum intento. – Abafa-se o doente para facilitar-lhe a transpiração. tapar. ou em redor”. – Atabafar.. fugindo ou fazendo dele fugir para um abrigo”. os sicários. ou não fazer conhecida uma coisa que nos interessa a nós ou a alguém. meu amigo. – Resguardar é também amparar “contra o tempo ou contra alguma coisa.. – “Ele. expanda ou desordene alguma coisa”. – Cobrir é “ocultar ou resguardar pondo alguma coisa em cima. – Neste grupo. para atravessar a praça”. com cuidado”. segundo Bruns. “. – “é um termo genérico. mas defendendo-se. acobertar. confinando ambiente respirável de modo a provocar suor ou calor artificial. – Ocultar é “não dar testemunho do que se viu. encobrir. abafar significa “tolher a respiração. – Agasalhar é ainda “defender-se contra o tempo. – “Abrigaram-se em nossa casa contra a tormenta”. “abafemos o triste incidente para que ninguém mais o explore”. – “O homem que não refreia os seus apetites é incapaz de refrear os seus ódios”. sonegar. – Domam-se as feras. abafa-se a conder.. as culpas dos filhos”.” Oculta-se uma verdade para não comprometer inutilmente a honra . abafam-se as chamas para que se não propaguem. e hoje é incontestavelmente a figura que sobreleva todas as outras ali”. a formação da culpa”. – “A autoridade venceu naquele conflito desigual”. mas os espertos atabafaram tudo antes que nós chegássemos”. reter. “cumpre que cada um de nós vença por sua parte os embaraços que sobrevierem”. como neste exemplo: “Chegou a abrir-se a sessão. nem o gênio é capaz de suplantar a altivez de uma consciência”.” 7 ABAFAR. e não só fugindo. – “O senhor não conseguirá suplantar-nos com todo o seu poder”. – Tapar – diz Bruns. – Abafar aqui significa “não deixar seguir os trâmites usuais”.. tapar a cara com as mãos. abrigar. Como diz Bruns.

esconder o furto ou roubo que outrem fez”. brejo. onde se chafurdam animais.. mas sem a intenção de encobrir-lhe o crime. mas em caso algum se esconderá para que não suponham que se quer subtrair à ação da justiça”. É quase encobrir. “Para libertá-los do infortúnio e subtraí-los à vingança”. terreno flácido e lodoso. homizio”: é. – Tremedal é lamaçal vasto e profundo. enxurdeiro. banhado. e quase que só se emprega em sentido figurado. atoleiro. permanece. segundo Bruns. – Lameiro (ou lameira) é “terra baixa e pantanosa”. “A nuvem encobre o sol”. de chavascal”. lodaçal. embora menos que no lamaçal. “O advogado subtraiu uma folha dos autos”.. lagoeiro. chafurdei- ro. (Aul. mas não tanto e tão extenso como no lodaçal. pantanoso. e se estagna e abafa.. lameiro. – Charco é “terreno alagadiço.). que parecia nem ter intenção de ocultá-lo”. segundo Bruns. lameiral. ou “grande lameiro” . – Acobertar é “proteger um culpado. com a diferença de que atascadeiro é mais profundo. disfarçando-se para não ser visto ou descoberto”. atascadeiro. “os facínoras subtraíram-se às diligências da polícia”. – Sonegar é termo forense e indica propriamente “esconder e negar sob juramento”. portanto. – Acoitar é “dar coito. pantanal. de água lodacenta. – Lagoeiro é termo popular.. – Pântano é “lugar coberto de camada de lama pouco profunda”. (Mont’Alv. – Reter é “conservar indevidamente em seu poder o que lhe não pertence”. e que é vestido de vegetação rasteira. mas não se acoberta um defeito físico: acoberta-se por piedade um foragido. ou a si próprio. – Lodaçal é alagoa de lodo. tremedal. Diremos: ele se ocultou em casa (deixou de sair. lameirão. “terra encharcada devido a aluviões”. lodeiro.mas eu não sou homem que oculte a baixeza da minha esfera” (Garrett).” É termo brasileiro.” “O porão onde mora é uma horrível abafeira”.. No Brasil é “terreno úmido. não “acoberta o sol”. – Todos estes vocábulos sugerem ideia de água suja e estagnada.. inculto. etc.. – Brejo. – Atascadeiro ou (atasqueiro) diz o mesmo que atoleiro. – Lamaçal é pântano mais extenso. “O desgraçado escondeu tão mal o furto.. é “o estado do lugar não arejado. paul. lenteiro. ou aquela cidade é o atascadeiro dos moços”. – Lodeiro (ou lodeira) é lugar “onde há muito lodo”. – Enxurdeiro (ou enxurdeira) é lodaçal revolvido. de aparecer.. chafurda. ou em depressões de terreno”. é “terreno balofo. – Esconder é ocultar com mais cuidado e interesse. e designa “porção de águas de chuva (ou de despejo) que fica temporariamente depositada em sítios baixos. sendo este verbo apenas de sentido mais vago e geral. “aquele moço fugiu para subtrair-se ao serviço militar”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 7 de alguém.. asilo. – Subtrair significa “tirar com astúcia ou fraude. charco. “. terra onde há lama. mercadorias sobre que se tinha de pagar imposto. “O caboclo mete a cabeça no brejo e desaparece”. de vasa. sem vegetação espontânea”. – Receptar é “receber. guardar.. lamaçal. “Aquela casa. pântano. furtar alguma coisa ou alguém ardilosamente às vistas. – Lameirão (ou lamarão) é palavra de uso vulgar: aumentativo de lameiro. – Lameiral está nas mesmas condições: e indica série de lameiros. – Abafeira. Sonegam-se bens a inventário. 8 ABAFEIRA. – Pantanal é aumentativo de pântano. – Paul é “alagoa formada por enchente”. lameiro extenso. distinguindo-se deste em ser terreno baixo que apenas os enxurros banham acidentalmente. onde a água se acumula. à ação ou poder de alguém”. Só se acoita a um criminoso ou indivíduo que tal se julga. coberto de vegetação”. “ocultar contra a lei”. Encobre-se. É usado quase exclusivamente nesta acepção.). – Banhado é “quase charco. como os chiqueiros..

“Tenta- .. abater. nesses exemplos: não é tangível a impropriedade das frases? – “Dizemos ainda: baixou o câmbio”. 9 ABAIXAR. Abaixa-se a bandeira a meio pau (desce-se do alto para o meio da haste). na rua. e além disso dá mais completa a ideia de abaixar. e figuradamente – casas imundas. Abate-se o orgulho de alguém. – Abaixar e baixar parecem ser a mesma palavra e com perfeita identidade de significação. de mais longa enunciação que baixar. baixar. “baixa da própria dignidade”: e não “abaixou”. – Lenteiro (como diz a forma de que se derivou – lento. de humilhação. mas não se arria a bandeira senão quando se a retira da haste.: “Não se taxe de nimiedade o estabelecer sinonímia entre estes dois vocábulos. abjeto. vai passar por uma porta mais baixa que a parte superior do objeto? Como diremos que. Que diremos a quem.. ou ação dirigida a diminuir os créditos de alguém. – Abater acrescenta à ação de abaixar a ideia de força ou violência. infamar. macular. Arria-se a carga se é pesada. desprezível”. é ainda conexo de arriar. a virtude nos levanta” (Leitão de Andrade). desonrar. ao encontrar a F. Dizemos: “abaixaram comovidos o pavilhão sagrado”: e não “baixaram”. abater.”? Se não há sinonímia entre os dois verbos. deprimir. abaixa-se a cortina por causa do sol. preposição que mais parece um a eufônico do que partícula significativa. descer. É indigno de um homem abater a inocência. arriar. que à primeira vista só parecem diferir na preposição que prefixa o primeiro. – Abaixar significa “descer do conceito em que se era tido”. desabonar. – Chafurda. – Abater é “abaixar humilhando”. Excluindo a ideia acessória de alívio. abater. portanto. e verás a teus pés o que andas procurando”. descer. ou não baixa a dar satisfações a ninguém”. desdoirar. Fig. fazer que uma coisa desça do lugar em que está até um certo outro lugar. humilhar. envergonhar. envilecer. “ele baixou até o crime”. “Os inimigos abateram as armas. no primeiro caso: – “Abaixa a cabeça!”? E não diremos no segundo: – “Baixei a cabeça. “Como é que ele se rebaixa até aquele papel ignominioso?” “O chefe o tem rebaixado ao ponto de convertê-lo em besta miserável”. “Os vícios nos abaixam.” “Ele abateu a espada diante do general”. como arriar principalmente. isto é. difamar. com esta diferença: pode exprimir também (arriar) a ideia de alívio. Raciocinemos (no entanto) um momento. Não se desce sem haver subido.). É também baixar: “não desce. que se examinem algumas formas para se ver que não é assim. pegajoso. é rebaixar afrontando. Tratemos de substituir baixar por abaixar e vice-versa. depreciar. apenas a saudamos com um aceno de cabeça? Não gritaremos. 10 ABAIXAR. – Aviltar é “fazer vil. desacreditar. aviltar. – Descer é correlativo de “subir”. – Todos estes verbos exprimem intuito. e chafurdeiro. rebaixar. – Arriar é que é. ou chafurdeira (esta forma é extensão daquela) são lamaçais onde chafurdam porcos. – Rebaixar é “abater infamando”. neste sentido. A propósito escreve Bruns. se é indiferente empregar um ou outro. deslustrar. Basta. por que diremos abaixar. precisamente quando a advertência exige brevidade? Não é: – “Baixa os olhos!” que dizemos a quem queremos humilhar? Não é: – “Abaixa a mão!” que diz aquele que se vê ameaçado por alguém? E não obstante também se diz: – “Abaixa os olhos.8 Rocha Pom bo (C. – Abaixar é. degradar. equivalente quase perfeito de abaixar. molhado. no entanto. ou lentar) é terreno úmido. manchar. ou “abaixa”. e significa. levando um objeto frágil à cabeça. o verdadeiro sinônimo de arriar. Quem chega desce a carga. só quem cansa a arria.

“marcam uma ação que ataca. quem goza de alta posição.).. – Humilhar é “oprimir. “naquele alcouce os mais nobres se aviltam”. Bastanos o que diz Bruns. como diz Laf. atirar-se. É preciso distinguir infamar de difamar. “Ele se desacredita pelos próprios atos”. – Envilecer é também fazer vil. como só se desdoira quem brilha no mundo. apresentam diferença equivalente à que. Significam ambos “privar da fama”. “Uma fraqueza desabona. deslustrá-lo infligindo-lhe alguma pecha infamante”. mas só as más ações desacreditam” (Bruns. “Meu pai não sente vergonha de deslustrar seu sangue”. não a classe ou a dignidade (como acontece com o verbo degradar) mas o valor. Propriamente falando. e. marcam os respetivos radicais. mas não dá ideia de força. ou o apreço. Agostinho. é privar da fama. Crisóstomo para deprimir S. empanar o luzimento”. o sinônimo mais próximo de rebaixar: significa “fazer decair do conceito.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 9 ram aviltar-nos perante a nação”. (Cast. – Desonrar é “tirar a honra”. assinalar diferença. o valor”. Uma pessoa depreciada ou deprimida não está mais na estima em que esteve”. 11 ABALANÇAR-SE. enfraquece. aventurar- .. do mesmo modo. no entanto. de intuito afrontoso. é. como desacreditar é “destruir o crédito”. (Camil). – Degradar é “fazer baixar de grau. no entanto. Diríamos: as más ações envilecem (quer dizer: fazem que se perca a estima. só eles vivem praticando atos que infamam”. difamar. difamar “tirar a fama”. – Deprimir e depreciar.: “Tem muito maior alcance a ação de desacreditar que a de desabonar”: quem desabona diminui o apreço. muito mais expressivo e mais forte.) “Quem é aquele pobre-diabo de rodapés para desdoirar Camões?” – De deslustrar e desdoirar aproxima-se desluzir. o crédito de alguém. no sentido figurado. “Este crime envergonha a toda a geração”. difamar-nos. Deprimir – acrescenta – inclui “intenção de destruir no conceito com grande desejo de prejudicar”. de hierarquia”. pois. mas este significa mais – “perder ou tirar o brilho. arriscar-se. no entanto. “General. “Não se compreende como aquele moço chegou a praticar atos que degradam”. quem desacredita arruína o crédito. Exemplos: “A conduta daquele homem desonra a toda a família”. Pode-se definir precisamente: infamar “marcar de infâmia”. a boa reputação da vítima. Depreciar significa “diminuir o preço. no seu ódio sacrílego de brutos. ou tem glória. “Estas leves travessuras não depreciam um moço”. macula) e significam “marear um nome. no sentido com que entra neste grupo. e infamar é “ofender a honra. desmerecer na estima. e desabonar é “diminuir o crédito e o bom nome”. “Esta torpeza mancha toda uma vida”. afoitar-se. “A mínima suspeita macula aquela inocência”. a fama de alguém com estigma infamante”. – Deslustrar e desdoirar. por mais subtil que esta seja. Macular é talvez mais fino e mais nobre: manchar é. como infamar é “privar da fama”. o direito de parecer digno). ou tentar destruir a fama dizendo da vítima e espalhando coisas que podem ser até aleivosas”. tornar abjeto “por abaixamento”.. atrever-se. – Envergonhar é “molestar alguém confundindo-lhe o pudor”. castigar envergonhando”. ofender o pundonor. “Com aqueles destemperos só envergonham a família”. não humilhe os vencidos”. “Desluzia as gerações dos inimigos com a injustiça da sua malquerença”. o mérito. E cita como exemplo: “Este escritor afeta elevar S. Exemplo: “Tentam. ou rebaixa. “Glória alguma do mundo poderá induzi-lo a humilhar os pequenos”. e apresentam de comum a ideia de obrigar a descer da posição ou do conceito em que alguém estava. na acepção natural. só se deslustra quem é ilustre. descer de posto. mas não o destrói. – Entre desabonar e desacreditar convém. – Macular e manchar são formas do mesmo termo latino (macular.). arrojar-se. “O intento daquele monstro é ainda infamar a memória do tio”.” (Boss.

– Fugir aproxima-se de esgueirar-se com esta diferença: esgueirar-se é “desaparecer com astúcia.. – Seguir aproxima-se. se abalançou a publicar o artigo?” – “O homem afoitou-se a atravessar o escuro. ousar é. a um perigo eventual”. e tanto pode ter sentido favorável como desfavorável”: significa “atrever-se confiante e seguro. como diz Bruns. ausentar-se. é “retirar-se sorrateiramente”.). Paulo”. sair. Ninguém segue seu caminho sem haver começado a andar. desaparecer. força. desapareceu da rua do Ouvidor”. “o mais genérico de todos estes sinônimos. Diremos: “Ele saiu da cidade há uma hora: e no outro dia partiu para S. voltará por S. “Ousa o bandido falar em lei. – Esgueirar-se é “azular com a ideia de esconder-se”. “O exército fugiu perseguido pela cavalaria inimiga” (Aul. Não poderíamos trocar aí nenhum dos verbos. mas perdeu o tempo”. e trouxe nos braços o menino desfalecido”. “O exército abalou dali ao ter certeza de que o inimigo estava a chegar”. depois de haver meditado”. como sair. de modo a não ser visto”. afoitar-se é “não hesitar sem refletir muito no perigo. “Por que desapareceu o senhor de nossa casa?” – Sumir-se é mais que desaparecer porque dá ideia de “deixar de ser visto sem . e no outro dia seguimos para Mendes. aventurar-se é “expor-se a boa ou má sorte”. “desviar-se precipitadamente de alguém ou de alguma coisa para evitar incômodo. arrojar-se é “precipitar-se. como se se sumisse no espaço. boa ou má”. a ir à cidade convulsionada. etc.” – Azular é brasileirismo bem moderno. para alguma coisa.) significa “sair precipitadamente e às ocultas. – Abalar (sent. – “O gatuno pressentiu-nos e esgueirou-se”. – “Como é que um soldado se atreve a chegar tão perto da trincheira inimiga?” – “O pescador atirou-se ao mar. – “Ele se aventura a ir a Minas: se for feliz. o companheiro foge” (Garrett). mais a ideia de deixar um certo lugar” que de “ir para outro”. tomar uma resolução súbita”. é “sujeitar-se a que lhe aconteça bem ou mal”. “Depois da meia-noite desapareceram as crianças”. Também do grupo abala o estudante assim que ouve falar em bomba. – “O bombeiro arrojou-se ao furor do incêndio. mas decisivamente”. – “O sr. coragem. portanto. desaparecer. e fugir é “deixar um ponto às pressas”. mas distingue-se claramente de um e outro porque acrescenta à ideia de “pôr-se em movimento” a de “continuação de marcha iniciada”. pernoitamos em Campo Grande. e significa – abalar. – Apliquemos todos esses verbos. Abala o garoto quando vê o policial. atrever-se é “afoitar-se com audácia”. e salvou a criança”. – Desaparecer é deixar de ser visto. retirar-se.10 Rocha Pombo -se. “F. dali seguindo para ponto ignorado”. fugir. diferindo deste porque não dá. azulou dali quando nos viu de longe”. é “empreender um lance de resultado incerto”. animar-se. de partir e de sair. – Abalançar-se quer dizer “não hesitar. animar-se quer dizer “ter alma. sem ideia alguma acessória quanto ao intuito de quem desaparece. saindo de casa às 3 da tarde. e discutir justiça?” – “Afinal animou-se a pobre viúva a ir a palácio. arriscar-se é “expor-se a um risco. e ainda se arriscou a andar pelos lugares mais públicos”. azular. seguir. atirar-se é “lançar-se sem ímpeto. perigo. “Partimos daqui no dia tal. sumir-se. risco. “Espavorido. Paulo. fig. atirar-se com ímpeto”. “F. É sim quase perfeito de sair. sem os receios ou escrúpulos usuais”. embora sem a intenção de esconder-se. tentação”. – Partir quer dizer – “começar marcha ou viagem. 12 ABALAR.. partir. ousar. esgueirar- -se. pôr-se a caminho”. só confiando na ventura.. – “Pois há quem ouse ir a comícios neste país arriscando a própria vida?”. e só com o fim de não continuar presente num lugar”.

mas de um moço distinto. célebre. “F. era um jornalista distinto. é um escritor abalizado”. consumado. ínclito. Dizemos: “Ele me demoveu (e não – abalou) do intento de vingança”. pois jamais me dissuadirão de que a Justiça está comigo”. digno. demover. “Fazem esforços por abalar na alma do povo as crenças de que ele vive”. “tirar do estado de firmeza”. desapareceu para sempre). – Abalar. “demover operando no espírito. mas não creio que cheguem a demover-me do meu propósito. ou do que se intentava”. eminente. de fim ou de necessidade com que alguém se retira: apenas marca a noção de “não estar mais presente onde se estava”. – Demover diz muito mais. – Distinto é aquele que. assim como retirar-se marca. e de retirar-se principalmente.” – Notável diz mais que distinto: designa o que se pôs. não propriamente. 14 ABALIZADO. apenas não fica muito firme nelas.). te análogo ao que tem no sentido físico. a ideia de “não estar mais presente”. não apenas em simples destaque. pois enuncia “a ideia de mudar do que se era. portanto. – Ausentar-se é “deixar de estar presente em alguma parte”. assinalado. mas a de “haver deixado um lugar”. “F. “As suas palavras poderiam abalar-me alguma coisa. ou de intento. – Ilustre é um desses vocábulos que parecem gastos pelo uso. isto é. aqui. este verbo empregado aqui. “F. o que se distinguiu por alguma grande ação. mas ao fato de haver deixado a cadeira. . Em suma: quem desaparece nem sempre tem tenção de sumir-se: agora o que não é possível é que alguém se suma sem haver desaparecido. Quem se deixa abalar nas suas convicções nem por isso as renuncia. “Tais coisas lhe disse o velho que o dissuadiu de casar” (tirou-lhe isto do espírito). significa “mover um pouco”. com toda a sua eloquência. por algum mérito ou aptidão. egrégio. Diremos que um amigo (que continuamos aliás a encontrar na rua) desapareceu de nossa casa. famoso. – Dissuadir é “tirar do espírito”. Dizemos: “O homem. notável. na acepção figurada. “As armas e os varões assinalados” (Cam. “deixou de ser visto nela. mas que fosse um escritor notável ninguém sabia”. de sair. se destaca do comum e se põe em relevo. – Abalizado – dizemos de um profissional ou de um artista que se fez completo na sua profissão ou na sua arte. preclaro. distinto. Não diríamos neste caso – ausenta-se – pois que o nosso pensamento não é aludir ao fato de não ter mais o homem ficado presente. às vezes) ideia de plano. e não. conspícuo.Dicionário de Sinônim os da Língua Portuguesa 11 que se saiba o paradeiro ou o destino de quem se sumiu. e tido como exemplo. – Assinalado é o que se destacou por alguma prova brilhante no seu ofício. afamado. é mestre abalizado no seu ofício”. exímio. e aproxima-se em certos casos de desaparecer. “que se sumiu de nossa casa”. “O juiz ausentou-se durante as férias”. nobre. “O homem retirou-se da festa mais cedo do que se esperava”. “fazer que uma pessoa fique em dúvida a respeito de alguma coisa”. não consegue abalar-me neste modo de ver”. Do mesmo modo não confundiremos os dois termos para empregá-los indistintamente nesta frase: “O pobre viúvo sumiu-se do mundo” (isto é. grande. na consciência”. famigerado. com valor perfeitamen- ilustre. “Não arrefeceu nunca em Vieira aquele assinalado heroísmo da sua imensa fé”. de frequentá-la”. Mas ausentar-se não dá (como retirar-se. dissuadir. o presidente suspende a sessão e retira-se”. “Demovemos uma criança de ficar no meio do barulho”. É. insigne. mas em tal evidência que se fez digno de ser notado. “No meio do tumulto. “Não se trata de um tipo qualquer. 13 ABALAR.

nenhum excede a Cavour pela função histórica”. mas os preclaros são ao mesmo tempo ilustres. e insigne exprime “qualidade inerente à pessoa ou coisa insigne”. apesar do que diz Bruns.12 Rocha Pombo No seu sentido próprio. mas.. ou “está tendo fama no seu tempo. “Os afamados charutos da Bahia”. “tocam-se de perto.” Difere de assinalado em que este “chama atenção mais para os feitos do indivíduo que se assinalou”. o grande Infante. Diremos: “famigerado bandido”. boa ou má (em regra – má) “se espalha num dado círculo e com aparato”. função. é um digno funcionário”. “Que nobre alma a daquela dama tão obscura e tão desventurada. é grande. “As afamadas laranjas da Argélia”. e que por isso mesmo é merecedor de alguma coisa mais que o comum. missão.. ou mesmo – grande.. mas a raríssimos grandes poetas ou grandes artistas chamaríamos com propriedade famosos. mas melhor a coisas. destacado por ações. – Digno é um epíteto mais modesto do que todos os precedentes: digno se diz daquele que “se porta discretamente no seu cargo. e no seu lugar. “F. por exemplo: “preclaro representante da nação”. como nota Lafaye. – Afamado diz muito menos que famoso. ofício. “famigerado conspirador. ou onde aparece”. chamar – famoso a um médico que se fizesse conhecido e ilustre fora do seu meio: diríamos antes – notável. “famigerado desordeiro”. ou feitos.. – Famoso e célebre. “O nobre ancião falou solene”. conforme o caso. mas “grandeza que tem alguma coisa de solenidade e de esplendor na história. Não seria muito próprio. Mas rarissimamente poderíamos dizer sem flagrante absurdo. Diríamos: “O preclaro Tácito”.. é de assinalado que mais se aproxima: ilustre quer dizer – “conhecido e brilhante por si mesmo. Há capitães ao mesmo tempo célebres e famosos como Alexandre. É ainda preciso notar que tanto se aplica a pessoas como a coisas. Só por menoscabo diríamos: “famigerado cultor das musas”.. “F. – Insigne é quem. de aldeia”. com razão. “Aquela criatura. ou então em frases enfáticas. Henrique. ou melhor – célebre. “Nada tenho a dizer ao nobre senador”. “Este . tratando-se de um conspirador de alta raça. já lhe não caberia bem o epíteto). só se pode aplicar a pessoas vivas. significa “digno e excelente”. só porque se trata de homens ilustres.. diz menos que ilustre. “O preclaro varão que ilustrou o seu tempo”... podendo até ser a de um bandido. ou “preclaro ministro”.. Diríamos: “Job foi um varão insigne pela virtude da resignação” (e não – “um varão assinalado)”. pela sua grandeza moral. afastando-nos um pouco do autor. – Famigerado quase sempre se toma em sentido pejorativo: designa indivíduo cuja fama. porque conserve uns laivos da antiga acepção. é digna de respeito”. Afamado é quem ou o que tem fama. – Nobre..” “A nobre altivez daquela criança salvou-nos a todos”. eminente. ou a coisas subsistentes. Mas preclaro diz mais e é mais nobre: exprime – “excelente. ou na sua condição própria”.. e segundo observa Bruns. e hoje é termo de que só se usa na oratória parlamentar. ou o que “se assinala por algum grande mérito. Nem todos os ilustres são preclaros. Aplicado a qualidades.. brilhante”.. observaremos que: famoso é vocábulo menos nobre. “A preclara majestade de d.. é um médico afamado” (isto é – que tem bom nome ou boa fama de profissional na cidade onde clinica). mais do que rei no seu império do mundo”. ou alguma grande qualidade ou aptidão. – Preclaro e insigne aproximam-se de ilustre. belo. célebre enuncia não fama ruidosa. mas decerto que não diríamos dele – o famoso Charcot. ou mesmo nas vicissitudes da vida”. “Entre os políticos ilustres de Itália. Charcot é célebre... ou qualidades que dão lustre”.. e deve aplicar-se a um fato ou a uma vida “que fez grande ruído no mundo”. (porque. e no meio em que vive. ou a coisas.

Tanto podemos dizer – “um artista”. e. ou das nossas letras”. Só é grande o homem “excepcionalmente notável que foi consagrado pelo culto das gerações”. – Convulsão aplicar-se-ia para designar um terremoto violento de grandes proporções. ou na sua profissão (principalmente na sua arte) “excede. 15 ABALO. ou o feito de proporções fora do comum “– que se incorporaram definitivamente na história humana”. é um conspícuo marceneiro”. magistrado. que tem nome ruidoso e brilhante”. notável de si mesmo”. e de consequências gravíssimas para a região convulsionada. Um favor. sem ser insigne. ou às proporções de grandeza dos seus pares”. é figura conspícua da nossa política. convulsão. ou “F. – “é o que chega ao último grau da glória”. sim – é “um favor grande. Há ínclitos generais. ou um serviço assinalado é não como entendem Bourg. – Consumado aproxima-se de abalizado. como – “um filósofo consumado”. menos extenso e menos sensível que o tremor de terra. de grande massa”. como há ínclitos poetas. Dizemos: “o grande Infante”. apenas sensível na superfície”. mas um simples abalo. comoção. – Tremor de terra é. – Grande é um genérico que se não confunde entre os do grupo. – Parece que se vê melhor nestes exemplos: “Temia-se um terremoto. mesmo referindo-nos aos mais abalizados no seu ofício: “F. “o grande Vieira”. – Eminente e conspícuo diz mais do que ilustre: eminente é o que “excede à estatura moral. “F. “uma série de abalos. e se diz daquele que na sua arte. é um artesão eminente”. agitação. Não poderíamos dizer. ou melhor. tratando de coisas – a que “se eleva acima de outra coisa e se põe muito alto”. sobreleva aos mais hábeis”. – Terremoto é “forte tremor de terra tendo consequências na crosta terrestre”. segundo Roq. – Comoção é “estrondo ou abalo no interior da terra. ou o fato. “egrégio pastor de almas”. artista eminente. ou de que se tem sinais evidentes. excepcional. Mas diríamos: escritor. e por isso mesmo pouco intenso e pouco sensível. Consumado significa – “subido à perfeição. tremor de terra. como há jogadores exímios.. – Agitação será mais “uma comoção continuada por algum tempo”. pois que estes não são mais que abalos menos amplos conquanto mais intensos e mais sensíveis”. – Trepidação é leve abalo. tratando-se de pessoas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 13 homem. Egrégio é “honrado e ilustre. “F.. um favor ou serviço que se manifesta. – Abalo é “movimento amplo. conspícuo é o que se faz “tão ilustre e eminente que dá nas vistas de todo mundo”. tre- pidação. o que é “muito falado. digno de respeito pela compostura e gravidade na sua conduta. ou acontecimento extraordinário. de estremecimentos. Há exímios poetas. – Exímio exprime a “qualidade de superexcelência”. Berg. mas um favor que no momento assumiu proporções que não teria em ocasião normal”: um favor insigne. é verdadeiramente o egrégio e venerável patriarca daquela família”. ou no desempenho de algum alto cargo”. terremoto. Dizemos: “O egrégio tribunal”. e nem chegou a ser um verdadeiro tremor de terra. e tanto um como outro exprimem mais do que exímio quando se quer marcar precisamente elevação pela capacidade e pelo mérito. Entre todos os vocábulos deste grupo. a uma profunda e acabada perícia na sua ciência ou na sua arte”. como diz Bruns. Qualquer dos dois termos só pode ser. no dia seguinte . tornou-se naquele momento figura assinalada pelo heroísmo com que fez frente ao inimigo”. estremecimento. aplicado a pessoas ilustres. e por isso “posto no pináculo entre os da mesma classe”. “Ínclito”. – Todos estes vocábulos significam fenômenos sísmicos. muito raros outros caberiam nos dois exemplos.

desfavorecer. fugimos. abordar. aferrar. Abandonar é. mas decerto não é em tal acepção que abalroamento é sinônimo de investida. desvaler. pois. aferrar é “atracar com ferros (quaisquer que sejam)”. mas uma formidável convulsão que alterou toda a topografia da ilha”. desdenhar. – Acometer é quase assaltar: é “investir subitamente e com decisão”. desajudar. bordo com bordo”. logo à noite repetiram-se uns estremecimentos. é mais genérico do que abalroar. “O inimigo investe. desproteger. assaltar. Abandonar tem com efeito alguma coisa de “exilar. Diz Bruns.14 Rocha Pombo houve algumas trepidações do solo junto do monte. dessocorrer. de emboscada.: “O antigo português tinha o verbo bandir (“banir”. “Ele não tinha motivos para agredir-nos tão insolitamente”. que: “o desamparo se refere ao bem necessário de que se priva o desamparado. “Assaltaram os brutos a fortaleza à noite”. “Vamos atacar o forte”. pôr de lado e esquecido”. investir. “Acometeu-nos o inimigo sem que o esperássemos tão cedo”. – Atacar é. – Agredir é propriamente “provocar. e decisivamente”. “Os bárbaros abandonaram os míseros náufragos ali na ilha deserta”. – Abalroar. – Atracar. Diz Roq. “Não se ataca impunemente a honra alheia”. impetuosamente”. no outro dia. escreve Bruns. (Dic. – Arremeter é “atacar com fúria.. mas os três verbos sugerem o mesmo ato. desamparar. como se disse. consistindo a diferença apenas “nos meios de que se valem os tripulantes de um navio para aprisionar um navio inimigo”: abalroar. “desterrar”)1 que nos revela a existência de um substantivo mais antigo – bandon – de que nos vem bando (“pregão”. atracar. é “deixá-la entregue aos seus próprios recursos. “A primeira vez sentiu-se uma rápida comoção ao sopé da montanha. “com precipitação”. quando esta se acha em iminente risco de perecer. Bandon era ordem de bandir. O rico que não socorre a sua família pobre a desampara. “decreto”). agredir. o verbo de significação mais genérica: “é ir hostilmente contra alguém ou alguma coisa”.. e com intuito hostil”. é – como define Aul. “O bandido nos atacará em caminho se facilitarmos”. como aferrar. o abandono se refere ao mal iminente a que se deixa exposto o abandonado. ligeiros estremecimentos: e depois tudo voltou à serenidade normal. arremeter. desarrimar.). acometer.. porém. “A vaca danada arremete contra todos”. tomar ofensiva contra alguém”. neste grupo. Quanto a abandonar. “Com muita gente armada a investiram e abordaram (a caravela) por duas partes”. desapoiar. Abalroar. (Dic. – Assaltar é “investir à traição. 17 ABANDONAR. que o abalroamento de dois navios é devido ao acaso. é “atracar com balroas” (instrumento próprio para abordagem em combate). e como nos convencêssemos de que semelhante agitação subterrânea é prenúncio de catástrofes.” “O que se deu ali não foi um simples terremoto. para melhor combater. – “atracar com balroas. de todos os do grupo. – Abordar é “aproximar-se uma de outra embarcação. desprezar. atacar. etimologicamente. ou de sacrificar 1 O italiano conserva o verbo bandire. se o faz. “Os inimigos abalroaram uma nau de El-Rei”. Também se diz: “Assaltou-nos em caminho a tormenta”. da Acad.) – Investir é “arremeter hostilmente contra alguém ou alguma coisa”. mas não consegue abalroar a nossa embarcação”. “O inimigo nos atacou de frente”. os quais se reputam deficientes ou nulos”.” 16 ABALROAR. e atracar é “prender de qualquer modo”. . “não querer saber da pessoa ou da coisa que se abandona”. da Acad.. Não há dúvida.

e antes “fazer o contrário”). a distinção será fácil desde que se tenha em vista o respetivo radical. – Quanto aos outros do grupo. simpleza. de se vestir sem artifícios que deem na vista”. sem sacrificar alguma coisa da clareza e propriedade da expressão. – Desproteger é “recusar a proteção que antes se dava a alguém”. desprezo ou pouco interesse revelado por alguém”: diferençada. – “A amizade – diz ele – exige a naturalidade. mas aqueles que estavam conosco e se afastaram não fazem menos que desajudar-nos”.. acídia. descuido. desmazelo. Só nos desfavorece aquele de cujos favores dependíamos. no trajo. nas maneiras. “Falamos à rapariga. apesar de certos caprichos fúteis de um mal-entendido purismo. etc. aquele a quem se abandona. desalinho. – Desprezar é “não dar a alguém ou alguma coisa o apreço ou importância que se lhe dava”.. pois em todos figura o prefixo negativo ou privativo des.. desleixo. e ela respondeu com uma graça e naturalidade de criança”. Aqui há seguramente lapso: o abandono dessa frase não é o que o autor definiu como sendo o abandon francês. desafetação já “sugere ideia de esforço ou de propósito no . na perdição ou na desgraça. desapercebimento. tinha direito a ser por nós socorrido. abdicação. – Desdenhar é “ter em pouca conta”. desafetação. distração. “Os homens o desvaleram sempre naquelas angústias. mas o amor. a paixão veemente só é real quando há abandono”. Pode-se desapoiar sem desproteger. auxílio”. naturalidade. abnegação.. ou se desprotege. “Desdenhando o poder dos homens. como só se desampara aquele a quem devíamos valer. pois. é: “negligência amável no falar. inércia. É simples de ver que eu me não sinto desamparado só porque um sujeito me desprotege. e só se abandona a quem. depois de o haver definido como sinônimo de naturalidade. abandonado de todo o mundo. “Aquele ricaço desdenha a nossa pobreza porque nós lhe desdenhamos a arrogância”. e o definido por Bruns. neste grupo. mesmo desprezado pelos amigos. substituir um pelo outro. se desampara ou se desdenha. segnícia. preguiça. desvaler sem desdenhar. desajudar (“negar ajuda. e tão distintamente que em muitos casos não seria possível. inação. moleza.. como desamparar é “negar amparo”. abstração. desídia.. conquanto não seja o aplicado. Nem sempre se despreza. É estranha a aplicação do termo feita por Bruns. a santa continuou muda”.. ou pelos outros indistintamente.” “Aquela candura da jovem princesa ressalta de todo o abandono em que se deixa ver lá no parque”. – Abandono é um galicismo (neste grupo) que pode perfeitamente ser incorporado na língua. incúria. “Aquele homem. – Naturalidade é “maneira de se mostrar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 15 sua honra. entendemos: desvaler (“não acudir”). a abandona”. 18 ABANDONO. languidez. etc. e só se desarrima a quem precisa de nós. Como estes. abandono. Desarrimar não é propriamente dessocorrer.”. desfavorecer (“negar favor”). pelos próprios respetivos radicais. Todos estes sinônimos têm a significação geral “de indiferença. ócio. singeleza. acinte ou altivez”. – Desafetação já se não aplicaria com a mesma propriedade a uma criança. morreu em amarguras. é “tratar com desdém. pouco apreço. “Nesta causa pode um parente desapoiar-nos sem que nos prejudique. pois que só se dessocorre aquele que está em perigo ou em situação difícil. não foi dessocorrido de algumas almas piedosas”. de dizer. indolência. desapoiar (“deixar de apoiar”). Mas aqui. ingenuidade. mas os filhos fizeram mais: desarrimaram-no na velhice dolorosa: e afinal. negligência. desarrimar (“privar de arrimo”). lhaneza. como dessocorrer é “deixar de oferecer o socorro que se nos pede”.. O abandono dessa frase é sinônimo de renunciamento.

ou surpreendeu-me nesta negligência em que se está em casa”.. as coisas mais sabidas do mundo. – Ingenuidade é a “singeleza de quem não oculta o que sente. parelho. “Calino é o tipo do ingênuo: diz. nem disfarça o que faz. e quase inconveniência que se não perdoa em gente de educação”. ou de trajar”. mas “descuido culposo de quem deixa de parecer como deve. na postura. é muito mais grave que simples desalinho. ou de frase. É ela “um relaxamento de ânimo. que parece ter sido vulgar outrora. ou que torna avesso ao cumprimento do dever. que cessa logo que desaparece a causa acidental que constrange o inativo”. estado de torpor”. Negligência sempre é menos do que incúria. sem desigualdades de relevo). “Por negligência foi censurada a menina que não deu conta das lições.” – Negligência2 diz também maneira descuidosa. conquanto diga Roq. distinguindo-se desta em significar mais uma “inércia moral que afasta do trabalho. mas deve tirar a vontade de agir e de viver: a indolência chega a ser às vezes uma virtude para o cético. no gesto. ou dos temas a tempo: por incúria teve castigo”. a preguiça um vício”. Pode ser oriunda de mal físico. e antes um humor sempre igual. postura desafetada.. Diz Lafaye que “a indolência é um defeito. “Pilhou-me a visita. Diz Roq. Se é mesmo vício a preguiça. – Inércia é “imobilidade. naturalidade. – Acídia (ou acédia. “Passam a ser censuráveis aqueles modos: aquilo já é desalinho. enquanto que incúria é o próprio fato de não fazer o que devia”. e tendo também alguma coisa de moleza”. pouca atenção com que alguém cumpre sua tarefa ou desempenha um dever. o contrário.. – Simpleza sugere ideia de inconsciência.16 Rocha Pombo sentido de parecer desafetado ou natural”. – Moleza é “preguiça sensual”. ou de cumprir um dever do seu ofício”. como as crianças”. – Languidez é um quase “desfalecimento semelhante à depressão mórbida. indiferença por tudo que a outros merece cuidados ou atenção”. Desafetação pode simular-se. Neste grupo não é bem assim. o pessimista ou o misantropo. – Desalinho é “maneira ainda mais descuidosa que a negligência: é quase incorreção de costumes. “A singeleza daquele viver é mais edificante do que todas as opulências dos grandes”. ou no desempenho de uma tarefa”: mais censurável sem dúvida que desalinho.” – Lhaneza é a qualidade do que é 2 Usa-se muito hoje do francês negligé em vez de negligência. O descuido na elocução. de quase ignorância e parvoíce: é a “singeleza ou a ingenuidade do inculto e rude”. – Desídia é quase incúria. no falar. e ordinariamente revela falha moral. está passando a ser quase um vício elegante. “Este tipo vem aqui fingir desafetações de Tartufo. – Descuido é (como se vê da formação do vocábulo) “falta de cuidado no trato. “Ninguém há de ter o direito de acusar-me de incúria na minha profissão”.. . trajo sem capricho. falta de energia. apatia. – Singeleza é a qualidade do que não tem “refolhos e malícias”. acidentes de ânimo. “O descuido de quem se apresenta maltrajado em um salão de cerimônia é imperdoável”. não.. Incúria é igualmente (conforme está indicando a própria etimologia) descuido. “Nada alterava jamais a lhaneza daquele caráter”. A preguiça pode não ser um vício. no vestir. com toda gravidade. lhano (do latim planus = liso. – Inação é um “estado de inércia passageiro. – Indolência diz etimologicamente – “falta de sensibilidade. uma falta de ação para certas ocupações”. mais conforme à etimologia) é uma inércia mais de espírito ainda do que desídia (talvez originariamente uma e outra do mesmo radical grego).. “Ele ficou em pasmo ante a simpleza daquele bárbaro ali impassível a tudo que se passa”. – Indolência e preguiça.

– Ócio é antínomo de trabalho. falta de correção. e ter os seus sentidos materiais como que suspensos ou apagados. naquela causa. Mas este difere de baratear porque significa. mais lazer do que inação. que se não sabe por que é que falha nos léxicos. como intr. Usamos também de embaratecer. menoscabar. depreciar. especialmente para as coisas do culto divino e comunicação com Deus”. – Segnícia é mais do que indolência. não esteve conosco?” Menoscabar não é somente menosprezar. e figuradamente é. desencarecer. não apenas falta de correção. embaratecer. Menosprezar não é propriamente “desprezar”. a malbaratar na vida os melhores dons que lhes tocaram”. mas “prezar menos do que seria justo”. “Os meus instantes de ócio são poucos. “Havemos então de menosprezá-lo só porque. por um motivo interior. que a define assim: “O sétimo e último vício capital se chama acídia. a inércia e moleza do bárbaro”. – Deleixo (ou Desleixo) e desmazelo significam “relaxamento no cumprir o dever. a significação de “baixar de preço”. mas “fazer baixar de preço”. mas uma desídia quase ostentosa. ou sem notar em torno de si coisas que lhe não deviam passar despercebidas”. desapreciar. mas também “abater o valor.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 17 e usar-se em vez de preguiça. baratear. não só “baixar de preço”. pelo menos no Brasil: “O café já barateou”. o valimento de alguém”. abstração. abrir mão de uma coisa facilmente. em que alguém fica sem dar atenção a nada. “Míseras criaturas é o que elas são. Dizemos. como se vê do Leal Conselheiro e do Catecismo. Abstração é o “desapercebimento de uma pessoa completamente alheada do meio em que se acha. “Não é por menoscabá-lo que . – Malbaratar é “desperdiçar coisa estimável”. mal- baratar. A mesma diferença no sentido figurado. não tendo na conta devida”. tendo ouvidos e não ouvindo. “ter em menor apreço do que o devido”. – Baratear é “oferecer por menor preço”. porque a minha vida é muito atribulada de serviço”. menosprezar. mais. que é uma tibieza e fastio espiritual que a alma tem para o exercício das obras virtuosas. a consideração”. etc. – Menosprezar. Desapercebimento é “um como estado de inconsciência aparente. parecendo que desmazelo é mais grave e mais culposo “porque exprime. porque se tenha trabalhado é que se fica em ócio: é este. a importância. tornar barato. desestimar distinguem-se ligeiramente. que é mais “ausência de sentimento muito nítido do dever” – Desapercebimento. desestimar. de Fr. mostrando por ela pouca estima ou nenhum interesse”. a aversão ao movimento. do que desídia. – Abaratar (ou baratar) significa “diminuir o custo. pois. Bartolomeu dos Mártires. do que desleixo.. ou porque se seja forçado a ficar inativo. um defeito mais punível que desleixo. é “vender com prejuízo. menoscabar. “Ele não há de consentir assim que lhe abaratem a honra de juiz”. olhando sem ver. ou as qualidades. no entanto. uma como tensão mental que a separa – dir-se-ia – das outras pessoas”. fazer baixar o preço de alguma coisa”. ou porque se descanse dele. “Os tais conluiaram-se no intento de embaratecer os bons ofícios do competidor”. Tem ainda. distração sugerem ideia de estado bem semelhante a umas aparências de abandono. “ter em menor conta do que a antiga em que se tinha alguma coisa. “Não pensem que ele vai agora baratear as aptidões”. do que preguiça. mas de quem parece “não pensar em coisa alguma. pois. porque junta a tudo isso alguma coisa de miséria moral mais lastimável: segnícia deve ser o “torpor estúpido. tocando sem sentir. diminuir o crédito. é dar “por menos do justo valor. 19 ABARATAR. Distração é também desapercebimento.

“Quando encontrou no vestíbulo a larva de Aquiles. formas de aves ou de animais fantásticos”. trasgo. “Ninguém decerto vai desencarecer-lhe os grandes serviços prestados à pátria naquele momento”. manes. Lêmures e manes eram.. “representação”. Abantesma é propriamente “fantasma sem forma definida. imaterial. significando “forma vaga subsistente de alguém que foi vivo”. aparição.) é o que se poderia chamar também – “alma penada” – mas que toma “aspetos estranhos. ou melhor – “a alma de algum conhecido. emudeceu”.18 Rocha Pombo dele digo estas coisas”. e há entre eles uma certa distinção análoga à que se nota entre fantasma e abantesma. entre os romanos. Desestimar é “não ter em estima. larva. ou de ter na mesma conta exagerada em que se tinha (e tanto no sentido próprio como no figurado)... ou do remorso”.. sombra são vocábulos de significação mais genérica e vaga. tendo figura humana mais ou menos acentuada. não ter por alguém ou alguma coisa a mesma estima que se tinha”. dando sempre a ideia comum de coisa sobrenatural. às vezes. como a sombra” (fenômeno . Em qualquer dos casos desaprecia diria sem dúvida alguma coisa menos. com a significação que tem neste grupo.” Sombra pode-se dizer que. “coisa impalpável. atribuída à imaginação dos alucinados. socorrer. subtil. e talvez porque sugira melhor esta última noção é que se distingue de todos os do grupo. havendo apenas entre os dois a mesma diferença que há entre os respetivos radicais – estima e apreço. quer durante o sono”. espetro. por alucinação. – Abantesma é forma popular de fantasma. heroica – dir-se-ia – e terrível do diabo”. – Avejão (fig. – Trasgo é qualquer coisa como “figura ostentosa. Este vocábulo (fantasma) significa imagem fantástica ou incorpórea. “alma dolorosa”. ou perseguindo os vivos”. “personificação”. – Espetro e larva designam também fantasmas. e que. manes e lêmures. aparição. inspira repugnância”. saíam do inferno à noite para. “Encontrou no caminho um fantasma que o obrigou a voltar”. deixar de estimar. “Aquela casa. e é de crer que junte à ideia de visão a de penitência. significando assim – “alma penada”. quer em vigília. e como em penitência. que se deixa ver sem perfeito relevo. julga alguém ver. O mais vago de todos é o primeiro dos três: visão é “toda imagem que se julga ver.. lêmures. mas quase sempre “para atormentar os vivos”. além de terror.. ou aquela consciência vive atormentada de fantasmas” (isto é. ou não corpórea. e causando terror. mas todos. Manes designava particularmente “as almas dos avós ou dos parentes falecidos”.. de ser tão caro ou encarecido como era. mas ainda conservando alguma coisa da forma humana”. – Visão. 20 ABANTESMA. Larva será espetro menos nítido. “Não se desestima a um amigo só porque caiu em pobreza”. como em: “O fantasma da dor. É este verbo um sinônimo quase perfeito de desapreciar.. e tanto menos quanto estima é um sentimento mais profundo que apreço. Aparição distingue-se de visão em “acrescentar à ideia de imagem sobrenatural a ideia de miraculoso. de inesperado e súbito. Espetro será o fantasma. duende. avejão. visão. – Duende designa alguma coisa semelhante ao que se chama vulgarmente “alma do outro mundo”. sombra. “Imundos abantesmas vagavam naquela região mais do pecado que da morte”. Também se aproxima de “símbolo”. é vocábulo de alta nobreza histórica. mesmo instantâneo. que. de coisas falsas ou imaginárias e medonhas). “Só desestima o dinheiro quem lhe não sabe o valor”. fantasma. ou à falsa visão de certos doentes. “espíritos que andavam vagando pela Terra. – Desencarecer é deixar de encarecer.

“Abarcava todo o peixe que vinha à Ribeira”. exprime alguma coisa de “alcançar”. e faz o que . compreender. – Abarroado quer dizer “teimoso. Deve notar-se. aferrado. (Aul. no entanto. ou reunindo-as por meio de sambarca”. – pelo outro. perseverante. atravessar. como diz Lafaye. libertino. aos desejos de outrem.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 19 físico). Compreender é sinônimo que se pode ter como quase perfeito de abranger. e mesmo de abarcar”. Há o monopólio não fundado em lei. obstinado. a ataques”. Entre os antigos. o direito “exclusivo ou privilégio de vender ou comprar”. que mais talvez o uso comum do que a precisão ou a propriedade fixa em alguns o emprego de um de preferência a outro. 22 ABARCAR. antes que cheguem à praça ou ao mercado público”. embirrante. – Cabeçudo é o que se deixa guiar só pela sua cabeça. de modo a fazer subir pela carestia o preço das coisas. afincado. ABARCAR.) – Açambarcar exprime a mesma ação de prender ou arrecadar mercadorias: mas “de modo mais amplo. monopolizar. emperrado. insistente. não: “Cesar abarcou todas as dignidades da república”. nestas por exemplo: “O homem está obstinado em não aceitar o cargo”. relutante. – Todos estes verbos exprimem de comum a ideia de abuso contra a liberdade de comprar e vender. e ainda hoje. No Brasil é muito comum dizer-se indiferentemente: “Abarcar ou abranger o mundo com as pernas”. – Obstinado e opiniático poderiam tomar-se em certos casos como sinônimos perfeitos. Isto quer dizer que com efeito o opiniático e o obstinado. Há. muito raros hão de ser os casos em que um se não possa substituir beçudo. etc. enquanto que obstinado é o “que resiste. encaprichado. e é sem dúvida com esta significação que entra aqui o verbo monopolizar: é “tomar alguém. em modo de ser. e nunca propriamente: “O incêndio compreendeu. “Ele é opiniático. “não cedem à vontade. teimoso. “O poder de Roma abrangia multidão de povos” (Bruns. ou mesmo alguma nação a propriedade de um certo gênero de negócios. ca- Abarcar e abranger significam “encerrar ou conter em si muitas coisas: em abarcar há ideia de esforço. em abranger. fundada em opinião. tanto assim que em certas formas não poderiam ser trocados. Diremos: “O incêndio abrangeu todo o quarteirão”. sombra era o mesmo que “alma”. alguma companhia. em razões em suma. que parecem estar na mesma natureza. obstinado com insolência e por motivos torpes”. firme. persistente. insistente.” 23 ABARROADO. contumaz. – Abarcar significa “apoderar-se da mercadoria como quem a prendesse nos braços”. “Sedutor. ou da exploração de certas indústrias”. caprichoso.). entre os dois bem marcada diferença. no entanto. – Atravessar é “comprar as mercadorias em caminho. porfiado. ou que não cede. Teríamos de dizer. essencial. abranger. a embaraços. opiniático. Abranger. devasso abarroado”. – Monopolizar enuncia a forma legal de “exercer exclusivamente o comércio ou qualquer encargo ou função”. mas por efeito de uma determinação ativa e refletida”. ou na índole do opiniático. enfeixando-as.. tenaz. mas distinguindo-se o primeiro do segundo em significar “uma tendência ou qualidade própria. por sua parte. birrento. pertinaz. 21 açambarcar. por exemplo: “Nesta relação não se compreendem (e não se abrangem) os casos a que se refere o ministro”. e sei que por coisa alguma se dissuadirá daquele intento”. constante. mesmo entre muita gente de cultura. etc. o que se escusa de agir.

revel. com obstinação e enfado”. nas ideias. ou tem força para continuar firme no seu posto. firme significam todos “fixo no lugar. persistente na ideia de vencer. mas o pertinaz é um teimoso. porfiado no trabalho. – Endinheirado.. “mais pelo prazer de contrariar do que por sincera convicção”. porfiado. “que se não abala. não por acinte. endi- nheirado. – Contumaz quer dizer “obstinado. de travar luta na resistência”. quer. num intento ou numa tarefa”. – Tenaz exprime “firme e vigoroso em pensar. Dizemos: “Ele está encaprichado no propósito de molestar-nos”. e fica imóvel. ou no seu intento. remediado marcam . – Caprichoso é aquele que se mostra seguro e inabalável. ou ao que de nós se espera”. capricho. milionário. que não atende. relutante contra as seduções do vício. o que nem sempre acontece com caprichoso. “Testemunha contumaz”. Relutante é “mais que porfiado.20 Rocha Pombo entende sem ouvir conselhos. argentário. nem fraqueja”. birrento. mas “por opinião ou capricho”. no seu desejo”. Constante é “ser sempre igual ao que se foi ou se prometeu ser. capitalista. sem explicar-se. obrar ou pedir”. na atitude. nem cede. perseverante acrescentam à qualidade do que é firme a “ideia de esforço no propósito de conservar-se firme numa resolução. Porfiado é ser “constante mostrando um certo brio e valor”. aferrado diz – “fixo como alguma coisa que se prendesse a ferro a uma outra coisa”. e reincide no seu modo de ver ou de conduzir-se sem se importar com o que é seguido por todos”. e por extensão é aquele que “segue sua opinião. etc. seguro conscienciosamente”. – Constante. firme significa “obstinado. – Ricaço é aumentativo de rico. Persistente é o que “sabe. – Abastado é quem está “fartamente provido de bens para viver em abastança”.. numa resolução” (Aul. – Rico é aquele “que possui muitas riquezas. advertências ou mesmo ordens de ninguém. ostentando a sua riqueza”. na vontade”. resoluto. – Teimoso é “o que persiste em pensar ou agir como se o fizesse quase por acinte”. e difere de encaprichado por isto: porque encaprichado significa que se tomou “por acinte ou por vingança uma atitude caprichosa”. ou à citação feita por um juiz”. – Afincado. opulento. persistente. ou não obedece à ordem legítima. apatacado.. dá ideia de que. relutante. e não: “A encaprichada menina”. pois enuncia a ideia de que o porfiado é “capaz de ir ao extremo. se não se teima propriamente. mesmo porque encaprichado reclama sempre um completivo. ou bens que excedem às próprias necessidades”. Birrento é “emperrado ou teimoso por birra. “Este homem extraordinário é constante na virtude.). embirrante. Afincado equivale a “fixo e seguro como uma haste que se fixasse ao solo”. portanto: “Contumaz no erro”. como o animal que empaca (podendo dar-se-lhe empacado como sinônimo quase perfeito). além de significar “pertinácia em querer. Emperrado significa o que se firma na sua opinião. aferrado. rico.. Perseverante é o “que se conserva firme e constante num sentimento. etc. poderiam aproximar-se de caprichoso e cabeçudo. e diz – “sujeito muito rico e com ares de ufano das suas riquezas”. e não: caprichoso: “A caprichosa menina não atende a coisa alguma”. – Opulento é sujeito muito rico que “vive vida brilhante e sumptuosa. – Pertinaz já inclui alguma coisa de teimosia. 24 ABASTADO. banqueiro. ricaço. e perseverante como quem sabe o que vale a fortuna”. seu intento. em querer. remediado. em agir”. etc. Embirrante é o que “insiste” nalguma coisa “por birra. Diremos. – Emperrado.. pelo menos se repetem esforços e tentativas. – Aproxima-se deste o vocábulo insistente: o qual. antipatia ou aversão”. apatacado.

perverter com escândalo”. defeiABASTARDAR. ou de transformar piorando”. preocupado só de lucros. – Desfear é uma dessas anomalias morfológicas da língua que o uso impõe. Desnaturar é “alterar a natureza. ou de mais ou menos paixão com que se cuida do dinheiro. milionário exprimem a ideia de “possuidor de grandes riquezas em dinheiro. afear. miliardário. – Abastardar significa “fazer ilegítimo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 21 uma certa “mediania. isto é. capitalista. Milionário é o “ricaço que possui milhões”. deformar. corromper. – Desvirtuar significa. tuoso”. deteriorar. estragar desvirtuando. que “vive de negociar. correto. pois: “O andar afea-lhe um pouco a elegância” (e não – desfea-lhe). banqueiro. estragar. quase perfeito de afear. 25 degenerar. desvirtuar. depravar. a natureza.). – Deturpar é “desfigurar deprimindo. Argentário é o mais genérico e diz “homem dado a grandes negócios. se bem que enuncie igualmente a ideia de “estragar. – Argentário. – Perverter é “mudar para mal” (Aul. convindo. – Deformar é “mudar a forma primitiva. que se note: em afear não há tão viva a ideia de “mudar tornando defeituoso”. viciar. próprio. – Deteriorar é “alterar danificando. ou ainda uma ideia do valor preciso ou das proporções da fortuna possuída. segundo a própria etimologia. o valor próprio de alguma coisa”.). É sinônimo perfeito. desfigura-se um texto tirando-lhe as belezas próprias da língua. No Brasil usa-se também o verbo enfear (ou enfeiar) com o sentido de “exagerar. as feições de alguém ou de alguma coisa” (Aul). – Estragar enuncia a ideia geral de “destruir. Diremos. bonita”. arquimilionário. o “aspeto.”: “Ele enfeia o caso para que nós não vamos”. “tirar a virtude. ou melhor. ou uma condição de fortuna que fica entre a do rico e a do pobre”. O endinheirado é aquele que ajuntou algum dinheiro e saiu da pobreza. – Já se usam também como gradações da ideia expressa por este último vocábulo: bilionário. adulterar. desfear. portanto. pois reduz a simples patacas as posses do sujeito. menos que perverter. fazer feio com o propósito de impressionar. e acrescentam à noção geral de rico a ideia de apego ou amor ao dinheiro. – Degenerar é “perder mais ou menos o tipo. deforma-se uma fi- . vivendo só pelo dinheiro”. o modo de ser normal”. as qualidades da sua geração” (Aul. etc. – Depravar é “perder as qualidades que tinha. deturpar. ideia que se sente em desfear. e significa “alterar alguma coisa fazendo-a feia”. o mérito.) transtornando. ou especular sobre empréstimos e outras transações de praça”. profanando. o brilho. perverter. Remediado é o que tem com que viver sem apuros. Apatacado diz menos ainda. legítimo”. deprimindo-a com perfídia”. pondo-a fora do seu estado próprio. é “estragar o que era puro”. degenera uma família. – Adulterar é “fazer mudar alguma coisa falseando-a. – Viciar é. Capitalista é o que “vive dos rendimentos de seus capitais”. Banqueiro é o que “faz negócios de banco” (Aul. – Dizemos: Abastarda-se uma geração. ou de fazer que uma coisa não seja ou não se faça tão bem como devia fazer-se”. – Estes verbos exprimem de comum a ideia de mudar a forma. deixar imperfeito. – Corromper é “pôr fora do estado de pureza própria”. em geral. Afea-se (ou afeia-se) uma coisa “tornando-a menos correta. desnaturar. desfigurar. aqui. “tirar a figura”. Desfea-se (ou desfeia-se) – isto é – “torna-se feio” o que “era bonito. fazendo pior ou imprestável”. – Desfigurar é. ou o modo de ser de uma coisa ou pessoa. “A idade a desfeou horrivelmente” (e não – afeou). demover. um indivíduo ou uma raça. ofendendo o pudor”. impuro”. alterar a forma própria. etc.

e fornecer é uma forma extensiva de fornir. com certa cerimônia. as melhores índoles viciam-se fora do lar. ao passar. – “Quando chegamos àquela zona assolada pela seca foi necessário municionar muitos dos nossos postos. como função própria ou dever de ofício”. Municiar é “prover de munições para um certo tempo. “Ele nos ministrou todas as coisas de que precisávamos”. de pão ou de carne uma praça onde havia necessidade de algum desses artigos”. deteriora-se o caráter fraco em luta com a miséria. quaisquer que sejam estas”. “E até de paciência vou munir-me para sofrer aquele biltre. Fornir é “prover do necessário. e. pois estavam quase todos completamente desprovidos de tudo”. apresentar. – Prover é o mais compreensivo dos do grupo. “O grande comboio abastou então a praça. adulteram as nossas palavras quando as transmitem infielmente de propósito. para que se pervertam almas basta às vezes um instante.22 Rocha Pombo gura fazendo-a monstruosa. nem para prazo certo”. pelos desregramentos. e nem sempre com fim especial e imediato. fornecer. ou em cumprimento de um dever ou de um contrato”. aprovisionar. Subministrar é – diz Bruns. – Abastar significa propriamente “prover do bastante. o primeiro. – Aprovisionar é “abastar de provisões. deprava-se um indivíduo. do indispensável”. Ministrar. uma nação pelos erros. para uma diligência”. o segundo. “Muniram-se de documentos contra a calúnia”. municiar. prover. e de predicação mais imprecisa e vaga. oferecer. corrompe-se o pão exposto à umidade. dar. Diremos também: “O menino está bem fornido (e não – fornecido) de carnes e com boas cores”. ou pelo menos de intuito que se procura dissimular ou encobrir”. e por uma determinação própria. subministrar. – Munir significa propriamente “prover de armas e ou- tras coisas que tornem forte. no entanto. “A caravana. Poder-se-ia ainda dizer sem . – “fazer com que alguma coisa chegue ao poder de alguém que necessita dela para se sustentar”: “Os americanos subministravam armas aos insurretos cubanos”. 26 ABASTAR. o tempo devastador estraga formosura. “A secretaria ministrará todas as informações necessárias ao juiz”. ou corrompe-se o menino nas más companhias. ministrar. deturpa-se a memória de alguém. ou “ficam bem municiadas as duas praças guardando aquele posto”. – Ministrar e subministrar são muitas vezes empregados indiferentemente. e – de munição. “Vai bem municiada a escolta”. e dali em diante foi ela sendo abastecida pelos lavradores dos arredores”. abastecer. desvirtuam as nossas intenções quando as interpretam de má-fé. – Entre fornir e fornecer nota-se a mesma relação que entre abastar e abastecer. no entanto. e abastecer é “abastar gradualmente. “Munam-se todos de roupas de lã para o inverno”. significa “fornecer. mu- nir. como por necessidade de acautelar o futuro ou prevenir algum mal”. ou que habilitem a defender-se”. Municionar é “abastar de munições de toda ordem. é que nos forniu de pão: agora o que preciso é ver quem no-lo forneça regularmente”. “Só os colonos vizinhos abastecem (e não – abastam) o nosso mercado”. significa “fornecer. pelos crimes”. Notemos ainda que subministrar sugere ideia de “ação clandestina. “Munem-se as praças de guerra esperando o inimigo”. munir. desnatura-se o homem no vício ou no crime. municionar. “As colheitas excepcionais daquele ano abastaram (e não – abasteceram) toda a província”. “Aprovisiona-se de água. fornir. conferir. “Nós sempre nos fornecemos (e não – fornimos) de tudo aqui mesmo no bairro”. ou em obediência a uma ordem.” – Municiar e municionar são formações vernáculas – de municio. prover pouco a pouco e com regularidade”.

e deita-se abaixo. porém: “A artilheria demoliu”. “Despenha-se a avalanche inundando toda a várzea”. arruinar. se se dissesse: “Municionar de água ou de pão a praça”. etc. e aproxima-se de destruir. – Ruir é “cair. “A parede aluiu com as chuvas”. vastas construções. – Destruir é. como grossos muros. “Daquela medonha altura precipitou-se o monstro no abismo e desapareceu”. desabou a barranca”. Mas diremos: “Tombam rochedos”. tanto para esse fim. Derribar é “fazer cair. o verbo abater e a forma perifrástica pôr ou deitar abaixo: “Diferençam-se em que abate-se uma coisa para que deixe de existir. derribar. – Aluir é abalar-se. “desmoronam-se esperanças ou ilusões”.. o verbo de sentido mais geral: enuncia a ideia de deixar uma coisa. o lugar em que estava para vir a lugar mais baixo. pois municionar tem predicação mais restrita. dos do grupo. precipitar-se. ou a de que é “extraordinária e sensacional a queda”. desmanchar. cio abalando a redondeza”. Provisão (rad. Não se diria com propriedade: “Tombou-lhe dentre os dedos o charuto”... 27 ABATER. – Cair é. aniquilar. – Compara assim. pois só é suscetível de demolir-se o que foi construído.. – Desabar significa propriamente “abater em torno com fracasso”. Não se daria o mesmo.. como dissemos. demolir. estragar. cair com ímpeto em lugar profundo”. – Precipitar-se é “lançar-se com violência de cima para baixo. e munição (rad. – Abater é baixar ou cair “a prumo – diz Bruns. etc. no sentido figurado. abate-se a fortaleza que não convém deixar de pé. “Ouviu-se a descarga e o mísero tombou. Tanto se derriba a árvore. tirar de cima para baixo”. deitar abaixo. cair. portanto. porém. como para tornar a levantar. cai o balão que já estava no ar. aluir. como o castelo.. desabar. como a muralha. se aproxima de deitar abaixo.. demolir. caiu o chapéu de cima da mesa.. desfazer. pelo menos tanto como abater. desprender-se e sair do lugar em que estava”. montanhas”. “Ouvia-se cá de baixo o ruir dos cedros lá no Líbano”. nem tanto. e até. “fazer que uma coisa deixe de ser . – Tombar é “cair com fracasso. despenhar-se. Podemos dizer sem grave ofensa à índole da língua: “A artilheria inimiga destruiu a colina” (isto é – “desarranjou-lhe a estrutura”). Mas esta ideia é melhor expressa ainda pelo primeiro. derrocar.. caiu chuva. e mais ou menos rapidamente. “Abateu a terra em torno”. e deita-se abaixo aquela que se quer substituir. renovando ou transformando: manda-se abater a árvore que intercepta a vista. como no exemplo. cair “a aba ou a beira”. “Cai a casa.) e caindo pouco a pouco. – Despenhar-se é vir abaixo desprendendo-se de grande altura (segundo a etimologia – “cair do alto de rochedo”). tombar. “Desabou a fachada de um edifício. “Desmoronam-se castelos”.” – Desmoronar é “ir desfazendo-se” (Bruns. – Demolir é “desfazer pouco a pouco uma vasta construção. Bruns. “Ruiu todo o edifí- destruir. deita-se abaixo a muralha que se quer reconstruir. e sugere a ideia de que é “volumosa a coisa que tomba”. derruir. aos que guarnecem a praça. de aprovisionar) é tudo quanto convém. lançar-se para um lado estendendo-se”. “Tombam árvores”. caiu um raio sobre a torre. abater com estrondo”.” 28 ABATER. ou “Deixei tombar o lápis”. desmoronar. desmantelar. etc. – rápida e inesperadamente”: “Abateu o telhado”. ruir. que também significa propriamente “desfazer o que foi construído”. mas deve aplicar-se “só a coisas de grande volume. arrasar. – Entendemos que derribar. de municionar) é tudo que se aplica diretamente à defesa da praça..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 23 deslize da pura vernaculidade: “Aprovisionar de pólvora a praça”.

uma floresta. o mesmo que deminuir. e por extensão: “abater de uma quantia uma outra que já foi paga ou que não deve ser paga”. subtrair. desmantela-se uma corporação que se desagrega e fica sem ter quem a dirija e represente. como se desfaz um nó. etc. demolir as fortificações de uma praça. em geral. Derrocam-se muralhas. – Aniquilar é “destruir reduzindo a nada”. definhamento. etc. aniquilaram num momento o inimigo”. “Do total a que chegou suponho que é preciso deminuir alguma coisa”. languidez. “Carregando impetuosos. aqui. deduzir. “Que da soma maior do dote se descontaria todo o oiro. mas sem ideia necessária de destruir. ou mesmo destruir assolando”. 29 ABATER. “Deduzam da nossa dívida a importância dos serviços que temos prestado”. montanhas. “Arruinaram depressa todo um quarteirão da cidade”. uma fortuna. esvaecimento. e em sentido mais restrito é estragar. minuir. e deminuir (ou diminuir) é “fazer menor uma quantidade tirando dela uma outra quantidade”. privando-o de unidade de comando e de ação. 30 ABATIMENTO. L. ou “deixar de meter em conta”. como bem define Aul. “Já deduziu da nota as parcelas que estavam marcadas”? – Subtrair é. esvaimento. como se desmancha um muro. “Com tais erros aniquila-se a obra de muitas gerações”. destruir com fracasso”. – Estragar é “desfazer. significa “deduzir de uma certa importância uma outra que se combinou não fosse paga”: Abateu 20 0/0 nas compras que fiz”. acabrunhamento. quase o mesmo que “minguar ou fazer minguar”. uma cerca (isto é – se desfaz. demolir grandes moles (rochedos. “desguarnecer um objeto daquilo que o protege ou que lhe é essencial. descontar. uma cidade. desmantela-se um exército desfazendo-lhe a parte mais forte. prata e joias que a infanta consigo levasse” (Fr. consistindo apenas a diferença entre os dois em “poder subtrair aplicar-se somente a números”. “mudar o estado de uma coisa de modo que não seja mais o que era”. “Vai o tempo inexorável minuindo aquela robustez”. um monte) até que fique rasa com o chão”. de Souza). desmaio. – Minuir é “fazer menor”. instituições. Tanto se desfaz um muro. um enredo. verbo de sentido muito geral. “Descontam-se letras e outros papéis de crédito”. construções)”. depressão. Não há dúvida que se desmancha uma intriga. – Arruinar é “estragar e reduzir a ruínas”. quer de quantidades em geral”. – Desfazer é. ou os muros ou paredes de um edifício”. Minuir é. – Arrasar é “destruir completamente uma coisa (um edifício. esmorecimento. Deduzir dá “ideia genérica de abater. como se desfaz um exército. “Derruíram em poucas horas as muralhas do forte”. – Desmantelar é. – Abater. e até uma casa.24 Rocha Pombo o que era desarranjando-lhe a estrutura”. acobardamento. – Descontar é propriamente “deduzir de uma conta”. quer se trate de quantias. “É preciso abater do ordenado do mês o que corresponde aos dias da licença”. portanto. ou as cédulas do tesouro a recolher já sofrem desconto” (e não abatimento). “Os títulos. É. desfalecimento. – Derrocar (ou derocar) é “derribar com estrondo. como – figuradamente – se derrocam grandezas. mas podemos também desmanchar um aparelho.. Desmantela-se uma fortaleza arruinando-lhe as muralhas. “O bombardeio estragou enormemente a cidade”. – Desmanchar é também desfazer. deminuir. . portanto. conservando-lhes as peças para armá-las de novo. Derruir (ou deruir) é “pôr abaixo abalando. neste grupo. de tirar uma coisa da outra. dividindo-o. ou mesmo – se destrói). “Tito arrasou Jerusalém”.

alquebramento.. – Desalento é a falta de forças (físicas ou morais. instantâneo”.) do espírito: desanimar e desesperar marcam fenômenos da vida subjetiva. Análogas aplicações no sentido moral: a saudade. o remorso. – Acobardamento é a “depressão de ânimo. etc. levanta-se Portugal como por um prodígio”. ao cansaço ou à fraqueza”. mas não chegou a feri-la de desalento para as coisas de arte”. desânimo. podem produzir definhamento em almas extremamente sensíveis. mas é mais lento e extenso. Pode-se esmorecer subitamente. doenças ou miséria”. ou sofrer alguma coisa”. por trabalhos. fortaleza moral. “não há esperança. etc. de coragem. desilusões. debilita-se. definha.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 25 debilitação. pois a ideia de subitaneidade já está contida em desmaiar. mas um simples esvaecimento”. – Segundo Bruns. ou vencer um mal ou um sofrimento”. – Desfalecimento é a “perda de forças e de coragem”. perda de lucidez “em consequência de desfalecimento”. entregue inteiramente à dor. – Desmaio será um “desfalecimento súbito”. – Definhamento. por falta de coragem para arrostar um embaraço. opressão. O organismo que se extenua por trabalho. em que se fica sem ação.. – Acabrunhamento é o “estado de fadiga. produzido por dores físicas ou morais. – Esmorecimento é quase desmaio. uma consequência necessária da crápula é o “enfraquecimento do espírito”. debilitação e enfraquecimento “exprimem também diminuição de forças (tanto tratando-se do corpo como do espírito)”. que não esteja sujeita a profundas debilitações em certas crises. – Languidez é o “estado de fraqueza. sim – só se dizem (como no entender de Bruns. – Abatimento é o “estado em que fica uma pessoa por efeito de grande dor ou choque (se é moral) ou de doença grave ou prolongado sofrimento físico”. – “Abatimento e prostração dizem-se do corpo e do espírito. – Esvaimento (do mesmo rad. Desespera aquele que “perde de todo a coragem e a esperança”. Quanto a desânimo e desalento diz Bruns. que “podem confundir-se: ambos significam falta de ânimo. porém. produzida por medo. mas decerto que se não dirá: – “desmaiou subitamente”. – Depressão é o “abaixamento de forças produzindo abatimento do corpo e do espírito”. delíquio. um quase esmorecimento muito rápido. – Prostração diz mais que os três precedentes: é o “extremo abatimento. quebra de forças ou de ânimo”: “Os meus alquebramentos não vão até o extremo de desalentar-me para a vida”. “É o desânimo que nos arreda de encetarmos a empresa: é o desalento que nos induz a não continuar o que não nos deu os resultados que esperávamos obter”. enfraquecimento. – Desânimo e desesperação. “Não foi propriamente desmaio o que ela teve. ou por doença ou desgosto. o que não se nutre convenientemente enfraquece. desalento. “A doença alquebrou-a. tristeza. principalmente morais) produzida por trabalhos. de energia”. . prostração. refere-se melhor à perda da esperança. superar algum contratempo. O desânimo pode ser originado pela pusilanimidade: o desalento funda-se na experiência. desânimo e desesperação dizem-se só do espírito”. tédio e abandono em que fica um doente”. desânimo. coragem. o amor..”. “Daqueles sessenta anos de esvaimento. e o desânimo à perda da coragem. desalento. Desanima aquele que “deixa de sentir a indispensável coragem para vencer um embaraço. desesperação (desesperança e desespero). Desesperação é “o auge do desalento” – diz ainda Bruns. “Só a morte porá termo a todo aquele acabrunhamento”. o desalento. vanescere) é o desfalecimento produzido por exaustão (e tanto no sentido moral como no físico). o que se imobiliza ou não tem regra na vida.. – Esvaecimento será um desmaio “muito subtil. – Alquebramento é “diminuição..

devendo notar-se que é sempre voluntariamente que se resigna. “A desesperança de quem viveu sem pensar no destino pode chegar à desesperação de morte horrível. ou “não querer coisa a que se tem direito. “Esaú cedeu a Jacob o seu direito de primogenitura”. ou sem nada mais ter que ver com a sorte dela.. “F. “Vou desobrigar- -me contigo da promessa que fiz”. atormentada de todos os desesperos do precito”. a privação de toda esperança. de permitir. rejeitar. Rejeita-se uma proposta desonesta. ou encargo ou tarefa pesada. pôr de lado alguma coisa. livrar-se ou exonerar-se de um dever”. ou a função em que se estava”. ou não se pode dizer que se larga depois de haver abandonado. como se rejeita uma coroa. “tirar de si por vontade ou a contragosto”. – Rejeitar é propriamente “lançar de si com veemência ou ímpeto”. “deixar o que se tinha começado. Desespero significa mais a raiva. 31 ABDICAR. que aquele que renuncia pode ser a isso forçado. a angústia em que fica quem perdeu a esperança. – Largar e abandonar significam “deixar. o que se exonera”. Quem se demite põe-se fora do lugar em que estava: quem se exonera liberta-se de um trabalho. desistir da obrigação que se tomara. largou o ofício de órfãs” (deixou-o livre. “Como não lhe atenderam aos reclamos. em favor ou proveito de alguém. “Não há fortes que não tenham seus delíquios na vida”. ou de um intento. desobrigar-se. desesperança e desespero. é “abdicar em sentido amplo e geral”..26 Rocha Pombo É preciso distinguir as três formas – desesperação. desistir. ou em cuja posse se estava legitimamente”. Desiste-se de um emprego. .. largar. Desesperança é apenas a falta. – Desobrigar-se é “isentar-se da responsabilidade. ou algum cargo”. “Desobrigou-se facilmente da grande missão”. de aceitar”.. o desvario de quem se desengana de alguma coisa. – Delíquio aproxima-se de desmaio e de esvaimento: é o estado em que fica uma pessoa que desfalece “como se se dissolvesse”. “O pobre está desobrigado de dar esmolas”. – Abdicar é “renunciar. – Resignar é íntimo convizinho de renunciar e de abdicar. abandonar. “Abdica o rei o seu trono em favor de outrem. pois quem abdica ainda usa do seu direito de passar a outrem a dignidade abdicada. mas quem resigna entende-se que mais propriamente renuncia do que abdica. “Ele se desobrigaria do pacto se nós o maltratássemos”. ceder. Desesperação é a aflição. “despojar-se de alguma honra ou algum proveito antes de tempo”. ou vago). exone- rar-se. Pode-se largar e abandonar.) “desistir de alguma coisa em favor”. demitir-se. esquecendo-a. – Ceder é (como diz Aul. quem abandona “como que foge ou se afasta da coisa abandonada”.”.” – Renunciar é “depor voluntariamente”. “Renunciam-se (e não – abdicam-se) riquezas”. Quem rejeita não está de posse ainda da coisa rejeitada. Recusar diz menos que rejeitar: é “deixar de receber. no posto”. Mas. alguma dignidade ou alto cargo”. – Desistir de. desiste-se de um pleito. – Demitir-se é “deixar de permanecer no cargo.. mas certamente não se pode abandonar e largar. resignar.. – Exonerar-se é também demitir-se. uma ignomínia. mesmo de loiros”. ou em proveito de alguém. “Renunciai instintos ignóbeis” (Mont’Alverne). igualmente como aquele que abdica. “O príncipe abandonou a sua causa”. recusar. renunciar. quem renuncia (como quem resigna) despoja-se do cargo ou da coisa renunciada. mas sugere a ideia de que se “alivia de peso. quem larga como que “deixa fugir ou escapar a coisa largada”. ou de um cargo que não mais lhe convinha ocupar. é “abrir mão de. e. demitiu-se ele próprio daquelas funções”. “Como é que se recusa entrada a um moço daquela ordem?” “Ele recusou tão bom emprego”. – O mesmo deve acontecer a quem recusa. no entanto.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 32 ABDÔMEN. “sugere ideia de fecundidade. nem sempre são abençoadas do Céu nos campos de batalha”. Daí bojo com aplicação ao volume desabalado do abdômen. bendizer. “Os sacerdotes benzem tudo que é consagrado ao culto divino”. profundo. barriga.. “O bojo de um navio. O primeiro. uma nação. abençoar (ou abendiçoar).. etc. pança são plebeísmos a que se dá sentido semelhante ao de abdômen. “alargamento ou saliência” – diz Aul. abençoar) que. bento. – Do verbo latino benedicere formaram-se – diz Roq. benzer e abençoar) torna-se mais sensível nos particípios destes verbos. – Entranha (ou entranhas) diz também ventre. água benta.. e nunca – “encheu o abdômen”. – Vê-se. ventre. não já de abençoar. a pança ou o pandulho”: não com a mesma propriedade – “encheu o ventre”. e também “abençoam a assistência ao fim da missa”. posto que concordem na ideia principal. “Os pais abençoam os filhos para que sejam felizes”. benzer. Benzer não é hoje usado senão para indicar as benções eclesiásticas ou supersticiosas. pandulho. Bendizemos a hora. bendizer pode referir-se também a coisas. bendito. – Bento designa a benção da Igreja. pandulho. uma família. louvar. mas acrescentando-lhe ideia de “íntimo. significa propriamente “dizer bem. e às vezes abençoado. Pão bento. abençoado. Todas as nações foram abençoadas em Jesus Cristo. O que se diz de bendizer aplica-se a louvar. “O justo bendiz (ou louva) ao Senhor tanto na prosperidade como na desgraça”. exalçar”. Nossa Senhora é bendita entre todas as mulheres. etc. Benção é tanto o ato de abençoar como de benzer. bendizer. benzer. e bento no sentido legal e de consagração. significa “deitar a benção. etc. significa “lançar benções acompanhando-as de preces e ritos apropriados à coisa que se benze. e mesmo como significando “ato de benzer. “As bandeiras militares. e não – louvamos. benzer. de atividade funcional”. em vez da de volume. dada pelo sacerdote com as cerimônias do costume. bojo. da vela de uma embarcação”. ou benções”. benzimento. se pode dizer no sentido moral e de louvores.. Dizemos – a benção do pão. entranha. – Também se sente a distinção nos derivados benção e benzimento (ou benzedura). já não . de um barril. Dizemos vulgarmente: “encheu a barriga. – (entre bendizer. 27 pança. pois. extensivamente diz-se do vulto que essa cavidade apresenta exteriormente”. – Bendito ou abençoado se diz para designar a proteção particular de Deus sobre uma pessoa. o instante em que nos vem alguma felicidade. com esta diferença: louvar se diz em relação a Deus. – Abdômen (diz Bruns. – Bojo é termo genérico. O segundo. têm entre si alguma diferença. Esta diferença – diz Roq. a santos e a homens. Benzimento é também ato de benzer.” – Barriga. isto é – “sugerem ideia de ventre volumoso”. porque louvar é mais “fazer elogios” do que “dizer bem e dar graças”. grandeza de volume de forma arredondada”. 33 ABENÇOAR. bentas com grande pompa na Igreja. Bendizer e abençoar confundem-se muitas vezes na significação extensiva de “desejar.) “é o nome científico da cavidade que encerra os intestinos do homem. benção. de uma parede. O terceiro. significando “amplitude. a parte para onde vai o alimento quando é ingerido. como dizemos – a benção dos pais. louvar. que bendito. – três verbos portugueses (bendizer. – Ventre é também abdômen. de um tronco de árvore. Distinguem-se de abdômen e de ventre por significarem mais particularmente o estômago.”. pedir bens e prosperidades para alguém”. – em forma convexa: “O bojo de um frasco. sensível. mas.

por . introduzido. in- trometido. discutindo negócios alheios. “por um vão da floresta. oferecido. “frinchas da madeira”. mas o que “se mete com certa audácia naquilo que lhe não compete”. é. – Quanto a greta. – Vão é “todo o vazio ou espaço aberto num corpo”. a abertura que há entre o quício e a porta..” 35 ABELHUDO. Poder-se-ia dizer igualmente sem grande impropriedade: “. ou dos efeitos do calórico. – Furo e rombo designam “buraco. além de grande força onomatopeica. – Entremetido é. o óleo.. fresta. – Buraco é “abertura. – Frincha “dá ideia de fenda. própria de dilatação ou contração dos corpos sólidos. Nem sempre. “Pelo vão de uma janela”. O sacerdote benze o fogo. ingerido. é “o espaço que fica entre duas partes de um corpo que se separam”. furo.). Benzimento ou benzedura ficou tendo aplicação quase exclusiva a “coisas de cabala. ou estreita: devendo notar-se: que fresta é das três a que exprime abertura menos estreita. ou da montanha. intrujão. – Aberta é o mesmo que abertura. abertura. cumprindo observar. fenda. rigorosamente falando. de abertura longa e fina. por uma fisga de roupa” (Herc. a água. e fenda é exatamente o contrário – enuncia apenas a ideia de que se não acham unidas ou apertadas as duas partes de um corpo que se disgregam. Fisga é quase o mesmo que fresta: apenas fisga dá ideia de abertura feita por um corte ou rasgão. – Se o buraco é muito fino. tomando atitude em questões que lhe não pertencem”. A terceira.. “As bombardas fizeram rombos enormes na muralha. abertura e resquício. rombo. passa a ser orifício. saber de tudo que se faz. 34 ABERTURA. interstício. buraco. – Racha é a “abertura por efeito de rotura” (Aul. – Fresta. mas a benzimento do fogo preferimos dizer – a benção do fogo. no entanto. frincha. rotura feita com mais ou menos violência. dá mais ideia de violência e de grandeza. é uma rotura natural. vão. A segunda. fenda. intruso. fizeram enormes furos. greta. orifício. ordinariamente circular”. aberta. metediço. nem sempre se dá em relação a aberta. A greta e o resquício são naturais. não propriamente abelhudo. racha. taralhão. pois esta enuncia apenas o “claro de greta grande. Diremos: “Por uma fresta da porta mal fechada vi-a passar” (e não: por uma fenda). o espaço livre entre duas ou mais partes de uma coisa”. – Interstício é propriamente “o que fica entre duas coisas”. – Rotura é a “aberta deixada por um rompimento”. e não dá ideia de proporções: tanto é buraco um rombo enorme feito através de uma montanha como é buraco o furo feito por uma bala através de uma parede. mas para ouvir o que se diz. resquício. que sugerem.. nem mesmo nos casos em que se aplica o verbo benzer. no entanto. greta.28 Rocha Pombo se pode mais aplicar a cerimônias de culto. Este dá ideia ainda de rotura de grandes proporções. fisga.” Rombo. entremetido. a gestos ou figurações de supersticiosos”. claro” e vagamente: “Frinchas da renda”. – Abelhudo é aquele que vive (como a abelha num jardim) “metendo-se em toda parte. escreve Roq. mas com a cabeça coberta. “Eu. rotura.). A primeira. falha. ou no costado do navio”. é uma racha aberta de propósito com instrumento cortante. “As fendas que o sol fez no muro” (e não as frestas).): o que. que mirava tudo.: “A diferença que existe entre a significação destas três palavras é bem fácil de notar. principalmente rombo. resquício. e por extensão qualquer fenda por onde penetra a custo a luz. fisga são muito semelhantes pela ideia comum. que abertura sugere ideia de que a racha foi “feita de propósito” (como nota Roq. a abertura é artificial”. pelo menos.

lato. Distingue-se de oferecido porque dá mais ideia de atrevimento e desaso. Assim. valendo-se de astúcias e perfídias”. suponho que o sentido passou de um ditado ao outro. “Vasta campanha. amplo. A propósito de taralhão. e de significação mais vaga. larga liberdade. e a este trato ou modo de falar. Largo não se poderia também. O metediço irrita. lhe chamam taralhice. Bluteau já havia. ou fim oculto em meter-se onde não foi convidado a ir. e com mais atrevimento que desaso”. explanado. ainda nela há muito espaço desocupado. de grande circunferência”. e mais ainda: é o “tipo manhoso e importuno que persegue com lábias. intrusas e ridículas. . – Espaçoso é “o que compreende relativamente grande porção de espaço”. portanto. naturais ou afetados que o fazem ridículo. notado que o termo se toma metaforicamente por gordo. porque chamam de taralhão à pessoa gorda. aplicar (como acontece em relação a amplo) em certos sentidos morais: não diríamos. De toda a família é o mais forte. livre de obstáculos. Diz – “o que está desimpedido. com muita propriedade. e em sentido lato dá ideia de “tão desmedido e aberto como se fora feito por arrasamento e assolação”. – Intrujão é ao mesmo tempo metediço e abelhudo. – Intrometido é o mesmo que entremetido. com ridiculez. é o que é amplo – largo e comprido – extenso. desenvolvido. e em certos casos sugere ideia de amplitude: “Horizontes abertos”. da Acad. “Casa espaçosa”. E uma vez que taralhão e gordo se equivalem. – Introduzido é mais que oferecido. e “em frase chula quer dizer – aquele que tem um modo de tratar com termos. que “uma sala é espaçosa quando. conversar ou obrar. o oferecido aborrece.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 29 isso. se entremete onde não é chamado. – Largo é o que “só tem grande a largura”: muito menos. largo. – Aberto é talvez o mais genérico do grupo. é vasta quando as suas dimensões são extraordinárias”. estirado. e os taralhões são pardais que engordam muito. e até que metediço: é o que “entra onde não deve entrar. engana. ou pelo menos tendo algum interesse. afetando graça. que abrange todas as dimensões. 36 ABERTO. Diz Bruns. “campina dilatada e aberta. – Vasto é mais do que amplo e espaçoso. espaçoso. é ampla quando nela folga tudo o que contém. vasto. o de amplo é exíguo (ou constrito). largo direito. portanto. ao passo que taralhão parece o mais inofensivo. dilatado. contendo muita mobília. diz que amplo. e o epíteto se aplica a pessoas afetadas. “O assunto é muito amplo para ser tratado em meia hora”. desfruta. Creio que por elipse se tirou da outra frase muito comum: “meter-se a taralhão”. a propósito de taralhão. e portanto contra o direito”. “O entremetido parece sempre demasiado gordo”. enquanto que oferecido diz também alguma coisa de dissimulado. explora. o entremetido é abelhudo: só a inversa é que é menos exata. familiaridade ou importância. O antônimo de largo é estreito.” – Amplo ajunta à noção de dilatado a ideia de “vasto contorno. por exemplo: larga jurisdição. velhaco. desconfia-se do oferecido. – Ingerido (que se confunde bem com inserido ou enxerido) é o que “intervém em questões ou negócios pretendendo resolver ou adiantar o que é de competência alheia”.). (Aul.) “Com grandes poderes e ampla jurisdição” (Dic. escreve João Ribeiro na última série das suas Frases feitas: “Atribui-se o ditado “Nunca o vi mais gordo” ao imprudente que. Repulsa-se o metediço. – Intruso é o que “se põe nalgum lugar alheio. “Taralhão é o que se entremete onde o não chamam” (Bento Antonio). – Metediço é como se se dissesse oferecido: é o que “vai ou se mete em toda parte mesmo sem ser chamado”. extenso. ou jocosos ou sérios.

à vontade. extenso. ou como senhora rica “que cuida mais da mesa que da fama”. – À farta equivale a “com fartura”. além da ideia de amplitude propriamente. dilatados tempos”. fica-se a gosto onde não há cerimônia. – Dilatado diz juntamente o que “é longo. pois esta forma equivale apenas a “de modo amplo”. – Folgadamente corresponde a “com largueza” (Aul. destempero. falta. Trata-se à regalona quem se trata como grão-senhor. “Falou à larga contra o governo”. no entanto. fazendo-se mais convizinho de longo. desconcerto. “Desenvolvido demais foi o discurso”. – À regalona diz ainda mais que regaladamente: significa “de maneira ostentosa. À larga diz “em plena trassenso. 38 ABERRAÇÃO. “Chegamos ali. com olhos extensos. largamente.). “Este vocábulo. erro.. “conforme é do nosso agrado”. – Regaladamente diz mais do que “em abundância”. ou (como em semântica) de sentido ilimitado”.. “Percorremos as formosas e latas veredas daquela região”. nem com tanta propriedade. longo exprime ainda mais particularmente a ideia de comprimento. disparate. – A bel-prazer significa “segundo a própria satisfação”. “sem medir gastos”. – À vontade quer dizer “como quiser ou desejar”. – Lato é quase o mesmo que amplo. sugere.” – Desenvolvido refere-se a uma grandeza que tomou proporções notáveis: “O menino está desenvolvido”. claudica- . diz “extenso.. vive-se à larga quando se gasta desregradamente.. plano. – “Estamos em nossa casa a bel-prazer. “sem apertos ou empecilhos”. “Estão bem desenvolvidos os serviços da construção”. e aproxima-se de à saciedade.. folgadamente. mais desenvolvido que o normal”. à grande”. desregramento”. – Mas. de extensão. Diríamos indiferentemente longo ou extenso caminho. desrazão. regaladamente. a uma parte do continente explanada como imensa campanha a perder de vista”.. Ninguém confundirá. no sentido próprio. dilatados domínios. ou se se tem com fartura o que é necessário. a “de largura. extravagância. vasto. A gosto exprime “sem constranger-se”. Passamos regaladamente “quando passamos como. ou pelo menos nem sempre – campo longo. que é o mesmo que “até ficar satisfeito”.. ou “com fartura”: acrescenta a isso a ideia de “com alegria e voluptuosidade de sibarita”. – Explanado. despautério. e na acepção usual referem-se mais ao comprimento do que à largura..30 Rocha Pombo vasto país. con- ga. sem preocupações”. estas duas frases: “Falou largamente contra o governo”. à lar- liberdade”. livremente. desconchavo. “sem regular cuidados”. vive-se desafogadamente quando se vive sem ânsias ou preocupações. à regalona. deixa-se a criança brincar à vontade. e à saciedade se goza um prazer se não se deseja mais. estirado. dilatado. destampatório. aberto”. “sem obedecer a escrúpulos”. “até mais não desejar ou não querer”. diz mais. Não diria decerto: “. príncipes”. – Extenso diz menos que amplo. É de mais força que largamente. “Não pudemos aguentar toda aquela estirada arenga”. à saciedade. “Dilatada campina. desafogadamente.. desatino. desvairo. Camões disse: “Esperando com olhos longos o marido ausente”. portanto. enquanto que à larga sugere ideia de “incontinência. – Estirado quer dizer “estendido.. vasto mar”.. despropósito. Estamos folgadamente onde nada nos aperta ou oprime. amplo. – Desafogadamente enuncia a ideia de “sem nenhum embaraço ou premura. extenso. absurdo. 37 A BEL-PRAZER. vive-se à farta se se não tem necessidade de calcular muito as despesas. à farta. na acepção lata. a gosto. aberto”. ou diz menos do que largo”. igual.. error.

. quer dizer “o erro que comete quem se desvia das leis do espírito.. equívoco. comete às vezes umas tantas extravagâncias. ou dos princípios da lógica. – Desatino é “falta de tino. “contrário ao que é razoável”. – Desvairo (ou desvaire) será o desatino “leve e sem a graça do disparate”. – Erro é “tudo o que não se concilia com a razão. em certos casos. é destempero que chega a parecer excesso de doido. determinado. uns percebidos quando colidem com o entendimento (desrazões). Revendo um tema. engano. – Aberração3 significa propriamente o “ato de sair do caminho direito (aberrar). uma acepção que o aproxima de absurdo. verbo de predicação muito mais vaga. outros percebidos ainda mais prontamente. flagrante. devendo considerar-se que parece inseparável da ideia de culpa. além de forma erudita. e mais: “erros de entendimento ou de juízo que de . “as aberrações do demônio”. LXXIX – que aberração era um termo de astronomia somente antes do começo do século XIX. despropósito que não vale a pena de combater ou destruir”. principalmente no plural.. concreto”.. ou em desacordo com aquilo de que se trata”. conquanto seja este menos forte nesta acepção. ou melhor com a consciência vigente.. – Destampatório é “extravagância ou despropósito descomunal”. ao passo que aberração enuncia a ideia geral de aberrar. ou do que se dizia. – Desconchavo é também o que “desgarra das normas. – Extravagância é “tudo o que se desvia das normas usuais do bom senso e da boa razão” (Aul. mas.. aplicado a fatos de psicologia.. como se apenas o bom senso. pois este vocábulo enuncia “o que é contrário ao senso comum”. descuido. – Desconcerto é “disparate sem espírito. etc. – Despropósito é “dito ou ação fora de propósito. e diz “absurdo. além de mais preciso. mas nunca chegou a tais destemperos”. queda. poderia confundir-se com abuso: designa simples infração de raciocínio. – Desrazão significa propriamente “contra a razão”. deslize.. é mais forte. são erros de certa ordem.. lares de absurdo. não diria o professor ao aluno: “Disseste.). de equilíbrio mental”. e por isso aproxima-se muito de falta. – Disparate é desatino que tem “mais de graça que propriamente de doidice”. – Contrassenso é o mesmo que “contrário ao senso comum. Desrazão e contrassenso são casos particu3 Diz Laf. ao modo de ver de todo mundo”. ou do que se tinha assentado”. é como se disséssemos. confusão produzida por desvio do normal”. “Simples faltas que nem se podem ter por erros. Decerto que tratando de Lutero não diria o padre católico: “os absurdos”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 31 ção. é o que não está “no mesmo tom. “F. descaída. desacerto. patada. “uma extensão de erro”. por extensão. e só se deve aplicar a deformidades e a erros extraordinários. Toma. lapso. mas: “Disseste absurdos”. “Este homem tem perpetrado tais absurdos. perder-se no caminho”. ou mesmo os sentidos materiais bastassem para senti-los (contrassensos). Mas entre absurdo e aberração deve notar-se pelo menos esta diferença facilmente perceptível: absurdo é termo genérico e que. Aberração. ou cometido estas aberrações”. e não: “os absurdos”.” – Error é. porque absurdo é o fato “em si mesmo. desvio. aquilo que está “em colisão com a consciência”. persistência ou “reincidência numa série de erros”. que não se ajusta à ordem de ideias ou de fatos que se seguia”. – Destempero é extravagância “mais estrondosa e deplorável”. O que é absurdo ao sentir ou ver de uns pode deixar de o ser ao de outros. Dizemos também: “as aberrações do espírito humano”. transviamento da linha em que se ia. – Intr. – Despautério é forma popular de disparate. cinca. portanto. descaminho. de aprumo. ou cometeste aberrações”.

boto. acaipirado. aburrado. basbaque. abobado. truão. imbecil. Exemplo: “Repetem-se os lapsos. lerdo. aburregado. assentam mais propriamente a faltas de senso prático. “Os seus deslizes nem são descaídas quanto mais quedas”. rude. não tiveram mais desculpa os muitos enganos. – Descuido é o “engano cometido por falta de atenção”. chocarreiro. basbana. bolônio. pacóvio. ignaro. pascácio. tabaréu. camelório. lorpa. – Descaída. notando-se. beócio. parvoinho. aplicar-se a erros de entendimento. apalermado. apatetado. simples. não devendo entender-se que este (o derivado) seja sempre. ajogralado. estúpido. lerdaço. em certos casos. besta. patocho. néscio. porém. – Lapso é quase equívoco: é engano devido mais à falta de memória que a desmazelo ou ignorância. de graça para agradar. ou que tem ares de besta”. ou por falta de noção exata do dever”. Claudicação é propriamente o “ato de coxear”. depois. doidivanas. (Aul. pato. toleirão. descaída é mais “deslize ou lapso que propriamente queda”. parvajola. aparvoado. aumentando àqueles a ideia “de ingenuidade ou inconsciência”. e desvio é o “ato de mudar de rumo. quadrúpede. burrego. apataratado. viram todos como erros que logo tomaram o caráter de verdadeiros crimes”. Quer isto dizer que mesmo um indivíduo muito inteligente . apenas uma extensa e atenuada do seu radical. – Equívoco é menos que descuido: é o engano “cometido contra a vontade ou intenção de quem o comete”. jumento. ou de perder o caminho certo ou direito”. amatutado. que descaminho é o “fato de tomar caminho errado. – Todos estes vocábulos exprimem de comum a ideia de “falta de inteligência. de espírito para agir”. bestiaga.” Podem. amatungado. rombo. estólido. caipira. palonço. e inclui ideia de asneira agressiva”. palúrdio. papalvo. maturrão. alvar. ou “falta cometida por imperícia”. apalhaçado. tolo. mas. maninelo. bufão. que podiam passar como apenas claudicações censuráveis. tapado. asneirão. patarata. de expediente na vida. do reto caminho”. e por fim. estupidarrão. ingênuo. jogral. pataroco. – Patada é plebeísmo que significa “despropósito grosseiro. sandeu. atoleimado. enfatuado. aplicável a cada um desses e o respetivo derivado. patego. idiota. deslize equivalem quase a claudicações: queda sugere de mais a ideia de culpa ou de pecado. erro brutal. – Desacerto é “erro ou falta cometida por irreflexão ou inadvertência”. palhaço. aparvalhado. como poderia parecer. boçal. ignorantão. alorpado. acamelado. significa “que se mostra besta. – Cinca (ou cincada) é “erro de ofício”. charro. mentecapto. simplório. matuto. bronco. apalonçado. pasmado. obtuso. burro. e que se refere à diferença notável marcada pela derivação. em regra. Quanto a alguns do grupo há uma observação a fazer.32 Rocha Pombo 39 ABESTALHADO. camelo. estulto. apapalvado. ou da direção em que se ia ou que tinha de ser seguida. mais por ilusão do que em consciência. palerma.Vejamos: Besta é tropo conhecido que designa o indivíduo em que aparentemente se denuncia uma indigência de entendimento e uma índole obstinada semelhantes ao que parece ter o quadrúpede desse nome: abestalhado. asinino. queda. ignorante. e no sentido figurado designa o “ato de cometer erros por defeito de espírito. boca-aberta. já ele não sabia explicar tão frequentes equívocos. bobo. bobório. conduta”. embotado. – Engano será o “erro ou a falta cometida sem culpa. abasbanado. parvo. e sempre sem as proporções e a gravidade que tem o erro propriamente”. parvoeirão. estes. patau. aboçalado. Deslize é “ligeiro desvio da linha. papa-moscas. pateta. no entanto.) – Desvio e descaminho quase que se equivalem. abobalhado. de vivacidade. abasbacado. asno. fátuo.

abobalhado = “que se faz de bobo”. disparates gaguejados a custo. – Papalvo quer dizer “simplório. pretensiosa. abrutalhado”. meio parvo”) e aparvalhado (“semelhante a parvo. “tipo mais boçal e desfrutável que o bobo”.). demasiado ingênuo. diz melhor “o que não tem o discernimento. por figura. uma forma diminutiva ainda mais acentuada de pato. a própria palavra pato. equivale a “bobo insolente. fútil”. a medida do bom senso comum”. estouvado. curto de compreensão como criança.) é o “indivíduo pesado. – Lerdo equivale a “pesado. Dá atoleimado – “que se faz de tolo”. Do mesmo radical temos ainda: patau. patego.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 33 pode ser abestalhado (isto é – ter modos e ares de besta). muito usado pelo menos em grande parte do sul do Brasil. que é forma erudita. mímica espalhafatosa. maluco pretensioso”. – Camelo (fig. mais com esgares. dá bestiaga. por fazer-se engraçado. e por analogia significa o “indivíduo pobre de espírito que procura divertir os outros. impostora. que significa “estúpido e sem préstimo ou valor algum”. – Palhaço significa mais – “bobo. pataroco. – Patego é como se dissesse “pequeno pato”. O mesmo deve entender-se quanto aos outros do grupo que dão derivados. – Pateta designa indivíduo “desorientado e abobado”. que tem ares de bobo. – Patau (que também poderia ser uma adaptação do francês pataud) sugere. – Camelório diz “quase camelo”. Temos ainda alorpado = “feito. histrião por ofício do que propriamente idiota ou besta”. como outros muitos do grupo. fácil de enganar”. estúpido” – Lerdaço é aumentativo de lerdo. – Parvo quer dizer “pequeno de espírito. Acamelado = “com ares de camelo”. enganar. (Aul. parecendo. era. Notemos ainda que entre abobado e abobalhado é preciso fazer uma ligeira distinção: o primeiro quer dizer que parece bobo. – Pataroco é outro provincianismo algarvio. do que propriamente com discursos ou ditos graciosos”. conquanto. aliás. rude. patocho. explorar facilmente”. se ostenta parvo. parvoinho” (pois parvajola é também forma diminutiva). além de abestalhado. de Fig. com jeito de parvo”). que é provincianismo algarvio. ignorante que se mete a sabichão. palerma. Parece dar-se o contrário com aparvoado (“feito parvo. preguiçoso. – Besta. dando ideia do “indivíduo lorpa. – Bobório quer dizer “bobo a afetar compostura de gente sensata”. – Basbaque é convizi- . “que se faz de camelo”. – Estólido. afetada.) = “grande parvo”. com idêntica significação. formas que pouco alteram a significa- ção que tem aqui. Temos ainda: parvoeirão (aum. modos e gestos de quase idiota. temos ainda bobório. lasso. – Tolo e estólido são formações do mesmo latino stolidus: a forma popular. e o segundo. incapaz de esforço físico ou mental”. – Lorpa é o indivíduo “inepto. na Idade Média. estúpido. como se sabe.. Além de abobado e abobalhado. lerdo no pensar e no agir”. Dá apalermado = “com ares de palerma”. graçolas charras. a de grande inépcia”. além da ideia de parvoíce. mandrião. não figure nos léxicos. Dá apataratado = “que se faz patarata”. – Palerma é o indivíduo “quase idiota e que parece ter tanta incapacidade para pensar como para mover-se”. ou palavras deturpadas e sem nexo. – Palúrdio quer dizer “idiota. Dá apapalvado = “com jeito de papalvo”. – Parvoinho é simples diminutivo de parvo. ou “que se assemelha a patarata”. ou parecendo lorpa”. – Bobo. e parvajola = “que. – Patarata é “pessoa tola. ou melhor. “meio pato”. o que é “leviano com petulância”. Dá apatetado = “com ares de pateta”. o jogral de corte. que se deixa iludir. nem a compostura. – Apalhaçado = “que se faz palhaço”. – Patocho. diz C. que é a mais usada. e revelando isso por inépcias. e que significa o mesmo que patego.

– Boçal exprime “estúpido e bobo que repugna. no entanto. que fica parado e em pasmo diante de coisas que não entende”. rude. sandio) equivale a “tapado. – Jogral é o “bobo de praça”. burro abobado. no entanto. atabalhoado. – Mentecapto é o que “não tem siso”. significando “estólido. é o sujeito que “não sabe ainda bem o seu ofício”. que diz mais chalaças do que salta”. tipo desavisado”. que “faz figura ridícula por inépcia”: caipira é o “homem do mato. – Truão é o “bobo vagabundo. desconfiado e escuso. segundo C. parvo.. fora do papel que lhe cabe. estouvado. O tabaréu. ignorante. – Estupidarrão e toleirão são aumentativos de estúpido e tolo. ou de inteligência pesada. – Abasbacado (ou embasbacado) = “que é ou se mostra como basbaque”. é muito empregado com esta significação. – Pacóvio é simplório da mesma família: “idiota e lorpa”. – Fátuo é o “ignorante tolo e presumido”. vaga como doido. – Bolônio é “indivíduo rústico e simples que se deixa enganar por todos” (Bruns. quase papalvo. ou que inspira asco ou aversão”. farsista. significa o mesmo que “ingênuo. abobado”. sem disfarce. que tapado é aquele que parece ter o espírito “como que fechado para o mundo exterior”. pasmado e imbecil”. bobo que faz o seu papel com certo aparato”. de boa-fé excessiva.). que salta e canta por dinheiro”. por falta de estímulo”.34 Rocha Pombo nho de palerma: é o “ingênuo que pasma de tudo. na acepção em que é aqui tomado. – Aboçalado = “que tem aparências de boçal”. – Enfatuado (ou infatuado) é “o que se torna fátuo”. inepto”. crédulo demais”. é provincianismo algarvio. – Estúpido diz propriamente “rude. que fala. – Simplório quer dizer – “despreocupado. rude equivale a “de difícil compreensão por desmazelo. e. quase impertinente”. como pateta”. sem prática da cidade. rombo e rude têm uma sinonímia quase perfeita. de espírito entorpecido. Bronco e rombo equivalem-se na significação de “estúpido. extravagante. – Estulto quer dizer “tolo. imbecil”. curto de espírito. obtuso. – Chocarreiro é o “bufão insolente.” Temos ainda: acaipirado = “com ares ou modos de caipira”. O idiota é desequili- . amatutado = “com ares de matuto”. rombo e tolhido. grosseiro. estraga-albardas”. – Palonço equivale a “tipo sem vida. rombo é o que “não tem capacidade de raciocínio”. é aplicável ao indivíduo “inepto. Ainda assim. tonto. – Apalonçado = à semelhança de palonço”. por um prejuízo dos atenienses tido como estúpido ou pouco inteligente). convindo notar-se. – Néscio quer dizer “que nada sabe. idiota. – Bufão é o “truão espalhafatoso. – Simples. Ajogralado = dado a jogral. “maroto estúpido. o mesmo matuto. desafrontado e chalaceiro”. obra. – Tapado. É o mesmo que boca-aberta. – Papa-moscas está dizendo tudo por si mesmo: “tão inerte. – Maninelo é o “bobo que se mete ridiculamente a gostar muito de mulheres” (corresponde ao nosso brasileirismo coió). – Obtuso é o bronco “que se esforça” e “quebra a cabeça” inutilmente porque é “incapaz de compreender”. imbecil como basbaque”. tosco do que propriamente bronco”. meio bobo. – Idiota e imbecil equivalem-se. – Sandeu (do esp. – Basbana. – Doidivanas é o “indivíduo sem tino. bronco. – Tabaréu tem significação muito parecida com a do nosso caipira. falto de inteligência”: bronco é o que “não entende por defeito de faculdade aperceptiva”. tão massa-bruta que as moscas lhe entram na boca”. de Fig. desapercebido. – Abasbanado = “parecendo basbana”. que é imbecil. no entanto. segundo a origem do vocábulo (designa habitante da Beócia. bruto de senso. – Pascácio assemelha-se bem a “bobo. – Rude significa mais “áspero. – Beócio. sem malícia e sem espírito”. que “se atrapalha com a tarefa por falta de aptidão”.

como “abeirou-se do amigo”. ou que não tem a ciência necessária à profissão que exerce. burrego. mas é tão fraco de espírito”. e burrego. o pasmado tem o curto senso fixo num objeto. no sentido figurado. isto é. é menos atabalhoado. “chegar junto.: “Todo homem é mais ou menos ignorante”. maturrão. Maturrão será um aumentativo de matungo. Tanto se diz: “abeirou-se do precipício”. parecendo que este último sugere “ideia de pressa. acercar-se. Tanto a idiotia como a imbecilidade podem ter como causa algum defeito orgânico do cérebro. nem sente mais nada”. avizinhar-se. celeridade. significando ambos “chegar perto”. Pasmado equivale a “falto de vivacidade. asno. a palavra ignorante num sentido mais restrito. defeito de aptidão comparáveis à bruteza do asno ou do quadrúpede em geral. – Aproximar-se equivale a apropinquar-se. aplica-se ao sujeito esbodegado. o asno que é afeito ao jugo”.. Dir-se-ia: “Aproximei-me pouco a pouco. e asinino. apropinquar- -se. e diz-se com propriedade da plebe e povo rude. “não tem senso nem discernimento para distinguir coisas diferentes”. alapuzado”. para designar a pessoa que não sabe o que devia saber. “falto de cultura. inconsciente como o próprio instinto”. burro. aconchegar-se. sem agudeza de senso”. segundo a etimologia. temos: aburrado (ou emburrado) = que se obstina como burro”. Sobre estes dois sinônimos escreve Roq. que sempre se toma em mau sentido. não ouve. sem nenhuma cultura intelectual”. o basbaque “não vê nem sente”. abrutalhado”. por analogia.. aproximar-se. lerdo e inepto. Asneirão e asinino são meras gradações de asno: significando asneirão “grande asno”. É quase o mesmo que basbaque e palerma: apenas o palerma “parece não ver”. contudo.”. e. São todos termos chulos empregados para significar. conchegar-se. Mas já uma dife- . pelo menos da cultura comum”. ou o mais possível. encostar-se. – Ignorantão é aumentativo de ignorante. ou que ignora as coisas mais geralmente sabidas. e diz “quase imbecil. completando esta fa- mília. de sinceridade. – Ignaro exprime – “inculto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 35 brado. burro. chegar-se. abordar. e designa o estado da mais crassa e vergonhosa ignorância: aplicada às pessoas é injuriosa. parecem a mesma coisa. rentear. Alvar tem hoje. – Quadrúpede designa “sujeito. sentido desfigurado do próprio. toda a zoologia transfigurada: quadrúpede. Toma-se. ingênuo aproximam-se. e imbecil é “quase idiota.” – Chegar-se e achegar-se. Ingênuo é menos que alvar: significa “sem malícia como criança. se bem que pareçam dizer. grosseiro. decisão”. que é “termo familiar que se aplica a um néscio que pretende impor-se como sábio”.. Ignaro é “uma expressão pejorativa de ignorante. asinino. – E vem agora. à primeira vista. – Abeirar-se diz propriamente “aproximar-se da beira”. Jumento (assim como burro) é o mesmo que asno. bruto. De burro. e não: “Apropinquei-me. asneirão.. achegar-se. – Matungo (brasileirismo do sul) no sentido que aqui tem. candura e boa-fé que tocam a parvoíce”. acostar-se.. e por isso mesmo incorrendo frequentemente em enganos e caindo em ridículo”. – Charro é “gordo. além de inculto. amatungado. que equivale a “pequeno burro”. principalmente jumento – “o burro de carga. e “não vê. Qual é aquele que tudo sabe? Pois só aquele que tudo soubesse de alguma coisa ignorante. inópia intelectual. – Ignorante diz apenas “que não tem instrução”. “semelhante a asno” ou “que faz de asno”.. jumento. – Pasmado. ou incapaz de esforço em coisas de espírito. e neste grupo. matungo. alvar. ou ao lado de alguém”. e amatungado = “feito matungo”. 40 ABEIRAR-SE. e diz Bruns.

– Enraivecer-se. amuar-se por qualquer coisa. em contacto. “Renteamos o despenhadeiro”. ele se aproxima de nós como para amparar-se. ou raivecer (ou ainda enraivar-se) equivale a “encher-se de raiva”. enraivecer-se (raivecer-se. exacerbar-se. “Concheguem-se mais” não é. enfadar-se. encostar-se é “apoiar as costas a alguma coisa”. encolerizar-se. molestar-se. e mais por vício de educação que por temperamento”.36 Rocha Pombo rença de sintaxe os distingue: chegar-se emprega-se só com a preposição a. em torno de alguém ou alguma coisa”. agastar-se. – Acostar-se e encostar-se enunciam ações diferentes. enfrenisar-se.. anojar-se. ou “abordamo-nos na rua”. Dizemos: “Eles se aconchegaram” querendo exprimir que duas ou mais pessoas. ou em círculo.. desgostar-se. – Irritar-se é “perder a calma. “zangar-se a todo instante e por qualquer coisa”. – Enfurecer-se é “irritar-se até o furor. “acercaram-se do forte. ou pelas costelas. “Queremos ou desejamos aconchegar-nos o mais possível”. pelo lado”. ele apenas se pôs mais perto de nós. melindrar-se.. e mais lidimamente com esta.. rente”. arrenegar-se. vimos no céu. e tornar-se violento e impetuoso como os loucos”. de propósito. pois este verbo não marca tão bem atividade e gradação como o outro. estimular-se. – Rentear = “passar muito junto. ou da árvore”. aproximar-se de súbito”. magoar-se. pelo menos. irritar-se. enfurecer-se instantaneamente” (pois a ira dura menos ainda que o furor). – Zangar-se é quase o mesmo que “dar o cavaco”. É preciso dizer: “Acostamo-nos à floresta ou à serra” (isto é – fomos até ficar muito junto à floresta ou à serra). incitar-se. – Avizinhar-se diz propriamente “fazer-se vizinho. com a mesma solicitude se juntaram.. flagrante. segundo a própria etimologia. No segundo caso. aborrecer-se. No primeiro exemplo. – Conchegar-se e aconchegar-se significam “aproximar-se reciprocamente (uma coisa ou pessoa da outra) de modo a ficarem unidas. agravar-se. “Acercamo-nos dele”. tanto para agasalhar-se ou confortar-se como para resistir a algum mal”. enfadar-se. tão próprio como: “Aconcheguem-se mais”. – Abespinhar-se diz. pois até à força podiam conchegar-se. ao fim de alguma coisa. irar-se. para pedir-nos socorro ou proteção. “abordei-o”.” 41 ABESPINHAR-SE. e não: “conchegar-nos”. enfurecer-se. raivar). enquanto que achegar-se pode ser empregado tanto com essa como com a preposição de. ou frenesiar-se (também no Brasil – enfrenisar-se) é “zangar-se. exasperar-se provocado por alguém ou por alguma coisa”. perder a razão momentaneamente. – Enfrenesiar-se. esquentar-se. aborrecer-se como por impulsão súbita”. “irritar-se como as vespas”. embravecer (embravecer-se. aproximar-se bem”. e não: “Encostamo-nos”. exasperar-se. excitar-se. e significa “pôr-se em volta. tomar-se . “Quando a caravana se avizinhava de Jerusalém. assanhar-se. – Irar-se é: “perder a calma. indignar-se. Notemos que o prefixo a de aconchegar-se lhe aumenta uma ideia de ação imediata. ou uniram: tanto não diz: “conchegaram-se”. – Acercar-se é formado de a + cerca (ou cerco) + ar. atual. enquizilar-se (ou quizilar-se). impacientar-se. apaixonar-se. ou com ele”. e também: “Renteamos com o acampamento. – Abordar é propriamente “chegar à borda. enraivar-se. conquanto digam alguns lexicógrafos que se equivalem. Dizemos: “Acostei-me à parede” (isto é – “pus-me rente à parede”) – o que é muito diferente de: “Encostei-me à parede” (isto é – “descansei o corpo apoiando-me na parede”). “Abordamos o abismo”. Não se confundem estas frases: “Ele chegou-se a nós” e “Ele achegou-se de nós”. embravear). zangar-se. Acostar-se é “juntar-se a alguma coisa pelas costas. exaltar-se.

” ou “deixar de sentir o prazer que se sentia”. – Assanhar-se é “ficar agitado. ou em presença de alguma coisa que se tem por indigna”. – Melindrar-se quer dizer “desgostar-se por motivos muito delicados. – Magoar-se é “sentir-se melindrado por alguma ofensa”. – Encolerizar-se é “ir ao extremo da ira. – Varar também só é aplicável a pequenas embarcações. – Ancorar equivale a fundear lançando âncora” (Aul. ou seja mau”. – Apaixonar-se é “sair do estado normal por exaltação de algum sentimento.). – Aportar diz precisamente “tomar porto. atracar. ancorar. abordar. – Exacerbar-se. – Fundear significa “dar ou tomar fundo”. – Abicar significa propriamente (assim como embicar4) “dar com o bico (a proa) em terra”. triste e desgostoso”. surgir. . quem se excita é como quem “se irrita despertando da sua calma habitual”. ou irritar-se) à vista de sacrilégios. feroz como bruto irritado”. ou do que é normal”. conduzir 4 Convindo não confundir com embicar = “encaminhar pela bica”. só tratando-se de pequenas embarcações. ansioso”. – Esquentar-se é “exaltar-se um pouco. sair da serenidade habitual”. violento”. seja bom. – Exasperar-se é “irritar-se em extremo. – Enquizilarse (ou quizilar-se) é mostrar-se menos que zangado: mais “indisposto por impaciência e antipatia ou quase aversão”. portanto. – Agravar-se é “fazer-se grave por desconfiança ou aborrecimento. do que aborrecido. como neste exemplo: “Fundeou toda a frota na vasta baía. ou mesmo simples desprazer”. – Excitar-se. parecer exausto de paciência”. ficar insofrido. – Enfadar-se é menos que aborrecer-se: é “quase amuar-se”. e pode bem ser que não revele a sua irritação por mais do que animar-se de disposições infensas. inquieto. e à tarde ancoramos a nossa nau mais junto à terra”. devendo empregar-se. ou embravecer-se (ou embravear) é “tornar-se bravio. rude. ou por afetação de melindre”. – Anojar-se é “sentir-se incomodado. fazer-se rude e quase furioso”. – Embravecer. O próprio Deus pode encolerizar-se (e também irar-se. diz “fazer-se áspero. apor- tar. Quem se estimula contra nós é porque foi provocado ou importunado. aborrecido. – Arrenegar-se equivale a “zangar-se maldizendo e blasfemando”. ou de grandes pecados.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 37 de rancor violento e brutal. – Impacientar-se é propriamente “perder a paciência. – Aborrecer-se diz propriamente “sentir horror”. – Agastar-se é “enfadar-se ligeiramente. – Indignar-se significa “encher-se de ira por algum motivo muito nobre. varar. e sugere a ideia de que foi ofendido ou provocado aquele que se encoleriza”. mostrando-se agitado e hostil. 42 ABICAR. fundear. mas perdeu alguma coisa na acepção comum. – Exaltar-se é mais do que esquentar-se: é “fazer-se mais enérgico e veemente do que convém. enquanto que amuar-se significa mais “desgostar-se por suscetibilidade”. tirar para a praia”. ou. portanto. arribar. segundo a própria etimologia. e por ter sido instigado”. por excesso de pundonor. chegar. – Desgostar-se é propriamente “não ter mais o gosto que se tinha. principalmente como pronominal: é “mostrar aversão ou repugnância. “ancorar” depois de “haver fundeado”. distinguindo-se deste em sugerir a ideia de “desgostar-se como por fadiga”. – Molestar-se é “mostrar-se ofendido por incômodo ou por importunação”. Pode-se dizer. ou “ressentir-se de alguma coisa desagradável”. quase assanho. em fúria ou alvoroço hostil”. e quer dizer “pôr em seco. Incitar- -se é mais vizinho de estimular-se: quem se incita mostra “vigor anormal. mostrar-se sentido por ofensa”. incitar-se e estimular-se equivalem-se com pequena diferença.

43 ABISMO5. a ser precipitado. entre sorvedouro e tragadoiro a mesma diferença que se nota entre sorver e tragar. mas volta ao porto sem ter seguido a seu destino. execrando. pois. – Chegar é o mais genérico de todos os do grupo. abominável. despenhadeiro. as embarcações que a imperícia ou a fatalidade leva até onde alcança a influência do torvelinho. de um rio.38 Rocha Pombo ao porto. escarpado. – Arribar significa “ser forçado a tomar porto”. no sentido figurado. traga o que nela cai. são mais para temer os perigos. no qual se está exposto a cair. portanto. vil. – Surgir é “aparecer. significando quase o mesmo que detestável. “entrar num porto que não é o que se demandava”. dar com o bordo junto à terra”. aborrecível (aborrível). ignóbil. subvertendo-as. repelente. precipício. – Báratro era o precipício onde se fazia cair o criminoso de certos crimes em Atenas: daí a significação de “profundeza como a do inferno”. A ideia principal que sugere esta palavra é a do perigo da queda. chegar por via marítima” (Aul. É. – Abjeto é o mais compreensivo de todos os do grupo. onde. – profundo. – “Precipício (do latim prœ “para diante”. se emprega esta palavra para designar os grandes perigos de que muito dificilmente se pode sair e que só se descobrem quando já é dificílimo evitá-los”. – Abordar significa propriamente “encostar ao bordo”. no entanto. e. odioso. báratro. e quer dizer “alcançar o ponto demandado”. e da dificuldade da marcha quando se as circula. e a coisa detestável é a que não pode . repugnante. sendo de notar que a coisa abjeta é a que repelimos como indigna de nós. detestável. sorvedouro. A forma culta é abysso (latim clássico abyssus. no entanto. traga- doiro. tragando-as. – Rodomoinho (ou remoinho) é quase o mesmo que sorvedoiro: não dá. – Despenhadeiro diz propriamente “rochedo elevado e abruto” de onde há grande perigo em lançar-se alguém. Há.) parecendo aduzir à “noção de chegar a ideia de surpresa”. de um lago. tratando-se de navios: “entrar no porto ao cabo de uma viagem”. como este. – Atracar equivale quase a abordar: é “chegar e prender-se à terra ou a outra embarcação”. não chega – arriba. por causa do escarpamento das beiras. indigno. emprega-se no figurado para designar o que atrai irresistivelmente para a ruína ou a morte inevitável”. ou sem ser esperado”. – Voragem (do latim vorago) “é o nome” – diz Bruns. – Pego é a parte mais profunda do mar. abominoso. pego. pois o remoinho pode também levar para os ares. correspondente de abyssus) significa propriamente aquilo “que não tem fundo” e onde desaparece para sempre o que chegou a cair. baixo. só a ideia de “absorção para o fundo”. A embarcação que sai. É “por isso que. onde alguém é lançado como castigo. 44 ABJETO. – Sorvedouro e tragadoiro confundem-se: este último. voragem. a ideia de tragar que predomina nesta palavra. particularmente. como se dissesse: “apresentar-se. – “desses terríveis remoinhos formados pela 5 Abismo é do baixo-latim abysmus. entrar de repente. ou da passagem quando se as quer evitar”. portanto. abominando. execrável. do grego abussos = a + bussos “sem fundo”). e por extensão “chegar à terra ou ao porto. ação de correntes opostas. é mais forte e sugere a ideia da violência inevitável com que a voragem engole. – Abismo (do baixo-latim abysmus. e que arrastam fatalmente para a profundeza. rodomoinho. “procurar abrigo ou refúgio”. desprezível. por isso. entrar no porto”. e caput “cabeça”) é um espaço vazio – diz Bourguig.

não é por todos aplicado ao mesmo ato: o que é abjurar para uns é apostatar para outros. renunciar. Os católicos dizem que Henrique IV de França abjurou o protestantismo. – Repugnante é vizinho de repelente: é “o que se repulsa como coisa nojenta”. o que está cheio de abominação”. podendo-se entender que reúne o valor destes dois: é repelente o que “se detesta ou repele com asco”. que se fez para ser negado. por seu interesse e com o fim de fazer fortuna por meios indecorosos. – Repelente oferece alguma coisa de comum com detestável e abjeto. o mais vil dos homens é o que vende sua honra e sua consciência para adquirir dignidades e riquezas. abrenunciar. se detesta. 45 ABJURAR. Segundo Roq. Entre nós temos o exemplo do padre Guilherme Dias. apostatar e renegar escreve Bruns. como. Em caso algum. enquanto os católicos dizem que ele apostatou do catolicismo. porém chamamos particularmente baixos aqueles que supõem falta de vigor e de energia. e não é recebida por nós.. feroz e estúpida. que causa aversão”. abjurou os erros do catolicismo. converter-se. que “afronta o nosso sentimento religioso”. Um indivíduo. – Ignóbil diz propriamente – “sem nobreza. que nem ânimo tem para saber calar. a avareza. Abominoso é o que “contém. – Execrando é “o que merece maldição de todo mundo”. desprofessar. é baixo. é um poeta detestável” (não abjeto).. que não exigem mais que um trabalho material e nenhum talento. – Desprezível significa precisamente. porém. segundo a própria formação – “digno de desprezo”. – Aborrecível. são “palavras que apresentam a ideia de desprezo. que. que empregam o verbo apos- . portanto. a coisa abjeta deixaria de ser detestável. “Note-se também que os católicos. posto que sob diferentes aspetos. segundo os protestantes. grosseiro e vil”. É mais forte que execrável. e entregue de ordinário a gentes tidas por infames em seu proceder”.. e muito vil o que as sofre contente.. que não encerra ideia depreciativa. apos- tatar. O descarado adulador. “F. trair. significa propriamente – “que inspira horror. e é dos mais vagos do grupo. ao passo que os protestantes qualificam esse ato com o verbo apostatar. Baixo é o homem que abate a sua dignidade. Abominando quer dizer – “que se há de abominar. nem instrução. e que por isso são tidos em nenhuma conta. sem ser abjeta. – Vil e baixo também se aproximam muito. convertendo o homem numa besta malévola. pode ser detestável. como algumas ocupações mecânicas. como costuma suceder na embriaguez. que o verbo abjurar. feroz e brutal na sua execução. porém. vil o que perde a estima dos outros e ainda a sua própria. repelido por todas as consciências como sacrilégio”.: Abjurar (do latim abjurare “negar com juramento”) é renunciar solenemente à religião que se tem seguido e que se reputa falsa. Baixo é o que por cobardia sofre injúrias de outrem. ou uma coisa. – Sobre abjurar. g. v. – Indigno aproxima-se de ignóbil. ou aborrível. se afasta com horror”. São particularmente vis os vícios que desonram e infamam. “A vida fora de Paris é detestável” (não abjeta). Chamamos ofícios baixos aqueles que só exerce a gente miserável e abandonada. Todo vício é baixo e desprezível. Convém ainda advertir que abjeto ajunta à noção de detestável a ideia de baixeza. – Odioso quer dizer – “que merece ódio”. ou a coisa da qual não queremos saber. o que “se condena.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 39 ter a nossa sanção moral. baixo de condição. Note-se. – Execrável é o que “atenta contra lei sagrada”. Chamase vil o “exercício que se tem por desprezível em razão de ser sujo. e aplica-se ao que é baixo e desprezível. – Abominável é “o que é digno de condenação como coisa ímpia e nefanda”. renegar.

e ficasse sem nenhuma crença. de ter na conta em que se tinha”. de aceitar. “deixar de crer. de reconhecer formalmente. desprendimento. abandona. – Quanto a abnegação e desinteresse escreve Bruns. por conveniência própria. e até de consciência. princípio.: “Converter-se marca simplesmente uma mudança que se operou nas crenças. – Trair neste grupo aproxima-se muito de renegar: é “negar ou protestar com perfídia. diz Bourguig. Quem apostata deixa. lhe dão. renunciar a uma herança em favor de um parente pobre: é abnegação ceder o que nos é indispensável. um erro sacrílego em que se vivia. o principal móbil que leva à mudança de religião. de “dar testemunho. ou escola filosófica) e fosse combater a antiga – esse. De um sujeito que tivesse deixado a sua religião. não assim os membros das outras religiões”. tem-se em vista a religião que se abraça. A ablação consiste em extrair de qualquer parte do corpo uma parte mórbida: faz-se a ablação de um quisto”. de exercer em público. como vimos. o demônio. a coisa traída. que sai do seu grêmio. a sua causa. escola.” Quem abjura afasta da consciência a coisa abjurada. desapego. Desinteresse diz-se do que é material: é desinteresse vender por baixo preço (com pequeno lucro). a opinião. abrenunciar significa “negar. faltando à fé jurada com os da grei”. é um apóstata. e não a convicção. O desinteresse cessa onde principia o interesse próprio. – Renunciar é aqui convizinho de apostatar. – Desprofessar é neologismo aproveitável e perfeitamente legítimo: diz.: “Abnegação diz mais que desinteresse. a abnegação não tem limites. ou um ateu – não se poderia dizer que apostatou: sim que renunciou. Henrique IV converteu-se ao catolicismo. mas aquele que apostata é como o trânsfuga. deixando apenas de continuar a fazer confissão pública da sua crença. – “consiste a amputação em cortar um membro superior ou inferior: amputam-se os braços ou as pernas. “deixar de professar”. sem mágoa. ceder um ganho lícito.. e não a que se deixa. lançando-a fora do espírito. 46 ABLAÇÃO. Quantos traidores ficam preferindo de coração. e dele se diz com toda propriedade que apostatou. de- sambição. de que apostatou por uma outra coisa. – Renegar é ao mesmo tempo abjurar e apostatar “passando a ter ódio à coisa renegada”. isto é.). Pode-se renegar sem trair: e a inversa também é admissível. sem ódio. detestar afastando com horror”. sim. desinteresse. altruísmo. o sentido de ser o interesse. pois mesmo aquele que trai o seu Deus. 47 ABNEGAÇÃO. Além disso. causa. arriscar a saúde velando duran- . Este diz apenas. segundo a própria formação. – Sobre converter-se (que se aproxima de abjurar). Um sujeito que se passasse para uma religião nova (ou para outro partido. interceder em favor de um inimigo. abrenuncia-se o espírito do mal. – Abrenunciar é mais forte que renunciar. amputação. O sujeito que desprofessa o seu culto pode passar a crer só consigo mesmo o que já cria. quando se emprega este termo. – “Em linguagem cirúrgica” – diz Bruns. ou do seu partido e vai para outro. na fé. devendo subentender-se que aquele que renuncia abandona apenas a velha crença. Abjurar diz propriamente “jurar contra alguma coisa. desamor. etc. um indiferente em matéria religiosa. etc. isto é. ou sem intenções hostis a respeito da coisa renunciada. nem sempre a renegará necessariamente. podendo ainda continuar a tê-la em respeito. a sua seita. põe longe de si a coisa (o princípio. a crença. o seu culto.40 Rocha Pombo tatar. e que leva a passar de uma religião reconhecida falsa para uma religião considerada verdadeira”. Abrenuncia-se a vida ímpia em que se andava.

” tirar a mancha ou as manchas”. e diz. – Mundificar. mas. Purgar é tornar puro fazendo expelir o que há de impuro no que se purga. ou mundar (de mundus = puro. Expurgar é tornar completamente puro o que ainda não se havia purgado ou purificado de todo. limpar. expurgar. proscrever. – Abolir significa “declarar não existente. Quase que só se usa hoje em sentido figurado. de uma discussão. ou a coisas a que nos tínhamos afeiçoado”. segundo a própria etimologia. purificar. – Limpar é o mais genérico do grupo. Purificar é tornar puro. ou de coisas estranhas. acendrar. parece mais forte. aptidões. e sugere ainda a “ideia geral de desmisturar. deduzir. 48 ABLUIR. é “fazer livre de impurezas. anular. – Lavar é “limpar com água”. substâncias estranhas”. Purifica-se o espírito. derrogar. como com óleos. Não se implantam liberdades onde não se expurgam erros”. etc. e figuradamente “tornar puro aquilo que se manchara. além dessa ideia. – Acrisolar é “purificar como se apura em cadinho ou crisol”. o coração. extinguir.” Tanto se limpa com água. verificar o que há de essencial nalguma coisa: e nesta última acepção não se confunde com purificar. – Desmacular é neologismo perfeitamente admissível. suprimir. Desapego não é. tornar puro”. Sobre estes três verbos escreve Bruns. desfeito. purgar. mundificar (também mundar). mas – “de um negócio. revogar. como se purifica o sangue. mediante qualquer processo. segundo a própria formação. Desapego. lavar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 41 te noites consecutivas o amigo doente”. a decisão com que se renuncia a grandes bens. Limpe-se ele primeiro (ou lave-se) das acusações que lhe fazem”. pelo menos quando é certo que a pessoa que se apega mostra mais vontade e esforço em apegar-se do que mostraria em prender-se ou deixar-se prender. – Desprendimento é a “indiferença com que se vê um perigo. – Apurar diz também “fazer puro separando fezes. – Purificar (como purgar e expurgar) exprime a ideia geral de “fazer puro eliminando impurezas”. “Lavam-se as mãos”. ou com cinza. A fermentação purga o mosto. tratando-se de qualidades morais. no entanto. ou com preparações. ab-rogar. apurar. infirmar. 49 ABOLIR. limpo). etc. o ar. E mesmo: “De uma certa quantidade de calda apura-se (não – purificase) tantos quilos de açúcar”. – Desambição e desamor não fazem mais do que marcar a perfeita antonímia em que ficam com os respetivos radicais. Também é usado figuradamente. muito judiciosamente: “Nestes entra o radical puro. Quase que só se usa no sentido figurado. cassar. o pouco caso com que se vê passar uma felicidade a que se tinha direito”. diz “fazer limpo. de um esforço alguma coisa se apura. – Acendrar é “limpar e fazer brilhante como os metais polidos”. “A chuva lava o ar”. “Naquele horrível sacrifício a mísera se desmaculou do nefando pecado”. acrisolar. Os ventos rijos purificam o ar. e não – purifica”. – Desapego e desprendimento dizem quase a mesma coisa. senão a “facilidade. Tanto se apura como se purifica o açúcar. pois. E em sentido translato também se usa: “Aqui (no Purgatório) – disse-me o patriarca – lavam-se almas”. – Altruísmo é o nome moderno da velha virtude cristã do amor do próximo. invalidar. nota-se no vocábulo ainda outra: a de uma causa que penetra no objeto impuro para o modificar e devolver-lhe a pureza primitiva. ou aplicando-se a coisas morais: “Limpamo-nos de culpa e pena”. desmacular. . a coragem estouvada com que se afronta um mal. antiquar. “Tais amarguras dir-se-ia que te abluem a alma”. – Abluir diz aqui propriamente a ação de “fazer puro como as coisas sagradas”. a água.

Aplica-se em regra nos casos em que a lei. – abonação é a ação de abonar. usos. O prefixo ab. – Anular diz propriamente “tornar nulo”.. segurança. mas decerto que não diríamos: “A lei tal aboliu um cargo no ministério tal”. coisas.. Emprega-se tratando-se de leis. caução. De um decreto que ontem ou há poucos dias se publicou e hoje se deixa sem efeito. instituições.”. “A nova lei ab-rogou a lei tal. – Invalidar significa “tirar o valor”. arras. como de pessoas. . de dar segurança pelo caráter ou pelas aptidões de uma pessoa. tantos já foi derrogado por lei ulterior”. ou a resolução que se tomara. de um princípio jurídico ou filosófico”. É antônimo de confirmar. é quase o mesmo que anular. a ação de declarar “não vigente”. Uma circunstância ignorada ou imprevista. e. etc. o decreto ou a sentença anulada. mas que não havia tido aplicação ainda. ao passo que para suprimir basta o ato supressório. tinha algum senão. Por isso ab-rogar se diz em referência a uma lei ou a um decreto que a autoridade competente deixou sem efeito e substituiu por outro: derrogar deve aplicar-se menos a toda uma lei do que a uma ou algumas disposições dela. – Suprimir é mais genérico e menos técnico que derrogar. ou não tinha começado a produzir efeito”. ou a lei tal aboliu tal repartição”. isto é – não se faz indispensável que em lugar da disposição suprimida fique vigorando disposição nova. – Extinguir significa também abolir.. ou estava inquinada de algum vício. fatos de linguagem. tratando-se de leis – “excluir. e desta mesma o art.. Dizemos: “A lei de 13 de maio aboliu a escravidão”. mas em certos casos não se poderia empregar um pelo outro.. mais amanhã havia de extinguir-se a monarquia”. havia de abolir-se. – Antiquar é “deixar cair em desuso”. De uma lei não se diz cassada. não seria perfeitamente lídimo dizer: “Mais hoje. – Infirmar é “tirar a força.. Do mesmo. sinal. e tanto se emprega tratando-se de leis. extinguiu.42 Rocha Pombo apagado”. enquanto que derrogar exprime com mais propriedade “deixar sem toda a força. não se dirá ab-rogado.. o vigor de uma lei. é “prescrever por falta de aplicação”. etc.. alguma coisa contra o direito. isto é. – Cassar é propriamente “declarar sem efeito o decreto que se tinha publicado. atenuar ou diminuir a força de uma lei cortando-lhe uma parte”. portanto. modo. quando muito. senão cassado. e com certa razão. – Abono é o próprio ato de assumir alguém por um outro uma certa responsabilidade moral. abonação. costumes. com esta diferença: é só uma nova disposição que derroga a outra. fiança. de uma sentença. Neste caso empregaríamos o verbo suprimiu. isto é. Ninguém diria. penhor. – Proscrever é “declarar excluído. impostos. melhor do que este. costumes. por exemplo: “O decreto. pôr de lado parte de alguma coisa”. costumes. Na fórmula legislativa: “Revogam-se as disposições em contrário” não seria permitido empregar o verbo derrogam-se. garantia. pediu-lhe abono. cortar alguma ou algumas partes delas. “F. – Revogar é quase sinônimo perfeito de derrogar: significa. pois que a diferença que se quer ver entre eles é quase convencional. e sim: “. e. “como se não existisse”.. como de instituições. parece apenas mais ativo e mais forte do que o prefixo de. etc. 50 ABONO. e tanto se emprega tratando de leis. hi- poteca. e sim: “. com esta diferença: supõe-se sempre um ato de autoridade que anule: o que não se dá quando se trata de invalidar. mas ab-rogada. ou “sem valor”. mas significa também “eliminar. ou a anular. ou uma infração essencial invalida um contrato.” – Ab-rogar e derrogar confundem-se de ordinário. porém. mas só o juiz competente pode anulá-lo”. portanto. cancelado por ato público”.

e significa qualquer meio de assegurar a outrem que havemos de cumprir nossos deveres ou os ajustes que com ele fizemos. malograr-se. – Arras. parecendo que a diferença consiste apenas em ser o primeiro “escrito e formal”. que subiu. fracassar. gorar. 52 ABORTAR. segundo Bruns. hipoteca e fiança. e significa “filho do país.. segundo as diferentes relações em que se a considera: pignoratícia. ou por um terceiro que responde pelo cumprimento da obrigação. ou de cumprir seu dever no caso em que ele o não cumpra. A pessoa que a tal se obriga chama-se “fiador”. Só. que indígena é o mesmo que natural. – Nativo = oriundo. se não se cumprem as condições do contrato. em linguagem científica. na escala antropológica. portanto. origi- nário. íncola. dada pelo próprio interessado que se obriga. – Quanto a caução. ou não se sabe se seria possível afirmar a autoctonia daquele que é o mais antigo habitador da península”. juratória. isto é. autóctone. – Sinal é o dinheiro ou a coisa que o comprador ou um dos contratantes adianta como garantia do ajuste que há de fazer. ou que foi o habitante mais antigo que nele se encontrou (de modo que pode ser até adventício no país onde foi encontrado): enquanto que autóctone deve ser o povo ou o indivíduo que apareceu. mas quanto ao autóctone da península nada sabemos. – Segurança é propriamente “garantia moral”. natural. – Quanto aos quatro primeiros do grupo escreve Bruns. 51 ABORÍGENE. o objeto não corresponder às condições devidas: é a garantia direta”. frustrar-se. – Aborígene e autóctone confundem-se de ordinário. chama-se indireta. portanto. – Íncola é o que “habita um país que não é o do seu nascimento”. Se a garantia é feita por outra pessoa que não o próprio comprador. – Penhor é o móvel que se obriga ou empenha ao credor para segurança de uma dívida. Quer-se dizer. pode ser direta ou indireta. “O preço de um objeto vendido sob garantia é devolvido ao comprador se. ou na própria raça”. que se formou. antes de terminar o prazo em que a garantia cessa. – A garantia.: “Abortar é não chegar a realizar-se por causa de um defeito intrínseco ou por uma força estranha o . e que dá direito ao credor de pagar-se por eles. Fiança é a obrigação em que alguma pessoa se constitui voluntariamente de pagar por outra quando este o não faça. mas decerto que não é aborígene senão o selvagem que aqui encontramos. judicial ou legal. por isso. indígena. – Originário = que “tem origem no próprio país. penhor. se chama centro de criação é que se encontraria o legítimo autóctone. no que. em linguagem jurídica se dá à caução diferentes nomes. nativo. e até estes dois com o terceiro do grupo. segundo as disposições da lei.). hipotecária. diz o mesmo quase que sinal. escreve Roq. até a espécie humana – no próprio país onde se encontra. ou nascido na própria terra onde vive”. próprio do país”. “O ibero é o aborígene da Espanha. Pode ela ser consensual. fideijussória. etc. e confunde-se com abonação. e quanto ao autóctone desta parte da América nada sabemos até agora de positivo”. ou “que é próprio do lugar do nascimento (Aul.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 43 mas compreende-se que em casos tais não vale só a abonação de um parente”. – Aborígene é o povo que se considera como o primitivo num país. Apenas natural acrescenta à noção a ideia de incultura. Hipoteca é a obrigação de bens de raiz por alguma dívida. Mas a diferença entre eles marca-se bem neste exemplo: “O filho de europeu nascido no Brasil é indígena. falhar.: “A primeira palavra é o gênero a que pertencem as outras como espécies.

adormentar. falham esperanças. calheta. atenuar. aplacar pouco . dócil. mas que não penetra demais na costa”. aprazível. – Esteiro é um estreito braço de mar ou de rio que penetra nas terras.. – Abrandar. amenizar. ampla e pacífica. recôncavo.). baía. – Falhar é “não produzir o efeito desejado. isto é. golfo. – Enseada é “grande porção de água aberta. suavizar. Frustrar-se é não obter o resultado que até certo ponto se tinha o direito de esperar: um filho inteligente frustra as esperanças do pai quando abandona o estudo pelo vício. Fracassam conspirações. – Adoçar diz propriamente “fazer doce” (como adocicar equivale a “tornar mais doce. não ter bom êxito devido a causas alheias: malogra-se uma viagem quando um acontecimento nos impede de partir. – Abrigada (ou abrigo) é “qualquer porção de mar manso (resguardado de certos ventos) onde os navios se podem refugiar contra tormentas”. (É o que se chama no interior do Brasil igarapé. a ação. – Golfo é porção considerável de mar que entra muito pela terra. – Temperar é “pôr em grau de força. reduzir a menos. como num rio. – Lagamar é “recôncavo mais vasto. esteiro.44 Rocha Pombo impedir: aborta a conspiração malplaneada. moderar o ímpeto. por muito útil que seja. “tanto na costa. não suceder como se esperava” (Aul. – Moderar é “diminuir movimento. diminuir as proporções”. mitigar. – Baía é “grande porção de mar que penetra na costa. – Calheta é um braço de mar ou de rio “apertado entre duas pontas de cer. acalmar. 53 ABRA. duro.” – Atenuar é “fazer mais delicado. os sofrimentos morais. serenar.. “diminuir a intensidade do que é demasiadamente ativo” (Bruns. delicioso.). comovido”. falham cálculos. – Enternecer é tornar mais do que brando: é “fazer tenro. terra”.. enterne- lagamar. enseada. e que sendo pouco profundo só dá curso a pequenas embarcações. é “fazer brando”. intenso nalguma coisa”. adormecer.. – Abra. reduzir força. entrando por boca estreita e alargando-se no interior”. – Recôncavo é “pequena enseada e metida mais para os fundos de uma baía ou de um golfo”. de movimento. segundo o próprio radical. há de gorar se o público se não capacitar da sua utilidade.). o lugar de bastante fundo que de qualquer modo está defendido do ímpeto das águas e dos ventos”. abonançar. – Adormentar é diminuir ou “suspender momentaneamente o movimento. Falham planos. Malograr-se é não vingar. forte. temperar. e “cuja abertura é ordinariamente bastante larga” (Aul. abrigada (abrigo). Gorar é não ter bom resultado aquilo em que fundávamos boas esperanças: uma empresa. 54 ABRANDAR. meio doce”). e aquela de que o governo chega a ter conhecimento. tirar o que há de áspero. Suaviza-se a voz. isto é.. suave. frustrar-se de todo e produzindo sensação”. – Serenar é “fazer sereno. segundo Bruns. – Angra é “um braço de mar. “fresco. uma abra alongada pelo interior da terra”. Também se chama furo ao pequeno canal que une duas porções de água maiores. – Amenizar é fazer ameno. conter em certos limites”. adoçar. – Fracassar é “falhar imprevistamente. – Suavizar é “fazer mais suave. a sensibilidade – como que adormecer. O pai dirá que as suas esperanças se frustraram”. onde as águas como que se espalham penetrando nas terras”. isto é – o igarapé mais estreito ou menos franco à passagem de canoas). é. que aliás é mais preciso e mais forte. de intensidade conveniente”. ou quando uma notícia nos obriga a retroceder depois de a ter principiado. apaziguar. como as campinas florescidas. sensível. moderar. como fracassam grandes negócios planeados. angra. a dor.

que tem referindo-se ao tempo. carbonizante. queimoso. – Sobre arder. – Carbonizante significa propriamente “que reduz a carvão”. cálido. fazer cessar a tormenta” (Bruns.. pode aumentar ou diminuir”. etc. cáustico. como “sol abrasador”. quando se desenvolve a chama. ca- seguinte: cálido é o que tem naturalmente um alto grau de calor. isto é. abrasear = “fazer da cor da brasa ou pôr em estado como de brasa”. tem cabida ao falar das calamidades.. o que de si mesmo é quente. podem recrudescer: “o vendaval que acalmara (que ficara menos forte) ao amanhecer. harmonizar. ardente. inflamar-se. – Caloroso define-se pelo próprio radical. Nem deve este adjetivo ser usado. com o valor de cálido quando se diz: “clima quente”. etc. . Bruns. “que dias quentes”. 56 ABRASAR-SE6.. queimar-se. Não se diria com propriedade. vermelho e crepitante como brasa”. Quente é o que “pode ter mais ou menos calor. – Abrasador (ou abrasante) significa propriamente “que reduz a brasas”: no sentido figurado diz. o verbo não encerra. e apenas menos forte que queimante. em moderar há significação reguladora. “que atua como o próprio fogo”. ou que abrasa”.). – Candente se diz daquilo “que de tão quente parece ou branco ou vermelho”. etc. “tão quente que parece queimar como o fogo”. – Acalmar. a sua significação é a mesma nos dois sentidos: serenar. está no mesmo caso de abrasante: vale por um superlativo de quente. no entanto. inflama-se. – Comburente quer dizer “que produz combustão. ao vento. a agitação. estabelece uma gradação ascendente no valor destes três adjetivos e dispostos nesta ordem: caloroso. a violência. pôr de acordo”. Abrasar significa “reduzir a brasas” (sentido natural). incendiar-se. – Abonançar – “fora do sentido reto. “é fazer diminuir a cólera. pois. pelo contrário. ao mar. que faz arder. candente. deixa supor que a agitação. quando levanta 6 Há uma certa diferença entre abrasar. por exemplo: “a sopa está cálida”. dizemos que arde. abrasear e esbrasear. e o segundo exprime propriamente “que queima”. in- loroso. com o verbo estar. segundo Bruns. a violência. ou cuja temperatura. Também se diz: “sol carbonizante”. Emprega-se. Dizer que a idade acalma as paixões não significa tanto como “a idade modera as paixões”. considerados como tempestades da vida. na acepção que tem aqui. – Cálido e quente aproximam-se bastante. dos infortúnios. queimante. a moderação sendo constante: o que não se dá com acalmar. – Queimoso é o mesmo. Efetivamente. a rudeza. – Mitigar é moderar o rigor. incendiar-se. escreve Roq. esbrasear = “tornar quase como brasa. a ideia de ser a calma completa nem duradoura. ardente. incinerar-se. abrasador. – Cáustico e queimante dizem quase a mesma coisa: apenas o primeiro aplica-se para significar coisa ou droga que “destrói o tecido orgânico como se fosse fogo”. determinada por ação estranha. porém. antes. a emoção. e ajunta à noção de abrandar a ideia de “agradar. consolar”. “Como esta música ou esta voz lhe mitiga tantas dores.” “Não há nada capaz de mitigar-lhe aquela saudade”. portanto.: “Explicam estas palavras os diferentes graus pelos quais pode passar um corpo combustível desde o instante em que se lhe ateou fogo até que foi inteiramente consumido. comburente. arder.. 55 ABRASADOR (ou abrasante). desencadeou-se depois com mais fúria”. Quando penetra o fogo num corpo combustível. abrasar-se e queimar-se. Apaziguar diz propriamente “restabelecer a paz. conflagrar-se. – Ardente. e se manifesta à simples vista.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 45 a pouco”. quente. devendo notar-se o flamar-se.

– Diminuir.. como se reduzem aspirações. tirar”. asilo quer dizer: “lugar de refúgio. Os descendentes de Hércules fundaram em Atenas outro asilo como o de Cadmo. aplicando-se tanto no sentido moral como no físico. diminuir em todas as dimensões. Abrevia-se um prazo. Pas. esconderijo. valhacoito. “Restrinja os seus gastos. amparo. portanto. et gelida monstrat sub rupe [lupercal. Etimologicamente. é apressar. – Conflagrar é “pôr inteiramente em chamas. de onde ninguém pode tirar os que se acolhem nele”. incendeia-se. aspirações. guarida. refúgio. fazer menor o que se supõe grande no comprimento”. destruir completamente pelo fogo”. O incêndio supõe um grande fogo que. asilo. e diz propriamente “fazer menor”. restam somente os resíduos incombustíveis. abrasa-se. coito. encurtar. e por isso figura em outro grupo. esforços. encaminhar com mais presteza uma solução”. roubar. homizio. que significa “levar. e até saudades. – Os quatro primeiros termos tomam-se no sentido figurado. Reduzem-se dificuldades de um negócio ou de uma campanha. depois de consumido o que dava alimento ao fogo. e o segundo designa a força com que a superfície deste corpo arroja de si o fogo que a penetra. se queimam os corpos quando. escreve Alv. houve asilos só para certos criminosos. e tudo irá melhor”. e tomando ala faz rápidos progressos. “Vamos restringir todo o nosso esforço a nada arriscar em vão”. caminho. se comunica aos corpos vizinhos. Rômulo fundou também um asilo no bosque entre o Palatino e o Capitólio. colher o que é demais. acolhida. arder de inflamar em que o primeiro designa a ação ordinária pela qual o fogo se apodera dum corpo e o vai consumindo. . Pode abrasar-se um corpo sem formar labaredas: – tal é o ferro na frágua. Diferença-se. a aflição etc. e ainda depois. – Encurtar é “diminuir distância. caminho. quando o corpo que deu alimento ao fogo. reduzir. extensão. e segundo o seu verdadeiro sentido. e aplica-se particularmente às matérias líquidas e resinosas. – Restringir é “tornar mais curto ou limitado como que apertando os extremos”.. a decisão de um caso ou de um negócio. uma haste. e antes disso. Tanto pelo fogo ordinário. queimou-se. e quando a força do fogo ou do incêndio devorou a matéria combustível e a reduziu a cinzas. do qual faz menção Virgílio nos seguintes versos: diminuir. apesar de compacto. quem Romulus [acer asylum] Retulit. resguardo. fazer menos demorado. uma proteção. uma defesa contra a força e perseguição. Usa-se frequentemente no sentido translato. como trabalho mental. e do verbo grego sylan. uma corda. pois. encurta-se um Ilinc lucum ingentem. acolhimento. que por isso se chamam inflamáveis. aqui. Diminui-se tanto prazo. dificuldades de vida. resumir”. – Incinerar diz propriamente “queimar até reduzir a cinzas”. 57 ABREVIAR.. é o mais genérico do grupo.46 Rocha Pombo labareda e se propaga com rapidez e fracasso. pouco mais ou menos com as mesmas diferenças”.] O asilo é. ímpetos. está todo repassado dele e feito brasa. reduzir um prazo.. 58 ABRIGO. o refúgio é um recurso contra a indigência. – Reduzir significa neste grupo “fazer mais simples. – Sobre asilo e refúgio. restringir. Cadmo fez edificar um asilo para todo gênero de delinquentes. “Asilo é derivado do a privativo. despedindo chamas. – Abreviar é “diminuir o tempo em que alguma coisa se há de fazer. como pelo incêndio.

tem o melhor ou o mais cordial acolhimento o parente que não víamos de muito e que chega de surpresa”. em vez de: “. “Recolhida naquele soberano asilo... e busca num porto amigo um asilo fugindo à força superior que a persegue. acolhida”. a ideia de segurança. abrir. portanto. proteção momentânea contra algum mal ou perigo iminente”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 47 O hospital é um refúgio para os pobres doentes. deixa passagem apenas a um raio de sol ou a uma réstia de luz. ou uma cortina. “Debaixo da árvore encontrou resguardo contra o sol”. pois. Busca a nau um refúgio em qualquer porto fugindo à tempestade que receia.. como se vê neste exemplo: “A religião oferecia-lhe seguro acolhimento das lutas mundanas”. e onde.. Chega-se a dizer: “A delegação de tal país teve boa acolhida na corte do imperador... “Perdido no campo. a coitadinha dispensou o acolhimento que lhe quiseram fazer naquela casa”. como asilo.. pois. mesmo nos casos em que só caberia acolhimento. soabrir. “A eles (montes) se acolhem (os homens) como a castelos e lugares. Por uma janela soaberta mal se revezaria uma voz ou se distinguiria um vulto. ou de fora para dentro”. O couto é. 59 ABRIR. distinguindo-se apenas em não dar. deu-se toda a Deus”. – Valhacoito é o “lugar seguro onde alguém se refugia e abriga contra o que teme ou procura evitar”. ou na folha da porta. “Os bandidos têm o seu valhacoito lá no fundo da floresta”. e acolhimento é “o modo como se recebe. da morte”. soabrir. se o afastamento que se operou no pano da cortina. entreabrir. ou a perseguição”. e sagrado.). Aul. – cit. onde alguém se furta a olhares de estranhos”. – Amparo significa o ato de acolher e sustentar ou apoiar. Até em mestres se encontra confusão. “A casa de um antigo discípulo lhe serviu de abrigo no último período da vida” (Aul. ficavam fora e livres dela.. mas de modo a poder-se ver e falar para fora. – Soabrir é “abrir muito pouco e instantaneamente”.) – Esconderijo é “lugar. proteger de qualquer modo. do latim cautum) era a propriedade ou lugar “onde não podiam entrar as justiças de El-Rei”. em que têm amparo e defensão certa”.. em vez de: “..” em vez de: “. as pessoas que se recolhiam. “o próprio ato de receber como quem protege e acarinha”. fácil esconderijo.. sempre escuro.. es- cancarar. “Tem boa acolhida em nossa casa um amigo que nos procura para pedir-nos um obséquio. “O assassino buscou ou teve homizio seguro no sertão. hospeda e agasalha”. por uma por- . Emprega-se em sentido figurado para designar “abrigo ligeiro. da Ac. couto. oferecia-lhe segura acolhida”. – Descerrar é apenas “desunir o que estava unido ou cerrado”. a igreja é um asilo para o criminoso.. escancarar) marcam estes vocábulos uma perfeita gradação de sorites. – Acolhida e acolhimento confundem-se muito. teve bom acolhimento”. – Dispostos em outra ordem (descerrar. onde alguém procura abrigo fugindo às vistas de pessoas a quem tenha de dar contas de alguma coisa”. o “lugar seguro onde alguém se oculta fugindo a perigo. E também: “Por mais pobre e humilde que fosse. Descerra-se uma porta. de garantia por lei ou costume. (Vieira) – Abrigo é quase o mesmo que asilo. (Dic. descerrar. – Entreabrir é “abrir pouco e com cuidado. ou na casa de alguém”. – Homizio é “valhacoito procurado por criminoso perseguido da justiça”. – Guarida é propriamente a cova ou covil onde as feras se recolhem contra a chuva ou a tormenta. – Resguardo é “defesa... foi afinal ter na casinha do pobre fácil resguardo contra a tormenta”. (Cardoso) “Por isso Tertuliano chamou judiciosamente à sepultura asilo. – Coito (ou melhor. e hoje quase todos parece que preferem empregar acolhida. entreabrir. Acolhida é..

separar uma da outra margem. abre-se uma porta para que alguém entre. “Nunca se divorciou da religião de seus pais”. e na acepção lata é “separar definitivamente”. cada qual para o seu lado. Tanto que não se diria. um pacote de biscoitos. e de modo mais preciso. ou as partes de uma coisa umas das outras. “desunimo-nos ao chegar à vila”. separar. em geral. uma gaveta. duas ou mais coisas. sirtes. por essa abertura desimpedida. (Aul. alfaques. “de lés a lés”. separa-se uma coisa da outra. ou um lado do caminho do outro lado. ou no seu lugar. – Distanciar é “afastar muito as pessoas ou coisas que se separaram”. Cachopos são penhascos que saem fora d’água. associadas. distanciar. amigos que se separam para sempre.. destruindo portanto a unidade ou o todo desmembrado. separam-se os bons dos maus. a ideia de soltar. escancara-se a gargalhar. portanto. soltar.) Abre-se a boca falando. mas veria distintamente quem estivesse dentro da casa. escolhos... segundo a lei”. desmembrar. porque em tal caso já não se trata só de “separar as margens”. – Quanto às quatro primeiras do grupo. apartar. – Afastar é “pôr uma longe da outra as coisas que se desuniram ou separaram”. portanto. unidas”. cachopos. e que impedem ou dificultam a navegação. Dizem os etimologistas que cachopos é corrupção de scopuli “rocha”. Divorciam-se colegas. recifes. desligar. – Desligar é antônimo de ligar e diz. e é só neste sentido que se diz – “abrir caminho”. Desune-se um casal (separando um do outro esposo). “Fazem tudo por divorciar-me do meu partido”. afastar. separa-se a Igreja do Estado: em regra. soabrem-se os lábios num ríctus imperceptível. – Separar diz propriamente “pôr. e significa. – Abrir. é “afastar uma coisa da outra”. já não se emprega o verbo abrir. Em referência a caminhos de ferro. quase sempre junto das costas.” Separa-se o trigo do joio. coisas que haviam sido incorporadas ou ajuntadas. o mais possível. – Desmembrar é desunir ou “separar por membros”. sendo elas distintas e indicando coisas diferentes. – Todas estas palavras designam acidentes ou situações no mar (ou nos rios). diz Roq. fare- lhões. – Divorciar é. separar “o que estava unido. desunem-se famílias que viviam em perfeita união. Abre-se uma janela para falar com alguém. aqui. Mesmo quando se abre um caminho não se faz outra coisa senão. que “os autores as têm confundido. – Desprender ainda exprime com mais força. separar por sentença. ligadas intimamente. ligado. 61 ABROLHOS. baixios. tratando-se particularmente do vínculo conjugal.. parcéis. divorciar. “separar o que estava ligado”. eliminando os embaraços que se acharem entre uma e outra. alguma outra coisa”. baixos. desatar. pois o verbo desunir só se deve aplicar quando se trata de coisas que tinham sido enlaçadas. 60 ABRIR. restingas. Abrir é “remover alguma coisa da abertura que está ocupando (fechando) de modo que deixe passar. mesmo que nunca tivessem sido unidas. desunir. entreabrem-se os lábios a sorrir. Abre-se uma caixa. – Desatar é “deixar livre uma coisa que estava presa por nó”. por exemplo. – Soltar enuncia a ideia geral de “libertar coisas que estavam juntas ou presas umas a outras”. banco. e onde rebentam as ondas. desunem-se. – Apartar é “impedir que continuem. desunem-se mesmo povos que eram amigos. desprender. Abrolhos é voz usada em sentido transla- . – Escancarar é abrir completamente. por exemplo: “desunir os bons dos maus”.. “desunir. apertado”. duas ou mais coisas ou pessoas. – Desunir é antônimo de unir.48 Rocha Pombo ta entreaberta um homem não passaria.

: “Baixos é palavra genérica.. – Abrupto difere de alcantilado e de íngreme em ajuntar à noção de “flanco a pique a ideia de áspero. às vezes. por isso que se espraia largamente (chamando-se também por isso esparcelados). “a encosta nua de um monte que fica vertical. se é tal o declive que torne penosa a decida ou a ascensão. quase empinado”. para onde a corrente arrasta as embarcações. mesmo muito íngreme. ou menos a pique do que alcantilado. Mas absconso e abscôndito já não seriam aplicáveis propriamente senão em sentido moral ou abstrato. de rocha ou de coral. – mesmo porque escondido. e têm a circunstância de prolongar-se. e designa o fundo do mar onde há pouca altura. Deve aplicar-se particularmente a coisas materiais. Escolhos são aqueles penhascos que estão debaixo d’água e não se descobrem bem: donde resulta serem mais perigosos que os cachopos. andam assinalados nas cartas marítimas”. no que se distinguem dos parcéis. encoberto. “a escondida intenção de levar-me à forca”. O alfaque é breve e fundo. – Recifes (ou recife. ocul- to. que são baixos iguais. onde não há fundo para navios de grande calado”. por espaço de muitas milhas. como parece.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 49 to para indicar aqueles cachopos que formam pontas como a planta chamada abrolhos ou estrepes. escabroso”. escreve Lac. São menores que os cachopos. Mesmo de uma ladeira pode dizer-se escarpada. retruso. e pelo perigo que perto deles correm os navios. – Aprumado = “talhado a prumo”. por falta de altura de água. conserva alguma coisa da sua função de particípio. – Restingas são baixos de penhascos. Farelhões são “escolhos pontiagudos.. escarpado. até a penúltima. – Escarpado diz “íngreme e difícil de subir”. um monte. ou pelo menos não seja fácil encontrar”. – Sirtes são baixos de areia movediça por entre penhascos. são baixios ou bancos de areia ou de pedra. sem dúvida. ainda empregado como adjetivo. empinados acima d’água. ladeirento. – Ladeirento = “disposto como em ladeiras. uns contíguos à terra.. aprumado. – Quanto às palavras que se seguem. secreto. escondido. – Absconso . mas com a circunstância de serem desiguais e muito fundos. e tanto pode aplicar-se a um cume de monte como a uma encosta que seja tão íngreme que pareça levar como verticalmente ao pino do monte... Baixios (prolongamento de baixos) são bancos de areia em que. onde se corre. “as grandes verdades escondidas ao vulgo”. mas o parcel tem pouca altura. abscôndito. Uma ladeira. – Absconso e abscôndito não são apenas. mas pode navegar-se. ou de areia. Alcantilada é. inclinado. 62 ABRUPTO. alcantilado. – Alfaques. pois não seria próprio dizer: “os escondidos desígnios de Deus”. clandestino. e também arrecifes) designa “rochedo ou série de rochedos pouco destacados da água e perto da costa embaraçando a navegação”.. e por isso perigosíssimos”. pode-se subir”. ou quase a prumo. cobertos de água. e por onde não se poderia subir ou descer sem grande esforço ou sem artifício”. outros formando ilhetas: e por sua grandeza. formas eruditas de escondido. não se pode navegar sem risco. e de impossível ou muito difícil acesso. por exemplo. ou contíguos à costa. de modo que não seja possível. e por isso ali tocam os navios. – Íngreme é “menos inclinado. empi- nado. conforme a origem arábica. risco por causa da pouca altura de água. – Empinado é o menos preciso destes cinco vocábulos. íngreme. 63 ABSCONSO. – Banco é “cômoro ou elevação mais ou menos extensa de areia. recôndito. Este diz precisamente “posto fora das vistas.

faltando à lei. nada disso. Também se dá o nome de despotismo à forma de governo em que o monarca não tem de obedecer a nenhuma lei. a ideia de concentrado e profundo. retraído às vistas. nem confessamos. os cabedais ocultos no seio da terra”.. “O trabalho secreto dos conspiradores. – Clandestino é “o que é secreto e contrário à lei”. só porque governa como senhor absoluto. porque fica “como em segredo e reservado a alguns”.. deixaram-nos sempre cuidadosamente encoberto aquele intento”. ou “a coisa que não podemos ver. os acordos secretos. É agora tomada como enunciando a ideia de um excesso de poder político degenerando em dureza de mais rigor que o despotismo. Deve aplicar-se a coisas materiais. . escreve Roq. não obstante ser permitida. Quanto a estes dois vocábulos. até que passasse o perigo”. chamadas leis do Estado. misterioso. em Marrocos. despotismo. tirania. Secreta é uma junta quando secretamente se celebra. e é clandestina quando se faz às escondidas. quer dizer. diz ainda abstruso. militarismo. “Lá esteve tímido e retruso. “O sol ficou oculto pela árvore ou pela nuvem. é o caso omisso que o monarca faz das leis que deve respeitar: quando o absolutismo oprime. aquele. e chama-se clandestino quando o celebramos às escondidas sem observar as regras que prescrevem as leis canônicas.. as operações. porém. por qualquer motivo que nos é pessoal. “Nestes últimos tempos” – escreve Roq. além de oculto. Os avisos. – Recôndito exprime “escondido muito longe. que é clandestino vem a ser secreto: este é lícito. e em certos casos figuradamente. – “tem-se dado tanto o nome de tirano como o de déspota ao rei absoluto. – O absolutismo (diz Bruns. como. e é clandestina quando se verifica clandestinamente contra o expresso mandado da lei. as maravilhas secretas da natureza. porém. humilhado. retruso e hostil. e podendo aplicar-se tanto em sentido moral como físico. persegue e atormenta. 64 ABSOLUTISMO. não”. oculto. “O tempo. virtudes eminentes. de onde pôde dar o bote certeiro”. depois esgueirou-se para um ponto recôndito do parque. – Oculto é simplesmente “furtado às vistas” de qualquer modo. o horizonte está encoberto. O absolutismo é chamado autocracia ao falar-se da Rússia”.) “é a forma de governo monárquico em que o poder é exercido pelo soberano. as quais velam pela vida. devido à interposição de algum corpo opaco entre essa coisa e a nossa vista”. os ocultos desígnios da Providência. haveres e liberdade de todos os súbditos. as intenções ocultas do mouro. caudilhismo. o secreto processo. repulsado à força”. – Tirania é palavra que tem hoje significação diferente da que teve em tempos idos.. tudo.: “Uma coisa é secreta quando ninguém ou poucos a sabem ou conhecem. se estende ao despotismo. converte-se em despotismo. – Recôndito e retruso aproximam-se. Chamamos casamento secreto ao que. não declaramos. ou a secreta vida das abelhas. Com o absolutismo podem conciliar-se intenções retas e benéficas.50 Rocha Pombo ajunta à significação de escondido. esse poder é limitado por leis. por exemplo. – Secreto se diz do que fica mais que oculto. ou procurando violá-la sem que ninguém o conheça. retirado muito para a profundeza”. – Encoberto é o que ficou oculto. o sol. “O abscôndito espírito de Deus era sentido ali no oceano”. ditadura. dados ou feitos por um ministro”. o céu. “Absconsos intentos da majestade em furor”. num canto da sala. Disto resulta que nem tudo o que é secreto é clandestino. autocracia. e ainda às vezes negamos. “Ficaremos para sempre no sertão. recônditos e humildes nesta miséria”. “O mísero ali ficou. assim como abscôndito. O despotismo é o abuso do absolutismo. – Retruso diz “posto para o fundo.

cabal. ou de tal artigo de uma lei. parecer. irredutível. não somente o opressor. pretende que ante ele se observe uma postura respeitosa. quer. positivo. senão nos atos dos que governam. – Arrogante é o que se impõe “com soberba e altivez. sobretudo. – Caudilhismo é adaptação do antigo espanhol (de capdillo “capitão”) para significar o regímen político caracterizado pelo predomínio de chefes de bando em certos países da América. declaração definitiva”. 65 ABSOLUTO. acima de contingências. clama. Dizemos: “forma imperativa da lei. definitivo. ponto secundário: o que ele quer é a execução efetiva e completa do que decidiu. arrogante. – Irredutível apro- . senão o dominador”. ou tomara uma atitude imperativa” e: “fez um gesto. que não admite réplica. que ordena.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 51 o que é um grave erro. imperativo. senão na aplicação delas. Tirano por conseguinte é o opressor. Quem é imperioso quer. ordena de modo que não deixa lugar a dúvidas ou observações”. Sentimos bem nitidamente a distinção destas frases: “fez um gesto. tirano e déspota. ou uma corporação. ainda quando seja seu igual na sociedade. – Em sentido amplo. basta ter presente que tirano é aquele que oprime a outro. permanece inabalável nos seus propósitos. categó- rico. que não deixa lugar a dúvidas”. Quando se diz que uma pessoa. extremamente exigente neste ponto. – Categórico diz o mesmo que “precisamente definido. quer-se dizer que ordena mais com arrogância do que com autoridade. inapelável. sentido imperativo de uma frase” (e não: imperioso). – Ditadura é um regímen excepcional que se caracteriza pela concentração de todos os poderes políticos do Estado nas mãos de um chefe. déspota. – Militarismo é o sistema em que o poder político é exercido por chefes militares. A tirania e o despotismo não estão nas instituições. etc. que o não contradigam. resolve. exprime-se que essa corporação ou pessoa tem competência e autoridade para dispor ou determinar. exige. ou tomara uma atitude imperiosa”. imperioso. decisivo. absoluto significa “fora de contraste. dúvida ou contestação. que é definitivo. aquele em quem se reconhece um direito indisputável de mando. como quem se presume forte e ufano da sua força”. – Sobre absoluto e imperioso. Para compreender. – Definitivo = “que explica. e déspota. Imperioso equivale a “que se impõe. Entre imperioso e imperativo só existe a diferença marcada pelos respetivos sufixos. tomados num sentido restrito. – Decisivo equivale a “que põe termo a toda dúvida. ou que se funda na supremacia da força armada. pode não o ser tanto no que toca à execução efetiva das suas ordens”. e que. pois. obriga aos demais a fazer o que não devem contra toda a razão e justiça. terminante. peremptório. que exige com império”. não na forma de governo. determina ou dispõe imperativamente. para o homem absoluto. e quaisquer que sejam as observações que lhe façam. se aprovam ou não a sua conduta é. incondicional. não sujeito a contrariedade. com exatidão a diferença que existe entre as duas palavras. intento. quando se diz que dispõe ou determina imperiosamente. valendo-se do dito direito. nem lhe façam observações. livre de embaraços de qualquer natureza”. porque tão tirano e despótico pode ser o governo de um como o de muitos cônsules. “Opinião. atitude.: “Quem é absoluto quer ser obedecido. seja legal ou de força. pois ajunta à significação deste vocábulo uma ideia de excesso de orgulho com que se manda. É mais do que imperioso. ou que não muda de resolução”. escreve Bruns. e que lhe deem provas de deferência e submissão. claro”. ou acidentes ou mudanças imprevistas.

que se afasta de outro som. Remitem-se culpas. desafinado. deixar como se não existisse. dívidas. – Desentoado é o que está “fora do tom próprio. Tanto quem escusa como quem tolera supõe-se que tem alguma superioridade sobre aquele a quem aproveita a escusa ou a tolerância. anistiar. remitimos a dívida. ou a qualquer castigo. desarmonioso. do que havia direito a exigir. Confunde-se. renunciando a qualquer desforra. discrepante. toado. tribunal inapelável. Remitir é desistir em todo. – Ábsono diz propriamente “que discrepa. – Quanto aos três primeiros destes vocábulos. – Indultar e agraciar dizem aqui mais particularmente “conceder perdão de crime de alta gravidade”. convindo notar o seguinte: dissonante diz apenas “que não está de acordo com o som que se quer. destemperado. portanto. de desarmônico. só o soberano ou o órgão legítimo da soberania nas repúblicas é que anistiam.” Entre remitir e anistiar há esta diferença. “que não admite outra solução”. destemperado. acima de eventualidades”. e suspende a execução da justiça”. decisão. discordante. – Desarmônico é o mais geral: exprime “que não faz harmonia ou acorde. ou que era preciso seguir”. terminante. o mais próximo de ábsono: exprime não só destoante. ou não tivesse sido perpetrado. escreve Bruns. e significa “esquecer. – Malsoante diz propriamente “que soa mal”. é convizinho.: “A remissão é concedida por quem cede dos direitos que lhe competiam acerca de alguma coisa. desafinado.. ou que não se associa a outro som para formar harmonia”. não cede do que resolve. direta do grego. remitir dá uma ideia de resgatar. que não está . Quem indulta ou agracia exerce função soberana. ou em parte. destoante. 67 ÁBSONO. – Peremptório = “que completa e decide. malsoante. de que se não pode apelar”. compete ao príncipe e ao magistrado. Perdoar é esquecer uma ofensa. fica fora de hipóteses. desculpar. ou não faz acorde com outro som”. discrepante. pensa. portanto. discordante. “imperativo”. ou a falta cometida”. ou de redimir. completo”. Este verbo dá também a supor que a pessoa a quem se faz a remissão tem certas condições que a tornam credora desse benefício. pecados. – Anistiar é adaptação moderna.52 Rocha Pombo xima-se aqui de decisivo: diferençando-se deste em sugerir também a noção do grau de força ou de capacidade com que a coisa ou pessoa irredutível não altera o seu modo de ser ou de agir. 66 ABSOLVER. – discordante é “o que se não põe ou não está fiel ao acorde. perdoar. não sujeito mais a dúvida ou a nova resolução” – Cabal = “pleno. e tanto que. Despacho. mas sugere ainda a “ideia de muito afastamento do som que convém ou da harmonia dominante”. ou do som conveniente”. dissonante. – destoante é o que não condiz com o “tom próprio. – discrepante é. etc. diz Alv. escusar. discordante. do grupo. – Terminante diz propriamente “que põe fim”. agraciar. o crime político”. destoante. ou com a regra estabelecida ou vigente”. perdoamos a pena. juiz. não se submete a continências. – Desculpar diz propriamente “relevar a culpa.: “Absolver é desligar o culpado dos laços que o prendiam. acabado. e dá prova mais de misericórdia que de justiça. desen- indultar. Pas. com outros do grupo: dissonante. desarmônico. Absolvemos o acusado. – Escusar e tolerar sugerem a ideia de “deixar que passe a falta sem puni-la”. – Descriminar equivale precisamente a “absolver de crime”. – Inapelável = “de que não há recurso. de acordo com Roq. quer. acerca de remissão. – Incondicional é “o que se não sujeita a condições. remitir. descriminar. tolerar.

– Desafinado exprime “que não está no tom próprio. “A ação de consumar – diz ele – não destrói em vão como a de consumir. 68 ABSORVER. ainda que o primeiro designe antes a ação de completar.). A consumação serve para a reprodução. tragar e comer escreve Roq. em regra. aspirar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 53 igual ao som dominante”. – Desarmonioso é o mais geral e absoluto do grupo: não precisa. Distingue-se deste por incluir. chupar. distingui-los precisamente. pois não se supõe que a esponja faça esforço em chupar a água. – Beber é “engolir líquidos”. além disso.) do latim sugere. que não tem harmonia.: “Comer vem de comedo. rapidamente”. não sendo fácil. por tragar ou aspirar. consome-se uma certa matéria”. porque em absorver há. A consumpção não serve para nada. destacando porções”. – Engolir exprime simplesmente a ação de “levar ao estômago”. – Sobre devorar. devorar. – Consumir acrescenta à noção de absorver a ideia de “extinguir lentamente. Diremos que “o oceano engole (e não – deglute) a embarcação”. julga os dois verbos como quase perfeitos equivalentes. Nos tempos coloniais dizia-se no Brasil “beber fumo”. ou a voz desafinada não faz harmonia perfeita. – Sorver diz também “beber aos sorvos” (Aul. ou uma voz pode ser desarmônica sem ser propriamente desarmoniosa. – Comer é quase o mesmo que consumir. de perfazer. fazer que desapareça”. de gastar (user). – Absorver designa a ação de “consumir pouco a pouco. sem mastigar”. ‘No mar quase toda consumação se faz em proveito da reprodução’ (Buff. etc. – Tragar é “beber aos tragos e tomando bem o sabor. – Entre engolir e deglutir pode notar-se diferença análoga. – Chuchar parece a alguns uma simples forma popular de chupar. No meio de um tumulto a palavra ponderada é desarmônica (isto é. e o segundo a de destruir. o fumo. tragar. tomaram-se outrora indiferentemente um pelo outro. mal engole caldos”. por outro lado. consumar. o que nem sempre se dá em relação a chupar. Sobre consumir e consumar diz Bourguig: “Consumar e consumir. a ideia de esforço. pelo nariz ou pela boca. latino. deglutir marca. ou que está completamente fora do tom: é mais que desafinado. beber. muito mais próprio dizer-se: “O doente não tem mais forças nem para deglutir alimento sólido. ou de “deixar que vá ao estômago. enunciada pelo prefixo ab. o ar. engolir. comer. O morcego chupa o sangue aos outros animais. a ideia do esforço com que se engole. atrair líquido quase sempre com esforço”. a voz. enuncia a ação de “mastigar e engolir”. A abelha chupa o mel. e significa mastigar e engolir . mas não marca a ideia de desligar de todo as partes que vão sendo sorvidas. que é desordenado em si mesmo e fora de toda conveniência”. – Aspirar é “atrair aos pulmões. engolir sofregamente. que não se afina convenientemente”. A esponja chupa a água. mas outros o derivam (como Aul. deglutir. com a significação que têm aqui. ou ao fundo”. Laf. – Sugar é equivalente de chupar. e até muitas vezes não faz senão causar prejuízo. chu- char.” Só se aspira matéria gasosa. consumir com avidez. –” Devorar é “tragar. O instrumento. – Destemperado é o que desafina de todo. não afina pela desordem que aí reina). Um som. de adjunto completivo: enuncia “que não faz acorde. E tanto que dizemos: “o mar sorveu o frágil batel” (não – absorveu.). sorver. ou o instrumento destemperado desordena de todo a harmonia. que significa igualmente chupar. – Chupar = “sorver. cujo sentido próprio é acabar. Assim consuma-se um ato. ideia de esforço para consumir separando por partes a coisa a absorver). e rigorosamente. É. sugar. consumir.

– Extático diz “absorto. embebido.54 Rocha Pombo alimentos para sustentar-se. insensível a tudo que está em torno”. (Souza. admirado. diriam exatamente o mesmo que extático e extasiado. de medo. (Feo. Estático exprime “parado. estatelado. enlevado em êxtase”. meditativo. Lus. impressionado. respeito etc. arrebatado “de grande admiração e como em esquecimento de si próprio”. (Cam. metido nos poros: a esponja embebe-se do líquido.. extático. Da boca do facundo capitão Pendendo estavam todos embebidos. e arrebatados em Deus”. 69 ABSORTO. e no entanto diferençam-se assim: meditativo quer dizer – “dado. o mais usual destes termos. maravilhado. III) – Embebido significa. – Meditativo e meditabundo parece que têm a mesma significação. silencioso e melancólico”. – Abismado diz mais que assombrado. apreensivo. – Sobre admirado. enlevado. V) Homem arrebatado em Deus. arrebatado. significa comer ou tragar com voracidade ou sofreguidão”. . c. (Aul.) “Saiam como fora de si. distração. mas no sentido em que aqui se toma quer dizer – profundamente atento. – Arroubado significa “arrebatado de altas emoções ou de sublimes pensamentos”. – Pensativo está ou fica por momentos quem “pensa ou parece pensar só nalguma coisa”. ouvintes embebidos etc. preocupado. e devorar.”.. distraído. – Extasiado “o mesmo que absorto e em pasmo”. “Eis que no meio da Missa fica subitamente arrebatado”. c. meditar em graves coisas”. de pressentimentos. a ponto de ficar como maravilhado da vista dessa pessoa. assombrado e abismado escreve Bruns.. é o de menor significação. imóvel como estátua. delíquio ou inanição.” Assombrado é “muito admirado”. latino. ou da contemplação de suas qualidades. de suspeitas”. amante enlevado num falso parecer. grego (τρώγω) e significa engolir sem mastigar.. tragar vem de trogo. de desconfiança. etc. – Preocupado ajunta à noção de impressionado a ideia de “pungido de cuidados”.: “Admirado. abismado. meditabundo.: “Arrebatado usa-se não poucas vezes para se exprimir um deleite mental ou corpóreo. d’enlevado. Num falso parecer mal entendido. nas qualidades ou promessas de qualquer pessoa. pensativo. embebido e arrebatado escreve Alv. – Impressionado diz propriamente “sob a tortura de impressão de dor. meditabundo diz mais “pensativo e triste”. e numa concentração de todo o espírito num assunto”. ao pé da letra. Pas. – Contemplativo é “absorto em coisas místicas”. que está “solitário.. extasia- “tinha embebido em si a doutrina do Apóstolo” (Feo).) – Estático e estatelado. e do. – Apreensivo significa “tomado de cismas. de devoro. – Sobre enlevado. – Maravilhado diz mais que os três precedentes: ajunta-lhes a ideia de “grande surpresa e admiração que nos abalam e deixam em pasmo”. E casar-se com ela. abstração. contemplativo. ficamos admirados ao ver o que não esperávamos. – Absorto exprime: como que “fora da consciência. estático. que ama o afastamento.. se só os olhos pudessem julgar. que vive ou está “como se tivesse a alma toda voltada para fora do mundo sensível. arroubado. propenso a refletir.) – Enlevado exprime a nímia confiança que se põe num parecer. dando porém a entender que a causa desse estado é algo que impõe medo. (Cam. pois nos representa como “caídos em abismo de que não se sai”. Lus. assombrado. abstraído (abstrato). Estatelado acrescenta a estático uma ideia de esvaimento. tão intenso que chega como a alienar-nos.

e assim dizemos: Este homem está sempre abstraído em seus estudos ou meditações. de dentro para fora. O espírito do abstraído está longe do que vós lhe dizeis. Falamos em abstrato quando o fazemos com separação de qualquer coisa. a da distração é exterior”. No cabedal das línguas cultas ocupam um lugar muito importante as palavras que representam ideias abstratas. e não que nos abstraiu. daquilo de que se trata. escreve magistralmente: “Encerra-se nestas duas palavras a ideia comum de falta de atenção. abstraído e abstrato. há verdadeira e notável distinção entre as duas palavras. abstractus “tirado. em vícios. abstraídos nelas. como a matemática. Diz-se de um homem que está distraído no jogo em amores. pois a abstração se exerce de fora para dentro. segundo a expressão de Bossuet. e designa a operação do entendimento por meio da qual desunimos coisas que na realidade são inseparáveis. e a filosofia. ocupando-se ele tão fortemente com estas ideias interiores que só atende às coisas que elas representam. servindo-se de uma por outra. ocupando-se. como uma ocupação contínua. – Sobre distraído. chamam tanto a atenção dos que as estudam que. e de repente entra uma pessoa. achando-nos no mais profundo desta abstração. como o resultado de um caráter particular. O homem que se aparta do trato e comunicação das gentes. diremos que nos distraiu. – Abstração é. A palavra abstrato usa-se quando a aplicamos às coisas. nos fere repentinamente os sentidos qualquer objeto exterior. abstração e distração vejamos Roq. em conversação consigo mesmo. para podê-las considerar cada uma em particular sem dependência nem relação com as demais. Alv. por assim dizê-lo. Se estamos engolfados em nosso estudo solitário. separando-nos da abstração. a metafísica. – Sobre abstraído e distraído lê-se em Laf. Enfim. e dizemos abstrair-se quando nos alheamos dos objetos sensíveis para nos entregarmos aos intelectuais. que o fazem abstraído. Uma imaginação abstraída só à sua própria ideia atende como se não houvesse outras. e. Uma palavra casual nos leva insensivelmente de um objeto exterior a outro interior abstraindo-nos inteiramente daquele. e na consideração de suas abstrações. que significa – separar ou arrancar uma coisa do lugar em que está ou supomos estar. e é um novo objeto exterior que faz o . a que procuramos voltar bem depressa”. atraído para longe de”. de diversos lados ou para diversos lados”. distrai-nos. o espírito do distraído é instável. fixando-nos nela com exclusão de todas as outras. são indiferentes e como insensíveis aos objetos exteriores. pois.: “A palavra abstração vem da latina abstrahere. Em nosso entender. o pensamento do indivíduo. por concentrar-se. olhamos a abstração como uma coisa habitual. Querem alguns que distração seja diversão do pensamento de todo objeto exterior para atender aos interiores. de cuja definição resultará que haja pouca diferença entre as duas palavras. Pas. ele está à mercê de todas as impressões. mas com esta diferença: que são as ideias próprias. evaporado. e abstraído quando a referimos às pessoas. e a distração. distractus “atraído de um lado e de outro. incapaz de aplicar-se ao que quer que seja. A causa das abstrações é antes interior. ou se faz um ruído forte. mas quando. ao contrário. distraindo-se de suas obrigações.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 55 pela visão interior vendo o que os olhos não têm a faculdade de ver”. uma como alheação do homem concentrado naquele objeto interior que o tira como de si mesmo. A distração é momentânea e como passageira. abstrair-se nisto. ele deixa vagar seus pensamentos. e sendo estas o objeto das ciências mais elevadas. corresponde à linguagem metafísica. porém. distraído. e comumente de distraído por abstraído.: “Abstraído. merece o nome de abstraído. dissipado. por assim dizer.

– Polido e brunido aproximam-se. Cândidas al- . pois temos desgosto e ainda pena de nos vermos privados daquilo que muito desejamos lograr. reluzente.) As distrações pertencem mais aos espíritos levianos e às crianças que se distraem com lindos nadas. silencioso e solitário para o comércio divino”. ora está em Roma no meio da praça de S. As abstrações são mais próprias dos homens dados a meditações. acrescenta à ideia de alvura a de pureza e imaculidade. estando a contemplar um objeto. nem desejamos. ou que nos é indiferente. polido se diz de tudo a que se deu polimento. e atrai a sua atenção. Para o que prefere sua saúde aos prazeres. atendemos a festins etc. – Escreve Roq. de cândido. (Bern. Ficamos abstraídos quando não pensamos em nenhum objeto presente. “A força da oração o abstraiu deste desterro”. porém o homem de razão abstém-se dele quando sabe que lhe é nocivo. caso raro é que se prive de vinho. 71 ABSTERSO. É difícil que não fiquemos distraídos quando. ainda melhor que alvo. porém. 70 ABSTER-SE. ouvimos do lado uma coisa interessante. quando. quando. – Vemos que abstinência supõe que podemos gozar de uma coisa. terso. escutamos outro diferente. privar-se. como dizemos: “Linguagem tersa. nos privamos das coisas que conhecemos. cit. Podendo o bêbado beber. – Cândido. – Alvo e branco se confundem. a estudos profundos. Vicente de Fora. que a desvia do objeto a que ele a tinha aplicado. mas. nitidez e brilho. limpo. fúlgido. que nos agradam. mudamos a atenção para outro diverso. abstraído. “Os abstraídos meditam muito e falam pouco. dados a nossas ocupações. abstinência. luzente. Refulgente é um reforço de fulgente. – Fúlgido é o “que fulge de si mesmo”. ção. límpido. mas a distinção entre os dois consiste em que alvo ajunta à noção de branco a ideia de puro. quando. alvo. nos entretemos com o nosso próprio cogitar. priva- que gozamos ou queremos gozar. recolhidos conosco. Dizemos: “O aço já terso da ferrugem” (Fil. estando a ouvir um discurso que se nos dirige. brilhante. luzido. a abstinência é também privação. mas para o que prefere os prazeres à saúde.: Abster-se exprime a ação sem referi-la ao sentimento que pode acompanhá-la. A privação é de ordinário forçada. lúcido. nítido. com dificuldade. Elys. ou as antiguidades de S. imaculado. fulgente. Pedro. e pena de não poder gozar dela. Tanto se aplica em sentido natural como em translato. e tanto na acepção moral como na física.). a abstinência não é na realidade privação. admirando as belezas da Ajuda. Fácil nos é abster-nos do que não conhecemos nem amamos. e este significa “livre de manchas. brunido. e os distraídos meditam pouco. brunido se aplica mais propriamente ao brilho que se dá aos metais. sem ser pelo brunidor. mas que por certas razões dela nos abstemos. e falam muito. refulgente. e perdem o fruto das conversações”. (Cardoso) Ficamos distraídos quando. – Brilhante exprime “muito polido e luzente: que tem grande brilho”. delicado. quando estamos numa parte e o pensamento noutra. escutando um discurso enfadonho. Aul. nitente. branco. – Absterso é como um redobramento de terso. e assim se entende ser voluntária. privar-se supõe apego à coisa. polido e lustroso”. estilo absterso e brilhante”. lustroso. polido. “Devem guardar o coração desempenhado. Uma pessoa abstraída tem o espírito muitas vezes a grandes distâncias: ora está em Lisboa em frente da estátua equestre. isto é.56 Rocha Pombo homem distraído. ouvindo tal orador no palácio das Cortes. luzidio. fulgente é o “que está fulgindo ou sendo brilhante no momento”.

sóbrio.) – Parco diz mais que sóbrio: é aplicável ao que é “pouco abundante. opu- lência.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 57 mas de crianças. ou instantânea e fugaz.. – Continente designa “o que tem a virtude de sofrear os impulsos. brilhante. Exemplos: “Nítidas frontes fulgem do meio da turba”. curto. nitente diz. – Lustroso confunde-se com brilhante. luzente quer dizer – “que espalha luz em torno”. diáfano. reluzente é forma redobrada de luzente. o que se mostra moderado em todas as funções. como lustroso restringe ao que se lustrou ou poliu a qualidade que enuncia. Luzido acrescenta à noção de polido. – Frugal é propriamente o que se nutre “só de frutas”. um ponto luzidio no escuro da floresta. temperado. propriamente uma qualidade (como se dá com abstinente) mas um estado. “Nitentes florações nos trouxe a primavera”. a ideia de esbelto. está temperante no mesmo caso: significa “moderado nos apetites. Não seria próprio dizer. discriminado. terso. Cândido livro. – Nítido ajunta à noção de limpo. mas nem tudo que é abstrato é abstruso. portanto: “lustrosa estrela”. particularmente no comer e no beber”. frugal. a ideia de brilhante. cuja relação não é possível descobrir nem seguir. – Luzido. – Abstinente é aquele que se abstém de alguma coisa por necessidade de consciência ou por sentimento de dever. continente. reluzente. 74 ABUNDÂNCIA. lustroso. medir as suas palavras e ações de um modo conveniente”. Tudo que é abstruso é abstrato. convindo notar-se que abstido deve aplicar-se ao que. quase tacanho e avaro”. Um tratado sobre o entendimento humano precisamente deve ser abstrato. temperante. – Límpido acrescenta à ideia de terso e puro a de lustroso. É preciso notar-lhes. – Segundo Roq. é “o que só toma o alimento indispensável. se abstém de alguma coisa: não designa. luzente. e abstrusa dizemos que é a ciência da geometria transcendental. principalmente quanto a bebidas que embriagam. reduzido. – Sóbrio coisa abstrata é difícil de entender porque dista muito das ideias sensíveis e comuns. além de limpo – “correto. a lúcida visão do gênio. uma abstido. e em sentido geral. – Comedido significa “que sabe regular. abóbada ou esfera luzente. alguma diferença marcada pelos respetivos sufixos. as inclinações da própria natureza”. 73 ABSTRATO. moderado. no entanto. mas. (Aul. airoso. no entanto. riqueza. parco. fartura. luzidio diz propriamente – “que é semelhante ao que brilha”. “no momento”. não só este é mais intenso e complexo. – Abstêmio é o que se abstém de excessos na mesa. lúcido confundem-se muito. apesar do esforço extraordinário que nossa inteligência faça para consegui-lo. cheio de luz. olhos reluzentes de cólera. brilhante como a própria luz”. O primeiro. luzidio. 72 ABSTINENTE. e por extensão “o que se satisfaz com pequena quantidade de alimento”. e no uso dos bens da vida”. diáfano. comedido. – Moderado e comedido muito se aproximam. – Abundância (do latim abundan- . abstruso. portanto. abstêmio. – Limpo diz – “livre de impurezas”: é o mais genérico do grupo. – Abstido é quase o mesmo que abstinente. vistoso”. Num sentido mais restrito embora. designa “uma qualidade mais forte e que parece depender de mais esforço e energia moral”. Dizemos com propriedade: luzidos batalhões. lúcido é o mais forte da secção: diz – “claro. pequeno. Uma coisa abstrusa é difícil de compreender. que despede luz um tanto indecisa. porque depende de um encadeamento de raciocínios. pomposo. e muito menos a totalidade que deles resulta.

. conforme define Aul. Propriamente. – Opulência é a “riqueza com aparato e ostentação”. – “é sentimento de veneração religiosa fundado no temor ou na ignorância. A preocupação tira a liberdade do ânimo. A prevenção nasce de certas relações ou informações que nos deram. com a diferença que a preocupação reside particularmente no entendimento. patranha. ou de que alguém se persuade por ingenuidade.. f. da verdade. e a faz injusta. – Patranha diz – “grande tolice. convindo não esquecer que patranha parece significar que as mentiras ou as tolices se referem a assuntos de religião. ou por índole supersticiosa”. Podemos admitir ainda o preconceito da honra: não o prejuízo. – Crendice é. induz em erro. e o faz cego. de abundare. não permitem à nossa alma o conservar seu equilíbrio e sua indiferença. e que conduz geralmente ao cumprimento de falsos ou supostos deveres. prejuízo. de perfeito acordo com Aul. Dizemos: a superstição da honra. um respeito cego a coisas vãs. 75 ABUSÃO. ou sem conhecê-la. e cativa o pensamento. – Superstição – diz Bruns. As preocupações não são boas . – Todas estas palavras indicam ou sugerem defeito de consciência. um excesso de credulidade que turva a consciência ou faz calar a razão. “a superabundância de bens da fortuna e de coisas preciosas”. preconceito. fanatismo. – Fartura diz mais que abundância: significa “em quantidade tal que já excede ao que é suficiente”. preocupação. are) diz propriamente “em quantidade tão grande que satisfaz plenamente ao que se deseja”. Quem vive na opulência goza com ufania da sua riqueza. de que não saímos como por um capricho do nosso amor próprio. e que é. e que só aceitam os néscios”. à cega confiança em coisas ineficazes”. e que portanto nos impede de julgá-la de consciência”. de ab + undo. e pode estender-se mesmo a coisas que não sejam religiosas. A prevenção tira a imparcialidade do juízo. as quais. que não pode ouvir nem conceber outras contrárias.. – Quem vive na abundância não precisa de mais nada para viver. interessando-nos a respeito desse objeto. como diz Roq. f. e absurda e ridícula. – Acerca de preocupação e prevenção diz Roq. – Abusão é “falsa história. e que impede o ânimo de adquirir os conhecimentos necessários para julgar das coisas retamente.58 Rocha Pombo tia. A preocupação é o estado do ânimo de tal modo cheio e possuído de certas ideias. opinião que se tem de uma coisa antes de examiná-la diretamente. – Riqueza é. Confunde-se com preconceito. um gênero de petas. Aproxima-se-lhe peta.: “Estes dois termos exprimem uma disposição interior oposta ao conhecimento da consciência. superstição (superstitio. absorve-o. su- perstição. Quem viveu sempre na riqueza “não sabe o que é ser pobre”. O prejuízo parece mais um temor supersticioso. A prevenção é uma disposição antecipada da alma que a faz inclinar-se a julgar mais ou menos favorável ou desfavoravelmente de um objeto. prevenção. de superstare) é uma depravação do senso religioso. A preocupação nasce de alguma impressão viva e profunda que enche de seu objeto a capacidade do ânimo. do destino. portanto. peta. crença popular sem fundamento. Quem vive na fartura tem mais do que lhe é necessário. crendice. etc. impedindo de julgar sãmente.. de um objeto. – Prejuízo diz propriamente “juízo antecipado. do dinheiro. e a prevenção tem seu principal assento na vontade. mas este supõe que o nosso espírito “foi induzido a deixar-se dominar” da falsa noção que nos impede de julgar livremente. ou conto mentiroso com pretensões a coisa séria e verdadeira. a convicção assentada. ou caso fictício com que se engana. o preconceito parece mais a “suposta certeza”.

é romper a continuação ou seguida do fato com o que fica por fazer”. no entanto. intermitir. que se distingue de findar. Há prevenções justas e razoáveis: é mister examiná-las. Quem diz ultimar indica a ação de “chegar ao termo de uma coisa deixando supor que se havia começado e que se vai ou pode dar princípio a outra. “é um zelo cego e apaixonado. – “Cessar – diz ainda Roq. porque podem prevenir-nos contra o engano”. mas a operação com que se conclui”. e. findar. formal. e parecia terminar ou concluir já mais calmo. ultimar. portanto. Segue-se que em todos os casos em que se aplica findar pode aplicar-se acabar. – Finalizar. e fechar. do termo e fim a que chega. de entrar. sem indicar diferença alguma. de chegar. injustas e cruéis. etc. ao meio-dia acabou de correr. bem marcado. neste caso. terminar. Hoje se acaba minha fadiga. cessar. acabar é. – Entre findar e finalizar dáse uma diferença análoga. acaba de sair. levar ao fim (ao cabo).. finalizar. – Fanatismo. interromper. – Terminar é “ir ao termo. como que estabelecendo uma certa relação de ordem ou de seguimento entre a coisa que se ultima. ultimado”: o que se remata “tem termo preciso. senão puramente de uma ação que cessa. concluir. “acabar representa a ação de chegar ao termo ou fim de uma operação. para distingui-la. – Descontinuar é suspender o trabalho. “Finalizamos o trabalho com muita fortuna” (e não – findamos). mas ele continuou no mesmo tom veemente. fechar. – Acabar e findar têm muito íntima conexão. “Acabamos a nossa tarefa” (e não – findamos). e faz cometer ações ridículas. como se o que as faz houvera recebido alguma missão de Deus”. terminar. rematou a tremenda objurgatória com uma invetiva ultrajante”. esforço “para chegar ao fim”. portanto. Como as ações destes dois verbos são em geral inseparáveis. além de “ter fim” – chegar. quando a um aparte do ministro. “Findou o sofrimento da triste criatura” (e não – finalizou). mas a inversa não seria exata. porque não se trata diretamente de uma coisa finalizada e completa por meio da conclusão. descontinuar. que nasce das opiniões supersticiosas. Cessa-se por um instante. – Rematar. – é um termo geral. fechar podem confundir-se. que a toda suspensão de trabalho ou ação pode aplicar-se. Finalizar enuncia ação. rematar. o princípio que teve essa coisa. ainda que não seja por muito tempo. Findar é “ter fim”. rematar. parar. suspender. segundo o mesmo Roq. não somente sem vergonha e sem consciência.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 59 para coisa nenhuma: devem combater-se como inimigas da verdade. por muito tempo. para sempre. . não acaba de chegar. é pouco perceptível sua diferença. basta buscá-la num exemplo.. 76 ACABAR. e até pode ser que solene”. devendo notar-se. porém. e às vezes alguma outra coisa que se lhe pode seguir”. no qual o que se acaba seja precisamente a ação de outro verbo: Amanhã acabarei de escrever. seriam sinônimos perfeitos se não fosse a nuança assinalada na predicação daquele primeiro verbo: o que se fecha fica “resolvido definitivamente. e é nesta última acepção. ultimar. Em nenhum destes exemplos se pode usar sem impropriedade do verbo concluir. senão também com uma espécie de alegria e consolação. Ontem se concluiu o negócio. não a coisa concluída. – Segundo Roq. que findar enuncia simples fato em muitos casos em que acabar enuncia ação. Um exemplo: “Quando ouvimos aquela apóstrofe vibrante supusemos que o orador ia ultimar as graves acusações. Dizemos rematar quando queremos exprimir que se “pôs fim ou conclusão a uma coisa com um sinal próprio ou de um modo completo”. concluir representa a ação no deixar a coisa completa. concluído.

descomposto. e às vezes no mar. Perece um edifício. Diz-se mui urbanamente. quebrantado. combalido. acabar de ser”. mas o irracional não falece. – Interromper e suspender. curvado. nos naufrágios?! Todos os seres animados finam-se quando. inanido. quer se trate de duração ou de espaço. 77 ACABAR. gasto. nem morre7. à míngua. desfeito. nem se fina. perecer. Morre tudo quanto é vivente. esgotado. acabar de existir no mesmo instante”. arruinado.60 Rocha Pombo levar ao termo. finar-se. amofinado. nos incêndios. nos terremotos. – Morrer é acabar de viver. falece. macerado. – Fenecer é chegar ao fim do prazo ou extensão própria da coisa que fenece. – Falecer é fazer falta acabando. – Intermitir é “suspender ou interromper de momento a momento. e por sua desventura também muitas vezes perece. chegar ao limite”. acabrunhado. Morre o vivente. idoso. e por uma espécie de eufemismo. Muitas vezes se acaba a vida antes que tenhamos acabado a mocidade. nos cárceres. pagam o tributo à lei da morte. e não morre. ou morrer de todo. acabar. cansado. Falece o homem quando passa da presente a melhor vida. suspende-se alguma coisa quando “se a interrompe por algum tempo e a deixa pendente”. fenecer. nem se fina. Depressa se acaba o dinheiro a quem gasta perdulariamente. para indicar que vai baixando pouco a pouco até acabar. uma cidade. como descontinuar. e de um modo mui genérico. e não perece. 7 Figuradamente dizemos. O homem não morre só quando o prazo dos seus dias está cheio. – “Acabar – escreve Roq. abati- do. alquebrado. etc. debilitado. definhado. mudado. Fenecem as serras nas planícies. também as plantas morrem. – significa chegar ao cabo ou fim de uma operação sem indicar a conclusão. – Todos estes verbos significam “chegar ao fim”. avelhentado. “Intermite-se a aplicação de um medicamento quando sobrevêm acessos do mal que se combate”. ou há de perecer tudo quanto existe. e porque as plantas têm uma espécie de vida. expirar. de atuar. Descontinua-se quando “se deixa de prosseguir aquilo que é contínuo ou sucessivo”. acaba. fatigado. exaurido. ter fim. ou deixar de exercer por algum tempo função própria ou alheia”. prostrado. ralado. nem falece. mas morre muitas vezes às mãos de assassinos. quebrado. . consumido. mortificado. fina-se o homem. ou de se fazer sentir por intervalos”. extenuadas as forças. que um homem faleceu quando acabou seus dias naturalmente. – Parar significa “cessar. – Extinguir-se significa “fenecer. e sugere a ideia do desaparecimento da coisa que se extingue. enfraquecido. envelhecido. tratando-se de movimento ou de função”. do mesmo modo que diziam os latinos vita functus est. que a serra vai morrendo. Quantos têm perecido de fome. mas não se dirá que faleceu aquele que morreu na guerra ou às mãos do algoz”. alterado. – Perecer é chegar ao fim da existência. enunciam ação de “cessar. – Expirar é “render o último alento. cessar de agir. exausto. – Fenece a vida do homem muitas vezes quando ele menos o espera. dar o último suspiro. 78 ACABADO. perder a vida. falecer. nem falece (nem fenece). extinguir-se. cessar de todo. nos suplícios. – Finar-se exprime propriamente o acabamento progressivo do ser vivente. Perece. interrompe-se alguma coisa quando “se lhe corta ou suspende bruscamente a ação ou o modo de ser”. e às vezes por desastre ou infortúnio. exinanido. morrer. velho. de sede. demudado. “Para o relógio quando se lhe acaba a corda”. aliás. de inimigos ou de rivais. acurvado. Morre. Acaba ou fenece a serra. extenuado. aniquilado.. desfigurado.

– Acabado dizemos daquele em cuja fisionomia o tempo. transtornado. com pequenas diferenças de nuanças. mudado. Todo velho deve ser idoso. – Como desfigurado – descomposto. mortificado pelos padecimentos”. etc. se sente enfraquecido e enfermo. o já não ter o vigor. sugerindo ideia de mal passageiro. – Cansado e fati- gado exprimem a mesma noção de “quebrado de forças”. – Prostrado = “violentamente abatido. de susto. exaurido e exausto seriam quase sinônimos perfeitos se os dois últimos não sugerissem ideia do esforço que produziu o esgotamento. Agora está combalido: o tempo não poupa nem a glória. – Consumido indica melhor o que se sente “ferido profundamente na alma. que parece tombar”. de sofrimentos. – Amofinado = “ressentido de moléstia. de todo o conspecto da pessoa abalada de sofrimento. mais que os anos. – Abatido significa “desfigurado e enfraquecido. – Desfigurado está aquele que mostra na fronte “sinais de depressão física produzida por alguma doença. doença ou idade”. atormentado pelo sofrimento. demudado.. – Extenuado = muito exausto. “que não é precisamente ao exercício das virtudes que se deve o estar gasto”. de remorsos”. – Quebrantado convém mais àquele que se deixou abater por motivos que muitas vezes são imaginários. – Macerado quer dizer “desfeito. medo. e por isso falto de forças”. É mais forte que inanido. que parece velho sem o ser. – Ralado = “vexado. se deles não se distinguisse em sugerir. a louçania que só a idade não extingue. – Combalido exprime “abalado. mofino. avelhentado é o que tem ares de velho. afligido. de desgraça. de doença. – Enfraquecido = “falto de forças”. muito enfraquecido pelas privações”. esmagado de dores. por fadiga. – Acabrunhado ajunta à noção de abatido moralmente a ideia de profundo desânimo e tristeza. – Exinanido = “aniquilado. sem forças e sem ânimo”. alterado. – Gasto confundir-se-ia com os precedentes. mas há homens idosos que não se pode dizer precisamente velhos. ou o que os trabalhos amofinaram”. muito esgotado de forças. mais exausto de forças do que devia estar. – Quebrado se diz daquele que está enfraquecido. Aplica-se mais propriamente à situação da vida que à própria vida. o estado do semblante. velho é o que.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 61 transtornado. como diz Bruns. – Envelhecido e avelhentado: o primeiro se aplica à pessoa que parece ter mais idade do que realmente tem. – Debilitado = “um tanto enfraquecido”. macerado. – Alquebrado se aplica ao velho que a doença. de trabalhos”. e sugere alguma coisa de resignação. os trabalhos ou as doenças parecem ter feito mais estragos de que se devia esperar. . desfeito. que parece estar morrendo”. – Confunde-se com aniquilado: notando-se que este ajunta a quebrantado a ideia de humilhação. – Curvado (e acurvado) enuncia ideia da postura daquele que a idade ou o sofrimento fez pender. abateu e como que curvou. – Mortificado = “ferido de angústias. isto é. Entre exaurido e exausto pode notar-se esta diferença: exaurido dá melhor a ideia da causa que exauriu. desmanchado indicam todos. devido à idade avançada. também devido quase sempre a causas momentâneas. – Arruinado = tão alterado na saúde ou nas forças que parece perdido. mas o segundo dá ideia mais clara de extenuamento. – Esgotado. “Aquela figura. ainda ontem tão altiva. curvada pelo infortúnio”. falto de forças (físicas ou morais). que enuncia apenas a ideia de “não nutrido. que vai murchando e morrendo de desconsolações”. Diz também “o que a moléstia afligiu. desmanchado. – Velho e idoso distinguem-se assim: idoso é o que chegou à idade avançada. o que se deixa abater e como emurchecer de dor moral”. está hoje abatida. e enuncia de maneira mais completa e mais forte a noção de esgotado. ou mesmo por algum sofrimento moral”. – Definhado = “consumido.

da rudeza com que se molesta e aflige. – Afligir diz propriamente “abalar a alma violentamente. apoquentar. magoar. – Pleno diz propriamente “cheio. – Magistral é “o que foi feito com mestria ou consumada perícia”. – não é perfeito. aqui. pleno. contristar.. o serviço no qual se reconhecem as perfeições do autor ou do mestre que o executou. um certo mérito. de exatidão que não há em completo. a que o autor. 80 ACABRUNHAR. aquilo. pois um é encarado sob ponto de vista mais restrito que o outro”. do mau humor em que se sente o apoquentado. muitas qualidades eminentes. portanto. enquanto que perfeito é mais próprio para designar uma certa qualidade. perfeito é mais extenso: aplica-se tanto ao homem como às coisas. – Completo aplica-se apenas ao homem. aborrecer. acrescentar que cabal. soluções cabais (completas e decisivas). – Perfeito significa propriamente “feito de modo completo”. ou com que se faz alguém sofrer”. completo. notando-se apenas que “em cabal há uma ideia de justeza. Pleno direito. além de completo. por exemplo. “Um amigo 8 É tal a dificuldade que apresenta a falta de precisão absoluta do valor lógico de certas palavras que em muitos casos é forçoso admitir formas como esta – mais perfeitas – apesar do que.” É preciso. algumas linhas antes. sentenças. humilhar. da impaciência. ou o artista (se se trata de uma obra de arte) pode ainda acrescentar alguma coisa. – Oprimir dá ideia “do gravame. às coisas que se lhe referem. Além disso. importunar. Delaf.. Uma beleza perfeita – diz o citado autor – tem a qualidade “beleza” em alto grau. e apoquentar. “O que pode ser melhor – diz Laf. incomodar. – Humi- . explicações.62 Rocha Pombo 79 ACABADO. inteiro. Distingue-se dos demais do grupo em conservar a atividade predicativa do verbo. e exprime virtudes ou méritos em conjunto. – Amofinar e apoquentar são muito próximos: ambos exprimem a ação de diminuir a coragem com pequenas coisas. M. Dizemos: um perfeito médico. ou pelo menos as qualidades mais excelentes que caracterizam um tipo”. sob o da figura: uma beleza completa reúne muitas perfeições. plenas informações. – Acabrunhar significa “abater o ânimo pelo castigo ou pelo sofrimento. completo. a produção. amargurar. amofinar. definitivo”. ferir de grande mal. molestar. agoniar. como. vexar. pode não brilhar (ou não ser “beleza”) senão sob um certo ponto de vista. essa ideia de execução. desgostar. dançarina completa). pelo peso de algum desgosto ou de alguma desgraça”. a do aborrecimento. O mesmo não se poderia dizer de acabado. perfeito. é o trabalho. sendo que amofinar sugere a ideia da tristeza em que fica o que se amofina. não é acabado”. de pontualidade. e dá ideia do desespero em que fica o que se aflige. inquietar muito. e um esposo é completo. e que só se aplica a fatos morais ou a coisas de espírito. se diz em referência a uma “coisa que se fez de modo tão perfeito que nada se deixou a desejar”. – Acabado. que satisfaz completamente”. diz o próprio Lafaye quando escreve que o que pode ser melhor não é perfeito. inquietar. magistral. afligir. – Cabal. mortificar. diz também “alguma coisa de terminante. sessão plena.me Mazarin era uma das mais8 perfeitas belezas da corte: só lhe faltava espírito para ser completa. consternar. É mais genérico do que perfeito. e significa “que reúne todas as qualidades. ou a perfeição sob um ponto de vista particular. e sugerir. é sinônimo perfeito de completo. no entanto. angustiar. é antes perfeito. Razões. no entender de Bruns. entristecer. uma dançarina perfeita (e não – completo médico. atormentar. opri- mir. cabal. e aplica-se àquilo que foi elevado ao mais alto grau de perfeição.

ou um aborrecimento que não é duradoiro”. – Inquietar e incomodar são. porém. aborrecer é “pôr de mau humor. em ânsias de dor”. colégio. e equivale a “oprimir envergonhando”. de abusar dos brios do humilhado: enquanto que vexar exprime a ação de expor a afronta. ou ainda num vasto instituto de educação. Uma autoridade injusta ou estúpida pode afligir-nos. podendo ser que o vexado nem por isso se sinta ferido propriamente na sua honra. “tira a calma e serenidade” (diz muito menos que aflige). vexar-nos mesmo: nem por isso nos humilhará. que se lamenta como castigo do céu. equiparados até certo ponto”. ou mesmo uma só arte ou uma só ciência. ferir de grande angústia. – Entristecer é propriamente “encher de tristeza”. instituto. deixando o atormentado como em conturbação. oprimir-nos. É nisto antes de tudo que consiste a diferença entre universidade e os demais termos do grupo. ou os mais duros corações”. luto e tristeza que faz supor a alma como prostrada de dor imensa. “Ela entristeceu (ficou triste ou mostrou-se triste) diante daquela cena. a escândalo. escola. já que estes estabelecimentos em nada dependem da universidade de Coimbra. 81 ACADEMIA. causar displicência”. que significa “afligir ligeiramente. nem a categoria do ensino que se dá no estabelecimento. mesmo que não sejam todas as que se podem professar. quando estranha que se não possa dizer “a universidade de medicina de Lisboa. de todo o grupo. – Desgostar é “contrariar o gosto de alguém. Distingue-se de vexar por isso mesmo: porque sugere o intento. à vista de alguma fatalidade. em aflição horrível”. Temos academia ou escola de . fazer perder a paciência”. ginásio. Discordamos de Bruns. isto é. mas não nos humilha. a universidade de medicina do Porto. que determina a classe do mesmo e a denominação que lhe compete. ou alguma grande desgraça. liceu. que realmente era de contristar os ânimos mais fortes. um mal-estar. e de assombro. Não é propriamente a independência de que aí se fala. hoje. ou uma escola toma a si apenas uma certa ordem de ciências ou artes. – Amargurar é “causar dor acerba e profunda. causar desgosto a alguém”. pondo a alma em estado de confrac- ção tal que ela só sente forças para repugnar a vida”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 63 lhar acrescenta à ação de oprimir a ideia de afrontar. os de predicação menos forte: uma suspeita. pois este já enuncia que a coisa que nos contrista “produz em nossa alma uma pena mais funda”. uma inadvertência. É menos intenso que contristar. de diminuir os créditos. Um garoto decerto que nos vexa (ou nos molesta) em público se nos expõe a algum ridículo. ou numa cidade. Uma academia. ou um pressentimento inquieta. de rebaixar. – Todas estas palavras designam estabelecimentos onde se ensina ou se estuda. – Universidade devia ser o conjunto de todos os cursos que se podem fazer num país. – Molestar e aborrecer aproximam-se do precedente. enfastiar. e diferençam-se assim: molestar sugere a ideia do incômodo que se causa à pessoa molestada. uma ligeira dor incômoda. por parte de quem humilha. uma falta que se cometeu desapercebidamente. universi- dade. – Agoniar é “impor ou fazer sofrer suplício ou aflição como de agonia”. – Consternar é “produzir um sentimento tal de pesar. – Também é convizinho destes importunar. – Angustiar é “pôr em grande aperto de alma. – Magoar enuncia a ação de “produzir ligeira dor. – Mortificar é “afligir até deixar exausto de forças ou de ânimo como se estivesse a morrer”. um aperto em que nos põem. no entanto. sendo-lhe. por universidade designamos o estabelecimento onde se professam muitas faculdades. – Atormentar é “afligir de tormentos.

pois a ideia dominante que o termo sugere é a da “reunião das pessoas que foram escolhidas e que ficam no estabelecimento em perfeita igualdade de condições”. ou melhor as artes ou ciências de toda uma categoria. quer tratando-se de ciências. ou – “universo da estrela d’alva”.64 Rocha Pombo medicina. porém.. É preciso notar ainda que tanto academia como escola podem designar estabelecimento onde se ensinem diversas ciências ou artes. por ex. – Colégio e instituto são os mais genéricos do grupo. e só se aplica a estabelecimento onde se façam altos estudos. Se se disser só – escola. O Instituto de França. por exemplo – “universo mundial”. o nome de ginásios a colégios onde se ensinam matérias do curso preparatório. . de direito. Escola é mais prática e mais popular. teríamos de juntar-lhe todos os que fossem necessários para designar as diversas ciências professadas. compreende todas as academias de artes e ciências de Paris. Deve notar-se. academia de pintura. de engenharia. Instituto é ainda mais genérico e extensivo do que colégio: pode aplicar-se a toda categoria de estabelecimentos onde se estude ou onde se ensine. ou onde se ministre ensino superior. O mesmo não se dá em relação à universidade. que academia é mais nobre. pela simples razão de que esta ordem de institutos. como a cursos práticos de artes e ofícios. Dá-se hoje. Não se sabe como usar de nenhum desses dois vocábulos sem um restritivo que lhes designe a especialidade de conhecimentos que ministram. e pode abranger todo gênero de estudos. mais particularmente aplica-se a internato. desde – “intituto primário” – até – “instituto de altos estudos”. o nosso interlocutor não terá noção exata. precisa do estabelecimento a que nos referimos. mas este se aplica tanto a escola de instrução secundária. – Academia e escola são usados. quer tratando-se artes liberais. etc. Ginásio designa estabelecimento (internato ou externato) onde se faz educação tanto moral como física de meninos ou moços. etc. indistintamente. – Ginásio e liceu são os menos latos do grupo. de direito. ou “academia de agricultura”. ou onde se dá um cuidado mais especial aos exercícios físicos. em grande número de casos. ou “academia de instrução primária”. não pecamos mais contra a precisão lógica do vocábulo do que. mas não diremos “academia de artes e ofícios”. Liceu está no mesmo caso. direito. de letras.. Dizemos “academia ou escola de belas-artes.. ou mesmo academia ou escola de música. por exemplo – universidade de medicina. Mas esta forma não faria mais do que pôr em destaque e tornar flagrante um absurdo que passa disfarçado e que é tolerável enquanto não se tenta restringir expressamente o termo universidade. em vez de uma. escola ou academia de belas-artes. e só por figura é que podemos aplicá-la para exprimir a totalidade das nações do nosso mundo. ou “de aprendizes marinheiros”.. ou – “universo solar”. ensina diversas especialidades ou classes de ciências. ou “de altas ciências”. quando reduzimos o universo ao nosso mundo. e se quiséssemos dar-lhe os mesmos restritivos que são indispensáveis tratando-se de escola ou de academia. e dizer. – ou só – academia – há de subentender-se que se sabe já de que academia ou escola se está tratando: ou então. Colégio é estabelecimento onde se reúnem pessoas (meninos ou adultos) para estudar. no entanto. de medicina. e isto porque a palavra “universo” abrange todos sistemas de mundos. por exemplo. matemática e teologia. Mas o que certamente se não nos permitiria é que tentássemos dizer sem dislate clamante. escola de cirurgia. Quando empregamos esta palavra para designar um instituto onde se professam apenas algumas faculdades.

pundonoroso. no enlevo de amar. “por meio de carinhos. entrando. e tanto quanto afago o é em relação a agrado. palavra tomada ao espanhol. portanto. Acarinham-se a todos os meninos. ou a todas as criaturas desvalidas. tímido. A pessoa tímida é natural que se mostre acanhada. mostrando o amor que as almas bem formadas têm pelos que sofrem. acarinhar. “Jesus acarinhava a todo o mundo. demonstrações de muita benevolência e afeto. se fosse criança a pessoa que se amima”. meigo o que é tratado”. tratando-as com afeto paternal. doce. também por atos e palavras. pudor. 84 ACANHADO. hoje é termo poético. – Amimar é tratar com mimos. acaridar. pudicícia. como. enchendo-as de afagos e mimos. ou que se acham em situação em que tenham o direito de contar com a nossa bondade de coração. beijando-as. – Acaridar diz propriamente “tratar com caridade”. antes de tudo porque são tenras. Este último verbo. dispor bem. bivaque. acanhamento. ou tornar esquecido ou menos intenso o pesar que aflige alguém”. isto é. sem tendas nem comodidades. àqueles que são menos felizes do que nós. mas as crianças ele acariciou sempre com um estremecimento que dizia bem até onde era capaz de ir. acariciam-se as crianças.. a uma pessoa que se estima. de atos de amizade. minorar o sofrimento. designava o acampamento em cujo centro se elevava a tenda do rei. e até vícios”. Acarinha-se a um amigo. vergonhoso. e por extensão e figuradamente pode aplicar-se nos casos em que se trata de coisas morais ou abstratas. mas particularmente designa o recinto ou área onde um exército em campanha ergue as suas tendas e se instala com certa comodidade e segurança. pois ambos indicam que se deseja fazer contente. 83 ACAMPAMENTO. vergonha. – Consolar é. É natural também que a pessoa .. timidez. pudico. como: “acalentar sonhos. por ex. com muita brandura. ameigar. pudor e pundonor. procurar diminuir a pena. de modo a fazer suave. Afagar é fazer. isto é. modéstia. mimosas e têm o nosso amor comovido. reales. mesmo do que carinho. Só se acaridam. apoucamento. e por todos que precisam da nossa assistência e socorro. – Acariciar é “tratar com carícia”. só se acariciam aquelas criaturas que merecem os nossos afagos e blandícias. num salão sumptuoso. com “manifestações delicadas de afeto e desvelo. “acampamento é termo genérico. gestos e atos. – Ameigar diz propriamente “tratar com meiguices. diz-se do terreno onde esse exército passa a noite ao sereno”. é quase afagar. 65 afagar. acariciar. – Arraial. – Acanhado se diz do que tem “tão pouco desembaraço e vivacidade e que se mostra tão tolhido que parece diminuir-se aos nossos olhos”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 82 ACALENTAR. agradar. – Se- gundo Bruns. de palavras de conforto. Entre acanhado e tímido é preciso notar diferenças que à primeira vista se não percebem distintamente. consolar. amimar. ou dirigindo-se a personagem ilustre. aqui. Daí o fato de ser acarinhar menos expressivo de ternura do que acariciar. – Acalentar designa particularmente a “ação de aquecer a criança nos braços para que sossegue e adormeça”. por extensão. bem impressionado. – Bivaque (do frandês bivac) é o estado de um exército acampado ao ar livre.. arraial. por palavras. esperanças. sendo carícia sinal mais delicado ainda de amor do que meiguice. é mais expressivo e intenso. no entanto. a sua ternura divina”. deixar satisfeito. mo- desto. agradar é apenas. apoucado.. grata conosco a pessoa a quem se agrada ou se afaga. pudibundo. desejos. – Agradar.

aos olhos de outrem. – Apoucado e apoucamento não se podem confundir com os dois precedentes. comedido. Modesto diz. uma condição de índole. pelos modos como se apresenta. Uma criança tímida. esmero com que se defende a honra”.. o enleio da pessoa pudica”. – Pudor e pudicícia usam-se frequentemente um pelo outro. está em ação e produz o ato”. – Fato designa “ato de certa importância. fato. de pudor. a pequenez de alma e de espírito que diminuem um indivíduo e o tornam inútil. sem o valor que se devia esperar”. – Pudor e pundonor são palavras de significação muito distinta e que só por erro ou inadvertência são confundidas às vezes. no trato com toda classe de homens. nos impede de comprometer o nosso decoro. mas o acanhado revela quase sempre timidez. acanhamento diz o gesto tacanho. – Segundo Lac. diz “escasso. portanto. “o que tem pundonor”. e significa “nímia susceptibilidade em questões de brio e amor-próprio. o modo que revela pudor. Acanhamento sugere alguma coisa de rude. o pejo que. no sentido que tem aqui. quando emprega a sua energia. assim. sem ambições exageradas. – Modéstia não parece que seja bem como definem os lexicógrafos – uma completa ausência de vaidade: é antes uma virtude dos sábios. trôpego. – Pudico e pudibundo também se confundem. – Vergonhoso. 85 AÇÃO. De sorte que se pode entender acanhamento como sinal de timidez. ato é um vocábulo concreto. nem mesmo se deve admitir apoucamento como degeneração ou vício da modéstia: segundo a própria formação. Pundoroso é. ou ainda pela dúvida em que nos sentimos a nosso próprio respeito. o escrúpulo. sem exal- tamentos. diz mais do que tímido. timidez diz algo de tibieza de ânimo. ou pelo receio de que sejamos malsucedidos. consumado e reconhecido”. é a virtude de ter pudor”. mesmo porque é de supor que uma criança é inconsciente em questões de bons costumes. portanto. trôpego. Ambos sugerem ideia de fina sensibilidade em questões de moral. no falar. já não dá só ideia de simples tolhimento de alma: significa a vacilação. que expressa a modéstia. no modo como se comporta. por uma delicadeza da consciência moral. ato é o resultado da ação dessa mesma potência. de parecer. mas devem distinguir-se assim: pudico diz o “que tem pudor”. A potência. discreto. o enleio no movimento e na expressão. apoucamento exprime a falta de ânimo. tacanho. de irresolução e perplexidade.66 Rocha Pombo acanhada pareça tímida. mesquinho. moderado. e pode ser tímida sem ser propriamente acanhada. mofino. os modos e ares indecisos que revelam a timidez. não seria própria esta forma: acanhado e tímido. sem o modo de ser normal. – Pundonor parece termo que os espanhóis adaptaram da dicção francesa point d’honneur. à vista do que. Uma criança é natural que seja tímida. A ação é o exercício de uma potência. mas pudor é o próprio sentimento que induz a escrúpulos delicados contra tudo que se oponha à honestidade e à decência. ato. Apoucado. uma qualidade subjetiva. . portanto. razoável. imprestável. não sendo a inversa perfeitamente verdadeira. pudicícia é a “qualidade de ser pudico. de retraimento. de boa fama. a postura contrafeita. indulgente. nem ímpetos – em suma sábio. Timidez é. ação é “um vocábulo abstrato. e consiste num sentimento natural de justa medida em tudo – no agir. cuidado. o recato. O tímido pode não ser acanhado. de um modo incorreto. neste grupo. pudibundo se emprega para designar “o gesto. nem por isso há de ser vergonhosa. benigno e afável. pois a vergonha. e que se manifesta ou pela desconfiança que alguém nos inspira. na acepção moral desta palavra.

desafio. – Conflito é “o encontro hostil. contenda é “a fase a que pode chegar a pendência tornando-se mais viva. refrega. que significa. conflito. uma luta caracterizada pela elevação dos motivos.. – Lide e luta tomamse ordinariamente quase como sinônimos perfeitos. Pode dar-se entre . Além dessa acepção. questão judiciária”. ou “o estado de conflito em que se põem duas ou mais pessoas. – Ação é o mais genérico do grupo: seriam raríssimos os casos em que não pudesse substituir a qualquer dos outros. Dizemos – “as lutas políticas” –. pleito. ou mesmo duas ou mais nações que não puderam chegar a acordo em relação a algum reclamo ou intento”. por questões de pundonor”. significar também questão judicial propriamente. – Batalha é combate de vastas proporções. – Pugna significa propriamente “luta a punho. no entanto. regulada e solene. só defendendo a sua causa. Lide será. processo. – Duelo é “a luta entre duas (ou mesmo mais) pessoas. ire. portanto. e sem graves consequências”. Esta é o “litígio ou a questão em que se empenham duas ou mais partes trocando razões e argumentos. luta convencionada. Ação aqui é “o exercício da atividade hostil entre duas ou mais forças em conflito”. luta. lutam. violenta”. pendência. mas sem leviandades”. Pleito. de troços de exércitos inimigos que travam luta entre si. mas é muito mais próprio dizer – “as lides acadêmicas”. diferençando-se em que a rixa pode ficar só na disputa de palavras ou degenerar em briga. e pode assim apanhar-se no português prélio a significação de “luta em que os lutadores se adiantem. litígio. em – “lides da impren- sa” sugere-se o afã nobilíssimo com que se trata das altas questões. recontro. o choque. duelo. Em – “lutas da imprensa” há a sugestão de que os trabalhos do jornalista amargaram no embate das intrigas e das perfídias. é a fase. – Contenda e pendência aproximam-se bastante: ambos sugerem mais ideia de controvérsia e discussão que de luta material: se bem que se não lhes recuse esta última acepção. pequenina. contenda.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 86 AÇÃO. – Peleja designa a luta encarniçada e corpo a corpo. “marchar contra.. – No latim prœlium figura como radical o verbo eo. “as lutas da imprensa ou do jornalismo” – diz outra. ou medindo forças e destrezas com capricho. – Desafio é “o ato de provocar outra pessoa para duelo”. briga. – Litígio. não esquecer que lide (ou lida) vem de lis. – Pleito é quase o mesmo que litígio: pode. guerra. litis “pleito. campanha. a oposição ativa em que se põem duas ou mais pessoas ou coisas”. “As lides do jornalismo” – diz uma coisa. convém. é peleja formal e de resultados decisivos quase sempre. intensa. prélio. Dois inimigos separados por um rio ou por outro qualquer acidente. e esperando pela sentença (placitum) ou pelo desenlace favorável. aplica-se o termo combate para designar qualquer luta em que a vida está exposta: o combate dos Horácios e Coriáceos terminou em combate entre dois homens”. ou pelo menos de grande importância. por motivos fúteis.. mas não pelejam. batalha. mas sugere melhor a ideia da correção dos que pleiteiam. aqui. peleja. – Combate – diz Bruns. mais apaixonada. combatem-se. entre outras coisas. Mas a contenda parece uma gradação da pendência. – “é o encontro de ordinário imprevisto. sem armas”. exprime “nobre questão em que alguém se empenha confiante na justiça”. – Briga e rixa são termos vulgares que significam “disputa escandalosa. com que se empenham devotamentos pelas grandes ideias de que se presume que trata sempre um jornalista cônscio da sua missão. e só por extensão se aplica no sentido de luta.. combate. atacar”. 67 lide. aliás. rixa. se apressam a investir um contra o outro”. como este. discutindo sem má-fé. pugna.

pois esta parece obrar de um modo constante. Luiz. – Querela é equivalente quase a ação. desejos. entre interesses. entre seres inanimados. porque o que nós chamamos processo é em francês procédure. – “A sorte é ao mesmo tempo efeito e causa. felizes ou desgraçados.. processo. o uso do direito de pleitear perante um tri- . 87 AÇÃO. É forma geral e extensa que pode abranger quase todos os casos em que figurem as outras do grupo. destino. persegue-nos ou abandona-nos.68 Rocha Pombo nações. À controvérsia judicial que se suscita quando o demandado não consente no que o demandante requer se chama com razão litígio. de fr. favorece-nos ou esmaga-nos. os autos judiciais e termos que se fazem por escrito em qualquer litígio se chamam processo. ou de certa fase de uma guerra”. “O acaso – diz ele – o mais fantástico de todos os seres desta série. de que os antigos fizeram uma divindade cega. As suas manifestações não são constantes. isto é. volúvel. É o acaso que nos leva ao lugar onde encontramos a felicidade ou a desventura. segundo nos é ela favorável ou contrária. casual. devendo notar-se que o primeiro termo só se aplica para designar a guerra terrestre. sorte. litígio. entre animais. e ao acaso só se imputam fatos isolados. sina. querela se emprega para designar questões e dissídios de pequena monta. boa fortuna ou má fortuna. – Escreve Roq. que nos deixam estupefatos de prazer ou de dor. mas ainda a ação proposta e disputada contenciosamente em juízo – o que vale o mesmo que litígio judicial ou pleito. o que se pode colher de Roq. entre poderes públicos. entre indivíduos. consubstancia Bruns. sendo este apenas mais lato: é “a denúncia ou queixa que se dá contra alguém para reparação de agravo ou ofensa”. caprichosa. Os que neste caso usam a palavra processo cometem um galicismo. e delas provêm fatos.. dita. – Recontro é “combate ligeiro. ou a condição a que a fortuna ou o acaso trouxeram uma pessoa. tendo por isso muita analogia com a fatalidade. – Campanha exprime “todas as batalhas. Os feitos que correm em juízo. e deixando também indecisa a luta”. por isso. porém. oculta-se. ventura. e de outros. fado. estrela. e que este se trata e se desenvolve no processo. não se lhe referem fatos sucessivos: revela-se de quando em quando.: “Com muita razão diz um autor que a demanda dá origem e princípio ao litígio. reaparece. e distribui os bens ou os males segundo o seu desígnio. Ao ato de pedir ou requerer em direito se chama demandar. S. É nisto que não se assemelha à fortuna. e avoir un procès quer dizer em português – ter uma demanda. – Refrega é “recontro violento. Pleito é palavra castelhana. prepara combinações de circunstâncias tão impossíveis de prever como de impedir. que no uso ordinário a palavra demanda não significa só o ato de intentar o litígio. pleito. pretensões. Note-se. furioso como tormenta.” Temos. obra arbitrariamente. fortuna. fatalidade. – Acerca de muitos destes vocábulos. – Questão designa “toda espécie de dúvida em que ficam duas ou mais pessoas e que deve ser dirimida em juízo. ou perante uma autoridade superior”. produzindo debandada. e neste caso diz o mesmo que litígio judicial”.. indeciso entre inimigos”. Fora da acepção jurídica. querela. combates. demanda. 88 ACASO. fadário. preside a todos os atos da vida. Quantas descobertas são filhas do acaso? – A fortuna. efeito quando designa o estado. bunal”. – Ação é termo genérico ainda neste sentido: é o “próprio ato de requerer ou demandar em juízo. questão. e todas as vicissitudes de uma guerra.

e ainda hoje se diz que “tal indivíduo nasceu em boa ou má estrela”. O nosso fado é intangível. a palavra sorte aplica-se melhor às condições modestas. se na primeira frase. ou que tem boa ou má estrela. sujeitos ao seu fado. porém. puséssemos por acaso. Nas três frases seguintes vejamos. José de Lacerda. Dizemos. Eis por que denominamos destino à combinação de circunstâncias ou de acontecimentos que se efetuam em virtude de leis inflexíveis. A fatalidade não obra arbitrária e caprichosamente: obedece como a um impulso omnipotente. mas sem coragem para corrigir-se. a predestinação de S. transformados em rãs ou outras alimárias. lhe atribuímos um fato isolado. em vez de acaso. por ex. mesmo de boas letras. como é fatalidade. Refere-se à suposta influência dos astros no destino dos homens. é outra palavra do mesmo gênero. porventura. ou sem preferências. – A fatalidade (do latim fatum “o que está dito ou decretado”) distingue-se do acaso. e procurando por isso consolar-se dos erros ou deslizes. entre os antigos. apesar de terem passado as quimeras da astrologia. Por outro lado. como diz D. – Ventura e dita são também seres fantásticos sem vontade certa nem determinada. persegue-nos. – “destino extraordinário e irresistível que se atribui a um poder sobrenatural”. – O destino era. não exprimiría- . e no entanto. 89 ACASO. Os seus decretos eram irrevogáveis e tinham o caráter da fatalidade. Paulo. não nos deixa. como bem o prova a acepção que esta palavra tem nos contos de encantamentos em que se vêm príncipes. Refere-se mais particularmente a certas vicissitudes da vida mundana.. geralmente. atribuindo-os ao seu fadário. Podemos. oh rapaz. acompanha-nos. mas quando fazemos alusão às amarguras que quase todos tiveram de sofrer. e decerto que neste caso não empregaríamos sina. ou uma série de fatos favoráveis ou desfavoráveis. que se conservou na língua (com a significação que tem aqui). qualquer das três formas. às extravagâncias de que alguém se lamenta. que hesitasse em empregar indistintamente. – Sina marca melhor do que quase todos os do grupo o caráter de fatalidade das coisas que têm de suceder na vida de cada um.. O estava escrito dos maometanos é a fatalidade. e que nos trazem fatal e inelutavelmente ao ponto em que só nos resta obedecer: ante o destino desaparece a nossa força. é claro. quando fazemos referência às ações ou obras que lhes deram lustre. em ser agente e não sujeito. que lhe deram origem. sempre tomam-se a boa parte. se poderiam ser trocadas. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” Em qualquer desses casos. por acaso. – Estrela. no entanto. no cristianismo. ninguém pode resistir às leis do destino. – Fadário é – diz Aul. ventura. Sina e destino seriam sinônimos perfeitos se o primeiro não se limitasse de ordinário às coisas funestas da vida. conservando-se-lhes uma perfeita propriedade: “Teria o nosso amigo visto acaso alguma coisa estranha lá no parque?” “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” “Terias. até que um certo acontecimento os venha libertar. não haveria talvez muita gente. da fortuna e da sorte. – O fado é o estado que resulta das imposições do destino. a uma disposição superior e impenetrável.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 69 causa. – “o alto destino de Napoleão”. e por mais que façamos. uma divindade cega a quem os deuses e os homens estavam submetidos: tinha nas mãos a sorte dos mortais. fortuna às elevadas (ou de mais vulto): a sorte de Creso ao lado de Ciro era mais invejável que a sua fortuna. não. – São re- almente muito fáceis de confundir-se. e dita. considerando-a um misto de acaso ou de fortuna. dizer – “a sina dos grandes homens”. aniquila-se a nossa vontade: somos obrigados a obedecer ao destino. quando.

– Reverência é respeito com temor filial. Caim retrucou ao anjo que lhe perguntava por Abel: “Sou eu acaso o guarda de meu irmão?” Este acaso. então. os nossos deveres. repulsa. e quase nego. “Passaste acaso?” – equivaleria a – “Dar-se-á que tenhas passado?” ou – “Será possível que tenha passado?” E – “Passaste por acaso?” – diria: – “Por uma casualidade (isto é.70 Rocha Pombo mos com a mesma precisão o pensamento de quem perguntava. decerto que exprimo dúvida também. seria indiferente usar acaso e por acaso. os pastores. em nenhuma dessas frases. ao saber. reverência ou veneração. ao mérito. acatamento. deferência. veneração. o soberano. mas aqui a minha dúvida é mais condescendente. Respeitamos os outros homens. oh rapaz. respeito religioso. os nossos justos interesses. deferir. “acatamento é todo ato externo com que mostramos o nosso respeito. ponho em dúvida. Deferimos (rendemos deferência) à idade. preferindo-os aos nossos próprios. ou às que reputamos como tais. respeitamo-nos a nós mesmos. dizendo: “Terias visto ou encontrado acaso alguém à minha espera?” – é como se fizesse a pergunta insinuando a negativa. em cuja presença estamos como o filho costuma estar diante de seu pai. Reverenciamos os mestres. portanto: – que acaso sugere contrariedade intencional e dá à pergunta a função de negar: – que por acaso é mais convizinho de porventura. respeito. as coisas religiosas e sagradas. ou estranho que isso se tenha dado. S. reverência. nega intencionalmente o que se pergunta. que se tem ou se dá a alguém ou a alguma coisa. devendo notar-se que. à virtude. acaso nem porventura. todas as pessoas a quem devemos esses sentimentos. os magistrados. e se eu empregasse o advérbio acaso. as suas infelicidades. por alguma superioridade que julgamos haver nessa pessoa. ou “sem que tivesses tensão”) passaste?” – A terceira frase: “Terias. Luiz. que ele tenha visto. Se eu empregasse a locução por acaso. a mesma ideia de estranheza e negação. limpando a pena”: aí não caberia. que se dá às coisas santas. ou aos objetos que julgamos mais dignos de respeito e honra. espécie de culto. – Na segunda frase que formulamos acima: “Passaste na vinda por acaso lá pela pensão?” – também não poderíamos substituir a locução por acaso por simplesmente acaso. isto é. venerar. – Veneração é respeito profundo e submisso.. “Chegamos por acaso à livraria. fomos dar conosco por acaso junto ao morro. os pais. – Deferência é o respeito que se tem aos sentimentos. – Segundo fr. como no exemplo acima. em vez de indiferença. a tudo aquilo a que . só muito raramente poderá a locução por acaso ser substituída por qualquer dos dois outros advérbios. com respeitoso temor. – Fora dos casos interrogativos. se há necessidade de distinção. Quando pergunto se ele “viu por acaso”. 90 ACATAR. os seus direitos. como acaso. a ideia do interesse com que se espera por uma resposta satisfatória quando se faz a pergunta. reverenciar. desejos e gostos de qualquer pessoa. Veneramos a Deus. respeitar. Quando pergunto se o nosso amigo “viu acaso”. os santos. distinguindose esta forma daquela em sugerir. rebate. Acatamos. reverenciamos tudo aquilo. “És tu acaso meu filho?” “Veio ele acaso ter conosco?” “Tinha eu acaso notícia da tua chegada?” Em nenhum destes exemplos. não mostraria o mesmo interesse. para dizer o que desejamos. etc. e não sugere. ou consideração. há de ser a mesma que se acaba de assinalar. – Respeito é a atenção. encontrado alguém porventura lá na praça à minha espera?” – enuncia o meu intento de saber uma coisa que desejo e pela qual estou ansioso. – Segue-se. pelo menos. “sem que te apercebesses”. mais ou menos.. feri o dedo por acaso.

cautela. previdente. quem previne males previstos faz o que supõe que os evita antes que eles ocorram: daí a diferença entre acautelar e prevenir. e acautelar-me é dispor os meios de evitar alguma coisa que receio. prevenir-me é pôr-me de sobreaviso.. mas julga apenas que isso é possível. Não diremos que o homem que segura a sua casa se acautele contra sinistros. pois ele não cogita de um determinado mal. de meticulosa cautela”. – caveo. o modo de ser precavido. tomar a dianteira”) enuncia a ação de “adiantar-se a tomar expediente acerca do que pode acontecer. – Cautela é. Entre cauto e acautelado fica sem dúvida cauteloso.” 91 ACAUTELADO. avisar. prevenção. mas previno-me contra o frio. ire significa “vir”. pois. prudente. – Precatar é “estar atento. Mas entre acautelar e precaver há a diferença que provém de que aquele que trata de precaver-se toma cuidado. acautelam-se os cautos contra males iminentes. “adiantarse” à coisa contra a qual se previne. portanto. “guardar-se”: à vista do que. é “uma medida de prudência posta em prática antecipadamente. a pátria. os homens de virtudes. pre- venido.. que significa “prevenido de muito cuidado. previdência. A prevenção. e quem se acautela cuida de resguardar-se contra coisas certas de que está prevenido. é o estado ou a atitude de suspeita em que se fica em relação ao que se deve temer”. mas é necessário não perder de vista o radical de cada um desses verbos: – venio. ire “chegar antes. chegar”: prevenir diz. mas sou prevenido e acautelado. Designa qualidade própria: não seria. Acautelam-se os interesses. portanto. Não será por isso que eu seja precavido. disposições. “vir antes”. etc. “o apercebimento. ou em certas circunstâncias: e então “está acautelado”. prevenir. portanto. a vigilância do espírito contra o que pode sobrevir”. aviso. apercebido contra alguma coisa . precaver. “defender. guardar-me. cauteloso. os bens. Decerto que eu não me posso precaver contra a noite. e contra essa possibilidade é que se apercebe precavendo-se. e acautelo-me deste ou contra este agasalhando-me. precatado. defender-me antecipadamente do mal possível. prudência. ou segurança. avisado. pois. e seguiu logo cautelosamente pelo jardim”. Quem acautela os negócios de outrem cerca-os de garantias. – Cauto sugere ideia da firmeza e segurança do que sabe guardar-se contra os perigos. nem se apercebe de que esteja para sobrevir sinistro. precaução. sobreaviso. como os pais. Acautelado é o que toma cautela no momento. a honra.. quem se acautela toma providências. acautelar. Precaver-me é. Quem se previne põe-se de ânimo desconfiado contra alguém ou alguma coisa.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 71 tributamos algum gênero de culto. e precaução é o ato de precaver-me. e é prevenido. ou está prevenido quem se põe ou se acha nesse estado. ere “tomar cuidado”. – Acautelar diz.. precatar. a fortuna. passar adiante. resguardos contra o mal que teme.. Entrou. e entre os respetivos conexos. como já ficou exposto. – Não há dificuldade em distinguir prevenção de sobreaviso. Basta sentir a diferença que há entre estas formas: “Ela sempre se livrará cautamente (com a cautela. precaver se aproxima ainda mais de acautelar que de prevenir. defende-se por assim dizer de eventualidades. consequentemente. que lhe é própria) daqueles abismos”. a atenção. precavido. – Precaver em certos casos poderia confundir-se facilmente com prevenir. admissível a forma: “está cauto”. sendo este “a disposição de ânimo em que fica quem se previne”.. prever. ficar ou pôr de sobreaviso a respeito de alguma coisa que se receia”. ficou acauteladamente em casa”. cauto. em boa guarda”. prevenir com cautela. guarda-se. – Prevenir (do latim prœvenio. “F. pôr a bom recato.

– Anuir é propriamente “fazer sinal. precatado designa aquele que se não deixará pilhar desprevenido em caso em que da atenção dependa o sucesso.”. apreendê-la com a mão (ou pô-la sob seu domínio). conformar-se. a proposta que se nos faz. ou se nos manda. “é declarar que se aceita o que outros decidiram. autorizar o que se nos oferece ou propõe. – Consentir sugere ideia de “permitir. – Sentido é “o valor da palavra conforme a aplicação que tem na frase. que se sente do mesmo modo”. 94 ACEITAR.”. Aceitamos um obséquio. – Conformar-se é “estar. Recebemos um presente. uma certa gradação entre estes verbos. tomamos o livro para ler. do conselho mais sábio para o caso. um favor. tomamos ocasião. a ideia que exprime”. uma graça. o chapéu. o dinheiro que se nos deve. e também aprovar. o que ela diz por si mesma. de vistas. – Assentir é “mostrar que se é da mesma opinião. Não envolve. segundo Bruns. tomamos amor. assentir. ódio. assentir. ou pôr-se em perfeita identidade de sentimentos. ou exprimir de qualquer modo. regulado pela disposição das palavras”. uma visita. qual- samente estabelece S.72 Rocha Pombo certa que é para temer”. Tomamos o vestido. e assim. aderir. asco. de não discordar. do mesmo voto. – Condescender é “consentir por tolerância”. recebemos um hóspede. e prudente será aquele que possua essa virtude. – Concordar é “chegar a acordo depois de dissensão. – Receber é tomar o que se nos dá. refletido e seguro no agir. ou admitir por mero desejo de ser agradável ou de não contrariar”. etc. porém. ou o valor da frase ou do discurso. nem supõe ação estranha. – Avisado é aquele que está fortalecido do aviso que convém. que se está de acordo e se consente”.. de ideias. – Aceitar é receber com agrado e boa sombra. Aquiescer é consentir voluntariamente e sem esforço”. etc. uma oferta. a obrigação que se nos impõe. uma injúria. ou o que vem a nós. – Aderir é “dar aprovação afinal àquilo que se tinha recusado ou combatido”. pois. as armas para brigar. – Significação é “o valor semântico da palavra. “Tomar alguém uma certa coisa – diz ele – é havê-la para si. é o ato de prever tanto quanto é possível. – Prudência é mais que aviso: designa a virtude de uma sábia ponderação. sendo o aviso esse estado de atividade consciencial em que se acha o avisado. dar consentimento. sentido. de modo de ver. sob uma outra ordem. e prever diz “ver antecipadamente o que se pode dar em relação a alguma coisa que se deve evitar”. L. que nos mande. anuir. recebemos o foro que se nos paga. 93 ACEDER. – Muito judicio- ção dizemos dos “vários sentidos em que uma palavra pode ser empregada”. a espada. 92 ACEPÇÃO. – Previdente é o que sabe prever. etc. e que se cooperará para o intuito geral. uma ferida na guerra. tomar. e sendo avisar a ação de despertar ou ter desperto o ânimo ou produzir esse estado. – Acep- quer que seja o motivo do consentimento”. chamá-la a si. con- descender. que faz o ânimo calmo. – Aceder. deixa. ou se nos oferece. a pena para escrever. – Previdência é. uma notícia. ensejo. ou ofereça essa coisa. nem ideia de movimento que no-la traga. receber. aquiescer. e sem o qual não seria possível sair-se bem. ou dê. e prevenir-se contra surpresas. aceitamos as condições de um contrato. tempo. consentir. entrever que se tinham outras tenções. significação. . a qualidade de quem sabe prever. concordar.

– Aligeirar é propriamente “fazer que se mova. – Diapasão é o som próprio de um instrumento. – Azedo (de acidulus. estas duas palavras confundem-se geralmente”. suprir a qualquer dos outros que nele figuram. travoso. azedo. partícula que marca ideia de “alguma coisa de agudo. Aligeiram-se os soldados pelo exercício. acre. “apressar com precipitação”. tanto se diz acerbo o som como a ironia. ou afastar-nos do princípio: é inerente a este verbo a ideia do pouco cuidado que resulta da própria pressa. acrimonioso. e poderia. diminutivo de acidus) diz propriamente “meio ácido. – Acelerar – diz Bruns. discutir na mesma. como a flecha. Matéria azeda é a que se alterou do normal pela fermentação: figuradamente azedo significa. – Sobre estas duas palavras escreve Bruns. acrimonioso. portan- . senão no natural. desejo ardente de alcançar o termo. e só é sinônimo de amargo pela acerbidade. tom é a “maior ou menor intensidade de força com que se exprime”. e acento a uma particularidade da voz de quem as diz. conquanto menos pungente ao paladar. Não obstante. neste sentido. – Acento é o “modo como se exprime uma emoção”. etc. é “fazer mais ativo”. pronúncia. referindo-se pronúncia ao modo de serem ditas as palavras. etc. um tanto ácido”. e falar. no maior número dos casos. do grego. é interpretá-las à letra sem atender ao espírito delas”.. “Tomar as palavras pela toada é (diz Aul. que caminhe.: “Dizemos a pronúncia do Minho. como o olhar ou como a censura. é dar mais rapidez ao movimento ou ao ato. Uma coisa pode ser acerba tanto ao gosto como ao olfato. mais ligeiro”. amargo. como está dizendo o próprio radical. amargoso. 39). Dizem muitos: – “palavras ácidas. áspero. Aligeira-se o passo. toada. movimento apressado para chegar ao fim. – Sonido (e soído) significa um “som particular. apressar. o diapasão de uma cantiga. etc. o espinho. ou pela mesma toada é discutir ou falar segundo os modos ou pela mesma forma por que outrem fizera. e o acento dos minhotos. azedo. é todavia mais ingrata.. sugerindo a ideia de remoques ou palavras mordazes. antecipando. – Ácido é tudo que impressiona desagradavelmente. ácidos remoques. – Apressurar é dar-se pressa desordenadamente. – Acerbo é “tudo que punge algum dos nossos sentidos”. ácido. picantes como a coisa ácida: notando-se que não é usada pela maioria dos autores.. acérrimo. ativar. o voo. timbre. do (soído). travento. (Amargoso significa “um tanto amargo”). Dizemos – dias amargos. acre. – Ativar. como o sabor lancinante do limão. ácido. – Timbre não é propriamente o tom.) tomá-las pelo som e não pela significação. estranho”. ali97 73 geirar. agro são proliferações de ak. – “denota impaciência (sofreguidão). – Som é “todo ruído que os corpos produzem quando em movimento ou em vibração”. soni- ACENTO.) – para significar quanto essas decepções e esses dias nos deixaram na alma uma impressão comparável à que na boca produz o gosto do fel. – Precipitar quer dizer aqui “apressar. agro.. – Apressar denota ação viva.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 ACELERAR. a espécie de sonoridade de um instrumento ou de uma voz”. um negócio. pois a coisa amarga. apressurar. uma solução esperada etc. precipitar. diapasão. como ao ouvido.” 96 ACENTO. 98 ACERBO. o tom que serve de norma. – A maior parte destes adjetivos têm a mesma raiz: acerbo. de acre” (Chass. – Toada é o tom de uma voz. acérrimo. amargas decepções (como dizemos – “momento amargoso” etc. som. pelo qual se afinam outros. mas “a qualidade do som. É o mais genérico do grupo. tom.

.. sobre. a colocação de tal ponto geográfico com respeito a tal outro”.) já enuncia mais precisamente que ao assunto.). disputar acerca de... etc... Dizemos: – “discussão azeda. Até uma menina é capaz de fazer uma acerba reprimenda. Quem fala em relação a alguma coisa diz sem dúvida coisas que estão com aquela em relação mais direta do que quando fala a propósito da dita coisa... e a respeito de... Dizemos: agras penas. (com relação a. (ou com relação a. ou com respeito a.. – A propósito de. fazer. e a respeito de. É fácil de sentir a diferença que é palpável entre estas duas formas: “O ministro ouviu o diretor acerca do negócio” (ou a respeito do. a conduta de Cícero com respeito a Otavio. A coisa acrimoniosa contém alguma acrimônia. em referência a. mas reprimenda áspera deixaria supor que não fora feita em termos delicados. falar..... escreve ou faz alguma coisa. Uma palavra áspera pode não ser acerba. mas ainda sem estabelecer dependência direta. é um tanto acre. diz “que mostra azedume. diz ou faz. ou negócio. a propósito de. necessária. relativamente a. azedos momentos”. colocação: como as disposições do testador com respeito a seus filhos. – Quanto a é outra locução que marca também conexão direta entre o objeto e o que se vai enunciar. palavras azedas. – Em . ou pelo menos dá ideia da autoridade da pessoa que escreve.. – Acrimonioso não se deve confundir com acre. ou exercício da palavra.. como dizemos agras escarpas.. ou com respeito a tal ou tal assunto. – “Acerca de. – Em relação a. Confunde-se muito com acerbo.. esta preposição sobre marca... recriminações acérrimas. etc. revelando violência reprimida.. A propósito de uma história podemos contar outra história muito diferente e que apenas nos tenha sido sugerida pela primeira...). – Agro só se diferencia de acre em ser mais extensivo. escrever. acérrimos furores. ou relativamente a. fixando-a na do objeto em que a ação recai ou se executa. Divergem.. Estilo acerbo pode não ser áspero..... inculto.. quanto a.” – Áspero é “tudo o que impressiona desagradavelmente... (Bruns. porém. 99 ACERCA DE. referir.. em que acerca de. – Sobre... exprime muito mais vagamente a ideia de outras locuções deste grupo... se empregam com os que designam operação. e aplicado a uma pessoa.. Equivale a sobre. modificam a ideia representada pelo verbo.): e. (com res- peito a. designa “o que é rude e violento. a respeito de. ou em relação ao negócio): “O diretor ouviu o ministro sobre o negócio”... mas a alguma outra coisa que com essa tenha pontos de relação.. Usa-se mais frequentemente no superlativo: acérrima invetiva.. em grande número de casos em que não seria perceptível uma diferença essencial mas muito subtil. Tanto pode ser aplicado no sentido moral como no físico.. Usam-se indiferentemente com verbos que designam operação intelectual. negócio azedo. ou a respeito de. que molesta algum dos nossos sentidos”.).. como pensar. no sentido figurado. e com respeito a. semelhança ou analogia. o que sai do seu estado de calma”. rigorosa entre o caso e o que se vai dizer. só se usa com esta classe de verbos. e em relação a. etc..74 Rocha Pombo to. – Acre é o “que tem sabor picante e corrosivo” (Aul. conduta. etc.. áspero e desabrido”. “o que se irrita. é que se prende o que se vai dizer... ou falar sobre o que lhe diga diretamente respeito...... deliberar. como acerca de e a respeito de. Além disso. estabelece uma relação precisa e direta entre o que vamos dizer. e parece áspero.. mal humorado.. em alusão a. se exacerba. meditar. a propósito de alguma coisa não é propriamente referir o que esteja ligado a essa coisa. em relação a. Falar. e o objeto sobre que se diz.. caso. mas convém não esquecer que áspero sugere ideia de rude.

e aludir é “indicar por sugestão. rima. Falar em referência é. “Que monte de absurdos!”. fora da acepção jurídica. sem que faça falta no todo de que se elimina. – Ruma é “porção de coisas uniformes. – Cúmulo dá ideia de grande quantidade de coisas formando monte.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 75 referência a. ou indispensável e próprio. falar acerca ou a respeito de coisa determinada clara. – Contingente é “o que não é necessário. de frutas.. adivinhar. por exemplo. segundo Bruns. numa questão. ou num banquete político. nem de acaso. – Rima. e para cujo conhecimento o adivinho não se serve nem de esforço. referir vagamente. ideia de confusão. Falar em alusão é falar quase a propósito. ruma. – Pilha é “porção de coisas numa certa ordem”: pilha de tábuas. 100 ACERTAR. pois que referir é “indicar positivamente. monte. etc. – Quem atina acerta com alguma coisa pondo em ação umas tantas qualidades de espírito (argúcia. desordem. expressamente. e usa-se tanto no sentido natural como no figurado9. nem era necessário que se o fizesse. sobressalente. – Quem acerta dá por uma coisa casualmente. sobrepondo. 101 ACERVO. de areia..). Quem arruma coloca em rumas as coisas que se devem arrumar. de sacos. é falar considerando uma coisa que não foi citada. – Secundário é “o que é de menor importância. pelo próprio nome”. de segunda ordem. de modo que ocupem o menor espaço possível”. pode permanecer apenas por algum tempo. de armas.. grandeza descomunal. montão. 9 Usamos também acúmulo por acumulação.. . excesso de coisas que se vão reunindo. subsecivo. de pedras. “não é parte essencial ou fundamental”. – Aquele que adivinha vale-se de um tino misterioso. e quase sempre à má parte. – Acervo diz “grande porção de coisas”. contingente. acumulando. – Subsecivo é o que pode ou deve ser eliminado. etc. Adivinhar é. de gelo”. numa festa. de valor que não é principal. pilha. tino) que nem todos têm. e tanto se emprega no sentido próprio como no figurado: – neste último igualmente à má parte. Um sujeito. acertar. precisa. etc. ou então ao cabo de algum esforço. e em alusão a. e só se usa. melhor ainda do que este. e sugere. atinar mesmo com as coisas de que absolutamente nada se sabia. – Acessório se diz de tudo que numa coisa (num corpo. 102 secundário. “um monte de laranjas. portanto. pode falar em alusão a certos fatos ou a certos homens sem os referir. equivalente a amontoamento. que se esteiam mutuamente. sem dizer de modo expresso qual a coisa a que se alude”. no sentido figurado.. distinguem-se tão bem como os dois verbos que ordinariamente se confunde. podendo por isso ajustar-se umas às outras. ou mudar logo”. de um dom excepcional que só se explicaria por faculdades que o fizessem superior aos homens comuns. em relação a outra coisa”. e que.. – Montão é aumentativo de monte. ACESSÓRIO. que excede ao necessário. pois. – Monte diz também “grande porção de coisas”. e sem razão. cúmulo. por ser aí demais. é cada uma das pilhas de coisas iguais e sobrepostas umas às outras. Não seria de bom gosto dizer: acervo de verdades. porque todos os que ouvem sabem já qual é a coisa a que se alude. portanto. tenacidade. – Sobressalente = “que sobra.. “Que acervo de asneiras disse o homem em tão curtos instantes”. mas de uma vidência maravilhosa. mas que se põe de reserva para momentos em que venha a servir”. atinar. num pensamento.

a obra do inventor. é achar o que era ignorado. – Inventar corresponde ao latim invenire na sua significação restrita de “discorrer. ou de nossa vista. ou que por casualidade se oferece. – Deparar. É por isso que não se usa comumente nas primeiras pessoas: Dizemos que Deus nos depara um amigo. invento. quase sempre por acaso. dizendo. imaginação. o produto da faculdade inventiva (ou criadora). etc. Esta distinção. o que se acha estava visível ou aparente. a mesma diferença que se dá entre ação e ato”. que é composto da preposição de e do verbo latino parare “preparar”. assim como. mas fora de nosso alcance atual. e. anda esta palavra em regra associada à ideia de bom. ou não conhecida. descobrir. viu no chão uma peça de oiro. – Descoberta e descobrimento designam o ato de “dar com alguma coisa oculta. estabelecer. oculto ou secreto. etc. invenção. não deixaria de ter bom patrono entre os clássicos. me deparou”. encontrar.: “Encontrar corresponde ao verbo latino invenire: na sua mais lata significação representa a ação de dar com uma coisa que se buscava. a não querer dar a entender que a andava buscando. por exemplo: “A passagem com que deparei”: o que é erro.. etc. mas só Deus poderia dizer: “Eu te deparei um amigo”. como diz Roq. – Achado é “aquilo com que se deu. pois o modo correto de falar é: “A passagem que o acaso. A duas léguas de Lisboa encontrei o correio. Ninguém dirá que achou a procissão. dizemos igualmente que achou. nem se há de dizer nunca: descobrimento da pólvora. além disso. Lucena diz: “Mais encontraram acaso as ilhas do que as acharam por arte”. tanto moral como fisicamente. Descobrimento aplica-se às descobertas de grande alcance. Uma coisa simplesmente perdida achamo-la quando chegamos aonde ela está e a descobrimos com a vista. e andando à procura dela e encontrando-a.. acham-se os animais e as plantas que povoam sua superfície. com a diferença que invenção é muito mais extensiva. Alguns o quiseram fazer sinônimo de encontrar.. De um homem que. – Sobre invento e invenção escreve o mesmo autor que “exprimem o que se inventou. 15).: o descobrimento da América. etc. Pode-se. que se encontrou. aos fatos de extraordinárias proporções realizados pelos navegadores e viajantes modernos. a descoberta da pólvora10. o estafeta. pois o p. etc. porque ela estava manifesta. – Acerca deste grupo escreve Roq. mui razoável por certo.76 Rocha Pombo 103 ACHADO. acha ou . O que se descobre não estava visível ou aparente. e não coberta ou oculta. trabalho. com a voz neutra. exprime a ação de um agente. deparar. feliz. Colombo e Cook descobriram novos mundos. e naquelas regiões até então ignoradas acharam um novo reino vegetal e animal. proveitoso. indo pela rua. Ao passar 10 Se bem que se não siga sempre muito à risca esta distinção. Só não se diz. – Descobrir é pôr patente o que estava coberto. diferente de nós. um enterro. dizemos que achou. descobrimento.. in- ventar. de revelar o que não era sabido”. que nos é útil.. etc. entre invenção e invento. nos apresenta uma pessoa ou coisa de que havíamos.. achar de novo”.. tendo-a perdido. mas podendo ser também fruto de esforço”. a minha diligência. mas não a descobrimos. Descobrem-se as minas. Descoberta aplica-se mais particularmente ao que se descobre no domínio das artes e das ciências. 104 ACHAR. uma boa fortuna. Muitos autores dos nossos dias dizem indiferentemente descobrimento ou descoberta da América. pela praça encontrei uma procissão. que nos subministra. mas a mesma espécie de homem. e que invento se restringe às artes. e exprime a ação daquele que pelo seu engenho. descoberta. Ex. a apanhou e guardou. as nascentes que a terra encerra em seu seio. (3.

novas combinações de objetos já conhecidos. – Quanto às quatro primeiras palavras deste grupo é ainda de Roq. sem que se ligue a causas que possam ser previstas: e. 4). inopinado. enfadamento. – Incômodo é “mal passageiro”. em sentido desfavorável. falta de forças. que atua ou que se produz sem ser normalmente. moléstia. Pas. a última exprime bem a falta de saúde acompanhada de do- res ou incômodos físicos. quer dizer estado doloroso do corpo. nem nos viera à imaginação o que sucede”. o que se segue: “Todas estas palavras enunciam um desarranjo ou desordem no estado normal da saúde do homem. 4. – Inesperado. se bem que no plural se aproxime de moléstia. fortuito. a segunda também se generalizou a todo incômodo. Copérnico inventou um novo sistema do mundo. moléstia do corpo acompanhada de dores. Inopinado supõe que não se havia pensado. Um engenho fecundo acha muitas coisas. – Doença. “Porque parecendo. – Fortuito vem de fortuna: é o sucesso extraordinário. a física acha as causas e os efeitos. aqui tem decerto um sentido mais restrito. significa enfermidade ou moléstia habitual. – Achaque. imprevisto. – Acerca de acidental e de fortuito. abandono de forças. a terceira é preferível para indicar a falta de saúde que provém de fraqueza do corpo. isto é. achaque. escreve Alv. indisposição. etc. sani non sunt. incômodo (incômodos). como o definiu Cícero: Molestia est œgritudo permanens (Tusc. A mecânica inventa as ferramentas e as máquinas. “fraqueza. (Tusc. casual. – Contingente sugere ideia de coincidência. L. incerto. segundo Roq. primeiro. portanto. eventual. 105 ACHAQUE. e significa em geral o sofrimento que traz a alteração da saúde.. caso acidental. ocasional. – Moléstia toma-se quase sempre na significação da palavra latina. segundo sua origem (do verbo latino doleo). – Imprevisto supõe ignorância da possibilidade da coisa. “Acidental vem de acidente”. 10). 8). que vem e . ou que não é permanente. mas favorável”.. – Eventual distingue-se de todos os do grupo em enunciar apenas a ideia de coisa que ocorre. É o que acontece sem ser esperado. mas o engenho penetrante inventa coisas novas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 77 descobre coisas novas. que não se espera numa ocasião ou circunstância determinada”. ou trabalho penoso de corpo ou de espírito. tantas vezes sucedeu que veio a ser havido por mistério”. “supõe conhecimento da possibilidade de uma coisa. no mesmo sentido em que dizia Cícero: Qui in morbo sunt. enfermidade. enfermidade.. A primeira fez-se extensiva a todo defeito físico ou moral. 106 ACIDENTAL. de S. contingente. Parece corresponder ao morbus dos latinos.. e significa “que depende de certas condições ou circunstâncias. – Indisposição é “estado em que a pessoa fica ligeiramente fora do normal”. Dizemos com razão – doente o que não está são. mas cada uma delas indica modificações particulares que distinguem os diferentes gêneros de sofrimento”. mas não habitual. debilidade da natureza no sentido em que disse Cícero: Infermitas puerorum et ferocitas juvenum” (Senect. mal. 3. – Enfermidade significa. coisa que pode ou não acontecer. Fr. que quer dizer doença permanente. Volta inventou a pilha que dele tomou o nome de voltaica”. Harvée achou ou descobriu a circulação do sangue. podendo substituir em quase todos os casos a todos os outros do grupo. aleatório.. segundo a força da palavra latina. ou novos usos. segundo a origem árabe ax xaqui. ines- perado. – Mal é termo genérico para designar tudo que causa dano ao homem. doen- ça. Herschel descobriu um novo planeta.

– Aclamar é “aprovar.78 Rocha Pombo passa”. calamidade. mas para pior. aclama-se espontaneamente. – Aleatório “é termo jurídico: aplica-se a disposições que se tomam para o caso em que se dê uma circunstância possível. mas não provável”. glorificar – estes verbos marcam a gradação. de que se aprova e sanciona”. toda desgraça irremediável. e como se se tornasse publicamente reconhecido o que se proclama. num Estado. como se se fizesse escolha solene da pessoa aclamada. porém.. Em regra. formado do prefixo negativo des e de astre. – Postos nesta ordem – aplaudir. declarar com desvanecimento e no meio de extraordinário aparato”. – Aplaudir é “dar sinais ostensivos. calamidade.. glorificar. mas a uma série desses fatos que sobrevêm uns aos outros. destruição das searas pelas intempéries. catástrofe. com vivacidade. isto é. proclama-se. – Casual se diz de todo fenômeno cuja causa é desconhecida. vitoriar. segundo as superstições astrológicas. se declarasse autêntico. – Revés é a desgraça que faz mudar completamente uma situação. segundo a sua etimologia. e contra a qual nada se pode fazer. pela influência nociva dos astros. trazendo consigo a carestia e a penúria. (Há muita diferença entre proclamar e aclamar. isto é. a força crescente dos sentimentos com que se manifesta aprovação. desgraça. povoações e províncias.. se assim nos podemos exprimir. (Bruns. movimentos de delírio”. – Glorificar é “fazer a consagração . que aniquila e destrói tudo. vocábulo que significou primitivamente os estragos que a saraiva produz nos campos) significa. e que por isso se acredita que é devido ao acaso. que sobrevém como castigo. aceitar solenemente”. ou mesmo num indivíduo.. – Desastre (vocábulo francês. que se dá como de momento. – Ocasional significa propriamente “de ocasião”. O sentido desta palavra é sempre coletivo. incendimento sagrado por alguém ou alguma coisa. uma grande desgraça causada. livremente. Esta revolução completa pode dar-se num povo. do destino.. sem que nada a fizesse prever. no sentido figurado. Como a destruição das searas é uma desgraça que afeta sobremodo a muitas famílias. proclamar. proclamar. cumprindo um dever. aclamar. pois nesse caso não se atende a um fato adverso somente. transforma completamente o estado precedente noutro estado muito pior. 108 ACLAMAR. numa sociedade. – Proclamar é “dar sanção. agitação. muda. que é o único que hoje tem. expressos. – Desgraça é o mais genérico do grupo. – Catástrofe é acontecimento extraordinário. entusiasmo. – Segundo Bruns. e considerando-a até certo ponto como contrária às leis ordinárias. mesmo quando se fala de uma calamidade privada. – Incerto é “tudo aquilo a respeito do que se está em dúvida. se diz de qualquer grande desgraça.. mas sempre sugerindo a ideia de transtorno violento e profundo. delírio. revés. “astro”) significa propriamente um grande infortúnio. abrangendo a significação de todos os outros: é todo acontecimento funesto.. etc. que revolve. – Calamidade (do latim calamitas.) – Vitoriar é “aclamar estrepitosamente. é o reverso da medalha. aplaudir.). como se se desse testemunho. desgraça da qual é impossível sair. 107 ACIDENTE. vitoriar. constituindo um conjunto que tem importância excepcional”. desastre. ou não se tem certeza”. alegria. “suceder”) diz-se de qualquer desgraça que sobrevém inesperadamente. acidente (do latim accidere. e até somente numa família. e por extensão. pública ou privada. considerável. “que aparece como circunstância que se não prevê”.

e sim medroso. espavorir.. Uma questão pode ter sido ilustrada por um mestre. um assunto.” “A palavra de Jesus alumia os cegos” (não – “ilustra. seja superior a forças humanas ou fique fora do nosso alcance. esparzir claridade”. A glorificação deve ser um ato ou uma cerimônia tal que se compare à solenidade de culto: só a merecem os verdadeiros gênios e os santos.. que me atemoriza ou me quebranta. projetar brilho sobre”. por exemplo.. Dizemos: “Deus que o ilumine” (isto é – que lhe torne luminoso o espírito. De sorte que só se entende que alguém se acobarda quando deixa de ter o ânimo que é próprio do homem. – Elucidar é “fazer perfeitamente claro. inteligível. talentos que excedem ao que é grandeza comum entre os homens”. iluminar. – Alumiar diz propriamente “dar luz. no entanto. pois iluminar. mas nem sempre nos ilumina.. me acobarda. como a própria luz”. fazendo fácil”. um debate. e isto quer no sentido próprio.. explanar. ou o relâmpago.. ilustrar. tratando de cobardia. – Aclarar é “tornar claro. alumiar e iluminar. – Explanar = “explicar tornando simples... É convizinho de ilustrar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 79 de virtudes. Não se poderia dizer.. etc. desembrulhando aquilo que se não entendia. explicando o que parecia obscuro ou estava confuso”. ou de um decrépito. – Esclarecer é “aclarar completando. mas amedrontam uma criança. e não – “alumia. Muito bem nota Roq. O grande homem ilustra (dá brilho) o seu tempo”. quanto ao primeiro exemplo. elucidar. aterrorizar. assustar. – Acobardar é “reduzir alguém a uma incapacidade absoluta de reagir”. da ACOBARDAR.. mais por defeito da coisa que se explica do que da pessoa a quem é explicada. mas que me apavora. “pois que diante destes os homens ficam como se estivessem diante de divindades”. – Explicar é esclarecer como desdobrando.. distinguindo-se destes. a atacar. aterrar. explicar.. a solidão. etc. que de um menino (de uma mulher. e distingue-se de ilustrar em grande número de casos.. Também não será próprio o verbo acobardar tratando-se de casos em que a coisa a resistir. de um enfermo.. e pode-se dizer que a nuança entre uns e outros é marcada pelos respetivos radicais.”) Ilustra-se uma obra.. ou para atacar um inimigo que o afronta. o senso interior). 110 intimidar. amedrontar. . e não – “ilustra. estendendo. atemorizar.” Pelo menos esta forma seria de lidimidade muito duvidosa. também poderíamos dizer assim: “Deus que lhe ilumine o caminho da vida”.” O sol alumia a todos”. significa “dar à inteligência uma nova e intensa claridade a que não escapem as coisas mais abstrusas”. sem que só por isso haja necessariamente ficado de todo elucidada. alumiar. decerto que ninguém teria a lembrança de arriscar: “Deus que o alumie.. uma invetiva não acobardam. num sentido muito alto.” – Iluminar é de predicação mais viva e de ação mais direta que alumiar e ilustrar.) não se pode dizer que seja cobarde. – Ilustrar significa “lançar luz. Quem se acobarda perde a coragem para repelir um ataque. feitos. e: “Deus que lhe alumie o caminho escabroso que vai seguir” (isto é – que lhe torne claro o caminho).. fazer que se veja claro”. e não – alumia-se. apavorar. quebrantar. ou a evitar etc. em sugerir ideia do modo completo como a coisa elucidada ficou esclarecida. quer no figurado. Mas. A noite. esclarecer. ou nos alumia o espírito. E como um caminho só se faz claro a olhos que saibam ver. A lição do mestre abalizado nos ilustra. ou um vulcão. a vencer. que uma tormenta. 109 ACLARAR.. – Todos estes verbos enunciam ação de diminuir ou abater o ânimo de.

sinalando a palavra diretamente a intenção do que as executa. mu- . representando-nos o efeito. já que é tarde para defendê-lo a pulso ou à força de armas). – Amedrontar é “causar medo”. de salvar o seu decoro intimidando-se. que se inclui em aterrar. abater inteiramente o ânimo aterrado”. “A ação tem uma relação imediata com a pessoa que a executa. mas é possível que explicasse suficientemente a sua quebra de ânimo como excesso de pudor. mas não sugere a ideia de mistério. lá fora. causar grande medo”. O segundo significa também “encher de terror”. – Apavorar diz propriamente “encher de pavor. um grande espanto. como atemorizar é “causar temor”. etc. Exemplos: “Bastou uma palavra mais alto e mais áspera para que o outro se intimidasse ali. calando-se”. O primeiro exprime “inspirar um medo. Daí vem que as ações são boas. (O outro aqui não é decerto um herói. proezas.. sagrado... igualmente a ideia do que tem de misterioso. fatos. o mísero escravo intimidou-se”. que leva alguém a perder o ânimo.) – Assustar é “produzir impressão súbita de espanto ou medo”. representando-nos a vontade. tão discutível e brutal. “Na miséria ou na doença os mais fortes se quebrantam”. (Ninguém diria amedronta. quase sempre. – Quebrantar é “fazer que se perca o ânimo. submisso. da sua tarefa. que em atemorizar se inclui a ideia do motivo real. Mas a diferença entre estes dois verbos é bem sensível quando se compara medo e temor. Sente-se. o perdulário lembrando-lhe o futuro. – Intimidar é “fazer tímido”. O fato tem uma relação direta com a coisa executada. ou: “Bastou a presença do mestre para intimidar o menino”. e tem alguma coisa de análogo a aterrar por sugerir. o menino na presença dos examinadores. a parte que nela tem a pessoa.) Amedrontamos uma criança. portanto. falsos ou duvidosos. etc. de impressão violenta. mas aquele que se intimida – ou é de uma prudência tão meticulosa que se avizinha de cobardia. o pavor que sentimos.) “Por estar na rua. É dos mais extensivos do grupo.80 Rocha Pombo sua função. Até os animais podemos assustar. de coisa sagrada. Não se poderia dizer. e sem razão. – Feito é o mesmo que fato. “O crente atemoriza-se do castigo divino”. nos espavore”. um súbito terror de imobilizar. um espírito supersticioso. “Só ao ver ao longe o filho do senhor. feitos. e os fatos são certos. o produto. façanhas. como sobrenatural. a iminência de uma grande desgraça nos aterroriza. um assassino acossado de remorso ou perseguido da justiça. o heroísmo um tanto menos espetaculoso. etc. como virtude contra o escândalo. “O sofrimento moral quebranta mais que os males físicos”. ou é de uma tão delicada modéstia que passa a ter sem dúvida outro nome. nem intimida.. mas seguramente mais humano. – Aterrar e aterrorizar confundem-se muito. ou então é mesmo de natureza ou de condição tímido por ser fraco. amofinar”. deixar agitado de susto: e sugere a ideia da fuga que revela o espanto. e menos acobarda. mas – “nos apavora”. atemorizamos o mau estudante com a presença do pai. é causar susto. o que fica executado por meio da ação. com relação direta à essência ou qualidade do fato em si mesmo. (Ver o grupo. Uma visão diremos que nos aterra. más ou indiferentes. – Quanto aos três primeiros escreve Roq. a presença daquele biltre intimidou o velho soldado (O velho soldado nem por isso perderia direito a continuar sendo o mais legítimo dos heróis: poderia mesmo juntar talvez agora ao antigo. 111 AÇÕES. grave. – Espavorir é “fazer abalado de pavor. que se deixe abater. por exemplo: “A noite. o movimento. Pode-se intimidar a todo o mundo talvez. atemoriza-se o réu diante do tribunal. ou – “O castigo do céu atemoriza os crentes”.

– Esconder é “furtar alguém ou alguma coisa à ação. mas o seu uso mais frequente é representar as ações nobres. vergastar (verdascar). Nem por isso asilamos a primeira. 113 AÇOITAR. – Chicotar (ou chicotear) é “pungir a chicote”. – Homiziamos em nossa casa alguém “que sabemos condenado por algum crime”: e exatamente nisto é que este verbo se distingue de acoitar: este é mais extensivo: tanto podemos acoitar um menino que fugiu da casa dos pais. asilar. “Abrigamos em nossa casa bons e maus”. acoitar-se. Esconde-se aquele que se esquiva à ação dos que o procuram. esconder-se. – Acoitamos uma pessoa que sabemos comprometida com autoridade pública. refugiar-se. e diferençam-se quase que só pelo gênero do instrumento com que se molesta. mas principalmente batendo. ao esforço de outrem. Um bandido. flagelar. – Abrigar é “dar abrigo”. não se dirá que se refugiou. acoitar nem sempre. azorragar. ato. homiziar. Usam-se todos também no sentido moral. Um político. “fazer”. Vem acoitar-se em nossa casa o indivíduo que se julga culpado de algum crime. como um assassino que foge da polícia. chibatar (ou chibatear). Quem se oculta deixa apenas de aparecer. que se considera com direito a essa coisa ou essa pessoa”. pois o chicote ou rebenque não só molesta. – Açoitar é “bater com açoite ou látego. – Façanha (do latim facinus. – Homiziar é sempre um delito. – Vergastar (ou verdascar) é “bater com vergasta (ou verdasca) isto é – com vara muito fina e rija. acossado do clamor geral.. – Refugiar-se diz propriamente “fugir e valer-se de algum lugar seguro para escapar a algum perigo”. quem se esconde procura escapar tanto às vistas como à investigação de outrem. chicotar (ou chicotear). e sugere a ideia de “fortes golpes que molestam e afrontam a vítima”. pois ocultamos uma coisa evitando apenas que outros a vejam. pungir. ilustres de homens famosos e dignos de memória”. comprometido em algum atentado ou algum movimento subversivo. afligir. ou contra mal de que é perseguido”: “O hoteleiro abrigou da (ou contra a) chuva aquelas crianças”. nem o segundo pode dizer-se. asilar-se. como aos homens que se deseja humilhar. ou com alguém a que essa pessoa esteja sujeita. 112 ACOITAR. surrar. refugia-se na Inglaterra ou na Suíça. sagrado (asilo) em que alguém se julga a salvo de qualquer perseguição. – Asilar expressa a ideia de lugar seguro. isto é – “acolher e amparar alguém contra risco iminente. e como castigo”. devido à grande coragem. abrigar. a valor excepcionais. mas que se foi homiziar no estrangeiro. “obrar” etc. De um criminoso julgado. zurzir. que se asila em nossa casa. de facere. mas só homiziamos o criminoso que tenta escapar à ação da lei penal. das que são contadas nos antigos romances”. magoar açoitando ou vergastando”. – Zurzir é “espicaçar. proeza (em francês prouesse “action de preux”) “diz-se propriamente das façanhas da antiga cavalaria. sim. corresponde muitas vezes a obra. De um revolucionário vencido que conseguiu fugir não se pode dizer que foi homiziar-se no estrangeiro (e sim – refugiar-se). um anarquista. a virtudes. – Todos estes verbos enunciam ação de molestar fisicamente. – Azorragar é “bater com azorrague”. cortante”. mas ultraja também. – Surrar é o mais compreensivo do grupo: exprime a ideia geral de “molestar de qualquer modo. nem sempre. – Ocultar é menos do que esconder. – Segundo Laf. e tanto se faz às bestas lerdas. ocultar. a esforço.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 81 dada por eufonia a pronúncia dura de a na doce de ei. homiziar-se. refugia-se na floresta.) é feito heroico. fustigar. ocultar-se. abrigar-se. . es- conder.

– Apropriar aqui é “dar a uma coisa condições que a tornem própria para o fim que se deseja”. ou mesmo na conveniência da pessoa a quem se sugere. ou a um caso determinado”. navios. em regra. como calamidade. etc. Segue-se-lhe a pista a alguém.. Ninguém diria que sugeriu a Pedro que levantasse muito cedo: salvo se quisesse mesmo fazer uma simples sugestão. em vez de dar um conselho”. etc. persuadir. boiar. É claro que. – Adequar é “fazer uma coisa proporcionada a um certo fim. Uma nação pode ser flagelada por uma inundação ou por um mau governo. sofra as alterações que o caso exige: acomodar um drama estrangeiro ao teatro português”. tropas de carga. a coisa a comboiar – carros. Além disso. – Sugerir é “fazer entrar no espírito de alguém.. – Insinuar está quase no mesmo caso de sugerir: é “introduzir. mas – “segue no encalço” (ou vai. e sugere noção da superioridade de quem chibata com respeito ao chibatado. tomar o mesmo rumo de alguém. – Acompanha-se uma pessoa quando se vai a seu lado e subentende-se que tomando parte nas vicissitudes que essa pessoa tiver no seu caminho. isto é. – Fustigar é quase como zurzir: designa a ação “de picar. – Chibatar (ou chibatear) é “aplicar a chibata. insinuar. – Acomodar “é – diz Bruns. e muito subtilmente. e dá ideia de que nunca é uma só pessoa que escolta. quer para o servir. alguma coisa que está no nosso interesse. adaptar. como a despiedade de um mau poeta. benévola ou perversamente.82 Rocha Pombo macerando. escoltar. numa situação difícil. 115 ACOMPANHAR. com- “ir atrás.). (não – acompanha-se). Não se poderia dizer... é também “encaminhar numa certa direção (num negócio. Tanto pode flagelar-nos um inimigo como um infortúnio. ou por circunlóquios. apropriar. por meio de razões insistentes e bons argumentos. – Escoltar é “acompanhar para proteger ou para vigiar”. zurzindo para exemplar e corrigir”. Acompanha-se uma irmã à igreja (não – segue-se)”. “acompanha no encalço”. de boa ou de má-fé. a que faça alguma coisa que não faria de moto-próprio”. ou por meios indiretos e vagos. a conveniência de ocultar-se às vistas da polícia. ou o fato de cair. pois nunca se comboia senão para proteger. ajustar. – é sempre mais de uma. boiadas. As forças escoltaram os prisioneiros até Pernambuco. quando dizemos explicitamente a Pedro que levante cedo. – Quanto a comboiar é preciso que se note que. Um galé só sai da sua prisão escoltado. 114 ACOMODAR. mas indo-lhe na retaguarda e sem perdê-lo de vista. até que o fustigado perca a paciência e saia do estado normal de atividade ou de calma”. significando a ação de impor pena como suplício e castigo. sempre se entende que é grupo. na vida.. sugerimos a Pedro o que está no seu interesse. portanto. Porque seguir é que diz inspirar. – Ajustar é “modificar uma coisa de maneira que com outra se combine”. – Flagelar tem hoje uma acepção especial. sugerir. – transformar uma coisa de modo que. conveniente a um determinado uso.).. multidão (comboio). – Adaptar é “fazer alguma coisa apta especialmente para uma calculada serventia”. é mais restrito que escoltar. ou a verdasca”. bater com vergasta e repetidamente. quando lhe fazemos sentir por meias palavras. sem perder o seu caráter. – O sentido translato é análogo ao natural em todos estes verbos. guiar.” Pode aconselhar-se bem ou mal. levar até o íntimo do espírito ou do . 116 ACONSELHAR. a isso o aconselhamos. seguir. – Aconselhar é “induzir alguém. e quer para observá-lo. adequar.

marcha. significando o mesmo que acontecer. primeiro relutara ou não se tinha mostrado a ele propícia.” Ocorrer é o mesmo que suceder ou acontecer. entrar em acordo. de direito ou de interesses a que se submetem afinal partes que não puderam dirimir de outro modo a contenda ou a questão debatida”. concerto. Guiamos os nossos filhos. se recorde. Dizem que se deram naquele momento sucessos imprevistos. como termo genérico. pactuar. diz Bruns. assentar. As ocorrências que se dão diariamente já não impressionam. – Quanto aos três primeiros. “coração”. Deram-se acontecimentos extraordinários em Lisboa. dar-se.. para que a pessoa guiada não se afaste do reto caminho. Dão-se às vezes desgraças que surpreendem os mais fortes ânimos. porém. Os que convêm fazem convênio: celebrar . convencio- passar-se. com mais energia. – Acordo supõe que a pessoa. Decerto que se não poderia dizer: “Passou-se uma catástrofe. se anime. ou ocorrer. se incenda.. contrato. portanto. previsto ou imprevisto. e é de predicação mais precisa. significa “sugerir mais diretamente. etc. não há dúvida que em tais casos seja bem empregado: aconteceu o que tínhamos previsto. – Inspirar. mas encerra ideia de causa anterior. – Convenção é “o acordo. aplicável a qualquer fato. de opiniões. Por isso é que se diz muito acertadamente que onde nunca houve desacordo não seria próprio dizer que veio a dar-se acordo. 117 ACONTECER. quando se quer dar a entender que do que sucede ou acontece se origina alguma consequência. intento. um verbo que em todos os casos poderia substituir a qualquer dos nar. combinar. Geralmente. assento. aqui. mas de razão. ac (c por d) + cordo diz propriamente “ao coração”. passar-se-ia um desastre se não fora a nossa prudência”. ocorrer. é assistir com bons conselhos. O que se faz entre as pessoas que convêm chama-se convênio. – Dar-se é. tratar.. três primeiros.. – Persuadir é “insistir em que alguém creia. como guia o mestre os seus discípulos. porém.: convindo não esquecer que insinuar envolve ideia de má vontade ou de intuito ilegítimo de quem insinua”. que deu cors.” – Suceder é o mesmo que acontecer. concordar. dizendo “sucedeu uma desgraça” – apresentamos o fato como consequência de tal ou tal existência: “na perfuração dos túneis sucedem desgraças amiúde. – isto é – significa a união de sentimentos e extensivamente de ideias.. cordis. aqui. contratar. emprega-se. suceder. convênio. – Guiar é dirigir alguém nalgum serviço. etc. ou suceder.: “Acontecer é termo genérico. importante ou não. concordata. aconteceu um desastre. ajustar. Nesta palavra acordo (accordo) figura a raiz cor. ajuste. pacto. convir. não obstante. acontecer não relaciona o fato com outro anterior nem o atribui a determinada causa. – Também se pode guiar mal ou bem.. uma suspeita. concertar. – Acordar é. um desejo etc. – Convir é encontrar-se com outra pessoa numa certa igualdade de intuitos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 83 coração de alguém uma ideia. tratado. aceite o que lhe propomos ou dizemos”. – Passar-se está quase no mesmo caso: não é. e. “para o coração”. sem outra ideia acessória. tão extensivo. a que chega quem faz acordo. operar sobre o espírito ou o coração de alguém para que se oriente. que chegou a fazê-lo. Não é convicção que leva uma pessoa a persuadir-se: é antes a autoridade de quem persuade. etc. não de vontades ou de impulsos propriamente. combinação. acordo. pois. Convenção é sempre mais solene e ato de mais importância do que convênio. 118 ACORDAR. Dizendo – “aconteceu uma desgraça” – referimo-nos à desgraça em si. convenção.

pois. “reduzir a escrito (ou dar-lhe toda autenticidade) um acordo a que se chegou. – Concordata é termo jurídico que tem principalmente duas acepções: exprime “acordo ou convenção solene feita entre o sumo pontífice e um soberano”. despertar. ou dos costumes. “entrar em concerto. – Segundo Roq. ordenar os termos de um acordo ou de um convênio”. – Combinar (do latim combinare – cum + bini “com” + “par”) diz precisamente “pôr uma coisa ao lado da outra. que tratar tem uma significação muito menos precisa. da resolução que se tomou. expedito para exercer suas faculda- . como frequentemente sucede. o pacto se faz sobre coisas cuja sanção é superior ao alcance das leis humanas. 119 ACORDAR. o ato de ajustar. O que se combina fica assentado apenas mentalmente: não tem força de acordo ou de pacto feito. Dois exércitos não celebram tratado. portanto. – Combinação é o ato de combinar ou aquilo mesmo que se combinou. nos termos ou nas condições da lei. celebrar contrato. deixando sentir que se havia antes discordado”. ou o tiram. É certo. decidir. mas convenção: só poderes soberanos têm capacidade para celebrar. 15): Ah! quem de sonho tal nunca acordara – Despertar é pôr ou pôr-se um homem esperto. juntá-las. o recobro dos sentidos. – Contratar é. pactuar com os inimigos da pátria”. é um compromisso que fica obrigatório para cada um dos que nele tomam parte. É precisamente em virtude do caráter de imutabilidade que o pacto reveste. ainda quando não tenha sanção legal – não a podendo mesmo ter quando. (Bruns. – “O pacto é uma convenção formal em que cada pactário declara renunciar ao direito de romper o pactuado. para que dele resultem direitos e obrigações legais ou morais”. depois de debate. se bem que o mesmo se pode quase dizer de tratado. como se vê naquele verso de Camões (Canç. no entanto. Trata-se tanto de altos interesses de nações como das coisas mais insignificantes do mundo. Mas tratado é uma convenção de alta categoria: só pode ser celebrado entre nações. e representam a ação pela qual um homem sai. – Concerto é um pouco mais que simples combinação: é “a harmonia perfeita a que se chega acerca de alguma coisa depois de haver ponderado todos os prós e contras”: pode não chegar a ser um contrato. referindo-nos a negócios de pequena monta: “o tratado é devido”. ou ainda mais restrito – comercial.: – “Acordar e despertar são verbos ativos e neutros. fora da acepção que tem neste grupo.84 Rocha Pombo convenção é convencionar. a forma autêntica. pois. portanto. pois. que este termo se presta a ser tomado a má parte. mas já envolve compromisso moral mais solene do que aquilo que simplesmente se combinou. da sentença que foi proferida”: assentar é. – Tratado e contrato correspondem a convenção e convênio ou guardam respetivamente entre si a mesma analogia. ou nas condições de um arranjo ou negócio depois de haverem as partes discutido”. de modo que fique sólido e perfeito”. ou junto uma da outra. – Acordar exprime propriamente a cessação do sono. tanto convenções como tratados. – Concertar é.) – Ajustar é “convir em alguma coisa. e também a cessação do sonho. – Contrato é “aquilo que se tratou reduzido a escrito. mas dizemos também. – Assento diz propriamente “o registro solene de um convênio. Ajuste é. como quando se diz: fazer um pacto com o diabo. e designa “ajuste entre credores e devedor”. compará-las”: combinar é. confrontá-las. do estado de adormecimento em que jazia. “dispor. – Concordar é convizinho de concertar: é “vir a acordo como os que se conciliam. e tem mais propriamente sentido jurídico. por acordo comum”.

duz um menino a faltar às aulas não é talvez menos perverso do que aquele que o incita a praticar o mal. que acordar supõe um sono ordinário e que acaba regularmente. ou uma doença. – Agrilhoar diz mais ainda que acorrentar. e que se interrompe a horas desacostumadas. do peso dos grilhões. do sofrimento do agrilhoado. isto é – por meio de cabos. – Acoroçoa-se alguém na sua tarefa. é “prender por meio de corrente”. incitar. acoroçoar (a + coração + ar) diz “avigorar o coração”: quer dizer – confortar alguém no que empreende. A palavra do santo velho alentava os moços. incitar na tarefa. mais ou menos intimamente. pois encerra ideia da tirania com que se agrilhoa. sustentar no esforço. ou de quem nos quer tornar espertos. – Animar é “infundir alma”. Uma só pessoa seria impróprio dizer que aflui. ou cordas. – Incitar é um pouco mais: é “induzir com grande esforço e vivo empenho”. – Acorrentar (ou encorrentar)11. a ideia da força. aqui. cheio de correntes”. prepotência com que se prende. sendo que despertar anuncia sono profundo. no sentido próprio. no figurado é “coagir. A esperança nos alenta nesta luta. Entre os dois primeiros e o outro. enlaçar de modo a tolher os movimentos ao que se encorreia”. Não há ninguém que anime aqueles míseros no eito. 121 ACORRENTAR (ou encorrentar). de modo que a coisa amarrada fique segura. encorrear (ou acorrear). acudir. É próximo de encadear. induzir. por meio de palavras persuasivas. já se nota uma diferença fundamental: tratando-se de pessoas (ou quaisquer animais) só se emprega afluir quando se faz referência a muitos indivíduos. 122 ACORRER. sem envolver ideia do modo como se a prende”. – A mesma diferença existe na acepção figurada. como se vê ainda de outros versos de Camões (Lus. – Amarrar diz propriamente “prender com amarra”. – Encorrear (ou acorrear) é “prender por meio de correias. porque em afluir se inclui a ideia 11 Poder-se-ia notar entre estes dois verbos alguma diferença. Animam-se os enfermos contando-se-lhes casos de cura prodigiosos. Quantos homens acordam do sono da culpa. isto é. conter dentro de certos limites”. 38): Os do quarto da prima se deitavam. Colombo voltou da América encorrentado (não acorrentado). VI. isto é – dar vigor às forças do espírito para uma resolução. Quem in- agrilhoar. distinguindo-se em sugerir. – Prender é o mais genérico do grupo: diz “ligar uma coisa a outra.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 85 des. amarrar. animar. dureza. ou por exemplos ou por medo. marchar. mas não chegam a estar assaz espertos para praticarem resolutamente a virtude!” 120 ACOROÇOAR. encadear. incitando-o com palavras e afagos a que tenha coragem e se esforce por vencer. Para o segundo os outros despertavam. para sofrer um mal. para um trabalho. a fazer alguma coisa”. afluir. e não se possa afastar do posto em que se a fixou. ou seu intento. é “levar alguém. – Induzir. para sair do qual é necessário mais esforço nosso quando acordamos. ir ou vir para alguma parte. pois encorrentar diz mais propriamente “carregado de ferros. alentar. – Estes três verbos enunciam a ação de correr. insuflar coragem. Com o exemplo do capitão animam-se os soldados a investir o baluarte. Segundo a própria etimologia. . Parece que a ação de acordar precede à de despertar. – Alentar significa propriamente “dar alento. melhor do que este. correntes. prender.

na mesma terra onde nasceu e se criou e onde vive). Tal ideia não existe em perseguir. perseguir. pois inclui mais ideia de modo de ser do espírito. e que em acorrer e acudir está implícita a ideia de pressa: não se acorre nem se acode devagar. ou sem grande interesse de momento ou urgente. menos a nós próprios do que à ação do meio em que vivemos.. a obediência. pelo menos. porque “corre a socorrer”. portanto. se habituou a ir todos os dias à igreja. afazer-se. ou cede a medo. acomodar-se. Quando muito. os nossos costumes. Acostuma-se alguém com alguma coisa. modelar-se. o acossador tem à vista o acossado. ajusACOSTUMAR-SE. A. com habituar-se. natural) “mover-se lentamente (como os líquidos) numa certa direção. lhe não é mais estranho como a princípio. meio ou vida nova. – Confunde-se acostumar-se.86 Rocha Pombo de multidão.” Devemos. aqui. – Dar-se exprime. Isto quer dizer que afluir significa (como na acepção própria. amoldar-se. ou a perigo que viu. do caráter em suma. conseguintemente. de meio. identificar-se. – Todos os verbos deste grupo enunciam ação de mudar de vida. de condição. Entre acorrer e acudir é preciso também notar que é fácil marcar uma certa nuança. como: “eles acorreram ou acudiram. mas quem ouve um grito de socorro não acorre apenas: acode. que do exterior. a mesma diferença. Quem acode atende a grito de socorro. Por isso mesmo não se explicaria. mas depende de mim habituar-me a um certo serviço. dar-se. aclimar-se (aclimatar-se). ou a alguma coisa que procura solícito impedir ou evitar. – Acossar – diz Bruns. quase o mesmo que acostumar-se. ou a provocação: o que. afeiçoar-se. ou nalgum lugar. Não está em mim acostumar-me numa cidade. tar-se. há-os também nos quais não seria permitido usar de acudir. em Paris. e com a mesma sem-razão com que se confunde costume com hábito. 124 habituar-se. nem sempre se dá quanto a acorrer. F. – Hábito é “tudo que fazemos já quase maquinalmente. mas nunca se habituará à vida dos boulevards. que um paulista nos viesse dizer que se acostuma em S. Paulo (isto é. – Costume é “tudo que forma o modo de ser próprio de alguém ou de um povo: o convívio é que o faz. e a diferença entre os dois consiste em que aquele é de predicação menos intensa e mais vaga. Costume. quando sente que o meio. pois entre o perseguidor e o perseguido a distância pode ser considerável”. a vivo interesse. à procura de um ponto”. Ela nun- .” Outra diferença: como há casos em que afluir não substituiria nenhum dos dois. pois. por nos termos exercitado com esforço. de cópia ou abundância. e afazer-se a condição. 123 ACOSSAR. ou a um gênero de vida que nunca tive. afinal. Esta ideia não há em acorrer e acudir: tanto podemos dizer “ele acorreu ou acudiu ao ver o desabamento”. por exemplo. poder-se-ia dizer que ninguém acorre a um certo ponto. sem motivo instante. tanto maus quanto bons. do indivíduo subjetivo. tanto social como físico. acostumou-se. ou por termos repetido muitas vezes”: devemos os nossos hábitos mais a nós próprios do que a outros. – “é perseguir hostilizando. nem de acorrer por afluir: por exemplo: em – “as famílias da redondeza afluíram à cidade no dia da festa” – não poderíamos (sem alterar o valor lógico da frase) pôr nenhum dos dois primeiros verbos no lugar de afluíram. hábito. Ele se dá tão bem na roça como na corte. adaptar-se. ou para determinado lugar. não se acostuma no campo. ou do modo de parecer peculiar a cada pessoa. M. Resta observar que costume se poderia definir como significando hábito moral.. Entre acostumar-se e habituar-se há.

ninguém diria que acresce: e sim que aumenta. – Acomodar-se diz propriamente “ficar a gosto nalgum lugar ou com alguma coisa. mais extensa por acrescimento. afeiçoei-me sempre às condições da minha vida. E não se diria: Acrescentei o número de livros porque o aumentei. a coisa adicionada é menor do que a coisa a que se adiciona: esta fica para aquela como o todo para a parte. notando-se apenas entre os dois a diferença marcada pelo prefixo a de amoldar-se. porque acrescentei alguns que me faltavam. a felicidade. O aumento é sempre efeito da adição ou aditamento. isto seria melhor juntar. mais ampla. por acréscimo ou adição gradual de novas moléculas ou porções de massa. de força. afinal. em regra. dizemos que aumenta. designativo de esforço por parte de quem se amolda: ideia que se não inclui em modelar-se. No verbo adicionar há implícita a ideia de que. em relação a outrem ou alguma coisa. – Acrescentar é tornar mais longo ou mais complexo: acrescentar um parágrafo à carta. qualquer que seja o processo de crescimento. dizemos que acresce. – Amoldar-se é propriamente “tomar alguém ou alguma coisa por molde ou modelo”.” – Ajustar-se quer dizer “pôr-se alguém.. ou que não é propriamente o nosso”. – Acrescentar é uma extensão de acrescer. ela procura ajustar-se ao modo de ser do esposo. Um ricaço aumenta suas rendas acrescentando novas propriedades às que já tinha”. etc. 125 ACRESCENTAR. adaptar-se a um clima novo.. pois ninguém se afaz a alguma coisa sem esforço. nesta acepção. sem constrangimento. acomodo-me à compostura. a acostumar-se aqui. pois que se torna mais intensa. como ficam duas superfícies planas que se juntam. O que se junta ou ajunta forma parte integrante do todo. a alegria. pouco a pouco. viesse. de extensão. aditar.” – Acrescer é. acrescenta-se. pois. A dor. – Afazer-se aproxima-se mais de habituar-se. aumenta-se. aumentar. acrescentando. Decerto nada impediria que uma pessoa. ou à índole das pessoas prudentes. – Identificar-se é “acomodar-se tão bem com alguma coisa como se se fizesse igual a ela”. com alguma coisa. Não assim o que se 12 Aliás. juntar. unir. o primeiro é o resultado. – Adaptar-se enuncia a “ação de se fazer alguém próprio. ajuntar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 87 ca se pôde dar com os caprichos do noivo. – Aclimatar-se é o mesmo verbo. Ajuntar é pôr umas coisas junto a outras. a raiva. Aumentei o número dos livros da minha biblioteca. e este é o meio por que o aumento se verifica. amoldo-me a todas as contingências: só não posso modelar-me pelo sentir dos ímpios. acrescer. “ficar maior. ou para algum serviço ou função”. ficarem medida igual”. adaptado da forma francesa. adi- cionar. adir. “adicionar é reunir um todo (ou uma parte) a outro todo12 da mesma espécie: adicionar um ato à Constituição do Estado. – Afeiçoar-se é “semelhante ao precedente: designa a ação de dar-se perfeitamente com alguma coisa (ou com alguém) amoldando-se a ela”. apto para uma certa coisa. 126 ACRESCENTAR. – Exemplos: afazemo-nos a uma tarefa nova. Quando uma coisa aumenta “crescendo. dar-se bem. – “é o meio. como a soma para a adição.” Quando uma coisa cresce de volume. – Segundo Bruns. e modelar-se diz o mesmo. agregar. isto é. aclimar-se-ão neste trabalho ou neste meio se tiverem perseverança e cautela. adaptam-se rapazes à vida militar. capaz. de intensidade. O sentido translato é análogo. Para aumentar. . por exemplo. identificou-se ele completamente com a sorte daqueles homens. – “O segundo” – diz Roq. – Aclimar-se é “afazer-se. que se não dá com a vida do Rio. de amplitude.

Todos dizemos: “Creio que ele virá” – querendo dizer: “Acredito que ele virá”. “creio que ela não descerá jamais àquela miséria moral”. portanto.. como se vê dos nossos léxicos.. “Creio em Deus”. – Entre ajuntar e juntar parece que há sempre alguma diferença. notar que dizemos: aditar alguma coisa às provas feitas. como parcela que vai aumentar. – Adir (de addere = ad + dare) significa “pôr ao pé. É preciso.. e agregar é aumentar o conjunto.88 Rocha Pombo agrega.” (porque ajuntar. aliás. ao discurso lido: casos em que adicionar não seria pelo menos de muito escrupulosa propriedade. no entanto. aditar e adir têm o mesmo radical (do. Se nestes exemplos substituirmos o verbo crer pelo outro.. mas aquilo que outros nos afirmam”. ou uma ou mais porções a um corpo fazendo-o maior. agregam-se essas ou outras”.. “ajuntamos laranjas.” Isto quer dizer que ajuntar marca (pelo prefixo a = ad) a atividade. no entanto. Mas quem diz: “Creio que ele virá” – funda naturalmente a sua crença ou a sua confiança na afirmação daquele que tem de vir. bastariam alguns exemplos para deixar clara a distinção que é preciso não esquecer entre os dois. “creio firmemente na imortalidade da alma”. só admite a forma pronominal recíproca: poder-se-á ainda dizer – “ajuntar-nosemos”... referindo-se a uma peça complementar da Constituição. Juntam-se coisas homogêneas. portanto. Deu-nos adido e adição. que a uma desfiguração de sentido que se explicaria talvez por uma vantagem do menor esforço com que pronunciamos crer em vez de acreditar. “ajuntar ao que estava feito. parecendo. é evidente que não faremos com a mesma precisão e a mesma força as afirmações que aí se formulam. Aditam-se razões às que já foram produzidas: adiciona-se alguma coisa a uma coisa dada. – Aditar diz. mas sem dúvida ninguém se animaria a dizer – “adição constitucional”. – Adicionar. Por isso ajuntar é aumentar o todo. peça que lhe fica como que apensa.. que se equivalem perfeitamente. Crer encerra ideia de certeza profunda. aos autos. ajuntar. não – “eu me ajuntarei ou ajuntar-me-ei”.. que enuncia apenas o “ato de se pôr ou de ficar uma coisa juntamente ou em cooperação com outra”. sugere também alguma coisa de dúvida no considerar como certa a coisa em que se crê. nunca – “me ajuntarei. dos quais temos aditar e adicionar. ajuntar. e como perfazer a soma”. é de mais lídima propriedade a aplicação do verbo acreditar. por uma capacidade própria do nosso entendimento. Basta notar que se diz: – “juntamos os nossos esforços” e não – “ajuntamos. e neste caso. – Confundem-se mui- to estes dois verbos. de convicção segura e inabalável. e aquele de formação latina. aqui. em certos casos. deixando como apensa a coisa aditada”: adicionar exprime “acrescentar como adição. . Enquanto que o verbo crer significa “considerar como verdade aquilo que está no coração ou na consciência”. (estarei junto do sr. are) e todos designam a ação de acrescentar.”. menos à imprecisa propriedade do vocábulo. não o que sentimos. É exato. unir”. pois cada parte agregada conserva a sua individualidade. o esforço do sujeito que põe uma coisa junto de outra: o que não se dá em relação a juntar.) nesta questão”. que o próprio verbo crer. ajuntamos dinheiro” e não – “juntamos. este de formação vernácula. É certo que dizemos – “ato adicional”. que diz precisamente “ter como verdade.. 127 ACREDITAR. crer. adaptar. mas provavelmente devemos isso. e isso por uma injunção do nosso espírito. e. em vez de – “aditamento constitucional”. Exemplo: “Convença-se de que me juntarei ao sr. ou por uma tendência ou um modo de ser da nossa natureza moral. e é só por engano talvez que lhe damos a significação perfeita de acreditar.

cujo socorro se pede. “acro se diz do que. – Auxiliar diz propriamente “dar auxílio”. e precisa de ter mais. sendo duro e pouco dúctil. E a inversa é também admissível: só porque alguém nos socorre num grande embaraço. ou para que multiplique as próprias forças e se ponha ainda mais no caso de alcançar o que almeja. Dá-se ajuda (ou ajuda-se) a uma pessoa que está embaraçada com trabalho que não pode fazer. os que precisam de amparo. como se vê dos seguintes provérbios em que no uso ordinário se não pode substituir um pelo outro: Deus ajuda aos que trabalham. – Segundo dêmico Francisco Dias (Mem. – Bruns. não sucumbam. a minha capacidade de triunfar. e o mesmo aconteceu com o verbo ajudar relativamente a auxiliar. defender. em lendas fantásticas e contos da carochinha. 37) a palavra auxílio. Nem sempre quem acode socorre efetivamente. isto é. que disse sentenciosamente: Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.. isto é – que tenha vindo solícito ao lugar em que perigamos. dá-se socorro (ou socorre-se) ao que não tem o suficiente. – Acudir é “correr em socorro de alguém”. Mais vale quem Deus ajuda Do que quem muito madruga. ou mesmo num perigo. (Lus. Depois que os poetas e escritores cultos foram alatinando a língua. Só se amparam aos desvalidos. Acudir dá ainda ideia de que a pessoa pela qual se grita deve fazer tudo pela nossa salvação.. mas acredita em visões.. no entanto. necessita cuidados assíduos para conservar-se. dá-se auxílio (ou auxilia-se) ao que já tem meios. ou para que o faça mais prontamente. junto da pessoa que se deve socorrer. acolhe e abriga. 128 ACRO. protejam para que não caiam. era ignorada ou não usada até princípios do reinado de D. “segundo o aca- .. – O mesmo se pode dizer de quem me ajuda. Há metais acros.. – Proteger envolve ideia da superioridade de quem guarda ou ajuda. nos julgamos inteiramente perdidos. Aquele que nos grita: Acudi-me! – solicita ansiosamente a nossa assistência nalgum perigo em que se encontra. forças etc.. auxiliar. IV. abandonados. salvar. a que se empregava era a portuguesa ajuda. que. Manoel. A quem madruga Deus ajuda. ajudar. 129 ACUDIR. isto é – aumentar a força de alguém que já não se julga fraco. socorrer. se quebra ao ser trabalhado. ou aumenta a minha força. proteger. e esta (ajuda) passou para o domínio do vulgo. O vidro é quebradiço. vem apenas completar o nosso esforço e a nossa capacidade de defesa. 80). não pereçam. como ainda se vê em Camões. que é latina (auxilium).” – Quebradiço é o que se quebra facilmente. quando gritamos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 89 Muita gente não crê em Deus. espúrios. pois entende-se que nós. Quem nos socorre. quebradiço. Nada mais frágil que “a saúde”. além de ser quebradiço ou deteriorável. Quem me auxilia apenas concorre para que eu vença. ou em Jesus. O protegido não é sujeito que precise de socorro ou de amparo. guardem. – Amparar supõe o desvalimento completo da pessoa que se ampara. foi aquela (auxílio) admitida com certo ar de nobreza. da Acad. de que os sustentem. IX. amparar. frágil. mas antes de auxílio. – Frágil aplica-se ao que. e amparo (ou ampara-se) ao que nada tem”. não se segue necessariamente que nos haja acudido. Escreve Roq. – Socorrer não implica a ideia da presença da pessoa. valer. e o protetor dá-lhe um auxílio poderoso para que ele se revigore.

denunciar. – Malsinar é acusar como malsim. paga. – Delator vem do latim delactor: é um indivíduo que procura. criminar. um homem corruto. um traidor que finge viver com os outros em termos de boa amizade para vir no conhecimento de seus segredos. Pas. reclamando a devida punição”. e por ofício. “Valha-nos o céu nesta amargura”. e não acusador. – Acusar é denunciar alguém como criminoso. o acusador acusa aberta e publicamente. intentando uma ação criminal de roubo. o delator obra por maldade. “denunciar é manifestar aos juízes um delito oculto. quer acudindo-lhe e dando-lhe socorro oportuno e eficaz. e que animam a calúnia com o interesse”. o denunciante nutre seu zelo fazendo conhecer às autoridades as ações e opiniões condenadas em política. – Delatar acrescenta à ideia de denunciar a de malevolência. é “atribuir a alguém falta ou crime.. para fazerem a perdição da outra. e pode fazê-lo cumprindo dever de cargo. Contudo. quer auxiliando-lhe os esforços. Mas quem acusa articula fatos com que pretende dar provas do crime ou da falta por que acusa... que serão o seu corpo de delito. Os delatores formam a classe mais vil e infame: são a arma dos governos fracos e corrompidos. “O acusador – diz Alv. deixando este encargo às partes interessadas. 131 ACUSAR. “Quem me valerá nesta contingência?” 130 ACUSAR. desastre etc. que se aproveita de um abraço para introduzir no bolso do que chama amigo papéis. amparar. de assassínio. a palavra acusador é odiosa. mas o delator é uma personagem odiada. in- culpar. e talvez a de algum vil interesse. defender “é ficar ao lado de alguém para impedir que outrem se aproxime hostilmente. ou mesmo para evitar ataques previstos ou repelir agressões”. por preço. denunciante. culpar. O malsim exerce o seu ofício em tudo que respeita aos contrabandos. quer protegendo-o. acudir. outras (e são as mais comuns) é ato de malevolência. incriminar. e nas demandas chama- -se autor ao que intenta ação contra o réu ou acusado. malsinar. Bern. nunca pelo bem público: procede com disfarce e ocultando-se. – Acusar. malsim. acusador. descobre. delatar. Mais extensamente. Man. que trafica às escondidas da honra e vida de seus semelhantes. o denunciante. isto é. para que façam o que entenderem. um homem vendido. etc. Quando a acusação é justa. A acusação pode ser às vezes um ato bom. delator. um judas infame.) – isto é – que lhe acudisse. e defere secretamente o que ele crê ter visto. – Valer aqui é muito próximo de socorrer. O denunciante pode ser levado somente do zelo do bem público. toma-se à má parte. salvar. e muitas vezes o que deseja fazer que se creia: o seu ofício é o de trair. “Vendo-se já no último perigo recorreu a Deus que lhe valesse” (P.. como fazem os malsins. o delator satisfaz sua maldade acusando os crimes ou delitos contra as leis. e é designado pela frase de vil delator. já para assegurar-se da verdade da denúncia. ou por interesse. aqui.. que dá interpretações criminosas às coisas mais inocentes. sem apresentar as provas. Nos tempos modernos o uso tem quase fixado o valor de cada uma destas palavras. embaraço. um homem indignado. quer ainda amparando-o vigorosamente ou defendendo-o”. ou exercendo direito . – será um homem irritado. arguir. já para evitar ou remediar o mal que se denuncia. – Segundo Roq.. fundada e nobre. ou suspeitas ao governo”. – Salvar “é pôr alguém livre ou a salvo de algum perigo.90 Rocha Pombo Quem nos defende é como quem se pusesse entre nós e o nosso inimigo e dos golpes deste nos guardasse. que aviltam neste mister uma parte dos cidadãos.

a moral vigente. – Adágio não se confunde com dito. quase sempre mais longo.. e como que condensam. ditado. como o ditado têm uma forma. mas decerto não seria próprio designar nenhuma dessas frases por adágio. Dizemos: “as sentenças. ou os provérbios de Salomão”: e aí não caberia nenhum outro dos vocábulos do grupo. sem formular propriamente acusação”. aforismo. cla- ra. em frase rápida. e de sentido ainda mais profundo. – Prolóquio é sentença menos grave e profunda. delito.. provérbio. preceito... dada em poucas palavras. Note-se. menos de não ter sabido defender a inocência”. não só rude. repreender com acrimônia. ou que foi consagrado pela razão humana em todos os tempos. e como tal usou-a Vieira. que juiz há de puni-la?” – não seria permitido o emprego de criminar. parêmia. – Todas estas palavras enunciam conceito. paremia. provérbio. dizendo: “E daqui nasceu aquela paremia ou provérbio: que o céu era para Deus. em termos precisos. prolóquio.. brocardo. “Poderá arguir-me de tudo. e a terra para os homens. e mais vulgar que provérbio: propriamente é “a sentença. brocardo.” (IV. – Inculpar é “ver como culpa um ato que talvez não o seja”. exprobrar culpa como invectivando. O anexim. dito. – Culpar é “atribuir culpa a alguém. rifão. seco de forma. ou provérbio. ou o código não incrimina esta conduta. considerar alguém como culpado. “lé com lé. 132 ADÁGIO. melhor do que criminar. como o rifão. – Criminar (criminari) é. ou sentença vulgar. prolóquio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 91 ou faculdade própria. mas apenas por indícios. máxima. mas quase sempre chula. segundo – em ser o adágio sempre anônimo. é levar muito longe e arriscar muito a sua argúcia de juiz. – Culpar e inculpar estão em caso análogo. – Incriminar tem-se geralmente como sinônimo perfeito de criminar. paremia é palavra grega (paroimia) pouco usada em nossa língua. Neste exemplo: “Se a lei. enquanto que provérbio pode ter autor conhecido. conceito. mais brilhante de forma. e em ser o provérbio mais grave. apotegma. tudo que se tornou clássico. e enunciando conceito menos vulgar. anexim. rifão – quase todos exprimem conceito exclusivamente moral. senhor. a máxima . dito. tendo portanto um sentido translato que apenas corresponde à noção que se quer sugerir..” – Arguir é “acusar de falta. no entanto. muito menos por sentença. cré com cré – cá e lá más fadas há” – podem ser tidos como rifões. pensamento. nem paremia ou máxima. pois é uma sentença moral mais profunda. “Gato ruivo do que usa disso cuida”. sentença. – Sentença é um provérbio mais solene. dando normas ou noções em que se representa a experiência dos tempos. São mais vizinhos de ditérios. que incriminar.. a frase. ou de parábola concisa”. Diríamos: “Pode arguir-me de muita coisa. a sabedoria vulgar. breve e incisivo. apodos e chufas que de adágio ou provérbio. máxima. mas inculpar-me assim este gesto. considerar como crime um certo ato”: e nesta acepção é bem distinto do outro. significa “reduzir a crime. ou os grandes princípios de ciência ou de arte. Segundo Roq. pode mesmo culpar-me de imprudente. princípio. e exprime “sentença sob uma certa forma de alegoria. sugestiva. – Parêmia pode ser comparada a provérbio: é menos usada que este. Adágio. “dizer ou declarar alguém autor de um crime. sentença. pronunciá-lo por criminoso ou réu”. e que significa provérbio. graçolas. ditados ou anexins. axioma. fazendo censuras mais com veemência do que com razões”. dar-lhe culpa. segundo Roq. rifão ou anexim. Distingue-se adágio de provérbio: primeiro – em dar o adágio noção simples e clara. 324). frívola e sempre velada. anexim. trocadilhos. ditado.

de ciência. ou de dever. e daqui veio chamar-se também escudo às armas de uma família ou de uma nação. mas que se diferençavam na matéria ou na forma. de religião. rodela. preceito ou noção expressa em breves termos”. de ação ou de execução. Conceito é a síntese de uma noção a que se chegou pelo estudo ou pela reflexão. – Apotegma é “juízo ou sentença. todas estas palavras designam “armas defensivas. Além disso. pois o preceito pode ser de moral. muito usadas antes da invenção da pólvora. se dá como regra: princípio é “o que está consagrado pela razão vigente. no entanto. ou mesmo por um período todo. 133 ADARGA. pensamento é menos preciso – é “uma proposição de forma simples. escudo. e deixou As que Ele para si na cruz tomou. e em regra tem quase o valor da máxima. Por isso. – Segundo Roq. “dito notável ou palavra memorável de algum personagem ilustre”. – Preceito pode aproximar-se dos precedentes: é também uma norma ou regra de conduta. mas eloquente. enfiava-se no braço esquerdo pelas braçadeiras. no meio tem um embigo de metal ou diamante. pavês. precisa. égide. – Princípio é mais do que preceito. E é exatamente por isto que se distingue máxima de ditado: este é anônimo e popular: a máxima é menos comum e tem autor quase sempre conhecido e até indicado ao ser ela proferida. os dardos. nele pintavam os guerreiros suas letras e divisas. quer de arte. – Dito. porque os primeiros foram de couro) e significa a arma defensiva oblonga ou oval.92 Rocha Pombo pela qual começa alguém um discurso ou um escrito. Na qual vos deu por armas. broquel. e armas de arremesso. com seu brocal. pois esta é sempre uma noção resumida por grande autoridade moral. palavra comum à língua castelhana. dando um conselho. que presente Vos amostra a vitória já passada. como diz Aul. dar uma noção. “regra de conduta. I. Broquel. aproxima-se de axioma. o ditado é dos três o que mais se aproxima de adágio. como se vê daqueles versos de Camões: Vede-o no vosso escudo. e designam apenas um juízo enunciado com intenção de exprimir uma verdade. se impõe. Pa- . e que anuncia o assunto que se vai desenvolver. – Brocardo é “máxima que se popularizou. ditado e anexim confundem-se: o dito quase sempre tem ares de pilhéria. que provavelmente vem do bouclier francês e do buccula latino. e que serviam para cobrir o corpo. 7). que é também “enunciado aceito por todos como sendo de si mesmo evidente”. de arte. – Pensamento e conceito são palavras de significação mais vaga.. ou parte dele contra os botes de lança. e nisto distingue-se dos outros. o que já foi tão suficientemente demonstrado que dispensa mais demonstração”. a mais conhecida de todas e a mais forte. golpes de espada. a máxima é sempre moral: o ditado pode exprimir apenas um conselho. – Aforismo tem menos de científico e de preciso do que axioma: designa também. porque se fizeram logo de ferro e aço. significa escudo pequeno de madeira forrado de couro forte. Também os havia de metal. ou no uso que das mesmas se fazia. uma verdade. (Lus. que cobre a embraçadeira que está por dentro. – Escudo vem do latim scutus (do grego skútos “couro”. Este é o que se prescreve. Um prolóquio vale sempre por uma proposição. e que em poucas palavras dá um sábio conselho. quer tratando-se de ciência. ou. ou o ponto de vista que vai ser seguido pelo orador”. ou qualquer coisa que interesse ou que seja útil”. um simples conceito vulgar. sentença jurídica ou moral criada por alguma grande autoridade”. profunda atribuída a uma alta autoridade”.

o pai de um aluno pode. 87). Em dois lugares faz Camões menção desta arma defensiva. Era arma antigamente usada em Espanha. – Rodela. No sentido figurado quer dizer “defesa. porém. cheia de serpentes.. palavra igualmente comum à língua castelhana. Distinguem-se ainda estes dois verbos nestes exemplos: “o mal.. O uso. e que vem do italiano rotella..... ADIANTAR-SE. Com a adarga... de aix “cabra”).. obtemos o total do gasto dessa semana”.. 135 ADIANTAR. ajuntando um ou vários números a outro. soma.... antecipar a mensalidade”. tornou soma e adição sinônimos perfeitos.. mas nem por isso devem considerar-se como sinônimos perfeitos. I. antecipar. medrar. a segunda exprime que os meus negócios não se desenvolvem. escudo ou couraça de pele de cabra. escudo de couro. em Portugal. avantajar-se. A primeira diz evidentemente que meus negócios não se encaminham à solução que eu desejo. 134 ADIÇÃO. total. Quem se adianta marcha resoluto para a frente.. adiantamos ou antecipamos alguma quantia à conta dele”. não aumentam na proporção dos meus esforços.. œgis (do grego aigis.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 93 rece corresponder ao clypeus dos latinos. vingar.. e uma abertura onde se metia o dedo polegar para o segurar.. “Nos colégios. uma diferença subtil entre as duas expressões: adiantar refere-se ao ato. portanto. obtemos um número equivalente a todos. designa uma espécie de escudo pequeno e delgado.. desenvolver-se com presteza.. 47.. a doença progride” (e não – adianta-se). e com a hastea perigosa. entre mouros e africanos. – “é a operação pela qual. vai seguro. Há. falando dos habitantes de Moçambique. e significa propriamente o escudo de Minerva ou Palas. – Égide é palavra latina. e significa escudo oblongo de couro com duas embraçadeiras em que se enfiava o braço. prosperar. e em cujo centro estava a cabeça de Gorgona ou Medusa. – Soma é o número que se obtém ao praticar a adição. e que vem do árabe addarca ou addara. – Avantajar-se significa “levar vantagem a alguém. isto é. florescer. que cobria todo o corpo do soldado. no entanto. proteção”. – Todos estes verbos dão ideia de “ir para diante no desenvolvimento próprio e natural”.. – Total é o número equivalente a várias somas parciais... – Progredir é. em atividade vitoriosa: quem progride anda também para diante. – Pavês (do italiano pavese) era escudo grande e oblongo. – Quanto a estes verbos escreve Bruns.. 136 Bruns. .. que era escudo menor dos peões.. “fazêla efetiva antes da época ou do dia em que deve adiantá-la”. – Adiantar-se e progredir podem confundir-se. “os dias daquele enfermo se adiantam” (e não – progridem). antecipar ao tempo. as mensalidades pagam-se adiantadas.. – Adição – diz as somas do gasto de cada um dos sete dias da semana. “meus negócios não progridem” – há sempre uma diferença facilmente perceptível. – Adarga é palavra comum à língua castelhana. Fazendo a adição das verbas despendidas num dia da semana. O uso também confunde soma com total. diz ele: Por armas tem adargas e terçados .. feito da pele da cabra Amalteia. Adicionando (ou reunindo) progredir.: “Consideram-se estas palavras como sinônimos perfeitos: a quem se prontificou a fazer-nos um trabalho por certo preço. obtemos a soma do gasto desse dia... ainda que impropriamente. mas entre estas duas frases: – “meus negócios não se adiantam”.. (Lus.

ou o complemento terminativo não está claro. estabelecimentos.”. filho – disse o deputado ao colega sonhador – não encontrará adeptos”. o que é certo é que a empresa não deixa de prosperar”. como vingam os nossos planos. “Tu te avantajarás a Pedro se fores esperto. – Adepto é “o que foi catequizado. faccioso. parcial. faccionário. de uma doutrina: diz mais neófito propriamente do que adepto. ganha muito. de uma ciência. ter bom êxito. a causa ou a ideia. – Partidário é “membro de um partido. Medram o menino que cresce. O que prospera não só se desenvolve e aumenta. – Sectário diz propriamente “membro de uma seita. – Iniciado (ao contrário do que pensam alguns) parece que diz menos que adepto. grandes vidas. como vai feliz na vida. crescer não obstante algum entrave. “F. “F. um verbo de predicação sempre relativa. mas nem por isso se pode dizer que ele prospere. Florescem letras e artes. crescer na fortuna”. a população que se multiplica”. ou que se fez defensor de uma ideia”. adepto esforçado de uma causa.. facção. Tem razão Bruns. pois.”. sequaz. começou a estudar e a conhecer o ocultismo”. como ainda florescem países. prosperar. “sectário de Lutero”. nunca: “sectário do Cristianismo”. conseguir o seu fim. partidário. que se convenceu e aderiu ou se ligou a uma seita. partido. “Aquele tipo não te avantaja em coisa alguma”. está iniciado no ocultismo” – equivale a – “F.. de uma escola filosófica. quer em volume.. força ou poder”. ade- rente. deixando supor que o sectário é sempre alguém que se afastou da sua antiga religião ou do seu partido. as nossas esperanças. “Apesar de todos os contraventos. – Florescer é “ir prosperamente em tudo. parcialidade. Dizemos: “sectário do calvinismo”. porquanto. nem “sectário de Jesus ou de S. pois dizemos: “Os iniciados da religião bramânica”. Além disso envolve também ideia de heterodoxia ou dissidência. Vinga a flor.. ou mesmo de um partido”.”. quando observa que adepto designa um modo de ser. – “A ideia fundamental do verbo medrar – diz Bruns. a um partido. “Eles se nos avantajam pelo ar desenvolto. distinguindo-se este do primeiro em exprimir melhor o empenho. partidista. – é “o aumento. Paulo”. desenvolver-se brilhantemente”. 137 ADEPTO. Partidista é quase o mesmo. habilitado a receber os princípios. ou de uma ideia”. prosperar com esplendor. a paixão com que se toma o partido. esforça-se muito. gerações. e sugere ideia de obstinação e fanatismo. que se deixou influenciar. É. cidades. Quando eu digo: “Aquele rapaz tem-se avantajado muito nos seus estudos” – quero exprimir que o rapaz de quem se trata tem feito muito mais do que outros. iniciado.. “As rendas se lhe aumentam sempre.94 Rocha Pombo fazer mais ou melhor do que outrem”.. ou do que o comum dos estudantes. e por aquela estultícia vitoriosa de que se ufanam. ser feliz”. os interesses que aumentam. “A causa da independência alcançou logo um grande número de adeptos”. quer em quantidade. é de supor que fica subentendido. isto é. como florescem povos. ou o novo partido já conta bom número de iniciados”. trabalha em excesso. O partidário pode pertencer apenas a . e iniciado designa mais um estado do que uma condição: conquanto isto não signifique de forma absoluta a impropriedade de iniciado como puro substantivo. mas os seus negócios não prosperam”. a entrar nos mistérios de um culto. “A tua reforma. pois o iniciado considera-se apenas “admitido a iniciação”. as searas que abundam. assecla. mesmo nos casos em que a cláusula correlata não está expressa. seita. as noções. – Vingar aqui (vincere) é próximo de medrar: significa “tomar vitalidade. sectário (sectarista). – Prosperar é “ir adiante. “O novo credo. etc.

apaixona-se pela sua causa. confunde-se com assecla: apenas sequaz envolve.) – Adereçar diz. esforça-se pela vitória. algum partido ou seita. 138 ADEREÇAR. Além disso. desordeiro. pela ideia. portanto. pois atavio é adorno mais falso que enfeite. desligamento da doutrina que se professava. de liga. e sim que se enfeita ou se atavia com as penas do pavão. ataviar. vãs. – Sequaz. seita diz dissidência. ou que se atavia de brilhantes. sedicioso. “pertencente a facção”. aprimorar. – Parcial. a uma ideia. Uma senhora se adereça. ou que se enfeita de joias. mas o partidista exalta-se na defesa do seu partido. a uma causa que até aí havia hostilizado ou combatido. atavio. ou mais correto no gosto. entre eles poderiam confundir-se ou ser empregados indistintamente. embelezar. – Assecla (como se vê da própria formação: ad + sequi) é “o que segue alguém. – Adornar e . alindar. isto é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 95 um partido. e por pouco se não diz sinônimo do nosso brasileirismo capanga. aformosear. enfeitar. a gralha da fábula se adorna. adornar. A facção só se faz partido quando assume o caráter e a força de coletividade legítima. da cegueira com que o assecla acompanha alguém ou alguma coisa. aqui. ideia de subserviência. partidos. decorar. aderente sugere menos ideia de convicção ou de identidade de opiniões entre a pessoa que adere e a causa ou partido a que se faz adesão. ornamento. no aspeto. melhor do que assecla. e emprega-se frequentemente em casos como o exemplo acima. que deu a sua sanção. o seu apoio a um partido. no entanto. 13 Também entre sectário e sectarista. engalanar. faccioso vale por “viciado de espírito de facção. E como já vimos. ideia de parcialidade ou partidismo pessoal. insignificantes: e o segundo mais ainda que o primeiro. ou sustentam a mesma causa”. até pela etimologia (sequi). de aliança. embelecer. e mostra-se por isso mais fútil ainda que a pessoa que se enfeita. gala. o verbo enfeitar é o mais genérico e vulgar. ou mesmo contra um homem”. enfeite. perturbador. o grupo dirigido por um chefe”. – Enfeitar e ataviar aproximam-se. ou se enfeita. – A ideia de tornar belo. enquanto que partido designa apenas “reunião ou conjunto de indivíduos que defendem as mesmas opiniões. da causa que se servia. adorno. ornato. a que se enfeita quer parecer mais bela do que é. o que vai como se fosse na comitiva ou no séquito de alguém”. afeito a maquinações”. trabalhando francamente por uma causa. – Diferença análoga pode notar-se entre faccionário e faccioso13: o primeiro diz apenas “membro de facção”. ou se atavia. professar as ideias ou opiniões desse partido. ornar. primor. a pessoa que se adereça quer brilhar. A liga ou aliança de algumas parcialidades pode formar um grande partido. por exemplo. Sugere. (Aliás. or- namentar. ou contra instituições. é “o indivíduo que se liga a outro indivíduo”. Raros. de joias. separação. ou deseja disfarçar algum defeito. designando este o sectário apaixonado de forte espírito de seita. a que se atavia exagera ou dispõe sem gosto os seus adornos ou enfeites. mas decerto ninguém dirá que uma senhora se adereça de fitas. de adornos de oiro ou pedraria. e parcialidade é o “bando. que sugerem. na expressão – é comum a todos os verbos deste grupo. Além disso. isto é. – Aderente se diz daquele que aderiu. “adornar de adereços”. do que ideia de incorporação. mais vistoso. decoração. portanto. de “adornar de coisas ligeiras. adereço. conquanto não pareça muito próprio. A facção distingue-se do partido em significar “grupo ou ajuntamento hostil e secreto contra outro grupo. Um só partido pode dividir-se em várias parcialidades. Ninguém diria que.

gracioso. ensinar. portanto. e no entanto. no tiro ao alvo. o caráter. afinal. primor “o alto grau de perfeição a que se eleva aquilo que se aprimora. e para algum ato ou função extraordinária e de grande solenidade. seriam perfeitamente lídimas estas outras formas: adestrar-se nas lides parlamentares. A mesma diferença há. ou políticas – em tudo. Esta. ou na ciência do direito. – De ornamentar aproxima-se engalanar. as nossas mãos. nas manobras militares. e que só se alindam coisas muito mimosas. Sendo. A ornamentação de um templo.” (não se diria que vamos embelecer. numa função que não seja puramente espiritual. alegria ruidosa – tudo que se encerra em gala. na datilografia. e designa toda e qualquer ação de “aumentar as aptidões. de um palácio. pois esta forma significa não – “fazer belo simplesmente” (embelezar).. ou na marcha.96 Rocha Pombo ornar diferençam-se tão bem como adorno e ornato. na pugna. e mais talvez de decoração. mesmo o espírito. ou pelo menos de rigorosa propriedade dizer que a cidade se embeleza). aliás. por exemplo. próprio do edifício ou da coisa de que se trata. correto. de algum processo. num edifício. Dizemos que se aformoseia o estilo. nas quatro operações aritméticas. – Exercitar é mais genérico.. infantis.” (não seria próprio. são sinônimos perfeitos. etc. deixa supor que os adornos de que se decora têm um fim especial. e diz “tudo que aumenta a beleza”. E isso porque adestrar diz propriamente “fazer-se muito hábil. Também ornato deve confrontar-se com ornamento: este é uma decoração mais brilhante. etc. portanto. na dialética. fazer-nos mais destro. Ninguém seria capaz de dizer: “vou adestrar-me na filosofia. ou na matemática: salvo se nos referimos apenas à técnica de algum instrumento. a alma. ou no salto. ou mesmo os nossos braços. ou uma virtude. de uma câmara só se faz excepcionalmente. pelo exercício. – Aprimorar é dar ao que é já belo. nem “formosa criança”: mesmo porque – “formosa criança” já seria outra coisa). adestrar a memória. de lavor artístico”. é trabalho de acabamento. Pode-se. – Embelezar e embelecer. e designa “o que. linda criança” (e não – “formoso ramilhete”. mas este sugere ideia de brilho. loução. Ainda outro: “Para a festa vamos embelezar toda a praça.. como se aprimora uma obra de arte. mas é claro que referindo-nos a um exercício que seja mais mecânico do que de raciocínio.. uma expressão primorosa. Aformosear e alindar estão em caso correspondente. e adorno tanto se aplica a pessoas como a coisas. ou de alguma operação. taful”. elegante – um alto grau.” 139 ADESTRAR. Lindo exprime “belo gentil. Pode-se também adestrar num certo sentido: na corrida. na escrita. porém. etc. ou mesmo em alguma aptidão especial – no desenho. e no entanto. ingênuo. e excedem naturalmente ao simples ornato. aparato de festa... exercitar. – Tanto se adestra um animal como um homem. Mas note-se que não dizemos: adestrar na música. ou na poesia. nalgum ofício ou função. mas – “tornar belo cada vez mais” (embelecer). em que é possível. a capacidade. bastará um exemplo para deixar bem clara a distinção que se sente entre estes dois verbos: “A cidade se embelece de dia em dia. – Aformosear e alindar apresentam a mesma diferença que se reconhece entre formoso e lindo. Aprimora-se a educação. etc. se se aceita a definição dos lexicógrafos. Dizemos: “lindo ramilhete. entre ornar e ornamentar. de mais imponência. num artefato. desembaraçar. Aproxima-se por isso de ornato. uma excelência suprema. instruir. mais sumptuosa e augusta. ou na economia política”. ágil” – portanto. rápido. Ornato aplica-se mais a coisas. a . tornar-se perito. à custa de esforço. mesmo numa produção literária.

Retarda-se uma solução. a época de pagamento de um imposto.. dilação. Apraza-se uma negociação. espaçar. diferir. Notemos. no entanto. conquanto não tenha a força deste. sem marcar prazo fixo. Instruise um batalhão.) Adiam-se negócios. “O tribunal anda procrastinando a sentença”. segundo os lexicógrafos. “Nós insistimos por que se faça a coisa com urgência”: e ele a contemporizar muito impassível”. – Desembaraçar pode aproximar-se do primeiro verbo deste grupo: diz precisamente “fazer expedito. repetindo muitas vezes. formando-lhe. “o governo procrastina a solução de um negócio de tal monta”. – Diferir é “deixar para depois. ampliar. pois quem instrui opera sobre o espírito do que é instruído.. o vigor. Pode-se usar também este verbo ensinar como só transitivo. por meio do exercício”. retardar. retardar de propósito”. profissão”. como construindo-lhe o espírito”. hábil nalgum ofício. lépido.. etc. transferir. num trabalho. – Todos estes verbos sugerem ideia de espaçamento. – Transferir diz a mesma coisa. etc. – Dilatar é “ampliar um prazo que se fixara. instrui-se a mocidade. – Contemporizar é “entreter. esperto. entravar ou reter por um certo tempo”. mas não se instrui um macaco ou um papagaio. 140 ADIAR. delongar. comunicar-lhe. ou por muito tempo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 97 força. e ensina-se um papagaio a falar. para enganar. ou a um cão. infundir-lhe doutrinas.. ou para impedir que da coisa que se protela alguém se aproveite se não for protelada. equivale a instruir. por exemplo. Evidentemente não seria próprio dizer que se adiou uma comemoração. no entanto. e demorar exprime – “não mover. Quando digo: “ensinemos a mocidade”.. prorrogar. do trabalho. mister. do que propriamente ideia da ação de quem instrui. – Prorrogar é “dilatar um prazo que se venceu”. numa virtude. da função de transmitir o que deve ser aprendido. como se ensina alguma coisa a um cavalo. Mas retardar quer dizer propriamente – “deixar para mais tarde”. com algum fim. contemporizar. Observase. dilatar. demo- rar. fazer parar.. procrastinar. mais espaçoso”. malévolo quase sempre. Exercitamo-nos numa profissão. envolve mais ideia do processo. e neste caso. Prorroga-se uma sessão do Congresso. subentendendo o complemento indireto da predicação. torná-lo mais largo. ou uma grande festa para o ano próximo. a função ou o processo que a isso se destine. mas podendo ser também por mero capricho. Dilata-se o tempo que se tinha para fazer alguma coisa. uma entrevista. trabalhos. que adiar é “transferir por dias”. resoluções. demorar para ir ganhando tempo”. noções ou princípios. para mais tarde”. não dar no tempo oportuno”. num cargo. – Remanchar = “demorar com certa manha”. – Adiar é “deixar para outro dia”. Difere-se uma resolução. aprazar. protelar. Nestes exemplos: “A língua se amplia adaptando de outras os termos novos de . remanchar. uma ideia de extensividade que se não encontra em dilatar. isto é. – Procrastinar é “remeter continuamente para o dia seguinte o que se deve fazer”. – Aprazar é “assinar um tempo certo (prazo) para alguma coisa”. do vencimento de uma letra. – Instruir é “preparar alguém nalguma arte ou ciência. alongar. um negócio.. – A um papagaio ensina-se. demora-se um processo. Prorroga-se uma licença. mesmo neste caso. que ensinar. – Demorar confronta-se com retardar: ambos dizem – “fazer que se espere. ordinariamente por desídia. reformas. no entanto. – Protelar = “demorar. estirar. prolongar. diligente. um despacho. – Ampliar confunde-se com dilatar: aquele sugere. isto é – afasta-se o termo desse prazo. (Aul. exprimo nada menos do que exprimiria se dissesse: “instruamos a mocidade”.

como se reconhece em ampliar. em que não só há desgosto senão também sentimento. malgrado. – Significando a palavra grado “vontade. procrastinar. aqui. mais ou menos forte. pois este verbo é que significa “estender. fazer mais longo. Espaçar enuncia. e nem o mesmo valor. contemporiza-se quanto à semelhante solução falando em dá-la sem fazê-lo.. apesar. consentimento”. prolonga-se estendendo-a a começar de um dos extremos. ou que tenhais . – Apesar indica mais forte oposição. isto é – “ainda que vos pese. para outra ocasião”. “convém ampliar a todas as classes do curso primário aquela medida”. ou de compreensão. um prazo. Delongar confronta-se com retardar. vinda das pessoas ou das coisas. Malgrado seu é o mesmo que “a mal de seu grado”. conquanto. “Apesar vosso levarei a minha adiante”. mais aberto. Alongar é “fazer mais extenso ou comprido”. e sim – “vou dilatar. quer dizer “de má vontade. isto é. Também não se diria: “vou ampliar no mundo a vossa fama”. prolongar e delongar apresentam entre si as diferenças marcadas pelos respetivos prefixos. sem embargo. Do mesmo modo. – Estirar e espaçar significam. e contra a qual obramos”. e delonga-se adiando-a indefinidamente. pelo menos não teria a mesma propriedade. não obs- tante. por mais que. mas em cada uma delas há uma relação particular em que consiste sua diferença”. e assim enchendo tempo. e naturalmente só se diz de coisas que sejam longas. como se dilata distendendo-se.98 Rocha Pombo que precisa”. e de outro lado até uma outra rua. mas alonga-se dando-lhe mais extensão. ou de nossa mesma vontade. “vou ampliar a minha oficina com mais uma secção de roupas”. o Império. esta locução oposição ou resistência de pessoa estranha. “Submeto-me de malgrado” quer dizer “contra minha vontade. tornar mais vasto. ou um quadrado perfeito.. e significa “contra sua vontade”. – Alongar. uma moeda.. neste outro exemplo: “. de mau grado. Também não se compreende como se alongaria uma cabeça humana. sem dar ideia de limite. mas ninguém dirá que uma serpente se amplia quando se distende. uma rua. ou numa certa direção e até um dado limite. mágoa com isso que se faz. etc. e dificultando-a sempre.. ou por alguma conveniência ou cálculo. 2) – não caberia o verbo ampliando. indica. Mas: demora-se uma solução quando não se cuida de dá-la. com desgosto ou desagrado. embora. 141 A DESPEITO. ainda que. Ninguém diria.. – Segundo Roq. se deixa para depois. isto é.. posto que. Prolongar é “estender para diante uma coisa longa”. por desídia. (Camões. é claro que malgrado.. de uma parte até à praça. bem que. portanto. salvo se se lhes quer mesmo mudar a forma. e sem marcar a ideia de fazer aumentar em todas as dimensões. que se alonga uma esfera. I. retarda-se a dita solução deixando-a para mais tarde. difere-se quando. portanto. Uma serpente contrai-se e dilata-se: e tanto se dilata engrossando. a qual não é eficaz para impedir a ação. que vencemos. ou resistência. e podia ainda alongar-se essa rua prolongando-a. contemporizar. as memórias gloriosas daqueles reis que foram dilatando a Fé. – aí não caberia decerto o verbo dilatar. Uma rua que se prolongou até uma praça por isso mesmo alongou-se. “todas estas locuções adverbiais exprimem uma oposição. sem sugerir noção de proporções. procrastina-se prometendo sempre dá-la “amanhã” e não dando nunca. diferir. tornar maior um interstício. ou entre atos que se repetem. demorar: significa propriamente – “deixar para depois. que só tenham uma dimensão característica. com desgosto meu”. a ideia de fazer maior a distância entre diversas coisas. Prolonga-se e também se alonga uma linha. ainda.

prophetizo (de pró “antes”. prognosticar. com mágoa beijo a mão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 99 pesar” farei o que intento. “Saio de casa.” – Vindo despeito de despectus “desprezo”. seus sinônimos.. queremos predizer o futuro. – Agoirar é o verbo latino auguro ou auguror. 142 ADIVINHAR. “O homem virtuoso observa pontualmente os preceitos de sua religião. onde. adivinhação. – Sem embargo indica uma resistência menor de coisas ou circunstâncias. Bem se autoriza esta inteligência da palavra despeito com o seguinte mui elegante lugar de Vieira: “Tem-se acreditado a morte com o vulgo de muito igual. A despeito das leis. profetizar. “Faz calor não obstante ter chovido”. porque se emprega também nos casos em que se trata de uma oposição puramente condicional ou possível. e às vezes acertar com o que há de acontecer”. é claro que a locução a despeito. nos quais não têm seu uso próprio as locuções não obstante. agoiro..”. ou sem embargo. não obstante andar doente”. era entre os pagãos “predizer o futuro por uma espécie de inspiração que eles supunham divina”. “Não deixarei de protestar ainda que me matem”. isto é – “com pesar. e tem a significação restrita de .” – Por mais que exclui toda dúvida e indica resolução firme. e mais fácil de vencer: exclui o embaraço ou impedimento que pode delas resultar.. vaticinar. que não cede a oposições. pelo despeito com que pisa igualmente os palácios dos reis e as cabanas dos pastores”. presságio. “Apesar meu. do próprio dever. predizer. – Posto que = “dado mesmo. vaticínio. hei de vencer”.. – Adivinhar. etc. hoje é “conjeturar por certos sinais ou pressentimentos sobre o futuro. de onde veio divinatio. – “O último destes vocábulos – escreve Roq. “conjeturar de qualquer modo”.. ou admitido que seja assim”. “Sem embargo das queixas dos povos o mau príncipe prossegue em suas opressões”. sem embargo dos insensatos motejos dos ímpios”. “Digam embora que eu fugi”. falando dos cinquenta sábios que se renderam à doutrina de S. gestu. a que chamamos agoiros. mesmo que”. por certos incidentes insignificantes. Confirma-se mais nossa asserção por outro lugar do mesmo Vieira. profecia. que significava antigamente “predizer o futuro pelo canto. com a diferença que é termo bíblico e teológico.. – Profetizar é verbo grego. e significa literalmente “dizer uma coisa antes que aconteça. ou dificuldade absoluta. vel pastu futura divino). diz: “A constância firme até à morte com que defenderam a mesma verdade apesar. predição. “Conquanto este seja mais inteligente. “Por mais que me hostilizem. em latim divino. tem mais energia e aumenta de força por ajuntar à ideia de oposição ou resistência o desprezo com que se vence. etc. – é o gênero a que os outros pertencem como espécies”. Catarina. o gesto. prognóstico. agoirar. e a despeito do imperador”.. – Embora indica pouca atenção ao embaraço ou à contrariedade. aquele aprende mais porque é mais aplicado. em despeito do juramento.. – Conquanto enuncia oposição ainda menor do que sem embargo. ou em despeito. e por extensão. – Predizer é o verbo latino predico. pressagiar. – Bem que = “ainda assim. – isto é – em desprezo das leis. É mais forte que ainda que. e neste sentido se usa hoje quando. o pasto das aves” (propriè est ex avium cantu. sem declarar por que modo se veio a sabê-la nem dar a conhecer o grau de autoridade que merece quem a prediz”. – Não obstante exclui simplesmente uma oposição. – Ainda que tem mais extensão que as duas antecedentes. “Amanhã hei de ir ao campo ainda que chova”. beijo a mão que desejara ver cortada”. e exprime “por mais que assim pareça ou que seja de fato. e phemi “digo”) e vale o mesmo que dizer antes ou predizer. Isto pertence aos outros. resistência.

Quando as predições se fundavam no canto. – “O adivinho (do latim ‘divinus. raramente falham. I. divino’) é “– diz Bourguig. e assim mesmo o anúncio que destas coisas faz o profeta. por uma espécie de tino interior de que se não sabe dar razão. 3). id est avigerium. – Vaticinar. a que Scaligero dá por origem o grego phátes “falador”. etc. fundados nas analogias e probabilidades que lhes ministra a história. chamavam-se agoiros (angurium. – Os astrólogos faziam inumeráveis prognósticos acerca de acontecimentos futuros. “predizer. – As predições que faziam os vates chamavam-se vaticínios.. e que. os prognósticos dos políticos e estadistas. – O agoiro é uma conjetura fútil. e sagio “penetro. de vates. etc.100 Rocha Pombo anunciar as coisas futuras em virtude do espírito de profecia. das aves. prognosticam os eclipses. 31) Nescio quid profecto mihi animus prœsagit mali (Ter.. pressagiaram a morte de Cesar. e assim se podem chamar ainda hoje aquelas conjeturas que os políticos for- mam sobre a sorte futura das nações. necromante. os eclipses. ou profetizar cantando. 7). – Todas estas predições provêm do homem: não assim o presságio. – Sendo certo que a adivinhação. como disse Camões: Que o coração presago nunca mente. feiticeiro. – O dom sobrenatural de conhecer as coisas futuras chama-se profecia. como a entendiam os antigos. – Tudo o que se prediz antes de acontecer é predição. João I e que o nosso Camões cita como um presságio daquele feliz reinado dizendo: Ser isto ordenação dos ceus divina Por sinais muito claros se mostrou Quando em Evora a voz de uma menina Ante tempo falando o nomeou. e somente é um sinal que indica ou anuncia coisa futura.. (Lus. pelo qual se prediz alguma coisa futura. vel avigarrium. porque eram acompanhadas de certo canto poético. e às vezes nascida de um pressentimento instintivo que não engana. serve particularmente hoje esta palavra para indicar um enigma que se propõe a alguém para o decifrar. o qual se não pode chamar uma predição. De tais sucessos não se deve tomar nem bom nem mau agoiro. no voo. O médico. 1. – Pressagiar é verbo latino. De Divin. e daquele estro ou furor que estimula o poeta quando estende as vistas sobre o futuro. –” propriamente falando. avium garritus). é ilusória. id est futura ante sentire (Cic. da natureza dos objetos sobre que se faz o prognóstico”. em linguagem técnica. e gignosko “sei. porque nenhuma conexão têm com o que há de acontecer. e enfim. forma mui facilmente o seu prognóstico acerca da crise e do termo da doença. profeta. à phates). aquele . mandin- gueiro. II.. ou que os homens têm como tal. mágico. vate. sinto”) e significa “pressentir. tendo bem examinado o doente. astrólogo. segundo o poeta. “mentiroso” (fatuos primum vates vocatos esse apud omnes satis constat. o que sucedeu em Évora no tempo de El-Rei d. Vieira tinha a simplicidade ou mania de apontar como causas de grandes desgraças e calamidades. o presságio é uma conjetura legítima e razoável. no mesmo sentido em que o usaram Cícero e Terêncio: Is igitur qui ante sagit quam ablata res est dicitur prœsagire. prœsagio (de prae “antes”. era predizer. em latim vaticinor. Extensivamente aplica-se depois a qualquer sucesso ou sinal indiferente de que a superstição se valia para ler no futuro. guiados por mais seguras regras. quiromante. precipitada. conheço”) e significa. Heaut. 143 ADIVINHO. que ainda o p. – Prognosticar é o verbo grego progignosko (de pró “antes”. fundados na suposta influência dos astros. IV. por meio de discurso certo ou conjetural. haríolo. e supersticiosa. Deste gênero são os sinais de que fala Virgílio no livro I das Geórgicas. ter pressentimento. bruxo. os astrônomos. e feito o diagnóstico.

no entanto. não somente o dom de conhecer coisas ocultas. transportar-se para onde quiser. conhecimento que lhe submete todas as forças da natureza. e que lhe permite executar livremente toda sorte de prodígios. pois a Itália foi na Idade Média fecunda em homens dados a toda espécie de ciências ocultas. – O quiromante (do grego kheir “mão”. Toma-se não raramente à má parte esta palavra. quer se lha atribua ao estudo das ciências ocultas. o que profetizava cantando. bruxo é palavra de etimologia muito duvidosa. em causar dano aos homens ou aos animais. parecendo ser de importação italiana. do inferno e emprega-o sobretudo em fazer mal. As ciganas são quiromantes. – O feiticeiro (de feitiço “encantamento”) em francês sorcier (de sort “destino”) é aquele que tira sortes: recebe seu poder do demônio. entre os judeus e os cristãos. consideravam-se os adivinhos como homens inspirados do Céu. com efeito. É este último sentido que o vocábulo conserva geralmente no figurado: designa então um homem muito hábil. como ainda hoje se lhe chama nas aldeias da Itália meridional). A faculdade de conhecer que possui o adivinho estende-se sobre todas as coisas. muito sagaz.. penetrando subtilmente nos pensamentos dos outros. e no sentido figurado emprega-se sempre para designar um personagem que faz coisas agradáveis e maravilhosas.. e phemi “digo”) era. . não emana da divindade.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 101 que se julga dotado de um poder divino para descobrir e conhecer o que está oculto aos outros homens. dispor dos espíritos e dos gênios. eram tidos. O do mágico (de magia.. Este parece termo introduzido pelos africanos. ou cuja arte se reduz a evocar os mortos. Entre os pagãos. – O mágico. O bruxo. e a quem se atribuía o dom de predizer o futuro. – Mandingueiro = “que faz ou usa mandingas”. como simples feiticeiros ou mágicos. etc. ou prevendo facilmente as consequências dos acontecimentos. e compreende o passado. o feiticeiro e o necromante possuem. ou a bruxa é. um homem que se julgava inspirado de Deus. e reservava-se para os profetas exclusivamente a inspiração divina. com mais ou menos certeza ou probabilidade. Mandinga é a feitiçaria grosseira dos negros. ou mesmo à sua sagacidade natural”. para saber deles o futuro ou as coisas ocultas aos vivos e que os espíritos podem revelar”. – O necromante (do grego nekrós “morto” e manteia “adivinhação”) é “um mágico que evoca os mortos. quer se lhe atribua a sapiência a um dom da Divindade. e mais ainda que tudo isso. o presente e o futuro. mas ainda o poder sobrenatural de praticar ações maravilhosas. e hoje reserva-se o vocábulo para designar o grande poeta. ciência dos magos) provém de conhecimento das ciências ocultas. e manteia “adivinhação”) é propriamente o que prediz o futuro das pessoas pela inspeção das linhas da mão. muito destro.. e muitas vezes também em descobrir e revelar o futuro. ou para os debelar. – Segundo Bruns. operar metamorfoses. pois. – Haríolo era o charlatão que dizia “a sina mediante uma espórtula”. na maior parte das quais era indispensável o lume para brucciare (“queimar”) as plantas e ingredientes auxiliares das adivinhações em que o agente principal era o próprio diabo (il brucciato. – O profeta (do grego pró “antes”. os acontecimentos que prevê: aquele que nos ameaçou de tais desgraças foi verdadeiro profeta. isto é. Esta segunda acepção conserva-se no sentido figurado para designar aquele que anuncia. cuja visão genial alcança o futuro. – Astrólogo era o sábio versado no segredo dos astros e conhecedor da sua suposta influência nos acontecimentos humanos. semelhante dom. ao contrário. praticada ainda hoje em alguns lugares do Brasil. superiores ao poder humano.. a pessoa que tem pacto com o diabo para fazer malefícios. – Vate era o que fazia vaticínios.

zonas confins (não – confinantes. Nesta frase: . sem graça. – Próximo diz – “mais chegado. contíguas são extensões (ou coisas) que se tocam (con=cum+ tago. vizinho. Marca-se assim perfeitamente a diferença entre confim e confinante. é “a que se segue à primeira. nem confinantes. junto. ornar. Paragens. pegado. S. não dando apenas a mesma ideia de ligação perfeita que se inclui neste último. sem que medeie coisa igual entre uma e outra”. a proposição muda de termos: se tiramos o epíteto a proposição fica sem ornato. regiões. sem energia. menos distante”. por exemplo. pegado. Mas. O adjetivo acaba a imagem do objeto: o epíteto dá-lhe colorido. paragens não têm fim preciso ou limite certo). necessária para modificar ou determinar a sua ideia. – Vizinho é o que se acha “mais por perto de nós”. ou unidos. ou contíguos. mais pitoresca. a mesma linha divisória”. províncias. mais animada a ideia. – Imediata. ere “tocar”). O espírito justo emprega o adjetivo mais próprio: a imaginação brilhante emprega o epíteto mais expressivo. imediato. O adjetivo completa ideia do nome e o sentido da proposição: é necessário. que jaz perto”. – Adjacente quer dizer – “que está nas imediações. A casa ou a aldeia próxima. distritos. O epíteto faz mais viva. chegado confrontam-se. – Imediato. Neste sentido genérico. ou se os limites não são fixos e precisos. ou ajuntado ao substantivo para modificar-lhe a significação’. limítrofe. confim. tratando-se de duas coisas. dá vivacidade e energia ao discurso: é útil e conveniente. próximo. e aquele só se aplica em referência a países.. unido. propriedades rurais (todo território de extensão determinada) podem ser limítrofes. e fronteiras são extensões (ou coisas) que ficam ou que estão uma defronte à outra: não é necessário que estejam contíguas ou unidas. pois só podem ser confinantes ou limítrofes territórios que tenham fim certo e preciso (limite) e cujos limites se encontrem. – Confim (ou confine) e confinante dizem propriamente – “que tem o mesmo fim. pode-se dizer que os dois coincidem exatamente um com o outro. unido. Se tiramos o adjetivo. ou em geral a territórios. É mais ainda que contíguo. Países. pois que zonas. – epíteto é termo da eloquência e da poesia. epíteto. ou confinantes. epíteto diz o mesmo que na latina diz adjetivo: quer um. É claro que a coisa imediata pode não estar unida à coisa precedente. e se a extensão não é certa. o próximo verão. As primeiras duas artes consideram o adjetivo como exprimindo uma qualidade do substantivo. ou fronteiros. porém. – Chegado diz menos que pegado: significa “muito próximo”. chegado. As outras duas consideram o epíteto como exprimindo uma qualidade do substantivo. – Junto é o que fica ao lado. contíguo. limítrofe. – Sobre estes dois vocábulos lê-se em fr. ou uma superfície da outra) que não fique espaço nenhum entre a coisa que está junta e aquela a que se junta”. – Unido quer dizer “tão junto (um objeto. regiões. mais do que próximo. forma arcaica de tango. confinante. Luiz: “Na língua grega. contíguo. vizinhos: Não se diria: paragens limítrofes. a casa contígua à minha é desta limítrofe.. – Pegado é quase o mesmo que unido. Considerando. quer outro significa ‘vocábulo aposto. Aproximam-se de fronteiro. o uso mais particular que se dá a cada um deles – adjetivo é termo da gramática e da lógica. a próxima semana. quer de tempo. confins. 145 ADJETIVO. fronteiro. os termos próprios serão adjacentes. e pôr-lhe a ideia vivamente em destaque. mas este é mais extenso.102 Rocha Pombo 144 ADJACENTE. conveniente para vestir. Ninguém diria que. Limítrofe é o mais próximo de contíguo. e quer se trate de espaço.

. pasmo. assombrado.. como se cria nos velhos tempos” – diz Bourguig. etc. arrebatado. como se vê deste exemplo de Vieira: “D. funcionários) que têm funções junto de outras autoridades. extasiado (extático). e a proposição é falsa. expulsá-lo com grande clamor. conjurar. Fernando. de um tribunal. 146 ADJUNTO.. ou que deixe de atormentar alguma alma. entusiasmado (entusiasta). da pátria. em nome de Deus. aqui (com a função de predicativo). maravilhado. assombro. e com significação análoga à que lhes fica assinalada respetivamente. por exemplo: “Qual não foi o meu espanto (ou o meu susto. que se faça alguma coisa”. êxtase.. enlevo. Mas adjunto se supõe sempre junto de uma outra pessoa (juiz. e admiração de seus doutores. de alguma coisa sagrada. esconjurar. e que nós manifestamos principalmente pelo olhar”. é renegar abrenunciando. surpresa. adido. etc. transporte. pasmado. de certa missão. enquanto que adido se diz do funcionário.). mas a imagem descorada e amortecida”. – susto. espantado. Pasmado. arroubado. surpreendido (surpreso). – Espanto. Muitas vezes é empregado este vocábulo para exprimir a própria coisa que excita admiração. admirado. quer para substituí-las. transportado. proferiu aqueles horrores!. etc. ordenar em nome do próprio Deus. o sujeito muda. É certo que nesta frase. “O sr. maravilha. – Conjurar é mais que protestar contra a obsessão e que ordenar ao demônio que saia do corpo de um atribulado: é fazê-lo sair. professor.” – Admirado. a fama da Universidade. assustado. arrebatamento. induzir energicamente. talvez melhor. enlevado. maldizendo”. espanto. na surpresa que o assalta. exorcismar) é “fazer as adjurações. e adido de embaixada. arroubo. 148 ADMIRAÇÃO.. que fica junto de uma repartição. Dizemos: adjunto do promotor público. como dizem alguns autores: é “conjurar imprecando.... ou o meu assombro) quando o moço.. susto e assombro confundem-se frequentemente. quer para auxiliá-las. etc. 147 ADJURAR. repelindo. e na maioria dos casos sem muita razão. adjunto do lente de geografia. Nesta outra: ‘A pálida morte pisa com igual despeito os palácios e as cabanas’ – o epíteto ‘pálida’ dá uma cor à ideia principal. os esconjuros (exorcismos) próprios para expelir o demônio de um corpo”. Mas vejamos. “Aquela cena estranha causa pasmo geral”. e quase pinta aos nossos olhos um hórrido objeto. – Estes dois vocábulos Exorcizar (ou. e particularmente “ordenar ao demônio que saia do corpo de um possesso. ficou admirado. o menino emudeceu”. – Empregam-se todos estes verbos em sentido figurado. – Espanto diz – . ou está admirado de ver a justiça tão liberal quando a julgávamos tão somítica?” – Pasmo é a “admiração levada a uma intensidade tal que absorve todos os sentidos da pessoa que está pasmada”. exorcizar (ou exorcismar). – Admiração é “o forte movimento de alma que em nós excita alguma coisa extraordinária. em plena Câmara. Tirado o epíteto. Tirado esse adjetivo. – Esconjurar não é apenas uma outra forma de conjurar. designam pessoas (autoridades. e completa o sujeito da proposição. diz propriamente “tomado de admiração”. entusiasmo. – Adjurar é “concitar com império. fica o mesmo sentido.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 103 ‘O homem justo é digno da imortalidade’ – o adjetivo ‘justo’ determina a ideia principal.” – só uma distinção muito subtil é que poderia dar uma preferência formal por um dos três vocábulos.

“Ouvindo um lance daquela oratória grandiosa. um sobressalto. tão brilhante e segura” (e não – assustados nem mesmo – espantado. “A população está assustada com aquele boato que ontem correu. arrebatada. extasiado da íntima alegria da bemaventurança. causado pela suspeita de algum perigo). “Ali ficou. “Senti um grande susto em toda a assistência”. assustado e assombrado distinguem-se de igual maneira. pois o que o auditório sente é mais admiração que surpresa ou pasmo). É um estado semelhante àquele “engano da alma. “Vieira foi o assombro do seu século”.. “a grandeza dos Estados Unidos do Norte é o espanto de todo o mundo”. nem: “pequeno espanto”.104 Rocha Pombo “admiração que é quase pasmo. violenta impressão de surpresa e quase terror”. pareceu-nos em completa transfiguração: enquanto ela (a noiva)... “Aquilo (aquela ação extraordinária. e é tomado também este vocábulo como significando a própria coisa que nos surpreende. mas não seria muito próprio dizer (na acepção que lhes damos aqui): “pequeno assombro”. – Enlevo é “um êxtase mais sereno. Surpreendido é o que . e.. mas apenas uma desconfiança. ou aquela conquista surpreendente) põe-me na alma agitada mais maravilha que alegria”. admira ou adora”. quase inconsciente nas profundezas do seu êxtase. – Transporte é “arrebatamento da alma.. sacudida de paixão violenta”. extática.. causado por alguma coisa inesperada”. serena e extática. – Êxtase (ou extasis) é “o estado de quase delíquio em que fica a pessoa que se arrebata. entusiasta é “o que se devota com entusiasmo por alguém ou por alguma causa” (é uma qualidade). “Transportado de cólera. gozando o seu arroubamento. se parece como absorta. “O moço está espantado de me ver marchar” (não – assustado.” – Entusiasmo é “o estado de agitação e arrebatamento em que fica a alma... ou como tocada de centelha divina”. e sentindo-se como em deslumbramento de coisas divinas”. o pobre.” (não – espantada. abalo mais ou menos forte. – Surpresa é a “súbita impressão que nos causa alguma coisa que não esperávamos”. grande susto”. – Assombro é “grande espanto. pois este vocábulo já enuncia um estado de alma que é mais alarme do que espanto). e no qual parece tomada de pasmo e maravilha”. Vemo-la extasiada se ela se mostra como entregue ao seu êxtase. em todo o delírio da sua fé”. daqueles transportes de alegria passou à demência. “ele é grande entusiasta do capitão”. ele vivia mais num instante do que outros num século”. diante do altar extasiada. “O noivo. que a fortuna não deixa durar muito. ou às próprias condições da natureza.” – Arroubo (ou arroubamento) é o estado em que fica a alma “arrebatada de altas emoções. e a nossa maravilha provém de sentirmos que tal prodígio excede às forças humanas. admiração profunda e solene”. é um como esquecimento da alma pela coisa que aprecia. Dizemos: “pequeno susto. como se estivesse incendida do próprio Deus. – Susto é menos que espanto: é “espanto súbito. “Naqueles arroubos da sua vida moral. encheu de um vasto e grave clamor todo o templo”. Entusiasmado é “o que está sentindo entusiasmo” (é um estado). em pasmo. a assistência. e muitas horas depois ainda a encontramos extática. – Espantado. Fica-se maravilhado à vista de um prodígio. mais inconsciente e mais delicioso. ficou por longo tempo em adoração diante da imagem”. – Maravilha (no sentido que lhe dá lugar neste grupo) é “sentimento de assombro tão vivo e intenso como se fosse produzido por alguma causa sobrenatural”. “O auditório está assombrado de ouvir aquela palavra tão nova. “Ele está entusiasmado com a vitória”. ou aquele invento. – Arrebatamento diz – “admiração súbita e impetuosa”. porque o que a população sente não é comoção de quase terror.

no destino”. examinar. ou com desprezo”. – Olhar e encarar poderiam confundir-se em grande número de casos. que entra na composição do verbo contemplar. até pela analogia da formação. perturbada”.. mas bastam alguns exemplos para ver como se distinguem.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 105 está sentindo surpresa. . da Sil.. como se a pessoa que contempla estivesse absorta. Mas a diferença entre os dois verbos consiste em ser a ação de considerar mais própria do espírito que indaga. ou para alguém ou alguma coisa”. olhar com atenção”. “Ele fitou14 aquele ponto com muita insistência” (e não – encarou).. etc. apreciar. ou vê-se preto. – “encarar é olhar direito para fixar bem. A palavra latina templum. “Olha-se de esguelha. “Vivemos aqui. uma obra de arte. – Apreciar é “ver com muito interesse. ou para os astros. para a abóbada celeste. um problema.). Resta dizer que sugere também a intenção – o interesse. admitem adjuntos modificativos da respetiva ação. e. ao alcance de todos os sentidos. espanto ou alegria”. o espaço marcado no céu. – Admirar é “ver alguma coisa com grande atenção. ou o desplante. portanto. que vale mais por “perplexa. 149 ADMIRAR. “Eu pasmava de olhar e ver o homem” (Garrett). Considerar sugere a ideia de ter (quem considera) o espírito voltado para o alto. e se nos referimos mais à condição que ao estado momentâneo em que ficou a pessoa que se surpreende. fitar os olhos em. vê-se vesgamente. Examina-se um caso. ou a arrogância. Olhar é simplesmente “dirigir os olhos para algures. “Aquela criatura já considera gravemente na vida.. e quem observa só estuda ou considera a coisa a observar aplicando 14 Fitar significa “fixar (os olhos) com muita atenção”. dar de cara com. que procura entender as coisas do universo. Ver exprime o exercício da fa- culdade de “receber pelos olhos a impressão que nos causam as coisas exteriores”. olhar. “Olhou e viu tudo cerrado” (R. “Ele encarou de frente o inimigo” (e não – fitou). – Observar e examinar confrontamse. uma doutrina. ou com maus olhos. – Examinar é “fazer inspeção ocular. estudo minucioso e com muita atenção”. ver. nem a capa lhe escapará nos ombros”. observar. dentro do qual o áugure observava o voo das aves. – com que se olha. a conduta deste moço?” (e não – fita). significava. autorizam-se com os clássicos. a contemplar as maravilhas de Deus”. Mas quem examina é de supor que tem perto. encarar. – Fitar e encarar ainda se confundem mais facilmente.” Mas tanto esta como a forma do exemplo acima.. Como bem define Aul.. Em contemplar sente-se também a sugestão de ideia semelhante. “Vê-se com os próprios olhos. ou de relance. ou cor-de-rosa”. – Contemplar é “admirar longamente. “Como é que encara o sr. mas é certo que o último acrescenta força e intensidade à ação do primeiro. pois. M. entre outras coisas. Tanto podemos olhar sem ver propriamente como podemos ver sem ter olhado. consi- derar. conquanto no uso vulgar muitas vezes se empregue um pelo outro. a coisa a examinar. em grande pasmo para a coisa contemplada”. Quem contempla e quem considera entende-se. em susto. uma paragem. quer outro destes verbos. devíamos dizer: “Ele fitou os olhos naquele ponto. dizemos de preferência surpresa. a mercê de ver com ambos os olhos. sem embargo da restrição que fazem alguns autores quanto a ver. na floresta sagrada. Vieira tem este exemplo: “Faça-me V. e a de contemplar mais própria da alma que se enleva ou extasia. – Ver e olhar distinguem-se essencialmente. fitar. por que se os não tiver ambos abertos. que está enlevado para o céu. etc. contemplar. com apreço”. – Considerar (de con = cum e sidus “astro”) confunde-se muito com o precedente. E quer um.

mas será admirativo” (isto é – cheio de sentenças. como assombroso “o que 15 Roq. – Excelente é “o que impressiona pela sua grandeza. porque sucede poucas vezes. isto é. pasmoso. a alma. o que é estupefaciente nos faz estupefato. curioso. admirando. arrebatador. pois este diz melhor que o primeiro “que gera estupefação”. Se esses fossem sinônimos. e examinar a conduta de alguém é ponderarlhe os atos. impressionar vivamente. estupefativo. maravilhoso. esplêndido. e ainda melhor citando este exemplo de Vieira: “Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir. Em estupefaciente e estupefativo encontra-se. excitando a nossa emotividade. ou que se impõe à nossa admiração”. – Estranho é “o que. extraordinário. tão nova e admiranda!. assombroso. excelente. Mas incontestavelmente os sufixos vel e . e não se pode dizer que seja estupenda. – Curioso é “o que desperta interesse. enquanto que admirável diz – “digno de ser admirado”. é fora das proporções usuais. (e não – estupefacientes). inverossímeis”... O astrônomo observa o céu (e não propriamente – examina). além de raro. por assim dizer. ou imprevisto”. abalado e suspenso ante aquela cena. exclamativas e admirações). Não será o sermão admirável (isto é – ‘digno de admiração’). também o seriam: estimável e estimativo. Dão os lexicógrafos como tendo o mesmo valor o adjetivo admirando. viva atenção (curiosidade) por ser original. como sinônimos. monstruosas. distanciá-los.. – Extraordinário é “o que nos chama a atenção por estar fora da regra ordinária ou da ordem normal das coisas ou dos fenômenos.. – Singular é “o que impressiona por ser único em seu gênero. pungir. – É admirável “aquilo que provoca admiração”. – Estupendo é “o que nos causa espanto. ou porque excede ou está abaixo da medida comum”. Parece que o mundo ficou até hoje ali. dão no mesmo grupo. raro. e que por isso causa movimento de alma anormal”. apesar do que dizem alguns autores: o que é estupendo imobiliza-nos de assombro.” (não com a mesma propriedade – admirável). soberbo. que sugere a ideia de bater. e maravilhoso “o que nos deixa maravilhados”.. – Surpreendente é “o que nos causa admiração ou espanto porque se nos apresenta de súbito e sem que o esperássemos”. – Todas estas palavras designam coisas que nos impressionam mais ou menos fortemente.). raro. como no precedente. Uma cena de canibalismo é estupefaciente.” (aquele discurso cheio de coisas que nos deixam estupefatos. que está causando admiração.106 Rocha Pombo apenas os olhos. ou porque não se encontra comumente”. estupendo. 150 ADMIRÁVEL15. Há na história lances estupendos e edificantes. “Aquele discurso estupefativo deixava-nos imobilizados. a mesma raiz grega tup. su- . Não se confundem também estupefaciente e estupefativo. como em estado de estupor. “cheio de estupefações”. singular. atônito. magnífico. pela simples definição. etc. como se a tivesse sempre debaixo dos olhos. Vem ver como “está admirável a aurora!” (não – admiranda).. Observar a conduta de alguém é seguir-lhe os passos. assombro tão grande que nos suspende. surpreendente.. admirável e admirativo: e eles próprios se encarregam de.. desperta assombro”.. e Bruns. para estabelecer a respeito dessa pessoa um juízo seguro. estupefaciente. amável e amativo. grandioso. estranho. – Espantoso é propriamente “o que causa espanto”. espantoso. como se a tivéssemos batida.ndo marcam uma certa diferença entre os dois: admirando enuncia a ideia – “que está sendo admirado. afrontada de coisas anormais. Mas estupefaciente não é o mesmo que estupendo. por ser extraordinário. – Raro é “o que se faz notar por não ser frequente.. esquisito. distinto de todos os outros da mesma espécie”.

pela raridade. fazer sentir uma inconveniência”. “sentir”) é.” 153 ADMOESTAR. – Avisar e aconselhar confrontam-se. “ad- ência ou por sentimento de dever. “não só com autoridade. – Magnífico é “o que. receber.. As corporações. – Grandioso é “o que junta à grandeza serena e brilhante do que é excelso e majestoso a magnificência do sublime”. surar. aconselhar. – Repreender é advertir. – Advertir é “admoestar mais formalmente e com certa autoridade”. aqui. circunstâncias. como se a aprovasse mais pelo desejo de condescender com outrem do que por impulso de consci16 Aliás. – Quem permite alguma coisa admite-a com autoridade. – Quem consente que alguma coisa se faça é porque se põe de harmonia com o sentir da pessoa que a quer fazer. pela pompa e majestade. que é uma como admiração quase passiva”. mas com energia e mesmo com certa arrogância e aspereza. Mas quem avisa dá à pessoa avisada conhecimento de coisas (faltas. no qual figura a raiz men ou man. advertir. – Arguir.) que ela ignorava. Um fidalgo admite à sua mesa e em sua sociedade um homem limpo a quem nunca visita. – Admoestar (admonere. – Segundo Roq. permitir. consentir. as sociedades literárias e científicas recebem em seu grêmio os homens notáveis e doutos. Os príncipes admitem à sua audiência os ministros estrangeiros16 e recebem em suas cortes os grandes senhores das outras”. quem aconselha dá à pessoa que é aconselhada – ou porque espontaneamente se interesse por ela. – Esplêndido significa “admirável pelo brilho e perfeição”. isto é. – Arrebatador é “o que produz admiração súbita.” – Censurar é “repreender como por direito de função. hoje não dizemos que o chefe de Estado admite o ministro ou embaixador. verberar. forte impulso de alma”. de respeito religioso”. pela excelência. ou porque se lhe pediu – uma noção clara do modo como essa pessoa se . que vigiava sobre os costumes. Em Roma. etc. censor era o magistrado que exercia a censura. A recepção é mais cerimoniosa: supõe certa igualdade. pelo esplendor. e discutindo e mostrando a falta”. que sugere a ideia de “pensar”. chamar atenção para alguma falta. – “Antonio não permitirá que a escolta lhe penetre na oficina”. repreender. sem castigo ou censura. consideração e correspondência. é “repreender acusando de vício. 152 ADMITIR. concorrendo assim para que essa pessoa se dirija melhor em alguma conjuntura.” “O pobre marido ainda lhe tolera todos os caprichos e extravagâncias. mas que recebe. ou porque exceda ao que é normal. tolerar. estigmatizar. “Ele há de afinal consentir que a filha case. e como que invetivando”. ameaçando de castigo. 151 ADMITIR. avisar. “em termos brandos e amistosos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 107 perioridade ou distinção”. inspira um sentimento de admiração solene. produz pasmo. imponente no seu modo de ser”: é mais que excelente: – é o que “sobreleva a coisas do mesmo gênero também excelentes”. cen- mitir indica um ato de urbanidade pelo qual se franqueia a porta da casa ao que de um modo decoroso a ela se apresenta.. – Pasmoso é “o que. “Pedro admitiu que o negócio fosse discutido lá mesmo no escritório”. – Quem tolera alguma coisa é que a permite pelo silêncio. entusiasmo impetuoso.. – Quem admite alguma coisa deixa apenas que essa coisa seja ou se realize. etc. tacitamente. deixa que ela passe sem oposição. – Soberbo é “o que se mostra augusto. defeito ou falta. arguir.

155 ADOLESCÊNCIA. ou do peito. – vem-nos do latim adolescentia. Costuma-se dizer. e que para avisar basta que a pessoa que avisa tenha motivos especiais de cuidado (interesse a zelar. ou o caluniador. nem por isso está enfermo. censura-lhe a desídia. mancebia. portanto. principia com a puberdade. repreender violentamente”. ter o conselheiro autoridade moral em relação ao aconselhado. do figado. – Confundem-se beça. do coração. ou posição social do indivíduo. juventude. atendendo à sua etimologia. ordinariamente estes dois verbos.108 Rocha Pombo deve conduzir em certo caso. ou se supõe. e repreende-o se ele reincide na culpa. Não diríamos. ou dor de ca- puberdade. assim como velhos de vinte e cinco. “açoite”) é “arguir fortemente. juventude. e dura mais ou menos. Sabemos. Também o que adoece naturalmente sente dor: o que enferma sente a fraqueza que provém do mal ou da doença. Admoesta-se o filho ou o aluno. ou de momento. de um ministro se diz que é bom moço. pois. Não seria próprio dizer. mocidade. perfeitamente definido por Faria: “período da vida em que o organismo chega a desenvolver-se plenamente. jovem. em que se tem força. Dizemos: – longa enfermidade: e não – enfermidade rápida. na linguagem comum. portanto – que F. portanto. Quem está sofrendo dor de dentes. idade subsequente à puerícia. vigor. A latitude dada assim ao período da adolescência é corroborada pela Academia espanhola que a define: “la edad desde los catorce hasta los veinticinco años”. Aconselha-se a um parente mais moço. e impetuosidade nas paixões. quanto pode durar. moço. quando a juventude principia: não se sabe. Estigmatiza-se a calúnia. Todos conhecemos jovens de quarenta anos. enfermar. mas é suscetível de durar mais que ela. ou parecer dignos da carreira que abraçam. um ato iníquo do mau governo. E depois do parto – que enfermou. reprovar com acrimônia. como se vê nos moços ambiciosos que procuram guindar-se pela política. e enferma quando a moléstia é de tal natureza que a debilite. Dizemos – doença do peito. – Mocidade vem-nos do castelhano mocedad (idade de mozo). púbere. ou de faltas que não cometeu. Avisa-se a um amigo de que alguma coisa se trama contra ele. Principia quando a juventude. no momento do parto – que adoeceu. dos quatorze aos vinte e cinco anos”. e não – que enfermou. a época da vida que prin- . não – que é bom jovem. isto é. Este vocábulo está. Adverte o chefe da repartição a um empregado que não cumpre o seu dever. A mocidade será. para que não repita a falta. – Juventude é a quadra da vida em que se é jovem. 154 ADOECER. porém. mocidade. e não – que adoeceu. Mas adoece uma pessoa quando deixa de estar sã. ou de ouvidos. a que evite a companhia de um colega desmoralizado. De um médico. ou com quem temos familiaridade. está doente. adolescente. enfermou momentaneamente. – Estigmatizar (formação vernácula de stigma “ferrete”. mancebo. – Adolescência – diz Bruns. Segue-se que para aconselhar é preciso. ou dever a cumprir) com a pessoa que é avisada. que alguém enfermou ou do coração. voz derivada do verbo adolescere. “crescer”. de verber. por conseguinte. segundo a constituição. – Verberar (verberare. temperamento. Verbera-se uma injustiça do tribunal. parecendo esta última expressão excluir a gravidade que o médico e o ministro devem ter. “marca”) é “verberar como indigna” (a coisa ou pessoa estigmatizada). se esta o obriga a refrear os ardores da natureza. de uma senhora que vai para o leito. e com ela se confunde ao princípio. É de lamentar que o arguisse de males que não fez. e não – enfermidade.

acatamento confunde-se com reverência e mesmo com adoração. só Deus é que se adora. Pode-se mesmo. que não é muito frequente nos clássicos”. respeito. em atitude de vivo apercebimento e vigilância. formado de manus e capere “mão” e “reter. as grandes virtudes. chamar a si o ente acatado ou insinuar-se-lhe no ânimo.: “A voz jovem (do latim juvenis) explica a ideia absolutamente. mas é pouco usado nesta acepção. acatar. mas em geral se usa por jovem. reverenciar. 156 ADORAÇÃO. ou esta espécie de culto que rendemos às coisas em presença das quais nos sentimos humildes e de alma confusa e abalada. e podem durar mais ou menos tempo. acatável. no sentido próprio. – Acatável é a pessoa que merece o nosso acatamento. ou que a algum santo ou divindade acata – procura. – Honra é.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 109 cipia com a puberdade. No sentido figurado. – Veneram-se os santos e as coisas santas. porém ainda é moço. – Respeito (respectus. “não dar as costas”) é todo sinal de atenção com que vemos ou tratamos uma pessoa ou coisa. e a mocidade é o tempo em que o homem conserva aquele vigor. gesto. “apto para procriar”. a nossa família. venerável. Honramos os nossos pais. adorável. Por sua vez diz Roq. – Homenagem. adorar é “amar com o mesmo extremo. – Reverência é a manifestação (por atitude. isto é. ou disposição que são próprios da juventude. conservar. a explica comparativamente: porque a juventude é a idade do homem entre a adolescência e a idade varonil. Um homem de trinta anos já não é jovem. adorar. a consideração que se tem pelas pessoas a quem se devem tais sentimentos”. honrar. como a velhice. palavra. do espanhol mozo. respeitável. – Venerável e venerando são definidos como sinônimos perfeitos. parecer. – Puberdade é a idade em que o indivíduo se torna púbere. sobre os trinta a trinta e cinco anos”. como algumas outras palavras deste grupo. – Mancebo. e depois a autoridade subalterna à autoridade superior que representava diretamente o soberano. etc. segundo a rigorosa propriedade da palavra. do latim mancipium (de manceps. as grandes virtudes. – Fora da acepção que esta. a profunda estima. A pessoa que a outra acata. e por extensão aquelas que pela sua grandeza moral assumem a nossos olhos um aspeto de santidade. – Mancebia significa propriamente a qualidade. – 17 Segundo outros. . Adorável é “o que é digno de ser adorado”. a voz moço. fervor. Quem respeita fica. a sabedoria. dizer que “a mocidade é o espaço da vida compreendido entre a puberdade e a idade em que compete ao homem tomar estado. diante da pessoa que julga respeitável. veneração. como dos quatorze até os vinte e um anos. respeitar. atribuindo à palavra moço a sua primitiva significação de solteiro. isto é. os grandes homens. renunciamento com que se ama a Deus”. a condição de mancebo. e tende a perdê-la de todo. – Veneração é respeito profundo. honra. – Adoração é ato de adorar. era o juramento de fidelidade que o vassalo fazia ao senhor feudal. – Reverencia-se aquilo que merece o nosso culto. homenagem. “o filho que ainda está sob a autoridade do pai”. pode-se. venerando. de respicere – re spicere – “olhar para trás”. etc.) de grande respeito por alguma coisa sagrada. e acaba ao entrar na idade madura. no entanto. em compostura de perfeita discrição e gravidade. ter debaixo de”) e significando. por meio de grandes demonstrações de respeito e submissão. No sentido próprio. tem no XC. portanto. significa rigorosamente o moço de poucos anos. venerar. acata- mento. reverência. abnegação. considerar venerável como significando “o que é digno de ser venerado”. e venerando “o que se impõe à nossa veneração”. aqui. “o grande apreço. do árabe mansubon17.

submissão e acatamento que se tributam a uma pessoa que consideramos como nosso superior”. E adular não se reduz a simples louvores ou ao intento de ser agradável só por palavras. e portanto que mais enojam do que louvam. nem sempre pelo menos. de fazer-se-lhe simpático. tempera-se a frase. pode ser exagerado. e o grau de perfeição com que é ela temperada. lisonjear. Quem lisonjeia pode querer apenas tornar-se agradável ao lisonjeado. gabos. – Temperar a comida é “dar-lhe o sabor próprio. como para fazê-la mais nutritiva.). louvores afetados e fúteis. daí vem o dizer-se ainda ‘tarifas aduaneiras’. Também se emprega no sentido figurado: aduba-se a narrativa. – “serve de capacho ou de sabujo”. soez. alfândega. bajular. excessiva. – Engrossar. abrir caminho adulando os chefes de quem dependem as posições. na alfândega (de fundag ‘depósito’. 158 ADUBAR. a todo o esforço que faz o adulador por insinuar-se no ânimo do adulado.. e não se satisfaz “só com palavras. ‘escrever’) registravam-se as mercadorias sujeitas a direitos. ou não ser sincero no louvar: não será baixo. Quem engrossa. O bajulador humilha-se. alho.. e quando o não faz por uma requintada delicadeza será talvez com o pensamento de ganhar-lhe o coração. cheiros. compreende-se que – ‘movimento aduaneiro’ se refira aos ingressos de direitos. – Bajular exprime ação ainda mais abjeta que a do verbo adular. – Adubar. juntando-lhe sal. Estabelecida esta diferença. – Tempero é a quantidade dessas coisas que se juntam à comida. que a tornem agradável”. bajulador. temperar. aqui. engrossador. portanto. Condimenta-se o estilo. engrossar. e para explicação do seu derivado aduaneiro. nem por isso se tem na conta de indigno como quem bajula. É quase adular. aqui. O lisonjeiro não é. . Só quando a lisonja é calculada. pois louvaminhar não é senão lisonjear demais e continuamente. – O louvaminheiro não é tão sórdido como o bajulador. de coisas curiosas. adulador. etc. é o que enuncia ação que nem sempre é vil. louvaminheiro. condimentar. – Tanto condimentar como temperar se usam também no sentido figurado.110 Rocha Pombo 159 ADULAR. No sentido que tem aqui. em política principalmente. é termo de gíria. empregado em linguagem popular para dizer o mesmo que lisonjear com certa intenção de insinuar-se no ânimo do lisonjeado. Aduana e alfândega são palavras de origem árabe. aduaneiro.. repugnante. Um manjar que se condimentou com perícia é apetitoso e restaurador. obediência. condimento. Aduba-se um prato especial para F. mas vai até os serviços mais asquerosos” que dele exija o bajulado. mas de etimologia diferente: na aduana (de dana. – Segundo Bruns. um sujeito indigno. e – ‘movimento alfandegário’ à quantidade de mercancias que passam pela alfândega”. fazer louvaminhas. adubo. ‘armazém’) depositavam-se as mercadorias sujeitas a direitos. isto é. no entanto. nem mesmo se envilece como o que adula: será talvez mais próximo do lisonjeador. alfande- gário. pimenta. – Condimento é a porção mais substancial dos adubos e que serve não só para tornar a comida de cheiro e de sabor mais delicado. de todos os vocábulos do grupo. é “juntar à comida que se prepara os adubos (como tomate. o discurso. mas estende-se aos atos. vinagre. homenagem é “o sinal de respeito. É mais termo criado pelo instinto de crítica do nosso povo para zurzir o vício de. 157 ADUANA. louvaminhar. é que passa o lisonjeiro a ser adulador. lisonjeiro (ou lisonjeador). – Lisonjeiro (ou lisonjeador). como diz Bruns. “a primeira destas palavras já quase desapareceu da língua: só a registramos aqui a título de curiosidade. tempero.

mais sensível diferença de ação que a notada entre os três precedentes. diminuindo o valor à coisa falsificada. é preciso que nos unamos contra o inimigo comum”. Quem contrafaz.. nuanças da mesma ideia fundamental. coisas diferentes que se pretende unificar. reunir. falsificar é também convizinho de contrafazer. que muito convém ter em conta: ad envolvendo ideia de impelimento. “Os governos prudentes aunam os partidos. Quem falsifica estraga sempre. agregar. como se imitam gêneros de comércio. Por isso. – Coadunar acrescenta à ação de adunar a ideia acessória de concurso. que opiniões ou ideias se falsificam. “são. agrupar. estragando. ajuntar. “Vamos unir os nossos esforços. do esforço que outro fez – do que propriamente a ideia de falsificar. quer de atos). Carlos Magno pretendeu adunar à fé católica povos de mui diferentes crenças”. os membros da mes- . Apenas as imitações nunca têm ou só excepcionalmente chegam a ter o mesmo valor da coisa imitada. – Imitar é menos ainda que contrafazer. como se imita uma obra de arte. e ad em adunar. unificar têm ainda o mesmo radical. 161 ADUNAR. ou mesmo coisas diferentes) de tal modo que pareçam uma só coisa”. em seu favor. coadunar. com perfeita lidimidade. de aproveitar alguém. de força.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 160 ADULTERAR. procedendo natural e brandamente. a de evolução natural. “Aquela desgraça adunou os dois chefes”. batidas da catástrofe”. “Coadunam-se os vários grupos políticos para conjurar a crise”. “um”. etc. Unir é “juntar (coisas semelhantes. Adulteram-se vinhos. pois (quer se trate de coisas. porém. – Adulterar e falsificar confundem-se facilmente: exprimem ambos “a ação de tirar a uma coisa as qualidades que lhe são próprias”. contrafazer. falsificar. aliar. Imitar é. etc. corrompendo. pode muito bem ser que não estrague o produto. Imita-se a conduta de alguém. unir. no entanto. o volume. ligar. – Unir. Adunar é trazer com esforço. reunir. O prefixo. o mesmo vocábulo. segundo Bruns. unificar. portanto. coisas diferentes.. imi- 111 tar. e como que impelindo. enquanto que falsificar só se aplica propriamente a coisas materiais. aumentando-lhe ou diminuindo-lhe o peso. a em aunar. converter num todo. Não se poderia dizer. “Adunaram-se as hostes. Aunar e adunar. por meio dos respetivos prefixos. Quem contrafaz pode imitar com tanta perfeição que se torne difícil distinguir a coisa legítima da coisa contrafeita. Aunar é. aunar. deixa pior a coisa falsificada que pretende fazer passar por legítima. Adulterar distingue-se ainda de falsificar em poder empregar-se no sentido translato. exprimem. incorporar. opiniões. nem lhe tire o valor próprio: é possível até que a coisa contrafeita seja superior à coisa legítima. aunar e coadunar. mais a ideia de infringir direitos alheios. portanto – “adunar muitas coisas”.. pois ambos são formados do latim unus. Mas falsificar é fazer isso. e adulterar é alterar a pureza própria de uma coisa dando-lhe outro aspeto. estabelece uma nuança diferente. portanto. é inegável. pois a coisa imitada nem sequer incide sob a sanção dos códigos. tendo radical comum. “fingir com tal perfeição que aquilo que se imitou não se distinga facilmente da imitação”. – Adunar. congregar. como se adulteram ideias. dizendo. e apresentam. e a. Falsificase um produto de indústria introduzindo no mercado (e com o mesmo nome e com todas as aparências de que seja o mesmo) um outro produto que não tem as mesmas qualidades daquele. Unem-se os esposos. Este verbo contrafazer sugere. coligar. no entanto.

Este diz propriamente “em forma de arco”. se se põem de concerto quanto a uma certa questão. Têm ambos o mesmo radical (grex. “juntar argumentos. com pouca diferença ou irregularidade. curvo e terminado em ponta. Coligar está. indivíduos (não – aliam-se).. O advogado do autor aduz provas mais positivas e cabais contra o réu. outras razões e argumentos que deem força aos primeiros”. etc. 162 ADUNCO. de modo que formem um só corpo”. – Recurvado é “meio curvo. Unificam-se dois ou mais Estados (reúnem-se sob o mesmo governo supremo. em regra da mesma ordem. Aliar (ad+ligare) sugere ideia de esforço mais ponderado e formal que fizeram os que se aliaram. “gancho”) diz propriamente “em forma de gancho. – Arcado é um tanto diferente de arqueado. e “o emissário foi encontrar os irmãos reunidos na casa do tio” – percebe-se bem claro como são distintos fundamentalmente os dois verbos. se não da mesma natureza. chamar ao aprisco todas as ovelhas”. Ligam-se partidos. – Agregar e congregar apresentam diferença análoga à que se nota entre adunar e coadunar. 163 ADUZIR. a argumentos já formulados. portanto. – Ligar. ajuntar. uma secção de circunferência (arco). alegar. “Uniram-se os chefes contra o ditador” (e não – reuniram-se). uma à outra. curvo. ou de anzol”. pois. “Reúnem-se as forças para a batalha” (não – unem-se). Unificar é “fazer de várias coisas. isto é. aquele significa “inclinado como se quisesse. conservam o mesmo valor e a mesma distinção que têm no sentido natural. o advogado do réu defende-o. incorporar do que unir”. incorporar no rebanho”. uma companhia. “Reuniram-se os deputados para a eleição prévia” (e não – uniram-se). as pessoas que se ligam ou aliam). e também “tornar a unir coisas que se tinham desunido”. – Adunco (ad + uncus. recurvado. “Aliaram-se o Brasil. gregis. e mais particularmente entre nações. “rebanho”) e dizem. Dizemos: “O pobre velho já está ou já anda muito arcado (e não – arqueado). (não ligaram-se). em relação a ligar. de fazer pacto mais solene. arcado. aliam-se formando um só). mais ou menos curvo”. propriamente: agregar “fazer vir ao aprisco. etc.” Arqueados são os supercílios de uma menina (e não arcados). alegando atenuantes ou justificativas em seu favor e procurando destruir a acusação. como coadunar em relação a adunar: aplica-se mais propriamente quando são muitas as pessoas. Numa acepção mais ampla. – Curvo indica a forma da figura que não é reta nem quebrada. ar- queado. – Alegar é. a República Argentina e o Uruguai”.112 Rocha Pombo ma família. – Ajuntar é “reunir com mais cuidado e trabalho”. etc. os grupos. Ligam-se indivíduos. – Incorporar assemelha-se a reunir: é “juntar uma coisa a outra ou muitas coisas entre si. Este verbo reserva-se para exprimir a ação de celebrar acordo de mais importância. – Agrupar é “reunir em um só grupo. ou para defesa de uma mesma causa. e congregar “reunir todo o rebanho. mas que representa. de modo a fazer-lhe mais difícil a defesa. do mesmo partido. um só todo”. ou se fosse tomar a forma de arco”. – Aduzir (adducere é “jun- tar a razões já expostas. ou em grupos diferentes”. que se ligam. Reunir é mais congregar. Reunir é “dar unidade a coisas que se achavam dispersas”. aliar e coligar enunciam a mesma ideia de “fazer acordo moral” (sem. pois. facções.. Nestas frases: “a desgraça encontrou os irmãos unidos”. Incorpora-se um exército. .. etc. sugerir necessariamente a ideia de ficarem reunidas ou juntas.

que está de passagem”. ou que nele se fixou. ou do lugar onde chega. pois. “mudado”. pois esta palavra designa melhor o indivíduo que é hóspede na terra onde se encontra. pois o adversário é com efeito aquele que se voltou contra nós outros. foras- teiro. quando consideramos o que veio de fora em relação ao que estava no país. que os referidos povos aqui são ádvenas. o peregrino. que nele está. do país onde se acham. diferente da dos filhos do país onde o estrangeiro está. demonstrações de defesa. alienígena. o que não é originário do país onde vive. à inocência” etc.. todavia podem estes . “a palavra adversário compõese da preposição latina ad “junto”. quando queremos exprimir que o indivíduo estranho aí não tem intuito de fixar-se no país como os que nele se acham. de uma pessoa. – Forasteiro confunde-se frequentemente com estrangeiro. contra aquilo que se afirma em oposição à justiça. particípio de verto “voltado”. e gignere “gerar”) emprega-se como antônimo de indígena (indu ou endo = in “no” (país) e gignere) e significa. 165 ADVERSÁRIO. de convicção contra o intento com que se nos persegue. quando fazemos alusão à nacionalidade do indivíduo. competidor. Dizemos: adventício. ou desde que tenham aqueles indivíduos perdido a sua própria): o mesmo não se dá em relação a forasteiro. e versus. em confronto (expresso ou tácito) com os que são nascidos (indígenas) no país onde está o alienígena. estrangeiro. 164 ADVENTÍCIO. Segue-se disto que forasteiro ainda é mais próximo de ádvena que estrangeiro. etc. êmulo. antagonista. ou com os respetivos antônimos. Adventício diz igualmente “indivíduo ou raça vinda de outro país. pois este vocábulo deixa supor que o que chega há de sair logo. ou não são originárias. Estrangeiros podem ser até indivíduos que tenham nascido no país em que vivem (desde que os pais lhes conservem a nacionalidade de origem. e dizemos alienígena. – Segundo Roq. com outros. Por isso. – Todas estas palavras designam pessoas que não nasceram no. Mas ádvena diz propriamente “indivíduo que chega. “A gente ádvena associou-se compungida à imensa consternação de toda a vila naquele instante”. contra o erro em que alguém está. ou pugnando por interesses que nos prejudicam. inimigo. mesmo implícita. entretanto. não se pode dizer que seja um forasteiro. indivíduo ou raça que não é a própria do país em que está”. pode não ser de fora do país. quando nos referimos ao que chega em relação ao que vive na terra. Essa gente ádvena aí diz “a gente que estava ali de pouso. porque não era a raça latina que ocupava o continente quando este foi conhecido. mas apenas da cidade.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 113 circunstâncias. chegada por dias”. ou seguindo diferente opinião ou partido. ádvena. ádvena aproxima-se mais talvez de estrangeiro que de adventício. – Resta notar que todos estes vocábulos só se empregam em relação. – Alienígena (alienus “alheio”. no entanto. mas podendo ter-se fixado no país novo onde se encontra”. à verdade. estrangeiro. Os povos de origem latina são adventícios na América. forasteiro. – Ainda que o interesse e o amor-próprio sejam de ordinário as causas por que muitos se fizeram nossos adversários. ádvena. O ádvena. ou mesmo que nele vive sem certos direitos (os políticos) e sem certos deveres (o do serviço militar). porém. rival. mas que nele vive longos anos. Estrangeiro é propriamente “o que é estranho ao país. – Adventício e ádvena têm a mesma etimologia (do latim advenire = ad + venire) e significam “indivíduo vindo de fora. concorrente. Não se poderia dizer. que não é do país.

aos animais e às plantas”. galhardia. . e indica uma oposição mais forte que a precedente. nos interesses e inclinações. se nem sempre baixa. em sua significação metafórica. – Por analogia chamamos sorte adversa a que nos é contrária. e também se rivaliza em ações virtuosas. honras. e agonixomai. Esta palavra tem muita extensão em seus significados. que para isso é ele inimigo. este procura sempre fazer mal. e sobretudo nos empregos. no mérito. mas sim nas doutrinas e partidos.114 Rocha Pombo ser amigos debaixo de outros respeitos. dois rivais acometem-se. não há ação baixa. Dois êmulos caminham. O vulgo não conhece mais que inimigos. adversamente. contrariar. “contra”. “propõe-se a fazer ou conseguir aquilo que nós também nos julgamos capazes de alcançar”. as ações e todas as coisas que nos podem desagradar. æmulus. e designa a pessoa que compete com outra em arte. Diferença-se. e ainda generosos e delicados: não assim o inimigo. “eu combato”. pois abraça as pessoas. no talento. pois antagonistes compõe-se da proposição anti. a palavra grega antagonistes (antagonista em latim e nas línguas que deste se derivam) significava um inimigo armado e em ato de batalha. por bons motivos e com razão. Êmulo denota competição honesta. Dizemos. de certos costumes. que todas as palavras anteriores. pois. Cícero e Hortênsio foram êmulos. nas riquezas. a que ela não conduza. Temos. – Entre os antigos. ciência. inimigo. o mérito dos competidores. nobre. isto é. e até heroísmo: é uma rivalidade mais distinta e elevada. que os Newtonianos são antagonistas dos Cartesianos em seus sistemas. muito de rival. como os literários. Só os homens de mérito têm adversários e êmulos: e as almas grandes. É mais do que simples concorrente. Aquele pode favorecer-nos em tudo aquilo que não pertence à disputa. e também por prejuízos e caprichos. há muitos rivais em amor. mas posteriormente foi limitando-se a combates mais nobres e menos sangrentos. ou indiferentes. até nos animais se dá certa rivalidade. – Êmulo é também palavra latina. v. Pompeu e Cesar foram rivais. valendo-se de meios honestos. pois este apenas concorre conosco. no esplendor. e as antigas adversar e adversia. “a todos os seres organizados e sensíveis. ou que se propõe imitá-la e até excedê-la. Não há propriamente rivalidade nas opiniões e ideias. – Competidor é “o que está contra nós na conquista de alguma coisa”. tenaz. rivais e antagonistas. supõe graves injúrias recebidas. e daqui vêm as palavras adversidade. e não admite ódio nem inveja. Adversário não supõe ódio. A inimizade é de ordinário uma paixão. porque costuma ser traidor. no heroísmo. e até proclama. os amantes em obséquios a uma dama. nem à contradição. quantos são os males que a inimizade produz. nem procedimento vil. pois. g. Tantos são os bens que da amizade resultam. longe de excluírem as ideias de nobreza e urbanidade. rivalis. os soberanos em sua grandeza e esplendor. umas vezes por nossa natural inclinação. e sucesso adverso o que nos causa dano e conduz ao infortúnio. ou fazer dano: somos inimigos de certos manjares. como na generosidade. somo-lo. no valor. repreensível sobretudo em seus excessos. O êmulo reconhece. Estende-se a inimizade. sem se confundir com adversário. as supõem. os ingleses e os franceses em seus adiantamentos científicos e industriais. faz com que receiemos o inimigo ainda depois de reconciliados com ele. ao menos rancorosa. de certos prazeres. e os partidos que não saem da linha da nobreza. generosidade. – Rival é palavra latina. sim. se é bem fundada.. Os rivais têm interesses opostos que se combatem. e graças. Os êmulos correm a mesma carreira. no luxo. em ações louváveis. os de jogos e exercícios. vivem em harmonia. generosa.

sem consolo nem esperança de alívio. – Infortúnio vem a ser uma série ou cadeia de desgraças. ao malsucedido. como é também desditoso. e significa todo sucesso lamentável que cai imprevisto sobre alguém. tendendo a fins diferentes. e só por pura ponderação se chamará desdita à sua desgraça. a peste. infeliz. “explica o mal em si mesmo”. mas vulgarmente se toma por desgraça. Mas a sorte adversa só assume o caráter de adversidade quando persegue o indivíduo continuadamente. Por isso dizemos: Aconteceu ontem uma desgraça no mar. sem deixar-lhe alívio ou descanso. a guerra. procuram. que é propriamente um infortúnio público e geral. porque só fazemos relação ao fato. pela triste situação a que o reduziu sua desgraça. infortúnio. misérias. tristezas. e então fazem-se adversas. do que tende a fins diferentes.. não só é desgraçado porque padece um verdadeiro mal. O que perde no jogo. Desfavorável não se diz propriamente das pessoas. – Infelicidade é o contrário de felicidade. desfortuna. vale por sofrimentos. mal-afortunado. caipora. caiporismo. e é mais usada esta palavra que desdita. Frequentemente os pais têm ideias opostas a respeito do futuro dos filhos. porque não deu motivo a elas por seu procedimento ou falta de prudência. desgraçado. sem que o incomode nem o aflija a perda. – Desgraça é termo genérico. de insucessos e coisas contrárias”. cai em infortúnio. senão das suas opiniões. fortuna adversa. do que. As partes contrárias não tratam precisamente de fazer vingar o seu intento: o que pretendem é impedir que o contrário triunfe. O parecer do relator foi desfavorável à pretensão. que não provêm do homem. e . É desfavorável aquilo que. pareceres e decisões. pode queixar-se de sua desventura. desgraça. As minorias declaram-se contrárias às propostas da maioria. desdita. sendo necessário para a realização do fato. antes encontra adversidades. consiste a sinonímia destes vocábulos em que: – Adverso se diz do que tende a prevalecer por meio da luta. infortunado. As partes opostas. aos fins. contrário. os terremotos. diz Roq. – “Desgraça”. infelicidade. às tendências. e se acha reduzido à maior miséria e aflição. para conseguir o seu intento. “Afinal teve no pleito ou na cam- panha fortuna ou sorte adversa”. no rio. – “Relativamente – diz Bruns. a privação do que constitui o homem feliz. que vem da castelhana desdicha. porém. desventurado. calamidade. e não – aconteceu uma desdita. tende a impedir o que outrem pretende. – oposto. – Adversidade e sorte adversa (ou fortuna adversa) dizem quase a mesma coisa: exprimem o fato de ser uma criatura “perseguida de males. – Desventura é má sorte. desaventurado. desfortunado. – às ideias. chamase-lhe calamidade. etc. senão por sua má sorte. toda a sua fazenda. desditoso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 166 ADVERSO. desventura. sorte adversa (ou adver- sa fortuna). contrário. desfavo- 115 rável. O que perdeu. – Quando a desgraça é grande e se estende a infinito número de pessoas e a países inteiros. as inundações. e outras muitas grandes desgraças que afligem as nações. cada uma hostilizar a outra. não por isto. desafortunado. Aquele que não sai bem nas suas empresas. tal como a fome. – desfavorável. A república é adversa à monarquia..” 167 ADVERSIDADE. oposto. se declara contra isso. mal-aventurado. é desgraçado no jogo. As partes adversas procuram mutuamente suplantar-se. “Caiu aquela nobre figura vencida pela adversidade” (isto é – pela constância da má sorte). do que quer impedir o triunfo alheio. as erupções vulcânicas. em lugar de favorecer. – Desdita acrescenta à ideia do mal o efeito da desgraça. No plural. com relação à triste situação em que se acha o desgraçado. mas não é desgraçado nem desditoso.

– Desventurados são os pais que têm uma velhice de desilusões e amarguras com os filhos. ou mesmo o infortúnio. e este significa propriamente “que alcançou ou alcançará felicidade” (boa ventura. – “Foi ele tão desfortunado (tão sem boa fortuna) que não conseguiu sequer uma vez bater no alvo”. . – Caipora e caiporismo são vocábulos adotados dos nossos indígenas. “Se eu for mal-afortunado agora no meu intento. pois é muito desafortunado sempre que pede alguma coisa à política”. falta de boa fortuna. ou sem êxito no caso”. significa “sem fortuna. e aquele. isto é. – Mal-afortunado será um antônimo mais perfeito de bem-afortunado. é “o sujeito que se julga assim perseguido da má sorte”. “Tive a desfortuna de lhe não merecer simpatia”. a causas misteriosas e inevitáveis. o sacerdote que se deixou imolar pela sua fé. ou com mau sucesso em certas circunstâncias”. Os lexicógrafos estão de acordo em considerá-los sinônimos perfeitos. ou que não se saiu tão bem como costuma sair-se. como já se disse. ou a trama de algum espírito mau”. o mal-aventurado errou nos esforços que fez. – Entre desfortunado e desafortunado há a diferença expressa pela partícula de intensidade a que figura no segundo antes da negativa des. o amigo que se perdeu num lance de honra. foi malsucedido no empenho. Em qualquer dos dois exemplos. falta que se atribui. E isto pela razão de ter a palavra aventura. “É preciso consolar uma criatura infortunada (perseguida de infortúnios)”. Como se viu. ou desaventurado. O desafortunado. o mal-afortunado. – Notemos ainda que mal-afortunado é muito próximo do nosso caipora. a substituição de um adjetivo pelo outro mudaria o sentido da frase. o que é perseguido de desventuras”. que dá o segundo desses compostos. “Não acredito que ele consiga o que quer. o infortunado mesmo. “Tem padecido os seus infortúnios com serenidade e resignação” (não – as suas desfortunas). uma significação que nele desaparece. – É conveniente notar ainda o que distingue estes compostos de ventura dos compostos de fortuna. malaventurado é antônimo de bem-aventurado. mal-afortunado – “com má fortuna. Mas entre os dois e mal-aventurado já se nota alguma distinção. a boa fortuna que sempre tivera. caipora. voltarei logo de Paris”. impedindo o êxito que se calculava”. ou bem-aventurança). portanto. e o primeiro. – Infortúnio e desfortuna. o rei magnânimo que foi deposto e banido. O homem desafortunado é o que não teve no momento. ou num certo caso. enquanto que desafortunado é antônimo de afortunado: marca-se assim uma distinção muito clara entre mal-afortunado e desafortunado: este. “o que não consegue chegar ao seu dia. Aquele. transviou-se no caminho. “a falta de boa fortuna em tudo quanto se tenta na vida”. – Entre infortunado e desfortunado há diferença análoga à que notamos entre infortúnio e desfortuna. – Desventurado. significando: – o último. “ele deixa tudo à fortuna” (e não – à ventura). tanto que dizemos: “ele vai à ventura” (e não – à fortuna). – Entre desventurado e desaventurado não é perceptível diferença alguma. o menino que foi vítima de uma imprudência – são todos mal-aventurados. O desventurado lutou contra a sorte.116 Rocha Pombo às vezes quase o mundo inteiro. ou “a predestinação. infortúnio é grande desgraça que se prolonga (e quase sempre se usa no plural): desfortuna diz apenas “fortuna contrária. A ventura não parece tão cega como a fortuna. deve a desfortuna. é o sujeito “sem ventura”. – É preciso comparar alguns dos vocábulos deste grupo que têm o mesmo radical. que se empenhou numa causa de alta grandeza moral e saiu batido de infortúnio. “Um capitão tem a desfortuna de ver fugir e escapar-se o inimigo quando ia certo de esmagá-lo” (não – o infortúnio).

conquanto nos léxicos se definam como significando a mesma coisa. e particularmente ao advogado que faz perante o júri a defesa de um réu. ou do estabelecimento em relação aos seus subordinados. gritador. – É nosso advogado quem toma a nossa defesa perante algum superior nosso. Assim define S.) – Defensor é termo genérico que se aplica a toda pessoa que defende a outra. intercessor. e disserta ou escreve sobre leis. jurista. ou perante alguma pessoa ou mesmo perante algum poder com cuja benignidade precisamos de contar para que nos absolva de culpas. isto é. . advocatura é “o exercício. interventor. Saraiva este nome: “advogado que fala muito e sabe pouco. 169 ADVOGADO. ou nos livre de males. portanto. instigando-nos. – Causídico e rábula são termos depreciativos. Designava antigamente o que defendia os interesses da plebe. aqui. mais depreciativo do que causídico: aplicase ao advogado sem pergaminho. letrado. o que defende causas de direito com autorização legal”. O patrono defende-nos e protege-nos como se fosse nosso chefe ou nosso pai (patrão). – Legista é o que conhece as leis a fundo e as interpreta. tendências. – Patrono. os antigos usos. legista. pa- droeiro. – Patrono é pois o que não só defende os direitos do seu cliente como cuida solicitamente de salvaguardar-lhe os interesses. dos estrangeiros em geral. designa principalmente o advogado que dá consultas. advocatura. Passou depois a significar o chefe da casa (pater) em relação aos agregados e protegidos19. que debela os casos intrincados. – Jurisconsulto é o legista profundo. os direitos das gentes. patrocina a nossa causa: pode ter para isso motivos que não sejam os mais legítimos.” “A advocacia na campanha não dá o pão e tira o couro”. “estar furioso. – Rábula é. intermediário. os costumes passados”. patrocinador. e também que haja muitos bacharéis muito mais alicantineiros e chicanistas do que tantos rábulas. a praticar males que talvez não praticássemos sem o seu pa19 Patrono deu o nosso vernáculo patrão – o dono da fábrica. raivoso. e também com isso pode estimular em nós instintos. portanto. o estudante de direito é jurista18. – Jurista é termo mais relativo à teoria que à prática. violento”).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 168 ADVOCACIA. Advocacia é “a profissão do advogado”. tagarela”. “Durante a minha advocatura no sul fiz menos fortuna do que inimizades. o patrocinador nos toma à sua conta. (Nada disto impede sem dúvida que haja rábulas de 18 Hoje está-se introduzindo o neologismo direitista. aplicado aos que conhecem direito ou seguem a carreira do direito. artimanhas do que com lisura. jurisconsulto. patrono. e que se vale mais de chicana que de razões. causídico. fala e age por nós. e jurista é também aquele que conhece a história do direito. coragens e ousadias que não sejam as mais recomendáveis. o prazo de tempo que se levou advogando”. defensor. medianeiro. – Distinguem-se 117 perfeitamente estas duas palavras. rábula. manobras. patrono. – Letrado. mediador. que designam: causídico é aquele que trata de causas mais talvez com astúcias. O mesmo se pode dizer quanto a rábula (do latim rabere. patrocinador e padroeiro assemelham-se muito (têm o mesmo radical). protetor. 170 ADVOGADO. – Segundo Bruns. termo que hoje se tornou popular. muito mais valor do que muitos bacharéis. – Patrono confunde-se com advogado e defensor. defensor. ou o senhor em relação aos seus libertos.: – “Advogado é.

Tal que é amável com os estranhos é ríspido e intratável com os seus. benevolência. e por extensão é “o que nos ampara perante alguém de cuja munificência temos necessidade”. Consiste na maneira cativante com que as pessoas de posição prendem a vontade dos que lhes falam. cortesia. e não ao contrário”. urbano. carinho. a defesa de criminosos. de acordo com as leis. – Segundo Bruns. ou ao falar em qualquer parte com uma pessoa. benignidade. protege criminosos. ao passo que o mediador tem sempre algum interesse ou empenho em conciliar aqueles entre os quais se põe. complacência. ou a triunfar numa certa conjuntura”. é toda pessoa que defende a outra. por assim dizer. bom. melhor do que todos os outros do grupo. O agrado é o testemunho da alegria que sentimos ao receber em nossa casa. a maior parte das vezes. afeição. cortesania. complacente. induz os celerados a praticar crimes). delicadeza. Tanto o agrado como a afabilidade são geralmente provas de um caráter bem formado. carinhoso. e não só nos ampara. indulgência. o patrocinador de criminosos acolhe. e não sendo mais por uma que por outra”. cortesão. bondoso. – Intercessor é a pessoa que se põe entre nós e aquele perante o qual precisamos de defesa. amistoso. benigno. ci- vilidade. e vice-versa. A civilidade é a convenção estabelecida na sociedade para que os seus membros se avenham . uma qualidade inerente ao caráter da pessoa que se mostra amável: ou tem fins interesseiros. afetuoso. “a afabilidade (do latim ad “a”. sua solicitude e valimento. polidez. em nome de um terceiro. afável. fineza. polido. ternura. urbanidade. e fari ou afari “falar”) dá-se de superior para inferior. muito claro.. e vice-versa. porém. S. A amabilidade consiste em empregar todos os meios possíveis para nos tornarmos agradáveis à pessoa a quem a testemunhamos. Poderia confundir-se com mediador. – Protetor (de protegere = pro + tegere. delicado. agradável. mostrando-se assim afáveis. amável. indulgente. para restabelecer acordo ou ordem entre elas. Sebastião é o padroeiro da cidade (isto é – protege no céu a cidade do Rio de Janeiro). civil. amabilidade. terno. – Padroeiro é propriamente “o que exerce o direito de padroado”. benevolente. entre elas”: enquanto que intercessor sugere a ideia de que a pessoa pela qual se intercede precisa de defesa e proteção perante aquela junto da qual tem de agir o intercessor. prestígio e valimento em favor de alguém e perante um poder a cuja presença esse al- guém não pode ir diretamente para alcançar o que deseja”. obsequioso. como já vimos no parágrafo precedente. se mete entre duas ou mais pessoas ou facções. meiguice. agrado.118 Rocha Pombo trocínio. fino. ou faz simplesmente parte da bagagem das convenções sociais com que os homens pretendem enganar-se reciprocamente. Dizemos – “patrocinador de crimes ou de criminosos” (patrono de criminosos seria já coisa muito diferente: o patrono de criminosos toma. – Mediador. A ação de proteger (de protetor) naturalmente marca. a superioridade de condições da pessoa que protege sobre as da pessoa protegida. anima. – Defensor. benévolo. é apenas o que se põe ou fica entre duas pessoas fazendo sentir a uma o que a outra quer. mais se parece com intermediário: este. “cobrir. portanto. cortês. de qualquer condição que ela seja. como nos habilita a vencer na vida. ocultar. – Medianeiro diz muito mais do que mediador: é “o que interpõe a sua autoridade. mas este é o que se interpõe entre duas pessoas “para servir apenas de veículo. esconder”) é “o que nos toma sob sua guarda. dá-se de superiores para inferiores. Não é. bondade. 171 AFABILIDADE. – Interventor é “aquele que. meigo.

– Afeição é a “conformidade moral que leva uma pessoa a chegar-se muito a outra. tratando-se de pessoas. finura e delicadeza. que se contenta de ter para com seus semelhantes sentimentos propícios”. Basta conhecer certas regras e observar certas práticas para ser tido como homem civil. que obram e se exprimem nobremente. porém. perdeu hoje esse sentido: é mais “palaciano. não só com mostras de bondade. pois sem ela nos tornaríamos desagradáveis até aos nossos mais próximos. é. revelando sempre por nós os seus afetos. Varia segundo os meios.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 119 mutuamente. mostra-se de boa vontade com alguém no momento. e isso tanto mais me cativa quanto é certo que ele não é benévolo com todo mundo”. A civilidade exagerada – a que o vulgo chama política – é ridícula e presta-se ao escárnio. Dizemos: “os reis benignos são amados do seu povo”. para ser um homem polido. ou pela benignidade. Uma pessoa é benévola. Mas benevolência é apenas “uma disposição de alma. e saber amoldar-se às situações. – Benigno é “o homem de natureza moral muito singela. em estar de acordo com os desejos de alguém”. “os homens benignos fazem-se queridos” (e não – os reis benévolos. como indica a palavra. ou pode ter benevolência com esta ou aquela outra pessoa. – Cortesia é a demonstração do respeito que nos devemos mutuamente. ou – os homens benevolentes). os lugares e a condição das pessoas. indício de bom ânimo. no entanto. de simpatia. de modo a não se ofenderem nem se desagradarem. fazendo-se meiga. mesmo em família. Contudo. afagando-nos. a acolhê-la. por índole talvez do que por educação. A urbanidade é a civilidade de bom tom. um movimento propício de coração em favor de alguém”. – Cortesania é o requinte da polidez: é “a polidez da corte. para com a pessoa que recebe o carinho. Entre benévolo e benevolente não estabelecem os dicionários diferença alguma. isto é. a virtude das grandes almas. e sugere sempre. O amigo afetuoso é o que nos trata com afeição. Parece. pois a polidez exige que não só nos tornemos agradáveis. A benignidade é. e benevolente (“que está sendo benévolo”) uma disposição atual de sentimentos. que isto quer significar que benévolo expressa melhor uma como qualidade pessoal. – Delicadeza é a qualidade do homem muito polido. pois. senão sinal de qualidades.. – Complacência é também menos uma qualidade do que uma disposição moral: é a “boa vontade. – Carinhosa é a pessoa que nos recebe. – Polidez e urbanidade confundem-se no fundo. Complacente é o amigo que se compraz conosco. sempre que estas pareçam merecer-no-la. a diligência que se mostra em fazer o gosto de alguém. – Complacente . tem-se não só para com as pessoas que conhecemos como também para com as desconhecidas. portanto.” – Cortesão.. com facilidade. de intimidade da pessoa que faz. leva a sua mansuetude e tolerância a uma quase renúncia de si mesmo para ser-nos agradável. uma ideia da excelência da pessoa benigna em relação àquela a respeito da qual assim se mostra. senão que penhoremos as pessoas com quem tratamos. suave no trato. – Carinho não é uma qualidade. a civilidade bem entendida deve reinar em toda parte. áulico e até adulador” do que cortês. a atraí-la enchendo-a de meiguices e provas de amizade”. O homem delicado é-o mais por temperamento. sincera. Nesta frase. pela amizade. fino. a que se usa nos grandes centros urbanos. como se nos abrisse a alma. que. os tempos. – Benevolência poderia confundir-se com benignidade. entretanto. como com sentimentos ternos. necessário ter grande trato do mundo. supomos que seria imprópria a mudança dos dois vocábulos: “Ele se mostrou benevolente comigo. – Polidez é a civilidade das pessoas de fino trato.

trabalho. – Azáfama significa mais “o apressuramento com que se cuida da tarefa. fadiga. é “trabalho penoso. mais misericórdia do que justiça. mas um fino cavalheiro é aquele que sabe requintar a sua delicadeza e fazer-se “muito delicado”. para exprimir o movimento geral das grandes cidades. e sugere ideia de afãs contínuos. ou aquele de quem dependemos. ou de amor na presença de uma criança que sofre. envolve mais a ideia de pressa que de trabalho. laboração. – Bom é aquele que tem essa virtude. lida. claudica. e nos vence as forças”. que nos cansa. pois que parecem deslumbrados mais de amar que de sentir o nosso amor. Tanta lida para tão pouca vida. – Entre bom e bondoso há muita diferença. – Ternura é. afônico. afonia. A indulgência supõe sempre uma autoridade ou poder mais alto que o da pessoa com quem se é indulgente. Poder-se-ia dizer que é um predicamento divino. – O afásico titubeia. e portanto fica ele incapaz de imitá-la. – Bondade é a qualidade de ser bom. pois a surdez lhe impede ouvi-la. faina. que só por extensão se pode atribuir a homens. – Afã é “toda atividade penosa.) – Afonia é a falta de voz: mal ou defeito “que provém da laringe”. ou de todo não pode falar. labor (lavor). (Bruns. a virtude de ser contrário a tudo quanto é mau. afásico. mudez. a candura dos simples edificada de instintivo sentimento de renúncia e de simpatia. sereno e afável. mento. quando se mostra conosco tolerante. lucubração. aqui. aquele homem não tem tempo de atender-nos”. todo esforço difícil”. luta. bondoso é apenas “o que tem bondades quase que aparentes. Ternos são os corações que ficam como que em êxtase de piedade. – Lida é “trabalho afanoso. e é próximo de aforçuramento. A meiguice é a qualidade das crianças e das virgens. o que é cheio de deferências conosco”. azáfama. pois que só os pais sabem ter com os filhos. “Os meus afãs não me deixam sentir estes pequenos incômodos”.120 Rocha Pombo 172 AFASIA. trabalho aturado e debaixo de barulho”. – O homem amistoso é o que nos trata como costumam tratar-nos os nossos legítimos amigos. – Fineza poderia considerar-se como sinônimo quase perfeito de delicadeza. O mudo não fala porque ignora o som da palavra. julgada tão excelsa que o próprio Jesus a atribuía só a Deus. Este. A faina de bordo. “Na azáfama em que vive. pode ser completa (o que é raro) ou parcial. um sujeito . uma delicadeza de sentimentos levada a extremos de meiguice. porque deixa supor sempre a inocência. ou da pessoa amada. pois. O afônico sente dificuldade ou mesmo impossibilidade na emissão da voz. no entanto. ou diante de um infeliz. azáfama incessante”. – São meigos os propensos ao amor. e a provas de afeto que nos comovem. de longas fadigas. 173 AFÃ. Um sujeito aforçurado gasta inutilmente as próprias forças. ou de um trabalho urgente”. mudo. É mais usado no plural. afadiga- é o nosso superior hierárquico. a faina dos campos. aforçuramento. – A criatura indulgente conosco é a que tem para os nossos defeitos mais perdão do que rigor. ou então de que são capazes só as excelentes naturezas morais encontrando-se com as misérias da vida. os que se mostram mais do que amáveis. labutação. – Faina é uma outra forma de afã: é “todo serviço feito sem muita ordem e com pressa. e os esposos entre si. sendo a esta que é devida a gaguez”. pois a afasia provém de alguma “lesão na substância nervosa frontocerebral. conforme já ficou em outra parte definido. e afadigamento é uma extensão de fadiga. – Fadiga. – Mudez é propriamente a incapacidade orgânica de articular a voz. e mesmo a faina das ruas. labuta.

– A palavra trabalho foi primitivamente aplicada à função do construtor. trave. e no plural – “trabalho pesado e afanoso”. pôr para aquém”.. tem o sentido próprio de “afastar para trás. desviar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 121 afadigado despende forças. “retrocesso”. ou pondo-a de lado. – Labor é “todo esforço exercido com aptidão e gosto. ou da lâmpada. 174 AFASTAR. Quanto a labor confrontado com lavor. originou que lavor seja abusivamente empregado por trabalho ou faina. e que só não acabrunha as grandes naturezas morais”. Labuta é esforço afanoso. – Lucubração é todo trabalho que nos absorve dia e noite. ou das nossas aptidões. ocupação árdua de que se vive. lucubrações aplica-se mais particularmente “ao trabalho feito à noite. O próprio latim tem retrahere “tirar para traz”. e ter “três vezes”) + tirar.. No plural acrescenta a labor uma ideia de faina. apartar. cansa também. trabalis “próprio das árvores. – Retirar (formado de re. ou mesmo de afadigamento”. e por extensão significa – “tirar uma coisa do lugar em que estava. do gótico tairan segundo alguns.: “Labor é palavra que tomamos diretamente do latim labor.” Resta acrescentar que lavor significa também “a perfeição da mão de obra. ao esforço. à contensão mental com que é feita uma obra de arte ou de ciência”. que cansa o espírito ou o corpo. “Os trabalhos da vida” – é quase como se se dissesse – “as lutas da vida”. portanto. mas nem sempre sem fruto. – Labor é trabalho longo e difícil.. “viga. ou conseguir alguma coisa”. que não devem ser tomadas indiferentemente. dizemos. “As lutas da vida o venceram”. retira-se o filho do colégio. arredar. “As nossas laborações naquele transe nos inutilizaram por muitos dias”. árvore grande”. lida penosa. retira-se uma ofensa. – Labor é sinônimo de trabalho. afasta-se do espírito uma ideia sinistra.. – Laboração é uma forma extensa de labor: é a ação de exercer o labor (laborar). No plural. afasta-se da parede o sofá. separar. – Luta é “trabalho doloroso.” Retira-se um exército. o modo como um trabalho foi acabado”. como se fora mesmo um combate. ainda quando os dicionários as confundam e as expliquem uma pela outra. – Entre labuta e labutação (que com os dois precedentes têm origem comum) deve notar-se análoga diferença. de lida ou fadiga. confundindo a pronúncia dos dois vocábulos. pois se formou de lavrar (laborare). mas indiretamente. descaminhar (desencaminhar). equivalente aqui a retro (re que marca “retração”. portanto. do que lidava com madeiras (trabs. retirar. Afastam-se de nós alguns amigos. depois generalizou-se. não.. à luz do gás. isto é. sugere a ideia das penas e fadigas que produz todo exercício aturado. Só a ignorância. de ab + stare “estar ou ficar longe”) significa propriamente “tirar uma coisa ou pessoa de junto da outra”. e de qualquer ornato em relevo. relativo a traves”). palavras mui distintas. – Lavor dizemos do trabalho “de agulha. “Naquela contínua luta do seu viver foi morrendo”. nas línguas neolatinas. Lucubrar (de lucubrare (de lux) “trabalhar à noite”) significa propriamente “fazer serão”: e. mas que também nos agrada e satisfaz”. e a que aplicamos toda a intensidade do nosso espírito. lucubração. retira-se o chapéu de cima da mesa. por labor. – Labor e lavor são. chamando-a a nós. chamar a si. etc. que nos fatiga. – 20 Parece que estes têm mais razão do que aqueles. feito por desenho. escreve Bruns. Labutação é o mesmo que “labuta afadigada”. lavor. voltando por onde tinha ido. lavor tem a mesma origem.. deslo- car. passando a significar “toda aplicação de aptidões no sentido de fazer algum objeto. ou melhor. e segundo outros do latim trahere20 – retirar. – Afastar (do latim abstare. .

extensão – perverter. “A pulso desloca o rochedo. fecho é a “peça com que se fecha. ainda que se não aliste em outras fileiras. é-lhe inerente a ideia de fim. se se emprega a tranca. fecho. parece que separação indica principalmente a ação de separar.. pois. quando somos sedentários por gosto. – “tranqueta de ferro . como descaminhar. (Por mais que digam os lexicógrafos. “Com perícia admirável desloca o dente e saca-o num instante”. – Os dois outros do grupo. ou quando se desquitam. melhor ainda que desviar. Segundo Vieira. arredam-se as cadeiras do meio da sala. portanto. no juízo final hão de separar-se os bons dos maus. 163). desencaminhar não se confunde com descaminhar. Desviamos o corpo para evitar um golpe.. Noutro sentido. e lá do alto deixa-o tombar sobre a cidade”. Separa o lavrador a palha do grão. Se alguém se aparta do seu partido é que toma posição contra este. exprime a ideia de “tirar ou de sair do caminho próprio. desviamos uma criança que vai ser pisada. diz ele: “Feita a separação dos maus e bons. temos aferro às ideias que defendemos com tenacidade”. O aferro provém da convicção. Quando dentre muitas coisas se apartam algumas. e sossegados os prantos daquele último apartamento. “Aquele sucesso imprevisto vem descaminhar-nos da vereda em que íamos” (isto é. – Deslocar é “mover alguma coisa do lugar próprio. Em sentido mais restrito. tomando uma azinhaga”. Ferrolho é – diz Aul. vem fazer que tomemos outra rota). designam formas ou modos particulares de fechar. unir com firmeza” (do latim fixare). este verbo sugere ideia da atitude contrária em que fica a pessoa que se aparta em relação àquela de quem se apartou. põem-se estas em lugar onde fiquem separadas das primeiras. – o que estava unido.” (III. ou algum fato suceder.) – Apartar é “pôr de parte”. o trigo do joio.”. liga. – “é tirar uma coisa ou uma pessoa do ponto ou da linha em que alguma outra coisa ou pessoa vai passar.. diferençando-se segundo a peça com que se fecha: se se emprega o ferrolho. tranca-se. ou nem sempre estarão necessariamente desligadas. Deslocam-se figuras da política em todas as grandes crises. prende alguma coisa”. falando do juízo final. 176 AFERROLHAR. desviar indica a ação de tirar de uma direção para fazer tomar outra diferente. aferrolha-se. o processo mediante o qual se cerra. Quando alguém se aparta de outra pessoa toma um lugar para longe dessa pessoa. “Separa-se – diz Roq. Arreda a multidão à passagem do cortejo. Separar diz muito mais que apartar.. prostituir”. fechar. do caminho certo. ligado. Temos apego à casa. e apartamento os resultados morais da separação. propósito ou conveniência.122 Rocha Pombo Arredar é “desviar bruscamente. neste caso.: “O apego é a constância que provém mais do hábito que da reflexão. um forte apego. desviamos do sentido uma lembrança funesta. Desencaminhar tem significação diferente. apego. – Descaminhar. misturado: sempre com referência a mais de um objeto. Só no sentido moral é que as coisas ou pessoas separadas nem sempre se julgam a distância umas das outras.. de completivo de predicação: é “tirar do bom caminho. e é.. trancar. Descaminha-se a gente. ou da direção que se seguia”. descaminha-se o menino da escola. – Desviar – diz Bruns. tranca. ferrolho. a fruta podre da sã. dar espaço ou caminho”. – Separar é “pôr duas ou mais coisas ou pessoas longe uma das outras”. e por. no sentido próprio e originário. 175 AFERRO. retirá-la do ponto em que se acha”. separam-se os casados quando não podem viver juntos. e nem carece. – Diz muito bem Bruns. – Fechar aqui exprime a ação geral de “cerrar.

vai embeber-se na ombreira ou noutra peça. apego. De que provém? Nasce. Fecha-se a boca. O amor recusa crer nos defeitos que vê na pessoa amada. uma carta. correndo horizontalmente pelos anéis. ou inclinação comedida que se tem para alguém ou para alguma coisa. quando este se dirige à sua amante La Chaux: “Ignoro a razão de já a não amar.. porém. Adolphe Garnier. no seu Traité des facultés de l’âme.. – diferençam-se apenas em ser a afeição extensiva a pessoas e a coisas. deixando de falar. e acabamos por amá-los. não obstante. e ambicionamos encontrar-nos sempre e exclusivamente na sua presença.. na paixão há arrebatamento. de madeira. no entanto. e o afeto só a pessoas. dedicação. podendo ser. de tais méritos. e é tal o seu fundo de benevolência que estende por sobre os vícios o véu das perfeições. uma gaveta. a amargura sustém-nos. – O amor é um sentimento que se pode considerar intermé- dio entre o afeto e a paixão. um cofre. amor. diz do amor: “O caráter distintivo do amor é o de preocupar exclusivamente o nosso pensamento com a existência de uma pessoa do outro sexo. Aferrolha-se ou tranca-se igualmente uma porta. aferrolhar e trancar dizem “prender com segurança”. A afeição que temos às coisas nos induz a ter cuidados com elas. um livro. Muitas vezes a paixão desaparece com o logro da coisa desejada. Figuradamente. não assim o afeto ou a afeição. recordou-se que esse defeito existia numa menina a quem amara desde a infância. Se no amor não há os arrebatos da paixão. senão que os tomamos por perfeições. Não são os defeitos da alma apenas que recusamos ver no objeto que nos apraz: são também os do corpo. por assim dizer. amizade. por que está abraçada. Tudo nela tem encanto à nossa vista. está-se humilhado e adora-se. paixão. significando que se a retém com usura ou somiticaria. propensão. sem causa. de gozar da sua companhia. inclinação. e às vezes cessa sem ela”. e que cessei de a amar sem saber a causa”. ou não se expandindo. Tranca é uma barra semelhante ao ferrolho. É por afeto ou por afeição que se sente prazer em encontrar a pessoa a quem se estima. O amor. 177 AFETO (afeição). Afeição é a tendência. e não só os negamos. impedindo assim que se abra a porta ou janela em que está pregada”. É certo que o amor aumenta com os méritos do objeto amado: não vem. ternura. Num sentido mais geral. no entanto. sobrevive à infidelidade: sofre-se e ama-se.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 123 (ou qualquer peça de ferro que se empregue em fechar) que. Antes de Garnier já Diderot definira admiravelmente o amor pela boca de Gardeil. tudo o que sei é que principiei a amá-la sem saber por quê. – Afeto e afeição – diz Bruns. O austero Descartes simpatizava com os olhos vesgos: procurando a origem de tal gosto. – Paixão é o desejo veemente de obter e possuir a pessoa ou a coisa que desperta em nós esse sentimento. Só o pensar que a ternura da pessoa amada pode ou poderia repartir-se com outrem faz-nos estremecer. de lhe ser útil. e que se procura a ocasião de a ver. E assim como é ela que unicamente nos interessa. quiséramos que só nós fôssemos o único que lhe interessasse. fechando-os fortemente. pois esta é constante. não dizendo o que se sente. e a paixão sente-se geralmente por aquilo que se deseja possuir. Deliciamo-nos em ouvir falar dela. Fecha-se uma porta. Também se fecha a alma. um portão.. o . a qual nos causa um como deslumbramento contínuo pelas qualidades e perfeições que a nossa imaginação lhe atribui. Uma diferença essencial entre a afeição e a paixão é que a afeição se sente por aquilo que se possui. No afeto há moderação. Também se diz – “aferrolhar a fortuna”. há nele algo mais da tibieza do afeto.

encobre com artifícios (fingimentos) o que sente. disfarce. a inclinação é a disposição e tendência natural do espírito para amar alguém em razão do que nessa pessoa nos agrada. fantasia. aparente. degenerará facilmente em paixão. e procura. o apreço do caráter. da índole e do espírito do amigo. tais são: a necessidade de expansão e de confiança recíprocas. não é o sentimento. – O apego é um sentimento que pode ter maior ou menor intensidade. porém. O indivíduo afetado é o que anda. – Dedicação é o desprendimento de si próprio em favor de outrem. seja amizade. representar de). seja amor. José de Lacerda – é “o apego particular de uma a outra pessoa.. caracteres especiais pelos quais se pode determinar. pode tornar-se amor. a um hábito. disfarçar. Usa-se também este verbo como pronominal: o indivíduo que se afeta no dizer é o que procura apurar tanto a elocução que se torna ridículo. enquanto este exagera porque aspira passar por mais do que realmente é. por exemplo.124 Rocha Pombo amor é o sentimento pelo qual se ama ou se quer bem a alguma pessoa: amor paternal. no sentido lato da palavra. que o afetado. traja e se apresenta fora do natural. fingimento. fala. fantasiado. – Fingido é aquele que faz por parecer o que não é: é mais hábil. pois aquele que se sente levado por ela para o jogo. assim como o animal tem apego ao homem. afetar. fantasiar. amor ao próximo. – Inclinação. a reflexão. é esse próprio amor. não obstante. O hábito. Vemos assim que esta palavra é menos expressiva que qualquer das três precedentes. dissimulado. fingido. propriamente. pode facilmente triunfar da inclinação. contrafeito. A ternura paternal. esta disposição. etc. dissimulação. pois. simular. simula- ção. Se a razão não pode dominar. Há pessoas que têm inclinação para o bem. etc. o sujeito que se finge quer ser diferente daquilo que é. fingir (fazer de. no sentido que geralmente se lhe atribui. contrafação. ou amizade. aparentar. astuto. se. que se revela em tudo o que ao filho diz respeito. fortalecendo-se. 178 AFETAÇÃO. disfarçado. amor filial. e o desejo de ser-lhe agradável e útil até a preço do próprio sacrifício. contrafazer. intuitos. mas ao qual o coração fica alheio. a uma pessoa. O abuso que se faz desta palavra não exclui que a amizade exista: se ela é vã na boca da quase totalidade dos humanos. afetado. simulado. a um partido. mas o efeito de uma firme resolução. dissimular. aparência. Num sentido mais restrito. aptidões. e pelo qual nos consideramos ligados. amor à ciência. ou para qualquer vício. iludir os . ou que duas pessoas têm entre si”. – A amizade – diz d. nem o amor. mas em si. portanto. um homem é dedicado ao seu partido. é a disposição e tendência natural do espírito para alguma coisa. foge desse mal sem grande esforço. geralmente. a paixão. só quer dizer que as relações do trato não são desagradáveis entre aqueles que se dizem amigos – a amizade verdadeira tem. por exemplo. como as há que têm inclinação para o mal. – Afetação é “o modo contrafeito de mostrar sentimentos. que realmente não se têm”. não é mais do que o embrião desses sentimentos. ou de alguma ideia. a dedicação leva às vezes ao sacrifício. – A ternura não é sentimento: é a manifestação de um sentimento. a recordação originam o apego. Não se pode dizer que há amizade sem que o tempo e as vicissitudes da vida a tenham cimentado e posto à prova. de um como voto feito. Tem-se apego a um objeto. também o origina a inclinação quando é fomentada. não é um sentimento distinto do amor paternal: é a sua manifestação. Um criado é dedicado a seu amo. ou em amor. não for combatida. a um animal. Quem afeta alguma coisa inculca sentir o que de fato não sente. Se a inclinação.

nestas frases: “O pobre homem está fazendo de Judas”. – Segundo S. Usa-se o verbo fingir como transitivo e como pronominal. “F. ou procura. aqui. – Ainda que os di- cionários deem como significando a mesma coisa e tendo o mesmo valor. benigno. “ele se faz de tolo” (o homem está fingindo ou representando de Judas. “o ato de fazer alguma coisa de modo contrário ao que é legítimo. se não se mostrasse contrafeito. ou aparências. Mas quem simula faz que uma coisa pareça em vez de outra. que se manifestam nos olhos. que o disfarçado tem intuito de enganar. O que se fantasia impõe-se pelo efeito produzido sobre a imaginação dos outros. paixões. que uma coisa seja semelhante a outra (as palavras latinas simulare e similis deram-nos simular. “demonstrações afetuosas”. que tem relação com afeto”. – Os verbos fazer e representar em certas formas valem por fingir. no que diz. reveste-se de artifícios (disfarces) que o desfigurem. nas atitudes. Luiz. que aos olhos de outrem encubram a verdade que não se deseja. e afetuoso só a pessoas. muitas vezes. Pelo menos diferençam-se eles em poder afetivo aplicar-se tanto a pessoas como a fenômenos morais. Disfarce é muito semelhante a dissimulação. convém distinguir estes dois adjetivos. O sujeito que dissimula faz por parecer estranho ao que se passa em volta de si. portanto. por um falso exterior. é fazer crer pela aparência simulada”. ou que tenha aparências de outra pela qual se quer que essa coisa passe. 179 AFETIVO. qualidades afetivas”. ou apreendido nos objetos pela nossa alma. Quem se contrafaz obra... – Aparentar é “mostrar aparências de que uma coisa é assim mesmo como se faz crer. e que nem sempre se poderá dizer o mesmo do dissimulado. 180 AFETOS.. reconhecida. ou ao que se devia esperar”. portanto. por exemplo. excita nela comoções. como. a verdade. – Fantasiar é “iludir pelo aspeto. O sujeito que se disfarça.. simulou um ataque pela retaguarda”. Quando . Afetivo significa. ou de que é tal como parece” (aparente). quer ou pensa. assimilar e assemelhar. – Simular e fingir têm de comum a significação de “ocultar. O homem que disfarça procura sempre arredar do pensamento dos outros a noção exata do que lhe convém: o que dissimula cala mais o que sabe ou o que sente do que disfarça o que deseja. e “nada mais falso do que a fantasia de que se valem os espertos contra a ingenuidade dos tolos ou das crianças”.). etc. ou – “criaturas afetuosas”. dissimular. ele finge ou finge-se de tolo. ou movimentos – de atração para aqueles que se lhe representam como bons. “qualidades afetuosas”. o prazer. isto é. ocultar o que pensa ou quer. próprio de afeto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 125 outros. Um homem prudente pode. afetuoso. Parece. ou a dor. “contrário ao que é natural que se esperasse dele”. – Disfarçar é tomar aspeto. no entanto. nos gestos. ou – de aversão para aqueles que se lhe representam como maus: e estas comoções comunicam-se ao corpo. – Contrafação é. como simular é próximo de fingir. sentido. mas – “demonstrações. A dissimulação pode não ser um defeito: o disfarce nem sempre. ou o mal. e às vezes em toda a pessoa do homem. “Ela está fingindo que não nos vê”. afável”. e produzem nele efeitos proporcionados. como não obraria se fosse sincero. ou representa de tolo). “o bem. O dissimulado mostra-se alheio exatamente àquilo que de fato lhe interessa. na cor do rosto. não dizemos. ou que disfarça suas intenções. portanto. e afetuoso = “cheio de afeto. por discrição. inculcando outra coisa que por ela se quer fazer passar”. Dizemos – “criaturas afetivas”. no movimento do sangue. “de afeto. isto é.

Brandão. devem com madura consideração examinar as causas dos acusados e a intenção dos acusadores.. e que.. 182 AFERVENTAR. aquecer (do latim calescere. Os simples afetos são comoções brandas e suaves que se podem ajustar com a razão. pode o leitor consultar o artigo – Paixões. a compaixão. a nosso ver. o reconhecimento são afetos. de calere “estar quente”) designa a ação de “tornar quente”. e arrebatado pela paixão. e sua alma inclinava-se suave e gostosamente para as doutrinas expendidas neles. começa Alves Passos observando que se sabe “o sentido em que estes dois vocábulos são sinônimos”. Luiz. doces. o seu voto era imparcial – a amizade ao orador não o arrastava ao elogio dos seus sermões: eis aqui. a vingança são paixões.. Apaixonado é o que obra como involuntariamente. Aquentar (radical quente. que violentas e impetuosas fazem muitas vezes emudecer a razão. “Aqueles a quem Deus cometeu o juízo. José de Jesus Maria. – Aferventar é “submeter um líquido a um grau de calor em que ele comece a ferver.. a ambição. depois de S.. Antonio de Sant’Anna. – Requentar é “tornar a fazer quente. suave. no parecer que sobre o mérito deles deu Fr. ferver. – Cozer (do latim coquere) é “preparar ao fogo. temperadas.. . no precedente parágrafo. – Na linguagem da retórica. a um certo grau de calor. aferventa-se a sopa ou o café. coze-se o feijão ou a carne.. apaixonado. lemos. como diz Roq. Br.. Souza. mas apesar disso. por afetuosa. para verificar-lhes a significação precisa. não assim as paixões. a seguinte passagem: .” Daqui nos veio a ideia do presente artigo.. e não se devem render a clamores dos que apaixonadamente insistem em perseguir a inocência”. impetuosas. Fr.” As paixões. – Ferver é “submeter um líquido a estado de ebulição por certo tempo”. no meio de um líquido. José de Jesus aquecer. – Escrevendo Maria. padecer a nota de apaixonada. aquentar.126 Rocha Pombo estas comoções. e apostados a rasgar cortesia”. A amizade. requentar. afetos – que citamos acima. Afetuoso é o plenus amoris dos latinos. o amor filial. violentas. “Eram caluniadores e apaixonados. afetos e paixões são uma mesma coisa”. “são afetos levados ao último grau e assenhoreando-se da vontade. de Barr. “Ao coração apaixonado nada se deve crer”. L. chamam-se simplesmente afetos. O autor da passagem citada amava o escritor dos Sermões. são brandas. O afetuoso inclina-se para um objeto: o apaixonado é arrastado por ele. e arrastam o homem ao quebrantamento da lei e do dever. chamam-se mais propriamente paixões. do latim calens. 181 AFETUOSO. “Assim por conseguinte cada um dos afetuosos suspiros tiram alguma coisa da ferrugem do pecado”. aquentar pela segunda vez”. até que pela fervura do líquido chegue essa coisa ao estado que convém”. e favorável: o parecer apaixonado não é imparcial. submeter alguma coisa sólida.. a cólera. “antes sem temor de que a minha aprovação possa. Ferve-se a água. cozer. Eufros. digo que neste Sermonário se admira um livro que tem mais frutos que folhas. O parecer afetuoso é cheio de carinhos. é ferver mal e mal”. incoativo de calere) significa “fazer meio quente. isto é. P. e os fez julgadores. estabelecida a sinonímia e a diferença dos dois vocábulos – afetuoso e apaixonado – e também desenvolvido o pensamento de Fr. O amor sensual. “Nos Sermões de Fr. – Há entre aquentar e aquecer uma diferença análoga à que se nota entre ferver e aferventar. consideradas em si e nos seus efeitos. Quando fortes.. dar a alguma coisa começo de quentura”.

e a relação que os corpos ou suas partes têm entre si. – Afinidade (affinitas. Quando o corpo é formado de substâncias de natureza diferente (isto é. conforme. relação. afinidade. – A coerência é o estado das partes unidas entre si para formar um todo. toma o nome de gravitação”. – “A aderência. a aproximarem-se uns dos outros debaixo de certas leis. entre duas ou mais coisas... chamamos-lhe mais ordinariamente gravidade: e o mesmo nome damos a essa força considerada nos corpos de que se compõe cada astro. e solicitando-os uns para os outros. A que se exercita sobre as últimas moléculas dos corpos recebe o nome de afinidade. contiguidade. – Analogia é o ponto. a conexão ou conformidade existente entre as coisas sob um certo ponto de vista”. que os ponha num certo grau de conveniência. ou também atração de composição”. chamada atração. a natureza das propriedades ou do modo de ser entre duas ou mais coisas ou fenômenos”. inerên- cia. fenômenos ou coisas”. atração química. gravitação. também se chama atração planetária. a semelhança de natureza. reservando o nome de coesão para designar a força que liga as partes que formam uma substância única ou homogênea (de um corpo simples)”. Luiz – “uma força universal na natureza que solicita todas as moléculas da matéria e todos os agregados dela. . coerência. ou coesão. Quando consideramos a atração solicitando os corpos terrestres. – Semelhança é “a qualidade de ser uma coisa parecida. e que só tende a mantê-los adunados. Quando ela exprime a tendência que têm os graves para seus respetivos centros de gravidade. S. “Isto não tem relação com aquilo” – quer dizer: não há entre isto e aquilo coisa alguma que os aproxime. similaridade. ou astros. adesão. é o estado de duas coisas que se prendem uma a outra e que são mais ou menos difíceis de separar. e todos para um centro comum. de affinis = ad + finis) sugere ideia de junção.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 AFINIDADE. escreve também Roq. adesão. conexão. quando se trata de um corpo composto) dão os químicos mais particularmente o nome de afinidade à força que une as partes constitutivas do corpo. semelhança essencial”. aderência. e cada uma das suas partículas. ou que seja comum aos dois. vizinhança: é a “relação de proximidade. quase igual a outra. a força que une entre si as partes constitutivas de um corpo. gravitação. – Similaridade diz propriamente “igualdade de natureza. por isso. – Conexão é. a aproximaremse do centro da Terra. a forma. Chamase esta força atração. de propriedade ou conveniência entre duas coisas. semelhança. aqui. A atração que se dá quando os corpos se tocam. a respeito desse astro. denominase adesão ou coesão. é “a relação de proximidade. 127 parentesco. o aspeto. coesão. pela forma.. – A inerência é a relação que une a qualidade à substância. 184 AFINIDADE. ou analogia entre pessoas. “é o grau de afinidade. – Quanto a atração. propriamente. ou “o modo de ser semelhante entre duas ou mais coisas diferentes”. semelhança. “algum lado ou aspeto pelo qual se liguem ou associem”. de que se compõe o sistema do mundo. e Berg. muito aproximada de outra pela espécie. – A coesão é a força que produz a coerência. – Parentesco. pelo modo de ser”. – Relação.: “Palavras científicas com que se exprimem as diferentes maneiras por que se manifesta essa força invisível que há na natureza. analogia. – A adesão é a força que produz a aderência. A mesma atração considerada nos grandes corpos. atração. é a relação de sangue ou de aliança doméstica entre pessoas. e no sentido lato. gravidade. chama-se gravitação: tal é a dos planetas para o centro de suas órbitas – o qual. escrevem Bourg. – “Há” – diz fr.

– Demonstrar é “pôr em clareza e evidência aquilo que se disse. comprovar. e diferençam-se . “Afirmei ontem que o rei fora deposto: confirmo hoje este despacho”. prender. com serenidade de quem não receia desmentido”. dá certeza daquilo que disse ele próprio. ou mesmo os cunhados. agnação. 187 AFIXAR. – Apor e sobrepor também se distinguem pelos respetivos prefixos: – apor é “juntar uma coisa a outra. – Afinidade é “o parentesco resultante de uniões conjugais entre membros de famílias diferentes”. os concunhados. declarar definitivamente aquilo que se tinha dito”. ou superior. explicando. Consanguíneos são os irmãos. asseverar. – Afirmar é “dizer formalmente aquilo de que se está convencido”. soldar. parentesco existente entre pessoas do mesmo casal”. – sobrepor é “pôr alguma coisa sobre. cognato. aqui. uma coisa a outra. colar. assegurar. Duas coisas fixam-se (e não – afixam-se). e vice-versa.” – Grudar é “prender com grude”. ágnato. cognação era “o laço de parentesco natural sem direitos civis”. – Fixar e afixar só se distinguem pelo que o prefixo ad acrescenta ao segundo. – Garantir é empregado frequentemente por assegurar. do que se sabe”. seguro. dá fiança. Afins são. – Agnação e cognação marcam parentescos também “opostos”: o primeiro. não dando mais energia ao modo de afirmar. – Colar é “afixar por meio de cola”. agnatos. aumentar o valor da afirmação que se fez. de- duzindo. aqui. mas num sentido geral é “prender fortemente”. Mas aquele que garante (na acepção que tem aqui este verbo) assegura a veracidade. demonstrar. sobrepor. quer cognatos. atar. segurar. fazer aderir por meio de alguma substância glutinosa”. ratificar.” – Assegurar é “afirmar com segurança. estável. se não pertenciam pelo sangue à mesma família. os filhos do mesmo pai e de mães diferentes. ou garanto-lhe o que digo. etc. Confirmar é “afirmar uma segunda vez e dar testemunho solene do que se viu. fez. – Comprovar é “fazer prova mais forte de alguma coisa que se afirmou”. cognação. aderir a outra”. o mesmo que grudar e colar: é “aplicar. fi- xar. “o parentesco pelo lado masculino. como trazendo em favor da afirmação testemunhos ou documentos valiosos”. segundo Aul. convencer da certeza de que uma coisa é como se afirma”. – Corroborar é “dar força ao que se disse. o segundo. ou fazer aderir. ou por cima de outra”. ou pôr uma coisa em cima de outra”. – Cognatos são os filhos da mesma mãe e de pais diferentes. – Afixar é propriamente “fazer fixo”. – Pregar é “prender por meio de prego”. convictamente. pegar. É diverso da consanguinidade. – Aplicar. por parte do varão”.” Na jurisprudência antiga. – Segurar é “fazer firme. Só se afixa uma coisa a outra coisa. garanto-lhe que é exato o que ele disse”. pregar. de qualquer modo. só têm sentido figurado. que significa “parentesco pelo sangue. “Asseguro-lhe. é “fazer alguma coisa pegar a outra. argumentando. isto é. certificar. por exemplo. garantir. corroborar.. chumbar. de pix “pez”) é. – Atestar é propriamente “dar testemunho de que uma coisa é como se diz”. aqui. afim. como se fosse colada. – Ratificar é “repetir categoricamente o que se afirmou. – Certificar é próximo de atestar: significa “dar por certo aquilo que se sabe. ligar uma coisa a outra. “o parentesco pelo lado da mulher. confirmar. grudar. consan- guinidade. isto é. etc. quer agnatos. ou que outro disse. apor. dizer. – Chumbar e soldar. ligar. atestar. pensa. aplicar. 186 AFIRMAR.128 Rocha Pombo 185 AFINIDADE. – Pegar (do latim picare.

– Inquietação é menos que aflição: designa o “estado de espírito em que o medo. penalizado. porém mais fino e talvez mais sincero. angústia que abate o espírito (diz Bruns. fita. amargurado. pesadume (pesadumbre. padecimento. A pessoa inquieta sente-se preocupada com alguma coisa que lhe desagrada. mágoa. em geral. – Prender = “Fazer sujeito. trabalhos. angústia. desgostoso. laço. ou ar viciado. – soldar. ou que lhe alteram o humor normal. atribulado. angustiado. como definem os léxicos. tris- teza. muitas vezes por algum motivo que não é grande. pois indica apenas a falta de prazer. ou mesmo pelo peso do chumbo”. o sentimento de tristeza (condolência) que nos causa uma notícia. Elys. mas designa um desgosto ou pesar menos fundo. – Mágoa é quase como desgosto.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 129 claramente pelos respetivos radicais. incômodos. “Nada viu que lhe aliviasse a saudade e pesadume”. (Fil. incomodado. nos põe. a sensação desagradável que se experimenta respirando mal. consternado. agoniado. Desgostoso é. alguma coisa. – Aflição (de afligere (ad + fligere) “deitar por terra” é “grande incômodo moral. tormento. doloroso. mas o segundo é mais forte. – Tristeza é o “estado de compunção em que se fica. Aul. 188 AFLIÇÃO. etc. e leva o aflito a obrar sem tino”. ou devido à moléstia que afete a função respiratória. dorido. consternação. espanhol). – Pesadume (ou pesadumbre. ou mesmo sem motivo real e preciso”. Quem está consternado mostra-se abatido de dor e de espanto. numa aflição e ansiedade de quem se sentisse estrangular. amargura. como se a pessoa angustiada tivesse impedida a respiração. pena. ligeira amargura”. Também ficamos pesarosos (cheios de pesar) de não ter podido evitar um mal ou de não haver involuntariamente cumprido um dever.. e por extensão. ansiedade. transe. de fios. sofrimento.. não só não sente prazer. Angústia é uma opressão tão forte e dolorosa. e mostra-se um tanto ansiosa dessa preocupação. no entanto.). desgosto. aflito. tirando-nos a calma e o sossego. A criatura magoada. corda. – Agoniado está quem sente ou parece sentir essa aflição de hora da morte. supliciado. torturado.”. é “toda ânsia que se pareça com essa aflição de morrer”. pesaroso.. o desgosto. – Amargura é dor mo- . etc. de boa vontade com que se faz. etc. a saudade que sente. laços. um sucesso que não se esperava”. pesar. dor. etc. tortura. “unir. coisa que nos fere o coração”. cit. inquieto. atormentado. – Atar = “prender por meio de atadura. pesadelo. – Opressão e angústia podem confundir-se. indicando ambos a ação de prender uma coisa a outra: – chumbar. “prender como se ficasse seguro por chumbo.”. ou pelo que receia venha a dar-se. Uma pessoa triste dá indício de que tem na alma preocupações que lhe toldam vida. ou a dúvida. – Desgosto é o “mau grado que nos causa algum sucesso. ansioso (ansiado). ou. profundamente penalizado e inconsolável. prender como por meio de solda”. – Ligar = juntar e prender com liga ou ligadura. triste. magoado. – Consternação é “a grande tristeza e desalento produzidos por alguma espantosa desgraça”. opressão. suplício. segurar. se vê. dolorido. do espanhol) = “tristeza lamentosa. menos que pesaroso. que perturba a razão. inquietação. Opressão é. reter. se recebe. agonia.). – Pesar é a “dor moral. – Agonia (do grego agon “combate”) é propriamente a luta que o moribundo trava com a morte na hora extrema.. ou por falta de ar. ou a desconfiança. de qualquer modo”. ou pelo mal que aconteceu. mas está como revelando no semblante a tristeza. tribulação.

as lidas e penas que se sofrem na vida. magoado. (Doridos cantos. ire). mas doloridos). apenas o sofrimento físico – o padecimento é uma forma estoica de sofrer as coisas que nos amarguram. tormento como castigo. mas principalmente morais. deve notarse. quer pelo receio de alguma desgraça. – Sofrimento é o mais genérico deste grupo.. O atribulado sente-se como que perseguido de aflições. que aflige e angustia abalando e pungindo os mais nobres e santos afetos da pessoa amargurada. Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos”. Longe. no qual figura a raiz grega plek. – Suplício (do latim supplicium. no entanto.. Em sentido lato. e talvez até com uma quase ufania de os padecer. as dores.. a cabeça. Os três adjetivos dolorido. É mais propriamente a manifestação da dor que a mesma dor. preces. tanto morais como físicas. pois o penalizado mostra que avalia a dor do seu semelhante.. de algum bem que se perdeu. é o sofrimento do que vai ser justiçado. pois.. “A menina está ansiosa pelo noivo”. das amarguras: momento que se deseja “passe logo” (de transeo. partes do corpo doloridas. – Dor é “toda sensação que nos molesta. – Tribulação é “trabalho aflitivo.. dorido e doloroso confundem-se. ou provações comparáveis à tortura. os males. orações doridas). causada por alguma alteração traumática dos tecidos. Dor moral é a “comoção amarga. sensibilizado”. ou por alguma pancada violenta. – Transe é como a crise. o sentimento de funda tristeza que nos vence a alma no meio dos contrastes da vida. torcer. – Dolorido emprega-se num e noutro sentido. ligeiras e vagas. de alguma esperança que se extinguiu”. As dores do atormentado são dores que afligem e mortificam. e exprime “todo gênero de provações. Entre ansioso e ansiado convém não esquecer que há esta diferença: o primeiro emprega-se no sentido moral: o segundo.. tortura”. e não seria fácil assinalar-lhes clara diferença. juntas doloridas. de dó. aqui. flagelo. por exemplo: “tenho as mãos. de sofreguidão. é o estado de quase opressão. “Oh vós que passais pelo caminho – clamava o patriarca bíblico – atendei. o sofrimento alheio”. torturado se sente aquele a quem se infligem duros constrangimentos. – Pena é “o sentimento de desgosto.). (Não costumamos dizer. o seguinte: quem padece sofre os males com certa resignação.) – Dorido diz mais “triste. – Trabalhos toma-se aqui como significando “as contrariedades. ou os pés dolorosos. contrair”) significa “os tormentos a que se sujeitava o acusado quando não queria revelar alguma coisa que interessava à justiça”. Hoje. e vede se há dor igual à minha dor!”. É assim que na oração simbólica (o Credo) se diz que “.130 Rocha Pombo ral acerbíssima. o momento mais duro dos trabalhos. e por extensão empregamos esta palavra suplício para designar padecimentos que se podem comparar aos de um condenado à morte. – Padecimento é empregado na mesma acepção. sugestiva de “enleiar. no físico. ou causada pela consciência de algum mal que se fez. ou longas e intensas”. súplicas. “O doente está ansiado”.. . Quando muito. pode notar-se que doloroso quase que se emprega de preferência no sentido moral. – Tormento é a “dor e a inquietação ansiosa.. quer pela impaciência com que espera o que deseja. ou então devida a alguma anormalidade de funções de qualquer dos órgãos. causadas por sofrimento físico ou moral”. quer morais. ou o incumbido de pedir aos deuses nas preces públicas. de desejo inquieto e aflitivo em que fica a pessoa ansiosa. que nos causa a desgraça. como querem alguns autores. transar”) era o tormento a que se submetia a vítima nos holocaustos.. quer físicas. vozes doloridas. (e não – sofreu. – Tortura (de torquere “dobrar. de significar. – Ansiedade. (Almas doloridas.

turba. reunião. devendo notar-se. e vale por grande ajuntamento desgovernado. tropel. quer se considerem em movimento. afluência não se limita a designar a muita gente que se dirige a um ponto seguindo a mesma via. – Aproxima-se de tropel e de turbamulta. Na linguagem corrente. porém. e é como se dissesse turba-multidão. aglomeração.. à turba e à turbamulta – a ideia necessária de movimento.. – Afluência – escreve ele – “considera as pessoas dirigindo-se para um ponto. são as de corporações políticas. há grande afluência ao local onde ela se efetua. Empregar este vocábulo para designar a gente já reunida no ponto a que já convergiu. de pesar. e comumente de assanho. mas este acrescenta à multidão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 131 ou que se experimentam nalguma empresa”. multidão. turbamulta. formando conjunto que facilmente se destaca. “O vasto tropel de beduínos fazia estremecer a planura”. quer paradas. Assim. como em “gróppo di vento”). e traz consigo a desordem. mas neste movimento nada revela a ideia de continuidade. . Tem formação análoga à de aglomeração (o italiano gróppo. O mesmo diz tropel. – Ajuntamento designa a reunião de pessoas que pararam num ponto para um fim determinado”. as pessoas ou os grupos seguindo-se uns aos outros sem interrupção. ou gruppo significa. – Concurso representa a mesma ideia que afluência. – Agrupamento é reunião por grupos. de cuidado ou de dor. A hora em que há maior concorrência nas AFLUÊNCIA. significando “correr para um sítio). – Multidão é uma grande reunião de gente sem nenhuma ideia acessória. indica que a reunião pode não ser legítima. concorrência.. Cintra atrai no verão um grande concurso de gente. assembleia. chusma. que obra em confusão. tumultuoso. ajuntamento. nos dias de parada. que este último é particularmente empregado para designar uma reunião mais importante e solene. no entanto. como. multidão. – Incômodo (ou incômodos) é “a sensação de fadiga. – Concorrência diz-se das pessoas com relação a um ponto dado. anárquico. – Reunião é. As outras três palavras que se seguem representam afluência de pessoas reunidas num ponto determinado sem ideia de estarem em movimento. com que a pessoa incomodada se sente inquieta. enquanto que concurso indica o movimento simultâneo de muitas pessoas que convergem por diferentes vias a um ponto dado. que ajuntamento é quase sempre tomado à má parte. no inverno é enorme a concorrência aos teatros. ou indisposta. é erro. mas entre os dois vocábulos há uma diferença essencial: afluência considera o movimento como contínuo e regular. ou não ter funções ou fins legítimos. “conjunto de muitas pessoas” é a ideia geral que encerram os seis primeiros vocábulos do grupo. de que trata o referido autor: e o mesmo se diz dos demais. Este é uma formação pleonástica de duas palavras do mesmo valor. rolo”) diz “ajuntamento feito como que em atropelo. triste e abatida”. o grupo de pessoas que se juntaram para algum fim: é muito próximo de ajuntamento e de assembleia. entre outras coisas. seguindo todas a mesma direção: é o que se depreende da etimologia da palavra (em latim fluere. turbilhão”. de alarde hostil. – Aglomeração (cujo radical glomus significa “novelo. ruas da Baixa é à saída das repartições. isto é. aqui. turba que se forma desordenadamente. por exemplo. de que nós trataremos. – Segundo Bruns. como em turbilhões”. isto é. “núcleo revolto. 189 concurso. agrupamento. senão toda a que vai convergindo para o mesmo sítio por diversas vias. – Turba é a multidão indisciplinada e turbulenta.

determinação. talhante. ou à vista de embaraços ou obstáculos opostos ao que intentamos. tornando-se por isso muito cortante. – Desassombrado é semelhante a desafrontado: significa – “que não se assusta. “pedra de amolar”). mas decerto que não diremos – uma foice afiada. confia- do. inconsiderado. Arrojo é mais que denodo. violência. impavidez. imponderado. ousadia. decisão. denodado. mas na temeridade (que é às vezes uma como exageração do heroísmo) sempre há mais alguma consciência do perigo do que na afoiteza. intemente. penetrante. arrebatamento. temeridade. cor- tante. heroísmo. um canivete. – O desafrontado mostra que se não deixa impressionar ante um obstáculo ou perigo: antes fica altivo. desafogado. imperturbável. audacioso. Nem a todo gênero de instrumentos se aplica. não obstante. exceto se diz melhor do que se exclui. ou um espinho”. – Cortante e talhante exprimem a qualidade. ardimento.132 Rocha Pombo 190 AFORA. audaz. veemente. a propriedade do instrumento que foi afiado. não toma com calma as proporções do perigo: arremessa-se à luta com o desassombro e afoiteza de quem não sabe poupar a vida. heroico. impassível. que corta” – define Aul. a ponta de um punção. há sempre. ou que se lança a encontro do perigo. – Arrojado é o que. bravura. atrevido. destemor. heroicidade. arriscado. exceto o João que é trabalhador”. ânimo. resolução. impávido. – Confiado é aquele que mostra em si mesmo uma demasiada confiança. audácia. agudo. inconsideração. confiança. Nos dois exemplos seguintes nota-se essa particularidade: “Afora o mais novo. não só afronta. ou faz uma ideia muito imperfeita do perigo. decidido. bravo. impassibilidade. coragem. uma navalha afiada. arrebatado. precipitado. – É ainda de Bruns: Exceto e afora empregam-se indistintamente. temerário. determinado. intrepidez. – O homem afoito. 192 AFOITO. arrojo. ímpeto. fino. uma fé perfeita no próprio valor. – Temerário já é mais próximo de afoito. afoiteza. do que não se inclui. veemência. exceto. pode ser o gume de uma faca. que intrepidez e que bravura: o capitão arrojado não mede bem as consequências da investida. Em sentido translato – “que opera. – Agudo diz – “muito vivo. resoluto. impertérrito. ousado. erecto à vista dele. “Todos os irmãos são vadios. impetuoso. intrêmulo. atrevimento. – Amolado se diz do instrumento que se aguçou a rebolo (mola “mó”. intré- pido. – Um instrumento afiado tem o fio muito fino. violento. valentia. imperturbabilidade. atua com força e decisão. este adjetivo afiado. valor. incisivo. Na afoiteza. que se mostra impávido e sereno. – . ou ignorância ou falta de prudência. sem preocupações que o levem a vacilar”. desafrontado. Diremos – um bisturi. denodo. ou não o conhece. destemido. mas investe o embaraço. O temerário leva a sua audácia e resolução até uma quase loucura. no entanto. nos campos de batalha. todos os irmãos são uns vadios”. corajoso. como coisa que corta”. 191 AFIADO. e talhante sugere a ideia de separar de todo (talhar) a coisa que se corta”. – Cortante diz apenas – “que corta”. ardido. aguçado. precipitação. valoroso. O verbo aguçar (do latim acutare) significa mesmo “fazer agudo”. arrojado. valente. – Aguçado significa – “de gume ou de ponta muito fina ou adelgaçada. – Incisivo – “próprio para cortar. amolado. – Todas estas palavras designam qualidades ou estados de alma que se revelam ante os grandes perigos. quer dizer – um ânimo seguro. e afora. animoso. impetuosidade.

A valentia é qualidade de que se ufanam os campeões. e até ímpias. – Audaz (conquanto oriundo da mesma raiz de que proveio ousado) envolve as ideias de intrépido. O homem fisicamente fraco e até enfermo pode bem ser corajoso. a firmeza com que se afrontam os perigos e se trata de os vencer. – Audacioso (formação vernácula de audácia) não diz senão – “que revela alguma audácia (ou uma audácia menos nobre e legítima). Quer isto dizer que atrevimento é a decisão pouco refletida. propriamente”. – Coragem (do baixo latim coragium “força do coração) designa propriamente a energia moral. Nem se diz. mas o sujeito intemente é o que não teme aquilo que é natural se tema. sem probabilidades de vencer: o afoito ainda pode. arrojado. que vivem sempre felizes” – parece que fica muito clara a significação do vocábulo intemente (apenas – “não temente”). robusto. Impávido é “o que se não amedronta. grandeza de alma no meio dos perigos. sem temer. mas o primeiro se aplica de preferência ao indivíduo que é forte no físico. sendo a resolução um ato que resulta de reflexão. Audácia é. (Resoluto parece dizer alguma coisa mais calmo e ponderado que decidido. sem comover-se. intemente. valor moral. com um golpe de audácia. de alma forte que de força muscular. e parece dar mais prova de irreverência que de destemor. Impavidez é a “serenidade com que se encara. ere] “cortar”) revela-se no ânimo seguro e pronto com que alguém se dirige em dada conjuntura. e que para investi-lo tem de juntar ao arrojo a afoiteza. consequência da resolução que se tomou. sem agitar-se. inquebrantável em situações difíceis. isto é. leviana e confiante. pois a ousadia não é mais do que uma coragem que se funda na confiança que o ousado logrou de sucessos anteriores. A decisão (decisio. Neste exemplo: “F. que despreza os tropeços”. – Ousado é menos que atrevido. O sujeito animoso é o que se conserva como é. que se mostra calmo e tranquilo ante o que pode sobrevir. de decidere [= de + cœdo. – Inconsiderado significa o mesmo quase que afoito. pode conservar espírito forte. pois. denotando apenas a inconsideração mais leviandade que propriamente coragem. que mostra ousadia extrema. a constância. que não se abala de pavor”. desafrontada.) – Determinado diz melhor a firmeza com que o resoluto executa o que resolveu. O valoroso tem mais de coragem. criaturas intementes. sendo o destemor uma das grandes qualidades do herói. no entanto. – Arriscado quer dizer – “que se expõe a perigos mais do que se permitiria a uma coragem regulada pela prudência”. notando-se que imponderado e inconsiderado não envolvem necessariamente a ideia de coragem afoita que se encontra em arriscado. impávido poderiam confundir-se. Destemido é “o que nada teme. – Valente e valoroso andam de ordinário confundidos. O general inconsiderado meterá o seu exército em risco de desastres. salvar-se pela vitória. – Decidido é “que não vacila ante obstáculos ou perigos”.. com que alguém se arrisca a um perigo. “valentia moral”. quase temerário. alentado e animoso. por isso mesmo. pois. A determinação parece. a índole. é tão desgraçado: vejo... algum perigo”. que zomba dos perigos. igual. que é corajoso e intrépido”. O valor consiste mais na grande- . – Ânimo não tem a força de coragem: é mais “a posse de si mesmo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 133 Atrevido sugere a ideia de que o arrojado é inferior em forças àquele contra o qual investe. – Imponderado é convizinho dos dois precedentes. do que propriamente valor”. “coragem resoluta. talvez mais petulância que audácia. – Destemido. Não seria de estranhar que muito sujeito ousado viesse a mostrar-se covarde. o temperamento normal que se não perde no meio dos embaraços. que teme tanto castigos do Céu.

livre de receios”. que é animoso. pois ímpeto quer dizer mesmo “decisão súbita e veemente” (e impetuosidade é a qualidade de ser impetuoso). ou um impulso mais devido ao temperamento que à decisão de quem obra”. – Impetuoso é o que cede a impulsos instantâneos da sua coragem e pratica atos heroicos que parecem mais inconsiderados do que atos voluntários de valor. – Ardido é galicismo pouco usado (hardi) significando propriamente “atrevido. assim. – imper- . ou que matasse uma criança. de um ato de coragem. pois. ante só perigos. do que propriamente no vigor de um físico sadio e robusto. coragem desassombrada. A intrepidez é a qualidade daqueles que. – Impertérrito é antônimo de pertérrito. pois. portanto. além de impávidos. ou um inválido. por esforço hercúleo. “que não se assusta diante do inimigo. ou que se abalança a atos de audácia pouco refletidos (ardimentos)”. e significa. impassível são convizinhos muito íntimos. que não volta as costas ao inimigo. pois o sujeito afoito pode ainda ter ideia do perigo. O denodo é a qualidade dos que. sendo a violência “uma perpetração. que se aventura. – Heroico é o que se mostra digno de triunfar galhardamente pelo valor moral. – Intrêmulo. Não se teria por heroísmo a valentia de um sujeito que vencesse a um enfermo. senão – “uma súplica veemente”. desafrontado. – Intrépido é aquele que não vacila na investida. no esforço e altivez com que se afronta a desgraça ou o inimigo. – Precipitado confunde-se com inconsiderado e imponderado. como já se disse. esplendor das ações (sendo heroicidade a “qualidade de ser herói”). imperturbável. no entanto. pela constância. por exemplo: – “um pedido”. de uma abnegação que excede a tudo que tem de augusto o heroís- mo: e é a isto que se deve chamar arrebatamento moral. de afronta. e apenas não pensar nas exatas proporções dele: o precipitado não cogita do perigo. – A bravura pode-se dizer que é a virtude dos homens de guerra. para não trepidar ante a própria morte. Ninguém diria. alguma coisa mais que afoiteza. mas a precipitação enuncia mais claro um ato fora de toda consciência. dá provas mais que de coragem comum. Veemência é “a viva intensidade de uma apóstrofe. A própria formação destas palavras está. Um homem precipitado atira-se a um abismo sem o ver. e só figuradamente se aplicaria à grandeza moral dos que triunfam pela excelência de virtudes mais excelsas: dizemos. O homem que salva de um incêndio uma criança. mas de uma bravura que vai até o delírio. – Arrebatado é “o que se incende de sentimentos heroicos diante das desgraças. se mostram isentos de preocupações que não sejam as de se mostrarem desembaraçados de tudo para alcançar o que almejam. rápido e violento”. resolução é o “intento ou o propósito que se tomou depois de haver muito refletido na coisa que se trata de resolver”. sem se aperceber do perigo. – Violento é muito distinto de precipitado. dos perigos. – Denodado significa “desprendido. Precipitação é.134 Rocha Pombo za de ânimo. – Resoluto é quase o mesmo que decidido: apenas no resoluto se supõe uma reflexão mais funda do que no decidido. – Veemente quer dizer “impetuoso e forte. o violento só não dá ao que vai fazer uma atenção perfeita. excelência de intuitos. dos escarmentos”. explicando-lhes a diferença. Intrêmulo diz – “que não treme diante do perigo”. nem mesmo ao que viesse a triunfar da fé. sem pensar nele. o ataque. que é um bravo o homem que num dado momento da vida se portou com a majestade de alma própria dos heróis. a desgraça. pois heroísmo é tudo isto junto: grandeza de alma. têm valor para arrostar o mal. e conserva a coragem e a calma nos combates”. de censura ou de exprobração”.

e dão-lhe pancadas. ou do que ouve”. sustentou o seu feito sem voltar as costas. não vê nisto mais que uma injustiça. ou o mal que o assalta”. na opinião. só nos incomoda com um prejuízo fundado. e não o deixam levar avante o que intenta. porém. porque aquele. não obstante que aquele nos causa um prejuízo efetivo. e este não perdoa com facilidade. segundo as leis do maldito duelo. e foge. Por isso. a vaidade que a modéstia”. Se o que deu as pauladas ficara de pé firme fazendo rosto a seu inimigo. em outro §: injúria apresenta a ideia de agravo violento. apodo. – ultraje apresenta a ideia de vilipêndio público em detrimento de alguém. avania. porém esta. portanto. em regra. quando realmente o é. a ofensa. e faz e sustenta. e o não conseguiu. eu posso estar agravado. ou nos humilha. não se pode dizer que dança mal sem fazer-lhe um agravo. fica. mas não afronta. zombaria. ainda que ela mesma conheça que a não tem. ou um vício. De um homem que dança bem. privando-nos realmente do que nos pertence. porém ofende aquele a quem se diz. tratá-lo publicamente de ladrão é um ultraje. chacota. remoque. O que tem direito a um acesso. escárnio. ou estado de ânimo. o agravo pode vir de qualquer parte sem que afronte. gracejo. o homem. crê-se ofendido. mofa. de que decerto se não dará por ofendido. a mulher. vexame. para a ofensa basta que haja insulto. que é vingar-se: este homem fica decerto agravado. Não agrava o que diz de outrem que é torto. mas a multidão dos contrários se lhe opõem. esta afronta-nos sempre. e faz o que lhe cumpre como homem de brio. quando . Tratar de feia a uma mulher formosa é um agravo que. de atonia moral. esta. ou uma declaração de sua insuficiência. e dá-lhe duas bengaladas. sem ter nisto vaidade. e não o alcança para castigá-lo. troça. O que levou as pauladas recebeu agravo. a ofensa junta ao agravo o desprezo ou o insulto. não se altera ante o perigo. “que se não perturba. como já notou d. ofendida uma mulher a quem se disputa a boa figura. 193 AFRONTA. chegam dez indivíduos armados. afrontado. porque insulta seu amor-próprio e o humilha. A impassibilidade pode. não. toma-o como desprezo ou insulto. O mesmo confirmará outro exemplo: Está um homem com as costas voltadas. que se mostra indiferente. injúria. que deprima. nem pretender elogios. Seja exemplo: Está um homem na rua descuidado. – “Entre o agravo e a afronta” – diz Roq. Para o agravo é preciso que haja injustiça. porque lhe deram à traição. insensível diante do que vê. nem olha como leves os insultos. ou no capricho. dissimula-se o agravo mais facilmente que a ofensa. Desconfiar da probidade de um homem de bem é uma injúria. – Quanto a injúria e ultraje. chasco. ou a afronta. ser uma virtude de estoico. crê-se agravado. porque em dizer aquela verdade não se dá a injustiça que exige o agravo para o ser. agravo. ultraje. ainda que não haja injustiça. comumente. mas não afrontado. porque a ofensa nos choca diretamente com o amor-próprio. afrontado. pois que a afronta há de ser sustentada: circunstância que não é necessária para constituir o agravo. mete o homem mão à espada. e a pé firme. insulto. – “há esta diferença. segue-o o homem. feito às qualidades pessoais de alguém. – impassível. porque o agressor lhe fez rosto. ficaria o que levou as pauladas agravado e afrontado juntamente: agravado. porque nas mulheres pode mais. Aquele prejudica-nos talvez sem nos afrontar. E assim. irrisão.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 135 turbável –. chega outro por detrás. Quixote: que a afronta vem da parte de quem a pode fazer. sátira. porém. ofensa. “que nada sofre. se a este agravo acresceu um desprezo do seu mérito. diz Roq. – O agravo atropela nosso direito.

é termo popular significando “a zombaria aparatosa que se faz com alguém. excluindo a ideia de medo. e.: “No sentido figurado destes verbos – escreve ele – o menos expressivo é encarar. patuscada de vagabundos. e que depois foi proibida pela Igreja porque quase sempre degenerava em orgia. e extorsões que os muçulmanos faziam aos cristãos”. às vezes mais brincando que ofendendo”. comezaina. ficou (do grego ágape “amor. com esta diferença. patuscada. violência. 195 ÁGAPE. arrostar.136 Rocha Pombo 194 AFRONTAR. por atos ou palavras. pode ser mesmo oferecer-se até certo ponto a ela. Os exploradores do polo afrontam a morte por amor à ciência. a atitude com que se falta ao devido respeito com alguém. isto é. – Apodo (mais usado no plural) é “o remoque ligeiro. alimento”) é “refeição abundante e alegre”. torpeza”) significando hoje “grande e farta refeição alegre. encarar. um complemento que lhe determine a significação. encerram a de denodo. porém. Encara-se com terror a morte. – Ágape. – Arrostar (vocábulo derivado do latim rostrum “esporão de navio”) é o mais expressivo deste grupo. de ditos pouco delicados.. escândalo. – Ao modo muito. – Patuscada é comezaina que desanda para a troça. A palavra com que se designou aquilo. festiva”. – Chacota é “zombaria por ditérios ou termos burlescos”. era a refeição com ares de cerimônia cultual. aqui. Diz neste caso – “ofensa por meio de graçolas. – Gracejo é de todos os do grupo o menos forte. – Rega-bofe é grande folia de comes e bebes. o gesto. breque- feste. com ostentação. maliciosos. de entender de Lacerda e de Roquete. – Bródio é quase o mesmo que patuscada. o ataque. insultos. banquete. pândega. – Irrisão é a “zombaria que consiste em rir. conquanto animado. – Insulto dá ideia de ofensa feita de propósito. – Afrontar e arrostar. é a palavra picante. – Pândega é “rega-bofe estrondoso. – Chasco é muito semelhante a remoque.. Encarar necessita. que expõem a vítima a irrisão pública. portanto. aqui. dirigido a algum defeito ou a alguma falta da pessoa a quem se ofende. por palavras engraçadas ou escarninhas”. que os primitivos cristãos faziam em comum e às ocultas. e sugere o intento de insultar e expor à vergonha. onde há mais fartura de comidas que delícias. – Zombaria é o dito. – Brequefeste (do inglês breakfast “almoço. que o não tenham por ultraje”. intentando obrigar o inimigo a que recue”. janta. com intuito de ofendê-lo”. – Escárnio (do italiano schérno) é mais forte do que muitos deste grupo: ajunta à intenção de ofensa a ideia de nojo e repulsa. rega-bofe. que melindra o pudor”. – Mofa é também o sinal – palavras ou gestos – “com que se mostra desprezo por alguém. – Comezaina é ágape menos nobre. como é sabido. Afrontar a morte não é combatê-la: é encará-la impávido. – Troça. – Avanias são propriamente as “vexações. é mais modesto. e passou para a língua significando vexames. poucas haverá. encara-se a sangue-frio o perigo. apenas o bródio é menos charro. – Sátira. gracejo pesado. e tanto que reclama um adjunto quase sempre para que se torne ofensivo: gracejo de mau gosto. o insulto disfarçado. jantar. acrescentando a este a ideia de desprezo. – Vexame é “tudo o que constrange. – Remoque é “dito picante que disfarça uma censura ou repreensão”. porém: que afrontar não implica a ideia de luta que existe em arrostar.” – . irritantes”. preferimos o de Bruns. expondo-o a ridículo. Arrostar peleja frente a frente. não devera passar de injúria. bródio. porém. escarnecer da vítima”.

pode. etc. – Reconhecido dá. penhorado. as maneiras agrestes. que não sofrem as ânsias da morte. campesino. Por uma gentileza fica-se grato. – Cativo – tão reconhecido por serviços. de beleza natural. do seu apreço por aquele que lhe fez bem. inépcia. O homem rústico carece de urbanidade... para exprimir o ato de morrer. sem cultura. fundadas por mútua convenção social. “Um lugar agreste só tem rochedos escalvados. – Banquete é “jantar solene. reconhecido. O homem agreste é grosseiro a ponto de ser intratável. nem trabalhado com arte o objeto rústico. 196 AGONIZAR. (do latim agrestis. campestre. obri- gado. Por alguém que nos proteje ou socorre ficamos reconhecidos. que não agonizam no momento de morrer.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 137 Jantar é uma das duas refeições normais feitas diariamente. silvestre. epíteto menos frequente que campestre. podendo ser. melhor que os dois precedentes.. gentilezas.” – Campestre. do que carece da polidez das cidades. cativo. a ideia de como o que recebeu benefícios quer dar provas da sua gratidão. ser agradável. sugerindo ideia da luta que o moribundo trava com a morte. – Agreste. apreciáveis os seus sentimentos. no entanto. rústico. estertorar. para indicar a flor que não é cultivada. – Grato é igualmente o que é sensível ao benefício. São propriedades rústicas as que constam de terras de lavoura. plantas raquíticas. selvático. portanto. – Rústico (em latim rusticus. Falando de sítios. mas guardando intimamente a lembrança do bem que se lhe fez. – Entre silvestre e selvático há diferença bem fácil de assinalar: flor sel- .. – Agonizar é hoje usado só como intransitivo. isto é. agreste exclui toda ideia de cultura. selvagem. – Agradecido é o que não se esquece do benefício que recebeu. e dá provas disso. do esforço e aflição de estertor em que se vê o moribundo. – Estertorar acrescenta a agonizar a ideia do trabalho. feito em família”. de rus “campo”. não podem ser suportados por quem se habituou às delicadezas. Não é polido. – Obrigado = “que se julga em obrigação moral com alguém que lhe fez alguma fineza”. que se julga como preso moralmente àquele a quem as deve”. – Silvestre é o que é próprio da selva. ou por algum motivo excepcional”. 197 AGRADECIDO. como antônimo de urbs “cidade”) diz-se do que tem o caráter próprio da simplicidade aldeã ou camponesa. manifestações disso. rústico implica falta de tato. ou sem a beleza da arte. não conhece os usos da gente fina. Por um obséquio fica-se agradecido.. à baixeza. – E campesino. difere de agreste. e janta é o “jantar mais simples. É assim que há pessoas que morrem sem agonia. e nunca se toma em bom sentido. porém. refere-se à grosseria. mas. devido mesmo à sua própria simplicidade. isto é. no entanto. de ager “cam- po”). ainda assim. segundo o mesmo autor. e geralmente só encerra a ideia de viver ou habitar no campo. que implica a ideia de rudez moral. – Em sentido desfavorável. terrenos ingratos. os costumes agrestes. dizendo-se indiferentemente – flor agreste ou flor silvestre. refere-se a tudo que pertence ao campo cultivado. aplicado a pessoas ou ao que lhes é particular. 198 AGRESTE. tem a mesma origem deste. dado em honra de alguém. rudez intelectual. e pode faltar às leis da conveniência. ao trato da boa sociedade. Confunde-se frequentemente com agreste. à rudeza. diz Bruns. reconhecido por favores”. Diz-se de pessoas e de coisas. grato. – Penhorado = “obrigado. e. etc. tanto falando de homens como de animais. sem fazer. o que nasce e vive nos matos.

200 AGRICULTURA. nem lavrá-las: basta ser entendido em agricultura. não só conhece a agricultura como arte. quando seguido de um complemento. O cultivador vive de cultivar: é a única ideia que o vocábulo sugere. e não obstante. – Agrí- cola e agrário não poderiam confundir-se: agrário (de ager “campo”) diz apenas “próprio do campo ou das terras utilizáveis. seja para que a cultive. Não há. mas rústico se aplica ao que não está cultivado. a qual varia de processos à medida que a agronomia se aperfeiçoa.138 Rocha Pombo vática decerto que não é simplesmente a flor que não foi colhida nos jardins. – Entre rural e rústico (ambos oriundos de rus “campo”) há uma diferença análoga à que se acaba de ver entre os dois precedentes. A cultura dos campos efetuada constitui a agricultura. o que não está situado dentro da área urbana. O agricultor é. enquanto que a flor silvestre pode ser tão delicada como as que se cultivam. se o homem de quem se trata é rude. – “é a arte de cultivar a terra. a agronomia é teórica. e corresponde a agrário. mas poder-se-á dizer selvático. . ou crédito agrícola. Numa ordem de ideias mais restrita. Agricultor é o proprietário que. O agrônomo é o indivíduo versado na teoria da agricultura: pode ser agricultor ou não. indica uma especialidade: há cultivadores de cereais. lei agrária (não – agrícola). que ele considera como uma arte pela qual sente gosto. porque se refere à profissão do indivíduo. ou fundado na produção agrícola. – Cultivador é um termo genérico que se pode dizer tanto do agricultor como do lavrador. 199 AGRÍCOLA. e pequenos lavradores. trabalho agrícola (não – agrário). – Agricultor e agrônomo também se confundem frequentemente. visto que para ser agrônomo não é necessário possuir terras. Dizemos: medidas agrárias (e não – agrícolas). ao campo onde se trabalha. disforme. e não à arte que ele exerce. por si próprio (ou de sua conta) e em ponto grande. senão que a exerce como ocupação. inculto. porém. – Os substantivos agricultor e lavrador confundem-se frequentemente na linguagem comum. a agronomia é a teoria dessa arte. cultivador. brutal como os que vivem nos matos. no seu valor próprio. O agricultor. e com eles designa-se indistintamente o indivíduo. à vida dos que se dedicam à exploração das terras. agronomia. Tratando-se de pessoas não se diz silvestre (e sim. se dedica à agricultura. de letras. à propriedade territorial em si. conforme fosse o crédito fundado na propriedade rural em si. mas a flor sem beleza. sendo a ideia de propriedade e de riqueza inerente a este vocábulo. agrário. O colono habita terra que não é sua própria. agrônomo. Ambos se empregam para designar o que não é da cidade.. A agricultura é prática. lavradores pobres. este vocábulo. Diríamos: crédito agrário. grosseira como a selva bruta. rural se aplica à propriedade. Colono só remotamente encerra a ideia de agricultura. não é indiferente empregar um em vez de outro. selvagem). pequenos agricultores. que explora terras e as cultiva. colono. rural. próprio da cultura dos campos”. o proprietário das terras que explora. de determinadas plantas. grandes lavradores. etc. de artes. porém. – Agricultura – escreve Bruns. Lavrador é o homem que lavra a terra. relativo às terras ocupadas. lavrador. e corresponde a agrícola. Há lavradores ricos. agricultor. pois. agrícola (de ager e colere “cultivar”) já significa “relativo ao trabalho. ou mediante jornal.. proprietário ou rendeiro. às propriedades territoriais”. estes vocábulos divergem entre si. rústico. No sentido rigoroso. seja para simplesmente povoá-la”. seja de conta alheia. seja de conta própria.

Irrigam-se as plantações. A enxurrada inundou as ruas. segundo S. Dizemos – regar ou irrigar as plantas. no seu justo valor. ou por transbordamento. ou que se presume sucederá ou virá. penetração (penetrante). dos fatos. num vaso. argúcia (arguto e argucioso). emaranhado. obscuro. as lavouras. – “vem do latim sagax. – Água-se uma flor. “exprimem diferentes qualidades da vista corporal. se o suor é tanto. designa a qualidade especial de descobrir sem esforço o que é confuso. regar. do véu. molha-se a cabeça apanhando chuva sem estar coberto. no fundo dos objetos. a solidez. a dureza própria ou normal. subtileza (subtil). A agudeza vê os objetos mais subtis. imergindo-os. no entanto. e através da nuvem. A palavra. – Banha-se o rosto. irrigar.. rega-se a goles de água ou de vinho a garganta ressequida. Mesmo tratando-se de campos. os jardins. sagacidade (sagaz). esperar. molha-se os pés na sarjeta. que se dizia dos cães que tinham delicadeza de olfato para achar a caça pelo rasto. ou se vem alguma coisa ou pessoa. as qualidades das pessoas e das coisas. 203 AGUDEZA (agudo). se representam como tais. ou noutro líquido”. ou pondo-os debaixo de uma corrente de água. perspicácia (perspi- caz). e estas durante muitos dias ficaram alagadas.” – Irrigar e regar confundem-se. Luiz. ou de lágrimas. – Alagar e inundar também se confundem. a densidade. juntar água a. A vista penetrante alcança o íntimo das coisas. e também fica-se com as faces banhadas de suor. mais delicados. do obstáculo. – Segundo d. – A perspicácia da vista vê claro por entre. os campos. Mas alagar sugere a ideia de que a porção de espaço alagada ficou por algum tempo debaixo d’água (como formando lago). para que não murche tão depressa. e os que. ou na grama orvalhada. É pela sagacidade que se apreciam. e que se descobre o mérito que se oculta. atilamento (atilado). A vista aguda apanha diferenças. não é mais do que uma extensão de regar. encher de água. de invasão de água por excesso dela em outro ponto.. se o trabalho de umedecer as terras é feito por meio de canais. tino (atinado). As grandes chuvas alagaram os campos. por sua posição.. banhar de água. mas não dizemos – regar as ruas (sim irrigar). olhando se sucede. ou o pensamento . dando atenção. A ruptura do açude inundou o caminho. Rega-se o canteiro. – Aguar diz apenas – “derramar água sobre alguma coisa. ressentindo-se da etimologia. as mãos. mais finos. que deve suceder ou vir. Esperar é ter esperança. ou aguar tão bem como se a coisa banhada tivesse imergido n’água. inundar. as ruas. “aguardar é estar à espera. Espera-se o que é feliz ou agradável.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 AGUARDAR. regam-se as hortas. alagar. – Os três primeiros substantivos do grupo.. particularidades. astúcia (astuto e astucioso).. Irrigar. e não – que se regam. finura (fino). o que se aguarda pode sê-lo ou não”. A penetração vê no interior. – Molha-se o dedo na salmoura. e inundar envolve ideia de extravasamento. 202 AGUAR. os campos. minúcias que escapam à visão comum. molhar. aguardar algum bem que se deseja e se julga que há de vir. José de 139 Lacerda.. – Molhar é propriamente “umedecer ao ponto em que a coisa molhada perca o estado de secura. – Sagacidade – diz Bruns. ou se tão abundantes são as lágrimas que as faces fiquem tão molhadas como se tivessem saído d’água. banhar.” O homem perspicaz vê claramente através dos disfarces. represas etc. e por translação se aplicam ao entendimento ou à vista intelectual. dizemos – que se irrigam.” – Banhar é “meter n’água alguma coisa.

ponta. portanto. suspender. Não se há de dizer. se inclui ideia de ação momentânea. o que é razoável”. pois o espeque. um como faro. empregando esteio.” – Atilamento é “a habilidade. fazer firme. nem estear um galho de árvore para que não se quebre. com que se impede alguma coisa de virar de uma vez. artifícios para enganar. a escolha do falar. apoiar. Escora é um espeque mais forte. ou a escora impede apenas que a coisa amparada se desloque de todo. como define Aul. ou de inclinar-se demais. haste. Se alguém impede que uma senhora dê uma queda não se diz que a apoia.140 Rocha Pombo que se disfarça. apurado. escorar. O espírito arguto agencia razões para envolver o adversário na disputa. – Suspender. a oportunidade de obrar. repousa. enquanto que a coisa que se esteia assenta. ou tato muito subtil para apanhar o que nos interessa. mas não sugere. e também de menor emprego de força que em suster”. segundo a formação do vocábulo (susum pendere) diz precisamente “deixar pendente em cima ou no ar”. a facilidade de compreender. segura. ideia de esforço. Astuto = “sagaz no enredo. – Suster (de sustinere. como observa Bruns. penetrante”. o cuidado meticuloso com que se faz alguma coisa sem nada esquecer do que lhe pertence. Escorar e especar distinguem-se ainda de estear por isto: o que se especa ou se escora não descansa propriamente sobre a escora ou o espeque. – Argúcia será então a “subtileza no argumentar ou no discutir”. Além disso. o abaixamento de alguma coisa”. 204 AGUENTAR. de sofismas. especar um telhado. ou pelo menos de menor duração. que exprime a ação ou o efeito geral que os três primeiros particularizam: escorar é dar apoio por meio de escora. mas que a ampara. de madeira. comumente uma trave mais ou menos grossa. pois em aguentar. – Sustentar é uma ex- tensão de suster: dá ideia do maior esforço com que se apoia ou se mantém alguma coisa no lugar próprio. suster. sustendo-a.” – Tino é “a finura instintiva. – Amparar é “impedir. e estear é pôr em segurança. em que assenta algum grande peso e fica firme. ou não caia de uma vez. – Subtil = “agudo. especar e estear confundem-se com apoiar. de susum “para cima. segurar”) significa também “manter (alguma coisa) no lugar em que está”. especar é fazer o mesmo com espeque. dissimulado e malicioso”. a agudeza natural. de ferro. escora alguma coisa para que não vire. se apoia e fica firme sobre o esteio. e tenere “conservar. – “conservar em equilíbrio sobre a corrente da água”. para que daí não saia ou não se desvie”.. não penda. – Astúcia é a habilidade no emprego de ardis. a perspicácia. na discussão. – Subtileza é a qualidade de subtil. – Aguentar é propriamente. amparar. especar. e por extensão – “manter alguma coisa no estado ou na posição em que se acha. ou o vigamento de um edifício. sustentar. só se especa ou só se escora . portanto. cavilha”) é uma peça com que se prende. que alguma coisa caia”. Finura é frequentemente sinônimo de velhacaria e de diplomacia. e é mais expressivo que o primeiro. para sentir o que convém. Uma trave que serve de apoio a outra nem por isso se deve dizer que a ampara. Argucioso é o que usa de argúcias. Finura é um termo genérico pelo qual se designa a habilidade de ver. Exemplo: “É uma criatura de tino admirável: e faz tudo com tanta habilidade e atilamento que maravilha os mesmos que a educaram”. estável. de madeira ou de metal. A diferença consiste. ou de pedra. Astucioso – “que usa de astúcias para enganar”. – Apoiar é também “impedir a queda. na distinção notada entre os respetivos radicais: o espeque (do inglês spike “espigão. tão bem como amparar. ou de cair. acima”. estear.. – Escorar. esteio é uma peça muito maior e mais forte.

O preceptor dá preceitos e conselhos continuamente a seu aluno. ensina em público uma ciência ou faculdade. de tudo quanto lhe interessa. o mais expressivo da função de educar crianças. – Instrutor é propriamente o que dá alguma instrução prática. preceptor. prepara num certo sentido o espírito do discípulo. lia ou explicava as doutrinas aprovadas pela escola ou universidade. Sugere este vocábulo a ideia de criar. O mestre dá lições a certas e determinadas horas. pois sempre se subentende que a coisa a escorar ou a especar já não está em segurança. firme a coisa esteada. portanto. e não o perde um instante de vista. – Quem educa não dá só instrução: nutre. Institutor. aio refere-se particularmente ao que educa fi- lho de príncipes ou de grandes senhores. Talvez que seja. de dança. preceptor. institutor da infância (não educador). 35) Amo é hoje desusado neste sentido. O mesmo não se dá em relação a estear. institutor. mestre é todo homem que dá lições. toma conta de toda a sua conduta. – Institutor é o que ensina meninos em estabelecimento público. contidas num . ou ruína iminente. lente.. e que se esteia para fixar. como ainda se lê em Camões. segundo o método escolástico. tendo recebido já o menino ou o moço que lhe veio do institutor. catedrático. portanto. III. entre todos os do grupo. que se especa ou se escora como um recurso de momento. ou estar no mesmo lugar”) sugere a ideia de permanecer em posição vertical.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 141 como provisoriamente. – Preceptor dizemos do que está encarregado de instruir. pois o esteio (do inglês stay. instrutor. instrutor de ginástica. como orador. – Lente ou leitor é o que. Também lhe chamavam naquele tempo amo. inabalável na posição que se quer. O esteio apoia. 205 AIO. que dá o verbo to stay “ficar. amo. pois o próprio termo educador pode não ter a extensão que se atribui ao institutor. cujos pais o confiaram à sua direção. e tem um certo número de discípulos.: “Todos estes ensinam em público uma ciência ou faculdade. mas em cada um deles concorrem circunstâncias particulares que os distinguem entre si. para que venha a ser na vida o homem que se deseja. por isso se diz: mestre de gramática. para fazer que permaneça seguro. Mas o educador faz tudo isso. de esgrima. Segue-se. pedagogo (e pedagogista). e resistir. para evitar uma queda. – Quanto aos três últimos vocábulos do grupo. aguenta em cima. e pode-se dizer superficial e ligeira. etc. guiá-lo pelo bom caminho (e até pelo mau caminho não deixaria de ser educar). orienta. mestre. falando do mesmo Egas Moniz: Mas. Educar é dirigir o educando. de equitação. ao encarregado da educação de qualquer menino. suportar. professor. que é moderna na língua. formar (instituir) o espírito do educando. – Aio é a palavra que antigamente se usava em lugar de preceptor. foi livrado (Lus. diz com muito mais precisão “o que se encarrega de preparar na alma da criança os fundamentos sobre que há de assentar a educação futura”. Egas Moniz foi aio de d. expondo suas doutrinas como próprias. Instrutor militar. diz Roq. e quase sempre ostentando seu saber oralmente. de música.: – Mestre dizemos do que ensina alguma ciência ou arte. – Segundo Roq. – Professor é o que professa. com se oferecer a dura morte O fiel Egas amo. para o formar moralmente e facilitar-lhe todos os conhecimentos possíveis: dirige-lhe a educação e a instrução em geral. de educar um menino. e tanto que com perfeita propriedade se deve dizer: educador da mocidade (não institutor). tornando segura. educador. Afonso Henriques.

quase sempre a má parte. porém. é austero na moral. são sinônimos de professor. se professa à moderna. limita-se a representar aquela ideia com relação . nobre (nobreza). (V. galante (galantice. distinto (distinção). bizarro (bizarria). pois a graça é uma prenda mais espiritual. a de distinto. do qual se não afastava. deve aquela usar-se particularmente quando se fala do masculino”. cavalheiresco (cavalheirismo). guapo (guapice). pertence-lhe o nome de professor”. 441).. O lente ou leitor pode pertencer. Tomam-se. que tenha uns ares que nos agradem. encanta. no porte. e é distinto e gracioso”. tem também o nome de lente. galanteria). gentil (gentileza). A elegância consiste no modo de ser discretamente belo. porém. esbelto (esbelteza). graça). nem mesmo elegan- te: basta que tenha nos modos. e pedagogista é o versado em pedagogia. cavalheiro. delicado nas maneiras. professam em academias. taful (tafulice. suave. donairoso (donaire). e que. nobre é o que. no andar uma certa graça (airosidade). formoso (formosura). – Elegante é “o que é bem modelado. garbosidade). no falar. elegante (elegância). reuniões literárias etc. portanto. E o padre Bernardes. acrescenta às qualidades de airoso. – Engraçado é o que mostra alguma graça nas maneiras. A pessoa airosa pode não ser bela. – Graça. pois aludem. Gentileza é “a galhardia e bom ar” – diz Roq. Vieira. que têm hoje acepção muito diferente da antiga.. à presunção com que o pedagogo alardeia a sua capacidade. a palavra formosura. vistoso. de ser aprimorado sem afetação. tafularia). – Catedrático é o proprietário de uma cadeira (cátedra) de universidade (ou de uma escola superior) em que ensina a faculdade de que está encarregado. cavalheiroso. – Gentil é “o que tem delicadeza. sem pertencerem ao corpo universitário. – Gracioso é aquele ou aquilo cujo aspeto tem graça. e sendo esta privativa do sexo feminino. – “acompanhado de nobre presença. é “o dom subtil. gazil. impressiona mais o coração que os olhos. ornada com os retoques da modéstia. falando de Fortunato de Chiaromonte. pois há muitos homens sábios e instruídos que. garboso (garbo. além disso. podendo até não ter a profissão de pedagogo. galhardo (galhardia). ou a uma universidade. ateneus. a quem chama galhardo e belo. A nobreza confunde-se com a fidalguia. Graciosidade é a qualidade de ser gracioso. grácil (gracilidade). garbo próprios de fidalgo”. que consiste num modo de ser que atrai. O professor pode não ser catedrático. neste grupo. generoso. Disto nos deixaram exemplos dois mestres da língua. Deve notar-se que pedagogo é o professor que ensina segundo a pedagogia. galhardo. É donairosa a pessoa que é mais engraçada que graciosa. delicado. seduz”. 116) – Consiste a beleza e a formosura na boa proporção e harmonia das partes que compõem um todo.142 Rocha Pombo compêndio. gracioso. – A graça é mais que o simples donaire. diz: “Esta foi a pensão que pagou Absalão à sua gentileza”. O catedrático pertence sempre a uma universidade (ou a uma escola): se ensina à antiga. bonito (boniteza). mas esta é menos distinta e brilhante. etc. elegante. garrido (garridice). ou a uma corporação religiosa. tem nobre aspeto. enquanto que o donaire é apenas uma aparência airosa. – Fidalgo é o que se mostra fino. belo (beleza). digno. falando de Absalão. loução (louçania). – Pedagogo e pedagogista. principalmente o primeiro. engraçado (graciosidade. aqui. fidalgo (fidalguia). mas é sempre condecorado com o título de mestre. – Nobre. é mais varonil que a formosura. 206 AIROSO (airosidade).” (V. – Airoso se diz de quem apresenta um aspeto agradável. lindo (lindeza). diz: “Era de tão rara gentileza.

engraçada... “mas que não chega a ser formoso”. Taful significa – “loução. ataviada com gosto. varonil. quando queremos designar o que tem maneiras de alto bom-tom. põe a formosura no que está mais distante da beleza. alegre. festivo”. pode notar-se. – Bonito é um diminutivo de bom. como diz o prolóquio: “Quem o feio ama bonito lhe parece.” Quando se diz das pessoas. com igual propriedade. dizemos de preferência. o que é afeito ao trato de gente culta e fina. – Bizarro exprime “esbelto e gentil. É assim que não chamamos formoso a um poema. franzino. que se destaca do vulgo”. – “Lindeza é palavra mais culta que boniteza. da tarefa. Luiz. com destreza e elegância (galhardia). Tafulice é a qualidade de taful. aprumo e coragem. cavalheiresco”. pois distinto significa apenas – “que não se confunde com o comum. Garboso é o que. fino. por ser mais expressivo. tafulice e tafularia. no entanto. à expressão de um sentimento. “refere-se ao gosto. que se sai garbosamente. – Gazil e grácil são adaptações do mesmo vocábulo latino gracilis. se mostra altivo. do embaraço.” Galanteria é a arte de ser galante. segundo S. entende-se particularmente das feições. sacudido. bem proporcionado. Galantice é a qualidade de ser galante. – Garbo é “um quase orgulho de ostentar figura e galhardia”. dizer-se que são formosos. e o Apolo Pitio. e por isso acontece muitas vezes que o gosto. elegante e gracioso”. Coisa galante quer dizer – bem ornada. do Hércules Farnésio. Gazil é corrupção de grácil. com asseios esquisitos. – Coisas análogas devem dizer-se em relação a taful. e formosos para todos. Gracilidade só deve aplicar-se ao que é pequeno. vivo. – Vistoso é apenas “o que parece bem à vista. e ornato dos trajos. e também indica maior perfeição no objeto lindo. – Tratando-se do homem. a Vênus de Médicis. e toma-se ordinariamente pelo oposto de feio. etc. os ditos de que se serve o galante para agradar. de onde vem galante. Neste sentido admira-se a beleza do Apolo do Belvedere. Bizarria é tudo isto junto: elegância.” – Galante. as graças. Boniteza é “a qualidade do que é bonito” – diz o mesmo Roq. dos quais não pode. namorado. isto é. são belíssimos para os inteligentes. Garbosidade é a qualidade de ser garboso. porém. Tafularia é a facécia do taful. viciado por algum capricho ou costume. que o primeiro . sendo esbelteza a qualidade de ser esbelto. que pretende agradar às damas. que tomou na linguagem vulgar um sentido especial. Bonito é palavra familiar que indica coisa agradável à vista. pois este adjetivo junta à qualidade de bonito um certo ar e graça que muito o aproximam de belo e formoso. ao que obra diretamente sobre o espírito. em cujo corpo se não encontra defeito. a beleza aplica-se também ao moral. bravo. – Esbelto (ou esvelto) designa “o que é de formas corretas. Se a Vênus de Médicis. mimoso. do asseio etc. interessante”.. “homem de distinção. – Cavalheiroso e cavalheiresco são definidos como significando a mesma coisa. lépido. brioso. forte. da ação”. se pudesse vestir à francesa. graça. da expressão do rosto. pessoa de distinção”. possante. isto é. além de elegante.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 143 ao agradável. ao que obra sobre os sentidos. desembaraço. de boa disposição”. à ternura de um afeto: a tudo isso assenta propriamente beleza”. – Galhardo (do italiano gagliardo) diz – “robusto. concerto. os modos como ele se apresenta. os modos. –. Também se entende especialmente das boas proporções do rosto acompanhadas de graça e donaire. talvez com ditos engraçados. Grácil significa “delicado. faceiro. São os olhos os juízes da formosura. que mofas não fariam as nossas damas de quem lhe louvasse a beleza do talhe? A formosura só se aplica ao físico.. a palavra beleza representa a ideia da perfeição possível. o que tem aparências de saúde.

Com todas estas partes servia-se a pátria e adquiria-se a fidalguia”. portanto. diz Bruns. na verdadeira acepção da palavra.) “é termo corruto de filho d’algo (do castelhano hidalgo. uma qualidade que assenta nas crianças e nas meninas. conflagração. Fidalgo. muito veloz” – do que propriamente ágil. é a perturbação da ordem estabelecida. educação e qualidades nobres. motim. “delicado no trato. alegre. 209 AGITAÇÃO. “agiota. alegre. – Expedito é o que se não embaraça no agir. isto é. sécio. sem discrepar das boas normas”. ágil tanto pode ser o homem como o simples animal. é discreto e gracioso”. – Re- . 208 AGIOTA. – Lesto é “o que.. Pretende-se que esta subtil distinção se sente nestas frases: “Recebeu-me muito afável e cavalheiroso”. para designar “leviandade. – Segundo Alves Passos: – “Rebelião é a desobediência. rapidez. – Lépido. a agitação é geralmente a precursora de qualquer das comoções designadas pelas outras palavras deste grupo”. Algo significava haveres. toma-se também à má parte. garbo) de parecer loução. pois a destreza é “uma agilidade acompanhada ou servida de astúcia e arte”. festivo”. cataclismo. destreza. – Revolta (to turn agaisnt em inglês) exprime tanto como voltar contra. – Garrido exprime – “vivo. esquisito e engalanado”. por meio de atos tendentes a subvertê-la. desembaraço natural no mover-se”.. a resistência à autoridade opressora: exprime tanto como levantar contra. volubilidade” e principalmente “habilidade em escamotear”. – Ligeiro diz levantamento. papéis de crédito. destro. É o cavalheirismo. Louçania é. como os próprios modos (trajo. lépido. etc. correspondendo a gentileza com gentileza. A garridice é. fino. leve. para auferir ganhos. – Agitação. – Guapo é “o que se mostra lépido. revolta. onzeneiro (ou onze- nário). Ligeireza. etc. ligeireza. pronunciamento. sedição. comoção. designa aquele que trafica em fundos públicos. arruaça. – Segundo Bruns. enfeites. pronto e gracioso”. sublevação. é “o que é no trato parecido com os antigos fidalgos. no falar. sendo expediência a “qualidade de ser expedito”. choque. rebelião. valendo-se da alta. bravo. 207 ÁGIL. Na linguagem corrente. tanto a qualidade de ser loução. “é o movimento anormal do povo quando os espíritos sobressaltados planeiam ou tramam contra os dirigentes. to. bens. hijodalgo). convulsão. expedi- mais – “vivo. agilidade. além de significar qualidade do que é ligeiro. aqui. ligeiro. no sentido que lhe damos aqui. – Loução diz – “de aspeto gentil. “Teve comigo um gesto cavalheiresco”. e cavalheiresco enuncia – “próprio do cavaleiro. significa também “ligeiro. do prestamista que empresta dinheiro com usura abusiva”. agiota se diz. lesto. além de ágil.. tanto o ato como a qualidade do que é cavalheiro (se bem que para exprimir a qualidade poderia usar-se de cavalheirice). – Destro só se aplica ao homem. como usurário. ufano. ou da baixa de preço que estes sofrem. segundo ostentava o antigo fidalgo”. usurário. insurreição.144 Rocha Pombo designa propriamente – “que tem ou revela qualidades e maneiras que eram de rigor entre os antigos cavaleiros (nos tempos da Cavalaria)”. expediência. o que tem maneiras gentis e sentimentos cavalheirescos”.. – Onzeneiro (ou onzenário) é o usurário que exige usura requintada e faz questão de lucros descomunais. abalo. conquanto haja talvez muitos velhos que se jactem de guapos. – Agilidade é “facilidade. – Fidalgo (é ainda de Roq. bizarro e gentil”. Bem se vê: a guapice só se encontra em moços. revolução.

uma agitação tumultuosa e de curta duração. que se decidiu em favor do revoltoso. e a revolta produz a revolução. A rebelião é ato de arremessar a luva. mesmo sem certeza de que se consumem as mudanças operadas (e sim diremos – que está em revolução). – Abalo é “o movimento contra a ordem. e é geralmente promovida pelo próprio governo quando lhe convém fazer alardes de força. e revolução indica o triunfo da revolta. Rebelião é a declaração de guerra. segundo for a sua importância.. Às vezes a simples rebelião de uma alta personagem motiva a revolta de um reino. – Choque diz “comoção instantânea. tendo chegado a depor autoridades. por exemplo. por uma série de atentados.” – Convulsão é. uma oposição ou resistência à autoridade. A arruaça é o motim da mais ínfima ralé. e a revolução é a vitória. – Sublevação é mais extenso que levantamento: designa “o fato de insurgir-se em massa uma população inteira”.. e muitas vezes por pertinácia e falta de reflexão”. Assim. diz Roq.. de uma assembleia. e antes achar-se de ânimo firme e resoluto em combatê-la.. O motim é um levantamento de pouca importância. A consequência da sublevação é a guerra civil. passageira”. – Conflagração é “convulsão . indignado contra seus opressores. Pronunciamento (ou melhor. no entanto. ou tomar disposições que não soubera justificar de outro modo. Não diremos. a luta contra a autoridade. é a revolução em suma. O motim tende mais a perturbar a ordem que a combater a autoridade. – Na linguagem comum. e se esta não for sufocada. ou em insurreição. – O motim é o menor dos movimentos contra a ordem normal. revolução é apenas uma revolta mais extensa. Da rebelião passa-se à revolta. virá a mudança da sua política – outra ordem de coisas – a revolução. revolta. e que publicamente declara não reconhecer por legítima. e revolução é a coroa de loiros para o vencedor. rápida e tremenda. a revolta é o duelo. a revolta tem sempre alguma coisa de violento e terrível. tratando-se de política. pronunciamiento) “é termo puramente espanhol com que se designam as frequentes insubordinações dos chefes militares de Espanha. e a gravidade do que o origina. e a subverter toda a ordem política. inspirada por alguns. ou pelo menos é aquele cujas consequências são de menor importância.. A rebelião não é algumas vezes senão uma simples desobediência. – Comoção é quase o mesmo que convulsão: apenas não sugere tão necessariamente a ideia de violência e transtorno que se envolve em convulsão. perturba a ordem estabelecida. porém mais violenta. em revolução.. – Rebelião designa a ação das pessoas. causada por descontentamento. segundo Bruns. “é o estado em que se acha um povo depois que se levantou e se armou para combater a autoridade a que estava sujeito. um particular está em rebelião “quando se opõe aos decretos do poder público. o estado das coisas.. que está em revolução a força que guarda um posto. de oposição. – A sedição é um espírito geral de perturbação. à crispação produzida por uma impressão forte”. revolta é a guerra formal. generalizada por todo um país. – O levantamento é. semelhante ao tremor. e quando um povo. ou contra a autoridade constituída. ou por uma vasta província. uma revolução talvez menos formal e extensa. – A insurreição. ou a guarnição de um presídio que se levanta contra o respetivo comandante (e sim – que está em revolta): como não diremos que está em revolta toda a população de um dos Estados da República. está em revolta ou revoltado”. que. É de ordinário uma fermentação momentânea de algum bando do povo. ou do mesmo povo. “o resultado imediato da agitação: degenera em revolta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 145 volução é a mudança da ordem estabelecida.. se comunica rapidamente a todos os membros de um corpo.

sensato. disputar. grave na compostura”. à conduta da pessoa a quem se o aplica. – Sensato. uma ideia. ponderado. pondo-o em dúvida. pondo-lhe os termos muito precisos. faz isso – ou apresentando-a apenas em seus termos gerais. Aventar tem mais de expor. Pode dizer-se. mas este refere-se mais particularmente ao estado. um problema. avisado. além da sisudez. Quem discute sustenta sempre um modo de ver. ou sugere a ideia da compostura que mantém essa pessoa num dado momento. Sisudo acrescenta a assisado a ideia de “discreto. Assisado quer dizer – “que tem siso”. Entre aventar e ventilar não se notaria grande diferença fundamental. assisado e sisudo são vocábulos que coincidem no mesmo radical sensus. Quem trata de um assunto. tino. ou graceja e zomba do que argumenta ou discute”. vasta. do “que tem uma compreensão exata das coisas. ou a respeito de alguma coisa. e significa – “dar atenção. prudente. ou discutindo-a formalmente e debatendo-a. Em regra. Assisado e sisudo também se confundem. com vivo empenho. sério. Sensato confunde-se com ajuizado. tem a calma. e procura impô-la a outrem. aventar. só se debatem questões de grande importância. ou agitando-a. – Quem agita uma questão. e mostra interesse em que se trate de discuti-lo e resolvê-lo. assisado. decerto que a não discute propriamente. porém. bom senso. prudência. uma perfeita inteligência da . nem por isso o discute propriamente: apenas o faz lembrado e o põe à vista de outros ou do público. discreto. indicar. circunspeto. cuidar de alguma coisa para resolvê-la”. judicioso. – Ventilar e aventar exprimem um pouco mais do que simplesmente agitar: quem ventila ou aventa um caso. no entanto. geral como se fosse um incêndio”. nas quais têm muito interesse os que as debatem: tais como os casos políticos e os judiciários de alta monta. chama sobre ele a atenção geral. lembrar. que em ventilar se sente já alguma coisa de intuito dialético: ventila-se um assunto estudando-lhe ligeiramente as proporções. discutir. – Controverte-se um assunto. isto é. – Discutir é “examinar todos os termos de uma questão. tem sido muito ajuizado em toda esta questão” – decerto que não caberia com lídima propriedade o adjetivo sensato. grave. controverter. oferecendo opinião sobre ele. quase que não faz mais do que apresentá-la à atenção de outros. um princípio. uma opinião. – Prudente é a pessoa que. muitas vezes até sem dela fazer mesmo a apologia. ventilar. isto é. dando-o por ainda não liquidado. exalta-se mais. e sujeitando-o a disputa ou a debate. e procurando vencê-lo. mas procura desembaraçá-la. uma questão. – Debater é ventilar e discutir esforçadamente. e o outro designa mais estado que qualidade. defende uma opinião. 210 AGITAR. pois este designa qualidade. – Ajuizado diz propriamente – “que tem juízo”. isto é. quase propor – do que propriamente de discutir. nem a debate tampouco. tratar. sá- bio. Quem aventa uma hipótese. analisar todos os aspetos de um caso”. cordato. na acepção que tem aqui. a serenidade e moderação do que é sábio.146 Rocha Pombo tão violenta. de uma questão. que tem juízo. ou mesmo de estudar. “que sabe julgar direito. fazê-la simples e líquida. Disputar é “uma forma de discutir e debater: o que disputa. – Tratar é o mais genérico do grupo. sisudo. 211 AJUIZADO. deba- ter. que tem uma justa medida das coisas”. “é uma conflagração que transtorna toda a ordem política de um país”. – Cataclismo. clara e nítida. encontrando-se com adversário. tomando-lhe em suma os termos gerais. Nesta frase: “F.

é uma ala. linha. – Grave é “o que tem aspeto nobre. estão separadas por um espaço. “O caso é muito grave”: nas quais se sente como grave diz muito mais do que sério. que chega sempre à boa razão. porque se sabe que tem sido sempre correto. das suas condições. acentuando muito as palavras”). de tudo que se lhe passa em torno”. Ainda podemos deixar. Aplicado a coisas ou fatos é que o vocábulo grave é mais forte que sério. fila. na retidão de conduta. Ele falou grave (isto é – “pesadamente. “coração”) é o homem “prudente. pelo menos. – Linha e série não se confundem. Quando se diz que F. que se mostra sagaz. um tino seguro para precaver-se dos males e perigos”. cauteloso. – Judicioso exprime – “que julga com bom juízo.. liso. e sem pesar os atos”. na inteireza de caráter do que na simples compostura que se mostra ou afeta às vezes calculadamente. – Circunspeto significa propriamente – “comedido. nem – “ostenta porte sério).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 147 vida. sabendo bem discernir as coisas. apercebido do que convém. nem sempre assim. tendo a frente voltada para o mesmo lado”. renque. no cumprimento dos seus deveres. conveniente nas ações. sem apreciar maduramente as coisas. – Fileira é propriamente uma série de filas. – Avisado é “o que procede com acerto. que raciocina com acerto”. Dizemos: “Ele marchou com gravidade para a forca”. conquanto exprimam ambos a continuidade ou sequência de coisas ou pessoas numa certa direção. – Cada uma das duas longas filas que. voltadas de frente uma para outra.. 212 ALA. como se nunca estivesse desapercebido do seu posto. é um homem em cuja probidade se pode ter plena confiança. aprumado no agir e no falar. entre seriedade e gravidade: “Ele falou sério” (isto é – “disse o que sente”). “é a série de pessoas ou de coisas postas uma ao lado da outra com a frente voltada para o mesmo lado”. reservado. – Não assim. enquanto que gravidade é mais modo de ser exterior do que propriamente virtude. pois na linha as coisas podem estar sem regra de sucessividade. “Ele foi sempre um homem sério” (isto é – “sempre foi probo e digno”).. fileira. que se satisfaz ou se concilia com o que é razoável”. aqui. A seriedade é. Conforme a definição de Bruns. “Ele foi sempre um homem grave” (quer dizer – “de maneiras lentas que o fazem parecer severo”). altivo e severo. “Trata-se de negócio grave”. . medindo. – Renque é “uma série de coisas ou de pessoas postas em linha”. portanto. “O caso é muito sério”. quanto à seriedade. nos seguintes exemplos. de equilíbrio moral”. “Ela tem o porte grave das matronas” (e não – “marchou com seriedade”. dando provas de juízo e atilamento”. mais uma qualidade moral do que modo de ser exterior. cordis. fechado e sereno. enquanto que na série as coisas.. como nestas frases: “Trata-se de negócio sério”. que parecem sentir o peso dos anos. não é a mesma seriedade de que trata Roq. – Discreto é “o que se mostra atento nas palavras. não saindo nunca da linha normal no modo de portar-se”. – Ponderado é “o que nada faz sem refletir muito. que na acepção que tem aqui. não só se sucedem numa certa ordem. segundo Bruns. bem clara a distinção entre grave e sério. é um homem sério afirma-se que F. – Cordato (de cor. – Fila. como até ordinariamente obedecem a critério de classificação. revelando ou afetando grande segurança de reflexão. modesto. série. Seriedade é uma virtude que consiste mais na lisura de consciência. “é a série de pessoas ou de coisas postas umas atrás das outras. no seu grupo 493. A gravidade é própria dos homens velhos. sincero e direito nos seus tratos.

o que melhor acentua a ideia de todos alardes. e dá-lhe por isso uma importância que ela não tem. é usado com um completivo: blasona-se de nobre. as qualidades. bazofiar (bazófia). Assim de alardear. Quem se vangloria de alguma coisa presume demais do que essa coisa vale. que alardeia méritos que não possui. Mas só desvanecer-se de ser belo. nem alarde: é mais “um quase desvanecimento e alegria em que se fica de haver alcançado alguma coisa cujo valor se exagera”. ou que se nos atribui”. de piedade. tanto se pode dizer daquilo que se possui.. é “uma exaltação do amor-próprio que nos leva a ter um orgulho exagerado daquilo que se nos diz ou faz. Qualquer pode fazer ostentação de riqueza. – Blasonar é quase o mesmo que bazofiar: apenas blasonar. posições que nunca ocupou. vitórias com que apenas tem sonhado. como entre si. entre todos os do grupo. Conforme o complemento da sua predicação. como do que se não possui. Desvanecer-se da amizade de um homem digno é perfeitamente legítimo. Fanfarronada (ou fanfúrria) é “a prosa do . é que este verbo desvanecer-se envolve ideia que o aproxima dos demais deste grupo. vangloriar-se (vanglória). ufanar-se (ufania). Quem é que se não ufana da justiça que se lhe fez. Gautier – o capitão Fracasso. etc. Fanfarrice é a qualidade de fanfarrão. – Desvanecer-se é “sentir vaidade por algum mérito. gabar-se. mais de rigor do que o outro. jactar-se. Alardear. de força. – Bazofiar é “fazer ostentação ridícula ou escandalosa de grandeza. orgulhar-se ou orgulhecer-se.. ou de honras. tanto de todos os do grupo. bazofiar. etc. Só fanfarreia o boborio que berra e bufa de valente e corre de uma criança. A ufania é um como contentamento desvanecido. – Alardear e ostentar distinguem-se. vangloriar-se. que blasona de façanhas que nunca praticou. ou de coisas fúteis e vãs é que é ridículo. por alguma honra.. outro tanto se deve dizer de ufanar-se.. num caso em que dessa justiça lhe pendia o crédito? Só quem pode não ufanar-se nunca de coisa alguma. os feitos. pelo menos. ostentações charras e ridículas que só se admitem naquele tipo de Th. fanfarronada. Ufana-se o artista da sua obra quando sente que ela lhe deu uma grande expressão da própria alma. fanfarrear (fanfarrice. A bazófia é coisa semelhante ao que vulgarmente se chama prosa ou intimação. ou de ter dançado uma valsa com mestria e elegância. Mesmo desvanecer-nos da benevolência que se tem conosco. de tino. ou de magnanimidade. de valente. ostentar. A vanglória é “uma ideia falsa ou exagerada que faz alguém de si próprio”. Pode-se fazer alarde de rico (alardear fortuna ou cabedais) e fazer alarde de honradez. de prosápia. etc. ou da honra que se nos faz – é coisa que se diz sem descaída moral. ou é invisível. ou que pode ser visto por todos. blasonar. porém. aqui. Agora. ou que é material. fanfarrear. por mais que signifiquem ambos “proclamar com aparato e desvanecimento (alarde. Ninguém ostentará méritos que nunca teve. ufanar-se de haver ganho uma partida de bilhar. de valentia. mas decerto que ninguém se lembrará de fazer ostentação de gênio. – Sob este aspeto. com ênfase. os próprios méritos. A jactância não é propriamente ostentação. ostentar (ostenta- ção). – isso é outra coisa. impróprio de um homem sério. ostentação) aquilo que se tem ou se supõe ter. – Vangloriar-se aproxima-se do precedente. fortuna ou triunfo”. – Fanfarrear é. Blasonar (de qualquer coisa que seja) é sempre. – Jactar-se é dizer publicamente. jactar-se (jactância). Só se ostenta o que realmente se mostra. O desvanecimento. uma alegria orgulhosa que se sente por haver alcançado alguma vitória. ou que é material. intimar (intimação). fanfarronice. fanfúrria).148 Rocha Pombo 213 ALARDEAR (alarde). desvanecer-se (desvanecimento).

– Rumor é mais “eco de vozeria. de fazer fanfarronadas. repercussão de desordem. em todas as dimensões. murmurinho. – Bulha será um barulho insignificante. 215 ALARIDO. ou se amesquinham. Alarga-se um caminho. tumulto. etc. Amplia-se um jardim. celeuma. e até de dores violentas. por exemplo: “Vamos alargar o nosso campo de ação”. – Barulho é termo vulgar que corresponde a tumulto: é apenas um tumulto menos grave.. dilatam-se as narinas para aspirar o perfume. e também as vozes lastimosas dos que pranteiam. – Alargar diz propriamente “fazer mais largo”. as forças que empregam na manobra. em qualquer dimensão. ou vozes em confusão e descompassadas. – Berreiro é “grito ou gritaria monótona. e compassarem com as vozes. contendem ou bulham. berreiro. gritaria. de entusiasmo. Dilatam-se as pupilas à medida que a luz ambiente diminui. – Clamor é “como gritaria grave e aflita. é “a confusão. ou no trabalho. dilatar. abrir. alvoroço. – Gritaria designa multidão de gritos. a ideia de “blasonar de poderoso. 214 ALARGAR. – Tumulto é “grande comoção e alarido. dá-se o nome de celeuma à vozeria. Incorporamo-lo para designar a desordem e confusão de vozes no meio das quais nada se discerne. Por extensão. ampliar. dilata-se um orifício. mais arrelia. ou de ódio”.” (Aul. – Sussurro é palavra onomatopaica desig- . – Gabar-se não é mais do que “elogiar-se a si mesmo. rusga que barulho. Neste sentido. de menores proporções. que os moiros levantavam em qualquer acometimento ou conflito de guerra. Por extensão. os gestos. mais extenso. designa certo canto ou cantilena cadenciosa que os marujos e outros operários entoam quando trabalham para se animarem mutuamente. – Turba. barulho. dilatam-se alguns corpos sob a ação do calor. como o berro de alguns animais”. a forma orgulhecer-se. uma praça. fazer crescer proporcionalmente”. rumor. sig- nifica o clamor que se levanta ao travar-se a peleja. tornar mais largo. designa a vozeria dos que se travam de razões. os motins destacados de uma comoção ou revolta”. parece que é mais expressiva e até mais própria. Intima. de importante”. desordem estrondosa”. ameaçando”. conquanto menos usada. quando se diz. de arruído que propriamente essas coisas”. algazarra. bramido. José de Lacerda – “conforme a origem árabe. – Intimar exprime. na acepção com que figura neste grupo. tudo que tem comprimento e largura. aqui. – Arruído é quase tumulto. que fazem mais bramar que gemer”. uma bola de borracha que se enche de ar.). – Ampliar é “tornar maior alguma coisa em todas as suas partes. – Alvoroço é “manifestação estrondosa de alegria. pedindo. gritaria. uma rua: em geral. ou mais longo”. turba.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 149 fanfarrão. sussurro.. vo- zeria. grito ou alarido”. – Vozeria diz propriamente “multidão confusa de vozes”. – Dilatar é também “fazer maior. bulha. murmúrio. protestando. – Bramido é “clamor de cólera. o sujeito que trata os outros com arrogância. com ares de quem sempre está mandando (intimação). etc. a desordem. é “conjunto de vozes desordenadas formando ‘coro de arruídos’”. e só figuradamente é que se emprega por ampliar. ser o primeiro a falar nos próprios méritos”. arruído. – Orgulhar-se é mais que desvanecer-se. as palavras. segundo a origem grega. – Celeuma. – Alarido – diz d. de ameaça. Só se orgulha de alguma coisa quem sente uma importância exagerada que dessa coisa lhe vem. Fanfarronice é “o modo de ser fanfarrão. – Algazarra é adaptação do árabe: era “vozeria. os atos do fanfarrão”. clamor. borborinho.

ignorando. assombro. do inimigo. pânico.. que temos medo dos cães danados. do que pela propriedade de resumir a ideia dos outros seis do grupo. e mais pelo extenso uso que se faz desta palavra. a suspeita de algum perigo. a do susto não o é geralmente. Figuradamente. O susto diferençase ainda do medo em levar-nos este a fugir da coisa que nos amedronta. – Chamada é propriamente “a voz ou sinal com que se avisa ou com que se chama atenção e se convoca. receio. – Alarme. rebate.150 Rocha Pombo nando “rumor menos perceptível e mais confuso”. enquanto que aquele é um sentimento irresistível e espontâneo que nos assalta sem querermos. – Alarme – escreve Bruns. ou com indignação”. – Reclamo é “apelo instante e formal. cuja ocorrência temos por certa e próxima. terror. – Segundo Bruns. aqui. “a ideia comum aos sete primeiros vocábulos deste grupo é a do sentimento ou sensação penosa que nos assalta quando um perigo sobrevém”. Causa medo aquilo que vemos. como um recurso de aflição. assombramento. O rebate sempre encerra a ideia de defensa. o alarme. é o toque de clarim ou de tambor com que se reúnem os soldados. e como termo de técnica militar. chamamento. ou de um mal que certos indícios nos levam a julgar não só possível mas até provável. – Murmurinho é como “vozeria abafada. sobressalto. – Borborinho é também voz onomatopaica. real ou suposta. quanto tempo nos separa ainda deles. porém. o susto dura pouco. o medo é um sobressalto violento e repentino que nos leva ao temor. Particularmente. é a confusão e gritaria que se manifesta num acampamento ou praça de guerra à aproximação. de tambores com que se convoca o povo (ou uma guarnição militar) para defender-se quando sobrevém um perigo. espanto. porém. clamor. 217 ALARME. – Murmúrio é “leve sussurro como de água corrente. como se o objeto do reclamo fosse fundado sempre em direito”. clamando. Emprega-se esta palavra com muita propriedade quando nos referimos à previsão de acontecimentos muito desagradáveis. – Terror é um termo que mais se refere à causa do sentimento . e não temor. no sentido próprio da palavra. O temor é o estado do espírito que se perturba pela apreensão de um perigo. ou a de instigar à fuga. a de defensa. O medo distingue-se do temor em ser este um produto da razão e até certo ponto da vontade. ou talvez desfiguração de murmurinho. chamada. susto. ou de viração em arvoredo”. e não medo de Deus. e que nos induz a evitar aquilo que julgamos nos há de ser nocivo.” – Apelo é “pedido de socorro. reclamo. medo. Por isso se diz que temos o temor de Deus. assusta-nos o que não podemos definir. de testemunho ou de juízo da pessoa para quem se apela”. sussurro de multidão falando a um tempo e mal contido”. – Medo é termo genérico. é “chamamento com desespero. este para repentina e inconscientemente. – Susto é uma espécie de medo que nos deixa como suspenso durante os primeiros instantes. ou de desejo ansioso em causa dependente de amparo. 216 ALARME. – diz-se do grito ou gritos que se soltam para anunciar um perigo. é o ato de dirigir-se alguém a outrem. emprega-se este vocábulo para designar a perturbação que causa a ameaça. tendo a mesma significação.” – Chamamento designa a “ação de chamar com esforço. enquanto que o susto nos deixa como suspenso: quando o susto assalta o homem. temor. – Clamor. pavor. e que conservamos contra nossa vontade. O medo é mais ou menos prolongado. apelo. – Rebate é o toque de sinos. A causa do medo é determinada.

hotel. Foi o terror dos franceses que ocasionou a grande hecatombe da ponte de barcas do Porto. se a hospedaria reúne certas condições de comodidade. ou o grande terror que se apodera de alguém à vista de um caso espantoso. em regra casa de família. Terror (do latim terrere. – Receio é menos que medo ou que temor: é mais – um estado de dúvida. O medo da peste leva-nos a fugir da cidade. – Hospedaria é casa onde se recebem hóspedes de cama e mesa. tanto a cama como a mesa. – Espanto é uma forte impressão causada por alguma coisa que sobrevém inesperada e repentinamente. mediante um pagamento convencionado que também se chama pensão. mas sobressalto sugere ideia da inquietação em que se fica. pensão. aqui. morando fora o pensionista. frequente dizer-se indiferentemente – o pânico. e contra os quais é inútil qualquer luta. tem uma acepção especial para designar o estado de terror em que fica uma pessoa surpreendida de alguma coisa ou de algum fenômeno misterioso. porém. Difere da casa de cômodos em dar esta ordinariamente só a dormida.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 151 que ao próprio sentimento. e assombramento. que imobiliza e como que maravilha. guarida. particularmente os pobres que iam de viagem”. por isso se diz que os bandidos espalham o terror por onde andam. – Albergaria – escreve Bruns. – Pousada é termo castelhano que se diz por estalagem. para exprimir. principalmente no Alentejo e no Algarves. ou mal que se suspeita”. ou impelir-nos a uma fuga insensata como o medo. A suposta existência de uma terrível peste espalha um pânico geral”. – “era o nome da dependência dos mosteiros destinada a hospedar os transeuntes. estala- gem. uma obediência a escrúpulos de qualquer ordem. é. e aquela. designando a casa. – Guarida é o local onde se encontra abrigo contra a intempérie ou contra a perseguição. que nos impede de agir ou de fazer alguma coisa – do que propriamente temor. e se qualquer incômodo sobrevém que pareça sintoma dessa peste. – Sobressalto é “a comoção que se sente sob a iminência de algum perigo. – Estalagem é casa onde se recebem passageiros que não pretendem grandes comodidades. reina o alarme. ou – o terror. colhe-nos o susto. 218 ALBERGARIA. Propriamente só se diz neste último sentido. é denominada hotel. – Pavor é “um medo incoercível. hospedaria. pânico. Confunde-se com susto. quer seja pagando. e até em só fornecer as refeições. “fazer tremer”) aplica-se aos perigos ou males que julgamos irresistíveis. Na cidade em cujos contornos a peste faz muitas vítimas. do cuidado e preocupação que nos causa o mal que nos sobressalta. Certos estabelecimentos de caridade ainda hoje têm albergarias destinadas ao mesmo fim. . pousada. – Assombro é grande espanto. – Pensão tem aqui um sentido particular. O espanto pode deixar-nos paralisados como o susto. o temor de sermos assaltados dessa peste nos leva a evitar a comunicação com as pessoas provenientes das localidades empestadas. Significa também a própria coisa ou fenômeno misterioso que assombra. albergue. quer devido à mera hospitalidade. onde se recebem hóspedes. e se ela sobrevém inesperadamente. um grande terror que faz desvairar. e algum ou muito luxo. – Albergue é propriamente a casa onde se hospeda aquele que está fora da sua terra. e na qual são principalmente admitidos aqueles que trazem cavalgaduras ou veículos. é o espanto que nos domina. Essa peste espalha o terror por toda parte. – Pânico é propriamente um adjetivo que qualifica o substantivo terror. ou que vence todas as energias morais”. ou o terror infundado que assalta a muitas pessoas.

“tocar. – Paço. chegar diz-se do próprio fato. e dos governadores ou vice-reis das colônias”. da força de efetuar. – Conseguir é o termo de nossa solicitude. e tende. – Tocar (da mesma origem de atingir) ex- . isto é. de inferiores. agradável. 222 ALCANÇAR. e mais restrita a tem ainda impetrar. porém. lê-se em Bruns. paço. – Gozar é ter. Qualquer superfície que parece ter tido originariamente outra cor. go- pode viver sem demandas nem pretensões. ou do grande senhor. Em poesia diz-se dos atuais paços dos monarcas. Por não poder alcançar um ramo. das dos bispos. – “Lograr é propriamente o termo de nosso desejo – diz Roq. chegar designa o fato. atenções. castelo. defendida de fortificações”. 221 ALCANÇAR. esbran- quiçado.) – Atingir (que também colocam alguns no grupo CCXXI) diz “alcançar ligeiramente. – Alcáçar (ou alcácer). pois só impetramos graças de um superior. segundo Bruns. se este viveu mais anos do que ele”. pretendendo-as e solicitando-as com rogos e súplicas”. porém. temos de subir a um banco para lhe chegar com a mão. dignidades. – Al- zar. mas quando lá chegaram tiveram quem os agasalhasse. enfim. – Lograr e conseguir podem supor justiça. útil. – Impetrar é alcançar do superior a graça que se havia solicitado. ou tem protetor de valimento. atingir. (Bruns. que este vocábulo tem significação menos genérica que o precedente (obter). alvadio. Alcança o perdão o que interpõe rogos humildes e pede misericórdia.: “Albescente diz-se daquilo que se está tornando branco. Obtêm-se cargos. a de seu pai. como se chegasse apenas a tocar de leve a coisa alcançada (ad + tangere. impetrar. alcançar diz-se da possibilidade. a ser branca. – sem relação aos meios empregados para isso. tocar. – Alvacento é a cor fixa que tira para branco. disposto para habitação ou para outro fim. possuir alguma coisa que nos dá gosto ou prazer sem indicar que a buscamos. alcançar supõe sempre graça. pois. conseguir. meio branco”. – Castelo (de castellum. – Palácio diz-se de qualquer edifício grandioso. – Quanto aos três primeiros. só se diz das residências das pessoas reais. As balas não chegavam à fortaleza. e obtêm-se de iguais. entre branco e cinzento”. Consegue um bom emprego o que solicita com mérito. etc. chegar. tem força para fazer chegar balas a grande distância. – Obter é alcançar uma coisa que se pretende ou deseja. da capacidade. diminutivo de castrum. é albescente. Vê-se. palácio. lograr. ou que nos é grata. que fizemos diligência por ela. 220 ALCÁCER (ou ALCÁÇAR). Logra uma grande fortuna o que cançar “denota esforço”. alvacento.. o fim a que se dirigem os meios com relação a eles. sentir pelo tato”)”. não alcança. Noutra ordem de ideias. de superiores. Consegue-se o que com diligência e perseverança se busca. “fortaleza”) corresponde com exatidão a alcáçar (do árabe): era “a antiga habitação do rei..152 Rocha Pombo 219 ALBESCENTE. ou que a ela tínhamos direito. Os homens sóbrios e de bom temperamento gozam ordinariamente de boa saúde. contração de palácio. tudo o que nos é honroso. obter. “era propriamente o palácio afortalezado onde os reis ou governadores faziam residência. favores. Os náufragos alcançaram a praia depois de mil perigos. Um homem chega à idade avançada. ou se pretende. – Alcançar é o termo de nossos rogos. – Esbranquiçado significa “um tanto branco. – Alvadio diz-se da cor intermédia. A artilheria moderna alcança a grandes distâncias.

multidão.: – “Alcantil é a vertente talhada a pique. timo destes vocábulos – diz Roq. talvez endireitando. magote. As fragas tornam a ascensão difícil. – Multidão quer dizer “grande número”. – Itaimbé é palavra do tupi designando rochedo a prumo. itaimbé. precipício. troço. por isso. ribanceira. corja. de livros. mais ou menos larga e profunda. Figuradamente aplica-se a indivíduos da espécie humana aos quais se ligue alguma ideia que os ponha em relação com aqueles animais: alcateia de bandidos. rancho. etc. a diferença entre a quantia que entrega e a que devia entregar. fazendo crescer para cima. levantar. – Segundo Bruns. de ladrões. legião. elevar. se este é da categoria das chamadas pessoas decentes”. matula. despenhadeiro. e tendo a base regada ou não de corrente”. – Fraga é mais aspereza de serra. ou “um bando de estudantes na aula”. a voz. de assassinos. passa a ser desfalque. troça. no entanto. enxame. ou mesmo de algum particular. de lídima propriedade dizer que se viu – “um bando parado”.” 226 ALCATEIA. Um bando de estudantes só se vê na rua. Se o alcance acusa. e ao perigo a que se expõem os que transitam próximo da sua beira. diferençando-se. não tanto como o do alcantil. – Elevar é “pôr em lugar alto. a fim de não ofender a honra do ladrão. 225 ALÇAR. – Bruns. Exprime ele a ideia de “pôr em alto. acrescenta irregularidade e escreve: “Quando o desfalque é cometido nos dinheiros do Estado. riba. aventurosa. ou ao alto. como um edifício. etc. grupo. horda. matilha.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 153 prime a mesma ideia. tirar para cima. despenhadeiro. sem mais ideia alguma acessória: multidão de pessoas. – tilado. batiza-se atualmente sob o nome de irregularidade. etc. improbidade e dolo. ribança. – Alçar é levantar o que está caído. bando. exaltar a dignidades. a escarpa é quase sempre de acesso impossível sem ajuda de arte. em montanha. pedra escarpada que propriamente escarpa. a base do alcantil mergulha no mar. Quase que destes dois se pode dizer o que se diz de alcançar e chegar. – é o gênero em que entram os outros como espécies”. e por onde quase sempre corre água. encosta muito íngreme”. as mãos. de . além de inépcia ou desmazelo. ou quase a pique. designa multidão. e sugere ideia de vida errante. deste em não sugerir com a mesma força a ideia de atividade. de panteras. fazer subir”. em ordem eminente. – Riba e ribança confundem-se com ribanceira: este é apenas uma extensão daqueles. – Alcateia é um coletivo que se emprega para designar “multidão de animais ferozes”. caterva. irregularidade. quadrilha. erguer. ou desde baixo. – Ribanceira considera a vertente como tendo pendor considerável. súcia. escarpa. – “O úl- Alcance é. 223 ALCANCE. não com relação ao pendor. etc. vista de frente. ou é banhada por alguma corrente impetuosa. que na linguagem vulgar só se aplica a aves. desfalque. escarpa. 224 ALCANTIL. turma. ou “na escola”. alcateia de lobos. – Bando. Não seria. chusma. – Erguer é levantar pondo em pé. – Despenhadeiro é a vertente ou precipício considerado. ou uma coisa acima da sua posição ordinária. nas contas que alguém é obrigado a prestar. mas relativamente à profundidade a que está a base. como os olhos. malta. fraga. de alguma corporação. – Grota é aberta. grota. – Escarpa é “rochedo alcan- turba. ou a caminho do colégio. – Precipício é termo geral que indica “todo acidente perigoso onde se pode cair”.

orgia. tapeçaria. alfombra. – Troça também diz “multidão”. a mais extensa”. – Turba significa “multidão desordenada. podendo estar ou não fixo . ou mesmo de coisas”. mas agradáveis. de intuito escuso. portanto. a mais exata. como este. e que não porá logo aqui mais de doze legiões de Anjos?” Este coletivo legião. e está fixo nele. “obrar. 227 ALCATIFA. que cobre o pavimento ou parte dele. matula de desordeiros.ere. em tumulto”. de depravamento e banditismo. ou a causa especial que põe em movimento a legião: “legião patriótica. pelo menos. toma-se sempre a má parte. tapete. ideia de aventura. e parece que encerra ideia de atividade. Súcia. e deixando supor que é multidão fazendo parte de uma série de multidões. coisa semelhante a batalhão. pois neste coletivo figura o radical agmen = agimen. desregramento: horda de bárbaros. de parcelamento: um magote parece que deixa supor sempre outro ou outros magotes. ou de realizar algum intento. feito de uma só peça. de estrelas. quando reprimiu a ira de Pedro. perversidade. corja. E até sem cláusula é usado para designar “multidão de cães de caça”. em atividade mais ou menos ordenada. isto é. ao ser preso. – Horda sugere ideia de selvageria. de missionários (não – um bando). alfombra. nem um enxame de vagabundos ou de vadios.. de gente sem ordem”. caterva de lobos. – Alfombra é o tapete de maiores ou menores dimensões. – Enxame aplica-se mais particularmente tratando-se de abelhas. de guerrilheiros por exemplo.154 Rocha Pombo ideias. – Grupo é “conjunto de coisas ou pessoas reunidas. – Matilha é também coletivo de cláusula restrita: matilha de cães. companhia. e também de divisão. mas em pequeno número”. Não se diria: um enxame de lobos. e fora deste caso. E também. ou mesmo de velhos – seria. sugere sempre ideia de que se trata de defender uma causa. tapete. de ago. disse a este: – “Cuidas que não posso rogar a meu Pai. e até de fereza (sobretudo os três últimos): súcia de malandros. de gatunos. portanto. ou malandros. de facínoras. etc. – Quadrilha está nas mesmas condições de turma: designa “um certo número de indivíduos aprestados para a guerra”. matula.. confortável. espesso. agir”. legião negra”. bom ou mau. mas sugere ideia de festa. ou de aves. de crianças. Quando Jesus perguntou pelo nome do espírito mau que atormentava o possesso: – “O meu nome é legião” – respondeu o espírito. de lobos. legião acadêmica”. ou “legião da morte. pândega. de salteadores. de peregrinos. mas sugerindo ideia de vagabundagem. nunca se diria. – Legião era entre os romanos um corpo de tropas. de sapos. de cores variegadas. Uma turba de sábios. Dizemos: quadrilha de salteadores. Neste sentido continuou a usar-se para exprimir o motivo que impele. uma coisa fantástica. de malfeitores. – Turma era “uma divisão tática na milícia romana”: diz. banditismo. – é alcatifa que tem significação mais nobre. destempero. designa multidão certa. que cobre todo o pavimento de uma habitação. – Rancho é o mesmo que bando: apenas não sugere. – Troço significa “multidão ou porção. – Malta designa também multidão. no entanto: quadrilha de colegiais. Dizemos: um rancho de fiéis. caterva estão nas mesmas condições do precedente: juntam à noção de muitos indivíduos reunidos a ideia de indisciplina. – Magote é semelhante a grupo e a turma: significa “porção de pessoas. – Chusma significa “multidão em alvoroço”. corja de vadios. e sugere também a ideia de que essas pessoas ou essas coisas fazem parte de multidão maior. – “Dos três primeiros vocábulos – diz Bruns. e no sentido figurado empregase para designar multidão laboriosa. – Alcatifa é o tecido rico. de bandidos.

portanto. apodo.. mas apenas alusivo do indivíduo a quem se aplica: vale mais por um epíteto que designa o indivíduo sem nomeá-lo. que tanto designa o estofo da alfombra ou da alcatifa como esses próprios objetos. onde o vício ostenta as suas torpezas”. – Segundo Roq. de sala.. sentina. cognome. que serve para cobrir as paredes. bordel. foram apelidos nobres da descendência das famílias. porém. não se dá tal sinonímia. 229 ALCUNHA. a suas vilas e cidades. sobrenome. citar. muito usada no tempos gloriosos de nossas guerras. palavra árabe (alconia). é trazer o advogado leis e razões em defensa do direito de sua causa”. A maior parte das casas que nas cidades se intitulam hotéis para pernoitar são alcoices. onde impura a depravação moral. pega. – Tapeçaria. mas diferença-se destes em não ser próprio e expresso. 230 ALEGAR. – Citar é referir textos e autoridades . alcunhas de leais. por exemplo. no entanto. – Tapete é termo genérico. aves. portuguesa. prenome. cada um deles tem. apelido. – Prostíbulo (do latim prostibula “meretriz das ruas”) é o lupanar considerado como sentina onde as infelizes se degradam. porque alcunha só significa apelido injurioso. por honra e mercê. e João da Costa é o nome do indivíduo.. peixes. – Nome é a palavra com que se designa ou distingue uma pessoa ou coisa. exclusivo do indivíduo. – Estes quatro vocábulos empregam-se indistintamente para designar as casas públicas de prostituição. – Alcoice é a casa onde se dão cômodos às parelhas que procuram ter comércio. e quase sempre alusivo a algum defeito da pessoa. (Bruns. e que se junta ao nome de alguém para torná-lo mais preciso. Os reis davam. Emprega-se esta palavra de preferência às outras quando se alude à moralidade dos que frequentam essas casas: frequentador de lupanares. Há tapetes de escada. “Os panos de Arrás são tapeçarias de muito valor artístico”. do que propriamente por um nome. tem a significação especial de pano de armação. e que acaba com ela. e o menos usado dos deste grupo: designa a casa de prostituição considerando-a sob o ponto de vista das orgias que nela se fazem”. lupanar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 155 no chão. – Bordel é termo francês introduzido na língua. etc. ou autoridade que prova o intento proposto.. – Prenome é propriamente o nome que precede ao nome de família e que é. – Sobrenome é o nome que se interpõe entre o nome de batismo e o de família. de mesa. – Apodo é quase o mesmo que alcunha. nobres. etc. “alegar é agnome. sardinha. – Segundo Roq. coelho. e em termos forenses. sobrenome das pessoas segundo a diferença das famílias. nome. – Cognome é o designativo de alguma qualidade notável ou característica. e já há muito. com que se designa um conjunto de tapetes. prostíbulo. a sua significação particular. – Antonomásia confunde-se com cognome e com alcunha. Em João da Costa.. notáveis. além de ser um termo coletivo. exemplo. antonomásia. Costa é o apelido. de corredor. sendo que o apelido se transmite e distingue as famílias”. “a primeira.) – Sentina é o “prostíbulo imundo. Hoje. e a segunda. como perdigão. mas não é muito usado em português com esta significação. João é o prenome. – Agnome é o epíteto que se adiciona ao cognome para fazer que ressalte alguma virtude ou qualidade própria do indivíduo. – Lupanar (do latim lupa “meretriz”) é a casa onde residem meretrizes. assim como os nomes de animais. 228 ALCOICE. etc. eram sinônimas em significarem o referir a seu favor algum dito. alcatifas etc.

satisfação. muitas vezes prescinde da consciência. não será difícil fixá-la entre outros dos vocábulos deste grupo. A pessoa jubilosa mostra-se alvoroçada de alegria. bailes. – Jovialidade significa “disposição natural para a alegria ruidosa mais inocente. pois. jovialidade. mas a jovialidade só assenta nos moços. a alegria é desigual. Ao contrário. como está dizendo a palavra. nem a ela conduz. e muito mais pelo regalo com que o tratava. que é saltar de gozo. – Alacridade é a . não é a felicidade. aquele supõe igualdade e sossego de ânimo. Fr. e eles a usavam em lugar de alegria: em Camões ainda é frequente o adjetivo ledo em lugar de alegre. buliçosa. ou pelo gosto que se logra. e pertence à imaginação. Um fausto sucesso. sem parecer alegre. celebra-se com festas e regozijos. porque é demonstração exterior. – Regozijo. ou é surda a seus gritos. gritos de aclamação. que interessa a toda uma nação. que. a palavra ledo é desusada. pois representando todos um estado agradável no espírito do homem. a alegria. é corrupção da palavra latina lœtitia.. que “o contentamento é uma situação agradável do ânimo. tranquilidade de consciência. já ele estava mui contente pelo acolhimento que lhe fazia o Gama. Hoje. ou pelo bem que se possui. alegra ao público. é alegria. fazer saber o chamamento do juiz. que é afeto interior. e até imoderada. alegam-se fatos e razões. – Diz Roq. etc. exprime cada um deles seu diferente grau ou circunstâncias”. citado perante o juiz. uma pessoa estar contente. O homem alegre nem sempre é feliz. Para defender o réu. não assim o contentamento. Luiz. citamos. as pessoas. e mostra-se por sons. contentamento. regozi- jo. e peso ao nosso dito. para sustentá-lo. exultante. festivo. rompe em saltos. fizesse seu efeito no moiro de Moçambique.. vozes. quiçá louca em seus transportes. ledice. de S. alacridade. Para dar autoridade ao que dizemos. em memória de faustos acontecimentos. poética. formada da partícula reduplicativa re e gozo. muitos há que sem mostrarem alegria gozam de felicidade.. danças. satisfeito. não cabendo no coração. de alegria. mas não lhe achamos autoridade suficiente para a estimar como tal. tranquila e serena que a alegria. jubiloso. quase ufano da vida”. e só em poesia terá cabimento. ou gozo repetido ou prolongado. ou o que eles dizem. porém. dizendo que é menos viva. Pode fingir-se a alegria. e em estilo forense é noticiar. júbilo. álacre. é alegria. Quando o contentamento se manifesta exteriormente nas ações ou nas palavras. e quase sempre se aplica às demonstrações públicas de gosto e alegria. segundo a força do verbo exultar. conduz à felicidade. e produz contentamento no ânimo dos que foram causa dele. ou ledica como diziam os antigos. – Ledice. etc. Seria para desejar que o uso lhe desse a significação modificada que lhe atribui D. Citam-se os autores. Está exultante a criatura que parece ufana da sua felicidade ou da satisfação que tem. que dá alegria. – O júbilo é mais animado que a alegria.. exultação. nem a acompanha. alegou o advogado leis e razões tão importantes que por suas alegações conseguiu que ficasse de nenhum efeito a citação. causada. – Exultação é o último grau da alegria. mais suave. como diz o nosso poeta. Diríamos que o contentamento é filosófico. 231 ALEGRIA. Pode. Há velhos joviais. celebradas com festas. temperamento irrequieto. e defender-nos.156 Rocha Pombo em prova do que se diz. e pertence principalmente ao juízo e à reflexão. ou pela satisfação de que se goza. ledo. e sempre a acompanha. porque na embriaguez do espírito se deixa arrastar da força do prazer. contente. jovial. alegamos. alegre. – Fixada a diferença entre alegria e contentamento. Antes que o ardente licor.

passou para os inimigos sem astúcias com os seus próprios. pois falsário é “o que faltou ao que prometeu solenemente. – Traição é. robusto. Falso é o que nos diz aquilo que não sente. e sugere ideia de “posto à frente de alguma coisa”. a deveres ou compromissos que temos contraído. – Vigoroso refere-se à manifestação de força. valentia. e é antônimo de antes. Quem é vigoroso é capaz de empregar grandes forças. imediatamente depois”. força. reforço. posterior a alguma coisa”. – Calúnia é “a falsa imputação que se faz a alguém de atos que lhe prejudiquem a honra”. calúnia (ca- lunioso. e confundese. ou para trás. deslealdade (desleal).Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 157 “alegria aberta e serena. nas maneiras dissimuladas com que procura alguém enganar a outrem para lograr do enganado alguma coisa. vigor. aquele que exteriormente revela ter uma respiração fácil e poderosa (alento) que lhe permite fazer grandes esforços. infidelidade (infiel). ferindo ou prejudicando aquele a quem devia lealdade. e pode não ser pérfido. portanto. pois que traiu abertamente. após. robustez. traição. o “ato de faltar à fé que se devia”.. propriamente. que dissimula com ares de inocência o golpe que vai descarregar. “é aquele cuja arca do peito apresenta uma ampla superfície”. isto é. e caluniador. o que perpetra calúnia. Entre os dois vocábulos traiçoeiro e traidor há diferença análoga à que notamos entre calunioso e caluniador. aleivosia é a qualidade de ser aleivoso. também relativamente a nós. adiante. discreta e segura”. falsário). – Após é de todos os do grupo o mais preciso: diz – “logo depois. e essa capacidade . e não se poderia dizer que foi pérfido. pois a perfídia consiste em “faltar à fé parecendo fiel”. e particularmente com falso. 232 ALEIVE. que é nosso igual ou superior. Um homem alentado pode suportar grandes fadigas. Emprega-se frequentemente aleivosia por aleive. – Alentado. ao movimento. traidor). que nos promete o que não tem tenção de cumprir. praticada com má-fé. esforçado. à vivacidade que indicam aptidões para praticar atos que necessitam de esforço. segundo Bruns. fortaleza (fortidão). caluniador). mas é um pouco mais preciso que além. (traiçoeiro. – A falsidade consiste no modo traiçoeiro. possança. 233 ALÉM. pujança. É antônimo de atrás. é o que iludiu ou procurou iludir a boa-fé dos outros”. – A deslealdade consiste em faltar com alguém.. alento. Mas o traidor é sempre infiel. falsidade (falso. à traição. depois. possante. pujante. – Aleive é a própria calúnia que se disfarça. dos bons princípios morais. 234 ALENTADO. – Além. – Satisfação é “o estado de alma em que ficamos quando alguma coisa vem corresponder aos nossos desejos. potente. designa situação do que se encontra “depois de alguma outra coisa e em relação ao lugar que ocupamos nós: é antônimo de aquém. aqui. com perfídia e infidelidade. – Calunioso é aquilo que envolve calúnia. forte. vigoroso. reforçado. deve notar-se que o segundo tem uma significação especial e precisa que seria bastante para excluí-lo deste grupo se não fosse a ideia fundamental comum que o põe em relação com os demais. – Adiante é também aplicado para designar ordem de situação. aleivosia (aleivoso).. esforço. valente. etc. aos nossos sentimentos”. – Depois quer dizer – “em seguida. Calabar foi traidor. Entre falso e falsá- rio. além da distinção sob o ponto de vista das funções gramaticais. perfídia (pérfido). O homem desleal é o que sai das normas. potência.

e designa a arma que se julga corresponder ao gladius dos latinos. que potente adita à noção de “poderoso. porque Cícero diz na oração pro Marcello: Gladium vaginâ vacuum in urbe non vidimus – “não vimos na cidade espada desembainhada”. “É à valentia dos soldados. etc. que se impõe pelo enorme poder dos músculos” (possança). O homem robusto tem membros atléticos. – Gládio é a palavra latina gladius. ou álcool de fortidão maravilhosa”. montante. usada em sentido figurado por escritores de boa nota para designar o poder supremo. tórax amplo. ou do antigo castelo. que sendo de pequena estatura. – Robusto (do latim robur “força”) diz-se da pessoa que no vigor muscular. Com gladios na segunda forma.158 Rocha Pombo manifesta-se exteriormente. espada.” “O gladiador estava ainda em toda a sua pujança”. – Possante quer dizer – “que tem grande força. gládio. mas deve ter-se como provado que se metia em bainha. disse: Quis generum meum ad gladium alligavit? – “Quem foi que atou meu genro àquela espada?” O primeiro talvez que usou esta palavra em sentido reto. Não se sabe ao certo qual era a forma desta arma ofensiva entre os romanos.. é a qualidade de ser forte”. que pujante se diz daquele que é capaz de vencer em pugna.. dos braços. pois dizemos também: a força da dinamite. sabre. no entanto. que vem do latim bárbaro spatha. – é palavra italiana e castelhana. revela força e saúde. durindana. onde diz: Detrás dos Vexillarios vão Hastatos. Há pessoas magras que são fortes. foi Filinto Elysio. – Espada – diz Roq. das pernas. pois o vigor manifesta-se na energia dos movimentos. Confunde-se com pujante e potente. cimitarra. quod ad cladem sit inventus). É reforçado o homem que tem mais desenvolvidos os órgãos de ação física próprios para uma certa função ou esforço: reforçado do peito.. – Esforço é a ação moral ou física de que alguém é capaz. preferimos dizer força.. mesmo quando não as emprega: o movimento dos membros. terça- do. trazia uma grande espada à cinta. “A potência daquele espírito. a ideia de ativo. que se deveu a vitória”. daquelas grandes virtudes ou daquelas construções maravilhosas”. que. como em latim. contudo. 1. “Quando operou aquela possante máquina de guerra. aumento de vigor”. movimentos pausados: nisto se distingue sobremaneira daquele que é vigoroso. vem de cladis “matança na guerra” (quasi cladius. e que possante sugere ideia de “opulência de força” e “majestade de aspeto. – Fortaleza é “a energia moral. Quando essa capacidade é atribuída aos animais. Este vocábulo. energético. Afinal essas distinções não são essenciais. – Forte é um termo genérico que exprime o poder de obrar ou de resistir. – Reforço é “acréscimo de força. e também um castigo de . 235 ALFANJE. Foi. que significa “espátula”. só se aplica à força exercida pelo homem. a fortaleza daqueles muros. “A alma potente do justo a nada cede”. É preciso notar. “Matéria explosiva. E zombando de seu genro Lentulo. segundo Varrão. na forma opulenta dos membros. a fortidão do seu gênio. E se se trata da propriedade correspondente nos inorgânicos. – Valente é aquele que não teme o perigo e é capaz de enfrentá-lo. chanfalho. sem nenhuma ideia acessória. o seu jogo enérgico mostram o vigor latente. “O leão tem mais força que o burro”. tanto pelo menos quanto à bravura do general. Exemplos: “A fé aumenta a fortaleza das almas”. e que era longa.” – Força é “capacidade de ação ou de resistência física”. que se punha à cinta. 6. na tradução dos Mártires. O indivíduo esforçado é o que tem qualidades para vencer pelo trabalho. do grego spathe. portanto. e espada de folha larga na ponta. eficaz”.”. etc. assim como as há muito corpulentas que não são robustas. dizemos fortidão..

Mui sensato é este parecer.. e também ao conseguimento do objeto que nos propusemos. e de três dedos de largo”. quos semispathas nominant – em que não poderíamos deixar de empregar os dois vocábulos gladio e espada.. de uma conversação. definitiva. Luiz) que se use esta palavra em sentido reto quando aludirmos aos usos bélicos dos romanos. e usada por Fr. e cada ano cortada . Alfim denota que. – Durindana é termo cômico e burlesco. 24). gladios majores. – Alfanje é espada mouresca e turca. do Couto)” – Chanfalho é termo vulgar. velha. Segundo a preposição que se lhe ajunta. diz: “Como homens alfim levantados do pó da terra. de aço fino. – Quer o autor dos Sinônimos da língua portuguesa (D. As duas primeiras não resolvem absolutamente. et alios minores. – “grande espada antiga. por fim. diz: “Flor enfim da terra. de um discurso. Miguel de Asnide era tão agigantado que trazia na cinta um montante por espada ordinária (D. de que usam os valentes e denodados cavaleiros em suas lides. irrevogavelmente. falando dos habitantes de Moçambique. mas é mister distingui-las. quos spathas vocant. Chama-se fim ao termo material de uma coisa.. pois Camões. – Montante – define Aul. Fr. – Enfim é um modo translatício. que significa. como os franceses da sua flamberge. não. e por ele se designa uma espada grande. – Mais positivo e terminante que as duas expressões anteriores é o advérbio finalmente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 159 Deus. de Souza e por Vieira”. – Diz Roq. por última conclusão. que se brandia com ambas as mãos para acutilar por alto. Depois de enumerar os formosos dotes de Helena. – Sabre é “espada pequena. é mais ou menos extensa. pelo que também se lhe dava o nome de espada de ambalas mãos. como disse Camões. Falando ele dos apóstolos.. pesada e terrível. enferrujada. tivemos alfim a ventura de sair bem em nossa empresa”. ou que desejávamos. curta e curva.. ou pelo menos mais curta que o terçado. resta que se adote e se observe: do que duvidamos em tempos em que se vêm postergadas outras mais importantes observações acerca de nossa tão maltratada língua. afinal. ou o fim dos fins. enfim. de uma arenga. terminou seu discurso”. é espada curta e larga. que “alfim é expressão castelhana mas admitida em nossa língua. De Re Milit. disse: Por armas têm adargas e terçados. que tem só um gume. (Lus. 47). – Cimitarra é “espada pérsica. falando da peste: “O gladio que feriu o povo”. 236 ALFIM. decisiva ou positiva sua significação. depois de se haverem vencido todos os obstáculos. ainda mais burlesco do que durin- dana: é “grande espada. e poética. L. I. ou das areias da praia. – Terçado do castelhano terciado. pelo que nos atreveríamos a dizer que é a conclusão das conclusões. pelo comum desejada. ao cabo de tantas fadigas. deixam alguma coisa que esperar: a terceira.. II.. de figura curva.. Os seguintes lugares de Vieira talvez possam servir de modelo neste caso. e os espanhóis da sua tizona. F. e assim dizemos: “Depois de havermos gasto tanto. que designa a conclusão. de S. e nomeadamente se houvéramos de traduzir aquele lugar de Vegecio. É palavra muito usada nos clássicos. 15: Habent. Confundem-na muitos com enfim e com finalmente. ou de uma enumeração: “Enfim acabou de falar. logramos nosso intento. larga. para zombarmos da valentia dos fanfarrões que se gabam de façanhas inauditas. É hoje usada na gendarmeria”. finalmente. e assim nos servimos desta palavra.” (II. senão usando de um circunlóquio extenso e escusado. que não corta”. que depois de não poucos esforços de seu Mestre foram elevados a tão alta dignidade.

etc. 146). levou-nos por fim ao parque. isto é. dizemos afinal. certos. – Alheio indica apenas que o objeto não é nosso. – Alhures (pronuncie-se alures) exclui o lugar em que estamos. Não obstante. subentendendo-se que é quase sempre a de morte. é simplesmente o que executa a sentença. Cobiçar o alheio é cobiçar o que não é nosso. (III. carnífice. algoz é esse indivíduo. “Carlos I de Inglaterra foi executado por um algoz mascarado que se prontificou a substituir o carrasco que havia desaparecido”. cobiçar o que é de outrem é cobiçar o que pertence a determinado indivíduo. senão já quase desconhecido. tanto à vista como no sítio de que se acaba de tratar. posto que se refira igualmente a pessoas ou coisas indeterminadas. – Carrasco e verdugo designam o indivíduo que tem o ofício de executor. e aplica-se hoje com sentido análogo. além. – algures. e o primeiro não só pouco usado. 241 ALI. verdugo. carrasco é termo popular. são: “denominações comuns ao executor da alta justiça nos países onde vigora a pena de morte”. mas afirma que outrem é seu dono. – .). – Alguns “refere-se limitadamente a pessoas ou coisas indeterminadas. nem é preciso indicar. ou outro qualquer (que faça de algoz contra alguém. Entre alheio e estranho também se nota a seguinte diferença: o alheio não é nosso. – Quanto aos três primeiros. – Algoz é termo culto. (XII. que aquele que fala não conhece bem. – Executor substitui a quase todos os outros do grupo. ou que lhe não ocorrem. para designar o indivíduo que imita contra alguém as funções do sacrifício. es- tes dois advérbios “são atualmente pouco usados na linguagem culta. sacrificador.. a ser sacrílega. são muito expressivos. da execução religiosa. sem determinar o lugar. alheio e de outrem – escreve Bruns. – Carnífice diz – “homem sanguinário. ou da tortura como cerimônia de culto.. o estranho não só não é nosso. ou que é capaz de fazer morticínios”. diz Bruns. isto é. de outrem.. é menos vago. e por certo merecedores de serem revividos”. – A locução por fim equivale a “finalmente”. e dá a entender que são conhecidas e que se poderiam nomear se necessário fosse”. (Roq.” 237 ALGOZ. – Ali diz propria- mente – “naquele lugar”. por isso mesmo. estranho. carrasco. “em conclusão”. 5).160 Rocha Pombo 238 ALGUNS. “Depois de nos mostrar toda a casa. 239 ALHEIO. – Sacrificador era o encarregado de sacrificar as vítimas entre quase todos os povos antigos. próprio da poesia e do estilo elevado. 240 ALHURES. acolá. O segundo. de outrem não só indica que o objeto não é nosso. verdugo é palavra castelhana que se introduziu na língua portuguesa. senão que ignoramos se tem dono”. que faz. alhures = “noutra parte”. lá. – Segundo Bruns. “algoz diz-se melhor de quem martiriza moralmente. que o flagele e martirize como se quisesse tirar-lhe a vida). dos que martirizam moral e fisicamente”.. e que passou.. No sentido figurado. carrasco e verdugo. executor. aí. – “Entre com o arado do tempo”. algures. “Afinal chegou o nosso dia”. E começando aquele famoso exórdio do sermão sobre o dia de juízo. algures = “em algum sítio”. – há uma muito leve diferença. não exclui nenhum. diz: “Abrasado finalmente o mundo”. suficiente não obstante para que em muitos casos as duas expressões não possam empregar-se indistintamente. – Resta-nos dizer que o primeiro do grupo é hoje muito pouco usado: em vez de alfim.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 161 Lá significa – “naquele outro lugar”. união. cada Estado. povos.. consórcio. – “Aliança é a união de vontades e forças para fins determinados. pelo contrário a palavra liga toma-se quase sempre em mau sentido. enquanto que a coalizão se faz entre Estados. 242 ALIANÇA. liga. com que se soleniza esta festa de família.” (D. entre reis. e também as bodas que a este se seguem”. – Núpcias é palavra latina. Aliança diz-se com respeito às pessoas e às coisas. embasa- mento. – Confederação é “uma união. – Acolá diz – “ali. porém menos duradoira. bodas. – Bodas. corporações. ou cada partido volta ao seu anterior antagonismo. ou mesmo não visível”. coalizão. núpcias. que. do outro lado de um lugar ou um acidente à vista.. A aliança entre soberanos (ou entre Estados) forma-se por via de tratados.. porém liga. base. – Noivado é “expressão vulgar com que se designa a cerimônia religiosa do matrimônio católico. ou à anterior indiferença”. nem produz resultados iguais. entre homem e mulher. ou entre partidos que não têm interesses opostos. confederação. segundo Roq. Há homens que contraem alianças que não estão em relação com a nobreza da sua prosápia. “a palavra aliança refere-se ao que da união é aparente e se relaciona com as convenções sociais. têm interesses ou sustentam princípios diametralmente contrários.). ou entre partidos que. na parte oposta àquela em que estou. e dela difere em que a liga se celebra geralmente entre Estados. e as condições. sem relação necessária às leis religiosas ou civis de cada nação. – Liga é uma semelhante união. e refere-se propriamente às solenidades legais. isto é – no lugar que não é o em que me encontro eu presentemente e que está distante de mim. para realizar-se. mas que não é o que eu ocupo. supõe maior formalidade. etc. – Casamento é o vocábulo que exprime a associação do homem e da mulher. nuptiœ. – Além significa – “mais para diante. A coalizão visa a matrimônio. – Alicerce (ou alicerces) é a “parte sólida. – Matrimônio. exprime o contrato. José de Lacerda). sem nenhuma outra ideia acessória”. – Neste grupo. refere-se às pessoas. fundamento. ao rito e aparato com que costuma celebrar-se o matrimônio. conseguido este. (Bruns. que obrigam as nações que se aliaram”. É termo genérico do direito das gentes. – Aí quer dizer – “nesse lugar”. convertem-se em regras de direito público. em circunstâncias normais. isto é – no lugar em que se encontra a pessoa a quem nos dirigimos. peanha. comumente. – Coalizão – diz Bruns. Duas pessoas de gostos diametralmente opostos formam uma união desgraçada. não impediram a aliança de duas famílias. 243 ALIANÇA. e não requer as formalidades com que se estipulam as alianças. com que é estabelecida. Assim dizemos que a diferença de religião. noivado. significa o festim doméstico. nem o que está ocupando a pessoa com quem falo”. – União é a palavra que mais se relaciona com as conveniências pessoais dos cônjuges. A palavra aliança toma-se indiferentemente. do castelhano boda. 244 ALICERCE. naquele lugar que está à vista. e sobre a qual assentam os muros de uma constru- . encravada no solo firme. a desproporção das fortunas. o banquete nupcial. etc. e tem lugar mediante convenções particulares. casamento. um fim. maciça de alvenaria. que se refere precisamente ao contrato. pelo qual dá um ao outro poder sobre seu corpo. podendo ser boa ou má. – “é uma espécie de liga momentânea. pedestal.

O fundamento está oculto na terra. cuja base assenta nos fundamentos do templo” (Volt. às vezes movediça. Uma montanha é abalada até nos seus fundamentos. apoderar-se da vontade e da ação de alguém para fins criminosos ou indignos”. muito mais o corrompido. soco e cornija. o embasamento sobre os alicerces. é coberta de habitações ou de verdura. escambiar. o aparelho de solidez e segurança sobre que repousa um edifício: é o vocábulo embasamento. e indica um corpo sólido. com ofertas e pagas. Há uma palavra que parece mais técnica para designar o assento geral.. tra- ficar. – Subornar é “induzir de qualquer modo. as estátuas monumentais. a base está acima da terra e se vê: cavam-se. (J. apoio”. boas palavras e artes”. como estes assentam sobre os fundamentos. – Fundamento (aqui. e tratando-se de edifícios. de uso tão frequente no sentido figurado. de pied. – Aliciar é “trazer alguém para o nosso partido. O ato de corromper envilece tanto o corrompido como o que corrompe. ou uma coluna: sua base é seu pedestal. a qual não se inclui. iludindo a boa-fé. fazendo-lhe promessas. engodar. corrompendo com habilidades e finuras”. lançam-se fundamentos. cambiar. como um rochedo. “Não basta que a virtude seja a base de vossa conduta. corromper. mas não um fundamento ou fundamentos. e do teutônico stall.162 Rocha Pombo ção”. que o caracteriza. Mas o que é decisivo na escolha entre estas duas pa- lavras. Base emprega-se ordinariamente no singular e falando de um objeto pouco extenso. J. e designa a peça de pedra ou de madeira. etc. poderia confundir-se com alicerce se este não sugerisse a ideia. subornar. “por todos os meios ilícitos e desonestos. se não estabelecerdes essa base mesma sobre fundamentos inabaláveis”. seus fundamentos são como suas raízes. 245 ALICIAR. “base.). sobre que assenta uma construção”.. falando-lhe às ambições”. aqui. – “Peanha é palavra portuguesa formada de pé e anha. é que “fundamento encerra a ideia de solidez. melhor no plural) é “toda a área de solo. tinha uma base (Roll. – Alienar exprime a ideia geral que os outros verbos deste grupo especializam: a ideia de desfazer-se . que alguns querem seja corrução de lignea. trocar. – Pedestal (do francês piédestal. e varia segundo as ordens de arquitetura”.). assenta-se uma base. consta de base. pelo menos nem sempre. a que falte alguém com o seu dever”. 246 ALIENAR. – Corromper é. – Sobre fundamento e base escreve Laf. pois. – Base é termo geral. permutar. enquanto que base designa apenas “os pontos por onde começa o edifício a erguer-se do solo”. sensível diferença: embasamento não é mais do que tudo aquilo que acima do solo serve de suporte ao edifício: assenta. na palavra base”. – Seduzir é “desviar do reto caminho. chamada em francês tortue e que era móvel. “pé”. enganando com artifícios. de apoio firme.: “Fundamento usa-se mais no plural.). no entanto.. é termo de arquitetura. – Engodar é “atrair com presentes e mimos. O fundamento é aquilo sobre que assenta a base. que sustém as colunas. no entanto.. na maioria dos casos. pei- tar. “pôr alguém a nosso favor e levá-lo a fazer o que é do nosso interesse”. compreendendo a estrutura subterrânea. seduzir. significando “a parte inferior sobre a qual repousam os corpos”. ordinariamente de mármore. ou como seu pedestal”. “O mago encerrou-me numa estátua colossal. vender. e tratando de um edifício. “de pau”. a máquina de guerra dos antigos. e sua base tem tanto de circunferência. – Peitar é “por meio de paga. sobre que se põe estátua ou busto.. Entre este e fundamento há.

ou com sacho. permutar significa – “trocar de posto. passá-la a outrem. Os poderosos do sé- inventariar. ou que há permuta entre os dois países. Catalogam-se livros. Alimenta-se o pobre com umas sopas. poda. No sentido figurado. arrolam-se os instrumentos e armas indispensáveis para a viagem. Se a cessão é feita mediante dinheiro. é arrolar e descrever minuciosamente os bens de um espólio ou de uma execução. que os dois países permutam. mas sugerindo ideia da indagação e pesquisa que faz o que inventaria. – Alimentar. – Catalogar é “arrolar em certa ordem. da ferrugem e outros parasitas que os cobrem.. 247 ALIMENTAR. arrolar. Tanto assim que se diz: alistou-se eleitor. de cedê-la. – Alistar distingue-se dos outros deste grupo em sugerir a ideia de inscrever com certa solenidade a pessoa que se alista. Relacionam-se os objetos que vão para o depósito. e que se estabelecessem assim entre os dois mútuas relações de comércio. – Sustentar significa prover do necessário para a vida. de emprego. indica a operação de trocar. – Manter diz propriamente – “conservar alguma coisa como está. nutrir. Para haver permuta seria preciso que do país onde se vendeu ou trocou fossem também mercadores ao outro país.” – Inventariar. – é o ato de cortar os ramos desnecessários ou nocivos à existência da árvore. Nutre-se o rico de bons manjares.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 163 alguém de alguma coisa. manter. culo sustentaram com sua influência e conselhos muitos erros e heresias”. Arrola-se a roupa. e com explicações que facilitem a respeito das coisas catalogadas o que se deseja saber de cada uma. no seu lugar. – Monda se diz do ato de arrancar à mão. As pessoas caritativas sustentam muitas famílias necessitadas. não se pode dizer. alguma diferença entre permutar e trocar. Há. dizemos que foi trocada. sem mais ideia alguma acessória. principalmente na vinha. “troca”) distinguem-se assim: escambar. Fora do comércio. – Poda é “o ato de cortar a rama supérflua que de ano para ano fica nos vegetais. dizemos que a lenha alimenta o fogo. relacionam-se fatos.. Mantém-se a família. mantém-se a promessa. diz o mesmo que relacionar. 248 ALIMPA. que diz apenas – “pôr em rol”. etc. mas mediante dinheiro (vender).” 249 ALISTAR. Haverá troca. as más ervas que crescem entre os cereais. catalogar. .. – Nutrir explica esta mesma necessidade satisfeita em proveito do indivíduo pelos bons resultados da digestão. a água as plantas. os que ficam. sustentar. que é pouco usado. etc. no entanto. que “se refere à ideia da necessidade que de comer têm os seres viventes. e cambiar é mais propriamente “trocar moeda de um por moeda de outro país”. na acepção jurídica. o primeiro verbo sugere melhor a ideia de mutualidade entre os que fazem a transação. diz Roq. e nutre-se com as verdades da filosofia. papéis. – Relacionar é “dar em relação com as informações precisas”: ideia que se não encerra em arrolar. não propriamente permuta. dizemos que se vendeu. tráfico. alistou-se no partido (e não – relacionou-se. nas condições em que se encontra. a atitude. em geral. dar o sustento. de lugar”. ou que se a permutou. – A alimpa – diz Bruns. nem – arrolou-se). por exemplo) levar artigos de comércio. se damos uma coisa por outra. a comida diária. limpando ao mesmo tempo. Quando os mercadores de um país vão a outro (ou vão entre bárbaros. a opinião. só por isso. e. monda. O literato alimenta-se lendo Horácio. e os trocam por outros desse país. relacionar. – Cambiar e escambiar (do mesmo tema cambio.

do grego. Diferem apenas. no seu romance Divina Pastora. segundo o prof. usado entre os tropeiros e homens do campo. Estojo de desenho. acrescenta o mesmo autor. É. mala.. cesto de feijão (e não – cesta). a fim de resguardar ou de os transportar)”. assim define esta palavra: “Cinta de coiro lavrado. Vieir. pois são sempre duas as bruacas.” (Aul.). de modo a formar como dois sacos ou compartimentos. e serve para guardar ou conduzir pão.” – Seira = cesto de palha. farinha. Coruja. – Mochila é “uma espécie de saco de sola para trazer roupa e outros artigos de uso que os soldados de infanteria e de caçadores em marcha põem às costas. segundo Aul. guaiaca. ou folhas de palma. de coiro ou de pano. peçuelos) é uma bruaca menor. – Açafate (ou çafate) = “pequeno cesto tecido de vimes delgados e descascados. que o próprio cavaleiro leva consigo à garupa. e que serve para conter ou transportar roupa.” – Mala é “saco de coiro. mochila. servindo para guardar objetos de costura. Coruja que o dr. cesta. ou mesmo de cabedal. com bolsa para guardar dinheiro e mais misteres de um viajor”. de palha. que se conduz sobre cangalhas em viagem”. cesta. e mais ou menos semelhante a uma bolsa para dinheiro”. pois. de alforjes apenas em serem de coiro. papéis. quanto à origem: aljava nos vem do árabe. pois. sem arco ou asas. e diferentes objetos”. em uma nota. – Picoá. Diferem. que se põe sobre as bestas de carga”. Usa-se mais no plural. carcás. como se vê. em forma de alforje. e ordinariamente de forma retangular. – Diz Bruns. etc. Diz o prof. geralmente com asas. um nome indígena mais equivalente a alforje. picoá. de três ou quatro dedos de altura. é “mala de algodão ou linho com abertura no meio: serve para conduzir roupa ou mantimentos em viagem. feito de varas entrançadas. seguro por meio de correias”. Assim o define o prof. de cascas de embira. ou sobre as cavalgaduras. – Cabaz = “cesto fundo. peçuelo. V. que a primeira e a terceira palavras deste grupo – aljava e carcás – são sinônimos perfeitos e com qualquer delas se designa o estojo onde se metem as setas e que se traz pendente do ombro. com divisões e escaninhos. e com a abertura no centro. acrescenta que é ordinariamente redondo. carcás. Usa-se para trazer ao ombro. de taquara partida. estojo de costura. bordados. descoberto (ou mesmo com tampa móvel). rendas e também flores. Também se costuma chamar sapicoá”. alforje. etc. alcofa. – Bruaca (ou broaca) é termo nosso. e outros quaisquer objetos”. a fim de igualar o peso dos dois lados”. etc. balaio. esparto. lona. e em que se leva fato de jornada. – Cesto é uma cesta mais grosseira. No Bra- sil dizemos – cesta de costura. de junco ou de esparto. cesta de roupa suja (e não – cesto). – Peçuelo (ou melhor. dobrada. (D. que serve para conter frutas. frutas. – Cesta é “vaso grande. – Bolsa é “um saco de qualquer estofo. para guardar coisas de uso. – cesto de bananas. de junco. e este poderia comparar-se a bolsa ou estojo se não fosse a particularidade de ser a guaiaca presa sempre à cintura. oleado ou pano. “um saco fechado em ambas as extremidades. Dom. Seirão = “seira grande. quase . de madeira. – Estojo é “uma caixa. seirão. etc.) – Balaio é “cesto grande. José Antonio do Valle. – Guaiaca é outro. seira. cesto flexível de vime. – Alforje (usado comumente no plural) é. jacá. es- tojo. – Saco é “peça de pano ou de coiro. fechada por todos os lados menos por um (a boca) destinada a conter provisoriamente diversos objetos miúdos. Pereira Coruja: “espécie de saco de coiro.. saco. bolsa. fechado ou não com cadeado ou chave. açafate. largo e leve. segundo definição de Aul. para que se equilibrem sobre o animal.164 Rocha Pombo 250 ALJAVA. etc. – Alcofa é. aparelhos de profissão. cabaz. etc. madeira. grande. bruaca.

mas não são almas. do movimento de todos os seres viventes”. a gélida indiferença (não – gelada).” – Gélido é termo poético. Falando do homem. querendo encarecer o valor da alma sobre o corpo. Além disso distinguem-se estes adjetivos por sua diferente significação. e clima frígido significariam outra coisa). Dizemos: clima frio. nutrir”. segundo.. re- gelado.. “respirar”. É provavelmente esta última definição que caracteriza a diferença entre os dois. eu. sem relação nenhuma com o corpo. ânimo. outros. gelado. glacial. primeiro em encerrar a ideia de princípio subtil. em sua significação mais lata. Noutra acepção. aos sentimentos. Os gregos designavam a alma pela palavra psyche. glacial é científico. espírito.. “privado de calor”.. briosa. “alma. “ar. ao pensamento. que anima ou animou o corpo. feito de esparto ou de taquara”. aos afetos. e assim dizemos: as almas do Purgatório. gélido. ar que se respira. Daí vem chamar-se psicologia à parte da filosofia que trata da alma. glacial. – Jacá = “cesto grande e grosseiro. zona frígida (zona fria. de spiro. os anjos. devendo notar-se que. e vale o mesmo que sopro ou hálito. sopro. à inteligência. sendo que espírito só indica substância imaterial. em denotar inteligência. 251 ÁLGIDO. exprime qualidade ou modo de ser. frigidus) diz também “frio. faculdades intelectuais ativas que àquele só são acessórias. inteligente e livre. Frígido (do mesmo latim que deu frio. termo latino que vem do grego anemos.. almas do outro mundo. alma e espírito nem sempre são sinônimos perfeitos. e talvez com mais razão. profundo. mas nenhum se lembrou ainda de dizer que o espírito era matéria. Vieira disse. – Gelado quer dizer propriamente – “reduzido à temperatura do gelo”. “que quer dizer respiração”. o princípio. ou “que não é quente”.) – Frio significa propriamente “sem calor”. coração. Dizemos: o gélido cadáver (e não – gelado). ainda depois de separadas deles. água gelada (e não – gélida). empregado mais no sentido moral. do que está frequentemente gelado. alma refere-se aos atos. (Bruns. e que tem o espírito penetrante. e significando o mesmo que gelado. chamam-se almas. Alma desperta ideia de substância simples. alento”. “sopro”. nobre. alere. onde há muito frio”. os demônios são espíritos. vasto. frio. qualifica-se de álgido ao que vive no que é glacial: as plantas e os animais álgidos vivem nas regiões glaciais”. espírito.. – Se- gundo Roq. “vivificar. Diz-se que um homem tem a alma grande. derivam a palavra alma do verbo latino alo. Os filósofos materialistas têm querido negar à alma humana a qualidade de espiritual. senão em alguns. ou mais frio do que o gelo. vem de anima. Álgido se diz do que comunica a sensação do gelo. invisível que não é essencial ao outro vocábulo. a que os franceses chamam revenants. a causa oculta da vida. Espírito difere de alma. – “Álgido é termo científico e poético. e davam-lhe a mesma extensão que nós damos à palavra alma. para condução de coisas miúdas”. frígido. do sentimento. No sentido figurado. falando do demônio: “É espírito: vê as almas”. poético e da linguagem vulgar.. diz: “Tudo isto que vemos (no . melhor do que este (que designa apenas estado quase sempre). 252 ALMA. Deus. – Espírito é a palavra latina spiritus. nem em todos os casos se podem empregar indiferentemente. are. no entender de alguns etimologistas. representa esta palavra. as substâncias espirituais que animaram os corpos humanos. Seja qual for sua etimologia. isto é. tal é aquele de Vieira em que. – Regelado é redobramento do precedente e diz – “muito frio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 165 sempre com asas.

Além do calendário folheto. Particularmente. além do calendário do ano. o princípio das estações. – O calendário indica a ordem e série de todos os dias do ano. designa um folheto ou livro (e às vezes livro bem alentado) em que. re- pertório. Segundo os afetos que o ânimo experimenta. ou do rumo que se há de seguir nalguma viagem. designa também o santo ou a festa própria de cada dia do ano. esforçado: o que com propriedade (em muitos casos) não se poderia dizer de alma. soberbo. ou altivo. Também dizemos: espírito baixo ou altivo. dispostos por meses. ou quando nela se vê apenas a faculdade intelectual. – Indicador será um guia mais particular: indicador das ruas. – Em linguagem filosófica. no sentido restrito que tem neste grupo. abatido. calendário. eu é a alma. segundo a índole das pessoas a que é destinado. ciência ou arte”. pois. só folhinha e repertório são genuinamente portugueses. e ainda menos de espírito”. às repartições oficiais. chamamo-la espírito.166 Rocha Pombo homem) com os próprios olhos é aquele espírito sublime. indicador. – Diz Bruns. – Roteiro. “órgão dos afetos”. nem sempre é de rigor a distinção que faz Roq. pode ele ser baixo. grego. – Prontuário é o “manual onde se acha prontamente o que se quer sobre algum ofício ou profissão”. – Repertório é uma espécie de almanaque acomodado às necessidades da gente do campo. epacta. que se compõe de folhas sobrepostas que se vão retirando uma a uma cada dia. palavra árabe introduzida na língua espanhola. que contém em resumo aquilo que é indispensável em algum ofício. – Ânimo é a mesma palavra latina animus. Na sua significação primitiva vale o mesmo que alma. moderna na nossa língua com esta acepção. fórmulas ou noções de uso frequente em algum ofício ou profissão”. – Vademeco (latim vade mecum) = “folheto com indicações ligeiras. manual. vademeco. da coragem etc. é o indicador dos pontos por onde se tem de passar. – Folhinha é o calendário adequado ao uso do povo. dos caminhos de ferro. as fases da lua e as variações dos dias. indicação romana. ou intenção. ciclo solar. para uso do clero.) – Manual é vademeco mais extenso. – A palavra anuário. é uma espécie de almanaque cuja utilidade é particular às casas de comércio. e que passou desta para todas as línguas europeias. se indicam os eclipses. do mesmo modo que anima. – Guia. esforço. vil ou soberba. – Coração só pode ser tido como sinônimo de alma e de espírito: de alma. anuário. quando se considera a alma como ser pensante. e nisto se distingue de alma e espírito (se bem que nem sempre essencialmente). imenso – a alma (II. porém o uso tem preferido este vocábulo para designar a faculdade sensitiva e seus atos: representa. etc. humilde. ou de mero passatempo. quando exprime. número áureo. guia dos lavradores. alma esforçada ou abatida. é folheto ou pequeno livro em que se encontram todas as indicações indispensáveis aos que se ocupam de algum serviço: guia dos viajantes. e. “que de todos estes vocábulos. letra dominical. . aqui. quando é tomado como sede da fortaleza moral. de anemos. grande. há o calendário parietal. nobre. – Almanaque. “livro pequeno. de espírito. e à burocracia em geral”. prontuário. 71). 253 ALMANAQUE. ardente. vil. Como notamos entre parênteses. guia. é provido de vária leitura e indicações interessantes. elevado. é o conjunto das faculdades que formam a individualidade psicológica. quase sempre valor. roteiro. como esta. (Usa-se neste caso mais propriamente de itinerário. folhinha. entrada e saída do sol em cada um dos signos do Zodíaco. vontade. espírito. há também folhinhas eclesiásticas.

oração. etc. a pessoas eminentes. por isso. – Desejar é “ter vontade de conseguir ou de gozar alguma coisa: é querer com mais gosto”. próprio dizer que F. animado e vivo. de nutrir.. prédica. proclamação. – Almejar é “desejar ardentemente. no entanto. que nutre. honras. as sublevações de seus exércitos com eloquentes e veementes arengas. dis- curso. – Aspirar é “desejar com esforço e veemência”. tomam diferentes nomes. apetece riquezas. 255 ALMO. Nutriente (do latim nutriens) quer dizer “que nutre”. – Cobiça-se a bengala. por isso que se razoa e se empregam razões para conseguir o fim que se deseja”.ere) diz “fecundo. em notáveis circunstâncias. Como diz Roq. e mui comumente para animar os soldados a empreender com denodo a batalha ou qualquer ação perigosa. – Deseja-se recobrar a saúde. arrazoamento. como tendo por fim persuadir e mover. – Apetecer é “desejar alguma coisa como por necessidade de ceder a exigências da própria natureza”. – Pretender é “desejar coisas muito altas e de grande monta. que alimenta. São arengas também os estudados e cerimo- . 167 apetecer. em perigosas e decisivas circunstâncias. homilia. segundo a contextura. que. panegírico. Em contrário sentido fazem os grandes conspiradores arengas ao povo. preleção. Tudo o que se diz de viva voz a um auditório mais ou menos numeroso. como as que Salustio põe na boca de Catilina para animar e enfurecer a seus cúmplices. que andam quase sempre os dois aplicados indistintamente. ou o que está acima dos nossos méritos”. de alo. A arenga dirige-se. criador. ou fazer as pazes com o amigo. pretender. – Entre nutriente e nutritivo há esta diferença: nutritivo (de formação vernácula) significa “de nutrição: que tem a propriedade de ser nutriente”. 256 ALOCUÇÃO. ou possuir alguma coisa que nos agrada. Dizemos: as qualidades. Arengas são as que os antigos generais faziam a suas tropas em vésperas de combate. desejar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 254 ALMEJAR. Não seria. sermão. e têm entre si algumas diferenças. arenga. que faz crescer”. é um arrazoamento. cobiçar. nutritivo. – Cobiçar é “desejar o que não nos pertence. conferência. ou de o excitar a alguma ação ou empresa. elogio. de todas as deste grupo. de produzir forças. – Aspira-se um bom lugar na administração. as quais devem atribuir-se antes ao artifício retórico dos historiadores e poetas que à eloquência dos seus heróis. – Apetece-se quanta fruta se vê nas mercearias. ou propriedades nutritivas de um produto vegetal (e não – nutrientes). nutriente. criador. e com serenidade e confiança nos votos com que se espera pela coisa almejada”. fala. o cavalo do Pedro. vencer um embaraço. ambicionar. Ambiciona-se uma grande fortuna. para excitá-lo à rebelião. com o fim de o convencer e persuadir. prática. é a mais extensa. os fins e as circunstâncias. que se dirige a um grande concurso para comovê-lo. – Arenga é uma espécie de arrazoamento oratório. o leite é muito nutriente (e não – nutritivo). ao coração. – Almo (do latim alimus. querer do fundo da alma. – Almeja-se voltar à casa dos pais. poder. – “é o gênero a que pertencem como espécies todas as composições oratórias. Arenga-se também a corporações respeitáveis.. Os sábios e valorosos generais a acalmaram muitas vezes. – Ambicionar é “desejar demais. ou um alto posto na política. É certo. – Criador é aquilo que é capaz de gerar. e que excedem muito a nossa capacidade”. – Pretende-se um cargo de importância ou chegar a almirante quando se é simples marinheiro. imoderadamente”. aspirar. – A palavra arrazoamento. pois.

. a estes arrazoamentos públicos orações. que em seu sentido reto é um arrazoamento ou alocução disposta com inteligência e arte. e só se dá de superior para inferior. – Prática é exortação menos solene e menos veemente que arenga. em grandes momentos. que significa “falar. pensamentos. – Sermão é “uma prática religiosa. para chegar aos fins que nisso propôs: o que verifica por uma dedução de ideias. – Preleção é o mesmo que “discurso didático. Há. favoreça.. ou a um ser superior. – Prédica é o mesmo que prática religiosa. agora lhe chamamos discursos no sentido oratório. rogar”. o superior a seus súbditos. “boca”. por ocasião de algum notável acontecimento que interessa a Igreja. De modo que àquilo que os antigos chamavam oratio. do alto do púlpito”. enquanto que “prédica sugere mais a ideia de anunciar. e que nós traduzimos pela palavra oração. proclamar. Diz-se ordinariamente do que o Papa dirige aos cardeais em consistório. mental. João de Castro. o general à sua tropa. e feita com certa solenidade. – Alocução é discurso breve. de causas particulares em que ele devia decidir. como as de Isócrates. dizer muito alto”.. perante o povo. como devida homenagem que se lhes rende e jura. de Mirabeau. de explanar”. sobre questões de alta monta. ou fala dirigida a alguém sem aparato oratório. ou prática em que se explica uma lição”. uma diferença muito subtil entre estes dois vocábulos: “prática sugere intenção de instruir. a defensa.” – Fala é termo vulgar que vale o mesmo que prática no sentido em que aqui a tomamos. socorra. ou nos perdoe as faltas que havemos cometido. Esta palavra é mais bem recebida entre o vulgo do que arenga. a formação e aprovação de leis. vocal. ou sacropolítica. tais são as que Jacinto Freire põe na boca de Coge Cofar e de d. falando do primeiro: “Fez aos turcos uma breve prática. – Panegírico é a “oração em que se faz a apologia. como a paz ou a guerra. de Fox. – Homilia é “um sermão menos formal e solene. Dizemos oração dominical. se bem que não exclua a noção de instruir. diz-se com muita frequência que o coronel fez uma fala a seus soldados. ou melhor. e sempre destinada a nutrir esperança ou coragem na alma daqueles a quem se dirige”.. pedir. escrita. uma prática destinada a esclarecer algum ponto de doutrina ou alguma passagem das Escrituras”. Às vezes corresponde às arengas dos antigos generais.oris. Chamaram os latinos orações aos discursos que compunham com o maior esmero. etc. entendendo por ele uma composição literária feita por qualquer de nossos oradores acerca de algum importante assunto. – Proclamação é “uma fala ou arenga mais solene. – Conferência tem aqui a significação particular que lhe damos . e daqui oratio. como as orações que fazemos a Deus e aos Santos. para importantes sucessos ou negócios públicos. a que nos ampare. que ele quase sempre toma no mau sentido de razões longas ou ininteligíveis. “oração”. fúnebre. ou por um general. tais são os de Pitt. – Do substantivo os. assim chamavam. um general. etc. práticas impertinentes. animados e engrandecidos por quantos meios subministra a arte da eloquência. Po- rém. lhe dirigem as câmaras. suplicar. jaculatória.. para persuadir. no entanto.”: e do segundo: “Acabada a prática.168 Rocha Pombo niosos discursos que. os governadores e demais autoridades. aos que fazem os oradores modernos se lhes dá geralmente o nome de discursos. mover e interessar a uma pessoa. onde diz. de Demóstenes. ao entrar um príncipe.. raciocínios coordenados entre si. as da Igreja segundo o ritual. de Cícero. um conquistador numa cidade. e chamamos ainda hoje. o louvor de alguma grande vida”. de Eschines. Usa-se mais comum e geralmente em sentido religioso. tiraram os latinos o verbo orare. dirigida a um povo ou a um exército por um príncipe.

vestíbulo. arrogância e altaneria – do que propriamente orgulho. em regra sem grande extensão. Sendo o orgulho o alto conceito que temos de nós próprios. pode dizerse. que se mostra pelos gestos. da nossa família. – Adro (do latim atrium. pelos ares insolentes. de estar acima de outros. a nobreza de alma e outras grandes qualidades morais. – Pórtico é “portal de grande edifício. ou de não ter vícios torpes. alpendrada. fatuidade. – Altaneria é uma afetação de altivez. é a altaneria exagerada até a presunção. soberba. pois que panegírico diz propriamente “discurso festivo e laudatório”. e pode ser aberto. Dizemos. cuja abóbada é quase sempre sustentada de colunas e que serve de entrada”. alpendrada o alpendre sobre que abrem as janelas de alguns chalets. impostura. a magnanimidade. ou quem se mostrasse soberbo de alguma coisa – estaria julgado só por isso. de ter preeminência sobre outros. mas distingue-se deste em ser mais justo. que vive entre os homens como entre iguais. a altaneria e a sobranceria podem facilmente confundir-se com orgulho. elogio fúnebre. orgulho.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 169 hoje comumente: designa a “composição literária ou científica. fazer-se legítimo: a soberba. o telheiro está contra o edifício ou isolado. e raramente deixará de revelar pequenez de espírito. portanto. que mostra o sobranceiro. ou não”: diz-se mais particularmente do que se vê à entrada dos templos de alta construção. palácio. Denominamos alpendre o adro coberto que há diante da porta de algumas ermidas e conventos. – Aplica-se o vocábulo átrio ao “pátio que nos grandes edifícios leva da entrada até à escadaria. A soberba não é só a manifestação do orgulho: é mais um falso orgulho. ou mesmo ser indício de virtudes excelentes: a soberba é sempre fútil. de alguma honra excepcional. forte. O sujeito altivo é aquele que está no mundo como quem está no que é seu. valente. como templo. que também nos dá átrio) é “o espaço que fica à frente do pórtico. – Nas suas manifestações. telheiro. e à alpendrada. Ninguém se vexaria de dizer que tem orgulho de algum bem magnífico. 258 ALTANERIA. lida perante um auditório”. átrio. – A empáfia é a soberba arrogante. – Sobranceria. é possível que se torne para o orgulhoso em forte estímulo na sociedade e na vida. rico. etc. do nosso valor. elogio histórico (e decerto ninguém diria panegírico histórico ou fúnebre. Hoje alpendre diz-se quase exclusivamente daquela parte de um pátio que está coberta por telhado. ou em geral.” – Vestíbulo é “o espaço que vai da rua até à porta que dá no interior. mais legítimo como testemunho. em casas nobres.: “é um pórtico sustido em pilares diante da porta de algum edifício”.. Orgulho difere de soberba em ser um sentimento que não é incompatível com a discrição. – Segundo Bruns. Empáfia tem ainda alguma coisa de ostentação e fanfarrice. não se tendo como inferior a . um orgulho afetado e estulto. pelo desprezo com que encara o resto dos homens. Ao alpendre. – Altivez é antônimo de humildade.: “alpendre e alpendrada (ou alpendrado) têm por fundo o próprio edifício. pórtico. dá-se o nome de anteportaria. diz Roq. adro. um ridículo entono. 21 Alpendre.) 257 ALPENDRE. nunca. e consiste em parecer que se é altivo. empáfia. altivez. nos grandes edifícios”.. inda que impropriamente. como o entende Roquete21. chama-se galeria”. Quem dissesse que é soberbo. e sobretudo com soberba e empáfia. – Elogio é quase panegírico. sobranceria. e que compreende certo espaço coberto. O orgulho pode ser nobre. O orgulho pode ainda justificarse.

substituir. Não é altivo o indivíduo que afronta um velho. Ou casar. à forma.) 260 ALTITUDE. sofreu alterações maiores do que se tivesse sido apenas reformada. à estrutura. no entanto. (Bruns. corrigir. é a elevação de um corpo. – Se a alteração é total ou completa. Deixa de ser altivez todo movimento de alma que não se funda numa perfeita consciência do direito. – Se se muda de forma. – Transformar também se confunde com reformar aqui.. ao peso. disjuntiva. como já se viu no § precedente. – Alteza só se emprega tratando-se de elevação moral ou social. – “Al- ção absoluta. reconstruir. remodelar. manifestação de legítimo orgulho. com muita empáfia. a fazer alarde de si mesmo. se é que alguma soberba exista que não seja tal. de uma torre. A altivez é. – Alterar enuncia a ação geral que os outros verbos deste grupo particularizam: é dar – às partes. do honesto. ambas possíveis.. No primeiro caso. altura. De resto. conforme indica o prefixo re. – Reorganizar seria propriamente “dar organização nova àquilo que havia deixado de existir”. Impostor é o sujeito cheio de si. de orgulho – que se confunde com bazófia. diferença-se deste modo: a coisa que se reforma conserva ainda os seus fundamentos: mudará apenas o que nela não pode ou não convém ficar. em caso algum teria sentido físico. ostentoso. mas é usado este verbo para designar o ato de “dar organização diferente mesmo àquilo que já existia ou que ainda existe”. modificar. – Disjuntiva é a opção entre duas coisas opostas. Alteza. 259 ALTERNATIVA. retificar. na maioria dos casos. sofrem mais que nós outros. – Reformar é quase mudar. – Impostura.. – Remodelar é “refazer alguma coisa sobre novos moldes ou modelos”. à cor de um corpo ou de um todo e também às suas condições ou ao seu modo de ser ou de funcionar – uma nova disposição. é “construir outra vez ou de novo”. não é uma distin- formar. de superioridade. os que não temos de onde cair” – a palavra alturas está aplicada também a elevação moral. – Altura. – Pode-se dizer – alti- tude de uma montanha. mais do que soberba talvez. usamos do verbo mudar. do sagrado. transformar. ou se se fazem alterações num certo sentido – dizemos que isso é modificar. re- ternativa é a opção entre duas coisas ou ações. – Reconstruir. das quais uma há de ficar precisamente prejudicada. 262 ALTERAR. Posso ir ao Porto por mar ou por terra: é uma alternativa. a coisa que se renova toma um novo aspeto. calculamos a dimensão da montanha ou da torre desde a base até o cimo. reconstituir. mas distingue-se de todos. ou de uma montanha. variar. porém. ou que se mostra arrogante com uma criança. reorganizar. contada da sua parte inferior até à parte superior: só se aplica a coisas físicas. altura. refazer. – Se se vai alterando pouco a pouco. e principalmente do último. – Dilema é a alternativa ou disjuntiva em que não há opção satisfatória”. que significa alguma coisa como substituir. emendar. renovar. dilema. e sem que se contradigam. altura de uma torre. A coisa que se transformou. – Fatuidade é a soberba do imbecil. chamamos a essa operação variar.170 Rocha Pombo ninguém. é uma afetação de grandeza. no segundo caso. renovar. – Reconstituir é “dar a alguma . Nesta frase: “Os reis. consideramos a elevação da torre ou da montanha sobre o nível do mar.. quando tombam das suas alturas. 261 ALTEZA. mudar. ou fazer-se freira: é uma disjuntiva.

Um sujeito que trabalhou o dia inteiro deve refazer-se das fadigas para a nova tarefa. Quem pode ler. desvairado como se tivesse subitamente enlouquecido”. mas devendo notar-se que este é mais extenso e de significação menos precisa. como. “o . significa propriamente “enfeitiçar. retifica-se o que está torto. ofuscá-la por alguma coisa brilhante. alucinado. ou bem expurgado de erros. como o cego tem perdido a vista”. – Refazer é um pouco menos que reconstituir em certos casos. ou curvo. corrige-se o que não está bem direito. cego. lê-se em Bruns. José Joaquim de Mora. emenda-se o que está errado. confundir o entendimento ou a razão. cegar. e que fica em estado como de estupidez ou imbecilidade”. dar quebranto”. as ilusões do amor-próprio. fica muito próximo de perdido. corrigir e emendar confundem-se: todos enunciam a ação de pôr uma coisa nas condições em que se quer que fique.” (Roq. fascinar. insano. alucinado” (égaré). as questões espinhosas. por exemplo. a que se ofusca. desvairado. alucinam. por simpatia. Pode dizer-se que perdido encerra o valor dos dois vocábulos franceses (ou a eles. – Cego só tem aqui sentido figurado e diz – “que perdeu ou tem perdida a visão da alma ou do entendimento. e no sentido figurado é “alucinar. perturbado por uma emoção violenta” (éperdu) como – “fora de si. essencial que pode ser ou não diferente da antiga. A ação de refazer não é tão essencial. aturdido. – Retificar. As razões sofísticas.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 171 coisa uma nova estrutura. Mas. espantado como doido. profunda. 263 ALUCINAR. – Fascinar. uma disposição íntima. de- mente. Mas aqui mesmo pode notar-se alguma diferença entre estes dois verbos. “sentir”. de entender. sem confundir-se. Aquele que funda as suas esperanças de acenso no sorriso ou no aperto de mãos do ministro – alucina-se. pois. a que se confunde”. ou por antipatia com as pessoas interessadas – ofusca-se. perdido. – Alucinado é o que subitamente desvaira e se arrebata como louco por efeito de alucinação. insensato. etc. – Cegar é “perturbar a vista de qualquer modo. as obras dos filósofos alemães? A imaginação é a faculdade que se alucina. confundem. louco. – Sobre os três primeiros verbos deste grupo. fazer que desvaire por falta de uma visão perfeita das coisas”. e no sentido figurado quer dizer – “enganar por meio de prestígios. ou a um ou outro deles é capaz de corresponder) éperdu e égaré: tanto diz – “agitado.) 264 ALUCINADO. – Demente é “o que está privado das faculdades de raciocinar. e que foi editada pela Real Academia da língua. – Deslumbrar é “turvar a vista por meio de luz muito forte”. e no sentido figurado equivale a “perdido. ofuscar. delirante. confundir. as promessas enganadoras. deslumbrar. do latim fascinare. Aqui. que sugere a ideia de “pensar”. as impressões veementes. e noutros poderia confundir-se muito com este. os raciocínios excessivamente subtis. As narrações complicadas. Mente é. atordoado. a razão. ofusca. de que é autor d.: “Traduzimos da Coleção de sinônimos da língua espanhola. tudo o que é indefinido. na frase: “Preciso de refazer (ou de reconstituir) as minhas forças”. encantar. doido. falsas aparências. Nesta palavra demente figura a raiz grega man ou men. completa como a de reconstituir. o artigo correspondente a estes vocábulos: “As esperanças quiméricas. – Louco é propriamente “o que perdeu a razão”. magnífica”. o entendimento. Um doente de anemia vai reconstituir-se na ilha da Madeira. e também o que não está ainda bem puro. estonteado. Aquele que sustenta uma causa injusta. renovando-lhe apenas os elementos”.

pois que o verbo aludir. indicar. não pode dar particípio passivo. – Desvairado é “o que ficou em súbita exaltação que o põe agitado. e assim privado de senso normal. diremos corretamente: “circunstância a que se alude”. e que declinar seria dar os próprios nomes dos criminosos. nem declinou os nomes dos quadrilheiros”. mas à cerimônia. – Estonteado = “perturbado como quem acorda repentinamente. mas nem sequer um fato teve a coragem de referir. e não podemos dizer – “a coisa aludida”. – Mencionar é indicar claramente. mas – “a cerimônia foi assistida” é construção viciosa (porque. “privado do espírito. a que consiste em ser talvez a doidice uma forma de loucura mais completa e permanente. expressas pela voz. por figura. enun- ciar. Declinar é. “O enfermo foi assistido” – está direito (porque se quis dizer que o enfermo foi socorrido). Referir quer dizer – “indicar de modo claro e preciso a coisa sobre que se quer chamar a atenção de alguém”.172 Rocha Pombo espírito. não sendo transitivo. ou por dever de ofício. alude-se a uma coisa. não só de significação. Sente-se que referir seria indicar expressa e claramente fatos. Neste exemplo vê-se melhor a distinção: “O homem aludiu aos bandidos. sem tino”. ou ainda por desejo de instruir alguém sobre a coisa que se expõe”. ou o conjunto das faculdades superiores do homem”: demente exprime.”) Não se assiste a cerimônia. Sob o ponto de vista gramatical. aflito. – Entre aludir e referir há uma diferença notável. sem a declarar pelo nome. sem tento no que faz”. assistir é verbo intransitivo e significa “estar presente a. é. Refere-se uma coisa. segundo os lexicógrafos. formular por termos próprios”. portanto – “a coisa referida”. de surpresa ou de susto”. expor. uma ideia da coisa.. – Expor é “fazer uma relação minuciosa do que se quer tornar conhecido de outrem. . mencionar. portanto –. às suas tropelias e infâmias. ou a que indivíduos se endereça o ataque: e neste caso se diz que ele aludiu a esses tipos. referir. ou o ato procedido”. declinar. os gestos ridículos e estabanamentos do doido. há entre referir e aludir uma diferença que é frequentemente esquecida. – Insano diz propriamente – “o que está enfermo da razão”: a insânia sugere também a ideia de loucura instantânea. Dizemos. dizer onde se encontra. pois. – Insensato é “o que não tem senso comum. que é “referir por palavras adequadas e precisas que esclareçam o articulado”. 22 Note-se que assistir tem diferentes acepções. sentindo-se apenas em estado que não é de perfeita lucidez”. e por isso não pensa normalmente”. – Aturdido = “subitamente perturbado. e caracterizada pelos desvarios. marcá-la ou mostrá-la”. Aludir é “referir indiretamente. ou com intuito de queixa. e confunde-se ainda com articular. consignar positivamente”. Em vez de “circunstância aludida”. – Indicar é “apontar precisamente alguma coisa. muito próximo de referir.. sugerindo apenas. – Delirante é “o que está como perturbado momentaneamente das faculdades intelectuais. Atordoado = “menos que aturdido. mas ainda de função gramatical. isto é –. da inteligência”. neste caso. – Enunciar é apenas “declarar por palavras. mais por inadvertência talvez do que por ignorância. pelo próprio nome. Quando alguém nos diz intencionalmente que – “certos tipos execrandos escandalizam a moral pública” – subentende-se que nós sabemos a que tipos se dirige a apóstrofe. Dizer – “a coisa aludida” seria o mesmo que dizer – “a coisa. 265 ALUDIR. a faculdade. – Doido é quase o mesmo que louco: se se pode notar alguma diferença entre os dois vocábulos. incapaz de fazer juízo”. ou – “o caso assistido”22.

respetivo. como. Nas praias de banhos alugam-se casas aos banhistas. só se diz atualmente falando de cavalgaduras e carruagens. “Entre os alunos do colégio tal. e dizemos que é alusiva quando apenas sugere ideia dessa coisa. quer como interno. 267 ALUGAR. isto é: aluga-se para um fim determinado. e parece que todo o trabalho do ministro consistiu em dar toda amplitude à parte relativa a desfalques.. . termo que já foi genérico. sublo- anos. palavras alusivas à má conduta de alguém. é uma designação que se refere ao estabelecimento onde o menino aprende. um empresário arrenda o teatro que quer explorar. 268 ALUNO. quer como externo. Procuramos naquele livro das Escrituras tudo que é concernente ao adultério. arrendar. e por alguns menino que frequenta alguma escola. – Relativo exprime – “que tem relação com... – Educando é sinônimo bem próximo dos dois precedentes: e em muitos casos poderia substituir a um ou outro. ou a cada um em particular ou em separado”. – como aluguel e renda. portanto. quer de ciência. que se nota entre os verbos aludir e referir. – Discípulo é o menino que é entregue aos cuidados e esforços de um mestre ou professor. alquilar. concernen- 173 te. “Os alunos da minha turma foram aprovados” (decerto que não ficaria bem aqui dizer – educandos). a um ato. como: os educandos do instituto. que o instrui e guia. F. – Aluno é o car. qualquer pessoa que recebeu lições de F. aos defeitos da criança. há entre os dois primeiros adjetivos deste grupo: dizemos que uma coisa é referente a outra quando a ela se refere. e discípulo só se diz com relação ao mestre. – Exemplos: Discurso alusivo a uma questão. – Concernente exprime. sem a nomear. que diz respeito a.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 266 ALUSIVO. a ideia contida em referente e relativo: diz – “que é próprio. não seria possível a substituição. educando. e substituindo-o por alugar. – Locar = “alugar. “Os meus discípulos são os melhores alunos do ginásio tal”.. nas cidades arrendam-se ou alugam-se casas por semestre. – Respetivo diz – “que compete. dar de aluguel mediante contrato”. isto é. quando a indica direta e claramente. locar. no entanto. Uma companhia de cômicos aluga o teatro da povoação por onde passa. arrenda-se por tempo mais longo e às vezes sem prazo certo.. não tem nenhum discípulo”. ou do internato tal (os meninos que estão sendo educados nesse internato). – A mesma diferença. – Alquilar. por dias. que se prende à coisa a que se refere”. nestes: “Respeito muito os discípulos de Loyola ou de Comte” (não educandos por certo). ou por meses. Em outros muitos casos. o uso vai mesmo postergando este vocábulo. Tanto podem locar os proprietários como os que estão no usufruto da coisa locada. Aluno. relativo. – Sublocar = “alugar a outrem uma coisa que se tem tomado a alguém por aluguel”. discípulo. etc. de modo ainda mais preciso. referente. Os termos referentes àquele fato são ásperos. ou da aula de música. Apresentaram-se os diversos clubes tendo envolto em crepe os respetivos estandartes. que pertence. – Alugar e arrendar diferençam-se entre si – diz Bruns. por exemplo. Dizemos também que é discípulo de F.. ordinariamente de uma vez. e por preço que constitui renda ou rendimento para o proprietário. por curto tempo. quer de arte ou de moral. Tanto posso dizer: os meus educandos (os meus discípulos. e pelo preço que se combina pagar. meninos cuja educação me está confiada). e também se arrendam mediante contrato. que se atribui à coisa a que se refere”.. que respeita ao próprio a que se refere. Aluga-se um trem: alugam-se móveis (não – arrendam-se)..

intenção. No grego skopós. – “A luz que aparece no horizonte. íntimo. a vida e alento do mundo”. alvorada. medula. é – como disse Vieira – o riso do céu. resoluto. que não cansa nossos olhos. ter os olhos sobre. a que levamos o nosso intento. figura a raiz skeh. alvor (ou albor). 271 ÂMAGO. que se tem por fim atingir”. recesso. que sugere ideia de observar. ainda não tinta de vivas cores. e vai crescendo e matizando-se de luminosas cores até que o sol o doire com seus brilhantes raios.) – Alvor (ou albor. entremeia-se o oiro vivo dos apolíneos raios. seio. e em ondas de progressiva luz derrama-se no firmamento. Aquela dor chegou às profundezas do meu coração. Começa o horizonte a fazer-se alvo com a aproximação do sol: eleva-se pouco a pouco esta alvura. purpurina. propósito. – Alvo é “o ponto que se quer atingir ou onde se quer terior. miolo. que é apenas o estado de espírito em que estamos. meio. dilú- culo. – Dilúculo é termo poético designando o romper do dia. escopo. e mais benigna que o sol. Dizemos: âmago da alma. o propósito que temos formado. examinar: é portanto escopo “aquilo que se visa. – Crepúsculo (de crepusculum. rósea. – Interior designa sim- . aqui. e também de mira.. decisivo do que intenção. profundeza. e no sentido figurado. (Roq. mais brilhante que a alva. de creperus “duvidoso. Intento é propósito mais firme e seguro. distinguem-se assim: recesso. Pode ser físico ou moral. objeto. crepúsculo. Matiza-se insensivelmente no horizonte a alvura com a cor cerúlea. pretender. fito. Esta luz suave. firme determinação”. é o íntimo das coisas. – Fito é “o alvo sobre o qual temos toda a nossa atenção e esforço”. até que o astro do dia mostre seu afogueado limbo: eis a aurora. fim. contingente”) (Sar. centro. a parte que fica no centro dos vegetais. o mais profundo nos seres. como é muito usado também) é o primeiro sinal da alva. imo. o crepúsculo da manhã.174 Rocha Pombo 269 ALVA. A aurora. – Intenção e intento significam “o desígnio que nos leva a agir. – Fim é “o ponto a que se quer chegar. – Imo é também o mais profundo das coisas. aurora. espalha-se nas regiões etéreas. mira. Ter em mira quer dizer “desejar. quer morais quer físicos. – Mira é mais propriamente “o ato de fitar o alvo”. – Propósito é “resolução tomada. ou a disposição de alma em que nos deixa aquilo que temos desejo ou vontade de fazer. que é estranho ao eu. a harmonia das aves. – Âmago é propriamente a medula. e alvorada – dir-se-ia – é uma extensão de alvor. a respiração das flores. a que se destina o nosso trabalho”. e parece dar mais ideia de festa do que exprimir propriamente fase do alvorecer. afugenta as trevas da noite. a alegria dos campos. pode dividir-se pelo pensamento em dois tempos que formam o que vulgarmente chamamos madrugada. e que no momento prende a nossa atenção”. coração. cerne. mas dos recessos desta alma não sairão jamais os meus gemidos. in- tento. antes lhes dá motivo para se recrearem vendo alvorecer o dia. incerto. mas só se emprega no sentido moral.” – Objeto é “tudo que está fora de nós. além de profundeza. sugere ideia de mistério. – Profundeza e recesso. de recato. a determinação em que estamos de fazer alguma coisa”.. – Escopo é muito próximo de alvo e de fim. in- acertar”. âmago da vida. madrugada. de intenção de ocultar. e que continua alguns minutos depois do pôr do sol. é a alva. 270 ALVO. que significa “ponto ou fim que se colima”. e com ela se patenteia de novo a formosura do universo.) é a meia-luz indecisa que precede ao nascer.

a cólera divina. sossegar ao que está inquieto. Estou afinal no meio dos meus amigos (como poderia estar no meio de bandidos). esta palavra miolo como designando toda a parte do pão contida dentro da côdea. Enfraquece o exército pelas deserções. no entanto. abater ao que está elevado. – Afrouxar aplica-se ao que está apertado. abateu com as chuvas o rochedo. o ponto que fica a igual distância de todos os pontos da circunferência. aplica-se a tudo que não é lado. enfraquece a mocidade vencida pelo vício. afrouxar. a vida. acalmar. conforto. – Em muitos casos poderia também confundir-se meio com seio. sossegar. 272 AMAINAR.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 175 plesmente a parte interna. do edifício. a substância mole que se encontra no centro das árvores. enfraquecer ao que é ou está forte. interior do país. Sossega o . diminuir. numa esfera. num círculo. da cidade. – Diminuir é o mais genérico do grupo: diz “reduzir a força. pelo estrondo. ou tratandose de certas frutas. Amaina o temporal. da floresta. áspero. – Me- dula é “o âmago. Naquela terra está o coração da pátria. Feriram a França no coração. mas convém nunca esquecer que há entre eles uma diferença tal que se não poderiam substituir em grande número de casos com propriedade. a discórdia. descer. Afrouxam-se os grilhões. Interior do coração. suavizar. – Miolo (corrução de medula) é “frequentemente empregada pela própria latina: pode definir-se. – Cerne é “a parte mais dura de muitos vegetais. extremidade. a parte central. porque os há que não chegam a ter cerne”. O diâmetro passa pelo centro da circunferência (não – pelo meio). meio da floresta. quer abstratas quer concretas. afastado dos olhos como um mistério”. Abrandam-se dores. Em grande número de outros casos não seria possível usar um pelo outro. o sentimento característico das coisas. etc. o ponto que é equidistante de todas as partes da periferia. a parte onde está a força. os laços que prendem alguma coisa. central de alguma coisa. aba- ter. senão ponto afastado da circunferência dela. – Centro e meio. – Na linguagem vulgar. Mas este último sugere ideia de conchego. por analogia. teso. altivo. atenuar. ou pelo menos esta não é forma tão precisa como aquela. no entanto. em delírio. serenar. O centro da terra – é uma coisa: o meio da terra – é outra. em certos casos poderiam ser usados indistintamente. Abatem as desgraças aquele orgulho. tranquilizar. centro da arena – desde que sejam circulares. Centro é termo de geometria para designar. para exprimir o núcleo. abrandar ao que é duro. Dizemos: centro da mesa. – Amainar emprega-se quando a coisa se caracteriza pela agitação. Também dizemos – o coração da noite – para exprimir a plenitude dela. fazer baixar. recôndito. não se reconhece. enfraquecer. Em nenhuma dessas frases seria próprio substituir nenhum dos dois vocábulos. furente. pelos estragos que causa. beira etc. dos ossos” etc. ao que parece irritado. cóleras. selvagerias. no entanto. carinho. Poderíamos dizer mesmo: meio da mesa. – Coração só figuradamente é que entra neste grupo. – Estes verbos têm de comum a ideia de “diminuir de intensidade”. Até que enfim restituiu-me a sorte ao seio de minha família.”. abrandar. Meio. – Íntimo quer dizer “profundo. e além disso meio é mais extenso e genérico. ou. Uma pessoa mete-se no meio da turba (e não no centro). ainda que fosse redonda. acalmar aplica-se ao que está em alto grau de intensidade. mas neste caso não lhe indicaríamos precisamente o centro. crescido. ou. castigos. Dizemos: meio do caminho. pelo furor. tão rigorosa distinção. o que fica por dentro da casca”. as cordas de um instrumento. nem sempre. – o coração da África indicando o meio dela.

176 Rocha Pombo enfermo. uma distinção social muito importante que con- vém considerar entre eles. Acalma-se a turba que bramava. a força. assim dizemos – barregã de frade. ou que pelo seu caráter não devera ter amorios. etc. diminui-se o prazo. ou de cônego: – Amásia é termo vulgar. assim como amiga – termo mais escolhido – qualifica a mulher que vive das liberalidades do seu amante”. ou do viúvo. 274 AMANTE. e o único que pode. – Serenar. sem ofender demais (a não ser a ouvidos muito delicados) ser admitido em qualquer linguagem. nos países do Oriente. no entanto. – Amante é o termo que se considera mais decente na nossa época. Muito frequente é também que a amante de um homem seja casada ou viva com outro homem. isto é. é “fazer sereno”. podem-se reduzir a viver na mesma habitação com o homem. a torna pelo menos igual ao homem. por assim dizer. este tem amantes. amiga. – Barregã (do castelhano barragana) é termo insultuoso e depreciativo. – Comborça. diminui o furor. Uma outra diferença importante entre os dois termos. o rigor. é que a palavra amante não encerra a ideia de coabitação. diminuindo a agitação. o peso. concubina. diminuem as forças. domar. o pranto. mas sem ficarem contudo tão obedientes que se possa dizer que os “amansamos”. amásia. Amante. onde a mulher é considerada como inferior ao homem. como diz o próprio radical. além da suplantação de um dos termos pelo outro. – Suavizar = “tornar mais suave”. como é comum para os designar a ambos com relação de reciprocidade. menos forte. sendo. A concubina é. da qual a concubina era frequentemente uma como escrava. Concubina (do latim cum “com” e cubare “estar deitado”) encerra a ideia de coabitação. ao passo que no Ocidente. – Sobre os primeiros cinco vocábulos deste grupo escreve Bruns. menos ríspido. diminui a tristeza. e menos ainda que os domesticamos. segundo define Aul. domesticar. Salomão tinha concubinas. o volume. mas não sendo frequente encontrá-la na casa do homem casado. as aflições. é qualificativo humilhante da concubina de homem casado.. Podem-se amansar os animais ferozes. de sentimentos e de convívio. onde a mulher é geralmente considerada como igual ao homem. e admitido até pela esposa legítima. o revoltado. Diminuem as águas da enxurrada. manceba. 273 AMANSAR. barregã. ou ao falar de mulheres ou da antiguidade ou da Idade Média. o comprimento. menos violento. podendo a amante viver ou não na casa do homem solteiro. . melhor que – amante de frade. Por isso. tanto no sentido moral como no físico. a intensidade. – Segun- do Lacerda – “podem-se domesticar os animais bravios. Podem-se domar animais bravios. e como que a ser seus servos ou seus companheiros. podem-se tornar submissos e obedientes. o desordeiro. pelo contrário. Há. – Manceba está hoje sendo inteiramente desusado como sinônimo perfeito de amásia. a extensão.: – “Concubina é vocábulo que hoje apenas se emprega na linguagem da Igreja. Napoleão III teve muitas amantes. estes têm concubinas. comborça. que melhor que outro qualquer designa a mulher que só pelo interesse é concubina de algum homem asqueroso. agitado e aflito. ou cônego. – Tranquilizar = “fazer mais tranquilo. é vocábulo que.” – Atenuar = “fazer menos forte”. isto é. uma esposa ilegítima que vive na dependência e na sujeição: tendo estas ideias vindo até nós pela consideração dos usos e costumes dos países e das épocas em que o concubinato era legalmente tolerado. menos impaciente. isto é. a dor. se não enaltece a mulher. que.

ouriçar”. significa “fazer felpudo. – Encrespar é “fazer crespo”. arrugar. amassar. e que consiste no amor desordenado aos bens materiais. que é o radical de amarrotar (e que deu também o verbo português marlotar). ao dinheiro. isto é. arrepiar. marlotar. avidez. encaracolar. “deformar. sentiu o coração a crispar-lhe de angústia (e não – “encrespar”). – O mesmo radical deu-nos crispar. – Marlota. na paixão pelo dinheiro. ganância. Aliás. justo ao corpo muito deselegante e só usado pelos pobres”. que é “fazer em riço. rugoso. enrolar em espiral” (Aul. gana. enrolar e comprimir como se faz com embrulhos”. gastam a mãos largas para obterem o que ambicionam”. “dar a aparência ou o feitio de ratina (aos panos)”. só ambição – diz Bruns. enovelado demais. – Encaracolar é “dar a forma de caracol. ratinar. sendo a de franzir momentânea. amarfanha-se uma roupa tirando-lhe o aspeto de lisura que lhe é próprio. honras. reduzindo-a a massa informe. cobiça. dignidades. “de um dia para outro uma grande dor lhe arruga as faces”. esmagar alguma coisa debaixo de outra. Velhice encarquilhada (cheia de rugas e mofina. encaracolar em forma de riço”.) – Encarapinhar é “fazer muito crespo. a seda. anelado”. crispar. – Avidez (conquanto da mesma origem latina avere) não se confunde com avareza. ma- 177 chucar (ou amachucar). na ânsia e sofreguidão de acumular. Entre riçar e eriçar (ou erriçar) nota-se esta diferença: eriçar quer dizer “riçar momentaneamente. vincos. – Amarfanhar é “encrespar. franzir. pode ser tomado a boa parte. Diremos: a alma lhe crispou de dor. encrespar. começando por ser um termo genérico para indicar todo desejo imoderado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 275 AMARROTAR. e quando muito deve notar-se entre eles esta diferença: enrugar enuncia ação lenta e mais completa que a de arrugar. 276 AMBIÇÃO. enrugar. erriçar). aqui. encarapinhar. – Dos dois primeiros vocábulos. eriçar. encrespar. frisar. levantá-los e deitá-los para trás. avareza. amarfanhar. – Machucar (ou amachucar) é amolgar. cobiça refere-se apenas à riqueza. quebrantada). Ambição significa principalmente o desejo de alcançar poder. longe de serem cobiçosos. arrugar. – Cupidez é bem fácil de confundir . neste grupo. “Os cabelos se lhe erriçam de horror” (não – riçam). Amarfanha-se o papel. – Amarrotar é. encarquilhar. – O mesmo quase diz riçar. e por analogia. esta distinção não é essencial. pô-los em sentido contrário ao em que estava ou que é o normal”. toda ansiedade com que se quer alguma coisa ou se executa alguma função.. “frisar. – Frisar. – Arrepiar (de arre “para trás” e pio = pilus + ar) significa “ouriçar (os cabelos). tirar a forma própria de alguma coisa. levantar o pelo” (frisa). e franzir poderiam facilmente confundir-se. arrepiar. – Enrugar. emaranhado.. franziu a testa afrontando-nos”. – Ratinar é. embrulhar. amassar. “agitado de cólera. pregas” (carquilhas). – Encarquilhar é “encolher formando rugas. cupi- dez. reduzir ao aspeto rude da marlota”. ondulado. – Amassar é. entre o qual e encrespar pode notar-se a distinção que consiste em ser o verbo crispar aplicável a fenômenos morais melhor do que o outro. achatando-a. riçar (eriçar. cobiça designa um sentimento vil. segundo Aul. Há ambiciosos que. tornar felpudo”. contrafazer. quando se a embrulha e amassa entre os dedos.. quebrar as linhas. fazer hirto como a marrafa” (cabelos do topete lançados para a testa). “não liso e correntio. pois. cerrado como carapinha. – Embrulhar é “apertar. ou de encontro a outra.. “Enruga a pele o tempo”. – Avareza é vício de alma que torna sórdido o avarento. áspero. é palavra árabe (mallôta) que designa “capote curto com capuz.

178 Rocha Pombo com o precedente. que significa “ao pé. os poetas invertem muitas vezes esta ordem. dizendo: “Quem tirou o véu ao amor. ou maior . – Anfibologia vem do grego amphibólia. 470). ou porque se confundem com outras da língua que se pronunciam e escrevem do mesmo modo. sem escrúpulos e sem medida”. mas regularmente tem dois sentidos – um natural e imediato. dúbio. ação feita em contrário ou em sentido oposto a outra. e vox. anfibologia. e significa “ferido”. como ele mesmo confessa num sermão da Ressurreição (VI. “rodear. que se acha só nos termos. discurso”. ao contrário da ambiguidade. duvidoso. incerteza na linguagem e nas ideias. segundo Roq. incerteza. Ou vem então de amphibolos. “lançar”. voracidade. jogando de vocábulos para divertir o auditório ou os leitores. – Gana é termo do espanhol que significa “apetite desregrado. ou “que fere de dois lados”. que admite diferentes interpretações. “voz”). Mas o que nem todos sabem é que esta mesma partícula em alguns poucos vocábulos tem um valor mui diferente. e significa em geral multiplicidade de significações. ou este àquele. a significação de “desespero pelo ganho. ou fingido. Deste gênero é a seguinte: “Heitor Aquiles chama a desafio”. pois indica “prolongação de ato. porque. – Ganância tem. e se antepõe a muitos vocábulos para exprimir “separação. de dois lados”. – Equívoco é palavra latina. mas de ordinário aplicase cupidez mais particularmente para designar desejo imoderado em questões de amor. E assim se diz – uma palavra ambígua e – uma frase anfibológica. tão bom orador como era. Chamam-se equívocas as palavras que se podem entender em dois ou mais sentidos. ou porque elas mesmas têm várias significações distintas. aequivocos (de aequus. que em manhã tão alegre e tão festiva até os Evangelistas o usaram”. equívoco”. Não me estranheis o equívoco. vário. Vieira.. desprezar “não prezar” etc. e às vezes tão disfarçado que só o entendem os que penetram a alusão. Comete-se esta falta quando se constrói uma frase de modo que possa admitir duas diferentes interpretações. O mau gosto dos nossos seiscentistas introduziu o uso dos equívocos como um ornato oratório. confusão. que também é formado de amphi e bollo. privativo ou disjuntivo. que é o que parece querer-se dar a entender. g. não se emendava de cair nele. até raiva incontinente”. incerto. de ambigo. etc. ainda que regularmente se ponha o sujeito antes do verbo. que só compreende a pessoa que fala. de modo que custa descobrir ou adivinhar o pensamento do autor. “Este equívoco do padre Vieira precisa explicação. posto que tenham um significado mui diverso. con- fuso. dúvida. e outro. e ao qual se ajuntou depois logos “palavra. fome. Aí nenhuma das palavras é ambígua nem equívoca. pois. pagou largo tributo a este depravado uso. É. Sabem todos que a partícula des é um prefixo que corresponde ao latino dis. desviado ou apartado. esse lhe descobriu a cara. Refere-se antes ao giro da frase ou colocação das palavras que aos termos equívocos dela. porque o mostrou desvelado. desfazer. a ambiguidade dúvida. pela força do uso. impreciso. “é palavra latina (ambiguitas. e bollo. e figuradamente “ambíguo. e apesar de o ter como um defeito. sendo às vezes impossível consegui-lo. artificial. duvidar”) e consiste em apresentar a frase um sentido geral. v. – Ambiguidade. equívoco. vontade irreprimível. 277 AMBÍGUO. equívoco. ambiguidade. “igual”. e daquela frase pode-se entender que Heitor provoca a Aquiles. ou para mostrar agudeza de engenho. andar à roda. mas é anfibológico o sentido. intensidade na ação.. em roda. composto da preposição amphi. anfibológico. “desmanchar o que está feito”. confusão.

ou dando da mesma uma ideia. que pode variar ou que varia constantemente. vago. área. e dubiedade é o estado de hesitação e perplexidade em que ficamos quando não temos um fundamento seguro para o modo como se há de agir. A esta espécie pertence o verbo desvelar. mas de repente. fazendo a partícula des privativa. volúvel. v. recinto. – Linguagem duvidosa é aquela que não exprime pensamento certo. é neste sentido que o padre Vieira tinha usado este verbo e o seu substantivo desvelo. . Ora. o qual. sendo confusão quando a obscuridade é tal que nada nos deixe entender precisamente.. – Incerto é propriamente aquilo que não é determinado. lhe chamamos jogar de vocábulos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 179 perfeição”. ter muito cuidado. ou é a forma a que se pode atribuir mais de um sentido”. O equívoco é “indigno de um homem franco e honrado. ou dos que se querem esconder na obscuridade. – Âmbito sugere ideia de superfície. Dizemos: a dúbia. descobrir”. perfeitamente determinada”. que é composto de des e velar. ou espaço de extensão determinada. melhor do que dúbio. fixa. A vária sorte. Desconfia-se da forma duvidosa: procura-se fixar a linguagem dúbia. e também o mesmo concerto. desvelado. – Recinto é mais próximo de âmbito. ou atitude dúbia é apenas “a que dá lugar a mais de uma interpretação. Entre dúbio e duvidoso pode notar-se uma diferença muito subtil que consiste em sugerir duvidoso. A ambiguidade é parto de limitado talento. ou para a resolução que se tem de tomar. descantar. A anfibologia provém da ignorância das regras gramaticais ou da intenção dobre de quem fala. que é indeciso. ou limitada. pois a dúvida é o estado de vacilação em que a frase nos deixa o espírito à vista dos termos em que está concebida. mas com a de “privado de véu”. Linguagem dúbia. maldefinido. g. e deve ser evitado pelo literato. que não for desembaraçada de termos ambíguos. a duvidosa. que muda facilmente. a ideia de esperteza calculada. ou a coisa de que se trata. ou de fim ilícito com que se fez ou deixou duvidosa a forma. porque delata engano. como em francês o verbo dévoiler. e escorreita de relações maldistintas”. o vário modo de entender as coisas da fé. com o mesmo Vieira. a ocultar o verdadeiro sentido”. ou que pode deixar margem a alternativas de interpretação. que não significam “deixar de cantar” – o que seria “ficar calado” – mas sim “cantar muito e em harmonia ou concerto de instrumentos”. solícito”. é a linguagem anfibológica destinada a induzir em erro. como sucede com os charlatães e impostores. não com a significação do verbo desvelar-se. – Confusa será a construção que “possa dar ensejo a enganos. Linguagem duvidosa é “a que se usa de propósito para enganar. ou aquela que se não pode interpretar com segurança. 278 ÂMBITO. – Vário diz inconstante. – Área é a extensão de uma certa superfície. precedido da partícula des.. significaria “privar de véu. significaria “sem véu”. pois este nunca deve jogar de vocábulos senão em obras jocosas”. É mais próximo de dúbio que de duvidoso. e no figurado “não cuidar” – mas sim “velar muito. porque véu é contração de velo (de velum latino) – o que forma equívoco com a significação geralmente aceita de desvelado. e nós. – Imprecisa será a linguagem que não for “clara. – Dúbio é o que é incerto. e não significa “deixar de velar” – o que seria “dormir”. desvelar. emprega a palavra desvelado. se bem que em muitos casos se confunda com ambos. a incerta fortuna. que se designa precisamente. referindo-se ao verbo velar (velare) que significa “cobrir com véu”. caprichoso. e descante. A isto chamam com razão os franceses jouer sur les mots. pelo contexto da sentença. a forma que não for exata. andar muito.

sem rumo fixo. ou que se imporá algum castigo (se se trata. – Perdido. mas: “ressoou a voz por todo o âmbito da sala” ou “por todo o recinto”.. 279 AMBOS. peregrino. sem eira nem beira”. outrora Teate.: – “Ambos e um e outro distinguem-se em referir-se o primeiro ao conjunto dos dois. porém: “a voz ressoou por toda a área da sala”. que neste é necessária. Esses monges de Teate viviam a pregar de terra em terra. – Teatino propriamente era o monge pertencente a uma Ordem religiosa. – Ameaçar é “dizer ou protestar que se fará algum mal. não se dirá. quer dizer “que errou o caminho. um e outro. do circo. neste último caso.” 280 AMBULANTE. Esta noção se ilustra pelo seguinte trecho de Vieira: “O querer e o poder fazer bem são duas coisas totalmente diferentes. ate- morizar. professor ambulante. – Vaganau = “que vive a vagar. vadio. ou ambos aqueles moços foram heróis na campanha. tunante. intimidar. vaganau. vadiagem”. mas sem a ideia. teati- no. mas ambas se requerem essencialmente para o exercício da nobre virtude da beneficência”. errante. ou o âmbito da praça. aplica-se a quem anda de terra em terra. É assim que se diz indiferentemente: a área. da explanada”..180 Rocha Pombo pois designa “o espaço compreendido entre dados limites. o que leva vida solta e alegre”.” – Tunante é “o vadio de baixa classe. fundada nas primeiras décadas do século XVI na Itália. e sem mais objeto que o de não estar parado: de todos é conhecida a lenda do Judeu errante. arcebispo de Chieti. – Errante. – Airado será “o vadio elegante. dentista. apenas análoga à própria (de romeiro): designa “o que viaja por terras estranhas. e que nem sempre existem unidas no mesmo sujeito. passeante. – Escreve sobre estas formas o provecto Bruns. só por distração”. como já se disse. ao conjunto. assustar. – Segundo Bruns. e aquele. Daí a significação com que ficou esta palavra teatino na linguagem comum: designa o (homem ou animal) que anda vagando. que não se ocupa de nada. – Vadio “é o que vaga por ociosidade. amedrontar. e um e outro deixaram no país legítimo renome. como se não tivessem destino e se se não deixassem dirigir de nenhuma autoridade. 281 AMEAÇAR. à ventura. ou habitação fixa. longe do próprio país”. vagabundo. – Ambos também se diferença de dois (ou os dois) em referir-se este ao número. de superior para inferior). e o mesmo significa atemorizar. nômade. ambulante diz-se de quem exerce um mister de terra em terra: músico ambulante. despreocupado. de vadiagem: antes aproxima-se mais de passeante. vagabundo. aqui. – Intimidar diz propriamente “causar temor”. sem compreender a ideia de mister. airado. – Vagante é o mesmo que vagabundo. trocista e malandro”. Temos ainda este exemplo: Aqueles dois moços. e um e outro a cada um distintamente. desorientado” (equivalente ao égaré do francês). que significa – “andar vagaroso. – Nômade (ou nômada) se aplica para designar o homem primitivo que não tinha morada. que não se submete a autoridades. e que tomou esse nome da circunstância de ser o seu fundador (Caraffa). perdido. – Peregrino também apresenta aqui uma significação especial. Há entre os dois a diferença que consiste em sugerir o verbo intimidar a ideia de que a pessoa que intimida conta com a fraqueza de ânimo da . que não tem domicílio certo. os dois.. – Vagabundo acrescenta à ideia de errante a de ociosidade. vagante. ou que não tem dono conhecido.

deleitoso. Também não se atemoriza a uma criança. ou a função mais aprazível é a do juiz que salva a inocência. nem tudo. amedronta-se o ladrão (que vai penetrar na casa) disparando para o ar o revólver. agradável. deleitoso escreve o mesmo seguro Bruns.) Pode-se. deleitável.” É aprazível um panorama. A trovoada amedronta até espíritos fortes (e ninguém diria – aqui intimida). 282 AMENO. bem se poderia admitir que um herói se atemorizasse do castigo divino. entender assim: que é deleitável o que 23 Já o poeta dissera. mas. as recompensas ao mérito. (E não completa infelizmente o autor a exposição do seu modo de ver. – Assustar. aqui. é necessário que o gozo seja puro. Entre delicioso e deleitável – não é possível ver as diferenças que notaram Roquete e Lacerda entre delícia e deleite. a boa música. segundo o qual – “delícia. Entre agradável e grato nota-se esta distinção: o que é agradável dá prazer aos sentidos. Tudo o que causa prazer é agradável. o que é grato é relativo aos sentimentos. – Delicioso é mais do que aprazível. os perfumes. Querem os dicionaristas que deleitável e deleitoso designem a mesma ideia. Portanto. “tolhê-lo. falando da saudade: – o delicioso pungir de acerbo espinho. delicioso diz muito mais que deleitável. as demonstrações do reconhecimento. ou induzi-lo a ceder a motivos imaginários”..Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 181 pessoa que é intimidada: o que não se dá com atemorizar. e o mais recente de todos eles chega a preferir a forma deleitoso a deleitável. e nada mais aprazível no mundo do que ser útil ao nosso semelhante. Deleite é o gozo dos sentidos”. atendendo aos fundamentos que ele oferece. não só exprime o prazer sentido. grato. Muito longe disso – é no sentido moral que delicioso exprime o mais alto grau do prazer23. Só no uso comum é que se pode entender de delicioso como entende Lacerda. e avel. suave. – Sobre delicioso. mas também. Entendem esses autores (seguidos por muitos outros) que deleite indica o maior grau de delícia. no entanto. etc. Deve notar-se uma certa diferença entre estes dois verbos: intimida-se a um menino ameaçando-o de cortar-lhe a mão se tocar no doce. é “produzir medo súbito e quase pavor com que se ameaça alguém”. para que aquilo que causa prazer seja ameno. obteremos a verdadeira diferença que há entre os dois adjetivos”. a do artista que nobilita a sua arte. “qualidade”. . portanto. aprazível. deleitável. nem um idiota. ou que nos excita na alma um sereno prazer – e cândida alegria. o grato sensibiliza”. delicioso. – Aprazível é aquilo “(tanto no mundo das coisas como na esfera moral) que nos encanta a vista. isto é – que propriamente deve aplicar-se só em relação às sensações. que é um escrúpulo ou um forte movimento de consciência. inocentemente deleitável. Agradáveis são as belas paisagens. encarece o mérito. se atendermos a que a desinência oso designa “abundância”. e sobretudo. nem a criatura alguma incapaz de sentir o verdadeiro temor. – é agradável. valor ou qualidades do que lhe dá origem. – O que é ameno – diz Bruns. E tanto é assim que dizemos: delícias do Paraíso (não – deleites). um medo sagrado.: “O que é deleitável causa-nos deleite. – Amedrontar é que convizinha muito de perto com intimidar: quer dizer “impressionar algum ânimo fraco”. que é agradável é ameno. deleite carnal (não – delícia carnal). é delicioso o que nos arrebata. porém. Não seria próprio. o que é delicioso causa abundância de delícias. dizer que um herói se intimida. enquanto que sem desar para ele. É deleitável o que nos dá prazer. gratas são as provas de amizade. A delícia consola os sentidos e o espírito. Neste ponto ainda preferimos Bruns. isto é. O agradável apraz. Ora.

o pedaço. com toda aquela atividade e economia. e arrumamos os maços no armário ou na estante”. É o mais genérico do grupo. quebrar as arestas a. ajuntar. deu mostra ou mostras de indiferença (e não – amostras). dobrando. formar montão. – Ajuntar e reunir são muito difíceis de distinguir-se: ajuntar é “pôr um ao lado. amassando. e não diremos: “aquele homem reunirá. ou esmagando”.. ou paragem (e não – deleitável).: “Com tamanha pancada. sinal. – Amostra é “o resumo.. É usado igualmente no sentido moral. de formar conjunto. – Amossar é produzir mossa (marca de pressão violenta sobre corpo compressível). – Esmagar é “espremer. triturar”. já excede à medida normal. reunir é “tornar a unir”. – Todos estes verbos enunciam a ideia de reunir.182 Rocha Pombo produz deleite. e não – deleitosa). (e sim – reuni meus irmãos. mas ninguém diria: ajuntei meus irmãos para combinarmos a resolução mais acertada”. Entre amostra e mostra parece que não há mais diferença que a de ser o segundo mais aplicável no sentido moral. Dizemos: o deleitoso vale.” Amassou o chapéu.. indício. arranjar um sobre outro”. – Abolar é reduzir a bolo. ou campo. embotar. Aul. – Deformar é “tirar a forma própria. – Emaçar é “reunir. neste grupo. abolar. tirar a acuidade ou agudeza”. É por isso que dizemos: “aquele homem.. juntar sem ordem”. ou reunir. reunir. unido ao outro. demonstração.” Pode-se dizer indiferentemente: “reunir ou ajuntar as forças debandadas ou dispersas”. que lhe abolou o elmo. Usa-se também no sentido figurado para designar o ato ou o efeito de causar funda impressão no ânimo de alguém. deformar. de associar coisas em quantidade. – Amolgar significa “tirar a um objeto ou a alguma porção desse objeto a forma própria deprimindo. acumular. “Emaçamos os papéis. emaçar. isto é. e com que se dá uma ideia. depressa ajuntará dinheiro ou fortuna”. amassar. achatar. ou uns a outros”. – Sinal é. seja como for”. tirar a forma de. 285 AMOSTRA. tanto no sentido figurado como no natural. Por isso dizemos – acumular empregos ou cargos.. – Amontoar é “reunir aos montes. Dizemos: uma prosa deleitável.” – Amassar diz propriamente “deformar reduzindo à massa. “o que dá . nem – acumular as frutas que se estão colhendo. registra este exemplo do Dic. Dizemos – amostra do pano (e não – mostra). rombo. é “de uma certa coisa uma parte ou porção com que experimentamos a qualidade dessa coisa”.. mostra.) – Arrumar é “propriamente pôr em rumas.. o livro. prova. – Acumular é sinônimo quase perfeito de amontoar: apenas acrescenta à significação deste uma ideia de continuidade e de reflexão: o que se acumula já sobra.. 284 AMONTOAR. e é deleitoso o que está cheio de deleites. mas não dizemos – acumular o trigo no campo. comprimir violentamente. Usa-se também no sentido translato para exprimir o efeito de causar impressão forte (fazer mossa).. – Prova. ajuntar. arrumar. 283 AMOLGAR.. portanto – é “unir outra vez o que já fora unido”: e aí está no que consiste a diferença entre os dois. achatar. ou mesmo uma noção perfeita dessa coisa”. – Embotar é “fazer boto. formar de algumas ou muitas coisas um só volume”. esmagar. Aí deve usar-se o verbo amontoar. acumular fortuna ou riquezas. ou – os peixes que se estão pescando: porque em todos estes casos não se subentende medida a encher... segundo Lacerda. amossar. da Ac. a carteira. acumular as pedras que vêm da montanha. ou ajuntar em maço. o fragmento de uma coisa.

Dizemos ainda: tratar do assunto em toda a sua amplitude (e não – amplidão). monge. eremita. 287 ANACORETA. frade. O . salvo se a esta déssemos um completivo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 183 notícia de outra coisa com que tem relação. fora da acepção própria que tem na tecnologia científica. – Vastidão é a qualidade do que é vasto. e aí vivem entregues à meditação religiosa. asceta. – Demonstração. cenobita. Na maioria dos casos. mas sim a companhia de alguns homens da sua feição. Em todas as religiões há ascetas. solitário. de vida retraída. – Anacoreta. de infinito. e bios. – Há mais austeridade na ideia sugerida pela palavra monge que na do vocábulo cenobita. O vasto âmbito da sala. é muito semelhante a amplitude e a grandeza: designa as proporções de uma superfície. leva ao conhecimento de algum objeto. amplitude significa extensão maior ou menor. longe do convívio do mundo. segundo Bruns. de infinito. cuida de uma ermida ou capela. – Entre imensidade e imensidão mal se poderia marcar uma diferença muito subtil. quando esta palavra se refere aos católicos romanos. Imensidade é mais do que sinônimo perfeito. amplitude fora do comum. para viver na contemplação e no estudo. – Amplidão e amplitude são duas formas vernáculas da mesma palavra latina amplitudo. etc. amplitude. que é mais – grande extensão. grandeza. aponta. – Indício é o que indica. O cenobita (do grego koinos. denuncia. manifestação mais decisiva”. – Grandeza é propriamente a qualidade de ser grande. vastidão. extensão. mas. de vastidão. – Extensão. Este vocábulo toma-se sempre à boa parte. religioso. para com eles viver em comum. de quantidade extraordinária. imensidão sugere ideia de grande número. é-lhe inerente a ideia de mortificação do corpo. das estrelas). da praça. de uma linha. Dizemos: aqui estamos a enfrentar com a imensidade (e não – com a imensidão. fanático. de um certo espaço mesmo. Figuradamente se diz de qualquer pessoa que vive retirada do trato social. de privações voluntárias. denota. âmbito. Esta é mais próxima de grandeza. a não ser por figura muito forçada). aqui. ou melhor o sentido que por extensão se lhes dá comumente. e gozar a seu modo de um isolamento que não é absoluto. As palavras são sinais das ideias. imensidade. “vida”) é o monge que não procura precisamente a solidão. e talvez exprime ou representa. As nuvens grossas são indícios de chuva”. hipócrita. – Solitário é termo genérico: diz-se indistintamente de quantos vivem em sítios apartados. 286 AMPLIDÃO. o mesmo não se dá com imensidão. um sinal mais claro. imensidão. É dos mais extensos entre os do grupo. quando o asceta o é só na aparência e nas exterioridades. – É asceta qualquer pessoa que despreza o bulício do mundo e se entrega inteiramente a exercícios espirituais (sendo o ascetismo independente de qualquer ordem religiosa). pois. a amplidão do espaço. aquela é mais vizinha de imensidade. em lugar isolado. O monge é como o desenganado que foge ao mundo e aos homens. é “uma prova mais completa. do espaço. amplidão infinita (e nunca amplitude infinita. – Eremita (ermitã ou ermitão) é o religioso que. etc. Dizemos: a amplitude de um campo. chama-se-lhe tartufo.. Amplidão significa extensão sem ideia de quantidade precisa ou determinável. dizendo – imensidão do céu. “aplica-se aos que se retiram do vaivém do mundo para sítio isolado. enquanto que imensidade sugere ideia de ilimitado. devendo logo notar-se que ambos têm aqui sentido figurado. “comum”. – Âmbito é o espaço compreendido dentro de certos limites. pois é equivalente de infinito.

confusão. epílogo. sem pretensões a substituir outro. poema. como termo filosófico – anarquia será o vocábulo com que se há de designar “o regime social independente de autoridade política. o frade é do convento. no entanto. suma. – Desconcerto é ausência de acordo moral – e a desordem que revela esse desacordo. – Resumo é o livro que. o legítimo asceta é geralmente egoísta. pois o fanático julga-se superior ao resto da humanidade. ou os artigos de uma revista”. Num sentido menos vulgar. é a repetição abreviada dos argumentos. reduz a sua doutrina. dizse. observa os preceitos que ela lhe impõe.184 Rocha Pombo asceta. é o mesmo que resumo. é desregramento de autoridade. religioso é sinônimo ainda mais próximo de monge e frade. análise diz-se de trabalho literário ou científico em que é examinado outro de igual natureza. porém. porque se aplica a todos quantos se dedicam à vida religiosa. sumário. ou a direção da sociedade humana só pelas leis morais”. . – Epílogo é o “resumo que se faz no fim de um trabalho literário (discurso. súmula. Em acepção mais alta. concerto. ao lê-lo. o plano e a sequência das ideias explanadas na obra de que se trata. cizânia. argumento. resumo. – “Na série de ideias em que os primeiros sete vocábulos deste grupo são sinônimos. 288 arte ou ciência. Esta palavra toma-se a má parte. caos. – Desordem é “falta de ordem normal”. se têm como sinônimos perfeitos. – Fanático diz-se de quem é ultrarreligioso. o termo mais apropriado é epítome. – Desregramento é “desvio das normas. se recorde o texto da obra principal. pensa ser inspirado pela divindade. desgoverno. e fecha os olhos às desgraças da terra que não remedeia para não se distrair da contemplação em que vive. – Súmula é “uma pequena suma. porém. ou tão somente o fim de expor o objeto. Entre monge e frade há a mesma diferença que entre mosteiro e convento: o monge é do mosteiro. quer por simples resolução. Nesta acepção. – Compêndio é a exposição abreviada dos princípios de uma ANÁLISE. propriamente só os que exercem o governo é que podem praticar desgovernos. como termo escolástico. anarquia é “ausência de governo. – Desgoverno. seja qual for a sua crença. um sumário em que se indiquem apenas os capítulos de um livro. pois pretende a bem-aventurança para si. desordem. resunta. epítome. compêndio. drama. pode ter por objeto a crítica. recapitulando a matéria de que no entrecho se tratou desenvolvidamente”. – Sumário é uma exposição das principais matérias contidas no texto. infração dos princípios morais. – Argumento é o mesmo que sumário. no uso comum. Noutro sentido. Noutro sentido. dos costumes próprios de uma sociedade. – Suma é “o resumo que nos dá em substância a matéria de um trabalho”. consubstanciando-a e resumindo-a. de modo que. são precisamente distintas. feita pelo que defende alguma tese. desregramento. destempero na administração da coisa pública. – Anarquia e desordem são palavras que. etc. Em política. balbúrdia. de poder público”. mau governo. mais frequentemente do sumário que precede a cada uma das divisões de um poema”. – Extrato é a cópia literal de um ou vários trechos de uma obra. Em sentido lato. pró ou contra. no entanto. – Resunta. quer ligando-se a ela por votos. – Religioso diz-se daquele que.). quer que tudo e que todos se amoldem às suas imposições. 289 ANARQUIA. des- extrato. muito longe de ser “falta de governo”. se diz da obra literária que extrai abreviadamente a doutrina de outra. discórdia. porém. Mas religioso é palavra de mais lata extensão.

pois este é a maldição formal imposta pela Igreja. excomungar. anátema. para o qual parece que não há mais corretivo. da organização de seres animados: é o extremo da confusão. ou quando labuta na incerteza de se qualquer sucesso. para examinar-lhe a estrutura. E dá estes entre outros exemplos. – Anatematizar e excomungar exprimem de comum a ação de excluir. ou “visão interior”. – Autópsia significa propriamente “vista de si mesmo”. 292 ANCIÃO. – Discórdia é “desconcerto profundo e violento. às injúrias e ao desprezo contra aquele que a Igreja anatematizou. – Ana- tomia é. “Deve ser horrível a ânsia com que o réu espera a sentença do júri”. Há ânsia quando se receia que um mal suceda”.. Como termo de Medicina. é o “exame minucioso. de qualquer grêmio). se realizará ou não.. hostilidades. o transtorno geral em que ninguém mais se entende. Aquele filho que os pais amaldiçoaram... – Balbúrdia é grande desordem. o estudo de todas as partes de um órgão ou de todo um cadáver. veementes furores”. “Um prisioneiro espera com ansiedade o dia em que se há de ver livre”.. dos poderes eclesiásticos.. O profeta que amaldiçoou os meninos perdidos. expulsar.. maldição.. feito diretamente pelo médico”. – Cizânia é mais – “falta de harmonia. de uma família”. lhe não é obediente”. velho. a arte de dissecar. mas aquele é fulminado contra os que da Igreja se emanciparam: o seu fim imediato é o de incitar ao ódio e à perseguição. Não se compreende discórdia sem agitação. – Maldição exprime ideia mais genérica do que anátema. 293 ANSIEDADE. Luiz. sem desvarios e estrondos. amaldiçoar. enquanto que maldição é um como anátema lançado por alguma alta autoridade moral. – Velho exprime simplesmente “o homem que tem chegado à idade da velhice”. a seguinte diferença: “o anátema dimana. bom ou mau. 290 ANATEMATIZAR.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 185 de uma instituição.: “Ansiedade difere de ânsia como incerteza difere de receio. ou todo um organismo. “Vive em ânsias (ou na ansiedade) aquele que receia a cada momento . “visão da alma”. banir do grêmio da Igreja (e no sentido geral. – Ancião ajunta à ideia de velho a de autoridade: é o velho respeitável e digno de veneração pela sua sabedoria e probidade”. – Caos é o estado que se compara ao da matéria amorfa. por alguém que se sente abalado de grandes amarguras. – Destes dois vocábulos diz S. e a dissecção consiste em dividir. neste grupo. como a excomunhão. devido à irrupção de paixões. e num sentido mais alto e abstruso. 291 ANATOMIA. antes da criação da vida... de concerto moral. tornando-se difícil restabelecer-se a paz. de sagrados ressentimentos. A excomunhão é a sentença ou decisão da autoridade eclesiástica pela qual se exclui do grêmio da Igreja aquele que. criando transtornos. como se tudo estivesse em turbilhões. Mas entre anátema e excomunhão nota Bruns. de boa paz” do que propriamente discórdia: e distingue-se desta ainda em sugerir a ideia de que foi um terceiro que a lançou ou acendeu. – Confundem-se or- dinariamente estes dois vocábulos. ânsia. pertencendo a ela. de funda consternação. dissecção. – Confusão é “a desordem que chegou ao seu mais alto grau. excomunhão. separar em partes um órgão. Há ansiedade quando o espírito está inquieto esperando que um sucesso feliz acabe de realizar-se.. O monge partiu amaldiçoando a cidade. autópsia. Nestes termos a eles se refere Bruns.

in- passar. ir de viagem de um lugar para outro. o contágio (de cum e tago. Tais são a sarna. a peste de Levante. que é realmente muito subtil... sobre”. e devido a causas puramente locais”. mas – a ânsia. móveis.. etc. no entanto. – Transitar exprime a ideia geral de “passar além. epidemia. a lepra. que usasse andrajos. e demós. viajar”. de um lugar para outro. farrapos. Não dizemos – a ânsia. como não dizemos – a ansiedade. A primeira distinguese. anexação. roupas muito rotas e sujas. distrito ou paragem”. ou seja imediato. o cólera-morbo. Tais são certos catarros. trapos. Acrescenta Bruns. – Chamase epidemia. comunicando-se de umas a outras”. ou enfim. poderia uma pessoa elegante. 294 ANDAÇO. – Seguir é propriamente “continuar a viagem começada. – Andaço é palavra vulgar que indica epidemia menor. estendendose a províncias e reinos inteiros. – Passar é “dirigir-se para algum ponto atravessando um caminho ou uma certa zona. por meio do ar.. no entanto. “que se diz das graves epidemias que semeiam a morte em províncias e nações. que sugerem. “em. a esta lista a palavra peste. doença que grassa pela terra. endemia. vestida com certo apuro. em certos tempos ou estações do ano”. – São palavras que quase sempre se empregam indiferentemente para designar as roupas velhas. transitar. incerteza dolorosa – do que ânsia. incorporado. – Caminhar é fazer caminho. ou então por orgulho gracioso. 295 ANDAR. a febre amarela. A coisa anexa. sujas ou rotas de que se cobrem os mendigos.186 Rocha Pombo que lhe descubram o desfalque. mais talvez sofrimento físico do que moral. peste. contágio. e nunca decerto se empregaria no caso o vocábulo andrajos. por tango “tocar”) é uma enfermidade que se comunica pelo contato. mas – a ansiedade de quem espera. ou de certos climas. que é angústia. ou mover-se corporar. ou mesmo à mediania a que tivesse descido um homem rico. sem relação a pontos determinados. 296 ANDRAJOS. referir-se. “povo”) as que provêm da infecção do ar. anexo. ou que foi anexada a outra. qualquer corpo infestado. etc. – Estas palavras têm de comum a ideia. correndo às vezes toda a extensão do globo. 297 ANEXAR. marchando ou caminhando para diante”. Por excesso de modéstia. “Aqueles farrapos da antiga opulência. de associação de uma a outra coisa. seguir. que ansiedade sugere mais ideia de impaciência aflitiva. aos seus trapos: não seria próprio. que pode levar consigo certos miasmas morbíficos. os males venéreos. ou enfermidades epidêmicas (do grego epi. molam- bos.. entretanto. – Molambos é brasileirismo significando – trapos. antiq. anexado.” – Parece que não se distingue bem a diferença. Devemos acrescentar. – Endemia é “mal próprio de um país. aperto do coração. – Segundo Roq.. das outras pela ideia que sugere de grande miséria dolorosa e como que sagrada. marchar. caminhar. fazer caminho. ou as ânsias da morte. – Marchar é “andar ou caminhar compassadamente: dizse especialmente da tropa de guerra quando vai com ordem de marcha”. – Andar é mover-se dando passos para diante. por várias regiões. incorporação. etc. – Ir é andar. de qualquer modo que se faça este trânsito: e tem relação a um ponto determinado a que a pessoa ou coisa se dirige. ou fazer alusão aos seus farrapos. fica fazendo parte desta conquanto .” – diríamos referindo-nos à pobreza. ou pelas roupas. ir.

e passa a formar com esse exército um só todo. – A maior parte destas palavras são quaiseirismos comuns. Dependente diz-se do que. sob o comando do mesmo chefe. dependente. O Texas foi anexado à União norte-americana. por exemplo. sendo apenas mais . uma ideia comum fundamental diferenciada por ideias acessórias): o que está anexo forma. – Incorporar designa uma ação ou efeito mais completo que o da simples anexação. escreve Bruns. – Escaldado é o mesmo que pirão. daquilo que recebe domínio alheio ou lhe pertence. unido. – Unido. operários para as nossas oficinas. isto é. mexido. dependente. apenas adstrito à soberania do país a que foi anexado.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 187 conserve o seu modo de ser ou o seu caráter individual. o pensamento constante da política alemã tem consistido em fazer tudo por incorporar definitivamente aquelas províncias ao império”. Mesmo quando se diz que se recrutam partidários para uma causa. aplicam-se indiferentemente à farinha de mandioca escaldada em água. 300 ANGU. – Alicia-se “enganando. seduzindo com muitas promessas e vantagens”. Alicia-se gente para a revolta. – Anexo diz-se. com aquilo a que foi anexado. sendo o pirão apenas a farinha fervida ou aferventada em água ou em caldo de peixe.: “Estes dois adjetivos exprimem ideias diferentes (isto é. papa. Quando duas freguesias se anexam. designa o que se associou a outro sem perder coisa alguma das suas condições próprias. e há quem alicie inocências para a miséria dos bordéis. ficou sob o pacto federal daquela outra república sem perder o predicamento de Estado. – Angu e pirão. mingau. Recrutam-se praças para um batalhão. – Sobre os ainda que per se constitua um todo à parte”. – Angaria- -se “fazendo acordo. recrutar. desencaminhando. destacando-se do México. perdendo o seu caráter individual. Essas freguesias. Neste exemplo marca-se bem a distinção entre os dois verbos: “A Alsácia-Lorena foi anexada à Alemanha em 1871. tratando com boas maneiras a pessoa ou pessoas que se quer atrair ao nosso partido ou ao nosso serviço”. Um Estado que se incorpora a outro passa a fazer com este como um só corpo. – Recruta-se com autoridade. revirado. 298 ANEXO. e desde essa época. nenhuma delas fica imperando sobre a outra: eram duas. – Mexido e revirado são massas de farinha com peixe ou carne. um todo em que nenhuma das partes fica dependente nem nenhuma dominante. ou um país qualquer que se anexa a outro continua a ser o que era anteriormente. um Estado. ficam dependentes da mesma diocese. formam uma. quase sempre à força. formando corpo à parte. dá-se ideia do esforço e trabalho com que se angariam esses partidários. recebe domínio alheio. 299 ANGARIAR. porém. entre os brasil nem sempre se nota diferença essencial e precisa. Uma repartição que se anexou a outra fica apenas sob a mesma direção sob que esta se acha. pirão. do que forma parte de um todo. tudo muito misturado e revolvido. recrutam-se os conscritos refratários. dois primeiros. melhor ainda que anexo. aliciar. pois. Angariamos adeptos para a nossa causa. admite-se que o angu é mais condimentado. Uma força militar que se incorpora num exército perde inteiramente a sua forma ou condição antiga. angariamos amizades que nos sejam úteis na desgraça. escaldado. Entre diversas províncias unidas não há nenhuma a que se atribua hegemonia ou preeminência. angu ou mingau. Quando muito. Isto se entende principalmente em matéria política.

ou de coisas excelentes. anormal. não está no seu temperamento. disforme. mas que se afasta da gramática pela construção viciosa ou absurda. da ordem estabelecida. Tanto dizemos – escaldado de farinha (esta fervida em caldo de carne ou de peixe) como – escaldado de ovos. excepcionalidade. Difere muito de anormal. pois apenas significa a disposição favorável de agir em qualquer circunstância. – Anormal é “o que infringe a regra dominante. monstruosidade. aspiração. sente-se anelo (ou anelos) do Céu. desejo. tem-se desejo de possuir algum bem que nos agrada ou nos encanta. numa certa regra que rege o maior número das coisas ou fenômenos de que se trata”. 301 ANELO. monstruoso. isto é. muito bem estes dois verbos. – Aspiração é desejo mais grave. A estação tem sido muito anormal (fora do que comumente se observa). irregularidade. anseio. fica fora das leis. etc. de milho. As anormalidades . – Distingue Bruns. – Irregular distingue-se de anormal em sugerir mais claro a ideia de infração culposa: ideia que não é essencial no outro. Quando chegávamos à fazenda. deformidade. ANOITECER. alimentam-se grandes aspirações que raramente se realizam. – Mingau é um angu especial. de trigo. – De todos os vocábulos deste grupo. etc. e particularmente designa comida grosseira. as normas aceitas. vulgarmente. do que infringe a regra instituída. excêntrico. da regra comum. mesmo que seja isso apenas aparentemente. – Anormalidade é ato anormal. muito altas ou muito difíceis. tem-se anseio (ou anseios) por alguma coisa que nos apaixona. desordenado. – Anelo é desejo mais intenso e solícito. malpreparada.) com ovos. O eclipse enoiteceu a face da Terra (não anoiteceu)”. pois este não se adstringe a regra nenhuma. como anseio é anelo mais ardente e fervoroso. anoitecia. vonta- de. As irregularidades de uma vida licenciosa nem sempre se poderá dizer que sejam anormais. é vontade. – Excepcional é o que não se conforma com a regra geral. o menos expressivo e forte. Para minha alma enoiteceu no dia em que vi morta minha filha. 302 enoitecer. excepcional. – Enoitecer é o fenômeno anormal que se pode observar a qualquer hora do dia quando o tempo se escurece por uma causa qualquer. Aquela calma em F. feito de farinha (de mandioca. qualquer substância pouco consistente. ou de arroz. malidade. que se tem como fazendo votos e procurando vê-los realizados na vida. disformidade. açúcar. – Papa significa “massa em geral”. anomalia. excentricidade. que não se opera segundo as condições normais. – Irregularidade é a qualidade do que é contrário à boa ordem. – Desordenado é “o que sai da ordem vigente. e só excepcionalmente é que ele se mostra calmo). qualidade do anormal. deforme.188 Rocha Pombo 303 ANÔMALO. etc. leite. é anormal (isto é. – É anômalo o que se afasta do usual. de sagu. as leis conhecidas. de frutas. enquanto que a excepcionalidade consiste apenas em “não entrar a coisa excepcional na regra instituída. anor- extenso do que estes. – Desejo é vontade mais viva. – “Anoitecer é o fenômeno que observamos cada dia entre o pôr do sol e o cerrar da noite. irregular. É uma anomalia moral um sujeito malvado professando uma religião de paz. É anomalia de linguagem toda forma admitida pelo uso. ou um sintoma aberrante em certo morbo”. ou que se não acha no estado ordinário”. – Tem-se vontade de sair cedo de casa (sem fazer disso grande questão). É anômalo “um mal desconhecido. que não se põe de acordo com a ordem conhecida e aceita”.

bem-feita. numa criatura nem sempre serão irregulares (isto é. etc. interpretar. e envolve ideia de vício. explanar. as quais. de tendências. ou cuja vida ou duração é tão extensa como um século”. as notas são curtas. O anoso carvalho. idoso. por engenhosa que seja a interpretação. porque cada leitor se julga com direito de ser intérprete. A anotação. nem sempre serão contrárias à moral. que lhe é essencial. que vêm a ser como breves comentários das obras. existência que conta grande número de anos). comentário. que exagera a forma própria comum”. antigo. que excede. (Quem explica não faz menos do que “desdobrar aquilo que é complicado”. interpretação. anotações. e só dizem o que é precisamente necessário para aclarar e ilustrar a obra. deforme significa “defetivo. comentar. coisas ou fenômenos do mesmo gênero”. 304 ANOSO. pois não se limitam. que se costuma pôr à margem do texto para explicá-lo. explanação. comento. uma coisa. ou um sentido oculto ou obscuro que se aclara com autoridades e raciocínios. Também se chama assim a nota marginal posta em autos. de anomalia na conformação (deformidade)”. velho. afastando-se do que se nota em todos ou no comum dos indivíduos. “as anotações e as notas se empregam para aclarar e ilustrar (anotar) alguns lugares de uma obra. – Deforme confundir-se-ia com monstruoso se este não sugerisse a ideia. – Antigo é “o que é tão velho ou tem tanta idade que já se acha fora de uso”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 189 de gosto. cotas. de afeições. derrama sobre o texto uma luz que a todos alumia. – Explanar é “explicar. sempre nos deixa em dúvida. a referência à matéria deles. de original. à inteligência comum.”. senão que se estendem a facilitar a inteligência das coisas ao vulgo dos leitores”. de irregularidade repugnante à moral. como aquelas. – Excêntrico é propriamente o que sai do núcleo. explicar. 305 ANOTAR. – Secular é propriamente “o que conta séculos de existência. – Mais extensas que as anotações são as explicações. – Anoso dizemos melhor tratando de coisas ou de fenômenos. tornando simples e fácil de entender um . – Idoso equivale a “anoso. secular. Mas disforme quer dizer “fora da forma usual. Também se chamam notas os reparos e tachas que se põem a alguns escritos. e aplica-se de preferência ao homem”. etc. estragado pelo tempo”. mas rigorosamente falando. são extensas e eruditas explicações de um texto”. anosa existência (carvalho. e a interpretação limita-se a apresentar razões pró e contra. – Velho é “aquilo que está gasto. sem a forma própria do gênero. – Disforme e deforme poderiam confundir-se se se disfarçasse o valor preciso dos respetivos prefixos. à justiça. – Segundo Roq. do centro que lhe é próprio. É assim que a anotação instrui.).) – Assim como o fim das anotações é explicar com clareza e exatidão as frases e palavras. em linguagem exata. ob- servações. glosas. apostilar. por sua parte. e só figuradamente é que se emprega excentricidade para significar “o que tem um indivíduo. à justiça.) – As apostilas são notas ou glosas (ou observações elucidativas) quase sempre pouco extensas. assim a interpretação. etc. supõe ambiguidade.. ou para completá-lo. – Cota é “a citação de autor posta à margem. Mais extensão admitem as anotações. (Comento vale mais por nota e fica em relação a comentário como nota em relação a anotações. a aclarar o sentido da frase ou palavra. e procura achar o verdadeiro sentido do texto que se interpreta. um fenômeno. notas.. da direção. apostilas. explicação. conhecido só de alguns eruditos. fixando seu verdadeiro sentido.

como se vê deste exemplo: “Esta miséria jamais nos há de obcecar. fechar. meridional. No sentido fig. um princípio. Terras. Quando se diz que F. à ideia de ante24 Poder-se-ia juntar a este grupo os verbos eclipsar e enoitar. escuro. obscure- cer. devendo notar-se que a predicação de obcecar é mais completa e direta. – Antecedente é. toldar. exprimindo “a ação ou o efeito de fazer ou de fazer-se escuro. tem valor análogo. – An- tártico significa “que está abaixo do círculo polar do sul”. – Anuviar é “toldar de nuvens. É mais próprio. enquanto que carregar diz muito mais. a ideia de turbação e escureza. de um problema. aquele sacrilégio ficou para sempre a ensombrar-lhe as magnificências do sólio sagrado.. fazendo o radical tolda em toldar função análoga à de nuvem em nublar. – Ensombrar é “fazer sombrio. Quem se incumbe da explanação de um texto. Ele carregou o semblante ao ver aquela miséria. obcecar. torvo.190 Rocha Pombo texto. se pôs em guarda conosco. prévio. austral. – Entenebrecer é mais forte que escurecer. no sentido figurado. – Toldar é semelhante a nublar. – Escurecer é o mais genérico e vago do grupo. nublar. . – Meridional quer dizer – “que fica ao sul de um outro ponto designado”. 308 ANTECEDENTE. mares antárticos. escurecer. mesmo no sentido figurado: significa “fazer sombrio. de uma questão – há de explicar-lhe os termos e esclarecê-los de modo que se torne mais facilmente inteligível. pois que significa “fechar ou fechar-se como hostilmente”. A saudade ensombra-lhe o semblante. Enoitar diz propriamente “pôr ou deixar em noite”. – Dizemos também – terras ou mares austrais – para designar os que ficam no hemisfério do sul. deixar em meia-luz”.. como se escurece a inteligência mais lúcida. ensombrar. lúgubre”. que envolve ideia de toldação e ensombramento. – Obscurecer sugere ideia mais sensível de atividade subjetiva: significa “privar de luz. ensombrou-se aquela alma à vista de tal cena. ou a cor mais viva. – Fechar equivale ao precedente. pelo menos não tanto quanto as divícias lhe obscurecem o senso moral para a justiça”. sendo apenas de menos intensidade que o outro. portanto. Muito raro será o caso em que. dizer – hemisfério austral – em vez de hemisfério meridional. – Austral designa todo o hemisfério oposto ao boreal. fechou a alma. segundo Bruns. “termo especulativo que. Em nenhum destes casos seria de tão lídima propriedade o verbo anuviar. melhor do que aquele. cobrir de sombras. – Tanto no sentido natural como no figurado exprimem de comum estes verbos a ideia de eclipsar. A paixão política obscurece os espíritos mais luminosos. e neste caso não seria aplicável meridionais. 306 ANUVIAR. – Obcecar (no sentido figurado) confunde-se com obscurecer. severo. de fazer sombrio. de uma forma um tanto vaga ou abstrusa. não se possa substituir um pelo outro. – Carregar tem uma acepção especial. precedente. grave. que se isolou moralmente da nossa intimidade. a dor como que lhe nublou um tanto a razão naquele instante. 307 ANTÁRTICO. quer-se dizer que F. entenebrecer. anterior. Eclipsar significa “escurecer pela interposição de corpo opaco entre a luz e o órgão visual”.” Escurece o tempo.. fazer menos claro e límpido”. sendo a treva (tenebra) a ausência completa da luz24. carregar. ensombrar como se entre a coisa anuviada e a nossa vista passasse ou se interpusesse uma nuvem”. – Nublar é quase o mesmo que anuviar: apenas este sugere. Dizemos: o tempo está meio nublado. uma frase”.

não se intercala nenhum outro fato ou nenhuma outra coisa. mas também necessário. – Pais. – Antecedentes de um fato são todos os fatos de que esse fato decorre como uma consequência ou corolário. 310 ANTECESSOR. entre o fato atual ou a coisa presente e o fato ou a coisa precedente. Dizemos: os antecedentes históricos de um certo acontecimento. mas é preciso notar que. com muita razão: “Predecessor indica sujeito ou classe elevada. o plebeu como o nobre. não só anterior. o dono de uma casa de comércio. As consequências provêm das causas antecedentes. – Observa Bruns. antepassados ou antecessores. O pobre como o rico. – Precedente indica prioridade ou anterioridade. predecessor. fez-se novo contrato baseado em condições prévias”. o nosso avô. de figuras que os precederam na dignidade. como precedente. o gerente de uma empresa. em geral. tem ascendentes. dirá: o meu antecessor. os duques. reúne frequentemente a de causa. fazendo alusão à conduta que parece explicar de perto o delito de que se acusa esse criminoso. etc. mas não deverá dizer: os meus predecessores”.. designa prioridade no espaço ou no tempo. considerando-os como tendo fruído do que nos legaram. Dizemos também: os precedentes de um criminoso. Notando-se defeitos no contrato anterior. às dignidades. 311 ANTECESSORES. tiveram seus antecessores nos cargos. – Anterior. avós. Os reis. O capítulo precedente ao capítulo IV é o capítulo III. antepassados. pois não especifica se outros fatos ou outras coisas se intercalam ou não entre o fato ou a coisa atual e o fato ou a coisa anterior. de influência.. pais. o que é prévio é. Acrescenta Roq. aqui não designam parentesco de sangue . os grandes. Neste vocábulo o que predomina é a ideia de que. o nosso bisavô. que nos impede empregá-la em circunstâncias triviais. – Precedentes são os fatos que precedem imediatamente o fato de que se trata. O que é anterior está antes ou precede. contam com desvanecimento grande número de predecessores. etc. etc. que ascendentes é “o termo mais genérico e o menos pretensioso entre os primeiros três deste grupo. e corresponde mais ao cerimonial. segundo Lacerda.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 191 rioridade. precedentes. mas de modo indeterminado. referindo-nos a todos os sucessos que são como determinantes desse acontecimento. maiores. antigos. outros que antes deles ocuparam os mesmos cargos. – Confun- dem-se comumente estes dois vocábulos. como avós. sem nenhuma ideia de causa nem de influência. os funcionários da administração. da justiça. 309 ANTECEDENTES. O serventuário de um ofício. Esta palavra encerra algo de nobre e de elevado. o II ou o I. mas só a primeira dessas denominações quadra bem na boca de todas as classes. dentes. – Antepassado não se poderia dizer do pai nem do avô: só do bisavô para além se podem começar a contar os antepassados. O capítulo de que se fala como anterior ao capítulo IV pode ser o III. e predecessor é o que o ocupou antes do antecessor”. ou daquilo em que lhes havemos sucedido”. isto é. – Anterior e prévio devem distinguir-se. ascen- ciso admitir uma certa distinção entre estas duas palavras como substantivos. são nossos ascendentes. avoengos. isto é. aos privilégios.. enquanto que antecessor corresponde à ordem material de sucederem-se as pessoas umas às outras. – Ascendente dizemos de qualquer dos parentes de que provimos: o nosso pai. – Antecessores dizemos dos ascendentes. – É pre- “antecessor é o que ocupou algum lugar em relação ao que nele lhe sucedeu imediatamente.

– Adiantadamente exprime “com antecedência. seus efeitos são prodigiosos. construído segundo as regras da nova arquitetura militar. quizila. e é assim que muito se há delirado sobre ela. ou que chegasse a época do pagamento). A causa de tal oposição é desconhecida inteiramente. zanga. e é assim que o emprega Camões na seguinte passagem do c. 314 ANTIPATIA. Paris tem muros e muralhas. “paixão”. antes do tempo devido”. 312 ANTECIPADAMENTE. compondo uma que poderíamos dizer literalmente contrapaixão (ou contrassentimento) formou-se a palavra latina antipatia (que se trasladou para as línguas derivadas) e que significa uma oposição ou inimizade natural ou irresistível dos seres uns contra outros. – Aversão é sentimento que tem igualmente alguma coisa de desconhecido em suas causas. etc. – Sobre ou direto: referem-se em geral às gerações que nos precederam. A fortificação das cidades mais inexpugnáveis. – Pais indica os mais próximos do nosso tempo. muro. – Avós designa antepassados mais remotos. – Antigos parece encerrar ideia de mais afastamento ainda que avós. como aos de todas as raças e que viveram antes de nós. as que hoje se chamam fortificações ou obras exteriores. a fim de cingir e defender uma praça ou cidade fortificada. se bem que isto não seja essencial à palavra. 104 e 372). referindo-nos até a Adão e Eva. e pathos. aos homens. pagou adiantadamente três meses do aluguel da casa (pagou antes que começasse a correr o aluguel. prematuramente. F. dos Lusíadas: Oh tu. IV. horror. morreu prematuramente (isto é. Sertorio. oh nobre Coriolano. estes três vocábulos escreve Roq. mas parece não ser tão invencível .: “Na frase da milícia antiga – diz Vieira – o muro significava a fortificação mais estreita. aversão. – Prematuramente significa “antes da ocasião própria em que alguma coisa se deve fazer ou deve dar-se”. muralha. “contra”. e o antemural. e o antemural que cingia e defendia o muro”. frequentemente exagerados. Que contra vossas patrias. edificam-se muralhas só para fortificar e defender praças. adiantadamente. muros para impedir a entrada de contrabandos e para que se recebam nas portas os direitos de octroi. gana. antes de chegar à idade em que é mais comum que se morra). pois dizemos – nossos pais. – “Das duas palavras gregas anti. “reserva-se este nome para os homens célebres da antiguidade. segundo Alv. rancor. preveniu-nos antecipadamente que não viria hoje. vos fizestes inimigos. ódio. Catilina. muitas vezes morais. e. – Antecipadamente diz “antes do prazo estipulado”. asca. conforme havíamos combinado (preveniu antes do dia ou da hora em que devia vir). que a defendem no largo. F. Passos. e do recinto da cidade. (VI. muralhas para resistir aos inimigos que a quisessem atacar”. – Muralha é o muro de praça fortificada.) e só por extensão é que se aplica este termo para designar os ascendentes em geral. segundo a arquitetura militar antiga. – Avoengos designa mais propriamente “a série dos avós ou progenitores de quem descendemos em linha reta” (Aul. F. e por vezes fabulosos. não só da nossa nação.. e vós outros dos antigos. Hoje fazem-se muros só para cercar uma quinta. consistia em muro e antemural: o muro que cingia e defendia a cidade. parentes ou não”.” – Maiores é “o termo genérico em que se compreendem todos os que viveram antes de nós. ou mesmo os antepassados. com profano Coração. asco.192 Rocha Pombo 313 ANTEMURAL. É mais forte que a antipatia. repugnância.

Aproxima-se. não as obsoletas. e ainda de capricho. Roq. – Asca. Sem nada mendigarem aos estranhos. desusado. que a repugnância é menos invencível que a aversão. – Asco é “aversão. mas genuínas da língua. no entanto. e até em amor. e que muitas vezes acontece que uma e outra (aversão e repugnância) chegam a converter-se em afeto. 315 ANTIQUADO. obsoleto. – Entre desusado e arcaico deve notar-se a seguinte diferença: desusado diz propriamente “fora do uso. talvez com desejo de vingança”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 193 nem tão profunda. Mas isto mesmo poderíamos dizer. aborrecimento. o ódio. produzido sempre por alguma causa muito grave”. repugnância que se tem a coisa torpe ou imunda”. algumas vezes. merece louvor. encarniçamento e quase furor impulsivo contra alguém. – Horror é “grande aversão e repugnância. já excluído pelo uso”. é palavra vulgar que indica “aversão. arcaico. expressivas e com boa analogia. e significa a antipatia que os pretos têm a certos comeres ou ações. de ligeiros motivos. Diz. e cada escritor o estilo que lhe é próprio. que de ordinário foram substituídas por outras mais bem derivadas e mais sonoras”. e que esta o é também menos que a antipatia. – A repugnância é ainda mais forte que a aversão. e chega a inveterar-se na alma como um veneno mortal. – “em que o antiquário e o arqueólogo exercitam a sua atividade . – “O domí- nio” – escreve Bruns. e talvez com mais razão. má vontade que se tem a alguém. parece com o tempo ganhar forças. que a forma não está em moda por ser muito velha”. e até de “quase ridículo”. A aversão e a antipatia exercem-se indistintamente nas pessoas e nas coisas. de gana (em sentido figurado) que é “um forte desejo de mal.. De qualquer modo que se manifeste. às vezes gratuitamente”. arqueólogo. Barros e Fernão Mendes Pinto não escreveram como Fernão Lopes e Castanheda. porém o que busca desenterrar velharias. enquanto que arcaico significa apenas “que o vocábulo é muito antigo. 316 ANTIQUÁRIO. As palavras e frases antiquadas ou desusadas “podem ainda usar-se em poesia e em estilo jocoso. mas as obsoletas parecem condenadas a perpétuo esquecimento. muitas expressões desusadas ou antiquadas. para fugir à invasão do neologismo. nas ações. por graves injúrias recebidas. – Estas palavras “indicam coisa antiga que decaiu do uso”. e prefere os arcaísmos de nossos avós às boas expressões que o uso depois introduziu – este não se livrará da pecha de rançoso. – Obsoleto acrescenta à significação das duas outras uma ideia de – “excluído ou proscrito”. e clássico para seus respetivos tempos”. – Rancor é “ódio profundo e oculto. portanto. a repugnância. – Zanga é “a quase aversão que se tem a pessoa ou coisa que se julga de mau agoiro”. de antipatia: quantas vezes se tem antipatia por uma pessoa só porque não a conhecemos de perto? – O ódio nasce quase sempre de poderosas e fundadas causas. de mera vontade. segundo a sentença de Horácio. O uso pode fazer ainda reviver. Cada século tem seu cunho particular. muitas vezes sem ódio”. O escritor que se serve de palavras e locuções antiquadas (ou desusadas). segundo o mesmo Roq. Luiz de Souza e Vieira diferem muito de Seita e Paiva. posto que todos escrevessem em bom português. são cruéis e terríveis seus efeitos. É mais “tédio. arrelia do que aversão propriamente. em lugar da qual se usa em linguagem comum”. Camões e Bernardes não se parecem com Gil Vicente e Sá de Miranda. pois têm muito de caprichosos estes sentimentos que devemos chamar acidentais. mais naquelas que nestas. – Quizila (ou quizília) é palavra da língua bunda.

e significa uma grande escavação aberta a modo de abóbada. que as conhece. e que a aproximação faz ressaltar melhor”. e Berg. em literatura. Esta palavra emprega-se nas artes. em filosofia. ‘conservar-se’) é a oposição que existe entre coisas contrárias. mas sem fundamentar claramente a distinção. dizemos: este santo homem”. Se não houvesse aí antífrase. que deu o latim antrum. ou entre os capítulos de um mesmo livro”. o sentido real que está no pensamento do satírico. e diferença-se de todas as do grupo em acrescentar-lhes à significação comum a ideia de medo. cuja disforme boca mostra ter uma légua de âmbito. – Contrariedade é “a relação que se nota entre duas coisas ou duas ideias opostas”. Esta palavra é. que as coleciona (e que até com elas negocia). a caracteres. – A segunda do grupo é latina. antítese “pertence exclusivamente à linguagem literária. subterrâneo. ‘frente a frente’ e stare. que às . Esta palavra não é poética. e segundo a sua origem significa – cova profunda e escura. e defendida pelos lados como um recinto. escura e medonha. oposição.. toca. pela antífrase. que se aplica a situações. – Oposição é aqui “o maior ou menor afastamento em que uma coisa fica da outra”. (II. Com estudo e paciência. É por antífrase que eles designavam o mar Negro sob o nome de Ponto Euxino (mar hospitaleiro). diz-se particularmente da fauce lôbrega de um vulcão. antífrase. e em geral sempre que se nota uma impressiva contrariedade entre duas coisas. muito mais restrita que contraste. de que nos deixou exemplo Bernardes na Floresta: “Estando em cima. – A antífrase. 317 ANTÍTESE. – “a primeira destas palavras é o grego antron. É por antífrase que os gregos designavam as Fúrias pelo nome de Eumênides (deusas benignas. contraste. – O contraste (do latim contra. distinguem a antífrase da contraverdade. há. porém.194 Rocha Pombo é o mesmo”. portanto. gruta. caverna. contradição. etc. contrariedade. e não somente às partes de um mesmo período. Quando Boileau diz: “Asseguro: Quinault é um Virgílio” – a proposição: “Quinault é um Virgílio” “deve ser entendida em um sentido contrário ao que lhe é natural e próprio. “é uma palavra ou uma locução que deve ser entendida num sentido contrário ao que exprime essa palavra ou essa locução. falando de um celerado. entre as duas palavras diferença considerável. mas admitido. antilogia. – Furna é cova profunda. É também por antífrase que. e Berg. antino- mia. contemplando a horrenda furna e estômago do monte (Etna).. um antiquário pode tornar-se arqueólogo”. buraco. – Contradição é “desconcerto entre o que se disse e o que se está dizendo.. o qual entrou no português como palavra culta e poética. de horror. Bourg e Berg. essa proposição marca que Quinault é um medíocre poeta”. lapa. – Arqueólogo é “o que é muito versado em tudo quanto respeita a antiguidades. ou benévolas). qualidades ou modos de ser diferentes. – Segundo Roq. – Antilogia “é a contradição ou desconchavo entre as ideias sustentadas pelo mesmo autor. que se dedica ao seu estudo. cova. e dizemos só da flagrante oposição que existe entre duas palavras ou duas ideias aproximadas: dizer que um homem é de uma ‘orgulhosa’ ‘simplicidade’ é fazer uma antítese. furna. – Antiquário é o que tem gosto pelas coisas antigas. caverna. 318 ANTRO. ainda segundo Bourg. 227)”. contraste entre as ideias ou as afirmações de alguém e as nossas”. essa afirmativa marcaria que Quinault é um poeta de primeira ordem.. – Antinomia é “a oposição que se nota entre duas leis ou princípios”. – Segundo Bourg. as explica.

. sumptuosidade. Diz mais que sumptuosidade. a pompa que maravilham. Às disposições para qualquer faustosa cerimônia ou festividade se lhes dá o nome de aparatos. Chamam-se. e quer dizer uma caverna na encosta de monte. das cores que um artista empregou no seu quadro. da grandiosidade excepcional que ela vai ter ou que apresenta. mais ou menos ampla e profunda”. – Pompa é o aparato ostentoso. – Gruta é palavra castelhana e portuguesa (talvez do latim crypta. – Buraco “será uma cova. brilho e formosura. disposições para todo exercício.. portanto. – Subterrâneo designa “em geral todo espaço que se encontra no subsolo”. materiais. e também.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 195 outras não é inerente. ostentação. – Sumptuosidade. na Vida do Arcebispo: “E viu juntamente que ao pé do penedo se abria uma lapa que podia ser bastante abrigo para o tempo”. as grutas são habitadas pelos anacoretas. que “engrandecem” (aos que a contemplam). de um assédio. e coberta por um penedo ou chapa de pedra: isto mesmo significa a palavra lapa. pois não só as compreende todas. pois – os preparativos de uma função. do festim. de produzir sensação. e os zagais acolhem-se às lapas”. – Toca = “buraco onde vivem ou se refugiam caças”. aparelho. pompa. ou de um banquete. quase pelas mesmas palavras. sem opulência de formas. apresto. como do brilho. dizemos que se fazem preparativos. – Cova é “abertura feita na terra. – “quando se reúnem. de asilo aos homens e de guarida aos ladrões. vinda talvez do grego lápathos. majestade. alardo. os antros. – Grandeza (segundo Lacerda. que repete. operações. estende-se desde a ciência e manobras náuticas. com alguma vergonha. as cavernas. Dizemos. desde o mais elevado até o mais ínfimo. grandeza. Não há pompa sem grandeza exuberante. fausto.. é o esplendor exagerado de um ato solene. o modo solene. assim como à reunião deles se chama aprestos ou aparelhos. Quando se diz: “o aparato daquela cena” – quer-se dar ideia. – Segundo Roq. ou para carregar cavalgaduras. desde o exercício e arte da pintura até o mais baixo ofício mecânico. às vezes suscetível de ornato rústico. dispõem e arranjam diversos materiais ou coisas para a execução de qualquer obra. porque acrescenta à noção de grandeza a ideia de excelência. – Magnificência é o esplendor. preparativo. sem majestade de encenação. as feras. A significação da palavra aparelho é muito mais extensa que a das anteriores. 319 APARATO. e por analogia. ou mesmo uma caverna menos profunda e de menores proporções”. – Os antros servem de covil às feras. e que sugere ideia de deslumbrar. mas abrange os instrumentos. esplendor. “as ninfas e os deuses campestres habitam as grutas... os facínoras. a grandiosa disposição com que se celebra algum ato extraordinário. – Lapa é palavra portuguesa. não só das proporções dela. no sentido em que se . e dizia-se antigamente aparelhos para dizer missa. do palácio. o lugar onde alguém se esconde. como diz Luiz de Souza. pois que a significação desta palavra se estende a tudo o que se executa com pompa e ostentação. etc. Em estilo poético. as cavernas. mag- nificência. luxo. de fazer sucesso. aparelhos aos arreios necessários para montar. o que escrevera Roquete). os preparativos de uma guerra. é a qualidade daquilo em que se faz ostentação de riqueza: sumptuosidade do templo. grego krupta) e significa concavidade da terra entre penhascos. como indica a própria origem latina. trabalho ou obra.” 320 APARATO. e as lapas dão abrigo aos pastores. – Aparato é o movimento pomposo.. figuradamente – sumptuosidade do estilo.

Grandeza refere-se “à parte material das coisas. imprecisas de verdade): – Mostra. que à primeira vista parecem sinônimos perfeitos. deste modo: apedrejar é simplesmente jogar pedras a alguém ou a alguma coisa. como de talentos e virtudes. neste caso) da febre amarela. ou pelo menos não perfeitamente lídimo. exterior. nos modos. Exterior é o que cada corpo mostra pela parte de fora: aplicado às pessoas. Quando se diz que alguém foi apedrejado. – Semblante é o modo de ser da fisionomia humana: é. o exagero calculado com que se exibe alguma coisa. dando ideia da ufania de quem alardeia. ou do desejo de agradar ou de fazer figura. de poder. semblante. de beleza. mostra. – Segundo Roq. O esplendor da natureza. de erudição. poder. e do próprio ato de aparecer. aqui. aspeto. ostentação (de grandeza e poder). impróprio seria. senão a aparição do anjo Gabriel. mas não se diz: o aparecimento. – Luxo é toda manifestação exagerada do desejo de conforto. e figuradamente. É de notar que se diria: “Ele vive com certo fausto” (isto é – com alguma pompa de quem deseja ser tido como rico). – Fausto é luxo custoso. distinguem-se. – Alardo (ou alarde) é ostentação mais estrondosa. estas duas palavras: – “Aparecimento é o ato de aparecer. da qual nos deixa ver apenas uma parte”. “é manifestação de uma coisa presente. considerado esse ato como coisa inesperada. – O ar (ou os ares) com que uma pessoa se nos apresenta é o conjunto de tudo quanto da parte dessa pessoa nos impressiona à primeira vista: o semblante. Como hoje se lincha. lustre. etc. – Grandeza indica luxo. luxo de sapiência. soberania. – “a aparência é o efeito que produz a vista de uma coisa.. os modos. excelência. significa extensão. e majestade ao ideal das mesmas coisas”. o aparecimento (ou apa- bos. de uma civilização etc. de um panorama. no viver. diz Lacerda. etc. de alguma coisa ou ação. antigamente se lapidava. Há criaturas que fazem alardo de fortuna. – Esplendor. visos. da corte. 323 APEDREJAR. – Visos quer dizer – aparência não clara. aparição diz-se da coisa que aparece. etc. de manifestar-se. por assim dizer. tamanho de alguma coisa. a aparição do cometa de Halley”. o esplendor da mocidade. com ‘certa’ sumptuosidade”. quase sumptuosidade. de poderio. isto é. é o aspeto. pelo que é às vezes enganosa. e a ideia que nos resulta dela.196 Rocha Pombo toma aqui o vocábulo. – Estes dois ver- muito bem Bruns. seriedade. ar (ares). e lapidar é matar a pedradas. dizer: “. grandeza. correr a pedradas. aparição. Tanto se faz ostentação de riqueza ou de força muscular. e então se lhe chama exterioridade”. maneiras. mas. Luxo no trajar. – Aspeto é a exterioridade que nos impressiona ao primeiro relance de olhos. – Majestade indica magnificência. gravidade de alguma pessoa. o que quer que seja de acento espiritual que distingue uma fronte humana. é brilho. dignidade. dava-se a morte pelo apedrejamento. a voz. no entanto. e em sentido translato – seriedade. – Majestade indica decoro. – Distingue rição. enuncia-se apenas a ideia de que sobre essa pessoa se atiraram . lapidar.. poderio. 322 APARÊNCIA. Dizemos: o aparecimento do cadáver que se andava procurando. e o objeto aparecido como extraordinário. exteriori- dade. ou não definida: “o que ela diz tem visos de verdade” (tem aparências vagas. – Ostentação é o brilho e aparato. do espírito. porte ou conduta que ela mostra exteriormente. 321 APARECIMENTO. os gestos.

estreita dir-se-á da que é pouco larga ou pouco ampla. ou contrário à lei”. Não admite. quando as decisões são apeláveis. melhor do que somente. por isso. sendo demasiado estreita.. O apêndice liga-se intimamente com o texto. gradação. – Com toda razão observa Bruns. O suplemento completa o texto com artigos que lhe faltam. anda o corpo apertado. píncaro. 326 APÊNDICE. ou com alguma parte dele. são diferentes dela no fundo. que frequentemente se ouve: calçado ou vestido apertado para indicar que o pé ou o corpo não se encontram neles à vontade. Falando de superfícies. cumeada). e por ser estreito o vestido. 324 APELAÇÃO. – Apenas. têm. dizer-se: . não é rico: tem só (ou somente) quinhentas libras de rendimento. dizer: o mais alto cume da cordilheira ou da montanha. sumidade. culminância. estreito. agravo. como a faculdade... – Exclusivamente exprime exceção mais completa ainda. no seu vocabulário jurídico. Quando dizemos que Estevão foi lapidado em Jerusalém. não devendo. para explanar a doutrina. pináculo. só (ou somente) enuncia quantidade sem relação determinada: F. e que a apelação é recurso para juízo de instância superior à do juiz contra cuja sentença se recorre. exclusivamente.” Parece. ou só. suplemento. 325 APENAS. pois cume significa toda a porção superior das grandes elevações. Falta-me apenas o quinto volume para completar a obra. alto. apogeu. e diz que esta expressão é imprópria. diz Teixeira de Freitas: – “Agravo é um dos recursos frequentes da nossa ordem judiciária. o calçado é estreito. – Recurso é termo genérico exprimindo “não só o ato de recorrer. e que. caracteres diferentes. Falou exclusivamente do ponto que se controvertia (isto é. – Segundo Bruns. e apertada da que. de agir contra uma decisão ou um julgamento que se considera injusto. cume (cumeeira. Podemos. sugere ideia de insuficiência ou insignificância para determinado fim: Não o compro porque tenho apenas cinco mil-réis. ou restringir-lhe o alcance. recurso. e está apertada entre altas paredes. A um código junta-se o apêndice que encerra as alterações que se fizeram a alguns dos seus artigos. no entanto. pois exclui todas as outras coisas do número daquelas que se salva ou a que se refere o enunciado. os dois primeiros termos deste grupo. que o agravo é o recurso de que se vale a parte perante a própria autoridade que deu a decisão. – “Tanto o Bruns. – Ápice é a parte mais elevada de um corpo. no entanto. a que fica superior a todas as outras. por isso. fastígio. tope. falou só desse ponto sem desviar-se para nenhum outro ponto). – Definindo. A um dicionário junta-se o suplemento. só (ou somente). cimo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 197 pedras. portanto. se bem sejam da mesma natureza da obra.” – Apelação é “o recurso interposto da primeira instância para a segunda. expor novas aplicações. 327 APERTADO. zênite. e por isso está o pé apertado. ninguém diria com propriedade: – “ápice mais alto de um edifício ou de um monte”. Esta rua é estreita. dar maior extensão à matéria. afirmamos que Estevão foi morto a pedradas. o direito de reclamar. apêndice como o suplemento” – escreve pino. auge. 328 ÁPICE. que contém os vocábulos que no dicionário não estão incluídos”. – “são partes que se acrescentam a uma obra para completá-la. está como cingida de um e outro lado.

– Zênite é termo técnico de astronomia. cume. Tanto podemos dizer: o cimo do monte.”. Em qualquer destes casos preferiríamos empregar cimo. fabuloso. de volume e de extensão. e que a Igreja Católica não incluiu no cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas. ou da colina. – Pináculo é mais expressivo do que pino. da colina. e é aplicável no sentido translato. falso. sem mais ideia alguma acessória. alto do palácio. e indica “o alto grau de intensidade a que é capaz de chegar um sentimento ou a que um fato pode atingir”. “Ficamos até em pasmo. cujo autor não é conhecido. – Apócrifo é palavra grega (apókruphos) que significa coisa secreta. Não seria próprio dizer: – o cume da ladeira. como: o tope do mastro. – Cimo (do latim cyma) é propriamente a parte que de um corpo se destaca ou se faz saliente. Entre cume e cimo deve admitir-se. como exprime culminância. cumeada. ou da escada. de autor incerto. portanto. – “é palavra latina (suppositus) e significa o que se põe falsamente em lugar do verdadeiro. – Cumieira (ou cumeeira) é “a parte mais alta. como o cimo do edifício. dá-se este nome a todo livro duvidoso. o cimo da escarpa. Mas pináculo envolve ideia de terminação da coisa elevada em ponta aguda. ou da ladeira. A cumiada dos Pireneus. alto da porta. pela analogia da posição desse ponto com a do sol quando se acha no zênite. tope. etc. a ideia de grandeza. pretenso. quase sempre melhor aplicada quando se trata de um edifício”.” 329 APÓCRIFO. em vez de todos os pontos elevados. ou do muro. – Suposto – diz Roq. uma certa diferença.. “Ele ascendeu então ao fastígio da glória.” – Auge só se aplica a fenômenos morais. mas esta palavra é de aplicação mais restrita. tratando-se de uma montanha. só devemos empregar cume tratando de montanhas. mais à vista e mais brilhante de algum edifício. Tanto dizemos: o tope do monte.. é “o auge supremo.198 Rocha Pombo o cume da ladeira ou da lomba. e de pouca ou nenhuma fé.” “A linha desdobra-se pelo fastígio da cordilheira”. fictício. não conhecida antes. – Pino é um correlativo de base: designa o ponto culminante de alguma coisa. por analogia com a significação desta palavra como termo de arquitetura. – Cume (do latim culmen) é a parte que se eleva também acima das outras. Rigorosamente falando. alto da testa. nem mesmo – o cume da torre. alto. O mesmo se poderia dizer de píncaro se este designasse. – Alto é igualmente qualquer das porções elevadas de um corpo. a sumidade e a outros do grupo. a contemplar o fastígio maravilhoso do templo. – Cumiada (ou cumeada) é também “a parte mais alta. também por analogia (com o fenômeno astronômico a que se dá esse nome). particularmente se diz do livro ou da obra que falsamente se atribui a quem não é seu autor. Ainda que a au- . “Ele estava no auge da raiva.” – Apogeu. Pode comparar-se a culminância. o cimo do chapéu. o mais alto de todos. é a parte mais elevada. – Fastígio.” – Tope (ou topo) é a parte superior de qualquer coisa. de algum corpo em geral. Sumidade acrescenta à noção de cimo. Em linguagem eclesiástica. é também a série dos cumes de uma serra ou cordilheira”. como: alto da árvore.. Tanto é de lídima propriedade dizer: alto do monte. o cimo da planta. a cumeada dos Andes. “No auge da fortuna. suposto. Culminância sugere ideia de imensa altura do pináculo. da escada. ou da fama. correlativo de nadir: em linguagem comum designa também “a culminância a que alguma pessoa atinge na esfera em que exerce o seu esforço. alto das ruínas.. ou de grandes construções. o ponto acima do qual não é possível ir. sem dar ideia necessária de grandeza ou de altura extraordinária. nem – o cume do telhado.

apologias em defesa da religião mem de comum estes verbos a ideia de cessar alguém de exercer as funções do seu cargo. “segundo o valor da palavra grega. e serve para manifestar a inocência do acusado”. da pessoa de quem se trata. ou mesmo todos os vencimentos”. Este é o verdadeiro caso da apologia. – Elogio é “o discurso. não as acusações jurídicas. elogio. como se dá em relação a fictício. Aquele homem nos disse coisas fabulosas do que se passa no sertão (coisas que se têm ou podem ter como verdadeiras.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 199 toridade do livro suposto se repute suspeita. significa defensa. pois por erro tem-se atribuído a autores clássicos obras que não escreveram. foi-lhes forçoso apresentar aos imperadores. Um advogado. isto é – fabulosas). ou porque fez jus a tal vantagem. jubilar. uma opinião. concedendo-se-lhes. – Expri- panegírico. faz a defesa de um réu (não a apologia). mas que se tornam estranhas pela enormidade. contudo. 331 APOSENTAR. porque essas correm nos tribunais. justificação. – Pretensa é a coisa que se quer fazer passar por ser a verdadeira. – Fictícia é a coisa criada pela imaginação e que só nesta existe. – Fabuloso distingue-se de fictício em sugerir ideia de prodígio. direito a todos os honorários do cargo. pode. do que de esforço puramente moral: e nisto distinguese de apologia. – O panegírico é um elogio mais incondicional. . ou o escrito em que se demonstra ou procura demonstrar como a pessoa elogiada é digna dos louvores que se lhe fazem”. cristã. uma nação ou pessoa. Deste modo perseguidos e caluniados os primeiros Cristãos. dos livros apócrifos. e perturbadores da ordem pública. um partido. ou do exercício do cargo. os lentes. para rechaçar as falsidades com que os pagãos procuravam fazê-los odiosos como inimigos dos deuses e de todas as potestades. Fabuloso nem sempre exclui a ideia de verdadeiro. A justificação consiste só nas provas que se deduzem do exame das testemunhas. e é qualquer discurso ou escrito no qual se defende um sistema. suposta ou falsa. como se estivessem nas respetivas funções. de modo a que fique livre de penúria o aposentado. quer tirar proveito é fabulosa”. prestando serviços durante um certo prazo. – Reformar é dispensar do serviço o militar que se fez inválido. Decerto que ninguém diria: “a promessa de que F. empregaria certamente de preferência – fictícia. reformar. e sempre com intuito de só fazer que ressaltem as altas virtudes. defesa. Nas associações científicas e literárias é uso fazer-se o elogio dos sócios falecidos (não panegírico). dos documentos autênticos. É mais ato ou dever de ofício. a suposto. não permite a Igreja que se tirem argumentos para provar as verdades teológicas”. – Aposentar diz propriamente – “dispensar do serviço. como um prêmio. (Roq. 330 APOLOGIA. Conhecemos orações fúnebres que são verdadeiros panegíricos. Fazem-se as apologias para desvanecer as acusações com que se agravam as classes mencionadas. sistemático. e contra elas advogam os letrados perante os juízes. mas as acusações vagas. etc. – Falso é propriamente o contrário à verdade ou como tal admitido. porém. conservando uma parte dos vencimentos. etc. espalhadas entre o público e que vão tomando corpo com grave dano das pessoas acusadas até que acabam em perseguição formal pela justiça. ao senado e aos magistrados. na tribuna do júri. – Apologia.) – Defesa é todo esforço feito para demonstrar a não culpabilidade de algum acusado. e assegurando-lhe o soldo da patente. – Jubilam-se os professores. ou porque se ache ou seja julgado inválido para continuar a servir. ele conter doutrina boa e verdadeira.

usurpar.. por ele enviados a pregar a boa-nova a todas as nações. Napoleão apossou-se primeiramente do comando geral. de uma escola literária. Por extensão. tomá-la para si. Por isso mesmo tem o vocábulo um valor peculiar. etc. apóstolo e missionário têm. Quem seria capaz de dizer: evangelizar o erro.200 Rocha Pombo 332 APOSSAR-SE. naturalmente fazendo-lhe a apologia. da desordem. Não seria próprio dizer. Se se deve admitir entre eles alguma distinção. pregoeiro. ideias excelentes. retém-na em seu poder ou sob seu domínio. propagandista de pílulas. emissário. como se diz: propagandista do casamento. enviado. uma cidade. – Precursor diz propriamente – “o que vai adiante de alguém anunciando-lhe a chegada”. – Anunciador significa apenas “aquele que anuncia”. de encerrar a palavra missionário a ideia de que aquele que missiona toma uma tarefa como sacrifício. muito subtil. e também arrogar-se uma autoridade. João Batista foi “o precursor de Jesus Cristo”. mensageiro de algum príncipe”) designa propriamente cada um dos doze discípulos de Jesus. damos o nome de apóstolo àquele que exerce na terra funções. de exprimir evangelizador a ideia de que aquele que evangeliza não faz menos do que proclamar alguma coisa de que ele próprio está ufano e espantado. O que se apossa chama a coisa a si. Nem sempre se apropria de alguma coisa aquele que dessa coisa se apossa. propagandista.. – Conquistar é ganhar à força de armas um estado. Só se apropria de alguma coisa. As refregas precur- . causas augustas. fazer-se senhor dela. depois usurpou o império. como de felicidades. ou desempenha missão equivalente à daqueles discípulos. in- vadir. – Usurpar é tirar a outrem o que é seu. porém. lugar à parte no grupo. etc. aquele que se arroga a propriedade. etc. portanto. usando de prepotência. que resulta: de sugerir o vocábulo apóstolo o intento de fazer prosélitos. Aplica-se particularmente esta palavra para designar o sacerdote ou o clérigo que se incumbe de ir a terras de pagãos ensinar o Evangelho e instruir nas coisas cristãs. missionário. uma dignidade. – Propagandista é termo comum e geral que designa “todo e qualquer indivíduo que se encarrega de inculcar ao maior número alguma coisa. do socialismo. o direito de ser o dono dessa coisa. Tanto se diz: propagandista da república. e conquistou parte dela. anunciador. doutrinas de redenção. é só esta. e não deve ser empregado senão em casos que recordem a grandeza moral dos antigos missionários. – Missionário é o que toma a si a propaganda de alguma causa sagrada. de chamar ao grêmio do Cristianismo. No mesmo caso está evangelizador. a perfídia. apropriar-se. que lhe não cabe. – é “simplesmente meter-se de posse dela. – Apossar-se alguém de alguma coisa – escreve Roq. por exemplo: missionário da revolta. de um sistema filosófico. e não cessa de chamar a atenção de todos para ela. precursor. núncio. Aplica-se também a coisas e a fenômenos. Tanto pode ser anunciador de desgraças. “enviado. mensageiro. não tardou a invadir a Europa quase toda. etc. a ignorância? Evangelizador. – Invadir é acometer e entrar por força em alguma parte. evangelizador. Entre apossar-se e apropriar-se há uma diferença de ordem jurídica. 333 APÓSTOLO. S. O pregoeiro faz mais que o simples anunciador: fala muito alto. em obediência a algum voto. mas suas conquistas e invasões ficaram sem efeito quando os aliados o desapossaram de sua autoridade usurpada”. grita em favor da coisa apregoada. – Apóstolo (do grego apostolos. Não se evangelizam senão grandes verdades. conquistar.

e mediante ordem ou mandado de autoridade pública”. apanhar. apreender. navios. diz simplesmente – “posto a caminho”) não faz mais do que cumprir estrictamente a ordem que leva. pela sua posição. aqui. logo que estes morriam.. mas daquele que a enviou. Não teve o rei em conta o meu serviço. pelo valor de alguém”. deificação – Sobre estas duas valor. que “capturar é prender. culto religioso. arrestar. deter. Ambos significam – “o que é mandado”. pelos seus atributos morais. embargando que siga ou que continue a estar onde estava. F. – Estima é a “consideração em que se têm as qualidades de uma pessoa”. e cujo sucesso se lhe confia. chamar a si de direito alguma coisa”. ou alguma coisa de locomover-se. Um gesto precursor de tormenta. Prende-se o cão à corrente.. Dizemos: F. em consideração das suas preeminentes virtudes. Apreço é a “consideração particular que se tem pelo mérito.. ou de mover-se livremente”. – Segurar é “prender e conservar em segurança”. prender. A alta conta em que é preciso ter aquela propriedade. consideração. tanto nos merece”.. é “o ato ou disposição de pôr em cálculo. ou pelo direito da força”. rendendo a esta.. em nome do qual ele vem. – capturar. etc. Prende-se o celerado em flagrante de homicídio. – Consideração é a “atenção respeitosa que se tem por alguma pessoa que. o – Apresentar-se é “fazer-se presente em alguma parte ou perante alguém”. a guarda fiscal apresa as mercadorias que os contrabandistas querem subtrair aos direitos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 201 soras do arrasamento. ou em geral. 337 APRESENTAR-SE. ou atando-lhe as asas. (e não apresentou-se). – Diz Bruns. O enviado (esta palavra. ou quase religioso”. estima. – Emissário e enviado só se poderiam diferençar pela nobreza do vocábulo emissário. palavras escreve Lacerda: “Apoteose era a cerimônia mediante a qual era alguém posto no número dos deuses... Deificação é um ato pelo qual se supõe a divindade onde não está senão a criatura. aparecer. – Núncio e mensageiro. 336 APRESAR.. Esta ideia não se encerra necessariamente em núncio. 334 APOTEOSE. . A pessoa ou coisa estimada pode mesmo não ter valor. aqui. Os romanos usavam assim a respeito dos imperadores. pelos talentos.. – E comparecer ainda sugere melhor a ideia da obrigatoriedade do ato de apresentar-se. comparecer. A polícia captura os criminosos. e captura os contrabandistas”. seriam sinônimos perfeitos se mensageiro não encerrasse a ideia muito clara de que a mensagem não é própria de mensageiro. – Arrestar é termo jurídico e significa “apreender. Aquele ar sereno precursor da saúde moral. 335 APREÇO. pelo seu valimento. ou subtraídos aos direitos a que estão sujeitos. Prende-se o monóculo na órbita ocular. ou ter valor só para nós. aqui. arrestar a alguém pela força do direito. conta. apresentou-se pronto para o serviço (e não – compareceu). Prende-se a ave no viveiro. segurar. de admitir a cômputo. – Prender enuncia a ideia geral de “impedir alguém. – Deter é “prender e conservar preso”. – Apreender é “prender. ou algum animal. mas o emissário supõe-se que leva incumbência mais alta. e que “apresar é tomar como presa. à audiência. Supõe-se que aquele que se apresenta o faz por algum dever com a pessoa perante a qual comparece. gêneros embarcados. o préstimo de alguém ou de alguma coisa”. – Conta. alguma coisa. compareceu à sessão.

por isso.).. A inclinação. As disposições carecem de ser cultivadas. “estes dois verbos empregam-se geralmente sem outra distinção que não seja a da exigência da eufonia. propen- são. inspira o desejo que solicita a aquisição de um objeto. podendo ser ou não coberto”. Aprofundar é tornar ainda mais fundo o que se profundou. que significa “um vasto curral de bois”. pois a aptidão pode ficar inativa. – Disposição também se diz da faculdade de ser próprio para uma dada coisa. – Os dois primeiros são termos literários. tem aptidão para o negócio. a capacidade. fazer profundo. aqui. capacidade. seguimo-la. de ter certa vocação para ela. não aptidão. entre eles uma diferença muito notável. porém. gosto. segurança. a aptidão opera. na cultura. – Segundo Bruns. jeito. aplicação de inteligência. Profundar é cavar muito fundo. No sentido figurado subsiste a mesma gradação”. 339 APROFUNDAR. mas disposição para a dança e para a ginástica. como aptidão. denota um poderoso atrativo. por isso aptidão não se aplica senão relativamente às artes liberais. etc. mais ou menos grande ou violenta. para a tarefa. redil. desenvolve-se. habilidade. para o trabalho. e por isso pode dizer-se que o talento é a aptidão no terreno da prática. ou de cabras.” – Vocação. – Capacidade é o conjunto de qualidades e conhecimentos necessários para levar a bem-determinada ordem de coisas. significa “uma tendência própria. feito de tela de arame. de madeira ou de muro. e a inclinação uma espécie de gosto. talento.202 Rocha Pombo – Aparecer dá ideia geral do fato de “se deixar ver” alguém ou alguma coisa. Ter talento para a pintura é mais do que ter aptidão para a pintura. disposição. Apareceu a peste em Bombaim. que encerra aprisco). mas essa faculdade é menor que aptidão. mais ou menos agradável ou lisonjeira. etc. – Redil é “um curral para rebanho miúdo. ou da casa paterna (e não redil. e assim diremos que certa pessoa tem. Usa-se. há. – Aptidão (Bensabat) “é a capacidade natural para fazer uma certa coisa. aliás. enquanto que aptidão não se emprega bem senão falando de estudos sérios. entregamonos a ela sem reservas. porém. pois este não sugere a mesma ideia de amparo. dizer no sentido figurado – o aprisco da Igreja. presume exercício e prática. as duas palavras quanto à sua aplicação: talento dizendo-se particularmente com relação aos estudos pu- . Tanto se diz – curral de porcos. – Curral é “um cercado. diz um hábil sinonimista. ou contrariamo-la: e eis o motivo por que se toma esta palavra como sinônima de amor ou afeição. que F. ou uma disposição favorável.. arrebata a alma seduzida pela promessa do repouso. inclinação. da felicidade. uma disposição natural do espírito para alguma arte ou mister”. vocação. e o talento só se revela no exercício. como disposição diz menos que aptidão. como a dança. pode-se empregar essa palavra falando de estudos ligeiros ou recreativos. – Talento. Aparece um grande sinal no céu. proteção. 338 APRISCO. 340 APTIDÃO. a ginástica. curral. como o talento. profundar. (Dizemos. como curral de bois. Além disso. e não a combatemos senão com grande pesar e com poderosos recursos. mangueira. além de designar dom natural (diz Bruns. a esgrima. A propensão. A propensão. – Aprisco dá ideia do abrigo em que ficam as ovelhas. onde se recolhe o rebanho”. Esta capacidade refere-se mais ao que requer estudo. – Mangueira é brasileirismo comum. ou de um vivo prazer.). idoneidade. às letras ou às ciências. exercita-se por si mesma. só pode manifestar-se na prática. diferem.

cá. jantou aqui ontem.. Pedro parece ter jeito para as letras. 342 ARDIL. e sem sugerir a menor ideia de dúvida. no sentido reto. – Idoneidade. g. mas nem todos os chefes de corpo têm a idoneidade precisa para comandar uma divisão. – O ardil é o meio que se emprega para obter o fim desejado. v. e conseguintemente este vocábulo encerra a ideia de faculdades adquiridas. o lugar onde vivo e onde janto. – Gosto é mais do que jeito: designa este “como senso íntimo que nos faz preferir uma coisa a outra”. etc. pois além de designar o lugar onde se está. ou – passou ontem aqui a noite – é como se dissesse – jantou. cia. se o capitão vier a faltar. – Escreve Roq. logro. aqui estou. empresas. e sempre com bom resultado”. senão que sugere a ideia de que por várias vezes já se praticaram tais coisas. só e absolutamente. Cá tem maior extensão. Vivo aqui. vocábulo formado do grego stratos. ou um general que carece de talento. F. Convém ter presente que tanto a capacidade como o talento não podem existir onde não há aptidão. mas também o que o sugere. a habilidade. mas creio que nunca terá gosto para a cultura antiga. a discreta perícia com que nos sentimos para alguma coisa”. não só fato. os ardis de guerra . a idoneidade adquire-se pela prática. astúcia designa só o que sugere fatos característicos dos outros vocábulos do grupo. preferência.: Aqui vivo. adquiriu nela bastante idoneidade. “exército”.: Ardil. diz Bruns. cilada. estratagema. etc. A habilidade não só revela a ideia de se possuir o conjunto de qualidades e de conhecimentos necessários para levar a bom resultado uma determinada ordem de coisas. – Dos cinco primeiros do grupo. mas sim.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 203 ramente científicos. arteirice. ou ‘neste lugar’ onde se acha a pessoa que fala. 341 AQUI. palavra não muito usada. Um recruta pode ter aptidão para aprender o exercício. não obstante. arteirice. senão quando já não possa opor-lhes obstáculo. e a que nos referimos como se vê no ditado vulgar – Cá e lá más fadas há”. – Estratagema (do francês stratagème. obrando de modo que o lesado não conheça as intenções. e capacidade relativamente às coisas práticas da vida. direção de assuntos. Quando cá se contrapõe a lá indica a terra ou o lugar em que estamos comparando com outro de que já falamos. janto aqui – supõe. – Jeito é muito próximo de disposição: é “o desembaraço. a expediência. que estes dois ad- A diferença entre os dois consiste em que aqui designa o lugar de um modo absoluto. – Habilidade é vocábulo mais significativo que capacidade e idoneidade. emboscada. Mas – janto hoje cá. esta noite durmo cá – exclui determinadamente o lugar onde costumo jantar ou dormir. negócios. “conduzo”) designa. ou pelo menos a facilidade. astú- vérbios“ valem o mesmo que ‘este lugar’. e sem referência alguma a outro lugar. um tenente tem bastante capacidade para comandar a companhia. ou um escultor de capacidade. à força de boa vontade e de estudo. armadilha. José de Lacerda – “oculta os meios de que se serve. e agó. e também não é comum dizer-se – um banqueiro. e procede com disfarce”. ou relação alguma respetivamente a outro. estratagema e logro designam fatos. de talento. não tinha nenhuma aptidão para a magistratura. é independente da ideia de aptidão. “O ardiloso” – diz d. passou a noite ‘nesta casa’. Assim é que ninguém dirá – um poeta. literários ou artísticos. pois quando alguém diz – F. No estilo familiar entende-se – aqui por ‘nesta casa’. acrescenta por si só a exclusão de outro lugar determinado (lá) que direta ou indiretamente se contrapõe àquele em que nos achamos. mas sim. sem excluir determinadamente outro lugar. de capacidade.

– Cilada e emboscada designam “a surpresa que se prepara contra alguém para vencê-lo à traição”. quase idêntico à arteirice. – Trabalhoso é o que custa muito trabalho. – Doloroso = “que se faz com esforço que mais punge e amarga que fatiga”. O estratagema difere do ardil em contar este com a impossibilidade de defesa. e quase sempre mais à alma que ao nosso valor físico. misto de finura e de falta de escrúpulos. etc. ou para conseguir os seus fins empregando vias tortuosas mas habilmente combinadas. mas não incluem a ideia de impossibilidade. enquanto que árduo pode frequentemente encerrar essa ideia: árdua empresa é a de pretender corrigir defeitos morais”. rude. – Fatigante não é o mesmo que trabalhoso. malícia e ruindade. – Custoso é “aquilo que se não faz com facilidade”. ímprobo. diz-se dos meios extraordinários que se combinam com arte e manha para surpreender de improviso a pessoa que visamos. é a realização de um engano habilmente preparado. o que é dificultoso supera-se com paciência. com perseverança. – Logro é o ardil caviloso. – “O que é árduo (escreve Bruns. – Penosa é “a tarefa que. procurando-se enganar a vítima. e obter dela o que queremos. quem pretende insinuar-se no espírito alheio necessita ter arteirice”. conforme a definição dos lexicógrafos em geral. designa a arte ou manha de quem tem inventiva para fraudes. dificultoso convém às particularidades. trabalhoso. perseverança.). até pela sua formação. – Arteirice. “A raposa tem astúcia. com habilidade.204 Rocha Pombo para surpreender ou vencer o inimigo. intrincado. tato. difícil. A emboscada sugere a ideia de que o autor se esconde ou se disfarça para o assalto. Mas esta palavra. da sua essência. dificultoso. é muito difícil. mas diferençando-se desta em que o arteiro planeia com arte. ou que é cheio de trabalhos. missão dolorosa. – Ímprobo é “o trabalho excessivo. Fatigante é aquilo que só se faz com muita fadiga. além de difícil ou mesmo árdua. a astúcia obra simplesmente. sem mais noção alguma acessória. a cilada é feita com astúcia. podendo dar ensejo a coisas desagradáveis a quem executa. O que é difícil necessita pulso. espinhoso. aproveitando os descuidos e as ocasiões. fatigante”. força. Noutra acepção. é “a parte exterior do corpo”. pois este sugere ideia do grande esforço que exige a coisa trabalhosa. – Difícil diz-se do grosso do trabalho ou da empresa. – Note-se também que difícil e dificultoso ponderam a dificuldade. Pode não ser mesmo difícil a missão. da terra. 344 ÁREA. penoso. custoso. mais porque está embaraçado e difícil de entender que pelo trabalho que poderia dar. e o estratagema em levar o lesado a não poder negar-nos o que pretendemos. – Astúcia é um dom natural. – Superfície. julgando que obra em seu proveito. é dificultoso reunir uma coleção completa de selos. coragem. mas há de ser muito penosa. é árduo escrever para o teatro. Tanto dizemos – superfície do mar. sem que ela no-lo possa negar. superfície. e o astucioso. talento. obstáculos. É difícil resolver certos problemas. resolução. 343 ÁRDUO. fatigante. – Espinhoso = “que é de difícil execução porque exige grande habilidade e fortuna”. não se desempenha senão à custa de esforço doloroso”. Extensivamente. doloroso. – Armadilha é “a cilada que se arranja contra alguém para que se deixe cair como no laço a veação”. pormenores. que leva o lesado a ser o próprio a oferecer o que pretendemos. como – superfície de um poliedro. A arteirice maquina. – Intrincado é o que parece difícil. pareceria só aplicável à face su- . Tarefa. como fato.

estéril. de incapacidade para produzir. No sentido natural. A infecundidade diferença-se da esterilidade pelo seguinte: dá o primeiro uma ideia muito nítida de que a coisa infecunda não tem qualidades criadoras. e até ser um defeito remediável pela rega artificial. sáfaro. A infecundidade daquela fazenda é devida à má administração. Dizemos. para ter efeito.. para gerar. – Improdutivo também enuncia ideia geral de estéril. improdutividade. Infrutuoso é “o que não é tão abundante em frutos como se esperava”. – Terreno árido é o que nada produz. E por quê? Simplesmente porque a palavra superfície sugere que o corpo ao qual se aplica tem outra face que não é superior. A infrutuosidade de uma planta. tanto zona estéril. infecundo. – Improlífico = “incapaz de procriar”. quanto. – Estéril é termo de mais extensividade do que árido. – Maninho (do latim malignus) quer dizer. esterilidade sugere. seco. – Infrutífero é propriamente “o que não produz os frutos que devia produzir”. mas tudo que fiz foi completamente improdutivo (não sem dúvida – estéril. sequidade. sacrifício estéril). infrutífero. como a de uma tarefa ou um trabalho supõe-se que é devida mais.. cansado. maninhez. que a improdutividade está. e até homem estéril (e ainda esforço. nem árido. Não obstante. contra a qual não há ação corretiva possível. cabra estéril. infecundidade. pois esterilidade exprime a ideia geral de incapacidade para produzir. “poder-se-ia confundir com infecundo se . Deve notar-se. portanto. inclinada. – Área é “superfície limitada de qualquer modo. Supõe-se. – Ingrato.” etc. ou onde só nascem plantas inúteis ou daninhas”. ou não as exerce se as tem. tanto na coisa explorada. ingrato. em todo caso. só se aplica aos animais. etc. como do trabalho que não compensa o esforço feito. ou à imperícia de quem trabalha ou de quem cuida da planta. de um campo. esterilidade. – Infecundo é “o que não tem qualidades de natureza próprias para produzir amplamente”. como – superfície vertical. Trabalhei quanto pude. – Terra ou terreno seco é aquele a que falta umidade suficiente para que se torne produtivo. mas sugere mais claro a ideia do esforço que se fez 25 E isso por mais que se nos objete neste caso que o super que figura no termo enuncia uma ideia de relação entre a face e o centro do corpo. que a aridez é mais propriamente devida à natureza do terreno. No sentido translato. como planta estéril. improdutivo. tanto se diz do terreno. Área de um polígono.. Dizemos – a esterilidade das regiões polares (não. Não tem. ou porque seja seco. portanto. e nada tendo com a posição em que se encontre a face. E tanto parece assim que ninguém se arriscaria a dizer – superfície do céu – por exemplo. maninho. o uso autoriza o emprego deste vocábulo mesmo nos casos em que não se trata de face superior.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 205 perior dos corpos. – Sáfaro é também “exausto (terreno). infecundidade. a ideia de aridez absoluta. aridez. Tanto dizemos – superfície horizontal. “além de infecundo. no agente que a explora. improdutivo por falta de cultura”. É um pouco menos que ímprobo. pelo menos..).). pelo menos. ou improdutivo por falta de cultura – bravio. infrutuosidade. ou porque lhe faltem outras qualidades de terra fecunda. por exemplo: a superfície inferior da caixa25. trabalho. não produz com a abundância que se esperava. ou terreno estéril. A sequidade pode. ou à falta de custeio próprio (não – esterilidade). ou a circunstâncias estranhas. ser um acidente. para que produzisse. improlífico. além da noção que exprime. visos de perfeitamente lógica uma expressão como esta. Os meus esforços não foram tão infrutuosos como eu receava (aqui não seria tão próprio usar infrutíferos). de uma sala. 345 ÁRIDO. infrutuoso. A maninhez supõe-se que é mais devida a abandono do que às qualidades da terra.

senão o de esquadrilha. dar tempo a discutir uma proposta. enterrar os mortos. 346 ARMADA. mas talvez esquadra mui numerosa. as comboiadas por nau ou naus de guerra. bem provida de armas. ou pelo desejo de se combinar a paz. Toma-se às vezes por esquadra. o que bem distingue armistício de tréguas é o fato de serem sempre estas de muito maior duração que aquele. e ainda a circunstância de deixar entender que os exércitos beligerantes se recolhem a quartel”. outras. Sancho I a tomar Silves. esquadra. como as que vinham todos os anos do Brasil para Portugal. nenhum destes nomes lhe é próprio. que venceu os turcos nas águas de Lepanto. odor. a noção de incapacidade própria e talvez ingênita para a procriação”. fragrância. Em todo caso. tal foi a de d. – Esquadra é uma reunião de navios de guerra com o objeto de proteger o comércio. e em tempos modernos. ou entre duas nações que estão em guerra. III. “armistício é termo diplomático e técnico. ou frota armada. Obedeceste à força portuguesa.. sim. As tréguas são geralmente motivadas pela nenhuma eficácia das operações entre os beligerantes. 348 AROMA (aromas). olor. porque constava de treze navios”. mas o armistício é absolutamente a mesma coisa que a suspensão de armas – frase que designa a interrupção momentânea da luta. no mar. melhor do que este. e D. porém. esquadrilha. e não terem o objeto determinado que tem o armistício. João de Áustria. podia chamar-se armada. O armistício tem ordinariamente por fim recolher os feridos. porque só constava de três embarcações. ou em terra. – Frota (escreve Roq. combinada entre dois exércitos em campanha. 347 ARMISTÍCIO. etc. cheiro (cheiros). como diz o nosso poeta: Tu26 a quem obedece o mar profundo. em vez de ser definitivo.206 Rocha Pombo não marcasse. que passava. diz Roq. enquanto durou a guerra com os holandeses. tais foram as que ajudaram D. Camões. à que comandava Vasco da Gama. tais eram as que os fenícios e cartagineses enviavam à Espanha na infância da navegação. hálito. III. Afonso Henriques a tomar Lisboa. A de Pedro Álvares Cabral. suspensão de armas é locução vulgar. em rigor. (Lus. pela sua comum falta de recursos. nem ainda o de esquadra. perfume. – No seu grupo 457. se limita a um espaço determinado de tempo. – Segundo Bruns. e pela duração que é inerente ao sentido do vocábulo. – Armada é o conjunto total dos vasos de guerra de uma nação. Da germânica armada. Pode-se dizer que as tréguas são um tratado de paz que. (Lus.) “é a reunião de navios mercantes dados à vela com o objeto de exportar e importar mercadorias de um para outro porto marítimo mais ou menos distante. ou de hostilizar o inimigo. planear a paz. 86) 26 Lisboa. 57) E ainda: Foi das valentes gentes ajudada. frota. suspensão de armas. geralmente a anos. De armas fortes e gente apercebida A recobrar Judéa já perdida. Ajudada também da forte armada Que das boreais partes foi mandada. “As tiranias sacrílegas não voltam: os monstros são improlíficos (e não – infecundos) para a história”. – Tréguas distingue-se de armistício pela sua generalidade. armada. umas vezes chama frota.: “Fragrância per- . tré- guas.

Esta supõe um efeito passageiro em seu estado natural. lenhos (raízes). 350 ARREPENDIMENTO. de lenteiro. significando “suave emanação de algumas substâncias”. compunção. ou perpetramos algum grave delito.. acompanhado do desejo veemente de emenda e reparação. e por meio da arte algumas vezes se faz durável. óleos. atrição. ou se arranca) um dente. o uso autoriza o emprego desta palavra tratando-se de qualquer substância que dá perfume. arrebatar. ou sejam – resinas. – E no grupo 215: “Apesar de que o cheiro pode ser bom ou mau.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 207 tence exclusivamente às flores. tirar. e porque o devemos amar . pesar. sacar. não só por parte de quem arranca. Odor de floresta virgem. no plural. no sentido translato. do cravo. mesmo de força por parte de quem saca. encerra ideia de esforço. O aroma é próprio das drogas e das árvores que o produzem. a pena pungente de haver cometido erro ou culpa. posto que em francês parfums corresponda a aromas. a angústia que nos atormenta a consciência quando delinquimos. Fragrância explica a ideia de um cheiro grato. e também distingue-se de perfume por “sugerir sempre ideia da substância de que mana. sem restrição da qualidade do cheiro”. uma causa permanente de fragrância. um lírio. – Pesar é a recordação molesta e penosa causada pela falta que se cometeu. o remordimento. mas arrancar indica força. extrai-se de um livro o que ele tem de substancial. “Arrebatou-lhe o livro sem que ela tivesse tempo de gritar sequer por socorro”.. – Aroma é palavra grega. cheiros.” – Arrebatar acrescenta à noção de arrancar a ideia de violência e rapidez. extrair. Tem fragrância uma rosa. porém de pouco tempo. – Extrair diz propriamente “tirar para fora.” – Olor é “o cheiro particular de cada flor. da pimenta. tirar do lugar em que estava”. “arrancara da casa a pobre criatura que nem mais se movia. 349 ARRANCAR. um cravo. – Sacar enuncia a mesma ação de arrancar. nem da coisa sacada.. – Diz muito bem Bruns. arrependimento “é o sentido pesar. uma açucena. como é a vida das flores. que se aplica a – toda droga cheirosa.. – Hálito só figuradamente é que entra neste grupo. e aroma exprime ideia de mais larga duração”. de azinhavre. – Perfumes. 27 E. O aroma supõe. “O olor da rosa lhe é gratíssimo. no entanto. ou da parte de onde se arranca. remorso. ou odor acre de carniça. – Indica a palavra remorso. de pomares. que se exalam em fumo cheiroso. diz-se comumente das substâncias que produzem bom e agradável cheiro. bálsamos. mas sem a ideia de resistência por parte da coisa ou pessoa de que se saca. em português aplica-se particularmente às matérias odoríferas. como resistência do que é arrancado. em seu sentido próprio27. que não sugere. esta última. ideia. extrai-se (como se tira. contrição. unguentos de grande fragrância. e significa a dor profunda e sincera de ter ofendido a Deus por ser quem é. que arrancar e tirar exprimem um ato de força. e ao fumo ou vapor odorífero que elas despedem”. pelo menos nem sempre.. “Os hálitos que vêm da recendente alfombra. Melhor do que tirar. penitência. o perfume das plantas”. Daí se refere a impropriedade de frases como estas (que aliás se encontram até em autores de nota): “arrancou da espada”. agradável ou desagradável. – Segundo Lacerda. além disto. do alcanfor. de jardim. Extrai-se oiro da mina. o verbo tirar. É aromática a árvore da canela.” – Odor pode aproximar-se de fragrância e de cheiro. – Contrição é palavra religiosa.. se saca. aroma. um jasmim..

) “é uma contrição levada ao mais alto grau. senão do verdadeiro amor divino. com o desejo de sofrer penas que lhe resgatem a culpa cometida”. – Regato é “o mais diminuto dos cursos de água perene”. apertado entre margens altas”. o tempo diminui o pesar. Tanto aplicamos o vocábulo rio ao Amazonas. e exprime a ideia de que o atrito se impressiona mais com o castigo do que com a dor da consciência.208 Rocha Pombo de todo o coração sobre todas as coisas. perseguem o malvado impenitente até à sepultura”. no mesmo caso. – Córrego é “regueiro mais rápido. no entanto. ou regato sem dizer petit ruisseau? – Rio é a corrente de água mais ou menos considerável que vai ter ao mar. que corre impetuosa e desordenada”. A contrição alcança-nos o perdão de Deus. Não nos parece. que socorrer-nos da adjetivação quando é preciso marcar a grandeza dos rios. O uso. e que quase sempre seca no estio”. dor que não provém do receio do castigo. a reparação aquieta o arrependimento. – Depois de rio. portanto. rio. Como é que há de o francês enunciar a noção de riacho. riacho. e diz menos que ribeiro. torrente. – Atrição é quase o mesmo que contrição: é também termo de teologia. navegável ou não”. – Arroio será de menores proporções que riacho. se ressente a língua portuguesa. mas o que é inegável é que a arte existe por si própria. córrego. pois frequentemente nessa língua se emprega fleuve e rivière. – A compunção (define Bruns. Temos. 352 ARTE. temos rios que nem são ribeirões. embora mais estreito. algumas considerações a propósito da escassez de vocábulos de que. regato.” – Penitência é ao mesmo tempo “a compunção. ribeira. ou a outro rio. apenas menos amplo. ribeirão. os remorsos. – Torrente é “volume de água que se despenha. o arrependimento do contrito. ou as formas com que se designam as pequenas correntes de água. artificial. que significa “abundante curso de água. a não . e é raro encontrar ruisseau também sem atributivo. ela subsiste pelo simples fato de haver métodos. – Riacho é diminutivo de rio. como ao Sca- mandro. o designativo imediato pelo que exprime quanto às proporções da corrente de água é ribeira. enquanto que são numerosos os diminutivos dessa palavra. para designação de rio. por exemplo. que o francês seja no caso mais rico. Aqui. coisa feita com artifício – são expressões vulgares que exprimem que o objeto de que se trata está feito com primor. profundo e vasto do que são de ordinário os rios. regras e preceitos que a constituem – métodos. (e é mais por isso que também damos aqui este grupo): “Coisa feita com arte. independentemente de qualquer manifestação. artifício. no Distrito Federal. artístico. 351 ARROIO. ao Danúbio como ao Alfeu. mesmo porque todas as línguas conhecidas. porém. pode-se dizer talvez. não conseguiu fixar o valor próprio que o termo deve ter no português. – Ribeiro é “pequena corrente de água que brota de nascente. porém. ribeiro. – Faz Bruns. pois é a dor profunda (e amargurada) de ter ofendido a Deus. – So- bre arte e artifício escreve Bruns. Vejamos até que ponto há justeza nestes dois modos de exprimir-se. O artifício é a arte manifestada no trabalho que analisamos. por menos que o latim rivus no-lo autorizasse. mas que. regras e preceitos que o artista há de observar para produzir. regueiro.. e por extensão é toda porção insignificante de água corrente. – Ribeirão é propriamente “ribeiro grande”.. Consolemo-nos da penúria. padecem do mesmo mal. – Regueiro (ou regueira) é propriamente o sulco por onde se escoa a água do rego.

a profissão. A gramática. – Belas-artes são as que nos suscitam ao mesmo tempo sensações. téchne. são adjetivos substantivados. o ofício faz o operário. são as que dependem do trabalho das mãos. etc. Ciência diz-se de um conjunto de conhecimentos que dependem intrinsecamente de certos . pois representam a variação feminina de grammatikós. mas não é um artista. a pintura. assim como a pintura. o jornaleiro. a dialética. entre artificial e natural uma antonímia que se não nota entre natural e artístico.. – Sobre estes dois vocábu- los. os advogados. a escultura. a arquitetura. concordando com o substantivo feminino subentendido téchne ‘arte’. mister. O artifício é que não pode existir sem manifestação: não há artifício onde nada há que o revele. etc. Tanto que dizemos: – uma coisa foi feita com arte. a eloquência. profissão – “Posto que a palavra latina ars. ‘virtude’. o homem hábil. mas não revelou talento. a arte. Dizemos também (e aqui se marca muito claramente a distinção que é preciso notar entre os dois vocábulos): – neste trabalho. que entre os gregos tinha mui lata significação. Conseguintemente dizemos – que uma coisa está feita com artifício – para exprimir que nela há primor de execução.: “Arte diz-se de qualquer conjunto de regras que têm por fim guiar na prática.. a retórica. zographikós. a poética. como a pintura. de tal modo que todas estas palavras.) nem são homens de ofício propriamente. – A isso convém acrescentar: sob um ponto de vista mais elevado. etc. sem excluir nem exigir um trabalho material”. que se propõem imitar a natureza na sua maior perfeição. não impedem que a arte seja. mas não há arte: – querendo-se exprimir que o autor da obra empregou na execução dela alguma habilidade. – como dizemos: – uma coisa foi feita sem arte. dialektikós. ciência. além disso. a lógica. os quais não se chamam artistas (pelo menos nem sempre. etc. guiado por Bourg. mecânico ou de mãos. O ofício requer um trabalho material. a que os gregos chamavam cheironaxia. poietikós. tais como a poesia. todavia ela equivale a esta outra.) 354 ARTE. ou banaysos téchne. ou de certa classe: tais são os médicos.. tais são todos os ofícios fabris. a arte consiste no talento com que é feita uma obra. eram artes. dizer – que ela está feita com arte – é como um pleonasmo. – Artes liberais chamavam os antigos as que ornavam o espírito. em oposição às que só exerciam os escravos. A arte faz o artífice. e eram cultivadas por homens livres. rhetorikós. os boticários. a estatuária. ou nesta obra há algum artifício. pois se não houvesse a arte de a fazer ela não existiria”. ermoglyphikós. a arquitetura. do latim ministerium. logikós. 353 ARTE. que é um artífice. o homem de uma ordem. que hoje temos como substantivos.. – Artes mecânicas. de que nós fizemos arte. ofício. – Mister. Há. um trabalho de engenho. que a obra é artificial. e pode ser mecânica ou de outro gênero. a estatuária. sentimentos e ideias agradáveis. antigamente só exercidas por escravos. tal é o de ferreiro. mas hoje se entendem principalmente aquelas em que predomina o espírito. um trabalho ou ocupação qualquer. architektonikós. venha por síncope da grega areté. palavra mais usada antigamente do que hoje (mester). a profissão. de carpinteiro.. escreve Bruns. e Berg. os cirurgiões. – Profissão é aquele modo de vida que cada um exerce publicamente. cuja execução depende principalmente do espírito do artista. a música. etc. pois abrangia toda disciplina em que se davam regras e preceitos. o artista. o artifício é a habilidade com que a obra foi executada. (Roq. mas não se pode dizer que seja artística. é o mesmo que ofício mecânico ou fabril.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 209 serem empregados.

proletário. não como expressão da verdade. – Operário e obreiro. sendo o conjunto de vários conhecimentos. 355 ARTESÃO (ou artesano). confundem-se aplicados aos que vivem de algum trabalho manual. aplicadas. é ciência”. Dizemos.210 Rocha Pombo princípios gerais. – Profissional é todo aquele que exerce uma profissão.. essa demonstração foi feita alhures. norte. e efetivamente as regras da agrimensura fundam-se nos princípios da geometria. atribuindo os seus males à má organização da sociedade. não inculcarlhes o valor prático. Esses princípios podem guiar na prática. conduzem a um resultado previsto: ciência. uma distinção que se não deve esquecer. proletariado dos titulares. – Artesão é tico é adjetivo menos extensivo que setentrional. e a ciência que instrui. as superfícies. e isso é quanto basta para se dar por exato o resultado da aplicação das regras demonstradas. artífice. que grava no espírito de modo tal que a dúvida não pode subsistir ante a evidência das suas verdades. do conjunto de conhecimentos que formam um sistema. pois. Ela funda as suas regras em princípios evidentes. setentrional. do princípio de que é a arte que aplica.. – Proletário é tanto o operário. pode ter uma significação mais alta e mais extensiva. dá-se. comumente. – Proletário sugere ideia da condição social a que se sente reduzido ainda o operário. – Artífice é “o oficial mecânico que fez uma certa obra”. os obreiros da civilização. da grande causa (e não operários). conhecimentos que. 356 ÁRTICO. por exemplo. – Obreiro. resulta que entre estes dois vocábulos existe a seguinte sinonímia: Arte dir-se-á do conjunto de regras que. mas essa utilidade nada importa para a ciência do geômetra. – Entre operário e trabalhador nota-se uma certa diferença. é arte. A filologia. o trabalhador supõe-se que entende de todo e qualquer serviço para o qual não se exija um préstimo especial. ou – operariado profissional. o homem do trabalho que protesta e reclama. artista. Mas essas regras são consideradas apenas quanto à sua utilidade no trabalho de determinar a área do campo. como qualquer outro profissional que se julga oprimido e angustiado na vida. – A geometria é a ciência que se ocupa de medir as linhas. porém. enquanto que . Há entre os dois termos. O proletário é. “o que tem por ofício alguma arte mecânica”. tendem principalmente a dotar a inteligência com a verdade. Tanto que dizemos já – proletariado intelectual. A gramática. obreiro. pois só se diz do que está para além do círculo polar do norte. como um título ou tratamento. boreal. portanto. Mas a palavra mestre. – Operário confunde-se hoje ordinariamente com proletário. qualquer que seja a forma que apresente. os volumes. tendo por fim subministrar umas tantas regras para a correta expressão do pensamento. – Artista é “o que exerce uma arte liberal”. Partindo. Mas ninguém se lembrou ainda de dizer – operariado intelectual. – Oficial e mestre também se confundem. o operário que reivindica.. mesmo que possam guiar na prática. trabalhador. A agrimensura é a arte de medir os campos. mestre. no entanto. ao oficial que se tem por senhor do seu ofício. formas portuguesas oriundas do mesmo original (do latim opera). por exemplo: os obreiros da fé. – Ár- operário. A arte do agrimensor não tem por missão demonstrar a evidência das regras que a formam. oficial. profissional. encerra ela as regras necessárias para proceder-se à exata avaliação de qualquer terreno. O operário entende-se que tem aptidões especiais para o trabalho de que se ocupa. que demonstra.. pois este o que pretende é demonstrar a verdade dos seus princípios.

o hemisfério onde se conta a latitude. puro”. é o meio. em que não tenha entrado algum artifício – e que não seja. Mas artifício aproxima-se mais de artefacto quando se aplica também a coisas que se fizeram com certa arte. 360 ARTIFÍCIO. – Articular é “dizer a palavra destacando-lhe bem as sílabas”. fictício e fingido são formas oriundas do mesmo original (fingo. proferir. ao palácio de uma embaixada. Latitude norte (ou setentrional). “Vou desfazer os artifícios de que usou contra mim”. artificial. F. ideia do intento de “fazer acreditar que a coisa fingida é a coisa real”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 211 setentrional quer apenas dizer – “que está para o lado do norte”. é evidente a distinção que se nota entre os dois vocábulos. 359 ARTIFICIAL. “território ficto” da respetiva nação (querendo significar que se consideram a embaixada e o navio de guerra como se fossem prolongamentos do território nacional). factício. América setentrional (a que fica a norte da meridional). – Fictício é “o que só existe na imaginação. e dá. porém. ou devido a circunstâncias de momento”.. Disse-me ela que virá hoje à tarde. – Falso é “o que não é exato. Ele pronunciou aquela palavra com certa intencionalidade. suposto. artificioso. pronunciar... ere). – Boreal se aplica a tudo que fica para o norte do equador. – Pronunciar é “enunciar a palavra com clareza e precisão”. simulado. – Artificioso é também o que se fez com artifício. como artificioso. pois. só se aplica tratando-se de coisas não propriamente materiais ou concretas. dizer. aceito como tal”. Do mesmo modo que dizemos – artefactos de cerâmica.. – Ficto quer dizer “fingido. o que é inventado. no entanto. 357 ARTICULAR. pois só aplicamos o nome de artifícios a certa ordem de artefactos. ou de marcenaria – também dizemos – artifícios de caça. legítimo. àqueles que sugerem a ideia de que foram feitos “para enganar”. Resta observar que artifício se emprega ainda no sentido translato: o que não se dá com o outro. no entanto. fin- mos que significa “feito pela arte ou pela indústria do homem”. . nada se concebe. – Artificial é “todo trabalho feito com arte”: opõe-se a natural. verdadeiro. ou de pesca. para fazer alguma coisa (e. – Ficto. Chama-se a um navio de guerra. proferiu na Câmara um belo discurso. Zona ártica (oposta à antártica). – Fingido é “o que imita calculadamente a coisa verdadeira pela qual quer passar. – Falar é “comunicar-se com alguém por meio de palavra viva”. portanto. mas em regra com o intuito de iludir. – Factício significa também “feito ou criado pelo homem. – Proferir é pronunciar em voz alta e com certa solenidade. por mais clara que lhes seja a comunidade de estrutura. ficto. articulou com receio algumas palavras. isto é. o processo.” – Simulado exprime o mesmo que fingido. Dizemos. para conseguir um artefacto). – Artificial já vi- falar.. Hemisfério boreal (o que fica para cima do equador). – Norte emprega-se para designar. em vez de setentrional. ou o conjunto de meios que se emprega para alcançar um resultado. fictício. falso. tento de que passe por natural e verdadeiro”. A tudo que é artificial nem sempre caberá o epíteto artificioso. – Não se poderiam gido. mas talvez com in- confundir estes dois vocábulos. conforme já se viu. – Dizer é “expressar por meio de palavras”. – Artefacto é qualquer produto de trabalho mecânico. – Artifício. melhor ainda do que este. Este. fingido.. – F. Aí mesmo. Se ele me falar sobre isto. de enganar. 358 ARTIFICIAL. por exemplo. artefacto.

e Berg.ato em assassinato sugere a ideia de crime ou delito. Nem sempre. para exprimir “brilho ou fulgor”. degolar. e abusando o matador da sua força. degolar equivale quase. seria pleonasmo o dizer-se – “brasa viva”. como vemos algures. mata- dor. Dizem-nos agora os citados autores: “L’homicide. est un meurtre. enquanto a terminação . por exemplo. e que assassinato designa o próprio crime. morte.). – é uma prova o podermos dizer: “as brasas estão quase apagadas”. Num país onde fosse permitido assassinar. em toda aquela região desolada.io de assassínio marca simplesmente forma substantival. Logo.” Parece que não poderemos traduzir este vocábulo francês meurtre só por morte.. ou das vantagens que tem sobre a vítima”. homicídio. ou de que grosseiro artifício se valeu para obter aquilo. assassinato. fazer cessar. o homicídio voluntário.. que F. assassínios em massa. Neste exemplo: “Os bandidos foram cometendo.” (Em nenhum destes casos caberia artefacto. – Trucidar é “matar com excessos de barbaridade. tirar o vigor”. Também se diz – “brilhar como uma áscua de oiro”. a ação de matar com premeditação e abuso de força. assassínio. cometido sem premeditação. – Assassinar é “matar a homem que se não pode defender. massacrar. capitulado nos códigos. Só é crime. – Matar enuncia a ideia geral de “tirar a vida a um ser vivo”. mata o seu semelhante. pois se o fosse. seria preciso notar que a desinência . – De que entre estas duas palavras não existe sinonímia perfeita – diz Bruns. no seu artigo sobre assassinat. Só figuradamente se emprega este verbo para significar – “exaurir.) 361 ÁSCUA. Conclui-se ao menos de tudo que assassínio designa o ato em si mesmo. e áscua. a ideia de ser completa a incandescência: ideia que não é inerente à palavra brasa. portanto. São os mesmos autores indicados que definem: “Le meurtre. voluntária ou involuntariamente. E.. o “ato de matar”. infração de lei. isto é. a morte de criatura humana feita com a responsabilidade do que matou. O homicídio. ou abusando da sua força. será homicídio. matar. Entre assassínio e assassinato não fazem os léxicos distinção alguma. praticou morte envenenando alguém? E não seria o caso de dizermos então que F. cometeu assassínio? Sob um ponto de vista filológico. O homicídio involuntário é uma desgraça e não um crime”. no entanto. . commis volontairement. se nomme assassinat”. – Áscua implica. isto é. e matar com perfídia e violência. não é assassinato. adaptado do alemão matsken “degolar”) é “matar em massa gente sem defesa” (Besch.. portanto. decerto que é morte... 363 ASSASSINO. Na guerra. dizem que “o homicídio é o fato de dar a morte a outrem. assassinatos em vez de assassínios? Bourg. ou à traição. Diremos. com injustiça e crueldade”. – Degolar é “matar cortando o pescoço”.. a morte. brasa. meurtre. matança. massacrar. “ferro em brasa”: expressões que parecem autorizar-nos a empregar o termo brasa para exprimir calor. trucidar.. no sentido que esta palavra tem aqui. à traição. expressão que é muito trivial. – Massacrar (do francês massacrer. – Assassino é o que. homicida. cometido voluntariamente.” – seria possível empregar. commis avec préméditation ou guet-apens. e não – “as áscuas estão quase apagadas”. em direito seria preciso marcar talvez uma certa diferença entre os dois. morticínio. Nem será morte se o que o fez não usou de violência. ou melhor.. no entanto. com a mesma propriedade. 362 ASSASSINAR. o meurtre. homicide. é o termo próprio para exprimir – trucidar.212 Rocha Pombo “É fácil de ver de que rude.

Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 213 o assassínio não figuraria nas leis penais: não seria propriamente assassinato. – Sítio (de obsidium formado de obsideo = ob + sedeo) deveria ter o mesmo valor de assédio. pois não só dá ideia da duração que podem ter as operações de guerra. sem sugerir. – Morte é o que praticou o matador. ou à vista mesmo de uma praça. no entanto. pondo-a em perigo crescente. bloqueio. ou de grande número de animais”. nem “apertar o assédio”. cerco. Não se diz que um bom empregado é frequente. dir-se-á do livro que não tem pretensões. 364 ASSAZ. e o sítio supõe-se que será longo. não dá o cerco ideia alguma da coisa cercada: pode ser uma grande cidade. frequente. um forte. é assaz incrédulo para. – Matança é “morte de muita gente. Assédio (de ad + sedes.. “F. porém. como ainda a ideia do aperto em que se põe a praça sitiada. São assíduas as visitas que se repetem com insistência e com certa regularidade. – É matador “aquele que mata. – Cerco é termo genérico e designa aqui a operação de “instalar forças militares em torno de uma praça. “Livro assaz despretensioso”. ou mesmo uma casa. não é simplesmente assédio: é mais próximo de cerco. mais vivo intento que o que é frequente. confundir os dois vocábulos. ou mesmo por todos os lados. – “Estes três vocábulos” – diz Bruns. – O que é assíduo é só pela respetiva estrutura. O cerco pode ser de curta duração. esta maneira de se exprimir. desde que se lhes encontra mais constante e mais repetido que o que é frequente. cercando-a por vários. – Morticínio é “matança de criaturas humanas em grande número. ou de assideo = ad + sedeo) é a operação de acampar um exército hostilmente junto ou diante de uma cidade. Este vocábulo. sendo puramente adverbial. – Bastante indica maior quantidade que suficiente. – Quando se diz: “Tenho o bastante para fazer esta viagem” – entende-se que não há necessidade de esquivar-se a gastos supérfluos. e tendo muito de comum as duas preposições ad e ob. e – matança de mulheres. impedindo que nele entre ou dele saia embarcação alguma. 365 ASSÉDIO. seja irracional”. E. sítio. – A julgar no fundo o mesmo radical. e incapazes de defender-se”. – Sítio. um posto militar.. mas assíduo (Bruns. morticínio de bois. pode frequentemente confundir-se com bastante. bastante é mais que suficiente. Além disso. O assédio poderia consistir apenas em manobras a certa distância. Não devemos dizer. ou de inocentes. e não – “fechar o assédio”. com suficiente. 366 ASSÍDUO. no entanto. são frequentes as que se fazem muitas vezes. . O que é assíduo indica mais empenho. – Sítio sugere ideia da importância da praça sitiada. não seria possível. que não se tem dinheiro de sobra. seja homem. suficiente. uma aldeia. ameaçando-a. um bosque. Podemos dizer – matança de bois ou de ratos. no propósito de rendê-la”. Besch. sem mais ideia alguma acessória. – “assim dispostos apresentam a sua gradação descendente”: assaz é mais que bastante. quando menos em grande número de casos. onde se tenha metido o inimigo. – Bloqueio (do alemão blockhaus “pequeno forte de madeira”. portanto.). menos vezes. “apertar o sítio”. Bastaria notar que se diz: “fechar o sítio”. ou de uma fortaleza. bastante. Não se entende a mesma coisa ao dizer: “Tenho o suficiente para a viagem” – revelando. ideia necessária de cerco propriamente.” diz claramente que o indivíduo do que se trata não é crédulo.) aplica-se mais propriamente a operações militares destinadas a trancar um porto. porém. assédio e sítio não se diferençariam senão pela forma.

como. um contrato. harmonia imperfeita”. rimado. isto é. etc. do curso e movimento dos astros. assento. o astrônomo funda-se em cálculos que não falham. – Rima é a “perfeita igualdade de som e de acento no fim de dois ou mais versos”. Dizem-se consoantes os versos de rima com pouca propriedade chamada literal. ou numa reunião em que se tomaram deliberações”. mas diferentes consoantes”. e chamava-se comumente astrologia judiciária. posição. diz-nos o que sabe. isto é – que terminam por palavras “cujas desinências têm da sílaba predominante para o fim as mesmas vogais.. do aspeto. Subscreve-se uma lista. a primeira de astér “astro”. de astér e nómos “lei. para produzir efeitos jurídicos. por exemplo. uma felicitação coletiva. que consiste no estudo e conhecimento do céu e dos fenômenos celestes. uma declaração. busca e acha aplauso entre o néscio vulgo. – Matéria é palavra de maior extensão que assunto. auto. – Duas palavras gregas de origem – diz Roq. medo e preto. – Assunto e objeto também se distinguem. Firma-se uma letra. – formadas. feita das mesmas letras mas de sons ou acentos nem sempre iguais. como. O assunto é o ponto em si. matéria. só se chamam rimados os que a têm.214 Rocha Pombo 367 ASSINAR. valendo-se o astrólogo. assoante. – Auto é “o registro solene de cerimônia que se celebrou. – Assinar designa o ato de “pôr a própria pessoa o seu nome por baixo de algum escrito. con- ainda que não faça propriamente parte dela. A matéria de que o historiador se ocupa é a história. por exemplo: fala e casa. e por isso merece a estima dos sábios. – Assonância significa “semelhança de sons. “a narração por escrito do que se passa em uma assembleia. – Astronomia é termo mais moderno. Parecem significar ambas a ciência dos astros e das leis que lhes regem os movimentos. 371 ATA. em poética dizem-se assoantes os versos que em vez de rima têm apenas assonância. ou igualdade de sons”. objeto. e logo “discurso”. firmar. A matéria abrange todo o gênero a que pertence a coisa de que se trata. O assunto de história tratado por Arriaga é a revolução de 1820. e designa a verdadeira ciência dos astros. – Firmar é “assinar documento para que se torne autêntico”. senão de ritmo. porém. registro. menos precisa. de resolução coletiva que foi tornada. astronomia. consonância. influxo dos astros. Assina-se uma carta. para isto. 369 ASSUNTO. – Consonância diz propriamente “sons que se correspondem.. 368 ASSONÂNCIA. Mesmo um outro pode subscrever por nós. E como nem todos os versos carecem de rima. e por isso mesmo mais vaga.). mas tudo quanto a ela é acessório. subscrever. ou em credo e enredo. – Subscre- ver é simplesmente “pôr o nome por baixo de algum escrito”. um artigo de imprensa. o objeto é o alcance que pode ter o assunto (Bruns. 370 ASTROLOGIA. pôs entre elas uma notável diferença. ou julga sem fundamento científico. – Assunto é o ponto particular e determinado de que se trata no discurso ou no livro.. regra”. e a segunda. termo. rima. Entende-se por astrologia a suposta arte de predizer futuros acontecimentos. O uso. – Ata é soante. para que se saiba que é ela quem escreve”. aquilo de que nos ocupamos atualmente. versos que terminassem em besta e lesta. O astrólogo conta o que imagina. e não só essa coisa. ou para que se tenha mais tarde testemunho autêntico da verdade .

O cético argumenta contra as grandes verdades da religião. toma-se por termo uma confissão ou um testamento”. e quase sempre é um leviano e fútil. O ímpio. O primeiro. – Irreligioso diz apenas “que não tem religião alguma”. – Esquife diferença-se de tumba em não ter tampa. leigo. é sacrílego: nem sempre. em confiar”. profano. ou prova escrita de contrato do que propriamente – registro autêntico de resolução que se tomou”. sem a solenidade deste.). Entre cético e incrédulo é preciso notar a seguinte distinção: o incrédulo não crê porque não cogita de saber a verdade. ou superioridade de espírito. veneração. ou diligência. Mais restritamente – “é a narração circunstanciada de qualquer ato. ou de um clube. Significa mais – “contrato escrito. – Descrente é “o que não crê com firmeza. O incrédulo zomba da religião. – Sacrílego é o que atenta contra coisa sagrada. Tanto dizemos – “féretro sumptuoso”. que se desiludiu de crer”. que duvida ou vacila em crer. e no sentido restrito em que é tomado neste grupo. – Tumba. herege (herético). que afeta uma falsa independência moral. não só é termo mais escolhido. esquife. porém. apenas. infiel. na acepção em que aqui consideramos este vocábulo. ordena-se o registro de um fato. pois descrido significa – “que não crê decisivamente. para que fique lembrança dele” (Aul. heterodoxo. des- crido. judiciária ou administrativa. mas ainda é certo que se não aplica geralmente a caixão pobre e desguarnecido. tumba. amor. e theos “deus”) é o homem que não crê na existência de Deus. sacrílego. contra tudo que merece grande respeito. – Incrédulo é vocábulo de significação mais extensa: designa “o que não crê facilmente”. pagão. que detesta Deus e a humanidade. será verdadeira a inversa. – Termo é convizinho de assento: é o “auto conciso de um ajuste. descrente. desde que impiedade encerra a ideia de ufania contra Deus e os homens. e da qual é tirado para se enterrar.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 215 sobre o que se fez ou resolveu”. o cético. e que se rebela contra Deus. como esta. escrita e autenticada pelo respetivo escrivão e testemunhas”. de uma sessão do Congresso. (Aul. gentio (gentil). cético. e muitas vezes mostra-se amargurado de não aceitá-las porque lhe parecem contrárias à razão humana. – Incréu é forma contrata de incrédulo. ou a súmula de um sucesso. e. na acepção que tem aqui. em regra. no entanto. – Registro é o “ato de se lançar em livro próprio a cópia ou o extrato de um documento. incrédulo (incréu). é antiquado: equivale a auto. faz-se assento de um acordo ou de um compromisso. caixão. – Féretro é termo genérico que pode substituir qualquer dos outros deste grupo. 373 ATEU. féretro. – Segundo Bruns. reduz-se a auto uma deliberação. – Descrido enuncia de modo mais completo a noção de descrente: é como se se dissesse – um descrente definitivo. “féretro pobre”. ímpio. como – “féretro humilde”. – Cético é o que não crê senão quando sente a verdade em plena evidência. idólatra. O ímpio é quase um celerado. 372 ATAÚDE. – Infiel é palavra de significação muito restrita. con- . por extensão. – Ateu (do grego a privativo. ou de um papel importante. que não sente pelo semelhante senão ódio e desprezo. – ataúde e caixão são sinônimos perfeitos. designa “o que não crê nas verdades que a religião ensina ou que a Igreja manda crer”. porque a procurou inutilmente. designa a maca em que o cadáver é transportado até a beira da sepultura.. irreligioso. e por isso despreza o culto público e o objeto desse mesmo culto”.) – Assento. – Ímpio é – diz Lacerda – “o que não tem piedade..

quod Christi vexillis non militarent = “daqui veio talvez chamarem os Cristãos pagãos aos gentios. onde exerciam sua religião. ou porque preferiram deixar o serviço a receber o batismo. eram gentios. ou um culto de falsos deuses. ainda se conservou a idolatria nas aldeias (pagi). mas nem todos os gentios são pagãos. de Brama. assim também os judeus chamavam goim. Cita Ainsworth a favor desta opinião a passagem seguinte: Miles. chamaram-se pagãos (pagani) os povos que ficaram infiéis. A palavra gentios não designa senão as pessoas que não creem na religião revelada. Depois do estabelecimento do Cristianismo. são pagãos. – Heterodoxo se diz do membro de uma igreja. A Igreja nascente não falava senão de gentios. ou infiéis. Paulo foi o apóstolo das gentes. S. de Fo. “o soldado. segundo observa Fleury. 45) – Idólatra designa propriamente “o que adora ídolos”. – que tem opinião diferente dos demais sectários (heteros “outro” + doxa “opinião”). porque os imperadores cristãos obrigaram por seus editos aos adoradores de falsos deuses a retirar-se para as aldeias ou lugares de pouca conta. Os gentios foram chamados à fé. Ut portet nomen meum coram gentibus (IX. uma religião mitológica. ou porque. É termo que se pode aplicar a todos os que desconhecem a religião cristã e celebram cultos bárbaros. ou gentios todos os povos que não eram da sua religião. Confúcio e Sócrates. e a de pagãos distingue aqueles que observam cegamente. como crê Barônio. por- que. os pagãos persistiram em sua idolatria. ou fosse. 15). e obedeceram à sua vocação. Pretendem alguns sábios que os gentios foram assim chamados porque não têm outra lei mais que a natural e as que a si mesmos se impõem. depois de convertidas ao Cristianismo as vilas e cidades. tivesse feito testamento”. aos infiéis. fecerit testamentum. como diz S. porque não queriam militar debaixo das bandeiras de Cristo”. si dum paganus erat. como foi ordenado no ano 310. o nome de pagãos foi dado aos infiéis que. Afonso Henriques. E não a mim que creio o que podeis. e este mesmo nome deram depois aos Cristãos”. Pelo que. Senhor. gentios. de Xaca. etc.: “Assim como os gregos e os romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não fossem eles próprios. e aos quais se concedia a permissão de habitar a Terra Santa. Os adoradores de Júpiter. que se chamavam pagus. continuaram a adorar os falsos deuses. propriamente falando. adoradores de um só Deus. Jerônimo. contanto que observassem a lei natural e se abstivessem de sangue. ou. mas não eram pagãos. que têm uma lei positiva e uma religião revelada que são obrigados a seguir. dos gentios. E acrescenta: Hinc et fortasse christiani gentes dixere paganos.. (Lus. e de outras falsas divindades. na visão do campo de Ourique Aos infiéis. – Gentio era “toda a gente que ficava fora da nossa grei”. de uma religião. como lhes chamou d. como também foram bárbaros para os romanos todos os povos que se encontravam fora de Roma. por oposição aos judeus e aos Cristãos. Sobre esta e a palavra pagão escreve Roq. são. porque os infiéis se recusaram a alistar-se na milícia de Jesus Cristo. gentes. de uma doutrina – que não se submete à autoridade que a regula. retirados das cidades.216 Rocha Pombo siderada neste grupo: é o qualificativo com que na Idade Média os Cristãos designavam os maometanos. e com fanatismo. etc. como entre nós o é paisano a soldado ou militar. como se lê nos Atos dos Apóstolos. se quando era ainda paisano. Seja como for. os sectários de Mafoma. Observa Fleury que entre estes gentios incircuncisos alguns havia que adoravam o verdadeiro Deus. III. paganus era oposto a miles. os pagãos são gentios. isto é. que refutavam a pluralidade dos deuses. entre os latinos. nações. É antôni- .

é “uma espécie de reflexão prolongada e persistente”. – Crime é o ato pelo qual a vida. infração. Antes de empreender um negócio importante. José. contensão. não se lhe pode atribuir a gravidade do crime. crime. Como exemplo da primeira acepção. transgressão. não chegando. ou de executar alguma tarefa”. junta à noção de leigo a de ímpio e sacrílego. e que consiste em que a reflexão deduz consequências. – Cogitação enuncia “o ato ou a operação de pensar sobre alguma coisa”. apercepção. – Desvelo é o “cuidado e vigilância contínua de quem se empenha com afinco em realizar alguma coisa. ou de efetuar negócio de grande importância. a propriedade. de extremo cuidado e grave aplicação com que se estuda e trata de resolver alguma alta questão. exprime-se que o ato criminoso foi planeado e começado a perpetrar. seja porque revelem instintos depravados no criminoso. – Vigilância é um cuidado contínuo. intensa aplicação”. indica-se com esta palavra um desses crimes que causam indignação. porém. chama-se aplicação. – os frequentes atentados dos governos contra as liberdades públicas. que não cessa de agir enquanto não consegue o seu fim”. seja por ser o ato praticado contra quem ou contra aquilo que é geralmente respeitado. tentativa. Não obstante. esse ato chamase reflexão. enquanto que a meditação se exerce sobre fatos cujas consequências se conhecem antecipadamente. – Profano. 375 ATENTADO. em muitos casos. reflexão. instigados pelos Jesuítas. praticaram nas terras da Boa-Hora para assassinarem el-rei D. a diligência levados quase a um verdadeira inquietação por aquilo que nos interessa ou de que devemos dar contas”. ou que não diz respeito a crença nenhuma. as nossas faculdades se fixam sobre objetos internos. meditação. uma atividade que está sempre alerta (vígil “que vela”). – atentado tem duas acepções muito distintas. a honra. e crimes leves. não meditar. ponde- ração. porém. há entre os dois vocábulos uma diferença notável. os direitos ou os interesses alheios são atacados ou aniquilados. solicitude. delito. – Contensão significa “profundo esforço espiritual. a consumar-se por circunstâncias independentes da vontade do autor. 374 ATENÇÃO.. – Segundo Bruns. Se. Muitas vezes comete-se delito sem infringir as leis . cogitação. cuidado. – Solicitude é a “atenção. não de reflexão. citaremos – o atentado contra Carnot. violação. – Atenção é o ato pelo qual o nosso espírito fixa o seu poder sobre algum objeto externo. quebra. – Ponderação sugere ideia de atenção mais profunda. – Leigo e profano distinguem apenas o que nada tem com a religião. – Meditação. – Cuidado é a “atenção zelosa. desvelo. como bem define Bruns. – Delito é uma infração à lei. dedicação. – Dedicação é quase solicitude e desvelo: é “a boa vontade e empenho com que se cuida de cumprir um dever. Como exemplos da segunda. Há crimes graves. culpa. falta. – Herege (ou herético) é o que levou a heterodoxia ao extremo de discutir com certa paixão e sustentar graves erros em ponto de fé.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 217 mo de ortodoxo. o cuidado. ou a atenção é demorada e persistente. grande. uma atenção que se não deixa iludir. quebrantamento. que não pertence ao clero. aplicação. indefectível com que se faz alguma coisa”. Na segunda acepção. A paixão do Redentor é um assunto de meditação. pe- cado. – Na primeira. apontaremos – o atentado que alguns nobres. vigilância. Se a reflexão. em vez de num objeto externo. – Apercepção é a “capacidade própria da inteligência para conceber ideia das coisas reais”. necessitamos refletir. para os crentes.

passa esta a ser um atentado. ou suplicante. diligente. da lei. – dizemos da direção que se dá aos membros. à cabeça. moirejante. etc. Há o pecado mortal. de quebrar a lei. Um braço estendido horizontalmente não pode permanecer muito tempo nessa posição. quem fere. A postura de uma pessoa é decente conforme os olhos que a veem. – Pecado é infração da lei religiosa. afanoso. O celerado que lança uma bomba explosiva sobre uma multidão. – Transgressão é propriamente “o ato de fazer alguma coisa passando por cima das leis”. ou só da cabeça ou dos membros. pois esta resulta da consciência com que a infração foi cometida. solerte.218 Rocha Pombo morais. neste grupo. Assim dizemos – atitude serena ou ameaçadora. Particularmente aplicado a . e frequentemente. das leis morais. ou se as circunstâncias da tentativa são excep- cionalmente notáveis. mata ou tenta ferir ou matar o seu semelhante. e que exprime um sentimento. postura. 376 ATITUDE. os sentimentos. solíci- to. – Gesto é um movimento do corpo todo. – Postura difere de atitude em revelar este o sentimento próprio. – Tentativa é propriamente um atentado. na pessoa. É preciso não esquecer que atitude e postura se dizem do conjunto do corpo. A autoridade que dá uma ordem absurda comete transgressão. infringem-se as leis morais sem cometer delito. 377 ATIVO. ou indiferente. e nisso difere também da atitude. é “o que. O negociante que não pagou os impostos devidos cometeu infração das leis fiscais. desvelado. posição. nos revela as disposições. O gesto é rápido. Dizemos – infração involuntária. uma paixão. cuidadoso. não uma tentativa. e geralmente aplica-se este termo só a casos de pouca importância. e aquele. como comete infração das leis penais quem furta uma carteira.: frases nas quais posição ou gesto seriam o termo adequado. que opera os efeitos que lhe são naturais. mas que não chegou a consumar-se por alguma circunstância alheia à vontade do autor. mesmo que não mate ninguém. aquele que pela sua gravidade como que mata as almas. não. Quem comete uma infração pode não ter culpa. atitude benigna. gesto. verbo latino oriundo de vis “força”) sem cometer violência. experto. aludir à apreciação alheia. mais ou menos grave. ou o preceito moral”. Quem deseja mal ao próximo comete pecado. a postura das mãos. – Violação distingue-se dos dois precedentes em encerrar a ideia da força. o delito. – Falta = “omissão menos grave do que culpa”. O crime quase sempre imprime baldão em quem o comete. postura. ansioso. Não é possível violar (de violo. – Culpa = “ato ou omissão menos grave do que crime”. portanto. – Posição – referindo-nos somente ao que desta palavra é relativo às pessoas. Tudo que exerce a ação que lhe é própria. ou a prática de um crime ou de um delito que se começou. – Ati- tude. – Infração é o ato de “infringir. e nunca – violação involuntária. zeloso. é ativo. que na atualidade a dominam”. mas quem comete violação tem sempre culpa. isto é. comete um atentado. parecendo que o segundo é muito mais forte. pressuroso. e por extensão. não de cada uma das suas partes. Se a pessoa alvejada tem uma alta representação social. quebrantamento = “ato de infringir lei ou preceito”. apressurado. – Atividade é antônimo de inércia. ao busto. afadigado. Devemos. que pode ser facilmente perdoado. Quem erra um golpe ou um tiro de bala contra uma pessoa comete uma tentativa de morte. evitar frases como estas: a postura da cabeça. também. – Quebra. do propósito com que a lei é infringida. e o pecado venial – o que não importa em perda da graça.

ou com que obram as causas. e a viveza com que se empregam os meios para obter um fim. com atividade as suas aptidões. Nem sempre o homem ativo pode ser tido como diligente. – Apressurado = “que tem pressa em fazer. mas um discurso eficaz previne-a e combate-a. em suma. forte. mas de um estado anormal em que ela se encontra. empenhado com grande esforço. a afligir-se por ver cumprida a sua tarefa.” – Desvelado é mais que cuidadoso: é “aquele que não descansa antes de haver cumprido a sua tarefa”. eficaz.. e que os seus esforços são regulados cuidadosamente pelo esmero com que procura dar conta da sua tarefa. – Solícito diz “cuidadoso e diligente.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 219 faculdades do homem. violento. convizinho desses dois: experto é o “homem que. e o caráter do que é ativo. – Enérgico diz propriamente “que opera com grande atividade. O mesmo não se deve entender quanto ao diligente. diz Alv. pois este se supõe sempre que exerce a sua atividade com muito bom senso. que “ansioso não se diz de uma qualidade da pessoa. que de ativo e diligente. a sua força e virtude constituem a eficácia. – Diligente será o homem que. ou “enquanto”. perícia. impaciente de cumprir o seu dever ou de executar algum serviço. além de ativo e diligente. – Afadigado = “ansioso no trabalho. A natureza poderosa dos meios. – Afanoso = “ativo. vigilante. perdendo-se ou dispersando-se inutilmente. E neste sentido depreciativo aproxima-se mais de ladino. além de ativo. que exerce. – Cuidadoso se diz daquele “que desempenha com cuidado o seu cargo. em defender os interesses que lhe estão confiados”. astuto. sagaz. dizemos que é ativo aquele que se move na vida com desembaraço. Observa com razão Bruns. Está ansioso aquele que procura chegar ao termo de uma coisa. Nem sempre a esperteza é uma virtude de que nos possamos desvanecer: antes pelo contrário. portanto. Um medicamento ativo produz prontamente o seu efeito. – Zeloso é o que. cansado mais do que talvez exigiria a tarefa”. quase precipitado”. segundo Lac. esforçado na sua lida”. e se a sua ação sobre ela é de natureza que afugenta a doença. vivo interesse nos encargos que lhe são confiados.. e obra com energia em toda a economia animal.. – Pressuroso = ativo. esse medicamento ativo é um remédio eficaz. ou quem se impacienta por ver que ela tarda a chegar”. que é de vivo engenho e de fácil penetração”. ou das causas. “prudente com astúcia”. convencendo e persuadindo”. e o caráter do que é eficaz. solícito.. como define Aul.. se por sua virtude combate com segurança os efeitos do mal. pois a atividade pode não ser ponderada e sair da justa medida. ou trata bem da sua tarefa ou de um negócio que lhe compete. Por isso o homem ativo nem sempre conseguirá fazer o que deseja. mostra zelo. – Violento é o que se exerce . Um discurso ativo surpreende e não deixa tempo para a dúvida. Solerte diplomata. constituem a atividade.. mas chega a inquietar-se. – Ansioso é o que se não satisfaz com ser apenas solícito e desvelado. que é expedito em adiantar os seus negócios. – Quanto aos dois primeiros. – Solerte é. Na acepção figurada que lhe dá lugar neste grupo dir-se-ia. Caixeiro solerte. Pas. impaciente por acabar. afanoso. que é pronto nos misteres de que se ocupa. afadigado como um moiro”. enérgico. – Experto é tomado frequentemente a má parte. porém. é cuidadoso. que se exerce com muita força”. assíduo em dar conta de seu mister ou de algum encargo”.: “A diligência. – Moirejante = “esforçado. esmerado. “mostra escrúpulo em cuidar da sua tarefa. tem uma pronta e clara inteligência das coisas. 378 ATIVO. além de ser ativo. “não consegue o que pretende”.

artista.. faça-o por profissão. um discurso violento ataca sempre alguém. alguma coisa. predicado. Papel de boa qualidade. rápida. agora. se é considerado como pago para fazer rir o público. 2. direta ou indireta dele. “A diferença” – diz ele – “deve ser a mesma que se nota entre presente e atual. não porque a língua o autorize. comediante. hoje. modo de ser. se age prontamente. propriedade. O que é ou está presente acha-se aqui mesmo. por simples asserção. alguma instituição. diante de nós. – Propriedade é aquilo que. impetuosa. em presença (prœ). que facilitaram a conquista.º) em considerar-se o atributo como existente. Atribui-se a ruína dos impérios aos conquistadores. a torna distinta e inconfundível. presentemente. Dizemos que um remédio é enérgico se ele é mais do que ativo. que em lógica são sinônimos perfeitos. imputa-se . – Predicado é o que se exige na pessoa ou coisa para ser tida como válida ou verdadeira. A propriedade do ímã é atrair o ferro. A eternidade é um dos atributos de Deus. contingente. dando-o como autor dela. A tolerância é um dos predicados do espírito livre. em que – atribuir é dar alguém por autor de alguma coisa vagamente. incisivos. e deveria imputar-se isso aos maus governos. diferençam-se na linguagem vulgar: 1. comediante. claros. atual. e artista se intitula o meu sapateiro. Um discurso enérgico é feito em termos fortes. Atual significa verbos escreveu Lacerda. é ator enquanto está no palco. no entanto. – Sobre estes dois lidade. imputar toma-se quase sempre em mau sentido”. mas porque o uso assim o tem estabelecido: Rafael foi artista. cômico. estando na essência da pessoa ou da coisa. – So- um fato à pessoa que julgamos ser causa mais ou menos remota. ação.” 380 ATRIBUIR. imputar. provas.. se o é como representante das personagens que entram na comédia. e o predicado como exigido. argumentos. lhe pertence tão indiscutivelmente que a pessoa ou coisa deixaria de ser o que é se lhe faltasse tal atributo.) 382 ATUALMENTE. Cômico ou comediante é aquele que tem a profissão de ser ator no teatro: cômico. e de modo áspero e sem atenção a conveniências que normalmente se guardariam. que parece muito estreita a sinonímia que existe entre os dois primeiros advérbios deste grupo. Artista é um termo muito extensivo. 379 ATOR. que opera com energia demasiada. presente.220 Rocha Pombo com atividade anormal e brusca. 381 ATRIBUTO. Predicado e atributo. repetindo Roquete: “Exprimem ambos a ação de referir a alguém uma coisa.º) em o atributo constituir estado. – Qualidade é o que faz com que uma coisa seja tal como se diz. Atribui-se uma obra ao que se crê ser autor dela. e – imputar é atribuir-lha aplicando-lhe logo o mérito ou o demérito da ação. próprio. – Forte = “que atua com muita força. ou por mero passatempo. constituindo uma das suas virtudes. Remédio forte. Atribuir toma-se indiferentemente em boa ou má parte. essencial. Fortes razões. – Atributo “se diz daquilo que. e que é violento se abate o organismo e pode até pôr em risco o doente. qua- bre estes quatro vocábulos escreve Bruns. (Bruns. pertencendo exclusivamente à pessoa ou coisa. As excelentes qualidades de uma pessoa”. diferençam-se. cessa de o ser logo que se retira para entre bastidores. acidental. – Nota Laf.: “Quem representa no teatro uma personagem qualquer. com força mais que normal”. e o predicado.

“Opõe-se o estado presente de uma pessoa a suas calamidades passadas” (Vauv. Ilustra o autor essas definições com profusão de exemplos extraídos de clássicos. com o seu maintenant (main + tenant). E quando exerce influxo (ou influência) sobre alguma coisa. – Hoje. espírito. “Il était riche autrefois. sob diversos aspetos – costumes. em oposição a outra fase passada. Quem diz hoje refere-se a fato em oposição a fato ocorrido ontem. operar (obrar). Só mesmo dando-lhe muita latitude é que admitimos. atualmente é relativo. portanto. no entanto. atual caracteriza-se unicamente por sugerir uma ideia de realidade em oposição ao que poderá ou poderia ser. “o rei que reina atualmente” – empregar-se-á de preferência quando se quiser sugerir alguma relação com os reis que hão de vir depois dele.” É evidente que tanto numa como noutra língua esses advérbios estão postos – maintenant em lugar de aujourd’hui. mas a fato passado há muito tempo. Em suma: hoje é tanto o dia atual propriamente. 383 ATUAR. maintenant il est pauvre”. o tempo em que se está vivendo. – mas à fase da vida em que nos achamos. parece. – Quando uma coisa (ou mesmo uma pessoa) exerce ativamente a sua força (física ou moral) sobre outra. “O rei que reina presentemente” – dir-se-á de maneira absoluta.. dizemos que influi. ou em referência aos reis seus predecessores. Dizemos: “Felizmente hoje não me deixo afrontar daquelas abusões. nesta ou a esta hora” associa a noção mais vaga de “nos ou os dias que correm. “Ele foi rico em outros tempos. às épocas precedentes. O francês. nem em ideia. “Nossa natureza está presentemente corrompida” (Mol. – Agora (do latim hac hora) é também advérbio que à noção precisa de “neste ou a este momento. e nem por isso fica livre da extensão que é admissível. que é a forma vernácula do mesmo verbo latino operare). no ou o tempo que não é o passado de que se falava”.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 221 ‘que está em ato (actu) e não em potência (potentiâ)’. nem atuar. agora está pobre.). e não é difícil apanhar a natureza e extensão dessa relação em todos os do grupo. hipotético. presentemente de maneira absoluta..). “Opõese o presente aos séculos passados” (Volt. no entanto.). como a época atual. nem em expectativa. e querendo marcar uma certa relação com o passado. etc. Quem diz presentemente não faz decerto referência em oposição a fato que tivesse sucedido ontem. possível ou futuro. exatamente como em português. modas. de um povo.” – referindo-nos não a abusões que tivéssemos precisamente ontem. segundo o mesmo Laf. dizemos que opera (ou obra. nem por vir em geral”.. tanto atuais como futuros”.” É preciso notar que hoje. influir. que hoje marque também ideia muito semelhante a presentemente. estes três verbos. Mas disse d’Alembert com perfeita justeza: “Os acadêmicos. ser ainda mais próprio para o passado. de sorte que o que é atual não está nem em potência. portanto. segundo a linguagem da antiga metafísica. ou há poucos dias. “Nós nos preparamos atualmente para reinar um dia com os santos no céu” (Bourd. Quando produz sobre alguma coisa o efeito que lhe é próprio. “emprega-se sobretudo para opor uma certa época da vida de um homem. marca relação com outro tempo. e marca alguma coisa em oposição com o que é ideal. dizemos que atua. nem limitando o que afirmamos ao próprio dia atual – hoje. e agora em vez de hoje. Não se confundem. Emprega-se. Um sucesso pode influir sobre coisas futuras (não operar. porque estes . ou da humanidade. Seja como for. – Presente refere-se sem dúvida tanto ao futuro como ao passado. agir.). dá com precisão admirável o nosso agora. como os dois advérbios precedentes.

A augusta fronte do pontífice. e é possível que se destine a operar uma verdadeira revolução no seio do ministério”. Aturdir significa “perturbar o senso confundindo-o”. gesto. uma queda. pontifical. imponente. magnífico. – Conturbar exprime a mesma noção geral de pôr em desordem e confusão. – Aturdir e atordoar têm de comum a ideia de perturbar os sentidos. porém é sofrer em silêncio. – Soberano é o que está no mais alto grau de poder. Aguentam-se grosserias de um biltre. que é augusto e venerando como as coisas sagradas”.: – Sofrer “exprime a ideia geral e absoluta de levar o mal que nos acontece. ou injuriado. conquanto pouco tolerado pelos vernaculistas escrupulosos. andar. glorioso. perturbar. ou majestade. Aguenta-se a estupidez de um funcionário imbecil. – Grandioso = “aquilo cuja pompa e mag- . pela sua grandeza. enfermidades. 386 AUGUSTO. pode ser incluído neste grupo. o gesto soberano de desdém. sofre. – Segundo Roq. um grande rumor ou vozeria – aturdem-nos. solene. – Solene = “que tem caráter de formal e brilhante autenticidade”. O homem caritativo suporta com bom semblante os defeitos e fraquezas do próximo. e só se no. e portanto acima de todos os do seu gênero. poder. sumptuoso e magnífico ao ponto de sugerir a ideia de coisa sagrada e divina. ou mudar a ordem. to- lerar. e em cuja presença se sente um como religioso temor. a figura augusta do patriarca. postura imponente. O que tem desgostos domésticos.. aguentar. – Perturbar é interverter. alterar as condições. A luz forte perturba a vista (não – conturba). Porte. contur- distinguem pela causa que produz a perturbação. se impõe ao respeito ou à admiração de todos. – Tolerar é também sofrer por efeito de prudência ou de boa educação. O ar majestoso da rainha. a majestosa cerimônia da sagração do bispo. A alma se lhe conturba ao saber daquela desgraça. ou: “é possível que tenha de operar ainda alguma transformação política imprevista”. semblante majestoso. mas sugere mais particularmente a ideia de perturbação do senso interior. se bem que mais genérica. ou contrafazendo-se. – Atordoar aplica-se mais particularmente à ação de perturbar por efeito físico: um cheiro muito forte. sofrer. atordoar. ou que se vê na pobreza.222 Rocha Pombo enunciam ação que depende de atividade e quase de esforço consciente). contrariando-se muito. – Padecer exprime particularmente o sofrimento físico do indivíduo. Uma tormenta. “Aquele discurso atuou fortemente no espírito da Câmara. – Augusto é o que é tão grande. ou que nos fazem. sobera- bar. O filho submisso atura a rabugice do velho pai. – Aguentar é vocábulo de uso comum (com a significação que tem neste grupo) e enuncia a ideia de sofrer com esforço. 385 ATURDIR. – Suportar é sofrer com paciência e conformidade.. – Majestoso é o que esplende pela sua aparência grandiosa e sublime. pomposo. com a mesma significação de obrar. suportar. O que tem dores padece. a situação ou estado normal de alguma coisa. – Pontifical = “que tem aparência de pompa religiosa. majestoso. O rei prudente tolera alguns abusos contra sua autoridade para evitar maiores males”. por não dar escândalo. ostentoso. ou da sua classe. O soberano olhar da princesa. padecer. esplêndido. solene. uma bebida alcoólica. Préstito imponente. grandioso. – Também agir. – Imponente é o que. – Aturar é sofrer com repugnância e de mau grado. 384 ATURAR. uma pancada na cabeça – atordoam. ou de uma autoridade ignorante.

Avulta o prestígio do general. – Esplêndido = “sereno e brilhante. o rio. fazer-se mais largo ou extenso”. quase imperceptível.. a biblioteca. avolumar-se. 388 AURA. – Brisa é também muito próximo dos precedentes: é “vento suave e fresco”. amplificar-se. etc. mas sim ao incremento. – Zéfiro é “brisa matutina. que nos cause mais pela quentura ou pela frieza do que pela força. ou por uma impressão muito vaga. ou a minha felicidade (e sim aumenta-se). então. – Engrandecer = “fazer-se grande. propício. ampliar-se. e isso porque aumentar considera concurso alheio. encorpar. que se sente apenas pela agitação das folhas. excelente e augusto”. fazer-se mais extenso. – No entender de Bruns. zéfiro. – Avolumar-se é muito próximo de aumentar. avolumar-se como empola”. no entanto. inchar. portanto. – Intumescer = “inchar demais. ou mais largo”. que vem a certa hora. – Dilatar-se = “ampliar-se. – Exagerar = “dar proporções fora do normal”. proteção. consideraremos o modo como esse incremento ou desenvolvimento se opera para empregar um dos verbos aumentar ou crescer. que “o antônimo de aumentar é diminuir. “cada um dos vocábulos deste grupo sugere a ideia . – Inchar = crescer com esforço. ou a minha febre. exagerar. impulso próprio”. – Encorpar = “tomar maior corpo. crescer é relativo ao volume. – Ostentoso = “que. e o de crescer é minguar. ou maior do que era”. – Aura é “brisa fagueira. nem ao volume. usaremos de crescer. em que não se atende nem à quantidade. empolar. propício como o favônio”. isto é. avul- tar. Não se diz: avoluma-se a minha dor. – Viração “é vento fresco. patrocínio. 387 AUMENTAR. e que. salva- guarda. – Aragem é um brando movimento do ar. engrandecer. e entre os dois deve notar-se a diferença que consiste unicamente em aplicar-se o primeiro só a coisas concretas. os meus males avultam com os meus receios.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 223 nificência excedem à grandeza comum”. – Empolamar (outra forma de empolar) = “fazer empolado demais”. ou de matéria que se acumula”. e crescer. mais sólido e de maior vulto”. aumentar é relativo à quantidade. que tem o brilho ostentoso da riqueza”. aragem. – Magnífico sugere ideia do que chegou ao máximo esplendor e grandeza. o verbo adequado será aumentar. engrossar. – Há casos. Aumenta a fortuna. orgulho e ufania”. intumescer. – Glorioso = “que ascendeu à elevação do que se fez ilustre e excelente. digno de honras sobre-humanas. fazer-se túmido. ou por efeito de gás que se dilata. fa- vônio. se for devido a forças interiores. além de esplêndido e aparatoso. empolamar. viração. e pode ser empregado tan- to no sentido abstrato como no concreto. – Empolar = “crescer. fazer mais compacto. – Avultar pode dizer-se que é muito mais extenso e compreensivo que avolumar-se. – Ampliar-se = “tornar-se de proporções maiores. crescer. brisa. ao desenvolvimento. 389 AUSPÍCIOS. – Engrossar = “fazer-se mais grosso”. ou que não é contínuo por muito tempo”. a que sopra alegrando os prados”. ainda mostra ostentação. avulta aquela grande figura no meio da turba. – Observa Bruns. – Pomposo = “que tem mais que o aparato de solenidades usuais. Se o incremento ou desenvolvimento for devido à afluência do que vem do exterior. o menino. crescer como um tumor”. brando vento aprazível. dilatar-se. Cresce a planta. – Amplificar-se ajunta à significação de ampliar-se a ideia do esforço com que se faz maior o que já era grande.

– Segundo Roq. esse favor. Pode ser esperançoso um estudante. “As leis são a salvaguarda dos cidadãos”. por um apoio indeterminado. 390 AUSPICIOSO. à vista do que apresenta. sem embargo. ou por alguns conselhos ou recomendações. A austeridade. observando-as estrictamente e sem delas nos separarmos. pode ser-lhe retirado por várias circunstâncias: e eis aí a versatilidade e inconstância dos auspícios. socorro ou amparo. refere-se antes à nossa conduta conosco mesmo que com os demais. Este termo sugere sempre a ideia de autoridade revestida do poder de defender. mas vaga e um tanto ou quanto incerta. portanto. que se manifesta pela benevolência. inflexível. na qual. entendendo-se que o patrocínio provém sempre do forte para o fraco. Ainda que geralmente se tome a austeridade em sentido de aspereza e rigorosa virtude. etc. como se vê no grupo precedente. rígido. têm costumes mui rígidos e austeros. ríspi- do. e tegere “cobrir”) predomina a ideia dos meios que se adotam para pôr o protegido ao abrigo de algum mal. autoriza a esperar-se que venha a dar o que promete. como depende muitas vezes do temperamento e do gênero de vida que muitos são obrigados a levar. Assim se diz que “uma empresa principiou sob bons auspícios”. – Auspícios (do latim auspex. por analogia. que pugna em favor daquele que é protegido ou melhor patrocinado.224 Rocha Pombo de uma influência eficaz para o logro do que outrem deseja”. de salvar. sem embargo . inabalável. como também de mortificação e penitência. inalterável. e o que designa maior eficácia: literalmente “guarda que salva”. Os fracos procuram a proteção dos poderosos. auxílio. Há. porém. – Se auspícios tem a significação um tanto vaga. Em proteção (do latim pro “adiante”. os presságios tirados do voo ou do canto das aves – antes de se aventurarem em alguma empresa. – “a austeridade consiste em sujeitarmo-nos a regras rígidas da maneira de viver. o que. prometedor. assim também. por si mesmo. duro. que põe ao abrigo de grandes perigos. auspicioso significa sempre – “que começa sob a influência de bons augúrios. etc. pois a proteção defende. É prometedor o menino que fez alguma coisa extraordinária para a sua idade. contemplar”) é o termo que designa menor influência benéfica. inexorável. Pode ser auspiciosa uma estreia. deixa prever que alcançará o êxito que aspira”. um natalício. ativa. sem contudo ir até auxílio imediato ou intervenção ativa. do superior para o inferior: ideia que não é inerente à proteção. o que a proteção pode fazer é impedir que se chegue à situação de necessitar de ajuda. este vocábulo designa a influência favorável. pois. – Prometedor é o que. neste vocábulo uma grande vaguidade de significação. se arriscavam confiados apenas na proteção que os deuses lhes haviam de confiar. – Salvaguarda não é vocábulo muito usado. assim como os romanos costumavam consultar os auspícios – isto é. Auspícios podem ser bons ou maus. e que até são malvados. mas nem sempre ajuda. pelas suas qualidades e dotes próprios. severo. quando eram favoráveis os auspícios. quando desde princípio tem o favor do público. um casamento. rigoroso. é o mais expressivo de todos os deste grupo. esperançoso. não obstante. 391 AUSTERO. de avis e spicere “ver. porém. ou auxilia ou socorre. – Patrocínio denota proteção eficaz. – Esperançoso é “o que inspira esperanças de grande sucesso. um poeta. acontece que homens que não fazem profissão de virtude. que se pode prever terá esplêndido sucesso”. cobre. o mesmo não se dá quanto a auspicioso. nem ampara.

ou uma província. um gênio austero e rígido também costuma sê-lo com todos. formal. ou melhor. Muitos homens. juramento solene. soberania. – Inabalável é “o que não muda de opinião. relação autêntica. e vem a parecer mais áspero e grosseiro que severo. de propósito. 393 AUTONOMIA. todos se viram pelos excessos a que de ordinário arrasta”. indicará extremada rigidez. positivo. mostrando-se firme e seguro no seu modo de ver ou de obrar”. e mais ainda com os que dele dependem. Dizemos: carta. contrato. espanta a todos. – Independência pode-se dizer que se confunde com soberania. além de formal e autêntico. Não podemos deixar de ter certa admiração pelo homem austero. e de gênio áspero. a severidade com os outros pode ser obra de virtude ou de vício. nem de temer o severo. “que não se dobra. solene. ou mesmo um distrito ou um município goza de autonomia quando ele se governa. sem serem severos com os outros. pois encerra muito claro a ideia de que a coisa ou pessoa inabalável não cede a esforço. que parece o mesmo sempre”. – Duro dizemos. do que é mais que rígido: dureza de alma é quase crueldade. em outros sucede o contrário. indicará ela certo caráter virtuoso. Não inclui necessariamente a ideia de autenticidade: um ato. declaração formal. e se a aplicarmos às ações. Se aplicarmos esta palavra aos princípios ou causas. Diz La Bruyère que um filósofo austero. e que por isso é claro. – Solene é “o que. pouco conforme às vezes com a equidade. pois não se concebe um Estado independente sem que seja por isso mes- . e nada lhe contenta o excessivo rigor. – Inabalável é mais forte que inalterável.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 225 disto. se fez com grande aparato e plena publicidade”. – Inexorável é “o que não cede nem a súplicas e lágrimas”. e por essa razão sempre é temida. – Tomamos aqui estas palavras na acepção política. genuíno”. 392 AUTÊNTICO. no entanto. Dizemos que um Estado. se administra pelas suas leis próprias. O severo não manifesta condescendência alguma. – O homem rigoroso tudo exagera. – Formal é “o que se fez na devida forma. e a severidade o é pelo caráter e os princípios. ao mesmo tempo que o rigoroso os leva a um extremo que é mais prejudicial do que útil. – Infle- xível exprime. porém. e como tal capaz de produzir todos os efeitos jurídicos”. subentendendo-se que essas leis ficam sempre dentro de alguma lei geral. A rispidez quase que depende mais do temperamento e da educação que propriamente das qualidades fundamentais da criatura. que não muda da resolução tomada”. ou um documento formal pode não ser autêntico. – A severidade exerce-se de ordinário antes com os demais que conosco. A austeridade consigo mesmo não é incômoda a ninguém. segundo a própria formação do vocábulo. em sentido moral. bem que os homens severos costumem ser pontuais e exatos no cumprimento de suas obrigações. pois só se torna autêntico o ato formal depois de legalizado juridicamente. e por isso não são raros os casos em que a rispidez não exclui a magnanimidade e outras virtudes de coração. – Autênti- co designa “o caráter de legitimidade que toma o ato ou a coisa que se fez com todos os requisitos que lhe são próprios. podendo. O homem severo não se aparta nunca de seus princípios. e faz como aborrecível a virtude. contra o rigor. – Ríspido aplica-se ao que se excede nas manifestações da severidade. – Inalterável é “o que se não move exteriormente. A austeridade chega a converter-se em hábito. admitir-se algum coração duro que não seja propriamente cruel. independência. ou limitadas por alguma autoridade superior. são austeros consigo mesmos.

escritor. a soberania. portanto. e em relação a avarento está no mesmo caso de avaro. ou de opinião”. a diferença que consiste em não ser inerente ao segundo a ideia de cálculo. – Avaliar é “calcular o valor de uma coisa”. porque pensa e discorre bem. A significação da palavra publicista é restrita. porém. 395 AUTORIDADE. – Damos. calcular o valor venal de alguma coisa. salvo figuradamente. e mau escritor porque escreve incorretamente o que pensou com profundidade. quer a lei seja divina. – A soberania política consiste na qualidade de poder um Estado existir por si mesmo. de modo que o mesmo homem pode ser bom autor. Potestade supõe o poder que a sustenta. – Força. aliás. poder. e converte a criatura humana em simples animal. é preciso notar uma diferença essencial. Também se chama escritor qualquer autor literário. examinar com interesse e cuidado. só se diz escritor fazendo-se referência ao estilo. e vive ansioso por entesourar tudo o que adquire. como se avalia um esforço mental. já se vê. apreciar é ver com apreço. fona. tacanho. interesseiro. porque se refere exclusivamente ao que escreve sobre direito público”. cobiçoso. aqui. – Entre apreçar e apreciar há. – Segundo Lacerda. – “Estes três vocábulos aplicam-se aos homens de letras que publicam obras de sua composição. 394 AUTOR. gastando o menos que é possível. um serviço. ávido. aqui. escreve para o público. hoje o nome de publicista a todo aquele que. agarrado. Os Estados do Brasil são autônomos. de algum trabalho ou produção”. Chama-se autor o que dá à luz qualquer escrito. só é empregado como adjetivo. publicista. – Avarento é “o homem que tem a paixão da riqueza. – Apreçar é “dar o preço. – Ávido é também adjetivo. mesquinho. ainda quanto a isto. Dizemos: a sorte avara (e não – avarenta). 397 AVARENTO (avaro). sem reconhecer acima de si nenhuma outra autoridade. sovina. como no sentido físico. “autoridade é a superioridade legal. – Poder é a autoridade que se acompanha da força necessária para fazer-se obedecer. Isto quer dizer (por mais que digam. pois isso é comum a toda aquela categoria gramatical. um sofrimento. do conjunto dos Estados. e que o inverso se dá em relação a avaro. A avareza é um vício que mata a alma. apreçar (apreçar e apreciar). humana.226 Rocha Pombo mo soberano. “Pobre está já (Roma) tão decaída da antiga potestade”. potestade. porque esta palavra se refere somente a este gênero de produção. que os léxicos dão como sendo a mesma coisa. Mas ávido distingue-se de um e outro. e que nos conste. somítico. com autoridade. o avarento é um enfermo de consciência (não – o avaro). Avalia-se uma propriedade. é exercida pela União. ainda que se prive a si mesmo dos bens mais comuns da vida”. cainho. Deve dizer-se mesmo que a distinção entre os dois verbos se regula pela que existe entre os respetivos radicais: apreçar é estipular preço. e tanto se aplica no sentido moral ou abstrato. é “a resultante dos elementos materiais em que funda o poderoso o seu poder”. olhar. não só pela ex- . isto é. e muito excepcionalmente como adjetivo. quer natural. o contrário os lexicógrafos) que avarento pode ser empregado como substantivo (significando – “homem avaro”). Entre avarento e avaro. não há caso algum na língua em que ele se nos apresente como substantivo. força. 396 AVALIAR. Os nossos clássicos davam a esta palavra a significação geral de poder. que é a entidade representativa de todo o país.

– Agarrado aproxima-se de cainho: é “o que prende quanto tem. ga para designar estrago de mercadorias a bordo de navios. os estragos podem sê-lo. achar a verdade. O condor. estragos nas árvores. em regra. – Fona é “a criatura miúda” que faz questão das coisas mais insignificantes. magnífico. Este quer “para guardar”. Também significa. como dissemos. ou melhor. apertado no despender. que danifica a qualidade. é “o que exagera a sua pobreza. que prefere sofrer vexames a gastar o seu vintém”. e até procurando lograr os outros se for possível sem parecer propriamente gatuno”. “o que cede muito aos seus lucros. – Segundo Lacerda: averiguar é procurar. o pardal é pássaro. a águia é ave. – Volátil aplica-se a todas as aves. guarda o seu dinheiro. e quase sempre o que vê em poder de outros. – Somítico deve comparar-se muito de perto com tacanho e mesquinho. o morcego são voláteis. perda. – Avaria. a águia. dano. nada faz que lhe não redunde em proveitos pessoais”. O pardal. a galinha. – Pássaro é “a ave pequena. – Perda é o dano total. estrago. o sabiá. e até pródigo”. lesão. medindo tudo com muita escassez. verdadeira. – Cobiçoso não diz propriamente o mesmo que avarento. como pela significação própria. Como diz Roq. verificar. que vive a apanhar os restos. que diminui a quantidade. o seu bocado como o cão o seu osso”. nem mesmo a de mesquinhez. constatar. Ávido é “o que deseja ardentemente alguma coisa pela qual anseia. e só particularmente é que significa – “ansioso de riquezas”. diligenciar. mas cobiçoso não inclui necessariamente a ideia de avareza. como está dizendo claramente a palavra. as coisas inúteis”. e. estrago ou avaria”. fazendo-se em tudo mais indigente do que é. reconhecer. aqui. e que procura alcançar com solicitude e esforço”. volátil. – “pode o cobiçoso ser liberal. – Estrago é o dano que prejudica parte do que se possui. e perda de colheitas. dizemos dos danos causados principalmente pelas grandes chuvas e inundações. danos puramente materiais. como o animal agarra a sua presa”. provar que uma coisa é certa. no entanto. 398 AVARIA. e considerados como reparáveis por meio de gastos pecuniários. ou não. o tucano são pássaros. entre os nossos clássicos. o avestruz. – Mesquinho. o pato são aves. prejuízo. poupando em excesso”. – Sovina é “a pessoa mesquinha. no entanto. além da acepção especial em que mais particularmente se empre- . 400 AVERIGUAR. o cobiçoso deseja muito adquirir. – Verificar é “empregar os meios convenientes para cada um a si mesmo convencer-se de que alguma coisa sucedeu como se conta. As avarias são suscetíveis de reparação. – Tacanho aproxima-se de mesquinho: é “o estreito. – Dano é “o mal que provém de nos haverem diminuído o valor de alguma coisa que nos pertence. 399 AVE. – Cainho (fig. o que não se dá em relação a avarento. ou pelo menos considerável do que se possui. Um temporal causa avarias nos muros da quinta. pássaro. o que. – Prejuízo é “desfalque resultante de perda. – Ave é “o nome ge- nérico que se aplica a todo animal ovíparo provido de asas”. a todo animal que voa mesmo sem ser ave. a andorinha. a estes uma certa ideia de torpeza: o somítico é mesquinho com os outros para só gastar com aquilo que lhe dá prazer.) é “o que esconde. de voo curto”. acrescenta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 227 tensividade. o morcego não é pássaro nem ave (porque não é ovíparo).” – Lesão é termo bem mais extensivo do que dano: designa “toda sorte de prejuízos que de qualquer modo se cause a pessoas ou coisas”. – Interesseiro é.

– Reconhecer é “chegar ao resultado de ver que uma coisa é realmente como se dizia. e oportuno dizemos do que vem a . sem quebra de rigorosa lidimidade lógica. adequado. etc. deixar clara a verdade”. oposta à da frente. entre eles a seguinte diferença: azado dizemos do que. – “O avesso” – diz Bruns. enxergar.” – Aviventar é “dar um pouco de vida. próprio. ou “mais vivo” em absoluto. ou na própria coisa vista. – Avistar é “alcançar com a vista alguma coisa”. a verdade sobre alguma coisa. avistamos muito ao fundo do campo a casa da fazenda”. aviventar. 404 AZADO.” 401 AVESSO. O pano tem avesso. muito usado com a significação de “enxergar ou avistar com dificuldade e rapidamente”. verificar é “ver clara. é “enxergar ou mesmo lobrigar com esforços”. as medalhas têm anverso e reverso”. mais rapidez. As frases: “avivente um bocadinho o fogo da lareira”. à primeira vista. – Bispar é vocábulo popular. O reverso é a parte oposta ao lado principal. perdendo-se entre as lombas da campanha. e iremos ter ainda hoje à fazenda”. “Logo que saímos da floresta.228 Rocha Pombo e que é exata etc. a face. como se se houvesse eliminado algum obstáculo entre a nossa visão e a coisa descoberta”. voltado da direita para a esquerda. – Verso é “a parte de uma superfície. ou sentido que não é o próprio”. Anverso é o lado principal. sem a ideia de que a vida seja completa”. reverso. regulada esta pelo lado em que a folha se liga a outras”. inverso. – Constatar (que muitos se dão o luxo de condenar como galicismo escusado) é “estabelecer. mais atividade. aqui. discernir. sem que o esperemos. Aquela desgraça vem avivar-me a dor antiga (e não – aviventar-me. dizemos: “à folha ou à página tal verso” (isto é – “à página oposta à página numerada”). ou posto em ordem. anverso. descobrir. “dê-nos qualquer ideia que nos avivente ao menos a memória” – não admitiriam. os vários aspetos”. que significa “tornar vivo”. distin- ação de “receber pela vista uma impressão direta do mundo exterior”. ou de livro. 402 AVISTAR. – Entre estes dois vocá- guir. – Avivar é “dar mais vida. no entanto. propício. – Enxergar é “avistar mal. oportuno. de diante para trás. Referindo-nos a um caderno ou a um livro sem numeração por páginas e sim só por folhas. se nos apresenta como favorável. – Inverso significa “de modo contrário ao que é natural. “Enxergamos muito confusamente a caravana. mal devisar alguma coisa estando-se no escuro”. verso. lobrigar. distinguir”. Há. – Devisar é “perceber pela vista.” – Em suma: averiguar é “reconhecer a verdade”. conveniente. o verbo avivar.” – Lobrigar é “ver indistintamente. ou avistar mal e mal. “aviventemos alguma coisa a nossa marcha. – Discernir é “ver claramente. – Azado e oportuno poderiam. – Distinguir. bispar. mais intensidade etc. porque o que se quis exprimir é que a nova desgraça tornou a antiga dor tão viva como tinha sido). direção. descobrir. ser empregados indistintamente. e dar disso testemunho”. 403 AVIVAR. através de algum obstáculo”. ou a parte oposta ao reverso. – Descobrir é aqui “ver ao longe. – “é o lado pelo qual uma coisa não deve ser vista. ou mais particularmente de uma folha de papel. de cima para baixo. – Ver designa a bulos há a diferença marcada pela partícula verbal incoativa entar que figura no segundo. depois de exame. devisar. ver. separando ou discriminando a coisa vista de outras coisas.

“O momento parece azado para uma tentativa” (e não – oportuno) – desde que veio inesperadamente. samba. – Folia. fan- dango. e. bailam os homens por alegria e diversão. dançou em público com seus cortesãos. Port. sugere “a ideia de sinistro. e assim como os animais retouçam de contentes e alegres. pois exprime apenas – “não propício. – Próprio.. A língua francesa. quando se trata de honrar a virtude’ (Anecd. ‘saltar. não feliz”.. funesto. além da de aziago. No dia em que armou cavaleiro a D. em que os próprios reis não duvidavam tomar parte. – Adequado exprime – “que se ajusta ao que pretendemos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 229 encontro dos nossos desejos. João Afonso Teles. – Dança é palavra mais nobre. significa – “que se adota. ou do cálculo que fizemos. folgança. tem três que determinam as ideias acessórias destes saltos e movimentos. A dança é uma arte semelhante à que entre os gregos se chamava orchestike. ou que convém ao fim que se colima”. em que era muito eminente. vantajoso ao fim que se deseja”. mas é certo que ao que nós chamamos bailar chamavam os latinos saltare. – Infausto diz menos que aziago. a nossa. bailam os próprios selvagens à sombra de frondosas árvores. infausto. dança. – Funesto. e seu verbo danser. folia. pois El-Rei D. no sentido em que esta palavra se pode confundir com dança. Pedro I sabemos que tinha gosto particular de bailar a folia. cantando. dançam os cavalheiros e senhoras nobres em suas salas. e designa particularmente o movimento regular do corpo e seus membros ao compasso e tom de música. e que se assemelha à dança das bacantes. de ballizô. ora mais graves. que não só dá regras para mover o corpo e os membros a compasso. executando concertadamente todos os movimentos.: “Não defendemos a etimologia do verbo bailar. jongo. ter o corpo em elegante postura. e fazer as cortesias e mesuras que a boa educação prescreve. aqui. Diz Bruns. e faz movimentos de corpo mais ou menos compassados. que “baile. fatal”. – Aziago se diz. ainda hoje. 405 AZIAGO. como acreditava o espírito supersticioso dos antigos. – Propício é “o que se apresenta oportuno. tem só um termo para significar estes movimentos – é o substantivo danse. com mais ou menos ligeireza. e dizia a todos: ‘Eu assento que nada fica mal à Majestade. e só exprime a ação física de bai- lar. II)”. ao som de flautas. favorável. – Conveniente diz também – “que é favorável. como a palavra de origem francesa (folie ‘loucura’) o está dizendo. e ao som de rústicos instrumentos. isto . daquilo “que anuncia desgraças”. (e não – o “momento azado”). bailado. nefasto. dança e folia escreve Roq. é lúgubre e sinistro”. senão para a maneira de pisar. na verdade. ou fosse feito para tal fim”. A folia indicava noutro tempo (que hoje é palavra antiquada) certo modo particular de bailar. e prometendo sucesso”. “Chegou o momento oportuno de jogar a partida”. muito alegre e festivo. designa o conjunto ou série de movimentos com que se executa uma dança. é uma dança rápida ao som de pandeiro ou adufe. ora mais rápidos. a dança é própria de gente nobre e cavalheira. como se viesse a propósito. mais pobre que a nossa. ‘saltar’. – Baile é nome genérico e vulgar. O bailar é uma espécie de instinto nas criaturas racionais. talvez semelhante ao que chamam hoje contradança. dar saltos’. entre várias pessoas. além de aziago. agoi- rento. E. – Agoirento é “o que. Bailam os moços e moças do povo em suas festas e reuniões. faziam-se antigamente folias por ocasiões de alegria pública. 406 BAILE. – Sobre baile. por isso. quem baila dá saltos. porém.. – Nefasto significa “cheio de desgraças e calamidades”.

407 BALA.230 Rocha Pombo 408 BALANCEAR (balançar. comparando-as. – Samba é também bailado popular. tar. No sul do Brasil. – Balancear “é pôr ou ficar como suspenso. ou em tomar a tarefa que se lhe propõe”. usado pelos africanos. Pode ser isto um efeito acidental da comoção ou da emoção. mas indica particularmente baile popular. – Tartamudear é precipitar as palavras de modo confuso. uma polca. é a dança mímica espetaculosa”. e dizemos que dança bem quando se atende ao modo como executa as diferentes danças em que toma parte. O mesmo se deve dizer de embalançar. da Espanha passou para toda a América colonial. – Bal- de qualquer forma. oscilante”. depois outra. – Gaguejar (ser gago. Mas tanto este como balançar sugerem melhor a ideia de ficar em dúvida entre duas ou mais coisas. o bailado. uma mazurca. Nos teatros há bailarinas que executam os bailados. e que consiste em danças. É defeito comum à infância e à extrema velhice. balbuciamos. projetil. Vacilamos entre coisas que nos repugnam e que nos impõem (não – hesitamos). ou um defeito natural que provém dos órgãos da voz. apesar do nosso desejo e até do nosso esforço. como as . e os movimentos com que essas danças se executam constituem o baile. – Noutro sentido. bailados são as próprias danças. há mestres de dança. ou um conhecimento exato do que se deve fazer”. espingardas ou canhões”. ou danças mímicas. na dançarina considera-se a dança. hesi- é. feitas mais de barulho que de bailados. Colhidos de improviso. vacilar. antes da abolição. nos teatros há corpo de baile. ou ter gagueira) é falar com dificuldade. não sentimos razões suficientemente fortes que nos levem a tomar uma resolução”. 409 BALBUCIAR. – Distingue-se este dos dois últimos verbos do grupo em dar. mas não há mestres de baile (senão noutro sentido). – Jongo é “dança ou bailado em público e ao ar livre”. baile é propriamente a festa. Quem vacila quer agora uma coisa. – Folgança ou folguedo é termo popular que designa toda espécie de diversão com que se descansa do trabalho. buciar é “não pronunciar claramente certas articulações. ou solene. De uma pessoa se diz que baila bem quando se atende à maneira como faz cada um dos movimentos que entram na dança.. – Bailado. Note-se que estes três verbos entram aqui no seu sentido figurado. – Projetil é “qualquer corpo. – Duvidar é “hesitar por não ter certeza. como acabamos de dizer. duvidar. embalançar). e dançarinas que executam jotas. como medindo os motivos de escolha e decisão. duvida tomar. É a gagueira um defeito dos órgãos vocais. – Bala é “o projetil de forma cônica ou esférica que pode ser lançado por armas de fogo. é o mesmo que fandango. tangidos à mão. – Balançar é outra forma de balancear. indeciso. logo mais uma outra. que pode ser arremessado com força”. Hesitamos em preferir um de dois ou três bons empregos que se nos oferecem (não – vacilamos). – Hesitar enuncia o estado de espírito “em que. mais ou menos ruidosa. Hoje está quase inteiramente extinto no Brasil”. “F. os movimentos do corpo. a ideia de que a pessoa que hesita tem desejo de não hesitar. As danças ou bailados executavam-se ao som de grandes tambores. tartamudear. cortando as palavras e repetindo várias vezes a mesma sílaba antes de pronunciar a seguinte. – Fandango é “festa de danças ruidosas. gaguejar. misturá-las. uma valsa são danças. quer dizer: na bailarina considera-se o baile. mas aplica-se comumente esta palavra a toda festa livre e reles. confundi-las num ruído surdo que não as deixa claramente entendidas. mas não há corpo de dança. Assim. fandangos etc. muito clara.

2. ainda que não seja fraudulenta. o vulgo não se compõe só do que é ínfimo.. comerciante ou não. à falência.. O que é vulgar carece de uma certa nobreza que não é comum entre o vulgo. resulta daí que vulgar se diz dos termos e expressões que. dizendo – ‘a bancarrota que foi qualificada de fraudulenta. 263 do Cod. punível quando não é acompanhada de fraude. sem que haja todavia fraude da parte do falido: é um delito da competência dos tribunais correcionais. E demais. ou não merece apreço. ou quebra.. O que é trivial é baixo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 231 crianças. As pessoas nervosas tartamudeiam quando vivamente emocionadas”. a falência passa a ser uma bancarrota. A bancarrota simples é a falência que é acompanhada de falta grave. é o estado dos comercintes falidos ou quebrados – isto é. conseguintemente. ter mais dívidas que bens) e. – Ordinário se diz do que não se destaca do comum. culposa. quebra. e não à bancarrota. – Segundo Bruns. ou quando menos “de muitos”. comum. a bancarrota pode não ser fraudulenta. na ordem de ideias em que consideramos a sinonímia destes vocábulos. aplica os epítetos casual. vulgar. A falência é o estado de um comerciante que cessou seus pagamentos. Como. Pen. sem ficarem mal na boca de ninguém. resumem assim: “A quebra é o estado de um devedor.. não puder solver compromissos. cujo passivo é superior ao ativo. e Berg. não ficam contudo bem em todas as ocasiões. e significa o mesmo que falência ou falimento. “que é frequente”.”. ou que nelas estão parados à espera que alguém os ocupe. por falta de recursos presentes. que cessam seus pagamentos. dir-se-á ordinário do termo. Daí se vê que há entre falência e quebra diferenças essenciais: 1. aplicá-lo àqueles termos que têm algo de indecente ou de baixo. . A bancarrota fraudulenta é corriqueiro. – Vulgar se diz do que é próprio do vulgo. – Familiar se diz “da linguagem ou dos termos usados em família”. nem de falta grave. – Trivial (do latim trivialis. porém. – banal se diz do termo ou expressão que é usado por todas as classes sociais. sem certa nobreza. ordinário. e for obrigado a cessar pagamentos. vulgar. isto é. o art. entretanto. pode dar-se que um comerciante cujo ativo exceda de muito ao passivo. do Com. (Bruns. Este vocábulo pode considerar-se só neste sentido. familiar. daí resulta que comum se diz do termo ou expressão que não é elevada. é muito usual. gaguejamos. 3. falência. expressão ou linguagem que não se salienta de nenhum modo.º) ao contrário. A falência não é. – Comum significa propriamente “de todos”.’: logo. e.) 410 BANAL. de trivium “encruzilhada”) dizemos do termo ou expressão própria dos que andam pelas encruzilhadas ou pelas esquinas. Acompanhada de fraude ou de falta grave. – Falência. portanto. fraudulenta.°) um comerciante pode estar em estado de quebra (isto é. 411 BANCARROTA.º) a falência é um estado exclusivamente próprio aos negociantes. ou não sobressai acima da ordem habitual das coisas. grosseiro. – Quebra entende-se de comerciante. de si mesma. e também “que não é raro”. 798 do Cod. que é comum.. – Bourg. e como o que não é raro tem pouco valor. – Sobre estes três termos de jurisprudência escreve Teixeira de Freitas: – “Bancarrota denota geralmente entre nós o estado de falência ou quebra de qualquer comerciante. e impróprio de pessoas decentes. trivial. à declaração de falência. porém. pode continuar seus pagamentos e escapar assim. mas particularmente mais pelas baixas que pelas altas. seja declarado em falência se. se goza de um crédito suficiente.. – Corriqueiro se diz do que corre na boca de todos. Por imperfeição natural.. Isto ainda mais se confirma pela redação do art.

– Orquestra é o conjunto de professores que executam altas peças de música em concerto. charanga. – Estandarte é a bandeira de forma e cor fixas. a palavra menos enérgica. e não é raro que seja também assassino. pavilhão. assim como pode ser ladrão e assassino. para sempre. malfeitor.232 Rocha Pombo a falência acompanhada de fraude: é crime. ou mesmo a algum estabelecimento público: a banda da polícia. or- questra. “crime”. música. não podendo o banido voltar jamais ao território de que foi expulso. 415 BANIR. estandarte. ou feita e mantida por alguma associação. bando- leiro. doido. – Facínora (e facinoroso) é também o sujeito perverso. nem mesmo – orquestra popular. fanfarra. ou que seja próprio para representar alguma instituição. esta palavra encerra a ideia de pena infamante. proscrever. deportar. “pelo menos na mente de quem ordena o ato”. simbolizando uma nação. “cheio de crimes”. – Bandeira é qualquer pedaço de pano preso a uma haste e arvorado de modo a que se o aviste de longe. Quando o salteador opera com outros. dos direitos de pátria. – Segundo Bruns. filarmônica. Pode-se distinguir estes dois últimos vocábulos pela particularidade que apresenta celerado de sugerir a ideia de bandido ou malfeitor impulsivo. insíg- – “malfeitor é. que deu scelero. mas sem se lhe determinar o ponto para onde deve retirarse. salteador. – Filarmônica é a banda de música particular. como não seria a ninguém permitido arriscar esta monstruosidade: a banda do teatro lírico. e como tal da competência dos tribunais ou câmaras criminais”. – Bandido é o malfeitor perseguido pela justiça. “o termo genérico aplicável a todo grupo de músicos que executam alguma composição musical”. ou que é capaz de praticar. celerado. Segundo alguns autores. – Vexilo é termo antiquado correspondente a estandarte: era a bandeira militar. sendo a pena de banimento muito mais grave que a de deportação ou mesmo desterro. ou do batalhão naval. – Banir é o mais forte de todos. – Insígnia é qualquer emblema que distinga. – Charanga é a banda formada só com instrumentos metálicos. ou em teatros. – Exilar exprime simplesmente o ato de . 413 BANDEIRA. é bandoleiro. 412 BANDA. – Todos estes verbos têm de comum a ideia de expulsar da terra. No Alentejo dizem que os ciganos e os malteses são malfeitores. – Celerado “é o bandido monstruoso que praticou. como sinal ou como distintivo. desterrar. aqui. o malfeitor pode viver do roubo sem nunca assassinar. Não se poderia dizer – orquestra militar. expa- nia. degredar. ou que assalta de noite as habitações isoladas. vexilo. – Música é. O banido é expulso. Fanfarra é o mesmo que charanga. exilar. O salteador vive do roubo. – Banda é uma corporação de músicos pertencente a algum batalhão. Os vocábulos bandido e malfeitor são frequentemente empregados como qualificativos das pessoas de má índole”. ou de privar da pátria ou do país onde se vive ou mesmo se está de passagem ou de pouco. pois o banimento importa a perda. desfraldada à frente dos exércitos. a banda do regimento. vesânico. triar. grandes crimes” (scelus. facínora. – Salteador é o ladrão que ataca os viajantes nos caminhos. do grupo. ou a bordo de navios. 414 BANDIDO. de que sceleratus é particípio). – Pavilhão pode-se dizer que é o nome que toma o estandarte nas tendas de campanha. e entre todos obedecem a um chefe. ou orquestra do batalhão.

seja como infamante e aflitiva. 417 BARBARISMO. nós outros. que temos uma linguagem culta e polida desde Camões. sem polícia. (Fereza é o ato mesmo de ferocidade. com o andar dos tempos. ou da terra em que se tem domicílio. mas ordinariamente infringindo as leis da sintaxe. ou só explicável no selvagem. o mais próximo de banir: era antigamente (em Roma e na Grécia) o ato de expulsar da pátria e proibir que o proscrito a ela regressasse sob pena de morte. – De Soles. fixando a residência em que o desterrado deve cumprir a pena. esqueceu a pureza da língua grega. com a diferença que o barbarismo é uma locução viciosa. – “Significam estas duas palavras” – diz Roq. vem a palavra solecismo. ferocidade (fereza). por sua viciosa pronúncia. Muitas vezes até o exílio é voluntário. – Deportar é desterrar perpetuamente para uma colônia distante. – Expatriar não é pena que se imponha. desumanidade. ou protesto implícito contra a política existente ou contra as ideias dominantes na terra de onde se retirou o êxul. sem outra ideia acessória além da de inculcar que a ausência será longa. ou por dureza de alma. portanto. não só se lhes confiscavam os bens. é a indiferença com que. com referência ao homem. que. de todo o grupo. por esse ato. por orgulho. a deportação é semelhante ao banimento (?). ou limitando-lhe a menor distância em que pode ficar do seu domicílio. e também a ferocidade própria da fera. 48). é a manifestação de um certo prazer à vista de sucessos fortuitos ou provocados que trazem consigo derramamento de sangue. – Degredar é enviar para o degredo. o trato que denuncia a índole sanguinária. Não se liga a este vocábulo nenhuma ideia de pena infamante.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 233 enviar para fora da pátria. Por isso que os gregos e romanos chamavam bárbaros a todos os povos que não eram eles. e neste caso quase sempre indica atitude infensa. chamar barbarismos galicanos ao que mui francesmente se chamou galicismos. Poderíamos. se pareciam com as dos bárbaros. 416 BARBARIDADE. ou da língua deles eram tiradas. o solecismo é um defeito da construção da oração e que pode provir de ignorância ou de descuido. deram com muita razão o nome de barbarismo às palavras e expressões que. vemos sofrer o nosso semelhante sem socorrê-lo. ou mesmo sentimento 28 Segundo Teixeira de Freitas (Vocabulário jurídico. próprio de bárbaro. . é o prazer que mostram certas naturezas experimentar à vista de espetáculos que tanto têm de bárbaros como de cruéis. ou para longe do país onde se acha o deportado28. falto de humanidade. pois. (Será. solecismo. corrompida. e não a da gravidade da culpa da vítima. e. – Desterrar diz propriamente “fazer sair da terra onde se habita”. seja só como pena infamante (degradação). – “em geral erros de linguagem. crueldade (crueza). Mais comumente proscreviam-se aqueles que procuravam escapar à ação da justiça. Este vocábulo designa o ato de sair da pátria.) – Desumanidade é a ausência de sentimentos humanos. posto que nele predomine a ideia de prepotência por parte de quem decreta a pena. (Crueza é a própria ação cruel. – Segundo Lacerda – barbaridade é a disposição do homem rude.) – Ferocidade. mas até se fixava um prêmio para aquele que tirasse a vida ao proscrito se encontrado na pátria. e portanto figuradamente. Cometem-se estes de muitos modos na língua”. própria do vulgo que tudo adultera.) – Crueldade é a inclinação à prática de atos sanguinários. colônia ateniense na Silícia. – Proscrever é. o modo. por egoísmo. quando ainda os franceses tinham a sua semibárbara de Ronsard. ação.

menos porém que embarcação. barcaça. inferiores nas ciências. xaveco.). galera. estreita e comprida. pequeno escaler. – Batel e escaler são pequenas embarcações que conduzem para bordo dos navios não atracados ao cais. canoa. e hoje os chineses. – Barco é “termo genérico. deram o nome de bárbaros a todos os estrangeiros. batel. e vice-versa. ou mar)”. na polícia. de galé) – “antigo navio . embarcação. etc. navio. galeão. – Batelão (aumentativo de batel) é “barca rasa e grande. piroga. – A caravela era menor que a fragata. chata. de um só mastro.) fazendo alusão ao esforço e trabalho com que é levado. – Manchua – “pequeno barco usado nas costas da Ásia”. nem convenções sociais. – Lancha é “embarcação pequena e sem tilha (coberta) que anda tanto à vela como a remos”. de Fig. como o iate.234 Rocha Pombo 418 BÁRBARO. nau. escuna. – Galera = “antiga embarcação. – Resume Lacerda assim. manchua.. – A fragata. – Galeão (aum. alvarenga. bote. – Galeota (diminutivo de galé) é pequeno barco. – Catraia é bote pequeno. é maior. serve mais para recreio. para os quais é termo genérico. batelão. galeota. brigue. de vela e remos. empregada. e que serve também para o serviço de carga e descarga de navios. O escaler distingue-se do outro em ser movido ou poder mover-se tanto a remos como a vela. lancha. O iate. – Como os precedentes. fragata. no serviço de transporte de cargas dentro da baía”. os autores que o precederam: “Os antigos egípcios. – Tartana era um xaveco menor. como força agressiva. por considerarem todos. 419 BARCO. A nação bárbara conhece e respeita em geral essas leis. pois é restrito à ideia de construção. mas só se diz dos barcos cobertos. igara. – Embarcação não se diz hoje dos navios de guerra. – Selvagens são os habitantes das selvas. – Gôndola – “pequena embarcação (como a galeota) movida a remos. usada principalmente para recreio”. e servia tanto para a guerra como para o tráfego marítimo. iate. sim”. – Bote é batel de rio. nas letras. era inferior à nau. – Nau era o maior navio outrora empregado principalmente na guerra. gôndola. – Barcaça é barca maior. movido a remos.. e. e pode até prestar-se para longas viagens. depois os gregos. mas não é um barco. barco. A jangada é uma embarcação. selvagem. enquanto que embarcação designa qualquer corpo flutuante que pode conter pessoas ou coisas. todos os vocábulos que se seguem apresentam de comum a ideia de “próprios para transporte por água (rio. Servem ambas para o trasbordo de cargas. catraia. de vela e remos. e transporte de passageiros de terra para os vapores. sem exceção. sendo o batel movido só a esforço do remeiro. bergantim. galé. nem respeita lei alguma. – Galé é embarcação de baixo bordo. rebocadas dos navios para os trapiches ou vice-versa. – Xaveco – espécie de fragata usada outrora pelos mouros no corso do Mediterrâneo. elegante e luxuoso. usada outrora. nem gozam dos benefícios da civilização. nas artes. à imitação destes os romanos. Talvez por isso é que se diz – “batel da vida” (e nunca – escaler. – Navio é a embarcação destinada a navegar no mar alto. Uma nação selvagem não conhece. larga e aberta como a alvarenga”. que não cultivam as artes. mas carece de aperfeiçoamento em tudo quanto constitui o que se chama um povo civilizado”. – Barca = “embarcação larga e pouco funda” (C. barca. como o batelão e a alvarenga. com dois ou três mastros”. no entanto. sobre estes dois vocábulos. tartana. – Chata é “barcaça larga e de pouco fundo. junco. caravela.

O filho bastardo pode ser natural. de matrimônio clandestino. de mãe religiosa. 420 BARDO. antigamente bastard. 421 BASTARDO. de castelo em castelo. – “Todos estes vocábulos” – escreve S. trovador. fino e leve. que daí se presume provir aos filhos. que vale o mesmo que – “baixamentenacido”. nau de guerra”. e parece referir-se. e stard “nascido”. Desta última acepção da palavra espúrio nasceu o sentido figurado. e art “raça. etc.) – Bergantim – “pequena fragata. poeta ambulante da língua d’oc. – Segundo Roq. espécie”. e de uso nas enseadas e nos rios. e também o que não tem pai certo. por exemplo. Chamamos natural o que nasce de concubinato. do XI ao XV século. – Piroga e igara – “canoas de índios”. e aos quais se devem os primeiros romances de cavalaria. e é ainda correspondente aos trouvères. – Redundância é o termo genérico de que os outros do grupo especializam a significação. que eles têm na educação da prole. uma obra. v. espúrio. Bastardo significa. que compete a qualquer filho ilegítimo. – Junco – “pequena canoa ou batel. quando não em verso (Bruns. natural. e nós mesmos chamamos. usado pelos chineses”. também ordinário. – Vate era o profeta que fazia os seus vaticínios em estilo elevado. vate. ou da união dos sexos. – Brigue – “bergantim maior”. de Fig. – bastardo. gr. baixo”. isto é – que lhe não conhecemos o autor. perissologia. 422 BATOLOGIA. de dois mastros.. de barreguice.). quanto à degeneração. ou que não temos como tal o que vulgarmente se lhe atribui. poetas da língua d’oïl. de pai eclesiástico. temperado do agudo e grave da legítima. (C. que lhe damos na Arte Crítica. do francês bátard. e quer dizer – “exces29 Segundo Roq. um livro é espúrio. e também movida a remos”. redundância. em algumas línguas. senão que dá a entender que o pai é incógnito porque a mãe se facilitava a vários quando o concebeu. ou pela imoralidade que acompanha o ato em que são gerados.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 235 de alto bordo. – Bardo era. . entre os celtas. – de casado e solteira ou vice-versa. mas há entre eles diferenças mui notáveis”. o nome que se dava aos poetas e cantores populares. ou de bas “vil. não tanto à ilegitimidade do matrimônio. quando dizemos que uma produção.. ou pelo descuido. porque não só denota bastardia. ou pela ordinária desigualdade da condição dos pais. vem do alemão boest “degenerado”. se dedicavam à poesia épica. ou que não é havido de matrimônio celebrado com as solenidades da lei. – Canoa – “pequena embarcação. ou espúrio: são duas espécies de bastardia. – Bastardo é denominação genérica. feita quase sempre de um só tronco de árvore escavado”. trombeta bastarda a que dá um som misto. que andava pelo sul da França cantando sonetos e trovas. peça bastarda a que não tem as medidas próprias da sua espécie. E chamamos espúrio o que nasce de pessoas entre as quais há esse impedimento. rapsoda. – Escuna – “brigue tendo vergas no mastro da proa e sem mastaréu de joanete”. coisa degenerada29. letra bastarda a que é degenerada da romana. tautologia. que no norte da França. etc. por ser uma alteração dela. em geral o que nasce de pessoas entre as quais não há impedimento algum legal que lhes vede o contraírem matrimônio. – Trovador é a designação equivalente a troubadour. – espúrio é termo desonroso. ilegíti- mo. Luiz – “exprimem a qualidade do filho que é ilegítimo.

e não são fáceis de evitar como o precedente. Sub illis Montibus. em colhendo entre mãos uma ideia. . Pelo que. e também exageração. As frases de Ovídio são bastante concisas. . redundante. – Perissologia (de perissos ‘que é demais’ + logós). como a origem e composição de cada uma delas o dá a conhecer. três ou mais vezes as sílabas iniciais das palavras até que rompem a falar. amplificá-la. ou para fazer mais explícito o enunciado”. oferecendo-lhe em prêmio uma novilha. . O primeiro defeito (batologia) opõe-se à elegância. A toda inútil repetição de palavras chama-se batologia. e tinha o costume de repetir cada coisa duas e mais vezes. . – Esta afetação. Mercúrio o transformou. porém. inquit. entre o muito que sempre ocorre quando se escreve sobre matérias bem-estudadas. sem embargo. A verdade é que a palavra grega Báthos significa ‘tartamudo’ ou ‘gago’. O segundo (tautologia) e o terceiro (perissologia) opõem-se à concisão. outros a atribuem a um mau poeta do mesmo nome. e estavam ao pé daqueles montes’. é nímio e prolixo muitas vezes. .236 Rocha Pombo so de palavras para ornar o estilo. daqui se chamaram battos a todos os que repetiam sem necessidade uma mesma palavra. Dizem uns que se deve ao nome do fundador de Cirene. e seu estilo é. duvidando Mercúrio que ele cumprisse a palavra. ausentou-se. porque Sêneca era um dos seus autores favoritos. no qual refere como Mercúrio furtou a Apolo o gado que andava guardando. chamado Batto. . et erant sub [montibus illis. . Sêneca afeta mais concisão na frase. palavra grega battología (de báthos e logos) sobre cuja origem não estão de acordo os autores. – Das três outras diz Roq. . não a larga até haver apurado quanto sua rica imaginação lhe podia sugerir para ilustrá-la. . é justamente o que Boileau chama com graça – ‘estéril abundância’. . O velho prometeu-lhe que sim. . é a repetição inútil da mesma ideia ou pensamento por termos diferentes. do grego tautologia (de tautó ‘o mesmo’ + logós). variando-o de muitos modos diferentes. mudou de forma. verbosidade aparatosa. . é superfluidade de palavras. e ainda outros a atribuem a um pastor que fazia o mesmo que o mau poeta. . . voltou. – “que indicam três defeitos do estilo que. dado serem todos contra a elegância e concisão da frase. . isto é – ‘descobridora’ ou ‘denunciadora’. indignado. e não havendo ninguém visto fazer o roubo senão um pastor velho chamado Batto. e como os que o são repetem duas. não obstante. Vieira também cai algumas vezes neste defeito: o que não admira. que repetia um pensamento com as mesmas expressões que havia empregado a primeira vez. encarecimento. e variá-la de cem maneiras diferentes. . O velho então respondeu-lhe: ‘Agora há pouco ao pé daqueles montes estavam. . é . Consiste principalmente este defeito em amplificar demasiadamente um pensamento. o qual supõem que era gago. e perguntou-lhe se tinha visto para que parte fora o gado que pouco antes andava apascentando. E com efeito. . . porque. erant. – O que não sabe omitir. rogou a este que não o descobrisse. de mostrar que se sabe dizer uma mesma coisa de muitas e diferentes maneiras. o que não é absolutamente necessário naquela passagem. e. falou deste Ovídio naquela passagem do liv. na pedra chamada in- dex. e para tentar sua cobiça ofereceu-lhe uma vaca e um touro se lhe dissesse a verdade. diz Ovídio. porque gosta de variar um mesmo pensamento. . . e é demasiado grosseiro para que nele caiam ainda escritores medíocres. – Tautologia. redundância nímia. II das Metamorfoses. são entre si distintos. .

como dissemos. Neste sentido. É termo concreto. beato “aproxima-se muito de hipócrita. – Guerreiro é o que é afeito à guerra. carola. do que convicta e segura de uma crença racional e verdadeira. mas a moral: os povos bárbaros são belicosos (isto é – dados à guerra. mais por simplicidade de espírito que por interesse” (Bruns. e também um grande guerreiro pode acontecer que não tenha instintos belicosos. tartufo. as “duas mam a parte exterior da boca. – Segundo Roq. nem escrever [sabe. – que às práticas afetadas de piedade alia a mais refinada velhacaria. e não ser guerreiro. virtudes que não tem. não um escritor judicioso.. que se insinua habilmente na simpatia alheia. 425 BÉLICO. mas de hipócrita que afeta grande devoção. Em suma: é militar mais próximo de bélico. de uma religião malcompreendida.). e como tal só pode qualificar o que é moral: furor belicoso. etc. A primeira é palavra vulgar. Porte marcial. tem uma acepção que só o uso autoriza. – Carola é o que faz consistir toda a sua religiosidade nas superfetações do culto. e incorporou-se na língua para designar o refinado hipócrita em matéria de religião. podemos estabelecer que militar qualifica o que é teórico. que faz dessa pessoa mais um monomaníaco do que um religioso. ingênuo. e quando abrem o sorriso deixam ver alvos dentes. atitude belicosa. aplica-se à pessoa que parece mais obsedada. Elementos bélicos. Marte) significa propriamente o que é relativo a Marte. e cobrem os dentes quando se fecham. – Tartufo é aquele – diz Bruns. Propriamente. caráter belicoso. – Militar (do latim miles ‘soldado’) dizemos de tudo o que é relativo à carreira das armas. lábio. à profissão do soldado. – Hipócrita é o que finge sentimentos. nas procissões. como reveste todos os seus atos e discursos de melíflua unção: aconselha a virtude. intuitos belicosos. na sua boa-fé e simpleza. Quando belicoso se diz do homem. . mais por tolice que por cálculo. inspira o temor de Deus. que com tanta razão dizia: Quem não sabe calar. incendimento marcial. – Tartufo é o nome do protagonista de uma comédia de Molière. A parte mais macia e delicada dos beiços. guerreiro. chamam-se beiços. – Beato. belicoso. só qualifica o abstrato. É vocábulo mais extenso que belicoso.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 237 um declamador. isto é – nas festas de igreja. que lhe é próprio ou que serve para ela. que não só afeta ser virtuoso. mar- membranas carnosas e sem osso que for- cial. material bélico. não lhe qualifica a entidade física. – Belicoso é termo abstrato. Pode um povo. induz a observância das práticas religiosas. 424 BEIÇO. pois este. e engana e arruína sem fé nem consciência. inculca o bem. Ajudam os beiços a fala e a mastigação: só os lábios osculam e beijam”. e como tal só deve aplicar-se ao que é material. ou que a ela é relativo. que são as bordas em que muitas vezes brilha a cor do rubim. aprestos bélicos. são os lábios. – Marcial (de Mars. hipócrita.” 423 BEATO. o deus da guerra. tanto no homem como nos animais. No sentido que tem aqui. hábil em coisas de guerra. ou um indivíduo ser belicoso. enquanto que marcial se diz tanto do que é abstrato como do que é concreto. Comparando militar com guerreiro. militar. esta palavra designa a pessoa que é muito solícita nas suas devoções e práticas religiosas. e marcial mais de belicoso”. – Dizemos bélico daquilo “que concerne à guerra. e guerreiro o que é prático. neste grupo. e explora os incautos. a segunda é científica e poética. e incorre na censura do citado Boileau. Supõe-se sempre no beato um espírito fraco. dominados de instinto militar).

e sem ideia alguma de dever”. como ninguém se animaria a perpetrar: “Vim da livraria pública. – Mitra é o mesmo bispado ou dignidade de bispo. dádiva. como sendo nosso irmão”. favor. devendo notar-se que. caridade. considerada como pessoa jurídica e na sua capacidade de possuir bens temporais. “o conjunto de livros destinados à leitura”. Acrescentei de alguns volumes a minha pequena biblioteca (e não – livraria). diocese. humanidade. uma virtude social. Mudou-se a biblioteca nacional para a Avenida (não – livraria). 429 BISPADO. graça. 428 BIBLIOTECA. – é termo genérico que significa todo ato de benevolência afetuosa que distingue e prefere a pessoa favorecida. – Benefício é um dom gratuito que inculca ideia de ação sagrada. – – Segundo Bruns. galardão que se dá em agradecimento ou recompensa de bons serviços.. F. como que obedecendo aos impulsos da própria natureza moral. o amor ao próximo é uma locução que vale muito pouco porque não fixa sentimento nenhum. – Diocese é o território dentro do qual exerce um bispo a sua autoridade e jurisdição. Um homem que não dá esmolas pode ter em alto grau a virtude da caridade. – Favor – diz muito bem Roq. talvez sem sugestão de ideia religiosa: é mais. nem sempre aquele que mais esmolas dá será o mais caritativo. no entanto. Emprega-se também para designar o conjunto dos bispos de uma província eclesiástica ou de uma nação. – Caridade é propriamente “o amor do nosso próximo. posição ou valimento por parte de Bispado é a jurisdição do bispo. – Amor ao próximo (ou do próximo) é também uma virtude evangélica: é a que mais se aproxima de caridade. quem o faz sobre quem o recebe. – Episcopado é a função. mercê. – Não é possível confundir estes dois vocábulos. tanto com os outros homens todos como com os próprios animais. é o nome positivista do amor ao próximo. – Altruísmo está quase nas mesmas condições: é o “amor dos outros”. mitra. livraria. – O bispado de Mariana. 427 BENEFÍCIO. – Beneficência é “a virtude de fazer o bem espontaneamente. – Graça é um benefício ou distinção que se concede sem merecimento particular de quem o recebe e sim só por afeto. – Filantropia é a mesma caridade. – Livraria é multidão de livros destinados à venda. por isso mesmo que é mais do que a própria caridade exterior ou praticante. uma qualidade da alma do que virtude social. amor ao próximo.238 Rocha Pombo 426 BENEFICÊNCIA. filantropia. a divisão eclesiástica que fica sob a administração de um bispo. obséquio. – Humanidade é apenas o conjunto de qualidades que levam a criatura a ter sentimentos simpáticos. Podese dizer que é mais uma virtude interior. Vamos recorrer da vigararia para o bispado. e de superioridade de fortuna. e também a autoridade deste. portanto. ou da livraria municipal”. Por outro lado. – Biblioteca é. – a ideia comum aos termos deste grupo é que os atos por eles expressos se aplicam em favor de alguém. consideração ou piedade de quem a outorga. ou o prazo durante o qual exerce o bispo a sua função. altruísmo. episcopado. Alves”. . Ninguém diria: – “Vou à biblioteca do Sr.. – Obséquio é simplesmente “ato de delicadeza com que se procura agradar ao obsequiado”. – Mercê é prêmio. – Todos estes vocábulos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia de abnegação que leva um homem a interessar-se pelo seu semelhante. por isso mesmo.

de cujo centro todas as linhas que se tiram até à superfície são iguais. ou os signos ou constelações celestes e a que estão adaptados círculos astronômicos que representam o curso do sol na eclítica. – Globo é palavra trasladada do latim. e não se podem usar indistintamente umas por outras”. ajunta-se-lhe o qualificativo – terrestre. sobrenadar. esfera. O episcopado brasileiro. esfera celeste. É palavra vulgar. ou terráqueo. – Sobrenadar é mais que flutuar. ou esférica (oca ou sólida). e tem mais lata significação que globo... bala. – Boiar é “não ir para o fundo da água”. – A bola é redonda por todos os lados. vem provavelmente de pela. e laminas seguras. – Se- gundo Roq. 432 BOLHA. Designa particularmente toda máquina redonda e móvel. chamavam-se pelouros a umas bolas de cera dentro das quais se metiam os papelinhos contendo os nomes das pessoas de que se fazia escolha para juiz ordinário etc. borbulha. Escudos de pinturas diferentes.. que alguns querem venha do inglês ball (que se pronuncia bol) e designa especialmente os corpos esféricos maciços com que se joga. globus. – Boiam as urtigas marinhas. manda os dilijentes Ministros amostrar as armaduras. – A imensa diocese de Mato Grosso. empola. – A mitra vai reclamar contra a extorsão que contra ela cometeu a municipalidade. mas cada uma delas exprime uma espécie de redondeza. com a terminação exagerativa ouro. Por este nome é conhecida entre os doutos a terra que habitamos. em cuja superfície se figuram os diversos acidentes da superfície da terra. vesícula. – “Todas estas palavras designam um corpo esférico. flutua a jangada. Vêm arnezes. – Pelouro. e daí a locução – “sair nos pelouros”. espingardas de aço puras. não vulgar. O corpo que boia pode nem ser visto à tona ou à superfície da água. ou esfera terráquea. com a diferença que esfera é termo de geometria. Pelouros. flutuar. nadar. e designa toda sorte de projetil que saia das bombardas. de geografia e de astronomia. – O meu episcopado tem sido tormentoso. “ser nomeado ou eleito”. Nadam os animais. é mais poética do que bala. O episcopado americano. do canto I dos Lusíadas: Isto dizendo. 431 BOLA. não ir ao fundo. – Bolha . – Nadar é. quando muito poderá ter uma parte fora da água. – Flutuar é “ficar em cima da água ou de qualquer outro líquido”. “lançar”. ou “sobrenada se tem altura”. ou impor penas no espiritual.. por esforço. e tomar alguma direção. Na nossa antiga forma de eleições. e significa um corpo sólido perfeitamente redondo: no que concorda com globo. – Esfera é também voz grega. bala. mas elevada e científica. a segunda. e de bom soído. Dividiu-se em três a diocese do Amazonas. arcabuzes. globo. pelouro. isto é –. e designa um corpo esférico. – São tomados aqui todos estes vocábulos como significando particularmente as pequenas elevações que se formam na pele. palavra muito usada dos nossos antigos antes que tomássemos dos franceses a que hoje se usa. Mitra muito rica. redondo por todas as partes. Malhas finas. e para mais clareza. Teve ele sessenta anos de episcopado. 430 BOIAR. A primeira chama-se globo terrestre. ou então de pello. e de seu uso nos deixou Camões bom exemplo na estância LXVII. Flutua a cortiça. e peitos reluzentes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 239 O bispado só pode condenar. pois o corpo que sobrenada quase que fica todo fora da água. Por ser palavra hoje pouco vulgar. Mitra rendosa. etc.

jacto. jacto cheio. – Vesícula é termo científico. – Bengala é o bastão de cana. margem. 433 BORBOTÃO. – Ribanceira é “como ribança mais áspera”. riba.. – Costa é a porção de terra ao longo do mar. referindo-se a borda. . e tanto se aplica relativamente a rios como relativamente ao mar. ou certa extensão de ribas”. o pau pelo camponês. – Torrente é “uma quantidade de água que se despenha em cachões e impetuosamente”. – Ribeira. é de terra vegetal. – Pau é o bordão considerado mais como arma que como amparo. ao longo dos rios. bastão. segurando-o por baixo da extremidade superior. e é por assim dizer a orla da margem. ou borbotão que sai com ímpeto e ruído”. – Riba designa “margem de rio onde a terra é levantada”. – Bastão é uma grossa bengala de castão. supõe-se ser de areia. “bordão é o pau grosso a que alguém se arrima. mui fresca e produtiva. mas cada uma delas a seu modo. cajado. costa. e é o símbolo de certas autoridades”. – A empola ocupa maior superfície que a bolha e pode estar ou não cheia de aquosidade. –. – Margem é toda a extensão de terra chã. devido aos nateiros. margem. mas ninguém diria sem absurdo ou pelo menos impropriedade clamante: “pernoitar à borda do rio”. distinguindo-se deste apenas em sugerir a ideia de maior porção da margem que a beira pode compreender. mais ou menos elevada. Dizemos – “pernoitar à beira do rio ou do mar”. bengala. ribeira. contendo ou não serosidade. – Jorro é “uma porção de borbotões impelidos com força”. – Beira é quase sinônimo perfeito de borda. o varapau pelo desordeiro. ribeira. ou costa.240 Rocha Pombo é a pequena saliência que encerra matéria serosa. – Cacete (do francês casse-tête) é o bastão grosseiro de que usam os garotos e valentões de praça ou de estrada. quase que não tem largura. e por isso aprazível à vista. da ribeira. Uma pancada pode produzir empola. e quando é de rios. jorro. de qualquer madeira. coberta de verdura. e como que lhe serve de barreira”. de junco. 435 BORDÃO. – Ribeira é a margem mais ou menos em declive. gorgolhão. ribanceira. – Ribança é “continuidade. Estes dois termos dizem-se mais ordinariamente dos rios que do mar. praia e costa – “indicam coisas que têm relação imediata com as águas do mar ou dos rios. – Sendo borda a extremidade prolongada de qualquer superfície. de ordinário coberta de água no cacete. praia. – Golfada é o “jacto que sai por um canal ou aberta”. – Cajado é o bordão que tem a parte superior em forma de arco.. varapau. – Jacto é “uma porção de líquido ou fluido arremessada com ímpeto”. da praia. 434 BORDA. O cáustico forma bolhas. pau. – Praia é toda a extensão de terra plana que as águas do mar cobrem e banham com suas enchentes. – Borbotão (ordinariamente usado no plural) é “o fluxo desordenado ou jacto impetuoso que faz a água ou qualquer líquido ao sair de um lugar para outro”. ribança. o cajado pelo pastor. e de uso geral nas cidades modernas. tor- rente. golfada. quando é do mar. cachão. genérico dos demais deste grupo. e quase sempre de areia. e é frequentemente chamado também varapau. inverno e descoberta no verão. beira. – “Todas estas palavras” – diz Roq. – Cachão é “a bolha ou borbotão que forma um líquido ao correr com força”. – Gorgolhão (ou gorgolão) é “golfada. O bordão é usado pelo viandante. – Segundo Bruns. – Borbulha é uma saliência ainda menor que a bolha.

diz Bruns. temporal.)”. gibosidade. aguaceiro. emaranhado”. de ter giba) é o defeito. É palavra indígena que incorporamos à língua (formada de taba “habitação” + oera “que foi”). 437 BOSQUE. entre os gregos. Aquiles. vendaval. sertão. cuidado com esmero. selva. luco. – Tapera é o capão ou bosque pouco espesso onde ainda se encontram vestígios de habitação antiga. e que se encontra agora mais distante da casa. – Bossa aqui. capão. Parece provir da semelhança que apresenta com a restinga no meio do mar. se consagravam a divindades bucólicas”. ou da má fortuna. – Restinga é o capão que fica no meio do campo ou junto a algum rio. restinga. procela horrenda do cruel Mavorte (Diniz. arvoredo. formada quase sempre de grandes árvores. refre- 241 ga. e borrasca à impetuosidade e fúria dos ventos”. chamada bossa. e onde se abriga a criação miúda”. é também brasileirismo. – Procela. Os vendavais da vida. Na linguagem dos marítimos. – Selva é “o bosque espesso. capoeira. As montanhas são as gibosidades da terra. só de pessoas. como os que.. opulenta. – Giba (em latim gibba) é o nome científico de qualquer protuberância que existe no que devera ser plano. – Corcova é a giba considerada como aleijão. mata. – Aguaceiro é “uma carga de água súbita e violenta”. floresta. Pind.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 436 BORRASCA. menos violento e talvez mais imprevisto. como as três últimas. 438 BOSSA. a giba pouco aparente é mesmo. – Mata é “a selva rude. Bossa. como bosque. – Tempestade é o mau tempo em que há violenta agitação do ar. – Sertão é “a grande floresta desolada e sem habitantes”. o vulto que faz a giba. é apenas menos extensa que a floresta”. – Refrega é “rajada de vento que não chega a ser tormenta. É termo nosso que os primeiros povoadores da terra fizeram da palavra desertão (grande deserto). marreca. também se emprega para designar a chuva de neve que cai nas altas montanhas quando é impelida por um forte e frio vento do norte. – Capão. – Luco é termo poético significando “o bosque cheio de flores. tempestade refere-se mais à agitação do mar. – “O vocábulo borrasca” – diz Bruns. – Bosque é o “nome que se dá a uma porção de árvores reunidas”. – Gibosidade (além de designar a qualidade de giboso.. é a protuberância natural que têm no dorso certos animais.. tormenta. – “pertence melhor à linguagem marítima que à terrestre. procela. Por extensão designa o defeito físico das costas ou do peito daquele que é algo corcunda. – Arvoredo é também. suprimindo-lhe a sílaba inicial. mesmo que seja muito forte”. – Capoeira é “mata que já foi capão. corcunda. é “a tormenta furiosa do mar. – Corcunda e marreca designam tanto o defeito como a própria pessoa que o tem: a corcunda é uma corcova considerável. segundo Lacerda. ideia que é igualmente expressa por marreca. em estilo poético. acompanhada o mais das vezes de chuva. corcova. não obstante. . – Tormenta muito se aproxima de tempestade. tapera. multidão de árvores. corcunda e marreca. mas sem a ideia de ser basto ou espesso. giba e corcova dizem-se de pessoas e de animais. giba. tempestade. Usa-se muito igualmente no sentido figurado. cientificamente. significando “bosque nas vizinhanças quase sempre de habitação”. distinguindo-se desta em sugerir a ideia de ser o fenômeno mais rápido. e muito usada em significação translata. saraiva e trovoada. – Vendaval é “o temporal mais forte e tempestuoso”. porque é súbita. – Temporal é “borrasca que se prolonga por dias”. ou da sorte. Só quem foi colhido por uma borrasca nos Pireneus é que se pode fazer uma ideia da fúria dos elementos na terra.

preciso. na cidade.. o que é lacônico emprega só as palavras absolutamente indispensáveis.242 Rocha Pombo 439 BOTÃO. este. olho. conciso. sapato. pois a quantidade que este adjetivo enuncia não exclui a riqueza nem o adorno. que do estilo. 442 BREVE. – Sapato é o calçado de couro grosso quase sempre. O que é conciso pode ser perfeito (e é enérgico e simples). rebento. Botim é a bota de cano baixo. tendo o cano mais ou menos alto. sucin- tim e botina (ou botinha) são diminutivos de bota. – Bota é o calçado de cano alto. – Gomo é corrução deste último vocábulo. ou renovo.. O que não tem tanto comprimento como devia ter ou se supunha que tivesse. – Mas.) designa propriamente “a arte de preparar medicamentos”. – Preciso é antônimo de difuso. – Sucinto. farmácia. e que. e em excluir quanto seja alheio ao assunto.). lacônico e sucinto só se dizem do que é relativo ao estilo. não breve: uma obra que nos empolga sempre nos parece curta. desprezando tudo quanto seja circunstância acessória ou pormenores. portanto. – Breve é o que se faz em pouco tempo: discurso breve (breve demora no campo. dizemos indiferentemente breve ou curto: é breve a vida do homem.30 e sim farmácia. O que é conciso exprime brevemente o pensamento. – Rebento. consistindo a precisão no emprego dos termos mais adequados. quase sempre guarnecido de elásticos. reno- vo. Todos os estilos podem ser precisos. como dissemos. O primeiro sinal de vida que dá o olho constitui o botão. mas muito usual entre a nossa gente do campo. e que só cobre o pé. – Lacônico também dizemos do que é enunciado no menor número possível de palavras. – Segundo Bruns. 441 BOTIM. que melhor se diz do discurso ou da obra. A loja onde se vendem remédios e drogas chama-se botica (do grego apotheke “lugar oculto ou reservado”). havendo. tanto da raiz como dos galhos da planta.) – Broto é o mesmo rebento ao apontar. lacônico. no entanto. o que é lacônico pode correr o risco de ser afetado. com a significação que todos conhecem: loja reservada onde se vendem bebidas. ao que é característico próprio do assunto. calçado. . para que não se torne difícil o ato de calçar. forma a gema. – Bo- botim de senhora ou de criança. O que não é conciso é prolixo. gomo. cobre o pé e a perna até um pouco acima do joelho ordinariamente. broto. sem ampliações nem ornatos. qualifica aquele escrito ou fala em que o escritor ou orador se atém exclusivamente ao essencial. 440 BOTICA. pois o vocábulo farmácia (do grego phár makon “remédio. é curto. – Conciso. tomando consistência. (Bruns. entre os dois alguma diferença. Botina (ou botinha) é o 30 De botica temos o diminutivo botequim. curto. A qualidade de conciso consiste em enunciar o pensamento em poucas palavras. – “Olho é a parte que na ramagem das árvores e arbustos indica o lugar onde se hão de formar os botões e as gemas na época do desabrolhar dos vegetais. botina. na sua curta vida sofre o homem bastante. gema. na estação. só se diz com propriedade das novas hastes que saem da raiz da planta. Falando-se do tempo. o uso baniu esta última: nos grandes centros urbanos ninguém mais diz botica. veneno” etc. bota. – Só o uso autoriza-nos designar pelo vocábulo farmácia a loja ou estabelecimento onde se vendem drogas e remédios. to. ou então aberto na frente. designa também a gema quando está prestes a dar a folha ou a flor”. e não breve. porém. rebento. – Calçado é o nome genérico de todos os deste grupo.

coriscar (coruscar). relampear (relampejar. clara como a do sol”. ou “extrair brilhantes”. donativo. cintilar vagamente. E. – Conquanto de- 243 signem a mesma pedra preciosa. – Fulgir31 é “luzir vivamente”. refulgurar. chispar. 445 BRINDE. irradiar. luz muito viva e radiosa”. 444 BRILHAR. – Brilhar é “emitir de si próprio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 443 BRILHANTE. brilhar solenemente. – Rutilar é “luzir com luz viva e fugaz”. – Refulgurar é fulgurar outra vez. o verbo esplendendo. flamear (flamejar). Dizemos. “diamante em bruto”. – Relampejar e os três verbos que se seguem (relampejar. refletir esplendor. mimo. como relâmpago. isto é. fino. “Aquela doce e gloriosa luz vem resplandecendo dalém dos montes”. como chispar é “desprender chispas”. Ninguém dirá: “mina de brilhantes”. – Todos estes verbos têm de comum a propriedade de sugerir a ideia fundamental de emissão de luz. refulgir. e sem diferença alguma sensível entre nenhum deles. . – Esplender dizem muitos autores que é o mesmo que resplandecer. rebrilhar. cintilar. ou refletir. “diamante lapidado”. translu- zir. relampadejar). resplandecer (resplendecer). fuzilar. mimo. “um anel de diamante”. relampaguear. – Irradiar é “lançar. A forma coruscar é mais fiel ao latim coruscare. designa o objeto esquisito.) – Resplender é “luzir amplamente. – Fulgurar é “brilhar de luz muito forte e instantânea”. como despedindo jactos de luz”. – Coriscar é “luzir como corisco. vaga”. luz muito forte. Resplandece o sol quando vem nascendo. resplender. esplender. – Cintilar é “brilhar com rápidas intermitências. portanto. marca uma diferença bem sensível entre os dois verbos. que neste figura. luzir. mas sem intensidade que chegue a deslumbrar”. – Luzir é simplesmente “emitir luz”. com luz mais viva”. e nunca “brilhante lapidado”. sem ideia de gradação de intensidade. ou raios luminosos”. como ninguém se lembraria de perpetrar: “um adereço de diamante”. tem fulgir na sua estrutura a raiz grega fleg (phleg) que sugere ideia de “queimar”. – Diamante é. – Rebrilhar é “brilhar de novo. oferta. de todo o grupo. faiscar à maneira de raios”. – Flamear (ou flamejar) é “emitir brilho como de chama. (Aqui não seria. “o mineral no estado nativo. o mais expressivo. como trepidando. intensa. diamante. fulgurar. dar claridade como corpo inflamado”. reluzir. Estes dois verbos parecem envolver a ideia de que a luz que fulgura ou refulgura mais deslumbra e cega do que ilumina propriamente. vacilante. e refulgir é “emitir ou refletir luz quase com a mesma intensidade da que brilha”. esplende majestoso na amplidão do céu. ou “brilhante em bruto”. – Transluzir é “emitir luz através de alguma coisa”. ou pequeno raio ou faísca elétrica”. – Reluzir diz melhor – “refletir luz”. esplender com majestade. 31 Como fulgurar. tremeluzir. – Resplendecer é o mesmo verbo mais fiel à forma latina (resplendescere). – Brilhante é o nome que toma o diamante depois de lapidado. – Este último vocábulo. – Resplandecer é “reluzir. pois. não seria possível confundir as duas palavras nem empregá-las indiferentemente. luzir. rutilar. espargir luz. encantador. pelo menos tão próprio. ou que está em combustão ou em estado candente. a partícula incoativa ecer. relampaguear e relampadejar) enunciam a ideia de luzir instantaneamente. dom. É. faiscar. – Faiscar é propriamente “despedir faíscas”. não lapidado”. dádiva. no entanto. – Tremeluzir é “dar luz indecisa. – Relumbrar é luzir como chama ou como lume. – Fuzilar é “despedir lumes. presente. relumbrar. refletir fulgurações. – fragmentos em ignição que saem de um corpo ferido por outro. fulgir.

Procura-se (mas não se busca) uma palavra no dicionário. por exemplo.: “Pretendem alguns que em buscar há mais diligência ou empenho que em procurar: não nos parece que tenha fundamento essa distinção. faceto. recebe o nome de donativo. – Nevoeiro é “grande névoa. – Nimbo é “a nuvem grossa. mas emprega-se. – Bulcão é “nuvem muito densa e negra. literal ou gráfica. truanesco. faceta. como de burla. negror. uma prova de boa vontade. bufo. – Truanesco é “o que faz coisas ou diz tolices de truão. – Cerração é “forte nevoeiro que cobre os campos ou o mar. o que desperta riso. esquisito. extravagante. grotesca de fatos. chiste e graça que se não confundem com a zombaria. em suspensão na atmosfera”. cerração. procurar. ou de homens e coisas. Quando a dádiva tem um fim benéfico. 448 BUSCAR. – Grotesco sugere ideia de “caprichoso. nevoeiro principalmente no mar. neblina. que é demasiado até o ridículo. o mesmo que gênero burlesco. grotesco. escura e que quase sempre se desfaz em chuva”. – Dádiva é uma prova de generosidade. – Bufo (transplantação do italiano) indica também o que é burlesco. – Ridículo é termo genérico aplicável a “tudo que provoca o riso ou que merece escárnio”. que não guarda a devida compostura”. – Névoa é “vapor aquoso que pela sua densidade não sobe muito nem se desfaz em chuva. – Destes dois verbos caricato. que escurece o ar e ameaça de tormenta”. principalmente nas manhãs de inverno”. pairando ordinariamente na encosta ou no cume dos montes”. – Bufão é o mesmo que bufo. nevoeiro. de alguma coisa). densa e baixa”. que é bobo de praça”. nimbo. Busca-se ou procura-se por toda parte aquilo de que se necessita. – Cômico é “o que é próprio da comédia. impedindo que se veja claro a pouca distância”. que é quase sempre seguida de tempestade”. hilaridade”. bufão.244 Rocha Pombo que por gentileza se oferece a alguém. – Nuvem é “acumulação de vapores. cerração profunda”. 447 BURLESCO. – O presente é uma prova de amizade. O que nos parece . – Caricato é o que tem a aparência de caricatura. por gracejo. procurar não inclui nem exclui essa ideia.. burla. dito para que outros riam”. nuvem. 446 BRUMA. ao nosso carregado ou exagerado. esquisito ao ponto de cair no ridículo”. ou bulcão ou caligem. – Faceto quer dizer – “engraçado. – A oferta considera-se como feita de inferior a superior”. o burlesco. névoa. – Extravagante é “o que saiu do normal. e esta palavra (que tomamos do italiano) designa a representação caprichosa. Caricato equivaleria. – Bruma é “cerração espessa. – “é um obséquio. e este vocábulo não inculca que o objeto que constitui o presente reúna qualidades determinadas. bulcão. portanto. Para exprimir caricatura tem o francês a palavra charge (= representação exagerada. e só pode consistir em algo de delicado”. – Negror e negrume só por figura é que se tomam por “bruma muito espessa. seria o mesmo que ópera-cômica. ampla. Gênero bufo. negrume. com mais propriedade do que este. Ópera-bufa. – “O brinde” – diz Bruns.. – Caligem é “nevoeiro muito denso e escuro. feito para causar alegria e riso. mais ou menos densos. ridículo. – Dom é uma prova de munificência. por brincadeira. chistoso. Buscar inclui sempre a ideia de movimento por parte de quem busca. – Burlesco diz propriamente “por diz muito judiciosamente Bruns. excêntrico. ou o motejo. muito fechado. – Neblina é “nevoeiro menos denso e muito chegado à terra”. caligem. cômico. mas de esquisitice. como substantivo.

cascata. – Pontal é “uma ponta de terra para o mar”. uma madeixa de cabelo da cabeça ou da barba”. e designa “o conjunto dos pelos que vestem a cabeça do homem”. quando o volume delas não é muito considerável. e tanto se diz do homem como de certos animais. – Salto. A cachoeira pode ser formada por um salto vertical (e então chama-se mesmo salto) ou por um plano muito inclinado”. grenha. caindo sobre a testa ou para os lados. catadu- delha. – Grenha designa cabelo embaraçado. forma cachões. o instrumento mais ignominioso: é “o aparelho onde se estrangulam os condenados à pena última”. é preciso admitir uma certa diferença.. Um inquilino procura casa para onde mudar-se. – Forca é. sugerindo. madeixa. como diz o latim promontorium (mons in mare prominens). marrafa. no entanto. guilhotina. aqui. 450 CABO. – Coma é “cabeleira farta.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 245 acertado estabelecer é que quem procura sabe que existe o que anda procurando. Ambos designam o instrumento de suplício nos países onde subsiste a pena de morte. Lesurques morreu no cadafalso. desnudada e cheia de montículos de areia”. – Cachoeira. – Guedelha é “uma pequena porção. 449 CABELEIRA. mas o patíbulo sugere ideia do castigo merecido pelo paciente. de todos. ideia que se não encerra em cadafalso. . – Cabedelo é – Entre cadafalso e patíbulo. ao patíbulo sobem os monstros. é “o ponto onde um rio. e igualmente se diz dos cabelos postiços compostos de modo que cubram os naturais ou a calva”. Cabo é “a grande porção de terra que se mete pelo mar. catarata. por mais que o uso geral não dê por semelhante distinção. “diz-se de todo o cabelo. Também se diz de cada uma das duas porções em que se divide a cabeleira ao penteá-la. coma. se bem que encerre a ideia de menor volume de águas. ou sem elevação que se destaque muito do continente”. ou um cabo de pequenas proporções. patíbulo. – Corredeira é brasileirismo equivalente a cachoeira. – Cascata é a queda. um necessitado busca ou procura um emprego”. e vale por um pequeno cabo. – Marrafa é uma porção de cabelo riçado. – Melena significa certa porção de cabelo. revolto. a ideia de que o fluxo das águas é menos vivo que na cachoeira. corredeira. – Cabeleira. – Cabelo é do grupo o termo genérico. cabelo. e aplica-se particularmente a uma praia que avança para o mar. designa catadupa. enquanto que aquele que busca ignora se há o que anda buscando. que se julga serem sinônimos perfeitos. imponente”. usado principalmente em França e durante a Revolução. composta e ordenada. longa. segundo Bruns. que uma pessoa tem na cabeça. 452 CADAFALSO. – Promontório é o cabo que termina em rocha escarpada ou em monte. – pa. 451 CACHOEIRA. salto. mudando bruscamente de nível. ou descida de águas por entre rochedos. segundo Lacerda. não penteado. – Madeixa é “um negalho. em desordem. – Catadupa e catarata dizem-se da queda de um grande volume de águas e de grande altura. caindo pelas faces. para decapitar de modo instantâneo os condenados”. gue- “um diminutivo de cabo. ou sobre os ombros. pontal. melena. – Guilhotina é “o aparelho moderno. principalmente quando é em profusão. promontório. sem notáveis acidentes. – Rápido é “a parte de um rio onde a água muda um tanto de nível sem formar queda”. rápido. forca. uma porção de cabelo enovelado ou em trança”. cabedelo.

orçar. mas o que é calado nem por isso se entende que esteja ou seja mudo: basta que fale pouco e com muita prudência. conta. e que chega ao seu fim”.. – Sombrio é quase o mesmo que taciturno: apenas sugere melhor a ideia de tristeza que em taciturno como que desaparece ou se disfarça sob o ar de esquivança ou mesmo de repugnância que este encerra. no entanto. velho (velhice). por assim dizer. de- crépito (decrepitude). avaliar. de ar severo. evitando o convívio e tudo vendo com maus olhos. de guardar em segredo o que não deve ser divulgado. Entre caducidade e caduquice há muita distinção: caducidade é “a idade ou a qualidade de caduco”. desfeito. de ser discreto. – Velho é o homem avançado em idade e sem mais o vigor de moço. – Caduco. – Tratando dos seis primeiros vocábulos deste grupo. ou por algum motivo. ancião”). silencioso. 454 CALADO. ou fazer operações . quieto. designa o que tem perdido as forças do espírito. o que está calado também cômputo.: – “A palavra contar é a mais genérica de todas estas. mudo. nas escolas de primeiras letras. se tornou incapaz das funções que lhe eram próprias. – Decrépito designa “o que não tem mais forças para viver. de caduco”. escrever e contar. e senilidade. calado. não articula palavra alguma por um motivo qualquer. computar. é obra. que não está mais na lucidez da sua razão e que caiu em quase idiotia. que contém o mesmo radical latino que o primeiro (senex “velho. mas este ensino. calmo. pois. por isso é que este vocábulo sugere ideia de estar em silêncio. quase sinistro. mais de rotina que de ciência. – Calado é “o que está sem falar. taciturno. e senilidade à diminuição da energia moral e física ao mesmo tempo. sombrio. suputar. – Silencioso é termo genérico e muito extenso. Deve notar-se entre os dois vocábulos a seguinte diferença: senectude refere-se mais particularmente ao físico. – Invalidez é a qualidade ou condição de inválido. e mesmo que silencioso. aplicado às pessoas. – Inválido é o que. de sorte que um sujeito que esteja calado ou mesmo que seja mudo pode não estar silencioso. aplicável tanto a pessoas como a coisas: o que é ou está silencioso exclui a ideia de rumor. nem se move demais. reservado. sombrio. caduquice é “manifestação de caducidade. o romance da sábia língua do cálculo. Há entre calado e mudo. – Velhice é o estado de exaustão a que chega o velho. – Senectude é a idade avançada. inválido (invalidez). ou não revela o que sabe ou o que sente”. senectude. esmar. ou por moléstia. ou pela idade. – Reservado é um tanto mais expressivo que o termo calado. além de calado. aqui. reserva e cautela.246 Rocha Pombo 453 CADUCO (caducidade e caduquice). consiste em fazer numerações e algumas operações aritméticas para conhecer uma quantidade: é. se mostra esquivo. diz o mesmo que “sereno. cálculo. ao alquebramento das forças. prudente”. O que está mudo não pronuncia palavra alguma. carregado. – Taciturno é aquele que. – Quieto. – Calcular é executar operações aritméticas. pois à ideia de falar pouco reúne a de muito cuidado em não dizer o que é inconveniente. que está de todo gasto. desordenado. discreto. 455 CALCULAR. Decrepitude (ou decrepidez) é a qualidade de decrépito. também designa a qualidade do que chegou à extrema velhice. guarda silêncio. uma diferença que se não deve esquecer. diz Roq. ou por deformação orgânica. palavra etc. ensina-se a ler. contar. gesto. ou por defeito orgânico (e então é mudo). – Quieto é propriamente o que não se agita. senilidade. estimar.

já se diz também – caminho de ferro. raciocinar. – Computar é reunir.. e apenas se aplica no sentido próprio. nem mesmo caminho). É assim que tanto dizemos – via terrestre.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 247 particulares da ciência dos números. algébricos. em vez da qual usa de contar. aberto por entre obstácu- . – Orçar é “calcular aproximadamente. estradas de ferro. a uma prova. – Trilha (ou trilho) é caminho estreito. em suputar uma ideia de cômputo falível”. e até certo ponto tem necessidade de saber calcular. etc. sem os fundamentos com que se orça”. O astrônomo calcula a volta dos cometas. fazer o cálculo de um gasto. pois esmar é “estimar a olho. pois. de uma receita provável por ser baseada em dados que não devem variar muito”. Há. e o astrônomo computa sobre tábuas de sua ciência para fixar o tempo e o instante mesmo da repetição de um fenômeno. raia. dois. em lugar de combinar. O comerciante tem seu livro de contas em que assenta tudo quanto se refere a seu débito e a seu crédito. para chegar a um conhecimento.. ou fluvial (e não – estrada. trilha. – Dizemos – cálculos astronômicos. e de modo que se preste ao tráfego de veículos”. e com muito mais razão está longe de poder calcular por divisões. integral. – Estrada é “caminho largo. como – via marítima. etc. estrada. Um menino conta primeiramente pelos dedos – um. de comércio. três. O computar é próprio dos doutos. sem calcular. – Suputar (que é desusado) é.. a uma demonstração. Há estradas de rodagem. e rigorosamente falando não computa enquanto não pode dizer – um e dois fazem três. – O cálculo é uma verdadeira ciência formada de muitos métodos mui sábios. – Calcular usase no sentido figurado. O amo toma contas a seu feitor. – Avaliar é “estabelecer o valor de uma coisa. segundo Bruns. pois é uma operação determinada e limitada a cálculo. quase sem refletir”). combinar. para conhecer o total ou o resultado que se procura. senda. quando queremos saber o número de certas coisas. Assim é que o cronologista computa os tempos. construído com mais ou menos arte. dois e três fazem cinco. multiplicações e diminuições. etc. – Via só dá ideia do meio de comunicação entre um e outro ponto. e este deve ter suas contas claras e em dia. etc.. Por influência do francês. – Contar entra em mui variadas locuções. picada. relativo a assuntos de interesse material. infinitesimal. o infinito. isto é. dois. vici- na. isto é. – Esmar é “orçar ligeiramente. de uma despesa. azinhaga. de administração. cálculo diferencial. Contamos quando numeramos. A palavra computar não é conhecida do vulgo. como se pode ver nos dicionários”. ou fazer um cálculo. etc. começando por um. – O contar olha-se como negócio que poderemos chamar econômico. – Todas estas palavras têm de comum a propriedade de designar “espaço aberto conduzindo de um lugar a outro”. sem base segura: é pouco menos vago apenas do que esmar (não sendo este mais que uma contração daquele. mas não rigorosa. adicionar os números dados. via. atalho. – Caminho não sugere mais que a ideia de “espaço ou trilho livre entre dois pontos”. Todo homem deve saber contar. partindo de termos conhecidos para chegar a um desconhecido. e como que ressentindo-se disso no significado. o geômetra. etc. “computar com dados cuja exatidão se julga a mais perfeita possível. – O cômputo compreende-se no cálculo e na conta. 456 CAMINHO. Para estabelecer o orçamento de um ano econômico suputam-se (hoje só se usa – orçam-se) as receitas e os gastos prováveis. vereda. com mais fundamento do que quando se estima”. etc. calcular a esmo. – Estimar é determinar o valor de uma coisa. carreiro.

Nesta acepção. aberto pelo tráfego de carros”. – capcioso (do latim captare “tratar de apanhar.) enuncia a ideia de meios hábeis.. Aplica-se particularmente este vocábulo ao discurso ou argumento com que se enreda alguém de modo tal que toda escapatória se lhe torna impossível. e mesmo heroico”. se se atende à respetiva origem (do latim semita de semis + iter) deve significar “meio caminho”. em vez dele. – Vicina é termo pouco usado. o desgosto em que se fica. traiçoeiro. ardiloso. e até – “a larga” senda do progresso. uma promessa insidiosa conduz a imprudências. sub-reptício. arguto.. trilha é vocábulo mais próprio e mais usado do que trilho. Diz-se das palavras. dos modos. subtil.. – Sofístico só se diz dos argumentos. São só para nós as canseiras da vida. falaz. empregando-se. mas sugere a ideia de “complicado e escuso”. ou caminho muito estreito por onde mal pode passar-se. o esgotamento. aqui. caviloso. – Canto é “toda composição poética que pode ser cantada”. O que é capcioso dirige-se ao entendimento. e só daqueles com que se pretende enganar o entendimento sem nenhum outro fim imediato. etc.. religioso. panegírico”. – Canseira é “o abatimento geral que impede de agir. – Argucioso é “o que usa de . azinhaga por onde se evitam as longas curvas do caminho geral”. a indisposição. canto. – Picada é “trilha mal aberta em floresta. 459 CAPCIOSO. – Segundo Bruns. numa certa direção”. – Canção é termo muito mais próprio do que canto para significar “a poesia que é própria para ser cantada”. não obstante. – Senda. no insidioso há má intenção. sofístico. pois este designa melhor o sulco. hino. – Atalho é “caminho estreito. é um “hino religioso. Um argumento capcioso leva ao erro. (não – os cansaços). etc. o sofístico descobre-se facilmente. – Carreiro é “caminho estreito. o que é insidioso. – Cansaço é “a depressão de ânimo e de forças físicas que se seguem a esforço longo ou violento”. insidioso. Ficou a morrer de cansaço quando deixou a forja. ob-reptício. astuto. a locução – caminho vicinal – para indicar os “pequenos caminhos. – O hino é “um cântico que pode ser patriótico. – Lassidão é a “completa exaustão. fadiga.. – O cântico lo. velhaco. cortando-se apenas as árvores. devidos à faina muito agitada e aflitiva”. à vontade. – Azinhaga é também “caminho estreito”. que levam de um caminho geral ou de uma estrada. falacioso. no que é arguto há muitas vezes algo de capcioso. – Vereda é “trilha tão maldistinta que apenas parece marcar o rumo seguido”. do tom. – Fadiga é o “cansaço que resulta de longos trabalhos. Designa particularmente o poema lírico sobre tema popular.. “uma curta trilha destinada a jogos de corrida”. – Insidioso (do latim insidiœ “ciladas”) revela ideia de laço preparado para nele fazer cair alguém. astucioso.248 Rocha Pombo 458 CÂNTICO. lassidão. destinados a apanhar a alguém como se apanha um animal a que se armam laços disfarçados. (não – de canseira). – Arguto diz-se do que é subtil e engenhoso.. para os lugares vizinhos”. Empregam-se meios capciosos para levar alguma pessoa a confessar aquilo mesmo que nega obstinadamente. canção. Não se compreende como é tão usada esta palavra na frase – a senda. argucioso. fazer esforços para apoderar-se de”. desânimo e prostração em que põem a fadiga e o cansaço”. e mais frequentemente se toma à boa que à má parte. – Raia é.. solene.. trilha. O que é capcioso. ou insidioso não é fácil de descobrir. canseira... a passagem rápida para transpor um embaraço. No capcioso há engano. Talvez só se explique isso pela beleza fônica do vocábulo. 457 CANSAÇO.

cume ou cimo. enganando. sagacidade consegue o que deseja”. e significava cabeça. de argumentos capciosos. passando a guarnição da praça rendida a ser prisioneira do vencedor”. e que importa conhecer para não as confundir”. I. – Ob-reptício = “que se obteve por meio de ardil.” 461 CAPÍTULO. – “designa-se a parte mais nobre do homem. cada uma delas ajunta à ideia fundamental alguma acessória que a modifica. Ambos significam o ato de entregar-se ou de se considerar vencida uma praça de guerra. sabe usar de disfarce para encobrir o seu intento enganoso. mas não seria próprio dizer – tipo falaz. que eu palpo. astucioso. cabido. – Sub-reptício = “que se conseguiu iludindo. 51: Que não no largo mar. – Cara é da palavra grega kára. para fugir a um compromisso”. parte que ao corpo. portanto. com leda fronte. – Subtil é “o que induz a erro sem que a vítima se aperceba. – Falaz é também “enganador. – “Por estas palavras” – diz Roq. é o que se insinua habilmente no ânimo de outrem. – Astuto só se pode referir às pessoas. finura. Dizemos – gestos falazes ou falaciosos. armando traição”. qual soberana. 462 CARA. mas entre nós só significa a parte anterior da cabeça do homem. além de astuto. não. e pode aplicar-se tanto à linguagem como à própria pessoa. fronte. Mas no lago entraremos de Aqueronte. frente. capítulo é “a assembleia em que o cabido toma as deliberações para que tem autoridade”. Que eu pelo rosto angélico apertava. Aplica-se. Não é admitida em estilo elevado. Não fiquei homem. Mas. como a serpe na relva”. e sim – tipo falacioso. a capitulação é . etc. José Agostinho de Macedo diz na Meditação: Mas que pasmosa arquitetura é esta Deste corpo. como quem prepara emboscadas”. ou ocultando a verdade ou qualquer circunstância que conhecida seria motivo para que se não nos concedesse”. – Conquanto prove- nham do mesmo original latino (capitulum. rendição. de surpresa ou dolo”. ou ato de capitulação. mentindo. mas mudo e [quedo. gestos. que mente. tanto às pessoas como aos discursos. – Astucioso é “o que. e de alguns animais brutos.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 249 argúcias. é o que emprega astúcias contra outrem”. vulto. fraude ou mentira para enganar”. Também só se deve referir ao discurso. isto é. – São bem distin- “a entrega da praça feita e regulada por uma convenção prévia. – Astuto é “o que com arte. V. – Falacioso é “o que usa de falácia. lhe preside e manda! E Camões. rosto. de subtilezas e disfarces”. de falsidades”. – Ardiloso é “o que emprega meios enganosos e traiçoeiros. ou fronte (que vêm ambas de frons). E junto do penedo outro penedo. 460 CAPITULAÇÃO. É expressão vulgar. face. – Velhaco é “o que usa de fraude para enganar. e às vezes incivil e grosseira. de caput “cabeça”) distinguem-se assim estes dois vocábulos: cabido é “a corporação de cônegos de uma sé”. E no c. tos estes dois sinônimos. nos Lusíadas. – Caviloso é “aquilo em que há sofisma ou má-fé. eu sinto? [A frente Qual soberana. semblan- te. que inventa e dissimula para fazer cair em erro”. 56: Estando c’um penedo fronte a fronte. preside e manda. ou karé. A rendição supõe que a entrega é feita “sem ajuste prévio nem condições. quer dizer – de enredos. – Traiçoeiro é “o que age com perfídia. em lugar dela usam os poetas a palavra frente. só à linguagem.

compleição. (Lus. é de um caráter austero. natural. e talvez “rosto formoso”. e muitas vezes equivale à representação exterior. Que o coração converte. humor. significando rigorosamente a maçã do rosto. que. e é poética. sombrio. e como é no rosto que mais avultam as feições humanas. e humor alegre. uma perfeita equivalência entre caráter alegre. pois humor. sombrio. 41) – Semblante (talvez do francês semblant) é o rosto considerado como expressão dos afetos ou paixões. usa-se. gênio. O mais comum. constituição. como se infere destes versos de Camões: Quem32 de uma peregrina formosura. F. que tem preso Em pedra não. muito a propósito. instinto. pois só se diz dos racionais. . e da seguinte: E com o seu apertando o rosto amado. quando a consideramos voltada para nós. – À palavra latina vultus muitas vezes corresponde a nossa semblante. os nossos antigos chamavam. para a probidade. ou com o seu contrário. etc. Um caráter leal é a disposição permanente para a lealdade.. – “o caráter e o humor resultam de disposições do espírito que são particulares a uma pessoa. feição. para a franqueza: uma disposição. “O semblante (o vulto) muitas vezes indica os sentimentos da alma”. De um vulto de Medusa propriamente. de tendências. com a sociabilidade ou a falta de sociabilidade: tais são as disposições para ser alegre. idiossincrasia. ou pouco mais ou menos permanente. e Berg. ramento. feitio. e não – está de bom caráter. Não há. Dizemos – um caráter leal (não – um humor leal). ânimo. – Da palavra latina facies vem o nosso vocábulo face. em que o nariz forma uma espécie de bico. e ao que com ele se parecia. marcando. 35). – Segundo Bourg. especialmente as disposições do espírito que têm relação com a moralidade são elementos essenciais do caráter. por ser a parte saliente do corpo. porém. mas uma disposição tal que possa estabelecer uma notável distinção entre um homem e um outro homem. pode entender-se que essa disposição é permanente. 142) 32 Subentende-se: pode livrar-se. mas em desejo aceso? (Lus. Pode dizer-se igualmente. esquisito. do que na alma se passa. dócil. que no rosto se mostra. entende-se sempre como sendo uma disposição permanente do espírito. rabugento. sobretudo visto de perfil. marcando simplesmente uma certa disposição do espírito. sombrio.. não somente uma simples disposição do espírito. Toda disposição de espírito própria para estabelecer uma séria distinção entre um homem e um outro homem é um elemento do caráter. Dizemos – F. Que os soluços e lágrimas aumenta. e não – de humor austero. ou com a mesma propriedade um caráter ou – um humor. – Caráter. ou quase permanente. ao esporão da proa das embarcações. como se vê da precedente citação de Camões. e ainda hoje os castelhanos chamam rostro à cara dos racionais. II. ou para ser triste. ou que é passageira33. II. as disposições que formam o humor podem ser e são quase sempre momentâneas. 33 E aqui está a verdadeira distinção entre caráter e humor: no caráter há fixidez de disposições. É expressão mais elevada que a palavra cara. está de bom humor. é significar esta palavra vulto o relevo do corpo humano. usam-na os poetas para indicar o mesmo rosto. Vultus animi sensus plerumque idicant (De Orat. alegre. O humor resulta de um certo número de disposições do espírito que têm relação com a melancolia. no entanto. ou a parte da cara desde os olhos até à barba. complacente..250 Rocha Pombo 463 CARÁTER. III. Por suavidade de pronúncia se diz rosto. tempe- – Chamavam os latinos rostrum ao bico das aves. significa por extensão toda ela. índole. como se vê deste lugar de Cícero.

e – uma compleição delicada”. sólida e capaz de resistir às fadigas. – Segundo Lafaye –. nem temperamentos). – Entre índole. isto é. ao bem. os humores. natural exprime as qualidades do caráter. Também significa o tino. um – temperamento forte. temperamento dá. plexus ‘dobrado com. formado pela índole e o gênio.. – Idiossincrasia é termo erudito e moderno. sem refletir nem cogitar do que se vai fazer. Quando se é de um natural brando.. de preferência – um temperamento ardente. a inclinação de cada um”. que se refere à moralidade.. a índole. como por inspiração. – Temperamento é a sensibilidade. Mas o homem – diz Roq. feição parece enunciar melhor a ideia de modos exteriores. humor leal. e essa ideia torna-se como que característica da própria mistura ou amálgama. que sabe moderar os transportes de ira. as suas emoções.) e temperamento não significam mais que o humor. a despeito do que diz Bruns. o estado de espírito em que se está em certa situação. e não sob o ponto de vista do bem ou do mal. O homem que não se irrita facilmente. sobretudo entre as partes líquidas. Comparando compleição e temperamento. uma saúde robusta. – Índole é “o modo de ser. as disposições naturais para o bem ou para o mal – ou melhor. enquanto que compleição e temperamento designam o estado de saúde interior. a ideia de uma certa força ou violência atribuída aos elementos. e – uma compleição biliosa. bruscos (e não – compleições. gênio e temperamento há tanta semelhança que poderiam facilmente confundir-se os três vocábulos”. tem bom gênio (e nem por isso terá sempre boa índole).. Poderia aproximar-se muito de humor. pois. é o modo de ser do espírito. a índole de cada um. A constituição representa (é ainda de Laf. tem boa índole (e não se dirá – tem bom gênio)34. a natureza de cada indivíduo. – Instinto é o modo de ser ou de agir quase inconsciente. considerados no seu grau de força ou de vivacidade. – Feição e feitio bem que se podem confundir. não se cometem crueldades. no exercício de alguma função ou na prática de certos atos. A união da índole. – Feitio.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 251 portanto. – Temperamento (de temperare ‘misturar. importado diretamente do gre- . e não se enoja arrebatadamente. a perspicácia com que se faz alguma coisa espontaneamente. por isso. de cum + 34 Pode mesmo ter mau gênio e ter boa índole. complicado’) exprime uma certa união de todos os sistemas e aparelhos orgânicos. Dir-se-á. e os animais principalmente. é o impulso natural a que obedece o homem. – Ânimo é. – Feição é. escreve o mesmo autor: “Complexão (do latim complexio.. O humor não resulta de disposições que tenham relação com a moralidade.. não tem sentido. no entanto.. aqui. Estas duas palavras fazem conceber uma proporção entre os elementos do corpo. e segundo o qual julgamos as coisas. no modo de encarar as pessoas e as coisas. quando se é brando por temperamento ou compleição. viciosos. não se é arrebatado. mais ou menos viva de cada um. – Complexão (ou melhor – compleição que é mais vernáculo. a natureza moral. melhor. como feitio. Mas. a conformação dos membros. e que é eminentemente própria para distinguir um de outro homem. – Há naturais (ou naturezas morais) benfazejos. de costumes e hábitos. o gênio e o temperamento forma o caráter de cada indivíduo. – Gênio é a disposição natural com que cada um revela a sua vontade.) antes o bom estado exterior e visível do corpo. sugere melhor a compleição. à virtude. – que é naturalmente inclinado à verdade. bons ou maus. nem sujeito a fortes movimentos de paixões. adoçar’) anuncia um amálgama de coisas violentas que têm necessidade de corrigir-se e que se corrigem uma pela outra. revelada na maneira de ser. que os movimentos da sensibilidade.

esqueleto. Quem precisa de alguma coisa. ou de proteção. e até mesmo de quase penúria: ideia que se não inclui na palavra careza. significando “disposição particular do temperamento e constituição. e carcaça é termo que só em linguagem familiar se pode dizer por esqueleto. É conveniente notar ainda que não carece daquilo que nunca se teve. para coisa alguma. Quem carece de alguma coisa é que não tem essa coisa que lhe seria útil. e conforme se emprega ou não entre os dois a preposição de. (Aul. precisar. A carcaça é a porção de ossos que formam o tronco do homem ou o bojo dos animais. – Carestia é “o preço elevado das coisas determinado pela falta ou pela grande escassez dessas coisas”. não se pode carecer de cem contos. 465 CARECER. Quando se diz que. Em regra. sede. – Arcaboiço (de que não cogita o autor citado) é a “armação de ossos que formam. uma grande diferença entre careza e carestia: esta sugere ideia de carência.. sem dúvida. “Preciso de falar-lhe” (isto é – tenho necessidade. em que figura a raiz grega ker. – Careza é a qualidade de caro. pobreza. que estes verbos precisar35 e necessitar. ou conveniência em falar-lhe). “Ele sacrifica-se a trabalhar dia e noite porque precisa ou porque necessita”. Quem necessita de alguma coisa dá ideia de que essa coisa lhe é necessária. por assim dizer. carência.). nem – que necessita de cem contos. – Carência é “a falta de alguma coisa. mais de carecer do que precisar. miséria. Há. Para isso seria necessário admitir que esse homem sabe que não tem vergonha e quer ou deseja tê-la. Por isso. ou do animal. indigência. como intransitivos. “Preciso falar-lhe” (isto é – tenho obrigação de. em virtude da qual cada indivíduo sente de modo diverso os efeitos da mesma causa”. Observemos. dizemos que – um negociante precisa de cem contos para ampliar as operações da sua casa (e não – que carece. como entendem Roq. expressa que lhe conviria muito alcançar ou possuir essa coisa. de ser. – Carecer carece de lógica é que não é senão absurdo. portanto. e Lac. O sujeito que carece de emprego. não tem nenhum emprego. necessitar. sugerindo ideia de “cortar. o verbo precisar. arcaboiço. Necessitar aproxima-se. mas falta que se sente e que passa. a ser necessidade quase”. formam o esqueleto. portanto. nem de um banquete para matar a fome (sim – de um pouco de pão). 466 CARESTIA. carece de cem contos para realizar um negócio que planeou”. . – os ossos do corpo completo do homem.. ou precisão de falar-lhe). de preço mais alto que o comum. nem protetor. 35 O verbo precisar também pode ter significação diferente quando rege algum outro. fome. isto é. Também não se diria que “F.252 Rocha Pombo go. Como não se carece de meia dúzia de chapéus para não andar descoberto (sim – de um chapéu). Neste caso empregaríamos. penúria. O argumento que pia. necessidade. ou carere. por último. – Entre precisar e necessitar poderia ser mais difícil estabelecer diferença do que entre estes e aquele primeiro verbo. no entanto.. Ninguém carece daquilo que lhe não seria de proveito. – Segundo Bruns. encurtar”) significa propriamente “ter falta daquilo que se deseja ou de que se precisa”.. Em bom português não se poderia dizer que – “um homem carece de honra ou de vergonha”. um artigo. – Esqueleto é palavra científica. escassez. de escassez que obriga à privação muita gente. inó- (do latim carescere. significam evidentemente “ter falta do que é indispensável”. a base ou o fundamento do organismo humano”. careza.) 464 CARCAÇA.

é pobreza horrível e desventurada. o emprego muito diferente do cargo. isto é – de achar-se alguém em tal penúria que precisa de recorrer à caridade de seus semelhantes”. corresponde. ou como direito anexo a uma dignidade. enquanto que os ofícios constituem.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 253 por exemplo. Certos cargos no governo e na administração do Estado são verdadeiros ofícios que de direito se exercem. muitos outros entre os vocábulos deste grupo) empregar no sentido moral como no físico”. imposta pelo destino”. – Penúria [latim penuria. como à falta de talento. É. que inspira piedade. pois. necessidade violenta” (Chass.” (e em nenhum . a cargo pela necessidade. – Miséria é “o estado de penúria. + ops. Há empregos vagos na repartição tal (não – cargos). mesquinho. “tomo o encargo de avisá-lo a tempo. – Necessidade. mas os cargos de prefeito ou de intendente municipal. aflitiva de algum bem. – Pobreza é “a qualidade de ser pobre. que sugere. a coisa escassa. de moralidade. – Segundo Roq.. do grego peina “fome. – Inópia é a palavra inopia que importamos do latim (de inops = in neg. de fazer ou cumprir um certo dever aquele que toma o cargo ou o ofício. força”. – Emprego encerra a ideia de estar o empregado sujeito a um trabalho permanente e obrigatório. pode definir-se como significando “contingência fatal. – Indigência é “a qualidade ou estado de indigente. Entre cargo e encargo não é muito raro notar uma certa confusão. sem que tenham mais título que sua eleição ou nomeação. de ser. portanto. papel. é que não temos as notícias que esperávamos. pede socorro”. e tanto se pode (como. insuficiente para o fim a que é destinada”. Há cargos da magistratura. lugar. ou da autoridade que a nomeia. da diplomacia. Um sujeito rico pode achar-se em verdadeira miséria de vida se é um perdido. isto é – de ser curto. que dependem de nomeação ou de eleição. de indigência que comove. e sugere a ideia de que “o necessitado solicita auxílio. de não possuir meios de viver folgado.)] é “pobreza extrema e dolorosa. ofício. Dizemos: “cumpro os meus encargos”. isto é. em toda a sua extensão. Mais restritamente é “a falta do necessário”. A ideia própria de ministério é a de que a pessoa que o exerce desempenha um certo cargo por outra pessoa. aliás. em abastança”. do alto funcionalismo (não – empregos). ministério. não se pode dizer que sejam propriamente ofícios. mas esquecendo-se que nem todo cargo é ofício. por mais distintas que sejam estas duas palavras. pode ser bem físico ou moral”. – Sede e fome entram aqui numa acepção muito particular: exprimem “necessidade ansiosa. “temos carência de notícias a respeito de alguém ou de algum sucesso”. às vezes até adquirida por herança. com efeito. 467 CARGO (encargo). parco. Lavra a miséria num país. – Escassez é “a qualidade de escasso. senão cargos. – a ideia própria da palavra ofício é a de obrigar (ao que exerce o ofício) a fazer uma certa coisa útil à sociedade. função. “meios. falta absoluta. em nome de outrem. porque os que os desempenham só o fazem ou devem fazer por um certo tempo. Confundem-se às vezes estas palavras. pois. “os meus encargos estão satisfeitos”.) e que significa “falta. Encargo não é mais que a obrigação que decorre de um cargo ou de um compromisso que se tomou. recursos. emprego. carência absoluta de alguma coisa”. uma qualidade permanente. por assim dizer.. etc. e ali a fome já espreita as vidas. Um homem que luta heroicamente para viver pode estar até em penúria sem ser indigente. todo ofício vem a ser cargo. colocação. Dizemos inópia tanto em referência à falta de dinheiro. etc. clamante do indispensável”. Tem-se fome ou sede de justiça (isto é – clama-se por uma justiça sem a qual teremos de perecer).

a obrigação que se aceita num certo caso. e pode nutrir-se de frutos da terra. o hábito constante. e sem razão. “F. O primeiro indica o apetite natural. indício de caridade. que se confundem. por isso mais usado é. . – Diz Bruns. – Colocação é quase o mesmo que emprego: ajunta apenas à significação deste a ideia de que o emprego é permanente e quase sempre de certa importância. e que isso é “devido à índole da terminação oso”. mas não é reduzido a este só alimento. e o uso geral o admita. carniceiro é termo vulgar da língua. III. missiva. ou tratando de assuntos que lhe interessam mais ou menos diretamente. a função própria que se toma num dado momento. emprego ou ofício”. Significa. É possível. Estes dois adje- tivos designam em geral os animais que se sustentam de carne. quando comparam estas duas espécies de animais. Paulo. mais ordinariamente – emprego por pouco tempo ou de pequena monta”. tratando de graves assuntos. Deveres caridosos (e não – deveres caritativos). ó peitos carniceiros. se nutre de carne. às vezes. – O bilhete difere da carta: em se ocupar só de um assunto. epístola. e é antônimo de frugívoro. o homem. e não pode viver de outra coisa.. dos serviços próprios de um cargo. cheio de caridade”. O tigre. – Papel figura neste grupo com o sentido translato que se lhe dá em frases como estas: “fiz do melhor modo que pude o meu papel”. e cavaleiros? (Lus. 130) 470 CARTA. o instinto. carnívoro. caritativo. e não – caridosa. – carta é o termo usual com que se designam os escritos que se dirigem a alguém dando-lhe notícias. é muito caritativo”. está no seu papel”. e carnívoro pertence ao que come carne. estes dois adjetivos. ou de assunto ligeiro. 468 CARIDOSO. que se ceva de carniça. por exemplo. bilhete. em conter poucas palavras e excluir as formas cerimoniosas que encabeçam e concluem as cartas ordinárias. mas essa distinção não basta. de um ministério. próprio de caridade. o gato são carnívoros. – Lugar é “qualquer emprego. o leão. – Epístolas dizemos das cartas dos antigos. – Caritativo é propriamente “o de natureza moral dada a atos de caridade. o gosto. dizem que o nome de carniceiro pertence àquele que. como fez Camões naquela apóstrofe aos assassinos de Inez de Castro: Contra uma dama. Ato caridoso. funções) é “o conjunto das obrigações. o lobo são animais carniceiros. Parece. sentimentos caridosos (e não – ato caritativo. – Caridoso diz apenas – “de caridade.. mas as respetivas terminações marcam entre eles uma diferença bem sensível. 469 CARNICEIRO. como quase sempre é usada. Feros vos amostrais. nem – sentimentos caritativos). é termo pouco usado. capaz de sentimentos de caridade”.254 Rocha Pombo destes casos – cargo ou cargos). principalmente quando o conteúdo delas interessava a muitos. portanto. Os naturalistas.. – Carniceiro é o animal que Bruns. como. com a significação de cruel e sanguinário. que se ceva de carne crua. o costume. Criatura caritativa. por uma necessidade de natureza. de pequena importância. – Função (ou. Familiarmente dá-se hoje o nome de epístola a uma carta muito longa e em estilo pretensioso. por mais que muita autoridade de nota o queira. – Segundo “caridoso indica maior e mais frequente caridade que caritativo”. – Missiva é a carta considerada com relação à pessoa que a manda. a nosso ver. Carnívoro é termo mais próprio de ciências naturais. carnívoro é o que come carne. as epístolas de S. “F. o segundo anuncia simplesmente o fato. o cão. em forma literária e em tom solene.

– Casa é “o edifício de certas proporções destinado à habitação do homem”. – Choça é “habitação ainda mais rústica e grosseira que a choupana”. – Tugúrio (latim tugurium. significando “casa de escada exterior. e forma grande saliência sobre as paredes”. De “ato de habitar”. – Fogos é o nome que se dá. e por extensão. – Teto (latim tectum. – Morada é “à habitação onde se mora. usa-se quase sempre com um adjetivo: bela vivenda. de proteção. – Cabana (do italiano capánna) é “casinha coberta de colmo ou de palha. “era-lhe o céu um teto misericordioso”. Este nome dá-se também. às casas habitadas de um distrito. pelo menos com a mesma propriedade –. prestando-se quando muito para pernoite ao abrigo de intempéries”. – “casa rústica de madeira. chalé. etc. de tegere “cobrir”) é “o abrigo onde qualquer vivente se recolhe. – Choupana é – diz Aul. ou de uma povoação: “a aldeia vizinha não chega a ter cem fogos”. a casa dos coelhos. – Canto. portanto.). morada. junto ou no meio das roças ou lavouras”. passou a designar também a própria casa. que se habita: casa. palacete. aqui. ordinariamente revestida de madeira. toda parte onde se abrigam alguns animais: a casa do escaravelho. neste grupo. o mais genérico. vivenda. o sítio. fogo. ou palácio. casebre. habitação. castelo. “prédio rico e elegante”. hoje muito em voga. onde mora gente muito pobre”. barraca. arribana. (Aul. – Habitação é. palácio. ou habitualmente ou por algum tempo”. cujo teto de pouca inclinação é coberto de feltro. prédio. “abrigo ou habitação muito rústica e grosseira”. por modéstia ou por falsa humildade. aqui. designa. ou biombo – tudo será habitação. também de tegere) é quase o mesmo que tugúrio: apenas teto não se aplica a um abrigo de animais. mansarda. e sugere melhor a ideia de conchego. designando. – Mansarda afasta-se um pouco do francês de que a tomamos (mansarde é propriamente água-furtada ou trapeira. nas estatísticas. – Barraca é “tenda ligeira.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 471 CASA. 255 tugúrio. grandioso e magnífico”. no estilo suíço. isto é – o último andar de uma casa tendo a janela ou janelas já abertas no telhado): tem. onde se abrigam à noite os camponeses. tenda. biombo. – Vivenda é a “habitação onde se vive”. palheiro. – Lar é a “habitação considerada como abrigo tranquilo e seguro da família”. que é o que significa propriamente esta palavra habitação. no português usual. – Chalé é palavra da língua francesa. lar. Por isso. onde alguém se aloja provisoriamente”. ou choupana. cômodo. choupana. a morada humilde e desolada. canto. e sugere a ideia da maior ou menor comodidade com que a gente aí se abriga e vive. a sua choupana). Dizemos que o selvagem procura a sua choça (e não. asfalto ou ardósia. onde alguém como que se refugia afastando-se do mundo”. é “o colmo tomado pela cabana que é dele coberta”. ou onde se fica por algum tempo. – Arribana é “palheiro que serve mais para guarda de animais e trem de viagem propriamente que para habitação. pardieiro. de convívio amoroso: “teto paterno”. portanto. ou de ramos de árvores para habitação de pastores”. – Casebre é “pequena casa velha e arruinada. coberta de tela de lona ordinariamente”. teto. palhoça. colmo. é “o lugar. – Palhoça é “pequena casa coberta de palha”. Palacete é diminutivo de palácio. de todos os vocábulos deste grupo. em linguagem vulgar. de uma cidade. solar. choça. – Palheiro é propriamente o lugar onde se guarda palha: designa. à própria habitação magnífica. mais a significação de “habitação . – Colmo. vivenda detestável. – Tenda é “armação coberta para abrigo provisório ou de passagem em caminho ou em campanha”. – Palácio é “o edifício de proporções acima do normal. cabana.

é “uma parte de prédio que se aluga por baixo preço e por pouco tempo ordinariamente”. – “edifício velho e em ruínas”: “Já me cansam estas perpétuas ruínas. ou das coisas que. fiador”) é propriamente “bem de raiz. Hoje é “habitação nobre. e muitas vezes se toma em mau sentido. a propriedade que consta da casa e do terreno onde está construída”.” . pessoa. a situação da França em 93. funda-se numa verdade filosófica. de modo que formam um corpo ou sistema. nem com ele se relacionam imediatamente. à explicação das coisas. Os sistemas de Descartes. onde se vive com opulência”. – Solar é “a propriedade (terras e casa) considerada como representando uma tradição de família. tendo passado por herança de pais a filhos desde alguns séculos”. designa “a casa que é nossa própria. porque esta só de longe se relaciona com o ponto de que aquela está próxima. assim como a circunstância. hipótese. termo científico.” – Situação é. sucesso. que não tem outro fundamento que a má vontade da pessoa que supõe. – Pardieiro é – diz Aul. a suposição é gratuita. Particularmente se diz de todas as hipóteses que se podem considerar nas ciências abstratas.” A situação em que me encontro agora. Roubaud. pode ser favorável ou desfavorável. a situação atual do país. têm com ele alguma relação. Um sinonimista francês. aqui. onde há pobreza”. A conjuntura. do prœs “garante. Costuma-se dizer: “vou para o meu biombo” para significar que se vai para casa. Também se diz de um fato que apresenta tal ou tal caráter. luxuosa. sempre que este fato se possa relacionar com princípio geral: aos casos particulares não têm os magistrados senão leis gerais para aplicar. de Newton. – Circunstância (do latim circumstantia. penhor. têm com ele alguma relação imediata: os crimes perdem muito da sua gravidade quando neles ocorrem circunstâncias atenuantes. – Conjuntura é o vocábulo com que se indica o conjunto de circunstâncias que nem estão no fato. aqui.. e onde residiam os grandes senhores feudais. propriedade real”. entra na conversação ordinária. distinguem-se mais em que: a hipótese é uma suposição puramente ideal. situação. num dado momento. mas que. – De suposição e hipótese escreve Roq. menos precária. separadas do fato. suposição. de circumstare ‘estar à roda de’) diz-se das particularidades de um fato. só tem por base a verossimilhança. de gabinete”. distingue assim as três primeiras palavras deste grupo: “Caso se diz do que se considera possível: em caso de desgraça. gratuita ou falsa. aqui. etc. termo vulgar. – Biombo é “um pequeno recinto separado de uma sala por meio de tabique móvel. A hipótese refere-se às ciências: à instrução. e outro.: “Além da primeira diferença que há entre estas palavras (e que consiste em ser um. – Prédio (latim prœdium. contudo. fora das cidades. suposição. – Cômodo. circunstância. estes pardieiros intermináveis” (Garrett). como alegação. de Leibnitz chamam-se hipóteses e não suposições. incômoda e difícil. se se der o caso de não ter ele filhos. a suposição é mais familiar. – Bruns. – A hipótese toma-se muitas vezes por um conjunto de proposições unidas e ordenadas. A hipótese é mais certa. “o conjunto de circunstâncias que determinam o estado ou a condição de uma coisa. à inteligência. conjuntura. e a suposição toma-se por uma proposição ou verdadeira ou aprovada. 472 CASO. – Castelo era antiga habitação fortificada. e que serve de dormitório. etc. compara a conjuntura com a circunstância dizendo: A conjuntura e a circunstância estão para o fato como dois círculos concêntricos estão para um ponto dado: a circunstância é o círculo circunscrito na conjuntura. mas.256 Rocha Pombo humilde.

– Castigo é “tanto o ato de castigar. que está na sua plena integridade”. que não passe a segundas núpcias. O celibato cristão demanda continência perpétua. – “É a castidade” – diz fr. Luiz – “uma virtude. pois o inocente não conhece o mal. pena. imaculado (imáculo). Parece. pudicícia. impoluto.). virgem. Esta virtude é mais ordinária no sexo feminino. Mesmo referindo-nos à própria Virgem. etc. um só pensamento voluntário faz perder o merecimento desta angélica virtude. punir. pureza. (A pessoa casta nem pensa em semelhantes prazeres. de alma fiel. puro. castidade. ações voluntárias. e o lustre da virgindade: Ela supõe uma alma inocente. mas como um estado de alma. – Pudicícia é a castidade acompanhada de pudor. descuido. quando contrárias à lei: e castigam-se. inocente. do grego poiné “vingança. nem mesmo sabe que é inocente. inocência. ilibado. é a excelência. Punem-se crimes. e nem ainda conhece o que pode alterar a perfeita integridade da alma e do corpo”. pelo menos em todos os casos. inalterada”. omissão. A viuvez. dizemos indistintamente – imaculada ou intemerata. no entanto. mesmo de uma brutal violência. castigar a frase”. que é são e puro de espírito. que não ficou alterado na sua pureza”. deve ser continente. (Lac. incorrupto. e cora de os ver ainda levemente transgredidos. sabe coartá-lo dentro dos mais estritos limites. os apetites e prazeres sensuais. ou de honesta vergonha. – Pena (latim pœna. que nem experimentou. não só as ações voluntárias quando contrárias à lei. mas castigar indica principalmente a ideia de corrigir. – Impoluto é “o que não foi poluído. isto é – do que não tem malícia. ou grande falta que deve ser punida”. – Punir supõe autoridade de uma parte. tanto do corpo. – Punição é “o ato de punir”. de algum modo.). É uma flor delicadíssima. ainda quando permitidos. cândida. e culpa da outra. virgem. ou delito. A pessoa pudica teme. como o próprio sofrimento com que se castiga”. que intemerato sugere uma ideia que nem. mas da outra não supõe necessariamente culpa. – Virgindade exprime uma continência universal. um modo de ser. castigo. intemerato. Pode haver criaturas que. pudico. . S. expiação”) sugere ideia do “sofrimento que se impõe como punição do crime. como do espírito que se estende a todos os tempos e momentos da vida. – Pureza não é propriamente uma virtude particular. – Continência exprime a abstinência atual dos prazeres da carne. aperfeiçoar por meio da repreensão. conti- 257 nente. mas também os erros.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 473 CASTO. as faltas. delitos. e sujeita à autoridade sagrada da lei. – Incorrupto é “o que não foi corrompido. nem sentiu. nem sabe pensar no mal. – Punir implica a ideia de imposição de pena. – Intemerato e imaculado podem dizer-se sinônimos perfeitos. a honra. será essencial em imaculado: a ideia de – não violado. Castigar supõe autoridade de uma parte. e quando cede ao dever. censura. absoluta. punição. a perseverança. Neste sentido dizemos até – “castigar o estilo. – Ilibado (latim illibatus = in + libatus) quer dizer – “intacto. que regula. – Inocência tem aqui a acepção de candura: é a qualidade do inocente. venham a sair moralmente imaculadas. 474 CASTIGAR. e perfeita. virgindade. e aí estará talvez o que torna a virtude da castidade diferente de muitas das que figuram neste grupo. Por isso mesmo é que não se pode considerar a inocência como propriamente uma virtude. Em poesia não é muito raro empregarse imáculo por imaculado. intacta. que qualquer sopro impuro a embaça e murcha: um só instante de fraqueza. e até os defeitos. mas sim erro. continência. o próprio prazer honesto.

e que. mas prisioneiros. 476 CATIVO. Fazer uma nômina dos empregados por ordem de antiguidade. Nomenclatura geográfica. servidão. nomenclatura. motivo. passar por herança ou legado”. pretexto. – Catálogo (do grego katalogos “exposição desenvolvida. a lista apenas inscreve. minuciosa”) dizemos das relações ou enumerações de muitas coisas da mesma espécie. mas não poderiam ser aplicadas indistintamente. A escravidão não só humilha. – Nomenclatura é uma lista de nomes. Quando a nomenclatura inscreve ou classifica nomes de pessoas.º) que a enumeração seja metódica. portanto. em certos casos. vemos que: o catálogo inscreve e circunstancia. Não diremos. etc. – Cativo é propriamente “o que foi capturado. nem mesmo servo. prisioneiro. ou obedeça a uma certa ordem. – Enumeração é a lista que se faz com o fim de atender ao total que apresenta. Fazemos ou organizamos o catálogo de uma biblioteca. pelo menos nem sempre. pode ser vendido. a nomenclatura inscreve denominando. etc.258 Rocha Pombo 475 CATÁLOGO. O judeu em Babilônia foi cativo. é o fato em virtude . pode possuir bens. de usar da sua liberdade”. razão. Do mesmo modo difere prisão de cativeiro. e a enumeração inscreve ou expõe sucessivamente para que cada unidade contribua para o conjunto. pois o primeiro designa apenas o fato de “achar-se alguém privado por algum tempo de agir livremente. relação. O cativo pode conservar ainda a sua dignidade. mas – lista dos convidados. certas indicações numéricas. O servo é considerado como pessoa. perdeu a sua liberdade. prisão. cativeiro. ficando sob a dependência de outrem”. ao lado do nome das coisas ou pessoas arroladas. etc. servo. por exemplo. supondo-se que estes esperam sempre o seu resgate. – Causa é o que produz uma ação. só se lhe pode dar o nome de lista ou relação. O cativeiro não humilha. por exemplo – rol dos convidados. escravo. – Relação é quase o mesmo que lista: apenas deixa supor que as coisas ou pessoas relacionadas estão inscritas numa certa ordem. e não escravo. escravidão. a sua condição pessoal. – Escravo é “o que passou a ser propriedade de outrem. 477 CAUSA. enumeração. O catálogo de uma livraria ou de uma biblioteca compreende o título das obras que a formam. como despoja a criatura de quase todas as suas qualidades humanas. A servidão é muito diferente da escravidão. nômina. o que se deixou prender na guerra. ou não tanto a esmo como numa simples lista. denomina-se nômina. mesmo aquelas que parecem mais semelhantes. Recapitulando. – Segundo Bruns. É condição essencial do catálogo: 1. 2. – Prisioneiro aproxima-se de cativo: é “o que fica em poder do seu vencedor”. ou da botânica. – Rol é a lista que contém. Sempre que a enumeração careça dessas condições. o rol inscreve e conta. principalmente tratandose de ciências. rol. mas diferentes entre si. na guerra não se fazem cativos. de expressões que formam grupo separado. atendendo a que nessa lista a única indicação numérica é a dos números de ordem.°) que cada objeto catalogado se faça acompanhar de algum esclarecimento que melhor o caracterize e distinga dos outros. lista. a nômina inscreve. ou ao conjunto das coisas enumeradas. nomeia por ordem. Hoje. o nome dos respetivos autores. móvel. – Todas estas palavras designam aquilo que se tem como determinante das nossas ações. auferir lucros do serviço que presta a seu amo. Fazemos a lista dos livros que desejamos comprar. De tudo isto é privado o escravo. – Servo é “o que está sujeito a outrem”.

Há palavras. deixou de vir devido ao mau tempo (o mau tempo foi causa da ausência). Po- deria ainda alguém dizer – sátira mordente (e talvez não – sátira mordaz). como ao paladar a pimenta”. um caráter mais ou menos maligno. que condena. e algumas vezes a indignação e a veemência: é um moralista ou um juiz de mau humor. – Motivo e móvel são os nomes que damos ao fato. É usado mais frequentemente no superlativo: acérrima ironia. ou o que diz ironia. – palavra causticante (em vez de – cáustica). designa “o que é rude e violento. – Irônico é o que contém. que se inclui em causticante. postura) para exprimir exatamente o contrário do que diz ou afeta. pungente. ofende a boa reputação. penetrar afligindo”. – Móvel é “um motivo mais ponderoso. brutal. ao intento. atraindo por isso o ódio ou o desprezo de todos. ditos e expressões picantes.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 259 do qual se dá um outro fato. pungente. saudação. cruel”. impelindo a nossa vontade de praticar uma ação. isto é – capaz de pungir (mas não – pungente). – Pungitivo é “o que tem qualidades para pungir. abocanha a honra. como já vimos em outro grupo (o XCVIII) é “o que tem sabor picante e corrosivo”. Gritos lancinantes = os que entram na alma de quem os ouve como lancetas. picante. Um espírito mordaz ataca tudo e todos. – Acre. isto é – que usa de uma palavra ou frase (ou mesmo gesto. acre. ou de conduzir-nos deste ou daquele modo em dadas circunstâncias. mordaz (morden- te). 478 CÁUSTICO. as suas armas são um gracejo vivo e picante. à consideração. não poupa ninguém. Talvez porque se julgue esta palavra como originada do verbo ferir. Dizer – “santo” a um bandido seria dizer-lhe uma palavra pungente. – Cáustico (segundo resume Bens. elogio. o que corta. terebrante. um gênio acerbo. de flagrância. que nos leva a fazer alguma coisa ou a agir de certo modo em dadas circunstâncias. cruciante.. causticante. F. etc. e. satírico. irônico. – Picante é “o que é acre. devida ao sufixo de atividade ante. e pica. atitude. os vícios e os defeitos mais censuráveis. – Entre mordaz e mordente há diferença bem sensível: mordente significa mais “espicaçante. mordaz. etc. feroz. escarninho. – Lancinante é “o que penetra causando grande dor. sobretudo. – Pungente é um tanto mais forte e subtil que mordente: o que punge “penetra como espinho”. no sentido figurado. lancinante. irrita. o móvel que se dá como causa da ação”.) “denota certa malignidade irritante. pungitivo. frases pungitivas. – Razão é “o motivo que se invoca para justificar algum ato. Aquela palavra ou aquela frase saiu causticante como ferro em brasa (e não – cáustica). satírico. mas que só pungem a certas almas. motejos para fazer sobressair o ridículo e os defeitos dos outros. sarcástico. como – olhar irônico. pune e instrui”. A causa da intervenção da força pública foi o tumulto que ali se levantou. Um espírito cáustico emprega a ironia. – Pretexto é “uma razão falsa ou fictícia que se dá para não dar a verdadeira”. Dizemos tanto – termos irônicos. Dizer – “bandido” a um santo será usar de uma palavra pungitiva. rasga como estilete”. é frequente vê-la empregada como signifi- . discurso. Diremos com mais propriedade – estilo cáustico (em vez de – causticante). áspero e desabrido”. ferino. Um espírito satírico ataca. chufas. até carinhos irônicos. provocador” do que só mordaz. picar. Parece também que este tem mais força que o primeiro. – Motivo é simplesmente o que opera em nós excitando-nos. que opera tanto sobre o espírito como sobre o coração”. picante. próprio de fera”: e no sentido figurado – “o que é rude. – Ferino é “o que é selvagem. invetiva. – Entre cáustico e causticante parece haver apenas a distinção marcada pela ideia de atualidade.

empregam-se indistintamente celeste e celestial. 479 CEGAMENTE. significando mais – divinizante – que propriamente – divino. – “é fazê-la sem razão suficiente. recordar outra vez uma data ou acontecimento”. solenizar. o único que claramente encerra a ideia de festa. que tem origem no céu”. – Sarcástico é “o que envolve mais do que ironia pungentíssima: é o que revela desprezo. – Consideram-se aqui estes vocábulos na acepção que lhes é comum. entretanto. Aproxima-se-lhe muito escarninho. (Bruns. é “o que punge como acúleo (como verruma. divinal. vindo do céu. às cegas. coisa às cegas” – escreve muito bem Lac. amargamente”. persuade. – Celeste significa – “próprio do céu (e também de Deus) que está ou que aparece no céu. – Entre divino e divinal há uma distinção análoga. que é como nojo pela pessoa ou coisa escarnecida”. – Terebrante. celestial. Na maioria dos casos. Dizemos: cólera celeste (cólera divina) e não – cólera celestial. o semblante celestial de uma menina (e não – celeste). quer seja atual. – Celígeno quer dizer – “nascido no céu. cruel e pungente em extremo”. celebram-se exéquias. e a fim de bem gravar no espírito a lembrança do acontecimento que se soleniza. época extraordinária na vida de uma nação ou uma família”. celestial. célico. divino e divinal. Ninguém diria – misericórdia divinal – em referência à misericórdia de Deus (e sim – misericórdia divina). – Celebrar e solenizar dizem-se tanto dos acontecimentos alegres como dos tristes. João. 481 CELESTE. para o fazer ou deixar de fazer.. de ofender mostrando repugnância”. . – Rememorar é “repetir uma comemoração. que vem do céu”. festejar. Pedro e S. e não – corpo celestial)]. – “Fazer alguma celebra-se um aniversário com grandes festejos.). como dos grandiosos. celígeno.260 Rocha Pombo cando – “o que fere sem piedade. comemo- rar. dos três primeiros verbos deste grupo.. O padre celebra a missa. É com hinos de louvor e de alegria que a Igreja católica festeja um santo. – Festejar (do latim festus “alegre”) é. deífico. rememorar. de indicar o modo de render homenagem a qualquer pessoa ou acontecimento. no sentido em que aqui o tomamos. S. 480 CELEBRAR. ou aconselha que se faça”. – Deífico é também termo poético. divino. do céu” [nem sempre – celeste. em certos casos. marcada pela partícula de extensividade que figura no segundo. – Celestial. de alegria. – Entre celeste e celestial há uma diferença. Como ninguém diria – a ternura divina daquela mãe (mas – a ternura divinal).) até o mais fundo da vida”. Antônio. – Celebrar encerra duas ideias principais: a de ser grande o número de pessoas que concorrem e a do aparato da festa ou da cerimônia celebrada. – Solenizar é celebrar com pompa extraordinária. – Célico e celígeno são termos usados na poesia. tendo a mesma significação. intuito de humilhar. designa. conforme se vê em – corpo celeste (referindo-nos a um astro. – Cruciante vale por “aflitivo como o sacrifício da cruz. doloroso em excesso. acontecimento. equivalente a – “o que envolve ou manifesta escárnio. – Comemorar é “celebrar festa solene que recorde algum sucesso. quer passado. Fazer alguma coisa cegamente é fazê-la porque se põe confiança na pessoa que manda. é com danças e divertimentos que o povo festeja S. pois este pode valer ainda como um restritivo de firmamento. “o que é como se fosse celeste”. significando: o primeiro. que em certos casos é fundamental.

e taphos “sepulcro”). – Cenotáfio. e não – solteiros. jazigo. erigido à memória de defunto enterrado em outro lugar. portanto. enquanto que celibatário encerra frequentemente a ideia de não poder ou não querer contrair matrimônio. a não ser no último exemplo deste artigo. . – Hipogeu só será usado hoje em linguagem poética: designa. solteiro. recipit (4. sarcófago. e em geral – sepulcro em que o cadáver se consumiu.). e solteiro – às vezes até solteirão – quando queremos pôr em relevo o seu estado de independência. e numa necrópole. porém. que designava o magnífico e sumptuoso monumento sepulcral que a rainha Artemísia mandou erigir a seu marido Mausolo. 483 CENOTÁFIO. por exemplo – sepultura rasa. Dizemos. O próprio animal pode ter sepultura (não – sepulcro). – Concordam es- 261 tes vocábulos em designar a pessoa que não casou. campa. contenha-lhe ou não os restos”. designando os sepulcros grandiosos dos reis. que em sentido reto significava “montículo”. como diz a etimologia. que entre os latinos também tinha. Nenhuma das duas têm saliência. estendeu-se a todo sepulcro magnífico e sumptuoso. supõe alguma coisa mais que simples sepultura. passou depois a ser nome apelativo.: “Designam estes vocábulos o monumento elevado à memória de algum defunto ilustre. De um ancião se diz que é celibatário quando se quer designar o seu estado social. (Eleg. – Das quatro primeiras palavras deste grupo escreve Roq. monumento. fizemos nós túmulo. onde se depositam cadáveres. ordinariamente em forma de templo. e não – sepulcro raso. – Jazigo é “o pequeno edifício. esconder”: designam. só com a significação figurada de sepulcro. catacumbas. guarnecido de muros. Sepulcro é mais nobre. que é apenas o espaço que se abre na terra para guardar o cadáver. como se vê em Ferreira: “Mausoléus aos mortos não dão vida”. e na maior parte dos casos podem ser empregados indistintamente. hipogeu. Mais tarde.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 482 CELIBATÁRIO. ou qualquer construção acima do solo. que é forma antiquada) é “toda construção grandiosa levantada à memória de um morto. carneiro. – Carneiro é o lugar subterrâneo. cova. – Sarcófago. O carneiro pode ser levantado do solo. 6). sepulcro. e phagein “comer”] é adjetivo substantivado concordando com lithos “pedra”. sepultura. mauso- léu. – Sepultura é. É este o nome que mais comumente se dá aos depósitos de cadáveres que não são propriamente simples sepulturas. e por extensão – o sepulcro feito desta pedra. tem no português a mesma significação de monumento sepulcral. de não sujeição aos laços da união conjugal (Bruns. 11). o lugar onde se sepultam os mortos. “carne”. Da palavra latina tumulus (a tumore terrœ). indica essa ideia sem nenhuma outra acessória. – Sepulcro e sepultura (do mesmo latim sepelire) sugerem a ideia de “ocultar. É um mausoléu menos sumptuoso. da palavra grega kenotaphion (de kenos “vazio”. sepulcra regum sic vocant. mas cada um deles recorda particular circunstância pela qual se diferençam”. e a que os nossos antigos chamavam moimento. – Mausoléu (do latim mausoleum) foi primitivamente nome próprio. mas – sepulcro levantado da terra. onde se depositam os cadáveres ou os ossos dos membros de uma família”. pois. túmulo. – Monumento (ou moimento. – Solteiro. como se vê da seguinte passagem de Floro: In mausoleum se (Cleópatra). Dos sacerdotes católicos dizemos que são celibatários. que designava uma espécie de pedra calcária que consumia as carnes. quase o mesmo que cova: apenas a cova é uma sepultura ainda mais tosca e mais ligeira. igualmente do grego sarkophágos [de sarx (genit sarkós).

ponderação. dá-se ainda hoje o nome de catacumba ao grande túmulo comum. Não há coisa mais difícil que fazer uma boa crítica. veio a ficar reduzido à censura dos costumes públicos. em especial. observação. segundo as regras da arte e do bom gosto. repreender e corrigir as obras. mais moderada. admoestação. objurgatória (objurgação). Distinguem-se também em que o objeto da crítica não é precisamente o de censurar. faz ver o erro como tal. – Catacumbas eram as vastas construções subterrâneas destinadas a guardar cadáveres. aprovando-os ou desaprovando-os. comentário. e. Não há coisa mais fácil que agradar ao público com uma sátira. pois não se pode julgar de uma obra sem notar defeitos maiores ou menores. Muitas obras há que pela solidez dos princípios. no uso comum. que são inseparáveis de tudo que é humano. Este nome. reproche. porque a crítica. reprimenda. nem com o desempenho das regras de bem escrever. . mas que pela má disposição das matérias. são irrepreensíveis aos olhos da censura. julgá-las literariamente. Aprova a censura o que muitas vezes condena a crítica. sobretudo. propriamente. como coisa a mais conducente para a boa moral pública. exprobração. representa o ridículo. a sátira. com o que o cargo de censor vem a ser o de uma espécie de magistrado na república literária. para que se emende ou evite. distinguir’) e significava a arte de julgar as obras de engenho. Por extensão. remoque. como era o dos antigos na política. como vimos. advertência. “a lápide que cobre o sepulcro ou mesmo a sepultura rasa”: toma-se frequentemente pela própria sepultura. confusão e obscuridade do estilo. – Campa é. repreensão. adotando os meios de reformá-los. castigando aos que os pervertiam com seu desordenado procedimento. como a sátira. podem talvez ter por objeto a correção e o desengano. subterrâneo. aos bons costumes. cuidar da polícia. assim como pode acontecer que a crítica literária nada tenha a dizer onde a censura moral muito tenha que repreender e condenar. pois muitas pessoas pouco instruídas e muito audazes atrevem-se a censurar sem serem capazes de fazer a devida crítica. residência. para que se despreze. e pela utilidade das verdades que defendem ou anunciam. à razão. recriminação. raramente imparcial. a correção e o castigo do que aparece contrário à lei. porém os meios de que se valem são muito diferentes. nem sempre. no entanto. dar a conhecer suas belezas. senão o de examiná-las. – Crítica é palavra grega kritiké (de krino ‘julgar. repartir as quotas dos impostos. família e bens. impureza da linguagem. ao exame. sátira. diz Roq. a censura supõe a crítica. cujos mui importantes cargos eram guardar o padrão ou registro do povo. magistrados da primeira plana. e esta é uma das circunstâncias que a diferençam daquela – a censu- ra – cuja significação. sendo que a censura leva consigo a repreensão. é mais extensa.262 Rocha Pombo como insinua a própria etimologia. julgamento e correção dos livros. à verdade. porque é o juízo fundado que se faz das obras. arguição. crítica. que era entre os romanos a declaração autêntica que os cidadãos faziam de seus nomes. se ridiculizam os defeitos. em que.: “Censura vem da palavra latina census ‘censo’. rara vez imparcial. ante os censores ou censitores. Tem muita relação com a censura. A crítica supõe a censura. pondo de parte o que pode merecer elogio. e. e notar-lhes os defeitos. dos costumes públicos. e sempre violenta. sem se importar com o estilo. cova. Assim que a crítica. 484 CENSURA. – A sátira é um juízo. mas sempre com fundamento e equidade. – Das três primeiras do grupo. são defeituosíssimas aos olhos da crítica.

esta recreia mais que instrui. A admoestação é sempre feita em termos brandos. O ritual romano. ou para a falta em que se caiu mais por descuido que por desídia”. o rito grego. senão compiladas por escrito para sua execução. mostrando-lhe. que F. – Observação é “o ato de advertir fazendo considerações sobre a falta cometida ou sobre o dever que se deixou de cumprir”. – Arguição é “o ato de acusar alguém de falta ou erro. ou defeitos e vícios. rito. Não dizemos – o rito romano – senão quando queremos diferençar as cerimônias do culto católico romano das de outro culto também católico mas não romano. – Objurgação é “o ato. o conjunto de cerimônias que.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 263 Aquela instrui mais que recreia. no entanto. – Entre liturgia e rito há diferenças essenciais. liturgia é também “o modo como se regula a execução das cerimônias de um culto público”. mais como invetivando-o do que simplesmente fazendo-lhe acusações e censuras”. – Recriminação é “a censura mais forte. com o intuito de envergonhá-lo”. a acusação mais grave e violenta com que se rebate a outra censura ou acusação”. com razões e argumentos. – Admoestação é “o ato de fazer sentir o erro ou falta cometida. de criticar malevolamente”. para que o admoestado não reincida nela”. por isso se diz – o rito romano. ou em termos menos positivos. Signi- fica – “ato de lançar em rosto a alguém a falta cometida. é católico do rito grego. entre nós. ritual. para os diferentes atos de um culto. Uma sátira ligeira pode fazer esquecer o mérito mais sólido”. – Se- gundo Roq. ou faltas. Dizemos. – Reproche é palavra francesa de que muito se abusa. não precisamente postas em prática. – Repreensão “é o ato de condenar o erro ou a falta cometida: o que é sempre feito com certa acrimônia. sobre a coisa a respeito da qual se pondera. Quando se diz – ritual romano – já não se marca tão bem. prescreve as cerimônias com que se devem celebrar os ofícios divinos. liturgia. do que propriamente advertindo”. ou em termos mais ou menos ásperos”. Mas nesta frase. a maneira de executá-lo são as cerimônias”. como cometeu tal erro ou falta”. – Ponderação será “uma advertência ou observação mais disfarçada. ou pelo patriarca de alguma seita. 485 CERIMÔNIA. – Comentário é “o exame ou mesmo a crítica. E. As cerimônias são o modo por que o rito se executa. e autorizadas pelo Sumo Pontífice. ou para estabelecer uma opinião. por exemplo. É evidente que aplicamos rito quando queremos assinalar diferenças de liturgia ou de cerimônias entre cultos da mesma religião. ou melhor – a ação de objurgar. ou com tanta evidência. Uma crítica necessita ser mui bem fundada para corrigir. – “o rito é a reunião de todas as cerimônias de um culto religioso. sobre a conduta de alguém”. ou vícios de alguém”. Daqui vem que a eficácia da sátira é maior e sem efeitos mais perigosos. – Ritual é. e não – católico da liturgia grega. – Reprimenda = “admoestação formal e severa. – Advertência é “o ato de chamar atenção para o mal que se fez. de superior a inferior”. essa diferença: o que . – Remoque é “dito ou frase picante que mal dissimula a intenção de repreender. Rito exprime mais que cerimônia. – Objurgatória é “a repreensão áspera. ou de acusar desabridamente”. ilustrada de exemplos e largas considerações. por exemplo: “Vamos celebrar o ato com todo o rigor do ritual” – não seria admissível a palavra rito. pois. estão prescritas por quem tinha autoridade para estabelecer o rito. – Ritual e rito confundem-se aqui. a censura ou acusação desabrida que se lança à face de alguém. e mais reflexionando. – Exprobração enuncia a ideia de “lançar em rosto as culpas.

fagulha. o engodo é a astúcia que o engana.264 Rocha Pombo parece que aproxima este termo ritual mais de liturgia que mesmo de rito. porque a palavra chama se tornou vulgar. in- dá ideia da rapidez com que a partícula ardente se desprende. – Fogueira é. do que – o lume dos olhos. negaça. planura. seduzir. porém é palavra preferível para o estilo culto. pois. Isso. ou – o fogo dos olhos. de que chama é a forma popular). chispa e centelha designam todas “pequenas porções de fogo ou de matéria inflamada que se desprendem de fogo maior”. como o lume. atrativo. No uso vulgar confundem-se estas palavras. o resultado do fogo: é o fogo aplicado à matéria combustível (e a esta circunscrito – como diz muito bem Bruns. é mais correto dizer – o fogo. deve notar-se com cuidado a diferença que há entre uma e outra. – Flama tem a mesma significação (é a forma erudita do latim flamma. – Planalto é “grande planura elevada. Dizemos – o fogo da mocidade. “a parte mais luminosa do fogo. queima e abrasa. que chama atenção. flama. faísca. fogueira. – Chapada é “extensão de terras mais ou menos planas no alto de montanhas. o chamariz tanto atrai o público a alguma parte. lume. é “tudo que serve para engodar alguém”. reclamo. em ala. esplanada. para um ponto. no sentido translato. uma récula de garotos. uma porção de crianças. isca. que faz convergir”. enganar”. ou cintilam e dão luz. – Lume exprime propriamente o que dá luz e claridade. isto é – não no alto nem na encosta de montanhas”. – Incêndio é “grande fogo ou fogueira que se alastra e devora”. e num sentido geral. entende-se. cêndio. é “o nome que se dá ao pássaro que se deixa na gaiola de alçapão para chamar os outros”.). ou vasta planície . centelha. por assim dizer. planalto. e figuradamente. fogo. enquanto que planície é “toda extensão de terras chãs e baixas. e centelha dá ideia da luz produzida pela fagulha (e é como se se dissesse – partícula de chama). mas. – Faísca. 487 CHAMARIZ. Só de reclamo é que se não poderia fazer. 486 CHAMA. um cardume de peixes etc. – Labareda designa grande chama. engodo. labareda. – Planura é quase o mesmo que planície: apenas sugere ideia de beleza de panoramas. – Isca é “tudo que se prende ao anzol para atrair e enganar o peixe”. mais que o uso indicado. É certo que se diz – o lume. Dizemos – o lume da razão. mas é porque nos olhos há estas duas propriedades. chispa. é essa matéria acesa. e grande labareda ou brasido”. particularmente. ou queimam. e fogo. e comunicam o calor e ardor da paixão. o que causa calor. – Chispa planície. tomadas essas palavras em sentido restrito. um bando de aves. pelo menos nem sempre. 488 CHAPADA. o reclamo é o que desperta a atenção para o chamariz”. de situação aprazível. fagulha. ou para algures. Todavia. De engodo quase que se pode dizer outro tanto. como o fogo. – Dos três primeiros vocábulos deste grupo diz Bruns. – Chama é.: – “O chamariz é o que atrai o público a alguma parte. segundo Lacerda. Dizemos – liturgia católica (e não – rito católico – salvo se quisermos distinguir entre rito católico e rito protestante). num sentido mais extenso. designando “tudo que atrai. é “o que serve para provocar. – Negaça. – Atrativo é termo genérico. que se eleva e ondeia em línguas de fogo. mas não se pode dizer – o fogo da razão. pois que. mas não se dirá – o lume da mocidade. ou a certa altura delas”. e que se levanta em forma piramidal acima do corpo que arde. como pode atrair.

– Entre engraçado e gracioso há grande diferença: este último é o que tem graça fina e delicada de si mesmo. e não se pode dizer – cheia de bárbaros”. aquele é o que mostra certa graça. enchente. e inundam os campos e prados vizinhos. isto é. – Gracioso é “o que mostra mais graça nos modos. e esta. É muito comum. moço engraçado. gracioso. no sentido translato: dilúvio de gente. ou – “não faça de engraçado” – não caberia certamente o vocábulo gracioso. e. – Enchente diz no sentido próprio – abundância. pois graciosas só podem ser as pessoas de apurada cheia e inundação diz Roq. que se eleva gradualmente”. ou o que emprega chiste ou graça leve. modos chistosos. – Pilhérico é “o que faz rir pelas pilhérias. são eles contudo distintos quanto à etimologia. etc. dilúvio de misérias. fase em que alguma coisa se avoluma: daí a acepção particular de – cheia. Tanto se diz – pessoa chistosa. dilúvio de alegrias. Às grandes cheias do Tejo deveria chamar-se inundações. não. . o emprego de enchente por cheia. na gentileza da figura. É também o contrário de vazante. subtil e galante. conto faceto. mais brincando ruidosamente que falando. Quando os rios saem da madre. também. a figurada de – multidão excessiva. – Espirituoso é “o que tem espírito quando conversa (ou quando escreve). os homens”. Há rios que enchem e vazam em época certa. que parece alagar todo um continente”. inundação pode dizer-se também do mar. dilúvio. Diz-se – inundação de bárbaros. dito engraçado. moço pilhérico. como inundação. trocista. – Dilúvio é “grande inundação. do que mesmo nas palavras. e por extensão – toda superfície de terreno plano que não chega a ser planura.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 265 muito alta. e designam duas coisas que se não devem confundir. Distingue-se ainda cheia de inundação em que aquela só se diz de rios ou ribeiras. – Faceto é “o que encerra. antes de tudo. Hoje usa-se muito. nos gestos. diz-se que há inundação. estendem suas águas pelas veigas. e até gestos. no entanto. isto é. Dizemos tanto – criatura faceta. este é gentil fazendo graças. como – palavras chistosas.: “Posto que no uso comum da língua se confundam estes dois vocábulos. e transbordam nalguns sítios que alagam. frase pilhérica. ou nos ditos”. Todos estes vocábulos se aplicam tanto às pessoas como às coisas. Nesta frase. Usa-se. folgazão. – De 490 CHISTOSO. de depósitos de água. Quando as águas alteiam nos rios. e também: gênio. espirituoso. que quer parecer espirituoso. O moço engraçado pode fazer-se ridículo: o gracioso. pelos contos ou façanhas imaginárias que inventa e que inculca. com mais ou menos espírito”. – Chistoso dizemos do “que nos distrai e faz rir com ditos picantes mas sem malignidade”. em que pode ser tomada. 489 CHEIA. do francês plateau. como estilo faceto. e diverte os outros. – Esplanada é “uma arca muito plana em volta ou à frente de algum edifício”. por exemplo: “Não se faça engraçado”. engraçado. faceto. por isso. Moço folgazão. os fatos. e então quando a respeito desses se diz – enchente – não se quer dizer – cheia. nem sempre a enchente é cheia. – Folgazão é o que se diverte. Cheia tem só a significação reta. inundação. chama-se a isto com propriedade cheia. o que provoca riso por meio de gracejos”. O engraçado pode não ter graça nenhuma. pilhérico. espírito folgazão. e sem necessidade. o que sabe dar uma nota fina e original sobre as coisas. pois. porque muito se parecem com as do Nilo. e esta. além da natural. pois ordinariamente é o imbecil que procura ser engraçado: o mesmo não se pode dizer – é até justo que o contrário se diga do gracioso. não conhecem limites. crescimento. – Engraçado é simplesmente “o que tem graça.

Garabulho (ou garabulha) é palavra importada do italiano garbuglio. 491 CHOCALHEIRO (chocarreiro). . – Trocista é “o sujeito que faz pilhérias. mas sim – “o indivíduo que fala da vida alheia”. mas há de sugerir sempre a ideia de que pelo menos é pouco substancioso o que diz o parlante. incubar. designando tanto um como o outro uma mesma operação. – Gárrulo é “o que fala como se falasse sem pensar. ou falar maldizendo. – Com o linguarudo pode confundir-se falador. Naquela acepção. presumindo de tudo entender e falar muito bem”. que fala muito. que nos agradam até pelos gestos. linguarei- ro (linguarudo). – O linguareiro é o que diz tudo que sabe. Confunde-se mui comumente chocalheiro com chocarreiro. não guarda reserva em coisa alguma. Falando das doenças que se desenvolvem pouco a pouco antes de se declararem abertamente. gárrulo. que significa “embrulhada. que é mais parlapatão do que linguareiro e do que linguarudo. graçolas. e sempre sobre coisas fúteis. por ter o vício de não guardar nenhum segredo. desordem”. O chocalheiro é leviano e indispõe porque importuna: o chocarreiro é petulante.. e indispõe porque irrita. sem atender à causa. por ser amigo de dizer novidades.. chalaças grosseiras e próprias de gente baixa. parlante. – Parlante dirá um pouco menos que parlador. isto é.266 Rocha Pombo educação. pernóstico. como fazem os passarinhos e as crianças”.. pois só se diz chocarreiro daquele que diz chocarrices. e finamente galantes. pois este vocábulo não se emprega hoje para designar simplesmente o indivíduo que fala muito. como se vê do próprio artigo transcrito. fazendo barulho. nem o indivíduo que fala da vida alheia: designa mais propriamente o sujeito que mais fanfarreia do que fala. devemos empregar exclusivamente o verbo incubar. para rir à custa destes”. brincadeiras com os outros. e torna-se importuno falando a torto e a direito”. confusão. e que é o calor que ao ovo comunica a ave que sobre ele se mantém. 492 CHOCAR. movendo-se. – Chocalheiro é “o que fala muito e indiscretamente. e formado de prognóstico). O linguarudo fala mais ainda porque tem o vício de intrigar e maldizer que pelo desejo de falar. falador. Não assim o linguarudo. como às vezes se ouve. parlador. com muitos gestos e acionados. – Parlador já não é também o indivíduo que só fala muito. isto é.: “Ainda que estes verbos sejam sinônimos perfeitos36. É termo popular (o mesmo que pronóstico. muito amáveis. é – como se diz em linguagem popular – o que “dá de língua” a propósito de tudo. estardalhaço como um chocalho. não – chocadeira artificial. Deve dizer-se – incubadora artificial. deve notar-se que chocar é não só relativo à transformação que se vai operando no ovo. significando indivíduo que simplesmente fala muito. Também se diz – gênio trocista. e empregamo-la para designar “o sujeito que fala muito embrulhando tudo”. – Incubar refere-se apenas à operação ou transformação. e mesmo pela discrição dos gracejos. garabulho. que é mais falador que linguareiro. pelo ar simpático. – Pernóstico é “o sujeito pretensioso no falar. – Sobre estes dois verbos escreve Bruns. que divulga quanta coisa lhe disseram. e agitando-se.” 36 Ou melhor – quase perfeitos. graçolas. que é termo bem diferente.. falante. mas também à causa dessa transformação. emprega-se a forma falante que não encerra de modo algum a ideia de falar por maldade. ares trocistas. Mas o linguareiro não tem malícia propriamente: fala por ser leviano.

Duas locomotivas lançadas a todo vapor em uma mesma via. se.) – Conflito é mais embate. (Segundo Bruns. nem de luta. ofender. mas não de terríveis efeitos. É termo genérico. – Lamentar é queixar-se com pranto e mostras de dor. ou mesmo recuando ambos depois de se encontrarem. têm um embate terrível. O fumo.Dicionário de Sinônimos da Língua Portuguesa 493 CHOCAR. Jeremias lamentou poeticamente . os ácidos. De duas pessoas que caminhem apressadamente e que esbarrem uma com a outra ao dobrar de uma esquina. – “Ao derramar. como se diz no artigo. embate. Pode haver encontro sem haver choque. pois esta palavra dá ideia do abalo que o encontro produz. desfazem-se em espuma. como as que por alguma circunstância se destilam das glândulas lacrimais. ou mesmo do que choque. As ondas alterosas. o choque pode ser ou não violento. quer dizer o que esse alguém possui de mais delicado e sensível na sua natureza moral”. – São os dois primeiros vocábulos deste grupo os substantivos com que se designa o encontro mais ou menos violento de dois corpos que se embatem. um levando o outro de impelida. lamentar. Ideias em conflito. que é excessiva a suscetibilidade de quem se julga melindrado. pois que melindrar supõe. elevam-se a grande altura. e 37 Por isso mesmo é que é preciso admitir que choque não é simplesmente encontro. pranteia-se. 495 CHORAR. que o vento impele. dizemos que tiveram choque. ou em geral – coisa de que essa pessoa se ressinta”. Aquele que melindra nem sempre ofende propriamente. ou diante da qual falamos ou agimos”. luta propriamente do que simples encontro. soluçar. Chora-se de alegria não menos que de tristeza. Choram também as videiras e os ramos quando se cortam. do abalo que pode causar uma frase nossa. que o prejudique moralmente. que o magoe. encontro. dá-se entre as máquinas um choque mais ou menos violento. ou verter lágrimas chama-se chorar” – diz Roq. ao avistar-se. prantear. e também exprime canto lúgubre em que se chora alguma grande calamidade. Na palavra embate predomina a ideia de violência e de impetuosidade. O embate é violento. com lamentos – e talvez soluços. ou mesmo um ato que se ponha em contraste com os sentimentos da pessoa a quem nos dirigimos. melindrar. vêm embater contra a costa. – Melindrar é “ofender os melindres de alguém. O pranto é mais forte e intenso que o choro. do latim fleo. – do castelhano llorar. fazem chorar os olhos. nem mesmo de encontro. se caminhavam devagar não terão mais que encontro. – Contraste é a oposição que existe entre duas coisas: não inclui ideia de choque. na palavra choque apenas a de encontro (que não é senão o fato ou o ato de chegar uma coisa diante de outra)37. carpir. na maioria dos casos. – Ofender é aqui tomado na acepção especial de “fazer a alguém coisa que o moleste. que lhe é característica. porque neste derramam-se lágrimas com lamentos e soluços. fazem contravapor os respetivos maquinistas. caminhando uma para outra. – Quando às lágrimas se juntam vozes queixosas. mer. mas ideias que se embatem. da “impressão rude que produz uma ofensa. senão de simples oposição. pois não só indica as lágrimas que provêm de dor e aflição. lagrimar. por exemplo. etc. não se entende que sejam ideias apenas contrárias ou opostas. ou um deles recuando ao encontrar-se com o outro. O navio que embate (ou bate) contra um rochedo abre-se e afunda: o mal não seria tão grande se tivesse havido somente choque. ge- contraste. conflito. – O verbo 267 chocar sugere a ideia. 494 CHOQUE.

é de uma força e intensidade que o tornam indispensável na língua. III. podendo forte designar indiferentemente a que é grande. Che frutti infamia al traditor. X. de que o nosso poeta fez mui frequente uso. pois. Se o inimigo se apoderar da cidade. Parlare e lagrimar’ vedrai insieme. o Gange e o Indo. os seus habitantes podem continuar a defender-se na cidadela. – Forte e fortaleza confundem-se muito frequentemente. e que em lugar das outras muitas vezes se emprega. mas fortaleza nunca se deve dizer de uma fortificação pequena. e a esta espécie de poema elegíaco se deu com razão o nome de lamentações. (Ib. nem – chora. e para exprimir esta ação de profunda dor. (Inf. Thomé. como a que é mediana. pois há como que aflição monstruosa no embate das ondas contra a praia. é o verbo chorar. forte (fortim). cidade fortificada. na acepção em que é preciso tomá-lo neste grupo. praça. exprimir aflição. o qual. cas- telo. Por isso dizemos figuradamente que – o mar soluça e não – pranteia. – Segundo Bruns. Do uso de carpir-se sobre os defuntos se faz menção na Crônica de d. É condição da cidadela. E por memoria eterna. e carpir-se. (Ibid. para significar “verter lágrimas como por efeito de imensa dor. – Soluçar é “prantear e gemer com aflição. e a que se chamava carpideiras. – Costumavam os antigos arrancar. 496 CIDADELA. ch’io [rodo. e acompanhar os enterros. O forte pequeno é um fortim. João I. por extensão. XXXIII. e desfigurar as faces. não só o estar dentro do recinto da povoação. É com este sentido que empregou Dante o seu lagrimare num daqueles versos que pôs na boca de Ugolino: Ma se le mie parole esser. na ocasião de luto. Na fortaleza há sempre guarnição fixa. por meio de voz inarticulada e lamentosa”. Chorou-te toda a terra que pisaste. Os semeados campos alagaram Com lagrimas correndo piedosas. III. 118) – Gemer é “dar sinal de grande dor. – Castelo designa a . fortaleza. Refere-se. gemendo e pranteando”. veio a significar quase o mesmo que lamentar. fazendo mostras de dor e aflição. (Lus. como estão dizendo os seguintes lugares: Os altos promontorios o choraram. mas. Havia antigamente mulheres a quem se pagava para carpir-se sobre defuntos. como se a alma abalada clamasse em desespero para fora”. este vocábulo especialmente às ações que demonstram dor e mágoa. 84) As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram. den seme. – cidadela é a fortaleza que domina a cidade dentro da qual ela está edificada. 3) Ora. ou pelo menos desgrenhar os cabelos. De todas estas palavras.268 Rocha Pombo as desgraças da ingrata Jerusalém. usavam do verbo carpir. Julgam muitos que não passe este verbo de simples variante de la- grimejar (ou lacrimejar). a mais poética. E dos rios as aguas saudosas. 135) Choraram-te. em fonte pura As lagrimas choradas transformaram. Mais te choram as almas que vestindo Se iam da santa Fé que lhe ensinaste. Os grandes prantos são sempre acompanhados de gemidos. – Fortaleza é a construção que se eleva em qualquer ponto para defender uma cidade ou um passo. – Lagrimar é “verter lágrimas”. mas também oferecer grandes meios de defesa. traduzir este lagrimare pelo nosso chorar não seria menos do que diminuir deploravelmente aquela grande figura.

– Vagabundo (que já ficou em outro grupo) entende-se que é “o indivíduo que vaga e erra. 498 CIGANO. e não tem o sentido pejorativo que se dá hoje comumente à palavra cigano. que a defendem contra o inimigo. principalmente na época que precedeu à invenção da pólvora.. E. – Nômade é “o designativo de povo ou de tribo que vive mudando continuamente de terra”. dizer-se: “três vezes nove – vinte e sete. melhor do que cifra. vivendo por isso quase sempre em grande penúria. O exemplo é este: dizemos – tantos graus abaixo de zero. especulando de todos os modos”. valdevino. – Ambulante não encerra ideia alguma depreciativa: é apenas “o indivíduo que anda de lugar em lugar. que é mister não confundir. a enganar a quantos pode. e sim – “noves fora – nada”. sem serviço. – Nada aqui. como os ciganos ou boêmios. desordeiro. não somente porque ocupam um espaço mais pequeno. ou zingano) é “o indivíduo que vive errante. fra e zero são sinônimos perfeitos. – Comparando cidade fortificada e fortaleza. a vender bugigangas. provocador. A praça de Elvas é uma cidade fortificada. senão também porque estão geralmente ocupadas e habitadas por militares. Nunca ouvimos nas nossas escolas. da Ásia Menor. nômade. que não se fixa. – Boêmio é propriamente o nome que os franceses dão ao cigano. dá ideia de simples sinal (com que nos números se marcarão as casas onde não houver algarismos representativos). noves fora – zero”. e culpando disso os outros homens e a sociedade. de qualquer grau. e vivendo de astúcias e furtos”. – Valdevino (ou valdevinos) é “o sujeito desocupado. contém população mais ou menos numerosa. mas designa apenas a r